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Augusto de Miranda"> + <meta name="Publisher" content="Typographia Universal"> + <meta name="Date" content="1909"> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1em; margin-top: 0.2em; margin-bottom: 0.2em;} + h1, h2 {text-align: center; margin-top: 4em; margin-bottom: 4em;} + h3, h4 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + #corpo p.centrado {text-align: center; text-indent: 0;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + blockquote { margin-left: 20%;} + .direita {position: absolute; right: 10%;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Scenas da Aldeia, by A. Augusto de Miranda + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Scenas da Aldeia + +Author: A. Augusto de Miranda + +Release Date: January 12, 2010 [EBook #30947] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SCENAS DA ALDEIA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from BibRia) + + + + + + +</pre> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;font-size: 1.5em;">A. Augusto de Miranda</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;font-size: 2em;">SCENAS <small>DA</small> ALDEIA</p> + +<div style="margin: 20%;"> +<p>Editor</p> + +<p>A. Augusto de Miranda</p> + +<p style="text-align:right;">1909</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;font-size: 1.5em;">SCENAS DA ALDEIA</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center; font-size: small;">Compos. e impres.—Typ. +Universal <br> +54, Trav. de Cedofeita, 56 <br> +e Rua das Oliveiras, 75, 77 Porto</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center;"> +<p style="font-size: 1.5em;">A. Augusto de Miranda</p> + +<p style="font-size: 2.5em;">SCENAS <small>DA</small> ALDEIA</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: small;">PORTO<br> +<strong>Typographia Universal, a vapor</strong> <br> +75, Rua das Oliveiras, 77 <br> +<strong>1909</strong></p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;"><em>Ao Ill.<sup>mo</sup> e Ex.<sup>mo</sup> +Snr.</em></p> + +<p style="text-align:center;font-size: 1.5em;">Conselheiro Albano de Mello</p> + +<p> </p> + +<blockquote> + <em>Permitta-me V. Ex.ª, confidente das vicissitudes que tem agitado a minha + vida de ha sete annos a esta parte, que eu colloque o seu nome illustre nesta + pagina d'esta insignificante producção litteraria, que para V. Ex.ª só tem o + merecimento de ser um testemunho de gratidão.</em></blockquote> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:right;"><em>A. A. Miranda.</em> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;">AOS MEUS PROFESSORES</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;">Aos meus Condiscipulos</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;">AOS MEUS AMIGOS</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div id="corpo"> +<p> </p> + +<p style="text-align: right"><em>Meu amigo:</em></p> + +<p><em>As resumidas linhas em que eu condensarei as impressões que da leitura +do seu livro me ficaram não podem constituir, de fórma alguma, isso a que, nas +nossas lettras, se chama—um prefacio. Serão apenas uma ligeira carta sem +subtilezas de critica profunda—a critica que nunca soube formular, porque +os criticos são personalidades todos de intellecto raciocinado e frio e eu sou +um homem todo de emoções.</em></p> + +<p><em>Esses criticos diriam ao meu amigo que as obras realisadas aos vinte +annos não deviam ser atiradas aos alaridos da publicidade sem que primeiro os +seus auctores tivessem, além de um exacto conhecimento da vida, completamente +afinadas as suas faculdades d'observação, e sem que o seu temperamento +esthetico adquirisse uma perfeita sagacidade, para que depois, já em pleno +triumpho, não se arrependessem dos inconsiderados impulsos da juventude. Eu, +pelo contrario, digo-lhe que nenhum escriptor deve envergonhar-se da sua +actividade artistica dos primeiros annos, mesmo quando na superior florescencia +do seu talento um dia sentir a viva anciedade de vêr como principiou. Os +trabalhos da iniciação representam até um documento essencial para o estudo das +intelligencias evolutivas e ascendentes...</em></p> + +<p><em>Não affirmarei que o seu livro seja impeccavel. Nem o meu amigo terá a +vaidade d'assim o julgar nem eu desfiguraria a verdade simplesmente para +ser-lhe agradavel—e isto pela viva sympathia que me inspirou. A novella, +para que a illumine a belleza, carece de unidade de concepção e de realisação, +da plasticidade e do vigor da fórma, da perspicacia da analyse psychologica, de +dextreza na modelação das figuras, da diversidade dos coloridos na pintura dos +scenarios: e estes dons apenas advêm da tenacidade disciplinada e do estudo, +porque ninguem nasce com um quinto sentido capaz de tudo adivinhar e tudo +comprehender.</em></p> + +<p><em>Não lhe esconderei, no emtanto, que o seu livro me communicou um certo +prazer espiritual pela sua candura, pelo poetico sentimento que enternece +algumas paginas—que é o sentimento d'uma alma pura e com finas +delicadezas emotivas. Ora isto indica, no escriptor que agora começa, um +evidente talento ainda balbuciante mas que ardentemente deseja orientar-se e +que virá a impôr-se ás admirações se fôr animado por uma vontade sem +desfalecimentos. E tão certo estou d'essa victoria futura que desde já +calorosamente o applaudo, lamentando no emtanto que para a sua apresentação se +houvesse lembrado do meu nome humilde e sem auctoridade para estas ceremonias +solemnes.</em></p> + +<p> </p> + +<p><em>Porto, 5 d'Abril de 1909.</em></p> + +<p style="text-align: right"><em>Amigo muito affectuoso</em></p> + +<p style="text-align: right">João Grave.</p> + +<h2 style="text-align:right;"><a name="SECTION00010">PROLOGO</a></h2> + +<p>Ex-alumno de um dos seminarios da diocese do Porto e actualmente estudante +mediocre do lyceu, dou á luz o producto de tres longos mezes de trabalho para a +consecução do qual tirei instantes preciosos destinados á ardua tarefa de que +depende a minha vida futura—tarefa tanto mais ardua, quanto mais +consideradas sejam as minhas escassas luzes intellectuaes.</p> + +<p>Eis aqui, pois, uma obra que, apreciada por todos os lados, só tem valor por +ser o fructo de um trabalho em que gastei, mórmente durante um bom mez, uma +parte do tempo precioso destinado ás minhas lições. É appellando para essa +attenuante que espero merecer a complacencia do publico em geral—tanto +dos que convivem commigo de perto e que, vendo em mim um individuo sem aptidões +para qualquer ramo do saber humano, vão ficar admirados da ousadia de +semelhante passo, como dos que, sem nunca sequer me terem visto, esperam +encontrar neste pequeno livro a summula do valor d'uma intelligencia +promettedora que começa a manifestar a sua tendencia.</p> + +<p>Á minha inaptidão vem juntar-se a inexperiencia dos meus vinte e tres annos; +e assim é que<span class="pn">{16}</span> o meu livro, fatalmente eivado de +todas as especies de imperfeições, só por uma disposição do leitor benevolo +para uma extraordinaria condescendencia, poderá ser absolvido das faltas que +inconscientemente commetti.</p> + +<p>Abstenho-me de appellar para a complacencia dos meus companheiros e dos meus +collegas em geral, porque elles, mais que ninguem, avaliam as difficuldades com +que eu deveria luctar para conseguir o meu intento.</p> + +<p>Ha seis mezes, approximadamente, publiquei no <em>Correio d'Albergaria</em> +um artigo sobre a vida do Belbuth, que subordinei ás Scenas da Aldeia, que eu +declarei em preparação, mas que ainda existiam em projecto na minha mente. +Passados perto de dois mezes dei principio ao meu trabalho e publiquei então no +mesmo jornal um excerpto sobre a transformação psychica de Maria Luiza.</p> + +<p>Por varias vezes hesitei se deveria continuar esta empreitada que me +preoccupava o espirito, desviando-o do cuidado dos meus affazeres quotidianos, +e absorvia o melhor do meu tempo que eu não podia dispensar sem prejuizo das +minhas obrigações.</p> + +<p>Mas, quando no meu espirito se travava a lucta da obrigação com a devoção, +esta acabava por triumphar, coadjuvada por uma promessa que, de caracter +inteiramente intimo, eu tinha feito um dia.</p> + +<p>O meu livro está impregnado, na sua essencia, de um pronunciado sabor +religioso, porque julguei que, tirar á simplicidade da vida aldeã o sentimento +religioso, que caracterisa os seus costumes, era despil-a d'essa graça original +e tão cheia de poesia que lhe dá todo o seu valor; julguei que era arrancar á +vida da aldeia a sua alma.<span class="pn">{17}</span></p> + +<p>Obedeci a esse principio, e não á gratidão com que retribuo a meu +pae—um padre catholico que obedeceu ao dever da sua consciencia e do seu +coração quando me perfilhou—os desvelos que um filho recebe de seu pae +carinhoso. Nem tão pouco obedeci á doçura dos fructos que deveria ter colhido +da minha reclusão de alguns annos num seminario.</p> + +<p>D'este só me lembro com mágua, quando considero a falta que me fazem os +annos que lá gastei inutilmente. De resto, repressões, o pouco respeito com que +os padres tratam um homem de vinte annos, etc., tudo isso lhes fica em +caracter, e é tudo com o fim de amoldar ao seu o caracter dos alumnos: +finalmente, cumprem o seu dever, porque são, por assim dizer, uns criminosos +inconscientes.</p> + +<p>D'elles só conservo um resentimento: alimentarem animadversão contra a minha +terra—Aveiro, talvez por causa das suas tradições de inimiga da +hypocrisia. </p> + +<p>Um, chegou a dizer numa aula, na minha presença—quando se discutia no +parlamento o projecto do caminho de ferro do Valle do Vouga—que todos os +que se deixaram levar pelas palavras de José Estevam foram uma corja de +brutos—palavras textuaes—porque a variante da linha ferrea que +então se construiu, além de acarretar enormes dispendios á companhia, +prejudicava immenso, por causa d'uma terra <em>que não prestava para nada, sem +valôr nenhum</em>, toda esta região que anceava pela execução do caminho de +ferro do Valle do Vouga.</p> + +<p>Tirado d'isso, não tenho d'elles resentimento nennum. Apenas tiveram, com o +culto das suas virtudes, o poder de me abalar algumas [crenças] que levava +arreigadas no coração, e de apagar outras. Se ha quem diga que actualmente já +se não fazem<span class="pn">{18}</span> milagres, ou nunca houve quem os +fizesse, engana-se.</p> + +<p>Já vê, pois, o leitor, que sou religioso e sou christão; não sou, talvez, +catholico, mas isso dá-se na maioria dos padres, se não na sua totalidade.</p> + +<p>Ponto final sobre este assumpto. Não vá o meu livréco parar ao +<em>Index</em>.</p> + +<p>Terminando este prologo, nada mais tenho a fazer que impetrar mais uma vez +do leitor benevolo a sua complacencia que, em vista das razões que expuz, não +deixo de merecer com alguma justiça; e, confiado em que a minha petição não +será infructifera, agradeço-a antecipadamente, e deixo aqui consignado tambem o +meu agradecimento pelos preciosos momentos que o leitor haja de dispender na +leitura d'este ensaio.</p> + +<p> </p> + +<p>Aveiro, março de 1909.<span class="pn">{19}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00100">SCENAS da ALDEIA</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00110">I</a></h2> + +<p>Na margem direita do Vouga, a cerca de doze kilometros da sua foz, +espreguiça-se indolentemente, numa série de formosos outeiros e encostas de +suave declive, uma aldeia.</p> + +<p>A vista das casas disseminadas, como que em monticulos, por entre o verde +das arvores e dos pinheiraes numa extensão de mais de quatro kilometros, +suggere-nos a ideia de que Deus as atirara para cima da verdura d'aquellas +collinas, como o lavrador atira a mão-cheia da semeadura á terra fecundante. +</p> + +<p>Mirando com galhardia do alto dos seus outeiros os logares que lhe ficam +proximos, ella parece sorrir-se com aquelle sorriso de superioridade que uma +mulher, conscia da sua formosura, lança áquellas que não receberam da natureza +os dons com que ella foi dotada.</p> + +<p>Bafejada pela amenidade do clima e pela limpidez e doçura de um ar diaphano, +as suas melênas são brandamente agitadas pelo sopro suave duma<span +class="pn">{20}</span> aragem fagueira, e a fimbria do seu vestido, d'um verde +puro da vegetação do campo, é banhada pelas aguas transparentes do meigo e +terno Vouga.</p> + +<p>Eis, em simples bosquejo, o que é essa aldeia que se chama Alquerubim.</p> + +<p>Alquerubim!</p> + +<p>Só o nome é bonito! Parece que nos deixa nos ouvidos um tinir semelhante ao +de uma gargalhada innocente e ingenua d'uma creança!</p> + +<p>Pensareis talvez que estas palavras são a expressão expontanea do sentimento +que me inspira, como a todos nós, a evocação da terra que me viu nascer.</p> + +<p>Não.</p> + +<p>Quando pronuncio a palavra «Alquerubim», a minha alma não experimenta +aquella sensação que nos faz pulsar de enthusiasmo o coração quando +pronunciamos o nome da terra em que pela primeira vez abrimos os olhos no +mundo; porque não foi alli que sorvi os primeiros tragos de leite no seio +materno.</p> + +<p>Mas se não foi alli que lancei os primeiros vagidos, foi comtudo onde a +minha juventude deslisou suavemente como um murmurante arroio serpeando por um +prado tapetado de boninas e violetas.</p> + +<p>É por isso que, ao evocar esse nome, o sentimento que brota dentro do meu +peito, se não tem o vigor patriotico, tem comtudo uma doçura +inexprimivel—a saudade.</p> + +<p>Nessa aldeia, uma saudade me ficou entrelaçada com os ramos de cada arvore; +em cada rua, uma gotta de sangue dos meus tenros pés feridos por uma pedra +desligada da calçada; em cada salgueiro sobranceiro ao Vouga, um pedaço da +minha alma... Por isso, ao recordal-a e ao contemplal-a, invade-me<span +class="pn">{21}</span> a mesma tristeza que invade uma pomba que, depois de +ter, em manhãs frescas do vêrão, adejado mansamente sobre um campo tapetado de +verdura, o vae encontrar, no inverno, sepultado nas aguas.</p> + +<p>Acaba de passar sobre o meu dôrso o frio do meu vigesimo segundo inverno. +Acabo de transpor o atrio do edificio que se chama—Vida. E, ainda que na +primavera da minha mocidade, tenho comtudo já sido açoutado por vendavaes +ferozes. É no meio das tormentas que tão cêdo começaram de me assaltar, que eu +procuro refocilar o espirito e fortalecer o coração nas dôces recordações da +minha juventude.</p> + +<p>Ao fazer retroceder o pensamento por esse caminho orlado de odoriferas +madresilvas e tapetado de violetas aromaticas, sinto que do meu intimo se eleva +um não sei quê parecido com um fumosinho que vem condensar-se-me nos olhos. +Lagrimas? Não. Não chega a formar gottas. Um nevoeiro que me tolda a vista, mas +muito tenue, que eu considero o chorar da alma. Porque a alma tambem chora.</p> + +<p>Nas horas de angustia, quando uma nuvem me obscurece o horisonte, percorro +com o pensamento esses caminhos silvestres por onde tantas vezes andei horas +esquecidas á procura de ninhos; supponho-me deitado na caminha de ferro que +minha mãe comprara para mim e quando, aos domingos, ao ouvir o badalar do sino +logo de manhãsinha, eu me levantava, lavava, e minha mãe ia ajudar-me a vestir +a roupa nova para ir á missa; e eu lá ia, muito serio, ao lado de minha mãe, +com uma bengalinha de bambú que me tinham dado, e depois da missa voltavamos +para casa, eu almoçava e em seguida ia brincar, a maior parte das vezes para o +campo, com os meus companheiros. Recordo-me d'estes com saudade,<span +class="pn">{22}</span> alguns dos quaes, talvez mais felizes do que eu, já +morreram, e outros, andam muito longe, alguns nem eu sei por onde, luctando com +a vida, abreviando os annos da existencia...</p> + +<p>E nestas recordações sinto um bem-estar indefinivel que, commovendo-me, +attenuam os dissabores da minha vida presente.</p> + +<p>Oh! Quem me dera voltar aos dias da juventude! Tornar a gosar a unica +felicidade que nos é dado gosar na vida!... Impossivel! A vida tem o seu +movimento como as aguas do meu querido Vouga que vae morrer ao mar. Elle tambem +não retrocede ás suas montanhas para d'alli voltar, em suaves murmurios, a +beijar as melênas dos sinceiraes o ouvir os dôces cantares das camponêsas em +dias estivos e mitigar a ardencia de tantos peitos +apaixonados.................</p> +<hr class="dotted"> + +<p>Meu caro leitor, se és cidadão, se passas a vida na atmosphera doentia da +cidade, vem commigo á minha aldeia. Aqui, n'este paraizo, serás o Dante e eu +serei Beatriz.</p> + +<p>Verás maravilhas: mas não as maravilhas que nos fazem arregalar os olhos de +espanto e que tens em abundancia na tua cidade. Verás maravilhas da natureza +que nos sensibilisam a alma e dulcificam o coração.</p> + +<p>Serás conviva entre gente pobre, mas bôa, nas suas simples refeições; serás +testemunha e confidente de conversações despretenciosas e intimas de paz, +socêgo e alegria, á lareira, emquanto o vento zune lá fóra e a chuva fustiga as +folhas das larangeiras e entôa, nas telhas grossas da choupana, a sua canção +monótona; assistirás ás festas intimas dos simples, ao seu labôr quotidiano, +aos seus regosijos, ás suas alegrias, aos seus pezares; palrarás com a gente +do<span class="pn">{23}</span> campo e estudarás a sua bôa indole; espraiarás a +vista por horisontes muito extensos, por sobre montanhas longinquas; aspirarás +a largos sôrvos o ar purificado pela folhagem de centenares de arvores, cruzado +pelo esvoaçar de milhares de avesinhas silvestres e aromatisado pelo odôr de +myriades de florinhas espalhadas por estes campos além; e o teu rosto adquirirá +as côres róseas das pintadas maçãs camoêzas que aqui ha em abundancia.</p> + +<p>Depois, quando voltares á tua cidade, levarás d'aqui profundas saudades; a +tua alma, ao recordares os mil encantos que a electrisavam, sentirá a mesma +commoção que sentiu a do velho Horacio, quando este inclito poeta, vendo-se sem +a tranquillidado dos campos, disse—<em>ó rus, quando te +aspicio!</em>—oh! campo, quando te tornarei a vêr!<span +class="pn">{24}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00120">II</a></h2> + +<p>O anno passado, n'uma manhã serena e fresca de maio, fui ao campo para vêr +nascer o sol.</p> + +<p>Uma tenue claridade, precursôra do dia, innundava já o ambiente da aldeia. O +ar, sem um movimento, sem a mais leve aragem, conservava as arvores em completo +repouso.</p> + +<p>O mez de maio é um bouquet formado de trinta e uma flores. Este dia era uma +d'essas flores, das mais formosas, de petalas mais coloridas e frescas. +Desabrochava garbosamente, acariciado pelo dôce orvalho da madrugada.</p> + +<p>Em frente das ruinas d'uma casa pequena, envolvida n'um massiço de heras, +cantava um rouxinol, pousado n'um sabugueiro. Parei, a ouvir os seus trinados. +</p> + +<p>Nos requebros das suas melodias, nas inflexões dos seus variados +garganteios, havia um tão expressivo influxo de dôce sensibilidade, um tão +grande sentimento, que, sob a poderosa influencia d'aquelle +silencio—apenas entrecortado pela voz do rouxinol—que pairava em +volta de mim, eu, em frente d'aquellas paredes derruidas pelas quaes trepava um +massiço de verdes heras, sentia-me infinitamente pequeno—mais pequeno que +o rouxinol.</p> + +<p>Absorvido na audição d'aquellas melodias que arrancavam á minha alma +vibrações d'uma indizivel doçura, e contemplando as ruinas d'aquella casa que, +talvez, outr'ora, tivesse sido uma mansão ditosa de<span class="pn">{25}</span> +felicidade e amôr ou, quem sabe? de expiação para uma alma desditosa e +amargurada, debaixo da ascendencia que sobre a minha alma exercia a voz do +rouxinol, eu tive o desejo de saber a historia d'aquella casa; porque, com um +rouxinol ao pé a cantar melopêas tão sentimentaes que pareciam repassadas de +pungente saudade, a entoar canções tão tristes como a solidão em que aquellas +paredes estavam mergulhadas, ella devia ter a sua historia, como a casa da +Menina dos Rouxinoes de Almeida Garrett.</p> + +<p>Parece que o acaso capricha em deixar ao abandono, para não serem +profanados, os santuarios onde uma alma apaixonada, ou edificada na pratica da +virtude, passou as horas tristes da soledade na mais santa das resignações, +palpitou-me que aquella casa devia tambem ter sido um d'esses santuarios, e o +rouxinol o musico, o cantor incumbido pelo destino de acompanhar e realçar com +as suas melodias sentimentaes aquelle quadro de saudade...</p> + +<p>Fui arrancado á minha meditação pelo ruido do rodar pesado d'um carro de +bois.</p> + +<p>O dia aclarava progressivamente; por detraz da serra do Caramulo estendia-se +já uma faixa afogueada, que cada vez se ia alastrando mais.</p> + +<p>Era a «bellissima aurora, coroada de resplendores e lirios», na phrase de +Vieira.</p> + +<p>O rouxinol interrompeu a sua melopêa e fugiu do arbusto.</p> + +<p>O carro approximou-se: trazia um arado e uma grade.</p> + +<p>Um homem, que reconheci ser o tio Luiz da Nóra, vinha dentro d'elle, +arrimado a uma aguilhada. Ao pé de si vinham dois rapazes: um, dos seus 14 +annos, encostado ao timão do arado; o outro, ainda creança de não mais de 7 +annos, encostado á sebe<span class="pn">{26}</span> de vimes, as mãositas +mettidas profundamente nos bolsos do casaco que devia ter sido do irmão, pois +não era cortado segundo as dimensões do seu corpo.</p> + +<p>—Eh! Tio Luiz! Bom dia.</p> + +<p>—Olá! Bom dia, sr. Antonio. Então por aqui já, tão cedo?—Oh! +Pára ahi, <em>loura</em>! Oh! <em>castanha</em>!—Isso é que foi madrugar, +hein?</p> + +<p>—Que quer? Eu gosto muito de respirar este ar fresco e puro da +madrugada. </p> + +<p>—Ah! é bom, lá isso é. Pois nós vamos alli abaixo lavrar uma terra +para semear milho. Vamos assim cêdo, que é para fugir ao calôr; porque ahi por +volta das dez horas, elle já apoquenta bastante quem anda no trabalho. Lá os +senhores, é como o outro que diz «se tenho frio vou-me aquecer, se tenho calôr +vou p'rá sombra!» e não sabem o que é andar a puxar pelo corpo debaixo d'um +calôr de rachar!</p> + +<p>—Não sei, mas calculo. Mas, meu amigo, você não sabe que todos os +modos de vida têm os seus espinhos? Olhe que a vida do lavrador, apesar de +laboriosa, é a melhor que ha! Diga...</p> + +<p>—Ai! ai! ai! Se vamos...</p> + +<p>—Espere! Diga-me lá uma coisa: você faz lá uma pequena ideia do que é +uma pessôa levantar-se ao nascer do sol e dizer lá comsigo: «vamos agora a vêr +que tal está o milho d'aquella terra que eu semeei ha tantos dias; preciso +agora de fazer isto, fazer aquillo», etc., e, á noite, fatigado mas contente, +dando graças a Deus por lhe ter feito nascer o milho, as ervilhas ou a herva +muito bem, deitar-se socegado do espirito—do espirito, que é o melhor +socêgo!—e dormir a somno solto a noite inteira! Você sabe lá quanto isso +vale?</p> + +<p>—Tambem não sei, mas calculo... Mas, se<span class="pn">{27}</span> +quer que lhe falle com franqueza, eu trocava com todo o gosto esta vida, que +vocemecê está pr'áhi a elogiar, por um emprêgosito que me desse cinco ou seis +tostões por dia, sem precisar de calejar as mãos nem me vêr obrigado ás vezes a +levantar cêdo com um frio de rachar as pedras. Isso! Isso ó que é uma vida bôa! +Mas, com'assim, quem nasceu p'ra isto, d'isto não póde sair. E vae a gente +assim vivendo n'esta vida tão regalada, como vocemecê lhe chama...</p> + +<p>—Vê? Pois n'isso é que consiste a felicidade: não nos importarmos nem +ambicionar coisa nenhuma. Vive você resignado com a sua sorte, e não aspira a +outra melhor, partindo do principio que foi Deus ou o destino que assim +determinou...</p> + +<p>—Pois é isso mesmo. Deus quer, não ha remedio senão sugeitar-se a +gente... </p> + +<p>—Ora suppônha o meu amigo que lhe davam um emprego de quatro ou cinco +tostões diarios. Você, ao cabo de algumas semanas, começava logo a olhar com +olhos de cubiça o emprego d'um seu collega que ganhasse um ou dois tostões +mais; punha-se a metter empenhos, incommodava-se a pedir a uns e a outros +influentes politicos, arranjava o emprego, e, chegadas as eleições, lá tinha de +ir dar o seu voto pelo individuo que o favoreceu. Depois, quando tivesse +adquirido uma certa convivencia com essa gente <em>fidalga</em>, como vocês lhe +chamam cá, o seu ordenado tinha de ser muito bem governado para chegar para as +despezas caseiras e despezas de vestuario, etc., para você se apresentar +decentemente em publico. Entretanto ia já deitando o olho a um logar mais +vantajoso, isto é, mais rendoso; supponhamos que o conseguia, e você talvez não +saiba que os empregos publicos, em regra, quanto mais bem pagos são, menos +trabalho dão. Você ia-se<span class="pn">{28}</span> habituando a ganhar cada +vez mais, e a trabalhar cada vez menos. Começava o seu corpo a resentir-se do +torpôr resultante da inacção physica, e ahi estava o meu amigo e senhor Luiz +atacado da mesma doença que ataca quasi toda essa gente que só come borôa por +desfastio. La tinha de andar com trinta mil cuidados com o seu corpo, não +apanhar uma corrente de ar frio ou um boccado de sol, não comer de mais nem +d'isto, nem d'aquillo, etc., etc., mil trapalhadas!</p> + +<p>—Mas ao menos, ganhava dinheiro que chegasse para tudo isso...</p> + +<p>—Podia ganhar e podia não ganhar. Olhe, meu caro: não ha vida como a +de lavrador. Creia! Olhe que eu digo isto com franqueza.</p> + +<p>—Mas então porque é que o sr. não tomou esta vida?</p> + +<p>A pergunta do tio Luiz deixou-me um pouco embaraçado, e pude tartamudear: +</p> + +<p>—É que... bem vê, o mundo é assim... Nós vamos para onde nos +encaminham... </p> + +<p>—Ah! Ah! Ah! Será melhor mudar de conversa; vou-me á minha vida, que +está o sol quasi a nascer. Para esta vida—acrescentou elle, rindo-se +zombeteiro ainda do meu enleio—de que o sr. tanto gosta! Ah! Ah! Ah! +Venha d'ahi no carro até alli abaixo, quer vir?</p> + +<p>—É verdade. Já o pudera ter feito, escusava você de estar a perder o +seu tempo.</p> + +<p>—Ora essa! A grande coisa! Suba! Suba! Eu é que me devia de ter +lembrado d'este offerecimento ha mais tempo.</p> + +<p>Saltei para cima do carro, segurei-me com uma das mãos á sebe e o tio Luiz, +tocando levemente com a extremidade da aguilhada no lombo das vacas,<span +class="pn">{29}</span> exclamou, na palavra consagrada para pôr o gado bovino +em andamento:</p> + +<p>—Eixe!</p> + +<p>O carro poz-se em movimento.</p> + +<p>—Diga-me cá uma coisa, ó tio Luiz: de quem foi ou quem viveu nesta +casa, que alli está em ruinas?</p> + +<p>—Esta casa? Aqui foi onde viveu, em solteira, aquella brasileira, ou, +por outra, a mulher do brasileiro que móra acolá em cima na Herdade.</p> + +<p>—Ah! Bem sei! Por signal que até a vida d'essa mulher em solteira é +muito interessante.</p> + +<p>—Coitada! Foi infeliz e causou bastantes infelicidades. Mas +arrependeu-se, e depois o que soffreu e fez soffrer foi bem descontado.</p> + +<p>—Mas o que acho esquisito é eu ter aqui passado tantas vezes e nunca +reparar para a casa senão hoje. E estou meio impressionado. Diabo! Estou capaz +de escrever a historia da casa. Você que diz, ó tio Luiz?</p> + +<p>-Ah! Ah! Ah! A historia da Maria Luiza, que morou nella! Faz muito bem, e +olhe que é uma historia bem bôa, além de ser verdadeira, que é o principal!</p> + +<p>—Pois está dito. Não descansarei emquanto a não escrever. Mal ou bem, +depressa ou devagar, ella ha-de sair!</p> + +<p>—Ó senhor Antonio! olhe que eu depois quero tambem...</p> + +<p>—Descance, que ha-de ser você talvez a primeira pessôa que nesta +freguesia ha-de têl-a.</p> + +<p>—E isso levará muito tempo, ó sr. Antonio?</p> + +<p>—Leva, leva! Vê que a minha vida não me permitte dispôr de muito tempo +para isso. Com certeza que antes de tres ou quatro mezes não a escrevo. +Depois...<span class="pn">{30}</span></p> + +<p>—Sim, sim! É preciso tambem depois <em>imprensal-a</em>, e tudo leva +tempo. </p> + +<p>—Pois é isso. Antes de meio anno ou mais, você não a vê.</p> + +<p>—Seja lá quando fôr! Mas que Deus não me mate sem a ouvir lêr. E olhe +que ha-de ser vocemecê que m'a ha-de lêr, ouviu?</p> + +<p>—Está dito.</p> + +<p>O carro seguia por entre duas alas de salgueiros viçosos, cheios de orvalho, +que rolava das suas folhas verdes como perolas da mais fina transparencia.</p> + +<p>O Vouga, a uns duzentos passos, deslisava silencioso. Nas suas ribas +semelhantes a dous grossos cordões que tarjavam o seu leito, os passaritos, +esvoaçando e chilreando, numa alegria infantil, cantavam a alvorada.</p> + +<p>Numa encosta proxima, a vidraça duma janella reflectiu um clarão—era o +sol que emergia por detraz da serra, cujo dorso gigante parecia em fogo.</p> + +<p>O tio Luiz fez parar as vaccas, e disse:</p> + +<p>—Agora vamos á nossa lida.</p> + +<p>Emquanto saltei, respondi:</p> + +<p>—Vão, vão; que se não fosse eu, já vocês tinham um bom par de leiras +lavradas.</p> + +<p>—Que tem lá isso! retrucou elle bondosamente. Mal tinhamos tempo de +pôr as vaccas á charrua!</p> + +<p>—Olhe lá! Que vem cá fazer o petiz? perguntei, indicando o pequeno +que, lesto, saltara do carro e se preparava para fazer algum trabalho; não +podia ter ficado a dormir?</p> + +<p>—Quer vir, deixal-o vir! É para se ir acostumando. Como já chega a uma +prateleira que lá tenho na cozinha, diz que já é um homem. Que quer que lhe +faça?<span class="pn">{31}</span></p> + +<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br> +* *</p> + +<p>Quando me retirei—já o sol ia alto—o tio Luiz lá andava a +revolver a terra, agarrado á rabiça do arado, o dorso meio curvado pelo +esforço.</p> + +<p>Preparava a terra para lhe lançar os grãos, cada um dos quaes se multiplicou +em dezenas d'elles.</p> + +<p>Semeado naquella manhã formosissima de maio, o milho nasceu, passados alguns +dias, lindo e verde: lançou raizes, cresceu, desenvolveu-se; foi sachado, +mondado, arrendado e, por fim, cortado.</p> + +<p>Durante os mezes que esteve na terra, mereceu ao lavrador cuidados e +caricias verdadeiramente filiaes.</p> + +<p>Trabalhos e fadigas, chuva e calôr, tudo soffreu resignado, sempre na sua +fronte estampada a alegria e no seu coração a esperança...—A esperança de +quê? </p> + +<p>Nem elle o sabe, o lavrador.</p> + +<p>Amando religiosamente a sua aldeia, alli vegeta sem ambições, idolatrando os +torrões que seus paes regaram com o suor da sua fronte, colhendo os fructos das +arvores que elles plantaram, e plantando outras de que seus filhos depois +colherão os fructos.</p> + +<p>E, sem o saber, vive feliz. Deus compensa-lhe as horas de labor insano com +instantes de suprema ventura, passados, sem preoccupação de espirito, no dôce +convivio da familia reunida em volta da lareira nas noites amenas do outomno. +</p> + +<p>Todos os dias, á hora crepuscular da tarde, quando um socêgo religioso +repousa sobre a aldeia depois do toque cheio de ternura das Avè-Marias, a sua +cozinha denegrida, mas alegrada pela claridade intensa duma robusta fogueira, +transforma-se em um cenaculo<span class="pn">{32}</span> onde reina a paz e o +amôr; a familia inteira, collocada a magra mas abundante refeição da noite +sobre a tosca mesa de pau de pinho coberta por uma grossa toalha de estopa, +senta-se em volta radiante, semelhando os discipulos do Nazareno na noite da +ultima ceia.</p> + +<p>Entretanto, cá fóra, cortando o socêgo da noite allumiada pelo meigo luar ou +pela claridade das longiquas estrellas, o sino da egreja começa a dobrar ás +almas, segundo o tradicional costume da aldeia, repercutindo-se o som de valle +em valle, pelos campos além, penetrando os limites da freguezia visinha, até se +perder na solidão da noite...<span class="pn">{33}</span></p> + +<h2><a name="SECTION00130">III</a></h2> + +<p>O tio José da Alameda era uma bom velhote de perto de setenta annos.</p> + +<p>Curvado pela dureza do trabalho de mais de meio seculo, dentro do seu peito +rijo existia um coração sempre jovial e bondoso, cuja ternura se derramava em +obras caridosas com que accudia aos infelizes, e uma alma candida que logo se +manifestava na ternura do olhar com que a todos envolvia.</p> + +<p>Enviuvara antes dos sessenta annos e possuia dois filhos: o mais velho, +mocetão de vinte e quatro annos, era um rapaz cheio de vida, alegre e bondoso, +a flôr dos mancebos da freguezia. O segundo filho era uma rapariga de dezoito +annos—o terceiro filho do casamento do tio Alameda com a sr.ª Maria das +Dôres—chamada Helena, possuidora de uns olhos que—não é por eu +gostar de olhos escuros em rosto moreno—lhe diziam tão bem, naquelle seu +troso trigueiro e encantador, que não havia rapaz nenhum na aldeia que não +desejasse andar toda a vida perdido na escuridão d'aquelles olhos. E quando +ria, deixava vêr, por detraz de dois labios nacarados que deviam ser dôces como +favos de mel, duas filas de dentes brancos como a neve pura.</p> + +<p>A familia do tio Alameda, além d'elle e dos dois filhos, compunha-se de um +creado, rapazote de 17 annos, chamado Paulo, fallador e alegre, que para alli +tinha ido aos doze annos; e de uma rapariga de quinze, uma pupilla que, orphã +de pae e de mãe, encontrara nos braços do tio Alameda os carinhos paternaes que +tão cedo lhe faltaram.<span class="pn">{34}</span></p> + +<p>Chamava-se Julia. Tendo ficado sem mãe aos cinco annos, a infelicidade +vibrara-lhe novo e mais profundo golpe arrebatando-lhe, no principio da +adolescencia, o pae que a estremecia e que era o seu unico amparo.</p> + +<p>Foi então que a misericordia do tio Alameda se patenteou devéras; porque o +moribundo, reconhecendo que a sua pobre Julia não podia ficar só no mundo, +mandou, na hora extrema, chamar o tio Alameda e disse-lhe numa voz apagada e +apertando nas suas mãos febris as do bondoso velho:</p> + +<p>—Tio José... esse anjo, que ahi está a chorar... vae ficar sem ninguem +no mundo...</p> + +<p>—Descança, João; dizia-lhe o tio Alameda com as lagrimas nos olhos e +limpando-lhe o suor que escorria da fronte ardente; descança, que a tua Julia +fica na minha companhia.</p> + +<p>O moribundo, em agradecimento, apertou-lhe a mão que segurava na sua que +caiu pezada sobre o leito, e duas grossas lagrimas rolaram-lhe pelas faces +mortalmente pallidas.</p> + +<p>Desde esse dia, Julia ficou fazendo parte da familia do tio Alameda.</p> + +<p>—Olha o que te digo, pequena—dizia-lhe elle carinhosamente uns +dias depois da morte do pae. Tu agora és minha filha. Deus levou uma que eu +tinha e mandou-te a ti em seu logar: voltei a ter tres filhos. Mas tu não +has-de andar sempre a chorar! Isso são saudades, é certo, e as saudades dos +paes nunca se acabam. Mas faze-me a vontade; eu não posso vêr ninguem a +chorar.</p> + +<p>E o bom velho passava-lhe com carinho a mão pela cabecita loira.</p> + +<p>—Sabes? Eu tambem chorei quando era novo, quando não conhecia ainda o +mundo. Mas depois<span class="pn">{35}</span> que comecei a tomar conhecimento +d'este mundo todo de enganos, deixei-me d'isso. Se fosse a chorar todas as +vezes que tinha motivo para isso, então não fazia outra vida.</p> + +<p>A contradizer as suas palavras, duas lagrimas lhe assomaram aos olhos.</p> + +<p>—Olha: vem para a cozinha. Vem para junto da Helena que está a fazer a +ceia, e espairecer.</p> + +<p>E pegando-lhe docemente na mão, obrigou-a a seguil-o.</p> + +<p>—Helena? chamou elle ao transpor a porta da cozinha; é preciso que o +Belbuth venha cá hoje. Quando os rapazes voltarem do trabalho, o Paulo que vá +vêr se o encontra. Precisamos de nos rir um pouco com as suas chalaças, para +distrahir esta pequena, que não faz senão chorar.</p> + +<p>Quem não conheceu o Belbuth, em toda a freguezia, ainda não ha muitos annos? +</p> + +<p>Quem ha ahi que se não recorde d'esse velho, rijo como um pêro, e que +contava cerca de cem annos quando morreu?</p> + +<p>Apparecia em todas as casas onde lhe podessem dar uma côdea e uma tigella de +caldo, ou um ninho no palheiro para passar a noite, em troca de reduzir a achas +o tronco duma arvore, sempre com aquella physionomia austera e encarquilhada +debaixo d'um chapeu velho que cobria dois ou tres barretes sobrepostos e +enterrados na cabeça.</p> + +<p>Chamavam-lhe tolo. Eu direi que era um «tolo com juizo». Sim; porque +trabalhava. Um homem que, para receber uma esmola, offerece o braço, embora +vacillante pela decrepitude, ao seu bemfeitor, tem o instincto de uma boa +acção. E que melhor acção pode haver que o trabalho?</p> + +<p>O Belbuth não era, pois, um tolo na verdadeira<span class="pn">{36}</span> +significação da palavra. Não fazia diabruras. Não se ria frequentemente e sem +motivo, como succede tantas vezes com quem se arroga de ter a massa encephalica +em equilibrio. Os garotos atiravam-lhe pedras; eu tambem lhe atirei algumas. E +elle que lhes fazia? Por instincto de defeza e de conservação, pegava tambem +numa pedra ou num pau, e atirava-o, com phrenesi, pela estrada adeante, não +reparando nos estragos que podia causar se viesse algum incauto. Era o unico +indicio vago de loucura que lhe conheci.</p> + +<p>Os garotos, em regra, embirram com os velhos. Se estes dão <em>sorte</em> +têm para pêras. Era o que se dava com o Belbuth.</p> + +<p>Tirado d'isso, era um velho austero que devia gosar, porque a merecia, a +estima de toda a gente, em vista da sua edade avançada, e era, além d'isso, uma +testemunha das guerras peninsulares, em algumas das quaes tomou parte.</p> + +<p>Era para estes homens que os governos deviam tambem estabelecer pensões. +Dando frequentemente um ordenado supérfluo a um glutão, que passa a vida +regaladamente, em paga de meia duzia de assignaturas semanaes—e ás vezes +nem isso!—, deixam morrer na miseria, depois de em vida serem +escarnecidos—sómente porque eram pobres—homens que, outrora, no +vigor da mocidade, perderam, por amor da patria, o amor ao sangue que lhes +corria nas veias.</p> + +<p>O Belbuth era apenas um miseravel, sem eira nem beira, possuidor dos +farrapos que o cobriam e ganhos a trabalhar, tendo muitas vezes por habitação o +ceu estrellado, sob o qual dormia, muitas outras vezes, entre dois lençoes de +neve.</p> + +<p>Limitando o campo da sua vida de vagabundo<span class="pn">{37}</span> á +área d'esta aldeia, o Belbuth era um typo popular de genio differente do de +Luiz de Paus—um outro vagabundo de espirito irrequieto, que vagueava ao +acaso por esse mundo como um cometa errando no espaço, apparecendo de tempos a +tempos no logar de Paus, d'onde era natural.</p> + +<p>Sobre este contam-se vários episodios, alguns com bastante originalidade, +revelando o mau instincto do seu agente.</p> + +<p>Conta-se que o Luiz de Paus apparecia com frequencia, quando soffria crise o +combustivel do seu apparelho digestivo, pelo quartel de cavallaria 10 em +Aveiro, onde era muito conhecido dos soldados, que lhe matavam a fome com uma +parcella que cada um tirava á sua lata de rancho.</p> + +<p>Um dia passou por uma guarita onde um soldado estava de sentinella. O Luiz +de Paus approximou-se, e, vendo a arma encostada—pois a sentinella estava +a dormir—pegou nella e apresentou-se no quartel, tendo o pobre soldado do +responder a um conselho de guerra.</p> + +<p>Desde esse dia o Luiz de Paus nunca mais tornou a ter entrada no quartel. +</p> + +<p>Uma outra occasião, foi elle tocar os sinos a rebate numa freguezia +qualquer, alvoroçando o povo todo.................</p> +<hr class="dotted"> +<hr class="dotted"> + +<p>—Olha lá, ó Belbuth! Tu namoraste alguma vez?</p> + +<p>—Se eu namorei alguma vez? O quê?</p> + +<p>—O quê! Uma mulher! Pois que havia de ser, homem?</p> + +<p>—Nada! Tive sempre mêdo desses demonios!</p> + +<p>—Porquê? Fizeram-te algum mal?</p> + +<p>—A mim não, porque eu nunca lhes dei confiança.<span +class="pn">{38}</span> Depois que vi o que succedeu a alguns companheiros meus +por causa de taes mafarricos, nunca as pude vêr. Quer saber, tio José, o que +succedeu um dia a um camarada meu por causa d'uma rapariga?</p> + +<p>—Conta lá.</p> + +<p>—Aquillo, andam de combinação com o demonio! Um companheiro do meu +regimento arranjou conhecimento lá com um d'esses demonios qualquer; quando +veio ordem para o regimento partir outra vez contra os francêses, acolá para +uma terra que já me não lembra, o rapaz desappareceu. Logo ordem para ser +procurado antes do regimento partir, por esses campos e montes. Partiram umas +poucas de patrulhas para diversos lados, e eu fiz parte d'uma.</p> + +<p>«No segundo dia, foi a minha patrulha encontral-o num pinhal, alli para os +lados de S. Pedro do Sul. Nós iamos perguntando se tinham visto um homem assim, +assim: até que uma mulher, que andava a guardar umas cabras nos apontou um +pinhal. Quando viu que não havia meio de nos escapar, poz-se de joelhos deante +de nós, a chorar tanto, que era uma dôr d'alma!</p> + +<p>«Prendémol-o e trouxemol-o, e elle contou-nos então pelo caminho que a tal +desavergonhada é que tinha feito com que elle desertasse.</p> + +<p>—«E então que é d'ella? perguntamos-lhe nós.</p> + +<p>—«Essa maldita, como eu tinha de andar escondido, emquanto andasse em +terras de Portugal, para me não conhecerem, enfastiou-se de tal vida e +abandonou-me.</p> + +<p>«Pediu-nos então elle que o deixassemos vir á vontade, jurando que nos não +fugiria.</p> + +<p>«Fizemos-lhe a vontade, e, na verdade, não nos<span class="pn">{39}</span> +fugiu; mas, quando passavamos por uma ponte, atirou-se abaixo, e já o não +tornamos a apanhar senão morto.</p> + +<p>«Tivemos de dizer que o encontramos já assim, para não sermos castigados. +</p> + +<p>«E agora, diga lá, tio Alameda; eu, depois de uma coisa assim, podia lá +olhar com bons olhos uma mulher?</p> + +<p>—Mas ellas não hão-de ser todas assim! disse, a rir, Helena.</p> + +<p>—Pois sim: não serão todas. Mas, como a gente vê caras e não vê +corações, devemos jogar sempre pelo seguro; e quando se trata de mulheres, +perde-se quasi sempre!....................................</p> +<hr class="dotted"> + +<p> <span class="pn">{40}</span></p> + +<h2><a name="SECTION00140">IV</a></h2> + +<p>Era em setembro, num domingo em que se festejava o santo Estevam, cuja +capella, assente na lomba do cabeço que se designa pelo nome do mesmo santo, +domina, para o sul e nascente, um panorama gracioso entrecortado pela encosta +de Travassô—uma encosta de aspecto taciturno, que olha com melancholia +toda a região opposta simetricamente, sobre a qual se estende, beijada desde a +manhã á tarde pelos raios do sol, a alegre Alquerubim.</p> + +<p>D'essa lomba vê-se espreitar, por uma clareira entre Alumiar e a ponte da +Rata, a região paludosa de que faz parte a magnifica e extensa páteira de +Fermentellos. E para a esquerda, estendendo a vista por sobre o extenso +planalto onde poisa a branca Mourisca, vê-se ao longe, desenhando-se +nitidamente sobre o fundo azul celeste, a serra do Caramulo, com punhados de +casinhas brancas a luzir no pardacento do sopé.</p> + +<p>Nesse dia, o cabeço do Santo Estevam apresentava-se galhardamente revestido +de alegres bandeiras que fluctuavam á viração da tarde como um bando de pombas. +</p> + +<p>O sol, declinando no horisonte, despedia-se, atirando, como ternos beijos, +raios de calôr frouxo sobre o arraial onde a musica de S. João, disposta em +circulo, lançava aos ares harmonias que eram levadas, por sobre montes e +valles, a uma grande distancia.</p> + +<p>Junto á capella, um rapaz de 24 annos, uma<span class="pn">{41}</span> viola +a tiracolo, encostado a um varapau, ria e conversava alegremente com um grupo +de moças.</p> + +<p>Era o João do tio Alameda, o rei dos cantadores d'estes sitios.</p> + +<p>Causava gosto vêl-o chegar a um arraial, viola em punho, encostar-se ao seu +bordão, e, depois de passar levemente o dedo pollegar da mão direita pelas +cordas da viola e ter dado tres ou quatro puxões numa ou noutra caravêlha para +afinar o instrumento, começar a dedilhar um acompanhamento de fado. Punha-se a +cantar e, entretanto, já cercado de curiosos, não tardava que uma voz feminina +lhe respondesse de entre o circulo que o rodeava, e que logo se quebrava para +dar passagem á atrevida cantadeira. Porque, na verdade, era um atrevimento +bater-se com o João do tio Alameda.</p> + +<p>A derrota era certa. Só havia uma que algumas vezes o levara de vencida: era +uma rapariga tronchuda, com um palmo de cara regular, muito alegre e expansiva. +Era a Maria Luiza.</p> + +<p>Havia quem dissesse que o João se deixava algumas vezes vencer por ella; e +com certo fundamento se dizia isto, porque, no olhar com que a envolvia, tão +differente do que lançava ás outras, via-se claramente—porque o amôr não +pode estar em segredo—que ella não lhe era indifferente.</p> + +<p>—Olhae! lá acabou a musica! exclamou elle desandando para o meio do +arraial.</p> + +<p>Arrimou-se ao cajado, collocou a viola em attitude, dedilhou as cordas uma +por uma, e, dando uma ultima demão á afinação, tirou um accorde.</p> + +<p>Entretanto, uma compacta massa de espectadores o rodeavam—homens e +mulheres, novos e velhos, anciosos todos por presenciarem o debate do «rei dos +cantadores» com a Maria Luiza, a sua rival...<span class="pn">{42}</span> +Porque ella lá estava, fresca como uma alface e risonha e purpúrea como uma +papoila, em frente d'elle que a envolvia num olhar todo affectuso e terno:</p> + +<blockquote> + —Se tu soubesses, menina, <br> + Quantas 'strellas ha no ceu, <br> + Saberias quantos suspiros <br> + Dá por ti o peito meu. </blockquote> + +<p>A sua voz era sonora e forte e elle cantava moderadamente, de maneira a ser +ouvido pelo grupo todo.</p> + +<p>A Maria Luiza, fitando nelle um olhar de victoria, respondeu-lhe sorridente: +</p> + +<blockquote> + —Que importa o que diz um louco, <br> + Se falla sem sentimento? <br> + Cartas d'amor são papeis, <br> + Palavras leva-as o vento. </blockquote> + +<p>—Bravo! exclamaram do grupo.</p> + +<p>—Sim, senhor!</p> + +<p>—Responde-lhe agora, ó João!</p> + +<p>—Essa chegou p'ra ti! Hein?</p> + +<p>Elle sorria, como congratulando-se com a victoria do adversario.</p> + +<blockquote> + —P'ra que vaes, pois, ao sermão, <br> + Ouvir o padre prégar! <br> + Palavras leva-as o vento, <br> + Acabaste de o affirmar. </blockquote> + +<p>—Ah! Ah! Ah! Salvou-se, o maganão!</p> + +<p>Mas ella não se atemorisou, e replicou, sempre no mesmo tom:</p> + +<blockquote> + —Palavras santas, eu ouço-as <br> + Com amôr e devoção; <br> + As que Satanaz profere <br> + Não me entram na coração. </blockquote> +<hr class="dotted"> + +<p> <span class="pn">{43}</span></p> + +<p>Quando terminou o debate, já o luar inundava o cabeço de Santo Estevam.</p> + +<p>O arraial limitava-se ao grupo de curiosos, dos quaes muitos tinham +retirado, que rodeava os nossos joviaes contendores.</p> + +<p>O João da Alameda rendeu-se mais uma vez, isto é, Maria Luiza alcançou mais +uma victoria sobre o invencivel cantador que, no seu intimo, exultava com estas +derrotas que, se lhe faziam perder terreno quanto á sua reputação de eximio +cantador, lh'o faziam ganhar por outro lado.</p> + +<p>Quando todos se retiraram, aos bandos, cantando, em alegre expansão do ardôr +da mocidade, o cabeço lá ficou, na solidão da noite, triste, com as bandeiras +esmorecidas e a capella branca a luzir no alto, allumiado pelo frouxo luar que +parecia querer minorar-lhe as saudades d'aquelle ditoso dia que só se repetiria +d'ahi a um anno...<span class="pn">{44}</span></p> + +<h2><a name="SECTION00150">V</a></h2> + +<p>Na vasta eira do tio José da Alameda haviam-se despejado quatro enormes +carradas de milho para ser desfolhado numa bella noite, cheia de luar, dos fins +de setembro.</p> + +<p>O Paulo tinha sido encarregado de convidar as raparigas, do que se saiu +optimamente, pois que affluiu alli o que de melhor havia no genero no logar. +</p> + +<p>Eram oito horas, e já uma boa duzia de alegres moças estavam a contas com o +monte, numa satisfação propria da mocidade em occasiões de folguedo.</p> + +<p>Alguns rapazes iam chegando tambem, chamados pelas gargalhadas das +raparigas.</p> + +<p>Não é uso convidal-os. «Elles cá virão ter» é a phrase consagrada. +Effectivamente, elles, de ouvido á escuta, collocam-se nas encruzilhadas. +Ouvindo cantar ou chegando-lhes ao ouvido o alarido das vozes nas desfolhadas, +ahi vão como o cão de caça farejando o rasto do coelho até lhe dar com a cama. +</p> + +<p>—Eia! vamos lá a isto! gritava o João da Alameda, alapardando-se entre +a Maria Luiza e a Joanna Mulata. Isto é dar-lhe! Isto é dar-lhe! Em uma ou duas +horas está tudo prompto! Havemos de bailar ahi hoje até ao sol fóra!</p> + +<p>—Viva o rei dos cantadores da nossa terra! gritou um que chegou nesse +momento encafuado num gabão.</p> + +<p>—Viva! gritaram todos.</p> + +<p>—Obrigado! obrigado! dizia com bondade o<span class="pn">{45}</span> +João. Mas olha lá, ó tu do gabão! Nós aqui não queremos caras encobertas. Tira +o capuz da cabeça e senta-te p'rahi como os outros. Já todos sabem que aqui, ás +nossas desfolhadas, só se vem de cara descoberta.</p> + +<p>—E se eu não quizer? perguntou com falla ventriloqua o disfarçado.</p> + +<p>—Se não quizeres, replicou o João meio azedo, vaes já pelo caminho por +onde vieste.</p> + +<p>Todas as vozes se haviam calado, e o individuo retrucou, meio insolente:</p> + +<p>—Ah! Ah! Ah! Sempre gostava de vêr isso!</p> + +<p>O João da Alameda levantou-se colerico sem attender aos rogos dos +circumstantes nem ao gesto da Maria Luiza que, a tremer, lhe puxou pela +jaqueta.</p> + +<p>Os rapazes imitaram-no levantando-se promptamente, e seguiram-no dispostos a +expulsar o insolente para evitar algum dissabôr maior.</p> + +<p>O João dirigiu-se ao atrevido e este, na occasião em que elle estava a dois +passos, atirou o gabão ao chão, dizendo risonho:</p> + +<p>—Olá, patrão?</p> + +<p>O João da Alameda, vendo na sua frente Paulo, deteve-se como se uma visão +lhe houvesse de repente apparecido.</p> + +<p>Ficou-se a olhar para elle, e todos com palmas, gargalhadas e motejos +inoffensivos, o decidiram a voltar para o seu logar.</p> + +<p>—Boa partida! Ah! Ah! Ah! gritavam de todos os lados.</p> + +<p>—Olha o espertalhão do rapaz!</p> + +<p>O Paulo ria-se e foi-se sentar junto do monte de milho, contente com a sua +brincadeira que fez «ir á serra» o filho de seu amo.<span +class="pn">{46}</span></p> + +<p>O alarido restabelecera-se, e o João, fuzilado pelas chufas das raparigas, +continuou alegremente a sua tarefa.</p> + +<p>O numero dos desfolhadores, augmentado pelos que iam affluindo ao local, +elevava-se já a algumas dezenas.</p> + +<p>O montão de milho, ripado de todos os lados por aquellas dezenas de mãos, +desapparecia a olhos vistos.</p> + +<p>—Ora Deus vos ajude, disse uma voz pausada e trémula.</p> + +<p>Era o tio José que chegava, acompanhado de Helena e da sua pupilla, trazendo +numa das mãos uma tripeça.</p> + +<p>—Viva, sr. José!</p> + +<p>—Então tambem vem tomar parte na desfolhada ao pé da gente nova, +hein?</p> + +<p>—Com'assim!... É para me recordar dos meus tempos passados.</p> + +<p>Entretanto ia-se ageitando na tripeça, entre Helena e Julia que ficara junto +a Paulo, e proseguiu, puxando por um pé de milho:</p> + +<p>—Porque um homem, quando chega á minha edade, que outra coisa póde +fazer, para se não entristecer e não pensar na morte que se approxima, do que +alimentar o seu espirito com recordações dos tempos passados, fingindo-se ainda +nesses tempos que foram e não voltam?... E será este o ultimo, quem +sabe?...—ajuntou num tom contristado, dando um suspiro.</p> + +<p>—Ahi vem o pae com coisas tristes! disse do lado, estouvadamente, +Helena. Não se quer cá tristezas! Quer-se alegria! Ora tapa a boquinha alli ao +pae com uma cantiga das tuas, ó João!</p> + +<p>Todos approvaram a ideia de Helena, e o tio José, sorrindo bondosamente, +submeteu-se.<span class="pn">{47}</span></p> + +<p>—Sim, sim! Uma cantiga! diziam.</p> + +<p>—Muitas cantigas, muitas, ó João!</p> + +<p>—Haja animação! Viva a mocidade! Eh! rei dos cantadores! Sae-te com +uma das tuas!</p> + +<p>O bondoso rapaz, encolhendo os hombros em signal de resignação, preparou-se +para cantar.</p> + +<p>Todos se calaram. Só se ouvia o murmurio produzido pelo rasgar simultaneo +das camisas de dezenas de espigas e o som monotono d'estas a cair nos cestos de +vime.</p> + +<p>O João pegou num pé de milho, deitou um olhar de soslaio á Maria Luiza, e +cantou na sua voz sonora:</p> + +<blockquote> + —De tantas estrellas que ha <br> + Por'hi além nesses ceus, <br> + Eu não encontro nenhuma <br> + Comparada aos olhos teus. </blockquote> + +<p>E todos, unindo as suas vozes, d'entre as quaes sobresaía uma esganiçada em +falsete, repetiram em côro, que se repercutia de valle era valle, os dois +ultimos versos da quadra:</p> + +<blockquote> + Eu não encontro nenhuma <br> + Comparada aos olhos teus. </blockquote> + +<p>Elle continuou:</p> + +<blockquote> + —Ás ondas dos teus cabellos <br> + Gostava de me atirar; <br> + Teus olhos, faróes de esp'rança, <br> + Haviam de me salvar. </blockquote> + +<p>E o côro repetiu:</p> + +<blockquote> + Teus olhos, faroes de esp'rança, <br> + Haviam de me salvar.<span class="pn">{48}</span> </blockquote> + +<p>—Isto é com a Maria Luiza, cochichou uma á sua visinha da direita.</p> + +<p>—É, é! Se fosse de dia, havias de vêr a cara de malaguêta com que ella +deve estar.</p> + +<blockquote> + —E do que morrer amando <br> + Se não ha nada mais bello, <br> + Queria amando morrer <br> + Nas ondas do teu cabello. <br> + Queria amando morrer <br> + Nas ondas do teu cabello. </blockquote> + +<blockquote> + —Amei um dia uma estrella <br> + Que vi lá no ceu brilhar: <br> + —Serei tua, me disse ella, <br> + Mas has-de vir-me abraçar. <br> + Serei tua, me disse ella, <br> + Mas has-de vir-me abraçar. </blockquote> + +<blockquote> + —Dia de Natal hei-de ir <br> + Ao menino perguntar <br> + Qual será a rapariga <br> + Com quem eu hei-de casar. <br> + Qual será a rapariga <br> + Com quem eu hei-de casar. </blockquote> + +<blockquote> + —E se não me responder, <br> + Pedirei a S. Joaquim <br> + Me dê a Maria Luiza <br> + Tão babadinha por mim. </blockquote> + +<p>O ultimo verso foi quasi abafado por palmas e gargalhadas e dictos dos +circumstantes. A Maria Luiza baixou a cabeça, e, com effeito, se fosse á luz do +dia, vêr-se-lhe-ia o rosto tingir-se de uma côr purpurina.<span +class="pn">{49}</span></p> + +<p>Na mesma occasião, um bando de rapazes que, ao approximarem-se do local da +desfolhada, se occultaram a ouvir o cantador, aguardando o final dos seus +improvisos para o acclamarem, sairam do seu esconderijo e appareceram juntando +ao alarido as suas exclamações e motejos inoffensivos dirigidos á Maria Luiza +que, na opinião d'elles, encavacara.</p> + +<p>—Ora deixem-se d'isso! deixem-se d'isso! Dizia o tio Alameda. Quero +que se divirtam, cantem e riam, mas nada de fazer «ir á serra» a ninguem.</p> + +<p>Os recem-chegados dispozeram-se todos em volta do monte que já estava +reduzido a metade.</p> + +<p>No meio da confusão d'aquellas vozes em que sohresaiam as estridulas +gargalhadas das raparigas, entre tantos corações jovens que, pondo de parte +todas as preoccupações, só cuidavam de dar curso ás catadupas do ardor que +d'elles dimanava, havia um coração joven, um coração de quinze annos, amavel +como o de um anjo e puro e sensivel como uma camelia de cambraia fina.</p> + +<p>Julia, desde o principio da desfolhada, parecera estar alheia a todo o +enthusiasmo que reinava em volta de si.</p> + +<p>Paulo notou essa abstracção e, pondo de parte as attenções ao seu genio +folgazão, perguntou a Julia, com voz terna e compassiva.</p> + +<p>—Então a menina para que está sempre assim triste? Nem ao menos agora +se alegra? Ha já mais de um mez que está nesta casa, e ainda não houve um dia +em que estivesse alegre!</p> + +<p>Julia respondeu ás palavras compassivas e ternas de Paulo com um olhar +agradecido e ao mesmo tempo tão dôce, que elle, sentindo na sua alma umas +vibrações extranhas e no coração umas palpitações que jámais sentira, baixou os +olhos como uma creança<span class="pn">{50}</span> envergonhada. Á luz da lua, +que dera em cheio no rosto de Julia, elle vira-lhe nos olhos duas lagrimas, e +nos labios brincar um sorriso candido de reconhecimento; e na expressão desse +rosto, no conjuncto das lagrimas com o sorriso angelico desse rosto encantador, +Paulo esqueceu-se de si, do logar onde estava, do mundo onde entrara pela porta +da infelicidade, e julgou ouvir dentro de si uma musica celeste, de harmonias +extranhas; pareceu-lhe que, num sonho, vagueava sem saber por onde, talvez +pelas nuvens, e que só via deante de si esse rosto...</p> + +<p>Despertou do seu curto êxtase, e olhou para Julia, que sorria para elle, +muito mais bella do que d'antes, com os seus cabellos loiros brilhando como +fios d'oiro e com os seus olhos azues que pareciam dois ceus pequeninos +toldados de nevoas.</p> + +<p>—Oh! a menina chora?... pôde elle articular.</p> + +<p>—Você, Paulo, parece ter muito bom coração; por isso deve entender que +tenho razão para estar triste, quando todos aqui riem e cantam. Você ainda tem +pae e mãe?</p> + +<p>—Não sei!... murmurou elle quasi imperceptivelmente e profundamente +triste. </p> + +<p>—Não sabe?!... disse ella verdadeiramente admirada.</p> + +<p>—Não, porque nunca os conheci... Julia, intrigada, ficou a olhar para +elle. Julgou que estaria gracejando com ella, mas, vendo a sua expressão de +verdadeiro pezar, perguntou:</p> + +<p>—Então é porque lhe morreram quando você era pequeno?</p> + +<p>—Não sei!...</p> + +<p>—Você quando para aqui veio que edade tinha?</p> + +<p>—Doze annos.</p> + +<p>—E até então onde esteve?<span class="pn">{51}</span></p> + +<p>—Estive em casa da mulher que me criou. Essa é que me disse que meus +paes me tinham abandonado quando nasci...</p> + +<p>—Abandonaram-n'o?!... Que corações tão duros! E você não chorou quando +ella lhe disse isso?</p> + +<p>—Não, porque nunca os tinha conhecido. A ella me habituei a chamar mãe +e outra não conheço.</p> + +<p>—E você gostava de conhecer seus paes?</p> + +<p>—Gostava!... disse elle num murmurio, tão intimamente triste, que +Julia não se atreveu a fazer-lhe mais perguntas.</p> + +<p>A animação em volta d'elles continuava. Passados momentos, Paulo tomou uma +expressão resoluta e disse:</p> + +<p>—Já vê a menina que eu tenho mais motivos para chorar, porque sou mais +infeliz, e comtudo não choro!</p> + +<p>—É verdade, Paulo. Você tem razão. Não torno a chorar! Hei-de agora +esforçar-me por ser alegre como você.</p> + +<p>—Ena! cá está uma! gritou, vibrante, a voz de João que, em pé, +empunhava uma espiga vermelha. Um abraço! Vou já dar um abraço a cada uma!</p> + +<p>Fôra a Maria Luiza que atirara, a occultas das suas companheiras, uma +maçaroca ás mãos do João.</p> + +<p>Este dispunha-se a abraçal-as e ellas, com intenso gaudio intimo, +preparavam-se para receber o seu abraço.</p> + +<p>Porque, afinal, não havia alli nenhuma que não sentisse o seu fraco pelo +João do tio Alameda. Pois se elle era um rapaz forte que nem um tirante e com +um coração como o de uma pomba! E que bem elle cantava! Depois, juntava a todos +estes dotes um bom par de geiras que já herdara da mãe e outras tantas que o +pae lhe havia de deixar.<span class="pn">{52}</span></p> + +<p>Ora, um rapaz assim não era mal empregado na Maria Luiza, uma pobretona, sem +um palmo de terra? As outras assim pensavam, e com alguma razão.</p> + +<p>As leis da attracção da riqueza são as mesmas dos corpos celestes. «A +materia attrae a materia na razão directa das massas e na inversa do quadrado +das distancias» disse Newton. Esta lei rege as riquezas, com a differença +porém, que na gravitação universal não ha excepção alguma do que resultaria +algum cataclysmo que nos dava que contar; e na lei das riquezas ha as suas +excepções, de quando em quando.</p> + +<p>Antes as não houvesse, porque se evitariam grande desgraças. O pobre, embora +inspire paixão ao rico, nunca este o olha como um ser egual a si. Nas mulheres, +pelo menos, que é onde a vaidade humana se concentrou mais impetuosa, o amôr +pelo pobre não é mais que um passatempo ephemero, um capricho que se evola ao +embate das primeiras reflexões em que a vaidade serviu de juiz.</p> + +<p>Póde ella, em virtude duma mais pronunciada sensibilidade do coração, +submetter-se a esse capricho. Mas um coração d'esses é tão difficil de +encontrar como as perolas no oceano Atlantico.</p> + +<p>Não admira, pois, que a affeição do João pela Maria Luiza não inspirasse +ciumes ás suas companheiras. Ellas riam-se no seu intimo da illusão em que a +rapariga parecia andar, e, maliciosamente, occultavam-lhe os seus pensamentos, +aguardando a desillusão da sua <em>doidice</em>, como lhe chamavam.</p> + +<p>Todas com intenso gaudio intimo, se preparavam para receber o abraço do João +da Alameda, disse eu.</p> + +<p>Elle dirigiu-se á Maria Luiza, emquanto ia dizendo:<span +class="pn">{53}</span></p> + +<p>—Começo por ti, rapariga, já que estás aqui mais perto. As outras que +vão esperando.</p> + +<p>E depois cantarolou:</p> + +<blockquote> + —Chuchem agora no dedo, <br> + Mas é tudo sem maldade: <br> + São apenas brincadeiras, <br> + Tudo proprio d'esta edade. </blockquote> + +<p>E voltou para o seu logar.</p> + +<p>Os rapazes acclamaram e bateram palmas.</p> + +<p>—«Bella partida!» diziam de todos os lados. Ellas, encolhendo os +hombros desdenhosamente, ruminavam o seu despeito, fingindo não darem +importancia ao caso.</p> + +<p>No rosto de algumas deslisou um sorriso contrafeito, e, entretanto, a +desfolhada terminou.</p> + +<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br> +* *</p> + +<p>O sol, no hemispherio opposto, tinha já brilhado no zenit dos nossos +antipodas quando começou a retirada dos nossos personagens.</p> + +<p>Na eira, desoccupada com presteza depois da desfolhada, dançara-se +alegremente na mais dôce expansão d'aquellas almas inflammadas do ardor da +mocidade.</p> + +<p>A lua, recolhendo ao seu leito, convidou o nosso jovial bando a seguir-lhe o +exemplo.</p> + +<p>Na retirada, formaram-se varios grupos alguns dos quaes foram cantando pela +estrada fóra; outros, cedendo o logar do enthusiasmo da mocidade á +maledicencia, ventilavam, atravez o fôsco prisma da inveja, o caso da Maria +Luiza.<span class="pn">{54}</span></p> + +<p>—E que vos parece?! dizia, contraindo os labios em signal de surpresa +e admiração, ás suas tres companheiras a Joanna Mulata, que, tão proxima do +João como a Maria Luiza, não podera levar em paciencia que elle preferisse esta +a si. E a lambisgoia d'aquella Maria Luiza, hein? Um mocetão d'aquelles, gostar +d'uma delambida assim!</p> + +<p>—Ora! Vocês tambem fiam-se em boas!</p> + +<p>—Pois decerto! dizia a terceira. Que pretende ella d'elle?</p> + +<p>—O que pretendeu, segundo ouvi dizer, inventou a quarta.</p> + +<p>—Sim?!</p> + +<p>—É verdade! E vocês não viram, inventou ella de novo, aquella grande +descarada dar-lhe um beijo quando elle a abraçou?</p> + +<p>—Sério?!</p> + +<p>—Deu! Eu vi! Não admira, pois, que, segundo as famas que correm, elle +se mostre assim para com ella. São rapazes! o que querem é...</p> + +<p>—Pois decerto!</p> + +<p>—E faz elle muito bem! Quando ellas são assim, é bem feito!</p> + +<p>—Que grande descarada!</p> + +<p>—Cara sem vergonha!<span class="pn">{55}</span></p> + +<h2><a name="SECTION00160">VI</a></h2> + +<p>Natal, eu te saúdo!</p> + +<p>Quer a tempestade ruja lá fóra com indomavel fúria ameaçando prostrar as +oliveiras tristes e a chuva fustigue e amarelleça as brancas e innocentes +camelias do meu jardim; quer um sol claro e resplandecente e benefico paire no +firmamento alegrando a natureza durante o dia, e á noite um docél azul +marchetado de meigas estrellas se desenrole por sobre a minha fronte—eu +amo-te, óh! Natal!</p> + +<p>Amo-te, quer rias como uma creança loira perseguindo uma borbolêta que +saltita de flôr em flôr, quer chores como um velhinho, acabrunhado pelos annos +e de dorso curvado, chorando, sobre o netinho que acaricia no regaço, lagrimas +de saudade!</p> + +<p>És bello quando ris; mas o teu sorrir é forçado porque a tua alma é triste: +e a tristeza encanta-me. Por isso eu amo-te.</p> + +<p>És meigo e terno quando choras, porque as tuas lagrimas são sinceras, são o +desabafo de mil amarguras, de mil saudades. E as lagrimas são uma doçura tão +intima, e tão celeste! Por isso eu adoro-te.</p> + +<p>Amo-te nas aguas frias do Vouga que corre melancholicamente lá em baixo por +entre os salgueiros entristecidos; amo-te nas arvores despidas de folhagem +destas collinas; na monotonia destas varzeas e destas lezirias, e na atmosphera +tépida da cosinha do bom lavrador que olha com carinho a familia reunida em +volta da lareira; amo-te, finalmente, em<span class="pn">{56}</span> tudo o +que, inspirando tristeza e melancholia, segreda á minha alma attribulada mil +poêmas de amôr, mil recordações da minha infancia!</p> + +<p>Viver de esperanças é um viver de incertezas e de decepções; cada dia que +desponta é um sorrir velhaco e traiçoeiro cuja hypocrisia a nossa alma incauta +e offegante não vê.</p> + +<p>Viver de saudades e um viver mais suave, mais santo; é um viver, por assim +dizer, morto, porque a nossa alma, com o ultimo golpe, já não tem alento para +novas esperanças e decepções; o sol já não tem aquella expressão pérfida que +nos ludibriava, e cada dia que passa é uma conta do rozario das nossas +recordações que a nossa alma alanceada percorre orando e offerece ao Creador. +</p> + +<p>E tu vives de recordações e de saudades. Oh! Natal! Viver santo, viver +celeste!</p> + +<p>Ha mil novecentos e oito annos que uma creança, tenra e mimosa como os +nenuphares do poetico Jordão, veio lançar sobre a humanidade obcecada os raios +da luz vivissima que jorrava de seus olhos celestes. Nas miseras palhas onde +nasceu essa creança—tão pobre como a mais pobre de todas as creanças, +podendo, se quizesse, ser a mais opulenta—tu nasceste tambem: tiveste o +mesmo leito, e o recem-nascido bafejou-te com o halito vivificante da sua bocca +divina.</p> + +<p>E desde esse momento, não obstante o rolar dos seculos, conservaste sempre a +frescura innata que recebeste d'esse halito sacrosanto. O teu nome, envolvido +duma auréola fulgente de luz divina, é proferido com amôr por todos que têm no +peito um coração que soffre.</p> + +<p>E tu viverás sempre, oh! Natal! emquanto no mundo houver uma mãe que beije +com ternura o<span class="pn">{57}</span> pimpolho fecundado no seu ventre e +existir um infeliz; que chore uma lagrima!</p> + +<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br> +* *</p> + +<p>O dia de Natal amanhecera triste e soturno.</p> + +<p>Atravez da escuridão que desapparecia lentamente, o vulto d'um casarão se +desenhava ao fundo do adro, semelhante a um gigante enorme, muito velho já, com +uma das mãos levantada para o ceu, numa attitude de misericordia.</p> + +<p>Era a egreja com a sua torre.</p> + +<p>Que velhinha! Que velhinha!...</p> + +<p>Nas suas paredes, cobertas de lichens, ella está recordando com mágoa as +innumeras intempéries que têm zurzido o seu dorso, e, extenuada, profundamente +abatida, parece impetrar do céu a piedade que dos homens ingratos não tem +conseguido obter...</p> + +<p>O dia amanheceu triste e sombrio, ia eu a dizer.</p> + +<p>Durante a noite tinham caido grandes e consecutivas bátegas de agua, e o +ceu, como que cançado, apresentava um aspecto soturno.</p> + +<p>Ao longe, para o oriente, a serra do Caramulo, na negrura das nuvens que +sobre ella se encastellavam num espesso e elevado nimbo, parecia elevar-se +muito alta.</p> + +<p>Os eucalyptos da alameda contigua ao adro eram encrespados pelo soprar, em +pequenas lufadas, do vento do sul, e por sobre a aldeia repercutiam-se, com +maior intensidade para o norte, as ondulações sonoras que partiam do sino que +chamava os fieis para a missa da manhã.</p> + +<p>Á esquina do adro, o Facca, abrindo uma das<span class="pn">{58}</span> +portas da loja, olhou sombrio para o ceu pardacento e resmungou:</p> + +<p>—Hum!... Temos mais môlho!...</p> + +<p>Uma mulher, encafuada num mantelête, conduzia uma pacifica vacca que puxava +a uma carroça. Acampou no adro e, depois de ministrar á vacca uma ração de +pasto, affastou uma das extremidades do tolde que cobria a carroça, deixando a +descoberto uma parte da sua mercadoria, que consistia em hortaliças.</p> + +<p>Á entrada do recinto que cerca a egreja, uma outra mulher, collocando no +chão um cêsto de castanhas cosidas e uma ceira de figos, sentou-se num +pedregulho, á espera de freguezes.</p> + +<p>O sachristão abriu a porta principal da egreja, e d'ahi a pouco tempo, +embrulhadas em chales pretos, duas beatas, semelhantes a duas almas penadas, +depois de, ao passarem pelas vendedeiras da hortaliça e dos figos, mastigarem, +numa linguagem cantarolada, um «Deus vos dê muito bom dia!», entraram, +benzendo-se seraphicamente, com o pé direito na egreja.</p> + +<p>Dentro d'esta, encantadoramente recostado num presepio collocado num dos +altares do lado direito, o Menino Jesus sorria, pequenino e nú, com um sorriso +infinitamente bom e amavel. Deitada graciosamente num presepio todo engalanado +e alumiado, essa pequenina estatua divina estendia os braços, n'uma alvura de +jaspe, como querendo abraçar a humanidade inteira num amplexo de amôr divino e +paternal.</p> + +<p>Ao lado do altar estava um grande cesto destinado a receber as offertas de +pequeno lóte.</p> + +<p>Os fieis começaram a affluir ao templo.</p> + +<p>O velho prior...</p> + +<p>—Que bom homem que elle<span class="pn">{59}</span> era! Que candura +d'alma se reflectia sempre naquellas pupillas que se fixavam nos nossos olhos +cheias de amôr e affabilidade! Com que bondade me pousava a mão na cabeça, era +eu pequeno, afagando-me com palavras de indizivel doçura que só as sabe +pronunciar quem tem uma alma predestinada que encontra o bello ideal na +contemplação das tres perfeições naturaes—creanças, musica e flores!</p> + +<p>Elle appareceu, com a expressão jovial de sempre, envolvendo num olhar +carinhoso todo o ambito da egreja com as pessoas que já lá estavam, e ajoelhou +na escada do altar-mór, inclinando humilde e religiosamente a cabeça +encanecida.</p> + +<p>Assim permaneceu um quarto d'hora; depois, o capellão veio, já a egreja +estava cheia de gente, paramentado e abrindo alas docemente por entre o povo +que enchia a capella-mór.</p> + +<p>Depois da missa, elle revestiu-se d'um pluvial e dirigiu-se para o altar +onde o Menino Jesus estava reclinado no seu presepio.</p> + +<p>O sachristão abriu a umbella emquanto o sacerdote pegava no Menino, e o povo +começou a entoar o Bemdito.</p> + +<p>Todos então, homens e mulheres, affluiam a depositar um osculo de amôr, +acompanhada d'uma genuflexão, nos pésinhos, que pareciam pinhões, d'essa +pequenina estatua que o padre segurava cautelosamente e com respeito nas mãos, +acompanhando cada genuflexão que faziam d'um «Natus est nobis».</p> + +<p>Finda a adoração, que durou cerca de meia hora, o adro regorgitava de gente +que aguardava o leilão das offertas.</p> + +<p>Um homem dos seus quarenta annos, de aspecto agradavel, subiu para uma das +extremidades do<span class="pn">{60}</span> muro que veda o recinto em volta da +egreja, e, pegando numa abóbora, exclamou, sorridente:</p> + +<p>—Vale bem sete vintens! Para mais, e não para menos!... É massiça e +deve ter pouca pevide! Isto para filhoses, é de estalo!</p> + +<p>—O dia das filhoses foi hontem.</p> + +<p>—Todos os dias e todas as noites se fazem filhoses. Eia! Está em sete +vintens!...</p> + +<p>—Oito! gritou um do lado.</p> + +<p>—Oito vintens! repetiu o pregoeiro. Oito! Oito! Oito! quem dá mais?... +Oito!...</p> + +<p>—Nove!</p> + +<p>—Nove vintens! Não ha coisa mais barata! Eu não a fazia nem por nove +mil reis!</p> + +<p>—Mas comial-a de graça, mesmo assim crúa!</p> + +<p>—Coma-a você. Não sou seu irmão. Nove vintens!... Nove!... Nove... +uma. Nove... duas. No...</p> + +<p>—Cento e oitenta reis! gritou um, meio chocarreiro.</p> + +<p>—Cento e oit...—Vá p'r'ó diabo! São os mesmos nove vintens. Quem +dá mais? Nove... uma. Nove... duas. Nove...</p> + +<p>—Abóboras?</p> + +<p>—...tres!—Vá p'rá missa.—Assentem alli ao snr. Manuel da +Silveira.</p> + +<p>Vieram depois mais aboboras, cujo leilão decorreu sempre no meio de +inoffensivas zombarias do mesmo theor.</p> + +<p>Cebôlas, borôas, garrafas de vinho fino, pés de porco, tudo appareceu no +leilão.</p> + +<p>—Ora até uma gallinha cá appareceu! Cinco tostões! Se ninguem a +comprar fico eu com ella.</p> + +<p>—Para comer, ainda hoje, mais a sua Francisca, hein?...<span +class="pn">{61}</span></p> + +<p>—Tomaria você que eu o convidasse tambem. Cinco tostões!</p> + +<p>—Seis!</p> + +<p>—Seis tostões! Está pezadinha. Seis tostões e meio a mim!</p> + +<p>—Sete tostões.</p> + +<p>—Sete! Mau! Já não fico com a gallinha!</p> + +<p>—Veja se tem ovo. Se tiver, dou mais dez reis.</p> + +<p>—Não metto o dedo onde você costuma metter o nariz. Sete tostões! +Sete! Sete tostões, uma. Sete... duas. Sete... sete... tres! Acolá ao tio +Manuel Joaquim.</p> + +<p>Chegou a voz ás quinquilharias e brinquedos. Appareceu um caixinha coberta +de setim, fechada.</p> + +<p>—Que linda caixinha! dizia o pregoeiro mirando-a por todos os lados. +Parece que foi feita por mãos de fada! Não vale menos de cinco tostões. Está +fechada e deve ter qualquer coisa bôa cá dentro!</p> + +<p>—Abra! Abra! Queremos saber o que tem dentro!</p> + +<p>—Querem saber?! Comprem-na! Vale bem cinco tostões e... e... +tres—vá lá!—pelo que tiver.</p> + +<p>—Nove tostões! gritou de longe uma rapariga.</p> + +<p>—Ah! Estás com o olho nella? Não que ella é bonita, lá isso é! Nove +tostões!... Nove tostões!...</p> + +<p>—E meio, disse o snr. Silveira.</p> + +<p>—Nove tostões e meio! Só o setim vale o dinheiro. Depois, isto cheira +a... cheira a não sei ao quê que tem cá dentro...</p> + +<p>—Dez tostões! repetiu a mesma rapariga.</p> + +<p>—Estás morta por ella, diabo! Deixa estar, que se a não comprares, +hei-de dar-te uma caixinha mais linda que esta. Dez tostões!</p> + +<p>—Mais um vintem, disse o snr. Silveira.<span class="pn">{62}</span></p> + +<p>—Dez tostões e um vintem! berrava o pregoeiro, mostrando a caixa para +todos os lados.</p> + +<p>—Onze tostões! gritou de novo a rapariga.</p> + +<p>—Estás desesperada! Onze tostões!...</p> + +<p>—E meio!</p> + +<p>—Onze tostões e meio!</p> + +<p>—Mil cento e cincoenta! gritou outro zombeteiramente.</p> + +<p>—Falle claro, se quizer que o entenda. Onze tostões e meio! Eh! +rapariga? Então tu?</p> + +<p>—Um quartinho! disse ella.</p> + +<p>—Um quartinho. Vá lá! Um quartinho! Quem mais dá? Isto deve ter +amendoas dentro. Pelo cheiro... com certeza. Um quartinho! Um quartinho, uma. +Um quartinho... duas! Que linda! Que linda! Até é uma pena ir para as tuas +mãos, rapariga! Um quartinho...</p> + +<p>—Tres!</p> + +<p>—...tres!—Não preciso cá de ponto.—Acolá para aquella +cachópa.</p> + +<p>A linda caixinha passou de mão em mão até á compradora.</p> + +<p>Todos admiravam as côres garridas do setim que a cobria, e apinhavam-se em +volta da rapariga, anciosos por saber o que encerraria a caixa.</p> + +<p>Presa a uma fita estava uma chave que foi applicada á fechadura. Todos, em +bicos de pés, aguardavam a surpreza.</p> + +<p>A chave deu volta... A rapariga levantou a tampa e de dentro saltou uma +coisa que poz em murmurinho todos os que se apinhavam em redor.</p> + +<p>Era um rato.<span class="pn">{63}</span></p> + +<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br> +* *</p> + +<p>Retrocedamos á vespera do Natal, á noite da conçoada—a noite +tradicional da confraternisação de todos os corações que, ligados pelo sangue e +pelo amor, se reunem para, na santa simplicidade aldeã, offerecerem em +holocausto a Deus, concretisado na pessoa d'um infante prestes a descer á +terra, o que de mais puro e sincero ha nos seus corações transbordando do mais +acendrado amôr divino.</p> + +<p>Penetremos em casa do tio José da Alameda.</p> + +<p>Antes de passarmos á cosinha, detenhamo-nos alguns momentos na sala, para +contemplarmos um pequeno altar, profusamente allumiado, com um presepio onde um +Menino Jesus parece estar suspenso numa nuvem de camelias brancas, tão brancas, +tão puras, como pura era a alma de quem com tanto carinho e desvelo as collocou +alli.</p> + +<p>Fôra Julia quem se encarregára da confecção do altar, em que gastou duas +horas.</p> + +<p>Colhêra, no pequeno jardim que estava entregue aos seus cuidados, as +camelias mais brancas e menos damnificadas pela frieza das chuvas, e alli, +naquelle altar, as collocára uma por uma, pacientemente, com um angelico +sorriso nos labios e nos olhos uma ternura em que se traduzia a candura da sua +alma.</p> + +<p>Ao terminar a sua tarefa, corrêra, cheia de contentamento, a chamar todos os +da casa para verem a sua obra.</p> + +<p>—Muito lindo! Está muito lindo! dizia-lhe o tio José, passando-lhe +paternalmente a mão pela cabecita loira. Dou-te os meus parabens por teres +tanta habilidade.<span class="pn">{64}</span></p> + +<p>—Logo, depois de ceia, vimos para aqui fazer serão? perguntou, +radiante, Julia.</p> + +<p>—Decerto! Havemos de vir fazer companhia ao Menino Jesus até á meia +noite, que é para elle ser sempre muito nosso amigo! Agora vamos para a +cosinha, emquanto a ceia se faz.</p> + +<p>E ella deitou a correr aos saltinhos, adeante d'elle.</p> + +<p>O coração sempre é um grande artista! Aquella creança, ha tres mezes ainda, +tão triste, tão pensativa... Oh! o amôr! o amôr!...</p> + +<p>É que Paulo e Julia amam-se.</p> + +<p>Lançadas no berço da orphandade, essas duas almas, como dois infelizes que +se encontram no mesmo caminho, contaram as suas maguas, compadeceram-se +mutuamente, comprehenderam-se, deram-se as mãos, acalentaram-se, amaram-se e +proseguiram juntas, não já pelo caminho agreste que as martyrisava, mas por uma +vereda em que os espinhos tem a suavidade das rosas, em que já não ha agruras, +onde tudo são madresilvas e violetas rescendendo um aroma inebriante. +Esqueceram as desditas passadas para gozarem, juntos, os beneficios d'esta nova +phase que a Providencia lhes deparou; e, junto d'esses dois lyrios, +transportados d'uma encosta arida para a beira d'um fresco arroio, nasceu uma +trepadeira de flores odoriferas, que os enleou, ás quaes flores um anjo, +transformado em uma abelha, vem diariamente haurir o dôce nectar e o leva ao +seio de Deus...</p> + +<p>Paulo e Julia amam-se com um amôr todo ideal; amam-se com aquelle amôr dos +corações predestinados que amam uma só vez na vida.</p> + +<p>Occultando, o mais possivel, aos olhares estranhos a impulsão que os anima +um para o outro, esses<span class="pn">{65}</span> corações, quando sós, +estudam-se mutuamente, em conversas banaes, conversas de creanças apaixonadas +que não se atrevem a manifestar-se o seu amôr; mas nesse natural retrahimento, +nessa timidez que os retem muitas vezes em silencio sem ousarem quebrar o +encanto que sentem na contemplação mutua das suas almas, durante esse silencio +em que cada um d'elles só ouve o ruido do pulsar do seu coração, as suas almas +fallam, entendem-se, estudam-se, amam-se cada vez mais...</p> + +<p>Penetremos tambem na cosinha.</p> + +<p>A formosa Helena prepara, sobre a meza tôsca, a massa para as filhoses; com +as mangas do vestido arregaçadas deixando vêr os seus bem torneados braços até +ao cotovello, falla e ri com a sua peculiar jovialidade.</p> + +<p>Na lareira, em volta d'uma fogueira onde arde um grande cepo, estão sentados +o tio José, Julia, João, e, na extremidade do banco, Paulo.</p> + +<p>O tio José entretem a familia com historias alegres que fazem rir todos, +excepto o João que, com o olhar fito num ponto do brazido, parece alheio ao que +se passa em volta de si. De vez em quando, despertando da sua abstracção, olha +para o pae, passeia o olhar em roda, e volta a mergulhar-se nas suas reflexões. +</p> + +<p>—Ó paesinho! diz Helena ao pae, que acaba a narração d'um conto; isto +está quasi prompto: agora é preparar a certã e fazêl-as. Mas, emquanto as faço, +o pae ha-de contar aquella historia tão engraçada que nos contou o anno +passado. </p> + +<p>—Que historia?... Eu já me não lembro do que contei hontem...</p> + +<p>—Aquella de um demonio que andava ás almas na noite do Natal e que, +tendo ido a casa d'umas<span class="pn">{66}</span> pessoas que eram muito bôa +gente, teve de fugir, porque se arriscava a ficar na certã das filhoses mais +rilhado que um torresmo. Lembra-se?</p> + +<p>—Ah! Ah! Ah! Bem sei! Bem sei! Essa historia ouviu-a eu contar á minha +avó, era eu pequeno. Ha que tempo lá vae isso!... Mas como era o principio? +Lembras-te?</p> + +<p>—Tambem já não sei! Tu sábel-o, ó João?</p> + +<p>O João pareceu despertar d'um sonho.</p> + +<p>—O quê?!...</p> + +<p>—Em que estavas tu para ahi a scismar, homem? perguntou o pae, risonho +e bondoso.</p> + +<p>—Eu?... Estava a pensar em... que... Esava a vêr o que amanhã hei-de +levar ao Menino Jesus—disse elle sorrindo, admirado da sua inspiração.</p> + +<p>—Ora! O que lhe has-de levar? Leva-lhe uma abobora <em>menina</em> e +duas ou tres linguiças. Têm muito bôa venda no leilão.</p> + +<p>—Eu é que arranjei uma caixinha linda para lhe dar; acrescentou Julia. +Não é bonita, Helena?</p> + +<p>—Gosto muito d'ella. Mas olha que é preciso metter-lhe qualquer coisa +dentro. Amêndoas, por exemplo.</p> + +<p>—Ah! É verdade! Não me lembrava!</p> + +<p>—Esperem! Eu encarrego-me de arranjar uma coisa para lhe metter, disse +do canto Paulo.</p> + +<p>—O que é? O que é? perguntou com curiosidade Julia.</p> + +<p>—A caixa é muito linda, ou é assim, assim?</p> + +<p>—Oh! é toda coberta a setim de duas côres! E com fitas de seda muito +chics! Helena que diga.</p> + +<p>—A caixinha até é mal empregada no leilão, disse Helena, porque póde +ir parar ás mãos de quem a não saiba apreciar e a não estime.</p> + +<p>—Bom! disse Paulo com resolução. Pois nesse<span +class="pn">{67}</span> caso mais graça tem a brincadeira. É uma coisa que vou +metter dentro da caixa amanhã de manhã, e que vae fazer rir ás bandeiras +despregadas toda a gente que estiver no leilão. Porque, indo fechada, hão-de +ter a curiosidade de vêr o que vae dentro. Ella tem chave?</p> + +<p>—Tem; vae presa a uma fita. Mas o que é, Paulo?</p> + +<p>—É um rato!</p> + +<p>—Ah! Ah! Ah! Tiveste bôa lembrança, e...</p> + +<p>Na porta da cosinha soaram duas pancadas surdas, e uma voz um tanto +aldrabada chamou de fóra:</p> + +<p>—Ó tio Alameda! Você não dá um caldo e dormida ao Belbuth?</p> + +<p>—Ah! o Belbuth! exclamou Julia batendo as palmas, e erguendo-se +pressurosa a abrir-lhe a porta.</p> + +<p>Elle entrou, tartamudeando umas «boas noites» e todos o acolheram +jubilosamente.</p> + +<p>Deixemos o Belbuth conçoando com esta bôa gente e alegrando-a com narrações +de episodios da sua longa vida de miseravel, e entremos na casinha modesta da +Maria Luiza, que está triste e pensativa...</p> + +<p>Triste e pensativa?! A Maria Luiza de ha tres mezes?!</p> + +<p>Sim. Essa mesma rapariga, desembaraçada e alegre, que, no arraial do Santo +Estevam, supplantara o João da Alameda, o cantador invencivel; a mesma da +desfolhada, em que ella gosara o exclusivo do seu abraço, goso momentaneo que +foi a origem de mil dissabores.</p> + +<p>Na lareira da sua cosinha arde uma pequena fogueira, a cuja claridade a +Maria Luiza costura debruçada: e a mãe, já velha, talvez de mais de sessenta +annos, com uma roca a tira-colo, faz ainda girar o fuso entre os dedos com +facilidade.<span class="pn">{68}</span></p> + +<p>As telhas, denegridas do fumo, e as paredes, de egual aspecto, dão um tom de +tristeza áquella mansão de paz e socego.</p> + +<p>No poste da chaminé, está dependurada uma candeia de lata, cuja luz, nos +estertores da agonia, bruxoleante, augmenta a taciturnidade do aposento.</p> + +<p>—Vae deitar petróleo naquella candeia, Maria, disse a mãe.</p> + +<p>Ella levantou-se, deitou um olhar para a porta, ministrou á candeia o +almejado liquido que fez soluçar a luz, tornou a olhar com olhos de anciedade +para a porta da cosinha, e voltou á sua costura, dando um suspiro.</p> + +<p>Porque olha ella tão insistentemente, perguntará lá para si o leitor, para a +entrada do seu tugurio, e porque toma ás vezes no peito tanto ar, que ao +expelil-o, semelha a aragem da tarde a agitar brandamente, em suave murmurinho, +as espigas maduras d'uma ceára?</p> + +<p>E porque é que tu, leitor ou leitora, vaes algumas vezes, em noites serenas, +para a tua varanda ou para o aido, sósinho, a contemplar as estrellas, +procurando espalhar, na immensidade do infinito, as mágoas que suffocam o teu +peito?</p> + +<p>Impressiona-te a concentração do espirito d'essa rapariga que, outrora, +sempre de expressão radiante, espalhava em volta de si a alegria, como uma flôr +odorifera espalha o aroma pelo ambiente dum jardim?</p> + +<p>Segredos do coração.</p> + +<p>Sim: o coração, pequeno como é, pratica obras estupendas. Fazer de Maria +Luiza de ha tres mezes a Maria Luiza de hoje, é uma obra que eu colloco na +ordem dos impossiveis.</p> + +<p>Pois o impossivel realisa-se?</p> + +<p>Realisa. É um exclusivo do coração.<span class="pn">{69}</span></p> + +<p>O pae severo impõe as mais terminantes ordens de reclusão á filha enamorada. +Fecha-a na alcôva, e volta com a chave, que colloca, juntamente com a do +portão, debaixo da sua cabeceira.</p> + +<p>Dorme descançado, porque a janella é alta e, a dar-se a evasão, o +gradeamento, difficil de transpôr, torna impossivel a fuga.</p> + +<p>O sol, de manhãsinha, ergue-se sorridente de sarcasmo no horisonte e +penetra, pelas portadas entre-abertas da janella, na alcova do pae que accorda +e leva a mão ao sitio onde guardara, na vespera, a chave do seu thesouro.</p> + +<p>—Cá estão! monologa somnolento e carrancudo.</p> + +<p>—E ella? a tua andorinha?..., murmura-lhe ao ouvido um raio mais +chocarreiro do sol.</p> + +<p>Elle despreza a chufa e volta-se para o outro lado, a saborear, descançado, +o somno da manhã.</p> + +<p>Quando accorda, já o sol vae alto, esfrega os olhos, levanta-se pezado de +avareza e vae abrir a porta á sua andorinha...</p> + +<p>Oh! decepção cruel! A linda andorinha voou de noite, atravez da escuridão, +por esses ares fóra!</p> + +<p>É que o coração vôa quando quer. Não tem elle azas?</p> + +<p>É um grande artista. Os maiores prodigios que têm assombrado a humanidade +são obra sua.</p> + +<p>Pegar numa pedra muito tosca e muito dura, desbastal-a a cinzel, dar-lhe a +fórma de um homem, polil-a e collocal-a num altar, tornando-a de penedo tantas +vezes maltratado em um santo que se venéra, é possivel a qualquer artista.</p> + +<p>Polir uma alma... só o coração.</p> + +<p>A Maria Luiza d'outr'ora e a Maria Luiza d'hoje, differem entre si como a +peccadora de Magdalo<span class="pn">{70}</span> differe da penitente que está +osculando e orvalhando de lagrimas os pés do Nazareno.</p> + +<p>Mas... quem espera ella?</p> + +<p>O João do tio Alameda. Aquelle que, num rasgo de generosidade e de amôr, se +compadeceu d'ella; porque, desde a noite d'aquella desfolhada em que ella +tivera o privilegio de ser abraçada por elle na presença das companheiras que +tentaram disfarçar a inveja que lhes causára, a Maria Luiza começou de ser +envolvida numa mephitica atmosphera de maledicencia. Esta nasceu da inveja, e a +inveja começa por sua vez quando se tem o reconhecimento da inaptidão ou da +inferioridade.</p> + +<p>Se se podesse obter de um invejoso resposta á pergunta «porque invejas?» +elle diria inevitavelmente «invejo porque valho menos».</p> + +<p>Mas o invejoso não fica por aqui.</p> + +<p>Dado o primeiro passo na senda das depravações, prosegue.</p> + +<p>Assim como uma alma cultivada na pratica da virtude e por ella purificada, +sente um ineffavel e celeste prazer em praticar novas e consecutivas virtudes, +assim um espirito maligno, um coração embotado pelas acções vis, sente um +infernal prazer em percorrer a escala das depravações.</p> + +<p><em>Abyssus abyssum invocat.</em></p> + +<p>Imagine-se um vaso cheio de agua pura, em que se lhe deitam algumas gôttas +d'um liquido venenoso. A agua crystallina, que até então poderia dar a vida a +quem se debatesse nas ardencias da sêde, affectou-se das propriedades +mortiferas da peçonha que, de mollecula em mollecula, foi affectar, com o seu +terrivel contacto, o puro liquido.</p> + +<p>Meia duzia de linguas depravadas infectaram tambem com a peçonha da +maledicencia as linguas<span class="pn">{71}</span> restantes da freguezia; e a +honestidade da Maria Luiza, como a flôr branca da açucena açoutada pelo vento +cortante da tempestade que não consegue prostral-a no lodaçal que ameaça +conspurcar as suas petalas de pura cambraia, foi maltratada pelo vento cortante +d'essa maledicencia.</p> + +<p>João comprehendeu a situação de Maria, e não hesitou em collocar ao abrigo +do seu peito essa flôr que, por sua causa, tinha sido exposta ao rigôr das +intempéries.</p> + +<p>—Maria—disse-lhe a mãe depois de um muito prolongado silencio; +são horas de deitar. O João não vem cá hoje decerto, o pae talvez o não deixe +sair, porque, nesta noite, todos os paes querem a familia reunida em volta de +si.</p> + +<p>—Mas vá a mãe deitar-se, que eu espero ainda um pouco. Falta-me além +d'isso ainda aqui uma bainha, e entretanto acabo-a. Talvez não falte...</p> + +<p>Como deve ser ditoso ter esperança num coração que nos ama!</p> + +<p>Deve ser tão ditoso esperarmos num coração que nos estremece, como penosa +deve ser a deseperança num coração que idolatramos.</p> + +<p>João amava Maria Luiza; ella bem o sabia, porque não ha ninguem que melhor +leia nos olhos do homem apaixonado do que a mulher amada. E a mulher sabe, por +instincto, que um homem não tem a habilidade com que ella finge um sentimento +que está longe de possuir.</p> + +<p>O João não havia, pois, de faltar. Não tinha elle sido sempre pontual em vir +ministrar ao seu coração o alento de que tanto necessitava para não desesperar +de viver?</p> + +<p>Que significavam tres mezes de constantes provas de amôr, de tantas +promessas e juramentos que<span class="pn">{72}</span> no auge da sua paixão, +elle lhe fizera, traduzindo no olhar incendiado todo o fogo que lhe devorava o +peito?...</p> + +<p>Uma lufada mais forte de vento soprando nas arvores da rua arrancou-a á sua +profunda meditação e fel-a olhar para a porta. Olhando depois em volta, viu-se +só. Engolfada nos seus dôces pensamentos, nem notara a retirada de sua mãe.</p> + +<p>O vento continuava sussurrando lá fóra, semelhante ao gemer do mar, e a +porta já gasta da choupana rangia ao embate de cada rajada mais forte.</p> + +<p>No sino da egreja de Eirol soaram onze longinquas e monótonas badaladas que +Maria Luiza contou em crescente anciedade do seu coração impaciente.</p> + +<p>—Onze horas!... Já tão tarde!... E elle sem vir!...</p> + +<p>Ficou perplexa, a olhar para o sobrado, e estremeceu ao som de tres leves +pancadas na porta.</p> + +<p>Com certeza que não era o bater de João que ella tão bem conhecia, porque o +coração começou a pulsar-lhe violentamente e ella, sem se levantar, perguntou, +entre admirada e sobresaltada:</p> + +<p>—Quem bate a esta hora?!</p> + +<p>Em resposta, ouviu o ruido de uma bastonada applicada talvez á cabeça d'um +homem, a seguir um gemido, e após isso a fuga de duas pessoas que se perseguem. +</p> + +<p>E nada mais ouviu, que as pulsações agitadas do seu coração sobresaltado e o +sussurro do vento a soprar nas arvores do caminho e nos salgueiros sobranceiros +ao Vouga.<span class="pn">{73}</span></p> + +<h2><a name="SECTION00170">VII</a></h2> + +<p>Tres dias depois, o tio José da Alameda recebia a visita da snra. Joaquina +das Dôres, uma creatura, que, á semelhança de mais meia duzia, frequentava +diariamente a egreja na <em>perfeita</em> observancia dos preceitos do Divino +Mestre.</p> + +<p>Estas creaturas, umas verdadeiras corujas sempre mettidas pela egreja, tanto +se servem da lingua para orar a Deus como para murmurar do proximo, assoalhando +tôrpemente a vida intima de cada um. Não distinguindo, atravez da imbecilidade +que lhes turva o cerebro, o grau de torpeza e abjecção que encerra o +procedimento de vasculhar os actos menos meritorios que outrem pratique, não +alcançam ao mesmo tempo a quanta belleza de virtude encerraria o seu +procedimento se, em vez de auxiliarem a conspurcação da vida alheia, lhe +tecessem louvores, ainda que immerecidos, tratando de occultar-lhe as manchas +sob o pó bemdito da caridade.</p> + +<p>A snra. Joaquina das Dôres era uma d'essas creaturas, que não pudera soffrer +que um rapaz tão bom, tão sympathico, fosse arrastado tão cedo, e sem +necessidade, ao bando dos renegados.</p> + +<p>—Nada! dizia ella comsigo, tomando a resolução de se dirigir a casa do +tio Alameda; isto não póde ser! O pae precisa de sabel-o, para desviar o filho +do caminho do peccado em que anda!</p> + +<p>E fôra com a consciencia em vias de satisfazer-se por ir praticar um acto +dum <em>valôr altamente humanitario<span class="pn">{74}</span> e divino</em>, +como era o de conduzir uma ovelha ao redil, não lhe pezando, porém, o remorso +de que, para o conseguir, tinha de sobrecarregar de injurias outra alma lançada +ao desprezo pelo sopro horripilante da maledicencia, que se dirigiu a casa do +tio Alameda. </p> + +<p>—Em que posso ser-lhe util, snra. Joaquina? perguntou o velho com o +seu sorriso de bondade á beata.</p> + +<p>—Quero fallar-lhe em particular, snr. José. É um negocio de muita +importancia que lhe quero communicar.</p> + +<p>—Sim?! Queira então vir aqui para a sala, para que ninguem nos +oiça.</p> + +<p>Entraram, e a beata, limpando o nariz adunco a um enorme lenço tabaqueiro, +tomou uma expressão de affectada piedade, e, sentando-se, a um signal do velho, +cruzou as mãos sobre os joelhos, dizendo:</p> + +<p>—Snr. José! Deus Nosso Senhor, quando andou pelo mundo feito homem, +prégou a sua religião e indicou o caminho que nós deviamos seguir para nos +salvarmos. Com os seus exemplos e as suas palavras que ficaram escriptas e +foram passando de bôcca em bôcca, a sua religião chegou até nós e continuará +seguindo emquanto no mundo o espirito do mal não deixar de dar geração. Muitos +acereditam nas palavras dos santos padres, a quem Deus encarregou de o +representar no mundo e de fazer respeitar a sua religião. Outros não acreditam +em nada d'isso, e esses são os réprobos condemnados ás penas eternas. Mas o +nosso dever, o dever de todo o bom christão, é, por meio das boas obras e dos +bons conselhos, chamar ao caminho do ceu esses perdidos na escuridão do +peccado.</p> + +<p>E quando nós temos obrigação de chamar ao<span class="pn">{75}</span> +caminho do dever esses que nasceram já debaixo da protecção do demonio (a snra. +Joaquina fez o signal da cruz,) muito maior obrigação temos de conduzir ao +caminho da bemaventurança os que, tendo sido bons christãos, se deixaram +seduzir pelas imposturas do demonio (aqui fez outra cruz e a sua voz, mais +inflammada, dava fifias como uma corda de rebeca mal calcada pelo arco).</p> + +<p>O tio Alameda ouvia-a muito attento, não comprehendendo onde a beata queria +chegar. Não a interrompeu, e ella, sorvendo uma pitada, continuou, mais +moderada:</p> + +<p>—O snr. José desculpe-me de eu não começar logo a expôr-lhe o +caso...</p> + +<p>—Eu, na verdade, não sei onde quer chegar, senhora...</p> + +<p>—Eu me explico. Espero que tomará na devida consideração as minhas +palavras, pois que, tratando-se de seu filho...</p> + +<p>—De meu filho?!... Que fez elle?</p> + +<p>—O seu filho, snr. José, vae numa vida muito má! Numa vida que lhe +fará perder a sua alma se vocemecê, com a auctoridade de pae, se não +oppusér...</p> + +<p>—Mas explique-se, por Deus, sr.ª Joaquina!</p> + +<p>—Olhe, snr. José: o senhor conhece aquella rapariga chamada Maria +Luiza que, segundo as famas que tem, não é das mais honestas?</p> + +<p>—Conheço! Eu conheço a Maria Luiza!</p> + +<p>—Pois o seu filho anda mettido com ella já vae para tres mezes; e isso +fica muito mal a um rapaz como elle, filho d'um homem tão temente a Deus. +Reprehenda-o, snr. José, reprehenda-o! É uma bella alma que se perde. Além +d'isso, dizem que anda tão cégo por ella, que vae todas as noites lá a +casa...<span class="pn">{76}</span></p> + +<p>—O meu filho?! O meu João?!</p> + +<p>—É verdade, sr. José. E tão desavergonhada é a filha como é a mãe, que +consente poucas vergonhas lá em casa. É preciso que elle mude de vida, que já +anda muito nas bôccas do mundo! E anda tambem em muito maus lençóes, porque, na +vespera do Natal do Redemptor—aqui baixou a voz, fallando com calôr e +vehemencia, e meneando os braços nuns gestos disparatados—espancou um +rapaz que ia a passar á porta dessa tal Maria Luiza!</p> + +<p>—Na verdade, sr.ª Joaquina, custa-me acreditar que meu filho faça +isso!</p> + +<p>—Pois é verdade, sr. José. O pobresinho de Christo ia a passar muito +socegado da sua vida, quando sentiu uma forte bordoada na cabeça, que o ia +matando. E matava-o, se não foge. Ora vocemecê não ha-de querer que seu filho +ande assim nas bôccas do mundo por causa de uma mulher perdida.</p> + +<p>O tio Alameda ouvia, pensativo, e extremamente penalisado, a narração da +beata.</p> + +<p>Esta continuou, dando ás suas palavras um tom mais mellifluo e repassado da +mais revoltante hypocrisia:</p> + +<p>—Reprehenda-o, sr. José, reprehenda-o! Deus nos livre que o sr. prior +o saiba, que é capaz de mandar dizel-o para o bispo, que lhe lança alguma +excommunhão! E o peor mal é d'elle, que condemna a sua alma ás penas eternas. +</p> + +<p>O tio José da Alameda limpou duas lagrimas que lhe rolavam pelas faces; e, +meneando tristemente e com desalento a cabeça encanecida, e pondo as mãos num +gesto de supplica, levantou os olhos para o ceu, exclamando com amargura:</p> + +<p>—Meu Deus! Não permittaes que estes poucos cabellos brancos que me +restam sejam manchados<span class="pn">{77}</span> nos ultimos dias da minha +vida pela deshonra de meu filho! Levae-m'o antes, meu Deus! ou levae-me a mim +primeiro!</p> + +<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br> +* *</p> + +<p>—Que viria cá fazer aquella beata? perguntou Paulo a Julia, ao vêr +retirar-se a sr.ª Joaquina, muito satisfeita pelo <em>dever de consciencia</em> +que acabava de cumprir.</p> + +<p>—Não sei. Esteve na sala a fallar com o patrão, e este appareceu com +as lagrimas nos olhos.</p> + +<p>—O diabo da velha! Não veio fazer coisa bôa, pela certa.</p> + +<p>O curto dialogo foi interrompido pelo ruido do passo cadenciado do tio +Alameda.</p> + +<p>Elle appareceu, a physionomia contristada, o olhar velado por uma profunda +angustia que lhe opprimia a alma.</p> + +<p>—Pae? chamou Helena. O jantar está prompto.</p> + +<p>—E o João onde está?</p> + +<p>—Está no alpendre. Vae chamal-o, Paulo.</p> + +<p>Durante o jantar, o tio Alameda esforçou-se por conservar uma expressão de +contentamento; pela sua parte, João parecia nunca ter estado tão alegre. Depois +da refeição, o pae chamou-o a occultas da familia, e disse-lhe:</p> + +<p>—Meu filho: tenho um pedido a fazer-te. E é de tamanha importancia o +que te quero pedir, que a tua desobediencia abreviaria os poucos dias de vida +que me restam.</p> + +<p>Fallava com uma tão pronunciada amargura,<span class="pn">{78}</span> que +João, prevendo o fim que elle queria attingir, e commovido mais pelas más +impressões que seu pae teria colhido de quaesquer mexericos que lhe houvessem +trazido (porque não lhe escapára a vinda da beata) do que pelas palavras do +pae, respondeu, resoluto como o homem que espera o golpe que lhe vão vibrar:</p> + +<p>—Sabe, meu pae, quanto o amo; e sabe tambem que tenho sido sempre um +cumpridor fiel dos deveres de um filho para com seu pae, em tudo obediente... +</p> + +<p>—Sei tudo isso, meu filho; e sei tambem que o erro que praticas é na +tua bôa fé.</p> + +<p>—O erro que pratico?! E que erro é esse, meu pae?</p> + +<p>—Praticas o erro de dar, sem necessidade que fallar ao mundo. Ora eu, +que tenho de dar contas a Deus dos bons ou maus conselhos que dei aos filhos, +quero prevenir-te de que andas por máu caminho. Muda de vida, filho da minha +alma, se queres dar-me alguma felicidade no fim da minha velhice!</p> + +<p>—Meu pae: sei ao que se refere, disse elle, com os olhos humildes no +chão. Pois isso são contos do mundo, que...</p> + +<p>—Mas o mundo é o grande juiz dos nossos actos, e o escandalo é um +grande peccado!</p> + +<p>João levantou resignado os olhos para o pae, e disse:</p> + +<p>—Não me importa o que diz o mundo, porque tenho a consciencia +tranquilla e a convicção de proceder bem. Diga-me, pae: se uma pessôa, por sua +causa, se visse desprezada de toda a gente e na maior indigencia porque ninguem +lhe dava um pedaço de pão a ganhar, o meu pae, que tinha sido o causador de +toda aquella desgraça, o que fazia?<span class="pn">{79}</span></p> + +<p>—Soccorria-a...</p> + +<p>—E não lhe importava o mundo, com a sua má lingua?</p> + +<p>—Mas que relação tem isso com o caso de que se trata?</p> + +<p>—É exatamente a mesma coisa. Oiça-me, meu pae, porque vou fallar-lhe +com o coração nas mãos. Pela alma de minha mãe, d'essa santa a quem eu tanto +queria e cuja memoria para mim é sagrada e a quem meu pae idolatrava, acredite +as minhas palavras, porque vou expôr-lhe toda a verdade.</p> + +<p>O velho, commovido e silencioso, sentou-se num banco; e o filho continuou, +com um olhar firme em que transparecia toda a verdade das suas palavras:</p> + +<p>—Meu pae lembra-se d'aquella noite, em outubro, quando fizemos a nossa +ultima desfolhada em que todos os que nella tomaram parte se divertiram, e +quando eu, nas minhas cantigas, fiz uma referencia inoffensiva á Maria Luiza? +As amigas d'ella, as quaes de amigas só tinham o nome, riram-se do pouco +sangue-frio com que ella ficou ao ouvir a cantiga. Troçaram-na muito, e eu +então, quando encontrei uma espiga de milho vermelho, tratei de recompensal-a e +ao mesmo tempo castigar as trocistas. Prometti correr a roda, dando um abraço a +cada uma, como é costume. Abracei, porém, a Maria Luiza, e sentei-me. Ficaram +todas, como se costuma dizer, achatadas, mas eu levei tudo a rir. Pois foi isso +o bastante para essas linguas damnadas começarem a levantar falsos testemunhos +á pobre rapariga, cuja reputação foi maltratada; porque, a sua honestidade, +tomaram muitas dellas possuil-a! Pensavam talvez que eu me deixava levar por +esses zumbidos de varejeiras! Mas enganaram-se! Porque eu, que conheço<span +class="pn">{80}</span> ha muito a Maria Luiza e sei que o seu porte foi sempre +honesto, não me deixei levar por cantigas d'essas invejosas que nunca tiveram +nada que dizer d'ella senão depois d'essa occasião!</p> + +<p>«Continuei a estimal-a, e mais ainda que antigamente. Confortava-a quando a +via, e a tristeza da rapariga, antes tão alegre, impressou-me muito. Contava-me +as suas desditas, e eu comecei a sentir cá dentro uma certa necessidade de a +vêr todos os dias para a animar, e, quando fallava com ella, sentia-me mais +satisfeito. Disse-me que nenhuma casa a recebia onde pudesse ganhar o sustento +para si e para sua mãe que já não podia trabalhar pura viver; e quando, com as +lagrimas nos olhos, ella me disse que se via na necessidade de abandonar esta +terra para procurar outra onde pudesse trabalhar para ganhar o sustento para as +duas, eu, meu pae, senti dentro do meu peito não sei o quê que me fez humedecer +os olhos, e disse-lhe que não se apoquentasse, que eu olharia por ellas.</p> + +<p>«Agora, meu pae, é occasião de eu lhe fazer uma declaração, que ha muito +desejava fazer-lhe, mas...—e ao mesmo tempo pedir-lhe perdão do meu +procedimento:—eu, todos os sabbados, tenho tirado do celleiro tres +alqueires de milho que lhe entrego para ellas, com o producto, não morrerem á +fome... Perdôe-me, meu pae, e consinta que continue a soccorrer aquellas +infelizes com o pão de cada dia!</p> + +<p>O velho envolveu o filho num olhar de ternura, e, suspirando satisfeito, +disse:</p> + +<p>—Perdôo-te, porque praticaste uma obra de caridade, o que, comtudo, +não devias ter feito, sem m'o participares. Essa franqueza devial-a ter tido ha +mais tempo para commigo, que me não opporia<span class="pn">{81}</span> a isso. +Mas tambem é preciso que uma pessôa não se deixe levar só pela bondade do seu +coração, que muitas vezes nos não deixa vêr certas coisas que... Emfim, é +preciso sempre raciocinar e vêr...</p> + +<p>—Meu pae! A Maria Luiza é honesta!—interrompeu o filho com +vehemencia. Essa rapariga padece por minha causa; e por isso tenho a obrigação +de a defender da desgraça que a ameaça. E digo-lhe mais ainda, meu pae: a minha +estima por ella converteu-se em amôr, e este em paixão. A minha resolução é +salvál-a por completo da deshonra com que quizeram maltratal-a!</p> + +<p>—Que dizes?! Pois tu queres...</p> + +<p>—Quero casar com ella, meu pae. A Maria Luiza está innocente, ia +jurál-o pelas cinzas de minha mãe. É uma victima das linguas invejosas.</p> + +<p>—Já te disse, filho, que ha coisas que o nosso bom coração encara +debaixo d'um aspecto e a razão debaixo d'outro. Não me opponho a nenhum +casamento que meus filhos queiram fazer, mas o que eu quero é a minha honra +acima de tudo... </p> + +<p>—A sua honra não soffre nada com isso, e a minha dignidade exalta-se. +Cumpro um dever de consciencia e do coração.</p> + +<p>O tio Alameda ficou pensativo por alguns momentos; depois, placidamente, +disse:</p> + +<p>—Mas consta-me que ha dias, de noite, espancaste um homem que passava +ás onze horas á porta d'essa rapariga. Foi verdade?</p> + +<p>—Foi verdade. Como vissem que eu não desistia do meu proposito, +quizeram lançar sobre ella nova affronta e fazer com que eu duvidasse da sua +honestidade. Para confirmarem o que dizem, fizeram com que um individuo, ou +mais do que um, fosse por horas mortas bater á porta de Maria Luiza. Eu +todas<span class="pn">{82}</span> as noites lá vou, e ella preveniu-me de que, +depois de eu sair, hade haver uns dez dias, tinham lá ido bater de mansinho á +porta. Espreitei no dia seguinte, mas não vi ninguem. Não fiz mais caso, e +passados cinco dias voltaram lá. Eu então, nessa tal noite—foi na vespera +de Natal—fui pôr-me de novo á espreita. Passado muito tempo, um embuçado +approximou-se, muito cautelloso, e bateu devagar tres pancadas. Ia já a +retirar-se, talvez por me não ter visto sair e receando que eu estivesse a +espreital-o, mas ainda lhe pude dar uma bastonada, que é para lá não tornar.</p> + +<p>—Fizeste mal, filho. Não te devias precipitar d'essa maneira. Isso +pode ser-te fatal, porque por vingança, esse homem pode fazer-te peor. Se te +certificaste da má intenção d'esse homem e confiavas na seriedade da Maria +Luiza, devias deixar correr. Não ha nada melhor que entregarmos certas coisas +ao desprezo. As más linguas chegam a cançar-se, e lá vem um dia em que a +maledicencia cede o logar ao arrependimento; porque a verdade é como o sol que +dissipa as trevas mais espessas. Precipitaste-te, e agora és censurado e tido +como desordeiro, e isso é muito penoso para um coração de pae. Dá tempo ao +tempo, é um dictado muito antigo; porque atraz da tempestade vem a bonança.</p> + +<p>E quando, convencidos da verdade, toda essa gente se calar, faz então o que +a tua razão e o coração te aconselharem. Não sou como muitos paes que, +possuindo dois palmos de terra, querem que seus filhos casem com quem tenha +outro tanto. Não. Eu quero que meus filhos vivam contentes e felizes; e a +felicidade não se alcança com a riqueza.</p> + +<p>—Obrigado, meu pae! disse João com os olhos marejados de lagrimas, +radiante de alegria e ao<span class="pn">{83}</span> mesmo tempo commovido. +Obrigado pelos bons conselhos que acaba de dar-me e que eu observarei, e pela +maneira como attendeu ás minhas supplicas, ainda que outra coisa não esperava +da sua bondade!</p> + +<p>E, apoderando-se das mãos de seu pae, beijou-lh'as com soffreguidão.</p> + +<p>O tio Alameda retirou-se commovido occultando ao filho duas lagrimas que lhe +bailavam nos olhos.<span class="pn">{84}</span></p> + +<h2><a name="SECTION00180">VIII</a></h2> + +<p>Era n'um domingo do mez de janeiro; varios grupos d'homens estacionavam no +adro, depois da primeira chamada do sino para a missa conventual, emquanto +outros, já velhos, e algumas mulheres, de todas as idades, entravam +religiosamente na egreja.</p> + +<p>Dentro d'esta, o velho prior, sentado na sua cadeira, fazia a pratica do +evangelho do dia, emquanto no adro, gosando a amenidade do dia alegrado por um +sol resplandecente, os outros fieis aguardavam a segunda chamada para a missa. +</p> + +<p>O tempo deslisava, havia já uma semana, sereno e cheio de doçura. Á quadra +invernosa do Natal seguira-se uma quadra toda jovial e alegre: parecia que se +tinha antecipado n'aquelle anno a primavera, o que era desmentido apenas por +algumas arvores de folhagem caduca que se elevavam tristes e graves como +esqueletos, como querendo lembrar á natureza que não era aquella a epocha de +ostentar as suas galhardias.</p> + +<p>Os dias succediam-se serenos, limpidos e transparentes como taças de +crystal, doces como favos de mel; e as noites, tomando uma alegria ficticia +para occultar a sua melancholia, pejadas d'um luar magnifico, lembravam os +sorrisos repassados de amargura d'uma viuva inconsolavel.</p> + +<p>O sino, agitando-se n'um crescente movimento oscillatorio, fez a segunda +chamada, e um bando de pombas que estava poisado no espinhaço da egreja<span +class="pn">{85}</span> espreitando o sol, levantou vôo, ás primeiras badaladas +do sino, e foi adejando para os lados do campo.</p> + +<p>Ao mesmo tempo um carro de quatro rodas, carregado de malas, puxado por tres +alazões, atravessava o adro, absorvendo a attenção de todos.</p> + +<p>Ao lado do cocheiro ia sentado um outro homem de trinta e tal annos, typo de +brasileiro, a avaliar pelo modo de vestir—fato claro de casimira, e +calças d'uma largura de pernas que lh'as permittiria enfiar sem difficuldade +com as botas calçadas; parecia alem d'isso, a avaliar pela quantidade de +bagagem que o precedia e pela grossura d'uma cadeia de oiro que lhe bamboleava +no collete cuja abertura lhe abrangia quasi toda a altura do peito, que era um +brazileiro rico.</p> + +<p>Deitou, ao passar, um olhar de relance, um d'estes olhares com que muita +gente, affectando um ar de superioridade, em que transparece, comtudo, a sua +imbecilidade recalcada, geralmente, pelo pezo do ouro, vê as pessoas e as +coisas que julga n'uma esphera inferior á sua.</p> + +<p>Cada grupo ficou fazendo os seus commentarios á <em>pose</em> do pedaço +d'asno—de que logo o apodaram—no qual os mais velhos reconheceram o +filho da tia Quiteria de Jesus, por alcunha a <em>bisnaga</em>.</p> + +<p>—Então vocês não se lembram, dizia um homem dos seus sessenta annos +aos quatro do seu grupo todos regulando pela mesma edade—d'aquelle +garotêlho que a Quiteria <em>bisnaga</em> tinha?</p> + +<p>—Ah! sim! Dá uns ares d'elle, dá!</p> + +<p>—Pois é este figurão que ahi vae. Andava por ahi á maçã do chão, todo +esfarrapado e ranhoso. A mãe pôl-o a servir alli em casa do fallecido pae do +Silveira, que era um lavrador rico, como vocês sabem. Esteve lá uns dois annos, +se tanto, até que um<span class="pn">{86}</span> dia pede dinheiro emprestado +ao patrão para ir para o Brazil, na condição de lh'o mandar quando o ganhasse. +O patrão disse-lhe: nunca o diabo mais leve; olha, se o ganhares, manda-m'o; e +se o não ganhares, fica por intenção da minha alma.</p> + +<p>—E ganhou-o bem, logo se vê!</p> + +<p>—Ai! teve sorte! No fim de dois mezes mandou-lhe o dinheiro, e +mandou-lhe tambem dizer que só voltaria á terra quando estivesse tanto ou mais +rico do que elle; que, do contrario, não punha cá mais os pés!</p> + +<p>—Ora vejam o que é a sorte!</p> + +<p>—É assim! Deu em enriquecer, e mandava sempre uma mezada á mãe.</p> + +<p>—Por isso ella anda por ahi muito gaiteira, e já não apparece na feira +dos cinco a comprar e vender creação!</p> + +<p>—Já não tem necessidade d'isso. Até parece que anda mais nova.</p> + +<p>—É verdade! Olha a <em>bisnaga</em>! Se ella não tivesse tido a +habilidade de arranjar aquelle filho, não tinha agora uma velhice tão +mimosa.</p> + +<p>—Meu caro... é a sorte. Pois foi para o Brazil ha vinte annos, pouco +mais ou menos, pobre como Job, sem saber lêr nem escrever...</p> + +<p>—Ora vejam!</p> + +<p>—Quero dizer... elle aprendeu lá a lêr, mas isso foi já depois de +estar bastante rico. E fez bem. Um homem, com riqueza, sempre precisa de ter +alguma instrucção. Mas, quando foi, era um perfeito miseravel. Pois dizem que +tem uma bôa fortuna.</p> + +<p>—Meu amigo:</p> + +<blockquote> + «Se fôres ao mar pescar, <br> + Que a fortuna te não deixe.»<span class="pn">{87}</span> </blockquote> + +<p>—Isso, isso! Ah! Ah! Ah!</p> + +<blockquote> + «Lança as redes, vem-te embora, <br> + Quanto mais burro, mais peixe.» </blockquote> + +<p>E, batendo-lhe no hombro, disse para os do grupo:</p> + +<p>—Vamos para a missa, que deve estar a começar.</p> + +<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br> +* *</p> + +<p>Nesse mesmo dia, á tarde, o filho da tia Quiteria de Jesus fazia a digestão +do jantar, preguiçosamente espernegado num escabello, saboreando um aromatico +charuto, cujo fumo, desenrolando-se serenamente em espiraes na atmosphera, elle +contemplava com os olhos indolentemente semi-cerrados.</p> + +<p>Estava só, na saleta terrea que lhe servia de triclinio, pois que a cosinha +não era, segundo o seu modo de vêr de homem rico, logar apropriado para isso. +</p> + +<p>A mãe, na companhia d'outra mulher que convidara para a ajudar nos serviços +domesticos d'esse dia—dia de gala em casa da tia Quiteria—ultimava +as arrumações da sua cosinha onde n'esse dia um frango, uma posta de vitella e +outra de carneiro e mais uns guisados, deram ás paredes denegridas a honra de +as mimosear com um fumo mais agradavel, impregnado de aromas recendentes que +espantaram metade da visinhança.</p> + +<p>—Viva, sr.ª Quiteria! disse da porta da cosinha um homem de trinta e +cinco annos, com a sua roupa domingueira de saragoça, fazendo uma mesura +com<span class="pn">{88}</span> o chapéu na mão. Então está contente, hein? Tem +cá o seu filho...</p> + +<p>—É verdade, Francisco. Como não hei-de estar contente, se ha tantos +annos o não via?</p> + +<p>—Decerto, decerto! Pois eu queria vê-lo, porque a gente gosta sempre +de vêr as pessoas do nosso tempo de rapaz... Elle é capaz de fazer que me não +conhece... Deus Nosso Senhor deu-lhe sorte; enriqueceu, emquanto que eu, +sempre...</p> + +<p>—Não digas isso, homem! O meu Joaquim não é d'esses. Olha: entra para +alli, que lá o encontras.</p> + +<p>O nosso novo personagem era o visinho mais proximo da sr.ª Quiteria (é +necessario agora dar-lhe senhoria, em honra do dinheiro do filho); era um +antigo companheiro do brazileiro, inseparaveis no jogo do pião e na procura de +ninhos. Vivia só com sua mãe, a tia Maria das Neves, que corrêra logo a dar os +parabens á sua visinha e as boas vindas ao filho, a quem achou muito +desconhecido mas muito bom, com muito boa côr, que não parecia até vir de +terras brazileiras.</p> + +<p>Elle abriu a porta que dava para a salita, e, lançando um olhar meio +perscrutador, meio timido, para dentro, perguntou da porta:</p> + +<p>—Ó senhor Joaquim! Que bons olhos o vejam!</p> + +<p>—Ah! és tu, Francisco? perguntou phleugmaticamente, sem se mexer, o +brazileiro. Entra, homem. Entra, e senta-te ahi mesmo nessa mala.</p> + +<p>—Ora então, com sua licença. Pois eu, sabendo que vossa senhoria tinha +chegado, mal parecia que não viesse visital-o, porque, sempre foi um rapaz com +quem brinquei muitas vezes; lembra-se, sr. Joaquim, quando jogavamos o pião?... +</p> + +<p>—Ah! sim! sim! interrompeu o <em>bisnaga</em> com expressão de +desdem.<span class="pn">{89}</span></p> + +<p>—Depois, pensei lá commigo: elle sempre se ha-de lembrar de mim ainda, +embora eu seja pobre e elle esteja rico...</p> + +<p>—Arranjei uns patacos, é verdade. Não é muito, mas... contentar.</p> + +<p>—Teve sorte! Teve sorte! É porque Deus lhe achou merecimentos para +isso. Ah! quem o viu e quem o vê! Quando nós iamos á cata de ninhos, acolá +por...</p> + +<p>—Ah! sim! sim! Olha lá uma coisa: tu não fumas?</p> + +<p>—Fumo...</p> + +<p>E, puxando por um <em>kentuk</em>, ajuntou:</p> + +<p>—É que eu não queria... faltar ao respeito...</p> + +<p>—Ah! sim! Deixa lá isso; fuma este charuto. E deu-lhe um que tirou do +bolso do casaco.</p> + +<p>O filho da tia Maria das Neves pegou cautelosamente com dois dêdos no +charuto que o brazileiro lhe offerecia, contemplou-o com um sorriso mixto de +parvoice e de contentamento, e metteu uma das extremidades na bôcca.</p> + +<p>—Espera lá, homem! É preciso aparal-o. Por onde diabo querias tu que +saisse o fumo?</p> + +<p>E deu-lhe um canivete, mostrando-lhe, para exemplo, o seu charuto, que tirou +da boquilha de aros de oiro.</p> + +<p>O Francisco cortou uma das extremidades ao charuto, e, depois de o metter na +bôcca, puxou d'um phosphoro de pau, dos que vulgarmente se chamam de <em>espera +gallego</em> por causa da grande demora do enxofre entrar em combustão, e, +raspando-o nas calças de saragoça, com elle accendeu o charuto.</p> + +<p>Entretanto, a <em>bisnaga</em> recebe a visita, na cosinha, de varias +visinhas que a vêm felicitar pelo alegrão que a vinda do seu Joaquim lhe veio +dar.<span class="pn">{90}</span></p> + +<p>Este, abrindo a bôcca n'um cantarolado bocejo, pergunta ao seu antigo +companheiro, que mais parece um servo que um antigo amigo dos tempos de rapaz: +</p> + +<p>—Olha lá uma coisa: a respeito de <em>pequenas</em>, como vae isso por +ahi? </p> + +<p>E ao dizer isto, piscava velhacamente um olho.</p> + +<p>—Ha por ahi uns peixões bem bons!</p> + +<p>—Sim?</p> + +<p>—Conheceu a tia Joanna Maneta?</p> + +<p>—A tia Joanna Maneta?... Ah! aquella mulher que uma vez nos queria... +Bem sei, bem sei. Então?</p> + +<p>—Então, tem lá uma cachopa de estalo, ahi dos seus vinte e dois +annos!</p> + +<p>—E será facil de...</p> + +<p>—Ai! Ai! Ai! Isso é só chegar-lhe!—e esfregava, um de encontro +ao outro, os dêdos pollegar e index. Fazem-se finas, os diabos! Ha por ahi um +par d'ellas que não vão assim com duas razões! Querem só que os rapazes lhes +fallem em casorio. Mas vossa senhoria não precisará de muito trabalho. Isto de +mulheres, cheirando-lhe a dinheiro... se não é uma é outra. Porque ha por ahi +bastantes! Mas obra fina, d'aqui de traz da orelha, tem lá o tio Alameda!</p> + +<p>—Alguma filha geitosa, hein?</p> + +<p>—Oh! de estalo! Isso é o que ha de melhor por estas redondezas. Mas +está nova!...</p> + +<p>—Que edade tem?</p> + +<p>—Deve andar pelos seus desenove. Se tanto! Além d'isso, era uma grande +desfeita ao velho, que é muito respeitado, e quer-lhe como á luz dos olhos.</p> + +<p>—Isso de desfeita é o menos. O diabo é ella ser menor.</p> + +<p>—Pois é isso... Ah! a proposito do tio Alamêda!<span +class="pn">{91}</span> Não sei se vossa senhoria sabe que elle, além d'essa +rapariga, tem um filho ahi dos seus vinte e quatro a vinte e cinco annos?</p> + +<p>—Não sabia, mas fico sabendo.</p> + +<p>—E vossa senhoria lembra-se da tia Rita Serôdia?</p> + +<p>—Hum! Não me reccordo, não.</p> + +<p>—Bem, é a mesma coisa. Pois uma filha d'essa tal Serôdia, uma rapariga +toda espevitada e geitosa, cantava ao desafio com qualquer, que era um gosto +ouvil-a! O tal filho do tio Alameda tambem canta muito bem; é até chamado o rei +dos cantadores, porque por estes sitios e arredores, não ha ninguem que se lhe +compare. Qualquer que se fosse bater com elle, era derrota certa. Ora essa tal +filha da Serôdia, e que se chama Maria Luiza, deu em ir cantar sempre com elle; +em todas as festas onde appareciam os dois, ahi estavam em frente um do outro! +Até algumas vezes ella vencia-o, mas dizia-se que era elle que o fazia de +proposito. Mas mais tarde é que se soube que o rapaz dava o cavaco por ella, +tanto que se tem feito os esforços para o retirar, porque dizem que casa com +ella, e não ha meio; e é porque, segundo consta, a rapariga é mal empregada +n'elle, porque se portava mal, e, além de elle ser um bello rapaz, estimado de +todos, dá um desgosto ao pobre velho do pae, que não faz ideia. Ora por estas +razões, é uma obra de caridade desviar o rapaz d'alli. Isto de mulheres, vossa +senhoria sabe-o melhor do que eu, porque tem corrido mundo, em lhe cheirando a +riqueza, illudem-se como ratos!</p> + +<p>—Ah! Ah! Ah! Queres então dizer que, com duas arrastaduras de aza e +outras tantas promessas...</p> + +<p>—Ora nem mais! Além d'isso, não é mau petisco! E como anda toda +inchada por o rapaz andar<span class="pn">{92}</span> assim pela beiça, sabendo +toda a gente o que ella foi, era bem feito.</p> + +<p>—Oh! diabo! Mas é preciso fazer isso com geito. Não vá o rapaz fazer +alguma...</p> + +<p>—Isso fica por minha conta! Com geito tudo se arranja. Sou amigo do +rapaz, começarei a metter-lhe em cabeça que a rapariga anda a perder a cabeça +com vossa senhoria, que nem sequer ainda pensou n'ella, e, finalmente, quando +vossa senhoria começar a entrar em combate, ella, com certeza, não resiste, e +então eu direi ao rapaz se fôr preciso, que foi ella até que se entregou a +vossa senhoria. Verá depois como elle até me agradece o cuidado que tive em lhe +abrir os olhos.</p> + +<p>—Bem. Arranja lá as coisas, e, quando fôr occasião, mostra-me a +rapariga. Agora ouve lá uma outra coisa: não ha por ahi quem queira vender uma +propriedade bem situada, que seja fertil, isto é, com agua em abundancia, e +onde se possa fazer uma casa?</p> + +<p>—Falla-se que o Lopes vae vender aquella casa com a propriedade que +fica aqui nesta rua, á beira da estrada, mesmo á esquina da viella da Nóra. É +um aido grande, tem boa agua, e está num sitio lindo, donde se vê o campo +todo... </p> + +<p>—Pois isso é que me convinha comprar.</p> + +<p>—Se vossa senhoria quer, vamos ter com elle, e, se o homem estiver +resolvido...</p> + +<p>—Paga-se-lhe bem e...</p> + +<p>—E arranja-se tudo á surrelfa; escusa de a annunciar.</p> + +<p>—Pois é isso. Vamos então lá.<span class="pn">{93}</span></p> + +<h2><a name="SECTION00190">IX</a></h2> + +<p>Estava-se no principio da primavera, a quadra em que a natureza, banindo a +melancholia em que estivera mergulhada durante alguns mezes, começa a vestir-se +de galas. As arvores que, na nudez dos seus ramos, só inspiravam tristeza, +começam a revestir-se d'uma folhagem pequenina e tenra, e os passaritos, +passeando d'umas para as outras, chilreando, cantando, juntam a sua alegria á +alegria da natureza, parecem inebriados com tanta doçura.</p> + +<p>Era num dia limpido da primavera, ás sete horas da manhã—uma manhã de +agradabilissima frescura, clara, serena, animada por um sol cheio de vida e +sorridente, pairando no ceu azul e coando-se atravez da atmosphera d'uma +extrema limpidez—uma d'estas manhãs cheia de vida que, gosadas na aldeia, +teriam o dom sobrenatural de inocular no animo d'um desvairado o gosto pela +vida de que estivesse prestes a desfazer-se.</p> + +<p>O tio José da Alameda, sentado no muro da sua eira, contempla o aido com um +sorriso de amargura e satisfação. Contempla as arvores rejuvenescendo de +encantos, muitas das quaes elle plantou e outras lhe foram legadas por seus +paes; faz passear a sua memoria pelos tempos passados, recordando, com amarga +saudade, esses tempos ditosos que foram para nunca mais voltar, e, na sua +profunda abstracção, estremece á voz d'um homem que, por detraz de si, o +chama.<span class="pn">{94}</span></p> + +<p>—Viva, sr. José! Está gosando a frescura da manhã, hein?</p> + +<p>Elle voltou-se, e viu na sua frente o filho da sr.ª Quiteria de Jesus, de +arma ao hombro, trajo de caçador, chapéu molle derrubado e cheio de orvalho. +</p> + +<p>—É verdade, sr. Joaquim Velloso. (O Velloso, tomou-o elle por lhe +parecer um nome pomposo que se casava bem com a sua situação). Então anda +caçando, logo de manhã?</p> + +<p>—Saí a dar um passeio matutino, eram cinco horas. Dei uma volta alli +pelas Chans, e matei dois melros, que trago aqui na bolsa. Apenas para me +entreter e gosar a manhã que está muito linda, e fazer vontade ao almoço. +Entrei por aqui dentro sem pedir licença...</p> + +<p>—Ora essa! Não precisa! Quando quizer, não só o meu aido está ás suas +ordens para passear, mas tambem a minha casa está sempre aberta para o receber. +</p> + +<p>—Muito obrigado! Muito obrigado!</p> + +<p>—Olhe: vamos até lá e descança um pouco. Entretanto faz-se o almoço +e... </p> + +<p>—Oh! sr. José! Muito obrigado pela franqueza!</p> + +<p>—Obrigado pela franqueza! Essa não é má! Nem pelo almoço eu quero que +me fique obrigado...</p> + +<p>—Mas deve comprehender que tambem devo ter o meu á espera em casa, +e...</p> + +<p>—Mas tambem comprehendo que, depois de uma passeata d'essas, deve +trazer bom appetite; e como a sua casa ainda fica distante...</p> + +<p>—Oh! senhor! Nesse caso, obriga-me a almoçar duas vezes...</p> + +<p>—Olhe que não faz mal nenhum! Eu, quando era da sua edade, era capaz +de almoçar tres vezes. O senhor desculpe-me a franqueza com que lhe +fallo...<span class="pn">{95}</span></p> + +<p>—Oh! nem nisso se deve fallar. E já que assim quer, terei hoje o +prazer de almoçar na sua amavel companhia.</p> + +<p>—Vamos lá. Se estamos com ceremonias, não saimos d'aqui hoje.</p> + +<p>E o velho, travando-lhe do braço, encaminhou-o para casa, que ficava a cerca +de cem metros.</p> + +<p>Conversando e parando a cada passo, o tio Alameda ia-lhe fallando da +agricultura d'aquelle anno, que promettia não ser fecundo, de pouca novidade, +pois que, se assim continuava o tempo, sem chuva, ter-se-ia um anno de fome; +applicou o adagio «se não chover em março e abril, venderá el-rei o carro e o +carril».</p> + +<p>—Olhe o sr. Velloso: ha um dictado que diz «em março queimou a velha o +maço; em abril queimou o carril; uma cama que lhe ficou, em maio a queimou; e +ainda lhe ficou como um punho, que o queimou em Junho».</p> + +<p>O brazileiro ria-se dos dictos do tio Alameda, e interrompia as suas +considerações sobre a agricultura, de que não percebia nada, com monosyllabos, +acênos de cabeça e breves repetições do que ia ouvindo. Por fim, a conversa +incidiu sobre coisas de que já podia fallar, e, como quasi todos os individuos +que, tendo nascido na lama, se vêem um dia deitados em leitos fôfos e +voluptuosos e gostam de alardear os seus haveres, elle fallou dos seus +negocios, das transacções dos seus capitaes, dos seus projectos da vida futura +que tencionava passar, na aldeia onde nasceu, fallou da compra da propriedade +ao Lopes, onde andava já a construir uma casa, etc., etc.</p> + +<p>Por fim, chegaram, ao cabo de uma boa meia hora, a casa do tio Alameda.</p> + +<p>—Helena! chamou o velho ao chegar a casa. O<span +class="pn">{96}</span> sr. Velloso almoça hoje comnosco. Prepara-lhe o +almoço.</p> + +<p>Helena viera lesta ao chamamento do pae e recebeu com um encantador sorriso +o seu hospede que, levando a mão ao chapeu, a cumprimentou com uma mesura +envolvendo-a num olhar de sympathia.</p> + +<p>O tio Alameda conduziu-o á sala, onde conversaram emquanto Helena, +coadjuvada por Julia, prepara um succulento fricassé com ovos e linguiça.</p> + +<p>Ás oito e meia chegavam João e Paulo do trabalho, jaqueta ao hombro, as +calças empoeiradas.</p> + +<p>—Helenasinha, perguntou João entrando alegremente na cosinha; está +prompto o almoço?</p> + +<p>—Sim senhor.—E acrescentou a meia voz: temos cá hoje um hospede +para almoçar.</p> + +<p>—Um hospede? E quem é?</p> + +<p>—O brazileiro, o sr. Velloso.</p> + +<p>—O sr. Velloso?! E a que proposito vem esse homem almoçar hoje cá?!</p> + +<p>—Oh! parece que não ficaste contente! respondeu contristada. Estás +zangado com elle, João? perguntou com visivel anciedade.</p> + +<p>—Não, não estou. Mas parece que tu... parece que te preoccupas muito +com elle?</p> + +<p>—Ora! Isto é geito meu, respondeu com um sorriso; e, para occultar uma +leve vermelhidão que lhe tingiu as faces, o que não passou despercebido ao +irmão, affastou-se, dizendo:</p> + +<p>—Ah! que já me ia esquecendo o estrugido!</p> + +<p>Entretanto, Julia ia estendendo sobre a mesa a toalha, sorrindo +angelicamente para Paulo que a contemplava apaixonadamente com o rosto entre as +mãos e os cotovellhos apoiados sobre a meza.........</p> +<hr class="dotted"> + +<p>Terminado o almoço, o sr. Velloso despedindo-se<span class="pn">{97}</span> +cortezmente e muito reconhecido pelas deferencias com que aquella excellente +gente o tractara, e intimamente jubiloso pela retribuição de olhares ternos com +que galanteara disfarçadamente Helena prometteu voltar uma vez por outra, +fazendo ao mesmo tempo com antecipação o convite para irem egualmente á sua +casa nova, logo que estivesse concluida.</p> + +<p>—Isso ainda leva uns mêzitos, dizia o tio José. Segundo dizem, vae +ficar uma obra bôa, e...</p> + +<p>—Tambem me custa a modica quantia de tres ou quatro contos!</p> + +<p>—Meu amigo! Trabalhou, para agora gozar. É porque Deus lhe achou +merecimentos para isso.</p> + +<p>O sr. Velloso encolheu ou com modestia ou com desdem os hombros, e, +estendendo a mão ao velho, cumprimentou com uma venia a familia.</p> + +<p>—Pois faz-me um grande favor em vir por aqui bastantes vezes para me +entreter, dizia-lhe o velho, apertando na sua mão rugosa a mão macia do +brazileiro. Um velho como eu, que já não pode ir trabalhar, estima sempre que +lhe façam companhia, mórmente pessoas delicadas como o sr. Velloso.</p> + +<p>—Afinal, continuou, voltando para dentro depois que o brazileiro +partiu—dizem que é muito cheio de presumpção e vaidade. Não acho! +Parece-me até muito boa pessoa! Muito cortez, delicado e parece ter muito bom +coração. Parece muito bom sujeito.</p> + +<p>—Parece muito bom sujeito, parece! repetiu quasi machinalmente, como +num echo, Helena.</p> + +<p>Paulo e Julia, a quem não passaram de todo despercebidos os olhares +incendiados que o sr. Velloso deitava a Helena, trocaram um sorriso; e João, +pegando no casaco, pôl-o ao hombro, e pondo-se a caminho, precedido de Paulo, +murmurava comsigo:<span class="pn">{98}</span></p> + +<p>—Será muito boa pessoa, será! Pode até ser um santo! Mas... não vae á +minha missa! Aquelle olhar não indica coisa boa!... E então a lôrpa da minha +irmã a modos de... Isto de mulheres!... Ora faça elle alguma, e verá quanto +peza um marmelleiro!... Pensa talvez que ainda está no Brazil? Experimenta! +Experimenta, que o cacete t'o dirá!...</p> + +<p>E caminhando alguns momentos silencioso, continuou, monologando, num +intelligivel crescendo:</p> + +<p>—Vêm para ahi com uns poucos de contos, ganhos sabe Deus como, e, sem +se lembrarem que já foram uns pelintras, uns miseraveis, fazem-se então uns +pedaços d'asnos que pensam terem o rei na barriga!... Ora vem para cá com as +tuas basófias, que eu te ensino como se bate um lombo!... Tem então lá um +palerma d'um visinho, mais chapado que um portão de ferro, que—Ah! Ah! +Ah! até dá vontade de rir!—me vem dizer «que tome conta na Maria Luiza, +que anda tôla pelo <em>bisnaga</em>! Que era só elle fazer um gesto, que a +rapariga era d'elle! Que Deus me livrasse de elle tomar a peito fazer-me alguma +desfeita!» Que grande bruto me saiste, Francisquinho das Neves! Que se livre +mas é elle! Ah! Ah! Ah! A Maria Luiza! Que dois brutos me sairam o +<em>bisnaga</em> e o Neves! Este, embruteceu com o dinheiro; o outro, +embruteceu talvez pela grande vontade d'elle! Ah! Ah! Ah!</p> + +<p>—Ó patrão! Então o tio Francisco das Neves disse-lhe essas coisas?!</p> + +<p>—Pois tu vinhas ahi, rapaz?!... Diabo! Nem me lembrava de ti, homem. +Não digas do que ouviste, percebes?</p> + +<p>—Sim senhor.</p> + +<p>—Tudo aquillo que eu vinha a dizer, é como se ninguem o ouvisse...</p> + +<p>—Não ha duvida, patrão.<span class="pn">{99}</span></p> + +<h2><a name="SECTION001100">X</a></h2> + +<p>O Francisco da Neves tornou-se o confidente do filho da sr.ª Quiteria de +Jesus.</p> + +<p>Com uma dedicação quasi servil que, geralmente, todos os imbecis prestam +áquelles que, graças á plutocracia, têm o dom de os fascinar como um individuo, +com o poder soporifero, hypnotisa a sua victima, o filho da tia Maria das Neves +passou, por assim dizer, a exercer as funcções d'um cão fiel, prompto a +defendel-o na primeira arremetida que lhe fizessem. Com uma differença, porém: +o cão serve seu amo a troco do alimento que lhe dá, e o Neves dedicou-se ao +Velloso de corpo e alma, imbecilmente, com a dedicação dos espiritos boçaes que +se inclinam, sem mesmo saberem nem procurarem saber o motivo, a uma causa.</p> + +<p>Confidente dos seus mais importantes negocios, elle estava ao facto das +ninharias mais abjectas da vida intima do brazileiro.</p> + +<p>—Francisco, disse-lhe este apenas chegou de casa do tio Alameda, após +o que foi logo procurar o visinho—parece-me que estou apaixonado pela +filha do Alameda.</p> + +<p>—Vossa senhoria falla serio?! Onde a viu?</p> + +<p>—Estive lá em casa esta manhã, e até me deram de almoçar. O velho é um +bello homem, coitado. Mas o filho é que me parece pouco de brincadeiras! E é +por isso que venho prevenir-te para que haja toda a cautela no negocio.<span +class="pn">{100}</span></p> + +<p>—Pois então vossa senhoria, gostando assim, como acaba de dizer, da +rapariga, ainda tem coragem de...</p> + +<p>—És pateta! Mais motivos ha para desviar o rapaz. Eu gosto da irmã a +valer. Sou até capaz de casar com ella: por isso tenho a obrigação de pugnar +pela honra da minha futura noiva. Percebes?</p> + +<p>—Perfeitamente. Diz vossa senhoria que...</p> + +<p>—Digo que vou empregar os esforços para que o filho do Alameda deixe a +tal Maria Luiza. Mas agora é preciso tento no jogo!—E, fallando mais +confidencialmente, continuou—Eu vou, primeiro que tudo, vêr se engano a +Helena. Não sei se me comprehendes...</p> + +<p>—Muito bem. Eh! Eh! Eh! Vossa senhoria sempre tem uma arte!</p> + +<p>—Entretanto, vae vendo se despersuades o rapaz do que lhe disseste. +Dize-lhe agora que fizeste aquillo, sómente para o rallar, que é para elle não +andar de pé atraz commigo.</p> + +<p>—Percebo muito bem.</p> + +<p>—Depois... eu te direi, quando as coisas estiverem em bom caminho, o +que has-de fazer.—E ajuntou com um sorriso malicioso:—E é mais uma +sôpa que se molha... Porque a Maria Luiza ainda não é má de todo!...</p> + +<p>—Eh! Eh! Eh! Vossa senhoria tem uma arte! Tem uma arte!... É capaz de +as levar todas a fio!...</p> + +<p>—Pois tu não sabes, homem, que o dinheiro faz tudo? Acaso serei mais +bonito do que os outros? Não! Ha até por ahi caras muito melhores do que a +minha. Mas... bem vês que hoje o mundo não olha a formosuras... Isto em +questões d'esta ordem. Mas, como te ia dizendo, tu, agora, nem mais um pio dás +sobre<span class="pn">{101}</span> o caso: só dizes ao filho do Alameda que +aquillo foi um gracejo da tua parte...</p> + +<p>—Sei muito bem.</p> + +<p>—Que é para eu cá dispôr as coisas á minha vontade.</p> + +<p>—Já está mais que percebido.</p> + +<p>—Eu agora vou fazendo umas visitas a miudo lá a casa do Alameda, e a +rapariga, que não parece desgostar de me lá vêr, ir-me-ha assim ganhando uma +certa amizade... um certo amôr... até que...</p> + +<p>—Vossa senhoria lá arranja! E, quando fôr preciso farejar...</p> + +<p>Ainda bem que o filho da tia Maria das Neves reconhecia—ou talvez o +dissesse instinctivamente!—a cathegoria do seu baixo mister.<span +class="pn">{102}</span></p> + +<h2><a name="SECTION001110">XI</a></h2> + +<p>Fins d'abril, em plena primavera que, depois d'uma pequena quadra de chuva, +decorria garbosa e sorridente como uma creança.</p> + +<p>Era uma noite serena e sem luar, apenas allumiada pela luz tibia das +estrellas.</p> + +<p>Um socêgo religioso repousava sobre a aldeia, apezar da hora pouco adeantada +da noite—eram nove e meia.</p> + +<p>Na aldeia, os homens têm por norma a natureza: levantar com o sol e recolher +com elle. Não ha o bulicio nocturno confuso e ás vezes estonteante dos grandes +centros, com os seus pontos de reunião e cavaqueira nos cafés, casinos e +theatros. Chegada a noite, cada lar é um cenaculo de alegria, paz e amôr, e +sómente ás vezes, quando nas noites longas de inverno podem dispôr de algum +tempo de distracção, juntam-se, até ao toque das almas, meia duzia de homens +numa ou noutra loja, onde ouvem lêr o jornal que o lojista assigna. «As noites +dão para tudo», dizem então. É ahi, nas lojas, e nas casas de barbeiro, ao +sabbado, que se estabelecem os principaes pontos de reunião—os nucleos da +ingenua cavaqueira do povo d'aldeia, onde se ventilam os successos occorridos +que mais impressionaram a curiosidade publica.</p> + +<p>Era uma noite serena e sem luar, e nem a mais leve aragem fazia mover as +folhas das arvores. A amplidão do ceu, recamado de myriades de estrellas, +parecia um immenso campo cheio de flôres.<span class="pn">{103}</span></p> + +<p>A portaria do alpendre da casa do tio José da Alamêda abriu-se +cautelosamente, e um vulto, espreitando para a rua, se desenhou na sombra.</p> + +<p>Em seguida um outro vulto—o vulto d'um homem encapotado—se +deslocou do escuro do cômoro fronteiro, e approximou-se.</p> + +<p>—Boa noite, menina Helena, disse, a meia-voz, o homem, ao +approximar-se. </p> + +<p>—Boa noite, sr. Joaquim, respondeu timidamente a voz dôce de +Helena.</p> + +<p>—Não sabe, não pode calcular a satisfação que me dá, accedendo aos +desejos do meu coração, que ha tanto tempo ambicionava expandir-se, que ha +tanto tempo suspirava por traduzir por palavras o fogo que o apoquenta e que só +tenho podido exprimir por olhares!</p> + +<p>—Senhor Joaquim, deve tambem calcular, attendendo á gravidade do passo +que dei comparecendo á entrevista que prometti, que o meu coração não é +insensivel aos sentimentos que vossa senhoria diz ter por mim, e que me parece +ter lido nos seus olhos: a não ser que eu me engane, porque não tenho +experiencia do mundo...</p> + +<p>—Helena da minha alma! Oh! eu amo-a muito, muito! Prouvera a Deus que +da sua parte houvesse para commigo egual affecto!</p> + +<p>—Ha! Talvez mais...</p> + +<p>—Oh! Não diga isso!—E, tomando-lhe as mãos, continuou com ardor +crescente—É fazer uma injustiça ao meu amôr por si, que não tem +limites!... </p> + +<p>—Será o que diz... não duvido. Mas deve attender a que, para eu dar +este passo, devia haver da minha parte uma grande lucta do coração com a razão, +em que esta ficou vencida por aquelle...</p> + +<p>—Sim: comprehendo isso, e oxalá que eu tenha<span +class="pn">{104}</span> a felicidade de poder mostrar-lhe o meu reconhecimento +de forma que possa satisfazer as aspirações do meu coração!</p> + +<p>—Isso, senhor, só depende de si. Eu, uma mulher que pela primeira vez +sente o perfume das flôres do amôr que o calôr dos seus olhos teve o poder de +fazer desabrochar, outra coisa não desejo que a minha felicidade, que consiste +em gozar, na companhia do ente por quem o meu coração suspira, a vida +inteira.</p> + +<p>—É esse tambem o meu desejo, Helena. Por esse mundo por onde andei, vi +muitas mulheres, muitas das quaes algumas extremamente formosas. Mas agora, +Helena da minha alma, daria todas ellas, todas, por si só!</p> + +<p>—Oh! Nunca ha-de ser tanto assim, respondeu ella candidamente, com um +sorriso. Eu, uma simples mulher do campo, valerei mais que todas essas...</p> + +<p>—Vale, para mim! Nem eu mesmo sei explicar o motivo d'esta minha +transformação. Acredite-me, Helena! Eu amo-a muito, muito!</p> + +<p>E, com as mãos d'ella enleadas nas suas ia dominando, a pouco e pouco, +transmittindo-lhe o calôr que o inflammava, aquelle anjo tão bello e tão +candido, que pela primeira vez ouvia aquelle linguagem que lhe echoava nos +ouvidos como uma musica celeste, causando-lhe no seu intimo sensações até ahi +desconhecidas, d'uma indizivel suavidade.</p> + +<p>—Não acredita, Helena? perguntava elle, apertando nas suas mãos febris +as mãos tremulas d'ella.</p> + +<p>—Acredito. Eu tambem o amo muito...</p> + +<p>—Oh! muito!... muito!... Vós, as mulheres, sabeis tão bem fingir um +sentimento que não tendes, que não sei se a hei-de acreditar!</p> + +<p>—Pode acreditar. Por Deus lhe juro que o amo.<span +class="pn">{105}</span> Mas peço-lhe que falle mais baixo, porque Deus me livre +que alguem ouvisse!</p> + +<p>—Não tinha duvida! Que me importa o mundo? Helena hade ser a minha +mulher, em breve o mundo o verá! Sim! Nesse caso, que importa que nos +vissem?</p> + +<p>—Falle mais baixo, senhor. Pode vir meu irmão, e pensar... Deus nos +livre que elle viesse dar comnosco a estas horas a fallar!</p> + +<p>—Sim. Tem razão. Podia formar máus juizos e seria perigoso.—E, +baixando a voz e approximando do rosto d'ella o seu, murmurava-lhe palavras +ternas ao ouvido, que ella ouvia como num cicio dulcissimo.—Helena, meu +amôr! Dizes que me amas! Isso dar-me-ia tanta felicidade, que o julgo quasi +impossivel! Se eu fosse pobre, talvez acreditasse no que dizes. Ahi está para +que serve o dinheiro! Para nos lançar o coração no desespero! Helena! Juras que +me amas? </p> + +<p>—Juro!...</p> + +<p>A sua voz era trémula; e elle, tendo-lhe lançado um braço á roda do pescoço, +com os labios collocados ao ouvido d'ella, murmurava-lhe com meiguice:</p> + +<p>—E juras amar-me sempre?</p> + +<p>—Sempre!...</p> + +<p>—E muito? Tanto como eu a ti?</p> + +<p>—Sim! respondia ella com a voz apagada, completamente dominada por +aquelle braço que lhe paralisava as forças d'animo e as physicas.</p> + +<p>Elle então depositou numa das faces d'aquelle anjo que se lhe abandonava +inconscientemente, um beijo ardente de impudicicia, semelhante a um salpico de +lama que caisse numa das pétalas dum alvissimo lyrio.</p> + +<p>E nada mais se ouviu, senão o arrastar surdo e quasi imperceptivel da +portaria que se fechava occultando<span class="pn">{106}</span> á exigua +claridade da estrada as sombras unidas d'aquelles dois seres +apaixonados—um, com um sentimento todo ideal, todo celeste; outro, com um +sentimento todo terreno, todo lubrico.......</p> +<hr class="dotted"> +<hr class="dotted"> + +<p>A lua erguia-se no horisonte melancholica e triste, quando a portaria se +abriu, inundando o alpendre um jorro de luar.</p> + +<p>Helena estremeceu, e, apertando fortemente o braço de Joaquim, exclamou:</p> + +<p>—O luar não te parece hoje mais sombrio e a lua mais tristonha, +Joaquim?! </p> + +<p>—Tontinha! Até me parece mais alegre! Olha como ella sorri! Está-nos +annunciando um paraiso de felicidades.</p> + +<p>—Deus te ouça. Mas parece-me vêr no rosto da lua uma expressão de +tamanha melancholia!</p> + +<p>—Ora! Havemos de ser muito felizes. Olha: a minha casa—a nossa +casa!—d'aqui a tres ou quatro mezes fica prompta. Depois viveremos lá +juntinhos; iremos passear por aquelles caminhos do outeiro, á tardinha; e +havemos de ir, á noite, para a janella ou para o jardim, que hei-de mandar +fazer, vêr nascer a lua a sorrir-se para nós.</p> + +<p>—Oxalá que sim! Deus te ouça! E juras-me que farás a minha +felicidade?</p> + +<p>—Helena! Juro-te, pelo Deus que me protegeu durante muitos annos por +esse mundo além, que hei-de fazer a tua felicidade!</p> + +<p>E, depositando-lhe um beijo na fronte, disse:</p> + +<p>—Adeus. Até ámanhã.</p> + +<p>—Adeus Joaquim!</p> + +<p>Helena conservou-se á porta até ver desapparecer<span +class="pn">{107}</span> o vulto do seu bem-amado numa curva da estrada.</p> + +<p>Suspirou, olhou outra vez para a lua, e, ao voltar para dentro, ouviu o piar +lugubre d'uma ave nocturna.</p> + +<p>Estremeceu, e, fechando a portaria, murmurou estarrecida:</p> + +<p>—Jesus! Não sei o que o coração me adivinha!...<span +class="pn">{108}</span></p> + +<h2><a name="SECTION001120">XII</a></h2> + +<p>E Maria Luiza?</p> + +<p>Maria Luiza vive feliz na companhia de sua mãe, na reclusão da sua casinha, +aonde, todas as noites, o João da Alamêda vae levar ao seu coração o balsamo +suavissimo da esperança.</p> + +<p>Que importa que o vento sopre frigido e impertinente lá fóra, se temos +dentro de casa o lume acariciador que nos salvaguarda do rigor das intemperies? +</p> + +<p>Mas, como succede a tudo neste mundo, as linguas maledicentes foram +affrouxando, e Maria Luiza começa a ser envolvida no esquecimento, que é para +ella d'um prazer indefinivel.</p> + +<p>«Elles tanto hão-de fallar, que hão-de cançar!» dizia-lhe o João, sempre que +ella, contristada, procurava na doçura das suas palavras animadoras refrigerio +para as mágoas que a affligiam.</p> + +<p>E com effeito, ella, ao sair de manhã a buscar á loja a sua provisão diaria, +já não ouve os dichotes com que a principio alguma bôcca menos polida lhe feria +os ouvidos e que muitas vezes lhe faziam marejar de lagrimas os olhos. A +torrente do enxurro foi affrouxando de impetuosidade; e agora, já de quando em +quando lhe sôa ao ouvido um «adeus» pronunciado com um certo acanhamento, com +uma especie de arrependimento.</p> + +<p>Os vaticinios do tio Alamêda iam-se realisando—á<span +class="pn">{109}</span> tempestade segue-se a bonança; a verdade é como o sol +que dissipa as trevas mais espessas. </p> + +<p>Mas a verdade ainda se não patenteava e apenas se iam notando uns certos +retrahimentos de animo nos emprehendedores d'essa nefasta cruzada que, longe de +se inspirar em sentimentos humanitarios e altruistas ou obedecendo aos +principios dum dever e virtude civicos, inspirava-se, vergonhosa e torpe, no +vil sentimento da inveja.</p> + +<p>Comtudo era já um symptoma de justiça. Esta viria, no tempo devido, a +occupar o seu logar, e Maria Luiza começava a sentir as delicias de um proximo +regresso á vida alegre, de um lento resurgimento ao convivio das suas amigas em +cujo olhar já lia o arrependimento.</p> + +<p>E Maria, neste desanuviar do horisonte, antevê já um paraizo de delicias, +muito distante, mas para o qual ella se encaminha a passos de gigante. No +dissipar, ainda que lento, dos densos nevoeiros que lhe toldam o horisonte, +ella sente nascer em si uma alma nova, e no ceu azul, outr'ora carrancudo e +tempestuoso, ella pensa vêr um sorriso despretencioso e ingenuo, como que +annunciando-lhe não sómente o regresso á vida de outr'ora, mas um mundo +desconhecido, uma vida de fausto...</p> + +<p>Ella afugenta da sua imaginação taes devaneios, e refugia-se então na +meditação das palavras do seu João, a sua unica esperança, a sua vida, porque +foi elle, durante seis mezes, a sua vida, e continuará a sêl-a... Sim! +Continuará a ser a vida de Maria Luiza! Que importa as fanfarrias do sr. +Velloso com o seu dinheiro? Poderá ella olvidar, num momento, seis mezes de +dedicações, seis mezes que são todo um protesto eloquentissimo d'um coração +apaixonado? Não! Maria Luiza não póde ouvir-te, ó novo Creso<span +class="pn">{110}</span> da modesta aldeia, onde dardeias mundos e fundos com +que pretendes fascinar, com o brilho das tuas libras, o olhar ingenuo e +inexperiente d'este santo povo!</p> + +<p>Maria Luiza repudiar-te-ha! Olha como ella recebe, com a alma querendo +chispar-se em jactos de luz pelos olhos, o seu João!</p> + +<p>Elle delinéa, em palavras animadas da mais firme esperança, o seu +futuro—o futuro de ambos!—risonho como o sol ao nascer, lindo e +aromatico como um campo coberto de flôres.</p> + +<p>E ella ouve, extasiada, essas palavras que para si valem como se viessem da +bocca d'um profeta.</p> + +<p>—Maria! tinha-lhe dito ha tres mezes, radiante de jubilo, o seu +João—Meu pae pediu-me hoje explicação d'uns ditos que lhe foram assoprar. +Disseram-lhe que eu te amava apaixonadamente, e que era mal empregado em ti. +Convenci-o de que o enganaram. E elle—que coração +d'oiro!—acreditou-me; prometteu-me até dar o seu consentimento para eu +casar comtigo. Mas disse-me que deixassemos passar primeiramente a tempestade, +que havia de serenar como serena o mau tempo que Deus manda. Beijei-lhe as mãos +em signal de reconhecimento; e vi-lhe nos olhos duas lagrimas! Que coração +aquelle!</p> + +<p>—É como o teu, João!</p> + +<p>—É melhor, é melhor que o meu. Depois, contei-lhe tambem que todos os +sabbados ia ao celleiro buscar o milho que te trago; e elle, não só me perdoou, +mas ainda elogiou o meu procedimento. Já vês que, com um pae assim, não devemos +pensar senão em sermos felizes. Quando essas linguas malvadas deixarem de +fallar, então... verás! verás!<span class="pn">{111}</span></p> + +<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br> +* *</p> + +<p>Maria Luiza estava um dia sentada a costurar á janella da sua casinha. Era á +tardinha, principios de maio. Pelo campo ouviam-se aqui e além os balidos dos +cordeiros retoiçando em volta das mães, e o mugir das vaccas jungidas á canga +puxando pacientemente a charrua que rasgava a terra, e as vozes dos lavradores +incitando os animaes ao trabalho, e os cantares alegres das creanças que +guardavam as ovelhas.</p> + +<p>Maria Luiza está mergulhada no turbilhão dos seus pensamentos, sem prestar +attenção a toda esta harmonia do campo, nem ás melodias d'um rouxinol que canta +em frente da sua janella.</p> + +<p>Mas o rouxinol interrompeu a sua cantilena. Seria despeitado pelo desprezo +da Maria Luiza? Não; porque esta tambem d'ahi a momento estremeceu, cortando o +fio aos seus pensamentos. Estremeceu á voz de um homem que a saudava da rua. +</p> + +<p>—Olá! menina! Boa tarde!</p> + +<p>Olhou e viu na sua frente um homem bem vestido, sympathico, sorrindo para +ella.</p> + +<p>Ella reconheceu-o, porque respondeu, um tanto admirada, mas com a mesma +expressão sorridente:</p> + +<p>—Boa tarde, sr. Velloso!</p> + +<p>—Oh! conhece-me, e eu não tenho a honra de a conhecer!</p> + +<p>—Quem o não conhece nesta terra, senhor? Numa terra de pobres, um rico +é bem conhecido, respondeu ella sempre com o sorriso a brincar-lhe nos labios. +</p> + +<p>—Numa terra de pobres!... Sim! Terra pobre de dinheiro, mas rica de +formosuras.<span class="pn">{112}</span></p> + +<p>—Não percebo bem o que vossa senhoria quer dizer..., respondeu um +tanto embaraçada.</p> + +<p>—Quero dizer que tenho aqui encontrado mulheres formosas como em parte +alguma por onde tenho andado. Vou para um lado, encontro uma rapariga bonita! +Vou para outro, encontro uma ainda mais bonita! Vou para alli, outra mais +bonita ainda! Venho para aqui, e encontro a menina, mais bonita que todas as +outras!</p> + +<p>—E vae por ahi abaixo, e encontra outra mais bonita que todas...</p> + +<p>—É impossivel. Parece-me que a escala das mulheres formosas parou +aqui. É impossivel mesmo que continue... A menina desculpe-me o atrevimento com +que me dirigi a si, sem a conhecer, mas...</p> + +<p>—Oh! senhor! Não tem nada que...</p> + +<p>—Mas é que eu, com franqueza o digo, não pude resistir á vontade de +contemplal-a mais detidamente que por um simples relance. Fiquei impressionado +com os seus encantos. Eu costumo dizer o que sinto e perdôe-me se a offendo com +a minha franqueza.</p> + +<p>—Oh! Não diz nada que me offenda. São umas mentiras tão sem valor, +que... </p> + +<p>—Creia! isto é do coração. Trabalho tinha eu em chegar ao pé de todas +as mulheres de que gostasse e dizer-lhes: «a menina é bonita!» Não! Agora é que +realmente fiquei devéras impressionado, e não pude resistir á vontade de +contemplal-a por momentos, já que não poderei contemplal-a todas as vezes que +quizer, durante toda a vida. E então havia de estar pasmado no meio do caminho, +a olhar para si sem dizer palavra? Digo então o motivo da minha admiração.</p> + +<p>—É uma questão de pachôrra...<span class="pn">{113}</span></p> + +<p>—Não é, creia. É uma sympathia que a menina me inspirou. Não é uma +simples curiosidade ou pachorra, como diz, o contemplal-a por a sua belleza ter +despertado a minha attenção. É que realmente no seu todo ha não sei quê que +captiva; e parece que quanto mais tempo aqui estou, mais captivado fico! Vou-me +então embora, para não ter de ficar aqui toda a vida.</p> + +<p>—Oh! snr. Velloso! Seria melhor que mentisse menos; retrucou ella +sempre com o mesmo sorriso.</p> + +<p>—Ahi está como são as coisas no mundo! Muitas vezes um homem serve-se +de mil embustes que são acreditados como as palavras do Evangelho; e eu agora, +dizendo o que realmente sinto, sou considerado um impostor!—E +accrescentou, com expressão ficticia de pezar—Mas não admira, porque, +segundo o mesmo Evangelho, Christo só fazia bem e dizia verdades, e comtudo foi +castigado como o maior dos embusteiros e como um grande criminoso...</p> + +<p>—Peço-lhe perdão, se o offendi; eu não queria chamar-lhe impostôr. +Queria sómente dizer que, embora as suas palavras tivessem um fundo de +verdade—atreveu-se ella a dizer—não deixavam comtudo de ter os seus +enfeites para... para se tornar talvez mais agradavel...</p> + +<p>—Ora ainda bem que faz um pouco de justiça aos meus sentimentos. +Alguma justiça... não toda a que elles têm direito. Mas...</p> + +<p>—É melhor mudarmos de conversa, ou retirar-se, sr. Velloso, porque +sinto que minha mãe chegou agora a casa e...</p> + +<p>—Eu retiro-me. E peço-lhe que não fique fazendo fraco conceito das +minhas palavras. Se sympathisar com uma pessoa é crime, peço-lhe humildemente +perdão... e adeus!...<span class="pn">{114}</span></p> + +<p>—Adeus, sr. Velloso.</p> + +<p>—Bem! Isto não correu mal! ia o brazileiro dizendo com os seus +botões.</p> + +<p>E, sorrindo, continuou:</p> + +<p>—Isto de mulheres!... Pellam-se porque as gabem! E, com franqueza, o +demonio da rapariga não é peste nenhuma! Por isso o rapaz deu em embeiçar com +ella! Tem uns modos agradaveis, um sorriso muito ingenuo,.. Nem parece o que +dizem. Mas... as mulheres são impostôras como o diabo. Nem que eu as não +conhecesse! Oh! conheço-as tão bem como a mim mesmo! Ou talvez melhor, porque +muitas vezes não sei o que quero, e o que ellas querem sei eu muito bem... Com +mais duas ou tres palestras, sônda-se a coisa; por demais é fingir-me +apaixonado e prometter-lhe uma vida de fidalga. Prometter-lhe-hei até casar com +ella, pois que duvida ha n'isso? Dir-lhe-hei que fiz uma promessa de casar com +uma mulher pobre de quem gostasse, se a sorte me ajudasse. Valeu! Que bella +ideia! E o rapaz, quando o souber, que se cale com a roupa. É para bem +d'elle... e meu!—accrescentou com um sorriso velhaco. Ah! Velloso! +Velloso! Não ha mulher que te resista!...</p> + +<p>E caminhava cheio de contentamento, em direcção ao campo, rindo-se sósinho, +como um idiota.</p> + +<p>O sol declinava, quasi a submergir-se. Uma dôce penumbra começava já a +inundar o campo, e aqui e alli, bandos de meigas ovelhas, barregando, eram +apartadas em manadas por pequenos guardadores que, de chibata ao hombro, se +punham a caminho de casa, assobiando ou cantando, precedendo os rebanhos.</p> + +<p>—Ora vamos cá dar uma passeata pela fresca até ao campo, monologou o +sr. Velloso, espraiando a<span class="pn">{115}</span> vista pela planicie, +empertigando-se e affrouxando o andar, de mãos nos bolsos das calças.</p> + +<p>Uma creança de oito annos, pobremente vestida, mas com uns olhos cheios de +vivacidade, conduzia uma manada de ovelhas e, ao passar pelo brazileiro, +interrompeu a cantilêna que vinha assobiando, e disse:</p> + +<p>—Adeus!</p> + +<p>O sr. Velloso respondeu á salvação cheia de candura da creança com um quasi +imperceptivel e mal humorado «adeus», resmungando em seguida:</p> + +<p>—Que raio de costume! Podem esquecer-se de comer. Mas de incommodarem +as pessoas com estes impertinentes «adeus» que nada significam e que não se +esquecem! E os filhos já vão pela mesma toada!... Que raio de costume!</p> + +<p>O sol escondera-se e a penumbra ia-se tornando cada vez mais espessa; uma +suave nebrina se evolava mansamente sobre o Vouga.</p> + +<p>O sr. Velloso parou num sitio ensombrado pela ramagem d'um espêsso +salgueiral, onde dois caminhos se cruzavam; puxou de um charuto que accendeu, e +retrocedeu.</p> + +<p>Ouviam-se os balidos das ultimas ovelhas que recolhiam aos apriscos, e as +Ave-Marias soaram, lentas e cheias de ternura, nos sinos da egreja.</p> + +<p>—«Trindades na aldeia são horas de ceia», dizem elles por cá. E não ha +remedio senão dizer e fazer como elles, quando não chamam-me figurão.</p> + +<p>Quando passou á porta de Maria Luiza, a janella estava fechada. Parou alguns +instantes em frente da porta, e ouviu uma toada de duas vozes distinctas que se +alternaram.</p> + +<p>Approximou-se e escutou. Mãe e filha rezavam o terço.<span +class="pn">{116}</span></p> + +<h2><a name="SECTION001130">XIII</a></h2> + +<p>Maio florido, maio encantador e poetico, porque foste traidor?!...</p> + +<p>Um sol cheio de vida espalhava-se por estas collinas verdejantes bafejadas +por uma briza fagueira e meiga, semelhante ao halito da bôcca d'um anjo. Cada +despontar do sol era precedido de uma longa e pittoresca symphonia executada +por milhares de gargantas de passarinhos chilreantes, alegres como creanças. +Estes outeiros, elevando-se garbosamente em ondulações suaves, eram tablados do +mais colorido e pittoresco scenario—o magnificente scenario pintado pela +mão da natureza, ao ar livre, com ramagens reaes e pujantes de seiva e +frescura, debaixo d'um ceu offuscante de belleza.</p> + +<p>Tudo era poesia, tudo era amôr.</p> + +<p>O proprio Vouga, correndo por entre duas alas de salgueiros viçosos que se +bamboleavam donairosos retratando-se cheios de vaidade na superficie polida das +aguas, sorria-se para elles, com um sorriso amargo de despedida, beijando +ternamente as franjas da sua ramagem verde que sobre elle se debruçava com +carinho.</p> + +<p>E tu, maio risonho, deixaste que um branco e puro lyrio que embellezava o +teu jardim, roçasse as suas pétalas mimosas na terra negra e immunda!</p> + +<p>Maio florido, maio risonho e poetico, porque foste traidor?!...<span +class="pn">{117}</span></p> + +<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br> +* *</p> + +<p>O coração humano e, em especial, o coração da mulher, é uma fonte de +enygmas.</p> + +<p>Maria Luiza, a flôr predilecta do jardim do amôr do João da Alamêda, o anjo +tutelar dos sonhos doirados d'esse mancebo que nem talvez por pensamentos lhe +tivesse profanado a candura, essa mulher que alcançara d'um coração bondoso +quanto amôr se pode dedicar a um ideal e quanta dedicação se pode prestar a um +ente que vê deante de si o cháos horripilante da desgraça e da +miseria—Maria Luiza cedeu ás insidias do brazileiro, vergou á logica +revoltante das suas palavras maleficas como a tenra açucena da encosta vergada +ao sopro do Aquilão. </p> + +<p>Desde então, parece que até a sua casa ficou com um aspecto tristonho, que o +rouxinol que, de madrugada e á tardinha, ia cantar para defronte da sua +janella, já não sabia canções alegres, e que os cordeirinhos, balando em volta +das mães que pastam no campo, já não retoiçam como costumavam.</p> + +<p>O triumpho, porém, que o sr. Velloso alcançou, longe de o contentar, foi +contra a sua espectativa e contra a nossa, leitor, porque de noite, ao chegar a +casa, o sr. Velloso encommendava ao diabo tal triumpho mais a lembrança que o +visinho Neves teve quando lhe aconselhou tal coisa.</p> + +<p>Nessa noite, ás horas do costume, compareceu á entrevista com Helena, a quem +continuava a acalentar com a esperança de dias felizes passados na sua casa +nova.</p> + +<p>Nessa noite, porém, a demora foi curta.</p> + +<p>Allegando uma forte enxaqueca que o tinha apoquentado todo o dia, retirou-se +e recolheu a casa<span class="pn">{118}</span> onde, fincando os cotovellos +sobre a meza, metteu a cabeça entre as mãos, e scismou mais de uma hora.</p> + +<p>Parece que não tirou resultado da sua meditação—que era antes uma +catadupa de pensamentos que se amontoavam no seu cerebro—porque, +levantando-se mal humorado, pôz-se a passear agitado na sua sala de pavimento +terreo.</p> + +<p>Outra hora assim passou n'estes curtos passeios que, ligados, dariam para +cima de uma boa legua, até que resolveu deitar-se.</p> + +<p>Se dormiu ou não, é que ainda não sei. Elle o dirá ámanhã ao seu amigo +Neves.</p> + +<p>—Diabos te levem, dizia elle entrando, logo de manhã cêdo, no alpendre +do visinho que, ao vêl-o entrar assim esbafurido, ficou com o machado, com que +escavacava uma acha, levantado no ar—diabos te levem mais a lembrança que +tu tiveste!</p> + +<p>O filho da tia Maria das Neves poisou o machado no chão, e, appoiando sobre +o cabo as mãos, ficou a olhar para o brazileiro, sem pestanejar, como quem não +comprehendia nada do que ouvia; até que, passados momentos, perguntou, meio +parvo, ao brazileiro que passeava apressado d'um lado para o outro no alpendre, +retorcendo com uma das mãos o bigode:</p> + +<p>—Que lembrança?!</p> + +<p>O brazileiro parou, e, olhando para o Neves, respondeu mal humorado.</p> + +<p>—Essa lembrança maldita que tu tiveste de eu ir perseguir essa +rapariga que, afinal, estava mais pura que a tua lingua e as de toda essa +canalha que dizia mal d'ella!</p> + +<p>E continuou a passear agitado d'um lado para o outro.</p> + +<p>O Neves abriu os olhos e a bocca de espantado, meio aparvalhado, e, depois +de seguir machinalmente<span class="pn">{119}</span> com a vista, durante um +bom meio minuto, os movimentos do brazileiro, gaguejou:</p> + +<p>—Mas... Vossa senhoria falla sério?!...</p> + +<p>—Antes não fallasse! resmungou o sr. Velloso, como fallando comsigo, e +collocando, sem interromper a sua marcha, as mãos atraz das costas.</p> + +<p>Seguiu-se um silencio egual, em que apenas se ouvia o ruido dos passos do +brazileiro caminhando no pavimento terreo do alpendre.</p> + +<p>O Neves tornou a interromper o silencio, perguntando:</p> + +<p>—De maneira que a rapariga... não...</p> + +<p>—A rapariga estava honrada como as mais honradas! É o que é!</p> + +<p>Novo silencio. Foi ainda o Neves quem o interrompeu, dizendo n'uma especie +de lamuria, muito pausado e sentencioso:</p> + +<p>—Ora vejam vocês como ás vezes uma pessoa padece injustamente!... Quem +havia de dizer!... Que ella tinha sido esta, tinha sido aquella, que se portava +assim, se portava assado!... Já me não torno a fiar em nada que se diga!</p> + +<p>—Pois se tu assim tivesses feito!...</p> + +<p>O Neves calou-se áquella observação, feita á maneira de censura.</p> + +<p>«Effectivamente, pensava elle comsigo, eu é que fiz mal em o metter em +contradanças! Mas... sêbo! Eu não sabia! Nem tenho culpa do que se dizia! Sou +culpado e não sou!... Mas... que raio de historia! Que diabo de mal tem isso?» +</p> + +<p>Foi sob a influencia d'esta ultima reflexão, que quebrou de novo o silencio, +dizendo resoluto:</p> + +<p>—Afinal... vossa senhoria está para ahi com uns taes incommodos por +causa d'uma coisa que não presta para nada! Deshonrou a rapariga, +acabou-se!<span class="pn">{120}</span> Uma coisa muito natural! Vossa senhoria +tambem ficou deshonrado?</p> + +<p>O sr. Velloso parou, e, olhando para o visinho, retrucou:</p> + +<p>—Tu é que não sabes as coisas. Não é a deshonra que me incommoda! Já +não é a primeira, nem a segunda, nem... eu sei lá! O diabo é que a nenhuma fiz +promessa, sob minha palavra d'honra, de casar, caso a encontrasse pura, senão a +esta. E eu, o que mais prezo neste mundo, é a minha palavra. Depois, ainda que +não fosse isto, bastava só o remorso de lançar no desespero esse bello rapaz, +sem necessidade nenhuma. Tudo por causa d'essas malditas linguas, que +precisavam ser arrancadas, todas as vezes que se põem a fallar da vida alheia! +</p> + +<p>—Oh! senhor! Mas então...</p> + +<p>—Então, o quê?</p> + +<p>—Quero eu dizer que...—replicou o Neves coçando na cabeça, +contrariado—que, se não quer faltar á sua palavra...</p> + +<p>—Sim: e a outra?</p> + +<p>E voltou a passear.</p> + +<p>—A outra?! Tambem lhe deu a palavra d'honra?</p> + +<p>—Não lhe dei a palavra d'honra, mas jurei-lhe por Deus que lhe havia +de dar a felicidade, respondeu o brazileiro com voz abafada, sem se deter no +seu passeio. E accrescentou—Além d'isso, a essa amo-a devéras!</p> + +<p>O Neves, perplexo, olhava para o chão, sempre com as mãos appoiadas no cabo +do machado.</p> + +<p>—Na verdade, foi uma dos diabos!... E agora, que tenciona vossa +senhoria fazer?</p> + +<p>—Eu sei lá! Tenho dado voltas á mioleira, que nem sei como não +endoideci. Esta noite, quasi que<span class="pn">{121}</span> nem preguei ôlho. +Se pudesse casar com ellas ambas, casava.</p> + +<p>—Mas o melhor é chamal-as a um accôrdo, e não casar com nenhuma...</p> + +<p>—Qual accôrdo, nem meio accôrdo! És pateta, homem! Bem se vê que não +tens pratica nenhuma de mulheres. Engalfinhavam-se uma na outra, que era o cabo +dos trabalhos.</p> + +<p>—Que diabo! Se se pudesse chamar essa gente toda a um accôrdo... +Contar-lhe tudo, a bôa intenção que vossa senhoria tinha de salvar o rapaz da +deshonra... finalmente, um accôrdo é que servia. Vossa senhoria está contra +isso, mas é cá a minha ideia, e talvez désse resultado. Porque, combinadas as +coisas, tudo ficava em casa, e...</p> + +<p>O sr. Velloso parou, e reflectiu; depois respondeu:</p> + +<p>—Parece que dizes bem. Contarei primeiramente á Helena o succedido. É +uma facada que lhe dou no coração, mas que se ha-de fazer? O diabo é para o +contar ao irmão. É capaz de matar a outra.</p> + +<p>—Levando-o por bem, não faz nada. É um pobre diabo!</p> + +<p>—Bem. Não ha remedio senão fazer isso. Esta só pelos demonios!</p> + +<p>—Não foi das melhores, não, sr. Velloso.</p> + +<p>—Porque afinal, mesmo que eu deixasse a Maria Luiza, o rapaz, vindo a +saber depois a traição d'ella, levava-se dos diabos! Bom: vou até casa. Foste o +culpado de tudo isto; mas, como foi na tua ignorancia, perdôo-te. Senão, tinhas +de desemaranhar a meada.</p> + +<p>—Oh! senhor! Pois eu... estava convencido, porque era tudo cheio! E +ainda estou a pensar num caso: como diabo é que o João da Alamêda se +conteve,<span class="pn">{122}</span> indo lá a casa todas as noites... Tareco +impossivel! Mas... ó senhor Velloso! Vossa senhoria não se enganaria?</p> + +<p>O brazileiro sorriu-se como um individuo que, perito num assumpto, ouve uma +objecção; e, retirando-se, observou:</p> + +<p>—Pensas que nasci hontem...</p> + +<p>O Neves riu-se por sua vez; e, já sósinho, monologou, respondendo á +observação do Velloso:</p> + +<p>—Sim... Deves estar mais pratico nessas coisas do que eu...</p> + +<p>E, levantando o machado, continuou a sua tarefa.<span +class="pn">{123}</span></p> + +<h2><a name="SECTION001140">XIV</a></h2> + +<p>No mesmo dia, á tardinha, no campo, o João da Alamêda gradava uma terra que, +durante o dia, tinha lavrado. Lançara-lhe a semente e procedia, com a grade, á +cobertura dos grãos.</p> + +<p>Á frente do gado andava Paulo, de aguilhada ao hombro, com a sóga numa das +mãos.</p> + +<p>O tempo continuava claro e sereno.</p> + +<p>O immenso tapete de flôres que se estendia no campo apresentava já, de onde +a onde, uma interrupção: aqui e alli, uma terra, resolvida, sobresaía no meio +d'aquella superficie florida como no azul do ceu uma ou outra nuvem pardacenta. +</p> + +<p>É neste mez que o campo se despe do seu variegado tapete de flôres: mas, em +substituição, cobre-se d'uma camada de milho verde que, agitado pelas brizas, +nos dá a ideia d'um extenso e placidissimo lago mansamente encrespado pelo +vento brando. E no meio d'esse pittoresco lago de verdura—permittam-me a +expressão—apparecem, de onde a onde, como bandos de cysnes, ranchos +alegres de rapazes e raparigas; elles, despidos dos casacos, com as camisas +brancas a lusir entre o verde dos milharaes; ellas, de lenços garridos +amarrados graciosamente em volta da nuca fluctuando ao sopro da aragem; todos +cantando, sacham o milho pequenino e tenro, desde o despontar do sol até ao +crepusculo da tarde. Á hora da sesta, depois da refeição do meio dia sorvida á +sombra deliciosa dos salgueiraes, uns estiram-se<span class="pn">{124}</span> +para dormitar sobre a relva mimosa, outros, collocando-se em circulo, jogam +qualquer jogo de regaço, sempre em alegria e folgança honesta; e ainda outros, +mais irrequietos e folgazões, saltam para um d'esses bateis que se encontram a +cada passo atracados ás margens do Vouga, e vão passear pelo rio.</p> + +<p>O João da Alamêda terminou a sua tarefa ao pôr do sol. Collocaram a charrúa +e a grade sobre o carro, jungiram as vaccas, e pozéram-se a caminho de casa, +Paulo á frente, guiando o carro, e João atraz.</p> + +<p>Ao passar á porta da Maria Luiza, João olhou para a janella onde ella, todas +as tardes, costumava estar, e não a viu.</p> + +<p>—Está talvez lá para o quintal, pensou. Pois vou fazer-lhe uma +surpreza! </p> + +<p>E, com um sorriso do satisfação, metteu por uma cancella contigua á casa, pé +ante pé, esperando encontral-a e rir-se de a vêr surprehendida.</p> + +<p>Espreitou para dentro e não viu ninguem. Machinalmente, entrou no pequeno +quintal, e parou. Viu a porta, que dava para a cozinha, aberta, e dispunha-se a +entrar, quando lhe pareceu ouvir um sussurro de vozes vindo d'um pequeno +alpendre que estava ao lado do quintal.</p> + +<p>—Ah! Está ali mais a mãe. Pois vou metter-lhes um sustosinho.</p> + +<p>E dirigiu-se para lá, com precaução, para não ser presentido.</p> + +<p>O alpendre era constituido por um telheiro formado de duas paredes: a do +fundo, e a lateral, que era a mesma da cozinha, e no angulo opposto ao formado +por estas duas paredes havia um pilar construido de lages. Os vãos entre o +pilar e as paredes estavam vedados por taipaes de madeira. Num destes<span +class="pn">{125}</span> havia uma porta, e João ficou um tanto surprehendido ao +vel-a fechada, devendo ser mãe e filha que lá estavam. Mas, de subito, percebeu +que uma das vozes era de homem, ao mesmo tempo que o seu coração começou a +pulsar precipitadamente. </p> + +<p>Avançou até junto da porta, e escutou.</p> + +<p>Ouviu a voz de Maria Luiza, compungida, que dizia:</p> + +<p>—Sr. Velloso! Que Deus me perdôe o passo que dei! D'hontem para cá, +tenho chorado talvez mais lagrimas que em todo o resto da vida. Eu não devia +fazer o que fiz. O remorso pesa-me na consciencia duma maneira que não me deixa +socegar o espirito.</p> + +<p>João da Alamêda agarrou-se com uma das mãos a um barrote, e com a outra +esfregou os olhos, como querendo certificar-se de que realmente não sonhava. +Livido, os labios tremulos, conservou-se no seu posto a ouvir a mesma voz que +proseguia:</p> + +<p>—Deve comprehender a infelicidade que me espera, se acaso não tiver +piedade de mim, se não cumprir o juramento que me fez!</p> + +<p>—Nada mais prezo neste mundo que a minha palavra, Maria, respondeu a +outra voz, a do brazileiro.</p> + +<p>—Infames! murmurou, com os punhos cerrados, o João, luctando no seu +intimo contra a tentação de arrombar aquella porta. Homem infame, e infame +mulher! E, voltando-se, desvairado, com os punhos apertando a cabeça, +cambaleando, murmurava:</p> + +<p>—É assim que pagas tantos sacrificios que fiz por ti, mulher ingrata?! +Tanta dedicação, tanto amôr?!...</p> + +<p>E, chorando como uma creança, olhou mais uma vez para o alpendre. Depois, +como tomando uma resolução, continuou:</p> + +<p>—Não! Não quero manchar as mãos no sangue<span class="pn">{126}</span> +d'um bandido! Que ganho com isso? E, como um ébrio, voltou pelo caminho que +tinha tomado.</p> + +<p>Era quasi noite, e perto da casa de Maria passou pela mãe d'esta, cuja +saudação não ouviu.</p> + +<p>Alguns homens que, de volta do trabalho, recolhiam a casa, e algumas +mulheres, de cantaro á cabeça, davam-lhe as boas noites, que elle não +retribuia.</p> + +<p>Tinha sempre, para cada saudação, um dito gracioso acompanhado d'um sorriso; +e d'aquella vez passava como um desvairado, o passo vacillante e apressado.</p> + +<p>Ficavam-se a olhar para elle por momentos; depois, encolhendo os hombros, +continuavam o seu caminho.</p> + +<p>João, quando chegou a casa, não tratou de vêr, como era seu costume, se o +gado estava recolhido e os utensilios de lavoura que tinham servido nesse dia +estavam acondicionados. Entrou na cozinha, deu sorumbaticamente as boas noites, +pediu que lhe levassem ao quarto uma escudella de agua mórna para lavar os pés, +e, allegando uma violenta dôr de cabeça, despediu-se do pae e recolheu á +alcova.</p> + +<p>—Queres que te traga a ceia, João? perguntou-lhe Helena quando lhe foi +levar a agua.</p> + +<p>—Não; não quero. Não me appetece comer.</p> + +<p>—Eu não sei o que tens, João! O Paulo diz que não te tinhas queixado +no campo de incommodo nenhum. Diz que só se foi que te désse pelo caminho: que +ficaste atraz...</p> + +<p>—Pois foi no caminho. Olha, vou dizer-te uma coisa, que talvez te não +seja muito agradavel, embora pretendas negal-o...</p> + +<p>—Que é? perguntou Helena com anciedade.</p> + +<p>—É o seguinte: mas digo-to só a ti, para não causar barulho, porque és +tu só quem pode fazer o que te peço.<span class="pn">{127}</span></p> + +<p>E, esforçando-se por dar serenidade á voz que lhe tremia, proseguiu:</p> + +<p>—Esse brazileiro, esse maldito brazileiro que ahi costuma vir, que +nunca mais aqui appareça!</p> + +<p>—Ah! pois tu...—perguntou Helena, meia aterrada. Não queres +que...</p> + +<p>—Sim! Que não volte cá mais, para evitar alguma desgraça!</p> + +<p>—Ó João! Mas... dize lá: como o soubeste?!—E, entre a anciedade +e a surpreza, repetiu—Como o soubeste?!</p> + +<p>—Como o soube?! Oh! Essa é boa! Então, pelo que vejo, tu sabial-o, +e...</p> + +<p>—Então vistel-o sair?!...</p> + +<p>—Diabo! Estás a modos... Mas se eu vi o quê?!</p> + +<p>—O sr. Velloso... Como não queres que elle cá volte, para evitar +alguma desgraça...</p> + +<p>—Pois vi! E tu sabial-o, e não m'o tinhas dito!</p> + +<p>—Se eu o sabia?! Mas eu não te percebo nem tu percebes a mim!</p> + +<p>—Tambem me parece. Mas tu perguntaste-me se eu o tinha visto sair. +D'onde? </p> + +<p>—D'alli, do alpendre. Pois tu ainda agora disseste tambem que sabias +tudo e que tinhas visto...</p> + +<p>—Sim... Era isso o que eu queria dizer... E, abafando a colera que, +contra o brazileiro, a revelação da irmã lhe suscitara, disse:</p> + +<p>—E é por isso que eu não quero que elle aqui volte mais. Vae-te +embora, que não paro da cabeça.</p> + +<p>—Passa bem a noite, João. Até ámanhã.</p> + +<p>—Até ámanhã. E não digas nada disto a ninguem.</p> + +<p>—Descança.</p> + +<p>João, ao ficar só, sentiu que tinha febre.</p> + +<p>Atravez das suas ideias em desordem, só dois<span class="pn">{128}</span> +vultos divisava distinctos: Velloso e Maria Luisa. Elle, o ladrão da sua noiva, +o roubador da felicidade do seu coração, e, para epilogo de tanta malvadez, o +pretendente roubador da... O Pretendente?! Quem sabe?! E esta ultima observação +saiu-lhe distinctamente expressa por palavras, tal foi o abalo que sentiu +dentro em si. </p> + +<p>—Ah! Infame! Não! Tu não has-de ficar impune! Hei-de castigar-te de +tanta malvadez! Miseravel!...</p> + +<p>E, fazendo depois incidir o pensamento sobre a ingrata que calcara tão +desapiedadamente aos pés o seu verdadeiro amôr, a sua dedicação extrema, +atirou-se, soluçando convulsivamente, sobre a cama, chorando como uma creança. +</p> + +<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br> +* *</p> + +<p>Nessa noite, Helena prevenia o brazileiro de que era preciso muita cautella +com o irmão, que o tinha visto sair d'alli.</p> + +<p>—Temo até que elle venha por ahi ainda hoje, Joaquim! Diz que está com +uma forte dôr de cabeça; mas, ainda assim...</p> + +<p>E o sr. Velloso, que vinha disposto a relatar a Helena os acontecimentos +que, desde a véspera, tanto o apoquentavam, achou mais conveniente addiar a +confidencia.</p> + +<p>—Mas quando hei-de voltar, Helena?</p> + +<p>—Não sei... É melhor deixarmos passar dias... O melhor, até, Joaquim, +era tu chegares ao pé de meu irmão e dizer-lhe: «descança, João, que a tua irmã +vae ser minha mulher». Oh! Joaquim! Quanto eu seria feliz!<span +class="pn">{129}</span></p> + +<p>—Por estes dias, não, Helena. O motivo, depois t'o direi. Mas confia +em Deus, e pede-lhe que nos auxilie para alcançarmos a felicidade.</p> + +<p>—Pedir a Deus? Pois Deus póde lá oppôr-se á nossa felicidade, Joaquim? +Deus deseja-o, e por isso não precisa que lhe peçam! Só se fôr para metteres a +mão na tua consciencia, e...</p> + +<p>—És louquiuha, meu anjo. Jureit'o. E que Deus me auxilie no +cumprimento do meu juramento.</p> + +<p>—Sim. Juraste-me que me havias de dar a felicidade. Queres então que +peça a Deus para que te auxilie no cumprimento de tal juramento?</p> + +<p>—Quero.</p> + +<p>—Pois bem: pedir-lhe-hei... O coração, porém, annuncia-me coisas tão +tristes!... Parece-me que nuuca serei feliz a teu lado, Joaquim!</p> + +<p>—Se Deus o consentir, has-de ser!</p> + +<p>—Mas eu não comprehendo bem as tuas palavras!...</p> + +<p>—Não disseste tu que era conveniente que eu me retirasse por causa de +teu irmão?</p> + +<p>—Sim; mas...</p> + +<p>—Mas é que o que te quero dizer, só poderei dizert'o com mais socêgo. +Ámanhã, venho cá e...</p> + +<p>—Não venhas... Ou antes: esconde-te ahi pela rua, ao largo, e só te +approximas se eu abrir a portaria. Então, é porque meu irmão não saiu.</p> + +<p>—Bem. Boa noite, Helena.</p> + +<p>—Adeus, Joaquim! Até... quando Deus quizer!<span +class="pn">{130}</span></p> + +<h2><a name="SECTION001150">XV</a></h2> + +<p>No dia seguinte, ao toque das almas, João da Alamêda envergava o seu capote +e, pegando no marmeleiro—seu inseparavel companheiro nocturno—saiu +de casa. Deu a volta á Herdade, no que gastou cerca de um quarto d'hora, e, na +volta, na estrada dos eucalyptos, se se tivesse affirmado bem para um ponto do +escuro das arvores, teria notado uma negrura mais densa. Fôra o Velloso que +escolhera aquelle ponto para seu posto de observação, donde se descortinava, +atravez da negrura daquella noite sem luar, o vulto da casa de Helena, +divisando-se no seguimento da estrada esbranquiçada e sobre o fundo do ceu +allumiado pelas estrellas.</p> + +<p>João passou e, proximo de sua casa, coseu-se com a escuridão do cômoro +fronteiro.</p> + +<p>O brazileiro, no seu posto, não ousava respirar mais fortemente.</p> + +<p>Um silencio sepulchral se seguiu. Nem um sussuro de vento se ouvia nas +folhas das arvores.</p> + +<p>Passou-se meia hora, e mais outra. As dez horas soaram, lentas e quasi +imperceptiveis, na torre de Eiról.</p> + +<p>Ás dez e meia, João saía do seu esconderijo e mettia-se em casa.</p> + +<p>Um quarto d'hora depois, o brazileiro punha-se tambem a caminho, e nada mais +se ouviu na estrada deserta.<span class="pn">{131}</span></p> + +<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br> +* *</p> + +<p>O sr. Velloso, com a preoccupação de espirito que lhe causaram estes +acontecimentos imprevistos, e consummido no seu intimo por não saber que +resolução havia de tomar, pois, emquanto não entrevistasse Helena acerca do +succedido, nada poderia resolvêr, faltou á entrevista na tarde do dia seguinte +a Maria Luiza.</p> + +<p>Esta que, no dia antecedente, occultava a sua mãe as lagrimas que o remorso +lhe fazia verter, chorava agora com ella as suas infelicidades, attribuindo a +causa das suas lagrimas á ausencia de João, cuja causa não comprehendia.</p> + +<p>Sua mãe acalentava-a, insuflando-lhe esperança no amôr de João que, se +faltara um dia, algum incommodo lhe sobreviera, porque na vespera, á hora das +Ave-Marias, encontrara-o proximo d'alli, quando elle voltava do campo, e não +respondera á sua salvação.</p> + +<p>—Sentia-se talvez incommodado..., accrescentava.</p> + +<p>—A mãe que diz?! Encontrou-o...</p> + +<p>—Encontrei-o alli acima.</p> + +<p>—Hontem?! E a que horas?... perguntou Maria com expressão de terrivel +anciedade.</p> + +<p>—Ao toque das Ave-Marias.</p> + +<p>E Maria, alanceada por uma suspeita que lhe opprimiu dolorosamente o +coração, occultou o rosto nas mãos, debulhando-se em lagrimas.</p> + +<p>A esse dia seguiu-se outro de crescente anciedade e soffrimento para Maria +Luiza, durante o qual nem fallar ouvia de Velloso, nem de João, de quem se +recordava com o coração amargurado e a alma mortificada pelo remorso.<span +class="pn">{132}</span> </p> + +<p>Sua mãe, que ignorava por completo a traição que sua filha perpetrara a +João, attribuia as lagrimas de Maria ao soffrimento que lhe devia causar a +ausencia de quem não tinha a menor noticia, porque não ousava interrogar +ninguem a seu respeito, para se não expor a algum riso ironico; e, não achando +outro remedio que pudesse alliviar a afflicção em que a via, resolveu, sem o +communicar á filha, ir a casa do tio Alamêda saber da saude de João, pois outro +motivo não podia haver que o impedisse de sair, senão a doença.</p> + +<p>Custava-lhe muito isso, mas, como João tinha já dito que seu pae não oppunha +obstaculo algum á affeição do seu coração, encheu-se de animo, e foi no mais +firme proposito de expôr ao tio Alamêda as razões imperiosas que obrigavam o +seu coração de mãe a dar aquelle passo, que ao terceiro dia, se dirigiu para +lá, eram dez horas da manhã.</p> + +<p>Encontrou o velho sentado no alpendre a aparar um pedaço de páu de sobreiro +para uma chavêlha.</p> + +<p>—Sr. José, Deus vos dê muito bom dia!</p> + +<p>—Muito bom dia, sr.ª Rita.</p> + +<p>—Deve admirar-se de me vêr por aqui, não é verdade?</p> + +<p>—Com effeito, é uma novidade. Ha que annos vocemecê cá não vem! E ha +que tempos tambem que a não vejo!</p> + +<p>—Não admira... Eu, passo a vida lá em baixo, quasi nunca venho cá para +cima...</p> + +<p>—E, nem que viesse, tambem me não veria facilmente. Eu não saio do meu +aido, porque já não posso, estou velho.</p> + +<p>—Está acabado. Velho não. Mas ao menos tem a consolação de viver em +socêgo, com os filhos ao pé de si, que lhe querem muito.<span +class="pn">{133}</span></p> + +<p>—Pois elles, coitados, não têm motivo para me quererem mal. Fiz por +elles o que pude...</p> + +<p>—Decerto. Foi sempre bom pae para elles. E elles, tambem, têm sido uns +bons filhos.</p> + +<p>—Graças a Deus... Não sairam dos peores, não senhora.</p> + +<p>—Olhe, sr. José: com'assim, para o não estar a maçar mais, vou +dizer-lhe o motivo que me trouxe aqui...</p> + +<p>—Dirá...</p> + +<p>—Sei que o sr. José não é desconhecedor da affeição do seu filho João +pela minha filha, e da grande generosidade que elle tem praticado para +comnosco, que Deus sabe o que seriamos agora se não fosse o seu bom +coração...</p> + +<p>—Sei. Elle, coitado, tem um bom coração, lá isso tem! Mas admitto-lhe +isso, porque, emfim, parece que a sua filha não é nenhuma ingrata que não +reconheça a dedicação d'elle, e não deixa de ser digna d'isso, apezar do que +para ahi diziam...</p> + +<p>—Linguas do mundo, sr. José! Linguas do mundo! Sabe como é o mundo, e +por isso...</p> + +<p>—Sim! O mundo inveja sempre a pouca sorte que um pobre tenha! Se é um +rico, quanto mais favorecido da sorte, mais venerado é. Emquanto que um +pobre...</p> + +<p>—Pois é isso mesmo. Ora, como eu lhe ia dizendo, o seu filho ganhou +uma grande affeição á minha Maria, e, até hoje, ha já sete mezes, faltou só +tres vezes á noite em minha casa, onde a vae visitar: foi na noite de +Natal—na noite de ceia—e hontem e ante-hontem. Como faltou estes +dois ultimos dias sem nós sabermos o motivo, a rapariga tem-se lá desfeito em +chorar, que até me retalha o coração.<span class="pn">{134}</span></p> + +<p>—Pois olhe que eu não sei o motivo...</p> + +<p>—Então elle não está doente?!</p> + +<p>—Não. Ante-hontem á noite é que, ao chegar do campo, queixou-se d'umas +fortes dôres de cabeça, e foi-se deitar sem ceia. Mas hontem, logo de manhã, +levantou-se e foi para o trabalho.</p> + +<p>—Sim?!</p> + +<p>—É verdade.</p> + +<p>E a mãe de Maria Luiza teve de retirar-se, mais preoccupada ainda do que +viera, não comtudo sem pedir ao velho que expozésse ao filho a anciedade de sua +filha, que não podia adivinhar a causa de tal procedimento.</p> + +<p>Quando, ao meio dia, João e Paulo chegaram, de enxada ao hombro, do +trabalho, o pae chamou João ao alpendre e participou-lhe que a mãe de Maria +Luiza tinha ido havia pouco tempo d'alli, onde tinha vindo, muito contristada, +saber a razão porque ha dois dias elle não dava parte de si á filha que outra +vida não fazia senão chorar.</p> + +<p>—Sim? perguntou, ironicamente João. Coitada! Pois que chore, que +quanto mais chorar menos urina! A mãe quer saber a razão porque lá não vou? +Pois que o pergunte á filha, que o sabe tão bem, ou melhor, que eu!</p> + +<p>—Vê lá, João! Não sejas injusto. Deixar-te-hias agora por ultimo levar +por contos...</p> + +<p>—Não, meu pae. Tenho muita razão para assim proceder, e outro, no meu +logar, procederia d'outra fórma.</p> + +<p>E o tio José, por sua vez, ficou tambem impressionado com as palavras do +filho, sem outra conclusão ter tirado que a suspeita de qualquer acontecimento +grave que viesse transtornar a felicidade d'aquelles dois seres que tanto se +amavam.<span class="pn">{135}</span></p> + +<p>Nesse dia, á tardinha, um mendigo entregava occultamente uma carta a Helena. +</p> + +<p>Esta, em virtude dos acontecimentos que a impediam ha tres dias de fallar +com Velloso, e preoccupada, além d'isso, com as palavras d'elle, cuja +significação não alcançava e traziam o seu coração amargurado por uma terrivel +angustia, tinha emmagrecido.</p> + +<p>O corpo resente-se do soffrimento da alma. Recalcando no seu intimo a dôr +que a pungia, esse esforço ia a pouco e pouco affectando-a phisicamente. Uma +unica consolação encontrara para a mágua: as lagrimas—esse terno +confidente dos infelizes—que vertia a sós na reclusão da sua alcova, que +lhe alliviavam as amarguras do coração mas lhe desbotavam as côres do rosto e +tarjavam de roxo as cavidades dos olhos.</p> + +<p>Foi num mal dissimulado alvoroço intimo que recebeu das mãos do mendigo a +carta, vinda da parte de Velloso.</p> + +<p>Correu ao seu quarto e leu:</p> + +<p>«Minha querida Helena: Ha tres dias que passo uma vida tão cheia de +tristezas, que não podes imaginar. Na esperança de te fallar, todas as noites +vou pôr-me á espreita da tua casa, a vêr se vejo abrir-se essa portaria que é +para mim a porta do ceu. Em vez, porém, de te vêr apparecer como o meu anjo +salvador, vejo teu irmão, que me espia, esconder-se na escuridão do muro +fronteiro, e, depois de, durante cerca de duas horas de cruel espectativa, me +conservar no meu posto de observação, vejo-o retirar-se.</p> + +<p>Á minha tristeza motivada por te não vêr, junta-se a anciedade que tenho de +te communicar um segredo. Este é de tanta importancia, minha Helena, e vae, com +certeza, ferir de tal modo o teu coração<span class="pn">{136}</span> bondoso, +que até receio de o confiar a uma carta. Mas farei as diligencias para que esta +chegue ao seu destino; e, visto que não tenho outro meio de communicar-t'o, +principio, pedindo-te que conserves a maior presença de espirito e confies em +Deus para que não te faça desanimar á vista do que vaes lêr.</p> + +<p>Quando cheguei do Brazil a esta terra, corriam por ahi uns boatos a respeito +de teu irmão que se apaixonara por uma rapariga chamada Maria Luiza, que eu não +conhecia. Dizia-se que ella fôra uma mulher leviana, e que por isso não era +digna da dedicação de teu irmão, um rapaz querido e estimado de toda a +freguezia; que este perdia muito no seu conceito se casava com ella, segundo +constava. Como não me interessava com o caso, apenas lamentei a sorte de teu +irmão, com quem eu não tinha relações.</p> + +<p>Depois, porém, que te conheci, que te comecei a amar com este amôr louco que +te dedico, pensei no caso, e achei que era necessario, para honra d'elle e +minha, porque era irmão da minha noiva, affastal-o do caminho errado que +trilhava. Resolvi eu proprio ser o seu anjo salvador. Convencido como estava, +pelos boatos que corriam, de que Maria Luiza tinha sido uma fraca mulher, e que +agora se mostrava outra para conservar teu irmão na illusão em que andava, +resolvi que ella resvalasse ao lodoçal d'outrora, para que teu irmão, abrindo +os olhos, visse a desgraça que estivera imminente de si.</p> + +<p>Consegui, com effeito, graças ás minhas promessas, o meu intento. Jurei-lhe +até que casaria com ella, se ella estivesse isenta das manchas de que a +accusavam. E... cruel decepção! Maria Luiza estava pura, tão pura como tu, +minha Helena, quando...»</p> + +<p>Helena, que com difficuldade levara a leitura da carta até este ponto, +sentiu uma nuvem toldar-lhe<span class="pn">{137}</span> a vista e, +amarfanhando a carta, caiu de bruços sobre o leito num chôro convulsivo, +murmurando em delirio, a voz cada vez mais apagada:</p> + +<p>—A lua estava tão triste!... Um môcho, a piar mais triste, fez-me +calafrios... E elle jurou-me que eu havia de ser feliz, muito +feliz!...............</p> +<hr class="dotted"> + +<p>Quando voltou a si, o medico, com a sua peculiar expressão de bondade, +tacteava-lhe o pulso, e ella, deitada no leito, olhou em roda, com olhar +ancioso, e perguntou ao pae, sentado á cabeceira da sua cama:</p> + +<p>—Pae?... A carta?...</p> + +<p>—Está aqui, minha filha. Socéga. A agitação faz-te mal; não é verdade, +sr. doutor?</p> + +<p>—É verdade. Ella quer muito socêgo de espirito. É o unico remedio que +lhe receito.</p> + +<p>—É coisa de cuidado, sr. doutor? perguntou, profundamente commovido, o +velho.</p> + +<p>—Não. Não vale de nada. Ámanhã pode levantar-se. Mas has-de estar +muito socegadinha hoje, ouviste?</p> + +<p>Quando o medico se retirou, Helena perguntou ao pae:</p> + +<p>—Leu essa carta, meu pae?</p> + +<p>—Filha da minha alma, não ouviste o que disse o senhor doutor? Não te +preoccupes com a carta, porque te faz mal. Socéga...</p> + +<p>—Estou boa, meu pae. Alem d'isso estou resignada. Pareceu-me ouvir em +sonhos uma voz que me animava e que me dizia que ia ser muito feliz: mas que +era preciso abandonar o mundo, porque a verdadeira felicidade não é aqui. Já vê +que não agito o espirito a modos de me fazer mal.<span +class="pn">{138}</span></p> + +<p>—Mas não falles mais n'isso. Ámanhã fallaremos e...</p> + +<p>—O pae leu a carta toda?</p> + +<p>—Li... Quiz saber o motivo do teu desmaio... e até quem a leu foi o +João. </p> + +<p>—O João?! E que disse?!</p> + +<p>—O João está socegado. Está na cozinha. Mas peço-te por amôr de Deus +que não falles mais nisso hoje.</p> + +<p>E, pegando-lhe numa das mãos, acariciou-lh'a, emquanto, com as lagrimas nos +olhos, dizia:</p> + +<p>—Faz-me a vontade, sim, filha?...</p> + +<p>Helena prometteu: mas pediu-lhe ainda que queimasse a carta, cuja leitura +não queria terminar. O pae fez-lhe a vontade.<span class="pn">{139}</span></p> + +<h2><a name="SECTION001160">XVI</a></h2> + +<p>Levantou-se na aldeia uma celeuma contra o brazileiro, que, no dizer de toda +a gente, era um seductor de donzellas.</p> + +<p>Dois dias volvidos sobre os ultimos acontecimentos, durante os quaes o +brazileiro não abandonara á noite o seu posto de observação, toda a freguezia, +conhecedora dos successos que elle causara, augmentados, naturalmente, pela +phantasia popular, murmurava indignada contra esse homem que viera, com a +presumpção do seu dinheiro, interromper a paz e o socego da aldeia e lançar a +desgraça no seio d'uma tão boa e santa gente.</p> + +<p>A propria Maria Luiza, o espirito do mal até ahi, passou a ser a pobre +avesinha da silveira arrebatada nas garras do gavião.</p> + +<p>Nos dois dias que se seguiram áquelle em que Helena recebeu a carta de +Velloso, este, á mesma hora, fôra para o mesmo ponto da alameda dos eucalyptos, +na esperança de que Helena, quando o irmão desistisse de o perseguir, +apparecesse á porta.</p> + +<p>Porém, naquellas duas noites seguintes, a decepção do brazileiro foi +indizivel, quando não viu apparecer João a vigial-o, nem tão pouco Helena dava +signal de si.</p> + +<p>—Que se terá passado?... pensava, ao retirar-se.</p> + +<p>Os dias passava-os em sua casa e na do visinho,<span class="pn">{140}</span> +que lhe communicava as impressões que a seu respeito occupavam o espirito +popular.</p> + +<p>Era a unica pessoa com quem o brazileiro tinha conversas d'este theor: nem +sua propria mãe, que ás vezes lhe queria manifestar os seus queixumes da vida +lamentavel que elle levava, obtinha licença para lhe tocar nesse ponto.</p> + +<p>Elle começou a sentir remorsos da sua conducta.</p> + +<p>Receando os olhares estranhos como se ejaculassem raios de um fogo +devorador, elle não se atrevia mesmo já a apparecer na presença dos obreiros +que se occupavam na construcção da sua nova habitação.</p> + +<p>—Ó senhor Velloso! dizia-lhe o Neves chegando esbafurido na manhã do +terceiro dia. Uma novidade de alta importancia: o Alamêda ficou sem filho +nenhum em casa! Ficou com elle o moço, mais aquella rapariga que lá tem, filha +do fallecido João da Junqueira, e dizem que vão casar para ficar na companhia +do velho...</p> + +<p>Mas o Neves achou inutil continuar, a não ser que quizesse fallar para as +paredes, porque o brazileiro, a meio do discurso, rodou nos calcanhares, e, +como um ébrio, sem dizer palavra, deixou o visinho embasbacado a olhar para +elle, fallando comsigo:</p> + +<p>—Mas onde diabo irá elle?... Pois sim! Vae depressa que ainda vaes a +tempo! Onde irão elles já!</p> + +<p>E depois, como um individuo que reflexiona com acerto, disse com ar de +presumpção:</p> + +<p>—Ora ahi está para que diabo serve o dinheiro! Se elle fosse pobre +como eu, succedia-lhe isto? Olha lá se eu me incommodo com nada! Não tenho +dinheiro; assim, as mulheres não esperam nada de mim, por isso não deito a +perder ninguem! Nem me perco a mim!...<span class="pn">{141}</span></p> + +<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br> +* *</p> + +<p>O brazileiro, como um allucinado, penetrou no páteo do tio Alamêda.</p> + +<p>Parou, olhou em roda, e não viu ninguem. Chorou então ao vêr-se só n'aquelle +recinto, onde cada objecto despertava na sua memoria uma saudade do dia em que +pela primeira vez alli entrou, e arrancava ao seu coração uma gotta de sangue +que lhe assomava aos olhos transformada n'uma lagrima.</p> + +<p>A porta da casa estava fechada; e elle, não podendo resistir á desolação do +seu coração, sentou-se no tronco d'uma oliveira que estava estendido no pateo. +Appoiou a fronte sobre as mãos e deu curso ás lagrimas que lhe affluiam aos +olhos..............</p> +<hr class="dotted"> +<hr class="dotted"> + +<p>Meia hora depois, sentia que lhe tocavam n'um hombro.</p> + +<p>Olhou, e viu na sua frente, ao pé de si, o tio Alamêda, a olhal-o com um +olhar velado por uma profunda angustia e cheio de ternura.</p> + +<p>Instinctivamente, estendeu para o velho os braços e cingiu-lhe os joelhos, +proferindo estas palavras com desalento:</p> + +<p>—Perdão! Perdão para um infeliz!</p> + +<p>O velho, tentando erguel-o, disse, com as lagrimas rolando pelas faces +enrugadas:</p> + +<p>—Levante-se! Que Deus lhe perdôe, assim como eu lhe perdôo.</p> + +<p>O brazileiro ergueu-se, e, com voz trémula o angustiada, perguntou:</p> + +<p>—Helena para onde foi?!<span class="pn">{142}</span></p> + +<p>—Helena foi procurar a felicidade que o senhor lhe não podia dar. +Morreu para mim e para o mundo.</p> + +<p>—Para um convento?!...</p> + +<p>—É verdade! E meu filho partiu na companhia d'ella com tenção de +embarcar para o Brazil. Acompanhou-os o nosso bom e santo prior, que prometteu +internal-a n'um recolhimento.</p> + +<p>—Oh! Isto e cruel!</p> + +<p>—Sim! É cruel, para um pae que, d'um instante para outro, se vê +privado da companhia de seus dois queridos filhos. Um, para nunca mais voltar. +Outro... quem sabe?! Talvez tambem para nunca mais me tornar a vêr, nem voltar +a esta casa onde viveu vinte e cinco annos tão feliz e contente!</p> + +<p>Os dois choravam. O brazileiro não ousou interromper as lamentações do +velho, que proseguia:</p> + +<p>—O senhor está vivo graças ás minhas lagrimas que puderam conter o +braço armado de meu filho. Agora, que Deus o reservou, não queira continuar na +sua senda de opprobios por onde tem caminhado. Ainda pode compensar uma parte +d'esta serie de infelicidades que causou. Arrependa-se do passado, e faça por +esquecel-o com um futuro glorioso. Eu, pela minha parte, perdôo-lhe; Helena, +que tem um coração d'oiro, tambem lhe perdoará, e meu filho da mesma maneira. +Falta só Deus. Para conquistar o seu perdão, faça o que eu já lhe disse: salve +o passado com o futuro.</p> + +<p>—Mas Helena... como poderei obter o seu perdão, se...</p> + +<p>—Deus lhe transmittirá a sua prece. Não precisa de o ouvir, para +lançar sobre a sua memoria o perdão que se concede ainda aos maiores +criminosos.</p> + +<p>O brazileiro estendeu ao velho a mão, e, com firmeza e resolução, +disse:<span class="pn">{143}</span></p> + +<p>—Aperte esta mão: é a mão de um rehabilitado.</p> + +<p>E, conservando apertada na sua mão mimosa a mão rugosa do velho, continuou, +com voz pausada:</p> + +<p>—Fui criminoso; mas fui um criminoso inconsciente. Farei como o senhor +me diz e como me dicta a minha consciencia, procurando no futuro regenerar-me +do passado. Se, até aqui, o meu dinheiro tem sido olhado como um instrumento +criminoso para eu conseguir fins vergonhosos e deshonestos e como uma base +tôsca sobre a qual eu edificava, sem olhar para o berço pobre onde nasci, o meu +castello de opulencia, quero que para o futuro seja olhado como um maná celeste +que, descendo ao seio da miseria, vá mitigar a angustia dos necessitados. Quero +que elle seja a alavanca que me erga do lodaçal em que me sepultei. Já que eu, +nascido na pobreza, tive a sorte de me elevar de modo a poder estender as azas +na mesma camada atmospherica onde os ricos se libram sem lançar um olhar para +baixo a contemplar, com olhos de piedade, as luctas cruciantes da miseria, eu +quero, então, descer d'essa altura para penetrar nos tugurios pestilentos, nas +espeluncas, para alimentar quem tem fome, aquecer quem tirita de frio, e seccar +as lagrimas de quem chora.</p> + +<p>O velho abraçou-o commovido, e accrescentou:</p> + +<p>—E d'esse modo será amado dos homens e abençoado de Deus; e subirá +mais alto, muito mais alto do que aquelles que, conservando-se lá em cima, não +lançam um olhar de misericordia cá para baixo!<span class="pn">{144}</span></p> + +<h2><a name="SECTION001170">CONCLUSÃO</a></h2> + +<p>Tres annos depois erguia-se, no sopé d'um outeiro de suave declive, uma casa +de apparencia sumptuosa, dominando, como uma rainha, a planicie que, semeada de +casinhas pobres de lavradores, se estendia na sua frente.</p> + +<p>O outeiro era revestido em toda a volta do seu sopé por pampanos verdes de +vides que o engrinaldavam como uma immensa corôa de verdura que estremecia sob +o sopro da viração; e no seu planalto estendia-se um pinheiral de pinheiros +miudos e distanciados que cresciam por entre um tapete de urzes floridas, +dando, visto de longe, a ideia de um jardim suspenso de Babylonia.</p> + +<p>Edificada na face oriental da falda, aquella casa, afagada logo de manhã +pelos raios alegres do sol despontando ao longe por detraz da serra do +Caramulo, bafejada pela amenidade da natureza sorridente que a cercava, parecia +uma d'aquellas vivendas phantasticas que nós, quando fomos pequenos, anteviamos +atravez da nossa imaginação infantil, excitada pela narração d'um conto de +fadas ou de princezas encantadas que nossa avó nos contava ao serão.</p> + +<p>Todos os dias, á tardinha, quando o ceu era claro e a atmosphera limpida, e +o sol pendia esmorecendo para o ocaso, um casal saía d'aquella vivenda e ia +passear pelas veredas do outeiro, contemplando, ditoso, as varzeas sorridentes +por onde serpéa o poetico Vouga.<span class="pn">{145}</span></p> + +<p>Ao passar por elle, os aldeãos descobriam-se respeitosos e cheios de +acatamento, envolvendo-o n'um olhar dôce de sympathia e veneração, e ás vezes +ficavam-se a contemplal-o com expressão de intimo jubilo até o verem +desapparecer na curva de um atalho.</p> + +<p>Nunca um mendigo se lhes approximava que não voltasse com aspecto +sorridente, pronunciando palavras de agradecimento.</p> + +<p>—São uns santos! São uns santos! murmuravam sempre ao affastarem-se. +Deus lhes pague no ceu o bem que fazem, cá no mundo!</p> + +<p>Egualmente a porta da casa se conservava sempre aberta para mitigar a fome, +a sede ou o frio dos necessitados, e muitas vezes, depois que a noite estendia +o seu manto negro sobre a aldeia, uma mão esmoler e caritativa saía a ministrar +o alento aos infelizes que, por vergonha ou impossibilidade, não ousavam sair +do seu tugurio onde se debatiam com os horrores da miseria.</p> + +<p>Essa mão que se estendia misericordiosa a acalentar o infortunio dos +infelizes e se subtraía modesta aos ósculos de gratidão, era de Maria Luiza, a +esposa do dôno d'aquella casa, tão rico como caritativo, que distribuia +santamente os rendimentos da sua riqueza.</p> + +<p>O tempo passou uma esponja sobre os acontecimentos que, tres annos antes, +circulando em volta d'aquelles dois sêres, tanto emocionaram a alma popular, e +o sr. Velloso é agora a caridade personificada, amado dos infelizes, respeitado +por todos os que o conhecem.</p> + +<p>Um velho, alquebrado e arrimando-se a um cajado, de andar pezado e de cabeça +calva, com o olhar velado por uma tristeza profunda, vem quasi todos os dias +passar alguns momentos com elles.<span class="pn">{146}</span></p> + +<p>Esse velho é o tio Alamêda, que nos ultimos tres annos envelheceu mais que +em todo o resto da vida.</p> + +<p>Privado dos affagos dos filhos que a infelicidade arrebatou da sua +companhia, minora o seu soffrimento com os carinhos que lhe prestam esses dois +seres—Paulo e Julia—que a Providencia lhe atirara pela porta +dentro, para encontrarem no seu coração o que tão cêdo lhes faltara.</p> + +<p>Seus filhos, ao partirem, tinham-lhe dito, como Cristo, da cruz, á sua Mãe: +«ahi lhe ficam os seus filhos. São dignos do seu amôr; por isso, conserve-os na +sua companhia».</p> + +<p>E o tio Alamêda, amando, aquelles entes como seus filhos, sentiu a +necessidade dessa companhia. Resolveu, no seu intimo, casal-os.</p> + +<p>Chamou um dia Paulo á parte, tinha elle já desenove annos, e perguntou-lhe: +</p> + +<p>—Paulo, eu amo-te como a um filho. Amo tambem Julia como se egualmente +fosse minha filha. A separação dos meus verdadeiros filhos da minha companhia +abriu-me a sepultura, e a vossa separação agora atirar-me-hia para ella. Convém +que vós vos não separeis de mim nos ultimos dias da minha vida. Vou perfilhar +Julia; a ti talvez não, porque tenho uma ideia que, se concordares com ella, +dispensa isso. Queres casar com Julia?</p> + +<p>O pobre rapaz, como não querendo acreditar no que ouvia, abriu os olhos, sem +poder responder á pergunta que o velho lhe fazia.</p> + +<p>—Responde. Parece que ficaste espantado? Queres ou não casar com +Julia?</p> + +<p>—Se quero!...</p> + +<p>Nestas palavras, proferidas quasi instinctivamente, traduziu toda a paixão +da sua alma, manifestou<span class="pn">{147}</span> quanto amôr occultara +durante dois annos no seu peito.</p> + +<p>—Bem! disse o tio Alamêda cheio de contentamento. Pela tua resposta, +vejo que gostas d'ella a valer, não é verdade? Não sabes quanto estou contente +com isso. É preciso agora saber se é do gosto d'ella casar comtigo. Vae +chamal-a. </p> + +<p>E Paulo, não cabendo em si de alegre, correu a chamar Julia.</p> + +<p>Esta veio, e perguntou, fitando nos olhos do velho os seus olhos azues +cheios de doçura e de submissão:</p> + +<p>—Que quer, pae?</p> + +<p>—Perguntar-te simplesmente uma coisa: se eu quizesse que casasses com +Paulo, fazias-me a vontade?</p> + +<p>Julia fitou os olhos no chão, ruborisada, dando naquelle silencio a resposta +mais eloquente que lhe podia dictar o seu coração apaixonado.</p> + +<p>O velho, comprehendendo então nesse momento que o seu desejo era a unica +felicidade que aquellas duas almas anhelavam, sorriu-se jubiloso, e poisando +paternalmente a mão na cabeça loira da creança, disse com extrema bondade, +pondo-se em pé:</p> + +<p>—E tiveste a coragem de me não revelares esse segredo, hein? Vejo que +o amas a valer, e não me tinhas dito nada, minha másinha?</p> + +<p>Julia levantou para elle os olhos castos, depois olhou para Paulo que a +contemplava apaixonadamente, e, tornando a baixar os olhos, sorriu com candura. +</p> + +<p>—Está bem; continuou o tio Alamêda. Quando o nosso João vier, o que +não ha-de tardar, segundo elle diz, nenhum anno, ha-de festejar-se a sua +chegada com o vosso casamento; e...</p> + +<p>O som d'uma buzina fez olhar todos para a portaria,<span +class="pn">{148}</span> onde estava um homem, com uma porção de cartas numa das +mãos e um sacco de couro a tiracóllo. </p> + +<p>—Ill.<sup>mo</sup> senhor José Nunes da Alamêda!</p> + +<p>E estendeu um braço com uma carta na mão.</p> + +<p>Julia correu ao alpendre; e, ao receber a carta tarjada de luto, estremeceu. +Olhou para o sello, e reconhecendo que provinha do Brazil, occultou o rosto no +avental, soluçando.</p> + +<p>O velho, por sua vez, estremeceu, e perguntou com a voz trémula:</p> + +<p>—Que é, Julia?! Alguma nova desgraça que nos sobreveio?!...</p> + +<p>Julia tirou o avental de deante do rosto, e approximou-se, as faces banhadas +de lagrimas, estendendo a carta para o velho.</p> + +<p>—Seja o que Deus quizer! Lê, filha, lê. Estou resignado com a vontade +de Deus!</p> + +<p>E, appoiando-se, curvado, sobre o bastão que segurava com ambas as mãos, +meneava dolorosamente a cabeça.</p> + +<p>Julia, em frente d'elle, pallida como um cadaver, rasgou o enveloppe e +desdobrou a carta.</p> + +<p>Paulo tinha-se approximado, egualmente pállido, e, sem proferir uma palavra, +collocou-se ao lado esquerdo de Julia, encostando a sua cabeça á d'ella e +olhando, machinalmente, numa enorme anciedade, para as lettras que não +entendia, porque não sabia lêr.</p> + +<p>Julia lêu para si a primeira linha, a participação do óbito de João, e, +deixando cair os braços, olhou, banhada em pranto, para o velho.</p> + +<p>Este ergueu os olhos para o ceu, e exclamou com indiscriptivel cummoção:</p> + +<p>—Meu Deus! Levastes-me os filhos. Seja feita a vossa vontade.<span +class="pn">{149}</span></p> + +<p>E, estendendo as mãos para os jovens, que estavam na sua frente semelhando +os conjuges em frente do padre, disse:</p> + +<p>—Levou-me os filhos, e deixou-me a vós. Sois os meus pupillos, e d'ora +avante sereis meus filhos.</p> + +<p>Abraçou-os n'um demorado amplexo, continuando com a voz entrecortada pelos +soluços:</p> + +<p>—E que Deus abençoe o vosso amôr, como eu o abençôo!</p> + +<h2><a name="SECTION001180">FIM</a></h2> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's Scenas da Aldeia, by A. Augusto de Miranda + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SCENAS DA ALDEIA *** + +***** This file should be named 30947-h.htm or 30947-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/0/9/4/30947/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from BibRia) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. 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