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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-14 19:53:49 -0700 |
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Cypriano (o feiticeiro) para fazer subir um homem ao +ar e andar nas alturas 30 minutos, sem lhe acontecer mal algum.</h3> + +<p>Deita-se um homem estendido no chão, depois ponham-se dois homens aos pés e +outros dois á cabeceira. Feito isto digam as palavras seguintes, principiando +por um e acabando por outros:</p> + +<p>1.º homem—Aqui cheira a corpo morto.</p> + +<p>2.º—Pezado como um chumbo.</p> + +<p>3.º—Leve como uma penna.</p> + +<p>4.º—Levanta-te na hora de Deus.</p> + +<p>No fim de ditas as palavras acima mencionadas, apontae-lhe com os dedos, que +elle logo sobe ao ar, tal qual como um passaro; no fim de 30 minutos, cáe ao +chão sem lhe acontecer mal algum.</p> + +<p>Este segredo foi descoberto por Lucifer, o principe do Inferno.<span +class="pn">{4}</span></p> + +<h2>Segredo 2.º</h2> + +<h3>Para um homem conhecer se a mulher lhe é infiel ou não</h3> + +<p>A qualquer hora da noute, quando observarem que a mulher está dormindo e +sonhando, põe-se-lhe devagarinho uma mão sobre o coração, que d'essa maneira +conhecem logo se é sonho; se o fôr ella por sua propria bocca vos começará a +descobrir tudo o que fôr de verdade, e o homem vae observando o que ella lhe +diz e vae tirando a mão de pouco a pouco por que esta operação não póde durar +mais que 10 minutos, para não acontecer que a mulher acorde e observe o que se +está fazendo.</p> + +<p>Sendo assim tudo descobrirão, e ella nada fica sabendo do que disse. Depois +de feito isto devem guardar segredo para evitar questões.</p> + +<h2>Segredo 3.º</h2> + +<h3>Effeitos do vinagre e da ourina</h3> + +<p>Logo que uma pessoa dê qualquer cortadella e queira vêr-se sã em 8 horas, +botem-lhe em cima vinagre ou ourina. Este remedio é approvado, assim o tenho +experimentado e sempre com bom resultado.<span class="pn">{5}</span></p> + +<h2>Segredo 4.º</h2> + +<h3>Para tirar as dores de cabeça</h3> + +<p>Se alguns dos meus leitores tiverem dores de cabeça e se em pouco tempo as +quizerem alliviar façam o remedio seguinte: uma cabeça de alhos, tirar as +cascas aos dentes, botal-os em um almofariz e moêl-os bem moídos, pegar em um +bocadinho de massa e esfregar a testa e fontes bem esfregadas que, depois, em +pouco tempo passará a dita dôr.</p> + +<p>Se no fim da esfregação o paciente se poder deitar melhor será que depois de +se levantar nada ha de sentir.</p> + +<h2>Segredo 5.º</h2> + +<h3>Para quem quizer beber o vinho simples sem agua</h3> + +<p>Para tirar a agua do vinho, se fará uma vazilha de pau de hera, lançando o +vinho n'ella; se tiver agua, todo o vinho se irá coando, e ficará só a agua na +mesma vazilha; e se não tiver agua ficará a vazilha escorrida de todo o +vinho.<span class="pn">{6}</span></p> + +<h2>Segredo 6.º</h2> + +<h3>Para que uma pessoa indo pela rua em noute escura leve luz adiante de si +que allumie toda a rua sem se conhecer que qualidade de luz é</h3> + +<p>Quebre-se uma noz em duas, de modo que fiquem os miolos inteiros; estes +mettidos sem os quebrar na ponta de uma verga de arame, que tenha uma vara que +seja grossa, pondo o lume no miolo das nozes, tendo a outra ponta de arame na +mão, farão tanto lume como uma tocha, sem se vêr mais que o mesmo lume.</p> + +<h2>Segredo 7.º</h2> + +<h3>Para fazer que a comida pareça estar cheia de bichos</h3> + +<p>Secretamente partiremos duas cordas de viola uma grossa outra delgada em +bocadinhos, se fôr assado sendo gallinha se lhe metterão pela abertura; sendo +outra cousa se lhe dará um golpe em que se lhe mettem; sendo cozido se botarão +na panella ao tirar do lume e assim virão pegados na carne com a quentura que +em si levam, e com a fresquidão do ar que lhes dá se encolherão e estenderão +como bichos, e quem estiver comendo fica enganado.<span class="pn">{7}</span> +</p> + +<h2>Segredo 8.º</h2> + +<h3>Para aquelles que caminham não sentirem a calma, nem o cansaço do +caminho</h3> + +<p>Saindo eu de Alcoy para S. Thiago, á porta de uma aldeia, encontrei tres +peregrinos, com os quaes acompanhei até ao meu destino, e segundo o que n'elles +observei deviam ser virtuosos, e aos mesmos vi que levavam pendurado no cinto, +um pequeno raminho de bella-luz. Perguntei-lhe o que aquillo representava, e +tive de resposta: Pois vós ainda não sabeis o segredo? Tiraram do seio cada um +sua mancheia de artemija, dizendo-me que com aquillo pouco se sentia a calma e +o cansaço do caminho. D'ahi por diante me aproveitei d'isso e achei ser +verdade, o segredo que me ensinaram.</p> + +<h2>Segredo 9.º</h2> + +<h3>Para não criar pulgas e para evitar persevejos</h3> + +<p>Tomem quatro folhas de herva santa, um ramo de arreçã com flor, outro de +herva sedagoza partes iguaes frigam-se em azeite simples, misture-se tres onças +de cêra amarella, untando tres dias successivos não sómente os mata, mas tambem +a pessoa que com isto se untar nunca mais os criará. E para evitar pulgas +bote-se pela casa mentastros e folhas de amieiro, estas hervas tem virtude para +as matar e não criarem<span class="pn">{8}</span> outras. E qualquer d'ellas +fará o mesmo effeito, botando com abundancia pela casa.</p> + +<h2>Segredo 10.º</h2> + +<h3>Para fazer letras nas costas da mão com cinza de papel</h3> + +<p>Se quizerem fazer com que os assistentes, fiquem admirados sem saberem de +que modo veio essa letra, secretamente, com a propria ourina e a ponta de um +pausinho, escrevem as letras que quizerem que appareçam, e depois se deixará +seccar, e se mostra a quem quizer vêr a mão limpa; queimem um papel tendo +escripto as mesmas letras (isto com tinta, preta) que se escreveram na mão, e +com o mesmo papel queimado, se esfregará a parte onde se fizeram as letras com +a ourina, que conforme foram feitas assim saírão pintadas de preto, por isso +quem não souber o segredo se admirará.</p> + +<h2>Segredo 11.º</h2> + +<h3>Para crianças que teem lombrigas e tosse</h3> + +<p>Provavel remedio para quem tem crianças com essa doença. Se fôr tosse +lancem-lhe uma esponja ao pescoço, que logo lhes abrandará. E se forem +lombrigas, botem uma pequena mancheia de farinha centeia, em<span +class="pn">{9}</span> uma pouca de agua, que fique tingida como sôro de leite, +assim dada a beber em jejum, todas as manhãs, mata as lombrigas.</p> + +<h2>Segredo 12.º</h2> + +<h3>Segredo para os cabellos nunca cahirem e conservarem-se pretos</h3> + +<p>Tomarão folhas de azinheiro, e cascas de pepino sêccas, depois de misturado +em partes iguaes, bem pizado e espremido, botar-se-ha o sumo em meio quartilho +de agua-ardente camphorada, e bem mechida, se porá ao orvalho da noute, por +espaço de 8 dias. Com esta mistura lavarão a cabeça pelo menos de tres em tres +annos, que o cabello não cahirá.</p> + +<h2>Segredo 13.º</h2> + +<h3>Segredo para quando forem tirar o mel das colmeias não serem mordidos pelas +abelhas</h3> + +<p>Tomem o malvaisco, e untem bem as mãos e rosto com o sumo d'esta planta, +depois untem-se com azeite que tenha servido já nas candeias, com que se +allumiam, que indo bem untado podem fazer o serviço sem receio, que ellas não +farão mal algum. E se por<span class="pn">{10}</span> acaso te picar alguma +vespa, unta bem a parte com azeite liquido, que brevemente está são.</p> + +<h2>Segredo 14.º</h2> + +<h3>Para evitar formigas, mosquitos e persevejos</h3> + +<p>Aquella parte onde quizermos que não entrem n'ella formigas, cercaremos com +um risco de carvão grosso, ou com cinza, ou com salmoura, ou com sal molhado, +que não passarão este limite para dentro. E se pozerem estas cousas todas +misturadas melhor será.</p> + +<p>E para mosquitos não virem de noute á cama dependurarão á cabeceira uns +poucos de pregos, que não chegarão alli. E para persevejos, tome-se uma pouca +de palha estrangeira, cozida n'um tacho, e botem-lhe uma quarta de pedra hume, +e em fervendo tudo depois da agua estar fria lavem a barra da cama; ou a +qualidade que lhe pertença com a dita agua. Na cama, ou casa onde se criarem +persevejos, tomando um pimento em um fogareiro que se queime, posto debaixo da +cama todos os persevejos que houver onde chegar o fumo do brazeiro +morrerão.<span class="pn">{11}</span></p> + +<h2>Segredo 15.º</h2> + +<h3>Para se conhecer a sarna e o meio de a curar</h3> + +<p>Para se conhecer a doença da sarna, basta vêr entre os dedos das mãos umas +bolhinhas, que estão quasi constantemente em comichões; mas com este segredo, +cura-se facilmente, dentro em pouco tempo: basta deitar sobre a parte doente, +umas pingas de oleo de petroleo. Mas não se deve esfregar.</p> + +<p>Deixe-se o oleo na parte durante uma hora. Continua-se no dia seguinte e +mesmo nos outros emquanto não sarar. Este remedio que está ao alcance de todos, +é muito approvado, e seu emprego tem sido adoptado em immensos casos.</p> + +<p>Um outro consiste em lavar com licor concentrado de alcatrão, por que produz +muito bom effeito.</p> + +<h2>Segredo 16.º</h2> + +<h3>Para os que costumam enjoar</h3> + +<p>Um verdadeiro serviço, que com este segredo presto aos viajantes, +principalmente aos embarcadiços. Dou-lhes a saber este segredo que de tanto lhe +póde servir: logo que o mal se começa a sentir, e quando a cabeça anda á roda e +o estomago enfraquecido deve-se tomar 2 até 5 perolas de chloroformio, que +o<span class="pn">{12}</span> mal desapparece logo. E não havendo as ditas +perolas, tomarão perolas de ether, que fazem o mesmo effeito. Tanto umas, como +as outras vendem-se em quasi todas as pharmacias, e o viajante se munirá +d'ellas antes de embarcar, porque o enjôo é um mal que causa sempre bem á +creatura que vae no mar.</p> + +<h2>Segredo 17.º</h2> + +<h3>Para curar os catarrhos que nos costumam apoquentar</h3> + +<p>Tenho observado já muitas vezes que este segredo dá sempre bom resultado, +n'esta doença tão massadora, e custosa de soffrer. Para essa cura tomem: +essencia de therebentina, que dá bom resultado; com um gosto detestavel é +impossivel o poder tomal-a pura, ou em mistura. Mas tomae em fórma de perolas. +As perolas de therebentina tomam-se de 6 até 12 na occasião das comidas. Dentro +em pouco tempo, os catarrhos, mesmo os antigos, melhoram-se e curam-se. Por +muito que explique, nunca são muitas as explicações, dignas do elogio d'este +segredo.</p> + +<h2>Segredo 18.º</h2> + +<h3>Para os enganos que ha em pezos e medidas</h3> + +<p>Antes de outra cousa se note, que o gado vaccum quanto mais está depois de +morto mais peza, pelo<span class="pn">{13}</span> contrario o gado miudo, assim +tambem para dar o seu a seu dono assim no pezo da carne, como de outro qualquer +hade-se pôr primeiro o pezo, depois a carne, ou o que fôr, por que se a carne +se põe em a mesma parte, requer muita força de pezo para outra parte para se +endireitar.</p> + +<p>E assim tambem nas medidas de vara, ou covado para se medir seda, ou linho, +ou panno de côr, se ha de medir sobre a meza, ou caixa, não nas mãos, porque +estira, e se faz mais copia de varas, ou covados, do que são.</p> + +<p>Quanto á medida do vinho, ou azeite que se mede em armazens e lojas baixas +leva mais que nas altas, a razão é por que toda a cousa se pretende igualar, +com o globo da terra, assim nas partes baixas faz o azeite, ou vinho, cobril-o +para cima, nas altas não; tanto é assim, que para prova d'isto ponham um vaso +que leve meia canada, ou mais sobre uma meza, este cheio de vinho ou agua, ou +azeite, da meza posto no chão, lhe podem botar um vintém em moedas, moeda +mansamente, todas levará sem derramar gotta pelo motivo que temos dito.</p> + +<h2>Segredo 19.º</h2> + +<h3>Remedio para persevejos, piolhos e pulgas</h3> + +<p>Para persevejos, tomem-se umas poucas de brazas em um têsto, bota-se-lhe +dois ou trez pimentos vermelhos;<span class="pn">{14}</span> posto o têsto no +meio da casa onde os houver, ou morrerão ou se ausentarão.</p> + +<p>Para piolhos, basta o summo da erva santa, untar com ellas trez noutes a +parte onde se elles criarem, que desapparecerão.</p> + +<p>E para pulgas, na casa onde andarem se botará uma pouca de hortelã pela +casa, logo morrerão ou se ausentarão.</p> + +<h2>Segredo 20.º</h2> + +<h3>Como se devem curtir as azeitonas de conserva para durarem</h3> + +<p>Devem ser as azeitonas mais sobre o verde, que sobre o maduro, é preciso +serem colhidas á mão da oliveira, nem varejadas, nem encorrilhadas, deitadas na +vasilha, se lhe botará agua simples, de modo que fiquem todas cobertas; aos +tres dias tira-se-lhe essa agua e deita-se-lhe outra; assim continuando todos +os tres dias na outra agua, se lhe botará pouco sal, ouregãos, cascas de limão +sem amargo algum, porque o amargo corrompe; ao tirar d'ellas será com colher, +não com a mão, e assim se sustentarão por largo tempo.<span +class="pn">{15}</span></p> + +<h2>Segredo 21.º</h2> + +<h3>De varias qualidades que ha no ovo</h3> + +<p>A primeira propriedade que tem, é ser a gema fresca e substancial, a clara +cálida, e reimosa; cura humores viscosos.</p> + +<p>O ovo é neutral, porque se o comer uma pessoa estando colerica e agastada +converte-se-lhe em outra tanta cólera; se a pessoa está alegre, converte-se em +outra tanta alegria; e tanto é assim, que escreve um auctor grave, que se um +furioso continuar dois mezes pela manhã, e á noite, comendo duas gemas de ovos +crus, tornará ao seu juizo; a razão é porque o furioso é tão contente de si que +imagina que tudo é seu.</p> + +<p>Para mais, o ovo que é cozido, de modo que fique duro ou forte, é cálido; em +cru é frio, tão frio, que bebendo-o pela manhã, no verão, vai contra a calma, e +contra a enfermidade do figado.</p> + +<h2>Segredo 22.º</h2> + +<h3>Para fazer com que a agua do mar não seja salgada e poder beber-se</h3> + +<p>Tenho observado que para fazer a agua do mar dôce, a pontos de se poder +beber, farão uma vasilha de cêra branca bem tapada, e a metterão no mar, +que<span class="pn">{16}</span> fique toda coberta, e a que fôr entrando para +dentro da vasilha, perde o sal e fica dôce, e o mesmo acontece se metterem uma +vasilha nova de barro, mas que tenha a boca bem tapada; com a mesma será, +porque a agua tanto dá que de pouco em pouco, lá vae entrando para a vasilha +até estar cheia.</p> + +<h2>Segredo 23.º</h2> + +<h3>Para em pouco tempo se curar a diarrhea e dysentheria</h3> + +<p>Contra esta terrivel doença, tenho um segredo que vou dizer aos meus +leitores: ás pessoas que depois de serem apoquentadas por este mal, fazem +remedios que de nada valem, por isso, se quizerem vêr esse mal fóra do corpo, +existe um meio de o fazer que é approvado: é o carvão do doutor Belloc; tomar +cada dia de tres a seis colheres de sôpa d'este carvão, que em pouco tempo +estarão livres do mal que os apoquentava.</p> + +<p>Ao principio, parece impossivel que o carvão possa curar a diarrhea, mas por +muitos está experimentado, e sempre com bom effeito, por isso vos recommendo +este segredo.<span class="pn">{17}</span></p> + +<h2>Segredo 24.º</h2> + +<h3>De nossos concebimentos, da causa e porque os nascidos do oitavo mez não +vivem</h3> + +<p>O primeiro planeta chamado Saturno, é de sua natureza frio, secco, +melancolico, terreno; por isso os Astronomos o chamam <em>infortuna maior</em>, +porque a qualidade frio, e sêcco, é contraria á criação de todas as cousas, +supposto que seja por esta razão inimigo da natureza humana emquanto terreno; +acharam os philosophos o primeiro mez de nossos concebimentos ser do dominio de +Saturno, o qual não prejudica o geral, porque ainda a materia não tem vida a +qual, nos possa empecer.</p> + +<p>O segundo mez é dedicado a Jupiter, o qual por ser de compleição sanguinea e +cria quente e humido, o qual sendo bom, e que convém á creacão das cousas, +chamaram-lhe os Astronomos <em>fortuna maior</em>; assim em seu mez a materia +se une, incorpora, e orna de espiritos vitaes.</p> + +<p>O terceiro mez é dedicado a Marte, que é de compleição colerica, quente, e +sêcco; porque como a quentura é conveniente á creação das cousas, e por outra +parte a seccura a impedia, chamaram-lhe os Astronomos <em>infortuna</em>; assim +no terceiro mez a mãe sempre padece achaques porque a creatura os padece.</p> + +<p>O quarto mez é dedicado ao Sol, que supposto que seja cálido, e sêcco, +comtudo é <em>luminaria maior</em>; emquanto luminaria, cria, augmenta e +corrobora.</p> + +<p>O quinto mez é dedicado a Venus, que supposto<span class="pn">{18}</span> +seja de per si humida, fleumatica, e fria, tem de certa participação de +quentura, com a qual favorece a humidade; por isso os Astronomos a chamaram +<em>fortuna menor</em>; porque ainda que não seja tão favoravel como Jupiter, é +comtudo ajudadoura da creação de todas as cousas, por isso em seu mez, a mãe e +a creança estão livres de achaques.</p> + +<p>O sexto mez é dedicado a Mercurio, que é planeta natural, participante de +todas as compleições, pelo qual em seu mez supposto que a creatura está +perfeita, capaz de vida, comtudo se n'este mez nascer, morrerá logo, porque +como Mercurio seja neutral acommoda-se ao primeiro principio que é Saturno +assim—<em>mata</em>.</p> + +<p>O septimo mez é dedicado á Lua, que supposto que seja planeta frio, humido, +fleumatico, e aquatico, comtudo emquanto <em>luminaria</em> é conveniente á +creação de todas as cousas, assim vemos que os nascidos de sete mezes vivem. +</p> + +<p>O oitavo mez torna a dominar Saturno o qual como temos dito é contrario á +natureza humana; assim não temos visto até hoje que o nascido, até ao oitavo +mez resista.</p> + +<p>Ao nono mez torna a entrar Jupiter, o qual como temos dito é bom planeta, em +geral todos os que nascem n'este mez vivem.<span class="pn">{19}</span></p> + +<h2>Segredo 25.º</h2> + +<h3>Para sabermos dos meninos pequenos, a estatura que virão a ter depois de +grandes</h3> + +<p>O Sol divide os outros seis planetas em duas partes: tres acima, tres +abaixo; os tres de cima chamam-se <em>tardos</em>, por serem mais vagarosos em +seu movimento, assim tambem são chamados <em>masculinos</em>. Os tres de baixo +são chamados <em>femeninos velozes</em>, porque em seu movimento são mais +ligeiros, supposto que Mercurio, que está abaixo por ser masculino, planeta +natural e applicar-se com quem se acha, por ficar entre a Lua, e Venus que são +planetas femeninos, se conte tambem femenino como elles; assim pois a Lua, +Mercurio, Venus, que estão abaixo do Sol, por serem <em>velozes</em>, +representam os tres annos primeiros de nossa vida, tambem Marte, Jupiter e +Saturno, por serem <em>masculinos-tardos</em>, e estarem acima do Sol, +representam o resto da nossa vida, pelo que quem quizer saber a estatura, que +qualquer creança virá a ter depois de grande, na edade de tres annos perfeitos, +tomem-lhe a medida com uma fita estando a creança com o corpo direito, o +comprimento da fita que tiver da ponta da cabeça, até aos pés dobra-se, o que +se achar, que faz a dita fita dobrada, será a estatura que a tal creança virá a +ter depois de grande.<span class="pn">{20}</span></p> + +<h2>Segredo 26.º</h2> + +<h3>Para deitar fogo a uma pouca de estopa e não se queimar</h3> + +<p>Peguem na estopa, deitem-lhe um pouco de espirito de vinho, e ao mesmo tempo +deitem-lhe o fogo, que começa a arder e acabando-se o espirito se apagará, e a +estopa ficará sem se queimar. Mas devem ter cautella antes do espirito arder +todo, por causa de se não inflammar á estopa, que é mais verdadeiro.</p> + +<h2>Segredo 27.º</h2> + +<h3>Para fazer estalar por baixo—divertimento de travessos</h3> + +<p>Tomarão folhas de espirradeira, cascas de castanhas, tudo muito queimado e +desfeito em pó lhe juntarão pimentos que estivessem de calda de vinagre, isto +tudo em vinho branco: quem o beber não poderá estar calado.<span +class="pn">{21}</span></p> + +<h2>Segredo 28.º</h2> + +<h3>Tambem de entertenimento e travessura</h3> + +<p>Se os leitores se quizerem rir e entreter, os que estiverem presentes farão +o segredo seguinte: Agarrarão um rato vivo, e secretamente (para ninguem lhes +vêr) deitarão agua-raz sobre o lombo e por todo esse bixo menos nas pernas e +cabeça; depois apparecerão diante de quem quizerem e pondo o rato no chão +agarrado pelo rabo, se lhe lançará o fogo com um lume e o deixarão que começará +a correr todo cheio de lume, e quem não souber este segredo se admirará por vêr +uma pouca de lavareda a fugir de umas partes para outras.</p> + +<p>Depois de a agua-raz se gastar, acabará tambem a vida do rato.</p> + +<h2>Segredo 29.º</h2> + +<h3>Como se póde conhecer as enfermidades pelas ourinas</h3> + +<p>Todos os que na medicina tem escripto, fazem mais duvida em saber conhecer +doenças, do que em applicar os remedios, e a razão é que mal se póde applicar +medicamento salutiphero á doença que não é conhecida. É porque nem todos os +medicos, sabem este grande fundamento. Dos mesmos authores de Villa-Nova<span +class="pn">{22}</span> tiramos a receita seguinte, que é tão boa como n'ella se +verá, a qual é a seguinte:</p> + +<p>A ourina de côr rosada demonstra saude, estado do corpo são, e boa digestão. +</p> + +<p>Se a ourina fôr menos rosada, supposto que demonstre saude, com tudo isto +não é tão perfeito como se propriamente fôra rosada.</p> + +<p>A ourina de côr de cidra, quando o circulo d'ella é da mesma côr, é boa. +Tambem o é, ainda que não seja de todo côr de cidra.</p> + +<p>A ourina de côr vermelha significa febre simples que dura 24 horas; salvo se +o doente cuja tal ourina fôr ourinar a miudo que é signal de febre continuada. +</p> + +<p>A ourina acêsa de côr de sangue demonstra sangue sobejo; logo é bom +sangrar-se, salvo se estiver a lua em signo <em>Feminis</em>, que domina nos +braços, pois será prejudicial a sangria.</p> + +<p>A ourina de côr verde quando sahe depois de vermelha, demonstra inflammação; +é perigosa e quasi mortal.</p> + +<p>A ourina de côr vermelha escura demonstra declinação na doença.</p> + +<p>A ourina vermelha misturada com algum pouco de negro, demonstra esfalfamento +e outros vicios do figado.</p> + +<p>A ourina de côr amarella, demonstra fraqueza do estomago, impedimento de +segunda indigestão.</p> + +<p>A ourina branca de côr da agua da fonte, demonstra aos sãos, ter humores +crus; nas febres agudas é signal de morte.</p> + +<p>A ourina côr de leite com a substancia espessa, se fôr de mulher não é tão +perigosa como a do homem pela indisposição da madre. E se acontecer em febres +agudas é signal de morte.<span class="pn">{23}</span></p> + +<p>A ourina de côr de leite, escura em cima e clara debaixo da região do meio, +demonstra hydropesia.</p> + +<p>A ourina no hydropico, rosada, ou meio rosada, é signal de morte.</p> + +<p>A ourina de côr azulada demonstra multidão de humores corruptos no +fleugmatico e hydropico.</p> + +<p>A ourina negra póde acontecer algumas vezes que a natureza é gastada ao +doente, o calor natural n'este caso é mortal, em outra maneira póde acontecer +expulsão de materia venenosa que sahe pelas veias ourinaes.</p> + +<p>A ourina que traz luz como lanterna, denota indisposição no baço, boa +disposição no que tiver quartans.</p> + +<p>A ourina côr de açafrão, quando está espessa, meia negra, que tem mau cheiro +e alguma espuma, demonstra etericia.</p> + +<p>A ourina rosada, ou meio rosada, que na região inferior traz umas resoluções +redondas, brancas em cima, e um tanto grossas, é signal de febre hectica.</p> + +<p>A ourina clara no fundo do ourinol até ao meio d'ella, e a de cima mais +espessa, demonstra dôr e inchação nos peitos.</p> + +<p>A ourina escumosa clara, quasi meio vermelha, demonstra maior dôr da parte +direita, do que da esquerda. Porém se a ourina fôr escumosa branca, demonstra +maior dôr na parte esquerda que na direita.</p> + +<p>Se o circulo da ourina não bolindo com ella, parecer que bole de si mesmo, +demonstra decurso de fleugma, n'outros humores da cabeça pelo pescoço, n'outros +nos membros.</p> + +<p>A ourina delgada, amarella-clara, demonstra humor fleugmatico e grosso.</p> + +<p>A ourina espessa de côr de chumbo, negra da região do meio, demonstra +paralysia.<span class="pn">{24}</span></p> + +<p>A ourina espessa de côr de leite, pouca em quantidade, grossas com algumas +espumas na parte inferior do ourinol demonstra dôr de pedra, se fôr sem espumas +espessas de côr de leite podre demonstra ventosidade.</p> + +<p>A ourina espessa de côr de leite, em muita quantidade, demonstra gota nas +partes inferiores.</p> + +<p>A ourina amarella na parte inferior, demonstra nos homens dôr de rins, e nas +mulheres dôr de madre.</p> + +<p>Na ourina em que apparecerem alguns pedaços de leite, se fôr pouco turbada, +demonstra rotura de veia junto aos rins da bexiga.</p> + +<p>A ourina que no fundo do ourinol mostra sangue podre, demonstra podridão dos +rins e bexiga; se juntamente toda a ourina estiver tal, demonstra podridão de +todo o corpo.</p> + +<p>A ourina onde se veem pedaços estreitos-compridos, demonstra desolamento de +bexiga.</p> + +<p>A ourina que sae de vagar, cheia de argueiros como faz o sol, demonstra +pedra nos rins.</p> + +<p>A ourina branca sem febre, demonstra nos homens dôr de rins, nas mulheres +estarem prenhas.</p> + +<p>A ourina de mulher prenha de um mez até trez deve ser mui clara, branca; se +fôr de quatro mezes ha de ser parda, branca e grossa no fundo.</p> + +<p>A ourina espumosa nas mulheres demonstra ventosidade no estomago, ardor no +ventre até á garganta.</p> + +<p>E devem entender que as significações das aguas, são mais válidas tomadas, +vistas logo, do que depois que arrefecem, porque mudam a substancia, mórmente +no tempo do inverno, que com o frio se colham.<span class="pn">{25}</span></p> + +<h2>Segredo 30.º</h2> + +<h3>Das virtudes e effeitos da genebra</h3> + +<p>A genebra tem muitas virtudes, mas especialmente para quem se costuma a +agoniar do estomago, e nas indigestões. Logo que qualquer pessoa se ache +incommodada com qualquer d'estas doenças, tomem meio quarteirão de genebra, mas +para melhor effeito será da hollandeza, porque é mais approvada, e com isso +logo ficarão livres d'essa afflicção, porque além de vos parecer que não tiram +resultado, vos affianço que é engano; porque eu que vos descubro este segredo, +em diversas occasiões tenho feito uso d'essa bebida e sempre com bom resultado, +segredo este que nunca me esquecerá porque me tem valido á minha vida, e as +suas virtudes, para todos são proveitosas, por isso todos os elogios são poucos +para remedio tão efficaz.</p> + +<h2>Segredo 31.º</h2> + +<h3>Os effeitos do alecrim da India</h3> + +<p>Estou informado de um segredo muito prestavel, para quem padece dôres de +cabeça que é remedio que dou por approvado e muito economico.</p> + +<p>Em um testo botarão umas poucas de brasas acezas, e depois pegarão em umas +poucas de folhas de<span class="pn">{26}</span> alecrim da India, e botarão as +folhas em cima das brasas; depois de ellas botarem bastante fumo lhes deitarão +uma onça de assucar; põe-se a cabeça do paciente a tomar aquelle fumo, isto é +dous palmos acima das brasas para evitar da muita quentura, que fazendo isto +oito noutes ao deitar da cama, se acharão melhor, porque assim como eu fiz e +achei bom resultado, tambem me parece que o meu semelhante que padecer da mesma +doença tambem o achará se isto fizer como explico.</p> + +<h2>Segredo 32.º</h2> + +<h3>Para que o vinho estragado torne ao seu ser</h3> + +<p>Pegarão em uma duzia de laranjas maduras, darão em cada uma tres ou quatro +golpes como quem retalha azeitonas, assim as botarão pelo batoque da pipa, +botal-as-hão em pedaços, e d'ahi por oito dias botarão uma canada +d'agua-ardente fina, e depois d'isto feito em passando 15 dias vão proval-o que +estará bom vinho; mas advirto que a pipa deverá estar em sitio fresco, porque +os vinhos para se conservarem não querem lugares abafados.<span +class="pn">{27}</span></p> + +<h2>Segredo 33.º</h2> + +<h3>Para tirar o mau cheiro ás vasilhas de madeira e dar cheiro ao vinho que +n'ellas botarem</h3> + +<p>Tira-se um tampo á vasilha e mette-se dentro um testo cheio de brasas e +depois bota-se-lhe nas brasas um vintem de cravo da India, dez reis de canella +e um bocado de pês, abafa-se a vasilha com o tampo para que este fumo se +entranhe na madeira, e sair-lhe-ha o mau cheiro, e a vasilha ficará cheirando +sempre bem.</p> + +<p>E para que o vinho que se recolher n'estas vasilhas seja bom de cheiro, ao +tempo que quizerem recolher o vinho coserão uma pouca de palha de cevada em uma +caldeira de agoa, e assim fervendo se bota sómente a agoa na vasilha, +enxuga-se-lhe, tapa-se com o batoque para que tome esse soadouro, que depois o +vinho que n'essa vasilha se recolher terá bom cheiro.</p> + +<h2>Segredo 34.º</h2> + +<h3>Para fazer o vinagre forte</h3> + +<p>Faz-se um molhinho de ortelã, que peze uma quarta, atado com um cordel +mette-se pela boca da pipa que tiver o vinagre de modo que a ortelã fique +mettida dentro no vinagre ficando o cordel de fóra, e<span +class="pn">{28}</span> d'ahi a sete ou oito dias tirem-lhe a ortelã e ficará o +vinagre fortissimo.</p> + +<p>Se ainda não tiver a fortaleza que queriam, tornarão a fazer igual operação, +que ao fim dos segundos oito dias estará mais forte.</p> + +<h2>Segredo 35.º</h2> + +<h3>Para fazer vellas de sebo que não cheirem a elle</h3> + +<p>Para as vellas de sebo não cheirarem a elle e parecerem de cêra e que durem +mais, ao fazel-as se terá uma pouca de cal virgem bem peneirada, cada camada de +sebo que se botar na fôrma se lhe botará duas mãos ou um punhado de cal accesa +por toda a forma; as vellas que assim se fizerem parecerão de cêra, sem terem +cheiro de sebo, e durarão muito mais porque a cal tem a virtude de lhe dar a +côr como a de cêra, e conservar o sebo a arder sem se desfazer tão facilmente. +</p> + +<h2>Segredo 36.º</h2> + +<h3>Para o vinho não fazer mal ao homem</h3> + +<p>Este segredo vos vou descobrir, mas será bom que vos não seja preciso, +porque o entendimento da creatura<span class="pn">{29}</span> bastará para o +evitar. Porém se acontecer essa bebida a fazer-vos mal á cabeça será bom comer +os boxes assados de uma ovelha, antes de comerem mais cousa alguma. Se quizerem +antes de beber o vinho que elle lhe não faça mal comerão berças com vinagre, +que assim não lhe fará mal, mas eu entendo que será bom não seja preciso estas +cousas; e quando se beber o vinho não se bebe demasiado, para não arruinar a +saude, um dos bens que o vivente tem n'esta vida. Se ha quem diga que bebem +vinho porque não podem deixar de o fazer, porque é um vicio, ahi vae um segredo +tambem para perder esse vicio: Metam duas enguias vivas dentro de uma canada de +vinho, e tapem a vasilha e quando estiverem mortas tirem-as, e os que costumam +tomar-se da pinga bebam d'este vinho que depois o aborrecerão completamente. +Tambem serve para este effeito a bretonica feita em pó e bebida em vinho.</p> + +<h2>Segredo 37.º</h2> + +<h3>Para que um cavallo pareça manco sendo são</h3> + +<p>Secretamente arrancar-lhe-hão uma seda do rabo dobrada atal-a-hão entre o +casco e os cabellos aonde chamam os machinhos, ficando mettida entre a seda e +os machinhos um grão ou dous de cevada estando bem apertada, farão andar o +cavallo que elle irá a mancar de um pé ou de uma mão, porque o grão de cevada +causa-lhe incommodo nas juntas das pernas e o animal mancará porque o não póde +deixar de fazer.<span class="pn">{30}</span> Depois d'este segredo assim feito, +tirarão o grão da cevada que o cavallo tem, que ficará andando direito e +causará admiração a quem o viu manco e em pouco tempo andar são.</p> + +<h2>Segredo 38.º</h2> + +<h3>Para refinar a polvora</h3> + +<p>Muitos costumam refinar a polvora com limão e outras cousas, mas em vez de a +refinar quasi que a estragam; porque a prova d'isto, tenho visto fazer uso de +polvora ordinaria; o melhor segredo para a refinar é, tanto de verão como de +inverno, borrifal-a com agua-ardente muito fina, secando-a depois, que este +espirito dá-lhe toda a força precisa para que ella produza bom effeito. Sei +isto por a experimentar e tirar bom resultado.</p> + +<h2>Segredo 39.º</h2> + +<h3>Para quando uma mulher parir se conhecer se o parto seguinte, se o houver, +é macho ou femea</h3> + +<p>Quando uma mulher parir, se quizerem saber o que a mesma mulher parirá no +parto seguinte, pela criança que teve o podem conhecer; nada mais é +preciso<span class="pn">{31}</span> do que vêr a corôa do nascido; se o +redemoinho que trazemos de cabellos estiver bem no meio da cabeça, sendo um só +redemoinho o parto que se seguir será macho, e sendo dous os redemoinhos, ou +sendo um só e declinar para qualquer dos lados, o parto que se seguir será +femea.</p> + +<h2>Segredo 40.º</h2> + +<h3>Para se saber das virtudes da ortemija</h3> + +<p>A ortemija é uma herva, que quem fizer um molhinho d'ella e a trouxer ao +pescoço, junto ao coração, terá mais animo e maiores forças. E esta herva, +moída e bem desfeita, deitada em um pouco de vinho e bebida, para a pessoa que +estiver cançada dá-lhe logo muito mais forças por ser uma bebida muito mais +substancial; qualquer caminhante que fizer uma jornada a levará tambem comsigo +porque tem a virtude de se não cançar tanto e andar mais caminho, que essa +virtude é um dos astros que a concede a esta herva, assim como tambem serve +para espantar as moscas de qualquer casa, se a cozerem com leite de cabras, e +depois de bem cozida untarão as paredes com esse leite, que ellas por causa do +cheiro fugirão.<span class="pn">{32}</span></p> + +<h2>Segredo 41.º</h2> + +<h3>Da monstruosidade da natureza</h3> + +<p>A monstruosidade da natureza é de duas maneiras: uma d'ellas é aquella que +se deixa logo vêr em nascendo a creatura, e a outra a que se descobre por +tempo. A que se deixa logo vêr, é quando a creatura vem com mais ou menos +abundancia de membros dos ordinarios, ou trazendo dos ordinarios, é algum +d'elles semelhante ao de algum animal irracional; aquelles que trazem mais ou +menos membros, de ordinario póde acontecer pela geração ser feita no +bicorporeo, como são Geminis, Virgo, Sagitario, Piscis, assim tambem aos faltos +de membros póde acontecer, por falta de materia, ou pelos signos moveis estarem +infortunados, os quaes são: Aries, Cancer, Libra, Capricornio; os que trazem de +algum animal tambem póde ser de duas maneiras ou de ajuntamento com o mesmo, ou +no tempo do concebimento concorrer a mãe com o pensamento em algum animal.</p> + +<p>Da monstruosidade que a natureza descobre com o tempo, se ha-de entender +d'aquelles que são demasiadamente grandes do corpo, ou demasiadamente pequenos, +fóra da proporção que adiante se dirá, ou tendo grande corpo tem disforme a +cabeça de pequena, ou sendo pequeno tem a cabeça demasiadamente grande, ou +sendo demasiadamente grande do corpo, demasiadamente pequeno com demasiada +grossura, porque d'estas montruosidades se póde conhecer a differença que ha +dos compostos em proporção perfeita; da natureza temos a seguinte:<span +class="pn">{33}</span></p> + +<p>Tres cousas ha por onde isto se conhece; a primeira é, que a verdadeira +proporção do homem tem na estatura sete palmos e meio de vicio da natureza, o +mais que se dá são sete palmos a maior, o menor seis palmos, que a estatura do +maior de nove palmos, e o menor de seis se tem por monstruosidade.</p> + +<p>A segunda cousa por onde se conhece a verdadeira proporção é, que posto um +compasso com uma ponta entre as sobrancelhas e outra na ponta do nariz tornando +o compasso para baixo chegará á superficie da testa na raiz do cabello, com o +mesmo compasso sem mais fechar nem abrir, posta uma ponta no nariz por baixo +das sobrancelhas tornando-o a uma e outra parte chegará aos lagrimaes dos olhos +de cada um d'elles, dando volta chegará a orelha, advertindo que os dous +compassos dos lagrimaes ás orelhas, da ponta do nariz á ponta da barba, estes +tres são eguaes, mas são maiores do que os outros de que temos tratado, que é +de entre as sobrancelhas á raiz do cabello, á ponta do nariz d'estes ha-de +haver em todo o corpo desde a raiz do cabello até aos pés vinte e sete +compassos dando ao rosto tres, e ao demais corpo vinte e quatro; esta é a regra +que guardam os imaginarios que é dar a um corpo quantidade de nove rostos, +contando inclusivè o mesmo.</p> + +<p>A terceira é: que em ausencia da mesma pessoa se lhe possa fazer todo o +genero de vestidos, calçado, tão justo como se estivesse presente, o qual se +fará d'esta maneira: vêr-se-ha uma luva, que a pessoa calce justa com uma fita +se tomará a grossura do dedo polegar pela raiz do dito dedo, a qual medida +dobrada fará o bocal da manga do casaco ou roupa, a medida do bocal da manga +será dobrada, a medida do cabeção dobrado, faz a medida da cintura; a da +cintura<span class="pn">{34}</span> dobrada em tres terços, um terço até ao +comprimento de um quarto do casaco, o outro terço com uma mão atravessada da +mesma luva, faz o comprimento da manga; o mesmo terço com a mesma mão atravez, +faz o comprimento da calça, o ultimo terço faz todo o comprimento da bota, cujo +pé será de um palmo da mesma luva, juntando-lhe mais o que houver do dito dedo +polegar da luva, da junta do meio até á extremidade, isto do pé; dois terços +dos ditos pés fazem capa até ao joelho, os mesmos dois terços, sendo mulher lhe +faz a casaquinha e os tres terços lhe fazem a saia, os mesmos tres terços com +mais tres palmos de luva lhe fazem manto e casaquinha, manga e corpinho, e o +mesmo que acima temos dito. A pessoa que com estas medidas lhe fizerem a roupa +que venha conforme e justo, poderá dizer que é conforme a proporção da +natureza, sem que falte cousa alguma, sendo a proporção de sua estatura o que +temos dito; resta pois que suas obras sejam taes, quaes convem para ser mais +perfeito. Os que carecem d'esta composição lhes convem fazerem taes obras, que +com a perfeição d'ellas fique satisfeito, á proporção do corpo.</p> + +<h2>Segredo 42.º</h2> + +<h3>Bons effeitos do alecrim</h3> + +<p>O alecrim tem uma natureza que é quente, secco e cheiroso, e por isso +fortalece todas as partes e membros de dentro e de fóra do corpo, alegra e +fortalece<span class="pn">{35}</span> os sentidos, consome as humidades, +frialdades, e todos os males contagiosos.</p> + +<p>O alecrim não consente melancholias, tremores nem desmaios no coração, cujas +raizes, ramos, cascas e flores d'essa excellente herva tem todas as virtudes, +as quaes diremos com ajuda de Nosso Senhor Jesus Christo e proveito da +humanidade.</p> + +<p>Os olhinhos mais tenros do alecrim, comidos pela manhã, com pão e sal, +fortalece a cabeça, conserva a vista clara, aguda e forte.</p> + +<p>A flor e folhas da mesma herva feitas em pó e trazida no seio, afugenta os +tres inimigos do corpo, que tanto affligem o coração, que são elles: as pulgas, +piolhos e persevejos.</p> + +<p>Os mesmos pós no seio do lado esquerdo, espantam a melancholia e ao coração +fazem-lhe muita alegria.</p> + +<p>As folhas da mesma herva bem mastigadas e postas sobre uma chaga fresca, a +curam, e fecha maravilhosamente.</p> + +<p>A flor da mesma, comida pela manhã com mel da mesma flor e um bocado de pão +quente, faz muito bem á saude: nem deixa gerar sangue podre, nem o mal da gota; +e se alguem tiver mal, essa herva lh'o tirará.</p> + +<p>O alecrim serve para afugentar todo o animal venenoso, e o seu fumo serve +contra todo o mal e pestes.</p> + +<p>Os ramos do mesmo, tambem servem para depois de queimados e feitos em pó, +fortalecer dentes e não lhe deixar criar bicho, nem constipações.</p> + +<p>Toda a mulher que tenha uso de comer a flor do alecrim em jejum com pão de +centeio, não padecerá mal da madre, porque lhe reprime os maus humores, gasta +as humidades, e cura os achaques a todas as pessoas que assim usarem.<span +class="pn">{36}</span></p> + +<p>A flor da mesma herva, mettida em qualquer sitio onde estiver roupa, não +deixa entrar a traça na mesma, e dá-lhe muito bom cheiro.</p> + +<p>Se lavarem o corpo com a agua, devem cozer muito bem o alecrim e se +conservarão com boa saude.</p> + +<p>As casas que são escuras e muito humidas, se as defumarem com alecrim a +miudo, conservar-se-hão enxutas.</p> + +<p>Um segredo para as quebraduras, já experimentado, são as alfarrobas verdes, +pizadas e applicadas sobre as quebraduras, que as curam e soldam.</p> + +<p>Se tiverem dôres nas juntas por causa de algum refriado e as lavarem com +agua onde se cozesse alecrim, lhe tirará a dor.</p> + +<p>No tempo da peste é muito proveitoso queimar alecrim pelas casas e nas ruas, +por que afina o ar e faz fugir a peste.</p> + +<p>Estas virtudes do alecrim, acabarei de ser tão extenso como pede este bem +para a natureza e tudo deixarei dito da maneira seguinte:</p> + +<p>Mel virgem de alecrim serve, tira nevoas dos olhos.</p> + +<p>O summo do alecrim lançado nos ouvidos, tira a dôr.</p> + +<p>O summo do mesmo tomado pelos narizes, tira o mau cheiro e sana todos os +males que dentro d'elles estiver.</p> + +<p>Um segredo provado e experimentado, a agoa do alecrim pôr-se ao sol, será +para os olhos que tem belidas, cataratas, ou que estão ennevoados. Faz-se esta +agua da maneira seguinte: um bom mólho de alecrim verde e colhido de fresco, +põe-se dentro de um ourinol novo de vidro com as pontas para baixo, não devem +chegar ao fundo, tapa-se com um panno de linho dobrado, e em cima d'este panno +põe-se um bocado<span class="pn">{37}</span> de fermento que tome toda a boca +do ourinol, e em cima do formento põe-se outro panno dobrado, e ata-se muito +para que não saia bafo algum, põe-se o ourinol ao sol em tempo de calor 6 até 8 +dias e d'alli se fará uma agua muito importante para os olhos. Quando essa agua +estiver prompta, deve-se lançar em uma vazilha pequena e se terá ao sol e ao +sereno outros tantos dias, que depois a agua que era branca, torna-se amarella +e grossa, na qual se desfará um pouco de assucar de pedra e d'esta agua se +lançarão nos olhos tres pingas, em cada um uma vez pela manhã, outras ao meio +dia, e outra á noute, e por favor de Deus sararão.</p> + +<p>Mulher que tiver pouco leite, não póde criar os filhos com as folhas e +flores de alecrim, que lhe causará abundancia de leite bom, porque purifica o +sangue.</p> + +<p>O summo do alecrim misturado com assucar e tomado de manhã e ao deitar da +cama faz bem ás afflicções do peito, ajuda a digestão e mitiga o apetite de +comer.</p> + +<p>A flor e as folhas em pós servem para a dôr do baço e do figado tomando-as +em vinho e mel.</p> + +<p>As folhas e flores da mesma herva fervidas em vinho tinto e bebido faz muito +bem á dôr de tripas, tira a cobiça e a dezinteria.</p> + +<p>Tambem servem os mesmos pós bebidos no mesmo vinho para quem padecer defluxo +da ourina, por debilitação ou fraqueza, isto é approvado mas devem ser cozidas +as folhas e flores em vinho do mais velho que fôr encontrado.</p> + +<p>Para quem não tiver apetite de comer, tome pela manhã duas ou tres colheres +de sopa, de vinho fervido com alecrim, que lhe abrirá a vontade de comer e lhe +fará fortaleza no estomago.</p> + +<p>Alguns auctores são de opinião, que a triaga é o<span class="pn">{38}</span> +remedio da peçonha; mas o alecrim cozido lhe faz o mesmo effeito.</p> + +<p>Finalmente o alecrim cozido em agua tem todas estas virtudes que se seguem +tomando bastantes banhos d'essa agua, chama-se o banho da vida, porque tira a +dôr das juntas e de todas as mais partes do corpo, é remedio para a canceira, +para a suffocação do coração, dá alento e vigor á velhice, conserva a mocidade, +fortalece os membros e aviva os sentidos.</p> + +<p>Aqui deixo por isso escripto aos meus leitores, em estas poucas linhas todas +as virtudes d'esta planta chamada alecrim, que tão bom proveito tenho tirado +d'ella e estou por certo que quem d'ella fizer uso como eu o tirará e se +conservará limpo, de tantos achaques que affligem o corpo humano.</p> + +<h2>Segredo 43.º</h2> + +<h3>Para a azia</h3> + +<p>A azia, além de ser uma molestia pouco impertinente quando ataca a creatura +causa-lhe um pouco de desarranjo na garganta, e é o que basta para nos +incommodar, e como não ha quem goste de incommodos, temos um segredo pelo qual +em um instante fiquemos alliviados da garganta, é segredo economico, barato, +pois se algum de vós tiver azia é só pegar em uma cebolla: tem poder para a +fazer sahir. Se houver quem não goste d'este objecto dou-lhe tambem por +approvado:<span class="pn">{39}</span> comerão amendoas amargosas que tambem +ficam livres d'esse mal.</p> + +<p>Assim tenho feito sempre e encontrei bom resultado, por isso d'estes dois +segredos o que primeiro me apparece, é d'esse que eu faço uso.</p> + +<h2>Segredo 44.º</h2> + +<h3>Para os meninos pequenos se criarem, de modo que sejam mais encorpados e de +mais forças</h3> + +<p>Muitos homens ficam pequenos de corpo e de poucas forças, porque as mães e +amas lhes tiram os braços de fóra antes do tempo, e assim como são tenros, +bolindo com os braços se relaxam os membros e assim ficam mais fracos e +debilitados, por isso quem quizer criar a criança, de modo que fique largo das +espaduas e com muita força nos braços não lh'os deve tirar fóra, quero dizer +vestidos, senão de trez mezes por diante, assim ficarão sendo mais corpolentos +e forçosos, porque se vão criando com todas as forças da sua natureza, cujas +forças não lhe abrandam tanto, como se forem criados como acima disse.<span +class="pn">{40}</span></p> + +<h2>Segredo 45.º</h2> + +<h3>Para conhecermos se qualquer homem nasceu de dia, ou de noute, ou no +crepusculo</h3> + +<p>A pessoa que tiver as orelhas despegadas da cabeça pela extremidade de +baixo, fazendo as pontas rombas, despegadas ou levantando os olhos +direitamente, se levantar mais o olho esquerdo que o direito, diremos que +nasceu de dia; se as orelhas pela parte debaixo forem ponteagudas sempre +pegadas no casco da cabeça ou levantando os olhos direitamente, e se levantar +mais o direito que o esquerdo, assim diremos que nasceu de noite.</p> + +<p>Se um d'estes signaes mostrar que nasceu de dia, outro que nasceu de noute, +o tal diremos que nasceu no crepusculo: chamamos crepusculo de pela manhã tanto +que vem rompendo a alva, e dura até que nasce o sol, o crepusculo da noite +conta-se desde que se põe o sol, até que se cerra a noute.</p> + +<h2>Segredo 46.º</h2> + +<h3>Da ethmologia dos dedos das mãos</h3> + +<p>O dedo mais curto e grosso da mão chama-se polex, de que se deriva poder, +porque sem elle não se póde apertar cousa alguma na mão, que firme fique,<span +class="pn">{41}</span> n'este costumam os mercadores trazerem os anneis, dando +a entender o muito que podem valer com seus reales.</p> + +<p>O dedo logo seguido se chama index, que quer dizer amostrador, porque nos +serve de mostrarmos aquillo que queremos; n'este costumam os medicos trazer os +anneis, dando-nos a entender que elles são index, pelos quaes nossa saude se +governa.</p> + +<p>O terceiro dedo se chama médio, ou maior, pelo ser, médio por estar no meio +de todos, n'estes costumam os soldados trazer os anneis, significando fortaleza +e esforço.</p> + +<p>O quarto dedo se chama annular ou dedo do coração, porque elle vem a ter uma +veia que passa pelo coração. Como o ouro é metal agradavel á vista de todas as +pessoas, em geral é costume pôr os anneis n'este dedo para evitar a melancholia +e outras paixões que acodem ao coração. Muitas pessoas costumam usar de anneis, +mais pela tradição antiga, que pela razão atraz escripta. Quem trouxer n'este +dedo um annel com uma pedra de Jacintho fina, que a toque na carne, não é tão +sómente bom para a melancholia, pois tambem tem outras propriedades boas.</p> + +<p>O quinto dedo se chama minimo ou auricular: minimo, pelo ser, auricular, +porque com elle costumamos limpar as orelhas. N'este dedo costumam trazer os +anneis as pessoas illustres, dando assim a entender quem são, e não pela valia +do ouro.<span class="pn">{42}</span></p> + +<h2>Segredo 47.º</h2> + +<h3>Da causa das nossas enfermidades, e com a ajuda de Nosso Senhor as podemos +remediar</h3> + +<p>As quatro compleições de que fomos formados comnosco, assim como uma meza +com quatro pés, que sendo todos eguaes e direitos, em plano, está quieta e +segura, porém se algum d'elles se levanta ou quebra e é mais comprido, isto só +é bastante para que os outros tres com a meza venham ao chão, da mesma maneira +a cólera, sangue, fleuma, e melancholia, cujas quatro compleições de que somos +compostos estão eguaes conforme á saude no corpo, porém tanto, que alguma +d'ellas se altera ou sobrepuja ás outras, causa no corpo a doença conforme sua +qualidade. Porque da cólera se causam tabardilhos, frenesis, febres malignas, e +outras enfermidades semelhantes.</p> + +<p>E do sangue se geram dôres de costas, de cabeça, pontadas e outras +semelhantes da fleuma, dôres de tripas, humidades no estomago, dôres de madre, +colicas, apostemas, e outras semelhantes. E da melancholia se geram tristezas, +humores viscosos, tremulos, gota e outros semelhantes.</p> + +<p>E supposto que segundo nossa santa fé aos sonhos não se póde dar credito, +por não terem razão nem fundamento algum, são sómente phantasmas que se +representam no entendimento, estando uma pessoa dormindo.</p> + +<p>Todavia se alguma das quatro compleições se altera do corpo, causa que os +taes phantasmas tenham alguma correspondencia, a qualidade da dita +compleicão,<span class="pn">{43}</span> assim sabendo que seja se póde remediar +com defensivos, que á tal compleição alterada applicam.</p> + +<p>Pelo que se a pessoa sonhar com o fogo ou arma e outras cousas que incitam a +cólera, é signal que a cólera predomina, segundo ella se lhe póde dar remedio. +</p> + +<p>E se o sonho fôr de pescarias ou embarcações, cousas que pertençam á agua +predomina a fleuma.</p> + +<p>E se sonhar com prisões, mortes, ou outras cousas que incitem tristezas, +perdomina melancholia conforme a ella se lhe applicará remedio.</p> + +<h2>Segredo 48.º</h2> + +<h3>Para o fogo não queimar </h3> + +<p>Pegarão em 20 reis de alteia e depois de a fazer em pó a botarão com uma +clara de ovo em uma tigela e com essa mistura untarão as mãos ou outra qualquer +parte que quizerem, que depois d'isto feito não se queimarão.</p> + +<h2>Segredo 49.º</h2> + +<h3>Do tempo que é salutifero cada um dormir segundo a compleição que tiver</h3> + +<p>Temos a notar que as compleições atraz declaradas<span +class="pn">{44}</span> tem aquelles effeitos em quanto distinctas, mas pela +mistura d'ellas formam outras quatro compleições, que são as do temperamento, +colerica, sanguinea, fleumatica, melancholica. Da do temperamento não +trataremos, porque não é possivel havel-a, que onde ha temperamento não ha +alteração e não póde haver doença. Assim tambem se ha de notar, que o dormir é +parte mui essencial para o cosimento do estomago: porém convém a cada um para +sua saude tomar o somno conforme a qualidade da sua compleição. Porque os +puramente colericos pela muita quentura que tem, basta-lhes dormir cinco a seis +horas: os colericos sanguineos basta-lhes cinco e meia a seis e meia; os +puramente sanguineos basta-lhes seis a sete; os fleumaticos bastam-lhe seis e +meia a sete; os puramente fleumaticos, bastam-lhe sete a oito, os fleumaticos +melancholicos bastam-lhe sete e meia a oito e meia; os puramente melancholicos +bastam-lhe oito a nove.</p> + +<p>E tudo o que passa d'esta regra é prejudicial á saude, porque tanto se perde +por carta de menos, porque assim como não dormir inquieta o corpo, o móe e +debilita, assim o dormir muito causa gota e outras enfermidades. Note-se tambem +que os colericos, pela muita quentura que teem, lhes é prejudicial á saude +soffrer fome; mais ou menos, comer é melhor.<span class="pn">{45}</span></p> + +<h2>Segredo 50.º</h2> + +<h3>Para fazer levantar um ovo ao ar deante de gente</h3> + +<p>No mez de maio colherão em uma horta uma ambula de orvalho, guarda-se em +parte onde lhe não dê o sol, e quando quizermos fazer o que acima fica dito, +com um alfinete grosso fura-se um ovo e chupando-o pelo mesmo buraco, o +encherão de orvalho, e taparão o dito buraco com um bocadinho de cêra branca, +collocando-se o dito ovo á vista de todos em parte onde lhe dê o sol, e assim +como o ovo fôr aquecendo se irá levantando e subindo até desapparecer. Quem +quizer que este mesmo ovo lhe sirva para mais vezes, ate-o a um cordel na ponta +de uma lança, e que seja o cordel tão comprido como ella, ficando a lança no +chão. Com uma linha atarão o ovo no cordel, posto ao pé da banca em parte onde +lhe dê o sol, e quando aquecer subirá pela lança acima e assim estará no ar, +até o tirarem, emquanto estiver quente, porque quando o sol d'aquelle sitio fôr +desapparecendo, o ovo vae arrefecendo, e conforme fôr arrefecendo assim vae +cahindo para o chão; por isso lhe devem acudir a tempo para se não +quebrar.<span class="pn">{46}</span></p> + +<h2>Segredo 51.º</h2> + +<h3>Para queimar um lenço e ficar são</h3> + +<p>Secretamente molharemos um lenço em aguardente de cabeça; trazendo-o diante +dos circumstantes mandaremos vir uma candeia acesa e tomando o lenço por duas +pontas para ficar estendido lhe mandaremos deitar fogo, e como fôr inflammando +andaremos com elle ao redor por espaço de um minuto á vista dos circumstantes e +logo o sacudiremos e apertaremos entre as mãos para que se apague o lume; +tornando-o a estender o mostraremos aos circumstantes tão são como era antes de +se lhe botar fogo.</p> + +<h2>Segredo 52.º</h2> + +<h3>Para que as mulheres sem postura pareçam melhor e tenham melhor cara com +menos custo</h3> + +<p>Entre outras cousas que entre nós ha mal feitas são duas, as quaes nos dão +notavel prejuizo á saude: a primeira é quererem os homens mostrar que calçam +pequeno pé, mandando fazer menor sapato, do que<span class="pn">{47}</span> +pede o pé, assim continuando vem a ser gotosos; por conseguinte as mulheres que +usam posturas perdem os dentes, mais depressa se arusgam e outras muitas +desgraças se seguem d'aqui.</p> + +<h2>Segredo 53.º</h2> + +<h3>Para mostrar aos circumstantes um braço atravessado com uma faca sem +prejuizo algum</h3> + +<p>Faz-se uma faca de duas metades ligadas uma á outra com uma mola e será +feita de tempera branda, que se alargue e aparte o que a pessoa quizer; esta +mola mettida pelo braço acima por baixo do casaco ou camisa, apertada a manga +junto á faca, e feito isto secretamente sahir aos circumstantes, mostrar-lh'a, +parecerá o braço estar passado pelo collo da mão.</p> + +<p>Adverte-se que a feitoria da mola d'esta faca é necessario seja de modo que +se aperte e alargue.<span class="pn">{48}</span></p> + +<h2>Segredo 54.º</h2> + +<h3>Para fazer tinta de qualquer côr com facilidade, e as letras que estão em +papel quasi safadas se acharem a ponto de se lerem</h3> + +<p>Deve haver tinteiro separado para cada tinta, para que uma não corrompa a +outra.</p> + +<p>Para fazer tinta vermelha, pizam-se flores de papoula, espremidas, o sumo +que deitarem, coado, posto um pouco ao sol, para que engrosse e não corra +tanto, se faz tinta vermelha bastantemente.</p> + +<p>Para fazer tinta verde, faz-se a mesma operação com os concelleiros que +nascem pelas paredes, e da mesma maneira ficará tinta verde.</p> + +<p>Para a tinta roxa, do mesmo modo se fará da flor do lyrio.</p> + +<p>Para tinta amarella, egualmente se faz com flôr do pampiro.</p> + +<p>E assim para qualquer outra tinta que quizermos fazer, buscaremos a herva da +côr da tinta que quizermos fazer, e do mesmo modo que fica dito se fará.</p> + +<p>E para fazer que as letras que estão em papel que mal se enxerguem por +estarem gastas pelo tempo se possam lêr, se molhará um panno de baeta em ourina +fresca, levemente se esfregam as letras com elle, que depois se poderão +lêr.<span class="pn">{49}</span></p> + +<h2>Segredo 55.º</h2> + +<h3>Para tirar nodoas de azeite e pingos de cêra de toda a qualidade de +pannos</h3> + +<p>Para tirar nodoas de azeite amassarão um bocado de barro vermelho, que não +fique muito espesso, e da parte do avêsso que quizerem tirar as nodoas, +cubra-se toda a nodoa com este barro, e da parte direita se ponha sobre a nodoa +uma folha de papel alinhavada, de modo que se chegue o papel ao panno, e posto +a enxugar até o barro estar bem secco, logo se esfrega, e tirando-se-lhe o +papel ficará a nodoa fóra. Este remedio é bom principalmente para panno de côr; +é bom lavar em agua de pescada.</p> + +<p>E tambem para tirar a nodoa do panno se cobrirá a nodoa com sabão e por cima +do sabão botar um pouco de sal, pondo ao sol por espaço de um quarto de hora e +lavando a nodoa, logo se tirará.</p> + +<p>Para tirar pingos de cêra, estando em sêda, tosta-se uma fatia de pão trigo, +e assim quente se põe em cima da cera que a attrahirá a si.</p> + +<p>Se fôr em panno de côr, bota-se um testinho no lume, e estando bem quente se +tira, embrulha-se em um papel, esfrega-se com elle no lugar onde está a cêra, e +assim logo sahirá e o panno ficará limpo.<span class="pn">{50}</span></p> + +<h2>Segredo 56.º</h2> + +<h3>Do modo mais facil de fazer dôce a agua do mar</h3> + +<p>Se quizerem fazer uma canada em pouco tempo, de agua do mar para ficar dôce, +tome-se um pote novo, metta-se-lhe dentro uma pedra que peze quatro ou cinco +arrateis, tapa-se-lhe a bocca com uma rolha de cortiça, bem justa, atando o +pote por um cordel, se botará o dito pote no mar, mansamente, para que a pedra +não quebre, e d'ahi a tres ou quatro horas o tirarão, tirando a rolha ao pote, +acharão dentro d'elle uma canada de agua dôce como a da fonte; a razão por que +a pedra se mette é para que o pote vá ao fundo do mar, para a agua tomar a +virtude que se pretende.</p> + +<h2>Segredo 57.º</h2> + +<h3>Das regiões do ar e da terra</h3> + +<p>Como no segredo adiante havemos de tratar das qualidades da agua dôce, +necessariamente é tratarmos primeiro da terra, por cuja razão se faz dôce, e do +ar a que ella sobe.</p> + +<p>Os mathematicos que tenham observado cometas, os quaes se fazem entre a +região do fogo e do ar, acham ter este corpo aereo, trinta e quatro leguas, +dous terços, estes se repartem em tres regiões; a primeira<span +class="pn">{51}</span> que é esta que gozamos temperada por razão dos raios do +sol que dão na terra, reverberando para cima aquentam, temperam até duas leguas +e meia para cima, esta região é mais palpavel, porque n'ella andam as aves, e +n'ella respiram todos os animaes terrestres, racionaes e irracionaes. A segunda +região é summamente fria mais pura que a primeira, em tanto que as aves subindo +a ella não se poderão ter nem respirar no principio d'esta região, estão em +deposito as aguas que chovem, que sobem do mar vapores da terra, aguas sobem, +até ao meio da dita região, congelam-se em neve, e se mais acima forem, +congelam-se em pedra, assim como esta primeira e segunda região occupam para o +alto oito leguas e meia, as mais que faltam para trinta e quatro leguas, dous +terços occupa a terceira região, a qual pela parte proxima a segunda é fria, e +pela parte de cima por estar á região do fogo é calidosissima; n'esta se fazem +todos os trovões, raios e cometas. Assim tambem a terra se parte em tres +regiões, para que não pareça desordem brotaremos o gosto d'ella, proval-o-hemos +por regras grammaticaes, as quaes são pela circumferencia ou superficie de um +globo, saber-se a grossura d'elle, quero dizer seu diametro, ou peso diametro +de uma cousa, vir em conhecimento da superficie d'ella guardando a regra +seguinte.</p> + +<p>Que sabido o diametro de qualquer circulo, este multiplicando partes, um +setimo; o que tudo sommado terá de circumferencia a superficie, por conseguinte +sabendo a circumferencia, esta, partida por tres um setimo, o que vier á +partição fará o diametro, assim, vinte e dous palmos de diametro, nos dão sete +palmos de circumferencia, pois temos sabido assim pelas dimensões geometricas, +como das experiencias de homens<span class="pn">{52}</span> do mar ter a terra +em redondeza, seis mil e trezentas leguas; iremos á regra de tres, dizendo se +vinte e duas leguas de circumferencia nos dão sete de diametro, seis mil e +trezentas de circumferencia da terra quantas nos darão de diametro, virá a +partição de duas mil e quatro leguas e meia, assim diremos ter a terra de +grosso, duas mil quatro leguas e meia que partidas pelo meio vem duas mil duas +leguas e um quarto de legua, tanto ha da superficie ao centro da terra, que é o +meio de toda a grossura.</p> + +<p>Estas mil duas leguas e um quarto se repartem em tres regiões, a primeira +das quaes a da superficie para o centro duas leguas e um quarto, ou posto que a +terra em si seja summamente fria, secca e pesada, esta primeira região é +temperada pela razão que temos dado da impressão que fazem os raios do sol +n'ella, n'esta região se criam as exhalações que com a força do sol chamadas +para cima se acertam de cahir por terra, pela resistencia que lhe põem ao cair, +causa para ella tremer que é haver em algumas ilhas e outras partes tanta +calidade na terra que no verão com a força do sol abrem grandes concavidades, +as quaes vindo o inverno, pela razão que acima dissemos, se tornam a fechar. +</p> + +<p>A segunda região que é de duas leguas e um quarto, seis leguas para baixo +n'esta região, a superficie d'ella é o principio da creação do ouro e mais +metaes mineraes, d'ahi vem botando para cima por veias canos a modo de arvores, +assim a raiz do ouro principia n'elle e na segunda região.</p> + +<p>A terceira região é de oito leguas e um quarto, que occupam a primeira e +segunda região para baixo até ao centro, esta ultima região, é summamente +pesada, fria e secca; é incapaz de criar cousa alguma,<span +class="pn">{53}</span> no intimo interior da qual está o inferno de que Deus +nos livre.</p> + +<h2>Segredo 58.º</h2> + +<h3>De dous medicamentos que se usam entre os rusticos </h3> + +<p>Quando alguma pessoa do campo se sente com qualquer mal que seja, cose um +bocado de carqueija e bebem aquella agua, e deitados na cama se abafam para +suar, e com isto lhe faz Deus algumas vezes de lhe abrandar o mal.</p> + +<p>O segundo é que para maleitas dizem ao enfermo que dê a ourina para mostrar +ao medico, com ella dão uma volta fingindo que vão buscar um xarope e em lugar +d'elle lhe dão a beber a mesma ourina e com este remedio continuam oito dias, e +é com este mesmo remedio que se lhe vão embora as maleitas.</p> + +<h2>Segredo 59.º</h2> + +<h3>Para fazer acreditar aos presentes que conhecemos as cartas de jogar pelo +cheiro</h3> + +<p>Ha-de vir a terceira pessoa, a quem tenhamos dado conta d'isto, logo faremos +pôr a mesa e diremos que nos tapem os olhos, e nos sentaremos, e defronte<span +class="pn">{54}</span> de nós a pessoa em que nos fiamos, e logo pediremos +cartas, perguntando que é o que querem que d'alli se tire, se a primeira de +quatro ou o que quizerem, logo indo tirando carta por carta, e cheirando cada +uma d'ellas pelas costas de modo que o que ha-de avisar veja que cartas são, +assim tirando-as iremos pondo uma por uma na meza em tanto que nos venha alguma +das que nos tem pedido a pessoa a que temos communicado o segredo, porá o pé +sobre o nosso, assim poremos aquella carta de parte e iremos continuando até +tirar todas as pedidas, da mesma sorte que acima fica dito e quem estiver +fazendo este segredo acautelar-se-ha para os assistentes não darem fé do que se +está fazendo por baixo da meza.</p> + +<h2>Segredo 60.º</h2> + +<h3>Virtudes do jacintho</h3> + +<p>O jacintho é de muitas côres, porém o verde ou roxo mui brilhante é o +melhor, o qual feito em pó e tomado pela bocca, é cordial, e serve contra as +febres malignas: defende a quem o traz dos raios e temporaes.</p> + +<p>Trazendo o jacintho comsigo, que toque ao corpo, conforta o coração, e aviva +o engenho.</p> + +<p>Defende o jacintho, a quem o trouxer comsigo, de venenos e ares corruptos. +</p> + +<p>Tem virtude o jacintho de refrear a loucura, e evitar a melancolia; e não +soffre representações de fantasmas, nem visões.<span class="pn">{55}</span></p> + +<p>Meia legua de Toledo junto a um mosteiro de Bernardos, ha uma fonte pegada á +ribeira do rio Tejo que chamam dos jacinthos, porque ali ha tantos, que sae a +agua e corre por cima d'elles.</p> + +<h2>Segredo 61.º</h2> + +<h3>Virtudes das pedras da andorinha</h3> + +<p>Diz o experimentador Alberto, e ainda outros, que na cabeça da andorinha se +acham duas pedrinhas mui pequenas, e que uma é branca, e outra vermelha, cujas +virtudes são as seguintes.</p> + +<p>Dizem que quem trouxer comsigo a pedra branca da andorinha, não será +molestado de sêde, e que se a tiver na bocca, sempre a terá fresca.</p> + +<p>Dizem mais, que se alguem tiver fluxo de sangue e trouxer a mesma pedrinha +branca ao pescoço, logo se lhe estancará o sangue.</p> + +<p>Tambem dizem que tem virtude para ajudar as mulheres no parto, como a pedra +da aguia.</p> + +<p>Dizem mais, que lançada a mesma pedrinha branca em uma vasilha de agua por +espaço de uma noite, e bebida a agua, provoca a cursos, e tira o mal da gotta, +e ainda a febre se a tiver.</p> + +<p>Tambem dizem que quem trouxer comsigo a pedra vermelha da andorinha se +livrará de muitas doenças.<span class="pn">{56}</span></p> + +<h2>Segredo 62.º</h2> + +<h3>Virtudes da pelle que a cobra costuma despir</h3> + +<p>A pelle da cobra queimada, e posta em cima de alguma ferida, a deixa sã; e +se houver bico, ou ferro mettido dentro na carne costuma attrahil-o a si, até o +tirar fóra.</p> + +<p>Notem uma e outra vez, advirtam, que quem trouxer comsigo os pós d'esta +pelle de cobra será preservado de lepra, e de qualquer peçonha. E saibam, que +os ditos pós tem grandes virtudes, e muitas propriedades: porém, ha de se +queimar a dita pelle, estando o sol no signo de Aries, que é de 12 de março até +26 de abril.</p> + +<h2>Segredo 63.º</h2> + +<h3>Para tornar doce a agua do mar, que se possa beber</h3> + +<p>Diz Aristoteles, que para fazer a agua do mar doce que se possa beber, façam +uma vasilha de cêra bem tapada, e a mettam no mar, que fique coberta de agua, e +toda a que fôr entrando pelos poros da cera perderá o sal e ficará doce. O +mesmo succederá, se metterem no mar uma vasilha nova de barro com tanto que +tenha a bocca bem tapada.<span class="pn">{57}</span></p> + +<h2>Segredo 64.º</h2> + +<h3>Para conservar a castidade, e reprimir os estimulos da carne</h3> + +<p>Escreve Macencio, que o summo da erva chamada sagunta, bebido em jejum +reprime os estimulos da carne, e as suas folhas postas sobre os genitaes, diz, +que tem virtude de applacar os incentivos da luxuria.</p> + +<p>Avicena escreve, que a arruda comida, mitiga os ardores da carne no homem; e +na mulher pelo contrario, porque os aviva com excesso.</p> + +<p>O mestre João diz, que o orjavão tem mui grande virtude, e efficacia para +reprimir a luxuria, porque applicado aos lombos mitiga, e applaca grandemente +os estimulos da carne. Diz mais o mesmo author, que o sumo do orjavão bebido +causa impotencia, a quem o toma, por espaço de sete dias. Escreve Dioscorides, +que a fructa, que produz o cedro, pizada, ou o sumo de suas folhas posto nos +genitaes, desterra a appetencia de actos venereos. Michael Escoto diz com muito +fundamento que todas as cousas agras, frias e azedas se accomodam bem com a +castidade, conservando-a: e pelo contrario as cousas doces, quentes e +odoriferas, a destroem, e estragam de todo. Porém fallando espiritual e +catholicamente, o que mais conserva, e defende a castidade é o jejum, a +disciplina e a oração frequente e com muita devoção.<span +class="pn">{58}</span></p> + +<h2>Segredo 65.º</h2> + +<h3>Para conservar as camas sem persevejos, os aposentos sem pulgas, as casas +sem moscas, e ainda sem mosquitos nem ratos</h3> + +<p>Tomarão cóla feita de retalhos de couro, e desfeita em agua ao fogo, que +fique bem clara e rala, lhe misturem azeite, e assim quente, molharão e +esfregarão as taboas e pés do leito, de sorte que toda a madeira fique lavada +com este cosimento, e resultarão dois effeitos muito bons. O primeiro será que +o leito todo parecerá de nogueira. E o segundo, que não se crearão n'elle +persevejos, como tenho bem experimentado.</p> + +<h2>Segredo 66.º</h2> + +<h3>Contra pulgas</h3> + +<p>Ponham uma panella de agoa ao lume, e lançar-lhe-hão dois vintens de +solimão, e deixando-a ferver bem, borrifarão o aposento depois de bem varrido, +e tenham por certo que morrerão, e se não crearão outras. Mas isto se ha de +fazer duas vezes na semana.<span class="pn">{59}</span></p> + +<h2>Segredo 67.º</h2> + +<h3>Contra moscas</h3> + +<p>Tomem um pouco de mel e farinha, mechida com uma pouca de agoa clara, lhe +lancem arsenico ou rosalgar, e ponham esta mistura em caqueiros, aonde cheguem +as moscas, e vêr-se-ha quantas vão caindo, porque em provando ficam mortas. O +mesmo effeito faz o ouro e pimenta moida, e desfeito em agoa e posto em algumas +vasilhas pela casa; mas vigiem que não chegue cão ou galinha a provar, porque +ficarão mortos.</p> + +<h2>Segredo 68.º</h2> + +<h3>Contra mosquitos</h3> + +<p>Queimarão cominhos rusticos no aposento aonde houver mosquitos, e logo +cairão mortos ou se irão; tambem quem molhar o rosto com agoa, na qual +estivessem cominhos rusticos de infusão, não lhe hão de chegar os mosquitos ao +rosto. Em outro logar se dirão outros segredos mais ácerca d'isto; mui notaveis +e difficultosos de crer, e por tanto cito ali os auctores que o dizem.<span +class="pn">{60}</span></p> + +<h2>Segredo 69.º</h2> + +<h3>Contra ratos</h3> + +<p>Façam por apanhar um rato vivo, já grande ou mediano, e façam uma de duas +cousas. Ou lhe esfolem a cabeça e lhe ponham na abertura da pelle um pouco de +sal moido e deixem-no vivo, que elle com o ardor e raiva affugentará os outros: +ou façam outra cousa, se lhes parecer mais facil, e é atar ao pescoço do rato +um cascavel pequeno, que tenha o tenido mui vivo, com o que fará fugir os +outros; e assim ficarão livres d'estes inimigos caseiros, poupando gastos e +molestias. Outro segredo melhor e mais facil. Tomarão gesso novo, e passado por +peneira o misturarão com queijo ralado subtilmente, e misturado tudo o ponham +em diversas partes da casa, e será cousa entretida vêr os ratos que comerem da +iguaria andarem inchados por casa, e se tiverem agua que beber, morrerão mais +depressa; porque o gesso tanto que chega á agua ou cousa humida, logo se torna +em massa, e é segredo sem perigo.</p> + +<h2>Segredo 70.º</h2> + +<h3>Para fazer durar o azeite da candêa</h3> + +<p>Tomarão giesta da mais pequena e de folhas mais miudas; (porque ha duas +castas d'ellas) queimal-a-hão,<span class="pn">{61}</span> e da cinza farão +decoada; e pondo esta a cozer, se converterá em sal, o qual lançado nas +candêas, conservará e fará durar o azeite mais do terço. A pedra hume de rosa e +o sal commum, que serve para o comer, tem a mesma propriedade, porém não tanto +como o sal da giesta.</p> + +<h2>Segredo 71.º</h2> + +<h3>Para fazer augmentar o azeite das candêas</h3> + +<p>Tomarão uma canada de azeite e pôr-se-ha ao fogo, e logo lançarão quatro +onças de pêz grego e um vintem de pedra hume de rosa; tudo bem moido primeiro, +e mechendo-o muito bem, até que esteja de todo misturado, logo se poderão +servir d'elle nas candêas, poder-se-ha fazer mais ou menos seguindo a mesma +ordem com proporção dos materiaes.</p> + +<h2>Segredo 72.º</h2> + +<h3>Para fazer vinagre bom e forte multiplicando-o com pouco custo</h3> + +<p>No tempo da vindima tomarão um pé de bagaço no patamal do lagar, depois de +espremido e estendido lhe lançarão cem potes de agua e quatro arrateis de<span +class="pn">{62}</span> perrexil verde, dois de flor de sabugo verde, e um bom +cantaro de vinagre do melhor e mais forte, e deixal-o estar vinte ou trinta +dias, e no fim se esprema tudo, e recolherão vinagre mui forte e odorifero; e +proporcionando os materiaes, podem fazer mais ou menos.</p> + +<h2>Segredo 73.º</h2> + +<h3>Para multiplicar a cera</h3> + +<p>Tomarão uma arroba de cebo de bode e uma duzia de ovos de adem, só as gemas, +meias cozidas, desfeitas e bem batidas, se lancem no cebo com outra arroba de +cera, e tudo posto ao fogo se mecherá, até que fique derretido e bem misturado; +e ficará tudo convertido em cera mui amarella, para se fazer d'ella toda a obra +que quizerem.</p> + +<h2>Segredo 74.º</h2> + +<h3>Para saber se o vinho tem agua ou não</h3> + +<p>Diz Creponte, que para saber se o vinho tem agua, lhe lançarão umas talhadas +de pera brava aparada, e se nadarem em cima, signal que está o vinho puro; mas +se forem ao fundo, se conhecerá que o vinho está aguado.<span +class="pn">{63}</span> Outra advertencia. Tomarão um junco ou uma palha de avêa +bem lisa, e untada com cebo a metterão na vasilha do vinho; e se este tiver +agua, sairão pegadas umas pingas mui subtis de agua. Outra. Encherão de vinho +uma panella nova, e deixando-a estar dois dias, se sumirá toda a agua, se a +tiver. Outra. Tomarão uma pedrinha de cal virgem, e molhando-a com elle, vinho, +se tiver agua logo se desfará a cal; e se estiver puro, se apertará mais. +Outra. Lançarão um pouco de vinho em azeite que esteja bem quente, e se tiver +agua, espirrará e saltará, o que não hade acontecer se fôr puro.</p> + +<h2>Segredo 75.º</h2> + +<h3>Para se não embebedar</h3> + +<p>Diz Filonio, que para se não embebedar são bons os bofes de ovelhas assados, +e comidos antes de jantar, ou que, antes que bebam vinho, comam verças com +vinagre, e d'este modo lhe não fará mal o vinho, posto que bebam mais do +ordinario. Porém o melhor remedio para se não embebedar é o que eu uso ha +sessenta e tres annos que hoje faço de idade, e nunca bebi vinho, e acho tanto +regalo na agua, que é para mim a melhor iguaria que vejo na mais explendida +meza: e oxalá se praticára isto que digo, que o vinho se havia de vender na +botica e usar por medicina. Se alguem reconhecer o descredito, que causa o +vicio de destemperança no beber, e quizer livrar-se de se embebedar<span +class="pn">{64}</span> e aborrecel-o de todo, note o que escreve Plinio, e é +que mettam duas enguias vivas e grossas dentro em um cantaro de vinho, e que +depois de estarem affogadas, dêem este vinho aos que se costumam embebedar, e +virão a aborrecer o vinho de todo; porque causa um raro tedio e aversão. Para o +mesmo serve a bretonica feita em pó e bebida.</p> + +<h2>Segredo 76.º</h2> + +<h3>Para tirar a agua do vinho</h3> + +<p>Escreve Catão e Plinio, que para tirar a agua do vinho, se fará uma vasilha +de páo de hera, lançando o vinho n'ella, se tiver agua, todo o vinho se irá +coando e ficará só a agua na mesma vasilha: e se não tiver agua, ficará a +vasilha completamente vazia.</p> + +<h2>Segredo 77.º</h2> + +<h3>Uma redoma que estando cheia de agua, e posta com a bocca destapada para +baixo, se não entorne</h3> + +<p>Ponham uma redoma ou garrafa cheia de agua ou vinho dentro em um cubosinho +ou balde de madeira ou de cobre que é melhor, e lançarão sobre a garrafa<span +class="pn">{65}</span> ou redoma, e por baixo quantidade de neve bem desfeita, +e por cima da neve se deitarão bastante sal moido e pouco a pouco irão virando +a garrafa, até que de todo esteja a neve desfeita, e escorrerão a agua da neve +e lançar-lhe-hão outra tanta neve desfeita com sal moido; e assim se deixará +estar até que de todo se desfaça, sem mover a garrafa: e farão o mesmo terceira +vez, e tirará a agua congelada ou o vinho que estiver na garrafa. E isto se +póde fazer na força do verão, e parecerá cousa impossivel, sendo tão facil; e +pondo a garrafa com a bocca destapada para baixo, é certo que se não entornará. +Como experimentou o duque de Gandia, D. Francisco de Borja, que mandou uma +cheia de agua congelada no verão, ao patriarcha D. João de Ribeira, arcebispo +de Valença, o qual em retorno de tão curioso segredo, lhe mandou outra garrafa +cheia de vinho congelado, que foi maior maravilha.</p> + +<h2>Segredo 78.º</h2> + +<h3>Para tornar uma rosa e um cravo de vermelho em branco</h3> + +<p>Defumarão o cravo e a rosa em enxofre, e logo se tornarão brancos de +encarnados; e podem fazer todo o craveiro branco, de vermelho, como eu fiz a +experiencia em uma occasião, tornando brancos mais de vinte cravos encarnados, +com admiração do dono do craveiro, por não saber a causa.<span +class="pn">{66}</span></p> + +<h2>Segredo 79.º</h2> + +<h3>Curioso e de entretenimento</h3> + +<p>Recolherão uma pequena porção de azougue em um canudinho de penna e muito +bem tapado, o metterão dentro em um pedaço de pão quente, e ver-se-ha, tanto +que o azougue aquecer, que começará o pão a dar saltos pela meza. O mesmo verão +que fará uma avelã, se a encheram de azougue, e bem tapada com um torno que +atoche bem, lançada em agua quente, porque tanto que o azougue aquecer, fará +saltar a avelã.</p> + +<h2>Segredo 80.º</h2> + +<h3>Garrafa ou redoma</h3> + +<p>Se quizerem fazer subir a agua por uma redoma vasia ou garrafa, +aquentar-se-ha muito bem e por-se-ha com a bocca para baixo na agua, e verão +subir a agua pela redoma acima em quanto esta estiver quente, e para que o +esteja, irão queimando papel sobre o fundo da mesma vasilha, e não ha de parar +até que encha de todo, e é provado.<span class="pn">{67}</span></p> + +<h2>Segredo 81.º</h2> + +<h3>Do ovo e da sanguexuga</h3> + +<p>Se quizeres que um ovo ande pela casa, tomarão um ovo vasio, de sorte que +fique a casca quasi inteira, e pelo buraco por onde o vasarem, lhe mettam uma +sanguexuga viva, e tapar-se-ha o buraco com cera, e tomarão uma tigella de agua +e a irão movendo junto ao ovo, e como a sanguexuga do instincto natural conhece +e sente o rumor da agua, vae seguindo aquelle rumor, e o ovo rebolando, a quem +não sabe o segredo fica confuso, e é provado, e nota que a sanguexuga ha de ser +de paul e de umas que ha mui negras e grossas.</p> + +<h2>Segredo 82.º</h2> + +<h3>Raro do ovo e da linha</h3> + +<p>Atarão uma linha ao redor de um ovo, e pondo-o a assar no meio do borralho +que esteja bem coberto do lume mais vivo, e ver-se-ha que o ovo se assa e não +se queima a linha nem se quebra, e é provado.<span class="pn">{68}</span></p> + +<h2>Segredo 83.º</h2> + +<h3>Incrivel para quem o não viu nem provou</h3> + +<p>Se quizerem frigir peixe ou ovos em papel em logar de certã, tomem um pedaço +de papel feito a modo de barrete de quatro cantos, e deitar-lhe-hão azeite, e +pondo-o sobre uma vela ou candeia accésa, irá fervendo o azeite sem que o papel +se queime e frigindo o peixe ou ovos, é provado.</p> + +<h2>Segredo 84.º</h2> + +<h3>De duas caras pintadas na parede que apaguem e accendam uma vela</h3> + +<p>Pintarão na parede duas caras grandes, e no meio das boccas lhe farão duas +covinhas; em uma ponham salitre moido bem enxuto, e na outra enxofre em pó; e +se chegarem o lume da vela á boca ou covinha do salitre, se ha de apagar, e no +mesmo instante chegarão o pavio da vela que fica fumegando, á outra bocca do +enxofre, se accenderá e é provado; mas hão de tocar o pavio no salitre e no +enxofre.<span class="pn">{69}</span></p> + +<h2>Segredo 85.º</h2> + +<h3>Para que um frangão, estando vivo, pareça morto e assado na meza, e para o +fazer saltar e fugir</h3> + +<p>Tomarão sumo de aipo e misturem-no com aguardente refinada, e deitarão de +molho umas migalhas de pão n'esta agua misturada com sumo do aipo, e darão de +comer ao frangão em jejum d'estas migalhas, e d'ali a pouco cairá o mesmo +frangão no chão amortecido, e no mesmo instante tirar-lhe toda a penna e +untal-o com mel branco, misturado com açafrão, de sorte que fique bem córado, e +pondo o frangão em um prato, na meza, parecerá assado. E quando o quizerem +fazer tornar em si e saltar fóra da meza, molhar-lhe-hão o bico com um pouco de +vinagre forte, de sorte que lhe chegue á garganta, e de repente se levantará e +fugirá da meza, e é provado.</p> + +<h2>Segredo 86.º</h2> + +<h3>Maravilha rara</h3> + +<p>Escrevem S. Basilio e S. Ambrosio, de uma ave que se chama Alcião, da fórma +do maçarico, a qual cria junto ao mar na area e no inverno; a qual em 14 dias +se tira e cria, até poderem voar. E dizem estes Santos Doutores, que em todos +estes 14 dias, que esta<span class="pn">{70}</span> ave gasta em criar seus +filhos, nunca o mar se altera, pouco nem muito, antes se conserva mui sereno e +socegado. Esta maravilha e prodigio tem bem observado os marinheiros, e chamam +a estes dias alcionicos; e estão mui certos que em todos estes 14 dias não ha +tormenta no mar.</p> + +<h2>Segredo 87.º</h2> + +<h3>Do olho do cão </h3> + +<p>Baptista Aranda, escreve em um livro de seus conceitos, que quem trouxer +comsigo um olho de cão negro, não lhe ladrarão os outros cães; por que diz que +o dito olho lança de si tão grande fartum e cheiro, que os cães o sentem logo +pelo grande faro que teem; e não só se não atrevem a ladrar, mas ainda nem a +bolir comsigo.</p> + +<h2>Segredo 88.º</h2> + +<h3>Importante para a memoria</h3> + +<p>Se quizerem augmentar a memoria, tomarão a banha do urso e cera branca, e +derreterão a cera com a banha, sendo esta dois tantos de cera; tomarão a herva +que se chama Valeriana, e outra que se chama Eufragia, frescas ou seccas, e +pizadas muito bem, as<span class="pn">{71}</span> misturem com a banha e cera +derretida, e tornando ao fogo, deixarão ferver até que fique grosso, mechendo +com um páo, e com este unguento untarão o toutiço e testa, de quando em quando, +e se augmentará notavelmente a memoria, e é provado.</p> + +<h2>Segredo 89.º</h2> + +<h3>Dos dois casados que não tem filhos</h3> + +<p>Para saber, de dois casados que não tem filhos, em qual dos dois está o +defeito natural, tomem a ourina de ambos, marido e mulher, cada uma em sua +vasilha, e em cada qual d'ellas lançarão uns poucos de farellos de trigo, e +n'aquella ourina em que se crearem bichos, está o defeito natural de não poder +procrear ou conceber.</p> + +<h2>Segredo 90.º</h2> + +<h3>Para ter boa voz e clara</h3> + +<p>Tomarão a flor do sabugueiro, e seccando-a ao sol, moida, lançarão os pós em +vinho branco e os tomarão em jejum, e causará boa voz e clara.</p> + +<p>O sumo do aipo e orjavão, bebidos, aclara muito<span class="pn">{72}</span> +a voz; mas advirtam, que o sumo do orjavão resfria os genitaes.</p> + +<h2>Segredo 91.º</h2> + +<h3>Para que se não coza a carne na panella posta ao lume em todo o dia</h3> + +<p>Tomem uma pasta de chumbo delgada, e pondo-a no fundo da panella, não se +cozerá a carne por mais fogo que tenha em todo o dia, e é provado.</p> + +<h2>Segredo 92.º</h2> + +<h3>Provado contra o mal dos queixos</h3> + +<p>Tomem duas duzias de folhas de hera, outras tantas de sabugo e outros tantos +grãos de pimenta, e ponham tudo a ferver em vinho bem tinto e velho com um +pouco de sal, e depois de ferver bem, tirado do fogo, tomarão bochechos de +vinho quente, fazendo-se tres ou quatro vezes, se tirará a dor sem falta.<span +class="pn">{73}</span></p> + +<h2>Segredo 93.º</h2> + +<h3>Para fazer espirrar por baixo e por cima a quantos estiverem em uma casa +</h3> + +<p>Tomarão tres ou quatro pimentos ou malaguetas, e as porão em um brazeiro, +cobertas de cinza, de sorte que as brazas não cheguem aos pimentos, porém que +haja muitas brazas em cima e ao redor da cinza, e tanto que forem aquecendo os +pimentos, pouco a pouco sairá um fumo tão subtil e delgado, que se não sente, +até causar o sobredito effeito, com tanto que a casa esteja bem fechada, e é +provado.</p> + +<h2>Segredo 94.º</h2> + +<h3>Provado para que não nasçam nem cresçam cabellos</h3> + +<p>Raparão mui bem com uma navalha os cabellos que quizerem, e untarão aquelle +logar com gomma-arabia, desfeita com o sumo de herva molerinha ou sangue de +morcego, que é melhor, e não lhe crescerão mais. O mesmo effeito fará o esterco +de gato desfeito com vinagre.<span class="pn">{74}</span></p> + +<h2>Segredo 95.º</h2> + +<h3>Para que a barba e cabellos sempre se conservem negros</h3> + +<p>Mandarão fazer um pente de chumbo mui basto, com o qual pentearão a barba e +cabellos a miudo e sempre se conservarão negros.</p> + +<h2>Segredo 96.º</h2> + +<h3>Para conservar a barba e cabellos loiros</h3> + +<p>Tomarão folhas de nogueira e cascas de romã, distillado tudo por lambique de +vidro, e com esta agua lavarão mui bem, por quinze dias, a barba e cabellos, e +conservar-se-hão loiros.</p> + +<h2>Segredo 97.º</h2> + +<h3>Para que a barba e cabellos de brancos se tornem negros</h3> + +<p>Tomem folhas de figueira negra bem seccas, e feitas em pó as misturarão com +azeite de macella gallega,<span class="pn">{75}</span> e com isto untarão os +cabellos e barba muitas vezes, e se farão negros.</p> + +<h2>Segredo 98.º</h2> + +<h3>Para que as unhas e cabellos cresçam pouco</h3> + +<p>Cortarão as unhas e cabellos em minguante da lua, com tanto que se ache a +lua no signo de Cancer, Pisces ou Escorpião, e crescerão mui pouco.</p> + +<h2>Segredo 99.º</h2> + +<h3>Para que as unhas e cabellos cresçam depressa</h3> + +<p>Cortarão as unhas e cabello em crescence de lua no signo de Tauro, Virgo ou +Libra, e verão como tornam a crescer depressa.<span class="pn">{76}</span></p> + +<h2>Segredo 100.º</h2> + +<h3>Aviso importante e proveitoso para os lavradores</h3> + +<p>Para que as sementeiras saiam boas, e a colheita melhor, observará o +lavrador, quando semear, que seja em lua nova, e que se ache no Signo de Tauro, +Cancer, Virgo, Libra ou Capricornio, e achará uma grande e rara differença na +seara e na colheita.</p> + +<h2>Segredo 101.º</h2> + +<h3>Para ferir fogo sem pederneira nem isca</h3> + +<p>Tomarão um páo de louro secco, e outro de amoreira, ou de hera, que é +melhor, e roçando rijamente um contra outro, aquecerão tanto que sé accenderá +fogo como polvora, ou mecha. D'este segredo usavam as espias no campo de Cesar, +por não serem sentidas dos inimigos.</p> + +<h2>Segredo 102.º</h2> + +<h3>Para seccar o leite dos peitos das mulheres</h3> + +<p>Notem este segredo: as mulheres para se lhes seccar<span +class="pn">{77}</span> o leite dos peitos, por mais cheios e duros que os +tenham, tomarão as folhas do sabugueiro e as ponham estendidas e enxutas sobre +os peitos, e logo se irão abrandando e seccando; e é provado muitas vezes. +Outro segredo mui importante para o mesmo, e é que tomem uma herva que se chama +melcoraje, e pondo-a ao fogo em uma tigella com um pouco de azeite rosado, +assim que estiver quente a ponham aos peitos, cobrindo-os bem com pannos em +cima, e aos tres dias não sentirão leite nem molestia alguma; e tambem é +provado e experimentado muitas vezes.</p> + +<h2>Segredo 103.º</h2> + +<h3>Para saber antecipadamente se ha de haver abundancia de vinho</h3> + +<p>Escreve Missaldo, se a poupa (que é uma ave pintada como um periquito na +cabeça) cantar antes que as vinhas rebentem, é signal mui certo que haverá +abundancia de vinho n'aquelle anno.<span class="pn">{78}</span></p> + +<h2>Segredo 104.º</h2> + +<h3>Para que os novilhos sigam a um homem</h3> + +<p>Diz Aristoteles, livro de <em>Animalibus</em>, que se pozerem uns pedacinhos +de cera benta nas pontas do novilho, ha de seguir a quem lh'os pozer.</p> + +<h2>Segredo 105.º</h2> + +<h3>Para que as bestas tornem para casa de seus donos</h3> + +<p>Escreve Santo Alberto Magno, que untem a testa da besta com sumo de cebolla +alvarrã, e não temam que se perca se a não furtarem.</p> + +<h2>Segredo 106.º</h2> + +<h3>Para fazer que uma besta não possa comer</h3> + +<p>Untar-lhe-hão a lingua toda com cebo, e antes se deixará estalar que comer +cousa alguma, se lhe não tirarem o cebo com sal e vinagre, lavando-lhe muito +bem a lingua.<span class="pn">{79}</span></p> + +<h2>Segredo 107.º</h2> + +<h3>Para não poderem passar por uma rua cavallos nem outro gado</h3> + +<p>Escreve Santo Alberto Magno, que façam uma cordinha de tripa de lobo, e +pondo-a atravessada na rua, coberta de arêa ou pó, verão que não passará por +ella cavallo ou gado, ainda que os matem ás pancadas; e dizem que fez a +experiencia S. Thomaz de Aquino, discipulo de Santo Alberto Magno.</p> + +<h2>Segredo 108.º</h2> + +<h3>Para descanço das bestas que caminham</h3> + +<p>Escreve Plinio, que tomem os dentes maiores dos lobos e que os atem ao +pescoço das cavalgaduras, e não se molestarão nem cançarão muito no caminho. +</p> + +<h2>FIM DA TERCEIRA PARTE</h2> +</div> + +<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30462 ***</div> +</body> +</html> |
