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diff --git a/30461-h/30461-h.htm b/30461-h/30461-h.htm new file mode 100644 index 0000000..5090231 --- /dev/null +++ b/30461-h/30461-h.htm @@ -0,0 +1,4031 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN"> +<html lang="pt"> +<head> + <title>Theatro Comico, por Camilo Castelo Branco</title> + <meta name="Author" content="Camilo Castelo Branco"> + <meta name="Publisher" content="Viuva Moré--Editora"> + <meta name="Date" content="1871"> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=UTF-8"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + font-family: sans-serif; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1em;} + h1, h2, h3, h4 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + h4 em {font-weight: normal;} + h5 {font-weight: normal; text-indent: -1em; margin-left: 1em; text-align: justify;} + #corpo p.centrado {text-align: center; text-indent: 0;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + em {color: blue} + </style> +</head> + +<body> +<div>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30461 ***</div> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center; border: solid 3px #000; padding: 1em;"> +<p style="font-size: 1.2em">CAMILLO CASTELLO BRANCO </p> + +<p>———</p> + +<p style="font-size: 2em">THEATRO COMICO</p> + +<div style="margin: 10%; border: solid 2px #000; padding: 1em;"> +<p style="font-size: 1.2em">A MORGADINHA DE VAL D'AMORES</p> + +<p>——</p> + +<p>ENTRE A FLAUTA E A VIOLA</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>——————</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>PORTO<br> +EM CASA DE VIUVA MORÉ—EDITORA<br> +<small>PRAÇA DE D. PEDRO</small><br> +1871</p> +</div> + +<div style="text-align:center;"> +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 2em">THEATRO COMICO</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p><small>PORTO—IMPRENSA PORTUGUEZA</small></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.2em">THEATRO COMICO</p> + +<p style="font-size: 0.8em">DE</p> + +<p>CAMILLO CASTELLO BRANCO</p> + +<p>——</p> + +<p style="font-size: 1.5em">A MORGADINHA DE VAL D'AMORES</p> + +<p>—</p> + +<p style="font-size: 1.2em">ENTRE A FLAUTA E A VIOLA</p> + +<p> </p> + +<p>——————</p> + +<p> </p> + +<p>PORTO<br> +VIUVA MORÉ—EDITORA<br> +<small>PRAÇA DE D. PEDRO</small><br> +1871</p> +</div> + +<div id="corpo"> +<p><span class="pn">{v}</span> </p> + +<h2>ADVERTENCIA</h2> + +<p>Da parte musical da primeira comedia d'este livro se encarregou o distincto +maestro Francisco de Sá Noronha, quando a comedia se escreveu com destino a ser +representada em Lisboa. Sendo importantissimo para o bom exito theatral o +subsidio da musica n'esta composição, e sobrevindo rasões que desviaram o nosso +amigo Noronha de collaborar comnosco em tamanha futilidade, não pôde por isso a +comedia ser submettida á opinião das platêas. Quem a lêr agora tem de +benevolamente disfarçar o seu fastio de leitura de versos, feitos ou copiados +das canções populares, para se cantarem.<span class="pn">{vi}</span> Por via de +regra, taes trovas são sempre asperas ou dissaboridas na declamação, mórmente +as que formam o <em>Auto do nascimento do menino Jesus</em>, consoante elle se +figura nas aldêas do Minho ainda hoje.</p> + +<p>Com referencia á farça não temos que pedir desculpa. Seria desvanecimento +irrisorio recearmos nós que a ponderosa e grave critica se descesse até coisa +tão pequena.</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<h1>A MORGADINHA DE VAL-D'AMORES</h1> + +<h4>COMEDIA EM TRÊS ACTOS</h4> + +<h2>FIGURAS</h2> +<ul> + <li>D. J<small>OANNA</small> C<small>OGOMINHO DE</small> + E<small>NCERRABODES</small>, morgada de Val-d'Amores, filha de </li> + <li>P<small>ANTALEÃO</small> C<small>OGOMINHO DE</small> + E<small>NCERRABODES.</small> </li> + <li>F<small>REDERICO</small> A<small>RTHUR DA</small> C<small>OSTA</small>, + Escrivão da Fazenda de Santo Thyrso. </li> + <li>C<small>OSME</small> J<small>ORDÃO</small>, Deputado por Guimarães. </li> + <li>M<small>ACARIO</small> M<small>ENDES</small>, Boticario de Santo Thyrso. + </li> + <li>J<small>OÃO</small> L<small>OPES</small>, Lacaio e confidente da Morgada. + </li> + <li>F<small>IGURAS DO</small> A<small>UTO DOS</small> T<small>RES</small> + R<small>EIS</small> M<small>AGOS.</small> </li> + <li>Creados, cantadeiras, camponezes, musicos e outros personagens. </li> + <li><em>Scenas da actualidade.</em> </li> +</ul> + +<h1>ACTO PRIMEIRO</h1> + +<h5>Ao fundo, portão de quinta com sua enorme pedra de armas e ameias lateraes. +O restante do palco figura uma alameda e estrada.</h5> + +<h2>SCENA I</h2> + +<h3>FREDERICO <em>(só)</em></h3> + +<h5><em>(Frederico é um homem entre 28 e 33 annos que traja quinzena e calças +pretas apertadissimas em corpo de extrema magreza e aprumo. O chapéo é de fórma +ingleza e alto para tornar mais aguçada a figura. A cabelleira bironniana em +crespas ondulações. Bigodes encerados e picantes nas guias retezadas. A luneta +d'um vidro sem aro obriga-o a caretear, abrindo a bocca de esguêlha quando fixa +mais attentamente a morgada. Os seus movimentos, quando lhe fôr necessario +fugir, hão de ter tal velocidade que simulem o rapido perpassar d'um duende. A +agilidade da rotação do pescoço deve dar-lhe o que quer que seja de authomatico +e fantasmagorico.)</em></h5> + +<p>A razão diz-me que eu estou em perigo de ser moído por estes selvagens do +Minho; mas o coração, este intestino onde o amor e a coragem habitam, diz-me +que não vacille. A rasão argumenta-me<span class="pn">{12}</span> que eu, +escrivão de fazenda no concelho de S. Thyrso, não devo arrojar as minhas +desenfreadas ambições até á mão da morgadinha de Val-d'Amores; mas o coração, +esta republica intima que me esbraveja no peito, impelle-me para ella, +mandando-me lêr n'aquelle brazão <em>(apontando)</em> o epitaphio da fidalguia +de raça, e o monumento levantado não ás tradições ineptas, mas á restauração da +dignidade humana. Além d'isto, eu, homem de aspirações gigantes, eu, poeta de +audaciosos raptos d'alma, eu, que junto á poesia elevada a poesia profunda, +preciso de me arranjar. Sou escrivão de fazenda; mas esta posição não quadra +aos meus instinctos. Ás vezes como que sinto escaldarem-se-me as arterias com +sangue de principe, e me quer parecer que algum de meus avós foi mais ou menos +illudido por alguma das minhas avós. Reconheço, como filho d'este seculo, que a +democracia matou a nobreza mascarando-se ella de fidalga; assim é; porém, ao +mesmo tempo, não sei que filtros me circulam no intimo peito, quando vejo esta +morgada e lhe entrevejo na fronte o sangue azul das veias. Sobre tudo, o que +mais me incita a querer-lhe com a adoração<span class="pn">{13}</span> dos +Paulos e dos Romeus é a precisão que tenho de me arranjar.</p> + +<p>Eu já manobrei por mares tempestuosos. Um dia consultei a minha vocação; e, +como me sentisse um dos muitos desventurados que cáem n'este mundo sem vocação, +fiz-me litterato. Os litteratos fazem-se a si proprios, por serem cousa que a +Biblia não diz que o Creador fizesse nos sete dias de creação. Um sujeito olha +para si como Deus para as trevas, e diz «<em>fiat lux</em>» faça-se o +litterato; «<em>et lux facta est</em>», e o litterato fez-se. Eu prometto não +dizer mais nada em latim, por que tambem não sei mais do que isto.</p> + +<p>Feito litterato, escrevi como toda a gente que quer escrever. Preparava-me +para coordenar uma Historia Universal em 25 volumes com 26 de supplemento, +quando se me offereceu um logar de noticiarista n'um diario de Lisboa. A minha +reputação estava quasi estabelecida, quando a empreza me despediu por +semsaborão, como se fosse obrigatorio ser engraçado no paiz mais desgraçado do +mundo. Voltei o meu espirito para a historia universal, e cheguei até a +procurar n'um Almanak onde era a Torre do Tombo com tenção de lá ir consultar +os pergaminhos.<span class="pn">{14}</span> N'este proposito estava eu, +sentindo já os calores da gloria, quando me encarregaram de traduzir uma +comedia franceza para o Gymnasio. Puz de parte a Historia Universal, e traduzi +a comedia com um esmero indigno do resultado, porque ella foi pateada visto que +tinha, segundo disseram os criticos, uns gallicismos que lhe corrompiam a +virgindade elegante do texto. Ora eu então fiz-me critico, animado pela grande +copia de sandices que se escreveram contra a minha traducção. N'este modo de +vida achei vantagens extraordinarias, sendo a primeira a dispensa de saber +alguma coisa. Um critico, no jardim das lettras, representa uma toupeira em +jardim de flores; é temivel porque remeche e estraga tudo; levanta impólas de +terra, e suja quando não desvasta a mimosa vegetação. Eu fiz destroços grandes +e escalavrei muitas reputações litterarias, já por amor da arte, já por amor do +estomago, esta coisa onde um homem de genio não póde crear a luz, porque isto +aqui <em>(indicando o estomago)</em> é um abysmo que só recebe a luz pela +bocca. Mas a final, as obras litterarias que appareciam eram já de natureza que +o arpéo da critica não lhes ferrava a<span class="pn">{15}</span> unha. +Entreguei-me ao genero chamado <em>reclame</em>, e comecei a chamar a attenção +do paiz para toda a coisa impressa, poema ou tragedia, romance ou farça. Este +officio, posto que o mais aviltante da vida d'um escriptor, é o mais lucrativo +no mundo patarata, em que eu me atasquei. A consciencia pezava-me pouco, se o +estomago sahia pezado de casa do emprezario do theatro ou do editor do romance. +Afoguei muitos escrupulos em sopa de camarão. Mas o sangue de principe, este +não sei quê que me faz cócegas nos miolos, mostrou-me a indignidade da minha +missão na terra, e desde logo atirei um vôo atrevido ás regiões aquilinas da +politica. Estudei trez dias as questões de fazenda em Portugal, e entendi-as +tão claramente como se fossem questões da minha fazenda. Percebi que o paiz +estava como eu tal e qual: foi-me facil escrever uma serie de artigos nos quaes +provava que a maneira de matar o <em>deficit</em> era... sim eu provava que a +maneira de matar o <em>deficit</em>, esse cancro roedor das entranhas do meu +paiz, era... sim eu provava... não me lembra agora o que provei... o certo é +que me despacharam escrivão de fazenda de Santo Thyrso,<span +class="pn">{16}</span> provavelmente para matar o <em>deficit</em>. Eis que +chego, e vejo a Morgadinha... <em>(Ouvem-se os tamborileiros)</em> Não convem +que estes barbaros me vejam parado em frente do portão da mulher amada... +<em>(Sáe)</em>.</p> + +<h2>SCENA II</h2> + +<h3>PANTALEÃO, <small>DOIS</small> CREADOS, <small>E OS</small> +TAMBORILEIROS</h3> + +<h5><em>Entram ao terreiro e páram tocando em frente da porta trez +tamborileiros, um de bombo, e os outros com caixas de rufo. Pouco depois +abre-se a porta, e sáe</em> <em>P<small>ANTALEÃO</small></em><em>, com dois +creados de lavoura, um dos quaes distribue canecas de vinho, que despeja d'um +pichel vermelho, pelos tamborileiros, que se descobrem.</em></h5> + +<h4>1.º Tamborileiro <em>(o do Zabumba)</em></h4> + +<p>Biba o incelentissimo morgado a mai'la snr.ª morgadinha!</p> + +<h4>Os trez</h4> + +<p>Biba por muitos annos, biba!<span class="pn">{17}</span> </p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Olé! rapazes! Com que vossês já se vão chegando ao arraial?..</p> + +<h4>1.º Tamborileiro</h4> + +<p>Ó promeiro, vamos tocar ós mordomos do Snr. San Joon, que tem festa +d'arromba este anno; e ós despois la bamos pr'ó arraial com Deus. <em>(Ouve-se +ao longe a toada das cantadeiras que cantam o S. João.)</em></p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Bebam; mas não se encarraspanem como no anno passado.</p> + +<h4>2.º Tamborileiro <em>(rindo alvarmente)</em></h4> + +<p>É berdade, fedalgo! Aquillo é que foi perua! Indas m'alembra!<span +class="pn">{18}</span> </p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Pois vê lá se arranjas outra que te faça esquecer a do anno passado.</p> + +<h4>3.º Tamborileiro <em>(bebendo)</em></h4> + +<p>Enton la bai á saude de Vossenhoria, a mais da snr.ª morgadinha.</p> + +<h4>1.º e 2.º Tamborileiro</h4> + +<p>A mesma.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Querem mais? bebam.</p> + +<h4>1.º Tamborileiro</h4> + +<p>Non faz minga.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Então, rapazes, adeus. Lá nos veremos na romaria.<span +class="pn">{19}</span> </p> + +<h4>Os tres Tamborileiros</h4> + +<p>Biba o fedalgo, e mai la obrigaçon. <em>(Sáem rufando estrondosamente: cessa +o estrondo pouco depois.)</em></p> + +<h2>SCENA III</h2> + +<h3>PANTALEÃO <small>E OS DOIS</small> CREADOS <small>(QUE POUSAM AS +VASILHAS)</small></h3> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Ora venham cá vossês, tomem tino no que eu vou dizer, e abram-me esses +olhos. Vossês tem obrigação de zelar a honra d'esta casa, por que nasceram +n'ella, cá se crearam, e cá hãode morrer, se me servirem bem. Aquillo que +souberem a respeito do que vou perguntar hão de dizer-m'o. Aqui quem governa +sou eu, percebem? Vossês tem visto de noite alguma vez por debaixo das janellas +d'esta casa o escrivão de fazenda? um homem muito magro que cá vinha +d'antes?<span class="pn">{20}</span> </p> + +<h4>1.º Creado</h4> + +<p>Bem sei quem é o escribon das fazendas de Santo Thyrso... Olhe, fedalgo, eu +jurar non juro que era elle; mas aqui atraz ha trez noutes, vinha eu de regar a +cortinha das Chans, e ao sahir da carvalheira, rebentando sobre a direita, vi +uma coisa a escoar-se por entre os carvalhos que parecia um abentesma...</p> + +<h4>2.º Creado</h4> + +<p>Eu tambem já bi esse abentesma, salbo seja, ahi ós pois da mêa noute; mas +aquillo, meu amo, non podia ser o escribon das fazendas por que Vossenhoria +faça de conta que elle por este caminho alem lebaba-se assim têzo e hirtego que +não bolia c'os pezes. Havéra de ser o mesmo que tu enxergaste, Antonho!</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Pois creiam vossês que não era outro senão o escrivão de fazenda. N'estes +arredores não ha homem d'aquelle feitio senão elle... Sabem<span +class="pn">{21}</span> o que eu quero, rapazes? é que lhe dêem uma boa sova de +estadulho.</p> + +<h4>1.º Creado</h4> + +<p>Só se for a tiro; que non ha home que o pilhe na carreira.</p> + +<h4>2.º Creado</h4> + +<p>E p'ra lh'acertar c'uma bala faz minga saber atirar ás lebres. <em>(Ouvem-se +risadas de mulheres já perto.)</em></p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Por ora, nada de tiros; o que mando é que lhe arrumem quatro bordoadas, sem +lhe dizer isto nem aquillo. Vossês zupem-lhe e escamem-se, que eu com a justiça +não quero testilhas; mas não lhe batam, sem o apanharem cá á volta da casa... +Vamos conversar aqui p'ra carvalheira que vem ahi as raparigas da freguezia. +<em>(Sáem pela esquerda.)</em><span class="pn">{22}</span> </p> + +<h2>SCENA IV</h2> + +<h5><em>(Rancho de raparigas vestidas de saias de chita com muita roda de saias +e saiotes, capotilhas encarnadas, chinela e meia branca, acompanhadas d'um +tocador de rebeca e outro de violão, que lhes acompanham as cantigas. Entram +pulando alegremente, e pucham por a estridula sineta do portão.)</em></h5> + +<h4>O rabequista</h4> + +<p>Biba a snr.ª morgadinha de Val-d'Amores!</p> + +<h4>Todos</h4> + +<p>Biba! Biba! <em>(Cantam o S. João.)</em></p> + +<blockquote> + <b> COPLAS</b><br> + <br> + Son Joon adromeceu<br> + Nas escadas do collejo;<br> + Deron nas frêras co'elle,<br> + Son Joon ten porbolejo.<br> + Que é aquillo, que é aquillo, que é aquillo?<br> + Son Joon a caçar um grilo.<span class="pn">{23}</span><br> + <br> + Ó meu son Joon da Ponte,<br> + Ó meu bello patusquinho,<br> + Dá-nos anno de bon pon,<br> + Dá-nos anno de bom binho.<br> + Non é nada, non é nada, non é nada,<br> + Son Joon a comer pescada.</blockquote> + +<h5><em>(Abre-se o portão de par em par. Sáe a Morgadinha, trajada com luxo, +mas fóra da moda. Vestido de ancas exaggeradas, cabello á Stuart, e um grosso +grilhão ao peito. Segue-a um creado velho, de niza, com uma cadeira de braços á +cabeça, e uma pichorra e caneca na mão.)</em></h5> + +<h2>SCENA V</h2> + +<h3>MORGADINHA, JOÃO LOPES, <small>E AS</small> CANTADEIRAS</h3> + +<h4>Vozes</h4> + +<p>Biba a snr.ª morgadinha! Biba! Biba!</p> + +<h4>Morgadinha <em>(sentando-se na cadeira)</em></h4> + +<p>Adeus, raparigas. Como estás tu, Maria do Quinchoso! e tu Benta do Cazal? +Olha a Marianna<span class="pn">{24}</span> da Egreja como está gorda com o +cazamento! Ó João Lopes, dá vinho a essa raparigada toda.</p> + +<h4>Uma das moças</h4> + +<p>Vossenhoria bai ao arraial?</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Podéra não! Já estou preparada, e vou assim que a tarde refrescar, que quero +ver o fogo prezo.</p> + +<h4>Outra</h4> + +<p>E mai lo auto do Natal, que vem la os d'Arnôzo co'elle.</p> + +<h4>Outra</h4> + +<p>E como a fidalga está pimponaça! Parece mêmo a Madanela da porcisson de +Passos!</p> + +<h4>Outra</h4> + +<p>Benza a Deus, que palminho de cara assim, não se topa outra no mundo. Faz +agora<span class="pn">{25}</span> um anno que os cassacas do Porto andabon +todos enbeiçados atraz da snr.ª morgadinha no arraial; e enton aquelle goberno +que está em S. Thirso esse é que andava memo azoratado!</p> + +<h4>Morgadinha <em>(rindo)</em></h4> + +<p>Qual governo?!</p> + +<h4>A mesma</h4> + +<p>Aquelle que lhe chamon o das fazendas, ou non sei que deanho...</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Ah!.. <em>(suspirando)</em> Ja sei...</p> + +<h4>O do violão</h4> + +<p>Má rais o parton, que me mandou citar indas hontem!</p> + +<h4>O rabequista</h4> + +<p>Eu onde le poder ser bon heide medirle o costado de pá a pá cum +fueiro...<span class="pn">{26}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Ora não sejas bruto, José da Eira! Elle faz a sua obrigação; faz tu a tua +que é pagar o que deves ao rei.</p> + +<h4>O mesmo</h4> + +<p>Ao rei! Bem me fio eu n'isso... Enton a fidalga pensa que o rei aveza uma de +X do dinheiro que nós demos!! Pois non avezastes! Os governos de S. Thirso +repartem uns c'os outros no fim do anno o dinheiro que don os lavradores.</p> + +<h4>O outro</h4> + +<p>É como diz.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Sois uns selvagens. Deixemo'-nos de tolices. Cantem lá alguma coisa vossês. +</p> + +<h4>Uma das moças</h4> + +<p>Quer a <em>Marianinha</em>, fedalga?<span class="pn">{27}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Pois sim; cantem lá a <em>Marianinha</em>.</p> + +<h4>COPLAS<br> +<em>(Tudo mulheres)</em></h4> + +<h4><small>(UMA VOZ)</small></h4> + +<blockquote> + Ja fui canario do rei,<br> + Ja lhe fugi da gaiola.</blockquote> + +<h4><small>(CÔRO)</small></h4> + +<blockquote> + Sim, sim, eu vou lá<br> + Ó Marianinha,<br> + Sim, sim, eu la vou<br> + Ó pequerruchinha.</blockquote> + +<h4><small>(UMA VOZ)</small></h4> + +<blockquote> + Agora sou pintassilgo<br> + Destas meninas d'agora.<span class="pn">{28}</span></blockquote> + +<h4><small>(CÔRO)</small></h4> + +<blockquote> + Sim, sim, eu vou la, etc.</blockquote> + +<h4><small>(UMA VOZ)</small></h4> + +<blockquote> + Pintassilgo está no bosque,<br> + A andorinha no telhado.</blockquote> + +<h4><small>(CÔRO)</small></h4> + +<blockquote> + Sim, sim, etc.</blockquote> + +<h4><small>(UMA VOZ)</small></h4> + +<blockquote> + So eu não sei onde estou,<br> + Quando não estou ao teu lado,</blockquote> + +<h4><small>(CÔRO)</small></h4> + +<blockquote> + Sim, sim, etc.</blockquote> + +<h4><small>(VOZ)</small></h4> + +<blockquote> + A andorinha quando chove<br> + Vai metter-se á escuridon<span class="pn">{29}</span></blockquote> + +<h4><small>(CÔRO)</small></h4> + +<blockquote> + Sim, sim, etc.</blockquote> + +<h4><small>(VOZ)</small></h4> + +<blockquote> + E eu quando o norte é rijo<br> + Metto-me ó teu coraçon.</blockquote> + +<h4><small>(CÔRO)</small></h4> + +<blockquote> + Sim, sim, etc.</blockquote> + +<h4>Todos</h4> + +<p>Biba a snr.ª Morgadinha! Biba!</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Então vossês vão já para a romaria?</p> + +<h4>Uma d'ellas</h4> + +<p>Aindas bamos buscar as cazeiras de Vossenhoria que estão á espera de nós, e +ós pois voltemos por qui.<span class="pn">{30}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Pois vão, e voltem. <em>(Sahem cantando o S. João. A morgadinha fica +pensativa e melancolica, encostando o rosto á mão, em quanto se ouve e se vai +perdendo a toada da cantiga.)</em></p> + +<h2>SCENA VI</h2> + +<h3>MORGADINHA <small>E</small> JOÃO LOPES</h3> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Como estes brutos são felizes!.. E eu sempre apoquentada por causa deste +coração! Ai! eu antes de saber o que era amor tambem cantava... Lembras-te, ó +João Lopes?</p> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>Ora se lembro! E cantava que nem uma calhandra a fidalga!<span +class="pn">{31}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Olha se te lembras, João! Eu ia ás espadeladas, ás descamizadas, ás malhas, +brincava, saltava...</p> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>Até dançava a cana verde, e a chula que era um gosto vêl-a!.. E quando a +menina quiz que eu lhe ensinasse o jogar o páo...</p> + +<h4>Morgadinha <em>(com alegria)</em></h4> + +<p>É verdade...</p> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>E o caso é que vossellencia ahi com duas duzias de lições já me chegava com +o páo.</p> + +<h4>Morgadinha <em>(erguendo-se enthusiasmada)</em></h4> + +<p>E d'aquella vez que eu me vesti de rapaz, e puz fóra da eira do Manoel +Tamanqueiro, com quatro partidas de páo, mais de seis mascarados que la andavam +a beliscar as minhas cazeiras!<span class="pn">{32}</span> </p> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>Por signal que a menina deu uma tapona no Zé Torto, que ficou torto de +todo... Ó fidalga, vossellencia hoje já não era capaz de romper ahi com um +marmeleiro p'ra frente d'um homem qualquer!..</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Estás enganado... se me chegassem a mostarda ao nariz... Mas, ai!.. +<em>(Torna a sentar-se triste.)</em> A minha alegria foi-se desde que eu soube +o que era amor!.. Olha lá, João... não o vis-te hoje? não viste o meu amado +Frederico?</p> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>Falle baixinho, menina. Olhe que o snr. morgado ainda ha todonada me esteve +dizendo que desconfia que elle anda por aqui de noute. A fidalga acautele-o; +que não vão os creados chegar-lhe ao forro da camiza...<span +class="pn">{33}</span> </p> + +<h4>Morgadinha <em>(erguendo-se colerica)</em></h4> + +<p>Façam isso, que os esgano! Que lhe ponham um dedo, e verão quem é a morgada +de Val-d'Amores!</p> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>Não grite assim, que seu pai, se a ouve, quem as paga sou eu. A fallar a +verdade, eu não desgosto do snr. Frederico; mas, em fim, esta aquella de ser +escrivão, é ruim modo de vida para poder casar com a snr.ª morgadinha...</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Isso que tem!? Todos somos eguaes; e o coração, quando ama, não quer saber +de contos. Uma pessoa não está lá a averiguar se o objecto amado é fidalgo ou +plebeu. Tem-se visto rainhas casarem com pastores, e reis casarem com pastoras. +</p> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>Cá no conselho de Santo Thirso não me consta, hade perdoar.<span +class="pn">{34}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Mas lá por esse mundo fóra acontece isso a cada passo. Tu é por que não lês +os livros das historias. Eu te lerei casos que aconteceram... E então que tinha +que eu casasse com um escrivão?</p> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>Em fim, em fim, o paisinho da fidalga foi capitão-mór, seu avô foi +desembargador, e seu bisavô foi sargento mór de batalha no Roussilhon...</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Vai dizendo até chegar a Adão e Eva, vai dizendo, e eu depois te direi de +quem eu e mais tu somos netos.</p> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>Isso assim é, não ha duvida; mas, diz lá o ditado, lé com lé, e cré com +cré.<span class="pn">{35}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Não quero saber de ditados! <em>(com força)</em> Este amor só m'o hade +arrancar do peito a morte!</p> + +<h4>João Lopes <em>(apontando para o brazão)</em></h4> + +<p>Fidalga, ponha os olhos nas armas reaes dos seus antepassados.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Ora! não tenho mais que fazer... Cuidas que eu não sei que meu avô casou com +uma creada? Mostra-me onde estão alli as armas da creada. Bem se importou elle +das armas, nem do brezabu que as leve! É o que faltava... estar-me eu aqui a +definhar p'ra'mor da pedra! As armas são de pedra, e eu sou de carne e osso, +ouviste?</p> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>A fidalga responde a tudo, e não ha remedio senão callar-se um homem, que a +trouxe<span class="pn">{36}</span> nos braços desde os trez annos, e sou capaz +de me metter no inferno vestido e calçado por causa da minha menina. +<em>(Sensibilisa-se.)</em> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Sei o que tenho em ti, meu João Lopes... Vais tu ahi ao cimo do pinhal a vêr +se o vês pela estrada?.. Elle disse-me que havia de passar para a romaria ás +seis da tarde. Se o encontrares, diz-lhe que meu pai se está a vestir para ir +tambem, e que elle póde demorar-se a conversar comigo um bocadinho.</p> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>Vou vêr se o avisto; mas, menina do meu coração, olhe que seu pai anda á +espreita e traz espias... Nós temos grande desgraça pela porta...</p> + +<h4>Morgadinha <em>(energicamente)</em></h4> + +<p>Não morro de medo, já te disse. A mulher que ama não tem medo de nada!<span +class="pn">{37}</span> </p> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>Seja assim; mas, se lhe quebram o espinhaço a elle! Coitado do homem, é tão +delgadito que, se o apanha o vento d'um páo, elle vai a terra...</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Quem lhe hade bater?! Cuidas que elle não anda armado? Que se attrevam +sómente a ameaçal-o!..</p> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>Cá vou, cá vou, não se desespere. <em>(Sáe.)</em></p> + +<h2>SCENA VII</h2> + +<h3>MORGADINHA</h3> + +<h5><em>(Senta-se quebrantada e triste)</em></h5> + +<p>Ai! quem me dera casar!.. quem me dera casar com Frederico Arthur!.. +<em>(Musica de surdina)</em><span class="pn">{38}</span> Como eu gosto d'elle! +Ha mais de dous annos que este meu coração padece! Não ha noite em que eu não +sonhe duas vezes com a sua imagem... Quando acordo, e o não vejo, a minha +vontade é chorar, chorar, chorar! Perdi a vontade de comer! Tudo me faz fastio. +Os cirurgiões mandam-me tomar aguas ferreas!.. e só eu sei o que tenho! O meu +mal é aqui!.. <em>(a mão sobre o coração)</em> Oh céos! quanto eu sou +desgraçada sem o meu Frederico! <em>(Ergue-se, e falla com muito sentimento. +Musica plangente.)</em> Quando eu o vi, pela primeira vez, foi na hospedaria +das Caldas de Vizella, onde meu pai tratava do seu rheumatico. Estávamos a +jantar quando elle entrou, e meu pai offereceu-lhe frango com ervilhas. Elle +agradeceu, mas não comeu, dizendo que o seu jantar era um ôvo quente. E d'ahi a +pouco, trouxeram-lhe um ôvo quente n'uma tigella; e elle comeu o ôvo, bebeu um +copo d'água fresca, e disse que tinha jantado! Como eu fiquei triste e +pensativa a olhar para elle, e elle para mim! Perguntei-lhe, sem o pai ouvir, +se podia viver só com um ôvo, e elle respondeu que a sua alma se sustentava com +a esperança de ser amado por mim... e<span class="pn">{39}</span> com tres óvos +por dia. Oh! que lembranças estas, que lembranças estas! <em>(chora)</em> E vai +depois, disse-lhe eu: «O snr. está assim magro porque come muito pouquinho; se +gosta d'óvos coma uma duzia d'elles de cada vez»; e elle pregou-me os seus +lindos olhos, e respondeu a suspirar: «Que me importa o corpo? a mim o que me +importa é o coração que é grande; e, se o corpo é magro, mais depressa me +reduzirei a cinzas se V. Ex.ª me desprezar.» Isto fez-me no peito mossa! fiquei +presa d'este dito; senti por aqui acima uma fogueira que me pôz a cara em +brazas vivas, e não lhe disse coisa de geito porque fiquei um pedaço intallada. +Depois, ao despedir-mo'nos, com muita vergonha, sempre pude dizer-lhe: +«amo-vos, meu bem!» Ora aqui está como começou isto. Desde então para cá apenas +lhe tenho fallado umas trez duzias de vezes da janella para o caminho... +Sinto-me muito acabada; e, se isto assim dura, não vou longe. Elle tambem está +no osso, o meu pobre Frederico!.. Antes de começar estes amores, eu pezava +cinco arrobas e seis arrateis pela medida antiga; pois aqui ha oito dias +pezei-me de novo, e tinha mingado duas arrobas. Assim não podemos<span +class="pn">{40}</span> viver, nem eu nem elle. <em>(Com força, que a musica +imita.)</em> É preciso acabar com isto d'uma maneira ou d'outra. Se meu pai +quer, quer; senão quer, quero eu. Uma mulher não póde ser escrava da sua +fidalguia. Antes quero ser esposa d'um escrivão, e viver contente, que ser a +morgadinha de Val-d'Amores, e estar-me aqui a pôr na espinha... <em>(Ouve-se +rumor de vozes fóra.)</em> É o meu papá!.. <em>(Senta-se.)</em> Vem-me empatar +as vazas...</p> + +<h2>SCENA VIII</h2> + +<h3>PANTALEÃO, MACARIO, <small>E A</small> MORGADINHA</h3> + +<h5><em>(Macario é um sujeito de oculos e casaca de briche, já de annos, e ar +circumspecto)</em></h5> + +<h4>Pantaleão <em>(áparte ao boticario)</em></h4> + +<p>Veja lá como lhe falla... Olhe que ella é finoria... <em>(á filha)</em> Cá +me vou preparar, Joaninha. Aqui te deixo o snr. Macario para não ficares +sósinha. <em>(Sáe.)</em><span class="pn">{41}</span> </p> + +<h2>SCENA IX</h2> + +<h3>MACARIO <small>E A</small> MORGADINHA</h3> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Tenha V. Ex.ª muito boas tardes.</p> + +<h4>Morgadinha <em>(enfastiada)</em></h4> + +<p>Viva, snr. Macario, as mesmas.</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Tem-lhe passado o fastio? Aquelle emplasto confortativo que eu lhe mandei +fez-lhe bem?</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Não o puz: cheirava a pez.</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>De pez de vergonha era; fui eu mesmo que<span class="pn">{42}</span> o +manipulei... Então, a snr.ª morgadinha vae ao arraial?</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Vou.</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Faz muito bem; que lá hade encontrar pessoa que muito interessa a V. Ex.ª... +enganei-me... pessoa que muito se interessa em vêr V. Ex.ª queria eu dizer.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Como é isso? não percebi.</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Eu me vou explicar. Eu cheguei hontem de Guimarães, onde estive com o snr. +deputado Cosme Jordão, um sabio que tem votado grandes fallas no parlamento... +Ha de ter ouvido fallar V. Ex.ª...</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Não sei nada de parlamentos, não leio periodicos.<span +class="pn">{43}</span> </p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Pois, minha snr.ª, o doutor Cosme Jordão é um sujeito conhecido em todo o +mundo, e lá na côrte até vae ao palacio do rei e come lá...</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Deixal-o comer, que tenho eu com isso?</p> + +<h4>Macario <em>(áparte)</em></h4> + +<p>Não faço nada! está hoje levadinha dos diabos.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Vamos, diga lá, snr. Macario.</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Pois este deputado vae hoje á romaria do S. João.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Deixal-o ir; que se divirta. Então é esse o homem que me quer vêr?<span +class="pn">{44}</span> </p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Eu me explico. O snr. deputado Cosme diz que vira V. Ex.ª...</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Ainda bem; é signal que não é cego. E que mais?</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>E que ficou muito agradado de V. Ex.ª...</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Pois tem máo gosto e perde o tempo. Que mais?</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>V. Ex.ª, se o vir, não hade fallar assim. É ainda homem de boa edade, cheio +de corpo, com uns oculos que lhe dão muito respeito á cara.<span +class="pn">{45}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Ora! oculos de respeito! que me importa cá a mim os oculos do homem? sabe +que mais, snr. Macario? <em>(Põem-se a bamboar uma perna sobre a outra, e a +trautear o «Pretinho que vem d'Angola».)</em></p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Finalmente, snr.ª morgadinha, como V. Ex.ª quizer; mas lembre-se de que seu +pae deve á fazenda nacional uns seis contos de réis, e que o snr. doutor Cosme, +casando n'esta casa, hade fazer com que seu pae não pague nada, e mesmo no +futuro lhe não lancem impostos.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Não me seque, snr. Macario. Vocemecê queria que meu pae pagasse commigo ao +tal Cosme o que deve á fazenda? Pois que pague com o que é d'elle, e que me +deixe com menos dote. Tenho dito, e deixemo'-nos de lerias. Metta-se lá na sua +botica e não se faça casamenteiro. Vá fazer charopes.<span +class="pn">{46}</span> </p> + +<h4>Macario <em>(áparte retirando-se)</em></h4> + +<p>Apre com a cabra!</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Que tal está o sacripanta!</p> + +<h2>SCENA X</h2> + +<h3>JOÃO LOPES, <small>ESPREITANDO A</small> MORGADINHA, <small>E +DEPOIS</small> FREDERICO</h3> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>Psiu, psiu.</p> + +<h4>Morgadinha <em>(sobresaltada)</em></h4> + +<p>Viste-o?</p> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>Elle ahi vem... Eu vou espreitar, e assim que eu tossir que fuja para a +carvalheira.<span class="pn">{47}</span> </p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Anjo! milagre de bellesa, Joanna querida, não sentes n'estas mãos o vibrar +da alma?</p> + +<h4>Morgadinha <em>(muito terna)</em></h4> + +<p>Como estás tu? passaste bem desd'hontem?</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Pergunta ao lirio do valle o que lhe pende a fronte quando o orvalho do céo +lhe não esfria os queimores do sol estivo.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Olha lá, Frederico, tenho a avisar-te, antes de mais nada, que é preciso +andares prevenido...</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Temos sicarios? Ha aqui vampiros? A vindicta paterna tem sêde do meu sangue? +Eis aqui o peito. Que m'o farpem, que m'o fendam, que<span +class="pn">{48}</span> m'o alanceem, que m'o lancetem. Tudo por ti, tudo por +ti, ó estrella, ó loira visão dos meus sonhos! <em>(Rumor fóra.)</em></p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Foge... esconde-te entre as arvores... <em>(Frederico sóme-se.)</em></p> + +<h2>SCENA XI</h2> + +<h3>MORGADINHA, <small>OS DOIS</small> CAMPONIOS <small>QUE VÃO PASSANDO, E +DEPOIS</small> FREDERICO</h3> + +<h5><em>(Um camponio tange flautim e outro viola. Duas moças á frente batendo +palmas ao compasso do canto, e saltando)</em></h5> + +<h4>Um camponio <em>(cantando)</em></h4> + +<blockquote> + <em>Muito bem seja apparecido</em><br> + <em>Seja apparecido</em><br> + <em>N'esta funcção.</em> (Batendo palmas)<span +class="pn">{49}</span></blockquote> + +<h4>(CÔRO)</h4> + +<blockquote> + <em>Bate as palmas c'o seu pexinho</em><br> + <em>Co' seu pexinho</em><br> + <em>Co' seu pexão.</em> (Repete)</blockquote> + +<h5><em>(Assim que elles passam, a Morgadinha sáe do portão, e logo Frederico +do escondrijo)</em></h5> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Mas dizias tu, pomba?</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Que te acautelasses dos meus creados quando vens de noute. Deves vir bem +armado.</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Armado! para quê? Tu não sabes que o teu amor é talisman que prostra +gigantes! As minhas armas são os raios de fogo que bebo de teus olhos; tenho +vesuvios na alma capazes de abrazar cidades!<span class="pn">{50}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Isto não é chalaça, meu amado Frederico! Peço-te que tenhas cuidado, muito +cuidado. Se eu podesse estar sempre ao teu lado, não temeria ninguem... Tu +verias o que é a morgada de Val-d'Amores... Mas eu não sei como isto hade +ser... Bem sabes que meu pae tem a mania de fidalgo...</p> + +<h4>Frederico <em>(interrompendo-a com exaltação)</em></h4> + +<p>Fidalgo! que é fidalgo?! palavra obsoleta em 1871! Que é fidalgo? a sola +velha e inutil d'um borzeguim do seculo XV! Oh! então é certo que teu pae +ignora, que o baptismo de sangue da revolução franceza lavou todas as manchas +da desigualdade entre homem e homem! Oh! a revolução! o segundo christianismo! +Que é fidalgo? teu pae não sabe que aquelle brasão d'armas <em>(apontando)</em> +está alli como a pedra sepulcral das cinzas feudaes! Teu pae está debaixo do +sol e não sente o calor da fermentação social! Ouve o estrondear da democracia +reinante, e volta a face para os phantasmas<span class="pn">{51}</span> dos +avoengos que se somem lá em baixo no abysmo da historia!</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Não sei lá d'essas historias; o que te peço é que não te exponhas a levar +alguma paulada á falsa fé. Olha que os meus creados são uns patifes, e meu pae +não é boa rez, quando se arrenega. Pensa no que se hade fazer, porque elle não +nos dá consentimento para nos casarmos.</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Heide movêl-o com a eloquencia d'um homem aquecido no sol moderno. Heide +convencêl-o, enchendo-lhe o espirito de luz e o coração de ideias novas.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Não te mettas n'essa asneira, que não fazes nada. <em>(Tem-se já ouvido +toada de musica da chula, e depois a tosse rija de João Lopes. Frederico +some-se sem ser preciso mandal-o. A morgadinha fica.)</em><span +class="pn">{52}</span> </p> + +<h2>SCENA XII</h2> + +<h3>MORGADINHA</h3> + +<h5><em>(Chega uma chulata que vae de passagem para a Romaria. Bando de +raparigas que precedem, bailando; tocadores de rebeca, viola, clarinete, +ferrinhos e requinta. A esturdia pára defronte da morgadinha, e continúa +dançando cada rapariga com o seu parceiro.)</em></h5> + +<h4>COPLAS DE DESAFIO</h4> + +<h5><em>(Em quanto o cantador deita a cantiga, tange sómente a viola. Entre os +dois primeiros versos e os dois ultimos de cada quadra ha um espaço que dá +logar a que toquem por alguns segundos todos os instrumentos.)</em></h5> + +<h4>Cantador</h4> + +<blockquote> + Agora que eu vou passando,<br> + Faço aqui minha parada;<br> + Para saber da saude<br> + Da incelentissima morgada.</blockquote> + +<h4>Cantadeira</h4> + +<blockquote> + Da incelentissima morgada<br> + Tambem eu quero saber,<span class="pn">{53}</span> <br> + Que mais linda creatura<br> + Não na póde o mundo ter.</blockquote> + +<h4>Cantador</h4> + +<blockquote> + Não na póde o mundo ter<br> + Nem terá até ao fim;<br> + Os seus olhos são d'amóras,<br> + Os seus dentes de marfim.</blockquote> + +<h4>Cantadeira</h4> + +<blockquote> + Se tem dentes de marfim,<br> + O seu rosto é uma roza;<br> + E viva sua incelencia<br> + Que não na ha mais fermosa.</blockquote> + +<h4>Cantador</h4> + +<blockquote> + Quero dar a despedida<br> + Á senhora Morgadinha;<br> + Que não ha por estas terras<br> + Mais bonita fidalguinha.<span class="pn">{54}</span></blockquote> + +<h4>Cantadeira</h4> + +<blockquote> + Eu tamem vou espedir-me,<br> + Despedida quero dar;<br> + Adeus, senhora morgada,<br> + Sirva-se de perdoar.</blockquote> + +<h5><em>(A morgadinha agradece-lhes com um aceno de lenço. O bando sáe tocando +e dançando. Assim que o descante se ouve froixamente, volta +Frederico.)</em></h5> + +<h2>SCENA XIII</h2> + +<h3>MORGADINHA <small>E</small> FREDERICO</h3> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Tenho odio a estes selvagens que me roubaram horas de vida! Quando sahirão +os lôrpas da face da terra?</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>É verdade, Frederico! Trouxeste-me os figurinos?<span class="pn">{55}</span> +</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Eil-os chegados hoje de Lisboa.</p> + +<h4>Morgadinha <em>(examinando-os)</em></h4> + +<p>Ai! que demonio de mulheres! Pois ellas trazem estes vestidos assim +incozipados nas pernas!?</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Oh! isto é a elegancia circassiana! é a fórma na sua diafeneidade sublime; +ha aqui a poesia do fino, a mulher parece toda nervosa, é o lyrismo da +plastica...</p> + +<h4>Morgadinha <em>(rindo)</em></h4> + +<p>Se eu te percebo, cebo! Boa cataplasma me parece este molho de clinas e +sacarrolhas que ellas tem na cabeça.<span class="pn">{56}</span> </p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Nâo blasfemes! Ó Joanninha, veste-te assim; realça, sobredoura a tua bellesa +com estes adornos que angelisam a mulher de compleição robusta, e transformam a +mimosa em cousa ideal vestida de vapores. A mulher assim involta em roupagens +etherias é um madrigal de setim que cahiu das lyras dos anjos.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Pois sim, faço-te a vontade. Vou mandar comprar no Porto esta trapalhice +toda...</p> + +<h2>SCENA XIV</h2> + +<h3>OS MESMOS <small>E</small> PANTALEÃO</h3> + +<h5><em>(Abre-se o portão repentinamente e apparece subito Pantaleão. Frederico +ainda faz um impeto de fuga, mas contem-se, e corteja mui urbanamente o +fidalgo.)</em></h5> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Passava para a romaria, e, como visse S. Ex.ª <em>(indicando a +morgadinha)</em> vim depor a seus<span class="pn">{57}</span> pés os meus +respeitosos cumprimentos, e informar-me da saude de V. Ex.ª</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Estou bom, muito obrigado. Onde está o João Lopes?</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Foi aparelhar a burra.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Vae tu preparar-te que são horas.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Quer vêr como agora são as modas, papá? olhe. O snr. Frederico vae levar +estes figurinos ás nossas primas de Ruivães.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Pois faz-me o snr. muito favor se me cá não trouxer bonecos a casa. Nós cá +não somos de modas.<span class="pn">{58}</span> </p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Direi a V. Ex.ª, snr. morgado, que as modas tem certa relação com o espirito +das gerações e das épocas. Agora que o entendimento humano se adelgaça, o +involucro material tambem se subtiliza nas raças finas...</p> + +<h4>Pantaleão <em>(medindo-o d'alto a baixo com ironia)</em></h4> + +<p>Bem se vê que o snr. escrivão é d'uma raça muito fina... pelo muito +adelgaçado que está...</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Não me jacto de prosapia heraldica; mas, na jerarchia dos espiritos, +preso-me de pertencer ao bando mais illuminado. Respeito muito o brasão; mas +curvo-me diante da aristocracia do genio e do talento.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Sim, o snr. tem muito talento, bem sei... Já te disse, Joanna, que te vás +arranjar.<span class="pn">{59}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Adeus, snr. Frederico, muito obrigada. <em>(Sáe.)</em></p> + +<h2>SCENA XV</h2> + +<h3>PANTALEÃO <small>E</small> FREDERICO</h3> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Creado de V. Ex.ª <em>(Váe a sahir; mas Pantaleão detem-o.)</em></p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Faça favôr.</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Escuto as suas ordens.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>O snr. anda muito mal encaminhado. Minha filha é a morgada de Val-d'Amores; +o snr.<span class="pn">{60}</span> é o escrivão de fazenda de Santo Thirso. +Estão um do outro tão longe como aquella pedra d'armas do rebôlo d'um +sapateiro, entendeu?</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Entendi, que V. Exc.ª tem um estylo bastante chato. Entendi, posto que V. +Exc.ª falle uma lingoagem assás gothica em pleno seculo XIX.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Pois se entendeu, tire o seu atrevido pensamento de minha filha, e procure a +fórma do seu pé. Não me obrigue a usar dos usos e costumes dos meus avós. Quer +que lh'os diga?</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Heroismos dos seus ascendentes? Essas Odissêas da aldêa são hoje +impraticaveis. Eu sei em que tempos vivemos, snr. morgado.<span +class="pn">{61}</span> </p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Sabe? pois olhe que não sabe em que terra vive. O snr. veio lá de Lisboa +onde qualquer bigorrilhas, que põe gravata, entende que é egual a todo o homem +que põe gravata; o que o bigorrilhas não quer é sêr egual a todo o homem que +não tem gravata.</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Ahi ha certa sublimidade de idêa, de que lhe dou os parabéns. V. Exc.ª ia +quasi escrevendo d'um traço a historia philosophica da democracia moderna.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Eu não escrevo historia nenhuma; o que eu lhe digo é que isto cá nas +montanhas é outra cousa. Os morgados são morgados; os escrivães são escrivães; +e os sapateiros são sapateiros. Ora, quando acontece alguem querer sahir da sua +classe, primeiro avisa-se; depois quebram-se-lhe as costellas. O snr. sabia +isto?<span class="pn">{62}</span> </p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Eu não sabia que estava na Cafrária. Cuidei que este concelho era um retalho +do Portugal civilisado; cuidei que a luz do grande fóco radiara uma flecha de +luz até ao coração de V. Ex.ª que me parece ser uma pessoa de bons costumes, e +não um esquimó. Cuidei finalmente que o Evangelho e a Carta constitucional +livellavam a dignidade humana... <em>(Ouve-se o cantar das raparigas que se +avisinha.)</em></p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Enganou-se comigo. Eu sou Pantaleão Cogominho de Encerrabódes, décimo oitavo +senhor do morgadio de Val-d'Amores. Quem houver de casar com minha filha hade +poder deixar apellidos nobres ao vigessimo senhor d'esta casa. Tenho dito, e +acabou-se o cavaco. Saude e juizo. <em>(Volta-lhe as costas. Frederico bambôa a +cabeça altivamente e retira-se.)</em><span class="pn">{63}</span> </p> + +<h2>SCENA XVI</h2> + +<h3>MORGADINHA, PANTALEÃO, <small>E O BANDO DAS MOÇAS E TOCADORES QUE +APARECERAM NA TERCEIRA SCENA</small></h3> + +<h5><em>(A Morgadinha sáe sentada sobre a jumenta. Vem vestida de Amazôna. João +Lopes de farda azul com vivos vermelhos, bota de orelha e prateleira, colete +encarnado, e chapéo embreado, tudo á antiga e grutesco, vem trazendo a burra +pela rédea. As raparigas estão cantando as seguintes)</em>:</h5> + +<h4>COPLAS</h4> + +<h4><small>(UMA VOZ)</small></h4> + +<blockquote> + Dondes vens ó velha?<br> + Eu venho da feira.</blockquote> + +<h4><small>(CÔRO)</small></h4> + +<blockquote> + Que trazes na cesta?<br> + Crá, crá, crá,<br> + Sardinha vareira,<br> + Cri, cri, cri,<br> + Por a retangueira;<br> + Cró, cró, cró,<br> + Se o galo cantou.<span class="pn">{64}</span></blockquote> + +<h4><small>(UMA VOZ)</small></h4> + +<blockquote> + Se o galo cantou<br> + Deixal-o cantar.</blockquote> + +<h4><small>(CÔRO)</small></h4> + +<blockquote> + Minha rica prenda<br> + Crá, crá, crá,<br> + Lá da beira mar<br> + Cri, cri, cri,<br> + Pela retangueira,<br> + Cró, cró, cró,<br> + Se o galo cantou.</blockquote> + +<h4><small>(UMA VOZ)</small></h4> + +<blockquote> + D'onde vens ó velha?<br> + Eu venho d'alli.</blockquote> + +<h4><small>(CÔRO)</small></h4> + +<blockquote> + Que trazes na cesta?<br> + Crá, crá, crá,<span class="pn">{65}</span> <br> + Que te importa a ti,<br> + Cri, cri, cri,<br> + Pela retangueira,<br> + Cró, cró, cró,<br> + Se o galo cantou.</blockquote> + +<h5><em>(Continúa o canto ao descer do panno.)</em></h5> + +<p><span class="pn">{67}</span> </p> + +<h4>FIM DO PRIMEIRO ACTO. </h4> + +<h1>ACTO SEGUNDO</h1> + + +<h5>Vista de arraial. É noute. Festões de lampadas de papel variegado pendem +dos ramalhos das arvores. Mulheres a frigir, ao lado das pipas cobertas de +ramos de folhagem. Barracas com botequins. Multidão de povo a beber á volta das +pipas. Sinos repicando, e estouros de foguetes. D'ambos os lados da scena, mas +fóra, se canta o «S. João» com vozes alternadas. Frederico passeia por entre o +povo, mirando as raparigas. Os dois já conhecidos creados de Pantaleão, com as +pernas encruzadas nos varapáos, medem d'alto a baixo Frederico, e rompem a +jogal-os um com outro. Frederico, por uma das suas evoluções maravilhosas de +rapidez, desapparece. O povo ri-se, e elle reapparece logo, seguido por trez +cabos armados. Os cabos usam bonet com debrum azul. Cessam as cantilenas, e +rompe a banda musical de Santo Thyrso, estrondosa em trompões, a qual entra em +scena tocando uma marcha. Os musicos uniformes, de calça branca, casaco azul +com vivos amarellos, o bonet avivado da mesma côr. As figuras podem +caracterisar-se caprichosamente. Em seguida, entra a Morgadinha, com o pae, +Macario, Cosme Giraldes, e João Lopes. Cosme Giraldes é um sugeito gordo, +aspeito serio, com os seus oculos, um todo de summa gravidade. Os circumstantes +cedem o logar aos recem-chegados, que formam grupos. </h5> + +<p><span class="pn">{68}</span> </p> + +<h2>SCENA I</h2> + +<h3>TODOS <small>OS</small> DESCRIPTOS <small>(GRUPO DA MORGADINHA E COSME +GIRALDES)</small></h3> + +<h4>Cosme <em>(com gesto de orador e com grandes pausas, á Morgadinha)</em></h4> + +<p>A festa animou-se com a auspiciosa chegada de V. Ex.ª O sol do empyreo e uma +senhora bella, que é o sol dos corações sensiveis, onde brilham, tudo reanimam. +Assaz ditoso me julgo em ser o mais feliz dos mortaes que se sentem +influenciados e enthusiasmados pelos lumes encantadores de V. Ex.ª Falta, +todavia, á minha completa dita a certeza de que os meus affectuosos requebros +acham graça nos seus olhos.</p> + +<h4>Morgadinha <em>(com desdem)</em></h4> + +<p>Eu não lhe acho graça nenhuma.</p> + +<h4>Cosme</h4> + +<p>Como assim, divina ingrata?<span class="pn">{69}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Já disse ao boticario o que tinha a dizer.</p> + +<h4>Cosme</h4> + +<p>Pois o seu coração...</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Está dado. Eu cá sou franca. Não perca tempo.</p> + +<h4>Cosme</h4> + +<p>Não ha duvida que ouvi dizer que V. Ex.ª, victima d'uma allucinação, +aceitava a côrte d'um esgrouvinhado arcaboiço que exerce as ladras funcções de +escrivão da fazenda! Heide eu, ó céos! accreditar que...</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Sim, snr., acredite, e faça favor de me não incommodar que eu vim á romaria +para me divertir. <em>(Volta-lhe as costas.)</em> Ó papá, quando se<span +class="pn">{70}</span> faz o Auto do Natal? <em>(Ouve-se a musica tocando uma +marcha.)</em></p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>É já. Mandei vir as figuras para aqui. Vae começar. Ó amigos, desempachem o +terreiro que chêga o espectaculo. <em>(O povo retira e apinha-se entre +scenas.)</em></p> + +<h2>SCENA II</h2> + +<h3>OS MESMOS, <small>E AS FIGURAS ABAIXO DESCRIPTAS EM LOGAR +COMPETENTE</small></h3> + +<h5><em>(A musica entra a passo muito cadenciado com grandes pernadas. Chegada +á bocca do palco, alinha a um lado para dar o passo aos dois primeiros +personagens do auto):</em></h5> + +<h3>Scena I do Auto</h3> + +<h3>ADONIS <small>E</small> MANASSÉS</h3> + +<h5><em>(Adonis traja de principe de carnaval; Manassés veste de propheta de +procissão; mas toda a fatiota é muito usada e desbotada. Adonis traz um +cavaquinho.)</em></h5> + +<h4>Adonis <em>(com declamação muito boçal)</em></h4> + +<p>Canta, Manassés, que eu te acompanho; para isso com esta harpa vanho.<span +class="pn">{71}</span> </p> + +<h4>Manassés <em>(canta com ar inspirado, gesticulando estupidamente)</em></h4> + +<blockquote> + O céo estrellado,<br> + Sereno e propicio,<br> + Será pois indicio<br> + Do sol desejado.</blockquote> + +<h4><small>(CÔRO DE PASTORES)</small></h4> + +<h5><em>(Vozes femininas dentro)</em></h5> + +<blockquote> + Quem o habitará?<br> + Quem o gozará?</blockquote> + +<h4>Manassés <em>(cantando)</em></h4> + +<blockquote> + Vêde a paz serena d'esta noute;<br> + Nascerá a estrella de Jacó?<br> + O gado socegado adivinha;<br> + Não se bole no ninho a avesinha.</blockquote> + +<h4><small>(CÔRO)</small></h4> + +<blockquote> + Quem o habitará?<br> + Quem o gozará?<span class="pn">{72}</span></blockquote> + +<h4>Adonis <em>(declamando, e passeando com grandes passos)</em></h4> + +<p>Oh! que terno, caro Manassés, cantastes! O conceito da tua cançoneta amorosa +me traz dôces lembranças. Ainda em nossos dias, veremos realisadas as +porfecias? Não caibo na pelle de estifeito; da-me pancadas o coração n'este +peito! <em>(Frederico despede um impulso de riso. Espantam-se os +cicumstantes.)</em></p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>O senhor está a mangar d'estes actos sérios?!</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Pois isto é sério! então não ha nada ridiculo n'este mundo senão o snr. +boticario.</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>O senhor é muito mal criado, é um incivil, é... é... um escrivão!<span +class="pn">{73}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Snr. Macario, não esteja a interromper o auto. Deixe lá rir quem quer rir; +chore vocemessê, se tem vontade.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Continuem lá vocês co'isso.</p> + +<h2>Scena II do Auto</h2> + +<h3>VOZ <small>D'UMA</small> PASTORA, <small>CANTANDO DENTRO</small></h3> + +<blockquote> + Ó Deus do céo, e da terra,<br> + Ó vós que podeis tanto,<br> + Ouvide nossos clamores<br> + Sêde propicio, ó Deus sancto!</blockquote> + +<h4><small>CÔRO</small> <em>(dos pastores)</em></h4> + +<p>Do povo amado,<br> +Mandae o desejado.</p> + +<p><span class="pn">{74}</span> </p> + +<h5><em>(Os que estão no palco fazem scenas mudas de ternura muito +lorpas.)</em> </h5> + +<h4>Manassés</h4> + +<p>Escuta! Não foi Ruiva, a pastora que cantou?</p> + +<h4>Adonis</h4> + +<p>Foi. E os pastores tambem, que nenhum dorme.</p> + +<h2>Scena III do Auto</h2> + +<h3>O VELHO SIMEÃO <small>E</small> RUIVA</h3> + +<h5><em>(O velho vestido de pelles de carneiro. Ruiva de pastorinha, com um +cordeiro branco nos braços)</em></h5> + +<h4>Simeão <em>(com os olhos no firmamento)</em></h4> + +<p>Incelso, interno rei sobrano, que sobre os crebins tens assento, oubide os +nossos lamentos.</p> + +<h4><small>(CÔRO)</small></h4> + +<blockquote> + Do povo amado,<br> + Mandae o desejado.<span class="pn">{75}</span></blockquote> + +<h4>Manassés</h4> + +<p>Agora creio no mysterio occulto d'esta noite. Rebella que todos os pastores +tem um só pensamento.</p> + +<h4>Simeão</h4> + +<p>Vinde pastores aqui todos; n'este campo contemplaremos o silencio da noute, +que o auctor d'altos mysterios annuncia.</p> + +<h4>Frederico <em>(escancarando a bocca)</em></h4> + +<p>Que semsaboria!</p> + +<h4>Macario e Cosme</h4> + +<p>Sio! <em>(prolongado.)</em></p> + +<h2>Scena IV do Auto</h2> + +<h3>ENTRAM PASTORINHOS <small>E</small> PASTORINHAS</h3> + +<h4>Ruiva <em>(declamando)</em></h4> + +<blockquote> + Aqui vimos, meus senhores,<br> + Adorar nós o menino:<span class="pn">{76}</span> <br> + No seu sancto nascimento<br> + Com grande contentamento.</blockquote> + +<h4><small>(CÔRO)</small></h4> + +<blockquote> + Se o menino é nascido,<br> + Nós o bamos précurar;<br> + Aparcei, senhor menino,<br> + Que vos queremos adorar.</blockquote> + +<h5><em>(Sáem por diversos lados.)</em></h5> + +<h2>Scena V do Auto</h2> + +<h3>UM REI TURCO <small>E DEPOIS OUTROS FIGURÕES</small></h3> + +<h4>Rei turco</h4> + +<h5><em>(Com uma cara horripilante, e trejeitos assustadores)</em></h5> + +<blockquote> + Sou o turco rei, que é<br> + Valoroso na arrogancia;<br> + Por ser filho da fortuna<br> + E neto da extravagancia!</blockquote> + +<p><span class="pn">{77}</span> </p> + +<h5><em>(Corre brandindo a espada d'um lado a outro.)</em> </h5> + +<blockquote> + De moiriscos reis nasci,<br> + Sou seu filho alentado,<br> + O meu braço furibundo<br> + Deixa tudo escangalhado.</blockquote> + +<blockquote> + Co'esta espada sou capaz<br> + De entrar pelo inferno dentro<br> + E pôr tudo em mil pedaços<br> + Que eu sou um rei sanguenolento!</blockquote> + +<h5><em>(Risada de Frederico.)</em></h5> + +<h4>Cosme</h4> + +<p>Já é pertinacia de espirito-forte e atheu estar ahi o senhor a gargalhar em +tão solemne passo!</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Solemne passo, diz o nobre deputado! chamar <em>solemne passo</em> á +prostituição da arte!</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>O snr. é que é uma prostituição! Bem disse<span class="pn">{78}</span> aqui +S. Ex.ª que o senhor é um atheu! um impio que zomba dos mysterios +dogmaticos!</p> + +<h4>Vozes <em>(dentro)</em></h4> + +<p>Quebra-se-lhe a cabeça!—Bordoada rija!—Vamos a elle!</p> + +<h4>Morgadinha <em>(erguendo-se colerica)</em></h4> + +<p>Essa canalha que se calle! Ó João Lopes, onde está o regedor?</p> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>Saberá V. Ex.ª que o regedor tomou tamanha turca que está a cozel-a no +palheiro d'um lavrador.</p> + +<h4>Cosme <em>(com enfaze)</em></h4> + +<p>Um regedor crapuloso desacredita o funccionalismo e perverte a ordem social. +A auctoridade que dá o exemplo da relaxação dos costumes não póde educar as +massas. É necessario que não se desvirtue e desprestigie o funccionalismo,<span +class="pn">{79}</span> com a embriaguez dos regedores. Parece que estamos +chegados á desmoralisação do Baixo-Imperio!</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Apoiado!</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Então os snrs. fazem favor de deixar continuar o auto?</p> + +<h4>Pantaleão <em>(ao Rei turco)</em></h4> + +<p>Ó Zé da Custodia, diz lá o que tinhas a dizer.</p> + +<h4>Rei turco</h4> + +<p>Se isto não leva rumor, acaba-se a pandega!</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Magnificamente! Está a coisa definida: isto é uma pandega, e querem os +moralões que a gente se desfaça em lagrimas! Faça favor de continuar, snr. rei +turco, que eu estou sério, e talvez chore.<span class="pn">{80}</span> </p> + +<h4>Rei turco</h4> + +<p>Agora não sou eu que boto a falla, é o outro rei. Entra, ó Manel Zarôlho! +<em>(Chamando para dentro.)</em> O Manel Zarolho é o rei christão. +<em>(Explicando.)</em></p> + +<h2>Scena VI do Auto</h2> + +<h5><em>(Entra um Rei christão com muitos pastores e pastoras)</em></h5> + +<h4>Rei christão</h4> + +<blockquote> + Eu trago os meus companheiros<br> + Fieis á minha nação,<br> + Para te convencer, ó turco,<br> + E para te fazer christão.</blockquote> + +<h4>Rei turco</h4> + +<blockquote> + Para onde ides, romanos,<br> + Que tão alegres vos vejo?</blockquote> + +<h4>Rei christão</h4> + +<blockquote> + Festejar o menino nado<br> + Que é todo o nosso desejo<span class="pn">{81}</span></blockquote> + +<h4>Rei turco</h4> + +<blockquote> + Que é do passaporte?</blockquote> + +<h4>Rei christão</h4> + +<blockquote> + Passaporte não trazemos,<br> + Se nos não deixas passar<br> + Para traz nós tornaremos.</blockquote> + +<h4>Rei turco</h4> + +<blockquote> + Para traz não heisde tornar;<br> + Que eu vou buscar algemas,<br> + Que vos quero algemar.</blockquote> + +<h4>Pastores e pastoras <em>(cantando)</em></h4> + +<blockquote> + Milagroso Deus menino,<br> + Esta obra vossa é;<br> + Ajudai-o a vencer<br> + O turco inimigo da fé.<span class="pn">{82}</span></blockquote> + +<h4>Rei christão</h4> + +<blockquote> + Saca lá da tua espada!</blockquote> + +<h4>Rei turco <em>(arrancando para elle)</em></h4> + +<blockquote> + Ó cão, que sova tu levas!</blockquote> + +<h2>Scena VII do Auto</h2> + +<h3>OS MESMOS <small>E UM</small> ANJO, <small>QUE SE METTE EM MEIO DOS DOIS +REIS</small></h3> + +<h4><em>Canta:</em></h4> + +<blockquote> + Detem-te, barbaro turco!<br> + Cessa a tua infeliz sorte;<br> + Faz-te christão, que não tarda<br> + Que te apanhe a feia morte.</blockquote> + +<h4><small>CÔRO</small> <em>(dos pastores)</em></h4> + +<blockquote> + Faz-te christão que não tarda<br> + Que te apanhe a feia morte.<span class="pn">{83}</span></blockquote> + +<h4>Rei turco <em>(declama)</em></h4> + +<blockquote> + Eu sou o rei Almeirante<br> + La do reino da Turquia;<br> + Nunca fui prezoneiro,<br> + So do rei da Lixandria!</blockquote> + +<h4>O Anjo <em>(canta)</em></h4> + +<blockquote> + Detem-te barbaro turco, etc.</blockquote> + +<h4><small>CÔRO</small> <em>(dos pastores)</em></h4> + +<blockquote> + Faz-te christão que não tarda<br> + Que te apanhe a feia morte.</blockquote> + +<h4>Rei turco <em>(afflicto)</em></h4> + +<p>Que é isto? que sinto? que tenho eu aqui? <em>(Com a mão sobre o +estomago)</em> Que tenho eu aqui?</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Hade ser vinho. <em>(A Morgadinha ri-se ás escancaras.)</em><span +class="pn">{84}</span> </p> + +<h4>Macario <em>(sobremodo indignado)</em></h4> + +<p>Não ha noticia de tamanho escandalo!.. 0 snr. escrivão está mostrando que é +um homem de sentimentos muito herejes!..</p> + +<h4>Cosme</h4> + +<p>E eu assaz me espanto que a snr.ª morgadinha applauda com a sua hilaridade +estas interrupções indecentes!</p> + +<h4>Rei turco <em>(zangado)</em></h4> + +<p>Eu cá é que não estou p'ra chalaças!.. Passem por cá muito bem. Por aqui me +esgueiro. Ó rapasiada, vamos embora. Manda tocar a marcha ó Antonho da Pêga. +<em>(Sáe com os personagens do auto, atraz da Musica, que vae tocando a +marcha.)</em><span class="pn">{85}</span> </p> + +<h2>SCENA III</h2> + +<h3>OS MESMOS, <small>EXCEPTO OS PERSONAGENS DO AUTO</small></h3> + +<h5><em>(Grande movimento e rapido. Macario gesticula com Jordão, e Pantaleão +com a filha. Alguns camponios de varapáo fazem cêrco a Frederico. A morgadinha +passa por meio d'elles, bamboando a cabeça e vibrando o chicotinho. Frederico +passeia com os cabos. Os camponios retiram-se, relançando olhos ameaçadores ao +escrivão.)</em></h5> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Isto já me aborrece, papá...</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Vamos embora, menina?</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Por em quanto não: quero vêr o fôgo prezo; mas vou descançar um pouquinho a +casa dos cazeiros.<span class="pn">{86}</span> </p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Vae, que eu vou buscar-te assim que principiar o fogo.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Ó João Lopes, vem comigo. <em>(Sáem. Frederico retira-se pelo outro lado com +os cabos.)</em></p> + +<h2>SCENA IV</h2> + +<h3>MACARIO, COSME <small>E</small> PANTALEÃO</h3> + +<h5><em>(Formam um grupo á parte, do povo que gira no fundo)</em></h5> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Ó snr. morgado, pois V. Ex.ª deixa fugir esta occasião de fazer quebrar o +espinhaço ao morôto?<span class="pn">{87}</span> </p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>A occasião boa é; mas é que eu não quero que minha filha assista, por que +ella é capaz de se metter no meio da desordem.</p> + +<h4>Cosme</h4> + +<p>Pelo que observo, esta sua filha é uma heroina grega ou romana, snr. +morgado! Ella faz lembrar a Pantasilea do Virgilio, e outras façanhudas +mulheres da historia antiga! Nos tempos presentes, sou a dizer a V. Ex.ª que a +mulher quer-se fragil, meiga e timorata; e por tanto permitta que eu censure a +educação que deu a sua filha!</p> + +<h4>Pantaleão <em>(docil)</em></h4> + +<p>Que quer V. Ex.ª? É filha unica, ficou sem mãe muito cedo, e foi creada á +laia de rapaz, a trepar ás arvores, a atirar aos passaros, e a jogar o páo; em +fim, confesso que andei mal avisado. Eu então achava-lhe muita graça; hoje não +lhe acho nenhuma; mas já não posso emendar<span class="pn">{88}</span> a mão. É +tarde; minha filha tem vinte e seis annos; hade ser difficil corrigir-se, só se +o casamento fizer a mudança, e espero que faça.</p> + +<h4>Cosme</h4> + +<p>Se o casamento fizer a mudança! Ora essa! Pobre marido que não tem os +focinhos direitos vinte e quatro horas! Eu cá por mim, snr. morgado, confesso +que tive certos intentos matrimoniaes com ella; á vista, porém, das suas +informações, declaro que desisto e renuncio, por que me não sinto com forças e +habilidade para domesticar uma cobra-cascavel...</p> + +<h4>Pantaleão <em>(formalisado)</em></h4> + +<p>Não consinto que o snr. Cosme chame cobra a minha filha!</p> + +<h4>Cosme</h4> + +<p>Isto é uma comparação rethorica, litterariamente fallando.<span +class="pn">{89}</span> </p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>É rethorica... não se offenda V. Ex.ª;... talvez ignore que a rethorica é +uma sciencia que permitte, a respeito de cobras cascaveis...</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Não quero saber de rethoricas: exijo que a filha do Pantaleão Cogominho de +Encerrabodes seja respeitada! <em>(Volta as costas, e sáe bufando.)</em></p> + +<h2>SCENA V</h2> + +<h3>COSME <small>E</small> MACARIO</h3> + +<h4>Cosme</h4> + +<p>Isto é uma familia de hotentotes! Cheiram ao sertão estes selvagens! Do que +eu me escapei! Se caio nas mãos d'estes dois barbaros da edade media! Parece-me +uma reliquia de ostrogodos esta gente! E vocemecê, snr. Macario, a<span +class="pn">{90}</span> dizer-me que esta fidalga tinha uma educação fina!</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p><em>Fina</em>, não disse: hade perdoar-me, snr. doutor Cosme; eu disse-lhe +que ella era finoria; de fina p'ra finoria vae differença, phisicamente +fallando.</p> + +<h4>Cosme</h4> + +<p>Perdão. Vocemecê disse-me que ella tivera fina educação.</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Isso então foi rethorica...</p> + +<h4>Cosme</h4> + +<p>Eu não admitto rethoricas em objecto tão sério como é o casamento! Olhem que +educação fina a d'este anjo! Trepa ás arvores, atira aos passaros, e joga o +páo! Que predicados estes tão mimosos para augmentarem as graças virginaes +d'uma menina! Não lhe falta senão vestir-se<span class="pn">{91}</span> de +homem, que é agora o trajar das senhoras innocentes das novellas e dos dramas. +Uma menina que enfia os seus pezinhos n'umas botas de canhão, e rompe com elles +por umas pantalonas dentro, fica a recender um aroma suave de amores que nem +açafétida! E hade a gente persuadir-se que mora uma alma muito candida e muito +pura dentro do peito que se albarda com um paletó de homem para arrotar +francamente umas phrases de bomba real que nos fazem comichões nos miolos e +arrepios na espinha! Arreda! olha o que me estava reservado para os quarenta e +seis annos! Uma mulher assim paralisava-me as funcções do intellecto, e lá se +me iam as minhas ovações parlamentares! Primeiro que tudo, sou do meu paiz, +devo-me á regeneração da minha patria, sou homem publico; e um homem publico +quando se casa deve fazel-o com dama que o não impeça nem apoquente. A femea +natural do homem politico é a politica; a esposa, para os homens devotados aos +interesses materiaes do seu circulo, significa tão sómente um supplemento vivo +e util ás commodidades domesticas. Percebe vocemecê, snr. Macario?<span +class="pn">{92}</span> </p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Ora se percebo! A minha mulher cá para mim tambem é um supplemento ha muitos +annos; e mais eu faço-a trabalhar na politica enchendo os bilhetes de votos na +eleição. Diz V. Ex.ª muito bem, que nós os homens publicos não temos tempo para +cuidar de mulheres... <em>(Reparando em Frederico)</em> Ahi vem o atheu...</p> + +<h4>Cosme</h4> + +<p>Vou-me safando que não quero palestras com este safio. <em>(Sáe.)</em></p> + +<h2>SCENA VI</h2> + +<h3>MACARIO <small>E</small> FREDERICO</h3> + +<h4>Frederico <em>(encarando o outro com a costumada careta)</em> </h4> + +<p>O douto pharmacopóla está irado contra mim por que fui causa a +interromper-se o escandalo do auto...<span class="pn">{93}</span> </p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Eu não me metto com o senhor... Tenha a bondade de não embarrar cá por mim. +</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>A sciencia é sempre orgulhosa. Façamos pazes e alliança, snr. Macario +Mendes. Eu, com a minha sciencia das coisas espirituaes e o snr. com a sua +sciencia do bazalicão e do oleo de mamona, podemos dominar este concelho, +reunidas as duas forças n'uma aspiração unica. Por que me faz guerra inexoravel +e crua, snr. Macario? Que lucra em impedir o meu consorcio com a Morgadinha? +Por que anda o snr. servindo de alcaiote d'este alarve de Guimarães, que é o +trompão grandioso das maiores asneiras civicas assopradas na charanga +parlamentar? O officio do snr. Macario, n'este negocio, desacredita um +pharmaceutico, que reune ao conhecimento do gamão, sciencia não vulgar da +historia dos doze Pares de França, e tem orvalhado com lagrimas os fastos +sanguinosos de <em>Roncesvalhes</em>.<span class="pn">{94}</span> </p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Vá mangar com o diabo que o leve... Eu lhe mostrarei brevemente quem é +Macario Mendes... <em>(Sáe.)</em></p> + +<h2>SCENA VII</h2> + +<h3>FREDERICO, JOÃO LOPES, <small>E CABOS</small></h3> + +<h5><em>(As cantadeiras que no fim do 1.º acto acompanharam a morgada entram a +cantar a moda com que se fechou o dito acto:)</em></h5> + +<blockquote> + <em>D'onde vens, ó velha,</em><br> + <em>Eu venho da feira</em>, etc.</blockquote> + +<h5><em>(N'um intervalo da 1.ª á 2.ª trova João Lopes acerca-se de Frederico +com disfarce)</em></h5> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>Olhe, se foge, que o snr. vae levar pancada de crear bicho. Estão-se a +preparar os valentões.<span class="pn">{95}</span> <em>(Frederico apita rijo. +Apparecem de differentes sahidas 6 cabos de policia que escutam Frederico, em +quanto se repete a cantilena. Finda a cantilena, ouve-se fóra o rumor da +desordem, e o estalido dos varapáos. As cantadeiras fogem alvoroçadas a dar +gritos.)</em></p> + +<h2>SCENA VIII</h2> + +<h3>FREDERICO, <small>CABOS, UM DESCONHECIDO, E CAMPONIOS</small></h3> + +<h4>Frederico <em>(com intimativa bellica)</em></h4> + +<p>Formem em linha. Carregar armas!</p> + +<h4>Um cabo</h4> + +<p>Estão carregadas.</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Vamos ser atacados pelos desordeiros. Á voz de fogo, atirem. <em>(Vê-se +atravessar a scena por<span class="pn">{96}</span> entre o povo um Desconhecido +de chapéo derrubado, o rosto coberto por um lenço, de caraça, polainas de +briche nas pernas e pés, com um grosso páo de choupa. Proximos de Frederico os +valentões param, com os páos cruzados nas pernas, gingando em attitude +ameaçadora. Frederico, não se desvia dos cabos. De repente, rompem de fóra uns +poucos varrendo o campo a pauladas.)</em></p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Cabos de policia, sentido! Preparar armas! <em>(Sáe perto da bocca da scena +o Desconhecido. Encosta-se ao páo observando os movimentos dos valentões, os +quaes vem já avançando, já recuando, crescendo sobre Frederico.)</em></p> + +<h4>Frederico <em>(aos cabos)</em></h4> + +<p>Aperrar armas! <em>(Uma paulada faz saltar a clavina das mãos d'um cabo. Os +outros fogem. Frederico recúa, apitando rijamente. No maior aperto, o +Desconhecido salta para a beira d'elle, descobre a choupa do páo, e arremette +com os aggressores. Estes, forçados pela destreza, fogem,<span +class="pn">{97}</span> logo que o primeiro cáe d'uma paulada. A vozeria cresce +no momento em que o palco está despejado. O Desconhecido trava do braço de +Frederico, e o traz á bocca da scena.)</em></p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Quem é o valente homem a quem devo a vida?! quem é?</p> + +<h4>Morgadinha <em>(arrancando o lenço do rosto)</em></h4> + +<p>Sou eu! salvei-te, Frederico!</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Ó morgadinha de Val-d'Amores! Tu!.. oh! tu!.. Como és ideal e angelica! +<em>(Ajoelhando.)</em><span class="pn">{98}</span> <span class="pn">{99}</span> +</p> + +<h4>FIM DO SEGUNDO ACTO. </h4> + +<h1>ACTO TERCEIRO</h1> + +<h5>Salão da casa de Val-d'Amores. Mobilia antiga de couro de Moscovia. +Reposteiros já envelhecidos com brazões. Alguns retractos. Um piano +moderno.</h5> + +<h2>SCENA I</h2> + +<h3>PANTALEÃO <small>E</small> MACARIO</h3> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Como eu lhe vinha contando, amigo e snr. Macario Mendes, minha filha, desde +que começou a vestir-se á moda, e a tocar piano, está muito distrahida do +troca-tintas do escrivão. Não anda por janellas, não sáe de casa, e gasta +alegremente o seu tempo a tocar, a cantar e a vestir-se. Isto custa-me um +dinheiro callado; mas dou-o por bem empregado.<span class="pn">{100}</span> </p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>E quem é que ensina a snr.ª morgadinha a tocar?</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>É a mulher d'um sujeito que se estabeleceu ha pouco em Santo Thirso com loja +de fazendas brancas...</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Bem sei, bem sei.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Foram lá as primas de Ruivães que fizeram a descoberta; mas o que tem muita +graça é que o homem da mestra é tão ciumento que só a deixa ir a casas onde não +ha homens...</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Que tal pezêta é ella!..<span class="pn">{101}</span> </p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>E para vir aqui, pôz por condição que a mulher só viria á noitinha +acompanhada pelo marido que a deixa á porta, e vem por ella duas horas depois. +Eu estive quasi a não aceitar tal professora por saber que o escrivão de +fazenda estava muitas vezes na loja do marido; e receei que ella fosse +medianeira d'alguma carta...</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>E tem rasão, snr. morgado... Veja lá!.. olhe que o mundo é um covil de +marotos!</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Não ha receio; que eu tratei de me informar, e soube que o logista pôz fóra +da loja o velhaco do Frederico, por desconfiar que elle lhe trazia d'ôlho a +consorte.</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Não que sem licença d'elle não ha maior<span class="pn">{102}</span> +desmoralisação n'este mundo! Aquillo tem mesmo idêas de Sardanapalo! Ainda bem +que lhe está por um fio a ladroeira da repartição...</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Conte lá isso então. Em que termos está a bernarda? Rebenta hoje ou ámanhã? +</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Hoje. Está tudo alevantado quando fôr nove horas. Os sinos hão-de tocar a +rebate nas quatro freguezias mais chegadas, e o povo cáe todo sobre Santo +Thyrso, e faz cêrco para que o escrivão não possa escapulir-se; que elle é leve +como uma penna, e quando a gente mal se precatar, vê-o fazer vispre, zêpe-zêpe +<em>(expressão sibilante para imitar a rapidez da corrida.)</em></p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Se elle fugir, amigo Macario, deixal-o ir. Nada de o agarrar, que não vão os +meus creados escadeiral-o e eu ter de o pagar por bom. O que<span +class="pn">{103}</span> eu desejo é que elle não appareça mais em Santo Thirso. +Lá a respeito da papellada isso é queimal-a toda; que depois o governo como não +tem cadernos para a cobrança dos impostos, não o manda para cá a elle nem a +outro.</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Grande idêa é essa, snr. morgado! E o governo faz uma economia bem boa. Se a +gente fosse dando cabo dos empregados, ajudava o governo a fazer economias, +porque depois não havia quem quizesse servir os empregos. O sytema é um bocado +violento para os empregados, mas eu não vejo outro meio de os ir acabando... +</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Não acho isso humanitario!</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Meu caro amigo e snr. morgado, eu sou homem politico ha trinta annos, leio +jornaes, e tenho feito muita somma de deputados; conheço<span +class="pn">{104}</span> por dentro e por fóra o paiz e as suas necessidades. +Fique certo d'isto; em quanto se não der fim a uma casa a que os jornaes chamam +<em>burrocracia</em>, não se indireita a patria.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Como se chama isso?</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p><em>Burrocracia</em>, que pelos modos é palavra de idioma francez, que vem a +dizer empregado publico.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Snr. Macario, vá indo cá com as minhas idêas moderadas. O melhor systema de +se acabar com os escrivães de fazenda é queimar os cartorios. Eu lhe ponho uma +comparação. Se eu queimar a palha que tenho, e não comprar outra, que me +acontece á minha parelha de machos? Morrem de fome, não é verdade?<span +class="pn">{105}</span> </p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Isso é.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Pois ahi tem: os escrivães, em se lhe queimando os papeis, não tem que roer. +</p> + +<h4>Macario <em>(duvidoso)</em></h4> + +<p>Nada; a comparação dos machos não me convence, queira V. Ex.ª perdoar. +<em>(Com energia)</em> Matal-os, matal-os, é o grande <em>desideratum</em>.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>E os papeis? deixam-se ficar?</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Os papeis queimam-se, queimam-se as casas, queimam-se os escrivães! Nada de +cataplasmas emolientes; o paiz o que precisa é causticos e ventosas.<span +class="pn">{106}</span> </p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Ora vocemecê, snr. Macario Mendes, sabe que no cartorio do tal pulha está o +processo da execução que a fazenda nacional me move...</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Por seis contos d'uma fiança dos bens dos frades, sei muito bem... Esteja +descançado, que não ha de lá ficar papel em que se amortalhe um cigarro.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Quem é o chefe da revolução?</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Á falta d'homens por hora sou eu; mas não sei a que os commandantes das +freguezias decidirão. Já ouvi rosnar que elles querem acclamar V. Ex.ª general +em chefe.<span class="pn">{107}</span> </p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Homem, tire isso da cabeça ás freguezias. Vocemecê bem sabe que eu ando +muito adoentado dos intestinos, e não posso deixar de tomar o meu banho de +canôa á noute. Dinheiro, sendo preciso, algum darei para a revolução; mas +entrar nella em pessoa não posso por causa d'esta molestia dos reins que me não +deixa cavalgar; e vocemecê bem entende que um general em chefe a pé não tem +geito, nem pode vêr de longe o inimigo, se nos fôr necessario entrar em batalha +com o exercito. Dispensem-me por tanto de tamanha honra.</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Farei as diligencias; mas receio que...<span class="pn">{108}</span> </p> + +<h2>SCENA II</h2> + +<h3>OS MESMOS <small>E A</small> MORGADINHA</h3> + +<h5><em>(A morgadinha traja na ultima moda, mas exageradamente. Vestido muito +curto, sem alguma roda, apanhando-se-lhe cingido ás pernas; grande laço na +cintura posteriormente; sapatos de salto dourado; cabelleira com estupendos +tufos encaracolados.)</em></h5> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Vens para o piano, Joanninha?</p> + +<h4>Morgadinha <em>(pondo luneta d'oiro)</em></h4> + +<p>Sim, papá, vou estudar a minha lição de escala. <em>(Senta-se ao +piano.)</em></p> + +<h4>Macario <em>(á parte, benzendo-se espantado do trajar da morgada)</em></h4> + +<p>Que desmoralisação! Isto é o peccado em carne e ôsso!<span +class="pn">{109}</span> </p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Está vocemecê admirado d'estas modas, amigo Macario!</p> + +<h4>Macario <em>(ironico)</em></h4> + +<p>São bonitas... <em>(Grave)</em> Mas não acho isto decente para a observancia +dos bons costumes.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Que quer? é moda; andam assim todas as senhoras do tom.</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Do tom? Sem tom nem som. As minhas filhas assim não hão de vestir, se Deus +quizer.</p> + +<h4>Morgadinha <em>(voltando o rosto com aborrecimento)</em></h4> + +<p>Então as suas filhas são senhoras?<span class="pn">{110}</span> </p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>D'aquella massa se fazem, snr.ª morgada...</p> + +<h4>Morgadinha <em>(dedilha nervosamente nas teclas)</em></h4> + +<p>Adeus, adeus. Temos historia!</p> + +<h4>Pantaleão <em>(a meia voz)</em></h4> + +<p>Não a zangue... Deixe-a lá... Tomára eu que ella se entretivesse com os +vestidos...</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>A cabeça... está feito, mas as pernas a vêr-se-lhe, snr.ª morgada! Assim não +se podem observar os bons costumes... <em>(A Morgadinha canta acompanhando a +escala, e desafina quando guincha as notas das oitavas altas. Macario Mendes, +offendido pela desharmonia, faz caretas.)</em></p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Ainda não sabes cantar modinha nenhuma, menina?<span class="pn">{111}</span> +</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>A mestra não quer que eu cante modinhas; aprendo a escala que é o essencial. +<em>(Repete a escala, e quando principia a desafinar, Macario despede-se, +apertando a mão a Pantaleão.)</em></p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Veja lá os meus papeis, snr. Macario.</p> + +<h2>SCENA III</h2> + +<h3>OS MESMOS <small>E</small> JOÃO LOPES</h3> + +<h4>João Lopes <em>(trazendo castiçaes com luzes)</em></h4> + +<p>Está na sala de espera a snr.ª mestra pianista e mais o marido.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Está! Papá, é preciso sahir, tenha paciencia.<span class="pn">{112}</span> +Bem sabe que ella, se vir homem aqui, não entra.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Está bom pedaço d'asno o marido! Então elle não sabe que eu sou um homem +sério!</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Que quer o papá! Já lhe tenho dito que póde entrar segura de que não ouve +palavra que a offenda; ella bem o sabe; mas o marido, se souber que a mestra +fallou com um homem, seja elle quem fôr, não a deixa voltar.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Com certos individuos tem elle rasão; mas nem todos são como o devasso +escrivão de fazenda, que lhe andava a fazer a côrte á mulher, e por isso foi +posto de lá para fóra. Acho justo que elle se acautele dos tratantes; mas de +mim... parece-me bestialidade! Emfim cá vou. <em>(Sáe.)</em><span +class="pn">{113}</span> </p> + +<h2>SCENA IV</h2> + +<h3>MORGADINHA, JOÃO LOPES <small>E DEPOIS</small> FREDERICO</h3> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Póde entrar a snr.ª D. Thomazia.</p> + +<h4>João Lopes <em>(para dentro, levantando o reposteiro)</em></h4> + +<p>Póde entrar a snr.ª D. Thomazia. <em>(João Lopes sáe, assim que entra a +supposta mestra. Frederico vestido de mulher, o rosto coberto de véo espesso, e +cachos. Chapéu antiquado de orelhas, que lhe ajudem a cobrir a cara. Vae +direito ao piano. Vê-se a cabeça de Pantaleão que espreita por uma fimbria do +reposteiro. João Lopes tosse.)</em></p> + +<h4>Morgadinha <em>(alto)</em></h4> + +<p>Passou bem, snr.ª D. Thomazia!.. <em>(Baixo)</em> Não me falles que meu pae +está espreitando, em quanto João Lopes tossir... <em>(Tocam e cantam<span +class="pn">{114}</span> a escala, Frederico canta em falsete a duo. Desharmonia +nas vozes.)</em></p> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>O snr. morgado já está no pateo a conversar com o marido do snr. Frederico; +estejam á vontade que eu vou para o postigo da escada. Quando eu tossir, vejam +lá...</p> + +<h4>Frederico <em>(levanta o véo, abraçando o velho)</em></h4> + +<p>Este João Lopes é um prodigio de dedicação! é o typo genuino do antigo +creado portuguez! Se eu realisar os meus sonhos, João Lopes, você ha de +progredir na escala das importancias sociaes... Eu hei de arranjar-lhe a você +um habito de Christo!</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Deixa-o ir, deixa-o ir... <em>(João Lopes sáe.)</em><span +class="pn">{115}</span> </p> + +<h4>Frederico <em>(tomando-lhe as mãos calorosamente)</em></h4> + +<p>E os nossos sonhos vão realisar-se, minha fada! Oh! <em>(contemplando-a +absorto)</em> que deslumbrante! que eclipse estás fazendo nos anjos do céo! Não +és só uma bellesa! és um milagre! uma gloria! uma divinisação! Não ouso +beijar-te as mãos... Os pés, os pés! Estes pés requerem tapetes de labios e +almofadas de corações! Consente que t'os beije, houri!</p> + +<h4>Morgadinha <em>(desviando-se)</em></h4> + +<p>Não sejas tôlo! Gostas de me vêr assim?</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Se gosto!.. Sinto delicias que atormentam, amor que me rescalda as fibras +intimas do peito! Luz, luz que me cégas, faz-te lavareda, e... devora-me!</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Vamos ao caso... Como estão os negocios?<span class="pn">{116}</span> </p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Optimos. Logo que chegarmos a Lisboa, tenho a certeza de que será consagrado +nos altares o nosso amor. Poderiamos evitar a fugida, requerendo tu a tua +emancipação, visto que já contas vinte e seis annos; mas, como receias que eu +seja assassinado logo que requeiras ao juiz, cumpra-se a tua vontade. <em>(João +Lopes tosse. Vão sentar-se rapidamente ao piano, tocando e cantando a escala. +Depois, a Morgadinha vae espreitar, em quanto Frederico toca uma valsa +voluptuosa que obriga a Morgadinha a fazer alguns passos de dança. Frederico, +arrebatado do donaire gracioso d'ella, ergue-se de mãos postas fazendo +tregeitos de enlevado.)</em></p> + +<h4>João Lopes <em>(mettendo a cabeça)</em></h4> + +<p>Podem conversar, que elle passou para a tulha.</p> + +<h4>Frederico <em>(com transporte)</em></h4> + +<p>És divinamente grande nas minimas bagatellas da humanidade! Se lanças o pé +quebradiço<span class="pn">{117}</span> e chinez em attitude dançante, sacodes +e impelles brazas á minha alma. O pavimento arde debaixo dos teus pés +lindissimos. Tudo que fazes mata e aviventa. Como não serás esbelta, nos salões +de Lisboa, princeza dos bailes, a rodopiar vertiginosamente nas valsas, nos +cotillons, nos lanceiros, na doidice sublime em que ha um espadanar de +felicidade por todos os póros! Ó Joaninha, deixa-me sonhar! <em>(Fixa os olhos +espantados no tecto da platêa. Musica surda)</em> A minha vida vae ser uma +etherisação de todas as potencias espirituaes. Embriagado nas taças nectáreas +do céo, viverei enlevado nos arrobos da minha embriaguez... Esse rosto em que +se espelham as formosuras não vistas de Angelos nem de Raphaeis, será o meu +Al-korão, porque o summo artifice escreveu ahi a suprema estrophe do seu poema. +Quando os teus olhos se abrirem ao diluculo da manhã, vêr-me-has de joelhos a +beijar os teus cabellos; quando os fechares, cansados de serem beijados, e as +sedosas palpebras se cerrarem como conchas ciosas de suas perolas, eu me +quedarei a teus pés velando que os sylphos amorosos da noite não ousem +perturbar o teu dormir. Oh! Joanna, Joanna!<span class="pn">{118}</span> +<em>(Ajoelha-se-lhe aos pés. João Lopes tosse com maior força. A morgadinha +adverte em vão Frederico que continúa no seu arrebatamento:)</em> Abre-me aqui +já o sepulchro, se em alguma hora hei de sentir-me orphão dos teus carinhos... +<em>(Pantaleão ao fundo, erguendo o reposteiro.)</em></p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Ah!</p> + +<h4>Frederico <em>(sobresaltado)</em></h4> + +<p>O diabo! <em>(Desce o véo. Canta qualquer aria conhecida no acto de +ajoelhar, e cantando, diz perceptivelmente á Morgadinha:)</em></p> + +<blockquote> + Diz a teu pai que a mestra<br> + Para melhor te ensinar,<br> + Te está cantando uma ária<br> + Das que se usa cantar<br> + No Theatro de Lisbôa:<br> + Prega-lhe a pêta, que é bôa;<br> + E se esta nos não salva,<br> + Nada nos póde salvar.<span class="pn">{119}</span></blockquote> + +<h2>SCENA V</h2> + +<h3>OS MESMOS <small>E</small> PANTALEÃO</h3> + +<h4>Pantaleão <em>(ao fundo)</em></h4> + +<p>Então que é isso?</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>É a minha mestra que me está ensinando uma ária das que se cantam no theatro +de Lisbôa.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Ella tem a voz tão grossa! Não parece voz feminina!</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Ella canta na voz que quer.... Então o papá já se esqueceu que o marido +d'ella...<span class="pn">{120}</span> </p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Está bom, está bom; eu vou-me embora. Lá estive conversando com o marido da +senhora, e lhe disse que não tivesse ciumes que eu sou um velho!... Aquelle seu +marido parece-me um doudo!.. <em>(Rindo)</em> Ora andem lá, andem lá. +<em>(Sáe.)</em></p> + +<h2>SCENA VI</h2> + +<h3>FREDERICO, MORGADINHA <small>E</small> JOÃO LOPES <small>A +INTERVALOS</small></h3> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Salvei-te ou não? Tu salvaste-me com a força, na romaria; e eu aqui, +salvei-te com o genio! Vês como o amor me deu espirito n'um trance difficil? +Fazes maravilhas de perspicacia e finura, tu, com a magia dos teus olhos, ó +formosa! <em>(Ouve-se toque a rebate de sinos, que sôa de diversas longitudes. +Rumôr longiquo de vozes.)</em><span class="pn">{121}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Que será isto!? Ó João Lopes!</p> + +<h4>João Lopes <em>(dentro)</em></h4> + +<p>Que quer, snr.ª morgadinha?</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Sabes a que tocam os sinos? é fogo?</p> + +<h4>João Lopes <em>(dentro)</em></h4> + +<p>Fogo não me parece. Acho que é bernarda. Estou cá á janella a vêr se entendo +a gritaria.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Diz que é bernarda...</p> + +<h4>Frederico <em>(alvoroçado)</em></h4> + +<p>Horrivel! oh! horrivel! Isso bole sériamente<span class="pn">{122}</span> +comigo, comtigo, comnosco, com o nosso futuro, Joanna!</p> + +<h4>João Lopes <em>(dentro)</em></h4> + +<p>É revolução.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Revolução!</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Não ouves a fatalidade que esbraveja? Terei eu de perder-te, archanjo?</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Qual perder-me! Importa-me cá a mim a bernarda! Hei de ser tua! Não temas, +Frederico, que eu sou forte!..</p> + +<h4>João Lopes <em>(na scena)</em></h4> + +<p>Já intendi o que elles dizem... Dão morras<span class="pn">{123}</span> aos +papeis, e que se queime o escrivão da fazenda... E trazem musica... Ouvem?... +<em>(Ouve-se distinctamente, mas ainda longe, o hymno da «Maria da Fonte», á +mistura com os «môrra!»)</em></p> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>O snr. morgado está na torre a ouvir. Agora bom será que o snr. Frederico se +escape, senão desconfio que o matem, sendo aqui pilhado... <em>(Frederico +apanha as saias na cintura para poder fugir. A Morgadinha agarra-o.)</em></p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Não te deixo sahir agora, que é perigoso.</p> + +<h4>Frederico <em>(muito inquieto)</em></h4> + +<p>Morrer aqui, seria uma morte ingloria, Joanninha! Dá-me armas que eu quero +defender-me com uma bravura digna de ti! Armas! armas! um revolver de doze +tiros! Quero armar-me até aos dentes, e combater, e morrer gloriosamente ao teu +lado!<span class="pn">{124}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Frederico, tu estás maluco!.. Olha que elles não vem cá... Não percas o +juizo!</p> + +<h4>Frederico <em>(muito á tragica, alludindo ao estrondo da gritaria)</em></h4> + +<p>Não vem? Vem! Escuta! escuta! Não ouves o bramido do tigre popular? Olha... +é o leão que ruge, partidos os grilhões de respeito á lei! É a Libia e a +Hircania a vomitarem féras! Olha o lago sujo como se levanta em vagalhões e +como elles roncam!</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Vem então esconder-te, vem esconder-te!</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Não! Um homem não se esconde quando olhos como os teus são testemunhas de +tamanha covardia! É mister ser heroe!.. Mas eu estou vestido ignobilmente! +<em>(Arranca os vestidos mulheris:<span class="pn">{125}</span> fica de +quinzena; mas conserva o chapéo e os boucles)</em> Agora, armas! armas! <em>(A +morgada ri-se apontando-lhe para a cabeça.)</em> Por que ris tu, mulher forte! +porque ris tu, se fazes favor?!</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Tira a cartola e os cachos, meu amor.</p> + +<h4>Vozes <em>(que sobrelevam o estrondo dos figles)</em></h4> + +<p>Morra o escrivão de fazenda! morra! <em>(Grande catharro de João +Lopes.)</em></p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>É chegada a hora! Dá-me um abraço, querida! Um abraço! e até ao reino +eterno! As nossas nupcias são no céo!.. <em>(Aponta para o tecto e fica como +extactico; em quanto a Morgadinha vae rapidamente dentro, e sáe com dous +bacamartes de bocca de sino.)</em><span class="pn">{126}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Aqui tens um bacamarte; defende-te, que eu te defenderei tambem! <em>(Ella +aperra o bacamarte.)</em></p> + +<h2>SCENA VII</h2> + +<h3>OS MESMOS, PANTALEÃO <small>E</small> JOÃO LOPES</h3> + +<h4>Pantaleão <em>(estupefacto)</em></h4> + +<p>Que vejo? que é isto? como entrou este homem aqui?</p> + +<h4>Frederico <em>(atirando ao chão o bacamarte)</em></h4> + +<p>Venho offerecer-me á vingança de V. Ex.ª</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Meu papá, o snr. Frederico vem pedir-lhe a minha mão de esposa!<span +class="pn">{127}</span> </p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Das duas uma: ou o senhor foge, ou é espatifado pelo povo!</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Não sei fugir: sei morrer.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Mas vá morrer a casa do diabo; não quero que o matem aqui.</p> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>V. Ex.ª tem rasão; matal-o aqui é máo: o melhor é eu ir escondêl-o no meu +quarto; por que, se o povo o achasse aqui a estas horas, os creditos da menina +não ficavam com muita saude.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Pois vae escondêl-o... some-o no inferno!<span class="pn">{128}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Meu pae, se Frederico fugir, fujo eu; se elle morrer, morre sua filha, sua +filha unica, a sua Joanninha, a luz dos seus olhos! Meu papá +<em>(ajoelha-lhe)</em> eu já não posso deixar de ser esposa de Frederico, e +juro que sou d'elle na vida e na morte! <em>(Ergue-se: conduz Frederico pela +mão, e ajoelha com elle)</em> Dê-nos a sua benção, querido papá!</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Nunca! nunca! <em>(Ouvem-se fora as acclamações.)</em></p> + +<h4>Morgadinha <em>(erguendo-se soberba)</em></h4> + +<p>Então, não tenho pae! tenho só marido! Se o povo o matar, ha de vêr +morrer-me ao pé d'elle... mas vingada!.. <em>(Lança mão do bacamarte)</em> Que +entre o povo!<span class="pn">{129}</span> </p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Em que apertos me vejo! Rebenta-me o coração!..</p> + +<h4>João Lopes <em>(muito commovido)</em></h4> + +<p>Snr. morgado!.. Olhe que perdemos a nosa menina!..</p> + +<h4>Pantaleão <em>(a Frederico)</em></h4> + +<p>Esconda-se n'aquelle quarto, homem... Depressa.</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Obedeço, por que m'o ordena o pae d'este anjo. <em>(Sáe com João +Lopes.)</em><span class="pn">{130}</span> </p> + +<h2>SCENA VIII</h2> + +<h3>PANTALEÃO <small>E A</small> MORGADINHA</h3> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Perdi a cabeça!.. Estou doudo... não sei o que vinha aqui fazer!.. Ah!.. +onde está a pianista, que está alli fóra o marido á espera...</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>A pianista?..</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Sim, a pianista onde está?.. <em>(Olha para o chão, tropeçando no vestido de +mulher)</em> Que é isto? <em>(levantando o chapéo e os caracoes)</em> Que é +isto?! que é isto, Joanna?..</p> + +<h4>Morgadinha <em>(afflicta)</em></h4> + +<p>Isso? Ah! meu pae, que eu morro, se me apoquenta muito!..<span +class="pn">{131}</span> </p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Então a pianista era... era o escrivão?!..</p> + +<h4>Morgadinha <em>(soluçando)</em></h4> + +<p>Era, sim, snr.!</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Que sucia de tratantadas se passam n'esta casa!.. e eu a conversar com o +patife do logista que se dizia o marido d'esse velhaco!..</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>É meu espôso... perdôe-nos...</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Tu és o demonio, mulher!</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Sou uma infeliz apaixonada... O meu papá,<span class="pn">{132}</span> tenha +piedade! Olhe que o Frederico é muito bom môço. Se não é fidalgo hoje, póde +sêl-o ámanhã. O papá bem sabe que os fidalgos agora se fazem d'um dia pr'ó +outro.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Ergue-te, ingrata, que déste cabo de teu pae! <em>(Rompe a musica pelo +interior da casa, com grande vozeria, tocando o hymno.)</em></p> + +<h2>SCENA IX</h2> + +<h4>JOÃO LOPES, PANTALEÃO, MORGADINHA, MACARIO</h4> + +<h5><em>(A musica, na vanguarda, ladeia para dar passagem a Macario vestido de +official de ordenanças, mas com chapéo embicado. Traz uma espada empunhada, e +outra debaixo do braço, seguem-no 12 commandantes subalternos, vestidos a +capricho, uns com chapéo redondo e banda e dragonas, outros de barretina e +niza. Um d'estes arvora uma bandeira de varias côres.)</em></h5> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Viva o snr. morgado de Val-d'Amores, general em chefe das forças populares +do Minho!<span class="pn">{133}</span> </p> + +<h4>Vozes</h4> + +<p>Viva! <em>(Cala-se a musica.)</em></p> + +<h4>Macario <em>(á frente dos revolucionarios com enfaze oratoria)</em></h4> + +<p>Snr. morgado! As forças populares de seis freguezias que ahi estão reunidas +fóra no terreiro d'esta illustrissima casa, mandaram-me a mim, á frente dos +seus doze commandantes que se acham presentes, declarar a V. Ex.ª que por voto +geral foi acclamado general em chefe d'esta provincia. Eu lhes fiz um eloquente +discurso para os tirar d'essa ideia, allegando com o meu gráo de pharmaceutico +que V. Ex.ª soffria dos intestinos e d'outros incommodos intestinaes; mas elles +não me attenderam e obrigaram-me a vir offerecer a V. Ex.ª a espada de general +em chefe. Aqui está por consequencia esta valente espada que matou em 1810 +muita somma de francez do Junot, e que ha de nas mãos de V. Ex.ª limpar este +paiz de escrivães de fazenda e outros mariolas que nos desgraçam. Receba V. +Ex.ª das minhas mãos esta espada e salve com ella a patria do snr. D. Affonso +Henriques!<span class="pn">{134}</span> </p> + +<h4>Os commandantes</h4> + +<p>Viva o snr. boticario! Viva!</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Obrigado, valentes guerreiros! <em>(A musica executa uma marcha muito +compassada. Macario caminha a passo solemne e cadencioso com a espada +offerecida segura pela lamina, levando a sua na bainha. O morgado faz signal de +que quer fallar. Silencio.)</em></p> + +<h4>Pantaleão <em>(commovido)</em></h4> + +<p>Snr. Macario Mendes, e mais Senhores! Grande impressão me fizeram as vossas +palavras e não pude deixar de me commover... Estou realmente commovido, e +sinto-me abalado com tanta honra; mas sinto muito dizer-lhe que as minhas +doenças e outras desgraças me não permittem tomar o commando das valentes +forças populares que representaes. Não posso, senhores, não posso. Se a fortuna +me tivesse dado um filho, essa espada estaria já nas mãos d'elle.<span +class="pn">{135}</span> </p> + +<h4>Morgadinha <em>(tirando a espada da mão de Macario)</em></h4> + +<p>Está nas mãos de sua filha esta espada; e, como infelizmente, sou mulher, ha +de haver um homem a quem meu pae chame filho, e elle será digno d'ella! +<em>(Chamando) </em>Frederico! Frederico!</p> + +<h2>SCENA ULTIMA</h2> + +<h4>OS MESMOS <small>E</small> FREDERICO</h4> + +<h4>Frederico <em>(ajoelhando diante da morgadinha)</em></h4> + +<p>Sim! sim! recebo de vossas mãos, Senhora, a espada que ha de decepar as +infinitas cabeças da hydra financeira! <em>(Espanto geral.)</em></p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Como se entende esta caranguejola, snr. morgado!?<span +class="pn">{136}</span> </p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Snr. Macario... esse homem... vae ser... vae ser... Eu desmaio!</p> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>Vae ser o marido da menina... <em>(a Pantaleão)</em> Faça favor de não +desmaiar, por quem é!</p> + +<h4>Frederico <em>(com vehemencia e fogo)</em></h4> + +<p>E o marido da morgadinha de Val-d'Amores vae conduzir-vos á victoria, +briosos populares! Eu vos ensinarei a calcar tyrannos! Auxiliado por vós, +intrepidos filhos do norte, levantaremos o paiz das palhas pôdres em que o +prostraram os comilões. Eu fallo assim, porque cada nação, nas horas criticas, +tem o seu Vigor Hugo, o seu salvador por meio da rethorica. Vamos a elles, +filhos da victoria! As nossas bandeiras desenroladas aos ventos das batalhas, +dirão: Riqueza e Moralidade! Em menos de quatro annos de regimen moral, e dieta +aos lambões, o paiz não deverá nada, e vós não pagareis um pataco de +decima.<span class="pn">{137}</span> </p> + +<h4>Vozes</h4> + +<p>Apoiado!</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Cidadãos! Eu tenho estudado profundamente as doenças de Portugal e pude +descobrir onde está o cancro que nos róe. Ahi vae o meu programma: O meu +systema é dividir o paiz em republicas confederadas, cada republica tem seu +presidente de eleição popular, quero dizer, cada conselho governa-se a si, e +não quer saber do conselho visinho. Não sei se me percebem...</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Muito bem, entendemos muito bem.</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Por exemplo: Santo Thyrso fica sendo uma republica, que não tem nada com a +republica de Famalicão, nem com a republica de Fafe. Nós cá vivemos com o que é +nosso, fazemos as<span class="pn">{138}</span> nossas despezas, e não damos nem +vintem aos de fóra. </p> + +<h4>Vozes</h4> + +<p>Apoiado! apoiado!</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Aqui está o meu systema que ainda não lembrou a ninguem, e que é o resultado +de quinze annos de estudo. Conseguido isto, não temos a sustentar tropas, +<em>(Apoiados)</em> nem as estradas por onde andam os outros, +<em>(Apoiados)</em> nem theatros onde os outros se divertem, +<em>(Apoiados)</em> nem escrivães de fazenda. <em>(Apoiados)</em> E declaro que +me dou já por demittido do meu logar, e levanto minha voz auctorisada bradando: +Guerra e morte a todos os escrivães de fazenda! <em>(Os populares desembainham +as espadas, e bradam: «guerra de morte!»)</em> E, portanto, senhores, beijo +esta espada, e leio na sua lamina, os novos destinos que vão alvorecer para +Portugal! Recebi-a da mão do anjo protector das nossas tremendas batalhas! E +concedei, cidadãos, que essa bandeira<span class="pn">{139}</span> seja +arvorada nas mãos da Judith lusitana! Não mais cahirá aos pés de vencedor algum +o estandarte que foi consagrado pela filha d'este honrado fidalgo! +<em>(Frederico, tem passado a bandeira á Morgadinha, a qual se colloca de +maneira que o pae fica entre ella e Frederico.)</em> Bravos sycambros de Santo +Thyrso! agora, á victoria, á victoria que a patria nos chama! Está inaugurada a +republica confederada de Santo Thyrso! Toque o hymno! <em>(Os musicos executam. +Frederico florea a espada com arrebatada bravura. A morgadinha agita a +bandeira. Os commandantes fazem tambem seus ademanes de valentões. João Lopes +sentado com os queixos entre as mãos contempla tudo aquillo. Corre o +panno.)</em></p> + +<h4>FIM.</h4> + +<p><span class="pn">{141}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<h1>ENTRE A FLAUTA E A VIOLA</h1> + +<h4>ENTREMEZ EM UM ACTO</h4> + +<p><span class="pn">{143}</span> </p> + +<h2>PERSONAGENS</h2> +<ul> + <li>A<small>NICETO DA</small> S<small>ILVA</small>, pae de </li> + <li>V<small>ICTORINA.</small> </li> + <li>G<small>UTERRES</small> A<small>RTHUR DE</small> M<small>IRAMAR.</small> + </li> + <li>J<small>OSÉ</small> P<small>IMENTA.</small> </li> + <li>U<small>M</small> C<small>READO.</small> </li> +</ul> + +<p><span class="pn">{144}</span> <span class="pn">{145}</span> </p> + +<h1>ACTO UNICO</h1> + +<h5>Salão de estalagem em Barcellos. Quartos numerados desde 1 a 12, occupando +os lados, e parte do fundo. Um d'elles o n.º 10 tem sobranceira á porta uma +vidraça ou bandeira. Sobre um canapé de palha está uma viola francesa.</h5> + +<h2>SCENA I</h2> + +<h5><em>(Ao erguer o panno vem entrando Aniceto e Victorina precedidos de um +creado com dois saccos de noute e castiçal.)</em></h5> + +<h3>ANICETO, VICTORINA, CREADO</h3> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Vamos a saber: temos dois quartos limpos e camas asseadas onde se passe a +noute?</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Háde haver.<span class="pn">{146}</span> </p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Ha de haver?! Pergunto se ha.</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Faça favor de entrar aqui para o n.º 6; e acolá defronte está o n.º 10 +tambem de vago. <em>(Põe a bagagem dentro dos quartos.)</em></p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Então os outros estão occupados? Pelo que vejo reuniram-se muitos viajantes +em Barcellos. Teem bom gosto! Quem está hospedado cá?</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Nos n.<sup>os</sup> 1, 3, 5, 7 e 9 estão as snr.<sup>as</sup> fidalgas de +Lanhoso, que são seis velhas.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Que faz por aqui esse mulherío?<span class="pn">{147}</span> </p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Vão para os banhos da Povoa. V. S.ª faça favor de fazer pouca bulha que +ellas recommendaram-me todo o socego, que queriam dormir.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Pois que durmam. Ora que me importa cá a mim as fidalgas de Lanhoso!</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>V. S.ª toma alguma cousa?</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Queres chá, Victorina?</p> + +<h4>Victorina</h4> + +<p>Não quero nada. Quero deitar-me, que estou moída. O meu quarto é aquelle? +<em>(Apontando para o 10.)</em><span class="pn">{148}</span> </p> + +<h4>Aniceto <em>(indo examinar o quarto)</em></h4> + +<p>Para onde deita aquella janella?</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Para o quintal.</p> + +<h4>Aniceto <em>(indeciso)</em></h4> + +<p>Para o quintal? está bom... Vá... Vae-te deitar, menina. <em>(Ao +creado)</em> Vá você buscar outra luz. <em>(O creado sáe.)</em></p> + +<h2>SCENA II</h2> + +<h3>ANICETO <small>E</small> VICTORINA</h3> + +<h4>Victorina</h4> + +<p>Boas noutes, meu pae.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Boas noutes. Se fôr preciso alguma coisa, bate na porta trez palmadas.<span +class="pn">{149}</span> </p> + +<h4>Victorina</h4> + +<p>Ai! <em>(Gemido longo.)</em></p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Deixemo-nos de ais, Victorina. Juizo, juizo e juizo! <em>(Victorina +recolhe-se. O pae fecha a porta, e tira a chave.)</em></p> + +<h2>SCENA III</h2> + +<h3>ANICETO <small>E O</small> CRIADO <small>QUE VEM COM O CASTIÇAL</small></h3> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Diga-me cá vossê...</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Meu amo, que manda?<span class="pn">{150}</span> </p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Por aqui é tudo femeas, ou tambem ha machos?</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Machos?!</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Sim, homens! Se estão homens n'estes quartos.</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Já disse que não, meu amo. Não ha homens.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Da banda do Porto não veio passageiro nenhum?</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Não snr.<span class="pn">{151}</span> </p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Está bom; dê cá você a luz e vá-se embora. Ás 7 da manhã, chame-me se eu não +estiver a pé, ouviu?</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Sim snr. <em>(Aniceto recolhe-se, e fecha-se por dentro.)</em></p> + +<h2>SCENA IV</h2> + +<h3>GUTERRES <small>E O</small> CREADO</h3> + +<h4>Guterres <em>(com um sacco de viagem)</em></h4> + +<p>Olá, Gregorio!</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Por cá, snr. Guterres! Como está V. S.ª?<span class="pn">{152}</span> </p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Bom. Ha quarto?</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Hade haver. D'onde vem?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Da Povoa. Venho no rasto d'uma mulher divina que veio n'um carro. Está cá? +</p> + +<h4>Creado <em>(rindo)</em></h4> + +<p>Ora V. S.ª que ha de sempre andar atraz de mulheres! Com esta é a setima vez +que o vejo n'aste fadario! E o maganão sabe-as escolher!</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Então viste-a, viste-a? Boa de lei, eim? Onde está ella?</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Alli no n.º 10.<span class="pn">{153}</span> </p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Alli? Oh! que perola se esconde n'aquella feia concha! Quem dirá que o meu +ideal sonhado ha trinta e seis annos está na estalagem de Barcellos! Alli! +n'aquelle antro!</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Sempre V. S.ª está um poeta d'aquella casta! Lembra-se da filha do regedor +de Guilhabreu que cá esteve na festa das Cruzes ha cinco annos?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Lembro. Era uma trigueirita d'olhos pretos...</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>E os versos que V. S.ª lhe botou? a gente sempre se ria...</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Ah! vocês riam-se dos versos? Tens tu a felicidade<span +class="pn">{154}</span> bestial de te rires da poesia? O talento póde contar +com o couce até em Barcellos... Ora vamos... onde tenho eu quarto?</p> + +<h4>Creado <em>(indicando-lhe um do fundo)</em></h4> + +<p>Está alli o n.º 11.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Bem. Podes ir. <em>(Entra na alcova. O creado sáe.)</em></p> + +<h2>SCENA V</h2> + +<h3>ANICETO <small>SAINDO COM O CASTIÇAL EM PUNHO</small></h3> + +<p>Não posso adormecer com a idêa de que ha uma janella no quarto de Victorina. +Aquelle maldito não me deixa socegar em parte nenhuma. Receio que elle me siga +por que o lobriguei quando passávamos em Vallongo; e ella tambem o viu. Quem me +diz a mim que o tratante<span class="pn">{155}</span> nos não persegue, e anda +á volta da casa? Cuidar aquelle valdevinos que se pôde com uma flauta arranjar +uma rapariga com fortuna! Ha dous annos que minha filha está enfeitiçada por um +trocatintas d'um estudante que conseguiu seduzir o coração d'uma menina que +regeitou os melhores casamentos de Penafiel e Amarante! Afinal, não hasde +vencer, sarrafaçal! Eu tolherei todos os teus calculos. Não me pilharás +descuidado um instante! Mas aquella janella assusta-me. Vou fazer mudar +Victorina para o meu quarto. <em>(Olhando para o alto da porta)</em> E de mais +a mais esta porta tem vidraça em cima. Se elle aqui entrar, ella póde vêl-o +d'alli... Que imprudencia eu ia commettendo! <em>(Bate a porta)</em> Victorina, +Victorina!</p> + +<h4>Victorina <em>(dentro)</em></h4> + +<p>Quem é?</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>É teu pae. Já estás na cama?<span class="pn">{156}</span> </p> + +<h4>Victorina</h4> + +<p>Não, snr.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Que estás a fazer?</p> + +<h4>Victorina</h4> + +<p>Nada. <em>(Dando volta á chave.)</em></p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Nada? Posso entrar? <em>(Áparte)</em> Lá está ella a descer a vidraça. +<em>(Alto)</em> Posso entrar?</p> + +<h4>Victorina</h4> + +<p>Póde.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Estavas á janella?<span class="pn">{157}</span> </p> + +<h2>SCENA VI</h2> + +<h3>ANICETO <small>E</small> VICTORINA <small>SAHINDO DA ALCOVA</small></h3> + +<h4>Victorina</h4> + +<p>Ai!</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Que estavas a fazer na janella?</p> + +<h4>Victorina</h4> + +<p>Ora o pae tem manias! Credo! que havia de eu fazer na janella! Estava a +tomar a fresca. Não tinha somno, não podia dormir, estava muito afflicta, muito +opprimida, muito abafada, abri a janella, ai!</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Pois sim, sim, minha menina. Assim será; mas troquemos os quartos. Vae para +aquelle,<span class="pn">{158}</span> que eu vou para este. Dá cá o teu sacco +de noute. Vamos. Leva o castiçal. Dá-me o meu sacco. Muito bem. Agora +entra...</p> + +<h4>Victorina <em>(entrando)</em></h4> + +<p>Oh céos!</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Sim, sim. <em>(Fechando a porta, e tirando a chave)</em> Agora vou +descançado. <em>(Recolhe-se.)</em></p> + +<h2>SCENA VII</h2> + +<h3>GUTERRES</h3> + +<h5><em>(Caminhando contemplativo com o castiçal em punho e os olhos postos no +quarto d'onde sahiu Victorina. Pousa o castiçal.)</em></h5> + +<p>Ella alli está, a formosa como a rolinha adormecida com o bico debaixo da +aza; e eu venho aqui dar pasto ao coração;... mas que<span +class="pn">{159}</span> pasto tão pouco nutriente! Pobre poeta! todo o teu +alimento são esperanças! Em quanto a gente prosaica se embrutece com timbaes de +pombos e pasteis de camarão, tu, poeta <em>(batendo no peito)</em> engoles +timbaes de esperanças com pasteis de sonetos. Eu já sou do tempo em que um +homem de genio amava com o auxilio dos sonetos, e fazia consistir toda a sua +gloria de fino amante em gargarejar ternuras para um terceiro andar e +recolher-se a casa com o coração a trasbordar de catarro. Hoje não. Os anjos +actuaes se apparecem de noite á janella é para namorar a lua, ou vêr a cauda +d'algum cometa. Desde que entrou a moda do amor ideal, os olhos d'uma senhora, +que conversa com as estrellas, não descem a procurar na rua um d'estes amadores +fanhosos, que só se sentem inspirados e eloquentes na occasião em que a +patrulha os não deixa fallar. Eram d'uma paciencia adoravel as donzellas de ha +vinte annos, quando em meu coração rebentavam as primeiras flôres!.. Que +sensaborias a gente lhe disparava lá para cima, e a sancta resignação com que a +gente as ouvia a ellas! A virtude d'aquelle tempo só se explica bem pela +temperatura de<span class="pn">{160}</span> sorvete em que os corações se +conservavam de parte a parte. Isto agora é outra coisa. Um homem sente no peito +o progresso material. Aqui dentro ha gaz, ha vias-ferreas, ha fio electrico, ha +balões, ha petroleo, ha tudo quanto é fogo, energia, rapidez, etc. Eu cá pelo +menos sinto isso tudo; conheço que remoço, que amo e que ardo. Tenho phosphoros +e ácido prussico aqui dentro. <em>(batendo no peito)</em> E esta mulher! Como +eu amo esta mulher desde que a vi hontem na Povoa de Varzim! Eu, na minha +qualidade de escrivão do juiz eleito, estava a escrever n'um processo, quando +ella passava luminosa e radiante como uma aurora boreal. Larguei o processo +como largaria um sceptro, se fosse rei. Segui-a; vi-a jantar á meza redonda do +hotel portuense. Comeu apenas uma aza de borracho e meia banana. Que estomago +tão fino! É que alli está um coração immenso cheio de ternura e com mais poesia +que um livro de versos. Sahiram, e eu segui-os. Vi entrar o pai n'um +escriptorio de viação e comprar dous bilhetes. Perguntei para onde iam os +passageiros; disseram-me que para Barcellos. Pedi bilhete; mas não havia. Ó +desventura! que farei? ficar? não! Ha<span class="pn">{161}</span> fatalidades +invenciveis, funestissimas! Esta mulher tem o meu destino nas suas mãos; disse +eu comigo. Cumpre-me seguil-a. Mas que farei? Não ha bilhete. Embora. Alma de +poeta, exclamei eu, não succumbas! Heroicidade na desgraça, homem de coração de +bronze! Segue-a! segue-a! Fui alugar um garrano, e segui-os a galope, terra a +terra, a rédea solta, receando a cada passo que o coração e o garrano me +rebentassem. Aqui estou. Ó mulher, mulher quem és tu? Ave do paraizo, que estás +sonhando delicias do teu Éden, lembra-te, ó Eva, que és costella do homem, e +que está aqui Adão digno de ti. <em>(Repara na viola.)</em> Uma viola franceza! +<em>(Pega d'ella e corre-lhe as cordas.)</em> Está desafinada. Oh! que saudades +me tu fazes, instrumento interprete das minhas paixões infantis! Que trovas eu +descantava em noites de lua cheia ao arpejar dos teus bordões que gemiam +comigo! <em>(Pensativo)</em> Quem sabe? <em>(vai afinando)</em> Quem sabe? Se +tu fizesses o milagre, ó lyra das canções apaixonadas! Vamos! é o fado que me +impelle; mas não vou tocar o fado. Inspira-me, coração, umas trovas dignas do +anjo que alli está dormindo. <em>(Avisinha-se da porta, onde presume que<span +class="pn">{162}</span> está Victorina, e preludía com tregeitos de vate que +invoca a inspiração do céo, e canta)</em>:</p> + +<blockquote> + <small>(MUSICA DA «ALTEA, MIMOSA ALTEA»</small>)</blockquote> + +<blockquote> + Se tu soubesses, lindinha,<br> + Quanto é grande o meu amor<br> + Não dormiras descançada<br> + Quando eu morro aqui de dôr.</blockquote> + +<blockquote> + <em>(Allegro)</em></blockquote> + +<blockquote> + Acorda menina,<br> + Não durmas agora,<br> + Em quanto se fina<br> + De dôr quem te adora.</blockquote> + +<blockquote> + Eu na Povoa descuidado<br> + Já não sentia disvelos,<br> + Eis que surges luz brilhante,<br> + E eu te sigo até Barcellos.</blockquote> + +<blockquote> + Acorda, menina,<br> + Não durmas agora,<br> + Em quanto se fina<br> + De dôr quem te adora.<span class="pn">{163}</span></blockquote> + +<h2>SCENA VIII</h2> + +<h3>ANICETO <small>E</small> GUTERRES</h3> + +<h5><em>(Aniceto abre a porta, e sáe de barrete de dormir e rob-de-chambre, com +a luz na mão. Guterres recúa espavorido.)</em></h5> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Passasse muito bem.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Viva.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Eu já vi o senhor se não me falha a memoria.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Sim, senhor, já tive a honra de jantar na meza em que V. S.ª estava na +Povoa.<span class="pn">{164}</span> </p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>É verdade. Pois snr., V. S.ª canta e toca muito bem; n'outra occasião muito +lhe agradecerei o prazer de o ouvir; mas agora pedia-lhe o obsequio de se +calar, porque tenho de seguir amanhã viagem e preciso dormir...</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Pois não, senhor! Eu deponho já o instrumento importuno.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Agradeço muito a sua delicadeza. Se não fosse indiscreto, perguntaria com +quem tenho a honra de fallar?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Sou Guterres Arthur de Miramar, para o servir.<span class="pn">{165}</span> +</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Então é estrangeiro? Esse nome não me parece de cá.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Sou portuguez nascido e baptisado na Povoa, onde exerço funcções publicas. +</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Ah! exerce funcções publicas? Esse emprego deve ser bem bom.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Soffrivel; mas vivo mais do espirito que do funccionalismo. Sou homem de +bastantes lettras.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Ah! de bastantes lettras? então é capitalista... Eu tambem trago um pouco de +dinheiro em descontos... O juro por aqui como regula?<span +class="pn">{166}</span> </p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>O juro? está favoravel. Um amigo meu empenhou o relogio a doze por cento ao +mez. V. S.ª é do Porto?</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Não senhor, sou de Penafiel, onde sou bem conhecido por Aniceto da Silva. +</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Oh! pois não, snr. Aniceto! E anda pelo Minho a divertir-se com sua +ex.<sup>ma</sup> filha?</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>A divertir-me não... Isso são contos largos... se V. S.ª por aqui estiver +ámanhã, conversaremos. Agora boas noutes, que são horas de dormir.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Tem razão, tem razão... Boas noutes. <em>(Aniceto fecha-se.)</em><span +class="pn">{167}</span> </p> + +<h2>SCENA IX</h2> + +<h3>GUTERRES</h3> + +<p>Ora ahi está a deidade, que eu eternizei nos meus versos! As esperanças de +muitos poetas, quando se realisam, são pouco mais ou menos como esta. Este +Aniceto, offerecendo-se aos meus devaneios d'alma, é uma imagem que eu tambem +offereço como lição a todos os poetas. <em>(Vê-se um encapotado ao fundo, com +chapéo de aba derrubada)</em>.</p> + +<p>Mas, a final, onde é que está a filha? Foi o velhaco do creado que me +enganou! É o couce da proza que bateu no peito da poesia. Filha de Aniceto, +onde quer que estejas, eu te offereço este calix d'amargura, e boas noutes. +<em>(Vai a recolher-se ao quarto.)</em><span class="pn">{168}</span> </p> + +<h2>SCENA X</h2> + +<h3>JOSÉ PIMENTA <small>E</small> GUTERRES</h3> + +<h4>Pimenta <em>(rebuçado)</em></h4> + +<p>Boas noutes.</p> + +<h4>Guterres <em>(suspendendo-se)</em></h4> + +<p>Boas noutes.</p> + +<h4>Pimenta</h4> + +<p>Quem é o senhor?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Não respondo a encapotados de melodrama. Destape-se.</p> + +<h4>Pimenta <em>(deixa cair as bandas do capote)</em></h4> + +<p>Eis-me.<span class="pn">{169}</span> </p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Eis-me o que? Cada vez o conheço menos.</p> + +<h4>Pimenta</h4> + +<p>O senhor fallava agora aqui em filha d'Aniceto. Que ha de commum entre o +senhor e a filha de Aniceto?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>De commum de dois? temos questão grammatical ou phisiologica?</p> + +<h4>Pimenta</h4> + +<p>Que tem o senhor que ver com ella?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Que tenho que ver com ella? Ha muita cousa que ver: por exemplo, Barcellos, +o rei dos tambores, V. S.ª etc. Falta elle que ver...<span +class="pn">{170}</span> </p> + +<h4>Pimenta</h4> + +<p>O senhor sabe que da zombaria ao rewolver não ha mais que um passo?</p> + +<h4>Guterres <em>(sorrindo)</em></h4> + +<p>O senhor figura-se-me um patusco bastante tragico. Um tyranno em Barcellos +não póde ser melhor nem peor que a sua pessoa. Como se chama, posso saber?</p> + +<h4>Pimenta</h4> + +<p>Sou José Pimenta.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Pimenta? por isso o senhor é tão cálido!... Eu sou de apellido Mira-mar. +Tenho uma alma larga e fresca como o oceano. Saibamos: o senhor namora a filha +d'este Aniceto? Falle franco, que tem em mim um coração de poeta e um +respeitador dos direitos adquiridos. Ama a tal pequena?<span +class="pn">{171}</span> </p> + +<h4>Pimenta</h4> + +<p>Amo.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Tambem eu.</p> + +<h4>Pimenta</h4> + +<p>Tambem o senhor?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Tambem eu; mas ha uma differença entre nós, e vem a ser que ella a mim não +me conhece, e provavelmente ao senhor ama-o.</p> + +<h4>Pimenta</h4> + +<p>Tenho provas d'isso.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Tem? <em>(Solemne)</em> O senhor sabe que esmagou<span +class="pn">{172}</span> n'este momento um dos mais romanticos corações que +batem em peito de homem? Sabe que espezinhou as florinhas d'um amor nascente +que burbulhavam na charneca d'esta alma? <em>(concentra-se)</em> Coragem! +Deixe-me saborear voluptuosamente o meu fel. E então o senhor vem aqui +fallar-lhe? Sabe que ella está...</p> + +<h4>Pimenta <em>(apontando para o quarto de Aniceto)</em></h4> + +<p>Sei que está alli no N.º 10, que m'o disse o creado da hospedaria.</p> + +<h4>Guterres <em>(apontando)</em></h4> + +<p>Alli?</p> + +<h4>Pimenta</h4> + +<p>Alli sim. O senhor tambem o deve saber. Espere... <em>(reparando na vidraça +sobranceira á porta.)</em> Vejo um vulto de cara por detraz d'aquelles vidros.. +O senhor não vê?<span class="pn">{173}</span> </p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Sim, eu vejo lá o que quer que seja.</p> + +<h4>Pimenta</h4> + +<p>É ella que me conheceu a voz. Quer outra prova?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Não senhor, estou satisfeito. Aquella mulher é sua. Sou magnanimo até aqui! +</p> + +<h4>Pimenta</h4> + +<p>Se me fosse possivel subir á altura da vidraça! Alli está uma mêza. O senhor +guarda segredo? Não revella este arrojo d'um amante apaixonado?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>O senhor chama a isso arrojo? Arrojo seria o snr. Pimenta quebrar os +caixilhos das vidraças<span class="pn">{174}</span> e passar-se lá p'ra dentro. +Póde fazêl-o que eu não digo nada.</p> + +<h4>Pimenta <em>(attento nos vidros)</em></h4> + +<p>É ella. É o anjo! Lá está o rosto amado!</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Vá, não perca tempo. Dê-lhe um beijo envidraçado. <em>(Pimenta aproxima uma +banca da porta; sobe, e, ao chegar a cara aos vidros, Aniceto parte a vidraça +com um murro, e põe fóra a cabeça.)</em></p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Ah cão!</p> + +<h4>Pimenta <em>(saltando)</em></h4> + +<p>Traição! traição! <em>(Ouve-se o rodar da chave. Pimenta foge.)</em><span +class="pn">{175}</span> </p> + +<h2>SCENA XII</h2> + +<h3>ANICETO <small>E</small> GUTERRES</h3> + +<h5><em>(O palco escuro)</em></h5> + +<h4>Aniceto <em>(correndo para Guterres)</em></h4> + +<p>Ainda aqui estás, ladrão!</p> + +<h4>Guterres <em>(accendendo um phosphoro)</em></h4> + +<p>Olhe que está enganado, snr. Aniceto. Suspenda-se. Veja que eu sou o +funccionario da Povoa, Guterres Arthur. <em>(Continúa a accender +phosphoros.)</em></p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Mas eu vi a cara do meu algoz atraz d'aquella vidraça. Onde está o +scelerado, o canalha do flautista?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Elle toca flauta? São fataes os flautistas...<span class="pn">{176}</span> +</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Transtornou a cabeça de minha filha o infame... Onde está elle?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Safou-se. Os phosphoros acabam-se. Eu vou buscar uma vela ao meu quarto. +<em>(Engana-se, e vae querer abrir o quarto de uma das fidalgas, que exclama de +dentro.)</em></p> + +<h4>Voz de velha</h4> + +<p>Quem está ahi?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Enganei-me.</p> + +<h4>Voz</h4> + +<p>Um homem! que desafôro! um homem!<span class="pn">{177}</span> </p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Perdão, minha senhora; não grite tanto. V. Ex.ª parece-me bastante velha +pelo metal de voz, e não deve recear-se de homens.</p> + +<h4>Voz</h4> + +<p>Que escandalo! um homem! a empurrar a porta do quarto de uma senhora...</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Não se assuste. V. Ex.ª em guerra de paixões é paiz neutro. Esteja socegada. +Durma. <em>(Engana-se novamente com a porta d'outra fidalga.)</em></p> + +<h4>Voz</h4> + +<p>Quem bate? quem anda aqui, mana?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Cá está outra inviolavel. Não é nada, minha senhora. A mana não teve +perigo.<span class="pn">{178}</span> </p> + +<h4>Aniceto <em>(sahindo com uma luz do seu quarto)</em></h4> + +<p>Aqui está luz. Venha cá, snr. Miramolim.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Miramar, se faz favor.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Que me diz á perseguição d'este facinora? O senhor não lhe disse que eu +estava n'este quarto?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Nada, eu não lhe disse coisa nenhuma. Eu bem vi que o senhor estava a +espreitar pelos vidros; mas como elle disse «lá está o rosto amado» cuidei +realmente que o rosto amado era o da sua pessoa. Não se afflija. O caso tem +remedio. Trate a doença de sua filha pelo systema homoeopathico. <em>Similia +similibus.</em> Sabe latim? <em>(Signal negativo)</em> Quer dizer: cura-se a +molestia com a mesma droga que a faz, percebe? quer dizer: a doença de sua +filha é causada pelo tal<span class="pn">{179}</span> sujeito, não é? +<em>(Signal affirmativo)</em> Pois <em>similia similibus</em> arranje-lhe outro +similhante.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Dois? tomára eu desfazer-me d'este.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Outro marido, percebeu?</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Percebi, sim, senhor; mas eu não acho que a minha filha tenha necessidade de +casar com este nem com o outro.</p> + +<h4>Guterres <em>(com enfaze e rapidez)</em></h4> + +<p>Snr. Aniceto, a natureza tem direitos inauferiveis. Ha periodos fataes no +fluido nervoso que repellem toda a violencia, e a não soffrem sem que a especie +seja deteriorada por transtornos contrapostos ás evoluções palyngenesicas da +reproducção genesiaca, resultando d'ahi que<span class="pn">{180}</span> as +evoluções abafadas disparam em atrophia do sensorio e outras aberrações de +graves consequencias: o senhor percebe, eim?</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>As aberrações curam-se com uma boa bengala, snr. Miramolim.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Miramar, se faz favor. Vejo que V. S.ª não entendeu. Sua filha ha de dar-lhe +grandes penas e trabalhos, se não tiver em quem empregar a actividade do seu +coração: percebeu agora?</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Muito bem. Aconselha-me então o senhor que lhe procure marido.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>E quanto antes.<span class="pn">{181}</span> </p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>O senhor é solteiro?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Sou, sim senhor, porque?</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Quer casar com minha filha?</p> + +<h4>Guterres <em>(com gravidade)</em></h4> + +<p>A sua filha, snr. Aniceto, é uma imagem que me sorria nos meus sonhos antes +de a conhecer. Eu amo-a com este coração de anjo que tenho; e, se eu já não +fosse poeta, os olhos d'ella fariam de mim um Camões d'occasião. Mas a sua +pergunta á queima-roupa é um choque tal de felicidade que me burrifica. +Deixe-me tomar ar. Ha commoções de alegria que achatam os bofes e sacodem todas +as visceras d'um homem.<span class="pn">{182}</span> </p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Não ha tempo a perder. Quero livrar-me da perseguição d'este bandido da +flauta. Se V. S.ª annue, vamos sahir immediatamente de Barcellos, e onde +podermos parar em paz e socego trataremos do seu casamento com a minha +Victorina. Eu vou chamar minha filha. Quero que ella o veja e ouça fallar.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Não, senhor. Isto de casamento é um acto sério e solemne. Corações apanhados +de surpreza não me servem. A mulher, que houver de ser minha, hei de +conquistal-a palmo a palmo com as armas do sentimentalismo poetico. Logo que eu +conhecer que consegui apaixonar sua filha, então a contemplarei como objecto +matrimonial. Eu sobretudo, snr. Aniceto, sou poeta.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Então que é preciso?<span class="pn">{183}</span> </p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>É preciso que ella me ame espiritualmente. Eu vou principiar os meus +primeiros ensaios no coração de sua filha empregando os expedientes +sentimentaes.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Que vae o senhor fazer n'esse caso?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>V. S.ª não me disse que sua filha se apaixonara pelo tal Pimenta em +consequencia de elle tocar flauta?</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Foi isso.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Pois eu vou empregar tambem a musica. Póde ser que esta menina tenha a alma +lyrica e<span class="pn">{184}</span> philarmonica e que o seu coração só possa +ser abalado instrumentalmente. Faz-me o snr. Aniceto o favor de recolher-se ao +seu quarto, e esperar lá os phenomenos que se forem operando na sensibilidade +de sua filha? </p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Sim senhor, eu cá vou esperar os phenomenos. <em>(Recolhe-se.)</em></p> + +<h2>SCENA XIII</h2> + +<h3>GUTERRES <em>(só)</em></h3> + +<h5><em>(Guterres pega da viola, preludía, aproxima-se do quarto de Victorina e +canta em postura de inspirado)</em></h5> + +<blockquote> + Eu na Povoa descuidado<br> + Já não sentia disvelos;<br> + Eis que surges, luz brilhante,<br> + E eu te sigo até Barcellos.</blockquote> + +<blockquote> + <span class="pn">{185}</span> Acorda, menina,<br> + Não durmas agora,<br> + Em quanto se fina<br> + De dôr quem te adora.</blockquote> + +<blockquote> + Victorina, escuta os hymnos,<br> + Que te canta o meu amor;<br> + Escuta os versos divinos,<br> + De Guterres, trovador!</blockquote> + +<blockquote> + Acorda menina,<br> + Não durmas agora,<br> + Em quanto se fina<br> + De dôr quem te adora.</blockquote> + +<blockquote> + <em>(Escutando declama:)</em></blockquote> +Ella não se bole. Parece-me que a ouço resonar. É a belleza que ronca nos seus +sonhos innocentes. <em>(Reparando em José Pimenta que vem entrando)</em> Temos +chinfrim.<span class="pn">{186}</span> + +<h2>SCENA XIV</h2> + +<h3>JOSÉ PIMENTA, GUTERRES, VICTORINA, <small>NO QUARTO E DEPOIS NA SCENA, +</small>ANICETO <small>MAIS TARDE, E O</small> CREADO</h3> + +<h5><em>(José Pimenta entra embuçado, medindo os passos á tragica. Chega ao +meio da scena, arroja o chapéo, deixa cahir a capa, cruza os braços, relançando +um olhar sinistro. Depois tira da algibeira interior d'uma jaqueta de pelle os +canudos d'uma flauta, liga-os, dá dois passos á frente, e com a maior +solemnidade toca a aria da Sombra de Nino, da Semiramis. Guterres tem passado +com a viola para o outro lado, e faz menção de se defender com uma cadeira, em +quanto o outro não toca. Victorina, assim que José Pimenta tem tocado a +primeira parte da aria, começa aos empurrões á porta.)</em></h5> + +<h4>Victorina <em>(dentro)</em></h4> + +<p>Josésinho, Josésinho, eu estou aqui. Acode-me, salva-me! Arromba esta porta! +<em>(Aniceto rompe do quarto com os braços no ar, a tempo que Victorina faz +saltar a fechadura e corre aos braços de José Pimenta, exclamando:)</em> José, +José, quero morrer nos teus braços. Ai! <em>(Desmaia nos braços +d'elle.)</em><span class="pn">{187}</span> </p> + +<h4>Aniceto <em>(ao creado que tem entrado com a luz)</em></h4> + +<p>Você faz favor de me ir chamar o regedor? chame-me as auctoridades todas. Ah +grande facinora, cuidavas tu que em Barcellos não ha justiça que vingue um pae? +</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Snr. Aniceto, não mande chamar as auctoridades. Nada de escandalos inuteis. +Agora conheço que a chaga da sua filha só póde ser curada com o pêllo do +mesmo... do mesmo José Pimenta. Não ha duvida que o coração d'esta menina está +magnetisado pela musica; mas o que é certo é que a propensão d'ella não é a +viola. A alma d'esta senhora inclina-se para instrumento de sopro. Não é assim, +snr.ª D. Victorina? Faça favor de voltar a si para responder, e desmaie depois +se quizer. <em>(Ella abre os olhos)</em> É verdade ou não?</p> + +<h4>Victorina</h4> + +<p>Ai! <em>(Aniceto cáe prostrado n'uma cadeira á boca da scena.)</em><span +class="pn">{188}</span> </p> + +<h4>Guterres <em>(a Pimenta)</em></h4> + +<p>O senhor não tem habilidade senão para a flauta. Aproveite a occasião e vá +com a pequena ajoelhar-se aos pés do velho. Andem para diante. +<em>(Empurrando-os)</em> Parece que nunca estiveram no theatro!</p> + +<h4>Pimenta e Victorina <em>(ajoelhando)</em></h4> + +<p>Meu pae! piedade!</p> + +<h4>Aniceto <em>(erguendo-se de impeto)</em></h4> + +<p>Oh! <em>(Grito rouco e prolongado; com os braços affasta tragicamente da +vista o espectaculo dos dois que se ajoelharam.)</em></p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Snr. Aniceto, deixemo-nos de attitudes. Abençôe a união d'essas creaturas. +Deixe-os casar; alegre-se com a esperança de que ha de ainda vêr meia duzia de +netos a tocarem flauta; e meia duzia de netas, com o genio de sua mãe, amando +uma orchestra de sujeitos distinctos desde a<span class="pn">{189}</span> +trompa até á corneta de chaves. Vamos, volte o seu semblante misericordioso +para os propagadores da sua individualidade tipica.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Levantem-se d'ahi! <em>(Erguem-se submissos.)</em></p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Bem; estão os senhores absolvidos. Parabens. Ó snr. Pimenta, eu creio que +algum serviço lhe fiz, provocando com esta viola o poder fascinador da sua +flauta. Em recompensa, faça-me o senhor o favor de dizer se foi realmente com a +aria da Sombra de Nino que enfeitiçou esta sympathica joven?</p> + +<h4>Pimenta</h4> + +<p>Esta aria era a senha com que os nossos corações se entendiam.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Ah! sim? Eu quero tocar isso no violão; vou<span class="pn">{190}</span> +experimentar o effeito d'essa aria no coração de certas pessoas que costumam +arrebatar-se fascinadas pela minha voz de tenor. <em>(Tange na viola o +acompanhamento da Sombra de Nino, e canta:)</em></p> + +<blockquote> + Pobre poeta, ninguem te preza,<br> + Pobre poeta, ninguem te quer;<br> + Nem co'a viola tu conseguiste<br> + Mover o peito d'uma mulher.</blockquote> +<em>(No intervalo de uma quadra á outra. A José Pimenta)</em> + +<p>Isto vae bem? <em>(Faz na viola escalas sobre os bordões.)</em></p> + +<blockquote> + Mas não importa; vença a flauta<br> + A sympathia das fracas almas;<br> + Que eu antes quero, meus bons amigos,<br> + O vosso affecto e as vossas palmas.</blockquote> + +<h4>FIM.</h4> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>Os direitos de representação das duas comedias que formam este volume +pertencem ao auctor.</p> + +<p>Porto, 3 de Fevereiro de 1871.</p> + +<p style="text-align:right;">C<small>AMILLO</small> C<small>ASTELLO</small> +B<small>RANCO</small>.</p> +</div> + +<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30461 ***</div> +</body> +</html> |
