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+<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml">
+<head>
+ <title>O culto da arte em Portugal</title>
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+
+ <meta name="AUTHOR" content="Ramalho Ortig&atilde;o" />
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+
+
+
+<body>
+<div>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30456 ***</div>
+
+<div>
+<div class="fbox"> <b>Nota de editor:</b>
+Devido &agrave;
+exist&ecirc;ncia de erros tipogr&aacute;ficos neste texto,
+foram tomadas v&aacute;rias decis&otilde;es quanto &agrave;
+vers&atilde;o final. Em caso de d&uacute;vida, a grafia foi
+mantida de acordo com o original. No final deste livro
+encontrar&aacute; a lista de erros corrigidos.<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita
+Farinha (Nov. 2009)
+</div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>
+O CULTO DA ARTE<br />
+
+<br />
+
+EM<br />
+
+<br />
+
+PORTUGAL
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="bbox"><br />
+
+<h3><em>RAMALHO ORTIG&Atilde;O</em>
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="bbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<h2>
+O CULTO DA ARTE<br />
+
+</h2>
+
+<br />
+
+<h3>
+EM</h3>
+
+<h2>PORTUGAL
+</h2>
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<div class="tiny">Monumentos
+architectonicos&#8213;Restaura&ccedil;&otilde;es&#8213;Desacatos<br />
+
+Pintura e esculptura&#8213;Artes industriaes<br />
+
+O genio e o trabalho do povo&#8213;Indifferen&ccedil;a
+oficial&#8213;Decadencia<br />
+
+Anarchia esthetica<br />
+
+Desnacionalisa&ccedil;&atilde;o da
+arte&#8213;Dissolu&ccedil;&atilde;o dos sentimentos<br />
+
+Urgencia de uma reforma
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 96px; height: 63px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<h4>LISBOA<span class="smallcaps"><br />
+
+Antonio Maria Pereira,
+Livreiro-Editor</span><br />
+
+50&#8213;Rua Augusta&#8213;52<br />
+
+<br />
+
+1896
+</h4>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<hr />
+<div style="text-align: center;">Typographia da Academia
+Real das Sciencias de Lisboa
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">&Aacute;
+Commiss&atilde;o
+dos Monumentos Nacionaes
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+dedica respeitosamente<br />
+
+este humilde trabalho<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature"><em>O AUCTOR</em></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[1]</span>
+Durante a Renascen&ccedil;a, e ainda atravez da Edade
+M&eacute;dia, t&atilde;o insufficientemente conhecida no enigma
+da sua cultura artistica, os reis, os monges,
+os fidalgos, os burguezes enriquecidos ostentavam
+o fausto e a pompa hierarchica n&atilde;o s&oacute;mente
+construindo
+palacios e castellos, que enobreciam os
+logares que elles habitavam, mas erigindo basilicas
+e cathedraes, em que se concentravam todos
+os esfor&ccedil;os do talento de uma ra&ccedil;a, e eram
+verdadeiramente
+os palacios do povo, doados magnanimamente
+pelos mais poderosos aos mais humildes,
+em nome de Deus, em nome do rei, em
+honra da patria.
+<span class="pagenum">[2]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+N'esses edificios incomparaveis se achavam colligidas
+como em escolas monumentaes, como em
+museus portentosos, todas as maravilhas da sciencia,
+da poesia e da arte. A esculptura architectural,
+a estatuaria dos mausoleus, a imaginaria dos
+altares, a illuminura dos missaes, a pintura das
+vidra&ccedil;arias,
+a talha dos retabulos subordinavam-se
+a um pensamento commum, expresso n'um vasto
+symbolismo, comprehendendo as fecundidades da
+terra e do mar, o trabalho do homem nos seus
+desfallecimentos e nos seus triumphos, a
+perturba&ccedil;&atilde;o
+dos sentidos pelo peccado, a fatalidade do
+sangue, o horror do universal aniquilamento, e
+o v&ocirc;o da alma para Deus, levada por um immortal
+instincto de amor, de paz, de verdade e
+de justi&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Dentro d'essas egrejas, amea&ccedil;adas hoje de proxima
+ruina ou inteiramente arruinadas, se celebravam
+todos os actos da vida religiosa, da vida civil
+e da vida domestica. Ahi se casavam os noivos,
+se baptisavam os filhos, se sepultavam os paes.
+Ahi se ungiam os reis, velavam as armas os cavalleiros,
+professavam os monges, benziam-se os
+<span class="pagenum">[3]</span>
+fructos da terra, as bandeiras das hostes, as ferramentas
+da lavoura e os pend&otilde;es dos officios.
+Ahi se discutiam os interesses do povo, os direitos,
+as franquias, os foros da communa. Ahi se
+pr&eacute;gava o Evangelho, se resava a missa, e se representavam
+os autos populares da vida de Jesus
+e dos seus santos; e nas vigilias da Natividade,
+da Epiphania e da Paschoa, quando o org&atilde;o emudecia
+no coro e se calavam os cantos liturgicos, o
+povo bailava ao longo da nave, sob as abobadas
+gothicas ou sob as cupulas bysantinas, e as l&ocirc;as e
+os villancicos, entoados pelos fieis, subiam para
+o ceu com a fragancia das flores e com o fumo
+dos thuribulos, ao repique das castanholas e ao
+rufar dos adufes.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao lado dos braz&otilde;es e das divisas heraldicas
+pendiam dos muros os votos modestos dos mais
+obscuros mesteiraes, dos mais humildes braceiros.
+<br />
+
+<br />
+
+Esse alca&ccedil;ar dos pobres, que era a egreja medieval,
+alca&ccedil;ar mais sumptuoso que o de nenhum
+rei, dava asylo incondicional, inviolavel e sagrado,
+aos maltrapilhos, aos vill&otilde;es, aos mendigos,
+aos lazaros e &aacute;s lazaras de todas as lepras do corpo
+<span class="pagenum">[4]</span>
+e da alma, aos tinhosos, aos nus, aos imbecis, aos
+ignorantes, aos criminosos, &aacute;s mulheres adulteras,
+&aacute;s mancebas, &aacute;s mundanarias, &aacute;s
+barreg&atilde;s.
+<br />
+
+<br />
+
+O egoismo dos tempos modernos torna-nos incompativeis
+com o commetimento de t&atilde;o grandes
+obras. Creamos institui&ccedil;&otilde;es de caridade, fazemos
+regulamentos de assistencia publica, e vangloriamo-nos
+de haver definido pela revolu&ccedil;&atilde;o liberal o
+dogma da fraternidade humana, mas somos fundamentalmente
+incapazes de consagrar &aacute; pratica
+das virtudes, de que julgamos ter na historia o
+monopolio, monumentos como aquelles que nossos
+av&oacute;s lhe levantaram <em>a proll do comum e
+aproveitan&ccedil;a
+da terra</em>, dando em resultado que o mais
+andrajoso mendigo da portaria do mosteiro de Alcoba&ccedil;a
+ou do mosteiro de Santa Cruz, com o seu
+alforge ao pesco&ccedil;o e a sua escudella debaixo do
+bra&ccedil;o, participava, al&eacute;m da
+ra&ccedil;&atilde;o quotidiana que
+se lhe distribuia pelo caldeir&atilde;o da communidade,
+de um agasalho de principe e de um luxo d'arte
+com que hoje n&atilde;o competem os maiores potentados,
+os quaes em suas casas e para seu recreio intimo
+se rodeiam de todas as joias artisticas de que
+<span class="pagenum">[5]</span>
+pela aboli&ccedil;&atilde;o dos vinculos e pela
+extin&ccedil;&atilde;o das ordens
+religiosas se apoderou o moderno commercio
+do bric-&agrave;-brac.
+<br />
+
+<br />
+
+Falta-nos a alta no&ccedil;&atilde;o de solidariedade
+patriotica,
+falta-nos o desapego dos bens de fortuna, falta-nos
+o largo espirito de abnega&ccedil;&atilde;o, falta-nos a
+illimitada liberalidade cavalleirosa, e falta-nos a f&eacute;
+dos nossos av&oacute;s.
+<br />
+
+<br />
+
+Na architectura trabalhamos unicamente para
+n&oacute;s mesmos, sem cuidados de futuro, sem pensamento
+de continuidade de ra&ccedil;a ou de familia, deslembrados
+de que teremos vindouros e de que teremos
+netos.
+<br />
+
+<br />
+
+Entre as nossas antigas construc&ccedil;&otilde;es hydraulicas
+ha o aqueducto de Elvas, que levou cem annos
+a fazer. Varias gera&ccedil;&otilde;es successivas acarretaram
+para essa construc&ccedil;&atilde;o os materiaes; e lentamente,
+pacientemente, foram collocando pedra sobre
+pedra, para que um dia a agua chegasse a Elvas,
+e bebessem d'ella os netos dos netos d'aquelles
+que de t&atilde;o longe principiaram a recolhel-a e a
+canalisal-a. Uma tal empresa &eacute; a
+humilha&ccedil;&atilde;o e a
+vergonha do nosso tempo, imcapaz de pagar com
+<span class="pagenum">[6]</span>
+egual carinho ao futuro aquillo que deve &aacute; previdencia,
+aos sacrificios e aos desvelos do passado.
+<br />
+
+<br />
+
+O nosso ideal na arte de construir &eacute; que a obra
+se fa&ccedil;a em pouco tempo e por pouco dinheiro.
+Vamos abandonando cada vez mais, de dia para
+dia, a pedra e a madeira, em que &eacute; nimiamente
+moroso para a morbida inquieta&ccedil;&atilde;o do nosso
+espirito
+o trabalho de desbaste, de esquadria e de
+lavor. Adoptamos, como material typico do nosso
+systema de edificar, o ferro, o tijolo e a pasta. A
+casa cessou de ser uma obra de architectura para
+se converter em uma empreitada de engenharia,
+e os delicados artistas da pedra, da madeira e do
+ferro forjado abdicam da sua antiga miss&atilde;o perante
+os subalternos obreiros encarregados de fundir,
+de amassar e de enformar a vap&ocirc;r a
+habita&ccedil;&atilde;o
+moderna e o moderno edificio publico&#8213;a
+gare, o quartel, o mercado ou a cadeia.
+<br />
+
+<br />
+
+O seculo XIX, se com a impotencia de continuar
+a obra monumental dos seculos que o precederam,
+accumulasse a incapacidade de comprehender
+e de venerar essa obra, representaria um pavoroso
+retrocesso na historia. N&atilde;o succede assim,
+<span class="pagenum">[7]</span>
+porque s&atilde;o inviolaveis as leis do progresso. Ao
+seculo XIX coube patentear o estudo mais dedicado
+e o conhecimento mais perfeito da arte antiga.
+A sciencia archeologica e a critica d'arte
+nunca em nenhum outro periodo da civilisa&ccedil;&atilde;o
+chegaram &aacute; eminencia attingida pelos investigadores
+contemporaneos. &Eacute; tambem em sua maneira
+um colossal monumento, dos mais gloriosos
+para a intelligencia, o que erigiu a erudi&ccedil;&atilde;o
+do nosso tempo, constituindo scientificamente a
+archeologia, definindo o seu methodo, fixando os
+seus limites, especialisando o trabalho dos seus
+contribuintes, distinguindo da archeologia litteraria
+a archeologia da arte, ramificando para um
+lado a paleographia, a epigraphia, a ecdotica, a
+museographia e a propedeutica, para o outro as
+bellas artes, as artes industriaes, a numismatica, e
+ainda como desdobramento d'estes estudos a iconographia,
+a mithologia figurada e a symbologia,
+particularisando emfim estas investiga&ccedil;&otilde;es a cada
+povo e a cada epocha da humanidade, creando
+d'esse modo a prehistoria, a egyptologia, a syriologia,
+que t&atilde;o amplo clar&atilde;o teem derramado sobre
+<span class="pagenum">[8]</span>
+os problemas da origem do homem, da distribui&ccedil;&atilde;o
+das ra&ccedil;as, da forma&ccedil;&atilde;o das linguas.
+Fixaram-se
+pelas escava&ccedil;&otilde;es de Troia, de Mycenes,
+de Chypre, de Santorin e de Rhodes as origens
+orientaes e pelasgicas da arte grega. Corrigiu-se
+na historia da ceramica a confus&atilde;o existente entre
+os vasos pintados gregos e etruscos. Refez-se
+completamente sobre novos elementos e por um
+criterio novo a historia da olaria, a da toreutica,
+a da glyptica, a da esculptura em barro, a dos
+bronzes, a das joias, a da tape&ccedil;aria, a da illuminura.
+Desvendou-se o conhecimento da tachigraphia
+hieratica e dos alphabetos hieroglyphicos,
+ideographicos e phoneticos, que precederam o alphabeto
+grego e o latino. Creou-se a critica scientifica
+dos textos. Colligiram-se e classificaram-se
+as inscrip&ccedil;&otilde;es gregas e romanas dessiminadas pela
+Europa, e definiu-se o methodo de as datar. Leram-se
+os carcomidos graffitos de Pompeia, os
+papyrus carbonisados de Herculanum, as cartas
+lapidares da edade m&eacute;dia e os palimpsestos de
+Plauto, de Cicero, de Marco Aurelio, de Tito Livio,
+de Euripedes e dos scribas carolingeanos.
+<span class="pagenum">[9]</span>
+Interpretaram-se os documentos de procedencia
+egypcia, copta ou phenicia sepultados nos jazigos
+das mumias. E os mysteriosos caracteres hieroglyphicos
+e cuneiformes das inscrip&ccedil;&otilde;es egypcias,
+cald&eacute;as, assyrias e persas foram simplesmente
+trasladados a vulgar. Determinou-se a edade dos
+manuscriptos pelo systema das abreviaturas e da
+pontua&ccedil;&atilde;o e pela evolu&ccedil;&atilde;o
+da letra desde a oncial
+da <em>Iliada</em> no palimpsesto
+greco-syriaco do Museu
+Britannico at&eacute; a minuscula italiana egual &aacute; dos
+primeiros caracteres da imprensa. Inspeccionaram-se
+e inquiriram-se as primitivas habita&ccedil;&otilde;es
+do homem, as suas primeiras fortifica&ccedil;&otilde;es, os
+seus
+mais antigos sepulcros,&#8213;a caverna, a cidade lacustre,
+os castros e os dolmens. Na architectura
+principiou-se a estudar por novos meios de critica
+as causas dos seus progressos e da sua decadencia,
+prendendo assim pelos mais estreitos vinculos ao
+destino da arte o destino do homem. Por tal modo
+se transfigurou completamente desde o seu alicerce
+at&eacute; o seu remate o vasto edificio da historia,
+segundo a resumida formula dada por Champolion
+Figeac: que todos os monumentos, ainda
+<span class="pagenum">[10]</span>
+os mais communs e os mais grosseiros, conteem
+factos cujo conjuncto &eacute; como a estatistica moral
+das sociedades extinctas.
+<br />
+
+<br />
+
+D'esse novo criterio resultou a atten&ccedil;&atilde;o especial
+com que todos os povos cultos principiaram
+a considerar a obra material do passado; e assim
+nasceu, com uma nova palavra, a nova maneira
+de <em>restaurar</em> os edificios publicos.
+<br />
+
+<br />
+
+Em mais de um documento da edade m&eacute;dia se
+encontram provas de que os antigos poderes n&atilde;o
+abandonavam, t&atilde;o completamente como hoje se
+poderia suppor, ao accaso de qualquer iniciativa,
+sem beneplacito do estado, as edifica&ccedil;&otilde;es
+consagradas
+ao publico. No <em>Codigo de las
+partidas</em>, lei
+6.&ordf;, titulo X, dizia Affonso o Sabio, n'aquella saborosa
+lingua de que mais tarde se desdobrou o
+portuguez e o castelhano: &laquo;Por bienaventurado
+se debe tener todo home que pueda facer eglesia,
+do se ha de consagrar tan noble cosa et tan sancta
+como el cuerpo de Nuestro Se&ntilde;or Jesucristo,
+et como quiere que todo home &oacute; mujer la puede
+facer a servicio de Dios, pero con mandamiento
+del obispo, como es dicho en la ley segunda deste
+<span class="pagenum">[11]</span>
+titulo, con todo eso debe catar dos cosas el que la
+ficiere, que la faga complida et apuesta; et esto
+tambien en la labor como en los libros et en las
+vestimientas...&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Affonso V escreve de Almada, em 1467, aos
+juizes, vereadores, procuradores e homens bons
+da cidade de Evora para que se permitta a Sueiro
+Mendes levar duas pedras que estavam nos a&ccedil;ougues,
+e eram do antigo templo romano, para antipeitos
+das janellas de uma casa, que a esse tempo
+edificava. &laquo;E porque as ditas pedras aproveitam
+pouco honde estam e em as ditas casas faram
+muito, e ainda &eacute; nobresa as cidades haverem
+em ellas b&ocirc;as casas taes como as do dito Sueiro
+Mendes, e seu fundamento he as faser para n&oacute;s
+em ellas havermos de pousar, N&oacute;s vos rogamos e
+encomendamos que vos prasa lh'as quererdes dar,
+e Rodrigo Esteves mestre das nossas obras em
+essa cidade ter&aacute; cuidado de as tirar donde estam,
+etc.&raquo; Estas linhas s&atilde;o um tra&ccedil;o
+caracteristico
+da policia do tempo. D'ellas se deduz que era
+preciso no seculo XV requestar a interven&ccedil;&atilde;o
+regia
+para bulir em duas pedras de um velho monumento,
+<span class="pagenum">[12]</span>
+opera&ccedil;&atilde;o que hoje se realisa com menos
+formalidades, e at&eacute;, como &eacute; sabido, sem
+formalidade
+alguma. Era por&eacute;m entendido como
+doutrina corrente n&atilde;o desdizer da nobreza de
+uma cidade que cantarias de stylo romano se
+transpuzessem do edificio a que pertenciam para
+edificio de stylo completamente diverso. Aquillo
+que modernamente se entende pelo neologismo
+restaurar &eacute; opera&ccedil;&atilde;o desconhecida dos
+antigos. A
+obra architectonica seguia sempre e invariavelmente
+quer em novas edifica&ccedil;&otilde;es, quer em
+repara&ccedil;&atilde;o
+de antigas, o systema e o stylo da epocha
+em que era feita. Sem falarmos do Egypto, da
+Grecia, de Roma, onde as reconstruc&ccedil;&otilde;es se
+emprehendiam,
+sem o menor sentimento de respeito
+pela tradi&ccedil;&atilde;o, em vista de celebrar uma gloria
+coeva com os mesmos materiaes que haviam servido
+&aacute; glorifica&ccedil;&atilde;o de feitos anteriores,
+como no
+arco de Constantino feito com as pedras do arco
+de Trajano, vemos em toda a Europa, e mais particularmente
+em Hispanha e em Portugal, edificios
+em cujos stylos sobrepostos perfeitamente se
+espelha o independentismo das influencias diversas
+<span class="pagenum">[12]</span>
+atravez das successivas phases da construc&ccedil;&atilde;o
+por differentes vezes interrompida. Uns nascem
+genuinamente bysantinos e desenvolvem-se romanicos;
+outros come&ccedil;am romanicos e concluem gothicos;
+outros, gothicos de nascen&ccedil;a, acabam no
+clacissismo greco-romano do renascimento; e &eacute;
+frequente nas nossas egrejas entrarmos por um
+portal do seculo XVI para nos defrontarmos com
+uma capella m&oacute;r no stylo barroco de D. Jo&atilde;o V,
+de D. Jos&eacute; ou de D. Maria I. D'esses casos de
+polyarchitectonismo
+encontramos exemplos em Toledo,
+em Burgos, nos Jeronymos, na Batalha.
+<br />
+
+<br />
+
+A cathedral de Colonia &eacute; n'este ponto de vista,
+um facto particularmente expressivo. A
+construc&ccedil;&atilde;o,
+principiada no meado do seculo XIII, proseguida
+muito lentamente, suspende-se no fim do
+seculo XV por desanimo de a concluir segundo o
+plano primitivo. No seculo XVII e no seculo XVIII, a
+nave, abrigada por um tecto provisorio, &eacute; ornamentada
+em stylo rococo. S&oacute;mente em 1842 se
+encetaram os trabalhos de uma restaura&ccedil;&atilde;o
+authenticamente
+archeologica, segundo o plano original,
+cabendo o projecto da conclus&atilde;o a um architecto
+<span class="pagenum">[14]</span>
+que ao mais profundo estudo do stylo
+ogival reunia o talento mais esclarecido e mais
+perspicaz.
+<br />
+
+<br />
+
+Na historia da cathedral de Mil&atilde;o circumstancias
+analogas &aacute;s de Colonia veem ainda corroborar
+a affirma&ccedil;&atilde;o de que unicamente ao seculo XIX
+cabe o privilegio de restaurar monumentos. A obra
+de Mil&atilde;o iniciada no seculo XIV, &eacute; interrompida
+por desaven&ccedil;as entre os architectos, uns
+allem&atilde;es,
+outros italianos, outros francezes; &eacute; continuada
+no seculo XVI em stylo da renascen&ccedil;a; e t&atilde;o
+s&oacute;mente
+em 1805 a restaura&ccedil;&atilde;o do monumento no
+seu stylo primitivo, segundo os programmas mais
+tarde definidos, se achou determinada por Napole&atilde;o
+I, o qual pela vastid&atilde;o do seu genio, ainda
+que pouco propicio aos humildes, muitas vezes se
+adeantou do seu tempo, e em muitas campanhas
+da intelligencia indicou de antem&atilde;o o ponto da
+victoria, assim como ao principiar a campanha de
+Italia assignalava na carta do Piemonte o logar
+de Marengo.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi Vitet, nomeado inspector geral dos monumentos
+historicos em 1830, quem primeiro indicou
+<span class="pagenum">[15]</span>
+em Fran&ccedil;a o programma das restaura&ccedil;&otilde;es
+architectonicas,
+presentemente seguido em toda a
+parte:&#8213;em Hispanha, onde depois da real ordem
+de 4 de maio de 1850, se n&atilde;o emprehende
+obra de especie alguma nos edificios monumentaes
+sem pr&eacute;via consulta da commiss&atilde;o dos monumentos
+historicos e artisticos; em Inglaterra e
+na Allemanha, que haviam precedido a Fran&ccedil;a na
+protec&ccedil;&atilde;o da arte nacional; na Italia, emfim, na
+Belgica, na Dinamarca, na Suecia, na Noruega,
+na Grecia, na Turquia.
+<br />
+
+<br />
+
+Violet-le-Duc, o erudito mestre a quem tanto
+deve o ensino da archeologia e das artes, completou
+o programma de Vitet, n&atilde;o s&oacute;mente ampliando
+os seus preceitos, mas dando da applica&ccedil;&atilde;o
+d'elles o mais notavel exemplo na restaura&ccedil;&atilde;o do
+castello le Pierrefonds.
+<br />
+
+<br />
+
+Conhecidos os livros de Violet-le-Duc, estudados
+com t&atilde;o paciente laboriosidade, escriptos com
+t&atilde;o lucido e penetrante engenho, e conhecida a
+legisla&ccedil;&atilde;o
+europ&eacute;a baseada n'esses estudos t&atilde;o completos
+e t&atilde;o perfeitos, a quest&atilde;o puramente
+administrativa
+de dar aos monumentos nacionaes de
+<span class="pagenum">[16]</span>
+cada povo a protec&ccedil;&atilde;o que se lhes deve, quando
+menos por simples solidariedade intellectual na
+civilisa&ccedil;&atilde;o do nosso tempo, &eacute;
+quest&atilde;o perfeitamente
+illucidada e rigorosamente definida.
+<br />
+
+<br />
+
+Vejamos agora qual &eacute; em Portugal, perante as
+responsabilidades da administra&ccedil;&atilde;o, o reflexo das
+ideias, cuja historia procurei resumir, com o fim
+de p&ocirc;r o assumpto na perspectiva que a sua magnitude
+pede.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Levaria muito tempo e seria excessivamente
+triste ennumerar todos os attentados de que teem
+sido e continuam a ser objecto, perante a mais
+desastrosa indifferen&ccedil;a dos poderes constituidos,
+os monumentos architectonicos da na&ccedil;&atilde;o, os quaes
+assignalam e commemoram os mais grandes feitos
+da nossa ra&ccedil;a, sendo assim por duplo titulo,
+j&aacute; como documento historico, j&aacute; como documento
+artistico, quanto ha, sobre a terra em que nascemos
+mais delicado e precioso para a honra, para
+a dignidade, para a gloria da nossa patria.
+<br />
+
+<br />
+
+Dos desacatos de lesa magestade nacional, a
+que tenho a d&ocirc;r e a vergonha de me referir, uns
+<span class="pagenum">[17]</span>
+teem caracter anonymo, outros affectam directamente
+a cumplicidade official. Os primeiros s&atilde;o
+uma consequencia de desdem; os segundos s&atilde;o
+um resultado de incapacidade.
+<br />
+
+<br />
+
+A auctoridade, incerta, vagamente definida, a
+quem tem sido confiada a conserva&ccedil;&atilde;o e a guarda
+da nossa architectura monumental, procede com
+esse enfermo, de quem se incumbiu de ser o enfermeiro,
+por dois methodos differentes: umas vezes
+deixa-o morrer; outras vezes, para que elle
+mesmo n&atilde;o tome essa resolu&ccedil;&atilde;o
+lamentavel, assassina-o.
+Na primeira hypothese a calamidade
+correlativa chama-se <em>abandonar</em>. Na
+segunda hypothese
+a catastrophe correspondente chama-se
+<em>restaurar</em>,&#8213;gallicismo technico,
+recentemente introduzido
+no vocabulario nacional, mas ainda n&atilde;o
+definido vernaculamente na applica&ccedil;&atilde;o pratica.
+<br />
+
+<br />
+
+Para o argumento que tenho em vista produzir,
+tomarei unicamente d'entre os differentes desastres
+com que se deshonram e enxovalham os
+nossos monumentos, o desastre denominado
+<em>restaura&ccedil;&atilde;o</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Serei laconico, sem deixar de ser sufficientemente
+<span class="pagenum">[18]</span>
+expressivo, porque os factos s&atilde;o de uma
+eloquencia que esmaga toda a especie de replica
+na materia de que se trata.
+<br />
+
+<br />
+
+Aqui temos tres edificios restaurados ou em
+restauro a expensas da na&ccedil;&atilde;o, sob os auspicios
+do estado: Os Jeronymos, a Madre de Deus e a
+Batalha.
+<br />
+
+<br />
+
+Nos Jeronymos a construc&ccedil;&atilde;o desmoronou-se,
+sem provoca&ccedil;&atilde;o alguma de agente extranho, por
+mero desequilibrio de si mesma. Inutil todo o
+commentario. A restaura&ccedil;&atilde;o, ainda antes de
+terminada,
+cahiu. Que prova mais lastimavelmente
+completa, evidente e cabal, de que foi insufficientemente
+estudado, logo nos seus primordiaes elementos,
+o programma de tal restaura&ccedil;&atilde;o?! As
+seguran&ccedil;as
+de execu&ccedil;&atilde;o falham precisamente na
+parte mais rudimentar do problema.
+<br />
+
+<br />
+
+Attente-se em que n&atilde;o se trata ainda de uma
+quest&atilde;o de archeologia, nem de uma quest&atilde;o de
+arte; n&atilde;o se apresenta nenhuma d'essas subtis difficuldades
+inherentes ao estudo das f&oacute;rmas constructivas
+ou ornamentaes, ao discernimento dos
+diversos stylos, ao pleno conhecimento das antigas
+<span class="pagenum">[19]</span>
+escolas no tempo e na regi&atilde;o a que o edificio
+pertence. Resolve-se apenas realisar uma simples
+tarefa de construc&ccedil;&atilde;o, e esquece, incumbindo esse
+trabalho de simples mestre de obras ao mais distincto
+dos scenographos, que a primeira condi&ccedil;&atilde;o de
+um architecto a quem se confia a restaura&ccedil;&atilde;o de
+um monumento &eacute; que elle seja, antes de tudo,
+acima de tudo, o mais habil, o mais experiente, o
+mais perito de todos os constructores.
+<br />
+
+<br />
+
+Na Madre de Deus, onde ali&aacute;s o primitivo portal
+da rainha D. Leonor foi discretamente reconstituido
+na moderna fachada do edificio, temos o
+infortunio de ir encontrar no consecutivo restauro
+de uma fabrica do tempo de D. Jo&atilde;o III novos
+capiteis de columnas, nos quaes em vez da
+ornamenta&ccedil;&atilde;o
+vegetal do nosso seculo XVI se v&ecirc;
+reinar nos entablamentos a figura&ccedil;&atilde;o,
+absolutamente
+imprevista e inopinada, de uma locomotiva
+de caminho de ferro, arrastando fumegante o respectivo
+comboyo, tudo lavrado mui laboriosamente
+em pedra, e demandando um tunel. Este
+assombroso phenomeno de pathologia archeologica
+estou convencido de que dispensa ainda mais
+<span class="pagenum">[20]</span>
+do que o caso dos Jeronymos a investiga&ccedil;&atilde;o da
+autopsia.
+<br />
+
+<br />
+
+Nas restaura&ccedil;&otilde;es da Batalha, umas j&aacute;
+em realidade,
+outras ainda em projecto, falta, primeiro
+que tudo, o meditado programma de conjuncto
+no ponto de vista archeologico, no ponto de vista
+artistico e no ponto de vista technico, visando o
+assumpto por todos os lados de que elle pode ser
+encarado: qualidade do solo, influencias da atmosphera,
+escolha de materiaes, condi&ccedil;&otilde;es de resistencia
+e de equilibrio, systema geral de structura,
+determina&ccedil;&atilde;o do stylo, desde as suas grandes
+linhas e dos seus motivos dominantes at&eacute; os ultimos
+desenvolvimentos d'essas linhas, at&eacute; o extremo
+desdobramento d'esses motivos, m&atilde;o de
+obra, direc&ccedil;&atilde;o e apprendisagem em todas as
+officinas
+de que depende o restauro, etc.
+<br />
+
+<br />
+
+Seria por um programma d'essa natureza que
+a competencia do architecto restaurador deveria
+principiar a affirmar-se. Perante essa prova, comprehendendo
+o estudo do monumento, plantas, al&ccedil;ados,
+photographias, desenhos de projectos, systemas
+de stylisa&ccedil;&atilde;o, methodos de estudo e de trabalho,
+<span class="pagenum">[21]</span>
+regimentos de officinas, etc., poderiamos
+n&oacute;s, que n&atilde;o somos architectos, mas simples
+criticos,
+fiscaes da arte em nome do publico, decidir
+se o restaurador da Batalha est&aacute; ou n&atilde;o
+est&aacute; ao
+nivel da sua miss&atilde;o. Sem prova d'essa ordem que
+cotejemos com os requisitos a que teem de satisfazer,
+nos paizes extrangeiros, os architectos a
+quem se entrega a restaura&ccedil;&atilde;o de um monumento,
+n&oacute;s n&atilde;o podemos julgar sen&atilde;o de um
+modo
+muito imperfeito, tendo de entrar mais ou menos
+no exame da execu&ccedil;&atilde;o, para o qual nos fallece a
+competencia profissional.
+<br />
+
+<br />
+
+Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque &eacute; o
+unico architecto portuguez de quem conhecemos,
+com rela&ccedil;&atilde;o &aacute; historia do edificio e
+ao plano da
+restaura&ccedil;&atilde;o da Batalha, estudos especiaes,
+consubstanciados
+n'uma memoria publicada, depois da
+morte do auctor, em 1867. A monographia a que
+me refiro, al&eacute;m de mui interessantes
+revela&ccedil;&otilde;es
+sobre os vandalismos perpetrados pelos ultimos
+frades que habitaram o mosteiro e chegaram a
+quebrar os preciosos vidramentos das janellas
+para presentearem os visitantes com cabe&ccedil;as das
+<span class="pagenum">[22]</span>
+figuras de que elles se compunham, cont&eacute;m alguns
+principios mui judiciosos e bem definidos,
+sobre o modo como esse perito restaurador, que
+a influencia do rei D. Fernando fizera nomear,
+comprehendia a sua delicada miss&atilde;o. E excellente
+o methodo por elle proposto para a conserva&ccedil;&atilde;o
+das Capellas imperfeitas. Notam-se alguns excessivos
+e infundados rigores de zelo, como na parte
+em que ao restaurador repugna adoptar, para o
+fim de p&ocirc;r o monumento ao abrigo das intemperies,
+processos de resguardo mais perfeitos que
+os conhecidos ao tempo da construc&ccedil;&atilde;o primitiva,
+taes como, por exemplo, o emprego de cimentos
+modernos na veda&ccedil;&atilde;o de uma cobertura,
+etc. A memoria programma de Mousinho de Albuquerque
+&eacute; n&atilde;o obstante um trabalho de incontestavel
+merecimento, que muito augmenta de
+valor se levarmos em conta que esse illustre architecto
+escrevia em 1840, quatro annos depois
+d'aquelle em que o rei D. Fernando visitou o edificio,
+chamando para elle pela primeira vez a
+atten&ccedil;&atilde;o dos poderes publicos.
+<br />
+
+<br />
+
+At&eacute; Mousinho a architectura da Batalha foi na
+<span class="pagenum">[23]</span>
+litteratura portugueza um puro thema de rhetorica.
+O romantismo tinha-nos trazido a moda do
+gothico por via de Chateaubriand e de Victor
+Hugo. Os romances, as xacaras, as baladas e os
+solaus, com as suas castell&atilde;s, os seus paladinos,
+os seus pagens, os seus menestreis e os seus respectivos
+attributos&#8213;lan&ccedil;as, montantes, elmos,
+guantes de ferro, falc&otilde;es, adagas, b&eacute;stas e
+bandolins,
+pediam um scenario de fortifica&ccedil;&atilde;o feudal,
+fossos e pontes levadi&ccedil;as, revelins, caminhos
+de ronda, ameias, torres de menagem, amplas
+chamin&eacute;s com trasfogueiros forjados, ogivas e
+abobadas. As egrejas, para os effeitos de grandiosidade
+no stylo, sempre que n&atilde;o eram ermidas
+eram cathedraes. Os romanticos chamavam
+cathedraes a todos os grandes templos, como o
+da Batalha, o do Carmo e o dos Jeronymos. O
+romance historico, tanto em voga durante a
+gera&ccedil;&atilde;o
+litteraria de Alexandre Herculano, tinha
+exigencias decorativas analogas &aacute;s da poesia cavalheiresca.
+Os estudos de critica e de archeologia
+artistica, tendo por objecto os nossos monumentos
+architectonicos, davam em resultado
+<span class="pagenum">[24]</span>
+geral uma especie de lenga-lenga de eruditos ciceroni.
+<br />
+
+<br />
+
+A Batalha tem sido constantemente, desde a
+primeira appari&ccedil;&atilde;o da
+<em>Abobada</em> no
+<em>Panorama</em>, at&eacute;
+hoje, o <em>grande livro de marmore</em>, o
+<em>immortal poema</em>,
+a <em>Divina Comedia portuguesa</em>, a
+triumphante
+affirma&ccedil;&atilde;o da nacionalidade independente,
+definitiva,
+fundada pela vontade do povo, pela espada
+do mestre de Aviz, pela lan&ccedil;a de D. Nuno Alvares
+Pereira e pela penna de Jo&atilde;o das Regras.
+<br />
+
+<br />
+
+Com effeito, nada mais bello, na historia nacional,
+do que o feito d'armas de Aljubarrota e o monumento
+de Nossa Senhora da Victoria, destinado
+a commemorar esse feito, por voto de D. Jo&atilde;o I.
+Mas d'ahi a poder-se dizer que o edificio da Batalha
+&eacute;, como a epop&eacute;a dos
+<em>Luziadas</em>, a imagem
+technica das id&eacute;as e dos sentimentos da patria,
+medeia&#8213;me parece&#8213;um largo abysmo.
+<br />
+
+<br />
+
+Olhemos por um momento a historia d'esta
+construc&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Frei Luiz de Sousa diz que &laquo;El-rei chamara de
+longes terras os mais celebres architectos que se
+sabiam; convocara de todas as partes, officiaes de
+<span class="pagenum">[25]</span>
+cantaria d&eacute;stros e sabios; convidara a uns com
+honras, a outros com grossos partidos, e obrigara
+a muitos com tudo junto.&raquo; Este testemunho &eacute;
+precioso
+e est&aacute; acima de toda a suspeita, porque nos
+vem de um frade de S. Domingos, que habitou
+por muitos annos o convento da Batalha, e que,
+como chronista da ordem, conheceu inteiramente
+pelo archivo do convento quanto se sabia da historia
+da sua funda&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Frei Francisco de S. Luiz contesta, sem provas,
+que fossem architectos celebres chamados de longes
+terras, como diz Sousa, os iniciadores da
+grande obra, e cita como auctor do risco Affonso
+Domingues, porque d'elle se sabe que teve parte
+na direc&ccedil;&atilde;o das obras nos primeiros annos da
+funda&ccedil;&atilde;o,
+e n&atilde;o consta de documento authentico que
+qualquer outro architecto interviesse nos trabalhos
+durante os dezeseis annos que medeiam entre
+o seu come&ccedil;o e o anno da morte de Affonso
+Domingues, em 1402.
+<br />
+
+<br />
+
+Todos os que se seguiram a Frei Francisco de
+S. Luiz, adoptaram esta opini&atilde;o; de modo que se
+tornou uma cousa t&atilde;o corrente como se estivesse
+<span class="pagenum">[26]</span>
+demonstrada que foi Affonso Domingues quem
+construiu a Batalha.
+<br />
+
+<br />
+
+James Murphy, por&eacute;m, no seu livro <em>Travels
+in
+Portugal</em>, affirma, por
+<em>informa&ccedil;&otilde;es que lhe foram
+dadas em Lisboa por empregados da Torre do
+Tombo</em>, que o encarregado da
+construc&ccedil;&atilde;o foi o
+architecto inglez Stephan Stephenson, socio das
+<em>free and accepted masons</em>, que tinham
+a sua s&eacute;de
+principal em York. Stephenson teria vindo a Portugal
+por interven&ccedil;&atilde;o da rainha D. Filippa, mulher
+de D. Jo&atilde;o I, ingleza de na&ccedil;&atilde;o, filha
+do duque
+Jo&atilde;o de Lencastre e neta de Eduardo III.
+<br />
+
+<br />
+
+O conde de Rakzynski diz a este respeito, que
+desde que examinou as gravuras do convento da
+Batalha, na obra <em>in folio</em> de Murphy,
+se convenceu
+de que a analogia existente entre a Batalha e
+a cathedral de York n&atilde;o permitte a minima duvida
+acerca da origem commum d'estes dois edificios.
+&laquo;Que o plano da igreja da Batalha&#8213;diz
+Rakzynski&#8213;seja obra de um portuguez ou de um
+inglez, a verdade &eacute; que as duas igrejas nasceram
+de inspira&ccedil;&otilde;es artisticas analogas, homogeneas e
+contemporaneas, e o estylo de ambos me parece
+<span class="pagenum">[27]</span>
+identico. Esta impress&atilde;o tornou-se para mim ainda
+mais forte, depois que visitei a Batalha.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Temos, pois, sobre a origem estrangeira d'este
+monumento tres votos importantes: o de Fr. Luiz
+de Sousa, o de James Murphy e o do conde de
+Rakzynski, aos quaes recentemente se juntou o
+architecto Haupt.
+<br />
+
+<br />
+
+Na Torre do Tombo n&atilde;o se encontra documento
+algum relativo &aacute; construc&ccedil;&atilde;o da
+Batalha,
+nem &aacute; vinda de Stephenson a Portugal. Em
+1845, Alexandre Herculano e o Visconde de Juromenha,
+auxiliados pelos officiaes da Torre, fizeram
+as mais demoradas e escrupulosas pesquizas
+para o fim de satisfazer a curiosidade de
+Rakzynski, e nada appareceu.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; claro que esta ausencia de vestigios no real
+archivo nada prova sobre o facto de ter estado ou
+n&atilde;o em Portugal o architecto de York. N&atilde;o consta
+t&atilde;o pouco, dos documentos existentes no archivo,
+que tivesse estado em Portugal durante nove annos
+o insigne esculptor italiano Andrea Contucci,
+emulo de Miguel Angelo; e no emtanto este facto
+acha-se f&oacute;ra de toda a contesta&ccedil;&atilde;o.
+<span class="pagenum">[28]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+O cardeal patriarcha Frei Francisco de S. Luiz,
+queixando-se da negligencia e da superficialidade
+com que Frei Luiz de Sousa falla dos primeiros
+architectos da Batalha, e propondo-se demonstrar
+que o auctor da obra foi Affonso Domingues, diz
+que n&atilde;o v&ecirc; raz&atilde;o para p&ocirc;r em
+duvida a habilidade
+dos nossos compatriotas, suppondo que houvessemos
+de reclamar a assistencia de estrangeiros em
+uma epocha como a de D. Jo&atilde;o I, na qual, exceptuadas
+as italianas, <em>nenhuma na&ccedil;&atilde;o da
+Europa se
+achava mais adeantada que a na&ccedil;&atilde;o portugueza,
+tanto na arte da architectura, como em todas as
+outras</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+O patriotismo imprudentemente levado at&eacute; &aacute;s
+affirma&ccedil;&otilde;es da natureza das de Frei Francisco de
+S. Luiz, tem um inconveniente grave, que &eacute; o de
+fazer sorrir os estrangeiros, da ingenua
+applica&ccedil;&atilde;o
+dos nossos sentimentos civicos &aacute; historia da arte
+europ&eacute;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Hoje, toda a gente sabe, porque esta ordem de
+conhecimentos tem-se vulgarisado muito, que o
+systema gothico ou systema ogival, a que primitivamente
+se chamou <em>Opus francigenum</em>, teve a
+<span class="pagenum">[29]</span>
+sua origem na ilha de Fran&ccedil;a e na regi&atilde;o
+circumstante.
+Foi n'esses logares que at&eacute; o seculo XII se
+construiram os primeiros edificios gothicos. O
+novo stylo chega em Fran&ccedil;a aos seus mais completos
+desenvolvimentos no seculo XIII, e d'essa
+epocha datam as cathedraes de Amiens, de Pariz,
+de Reims e de Chartres.
+<br />
+
+<br />
+
+Os allem&atilde;es e os inglezes teem contestado &aacute;
+Fran&ccedil;a a prioridade do emprego do arco ogival
+e dos desenvolvimentos architectonicos que d'elle
+procedem. O que, por&eacute;m, est&aacute; acima de todo o
+litigio,
+&eacute; que o systema ogival, chamado stylo gothico,
+ou gothico puro da igreja da Batalha, n&atilde;o
+procede da inven&ccedil;&atilde;o dos paizes meridionaes, de
+c&eacute;u azul, mas sim das regi&otilde;es nevoentas de longos
+e rudes invernos.
+<br />
+
+<br />
+
+No norte da Europa, durante a edade m&eacute;dia,
+tratou-se de edificar a grande cathedral que d&eacute;sse
+um abrigo espa&ccedil;oso &aacute;s numerosas
+congrega&ccedil;&otilde;es
+de fieis e de cidad&atilde;os; como a pedra escasseava,
+como a neve cahia em abundancia e permanecia
+por longo tempo, procurou-se um modo de
+construc&ccedil;&atilde;o,
+que, sem difficultar a circula&ccedil;&atilde;o da gente
+<span class="pagenum">[30]</span>
+com grandes e repetidos corpos de cantaria no interior
+do edificio, permittisse empregar materiaes
+menos solidos e fazer tectos elevados e agudos,
+que, n&atilde;o pesando excessivamente sobre os membros
+destinados a sustental-os, deixassem facilmente
+resvalar e escorrer a neve pelas superficies
+exteriores, impedindo o mais completamente possivel
+a infiltra&ccedil;&atilde;o da humidade no interior do
+templo.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi d'estas causas, determinadas pela natureza
+do clima e do solo, pelas condi&ccedil;&otilde;es sociaes, e
+n&atilde;o
+de um mero capricho inventivo, que resultou para
+os architectos dos paizes septentrionaes o pensamento
+de readoptar a abobada de aresta, que os
+romanos, depois de a haverem empregado, puzeram
+de parte, para o fim de dar logar na construc&ccedil;&atilde;o
+das basilicas christ&atilde;s &aacute; enorme quantidade de
+columnas legadas pelo paganismo.
+<br />
+
+<br />
+
+Assim foi que nasceu, bem longe de Portugal e
+inteiramente f&oacute;ra das influencias cosmicas e das
+influencias sociaes geradoras do caracter e da indole
+da nossa ra&ccedil;a, que nasceu o stylo architectonico
+da egreja da Batalha.
+<span class="pagenum">[31]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+A affirmativa de que nenhuma na&ccedil;&atilde;o da Europa,
+com excep&ccedil;&atilde;o da Italia, se achava mais
+adeantada do que Portugal do tempo de D. Jo&atilde;o I,
+nas artes da architectura, s&oacute;mente prova, da parte
+do cardeal frei Francisco de S. Luiz, que este benemerito
+academico e illustre litterato, ou n&atilde;o viajou
+nunca em Fran&ccedil;a e na Allemanha, ou n&atilde;o visitou
+n'estes paizes os monumentos anteriores ao
+fim do seculo XIV.
+<br />
+
+<br />
+
+A egreja da Batalha, que data d'essa epocha, &eacute;
+chronologicamente um dos ultimos edificios em
+stylo gothico puro construidos na Europa, e, apesar
+de toda a sua belleza, est&aacute;, como obra d'arte e
+como magnificencia monumental, bastante abaixo
+de alguns outros edificios construidos cem ou duzentos
+annos antes, como a cathedral de Strasburgo
+(1015 a 1275), Reims (1215), Amiens (1222), Colonia
+(1248) a Sainte-Chapelle em Pariz (1248), Notre-Dame
+(1275), etc.
+<br />
+
+<br />
+
+Bastaria que o auctor da interessante memoria
+sobre a construc&ccedil;&atilde;o do convento da Batalha,
+encorporada
+na collec&ccedil;&atilde;o das memorias da Academia,
+tivesse olhado em Pariz para as estatuas de
+<span class="pagenum">[32]</span>
+Sainte-Chapelle e para os baixos-relevos da egreja
+de Notre-Dame; que tivesse observado um momento
+as esculpturas de Chartres, de Reims e de
+Amiens; para ter uma id&eacute;a do enorme abysmo que
+no tempo de D. Jo&atilde;o I nos distanciava ainda dos
+grandes mestres da architectura e da esculptura
+franceza, que se chamaram Pierre de Montreuil,
+Thomas e Regnaut de Carmont, Jean de Chelles,
+Hugues Libergier e outros artistas leigos, sem contar
+os muitos monges anonymos com que se illustrou
+na historia da arte, a ordem de Cluny, no seculo
+XII e no seculo XIII.
+<br />
+
+<br />
+
+Na Allemanha, temos, precedendo a Batalha, a
+cathedral de Colonia; na Inglaterra Canterbury,
+Westminster, Salisbury, Lincoln e York; e em Hispanha,
+Burgos e Toledo.
+<br />
+
+<br />
+
+Anterior &aacute; Batalha n&atilde;o ha em Portugal monumento
+algum que prenuncie, prepare e explique a
+appari&ccedil;&atilde;o d'este.
+<br />
+
+<br />
+
+Nos primeiros tempos da monarchia, em quasi
+todo o periodo affonsino, os artistas e os obreiros
+eram em geral arabes ou mouros. O portuguez
+era como os seus reis, soldado ou agricultor. Para
+<span class="pagenum">[33]</span>
+as especula&ccedil;&otilde;es estheticas faltava-lhe a paz, a
+tranquillidade,
+a riqueza. Mal lhe chegava o tempo
+para desbravar o s&oacute;lo e para bater os inimigos,
+que de todas as partes rodeavam a pequena sociedade
+nascente, aventurosa e aguerrida.
+<br />
+
+<br />
+
+A Batalha, com a delicada pureza das suas linhas,
+j&aacute; ent&atilde;o consagradas na Europa, surge
+repentinamente,
+imprevistamente, esporadicamente,
+na corrente da architectura portugueza, como a
+flor desconhecida de uma planta exotica.
+<br />
+
+<br />
+
+D'onde &eacute; que foi transplantado para terra portugueza
+este producto de uma civilisa&ccedil;&atilde;o superior,
+em que o desenvolvimento da vida municipal, iniciada
+pelas fortes corpora&ccedil;&otilde;es operarias e mercantis,
+impellira as communas a construirem as
+luxuosas cathedraes, que eram ao mesmo tempo,
+nas cidades novas, um asylo de religi&atilde;o e um f&oacute;co
+de vida civil?
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o sei responder peremptoriamente a esse quesito.
+<br />
+
+<br />
+
+O problema assim estreitado &eacute;, no fim de contas,
+de pura curiosidade.
+<br />
+
+<br />
+
+O architecto inglez Hope, na sua <em>Historia
+da</em>
+<span class="pagenum">[34]</span>
+<em>Architectura</em>, diz que o estylo
+ogival n&atilde;o tem propriamente
+nem uma patria nem uma nacionalidade.
+S&oacute; poderia ter nascido no seio de alguma
+ordem religiosa ou de uma corpora&ccedil;&atilde;o de pedreiros
+livres, porque o clero e os pedreiros livres
+eram as unicas corpora&ccedil;&otilde;es que na edade
+m&eacute;dia
+possuiam os conhecimentos necessarios para o
+plano e para a execu&ccedil;&atilde;o dos edificios sagrados,
+quer para as communidades monasticas, quer para
+a egreja latina em geral.
+<br />
+
+<br />
+
+Hope acrescenta: como os conventos e sobretudo
+as <em>lojas</em> dos pedreiros livres se
+compunham
+de cidad&atilde;os de todos os paizes, que reconheciam
+a supremacia da egreja romana, n&atilde;o seria possivel
+determinar positivamente os inventores do
+stylo ogival quando mesmo se houvesse descoberto
+o logar preciso do seu ber&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Em toda a parte onde apparecem as primeiras
+amostras d'esse stylo ellas n&atilde;o s&atilde;o a obra de
+individuos
+de um paiz determinado, mas sim de
+uma congrega&ccedil;&atilde;o encerrando no seu gremio homens
+de todas as na&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Na <em>Real Encyclopedia</em> de Leipzig
+l&ecirc;-se com referencia
+<span class="pagenum">[35]</span>
+&aacute;s associa&ccedil;&otilde;es ma&ccedil;onicas
+que ellas se compunham
+de homens de arte de todos os paizes formando
+uma s&oacute; corpora&ccedil;&atilde;o dirigida por um ou
+por
+varios chefes. &laquo;Protegidos por privilegios ou cartas
+patentes emanadas das auctoridades ecclesiasticas
+e seculares, emprehendiam as maiores construc&ccedil;&otilde;es
+em toda a Europa e s&atilde;o auctores d'esses
+magnificos edificios chamados gothicos e que
+antes se deveriam chamar <em>Altdoutsch</em>.
+Achamos o
+stylo de todas as construc&ccedil;&otilde;es d'essa
+&eacute;poca fundamentalmente
+identico. As associa&ccedil;&otilde;es alludidas
+compunham-se de architectos e de obreiros italianos,
+allem&atilde;es, flamengos, francezes, inglezes, escocezes
+e at&eacute; gregos. Foi d'essa maneira que nasceram
+os monumentos seguintes: o <em>mosteiro da
+Batalha em Portugal</em>, a cathedral de Strasburgo,
+a de Colonia, a de Meissen, a de Mil&atilde;o, o convento
+do Monte Casino, e todos os edificios notaveis
+da Inglaterra.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Esta hypothese&#8213;e chamo-lhe hypothese, porque
+n&atilde;o conhe&ccedil;o os documentos positivos em que
+se baseia o escriptor allem&atilde;o&#8213;condiz perfeitamente
+com a li&ccedil;&atilde;o de Frei Luiz de Sousa, e &eacute;
+talvez
+<span class="pagenum">[36]</span>
+de todas a mais verosimil com rela&ccedil;&atilde;o aos
+constructores da Batalha.
+<br />
+
+<br />
+
+Que fosse, por&eacute;m, uma associa&ccedil;&atilde;o de
+artistas e
+de operarios; que fosse Stephan Stephenson, como
+indica Murphy, de quem devemos crer que n&atilde;o
+inventou esse nome e o recebeu, como diz, dos
+empregados do archivo da Torre do Tombo; que
+fosse, como pretende Hope, mestre Ouet, Huguet
+ou Huet, de na&ccedil;&atilde;o inglez, que trabalhou nas obras
+e cujo nome Frei Francisco de S. Luiz encontrou
+como testemunha no contracto de aforamento, em
+que se fala de Affonso Domingues; como quer
+que seja, emfim, a hypothese que menos verosimilhan&ccedil;a
+offerece &eacute; a de ter sido o monumento
+delineado e construido pelo mestre portuguez Affonso
+Domingues, como em Portugal se tem geralmente
+escripto.
+<br />
+
+<br />
+
+O mais superficial exame aos edificios anteriores
+&aacute; Batalha manifesta do modo mais evidente
+que n&atilde;o tinhamos nem escola, nem
+tradi&ccedil;&otilde;es, nem
+tendencias de que procedesse um artista como o
+que delineou e construiu a egreja da Batalha.
+<br />
+
+<br />
+
+Vilhena Barbosa, nos <em>Monumentos de
+Portugal</em>,
+<span class="pagenum">[37]</span>
+repete ainda a vers&atilde;o relativa a Affonso Domingues
+como constructor da Batalha, mas accrescenta:
+&laquo;&Eacute; muito para admirar, n&atilde;o devo
+negal-o, que
+houvesse n'aquella &eacute;poca em Portugal um artista
+t&atilde;o consumado como o que fez o risco do monumento,
+achando-se a architectura entre n&oacute;s, antes
+da execu&ccedil;&atilde;o d'esta obra em um estado, que, se
+n&atilde;o era de grande atrazo, tambem n&atilde;o se lhe
+poder&aacute;
+chamar de adiantamento; em um estado pelo
+menos que nenhuma memoria ou documento nos
+auctorisa para o considerarmos como escola d'onde
+pudesse sahir um artista t&atilde;o completo.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+A seguir, Vilhena Barbosa, procurando conciliar
+o arrojo do seu reparo com a tradi&ccedil;&atilde;o geralmente
+recebida, exclama um tanto contricto: &laquo;N'este caso
+lan&ccedil;arei m&atilde;o de uma conjectura, n&atilde;o
+pela necessidade
+de sahir do embara&ccedil;o, mas porque me parece
+acceitavel e muito plausivel. Vem a ser que
+talvez Affonso Domingues tivesse sahido da sua
+patria antes da acclama&ccedil;&atilde;o do mestre d'Aviz, com
+o intento de se instruir e aperfei&ccedil;oar na sua arte.
+Bem sei que n'essa &eacute;poca n&atilde;o eram dados os
+artistas,
+pelo menos os nossos, a procurar taes meios
+<span class="pagenum">[38]</span>
+de estudo. Entretanto, tendo estado em Portugal,
+no reinado de D. Fernando e com alguma demora,
+dois principes inglezes, o duque de Cambridge, e
+um seu irm&atilde;o natural, filhos de D. Duarte III, rei
+de Inglaterra, pode ser que Affonso Domingues,
+levado pelo amor da arte ou por outro qualquer
+respeito, se resolvesse a acompanhar algum d'elles
+na sua volta para Inglaterra, paiz classico da
+architectura gothica no genero da Batalha.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Confessemos que &eacute; preciso ter vontade de attribuir
+por for&ccedil;a a Affonso Domingues uma obra que
+este n&atilde;o podia fazer, para formular a conjectura
+de que <em>talvez elle se tivesse
+resolvido</em> a ir a Inglaterra
+com os filhos de Duarte III.
+<br />
+
+<br />
+
+Ainda quando admittida a singular camaradagem
+do duque de Cambridge e de seu irm&atilde;o com
+Affonso Domingues, camaradagem conjecturada
+por Barbosa, e de que n&atilde;o ha o minimo vestigio
+historico, n&atilde;o ser&aacute; talvez inutil reflectir que
+depois
+d'essa excurs&atilde;o a Inglaterra&#8213;paiz t&atilde;o debilmente
+<em>classico na architectura gothica</em>, no
+tempo
+de Duarte III, que n&atilde;o tinha um architecto indigena,
+nem monumento gothico algum, que se possa
+<span class="pagenum">[39]</span>
+p&ocirc;r em confronto com as obras magnificas do
+continente&#8213;Affonso
+Domingos voltaria de Inglaterra,
+no tocante ao conhecimento da arte de edificar,
+proximamente no mesmo estado em que para
+l&aacute; tivesse ido, o que facilmente se demonstra, como
+vamos v&ecirc;r.
+<br />
+
+<br />
+
+Sabe-se que desde o seculo X se organisaram
+na Italia, iniciadas pela Lombardia, essas
+associa&ccedil;&otilde;es
+de artistas seculares, architectos, esculptores,
+illuminadores, imaginarios, vidristas, entalhadores
+e canteiros, empregados pela egreja nas vastas
+obras da primeira renascen&ccedil;a da Europa, subsequentes
+aos terrores do millenio, que por muitos
+annos paralysaram todas as faculdades artisticas
+da humanidade estupefacta perante a prophecia
+pavorosa do proximo aniquilamento universal.
+<br />
+
+<br />
+
+Estas confrarias, creadas e protegidas pelo clero,
+tomaram o nome geral de
+<em>franco-ma&ccedil;onaria</em>
+ou de <em>pedreiros livres</em>, e
+compunham-se de associados,
+que, depois de haverem passado por todos
+os minuciosos tramites de uma longa aprendizagem,
+adquiriam geralmente o direito de exercer
+a profiss&atilde;o na qualidade de mestres.
+<span class="pagenum">[40]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Com a rapida e maravilhosa prosperidade das
+novas cidades da Italia Septentrional nasceram
+egrejas sumptuosas e conventos magnificos, que
+em poucos annos cobriram uma grande superficie
+da Lombardia e dos Estados adjacentes.
+<br />
+
+<br />
+
+Chegado o momento previsto em que as ordens
+religiosas de Italia cessaram emfim de ter obras
+em que empregar a associa&ccedil;&atilde;o, cada vez mais
+numerosa
+e mais habil, dos pedreiros livres, pensaram
+estes em dilatar a sua actividade fora do solo
+natal.
+<br />
+
+<br />
+
+Este expatriamento n&atilde;o representava unicamente
+uma expans&atilde;o artistica mas tambem uma
+forte propaganda e uma consideravel conquista
+internacional da egreja latina.
+<br />
+
+<br />
+
+Essa grande companhia edificadora de monumentos
+religiosos, de cathedraes e de mosteiros,
+mobilisada n'uma companhia de arte atravez do
+Norte da Europa, constituia como que um solido
+refor&ccedil;o esthetico, temporal, naturalista e humano
+&aacute; sagrada legi&atilde;o espiritual vulgarisadora do
+credo
+latino pela ramifica&ccedil;&atilde;o das ordens religiosas
+sobre
+todas as latitudes da terra.
+<span class="pagenum">[41]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Cada egreja e cada convento edificados em paizes
+estranhos e longinquos eram&#8213;diz Hope&#8213;um
+novo feudo adquirido ao papa.
+<br />
+
+<br />
+
+A egreja comprehendeu inteiramente o alcance
+d'este grande facto, t&atilde;o importante na historia da
+arte romanica, da arte lombarda, da arte gothica
+e de todas as artes liberaes na Europa, depois de
+cahida a influencia da antiga civilisa&ccedil;&atilde;o
+hellenico-romana.
+<br />
+
+<br />
+
+Como incentivo e amparo da vasta odyss&eacute;a, a
+que se aventuravam os denominados pedreiros livres
+receberam ent&atilde;o da auctoridade pontificia,
+emminente a todos os conflictos e discordias de
+soberania para soberania e de nacionalidade para
+nacionalidade, privilegios incomparaveis, destinados
+a assegurar &aacute; confraria errante uma especie
+de inviolavel monopolio esthetico e artistico, como
+o que em nossos dias poderia resultar de um congresso
+universal, tendo em vista p&ocirc;r acima de qualquer
+contingencia politica um interesse commum
+a toda a especie humana.
+<br />
+
+<br />
+
+Diplomas e bulas papaes confirmaram para todos
+os paizes, que houvessem reconhecido a f&eacute; catholica
+<span class="pagenum">[42]</span>
+apostolica romana, todos os privilegios que
+a confraria dos pedreiros livres havia recebido dos
+Estados de que era oriunda.
+<br />
+
+<br />
+
+Ella dependeria directamente e unicamente da
+auctoridade pontificia, isenta de todas as leis e estatutos
+locaes, dos editos dos reis ou dos regulamentos
+dos municipios e de toda e qualquer imposi&ccedil;&atilde;o
+obrigatoria para os naturaes do paiz em
+que se encontrasse.
+<br />
+
+<br />
+
+S&oacute; &aacute; associa&ccedil;&atilde;o caberia o
+direito e o poder de
+taxar os salarios, e de prover em capitulo, sem
+appella&ccedil;&atilde;o nem aggravo, a quanto dissesse
+respeito
+ao seu proprio governo. Era expressamente
+prohibido a todo o artista n&atilde;o iniciado nem admittido
+na associa&ccedil;&atilde;o estabelecer para com ella qualquer
+especie de concorrencia, assim como era defeso,
+sob pena de excomunh&atilde;o, a todo o soberano
+manter os seus subditos n'esse acto de rebeldia
+&aacute;s prescrip&ccedil;&otilde;es da egreja.
+<br />
+
+<br />
+
+Esta <em>Internacional</em> carolingiana, bem
+mais poderosa
+do que a <em>Internacional</em> napoleonica
+sahida
+dos primeiros movimentos socialistas do segundo
+imperio, desenvolveu-se rapida e portentosamente.
+<span class="pagenum">[43]</span>
+Muitos gregos vindos de Constantinopla se reuniram
+aos primeiros artistas confederados, vindo em
+seguida allem&atilde;es, francezes, belgas e inglezes.
+<br />
+
+<br />
+
+Desdobraram-se successivamente as diversas lojas
+ou series de agrupamentos, em que cada dez
+associados obedeciam a um chefe em communica&ccedil;&atilde;o
+com os chefes das demais decurias e com a
+direc&ccedil;&atilde;o central.
+<br />
+
+<br />
+
+Os ecclesiasticos da mais alta categoria, os
+prelados, abbades mitrados e bispos, accrescentavam
+a for&ccedil;a e o prestigio da associa&ccedil;&atilde;o,
+alistando-se
+como membros da irmandade.
+<br />
+
+<br />
+
+Todos os soberanos da christandade se gloriavam
+em honrar com especiaes distinc&ccedil;&otilde;es e
+particulares
+privilegios as suas lojas nacionaes.
+<br />
+
+<br />
+
+Para o fim de evitar que individuos estranhos
+&aacute; associa&ccedil;&atilde;o aproveitassem
+fraudulentamente os
+enormes beneficios de que ella tinha o privilegio,
+e bem assim para que, em qualquer regi&atilde;o do
+mundo, cada irm&atilde;o pudesse communicar com os
+seus consocios, fazendo conhecer a sua inicia&ccedil;&atilde;o
+e o seu grau na confraria, estabeleceram-se as senhas
+secretas, os <em>signaes
+ma&ccedil;onicos</em>, por meio dos
+<span class="pagenum">[44]</span>
+quaes os consocios se reconheciam em qualquer
+parte, e revestiu-se o acto de inicia&ccedil;&atilde;o e
+matricula
+de formalidades solemnes, de provas especiaes,
+de juramentos terriveis, por via dos quaes cada
+novo confrade se obrigava n&atilde;o s&oacute;mente a
+n&atilde;o revelar
+a quem quer que fosse os signaes, com que
+mutuamente se entendiam os pedreiros, mas a esconder
+dos estranhos todos os processos technicos
+e todas as regras do officio, de que a associa&ccedil;&atilde;o
+tinha a posse. Esta collabora&ccedil;&atilde;o phenomenal
+dos melhores obreiros, de todos os grandes artistas
+e de todos os sabios do mundo, associados
+da maneira mais engenhosamente completa e perfeita
+para exercer a arte de edificar, elevou a architectura
+religiosa n'este periodo &aacute; mais alta
+perfei&ccedil;&atilde;o
+scientifica e technica, a que j&aacute;mais chegou
+a obra da intelligencia e da m&atilde;o do homem.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando a longa e laboriosa gesta&ccedil;&atilde;o de todos
+os demais ramos do saber humano se discriminava
+apenas em rudimentos embrionarios, de uma
+confus&atilde;o tenebrosa, a architectura constituia o
+mais perfeito corpo de leis estheticas e de leis
+scientificas. Crearam-se as mais elevadas e as
+<span class="pagenum">[45]</span>
+mais caracteristicas f&oacute;rmas de stylo, resolveram-se
+os mais complicados e os mais difficeis problemas
+de calculo, de geometria e de mechanica,
+acharam-se, emfim, innumeraveis processos chimicos
+e methodos technicos, que se perderam e
+nunca mais se substituiram, porque com a grande
+confraria dos ma&ccedil;ons morreu a tradi&ccedil;&atilde;o
+de que elles
+tinham a guarda e o segredo.
+<br />
+
+<br />
+
+No tempo de Eduardo III a ma&ccedil;onaria, que s&oacute;
+um seculo depois acabou na Inglaterra sob o reinado
+de Henrique VI, mantinha-se em pleno vigor.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora, dado que s&oacute; muito lentamente e por via
+de provas espa&ccedil;adas e progressivas podia o obreiro
+no gremio da confraria subir &aacute;
+qualifica&ccedil;&atilde;o de
+mestre, e s&oacute; como simples obreiro podia ser admittido
+e iniciado, dado por outro lado que era
+tal o segredo sobre os methodos de edificar que
+toda a planta, todo o risco, todo o calculo, todo o
+estudo graphico, era invariavelmente e escrupulosamente
+destruido immediatamente depois de utilisado
+em qualquer obra, parece-me n&atilde;o haver um
+excessivo arrojo em conjecturar que Affonso Domingues
+<span class="pagenum">[46]</span>
+n'uma viagem a Inglaterra, no tempo de
+Eduardo III, nada aprenderia de architectura, ficando
+estranho &aacute; ma&ccedil;onaria, e, tendo-se iniciado
+n'ella antes de vir construir a Batalha, seria ent&atilde;o
+da ma&ccedil;onaria e n&atilde;o d'elle o monumento de que
+se trata.
+<br />
+
+<br />
+
+Revertendo ao escrupuloso e esclarecido estudo
+de Mousinho, notemos que elle n&atilde;o encontrou nem
+quem o continuasse nem sequer quem se lhe submettesse
+entre os restauradores que se lhe seguiram.
+As capellas imperfeitas, incomparavel joia
+da architectura portugueza mais caracteristicamente
+regional, acham-se no mesmo abandono
+em que ficaram em 1843, depois que elle as desinfestou
+dos parasitas arbustivos e das herbaceas,
+cujas radiculas se tinham por tal modo multiplicado
+nos intersticios das cantarias que em muitos
+pontos houve que desmontar as lageas para extirpar
+as hervas e refazer os massames substituidos
+pelo intimo estojo vegetal, que inchando por todas
+as juntas da pedra, amea&ccedil;ava desarticular e
+destruir tudo por uma derrocada geral.
+<br />
+
+<br />
+
+Sem exposi&ccedil;&atilde;o de plano referido &aacute;s
+obras que
+<span class="pagenum">[47]</span>
+recentemente se tem feito, e cuja doutrina nos daria
+uma base de estudo e de discuss&atilde;o, quem,
+como eu, n&atilde;o tem voto na materia para a resolver
+por senten&ccedil;a, precisaria de entrar em uma
+longa serie de pacientes raciocinios e de humildes
+demonstra&ccedil;&otilde;es para p&ocirc;r em evidencia
+todos
+os erros que em taes obras se teem comettido.
+Para n&atilde;o tornar pelo emprego d'esse processo,
+excessivamente longo este modesto estudo, tomarei
+um ponto capital, sufficientemente expressivo
+para dar a medida do criterio empregado na
+restaura&ccedil;&atilde;o
+da Batalha.
+<br />
+
+<br />
+
+Pela entrada principal da egreja, &aacute; semelhan&ccedil;a
+do que succede em grande parte das egrejas gothicas,
+desciam-se na Batalha alguns degraus,&#8213;sete
+se me n&atilde;o engano&#8213;para chegar ao pavimento
+da nave central. Um dos restauradores que
+se succederam a Mousinho de Albuquerque, tendo-se
+por assistido de raz&otilde;es plausiveis para modificar
+o alludido systema, rebaixou o terreno exterior
+ao nivel do pavimento da egreja, e supprimiu
+os degraus, serrando as hombreiras e substituindo
+as cantarias que lhe serviam de base. A porta principal
+<span class="pagenum">[48]</span>
+do monumento da Batalha ficou por esse
+modo tendo de altura a dimens&atilde;o de duas larguras
+em vez de largura e meia approximadamente,
+segundo a dimens&atilde;o primitiva. O architecto havia
+previamente submettido o seu projecto ao exame
+das esta&ccedil;&otilde;es superiores, e o respectivo ministro
+sanccionara a obra com a sua alta approva&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Ser&aacute; difficil encontrar em um t&atilde;o breve episodio
+de construc&ccedil;&atilde;o uma t&atilde;o vasta
+affirmativa de
+desoladora ignorancia.
+<br />
+
+<br />
+
+Poder&aacute; parecer excessiva e condemnavel ousadia
+que um simples curioso se arrogue o direito
+de qualificar de ignorante um architecto em exercicio
+da sua profiss&atilde;o. O erro &eacute; todavia no caso
+sujeito t&atilde;o flagrante que n&atilde;o supporta defesa. Um
+barbarismo architectonico est&aacute; tanto ao alcance
+de um escriptor como um barbarismo grammatical
+est&aacute; ao alcance de um architecto.
+<br />
+
+<br />
+
+Toda a gente sabe que ha em architectura uma
+inilludivel medida de propor&ccedil;&atilde;o e de
+relaciona&ccedil;&atilde;o
+que se chama a <em>escala</em>. Sem escala
+n&atilde;o ha obra
+de architectura nem ha construc&ccedil;&atilde;o alguma
+sensata,
+por mais subalterna, por mais infima que ella
+<span class="pagenum">[49]</span>
+seja. Na architectura grega a unidade abstracta
+d'essa medida &eacute; o modulo. Na architectura da
+edade m&eacute;dia a unidade &eacute; o homem. N'este simples
+principio, t&atilde;o magistralmente exposto por
+Violet-le-Duc, se baseia o caracter essencial da
+architectura medieval. D'essa referencia de toda a
+construc&ccedil;&atilde;o &aacute; pequenez da estatura
+humana resulta
+o singular effeito de grandiosidade que distingue
+os monumentos gothicos dos monumentos
+neo-classicos, Nossa Senhora de Pariz de S. Pedro
+de Roma, ou a egreja da Batalha da egreja
+de Mafra. Para esse effeito contribue o aspecto
+das successivas fileiras da cantaria &aacute; altura das
+paredes e das pilastras, porque a escala gothica,
+determinada pela altura do homem, se subordina
+correlativamente &aacute;s dimens&otilde;es do material. Assim
+pela serie das juntas, sempre em evidencia na
+sobreposi&ccedil;&atilde;o
+das cantarias, a vista calcula rapidamente,
+por instincto arithmetico, a grandeza de
+uma fabrica como a da Batalha, estabelecendo a
+propor&ccedil;&atilde;o entre as dimens&otilde;es da pedra
+e a estatura
+do homem, e entre a altura do homem e a
+eleva&ccedil;&atilde;o da nave.
+<span class="pagenum">[50]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Do que fica exposto resulta que a simples
+substitui&ccedil;&atilde;o
+de uma pedra por uma pedra de dimens&atilde;o
+differente na base de uma hombreira no portal
+da Batalha &eacute;, em si mesma e isoladamente,
+como troca de pedra por pedra, um grave erro,
+porque essa base de hombreira, devendo ter tido
+inicialmente a dimens&atilde;o exacta e precisa, que &aacute;
+esquadria da cantaria imp&otilde;e a dimens&atilde;o do bloco,
+&eacute; um elemento fundamental da escala pela qual
+se rege todo o edificio; e n&atilde;o pode como tal nem
+supprimir-se nem alterar-se.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas temos de considerar ainda que com essa
+mudan&ccedil;a de pedra se offendeu o preceito da unidade,
+alterando a f&oacute;rma e a dimens&atilde;o de um dos
+mais importantes membros da construc&ccedil;&atilde;o. O
+conjuncto
+de um monumento&#8213;diz Quatrem&egrave;re de
+Quincy&#8213;&eacute; de tal modo combinado, que n'elle se
+n&atilde;o pode nem tirar nem p&ocirc;r nem alterar o que
+quer que seja. E Violet-le-Du&eacute; desenvolve esse
+preceito da maneira seguinte: &laquo;&Eacute; um erro grosseiro
+supp&ocirc;r que um qualquer membro de architectura
+da edade m&eacute;dia pode ser impunemente accrescentado
+ou diminuido. N'esta architectura n&atilde;o
+<span class="pagenum">[51]</span>
+ha membro algum, que n&atilde;o esteja na escala do
+monumento para que foi composto. Alterar esta
+escala &eacute; tornar esse membro disforme... Os erros
+de escala que escandalisam em um monumento
+novo e lhe tiram todo o valor, tornam-se monstruosos
+quando se trata de uma restaura&ccedil;&atilde;o.&raquo; As
+dimens&otilde;es das portas&#8213;j&aacute; dizia Vinhola&#8213;devem
+ser de uma propor&ccedil;&atilde;o relativa &aacute; escala
+pela qual se
+construir o edificio, &aacute; grandeza das suas differentes
+pe&ccedil;as e finalmente &aacute;s particularidades da obra
+e do local em que esta f&ocirc;r feita. Com
+rela&ccedil;&atilde;o &aacute;s
+portas nas ordens jonica, dorica, corinthia e toscana
+as propor&ccedil;&otilde;es entre a altura e a largura dos
+portaes, acham-se geometricamente determinadas
+pelos discipulos de Vitruvio. Na architectura gothica
+a porta representa por&eacute;m um papel mais preponderante
+que em qualquer outro systema de
+construc&ccedil;&atilde;o. &laquo;De hora avante&#8213;proclama
+Violet-le-Duc
+referindo-se ao periodo medieval&#8213;a porta
+deixar&aacute; de augmentar em propor&ccedil;&atilde;o com
+o edificio,
+porque, sendo feita para o homem, conservar&aacute;
+sempre a escala propria do seu destino.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+A medida de extens&atilde;o na edade m&eacute;dia era a
+<span class="pagenum">[52]</span>
+toeza, correspondente &aacute; estatura do homem alto.
+A porta da egreja destinada a dar passagem ao
+portador de uma lan&ccedil;a de guerra ou de torneio,
+de um baculo, de uma cruz ou de um pend&atilde;o, tinha
+a altura fixa e invariavel de duas toezas a
+duas toezas e meia, segundo as regi&otilde;es em que
+se construia. O portal gothico tem ainda, como
+titulo ao nosso respeito pela sua inviolabilidade,
+a condi&ccedil;&atilde;o de representar na fachada do templo
+como que um summario de toda a obra. &Eacute; do
+principio da arcada, de que a porta &eacute; o motivo
+predominante, que se deduzem e desenvolvem
+systematicamente todas as demais f&oacute;rmas constructivas
+e ornamentaes na architectura do edificio.
+Archivoltas, nervuras, pilastras, columnelos, janellas,
+nichos, misulas, baldaquinos, trifolios, que
+s&atilde;o na egreja da Batalha sen&atilde;o
+applica&ccedil;&otilde;es e desdobramentos
+successivos, engenhosamente variados,
+das linhas constitutivas da porta principal do
+templo?
+<br />
+
+<br />
+
+Qu&atilde;o tragicamente profunda tem que ser a indisciplina
+official em todos os servi&ccedil;os da arte
+para que possa dar-se um attentado da ordem
+<span class="pagenum">[53]</span>
+d'aquelle a que me refiro:&#8213;para que um architecto
+proponha, para que uma reparti&ccedil;&atilde;o publica
+auctorise, para que um ministro da cor&ocirc;a sanccione&#8213;sem
+protesto do districto, do municipio ou
+da parochia&#8213;que se desfigure o primeiro dos
+nossos monumentos da edade m&eacute;dia, alterando as
+f&oacute;rmas de uma porta, que &eacute; a porta principal
+d'essa
+gloriosa egreja de Santa Maria de Victoria, que
+os architectos do mestre de Aviz al&ccedil;aram pela bitola
+dos estandartes, dos bals&otilde;es e das bandeiras
+de Aljubarrota, e segundo a altura a que chegava
+nas hombreiras o bico do bacinete ou a cimeira
+do morri&atilde;o dos da ala da madresilva ou da ala
+dos namorados!
+<br />
+
+<br />
+
+Se fosse meu proposito enumerar os erros commettidos
+nas restaura&ccedil;&otilde;es da Batalha teria de referir-me
+&aacute;s v&iacute;s deturpa&ccedil;&otilde;es por que
+est&aacute; passando
+a capella do fundador; ao detestavel altar m&oacute;r, em
+cuja pedra t&atilde;o miseramente se acha reproduzido
+por uma especie de grafito o desenho de um
+mosaico, e a odiosa colora&ccedil;&atilde;o das
+vidra&ccedil;as, em
+que o doce tom de ambar, que os vidristas da
+edade m&eacute;dia obtinham por uma emuls&atilde;o de mel
+<span class="pagenum">[54]</span>
+na prepara&ccedil;&atilde;o da tinta, se v&ecirc;
+substituido pelo
+de um reles amarello cru, de refalsado topasio.
+O inacreditavel tabernaculo com que houve o arrojo
+de empachar o ambito de uma das naves,
+sob pretexto de construir uma capella baptismal,
+teria ainda que deter por algum tempo o meu
+horrorisado espanto perante esse t&atilde;o insolente
+e t&atilde;o irrespeitoso abuso do pseudo-gothico, em
+propor&ccedil;&atilde;o e em escala unicamente permittidas,
+por longanimidade de ridiculo, em jazigos de familia
+e em pratos montados, na latitudinaria architectura
+dos cemiterios ou das confeitarias.
+<br />
+
+<br />
+
+O meu fim por&eacute;m n&atilde;o &eacute; fazer a critica
+das restaura&ccedil;&otilde;es
+da Batalha, mas sim demonstrar, como
+julgo ter feito, por meio de alguns factos caracteristicos
+e capitaes, que nas restaura&ccedil;&otilde;es emprehendidas
+tanto n'esse como nos demais monumentos
+architectonicos recentemente reparados
+a expensas do estado, n&atilde;o houve antecedencia de
+programma, nem estudo previo, nem determina&ccedil;&atilde;o
+de methodo, nem sanc&ccedil;&atilde;o critica, nem
+fiscalisa&ccedil;&atilde;o
+technica, nem policia artistica de especie
+alguma.
+<span class="pagenum">[55]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Pelo numero e pelo quilate das mutila&ccedil;&otilde;es,
+deturpa&ccedil;&otilde;es
+e superfeta&ccedil;&otilde;es, inteiramente arbitrarias
+e escandalosas, de que s&atilde;o objecto os monumentos
+restaurados com assentimento e com subsidio
+official, como a Batalha, os Jeronymos e a Madre
+de Deus, poderemos calcular o que se passa nos
+edificios em que camaras, parochias e simples particulares
+est&atilde;o no logro de restaurar, de concertar
+ou de demolir a seu gosto.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Ponte de Lima havia uma ponte, que dava
+o nome &aacute; villa. Esta ponte, em parte romana, em
+parte gothica, era revestida de ameias e entestada
+por dois castellos ogivaes. A verea&ccedil;&atilde;o, com o
+motivo
+de desafogar a vista sobre as duas margens
+do rio, manda demolir os castellos e serrar as
+ameias da alludida ponte.
+<br />
+
+<br />
+
+Outra verea&ccedil;&atilde;o, em Santarem, bota a baixo a
+bella torre gothica de Santa Maria de Marvilla,
+funda&ccedil;&atilde;o dos primeiros tempos da monarchia,
+para o fim unico de deixar o terreno sem coisa
+alguma em cima, e ser por essa raz&atilde;o uma pra&ccedil;a.
+A Real Associa&ccedil;&atilde;o dos architectos civis
+prop&otilde;e-se
+a esse tempo comprar os sinos da torre demolida,
+<span class="pagenum">[56]</span>
+em bronze esculpido. A junta de parochia prefere
+derretel-os.
+<br />
+
+<br />
+
+No castello de Leiria, que, tendo sido construido
+como casa e museu pelo rei mais artista, mais
+poeta e mais sabio do seu tempo, constitue um
+documento, unico talvez na Europa, da archeologia
+romana e da vida de c&ocirc;rte na edade m&eacute;dia,
+certos festeiros em noite de gala, derribam a columnata
+do eirado principal para dar campo a um
+effeito de luminarias e de pyrotechnica.
+<br />
+
+<br />
+
+Na alca&ccedil;ova de Santarem as ameias de D. Affonso
+Henriques substituem-se por ignobeis grades
+de ferro fundido e pintado de verde.
+<br />
+
+<br />
+
+A porta da Atamarma, pela qual ainda passou
+Garrett ao tempo das <em>Viagens na minha
+terra</em>, &eacute;
+arrasada, juntamente com a capellinha de Nossa
+Senhora da Victoria, que tinha por cima. No or&ccedil;amento
+d'essa demoli&ccedil;&atilde;o, que o governo approvou
+no anno de 1865, a camara de Santarem, tripudia
+de jubilo, affirmando que a dita desmontagem,
+<em>que por mais tempo se n&atilde;o podia
+protrahir</em>,
+f&ocirc;ra vantajosamente arrematada pela quantia de
+trinta e nove mil r&eacute;is, calculando-se em mais de
+<span class="pagenum">[57]</span>
+cem mil o val&ocirc;r da pedra e do tijolo que ella produziu.
+Com esse cantico de alegria or&ccedil;amental,
+desappareceu o glorioso portico, por onde o fundador
+da nacionalidade portugueza e os da sua
+hoste entraram em Santarem com as espadas e as
+lan&ccedil;as gottejantes de sangue mouro, firmando por
+esse acto o fim do dominio sarraceno em Portugal.
+<br />
+
+<br />
+
+A porta do <em>Bom Successo</em> veio abaixo,
+como a
+de Atamarma, por disposi&ccedil;&atilde;o do respectivo
+municipio.
+<br />
+
+<br />
+
+A destrui&ccedil;&atilde;o das portas de muralha, bellos arcos
+na maior parte ogivaes, com que tanto se
+enobreciam algumas das nossas velhas cidades,
+tem sido a grande preocupa&ccedil;&atilde;o vesanica das
+municipalidades
+modernas, absolutamente ignorantes,
+ao que parece, das gloriosas tradi&ccedil;&otilde;es locaes
+de que esses monumentos eram o testemunho authentico
+e sagrado.
+<br />
+
+<br />
+
+Dentro d'essa cathegoria de delinquentes ser&aacute;
+difficil disputar o primeiro logar da serie pathologica
+&aacute; cidade do Porto.
+<br />
+
+<br />
+
+O Arco da Vendoma, &aacute; rua Chan, que havia
+sido uma das portas da circumvala&ccedil;&atilde;o sueva, sobre
+<span class="pagenum">[58]</span>
+a qual a rainha D. Tareja fizera collocar em
+ediculo a imagem da Senhora da Vendoma, trazida
+de Fran&ccedil;a pelo bispo D. Nonego, &eacute;
+desapiedadamente
+demolida em nossos dias, depois de
+oito seculos de existencia.
+<br />
+
+<br />
+
+Os bellos arcos do Postigo de Santo Antonio
+do Penedo e do Postigo do Sol veem egualmente
+abaixo, em 1875, sem raz&otilde;es algumas que expliquem
+mais esta demoli&ccedil;&atilde;o que a do Arco da Vendoma.
+Junto do Postigo do Sol ficava no entanto,
+e memorava-a o arco, a veneranda <em>Viella das
+Tripas</em>,
+onde assistiam as fressureiras, que deram aos
+do Porto o nome de tripeiros, vendendo-lhes os
+miudos das rezes, cuja carne elles haviam espontaneamente
+cedido &aacute; armada de D. Jo&atilde;o I para a
+expedi&ccedil;&atilde;o de Ceuta.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; Porta do Olival, da qual como do Postigo do
+Sol s&oacute; resta o nome, foi acclamado D. Jo&atilde;o I. A
+essa porta foi esperada pelos portuenses, e por ella
+entrou pela primeira vez na cidade, na occasi&atilde;o
+das suas bodas com o mestre de Aviz, a rainha
+Filippa de Lencastre.
+<br />
+
+<br />
+
+O Arco da Senhora Sant'Anna, que deu o titulo
+<span class="pagenum">[59]</span>
+&aacute; linda narrativa portuense de Almeida Garrett, &eacute;
+sacrificado como os demais ao alvi&atilde;o municipal
+da cidade invicta.
+<br />
+
+<br />
+
+O ultimo emfim dos arcos do Porto, ainda ha
+bem poucos annos destruido, foi o da Porta Nobre,
+por onde faziam a sua entrada solemne os
+bispos e os reis, que os moradores da Reboleira
+recebiam triumphalmente na sua rua, juncada de
+espadanas e de funcho, entre fest&otilde;es de flores pendentes
+das velhas janellas de resalto, &aacute; flamenga,
+sob punhados de trigo, reluzente no ar em chuva
+de ouro.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Santarem disseram-me ha dias, nos proprios
+logares em que se est&aacute; mancumunando o delicto,
+que os vereadores projectam agora demolir a Torre
+das Caba&ccedil;as.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando a rainha D. Maria I visitou Santarem
+em 1785, botaram-se as medidas do c&ocirc;che de sua
+magestade a todo o caminho que elle tinha de percorrer,
+e desfizeram-se diligentemente a pic&atilde;o, nas
+ruas da villa, todas as protuberancias architectonicas
+em que se anteviu algum risco de entala&ccedil;&atilde;o
+para o trajecto da real berlinda.
+<span class="pagenum">[60]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+No Canto da Cruz cortaram-se, como quem
+corta queijo, os vertices dos angulos nos edificios
+de esquinas menos reverenciosas para com o regio
+transito. Entre a Torre do Alpor&atilde;o e a Torre
+das Caba&ccedil;as o passo por&eacute;m apresentou-se
+especialmente
+difficil. Applicou-se-lhe a bitola do regio
+c&ocirc;che, que o secretario de estado visconde de
+Villa Nova da Cerveira mand&aacute;ra previdentemente
+de Salvaterra de Magos ao juiz de f&oacute;ra, presidente
+da camara municipal da villa, e consignou-se que,
+por obra infernal de palmo ou palmo e meio de
+saliencia, o magestatico vehiculo da soberana teria
+de ficar engasgalhado pelos cubos das rodas
+entre os dois monumentos. Ent&atilde;o, depois de haverem
+marrado por um momento no problema, e
+uns nos outros, os vereadores scalabitanos removeram
+a difficuldade, redobando a fita da medi&ccedil;&atilde;o
+inutilmente esticada, mettendo os solicitos e suados
+covados debaixo dos bra&ccedil;os, e mandando simplesmente
+arrasar a Torre do Alpor&atilde;o, monumento
+do dominio romano, do alto do qual, durante a
+occupa&ccedil;&atilde;o serracena, o arabe dictava ao povo a
+lei de Mahomet.
+<span class="pagenum">[61]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+A Torre das Caba&ccedil;as &eacute; muito menos antiga e
+menos documental que a do Alpor&atilde;o. Com quanto
+Garrett a fa&ccedil;a invocar anachronicamente no
+<em>Alfageme
+de Santarem</em>, em estimulo de defesa contra
+a invas&atilde;o castelhana, como um dos tra&ccedil;os mais
+expressivos da physionomia pittoresca da patria,
+essa torre data apenas do tempo de D. Manoel.
+N&atilde;o tem caracter propriamente architectural, &eacute;
+uma simples pe&ccedil;a de alvenaria quadrada. Mas o
+seu estranho remate, em grande eleva&ccedil;&atilde;o, formado
+pelo sino a descoberto, sustido na convergencia
+superior de quatro var&otilde;es de ferro, estribados obliquamente
+nos quatro angulos da torre, e revestidos
+de pucaras de barro, da olaria local, destinadas
+a ampliar a sonoridade do bronze no tanger
+das horas e dos signaes de rebate, d&aacute;-lhe uma
+fei&ccedil;&atilde;o
+verdadeiramente especial, inconfundivel, indelevel.
+N&atilde;o ser&aacute; talvez o mais monumental, o mais
+nobre, o mais rico, mas &eacute; de certo o mais suggestivo,
+o mais anedoctico, o mais interessante, o mais
+carinhoso, o mais familiar, o mais lindo campanario
+de toda essa t&atilde;o formosa campina ribatejana,
+o mais aberto sorriso agrario da terra portugueza.
+<span class="pagenum">[62]</span>
+Tudo envolve de penetrante poesia local essa velha
+torre. O seu mesmo nome de <em>relogio das
+caba&ccedil;as</em>
+ou de <em>cabaceiro</em> se allia
+harmonicamente no
+ouvido &aacute; lembran&ccedil;a das lezirias, das hortas, dos
+paues, das courellas e dos olivedos, que o circumdam,
+e fazem d'elle como que uma parte integrante
+da paizagem, um natural rebento da terra. O aspecto
+de improvisa&ccedil;&atilde;o e de interinidade d'essa
+summaria ventana de sino, que parece armada em
+quatro pampilhos, &eacute; uma verdadeira obra d'arte,
+que lembra mais commoventemente do que nenhuma
+outra inventada pelos architectos, a origem
+arabe, a vida nomada, a tradi&ccedil;&atilde;o pastoral da
+regi&atilde;o em que surgiu.
+<br />
+
+<br />
+
+Os conspicuos burguezes do senado de Santarem
+n&atilde;o podem ter opini&atilde;o sobre esta
+quest&atilde;o de
+esthetica, porque elles carecem absolutamente do
+ponto de vista em que deve de ser considerada a
+sua Torre das Caba&ccedil;as, a qual evidentemente se
+n&atilde;o construiu para que suas excellencias a alveitassem
+doutoralmente de dentro dos pa&ccedil;os do concelho,
+ou c&aacute; fora na pra&ccedil;a, de chapeus altos,
+sobrecasacas
+dominicaes e barbas feitas, abordoados
+<span class="pagenum">[63]</span>
+aos seus chapeus de sol, e muito mais garantidamente
+cucurbitaceos que o seu proprio cabaceiro.
+A Torre das Caba&ccedil;as fez-se para ser olhada do
+vasto campo da Golleg&atilde; ou do campo de Almeirim,
+vindo do Valle, vindo de Coruche, de Benavente,
+ou da Barquinha, atravez dos olivaes, das
+terras de semeadura e das eiras do termo de Santarem,
+de jaqueta e sapatos de prateleira, montando
+uma egua de maioral, de cabe&ccedil;ada de esparto,
+almatrixa de pelles e estribos chapeados.
+O Cabaceiro de Santarem, com a sua cupula em
+trempe, as suas caba&ccedil;as de barro e o seu sino
+grande de correr e de governar as horas, fez-se
+para o largo e ridente campo ribatejano, fez-se
+para os campinos, para os vaqueiros, para os almocreves,
+e talvez se fizesse tambem para mim,
+que n&atilde;o vejo em arte raz&atilde;o alguma plausivel para
+que, como motivo ornamental de uma torre, &aacute; folha
+do acantho ou ao chavelho em voluta da architectura
+grega se prefira a nossa linda pucarinha de
+barro vermelho de Reguengo, da Atalaia ou da
+Asseiceira.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o! o senado santareno tem de deixar ficar
+<span class="pagenum">[64]</span>
+onde ella est&aacute; a sua t&atilde;o caracteristica torre,
+para
+que se n&atilde;o diga que dos tres potes, que de antiga
+tradi&ccedil;&atilde;o consta acharem-se soterrados na
+Alca&ccedil;ova,
+um cheio de ouro, outro cheio de prata, outro
+cheio de peste, a camara da localidade n&atilde;o
+encontrou sen&atilde;o o ultimo para o despejar sobre
+os monumentos publicos sujeitos &aacute; sua
+jurisdi&ccedil;&atilde;o
+e confiados &aacute; sua guarda.
+<br />
+
+<br />
+
+Que sob o antigo regimen os vereadores de Santarem
+deitassem a baixo a Torre do Alpor&atilde;o, para
+passar uma rainha, &eacute; uma desdita em extremo lastimavel,
+mas que sob o regimen vigente se deite
+egualmente a baixo a Torre das Caba&ccedil;as, para
+que passem os proprios vereadores, &eacute; um desando
+grande da publica administra&ccedil;&atilde;o para muito peior
+do que estavamos no tempo da muito saudosa senhora
+D. Maria I.
+<br />
+
+<br />
+
+A torre da S&eacute; Velha, de Coimbra, desapparece
+no fim do seculo passado perante uma simplicidade
+de processo, que bem demonstra quanto os
+poderes publicos, desajudados de conselho artistico,
+teem sido, em todo o tempo, inhabeis e incompetentes
+para proteger os monumentos da na&ccedil;&atilde;o.
+<span class="pagenum">[65]</span>
+Foi o meu amigo Theofilo Braga quem, ao
+colligir no Archivo Nacional os documentos ineditos
+das rela&ccedil;&otilde;es do marquez de Pombal com D.
+Francisco de Lemos para a reforma dos estudos
+na Universidade, descobriu a breve historia da
+demoli&ccedil;&atilde;o da torre da S&eacute; Velha. Em
+carta de 3
+de setembro de 1773, D. Francisco de Lemos d&aacute;
+conta ao marquez de que demoliu a torre: &laquo;...A
+dita torre era um mont&atilde;o de pedra e cal sem arte
+e figura, que servisse de ornato &aacute; cidade, e antes
+estava tirando a vista do Pa&ccedil;o das Escolas, e de
+muitas casas. E principalmente &eacute; muito nociva &aacute;
+Imprensa, porque ficando ella no alto e esta embaixo,
+lhe tirava o sol, com que a fazia menos
+clara e humida. Pareceu-me conveniente &aacute; vista
+de todas estas raz&otilde;es que se demolisse, o que se
+tem executado, seguindo-se todas as utilidades
+ponderadas acima, e egualmente a de haver pedra
+para tudo o que foi preciso fazer.&raquo; Em sigla
+marginal a esta carta opina o marquez de Pombal:
+&laquo;Que est&aacute; muito bem feita a providencia sobre
+a torre da S&eacute; antiga.&raquo; E em carta de 5 de outubro
+do alludido anno de 1773, o marquez, em
+<span class="pagenum">[66]</span>
+stylo official, desenvolve a sua acquiescencia ao
+estupido vandalismo de D. Francisco de Lemos:
+&laquo;Tambem me pareceu bem ajustada a providencia
+e resolu&ccedil;&atilde;o que V. Ex.<sup>a</sup>
+tomou de mandar demolir
+a torre da S&eacute; antiga que n&atilde;o servia mais
+que de ser um <em>Padrasto sombrio e
+infimo</em>, s&oacute; proprio
+para desfigurar a formosura do Palacio a que
+estava quase contiguo e de escurecer as actuaes
+officinas, etc.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Do mosteiro de Alcoba&ccedil;a desapparece todo um
+claustro do tempo de D. Affonso Henriques.
+<br />
+
+<br />
+
+Em S. Francisco d'Evora ampliam-se as dimens&otilde;es
+da rosacea no frontespicio da egreja, abalando
+as cantarias circumstantes e pondo em risco todo
+o equilibrio da empena. Al&eacute;m d'isso, para o fim
+de aproveitar a pedra para outras applica&ccedil;&otilde;es,
+desampara-se a abobada, deitando abaixo a ala
+do convento que lhe servia de encontro.
+<br />
+
+<br />
+
+No castello de Palmella e em S. Salvador de
+Pa&ccedil;o de Sousa acham-se violados e deshonrados
+pelo mais completo despreso, al&eacute;m das campas dos
+cavalleiros de Santiago, o tumulo do principe D.
+Jorge, e o tumulo de Egas Moniz, que em Pa&ccedil;o
+<span class="pagenum">[67]</span>
+de Sousa dividiram em dois, pondo cada metade
+para seu lado, em pontos oppostos da egreja. O
+cofre de pedra que continha a ossada do fiel aio
+de Affonso Henriques transforma-se em pia de um
+bebedouro publico.
+<br />
+
+<br />
+
+A sumptuosa egreja do convento de S. Francisco
+em Santarem, funda&ccedil;&atilde;o de D. Sancho II,
+com as suas tres naves, as suas columnas de preciosos
+capiteis e os floridos arcos da sua restaura&ccedil;&atilde;o
+manoelina, converte-se em uma das cavallari&ccedil;as
+do regimento aquartelado no convento.
+Violaram-se todos os tumulos que encerrava o
+claustro e occupavam a egreja, sem que esta, segundo
+nos consta, fosse nunca dessagrada liturgicamente.
+Parece que n&atilde;o houve tempo para satisfazer
+essa t&atilde;o breve formalidade de respeito.
+<br />
+
+<br />
+
+As sar&ccedil;as, os silvados, e os subtis rendilhamentos
+manoelinos do tumulo precioso do conde de
+Vianna D. Duarte de Menezes, pela circumstancia
+de ser a esculptura removida para S. Jo&atilde;o do
+Alpor&atilde;o
+pela benemerita commiss&atilde;o administrativa
+do Museu Districtal de Santarem, escaparam miraculosamente
+aos coices das bestas de guerra,
+<span class="pagenum">[68]</span>
+que o governo portuguez destinava ao sagrado
+monumento erigido pela doce piedade conjugal &aacute;
+memoria do leal e valoroso soldado de Affonso V,
+que na conquista de Alcacer-Ceguer se deixou
+morrer &aacute;s lan&ccedil;adas para salvar a vida do seu
+rei.
+<br />
+
+<br />
+
+O tumulo de D. Fernando, que estava na mesma
+egreja, foi pela Associa&ccedil;&atilde;o dos architectos
+trazido
+para o museu do Carmo.
+<br />
+
+<br />
+
+Um dente de D. Duarte, que a condessa de Vianna
+encerrara, como unica reliquia de seu marido,
+no monumento que lhe consagrara, conserva-se
+ainda dentro do estojo que primitivamente o continha.
+A ossada do rei D. Fernando, essa desappareceu,
+como desappareceu a de D. Francisco de
+Almeida, atirada para a cerca do quartel na occasi&atilde;o
+em que se lhe destruiu o tumulo, aproveitando-se
+a area de pedra em que jazia o corpo para
+bebedouro especial dos cavallos com mormo.
+<br />
+
+<br />
+
+As demais campas, que constituiam o pavimento
+do claustro desde o principio do seculo XIV desappareceram
+todas, e nem sequer se sabe j&aacute; de quem
+eram, por que, para n&atilde;o escorregarem os cavallos
+<span class="pagenum">[69]</span>
+do regimento, desempedrou-se o claustro e perderam-se
+as lapides que n'elle se continham.
+<br />
+
+<br />
+
+A sepultura de Pedro Alvares Cabral est&aacute; na
+egreja da Gra&ccedil;a, um dos bellos templos da
+funda&ccedil;&atilde;o
+da monarchia em Santarem. Esta egreja &eacute; cedida
+pelo governo &aacute; pobre irmandade dos Passos.
+A irmandade carecia de meios para custear
+o decoro do culto e a conserva&ccedil;&atilde;o do edificio.
+Occorria generosamente a essa despeza o proprietario
+do convento annexo &aacute; egreja. O dono do
+convento falleceu recentemente, legando a casa a
+um azylo que n'ella fundou. A egreja da Gra&ccedil;a de
+Santarem est&aacute; portanto, a bem dizer, desamparada.
+A quem &eacute; que se acha confiado o tumulo de
+Pedro Alvares Cabral? N&atilde;o se sabe bem, e s&atilde;o
+grandes, como pessoalmente tive occasi&atilde;o de experimentar,
+as difficuldades que encontra quem
+deseje dar com o depositario das chaves para ver
+a egreja. &Aacute;s gloriosas cinzas d'aquelle que nos
+deu o Brazil, a gente nem sequer sabe dar um
+guarda.
+<br />
+
+<br />
+
+O mausoleu do nosso S. Frei Gil corre aventuras
+parecidas com as do mausoleu do rei D. Fernando.
+<span class="pagenum">[70]</span>
+Os marquezes de Penalva, parentes do
+Santo, recolhem na capella do seu palacio em Lisboa
+as cinzas do bemaventurado. A tampa do tumulo
+com a estatua do Santo vem para o museu
+do Carmo. A arca sepulchral, que encerrava os
+seus restos, fica em Santarem, servindo de pia de
+amassar cal para as obras do municipio.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Guimar&atilde;es mascaram indignamente de cal
+e de madeira as columnas e as arcarias da veneravel
+egreja de Nossa Senhora da Oliveira, fundada
+nos primeiros annos do seculo X pelo conde
+Hermenegildo Mendes e por sua mulher a condessa
+Mumadona. No claustro do seculo XIII, que
+envolve uma parte da egreja, revestem de caixilharia
+envidra&ccedil;ada a graciosa arcaria, e rebocam
+espessamente a cal os capiteis das columnas. A
+flammante janella gothica, que por cima da porta,
+na fachada do templo, fazia explodir em apotheose
+a polychromia do espelho, emoldurado na
+sua larga cercadura esculpida de silvados, historiada
+de estatuetas de santos em phantasiosos resaltos
+de misulas, sob rendilhados baldaquinos, &eacute;
+impiedosamente arrasada e substituida por uma
+<span class="pagenum"><a name="p71" id="p71">[71]</a></span>
+chapada de cantaria corrida, perfurada por quatro
+oculos.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Santarem, na egreja do Milagre, pelas trovoadas
+d'este ver&atilde;o, um raio fere o cone azulejado
+da torre, penetra na capella m&oacute;r, despeda&ccedil;a
+a madeira do arco que a separa da nave, e p&otilde;e a
+descoberto, por baixo d'esse revestimento de <a href="#e1">taboas</a>
+pintadas, os mais lindos lavores esculpturaes
+de uma arcaria da Renascen&ccedil;a, em que
+cherubins voejam, sustendo grinaldas e cornucopias
+floridas, por entre a la&ccedil;aria afestoada, com
+rotulos pendentes. Todos os relevos mais salientes
+da esculptura haviam sido desbastados a pic&atilde;o
+para nivelar a superficie da pedra em que assentara
+a madeira.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Setubal, na egreja manoelina das freiras de
+Jesus, besuntam as columnas, os artez&otilde;es e os fechos
+da abobada com a mais tosca e espessa camada
+de pintura. O material subjacente &eacute; o lindo
+marmore polychromico da Arrabida. A pintura a
+que me refiro tem a inten&ccedil;&atilde;o esthetica de imitar
+a
+borr&otilde;es d'ocre esse mesmo marmore cuja superficie
+t&atilde;o sordidamente conspurca.
+<span class="pagenum">[72]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Quando ha quatro annos o governo mandou
+p&ocirc;r em hasta publica uma parte do convento de
+Cellas, incluindo o seu encantador claustro, metade
+do qual &eacute; do tempo de D. Diniz, uma voz
+anonyma protestou, eloquente e energicamente,
+contra semelhante desacato, por meio de uma pequena
+brochura impressa em Coimbra e largamente
+espalhada pelo paiz todo, a pedir soccorro
+&aacute; imprensa. Rarissimos periodicos acudiram ao
+rebate. Na parte que data do seculo XIV, o pequenino
+claustro de Cellas, em arcadas de meio ponto
+e columnas geminadas, de capiteis cubicos, historiados
+por todos os lados com deliciosas figurinhas
+representando os mais tocantes episodios da
+vida da Virgem Maria, de Jesus e dos seus santos,
+&eacute; a mais delicada, a mais commovida, a mais
+poetica obra da arte portugueza n'esse interessante
+periodo da transi&ccedil;&atilde;o do stylo romanico para
+o advento do gothico, na evolu&ccedil;&atilde;o capital da arte
+na Edade Media. A virginal candura, profundamente
+enternecida, do artista desligado da preceitua&ccedil;&atilde;o
+hieratica de uma esthetica que se extingue,
+para entrar com toda a frescura intacta do sentimento
+<span class="pagenum">[73]</span>
+na sinceridade de uma arte nova, &eacute; invasivamente
+tocante na concep&ccedil;&atilde;o de varios episodios
+d'esta composi&ccedil;&atilde;o, como o da
+Annuncia&ccedil;&atilde;o, o do
+Sonho de Nossa Senhora, o da Adora&ccedil;&atilde;o dos Reis
+Magos, o da Fuga para o Egypto, e o da
+Crucifica&ccedil;&atilde;o
+de Jesus, que, pela primeira vez nas
+representa&ccedil;&otilde;es
+d'este periodo, nos apparece flagellado
+pela cor&ocirc;a de espinhos e com os dois p&eacute;s
+sobrepostos, fixados ao madeiro por um s&oacute; cravo.
+Acompanhando e envolvendo a primorosa obra
+do esculptor, tudo no claustro de Cellas se compensa,
+se pondera e se equilibra admiravelmente
+para o fim de p&ocirc;r em suggest&atilde;o o pensamento que
+d'essa obra deriva.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; uma construc&ccedil;&atilde;o ineffavelmente pura,
+toda
+de intimidade e de religi&atilde;o, no sentido de cada
+uma das suas partes e na harmonia total do seu
+conjuncto. Nem a mais leve macula mundana, de
+presump&ccedil;&atilde;o ou de orgulho. Nem um s&oacute;
+nome
+profano, nem um unico emblema heraldico, braz&atilde;o,
+cor&ocirc;a, paquife, divisa ou empresa. Nada que
+lembre da terra as ambi&ccedil;&otilde;es, a for&ccedil;a,
+a gloria ou
+o brilho: nem quinas, nem lizes, nem pelicanos,
+<span class="pagenum"><a name="p74" id="p74">[74]</a></span>
+<a href="#e2">nem</a> espheras. A mesma aconchegada <a href="#e3">dimens&atilde;o</a>
+do recinto, parecendo amoldado ao passo leve e
+recolhido das freiras, as quaes se ouviriam a meia
+voz de um extremo para o extremo opposto do
+pateo; o stylobato em bancada revestida de azulejos
+do tempo, enxadrezados em verde e branco;
+a pequena altura dos fustes, proporcionados a
+uma estatura de novi&ccedil;a, que poderia do ch&atilde;o
+acarinhar as imagens dos capiteis com uma fl&ocirc;r
+de a&ccedil;ucena; a reclusa modestia da galeria superior,
+em que o beiral do telhado se apoia ao parapeito
+em curtos esteios de granito; a mesma vegeta&ccedil;&atilde;o
+arbustiva, que ainda sobrevive &aacute; antiga
+ornamenta&ccedil;&atilde;o floral do pateosinho ajardinado; as
+diminutas capellas e os nichos que rodeiam a
+claustra; tudo emfim concorda e condiz na mais
+rara e doce harmonia de uma express&atilde;o intradusivel.
+O claustro de Cellas &eacute;, pela extranhesa e
+pela preciosidade da sua poesia e da sua arte,
+uma especie de murmurosa fonte, ineffavel e perenne,
+em que a agua n&atilde;o vem de alterosos e magestaticos
+aqueductos cantar ao sol em ta&ccedil;as brunidas
+de prophyro ou de alabastro, suspensas por
+<span class="pagenum">[75]</span>
+grupos de naiades, de sereias ou de golfinhos, mas
+rompe da rocha viva, como nas grandes altitudes
+alcantiladas das nossas serras, manando em fio
+tenue e crystalino, desnevada e purissima, escondida
+entre fragas, a que se entra de rastos para ir
+sedentamente beijal-a na sua humilde nascente
+engrinaldada de violetas em fl&ocirc;r.
+<br />
+
+<br />
+
+Providenciando sobre o destino de um t&atilde;o delicado
+monumento, posto em leil&atilde;o pela quantia
+de um conto de r&eacute;is, dispunha o governo que os
+capiteis das columnas se serrassem dos respectivos
+fustes e se recolhessem n'um museu!
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o sei em que phase administrativa se acha
+ao presente esse negocio. O que sei &eacute; que o primoroso
+claustro de Cellas, medonhamente desaprumado
+da perpendicularidade das suas columnas,
+n&atilde;o espera sen&atilde;o o primeiro dos mais leves
+pretextos para se desmoronar inteiramente.
+<br />
+
+<br />
+
+Na linda egreja de S. Jo&atilde;o, em Thomar, abrem-se
+na fachada principal, de cada lado de um portal
+manoelino, duas janellas da mais corriqueira
+e mais vill&ocirc;a cantaria.
+<br />
+
+<br />
+
+Ha bem poucos dias ainda um distincto critico
+<span class="pagenum">[76]</span>
+nos revelava, em uma folha periodica, os desacatos
+por que est&aacute; passando o antigo mosteiro das
+Bernardas de Almoster, construido para commemorar
+o milagre de Santa Iria pela devota Berengaria
+com a collabora&ccedil;&atilde;o de Santa Isabel.
+<br />
+
+<br />
+
+Na S&eacute; de Braga as estatuas jacentes dos tumulos
+do conde D. Henrique e de sua mulher foram
+cortadas pelo meio das pernas para caberem nos
+novos logares para onde as transferiram, e, com o
+fim de n&atilde;o transtornar inteiramente a anatomia
+dos personagens, pareceu util applicar os p&eacute;s decepados
+aos joelhos das figuras.
+<br />
+
+<br />
+
+Na mesma egreja existe o bello tumulo em bronze
+do joven infante D. Affonso, filho de D. Jo&atilde;o I,
+obra mandada fazer em Bruxellas pela infanta portugueza
+D. Isabel, mulher de Filippe o Bom. A estatua
+do infante, em tamanho natural, repousava
+deitada na tampa do mausoleo entre dois anjos em
+adora&ccedil;&atilde;o. A caixa tumular, ornada de
+braz&otilde;es, cingidos
+de arabescos e silvados em relevo, descan&ccedil;a
+sobre le&otilde;es. Em 1881 foram roubadas as cabe&ccedil;as
+dos le&otilde;es, os p&eacute;s e as m&atilde;os da
+estatua, e os dois
+anjos que ladeavam a cabe&ccedil;a do principe. O templo
+<span class="pagenum">[77]</span>
+est&aacute; completamente desfigurado do seu aspecto
+primitivo. Empastaram-se os capiteis das columnas,
+transformou-se a arcaria das naves, abriram-se
+grandes janellas nas paredes da egreja,
+adornaram-se os intervallos das capellas com enormes
+estatuas dos apostolos feitas de pau, e pintou-se
+tudo de branco&#8213;madeiras e cantarias.
+<br />
+
+<br />
+
+A pedra da campa de Garcia de Rezende, sepultado
+na encantadora ermida que elle mesmo
+delineou e mandou construir na cerca do convento
+de Nossa Senhora do Espinheiro, foi arrancada
+da sepultura do nosso chronista, e serve presentemente
+de banca de cosinha em casa de um cavalheiro
+de Evora.
+<br />
+
+<br />
+
+Os tumulos da familia de Abrantes acham-se
+em tanto esquecimento e em tanto abandono na
+capella do seu castello, como em Alcoba&ccedil;a os de
+D. Pedro e D. Ignez de Castro; como em Pa&ccedil;o de
+Sousa o de Egas Moniz; como em Palmella o de
+D. Jorge, em cujo testamento ali&aacute;s se attribue uma
+verba &aacute;s repara&ccedil;&otilde;es d'aquella casa;
+como, finalmente,
+ainda ha pouco em Alemquer, o de Dami&atilde;o
+de Goes, antes de haver sido reposto pelo sr. Possidonio
+<span class="pagenum">[78]</span>
+da Silva o busto do nosso chronista sobre
+o seu jazigo da egreja da Varzea.
+<br />
+
+<br />
+
+Na Vidigueira a camara auctorisa o povo a utilisar
+em obras particulares as cantarias do castello
+de Vasco da Gama, como se o solar do descobridor
+da India n&atilde;o tivesse mais importancia historica
+que a que se liga a qualquer pedreira.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Evora, para dar mais um metro ou metro
+e meio de superficie a uma pra&ccedil;a, a camara deita
+abaixo a historica varanda da casa dos pa&ccedil;os do
+concelho, edificada em tempo de Affonso V, por
+Jo&atilde;o Mendes Cecioso, o <em>pae dos pobres
+d'Evora</em>.
+A varanda demolida, da qual pela primeira vez
+se aclamou a independencia de Portugal depois
+das famosas
+<em>altera&ccedil;&otilde;es</em>,
+t&atilde;o minuciosamente narradas
+por D. Francisco Manoel de Mello na sua
+<em>Epanaphora politica</em>, parece ter sido
+obra de D.
+Jo&atilde;o II.
+<br />
+
+<br />
+
+Por muitas vezes se tem discutido na camara
+eborense, e parece at&eacute; haver sobre tal assumpto
+uma resolu&ccedil;&atilde;o assente, o projecto inaudito de
+eliminar
+toda a bella alpendrada da pra&ccedil;a, da rua
+Ancha e da rua da Porta Nova.
+<span class="pagenum">[79]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Outra resolu&ccedil;&atilde;o da camara de Evora,
+resolu&ccedil;&atilde;o
+definitiva e aprasada para muito breve, &eacute; a de destruir
+a pequena e t&atilde;o graciosa egreja do convento
+do Paraizo para o fim de estabelecer mais uma
+pra&ccedil;a entre as duas ruas de Machede e de Mendo
+Estevens, &aacute;s quaes faz esquina aquelle templo.
+<br />
+
+<br />
+
+A diminuta egreja do Paraizo, com os seus
+dois arcos manoelinos, com os seus preciosos
+azulejos do seculo XVI, em tapete mural, acompanhando
+nas barras o recorte dos arcos em zig-zag,
+e com o seu tumulo em ediculo de D. Alvaro da
+Costa, &eacute; um dos mais graciosos documentos architectonicos
+do seu tempo.
+<br />
+
+<br />
+
+Pobre cidade de Evora, um dos nossos mais
+vastos e mais preciosos museus de archeologia e
+d'arte, preferindo como Santarem ser uma estupida
+collec&ccedil;&atilde;o de pra&ccedil;as largas e de ruas
+novas!
+Por toda a Europa, os velhos bairros historicos
+s&atilde;o hoje o thesouro das cidades que os possuem.
+Em muitos logares, onde esses bairros n&atilde;o existem,
+est&atilde;o-os inventando, est&atilde;o-os reconstituindo
+em homenagem erudita e piedosa &aacute;
+tradi&ccedil;&atilde;o historica,
+&aacute; poesia do passado. A camara de Evora,
+<span class="pagenum">[80]</span>
+vangloriosa no pelintrismo das suas innova&ccedil;&otilde;es,
+bota abaixo os mais venerandos monumentos da
+cidade; por outro lado improvisa ruinas scenographicas
+no seu jardim publico, armando com
+trepadeiras e malvaiscos grupos sentimentaes de
+velhas columnas postas de pernas para o ar n'esse
+effeito de bordado a corti&ccedil;a ou a miolo de figueira;
+pica os seus historicos braz&otilde;es para fazer passeios
+lisos de ruas novas aos seus janotas; e bate,
+modernisante e festeira, sobre o epitaphio do mais
+palaciano e do mais artistico dos seus escriptores
+quinhentistas, a carne do bife consagrado talvez
+ao penso d'algum dos seus novos reporters.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas eu &eacute; que n&atilde;o posso deixar de dizer
+&aacute; cidade
+de Evora, que o que a ella nos attrae e n'ella
+nos retem n&atilde;o s&atilde;o as suas novas avenidas, nem as
+suas pra&ccedil;as, nem o seu lindo theatro, nem o seu
+bello Passeio Publico. O que em Evora nos embelleza
+e nos encanta, s&atilde;o os seus velhos mosteiros,
+as suas antigas egrejas, os nomes das suas
+primitivas ruas, estreitas e sinuosas, t&atilde;o curiosos e
+t&atilde;o archaicos como o de
+<em>Valdevinos</em>, o de
+<em>Alconchel</em>,
+o das <em>Amas do Cardeal</em>, o do
+<em>Alfaiate da</em>
+<span class="pagenum">[81]</span>
+<em>Condessa</em>; s&atilde;o os quadros
+incomparaveis do seu
+pa&ccedil;o archiepiscopal; s&atilde;o os variadissimos
+documentos
+da sua architectura ogival e da sua architectura
+da Renascen&ccedil;a, t&atilde;o especialmente amoiriscada
+n'esta parte do Alemtejo; s&atilde;o os restos das
+suas antigas industrias locaes, a olaria, a tape&ccedil;aria,
+a caldeiraria, a sellaria e a carpintaria de moveis;
+&eacute; talvez ainda a sua tradicional cosinha, a
+do&ccedil;aria
+famosa dos seus conventos, a sua honrada assorda
+de cuentros, e o seu bolo p&ocirc;dre, de farinha de milho,
+azeite e mel, como o que se comeria talvez,
+entre os hebreus da Biblia, &aacute; mesa de Abrah&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Com as improvisa&ccedil;&otilde;es do seu modernismo
+Evora &eacute; como Vianna do Castello, Braga,
+Guimar&atilde;es,
+Coimbra, Thomar, Santarem, ou Beja,
+que s&oacute;mente interessam os viajantes pela sua antiga
+arte, e n&atilde;o valem realmente a pena de que
+alguem as visite pelo que d&atilde;o de novo.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Lisboa repudia-se a soberba egreja de Santa
+Engracia, o mais bello dos nossos monumentos do
+seculo XVII. O interior do templo &eacute; de uma magnificencia
+magestosa. A riqueza dos marmores
+s&oacute;mente se pode comparar &aacute; de Mafra. A
+m&atilde;o
+<span class="pagenum">[82]</span>
+d'obra &eacute; de uma perfei&ccedil;&atilde;o magistral a
+ponto de
+parecer indestructivel. Aproveitada para pantheon
+nacional esta egreja seria um dos mais imponentes
+edificios da Europa. Falta unicamente &aacute; sua
+conclus&atilde;o
+a cupula do tecto e o lageamento do ch&atilde;o.
+Taparam-lhe o arco da entrada a pedra e cal, n&atilde;o
+tem cobertura, e est&aacute; servindo de armazem de
+arrecada&ccedil;&atilde;o
+do inutilisado material de guerra do Arsenal
+do Exercito.
+<br />
+
+<br />
+
+A inoffensiva capellinha das Albertas, bem interessante
+pela ornamenta&ccedil;&atilde;o t&atilde;o portugueza dos
+seus embrechados, ha poucos dias ainda acabou
+de desapparecer, como o convento da Esperan&ccedil;a,
+sem se saber porque, nem para que.
+<br />
+
+<br />
+
+A restaura&ccedil;&atilde;o, que recentemente padeceu a
+egreja de S. Vicente de F&oacute;ra, t&atilde;o particularmente
+notavel pelos bellos mosaicos portuguezes que a
+exornam, caracterisa-se bem no mau gosto da pintura
+com que se maculou a nobreza d'aquelle templo.
+<br />
+
+<br />
+
+Os attentados de restauro de que ainda nos tempos
+modernos tem sido objecto a S&eacute; de Lisboa s&atilde;o
+t&atilde;o lastimosos quanto innumeraveis.
+<span class="pagenum">[83]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Finalmente, ao lado da Torre de Belem, o mais
+peregrino entre os mais bellos monumentos da
+nossa architectura, estabelece-se o gazometro da
+companhia de illumina&ccedil;&atilde;o a gaz! A esbelta
+silhueta
+rendilhada do mais suggestivo padr&atilde;o da nossa
+gloria militar e maritima, j&aacute; n&atilde;o emerge da areia
+loura do Restello, em deslumbradora apotheose,
+na vasta luminosidade do ceu e da agua, destacando-se
+das collinas de Monsanto, como a alvura
+de uma hostia em eleva&ccedil;&atilde;o se destaca do fundo
+de um retabulo esmeraldado, em altar de ouro
+fulvo, sob uma abobada azul. Sacrosanta pela sua
+express&atilde;o moral, como a immaculada estalactite,
+formada &aacute; beira do mar pela concre&ccedil;&atilde;o
+mysteriosa
+de todas as lagrimas, de saudade, de ternura, de
+consterna&ccedil;&atilde;o e de enthusiasmo, choradas por um
+povo de embarcadi&ccedil;os; sacrosanta na sua forma
+artistica, como aquelle dos monumentos de Portugal,
+em que o genio lusitano da Renascen&ccedil;a,
+mais expressivamente se revela como dominador
+da India, a Torre de Belem emparceira-se com a
+chamin&eacute; do mais vil e sordido barrac&atilde;o, a qual
+sacrilegamente a cuspinha e enod&ocirc;a com salivadas
+<span class="pagenum">[74]</span>
+de um fumo espesso, gorduroso e indelevel,
+como se a incomparavel joia d'esse marmore, que
+o sol portuguez carinhosamente sobredourara pelos
+afagos de tres seculos, houvesse sido t&atilde;o subtilmente
+cinzelada pelos artistas manoelinos para
+escarrador de mariolas, por cima do qual todavia
+ainda algumas vezes, em dias de gala, se desfralda
+e tremula o pavilh&atilde;o das quinas, mascarrado de
+carv&atilde;o como um ch&eacute;ch&eacute; de entrudo.
+<br />
+
+<br />
+
+Ministerios de todos os diversos partidos politicos
+se revezam consecutivamente no poder, sem
+que nenhum d'elles pare&ccedil;a attentar em um tal desdouro,
+express&atilde;o viva do mais abandalhado rebaixamento
+a que, perante as suas tradi&ccedil;&otilde;es historicas
+e artisticas, podia chegar a degenera&ccedil;&atilde;o de
+uma ra&ccedil;a. Por seu lado o parlamento e a imprensa
+s&atilde;o insensiveis &aacute; responsabilidade de taes
+civicias,
+porque esses dois poderes do Estado, enrascados
+na baixa intriga partidaria, immobilisados n'ella,
+como um enxame de pardaes n'uma bola de visco,
+de ha muito que perderam o sentimento de nacionalidade
+e a no&ccedil;&atilde;o de patria, relaxando completamente
+aos archeologos, aos poetas e aos artistas
+<span class="pagenum">[85]</span>
+a unica legitima representa&ccedil;&atilde;o, desinteressada e
+altiva, do espirito portuguez.
+<br />
+
+<br />
+
+Consta no emtanto que brevemente ser&aacute; celebrado
+em Lisboa o centenario da India; e da comprehens&atilde;o
+que temos d'esse feito culminante da
+nossa historia maritima daremos ao extrangeiro
+um testemunho definitivo, mostrando o monumento
+que commemora tal fa&ccedil;anha, envolto, como
+nas dobras de um crepe, pela fuma&ccedil;ada de uma
+fabrica, que n&oacute;s mesmos lhe puzemos ao p&eacute;, para
+o deshonrar.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Se do exame da architectura dos nossos monumentos,
+passamos ao exame das artes decorativas,
+da pintura e da esculptura amovivel, &eacute;
+mais lastimoso ainda o espectaculo da nossa incuria.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao clero portuguez cabe principalmente a gloria
+de haver conservado o que ainda resta do nosso
+patrimonio artistico.
+<br />
+
+<br />
+
+Das galerias particulares de pintura que o conde
+de Raczynski ainda encontrou em Portugal, no
+anno de 1845, quasi tudo se sumiu.
+<span class="pagenum">[86]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Demoliram-se, desappareceram, ou foram transformadas
+pela mudan&ccedil;a de dono, pela mudan&ccedil;a
+de destino, pela transforma&ccedil;&atilde;o mais radical da
+vida interior que as animava, quasi todas as casas
+que ainda em 1840 eram o typo das habita&ccedil;&otilde;es
+nobres em Lisboa.
+<br />
+
+<br />
+
+Citarei, ao acaso da memoria: o palacio da
+marqueza de Niza, a Xabregas, fundado no seculo
+XV pela rainha D. Leonor; o palacio chamado
+dos Patriarchas, o de Pessanha e o do
+conde de S. Miguel, &aacute; Junqueira; o do marquez
+de Pombal &aacute;s Janellas Verdes; o do conde de
+Carvalhal na Rocha do Conde d'Obidos, famoso
+outr'ora pela collec&ccedil;&atilde;o das suas mobilias;
+&aacute; Cotovia
+o do conde de Ceia e o do conde de Povlide;
+no Calhariz os de Braancamp, do duque
+de Palmella e do marquez de Olh&atilde;o; o do marquez
+de Castello Melhor e o do conde de Lumiares,
+no antigo Passeio Publico; na collina do Castello
+o do marquez de Ponte de Lima, o do marquez
+de Alegrete, o do marquez de Tancos; no
+Campo de Santa Clara o do visconde de Barbacena,
+o do conde de Resende, o do marquez de
+<span class="pagenum">[87]</span>
+Lavradio, e um pouco mais para leste o do conde
+da Taipa; o do visconde da Bandeira, a S. Domingos;
+e finalmente o do marquez de Borba, o do
+conde de Almada, e o do morgado de Assintis,
+cujo theatro era o mais sumptuoso entre todos os
+numerosos theatrinhos particulares que havia em
+Lisboa no principio do seculo, como o do bar&atilde;o
+de Quintella, o do visconde de Anadia, o do conde
+de Almada, e o do conde de Sampaio.
+<br />
+
+<br />
+
+A maior parte d'essas casas eram ainda, pelo
+seu antigo recheio, apesar dos estragos do terremoto,
+apesar da rapina da invas&atilde;o franceza, verdadeiros
+sanctuarios d'arte. Mobilavam-as as mais
+ricas pe&ccedil;as das industrias do Oriente que existiam
+na Europa, escriptorios, papelleiras e bahus monumentaes
+de char&atilde;o, bufetes e contadores feitos
+na India ou fabricados em Lisboa por marceneiros
+aqui educados, no tempo de D. Manoel, por
+artistas indianos.
+<br />
+
+<br />
+
+Os servi&ccedil;os de mesa e os vasos decorativos
+eram das mais antigas e das mais preciosas porcellanas
+da China e do Jap&atilde;o. A collec&ccedil;&atilde;o das
+colxas e dos panos de armar, com que no dia da
+<span class="pagenum">[88]</span>
+prociss&atilde;o de Corpus-Christi se revestiam inteiramente
+as fachadas de todos os predios da Baixa,
+eram de brocado, de damasco, de setim e de veludo,
+constellados a matiz e a ouro nos mais deslumbrantes
+desenhos persas.
+<br />
+
+<br />
+
+Os bragaes, de linho da Hollanda, da Flandres e
+do Reino, arrecadavam-se nas sumptuosas caixas
+encouradas, que foram no seculo XVI uma das industrias
+famosas de Lisboa.
+<br />
+
+<br />
+
+Nas gavetinhas dos contadores e nos escaninhos
+dos armarios e das arcas estavam as joias,
+as rendas, os aljofares, os entretalhos, os firmaes,
+as chaparias, os ouros de martello, e as obras mais
+diminutas e subtis das antigas bordadoras e colxoeiras
+de Lisboa,&#8213;restos de coifas, de face e
+gravis, redes, cadenetas, desfiados.
+<br />
+
+<br />
+
+As baixellas brazonadas, de ouro e prata, levantadas
+em besti&otilde;es e em silvados, a martello, ou
+cinzeladas por emulos de Benvenuto Celini, trasbordantes
+de ornato, em encaiches de arabescos e
+de la&ccedil;arias, eram um luxo commum a todas as familias
+nobres, e refulgiam pelas grandes festas do
+anno em todas as casas de jantar.
+<span class="pagenum">[89]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+O mogno francez do imperio, com as suas
+applica&ccedil;&otilde;es
+de bronze, representando fachos, pyras
+ardentes, lyras e tropheus de guerra, invadira com
+as modas da revolu&ccedil;&atilde;o liberal muitas casas
+lisboetas,
+sem todavia desthronar inteiramente o
+precioso mobiliario da Renascen&ccedil;a, em cedro, em
+pau rosa, em sandalo, em nogueira, em carvalho
+ou em ebano, ao gosto mudegar ou ao gosto florentino,
+embutido de marfim, de madreperola, de
+prata, de esmaltes limosinos ou aragonezes. Abundavam
+as cadeiras e os catles de couro lavrado
+ou de guadamecim, cravejado no carvalho ou no
+pau santo com pregos cinzelados de cobre ou de
+prata; e nas poltronas, nas commodas, nas meias-commodas,
+nos escaparates, nas cadeirinhas, nas
+molduras dos espelhos e das sobreportas predominavam
+as formas curvilineas da influencia de
+Luiz XIV e de Luiz XV na &eacute;poca de D. Jo&atilde;o V e
+de D. Maria I.
+<br />
+
+<br />
+
+Na talha dos oratorios encontravam-se alguns
+d'esses baixos relevos em madeira, polychromicos,
+em escala mui clara, t&atilde;o caracteristicos da
+nossa esculptura em madeira do seculo XVII, bem
+<span class="pagenum">[90]</span>
+accentuadamente revelada nas obras de Bouro, de
+Tib&atilde;es, de S. Gon&ccedil;alo de Aveiro, e da
+S&eacute; Nova de
+Coimbra.
+<br />
+
+<br />
+
+O presepio era um appendice por assim dizer
+obrigatorio; sempre que n&atilde;o occupava um compartimento
+especial da casa, o presepio concentrava-se
+na sua machineta em forma de urna, semelhante
+&aacute;s que se destinavam a conter uma cella
+de Santo Antonio ou uma arribanasinha de menino
+Jesus.
+<br />
+
+<br />
+
+Todas as familias historicas tinham a sua mais
+ou menos consideravel galeria de pintura: paineis
+de devo&ccedil;&atilde;o, retratos de antepassados, e um ou
+outro
+quadro de genero ou de paizagem, em tela ou
+em cobre, attribuidos a Breughel, a Rosa di Tivoli,
+a Tenniers ou a Rubens, obras em geral apocryphas
+e mediocres. Grassavam, com tenacidade talvez
+excessiva, as Josephas d'Obidos e os Morgados
+de Setubal, mas entre os retratos do seculo
+passado, encontravam-se alguns preciosos, como
+os de Pelegrini em casa dos viscondes de Anadia,
+como os pintados por Madame Guiard, por G&eacute;rard
+e por Therbouch&eacute;, em casa do visconde de
+<span class="pagenum">[91]</span>
+Sobral. Entre os quadros de devo&ccedil;&atilde;o destacavam-se
+frequentes obras primas nacionaes, do
+seculo XVI, referidas &aacute; vida da Virgem Maria, &aacute;
+lenda de Santa Ursula, aos agiologios de alguns
+santos portuguezes, como Verissimo, Maxima e
+Julia.
+<br />
+
+<br />
+
+Nos sot&atilde;os d'essas antigas casas havia
+accumula&ccedil;&otilde;es
+seculares de moveis inutilisados, de miudezas
+rejeitadas e esquecidas, com as quaes se sepultariam
+documentos inapreciaveis para a historia
+da nossa influencia na evolu&ccedil;&atilde;o europeia das
+artes sumptuarias: cadeiras aluidas e canap&eacute;s
+desconjuntados,
+desusados manicordios, velhos cravos
+de char&atilde;o, abandonadas espinetas, em cujo
+teclado amarellecido se teriam dedilhado as primeiras
+composi&ccedil;&otilde;es de Palestrina e de Cimarosa;
+antigos arreios de tiro e de sella, braseiras, perfumadores,
+lanternas e candieiros de cobre, velhos
+palmitos contrafeitos de conchas e de pennas, mont&otilde;es
+de manuscriptos, mont&otilde;es de gravuras, dentes
+de elephante, ferrugentas clavinas de pederneira;
+e, entre feixes de cacetes e de chibatas de
+marmelleiro, talvez, desarticulado e roto, algum
+<span class="pagenum">[92]</span>
+d'esses chapeus de sol, que n&oacute;s fomos os primeiros
+que fabric&aacute;mos e que introduzimos na Europa,
+ou algum d'esses primitivos leques, em quarto de
+circulo, que os companheiros de Fern&atilde;o Mendes
+Pinto trouxeram da China, com os primeiros apparelhos
+de ch&aacute;, com os primeiros vasos de porcellana,
+com as primeiras caixas de sinaes e pastilhas,
+doando a Roma e a Floren&ccedil;a, a Paris e a
+Londres todos os principaes attributos e os themas
+fundamentaes de toda a arte da casa e de
+toda a elegancia feminina da civilisa&ccedil;&atilde;o moderna.
+<br />
+
+<br />
+
+E tudo isso desappareceu, ou se est&aacute; evolando,
+com o successivo desmanchar de todas as velhas
+casas, n'um saudoso e doce perfume de camphora,
+de mofo, de alfazema e de bejoim, errante no ar
+dos casar&otilde;es despejados.
+<br />
+
+<br />
+
+Est&atilde;o nas bibliothecas extrangeiras, em Fran&ccedil;a
+e na Inglaterra, as mais preciosas illuminuras dos
+nossos codices e das nossas arvores genealogicas.
+<br />
+
+<br />
+
+Das encantadoras figurinhas dos presepios de
+Faustino Jos&eacute; Rodrigues, de Antonio Ferreira, de
+Machado de Castro, j&aacute; n&atilde;o ha intacta
+sen&atilde;o a
+collec&ccedil;&atilde;o da S&eacute;.
+Destro&ccedil;aram-se as da Madre de
+<span class="pagenum">[93]</span>
+Deus, do Cora&ccedil;&atilde;o de Jesus e do marquez de Borba
+em Santa Martha.
+<br />
+
+<br />
+
+O que ainda persiste da obra t&atilde;o curiosa e t&atilde;o
+caracteristica dos barristas de Alcoba&ccedil;a est&aacute; ao
+desamparo no abandono d'aquelle incomparavel
+monumento.
+<br />
+
+<br />
+
+Lan&ccedil;as, espadas, adagas, elmos de todas as
+f&oacute;rmas&#8213;almafres,
+capellinas, bacinetes, barbudas e
+morri&otilde;es&#8213;, coura&ccedil;as, escarcellas, grevas,
+manoplas,
+escudos e rodellas, todas as pe&ccedil;as, emfim,
+da armadura dos nossos heroes da Africa e da
+India, desappareceram com as bal&ccedil;as, as sinas, os
+estandartes e as bandeiras das suas hostes.
+<br />
+
+<br />
+
+A espada de Vasco da Gama &eacute; hoje propriedade
+de um particular, que ha pouco tempo adquiriu
+por compra essa reliquia nacional.
+<br />
+
+<br />
+
+Uma espada e um capacete de torneio, que se
+diz terem pertencido ao Mestre de Aviz, pe&ccedil;as
+ferrugentas, sujas, sem estojo nem outro qualquer
+resguardo que as defenda da irreverencia do publico,
+est&atilde;o na Batalha &aacute; merc&ecirc; dos
+mo&ccedil;os, dos
+pedreiros e dos visitantes, que de chacota se adornam
+com essas armas, em galhofa carnavalesca.
+<span class="pagenum">[94]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Na cathedral de Toledo, na soberba capella dos
+Reis Novos, preciosamente edificada por Alonso
+de Covarrubias, em tempo de Carlos V e por
+disposi&ccedil;&atilde;o
+testamentaria de Henrique II de Trastamara,
+v&ecirc;-se uma armadura portugueza. Guardada
+por castelhanos, essa armadura suspende-se, d'entre
+os ornatos platerescos da capella, por cima do
+&oacute;rg&atilde;o, em todo o respeito devido a um
+troph&eacute;o
+sagrado. E um dos guardas da cathedral, explica
+ao publico, apontando essa reliquia:&#8213;&laquo;Aquella &eacute;
+a armadura do alferes portuguez Duarte de Almeida,
+o qual, batendo-se na batalha de Toro
+contra n&oacute;s outros, tendo tido decepadas as duas
+m&atilde;os, morreu &aacute;s lan&ccedil;adas, segurando
+nos dentes
+a bandeira do seu rei.&raquo; E em frente do arnez,
+que vestiu o corpo sanguento e exanime de um
+inimigo, Castella inclina-se reverente e commovida,
+fazendo-nos corar, perante a grandeza de
+tal exemplo, da lenda grosseira em que envolvemos
+a p&aacute; da padeira Brites&#8213;<em>Quantos vivos
+rapuit
+omnes esbarrigavit</em>,&#8213;a qual p&aacute; uma esperta
+e linda creada de Aljubarrota faz o favor de ir
+buscar, e de tirar de dentro de um saco, para a
+<span class="pagenum">[95]</span>
+mostrar n'um patamar de escada aos viajantes
+que para esse fim lhe v&atilde;o bater &aacute; porta.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o est&aacute; feita nem estudada a historia dos nossos
+vidros, dos nossos esmaltes, da iconographia
+da nossa habita&ccedil;&atilde;o, e do nosso trage.
+<br />
+
+<br />
+
+Uma das obras primas da nossa joalheria, a
+propria custodia de Belem, lavrada por Gil Vicente,
+o famoso ourives, tio do poeta, acha-se desfigurada
+nas suas dimens&otilde;es primitivas pela
+interpolla&ccedil;&atilde;o
+de um novo hostiario e de duas pilastras,
+que j&aacute; n&atilde;o s&atilde;o do primeiro ouro das
+conquistas,
+mas de simples prata dourada.
+<br />
+
+<br />
+
+Depois dos t&atilde;o numerosos e t&atilde;o grosseiros erros
+a que tem dado origem a investiga&ccedil;&atilde;o da
+identidade
+de Gr&atilde;o Vasco, a historia, a
+classifica&ccedil;&atilde;o e
+a attribui&ccedil;&atilde;o da nossa incomparavel pintura do
+seculo XVI, encontra-se ainda por fazer.
+<br />
+
+<br />
+
+A restaura&ccedil;&atilde;o dos antigos quadros est&aacute;
+constituindo
+na historia da nossa arte uma catastrophe
+ainda mais destruidora que a da restaura&ccedil;&atilde;o da
+nossa architectura.
+<br />
+
+<br />
+
+Alguns annos mais sobre o systema devastador
+que se est&aacute; seguindo, e ninguem poder&aacute; reconhecer
+<span class="pagenum">[96]</span>
+nas taboas da nossa grande &eacute;poca uma s&oacute; pincelada
+dos admiraveis discipulos e dos emulos que
+tiveram em Portugal os Van Eik, os Memling, os
+Gerard David, os Van der Weiden, os Quinten
+Massys ou os Dierik Bouts.
+<br />
+
+<br />
+
+N'essa prodigiosa pintura nacional, em que tivemos
+por mestres os flamengos, acha-se todavia
+registrada a historia de toda a vida portugueza
+desde o meiado do seculo XV at&eacute; o fim do
+seculo XVI, isto &eacute;, durante o periodo do nosso
+maior brilho e da nossa maior riqueza, no apogeu
+da nossa gloria. S&atilde;o raras as puras
+composi&ccedil;&otilde;es
+historicas e raros os retratos d'esta &eacute;poca. Os
+grandes feitos da navega&ccedil;&atilde;o e da guerra
+celebravam-se
+de preferencia nas tape&ccedil;arias, que se perderam,
+e constituiam o principal adorno d'arte
+dos pa&ccedil;os dos reis e dos palacios dos nobres. Na
+pintura religiosa, por&eacute;m, e nos quadros votivos,
+conservados nas egrejas e nos conventos, as figuras
+do seculo misturam-se em brilhante anachronismo
+&aacute;s figuras sagradas, e muitas authenticas
+physionomias se accusam energicamente nos pomposos
+cortejos que envolvem as scenas biblicas. A
+<span class="pagenum">[97]</span>
+memoria do que fomos est&aacute; ahi, por n&oacute;s mesmos
+consagrada, com o maior esplendor a que chegou
+o nosso genio artistico, nas taboas dos paineis, no
+pergaminho das biblias e dos devocionarios portuguezes.
+Ahi est&atilde;o os reis, as rainhas, os sacerdotes,
+os guerreiros e os letrados portuguezes do cyclo
+da renascen&ccedil;a. S&atilde;o essas as caracteristicas
+figuras
+dos nossos av&oacute;s: as faces cheias, a pelle tostada,
+a carne rija, os olhos rasgados, as boccas imperativas.
+A essas nobres e delicadas cabe&ccedil;as femininas
+serviram de modelo as mais lindas mulheres
+da Lusitania, de olhos de amendoa, malicioso olhar
+avelludado, obliquo e enygmatico, sobrancelhas
+longas alteando nas fontes, rostos ovaes, boccas
+quentes e vermelhas, queixo carnudo vincado na
+base, testa arredondada e lisa, cabello espesso e fino
+apartado ao meio em duas curvas de bambolim,
+e uma gesticula&ccedil;&atilde;o leve, sinuosa e ondulante.
+Teriamos
+que interrogar longamente, laboriosamente,
+esses venerandos paineis para apprender tantas
+coisas que ignoramos da physionomia do nosso
+passado, o trage, as armas, as joias, a mobilia,
+os utensilios da casa e os estados do espirito.
+<span class="pagenum">[98]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+O estudo completo d'esses quadros constituiria
+a mais importante, a mais bella obra da nossa
+historiographia.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>A patria portugueza segundo os documentos da
+pintura nacional nos seculos XV e XVI</em>, poderia ser
+o titulo d'esse incomparavel livro, em que collaborariam
+todas as aptid&otilde;es intellectuaes de que
+disp&otilde;e o paiz, por meio de successivas monographias,
+relativas a cada ramo do saber e comprehendendo
+todos os pontos de vista em que pode
+ser considerado o quadro:
+<br />
+
+<br />
+
+1.&ordm; <em>Os aspectos da paizagem</em>, os
+caracteres
+da <em>flora</em> e da
+<em>fauna</em> portugueza, que n&oacute;s
+t&atilde;o
+opulentamente enriquecemos, pelo commercio
+das conquistas e dos descobrimentos; no tempo
+em que Lisboa era o primeiro jardim de
+acclimata&ccedil;&atilde;o,
+o primeiro jardim zoologico e o primeiro
+mercado da Europa, pela introduc&ccedil;&atilde;o do
+ch&aacute;, do caf&eacute;, do assucar, do algod&atilde;o,
+da pimenta,
+do gengibre do Malabar, da canella de
+Ceyl&atilde;o, do cravo das Molucas, do sandalo de
+Timor, das teccas de Cochim, do bejoim do
+Achem, do pau de Solor, do anil de Cambaya,
+<span class="pagenum">[99]</span>
+da on&ccedil;a, do elephante, do rhinoceronte, do cavallo
+arabe.
+<br />
+
+<br />
+
+2.&ordm; <em>O mobiliario</em>, cuja
+fabrica&ccedil;&atilde;o t&atilde;o fecundamente
+desenvolvemos por meio de officinas estabelecidas
+em Lisboa por artifices indianos, e estabelecidas
+na India por artifices portuguezes, sob
+a administra&ccedil;&atilde;o de Affonso de Albuquerque.
+<br />
+
+<br />
+
+3.&ordm; <em>A indumentaria</em>, comprehendendo,
+al&eacute;m da
+historia do <em>traje</em>, a dos
+<em>tecidos</em>, a dos
+<em>bordados</em> e a
+das <em>rendas</em>, industrias procedentes
+da China, da
+Persia, de Benguella, t&atilde;o profundamente influenciadas
+pelo nosso contacto nas suas origens, t&atilde;o
+especialmente desenvolvidas no Reino, pelo lav&ocirc;r
+do pa&ccedil;o, onde trabalhavam ao bastidor e &aacute; agulha
+as mais pacientes e subtis
+<em>lavrandeiras</em> mandadas
+&aacute; rainha pelos capit&atilde;es da India.
+<br />
+
+<br />
+
+4.&ordm; <em>As armas</em>, de guerra, de torneio
+e de c&ocirc;rte.
+<br />
+
+<br />
+
+5.&ordm; A <em>ourivesaria</em> e a
+<em>joalharia</em>, abrangendo a
+analyse das alfaias religiosas, lampadas, tocheiros,
+relicarios, thuribulos, retabulos, a t&atilde;o curiosa
+evolu&ccedil;&atilde;o
+em Portugal da f&oacute;rma e do ornato dos calices,
+das custodias e das cruzes; e na ourivesaria
+profana as innumeraveis pe&ccedil;as em ouro ou prata
+<span class="pagenum">[100]</span>
+da baixella e da joalharia portugueza da Renascen&ccedil;a,
+como escudellas de faldra e de orelhas, salseiros,
+oveiros, vinagreiras, almofias, tumadeiras,
+almaraxas, escalfadores, confeiteiras, perfumadores,
+esquentadores, brazeiros, pomas-candis, alcaforeiros,
+taxos de perfumar luvas, copas, ta&ccedil;as,
+gomis, bacias d'agua &aacute;s m&atilde;os, ma&ccedil;as,
+chaparias
+de gualdrapa, andilhas, estribos, taboas de cavalgar,
+guarni&ccedil;&otilde;es de cavallo, com rosas, sostinentes
+e copos; cofrinhos, arrecadas, firmaes, pontas de
+ouro, brochas de livro, cadeias, guarni&ccedil;&otilde;es de
+coifa, tran&ccedil;adeiras, crochetes, cintas, tiras de
+cabe&ccedil;a,
+tiratestas, dormideiras de ouro para volantes,
+e as contas variadissimas de filigrana mourisca,
+de ambar das Maldivas, de almiscar da
+China, de rubis do Pegu, de diamantes de Narsinga,
+de perolas de Kalckar.
+<br />
+
+<br />
+
+6.&ordm; <em>As
+embarca&ccedil;&otilde;es</em>&#8213;gale&otilde;es,
+naus, caravellas,
+bergantins, fustas, toda essa portentosa
+collec&ccedil;&atilde;o
+dos nossos barcos de guerra e dos t&atilde;o variados
+typos empregados na cabotagem e na pesca, testemunhos
+sobreviventes ainda hoje do nosso genio
+maritimo e das suggest&otilde;es do mais remoto
+<span class="pagenum">[101]</span>
+trato do oceano, como se demonstra na forma
+dos saveiros, que trouxemos do Bosforo, e na da
+muleta do Seixal, que &eacute; o navio grego do tempo
+de Herodoto.
+<br />
+
+<br />
+
+7.&ordm; <em>A olaria e a cestaria popular</em>,
+em que t&atilde;o atticamente
+se affirma o hereditario engenho artistico
+da nossa ra&ccedil;a, e cujos productos tanto se compraziam
+em reproduzir os nossos pintores.
+<br />
+
+<br />
+
+8.&ordm; Emfim: <em>A psychologia das
+figuras</em> pela physionomia,
+pelo gesto, pelo sorriso, pelo olhar; os
+usos e os costumes; os temperamentos predominantes;
+a moda, o toucado; o corte do cabello, o
+talho da barba, etc.
+<br />
+
+<br />
+
+Da pintura portugueza, que constitue a mais importante
+parte da riqueza artistica da na&ccedil;&atilde;o,
+n&atilde;o
+ha por&eacute;m catalogo, nem inventario, nem rol. Nos
+nossos depositos de antigos quadros, em Lisboa,
+em Coimbra, em Vizeu, em Thomar, em Lamego,
+em Evora, em Setubal, o povo portuguez passa
+indifferente, abstrahido, expatriado, sem guia que
+o condusa &aacute;s fontes da tradi&ccedil;&atilde;o e da
+nacionalidade,
+em que cada um de n&oacute;s tem a mais restricta
+e a mais instante obriga&ccedil;&atilde;o de ir retemperar e
+fortalecer
+<span class="pagenum">[102]</span>
+de portuguezismo o seu sangue, dessorado
+pela mais falsa educa&ccedil;&atilde;o a que se pode condemnar
+um paiz.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ha collec&ccedil;&atilde;o publica,
+chronologicamente
+completa, dos nossos incomparaveis azulejos. Esta
+industria artistica &eacute; no emtanto d'aquellas de que
+mais legitimamente nos podemos gloriar. At&eacute; o
+seculo XVII o azulejador portuguez acompanhou a
+evolu&ccedil;&atilde;o peninsular, de influencia mudegar e de
+influencia italiana. Desde o seculo XVII adoptamos
+o gosto hollandez, e no seculo XVIII os nossos artistas
+desenvolvem no azulejo azul e branco, em
+vastas composi&ccedil;&otilde;es historicas e de genero,
+paizagens,
+merendas, ca&ccedil;adas, allegorias religiosas e
+lendas monasticas, enquadradas em bellas grinaldas
+polychromicas, o mais seguro e adestrado talento
+de composi&ccedil;&atilde;o historica e decorativa.
+<br />
+
+<br />
+
+Raro ser&aacute; o anno em que de Portugal n&atilde;o tenha
+desapparecido um quadro inestimavel ou um
+codice precioso, sem qualquer apparencia de
+coher&ccedil;&atilde;o,
+sem o minimo reparo, ao menos, do poder
+executivo, das c&ocirc;rtes ou da imprensa. &Aacute; hora
+a que escrevo estas linhas me dizem que est&aacute; &aacute;
+<span class="pagenum">[103]</span>
+venda ou vendido em Londres um livro de horas
+com que o rei D. Manoel brind&aacute;ra um fidalgo da
+sua c&ocirc;rte, ordenando-lhe que vinculasse esse manuscripto,
+que era uma gloria da na&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o &eacute;, em rigor da verdade, muito mais risonho
+que o destino das obras d'arte que saem para
+o estrangeiro o destino das que ficam no paiz.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; bem conhecida a historia do primeiro dos
+nossos museus industriaes, fundado em Lisboa
+por Fradesso da Silveira. Esse museu extinguiu-se
+suavemente, a pouco e pouco, at&eacute; chegar a
+n&atilde;o existir do deposito primitivo sen&atilde;o unica e
+exclusivamente as prateleiras em que elle havia
+sido collocado.
+<br />
+
+<br />
+
+O rico museu das antiguidades do Algarve, recolhidas
+ha dezeseis annos por Estacio da Veiga,
+ainda hoje se n&atilde;o acha instalado.
+<br />
+
+<br />
+
+Da inestimavel collec&ccedil;&atilde;o das antigas
+pe&ccedil;as de
+lou&ccedil;a e de obras de barro, que haviam pertencido
+ao convento da Madre de Deus, e que o architecto
+Nepomuceno recolhera em uma das casas d'aquelle
+edificio, desappareceu tudo.
+<br />
+
+<br />
+
+T&atilde;o vasta &eacute; a nossa riqueza artistica e
+t&atilde;o profundo
+<span class="pagenum">[104]</span>
+o desleixo de a escripturar, que s&atilde;o quasi
+t&atilde;o frequentes as surpresas no que se encontra
+como no que se perde.
+<br />
+
+<br />
+
+Como exemplo direi que era assentado n&atilde;o haver
+em Portugal vestigio algum da influencia immediata
+de Van Eik na pintura portugueza, e n&atilde;o
+existir do infante D. Henrique, o Navegador, mais
+que um retrato, na miniatura annexa ao bello
+manuscripto de Azurara, presentemente propriedade
+da <em>Biblioth&egrave;que
+Nationale</em>, em Paris. &Eacute; entretanto
+nosso, e existe em Portugal, um retrato egualmente
+contemporaneo e authentico, em tamanho
+natural, magistralmente pintado a oleo sobre madeira.
+Esse retrato precioso, inteiramente desconhecido
+do publico, eu mesmo o vi no dia 19 do
+mez de julho de 1895. Faz parte de um grupo de
+varios personagens, &eacute; da segunda metade do seculo
+xv, e pertence a um jogo de quatro paineis, de
+dimens&otilde;es eguaes, relacionados entre si por analogia
+de data e de assumpto. Est&aacute; bem conservado,
+e acha-se, com os tres da serie a que pertence, no
+corredor do claustro de cima no edificio de S. Vicente
+de F&oacute;ra, no v&atilde;o de uma janella, junto dos
+<span class="pagenum"><a name="p105" id="p105">[105]</a></span>
+aposentos habitados n'essa occasi&atilde;o por s. ex.<sup>a</sup>
+revd.<sup>ma</sup> o sr. <a href="#e4">arcebispo</a>
+de Mitylene.
+<br />
+
+<br />
+
+O illustre escriptor inglez sr. Prestage mandou
+fazer d'esse retrato uma reproduc&ccedil;&atilde;o
+photographica,
+destinada a illustrar a nova edi&ccedil;&atilde;o ingleza
+da <em>Chronica da Guin&eacute;</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Na linda egreja do convento de Santa Iria, que
+o fallecido architecto Nepomuceno comprou por
+300$000 r&eacute;is, e se achava encorporada no mosteiro
+fundado por D. Maria de Queiroz, viuva de
+Pedro Vaz de Almeida, veador da fazenda do infante
+D. Henrique, ha um retabulo em baixo relevo
+de bella pedra d'An&ccedil;an, que &eacute; simplesmente,
+pelo desenho, pelo stylo, pela m&atilde;o d'obra e pelo
+estado de conserva&ccedil;&atilde;o em que se acha, uma das
+obras capitaes da esculptura da Renascen&ccedil;a em
+Portugal. Comp&otilde;e-se de dezesete figuras. Junto
+da cruz, de que pende a mais ideal figura do Redemptor,
+est&aacute; prostrada Santa Maria Magdalena.
+Acompanham-a a Senhora da Soledade, as tres
+Marias, Nicodemus, Jos&eacute; de Arimathea e S. Jo&atilde;o
+Evangelista. No primeiro plano, dois soldados a
+cavallo, em magnifico trage do seculo XVI. Enquadra
+<span class="pagenum">[106]</span>
+a composi&ccedil;&atilde;o um bello portico, de columnas
+e tabellas preciosas, chancellado pelo braz&atilde;o dos
+Valles. S&oacute; outro Calvario, o do claustro do Silencio,
+em Coimbra, obra, por certo, do primeiro dos
+esculptores de Santa Cruz, hoje profundamente
+cariada e quasi delida, se poderia comparar, de
+par com o pulpito da mesma egreja, &aacute; esquecida
+esculptura da abandonada egreja de Thomar.
+<br />
+
+<br />
+
+Em egual descaso e esquecimento, ignorado da
+grande maioria dos viajantes e dos estudiosos, o
+monumental e sumptuosissimo panth&eacute;on dos Silvas,
+da preclara familia de D. Ruy Gomes, em S.
+Marcos, cerca de Coimbra. O bello portal alpendrado
+d'esta egreja tem a data de 1510. Os cinco
+sarcophagos de que se comp&otilde;e o jazigo verdadeiramente
+regio dos Silvas, assim como o retabulo
+em pedra no altar m&oacute;r da egreja constituem uma
+preciosidade esculptural de valor incomparavel.
+Este admiravel repositorio da nossa esculptura
+quinhentista foi ha poucos annos vendido, com a
+cerca adjunta do extincto mosteiro, pela quantia
+de seis contos de r&eacute;is.
+<br />
+
+<br />
+
+Os preciosos quadros da pintura portugueza do
+<span class="pagenum">[107]</span>
+seculo XVI, completamente desarrolados, despercebidos
+dos compradores extrangeiros, e ainda hoje
+dispersos pelo paiz, s&atilde;o em numero talvez superior
+aos dos quadros de mesma &eacute;poca recolhidos
+pelo estado depois da aboli&ccedil;&atilde;o das ordens
+religiosas.
+O illustre critico sr. Joaquim de Vasconcellos
+tem, s&oacute; &aacute; sua parte, noticia de n&atilde;o
+menos de cem
+obras desconhecidas do publico. Das que existem
+no Museu Nacional de Lisboa, na arrecada&ccedil;&atilde;o da
+Academia das Bellas Artes e nos demais depositos
+do paiz, n&atilde;o ha uma s&oacute; photographia registrada
+pelo Estado, &aacute; semelhan&ccedil;a do que se faz em todos
+os museus do mundo.
+<br />
+
+<br />
+
+Por occasi&atilde;o da ultima exposi&ccedil;&atilde;o,
+t&atilde;o interessante,
+realisada nas salas devolutas, das Janellas
+Verdes, para celebrar o Centenario de Santo Antonio,
+a direc&ccedil;&atilde;o das Bellas Artes n&atilde;o
+respondeu
+ao pedido da modesta quantia de 50$000 r&eacute;is
+que a commiss&atilde;o executiva da mesma
+exposi&ccedil;&atilde;o
+lhe dirigiu para que se publicasse o respectivo
+catalogo, que ficou em manuscripto na m&atilde;o do
+redactor.
+<br />
+
+<br />
+
+Por essa mesma occasi&atilde;o os peritissimos e benemeritos
+<span class="pagenum">[108]</span>
+photographos portuenses Emilio Biel &amp;
+Companhia, aos quaes t&atilde;o valiosos e desinteressados
+servi&ccedil;os devem as artes portuguezas, dirigiram
+ao governo uma proposta para reproduzir
+pela photographia,&#8213;sem subsidio algum do thesouro&#8213;todos
+os objectos expostos no palacio das
+Janellas Verdes. Esta proposta ficou egualmente
+sem despacho.
+<br />
+
+<br />
+
+Inutil me parece alludir ainda &aacute; dispers&atilde;o das
+mais ricas pe&ccedil;as do mobiliario portuguez do seculo
+XVI e d'essa segunda renascen&ccedil;a artistica e
+industrial do nosso seculo XVIII.
+<br />
+
+<br />
+
+Bufetes, arcas, armarios, contadores, tape&ccedil;arias
+da Persia, bordados e rendas do reino, couros lavrados
+e guadamecins, azulejos, porcellanas antigas
+da India, do Jap&atilde;o e da China, credencias,
+leitos torcidos ou empennachados, canap&eacute;s e cadeiras
+curvilineas ao gosto da Pompadour de Odivellas,
+espelhos afestoados, de toucador e de sacristia,
+damascos da Real Fabrica das sedas, lou&ccedil;as
+artisticas do Rato, da Bica do Sapato, do
+Porto, de Vianna, do Cavaquinho, da Panasqueira,
+de Darque, das Caldas, de Estremoz, de Coimbra,
+<span class="pagenum">[109]</span>
+tudo o bric-&agrave;-brac extrangreiro nos leva em
+cada anno, com uma cubi&ccedil;a e uma rapacidade
+que bem melancholicamente lembra a dos enviados
+de Verres no saque da Sicilia, do qual dizia
+Cicero que s&oacute; ficou da arte o que a ganancia n&atilde;o
+quiz. Ainda ha Verres, como no tempo do velho
+mestre romano, mas j&aacute; n&atilde;o ha verrinas.
+<br />
+
+<br />
+
+D'esta desorganisa&ccedil;&atilde;o geral de toda a policia
+da arte resulta mais ou menos lentamente, a quebra
+da tradi&ccedil;&atilde;o esthetica nacional, que &eacute;
+a seiva
+de toda a produc&ccedil;&atilde;o artistica.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; infecunda&ccedil;&atilde;o do individuo pelo
+espirito da
+ra&ccedil;a corresponde o desfallecimento do poder creativo,
+a inercia da intelligencia, a esterilidade do
+estudo, a degenera&ccedil;&atilde;o da phantasia, o
+abandalhamento
+do gosto, a atrophia do proprio caracter, e,
+em ultimo resultado da decadencia geral, a
+desnacionalisa&ccedil;&atilde;o
+pelintra de todo um povo.
+<br />
+
+<br />
+
+Com o rebaixamento da arte rebaixa-se tudo,
+porque no mundo &eacute; producto da arte tudo o que
+n&atilde;o &eacute; unicamente obra da natureza.
+<br />
+
+<br />
+
+O homem degenera, porque, sempre e em toda
+a parte, o homem toma fatalmente a configura&ccedil;&atilde;o
+<span class="pagenum">[110]</span>
+das coisas que o rodeiam e, para assim dizer, lhe
+enformam a personalidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Dissolvido o culto artistico pela negligencia ou
+pela inepcia de abastardadas classes dirigentes, os
+fieis debandam por n&atilde;o haver egreja que os reuna,
+e &eacute; j&aacute; evidente esta enorme catastrophe: que na
+arte de Portugal faltam cora&ccedil;&otilde;es portuguezes.
+<br />
+
+<br />
+
+Fere-nos j&aacute; esse phenomeno consternador em
+todos os aspectos da vida intellectual.
+<br />
+
+<br />
+
+Em resultado de n&atilde;o termos uma historia geral
+da arte portugueza, devidamente systematisada
+e integralmente documentada em cada um dos
+seus capitulos, vemos grassar, n&atilde;o s&oacute; entre o
+vulgo
+mas entre pessoas de saber, incumbidas de guiar
+e de reger a opini&atilde;o, o erro criminoso, profundamente
+desmoralisante, de que somos um povo
+inesthetico, incapaz de concep&ccedil;&otilde;es artisticas
+originaes.
+<br />
+
+<br />
+
+A juventude litteraria, dotada de uma consideravel
+for&ccedil;a de applica&ccedil;&atilde;o e de talento,
+traz-nos
+uma poetica exotica, de climas nevoentos, anti-meridional,
+e vem falando uma lingua secreta, cabalistica,
+interessantemente engenhosa, incomprehensivel
+<span class="pagenum">[111]</span>
+para o povo e para todos os que n&atilde;o estiverem
+iniciados na morphologia espiritica das
+novas seitas.
+<br />
+
+<br />
+
+Em toda a historiographia contemporanea se
+nota uma glacial frieza de critica, uma anemica
+pallidez de express&atilde;o, um geral entono de
+apagada tristeza, em que bem se demonstra que
+n&atilde;o circula o sangue vermelho da ra&ccedil;a, nem se
+retrata
+do vivo o genio do nosso povo, meigo, docil,
+de apparencia branda, mas ainda hoje eminentemente
+sociavel, amando a grande alegria estridente
+das feiras, das tardes de touros, das romarias
+dos seus santos populares, conservando nas
+infimas camadas sociaes um residuo trovadoresco,
+de paladino e de menestrel, susceptivel ainda das
+paix&otilde;es mais profundas, todo de
+improvisa&ccedil;&atilde;o e
+de repentismo, capaz das coisas mais imprevistamente
+grandes, poetico, aventuroso e destemido.
+<br />
+
+<br />
+
+Na poesia, assim como na pintura e na musica,
+n&atilde;o ha uma escola portugueza, porque, na falta
+de la&ccedil;o social que congregue os nossos artistas,
+sem elementos coordenados de estudo, sem modelos
+patentes, sem li&ccedil;&atilde;o commum, n&atilde;o ha
+entre
+<span class="pagenum">[112]</span>
+elles mutuamente, nem entre elles e o povo de
+que derivam, communh&atilde;o alguma de ideal ou de
+sentimento.
+<br />
+
+<br />
+
+Por egual raz&atilde;o n&atilde;o teem caracter nacional,
+sendo portanto destituidas de originalidade, e
+como taes inaptas para a luta da concorrencia
+mercantil, todas as nossas industrias.
+<br />
+
+<br />
+
+A decapita&ccedil;&atilde;o official da nossa
+educa&ccedil;&atilde;o artistica
+manifesta-se ainda de mais perto, acotovelando-nos
+e contundindo-nos por toda a parte, no aspecto
+do povo, na apparencia das casas, na esthetica
+das cidades, na apparencia dos predios, na
+decora&ccedil;&atilde;o das pra&ccedil;as, das avenidas,
+dos cemiterios,
+dos jardins publicos, das lojas, das reparti&ccedil;&otilde;es
+do estado e das habita&ccedil;&otilde;es particulares.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Lisboa, por exemplo, onde n&atilde;o ha uma
+sala de concertos populares, nem vem tocar para
+a rua a musica dos regimentos, onde no theatro
+de Dona Maria se n&atilde;o representa Gil Vicente
+nem Garrett, onde no theatro de S. Carlos se n&atilde;o
+canta Marcos Portugal, onde n&atilde;o ha um museu
+de arte decorativa, nem um simples mostruario da
+nossa produc&ccedil;&atilde;o industrial, nem um museu de
+pintura,
+<span class="pagenum">[113]</span>
+coordenado, catalogado e etiquetado de maneira
+que communique ao publico, assim como
+em todas as outras capitaes da Europa, a li&ccedil;&atilde;o
+que um museu cont&eacute;m, ha pelo contrario escaparates
+de apparatosos armazens, que s&atilde;o para
+quem anda pelas ruas o contagioso exemplo da
+mais corrompida pervers&atilde;o, do mais provocante e
+pomposo relismo a que pode chegar o desvairamento
+do gosto. Mobilias em tal maneira degeneradas
+que n'ellas desappareceu de todo o material
+de construc&ccedil;&atilde;o. A almofada que em toda a
+antiguidade
+e em toda a edade m&eacute;dia era um accessorio
+movel, e s&oacute; no seculo XVI se principiou a
+fixar com pregos ao banco ou &aacute; cadeira, invade
+bo&ccedil;almente todo o movel, armado em ripes de
+pinho, como uma e&ccedil;a de defunto, embrulhado em
+pelucia, que nos esburaca os olhos pela insolente
+m&aacute; crea&ccedil;&atilde;o da c&ocirc;r. E
+horripilantes lindices de toucador,
+de escriptorio ou de sala, em que tudo parece
+apostado em ser fingido, desde a etrusca
+ondula&ccedil;&atilde;o
+do contorno at&eacute; o material empregado,
+porque todas as linhas s&atilde;o aleijadas, a prata &eacute;
+zinco, o marfim &eacute; gesso, o char&atilde;o &eacute; de
+papel e o
+<span class="pagenum">[114]</span>
+marmore esculpido &eacute; de sab&atilde;o. E tudo isso se
+compra e se leva para casa, para infectar a familia,
+para corromper o lar e para escrofulisar moralmente
+os meninos, desconjuntando-os de dignidade
+domestica, inoculando-os de pelintrice e
+de canalhismo de casta para a vida toda.
+<br />
+
+<br />
+
+Ha uma avenida monumental em que, ao longo
+dos passeios destinados ao transito do publico,
+em vez da ornamenta&ccedil;&atilde;o da flora regional, em
+vez dos longos massi&ccedil;os de castanheiros, de laranjeiras,
+de palmeiras e de bananeiras, como
+em Barcelona e em Sevilha, esverdinham e apodrecem
+dois miseros e infectos arroios artificiaes
+no fundo de flexuosas ravinas, gretando sinuosamente
+o solo, como canos dissimuladamente
+abertos em fosquinhas para trambulh&otilde;es do viandante.
+<br />
+
+<br />
+
+Nos predios a prodigalidade vesanica das janellas
+percorre a superficie das fachadas, havendo
+frontarias que parecem construidas unicamente
+com hombreiras contiguas e sobrepostas; e, ao
+passo que em cidades amoraveis e artisticas se
+criam premios e se abrem concursos de janellas
+<span class="pagenum">[115]</span>
+floridas, em Lisboa &eacute; prohibido ornamentar de flores
+o frontespicio das casas.
+<br />
+
+<br />
+
+Os lindos <em>empedrados</em> e
+<em>embrechados</em> de
+tradi&ccedil;&atilde;o
+portugueza caem em desuso, substituidos por cimentos
+incompativeis com a ac&ccedil;&atilde;o do nosso clima.
+<br />
+
+<br />
+
+O t&atilde;o commodo, t&atilde;o modico e t&atilde;o
+gracioso
+typo da nossa antiga casa de campo &eacute; substituido
+nas construc&ccedil;&otilde;es modernas pelas f&oacute;rmas
+de um
+exotismo composito, as mais delambidas, mais
+pretenciosas e mais chinfrins, hybrida confus&atilde;o
+allucinada do ch&acirc;let suisso, do cottage inglez, da
+fortaleza normanda, do minarete tartaro e da mesquita
+moira,&#8213;nodoa e vexame da paizagem portugueza
+nas redondezas de Lisboa. Em presen&ccedil;a
+de um t&atilde;o inverosimil scenario de magica, de operetta
+ou de revista do anno, ninguem, desajudado
+de outras indica&ccedil;&otilde;es, anedocticas e
+chorographicas,
+ser&aacute; capaz de adivinhar em que parte do mundo e
+entre que casta de gente se est&aacute; passando a pe&ccedil;a.
+Tal &eacute; a delirante epidemia de que est&atilde;o
+combalidos
+os constructores contemporaneos, que, para
+ter um indicio nacional da nossa tradi&ccedil;&atilde;o, entre
+as
+casas de campo ou de praia construidas em torno
+<span class="pagenum">[116]</span>
+de Lisboa nos ultimos vinte annos, temos de ir a
+Cascaes v&ecirc;r o typo, unico, da habita&ccedil;&atilde;o
+dos condes
+de Arnozo, t&atilde;o saudosamente semelhante &aacute;
+casa de nossos av&oacute;s, com o seu pequeno eirado
+sobre uma arcaria de meio ponto, a sua porta de
+alpendre n'um patamar de escada exterior, ao lado
+do retabulo em azulejo do santo padroeiro da familia,
+as janellas de peitos guarnecidas de rotulas
+entre cachorros de pedra, destinados &aacute;s varas do
+estendal, e servindo de misula aos vasos de craveiros
+e de mangericos, em frente do po&ccedil;o de roldana,
+no mais doce e tranquillo sorriso d'outr'ora.
+<br />
+
+<br />
+
+Nos mesmos letreiros das esquinas de ruas encontram-se
+denomina&ccedil;&otilde;es que esbofeteiam o pundonor
+patriotico, a cultura historica e a dignidade
+esthetica dos habitantes.
+<br />
+
+<br />
+
+No Bairro Alto, onde a nomenclatura das ruas
+t&atilde;o sympathicamente suggeria a lembran&ccedil;a bucolica
+da antiga fazenda suburbana, em que os jesuitas
+de S. Roque delinearam a nova cidade, como
+a rua da <em>Vinha</em>, a do
+<em>Moinho de Vento</em>, a do
+<em>Po&ccedil;o</em>,
+a do <em>Carvalho</em>, a da
+<em>Rosa</em>, a da
+<em>Atalaia</em>, ou os nomes
+dos officios que ahi primitivamente se arruaram,
+<span class="pagenum">[117]</span>
+como os <em>Calafates</em> e as
+<em>Gaveas</em>, apaga-se,
+como n'uma rasura de conta falsificada, esse lindo
+e piedoso vestigio da tradi&ccedil;&atilde;o lisboeta, para dar
+&aacute;s
+ruas nomes novos e incaracteristicos, de sujeitos
+que n'ellas moram ou se diz que por l&aacute; passaram.
+E com egual afouteza se dissolvem, n'um borr&atilde;o
+de brocha, sagrados disticos, ainda mais estreitamente
+vinculados &aacute; historia do povo e &aacute; historia
+da cidade, como o da Rainha Santa Isabel, como
+o dos Martyres de Marrocos.
+<br />
+
+<br />
+
+Os trages populares, alguns t&atilde;o pittorescos, t&atilde;o
+suggestivos e t&atilde;o bellos, como os das mulheres da
+Murtosa, da Maia, de Santa Martha e de Portuzello,
+como o dos boieiros do Ribatejo, dos pescadores
+de Ilhavo e da Povoa, e dos montanhezes
+do Alemtejo e do Algarve, degeneram e abastardam-se
+ridiculamente, porque n&atilde;o ha entre a gente
+culta quem preze esse trage, quem o honre e quem
+o entenda.
+<br />
+
+<br />
+
+Egualmente se desdenham e repudiam, por espirito
+de inconcebivel extrangeirismo, os productos
+primorosos de algumas das nossas industrias
+populares.
+<span class="pagenum">[118]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Nenhum outro povo matiza com mais harmonia
+de c&ocirc;r e mais gra&ccedil;a de risco esses tecidos
+dos teares ou dos bastidores caseiros, combinados
+com estopa, com linho, com l&atilde; ou com algod&atilde;o,
+de que se fazem os panos liteiros, as sirguilhas,
+as saias e os aventaes das mulheres de
+Vianna, e bem assim as colxas de linho bordadas
+a frouxo na Beira, e os tapetes chamados de Arrayolos.
+Nenhum outro povo sabe tornear na
+roda do oleiro com mais esbelteza e mais puro
+atticismo o pote ou a bilha de barro, a pucara, o
+gomil e o pichel, de Coimbra, do Prado, de Mafra,
+de Redondo, de Loul&eacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+Se ninguem mais artisticamente do que o portuguez
+sabe vestir a mulher, arrear o cavallo, engatar
+a mula, e moldar a vasilha, ninguem, t&atilde;o
+pouco, melhor do que elle emalha a rede e enastra
+o cesto.
+<br />
+
+<br />
+
+Dizem inglezes que metade da sua arte contemporanea
+se deve &aacute; iniciativa e &aacute; propaganda do
+grande critico nacional John Ruskin, que Tolsto&iuml;
+considera um dos maiores homens do seculo, e a
+quem Carlyle chamava o <em>ethereal
+Ruskin</em>. Este
+<span class="pagenum">[119]</span>
+glorioso campe&atilde;o da esthetica e da arte em todas
+as suas mais complexas e mais variadas
+manifesta&ccedil;&otilde;es
+n&atilde;o pode deixar de ser lembrado por todos
+os que se interessam em taes assumptos. Os
+seus numerosos livros sobre historia da arte, sobre
+a architectura, sobre a pintura, sobre as artes
+decorativas e as artes industriaes, os seus profundos
+estudos de <em>Turner e os antigos</em> e dos
+<em>Pintores
+modernos</em>, a sua triumphante campanha em favor
+dos monumentos historicos, das industrias ruraes,
+dos preraphaelitas, das paizagens inglezas, s&atilde;o
+um verdadeiro monumento litterario, e a bibliographia
+que se lhe refere constitue toda uma litteratura,
+famosa na Inglaterra sob o nome consagrado
+de <em>ruskineana</em>. Grande homem de
+ac&ccedil;&atilde;o,
+gloria dos da sua ra&ccedil;a, tomando por divisa
+<em>To day</em>,
+Ruskin n&atilde;o se emparedou, como a maioria dos
+criticos, na torre eburnea dos extases poeticos e
+das contempla&ccedil;&otilde;es expeculativas. Tendo consumido
+rapidamente mil contos de r&eacute;is da legitima
+paterna em subven&ccedil;&otilde;es das mais generosas empresas
+sociaes, em dadivas aos museus, em soccorro
+dos pobres, em funda&ccedil;&otilde;es de escolas e de
+<span class="pagenum">[120]</span>
+officinas, reconstituindo pela venda dos seus livros,
+(a trinta contos a edi&ccedil;&atilde;o) um rendimento de
+riquissimo proprietario, elle fez-se gratuitamente
+professor de desenho, industrial e operario. Organisou
+a casa editora das suas proprias obras, a
+<em>Ruskin House</em>, fundou a
+<em>Saint-George's Guild</em>, em
+Londres, a Sociedade Protectora dos Monumentos
+Architectonicos, e as sociedades de leitura de Manchester,
+de Glascow e de Liverpool; ensinou a
+Inglaterra a comprehender a obra de Turner; fundou
+o culto dos primitivos, introduzindo na <em>National
+Gallery</em> os preciosos quadros de Benozzo
+Gozzoli, de Perugino, de Botticelli, de todos os
+grandes predecessores de Raphael; e deu &aacute; arte
+todo um novo ideal e uma religi&atilde;o nova, creando
+uma pleiade brilhantissima de proselytos, de collaboradores
+e de discipulos, entre os quaes figuram
+Madox Brown, Rosseti, Collingwood, Millais,
+Morris, Thomaz Dean, Woodward, Munro, Hunt,
+Burne Jones, Hook e Brett, e Giacomo Boni, o
+actual conservador dos monumentos nacionaes da
+Italia. Foi elle emfim que deu a mais alta express&atilde;o
+&aacute; auctoridade esthetica em nossos tempos, impedindo,
+<span class="pagenum">[121]</span>
+em nome da arte, que um tra&ccedil;ado de caminho
+de ferro deturpasse a belleza de uma collina
+na paizagem ingleza, e levando uma commiss&atilde;o
+da Camara dos Lords a consultar uma commiss&atilde;o
+de artistas sobre se a passagem de uma
+linha ferrea n&atilde;o affectaria ruinosamente a parte
+de riqueza publica representada pela tranquilla e
+doce poesia de certo valle.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; por&eacute;m com um intuito especial,&#8213;a proposito
+das nossas t&atilde;o resistentes industrias tradicionaes
+e domesticas,&#8213;que eu invoco o nome
+glorioso de Ruskin.
+<br />
+
+<br />
+
+O trabalho rural da fia&ccedil;&atilde;o &aacute;
+m&atilde;o e da tecelagem
+no estreito e primitivo tear caseiro achava-se
+totalmente extincto na tradi&ccedil;&atilde;o ingleza. Ruskin,
+considerando os poderosos elementos de economia,
+de moralidade, de satisfa&ccedil;&atilde;o, de
+educa&ccedil;&atilde;o
+esthetica e de intima poesia, destruidos pela suppress&atilde;o
+d'essa antiga actividade artistica da familia
+no campo inglez, dedicou-se com um esfor&ccedil;o
+portentoso a fazer reviver em Langdale e em Keswick
+a extincta industria caseira dos panos de linho
+e dos panos de l&atilde; em pequenas manufacturas
+<span class="pagenum">[122]</span>
+domesticas, tendo por unico auxiliar da for&ccedil;a individual
+uma vela de moinho nos cabe&ccedil;os das
+collinas ou a corrente da agua &aacute; beira dos riachos.
+Elle mesmo d&aacute; o exemplo da nova
+organisa&ccedil;&atilde;o
+do trabalho na familia, construindo o seu
+famoso moinho de Laxey. Recomp&otilde;e-se uma antiga
+roda de fiar com as pe&ccedil;as desarticuladas e
+esquecidas de um d'esses abandonados apparelhos
+encontrados em casa de uma velha tecedeira.
+&Eacute; reconstruido um primitivo tear sobre o modelo
+florentino e medieval de um quadro de Giotto.
+Ruskin envolve esse novo movimento retrogrado
+do trabalho na propaganda mais activa e mais
+eloquente. A sua palavra calorosamente apaixonada,
+colorida e mordente, encontra em todo o
+Reino Unido um ecco extraordinario. As teias do
+novo linho caseiro, um tanto rugoso, um tanto irregular,
+cegado no campo, espadelado, assedado,
+fiado, c&oacute;rado e tecido pela mesma m&atilde;o de mulher,
+&aacute; porta ou &aacute; janella de uma cabana, ao ar
+dos campos, ao ramalhar das faias, ao canto das
+cotovias, denotando nos accidentes da factura,
+como n'uma obra d'arte, a caracteristica individualidade
+<span class="pagenum">[123]</span>
+do artifice, substituida &aacute; banal
+perfei&ccedil;&atilde;o
+estupida e antipathica do apparelho mechanico,
+desbanca rapidamente a obra da fia&ccedil;&atilde;o a
+vapor, cae em moda entre as pessoas de gosto
+aperfei&ccedil;oado, recebe a alta protec&ccedil;&atilde;o
+da princeza
+de Galles, torna-se de rigor em todos os enxovaes
+elegantes, e faz-se pagar mui remuneradoramente
+por pre&ccedil;os consideravelmente superiores ao dos
+productos da grande industria mechanica.
+<br />
+
+<br />
+
+Exito egual ao dos panos de linho na industria
+caseira dos lanificios na ilha de Man. &Eacute; conhecida
+n&atilde;o s&oacute; em toda a Inglaterra mas em toda a Europa
+a fama d'esses resistentes tecidos ruraes fabricados
+&aacute; m&atilde;o, de desenhos combinados na urdidura
+e na trama com as c&ocirc;res naturaes da l&atilde;,
+sem preparo algum chimico ou mechanico, de tintura
+ou de acabamento; e a mais cara de todas as
+fazendas de luxo para traje de trabalho, de ca&ccedil;a,
+de viagem, de equita&ccedil;&atilde;o, &eacute; o famoso
+<em>homespun</em> ou
+<em>Laxey homespun</em>, do nome da
+localidade em que
+se estabeleceu o primeiro moinho de Ruskin. &Eacute;
+a esta evolu&ccedil;&atilde;o das pequenas industrias ruraes,
+hombreando em valor remunerativo com as grandes
+<span class="pagenum">[124]</span>
+industrias, e n&atilde;o a destructiva
+absorp&ccedil;&atilde;o do
+trabalho da familia pelo trabalho das grandes empresas
+fabris que eu chamo
+<em>transforma&ccedil;&atilde;o de industrias
+caseiras em industrias de concorrencia</em>,&#8213;formula
+que geralmente se toma em sentido diverso
+d'aquelle que eu lhe ligo.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Portugal &eacute; certo que definham de dia para
+dia, e que successivamente se v&atilde;o extinguindo as
+nossas velhas industrias ruraes. Esmorece calamitosamente,
+por culpa da administra&ccedil;&atilde;o economica
+dos nossos governos, a industria delicadissima
+das obras de filigrana de ouro e de prata,
+ainda em nossos dias servida por numerosas familias
+ruraes dos districtos do Porto e de Braga.
+Morreu em Bragan&ccedil;a a industria da sericultura
+e a da fabrica&ccedil;&atilde;o do veludo. Acabou em
+Guimar&atilde;es,
+entre outras industrias interessantissimas, a
+da manufactura caseira das sedas e dos brocados.
+No Algarve talvez que j&aacute; hoje se n&atilde;o
+fa&ccedil;a um
+unico trabalho de pita. Tem diminuido consideravelmente
+o numero dos teares caseiros na Covilh&atilde;,
+na serra de Monchique, na serra da Estrella.
+Nas margens do Lima, por&eacute;m, entre Vianna
+<span class="pagenum">[125]</span>
+do Castello e Ponte de Lima, ha ainda algumas
+das mulheres mais lindas e das mais bem educadas
+de todas as portuguezas, que fiam e tecem
+em suas casas o linho, a l&atilde;, o algod&atilde;o, e se
+vestem
+completamente, da maneira mais elegante,
+com os tecidos mais consistentes e mais bellos,
+de sua fabrica&ccedil;&atilde;o exclusiva em todas as phases
+por que passa a materia prima, desde que &eacute; cegada
+no campo ou tosquiada no carneiro at&eacute; se
+converter em vestido. &Aacute; feira semanal de Vianna
+as raparigas d'essa regi&atilde;o trazem em lindas canastras,
+al&eacute;m dos ovos e dos frangos que criam, al&eacute;m
+da manteiga que fabricam, as teias de pano de linho,
+os cortes de saias de l&atilde; e de algod&atilde;o, as
+pe&ccedil;as
+de sirguilha, que tecem, e as rendas que fabricam
+a bilros ou &aacute; agulha. As de Villa Nova de
+Ourem fazem ainda fitas excellentes; e no mercado
+de Thomar vende-se em graciosos novellos
+da f&oacute;rma de casulos a melhor linha, branca ou
+preta, que se pode comprar em Portugal. Conserva-se
+ainda a antiga tradi&ccedil;&atilde;o das
+<em>mantas do Alemtejo</em>,
+citadas j&aacute; por Gil Vicente na
+<em>Far&ccedil;a dos almocreves</em>,
+a dos liteiros e mantas de retalhos, a dos
+<span class="pagenum">[126]</span>
+lindos alforges da Extremadura, do Alemtejo e do
+Algarve, de Minde, d'Alte e de Redondo, e a
+d'esses famosos tecidos de l&atilde;, que s&atilde;o o
+<em>homespun</em>
+portuguez, e que em sua variedade se denominam
+bureis, estamenhas, briches, sarago&ccedil;as, jardos,
+sorrubecos.
+<br />
+
+<br />
+
+Meditemos na maravilhosa obra operada por
+Ruskin n'um sentido esthetico, que &aacute; primeira
+vista se figura retrogrado, mas que encerra talvez
+em germen o destino futuro, preciosamente
+moralisante de todas as industrias, desde que os
+aperfei&ccedil;oamentos da electricidade desloquem o
+eixo do trabalho fabril, levando a casa de cada
+artifice por meio de um tenue fio de arame o
+quinh&atilde;o de for&ccedil;a que tem para distribuir por
+cada operario do seculo que vem o immenso e
+incalculavel esfor&ccedil;o propuls&ocirc;r do sopro dos
+ventos,
+do fluxo e refluxo das mar&eacute;s, da corrente dos
+rios, dos cyclones das Pampas ou das cataractas
+do Niagara. E em presen&ccedil;a da revolu&ccedil;&atilde;o
+das industrias
+caseiras da Inglaterra, onde todo o vestigio
+de tradi&ccedil;&atilde;o desapparecera, ponderemos o que
+se pode fazer em Portugal, onde a tradi&ccedil;&atilde;o
+sobrevive
+<span class="pagenum">[127]</span>
+com uma energia prodigiosa a todos os desdens
+e a todas as oppress&otilde;es que a esmagam!
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; notoria desde o seculo XVI a aptid&atilde;o artistica,
+que distingue o nosso marinheiro em todas as pequenas
+industrias de bordo, nos mais delicados,
+pacientes e engenhosos trabalhos tendo por base
+o cabo ou o fio de linho torcido ou entran&ccedil;ado.
+Ninguem como elle manus&ecirc;a os ferros e as
+amarra&ccedil;&otilde;es,
+o poleame e o talhame, o cabo, a adri&ccedil;a ou
+o pano. Ninguem como elle confecciona o coxim,
+a gaxeta, o mixelo, o unh&atilde;o, a bo&ccedil;a, a linga, o
+estropo,
+o repuxo, o massete ou a agulha. E n&atilde;o o ha
+mais dextro em lan&ccedil;ar a volta, em enastrar a pinha
+e em dar o n&oacute; de escota, de fateixa ou de botija,
+o n&oacute; direito e o n&oacute; torto, o de cogula, o de
+borla de pescador, ou o de espia. Em toda a nossa
+costa, desde o Minho at&eacute; o Guadiana, a enorme
+variedade de f&oacute;rmas nas embarca&ccedil;&otilde;es da
+pesca
+maritima, da pesca fluvial e da pesca lacustre,
+basta para evidenciar a persistencia da tradi&ccedil;&atilde;o
+no grande genio maritimo de t&atilde;o pequeno
+povo.
+<br />
+
+<br />
+
+Os que ainda v&atilde;o &aacute; pesca do bacalhau,
+&aacute; Terra
+<span class="pagenum">[128]</span>
+Nova, equipam de uma maneira especial a escuna
+ou o patacho, preferindo por&eacute;m o typo latino do
+hiate e do lugre. Os que v&atilde;o &aacute; cavalla,
+&aacute; pescada
+e ao sarraj&atilde;o, no mar de Larache, embarcam
+nos cahiques de Olh&atilde;o, semelhantes aos de
+toda a costa algarvia e aos de Lisboa e Setubal, de
+pr&ocirc;a redonda, apparelhando com dois bastardos.
+&Aacute; pesca do alto vae a lancha de Caminha, construida
+no portinho de Gontinh&atilde;es; a lancha p&oacute;veira,
+de bocca aberta, apparelhando com um s&oacute;
+mastro e a verga munida de uma grande vela latina;
+o <em>barco da pescada</em>, de Buarcos, de
+borda alta
+e duas pequenas toldas, apparelhando com dois
+mastros; o catraio da Nazareth; o <em>barco da
+sacada</em>,
+de Peninhe, de convez corrido com quatro escotilhas
+e dois mastros, com as vergas preparando
+em cruz; a <em>rasca da Ericeira</em>, a da
+Figueira da Foz
+e a da Vieira; as can&ocirc;as de Belem, de Cezimbra,
+de Setubal e do Algarve, chamadas em Lisboa
+<em>enviadas</em>
+ou <em>can&ocirc;as da picada</em>, e no
+Algarve <em>andainas</em>.
+Na pesca maritima costeira empregam-se
+embarca&ccedil;&otilde;es
+numerosas e variadissimas. Na arte de
+gale&atilde;o agrupam-se: o
+<em>gale&atilde;o</em>, coberto, de
+pr&ocirc;a direita
+<span class="pagenum">[129]</span>
+e arrufada, apparelhando com o latino triangular,
+que amura ao bico de pr&ocirc;a e ca&ccedil;a &aacute;
+p&ocirc;pa,
+em mastro inclinado para vante; o
+<em>galeonete</em>; o
+<em>buque</em>, curvo na roda de
+pr&ocirc;a e sem coberta; a
+can&ocirc;a do gale&atilde;o, e o
+<em>acostado</em>, que se emprega no
+transporte do peixe. Na arma&ccedil;&atilde;o fixa do atum e
+da sardinha, nas <em>almadrabilhas</em>, ou
+<em>almadravas</em>,
+como antigamente lhes chamavamos, do nome
+arabe que os hispanhoes conservam, labuta o
+<em>cal&atilde;o</em>,
+grande lancha, de bocca aberta, armando com
+estropo oito ou dez remos por banda, tendo na
+pr&ocirc;a arredondada, rematada no alto por duas femeas,
+uma saliencia vertical de puas em serra, semelhando
+um lombo de peixe, e, pintado de cada
+lado, um olho arregalado para o horizonte; a <em>barca
+da testa</em>; a <em>barca das
+portas</em>; a <em>barca da
+gacha</em>, e
+o <em>la&uacute;de</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Na costa do Algarve, as almadravas occupam
+hoje approximadamente os mesmos logares que
+tinham no seculo XVI; e o
+<em>cal&atilde;o</em> &eacute;, como
+alguns
+barcos do Douro, de pr&ocirc;a comprida e alta, propria
+para atracar a margens escarpadas ou para
+varar com facilidade na praia, o typo mais analogo
+<span class="pagenum">[130]</span>
+ao das embarca&ccedil;&otilde;es portuguezas de ha trezentos
+ou quatrocentos annos.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Nas artes de arrastar para terra</em>
+figuram as <em>xavegas</em>
+do Algarve, os <em>saveiros</em> e as
+<em>meias-luas</em>, de
+Espinho, Furadouro, S. Jacintho, Costa Nova,
+Mira, Tocha, Buarcos, Lagos, e outros logares,
+desde o sul do Douro at&eacute; a Vieira, reapparecendo,
+mais abaixo, na costa de Caparica e da Gal&eacute;, e na
+praia de Sines. <em>Nas redes de alar a
+reboque</em> trabalham
+as <em>muletas</em> e os
+<em>bateis do Seixal</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+O sr. Arthur Baldaque da Silva, no seu precioso
+livro <em>Estado actual das pescas em
+Portugal</em>, enumera
+ainda, entre os diversos typos de embarca&ccedil;&otilde;es
+empregadas em varios systemas de pesca, o
+<em>batel de Espozende</em>, o
+<em>barco de Vianna do Castello</em>,
+a <em>barquinha do rio Lima</em>, a
+<em>bateira da Figueira da
+Foz</em>, a <em>lancha de
+Buarcos</em>, a <em>lanchinha do
+Tejo</em>, o
+<em>ilhavo da Tarrafa</em>, o
+<em>batel de Peniche, o cahique</em>
+e a <em>lancha de Peniche</em>, os
+<em>poveiros</em> de Lavos, de
+Buarcos, da Nazareth, de Cascaes, de Cezimbra,
+de Setubal; o <em>catraio</em>, a mais
+genuina embarca&ccedil;&atilde;o
+portugueza da nossa costa meridional, a
+<em>ca&ccedil;adeira</em>
+e a <em>focinheira de porco</em> da Ericeira,
+a <em>maceira</em> da
+<span class="pagenum">[131]</span>
+costa do Norte, o <em>cahique de Sines</em>,
+o <em>barco minhoto</em>,
+construido em Lanhellas e em Forcadella, o
+<em>batel do Cavado</em>, o
+<em>barco do Douro</em>, o
+<em>esgueir&atilde;o
+da ria de Aveiro</em>, a <em>lancha de Villa
+Franca</em>, a <em>bateira
+do Mondego</em>, a
+<em>lanchinha</em> e a <em>chata
+do Tejo</em>,
+e outros do continente, sem contar os barcos de
+cabotagem, os typos da Africa, dos A&ccedil;ores, da
+ilha da Madeira, n&atilde;o descriptos, infelizmente.
+S&atilde;o ainda de notar, entre as jangadas mais caracteristicas,
+as de Marinhas, para a pesca do
+polvo; as de F&atilde;o e da Apulia, para a apanha do
+sarga&ccedil;o; as de Neiva e as de Sedovem.
+<br />
+
+<br />
+
+Com essa phantastica riqueza de documentos
+maritimos, assombro de todos os outros povos, &eacute;
+verdadeiramente inacreditavel que em Portugal
+n&atilde;o haja um museu naval, em que estes documentos
+se confrontem e se estudem. N&atilde;o ha
+tal museu.
+<br />
+
+<br />
+
+Em terra &eacute; t&atilde;o variada a
+collec&ccedil;&atilde;o popular das
+vasilhas, dos fogareiros e dos cestos caseiros,
+como &eacute; variada na agua a f&oacute;rma das
+embarca&ccedil;&otilde;es.
+A simples nomenclatura do vasilhame portuguez
+d&aacute;, s&oacute; de per si, uma id&eacute;a, ainda que
+bem incompleta,
+<span class="pagenum">[132]</span>
+da multiplicidade das suas f&oacute;rmas, porque
+ha typos que variam de regi&atilde;o para regi&atilde;o, de
+dez em dez leguas de perimetro. Esses typos principaes
+s&atilde;o a talha, o pote, o cantaro, o caneco, o
+tenor, a tarefa, a pucara, o gomil, a escudella, a
+tijela, a infusa, a meia, a quarta, a quartinha, a
+pinta, a sumicha, a sangradeira, a alquara, a vieira,
+o almude, a tamboladeira, o alguidar e o alguidarinho,
+o alcadafe, o moringue, o boi&atilde;o, o tarro,
+o cantil, a almofia, o alcatruz, o porr&atilde;o, o
+c&ocirc;cho,
+o picho, o pichel, a almotolia, a ancoreta, a taleiga,
+a galheta, o caldeir&atilde;o, a caldeira e a caldeirinha,
+o tacho, a ca&ccedil;oila, a copa, a bateia, o jarro,
+a batega, a pichorra, a botija, a caba&ccedil;a, a malga,
+etc. Alguns d'estes nomes jogam com o antigo systema
+de medidas abolidas no seculo XVI, quando
+se estabeleceu o systema novo, tendo por base o
+quartilho. A vasilha correspondente &aacute; velha medida,
+condemnada no reinado de D. Sebasti&atilde;o, sobreviveu
+por&eacute;m na tradi&ccedil;&atilde;o e no costume. A
+<em>sumicha</em>,
+por exemplo, com quatro decilitros de capacidade,
+t&atilde;o maneira, t&atilde;o graciosa, t&atilde;o bem
+proporcionada
+a uma s&ecirc;de d'agua, &eacute; ainda hoje na olaria
+<span class="pagenum">[133]</span>
+de Coimbra o pucaro consagrado, que no pote
+da regi&atilde;o, de uma elegancia t&atilde;o fina e
+t&atilde;o attica,
+se encasa no alguidarinho que lhe serve de tampa.
+<br />
+
+<br />
+
+As f&oacute;rmas populares d'essa vasilharia, umas trazidas
+do Peru e do Mexico, como a do moringue
+e seus derivados, outras, provenientes de typos
+gregos e etruscos, da cratera, da amphora, da ambula,
+do askos, do bombylio, etc., s&atilde;o por toda a
+parte, em nossos districtos ceramicos, as mais bellas,
+as mais engra&ccedil;adas ou as mais nobres, as mais
+irreprehensivelmente puras, parecendo que &aacute; roda
+mechanica do operario as foi delineando, contornando,
+envolvendo sempre, a pe&ccedil;a por pe&ccedil;a, o
+sorriso acariciante de um artista.
+<br />
+
+<br />
+
+De uma humilde panellinha portugueza de barro
+preto, de Prado ou de Molellos, deduziram em
+Fran&ccedil;a o assucareiro, a leiteira, a cafeteira e o
+bule de um servi&ccedil;o de almo&ccedil;o, que ficou
+tradicional
+na fabrica&ccedil;&atilde;o de S&egrave;vres.
+<br />
+
+<br />
+
+A industria popular da cestaria acompanha na
+evolu&ccedil;&atilde;o das f&oacute;rmas a industria do
+oleiro. Todos
+os que percorreram as feiras e os mercados do
+nosso paiz notariam que cada regi&atilde;o tem a sua
+<span class="pagenum">[134]</span>
+canastra, o seu cabaz e o seu gigo, differentes na
+f&oacute;rma ou no ornato. Ha-os de todas as
+configura&ccedil;&otilde;es,
+fundos e chatos, quadrados, octogonos, arredondados,
+oblongos, cubicos, cylindricos, espheroidaes,
+lembrando algumas vezes a f&oacute;rma e a
+construc&ccedil;&atilde;o
+americana dos sambur&aacute;s, dos tipitis e dos
+c&ocirc;fos tupis, feitos de taquara e de cip&oacute;, que
+introduzimos
+talvez no Brazil ou, mais provavelmente,
+l&aacute; aprendemos a fabricar, deixando o typo do balaio,
+com cujo nome se designa ainda na Bahia o
+farnel que de ordinario se transporta no cesto portuguez
+d'essa configura&ccedil;&atilde;o, semelhante &aacute; de
+um
+alguidar. Mui frequentemente varia tambem o balaio,
+o canistel, a cesta, a conde&ccedil;a, o ceir&atilde;o e a
+ceira, a alcofa e a alcofinha. A materia prima do
+cesto &eacute; o vime, o junco, a fasquia de castanheiro,
+a fasquia de faia e a canna; a da ceira e da alcofa
+&eacute; o esparto, a engeita, a palha de trigo e de centeio,
+a tab&uacute;a, a juta e a pita. Em algumas regi&otilde;es,
+como nas Caldas e Vizeu, os cestos s&atilde;o obras primas
+incomparaveis de acabamento e de graciosidade.
+A canastrinha burriqueira das Caldas, reduzida
+ao miniaturismo de dois centimetros, &eacute; um
+<span class="pagenum">[135]</span>
+simples prodigio de fabrica&ccedil;&atilde;o minudente e
+delicada.
+No Algarve a alcofa, de filia&ccedil;&atilde;o arabe,
+&eacute;
+por vezes ornada de apparatosas flores bordadas
+a seda ou a l&atilde;.
+<br />
+
+<br />
+
+Sem embargo, continuando a affirmar-se que n&atilde;o
+temos sentimento artistico, desistimos por indisciplina,
+por ignorancia, por desanimo, de transformar
+em industrias de concorrencia as nossas industrias
+domesticas, e n&atilde;o negociamos com o extrangeiro
+nem tecidos de phantasia, t&atilde;o originaes
+como os que possuimos, nem papeis pintados derivados
+d'esses tecidos, nem a lou&ccedil;a, nem a cestaria,
+nem a filigrana, immobilisada em typos decrepitos,
+e da qual t&atilde;o lindos effeitos se tirariam,
+applicando-a em ouro a servi&ccedil;os de toucador, a
+frascos de cristal, a molduras de retratos, a
+encaderna&ccedil;&otilde;es
+de devocionarios, etc, etc.
+<br />
+
+<br />
+
+Tanto menosprezamos os productos quanto
+desconhecemos as fontes da nossa civilisa&ccedil;&atilde;o
+artistica.
+<br />
+
+<br />
+
+A arte que menos estudamos &eacute; a arte hispanhola,
+&aacute; qual todavia indissoluvelmente nos
+prendem os mais estreitos vinculos de temperamento,
+<span class="pagenum">[136]</span>
+de tradi&ccedil;&atilde;o e de ideal. Juntamente com os
+hispanhoes recebemos dos arabes as primeiras influencias
+que em toda a produc&ccedil;&atilde;o artistica da Peninsula
+imprimiram a fei&ccedil;&atilde;o differencial mais
+caracteristica
+e mais indelevel. Aos califados, que
+cobriram de mesquitas Cordova, Sevilha, Granada,
+Santarem, Lisboa e Coimbra, devemos o
+toque de orientalismo peculiar das formas architectonicas
+do nosso stylo romanico, ogival e da
+renascen&ccedil;a. E da mesma procedencia, mosarabe
+ou mudejar, s&atilde;o algumas das nossas mais interessantes
+industrias, como a da filigrana, a dos azulejos,
+a das sedas, a do papel, a da encaderna&ccedil;&atilde;o, a
+dos couros lavrados, (a que chamavamos
+<em>cordov&otilde;es</em>
+por nos virem de Cordova) a das esteiras, a dos
+tapetes, a das obras de esparto, de palma, de pita.
+At&eacute; o fim do seculo XVI artistas portuguezes, leonezes,
+castelhanos, valencianos, aragonezes, catal&atilde;es,
+asturianos, tivemos um ideal commum nas
+letras, na architectura, na esculptura, na pintura,
+nas artes sumptuarias e nas artes industriaes, celebrando
+identicos feitos de guerra, de religi&atilde;o e
+de amor, servindo reis do mesmo sangue, heroes
+<span class="pagenum">[137]</span>
+das mesmas aventuras, santos e santas da mesma
+invoca&ccedil;&atilde;o popular.
+<br />
+
+<br />
+
+Das nossas rela&ccedil;&otilde;es com Flandres s&oacute;
+conheciamos&#8213;at&eacute;
+ha bem poucos annos&#8213;a influencia
+flamenga em Portugal, ignorando completamente
+a reciproca ac&ccedil;&atilde;o dos portuguezes em Gand, em
+Bruges, em Antuerpia. Foi o sr. Joaquim de Vasconcellos
+quem, investigando os annaes das confrarias
+e o archivo das feitorias de Portugal, consignou
+que, em resultado da protec&ccedil;&atilde;o dada aos
+artistas nacionaes por D. Jo&atilde;o II e por D. Manoel,
+de uma s&oacute; vez chegaram a reunir-se em Paris cincoenta
+pensionistas portuguezes. Aos trabalhos do
+mesmo investigador se deve acharem-se hoje apurados
+varios nomes de pintores de Portugal trabalhando
+em Flandres, entre os quaes Edwart
+Portugalois, discipulo de Quintino Metsys, proclamado
+em 1504 mestre pintor da confraria de
+S. Lucas de Antuerpia.
+<br />
+
+<br />
+
+Os trabalhos do sr. Joaquim de Vasconcellos
+est&atilde;o sendo diligentemente continuados pelo sr.
+Sousa Viterbo, na Torre do Tombo, e pelo sr. Joaquim
+Mauricio Lopes, nosso consul, em Antuerpia.
+<span class="pagenum">[138]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Em uma recente publica&ccedil;&atilde;o do sr. Mauricio
+Lopes, <em>Les portugais &agrave; Envers au
+XVI<sup>&egrave;me</sup> si&egrave;cle</em>,
+demonstra-se
+por meio dos mais expressivos documentos
+que a colonia portugueza, estabelecida
+em Flandres desde que em 1386 o duque de Borgonha
+Filippe-o-Ousado concedeu licen&ccedil;a para
+ahi viverem mercadores de Portugal e dos Algarves
+com as suas familias e os seus creados, foi
+para a civilisa&ccedil;&atilde;o que os acolheu de uma
+importancia
+incomparavelmente superior &aacute; que j&aacute;mais
+exerceu a colonia flamenga em Portugal.
+<br />
+
+<br />
+
+Os negocios dos portuguezes em Antuerpia, ao
+tempo da funda&ccedil;&atilde;o da primeira feitoria de
+Portugal
+por D. Manoel, negocios tendo por base,
+al&eacute;m das exporta&ccedil;&otilde;es do reino, o
+commercio das
+especiarias trazidas da India por Lisboa, montavam
+annualmente a cerca de cinco mil contos
+da nossa moeda actual. O numero das casas
+portuguezas em Antuerpia era de cento e doze.
+Os mercadores portuguezes representantes d'essas
+casas viviam com um fausto verdadeiramente
+principesco. Em 1594, por occasi&atilde;o da entrada
+triumphal de Filippe II, herdeiro de Carlos V, a
+<span class="pagenum">[139]</span>
+cavalgada portugueza ficou memoravel. Compunha-se
+de vinte senhores e de quarenta creados,
+montando todos cavallos peninsulares, ricamente
+ajaezados. Os senhores trajavam de brocado e seda
+c&ocirc;r de purpura, bordada de ouro e de rubis, com
+bot&otilde;es, passamanes e collares de ouro. Todos
+os gorros eram orlados de brilhantes. Os creados,
+equipados, de coura&ccedil;a e espada, vestiam libr&eacute;s
+de seda verde e branca, com as bainhas das
+espadas de seda branca.&#8213;O que era, segundo o
+chronista Cornelius Grapheus, <em>chose moult riche et
+triomphante &agrave; voir</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Nas festas da entrada em Antuerpia de Ernesto
+d'Austria, governador dos Paizes Baixos, os portuguezes
+erigiram um arco triumphal, em que se
+viam as figuras da Mauritanea, do Brasil, da Etiopia,
+da India, da Persia, do Ganges, do Rio da
+Prata, com as estatuas de Filippe I, do principe
+Filippe de Hispanha, de D. Jo&atilde;o II e de D. Manoel.
+Em outro arco de triumpho, delineado por
+Ludovicus Nonnius e consagrado a Fernando
+d'Austria, em 1635, expuzeram os portuguezes diversos
+quadros representando, entre outras, as allegorias
+<span class="pagenum">[140]</span>
+da Victoria, da Clemencia, da Felicidade,
+da Religi&atilde;o, e os retratos de D. Affonso Henriques,
+D. Jo&atilde;o I, D. Manoel e D. Filippe II.
+<br />
+
+<br />
+
+Um d'esses portuguezes, o feitor Antonio Cirne,
+natural do Porto, nos saraus do Palacio chamado
+de Portugal, pretextando que a turba ou a lenha
+cheiravam mal, mandava cosinhar as eguarias
+com fogo de canela, e queimar canela em todas
+as fogueiras das chamin&eacute;s.
+<br />
+
+<br />
+
+Outro portuguez, Sim&atilde;o Rodrigues d'Evora, era
+bar&atilde;o de Rhodes, cavalleiro, senhor de Tewerden,
+de Broeckstraate; pela sua enorme fortuna
+lhe chamavam o <em>rei pequeno</em>; possuia
+muitos predios
+na principal arteria da cidade, e habitava um
+d'elles, em que successivamente se hospedaram a
+infanta D. Izabel, a rainha Maria de Medicis e o
+principe cardeal Fernando d'Austria; fundou, com
+o fim caritativo de recolher doze senhoras da nobreza
+ou da burguezia reduzidas &aacute; indigencia, o
+hospicio de Sant'Anna, onde um triptyco de Otto
+Venius representava o retrato do fundador com
+seus filhos e sua mulher D. Anna Lopes Ximenes
+de Arag&atilde;o.
+<span class="pagenum">[141]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+O luxo da colonia portugueza em Antuerpia
+assumia muitas vezes o mais nobre e mais alto
+caracter artistico. A enthusiastica hospitalidade
+conferida pelos portuguezes a Alberto D&uuml;rer ficou
+assignalada pelas grandes festas a que deu origem.
+D&uuml;rer retribuiu esses favores com presentes
+de quadros e de gravuras aos feitores e aos negociantes
+de Portugal.
+<br />
+
+<br />
+
+Diogo Duarte, filho de Gaspar Duarte, possuia
+uma das primeiras galerias de pintura em Flandres.
+Foi recentemente publicado na Hollanda um
+catalogo dos seus quadros, entre os quaes havia
+obras de D&uuml;rer, de Breughel, de Metsys, de Maubeuge,
+de Ticiano, de Tintoreto, de Andrea del
+Sarto, e um Raphael, que constava haver sido adquirido
+do principe D. Manoel de Portugal em
+troco de diamantes no valor de 2:200 florins.
+<br />
+
+<br />
+
+Muitos dos nossos compatriotas estabelecidos
+em Flandres cultivavam as sciencias e as letras,
+contando-se entre elles professores, medicos, escriptores
+celebres, como Amato Lusitano, Rodrigo
+de Castro, Garcia Lopes, Dami&atilde;o de Goes, etc.
+<br />
+
+<br />
+
+Outro curioso symptoma da nossa desaffei&ccedil;&atilde;o
+<span class="pagenum"><a name="p142" id="p142">[142]</a></span>
+dos estudos da arte nacional &eacute; a
+estagna&ccedil;&atilde;o das
+velhas id&eacute;as preconcebidas na
+aprecia&ccedil;&atilde;o dos nossos
+monumentos architectonicos. J&aacute; me referi ao
+&ocirc;co basbaquismo <a href="#e5">privilegiado</a>
+de que &eacute; objecto
+absorvente o monumento da Batalha. Devo aclarar
+um pouco mais, ainda que rapidamente, esse
+phenomeno.
+<br />
+
+<br />
+
+Por notavel supersti&ccedil;&atilde;o epidemica, por inercia
+de espirito, por servilismo intellectual, por pedantismo
+classico, por costume, por commodidade,
+por conven&ccedil;&atilde;o admirativa, ou por qualquer outro
+motivo, os criticos portuguezes, que mais teem
+governado a opini&atilde;o, estabeleceram axiomaticamente,
+como coisa definitivamente demonstrada
+e assente, que o unico puro e genuino exemplar
+de stylo gothico existente em Portugal &eacute; o da
+Batalha. Toda a modifica&ccedil;&atilde;o nas linhas
+constructivas
+ou nos motivos ornamentaes d'esse typo
+passou, por effeito de tal dogma, a qualificar-se
+de <em>decadencia</em>. Capellas imperfeitas,
+decadencia!
+Claustro dos Jeronymos, decadencia! Egreja de
+Christo e de S. Jo&atilde;o em Thomar, decadencia!
+Santa Cruz e S. Marcos, em Coimbra, decadencia!
+<span class="pagenum">[143]</span>
+Decadencia emfim toda a obra architectonica
+da &eacute;poca manoelina.
+<br />
+
+<br />
+
+A termos acceitado tal principio na sua
+applica&ccedil;&atilde;o
+pratica, teriamos tido na nossa architectura
+ogival do seculo XVI um neo-gothico, fixo e invariavel,
+como o neo-greco-romano da renascen&ccedil;a,
+que &eacute; o triumpho consagrado do dogmatismo na
+arte, a immobilidade canonica nos systemas de
+construir, a cristalisa&ccedil;&atilde;o da rotina, a
+sujei&ccedil;&atilde;o de
+toda a imagina&ccedil;&atilde;o, de todo o poder inventivo a
+uma formula invariavel. Teriamos tido de submetter-nos
+ao despotismo da Batalha, como t&atilde;o cegamente,
+t&atilde;o estupidamente, t&atilde;o inconcebivelmente,
+nos temos submettido por tantas centenas
+de annos ao despotismo de Vitruvio e das
+suas cinco ordens, com os seus correspondentes
+aphorismos de propor&ccedil;&atilde;o e de symetria, seu
+pedestal,
+sua columna e seu entablamento, repetindo
+sempiternamente, sobre os mesmos dados estaticos,
+o mesmo denticulo, o mesmo modilh&atilde;o, a
+mesma canelura, o mesmo triglypho, a mesma
+g&ocirc;ta, a mesma carranca! Ora precisamente o stylo
+manoelino da nossa architectura, com toda a sua
+<span class="pagenum">[144]</span>
+effus&atilde;o esculptural, com todo o avassalante symbolismo
+dos seus motivos ornamentaes, com toda
+a arbitrariedade dos seus processos, com todas as
+suas despropor&ccedil;&otilde;es e todas as suas assymetrias,
+n&atilde;o &eacute; precisamente sen&atilde;o a
+contraposi&ccedil;&atilde;o da liberdade
+creativa dos nossos architectos-esculptores
+&aacute; enfatua&ccedil;&atilde;o idolatrica, &aacute;
+pedantesca preceitua&ccedil;&atilde;o
+rhetorica, ao esmagador e exhaustivo despotismo
+das <em>cinco ordens</em>, com que o
+neo-classicismo
+da renascen&ccedil;a razoirou todo o talento humano.
+O stylo gothico prestava-se como nenhum
+outro, pela extrema flexibilidade dos seus principios
+fundamentaes, aos desenvolvimentos de pura
+arte, com que o esculptor, completando a obra do
+engenheiro, e fazendo-se assim architecto, pode
+aviventar a pedra de um edificio, convertendo-a
+n'um elemento de sympathia e de solidariedade
+social, fazendo vibrar na palpita&ccedil;&atilde;o do seu lavor
+evoca&ccedil;&otilde;es de id&eacute;as e de sentimentos
+proprios dos
+homens da sua ra&ccedil;a e da sua terra. Os artistas
+manoelinos n&atilde;o teriam feito talvez monumentos
+<em>correctos</em>, na access&atilde;o
+indigente em que as academias
+empregam esta palavra, mas fizeram monumentos
+<span class="pagenum">[145]</span>
+<em>expressivos</em>,&#8213;o que &eacute;
+melhor. Porque n&atilde;o
+s&atilde;o as academias que pautam as
+propor&ccedil;&otilde;es e os
+limites da crea&ccedil;&atilde;o artistica. Tudo o que se pode
+formular em preceito cessa de ter valor em arte.
+A obra de arte n&atilde;o &eacute; um producto de escola:
+&eacute;
+a livre express&atilde;o individual de uma alma, convertida
+em realidade objectiva, e communicando
+aos homens uma vibra&ccedil;&atilde;o nova do sentimento.
+<br />
+
+<br />
+
+A superioridade ou a inferioridade de um artista,
+a sua categoria, deduz-se da maior ou menor
+quantidade das id&eacute;as que a sua obra suggere
+e dos sentimentos cuja percuss&atilde;o ella determina.
+Nos monumentos architectonicos &eacute; pela
+sobreposi&ccedil;&atilde;o do ornato esculptural &aacute;s
+linhas geometricas
+da construc&ccedil;&atilde;o que a arte se exerce. &Eacute;
+principalmente na esculptura que reside a express&atilde;o
+poetica do monumento.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Portugal teem sido acusados os architectos
+manoelinos de invadirem pelo vegetabilismo ornamental
+todos os perfis da construc&ccedil;&atilde;o, submettendo
+assim as f&oacute;rmas constructivas &aacute;
+ornamenta&ccedil;&atilde;o
+esculptural. Os grandes criticos da Inglaterra,
+que t&atilde;o consideravel impulso teem dado
+<span class="pagenum">[146]</span>
+&aacute;s id&eacute;as estheticas e &aacute; moderna
+evolu&ccedil;&atilde;o artistica,
+entendem por&eacute;m, ao contrario dos nossos, que a
+sciencia de edificar e de dispor linhas &eacute; na
+construc&ccedil;&atilde;o
+de um monumento um ramo secundario
+da arte de esculpir. Esta affirmativa envolve a
+consagra&ccedil;&atilde;o da escola manoelina pela critica que
+n'este seculo mais minuciosamente e mais profundamente
+tem estudado a arte gothica e a arte da
+renascen&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Nada todavia mais afflictivo, de peor indicio
+para os destinos nacionaes da arte, que o descaso
+do publico, pervertido em seu instincto pela carunchosa
+doutrina academica, perante esses monumentos
+em que sob, o reinado de D. Manoel, os
+artistas portuguezes t&atilde;o vigorosamente accentuaram
+a palpita&ccedil;&atilde;o victoriosa do genio, da
+originalidade,
+da poesia, da gloria do povo lusitano.
+<br />
+
+<br />
+
+O que se convencionou chamar
+<em>decadencia</em> na
+ultima evolu&ccedil;&atilde;o do stylo gothico em Portugal
+&eacute; a
+modifica&ccedil;&atilde;o portugueza d'esse stylo, &eacute;
+a sua nacionalisa&ccedil;&atilde;o,
+&eacute; a originalidade local, imposta pelos architectos
+portuguezes do seculo XVI, a um systema
+geral de construc&ccedil;&atilde;o, commum a toda a Europa.
+<span class="pagenum">[147]</span>
+Dir&atilde;o que n&atilde;o &eacute; isso precisamente um
+novo stylo.
+Certamente que n&atilde;o, se unicamente chamarmos
+stylo novo em architectura &aacute;
+constitui&ccedil;&atilde;o complexa
+e integral de todo um systema de edificar.
+Mas, se tomarmos a palavra stylo em tal accep&ccedil;&atilde;o,
+nenhum stylo &eacute; novo em toda a architectura da
+edade m&eacute;dia e da renascen&ccedil;a. Todo o processo
+constructivo nos veiu inicialmente da Grecia, de
+Roma, de Bysancio, da Syria, do Egypto. Os mesmos
+gregos n&atilde;o inventaram a columna, nem os
+romanos descobriram a abobada. O que constitue
+a originalidade na architectura de qualquer povo
+&eacute;, como em Portugal, na &eacute;poca manoelina, a
+subordina&ccedil;&atilde;o
+de um systema qualquer de geometria
+architectural &aacute;s condi&ccedil;&otilde;es do clima e
+da paizagem,
+&aacute; natureza dos materiaes empregados, &aacute; flora,
+&aacute; fauna, &aacute; concep&ccedil;&atilde;o
+religiosa, &aacute; historia, &aacute;
+poesia, ao temperamento e &aacute; psychologia dos artistas,
+em cada regi&atilde;o. Quanto mais intensa for a
+interven&ccedil;&atilde;o d'esses factores mais original
+ser&aacute; a
+obra. Assim, na evolu&ccedil;&atilde;o do gothico na
+architectura
+portugueza, quanto menos modificado, isto
+&eacute;, quanto mais <em>puro</em>
+f&ocirc;r o stylo, mais insignificante
+<span class="pagenum">[148]</span>
+ser&aacute; o monumento como documenta&ccedil;&atilde;o
+artistica,
+como express&atilde;o social.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; &aacute; <em>decadencia</em>
+do gothico da Batalha que n&oacute;s
+devemos o incomparavel claustro dos Jeronymos,
+segundo Haupt <em>o mais bello claustro de todo o
+mundo</em>, bem como a fachada da egreja de Christo,
+em Thomar, onde a flammejante janella da sala
+do capitulo &eacute; a obra mais eloquente, mais convicta,
+mais poetica, mais enthusiasticamente patriotica,
+mais estremecidamente portugueza, que j&aacute;mais
+realisou em nossa ra&ccedil;a o talento de esculpir
+e de fazer cantar a pedra.
+<br />
+
+<br />
+
+Na ornamenta&ccedil;&atilde;o d'essa janella, em que,
+juntamente
+com o sentimento mais entranhado das
+energias da natureza, rebenta, palpita e brada, em
+torno da id&eacute;a christ&atilde;, todo o sagrado pantheismo
+das velhas religi&otilde;es da India, conjugam-se, n'uma
+gloriosa harmonia de antiphona a toda a voz, acompanhada
+ao org&atilde;o, no deslumbramento dos cirios,
+no aroma das a&ccedil;ucenas, no fumo dos thuribulos
+doirado pelo sol, os elementos decorativos do symbolismo
+mais poderoso, da suggest&atilde;o mais profunda.
+O artista, em plena posse da sua id&eacute;a, em
+<span class="pagenum">[149]</span>
+completa independencia do seu espirito, em inteira
+liberdade dos seus meios de execu&ccedil;&atilde;o, desdiz
+todos os votos, abjura todos os principios, renega
+todos os canones, infringe todas as regras, e
+prescinde de todo o applauso dos mestres, sufocando
+nas entranhas da sua propria vaidade a
+opini&atilde;o de si mesmo, unicamente porque tem f&eacute;
+na verdade que enuncia, porque concentrou toda
+a for&ccedil;a da sua alma, toda a energia do seu cerebro,
+toda a paix&atilde;o do seu sangue, no amor da obra
+em que elle representa o pensamento que o domina.
+E em torno d'elle e d'esse objecto amado,
+como em torno de todos os que verdadeiramente
+amam, tudo mais na terra acabou e desappareceu.
+<br />
+
+<br />
+
+As columnas na janella da sala do capitulo s&atilde;o
+polipeiros de coral, dos mais profundos recifes do
+Oceano, e troncos d'essa palmeira, cuja sombra
+cobriu o ber&ccedil;o da civilisa&ccedil;&atilde;o no
+littoral mediterraneo,
+providencia dos peregrinos nos oasis do
+deserto, &aacute; qual os arabes da Peninsula dedicavam
+uma festa de primavera, tendo por fundamento a
+dissemina&ccedil;&atilde;o do polen,&#8213;a arvore santa, a arvore
+<span class="pagenum">[150]</span>
+da Biblia, a arvore de Jesus, cujo ramo symbolico
+&eacute; um attributo da paix&atilde;o e da paschoa, da
+gloria e do martyrio. Os demais elementos decorativos
+s&atilde;o as ondas do mar, taes como ellas se
+representam na heraldica; s&atilde;o os troncos seculares
+e as raizes profundas dos sobreiros dos nossos
+montes, extrema express&atilde;o de for&ccedil;a na fecundidade
+da seiva, que prende o roble, assim como
+a tradi&ccedil;&atilde;o e a familia prendem a debil e errante
+creatura humana, ao cora&ccedil;&atilde;o da terra em que
+nasceu. Guizeiras, como as das mulas de tiro
+engatadas &aacute; carreta alemtejana, emmolham contorcidas
+varas de sobro e de azinho, como nos
+feixes de lictor da magistratura romana. Solidas
+correntes e possantes cabos de bordo, de que
+pendem em discos as boias de corti&ccedil;a, enla&ccedil;am
+a decora&ccedil;&atilde;o, amarrando-a vigorosamente
+&aacute;
+empena por fortes argol&otilde;es, como se amarraria
+uma nau ao caes de um porto. Toda a composi&ccedil;&atilde;o,
+partindo das espaduas de um homem, que
+parece sustentar-lhe todo o peso, ascende n'uma
+trepida&ccedil;&atilde;o de algas e de folhagens para a cruz de
+Christo entre as espheras que tomara por empresa
+<span class="pagenum">[151]</span>
+o rei venturoso de Portugal triumphante na vastid&atilde;o
+dos mares, em todo o circuito do globo. E o
+poema esculptural remata por cima da janella na
+rosacea magestosa do templo, formada em circulo
+pelas pregas e pelo bolso arfante da vela rizada
+de um gale&atilde;o da India.
+<br />
+
+<br />
+
+O nosso povo por&eacute;m desaprendeu de ver a
+obra artistica do seu passado, e nem sequer levanta
+os olhos para os seus mais communicativos
+monumentos, que ninguem lhe explica, que
+ninguem o ensina a comprehender e a amar.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Resumamos agora a historia do que officialmente
+se tem feito no intuito malogrado de proteger
+os monumentos publicos e de conservar e
+defender os productos d'arte.
+<br />
+
+<br />
+
+Em julho de 1890 o ent&atilde;o ministro da
+Instruc&ccedil;&atilde;o
+Publica consultou sobre a quest&atilde;o de que se
+trata uma commiss&atilde;o de artistas, de archeologos e
+de escriptores. Da resposta, at&eacute; hoje inedita, d'essa
+commiss&atilde;o, de que me coube a honra de ser relator,
+transcreverei alguns periodos.
+<br />
+
+<br />
+
+O arrolamento da nossa riqueza artistica, que
+<span class="pagenum">[152]</span>
+se prop&otilde;e effectuar o ministerio da
+instruc&ccedil;&atilde;o publica
+e das bellas artes &eacute;&#8213;ponderava o relatorio&#8213;a
+pedra fundamental de toda a construc&ccedil;&atilde;o destinada
+a dar &aacute; arte portugueza o logar que lhe compete
+na historia geral da nacionalidade, na orienta&ccedil;&atilde;o
+do sentimento collectivo do povo, no conjuncto
+dos elementos de impuls&atilde;o e de progresso
+para o desenvolvimento das industrias, no respeito
+do paiz, emfim, e no da Europa.
+<br />
+
+<br />
+
+O inventario de que se trata, comprehendendo
+n&atilde;o s&oacute; os edificios monumentaes mas os documentos
+archeologicos e os productos artisticos de
+toda a especie, seria, primeiro que tudo, a
+documenta&ccedil;&atilde;o
+preciosa para a historia da arte em
+Portugal,&#8213;determina&ccedil;&atilde;o
+das suas origens ethnicas
+e sociaes, fixa&ccedil;&atilde;o dos seus caracteres
+distinctivos
+e sua rela&ccedil;&atilde;o com a psychologia do povo, com
+os sentimentos, com as aspira&ccedil;&otilde;es, com as ideias,
+com os costumes e com as institui&ccedil;&otilde;es sociaes.
+Esse repositorio tornar-se-ia o espelho em que se
+achariam reflectidas, com todas as suas modalidades,
+segundo as influencias especiaes de cada &eacute;poca,
+de cada phase de cultura, de cada estadio social,
+<span class="pagenum">[153]</span>
+todas as for&ccedil;as emotivas, todas as aptid&otilde;es
+estheticas da nossa ra&ccedil;a. A historia dos seus monumentos
+&eacute; para cada povo a historia da sua individualidade,
+porque n&atilde;o ha monumento artistico
+que n&atilde;o traduza, mais ou menos directamente,
+a ac&ccedil;&atilde;o intellectual e politica da sociedade que
+o
+concebeu.
+<br />
+
+<br />
+
+A ideia do inventario projectado n&atilde;o &eacute;&#8213;para
+honra nossa&#8213;inteiramente nova. No reinado de
+D. Jo&atilde;o V existia na Bibliotheca Real uma obra
+em cinco volumes, datada de 1686 e intitulada
+&laquo;Theatro do reino de Portugal e dos Algarves
+por suas cidades, villas, fortes e fortalezas como
+que por scenas repartido.&raquo; Mais tarde mandou o
+referido soberano ao Padre Frei Luiz de S. Jos&eacute;,
+monge do Cister e artista peritissimo, que fizesse
+os debuxos de todas as povoa&ccedil;&otilde;es do Minho, o
+que elle cumpriu no anno de 1726. Por indica&ccedil;&atilde;o
+da Academia Real da Historia, e para o fim
+de inventariar e conservar os monumentos nacionaes,
+publicou-se o decreto de 20 de agosto de
+1721, e fundou-se o primeiro dos nossos museus
+archeologicos. Infelizmente os livros a que nos referimos
+<span class="pagenum">[154]</span>
+n&atilde;o chegaram a ser dados &aacute; estampa, e
+os originaes foram destruidos pelo terremoto de
+1755, juntamente com a Bibliotheca Real, e com
+o museu estabelecido nas casas dos duques de
+Bragan&ccedil;a, ao Thesouro Velho.
+<br />
+
+<br />
+
+As disposi&ccedil;&otilde;es do alvar&aacute; de 20 de
+agosto de
+1721 constam do seguinte trecho do mesmo alvar&aacute;:
+&laquo;Hei por bem que d'aqui em deante nenhuma
+pess&ocirc;a de qualquer estado, qualidade e
+condi&ccedil;&atilde;o que seja, desfa&ccedil;a ou destrua
+em todo
+nem em parte, qualquer edificio, que mostre ser
+d'aquelles tempos (assim designados: Phenices,
+Gregos, Persos, Romanos, Godos e Arabios) ainda
+que em parte esteja arruinado; e da mesma sorte
+as estatuas, marmores e cippos em que estiverem
+esculpidas algumas figuras, ou tiverem letreiros
+phenices, gregos, etc.; ou laminas, ou chapas de
+qualquer metal, que contiverem os ditos letreiros,
+ou caracteres; como outrosi medalhas ou moedas,
+que mostrarem ser d'aquelles tempos, nem
+dos inferiores at&eacute; o reinado do Senhor Rey D.
+Sebasti&atilde;o;
+nem encubr&atilde;o ou ocultem alguma das
+sobreditas cousas: e encarrego &aacute;s camaras das cidades
+<span class="pagenum">[155]</span>
+e villas d'este reyno tenham muito particular
+cuidado em conservar e guardar todas as antiguidades
+sobreditas, e de semelhante qualidade
+que houver ao presente, ou ao deante se descobrirem
+nos limites do seu districto; e logo que se
+achar ou descobrir alguma de novo, dar&atilde;o conta
+ao secretario da dita Academia Real para elle a
+communicar ao director e censores, e mais academicos;
+e o dito director e censores, com a noticia
+que se lhes participar, poder&atilde;o dar a providencia
+que lhes parecer necessaria para que melhor se
+conserve o monumento assim descoberto. Etc.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Em 4 de fevereiro de 1802, novo alvar&aacute; sobre
+a mesma materia, assim designado: &laquo;Alvar&aacute; com
+for&ccedil;a de lei pelo qual Vossa Alteza Real he servido
+suscitar o alvar&aacute; de lei de 20 de agosto de
+1721, ordenado em beneficio da Academia Real
+da Historia Portugueza para a conserva&ccedil;&atilde;o e
+integridade
+das estatuas, marmores, cippos, e outras
+pe&ccedil;as de Antiguidade: mandando que as
+func&ccedil;&otilde;es
+do mesmo Alvar&aacute;, que at&eacute; agora pertenciam
+ao secretario da dita Real Academia, fiquem da
+data do presente em deante pertencendo ao Bibliothecario
+<span class="pagenum">[156]</span>
+Maior da Bibliotheca Publica; tudo
+na forma acima declarada.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Em janeiro de 1844 o Bibliothecario M&oacute;r da
+Bibliotheca Nacional de Lisboa Jos&eacute; Feliciano de
+Castilho, informava o respectivo ministro nos seguintes
+termos: &laquo;Para o bibliothecario m&oacute;r passaram
+attribui&ccedil;&otilde;es que competiam &aacute; Academia
+Real da Historia, mas infelizmente essa lei vigente
+tem sido at&eacute; hoje letra morta, a tal ponto que
+at&eacute;
+ignoram as suas disposi&ccedil;&otilde;es os proprios
+encarregados
+do seu cumprimento, com grave detrimento,
+n&atilde;o s&oacute; d'este magnifico repositorio, que ha
+muitos
+annos se acha estacionario em aquisi&ccedil;&otilde;es
+archeologicas,
+mas tambem de todo o reino, onde o bibliothecario
+m&oacute;r deveria sempre ter, por obriga&ccedil;&atilde;o
+do seu cargo, promovido a conserva&ccedil;&atilde;o e
+seguran&ccedil;a
+dos monumentos que n&atilde;o podem ou n&atilde;o
+devem transportar-se.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Em seguido prop&otilde;e o bibliothecario que se torne
+effectiva a responsabilidade dos governadores civis
+no cumprimento da lei de 20 de agosto de
+1721; que esses funccionarios se correspondam
+regularmente com o bibliothecario, etc.
+<span class="pagenum">[157]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Ficou por&eacute;m t&atilde;o morta a letra d'essa consulta
+como a da lei a que ella se refere.
+<br />
+
+<br />
+
+Por decreto de 10 de novembro de 1875 &eacute; nomeada
+uma commiss&atilde;o para prop&ocirc;r ao governo,
+com a reforma do ensino das Bellas Artes e com
+o plano de um museu, &laquo;as providencias que julgar
+mais adquadas &aacute; conserva&ccedil;&atilde;o, guarda e
+repara&ccedil;&atilde;o
+dos monumentos historicos e dos objectos
+archeologicos, de importancia nacional, existentes
+no reino.&raquo; A commiss&atilde;o alludida responde ao
+governo
+por meio da memoria redigida pelo marquez
+de Sousa Holstein, e assim se desempenha
+do encargo que lhe f&ocirc;ra confiado.
+<br />
+
+<br />
+
+A louvavel diligencia empregada a convite do
+governo pela Real Associa&ccedil;&atilde;o dos Architectos
+Civis
+e Archeologos Portuguezes, para o fim de lan&ccedil;ar
+em 1880 as bases de uma inventaria&ccedil;&atilde;o systematica
+dos monumentos nacionaes, n&atilde;o foi, assim
+como o zeloso trabalho da commiss&atilde;o de 1875,
+seguida de resultados praticos.
+<br />
+
+<br />
+
+Independentemente da preceitua&ccedil;&atilde;o official,
+teem sido modernamente do mais importante auxilio
+para o conhecimento dos nossos valores artisticos
+<span class="pagenum">[158]</span>
+a Exposi&ccedil;&atilde;o Retrospectiva de Arte Ornamental,
+celebrada em Lisboa em 1882, a exposi&ccedil;&atilde;o
+de Coimbra, a exposi&ccedil;&atilde;o de Aveiro, a
+exposi&ccedil;&atilde;o
+de Guimar&atilde;es, a recente exposi&ccedil;&atilde;o do
+centenario
+antonino, e as exposi&ccedil;&otilde;es de ourivesaria e
+de ceramica promovidas e effectuadas no Palacio
+de Cristal do Porto pela muito benemerita Sociedade
+de Instruc&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+De algumas das exposi&ccedil;&otilde;es alludidas ficaram
+documentos de alto valor. Imprimiram-se relatorios
+de muita importancia, e numerosos productos
+expostos foram reproduzidos pelo desenho e pela
+photographia. Da valiosa collec&ccedil;&atilde;o photographica,
+para a qual principalmente contribuiram Carlos
+Relvas, Pardal, Rochini, Biel &amp; Companhia, bem
+como dos catalogos dos museus e das exposi&ccedil;&otilde;es
+celebradas, se poderia extrahir desde j&aacute; um
+esbo&ccedil;o
+de inventario, que n&atilde;o seria difficil aperfei&ccedil;oar
+e
+prehencher, emprehendendo novas exposi&ccedil;&otilde;es e
+systematisando completamente as investiga&ccedil;&otilde;es e
+os estudos correlativos.
+<br />
+
+<br />
+
+A commiss&atilde;o de 1890, a que acima me referi,
+propunha que, sem prejuizo das pesquisas que,
+<span class="pagenum">[159]</span>
+conv&eacute;m continuar, para recolher ou arrolar os valores
+artisticos que ainda se conservam ignorados
+em poder de corpora&ccedil;&otilde;es ou de particulares, a
+commiss&atilde;o
+incumbida do inventario geral e definitivo
+desse quanto antes principio aos seus trabalhos,
+tomando por materia as pe&ccedil;as de que ha conhecimento,
+j&aacute; pelo exame de que foram objecto
+nos museus onde existem, ou nas exposi&ccedil;&otilde;es
+at&eacute;
+hoje feitas, j&aacute; pelos catalogos e relatorios que
+d'essas exposi&ccedil;&otilde;es existem, j&aacute; pela
+consideravel
+collec&ccedil;&atilde;o de photographias que reproduzem os
+objectos expostos.
+<br />
+
+<br />
+
+Emquanto &aacute; cataloga&ccedil;&atilde;o e &aacute;
+conserva&ccedil;&atilde;o dos
+objectos pertencentes a particulares ou a
+corpora&ccedil;&otilde;es
+de caracter civil ou religioso, n&atilde;o conviria
+desde j&aacute; estabelecer principios absolutos. O modo
+de proceder dos delegados do governo em tal servi&ccedil;o
+seria indicado pelas circumstancias particulares
+de cada occorrencia, sendo por&eacute;m altamente
+para desejar que os prelados do reino, conscientes
+dos estreitos vinculos que ligam o esplendor das
+artes &aacute; gloria do catholicismo, conseguissem fazer
+penetrar na convic&ccedil;&atilde;o das auctoridades
+eclesiasticas
+<span class="pagenum">[160]</span>
+das suas circumscrip&ccedil;&otilde;es quanto &eacute;
+inseparavel
+da historia da egreja a historia da arte christ&atilde;, e
+quanto o museu, em paizes tradicionalmente catholicos,
+&eacute; ainda uma f&oacute;rma do culto ou um desdobramento
+d'elle na ordem civil, al&eacute;m de ser o
+permanente attestado da allian&ccedil;a da cren&ccedil;a
+religiosa
+com a immortal aspira&ccedil;&atilde;o da poesia no
+cora&ccedil;&atilde;o
+e no espirito da nossa ra&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Para regra definitiva do processo a que se refere
+o alvitre que acabo de expor &eacute; indispensavel que
+seja devidamente estudada e promulgada uma lei,
+semelhante &aacute; que existe hoje na Italia, em
+Fran&ccedil;a,
+nos Paizes Escandinavos, na Russia, na Hispanha,
+na Grecia, na Turquia, tendo por fim definir claramente
+e assegurar, de combina&ccedil;&atilde;o com a
+legisla&ccedil;&atilde;o
+canonica, com os principios da concordata
+e com a legisla&ccedil;&atilde;o geral da propriedade, os
+direitos
+especiaes do Estado com rela&ccedil;&atilde;o &aacute;
+guarda dos
+monumentos e &aacute; parte que elle tem na posse dos
+objectos d'arte, determinando assim o caracter especial
+da propriedade artistica.
+<br />
+
+<br />
+
+Uma vez decretada essa lei fundamental, e assignalada
+a responsabilidade em que incorrem os
+<span class="pagenum">[161]</span>
+que a transgridam, deveriam formar-se as commiss&otilde;es
+regionaes, dependentes da commiss&atilde;o
+central, e incumbidas, em suas localidades, da
+guarda e da conserva&ccedil;&atilde;o dos monumentos e dos
+objectos d'arte. Estas commiss&otilde;es, &aacute;
+semelhan&ccedil;a
+do que foi disposto na lei italiana de 1878, da
+qual se inspirou em Fran&ccedil;a, para a
+organisa&ccedil;&atilde;o
+de eguaes servi&ccedil;os, a Direc&ccedil;&atilde;o das
+Bellas Artes,
+seriam compostas de oito vogaes, sendo quatro
+da nomea&ccedil;&atilde;o dos municipios e quatro da
+nomea&ccedil;&atilde;o
+do governo, com um architecto inspector adjuncto,
+sob a presidencia do governador civil ou
+do administrador do concelho.
+<br />
+
+<br />
+
+Em toda a parte, ainda nos mais abandonados
+recantos da provincia, ha sempre, onde existe um
+monumento, um homem pelo menos que o ama,
+que o estuda, que o comprehende. &Eacute; a
+collabora&ccedil;&atilde;o
+preciosa d'esses pobres poetas obscuros,
+d'esses modestos archeologos, ignorados da critica
+e do publico, que aos organisadores das commiss&otilde;es
+locaes compete acolher e utilisar.
+<br />
+
+<br />
+
+O processo de inventaria&ccedil;&atilde;o de cada
+pe&ccedil;a artistica
+constaria de duas partes.
+<span class="pagenum">[162]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+A primeira seria a reproduc&ccedil;&atilde;o photographica,
+ou em gesso, ou pela galvanoplastica,
+do objecto inventariado, com registro do respectivo
+clich&eacute; ou molde.
+<br />
+
+<br />
+
+A segunda, a confec&ccedil;&atilde;o de um simples verbete,
+impresso, correspondendo &aacute; photographia por meio
+de um numero de ordem, e satisfazendo os seguintes
+quesitos: 1.&ordm; Descrip&ccedil;&atilde;o summaria do
+objecto;
+2.&ordm; Logar onde elle se encontra; 3.&ordm; Nome do
+individuo
+ou da corpora&ccedil;&atilde;o em cuja posse se acha;
+4.&ordm; Antecedentes; 5.&ordm;
+Attribui&ccedil;&atilde;o; 6.&ordm;
+Avalia&ccedil;&atilde;o;
+7.&ordm; Escala em que houver sido feita a
+reproduc&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Este systema, semelhante ao dos museus de
+Londres, de Berlim e de Vienna, &eacute; o mais simples,
+o mais economico, o mais pratico, o mais expedito.
+Com applica&ccedil;&atilde;o ao inventario da arte hispanhola
+elle foi proposto, pelo delegado de Portugal,
+ao grande jury da ultima exposi&ccedil;&atilde;o
+historico-europeia
+em Madrid. Uma real ordem o mandou
+p&ocirc;r em execu&ccedil;&atilde;o, tendo-o sanccionado a
+approva&ccedil;&atilde;o
+unanime de uma commiss&atilde;o presidida
+pelo sr. Canovas del Castillo e composta de criticos
+<span class="pagenum">[163]</span>
+de uma competencia indiscutivel e de uma
+notoriedade europeia.
+<br />
+
+<br />
+
+Com a collec&ccedil;&atilde;o completa das photographias e
+dos verbetes a que alludo, o estado, em Portugal,
+sem ter da riqueza artistica da na&ccedil;&atilde;o um
+inventario
+t&atilde;o desenvolvido e t&atilde;o perfeito como o
+que outros paizes possuem, teria no emtanto um
+arrolamento explicito, e achar-se-hia habilitado a
+ministrar-nos o mais efficaz meio de estudo.
+<br />
+
+<br />
+
+Da collec&ccedil;&atilde;o integral, subdividida em tantas
+series
+diversas quantos os differentes criterios de
+classifica&ccedil;&atilde;o que se lhe applicassem, se
+extrairiam
+collec&ccedil;&otilde;es especiaes, em
+edi&ccedil;&otilde;es mais ou menos
+modestas, relativas a cada ramo do ensino, geral ou
+especial, e destinadas &aacute;s escolas de bellas artes,
+&aacute;s escolas industriaes, aos museus das escolas primarias
+e secundarias, &aacute;s officinas, aos operarios,
+facultando assim, ou gratuitamente ou por infimo
+pre&ccedil;o, a todas as classes sociaes um pronto meio
+de conhecimento da historia geral da arte, da historia
+da arte em cada uma das suas mais especiaes
+applica&ccedil;&otilde;es, da evolu&ccedil;&atilde;o
+das f&oacute;rmas e do
+desenvolvimento dos stylos, na architectura, na
+<span class="pagenum">[164]</span>
+pintura, na esculptura, na marcenaria, na serralheria,
+na ourivesaria, na ceramica, em todos os
+ramos emfim do trabalho artistico e industrial.
+<br />
+
+<br />
+
+Eliminando os numeros que relacionam os verbetes
+com as photographias, os alumnos das escolas
+d'arte, procurando para cada photographia o
+verbete correlativo, e satisfazendo por esse processo
+aos mais variados quesitos de classifica&ccedil;&atilde;o,
+habituar-se-hiam, por meio dos exercicios mais
+simplesmente pedagogicos, a discernir as &eacute;pocas
+e os stylos, retendo todas as diversidades da f&oacute;rma
+pela memoria da vista.
+<br />
+
+<br />
+
+Al&eacute;m do que, com o material reunido para o
+inventario dos monumentos architectonicos e das
+riquezas artisticas da na&ccedil;&atilde;o, o estado fundaria
+simultaneamente
+o mais interessante museu de reproduc&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+A Commiss&atilde;o dos Monumentos Nacionaes n&atilde;o
+&eacute; inteiramente, pelos seus meios de
+ac&ccedil;&atilde;o e pelos
+seus fins, a commiss&atilde;o a que se refere a consulta
+de 1890. Parece-me indispensavel, antes de
+tudo, que esta commiss&atilde;o se reconstitua em bases
+mais amplas, e que d'ella se desdobre a commiss&atilde;o
+<span class="pagenum">[165]</span>
+do inventario geral da d'arte, ao qual &eacute;
+urgentissimo que se proceda.
+<br />
+
+<br />
+
+Na parte em que a commiss&atilde;o tem de responder
+pela conserva&ccedil;&atilde;o dos monumentos nacionaes,
+&eacute; preciso, a meu ver, que ella se complete,
+tanto no programma dos seus trabalhos como no
+pessoal que tem de p&ocirc;r em execu&ccedil;&atilde;o esse
+programma,
+n&atilde;o de um modo como at&eacute; hoje officioso
+e facultativo, mas rigorosamente obrigatorio, sendo-lhe
+indispensavel para esse effeito a aggrega&ccedil;&atilde;o
+e a collabora&ccedil;&atilde;o effectiva de dois architectos,
+a presidencia do sr. ministro, e a publica&ccedil;&atilde;o
+periodica
+de um boletim em que regularmente se
+communiquem ao publico os resultados do trabalho
+feito.
+<br />
+
+<br />
+
+Conseguidas as condi&ccedil;&otilde;es de consistencia
+technica,
+de auctoridade e de expediente, que no estado
+presente lhe fallecem e a innutilisam, cabe &aacute;
+commiss&atilde;o arrolar definitivamente, pela photographia
+e pela escripta, os monumentos confiados
+&aacute; sua guarda bem como as obras d'arte que o
+paiz possue; nomear as commiss&otilde;es locaes; definir
+claramente o que &eacute;
+<em>conservar</em>, o que &eacute;
+<em>restaurar</em>,
+<span class="pagenum">[166]</span>
+e o que &eacute; <em>continuar</em> ou
+<em>concluir</em> um monumento;
+redigir desenvolvidamente e em suas mais particulares
+minudencias (porque n'este ponto tudo
+est&aacute; por definir e por estabelecer) os programmas
+especiaes a que tem de satisfazer rigorosamente
+todo o projecto de conserva&ccedil;&atilde;o, de restauro
+ou de acabamento na obra de cada edificio.
+<br />
+
+<br />
+
+Os cuidados de
+<em>conserva&ccedil;&atilde;o</em>
+devem ser obrigatorios
+e extensivos a todos os monumentos. Para
+esse effeito o programma &eacute; simples, e a despesa
+insignificante, ainda perante os mais modestos recursos.
+As occasi&otilde;es em que cabe
+<em>restaurar</em> s&atilde;o
+relativamente raras. E nenhum edificio, qualquer
+que seja a sua importancia historica ou artistica,
+convem <em>concluir</em>, a n&atilde;o
+ser nos casos em que
+vantajosamente elle se possa adaptar a algum dos
+servi&ccedil;os vigentes da civilisa&ccedil;&atilde;o
+contemporanea.
+Este mesmo criterio economico se deveria applicar
+&aacute; opportunidade das
+<em>restaura&ccedil;&otilde;es</em>.
+Da inobservancia
+d'estes preceitos fundamentaes resultou
+o contrasenso de restaurar o edificio dos Jeronymos
+sem previamente se accordar no destino que
+tem de ter esse edificio, como se podesse ser indifferente,
+<span class="pagenum">[167]</span>
+no modo de reconstruir uma casa, que
+ella tenha de ser uma escola, um museu, um archivo,
+um recolhimento, um quartel, um banco ou
+uma habita&ccedil;&atilde;o particular!<sup><a href="#f1">[1]</a></sup>
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Ao governo de sua magestade, para esse fim
+solicitado pelos homens que com t&atilde;o patriotico
+<span class="pagenum">[168]</span>
+desinteresse constituem a Commiss&atilde;o dos Monumentos
+Nacionaes, compete prefazel-a e fortifical-a
+com a regulamenta&ccedil;&atilde;o e auctoridade de que
+ella carece, ou dissolvel-a.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Se o Estado n&atilde;o intervem cumpre aos governados
+levar a effeito, por um decisivo esfor&ccedil;o de
+<span class="pagenum">[169]</span>
+iniciativa, a obra a que se recusem os que governam.
+<br />
+
+<br />
+
+Est&aacute;-nos dado o exemplo na actividade e na
+abnega&ccedil;&atilde;o de alguns cidad&atilde;os
+benemeritos.
+<br />
+
+<br />
+
+O sr. bispo-conde de Coimbra funda na sua
+diocese o mais completo e mais interessante museu
+de ourivesaria sagrada que existe em Portugal,
+<span class="pagenum">[170]</span>
+e emprehende e realisa, sob a intelligente
+collabora&ccedil;&atilde;o do sr. Antonio Augusto
+Gon&ccedil;alves, a
+restaura&ccedil;&atilde;o da S&eacute; Velha e a de Santa
+Cruz, com
+uma seguran&ccedil;a de criterio, de que n&atilde;o ha exemplo
+em obra alguma do mesmo genero modernamente
+consumada pelas officinas officiaes.
+<br />
+
+<br />
+
+O sr. bispo de Beja applica um egual fervor &aacute;s
+obras do convento da Concei&ccedil;&atilde;o; e na mesma cidade
+de Beja por iniciativa da municipalidade, por
+concurso patriotico de alguns cidad&atilde;os, funda-se o
+mais copioso e o mais bem catalogado dos nossos
+museus archeologicos.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Evora o sr. Francisco Barahona custeia por
+si s&oacute; a dispendiosa repara&ccedil;&atilde;o do
+sumptuoso templo
+de S. Francisco, sem a qual teria j&aacute; desabado
+ou desabaria em breve a mais bella egreja portugueza
+do tempo D. Jo&atilde;o II.
+<br />
+
+<br />
+
+Na ultima visita que fiz, em setembro passado,
+&aacute; S&eacute; de Braga, ahi me foi affirmado que o
+respectivo
+prelado estava elaborando o projecto da
+reconstitui&ccedil;&atilde;o
+artistica d'aquelle importante monumento.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Cette e em Pa&ccedil;o de Sousa, camaras, juntas
+<span class="pagenum">[171]</span>
+de parochia, simples influencias individuaes invidam
+os mais louvaveis e mais instantes esfor&ccedil;os
+para a conserva&ccedil;&atilde;o dos monumentos gloriosos
+a que n'esses logares se alliam os nomes de
+Egas Moniz, de Gon&ccedil;alo Veques e de Estevam da
+Gama.
+<br />
+
+<br />
+
+A obra t&atilde;o desvelada da extincta Sociedade de
+Instruc&ccedil;&atilde;o do Porto e a da Sociedade Martins
+Sarmento,
+em Guimar&atilde;es, s&atilde;o verdadeiros monumentos
+de erudi&ccedil;&atilde;o, de estudo, de trabalho pratico, de
+piedade patriotica.
+<br />
+
+<br />
+
+Para a constitui&ccedil;&atilde;o integral da historia da arte
+e da tradi&ccedil;&atilde;o artistica portugueza, quantas
+contribui&ccedil;&otilde;es
+dedicadas, quantos esfor&ccedil;os individuaes,
+desassociados e dispersos, na obra, t&atilde;o incomprehendida
+e t&atilde;o despremiada, dos srs. Joaquim de
+Vasconcellos, Martins Sarmento, Antonio Augusto
+Gon&ccedil;alves, Gabriel Pereira, Sousa Viterbo, Luciano
+Cordeiro, Ferreira Caldas, Ribeiro Guimar&atilde;es,
+Alberto Sampaio, Julio de Castilho, Theophilo
+Braga, Leite de Vasconcellos, Pinho Leal,
+Albano Bellino, Teixeira de Arag&atilde;o, Vilhena Barbosa,
+Concei&ccedil;&atilde;o Gomes, Filippe Sim&otilde;es,
+Manoel
+<span class="pagenum">[172]</span>
+de Macedo, Jos&eacute; Pessanha, Fonseca Benevides,
+Valentim, Vieira Natividade, Figueiredo da Guerra,
+visconde de Condeixa, Borges de Figueiredo,
+Marques Gomes, Rodrigo Vicente de Almeida,
+Zephyrino Brand&atilde;o, Possydonio da Silva, Freitas
+Costa, Avelino Guimar&atilde;es, Freire d'Oliveira; e
+quantos outros, tanto mais sympathicos quanto
+mais obscuros!
+<br />
+
+<br />
+
+O unico inutil da phalange sou talvez eu, que
+em vez de uma accurada monographia, estou
+aqui fazendo um indice de assumptos, que s&oacute; devidamente
+trataria se de cada uma d'estas paginas
+tirasse um livro. Possam ellas ao menos communicar
+a outros cora&ccedil;&otilde;es a sympathia, que filialmente
+prende o meu &aacute; terra em que nasci, e &aacute;
+ra&ccedil;a
+de que procedo!
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; pelo culto da arte, invocado n'estas paginas,
+que a religi&atilde;o da nacionalidade se exteriorisa e se
+exerce.
+<br />
+
+<br />
+
+Desde que nas consciencias se extinguiu a f&eacute;,
+&eacute; por meio da arte que as tradic&ccedil;&otilde;es
+se transmittem,
+que os sentimentos se coordenam, que os
+affectos se depuram, que as paix&otilde;es se enobrecem.
+<span class="pagenum">[173]</span>
+&Eacute; pela arte, que a exprime, que a poesia do christianismo
+sobreviver&aacute; aos seus dogmas no enternecimento,
+no amor, na saudade dos homens. &Eacute;
+tambem pela arte que em nossa memoria a poesia
+da historia sobreleva das institui&ccedil;&otilde;es, dos
+systemas,
+das theorias e dos homens, sobre que ella
+versa.
+<br />
+
+<br />
+
+A politica, depois da desastrosa fallencia de todas
+as modernas theorias liberaes, cessou por toda
+a parte de ser um foco de attrac&ccedil;&atilde;o para as
+id&eacute;as
+ou para os sentimentos humanos. As leis continuam
+a fazer-se com o destino unico de serem
+consecutivamente e invariavelmente decretadas,
+infringidas e revogadas, para se substituirem por
+leis novas, que por seu turno se decretam, se infringem
+e se revogam, como succedeu &aacute;s anteriores,
+como succeder&aacute; &aacute;s que se seguirem.
+<br />
+
+<br />
+
+No momento presente s&atilde;o unicamente os poetas,
+os philosofos e os artistas que governam espiritualmente
+o mundo. D'ahi, nos paizes de cultura
+mental, dominando todos os phenomenos da
+decadencia moderna, uma effus&atilde;o de sympathia,
+de tolerancia, de benevolencia, de perd&atilde;o, que
+<span class="pagenum">[174]</span>
+caracterisa bem o nosso tempo, e de que n&atilde;o ha
+na historia outro exemplo.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando recebemos da Inglaterra a ultima affronta
+de chancellaria, a que deu motivo o tratado
+de Louren&ccedil;o Marques, quem na minha susceptibilidade
+portugueza mais suavisou esse golpe foi o
+critico d'arte John Ruskin, proclamando solemnemente
+e categoricamente aos estudantes de Glascow
+que os estadistas inglezes (tratava-se ent&atilde;o
+do sr. Disra&euml;li e do sr. Gladstone) lhe n&atilde;o
+mereciam
+nem mais respeito nem mais considera&ccedil;&atilde;o
+que duas velhas gaitas de folle.
+<br />
+
+<br />
+
+Ruskin separava assim e distinguia radicalmente
+a Inglaterra do <em>Foreign Office</em> e de
+lord Salisbury,
+da Inglaterra de <em>South Kensington</em>,
+de <em>British Museum</em>,
+da <em>National Gallery</em>, de
+<em>Ruskin Museum</em>, de
+Darwin, de Spencer, de Carlos Dickens, de Turner,
+de Burne Jones, para a qual tender&aacute; sempre e
+irrevogavelmente
+a terna gratid&atilde;o do nosso espirito.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; unicamente pela arte, inherente &aacute; natureza
+humana, progressiva e eterna, que hoje em dia os
+homens se associam no destino e na solidariedade
+da especie.
+<span class="pagenum">[175]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; pela arte que o genio de cada ra&ccedil;a se
+patenteia,
+que a autonomia nacional de cada povo se
+revela na sua autonomia mental, e se affirma, n&atilde;o
+s&oacute; pela sua especial comprehens&atilde;o da natureza, da
+vida e do universo, mas pelo trabalho collectivo
+da communidade, na litteratura, na architectura,
+na musica, na pintura, na industria e no commercio.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; pelo culto da arte, e pela educa&ccedil;&atilde;o
+artistica
+que esse culto comprehende, que a produc&ccedil;&atilde;o
+industrial se especialisa, se valorisa pela originalidade
+caracteristica do producto, e transforma
+pela prosperidade, unicamente determinada pelo
+ensino, toda a economia de uma na&ccedil;&atilde;o, como se
+evidenciou nos ultimos tempos em Inglaterra, na
+Austria, na Allemanha, por via da simples
+reconstitui&ccedil;&atilde;o
+dos museus e da multiplica&ccedil;&atilde;o das
+escolas.
+<br />
+
+<br />
+
+Finalmente,&#8213;se para cada povo a arte &eacute; a
+seguran&ccedil;a
+da tradi&ccedil;&atilde;o, o refugio das consciencias,
+o mais puro reflexo da imagem benigna da patria,
+a fonte mais caudal de todos os progressos
+moraes, economicos e at&eacute; politicos,&#8213;para cada
+<span class="pagenum">[176]</span>
+homem, na tortura de tantas incertesas moraes
+na magoa e na ruina de tantas cren&ccedil;as extinctas,
+de tantos ideaes desfeitos no melancholico decurso
+da nossa edade, a arte &eacute; ainda&#8213;como diz
+Schopenhauer&#8213;<em>a unica fl&ocirc;r da
+vida</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<b>Notas:</b>
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f1"></a><sup>[1]</sup> O
+conspicuo parecer, que, a respeito das obras dos Jeronymos,
+foi pelo sr. Luciano Cordeiro apresentado &aacute;
+Commiss&atilde;o dos
+Monumentos Nacionaes, em sess&atilde;o de 7 de novembro de 1895,
+termina,
+depois d'outras, pelas conclus&otilde;es seguintes:
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;5.&ordf; O Templo deve ficar destinado,
+s&oacute;mente,
+&aacute;s grandes celebra&ccedil;&otilde;es
+religiosas do Estado, e a Galilea a jazida dos restos dos
+Descobridores e Navegadores portuguezes.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;6.&ordf; Todo o resto do monumental edificio deve ser
+destinado
+a alojamento e installa&ccedil;&atilde;o do Archivo Nacional,
+convindo que
+essa installa&ccedil;&atilde;o se ache concluida at&eacute;
+o mez de maio de 1897.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o concordo inteiramente com o sr. Luciano Cordeiro em
+que se transporte para o edificio annexo &aacute; egreja dos
+Jeronymos
+o archivo da Torre do Tombo, e t&atilde;o pouco em que se remova
+da egreja o exercicio parochial do culto.
+<br />
+
+<br />
+
+Por complexas raz&otilde;es, que n&atilde;o vem para aqui
+desenvolver, eu
+votaria por que, em vez do archivo da Torre do Tombo se estabelecesse
+o museu naval no edificio dos Jeronymos. E emquanto
+a egreja, al&eacute;m de que, em minha humilde opini&atilde;o,
+o clero
+a saberia sempre guardar muito melhor do que o estado, accresce
+ainda que a parochia de Santa Maria de Belem &eacute; uma
+institui&ccedil;&atilde;o
+historicamente sagrada, indissoluvelmente unida em nosso respeito
+&aacute; tradi&ccedil;&atilde;o do monumento. Foi o infante
+D. Henrique quem
+transformou o inhospito areal do Restello na linda freguezia de
+Belem, arroteando o solo, para refresco, abrigo e amparo espiritual
+dos navegantes, plantando arvores, dispondo hortas e pomares,
+abrindo fontes e construindo a primitiva ermida exactamente
+no mesmo logar em que se edificou a actual egreja. O pontifice Pio II
+confirmou por meio de uma bula a doa&ccedil;&atilde;o do
+infante &aacute; ordem de
+Christo, e instituiu em parochia a primeira egreja de Santa Maria de
+Belem, sem outro encargo para a ordem, para os navegantes e para
+o publico sen&atilde;o o de se rezar a cada missa, aos sabbados, um
+<em>Pater
+e uma Ave Maria pela salva&ccedil;&atilde;o da alma do infante
+D. Henrique
+e por a d'aquelles de quem era teudo</em>. O rei D.
+Manoel, tendo
+edificado a sumptuosa egreja e o mosteiro dos Jeronymos, na
+volta da armada de Vasco da Gama, depois do descobrimento da
+India, colloca a estatua do infante &aacute; porta da egreja,
+mantem a
+parochia, e determina, em cumprimento dos piedosos desejos de
+D. Henrique, que a cada missa, ao lavar das m&atilde;os, o
+sacerdote se
+volva para a gente, e diga em alta voz. &laquo;Rogae a Deus pela
+alma
+do infante D. Henrique, primeiro fundador d'esta casa, e por a de
+el rei D. Manoel, que a doou &aacute; ordem de Christo.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+A data d'esta carta de doa&ccedil;&atilde;o &eacute; de 26
+de dezembro de 1498.
+<br />
+
+<br />
+
+Seria, a meu ver, uma infidelidade, uma ingratid&atilde;o, e um
+torpe desacato remover a parochia de Santa Maria de Belem
+do logar em que seus gloriosos fundadores a estabeleceram, cabendo-nos
+pelo contrario o dever de reclamar dos poderes civis
+e dos poderes ecclesiasticos que o modesto voto dos fundadores
+se cumpra, como &eacute; de raz&atilde;o juridica e de
+probidade nacional,
+e que em cada missa conventual celebrada pelo parocho na
+egreja dos Jeronymos, o sacerdote se volte para o povo, ao
+<em>lavabo</em>,
+e pe&ccedil;a um <em>Pater</em> e uma
+<em>Ave Maria</em> pela alma do infante D.
+Henrique
+e pela de el-rei D. Manoel.
+<br />
+
+<br />
+
+Que se adopte por&eacute;m ou se n&atilde;o adopte a proposta
+do sr. Luciano
+Cordeiro, o que technicamente n&atilde;o &eacute; de certo
+admissivel &eacute;
+que as obras dos Jeronymos se prosigam e se concluam sem
+resolu&ccedil;&atilde;o
+tomada &aacute;cerca do destino que ha de ter o edificio em que
+taes obras se fazem.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="fbox">
+<h2>Lista de erros corrigidos</h2>
+
+<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se
+listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4">
+
+ <tbody>
+
+ <tr align="right">
+
+ <td style="width: 61px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correc&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e1" id="e1"></a><a href="#p71">#p&aacute;g.
+71</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">ta boas</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">taboas</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e2" id="e2"></a><a href="#p74">#p&aacute;g.
+74</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">onem</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">nem</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e3" id="e3"></a><a href="#p74">#p&aacute;g.
+74</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">dimens&atilde;</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">dimens&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e4" id="e4"></a><a href="#p105">#p&aacute;g.
+105</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">ascebispo</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">arcebispo</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e5" id="e5"></a><a href="#p142">#p&aacute;g.
+142</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">privilegido</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">privilegiado</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<div style="text-align: center;"><br />
+
+Variantes dos nomes pr&oacute;prios foram mantidas de acordo com o
+original.<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+</div>
+
+</div>
+
+<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30456 ***</div>
+</body>
+</html>
diff --git a/30456-h/images/fig01.png b/30456-h/images/fig01.png
new file mode 100644
index 0000000..383f759
--- /dev/null
+++ b/30456-h/images/fig01.png
Binary files differ