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diff --git a/30456-h/30456-h.htm b/30456-h/30456-h.htm new file mode 100644 index 0000000..5c1e5f0 --- /dev/null +++ b/30456-h/30456-h.htm @@ -0,0 +1,6464 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"> +<head> + <title>O culto da arte em Portugal</title> + + + <meta name="AUTHOR" content="Ramalho Ortigão" /> + + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=UTF-8" /> + + <style type="text/css"> +body {width: 50%; margin-left:10%; text-align: justify;} +h1, h2, h3, h4, h5 { text-align: center;} +h1 {margin: 2em; text-align: center;} +h2, h4 {margin-top: 2em;} +.bbox {border: solid black 1px; margin-left: 5%; margin-right: 5%;} +.fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 75%; margin-left: 10%; margin-right: 10%;} +.dots {color: #fff; background-color: inherit; border: 3px dotted #555; border-style: none none dotted;} +.tiny { +font-size: 90%; +text-align: center; +font-style: italic;} +.signature { +margin-right: 5%; +text-align: right;} +.bbreak { +width: 30%; +margin-left:35%;} +.sbreak { +width: 10%; +margin-left:45%;} +.poetry { +margin-left: 20%;} +.poetry1 { +font-size: 90%; +margin-left: 20%;} +.poetry3 { +font-size: 90%; +margin-left: 30%;} +.smallcaps { +font-variant: small-caps;} +.pagenum { position: absolute; right: 35%; +font-size: 75%; +text-align: right; +text-indent: 0em; +font-style: normal; +font-weight: normal; +color: silver; background-color: inherit; +font-variant: normal;} + </style> +</head> + + + +<body> +<div>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30456 ***</div> + +<div> +<div class="fbox"> <b>Nota de editor:</b> +Devido à +existência de erros tipográficos neste texto, +foram tomadas várias decisões quanto à +versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi +mantida de acordo com o original. No final deste livro +encontrará a lista de erros corrigidos.<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita +Farinha (Nov. 2009) +</div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3> +O CULTO DA ARTE<br /> + +<br /> + +EM<br /> + +<br /> + +PORTUGAL +</h3> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="bbox"><br /> + +<h3><em>RAMALHO ORTIGÃO</em> +</h3> + +<br /> + +<div class="bbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<h2> +O CULTO DA ARTE<br /> + +</h2> + +<br /> + +<h3> +EM</h3> + +<h2>PORTUGAL +</h2> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<div class="tiny">Monumentos +architectonicos―Restaurações―Desacatos<br /> + +Pintura e esculptura―Artes industriaes<br /> + +O genio e o trabalho do povo―Indifferença +oficial―Decadencia<br /> + +Anarchia esthetica<br /> + +Desnacionalisação da +arte―Dissolução dos sentimentos<br /> + +Urgencia de uma reforma +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 96px; height: 63px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<h4>LISBOA<span class="smallcaps"><br /> + +Antonio Maria Pereira, +Livreiro-Editor</span><br /> + +50―Rua Augusta―52<br /> + +<br /> + +1896 +</h4> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<hr /> +<div style="text-align: center;">Typographia da Academia +Real das Sciencias de Lisboa +<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">Á +Commissão +dos Monumentos Nacionaes +<br /> + +<br /> + +<br /> + +dedica respeitosamente<br /> + +este humilde trabalho<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature"><em>O AUCTOR</em></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[1]</span> +Durante a Renascença, e ainda atravez da Edade +Média, tão insufficientemente conhecida no enigma +da sua cultura artistica, os reis, os monges, +os fidalgos, os burguezes enriquecidos ostentavam +o fausto e a pompa hierarchica não sómente +construindo +palacios e castellos, que enobreciam os +logares que elles habitavam, mas erigindo basilicas +e cathedraes, em que se concentravam todos +os esforços do talento de uma raça, e eram +verdadeiramente +os palacios do povo, doados magnanimamente +pelos mais poderosos aos mais humildes, +em nome de Deus, em nome do rei, em +honra da patria. +<span class="pagenum">[2]</span> +<br /> + +<br /> + +N'esses edificios incomparaveis se achavam colligidas +como em escolas monumentaes, como em +museus portentosos, todas as maravilhas da sciencia, +da poesia e da arte. A esculptura architectural, +a estatuaria dos mausoleus, a imaginaria dos +altares, a illuminura dos missaes, a pintura das +vidraçarias, +a talha dos retabulos subordinavam-se +a um pensamento commum, expresso n'um vasto +symbolismo, comprehendendo as fecundidades da +terra e do mar, o trabalho do homem nos seus +desfallecimentos e nos seus triumphos, a +perturbação +dos sentidos pelo peccado, a fatalidade do +sangue, o horror do universal aniquilamento, e +o vôo da alma para Deus, levada por um immortal +instincto de amor, de paz, de verdade e +de justiça. +<br /> + +<br /> + +Dentro d'essas egrejas, ameaçadas hoje de proxima +ruina ou inteiramente arruinadas, se celebravam +todos os actos da vida religiosa, da vida civil +e da vida domestica. Ahi se casavam os noivos, +se baptisavam os filhos, se sepultavam os paes. +Ahi se ungiam os reis, velavam as armas os cavalleiros, +professavam os monges, benziam-se os +<span class="pagenum">[3]</span> +fructos da terra, as bandeiras das hostes, as ferramentas +da lavoura e os pendões dos officios. +Ahi se discutiam os interesses do povo, os direitos, +as franquias, os foros da communa. Ahi se +prégava o Evangelho, se resava a missa, e se representavam +os autos populares da vida de Jesus +e dos seus santos; e nas vigilias da Natividade, +da Epiphania e da Paschoa, quando o orgão emudecia +no coro e se calavam os cantos liturgicos, o +povo bailava ao longo da nave, sob as abobadas +gothicas ou sob as cupulas bysantinas, e as lôas e +os villancicos, entoados pelos fieis, subiam para +o ceu com a fragancia das flores e com o fumo +dos thuribulos, ao repique das castanholas e ao +rufar dos adufes. +<br /> + +<br /> + +Ao lado dos brazões e das divisas heraldicas +pendiam dos muros os votos modestos dos mais +obscuros mesteiraes, dos mais humildes braceiros. +<br /> + +<br /> + +Esse alcaçar dos pobres, que era a egreja medieval, +alcaçar mais sumptuoso que o de nenhum +rei, dava asylo incondicional, inviolavel e sagrado, +aos maltrapilhos, aos villões, aos mendigos, +aos lazaros e ás lazaras de todas as lepras do corpo +<span class="pagenum">[4]</span> +e da alma, aos tinhosos, aos nus, aos imbecis, aos +ignorantes, aos criminosos, ás mulheres adulteras, +ás mancebas, ás mundanarias, ás +barregãs. +<br /> + +<br /> + +O egoismo dos tempos modernos torna-nos incompativeis +com o commetimento de tão grandes +obras. Creamos instituições de caridade, fazemos +regulamentos de assistencia publica, e vangloriamo-nos +de haver definido pela revolução liberal o +dogma da fraternidade humana, mas somos fundamentalmente +incapazes de consagrar á pratica +das virtudes, de que julgamos ter na historia o +monopolio, monumentos como aquelles que nossos +avós lhe levantaram <em>a proll do comum e +aproveitança +da terra</em>, dando em resultado que o mais +andrajoso mendigo da portaria do mosteiro de Alcobaça +ou do mosteiro de Santa Cruz, com o seu +alforge ao pescoço e a sua escudella debaixo do +braço, participava, além da +ração quotidiana que +se lhe distribuia pelo caldeirão da communidade, +de um agasalho de principe e de um luxo d'arte +com que hoje não competem os maiores potentados, +os quaes em suas casas e para seu recreio intimo +se rodeiam de todas as joias artisticas de que +<span class="pagenum">[5]</span> +pela abolição dos vinculos e pela +extinção das ordens +religiosas se apoderou o moderno commercio +do bric-à-brac. +<br /> + +<br /> + +Falta-nos a alta noção de solidariedade +patriotica, +falta-nos o desapego dos bens de fortuna, falta-nos +o largo espirito de abnegação, falta-nos a +illimitada liberalidade cavalleirosa, e falta-nos a fé +dos nossos avós. +<br /> + +<br /> + +Na architectura trabalhamos unicamente para +nós mesmos, sem cuidados de futuro, sem pensamento +de continuidade de raça ou de familia, deslembrados +de que teremos vindouros e de que teremos +netos. +<br /> + +<br /> + +Entre as nossas antigas construcções hydraulicas +ha o aqueducto de Elvas, que levou cem annos +a fazer. Varias gerações successivas acarretaram +para essa construcção os materiaes; e lentamente, +pacientemente, foram collocando pedra sobre +pedra, para que um dia a agua chegasse a Elvas, +e bebessem d'ella os netos dos netos d'aquelles +que de tão longe principiaram a recolhel-a e a +canalisal-a. Uma tal empresa é a +humilhação e a +vergonha do nosso tempo, imcapaz de pagar com +<span class="pagenum">[6]</span> +egual carinho ao futuro aquillo que deve á previdencia, +aos sacrificios e aos desvelos do passado. +<br /> + +<br /> + +O nosso ideal na arte de construir é que a obra +se faça em pouco tempo e por pouco dinheiro. +Vamos abandonando cada vez mais, de dia para +dia, a pedra e a madeira, em que é nimiamente +moroso para a morbida inquietação do nosso +espirito +o trabalho de desbaste, de esquadria e de +lavor. Adoptamos, como material typico do nosso +systema de edificar, o ferro, o tijolo e a pasta. A +casa cessou de ser uma obra de architectura para +se converter em uma empreitada de engenharia, +e os delicados artistas da pedra, da madeira e do +ferro forjado abdicam da sua antiga missão perante +os subalternos obreiros encarregados de fundir, +de amassar e de enformar a vapôr a +habitação +moderna e o moderno edificio publico―a +gare, o quartel, o mercado ou a cadeia. +<br /> + +<br /> + +O seculo XIX, se com a impotencia de continuar +a obra monumental dos seculos que o precederam, +accumulasse a incapacidade de comprehender +e de venerar essa obra, representaria um pavoroso +retrocesso na historia. Não succede assim, +<span class="pagenum">[7]</span> +porque são inviolaveis as leis do progresso. Ao +seculo XIX coube patentear o estudo mais dedicado +e o conhecimento mais perfeito da arte antiga. +A sciencia archeologica e a critica d'arte +nunca em nenhum outro periodo da civilisação +chegaram á eminencia attingida pelos investigadores +contemporaneos. É tambem em sua maneira +um colossal monumento, dos mais gloriosos +para a intelligencia, o que erigiu a erudição +do nosso tempo, constituindo scientificamente a +archeologia, definindo o seu methodo, fixando os +seus limites, especialisando o trabalho dos seus +contribuintes, distinguindo da archeologia litteraria +a archeologia da arte, ramificando para um +lado a paleographia, a epigraphia, a ecdotica, a +museographia e a propedeutica, para o outro as +bellas artes, as artes industriaes, a numismatica, e +ainda como desdobramento d'estes estudos a iconographia, +a mithologia figurada e a symbologia, +particularisando emfim estas investigações a cada +povo e a cada epocha da humanidade, creando +d'esse modo a prehistoria, a egyptologia, a syriologia, +que tão amplo clarão teem derramado sobre +<span class="pagenum">[8]</span> +os problemas da origem do homem, da distribuição +das raças, da formação das linguas. +Fixaram-se +pelas escavações de Troia, de Mycenes, +de Chypre, de Santorin e de Rhodes as origens +orientaes e pelasgicas da arte grega. Corrigiu-se +na historia da ceramica a confusão existente entre +os vasos pintados gregos e etruscos. Refez-se +completamente sobre novos elementos e por um +criterio novo a historia da olaria, a da toreutica, +a da glyptica, a da esculptura em barro, a dos +bronzes, a das joias, a da tapeçaria, a da illuminura. +Desvendou-se o conhecimento da tachigraphia +hieratica e dos alphabetos hieroglyphicos, +ideographicos e phoneticos, que precederam o alphabeto +grego e o latino. Creou-se a critica scientifica +dos textos. Colligiram-se e classificaram-se +as inscripções gregas e romanas dessiminadas pela +Europa, e definiu-se o methodo de as datar. Leram-se +os carcomidos graffitos de Pompeia, os +papyrus carbonisados de Herculanum, as cartas +lapidares da edade média e os palimpsestos de +Plauto, de Cicero, de Marco Aurelio, de Tito Livio, +de Euripedes e dos scribas carolingeanos. +<span class="pagenum">[9]</span> +Interpretaram-se os documentos de procedencia +egypcia, copta ou phenicia sepultados nos jazigos +das mumias. E os mysteriosos caracteres hieroglyphicos +e cuneiformes das inscripções egypcias, +caldéas, assyrias e persas foram simplesmente +trasladados a vulgar. Determinou-se a edade dos +manuscriptos pelo systema das abreviaturas e da +pontuação e pela evolução +da letra desde a oncial +da <em>Iliada</em> no palimpsesto +greco-syriaco do Museu +Britannico até a minuscula italiana egual á dos +primeiros caracteres da imprensa. Inspeccionaram-se +e inquiriram-se as primitivas habitações +do homem, as suas primeiras fortificações, os +seus +mais antigos sepulcros,―a caverna, a cidade lacustre, +os castros e os dolmens. Na architectura +principiou-se a estudar por novos meios de critica +as causas dos seus progressos e da sua decadencia, +prendendo assim pelos mais estreitos vinculos ao +destino da arte o destino do homem. Por tal modo +se transfigurou completamente desde o seu alicerce +até o seu remate o vasto edificio da historia, +segundo a resumida formula dada por Champolion +Figeac: que todos os monumentos, ainda +<span class="pagenum">[10]</span> +os mais communs e os mais grosseiros, conteem +factos cujo conjuncto é como a estatistica moral +das sociedades extinctas. +<br /> + +<br /> + +D'esse novo criterio resultou a attenção especial +com que todos os povos cultos principiaram +a considerar a obra material do passado; e assim +nasceu, com uma nova palavra, a nova maneira +de <em>restaurar</em> os edificios publicos. +<br /> + +<br /> + +Em mais de um documento da edade média se +encontram provas de que os antigos poderes não +abandonavam, tão completamente como hoje se +poderia suppor, ao accaso de qualquer iniciativa, +sem beneplacito do estado, as edificações +consagradas +ao publico. No <em>Codigo de las +partidas</em>, lei +6.ª, titulo X, dizia Affonso o Sabio, n'aquella saborosa +lingua de que mais tarde se desdobrou o +portuguez e o castelhano: «Por bienaventurado +se debe tener todo home que pueda facer eglesia, +do se ha de consagrar tan noble cosa et tan sancta +como el cuerpo de Nuestro Señor Jesucristo, +et como quiere que todo home ó mujer la puede +facer a servicio de Dios, pero con mandamiento +del obispo, como es dicho en la ley segunda deste +<span class="pagenum">[11]</span> +titulo, con todo eso debe catar dos cosas el que la +ficiere, que la faga complida et apuesta; et esto +tambien en la labor como en los libros et en las +vestimientas...» +<br /> + +<br /> + +Affonso V escreve de Almada, em 1467, aos +juizes, vereadores, procuradores e homens bons +da cidade de Evora para que se permitta a Sueiro +Mendes levar duas pedras que estavam nos açougues, +e eram do antigo templo romano, para antipeitos +das janellas de uma casa, que a esse tempo +edificava. «E porque as ditas pedras aproveitam +pouco honde estam e em as ditas casas faram +muito, e ainda é nobresa as cidades haverem +em ellas bôas casas taes como as do dito Sueiro +Mendes, e seu fundamento he as faser para nós +em ellas havermos de pousar, Nós vos rogamos e +encomendamos que vos prasa lh'as quererdes dar, +e Rodrigo Esteves mestre das nossas obras em +essa cidade terá cuidado de as tirar donde estam, +etc.» Estas linhas são um traço +caracteristico +da policia do tempo. D'ellas se deduz que era +preciso no seculo XV requestar a intervenção +regia +para bulir em duas pedras de um velho monumento, +<span class="pagenum">[12]</span> +operação que hoje se realisa com menos +formalidades, e até, como é sabido, sem +formalidade +alguma. Era porém entendido como +doutrina corrente não desdizer da nobreza de +uma cidade que cantarias de stylo romano se +transpuzessem do edificio a que pertenciam para +edificio de stylo completamente diverso. Aquillo +que modernamente se entende pelo neologismo +restaurar é operação desconhecida dos +antigos. A +obra architectonica seguia sempre e invariavelmente +quer em novas edificações, quer em +reparação +de antigas, o systema e o stylo da epocha +em que era feita. Sem falarmos do Egypto, da +Grecia, de Roma, onde as reconstrucções se +emprehendiam, +sem o menor sentimento de respeito +pela tradição, em vista de celebrar uma gloria +coeva com os mesmos materiaes que haviam servido +á glorificação de feitos anteriores, +como no +arco de Constantino feito com as pedras do arco +de Trajano, vemos em toda a Europa, e mais particularmente +em Hispanha e em Portugal, edificios +em cujos stylos sobrepostos perfeitamente se +espelha o independentismo das influencias diversas +<span class="pagenum">[12]</span> +atravez das successivas phases da construcção +por differentes vezes interrompida. Uns nascem +genuinamente bysantinos e desenvolvem-se romanicos; +outros começam romanicos e concluem gothicos; +outros, gothicos de nascença, acabam no +clacissismo greco-romano do renascimento; e é +frequente nas nossas egrejas entrarmos por um +portal do seculo XVI para nos defrontarmos com +uma capella mór no stylo barroco de D. João V, +de D. José ou de D. Maria I. D'esses casos de +polyarchitectonismo +encontramos exemplos em Toledo, +em Burgos, nos Jeronymos, na Batalha. +<br /> + +<br /> + +A cathedral de Colonia é n'este ponto de vista, +um facto particularmente expressivo. A +construcção, +principiada no meado do seculo XIII, proseguida +muito lentamente, suspende-se no fim do +seculo XV por desanimo de a concluir segundo o +plano primitivo. No seculo XVII e no seculo XVIII, a +nave, abrigada por um tecto provisorio, é ornamentada +em stylo rococo. Sómente em 1842 se +encetaram os trabalhos de uma restauração +authenticamente +archeologica, segundo o plano original, +cabendo o projecto da conclusão a um architecto +<span class="pagenum">[14]</span> +que ao mais profundo estudo do stylo +ogival reunia o talento mais esclarecido e mais +perspicaz. +<br /> + +<br /> + +Na historia da cathedral de Milão circumstancias +analogas ás de Colonia veem ainda corroborar +a affirmação de que unicamente ao seculo XIX +cabe o privilegio de restaurar monumentos. A obra +de Milão iniciada no seculo XIV, é interrompida +por desavenças entre os architectos, uns +allemães, +outros italianos, outros francezes; é continuada +no seculo XVI em stylo da renascença; e tão +sómente +em 1805 a restauração do monumento no +seu stylo primitivo, segundo os programmas mais +tarde definidos, se achou determinada por Napoleão +I, o qual pela vastidão do seu genio, ainda +que pouco propicio aos humildes, muitas vezes se +adeantou do seu tempo, e em muitas campanhas +da intelligencia indicou de antemão o ponto da +victoria, assim como ao principiar a campanha de +Italia assignalava na carta do Piemonte o logar +de Marengo. +<br /> + +<br /> + +Foi Vitet, nomeado inspector geral dos monumentos +historicos em 1830, quem primeiro indicou +<span class="pagenum">[15]</span> +em França o programma das restaurações +architectonicas, +presentemente seguido em toda a +parte:―em Hispanha, onde depois da real ordem +de 4 de maio de 1850, se não emprehende +obra de especie alguma nos edificios monumentaes +sem prévia consulta da commissão dos monumentos +historicos e artisticos; em Inglaterra e +na Allemanha, que haviam precedido a França na +protecção da arte nacional; na Italia, emfim, na +Belgica, na Dinamarca, na Suecia, na Noruega, +na Grecia, na Turquia. +<br /> + +<br /> + +Violet-le-Duc, o erudito mestre a quem tanto +deve o ensino da archeologia e das artes, completou +o programma de Vitet, não sómente ampliando +os seus preceitos, mas dando da applicação +d'elles o mais notavel exemplo na restauração do +castello le Pierrefonds. +<br /> + +<br /> + +Conhecidos os livros de Violet-le-Duc, estudados +com tão paciente laboriosidade, escriptos com +tão lucido e penetrante engenho, e conhecida a +legislação +européa baseada n'esses estudos tão completos +e tão perfeitos, a questão puramente +administrativa +de dar aos monumentos nacionaes de +<span class="pagenum">[16]</span> +cada povo a protecção que se lhes deve, quando +menos por simples solidariedade intellectual na +civilisação do nosso tempo, é +questão perfeitamente +illucidada e rigorosamente definida. +<br /> + +<br /> + +Vejamos agora qual é em Portugal, perante as +responsabilidades da administração, o reflexo das +ideias, cuja historia procurei resumir, com o fim +de pôr o assumpto na perspectiva que a sua magnitude +pede. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Levaria muito tempo e seria excessivamente +triste ennumerar todos os attentados de que teem +sido e continuam a ser objecto, perante a mais +desastrosa indifferença dos poderes constituidos, +os monumentos architectonicos da nação, os quaes +assignalam e commemoram os mais grandes feitos +da nossa raça, sendo assim por duplo titulo, +já como documento historico, já como documento +artistico, quanto ha, sobre a terra em que nascemos +mais delicado e precioso para a honra, para +a dignidade, para a gloria da nossa patria. +<br /> + +<br /> + +Dos desacatos de lesa magestade nacional, a +que tenho a dôr e a vergonha de me referir, uns +<span class="pagenum">[17]</span> +teem caracter anonymo, outros affectam directamente +a cumplicidade official. Os primeiros são +uma consequencia de desdem; os segundos são +um resultado de incapacidade. +<br /> + +<br /> + +A auctoridade, incerta, vagamente definida, a +quem tem sido confiada a conservação e a guarda +da nossa architectura monumental, procede com +esse enfermo, de quem se incumbiu de ser o enfermeiro, +por dois methodos differentes: umas vezes +deixa-o morrer; outras vezes, para que elle +mesmo não tome essa resolução +lamentavel, assassina-o. +Na primeira hypothese a calamidade +correlativa chama-se <em>abandonar</em>. Na +segunda hypothese +a catastrophe correspondente chama-se +<em>restaurar</em>,―gallicismo technico, +recentemente introduzido +no vocabulario nacional, mas ainda não +definido vernaculamente na applicação pratica. +<br /> + +<br /> + +Para o argumento que tenho em vista produzir, +tomarei unicamente d'entre os differentes desastres +com que se deshonram e enxovalham os +nossos monumentos, o desastre denominado +<em>restauração</em>. +<br /> + +<br /> + +Serei laconico, sem deixar de ser sufficientemente +<span class="pagenum">[18]</span> +expressivo, porque os factos são de uma +eloquencia que esmaga toda a especie de replica +na materia de que se trata. +<br /> + +<br /> + +Aqui temos tres edificios restaurados ou em +restauro a expensas da nação, sob os auspicios +do estado: Os Jeronymos, a Madre de Deus e a +Batalha. +<br /> + +<br /> + +Nos Jeronymos a construcção desmoronou-se, +sem provocação alguma de agente extranho, por +mero desequilibrio de si mesma. Inutil todo o +commentario. A restauração, ainda antes de +terminada, +cahiu. Que prova mais lastimavelmente +completa, evidente e cabal, de que foi insufficientemente +estudado, logo nos seus primordiaes elementos, +o programma de tal restauração?! As +seguranças +de execução falham precisamente na +parte mais rudimentar do problema. +<br /> + +<br /> + +Attente-se em que não se trata ainda de uma +questão de archeologia, nem de uma questão de +arte; não se apresenta nenhuma d'essas subtis difficuldades +inherentes ao estudo das fórmas constructivas +ou ornamentaes, ao discernimento dos +diversos stylos, ao pleno conhecimento das antigas +<span class="pagenum">[19]</span> +escolas no tempo e na região a que o edificio +pertence. Resolve-se apenas realisar uma simples +tarefa de construcção, e esquece, incumbindo esse +trabalho de simples mestre de obras ao mais distincto +dos scenographos, que a primeira condição de +um architecto a quem se confia a restauração de +um monumento é que elle seja, antes de tudo, +acima de tudo, o mais habil, o mais experiente, o +mais perito de todos os constructores. +<br /> + +<br /> + +Na Madre de Deus, onde aliás o primitivo portal +da rainha D. Leonor foi discretamente reconstituido +na moderna fachada do edificio, temos o +infortunio de ir encontrar no consecutivo restauro +de uma fabrica do tempo de D. João III novos +capiteis de columnas, nos quaes em vez da +ornamentação +vegetal do nosso seculo XVI se vê +reinar nos entablamentos a figuração, +absolutamente +imprevista e inopinada, de uma locomotiva +de caminho de ferro, arrastando fumegante o respectivo +comboyo, tudo lavrado mui laboriosamente +em pedra, e demandando um tunel. Este +assombroso phenomeno de pathologia archeologica +estou convencido de que dispensa ainda mais +<span class="pagenum">[20]</span> +do que o caso dos Jeronymos a investigação da +autopsia. +<br /> + +<br /> + +Nas restaurações da Batalha, umas já +em realidade, +outras ainda em projecto, falta, primeiro +que tudo, o meditado programma de conjuncto +no ponto de vista archeologico, no ponto de vista +artistico e no ponto de vista technico, visando o +assumpto por todos os lados de que elle pode ser +encarado: qualidade do solo, influencias da atmosphera, +escolha de materiaes, condições de resistencia +e de equilibrio, systema geral de structura, +determinação do stylo, desde as suas grandes +linhas e dos seus motivos dominantes até os ultimos +desenvolvimentos d'essas linhas, até o extremo +desdobramento d'esses motivos, mão de +obra, direcção e apprendisagem em todas as +officinas +de que depende o restauro, etc. +<br /> + +<br /> + +Seria por um programma d'essa natureza que +a competencia do architecto restaurador deveria +principiar a affirmar-se. Perante essa prova, comprehendendo +o estudo do monumento, plantas, alçados, +photographias, desenhos de projectos, systemas +de stylisação, methodos de estudo e de trabalho, +<span class="pagenum">[21]</span> +regimentos de officinas, etc., poderiamos +nós, que não somos architectos, mas simples +criticos, +fiscaes da arte em nome do publico, decidir +se o restaurador da Batalha está ou não +está ao +nivel da sua missão. Sem prova d'essa ordem que +cotejemos com os requisitos a que teem de satisfazer, +nos paizes extrangeiros, os architectos a +quem se entrega a restauração de um monumento, +nós não podemos julgar senão de um +modo +muito imperfeito, tendo de entrar mais ou menos +no exame da execução, para o qual nos fallece a +competencia profissional. +<br /> + +<br /> + +Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque é o +unico architecto portuguez de quem conhecemos, +com relação á historia do edificio e +ao plano da +restauração da Batalha, estudos especiaes, +consubstanciados +n'uma memoria publicada, depois da +morte do auctor, em 1867. A monographia a que +me refiro, além de mui interessantes +revelações +sobre os vandalismos perpetrados pelos ultimos +frades que habitaram o mosteiro e chegaram a +quebrar os preciosos vidramentos das janellas +para presentearem os visitantes com cabeças das +<span class="pagenum">[22]</span> +figuras de que elles se compunham, contém alguns +principios mui judiciosos e bem definidos, +sobre o modo como esse perito restaurador, que +a influencia do rei D. Fernando fizera nomear, +comprehendia a sua delicada missão. E excellente +o methodo por elle proposto para a conservação +das Capellas imperfeitas. Notam-se alguns excessivos +e infundados rigores de zelo, como na parte +em que ao restaurador repugna adoptar, para o +fim de pôr o monumento ao abrigo das intemperies, +processos de resguardo mais perfeitos que +os conhecidos ao tempo da construcção primitiva, +taes como, por exemplo, o emprego de cimentos +modernos na vedação de uma cobertura, +etc. A memoria programma de Mousinho de Albuquerque +é não obstante um trabalho de incontestavel +merecimento, que muito augmenta de +valor se levarmos em conta que esse illustre architecto +escrevia em 1840, quatro annos depois +d'aquelle em que o rei D. Fernando visitou o edificio, +chamando para elle pela primeira vez a +attenção dos poderes publicos. +<br /> + +<br /> + +Até Mousinho a architectura da Batalha foi na +<span class="pagenum">[23]</span> +litteratura portugueza um puro thema de rhetorica. +O romantismo tinha-nos trazido a moda do +gothico por via de Chateaubriand e de Victor +Hugo. Os romances, as xacaras, as baladas e os +solaus, com as suas castellãs, os seus paladinos, +os seus pagens, os seus menestreis e os seus respectivos +attributos―lanças, montantes, elmos, +guantes de ferro, falcões, adagas, béstas e +bandolins, +pediam um scenario de fortificação feudal, +fossos e pontes levadiças, revelins, caminhos +de ronda, ameias, torres de menagem, amplas +chaminés com trasfogueiros forjados, ogivas e +abobadas. As egrejas, para os effeitos de grandiosidade +no stylo, sempre que não eram ermidas +eram cathedraes. Os romanticos chamavam +cathedraes a todos os grandes templos, como o +da Batalha, o do Carmo e o dos Jeronymos. O +romance historico, tanto em voga durante a +geração +litteraria de Alexandre Herculano, tinha +exigencias decorativas analogas ás da poesia cavalheiresca. +Os estudos de critica e de archeologia +artistica, tendo por objecto os nossos monumentos +architectonicos, davam em resultado +<span class="pagenum">[24]</span> +geral uma especie de lenga-lenga de eruditos ciceroni. +<br /> + +<br /> + +A Batalha tem sido constantemente, desde a +primeira apparição da +<em>Abobada</em> no +<em>Panorama</em>, até +hoje, o <em>grande livro de marmore</em>, o +<em>immortal poema</em>, +a <em>Divina Comedia portuguesa</em>, a +triumphante +affirmação da nacionalidade independente, +definitiva, +fundada pela vontade do povo, pela espada +do mestre de Aviz, pela lança de D. Nuno Alvares +Pereira e pela penna de João das Regras. +<br /> + +<br /> + +Com effeito, nada mais bello, na historia nacional, +do que o feito d'armas de Aljubarrota e o monumento +de Nossa Senhora da Victoria, destinado +a commemorar esse feito, por voto de D. João I. +Mas d'ahi a poder-se dizer que o edificio da Batalha +é, como a epopéa dos +<em>Luziadas</em>, a imagem +technica das idéas e dos sentimentos da patria, +medeia―me parece―um largo abysmo. +<br /> + +<br /> + +Olhemos por um momento a historia d'esta +construcção. +<br /> + +<br /> + +Frei Luiz de Sousa diz que «El-rei chamara de +longes terras os mais celebres architectos que se +sabiam; convocara de todas as partes, officiaes de +<span class="pagenum">[25]</span> +cantaria déstros e sabios; convidara a uns com +honras, a outros com grossos partidos, e obrigara +a muitos com tudo junto.» Este testemunho é +precioso +e está acima de toda a suspeita, porque nos +vem de um frade de S. Domingos, que habitou +por muitos annos o convento da Batalha, e que, +como chronista da ordem, conheceu inteiramente +pelo archivo do convento quanto se sabia da historia +da sua fundação. +<br /> + +<br /> + +Frei Francisco de S. Luiz contesta, sem provas, +que fossem architectos celebres chamados de longes +terras, como diz Sousa, os iniciadores da +grande obra, e cita como auctor do risco Affonso +Domingues, porque d'elle se sabe que teve parte +na direcção das obras nos primeiros annos da +fundação, +e não consta de documento authentico que +qualquer outro architecto interviesse nos trabalhos +durante os dezeseis annos que medeiam entre +o seu começo e o anno da morte de Affonso +Domingues, em 1402. +<br /> + +<br /> + +Todos os que se seguiram a Frei Francisco de +S. Luiz, adoptaram esta opinião; de modo que se +tornou uma cousa tão corrente como se estivesse +<span class="pagenum">[26]</span> +demonstrada que foi Affonso Domingues quem +construiu a Batalha. +<br /> + +<br /> + +James Murphy, porém, no seu livro <em>Travels +in +Portugal</em>, affirma, por +<em>informações que lhe foram +dadas em Lisboa por empregados da Torre do +Tombo</em>, que o encarregado da +construcção foi o +architecto inglez Stephan Stephenson, socio das +<em>free and accepted masons</em>, que tinham +a sua séde +principal em York. Stephenson teria vindo a Portugal +por intervenção da rainha D. Filippa, mulher +de D. João I, ingleza de nação, filha +do duque +João de Lencastre e neta de Eduardo III. +<br /> + +<br /> + +O conde de Rakzynski diz a este respeito, que +desde que examinou as gravuras do convento da +Batalha, na obra <em>in folio</em> de Murphy, +se convenceu +de que a analogia existente entre a Batalha e +a cathedral de York não permitte a minima duvida +acerca da origem commum d'estes dois edificios. +«Que o plano da igreja da Batalha―diz +Rakzynski―seja obra de um portuguez ou de um +inglez, a verdade é que as duas igrejas nasceram +de inspirações artisticas analogas, homogeneas e +contemporaneas, e o estylo de ambos me parece +<span class="pagenum">[27]</span> +identico. Esta impressão tornou-se para mim ainda +mais forte, depois que visitei a Batalha.» +<br /> + +<br /> + +Temos, pois, sobre a origem estrangeira d'este +monumento tres votos importantes: o de Fr. Luiz +de Sousa, o de James Murphy e o do conde de +Rakzynski, aos quaes recentemente se juntou o +architecto Haupt. +<br /> + +<br /> + +Na Torre do Tombo não se encontra documento +algum relativo á construcção da +Batalha, +nem á vinda de Stephenson a Portugal. Em +1845, Alexandre Herculano e o Visconde de Juromenha, +auxiliados pelos officiaes da Torre, fizeram +as mais demoradas e escrupulosas pesquizas +para o fim de satisfazer a curiosidade de +Rakzynski, e nada appareceu. +<br /> + +<br /> + +É claro que esta ausencia de vestigios no real +archivo nada prova sobre o facto de ter estado ou +não em Portugal o architecto de York. Não consta +tão pouco, dos documentos existentes no archivo, +que tivesse estado em Portugal durante nove annos +o insigne esculptor italiano Andrea Contucci, +emulo de Miguel Angelo; e no emtanto este facto +acha-se fóra de toda a contestação. +<span class="pagenum">[28]</span> +<br /> + +<br /> + +O cardeal patriarcha Frei Francisco de S. Luiz, +queixando-se da negligencia e da superficialidade +com que Frei Luiz de Sousa falla dos primeiros +architectos da Batalha, e propondo-se demonstrar +que o auctor da obra foi Affonso Domingues, diz +que não vê razão para pôr em +duvida a habilidade +dos nossos compatriotas, suppondo que houvessemos +de reclamar a assistencia de estrangeiros em +uma epocha como a de D. João I, na qual, exceptuadas +as italianas, <em>nenhuma nação da +Europa se +achava mais adeantada que a nação portugueza, +tanto na arte da architectura, como em todas as +outras</em>. +<br /> + +<br /> + +O patriotismo imprudentemente levado até ás +affirmações da natureza das de Frei Francisco de +S. Luiz, tem um inconveniente grave, que é o de +fazer sorrir os estrangeiros, da ingenua +applicação +dos nossos sentimentos civicos á historia da arte +européa. +<br /> + +<br /> + +Hoje, toda a gente sabe, porque esta ordem de +conhecimentos tem-se vulgarisado muito, que o +systema gothico ou systema ogival, a que primitivamente +se chamou <em>Opus francigenum</em>, teve a +<span class="pagenum">[29]</span> +sua origem na ilha de França e na região +circumstante. +Foi n'esses logares que até o seculo XII se +construiram os primeiros edificios gothicos. O +novo stylo chega em França aos seus mais completos +desenvolvimentos no seculo XIII, e d'essa +epocha datam as cathedraes de Amiens, de Pariz, +de Reims e de Chartres. +<br /> + +<br /> + +Os allemães e os inglezes teem contestado á +França a prioridade do emprego do arco ogival +e dos desenvolvimentos architectonicos que d'elle +procedem. O que, porém, está acima de todo o +litigio, +é que o systema ogival, chamado stylo gothico, +ou gothico puro da igreja da Batalha, não +procede da invenção dos paizes meridionaes, de +céu azul, mas sim das regiões nevoentas de longos +e rudes invernos. +<br /> + +<br /> + +No norte da Europa, durante a edade média, +tratou-se de edificar a grande cathedral que désse +um abrigo espaçoso ás numerosas +congregações +de fieis e de cidadãos; como a pedra escasseava, +como a neve cahia em abundancia e permanecia +por longo tempo, procurou-se um modo de +construcção, +que, sem difficultar a circulação da gente +<span class="pagenum">[30]</span> +com grandes e repetidos corpos de cantaria no interior +do edificio, permittisse empregar materiaes +menos solidos e fazer tectos elevados e agudos, +que, não pesando excessivamente sobre os membros +destinados a sustental-os, deixassem facilmente +resvalar e escorrer a neve pelas superficies +exteriores, impedindo o mais completamente possivel +a infiltração da humidade no interior do +templo. +<br /> + +<br /> + +Foi d'estas causas, determinadas pela natureza +do clima e do solo, pelas condições sociaes, e +não +de um mero capricho inventivo, que resultou para +os architectos dos paizes septentrionaes o pensamento +de readoptar a abobada de aresta, que os +romanos, depois de a haverem empregado, puzeram +de parte, para o fim de dar logar na construcção +das basilicas christãs á enorme quantidade de +columnas legadas pelo paganismo. +<br /> + +<br /> + +Assim foi que nasceu, bem longe de Portugal e +inteiramente fóra das influencias cosmicas e das +influencias sociaes geradoras do caracter e da indole +da nossa raça, que nasceu o stylo architectonico +da egreja da Batalha. +<span class="pagenum">[31]</span> +<br /> + +<br /> + +A affirmativa de que nenhuma nação da Europa, +com excepção da Italia, se achava mais +adeantada do que Portugal do tempo de D. João I, +nas artes da architectura, sómente prova, da parte +do cardeal frei Francisco de S. Luiz, que este benemerito +academico e illustre litterato, ou não viajou +nunca em França e na Allemanha, ou não visitou +n'estes paizes os monumentos anteriores ao +fim do seculo XIV. +<br /> + +<br /> + +A egreja da Batalha, que data d'essa epocha, é +chronologicamente um dos ultimos edificios em +stylo gothico puro construidos na Europa, e, apesar +de toda a sua belleza, está, como obra d'arte e +como magnificencia monumental, bastante abaixo +de alguns outros edificios construidos cem ou duzentos +annos antes, como a cathedral de Strasburgo +(1015 a 1275), Reims (1215), Amiens (1222), Colonia +(1248) a Sainte-Chapelle em Pariz (1248), Notre-Dame +(1275), etc. +<br /> + +<br /> + +Bastaria que o auctor da interessante memoria +sobre a construcção do convento da Batalha, +encorporada +na collecção das memorias da Academia, +tivesse olhado em Pariz para as estatuas de +<span class="pagenum">[32]</span> +Sainte-Chapelle e para os baixos-relevos da egreja +de Notre-Dame; que tivesse observado um momento +as esculpturas de Chartres, de Reims e de +Amiens; para ter uma idéa do enorme abysmo que +no tempo de D. João I nos distanciava ainda dos +grandes mestres da architectura e da esculptura +franceza, que se chamaram Pierre de Montreuil, +Thomas e Regnaut de Carmont, Jean de Chelles, +Hugues Libergier e outros artistas leigos, sem contar +os muitos monges anonymos com que se illustrou +na historia da arte, a ordem de Cluny, no seculo +XII e no seculo XIII. +<br /> + +<br /> + +Na Allemanha, temos, precedendo a Batalha, a +cathedral de Colonia; na Inglaterra Canterbury, +Westminster, Salisbury, Lincoln e York; e em Hispanha, +Burgos e Toledo. +<br /> + +<br /> + +Anterior á Batalha não ha em Portugal monumento +algum que prenuncie, prepare e explique a +apparição d'este. +<br /> + +<br /> + +Nos primeiros tempos da monarchia, em quasi +todo o periodo affonsino, os artistas e os obreiros +eram em geral arabes ou mouros. O portuguez +era como os seus reis, soldado ou agricultor. Para +<span class="pagenum">[33]</span> +as especulações estheticas faltava-lhe a paz, a +tranquillidade, +a riqueza. Mal lhe chegava o tempo +para desbravar o sólo e para bater os inimigos, +que de todas as partes rodeavam a pequena sociedade +nascente, aventurosa e aguerrida. +<br /> + +<br /> + +A Batalha, com a delicada pureza das suas linhas, +já então consagradas na Europa, surge +repentinamente, +imprevistamente, esporadicamente, +na corrente da architectura portugueza, como a +flor desconhecida de uma planta exotica. +<br /> + +<br /> + +D'onde é que foi transplantado para terra portugueza +este producto de uma civilisação superior, +em que o desenvolvimento da vida municipal, iniciada +pelas fortes corporações operarias e mercantis, +impellira as communas a construirem as +luxuosas cathedraes, que eram ao mesmo tempo, +nas cidades novas, um asylo de religião e um fóco +de vida civil? +<br /> + +<br /> + +Não sei responder peremptoriamente a esse quesito. +<br /> + +<br /> + +O problema assim estreitado é, no fim de contas, +de pura curiosidade. +<br /> + +<br /> + +O architecto inglez Hope, na sua <em>Historia +da</em> +<span class="pagenum">[34]</span> +<em>Architectura</em>, diz que o estylo +ogival não tem propriamente +nem uma patria nem uma nacionalidade. +Só poderia ter nascido no seio de alguma +ordem religiosa ou de uma corporação de pedreiros +livres, porque o clero e os pedreiros livres +eram as unicas corporações que na edade +média +possuiam os conhecimentos necessarios para o +plano e para a execução dos edificios sagrados, +quer para as communidades monasticas, quer para +a egreja latina em geral. +<br /> + +<br /> + +Hope acrescenta: como os conventos e sobretudo +as <em>lojas</em> dos pedreiros livres se +compunham +de cidadãos de todos os paizes, que reconheciam +a supremacia da egreja romana, não seria possivel +determinar positivamente os inventores do +stylo ogival quando mesmo se houvesse descoberto +o logar preciso do seu berço. +<br /> + +<br /> + +Em toda a parte onde apparecem as primeiras +amostras d'esse stylo ellas não são a obra de +individuos +de um paiz determinado, mas sim de +uma congregação encerrando no seu gremio homens +de todas as nações. +<br /> + +<br /> + +Na <em>Real Encyclopedia</em> de Leipzig +lê-se com referencia +<span class="pagenum">[35]</span> +ás associações maçonicas +que ellas se compunham +de homens de arte de todos os paizes formando +uma só corporação dirigida por um ou +por +varios chefes. «Protegidos por privilegios ou cartas +patentes emanadas das auctoridades ecclesiasticas +e seculares, emprehendiam as maiores construcções +em toda a Europa e são auctores d'esses +magnificos edificios chamados gothicos e que +antes se deveriam chamar <em>Altdoutsch</em>. +Achamos o +stylo de todas as construcções d'essa +época fundamentalmente +identico. As associações alludidas +compunham-se de architectos e de obreiros italianos, +allemães, flamengos, francezes, inglezes, escocezes +e até gregos. Foi d'essa maneira que nasceram +os monumentos seguintes: o <em>mosteiro da +Batalha em Portugal</em>, a cathedral de Strasburgo, +a de Colonia, a de Meissen, a de Milão, o convento +do Monte Casino, e todos os edificios notaveis +da Inglaterra.» +<br /> + +<br /> + +Esta hypothese―e chamo-lhe hypothese, porque +não conheço os documentos positivos em que +se baseia o escriptor allemão―condiz perfeitamente +com a lição de Frei Luiz de Sousa, e é +talvez +<span class="pagenum">[36]</span> +de todas a mais verosimil com relação aos +constructores da Batalha. +<br /> + +<br /> + +Que fosse, porém, uma associação de +artistas e +de operarios; que fosse Stephan Stephenson, como +indica Murphy, de quem devemos crer que não +inventou esse nome e o recebeu, como diz, dos +empregados do archivo da Torre do Tombo; que +fosse, como pretende Hope, mestre Ouet, Huguet +ou Huet, de nação inglez, que trabalhou nas obras +e cujo nome Frei Francisco de S. Luiz encontrou +como testemunha no contracto de aforamento, em +que se fala de Affonso Domingues; como quer +que seja, emfim, a hypothese que menos verosimilhança +offerece é a de ter sido o monumento +delineado e construido pelo mestre portuguez Affonso +Domingues, como em Portugal se tem geralmente +escripto. +<br /> + +<br /> + +O mais superficial exame aos edificios anteriores +á Batalha manifesta do modo mais evidente +que não tinhamos nem escola, nem +tradições, nem +tendencias de que procedesse um artista como o +que delineou e construiu a egreja da Batalha. +<br /> + +<br /> + +Vilhena Barbosa, nos <em>Monumentos de +Portugal</em>, +<span class="pagenum">[37]</span> +repete ainda a versão relativa a Affonso Domingues +como constructor da Batalha, mas accrescenta: +«É muito para admirar, não devo +negal-o, que +houvesse n'aquella época em Portugal um artista +tão consumado como o que fez o risco do monumento, +achando-se a architectura entre nós, antes +da execução d'esta obra em um estado, que, se +não era de grande atrazo, tambem não se lhe +poderá +chamar de adiantamento; em um estado pelo +menos que nenhuma memoria ou documento nos +auctorisa para o considerarmos como escola d'onde +pudesse sahir um artista tão completo.» +<br /> + +<br /> + +A seguir, Vilhena Barbosa, procurando conciliar +o arrojo do seu reparo com a tradição geralmente +recebida, exclama um tanto contricto: «N'este caso +lançarei mão de uma conjectura, não +pela necessidade +de sahir do embaraço, mas porque me parece +acceitavel e muito plausivel. Vem a ser que +talvez Affonso Domingues tivesse sahido da sua +patria antes da acclamação do mestre d'Aviz, com +o intento de se instruir e aperfeiçoar na sua arte. +Bem sei que n'essa época não eram dados os +artistas, +pelo menos os nossos, a procurar taes meios +<span class="pagenum">[38]</span> +de estudo. Entretanto, tendo estado em Portugal, +no reinado de D. Fernando e com alguma demora, +dois principes inglezes, o duque de Cambridge, e +um seu irmão natural, filhos de D. Duarte III, rei +de Inglaterra, pode ser que Affonso Domingues, +levado pelo amor da arte ou por outro qualquer +respeito, se resolvesse a acompanhar algum d'elles +na sua volta para Inglaterra, paiz classico da +architectura gothica no genero da Batalha.» +<br /> + +<br /> + +Confessemos que é preciso ter vontade de attribuir +por força a Affonso Domingues uma obra que +este não podia fazer, para formular a conjectura +de que <em>talvez elle se tivesse +resolvido</em> a ir a Inglaterra +com os filhos de Duarte III. +<br /> + +<br /> + +Ainda quando admittida a singular camaradagem +do duque de Cambridge e de seu irmão com +Affonso Domingues, camaradagem conjecturada +por Barbosa, e de que não ha o minimo vestigio +historico, não será talvez inutil reflectir que +depois +d'essa excursão a Inglaterra―paiz tão debilmente +<em>classico na architectura gothica</em>, no +tempo +de Duarte III, que não tinha um architecto indigena, +nem monumento gothico algum, que se possa +<span class="pagenum">[39]</span> +pôr em confronto com as obras magnificas do +continente―Affonso +Domingos voltaria de Inglaterra, +no tocante ao conhecimento da arte de edificar, +proximamente no mesmo estado em que para +lá tivesse ido, o que facilmente se demonstra, como +vamos vêr. +<br /> + +<br /> + +Sabe-se que desde o seculo X se organisaram +na Italia, iniciadas pela Lombardia, essas +associações +de artistas seculares, architectos, esculptores, +illuminadores, imaginarios, vidristas, entalhadores +e canteiros, empregados pela egreja nas vastas +obras da primeira renascença da Europa, subsequentes +aos terrores do millenio, que por muitos +annos paralysaram todas as faculdades artisticas +da humanidade estupefacta perante a prophecia +pavorosa do proximo aniquilamento universal. +<br /> + +<br /> + +Estas confrarias, creadas e protegidas pelo clero, +tomaram o nome geral de +<em>franco-maçonaria</em> +ou de <em>pedreiros livres</em>, e +compunham-se de associados, +que, depois de haverem passado por todos +os minuciosos tramites de uma longa aprendizagem, +adquiriam geralmente o direito de exercer +a profissão na qualidade de mestres. +<span class="pagenum">[40]</span> +<br /> + +<br /> + +Com a rapida e maravilhosa prosperidade das +novas cidades da Italia Septentrional nasceram +egrejas sumptuosas e conventos magnificos, que +em poucos annos cobriram uma grande superficie +da Lombardia e dos Estados adjacentes. +<br /> + +<br /> + +Chegado o momento previsto em que as ordens +religiosas de Italia cessaram emfim de ter obras +em que empregar a associação, cada vez mais +numerosa +e mais habil, dos pedreiros livres, pensaram +estes em dilatar a sua actividade fora do solo +natal. +<br /> + +<br /> + +Este expatriamento não representava unicamente +uma expansão artistica mas tambem uma +forte propaganda e uma consideravel conquista +internacional da egreja latina. +<br /> + +<br /> + +Essa grande companhia edificadora de monumentos +religiosos, de cathedraes e de mosteiros, +mobilisada n'uma companhia de arte atravez do +Norte da Europa, constituia como que um solido +reforço esthetico, temporal, naturalista e humano +á sagrada legião espiritual vulgarisadora do +credo +latino pela ramificação das ordens religiosas +sobre +todas as latitudes da terra. +<span class="pagenum">[41]</span> +<br /> + +<br /> + +Cada egreja e cada convento edificados em paizes +estranhos e longinquos eram―diz Hope―um +novo feudo adquirido ao papa. +<br /> + +<br /> + +A egreja comprehendeu inteiramente o alcance +d'este grande facto, tão importante na historia da +arte romanica, da arte lombarda, da arte gothica +e de todas as artes liberaes na Europa, depois de +cahida a influencia da antiga civilisação +hellenico-romana. +<br /> + +<br /> + +Como incentivo e amparo da vasta odysséa, a +que se aventuravam os denominados pedreiros livres +receberam então da auctoridade pontificia, +emminente a todos os conflictos e discordias de +soberania para soberania e de nacionalidade para +nacionalidade, privilegios incomparaveis, destinados +a assegurar á confraria errante uma especie +de inviolavel monopolio esthetico e artistico, como +o que em nossos dias poderia resultar de um congresso +universal, tendo em vista pôr acima de qualquer +contingencia politica um interesse commum +a toda a especie humana. +<br /> + +<br /> + +Diplomas e bulas papaes confirmaram para todos +os paizes, que houvessem reconhecido a fé catholica +<span class="pagenum">[42]</span> +apostolica romana, todos os privilegios que +a confraria dos pedreiros livres havia recebido dos +Estados de que era oriunda. +<br /> + +<br /> + +Ella dependeria directamente e unicamente da +auctoridade pontificia, isenta de todas as leis e estatutos +locaes, dos editos dos reis ou dos regulamentos +dos municipios e de toda e qualquer imposição +obrigatoria para os naturaes do paiz em +que se encontrasse. +<br /> + +<br /> + +Só á associação caberia o +direito e o poder de +taxar os salarios, e de prover em capitulo, sem +appellação nem aggravo, a quanto dissesse +respeito +ao seu proprio governo. Era expressamente +prohibido a todo o artista não iniciado nem admittido +na associação estabelecer para com ella qualquer +especie de concorrencia, assim como era defeso, +sob pena de excomunhão, a todo o soberano +manter os seus subditos n'esse acto de rebeldia +ás prescripções da egreja. +<br /> + +<br /> + +Esta <em>Internacional</em> carolingiana, bem +mais poderosa +do que a <em>Internacional</em> napoleonica +sahida +dos primeiros movimentos socialistas do segundo +imperio, desenvolveu-se rapida e portentosamente. +<span class="pagenum">[43]</span> +Muitos gregos vindos de Constantinopla se reuniram +aos primeiros artistas confederados, vindo em +seguida allemães, francezes, belgas e inglezes. +<br /> + +<br /> + +Desdobraram-se successivamente as diversas lojas +ou series de agrupamentos, em que cada dez +associados obedeciam a um chefe em communicação +com os chefes das demais decurias e com a +direcção central. +<br /> + +<br /> + +Os ecclesiasticos da mais alta categoria, os +prelados, abbades mitrados e bispos, accrescentavam +a força e o prestigio da associação, +alistando-se +como membros da irmandade. +<br /> + +<br /> + +Todos os soberanos da christandade se gloriavam +em honrar com especiaes distincções e +particulares +privilegios as suas lojas nacionaes. +<br /> + +<br /> + +Para o fim de evitar que individuos estranhos +á associação aproveitassem +fraudulentamente os +enormes beneficios de que ella tinha o privilegio, +e bem assim para que, em qualquer região do +mundo, cada irmão pudesse communicar com os +seus consocios, fazendo conhecer a sua iniciação +e o seu grau na confraria, estabeleceram-se as senhas +secretas, os <em>signaes +maçonicos</em>, por meio dos +<span class="pagenum">[44]</span> +quaes os consocios se reconheciam em qualquer +parte, e revestiu-se o acto de iniciação e +matricula +de formalidades solemnes, de provas especiaes, +de juramentos terriveis, por via dos quaes cada +novo confrade se obrigava não sómente a +não revelar +a quem quer que fosse os signaes, com que +mutuamente se entendiam os pedreiros, mas a esconder +dos estranhos todos os processos technicos +e todas as regras do officio, de que a associação +tinha a posse. Esta collaboração phenomenal +dos melhores obreiros, de todos os grandes artistas +e de todos os sabios do mundo, associados +da maneira mais engenhosamente completa e perfeita +para exercer a arte de edificar, elevou a architectura +religiosa n'este periodo á mais alta +perfeição +scientifica e technica, a que jámais chegou +a obra da intelligencia e da mão do homem. +<br /> + +<br /> + +Quando a longa e laboriosa gestação de todos +os demais ramos do saber humano se discriminava +apenas em rudimentos embrionarios, de uma +confusão tenebrosa, a architectura constituia o +mais perfeito corpo de leis estheticas e de leis +scientificas. Crearam-se as mais elevadas e as +<span class="pagenum">[45]</span> +mais caracteristicas fórmas de stylo, resolveram-se +os mais complicados e os mais difficeis problemas +de calculo, de geometria e de mechanica, +acharam-se, emfim, innumeraveis processos chimicos +e methodos technicos, que se perderam e +nunca mais se substituiram, porque com a grande +confraria dos maçons morreu a tradição +de que elles +tinham a guarda e o segredo. +<br /> + +<br /> + +No tempo de Eduardo III a maçonaria, que só +um seculo depois acabou na Inglaterra sob o reinado +de Henrique VI, mantinha-se em pleno vigor. +<br /> + +<br /> + +Ora, dado que só muito lentamente e por via +de provas espaçadas e progressivas podia o obreiro +no gremio da confraria subir á +qualificação de +mestre, e só como simples obreiro podia ser admittido +e iniciado, dado por outro lado que era +tal o segredo sobre os methodos de edificar que +toda a planta, todo o risco, todo o calculo, todo o +estudo graphico, era invariavelmente e escrupulosamente +destruido immediatamente depois de utilisado +em qualquer obra, parece-me não haver um +excessivo arrojo em conjecturar que Affonso Domingues +<span class="pagenum">[46]</span> +n'uma viagem a Inglaterra, no tempo de +Eduardo III, nada aprenderia de architectura, ficando +estranho á maçonaria, e, tendo-se iniciado +n'ella antes de vir construir a Batalha, seria então +da maçonaria e não d'elle o monumento de que +se trata. +<br /> + +<br /> + +Revertendo ao escrupuloso e esclarecido estudo +de Mousinho, notemos que elle não encontrou nem +quem o continuasse nem sequer quem se lhe submettesse +entre os restauradores que se lhe seguiram. +As capellas imperfeitas, incomparavel joia +da architectura portugueza mais caracteristicamente +regional, acham-se no mesmo abandono +em que ficaram em 1843, depois que elle as desinfestou +dos parasitas arbustivos e das herbaceas, +cujas radiculas se tinham por tal modo multiplicado +nos intersticios das cantarias que em muitos +pontos houve que desmontar as lageas para extirpar +as hervas e refazer os massames substituidos +pelo intimo estojo vegetal, que inchando por todas +as juntas da pedra, ameaçava desarticular e +destruir tudo por uma derrocada geral. +<br /> + +<br /> + +Sem exposição de plano referido ás +obras que +<span class="pagenum">[47]</span> +recentemente se tem feito, e cuja doutrina nos daria +uma base de estudo e de discussão, quem, +como eu, não tem voto na materia para a resolver +por sentença, precisaria de entrar em uma +longa serie de pacientes raciocinios e de humildes +demonstrações para pôr em evidencia +todos +os erros que em taes obras se teem comettido. +Para não tornar pelo emprego d'esse processo, +excessivamente longo este modesto estudo, tomarei +um ponto capital, sufficientemente expressivo +para dar a medida do criterio empregado na +restauração +da Batalha. +<br /> + +<br /> + +Pela entrada principal da egreja, á semelhança +do que succede em grande parte das egrejas gothicas, +desciam-se na Batalha alguns degraus,―sete +se me não engano―para chegar ao pavimento +da nave central. Um dos restauradores que +se succederam a Mousinho de Albuquerque, tendo-se +por assistido de razões plausiveis para modificar +o alludido systema, rebaixou o terreno exterior +ao nivel do pavimento da egreja, e supprimiu +os degraus, serrando as hombreiras e substituindo +as cantarias que lhe serviam de base. A porta principal +<span class="pagenum">[48]</span> +do monumento da Batalha ficou por esse +modo tendo de altura a dimensão de duas larguras +em vez de largura e meia approximadamente, +segundo a dimensão primitiva. O architecto havia +previamente submettido o seu projecto ao exame +das estações superiores, e o respectivo ministro +sanccionara a obra com a sua alta approvação. +<br /> + +<br /> + +Será difficil encontrar em um tão breve episodio +de construcção uma tão vasta +affirmativa de +desoladora ignorancia. +<br /> + +<br /> + +Poderá parecer excessiva e condemnavel ousadia +que um simples curioso se arrogue o direito +de qualificar de ignorante um architecto em exercicio +da sua profissão. O erro é todavia no caso +sujeito tão flagrante que não supporta defesa. Um +barbarismo architectonico está tanto ao alcance +de um escriptor como um barbarismo grammatical +está ao alcance de um architecto. +<br /> + +<br /> + +Toda a gente sabe que ha em architectura uma +inilludivel medida de proporção e de +relacionação +que se chama a <em>escala</em>. Sem escala +não ha obra +de architectura nem ha construcção alguma +sensata, +por mais subalterna, por mais infima que ella +<span class="pagenum">[49]</span> +seja. Na architectura grega a unidade abstracta +d'essa medida é o modulo. Na architectura da +edade média a unidade é o homem. N'este simples +principio, tão magistralmente exposto por +Violet-le-Duc, se baseia o caracter essencial da +architectura medieval. D'essa referencia de toda a +construcção á pequenez da estatura +humana resulta +o singular effeito de grandiosidade que distingue +os monumentos gothicos dos monumentos +neo-classicos, Nossa Senhora de Pariz de S. Pedro +de Roma, ou a egreja da Batalha da egreja +de Mafra. Para esse effeito contribue o aspecto +das successivas fileiras da cantaria á altura das +paredes e das pilastras, porque a escala gothica, +determinada pela altura do homem, se subordina +correlativamente ás dimensões do material. Assim +pela serie das juntas, sempre em evidencia na +sobreposição +das cantarias, a vista calcula rapidamente, +por instincto arithmetico, a grandeza de +uma fabrica como a da Batalha, estabelecendo a +proporção entre as dimensões da pedra +e a estatura +do homem, e entre a altura do homem e a +elevação da nave. +<span class="pagenum">[50]</span> +<br /> + +<br /> + +Do que fica exposto resulta que a simples +substituição +de uma pedra por uma pedra de dimensão +differente na base de uma hombreira no portal +da Batalha é, em si mesma e isoladamente, +como troca de pedra por pedra, um grave erro, +porque essa base de hombreira, devendo ter tido +inicialmente a dimensão exacta e precisa, que á +esquadria da cantaria impõe a dimensão do bloco, +é um elemento fundamental da escala pela qual +se rege todo o edificio; e não pode como tal nem +supprimir-se nem alterar-se. +<br /> + +<br /> + +Mas temos de considerar ainda que com essa +mudança de pedra se offendeu o preceito da unidade, +alterando a fórma e a dimensão de um dos +mais importantes membros da construcção. O +conjuncto +de um monumento―diz Quatremère de +Quincy―é de tal modo combinado, que n'elle se +não pode nem tirar nem pôr nem alterar o que +quer que seja. E Violet-le-Dué desenvolve esse +preceito da maneira seguinte: «É um erro grosseiro +suppôr que um qualquer membro de architectura +da edade média pode ser impunemente accrescentado +ou diminuido. N'esta architectura não +<span class="pagenum">[51]</span> +ha membro algum, que não esteja na escala do +monumento para que foi composto. Alterar esta +escala é tornar esse membro disforme... Os erros +de escala que escandalisam em um monumento +novo e lhe tiram todo o valor, tornam-se monstruosos +quando se trata de uma restauração.» As +dimensões das portas―já dizia Vinhola―devem +ser de uma proporção relativa á escala +pela qual se +construir o edificio, á grandeza das suas differentes +peças e finalmente ás particularidades da obra +e do local em que esta fôr feita. Com +relação ás +portas nas ordens jonica, dorica, corinthia e toscana +as proporções entre a altura e a largura dos +portaes, acham-se geometricamente determinadas +pelos discipulos de Vitruvio. Na architectura gothica +a porta representa porém um papel mais preponderante +que em qualquer outro systema de +construcção. «De hora avante―proclama +Violet-le-Duc +referindo-se ao periodo medieval―a porta +deixará de augmentar em proporção com +o edificio, +porque, sendo feita para o homem, conservará +sempre a escala propria do seu destino.» +<br /> + +<br /> + +A medida de extensão na edade média era a +<span class="pagenum">[52]</span> +toeza, correspondente á estatura do homem alto. +A porta da egreja destinada a dar passagem ao +portador de uma lança de guerra ou de torneio, +de um baculo, de uma cruz ou de um pendão, tinha +a altura fixa e invariavel de duas toezas a +duas toezas e meia, segundo as regiões em que +se construia. O portal gothico tem ainda, como +titulo ao nosso respeito pela sua inviolabilidade, +a condição de representar na fachada do templo +como que um summario de toda a obra. É do +principio da arcada, de que a porta é o motivo +predominante, que se deduzem e desenvolvem +systematicamente todas as demais fórmas constructivas +e ornamentaes na architectura do edificio. +Archivoltas, nervuras, pilastras, columnelos, janellas, +nichos, misulas, baldaquinos, trifolios, que +são na egreja da Batalha senão +applicações e desdobramentos +successivos, engenhosamente variados, +das linhas constitutivas da porta principal do +templo? +<br /> + +<br /> + +Quão tragicamente profunda tem que ser a indisciplina +official em todos os serviços da arte +para que possa dar-se um attentado da ordem +<span class="pagenum">[53]</span> +d'aquelle a que me refiro:―para que um architecto +proponha, para que uma repartição publica +auctorise, para que um ministro da corôa sanccione―sem +protesto do districto, do municipio ou +da parochia―que se desfigure o primeiro dos +nossos monumentos da edade média, alterando as +fórmas de uma porta, que é a porta principal +d'essa +gloriosa egreja de Santa Maria de Victoria, que +os architectos do mestre de Aviz alçaram pela bitola +dos estandartes, dos balsões e das bandeiras +de Aljubarrota, e segundo a altura a que chegava +nas hombreiras o bico do bacinete ou a cimeira +do morrião dos da ala da madresilva ou da ala +dos namorados! +<br /> + +<br /> + +Se fosse meu proposito enumerar os erros commettidos +nas restaurações da Batalha teria de referir-me +ás vís deturpações por que +está passando +a capella do fundador; ao detestavel altar mór, em +cuja pedra tão miseramente se acha reproduzido +por uma especie de grafito o desenho de um +mosaico, e a odiosa coloração das +vidraças, em +que o doce tom de ambar, que os vidristas da +edade média obtinham por uma emulsão de mel +<span class="pagenum">[54]</span> +na preparação da tinta, se vê +substituido pelo +de um reles amarello cru, de refalsado topasio. +O inacreditavel tabernaculo com que houve o arrojo +de empachar o ambito de uma das naves, +sob pretexto de construir uma capella baptismal, +teria ainda que deter por algum tempo o meu +horrorisado espanto perante esse tão insolente +e tão irrespeitoso abuso do pseudo-gothico, em +proporção e em escala unicamente permittidas, +por longanimidade de ridiculo, em jazigos de familia +e em pratos montados, na latitudinaria architectura +dos cemiterios ou das confeitarias. +<br /> + +<br /> + +O meu fim porém não é fazer a critica +das restaurações +da Batalha, mas sim demonstrar, como +julgo ter feito, por meio de alguns factos caracteristicos +e capitaes, que nas restaurações emprehendidas +tanto n'esse como nos demais monumentos +architectonicos recentemente reparados +a expensas do estado, não houve antecedencia de +programma, nem estudo previo, nem determinação +de methodo, nem sancção critica, nem +fiscalisação +technica, nem policia artistica de especie +alguma. +<span class="pagenum">[55]</span> +<br /> + +<br /> + +Pelo numero e pelo quilate das mutilações, +deturpações +e superfetações, inteiramente arbitrarias +e escandalosas, de que são objecto os monumentos +restaurados com assentimento e com subsidio +official, como a Batalha, os Jeronymos e a Madre +de Deus, poderemos calcular o que se passa nos +edificios em que camaras, parochias e simples particulares +estão no logro de restaurar, de concertar +ou de demolir a seu gosto. +<br /> + +<br /> + +Em Ponte de Lima havia uma ponte, que dava +o nome á villa. Esta ponte, em parte romana, em +parte gothica, era revestida de ameias e entestada +por dois castellos ogivaes. A vereação, com o +motivo +de desafogar a vista sobre as duas margens +do rio, manda demolir os castellos e serrar as +ameias da alludida ponte. +<br /> + +<br /> + +Outra vereação, em Santarem, bota a baixo a +bella torre gothica de Santa Maria de Marvilla, +fundação dos primeiros tempos da monarchia, +para o fim unico de deixar o terreno sem coisa +alguma em cima, e ser por essa razão uma praça. +A Real Associação dos architectos civis +propõe-se +a esse tempo comprar os sinos da torre demolida, +<span class="pagenum">[56]</span> +em bronze esculpido. A junta de parochia prefere +derretel-os. +<br /> + +<br /> + +No castello de Leiria, que, tendo sido construido +como casa e museu pelo rei mais artista, mais +poeta e mais sabio do seu tempo, constitue um +documento, unico talvez na Europa, da archeologia +romana e da vida de côrte na edade média, +certos festeiros em noite de gala, derribam a columnata +do eirado principal para dar campo a um +effeito de luminarias e de pyrotechnica. +<br /> + +<br /> + +Na alcaçova de Santarem as ameias de D. Affonso +Henriques substituem-se por ignobeis grades +de ferro fundido e pintado de verde. +<br /> + +<br /> + +A porta da Atamarma, pela qual ainda passou +Garrett ao tempo das <em>Viagens na minha +terra</em>, é +arrasada, juntamente com a capellinha de Nossa +Senhora da Victoria, que tinha por cima. No orçamento +d'essa demolição, que o governo approvou +no anno de 1865, a camara de Santarem, tripudia +de jubilo, affirmando que a dita desmontagem, +<em>que por mais tempo se não podia +protrahir</em>, +fôra vantajosamente arrematada pela quantia de +trinta e nove mil réis, calculando-se em mais de +<span class="pagenum">[57]</span> +cem mil o valôr da pedra e do tijolo que ella produziu. +Com esse cantico de alegria orçamental, +desappareceu o glorioso portico, por onde o fundador +da nacionalidade portugueza e os da sua +hoste entraram em Santarem com as espadas e as +lanças gottejantes de sangue mouro, firmando por +esse acto o fim do dominio sarraceno em Portugal. +<br /> + +<br /> + +A porta do <em>Bom Successo</em> veio abaixo, +como a +de Atamarma, por disposição do respectivo +municipio. +<br /> + +<br /> + +A destruição das portas de muralha, bellos arcos +na maior parte ogivaes, com que tanto se +enobreciam algumas das nossas velhas cidades, +tem sido a grande preocupação vesanica das +municipalidades +modernas, absolutamente ignorantes, +ao que parece, das gloriosas tradições locaes +de que esses monumentos eram o testemunho authentico +e sagrado. +<br /> + +<br /> + +Dentro d'essa cathegoria de delinquentes será +difficil disputar o primeiro logar da serie pathologica +á cidade do Porto. +<br /> + +<br /> + +O Arco da Vendoma, á rua Chan, que havia +sido uma das portas da circumvalação sueva, sobre +<span class="pagenum">[58]</span> +a qual a rainha D. Tareja fizera collocar em +ediculo a imagem da Senhora da Vendoma, trazida +de França pelo bispo D. Nonego, é +desapiedadamente +demolida em nossos dias, depois de +oito seculos de existencia. +<br /> + +<br /> + +Os bellos arcos do Postigo de Santo Antonio +do Penedo e do Postigo do Sol veem egualmente +abaixo, em 1875, sem razões algumas que expliquem +mais esta demolição que a do Arco da Vendoma. +Junto do Postigo do Sol ficava no entanto, +e memorava-a o arco, a veneranda <em>Viella das +Tripas</em>, +onde assistiam as fressureiras, que deram aos +do Porto o nome de tripeiros, vendendo-lhes os +miudos das rezes, cuja carne elles haviam espontaneamente +cedido á armada de D. João I para a +expedição de Ceuta. +<br /> + +<br /> + +Á Porta do Olival, da qual como do Postigo do +Sol só resta o nome, foi acclamado D. João I. A +essa porta foi esperada pelos portuenses, e por ella +entrou pela primeira vez na cidade, na occasião +das suas bodas com o mestre de Aviz, a rainha +Filippa de Lencastre. +<br /> + +<br /> + +O Arco da Senhora Sant'Anna, que deu o titulo +<span class="pagenum">[59]</span> +á linda narrativa portuense de Almeida Garrett, é +sacrificado como os demais ao alvião municipal +da cidade invicta. +<br /> + +<br /> + +O ultimo emfim dos arcos do Porto, ainda ha +bem poucos annos destruido, foi o da Porta Nobre, +por onde faziam a sua entrada solemne os +bispos e os reis, que os moradores da Reboleira +recebiam triumphalmente na sua rua, juncada de +espadanas e de funcho, entre festões de flores pendentes +das velhas janellas de resalto, á flamenga, +sob punhados de trigo, reluzente no ar em chuva +de ouro. +<br /> + +<br /> + +Em Santarem disseram-me ha dias, nos proprios +logares em que se está mancumunando o delicto, +que os vereadores projectam agora demolir a Torre +das Cabaças. +<br /> + +<br /> + +Quando a rainha D. Maria I visitou Santarem +em 1785, botaram-se as medidas do côche de sua +magestade a todo o caminho que elle tinha de percorrer, +e desfizeram-se diligentemente a picão, nas +ruas da villa, todas as protuberancias architectonicas +em que se anteviu algum risco de entalação +para o trajecto da real berlinda. +<span class="pagenum">[60]</span> +<br /> + +<br /> + +No Canto da Cruz cortaram-se, como quem +corta queijo, os vertices dos angulos nos edificios +de esquinas menos reverenciosas para com o regio +transito. Entre a Torre do Alporão e a Torre +das Cabaças o passo porém apresentou-se +especialmente +difficil. Applicou-se-lhe a bitola do regio +côche, que o secretario de estado visconde de +Villa Nova da Cerveira mandára previdentemente +de Salvaterra de Magos ao juiz de fóra, presidente +da camara municipal da villa, e consignou-se que, +por obra infernal de palmo ou palmo e meio de +saliencia, o magestatico vehiculo da soberana teria +de ficar engasgalhado pelos cubos das rodas +entre os dois monumentos. Então, depois de haverem +marrado por um momento no problema, e +uns nos outros, os vereadores scalabitanos removeram +a difficuldade, redobando a fita da medição +inutilmente esticada, mettendo os solicitos e suados +covados debaixo dos braços, e mandando simplesmente +arrasar a Torre do Alporão, monumento +do dominio romano, do alto do qual, durante a +occupação serracena, o arabe dictava ao povo a +lei de Mahomet. +<span class="pagenum">[61]</span> +<br /> + +<br /> + +A Torre das Cabaças é muito menos antiga e +menos documental que a do Alporão. Com quanto +Garrett a faça invocar anachronicamente no +<em>Alfageme +de Santarem</em>, em estimulo de defesa contra +a invasão castelhana, como um dos traços mais +expressivos da physionomia pittoresca da patria, +essa torre data apenas do tempo de D. Manoel. +Não tem caracter propriamente architectural, é +uma simples peça de alvenaria quadrada. Mas o +seu estranho remate, em grande elevação, formado +pelo sino a descoberto, sustido na convergencia +superior de quatro varões de ferro, estribados obliquamente +nos quatro angulos da torre, e revestidos +de pucaras de barro, da olaria local, destinadas +a ampliar a sonoridade do bronze no tanger +das horas e dos signaes de rebate, dá-lhe uma +feição +verdadeiramente especial, inconfundivel, indelevel. +Não será talvez o mais monumental, o mais +nobre, o mais rico, mas é de certo o mais suggestivo, +o mais anedoctico, o mais interessante, o mais +carinhoso, o mais familiar, o mais lindo campanario +de toda essa tão formosa campina ribatejana, +o mais aberto sorriso agrario da terra portugueza. +<span class="pagenum">[62]</span> +Tudo envolve de penetrante poesia local essa velha +torre. O seu mesmo nome de <em>relogio das +cabaças</em> +ou de <em>cabaceiro</em> se allia +harmonicamente no +ouvido á lembrança das lezirias, das hortas, dos +paues, das courellas e dos olivedos, que o circumdam, +e fazem d'elle como que uma parte integrante +da paizagem, um natural rebento da terra. O aspecto +de improvisação e de interinidade d'essa +summaria ventana de sino, que parece armada em +quatro pampilhos, é uma verdadeira obra d'arte, +que lembra mais commoventemente do que nenhuma +outra inventada pelos architectos, a origem +arabe, a vida nomada, a tradição pastoral da +região em que surgiu. +<br /> + +<br /> + +Os conspicuos burguezes do senado de Santarem +não podem ter opinião sobre esta +questão de +esthetica, porque elles carecem absolutamente do +ponto de vista em que deve de ser considerada a +sua Torre das Cabaças, a qual evidentemente se +não construiu para que suas excellencias a alveitassem +doutoralmente de dentro dos paços do concelho, +ou cá fora na praça, de chapeus altos, +sobrecasacas +dominicaes e barbas feitas, abordoados +<span class="pagenum">[63]</span> +aos seus chapeus de sol, e muito mais garantidamente +cucurbitaceos que o seu proprio cabaceiro. +A Torre das Cabaças fez-se para ser olhada do +vasto campo da Gollegã ou do campo de Almeirim, +vindo do Valle, vindo de Coruche, de Benavente, +ou da Barquinha, atravez dos olivaes, das +terras de semeadura e das eiras do termo de Santarem, +de jaqueta e sapatos de prateleira, montando +uma egua de maioral, de cabeçada de esparto, +almatrixa de pelles e estribos chapeados. +O Cabaceiro de Santarem, com a sua cupula em +trempe, as suas cabaças de barro e o seu sino +grande de correr e de governar as horas, fez-se +para o largo e ridente campo ribatejano, fez-se +para os campinos, para os vaqueiros, para os almocreves, +e talvez se fizesse tambem para mim, +que não vejo em arte razão alguma plausivel para +que, como motivo ornamental de uma torre, á folha +do acantho ou ao chavelho em voluta da architectura +grega se prefira a nossa linda pucarinha de +barro vermelho de Reguengo, da Atalaia ou da +Asseiceira. +<br /> + +<br /> + +Não! o senado santareno tem de deixar ficar +<span class="pagenum">[64]</span> +onde ella está a sua tão caracteristica torre, +para +que se não diga que dos tres potes, que de antiga +tradição consta acharem-se soterrados na +Alcaçova, +um cheio de ouro, outro cheio de prata, outro +cheio de peste, a camara da localidade não +encontrou senão o ultimo para o despejar sobre +os monumentos publicos sujeitos á sua +jurisdição +e confiados á sua guarda. +<br /> + +<br /> + +Que sob o antigo regimen os vereadores de Santarem +deitassem a baixo a Torre do Alporão, para +passar uma rainha, é uma desdita em extremo lastimavel, +mas que sob o regimen vigente se deite +egualmente a baixo a Torre das Cabaças, para +que passem os proprios vereadores, é um desando +grande da publica administração para muito peior +do que estavamos no tempo da muito saudosa senhora +D. Maria I. +<br /> + +<br /> + +A torre da Sé Velha, de Coimbra, desapparece +no fim do seculo passado perante uma simplicidade +de processo, que bem demonstra quanto os +poderes publicos, desajudados de conselho artistico, +teem sido, em todo o tempo, inhabeis e incompetentes +para proteger os monumentos da nação. +<span class="pagenum">[65]</span> +Foi o meu amigo Theofilo Braga quem, ao +colligir no Archivo Nacional os documentos ineditos +das relações do marquez de Pombal com D. +Francisco de Lemos para a reforma dos estudos +na Universidade, descobriu a breve historia da +demolição da torre da Sé Velha. Em +carta de 3 +de setembro de 1773, D. Francisco de Lemos dá +conta ao marquez de que demoliu a torre: «...A +dita torre era um montão de pedra e cal sem arte +e figura, que servisse de ornato á cidade, e antes +estava tirando a vista do Paço das Escolas, e de +muitas casas. E principalmente é muito nociva á +Imprensa, porque ficando ella no alto e esta embaixo, +lhe tirava o sol, com que a fazia menos +clara e humida. Pareceu-me conveniente á vista +de todas estas razões que se demolisse, o que se +tem executado, seguindo-se todas as utilidades +ponderadas acima, e egualmente a de haver pedra +para tudo o que foi preciso fazer.» Em sigla +marginal a esta carta opina o marquez de Pombal: +«Que está muito bem feita a providencia sobre +a torre da Sé antiga.» E em carta de 5 de outubro +do alludido anno de 1773, o marquez, em +<span class="pagenum">[66]</span> +stylo official, desenvolve a sua acquiescencia ao +estupido vandalismo de D. Francisco de Lemos: +«Tambem me pareceu bem ajustada a providencia +e resolução que V. Ex.<sup>a</sup> +tomou de mandar demolir +a torre da Sé antiga que não servia mais +que de ser um <em>Padrasto sombrio e +infimo</em>, só proprio +para desfigurar a formosura do Palacio a que +estava quase contiguo e de escurecer as actuaes +officinas, etc.» +<br /> + +<br /> + +Do mosteiro de Alcobaça desapparece todo um +claustro do tempo de D. Affonso Henriques. +<br /> + +<br /> + +Em S. Francisco d'Evora ampliam-se as dimensões +da rosacea no frontespicio da egreja, abalando +as cantarias circumstantes e pondo em risco todo +o equilibrio da empena. Além d'isso, para o fim +de aproveitar a pedra para outras applicações, +desampara-se a abobada, deitando abaixo a ala +do convento que lhe servia de encontro. +<br /> + +<br /> + +No castello de Palmella e em S. Salvador de +Paço de Sousa acham-se violados e deshonrados +pelo mais completo despreso, além das campas dos +cavalleiros de Santiago, o tumulo do principe D. +Jorge, e o tumulo de Egas Moniz, que em Paço +<span class="pagenum">[67]</span> +de Sousa dividiram em dois, pondo cada metade +para seu lado, em pontos oppostos da egreja. O +cofre de pedra que continha a ossada do fiel aio +de Affonso Henriques transforma-se em pia de um +bebedouro publico. +<br /> + +<br /> + +A sumptuosa egreja do convento de S. Francisco +em Santarem, fundação de D. Sancho II, +com as suas tres naves, as suas columnas de preciosos +capiteis e os floridos arcos da sua restauração +manoelina, converte-se em uma das cavallariças +do regimento aquartelado no convento. +Violaram-se todos os tumulos que encerrava o +claustro e occupavam a egreja, sem que esta, segundo +nos consta, fosse nunca dessagrada liturgicamente. +Parece que não houve tempo para satisfazer +essa tão breve formalidade de respeito. +<br /> + +<br /> + +As sarças, os silvados, e os subtis rendilhamentos +manoelinos do tumulo precioso do conde de +Vianna D. Duarte de Menezes, pela circumstancia +de ser a esculptura removida para S. João do +Alporão +pela benemerita commissão administrativa +do Museu Districtal de Santarem, escaparam miraculosamente +aos coices das bestas de guerra, +<span class="pagenum">[68]</span> +que o governo portuguez destinava ao sagrado +monumento erigido pela doce piedade conjugal á +memoria do leal e valoroso soldado de Affonso V, +que na conquista de Alcacer-Ceguer se deixou +morrer ás lançadas para salvar a vida do seu +rei. +<br /> + +<br /> + +O tumulo de D. Fernando, que estava na mesma +egreja, foi pela Associação dos architectos +trazido +para o museu do Carmo. +<br /> + +<br /> + +Um dente de D. Duarte, que a condessa de Vianna +encerrara, como unica reliquia de seu marido, +no monumento que lhe consagrara, conserva-se +ainda dentro do estojo que primitivamente o continha. +A ossada do rei D. Fernando, essa desappareceu, +como desappareceu a de D. Francisco de +Almeida, atirada para a cerca do quartel na occasião +em que se lhe destruiu o tumulo, aproveitando-se +a area de pedra em que jazia o corpo para +bebedouro especial dos cavallos com mormo. +<br /> + +<br /> + +As demais campas, que constituiam o pavimento +do claustro desde o principio do seculo XIV desappareceram +todas, e nem sequer se sabe já de quem +eram, por que, para não escorregarem os cavallos +<span class="pagenum">[69]</span> +do regimento, desempedrou-se o claustro e perderam-se +as lapides que n'elle se continham. +<br /> + +<br /> + +A sepultura de Pedro Alvares Cabral está na +egreja da Graça, um dos bellos templos da +fundação +da monarchia em Santarem. Esta egreja é cedida +pelo governo á pobre irmandade dos Passos. +A irmandade carecia de meios para custear +o decoro do culto e a conservação do edificio. +Occorria generosamente a essa despeza o proprietario +do convento annexo á egreja. O dono do +convento falleceu recentemente, legando a casa a +um azylo que n'ella fundou. A egreja da Graça de +Santarem está portanto, a bem dizer, desamparada. +A quem é que se acha confiado o tumulo de +Pedro Alvares Cabral? Não se sabe bem, e são +grandes, como pessoalmente tive occasião de experimentar, +as difficuldades que encontra quem +deseje dar com o depositario das chaves para ver +a egreja. Ás gloriosas cinzas d'aquelle que nos +deu o Brazil, a gente nem sequer sabe dar um +guarda. +<br /> + +<br /> + +O mausoleu do nosso S. Frei Gil corre aventuras +parecidas com as do mausoleu do rei D. Fernando. +<span class="pagenum">[70]</span> +Os marquezes de Penalva, parentes do +Santo, recolhem na capella do seu palacio em Lisboa +as cinzas do bemaventurado. A tampa do tumulo +com a estatua do Santo vem para o museu +do Carmo. A arca sepulchral, que encerrava os +seus restos, fica em Santarem, servindo de pia de +amassar cal para as obras do municipio. +<br /> + +<br /> + +Em Guimarães mascaram indignamente de cal +e de madeira as columnas e as arcarias da veneravel +egreja de Nossa Senhora da Oliveira, fundada +nos primeiros annos do seculo X pelo conde +Hermenegildo Mendes e por sua mulher a condessa +Mumadona. No claustro do seculo XIII, que +envolve uma parte da egreja, revestem de caixilharia +envidraçada a graciosa arcaria, e rebocam +espessamente a cal os capiteis das columnas. A +flammante janella gothica, que por cima da porta, +na fachada do templo, fazia explodir em apotheose +a polychromia do espelho, emoldurado na +sua larga cercadura esculpida de silvados, historiada +de estatuetas de santos em phantasiosos resaltos +de misulas, sob rendilhados baldaquinos, é +impiedosamente arrasada e substituida por uma +<span class="pagenum"><a name="p71" id="p71">[71]</a></span> +chapada de cantaria corrida, perfurada por quatro +oculos. +<br /> + +<br /> + +Em Santarem, na egreja do Milagre, pelas trovoadas +d'este verão, um raio fere o cone azulejado +da torre, penetra na capella mór, despedaça +a madeira do arco que a separa da nave, e põe a +descoberto, por baixo d'esse revestimento de <a href="#e1">taboas</a> +pintadas, os mais lindos lavores esculpturaes +de uma arcaria da Renascença, em que +cherubins voejam, sustendo grinaldas e cornucopias +floridas, por entre a laçaria afestoada, com +rotulos pendentes. Todos os relevos mais salientes +da esculptura haviam sido desbastados a picão +para nivelar a superficie da pedra em que assentara +a madeira. +<br /> + +<br /> + +Em Setubal, na egreja manoelina das freiras de +Jesus, besuntam as columnas, os artezões e os fechos +da abobada com a mais tosca e espessa camada +de pintura. O material subjacente é o lindo +marmore polychromico da Arrabida. A pintura a +que me refiro tem a intenção esthetica de imitar +a +borrões d'ocre esse mesmo marmore cuja superficie +tão sordidamente conspurca. +<span class="pagenum">[72]</span> +<br /> + +<br /> + +Quando ha quatro annos o governo mandou +pôr em hasta publica uma parte do convento de +Cellas, incluindo o seu encantador claustro, metade +do qual é do tempo de D. Diniz, uma voz +anonyma protestou, eloquente e energicamente, +contra semelhante desacato, por meio de uma pequena +brochura impressa em Coimbra e largamente +espalhada pelo paiz todo, a pedir soccorro +á imprensa. Rarissimos periodicos acudiram ao +rebate. Na parte que data do seculo XIV, o pequenino +claustro de Cellas, em arcadas de meio ponto +e columnas geminadas, de capiteis cubicos, historiados +por todos os lados com deliciosas figurinhas +representando os mais tocantes episodios da +vida da Virgem Maria, de Jesus e dos seus santos, +é a mais delicada, a mais commovida, a mais +poetica obra da arte portugueza n'esse interessante +periodo da transição do stylo romanico para +o advento do gothico, na evolução capital da arte +na Edade Media. A virginal candura, profundamente +enternecida, do artista desligado da preceituação +hieratica de uma esthetica que se extingue, +para entrar com toda a frescura intacta do sentimento +<span class="pagenum">[73]</span> +na sinceridade de uma arte nova, é invasivamente +tocante na concepção de varios episodios +d'esta composição, como o da +Annunciação, o do +Sonho de Nossa Senhora, o da Adoração dos Reis +Magos, o da Fuga para o Egypto, e o da +Crucificação +de Jesus, que, pela primeira vez nas +representações +d'este periodo, nos apparece flagellado +pela corôa de espinhos e com os dois pés +sobrepostos, fixados ao madeiro por um só cravo. +Acompanhando e envolvendo a primorosa obra +do esculptor, tudo no claustro de Cellas se compensa, +se pondera e se equilibra admiravelmente +para o fim de pôr em suggestão o pensamento que +d'essa obra deriva. +<br /> + +<br /> + +É uma construcção ineffavelmente pura, +toda +de intimidade e de religião, no sentido de cada +uma das suas partes e na harmonia total do seu +conjuncto. Nem a mais leve macula mundana, de +presumpção ou de orgulho. Nem um só +nome +profano, nem um unico emblema heraldico, brazão, +corôa, paquife, divisa ou empresa. Nada que +lembre da terra as ambições, a força, +a gloria ou +o brilho: nem quinas, nem lizes, nem pelicanos, +<span class="pagenum"><a name="p74" id="p74">[74]</a></span> +<a href="#e2">nem</a> espheras. A mesma aconchegada <a href="#e3">dimensão</a> +do recinto, parecendo amoldado ao passo leve e +recolhido das freiras, as quaes se ouviriam a meia +voz de um extremo para o extremo opposto do +pateo; o stylobato em bancada revestida de azulejos +do tempo, enxadrezados em verde e branco; +a pequena altura dos fustes, proporcionados a +uma estatura de noviça, que poderia do chão +acarinhar as imagens dos capiteis com uma flôr +de açucena; a reclusa modestia da galeria superior, +em que o beiral do telhado se apoia ao parapeito +em curtos esteios de granito; a mesma vegetação +arbustiva, que ainda sobrevive á antiga +ornamentação floral do pateosinho ajardinado; as +diminutas capellas e os nichos que rodeiam a +claustra; tudo emfim concorda e condiz na mais +rara e doce harmonia de uma expressão intradusivel. +O claustro de Cellas é, pela extranhesa e +pela preciosidade da sua poesia e da sua arte, +uma especie de murmurosa fonte, ineffavel e perenne, +em que a agua não vem de alterosos e magestaticos +aqueductos cantar ao sol em taças brunidas +de prophyro ou de alabastro, suspensas por +<span class="pagenum">[75]</span> +grupos de naiades, de sereias ou de golfinhos, mas +rompe da rocha viva, como nas grandes altitudes +alcantiladas das nossas serras, manando em fio +tenue e crystalino, desnevada e purissima, escondida +entre fragas, a que se entra de rastos para ir +sedentamente beijal-a na sua humilde nascente +engrinaldada de violetas em flôr. +<br /> + +<br /> + +Providenciando sobre o destino de um tão delicado +monumento, posto em leilão pela quantia +de um conto de réis, dispunha o governo que os +capiteis das columnas se serrassem dos respectivos +fustes e se recolhessem n'um museu! +<br /> + +<br /> + +Não sei em que phase administrativa se acha +ao presente esse negocio. O que sei é que o primoroso +claustro de Cellas, medonhamente desaprumado +da perpendicularidade das suas columnas, +não espera senão o primeiro dos mais leves +pretextos para se desmoronar inteiramente. +<br /> + +<br /> + +Na linda egreja de S. João, em Thomar, abrem-se +na fachada principal, de cada lado de um portal +manoelino, duas janellas da mais corriqueira +e mais villôa cantaria. +<br /> + +<br /> + +Ha bem poucos dias ainda um distincto critico +<span class="pagenum">[76]</span> +nos revelava, em uma folha periodica, os desacatos +por que está passando o antigo mosteiro das +Bernardas de Almoster, construido para commemorar +o milagre de Santa Iria pela devota Berengaria +com a collaboração de Santa Isabel. +<br /> + +<br /> + +Na Sé de Braga as estatuas jacentes dos tumulos +do conde D. Henrique e de sua mulher foram +cortadas pelo meio das pernas para caberem nos +novos logares para onde as transferiram, e, com o +fim de não transtornar inteiramente a anatomia +dos personagens, pareceu util applicar os pés decepados +aos joelhos das figuras. +<br /> + +<br /> + +Na mesma egreja existe o bello tumulo em bronze +do joven infante D. Affonso, filho de D. João I, +obra mandada fazer em Bruxellas pela infanta portugueza +D. Isabel, mulher de Filippe o Bom. A estatua +do infante, em tamanho natural, repousava +deitada na tampa do mausoleo entre dois anjos em +adoração. A caixa tumular, ornada de +brazões, cingidos +de arabescos e silvados em relevo, descança +sobre leões. Em 1881 foram roubadas as cabeças +dos leões, os pés e as mãos da +estatua, e os dois +anjos que ladeavam a cabeça do principe. O templo +<span class="pagenum">[77]</span> +está completamente desfigurado do seu aspecto +primitivo. Empastaram-se os capiteis das columnas, +transformou-se a arcaria das naves, abriram-se +grandes janellas nas paredes da egreja, +adornaram-se os intervallos das capellas com enormes +estatuas dos apostolos feitas de pau, e pintou-se +tudo de branco―madeiras e cantarias. +<br /> + +<br /> + +A pedra da campa de Garcia de Rezende, sepultado +na encantadora ermida que elle mesmo +delineou e mandou construir na cerca do convento +de Nossa Senhora do Espinheiro, foi arrancada +da sepultura do nosso chronista, e serve presentemente +de banca de cosinha em casa de um cavalheiro +de Evora. +<br /> + +<br /> + +Os tumulos da familia de Abrantes acham-se +em tanto esquecimento e em tanto abandono na +capella do seu castello, como em Alcobaça os de +D. Pedro e D. Ignez de Castro; como em Paço de +Sousa o de Egas Moniz; como em Palmella o de +D. Jorge, em cujo testamento aliás se attribue uma +verba ás reparações d'aquella casa; +como, finalmente, +ainda ha pouco em Alemquer, o de Damião +de Goes, antes de haver sido reposto pelo sr. Possidonio +<span class="pagenum">[78]</span> +da Silva o busto do nosso chronista sobre +o seu jazigo da egreja da Varzea. +<br /> + +<br /> + +Na Vidigueira a camara auctorisa o povo a utilisar +em obras particulares as cantarias do castello +de Vasco da Gama, como se o solar do descobridor +da India não tivesse mais importancia historica +que a que se liga a qualquer pedreira. +<br /> + +<br /> + +Em Evora, para dar mais um metro ou metro +e meio de superficie a uma praça, a camara deita +abaixo a historica varanda da casa dos paços do +concelho, edificada em tempo de Affonso V, por +João Mendes Cecioso, o <em>pae dos pobres +d'Evora</em>. +A varanda demolida, da qual pela primeira vez +se aclamou a independencia de Portugal depois +das famosas +<em>alterações</em>, +tão minuciosamente narradas +por D. Francisco Manoel de Mello na sua +<em>Epanaphora politica</em>, parece ter sido +obra de D. +João II. +<br /> + +<br /> + +Por muitas vezes se tem discutido na camara +eborense, e parece até haver sobre tal assumpto +uma resolução assente, o projecto inaudito de +eliminar +toda a bella alpendrada da praça, da rua +Ancha e da rua da Porta Nova. +<span class="pagenum">[79]</span> +<br /> + +<br /> + +Outra resolução da camara de Evora, +resolução +definitiva e aprasada para muito breve, é a de destruir +a pequena e tão graciosa egreja do convento +do Paraizo para o fim de estabelecer mais uma +praça entre as duas ruas de Machede e de Mendo +Estevens, ás quaes faz esquina aquelle templo. +<br /> + +<br /> + +A diminuta egreja do Paraizo, com os seus +dois arcos manoelinos, com os seus preciosos +azulejos do seculo XVI, em tapete mural, acompanhando +nas barras o recorte dos arcos em zig-zag, +e com o seu tumulo em ediculo de D. Alvaro da +Costa, é um dos mais graciosos documentos architectonicos +do seu tempo. +<br /> + +<br /> + +Pobre cidade de Evora, um dos nossos mais +vastos e mais preciosos museus de archeologia e +d'arte, preferindo como Santarem ser uma estupida +collecção de praças largas e de ruas +novas! +Por toda a Europa, os velhos bairros historicos +são hoje o thesouro das cidades que os possuem. +Em muitos logares, onde esses bairros não existem, +estão-os inventando, estão-os reconstituindo +em homenagem erudita e piedosa á +tradição historica, +á poesia do passado. A camara de Evora, +<span class="pagenum">[80]</span> +vangloriosa no pelintrismo das suas innovações, +bota abaixo os mais venerandos monumentos da +cidade; por outro lado improvisa ruinas scenographicas +no seu jardim publico, armando com +trepadeiras e malvaiscos grupos sentimentaes de +velhas columnas postas de pernas para o ar n'esse +effeito de bordado a cortiça ou a miolo de figueira; +pica os seus historicos brazões para fazer passeios +lisos de ruas novas aos seus janotas; e bate, +modernisante e festeira, sobre o epitaphio do mais +palaciano e do mais artistico dos seus escriptores +quinhentistas, a carne do bife consagrado talvez +ao penso d'algum dos seus novos reporters. +<br /> + +<br /> + +Mas eu é que não posso deixar de dizer +á cidade +de Evora, que o que a ella nos attrae e n'ella +nos retem não são as suas novas avenidas, nem as +suas praças, nem o seu lindo theatro, nem o seu +bello Passeio Publico. O que em Evora nos embelleza +e nos encanta, são os seus velhos mosteiros, +as suas antigas egrejas, os nomes das suas +primitivas ruas, estreitas e sinuosas, tão curiosos e +tão archaicos como o de +<em>Valdevinos</em>, o de +<em>Alconchel</em>, +o das <em>Amas do Cardeal</em>, o do +<em>Alfaiate da</em> +<span class="pagenum">[81]</span> +<em>Condessa</em>; são os quadros +incomparaveis do seu +paço archiepiscopal; são os variadissimos +documentos +da sua architectura ogival e da sua architectura +da Renascença, tão especialmente amoiriscada +n'esta parte do Alemtejo; são os restos das +suas antigas industrias locaes, a olaria, a tapeçaria, +a caldeiraria, a sellaria e a carpintaria de moveis; +é talvez ainda a sua tradicional cosinha, a +doçaria +famosa dos seus conventos, a sua honrada assorda +de cuentros, e o seu bolo pôdre, de farinha de milho, +azeite e mel, como o que se comeria talvez, +entre os hebreus da Biblia, á mesa de Abrahão. +<br /> + +<br /> + +Com as improvisações do seu modernismo +Evora é como Vianna do Castello, Braga, +Guimarães, +Coimbra, Thomar, Santarem, ou Beja, +que sómente interessam os viajantes pela sua antiga +arte, e não valem realmente a pena de que +alguem as visite pelo que dão de novo. +<br /> + +<br /> + +Em Lisboa repudia-se a soberba egreja de Santa +Engracia, o mais bello dos nossos monumentos do +seculo XVII. O interior do templo é de uma magnificencia +magestosa. A riqueza dos marmores +sómente se pode comparar á de Mafra. A +mão +<span class="pagenum">[82]</span> +d'obra é de uma perfeição magistral a +ponto de +parecer indestructivel. Aproveitada para pantheon +nacional esta egreja seria um dos mais imponentes +edificios da Europa. Falta unicamente á sua +conclusão +a cupula do tecto e o lageamento do chão. +Taparam-lhe o arco da entrada a pedra e cal, não +tem cobertura, e está servindo de armazem de +arrecadação +do inutilisado material de guerra do Arsenal +do Exercito. +<br /> + +<br /> + +A inoffensiva capellinha das Albertas, bem interessante +pela ornamentação tão portugueza dos +seus embrechados, ha poucos dias ainda acabou +de desapparecer, como o convento da Esperança, +sem se saber porque, nem para que. +<br /> + +<br /> + +A restauração, que recentemente padeceu a +egreja de S. Vicente de Fóra, tão particularmente +notavel pelos bellos mosaicos portuguezes que a +exornam, caracterisa-se bem no mau gosto da pintura +com que se maculou a nobreza d'aquelle templo. +<br /> + +<br /> + +Os attentados de restauro de que ainda nos tempos +modernos tem sido objecto a Sé de Lisboa são +tão lastimosos quanto innumeraveis. +<span class="pagenum">[83]</span> +<br /> + +<br /> + +Finalmente, ao lado da Torre de Belem, o mais +peregrino entre os mais bellos monumentos da +nossa architectura, estabelece-se o gazometro da +companhia de illuminação a gaz! A esbelta +silhueta +rendilhada do mais suggestivo padrão da nossa +gloria militar e maritima, já não emerge da areia +loura do Restello, em deslumbradora apotheose, +na vasta luminosidade do ceu e da agua, destacando-se +das collinas de Monsanto, como a alvura +de uma hostia em elevação se destaca do fundo +de um retabulo esmeraldado, em altar de ouro +fulvo, sob uma abobada azul. Sacrosanta pela sua +expressão moral, como a immaculada estalactite, +formada á beira do mar pela concreção +mysteriosa +de todas as lagrimas, de saudade, de ternura, de +consternação e de enthusiasmo, choradas por um +povo de embarcadiços; sacrosanta na sua forma +artistica, como aquelle dos monumentos de Portugal, +em que o genio lusitano da Renascença, +mais expressivamente se revela como dominador +da India, a Torre de Belem emparceira-se com a +chaminé do mais vil e sordido barracão, a qual +sacrilegamente a cuspinha e enodôa com salivadas +<span class="pagenum">[74]</span> +de um fumo espesso, gorduroso e indelevel, +como se a incomparavel joia d'esse marmore, que +o sol portuguez carinhosamente sobredourara pelos +afagos de tres seculos, houvesse sido tão subtilmente +cinzelada pelos artistas manoelinos para +escarrador de mariolas, por cima do qual todavia +ainda algumas vezes, em dias de gala, se desfralda +e tremula o pavilhão das quinas, mascarrado de +carvão como um chéché de entrudo. +<br /> + +<br /> + +Ministerios de todos os diversos partidos politicos +se revezam consecutivamente no poder, sem +que nenhum d'elles pareça attentar em um tal desdouro, +expressão viva do mais abandalhado rebaixamento +a que, perante as suas tradições historicas +e artisticas, podia chegar a degeneração de +uma raça. Por seu lado o parlamento e a imprensa +são insensiveis á responsabilidade de taes +civicias, +porque esses dois poderes do Estado, enrascados +na baixa intriga partidaria, immobilisados n'ella, +como um enxame de pardaes n'uma bola de visco, +de ha muito que perderam o sentimento de nacionalidade +e a noção de patria, relaxando completamente +aos archeologos, aos poetas e aos artistas +<span class="pagenum">[85]</span> +a unica legitima representação, desinteressada e +altiva, do espirito portuguez. +<br /> + +<br /> + +Consta no emtanto que brevemente será celebrado +em Lisboa o centenario da India; e da comprehensão +que temos d'esse feito culminante da +nossa historia maritima daremos ao extrangeiro +um testemunho definitivo, mostrando o monumento +que commemora tal façanha, envolto, como +nas dobras de um crepe, pela fumaçada de uma +fabrica, que nós mesmos lhe puzemos ao pé, para +o deshonrar. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Se do exame da architectura dos nossos monumentos, +passamos ao exame das artes decorativas, +da pintura e da esculptura amovivel, é +mais lastimoso ainda o espectaculo da nossa incuria. +<br /> + +<br /> + +Ao clero portuguez cabe principalmente a gloria +de haver conservado o que ainda resta do nosso +patrimonio artistico. +<br /> + +<br /> + +Das galerias particulares de pintura que o conde +de Raczynski ainda encontrou em Portugal, no +anno de 1845, quasi tudo se sumiu. +<span class="pagenum">[86]</span> +<br /> + +<br /> + +Demoliram-se, desappareceram, ou foram transformadas +pela mudança de dono, pela mudança +de destino, pela transformação mais radical da +vida interior que as animava, quasi todas as casas +que ainda em 1840 eram o typo das habitações +nobres em Lisboa. +<br /> + +<br /> + +Citarei, ao acaso da memoria: o palacio da +marqueza de Niza, a Xabregas, fundado no seculo +XV pela rainha D. Leonor; o palacio chamado +dos Patriarchas, o de Pessanha e o do +conde de S. Miguel, á Junqueira; o do marquez +de Pombal ás Janellas Verdes; o do conde de +Carvalhal na Rocha do Conde d'Obidos, famoso +outr'ora pela collecção das suas mobilias; +á Cotovia +o do conde de Ceia e o do conde de Povlide; +no Calhariz os de Braancamp, do duque +de Palmella e do marquez de Olhão; o do marquez +de Castello Melhor e o do conde de Lumiares, +no antigo Passeio Publico; na collina do Castello +o do marquez de Ponte de Lima, o do marquez +de Alegrete, o do marquez de Tancos; no +Campo de Santa Clara o do visconde de Barbacena, +o do conde de Resende, o do marquez de +<span class="pagenum">[87]</span> +Lavradio, e um pouco mais para leste o do conde +da Taipa; o do visconde da Bandeira, a S. Domingos; +e finalmente o do marquez de Borba, o do +conde de Almada, e o do morgado de Assintis, +cujo theatro era o mais sumptuoso entre todos os +numerosos theatrinhos particulares que havia em +Lisboa no principio do seculo, como o do barão +de Quintella, o do visconde de Anadia, o do conde +de Almada, e o do conde de Sampaio. +<br /> + +<br /> + +A maior parte d'essas casas eram ainda, pelo +seu antigo recheio, apesar dos estragos do terremoto, +apesar da rapina da invasão franceza, verdadeiros +sanctuarios d'arte. Mobilavam-as as mais +ricas peças das industrias do Oriente que existiam +na Europa, escriptorios, papelleiras e bahus monumentaes +de charão, bufetes e contadores feitos +na India ou fabricados em Lisboa por marceneiros +aqui educados, no tempo de D. Manoel, por +artistas indianos. +<br /> + +<br /> + +Os serviços de mesa e os vasos decorativos +eram das mais antigas e das mais preciosas porcellanas +da China e do Japão. A collecção das +colxas e dos panos de armar, com que no dia da +<span class="pagenum">[88]</span> +procissão de Corpus-Christi se revestiam inteiramente +as fachadas de todos os predios da Baixa, +eram de brocado, de damasco, de setim e de veludo, +constellados a matiz e a ouro nos mais deslumbrantes +desenhos persas. +<br /> + +<br /> + +Os bragaes, de linho da Hollanda, da Flandres e +do Reino, arrecadavam-se nas sumptuosas caixas +encouradas, que foram no seculo XVI uma das industrias +famosas de Lisboa. +<br /> + +<br /> + +Nas gavetinhas dos contadores e nos escaninhos +dos armarios e das arcas estavam as joias, +as rendas, os aljofares, os entretalhos, os firmaes, +as chaparias, os ouros de martello, e as obras mais +diminutas e subtis das antigas bordadoras e colxoeiras +de Lisboa,―restos de coifas, de face e +gravis, redes, cadenetas, desfiados. +<br /> + +<br /> + +As baixellas brazonadas, de ouro e prata, levantadas +em bestiões e em silvados, a martello, ou +cinzeladas por emulos de Benvenuto Celini, trasbordantes +de ornato, em encaiches de arabescos e +de laçarias, eram um luxo commum a todas as familias +nobres, e refulgiam pelas grandes festas do +anno em todas as casas de jantar. +<span class="pagenum">[89]</span> +<br /> + +<br /> + +O mogno francez do imperio, com as suas +applicações +de bronze, representando fachos, pyras +ardentes, lyras e tropheus de guerra, invadira com +as modas da revolução liberal muitas casas +lisboetas, +sem todavia desthronar inteiramente o +precioso mobiliario da Renascença, em cedro, em +pau rosa, em sandalo, em nogueira, em carvalho +ou em ebano, ao gosto mudegar ou ao gosto florentino, +embutido de marfim, de madreperola, de +prata, de esmaltes limosinos ou aragonezes. Abundavam +as cadeiras e os catles de couro lavrado +ou de guadamecim, cravejado no carvalho ou no +pau santo com pregos cinzelados de cobre ou de +prata; e nas poltronas, nas commodas, nas meias-commodas, +nos escaparates, nas cadeirinhas, nas +molduras dos espelhos e das sobreportas predominavam +as formas curvilineas da influencia de +Luiz XIV e de Luiz XV na época de D. João V e +de D. Maria I. +<br /> + +<br /> + +Na talha dos oratorios encontravam-se alguns +d'esses baixos relevos em madeira, polychromicos, +em escala mui clara, tão caracteristicos da +nossa esculptura em madeira do seculo XVII, bem +<span class="pagenum">[90]</span> +accentuadamente revelada nas obras de Bouro, de +Tibães, de S. Gonçalo de Aveiro, e da +Sé Nova de +Coimbra. +<br /> + +<br /> + +O presepio era um appendice por assim dizer +obrigatorio; sempre que não occupava um compartimento +especial da casa, o presepio concentrava-se +na sua machineta em forma de urna, semelhante +ás que se destinavam a conter uma cella +de Santo Antonio ou uma arribanasinha de menino +Jesus. +<br /> + +<br /> + +Todas as familias historicas tinham a sua mais +ou menos consideravel galeria de pintura: paineis +de devoção, retratos de antepassados, e um ou +outro +quadro de genero ou de paizagem, em tela ou +em cobre, attribuidos a Breughel, a Rosa di Tivoli, +a Tenniers ou a Rubens, obras em geral apocryphas +e mediocres. Grassavam, com tenacidade talvez +excessiva, as Josephas d'Obidos e os Morgados +de Setubal, mas entre os retratos do seculo +passado, encontravam-se alguns preciosos, como +os de Pelegrini em casa dos viscondes de Anadia, +como os pintados por Madame Guiard, por Gérard +e por Therbouché, em casa do visconde de +<span class="pagenum">[91]</span> +Sobral. Entre os quadros de devoção destacavam-se +frequentes obras primas nacionaes, do +seculo XVI, referidas á vida da Virgem Maria, á +lenda de Santa Ursula, aos agiologios de alguns +santos portuguezes, como Verissimo, Maxima e +Julia. +<br /> + +<br /> + +Nos sotãos d'essas antigas casas havia +accumulações +seculares de moveis inutilisados, de miudezas +rejeitadas e esquecidas, com as quaes se sepultariam +documentos inapreciaveis para a historia +da nossa influencia na evolução europeia das +artes sumptuarias: cadeiras aluidas e canapés +desconjuntados, +desusados manicordios, velhos cravos +de charão, abandonadas espinetas, em cujo +teclado amarellecido se teriam dedilhado as primeiras +composições de Palestrina e de Cimarosa; +antigos arreios de tiro e de sella, braseiras, perfumadores, +lanternas e candieiros de cobre, velhos +palmitos contrafeitos de conchas e de pennas, montões +de manuscriptos, montões de gravuras, dentes +de elephante, ferrugentas clavinas de pederneira; +e, entre feixes de cacetes e de chibatas de +marmelleiro, talvez, desarticulado e roto, algum +<span class="pagenum">[92]</span> +d'esses chapeus de sol, que nós fomos os primeiros +que fabricámos e que introduzimos na Europa, +ou algum d'esses primitivos leques, em quarto de +circulo, que os companheiros de Fernão Mendes +Pinto trouxeram da China, com os primeiros apparelhos +de chá, com os primeiros vasos de porcellana, +com as primeiras caixas de sinaes e pastilhas, +doando a Roma e a Florença, a Paris e a +Londres todos os principaes attributos e os themas +fundamentaes de toda a arte da casa e de +toda a elegancia feminina da civilisação moderna. +<br /> + +<br /> + +E tudo isso desappareceu, ou se está evolando, +com o successivo desmanchar de todas as velhas +casas, n'um saudoso e doce perfume de camphora, +de mofo, de alfazema e de bejoim, errante no ar +dos casarões despejados. +<br /> + +<br /> + +Estão nas bibliothecas extrangeiras, em França +e na Inglaterra, as mais preciosas illuminuras dos +nossos codices e das nossas arvores genealogicas. +<br /> + +<br /> + +Das encantadoras figurinhas dos presepios de +Faustino José Rodrigues, de Antonio Ferreira, de +Machado de Castro, já não ha intacta +senão a +collecção da Sé. +Destroçaram-se as da Madre de +<span class="pagenum">[93]</span> +Deus, do Coração de Jesus e do marquez de Borba +em Santa Martha. +<br /> + +<br /> + +O que ainda persiste da obra tão curiosa e tão +caracteristica dos barristas de Alcobaça está ao +desamparo no abandono d'aquelle incomparavel +monumento. +<br /> + +<br /> + +Lanças, espadas, adagas, elmos de todas as +fórmas―almafres, +capellinas, bacinetes, barbudas e +morriões―, couraças, escarcellas, grevas, +manoplas, +escudos e rodellas, todas as peças, emfim, +da armadura dos nossos heroes da Africa e da +India, desappareceram com as balças, as sinas, os +estandartes e as bandeiras das suas hostes. +<br /> + +<br /> + +A espada de Vasco da Gama é hoje propriedade +de um particular, que ha pouco tempo adquiriu +por compra essa reliquia nacional. +<br /> + +<br /> + +Uma espada e um capacete de torneio, que se +diz terem pertencido ao Mestre de Aviz, peças +ferrugentas, sujas, sem estojo nem outro qualquer +resguardo que as defenda da irreverencia do publico, +estão na Batalha á mercê dos +moços, dos +pedreiros e dos visitantes, que de chacota se adornam +com essas armas, em galhofa carnavalesca. +<span class="pagenum">[94]</span> +<br /> + +<br /> + +Na cathedral de Toledo, na soberba capella dos +Reis Novos, preciosamente edificada por Alonso +de Covarrubias, em tempo de Carlos V e por +disposição +testamentaria de Henrique II de Trastamara, +vê-se uma armadura portugueza. Guardada +por castelhanos, essa armadura suspende-se, d'entre +os ornatos platerescos da capella, por cima do +órgão, em todo o respeito devido a um +trophéo +sagrado. E um dos guardas da cathedral, explica +ao publico, apontando essa reliquia:―«Aquella é +a armadura do alferes portuguez Duarte de Almeida, +o qual, batendo-se na batalha de Toro +contra nós outros, tendo tido decepadas as duas +mãos, morreu ás lançadas, segurando +nos dentes +a bandeira do seu rei.» E em frente do arnez, +que vestiu o corpo sanguento e exanime de um +inimigo, Castella inclina-se reverente e commovida, +fazendo-nos corar, perante a grandeza de +tal exemplo, da lenda grosseira em que envolvemos +a pá da padeira Brites―<em>Quantos vivos +rapuit +omnes esbarrigavit</em>,―a qual pá uma esperta +e linda creada de Aljubarrota faz o favor de ir +buscar, e de tirar de dentro de um saco, para a +<span class="pagenum">[95]</span> +mostrar n'um patamar de escada aos viajantes +que para esse fim lhe vão bater á porta. +<br /> + +<br /> + +Não está feita nem estudada a historia dos nossos +vidros, dos nossos esmaltes, da iconographia +da nossa habitação, e do nosso trage. +<br /> + +<br /> + +Uma das obras primas da nossa joalheria, a +propria custodia de Belem, lavrada por Gil Vicente, +o famoso ourives, tio do poeta, acha-se desfigurada +nas suas dimensões primitivas pela +interpollação +de um novo hostiario e de duas pilastras, +que já não são do primeiro ouro das +conquistas, +mas de simples prata dourada. +<br /> + +<br /> + +Depois dos tão numerosos e tão grosseiros erros +a que tem dado origem a investigação da +identidade +de Grão Vasco, a historia, a +classificação e +a attribuição da nossa incomparavel pintura do +seculo XVI, encontra-se ainda por fazer. +<br /> + +<br /> + +A restauração dos antigos quadros está +constituindo +na historia da nossa arte uma catastrophe +ainda mais destruidora que a da restauração da +nossa architectura. +<br /> + +<br /> + +Alguns annos mais sobre o systema devastador +que se está seguindo, e ninguem poderá reconhecer +<span class="pagenum">[96]</span> +nas taboas da nossa grande época uma só pincelada +dos admiraveis discipulos e dos emulos que +tiveram em Portugal os Van Eik, os Memling, os +Gerard David, os Van der Weiden, os Quinten +Massys ou os Dierik Bouts. +<br /> + +<br /> + +N'essa prodigiosa pintura nacional, em que tivemos +por mestres os flamengos, acha-se todavia +registrada a historia de toda a vida portugueza +desde o meiado do seculo XV até o fim do +seculo XVI, isto é, durante o periodo do nosso +maior brilho e da nossa maior riqueza, no apogeu +da nossa gloria. São raras as puras +composições +historicas e raros os retratos d'esta época. Os +grandes feitos da navegação e da guerra +celebravam-se +de preferencia nas tapeçarias, que se perderam, +e constituiam o principal adorno d'arte +dos paços dos reis e dos palacios dos nobres. Na +pintura religiosa, porém, e nos quadros votivos, +conservados nas egrejas e nos conventos, as figuras +do seculo misturam-se em brilhante anachronismo +ás figuras sagradas, e muitas authenticas +physionomias se accusam energicamente nos pomposos +cortejos que envolvem as scenas biblicas. A +<span class="pagenum">[97]</span> +memoria do que fomos está ahi, por nós mesmos +consagrada, com o maior esplendor a que chegou +o nosso genio artistico, nas taboas dos paineis, no +pergaminho das biblias e dos devocionarios portuguezes. +Ahi estão os reis, as rainhas, os sacerdotes, +os guerreiros e os letrados portuguezes do cyclo +da renascença. São essas as caracteristicas +figuras +dos nossos avós: as faces cheias, a pelle tostada, +a carne rija, os olhos rasgados, as boccas imperativas. +A essas nobres e delicadas cabeças femininas +serviram de modelo as mais lindas mulheres +da Lusitania, de olhos de amendoa, malicioso olhar +avelludado, obliquo e enygmatico, sobrancelhas +longas alteando nas fontes, rostos ovaes, boccas +quentes e vermelhas, queixo carnudo vincado na +base, testa arredondada e lisa, cabello espesso e fino +apartado ao meio em duas curvas de bambolim, +e uma gesticulação leve, sinuosa e ondulante. +Teriamos +que interrogar longamente, laboriosamente, +esses venerandos paineis para apprender tantas +coisas que ignoramos da physionomia do nosso +passado, o trage, as armas, as joias, a mobilia, +os utensilios da casa e os estados do espirito. +<span class="pagenum">[98]</span> +<br /> + +<br /> + +O estudo completo d'esses quadros constituiria +a mais importante, a mais bella obra da nossa +historiographia. +<br /> + +<br /> + +<em>A patria portugueza segundo os documentos da +pintura nacional nos seculos XV e XVI</em>, poderia ser +o titulo d'esse incomparavel livro, em que collaborariam +todas as aptidões intellectuaes de que +dispõe o paiz, por meio de successivas monographias, +relativas a cada ramo do saber e comprehendendo +todos os pontos de vista em que pode +ser considerado o quadro: +<br /> + +<br /> + +1.º <em>Os aspectos da paizagem</em>, os +caracteres +da <em>flora</em> e da +<em>fauna</em> portugueza, que nós +tão +opulentamente enriquecemos, pelo commercio +das conquistas e dos descobrimentos; no tempo +em que Lisboa era o primeiro jardim de +acclimatação, +o primeiro jardim zoologico e o primeiro +mercado da Europa, pela introducção do +chá, do café, do assucar, do algodão, +da pimenta, +do gengibre do Malabar, da canella de +Ceylão, do cravo das Molucas, do sandalo de +Timor, das teccas de Cochim, do bejoim do +Achem, do pau de Solor, do anil de Cambaya, +<span class="pagenum">[99]</span> +da onça, do elephante, do rhinoceronte, do cavallo +arabe. +<br /> + +<br /> + +2.º <em>O mobiliario</em>, cuja +fabricação tão fecundamente +desenvolvemos por meio de officinas estabelecidas +em Lisboa por artifices indianos, e estabelecidas +na India por artifices portuguezes, sob +a administração de Affonso de Albuquerque. +<br /> + +<br /> + +3.º <em>A indumentaria</em>, comprehendendo, +além da +historia do <em>traje</em>, a dos +<em>tecidos</em>, a dos +<em>bordados</em> e a +das <em>rendas</em>, industrias procedentes +da China, da +Persia, de Benguella, tão profundamente influenciadas +pelo nosso contacto nas suas origens, tão +especialmente desenvolvidas no Reino, pelo lavôr +do paço, onde trabalhavam ao bastidor e á agulha +as mais pacientes e subtis +<em>lavrandeiras</em> mandadas +á rainha pelos capitães da India. +<br /> + +<br /> + +4.º <em>As armas</em>, de guerra, de torneio +e de côrte. +<br /> + +<br /> + +5.º A <em>ourivesaria</em> e a +<em>joalharia</em>, abrangendo a +analyse das alfaias religiosas, lampadas, tocheiros, +relicarios, thuribulos, retabulos, a tão curiosa +evolução +em Portugal da fórma e do ornato dos calices, +das custodias e das cruzes; e na ourivesaria +profana as innumeraveis peças em ouro ou prata +<span class="pagenum">[100]</span> +da baixella e da joalharia portugueza da Renascença, +como escudellas de faldra e de orelhas, salseiros, +oveiros, vinagreiras, almofias, tumadeiras, +almaraxas, escalfadores, confeiteiras, perfumadores, +esquentadores, brazeiros, pomas-candis, alcaforeiros, +taxos de perfumar luvas, copas, taças, +gomis, bacias d'agua ás mãos, maças, +chaparias +de gualdrapa, andilhas, estribos, taboas de cavalgar, +guarnições de cavallo, com rosas, sostinentes +e copos; cofrinhos, arrecadas, firmaes, pontas de +ouro, brochas de livro, cadeias, guarnições de +coifa, trançadeiras, crochetes, cintas, tiras de +cabeça, +tiratestas, dormideiras de ouro para volantes, +e as contas variadissimas de filigrana mourisca, +de ambar das Maldivas, de almiscar da +China, de rubis do Pegu, de diamantes de Narsinga, +de perolas de Kalckar. +<br /> + +<br /> + +6.º <em>As +embarcações</em>―galeões, +naus, caravellas, +bergantins, fustas, toda essa portentosa +collecção +dos nossos barcos de guerra e dos tão variados +typos empregados na cabotagem e na pesca, testemunhos +sobreviventes ainda hoje do nosso genio +maritimo e das suggestões do mais remoto +<span class="pagenum">[101]</span> +trato do oceano, como se demonstra na forma +dos saveiros, que trouxemos do Bosforo, e na da +muleta do Seixal, que é o navio grego do tempo +de Herodoto. +<br /> + +<br /> + +7.º <em>A olaria e a cestaria popular</em>, +em que tão atticamente +se affirma o hereditario engenho artistico +da nossa raça, e cujos productos tanto se compraziam +em reproduzir os nossos pintores. +<br /> + +<br /> + +8.º Emfim: <em>A psychologia das +figuras</em> pela physionomia, +pelo gesto, pelo sorriso, pelo olhar; os +usos e os costumes; os temperamentos predominantes; +a moda, o toucado; o corte do cabello, o +talho da barba, etc. +<br /> + +<br /> + +Da pintura portugueza, que constitue a mais importante +parte da riqueza artistica da nação, +não +ha porém catalogo, nem inventario, nem rol. Nos +nossos depositos de antigos quadros, em Lisboa, +em Coimbra, em Vizeu, em Thomar, em Lamego, +em Evora, em Setubal, o povo portuguez passa +indifferente, abstrahido, expatriado, sem guia que +o condusa ás fontes da tradição e da +nacionalidade, +em que cada um de nós tem a mais restricta +e a mais instante obrigação de ir retemperar e +fortalecer +<span class="pagenum">[102]</span> +de portuguezismo o seu sangue, dessorado +pela mais falsa educação a que se pode condemnar +um paiz. +<br /> + +<br /> + +Não ha collecção publica, +chronologicamente +completa, dos nossos incomparaveis azulejos. Esta +industria artistica é no emtanto d'aquellas de que +mais legitimamente nos podemos gloriar. Até o +seculo XVII o azulejador portuguez acompanhou a +evolução peninsular, de influencia mudegar e de +influencia italiana. Desde o seculo XVII adoptamos +o gosto hollandez, e no seculo XVIII os nossos artistas +desenvolvem no azulejo azul e branco, em +vastas composições historicas e de genero, +paizagens, +merendas, caçadas, allegorias religiosas e +lendas monasticas, enquadradas em bellas grinaldas +polychromicas, o mais seguro e adestrado talento +de composição historica e decorativa. +<br /> + +<br /> + +Raro será o anno em que de Portugal não tenha +desapparecido um quadro inestimavel ou um +codice precioso, sem qualquer apparencia de +coherção, +sem o minimo reparo, ao menos, do poder +executivo, das côrtes ou da imprensa. Á hora +a que escrevo estas linhas me dizem que está á +<span class="pagenum">[103]</span> +venda ou vendido em Londres um livro de horas +com que o rei D. Manoel brindára um fidalgo da +sua côrte, ordenando-lhe que vinculasse esse manuscripto, +que era uma gloria da nação. +<br /> + +<br /> + +Não é, em rigor da verdade, muito mais risonho +que o destino das obras d'arte que saem para +o estrangeiro o destino das que ficam no paiz. +<br /> + +<br /> + +É bem conhecida a historia do primeiro dos +nossos museus industriaes, fundado em Lisboa +por Fradesso da Silveira. Esse museu extinguiu-se +suavemente, a pouco e pouco, até chegar a +não existir do deposito primitivo senão unica e +exclusivamente as prateleiras em que elle havia +sido collocado. +<br /> + +<br /> + +O rico museu das antiguidades do Algarve, recolhidas +ha dezeseis annos por Estacio da Veiga, +ainda hoje se não acha instalado. +<br /> + +<br /> + +Da inestimavel collecção das antigas +peças de +louça e de obras de barro, que haviam pertencido +ao convento da Madre de Deus, e que o architecto +Nepomuceno recolhera em uma das casas d'aquelle +edificio, desappareceu tudo. +<br /> + +<br /> + +Tão vasta é a nossa riqueza artistica e +tão profundo +<span class="pagenum">[104]</span> +o desleixo de a escripturar, que são quasi +tão frequentes as surpresas no que se encontra +como no que se perde. +<br /> + +<br /> + +Como exemplo direi que era assentado não haver +em Portugal vestigio algum da influencia immediata +de Van Eik na pintura portugueza, e não +existir do infante D. Henrique, o Navegador, mais +que um retrato, na miniatura annexa ao bello +manuscripto de Azurara, presentemente propriedade +da <em>Bibliothèque +Nationale</em>, em Paris. É entretanto +nosso, e existe em Portugal, um retrato egualmente +contemporaneo e authentico, em tamanho +natural, magistralmente pintado a oleo sobre madeira. +Esse retrato precioso, inteiramente desconhecido +do publico, eu mesmo o vi no dia 19 do +mez de julho de 1895. Faz parte de um grupo de +varios personagens, é da segunda metade do seculo +xv, e pertence a um jogo de quatro paineis, de +dimensões eguaes, relacionados entre si por analogia +de data e de assumpto. Está bem conservado, +e acha-se, com os tres da serie a que pertence, no +corredor do claustro de cima no edificio de S. Vicente +de Fóra, no vão de uma janella, junto dos +<span class="pagenum"><a name="p105" id="p105">[105]</a></span> +aposentos habitados n'essa occasião por s. ex.<sup>a</sup> +revd.<sup>ma</sup> o sr. <a href="#e4">arcebispo</a> +de Mitylene. +<br /> + +<br /> + +O illustre escriptor inglez sr. Prestage mandou +fazer d'esse retrato uma reproducção +photographica, +destinada a illustrar a nova edição ingleza +da <em>Chronica da Guiné</em>. +<br /> + +<br /> + +Na linda egreja do convento de Santa Iria, que +o fallecido architecto Nepomuceno comprou por +300$000 réis, e se achava encorporada no mosteiro +fundado por D. Maria de Queiroz, viuva de +Pedro Vaz de Almeida, veador da fazenda do infante +D. Henrique, ha um retabulo em baixo relevo +de bella pedra d'Ançan, que é simplesmente, +pelo desenho, pelo stylo, pela mão d'obra e pelo +estado de conservação em que se acha, uma das +obras capitaes da esculptura da Renascença em +Portugal. Compõe-se de dezesete figuras. Junto +da cruz, de que pende a mais ideal figura do Redemptor, +está prostrada Santa Maria Magdalena. +Acompanham-a a Senhora da Soledade, as tres +Marias, Nicodemus, José de Arimathea e S. João +Evangelista. No primeiro plano, dois soldados a +cavallo, em magnifico trage do seculo XVI. Enquadra +<span class="pagenum">[106]</span> +a composição um bello portico, de columnas +e tabellas preciosas, chancellado pelo brazão dos +Valles. Só outro Calvario, o do claustro do Silencio, +em Coimbra, obra, por certo, do primeiro dos +esculptores de Santa Cruz, hoje profundamente +cariada e quasi delida, se poderia comparar, de +par com o pulpito da mesma egreja, á esquecida +esculptura da abandonada egreja de Thomar. +<br /> + +<br /> + +Em egual descaso e esquecimento, ignorado da +grande maioria dos viajantes e dos estudiosos, o +monumental e sumptuosissimo panthéon dos Silvas, +da preclara familia de D. Ruy Gomes, em S. +Marcos, cerca de Coimbra. O bello portal alpendrado +d'esta egreja tem a data de 1510. Os cinco +sarcophagos de que se compõe o jazigo verdadeiramente +regio dos Silvas, assim como o retabulo +em pedra no altar mór da egreja constituem uma +preciosidade esculptural de valor incomparavel. +Este admiravel repositorio da nossa esculptura +quinhentista foi ha poucos annos vendido, com a +cerca adjunta do extincto mosteiro, pela quantia +de seis contos de réis. +<br /> + +<br /> + +Os preciosos quadros da pintura portugueza do +<span class="pagenum">[107]</span> +seculo XVI, completamente desarrolados, despercebidos +dos compradores extrangeiros, e ainda hoje +dispersos pelo paiz, são em numero talvez superior +aos dos quadros de mesma época recolhidos +pelo estado depois da abolição das ordens +religiosas. +O illustre critico sr. Joaquim de Vasconcellos +tem, só á sua parte, noticia de não +menos de cem +obras desconhecidas do publico. Das que existem +no Museu Nacional de Lisboa, na arrecadação da +Academia das Bellas Artes e nos demais depositos +do paiz, não ha uma só photographia registrada +pelo Estado, á semelhança do que se faz em todos +os museus do mundo. +<br /> + +<br /> + +Por occasião da ultima exposição, +tão interessante, +realisada nas salas devolutas, das Janellas +Verdes, para celebrar o Centenario de Santo Antonio, +a direcção das Bellas Artes não +respondeu +ao pedido da modesta quantia de 50$000 réis +que a commissão executiva da mesma +exposição +lhe dirigiu para que se publicasse o respectivo +catalogo, que ficou em manuscripto na mão do +redactor. +<br /> + +<br /> + +Por essa mesma occasião os peritissimos e benemeritos +<span class="pagenum">[108]</span> +photographos portuenses Emilio Biel & +Companhia, aos quaes tão valiosos e desinteressados +serviços devem as artes portuguezas, dirigiram +ao governo uma proposta para reproduzir +pela photographia,―sem subsidio algum do thesouro―todos +os objectos expostos no palacio das +Janellas Verdes. Esta proposta ficou egualmente +sem despacho. +<br /> + +<br /> + +Inutil me parece alludir ainda á dispersão das +mais ricas peças do mobiliario portuguez do seculo +XVI e d'essa segunda renascença artistica e +industrial do nosso seculo XVIII. +<br /> + +<br /> + +Bufetes, arcas, armarios, contadores, tapeçarias +da Persia, bordados e rendas do reino, couros lavrados +e guadamecins, azulejos, porcellanas antigas +da India, do Japão e da China, credencias, +leitos torcidos ou empennachados, canapés e cadeiras +curvilineas ao gosto da Pompadour de Odivellas, +espelhos afestoados, de toucador e de sacristia, +damascos da Real Fabrica das sedas, louças +artisticas do Rato, da Bica do Sapato, do +Porto, de Vianna, do Cavaquinho, da Panasqueira, +de Darque, das Caldas, de Estremoz, de Coimbra, +<span class="pagenum">[109]</span> +tudo o bric-à-brac extrangreiro nos leva em +cada anno, com uma cubiça e uma rapacidade +que bem melancholicamente lembra a dos enviados +de Verres no saque da Sicilia, do qual dizia +Cicero que só ficou da arte o que a ganancia não +quiz. Ainda ha Verres, como no tempo do velho +mestre romano, mas já não ha verrinas. +<br /> + +<br /> + +D'esta desorganisação geral de toda a policia +da arte resulta mais ou menos lentamente, a quebra +da tradição esthetica nacional, que é +a seiva +de toda a producção artistica. +<br /> + +<br /> + +Á infecundação do individuo pelo +espirito da +raça corresponde o desfallecimento do poder creativo, +a inercia da intelligencia, a esterilidade do +estudo, a degeneração da phantasia, o +abandalhamento +do gosto, a atrophia do proprio caracter, e, +em ultimo resultado da decadencia geral, a +desnacionalisação +pelintra de todo um povo. +<br /> + +<br /> + +Com o rebaixamento da arte rebaixa-se tudo, +porque no mundo é producto da arte tudo o que +não é unicamente obra da natureza. +<br /> + +<br /> + +O homem degenera, porque, sempre e em toda +a parte, o homem toma fatalmente a configuração +<span class="pagenum">[110]</span> +das coisas que o rodeiam e, para assim dizer, lhe +enformam a personalidade. +<br /> + +<br /> + +Dissolvido o culto artistico pela negligencia ou +pela inepcia de abastardadas classes dirigentes, os +fieis debandam por não haver egreja que os reuna, +e é já evidente esta enorme catastrophe: que na +arte de Portugal faltam corações portuguezes. +<br /> + +<br /> + +Fere-nos já esse phenomeno consternador em +todos os aspectos da vida intellectual. +<br /> + +<br /> + +Em resultado de não termos uma historia geral +da arte portugueza, devidamente systematisada +e integralmente documentada em cada um dos +seus capitulos, vemos grassar, não só entre o +vulgo +mas entre pessoas de saber, incumbidas de guiar +e de reger a opinião, o erro criminoso, profundamente +desmoralisante, de que somos um povo +inesthetico, incapaz de concepções artisticas +originaes. +<br /> + +<br /> + +A juventude litteraria, dotada de uma consideravel +força de applicação e de talento, +traz-nos +uma poetica exotica, de climas nevoentos, anti-meridional, +e vem falando uma lingua secreta, cabalistica, +interessantemente engenhosa, incomprehensivel +<span class="pagenum">[111]</span> +para o povo e para todos os que não estiverem +iniciados na morphologia espiritica das +novas seitas. +<br /> + +<br /> + +Em toda a historiographia contemporanea se +nota uma glacial frieza de critica, uma anemica +pallidez de expressão, um geral entono de +apagada tristeza, em que bem se demonstra que +não circula o sangue vermelho da raça, nem se +retrata +do vivo o genio do nosso povo, meigo, docil, +de apparencia branda, mas ainda hoje eminentemente +sociavel, amando a grande alegria estridente +das feiras, das tardes de touros, das romarias +dos seus santos populares, conservando nas +infimas camadas sociaes um residuo trovadoresco, +de paladino e de menestrel, susceptivel ainda das +paixões mais profundas, todo de +improvisação e +de repentismo, capaz das coisas mais imprevistamente +grandes, poetico, aventuroso e destemido. +<br /> + +<br /> + +Na poesia, assim como na pintura e na musica, +não ha uma escola portugueza, porque, na falta +de laço social que congregue os nossos artistas, +sem elementos coordenados de estudo, sem modelos +patentes, sem lição commum, não ha +entre +<span class="pagenum">[112]</span> +elles mutuamente, nem entre elles e o povo de +que derivam, communhão alguma de ideal ou de +sentimento. +<br /> + +<br /> + +Por egual razão não teem caracter nacional, +sendo portanto destituidas de originalidade, e +como taes inaptas para a luta da concorrencia +mercantil, todas as nossas industrias. +<br /> + +<br /> + +A decapitação official da nossa +educação artistica +manifesta-se ainda de mais perto, acotovelando-nos +e contundindo-nos por toda a parte, no aspecto +do povo, na apparencia das casas, na esthetica +das cidades, na apparencia dos predios, na +decoração das praças, das avenidas, +dos cemiterios, +dos jardins publicos, das lojas, das repartições +do estado e das habitações particulares. +<br /> + +<br /> + +Em Lisboa, por exemplo, onde não ha uma +sala de concertos populares, nem vem tocar para +a rua a musica dos regimentos, onde no theatro +de Dona Maria se não representa Gil Vicente +nem Garrett, onde no theatro de S. Carlos se não +canta Marcos Portugal, onde não ha um museu +de arte decorativa, nem um simples mostruario da +nossa producção industrial, nem um museu de +pintura, +<span class="pagenum">[113]</span> +coordenado, catalogado e etiquetado de maneira +que communique ao publico, assim como +em todas as outras capitaes da Europa, a lição +que um museu contém, ha pelo contrario escaparates +de apparatosos armazens, que são para +quem anda pelas ruas o contagioso exemplo da +mais corrompida perversão, do mais provocante e +pomposo relismo a que pode chegar o desvairamento +do gosto. Mobilias em tal maneira degeneradas +que n'ellas desappareceu de todo o material +de construcção. A almofada que em toda a +antiguidade +e em toda a edade média era um accessorio +movel, e só no seculo XVI se principiou a +fixar com pregos ao banco ou á cadeira, invade +boçalmente todo o movel, armado em ripes de +pinho, como uma eça de defunto, embrulhado em +pelucia, que nos esburaca os olhos pela insolente +má creação da côr. E +horripilantes lindices de toucador, +de escriptorio ou de sala, em que tudo parece +apostado em ser fingido, desde a etrusca +ondulação +do contorno até o material empregado, +porque todas as linhas são aleijadas, a prata é +zinco, o marfim é gesso, o charão é de +papel e o +<span class="pagenum">[114]</span> +marmore esculpido é de sabão. E tudo isso se +compra e se leva para casa, para infectar a familia, +para corromper o lar e para escrofulisar moralmente +os meninos, desconjuntando-os de dignidade +domestica, inoculando-os de pelintrice e +de canalhismo de casta para a vida toda. +<br /> + +<br /> + +Ha uma avenida monumental em que, ao longo +dos passeios destinados ao transito do publico, +em vez da ornamentação da flora regional, em +vez dos longos massiços de castanheiros, de laranjeiras, +de palmeiras e de bananeiras, como +em Barcelona e em Sevilha, esverdinham e apodrecem +dois miseros e infectos arroios artificiaes +no fundo de flexuosas ravinas, gretando sinuosamente +o solo, como canos dissimuladamente +abertos em fosquinhas para trambulhões do viandante. +<br /> + +<br /> + +Nos predios a prodigalidade vesanica das janellas +percorre a superficie das fachadas, havendo +frontarias que parecem construidas unicamente +com hombreiras contiguas e sobrepostas; e, ao +passo que em cidades amoraveis e artisticas se +criam premios e se abrem concursos de janellas +<span class="pagenum">[115]</span> +floridas, em Lisboa é prohibido ornamentar de flores +o frontespicio das casas. +<br /> + +<br /> + +Os lindos <em>empedrados</em> e +<em>embrechados</em> de +tradição +portugueza caem em desuso, substituidos por cimentos +incompativeis com a acção do nosso clima. +<br /> + +<br /> + +O tão commodo, tão modico e tão +gracioso +typo da nossa antiga casa de campo é substituido +nas construcções modernas pelas fórmas +de um +exotismo composito, as mais delambidas, mais +pretenciosas e mais chinfrins, hybrida confusão +allucinada do châlet suisso, do cottage inglez, da +fortaleza normanda, do minarete tartaro e da mesquita +moira,―nodoa e vexame da paizagem portugueza +nas redondezas de Lisboa. Em presença +de um tão inverosimil scenario de magica, de operetta +ou de revista do anno, ninguem, desajudado +de outras indicações, anedocticas e +chorographicas, +será capaz de adivinhar em que parte do mundo e +entre que casta de gente se está passando a peça. +Tal é a delirante epidemia de que estão +combalidos +os constructores contemporaneos, que, para +ter um indicio nacional da nossa tradição, entre +as +casas de campo ou de praia construidas em torno +<span class="pagenum">[116]</span> +de Lisboa nos ultimos vinte annos, temos de ir a +Cascaes vêr o typo, unico, da habitação +dos condes +de Arnozo, tão saudosamente semelhante á +casa de nossos avós, com o seu pequeno eirado +sobre uma arcaria de meio ponto, a sua porta de +alpendre n'um patamar de escada exterior, ao lado +do retabulo em azulejo do santo padroeiro da familia, +as janellas de peitos guarnecidas de rotulas +entre cachorros de pedra, destinados ás varas do +estendal, e servindo de misula aos vasos de craveiros +e de mangericos, em frente do poço de roldana, +no mais doce e tranquillo sorriso d'outr'ora. +<br /> + +<br /> + +Nos mesmos letreiros das esquinas de ruas encontram-se +denominações que esbofeteiam o pundonor +patriotico, a cultura historica e a dignidade +esthetica dos habitantes. +<br /> + +<br /> + +No Bairro Alto, onde a nomenclatura das ruas +tão sympathicamente suggeria a lembrança bucolica +da antiga fazenda suburbana, em que os jesuitas +de S. Roque delinearam a nova cidade, como +a rua da <em>Vinha</em>, a do +<em>Moinho de Vento</em>, a do +<em>Poço</em>, +a do <em>Carvalho</em>, a da +<em>Rosa</em>, a da +<em>Atalaia</em>, ou os nomes +dos officios que ahi primitivamente se arruaram, +<span class="pagenum">[117]</span> +como os <em>Calafates</em> e as +<em>Gaveas</em>, apaga-se, +como n'uma rasura de conta falsificada, esse lindo +e piedoso vestigio da tradição lisboeta, para dar +ás +ruas nomes novos e incaracteristicos, de sujeitos +que n'ellas moram ou se diz que por lá passaram. +E com egual afouteza se dissolvem, n'um borrão +de brocha, sagrados disticos, ainda mais estreitamente +vinculados á historia do povo e á historia +da cidade, como o da Rainha Santa Isabel, como +o dos Martyres de Marrocos. +<br /> + +<br /> + +Os trages populares, alguns tão pittorescos, tão +suggestivos e tão bellos, como os das mulheres da +Murtosa, da Maia, de Santa Martha e de Portuzello, +como o dos boieiros do Ribatejo, dos pescadores +de Ilhavo e da Povoa, e dos montanhezes +do Alemtejo e do Algarve, degeneram e abastardam-se +ridiculamente, porque não ha entre a gente +culta quem preze esse trage, quem o honre e quem +o entenda. +<br /> + +<br /> + +Egualmente se desdenham e repudiam, por espirito +de inconcebivel extrangeirismo, os productos +primorosos de algumas das nossas industrias +populares. +<span class="pagenum">[118]</span> +<br /> + +<br /> + +Nenhum outro povo matiza com mais harmonia +de côr e mais graça de risco esses tecidos +dos teares ou dos bastidores caseiros, combinados +com estopa, com linho, com lã ou com algodão, +de que se fazem os panos liteiros, as sirguilhas, +as saias e os aventaes das mulheres de +Vianna, e bem assim as colxas de linho bordadas +a frouxo na Beira, e os tapetes chamados de Arrayolos. +Nenhum outro povo sabe tornear na +roda do oleiro com mais esbelteza e mais puro +atticismo o pote ou a bilha de barro, a pucara, o +gomil e o pichel, de Coimbra, do Prado, de Mafra, +de Redondo, de Loulé. +<br /> + +<br /> + +Se ninguem mais artisticamente do que o portuguez +sabe vestir a mulher, arrear o cavallo, engatar +a mula, e moldar a vasilha, ninguem, tão +pouco, melhor do que elle emalha a rede e enastra +o cesto. +<br /> + +<br /> + +Dizem inglezes que metade da sua arte contemporanea +se deve á iniciativa e á propaganda do +grande critico nacional John Ruskin, que Tolstoï +considera um dos maiores homens do seculo, e a +quem Carlyle chamava o <em>ethereal +Ruskin</em>. Este +<span class="pagenum">[119]</span> +glorioso campeão da esthetica e da arte em todas +as suas mais complexas e mais variadas +manifestações +não pode deixar de ser lembrado por todos +os que se interessam em taes assumptos. Os +seus numerosos livros sobre historia da arte, sobre +a architectura, sobre a pintura, sobre as artes +decorativas e as artes industriaes, os seus profundos +estudos de <em>Turner e os antigos</em> e dos +<em>Pintores +modernos</em>, a sua triumphante campanha em favor +dos monumentos historicos, das industrias ruraes, +dos preraphaelitas, das paizagens inglezas, são +um verdadeiro monumento litterario, e a bibliographia +que se lhe refere constitue toda uma litteratura, +famosa na Inglaterra sob o nome consagrado +de <em>ruskineana</em>. Grande homem de +acção, +gloria dos da sua raça, tomando por divisa +<em>To day</em>, +Ruskin não se emparedou, como a maioria dos +criticos, na torre eburnea dos extases poeticos e +das contemplações expeculativas. Tendo consumido +rapidamente mil contos de réis da legitima +paterna em subvenções das mais generosas empresas +sociaes, em dadivas aos museus, em soccorro +dos pobres, em fundações de escolas e de +<span class="pagenum">[120]</span> +officinas, reconstituindo pela venda dos seus livros, +(a trinta contos a edição) um rendimento de +riquissimo proprietario, elle fez-se gratuitamente +professor de desenho, industrial e operario. Organisou +a casa editora das suas proprias obras, a +<em>Ruskin House</em>, fundou a +<em>Saint-George's Guild</em>, em +Londres, a Sociedade Protectora dos Monumentos +Architectonicos, e as sociedades de leitura de Manchester, +de Glascow e de Liverpool; ensinou a +Inglaterra a comprehender a obra de Turner; fundou +o culto dos primitivos, introduzindo na <em>National +Gallery</em> os preciosos quadros de Benozzo +Gozzoli, de Perugino, de Botticelli, de todos os +grandes predecessores de Raphael; e deu á arte +todo um novo ideal e uma religião nova, creando +uma pleiade brilhantissima de proselytos, de collaboradores +e de discipulos, entre os quaes figuram +Madox Brown, Rosseti, Collingwood, Millais, +Morris, Thomaz Dean, Woodward, Munro, Hunt, +Burne Jones, Hook e Brett, e Giacomo Boni, o +actual conservador dos monumentos nacionaes da +Italia. Foi elle emfim que deu a mais alta expressão +á auctoridade esthetica em nossos tempos, impedindo, +<span class="pagenum">[121]</span> +em nome da arte, que um traçado de caminho +de ferro deturpasse a belleza de uma collina +na paizagem ingleza, e levando uma commissão +da Camara dos Lords a consultar uma commissão +de artistas sobre se a passagem de uma +linha ferrea não affectaria ruinosamente a parte +de riqueza publica representada pela tranquilla e +doce poesia de certo valle. +<br /> + +<br /> + +É porém com um intuito especial,―a proposito +das nossas tão resistentes industrias tradicionaes +e domesticas,―que eu invoco o nome +glorioso de Ruskin. +<br /> + +<br /> + +O trabalho rural da fiação á +mão e da tecelagem +no estreito e primitivo tear caseiro achava-se +totalmente extincto na tradição ingleza. Ruskin, +considerando os poderosos elementos de economia, +de moralidade, de satisfação, de +educação +esthetica e de intima poesia, destruidos pela suppressão +d'essa antiga actividade artistica da familia +no campo inglez, dedicou-se com um esforço +portentoso a fazer reviver em Langdale e em Keswick +a extincta industria caseira dos panos de linho +e dos panos de lã em pequenas manufacturas +<span class="pagenum">[122]</span> +domesticas, tendo por unico auxiliar da força individual +uma vela de moinho nos cabeços das +collinas ou a corrente da agua á beira dos riachos. +Elle mesmo dá o exemplo da nova +organisação +do trabalho na familia, construindo o seu +famoso moinho de Laxey. Recompõe-se uma antiga +roda de fiar com as peças desarticuladas e +esquecidas de um d'esses abandonados apparelhos +encontrados em casa de uma velha tecedeira. +É reconstruido um primitivo tear sobre o modelo +florentino e medieval de um quadro de Giotto. +Ruskin envolve esse novo movimento retrogrado +do trabalho na propaganda mais activa e mais +eloquente. A sua palavra calorosamente apaixonada, +colorida e mordente, encontra em todo o +Reino Unido um ecco extraordinario. As teias do +novo linho caseiro, um tanto rugoso, um tanto irregular, +cegado no campo, espadelado, assedado, +fiado, córado e tecido pela mesma mão de mulher, +á porta ou á janella de uma cabana, ao ar +dos campos, ao ramalhar das faias, ao canto das +cotovias, denotando nos accidentes da factura, +como n'uma obra d'arte, a caracteristica individualidade +<span class="pagenum">[123]</span> +do artifice, substituida á banal +perfeição +estupida e antipathica do apparelho mechanico, +desbanca rapidamente a obra da fiação a +vapor, cae em moda entre as pessoas de gosto +aperfeiçoado, recebe a alta protecção +da princeza +de Galles, torna-se de rigor em todos os enxovaes +elegantes, e faz-se pagar mui remuneradoramente +por preços consideravelmente superiores ao dos +productos da grande industria mechanica. +<br /> + +<br /> + +Exito egual ao dos panos de linho na industria +caseira dos lanificios na ilha de Man. É conhecida +não só em toda a Inglaterra mas em toda a Europa +a fama d'esses resistentes tecidos ruraes fabricados +á mão, de desenhos combinados na urdidura +e na trama com as côres naturaes da lã, +sem preparo algum chimico ou mechanico, de tintura +ou de acabamento; e a mais cara de todas as +fazendas de luxo para traje de trabalho, de caça, +de viagem, de equitação, é o famoso +<em>homespun</em> ou +<em>Laxey homespun</em>, do nome da +localidade em que +se estabeleceu o primeiro moinho de Ruskin. É +a esta evolução das pequenas industrias ruraes, +hombreando em valor remunerativo com as grandes +<span class="pagenum">[124]</span> +industrias, e não a destructiva +absorpção do +trabalho da familia pelo trabalho das grandes empresas +fabris que eu chamo +<em>transformação de industrias +caseiras em industrias de concorrencia</em>,―formula +que geralmente se toma em sentido diverso +d'aquelle que eu lhe ligo. +<br /> + +<br /> + +Em Portugal é certo que definham de dia para +dia, e que successivamente se vão extinguindo as +nossas velhas industrias ruraes. Esmorece calamitosamente, +por culpa da administração economica +dos nossos governos, a industria delicadissima +das obras de filigrana de ouro e de prata, +ainda em nossos dias servida por numerosas familias +ruraes dos districtos do Porto e de Braga. +Morreu em Bragança a industria da sericultura +e a da fabricação do veludo. Acabou em +Guimarães, +entre outras industrias interessantissimas, a +da manufactura caseira das sedas e dos brocados. +No Algarve talvez que já hoje se não +faça um +unico trabalho de pita. Tem diminuido consideravelmente +o numero dos teares caseiros na Covilhã, +na serra de Monchique, na serra da Estrella. +Nas margens do Lima, porém, entre Vianna +<span class="pagenum">[125]</span> +do Castello e Ponte de Lima, ha ainda algumas +das mulheres mais lindas e das mais bem educadas +de todas as portuguezas, que fiam e tecem +em suas casas o linho, a lã, o algodão, e se +vestem +completamente, da maneira mais elegante, +com os tecidos mais consistentes e mais bellos, +de sua fabricação exclusiva em todas as phases +por que passa a materia prima, desde que é cegada +no campo ou tosquiada no carneiro até se +converter em vestido. Á feira semanal de Vianna +as raparigas d'essa região trazem em lindas canastras, +além dos ovos e dos frangos que criam, além +da manteiga que fabricam, as teias de pano de linho, +os cortes de saias de lã e de algodão, as +peças +de sirguilha, que tecem, e as rendas que fabricam +a bilros ou á agulha. As de Villa Nova de +Ourem fazem ainda fitas excellentes; e no mercado +de Thomar vende-se em graciosos novellos +da fórma de casulos a melhor linha, branca ou +preta, que se pode comprar em Portugal. Conserva-se +ainda a antiga tradição das +<em>mantas do Alemtejo</em>, +citadas já por Gil Vicente na +<em>Farça dos almocreves</em>, +a dos liteiros e mantas de retalhos, a dos +<span class="pagenum">[126]</span> +lindos alforges da Extremadura, do Alemtejo e do +Algarve, de Minde, d'Alte e de Redondo, e a +d'esses famosos tecidos de lã, que são o +<em>homespun</em> +portuguez, e que em sua variedade se denominam +bureis, estamenhas, briches, saragoças, jardos, +sorrubecos. +<br /> + +<br /> + +Meditemos na maravilhosa obra operada por +Ruskin n'um sentido esthetico, que á primeira +vista se figura retrogrado, mas que encerra talvez +em germen o destino futuro, preciosamente +moralisante de todas as industrias, desde que os +aperfeiçoamentos da electricidade desloquem o +eixo do trabalho fabril, levando a casa de cada +artifice por meio de um tenue fio de arame o +quinhão de força que tem para distribuir por +cada operario do seculo que vem o immenso e +incalculavel esforço propulsôr do sopro dos +ventos, +do fluxo e refluxo das marés, da corrente dos +rios, dos cyclones das Pampas ou das cataractas +do Niagara. E em presença da revolução +das industrias +caseiras da Inglaterra, onde todo o vestigio +de tradição desapparecera, ponderemos o que +se pode fazer em Portugal, onde a tradição +sobrevive +<span class="pagenum">[127]</span> +com uma energia prodigiosa a todos os desdens +e a todas as oppressões que a esmagam! +<br /> + +<br /> + +É notoria desde o seculo XVI a aptidão artistica, +que distingue o nosso marinheiro em todas as pequenas +industrias de bordo, nos mais delicados, +pacientes e engenhosos trabalhos tendo por base +o cabo ou o fio de linho torcido ou entrançado. +Ninguem como elle manusêa os ferros e as +amarrações, +o poleame e o talhame, o cabo, a adriça ou +o pano. Ninguem como elle confecciona o coxim, +a gaxeta, o mixelo, o unhão, a boça, a linga, o +estropo, +o repuxo, o massete ou a agulha. E não o ha +mais dextro em lançar a volta, em enastrar a pinha +e em dar o nó de escota, de fateixa ou de botija, +o nó direito e o nó torto, o de cogula, o de +borla de pescador, ou o de espia. Em toda a nossa +costa, desde o Minho até o Guadiana, a enorme +variedade de fórmas nas embarcações da +pesca +maritima, da pesca fluvial e da pesca lacustre, +basta para evidenciar a persistencia da tradição +no grande genio maritimo de tão pequeno +povo. +<br /> + +<br /> + +Os que ainda vão á pesca do bacalhau, +á Terra +<span class="pagenum">[128]</span> +Nova, equipam de uma maneira especial a escuna +ou o patacho, preferindo porém o typo latino do +hiate e do lugre. Os que vão á cavalla, +á pescada +e ao sarrajão, no mar de Larache, embarcam +nos cahiques de Olhão, semelhantes aos de +toda a costa algarvia e aos de Lisboa e Setubal, de +prôa redonda, apparelhando com dois bastardos. +Á pesca do alto vae a lancha de Caminha, construida +no portinho de Gontinhães; a lancha póveira, +de bocca aberta, apparelhando com um só +mastro e a verga munida de uma grande vela latina; +o <em>barco da pescada</em>, de Buarcos, de +borda alta +e duas pequenas toldas, apparelhando com dois +mastros; o catraio da Nazareth; o <em>barco da +sacada</em>, +de Peninhe, de convez corrido com quatro escotilhas +e dois mastros, com as vergas preparando +em cruz; a <em>rasca da Ericeira</em>, a da +Figueira da Foz +e a da Vieira; as canôas de Belem, de Cezimbra, +de Setubal e do Algarve, chamadas em Lisboa +<em>enviadas</em> +ou <em>canôas da picada</em>, e no +Algarve <em>andainas</em>. +Na pesca maritima costeira empregam-se +embarcações +numerosas e variadissimas. Na arte de +galeão agrupam-se: o +<em>galeão</em>, coberto, de +prôa direita +<span class="pagenum">[129]</span> +e arrufada, apparelhando com o latino triangular, +que amura ao bico de prôa e caça á +pôpa, +em mastro inclinado para vante; o +<em>galeonete</em>; o +<em>buque</em>, curvo na roda de +prôa e sem coberta; a +canôa do galeão, e o +<em>acostado</em>, que se emprega no +transporte do peixe. Na armação fixa do atum e +da sardinha, nas <em>almadrabilhas</em>, ou +<em>almadravas</em>, +como antigamente lhes chamavamos, do nome +arabe que os hispanhoes conservam, labuta o +<em>calão</em>, +grande lancha, de bocca aberta, armando com +estropo oito ou dez remos por banda, tendo na +prôa arredondada, rematada no alto por duas femeas, +uma saliencia vertical de puas em serra, semelhando +um lombo de peixe, e, pintado de cada +lado, um olho arregalado para o horizonte; a <em>barca +da testa</em>; a <em>barca das +portas</em>; a <em>barca da +gacha</em>, e +o <em>laúde</em>. +<br /> + +<br /> + +Na costa do Algarve, as almadravas occupam +hoje approximadamente os mesmos logares que +tinham no seculo XVI; e o +<em>calão</em> é, como +alguns +barcos do Douro, de prôa comprida e alta, propria +para atracar a margens escarpadas ou para +varar com facilidade na praia, o typo mais analogo +<span class="pagenum">[130]</span> +ao das embarcações portuguezas de ha trezentos +ou quatrocentos annos. +<br /> + +<br /> + +<em>Nas artes de arrastar para terra</em> +figuram as <em>xavegas</em> +do Algarve, os <em>saveiros</em> e as +<em>meias-luas</em>, de +Espinho, Furadouro, S. Jacintho, Costa Nova, +Mira, Tocha, Buarcos, Lagos, e outros logares, +desde o sul do Douro até a Vieira, reapparecendo, +mais abaixo, na costa de Caparica e da Galé, e na +praia de Sines. <em>Nas redes de alar a +reboque</em> trabalham +as <em>muletas</em> e os +<em>bateis do Seixal</em>. +<br /> + +<br /> + +O sr. Arthur Baldaque da Silva, no seu precioso +livro <em>Estado actual das pescas em +Portugal</em>, enumera +ainda, entre os diversos typos de embarcações +empregadas em varios systemas de pesca, o +<em>batel de Espozende</em>, o +<em>barco de Vianna do Castello</em>, +a <em>barquinha do rio Lima</em>, a +<em>bateira da Figueira da +Foz</em>, a <em>lancha de +Buarcos</em>, a <em>lanchinha do +Tejo</em>, o +<em>ilhavo da Tarrafa</em>, o +<em>batel de Peniche, o cahique</em> +e a <em>lancha de Peniche</em>, os +<em>poveiros</em> de Lavos, de +Buarcos, da Nazareth, de Cascaes, de Cezimbra, +de Setubal; o <em>catraio</em>, a mais +genuina embarcação +portugueza da nossa costa meridional, a +<em>caçadeira</em> +e a <em>focinheira de porco</em> da Ericeira, +a <em>maceira</em> da +<span class="pagenum">[131]</span> +costa do Norte, o <em>cahique de Sines</em>, +o <em>barco minhoto</em>, +construido em Lanhellas e em Forcadella, o +<em>batel do Cavado</em>, o +<em>barco do Douro</em>, o +<em>esgueirão +da ria de Aveiro</em>, a <em>lancha de Villa +Franca</em>, a <em>bateira +do Mondego</em>, a +<em>lanchinha</em> e a <em>chata +do Tejo</em>, +e outros do continente, sem contar os barcos de +cabotagem, os typos da Africa, dos Açores, da +ilha da Madeira, não descriptos, infelizmente. +São ainda de notar, entre as jangadas mais caracteristicas, +as de Marinhas, para a pesca do +polvo; as de Fão e da Apulia, para a apanha do +sargaço; as de Neiva e as de Sedovem. +<br /> + +<br /> + +Com essa phantastica riqueza de documentos +maritimos, assombro de todos os outros povos, é +verdadeiramente inacreditavel que em Portugal +não haja um museu naval, em que estes documentos +se confrontem e se estudem. Não ha +tal museu. +<br /> + +<br /> + +Em terra é tão variada a +collecção popular das +vasilhas, dos fogareiros e dos cestos caseiros, +como é variada na agua a fórma das +embarcações. +A simples nomenclatura do vasilhame portuguez +dá, só de per si, uma idéa, ainda que +bem incompleta, +<span class="pagenum">[132]</span> +da multiplicidade das suas fórmas, porque +ha typos que variam de região para região, de +dez em dez leguas de perimetro. Esses typos principaes +são a talha, o pote, o cantaro, o caneco, o +tenor, a tarefa, a pucara, o gomil, a escudella, a +tijela, a infusa, a meia, a quarta, a quartinha, a +pinta, a sumicha, a sangradeira, a alquara, a vieira, +o almude, a tamboladeira, o alguidar e o alguidarinho, +o alcadafe, o moringue, o boião, o tarro, +o cantil, a almofia, o alcatruz, o porrão, o +côcho, +o picho, o pichel, a almotolia, a ancoreta, a taleiga, +a galheta, o caldeirão, a caldeira e a caldeirinha, +o tacho, a caçoila, a copa, a bateia, o jarro, +a batega, a pichorra, a botija, a cabaça, a malga, +etc. Alguns d'estes nomes jogam com o antigo systema +de medidas abolidas no seculo XVI, quando +se estabeleceu o systema novo, tendo por base o +quartilho. A vasilha correspondente á velha medida, +condemnada no reinado de D. Sebastião, sobreviveu +porém na tradição e no costume. A +<em>sumicha</em>, +por exemplo, com quatro decilitros de capacidade, +tão maneira, tão graciosa, tão bem +proporcionada +a uma sêde d'agua, é ainda hoje na olaria +<span class="pagenum">[133]</span> +de Coimbra o pucaro consagrado, que no pote +da região, de uma elegancia tão fina e +tão attica, +se encasa no alguidarinho que lhe serve de tampa. +<br /> + +<br /> + +As fórmas populares d'essa vasilharia, umas trazidas +do Peru e do Mexico, como a do moringue +e seus derivados, outras, provenientes de typos +gregos e etruscos, da cratera, da amphora, da ambula, +do askos, do bombylio, etc., são por toda a +parte, em nossos districtos ceramicos, as mais bellas, +as mais engraçadas ou as mais nobres, as mais +irreprehensivelmente puras, parecendo que á roda +mechanica do operario as foi delineando, contornando, +envolvendo sempre, a peça por peça, o +sorriso acariciante de um artista. +<br /> + +<br /> + +De uma humilde panellinha portugueza de barro +preto, de Prado ou de Molellos, deduziram em +França o assucareiro, a leiteira, a cafeteira e o +bule de um serviço de almoço, que ficou +tradicional +na fabricação de Sèvres. +<br /> + +<br /> + +A industria popular da cestaria acompanha na +evolução das fórmas a industria do +oleiro. Todos +os que percorreram as feiras e os mercados do +nosso paiz notariam que cada região tem a sua +<span class="pagenum">[134]</span> +canastra, o seu cabaz e o seu gigo, differentes na +fórma ou no ornato. Ha-os de todas as +configurações, +fundos e chatos, quadrados, octogonos, arredondados, +oblongos, cubicos, cylindricos, espheroidaes, +lembrando algumas vezes a fórma e a +construcção +americana dos samburás, dos tipitis e dos +côfos tupis, feitos de taquara e de cipó, que +introduzimos +talvez no Brazil ou, mais provavelmente, +lá aprendemos a fabricar, deixando o typo do balaio, +com cujo nome se designa ainda na Bahia o +farnel que de ordinario se transporta no cesto portuguez +d'essa configuração, semelhante á de +um +alguidar. Mui frequentemente varia tambem o balaio, +o canistel, a cesta, a condeça, o ceirão e a +ceira, a alcofa e a alcofinha. A materia prima do +cesto é o vime, o junco, a fasquia de castanheiro, +a fasquia de faia e a canna; a da ceira e da alcofa +é o esparto, a engeita, a palha de trigo e de centeio, +a tabúa, a juta e a pita. Em algumas regiões, +como nas Caldas e Vizeu, os cestos são obras primas +incomparaveis de acabamento e de graciosidade. +A canastrinha burriqueira das Caldas, reduzida +ao miniaturismo de dois centimetros, é um +<span class="pagenum">[135]</span> +simples prodigio de fabricação minudente e +delicada. +No Algarve a alcofa, de filiação arabe, +é +por vezes ornada de apparatosas flores bordadas +a seda ou a lã. +<br /> + +<br /> + +Sem embargo, continuando a affirmar-se que não +temos sentimento artistico, desistimos por indisciplina, +por ignorancia, por desanimo, de transformar +em industrias de concorrencia as nossas industrias +domesticas, e não negociamos com o extrangeiro +nem tecidos de phantasia, tão originaes +como os que possuimos, nem papeis pintados derivados +d'esses tecidos, nem a louça, nem a cestaria, +nem a filigrana, immobilisada em typos decrepitos, +e da qual tão lindos effeitos se tirariam, +applicando-a em ouro a serviços de toucador, a +frascos de cristal, a molduras de retratos, a +encadernações +de devocionarios, etc, etc. +<br /> + +<br /> + +Tanto menosprezamos os productos quanto +desconhecemos as fontes da nossa civilisação +artistica. +<br /> + +<br /> + +A arte que menos estudamos é a arte hispanhola, +á qual todavia indissoluvelmente nos +prendem os mais estreitos vinculos de temperamento, +<span class="pagenum">[136]</span> +de tradição e de ideal. Juntamente com os +hispanhoes recebemos dos arabes as primeiras influencias +que em toda a producção artistica da Peninsula +imprimiram a feição differencial mais +caracteristica +e mais indelevel. Aos califados, que +cobriram de mesquitas Cordova, Sevilha, Granada, +Santarem, Lisboa e Coimbra, devemos o +toque de orientalismo peculiar das formas architectonicas +do nosso stylo romanico, ogival e da +renascença. E da mesma procedencia, mosarabe +ou mudejar, são algumas das nossas mais interessantes +industrias, como a da filigrana, a dos azulejos, +a das sedas, a do papel, a da encadernação, a +dos couros lavrados, (a que chamavamos +<em>cordovões</em> +por nos virem de Cordova) a das esteiras, a dos +tapetes, a das obras de esparto, de palma, de pita. +Até o fim do seculo XVI artistas portuguezes, leonezes, +castelhanos, valencianos, aragonezes, catalães, +asturianos, tivemos um ideal commum nas +letras, na architectura, na esculptura, na pintura, +nas artes sumptuarias e nas artes industriaes, celebrando +identicos feitos de guerra, de religião e +de amor, servindo reis do mesmo sangue, heroes +<span class="pagenum">[137]</span> +das mesmas aventuras, santos e santas da mesma +invocação popular. +<br /> + +<br /> + +Das nossas relações com Flandres só +conheciamos―até +ha bem poucos annos―a influencia +flamenga em Portugal, ignorando completamente +a reciproca acção dos portuguezes em Gand, em +Bruges, em Antuerpia. Foi o sr. Joaquim de Vasconcellos +quem, investigando os annaes das confrarias +e o archivo das feitorias de Portugal, consignou +que, em resultado da protecção dada aos +artistas nacionaes por D. João II e por D. Manoel, +de uma só vez chegaram a reunir-se em Paris cincoenta +pensionistas portuguezes. Aos trabalhos do +mesmo investigador se deve acharem-se hoje apurados +varios nomes de pintores de Portugal trabalhando +em Flandres, entre os quaes Edwart +Portugalois, discipulo de Quintino Metsys, proclamado +em 1504 mestre pintor da confraria de +S. Lucas de Antuerpia. +<br /> + +<br /> + +Os trabalhos do sr. Joaquim de Vasconcellos +estão sendo diligentemente continuados pelo sr. +Sousa Viterbo, na Torre do Tombo, e pelo sr. Joaquim +Mauricio Lopes, nosso consul, em Antuerpia. +<span class="pagenum">[138]</span> +<br /> + +<br /> + +Em uma recente publicação do sr. Mauricio +Lopes, <em>Les portugais à Envers au +XVI<sup>ème</sup> siècle</em>, +demonstra-se +por meio dos mais expressivos documentos +que a colonia portugueza, estabelecida +em Flandres desde que em 1386 o duque de Borgonha +Filippe-o-Ousado concedeu licença para +ahi viverem mercadores de Portugal e dos Algarves +com as suas familias e os seus creados, foi +para a civilisação que os acolheu de uma +importancia +incomparavelmente superior á que jámais +exerceu a colonia flamenga em Portugal. +<br /> + +<br /> + +Os negocios dos portuguezes em Antuerpia, ao +tempo da fundação da primeira feitoria de +Portugal +por D. Manoel, negocios tendo por base, +além das exportações do reino, o +commercio das +especiarias trazidas da India por Lisboa, montavam +annualmente a cerca de cinco mil contos +da nossa moeda actual. O numero das casas +portuguezas em Antuerpia era de cento e doze. +Os mercadores portuguezes representantes d'essas +casas viviam com um fausto verdadeiramente +principesco. Em 1594, por occasião da entrada +triumphal de Filippe II, herdeiro de Carlos V, a +<span class="pagenum">[139]</span> +cavalgada portugueza ficou memoravel. Compunha-se +de vinte senhores e de quarenta creados, +montando todos cavallos peninsulares, ricamente +ajaezados. Os senhores trajavam de brocado e seda +côr de purpura, bordada de ouro e de rubis, com +botões, passamanes e collares de ouro. Todos +os gorros eram orlados de brilhantes. Os creados, +equipados, de couraça e espada, vestiam librés +de seda verde e branca, com as bainhas das +espadas de seda branca.―O que era, segundo o +chronista Cornelius Grapheus, <em>chose moult riche et +triomphante à voir</em>. +<br /> + +<br /> + +Nas festas da entrada em Antuerpia de Ernesto +d'Austria, governador dos Paizes Baixos, os portuguezes +erigiram um arco triumphal, em que se +viam as figuras da Mauritanea, do Brasil, da Etiopia, +da India, da Persia, do Ganges, do Rio da +Prata, com as estatuas de Filippe I, do principe +Filippe de Hispanha, de D. João II e de D. Manoel. +Em outro arco de triumpho, delineado por +Ludovicus Nonnius e consagrado a Fernando +d'Austria, em 1635, expuzeram os portuguezes diversos +quadros representando, entre outras, as allegorias +<span class="pagenum">[140]</span> +da Victoria, da Clemencia, da Felicidade, +da Religião, e os retratos de D. Affonso Henriques, +D. João I, D. Manoel e D. Filippe II. +<br /> + +<br /> + +Um d'esses portuguezes, o feitor Antonio Cirne, +natural do Porto, nos saraus do Palacio chamado +de Portugal, pretextando que a turba ou a lenha +cheiravam mal, mandava cosinhar as eguarias +com fogo de canela, e queimar canela em todas +as fogueiras das chaminés. +<br /> + +<br /> + +Outro portuguez, Simão Rodrigues d'Evora, era +barão de Rhodes, cavalleiro, senhor de Tewerden, +de Broeckstraate; pela sua enorme fortuna +lhe chamavam o <em>rei pequeno</em>; possuia +muitos predios +na principal arteria da cidade, e habitava um +d'elles, em que successivamente se hospedaram a +infanta D. Izabel, a rainha Maria de Medicis e o +principe cardeal Fernando d'Austria; fundou, com +o fim caritativo de recolher doze senhoras da nobreza +ou da burguezia reduzidas á indigencia, o +hospicio de Sant'Anna, onde um triptyco de Otto +Venius representava o retrato do fundador com +seus filhos e sua mulher D. Anna Lopes Ximenes +de Aragão. +<span class="pagenum">[141]</span> +<br /> + +<br /> + +O luxo da colonia portugueza em Antuerpia +assumia muitas vezes o mais nobre e mais alto +caracter artistico. A enthusiastica hospitalidade +conferida pelos portuguezes a Alberto Dürer ficou +assignalada pelas grandes festas a que deu origem. +Dürer retribuiu esses favores com presentes +de quadros e de gravuras aos feitores e aos negociantes +de Portugal. +<br /> + +<br /> + +Diogo Duarte, filho de Gaspar Duarte, possuia +uma das primeiras galerias de pintura em Flandres. +Foi recentemente publicado na Hollanda um +catalogo dos seus quadros, entre os quaes havia +obras de Dürer, de Breughel, de Metsys, de Maubeuge, +de Ticiano, de Tintoreto, de Andrea del +Sarto, e um Raphael, que constava haver sido adquirido +do principe D. Manoel de Portugal em +troco de diamantes no valor de 2:200 florins. +<br /> + +<br /> + +Muitos dos nossos compatriotas estabelecidos +em Flandres cultivavam as sciencias e as letras, +contando-se entre elles professores, medicos, escriptores +celebres, como Amato Lusitano, Rodrigo +de Castro, Garcia Lopes, Damião de Goes, etc. +<br /> + +<br /> + +Outro curioso symptoma da nossa desaffeição +<span class="pagenum"><a name="p142" id="p142">[142]</a></span> +dos estudos da arte nacional é a +estagnação das +velhas idéas preconcebidas na +apreciação dos nossos +monumentos architectonicos. Já me referi ao +ôco basbaquismo <a href="#e5">privilegiado</a> +de que é objecto +absorvente o monumento da Batalha. Devo aclarar +um pouco mais, ainda que rapidamente, esse +phenomeno. +<br /> + +<br /> + +Por notavel superstição epidemica, por inercia +de espirito, por servilismo intellectual, por pedantismo +classico, por costume, por commodidade, +por convenção admirativa, ou por qualquer outro +motivo, os criticos portuguezes, que mais teem +governado a opinião, estabeleceram axiomaticamente, +como coisa definitivamente demonstrada +e assente, que o unico puro e genuino exemplar +de stylo gothico existente em Portugal é o da +Batalha. Toda a modificação nas linhas +constructivas +ou nos motivos ornamentaes d'esse typo +passou, por effeito de tal dogma, a qualificar-se +de <em>decadencia</em>. Capellas imperfeitas, +decadencia! +Claustro dos Jeronymos, decadencia! Egreja de +Christo e de S. João em Thomar, decadencia! +Santa Cruz e S. Marcos, em Coimbra, decadencia! +<span class="pagenum">[143]</span> +Decadencia emfim toda a obra architectonica +da época manoelina. +<br /> + +<br /> + +A termos acceitado tal principio na sua +applicação +pratica, teriamos tido na nossa architectura +ogival do seculo XVI um neo-gothico, fixo e invariavel, +como o neo-greco-romano da renascença, +que é o triumpho consagrado do dogmatismo na +arte, a immobilidade canonica nos systemas de +construir, a cristalisação da rotina, a +sujeição de +toda a imaginação, de todo o poder inventivo a +uma formula invariavel. Teriamos tido de submetter-nos +ao despotismo da Batalha, como tão cegamente, +tão estupidamente, tão inconcebivelmente, +nos temos submettido por tantas centenas +de annos ao despotismo de Vitruvio e das +suas cinco ordens, com os seus correspondentes +aphorismos de proporção e de symetria, seu +pedestal, +sua columna e seu entablamento, repetindo +sempiternamente, sobre os mesmos dados estaticos, +o mesmo denticulo, o mesmo modilhão, a +mesma canelura, o mesmo triglypho, a mesma +gôta, a mesma carranca! Ora precisamente o stylo +manoelino da nossa architectura, com toda a sua +<span class="pagenum">[144]</span> +effusão esculptural, com todo o avassalante symbolismo +dos seus motivos ornamentaes, com toda +a arbitrariedade dos seus processos, com todas as +suas desproporções e todas as suas assymetrias, +não é precisamente senão a +contraposição da liberdade +creativa dos nossos architectos-esculptores +á enfatuação idolatrica, á +pedantesca preceituação +rhetorica, ao esmagador e exhaustivo despotismo +das <em>cinco ordens</em>, com que o +neo-classicismo +da renascença razoirou todo o talento humano. +O stylo gothico prestava-se como nenhum +outro, pela extrema flexibilidade dos seus principios +fundamentaes, aos desenvolvimentos de pura +arte, com que o esculptor, completando a obra do +engenheiro, e fazendo-se assim architecto, pode +aviventar a pedra de um edificio, convertendo-a +n'um elemento de sympathia e de solidariedade +social, fazendo vibrar na palpitação do seu lavor +evocações de idéas e de sentimentos +proprios dos +homens da sua raça e da sua terra. Os artistas +manoelinos não teriam feito talvez monumentos +<em>correctos</em>, na accessão +indigente em que as academias +empregam esta palavra, mas fizeram monumentos +<span class="pagenum">[145]</span> +<em>expressivos</em>,―o que é +melhor. Porque não +são as academias que pautam as +proporções e os +limites da creação artistica. Tudo o que se pode +formular em preceito cessa de ter valor em arte. +A obra de arte não é um producto de escola: +é +a livre expressão individual de uma alma, convertida +em realidade objectiva, e communicando +aos homens uma vibração nova do sentimento. +<br /> + +<br /> + +A superioridade ou a inferioridade de um artista, +a sua categoria, deduz-se da maior ou menor +quantidade das idéas que a sua obra suggere +e dos sentimentos cuja percussão ella determina. +Nos monumentos architectonicos é pela +sobreposição do ornato esculptural ás +linhas geometricas +da construcção que a arte se exerce. É +principalmente na esculptura que reside a expressão +poetica do monumento. +<br /> + +<br /> + +Em Portugal teem sido acusados os architectos +manoelinos de invadirem pelo vegetabilismo ornamental +todos os perfis da construcção, submettendo +assim as fórmas constructivas á +ornamentação +esculptural. Os grandes criticos da Inglaterra, +que tão consideravel impulso teem dado +<span class="pagenum">[146]</span> +ás idéas estheticas e á moderna +evolução artistica, +entendem porém, ao contrario dos nossos, que a +sciencia de edificar e de dispor linhas é na +construcção +de um monumento um ramo secundario +da arte de esculpir. Esta affirmativa envolve a +consagração da escola manoelina pela critica que +n'este seculo mais minuciosamente e mais profundamente +tem estudado a arte gothica e a arte da +renascença. +<br /> + +<br /> + +Nada todavia mais afflictivo, de peor indicio +para os destinos nacionaes da arte, que o descaso +do publico, pervertido em seu instincto pela carunchosa +doutrina academica, perante esses monumentos +em que sob, o reinado de D. Manoel, os +artistas portuguezes tão vigorosamente accentuaram +a palpitação victoriosa do genio, da +originalidade, +da poesia, da gloria do povo lusitano. +<br /> + +<br /> + +O que se convencionou chamar +<em>decadencia</em> na +ultima evolução do stylo gothico em Portugal +é a +modificação portugueza d'esse stylo, é +a sua nacionalisação, +é a originalidade local, imposta pelos architectos +portuguezes do seculo XVI, a um systema +geral de construcção, commum a toda a Europa. +<span class="pagenum">[147]</span> +Dirão que não é isso precisamente um +novo stylo. +Certamente que não, se unicamente chamarmos +stylo novo em architectura á +constituição complexa +e integral de todo um systema de edificar. +Mas, se tomarmos a palavra stylo em tal accepção, +nenhum stylo é novo em toda a architectura da +edade média e da renascença. Todo o processo +constructivo nos veiu inicialmente da Grecia, de +Roma, de Bysancio, da Syria, do Egypto. Os mesmos +gregos não inventaram a columna, nem os +romanos descobriram a abobada. O que constitue +a originalidade na architectura de qualquer povo +é, como em Portugal, na época manoelina, a +subordinação +de um systema qualquer de geometria +architectural ás condições do clima e +da paizagem, +á natureza dos materiaes empregados, á flora, +á fauna, á concepção +religiosa, á historia, á +poesia, ao temperamento e á psychologia dos artistas, +em cada região. Quanto mais intensa for a +intervenção d'esses factores mais original +será a +obra. Assim, na evolução do gothico na +architectura +portugueza, quanto menos modificado, isto +é, quanto mais <em>puro</em> +fôr o stylo, mais insignificante +<span class="pagenum">[148]</span> +será o monumento como documentação +artistica, +como expressão social. +<br /> + +<br /> + +É á <em>decadencia</em> +do gothico da Batalha que nós +devemos o incomparavel claustro dos Jeronymos, +segundo Haupt <em>o mais bello claustro de todo o +mundo</em>, bem como a fachada da egreja de Christo, +em Thomar, onde a flammejante janella da sala +do capitulo é a obra mais eloquente, mais convicta, +mais poetica, mais enthusiasticamente patriotica, +mais estremecidamente portugueza, que jámais +realisou em nossa raça o talento de esculpir +e de fazer cantar a pedra. +<br /> + +<br /> + +Na ornamentação d'essa janella, em que, +juntamente +com o sentimento mais entranhado das +energias da natureza, rebenta, palpita e brada, em +torno da idéa christã, todo o sagrado pantheismo +das velhas religiões da India, conjugam-se, n'uma +gloriosa harmonia de antiphona a toda a voz, acompanhada +ao orgão, no deslumbramento dos cirios, +no aroma das açucenas, no fumo dos thuribulos +doirado pelo sol, os elementos decorativos do symbolismo +mais poderoso, da suggestão mais profunda. +O artista, em plena posse da sua idéa, em +<span class="pagenum">[149]</span> +completa independencia do seu espirito, em inteira +liberdade dos seus meios de execução, desdiz +todos os votos, abjura todos os principios, renega +todos os canones, infringe todas as regras, e +prescinde de todo o applauso dos mestres, sufocando +nas entranhas da sua propria vaidade a +opinião de si mesmo, unicamente porque tem fé +na verdade que enuncia, porque concentrou toda +a força da sua alma, toda a energia do seu cerebro, +toda a paixão do seu sangue, no amor da obra +em que elle representa o pensamento que o domina. +E em torno d'elle e d'esse objecto amado, +como em torno de todos os que verdadeiramente +amam, tudo mais na terra acabou e desappareceu. +<br /> + +<br /> + +As columnas na janella da sala do capitulo são +polipeiros de coral, dos mais profundos recifes do +Oceano, e troncos d'essa palmeira, cuja sombra +cobriu o berço da civilisação no +littoral mediterraneo, +providencia dos peregrinos nos oasis do +deserto, á qual os arabes da Peninsula dedicavam +uma festa de primavera, tendo por fundamento a +disseminação do polen,―a arvore santa, a arvore +<span class="pagenum">[150]</span> +da Biblia, a arvore de Jesus, cujo ramo symbolico +é um attributo da paixão e da paschoa, da +gloria e do martyrio. Os demais elementos decorativos +são as ondas do mar, taes como ellas se +representam na heraldica; são os troncos seculares +e as raizes profundas dos sobreiros dos nossos +montes, extrema expressão de força na fecundidade +da seiva, que prende o roble, assim como +a tradição e a familia prendem a debil e errante +creatura humana, ao coração da terra em que +nasceu. Guizeiras, como as das mulas de tiro +engatadas á carreta alemtejana, emmolham contorcidas +varas de sobro e de azinho, como nos +feixes de lictor da magistratura romana. Solidas +correntes e possantes cabos de bordo, de que +pendem em discos as boias de cortiça, enlaçam +a decoração, amarrando-a vigorosamente +á +empena por fortes argolões, como se amarraria +uma nau ao caes de um porto. Toda a composição, +partindo das espaduas de um homem, que +parece sustentar-lhe todo o peso, ascende n'uma +trepidação de algas e de folhagens para a cruz de +Christo entre as espheras que tomara por empresa +<span class="pagenum">[151]</span> +o rei venturoso de Portugal triumphante na vastidão +dos mares, em todo o circuito do globo. E o +poema esculptural remata por cima da janella na +rosacea magestosa do templo, formada em circulo +pelas pregas e pelo bolso arfante da vela rizada +de um galeão da India. +<br /> + +<br /> + +O nosso povo porém desaprendeu de ver a +obra artistica do seu passado, e nem sequer levanta +os olhos para os seus mais communicativos +monumentos, que ninguem lhe explica, que +ninguem o ensina a comprehender e a amar. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Resumamos agora a historia do que officialmente +se tem feito no intuito malogrado de proteger +os monumentos publicos e de conservar e +defender os productos d'arte. +<br /> + +<br /> + +Em julho de 1890 o então ministro da +Instrucção +Publica consultou sobre a questão de que se +trata uma commissão de artistas, de archeologos e +de escriptores. Da resposta, até hoje inedita, d'essa +commissão, de que me coube a honra de ser relator, +transcreverei alguns periodos. +<br /> + +<br /> + +O arrolamento da nossa riqueza artistica, que +<span class="pagenum">[152]</span> +se propõe effectuar o ministerio da +instrucção publica +e das bellas artes é―ponderava o relatorio―a +pedra fundamental de toda a construcção destinada +a dar á arte portugueza o logar que lhe compete +na historia geral da nacionalidade, na orientação +do sentimento collectivo do povo, no conjuncto +dos elementos de impulsão e de progresso +para o desenvolvimento das industrias, no respeito +do paiz, emfim, e no da Europa. +<br /> + +<br /> + +O inventario de que se trata, comprehendendo +não só os edificios monumentaes mas os documentos +archeologicos e os productos artisticos de +toda a especie, seria, primeiro que tudo, a +documentação +preciosa para a historia da arte em +Portugal,―determinação +das suas origens ethnicas +e sociaes, fixação dos seus caracteres +distinctivos +e sua relação com a psychologia do povo, com +os sentimentos, com as aspirações, com as ideias, +com os costumes e com as instituições sociaes. +Esse repositorio tornar-se-ia o espelho em que se +achariam reflectidas, com todas as suas modalidades, +segundo as influencias especiaes de cada época, +de cada phase de cultura, de cada estadio social, +<span class="pagenum">[153]</span> +todas as forças emotivas, todas as aptidões +estheticas da nossa raça. A historia dos seus monumentos +é para cada povo a historia da sua individualidade, +porque não ha monumento artistico +que não traduza, mais ou menos directamente, +a acção intellectual e politica da sociedade que +o +concebeu. +<br /> + +<br /> + +A ideia do inventario projectado não é―para +honra nossa―inteiramente nova. No reinado de +D. João V existia na Bibliotheca Real uma obra +em cinco volumes, datada de 1686 e intitulada +«Theatro do reino de Portugal e dos Algarves +por suas cidades, villas, fortes e fortalezas como +que por scenas repartido.» Mais tarde mandou o +referido soberano ao Padre Frei Luiz de S. José, +monge do Cister e artista peritissimo, que fizesse +os debuxos de todas as povoações do Minho, o +que elle cumpriu no anno de 1726. Por indicação +da Academia Real da Historia, e para o fim +de inventariar e conservar os monumentos nacionaes, +publicou-se o decreto de 20 de agosto de +1721, e fundou-se o primeiro dos nossos museus +archeologicos. Infelizmente os livros a que nos referimos +<span class="pagenum">[154]</span> +não chegaram a ser dados á estampa, e +os originaes foram destruidos pelo terremoto de +1755, juntamente com a Bibliotheca Real, e com +o museu estabelecido nas casas dos duques de +Bragança, ao Thesouro Velho. +<br /> + +<br /> + +As disposições do alvará de 20 de +agosto de +1721 constam do seguinte trecho do mesmo alvará: +«Hei por bem que d'aqui em deante nenhuma +pessôa de qualquer estado, qualidade e +condição que seja, desfaça ou destrua +em todo +nem em parte, qualquer edificio, que mostre ser +d'aquelles tempos (assim designados: Phenices, +Gregos, Persos, Romanos, Godos e Arabios) ainda +que em parte esteja arruinado; e da mesma sorte +as estatuas, marmores e cippos em que estiverem +esculpidas algumas figuras, ou tiverem letreiros +phenices, gregos, etc.; ou laminas, ou chapas de +qualquer metal, que contiverem os ditos letreiros, +ou caracteres; como outrosi medalhas ou moedas, +que mostrarem ser d'aquelles tempos, nem +dos inferiores até o reinado do Senhor Rey D. +Sebastião; +nem encubrão ou ocultem alguma das +sobreditas cousas: e encarrego ás camaras das cidades +<span class="pagenum">[155]</span> +e villas d'este reyno tenham muito particular +cuidado em conservar e guardar todas as antiguidades +sobreditas, e de semelhante qualidade +que houver ao presente, ou ao deante se descobrirem +nos limites do seu districto; e logo que se +achar ou descobrir alguma de novo, darão conta +ao secretario da dita Academia Real para elle a +communicar ao director e censores, e mais academicos; +e o dito director e censores, com a noticia +que se lhes participar, poderão dar a providencia +que lhes parecer necessaria para que melhor se +conserve o monumento assim descoberto. Etc.» +<br /> + +<br /> + +Em 4 de fevereiro de 1802, novo alvará sobre +a mesma materia, assim designado: «Alvará com +força de lei pelo qual Vossa Alteza Real he servido +suscitar o alvará de lei de 20 de agosto de +1721, ordenado em beneficio da Academia Real +da Historia Portugueza para a conservação e +integridade +das estatuas, marmores, cippos, e outras +peças de Antiguidade: mandando que as +funcções +do mesmo Alvará, que até agora pertenciam +ao secretario da dita Real Academia, fiquem da +data do presente em deante pertencendo ao Bibliothecario +<span class="pagenum">[156]</span> +Maior da Bibliotheca Publica; tudo +na forma acima declarada.» +<br /> + +<br /> + +Em janeiro de 1844 o Bibliothecario Mór da +Bibliotheca Nacional de Lisboa José Feliciano de +Castilho, informava o respectivo ministro nos seguintes +termos: «Para o bibliothecario mór passaram +attribuições que competiam á Academia +Real da Historia, mas infelizmente essa lei vigente +tem sido até hoje letra morta, a tal ponto que +até +ignoram as suas disposições os proprios +encarregados +do seu cumprimento, com grave detrimento, +não só d'este magnifico repositorio, que ha +muitos +annos se acha estacionario em aquisições +archeologicas, +mas tambem de todo o reino, onde o bibliothecario +mór deveria sempre ter, por obrigação +do seu cargo, promovido a conservação e +segurança +dos monumentos que não podem ou não +devem transportar-se.» +<br /> + +<br /> + +Em seguido propõe o bibliothecario que se torne +effectiva a responsabilidade dos governadores civis +no cumprimento da lei de 20 de agosto de +1721; que esses funccionarios se correspondam +regularmente com o bibliothecario, etc. +<span class="pagenum">[157]</span> +<br /> + +<br /> + +Ficou porém tão morta a letra d'essa consulta +como a da lei a que ella se refere. +<br /> + +<br /> + +Por decreto de 10 de novembro de 1875 é nomeada +uma commissão para propôr ao governo, +com a reforma do ensino das Bellas Artes e com +o plano de um museu, «as providencias que julgar +mais adquadas á conservação, guarda e +reparação +dos monumentos historicos e dos objectos +archeologicos, de importancia nacional, existentes +no reino.» A commissão alludida responde ao +governo +por meio da memoria redigida pelo marquez +de Sousa Holstein, e assim se desempenha +do encargo que lhe fôra confiado. +<br /> + +<br /> + +A louvavel diligencia empregada a convite do +governo pela Real Associação dos Architectos +Civis +e Archeologos Portuguezes, para o fim de lançar +em 1880 as bases de uma inventariação systematica +dos monumentos nacionaes, não foi, assim +como o zeloso trabalho da commissão de 1875, +seguida de resultados praticos. +<br /> + +<br /> + +Independentemente da preceituação official, +teem sido modernamente do mais importante auxilio +para o conhecimento dos nossos valores artisticos +<span class="pagenum">[158]</span> +a Exposição Retrospectiva de Arte Ornamental, +celebrada em Lisboa em 1882, a exposição +de Coimbra, a exposição de Aveiro, a +exposição +de Guimarães, a recente exposição do +centenario +antonino, e as exposições de ourivesaria e +de ceramica promovidas e effectuadas no Palacio +de Cristal do Porto pela muito benemerita Sociedade +de Instrucção. +<br /> + +<br /> + +De algumas das exposições alludidas ficaram +documentos de alto valor. Imprimiram-se relatorios +de muita importancia, e numerosos productos +expostos foram reproduzidos pelo desenho e pela +photographia. Da valiosa collecção photographica, +para a qual principalmente contribuiram Carlos +Relvas, Pardal, Rochini, Biel & Companhia, bem +como dos catalogos dos museus e das exposições +celebradas, se poderia extrahir desde já um +esboço +de inventario, que não seria difficil aperfeiçoar +e +prehencher, emprehendendo novas exposições e +systematisando completamente as investigações e +os estudos correlativos. +<br /> + +<br /> + +A commissão de 1890, a que acima me referi, +propunha que, sem prejuizo das pesquisas que, +<span class="pagenum">[159]</span> +convém continuar, para recolher ou arrolar os valores +artisticos que ainda se conservam ignorados +em poder de corporações ou de particulares, a +commissão +incumbida do inventario geral e definitivo +desse quanto antes principio aos seus trabalhos, +tomando por materia as peças de que ha conhecimento, +já pelo exame de que foram objecto +nos museus onde existem, ou nas exposições +até +hoje feitas, já pelos catalogos e relatorios que +d'essas exposições existem, já pela +consideravel +collecção de photographias que reproduzem os +objectos expostos. +<br /> + +<br /> + +Emquanto á catalogação e á +conservação dos +objectos pertencentes a particulares ou a +corporações +de caracter civil ou religioso, não conviria +desde já estabelecer principios absolutos. O modo +de proceder dos delegados do governo em tal serviço +seria indicado pelas circumstancias particulares +de cada occorrencia, sendo porém altamente +para desejar que os prelados do reino, conscientes +dos estreitos vinculos que ligam o esplendor das +artes á gloria do catholicismo, conseguissem fazer +penetrar na convicção das auctoridades +eclesiasticas +<span class="pagenum">[160]</span> +das suas circumscripções quanto é +inseparavel +da historia da egreja a historia da arte christã, e +quanto o museu, em paizes tradicionalmente catholicos, +é ainda uma fórma do culto ou um desdobramento +d'elle na ordem civil, além de ser o +permanente attestado da alliança da crença +religiosa +com a immortal aspiração da poesia no +coração +e no espirito da nossa raça. +<br /> + +<br /> + +Para regra definitiva do processo a que se refere +o alvitre que acabo de expor é indispensavel que +seja devidamente estudada e promulgada uma lei, +semelhante á que existe hoje na Italia, em +França, +nos Paizes Escandinavos, na Russia, na Hispanha, +na Grecia, na Turquia, tendo por fim definir claramente +e assegurar, de combinação com a +legislação +canonica, com os principios da concordata +e com a legislação geral da propriedade, os +direitos +especiaes do Estado com relação á +guarda dos +monumentos e á parte que elle tem na posse dos +objectos d'arte, determinando assim o caracter especial +da propriedade artistica. +<br /> + +<br /> + +Uma vez decretada essa lei fundamental, e assignalada +a responsabilidade em que incorrem os +<span class="pagenum">[161]</span> +que a transgridam, deveriam formar-se as commissões +regionaes, dependentes da commissão +central, e incumbidas, em suas localidades, da +guarda e da conservação dos monumentos e dos +objectos d'arte. Estas commissões, á +semelhança +do que foi disposto na lei italiana de 1878, da +qual se inspirou em França, para a +organisação +de eguaes serviços, a Direcção das +Bellas Artes, +seriam compostas de oito vogaes, sendo quatro +da nomeação dos municipios e quatro da +nomeação +do governo, com um architecto inspector adjuncto, +sob a presidencia do governador civil ou +do administrador do concelho. +<br /> + +<br /> + +Em toda a parte, ainda nos mais abandonados +recantos da provincia, ha sempre, onde existe um +monumento, um homem pelo menos que o ama, +que o estuda, que o comprehende. É a +collaboração +preciosa d'esses pobres poetas obscuros, +d'esses modestos archeologos, ignorados da critica +e do publico, que aos organisadores das commissões +locaes compete acolher e utilisar. +<br /> + +<br /> + +O processo de inventariação de cada +peça artistica +constaria de duas partes. +<span class="pagenum">[162]</span> +<br /> + +<br /> + +A primeira seria a reproducção photographica, +ou em gesso, ou pela galvanoplastica, +do objecto inventariado, com registro do respectivo +cliché ou molde. +<br /> + +<br /> + +A segunda, a confecção de um simples verbete, +impresso, correspondendo á photographia por meio +de um numero de ordem, e satisfazendo os seguintes +quesitos: 1.º Descripção summaria do +objecto; +2.º Logar onde elle se encontra; 3.º Nome do +individuo +ou da corporação em cuja posse se acha; +4.º Antecedentes; 5.º +Attribuição; 6.º +Avaliação; +7.º Escala em que houver sido feita a +reproducção. +<br /> + +<br /> + +Este systema, semelhante ao dos museus de +Londres, de Berlim e de Vienna, é o mais simples, +o mais economico, o mais pratico, o mais expedito. +Com applicação ao inventario da arte hispanhola +elle foi proposto, pelo delegado de Portugal, +ao grande jury da ultima exposição +historico-europeia +em Madrid. Uma real ordem o mandou +pôr em execução, tendo-o sanccionado a +approvação +unanime de uma commissão presidida +pelo sr. Canovas del Castillo e composta de criticos +<span class="pagenum">[163]</span> +de uma competencia indiscutivel e de uma +notoriedade europeia. +<br /> + +<br /> + +Com a collecção completa das photographias e +dos verbetes a que alludo, o estado, em Portugal, +sem ter da riqueza artistica da nação um +inventario +tão desenvolvido e tão perfeito como o +que outros paizes possuem, teria no emtanto um +arrolamento explicito, e achar-se-hia habilitado a +ministrar-nos o mais efficaz meio de estudo. +<br /> + +<br /> + +Da collecção integral, subdividida em tantas +series +diversas quantos os differentes criterios de +classificação que se lhe applicassem, se +extrairiam +collecções especiaes, em +edições mais ou menos +modestas, relativas a cada ramo do ensino, geral ou +especial, e destinadas ás escolas de bellas artes, +ás escolas industriaes, aos museus das escolas primarias +e secundarias, ás officinas, aos operarios, +facultando assim, ou gratuitamente ou por infimo +preço, a todas as classes sociaes um pronto meio +de conhecimento da historia geral da arte, da historia +da arte em cada uma das suas mais especiaes +applicações, da evolução +das fórmas e do +desenvolvimento dos stylos, na architectura, na +<span class="pagenum">[164]</span> +pintura, na esculptura, na marcenaria, na serralheria, +na ourivesaria, na ceramica, em todos os +ramos emfim do trabalho artistico e industrial. +<br /> + +<br /> + +Eliminando os numeros que relacionam os verbetes +com as photographias, os alumnos das escolas +d'arte, procurando para cada photographia o +verbete correlativo, e satisfazendo por esse processo +aos mais variados quesitos de classificação, +habituar-se-hiam, por meio dos exercicios mais +simplesmente pedagogicos, a discernir as épocas +e os stylos, retendo todas as diversidades da fórma +pela memoria da vista. +<br /> + +<br /> + +Além do que, com o material reunido para o +inventario dos monumentos architectonicos e das +riquezas artisticas da nação, o estado fundaria +simultaneamente +o mais interessante museu de reproducções. +<br /> + +<br /> + +A Commissão dos Monumentos Nacionaes não +é inteiramente, pelos seus meios de +acção e pelos +seus fins, a commissão a que se refere a consulta +de 1890. Parece-me indispensavel, antes de +tudo, que esta commissão se reconstitua em bases +mais amplas, e que d'ella se desdobre a commissão +<span class="pagenum">[165]</span> +do inventario geral da d'arte, ao qual é +urgentissimo que se proceda. +<br /> + +<br /> + +Na parte em que a commissão tem de responder +pela conservação dos monumentos nacionaes, +é preciso, a meu ver, que ella se complete, +tanto no programma dos seus trabalhos como no +pessoal que tem de pôr em execução esse +programma, +não de um modo como até hoje officioso +e facultativo, mas rigorosamente obrigatorio, sendo-lhe +indispensavel para esse effeito a aggregação +e a collaboração effectiva de dois architectos, +a presidencia do sr. ministro, e a publicação +periodica +de um boletim em que regularmente se +communiquem ao publico os resultados do trabalho +feito. +<br /> + +<br /> + +Conseguidas as condições de consistencia +technica, +de auctoridade e de expediente, que no estado +presente lhe fallecem e a innutilisam, cabe á +commissão arrolar definitivamente, pela photographia +e pela escripta, os monumentos confiados +á sua guarda bem como as obras d'arte que o +paiz possue; nomear as commissões locaes; definir +claramente o que é +<em>conservar</em>, o que é +<em>restaurar</em>, +<span class="pagenum">[166]</span> +e o que é <em>continuar</em> ou +<em>concluir</em> um monumento; +redigir desenvolvidamente e em suas mais particulares +minudencias (porque n'este ponto tudo +está por definir e por estabelecer) os programmas +especiaes a que tem de satisfazer rigorosamente +todo o projecto de conservação, de restauro +ou de acabamento na obra de cada edificio. +<br /> + +<br /> + +Os cuidados de +<em>conservação</em> +devem ser obrigatorios +e extensivos a todos os monumentos. Para +esse effeito o programma é simples, e a despesa +insignificante, ainda perante os mais modestos recursos. +As occasiões em que cabe +<em>restaurar</em> são +relativamente raras. E nenhum edificio, qualquer +que seja a sua importancia historica ou artistica, +convem <em>concluir</em>, a não +ser nos casos em que +vantajosamente elle se possa adaptar a algum dos +serviços vigentes da civilisação +contemporanea. +Este mesmo criterio economico se deveria applicar +á opportunidade das +<em>restaurações</em>. +Da inobservancia +d'estes preceitos fundamentaes resultou +o contrasenso de restaurar o edificio dos Jeronymos +sem previamente se accordar no destino que +tem de ter esse edificio, como se podesse ser indifferente, +<span class="pagenum">[167]</span> +no modo de reconstruir uma casa, que +ella tenha de ser uma escola, um museu, um archivo, +um recolhimento, um quartel, um banco ou +uma habitação particular!<sup><a href="#f1">[1]</a></sup> +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Ao governo de sua magestade, para esse fim +solicitado pelos homens que com tão patriotico +<span class="pagenum">[168]</span> +desinteresse constituem a Commissão dos Monumentos +Nacionaes, compete prefazel-a e fortifical-a +com a regulamentação e auctoridade de que +ella carece, ou dissolvel-a. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Se o Estado não intervem cumpre aos governados +levar a effeito, por um decisivo esforço de +<span class="pagenum">[169]</span> +iniciativa, a obra a que se recusem os que governam. +<br /> + +<br /> + +Está-nos dado o exemplo na actividade e na +abnegação de alguns cidadãos +benemeritos. +<br /> + +<br /> + +O sr. bispo-conde de Coimbra funda na sua +diocese o mais completo e mais interessante museu +de ourivesaria sagrada que existe em Portugal, +<span class="pagenum">[170]</span> +e emprehende e realisa, sob a intelligente +collaboração do sr. Antonio Augusto +Gonçalves, a +restauração da Sé Velha e a de Santa +Cruz, com +uma segurança de criterio, de que não ha exemplo +em obra alguma do mesmo genero modernamente +consumada pelas officinas officiaes. +<br /> + +<br /> + +O sr. bispo de Beja applica um egual fervor ás +obras do convento da Conceição; e na mesma cidade +de Beja por iniciativa da municipalidade, por +concurso patriotico de alguns cidadãos, funda-se o +mais copioso e o mais bem catalogado dos nossos +museus archeologicos. +<br /> + +<br /> + +Em Evora o sr. Francisco Barahona custeia por +si só a dispendiosa reparação do +sumptuoso templo +de S. Francisco, sem a qual teria já desabado +ou desabaria em breve a mais bella egreja portugueza +do tempo D. João II. +<br /> + +<br /> + +Na ultima visita que fiz, em setembro passado, +á Sé de Braga, ahi me foi affirmado que o +respectivo +prelado estava elaborando o projecto da +reconstituição +artistica d'aquelle importante monumento. +<br /> + +<br /> + +Em Cette e em Paço de Sousa, camaras, juntas +<span class="pagenum">[171]</span> +de parochia, simples influencias individuaes invidam +os mais louvaveis e mais instantes esforços +para a conservação dos monumentos gloriosos +a que n'esses logares se alliam os nomes de +Egas Moniz, de Gonçalo Veques e de Estevam da +Gama. +<br /> + +<br /> + +A obra tão desvelada da extincta Sociedade de +Instrucção do Porto e a da Sociedade Martins +Sarmento, +em Guimarães, são verdadeiros monumentos +de erudição, de estudo, de trabalho pratico, de +piedade patriotica. +<br /> + +<br /> + +Para a constituição integral da historia da arte +e da tradição artistica portugueza, quantas +contribuições +dedicadas, quantos esforços individuaes, +desassociados e dispersos, na obra, tão incomprehendida +e tão despremiada, dos srs. Joaquim de +Vasconcellos, Martins Sarmento, Antonio Augusto +Gonçalves, Gabriel Pereira, Sousa Viterbo, Luciano +Cordeiro, Ferreira Caldas, Ribeiro Guimarães, +Alberto Sampaio, Julio de Castilho, Theophilo +Braga, Leite de Vasconcellos, Pinho Leal, +Albano Bellino, Teixeira de Aragão, Vilhena Barbosa, +Conceição Gomes, Filippe Simões, +Manoel +<span class="pagenum">[172]</span> +de Macedo, José Pessanha, Fonseca Benevides, +Valentim, Vieira Natividade, Figueiredo da Guerra, +visconde de Condeixa, Borges de Figueiredo, +Marques Gomes, Rodrigo Vicente de Almeida, +Zephyrino Brandão, Possydonio da Silva, Freitas +Costa, Avelino Guimarães, Freire d'Oliveira; e +quantos outros, tanto mais sympathicos quanto +mais obscuros! +<br /> + +<br /> + +O unico inutil da phalange sou talvez eu, que +em vez de uma accurada monographia, estou +aqui fazendo um indice de assumptos, que só devidamente +trataria se de cada uma d'estas paginas +tirasse um livro. Possam ellas ao menos communicar +a outros corações a sympathia, que filialmente +prende o meu á terra em que nasci, e á +raça +de que procedo! +<br /> + +<br /> + +É pelo culto da arte, invocado n'estas paginas, +que a religião da nacionalidade se exteriorisa e se +exerce. +<br /> + +<br /> + +Desde que nas consciencias se extinguiu a fé, +é por meio da arte que as tradicções +se transmittem, +que os sentimentos se coordenam, que os +affectos se depuram, que as paixões se enobrecem. +<span class="pagenum">[173]</span> +É pela arte, que a exprime, que a poesia do christianismo +sobreviverá aos seus dogmas no enternecimento, +no amor, na saudade dos homens. É +tambem pela arte que em nossa memoria a poesia +da historia sobreleva das instituições, dos +systemas, +das theorias e dos homens, sobre que ella +versa. +<br /> + +<br /> + +A politica, depois da desastrosa fallencia de todas +as modernas theorias liberaes, cessou por toda +a parte de ser um foco de attracção para as +idéas +ou para os sentimentos humanos. As leis continuam +a fazer-se com o destino unico de serem +consecutivamente e invariavelmente decretadas, +infringidas e revogadas, para se substituirem por +leis novas, que por seu turno se decretam, se infringem +e se revogam, como succedeu ás anteriores, +como succederá ás que se seguirem. +<br /> + +<br /> + +No momento presente são unicamente os poetas, +os philosofos e os artistas que governam espiritualmente +o mundo. D'ahi, nos paizes de cultura +mental, dominando todos os phenomenos da +decadencia moderna, uma effusão de sympathia, +de tolerancia, de benevolencia, de perdão, que +<span class="pagenum">[174]</span> +caracterisa bem o nosso tempo, e de que não ha +na historia outro exemplo. +<br /> + +<br /> + +Quando recebemos da Inglaterra a ultima affronta +de chancellaria, a que deu motivo o tratado +de Lourenço Marques, quem na minha susceptibilidade +portugueza mais suavisou esse golpe foi o +critico d'arte John Ruskin, proclamando solemnemente +e categoricamente aos estudantes de Glascow +que os estadistas inglezes (tratava-se então +do sr. Disraëli e do sr. Gladstone) lhe não +mereciam +nem mais respeito nem mais consideração +que duas velhas gaitas de folle. +<br /> + +<br /> + +Ruskin separava assim e distinguia radicalmente +a Inglaterra do <em>Foreign Office</em> e de +lord Salisbury, +da Inglaterra de <em>South Kensington</em>, +de <em>British Museum</em>, +da <em>National Gallery</em>, de +<em>Ruskin Museum</em>, de +Darwin, de Spencer, de Carlos Dickens, de Turner, +de Burne Jones, para a qual tenderá sempre e +irrevogavelmente +a terna gratidão do nosso espirito. +<br /> + +<br /> + +É unicamente pela arte, inherente á natureza +humana, progressiva e eterna, que hoje em dia os +homens se associam no destino e na solidariedade +da especie. +<span class="pagenum">[175]</span> +<br /> + +<br /> + +É pela arte que o genio de cada raça se +patenteia, +que a autonomia nacional de cada povo se +revela na sua autonomia mental, e se affirma, não +só pela sua especial comprehensão da natureza, da +vida e do universo, mas pelo trabalho collectivo +da communidade, na litteratura, na architectura, +na musica, na pintura, na industria e no commercio. +<br /> + +<br /> + +É pelo culto da arte, e pela educação +artistica +que esse culto comprehende, que a producção +industrial se especialisa, se valorisa pela originalidade +caracteristica do producto, e transforma +pela prosperidade, unicamente determinada pelo +ensino, toda a economia de uma nação, como se +evidenciou nos ultimos tempos em Inglaterra, na +Austria, na Allemanha, por via da simples +reconstituição +dos museus e da multiplicação das +escolas. +<br /> + +<br /> + +Finalmente,―se para cada povo a arte é a +segurança +da tradição, o refugio das consciencias, +o mais puro reflexo da imagem benigna da patria, +a fonte mais caudal de todos os progressos +moraes, economicos e até politicos,―para cada +<span class="pagenum">[176]</span> +homem, na tortura de tantas incertesas moraes +na magoa e na ruina de tantas crenças extinctas, +de tantos ideaes desfeitos no melancholico decurso +da nossa edade, a arte é ainda―como diz +Schopenhauer―<em>a unica flôr da +vida</em>. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<b>Notas:</b> +<br /> + +<br /> + +<a name="f1"></a><sup>[1]</sup> O +conspicuo parecer, que, a respeito das obras dos Jeronymos, +foi pelo sr. Luciano Cordeiro apresentado á +Commissão dos +Monumentos Nacionaes, em sessão de 7 de novembro de 1895, +termina, +depois d'outras, pelas conclusões seguintes: +<br /> + +<br /> + +«5.ª O Templo deve ficar destinado, +sómente, +ás grandes celebrações +religiosas do Estado, e a Galilea a jazida dos restos dos +Descobridores e Navegadores portuguezes. +<br /> + +<br /> + +«6.ª Todo o resto do monumental edificio deve ser +destinado +a alojamento e installação do Archivo Nacional, +convindo que +essa installação se ache concluida até +o mez de maio de 1897.» +<br /> + +<br /> + +Não concordo inteiramente com o sr. Luciano Cordeiro em +que se transporte para o edificio annexo á egreja dos +Jeronymos +o archivo da Torre do Tombo, e tão pouco em que se remova +da egreja o exercicio parochial do culto. +<br /> + +<br /> + +Por complexas razões, que não vem para aqui +desenvolver, eu +votaria por que, em vez do archivo da Torre do Tombo se estabelecesse +o museu naval no edificio dos Jeronymos. E emquanto +a egreja, além de que, em minha humilde opinião, +o clero +a saberia sempre guardar muito melhor do que o estado, accresce +ainda que a parochia de Santa Maria de Belem é uma +instituição +historicamente sagrada, indissoluvelmente unida em nosso respeito +á tradição do monumento. Foi o infante +D. Henrique quem +transformou o inhospito areal do Restello na linda freguezia de +Belem, arroteando o solo, para refresco, abrigo e amparo espiritual +dos navegantes, plantando arvores, dispondo hortas e pomares, +abrindo fontes e construindo a primitiva ermida exactamente +no mesmo logar em que se edificou a actual egreja. O pontifice Pio II +confirmou por meio de uma bula a doação do +infante á ordem de +Christo, e instituiu em parochia a primeira egreja de Santa Maria de +Belem, sem outro encargo para a ordem, para os navegantes e para +o publico senão o de se rezar a cada missa, aos sabbados, um +<em>Pater +e uma Ave Maria pela salvação da alma do infante +D. Henrique +e por a d'aquelles de quem era teudo</em>. O rei D. +Manoel, tendo +edificado a sumptuosa egreja e o mosteiro dos Jeronymos, na +volta da armada de Vasco da Gama, depois do descobrimento da +India, colloca a estatua do infante á porta da egreja, +mantem a +parochia, e determina, em cumprimento dos piedosos desejos de +D. Henrique, que a cada missa, ao lavar das mãos, o +sacerdote se +volva para a gente, e diga em alta voz. «Rogae a Deus pela +alma +do infante D. Henrique, primeiro fundador d'esta casa, e por a de +el rei D. Manoel, que a doou á ordem de Christo.» +<br /> + +<br /> + +A data d'esta carta de doação é de 26 +de dezembro de 1498. +<br /> + +<br /> + +Seria, a meu ver, uma infidelidade, uma ingratidão, e um +torpe desacato remover a parochia de Santa Maria de Belem +do logar em que seus gloriosos fundadores a estabeleceram, cabendo-nos +pelo contrario o dever de reclamar dos poderes civis +e dos poderes ecclesiasticos que o modesto voto dos fundadores +se cumpra, como é de razão juridica e de +probidade nacional, +e que em cada missa conventual celebrada pelo parocho na +egreja dos Jeronymos, o sacerdote se volte para o povo, ao +<em>lavabo</em>, +e peça um <em>Pater</em> e uma +<em>Ave Maria</em> pela alma do infante D. +Henrique +e pela de el-rei D. Manoel. +<br /> + +<br /> + +Que se adopte porém ou se não adopte a proposta +do sr. Luciano +Cordeiro, o que technicamente não é de certo +admissivel é +que as obras dos Jeronymos se prosigam e se concluam sem +resolução +tomada ácerca do destino que ha de ter o edificio em que +taes obras se fazem. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="fbox"> +<h2>Lista de erros corrigidos</h2> + +<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se +listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> + +<br /> + +<br /> + +<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4"> + + <tbody> + + <tr align="right"> + + <td style="width: 61px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correcção</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e1" id="e1"></a><a href="#p71">#pág. +71</a></td> + + <td style="text-align: center;">ta boas</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">taboas</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e2" id="e2"></a><a href="#p74">#pág. +74</a></td> + + <td style="text-align: center;">onem</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">nem</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e3" id="e3"></a><a href="#p74">#pág. +74</a></td> + + <td style="text-align: center;">dimensã</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">dimensão</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e4" id="e4"></a><a href="#p105">#pág. +105</a></td> + + <td style="text-align: center;">ascebispo</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">arcebispo</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e5" id="e5"></a><a href="#p142">#pág. +142</a></td> + + <td style="text-align: center;">privilegido</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">privilegiado</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<div style="text-align: center;"><br /> + +Variantes dos nomes próprios foram mantidas de acordo com o +original.<br /> + +<br /> + +</div> + +</div> + +</div> + +<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30456 ***</div> +</body> +</html> diff --git a/30456-h/images/fig01.png b/30456-h/images/fig01.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..383f759 --- /dev/null +++ b/30456-h/images/fig01.png |
