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-<html lang="pt">
-<head>
- <title>Páginas Arqueológicas III - Situação conjectural de Talabriga, por
- Félix Alves Pereira</title>
- <meta name="Author" content="Félix Alves Pereira">
- <meta name="Publisher" content="Imprensa Nacional">
- <meta name="Date" content="1907">
- <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=UTF-8">
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-</head>
-
-<body>
-<div>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30071 ***</div>
-
-<p> </p>
-
-<div style="border: solid 2px #000; padding: 1em; text-align: center;">
-<p style="font-size: 1.2em;">FELIX ALVES PEREIRA</p>
-
-<p style="font-size: 1.6em; border: solid 1px silver; padding: 1em;">PAGINAS
-ARCHEOLOGICAS</p>
-
-<p style="font-size: 1.2em;">III</p>
-
-<p style="font-size: 1.4em;">SITUAÇÃO CONJECTURAL DE TALABRIGA</p>
-
-<p> </p>
-
-<p> </p>
-
-<p> </p>
-
-<p> </p>
-
-<p>LISBOA<br>
-<small>IMPRENSA NACIONAL</small><br>
-1907</p>
-</div>
-
-<div style="padding: 1em; text-align: center;">
-<p><span class="pn">{1}</span></p>
-
-<p> </p>
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-<p> </p>
-
-<p> </p>
-
-<p> </p>
-
-<p style="font-size: 1.4em;">SITUAÇÃO CONJECTURAL DE TALABRIGA</p>
-
-<p> </p>
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-<p> </p>
-
-<p> </p>
-
-<p> </p>
-
-<p><small>Obra composta e impressa na Imprensa Nacional</small></p>
-
-<p><small>Edição e propriedade do Museu Ethnologico Português</small></p>
-
-<p> </p>
-
-<p> </p>
-
-<p> </p>
-
-<p> </p>
-
-<p><span class="pn">{2}<br>
-{3}</span></p>
-
-<p style="font-size: 1.2em;">FELIX ALVES PEREIRA</p>
-
-<p style="font-size: 1.6em; border: solid 1px silver; padding: 1em;">PAGINAS
-ARCHEOLOGICAS</p>
-
-<p style="font-size: 1.2em;">III</p>
-
-<p style="font-size: 1.4em;">SITUAÇÃO CONJECTURAL DE TALABRIGA</p>
-
-<p> </p>
-
-<p> </p>
-
-<p> </p>
-
-<p> </p>
-
-<p>LISBOA<br>
-<small>IMPRENSA NACIONAL</small><br>
-1907</p>
-
-<p> </p>
-
-<p> </p>
-
-<p><span class="pn">{4}<br>
-{5}</span></p>
-
-<p style="font-size: 1.4em;">Ao</p>
-
-<p> </p>
-
-<p> </p>
-
-<p style="font-size: 1.2em;">Illustrissimo e Excellentissimo Senhor
-Conselheiro</p>
-
-<p> </p>
-
-<p> </p>
-
-<p style="font-size: 1.4em;"><em>Luis Cypriano Coelho de Magalhães</em></p>
-
-<p> </p>
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-<p> </p>
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-<p> </p>
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-<p> </p>
-
-<p style="font-size: 1.4em;"><em>O. e D.</em></p>
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-<p> </p>
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-<p> </p>
-
-<p> </p>
-
-<p> </p>
-
-<p style="font-size: 1.2em; text-align: right;"><em>O autor.</em></p>
-
-<p><span class="pn">{6}<br>
-{7}</span></p>
-</div>
-
-<p>Separata d'«O Archeologo Português», XII, n.<sup>os</sup> 5 a 8 de 1907</p>
-
-<p> </p>
-
-<div id="corpo">
-<h1><a name="SECTION0010000">SITUAÇÃO CONJECTURAL DE TALABRIGA</a></h1>
-
-<p> </p>
-
-<h4><a name="SECTION0010001">Summario</a></h4>
-
-<p><a href="#SECTION0011000">1. Estado da questão.</a>—<a
-href="#SECTION0012000">2. Autores antigos</a>—<a
-href="#SECTION0013000">3. Itinerario</a>—<a href="#SECTION0014000">4.
-Exame do mappa</a>—<a href="#SECTION0015000">5. Topographia e onomastico
-da região</a>—<a href="#SECTION0016000">6. Os castros do trajecto da
-Via</a>—<a href="#SECTION0017000">7. Região mineira</a>—<a
-href="#SECTION0018000">8. Localização de Talabriga</a>—<a
-href="#SECTION0019000">9. Opinião de Gaspar Barreiros</a>—<a
-href="#SECTION00110000">10. Geographia arabica</a>—<a
-href="#SECTION00111000">11. <em>Strata maurisca</em></a>—<a
-href="#SECTION00112000">12. Ria de Aveiro e o Vouga</a>—<a
-href="#SECTION00113000">13. Historia de Talabriga.</a></p>
-
-<h2><a name="SECTION0011000">I</a></h2>
-
-<p>Algum tanto sem o presentir, ao fazer o estudo da ara de Estorãos,
-(<em>Arch. Port.</em>, <small>XII</small>, 36) encontrei-me no limiar de um
-problema que, de modo definitivo, não se resolverá senão com a verificação
-<em>in loco</em> de vestigios archeologicos incontrastaveis.</p>
-
-<p>É o problema da trajectoria exacta da via romana entre Aeminium e Calem, da
-qual não se conhecem milliarios decisivos e sufficientes, especialmente da sua
-passagem por Talabriga.</p>
-
-<p>O assunto, parcialmente considerado, tem sido alvo das principaes
-referencias na pugna litteraria em que os paladinos de Agueda, de Aveiro e de
-Coimbra patrioticamente articulavam preeminencias genealogicas, que é da praxe
-mencionarem-se em monographias locaes, mas que hoje, quanto a Coimbra (e
-Condeixa-a-Velha) estão sentenciadas, em prejuizo até heraldico de Agueda<a
-name="tex2html1" href="#foot644"><sup>[1]</sup></a>.<span
-class="pn">{8}</span></p>
-
-<p>Propositadamente, porém, o problema não foi ainda estudado debaixo do seu
-aspecto geral; apenas por incidente tem sido versada a localização de
-Talabriga. Não venho com o proposito de o dar como resolvido, é certo; mas
-desejo englobar neste estudo um certo numero de considerações, que podem
-preparar o desenlace d'este ponto controvertido da geographia protohistorica da
-Lusitania, no campo adequado, e quiçá orientar pesquisas.</p>
-
-<p>Onde foi Talabriga? Até hoje nenhum d'estes indices peremptorios que marcam
-inilludivelmente a situação das antigas cidades, como para <em>Conimbriga</em>
-(Condeixa-a-Velha), <em>Aeminium</em> (Coimbra), <em>Bracara Augusta</em>
-(Braga), <em>Olisippo</em> (Lisboa), <em>Pax Julia</em> (Beja), etc., se nos
-antolha para dar resposta nitida áquella pergunta.</p>
-
-<p>Guiados pelas indicações geographicas do Itinerario e de Plinio, os nossos
-escritores teem querido alternadamente que Aveiro, Cacia, Esgueira occupem hoje
-o logar que outrora se chamou <em>Talabriga</em>. De facto, o Itinerario, ao
-contar as milhas que de <em>Aeminium</em> vão a <em>Calem</em> (Gaia ou Porto?)
-pela via militar, devia ter especial valor para este problema; mas a
-comprehensão da necessidade de verificar rigorosamente as indicações d'aquelle
-documento, a consulta de edições criticas, tomando-se por base a decisão do
-problema de Aeminium, e talvez o desaffecto de uma ou outra solução é que teem,
-no meu humilde entender, faltado a todos os autores que mais modernamente do
-assunto se teem abeirado<a name="tex2html2"
-href="#foot645"><sup>[2]</sup></a>.</p>
-
-<h2><a name="SECTION0012000">II</a></h2>
-
-<p>A geographia classica não é de todo omissa a respeito d'esta antiga
-povoação. O testimunho de Plinio, que é o A. mais expresso, vem a ser o
-seguinte: <em>A Durio Lusitania incipit. Turduli veteres, Paesuri, flumen
-Vagia</em><a name="tex2html3" href="#foot646"><sup>[3]</sup></a><em>, Oppidum
-Talabrica, Oppidum et flumen Aeminium, Oppida Coniumbrica,<span
-class="pn">{9}</span> Collippo, Eburobritium.</em> (C. Plinii Secundi, <em>Nat.
-Hist.</em>, ed. de Detlefsen, <small>IIII</small>, 113). Isto tem o ar de uma
-sêca enumeração chorographica, que se desdoba do norte para o sul, a contar do
-Douro, e que, restringida ao nosso caso, nos dá esta sequencia:</p>
-
-<p><em>a</em>) rio Vouga;</p>
-
-<p><em>b</em>) cidade de Talabrica;</p>
-
-<p><em>c</em>) cidade e rio de Aeminio (Coimbra);</p>
-
-<p><em>d</em>) e as cidades de Conimbrica (Condeixa),</p>
-
-<p><em>e</em>) Collippo (Leiria) e</p>
-
-<p><em>f</em>) Eburobricio (Obidos, Vejam-se <em>Relig. da Lusit.</em>,
-<small>II</small>, 31).</p>
-
-<p>Se não fôr certo, como não me parece, que Vouga é ao norte de Talabriga e
-este oppido ao sul do mesmo rio, pelo menos conclue-se que Talabriga vizinha de
-um lado ou outro aquelle estuario.</p>
-
-<p>Não trago nenhum outro autor antigo, porque elles não adeantam o problema
-chorographico. Na <em>Cosmografia</em> de Ravennate (ed. de Pinder &
-Parthey, p. 307) <em>Talabrica</em> apparece transformada em Terebrica e fica
-na seguinte localização relativa:
-<em>Olisipona—Terebrica—Langobrica—Cenoopido—Calo</em>...</p>
-
-<h2><a name="SECTION0013000">III</a></h2>
-
-<p>Vamos pois ao <em>Itinerario</em><a name="tex2html4"
-href="#foot647"><sup>[4]</sup></a> e á discussão das suas indicações.
-Encontra-se nelle, que nos sirva:</p>
-
-<table align="center" cellpadding="3" border="0" summary="Indicações do itinerário">
- <tbody>
- <tr>
- <td align="left">Eminio</td>
- <td align="left">mp. <small>X</small></td>
- <td align="left"> </td>
- </tr>
- <tr>
- <td align="left">Talabriga</td>
- <td align="left">mp. <small>XL</small></td>
- <td align="left">(= 59:240 metros)</td>
- </tr>
- <tr>
- <td align="left">Langobriga</td>
- <td align="left">mp. <small>XVIII</small></td>
- <td align="left">(= 26:658 » )</td>
- </tr>
- <tr>
- <td align="left">Calem</td>
- <td align="left">mp. <small>XIII</small></td>
- <td align="left">(= 19:253 » )</td>
- </tr>
- <tr>
- <td align="left"> </td>
- <td align="left"> </td>
- <td align="left"> 105:151 »</td>
- </tr>
- </tbody>
-</table>
-
-<p>A equivalencia que sigo é a de 1 milha = 1:481 metros (Saglio &
-Daremberg, s. v. <em>Milliarium</em>).</p>
-
-<p>A trajectoria d'esta via desde Coimbra (Aeminium) a Gaia (Calem) deixaria de
-ser ponto controverso se, como succede noutras estradas romanas, alguns
-milliarios sobreviventes escalonassem os seus vestigios.<span
-class="pn">{10}</span></p>
-
-<p>Não ha porém, neste particular, mais que isto:</p>
-
-<p>1.º Um fragmento de milliario com 2<sup>m</sup>,04 de alto X
-1<sup>m</sup>,40 de circuito, que appareceu na Mealhada ao norte de Coimbra e
-só tem <small>M.XII</small>.</p>
-
-<p>2.º Outro que foi encontrado mesmo em Coimbra e aponta
-<small>M.IIII</small>.</p>
-
-<p>Nem aquelle nem muito menos este servem ao meu intento; o traçado litigioso
-no nosso caso é para norte da Mealhada e Anadia, e não entre Mealhada e
-Coimbra. (Vid. Borges de Figueiredo, <em>Oppida restituta</em>, p. 82; Hübner,
-<em>Notas archeologicas sobre Portugal</em>, p. 67, trad. cit.: <em>Catalogo
-dos objectos existentes no Museu de Archeologia do Instituto de Coimbra</em>,
-p. 6; A. Filipe Simões, <em>Escritos diversos</em>, 1883).</p>
-
-<p>3.º Um pretenso milliario descrito por Fr. Bernardo de Brito na
-<em>Monarchia Lusitana</em>, II, <small>V</small>, p. 3. Este vicio de origem
-obriga-me a pôr ainda de parte este monumento como comprobativo da directriz;
-Hübner fulmina-o com a sua desconfiança (<em>Corpus</em>, <small>II</small>, 55
-a *) dizendo que Brito queria demonstrar com elle a existencia de
-<em>Vacua</em>. Não lhe darei porém eu maior valor que o proprio monge, que,
-como por prevenção, confessa que as letras da pedra eram «mal distinctas e muy
-quebradas». Assim a sua interpretação deve desinteressar-nos, visto que não ha
-meio de contraprovar a leitura de Fr. Bernardo de Brito, duvidosa para elle
-proprio. Para este, a lapide era porém um padrão de estrada, o que pouco vale
-por entretanto para nós; mas provinha do Castello de S. Gião, ao que parece,
-<em>castro</em> rico em ruinas de muros, etc. Isto, cuja importancia só
-modernamente se aprecia, é que não se inventa e dá visos de que com effeito
-alguma cousa lá pudera ter apparecido. Mas Brito, com o dizer que a lapide era
-padrão de estrada, contrariava sem o advertir a propria crença de que a via
-romana seguia pela beiramar e <em>Talabriga</em> era em Aveiro. (<em>Mon.
-Lusit.</em>, id., p. 130).</p>
-
-<p>Não obstante, ponha-se de parte a exactidão da epigraphe do supposto, mas
-rehabilitavel, milliario do castro de S. Gião, e fique, provisoriamente, apenas
-um facto—o achado de um padrão de via romana num castro das margens do
-Caima. </p>
-
-<p>A opinião de que Aveiro fôra o assento da antiga estação do Itinerario tinha
-ainda por si, alem do mappa de Abr.<sup>ão</sup> Ortelius (<em>Theatrum orbis
-terrarum</em>, Antuerpia, CIC.IC.CIII) o pensar de Florez (<em>España
-Sagrada</em>, tomo <small>XIV</small>, p. 73), que lêra Plinio e uma edição
-antiga do Itinerario romano. E póde dizer-se que foi essa a corrente que
-dominou até hoje, se com Aveiro abrangermos o aro circunjacente. (Vejam-se
-Adolfo Loureiro. <em>Os portos maritimos de Portugal</em>, <small>II</small>,
-p. 3; Marques Gomes, <em>Districto de Aveiro</em>, onde restringe<a
-name="tex2html5" href="#foot651"><sup>[5]</sup></a> a Cacia o <em>ubi</em> de
-Talabriga;<span class="pn">{11}</span> Borges de Figueiredo, <em>Oppida
-restituta</em>, 1885; Pinho Leal, <em>Portugal Antigo e Moderno</em>, s. v.
-<em>Aveiro</em>; Gaspar Barreiros, <em>Chorographia de alguns lugares</em>; D.
-Nunes de Leão, <em>Descripção do reino de Portugal</em>; Francisco do
-Nascimento Silveira, <em>Mappa breve da Lusitania antiga</em>, etc.)<a
-name="tex2html6" href="#foot652"><sup>[6]</sup></a>.</p>
-
-<p>Regressemos porém ao <em>Itinerario</em>, e vejamos se será possivel
-concluir algo que um dia a pesquisa e exploração persistente do archeologo
-possa contraprovar. É o meu sonho.</p>
-
-<p>Que a medição total do <em>Itinerario</em> relativa á via <em>ab Aeminio
-Calem</em> está notavelmente exacta, demonstra-o esta verificação facil: a
-somma das milhas que se contaram de Eminio a Gaia, reduzida a kilometros,
-(unidade mais pratica e mais exacta que a de leguas, até agora adoptada) era de
-105:151 metros, como vimos; a distancia computada actualmente na Carta do
-Estado Maior d'esta região pela directriz da <em>estrada real</em> é de 105:100
-metros<a name="tex2html7" href="#foot653"><sup>[7]</sup></a>. Não podendo ser
-mais breve a distancia d'esta estrada, como se verifica olhando os traçados
-rectificados ao lado do mappa junto, em que a distancia em linha recta e a
-rectificação exacta da extensão effectiva da estrada fazem pequena differença,
-o que mostra que os desniveis ou as inflexões do traçado são assaz reduzidos,
-conclue-se que a via romana, desde que marca igual extensão kilometrica, não
-poderia seguir caminho mais longo que ella, nem portanto muito distanciado
-d'ella.</p>
-
-<p>Esta coincidencia de medições é suggestiva e não permittiria, só por si, que
-a trajectoria da via romana e da actual estrada real divergissem<span
-class="pn">{12}</span> muito. Se esta desenhasse uma inflexão pronunciada no
-seu trajecto de Coimbra a Gaia, claro é que era possivel, sem exceder a mesma
-extensão, encontrar outra curva symetrica que tocasse em pontos intermedios
-diversos e afastados, e coincidisse apenas nos respectivos extremos, o que nada
-util me seria; mas nas circunstancias que se dão e já salientei, e que me
-permittiram estudar sobre uma carta este problema, a coincidencia effectiva das
-duas vias de communicação deve em grande parte quasi corresponder á
-coincidencia theorica, agora expendida.</p>
-
-<p>Isto oppõe-se a que a via romana passasse em Aveiro, ponto muito afastado e
-divergente do trajecto theorico<a name="tex2html8"
-href="#foot654"><sup>[8]</sup></a>.</p>
-
-<h2><a name="SECTION0014000">IV</a></h2>
-
-<p>Vou porém demonstrar por partes como isto assim deve ser. É preciso partir
-do principio já demonstrado, embora para o total da distancia, que as medições
-do Itinerario não contém erro. Qualquer inexactidão nas milhas marcadas para
-cada uma das secções da via militar alteraria a somma, desde que, por um acaso
-unico, não fosse compensada por outra inexactidão.</p>
-
-<p>Ora a via romana de Eminio contém tres troços ou secções; o 1.º de Eminio a
-Talabriga; o 2.º de Talabriga a Langobriga; o 3.º de Langobriga a Cale. Se uma
-sequer das distancias correspondentes do Itinerario contivesse erro, a somma
-total accusá-lo-hia; mas nós já vimos que a distancia de 105 kilometros
-corresponde a uma realidade. Comecemos pelo extremo norte da via. Isto conduz
-mais claramente ao meu fim; e descobre mais prontamente o erro em que até agora
-me parece que tem laborado os escritores. Tomemos o mappa<a name="tex2html9"
-href="#foot151"><sup>[9]</sup></a>.</p>
-
-<p>Se traçarmos um arco de circulo, cujo centro seja Gaia e o raio igual á
-distancia de Cale a Langobriga, isto é, a 19 kilometros (veja-se<span
-class="pn">{13}</span> a escala), teremos obtido uma curva theorica (LL no
-mappa) que no terreno representa uma faixa de tolerancia, mais ou menos larga,
-dentro da qual e numa zona d'ella que seja compativel com um trajecto
-ininterrupto da via, cuja extensão já definida se não póde exceder, o
-archeologo deverá procurar os vestigios de Lancobriga.</p>
-
-<p>Esta zona, ou este segmento, não poderá pois, em principio, afastar-se
-consideravelmente da directriz da estrada real.</p>
-
-<p>Consultemos de novo o Itinerario. Entre Langobriga e Talabriga medeiam
-26:600 metros. Ignorando ainda qual o ponto preciso que na curva <em>LL</em>
-marca o primeiro d'aquelles oppidos, deveremos traçar um arco de circulo
-parallelo ao antecedente e á distancia que a escala indica. Como o terreno não
-é propriamente uma carta celeste<a name="tex2html10"
-href="#foot154"><sup>[10]</sup></a> em que os pontos podem ser rigorosamente
-indicados, a nova curva deixada pelo compasso é representativa de uma segunda
-faixa de tolerancia, susceptivel de maior ou menor elasticidade, mas confinada,
-quanto á sua extensão, pela continuidade do trajecto viario em direcção a
-Aeminium, trajecto cujo comprimento tem limite determinado de milhas.</p>
-
-<p>E assim temos o arco <em>TT</em>.</p>
-
-<p>Nesta curva, que não é mais que uma zona media, deverão surgir ao appellido
-do archeologo as ruinas do que outrora foi Talabriga. Esta conclusão emerge
-logicamente das bases que tomei: o acerto evidente do Itinerario no total e
-muito provavel nas secções; a coincidencia das extensões da via antiga e da
-estrada moderna.</p>
-
-<p>Se agora, por contraprova, apontarmos o compasso a Eminio e girarmos com um
-raio de 59 kilometros, verificado segundo a escala, obteremos outra curva, a
-terceira, tangente á segunda e que tem a missão de indicar a zona util, o
-segmento dos arcos, correspondente á area provavel da situação de Talabriga.
-Porque o que não póde haver, é um hiato, uma interrupção de trajecto de Cale a
-Aeminium<a name="tex2html11" href="#foot156"><sup>[11]</sup></a>.</p>
-
-<p>Esta primeira phase da minha demonstração, porém, já torna incompativel a
-actual situação de Aveiro com vestigios de Talabriga. E mais do que isto; vem
-levantar um equivoco de Plinio, que parece<span class="pn">{14}</span> suppôr
-aquelle oppido ao sul do Vouga; se assim fosse, não seria possivel encontrar o
-ponto de reunião do caminho que descia de Cale a encontrar Lancobriga aos 19
-kilometros e se prolongava na direcção do sul até mais 20 kilometros, onde
-devia beijar a Talabriga do Itinerario sem encontrar a de Plinio<a
-name="tex2html12" href="#foot655"><sup>[12]</sup></a>. O hiato resultante fica,
-parece-me, fechado e annullado, desviando Talabriga de Aveiro e aproximando-a
-de Albergaria, ao norte do Vouga; isto é, a hipothese que proponho é a que se
-concilia em todos os pontos com o Itinerario.</p>
-
-<h2><a name="SECTION0015000">V</a></h2>
-
-<p>Mas não se concilia só com esta fonte documental: é a mais plausivel em face
-das condições topographicas e historicas da região de Entre-Vouga-e-Douro.</p>
-
-<p>A actual directriz da estrada real é a que mais ou menos devia ter seguido a
-via romana que procurasse unir Eminio a Cale, dado o traçado que ella já trazia
-desde Lisboa.</p>
-
-<p>Em primeiro logar: as condições topographicas d'aquelle grande delta do
-Vouga não eram senão de molde para difficultar a abertura de uma estrada na
-epoca romana, em concorrencia com traçado mais firme e duradouro, mais
-economico, mais util e mais commercial. Aquellas planuras deviam existir já
-então, como um presente do Vouga, segundo se tem dito, creio, do Nilo.</p>
-
-<p>Se eram naquelle tempo pantanos, ou bosques intransitaveis<a
-name="tex2html13" href="#foot656"><sup>[13]</sup></a> ou veigas retalhadas,
-como hoje, por um dedalo de canaes e esteiros, não me cabe a mim defini-lo. De
-qualquer d'estas fórmas, uma via romana não iria atravessar uma região em que a
-falta de pedra é quasi absoluta, e a multiplicidade de trabalhos de
-architectura civil ou de obras<span class="pn">{15}</span> de arte uma
-consequencia inevitavel. Era preciso combater por um lado a pouca firmeza do
-terreno, por outro contar com o custo da empresa<a name="tex2html14"
-href="#foot171"><sup>[14]</sup></a>, ou os impecilhos da viagem.</p>
-
-<p>Por isso os mesmos motivos que na idade media afastaram a construcção, ou
-melhor, a conservação de uma estrada velha para longe da costa, obrigando-a a
-passar nas pontes que ainda existem, devem ter sido os mesmos que desviaram os
-engenheiros romanos de lançarem a via militar através de campinas encharcadas,
-só para irem buscar a embocadura do Vouga, antes de attingir Calem.</p>
-
-<p>Depois preciso é notar que havia outra directriz ao alcance da administração
-do Imperio, directriz que não podia admittir confrontos com a traçada através
-do delta do Vouga. Essa directriz levava a estrada romana pela orla fóra do
-terreno firme e accidentado e da região povoada de castros e abundosa de
-minerios, região que ainda hoje podemos ver acompanha-la pelo trajecto da
-estrada real. As vias de communicação teem muitas vezes uma directriz fatal e
-tradicional através de longos tempos e povoadores successivos<a
-name="tex2html15" href="#foot657"><sup>[15]</sup></a>.</p>
-
-<p>Póde soffrer destruição o caminho, sem estancar a arteria de communicação.
-</p>
-
-<p>A actual estrada real ou de macadam foi ainda, por assim dizer, decalcada
-pela anterior, a medieval, cujos restos subsistem nas pontes antigas de que os
-chorographos fallam. Esta orientou-se pela comprehensão das conveniencias, e
-afastou-se da embocadura do Vouga, seguindo a directriz mais economica e mais
-util; não direi ainda a directriz romana porque é o que pretendo demonstrar,
-mas a que era directriz tradicional, como vou explicar.<span
-class="pn">{16}</span></p>
-
-<h2><a name="SECTION0016000">VI</a></h2>
-
-<p>Os castros ou montes habitados encontram-se precisamente no seguimento da
-via romana; os oppidos referidos pelos AA. antigos, as <em>brigae</em>, e as
-cidades romanizadas não são mais que uma evolução d'aquellas estancias,
-consoante as denominações que lhes applicaram<a name="tex2html16"
-href="#foot658"><sup>[16]</sup></a>; era por essa corda alem, que o terreno
-baixo e plano da zona maritima começava de elevar-se. A estrada romana
-desenrolava-se por entre esses centros da habitação, abandonando ao lado um
-país chato, pouco firme e talvez quasi invio.</p>
-
-<p>Do sul para o norte <em>Anadia</em> está situada nas abas de um monte de
-<em>Crasto</em> (Pinho Leal e M. Gomes).</p>
-
-<p><em>Agueda</em> está tambem perto de um <em>Crasto</em> (Pinho Leal).<span
-class="pn">{17}</span></p>
-
-<p>Nas margens do Vouga, naquelle logar onde subsiste ainda a ponte medieval
-(Pinho Leal), encontra-se na aldeia de <em>Vouga</em> um morro que foi castro
-(Brito e P.<sup>e</sup> Carvalho, <small>II</small>, 161); explica Francisco do
-Nascimento Silveira (<em>Mappa breve da Lusitania</em>, p. 239) que
-<em>Vacca</em> existia em sitio forte por natureza, entre as pontes de Vouga e
-Marnel, porque alli se vêem vestigios de muros antigos e sinaes de uma
-majestosa grandeza; existem ainda tijolos, cantarias, muralhas em <em>Lamas de
-Vouga</em> (<em>Arch. Port.</em>, <small>V</small>, 50 e <small>VII</small>, 191)<a
-name="tex2html17" href="#foot660"><sup>[17]</sup></a>, e havia ahi a
-<em>civitas Marnele</em> (<em>Port. Mon. Hist.</em>, «Diplom. de Chart.», n.º
-819)<a name="tex2html18" href="#foot661"><sup>[18]</sup></a>, cuja origem deve
-ter sido outro castro.<span class="pn">{18}</span></p>
-
-<p>Na carta geodesica vê-se, junto ao rio, um <em>Castello</em> (111). Isto é
-ainda do concelho de Agueda<a name="tex2html19"
-href="#foot662"><sup>[19]</sup></a>.</p>
-
-<p>Na freguesia de Serem, tambem concelho de Agueda, outra <em>civitas</em>
-(Viterbo, s. v. <em>Cidade</em>); ha lá sitios elevados a norte e a sul (Cfr.
-M. Gomes).</p>
-
-<p>Na freguesia da <em>Branca</em> ha um logar de <em>Cristellos</em> (M. Gomes
-e <em>Arch. Port.</em>, <small>II</small>, 313).</p>
-
-<p>Na serra de S. Julião, mesma freguesia, <em>onde passa a estrada real</em>,
-diz o Sr. M. Gomes que ha ruinas de muralhas e fossos: acreditava-se (<em>Arch.
-Port.</em>, loc. cit.) que ahi era a antiga <em>Langobria</em> (sic). Não sei
-se é precisamente o mesmo local a que Brito (<em>Mon. Lusit.</em>, II,
-<small>V</small>, p. 3) chama castello de <em>S. Gião</em>, onde havia ruinas
-de muros e elle encontrou o tal padrão suspeito e onde presume
-<em>Lancobriga</em>, não na Feira, diz, mas entre Albergaria e Bemposta,
-defronte de Pinheiro. Significativa confusão! Aquelle logar de
-<em>Cristello</em> vem na carta geodesica entre Estarreja e a estrada real<a
-name="tex2html20" href="#foot663"><sup>[20]</sup></a>.</p>
-
-<p>Na freguesia de Ul ha outro castro (<em>aldeia do crasto</em>), de que porém
-não conheço o <em>ubi</em>. Tem uma cintura de muralha de pedra solta ou cousa
-que o valha. (Pinho Leal, s. v. <em>Ul</em>).</p>
-
-<p>Nas proximidades de Azemeis parece que não são escassos estes monumentos
-(<em>Quatro Dias na Serra da Estrella</em>, por E. Navarro, Porto 1884, p.
-174).</p>
-
-<p>Em <em>Ossella</em> ha um castro com ruinas de muralhas (Brito, <em>loc.
-cit.</em>).</p>
-
-<p>Entre <em>S. Martinho</em> e <em>S. Tiago</em> vê-se na carta geodesica um
-<em>crasto</em>, a O. da estrada real; isto é no parallelo de Ovar. Será
-aquelle a que Pinho Leal chama Castro Troncal ou Francal (s. v. <em>C. de
-Cucujães</em>)?</p>
-
-<p>No <em>Arch. Port.</em>, <small>VI</small>, 68, diz-se que ha em Oliveira de
-Azemeis um logar de <em>Lações</em>, onde foi a antiga Lancobriga
-(<em>sic</em>), porque ahi se ajustam as medidas do Itinerario e não na Feira
-ou Bemposta. Este sitio é elevado e estrategico; a sua cota é de 287 metros e
-fica na fronte de um promontorio fechado por duas ribeiras e no extremo de uma
-chapada em cujo prolongamento se conta ainda a altitude de 274 metros. É, pelo
-que se vê, um <em>castro</em>. <em>Lancobriga</em> e que não.<span
-class="pn">{19}</span></p>
-
-<p>Em <em>Macieira de Cambra</em> ha um castro (<em>Arch. Port.</em>,
-<small>VII</small>, 54)<a name="tex2html21"
-href="#foot664"><sup>[21]</sup></a>.</p>
-
-<p>Em <em>Romariz</em> informa o Sr. M. Gomes que ha um <em>Crasto</em>, onde
-appareceram antiqualhas da epoca romana; o que é presumivel e prova ter
-recebido a influencia dos seus conquistadores.</p>
-
-<p>Os antigos chorographos portugueses não teem dado valor aos cabeços
-elevados, onde se encontram os vestigios do que póde ter sido um castro, uma
-citania, emfim uma estacão archeologica pre-romana, e isso não admira; mas o
-facto é esse e constitue uma deficiencia na descrição dos logares, que
-actualmente seria imperdoavel, e que, num caso como o que estou versando,
-sonega lamentavelmente elementos aproveitaveis de estudo.</p>
-
-<p>Junto ao mar, e bastante para o norte, em Esmoriz, encontro menção de um
-castro, especializado hoje pelo erudito estudo que d'elle fez documentalmente o
-meu erudito amigo Sr. Pedro de Azevedo (<em>Arch. Port.</em>,
-<small>III</small>, 137). Era o castro de <em>Aville</em>, <em>Ouvil</em>,
-<em>Ubile</em> e <em>Obil</em>, denominações que se applicavam á lagoa que
-ainda existe, e que elle dominava. Crê o distincto publicista que aquelle
-castro é o mesmo outeiro a que o parocho depoente de 1758 chamou <em>Monte do
-Murado</em>, pertencente á freguesia de S. Martinho de Mozellos. Fico porém em
-duvida, pois que estando o castro <em>prope litore maris</em> (Docs. de 1055,
-1076) bem como a lagoa (Docs. de 1057 e 1090), Mozellos parece um pouco
-afastado para o interior. Confessando que, sem a inspecção dos logares, a base
-é instavel, em todo o caso affiguram-se-me aqui dois castros distinctos.</p>
-
-<p>Em S.<sup>ta</sup> Maria de <em>Fiães</em> apparece outro castro ou
-«povoação de Mouros» (<em>Arch. Port.</em>, <small>IV</small>, 250).</p>
-
-<p>E d'ahi para o norte, são frequentes na faixa atravessada pelo caminho
-romano. Será algum d'estes castros o jazigo de Langobriga?</p>
-
-<p>Este inventario, tendo origem, como tem, exclusivamente bibliographica, não
-póde deixar de ser omisso. A averiguação local e a informação competente
-accrescentá-lo-hiam, se eu d'estes dois factores me tivesse soccorrido. Para o
-meu intento, o pouco que joeirei, era colheita bastante.</p>
-
-<h2><a name="SECTION0017000">VII</a></h2>
-
-<p>Alem d'estas averiguadas condições de habitabilidade que se encontravam no
-trajecto da via romana e que, em meu entender, conjugadas com as da elevação e
-relevos de terreno, que para as populações<span class="pn">{20}</span>
-ante-historicas constituiam uma necessidade vital, concorreria tambem, não sem
-ligação com ellas, a existencia de jazigos metalliferos.</p>
-
-<p>Nem todas as minas que enumero seriam conhecidas na antiguidade, mas em
-algumas ha vestigios da remota laboração e o que tudo attesta é que a região
-era mineira e portanto centripeta de populações.</p>
-
-<p>Os locaes explorados são Telhadella, Albergaria, Palhal, Milheirós,
-Cucujães, Nogueira, Ossella, Palmás, Carvalhal, Pindello, Silva Escura, Ul,
-Talhadas, Braçal, Coval da Mó, Malhada.</p>
-
-<p>Os minerios são cobre, tão procurado na antiguidade, chumbo, prata, etc.</p>
-
-<p>D'estes jazigos, aquelle em que são mais importantes os vestigios de antiga
-lavra, é o da Malhada, uma das concessões das chamadas Minas do Braçal. As
-madeiras de entivação, que foram encontradas dentro da mina, denotam tal
-antiguidade que parecem fossilizadas, em consequencia da côr negra que
-adquiriram. Os trabalhos antigos attingem a profundidade de 45 metros
-(<em>Catalogo Descriptivo da Secção de Minas</em>, pelos Srs. Severiano
-Monteiro e J. Augusto Barata, p. 188).</p>
-
-<p>A respeito dos outros, a noticia de antiga exploração é muito vaga para que
-me seja licito insistir. Nas minas de Palhal tambem ha vestigios antigos. (Cfr.
-Marques Gomes, <em>Districto de Aveiro</em>).</p>
-
-<h2><a name="SECTION0018000">VIII</a></h2>
-
-<p>Que se póde concluir das considerações que até aqui tenho encadeado?</p>
-
-<p>Por um lado, o estudo do Itinerario levou-me a aventurar na carta
-geographica, largamente circunscritas, as zonas em que o calculo faz presumir
-que se devem encontrar as ruinas de Talabriga; por outro lado, a inquirição
-topographica e onomastica da região, tanto quanto era possivel com a escassez
-de elementos, indicou-me alguns logares de archaicas estações archeologicas do
-genero da que deve ter sido Talabriga, como castro ou oppido submettido ao
-poder de Roma.</p>
-
-<p>Quero lembrar que <em>briga</em> só póde corresponder a uma posição elevada,
-a um outeiro ou cabeço fortificado; por onde Talabriga nunca pudera ser Aveiro
-ou arredores (Vid. <em>Arch. Port.</em>, <small>XII</small>, 42).</p>
-
-<p>Relançando novamente o olhar ao mappa, poder-se-há notar que a zona
-attribuivel á situação de Talabriga<a name="tex2html22"
-href="#foot666"><sup>[22]</sup></a> não está erma de castros,<span
-class="pn">{21}</span> antes nella se dão varias circunstancias que não posso
-deixar de aproveitar para a minha these conjectural.</p>
-
-<p><em>Branca</em> é uma freguesia cuja séde fica na margem direita de Caima e
-que é cortada pela estrada real; ha nella um logar de <em>Cristellos</em>, que
-só pelo toponimo demonstra a existencia de um castro ou oppido. Mas alem
-d'este, infere-se do Sr. Marques Gomes, de Fr. Bernardo de Brito (<em>loc.
-cit.</em>) e d-<em>O Arch. Port.</em> (<small>II</small>, 313, «Mem.
-Parochiaes») que ha um local sito na serra de S. Julião, atravessado pela
-estrada real e que Brito mais claramente chama <em>castello</em> de S. Gião
-(<em>castello</em> por <em>castro</em>), no qual, segundo aquelles tres
-testimunhos, ha ruinas de muralhas e fossos, que o Sr. M. Gomes presume serem
-ruinas de uma <em>atalaia</em> e que o parocho das <em>Memorias</em> tambem
-capitula de vestigios romanos, acrescentando muito singularmente (note-se bem o
-que isto póde significar) que ahi esteve... <em>Langobria</em> (<em>sic</em>).
-Foi aqui que Brito diz ter encontrado a tal pedra de <em>letras mal
-distinctas</em> de que não affiança a leitura, mas que lhe pareceu <em>padrão
-de estrada</em>.</p>
-
-<p>E aqui tem cabimento o que já atrás deixo dito, para absolver de fraude
-consciente a noticia archivada em Fr. Bernardo de Brito.</p>
-
-<p>Parece-me pois ser neste aro, se não neste mesmo ponto, que se deverá
-procurar o jazigo, não de Langobriga, mas da nossa Talabriga, e é precisamente
-a estas immediações que o compasso me levou ao medir sobre a carta a primeira
-secção da via romana de Coimbra a Gaia<a name="tex2html23"
-href="#foot352"><sup>[23]</sup></a>.<span class="pn">{22}</span></p>
-
-<p>Não desconheço quanto de problematico isto tem antes de serem perguntados
-pelo archeologo os logares, as ruinas, os vestigios e os montes e as vozes da
-região, mas nem por isso o meu espirito deixa de ficar demonstrado, até o
-possivel, que as cinzas de Talabriga nunca podem estar guardadas em Aveiro. As
-coincidencias que acabo de notar, não são bases frivolas.</p>
-
-<p>Só pois a inspecção directa do terreno, nas immediações da Branca, poderá
-concorrer para confirmar ou destruir a minha conjectura.</p>
-
-<p>D'esta região para o norte, a via romana seguiria até Cale, mais ou menos
-proxima do actual leito da estrada real; só alguns vestigios ou referencias de
-documentos, como os de Grijó, e a inquirição dos logares e tradições poderão
-concorrer para precisar a trajectoria d'aquella antiga via de communicação; o
-caso em si, porém, é indifferente para a questão primacial que motivou este
-estudo. O que é certo, é que a estrada romana sulcava a faixa comprehendida
-entre a estrada real e a linha ferrea até o vertice de Gaia.</p>
-
-<p>Ao sul de Branca e Albergaria, a directriz da via militar sente-se
-escalonada nos vestigios medievaes que deixei explanados nas paginas
-anteriores. <em>Albergaria</em> denota bem que o sitio era de assiduo e antigo
-transito (Viterbo, <em>Elucidario de palavras</em>, etc. s. v.
-<em>Albergaria</em>) ponto necessario de passagem para quem do sul buscava o
-norte do país. As <em>mansiones</em> tinham o caracter de pousadas.</p>
-
-<p>Em tempos de lazer para obras de piedade, é que a instituição caritativa se
-fundou, como implemento de uma necessidade que já existia.</p>
-
-<p>As pontes de Vouga e Marnel são indicios bem importantes da frequencia das
-viagens através d'esta parte da região, afastada da costa baixa e paludosa. São
-decerto obras da idade media, dos <em>mouros</em>, diz Pinho Leal (s. v.
-<em>Marnel</em> e <em>Vouga</em>). Mas os indicios pre-romanos e romanos
-soletram-se nessas ruinas de muralhas, pedras lavradas, vestigios de edifícios
-e toponymia, que os cabeços de Vouga e Marnel nos conservam, segundo descrevem
-Brito, Pinho Leal e os parochos do sec. <small>XVIII</small> nos extractos
-publicados pelo <em>Archeologo Português</em>.</p>
-
-<h2><a name="SECTION0019000">IX</a></h2>
-
-<p>O sentimento de Gaspar Barreiros (<em>Chorographia de alguns logares</em>,
-<small>MDLXI</small>, p. 48 sgs.) era que a situação de Talabriga devia ser a
-actual Cacia, especialmente na igreja de S. Julião, onde apparecem vestigios
-antigos. Varios autores o seguem.</p>
-
-<p>As razões d'este illustre escritor do sec. <small>XVI</small> merecem alguma
-discussão.<span class="pn">{23}</span></p>
-
-<p>Barreiros funda-se no Itinerario e conta, no sentido d'este roteiro, as
-milhas de Conimbriga para o norte. E por confirmação d'este argumento, traz o
-passo de Plinio que eu já transportei a este estudo, mas com uma differença que
-elle tomou de um archetypo Toletano (p. 51), declarando porém que alguns
-exemplares de Plinio não são accordes com aquelle. A lição citada é pois esta:
-<em>A Durio Lusitania incipit, Turduli veteres, Pesuri, flummen Vacca, oppidum
-Vacca, oppidum Talabrica, oppidum et flumen Minium</em>, etc. Esta variante
-demonstra a existencia de uma cidade <em>Vouga</em>, que G. Barreiros colloca
-na Ponte de Vouga (p. 50 <em>v</em>). Algumas cartas antigas reflectem esta
-indicação. Isto posto, G. Barreiros leva a contagem de Conimbriga para
-Talabriga por espaço de 50 milhas, o que é exacto, espaço que elle computa
-equivalente a 12,5 leguas e enumera:</p>
-
-<table align="center" border="0" cellpadding="3" summary="Calculo de G. Barreiros">
- <tbody>
- <tr>
- <td>De Condeixa a Coimbra</td>
- <td>2,5 leguas</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>De Coimbra á Mealhada</td>
- <td>3,5 »</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Da Mealhada a Avellãs</td>
- <td>2 »</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>De Avellãs a Agueda</td>
- <td>2 »</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>De Agueda á Ponte de Vouga</td>
- <td>1,5<a name="tex2html24" href="#foot667"><sup>[24]</sup></a> »</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>De Ponte de Vouga a Cacia</td>
- <td>1 »</td>
- </tr>
- <tr>
- <td> </td>
- <td>12,5</td>
- </tr>
- </tbody>
-</table>
-
-<p>«Na qual villa & igreja de sanct. Juliã nas ribeiras do Vouga situadas,
-se acham vestigios antigos, s. os fundamẽtos de h#7869;a torre que na
-memoria dos homẽs inda staua quasi inteira, onde era outro tipo segundo
-ficou fama de h#7869;s em outros chegauam nauios da foz do mar, porque inda ali
-se acharam pedaços d'elles & anchoras iuncto da dicta torre em h#7869;a
-lagoa Afora muitos vestigios & ruinas d'argamassa que dentro em seu ambito
-cõprehende h#7869;a milha pouco mais ou menos» (p. 50).</p>
-
-<p>A não ser que tenhamos de recorrer a uma mudança da primitiva situação, nós
-temos de procurar em Talabriga a cidade preromana, que no sec.
-<small>II</small> a. C. Decimo Junio Bruto reduzia á miseria e á impotencia,
-segundo narra Appiano. E esse oppidum teria que possuir condições estrategicas
-identicas ás dos outros castros preromanos, taes como elles nos acenam que
-foram escolhidos pelas populações proto-historicas;<span class="pn">{24}</span>
-teria que justificar o proprio designativo de caracter celtico
-<em>briga</em>—altura fortificada.</p>
-
-<p>Creio poder affirmar que nada d'isto se encontra em Cacia. Alem d'isto o
-proprio G. Barreiros, no dizer que, entre os vestigios antigos, sobresaía uma
-torre, que ainda andava lembrada, e se topavam «ruinas de argamassa», quasi
-estabelece uma chronologia, porque taes vestigios não podem ser anteriores aos
-romanos; poderão attribuir-se menos á sua epoca que ás posteriores. Para a
-contemporaneidade, teriamos que admittir e demonstrar uma deslocação do
-primitivo assento de oppidum, como vimos; se esses vestigios se affectam ás
-epocas successoras dos romanos, o facto sae para fóra do problema e d'elle me
-não posso occupar.</p>
-
-<p>O principal estorvo, porém, que a opinião de Barreiros encontra, é aquelle
-que eu quis descobrir e evitar, quando ajustei a medição do itinerario a contar
-de Cale para o Sul e não de Aeminium para o Norte. Evitei assim o erro de cair
-em Aveiro, em Esgueira e agora em Cacia, onde muito bem podia ir passar com o
-roteiro romano nas mãos.</p>
-
-<p>Isto illumina-se á luz da carta. Barreiros vem seguindo, com os ouvidos na
-tradição do seu tempo, o leito do caminho romano (dito mourisco) pela Mealhada,
-Agueda, até á ponte de Vouga, e até aqui bem elle vem; chegado porém a esta
-altura, desnorteia-se e inflecte para Oeste para fazer a primeira estação de
-Itinerario em Cacia, imaginando-se em Talabriga. Kilometricamente, creio não
-haver que lhe objectar. A distancia da ponte de Vouga a Cacia é proximamente
-igual á que entre o mesmo ponto se nota e a linha-zona <em>TT</em>, que eu
-determinei. Portanto não falseava o illustre chorographo quinhentista a tabella
-do Itinerario, isto é, as 50 milhas desde Condeixa (Conimbriga).</p>
-
-<p>Mas a precaução de começar a contagem de Cale para Talabriga, obsta ou
-impede aquella inflexão e obriga a trazer o caminho numa directriz mais
-desempenada para a ponte de Vouga. Volvendo os olhos á curva <em>TT</em> do
-mappa, ver-se-ha que Cacia lhe fica a distancia grande porque, com este desvio
-da trajectoria normal, a medição romana perdeu espaço, atrasando-se.</p>
-
-<p>Se não fosse este meio de verificar o erro, era possivel a desorientação.
-</p>
-
-<p>Creio, pois, ter demonstrado pela ethnographia e pela geometria topographica
-que Talabriga não póde ser collocada em Cacia, quer se olhe á Talabriga
-preromana ou protohistorica, quer á romana ou historica; á Talabriga de Appiano
-e D. J. Bruto ou á da epoca imperial e do Itinerario.<span
-class="pn">{25}</span></p>
-
-<h2><a name="SECTION00110000">X</a></h2>
-
-<p>Como, segundo se infere de Appiano (vid. adeante), o oppidum de Talabriga
-continuou a ser habitado depois da sua rendição no sec. <small>IV</small> a. C.
-e emfim ainda existia no sec. <small>IV</small> d. C., poderia succeder que elle
-conseguisse resistir á vinda dos barbaros, e chegar ao dominio dos arabes.
-Convinha pois consultar a geographia arabica, e o nome de Edrisi, geographo do
-sec. <small>XII</small>, impunha-se-me logo.</p>
-
-<p>O que das suas differentes traducções se conclue, não é nada claro para mim
-que ignoro o arabe, mas poderá auxiliar o estudo da questão por parte dos
-arabistas.</p>
-
-<p>Ha uma edição de 1619 (Paris) com o titulo de <em>Geographia Nubiensis</em>,
-que quero pôr em confronto com a traducção de Amédée Jaubert (<em>Géographie
-d'Edrisi</em>, Paris 1840).</p>
-
-<p>Edrisi descreve dois caminhos de Coimbra a Santiago de Compostella: um por
-terra, outro por mar.</p>
-
-<p> </p>
-
-<p style="text-align: center;"><strong>Caminho por terra</strong></p>
-
-<div style="width: 50%; padding: 0.5em; float: left;">
-<p style="text-align: center;"><em>Ed de 1619</em> (trad. lat)</p>
-
-<p>«Iter autem terrestre a <em>Colimria</em> ad <em>S. Jacobum</em> est
-hujusmodi: a <em>Colimbria</em> ad oppidum <em>Aba</em> stationis habetur
-intervallum. Ab <em>Aba</em> ad oppidum <em>Vatira</em> statio. Ab hoc ad
-primos terminos regionum Portugalliae, statio, pergit que iter secans terram
-Portugalliae spatio diei, ibique conspicitur oppidum <em>Bonacar</em> ad ripam
-fluminis <em>Durii</em>, quod est flumen Samorae, atque illic trajiciendum
-cymbis ad hoc paratis. Ab oppido ad amnem Minio, indeque ad castellum Abraca LX
-M. P. duae videlicet stationes. A castello <em>Abraca</em> ad castellum
-<em>Tui</em> stationes duae».</p>
-
-<p style="text-align: center;">——</p>
-
-<p>O editor de 1619 diz que não ha medida certa para as <em>stationes</em>,
-expressão que se referia a pousada dos viandantes. As <em>stationes</em> justas
-eram de 25 milhas, mas algumas tinham mais, outras menos. Parece que seria o
-espaço que se poderia percorrer em um dia.</p>
-</div>
-
-<div style="padding: 0.5em;">
-<p style="text-align: center;"><em>Ed. de 1840</em> (trad. fr.)</p>
-
-<p>«O itinerario por terra de Colomria (Coimbra) a S. Tiago é como segue: de
-<em>Coimbra</em> a <em>Abah</em> (Ribadavia) (!) aldeia, uma jornada. De
-<em>Abah</em> a <em>Uetaria</em> (Huctaria) (?) aldeia, uma jornada. D'ahi á
-fronteira de Portugal, uma jornada. O caminho vae através das terras de
-Portugal durante uma jornada, ao fim da qual se chega a <em>Buna-Car</em>,
-aldeiasinha nas margens do <em>Douro</em>, que é o rio de Zamora. Passa-se o
-rio em barcos proprios para isto. D'este logar ao rio <em>Minho</em> ou antes
-ao forte <em>Abraça</em> (insua de Caminha) (?) 60 milhas ou duas jornadas.
-Depois <em>Tuia</em> (Tuy) cidade pouco notavel, mas bella e numa região
-fertil, duas jornadas» (<small>II</small>, p. 232)</p>
-
-<p style="text-align: center;">——</p>
-
-<p>No texto francês, ao vocabulo <em>statio</em> corresponde <em>journée</em>,
-que eu traduzi por <em>jornada</em> (de um dia).</p>
-</div>
-
-<p>Temos aqui duas traducções do texto arabe, uma em frente da outra, e a
-verdade é que sufficientemente se correspondem. O principal para<span
-class="pn">{26}</span> o meu fim seria a localização das estações de Edrisi;
-neste ponto o traductor francês apenas conserva intemeratamente as tradições
-dos estrangeiros quando, fallando ou escrevendo, debicam na nossa geographia.
-</p>
-
-<p>Nem ao diabo lembra que a Coimbra se siga... <em>Ribadavia</em>!</p>
-
-<p>A primeira estação ao deixar Coimbra é <em>Aba</em> (ed. 1619) ou
-<em>Abah</em> (ed. 1840). Poderá corresponder a <em>Agueda</em>? Jaubert
-desejaria falar em <em>Riba-d'Agueda</em>! É provavel.</p>
-
-<p>A segunda estação foi interpretada por <em>Vatira</em> (ed. 1610) e
-<em>Uetaria</em> (ed. 1840). Não sei identificar esta localidade, assim
-desfigurada.</p>
-
-<p>Em seguida a isto, se na versão latina parece haver uma incongruencia, ella
-desapparece na traducção francesa. Através das terras de Portugal, chega-se com
-um dia de viagem ás margens do Douro. Isto parece ser bem o tradicional caminho
-que entesta na foz do Douro.</p>
-
-<p>Não diz o geographo arabe em que ponto da margem do Douro ficava
-<em>Bona</em> ou <em>Buna-car</em>, expressão que não sei reconhecer, mas
-parece-me que deve ser a embocadura d'este rio, e é a seguinte a razão. Diz
-Edrisi que de <em>Bona-car</em> ao rio Minho são 60 milhas; ora, numa pagina
-anterior (p. 227) elle conta da foz do Douro á do Minho as mesmas 60 milhas.
-Portanto creio que <em>Buna-car</em> era aproximadamente em Gaia, onde depois o
-rio se atravessava em barcos<a name="tex2html25"
-href="#foot668"><sup>[25]</sup></a>.</p>
-
-<p>Descrevendo o mesmo <em>caminho por mar</em>, isto é, a viagem de Coimbra a
-Santiago, o primeiro ponto onde diz que se abica, é a foz de
-<em>nahr-Budhu</em> (rio <em>Vadeo</em>, traduz A. Jaubert!) que corresponde ao
-Vouga, rio, acrescenta, consideravel, onde entram embarcações grandes e
-pequenas (<small>II</small>, 227). Esta aclaração parece indicar que naquelle
-tempo a foz do Vouga e o lago interno serviam a uma navegação bastante activa.
-Quanto ao relacionamento da antiga Talabriga com alguma das estações do caminho
-medieval descrito por Edrisi, nenhuma conclusão posso tirar com segurança.</p>
-
-<p>Com muita probalidade porém se infere d'isto que o caminho frequentado então
-devia ser o que hoje corresponde á estrada real com a passagem nas pontes
-medievaes de Vouga, mas emquanto não se fixarem<span class="pn">{27}</span>
-estes dois ponto; duvidosos, localização muito verosimil de <em>Aba</em> ou
-<em>Abah</em> em Agueda e incerta de <em>Vatira</em> ou <em>Ueturia</em>, o
-testemunho do geographo arabe apenas serve seguramente para localizar as testas
-d'este caminho, estabelecer com grande plausibilidade a tradição do caminho
-historico pela orla das montanhas e revelar-nos o movimento commercial da foz
-do Vouga.</p>
-
-<h2><a name="SECTION00111000">XI</a></h2>
-
-<p>Tratando-se pesquisa dos vestigios da via romana <em>ab Aeminio ad
-Calem</em>, o testemunho de Viterbo (<em>Elucidario</em>, s. v. <em>Estrada
-mourisca</em>) devia ser ponderado. Diz este illustre antiquario que, nos
-documentos de Grijó, se fazia larga menção de propriedades que ficavam umas da
-parte de cima, outras da parte de baixo da estrada mourisca. No anno de 1148,
-Trutesindo doa ao celebre mosteiro o que possuia em Brantães e em S. Felix
-<em>subter illam Stratam Mauriscam, discurrente riuulo Cerzedo</em>.</p>
-
-<p>Acrescenta o sabio antiquario que a estrada era mourisca por ter sido aberta
-pelos Mouros, que abandonaram a romana que vinha ali a passar entre Lancobriga
-e o mar, pois que com o rodar dos annos a costa se entupira e alteara por causa
-das areias e os rios estagnados não só esterilizaram os campos, mas fecharam a
-passagem dos caminhos. E mais depõe Viterbo que a estrada mourisca ia do Porto
-a Agueda por Azemeis, Albergaria, Vouga, etc.</p>
-
-<p>Antes de mais: notemos esta opinião corrente, esta tradição, tão concordante
-com o que eu já procurei accentuar, de que a tal estrada <em>mourisca</em>
-descia do Porto a Agueda precisamente por Azemeis, por Albergaria e por Vouga.
-</p>
-
-<p>Que Viterbo lhe chamasse <em>mourisca</em> não é de espantar; era a voz
-popular que ainda hoje nos falla de Mouros sempre que tem de referir-se a povos
-muito antigos, preromanos, romanos, barbaros, etc<a name="tex2html26"
-href="#foot669"><sup>[26]</sup></a>.</p>
-
-<p>Mas o documento de 1148 já tratava de mourisca uma obra que<span
-class="pn">{28}</span> não podia ser dos Sarracenos, a esse tempo ainda no sul
-de Portugal. Creio não se poder sustentar que a estrada que passava em Cerzedo
-era construida por arabes; aproveitada sim, porque sendo o caminho que elles
-ainda encontravam á sua disposição, devia ser aquelle que inundavam do terror
-das suas algaras.</p>
-
-<p>Em que elementos se estribava Viterbo para dizer ainda que a mesma estrada
-mourisca tocava em Oliveira de Azemeis, Albergaria, Vouga e Agueda? Confesso
-que não os conheço, a não ser que a memoria e o uso d'este caminho tradicional
-se perpetuassem através de tantos seculos e tão profundas transformações
-sociaes.</p>
-
-<p>Informa Pinho Leal que na freguesia da Trofa (concelho de Agueda) ha ainda o
-logar de <em>Mourisca</em>, á margem da estrada, e que o nome lhe veio d'esta.
-Traduzindo <em>mourisco</em> em <em>romano</em>, póde ser acertada a
-supposição. Isto transcreveu-o elle de Viterbo, s. v. <em>Estrada</em>.</p>
-
-<p>Mais expressivo é o tópico de um sitio, perto de Lamas e junto da estrada
-real; chama-se elle <em>Fundo da rua</em>. Tal rua não é outra senão a via
-romana. Esta explicação affere pela que dá o <em>Corpus</em>
-(<small>II</small>. p. 363) com referencia a uma freguesia de Santo Estevam da
-Rua, onde passava uma estrada romana (<em>oppido quod a via romana nomen
-duxit</em>). A 3:500 para O. da Feira ha um sitio chamado <em>Rua Nova</em>.
-Aqui é que só a inspecção dos logares poderia indicar-me o significado d'este
-tópico.</p>
-
-<p>Num escritor estrangeiro do sec. <small>XVIII</small>, lê-se uma descrição
-litteraria do caminho através do campo de Aveiro, que só se entende se o
-suppusermos encostado ás montanhas de leste, permittindo que se descortine para
-a banda do mar toda aquella immensidade de terras feracissimas que aquelle
-autor olhava como planicie encantadora (<em>Annales de l'Espagne et du
-Portugal</em>, Alvares de Colmenar, Amsterdam 1741, p. 253).</p>
-
-<p>Isto demonstra que a estrada real de hoje é um caminho velho e
-tradicionalmente batido para ligar Coimbra ao Porto.<span
-class="pn">{29}</span></p>
-
-<p>Nos <em>Port. Mon. Hist.</em> não se encontram referencias mais claras do
-que esta de Viterbo e as que adduzi em nota, á antiga via romana. Compulsei
-bastantes documentos d'aquella publicação e nella encontrei variadas
-referencias a caminhos, mas em termos d'onde não se podia concluir cousa alguma
-que indicasse o conhecimento da existencia de uma estrada da epoca romana,
-considerada como tal<a name="tex2html27" href="#foot684"><sup>[27]</sup></a>.
-</p>
-
-<h2><a name="SECTION00112000">XII</a></h2>
-
-<p>Um esclarecimento dá Viterbo que é exacto e tem importancia para a historia
-d'esta região tributaria dos esteiros vacuenses.</p>
-
-<p>Retiro-me ao «entupimento» da costa que com o rodar dos annos se foi
-alteando e ao «estagnamento» dos rios que esterilizava os campos e fechava os
-caminhos. Esta acção do mar na costa de Aveiro tem sido um problema technico e
-administrativo extremamente complicado para os governos portugueses, não só
-pelas condições commerciaes de Aveiro, mas pelo estado sanitario de toda esta
-região. O coração d'este problema é a barra do Vouga.</p>
-
-<p>É difficultoso dizer o estado d'esta embocadura nos tempos que interessam ao
-presente estudo. Tenho lido que, na epoca romana, entravam<span
-class="pn">{30}</span> a foz do Vacua embarcações de grande arqueamento (<em>Os
-portos maritimos de Portugal</em>, pelo Sr. Adolfo Loureiro, <small>II</small>,
-3). Não sei que fundamentos póde ter esta asserção, que em todo o caso é
-relativa á tonelagem dos antigos navios.</p>
-
-<p>Os geographos antigos que se referem a este rio lusitanico, não dizem cousa
-d'onde se possa inferir a sua capacidade para grandes embarcações, como aliás
-se tem escrito.</p>
-
-<p>O mais explicito é Estrabão (<em>Geographia</em>, liv. III,
-<small>III</small>), que vertido a latim, diz: <em>Deinceps post Tagum
-nobilissima flumina sunt Muliadas, parvas habens navigationes. Itidem Vacua
-fluvius, post quos Durius longo fluens cursu</em>, etc. O geographo grego
-iguala o Mondego (<em>Muliadas</em>) rio de navegação diminuta, ao Vouga, da
-mesma fórma (<em>itidem</em>) estuario de diminuta navegação. E tanto mais é
-esta a natural hermeneutica, que o contraste é frisante com a importancia do
-Douro, <em>longo fluens cursu</em>. Estrabão escreveu no sec. <small>I</small>
-a. e d. de C.; como póde affirmar-se que no tempo dos romanos entravam o Vouga
-embarcações de longo curso e a sua foz era um porto de grande commercio e muita
-prosperidade?</p>
-
-<p>Ora isto vem ao intento de eu pretender que no surgidouro do Vouga não havia
-nos primeiros seculos, pelo menos da epoca romana, povoação de vulto que
-determinasse uma passagem forçada na via militar e um desvio da natural
-directriz <em>ab Aeminio Calem</em>. E para um porto de tamanho trafego, era
-pouco um simples <em>vicus</em>.</p>
-
-<p>Temos pois a affirmação estraboniana<a name="tex2html28"
-href="#foot675"><sup>[28]</sup></a>. E antes?</p>
-
-<p>Menos ainda. Diz-se que em algumas minas da região metallifera de
-Entre-Vouga-e-Caima tem apparecido vestigios de antigas laborações. Apesar da
-falta de precisão chronologica nesta noticia, póde presumir-se o facto até para
-a epoca preromana. E neste caso, a via fluvial seria a mais pronta saida do
-mineiro para o commercio externo.</p>
-
-<p>Mas um óbice encontro agora. Seria consequente que este trafico determinasse
-a formação de um povoado á beira-mar ou na enseada interior. A essa gente
-faltaria, porém, uma cousa, que se lhes tornára tão indispensavel, como o pão
-para a boca: era a segurança pessoal, era o ninho de aguia. Com as planuras não
-se queriam elles. A não ser que deroguemos os conhecimentos adquiridos no que
-até agora se tem encontrado.<span class="pn">{31}</span></p>
-
-<p>Alem disto, que motivos ha para tirar effeíto tambem retroactivo á noticia
-de Estrabão?</p>
-
-<p>Um primorosissimo escritor<a name="tex2html29"
-href="#foot676"><sup>[29]</sup></a>, filho de Aveiro, evita, com exemplar
-abnegação patriotica, o problema archeologico da origem preromana da sua terra
-natal, mas propende á presumpção de que algum povoado assentaria antigamente na
-foz do Vouga os seus lares. E enfeixa o illustre homem de letras duas razoes:
-1.ª, a geographica; 2.ª, a da exploração do sal. Aquella parece-me menos
-conciliavel com a ethnographia dos povos a que se deseja alludir, como notei. E
-esta? Para o commercio, quer interno quer externo, temos ainda o mesmo senão.
-Os marnôtos d'aquelle tempo onde se acoitariam<a name="tex2html30"
-href="#foot677"><sup>[30]</sup></a>?</p>
-
-<p>Que, posteriormente a Estrabão, as <em>parvae navigationes</em> crescessem
-em numero e tonelagem não é impossivel, porque a vida social começava já a
-fervilhar nas planicies.</p>
-
-<p>E a industria do sal, cuja utilização aliás já data dos tempos neolithicos,
-poderia commercializar-se (perdão para o neologismo) d'essa epoca em deante, se
-tomarmos por base da hypothese o caracter latino da technologia<a
-name="tex2html31" href="#foot678"><sup>[31]</sup></a> e o que sabemos por
-aquelle geographo da importancia das salgas (<em>Geographie de Strabon</em>,
-por Am. Tardieu, 1886; III-<small>IV</small>-2). Mas então já a via militar
-<em>ab Aeminio ad Calem</em> lá estaria antes de ser necessaria, se necessaria
-se pudesse considerar por motivo do commercio externo, num porto afastado da
-linha natural de communicação e posto em duvida pelo silencio dos textos, como
-vimos.</p>
-
-<p>Do que o Vouga seria na idade media possuimos o testemunho do geographo
-arabico Edrisi (<em>Géographie d'Edrisi</em>, trad. de P. Amédée Jaubort. Paris
-1840 <small>II</small>, 227).<span class="pn">{32}</span></p>
-
-<p>O nosso rio foi transposto para aquella lingoa por uma palavra que A.
-Jaubert representa na graphia francêsa por <em>Boudhou</em> (ou==u); e assim
-conforme o texto arabico vemos que o <em>nahr-Budhu</em> é um rio consideravel
-onde navegam embarcações grandes e pequenas, e a navegação se estende a 70
-milhas da sua foz. Agora já começamos a entrever uma população occupada no
-trafego maritimo.</p>
-
-<p>A diplomatica tambem proporciona alguns elementos de estudo relacionaveis
-com este, mas propriamente esta epoca já não interessa á questão posta.</p>
-
-<p>Há porém, uma cousa que não posso omittir.</p>
-
-<p>É o documento n.º <small>LXXVI</small> dos <em>Port. Mon. Hist.</em>, «Dipl.
-et Chartae», onde se lê a fórma medievica de Aveiro, a qual é
-<em>alauario</em>, o que só por si desmorona as hypotheses etymologicas a que
-varios chorographos se tem apegado, mas revela pela primeira vez a existencia
-de uma povoação onde hoje é Aveiro (assim tambem <em>Talabario</em> e
-<em>Táveiro</em>. Doc. <small>CXXVIII</small>).</p>
-
-<p>O trabalho do mar e das aguas na desintegração de um subsolo brando e a
-força do vento nos areaes movediços devem ter sido causa perenne e inflexivel
-dos açoreamentos e obstrucção da navigabilidade<a name="tex2html32"
-href="#foot679"><sup>[32]</sup></a>. O factor é antigo, tão antigo quanto o
-póde ser, por maneira que aquella região nunca teve, fóra das epocas
-geologicas, outra face topographica muito diversa da dos nossos dias<a
-name="tex2html33" href="#foot680"><sup>[33]</sup></a>. É presumivel que
-elevadas florestas forrassem com sombras impenetraveis toda essa immensa orla
-limitada<span class="pn">{33}</span> pelo mar a Oeste e pelas montanhas a E.,
-na região e na epoca de que me occupo<a name="tex2html34"
-href="#foot681"><sup>[34]</sup></a> como em outros pontos suppôe o Sr. Alberto
-Sampaio (<em>Portugalia</em>, <small>II</small>, 215, art. cit.); mas isso não
-importa acreditar a possibilidade da via romana por terrenos de tal especie.
-</p>
-
-<p>Informou-me o distincto engenheiro Sr. Mello de Matos, que, ao proceder-se
-aos trabalhos de construcção de uma ponte nas proximidades de <em>Vagos</em>,
-se encontrou encastoado nas areias o cavername de um navio, que infelizmente
-não foi estudado. Na <em>Esgueira</em>, achara-se outro.</p>
-
-<p>Narra Pinho Leal que ha annos em Vagos se descobriu uma ponte sobre um
-ribeiro que a areia das dunas entupiu completamente. Escusado é acrescentar que
-a ponte foi logo capitulada de <em>romana</em>, nada menos.</p>
-
-<p>Estes factos não tem sido apenas recentemente verificados. Já vimos num
-trecho, que desatei do nosso Gaspar Barreiros (p. 50) que pelas alturas de
-Cacia se tem encontrado, submersos na terra, cascos de navios e ancoras, o que
-radicou a crença de que as embarcações chegavam ate ahi em tempos antigos. Esta
-apreciação já é do sec. <small>XVI</small>.</p>
-
-<p>D'este millenario ha um mappa, publicado por Abrahão Ortelius, onde se
-reconhece nitidamente a bacia de Aveiro. (Vide <em>Theatrum orbis
-terrarum</em>, já citado a pag. 132).</p>
-
-<p>Estes factos esclarecem o assunto e reatam a tradição de que os fundos da
-ria se vão alteando com a obstrucçâo nos esgotos das correntes fluviaes. Fr.
-Bernardo de Brito (<em>Monarchia Lusitana</em>, <small>II</small>.
-<small>V</small>. p. 130) diz que, do tempo d'elle, Aveiro, muito concorrida de
-gente de mar e pescarias, era cidade florescente<a name="tex2html35"
-href="#foot682"><sup>[35]</sup></a>.</p>
-
-<p>O Sr. Cons.º Luis de Magalhães tambem entende que, tendo ahi embarcado para
-uma jornada de Africa os terços da Beira, é porque o porto consentia a
-arqueação das caravelas.<span class="pn">{34}</span></p>
-
-<p>D'esta epoca ha mais elementos concordantes no movimento commercial de
-Aveiro e portanto no estado da sua barra. (Vid. <em>Os portos maritimos de
-Portugal</em>, pelo Sr. A. Loureiro, <small>II</small>, 3).</p>
-
-<p>O que Barreiros conta relativamente a Cacia, encontra-se repercutido num
-local situado muito mais acima sobre o Vouga. No sec. <small>XVIII</small>
-corria que em eras passadas ainda os navios subiam aquelle estuario até a
-antiga cidade de <em>Vacua</em><a name="tex2html36"
-href="#foot606"><sup>[36]</sup></a>, onde depois foi a villa de Vouga e agora
-mero cabeço de Vouga (<em>Arch. Port.</em>, <small>VII</small>, 191), que aliás
-tende a desapparecer, como desappareceu a de Marnel pelo impaludismo (Pinho
-Leal, <em>Port, Ant. e Mod.</em>, s. v. <em>Vouga</em>).</p>
-
-<p>Esta noticia, porém, deve interpretar-se com uma informação mais minuciosa
-que encontro em uma obra de 1741 (<em>Annales de l'Espagne et du Portugal</em>,
-por Alvares de Colmenar, Amsterdam). Diz este A. que Aveiro é uma cidade
-bastante consideravel, situada na testa de um pequeno golfo que a maré
-estabelece na embocadura do Vouga. Este rio fórma um porto de limitadas
-dimensões, onde os navios mediocres, que não demandam senão 8 ou 9 pés de agua,
-podem entrar na preamar, com a direcção de pilotos do sitio. Este A. já falla
-na grande producção de sal e nas fortificações constantes apenas de uma muralha
-flanqueada de algumas torres.</p>
-
-<p>Na lagoa de Esmoriz, de que falla um doc. do sec. <small>IX</small>,
-(<em>Port. Mon. Hist.</em>, «Dipl. et Chart.», n.º <small>XII</small>), havia
-uma barra por onde entravam as caravelas em antigos tempos e depois se entupiu
-(<em>Arch. Port.</em>, <small>IV</small>, 144).</p>
-
-<p>O caso do cavername encontrado perto de Vagos liga-se com a noticia do sec.
-<small>XVIII</small>, transmittida pelas <em>Memorias Parochiaes</em>, segundo
-as quaes o braço da ria que existe entre Aveiro e Ilhavo dava antigamente fundo
-para caravelas e agora é vadeavel (<em>Arch. Port.</em>, <small>IV</small>,
-329).</p>
-
-<p>Em Mira, numa lagoa de agua doce, conta um informador que nella se encontram
-vestigios de casas, moedas e alicerces de uma parede ou caminho que a
-atravessou pelo meio. Alem disto, pelo norte e poente, tem-se açoreado
-(<em>Arch. Port.</em>, <small>V</small>, 297).</p>
-
-<p>Quanto se póde deduzir d'estas noticias, o extenso delta vacuense tem sido
-invadido com trabalho successivo pelas areias que causam a obstrucção dos
-esteiros e a diminuição da navegabilidade. De nenhuma noticia, porém, se póde
-concluir que na epoca romana o aspecto topographico e a constituição
-orographica da região fosse tão diverso<span class="pn">{35}</span> do que é
-actualmente, que a via romana lá pudesse passar preferentemente ao trajecto
-mais interno, na base da montanha, através dos castros e das minas.</p>
-
-<h2><a name="SECTION00113000">XIII</a></h2>
-
-<p>De Talabriga temos uma das paginas da sua historia escrita por um autor do
-meio do sec. <small>II</small> d. C., Appiano de Alexandria.</p>
-
-<p>É certamente este um caso particular, mas não deverá deixar de ser
-considerado como uma amostra de dramas analogos que succederam com os oppidos
-lusitanos, no embate das cohortes romanas.</p>
-
-<p>Talabriga, escreve Appiano, era uma das cidades (da Lusitania) que mais
-frequentemente se revoltava. Esta falta de resignação, este, direi eu, germen
-de patriotismo ou melhor de municipalismo, não podia tranquillizar Decimo Junio
-Bruto, que julgou que o caso era de reclamar a sua presença no local da cidade.
-Partiu com numerosa gente, e ao seu apparecimento responderam os irrequietos
-Talabrigenses com supplicas e o seu incondicional abandono á discrição do
-conquistador. Então J. Bruto foi energico e insaciavel, mas ao mesmo tempo teve
-um lanço inesperado de generosidade. Quis fazer-lhes sentir primeiro a dureza
-cruel do seu braço de guerreiro, e para isso impôs-lhe a immediata entrega dos
-transfugas das hostes d'elle, certamente alliados dos romanos, a dos
-prisioneiros, a de todo o armamento e ainda por cima exigiu refens. Depois
-chegou a ordenar-lhes que abandonassem a cidade com suas mulheres e filhos.
-Parece que o prestigio militar de J. Bruto não valia menos que seu tino de
-politico e conquistador. Os Talabrigenses aprontaram-se para obedecer alli
-mesmo. Mas o capitão romano queria compor-lhes um quadro que lhes
-impressionasse perduravelmente a imaginação. E ia espreitar o effeito
-produzido.</p>
-
-<p>Desdobrou em circulo as suas tropas e, agglomerando dentro a chusma dos
-habitantes humilhados, arengou-lhes. Fez-lhes perceber que não receava a sua
-turbulencia indomita, porque quantas vezes desertassem, outras tantas elle
-viria combatê-los e reduzi-los com a necessaria firmeza, incutido assim o
-receio e a convicção de que no momento adequado, J. Bruto cairia sobre elles
-com toda a energia, o general romano quebrantou a sua ira, satisfeito com estas
-objurgatorias. Mas não sem que lhes tomasse os cavallos, os mantimentos, os
-dinheiros da cidade com todo o outro material publico<a name="tex2html37"
-href="#foot683"><sup>[37]</sup></a>. Isto era claramente<span
-class="pn">{36}</span> deixá-los na impotencia e até na penúria. E por fim J.
-Bruto, contra tudo quanto os Talabrigenses podiam já esperar (<em>pratter
-spem</em>), restituiu-lhes a cidade para nella continuarem a habitar. Isto
-passava-se já meado o sec. <small>II</small>, antes de Christo (138 a. C).</p>
-
-<p>Feito isto, o conquistador regressou a Roma.</p>
-
-<p>Esta pagina da conquista da Lusitania é tanto mais importante quanto é, com
-igual individuação, a unica que nos resta de historia escrita dos oppidos
-lusitanos, e, embora narre um só episodio da guerra da conquista, não deixa de
-ser elucidativa.</p>
-
-<p>Quando li este trecho de Appiano (<em>Appiani Alexandrini Rom. Historiarum
-quae supersunt</em>. Parisiis. F. Didot. MDCCCXL), confesso que senti amargura
-por não podermos ainda ir conversar na região do Vouga com as ruinas da cidade
-onde estes successos crueis se desfiaram, e segredar ás cinzas d'aquelle
-abrasado patriotismo que o mesmo sentimento, que chammejou nesses lusitanos
-insoffridos, ainda se não arrefentára com o soprar sobre ellas de vinte vezes
-cem invernos, e em mais de um dia, já da nossa existencia nacional, elle se tem
-ateado em protestos bem tumidos de calor.</p>
-
-<p> </p>
-
-<p>Talabriga continuou a existir e refazer-se, atravessando a epoca
-imperatoria, como nos attesta: 1.º, a data a que pertence a ara de Estorãos,
-sec. <small>III-IV</small>; 2.º, a sua inscripção no Itinerario (sec.
-<small>IV</small>).</p>
-
-<p>Que seculos lhe trouxeram o ultimo acto das suas tragedias? Os do mal
-afamado frankisk barbaro ou os do pavor sarraceno mais verdadeiro e real que
-aquelle, sobretudo no territorio portugalense?</p>
-
-<p>Entrevejo pois para a archeologia portuguesa este problema: sondar o jazigo
-de Talabriga, verdadeiro simbolo do nosso sentimento de independencia
-territorial e figura-se-me que mostrei onde com toda a probabilidade elle se
-deve encontrar. Espero ter eu mesmo ensejo de averiguar se o simples e frio
-raciocinio me guiou, sem desvio, até as trincheiras historicas, que occultam os
-miserandos restos de Talabriga.</p>
-
-<p>Conservar-se-ha ainda evolucionado este toponimo? Responderá o onomastico,
-paternalmente assistido pela philologia, não se dando o caso mais provavel do
-verso susodito de Vergilio:</p>
-
-<p> </p>
-
-<blockquote>
- <em>Haec tum nomina erunt, nunc sunt sine nomine terrae!</em> </blockquote>
-
-<p>Março de 1907.</p>
-
-<p> </p>
-
-<p><em>P. S.</em> No mappa do <em>Ortelius</em>, de que me soccorri a pp. 132 e
-155, vejo nova <em>Lancobriga</em>, pelo sul de Scalabis; teremos tres? (Ver
-<em>O Arch. Port.</em>, <small>XII</small>, 42).</p>
-
-<p> </p>
-
-<div class="rodape">
-<p><a name="foot644" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> O brasão de Agueda
-ostenta num lemnisco o mote Aeminium. Mas Coimbra tem hoje uma lapide, quo lhe
-dá irrecusavelmente o foro de <em>civitas aeminiensis</em>.</p>
-
-<p><a name="foot645" href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a> Um dos autores que se
-destacam por tentar a determinação de Talabriga e Langobriga (e ainda outras
-estações da via ab <em>Olisipone Bracaram Augustam</em>) por um processo exacto
-é o Sr. J. Henriques Pinheiro, fallecido professor do Lyceu de Bragança. Mas
-talvez em consequencia de trabalhar sobre uma carta (a de Folque) muito
-reduzida e de se servir da reducção de milhas a leguas, localiza Talabriga em
-<em>Aveiro</em> e Langobriga na <em>Feira</em>. Em todo o caso, não podendo
-conciliar as distancias relativas a Langobriga, conclue que ha erro nos Codices
-(<em>Estudo da Estrada Militar Romana de Braga a Astorga</em>, por J. Henriques
-Pinheiro, Porto, 1896, p. 129).</p>
-
-<p><a name="foot646" href="#tex2html3"><sup>[3]</sup></a> O Sr. A. Coelho diz
-que a fórma verdadeira é a de Estrabão, como o prova a moderna <em>Vouga</em> e
-<em>Vauga</em> dos documentos em baixo latim anteriores ao sec.
-<small>XII</small> (Mélanges Graux, 1882). Vid. <em>Religiões de
-Lusitania</em>, <small>II</small>, 28.</p>
-
-<p><a name="foot647" href="#tex2html4"><sup>[4]</sup></a> Nas <em>Noticias
-Archeologicas de Portugal</em>, de Hübner, trad. do Visconde de Juromenha, vem
-um extracto do Itinerario segundo a ed. de Parthey & Pinder (1848). Prefiro
-a lição <em>briga a brica</em> de Wesseling, ed. dos <em>Vetera romanorum
-Itineraria</em>, <small>MDCCXXXV</small>.</p>
-
-<p><a name="foot651" href="#tex2html5"><sup>[5]</sup></a> Não pude haver á mão
-as <em>Memorias</em> d'este mesmo senhor.</p>
-
-<p><a name="foot652" href="#tex2html6"><sup>[6]</sup></a> Como preciosidade
-estrangeira, desejo referir que o aliás eminente celtista D'Arbois de
-Jubainville, num estudo erudito sobre «Les Celtes en Espagne» (<em>Revue
-Celtique</em>, <small>XIV</small>, § 8) diz, de passagem, ser Talabriga a
-actual povoação de Sousa, conc. de Alenquer! Presumo que esta incongruencia é
-proveniente do que escreveu <em>C. Muller</em> em uma nota da <em>Cl. Ptolemaei
-Geographia</em> (<small>I</small>, 137) a respeito de Talabriga: <em>Oppidum
-haud longe a Vouga, fluvio circa, hod. Souza alicubi steterit. Accuratius locum
-definire non licet.</em> Como ha mais Marias na terra, d'ahi proveio a
-confusão. Veja-se Sousa a O. de Vagos.</p>
-
-<p><a name="foot653" href="#tex2html7"><sup>[7]</sup></a> Por partes temos:</p>
-
-<table cellpadding="3" border="0" align="center" summary="Itinerário de D'Arbois">
- <tbody>
- <tr>
- <td>De Gaia á Feira</td>
- <td style="text-align:right;">21:900 metros</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Da Feira a Oliveira de Azemeis</td>
- <td style="text-align:right;">10:900 metros</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>De Oliveira de Azemeis a Albergaria</td>
- <td style="text-align:right;">18:000 metros</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>De Albergaria ao rio Vouga</td>
- <td style="text-align:right;">6:800 metros</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Do rio Vouga a Agueda</td>
- <td style="text-align:right;">9:000 metros</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>De Agueda á Mealhada</td>
- <td style="text-align:right;">22:000 metros</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Da Mealhada a Coimbra</td>
- <td style="text-align:right;">16:500 metros</td>
- </tr>
- <tr>
- <td></td>
- <td style="text-align:right;">105:100 metros</td>
- </tr>
- </tbody>
-</table>
-
-<p><a name="foot654" href="#tex2html8"><sup>[8]</sup></a> Escreveu o autor do
-<em>Portugal Antigo e Moderno</em> que a via romana seguiria pouco mais ou
-menos o trajecto da linha ferrea. Assim era preciso, se Talabriga fosse Aveiro,
-quer no troço ao norte, quer no troço para sul, em attenção ás condições
-topographicas. Neste caso, porém, a distancia de Coimbra a Gaia seria
-necessariamente pelo menos a que hoje é por aquelle caminho; nada menos de 115
-kilometros, o que está bem longe dos 105 kilometros da via romana e da estrada
-real. Num diagramma da carta indico a differença das distancias entre Cale e
-Talabriga e Gaia e Aveiro pela via ferrea (45:800 metros e 59:000 metros).</p>
-
-<p><a name="foot151" href="#tex2html9"><sup>[9]</sup></a> No mappa com que
-documento este estudo, lancei só os elementos que me eram uteis. Tudo o mais
-ficou no original, a que até accresci alguma cousa a mais por assim convir á
-minha demonstração.</p>
-
-<p><a name="foot154" href="#tex2html10"><sup>[10]</sup></a> É força porém
-attentar na exigua differença que no caso presente existe entre a recta, que
-unisse os dois pontos extremos (Coimbra e Gaia), e o desenvolvimento da
-distancia effectiva pela estrada real, entre os mesmos pontos. Bem sei que
-differentes parcellas podem dar a mesma somma, mas difficultoso seria crer que,
-acertando o Itinerario na distancia total entre Aemiuium e Cale, delinquisse
-nas parcellas, que vem a ser as tres secções da via militar. Veja-se o
-diagramma.</p>
-
-<p><a name="foot156" href="#tex2html11"><sup>[11]</sup></a> Pela linha ferrea
-de Coimbra a Aveiro são 56 kilometros: pelo caminho romano de Coimbra a
-Talabriga eram 59 kilometros.</p>
-
-<p><a name="foot655" href="#tex2html12"><sup>[12]</sup></a> Nada mais possivel
-do que um erro de informação de Plinio. Mas poderia tambem haver aqui uma
-confusão entre a Talabriga do roteiro romano e a Vacua, de que parece existirem
-ruinas no Cabeço de Vouga (Cit. <em>Oppida restituta</em>, 1885). Mas o
-Itinerario omitte-a, o que é apenas argumento negativo. Ainda se poderia dar o
-caso de <em>Vacua</em> não ser <em>mansio</em> do caminho romano. Havia um
-codice de Plinio que nomeava Talabriga e <em>Vacca</em> e uma cosmographia
-antiga que refere <em>Vacca</em> (<em>sic</em>) e não Talabriga, que aliás
-deveria ter conhecido pelos AA.</p>
-
-<p>Jorge Cardoso, no <em>Agiologio</em>, <small>II</small>, 65, quer que Vacua
-tenha sido em Viseu. Peor!</p>
-
-<p><a name="foot656" href="#tex2html13"><sup>[13]</sup></a> Nos <em>Port. Mon.
-Hist.</em>, «Diplom. & Chart.», vem um documento (n.º 815 do anno de 1095)
-cujo teor nos não prende, mas onde se lê:.... <em>Ista igitur auctoritate
-confissus ingressus sum et ego densissimam silliam</em> (silvam) <em>que ab
-antiquis temporibus habitaculum erat bestiarum</em>.... Trata-se de arredores
-de Ilhavo.</p>
-
-<p><a name="foot171" href="#tex2html14"><sup>[14]</sup></a> Nos arredores de
-Aveiro ha pontos com as cotas de 15, 27, 46, 57, 48, 38, 23, 16, 24 e 10 que
-correspondem a relevos suaves. Todos estes pontos estão situados na margem
-esquerda do Vouga. Mas na hipothese de Talabriga, a estação do Itinerario, ser
-Aveiro ou proximidades, a estrada romana, chegada ahi, ver-se-hia forçada a
-atravessar o Vouga desde Eixo para baixo, em direcção ao Norte. E digam-me se
-todo esse trato de terreno, comprehendido entre a margem direita do Vouga,
-desde a ponte de S. João de Loure, como vertice meridional, e os sitios de
-Froços, Angeja, Formelã, Canellas e Salreu, não eram de fazer recuar o
-engenheiro romano que por ahi tentasse obter saida para o norte, em direcção a
-Cale, tendo outra incomparavelmente melhor?</p>
-
-<p><a name="foot657" href="#tex2html15"><sup>[15]</sup></a> Tenho sempre
-especial satisfação quando vejo que conceitos meus foram já formulados por
-escritores de outro cunho. Assim na <em>Revue des Études Anciennes</em> (1905,
-p. 389), Cam. Jullian, referindo-se a caminhos de epocas prehistoricas, diz:
-<em>Et il résulte bien.... que beaucoup des grandes lignes de circulation
-actuelle ne sont que les héritiers des pistes tracées il y a des milliers
-d'années.</em></p>
-
-<p><a name="foot658" href="#tex2html16"><sup>[16]</sup></a> Para os leitores
-habituaes do <em>Archeologo Português</em>, seria ociosa esta nota; para os que
-porventura o assunto do presente estudo desperte de-novo, é uma prevenção
-necessaria. Quando se falla em <em>castros</em> com supposta referencia á epoca
-romana, não se trata dos <em>castra</em>, acampamentos ou abarracamentos
-(Saglio & Daremberg) fortificados que as forças militares de Roma
-construiam em campanha: nunca vi ruinas de nenhum d'estes <em>castra</em>, nem
-me consta que as haja verificadas no pais. E comtudo os <em>castros</em>, ou
-<em>crastos</em> no fallar do povo, são abundantissimos entre nós... porque são
-cousas muito differentes. Estes <em>castros</em> são apenas uns montes com
-vestigios de habitação <em>ante-romana</em> e quasi sempre de obras de
-fortificação de terra ou de muralha. Assim os castros são outeiros, cabeços
-habitados e fortificados, não pelos romanos, mas contra os romanos, pelo menos,
-e pertencentes aos antigos habitadores do país. Os <em>castros</em> devem pois
-aos romanos, não o seu principio, mas a sua decadencia e o seu fim, porque foi
-a conquista e foi a civilização romana que os tornou desnecessarios naquelle
-tempo. Como se lhes dá então este epitheto que não vem senão causar confusões?
-O epitheto encontramo-lo na toponimia local; foi o povo que conservou até hoje
-esta designação que nós vamos encontrar com frequente emprego nos documentos da
-idade media. É que no singular <em>castrum</em> significou secundariamente um
-castello, uma fortaleza; cita Rich o capitulo <small>VI</small> da
-<em>Eneida</em>, onde se lê (<em>vv</em>. 771 a 776):</p>
-
-<p> </p>
-
-<blockquote>
- Qui juvenes quantas ostentant, aspice, vires! <br>
- At qui umbrata gerunt civili tempora quercu, <br>
- Hi tibi Nomentum, et Gabios, urbemque Fidenam, <br>
- Hi Collatinas imponent montibus arces, <br>
- 775 Pometios, Castrumque Inui, Bolamque, Coramque: <br>
- Haec tum nomina erunt, nunc sunt sine nomine terrae. </blockquote>
-
-<p>(<em>Oevres de Virgile</em>, par E. Benoist; vol. <small>I</small>,
-Hachette, 1882).</p>
-
-<p> </p>
-
-<p>(Trad.) <em>Contempla como são grandes as forças que aquelles mancebos
-ostentam! Pois d'entre os que trazem a fronte sombreada pelo carvalho civico,
-uns construir-te-hão Nomento, Gabios e a cidade de Fidena, outros assentarão em
-montanhas as fortalezas Collatinas, Pometios, o castello de Inuo, Bola e
-Cora</em> (antigas povoações do Lacio): <em>estes serão os nomes d'aquelles
-lugares, que estão agora na terra sem nome.</em></p>
-
-<p>Foi certamente d'esta accepção que derivou para o latim corrente, e em
-seguida para o fallar medieval das nossas populações, a denominação de
-<em>castro</em> ou <em>crasto</em>.</p>
-
-<p>Na <em>Revue des Études Anciennes</em> (<small>IV</small>, p. 43, 1902) vem
-uma serie de citações para demonstrar que no fim do Imperio pela palavra
-<em>castrum</em> se designavam frequentemente as cidades fortificadas; de entre
-todas extraio a seguinte de Isidoro (<em>Origines</em>, <small>XV</small>, 2,
-13): <em>Castrum antiqui dicebant oppidum loco altissimo situm</em>. Com
-referencia a sitios nossos, temos, bibliographicamente, o conhecido
-<em>Portumcale castrum</em>, de Idacio.</p>
-
-<p>Mas a par d'aquella, outras se formaram, como <em>castello</em>,
-<em>cristêlo</em>, <em>crastêlo</em> e <em>castrêlo</em>. <em>Castellum</em>
-(cfr. cit. <em>Rev. des Ét. Anc.</em>) na lingua latina, era um deminutivo de
-<em>castrum</em> e applicava-se tanto a um reducto transitorio, como a um forte
-permanente, quasi sempre situado em logar elevado (Saglio & Daremberg, s.
-v. <em>Castellum</em>). Depois, é explicavel que a linguagem popular
-prescindisse da origem não romana d'estes pontos estrategicos, e applicasse o
-termo a alguns castros, talvez aos mais deminutos. Aos mesmos montes se vêem
-tambem applicadas as designações de <em>cividade</em>, mais ou menos pura,
-<em>cidadêlhe</em>, <em>coroa</em> e outras ainda. Os autores antigos usam o
-termo <em>oppidum</em> applicado a alguns d'estes centros de população
-(<em>oppidum Aeminium</em>). E ainda se encontra junto ao nome originario da
-povoação, a modo de suffixo, o termo de origem celtica <em>briga</em>, que
-tambem quer dizer castello, altura fortificada (<em>Talabriga</em>).</p>
-
-<p>Os romanos, no nosso caso, traçando a via militar através d'estes montes
-habitados, não fariam mais do que seguir um caminho historico e uma directriz
-frequentada.</p>
-
-<p><a name="foot660" href="#tex2html17"><sup>[17]</sup></a> O parocho de
-Segadães (1758) informava que a antiga cidade de <em>Vaca</em> (<em>sic</em>)
-fôra assolada pelos <em>mouros</em>. Os Leitores conhecem estes
-<em>mouros</em>... (<em>Arch. Port.</em>, VII, 191).</p>
-
-<p><a name="foot661" href="#tex2html18"><sup>[18]</sup></a> Varios outros
-documentos d'esta região de Entre-Vouga-e-Douro compulsei eu nesta collecção,
-que se reportavam a <em>castros</em>, mas não pude localizar as referencias com
-a presteza que era necessaria. Até se me deparou a fórma rara <em>crésto</em>
-(<em>cresto ualanes</em>, doc. <small>DXLIX</small> do anno 1077), da qual
-conheço outra actual no concelho de Valdevêz.</p>
-
-<p><a name="foot662" href="#tex2html19"><sup>[19]</sup></a> Na fé de Nascimento
-Silveira (<em>Mappa breve da Lusitania</em>, p. 226), em Mancinhata, nos
-cruzeiros ha inscripções que ainda ninguem entendeu.</p>
-
-<p><a name="foot663" href="#tex2html20"><sup>[20]</sup></a> Nos <em>Port. Mon.
-Hist.</em>, «Dipl. et Chart.», n.º <small>CCCCLXXI</small>, vem um documento
-que diz: <em>Cesari... subtus monte castro calbo...</em> Cf. o n.º
-<small>CCCCLXX</small>. Não pude averiguar se é um <em>Monte Calvo</em> que
-vejo perto de Romariz. <em>Cesári</em> (gen. de <em>Cesarius</em>,
-<em>-ii</em>) deu Cesár, como <em>Severi</em> (<em>Port. Mon. Hist.</em>,
-«Dipl. et Ch.», <em>passim</em>, e <em>Arch. Port.</em>, <small>II</small>,
-252, art. do Sr. P. de Azevedo) deu Sever.</p>
-
-<p><a name="foot664" href="#tex2html21"><sup>[21]</sup></a> Virá de
-<em>Calambria</em>? pergunta A. Herculano (<em>Historia de Portugal</em>,
-<small>III</small>, 423). Cfr. <em>Arch. Port.</em>, art. do Sr. A. Cortesão,
-<small>IX</small>, 232. Teremos aqui alguma <em>Calambriga</em>? Um thesouro de
-16 argolas de ouro é de lá. (<em>Arch. Port.</em>, <small>II</small>, 87).</p>
-
-<p><a name="foot666" href="#tex2html22"><sup>[22]</sup></a> Eu não me occupo
-especialmente da <em>Langobriga</em> do Itinerario, mas é facil ver que
-identicos raciocinios lhe são applicaveis e em consequencia, a situação d'este
-segundo oppido deveria ser na faixa de terreno vagamente indicada pela curva
-<em>LL.</em> um pouco ao norte da Feira. No meu estudo da ara de Estorãos,
-assentei que esta não é a actual <em>Longroiva</em>, cuja fórma medieval era
-<em>Langobria</em>, (<em>Port. Mon. Hist.</em>, «Dipl. et Chart.»
-<small>CCCCXX</small>). Do que deponho a p. 141, parece que é a algum dos
-castros de <em>Obil</em> ou do <em>Monte do Murado</em> que deverá convir a
-localização de Langobriga. Este fica a 6:000 metros para leste da lagoa.</p>
-
-<p>Para <em>longo-</em> e <em>lango-</em> como para <em>brica</em> e
-<em>briga</em>, não encontram difficuldade os celtistas. (<em>Élém. celt. dans
-les noms de personnes des inscr. d'Esp.</em>, por A. Carnoy. Luvaina 1907).</p>
-
-<p><a name="foot352" href="#tex2html23"><sup>[23]</sup></a> A legitimidade do
-processo que segui, empregando o compasso e a escala para determinar a zona em
-que, segundo as indicações do roteiro romano, deve encontrar-se o jazigo de
-Talabriga, tem uma averiguação facil, apesar da estranheza que possa causar. Se
-eu, collocado em Eminio, quisesse determinar a situação de Cale, cujo
-anorteamento já conhecia previamente, e para isso adoptasse identico systema, o
-compasso levar-me-hia a uma zona de terreno, onde não me seria impossivel
-encontrar localizações compativeis com uma estação d'aquella natureza.</p>
-
-<p>Creio todavia que nem com todos os terrenos assim se póde proceder.</p>
-
-<p>Comprova tambem a plausibilidade do resultado a circunstancia de fazerem
-pequena differença a distancia em linha recta entre Coimbra e Gaia e a
-rectificação da estrada entre os mesmos pontos.</p>
-
-<p><a name="foot667" href="#tex2html24"><sup>[24]</sup></a> ... por ser tam
-grande como todos sabẽ, de <span
-style="position: relative; left: 0.5em; bottom: 0.5em; ">~</span>q á prouerbio
-no pouo. (<em>Ibid.</em> p. 50). Já não é só pois grande a legua da Povoa!</p>
-
-<p><a name="foot668" href="#tex2html25"><sup>[25]</sup></a> O escritor espanhol
-Eduardo Saavedra, num artigo intitulado «La geografia árabe de Portugal» in
-<em>Revista Archeologica e Historica</em>, <small>I</small>, 49, suppõe que o
-trajecto descrito por Edrisi vae de Coimbra a Viseu e Braga «por um caminho
-muito frequentado», fazendo o primeiro descanso em Avô, 45 kil. a NE. de
-Coimbra; o segundo em S. Miguel do Outeiro, 10 kil. a O. de Viseu no caminho de
-S. Pedro do Sul; depois chega-se ao Douro, que se passa em embarcações defronte
-de uma aldeia, que é Villaboa de Quires, a E. de Penafiel. D'aqui duas jornadas
-a Braga e outras duas a Tuy.</p>
-
-<p>Salvo o devido respeito, isto parece uma viagem... <em>à vol d'oiseau</em>!
-</p>
-
-<p><a name="foot669" href="#tex2html26"><sup>[26]</sup></a> Nos <em>Port. Mon.
-Hist.</em>, «Diplom. de Chart.», apparecem mais documentos em que se encontra
-esta mesma designação. Estes por exemplo:</p>
-
-<p>N.º 67 do anno 953:... <em>et inde per carraria mourisca...</em> (Isto era
-nas vizinhanças de Villa do Conde).</p>
-
-<p>N.º 614 do anno 1083:... <em>et inde per via maurisca:...</em> (territorio
-de Arouca).</p>
-
-<p>Póde não se tratar nestes dois documentos de vias militares romanas, como
-não se trata; mas nem por isso a designação deixa de ser inexacta no seu
-sentido proprio. Eram antigos caminhos, anteriores aos arabes. Aliás teriamos
-que admittir que os filhos do Islam andaram por terras de Villa do Conde e de
-Arouca a abrir estradas em fórma, por serem invios os territorios.</p>
-
-<p>Demonstra isto que os amanuenses do secs. <small>X</small> e
-<small>XI</small> já não sabiam estremar romanos (e visigodos) de serracenos.
-Era pois, como hoje, o fallar do povo.</p>
-
-<p>É tambem este o sentimento do Sr. Pedro de Azevedo (<em>Arch. Port.</em>,
-<small>III</small>, 137 sgs.). Este facto é bastante expressivo. Não passára um
-seculo ainda depois da expulsão dos arabes naquella região, e a interrupção de
-tradições locaes tinha sido tão intensa que a mera conjectura tomara o logar
-d'aquellas, attribuindo aos muçulmanos as obras de viação de que elles apenas
-tiveram a utilidade (Veja-se <em>Hist. de Portugal</em>, por A. Herculano,
-<small>III</small>, 421). Em França não se dava isto. Ruy de Pina na
-<em>Chronica do sr. rey D. Affonso V</em> (p. 569) diz: «E na cidade de Nimis
-leixou El-rey <em>a estrada romam</em>, que vay a Avinham».</p>
-
-<p><a name="foot684" href="#tex2html27"><sup>[27]</sup></a> Seria longo
-transcrever os trechos respectivos d'esses documentos; e nem sempre é possivel
-acertar a que especie de caminhos se referem as expressões usadas nos
-documentos. É commum o termo <em>strada</em>, <em>strata</em>; algumas vezes
-adjectivada <em>strata ueredaria</em> (Dipl. et Chart., n.º 174) em opposição a
-<em>alia carrale</em> (id.); <em>estrata de uereda</em> (id. n.º 13); <em>in
-estrada qui discurrit via de uereda</em> (id. n.º 24) ou <em>strata maiore</em>
-(id. n.<sup>os</sup> 563, 378 e 549). Tambem se encontra a expressão
-<em>carreira antiqua</em> (id. n.<sup>os</sup> 620 e 639), <em>karraria
-antiqua</em> (id. n.<sup>os</sup> 888), <em>carraria antiqua</em>
-(n.<sup>os</sup> 639 e 287), <em>carera antiqua</em> (id. n.<sup>os</sup> 366).
-<em>Via de strada</em> e <em>strada de uiminaria</em> lêem-se no doc. n.º 817
-(<em>ob. cit.</em>) Ainda hoje se póde dizer <em>caminho de estrada</em>.
-<em>Carreira</em> é termo agora quasi só locativo, mas ainda se ouve no norte
-applicado ás largas entradas de algumas casas antigas, precedidas de uma
-alameda plana; certamente <em>carreira</em> inclue a ideia de carro, como
-<em>carrale</em>. Outra denominação que encontrei foi a de <em>via publica</em>
-(<em>ob. cit.</em>, n.º 676), que parece corresponder a caminho publico.</p>
-
-<p><em>Karraria antiqua</em> era certamente uma estrada carreteira antiga já
-naquella epoca e portanto tradicional, mas d'aqui não se póde concluir que essa
-estrada fosse <em>via militar</em> romana. Assim o doc. n.º 570 do anno 1079
-refere-se á freguesia moderna de Paçô, no concelho do Valdevêz (<em>uilla
-Palatiolo</em>), onde nunca passou via militar e onde a <em>carreira
-antiqua</em> poderia bem attingir a epoca romana.</p>
-
-<p>Alguns d'estes documentos foram indicados pelo erudito conservador do
-Archivo Nacional e meu amigo o Sr. Pedro de Azevedo; outros rebusquei-os
-propositamente com o auxilio do valioso trabalho do Sr. Gama Barros, <em>A
-administração Publica em Portugal</em>, entre os que pertencem á região de
-Entre-Vouga-e-Douro.</p>
-
-<p><a name="foot675" href="#tex2html28"><sup>[28]</sup></a> No mesmo pensar
-encontro-me com o Sr. Alberto Sampaio na <em>Portugalia</em>,
-<small>II</small>, 216 (<em>As povoas maritimas do norte de Portugal</em>).
-Assim se exprime: «As unicas povoações, vizinhas do mar, existentes então (no
-tempo dos romanos), eram Calem e Portucale».</p>
-
-<p><a name="foot676" href="#tex2html29"><sup>[29]</sup></a> É o Sr. Conselheiro
-Luis de Magalhães, em <em>A arte e a natureza em Portugal</em>, vol.
-<small>IV</small>. A descrição da ria immensa de Aveiro, com as salinas
-espelhadas que a cobrem, com os seus cones alvissimos de sal, que marchetam a
-planicie sem fim, é um d'estes primores de prosa gracil e diaphana, que mais
-ninguem poderia escrever com igual coração e com pulso comparavel. Parece que a
-seducção d'esse panorama não me será mais intensa, quando com os olhos o vir,
-do que quando o adivinhei naquellas tão poupadas paginas.</p>
-
-<p><a name="foot677" href="#tex2html30"><sup>[30]</sup></a> A grandíssima
-maioria das povoações d'estas epocas era nos altos; ahi tem sido encontrados os
-seus vestigios. Para a alguma se attribuir situação aberta como a de Aveiro,
-necessario seria documentar a excepção.</p>
-
-<p>Não repugna absolutamente admitti-la no nosso caso, mas é hypothese pura. E
-depois, lá temos o distinctivo <em>briga</em>. O nome da cidade comsigo traz a
-natureza do seu assento. No Algarve, <em>Ossonoba</em> e <em>Balsa</em>, não
-demoravam em outeiros. (Vide <em>Religiões da Lusitana</em> <small>II</small>,
-85).</p>
-
-<p><a name="foot678" href="#tex2html31"><sup>[31]</sup></a>
-<em>Portugalia</em>, <small>II</small>, 220, «As póvoas marítimas do norte de
-Portugal», pelo Sr. Alberto Sampaio.</p>
-
-<p><a name="foot679" href="#tex2html32"><sup>[32]</sup></a> Explicação
-geologica d'estes phenomenos: «C'est après avoir traversé les marécages du
-Vouga, que l'on entre dans les terrains anciens; ce sont d'abord des schistes
-luisants, généralement cachés par des dêpots superficiels: sables des dunes,
-graviers pliocènes et graviers kaoliniques appartenant au Crétacique. Ces
-derniers ne montent pas plus haut qu'Estarreja et le Pliocène est rarement
-visible depuis la voie ferrée. Parfois ce soubassement de roches solides
-n'existe pas, ou du moins ne se trouve qu'à une certaine profondeur au-dessous
-du niveau de la mer; dans ce cas, la côte subit des alternances d'accroissement
-et de décroissement qui peuvent être funestes à l'homme trop empressé de
-s'approprier le terrain que les sables ont gagné sur la mer; tel est le cas à
-Espinho». <em>Promenade au Gerez (Souvenirs d'un géologue)</em>, por Paul
-Choffat, 1895, p. 1.</p>
-
-<p><a name="foot680" href="#tex2html33"><sup>[33]</sup></a> Poderia aqui
-investigar-se das alterações da costa que possam ter modificado o aspecto do
-surgidouro do Vouga. Um apello, publicado no <em>Arch. Port.</em>,
-<small>II</small>, 301, teve em resposta o silencio. Não tratando dos factos de
-periodos geologicos ou indeterminados (<em>Arch. Port.</em>,
-<small>VII</small>, 274 e <small>X</small>, 193) pouco é o que se tem recolhido
-e ás vezes antagonico. Açoreamentos em epocas historicas foram notados na Povoa
-de Varzim, Villa do Conde, Fão, Esposende, Vianna, em Setubal, no Algarve
-(<em>Portugalia</em>, <small>I</small> e <small>II</small>. <em>passim</em>), e
-eu mostro que na faixa de Esmoriz a Mira elles se deram tambem em epoca que não
-posso precisar. Num mappa que illustra o <em>Hisp. & Port.,
-Itinerarium</em> de Martin Zeiler (1656) Aveiro é situada ao norte do Vouga. E
-não é o unico mesmo de datas mais recentes.</p>
-
-<p><a name="foot681" href="#tex2html34"><sup>[34]</sup></a> Ha um documento do
-sec. <small>XI</small> que faz uma referencia aproveitavel debaixo d'este
-aspecto: é o n.º <small>DCCCXV</small> do anno 1095 (doação á sé de Coimbra da
-igreja de S. Christovam, junto a Ilhavo)... <em>Ista igitur auctoritate
-confissus ingressus sum et ego densissimam silliamm</em> (silvam) <em>que ab
-antiquis temporibus habitaculum erat bestiarum...</em></p>
-
-<p><a name="foot682" href="#tex2html35"><sup>[35]</sup></a> Entre as cartas
-antigas que folheei, desejo destacar uma do sec. <small>XVII</small>, assinada
-por N. Sanson. <em>christ. Gall. regis geografo</em> (<em>Hispaniae antiquae
-tabulae</em>, 1641). O mappa de Portugal antigo individúa, na região que andei
-estudando, <em>Conimbrica</em> em Condeixa, <em>Aeminium</em> na margem norte
-do Mondego; <em>Talabriga</em> ao N. do Vouga, um pouco afastada do estuario, a
-20 ou 25 <em>milliaria</em> da foz do Vouga (isto é, na altura onde eu localizo
-esta povoação); e, seguindo no mesmo rumo, <em>Langobriga</em>. É na
-Bibliotheca Nacional, um grosso volume <em>in-folio</em>, recentemente
-encadernado com o dístico—Mappas—e sem frontispicio.</p>
-
-<p><a name="foot606" href="#tex2html36"><sup>[36]</sup></a> Esta lenda porém
-reproduz-se em mais localidades, fóra d'esta região.</p>
-
-<p><a name="foot683" href="#tex2html37"><sup>[37]</sup></a> ... <em>pecuniis
-publicis, cum reliquo publico apparatu, ademtis</em>. Isto dá bem a entender
-que havia uma perfeita organização politica, e n'ella se estribava a
-organização de uma defesa militar contra a invasão romana.</p>
-</div>
-</div>
-
-<p> </p>
-
-<p style="text-align: center;"><a href="images/mapa.jpg"><img src="images/mapa.jpg" width="80%" border="0" alt="Carta da região de Entre-Mondego-e-Douro"></a></p>
-
-<p> </p>
-
-<p> </p>
-
-<p> </p>
-
-<h2>DO AUTOR</h2>
-
-<h3 style="text-align:center;">ESTUDOS DO ALTO-MINHO (SERIE 1.ª)</h3>
-
-<h4>Publicados</h4>
-
-<p>I—<strong>Epigraphia christiano-latina</strong> (uma inscripção
-inedita).</p>
-
-<p>II—<strong>Um passeio archeologico no concelho dos Arcos de
-Valdevez</strong> (visita ás antas da serra do Soajo).</p>
-
-<p>III—<strong>Machados de duplo anel</strong>.</p>
-
-<p>IV—<strong>Ainda a inscripção christã de S. Pedro de
-Arcos</strong>.</p>
-
-<p>V—<strong>Uma primicia de epigraphia funeraria romana</strong>.</p>
-
-<p>VI—<strong>O portico da matriz de Monção</strong>.</p>
-
-<p>VII—<strong>Um castro com muralhas</strong>.</p>
-
-<p>VIII—<strong>Um erro de amanuense nas inquirições de D. Affonso
-III</strong> (C. Sancti Salvatoris Darcus).</p>
-
-<p>IX—<strong>Um Grovio autentico</strong> (cippo de Villa-Mou).</p>
-
-<p>X—<strong>Ara celtiberica da epoca romana</strong> (um novo
-«Genio»).</p>
-
-<h3>PAGINAS ARCHEOLOGICAS (SERIE 2.ª)</h3>
-
-<h4>Publicadas</h4>
-
-<p>I—<strong>Estatueta ithyphallica</strong>.</p>
-
-<p>II—<strong>Cemiterio da epoca romana em Vianna do
-Alemtejo</strong>.</p>
-
-<p>III—<strong>Situação conjectural de Talabriga</strong>.</p>
-
-<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30071 ***</div>
-</body>
-</html>
+<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN"> +<html lang="pt"> +<head> + <title>Páginas Arqueológicas III - Situação conjectural de Talabriga, por + Félix Alves Pereira</title> + <meta name="Author" content="Félix Alves Pereira"> + <meta name="Publisher" content="Imprensa Nacional"> + <meta name="Date" content="1907"> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=UTF-8"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1em;} + h1, h2, h3, h4 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + blockquote {margin-left: 10%; font-size: small;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + </style> +</head> + +<body> +<div>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30071 ***</div> + +<p> </p> + +<div style="border: solid 2px #000; padding: 1em; text-align: center;"> +<p style="font-size: 1.2em;">FELIX ALVES PEREIRA</p> + +<p style="font-size: 1.6em; border: solid 1px silver; padding: 1em;">PAGINAS +ARCHEOLOGICAS</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">III</p> + +<p style="font-size: 1.4em;">SITUAÇÃO CONJECTURAL DE TALABRIGA</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>LISBOA<br> +<small>IMPRENSA NACIONAL</small><br> +1907</p> +</div> + +<div style="padding: 1em; text-align: center;"> +<p><span class="pn">{1}</span></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.4em;">SITUAÇÃO CONJECTURAL DE TALABRIGA</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p><small>Obra composta e impressa na Imprensa Nacional</small></p> + +<p><small>Edição e propriedade do Museu Ethnologico Português</small></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p><span class="pn">{2}<br> +{3}</span></p> + +<p style="font-size: 1.2em;">FELIX ALVES PEREIRA</p> + +<p style="font-size: 1.6em; border: solid 1px silver; padding: 1em;">PAGINAS +ARCHEOLOGICAS</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">III</p> + +<p style="font-size: 1.4em;">SITUAÇÃO CONJECTURAL DE TALABRIGA</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>LISBOA<br> +<small>IMPRENSA NACIONAL</small><br> +1907</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p><span class="pn">{4}<br> +{5}</span></p> + +<p style="font-size: 1.4em;">Ao</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.2em;">Illustrissimo e Excellentissimo Senhor +Conselheiro</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.4em;"><em>Luis Cypriano Coelho de Magalhães</em></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.4em;"><em>O. e D.</em></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.2em; text-align: right;"><em>O autor.</em></p> + +<p><span class="pn">{6}<br> +{7}</span></p> +</div> + +<p>Separata d'«O Archeologo Português», XII, n.<sup>os</sup> 5 a 8 de 1907</p> + +<p> </p> + +<div id="corpo"> +<h1><a name="SECTION0010000">SITUAÇÃO CONJECTURAL DE TALABRIGA</a></h1> + +<p> </p> + +<h4><a name="SECTION0010001">Summario</a></h4> + +<p><a href="#SECTION0011000">1. Estado da questão.</a>—<a +href="#SECTION0012000">2. Autores antigos</a>—<a +href="#SECTION0013000">3. Itinerario</a>—<a href="#SECTION0014000">4. +Exame do mappa</a>—<a href="#SECTION0015000">5. Topographia e onomastico +da região</a>—<a href="#SECTION0016000">6. Os castros do trajecto da +Via</a>—<a href="#SECTION0017000">7. Região mineira</a>—<a +href="#SECTION0018000">8. Localização de Talabriga</a>—<a +href="#SECTION0019000">9. Opinião de Gaspar Barreiros</a>—<a +href="#SECTION00110000">10. Geographia arabica</a>—<a +href="#SECTION00111000">11. <em>Strata maurisca</em></a>—<a +href="#SECTION00112000">12. Ria de Aveiro e o Vouga</a>—<a +href="#SECTION00113000">13. Historia de Talabriga.</a></p> + +<h2><a name="SECTION0011000">I</a></h2> + +<p>Algum tanto sem o presentir, ao fazer o estudo da ara de Estorãos, +(<em>Arch. Port.</em>, <small>XII</small>, 36) encontrei-me no limiar de um +problema que, de modo definitivo, não se resolverá senão com a verificação +<em>in loco</em> de vestigios archeologicos incontrastaveis.</p> + +<p>É o problema da trajectoria exacta da via romana entre Aeminium e Calem, da +qual não se conhecem milliarios decisivos e sufficientes, especialmente da sua +passagem por Talabriga.</p> + +<p>O assunto, parcialmente considerado, tem sido alvo das principaes +referencias na pugna litteraria em que os paladinos de Agueda, de Aveiro e de +Coimbra patrioticamente articulavam preeminencias genealogicas, que é da praxe +mencionarem-se em monographias locaes, mas que hoje, quanto a Coimbra (e +Condeixa-a-Velha) estão sentenciadas, em prejuizo até heraldico de Agueda<a +name="tex2html1" href="#foot644"><sup>[1]</sup></a>.<span +class="pn">{8}</span></p> + +<p>Propositadamente, porém, o problema não foi ainda estudado debaixo do seu +aspecto geral; apenas por incidente tem sido versada a localização de +Talabriga. Não venho com o proposito de o dar como resolvido, é certo; mas +desejo englobar neste estudo um certo numero de considerações, que podem +preparar o desenlace d'este ponto controvertido da geographia protohistorica da +Lusitania, no campo adequado, e quiçá orientar pesquisas.</p> + +<p>Onde foi Talabriga? Até hoje nenhum d'estes indices peremptorios que marcam +inilludivelmente a situação das antigas cidades, como para <em>Conimbriga</em> +(Condeixa-a-Velha), <em>Aeminium</em> (Coimbra), <em>Bracara Augusta</em> +(Braga), <em>Olisippo</em> (Lisboa), <em>Pax Julia</em> (Beja), etc., se nos +antolha para dar resposta nitida áquella pergunta.</p> + +<p>Guiados pelas indicações geographicas do Itinerario e de Plinio, os nossos +escritores teem querido alternadamente que Aveiro, Cacia, Esgueira occupem hoje +o logar que outrora se chamou <em>Talabriga</em>. De facto, o Itinerario, ao +contar as milhas que de <em>Aeminium</em> vão a <em>Calem</em> (Gaia ou Porto?) +pela via militar, devia ter especial valor para este problema; mas a +comprehensão da necessidade de verificar rigorosamente as indicações d'aquelle +documento, a consulta de edições criticas, tomando-se por base a decisão do +problema de Aeminium, e talvez o desaffecto de uma ou outra solução é que teem, +no meu humilde entender, faltado a todos os autores que mais modernamente do +assunto se teem abeirado<a name="tex2html2" +href="#foot645"><sup>[2]</sup></a>.</p> + +<h2><a name="SECTION0012000">II</a></h2> + +<p>A geographia classica não é de todo omissa a respeito d'esta antiga +povoação. O testimunho de Plinio, que é o A. mais expresso, vem a ser o +seguinte: <em>A Durio Lusitania incipit. Turduli veteres, Paesuri, flumen +Vagia</em><a name="tex2html3" href="#foot646"><sup>[3]</sup></a><em>, Oppidum +Talabrica, Oppidum et flumen Aeminium, Oppida Coniumbrica,<span +class="pn">{9}</span> Collippo, Eburobritium.</em> (C. Plinii Secundi, <em>Nat. +Hist.</em>, ed. de Detlefsen, <small>IIII</small>, 113). Isto tem o ar de uma +sêca enumeração chorographica, que se desdoba do norte para o sul, a contar do +Douro, e que, restringida ao nosso caso, nos dá esta sequencia:</p> + +<p><em>a</em>) rio Vouga;</p> + +<p><em>b</em>) cidade de Talabrica;</p> + +<p><em>c</em>) cidade e rio de Aeminio (Coimbra);</p> + +<p><em>d</em>) e as cidades de Conimbrica (Condeixa),</p> + +<p><em>e</em>) Collippo (Leiria) e</p> + +<p><em>f</em>) Eburobricio (Obidos, Vejam-se <em>Relig. da Lusit.</em>, +<small>II</small>, 31).</p> + +<p>Se não fôr certo, como não me parece, que Vouga é ao norte de Talabriga e +este oppido ao sul do mesmo rio, pelo menos conclue-se que Talabriga vizinha de +um lado ou outro aquelle estuario.</p> + +<p>Não trago nenhum outro autor antigo, porque elles não adeantam o problema +chorographico. Na <em>Cosmografia</em> de Ravennate (ed. de Pinder & +Parthey, p. 307) <em>Talabrica</em> apparece transformada em Terebrica e fica +na seguinte localização relativa: +<em>Olisipona—Terebrica—Langobrica—Cenoopido—Calo</em>...</p> + +<h2><a name="SECTION0013000">III</a></h2> + +<p>Vamos pois ao <em>Itinerario</em><a name="tex2html4" +href="#foot647"><sup>[4]</sup></a> e á discussão das suas indicações. +Encontra-se nelle, que nos sirva:</p> + +<table align="center" cellpadding="3" border="0" summary="Indicações do itinerário"> + <tbody> + <tr> + <td align="left">Eminio</td> + <td align="left">mp. <small>X</small></td> + <td align="left"> </td> + </tr> + <tr> + <td align="left">Talabriga</td> + <td align="left">mp. <small>XL</small></td> + <td align="left">(= 59:240 metros)</td> + </tr> + <tr> + <td align="left">Langobriga</td> + <td align="left">mp. <small>XVIII</small></td> + <td align="left">(= 26:658 » )</td> + </tr> + <tr> + <td align="left">Calem</td> + <td align="left">mp. <small>XIII</small></td> + <td align="left">(= 19:253 » )</td> + </tr> + <tr> + <td align="left"> </td> + <td align="left"> </td> + <td align="left"> 105:151 »</td> + </tr> + </tbody> +</table> + +<p>A equivalencia que sigo é a de 1 milha = 1:481 metros (Saglio & +Daremberg, s. v. <em>Milliarium</em>).</p> + +<p>A trajectoria d'esta via desde Coimbra (Aeminium) a Gaia (Calem) deixaria de +ser ponto controverso se, como succede noutras estradas romanas, alguns +milliarios sobreviventes escalonassem os seus vestigios.<span +class="pn">{10}</span></p> + +<p>Não ha porém, neste particular, mais que isto:</p> + +<p>1.º Um fragmento de milliario com 2<sup>m</sup>,04 de alto X +1<sup>m</sup>,40 de circuito, que appareceu na Mealhada ao norte de Coimbra e +só tem <small>M.XII</small>.</p> + +<p>2.º Outro que foi encontrado mesmo em Coimbra e aponta +<small>M.IIII</small>.</p> + +<p>Nem aquelle nem muito menos este servem ao meu intento; o traçado litigioso +no nosso caso é para norte da Mealhada e Anadia, e não entre Mealhada e +Coimbra. (Vid. Borges de Figueiredo, <em>Oppida restituta</em>, p. 82; Hübner, +<em>Notas archeologicas sobre Portugal</em>, p. 67, trad. cit.: <em>Catalogo +dos objectos existentes no Museu de Archeologia do Instituto de Coimbra</em>, +p. 6; A. Filipe Simões, <em>Escritos diversos</em>, 1883).</p> + +<p>3.º Um pretenso milliario descrito por Fr. Bernardo de Brito na +<em>Monarchia Lusitana</em>, II, <small>V</small>, p. 3. Este vicio de origem +obriga-me a pôr ainda de parte este monumento como comprobativo da directriz; +Hübner fulmina-o com a sua desconfiança (<em>Corpus</em>, <small>II</small>, 55 +a *) dizendo que Brito queria demonstrar com elle a existencia de +<em>Vacua</em>. Não lhe darei porém eu maior valor que o proprio monge, que, +como por prevenção, confessa que as letras da pedra eram «mal distinctas e muy +quebradas». Assim a sua interpretação deve desinteressar-nos, visto que não ha +meio de contraprovar a leitura de Fr. Bernardo de Brito, duvidosa para elle +proprio. Para este, a lapide era porém um padrão de estrada, o que pouco vale +por entretanto para nós; mas provinha do Castello de S. Gião, ao que parece, +<em>castro</em> rico em ruinas de muros, etc. Isto, cuja importancia só +modernamente se aprecia, é que não se inventa e dá visos de que com effeito +alguma cousa lá pudera ter apparecido. Mas Brito, com o dizer que a lapide era +padrão de estrada, contrariava sem o advertir a propria crença de que a via +romana seguia pela beiramar e <em>Talabriga</em> era em Aveiro. (<em>Mon. +Lusit.</em>, id., p. 130).</p> + +<p>Não obstante, ponha-se de parte a exactidão da epigraphe do supposto, mas +rehabilitavel, milliario do castro de S. Gião, e fique, provisoriamente, apenas +um facto—o achado de um padrão de via romana num castro das margens do +Caima. </p> + +<p>A opinião de que Aveiro fôra o assento da antiga estação do Itinerario tinha +ainda por si, alem do mappa de Abr.<sup>ão</sup> Ortelius (<em>Theatrum orbis +terrarum</em>, Antuerpia, CIC.IC.CIII) o pensar de Florez (<em>España +Sagrada</em>, tomo <small>XIV</small>, p. 73), que lêra Plinio e uma edição +antiga do Itinerario romano. E póde dizer-se que foi essa a corrente que +dominou até hoje, se com Aveiro abrangermos o aro circunjacente. (Vejam-se +Adolfo Loureiro. <em>Os portos maritimos de Portugal</em>, <small>II</small>, +p. 3; Marques Gomes, <em>Districto de Aveiro</em>, onde restringe<a +name="tex2html5" href="#foot651"><sup>[5]</sup></a> a Cacia o <em>ubi</em> de +Talabriga;<span class="pn">{11}</span> Borges de Figueiredo, <em>Oppida +restituta</em>, 1885; Pinho Leal, <em>Portugal Antigo e Moderno</em>, s. v. +<em>Aveiro</em>; Gaspar Barreiros, <em>Chorographia de alguns lugares</em>; D. +Nunes de Leão, <em>Descripção do reino de Portugal</em>; Francisco do +Nascimento Silveira, <em>Mappa breve da Lusitania antiga</em>, etc.)<a +name="tex2html6" href="#foot652"><sup>[6]</sup></a>.</p> + +<p>Regressemos porém ao <em>Itinerario</em>, e vejamos se será possivel +concluir algo que um dia a pesquisa e exploração persistente do archeologo +possa contraprovar. É o meu sonho.</p> + +<p>Que a medição total do <em>Itinerario</em> relativa á via <em>ab Aeminio +Calem</em> está notavelmente exacta, demonstra-o esta verificação facil: a +somma das milhas que se contaram de Eminio a Gaia, reduzida a kilometros, +(unidade mais pratica e mais exacta que a de leguas, até agora adoptada) era de +105:151 metros, como vimos; a distancia computada actualmente na Carta do +Estado Maior d'esta região pela directriz da <em>estrada real</em> é de 105:100 +metros<a name="tex2html7" href="#foot653"><sup>[7]</sup></a>. Não podendo ser +mais breve a distancia d'esta estrada, como se verifica olhando os traçados +rectificados ao lado do mappa junto, em que a distancia em linha recta e a +rectificação exacta da extensão effectiva da estrada fazem pequena differença, +o que mostra que os desniveis ou as inflexões do traçado são assaz reduzidos, +conclue-se que a via romana, desde que marca igual extensão kilometrica, não +poderia seguir caminho mais longo que ella, nem portanto muito distanciado +d'ella.</p> + +<p>Esta coincidencia de medições é suggestiva e não permittiria, só por si, que +a trajectoria da via romana e da actual estrada real divergissem<span +class="pn">{12}</span> muito. Se esta desenhasse uma inflexão pronunciada no +seu trajecto de Coimbra a Gaia, claro é que era possivel, sem exceder a mesma +extensão, encontrar outra curva symetrica que tocasse em pontos intermedios +diversos e afastados, e coincidisse apenas nos respectivos extremos, o que nada +util me seria; mas nas circunstancias que se dão e já salientei, e que me +permittiram estudar sobre uma carta este problema, a coincidencia effectiva das +duas vias de communicação deve em grande parte quasi corresponder á +coincidencia theorica, agora expendida.</p> + +<p>Isto oppõe-se a que a via romana passasse em Aveiro, ponto muito afastado e +divergente do trajecto theorico<a name="tex2html8" +href="#foot654"><sup>[8]</sup></a>.</p> + +<h2><a name="SECTION0014000">IV</a></h2> + +<p>Vou porém demonstrar por partes como isto assim deve ser. É preciso partir +do principio já demonstrado, embora para o total da distancia, que as medições +do Itinerario não contém erro. Qualquer inexactidão nas milhas marcadas para +cada uma das secções da via militar alteraria a somma, desde que, por um acaso +unico, não fosse compensada por outra inexactidão.</p> + +<p>Ora a via romana de Eminio contém tres troços ou secções; o 1.º de Eminio a +Talabriga; o 2.º de Talabriga a Langobriga; o 3.º de Langobriga a Cale. Se uma +sequer das distancias correspondentes do Itinerario contivesse erro, a somma +total accusá-lo-hia; mas nós já vimos que a distancia de 105 kilometros +corresponde a uma realidade. Comecemos pelo extremo norte da via. Isto conduz +mais claramente ao meu fim; e descobre mais prontamente o erro em que até agora +me parece que tem laborado os escritores. Tomemos o mappa<a name="tex2html9" +href="#foot151"><sup>[9]</sup></a>.</p> + +<p>Se traçarmos um arco de circulo, cujo centro seja Gaia e o raio igual á +distancia de Cale a Langobriga, isto é, a 19 kilometros (veja-se<span +class="pn">{13}</span> a escala), teremos obtido uma curva theorica (LL no +mappa) que no terreno representa uma faixa de tolerancia, mais ou menos larga, +dentro da qual e numa zona d'ella que seja compativel com um trajecto +ininterrupto da via, cuja extensão já definida se não póde exceder, o +archeologo deverá procurar os vestigios de Lancobriga.</p> + +<p>Esta zona, ou este segmento, não poderá pois, em principio, afastar-se +consideravelmente da directriz da estrada real.</p> + +<p>Consultemos de novo o Itinerario. Entre Langobriga e Talabriga medeiam +26:600 metros. Ignorando ainda qual o ponto preciso que na curva <em>LL</em> +marca o primeiro d'aquelles oppidos, deveremos traçar um arco de circulo +parallelo ao antecedente e á distancia que a escala indica. Como o terreno não +é propriamente uma carta celeste<a name="tex2html10" +href="#foot154"><sup>[10]</sup></a> em que os pontos podem ser rigorosamente +indicados, a nova curva deixada pelo compasso é representativa de uma segunda +faixa de tolerancia, susceptivel de maior ou menor elasticidade, mas confinada, +quanto á sua extensão, pela continuidade do trajecto viario em direcção a +Aeminium, trajecto cujo comprimento tem limite determinado de milhas.</p> + +<p>E assim temos o arco <em>TT</em>.</p> + +<p>Nesta curva, que não é mais que uma zona media, deverão surgir ao appellido +do archeologo as ruinas do que outrora foi Talabriga. Esta conclusão emerge +logicamente das bases que tomei: o acerto evidente do Itinerario no total e +muito provavel nas secções; a coincidencia das extensões da via antiga e da +estrada moderna.</p> + +<p>Se agora, por contraprova, apontarmos o compasso a Eminio e girarmos com um +raio de 59 kilometros, verificado segundo a escala, obteremos outra curva, a +terceira, tangente á segunda e que tem a missão de indicar a zona util, o +segmento dos arcos, correspondente á area provavel da situação de Talabriga. +Porque o que não póde haver, é um hiato, uma interrupção de trajecto de Cale a +Aeminium<a name="tex2html11" href="#foot156"><sup>[11]</sup></a>.</p> + +<p>Esta primeira phase da minha demonstração, porém, já torna incompativel a +actual situação de Aveiro com vestigios de Talabriga. E mais do que isto; vem +levantar um equivoco de Plinio, que parece<span class="pn">{14}</span> suppôr +aquelle oppido ao sul do Vouga; se assim fosse, não seria possivel encontrar o +ponto de reunião do caminho que descia de Cale a encontrar Lancobriga aos 19 +kilometros e se prolongava na direcção do sul até mais 20 kilometros, onde +devia beijar a Talabriga do Itinerario sem encontrar a de Plinio<a +name="tex2html12" href="#foot655"><sup>[12]</sup></a>. O hiato resultante fica, +parece-me, fechado e annullado, desviando Talabriga de Aveiro e aproximando-a +de Albergaria, ao norte do Vouga; isto é, a hipothese que proponho é a que se +concilia em todos os pontos com o Itinerario.</p> + +<h2><a name="SECTION0015000">V</a></h2> + +<p>Mas não se concilia só com esta fonte documental: é a mais plausivel em face +das condições topographicas e historicas da região de Entre-Vouga-e-Douro.</p> + +<p>A actual directriz da estrada real é a que mais ou menos devia ter seguido a +via romana que procurasse unir Eminio a Cale, dado o traçado que ella já trazia +desde Lisboa.</p> + +<p>Em primeiro logar: as condições topographicas d'aquelle grande delta do +Vouga não eram senão de molde para difficultar a abertura de uma estrada na +epoca romana, em concorrencia com traçado mais firme e duradouro, mais +economico, mais util e mais commercial. Aquellas planuras deviam existir já +então, como um presente do Vouga, segundo se tem dito, creio, do Nilo.</p> + +<p>Se eram naquelle tempo pantanos, ou bosques intransitaveis<a +name="tex2html13" href="#foot656"><sup>[13]</sup></a> ou veigas retalhadas, +como hoje, por um dedalo de canaes e esteiros, não me cabe a mim defini-lo. De +qualquer d'estas fórmas, uma via romana não iria atravessar uma região em que a +falta de pedra é quasi absoluta, e a multiplicidade de trabalhos de +architectura civil ou de obras<span class="pn">{15}</span> de arte uma +consequencia inevitavel. Era preciso combater por um lado a pouca firmeza do +terreno, por outro contar com o custo da empresa<a name="tex2html14" +href="#foot171"><sup>[14]</sup></a>, ou os impecilhos da viagem.</p> + +<p>Por isso os mesmos motivos que na idade media afastaram a construcção, ou +melhor, a conservação de uma estrada velha para longe da costa, obrigando-a a +passar nas pontes que ainda existem, devem ter sido os mesmos que desviaram os +engenheiros romanos de lançarem a via militar através de campinas encharcadas, +só para irem buscar a embocadura do Vouga, antes de attingir Calem.</p> + +<p>Depois preciso é notar que havia outra directriz ao alcance da administração +do Imperio, directriz que não podia admittir confrontos com a traçada através +do delta do Vouga. Essa directriz levava a estrada romana pela orla fóra do +terreno firme e accidentado e da região povoada de castros e abundosa de +minerios, região que ainda hoje podemos ver acompanha-la pelo trajecto da +estrada real. As vias de communicação teem muitas vezes uma directriz fatal e +tradicional através de longos tempos e povoadores successivos<a +name="tex2html15" href="#foot657"><sup>[15]</sup></a>.</p> + +<p>Póde soffrer destruição o caminho, sem estancar a arteria de communicação. +</p> + +<p>A actual estrada real ou de macadam foi ainda, por assim dizer, decalcada +pela anterior, a medieval, cujos restos subsistem nas pontes antigas de que os +chorographos fallam. Esta orientou-se pela comprehensão das conveniencias, e +afastou-se da embocadura do Vouga, seguindo a directriz mais economica e mais +util; não direi ainda a directriz romana porque é o que pretendo demonstrar, +mas a que era directriz tradicional, como vou explicar.<span +class="pn">{16}</span></p> + +<h2><a name="SECTION0016000">VI</a></h2> + +<p>Os castros ou montes habitados encontram-se precisamente no seguimento da +via romana; os oppidos referidos pelos AA. antigos, as <em>brigae</em>, e as +cidades romanizadas não são mais que uma evolução d'aquellas estancias, +consoante as denominações que lhes applicaram<a name="tex2html16" +href="#foot658"><sup>[16]</sup></a>; era por essa corda alem, que o terreno +baixo e plano da zona maritima começava de elevar-se. A estrada romana +desenrolava-se por entre esses centros da habitação, abandonando ao lado um +país chato, pouco firme e talvez quasi invio.</p> + +<p>Do sul para o norte <em>Anadia</em> está situada nas abas de um monte de +<em>Crasto</em> (Pinho Leal e M. Gomes).</p> + +<p><em>Agueda</em> está tambem perto de um <em>Crasto</em> (Pinho Leal).<span +class="pn">{17}</span></p> + +<p>Nas margens do Vouga, naquelle logar onde subsiste ainda a ponte medieval +(Pinho Leal), encontra-se na aldeia de <em>Vouga</em> um morro que foi castro +(Brito e P.<sup>e</sup> Carvalho, <small>II</small>, 161); explica Francisco do +Nascimento Silveira (<em>Mappa breve da Lusitania</em>, p. 239) que +<em>Vacca</em> existia em sitio forte por natureza, entre as pontes de Vouga e +Marnel, porque alli se vêem vestigios de muros antigos e sinaes de uma +majestosa grandeza; existem ainda tijolos, cantarias, muralhas em <em>Lamas de +Vouga</em> (<em>Arch. Port.</em>, <small>V</small>, 50 e <small>VII</small>, 191)<a +name="tex2html17" href="#foot660"><sup>[17]</sup></a>, e havia ahi a +<em>civitas Marnele</em> (<em>Port. Mon. Hist.</em>, «Diplom. de Chart.», n.º +819)<a name="tex2html18" href="#foot661"><sup>[18]</sup></a>, cuja origem deve +ter sido outro castro.<span class="pn">{18}</span></p> + +<p>Na carta geodesica vê-se, junto ao rio, um <em>Castello</em> (111). Isto é +ainda do concelho de Agueda<a name="tex2html19" +href="#foot662"><sup>[19]</sup></a>.</p> + +<p>Na freguesia de Serem, tambem concelho de Agueda, outra <em>civitas</em> +(Viterbo, s. v. <em>Cidade</em>); ha lá sitios elevados a norte e a sul (Cfr. +M. Gomes).</p> + +<p>Na freguesia da <em>Branca</em> ha um logar de <em>Cristellos</em> (M. Gomes +e <em>Arch. Port.</em>, <small>II</small>, 313).</p> + +<p>Na serra de S. Julião, mesma freguesia, <em>onde passa a estrada real</em>, +diz o Sr. M. Gomes que ha ruinas de muralhas e fossos: acreditava-se (<em>Arch. +Port.</em>, loc. cit.) que ahi era a antiga <em>Langobria</em> (sic). Não sei +se é precisamente o mesmo local a que Brito (<em>Mon. Lusit.</em>, II, +<small>V</small>, p. 3) chama castello de <em>S. Gião</em>, onde havia ruinas +de muros e elle encontrou o tal padrão suspeito e onde presume +<em>Lancobriga</em>, não na Feira, diz, mas entre Albergaria e Bemposta, +defronte de Pinheiro. Significativa confusão! Aquelle logar de +<em>Cristello</em> vem na carta geodesica entre Estarreja e a estrada real<a +name="tex2html20" href="#foot663"><sup>[20]</sup></a>.</p> + +<p>Na freguesia de Ul ha outro castro (<em>aldeia do crasto</em>), de que porém +não conheço o <em>ubi</em>. Tem uma cintura de muralha de pedra solta ou cousa +que o valha. (Pinho Leal, s. v. <em>Ul</em>).</p> + +<p>Nas proximidades de Azemeis parece que não são escassos estes monumentos +(<em>Quatro Dias na Serra da Estrella</em>, por E. Navarro, Porto 1884, p. +174).</p> + +<p>Em <em>Ossella</em> ha um castro com ruinas de muralhas (Brito, <em>loc. +cit.</em>).</p> + +<p>Entre <em>S. Martinho</em> e <em>S. Tiago</em> vê-se na carta geodesica um +<em>crasto</em>, a O. da estrada real; isto é no parallelo de Ovar. Será +aquelle a que Pinho Leal chama Castro Troncal ou Francal (s. v. <em>C. de +Cucujães</em>)?</p> + +<p>No <em>Arch. Port.</em>, <small>VI</small>, 68, diz-se que ha em Oliveira de +Azemeis um logar de <em>Lações</em>, onde foi a antiga Lancobriga +(<em>sic</em>), porque ahi se ajustam as medidas do Itinerario e não na Feira +ou Bemposta. Este sitio é elevado e estrategico; a sua cota é de 287 metros e +fica na fronte de um promontorio fechado por duas ribeiras e no extremo de uma +chapada em cujo prolongamento se conta ainda a altitude de 274 metros. É, pelo +que se vê, um <em>castro</em>. <em>Lancobriga</em> e que não.<span +class="pn">{19}</span></p> + +<p>Em <em>Macieira de Cambra</em> ha um castro (<em>Arch. Port.</em>, +<small>VII</small>, 54)<a name="tex2html21" +href="#foot664"><sup>[21]</sup></a>.</p> + +<p>Em <em>Romariz</em> informa o Sr. M. Gomes que ha um <em>Crasto</em>, onde +appareceram antiqualhas da epoca romana; o que é presumivel e prova ter +recebido a influencia dos seus conquistadores.</p> + +<p>Os antigos chorographos portugueses não teem dado valor aos cabeços +elevados, onde se encontram os vestigios do que póde ter sido um castro, uma +citania, emfim uma estacão archeologica pre-romana, e isso não admira; mas o +facto é esse e constitue uma deficiencia na descrição dos logares, que +actualmente seria imperdoavel, e que, num caso como o que estou versando, +sonega lamentavelmente elementos aproveitaveis de estudo.</p> + +<p>Junto ao mar, e bastante para o norte, em Esmoriz, encontro menção de um +castro, especializado hoje pelo erudito estudo que d'elle fez documentalmente o +meu erudito amigo Sr. Pedro de Azevedo (<em>Arch. Port.</em>, +<small>III</small>, 137). Era o castro de <em>Aville</em>, <em>Ouvil</em>, +<em>Ubile</em> e <em>Obil</em>, denominações que se applicavam á lagoa que +ainda existe, e que elle dominava. Crê o distincto publicista que aquelle +castro é o mesmo outeiro a que o parocho depoente de 1758 chamou <em>Monte do +Murado</em>, pertencente á freguesia de S. Martinho de Mozellos. Fico porém em +duvida, pois que estando o castro <em>prope litore maris</em> (Docs. de 1055, +1076) bem como a lagoa (Docs. de 1057 e 1090), Mozellos parece um pouco +afastado para o interior. Confessando que, sem a inspecção dos logares, a base +é instavel, em todo o caso affiguram-se-me aqui dois castros distinctos.</p> + +<p>Em S.<sup>ta</sup> Maria de <em>Fiães</em> apparece outro castro ou +«povoação de Mouros» (<em>Arch. Port.</em>, <small>IV</small>, 250).</p> + +<p>E d'ahi para o norte, são frequentes na faixa atravessada pelo caminho +romano. Será algum d'estes castros o jazigo de Langobriga?</p> + +<p>Este inventario, tendo origem, como tem, exclusivamente bibliographica, não +póde deixar de ser omisso. A averiguação local e a informação competente +accrescentá-lo-hiam, se eu d'estes dois factores me tivesse soccorrido. Para o +meu intento, o pouco que joeirei, era colheita bastante.</p> + +<h2><a name="SECTION0017000">VII</a></h2> + +<p>Alem d'estas averiguadas condições de habitabilidade que se encontravam no +trajecto da via romana e que, em meu entender, conjugadas com as da elevação e +relevos de terreno, que para as populações<span class="pn">{20}</span> +ante-historicas constituiam uma necessidade vital, concorreria tambem, não sem +ligação com ellas, a existencia de jazigos metalliferos.</p> + +<p>Nem todas as minas que enumero seriam conhecidas na antiguidade, mas em +algumas ha vestigios da remota laboração e o que tudo attesta é que a região +era mineira e portanto centripeta de populações.</p> + +<p>Os locaes explorados são Telhadella, Albergaria, Palhal, Milheirós, +Cucujães, Nogueira, Ossella, Palmás, Carvalhal, Pindello, Silva Escura, Ul, +Talhadas, Braçal, Coval da Mó, Malhada.</p> + +<p>Os minerios são cobre, tão procurado na antiguidade, chumbo, prata, etc.</p> + +<p>D'estes jazigos, aquelle em que são mais importantes os vestigios de antiga +lavra, é o da Malhada, uma das concessões das chamadas Minas do Braçal. As +madeiras de entivação, que foram encontradas dentro da mina, denotam tal +antiguidade que parecem fossilizadas, em consequencia da côr negra que +adquiriram. Os trabalhos antigos attingem a profundidade de 45 metros +(<em>Catalogo Descriptivo da Secção de Minas</em>, pelos Srs. Severiano +Monteiro e J. Augusto Barata, p. 188).</p> + +<p>A respeito dos outros, a noticia de antiga exploração é muito vaga para que +me seja licito insistir. Nas minas de Palhal tambem ha vestigios antigos. (Cfr. +Marques Gomes, <em>Districto de Aveiro</em>).</p> + +<h2><a name="SECTION0018000">VIII</a></h2> + +<p>Que se póde concluir das considerações que até aqui tenho encadeado?</p> + +<p>Por um lado, o estudo do Itinerario levou-me a aventurar na carta +geographica, largamente circunscritas, as zonas em que o calculo faz presumir +que se devem encontrar as ruinas de Talabriga; por outro lado, a inquirição +topographica e onomastica da região, tanto quanto era possivel com a escassez +de elementos, indicou-me alguns logares de archaicas estações archeologicas do +genero da que deve ter sido Talabriga, como castro ou oppido submettido ao +poder de Roma.</p> + +<p>Quero lembrar que <em>briga</em> só póde corresponder a uma posição elevada, +a um outeiro ou cabeço fortificado; por onde Talabriga nunca pudera ser Aveiro +ou arredores (Vid. <em>Arch. Port.</em>, <small>XII</small>, 42).</p> + +<p>Relançando novamente o olhar ao mappa, poder-se-há notar que a zona +attribuivel á situação de Talabriga<a name="tex2html22" +href="#foot666"><sup>[22]</sup></a> não está erma de castros,<span +class="pn">{21}</span> antes nella se dão varias circunstancias que não posso +deixar de aproveitar para a minha these conjectural.</p> + +<p><em>Branca</em> é uma freguesia cuja séde fica na margem direita de Caima e +que é cortada pela estrada real; ha nella um logar de <em>Cristellos</em>, que +só pelo toponimo demonstra a existencia de um castro ou oppido. Mas alem +d'este, infere-se do Sr. Marques Gomes, de Fr. Bernardo de Brito (<em>loc. +cit.</em>) e d-<em>O Arch. Port.</em> (<small>II</small>, 313, «Mem. +Parochiaes») que ha um local sito na serra de S. Julião, atravessado pela +estrada real e que Brito mais claramente chama <em>castello</em> de S. Gião +(<em>castello</em> por <em>castro</em>), no qual, segundo aquelles tres +testimunhos, ha ruinas de muralhas e fossos, que o Sr. M. Gomes presume serem +ruinas de uma <em>atalaia</em> e que o parocho das <em>Memorias</em> tambem +capitula de vestigios romanos, acrescentando muito singularmente (note-se bem o +que isto póde significar) que ahi esteve... <em>Langobria</em> (<em>sic</em>). +Foi aqui que Brito diz ter encontrado a tal pedra de <em>letras mal +distinctas</em> de que não affiança a leitura, mas que lhe pareceu <em>padrão +de estrada</em>.</p> + +<p>E aqui tem cabimento o que já atrás deixo dito, para absolver de fraude +consciente a noticia archivada em Fr. Bernardo de Brito.</p> + +<p>Parece-me pois ser neste aro, se não neste mesmo ponto, que se deverá +procurar o jazigo, não de Langobriga, mas da nossa Talabriga, e é precisamente +a estas immediações que o compasso me levou ao medir sobre a carta a primeira +secção da via romana de Coimbra a Gaia<a name="tex2html23" +href="#foot352"><sup>[23]</sup></a>.<span class="pn">{22}</span></p> + +<p>Não desconheço quanto de problematico isto tem antes de serem perguntados +pelo archeologo os logares, as ruinas, os vestigios e os montes e as vozes da +região, mas nem por isso o meu espirito deixa de ficar demonstrado, até o +possivel, que as cinzas de Talabriga nunca podem estar guardadas em Aveiro. As +coincidencias que acabo de notar, não são bases frivolas.</p> + +<p>Só pois a inspecção directa do terreno, nas immediações da Branca, poderá +concorrer para confirmar ou destruir a minha conjectura.</p> + +<p>D'esta região para o norte, a via romana seguiria até Cale, mais ou menos +proxima do actual leito da estrada real; só alguns vestigios ou referencias de +documentos, como os de Grijó, e a inquirição dos logares e tradições poderão +concorrer para precisar a trajectoria d'aquella antiga via de communicação; o +caso em si, porém, é indifferente para a questão primacial que motivou este +estudo. O que é certo, é que a estrada romana sulcava a faixa comprehendida +entre a estrada real e a linha ferrea até o vertice de Gaia.</p> + +<p>Ao sul de Branca e Albergaria, a directriz da via militar sente-se +escalonada nos vestigios medievaes que deixei explanados nas paginas +anteriores. <em>Albergaria</em> denota bem que o sitio era de assiduo e antigo +transito (Viterbo, <em>Elucidario de palavras</em>, etc. s. v. +<em>Albergaria</em>) ponto necessario de passagem para quem do sul buscava o +norte do país. As <em>mansiones</em> tinham o caracter de pousadas.</p> + +<p>Em tempos de lazer para obras de piedade, é que a instituição caritativa se +fundou, como implemento de uma necessidade que já existia.</p> + +<p>As pontes de Vouga e Marnel são indicios bem importantes da frequencia das +viagens através d'esta parte da região, afastada da costa baixa e paludosa. São +decerto obras da idade media, dos <em>mouros</em>, diz Pinho Leal (s. v. +<em>Marnel</em> e <em>Vouga</em>). Mas os indicios pre-romanos e romanos +soletram-se nessas ruinas de muralhas, pedras lavradas, vestigios de edifícios +e toponymia, que os cabeços de Vouga e Marnel nos conservam, segundo descrevem +Brito, Pinho Leal e os parochos do sec. <small>XVIII</small> nos extractos +publicados pelo <em>Archeologo Português</em>.</p> + +<h2><a name="SECTION0019000">IX</a></h2> + +<p>O sentimento de Gaspar Barreiros (<em>Chorographia de alguns logares</em>, +<small>MDLXI</small>, p. 48 sgs.) era que a situação de Talabriga devia ser a +actual Cacia, especialmente na igreja de S. Julião, onde apparecem vestigios +antigos. Varios autores o seguem.</p> + +<p>As razões d'este illustre escritor do sec. <small>XVI</small> merecem alguma +discussão.<span class="pn">{23}</span></p> + +<p>Barreiros funda-se no Itinerario e conta, no sentido d'este roteiro, as +milhas de Conimbriga para o norte. E por confirmação d'este argumento, traz o +passo de Plinio que eu já transportei a este estudo, mas com uma differença que +elle tomou de um archetypo Toletano (p. 51), declarando porém que alguns +exemplares de Plinio não são accordes com aquelle. A lição citada é pois esta: +<em>A Durio Lusitania incipit, Turduli veteres, Pesuri, flummen Vacca, oppidum +Vacca, oppidum Talabrica, oppidum et flumen Minium</em>, etc. Esta variante +demonstra a existencia de uma cidade <em>Vouga</em>, que G. Barreiros colloca +na Ponte de Vouga (p. 50 <em>v</em>). Algumas cartas antigas reflectem esta +indicação. Isto posto, G. Barreiros leva a contagem de Conimbriga para +Talabriga por espaço de 50 milhas, o que é exacto, espaço que elle computa +equivalente a 12,5 leguas e enumera:</p> + +<table align="center" border="0" cellpadding="3" summary="Calculo de G. Barreiros"> + <tbody> + <tr> + <td>De Condeixa a Coimbra</td> + <td>2,5 leguas</td> + </tr> + <tr> + <td>De Coimbra á Mealhada</td> + <td>3,5 »</td> + </tr> + <tr> + <td>Da Mealhada a Avellãs</td> + <td>2 »</td> + </tr> + <tr> + <td>De Avellãs a Agueda</td> + <td>2 »</td> + </tr> + <tr> + <td>De Agueda á Ponte de Vouga</td> + <td>1,5<a name="tex2html24" href="#foot667"><sup>[24]</sup></a> »</td> + </tr> + <tr> + <td>De Ponte de Vouga a Cacia</td> + <td>1 »</td> + </tr> + <tr> + <td> </td> + <td>12,5</td> + </tr> + </tbody> +</table> + +<p>«Na qual villa & igreja de sanct. Juliã nas ribeiras do Vouga situadas, +se acham vestigios antigos, s. os fundamẽtos de h#7869;a torre que na +memoria dos homẽs inda staua quasi inteira, onde era outro tipo segundo +ficou fama de h#7869;s em outros chegauam nauios da foz do mar, porque inda ali +se acharam pedaços d'elles & anchoras iuncto da dicta torre em h#7869;a +lagoa Afora muitos vestigios & ruinas d'argamassa que dentro em seu ambito +cõprehende h#7869;a milha pouco mais ou menos» (p. 50).</p> + +<p>A não ser que tenhamos de recorrer a uma mudança da primitiva situação, nós +temos de procurar em Talabriga a cidade preromana, que no sec. +<small>II</small> a. C. Decimo Junio Bruto reduzia á miseria e á impotencia, +segundo narra Appiano. E esse oppidum teria que possuir condições estrategicas +identicas ás dos outros castros preromanos, taes como elles nos acenam que +foram escolhidos pelas populações proto-historicas;<span class="pn">{24}</span> +teria que justificar o proprio designativo de caracter celtico +<em>briga</em>—altura fortificada.</p> + +<p>Creio poder affirmar que nada d'isto se encontra em Cacia. Alem d'isto o +proprio G. Barreiros, no dizer que, entre os vestigios antigos, sobresaía uma +torre, que ainda andava lembrada, e se topavam «ruinas de argamassa», quasi +estabelece uma chronologia, porque taes vestigios não podem ser anteriores aos +romanos; poderão attribuir-se menos á sua epoca que ás posteriores. Para a +contemporaneidade, teriamos que admittir e demonstrar uma deslocação do +primitivo assento de oppidum, como vimos; se esses vestigios se affectam ás +epocas successoras dos romanos, o facto sae para fóra do problema e d'elle me +não posso occupar.</p> + +<p>O principal estorvo, porém, que a opinião de Barreiros encontra, é aquelle +que eu quis descobrir e evitar, quando ajustei a medição do itinerario a contar +de Cale para o Sul e não de Aeminium para o Norte. Evitei assim o erro de cair +em Aveiro, em Esgueira e agora em Cacia, onde muito bem podia ir passar com o +roteiro romano nas mãos.</p> + +<p>Isto illumina-se á luz da carta. Barreiros vem seguindo, com os ouvidos na +tradição do seu tempo, o leito do caminho romano (dito mourisco) pela Mealhada, +Agueda, até á ponte de Vouga, e até aqui bem elle vem; chegado porém a esta +altura, desnorteia-se e inflecte para Oeste para fazer a primeira estação de +Itinerario em Cacia, imaginando-se em Talabriga. Kilometricamente, creio não +haver que lhe objectar. A distancia da ponte de Vouga a Cacia é proximamente +igual á que entre o mesmo ponto se nota e a linha-zona <em>TT</em>, que eu +determinei. Portanto não falseava o illustre chorographo quinhentista a tabella +do Itinerario, isto é, as 50 milhas desde Condeixa (Conimbriga).</p> + +<p>Mas a precaução de começar a contagem de Cale para Talabriga, obsta ou +impede aquella inflexão e obriga a trazer o caminho numa directriz mais +desempenada para a ponte de Vouga. Volvendo os olhos á curva <em>TT</em> do +mappa, ver-se-ha que Cacia lhe fica a distancia grande porque, com este desvio +da trajectoria normal, a medição romana perdeu espaço, atrasando-se.</p> + +<p>Se não fosse este meio de verificar o erro, era possivel a desorientação. +</p> + +<p>Creio, pois, ter demonstrado pela ethnographia e pela geometria topographica +que Talabriga não póde ser collocada em Cacia, quer se olhe á Talabriga +preromana ou protohistorica, quer á romana ou historica; á Talabriga de Appiano +e D. J. Bruto ou á da epoca imperial e do Itinerario.<span +class="pn">{25}</span></p> + +<h2><a name="SECTION00110000">X</a></h2> + +<p>Como, segundo se infere de Appiano (vid. adeante), o oppidum de Talabriga +continuou a ser habitado depois da sua rendição no sec. <small>IV</small> a. C. +e emfim ainda existia no sec. <small>IV</small> d. C., poderia succeder que elle +conseguisse resistir á vinda dos barbaros, e chegar ao dominio dos arabes. +Convinha pois consultar a geographia arabica, e o nome de Edrisi, geographo do +sec. <small>XII</small>, impunha-se-me logo.</p> + +<p>O que das suas differentes traducções se conclue, não é nada claro para mim +que ignoro o arabe, mas poderá auxiliar o estudo da questão por parte dos +arabistas.</p> + +<p>Ha uma edição de 1619 (Paris) com o titulo de <em>Geographia Nubiensis</em>, +que quero pôr em confronto com a traducção de Amédée Jaubert (<em>Géographie +d'Edrisi</em>, Paris 1840).</p> + +<p>Edrisi descreve dois caminhos de Coimbra a Santiago de Compostella: um por +terra, outro por mar.</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: center;"><strong>Caminho por terra</strong></p> + +<div style="width: 50%; padding: 0.5em; float: left;"> +<p style="text-align: center;"><em>Ed de 1619</em> (trad. lat)</p> + +<p>«Iter autem terrestre a <em>Colimria</em> ad <em>S. Jacobum</em> est +hujusmodi: a <em>Colimbria</em> ad oppidum <em>Aba</em> stationis habetur +intervallum. Ab <em>Aba</em> ad oppidum <em>Vatira</em> statio. Ab hoc ad +primos terminos regionum Portugalliae, statio, pergit que iter secans terram +Portugalliae spatio diei, ibique conspicitur oppidum <em>Bonacar</em> ad ripam +fluminis <em>Durii</em>, quod est flumen Samorae, atque illic trajiciendum +cymbis ad hoc paratis. Ab oppido ad amnem Minio, indeque ad castellum Abraca LX +M. P. duae videlicet stationes. A castello <em>Abraca</em> ad castellum +<em>Tui</em> stationes duae».</p> + +<p style="text-align: center;">——</p> + +<p>O editor de 1619 diz que não ha medida certa para as <em>stationes</em>, +expressão que se referia a pousada dos viandantes. As <em>stationes</em> justas +eram de 25 milhas, mas algumas tinham mais, outras menos. Parece que seria o +espaço que se poderia percorrer em um dia.</p> +</div> + +<div style="padding: 0.5em;"> +<p style="text-align: center;"><em>Ed. de 1840</em> (trad. fr.)</p> + +<p>«O itinerario por terra de Colomria (Coimbra) a S. Tiago é como segue: de +<em>Coimbra</em> a <em>Abah</em> (Ribadavia) (!) aldeia, uma jornada. De +<em>Abah</em> a <em>Uetaria</em> (Huctaria) (?) aldeia, uma jornada. D'ahi á +fronteira de Portugal, uma jornada. O caminho vae através das terras de +Portugal durante uma jornada, ao fim da qual se chega a <em>Buna-Car</em>, +aldeiasinha nas margens do <em>Douro</em>, que é o rio de Zamora. Passa-se o +rio em barcos proprios para isto. D'este logar ao rio <em>Minho</em> ou antes +ao forte <em>Abraça</em> (insua de Caminha) (?) 60 milhas ou duas jornadas. +Depois <em>Tuia</em> (Tuy) cidade pouco notavel, mas bella e numa região +fertil, duas jornadas» (<small>II</small>, p. 232)</p> + +<p style="text-align: center;">——</p> + +<p>No texto francês, ao vocabulo <em>statio</em> corresponde <em>journée</em>, +que eu traduzi por <em>jornada</em> (de um dia).</p> +</div> + +<p>Temos aqui duas traducções do texto arabe, uma em frente da outra, e a +verdade é que sufficientemente se correspondem. O principal para<span +class="pn">{26}</span> o meu fim seria a localização das estações de Edrisi; +neste ponto o traductor francês apenas conserva intemeratamente as tradições +dos estrangeiros quando, fallando ou escrevendo, debicam na nossa geographia. +</p> + +<p>Nem ao diabo lembra que a Coimbra se siga... <em>Ribadavia</em>!</p> + +<p>A primeira estação ao deixar Coimbra é <em>Aba</em> (ed. 1619) ou +<em>Abah</em> (ed. 1840). Poderá corresponder a <em>Agueda</em>? Jaubert +desejaria falar em <em>Riba-d'Agueda</em>! É provavel.</p> + +<p>A segunda estação foi interpretada por <em>Vatira</em> (ed. 1610) e +<em>Uetaria</em> (ed. 1840). Não sei identificar esta localidade, assim +desfigurada.</p> + +<p>Em seguida a isto, se na versão latina parece haver uma incongruencia, ella +desapparece na traducção francesa. Através das terras de Portugal, chega-se com +um dia de viagem ás margens do Douro. Isto parece ser bem o tradicional caminho +que entesta na foz do Douro.</p> + +<p>Não diz o geographo arabe em que ponto da margem do Douro ficava +<em>Bona</em> ou <em>Buna-car</em>, expressão que não sei reconhecer, mas +parece-me que deve ser a embocadura d'este rio, e é a seguinte a razão. Diz +Edrisi que de <em>Bona-car</em> ao rio Minho são 60 milhas; ora, numa pagina +anterior (p. 227) elle conta da foz do Douro á do Minho as mesmas 60 milhas. +Portanto creio que <em>Buna-car</em> era aproximadamente em Gaia, onde depois o +rio se atravessava em barcos<a name="tex2html25" +href="#foot668"><sup>[25]</sup></a>.</p> + +<p>Descrevendo o mesmo <em>caminho por mar</em>, isto é, a viagem de Coimbra a +Santiago, o primeiro ponto onde diz que se abica, é a foz de +<em>nahr-Budhu</em> (rio <em>Vadeo</em>, traduz A. Jaubert!) que corresponde ao +Vouga, rio, acrescenta, consideravel, onde entram embarcações grandes e +pequenas (<small>II</small>, 227). Esta aclaração parece indicar que naquelle +tempo a foz do Vouga e o lago interno serviam a uma navegação bastante activa. +Quanto ao relacionamento da antiga Talabriga com alguma das estações do caminho +medieval descrito por Edrisi, nenhuma conclusão posso tirar com segurança.</p> + +<p>Com muita probalidade porém se infere d'isto que o caminho frequentado então +devia ser o que hoje corresponde á estrada real com a passagem nas pontes +medievaes de Vouga, mas emquanto não se fixarem<span class="pn">{27}</span> +estes dois ponto; duvidosos, localização muito verosimil de <em>Aba</em> ou +<em>Abah</em> em Agueda e incerta de <em>Vatira</em> ou <em>Ueturia</em>, o +testemunho do geographo arabe apenas serve seguramente para localizar as testas +d'este caminho, estabelecer com grande plausibilidade a tradição do caminho +historico pela orla das montanhas e revelar-nos o movimento commercial da foz +do Vouga.</p> + +<h2><a name="SECTION00111000">XI</a></h2> + +<p>Tratando-se pesquisa dos vestigios da via romana <em>ab Aeminio ad +Calem</em>, o testemunho de Viterbo (<em>Elucidario</em>, s. v. <em>Estrada +mourisca</em>) devia ser ponderado. Diz este illustre antiquario que, nos +documentos de Grijó, se fazia larga menção de propriedades que ficavam umas da +parte de cima, outras da parte de baixo da estrada mourisca. No anno de 1148, +Trutesindo doa ao celebre mosteiro o que possuia em Brantães e em S. Felix +<em>subter illam Stratam Mauriscam, discurrente riuulo Cerzedo</em>.</p> + +<p>Acrescenta o sabio antiquario que a estrada era mourisca por ter sido aberta +pelos Mouros, que abandonaram a romana que vinha ali a passar entre Lancobriga +e o mar, pois que com o rodar dos annos a costa se entupira e alteara por causa +das areias e os rios estagnados não só esterilizaram os campos, mas fecharam a +passagem dos caminhos. E mais depõe Viterbo que a estrada mourisca ia do Porto +a Agueda por Azemeis, Albergaria, Vouga, etc.</p> + +<p>Antes de mais: notemos esta opinião corrente, esta tradição, tão concordante +com o que eu já procurei accentuar, de que a tal estrada <em>mourisca</em> +descia do Porto a Agueda precisamente por Azemeis, por Albergaria e por Vouga. +</p> + +<p>Que Viterbo lhe chamasse <em>mourisca</em> não é de espantar; era a voz +popular que ainda hoje nos falla de Mouros sempre que tem de referir-se a povos +muito antigos, preromanos, romanos, barbaros, etc<a name="tex2html26" +href="#foot669"><sup>[26]</sup></a>.</p> + +<p>Mas o documento de 1148 já tratava de mourisca uma obra que<span +class="pn">{28}</span> não podia ser dos Sarracenos, a esse tempo ainda no sul +de Portugal. Creio não se poder sustentar que a estrada que passava em Cerzedo +era construida por arabes; aproveitada sim, porque sendo o caminho que elles +ainda encontravam á sua disposição, devia ser aquelle que inundavam do terror +das suas algaras.</p> + +<p>Em que elementos se estribava Viterbo para dizer ainda que a mesma estrada +mourisca tocava em Oliveira de Azemeis, Albergaria, Vouga e Agueda? Confesso +que não os conheço, a não ser que a memoria e o uso d'este caminho tradicional +se perpetuassem através de tantos seculos e tão profundas transformações +sociaes.</p> + +<p>Informa Pinho Leal que na freguesia da Trofa (concelho de Agueda) ha ainda o +logar de <em>Mourisca</em>, á margem da estrada, e que o nome lhe veio d'esta. +Traduzindo <em>mourisco</em> em <em>romano</em>, póde ser acertada a +supposição. Isto transcreveu-o elle de Viterbo, s. v. <em>Estrada</em>.</p> + +<p>Mais expressivo é o tópico de um sitio, perto de Lamas e junto da estrada +real; chama-se elle <em>Fundo da rua</em>. Tal rua não é outra senão a via +romana. Esta explicação affere pela que dá o <em>Corpus</em> +(<small>II</small>. p. 363) com referencia a uma freguesia de Santo Estevam da +Rua, onde passava uma estrada romana (<em>oppido quod a via romana nomen +duxit</em>). A 3:500 para O. da Feira ha um sitio chamado <em>Rua Nova</em>. +Aqui é que só a inspecção dos logares poderia indicar-me o significado d'este +tópico.</p> + +<p>Num escritor estrangeiro do sec. <small>XVIII</small>, lê-se uma descrição +litteraria do caminho através do campo de Aveiro, que só se entende se o +suppusermos encostado ás montanhas de leste, permittindo que se descortine para +a banda do mar toda aquella immensidade de terras feracissimas que aquelle +autor olhava como planicie encantadora (<em>Annales de l'Espagne et du +Portugal</em>, Alvares de Colmenar, Amsterdam 1741, p. 253).</p> + +<p>Isto demonstra que a estrada real de hoje é um caminho velho e +tradicionalmente batido para ligar Coimbra ao Porto.<span +class="pn">{29}</span></p> + +<p>Nos <em>Port. Mon. Hist.</em> não se encontram referencias mais claras do +que esta de Viterbo e as que adduzi em nota, á antiga via romana. Compulsei +bastantes documentos d'aquella publicação e nella encontrei variadas +referencias a caminhos, mas em termos d'onde não se podia concluir cousa alguma +que indicasse o conhecimento da existencia de uma estrada da epoca romana, +considerada como tal<a name="tex2html27" href="#foot684"><sup>[27]</sup></a>. +</p> + +<h2><a name="SECTION00112000">XII</a></h2> + +<p>Um esclarecimento dá Viterbo que é exacto e tem importancia para a historia +d'esta região tributaria dos esteiros vacuenses.</p> + +<p>Retiro-me ao «entupimento» da costa que com o rodar dos annos se foi +alteando e ao «estagnamento» dos rios que esterilizava os campos e fechava os +caminhos. Esta acção do mar na costa de Aveiro tem sido um problema technico e +administrativo extremamente complicado para os governos portugueses, não só +pelas condições commerciaes de Aveiro, mas pelo estado sanitario de toda esta +região. O coração d'este problema é a barra do Vouga.</p> + +<p>É difficultoso dizer o estado d'esta embocadura nos tempos que interessam ao +presente estudo. Tenho lido que, na epoca romana, entravam<span +class="pn">{30}</span> a foz do Vacua embarcações de grande arqueamento (<em>Os +portos maritimos de Portugal</em>, pelo Sr. Adolfo Loureiro, <small>II</small>, +3). Não sei que fundamentos póde ter esta asserção, que em todo o caso é +relativa á tonelagem dos antigos navios.</p> + +<p>Os geographos antigos que se referem a este rio lusitanico, não dizem cousa +d'onde se possa inferir a sua capacidade para grandes embarcações, como aliás +se tem escrito.</p> + +<p>O mais explicito é Estrabão (<em>Geographia</em>, liv. III, +<small>III</small>), que vertido a latim, diz: <em>Deinceps post Tagum +nobilissima flumina sunt Muliadas, parvas habens navigationes. Itidem Vacua +fluvius, post quos Durius longo fluens cursu</em>, etc. O geographo grego +iguala o Mondego (<em>Muliadas</em>) rio de navegação diminuta, ao Vouga, da +mesma fórma (<em>itidem</em>) estuario de diminuta navegação. E tanto mais é +esta a natural hermeneutica, que o contraste é frisante com a importancia do +Douro, <em>longo fluens cursu</em>. Estrabão escreveu no sec. <small>I</small> +a. e d. de C.; como póde affirmar-se que no tempo dos romanos entravam o Vouga +embarcações de longo curso e a sua foz era um porto de grande commercio e muita +prosperidade?</p> + +<p>Ora isto vem ao intento de eu pretender que no surgidouro do Vouga não havia +nos primeiros seculos, pelo menos da epoca romana, povoação de vulto que +determinasse uma passagem forçada na via militar e um desvio da natural +directriz <em>ab Aeminio Calem</em>. E para um porto de tamanho trafego, era +pouco um simples <em>vicus</em>.</p> + +<p>Temos pois a affirmação estraboniana<a name="tex2html28" +href="#foot675"><sup>[28]</sup></a>. E antes?</p> + +<p>Menos ainda. Diz-se que em algumas minas da região metallifera de +Entre-Vouga-e-Caima tem apparecido vestigios de antigas laborações. Apesar da +falta de precisão chronologica nesta noticia, póde presumir-se o facto até para +a epoca preromana. E neste caso, a via fluvial seria a mais pronta saida do +mineiro para o commercio externo.</p> + +<p>Mas um óbice encontro agora. Seria consequente que este trafico determinasse +a formação de um povoado á beira-mar ou na enseada interior. A essa gente +faltaria, porém, uma cousa, que se lhes tornára tão indispensavel, como o pão +para a boca: era a segurança pessoal, era o ninho de aguia. Com as planuras não +se queriam elles. A não ser que deroguemos os conhecimentos adquiridos no que +até agora se tem encontrado.<span class="pn">{31}</span></p> + +<p>Alem disto, que motivos ha para tirar effeíto tambem retroactivo á noticia +de Estrabão?</p> + +<p>Um primorosissimo escritor<a name="tex2html29" +href="#foot676"><sup>[29]</sup></a>, filho de Aveiro, evita, com exemplar +abnegação patriotica, o problema archeologico da origem preromana da sua terra +natal, mas propende á presumpção de que algum povoado assentaria antigamente na +foz do Vouga os seus lares. E enfeixa o illustre homem de letras duas razoes: +1.ª, a geographica; 2.ª, a da exploração do sal. Aquella parece-me menos +conciliavel com a ethnographia dos povos a que se deseja alludir, como notei. E +esta? Para o commercio, quer interno quer externo, temos ainda o mesmo senão. +Os marnôtos d'aquelle tempo onde se acoitariam<a name="tex2html30" +href="#foot677"><sup>[30]</sup></a>?</p> + +<p>Que, posteriormente a Estrabão, as <em>parvae navigationes</em> crescessem +em numero e tonelagem não é impossivel, porque a vida social começava já a +fervilhar nas planicies.</p> + +<p>E a industria do sal, cuja utilização aliás já data dos tempos neolithicos, +poderia commercializar-se (perdão para o neologismo) d'essa epoca em deante, se +tomarmos por base da hypothese o caracter latino da technologia<a +name="tex2html31" href="#foot678"><sup>[31]</sup></a> e o que sabemos por +aquelle geographo da importancia das salgas (<em>Geographie de Strabon</em>, +por Am. Tardieu, 1886; III-<small>IV</small>-2). Mas então já a via militar +<em>ab Aeminio ad Calem</em> lá estaria antes de ser necessaria, se necessaria +se pudesse considerar por motivo do commercio externo, num porto afastado da +linha natural de communicação e posto em duvida pelo silencio dos textos, como +vimos.</p> + +<p>Do que o Vouga seria na idade media possuimos o testemunho do geographo +arabico Edrisi (<em>Géographie d'Edrisi</em>, trad. de P. Amédée Jaubort. Paris +1840 <small>II</small>, 227).<span class="pn">{32}</span></p> + +<p>O nosso rio foi transposto para aquella lingoa por uma palavra que A. +Jaubert representa na graphia francêsa por <em>Boudhou</em> (ou==u); e assim +conforme o texto arabico vemos que o <em>nahr-Budhu</em> é um rio consideravel +onde navegam embarcações grandes e pequenas, e a navegação se estende a 70 +milhas da sua foz. Agora já começamos a entrever uma população occupada no +trafego maritimo.</p> + +<p>A diplomatica tambem proporciona alguns elementos de estudo relacionaveis +com este, mas propriamente esta epoca já não interessa á questão posta.</p> + +<p>Há porém, uma cousa que não posso omittir.</p> + +<p>É o documento n.º <small>LXXVI</small> dos <em>Port. Mon. Hist.</em>, «Dipl. +et Chartae», onde se lê a fórma medievica de Aveiro, a qual é +<em>alauario</em>, o que só por si desmorona as hypotheses etymologicas a que +varios chorographos se tem apegado, mas revela pela primeira vez a existencia +de uma povoação onde hoje é Aveiro (assim tambem <em>Talabario</em> e +<em>Táveiro</em>. Doc. <small>CXXVIII</small>).</p> + +<p>O trabalho do mar e das aguas na desintegração de um subsolo brando e a +força do vento nos areaes movediços devem ter sido causa perenne e inflexivel +dos açoreamentos e obstrucção da navigabilidade<a name="tex2html32" +href="#foot679"><sup>[32]</sup></a>. O factor é antigo, tão antigo quanto o +póde ser, por maneira que aquella região nunca teve, fóra das epocas +geologicas, outra face topographica muito diversa da dos nossos dias<a +name="tex2html33" href="#foot680"><sup>[33]</sup></a>. É presumivel que +elevadas florestas forrassem com sombras impenetraveis toda essa immensa orla +limitada<span class="pn">{33}</span> pelo mar a Oeste e pelas montanhas a E., +na região e na epoca de que me occupo<a name="tex2html34" +href="#foot681"><sup>[34]</sup></a> como em outros pontos suppôe o Sr. Alberto +Sampaio (<em>Portugalia</em>, <small>II</small>, 215, art. cit.); mas isso não +importa acreditar a possibilidade da via romana por terrenos de tal especie. +</p> + +<p>Informou-me o distincto engenheiro Sr. Mello de Matos, que, ao proceder-se +aos trabalhos de construcção de uma ponte nas proximidades de <em>Vagos</em>, +se encontrou encastoado nas areias o cavername de um navio, que infelizmente +não foi estudado. Na <em>Esgueira</em>, achara-se outro.</p> + +<p>Narra Pinho Leal que ha annos em Vagos se descobriu uma ponte sobre um +ribeiro que a areia das dunas entupiu completamente. Escusado é acrescentar que +a ponte foi logo capitulada de <em>romana</em>, nada menos.</p> + +<p>Estes factos não tem sido apenas recentemente verificados. Já vimos num +trecho, que desatei do nosso Gaspar Barreiros (p. 50) que pelas alturas de +Cacia se tem encontrado, submersos na terra, cascos de navios e ancoras, o que +radicou a crença de que as embarcações chegavam ate ahi em tempos antigos. Esta +apreciação já é do sec. <small>XVI</small>.</p> + +<p>D'este millenario ha um mappa, publicado por Abrahão Ortelius, onde se +reconhece nitidamente a bacia de Aveiro. (Vide <em>Theatrum orbis +terrarum</em>, já citado a pag. 132).</p> + +<p>Estes factos esclarecem o assunto e reatam a tradição de que os fundos da +ria se vão alteando com a obstrucçâo nos esgotos das correntes fluviaes. Fr. +Bernardo de Brito (<em>Monarchia Lusitana</em>, <small>II</small>. +<small>V</small>. p. 130) diz que, do tempo d'elle, Aveiro, muito concorrida de +gente de mar e pescarias, era cidade florescente<a name="tex2html35" +href="#foot682"><sup>[35]</sup></a>.</p> + +<p>O Sr. Cons.º Luis de Magalhães tambem entende que, tendo ahi embarcado para +uma jornada de Africa os terços da Beira, é porque o porto consentia a +arqueação das caravelas.<span class="pn">{34}</span></p> + +<p>D'esta epoca ha mais elementos concordantes no movimento commercial de +Aveiro e portanto no estado da sua barra. (Vid. <em>Os portos maritimos de +Portugal</em>, pelo Sr. A. Loureiro, <small>II</small>, 3).</p> + +<p>O que Barreiros conta relativamente a Cacia, encontra-se repercutido num +local situado muito mais acima sobre o Vouga. No sec. <small>XVIII</small> +corria que em eras passadas ainda os navios subiam aquelle estuario até a +antiga cidade de <em>Vacua</em><a name="tex2html36" +href="#foot606"><sup>[36]</sup></a>, onde depois foi a villa de Vouga e agora +mero cabeço de Vouga (<em>Arch. Port.</em>, <small>VII</small>, 191), que aliás +tende a desapparecer, como desappareceu a de Marnel pelo impaludismo (Pinho +Leal, <em>Port, Ant. e Mod.</em>, s. v. <em>Vouga</em>).</p> + +<p>Esta noticia, porém, deve interpretar-se com uma informação mais minuciosa +que encontro em uma obra de 1741 (<em>Annales de l'Espagne et du Portugal</em>, +por Alvares de Colmenar, Amsterdam). Diz este A. que Aveiro é uma cidade +bastante consideravel, situada na testa de um pequeno golfo que a maré +estabelece na embocadura do Vouga. Este rio fórma um porto de limitadas +dimensões, onde os navios mediocres, que não demandam senão 8 ou 9 pés de agua, +podem entrar na preamar, com a direcção de pilotos do sitio. Este A. já falla +na grande producção de sal e nas fortificações constantes apenas de uma muralha +flanqueada de algumas torres.</p> + +<p>Na lagoa de Esmoriz, de que falla um doc. do sec. <small>IX</small>, +(<em>Port. Mon. Hist.</em>, «Dipl. et Chart.», n.º <small>XII</small>), havia +uma barra por onde entravam as caravelas em antigos tempos e depois se entupiu +(<em>Arch. Port.</em>, <small>IV</small>, 144).</p> + +<p>O caso do cavername encontrado perto de Vagos liga-se com a noticia do sec. +<small>XVIII</small>, transmittida pelas <em>Memorias Parochiaes</em>, segundo +as quaes o braço da ria que existe entre Aveiro e Ilhavo dava antigamente fundo +para caravelas e agora é vadeavel (<em>Arch. Port.</em>, <small>IV</small>, +329).</p> + +<p>Em Mira, numa lagoa de agua doce, conta um informador que nella se encontram +vestigios de casas, moedas e alicerces de uma parede ou caminho que a +atravessou pelo meio. Alem disto, pelo norte e poente, tem-se açoreado +(<em>Arch. Port.</em>, <small>V</small>, 297).</p> + +<p>Quanto se póde deduzir d'estas noticias, o extenso delta vacuense tem sido +invadido com trabalho successivo pelas areias que causam a obstrucção dos +esteiros e a diminuição da navegabilidade. De nenhuma noticia, porém, se póde +concluir que na epoca romana o aspecto topographico e a constituição +orographica da região fosse tão diverso<span class="pn">{35}</span> do que é +actualmente, que a via romana lá pudesse passar preferentemente ao trajecto +mais interno, na base da montanha, através dos castros e das minas.</p> + +<h2><a name="SECTION00113000">XIII</a></h2> + +<p>De Talabriga temos uma das paginas da sua historia escrita por um autor do +meio do sec. <small>II</small> d. C., Appiano de Alexandria.</p> + +<p>É certamente este um caso particular, mas não deverá deixar de ser +considerado como uma amostra de dramas analogos que succederam com os oppidos +lusitanos, no embate das cohortes romanas.</p> + +<p>Talabriga, escreve Appiano, era uma das cidades (da Lusitania) que mais +frequentemente se revoltava. Esta falta de resignação, este, direi eu, germen +de patriotismo ou melhor de municipalismo, não podia tranquillizar Decimo Junio +Bruto, que julgou que o caso era de reclamar a sua presença no local da cidade. +Partiu com numerosa gente, e ao seu apparecimento responderam os irrequietos +Talabrigenses com supplicas e o seu incondicional abandono á discrição do +conquistador. Então J. Bruto foi energico e insaciavel, mas ao mesmo tempo teve +um lanço inesperado de generosidade. Quis fazer-lhes sentir primeiro a dureza +cruel do seu braço de guerreiro, e para isso impôs-lhe a immediata entrega dos +transfugas das hostes d'elle, certamente alliados dos romanos, a dos +prisioneiros, a de todo o armamento e ainda por cima exigiu refens. Depois +chegou a ordenar-lhes que abandonassem a cidade com suas mulheres e filhos. +Parece que o prestigio militar de J. Bruto não valia menos que seu tino de +politico e conquistador. Os Talabrigenses aprontaram-se para obedecer alli +mesmo. Mas o capitão romano queria compor-lhes um quadro que lhes +impressionasse perduravelmente a imaginação. E ia espreitar o effeito +produzido.</p> + +<p>Desdobrou em circulo as suas tropas e, agglomerando dentro a chusma dos +habitantes humilhados, arengou-lhes. Fez-lhes perceber que não receava a sua +turbulencia indomita, porque quantas vezes desertassem, outras tantas elle +viria combatê-los e reduzi-los com a necessaria firmeza, incutido assim o +receio e a convicção de que no momento adequado, J. Bruto cairia sobre elles +com toda a energia, o general romano quebrantou a sua ira, satisfeito com estas +objurgatorias. Mas não sem que lhes tomasse os cavallos, os mantimentos, os +dinheiros da cidade com todo o outro material publico<a name="tex2html37" +href="#foot683"><sup>[37]</sup></a>. Isto era claramente<span +class="pn">{36}</span> deixá-los na impotencia e até na penúria. E por fim J. +Bruto, contra tudo quanto os Talabrigenses podiam já esperar (<em>pratter +spem</em>), restituiu-lhes a cidade para nella continuarem a habitar. Isto +passava-se já meado o sec. <small>II</small>, antes de Christo (138 a. C).</p> + +<p>Feito isto, o conquistador regressou a Roma.</p> + +<p>Esta pagina da conquista da Lusitania é tanto mais importante quanto é, com +igual individuação, a unica que nos resta de historia escrita dos oppidos +lusitanos, e, embora narre um só episodio da guerra da conquista, não deixa de +ser elucidativa.</p> + +<p>Quando li este trecho de Appiano (<em>Appiani Alexandrini Rom. Historiarum +quae supersunt</em>. Parisiis. F. Didot. MDCCCXL), confesso que senti amargura +por não podermos ainda ir conversar na região do Vouga com as ruinas da cidade +onde estes successos crueis se desfiaram, e segredar ás cinzas d'aquelle +abrasado patriotismo que o mesmo sentimento, que chammejou nesses lusitanos +insoffridos, ainda se não arrefentára com o soprar sobre ellas de vinte vezes +cem invernos, e em mais de um dia, já da nossa existencia nacional, elle se tem +ateado em protestos bem tumidos de calor.</p> + +<p> </p> + +<p>Talabriga continuou a existir e refazer-se, atravessando a epoca +imperatoria, como nos attesta: 1.º, a data a que pertence a ara de Estorãos, +sec. <small>III-IV</small>; 2.º, a sua inscripção no Itinerario (sec. +<small>IV</small>).</p> + +<p>Que seculos lhe trouxeram o ultimo acto das suas tragedias? Os do mal +afamado frankisk barbaro ou os do pavor sarraceno mais verdadeiro e real que +aquelle, sobretudo no territorio portugalense?</p> + +<p>Entrevejo pois para a archeologia portuguesa este problema: sondar o jazigo +de Talabriga, verdadeiro simbolo do nosso sentimento de independencia +territorial e figura-se-me que mostrei onde com toda a probabilidade elle se +deve encontrar. Espero ter eu mesmo ensejo de averiguar se o simples e frio +raciocinio me guiou, sem desvio, até as trincheiras historicas, que occultam os +miserandos restos de Talabriga.</p> + +<p>Conservar-se-ha ainda evolucionado este toponimo? Responderá o onomastico, +paternalmente assistido pela philologia, não se dando o caso mais provavel do +verso susodito de Vergilio:</p> + +<p> </p> + +<blockquote> + <em>Haec tum nomina erunt, nunc sunt sine nomine terrae!</em> </blockquote> + +<p>Março de 1907.</p> + +<p> </p> + +<p><em>P. S.</em> No mappa do <em>Ortelius</em>, de que me soccorri a pp. 132 e +155, vejo nova <em>Lancobriga</em>, pelo sul de Scalabis; teremos tres? (Ver +<em>O Arch. Port.</em>, <small>XII</small>, 42).</p> + +<p> </p> + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot644" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> O brasão de Agueda +ostenta num lemnisco o mote Aeminium. Mas Coimbra tem hoje uma lapide, quo lhe +dá irrecusavelmente o foro de <em>civitas aeminiensis</em>.</p> + +<p><a name="foot645" href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a> Um dos autores que se +destacam por tentar a determinação de Talabriga e Langobriga (e ainda outras +estações da via ab <em>Olisipone Bracaram Augustam</em>) por um processo exacto +é o Sr. J. Henriques Pinheiro, fallecido professor do Lyceu de Bragança. Mas +talvez em consequencia de trabalhar sobre uma carta (a de Folque) muito +reduzida e de se servir da reducção de milhas a leguas, localiza Talabriga em +<em>Aveiro</em> e Langobriga na <em>Feira</em>. Em todo o caso, não podendo +conciliar as distancias relativas a Langobriga, conclue que ha erro nos Codices +(<em>Estudo da Estrada Militar Romana de Braga a Astorga</em>, por J. Henriques +Pinheiro, Porto, 1896, p. 129).</p> + +<p><a name="foot646" href="#tex2html3"><sup>[3]</sup></a> O Sr. A. Coelho diz +que a fórma verdadeira é a de Estrabão, como o prova a moderna <em>Vouga</em> e +<em>Vauga</em> dos documentos em baixo latim anteriores ao sec. +<small>XII</small> (Mélanges Graux, 1882). Vid. <em>Religiões de +Lusitania</em>, <small>II</small>, 28.</p> + +<p><a name="foot647" href="#tex2html4"><sup>[4]</sup></a> Nas <em>Noticias +Archeologicas de Portugal</em>, de Hübner, trad. do Visconde de Juromenha, vem +um extracto do Itinerario segundo a ed. de Parthey & Pinder (1848). Prefiro +a lição <em>briga a brica</em> de Wesseling, ed. dos <em>Vetera romanorum +Itineraria</em>, <small>MDCCXXXV</small>.</p> + +<p><a name="foot651" href="#tex2html5"><sup>[5]</sup></a> Não pude haver á mão +as <em>Memorias</em> d'este mesmo senhor.</p> + +<p><a name="foot652" href="#tex2html6"><sup>[6]</sup></a> Como preciosidade +estrangeira, desejo referir que o aliás eminente celtista D'Arbois de +Jubainville, num estudo erudito sobre «Les Celtes en Espagne» (<em>Revue +Celtique</em>, <small>XIV</small>, § 8) diz, de passagem, ser Talabriga a +actual povoação de Sousa, conc. de Alenquer! Presumo que esta incongruencia é +proveniente do que escreveu <em>C. Muller</em> em uma nota da <em>Cl. Ptolemaei +Geographia</em> (<small>I</small>, 137) a respeito de Talabriga: <em>Oppidum +haud longe a Vouga, fluvio circa, hod. Souza alicubi steterit. Accuratius locum +definire non licet.</em> Como ha mais Marias na terra, d'ahi proveio a +confusão. Veja-se Sousa a O. de Vagos.</p> + +<p><a name="foot653" href="#tex2html7"><sup>[7]</sup></a> Por partes temos:</p> + +<table cellpadding="3" border="0" align="center" summary="Itinerário de D'Arbois"> + <tbody> + <tr> + <td>De Gaia á Feira</td> + <td style="text-align:right;">21:900 metros</td> + </tr> + <tr> + <td>Da Feira a Oliveira de Azemeis</td> + <td style="text-align:right;">10:900 metros</td> + </tr> + <tr> + <td>De Oliveira de Azemeis a Albergaria</td> + <td style="text-align:right;">18:000 metros</td> + </tr> + <tr> + <td>De Albergaria ao rio Vouga</td> + <td style="text-align:right;">6:800 metros</td> + </tr> + <tr> + <td>Do rio Vouga a Agueda</td> + <td style="text-align:right;">9:000 metros</td> + </tr> + <tr> + <td>De Agueda á Mealhada</td> + <td style="text-align:right;">22:000 metros</td> + </tr> + <tr> + <td>Da Mealhada a Coimbra</td> + <td style="text-align:right;">16:500 metros</td> + </tr> + <tr> + <td></td> + <td style="text-align:right;">105:100 metros</td> + </tr> + </tbody> +</table> + +<p><a name="foot654" href="#tex2html8"><sup>[8]</sup></a> Escreveu o autor do +<em>Portugal Antigo e Moderno</em> que a via romana seguiria pouco mais ou +menos o trajecto da linha ferrea. Assim era preciso, se Talabriga fosse Aveiro, +quer no troço ao norte, quer no troço para sul, em attenção ás condições +topographicas. Neste caso, porém, a distancia de Coimbra a Gaia seria +necessariamente pelo menos a que hoje é por aquelle caminho; nada menos de 115 +kilometros, o que está bem longe dos 105 kilometros da via romana e da estrada +real. Num diagramma da carta indico a differença das distancias entre Cale e +Talabriga e Gaia e Aveiro pela via ferrea (45:800 metros e 59:000 metros).</p> + +<p><a name="foot151" href="#tex2html9"><sup>[9]</sup></a> No mappa com que +documento este estudo, lancei só os elementos que me eram uteis. Tudo o mais +ficou no original, a que até accresci alguma cousa a mais por assim convir á +minha demonstração.</p> + +<p><a name="foot154" href="#tex2html10"><sup>[10]</sup></a> É força porém +attentar na exigua differença que no caso presente existe entre a recta, que +unisse os dois pontos extremos (Coimbra e Gaia), e o desenvolvimento da +distancia effectiva pela estrada real, entre os mesmos pontos. Bem sei que +differentes parcellas podem dar a mesma somma, mas difficultoso seria crer que, +acertando o Itinerario na distancia total entre Aemiuium e Cale, delinquisse +nas parcellas, que vem a ser as tres secções da via militar. Veja-se o +diagramma.</p> + +<p><a name="foot156" href="#tex2html11"><sup>[11]</sup></a> Pela linha ferrea +de Coimbra a Aveiro são 56 kilometros: pelo caminho romano de Coimbra a +Talabriga eram 59 kilometros.</p> + +<p><a name="foot655" href="#tex2html12"><sup>[12]</sup></a> Nada mais possivel +do que um erro de informação de Plinio. Mas poderia tambem haver aqui uma +confusão entre a Talabriga do roteiro romano e a Vacua, de que parece existirem +ruinas no Cabeço de Vouga (Cit. <em>Oppida restituta</em>, 1885). Mas o +Itinerario omitte-a, o que é apenas argumento negativo. Ainda se poderia dar o +caso de <em>Vacua</em> não ser <em>mansio</em> do caminho romano. Havia um +codice de Plinio que nomeava Talabriga e <em>Vacca</em> e uma cosmographia +antiga que refere <em>Vacca</em> (<em>sic</em>) e não Talabriga, que aliás +deveria ter conhecido pelos AA.</p> + +<p>Jorge Cardoso, no <em>Agiologio</em>, <small>II</small>, 65, quer que Vacua +tenha sido em Viseu. Peor!</p> + +<p><a name="foot656" href="#tex2html13"><sup>[13]</sup></a> Nos <em>Port. Mon. +Hist.</em>, «Diplom. & Chart.», vem um documento (n.º 815 do anno de 1095) +cujo teor nos não prende, mas onde se lê:.... <em>Ista igitur auctoritate +confissus ingressus sum et ego densissimam silliam</em> (silvam) <em>que ab +antiquis temporibus habitaculum erat bestiarum</em>.... Trata-se de arredores +de Ilhavo.</p> + +<p><a name="foot171" href="#tex2html14"><sup>[14]</sup></a> Nos arredores de +Aveiro ha pontos com as cotas de 15, 27, 46, 57, 48, 38, 23, 16, 24 e 10 que +correspondem a relevos suaves. Todos estes pontos estão situados na margem +esquerda do Vouga. Mas na hipothese de Talabriga, a estação do Itinerario, ser +Aveiro ou proximidades, a estrada romana, chegada ahi, ver-se-hia forçada a +atravessar o Vouga desde Eixo para baixo, em direcção ao Norte. E digam-me se +todo esse trato de terreno, comprehendido entre a margem direita do Vouga, +desde a ponte de S. João de Loure, como vertice meridional, e os sitios de +Froços, Angeja, Formelã, Canellas e Salreu, não eram de fazer recuar o +engenheiro romano que por ahi tentasse obter saida para o norte, em direcção a +Cale, tendo outra incomparavelmente melhor?</p> + +<p><a name="foot657" href="#tex2html15"><sup>[15]</sup></a> Tenho sempre +especial satisfação quando vejo que conceitos meus foram já formulados por +escritores de outro cunho. Assim na <em>Revue des Études Anciennes</em> (1905, +p. 389), Cam. Jullian, referindo-se a caminhos de epocas prehistoricas, diz: +<em>Et il résulte bien.... que beaucoup des grandes lignes de circulation +actuelle ne sont que les héritiers des pistes tracées il y a des milliers +d'années.</em></p> + +<p><a name="foot658" href="#tex2html16"><sup>[16]</sup></a> Para os leitores +habituaes do <em>Archeologo Português</em>, seria ociosa esta nota; para os que +porventura o assunto do presente estudo desperte de-novo, é uma prevenção +necessaria. Quando se falla em <em>castros</em> com supposta referencia á epoca +romana, não se trata dos <em>castra</em>, acampamentos ou abarracamentos +(Saglio & Daremberg) fortificados que as forças militares de Roma +construiam em campanha: nunca vi ruinas de nenhum d'estes <em>castra</em>, nem +me consta que as haja verificadas no pais. E comtudo os <em>castros</em>, ou +<em>crastos</em> no fallar do povo, são abundantissimos entre nós... porque são +cousas muito differentes. Estes <em>castros</em> são apenas uns montes com +vestigios de habitação <em>ante-romana</em> e quasi sempre de obras de +fortificação de terra ou de muralha. Assim os castros são outeiros, cabeços +habitados e fortificados, não pelos romanos, mas contra os romanos, pelo menos, +e pertencentes aos antigos habitadores do país. Os <em>castros</em> devem pois +aos romanos, não o seu principio, mas a sua decadencia e o seu fim, porque foi +a conquista e foi a civilização romana que os tornou desnecessarios naquelle +tempo. Como se lhes dá então este epitheto que não vem senão causar confusões? +O epitheto encontramo-lo na toponimia local; foi o povo que conservou até hoje +esta designação que nós vamos encontrar com frequente emprego nos documentos da +idade media. É que no singular <em>castrum</em> significou secundariamente um +castello, uma fortaleza; cita Rich o capitulo <small>VI</small> da +<em>Eneida</em>, onde se lê (<em>vv</em>. 771 a 776):</p> + +<p> </p> + +<blockquote> + Qui juvenes quantas ostentant, aspice, vires! <br> + At qui umbrata gerunt civili tempora quercu, <br> + Hi tibi Nomentum, et Gabios, urbemque Fidenam, <br> + Hi Collatinas imponent montibus arces, <br> + 775 Pometios, Castrumque Inui, Bolamque, Coramque: <br> + Haec tum nomina erunt, nunc sunt sine nomine terrae. </blockquote> + +<p>(<em>Oevres de Virgile</em>, par E. Benoist; vol. <small>I</small>, +Hachette, 1882).</p> + +<p> </p> + +<p>(Trad.) <em>Contempla como são grandes as forças que aquelles mancebos +ostentam! Pois d'entre os que trazem a fronte sombreada pelo carvalho civico, +uns construir-te-hão Nomento, Gabios e a cidade de Fidena, outros assentarão em +montanhas as fortalezas Collatinas, Pometios, o castello de Inuo, Bola e +Cora</em> (antigas povoações do Lacio): <em>estes serão os nomes d'aquelles +lugares, que estão agora na terra sem nome.</em></p> + +<p>Foi certamente d'esta accepção que derivou para o latim corrente, e em +seguida para o fallar medieval das nossas populações, a denominação de +<em>castro</em> ou <em>crasto</em>.</p> + +<p>Na <em>Revue des Études Anciennes</em> (<small>IV</small>, p. 43, 1902) vem +uma serie de citações para demonstrar que no fim do Imperio pela palavra +<em>castrum</em> se designavam frequentemente as cidades fortificadas; de entre +todas extraio a seguinte de Isidoro (<em>Origines</em>, <small>XV</small>, 2, +13): <em>Castrum antiqui dicebant oppidum loco altissimo situm</em>. Com +referencia a sitios nossos, temos, bibliographicamente, o conhecido +<em>Portumcale castrum</em>, de Idacio.</p> + +<p>Mas a par d'aquella, outras se formaram, como <em>castello</em>, +<em>cristêlo</em>, <em>crastêlo</em> e <em>castrêlo</em>. <em>Castellum</em> +(cfr. cit. <em>Rev. des Ét. Anc.</em>) na lingua latina, era um deminutivo de +<em>castrum</em> e applicava-se tanto a um reducto transitorio, como a um forte +permanente, quasi sempre situado em logar elevado (Saglio & Daremberg, s. +v. <em>Castellum</em>). Depois, é explicavel que a linguagem popular +prescindisse da origem não romana d'estes pontos estrategicos, e applicasse o +termo a alguns castros, talvez aos mais deminutos. Aos mesmos montes se vêem +tambem applicadas as designações de <em>cividade</em>, mais ou menos pura, +<em>cidadêlhe</em>, <em>coroa</em> e outras ainda. Os autores antigos usam o +termo <em>oppidum</em> applicado a alguns d'estes centros de população +(<em>oppidum Aeminium</em>). E ainda se encontra junto ao nome originario da +povoação, a modo de suffixo, o termo de origem celtica <em>briga</em>, que +tambem quer dizer castello, altura fortificada (<em>Talabriga</em>).</p> + +<p>Os romanos, no nosso caso, traçando a via militar através d'estes montes +habitados, não fariam mais do que seguir um caminho historico e uma directriz +frequentada.</p> + +<p><a name="foot660" href="#tex2html17"><sup>[17]</sup></a> O parocho de +Segadães (1758) informava que a antiga cidade de <em>Vaca</em> (<em>sic</em>) +fôra assolada pelos <em>mouros</em>. Os Leitores conhecem estes +<em>mouros</em>... (<em>Arch. Port.</em>, VII, 191).</p> + +<p><a name="foot661" href="#tex2html18"><sup>[18]</sup></a> Varios outros +documentos d'esta região de Entre-Vouga-e-Douro compulsei eu nesta collecção, +que se reportavam a <em>castros</em>, mas não pude localizar as referencias com +a presteza que era necessaria. Até se me deparou a fórma rara <em>crésto</em> +(<em>cresto ualanes</em>, doc. <small>DXLIX</small> do anno 1077), da qual +conheço outra actual no concelho de Valdevêz.</p> + +<p><a name="foot662" href="#tex2html19"><sup>[19]</sup></a> Na fé de Nascimento +Silveira (<em>Mappa breve da Lusitania</em>, p. 226), em Mancinhata, nos +cruzeiros ha inscripções que ainda ninguem entendeu.</p> + +<p><a name="foot663" href="#tex2html20"><sup>[20]</sup></a> Nos <em>Port. Mon. +Hist.</em>, «Dipl. et Chart.», n.º <small>CCCCLXXI</small>, vem um documento +que diz: <em>Cesari... subtus monte castro calbo...</em> Cf. o n.º +<small>CCCCLXX</small>. Não pude averiguar se é um <em>Monte Calvo</em> que +vejo perto de Romariz. <em>Cesári</em> (gen. de <em>Cesarius</em>, +<em>-ii</em>) deu Cesár, como <em>Severi</em> (<em>Port. Mon. Hist.</em>, +«Dipl. et Ch.», <em>passim</em>, e <em>Arch. Port.</em>, <small>II</small>, +252, art. do Sr. P. de Azevedo) deu Sever.</p> + +<p><a name="foot664" href="#tex2html21"><sup>[21]</sup></a> Virá de +<em>Calambria</em>? pergunta A. Herculano (<em>Historia de Portugal</em>, +<small>III</small>, 423). Cfr. <em>Arch. Port.</em>, art. do Sr. A. Cortesão, +<small>IX</small>, 232. Teremos aqui alguma <em>Calambriga</em>? Um thesouro de +16 argolas de ouro é de lá. (<em>Arch. Port.</em>, <small>II</small>, 87).</p> + +<p><a name="foot666" href="#tex2html22"><sup>[22]</sup></a> Eu não me occupo +especialmente da <em>Langobriga</em> do Itinerario, mas é facil ver que +identicos raciocinios lhe são applicaveis e em consequencia, a situação d'este +segundo oppido deveria ser na faixa de terreno vagamente indicada pela curva +<em>LL.</em> um pouco ao norte da Feira. No meu estudo da ara de Estorãos, +assentei que esta não é a actual <em>Longroiva</em>, cuja fórma medieval era +<em>Langobria</em>, (<em>Port. Mon. Hist.</em>, «Dipl. et Chart.» +<small>CCCCXX</small>). Do que deponho a p. 141, parece que é a algum dos +castros de <em>Obil</em> ou do <em>Monte do Murado</em> que deverá convir a +localização de Langobriga. Este fica a 6:000 metros para leste da lagoa.</p> + +<p>Para <em>longo-</em> e <em>lango-</em> como para <em>brica</em> e +<em>briga</em>, não encontram difficuldade os celtistas. (<em>Élém. celt. dans +les noms de personnes des inscr. d'Esp.</em>, por A. Carnoy. Luvaina 1907).</p> + +<p><a name="foot352" href="#tex2html23"><sup>[23]</sup></a> A legitimidade do +processo que segui, empregando o compasso e a escala para determinar a zona em +que, segundo as indicações do roteiro romano, deve encontrar-se o jazigo de +Talabriga, tem uma averiguação facil, apesar da estranheza que possa causar. Se +eu, collocado em Eminio, quisesse determinar a situação de Cale, cujo +anorteamento já conhecia previamente, e para isso adoptasse identico systema, o +compasso levar-me-hia a uma zona de terreno, onde não me seria impossivel +encontrar localizações compativeis com uma estação d'aquella natureza.</p> + +<p>Creio todavia que nem com todos os terrenos assim se póde proceder.</p> + +<p>Comprova tambem a plausibilidade do resultado a circunstancia de fazerem +pequena differença a distancia em linha recta entre Coimbra e Gaia e a +rectificação da estrada entre os mesmos pontos.</p> + +<p><a name="foot667" href="#tex2html24"><sup>[24]</sup></a> ... por ser tam +grande como todos sabẽ, de <span +style="position: relative; left: 0.5em; bottom: 0.5em; ">~</span>q á prouerbio +no pouo. (<em>Ibid.</em> p. 50). Já não é só pois grande a legua da Povoa!</p> + +<p><a name="foot668" href="#tex2html25"><sup>[25]</sup></a> O escritor espanhol +Eduardo Saavedra, num artigo intitulado «La geografia árabe de Portugal» in +<em>Revista Archeologica e Historica</em>, <small>I</small>, 49, suppõe que o +trajecto descrito por Edrisi vae de Coimbra a Viseu e Braga «por um caminho +muito frequentado», fazendo o primeiro descanso em Avô, 45 kil. a NE. de +Coimbra; o segundo em S. Miguel do Outeiro, 10 kil. a O. de Viseu no caminho de +S. Pedro do Sul; depois chega-se ao Douro, que se passa em embarcações defronte +de uma aldeia, que é Villaboa de Quires, a E. de Penafiel. D'aqui duas jornadas +a Braga e outras duas a Tuy.</p> + +<p>Salvo o devido respeito, isto parece uma viagem... <em>à vol d'oiseau</em>! +</p> + +<p><a name="foot669" href="#tex2html26"><sup>[26]</sup></a> Nos <em>Port. Mon. +Hist.</em>, «Diplom. de Chart.», apparecem mais documentos em que se encontra +esta mesma designação. Estes por exemplo:</p> + +<p>N.º 67 do anno 953:... <em>et inde per carraria mourisca...</em> (Isto era +nas vizinhanças de Villa do Conde).</p> + +<p>N.º 614 do anno 1083:... <em>et inde per via maurisca:...</em> (territorio +de Arouca).</p> + +<p>Póde não se tratar nestes dois documentos de vias militares romanas, como +não se trata; mas nem por isso a designação deixa de ser inexacta no seu +sentido proprio. Eram antigos caminhos, anteriores aos arabes. Aliás teriamos +que admittir que os filhos do Islam andaram por terras de Villa do Conde e de +Arouca a abrir estradas em fórma, por serem invios os territorios.</p> + +<p>Demonstra isto que os amanuenses do secs. <small>X</small> e +<small>XI</small> já não sabiam estremar romanos (e visigodos) de serracenos. +Era pois, como hoje, o fallar do povo.</p> + +<p>É tambem este o sentimento do Sr. Pedro de Azevedo (<em>Arch. Port.</em>, +<small>III</small>, 137 sgs.). Este facto é bastante expressivo. Não passára um +seculo ainda depois da expulsão dos arabes naquella região, e a interrupção de +tradições locaes tinha sido tão intensa que a mera conjectura tomara o logar +d'aquellas, attribuindo aos muçulmanos as obras de viação de que elles apenas +tiveram a utilidade (Veja-se <em>Hist. de Portugal</em>, por A. Herculano, +<small>III</small>, 421). Em França não se dava isto. Ruy de Pina na +<em>Chronica do sr. rey D. Affonso V</em> (p. 569) diz: «E na cidade de Nimis +leixou El-rey <em>a estrada romam</em>, que vay a Avinham».</p> + +<p><a name="foot684" href="#tex2html27"><sup>[27]</sup></a> Seria longo +transcrever os trechos respectivos d'esses documentos; e nem sempre é possivel +acertar a que especie de caminhos se referem as expressões usadas nos +documentos. É commum o termo <em>strada</em>, <em>strata</em>; algumas vezes +adjectivada <em>strata ueredaria</em> (Dipl. et Chart., n.º 174) em opposição a +<em>alia carrale</em> (id.); <em>estrata de uereda</em> (id. n.º 13); <em>in +estrada qui discurrit via de uereda</em> (id. n.º 24) ou <em>strata maiore</em> +(id. n.<sup>os</sup> 563, 378 e 549). Tambem se encontra a expressão +<em>carreira antiqua</em> (id. n.<sup>os</sup> 620 e 639), <em>karraria +antiqua</em> (id. n.<sup>os</sup> 888), <em>carraria antiqua</em> +(n.<sup>os</sup> 639 e 287), <em>carera antiqua</em> (id. n.<sup>os</sup> 366). +<em>Via de strada</em> e <em>strada de uiminaria</em> lêem-se no doc. n.º 817 +(<em>ob. cit.</em>) Ainda hoje se póde dizer <em>caminho de estrada</em>. +<em>Carreira</em> é termo agora quasi só locativo, mas ainda se ouve no norte +applicado ás largas entradas de algumas casas antigas, precedidas de uma +alameda plana; certamente <em>carreira</em> inclue a ideia de carro, como +<em>carrale</em>. Outra denominação que encontrei foi a de <em>via publica</em> +(<em>ob. cit.</em>, n.º 676), que parece corresponder a caminho publico.</p> + +<p><em>Karraria antiqua</em> era certamente uma estrada carreteira antiga já +naquella epoca e portanto tradicional, mas d'aqui não se póde concluir que essa +estrada fosse <em>via militar</em> romana. Assim o doc. n.º 570 do anno 1079 +refere-se á freguesia moderna de Paçô, no concelho do Valdevêz (<em>uilla +Palatiolo</em>), onde nunca passou via militar e onde a <em>carreira +antiqua</em> poderia bem attingir a epoca romana.</p> + +<p>Alguns d'estes documentos foram indicados pelo erudito conservador do +Archivo Nacional e meu amigo o Sr. Pedro de Azevedo; outros rebusquei-os +propositamente com o auxilio do valioso trabalho do Sr. Gama Barros, <em>A +administração Publica em Portugal</em>, entre os que pertencem á região de +Entre-Vouga-e-Douro.</p> + +<p><a name="foot675" href="#tex2html28"><sup>[28]</sup></a> No mesmo pensar +encontro-me com o Sr. Alberto Sampaio na <em>Portugalia</em>, +<small>II</small>, 216 (<em>As povoas maritimas do norte de Portugal</em>). +Assim se exprime: «As unicas povoações, vizinhas do mar, existentes então (no +tempo dos romanos), eram Calem e Portucale».</p> + +<p><a name="foot676" href="#tex2html29"><sup>[29]</sup></a> É o Sr. Conselheiro +Luis de Magalhães, em <em>A arte e a natureza em Portugal</em>, vol. +<small>IV</small>. A descrição da ria immensa de Aveiro, com as salinas +espelhadas que a cobrem, com os seus cones alvissimos de sal, que marchetam a +planicie sem fim, é um d'estes primores de prosa gracil e diaphana, que mais +ninguem poderia escrever com igual coração e com pulso comparavel. Parece que a +seducção d'esse panorama não me será mais intensa, quando com os olhos o vir, +do que quando o adivinhei naquellas tão poupadas paginas.</p> + +<p><a name="foot677" href="#tex2html30"><sup>[30]</sup></a> A grandíssima +maioria das povoações d'estas epocas era nos altos; ahi tem sido encontrados os +seus vestigios. Para a alguma se attribuir situação aberta como a de Aveiro, +necessario seria documentar a excepção.</p> + +<p>Não repugna absolutamente admitti-la no nosso caso, mas é hypothese pura. E +depois, lá temos o distinctivo <em>briga</em>. O nome da cidade comsigo traz a +natureza do seu assento. No Algarve, <em>Ossonoba</em> e <em>Balsa</em>, não +demoravam em outeiros. (Vide <em>Religiões da Lusitana</em> <small>II</small>, +85).</p> + +<p><a name="foot678" href="#tex2html31"><sup>[31]</sup></a> +<em>Portugalia</em>, <small>II</small>, 220, «As póvoas marítimas do norte de +Portugal», pelo Sr. Alberto Sampaio.</p> + +<p><a name="foot679" href="#tex2html32"><sup>[32]</sup></a> Explicação +geologica d'estes phenomenos: «C'est après avoir traversé les marécages du +Vouga, que l'on entre dans les terrains anciens; ce sont d'abord des schistes +luisants, généralement cachés par des dêpots superficiels: sables des dunes, +graviers pliocènes et graviers kaoliniques appartenant au Crétacique. Ces +derniers ne montent pas plus haut qu'Estarreja et le Pliocène est rarement +visible depuis la voie ferrée. Parfois ce soubassement de roches solides +n'existe pas, ou du moins ne se trouve qu'à une certaine profondeur au-dessous +du niveau de la mer; dans ce cas, la côte subit des alternances d'accroissement +et de décroissement qui peuvent être funestes à l'homme trop empressé de +s'approprier le terrain que les sables ont gagné sur la mer; tel est le cas à +Espinho». <em>Promenade au Gerez (Souvenirs d'un géologue)</em>, por Paul +Choffat, 1895, p. 1.</p> + +<p><a name="foot680" href="#tex2html33"><sup>[33]</sup></a> Poderia aqui +investigar-se das alterações da costa que possam ter modificado o aspecto do +surgidouro do Vouga. Um apello, publicado no <em>Arch. Port.</em>, +<small>II</small>, 301, teve em resposta o silencio. Não tratando dos factos de +periodos geologicos ou indeterminados (<em>Arch. Port.</em>, +<small>VII</small>, 274 e <small>X</small>, 193) pouco é o que se tem recolhido +e ás vezes antagonico. Açoreamentos em epocas historicas foram notados na Povoa +de Varzim, Villa do Conde, Fão, Esposende, Vianna, em Setubal, no Algarve +(<em>Portugalia</em>, <small>I</small> e <small>II</small>. <em>passim</em>), e +eu mostro que na faixa de Esmoriz a Mira elles se deram tambem em epoca que não +posso precisar. Num mappa que illustra o <em>Hisp. & Port., +Itinerarium</em> de Martin Zeiler (1656) Aveiro é situada ao norte do Vouga. E +não é o unico mesmo de datas mais recentes.</p> + +<p><a name="foot681" href="#tex2html34"><sup>[34]</sup></a> Ha um documento do +sec. <small>XI</small> que faz uma referencia aproveitavel debaixo d'este +aspecto: é o n.º <small>DCCCXV</small> do anno 1095 (doação á sé de Coimbra da +igreja de S. Christovam, junto a Ilhavo)... <em>Ista igitur auctoritate +confissus ingressus sum et ego densissimam silliamm</em> (silvam) <em>que ab +antiquis temporibus habitaculum erat bestiarum...</em></p> + +<p><a name="foot682" href="#tex2html35"><sup>[35]</sup></a> Entre as cartas +antigas que folheei, desejo destacar uma do sec. <small>XVII</small>, assinada +por N. Sanson. <em>christ. Gall. regis geografo</em> (<em>Hispaniae antiquae +tabulae</em>, 1641). O mappa de Portugal antigo individúa, na região que andei +estudando, <em>Conimbrica</em> em Condeixa, <em>Aeminium</em> na margem norte +do Mondego; <em>Talabriga</em> ao N. do Vouga, um pouco afastada do estuario, a +20 ou 25 <em>milliaria</em> da foz do Vouga (isto é, na altura onde eu localizo +esta povoação); e, seguindo no mesmo rumo, <em>Langobriga</em>. É na +Bibliotheca Nacional, um grosso volume <em>in-folio</em>, recentemente +encadernado com o dístico—Mappas—e sem frontispicio.</p> + +<p><a name="foot606" href="#tex2html36"><sup>[36]</sup></a> Esta lenda porém +reproduz-se em mais localidades, fóra d'esta região.</p> + +<p><a name="foot683" href="#tex2html37"><sup>[37]</sup></a> ... <em>pecuniis +publicis, cum reliquo publico apparatu, ademtis</em>. Isto dá bem a entender +que havia uma perfeita organização politica, e n'ella se estribava a +organização de uma defesa militar contra a invasão romana.</p> +</div> +</div> + +<p> </p> + +<p style="text-align: center;"><a href="images/mapa.jpg"><img src="images/mapa.jpg" width="80%" border="0" alt="Carta da região de Entre-Mondego-e-Douro"></a></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<h2>DO AUTOR</h2> + +<h3 style="text-align:center;">ESTUDOS DO ALTO-MINHO (SERIE 1.ª)</h3> + +<h4>Publicados</h4> + +<p>I—<strong>Epigraphia christiano-latina</strong> (uma inscripção +inedita).</p> + +<p>II—<strong>Um passeio archeologico no concelho dos Arcos de +Valdevez</strong> (visita ás antas da serra do Soajo).</p> + +<p>III—<strong>Machados de duplo anel</strong>.</p> + +<p>IV—<strong>Ainda a inscripção christã de S. Pedro de +Arcos</strong>.</p> + +<p>V—<strong>Uma primicia de epigraphia funeraria romana</strong>.</p> + +<p>VI—<strong>O portico da matriz de Monção</strong>.</p> + +<p>VII—<strong>Um castro com muralhas</strong>.</p> + +<p>VIII—<strong>Um erro de amanuense nas inquirições de D. Affonso +III</strong> (C. Sancti Salvatoris Darcus).</p> + +<p>IX—<strong>Um Grovio autentico</strong> (cippo de Villa-Mou).</p> + +<p>X—<strong>Ara celtiberica da epoca romana</strong> (um novo +«Genio»).</p> + +<h3>PAGINAS ARCHEOLOGICAS (SERIE 2.ª)</h3> + +<h4>Publicadas</h4> + +<p>I—<strong>Estatueta ithyphallica</strong>.</p> + +<p>II—<strong>Cemiterio da epoca romana em Vianna do +Alemtejo</strong>.</p> + +<p>III—<strong>Situação conjectural de Talabriga</strong>.</p> + +<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30071 ***</div> +</body> +</html> |
