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-*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30071 ***
-
- FELIX ALVES PEREIRA
-
-
- PAGINAS ARCHEOLOGICAS
-
- III
-
- SITUAÇÃO CONJECTURAL DE TALABRIGA
-
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-
- LISBOA
- IMPRENSA NACIONAL
- 1907
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- * * * * *
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- SITUAÇÃO CONJECTURAL DE TALABRIGA
-
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- Obra composta e impressa na Imprensa Nacional
-
- Edição e propriedade do Museu Ethnologico Português
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- * * * * *
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-
- FELIX ALVES PEREIRA
-
-
- PAGINAS ARCHEOLOGICAS
-
- III
-
- SITUAÇÃO CONJECTURAL DE TALABRIGA
-
-
-
-
- LISBOA
- IMPRENSA NACIONAL
- 1907
-
-
- * * * * *
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-
-
- Ao
-
- Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Conselheiro
-
-
- _Luis Cypriano Coelho de Magalhães_
-
- _O. e D._
-
- _O autor._
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- * * * * *
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-Separata d'«O Archeologo Português», XII, n.os 5 a 8 de 1907
-
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-SITUAÇÃO CONJECTURAL DE TALABRIGA
-
-
-Summario
-
-1. Estado da questão.--2. Autores antigos--3. Itinerario--4. Exame do
-mappa--5. Topographia e onomastico da região--6. Os castros do trajecto
-da Via--7. Região mineira--8. Localização de Talabriga--9. Opinião de
-Gaspar Barreiros--10. Geographia arabica--11. _Strata maurisca_--12. Ria
-de Aveiro e o Vouga--13. Historia de Talabriga.
-
-
-I
-
-Algum tanto sem o presentir, ao fazer o estudo da ara de Estorãos,
-(_Arch. Port._, XII, 36) encontrei-me no limiar de um problema que, de
-modo definitivo, não se resolverá senão com a verificação _in loco_ de
-vestigios archeologicos incontrastaveis.
-
-É o problema da trajectoria exacta da via romana entre Aeminium e Calem,
-da qual não se conhecem milliarios decisivos e sufficientes,
-especialmente da sua passagem por Talabriga.
-
-O assunto, parcialmente considerado, tem sido alvo das principaes
-referencias na pugna litteraria em que os paladinos de Agueda, de Aveiro
-e de Coimbra patrioticamente articulavam preeminencias genealogicas, que
-é da praxe mencionarem-se em monographias locaes, mas que hoje, quanto a
-Coimbra (e Condeixa-a-Velha) estão sentenciadas, em prejuizo até
-heraldico de Agueda[1].
-
-Propositadamente, porém, o problema não foi ainda estudado debaixo do
-seu aspecto geral; apenas por incidente tem sido versada a localização
-de Talabriga. Não venho com o proposito de o dar como resolvido, é
-certo; mas desejo englobar neste estudo um certo numero de
-considerações, que podem preparar o desenlace d'este ponto controvertido
-da geographia protohistorica da Lusitania, no campo adequado, e quiçá
-orientar pesquisas.
-
-Onde foi Talabriga? Até hoje nenhum d'estes indices peremptorios que
-marcam inilludivelmente a situação das antigas cidades, como para
-_Conimbriga_ (Condeixa-a-Velha), _Aeminium_ (Coimbra), _Bracara Augusta_
-(Braga), _Olisippo_ (Lisboa), _Pax Julia_ (Beja), etc., se nos antolha
-para dar resposta nitida áquella pergunta.
-
-Guiados pelas indicações geographicas do Itinerario e de Plinio, os
-nossos escritores teem querido alternadamente que Aveiro, Cacia,
-Esgueira occupem hoje o logar que outrora se chamou _Talabriga_. De
-facto, o Itinerario, ao contar as milhas que de _Aeminium_ vão a _Calem_
-(Gaia ou Porto?) pela via militar, devia ter especial valor para este
-problema; mas a comprehensão da necessidade de verificar rigorosamente
-as indicações d'aquelle documento, a consulta de edições criticas,
-tomando-se por base a decisão do problema de Aeminium, e talvez o
-desaffecto de uma ou outra solução é que teem, no meu humilde entender,
-faltado a todos os autores que mais modernamente do assunto se teem
-abeirado[2].
-
-
-II
-
-A geographia classica não é de todo omissa a respeito d'esta antiga
-povoação. O testimunho de Plinio, que é o A. mais expresso, vem a ser o
-seguinte: _A Durio Lusitania incipit. Turduli veteres, Paesuri, flumen
-Vagia[3], Oppidum Talabrica, Oppidum et flumen Aeminium,
-Oppida Coniumbrica, Collippo, Eburobritium._ (C. Plinii Secundi, _Nat.
-Hist._, ed. de Detlefsen, IIII, 113). Isto tem o ar de uma sêca
-enumeração chorographica, que se desdoba do norte para o sul, a contar
-do Douro, e que, restringida ao nosso caso, nos dá esta sequencia:
-
- _a_) rio Vouga;
-
- _b_) cidade de Talabrica;
-
- _c_) cidade e rio de Aeminio (Coimbra);
-
- _d_) e as cidades de Conimbrica (Condeixa),
-
- _e_) Collippo (Leiria) e
-
- _f_) Eburobricio (Obidos, Vejam-se _Relig. da Lusit._, II, 31).
-
-Se não fôr certo, como não me parece, que Vouga é ao norte de Talabriga
-e este oppido ao sul do mesmo rio, pelo menos conclue-se que Talabriga
-vizinha de um lado ou outro aquelle estuario.
-
-Não trago nenhum outro autor antigo, porque elles não adeantam o
-problema chorographico. Na _Cosmografia_ de Ravennate (ed. de
-Pinder & Parthey, p. 307) _Talabrica_ apparece transformada
-em Terebrica e fica na seguinte localização relativa:
-_Olisipona--Terebrica--Langobrica--Cenoopido--Calo_...
-
-
-III
-
-Vamos pois ao _Itinerario_[4] e á discussão das suas
-indicações. Encontra-se nelle, que nos sirva:
-
- Eminio mp. X
- Talabriga mp. XL (= 59:240 metros)
- Langobriga mp. XVIII (= 26:658 » )
- Calem mp. XIII (= 19:253 » )
- 105:151 »
-
-A equivalencia que sigo é a de 1 milha = 1:481 metros (Saglio &
-Daremberg, s. v. _Milliarium_).
-
-A trajectoria d'esta via desde Coimbra (Aeminium) a Gaia (Calem)
-deixaria de ser ponto controverso se, como succede noutras estradas
-romanas, alguns milliarios sobreviventes escalonassem os seus vestigios.
-
-Não ha porém, neste particular, mais que isto:
-
-1.º Um fragmento de milliario com 2,04m de alto X 1,40m de circuito,
-que appareceu na Mealhada ao norte de Coimbra e só tem M.XII.
-
-2.º Outro que foi encontrado mesmo em Coimbra e aponta M.IIII.
-
-Nem aquelle nem muito menos este servem ao meu intento; o traçado
-litigioso no nosso caso é para norte da Mealhada e Anadia, e não entre
-Mealhada e Coimbra. (Vid. Borges de Figueiredo, _Oppida restituta_, p.
-82; Hübner, _Notas archeologicas sobre Portugal_, p. 67, trad. cit.:
-_Catalogo dos objectos existentes no Museu de Archeologia do Instituto
-de Coimbra_, p. 6; A. Filipe Simões, _Escritos diversos_, 1883).
-
-3.º Um pretenso milliario descrito por Fr. Bernardo de Brito na
-_Monarchia Lusitana_, II, V, p. 3. Este vicio de origem obriga-me a pôr
-ainda de parte este monumento como comprobativo da directriz; Hübner
-fulmina-o com a sua desconfiança (_Corpus_, II, 55 a *) dizendo que
-Brito queria demonstrar com elle a existencia de _Vacua_. Não lhe darei
-porém eu maior valor que o proprio monge, que, como por prevenção,
-confessa que as letras da pedra eram «mal distinctas e muy quebradas».
-Assim a sua interpretação deve desinteressar-nos, visto que não ha meio
-de contraprovar a leitura de Fr. Bernardo de Brito, duvidosa para elle
-proprio. Para este, a lapide era porém um padrão de estrada, o que pouco
-vale por entretanto para nós; mas provinha do Castello de S. Gião, ao
-que parece, _castro_ rico em ruinas de muros, etc. Isto, cuja
-importancia só modernamente se aprecia, é que não se inventa e dá visos
-de que com effeito alguma cousa lá pudera ter apparecido. Mas Brito, com
-o dizer que a lapide era padrão de estrada, contrariava sem o advertir a
-propria crença de que a via romana seguia pela beiramar e _Talabriga_
-era em Aveiro. (_Mon. Lusit._, id., p. 130).
-
-Não obstante, ponha-se de parte a exactidão da epigraphe do supposto,
-mas rehabilitavel, milliario do castro de S. Gião, e fique,
-provisoriamente, apenas um facto--o achado de um padrão de via romana
-num castro das margens do Caima.
-
-A opinião de que Aveiro fôra o assento da antiga estação do Itinerario
-tinha ainda por si, alem do mappa de Abr.ão Ortelius (_Theatrum orbis
-terrarum_, Antuerpia, CIC.IC.CIII) o pensar de Florez (_España Sagrada_,
-tomo XIV, p. 73), que lêra Plinio e uma edição antiga do Itinerario
-romano. E póde dizer-se que foi essa a corrente que dominou até hoje, se
-com Aveiro abrangermos o aro circunjacente. (Vejam-se Adolfo Loureiro.
-_Os portos maritimos de Portugal_, II, p. 3; Marques Gomes, _Districto
-de Aveiro_, onde restringe[5] a Cacia o _ubi_ de Talabriga;
-Borges de Figueiredo, _Oppida restituta_, 1885; Pinho Leal, _Portugal
-Antigo e Moderno_, s. v. _Aveiro_; Gaspar Barreiros, _Chorographia de
-alguns lugares_; D. Nunes de Leão, _Descripção do reino de Portugal_;
-Francisco do Nascimento Silveira, _Mappa breve da Lusitania antiga_,
-etc.)[6].
-
-Regressemos porém ao _Itinerario_, e vejamos se será possivel concluir
-algo que um dia a pesquisa e exploração persistente do archeologo possa
-contraprovar. É o meu sonho.
-
-Que a medição total do _Itinerario_ relativa á via _ab Aeminio Calem_
-está notavelmente exacta, demonstra-o esta verificação facil: a somma
-das milhas que se contaram de Eminio a Gaia, reduzida a kilometros,
-(unidade mais pratica e mais exacta que a de leguas, até agora adoptada)
-era de 105:151 metros, como vimos; a distancia computada actualmente na
-Carta do Estado Maior d'esta região pela directriz da _estrada real_ é
-de 105:100 metros[7]. Não podendo ser mais breve a distancia
-d'esta estrada, como se verifica olhando os traçados rectificados ao
-lado do mappa junto, em que a distancia em linha recta e a rectificação
-exacta da extensão effectiva da estrada fazem pequena differença, o que
-mostra que os desniveis ou as inflexões do traçado são assaz reduzidos,
-conclue-se que a via romana, desde que marca igual extensão kilometrica,
-não poderia seguir caminho mais longo que ella, nem portanto muito
-distanciado d'ella.
-
-Esta coincidencia de medições é suggestiva e não permittiria, só por si,
-que a trajectoria da via romana e da actual estrada real divergissem
-muito. Se esta desenhasse uma inflexão pronunciada no seu trajecto de
-Coimbra a Gaia, claro é que era possivel, sem exceder a mesma extensão,
-encontrar outra curva symetrica que tocasse em pontos intermedios
-diversos e afastados, e coincidisse apenas nos respectivos extremos, o
-que nada util me seria; mas nas circunstancias que se dão e já
-salientei, e que me permittiram estudar sobre uma carta este problema, a
-coincidencia effectiva das duas vias de communicação deve em grande
-parte quasi corresponder á coincidencia theorica, agora expendida.
-
-Isto oppõe-se a que a via romana passasse em Aveiro, ponto muito
-afastado e divergente do trajecto theorico[8].
-
-
-IV
-
-Vou porém demonstrar por partes como isto assim deve ser. É preciso
-partir do principio já demonstrado, embora para o total da distancia,
-que as medições do Itinerario não contém erro. Qualquer inexactidão nas
-milhas marcadas para cada uma das secções da via militar alteraria a
-somma, desde que, por um acaso unico, não fosse compensada por outra
-inexactidão.
-
-Ora a via romana de Eminio contém tres troços ou secções; o 1.º de
-Eminio a Talabriga; o 2.º de Talabriga a Langobriga; o 3.º de Langobriga
-a Cale. Se uma sequer das distancias correspondentes do Itinerario
-contivesse erro, a somma total accusá-lo-hia; mas nós já vimos que a
-distancia de 105 kilometros corresponde a uma realidade. Comecemos pelo
-extremo norte da via. Isto conduz mais claramente ao meu fim; e descobre
-mais prontamente o erro em que até agora me parece que tem laborado os
-escritores. Tomemos o mappa[9].
-
-Se traçarmos um arco de circulo, cujo centro seja Gaia e o raio igual á
-distancia de Cale a Langobriga, isto é, a 19 kilometros (veja-se a
-escala), teremos obtido uma curva theorica (LL no mappa) que no terreno
-representa uma faixa de tolerancia, mais ou menos larga, dentro da qual
-e numa zona d'ella que seja compativel com um trajecto ininterrupto da
-via, cuja extensão já definida se não póde exceder, o archeologo deverá
-procurar os vestigios de Lancobriga.
-
-Esta zona, ou este segmento, não poderá pois, em principio, afastar-se
-consideravelmente da directriz da estrada real.
-
-Consultemos de novo o Itinerario. Entre Langobriga e Talabriga medeiam
-26:600 metros. Ignorando ainda qual o ponto preciso que na curva _LL_
-marca o primeiro d'aquelles oppidos, deveremos traçar um arco de circulo
-parallelo ao antecedente e á distancia que a escala indica. Como o
-terreno não é propriamente uma carta celeste[10] em que os
-pontos podem ser rigorosamente indicados, a nova curva deixada pelo
-compasso é representativa de uma segunda faixa de tolerancia,
-susceptivel de maior ou menor elasticidade, mas confinada, quanto á sua
-extensão, pela continuidade do trajecto viario em direcção a Aeminium,
-trajecto cujo comprimento tem limite determinado de milhas.
-
-E assim temos o arco _TT_.
-
-Nesta curva, que não é mais que uma zona media, deverão surgir ao
-appellido do archeologo as ruinas do que outrora foi Talabriga. Esta
-conclusão emerge logicamente das bases que tomei: o acerto evidente do
-Itinerario no total e muito provavel nas secções; a coincidencia das
-extensões da via antiga e da estrada moderna.
-
-Se agora, por contraprova, apontarmos o compasso a Eminio e girarmos com
-um raio de 59 kilometros, verificado segundo a escala, obteremos outra
-curva, a terceira, tangente á segunda e que tem a missão de indicar a
-zona util, o segmento dos arcos, correspondente á area provavel da
-situação de Talabriga. Porque o que não póde haver, é um hiato, uma
-interrupção de trajecto de Cale a Aeminium[11].
-
-Esta primeira phase da minha demonstração, porém, já torna incompativel
-a actual situação de Aveiro com vestigios de Talabriga. E mais do que
-isto; vem levantar um equivoco de Plinio, que parece suppôr aquelle
-oppido ao sul do Vouga; se assim fosse, não seria possivel encontrar o
-ponto de reunião do caminho que descia de Cale a encontrar Lancobriga
-aos 19 kilometros e se prolongava na direcção do sul até mais 20
-kilometros, onde devia beijar a Talabriga do Itinerario sem encontrar a
-de Plinio[12]. O hiato resultante fica, parece-me, fechado e
-annullado, desviando Talabriga de Aveiro e aproximando-a de Albergaria,
-ao norte do Vouga; isto é, a hipothese que proponho é a que se concilia
-em todos os pontos com o Itinerario.
-
-
-V
-
-Mas não se concilia só com esta fonte documental: é a mais plausivel em
-face das condições topographicas e historicas da região de
-Entre-Vouga-e-Douro.
-
-A actual directriz da estrada real é a que mais ou menos devia ter
-seguido a via romana que procurasse unir Eminio a Cale, dado o traçado
-que ella já trazia desde Lisboa.
-
-Em primeiro logar: as condições topographicas d'aquelle grande delta do
-Vouga não eram senão de molde para difficultar a abertura de uma estrada
-na epoca romana, em concorrencia com traçado mais firme e duradouro,
-mais economico, mais util e mais commercial. Aquellas planuras deviam
-existir já então, como um presente do Vouga, segundo se tem dito, creio,
-do Nilo.
-
-Se eram naquelle tempo pantanos, ou bosques intransitaveis[13]
-ou veigas retalhadas, como hoje, por um dedalo de canaes e
-esteiros, não me cabe a mim defini-lo. De qualquer d'estas fórmas, uma
-via romana não iria atravessar uma região em que a falta de pedra é
-quasi absoluta, e a multiplicidade de trabalhos de architectura civil ou
-de obras de arte uma consequencia inevitavel. Era preciso combater por
-um lado a pouca firmeza do terreno, por outro contar com o custo da
-empresa[14], ou os impecilhos da viagem.
-
-Por isso os mesmos motivos que na idade media afastaram a construcção,
-ou melhor, a conservação de uma estrada velha para longe da costa,
-obrigando-a a passar nas pontes que ainda existem, devem ter sido os
-mesmos que desviaram os engenheiros romanos de lançarem a via militar
-através de campinas encharcadas, só para irem buscar a embocadura do
-Vouga, antes de attingir Calem.
-
-Depois preciso é notar que havia outra directriz ao alcance da
-administração do Imperio, directriz que não podia admittir confrontos
-com a traçada através do delta do Vouga. Essa directriz levava a estrada
-romana pela orla fóra do terreno firme e accidentado e da região povoada
-de castros e abundosa de minerios, região que ainda hoje podemos ver
-acompanha-la pelo trajecto da estrada real. As vias de communicação teem
-muitas vezes uma directriz fatal e tradicional através de longos tempos
-e povoadores successivos[15].
-
-Póde soffrer destruição o caminho, sem estancar a arteria de communicação.
-
-A actual estrada real ou de macadam foi ainda, por assim dizer,
-decalcada pela anterior, a medieval, cujos restos subsistem nas pontes
-antigas de que os chorographos fallam. Esta orientou-se pela
-comprehensão das conveniencias, e afastou-se da embocadura do Vouga,
-seguindo a directriz mais economica e mais util; não direi ainda a
-directriz romana porque é o que pretendo demonstrar, mas a que era
-directriz tradicional, como vou explicar.
-
-
-VI
-
-Os castros ou montes habitados encontram-se precisamente no seguimento
-da via romana; os oppidos referidos pelos AA. antigos, as _brigae_, e as
-cidades romanizadas não são mais que uma evolução d'aquellas estancias,
-consoante as denominações que lhes applicaram[16]; era por
-essa corda alem, que o terreno baixo e plano da zona maritima começava
-de elevar-se. A estrada romana desenrolava-se por entre esses centros da
-habitação, abandonando ao lado um país chato, pouco firme e talvez quasi
-invio.
-
-Do sul para o norte _Anadia_ está situada nas abas de um monte de
-_Crasto_ (Pinho Leal e M. Gomes).
-
-_Agueda_ está tambem perto de um _Crasto_ (Pinho Leal).
-
-Nas margens do Vouga, naquelle logar onde subsiste ainda a ponte
-medieval (Pinho Leal), encontra-se na aldeia de _Vouga_ um morro que foi
-castro (Brito e P.e Carvalho, II, 161); explica Francisco do Nascimento
-Silveira (_Mappa breve da Lusitania_, p. 239) que _Vacca_ existia em
-sitio forte por natureza, entre as pontes de Vouga e Marnel, porque alli
-se vêem vestigios de muros antigos e sinaes de uma majestosa grandeza;
-existem ainda tijolos, cantarias, muralhas em _Lamas de Vouga_ (_Arch.
-Port._, V, 50 e VII, 191)[17], e havia ahi a _civitas Marnele_ (_Port.
-Mon. Hist._, «Diplom. de Chart.», n.º 819)[18], cuja origem deve ter
-sido outro castro.
-
-Na carta geodesica vê-se, junto ao rio, um _Castello_ (111). Isto é
-ainda do concelho de Agueda[19].
-
-Na freguesia de Serem, tambem concelho de Agueda, outra _civitas_
-(Viterbo, s. v. _Cidade_); ha lá sitios elevados a norte e a sul (Cfr.
-M. Gomes).
-
-Na freguesia da _Branca_ ha um logar de _Cristellos_ (M. Gomes e _Arch.
-Port._, II, 313).
-
-Na serra de S. Julião, mesma freguesia, _onde passa a estrada real_, diz
-o Sr. M. Gomes que ha ruinas de muralhas e fossos: acreditava-se (_Arch.
-Port._, loc. cit.) que ahi era a antiga _Langobria_ (sic). Não sei se é
-precisamente o mesmo local a que Brito (_Mon. Lusit._, II, V, p. 3)
-chama castello de _S. Gião_, onde havia ruinas de muros e elle encontrou
-o tal padrão suspeito e onde presume _Lancobriga_, não na Feira, diz,
-mas entre Albergaria e Bemposta, defronte de Pinheiro. Significativa
-confusão! Aquelle logar de _Cristello_ vem na carta geodesica entre
-Estarreja e a estrada real[20].
-
-Na freguesia de Ul ha outro castro (_aldeia do crasto_), de que porém
-não conheço o _ubi_. Tem uma cintura de muralha de pedra solta ou cousa
-que o valha. (Pinho Leal, s. v. _Ul_).
-
-Nas proximidades de Azemeis parece que não são escassos estes monumentos
-(_Quatro Dias na Serra da Estrella_, por E. Navarro, Porto 1884, p. 174).
-
-Em _Ossella_ ha um castro com ruinas de muralhas (Brito, _loc. cit._).
-
-Entre _S. Martinho_ e _S. Tiago_ vê-se na carta geodesica um _crasto_, a
-O. da estrada real; isto é no parallelo de Ovar. Será aquelle a que
-Pinho Leal chama Castro Troncal ou Francal (s. v. _C. de Cucujães_)?
-
-No _Arch. Port._, VI, 68, diz-se que ha em Oliveira de Azemeis um logar
-de _Lações_, onde foi a antiga Lancobriga (_sic_), porque ahi se ajustam
-as medidas do Itinerario e não na Feira ou Bemposta. Este sitio é
-elevado e estrategico; a sua cota é de 287 metros e fica na fronte de um
-promontorio fechado por duas ribeiras e no extremo de uma chapada em
-cujo prolongamento se conta ainda a altitude de 274 metros. É, pelo que
-se vê, um _castro_. _Lancobriga_ e que não.
-
-Em _Macieira de Cambra_ ha um castro (_Arch. Port._, VII, 54)[21].
-
-Em _Romariz_ informa o Sr. M. Gomes que ha um _Crasto_, onde appareceram
-antiqualhas da epoca romana; o que é presumivel e prova ter recebido a
-influencia dos seus conquistadores.
-
-Os antigos chorographos portugueses não teem dado valor aos cabeços
-elevados, onde se encontram os vestigios do que póde ter sido um castro,
-uma citania, emfim uma estacão archeologica pre-romana, e isso não
-admira; mas o facto é esse e constitue uma deficiencia na descrição dos
-logares, que actualmente seria imperdoavel, e que, num caso como o que
-estou versando, sonega lamentavelmente elementos aproveitaveis de estudo.
-
-Junto ao mar, e bastante para o norte, em Esmoriz, encontro menção de um
-castro, especializado hoje pelo erudito estudo que d'elle fez
-documentalmente o meu erudito amigo Sr. Pedro de Azevedo (_Arch. Port._,
-III, 137). Era o castro de _Aville_, _Ouvil_, _Ubile_ e _Obil_,
-denominações que se applicavam á lagoa que ainda existe, e que elle
-dominava. Crê o distincto publicista que aquelle castro é o mesmo
-outeiro a que o parocho depoente de 1758 chamou _Monte do Murado_,
-pertencente á freguesia de S. Martinho de Mozellos. Fico porém em
-duvida, pois que estando o castro _prope litore maris_ (Docs. de 1055,
-1076) bem como a lagoa (Docs. de 1057 e 1090), Mozellos parece um pouco
-afastado para o interior. Confessando que, sem a inspecção dos logares,
-a base é instavel, em todo o caso affiguram-se-me aqui dois castros
-distinctos.
-
-Em S.ta Maria de _Fiães_ apparece outro castro ou «povoação de Mouros»
-(_Arch. Port._, IV, 250).
-
-E d'ahi para o norte, são frequentes na faixa atravessada pelo caminho
-romano. Será algum d'estes castros o jazigo de Langobriga?
-
-Este inventario, tendo origem, como tem, exclusivamente bibliographica,
-não póde deixar de ser omisso. A averiguação local e a informação
-competente accrescentá-lo-hiam, se eu d'estes dois factores me tivesse
-soccorrido. Para o meu intento, o pouco que joeirei, era colheita bastante.
-
-
-VII
-
-Alem d'estas averiguadas condições de habitabilidade que se encontravam
-no trajecto da via romana e que, em meu entender, conjugadas com as da
-elevação e relevos de terreno, que para as populações ante-historicas
-constituiam uma necessidade vital, concorreria tambem, não sem ligação
-com ellas, a existencia de jazigos metalliferos.
-
-Nem todas as minas que enumero seriam conhecidas na antiguidade, mas em
-algumas ha vestigios da remota laboração e o que tudo attesta é que a
-região era mineira e portanto centripeta de populações.
-
-Os locaes explorados são Telhadella, Albergaria, Palhal, Milheirós,
-Cucujães, Nogueira, Ossella, Palmás, Carvalhal, Pindello, Silva Escura,
-Ul, Talhadas, Braçal, Coval da Mó, Malhada.
-
-Os minerios são cobre, tão procurado na antiguidade, chumbo, prata, etc.
-
-D'estes jazigos, aquelle em que são mais importantes os vestigios de
-antiga lavra, é o da Malhada, uma das concessões das chamadas Minas do
-Braçal. As madeiras de entivação, que foram encontradas dentro da mina,
-denotam tal antiguidade que parecem fossilizadas, em consequencia da côr
-negra que adquiriram. Os trabalhos antigos attingem a profundidade de 45
-metros (_Catalogo Descriptivo da Secção de Minas_, pelos Srs. Severiano
-Monteiro e J. Augusto Barata, p. 188).
-
-A respeito dos outros, a noticia de antiga exploração é muito vaga para
-que me seja licito insistir. Nas minas de Palhal tambem ha vestigios
-antigos. (Cfr. Marques Gomes, _Districto de Aveiro_).
-
-
-VIII
-
-Que se póde concluir das considerações que até aqui tenho encadeado?
-
-Por um lado, o estudo do Itinerario levou-me a aventurar na carta
-geographica, largamente circunscritas, as zonas em que o calculo faz
-presumir que se devem encontrar as ruinas de Talabriga; por outro lado,
-a inquirição topographica e onomastica da região, tanto quanto era
-possivel com a escassez de elementos, indicou-me alguns logares de
-archaicas estações archeologicas do genero da que deve ter sido
-Talabriga, como castro ou oppido submettido ao poder de Roma.
-
-Quero lembrar que _briga_ só póde corresponder a uma posição elevada, a
-um outeiro ou cabeço fortificado; por onde Talabriga nunca pudera ser
-Aveiro ou arredores (Vid. _Arch. Port._, XII, 42).
-
-Relançando novamente o olhar ao mappa, poder-se-há notar que a zona
-attribuivel á situação de Talabriga[22] não está erma de
-castros, antes nella se dão varias circunstancias que não posso deixar
-de aproveitar para a minha these conjectural.
-
-_Branca_ é uma freguesia cuja séde fica na margem direita de Caima e que
-é cortada pela estrada real; ha nella um logar de _Cristellos_, que só
-pelo toponimo demonstra a existencia de um castro ou oppido. Mas alem
-d'este, infere-se do Sr. Marques Gomes, de Fr. Bernardo de Brito (_loc.
-cit._) e d-_O Arch. Port._ (II, 313, «Mem. Parochiaes») que ha um local
-sito na serra de S. Julião, atravessado pela estrada real e que Brito
-mais claramente chama _castello_ de S. Gião (_castello_ por _castro_),
-no qual, segundo aquelles tres testimunhos, ha ruinas de muralhas e
-fossos, que o Sr. M. Gomes presume serem ruinas de uma _atalaia_ e que o
-parocho das _Memorias_ tambem capitula de vestigios romanos,
-acrescentando muito singularmente (note-se bem o que isto póde
-significar) que ahi esteve... _Langobria_ (_sic_). Foi aqui que Brito
-diz ter encontrado a tal pedra de _letras mal distinctas_ de que não
-affiança a leitura, mas que lhe pareceu _padrão de estrada_.
-
-E aqui tem cabimento o que já atrás deixo dito, para absolver de fraude
-consciente a noticia archivada em Fr. Bernardo de Brito.
-
-Parece-me pois ser neste aro, se não neste mesmo ponto, que se deverá
-procurar o jazigo, não de Langobriga, mas da nossa Talabriga, e é
-precisamente a estas immediações que o compasso me levou ao medir sobre
-a carta a primeira secção da via romana de Coimbra a Gaia[23].
-
-Não desconheço quanto de problematico isto tem antes de serem
-perguntados pelo archeologo os logares, as ruinas, os vestigios e os
-montes e as vozes da região, mas nem por isso o meu espirito deixa de
-ficar demonstrado, até o possivel, que as cinzas de Talabriga nunca
-podem estar guardadas em Aveiro. As coincidencias que acabo de notar,
-não são bases frivolas.
-
-Só pois a inspecção directa do terreno, nas immediações da Branca,
-poderá concorrer para confirmar ou destruir a minha conjectura.
-
-D'esta região para o norte, a via romana seguiria até Cale, mais ou
-menos proxima do actual leito da estrada real; só alguns vestigios ou
-referencias de documentos, como os de Grijó, e a inquirição dos logares
-e tradições poderão concorrer para precisar a trajectoria d'aquella
-antiga via de communicação; o caso em si, porém, é indifferente para a
-questão primacial que motivou este estudo. O que é certo, é que a
-estrada romana sulcava a faixa comprehendida entre a estrada real e a
-linha ferrea até o vertice de Gaia.
-
-Ao sul de Branca e Albergaria, a directriz da via militar sente-se
-escalonada nos vestigios medievaes que deixei explanados nas paginas
-anteriores. _Albergaria_ denota bem que o sitio era de assiduo e antigo
-transito (Viterbo, _Elucidario de palavras_, etc. s. v. _Albergaria_)
-ponto necessario de passagem para quem do sul buscava o norte do país.
-As _mansiones_ tinham o caracter de pousadas.
-
-Em tempos de lazer para obras de piedade, é que a instituição caritativa
-se fundou, como implemento de uma necessidade que já existia.
-
-As pontes de Vouga e Marnel são indicios bem importantes da frequencia
-das viagens através d'esta parte da região, afastada da costa baixa e
-paludosa. São decerto obras da idade media, dos _mouros_, diz Pinho Leal
-(s. v. _Marnel_ e _Vouga_). Mas os indicios pre-romanos e romanos
-soletram-se nessas ruinas de muralhas, pedras lavradas, vestigios de
-edifícios e toponymia, que os cabeços de Vouga e Marnel nos conservam,
-segundo descrevem Brito, Pinho Leal e os parochos do sec. XVIII nos
-extractos publicados pelo _Archeologo Português_.
-
-
-IX
-
-O sentimento de Gaspar Barreiros (_Chorographia de alguns logares_,
-MDLXI, p. 48 sgs.) era que a situação de Talabriga devia ser a actual
-Cacia, especialmente na igreja de S. Julião, onde apparecem vestigios
-antigos. Varios autores o seguem.
-
-As razões d'este illustre escritor do sec. XVI merecem alguma discussão.
-
-Barreiros funda-se no Itinerario e conta, no sentido d'este roteiro, as
-milhas de Conimbriga para o norte. E por confirmação d'este argumento,
-traz o passo de Plinio que eu já transportei a este estudo, mas com uma
-differença que elle tomou de um archetypo Toletano (p. 51), declarando
-porém que alguns exemplares de Plinio não são accordes com aquelle. A
-lição citada é pois esta: _A Durio Lusitania incipit, Turduli veteres,
-Pesuri, flummen Vacca, oppidum Vacca, oppidum Talabrica, oppidum et
-flumen Minium_, etc. Esta variante demonstra a existencia de uma cidade
-_Vouga_, que G. Barreiros colloca na Ponte de Vouga (p. 50 _v_). Algumas
-cartas antigas reflectem esta indicação. Isto posto, G. Barreiros leva a
-contagem de Conimbriga para Talabriga por espaço de 50 milhas, o que é
-exacto, espaço que elle computa equivalente a 12,5 leguas e enumera:
-
- De Condeixa a Coimbra 2,5 leguas
- De Coimbra á Mealhada 3,5 »
- Da Mealhada a Avellãs 2 »
- De Avellãs a Agueda 2 »
- De Agueda á Ponte de Vouga 1,5[24] »
- De Ponte de Vouga a Cacia 1 »
- 12,5
-
-«Na qual villa & igreja de sanct. Juliã nas ribeiras do Vouga situadas,
-se acham vestigios antigos, s. os fundam[~e]tos de h[~u]a torre que na
-memoria dos hom[~e]s inda staua quasi inteira, onde era outro tipo
-segundo ficou fama de h[~u]s em outros chegauam nauios da foz do mar,
-porque inda ali se acharam pedaços d'elles & anchoras iuncto da dicta
-torre em h[~u]a lagoa Afora muitos vestigios & ruinas d'argamassa que
-dentro em seu ambito cõprehende h[~u]a milha pouco mais ou menos» (p. 50).
-
-A não ser que tenhamos de recorrer a uma mudança da primitiva situação,
-nós temos de procurar em Talabriga a cidade preromana, que no sec. II a.
-C. Decimo Junio Bruto reduzia á miseria e á impotencia, segundo narra
-Appiano. E esse oppidum teria que possuir condições estrategicas
-identicas ás dos outros castros preromanos, taes como elles nos acenam
-que foram escolhidos pelas populações proto-historicas; teria que
-justificar o proprio designativo de caracter celtico _briga_--altura
-fortificada.
-
-Creio poder affirmar que nada d'isto se encontra em Cacia. Alem d'isto o
-proprio G. Barreiros, no dizer que, entre os vestigios antigos,
-sobresaía uma torre, que ainda andava lembrada, e se topavam «ruinas de
-argamassa», quasi estabelece uma chronologia, porque taes vestigios não
-podem ser anteriores aos romanos; poderão attribuir-se menos á sua epoca
-que ás posteriores. Para a contemporaneidade, teriamos que admittir e
-demonstrar uma deslocação do primitivo assento de oppidum, como vimos;
-se esses vestigios se affectam ás epocas successoras dos romanos, o
-facto sae para fóra do problema e d'elle me não posso occupar.
-
-O principal estorvo, porém, que a opinião de Barreiros encontra, é
-aquelle que eu quis descobrir e evitar, quando ajustei a medição do
-itinerario a contar de Cale para o Sul e não de Aeminium para o Norte.
-Evitei assim o erro de cair em Aveiro, em Esgueira e agora em Cacia,
-onde muito bem podia ir passar com o roteiro romano nas mãos.
-
-Isto illumina-se á luz da carta. Barreiros vem seguindo, com os ouvidos
-na tradição do seu tempo, o leito do caminho romano (dito mourisco) pela
-Mealhada, Agueda, até á ponte de Vouga, e até aqui bem elle vem; chegado
-porém a esta altura, desnorteia-se e inflecte para Oeste para fazer a
-primeira estação de Itinerario em Cacia, imaginando-se em Talabriga.
-Kilometricamente, creio não haver que lhe objectar. A distancia da ponte
-de Vouga a Cacia é proximamente igual á que entre o mesmo ponto se nota
-e a linha-zona _TT_, que eu determinei. Portanto não falseava o illustre
-chorographo quinhentista a tabella do Itinerario, isto é, as 50 milhas
-desde Condeixa (Conimbriga).
-
-Mas a precaução de começar a contagem de Cale para Talabriga, obsta ou
-impede aquella inflexão e obriga a trazer o caminho numa directriz mais
-desempenada para a ponte de Vouga. Volvendo os olhos á curva _TT_ do
-mappa, ver-se-ha que Cacia lhe fica a distancia grande porque, com este
-desvio da trajectoria normal, a medição romana perdeu espaço, atrasando-se.
-
-Se não fosse este meio de verificar o erro, era possivel a desorientação.
-
-Creio, pois, ter demonstrado pela ethnographia e pela geometria
-topographica que Talabriga não póde ser collocada em Cacia, quer se olhe
-á Talabriga preromana ou protohistorica, quer á romana ou historica; á
-Talabriga de Appiano e D. J. Bruto ou á da epoca imperial e do Itinerario.
-
-
-X
-
-Como, segundo se infere de Appiano (vid. adeante), o oppidum de
-Talabriga continuou a ser habitado depois da sua rendição no sec. IV a.
-C. e emfim ainda existia no sec. IV d. C., poderia succeder que elle
-conseguisse resistir á vinda dos barbaros, e chegar ao dominio dos
-arabes. Convinha pois consultar a geographia arabica, e o nome de
-Edrisi, geographo do sec. XII, impunha-se-me logo.
-
-O que das suas differentes traducções se conclue, não é nada claro para
-mim que ignoro o arabe, mas poderá auxiliar o estudo da questão por
-parte dos arabistas.
-
-Ha uma edição de 1619 (Paris) com o titulo de _Geographia Nubiensis_,
-que quero pôr em confronto com a traducção de Amédée Jaubert
-(_Géographie d'Edrisi_, Paris 1840).
-
-Edrisi descreve dois caminhos de Coimbra a Santiago de Compostella: um
-por terra, outro por mar.
-
-
-Caminho por terra
-
- _Ed de 1619_ (trad. lat)
-
- «Iter autem terrestre a _Colimria_ ad _S. Jacobum_ est hujusmodi: a
- _Colimbria_ ad oppidum _Aba_ stationis habetur intervallum. Ab _Aba_
- ad oppidum _Vatira_ statio. Ab hoc ad primos terminos regionum
- Portugalliae, statio, pergit que iter secans terram Portugalliae
- spatio diei, ibique conspicitur oppidum _Bonacar_ ad ripam fluminis
- _Durii_, quod est flumen Samorae, atque illic trajiciendum cymbis ad
- hoc paratis. Ab oppido ad amnem Minio, indeque ad castellum Abraca
- LX M. P. duae videlicet stationes. A castello _Abraca_ ad castellum
- _Tui_ stationes duae».
-
- ---
-
- O editor de 1619 diz que não ha medida certa para as _stationes_,
- expressão que se referia a pousada dos viandantes. As _stationes_
- justas eram de 25 milhas, mas algumas tinham mais, outras menos.
- Parece que seria o espaço que se poderia percorrer em um dia.
-
-
- _Ed. de 1840_ (trad. fr.)
-
- «O itinerario por terra de Colomria (Coimbra) a S. Tiago é como
- segue: de _Coimbra_ a _Abah_ (Ribadavia) (!) aldeia, uma jornada. De
- _Abah_ a _Uetaria_ (Huctaria) (?) aldeia, uma jornada. D'ahi á
- fronteira de Portugal, uma jornada. O caminho vae através das terras
- de Portugal durante uma jornada, ao fim da qual se chega a
- _Buna-Car_, aldeiasinha nas margens do _Douro_, que é o rio de
- Zamora. Passa-se o rio em barcos proprios para isto. D'este logar ao
- rio _Minho_ ou antes ao forte _Abraça_ (insua de Caminha) (?) 60
- milhas ou duas jornadas. Depois _Tuia_ (Tuy) cidade pouco notavel,
- mas bella e numa região fertil, duas jornadas» (II, p. 232)
-
- ---
-
- No texto francês, ao vocabulo _statio_ corresponde _journée_, que eu
- traduzi por _jornada_ (de um dia).
-
-
-Temos aqui duas traducções do texto arabe, uma em frente da outra, e a
-verdade é que sufficientemente se correspondem. O principal para o meu
-fim seria a localização das estações de Edrisi; neste ponto o traductor
-francês apenas conserva intemeratamente as tradições dos estrangeiros
-quando, fallando ou escrevendo, debicam na nossa geographia.
-
-Nem ao diabo lembra que a Coimbra se siga... _Ribadavia_!
-
-A primeira estação ao deixar Coimbra é _Aba_ (ed. 1619) ou _Abah_ (ed.
-1840). Poderá corresponder a _Agueda_? Jaubert desejaria falar em
-_Riba-d'Agueda_! É provavel.
-
-A segunda estação foi interpretada por _Vatira_ (ed. 1610) e _Uetaria_
-(ed. 1840). Não sei identificar esta localidade, assim desfigurada.
-
-Em seguida a isto, se na versão latina parece haver uma incongruencia,
-ella desapparece na traducção francesa. Através das terras de Portugal,
-chega-se com um dia de viagem ás margens do Douro. Isto parece ser bem o
-tradicional caminho que entesta na foz do Douro.
-
-Não diz o geographo arabe em que ponto da margem do Douro ficava _Bona_
-ou _Buna-car_, expressão que não sei reconhecer, mas parece-me que deve
-ser a embocadura d'este rio, e é a seguinte a razão. Diz Edrisi que de
-_Bona-car_ ao rio Minho são 60 milhas; ora, numa pagina anterior (p.
-227) elle conta da foz do Douro á do Minho as mesmas 60 milhas. Portanto
-creio que _Buna-car_ era aproximadamente em Gaia, onde depois o rio se
-atravessava em barcos[25].
-
-Descrevendo o mesmo _caminho por mar_, isto é, a viagem de Coimbra a
-Santiago, o primeiro ponto onde diz que se abica, é a foz de
-_nahr-Budhu_ (rio _Vadeo_, traduz A. Jaubert!) que corresponde ao Vouga,
-rio, acrescenta, consideravel, onde entram embarcações grandes e
-pequenas (II, 227). Esta aclaração parece indicar que naquelle tempo a
-foz do Vouga e o lago interno serviam a uma navegação bastante activa.
-Quanto ao relacionamento da antiga Talabriga com alguma das estações do
-caminho medieval descrito por Edrisi, nenhuma conclusão posso tirar com
-segurança.
-
-Com muita probalidade porém se infere d'isto que o caminho frequentado
-então devia ser o que hoje corresponde á estrada real com a passagem nas
-pontes medievaes de Vouga, mas emquanto não se fixarem estes dois ponto;
-duvidosos, localização muito verosimil de _Aba_ ou _Abah_ em Agueda e
-incerta de _Vatira_ ou _Ueturia_, o testemunho do geographo arabe apenas
-serve seguramente para localizar as testas d'este caminho, estabelecer
-com grande plausibilidade a tradição do caminho historico pela orla das
-montanhas e revelar-nos o movimento commercial da foz do Vouga.
-
-
-XI
-
-Tratando-se pesquisa dos vestigios da via romana _ab Aeminio ad Calem_,
-o testemunho de Viterbo (_Elucidario_, s. v. _Estrada mourisca_) devia
-ser ponderado. Diz este illustre antiquario que, nos documentos de
-Grijó, se fazia larga menção de propriedades que ficavam umas da parte
-de cima, outras da parte de baixo da estrada mourisca. No anno de 1148,
-Trutesindo doa ao celebre mosteiro o que possuia em Brantães e em S.
-Felix _subter illam Stratam Mauriscam, discurrente riuulo Cerzedo_.
-
-Acrescenta o sabio antiquario que a estrada era mourisca por ter sido
-aberta pelos Mouros, que abandonaram a romana que vinha ali a passar
-entre Lancobriga e o mar, pois que com o rodar dos annos a costa se
-entupira e alteara por causa das areias e os rios estagnados não só
-esterilizaram os campos, mas fecharam a passagem dos caminhos. E mais
-depõe Viterbo que a estrada mourisca ia do Porto a Agueda por Azemeis,
-Albergaria, Vouga, etc.
-
-Antes de mais: notemos esta opinião corrente, esta tradição, tão
-concordante com o que eu já procurei accentuar, de que a tal estrada
-_mourisca_ descia do Porto a Agueda precisamente por Azemeis, por
-Albergaria e por Vouga.
-
-Que Viterbo lhe chamasse _mourisca_ não é de espantar; era a voz popular
-que ainda hoje nos falla de Mouros sempre que tem de referir-se a povos
-muito antigos, preromanos, romanos, barbaros, etc[26].
-
-Mas o documento de 1148 já tratava de mourisca uma obra que não podia
-ser dos Sarracenos, a esse tempo ainda no sul de Portugal. Creio não se
-poder sustentar que a estrada que passava em Cerzedo era construida por
-arabes; aproveitada sim, porque sendo o caminho que elles ainda
-encontravam á sua disposição, devia ser aquelle que inundavam do terror
-das suas algaras.
-
-Em que elementos se estribava Viterbo para dizer ainda que a mesma
-estrada mourisca tocava em Oliveira de Azemeis, Albergaria, Vouga e
-Agueda? Confesso que não os conheço, a não ser que a memoria e o uso
-d'este caminho tradicional se perpetuassem através de tantos seculos e
-tão profundas transformações sociaes.
-
-Informa Pinho Leal que na freguesia da Trofa (concelho de Agueda) ha
-ainda o logar de _Mourisca_, á margem da estrada, e que o nome lhe veio
-d'esta. Traduzindo _mourisco_ em _romano_, póde ser acertada a
-supposição. Isto transcreveu-o elle de Viterbo, s. v. _Estrada_.
-
-Mais expressivo é o tópico de um sitio, perto de Lamas e junto da
-estrada real; chama-se elle _Fundo da rua_. Tal rua não é outra senão a
-via romana. Esta explicação affere pela que dá o _Corpus_ (II. p. 363)
-com referencia a uma freguesia de Santo Estevam da Rua, onde passava uma
-estrada romana (_oppido quod a via romana nomen duxit_). A 3:500 para O.
-da Feira ha um sitio chamado _Rua Nova_. Aqui é que só a inspecção dos
-logares poderia indicar-me o significado d'este tópico.
-
-Num escritor estrangeiro do sec. XVIII, lê-se uma descrição litteraria
-do caminho através do campo de Aveiro, que só se entende se o
-suppusermos encostado ás montanhas de leste, permittindo que se
-descortine para a banda do mar toda aquella immensidade de terras
-feracissimas que aquelle autor olhava como planicie encantadora
-(_Annales de l'Espagne et du Portugal_, Alvares de Colmenar, Amsterdam
-1741, p. 253).
-
-Isto demonstra que a estrada real de hoje é um caminho velho e
-tradicionalmente batido para ligar Coimbra ao Porto.
-
-Nos _Port. Mon. Hist._ não se encontram referencias mais claras do que
-esta de Viterbo e as que adduzi em nota, á antiga via romana. Compulsei
-bastantes documentos d'aquella publicação e nella encontrei variadas
-referencias a caminhos, mas em termos d'onde não se podia concluir cousa
-alguma que indicasse o conhecimento da existencia de uma estrada da
-epoca romana, considerada como tal[27].
-
-
-XII
-
-Um esclarecimento dá Viterbo que é exacto e tem importancia para a
-historia d'esta região tributaria dos esteiros vacuenses.
-
-Retiro-me ao «entupimento» da costa que com o rodar dos annos se foi
-alteando e ao «estagnamento» dos rios que esterilizava os campos e
-fechava os caminhos. Esta acção do mar na costa de Aveiro tem sido um
-problema technico e administrativo extremamente complicado para os
-governos portugueses, não só pelas condições commerciaes de Aveiro, mas
-pelo estado sanitario de toda esta região. O coração d'este problema é a
-barra do Vouga.
-
-É difficultoso dizer o estado d'esta embocadura nos tempos que
-interessam ao presente estudo. Tenho lido que, na epoca romana, entravam
-a foz do Vacua embarcações de grande arqueamento (_Os portos maritimos
-de Portugal_, pelo Sr. Adolfo Loureiro, II, 3). Não sei que fundamentos
-póde ter esta asserção, que em todo o caso é relativa á tonelagem dos
-antigos navios.
-
-Os geographos antigos que se referem a este rio lusitanico, não dizem
-cousa d'onde se possa inferir a sua capacidade para grandes embarcações,
-como aliás se tem escrito.
-
-O mais explicito é Estrabão (_Geographia_, liv. III, III), que vertido a
-latim, diz: _Deinceps post Tagum nobilissima flumina sunt Muliadas,
-parvas habens navigationes. Itidem Vacua fluvius, post quos Durius longo
-fluens cursu_, etc. O geographo grego iguala o Mondego (_Muliadas_) rio
-de navegação diminuta, ao Vouga, da mesma fórma (_itidem_) estuario de
-diminuta navegação. E tanto mais é esta a natural hermeneutica, que o
-contraste é frisante com a importancia do Douro, _longo fluens cursu_.
-Estrabão escreveu no sec. I a. e d. de C.; como póde affirmar-se que no
-tempo dos romanos entravam o Vouga embarcações de longo curso e a sua
-foz era um porto de grande commercio e muita prosperidade?
-
-Ora isto vem ao intento de eu pretender que no surgidouro do Vouga não
-havia nos primeiros seculos, pelo menos da epoca romana, povoação de
-vulto que determinasse uma passagem forçada na via militar e um desvio
-da natural directriz _ab Aeminio Calem_. E para um porto de tamanho
-trafego, era pouco um simples _vicus_.
-
-Temos pois a affirmação estraboniana[28]. E antes?
-
-Menos ainda. Diz-se que em algumas minas da região metallifera de
-Entre-Vouga-e-Caima tem apparecido vestigios de antigas laborações.
-Apesar da falta de precisão chronologica nesta noticia, póde presumir-se
-o facto até para a epoca preromana. E neste caso, a via fluvial seria a
-mais pronta saida do mineiro para o commercio externo.
-
-Mas um óbice encontro agora. Seria consequente que este trafico
-determinasse a formação de um povoado á beira-mar ou na enseada
-interior. A essa gente faltaria, porém, uma cousa, que se lhes tornára
-tão indispensavel, como o pão para a boca: era a segurança pessoal, era
-o ninho de aguia. Com as planuras não se queriam elles. A não ser que
-deroguemos os conhecimentos adquiridos no que até agora se tem encontrado.
-
-Alem disto, que motivos ha para tirar effeíto tambem retroactivo á
-noticia de Estrabão?
-
-Um primorosissimo escritor[29], filho de Aveiro, evita, com
-exemplar abnegação patriotica, o problema archeologico da origem
-preromana da sua terra natal, mas propende á presumpção de que algum
-povoado assentaria antigamente na foz do Vouga os seus lares. E enfeixa
-o illustre homem de letras duas razoes: 1.ª, a geographica; 2.ª, a da
-exploração do sal. Aquella parece-me menos conciliavel com a
-ethnographia dos povos a que se deseja alludir, como notei. E esta? Para
-o commercio, quer interno quer externo, temos ainda o mesmo senão. Os
-marnôtos d'aquelle tempo onde se acoitariam[30]?
-
-Que, posteriormente a Estrabão, as _parvae navigationes_ crescessem em
-numero e tonelagem não é impossivel, porque a vida social começava já a
-fervilhar nas planicies.
-
-E a industria do sal, cuja utilização aliás já data dos tempos
-neolithicos, poderia commercializar-se (perdão para o neologismo) d'essa
-epoca em deante, se tomarmos por base da hypothese o caracter latino da
-technologia[31] e o que sabemos por aquelle geographo da
-importancia das salgas (_Geographie de Strabon_, por Am. Tardieu, 1886;
-III-IV-2). Mas então já a via militar _ab Aeminio ad Calem_ lá estaria
-antes de ser necessaria, se necessaria se pudesse considerar por motivo
-do commercio externo, num porto afastado da linha natural de
-communicação e posto em duvida pelo silencio dos textos, como vimos.
-
-Do que o Vouga seria na idade media possuimos o testemunho do geographo
-arabico Edrisi (_Géographie d'Edrisi_, trad. de P. Amédée Jaubort. Paris
-1840 II, 227).
-
-O nosso rio foi transposto para aquella lingoa por uma palavra que A.
-Jaubert representa na graphia francêsa por _Boudhou_ (ou==u); e assim
-conforme o texto arabico vemos que o _nahr-Budhu_ é um rio consideravel
-onde navegam embarcações grandes e pequenas, e a navegação se estende a
-70 milhas da sua foz. Agora já começamos a entrever uma população
-occupada no trafego maritimo.
-
-A diplomatica tambem proporciona alguns elementos de estudo
-relacionaveis com este, mas propriamente esta epoca já não interessa á
-questão posta.
-
-Há porém, uma cousa que não posso omittir.
-
-É o documento n.º LXXVI dos _Port. Mon. Hist._, «Dipl. et Chartae», onde
-se lê a fórma medievica de Aveiro, a qual é _alauario_, o que só por si
-desmorona as hypotheses etymologicas a que varios chorographos se tem
-apegado, mas revela pela primeira vez a existencia de uma povoação onde
-hoje é Aveiro (assim tambem _Talabario_ e _Táveiro_. Doc. CXXVIII).
-
-O trabalho do mar e das aguas na desintegração de um subsolo brando e a
-força do vento nos areaes movediços devem ter sido causa perenne e
-inflexivel dos açoreamentos e obstrucção da navigabilidade[32]. O factor
-é antigo, tão antigo quanto o póde ser, por maneira que aquella região
-nunca teve, fóra das epocas geologicas, outra face topographica muito
-diversa da dos nossos dias[33]. É presumivel que elevadas florestas
-forrassem com sombras impenetraveis toda essa immensa orla limitada pelo
-mar a Oeste e pelas montanhas a E., na região e na epoca de que me
-occupo[34] como em outros pontos suppôe o Sr. Alberto Sampaio
-(_Portugalia_, II, 215, art. cit.); mas isso não importa acreditar a
-possibilidade da via romana por terrenos de tal especie.
-
-Informou-me o distincto engenheiro Sr. Mello de Matos, que, ao
-proceder-se aos trabalhos de construcção de uma ponte nas proximidades
-de _Vagos_, se encontrou encastoado nas areias o cavername de um navio,
-que infelizmente não foi estudado. Na _Esgueira_, achara-se outro.
-
-Narra Pinho Leal que ha annos em Vagos se descobriu uma ponte sobre um
-ribeiro que a areia das dunas entupiu completamente. Escusado é
-acrescentar que a ponte foi logo capitulada de _romana_, nada menos.
-
-Estes factos não tem sido apenas recentemente verificados. Já vimos num
-trecho, que desatei do nosso Gaspar Barreiros (p. 50) que pelas alturas
-de Cacia se tem encontrado, submersos na terra, cascos de navios e
-ancoras, o que radicou a crença de que as embarcações chegavam ate ahi
-em tempos antigos. Esta apreciação já é do sec. XVI.
-
-D'este millenario ha um mappa, publicado por Abrahão Ortelius, onde se
-reconhece nitidamente a bacia de Aveiro. (Vide _Theatrum orbis
-terrarum_, já citado a pag. 132).
-
-Estes factos esclarecem o assunto e reatam a tradição de que os fundos
-da ria se vão alteando com a obstrucçâo nos esgotos das correntes
-fluviaes. Fr. Bernardo de Brito (_Monarchia Lusitana_, II. V. p. 130)
-diz que, do tempo d'elle, Aveiro, muito concorrida de gente de mar e
-pescarias, era cidade florescente[35].
-
-O Sr. Cons.º Luis de Magalhães tambem entende que, tendo ahi embarcado
-para uma jornada de Africa os terços da Beira, é porque o porto
-consentia a arqueação das caravelas.
-
-D'esta epoca ha mais elementos concordantes no movimento commercial de
-Aveiro e portanto no estado da sua barra. (Vid. _Os portos maritimos de
-Portugal_, pelo Sr. A. Loureiro, II, 3).
-
-O que Barreiros conta relativamente a Cacia, encontra-se repercutido num
-local situado muito mais acima sobre o Vouga. No sec. XVIII corria que
-em eras passadas ainda os navios subiam aquelle estuario até a antiga
-cidade de _Vacua_[36], onde depois foi a villa de Vouga e
-agora mero cabeço de Vouga (_Arch. Port._, VII, 191), que aliás tende a
-desapparecer, como desappareceu a de Marnel pelo impaludismo (Pinho
-Leal, _Port, Ant. e Mod._, s. v. _Vouga_).
-
-Esta noticia, porém, deve interpretar-se com uma informação mais
-minuciosa que encontro em uma obra de 1741 (_Annales de l'Espagne et du
-Portugal_, por Alvares de Colmenar, Amsterdam). Diz este A. que Aveiro é
-uma cidade bastante consideravel, situada na testa de um pequeno golfo
-que a maré estabelece na embocadura do Vouga. Este rio fórma um porto de
-limitadas dimensões, onde os navios mediocres, que não demandam senão 8
-ou 9 pés de agua, podem entrar na preamar, com a direcção de pilotos do
-sitio. Este A. já falla na grande producção de sal e nas fortificações
-constantes apenas de uma muralha flanqueada de algumas torres.
-
-Na lagoa de Esmoriz, de que falla um doc. do sec. IX, (_Port. Mon.
-Hist._, «Dipl. et Chart.», n.º XII), havia uma barra por onde entravam
-as caravelas em antigos tempos e depois se entupiu (_Arch. Port._, IV,
-144).
-
-O caso do cavername encontrado perto de Vagos liga-se com a noticia do
-sec. XVIII, transmittida pelas _Memorias Parochiaes_, segundo as quaes o
-braço da ria que existe entre Aveiro e Ilhavo dava antigamente fundo
-para caravelas e agora é vadeavel (_Arch. Port._, IV, 329).
-
-Em Mira, numa lagoa de agua doce, conta um informador que nella se
-encontram vestigios de casas, moedas e alicerces de uma parede ou
-caminho que a atravessou pelo meio. Alem disto, pelo norte e poente,
-tem-se açoreado (_Arch. Port._, V, 297).
-
-Quanto se póde deduzir d'estas noticias, o extenso delta vacuense tem
-sido invadido com trabalho successivo pelas areias que causam a
-obstrucção dos esteiros e a diminuição da navegabilidade. De nenhuma
-noticia, porém, se póde concluir que na epoca romana o aspecto
-topographico e a constituição orographica da região fosse tão diverso do
-que é actualmente, que a via romana lá pudesse passar preferentemente ao
-trajecto mais interno, na base da montanha, através dos castros e das
-minas.
-
-
-XIII
-
-De Talabriga temos uma das paginas da sua historia escrita por um autor
-do meio do sec. II d. C., Appiano de Alexandria.
-
-É certamente este um caso particular, mas não deverá deixar de ser
-considerado como uma amostra de dramas analogos que succederam com os
-oppidos lusitanos, no embate das cohortes romanas.
-
-Talabriga, escreve Appiano, era uma das cidades (da Lusitania) que mais
-frequentemente se revoltava. Esta falta de resignação, este, direi eu,
-germen de patriotismo ou melhor de municipalismo, não podia
-tranquillizar Decimo Junio Bruto, que julgou que o caso era de reclamar
-a sua presença no local da cidade. Partiu com numerosa gente, e ao seu
-apparecimento responderam os irrequietos Talabrigenses com supplicas e o
-seu incondicional abandono á discrição do conquistador. Então J. Bruto
-foi energico e insaciavel, mas ao mesmo tempo teve um lanço inesperado
-de generosidade. Quis fazer-lhes sentir primeiro a dureza cruel do seu
-braço de guerreiro, e para isso impôs-lhe a immediata entrega dos
-transfugas das hostes d'elle, certamente alliados dos romanos, a dos
-prisioneiros, a de todo o armamento e ainda por cima exigiu refens.
-Depois chegou a ordenar-lhes que abandonassem a cidade com suas mulheres
-e filhos. Parece que o prestigio militar de J. Bruto não valia menos que
-seu tino de politico e conquistador. Os Talabrigenses aprontaram-se para
-obedecer alli mesmo. Mas o capitão romano queria compor-lhes um quadro
-que lhes impressionasse perduravelmente a imaginação. E ia espreitar o
-effeito produzido.
-
-Desdobrou em circulo as suas tropas e, agglomerando dentro a chusma dos
-habitantes humilhados, arengou-lhes. Fez-lhes perceber que não receava a
-sua turbulencia indomita, porque quantas vezes desertassem, outras
-tantas elle viria combatê-los e reduzi-los com a necessaria firmeza,
-incutido assim o receio e a convicção de que no momento adequado, J.
-Bruto cairia sobre elles com toda a energia, o general romano quebrantou
-a sua ira, satisfeito com estas objurgatorias. Mas não sem que lhes
-tomasse os cavallos, os mantimentos, os dinheiros da cidade com todo o
-outro material publico[37]. Isto era claramente deixá-los na
-impotencia e até na penúria. E por fim J. Bruto, contra tudo quanto os
-Talabrigenses podiam já esperar (_pratter spem_), restituiu-lhes a
-cidade para nella continuarem a habitar. Isto passava-se já meado o sec.
-II, antes de Christo (138 a. C).
-
-Feito isto, o conquistador regressou a Roma.
-
-Esta pagina da conquista da Lusitania é tanto mais importante quanto é,
-com igual individuação, a unica que nos resta de historia escrita dos
-oppidos lusitanos, e, embora narre um só episodio da guerra da
-conquista, não deixa de ser elucidativa.
-
-Quando li este trecho de Appiano (_Appiani Alexandrini Rom. Historiarum
-quae supersunt_. Parisiis. F. Didot. MDCCCXL), confesso que senti
-amargura por não podermos ainda ir conversar na região do Vouga com as
-ruinas da cidade onde estes successos crueis se desfiaram, e segredar ás
-cinzas d'aquelle abrasado patriotismo que o mesmo sentimento, que
-chammejou nesses lusitanos insoffridos, ainda se não arrefentára com o
-soprar sobre ellas de vinte vezes cem invernos, e em mais de um dia, já
-da nossa existencia nacional, elle se tem ateado em protestos bem
-tumidos de calor.
-
-Talabriga continuou a existir e refazer-se, atravessando a epoca
-imperatoria, como nos attesta: 1.º, a data a que pertence a ara de
-Estorãos, sec. III-IV; 2.º, a sua inscripção no Itinerario (sec. IV).
-
-Que seculos lhe trouxeram o ultimo acto das suas tragedias? Os do mal
-afamado frankisk barbaro ou os do pavor sarraceno mais verdadeiro e real
-que aquelle, sobretudo no territorio portugalense?
-
-Entrevejo pois para a archeologia portuguesa este problema: sondar o
-jazigo de Talabriga, verdadeiro simbolo do nosso sentimento de
-independencia territorial e figura-se-me que mostrei onde com toda a
-probabilidade elle se deve encontrar. Espero ter eu mesmo ensejo de
-averiguar se o simples e frio raciocinio me guiou, sem desvio, até as
-trincheiras historicas, que occultam os miserandos restos de Talabriga.
-
-Conservar-se-ha ainda evolucionado este toponimo? Responderá o
-onomastico, paternalmente assistido pela philologia, não se dando o caso
-mais provavel do verso susodito de Vergilio:
-
- _Haec tum nomina erunt, nunc sunt sine nomine terrae!_
-
-Março de 1907.
-
-
-_P. S._ No mappa do _Ortelius_, de que me soccorri a pp. 132 e 155, vejo
-nova _Lancobriga_, pelo sul de Scalabis; teremos tres? (Ver _O Arch.
-Port._, XII, 42).
-
-
- [1] O brasão de Agueda ostenta num lemnisco o mote Aeminium. Mas
- Coimbra tem hoje uma lapide, quo lhe dá irrecusavelmente o foro de
- _civitas aeminiensis_.
-
- [2] Um dos autores que se destacam por tentar a determinação de
- Talabriga e Langobriga (e ainda outras estações da via ab _Olisipone
- Bracaram Augustam_) por um processo exacto é o Sr. J. Henriques
- Pinheiro, fallecido professor do Lyceu de Bragança. Mas talvez em
- consequencia de trabalhar sobre uma carta (a de Folque) muito
- reduzida e de se servir da reducção de milhas a leguas, localiza
- Talabriga em _Aveiro_ e Langobriga na _Feira_. Em todo o caso, não
- podendo conciliar as distancias relativas a Langobriga, conclue que
- ha erro nos Codices (_Estudo da Estrada Militar Romana de Braga a
- Astorga_, por J. Henriques Pinheiro, Porto, 1896, p. 129).
-
- [3] O Sr. A. Coelho diz que a fórma verdadeira é a de Estrabão, como
- o prova a moderna _Vouga_ e _Vauga_ dos documentos em baixo latim
- anteriores ao sec. XII (Mélanges Graux, 1882). Vid. _Religiões de
- Lusitania_, II, 28.
-
- [4] Nas _Noticias Archeologicas de Portugal_, de Hübner, trad. do
- Visconde de Juromenha, vem um extracto do Itinerario segundo a ed.
- de Parthey & Pinder (1848). Prefiro a lição _briga a brica_ de
- Wesseling, ed. dos _Vetera romanorum Itineraria_, MDCCXXXV.
-
- [5] Não pude haver á mão as _Memorias_ d'este mesmo senhor.
-
- [6] Como preciosidade estrangeira, desejo referir que o aliás
- eminente celtista D'Arbois de Jubainville, num estudo erudito sobre
- «Les Celtes en Espagne» (_Revue Celtique_, XIV, § 8) diz, de
- passagem, ser Talabriga a actual povoação de Sousa, conc. de
- Alenquer! Presumo que esta incongruencia é proveniente do que
- escreveu _C. Muller_ em uma nota da _Cl. Ptolemaei Geographia_ (I,
- 137) a respeito de Talabriga: _Oppidum haud longe a Vouga, fluvio
- circa, hod. Souza alicubi steterit. Accuratius locum definire non
- licet._ Como ha mais Marias na terra, d'ahi proveio a confusão.
- Veja-se Sousa a O. de Vagos.
-
- [7] Por partes temos:
-
- De Gaia á Feira 21:900 metros
- Da Feira a Oliveira de Azemeis 10:900 metros
- De Oliveira de Azemeis a Albergaria 18:000 metros
- De Albergaria ao rio Vouga 6:800 metros
- Do rio Vouga a Agueda 9:000 metros
- De Agueda á Mealhada 22:000 metros
- Da Mealhada a Coimbra 16:500 metros
- 105:100 metros
-
- [8] Escreveu o autor do _Portugal Antigo e Moderno_ que a via romana
- seguiria pouco mais ou menos o trajecto da linha ferrea. Assim era
- preciso, se Talabriga fosse Aveiro, quer no troço ao norte, quer no
- troço para sul, em attenção ás condições topographicas. Neste caso,
- porém, a distancia de Coimbra a Gaia seria necessariamente pelo
- menos a que hoje é por aquelle caminho; nada menos de 115
- kilometros, o que está bem longe dos 105 kilometros da via romana e
- da estrada real. Num diagramma da carta indico a differença das
- distancias entre Cale e Talabriga e Gaia e Aveiro pela via ferrea
- (45:800 metros e 59:000 metros).
-
- [9] No mappa com que documento este estudo, lancei só os elementos
- que me eram uteis. Tudo o mais ficou no original, a que até accresci
- alguma cousa a mais por assim convir á minha demonstração.
-
- [10] É força porém attentar na exigua differença que no caso
- presente existe entre a recta, que unisse os dois pontos extremos
- (Coimbra e Gaia), e o desenvolvimento da distancia effectiva pela
- estrada real, entre os mesmos pontos. Bem sei que differentes
- parcellas podem dar a mesma somma, mas difficultoso seria crer que,
- acertando o Itinerario na distancia total entre Aemiuium e Cale,
- delinquisse nas parcellas, que vem a ser as tres secções da via
- militar. Veja-se o diagramma.
-
- [11] Pela linha ferrea de Coimbra a Aveiro são 56 kilometros: pelo
- caminho romano de Coimbra a Talabriga eram 59 kilometros.
-
- [12] Nada mais possivel do que um erro de informação de Plinio. Mas
- poderia tambem haver aqui uma confusão entre a Talabriga do roteiro
- romano e a Vacua, de que parece existirem ruinas no Cabeço de Vouga
- (Cit. _Oppida restituta_, 1885). Mas o Itinerario omitte-a, o que é
- apenas argumento negativo. Ainda se poderia dar o caso de _Vacua_
- não ser _mansio_ do caminho romano. Havia um codice de Plinio que
- nomeava Talabriga e _Vacca_ e uma cosmographia antiga que refere
- _Vacca_ (_sic_) e não Talabriga, que aliás deveria ter conhecido
- pelos AA.
-
- Jorge Cardoso, no _Agiologio_, II, 65, quer que Vacua tenha sido em
- Viseu. Peor!
-
- [13] Nos _Port. Mon. Hist._, «Diplom. & Chart.», vem um documento
- (n.º 815 do anno de 1095) cujo teor nos não prende, mas onde se
- lê:.... _Ista igitur auctoritate confissus ingressus sum et ego
- densissimam silliam_ (silvam) _que ab antiquis temporibus
- habitaculum erat bestiarum_.... Trata-se de arredores de Ilhavo.
-
- [14] Nos arredores de Aveiro ha pontos com as cotas de 15, 27, 46,
- 57, 48, 38, 23, 16, 24 e 10 que correspondem a relevos suaves. Todos
- estes pontos estão situados na margem esquerda do Vouga. Mas na
- hipothese de Talabriga, a estação do Itinerario, ser Aveiro ou
- proximidades, a estrada romana, chegada ahi, ver-se-hia forçada a
- atravessar o Vouga desde Eixo para baixo, em direcção ao Norte. E
- digam-me se todo esse trato de terreno, comprehendido entre a margem
- direita do Vouga, desde a ponte de S. João de Loure, como vertice
- meridional, e os sitios de Froços, Angeja, Formelã, Canellas e
- Salreu, não eram de fazer recuar o engenheiro romano que por ahi
- tentasse obter saida para o norte, em direcção a Cale, tendo outra
- incomparavelmente melhor?
-
- [15] Tenho sempre especial satisfação quando vejo que conceitos meus
- foram já formulados por escritores de outro cunho. Assim na _Revue
- des Études Anciennes_ (1905, p. 389), Cam. Jullian, referindo-se a
- caminhos de epocas prehistoricas, diz: _Et il résulte bien.... que
- beaucoup des grandes lignes de circulation actuelle ne sont que les
- héritiers des pistes tracées il y a des milliers d'années._
-
- [16] Para os leitores habituaes do _Archeologo Português_, seria
- ociosa esta nota; para os que porventura o assunto do presente
- estudo desperte de-novo, é uma prevenção necessaria. Quando se falla
- em _castros_ com supposta referencia á epoca romana, não se trata
- dos _castra_, acampamentos ou abarracamentos (Saglio & Daremberg)
- fortificados que as forças militares de Roma construiam em campanha:
- nunca vi ruinas de nenhum d'estes _castra_, nem me consta que as
- haja verificadas no pais. E comtudo os _castros_, ou _crastos_ no
- fallar do povo, são abundantissimos entre nós... porque são cousas
- muito differentes. Estes _castros_ são apenas uns montes com
- vestigios de habitação _ante-romana_ e quasi sempre de obras de
- fortificação de terra ou de muralha. Assim os castros são outeiros,
- cabeços habitados e fortificados, não pelos romanos, mas contra os
- romanos, pelo menos, e pertencentes aos antigos habitadores do país.
- Os _castros_ devem pois aos romanos, não o seu principio, mas a sua
- decadencia e o seu fim, porque foi a conquista e foi a civilização
- romana que os tornou desnecessarios naquelle tempo. Como se lhes dá
- então este epitheto que não vem senão causar confusões? O epitheto
- encontramo-lo na toponimia local; foi o povo que conservou até hoje
- esta designação que nós vamos encontrar com frequente emprego nos
- documentos da idade media. É que no singular _castrum_ significou
- secundariamente um castello, uma fortaleza; cita Rich o capitulo VI
- da _Eneida_, onde se lê (_vv_. 771 a 776):
-
- Qui juvenes quantas ostentant, aspice, vires!
- At qui umbrata gerunt civili tempora quercu,
- Hi tibi Nomentum, et Gabios, urbemque Fidenam,
- Hi Collatinas imponent montibus arces,
- 775 Pometios, Castrumque Inui, Bolamque, Coramque:
- Haec tum nomina erunt, nunc sunt sine nomine terrae.
-
- (_Oevres de Virgile_, par E. Benoist; vol. I, Hachette, 1882).
-
- (Trad.) _Contempla como são grandes as forças que aquelles mancebos
- ostentam! Pois d'entre os que trazem a fronte sombreada pelo
- carvalho civico, uns construir-te-hão Nomento, Gabios e a cidade de
- Fidena, outros assentarão em montanhas as fortalezas Collatinas,
- Pometios, o castello de Inuo, Bola e Cora_ (antigas povoações do
- Lacio): _estes serão os nomes d'aquelles lugares, que estão agora na
- terra sem nome._
-
- Foi certamente d'esta accepção que derivou para o latim corrente, e
- em seguida para o fallar medieval das nossas populações, a
- denominação de _castro_ ou _crasto_.
-
- Na _Revue des Études Anciennes_ (IV, p. 43, 1902) vem uma serie de
- citações para demonstrar que no fim do Imperio pela palavra
- _castrum_ se designavam frequentemente as cidades fortificadas; de
- entre todas extraio a seguinte de Isidoro (_Origines_, XV, 2, 13):
- _Castrum antiqui dicebant oppidum loco altissimo situm_. Com
- referencia a sitios nossos, temos, bibliographicamente, o conhecido
- _Portumcale castrum_, de Idacio.
-
- Mas a par d'aquella, outras se formaram, como _castello_,
- _cristêlo_, _crastêlo_ e _castrêlo_. _Castellum_ (cfr. cit. _Rev.
- des Ét. Anc._) na lingua latina, era um deminutivo de _castrum_ e
- applicava-se tanto a um reducto transitorio, como a um forte
- permanente, quasi sempre situado em logar elevado (Saglio &
- Daremberg, s. v. _Castellum_). Depois, é explicavel que a linguagem
- popular prescindisse da origem não romana d'estes pontos
- estrategicos, e applicasse o termo a alguns castros, talvez aos mais
- deminutos. Aos mesmos montes se vêem tambem applicadas as
- designações de _cividade_, mais ou menos pura, _cidadêlhe_, _coroa_
- e outras ainda. Os autores antigos usam o termo _oppidum_ applicado
- a alguns d'estes centros de população (_oppidum Aeminium_). E ainda
- se encontra junto ao nome originario da povoação, a modo de suffixo,
- o termo de origem celtica _briga_, que tambem quer dizer castello,
- altura fortificada (_Talabriga_).
-
- Os romanos, no nosso caso, traçando a via militar através d'estes
- montes habitados, não fariam mais do que seguir um caminho historico
- e uma directriz frequentada.
-
- [17] O parocho de Segadães (1758) informava que a antiga cidade de
- _Vaca_ (_sic_) fôra assolada pelos _mouros_. Os Leitores conhecem
- estes _mouros_... (_Arch. Port._, VII, 191).
-
- [18] Varios outros documentos d'esta região de Entre-Vouga-e-Douro
- compulsei eu nesta collecção, que se reportavam a _castros_, mas não
- pude localizar as referencias com a presteza que era necessaria. Até
- se me deparou a fórma rara _crésto_ (_cresto ualanes_, doc. DXLIX do
- anno 1077), da qual conheço outra actual no concelho de Valdevêz.
-
- [19] Na fé de Nascimento Silveira (_Mappa breve da Lusitania_, p.
- 226), em Mancinhata, nos cruzeiros ha inscripções que ainda ninguem
- entendeu.
-
- [20] Nos _Port. Mon. Hist._, «Dipl. et Chart.», n.º CCCCLXXI, vem um
- documento que diz: _Cesari... subtus monte castro calbo..._ Cf. o
- n.º CCCCLXX. Não pude averiguar se é um _Monte Calvo_ que vejo perto
- de Romariz. _Cesári_ (gen. de _Cesarius_, _-ii_) deu Cesár, como
- _Severi_ (_Port. Mon. Hist._, «Dipl. et Ch.», _passim_, e _Arch.
- Port._, II, 252, art. do Sr. P. de Azevedo) deu Sever.
-
- [21] Virá de _Calambria_? pergunta A. Herculano (_Historia de
- Portugal_, III, 423). Cfr. _Arch. Port._, art. do Sr. A. Cortesão,
- IX, 232. Teremos aqui alguma _Calambriga_? Um thesouro de 16 argolas
- de ouro é de lá. (_Arch. Port._, II, 87).
-
- [22] Eu não me occupo especialmente da _Langobriga_ do Itinerario,
- mas é facil ver que identicos raciocinios lhe são applicaveis e em
- consequencia, a situação d'este segundo oppido deveria ser na faixa
- de terreno vagamente indicada pela curva _LL._ um pouco ao norte da
- Feira. No meu estudo da ara de Estorãos, assentei que esta não é a
- actual _Longroiva_, cuja fórma medieval era _Langobria_, (_Port.
- Mon. Hist._, «Dipl. et Chart.» CCCCXX). Do que deponho a p. 141,
- parece que é a algum dos castros de _Obil_ ou do _Monte do Murado_
- que deverá convir a localização de Langobriga. Este fica a 6:000
- metros para leste da lagoa.
-
- Para _longo-_ e _lango-_ como para _brica_ e _briga_, não encontram
- difficuldade os celtistas. (_Élém. celt. dans les noms de personnes
- des inscr. d'Esp._, por A. Carnoy. Luvaina 1907).
-
- [23] A legitimidade do processo que segui, empregando o compasso e a
- escala para determinar a zona em que, segundo as indicações do
- roteiro romano, deve encontrar-se o jazigo de Talabriga, tem uma
- averiguação facil, apesar da estranheza que possa causar. Se eu,
- collocado em Eminio, quisesse determinar a situação de Cale, cujo
- anorteamento já conhecia previamente, e para isso adoptasse identico
- systema, o compasso levar-me-hia a uma zona de terreno, onde não me
- seria impossivel encontrar localizações compativeis com uma estação
- d'aquella natureza.
-
- Creio todavia que nem com todos os terrenos assim se póde proceder.
-
- Comprova tambem a plausibilidade do resultado a circunstancia de
- fazerem pequena differença a distancia em linha recta entre Coimbra
- e Gaia e a rectificação da estrada entre os mesmos pontos.
-
- [24] ... por ser tam grande como todos sab[~e], de [~q] á prouerbio
- no pouo. (_Ibid._ p. 50). Já não é só pois grande a legua da Povoa!
-
- [25] O escritor espanhol Eduardo Saavedra, num artigo intitulado «La
- geografia árabe de Portugal» in _Revista Archeologica e Historica_,
- I, 49, suppõe que o trajecto descrito por Edrisi vae de Coimbra a
- Viseu e Braga «por um caminho muito frequentado», fazendo o primeiro
- descanso em Avô, 45 kil. a NE. de Coimbra; o segundo em S. Miguel do
- Outeiro, 10 kil. a O. de Viseu no caminho de S. Pedro do Sul; depois
- chega-se ao Douro, que se passa em embarcações defronte de uma
- aldeia, que é Villaboa de Quires, a E. de Penafiel. D'aqui duas
- jornadas a Braga e outras duas a Tuy.
-
- Salvo o devido respeito, isto parece uma viagem... _à vol d'oiseau_!
-
- [26] Nos _Port. Mon. Hist._, «Diplom. de Chart.», apparecem mais
- documentos em que se encontra esta mesma designação. Estes por
- exemplo:
-
- N.º 67 do anno 953:... _et inde per carraria mourisca..._ (Isto era
- nas vizinhanças de Villa do Conde).
-
- N.º 614 do anno 1083:... _et inde per via maurisca:..._ (territorio
- de Arouca).
-
- Póde não se tratar nestes dois documentos de vias militares romanas,
- como não se trata; mas nem por isso a designação deixa de ser
- inexacta no seu sentido proprio. Eram antigos caminhos, anteriores
- aos arabes. Aliás teriamos que admittir que os filhos do Islam
- andaram por terras de Villa do Conde e de Arouca a abrir estradas em
- fórma, por serem invios os territorios.
-
- Demonstra isto que os amanuenses do secs. X e XI já não sabiam
- estremar romanos (e visigodos) de serracenos. Era pois, como hoje, o
- fallar do povo.
-
- É tambem este o sentimento do Sr. Pedro de Azevedo (_Arch. Port._,
- III, 137 sgs.). Este facto é bastante expressivo. Não passára um
- seculo ainda depois da expulsão dos arabes naquella região, e a
- interrupção de tradições locaes tinha sido tão intensa que a mera
- conjectura tomara o logar d'aquellas, attribuindo aos muçulmanos as
- obras de viação de que elles apenas tiveram a utilidade (Veja-se
- _Hist. de Portugal_, por A. Herculano, III, 421). Em França não se
- dava isto. Ruy de Pina na _Chronica do sr. rey D. Affonso V_ (p.
- 569) diz: «E na cidade de Nimis leixou El-rey _a estrada romam_, que
- vay a Avinham».
-
- [27] Seria longo transcrever os trechos respectivos d'esses
- documentos; e nem sempre é possivel acertar a que especie de
- caminhos se referem as expressões usadas nos documentos. É commum o
- termo _strada_, _strata_; algumas vezes adjectivada _strata
- ueredaria_ (Dipl. et Chart., n.º 174) em opposição a _alia carrale_
- (id.); _estrata de uereda_ (id. n.º 13); _in estrada qui discurrit
- via de uereda_ (id. n.º 24) ou _strata maiore_ (id. n.os 563, 378 e
- 549). Tambem se encontra a expressão _carreira antiqua_ (id. n.os
- 620 e 639), _karraria antiqua_ (id. n.os 888), _carraria antiqua_
- (n.os 639 e 287), _carera antiqua_ (id. n.os 366). _Via de strada_ e
- _strada de uiminaria_ lêem-se no doc. n.º 817 (_ob. cit._) Ainda hoje
- se póde dizer _caminho de estrada_. _Carreira_ é termo agora quasi
- só locativo, mas ainda se ouve no norte applicado ás largas entradas
- de algumas casas antigas, precedidas de uma alameda plana;
- certamente _carreira_ inclue a ideia de carro, como _carrale_. Outra
- denominação que encontrei foi a de _via publica_ (_ob. cit._, n.º
- 676), que parece corresponder a caminho publico.
-
- _Karraria antiqua_ era certamente uma estrada carreteira antiga já
- naquella epoca e portanto tradicional, mas d'aqui não se póde
- concluir que essa estrada fosse _via militar_ romana. Assim o doc.
- n.º 570 do anno 1079 refere-se á freguesia moderna de Paçô, no
- concelho do Valdevêz (_uilla Palatiolo_), onde nunca passou via
- militar e onde a _carreira antiqua_ poderia bem attingir a epoca
- romana.
-
- Alguns d'estes documentos foram indicados pelo erudito conservador
- do Archivo Nacional e meu amigo o Sr. Pedro de Azevedo; outros
- rebusquei-os propositamente com o auxilio do valioso trabalho do Sr.
- Gama Barros, _A administração Publica em Portugal_, entre os que
- pertencem á região de Entre-Vouga-e-Douro.
-
- [28] No mesmo pensar encontro-me com o Sr. Alberto Sampaio na
- _Portugalia_, II, 216 (_As povoas maritimas do norte de Portugal_).
- Assim se exprime: «As unicas povoações, vizinhas do mar, existentes
- então (no tempo dos romanos), eram Calem e Portucale».
-
- [29] É o Sr. Conselheiro Luis de Magalhães, em _A arte e a natureza
- em Portugal_, vol. IV. A descrição da ria immensa de Aveiro, com as
- salinas espelhadas que a cobrem, com os seus cones alvissimos de
- sal, que marchetam a planicie sem fim, é um d'estes primores de
- prosa gracil e diaphana, que mais ninguem poderia escrever com igual
- coração e com pulso comparavel. Parece que a seducção d'esse
- panorama não me será mais intensa, quando com os olhos o vir, do que
- quando o adivinhei naquellas tão poupadas paginas.
-
- [30] A grandíssima maioria das povoações d'estas epocas era nos
- altos; ahi tem sido encontrados os seus vestigios. Para a alguma se
- attribuir situação aberta como a de Aveiro, necessario seria
- documentar a excepção.
-
- Não repugna absolutamente admitti-la no nosso caso, mas é hypothese
- pura. E depois, lá temos o distinctivo _briga_. O nome da cidade
- comsigo traz a natureza do seu assento. No Algarve, _Ossonoba_ e
- _Balsa_, não demoravam em outeiros. (Vide _Religiões da Lusitana_
- II, 85).
-
- [31] _Portugalia_, II, 220, «As póvoas marítimas do norte de
- Portugal», pelo Sr. Alberto Sampaio.
-
- [32] Explicação geologica d'estes phenomenos: «C'est après avoir
- traversé les marécages du Vouga, que l'on entre dans les terrains
- anciens; ce sont d'abord des schistes luisants, généralement cachés
- par des dêpots superficiels: sables des dunes, graviers pliocènes et
- graviers kaoliniques appartenant au Crétacique. Ces derniers ne
- montent pas plus haut qu'Estarreja et le Pliocène est rarement
- visible depuis la voie ferrée. Parfois ce soubassement de roches
- solides n'existe pas, ou du moins ne se trouve qu'à une certaine
- profondeur au-dessous du niveau de la mer; dans ce cas, la côte
- subit des alternances d'accroissement et de décroissement qui
- peuvent être funestes à l'homme trop empressé de s'approprier le
- terrain que les sables ont gagné sur la mer; tel est le cas à
- Espinho». _Promenade au Gerez (Souvenirs d'un géologue)_, por Paul
- Choffat, 1895, p. 1.
-
- [33] Poderia aqui investigar-se das alterações da costa que possam
- ter modificado o aspecto do surgidouro do Vouga. Um apello,
- publicado no _Arch. Port._, II, 301, teve em resposta o silencio.
- Não tratando dos factos de periodos geologicos ou indeterminados
- (_Arch. Port._, VII, 274 e X, 193) pouco é o que se tem recolhido e
- ás vezes antagonico. Açoreamentos em epocas historicas foram notados
- na Povoa de Varzim, Villa do Conde, Fão, Esposende, Vianna, em
- Setubal, no Algarve (_Portugalia_, I e II. _passim_), e eu mostro
- que na faixa de Esmoriz a Mira elles se deram tambem em epoca que
- não posso precisar. Num mappa que illustra o _Hisp. & Port.,
- Itinerarium_ de Martin Zeiler (1656) Aveiro é situada ao norte do
- Vouga. E não é o unico mesmo de datas mais recentes.
-
- [34] Ha um documento do sec. XI que faz uma referencia aproveitavel
- debaixo d'este aspecto: é o n.º DCCCXV do anno 1095 (doação á sé de
- Coimbra da igreja de S. Christovam, junto a Ilhavo)... _Ista igitur
- auctoritate confissus ingressus sum et ego densissimam silliamm_
- (silvam) _que ab antiquis temporibus habitaculum erat bestiarum..._
-
- [35] Entre as cartas antigas que folheei, desejo destacar uma do
- sec. XVII, assinada por N. Sanson. _christ. Gall. regis geografo_
- (_Hispaniae antiquae tabulae_, 1641). O mappa de Portugal antigo
- individúa, na região que andei estudando, _Conimbrica_ em Condeixa,
- _Aeminium_ na margem norte do Mondego; _Talabriga_ ao N. do Vouga,
- um pouco afastada do estuario, a 20 ou 25 _milliaria_ da foz do
- Vouga (isto é, na altura onde eu localizo esta povoação); e,
- seguindo no mesmo rumo, _Langobriga_. É na Bibliotheca Nacional, um
- grosso volume _in-folio_, recentemente encadernado com o
- dístico--Mappas--e sem frontispicio.
-
- [36] Esta lenda porém reproduz-se em mais localidades, fóra d'esta
- região.
-
- [37] ... _pecuniis publicis, cum reliquo publico apparatu, ademtis_.
- Isto dá bem a entender que havia uma perfeita organização politica,
- e n'ella se estribava a organização de uma defesa militar contra a
- invasão romana.
-
-
-
-
-DO AUTOR
-
-
-ESTUDOS DO ALTO-MINHO (SERIE 1.ª)
-
-
-Publicados
-
-I--Epigraphia christiano-latina (uma inscripção inedita).
-
-II--Um passeio archeologico no concelho dos Arcos de Valdevez (visita ás
-antas da serra do Soajo).
-
-III--Machados de duplo anel.
-
-IV--Ainda a inscripção christã de S. Pedro de Arcos.
-
-V--Uma primicia de epigraphia funeraria romana.
-
-VI--O portico da matriz de Monção.
-
-VII--Um castro com muralhas.
-
-VIII--Um erro de amanuense nas inquirições de D. Affonso III (C. Sancti
-Salvatoris Darcus).
-
-IX--Um Grovio autentico (cippo de Villa-Mou).
-
-X--Ara celtiberica da epoca romana (um novo «Genio»).
-
-
-PAGINAS ARCHEOLOGICAS (SERIE 2.ª)
-
-
-Publicadas
-
-I--Estatueta ithyphallica.
-
-II--Cemiterio da epoca romana em Vianna do Alemtejo.
-
-III--Situação conjectural de Talabriga.
-
-
-
-
-
-End of Project Gutenberg's Paginas Archeologicas, by Felix Alves Pereira
-
-*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30071 ***
+*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30071 ***
+
+ FELIX ALVES PEREIRA
+
+
+ PAGINAS ARCHEOLOGICAS
+
+ III
+
+ SITUAÇÃO CONJECTURAL DE TALABRIGA
+
+
+
+
+ LISBOA
+ IMPRENSA NACIONAL
+ 1907
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ SITUAÇÃO CONJECTURAL DE TALABRIGA
+
+
+ Obra composta e impressa na Imprensa Nacional
+
+ Edição e propriedade do Museu Ethnologico Português
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+ FELIX ALVES PEREIRA
+
+
+ PAGINAS ARCHEOLOGICAS
+
+ III
+
+ SITUAÇÃO CONJECTURAL DE TALABRIGA
+
+
+
+
+ LISBOA
+ IMPRENSA NACIONAL
+ 1907
+
+
+ * * * * *
+
+
+
+ Ao
+
+ Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Conselheiro
+
+
+ _Luis Cypriano Coelho de Magalhães_
+
+ _O. e D._
+
+ _O autor._
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+Separata d'«O Archeologo Português», XII, n.os 5 a 8 de 1907
+
+
+
+
+SITUAÇÃO CONJECTURAL DE TALABRIGA
+
+
+Summario
+
+1. Estado da questão.--2. Autores antigos--3. Itinerario--4. Exame do
+mappa--5. Topographia e onomastico da região--6. Os castros do trajecto
+da Via--7. Região mineira--8. Localização de Talabriga--9. Opinião de
+Gaspar Barreiros--10. Geographia arabica--11. _Strata maurisca_--12. Ria
+de Aveiro e o Vouga--13. Historia de Talabriga.
+
+
+I
+
+Algum tanto sem o presentir, ao fazer o estudo da ara de Estorãos,
+(_Arch. Port._, XII, 36) encontrei-me no limiar de um problema que, de
+modo definitivo, não se resolverá senão com a verificação _in loco_ de
+vestigios archeologicos incontrastaveis.
+
+É o problema da trajectoria exacta da via romana entre Aeminium e Calem,
+da qual não se conhecem milliarios decisivos e sufficientes,
+especialmente da sua passagem por Talabriga.
+
+O assunto, parcialmente considerado, tem sido alvo das principaes
+referencias na pugna litteraria em que os paladinos de Agueda, de Aveiro
+e de Coimbra patrioticamente articulavam preeminencias genealogicas, que
+é da praxe mencionarem-se em monographias locaes, mas que hoje, quanto a
+Coimbra (e Condeixa-a-Velha) estão sentenciadas, em prejuizo até
+heraldico de Agueda[1].
+
+Propositadamente, porém, o problema não foi ainda estudado debaixo do
+seu aspecto geral; apenas por incidente tem sido versada a localização
+de Talabriga. Não venho com o proposito de o dar como resolvido, é
+certo; mas desejo englobar neste estudo um certo numero de
+considerações, que podem preparar o desenlace d'este ponto controvertido
+da geographia protohistorica da Lusitania, no campo adequado, e quiçá
+orientar pesquisas.
+
+Onde foi Talabriga? Até hoje nenhum d'estes indices peremptorios que
+marcam inilludivelmente a situação das antigas cidades, como para
+_Conimbriga_ (Condeixa-a-Velha), _Aeminium_ (Coimbra), _Bracara Augusta_
+(Braga), _Olisippo_ (Lisboa), _Pax Julia_ (Beja), etc., se nos antolha
+para dar resposta nitida áquella pergunta.
+
+Guiados pelas indicações geographicas do Itinerario e de Plinio, os
+nossos escritores teem querido alternadamente que Aveiro, Cacia,
+Esgueira occupem hoje o logar que outrora se chamou _Talabriga_. De
+facto, o Itinerario, ao contar as milhas que de _Aeminium_ vão a _Calem_
+(Gaia ou Porto?) pela via militar, devia ter especial valor para este
+problema; mas a comprehensão da necessidade de verificar rigorosamente
+as indicações d'aquelle documento, a consulta de edições criticas,
+tomando-se por base a decisão do problema de Aeminium, e talvez o
+desaffecto de uma ou outra solução é que teem, no meu humilde entender,
+faltado a todos os autores que mais modernamente do assunto se teem
+abeirado[2].
+
+
+II
+
+A geographia classica não é de todo omissa a respeito d'esta antiga
+povoação. O testimunho de Plinio, que é o A. mais expresso, vem a ser o
+seguinte: _A Durio Lusitania incipit. Turduli veteres, Paesuri, flumen
+Vagia[3], Oppidum Talabrica, Oppidum et flumen Aeminium,
+Oppida Coniumbrica, Collippo, Eburobritium._ (C. Plinii Secundi, _Nat.
+Hist._, ed. de Detlefsen, IIII, 113). Isto tem o ar de uma sêca
+enumeração chorographica, que se desdoba do norte para o sul, a contar
+do Douro, e que, restringida ao nosso caso, nos dá esta sequencia:
+
+ _a_) rio Vouga;
+
+ _b_) cidade de Talabrica;
+
+ _c_) cidade e rio de Aeminio (Coimbra);
+
+ _d_) e as cidades de Conimbrica (Condeixa),
+
+ _e_) Collippo (Leiria) e
+
+ _f_) Eburobricio (Obidos, Vejam-se _Relig. da Lusit._, II, 31).
+
+Se não fôr certo, como não me parece, que Vouga é ao norte de Talabriga
+e este oppido ao sul do mesmo rio, pelo menos conclue-se que Talabriga
+vizinha de um lado ou outro aquelle estuario.
+
+Não trago nenhum outro autor antigo, porque elles não adeantam o
+problema chorographico. Na _Cosmografia_ de Ravennate (ed. de
+Pinder & Parthey, p. 307) _Talabrica_ apparece transformada
+em Terebrica e fica na seguinte localização relativa:
+_Olisipona--Terebrica--Langobrica--Cenoopido--Calo_...
+
+
+III
+
+Vamos pois ao _Itinerario_[4] e á discussão das suas
+indicações. Encontra-se nelle, que nos sirva:
+
+ Eminio mp. X
+ Talabriga mp. XL (= 59:240 metros)
+ Langobriga mp. XVIII (= 26:658 » )
+ Calem mp. XIII (= 19:253 » )
+ 105:151 »
+
+A equivalencia que sigo é a de 1 milha = 1:481 metros (Saglio &
+Daremberg, s. v. _Milliarium_).
+
+A trajectoria d'esta via desde Coimbra (Aeminium) a Gaia (Calem)
+deixaria de ser ponto controverso se, como succede noutras estradas
+romanas, alguns milliarios sobreviventes escalonassem os seus vestigios.
+
+Não ha porém, neste particular, mais que isto:
+
+1.º Um fragmento de milliario com 2,04m de alto X 1,40m de circuito,
+que appareceu na Mealhada ao norte de Coimbra e só tem M.XII.
+
+2.º Outro que foi encontrado mesmo em Coimbra e aponta M.IIII.
+
+Nem aquelle nem muito menos este servem ao meu intento; o traçado
+litigioso no nosso caso é para norte da Mealhada e Anadia, e não entre
+Mealhada e Coimbra. (Vid. Borges de Figueiredo, _Oppida restituta_, p.
+82; Hübner, _Notas archeologicas sobre Portugal_, p. 67, trad. cit.:
+_Catalogo dos objectos existentes no Museu de Archeologia do Instituto
+de Coimbra_, p. 6; A. Filipe Simões, _Escritos diversos_, 1883).
+
+3.º Um pretenso milliario descrito por Fr. Bernardo de Brito na
+_Monarchia Lusitana_, II, V, p. 3. Este vicio de origem obriga-me a pôr
+ainda de parte este monumento como comprobativo da directriz; Hübner
+fulmina-o com a sua desconfiança (_Corpus_, II, 55 a *) dizendo que
+Brito queria demonstrar com elle a existencia de _Vacua_. Não lhe darei
+porém eu maior valor que o proprio monge, que, como por prevenção,
+confessa que as letras da pedra eram «mal distinctas e muy quebradas».
+Assim a sua interpretação deve desinteressar-nos, visto que não ha meio
+de contraprovar a leitura de Fr. Bernardo de Brito, duvidosa para elle
+proprio. Para este, a lapide era porém um padrão de estrada, o que pouco
+vale por entretanto para nós; mas provinha do Castello de S. Gião, ao
+que parece, _castro_ rico em ruinas de muros, etc. Isto, cuja
+importancia só modernamente se aprecia, é que não se inventa e dá visos
+de que com effeito alguma cousa lá pudera ter apparecido. Mas Brito, com
+o dizer que a lapide era padrão de estrada, contrariava sem o advertir a
+propria crença de que a via romana seguia pela beiramar e _Talabriga_
+era em Aveiro. (_Mon. Lusit._, id., p. 130).
+
+Não obstante, ponha-se de parte a exactidão da epigraphe do supposto,
+mas rehabilitavel, milliario do castro de S. Gião, e fique,
+provisoriamente, apenas um facto--o achado de um padrão de via romana
+num castro das margens do Caima.
+
+A opinião de que Aveiro fôra o assento da antiga estação do Itinerario
+tinha ainda por si, alem do mappa de Abr.ão Ortelius (_Theatrum orbis
+terrarum_, Antuerpia, CIC.IC.CIII) o pensar de Florez (_España Sagrada_,
+tomo XIV, p. 73), que lêra Plinio e uma edição antiga do Itinerario
+romano. E póde dizer-se que foi essa a corrente que dominou até hoje, se
+com Aveiro abrangermos o aro circunjacente. (Vejam-se Adolfo Loureiro.
+_Os portos maritimos de Portugal_, II, p. 3; Marques Gomes, _Districto
+de Aveiro_, onde restringe[5] a Cacia o _ubi_ de Talabriga;
+Borges de Figueiredo, _Oppida restituta_, 1885; Pinho Leal, _Portugal
+Antigo e Moderno_, s. v. _Aveiro_; Gaspar Barreiros, _Chorographia de
+alguns lugares_; D. Nunes de Leão, _Descripção do reino de Portugal_;
+Francisco do Nascimento Silveira, _Mappa breve da Lusitania antiga_,
+etc.)[6].
+
+Regressemos porém ao _Itinerario_, e vejamos se será possivel concluir
+algo que um dia a pesquisa e exploração persistente do archeologo possa
+contraprovar. É o meu sonho.
+
+Que a medição total do _Itinerario_ relativa á via _ab Aeminio Calem_
+está notavelmente exacta, demonstra-o esta verificação facil: a somma
+das milhas que se contaram de Eminio a Gaia, reduzida a kilometros,
+(unidade mais pratica e mais exacta que a de leguas, até agora adoptada)
+era de 105:151 metros, como vimos; a distancia computada actualmente na
+Carta do Estado Maior d'esta região pela directriz da _estrada real_ é
+de 105:100 metros[7]. Não podendo ser mais breve a distancia
+d'esta estrada, como se verifica olhando os traçados rectificados ao
+lado do mappa junto, em que a distancia em linha recta e a rectificação
+exacta da extensão effectiva da estrada fazem pequena differença, o que
+mostra que os desniveis ou as inflexões do traçado são assaz reduzidos,
+conclue-se que a via romana, desde que marca igual extensão kilometrica,
+não poderia seguir caminho mais longo que ella, nem portanto muito
+distanciado d'ella.
+
+Esta coincidencia de medições é suggestiva e não permittiria, só por si,
+que a trajectoria da via romana e da actual estrada real divergissem
+muito. Se esta desenhasse uma inflexão pronunciada no seu trajecto de
+Coimbra a Gaia, claro é que era possivel, sem exceder a mesma extensão,
+encontrar outra curva symetrica que tocasse em pontos intermedios
+diversos e afastados, e coincidisse apenas nos respectivos extremos, o
+que nada util me seria; mas nas circunstancias que se dão e já
+salientei, e que me permittiram estudar sobre uma carta este problema, a
+coincidencia effectiva das duas vias de communicação deve em grande
+parte quasi corresponder á coincidencia theorica, agora expendida.
+
+Isto oppõe-se a que a via romana passasse em Aveiro, ponto muito
+afastado e divergente do trajecto theorico[8].
+
+
+IV
+
+Vou porém demonstrar por partes como isto assim deve ser. É preciso
+partir do principio já demonstrado, embora para o total da distancia,
+que as medições do Itinerario não contém erro. Qualquer inexactidão nas
+milhas marcadas para cada uma das secções da via militar alteraria a
+somma, desde que, por um acaso unico, não fosse compensada por outra
+inexactidão.
+
+Ora a via romana de Eminio contém tres troços ou secções; o 1.º de
+Eminio a Talabriga; o 2.º de Talabriga a Langobriga; o 3.º de Langobriga
+a Cale. Se uma sequer das distancias correspondentes do Itinerario
+contivesse erro, a somma total accusá-lo-hia; mas nós já vimos que a
+distancia de 105 kilometros corresponde a uma realidade. Comecemos pelo
+extremo norte da via. Isto conduz mais claramente ao meu fim; e descobre
+mais prontamente o erro em que até agora me parece que tem laborado os
+escritores. Tomemos o mappa[9].
+
+Se traçarmos um arco de circulo, cujo centro seja Gaia e o raio igual á
+distancia de Cale a Langobriga, isto é, a 19 kilometros (veja-se a
+escala), teremos obtido uma curva theorica (LL no mappa) que no terreno
+representa uma faixa de tolerancia, mais ou menos larga, dentro da qual
+e numa zona d'ella que seja compativel com um trajecto ininterrupto da
+via, cuja extensão já definida se não póde exceder, o archeologo deverá
+procurar os vestigios de Lancobriga.
+
+Esta zona, ou este segmento, não poderá pois, em principio, afastar-se
+consideravelmente da directriz da estrada real.
+
+Consultemos de novo o Itinerario. Entre Langobriga e Talabriga medeiam
+26:600 metros. Ignorando ainda qual o ponto preciso que na curva _LL_
+marca o primeiro d'aquelles oppidos, deveremos traçar um arco de circulo
+parallelo ao antecedente e á distancia que a escala indica. Como o
+terreno não é propriamente uma carta celeste[10] em que os
+pontos podem ser rigorosamente indicados, a nova curva deixada pelo
+compasso é representativa de uma segunda faixa de tolerancia,
+susceptivel de maior ou menor elasticidade, mas confinada, quanto á sua
+extensão, pela continuidade do trajecto viario em direcção a Aeminium,
+trajecto cujo comprimento tem limite determinado de milhas.
+
+E assim temos o arco _TT_.
+
+Nesta curva, que não é mais que uma zona media, deverão surgir ao
+appellido do archeologo as ruinas do que outrora foi Talabriga. Esta
+conclusão emerge logicamente das bases que tomei: o acerto evidente do
+Itinerario no total e muito provavel nas secções; a coincidencia das
+extensões da via antiga e da estrada moderna.
+
+Se agora, por contraprova, apontarmos o compasso a Eminio e girarmos com
+um raio de 59 kilometros, verificado segundo a escala, obteremos outra
+curva, a terceira, tangente á segunda e que tem a missão de indicar a
+zona util, o segmento dos arcos, correspondente á area provavel da
+situação de Talabriga. Porque o que não póde haver, é um hiato, uma
+interrupção de trajecto de Cale a Aeminium[11].
+
+Esta primeira phase da minha demonstração, porém, já torna incompativel
+a actual situação de Aveiro com vestigios de Talabriga. E mais do que
+isto; vem levantar um equivoco de Plinio, que parece suppôr aquelle
+oppido ao sul do Vouga; se assim fosse, não seria possivel encontrar o
+ponto de reunião do caminho que descia de Cale a encontrar Lancobriga
+aos 19 kilometros e se prolongava na direcção do sul até mais 20
+kilometros, onde devia beijar a Talabriga do Itinerario sem encontrar a
+de Plinio[12]. O hiato resultante fica, parece-me, fechado e
+annullado, desviando Talabriga de Aveiro e aproximando-a de Albergaria,
+ao norte do Vouga; isto é, a hipothese que proponho é a que se concilia
+em todos os pontos com o Itinerario.
+
+
+V
+
+Mas não se concilia só com esta fonte documental: é a mais plausivel em
+face das condições topographicas e historicas da região de
+Entre-Vouga-e-Douro.
+
+A actual directriz da estrada real é a que mais ou menos devia ter
+seguido a via romana que procurasse unir Eminio a Cale, dado o traçado
+que ella já trazia desde Lisboa.
+
+Em primeiro logar: as condições topographicas d'aquelle grande delta do
+Vouga não eram senão de molde para difficultar a abertura de uma estrada
+na epoca romana, em concorrencia com traçado mais firme e duradouro,
+mais economico, mais util e mais commercial. Aquellas planuras deviam
+existir já então, como um presente do Vouga, segundo se tem dito, creio,
+do Nilo.
+
+Se eram naquelle tempo pantanos, ou bosques intransitaveis[13]
+ou veigas retalhadas, como hoje, por um dedalo de canaes e
+esteiros, não me cabe a mim defini-lo. De qualquer d'estas fórmas, uma
+via romana não iria atravessar uma região em que a falta de pedra é
+quasi absoluta, e a multiplicidade de trabalhos de architectura civil ou
+de obras de arte uma consequencia inevitavel. Era preciso combater por
+um lado a pouca firmeza do terreno, por outro contar com o custo da
+empresa[14], ou os impecilhos da viagem.
+
+Por isso os mesmos motivos que na idade media afastaram a construcção,
+ou melhor, a conservação de uma estrada velha para longe da costa,
+obrigando-a a passar nas pontes que ainda existem, devem ter sido os
+mesmos que desviaram os engenheiros romanos de lançarem a via militar
+através de campinas encharcadas, só para irem buscar a embocadura do
+Vouga, antes de attingir Calem.
+
+Depois preciso é notar que havia outra directriz ao alcance da
+administração do Imperio, directriz que não podia admittir confrontos
+com a traçada através do delta do Vouga. Essa directriz levava a estrada
+romana pela orla fóra do terreno firme e accidentado e da região povoada
+de castros e abundosa de minerios, região que ainda hoje podemos ver
+acompanha-la pelo trajecto da estrada real. As vias de communicação teem
+muitas vezes uma directriz fatal e tradicional através de longos tempos
+e povoadores successivos[15].
+
+Póde soffrer destruição o caminho, sem estancar a arteria de communicação.
+
+A actual estrada real ou de macadam foi ainda, por assim dizer,
+decalcada pela anterior, a medieval, cujos restos subsistem nas pontes
+antigas de que os chorographos fallam. Esta orientou-se pela
+comprehensão das conveniencias, e afastou-se da embocadura do Vouga,
+seguindo a directriz mais economica e mais util; não direi ainda a
+directriz romana porque é o que pretendo demonstrar, mas a que era
+directriz tradicional, como vou explicar.
+
+
+VI
+
+Os castros ou montes habitados encontram-se precisamente no seguimento
+da via romana; os oppidos referidos pelos AA. antigos, as _brigae_, e as
+cidades romanizadas não são mais que uma evolução d'aquellas estancias,
+consoante as denominações que lhes applicaram[16]; era por
+essa corda alem, que o terreno baixo e plano da zona maritima começava
+de elevar-se. A estrada romana desenrolava-se por entre esses centros da
+habitação, abandonando ao lado um país chato, pouco firme e talvez quasi
+invio.
+
+Do sul para o norte _Anadia_ está situada nas abas de um monte de
+_Crasto_ (Pinho Leal e M. Gomes).
+
+_Agueda_ está tambem perto de um _Crasto_ (Pinho Leal).
+
+Nas margens do Vouga, naquelle logar onde subsiste ainda a ponte
+medieval (Pinho Leal), encontra-se na aldeia de _Vouga_ um morro que foi
+castro (Brito e P.e Carvalho, II, 161); explica Francisco do Nascimento
+Silveira (_Mappa breve da Lusitania_, p. 239) que _Vacca_ existia em
+sitio forte por natureza, entre as pontes de Vouga e Marnel, porque alli
+se vêem vestigios de muros antigos e sinaes de uma majestosa grandeza;
+existem ainda tijolos, cantarias, muralhas em _Lamas de Vouga_ (_Arch.
+Port._, V, 50 e VII, 191)[17], e havia ahi a _civitas Marnele_ (_Port.
+Mon. Hist._, «Diplom. de Chart.», n.º 819)[18], cuja origem deve ter
+sido outro castro.
+
+Na carta geodesica vê-se, junto ao rio, um _Castello_ (111). Isto é
+ainda do concelho de Agueda[19].
+
+Na freguesia de Serem, tambem concelho de Agueda, outra _civitas_
+(Viterbo, s. v. _Cidade_); ha lá sitios elevados a norte e a sul (Cfr.
+M. Gomes).
+
+Na freguesia da _Branca_ ha um logar de _Cristellos_ (M. Gomes e _Arch.
+Port._, II, 313).
+
+Na serra de S. Julião, mesma freguesia, _onde passa a estrada real_, diz
+o Sr. M. Gomes que ha ruinas de muralhas e fossos: acreditava-se (_Arch.
+Port._, loc. cit.) que ahi era a antiga _Langobria_ (sic). Não sei se é
+precisamente o mesmo local a que Brito (_Mon. Lusit._, II, V, p. 3)
+chama castello de _S. Gião_, onde havia ruinas de muros e elle encontrou
+o tal padrão suspeito e onde presume _Lancobriga_, não na Feira, diz,
+mas entre Albergaria e Bemposta, defronte de Pinheiro. Significativa
+confusão! Aquelle logar de _Cristello_ vem na carta geodesica entre
+Estarreja e a estrada real[20].
+
+Na freguesia de Ul ha outro castro (_aldeia do crasto_), de que porém
+não conheço o _ubi_. Tem uma cintura de muralha de pedra solta ou cousa
+que o valha. (Pinho Leal, s. v. _Ul_).
+
+Nas proximidades de Azemeis parece que não são escassos estes monumentos
+(_Quatro Dias na Serra da Estrella_, por E. Navarro, Porto 1884, p. 174).
+
+Em _Ossella_ ha um castro com ruinas de muralhas (Brito, _loc. cit._).
+
+Entre _S. Martinho_ e _S. Tiago_ vê-se na carta geodesica um _crasto_, a
+O. da estrada real; isto é no parallelo de Ovar. Será aquelle a que
+Pinho Leal chama Castro Troncal ou Francal (s. v. _C. de Cucujães_)?
+
+No _Arch. Port._, VI, 68, diz-se que ha em Oliveira de Azemeis um logar
+de _Lações_, onde foi a antiga Lancobriga (_sic_), porque ahi se ajustam
+as medidas do Itinerario e não na Feira ou Bemposta. Este sitio é
+elevado e estrategico; a sua cota é de 287 metros e fica na fronte de um
+promontorio fechado por duas ribeiras e no extremo de uma chapada em
+cujo prolongamento se conta ainda a altitude de 274 metros. É, pelo que
+se vê, um _castro_. _Lancobriga_ e que não.
+
+Em _Macieira de Cambra_ ha um castro (_Arch. Port._, VII, 54)[21].
+
+Em _Romariz_ informa o Sr. M. Gomes que ha um _Crasto_, onde appareceram
+antiqualhas da epoca romana; o que é presumivel e prova ter recebido a
+influencia dos seus conquistadores.
+
+Os antigos chorographos portugueses não teem dado valor aos cabeços
+elevados, onde se encontram os vestigios do que póde ter sido um castro,
+uma citania, emfim uma estacão archeologica pre-romana, e isso não
+admira; mas o facto é esse e constitue uma deficiencia na descrição dos
+logares, que actualmente seria imperdoavel, e que, num caso como o que
+estou versando, sonega lamentavelmente elementos aproveitaveis de estudo.
+
+Junto ao mar, e bastante para o norte, em Esmoriz, encontro menção de um
+castro, especializado hoje pelo erudito estudo que d'elle fez
+documentalmente o meu erudito amigo Sr. Pedro de Azevedo (_Arch. Port._,
+III, 137). Era o castro de _Aville_, _Ouvil_, _Ubile_ e _Obil_,
+denominações que se applicavam á lagoa que ainda existe, e que elle
+dominava. Crê o distincto publicista que aquelle castro é o mesmo
+outeiro a que o parocho depoente de 1758 chamou _Monte do Murado_,
+pertencente á freguesia de S. Martinho de Mozellos. Fico porém em
+duvida, pois que estando o castro _prope litore maris_ (Docs. de 1055,
+1076) bem como a lagoa (Docs. de 1057 e 1090), Mozellos parece um pouco
+afastado para o interior. Confessando que, sem a inspecção dos logares,
+a base é instavel, em todo o caso affiguram-se-me aqui dois castros
+distinctos.
+
+Em S.ta Maria de _Fiães_ apparece outro castro ou «povoação de Mouros»
+(_Arch. Port._, IV, 250).
+
+E d'ahi para o norte, são frequentes na faixa atravessada pelo caminho
+romano. Será algum d'estes castros o jazigo de Langobriga?
+
+Este inventario, tendo origem, como tem, exclusivamente bibliographica,
+não póde deixar de ser omisso. A averiguação local e a informação
+competente accrescentá-lo-hiam, se eu d'estes dois factores me tivesse
+soccorrido. Para o meu intento, o pouco que joeirei, era colheita bastante.
+
+
+VII
+
+Alem d'estas averiguadas condições de habitabilidade que se encontravam
+no trajecto da via romana e que, em meu entender, conjugadas com as da
+elevação e relevos de terreno, que para as populações ante-historicas
+constituiam uma necessidade vital, concorreria tambem, não sem ligação
+com ellas, a existencia de jazigos metalliferos.
+
+Nem todas as minas que enumero seriam conhecidas na antiguidade, mas em
+algumas ha vestigios da remota laboração e o que tudo attesta é que a
+região era mineira e portanto centripeta de populações.
+
+Os locaes explorados são Telhadella, Albergaria, Palhal, Milheirós,
+Cucujães, Nogueira, Ossella, Palmás, Carvalhal, Pindello, Silva Escura,
+Ul, Talhadas, Braçal, Coval da Mó, Malhada.
+
+Os minerios são cobre, tão procurado na antiguidade, chumbo, prata, etc.
+
+D'estes jazigos, aquelle em que são mais importantes os vestigios de
+antiga lavra, é o da Malhada, uma das concessões das chamadas Minas do
+Braçal. As madeiras de entivação, que foram encontradas dentro da mina,
+denotam tal antiguidade que parecem fossilizadas, em consequencia da côr
+negra que adquiriram. Os trabalhos antigos attingem a profundidade de 45
+metros (_Catalogo Descriptivo da Secção de Minas_, pelos Srs. Severiano
+Monteiro e J. Augusto Barata, p. 188).
+
+A respeito dos outros, a noticia de antiga exploração é muito vaga para
+que me seja licito insistir. Nas minas de Palhal tambem ha vestigios
+antigos. (Cfr. Marques Gomes, _Districto de Aveiro_).
+
+
+VIII
+
+Que se póde concluir das considerações que até aqui tenho encadeado?
+
+Por um lado, o estudo do Itinerario levou-me a aventurar na carta
+geographica, largamente circunscritas, as zonas em que o calculo faz
+presumir que se devem encontrar as ruinas de Talabriga; por outro lado,
+a inquirição topographica e onomastica da região, tanto quanto era
+possivel com a escassez de elementos, indicou-me alguns logares de
+archaicas estações archeologicas do genero da que deve ter sido
+Talabriga, como castro ou oppido submettido ao poder de Roma.
+
+Quero lembrar que _briga_ só póde corresponder a uma posição elevada, a
+um outeiro ou cabeço fortificado; por onde Talabriga nunca pudera ser
+Aveiro ou arredores (Vid. _Arch. Port._, XII, 42).
+
+Relançando novamente o olhar ao mappa, poder-se-há notar que a zona
+attribuivel á situação de Talabriga[22] não está erma de
+castros, antes nella se dão varias circunstancias que não posso deixar
+de aproveitar para a minha these conjectural.
+
+_Branca_ é uma freguesia cuja séde fica na margem direita de Caima e que
+é cortada pela estrada real; ha nella um logar de _Cristellos_, que só
+pelo toponimo demonstra a existencia de um castro ou oppido. Mas alem
+d'este, infere-se do Sr. Marques Gomes, de Fr. Bernardo de Brito (_loc.
+cit._) e d-_O Arch. Port._ (II, 313, «Mem. Parochiaes») que ha um local
+sito na serra de S. Julião, atravessado pela estrada real e que Brito
+mais claramente chama _castello_ de S. Gião (_castello_ por _castro_),
+no qual, segundo aquelles tres testimunhos, ha ruinas de muralhas e
+fossos, que o Sr. M. Gomes presume serem ruinas de uma _atalaia_ e que o
+parocho das _Memorias_ tambem capitula de vestigios romanos,
+acrescentando muito singularmente (note-se bem o que isto póde
+significar) que ahi esteve... _Langobria_ (_sic_). Foi aqui que Brito
+diz ter encontrado a tal pedra de _letras mal distinctas_ de que não
+affiança a leitura, mas que lhe pareceu _padrão de estrada_.
+
+E aqui tem cabimento o que já atrás deixo dito, para absolver de fraude
+consciente a noticia archivada em Fr. Bernardo de Brito.
+
+Parece-me pois ser neste aro, se não neste mesmo ponto, que se deverá
+procurar o jazigo, não de Langobriga, mas da nossa Talabriga, e é
+precisamente a estas immediações que o compasso me levou ao medir sobre
+a carta a primeira secção da via romana de Coimbra a Gaia[23].
+
+Não desconheço quanto de problematico isto tem antes de serem
+perguntados pelo archeologo os logares, as ruinas, os vestigios e os
+montes e as vozes da região, mas nem por isso o meu espirito deixa de
+ficar demonstrado, até o possivel, que as cinzas de Talabriga nunca
+podem estar guardadas em Aveiro. As coincidencias que acabo de notar,
+não são bases frivolas.
+
+Só pois a inspecção directa do terreno, nas immediações da Branca,
+poderá concorrer para confirmar ou destruir a minha conjectura.
+
+D'esta região para o norte, a via romana seguiria até Cale, mais ou
+menos proxima do actual leito da estrada real; só alguns vestigios ou
+referencias de documentos, como os de Grijó, e a inquirição dos logares
+e tradições poderão concorrer para precisar a trajectoria d'aquella
+antiga via de communicação; o caso em si, porém, é indifferente para a
+questão primacial que motivou este estudo. O que é certo, é que a
+estrada romana sulcava a faixa comprehendida entre a estrada real e a
+linha ferrea até o vertice de Gaia.
+
+Ao sul de Branca e Albergaria, a directriz da via militar sente-se
+escalonada nos vestigios medievaes que deixei explanados nas paginas
+anteriores. _Albergaria_ denota bem que o sitio era de assiduo e antigo
+transito (Viterbo, _Elucidario de palavras_, etc. s. v. _Albergaria_)
+ponto necessario de passagem para quem do sul buscava o norte do país.
+As _mansiones_ tinham o caracter de pousadas.
+
+Em tempos de lazer para obras de piedade, é que a instituição caritativa
+se fundou, como implemento de uma necessidade que já existia.
+
+As pontes de Vouga e Marnel são indicios bem importantes da frequencia
+das viagens através d'esta parte da região, afastada da costa baixa e
+paludosa. São decerto obras da idade media, dos _mouros_, diz Pinho Leal
+(s. v. _Marnel_ e _Vouga_). Mas os indicios pre-romanos e romanos
+soletram-se nessas ruinas de muralhas, pedras lavradas, vestigios de
+edifícios e toponymia, que os cabeços de Vouga e Marnel nos conservam,
+segundo descrevem Brito, Pinho Leal e os parochos do sec. XVIII nos
+extractos publicados pelo _Archeologo Português_.
+
+
+IX
+
+O sentimento de Gaspar Barreiros (_Chorographia de alguns logares_,
+MDLXI, p. 48 sgs.) era que a situação de Talabriga devia ser a actual
+Cacia, especialmente na igreja de S. Julião, onde apparecem vestigios
+antigos. Varios autores o seguem.
+
+As razões d'este illustre escritor do sec. XVI merecem alguma discussão.
+
+Barreiros funda-se no Itinerario e conta, no sentido d'este roteiro, as
+milhas de Conimbriga para o norte. E por confirmação d'este argumento,
+traz o passo de Plinio que eu já transportei a este estudo, mas com uma
+differença que elle tomou de um archetypo Toletano (p. 51), declarando
+porém que alguns exemplares de Plinio não são accordes com aquelle. A
+lição citada é pois esta: _A Durio Lusitania incipit, Turduli veteres,
+Pesuri, flummen Vacca, oppidum Vacca, oppidum Talabrica, oppidum et
+flumen Minium_, etc. Esta variante demonstra a existencia de uma cidade
+_Vouga_, que G. Barreiros colloca na Ponte de Vouga (p. 50 _v_). Algumas
+cartas antigas reflectem esta indicação. Isto posto, G. Barreiros leva a
+contagem de Conimbriga para Talabriga por espaço de 50 milhas, o que é
+exacto, espaço que elle computa equivalente a 12,5 leguas e enumera:
+
+ De Condeixa a Coimbra 2,5 leguas
+ De Coimbra á Mealhada 3,5 »
+ Da Mealhada a Avellãs 2 »
+ De Avellãs a Agueda 2 »
+ De Agueda á Ponte de Vouga 1,5[24] »
+ De Ponte de Vouga a Cacia 1 »
+ 12,5
+
+«Na qual villa & igreja de sanct. Juliã nas ribeiras do Vouga situadas,
+se acham vestigios antigos, s. os fundam[~e]tos de h[~u]a torre que na
+memoria dos hom[~e]s inda staua quasi inteira, onde era outro tipo
+segundo ficou fama de h[~u]s em outros chegauam nauios da foz do mar,
+porque inda ali se acharam pedaços d'elles & anchoras iuncto da dicta
+torre em h[~u]a lagoa Afora muitos vestigios & ruinas d'argamassa que
+dentro em seu ambito cõprehende h[~u]a milha pouco mais ou menos» (p. 50).
+
+A não ser que tenhamos de recorrer a uma mudança da primitiva situação,
+nós temos de procurar em Talabriga a cidade preromana, que no sec. II a.
+C. Decimo Junio Bruto reduzia á miseria e á impotencia, segundo narra
+Appiano. E esse oppidum teria que possuir condições estrategicas
+identicas ás dos outros castros preromanos, taes como elles nos acenam
+que foram escolhidos pelas populações proto-historicas; teria que
+justificar o proprio designativo de caracter celtico _briga_--altura
+fortificada.
+
+Creio poder affirmar que nada d'isto se encontra em Cacia. Alem d'isto o
+proprio G. Barreiros, no dizer que, entre os vestigios antigos,
+sobresaía uma torre, que ainda andava lembrada, e se topavam «ruinas de
+argamassa», quasi estabelece uma chronologia, porque taes vestigios não
+podem ser anteriores aos romanos; poderão attribuir-se menos á sua epoca
+que ás posteriores. Para a contemporaneidade, teriamos que admittir e
+demonstrar uma deslocação do primitivo assento de oppidum, como vimos;
+se esses vestigios se affectam ás epocas successoras dos romanos, o
+facto sae para fóra do problema e d'elle me não posso occupar.
+
+O principal estorvo, porém, que a opinião de Barreiros encontra, é
+aquelle que eu quis descobrir e evitar, quando ajustei a medição do
+itinerario a contar de Cale para o Sul e não de Aeminium para o Norte.
+Evitei assim o erro de cair em Aveiro, em Esgueira e agora em Cacia,
+onde muito bem podia ir passar com o roteiro romano nas mãos.
+
+Isto illumina-se á luz da carta. Barreiros vem seguindo, com os ouvidos
+na tradição do seu tempo, o leito do caminho romano (dito mourisco) pela
+Mealhada, Agueda, até á ponte de Vouga, e até aqui bem elle vem; chegado
+porém a esta altura, desnorteia-se e inflecte para Oeste para fazer a
+primeira estação de Itinerario em Cacia, imaginando-se em Talabriga.
+Kilometricamente, creio não haver que lhe objectar. A distancia da ponte
+de Vouga a Cacia é proximamente igual á que entre o mesmo ponto se nota
+e a linha-zona _TT_, que eu determinei. Portanto não falseava o illustre
+chorographo quinhentista a tabella do Itinerario, isto é, as 50 milhas
+desde Condeixa (Conimbriga).
+
+Mas a precaução de começar a contagem de Cale para Talabriga, obsta ou
+impede aquella inflexão e obriga a trazer o caminho numa directriz mais
+desempenada para a ponte de Vouga. Volvendo os olhos á curva _TT_ do
+mappa, ver-se-ha que Cacia lhe fica a distancia grande porque, com este
+desvio da trajectoria normal, a medição romana perdeu espaço, atrasando-se.
+
+Se não fosse este meio de verificar o erro, era possivel a desorientação.
+
+Creio, pois, ter demonstrado pela ethnographia e pela geometria
+topographica que Talabriga não póde ser collocada em Cacia, quer se olhe
+á Talabriga preromana ou protohistorica, quer á romana ou historica; á
+Talabriga de Appiano e D. J. Bruto ou á da epoca imperial e do Itinerario.
+
+
+X
+
+Como, segundo se infere de Appiano (vid. adeante), o oppidum de
+Talabriga continuou a ser habitado depois da sua rendição no sec. IV a.
+C. e emfim ainda existia no sec. IV d. C., poderia succeder que elle
+conseguisse resistir á vinda dos barbaros, e chegar ao dominio dos
+arabes. Convinha pois consultar a geographia arabica, e o nome de
+Edrisi, geographo do sec. XII, impunha-se-me logo.
+
+O que das suas differentes traducções se conclue, não é nada claro para
+mim que ignoro o arabe, mas poderá auxiliar o estudo da questão por
+parte dos arabistas.
+
+Ha uma edição de 1619 (Paris) com o titulo de _Geographia Nubiensis_,
+que quero pôr em confronto com a traducção de Amédée Jaubert
+(_Géographie d'Edrisi_, Paris 1840).
+
+Edrisi descreve dois caminhos de Coimbra a Santiago de Compostella: um
+por terra, outro por mar.
+
+
+Caminho por terra
+
+ _Ed de 1619_ (trad. lat)
+
+ «Iter autem terrestre a _Colimria_ ad _S. Jacobum_ est hujusmodi: a
+ _Colimbria_ ad oppidum _Aba_ stationis habetur intervallum. Ab _Aba_
+ ad oppidum _Vatira_ statio. Ab hoc ad primos terminos regionum
+ Portugalliae, statio, pergit que iter secans terram Portugalliae
+ spatio diei, ibique conspicitur oppidum _Bonacar_ ad ripam fluminis
+ _Durii_, quod est flumen Samorae, atque illic trajiciendum cymbis ad
+ hoc paratis. Ab oppido ad amnem Minio, indeque ad castellum Abraca
+ LX M. P. duae videlicet stationes. A castello _Abraca_ ad castellum
+ _Tui_ stationes duae».
+
+ ---
+
+ O editor de 1619 diz que não ha medida certa para as _stationes_,
+ expressão que se referia a pousada dos viandantes. As _stationes_
+ justas eram de 25 milhas, mas algumas tinham mais, outras menos.
+ Parece que seria o espaço que se poderia percorrer em um dia.
+
+
+ _Ed. de 1840_ (trad. fr.)
+
+ «O itinerario por terra de Colomria (Coimbra) a S. Tiago é como
+ segue: de _Coimbra_ a _Abah_ (Ribadavia) (!) aldeia, uma jornada. De
+ _Abah_ a _Uetaria_ (Huctaria) (?) aldeia, uma jornada. D'ahi á
+ fronteira de Portugal, uma jornada. O caminho vae através das terras
+ de Portugal durante uma jornada, ao fim da qual se chega a
+ _Buna-Car_, aldeiasinha nas margens do _Douro_, que é o rio de
+ Zamora. Passa-se o rio em barcos proprios para isto. D'este logar ao
+ rio _Minho_ ou antes ao forte _Abraça_ (insua de Caminha) (?) 60
+ milhas ou duas jornadas. Depois _Tuia_ (Tuy) cidade pouco notavel,
+ mas bella e numa região fertil, duas jornadas» (II, p. 232)
+
+ ---
+
+ No texto francês, ao vocabulo _statio_ corresponde _journée_, que eu
+ traduzi por _jornada_ (de um dia).
+
+
+Temos aqui duas traducções do texto arabe, uma em frente da outra, e a
+verdade é que sufficientemente se correspondem. O principal para o meu
+fim seria a localização das estações de Edrisi; neste ponto o traductor
+francês apenas conserva intemeratamente as tradições dos estrangeiros
+quando, fallando ou escrevendo, debicam na nossa geographia.
+
+Nem ao diabo lembra que a Coimbra se siga... _Ribadavia_!
+
+A primeira estação ao deixar Coimbra é _Aba_ (ed. 1619) ou _Abah_ (ed.
+1840). Poderá corresponder a _Agueda_? Jaubert desejaria falar em
+_Riba-d'Agueda_! É provavel.
+
+A segunda estação foi interpretada por _Vatira_ (ed. 1610) e _Uetaria_
+(ed. 1840). Não sei identificar esta localidade, assim desfigurada.
+
+Em seguida a isto, se na versão latina parece haver uma incongruencia,
+ella desapparece na traducção francesa. Através das terras de Portugal,
+chega-se com um dia de viagem ás margens do Douro. Isto parece ser bem o
+tradicional caminho que entesta na foz do Douro.
+
+Não diz o geographo arabe em que ponto da margem do Douro ficava _Bona_
+ou _Buna-car_, expressão que não sei reconhecer, mas parece-me que deve
+ser a embocadura d'este rio, e é a seguinte a razão. Diz Edrisi que de
+_Bona-car_ ao rio Minho são 60 milhas; ora, numa pagina anterior (p.
+227) elle conta da foz do Douro á do Minho as mesmas 60 milhas. Portanto
+creio que _Buna-car_ era aproximadamente em Gaia, onde depois o rio se
+atravessava em barcos[25].
+
+Descrevendo o mesmo _caminho por mar_, isto é, a viagem de Coimbra a
+Santiago, o primeiro ponto onde diz que se abica, é a foz de
+_nahr-Budhu_ (rio _Vadeo_, traduz A. Jaubert!) que corresponde ao Vouga,
+rio, acrescenta, consideravel, onde entram embarcações grandes e
+pequenas (II, 227). Esta aclaração parece indicar que naquelle tempo a
+foz do Vouga e o lago interno serviam a uma navegação bastante activa.
+Quanto ao relacionamento da antiga Talabriga com alguma das estações do
+caminho medieval descrito por Edrisi, nenhuma conclusão posso tirar com
+segurança.
+
+Com muita probalidade porém se infere d'isto que o caminho frequentado
+então devia ser o que hoje corresponde á estrada real com a passagem nas
+pontes medievaes de Vouga, mas emquanto não se fixarem estes dois ponto;
+duvidosos, localização muito verosimil de _Aba_ ou _Abah_ em Agueda e
+incerta de _Vatira_ ou _Ueturia_, o testemunho do geographo arabe apenas
+serve seguramente para localizar as testas d'este caminho, estabelecer
+com grande plausibilidade a tradição do caminho historico pela orla das
+montanhas e revelar-nos o movimento commercial da foz do Vouga.
+
+
+XI
+
+Tratando-se pesquisa dos vestigios da via romana _ab Aeminio ad Calem_,
+o testemunho de Viterbo (_Elucidario_, s. v. _Estrada mourisca_) devia
+ser ponderado. Diz este illustre antiquario que, nos documentos de
+Grijó, se fazia larga menção de propriedades que ficavam umas da parte
+de cima, outras da parte de baixo da estrada mourisca. No anno de 1148,
+Trutesindo doa ao celebre mosteiro o que possuia em Brantães e em S.
+Felix _subter illam Stratam Mauriscam, discurrente riuulo Cerzedo_.
+
+Acrescenta o sabio antiquario que a estrada era mourisca por ter sido
+aberta pelos Mouros, que abandonaram a romana que vinha ali a passar
+entre Lancobriga e o mar, pois que com o rodar dos annos a costa se
+entupira e alteara por causa das areias e os rios estagnados não só
+esterilizaram os campos, mas fecharam a passagem dos caminhos. E mais
+depõe Viterbo que a estrada mourisca ia do Porto a Agueda por Azemeis,
+Albergaria, Vouga, etc.
+
+Antes de mais: notemos esta opinião corrente, esta tradição, tão
+concordante com o que eu já procurei accentuar, de que a tal estrada
+_mourisca_ descia do Porto a Agueda precisamente por Azemeis, por
+Albergaria e por Vouga.
+
+Que Viterbo lhe chamasse _mourisca_ não é de espantar; era a voz popular
+que ainda hoje nos falla de Mouros sempre que tem de referir-se a povos
+muito antigos, preromanos, romanos, barbaros, etc[26].
+
+Mas o documento de 1148 já tratava de mourisca uma obra que não podia
+ser dos Sarracenos, a esse tempo ainda no sul de Portugal. Creio não se
+poder sustentar que a estrada que passava em Cerzedo era construida por
+arabes; aproveitada sim, porque sendo o caminho que elles ainda
+encontravam á sua disposição, devia ser aquelle que inundavam do terror
+das suas algaras.
+
+Em que elementos se estribava Viterbo para dizer ainda que a mesma
+estrada mourisca tocava em Oliveira de Azemeis, Albergaria, Vouga e
+Agueda? Confesso que não os conheço, a não ser que a memoria e o uso
+d'este caminho tradicional se perpetuassem através de tantos seculos e
+tão profundas transformações sociaes.
+
+Informa Pinho Leal que na freguesia da Trofa (concelho de Agueda) ha
+ainda o logar de _Mourisca_, á margem da estrada, e que o nome lhe veio
+d'esta. Traduzindo _mourisco_ em _romano_, póde ser acertada a
+supposição. Isto transcreveu-o elle de Viterbo, s. v. _Estrada_.
+
+Mais expressivo é o tópico de um sitio, perto de Lamas e junto da
+estrada real; chama-se elle _Fundo da rua_. Tal rua não é outra senão a
+via romana. Esta explicação affere pela que dá o _Corpus_ (II. p. 363)
+com referencia a uma freguesia de Santo Estevam da Rua, onde passava uma
+estrada romana (_oppido quod a via romana nomen duxit_). A 3:500 para O.
+da Feira ha um sitio chamado _Rua Nova_. Aqui é que só a inspecção dos
+logares poderia indicar-me o significado d'este tópico.
+
+Num escritor estrangeiro do sec. XVIII, lê-se uma descrição litteraria
+do caminho através do campo de Aveiro, que só se entende se o
+suppusermos encostado ás montanhas de leste, permittindo que se
+descortine para a banda do mar toda aquella immensidade de terras
+feracissimas que aquelle autor olhava como planicie encantadora
+(_Annales de l'Espagne et du Portugal_, Alvares de Colmenar, Amsterdam
+1741, p. 253).
+
+Isto demonstra que a estrada real de hoje é um caminho velho e
+tradicionalmente batido para ligar Coimbra ao Porto.
+
+Nos _Port. Mon. Hist._ não se encontram referencias mais claras do que
+esta de Viterbo e as que adduzi em nota, á antiga via romana. Compulsei
+bastantes documentos d'aquella publicação e nella encontrei variadas
+referencias a caminhos, mas em termos d'onde não se podia concluir cousa
+alguma que indicasse o conhecimento da existencia de uma estrada da
+epoca romana, considerada como tal[27].
+
+
+XII
+
+Um esclarecimento dá Viterbo que é exacto e tem importancia para a
+historia d'esta região tributaria dos esteiros vacuenses.
+
+Retiro-me ao «entupimento» da costa que com o rodar dos annos se foi
+alteando e ao «estagnamento» dos rios que esterilizava os campos e
+fechava os caminhos. Esta acção do mar na costa de Aveiro tem sido um
+problema technico e administrativo extremamente complicado para os
+governos portugueses, não só pelas condições commerciaes de Aveiro, mas
+pelo estado sanitario de toda esta região. O coração d'este problema é a
+barra do Vouga.
+
+É difficultoso dizer o estado d'esta embocadura nos tempos que
+interessam ao presente estudo. Tenho lido que, na epoca romana, entravam
+a foz do Vacua embarcações de grande arqueamento (_Os portos maritimos
+de Portugal_, pelo Sr. Adolfo Loureiro, II, 3). Não sei que fundamentos
+póde ter esta asserção, que em todo o caso é relativa á tonelagem dos
+antigos navios.
+
+Os geographos antigos que se referem a este rio lusitanico, não dizem
+cousa d'onde se possa inferir a sua capacidade para grandes embarcações,
+como aliás se tem escrito.
+
+O mais explicito é Estrabão (_Geographia_, liv. III, III), que vertido a
+latim, diz: _Deinceps post Tagum nobilissima flumina sunt Muliadas,
+parvas habens navigationes. Itidem Vacua fluvius, post quos Durius longo
+fluens cursu_, etc. O geographo grego iguala o Mondego (_Muliadas_) rio
+de navegação diminuta, ao Vouga, da mesma fórma (_itidem_) estuario de
+diminuta navegação. E tanto mais é esta a natural hermeneutica, que o
+contraste é frisante com a importancia do Douro, _longo fluens cursu_.
+Estrabão escreveu no sec. I a. e d. de C.; como póde affirmar-se que no
+tempo dos romanos entravam o Vouga embarcações de longo curso e a sua
+foz era um porto de grande commercio e muita prosperidade?
+
+Ora isto vem ao intento de eu pretender que no surgidouro do Vouga não
+havia nos primeiros seculos, pelo menos da epoca romana, povoação de
+vulto que determinasse uma passagem forçada na via militar e um desvio
+da natural directriz _ab Aeminio Calem_. E para um porto de tamanho
+trafego, era pouco um simples _vicus_.
+
+Temos pois a affirmação estraboniana[28]. E antes?
+
+Menos ainda. Diz-se que em algumas minas da região metallifera de
+Entre-Vouga-e-Caima tem apparecido vestigios de antigas laborações.
+Apesar da falta de precisão chronologica nesta noticia, póde presumir-se
+o facto até para a epoca preromana. E neste caso, a via fluvial seria a
+mais pronta saida do mineiro para o commercio externo.
+
+Mas um óbice encontro agora. Seria consequente que este trafico
+determinasse a formação de um povoado á beira-mar ou na enseada
+interior. A essa gente faltaria, porém, uma cousa, que se lhes tornára
+tão indispensavel, como o pão para a boca: era a segurança pessoal, era
+o ninho de aguia. Com as planuras não se queriam elles. A não ser que
+deroguemos os conhecimentos adquiridos no que até agora se tem encontrado.
+
+Alem disto, que motivos ha para tirar effeíto tambem retroactivo á
+noticia de Estrabão?
+
+Um primorosissimo escritor[29], filho de Aveiro, evita, com
+exemplar abnegação patriotica, o problema archeologico da origem
+preromana da sua terra natal, mas propende á presumpção de que algum
+povoado assentaria antigamente na foz do Vouga os seus lares. E enfeixa
+o illustre homem de letras duas razoes: 1.ª, a geographica; 2.ª, a da
+exploração do sal. Aquella parece-me menos conciliavel com a
+ethnographia dos povos a que se deseja alludir, como notei. E esta? Para
+o commercio, quer interno quer externo, temos ainda o mesmo senão. Os
+marnôtos d'aquelle tempo onde se acoitariam[30]?
+
+Que, posteriormente a Estrabão, as _parvae navigationes_ crescessem em
+numero e tonelagem não é impossivel, porque a vida social começava já a
+fervilhar nas planicies.
+
+E a industria do sal, cuja utilização aliás já data dos tempos
+neolithicos, poderia commercializar-se (perdão para o neologismo) d'essa
+epoca em deante, se tomarmos por base da hypothese o caracter latino da
+technologia[31] e o que sabemos por aquelle geographo da
+importancia das salgas (_Geographie de Strabon_, por Am. Tardieu, 1886;
+III-IV-2). Mas então já a via militar _ab Aeminio ad Calem_ lá estaria
+antes de ser necessaria, se necessaria se pudesse considerar por motivo
+do commercio externo, num porto afastado da linha natural de
+communicação e posto em duvida pelo silencio dos textos, como vimos.
+
+Do que o Vouga seria na idade media possuimos o testemunho do geographo
+arabico Edrisi (_Géographie d'Edrisi_, trad. de P. Amédée Jaubort. Paris
+1840 II, 227).
+
+O nosso rio foi transposto para aquella lingoa por uma palavra que A.
+Jaubert representa na graphia francêsa por _Boudhou_ (ou==u); e assim
+conforme o texto arabico vemos que o _nahr-Budhu_ é um rio consideravel
+onde navegam embarcações grandes e pequenas, e a navegação se estende a
+70 milhas da sua foz. Agora já começamos a entrever uma população
+occupada no trafego maritimo.
+
+A diplomatica tambem proporciona alguns elementos de estudo
+relacionaveis com este, mas propriamente esta epoca já não interessa á
+questão posta.
+
+Há porém, uma cousa que não posso omittir.
+
+É o documento n.º LXXVI dos _Port. Mon. Hist._, «Dipl. et Chartae», onde
+se lê a fórma medievica de Aveiro, a qual é _alauario_, o que só por si
+desmorona as hypotheses etymologicas a que varios chorographos se tem
+apegado, mas revela pela primeira vez a existencia de uma povoação onde
+hoje é Aveiro (assim tambem _Talabario_ e _Táveiro_. Doc. CXXVIII).
+
+O trabalho do mar e das aguas na desintegração de um subsolo brando e a
+força do vento nos areaes movediços devem ter sido causa perenne e
+inflexivel dos açoreamentos e obstrucção da navigabilidade[32]. O factor
+é antigo, tão antigo quanto o póde ser, por maneira que aquella região
+nunca teve, fóra das epocas geologicas, outra face topographica muito
+diversa da dos nossos dias[33]. É presumivel que elevadas florestas
+forrassem com sombras impenetraveis toda essa immensa orla limitada pelo
+mar a Oeste e pelas montanhas a E., na região e na epoca de que me
+occupo[34] como em outros pontos suppôe o Sr. Alberto Sampaio
+(_Portugalia_, II, 215, art. cit.); mas isso não importa acreditar a
+possibilidade da via romana por terrenos de tal especie.
+
+Informou-me o distincto engenheiro Sr. Mello de Matos, que, ao
+proceder-se aos trabalhos de construcção de uma ponte nas proximidades
+de _Vagos_, se encontrou encastoado nas areias o cavername de um navio,
+que infelizmente não foi estudado. Na _Esgueira_, achara-se outro.
+
+Narra Pinho Leal que ha annos em Vagos se descobriu uma ponte sobre um
+ribeiro que a areia das dunas entupiu completamente. Escusado é
+acrescentar que a ponte foi logo capitulada de _romana_, nada menos.
+
+Estes factos não tem sido apenas recentemente verificados. Já vimos num
+trecho, que desatei do nosso Gaspar Barreiros (p. 50) que pelas alturas
+de Cacia se tem encontrado, submersos na terra, cascos de navios e
+ancoras, o que radicou a crença de que as embarcações chegavam ate ahi
+em tempos antigos. Esta apreciação já é do sec. XVI.
+
+D'este millenario ha um mappa, publicado por Abrahão Ortelius, onde se
+reconhece nitidamente a bacia de Aveiro. (Vide _Theatrum orbis
+terrarum_, já citado a pag. 132).
+
+Estes factos esclarecem o assunto e reatam a tradição de que os fundos
+da ria se vão alteando com a obstrucçâo nos esgotos das correntes
+fluviaes. Fr. Bernardo de Brito (_Monarchia Lusitana_, II. V. p. 130)
+diz que, do tempo d'elle, Aveiro, muito concorrida de gente de mar e
+pescarias, era cidade florescente[35].
+
+O Sr. Cons.º Luis de Magalhães tambem entende que, tendo ahi embarcado
+para uma jornada de Africa os terços da Beira, é porque o porto
+consentia a arqueação das caravelas.
+
+D'esta epoca ha mais elementos concordantes no movimento commercial de
+Aveiro e portanto no estado da sua barra. (Vid. _Os portos maritimos de
+Portugal_, pelo Sr. A. Loureiro, II, 3).
+
+O que Barreiros conta relativamente a Cacia, encontra-se repercutido num
+local situado muito mais acima sobre o Vouga. No sec. XVIII corria que
+em eras passadas ainda os navios subiam aquelle estuario até a antiga
+cidade de _Vacua_[36], onde depois foi a villa de Vouga e
+agora mero cabeço de Vouga (_Arch. Port._, VII, 191), que aliás tende a
+desapparecer, como desappareceu a de Marnel pelo impaludismo (Pinho
+Leal, _Port, Ant. e Mod._, s. v. _Vouga_).
+
+Esta noticia, porém, deve interpretar-se com uma informação mais
+minuciosa que encontro em uma obra de 1741 (_Annales de l'Espagne et du
+Portugal_, por Alvares de Colmenar, Amsterdam). Diz este A. que Aveiro é
+uma cidade bastante consideravel, situada na testa de um pequeno golfo
+que a maré estabelece na embocadura do Vouga. Este rio fórma um porto de
+limitadas dimensões, onde os navios mediocres, que não demandam senão 8
+ou 9 pés de agua, podem entrar na preamar, com a direcção de pilotos do
+sitio. Este A. já falla na grande producção de sal e nas fortificações
+constantes apenas de uma muralha flanqueada de algumas torres.
+
+Na lagoa de Esmoriz, de que falla um doc. do sec. IX, (_Port. Mon.
+Hist._, «Dipl. et Chart.», n.º XII), havia uma barra por onde entravam
+as caravelas em antigos tempos e depois se entupiu (_Arch. Port._, IV,
+144).
+
+O caso do cavername encontrado perto de Vagos liga-se com a noticia do
+sec. XVIII, transmittida pelas _Memorias Parochiaes_, segundo as quaes o
+braço da ria que existe entre Aveiro e Ilhavo dava antigamente fundo
+para caravelas e agora é vadeavel (_Arch. Port._, IV, 329).
+
+Em Mira, numa lagoa de agua doce, conta um informador que nella se
+encontram vestigios de casas, moedas e alicerces de uma parede ou
+caminho que a atravessou pelo meio. Alem disto, pelo norte e poente,
+tem-se açoreado (_Arch. Port._, V, 297).
+
+Quanto se póde deduzir d'estas noticias, o extenso delta vacuense tem
+sido invadido com trabalho successivo pelas areias que causam a
+obstrucção dos esteiros e a diminuição da navegabilidade. De nenhuma
+noticia, porém, se póde concluir que na epoca romana o aspecto
+topographico e a constituição orographica da região fosse tão diverso do
+que é actualmente, que a via romana lá pudesse passar preferentemente ao
+trajecto mais interno, na base da montanha, através dos castros e das
+minas.
+
+
+XIII
+
+De Talabriga temos uma das paginas da sua historia escrita por um autor
+do meio do sec. II d. C., Appiano de Alexandria.
+
+É certamente este um caso particular, mas não deverá deixar de ser
+considerado como uma amostra de dramas analogos que succederam com os
+oppidos lusitanos, no embate das cohortes romanas.
+
+Talabriga, escreve Appiano, era uma das cidades (da Lusitania) que mais
+frequentemente se revoltava. Esta falta de resignação, este, direi eu,
+germen de patriotismo ou melhor de municipalismo, não podia
+tranquillizar Decimo Junio Bruto, que julgou que o caso era de reclamar
+a sua presença no local da cidade. Partiu com numerosa gente, e ao seu
+apparecimento responderam os irrequietos Talabrigenses com supplicas e o
+seu incondicional abandono á discrição do conquistador. Então J. Bruto
+foi energico e insaciavel, mas ao mesmo tempo teve um lanço inesperado
+de generosidade. Quis fazer-lhes sentir primeiro a dureza cruel do seu
+braço de guerreiro, e para isso impôs-lhe a immediata entrega dos
+transfugas das hostes d'elle, certamente alliados dos romanos, a dos
+prisioneiros, a de todo o armamento e ainda por cima exigiu refens.
+Depois chegou a ordenar-lhes que abandonassem a cidade com suas mulheres
+e filhos. Parece que o prestigio militar de J. Bruto não valia menos que
+seu tino de politico e conquistador. Os Talabrigenses aprontaram-se para
+obedecer alli mesmo. Mas o capitão romano queria compor-lhes um quadro
+que lhes impressionasse perduravelmente a imaginação. E ia espreitar o
+effeito produzido.
+
+Desdobrou em circulo as suas tropas e, agglomerando dentro a chusma dos
+habitantes humilhados, arengou-lhes. Fez-lhes perceber que não receava a
+sua turbulencia indomita, porque quantas vezes desertassem, outras
+tantas elle viria combatê-los e reduzi-los com a necessaria firmeza,
+incutido assim o receio e a convicção de que no momento adequado, J.
+Bruto cairia sobre elles com toda a energia, o general romano quebrantou
+a sua ira, satisfeito com estas objurgatorias. Mas não sem que lhes
+tomasse os cavallos, os mantimentos, os dinheiros da cidade com todo o
+outro material publico[37]. Isto era claramente deixá-los na
+impotencia e até na penúria. E por fim J. Bruto, contra tudo quanto os
+Talabrigenses podiam já esperar (_pratter spem_), restituiu-lhes a
+cidade para nella continuarem a habitar. Isto passava-se já meado o sec.
+II, antes de Christo (138 a. C).
+
+Feito isto, o conquistador regressou a Roma.
+
+Esta pagina da conquista da Lusitania é tanto mais importante quanto é,
+com igual individuação, a unica que nos resta de historia escrita dos
+oppidos lusitanos, e, embora narre um só episodio da guerra da
+conquista, não deixa de ser elucidativa.
+
+Quando li este trecho de Appiano (_Appiani Alexandrini Rom. Historiarum
+quae supersunt_. Parisiis. F. Didot. MDCCCXL), confesso que senti
+amargura por não podermos ainda ir conversar na região do Vouga com as
+ruinas da cidade onde estes successos crueis se desfiaram, e segredar ás
+cinzas d'aquelle abrasado patriotismo que o mesmo sentimento, que
+chammejou nesses lusitanos insoffridos, ainda se não arrefentára com o
+soprar sobre ellas de vinte vezes cem invernos, e em mais de um dia, já
+da nossa existencia nacional, elle se tem ateado em protestos bem
+tumidos de calor.
+
+Talabriga continuou a existir e refazer-se, atravessando a epoca
+imperatoria, como nos attesta: 1.º, a data a que pertence a ara de
+Estorãos, sec. III-IV; 2.º, a sua inscripção no Itinerario (sec. IV).
+
+Que seculos lhe trouxeram o ultimo acto das suas tragedias? Os do mal
+afamado frankisk barbaro ou os do pavor sarraceno mais verdadeiro e real
+que aquelle, sobretudo no territorio portugalense?
+
+Entrevejo pois para a archeologia portuguesa este problema: sondar o
+jazigo de Talabriga, verdadeiro simbolo do nosso sentimento de
+independencia territorial e figura-se-me que mostrei onde com toda a
+probabilidade elle se deve encontrar. Espero ter eu mesmo ensejo de
+averiguar se o simples e frio raciocinio me guiou, sem desvio, até as
+trincheiras historicas, que occultam os miserandos restos de Talabriga.
+
+Conservar-se-ha ainda evolucionado este toponimo? Responderá o
+onomastico, paternalmente assistido pela philologia, não se dando o caso
+mais provavel do verso susodito de Vergilio:
+
+ _Haec tum nomina erunt, nunc sunt sine nomine terrae!_
+
+Março de 1907.
+
+
+_P. S._ No mappa do _Ortelius_, de que me soccorri a pp. 132 e 155, vejo
+nova _Lancobriga_, pelo sul de Scalabis; teremos tres? (Ver _O Arch.
+Port._, XII, 42).
+
+
+ [1] O brasão de Agueda ostenta num lemnisco o mote Aeminium. Mas
+ Coimbra tem hoje uma lapide, quo lhe dá irrecusavelmente o foro de
+ _civitas aeminiensis_.
+
+ [2] Um dos autores que se destacam por tentar a determinação de
+ Talabriga e Langobriga (e ainda outras estações da via ab _Olisipone
+ Bracaram Augustam_) por um processo exacto é o Sr. J. Henriques
+ Pinheiro, fallecido professor do Lyceu de Bragança. Mas talvez em
+ consequencia de trabalhar sobre uma carta (a de Folque) muito
+ reduzida e de se servir da reducção de milhas a leguas, localiza
+ Talabriga em _Aveiro_ e Langobriga na _Feira_. Em todo o caso, não
+ podendo conciliar as distancias relativas a Langobriga, conclue que
+ ha erro nos Codices (_Estudo da Estrada Militar Romana de Braga a
+ Astorga_, por J. Henriques Pinheiro, Porto, 1896, p. 129).
+
+ [3] O Sr. A. Coelho diz que a fórma verdadeira é a de Estrabão, como
+ o prova a moderna _Vouga_ e _Vauga_ dos documentos em baixo latim
+ anteriores ao sec. XII (Mélanges Graux, 1882). Vid. _Religiões de
+ Lusitania_, II, 28.
+
+ [4] Nas _Noticias Archeologicas de Portugal_, de Hübner, trad. do
+ Visconde de Juromenha, vem um extracto do Itinerario segundo a ed.
+ de Parthey & Pinder (1848). Prefiro a lição _briga a brica_ de
+ Wesseling, ed. dos _Vetera romanorum Itineraria_, MDCCXXXV.
+
+ [5] Não pude haver á mão as _Memorias_ d'este mesmo senhor.
+
+ [6] Como preciosidade estrangeira, desejo referir que o aliás
+ eminente celtista D'Arbois de Jubainville, num estudo erudito sobre
+ «Les Celtes en Espagne» (_Revue Celtique_, XIV, § 8) diz, de
+ passagem, ser Talabriga a actual povoação de Sousa, conc. de
+ Alenquer! Presumo que esta incongruencia é proveniente do que
+ escreveu _C. Muller_ em uma nota da _Cl. Ptolemaei Geographia_ (I,
+ 137) a respeito de Talabriga: _Oppidum haud longe a Vouga, fluvio
+ circa, hod. Souza alicubi steterit. Accuratius locum definire non
+ licet._ Como ha mais Marias na terra, d'ahi proveio a confusão.
+ Veja-se Sousa a O. de Vagos.
+
+ [7] Por partes temos:
+
+ De Gaia á Feira 21:900 metros
+ Da Feira a Oliveira de Azemeis 10:900 metros
+ De Oliveira de Azemeis a Albergaria 18:000 metros
+ De Albergaria ao rio Vouga 6:800 metros
+ Do rio Vouga a Agueda 9:000 metros
+ De Agueda á Mealhada 22:000 metros
+ Da Mealhada a Coimbra 16:500 metros
+ 105:100 metros
+
+ [8] Escreveu o autor do _Portugal Antigo e Moderno_ que a via romana
+ seguiria pouco mais ou menos o trajecto da linha ferrea. Assim era
+ preciso, se Talabriga fosse Aveiro, quer no troço ao norte, quer no
+ troço para sul, em attenção ás condições topographicas. Neste caso,
+ porém, a distancia de Coimbra a Gaia seria necessariamente pelo
+ menos a que hoje é por aquelle caminho; nada menos de 115
+ kilometros, o que está bem longe dos 105 kilometros da via romana e
+ da estrada real. Num diagramma da carta indico a differença das
+ distancias entre Cale e Talabriga e Gaia e Aveiro pela via ferrea
+ (45:800 metros e 59:000 metros).
+
+ [9] No mappa com que documento este estudo, lancei só os elementos
+ que me eram uteis. Tudo o mais ficou no original, a que até accresci
+ alguma cousa a mais por assim convir á minha demonstração.
+
+ [10] É força porém attentar na exigua differença que no caso
+ presente existe entre a recta, que unisse os dois pontos extremos
+ (Coimbra e Gaia), e o desenvolvimento da distancia effectiva pela
+ estrada real, entre os mesmos pontos. Bem sei que differentes
+ parcellas podem dar a mesma somma, mas difficultoso seria crer que,
+ acertando o Itinerario na distancia total entre Aemiuium e Cale,
+ delinquisse nas parcellas, que vem a ser as tres secções da via
+ militar. Veja-se o diagramma.
+
+ [11] Pela linha ferrea de Coimbra a Aveiro são 56 kilometros: pelo
+ caminho romano de Coimbra a Talabriga eram 59 kilometros.
+
+ [12] Nada mais possivel do que um erro de informação de Plinio. Mas
+ poderia tambem haver aqui uma confusão entre a Talabriga do roteiro
+ romano e a Vacua, de que parece existirem ruinas no Cabeço de Vouga
+ (Cit. _Oppida restituta_, 1885). Mas o Itinerario omitte-a, o que é
+ apenas argumento negativo. Ainda se poderia dar o caso de _Vacua_
+ não ser _mansio_ do caminho romano. Havia um codice de Plinio que
+ nomeava Talabriga e _Vacca_ e uma cosmographia antiga que refere
+ _Vacca_ (_sic_) e não Talabriga, que aliás deveria ter conhecido
+ pelos AA.
+
+ Jorge Cardoso, no _Agiologio_, II, 65, quer que Vacua tenha sido em
+ Viseu. Peor!
+
+ [13] Nos _Port. Mon. Hist._, «Diplom. & Chart.», vem um documento
+ (n.º 815 do anno de 1095) cujo teor nos não prende, mas onde se
+ lê:.... _Ista igitur auctoritate confissus ingressus sum et ego
+ densissimam silliam_ (silvam) _que ab antiquis temporibus
+ habitaculum erat bestiarum_.... Trata-se de arredores de Ilhavo.
+
+ [14] Nos arredores de Aveiro ha pontos com as cotas de 15, 27, 46,
+ 57, 48, 38, 23, 16, 24 e 10 que correspondem a relevos suaves. Todos
+ estes pontos estão situados na margem esquerda do Vouga. Mas na
+ hipothese de Talabriga, a estação do Itinerario, ser Aveiro ou
+ proximidades, a estrada romana, chegada ahi, ver-se-hia forçada a
+ atravessar o Vouga desde Eixo para baixo, em direcção ao Norte. E
+ digam-me se todo esse trato de terreno, comprehendido entre a margem
+ direita do Vouga, desde a ponte de S. João de Loure, como vertice
+ meridional, e os sitios de Froços, Angeja, Formelã, Canellas e
+ Salreu, não eram de fazer recuar o engenheiro romano que por ahi
+ tentasse obter saida para o norte, em direcção a Cale, tendo outra
+ incomparavelmente melhor?
+
+ [15] Tenho sempre especial satisfação quando vejo que conceitos meus
+ foram já formulados por escritores de outro cunho. Assim na _Revue
+ des Études Anciennes_ (1905, p. 389), Cam. Jullian, referindo-se a
+ caminhos de epocas prehistoricas, diz: _Et il résulte bien.... que
+ beaucoup des grandes lignes de circulation actuelle ne sont que les
+ héritiers des pistes tracées il y a des milliers d'années._
+
+ [16] Para os leitores habituaes do _Archeologo Português_, seria
+ ociosa esta nota; para os que porventura o assunto do presente
+ estudo desperte de-novo, é uma prevenção necessaria. Quando se falla
+ em _castros_ com supposta referencia á epoca romana, não se trata
+ dos _castra_, acampamentos ou abarracamentos (Saglio & Daremberg)
+ fortificados que as forças militares de Roma construiam em campanha:
+ nunca vi ruinas de nenhum d'estes _castra_, nem me consta que as
+ haja verificadas no pais. E comtudo os _castros_, ou _crastos_ no
+ fallar do povo, são abundantissimos entre nós... porque são cousas
+ muito differentes. Estes _castros_ são apenas uns montes com
+ vestigios de habitação _ante-romana_ e quasi sempre de obras de
+ fortificação de terra ou de muralha. Assim os castros são outeiros,
+ cabeços habitados e fortificados, não pelos romanos, mas contra os
+ romanos, pelo menos, e pertencentes aos antigos habitadores do país.
+ Os _castros_ devem pois aos romanos, não o seu principio, mas a sua
+ decadencia e o seu fim, porque foi a conquista e foi a civilização
+ romana que os tornou desnecessarios naquelle tempo. Como se lhes dá
+ então este epitheto que não vem senão causar confusões? O epitheto
+ encontramo-lo na toponimia local; foi o povo que conservou até hoje
+ esta designação que nós vamos encontrar com frequente emprego nos
+ documentos da idade media. É que no singular _castrum_ significou
+ secundariamente um castello, uma fortaleza; cita Rich o capitulo VI
+ da _Eneida_, onde se lê (_vv_. 771 a 776):
+
+ Qui juvenes quantas ostentant, aspice, vires!
+ At qui umbrata gerunt civili tempora quercu,
+ Hi tibi Nomentum, et Gabios, urbemque Fidenam,
+ Hi Collatinas imponent montibus arces,
+ 775 Pometios, Castrumque Inui, Bolamque, Coramque:
+ Haec tum nomina erunt, nunc sunt sine nomine terrae.
+
+ (_Oevres de Virgile_, par E. Benoist; vol. I, Hachette, 1882).
+
+ (Trad.) _Contempla como são grandes as forças que aquelles mancebos
+ ostentam! Pois d'entre os que trazem a fronte sombreada pelo
+ carvalho civico, uns construir-te-hão Nomento, Gabios e a cidade de
+ Fidena, outros assentarão em montanhas as fortalezas Collatinas,
+ Pometios, o castello de Inuo, Bola e Cora_ (antigas povoações do
+ Lacio): _estes serão os nomes d'aquelles lugares, que estão agora na
+ terra sem nome._
+
+ Foi certamente d'esta accepção que derivou para o latim corrente, e
+ em seguida para o fallar medieval das nossas populações, a
+ denominação de _castro_ ou _crasto_.
+
+ Na _Revue des Études Anciennes_ (IV, p. 43, 1902) vem uma serie de
+ citações para demonstrar que no fim do Imperio pela palavra
+ _castrum_ se designavam frequentemente as cidades fortificadas; de
+ entre todas extraio a seguinte de Isidoro (_Origines_, XV, 2, 13):
+ _Castrum antiqui dicebant oppidum loco altissimo situm_. Com
+ referencia a sitios nossos, temos, bibliographicamente, o conhecido
+ _Portumcale castrum_, de Idacio.
+
+ Mas a par d'aquella, outras se formaram, como _castello_,
+ _cristêlo_, _crastêlo_ e _castrêlo_. _Castellum_ (cfr. cit. _Rev.
+ des Ét. Anc._) na lingua latina, era um deminutivo de _castrum_ e
+ applicava-se tanto a um reducto transitorio, como a um forte
+ permanente, quasi sempre situado em logar elevado (Saglio &
+ Daremberg, s. v. _Castellum_). Depois, é explicavel que a linguagem
+ popular prescindisse da origem não romana d'estes pontos
+ estrategicos, e applicasse o termo a alguns castros, talvez aos mais
+ deminutos. Aos mesmos montes se vêem tambem applicadas as
+ designações de _cividade_, mais ou menos pura, _cidadêlhe_, _coroa_
+ e outras ainda. Os autores antigos usam o termo _oppidum_ applicado
+ a alguns d'estes centros de população (_oppidum Aeminium_). E ainda
+ se encontra junto ao nome originario da povoação, a modo de suffixo,
+ o termo de origem celtica _briga_, que tambem quer dizer castello,
+ altura fortificada (_Talabriga_).
+
+ Os romanos, no nosso caso, traçando a via militar através d'estes
+ montes habitados, não fariam mais do que seguir um caminho historico
+ e uma directriz frequentada.
+
+ [17] O parocho de Segadães (1758) informava que a antiga cidade de
+ _Vaca_ (_sic_) fôra assolada pelos _mouros_. Os Leitores conhecem
+ estes _mouros_... (_Arch. Port._, VII, 191).
+
+ [18] Varios outros documentos d'esta região de Entre-Vouga-e-Douro
+ compulsei eu nesta collecção, que se reportavam a _castros_, mas não
+ pude localizar as referencias com a presteza que era necessaria. Até
+ se me deparou a fórma rara _crésto_ (_cresto ualanes_, doc. DXLIX do
+ anno 1077), da qual conheço outra actual no concelho de Valdevêz.
+
+ [19] Na fé de Nascimento Silveira (_Mappa breve da Lusitania_, p.
+ 226), em Mancinhata, nos cruzeiros ha inscripções que ainda ninguem
+ entendeu.
+
+ [20] Nos _Port. Mon. Hist._, «Dipl. et Chart.», n.º CCCCLXXI, vem um
+ documento que diz: _Cesari... subtus monte castro calbo..._ Cf. o
+ n.º CCCCLXX. Não pude averiguar se é um _Monte Calvo_ que vejo perto
+ de Romariz. _Cesári_ (gen. de _Cesarius_, _-ii_) deu Cesár, como
+ _Severi_ (_Port. Mon. Hist._, «Dipl. et Ch.», _passim_, e _Arch.
+ Port._, II, 252, art. do Sr. P. de Azevedo) deu Sever.
+
+ [21] Virá de _Calambria_? pergunta A. Herculano (_Historia de
+ Portugal_, III, 423). Cfr. _Arch. Port._, art. do Sr. A. Cortesão,
+ IX, 232. Teremos aqui alguma _Calambriga_? Um thesouro de 16 argolas
+ de ouro é de lá. (_Arch. Port._, II, 87).
+
+ [22] Eu não me occupo especialmente da _Langobriga_ do Itinerario,
+ mas é facil ver que identicos raciocinios lhe são applicaveis e em
+ consequencia, a situação d'este segundo oppido deveria ser na faixa
+ de terreno vagamente indicada pela curva _LL._ um pouco ao norte da
+ Feira. No meu estudo da ara de Estorãos, assentei que esta não é a
+ actual _Longroiva_, cuja fórma medieval era _Langobria_, (_Port.
+ Mon. Hist._, «Dipl. et Chart.» CCCCXX). Do que deponho a p. 141,
+ parece que é a algum dos castros de _Obil_ ou do _Monte do Murado_
+ que deverá convir a localização de Langobriga. Este fica a 6:000
+ metros para leste da lagoa.
+
+ Para _longo-_ e _lango-_ como para _brica_ e _briga_, não encontram
+ difficuldade os celtistas. (_Élém. celt. dans les noms de personnes
+ des inscr. d'Esp._, por A. Carnoy. Luvaina 1907).
+
+ [23] A legitimidade do processo que segui, empregando o compasso e a
+ escala para determinar a zona em que, segundo as indicações do
+ roteiro romano, deve encontrar-se o jazigo de Talabriga, tem uma
+ averiguação facil, apesar da estranheza que possa causar. Se eu,
+ collocado em Eminio, quisesse determinar a situação de Cale, cujo
+ anorteamento já conhecia previamente, e para isso adoptasse identico
+ systema, o compasso levar-me-hia a uma zona de terreno, onde não me
+ seria impossivel encontrar localizações compativeis com uma estação
+ d'aquella natureza.
+
+ Creio todavia que nem com todos os terrenos assim se póde proceder.
+
+ Comprova tambem a plausibilidade do resultado a circunstancia de
+ fazerem pequena differença a distancia em linha recta entre Coimbra
+ e Gaia e a rectificação da estrada entre os mesmos pontos.
+
+ [24] ... por ser tam grande como todos sab[~e], de [~q] á prouerbio
+ no pouo. (_Ibid._ p. 50). Já não é só pois grande a legua da Povoa!
+
+ [25] O escritor espanhol Eduardo Saavedra, num artigo intitulado «La
+ geografia árabe de Portugal» in _Revista Archeologica e Historica_,
+ I, 49, suppõe que o trajecto descrito por Edrisi vae de Coimbra a
+ Viseu e Braga «por um caminho muito frequentado», fazendo o primeiro
+ descanso em Avô, 45 kil. a NE. de Coimbra; o segundo em S. Miguel do
+ Outeiro, 10 kil. a O. de Viseu no caminho de S. Pedro do Sul; depois
+ chega-se ao Douro, que se passa em embarcações defronte de uma
+ aldeia, que é Villaboa de Quires, a E. de Penafiel. D'aqui duas
+ jornadas a Braga e outras duas a Tuy.
+
+ Salvo o devido respeito, isto parece uma viagem... _à vol d'oiseau_!
+
+ [26] Nos _Port. Mon. Hist._, «Diplom. de Chart.», apparecem mais
+ documentos em que se encontra esta mesma designação. Estes por
+ exemplo:
+
+ N.º 67 do anno 953:... _et inde per carraria mourisca..._ (Isto era
+ nas vizinhanças de Villa do Conde).
+
+ N.º 614 do anno 1083:... _et inde per via maurisca:..._ (territorio
+ de Arouca).
+
+ Póde não se tratar nestes dois documentos de vias militares romanas,
+ como não se trata; mas nem por isso a designação deixa de ser
+ inexacta no seu sentido proprio. Eram antigos caminhos, anteriores
+ aos arabes. Aliás teriamos que admittir que os filhos do Islam
+ andaram por terras de Villa do Conde e de Arouca a abrir estradas em
+ fórma, por serem invios os territorios.
+
+ Demonstra isto que os amanuenses do secs. X e XI já não sabiam
+ estremar romanos (e visigodos) de serracenos. Era pois, como hoje, o
+ fallar do povo.
+
+ É tambem este o sentimento do Sr. Pedro de Azevedo (_Arch. Port._,
+ III, 137 sgs.). Este facto é bastante expressivo. Não passára um
+ seculo ainda depois da expulsão dos arabes naquella região, e a
+ interrupção de tradições locaes tinha sido tão intensa que a mera
+ conjectura tomara o logar d'aquellas, attribuindo aos muçulmanos as
+ obras de viação de que elles apenas tiveram a utilidade (Veja-se
+ _Hist. de Portugal_, por A. Herculano, III, 421). Em França não se
+ dava isto. Ruy de Pina na _Chronica do sr. rey D. Affonso V_ (p.
+ 569) diz: «E na cidade de Nimis leixou El-rey _a estrada romam_, que
+ vay a Avinham».
+
+ [27] Seria longo transcrever os trechos respectivos d'esses
+ documentos; e nem sempre é possivel acertar a que especie de
+ caminhos se referem as expressões usadas nos documentos. É commum o
+ termo _strada_, _strata_; algumas vezes adjectivada _strata
+ ueredaria_ (Dipl. et Chart., n.º 174) em opposição a _alia carrale_
+ (id.); _estrata de uereda_ (id. n.º 13); _in estrada qui discurrit
+ via de uereda_ (id. n.º 24) ou _strata maiore_ (id. n.os 563, 378 e
+ 549). Tambem se encontra a expressão _carreira antiqua_ (id. n.os
+ 620 e 639), _karraria antiqua_ (id. n.os 888), _carraria antiqua_
+ (n.os 639 e 287), _carera antiqua_ (id. n.os 366). _Via de strada_ e
+ _strada de uiminaria_ lêem-se no doc. n.º 817 (_ob. cit._) Ainda hoje
+ se póde dizer _caminho de estrada_. _Carreira_ é termo agora quasi
+ só locativo, mas ainda se ouve no norte applicado ás largas entradas
+ de algumas casas antigas, precedidas de uma alameda plana;
+ certamente _carreira_ inclue a ideia de carro, como _carrale_. Outra
+ denominação que encontrei foi a de _via publica_ (_ob. cit._, n.º
+ 676), que parece corresponder a caminho publico.
+
+ _Karraria antiqua_ era certamente uma estrada carreteira antiga já
+ naquella epoca e portanto tradicional, mas d'aqui não se póde
+ concluir que essa estrada fosse _via militar_ romana. Assim o doc.
+ n.º 570 do anno 1079 refere-se á freguesia moderna de Paçô, no
+ concelho do Valdevêz (_uilla Palatiolo_), onde nunca passou via
+ militar e onde a _carreira antiqua_ poderia bem attingir a epoca
+ romana.
+
+ Alguns d'estes documentos foram indicados pelo erudito conservador
+ do Archivo Nacional e meu amigo o Sr. Pedro de Azevedo; outros
+ rebusquei-os propositamente com o auxilio do valioso trabalho do Sr.
+ Gama Barros, _A administração Publica em Portugal_, entre os que
+ pertencem á região de Entre-Vouga-e-Douro.
+
+ [28] No mesmo pensar encontro-me com o Sr. Alberto Sampaio na
+ _Portugalia_, II, 216 (_As povoas maritimas do norte de Portugal_).
+ Assim se exprime: «As unicas povoações, vizinhas do mar, existentes
+ então (no tempo dos romanos), eram Calem e Portucale».
+
+ [29] É o Sr. Conselheiro Luis de Magalhães, em _A arte e a natureza
+ em Portugal_, vol. IV. A descrição da ria immensa de Aveiro, com as
+ salinas espelhadas que a cobrem, com os seus cones alvissimos de
+ sal, que marchetam a planicie sem fim, é um d'estes primores de
+ prosa gracil e diaphana, que mais ninguem poderia escrever com igual
+ coração e com pulso comparavel. Parece que a seducção d'esse
+ panorama não me será mais intensa, quando com os olhos o vir, do que
+ quando o adivinhei naquellas tão poupadas paginas.
+
+ [30] A grandíssima maioria das povoações d'estas epocas era nos
+ altos; ahi tem sido encontrados os seus vestigios. Para a alguma se
+ attribuir situação aberta como a de Aveiro, necessario seria
+ documentar a excepção.
+
+ Não repugna absolutamente admitti-la no nosso caso, mas é hypothese
+ pura. E depois, lá temos o distinctivo _briga_. O nome da cidade
+ comsigo traz a natureza do seu assento. No Algarve, _Ossonoba_ e
+ _Balsa_, não demoravam em outeiros. (Vide _Religiões da Lusitana_
+ II, 85).
+
+ [31] _Portugalia_, II, 220, «As póvoas marítimas do norte de
+ Portugal», pelo Sr. Alberto Sampaio.
+
+ [32] Explicação geologica d'estes phenomenos: «C'est après avoir
+ traversé les marécages du Vouga, que l'on entre dans les terrains
+ anciens; ce sont d'abord des schistes luisants, généralement cachés
+ par des dêpots superficiels: sables des dunes, graviers pliocènes et
+ graviers kaoliniques appartenant au Crétacique. Ces derniers ne
+ montent pas plus haut qu'Estarreja et le Pliocène est rarement
+ visible depuis la voie ferrée. Parfois ce soubassement de roches
+ solides n'existe pas, ou du moins ne se trouve qu'à une certaine
+ profondeur au-dessous du niveau de la mer; dans ce cas, la côte
+ subit des alternances d'accroissement et de décroissement qui
+ peuvent être funestes à l'homme trop empressé de s'approprier le
+ terrain que les sables ont gagné sur la mer; tel est le cas à
+ Espinho». _Promenade au Gerez (Souvenirs d'un géologue)_, por Paul
+ Choffat, 1895, p. 1.
+
+ [33] Poderia aqui investigar-se das alterações da costa que possam
+ ter modificado o aspecto do surgidouro do Vouga. Um apello,
+ publicado no _Arch. Port._, II, 301, teve em resposta o silencio.
+ Não tratando dos factos de periodos geologicos ou indeterminados
+ (_Arch. Port._, VII, 274 e X, 193) pouco é o que se tem recolhido e
+ ás vezes antagonico. Açoreamentos em epocas historicas foram notados
+ na Povoa de Varzim, Villa do Conde, Fão, Esposende, Vianna, em
+ Setubal, no Algarve (_Portugalia_, I e II. _passim_), e eu mostro
+ que na faixa de Esmoriz a Mira elles se deram tambem em epoca que
+ não posso precisar. Num mappa que illustra o _Hisp. & Port.,
+ Itinerarium_ de Martin Zeiler (1656) Aveiro é situada ao norte do
+ Vouga. E não é o unico mesmo de datas mais recentes.
+
+ [34] Ha um documento do sec. XI que faz uma referencia aproveitavel
+ debaixo d'este aspecto: é o n.º DCCCXV do anno 1095 (doação á sé de
+ Coimbra da igreja de S. Christovam, junto a Ilhavo)... _Ista igitur
+ auctoritate confissus ingressus sum et ego densissimam silliamm_
+ (silvam) _que ab antiquis temporibus habitaculum erat bestiarum..._
+
+ [35] Entre as cartas antigas que folheei, desejo destacar uma do
+ sec. XVII, assinada por N. Sanson. _christ. Gall. regis geografo_
+ (_Hispaniae antiquae tabulae_, 1641). O mappa de Portugal antigo
+ individúa, na região que andei estudando, _Conimbrica_ em Condeixa,
+ _Aeminium_ na margem norte do Mondego; _Talabriga_ ao N. do Vouga,
+ um pouco afastada do estuario, a 20 ou 25 _milliaria_ da foz do
+ Vouga (isto é, na altura onde eu localizo esta povoação); e,
+ seguindo no mesmo rumo, _Langobriga_. É na Bibliotheca Nacional, um
+ grosso volume _in-folio_, recentemente encadernado com o
+ dístico--Mappas--e sem frontispicio.
+
+ [36] Esta lenda porém reproduz-se em mais localidades, fóra d'esta
+ região.
+
+ [37] ... _pecuniis publicis, cum reliquo publico apparatu, ademtis_.
+ Isto dá bem a entender que havia uma perfeita organização politica,
+ e n'ella se estribava a organização de uma defesa militar contra a
+ invasão romana.
+
+
+
+
+DO AUTOR
+
+
+ESTUDOS DO ALTO-MINHO (SERIE 1.ª)
+
+
+Publicados
+
+I--Epigraphia christiano-latina (uma inscripção inedita).
+
+II--Um passeio archeologico no concelho dos Arcos de Valdevez (visita ás
+antas da serra do Soajo).
+
+III--Machados de duplo anel.
+
+IV--Ainda a inscripção christã de S. Pedro de Arcos.
+
+V--Uma primicia de epigraphia funeraria romana.
+
+VI--O portico da matriz de Monção.
+
+VII--Um castro com muralhas.
+
+VIII--Um erro de amanuense nas inquirições de D. Affonso III (C. Sancti
+Salvatoris Darcus).
+
+IX--Um Grovio autentico (cippo de Villa-Mou).
+
+X--Ara celtiberica da epoca romana (um novo «Genio»).
+
+
+PAGINAS ARCHEOLOGICAS (SERIE 2.ª)
+
+
+Publicadas
+
+I--Estatueta ithyphallica.
+
+II--Cemiterio da epoca romana em Vianna do Alemtejo.
+
+III--Situação conjectural de Talabriga.
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's Paginas Archeologicas, by Felix Alves Pereira
+
+*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30071 ***