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-
- FELIX ALVES PEREIRA
-
-
- PAGINAS ARCHEOLOGICAS
-
- III
-
- SITUAÇÃO CONJECTURAL DE TALABRIGA
-
-
-
-
- LISBOA
- IMPRENSA NACIONAL
- 1907
-
-
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- * * * * *
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- SITUAÇÃO CONJECTURAL DE TALABRIGA
-
-
- Obra composta e impressa na Imprensa Nacional
-
- Edição e propriedade do Museu Ethnologico Português
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- * * * * *
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-
-
-
- FELIX ALVES PEREIRA
-
-
- PAGINAS ARCHEOLOGICAS
-
- III
-
- SITUAÇÃO CONJECTURAL DE TALABRIGA
-
-
-
-
- LISBOA
- IMPRENSA NACIONAL
- 1907
-
-
- * * * * *
-
-
-
- Ao
-
- Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Conselheiro
-
-
- _Luis Cypriano Coelho de Magalhães_
-
- _O. e D._
-
- _O autor._
-
- * * * * *
-
-
-
-
-Separata d'«O Archeologo Português», XII, n.os 5 a 8 de 1907
-
-
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-
-SITUAÇÃO CONJECTURAL DE TALABRIGA
-
-
-Summario
-
-1. Estado da questão.--2. Autores antigos--3. Itinerario--4. Exame do
-mappa--5. Topographia e onomastico da região--6. Os castros do trajecto
-da Via--7. Região mineira--8. Localização de Talabriga--9. Opinião de
-Gaspar Barreiros--10. Geographia arabica--11. _Strata maurisca_--12. Ria
-de Aveiro e o Vouga--13. Historia de Talabriga.
-
-
-I
-
-Algum tanto sem o presentir, ao fazer o estudo da ara de Estorãos,
-(_Arch. Port._, XII, 36) encontrei-me no limiar de um problema que, de
-modo definitivo, não se resolverá senão com a verificação _in loco_ de
-vestigios archeologicos incontrastaveis.
-
-É o problema da trajectoria exacta da via romana entre Aeminium e Calem,
-da qual não se conhecem milliarios decisivos e sufficientes,
-especialmente da sua passagem por Talabriga.
-
-O assunto, parcialmente considerado, tem sido alvo das principaes
-referencias na pugna litteraria em que os paladinos de Agueda, de Aveiro
-e de Coimbra patrioticamente articulavam preeminencias genealogicas, que
-é da praxe mencionarem-se em monographias locaes, mas que hoje, quanto a
-Coimbra (e Condeixa-a-Velha) estão sentenciadas, em prejuizo até
-heraldico de Agueda[1].
-
-Propositadamente, porém, o problema não foi ainda estudado debaixo do
-seu aspecto geral; apenas por incidente tem sido versada a localização
-de Talabriga. Não venho com o proposito de o dar como resolvido, é
-certo; mas desejo englobar neste estudo um certo numero de
-considerações, que podem preparar o desenlace d'este ponto controvertido
-da geographia protohistorica da Lusitania, no campo adequado, e quiçá
-orientar pesquisas.
-
-Onde foi Talabriga? Até hoje nenhum d'estes indices peremptorios que
-marcam inilludivelmente a situação das antigas cidades, como para
-_Conimbriga_ (Condeixa-a-Velha), _Aeminium_ (Coimbra), _Bracara Augusta_
-(Braga), _Olisippo_ (Lisboa), _Pax Julia_ (Beja), etc., se nos antolha
-para dar resposta nitida áquella pergunta.
-
-Guiados pelas indicações geographicas do Itinerario e de Plinio, os
-nossos escritores teem querido alternadamente que Aveiro, Cacia,
-Esgueira occupem hoje o logar que outrora se chamou _Talabriga_. De
-facto, o Itinerario, ao contar as milhas que de _Aeminium_ vão a _Calem_
-(Gaia ou Porto?) pela via militar, devia ter especial valor para este
-problema; mas a comprehensão da necessidade de verificar rigorosamente
-as indicações d'aquelle documento, a consulta de edições criticas,
-tomando-se por base a decisão do problema de Aeminium, e talvez o
-desaffecto de uma ou outra solução é que teem, no meu humilde entender,
-faltado a todos os autores que mais modernamente do assunto se teem
-abeirado[2].
-
-
-II
-
-A geographia classica não é de todo omissa a respeito d'esta antiga
-povoação. O testimunho de Plinio, que é o A. mais expresso, vem a ser o
-seguinte: _A Durio Lusitania incipit. Turduli veteres, Paesuri, flumen
-Vagia[3], Oppidum Talabrica, Oppidum et flumen Aeminium,
-Oppida Coniumbrica, Collippo, Eburobritium._ (C. Plinii Secundi, _Nat.
-Hist._, ed. de Detlefsen, IIII, 113). Isto tem o ar de uma sêca
-enumeração chorographica, que se desdoba do norte para o sul, a contar
-do Douro, e que, restringida ao nosso caso, nos dá esta sequencia:
-
- _a_) rio Vouga;
-
- _b_) cidade de Talabrica;
-
- _c_) cidade e rio de Aeminio (Coimbra);
-
- _d_) e as cidades de Conimbrica (Condeixa),
-
- _e_) Collippo (Leiria) e
-
- _f_) Eburobricio (Obidos, Vejam-se _Relig. da Lusit._, II, 31).
-
-Se não fôr certo, como não me parece, que Vouga é ao norte de Talabriga
-e este oppido ao sul do mesmo rio, pelo menos conclue-se que Talabriga
-vizinha de um lado ou outro aquelle estuario.
-
-Não trago nenhum outro autor antigo, porque elles não adeantam o
-problema chorographico. Na _Cosmografia_ de Ravennate (ed. de
-Pinder & Parthey, p. 307) _Talabrica_ apparece transformada
-em Terebrica e fica na seguinte localização relativa:
-_Olisipona--Terebrica--Langobrica--Cenoopido--Calo_...
-
-
-III
-
-Vamos pois ao _Itinerario_[4] e á discussão das suas
-indicações. Encontra-se nelle, que nos sirva:
-
- Eminio mp. X
- Talabriga mp. XL (= 59:240 metros)
- Langobriga mp. XVIII (= 26:658 » )
- Calem mp. XIII (= 19:253 » )
- 105:151 »
-
-A equivalencia que sigo é a de 1 milha = 1:481 metros (Saglio &
-Daremberg, s. v. _Milliarium_).
-
-A trajectoria d'esta via desde Coimbra (Aeminium) a Gaia (Calem)
-deixaria de ser ponto controverso se, como succede noutras estradas
-romanas, alguns milliarios sobreviventes escalonassem os seus vestigios.
-
-Não ha porém, neste particular, mais que isto:
-
-1.º Um fragmento de milliario com 2,04m de alto X 1,40m de circuito,
-que appareceu na Mealhada ao norte de Coimbra e só tem M.XII.
-
-2.º Outro que foi encontrado mesmo em Coimbra e aponta M.IIII.
-
-Nem aquelle nem muito menos este servem ao meu intento; o traçado
-litigioso no nosso caso é para norte da Mealhada e Anadia, e não entre
-Mealhada e Coimbra. (Vid. Borges de Figueiredo, _Oppida restituta_, p.
-82; Hübner, _Notas archeologicas sobre Portugal_, p. 67, trad. cit.:
-_Catalogo dos objectos existentes no Museu de Archeologia do Instituto
-de Coimbra_, p. 6; A. Filipe Simões, _Escritos diversos_, 1883).
-
-3.º Um pretenso milliario descrito por Fr. Bernardo de Brito na
-_Monarchia Lusitana_, II, V, p. 3. Este vicio de origem obriga-me a pôr
-ainda de parte este monumento como comprobativo da directriz; Hübner
-fulmina-o com a sua desconfiança (_Corpus_, II, 55 a *) dizendo que
-Brito queria demonstrar com elle a existencia de _Vacua_. Não lhe darei
-porém eu maior valor que o proprio monge, que, como por prevenção,
-confessa que as letras da pedra eram «mal distinctas e muy quebradas».
-Assim a sua interpretação deve desinteressar-nos, visto que não ha meio
-de contraprovar a leitura de Fr. Bernardo de Brito, duvidosa para elle
-proprio. Para este, a lapide era porém um padrão de estrada, o que pouco
-vale por entretanto para nós; mas provinha do Castello de S. Gião, ao
-que parece, _castro_ rico em ruinas de muros, etc. Isto, cuja
-importancia só modernamente se aprecia, é que não se inventa e dá visos
-de que com effeito alguma cousa lá pudera ter apparecido. Mas Brito, com
-o dizer que a lapide era padrão de estrada, contrariava sem o advertir a
-propria crença de que a via romana seguia pela beiramar e _Talabriga_
-era em Aveiro. (_Mon. Lusit._, id., p. 130).
-
-Não obstante, ponha-se de parte a exactidão da epigraphe do supposto,
-mas rehabilitavel, milliario do castro de S. Gião, e fique,
-provisoriamente, apenas um facto--o achado de um padrão de via romana
-num castro das margens do Caima.
-
-A opinião de que Aveiro fôra o assento da antiga estação do Itinerario
-tinha ainda por si, alem do mappa de Abr.ão Ortelius (_Theatrum orbis
-terrarum_, Antuerpia, CIC.IC.CIII) o pensar de Florez (_España Sagrada_,
-tomo XIV, p. 73), que lêra Plinio e uma edição antiga do Itinerario
-romano. E póde dizer-se que foi essa a corrente que dominou até hoje, se
-com Aveiro abrangermos o aro circunjacente. (Vejam-se Adolfo Loureiro.
-_Os portos maritimos de Portugal_, II, p. 3; Marques Gomes, _Districto
-de Aveiro_, onde restringe[5] a Cacia o _ubi_ de Talabriga;
-Borges de Figueiredo, _Oppida restituta_, 1885; Pinho Leal, _Portugal
-Antigo e Moderno_, s. v. _Aveiro_; Gaspar Barreiros, _Chorographia de
-alguns lugares_; D. Nunes de Leão, _Descripção do reino de Portugal_;
-Francisco do Nascimento Silveira, _Mappa breve da Lusitania antiga_,
-etc.)[6].
-
-Regressemos porém ao _Itinerario_, e vejamos se será possivel concluir
-algo que um dia a pesquisa e exploração persistente do archeologo possa
-contraprovar. É o meu sonho.
-
-Que a medição total do _Itinerario_ relativa á via _ab Aeminio Calem_
-está notavelmente exacta, demonstra-o esta verificação facil: a somma
-das milhas que se contaram de Eminio a Gaia, reduzida a kilometros,
-(unidade mais pratica e mais exacta que a de leguas, até agora adoptada)
-era de 105:151 metros, como vimos; a distancia computada actualmente na
-Carta do Estado Maior d'esta região pela directriz da _estrada real_ é
-de 105:100 metros[7]. Não podendo ser mais breve a distancia
-d'esta estrada, como se verifica olhando os traçados rectificados ao
-lado do mappa junto, em que a distancia em linha recta e a rectificação
-exacta da extensão effectiva da estrada fazem pequena differença, o que
-mostra que os desniveis ou as inflexões do traçado são assaz reduzidos,
-conclue-se que a via romana, desde que marca igual extensão kilometrica,
-não poderia seguir caminho mais longo que ella, nem portanto muito
-distanciado d'ella.
-
-Esta coincidencia de medições é suggestiva e não permittiria, só por si,
-que a trajectoria da via romana e da actual estrada real divergissem
-muito. Se esta desenhasse uma inflexão pronunciada no seu trajecto de
-Coimbra a Gaia, claro é que era possivel, sem exceder a mesma extensão,
-encontrar outra curva symetrica que tocasse em pontos intermedios
-diversos e afastados, e coincidisse apenas nos respectivos extremos, o
-que nada util me seria; mas nas circunstancias que se dão e já
-salientei, e que me permittiram estudar sobre uma carta este problema, a
-coincidencia effectiva das duas vias de communicação deve em grande
-parte quasi corresponder á coincidencia theorica, agora expendida.
-
-Isto oppõe-se a que a via romana passasse em Aveiro, ponto muito
-afastado e divergente do trajecto theorico[8].
-
-
-IV
-
-Vou porém demonstrar por partes como isto assim deve ser. É preciso
-partir do principio já demonstrado, embora para o total da distancia,
-que as medições do Itinerario não contém erro. Qualquer inexactidão nas
-milhas marcadas para cada uma das secções da via militar alteraria a
-somma, desde que, por um acaso unico, não fosse compensada por outra
-inexactidão.
-
-Ora a via romana de Eminio contém tres troços ou secções; o 1.º de
-Eminio a Talabriga; o 2.º de Talabriga a Langobriga; o 3.º de Langobriga
-a Cale. Se uma sequer das distancias correspondentes do Itinerario
-contivesse erro, a somma total accusá-lo-hia; mas nós já vimos que a
-distancia de 105 kilometros corresponde a uma realidade. Comecemos pelo
-extremo norte da via. Isto conduz mais claramente ao meu fim; e descobre
-mais prontamente o erro em que até agora me parece que tem laborado os
-escritores. Tomemos o mappa[9].
-
-Se traçarmos um arco de circulo, cujo centro seja Gaia e o raio igual á
-distancia de Cale a Langobriga, isto é, a 19 kilometros (veja-se a
-escala), teremos obtido uma curva theorica (LL no mappa) que no terreno
-representa uma faixa de tolerancia, mais ou menos larga, dentro da qual
-e numa zona d'ella que seja compativel com um trajecto ininterrupto da
-via, cuja extensão já definida se não póde exceder, o archeologo deverá
-procurar os vestigios de Lancobriga.
-
-Esta zona, ou este segmento, não poderá pois, em principio, afastar-se
-consideravelmente da directriz da estrada real.
-
-Consultemos de novo o Itinerario. Entre Langobriga e Talabriga medeiam
-26:600 metros. Ignorando ainda qual o ponto preciso que na curva _LL_
-marca o primeiro d'aquelles oppidos, deveremos traçar um arco de circulo
-parallelo ao antecedente e á distancia que a escala indica. Como o
-terreno não é propriamente uma carta celeste[10] em que os
-pontos podem ser rigorosamente indicados, a nova curva deixada pelo
-compasso é representativa de uma segunda faixa de tolerancia,
-susceptivel de maior ou menor elasticidade, mas confinada, quanto á sua
-extensão, pela continuidade do trajecto viario em direcção a Aeminium,
-trajecto cujo comprimento tem limite determinado de milhas.
-
-E assim temos o arco _TT_.
-
-Nesta curva, que não é mais que uma zona media, deverão surgir ao
-appellido do archeologo as ruinas do que outrora foi Talabriga. Esta
-conclusão emerge logicamente das bases que tomei: o acerto evidente do
-Itinerario no total e muito provavel nas secções; a coincidencia das
-extensões da via antiga e da estrada moderna.
-
-Se agora, por contraprova, apontarmos o compasso a Eminio e girarmos com
-um raio de 59 kilometros, verificado segundo a escala, obteremos outra
-curva, a terceira, tangente á segunda e que tem a missão de indicar a
-zona util, o segmento dos arcos, correspondente á area provavel da
-situação de Talabriga. Porque o que não póde haver, é um hiato, uma
-interrupção de trajecto de Cale a Aeminium[11].
-
-Esta primeira phase da minha demonstração, porém, já torna incompativel
-a actual situação de Aveiro com vestigios de Talabriga. E mais do que
-isto; vem levantar um equivoco de Plinio, que parece suppôr aquelle
-oppido ao sul do Vouga; se assim fosse, não seria possivel encontrar o
-ponto de reunião do caminho que descia de Cale a encontrar Lancobriga
-aos 19 kilometros e se prolongava na direcção do sul até mais 20
-kilometros, onde devia beijar a Talabriga do Itinerario sem encontrar a
-de Plinio[12]. O hiato resultante fica, parece-me, fechado e
-annullado, desviando Talabriga de Aveiro e aproximando-a de Albergaria,
-ao norte do Vouga; isto é, a hipothese que proponho é a que se concilia
-em todos os pontos com o Itinerario.
-
-
-V
-
-Mas não se concilia só com esta fonte documental: é a mais plausivel em
-face das condições topographicas e historicas da região de
-Entre-Vouga-e-Douro.
-
-A actual directriz da estrada real é a que mais ou menos devia ter
-seguido a via romana que procurasse unir Eminio a Cale, dado o traçado
-que ella já trazia desde Lisboa.
-
-Em primeiro logar: as condições topographicas d'aquelle grande delta do
-Vouga não eram senão de molde para difficultar a abertura de uma estrada
-na epoca romana, em concorrencia com traçado mais firme e duradouro,
-mais economico, mais util e mais commercial. Aquellas planuras deviam
-existir já então, como um presente do Vouga, segundo se tem dito, creio,
-do Nilo.
-
-Se eram naquelle tempo pantanos, ou bosques intransitaveis[13]
-ou veigas retalhadas, como hoje, por um dedalo de canaes e
-esteiros, não me cabe a mim defini-lo. De qualquer d'estas fórmas, uma
-via romana não iria atravessar uma região em que a falta de pedra é
-quasi absoluta, e a multiplicidade de trabalhos de architectura civil ou
-de obras de arte uma consequencia inevitavel. Era preciso combater por
-um lado a pouca firmeza do terreno, por outro contar com o custo da
-empresa[14], ou os impecilhos da viagem.
-
-Por isso os mesmos motivos que na idade media afastaram a construcção,
-ou melhor, a conservação de uma estrada velha para longe da costa,
-obrigando-a a passar nas pontes que ainda existem, devem ter sido os
-mesmos que desviaram os engenheiros romanos de lançarem a via militar
-através de campinas encharcadas, só para irem buscar a embocadura do
-Vouga, antes de attingir Calem.
-
-Depois preciso é notar que havia outra directriz ao alcance da
-administração do Imperio, directriz que não podia admittir confrontos
-com a traçada através do delta do Vouga. Essa directriz levava a estrada
-romana pela orla fóra do terreno firme e accidentado e da região povoada
-de castros e abundosa de minerios, região que ainda hoje podemos ver
-acompanha-la pelo trajecto da estrada real. As vias de communicação teem
-muitas vezes uma directriz fatal e tradicional através de longos tempos
-e povoadores successivos[15].
-
-Póde soffrer destruição o caminho, sem estancar a arteria de communicação.
-
-A actual estrada real ou de macadam foi ainda, por assim dizer,
-decalcada pela anterior, a medieval, cujos restos subsistem nas pontes
-antigas de que os chorographos fallam. Esta orientou-se pela
-comprehensão das conveniencias, e afastou-se da embocadura do Vouga,
-seguindo a directriz mais economica e mais util; não direi ainda a
-directriz romana porque é o que pretendo demonstrar, mas a que era
-directriz tradicional, como vou explicar.
-
-
-VI
-
-Os castros ou montes habitados encontram-se precisamente no seguimento
-da via romana; os oppidos referidos pelos AA. antigos, as _brigae_, e as
-cidades romanizadas não são mais que uma evolução d'aquellas estancias,
-consoante as denominações que lhes applicaram[16]; era por
-essa corda alem, que o terreno baixo e plano da zona maritima começava
-de elevar-se. A estrada romana desenrolava-se por entre esses centros da
-habitação, abandonando ao lado um país chato, pouco firme e talvez quasi
-invio.
-
-Do sul para o norte _Anadia_ está situada nas abas de um monte de
-_Crasto_ (Pinho Leal e M. Gomes).
-
-_Agueda_ está tambem perto de um _Crasto_ (Pinho Leal).
-
-Nas margens do Vouga, naquelle logar onde subsiste ainda a ponte
-medieval (Pinho Leal), encontra-se na aldeia de _Vouga_ um morro que foi
-castro (Brito e P.e Carvalho, II, 161); explica Francisco do Nascimento
-Silveira (_Mappa breve da Lusitania_, p. 239) que _Vacca_ existia em
-sitio forte por natureza, entre as pontes de Vouga e Marnel, porque alli
-se vêem vestigios de muros antigos e sinaes de uma majestosa grandeza;
-existem ainda tijolos, cantarias, muralhas em _Lamas de Vouga_ (_Arch.
-Port._, V, 50 e VII, 191)[17], e havia ahi a _civitas Marnele_ (_Port.
-Mon. Hist._, «Diplom. de Chart.», n.º 819)[18], cuja origem deve ter
-sido outro castro.
-
-Na carta geodesica vê-se, junto ao rio, um _Castello_ (111). Isto é
-ainda do concelho de Agueda[19].
-
-Na freguesia de Serem, tambem concelho de Agueda, outra _civitas_
-(Viterbo, s. v. _Cidade_); ha lá sitios elevados a norte e a sul (Cfr.
-M. Gomes).
-
-Na freguesia da _Branca_ ha um logar de _Cristellos_ (M. Gomes e _Arch.
-Port._, II, 313).
-
-Na serra de S. Julião, mesma freguesia, _onde passa a estrada real_, diz
-o Sr. M. Gomes que ha ruinas de muralhas e fossos: acreditava-se (_Arch.
-Port._, loc. cit.) que ahi era a antiga _Langobria_ (sic). Não sei se é
-precisamente o mesmo local a que Brito (_Mon. Lusit._, II, V, p. 3)
-chama castello de _S. Gião_, onde havia ruinas de muros e elle encontrou
-o tal padrão suspeito e onde presume _Lancobriga_, não na Feira, diz,
-mas entre Albergaria e Bemposta, defronte de Pinheiro. Significativa
-confusão! Aquelle logar de _Cristello_ vem na carta geodesica entre
-Estarreja e a estrada real[20].
-
-Na freguesia de Ul ha outro castro (_aldeia do crasto_), de que porém
-não conheço o _ubi_. Tem uma cintura de muralha de pedra solta ou cousa
-que o valha. (Pinho Leal, s. v. _Ul_).
-
-Nas proximidades de Azemeis parece que não são escassos estes monumentos
-(_Quatro Dias na Serra da Estrella_, por E. Navarro, Porto 1884, p. 174).
-
-Em _Ossella_ ha um castro com ruinas de muralhas (Brito, _loc. cit._).
-
-Entre _S. Martinho_ e _S. Tiago_ vê-se na carta geodesica um _crasto_, a
-O. da estrada real; isto é no parallelo de Ovar. Será aquelle a que
-Pinho Leal chama Castro Troncal ou Francal (s. v. _C. de Cucujães_)?
-
-No _Arch. Port._, VI, 68, diz-se que ha em Oliveira de Azemeis um logar
-de _Lações_, onde foi a antiga Lancobriga (_sic_), porque ahi se ajustam
-as medidas do Itinerario e não na Feira ou Bemposta. Este sitio é
-elevado e estrategico; a sua cota é de 287 metros e fica na fronte de um
-promontorio fechado por duas ribeiras e no extremo de uma chapada em
-cujo prolongamento se conta ainda a altitude de 274 metros. É, pelo que
-se vê, um _castro_. _Lancobriga_ e que não.
-
-Em _Macieira de Cambra_ ha um castro (_Arch. Port._, VII, 54)[21].
-
-Em _Romariz_ informa o Sr. M. Gomes que ha um _Crasto_, onde appareceram
-antiqualhas da epoca romana; o que é presumivel e prova ter recebido a
-influencia dos seus conquistadores.
-
-Os antigos chorographos portugueses não teem dado valor aos cabeços
-elevados, onde se encontram os vestigios do que póde ter sido um castro,
-uma citania, emfim uma estacão archeologica pre-romana, e isso não
-admira; mas o facto é esse e constitue uma deficiencia na descrição dos
-logares, que actualmente seria imperdoavel, e que, num caso como o que
-estou versando, sonega lamentavelmente elementos aproveitaveis de estudo.
-
-Junto ao mar, e bastante para o norte, em Esmoriz, encontro menção de um
-castro, especializado hoje pelo erudito estudo que d'elle fez
-documentalmente o meu erudito amigo Sr. Pedro de Azevedo (_Arch. Port._,
-III, 137). Era o castro de _Aville_, _Ouvil_, _Ubile_ e _Obil_,
-denominações que se applicavam á lagoa que ainda existe, e que elle
-dominava. Crê o distincto publicista que aquelle castro é o mesmo
-outeiro a que o parocho depoente de 1758 chamou _Monte do Murado_,
-pertencente á freguesia de S. Martinho de Mozellos. Fico porém em
-duvida, pois que estando o castro _prope litore maris_ (Docs. de 1055,
-1076) bem como a lagoa (Docs. de 1057 e 1090), Mozellos parece um pouco
-afastado para o interior. Confessando que, sem a inspecção dos logares,
-a base é instavel, em todo o caso affiguram-se-me aqui dois castros
-distinctos.
-
-Em S.ta Maria de _Fiães_ apparece outro castro ou «povoação de Mouros»
-(_Arch. Port._, IV, 250).
-
-E d'ahi para o norte, são frequentes na faixa atravessada pelo caminho
-romano. Será algum d'estes castros o jazigo de Langobriga?
-
-Este inventario, tendo origem, como tem, exclusivamente bibliographica,
-não póde deixar de ser omisso. A averiguação local e a informação
-competente accrescentá-lo-hiam, se eu d'estes dois factores me tivesse
-soccorrido. Para o meu intento, o pouco que joeirei, era colheita bastante.
-
-
-VII
-
-Alem d'estas averiguadas condições de habitabilidade que se encontravam
-no trajecto da via romana e que, em meu entender, conjugadas com as da
-elevação e relevos de terreno, que para as populações ante-historicas
-constituiam uma necessidade vital, concorreria tambem, não sem ligação
-com ellas, a existencia de jazigos metalliferos.
-
-Nem todas as minas que enumero seriam conhecidas na antiguidade, mas em
-algumas ha vestigios da remota laboração e o que tudo attesta é que a
-região era mineira e portanto centripeta de populações.
-
-Os locaes explorados são Telhadella, Albergaria, Palhal, Milheirós,
-Cucujães, Nogueira, Ossella, Palmás, Carvalhal, Pindello, Silva Escura,
-Ul, Talhadas, Braçal, Coval da Mó, Malhada.
-
-Os minerios são cobre, tão procurado na antiguidade, chumbo, prata, etc.
-
-D'estes jazigos, aquelle em que são mais importantes os vestigios de
-antiga lavra, é o da Malhada, uma das concessões das chamadas Minas do
-Braçal. As madeiras de entivação, que foram encontradas dentro da mina,
-denotam tal antiguidade que parecem fossilizadas, em consequencia da côr
-negra que adquiriram. Os trabalhos antigos attingem a profundidade de 45
-metros (_Catalogo Descriptivo da Secção de Minas_, pelos Srs. Severiano
-Monteiro e J. Augusto Barata, p. 188).
-
-A respeito dos outros, a noticia de antiga exploração é muito vaga para
-que me seja licito insistir. Nas minas de Palhal tambem ha vestigios
-antigos. (Cfr. Marques Gomes, _Districto de Aveiro_).
-
-
-VIII
-
-Que se póde concluir das considerações que até aqui tenho encadeado?
-
-Por um lado, o estudo do Itinerario levou-me a aventurar na carta
-geographica, largamente circunscritas, as zonas em que o calculo faz
-presumir que se devem encontrar as ruinas de Talabriga; por outro lado,
-a inquirição topographica e onomastica da região, tanto quanto era
-possivel com a escassez de elementos, indicou-me alguns logares de
-archaicas estações archeologicas do genero da que deve ter sido
-Talabriga, como castro ou oppido submettido ao poder de Roma.
-
-Quero lembrar que _briga_ só póde corresponder a uma posição elevada, a
-um outeiro ou cabeço fortificado; por onde Talabriga nunca pudera ser
-Aveiro ou arredores (Vid. _Arch. Port._, XII, 42).
-
-Relançando novamente o olhar ao mappa, poder-se-há notar que a zona
-attribuivel á situação de Talabriga[22] não está erma de
-castros, antes nella se dão varias circunstancias que não posso deixar
-de aproveitar para a minha these conjectural.
-
-_Branca_ é uma freguesia cuja séde fica na margem direita de Caima e que
-é cortada pela estrada real; ha nella um logar de _Cristellos_, que só
-pelo toponimo demonstra a existencia de um castro ou oppido. Mas alem
-d'este, infere-se do Sr. Marques Gomes, de Fr. Bernardo de Brito (_loc.
-cit._) e d-_O Arch. Port._ (II, 313, «Mem. Parochiaes») que ha um local
-sito na serra de S. Julião, atravessado pela estrada real e que Brito
-mais claramente chama _castello_ de S. Gião (_castello_ por _castro_),
-no qual, segundo aquelles tres testimunhos, ha ruinas de muralhas e
-fossos, que o Sr. M. Gomes presume serem ruinas de uma _atalaia_ e que o
-parocho das _Memorias_ tambem capitula de vestigios romanos,
-acrescentando muito singularmente (note-se bem o que isto póde
-significar) que ahi esteve... _Langobria_ (_sic_). Foi aqui que Brito
-diz ter encontrado a tal pedra de _letras mal distinctas_ de que não
-affiança a leitura, mas que lhe pareceu _padrão de estrada_.
-
-E aqui tem cabimento o que já atrás deixo dito, para absolver de fraude
-consciente a noticia archivada em Fr. Bernardo de Brito.
-
-Parece-me pois ser neste aro, se não neste mesmo ponto, que se deverá
-procurar o jazigo, não de Langobriga, mas da nossa Talabriga, e é
-precisamente a estas immediações que o compasso me levou ao medir sobre
-a carta a primeira secção da via romana de Coimbra a Gaia[23].
-
-Não desconheço quanto de problematico isto tem antes de serem
-perguntados pelo archeologo os logares, as ruinas, os vestigios e os
-montes e as vozes da região, mas nem por isso o meu espirito deixa de
-ficar demonstrado, até o possivel, que as cinzas de Talabriga nunca
-podem estar guardadas em Aveiro. As coincidencias que acabo de notar,
-não são bases frivolas.
-
-Só pois a inspecção directa do terreno, nas immediações da Branca,
-poderá concorrer para confirmar ou destruir a minha conjectura.
-
-D'esta região para o norte, a via romana seguiria até Cale, mais ou
-menos proxima do actual leito da estrada real; só alguns vestigios ou
-referencias de documentos, como os de Grijó, e a inquirição dos logares
-e tradições poderão concorrer para precisar a trajectoria d'aquella
-antiga via de communicação; o caso em si, porém, é indifferente para a
-questão primacial que motivou este estudo. O que é certo, é que a
-estrada romana sulcava a faixa comprehendida entre a estrada real e a
-linha ferrea até o vertice de Gaia.
-
-Ao sul de Branca e Albergaria, a directriz da via militar sente-se
-escalonada nos vestigios medievaes que deixei explanados nas paginas
-anteriores. _Albergaria_ denota bem que o sitio era de assiduo e antigo
-transito (Viterbo, _Elucidario de palavras_, etc. s. v. _Albergaria_)
-ponto necessario de passagem para quem do sul buscava o norte do país.
-As _mansiones_ tinham o caracter de pousadas.
-
-Em tempos de lazer para obras de piedade, é que a instituição caritativa
-se fundou, como implemento de uma necessidade que já existia.
-
-As pontes de Vouga e Marnel são indicios bem importantes da frequencia
-das viagens através d'esta parte da região, afastada da costa baixa e
-paludosa. São decerto obras da idade media, dos _mouros_, diz Pinho Leal
-(s. v. _Marnel_ e _Vouga_). Mas os indicios pre-romanos e romanos
-soletram-se nessas ruinas de muralhas, pedras lavradas, vestigios de
-edifícios e toponymia, que os cabeços de Vouga e Marnel nos conservam,
-segundo descrevem Brito, Pinho Leal e os parochos do sec. XVIII nos
-extractos publicados pelo _Archeologo Português_.
-
-
-IX
-
-O sentimento de Gaspar Barreiros (_Chorographia de alguns logares_,
-MDLXI, p. 48 sgs.) era que a situação de Talabriga devia ser a actual
-Cacia, especialmente na igreja de S. Julião, onde apparecem vestigios
-antigos. Varios autores o seguem.
-
-As razões d'este illustre escritor do sec. XVI merecem alguma discussão.
-
-Barreiros funda-se no Itinerario e conta, no sentido d'este roteiro, as
-milhas de Conimbriga para o norte. E por confirmação d'este argumento,
-traz o passo de Plinio que eu já transportei a este estudo, mas com uma
-differença que elle tomou de um archetypo Toletano (p. 51), declarando
-porém que alguns exemplares de Plinio não são accordes com aquelle. A
-lição citada é pois esta: _A Durio Lusitania incipit, Turduli veteres,
-Pesuri, flummen Vacca, oppidum Vacca, oppidum Talabrica, oppidum et
-flumen Minium_, etc. Esta variante demonstra a existencia de uma cidade
-_Vouga_, que G. Barreiros colloca na Ponte de Vouga (p. 50 _v_). Algumas
-cartas antigas reflectem esta indicação. Isto posto, G. Barreiros leva a
-contagem de Conimbriga para Talabriga por espaço de 50 milhas, o que é
-exacto, espaço que elle computa equivalente a 12,5 leguas e enumera:
-
- De Condeixa a Coimbra 2,5 leguas
- De Coimbra á Mealhada 3,5 »
- Da Mealhada a Avellãs 2 »
- De Avellãs a Agueda 2 »
- De Agueda á Ponte de Vouga 1,5[24] »
- De Ponte de Vouga a Cacia 1 »
- 12,5
-
-«Na qual villa & igreja de sanct. Juliã nas ribeiras do Vouga situadas,
-se acham vestigios antigos, s. os fundam[~e]tos de h[~u]a torre que na
-memoria dos hom[~e]s inda staua quasi inteira, onde era outro tipo
-segundo ficou fama de h[~u]s em outros chegauam nauios da foz do mar,
-porque inda ali se acharam pedaços d'elles & anchoras iuncto da dicta
-torre em h[~u]a lagoa Afora muitos vestigios & ruinas d'argamassa que
-dentro em seu ambito cõprehende h[~u]a milha pouco mais ou menos» (p. 50).
-
-A não ser que tenhamos de recorrer a uma mudança da primitiva situação,
-nós temos de procurar em Talabriga a cidade preromana, que no sec. II a.
-C. Decimo Junio Bruto reduzia á miseria e á impotencia, segundo narra
-Appiano. E esse oppidum teria que possuir condições estrategicas
-identicas ás dos outros castros preromanos, taes como elles nos acenam
-que foram escolhidos pelas populações proto-historicas; teria que
-justificar o proprio designativo de caracter celtico _briga_--altura
-fortificada.
-
-Creio poder affirmar que nada d'isto se encontra em Cacia. Alem d'isto o
-proprio G. Barreiros, no dizer que, entre os vestigios antigos,
-sobresaía uma torre, que ainda andava lembrada, e se topavam «ruinas de
-argamassa», quasi estabelece uma chronologia, porque taes vestigios não
-podem ser anteriores aos romanos; poderão attribuir-se menos á sua epoca
-que ás posteriores. Para a contemporaneidade, teriamos que admittir e
-demonstrar uma deslocação do primitivo assento de oppidum, como vimos;
-se esses vestigios se affectam ás epocas successoras dos romanos, o
-facto sae para fóra do problema e d'elle me não posso occupar.
-
-O principal estorvo, porém, que a opinião de Barreiros encontra, é
-aquelle que eu quis descobrir e evitar, quando ajustei a medição do
-itinerario a contar de Cale para o Sul e não de Aeminium para o Norte.
-Evitei assim o erro de cair em Aveiro, em Esgueira e agora em Cacia,
-onde muito bem podia ir passar com o roteiro romano nas mãos.
-
-Isto illumina-se á luz da carta. Barreiros vem seguindo, com os ouvidos
-na tradição do seu tempo, o leito do caminho romano (dito mourisco) pela
-Mealhada, Agueda, até á ponte de Vouga, e até aqui bem elle vem; chegado
-porém a esta altura, desnorteia-se e inflecte para Oeste para fazer a
-primeira estação de Itinerario em Cacia, imaginando-se em Talabriga.
-Kilometricamente, creio não haver que lhe objectar. A distancia da ponte
-de Vouga a Cacia é proximamente igual á que entre o mesmo ponto se nota
-e a linha-zona _TT_, que eu determinei. Portanto não falseava o illustre
-chorographo quinhentista a tabella do Itinerario, isto é, as 50 milhas
-desde Condeixa (Conimbriga).
-
-Mas a precaução de começar a contagem de Cale para Talabriga, obsta ou
-impede aquella inflexão e obriga a trazer o caminho numa directriz mais
-desempenada para a ponte de Vouga. Volvendo os olhos á curva _TT_ do
-mappa, ver-se-ha que Cacia lhe fica a distancia grande porque, com este
-desvio da trajectoria normal, a medição romana perdeu espaço, atrasando-se.
-
-Se não fosse este meio de verificar o erro, era possivel a desorientação.
-
-Creio, pois, ter demonstrado pela ethnographia e pela geometria
-topographica que Talabriga não póde ser collocada em Cacia, quer se olhe
-á Talabriga preromana ou protohistorica, quer á romana ou historica; á
-Talabriga de Appiano e D. J. Bruto ou á da epoca imperial e do Itinerario.
-
-
-X
-
-Como, segundo se infere de Appiano (vid. adeante), o oppidum de
-Talabriga continuou a ser habitado depois da sua rendição no sec. IV a.
-C. e emfim ainda existia no sec. IV d. C., poderia succeder que elle
-conseguisse resistir á vinda dos barbaros, e chegar ao dominio dos
-arabes. Convinha pois consultar a geographia arabica, e o nome de
-Edrisi, geographo do sec. XII, impunha-se-me logo.
-
-O que das suas differentes traducções se conclue, não é nada claro para
-mim que ignoro o arabe, mas poderá auxiliar o estudo da questão por
-parte dos arabistas.
-
-Ha uma edição de 1619 (Paris) com o titulo de _Geographia Nubiensis_,
-que quero pôr em confronto com a traducção de Amédée Jaubert
-(_Géographie d'Edrisi_, Paris 1840).
-
-Edrisi descreve dois caminhos de Coimbra a Santiago de Compostella: um
-por terra, outro por mar.
-
-
-Caminho por terra
-
- _Ed de 1619_ (trad. lat)
-
- «Iter autem terrestre a _Colimria_ ad _S. Jacobum_ est hujusmodi: a
- _Colimbria_ ad oppidum _Aba_ stationis habetur intervallum. Ab _Aba_
- ad oppidum _Vatira_ statio. Ab hoc ad primos terminos regionum
- Portugalliae, statio, pergit que iter secans terram Portugalliae
- spatio diei, ibique conspicitur oppidum _Bonacar_ ad ripam fluminis
- _Durii_, quod est flumen Samorae, atque illic trajiciendum cymbis ad
- hoc paratis. Ab oppido ad amnem Minio, indeque ad castellum Abraca
- LX M. P. duae videlicet stationes. A castello _Abraca_ ad castellum
- _Tui_ stationes duae».
-
- ---
-
- O editor de 1619 diz que não ha medida certa para as _stationes_,
- expressão que se referia a pousada dos viandantes. As _stationes_
- justas eram de 25 milhas, mas algumas tinham mais, outras menos.
- Parece que seria o espaço que se poderia percorrer em um dia.
-
-
- _Ed. de 1840_ (trad. fr.)
-
- «O itinerario por terra de Colomria (Coimbra) a S. Tiago é como
- segue: de _Coimbra_ a _Abah_ (Ribadavia) (!) aldeia, uma jornada. De
- _Abah_ a _Uetaria_ (Huctaria) (?) aldeia, uma jornada. D'ahi á
- fronteira de Portugal, uma jornada. O caminho vae através das terras
- de Portugal durante uma jornada, ao fim da qual se chega a
- _Buna-Car_, aldeiasinha nas margens do _Douro_, que é o rio de
- Zamora. Passa-se o rio em barcos proprios para isto. D'este logar ao
- rio _Minho_ ou antes ao forte _Abraça_ (insua de Caminha) (?) 60
- milhas ou duas jornadas. Depois _Tuia_ (Tuy) cidade pouco notavel,
- mas bella e numa região fertil, duas jornadas» (II, p. 232)
-
- ---
-
- No texto francês, ao vocabulo _statio_ corresponde _journée_, que eu
- traduzi por _jornada_ (de um dia).
-
-
-Temos aqui duas traducções do texto arabe, uma em frente da outra, e a
-verdade é que sufficientemente se correspondem. O principal para o meu
-fim seria a localização das estações de Edrisi; neste ponto o traductor
-francês apenas conserva intemeratamente as tradições dos estrangeiros
-quando, fallando ou escrevendo, debicam na nossa geographia.
-
-Nem ao diabo lembra que a Coimbra se siga... _Ribadavia_!
-
-A primeira estação ao deixar Coimbra é _Aba_ (ed. 1619) ou _Abah_ (ed.
-1840). Poderá corresponder a _Agueda_? Jaubert desejaria falar em
-_Riba-d'Agueda_! É provavel.
-
-A segunda estação foi interpretada por _Vatira_ (ed. 1610) e _Uetaria_
-(ed. 1840). Não sei identificar esta localidade, assim desfigurada.
-
-Em seguida a isto, se na versão latina parece haver uma incongruencia,
-ella desapparece na traducção francesa. Através das terras de Portugal,
-chega-se com um dia de viagem ás margens do Douro. Isto parece ser bem o
-tradicional caminho que entesta na foz do Douro.
-
-Não diz o geographo arabe em que ponto da margem do Douro ficava _Bona_
-ou _Buna-car_, expressão que não sei reconhecer, mas parece-me que deve
-ser a embocadura d'este rio, e é a seguinte a razão. Diz Edrisi que de
-_Bona-car_ ao rio Minho são 60 milhas; ora, numa pagina anterior (p.
-227) elle conta da foz do Douro á do Minho as mesmas 60 milhas. Portanto
-creio que _Buna-car_ era aproximadamente em Gaia, onde depois o rio se
-atravessava em barcos[25].
-
-Descrevendo o mesmo _caminho por mar_, isto é, a viagem de Coimbra a
-Santiago, o primeiro ponto onde diz que se abica, é a foz de
-_nahr-Budhu_ (rio _Vadeo_, traduz A. Jaubert!) que corresponde ao Vouga,
-rio, acrescenta, consideravel, onde entram embarcações grandes e
-pequenas (II, 227). Esta aclaração parece indicar que naquelle tempo a
-foz do Vouga e o lago interno serviam a uma navegação bastante activa.
-Quanto ao relacionamento da antiga Talabriga com alguma das estações do
-caminho medieval descrito por Edrisi, nenhuma conclusão posso tirar com
-segurança.
-
-Com muita probalidade porém se infere d'isto que o caminho frequentado
-então devia ser o que hoje corresponde á estrada real com a passagem nas
-pontes medievaes de Vouga, mas emquanto não se fixarem estes dois ponto;
-duvidosos, localização muito verosimil de _Aba_ ou _Abah_ em Agueda e
-incerta de _Vatira_ ou _Ueturia_, o testemunho do geographo arabe apenas
-serve seguramente para localizar as testas d'este caminho, estabelecer
-com grande plausibilidade a tradição do caminho historico pela orla das
-montanhas e revelar-nos o movimento commercial da foz do Vouga.
-
-
-XI
-
-Tratando-se pesquisa dos vestigios da via romana _ab Aeminio ad Calem_,
-o testemunho de Viterbo (_Elucidario_, s. v. _Estrada mourisca_) devia
-ser ponderado. Diz este illustre antiquario que, nos documentos de
-Grijó, se fazia larga menção de propriedades que ficavam umas da parte
-de cima, outras da parte de baixo da estrada mourisca. No anno de 1148,
-Trutesindo doa ao celebre mosteiro o que possuia em Brantães e em S.
-Felix _subter illam Stratam Mauriscam, discurrente riuulo Cerzedo_.
-
-Acrescenta o sabio antiquario que a estrada era mourisca por ter sido
-aberta pelos Mouros, que abandonaram a romana que vinha ali a passar
-entre Lancobriga e o mar, pois que com o rodar dos annos a costa se
-entupira e alteara por causa das areias e os rios estagnados não só
-esterilizaram os campos, mas fecharam a passagem dos caminhos. E mais
-depõe Viterbo que a estrada mourisca ia do Porto a Agueda por Azemeis,
-Albergaria, Vouga, etc.
-
-Antes de mais: notemos esta opinião corrente, esta tradição, tão
-concordante com o que eu já procurei accentuar, de que a tal estrada
-_mourisca_ descia do Porto a Agueda precisamente por Azemeis, por
-Albergaria e por Vouga.
-
-Que Viterbo lhe chamasse _mourisca_ não é de espantar; era a voz popular
-que ainda hoje nos falla de Mouros sempre que tem de referir-se a povos
-muito antigos, preromanos, romanos, barbaros, etc[26].
-
-Mas o documento de 1148 já tratava de mourisca uma obra que não podia
-ser dos Sarracenos, a esse tempo ainda no sul de Portugal. Creio não se
-poder sustentar que a estrada que passava em Cerzedo era construida por
-arabes; aproveitada sim, porque sendo o caminho que elles ainda
-encontravam á sua disposição, devia ser aquelle que inundavam do terror
-das suas algaras.
-
-Em que elementos se estribava Viterbo para dizer ainda que a mesma
-estrada mourisca tocava em Oliveira de Azemeis, Albergaria, Vouga e
-Agueda? Confesso que não os conheço, a não ser que a memoria e o uso
-d'este caminho tradicional se perpetuassem através de tantos seculos e
-tão profundas transformações sociaes.
-
-Informa Pinho Leal que na freguesia da Trofa (concelho de Agueda) ha
-ainda o logar de _Mourisca_, á margem da estrada, e que o nome lhe veio
-d'esta. Traduzindo _mourisco_ em _romano_, póde ser acertada a
-supposição. Isto transcreveu-o elle de Viterbo, s. v. _Estrada_.
-
-Mais expressivo é o tópico de um sitio, perto de Lamas e junto da
-estrada real; chama-se elle _Fundo da rua_. Tal rua não é outra senão a
-via romana. Esta explicação affere pela que dá o _Corpus_ (II. p. 363)
-com referencia a uma freguesia de Santo Estevam da Rua, onde passava uma
-estrada romana (_oppido quod a via romana nomen duxit_). A 3:500 para O.
-da Feira ha um sitio chamado _Rua Nova_. Aqui é que só a inspecção dos
-logares poderia indicar-me o significado d'este tópico.
-
-Num escritor estrangeiro do sec. XVIII, lê-se uma descrição litteraria
-do caminho através do campo de Aveiro, que só se entende se o
-suppusermos encostado ás montanhas de leste, permittindo que se
-descortine para a banda do mar toda aquella immensidade de terras
-feracissimas que aquelle autor olhava como planicie encantadora
-(_Annales de l'Espagne et du Portugal_, Alvares de Colmenar, Amsterdam
-1741, p. 253).
-
-Isto demonstra que a estrada real de hoje é um caminho velho e
-tradicionalmente batido para ligar Coimbra ao Porto.
-
-Nos _Port. Mon. Hist._ não se encontram referencias mais claras do que
-esta de Viterbo e as que adduzi em nota, á antiga via romana. Compulsei
-bastantes documentos d'aquella publicação e nella encontrei variadas
-referencias a caminhos, mas em termos d'onde não se podia concluir cousa
-alguma que indicasse o conhecimento da existencia de uma estrada da
-epoca romana, considerada como tal[27].
-
-
-XII
-
-Um esclarecimento dá Viterbo que é exacto e tem importancia para a
-historia d'esta região tributaria dos esteiros vacuenses.
-
-Retiro-me ao «entupimento» da costa que com o rodar dos annos se foi
-alteando e ao «estagnamento» dos rios que esterilizava os campos e
-fechava os caminhos. Esta acção do mar na costa de Aveiro tem sido um
-problema technico e administrativo extremamente complicado para os
-governos portugueses, não só pelas condições commerciaes de Aveiro, mas
-pelo estado sanitario de toda esta região. O coração d'este problema é a
-barra do Vouga.
-
-É difficultoso dizer o estado d'esta embocadura nos tempos que
-interessam ao presente estudo. Tenho lido que, na epoca romana, entravam
-a foz do Vacua embarcações de grande arqueamento (_Os portos maritimos
-de Portugal_, pelo Sr. Adolfo Loureiro, II, 3). Não sei que fundamentos
-póde ter esta asserção, que em todo o caso é relativa á tonelagem dos
-antigos navios.
-
-Os geographos antigos que se referem a este rio lusitanico, não dizem
-cousa d'onde se possa inferir a sua capacidade para grandes embarcações,
-como aliás se tem escrito.
-
-O mais explicito é Estrabão (_Geographia_, liv. III, III), que vertido a
-latim, diz: _Deinceps post Tagum nobilissima flumina sunt Muliadas,
-parvas habens navigationes. Itidem Vacua fluvius, post quos Durius longo
-fluens cursu_, etc. O geographo grego iguala o Mondego (_Muliadas_) rio
-de navegação diminuta, ao Vouga, da mesma fórma (_itidem_) estuario de
-diminuta navegação. E tanto mais é esta a natural hermeneutica, que o
-contraste é frisante com a importancia do Douro, _longo fluens cursu_.
-Estrabão escreveu no sec. I a. e d. de C.; como póde affirmar-se que no
-tempo dos romanos entravam o Vouga embarcações de longo curso e a sua
-foz era um porto de grande commercio e muita prosperidade?
-
-Ora isto vem ao intento de eu pretender que no surgidouro do Vouga não
-havia nos primeiros seculos, pelo menos da epoca romana, povoação de
-vulto que determinasse uma passagem forçada na via militar e um desvio
-da natural directriz _ab Aeminio Calem_. E para um porto de tamanho
-trafego, era pouco um simples _vicus_.
-
-Temos pois a affirmação estraboniana[28]. E antes?
-
-Menos ainda. Diz-se que em algumas minas da região metallifera de
-Entre-Vouga-e-Caima tem apparecido vestigios de antigas laborações.
-Apesar da falta de precisão chronologica nesta noticia, póde presumir-se
-o facto até para a epoca preromana. E neste caso, a via fluvial seria a
-mais pronta saida do mineiro para o commercio externo.
-
-Mas um óbice encontro agora. Seria consequente que este trafico
-determinasse a formação de um povoado á beira-mar ou na enseada
-interior. A essa gente faltaria, porém, uma cousa, que se lhes tornára
-tão indispensavel, como o pão para a boca: era a segurança pessoal, era
-o ninho de aguia. Com as planuras não se queriam elles. A não ser que
-deroguemos os conhecimentos adquiridos no que até agora se tem encontrado.
-
-Alem disto, que motivos ha para tirar effeíto tambem retroactivo á
-noticia de Estrabão?
-
-Um primorosissimo escritor[29], filho de Aveiro, evita, com
-exemplar abnegação patriotica, o problema archeologico da origem
-preromana da sua terra natal, mas propende á presumpção de que algum
-povoado assentaria antigamente na foz do Vouga os seus lares. E enfeixa
-o illustre homem de letras duas razoes: 1.ª, a geographica; 2.ª, a da
-exploração do sal. Aquella parece-me menos conciliavel com a
-ethnographia dos povos a que se deseja alludir, como notei. E esta? Para
-o commercio, quer interno quer externo, temos ainda o mesmo senão. Os
-marnôtos d'aquelle tempo onde se acoitariam[30]?
-
-Que, posteriormente a Estrabão, as _parvae navigationes_ crescessem em
-numero e tonelagem não é impossivel, porque a vida social começava já a
-fervilhar nas planicies.
-
-E a industria do sal, cuja utilização aliás já data dos tempos
-neolithicos, poderia commercializar-se (perdão para o neologismo) d'essa
-epoca em deante, se tomarmos por base da hypothese o caracter latino da
-technologia[31] e o que sabemos por aquelle geographo da
-importancia das salgas (_Geographie de Strabon_, por Am. Tardieu, 1886;
-III-IV-2). Mas então já a via militar _ab Aeminio ad Calem_ lá estaria
-antes de ser necessaria, se necessaria se pudesse considerar por motivo
-do commercio externo, num porto afastado da linha natural de
-communicação e posto em duvida pelo silencio dos textos, como vimos.
-
-Do que o Vouga seria na idade media possuimos o testemunho do geographo
-arabico Edrisi (_Géographie d'Edrisi_, trad. de P. Amédée Jaubort. Paris
-1840 II, 227).
-
-O nosso rio foi transposto para aquella lingoa por uma palavra que A.
-Jaubert representa na graphia francêsa por _Boudhou_ (ou==u); e assim
-conforme o texto arabico vemos que o _nahr-Budhu_ é um rio consideravel
-onde navegam embarcações grandes e pequenas, e a navegação se estende a
-70 milhas da sua foz. Agora já começamos a entrever uma população
-occupada no trafego maritimo.
-
-A diplomatica tambem proporciona alguns elementos de estudo
-relacionaveis com este, mas propriamente esta epoca já não interessa á
-questão posta.
-
-Há porém, uma cousa que não posso omittir.
-
-É o documento n.º LXXVI dos _Port. Mon. Hist._, «Dipl. et Chartae», onde
-se lê a fórma medievica de Aveiro, a qual é _alauario_, o que só por si
-desmorona as hypotheses etymologicas a que varios chorographos se tem
-apegado, mas revela pela primeira vez a existencia de uma povoação onde
-hoje é Aveiro (assim tambem _Talabario_ e _Táveiro_. Doc. CXXVIII).
-
-O trabalho do mar e das aguas na desintegração de um subsolo brando e a
-força do vento nos areaes movediços devem ter sido causa perenne e
-inflexivel dos açoreamentos e obstrucção da navigabilidade[32]. O factor
-é antigo, tão antigo quanto o póde ser, por maneira que aquella região
-nunca teve, fóra das epocas geologicas, outra face topographica muito
-diversa da dos nossos dias[33]. É presumivel que elevadas florestas
-forrassem com sombras impenetraveis toda essa immensa orla limitada pelo
-mar a Oeste e pelas montanhas a E., na região e na epoca de que me
-occupo[34] como em outros pontos suppôe o Sr. Alberto Sampaio
-(_Portugalia_, II, 215, art. cit.); mas isso não importa acreditar a
-possibilidade da via romana por terrenos de tal especie.
-
-Informou-me o distincto engenheiro Sr. Mello de Matos, que, ao
-proceder-se aos trabalhos de construcção de uma ponte nas proximidades
-de _Vagos_, se encontrou encastoado nas areias o cavername de um navio,
-que infelizmente não foi estudado. Na _Esgueira_, achara-se outro.
-
-Narra Pinho Leal que ha annos em Vagos se descobriu uma ponte sobre um
-ribeiro que a areia das dunas entupiu completamente. Escusado é
-acrescentar que a ponte foi logo capitulada de _romana_, nada menos.
-
-Estes factos não tem sido apenas recentemente verificados. Já vimos num
-trecho, que desatei do nosso Gaspar Barreiros (p. 50) que pelas alturas
-de Cacia se tem encontrado, submersos na terra, cascos de navios e
-ancoras, o que radicou a crença de que as embarcações chegavam ate ahi
-em tempos antigos. Esta apreciação já é do sec. XVI.
-
-D'este millenario ha um mappa, publicado por Abrahão Ortelius, onde se
-reconhece nitidamente a bacia de Aveiro. (Vide _Theatrum orbis
-terrarum_, já citado a pag. 132).
-
-Estes factos esclarecem o assunto e reatam a tradição de que os fundos
-da ria se vão alteando com a obstrucçâo nos esgotos das correntes
-fluviaes. Fr. Bernardo de Brito (_Monarchia Lusitana_, II. V. p. 130)
-diz que, do tempo d'elle, Aveiro, muito concorrida de gente de mar e
-pescarias, era cidade florescente[35].
-
-O Sr. Cons.º Luis de Magalhães tambem entende que, tendo ahi embarcado
-para uma jornada de Africa os terços da Beira, é porque o porto
-consentia a arqueação das caravelas.
-
-D'esta epoca ha mais elementos concordantes no movimento commercial de
-Aveiro e portanto no estado da sua barra. (Vid. _Os portos maritimos de
-Portugal_, pelo Sr. A. Loureiro, II, 3).
-
-O que Barreiros conta relativamente a Cacia, encontra-se repercutido num
-local situado muito mais acima sobre o Vouga. No sec. XVIII corria que
-em eras passadas ainda os navios subiam aquelle estuario até a antiga
-cidade de _Vacua_[36], onde depois foi a villa de Vouga e
-agora mero cabeço de Vouga (_Arch. Port._, VII, 191), que aliás tende a
-desapparecer, como desappareceu a de Marnel pelo impaludismo (Pinho
-Leal, _Port, Ant. e Mod._, s. v. _Vouga_).
-
-Esta noticia, porém, deve interpretar-se com uma informação mais
-minuciosa que encontro em uma obra de 1741 (_Annales de l'Espagne et du
-Portugal_, por Alvares de Colmenar, Amsterdam). Diz este A. que Aveiro é
-uma cidade bastante consideravel, situada na testa de um pequeno golfo
-que a maré estabelece na embocadura do Vouga. Este rio fórma um porto de
-limitadas dimensões, onde os navios mediocres, que não demandam senão 8
-ou 9 pés de agua, podem entrar na preamar, com a direcção de pilotos do
-sitio. Este A. já falla na grande producção de sal e nas fortificações
-constantes apenas de uma muralha flanqueada de algumas torres.
-
-Na lagoa de Esmoriz, de que falla um doc. do sec. IX, (_Port. Mon.
-Hist._, «Dipl. et Chart.», n.º XII), havia uma barra por onde entravam
-as caravelas em antigos tempos e depois se entupiu (_Arch. Port._, IV,
-144).
-
-O caso do cavername encontrado perto de Vagos liga-se com a noticia do
-sec. XVIII, transmittida pelas _Memorias Parochiaes_, segundo as quaes o
-braço da ria que existe entre Aveiro e Ilhavo dava antigamente fundo
-para caravelas e agora é vadeavel (_Arch. Port._, IV, 329).
-
-Em Mira, numa lagoa de agua doce, conta um informador que nella se
-encontram vestigios de casas, moedas e alicerces de uma parede ou
-caminho que a atravessou pelo meio. Alem disto, pelo norte e poente,
-tem-se açoreado (_Arch. Port._, V, 297).
-
-Quanto se póde deduzir d'estas noticias, o extenso delta vacuense tem
-sido invadido com trabalho successivo pelas areias que causam a
-obstrucção dos esteiros e a diminuição da navegabilidade. De nenhuma
-noticia, porém, se póde concluir que na epoca romana o aspecto
-topographico e a constituição orographica da região fosse tão diverso do
-que é actualmente, que a via romana lá pudesse passar preferentemente ao
-trajecto mais interno, na base da montanha, através dos castros e das
-minas.
-
-
-XIII
-
-De Talabriga temos uma das paginas da sua historia escrita por um autor
-do meio do sec. II d. C., Appiano de Alexandria.
-
-É certamente este um caso particular, mas não deverá deixar de ser
-considerado como uma amostra de dramas analogos que succederam com os
-oppidos lusitanos, no embate das cohortes romanas.
-
-Talabriga, escreve Appiano, era uma das cidades (da Lusitania) que mais
-frequentemente se revoltava. Esta falta de resignação, este, direi eu,
-germen de patriotismo ou melhor de municipalismo, não podia
-tranquillizar Decimo Junio Bruto, que julgou que o caso era de reclamar
-a sua presença no local da cidade. Partiu com numerosa gente, e ao seu
-apparecimento responderam os irrequietos Talabrigenses com supplicas e o
-seu incondicional abandono á discrição do conquistador. Então J. Bruto
-foi energico e insaciavel, mas ao mesmo tempo teve um lanço inesperado
-de generosidade. Quis fazer-lhes sentir primeiro a dureza cruel do seu
-braço de guerreiro, e para isso impôs-lhe a immediata entrega dos
-transfugas das hostes d'elle, certamente alliados dos romanos, a dos
-prisioneiros, a de todo o armamento e ainda por cima exigiu refens.
-Depois chegou a ordenar-lhes que abandonassem a cidade com suas mulheres
-e filhos. Parece que o prestigio militar de J. Bruto não valia menos que
-seu tino de politico e conquistador. Os Talabrigenses aprontaram-se para
-obedecer alli mesmo. Mas o capitão romano queria compor-lhes um quadro
-que lhes impressionasse perduravelmente a imaginação. E ia espreitar o
-effeito produzido.
-
-Desdobrou em circulo as suas tropas e, agglomerando dentro a chusma dos
-habitantes humilhados, arengou-lhes. Fez-lhes perceber que não receava a
-sua turbulencia indomita, porque quantas vezes desertassem, outras
-tantas elle viria combatê-los e reduzi-los com a necessaria firmeza,
-incutido assim o receio e a convicção de que no momento adequado, J.
-Bruto cairia sobre elles com toda a energia, o general romano quebrantou
-a sua ira, satisfeito com estas objurgatorias. Mas não sem que lhes
-tomasse os cavallos, os mantimentos, os dinheiros da cidade com todo o
-outro material publico[37]. Isto era claramente deixá-los na
-impotencia e até na penúria. E por fim J. Bruto, contra tudo quanto os
-Talabrigenses podiam já esperar (_pratter spem_), restituiu-lhes a
-cidade para nella continuarem a habitar. Isto passava-se já meado o sec.
-II, antes de Christo (138 a. C).
-
-Feito isto, o conquistador regressou a Roma.
-
-Esta pagina da conquista da Lusitania é tanto mais importante quanto é,
-com igual individuação, a unica que nos resta de historia escrita dos
-oppidos lusitanos, e, embora narre um só episodio da guerra da
-conquista, não deixa de ser elucidativa.
-
-Quando li este trecho de Appiano (_Appiani Alexandrini Rom. Historiarum
-quae supersunt_. Parisiis. F. Didot. MDCCCXL), confesso que senti
-amargura por não podermos ainda ir conversar na região do Vouga com as
-ruinas da cidade onde estes successos crueis se desfiaram, e segredar ás
-cinzas d'aquelle abrasado patriotismo que o mesmo sentimento, que
-chammejou nesses lusitanos insoffridos, ainda se não arrefentára com o
-soprar sobre ellas de vinte vezes cem invernos, e em mais de um dia, já
-da nossa existencia nacional, elle se tem ateado em protestos bem
-tumidos de calor.
-
-Talabriga continuou a existir e refazer-se, atravessando a epoca
-imperatoria, como nos attesta: 1.º, a data a que pertence a ara de
-Estorãos, sec. III-IV; 2.º, a sua inscripção no Itinerario (sec. IV).
-
-Que seculos lhe trouxeram o ultimo acto das suas tragedias? Os do mal
-afamado frankisk barbaro ou os do pavor sarraceno mais verdadeiro e real
-que aquelle, sobretudo no territorio portugalense?
-
-Entrevejo pois para a archeologia portuguesa este problema: sondar o
-jazigo de Talabriga, verdadeiro simbolo do nosso sentimento de
-independencia territorial e figura-se-me que mostrei onde com toda a
-probabilidade elle se deve encontrar. Espero ter eu mesmo ensejo de
-averiguar se o simples e frio raciocinio me guiou, sem desvio, até as
-trincheiras historicas, que occultam os miserandos restos de Talabriga.
-
-Conservar-se-ha ainda evolucionado este toponimo? Responderá o
-onomastico, paternalmente assistido pela philologia, não se dando o caso
-mais provavel do verso susodito de Vergilio:
-
- _Haec tum nomina erunt, nunc sunt sine nomine terrae!_
-
-Março de 1907.
-
-
-_P. S._ No mappa do _Ortelius_, de que me soccorri a pp. 132 e 155, vejo
-nova _Lancobriga_, pelo sul de Scalabis; teremos tres? (Ver _O Arch.
-Port._, XII, 42).
-
-
- [1] O brasão de Agueda ostenta num lemnisco o mote Aeminium. Mas
- Coimbra tem hoje uma lapide, quo lhe dá irrecusavelmente o foro de
- _civitas aeminiensis_.
-
- [2] Um dos autores que se destacam por tentar a determinação de
- Talabriga e Langobriga (e ainda outras estações da via ab _Olisipone
- Bracaram Augustam_) por um processo exacto é o Sr. J. Henriques
- Pinheiro, fallecido professor do Lyceu de Bragança. Mas talvez em
- consequencia de trabalhar sobre uma carta (a de Folque) muito
- reduzida e de se servir da reducção de milhas a leguas, localiza
- Talabriga em _Aveiro_ e Langobriga na _Feira_. Em todo o caso, não
- podendo conciliar as distancias relativas a Langobriga, conclue que
- ha erro nos Codices (_Estudo da Estrada Militar Romana de Braga a
- Astorga_, por J. Henriques Pinheiro, Porto, 1896, p. 129).
-
- [3] O Sr. A. Coelho diz que a fórma verdadeira é a de Estrabão, como
- o prova a moderna _Vouga_ e _Vauga_ dos documentos em baixo latim
- anteriores ao sec. XII (Mélanges Graux, 1882). Vid. _Religiões de
- Lusitania_, II, 28.
-
- [4] Nas _Noticias Archeologicas de Portugal_, de Hübner, trad. do
- Visconde de Juromenha, vem um extracto do Itinerario segundo a ed.
- de Parthey & Pinder (1848). Prefiro a lição _briga a brica_ de
- Wesseling, ed. dos _Vetera romanorum Itineraria_, MDCCXXXV.
-
- [5] Não pude haver á mão as _Memorias_ d'este mesmo senhor.
-
- [6] Como preciosidade estrangeira, desejo referir que o aliás
- eminente celtista D'Arbois de Jubainville, num estudo erudito sobre
- «Les Celtes en Espagne» (_Revue Celtique_, XIV, § 8) diz, de
- passagem, ser Talabriga a actual povoação de Sousa, conc. de
- Alenquer! Presumo que esta incongruencia é proveniente do que
- escreveu _C. Muller_ em uma nota da _Cl. Ptolemaei Geographia_ (I,
- 137) a respeito de Talabriga: _Oppidum haud longe a Vouga, fluvio
- circa, hod. Souza alicubi steterit. Accuratius locum definire non
- licet._ Como ha mais Marias na terra, d'ahi proveio a confusão.
- Veja-se Sousa a O. de Vagos.
-
- [7] Por partes temos:
-
- De Gaia á Feira 21:900 metros
- Da Feira a Oliveira de Azemeis 10:900 metros
- De Oliveira de Azemeis a Albergaria 18:000 metros
- De Albergaria ao rio Vouga 6:800 metros
- Do rio Vouga a Agueda 9:000 metros
- De Agueda á Mealhada 22:000 metros
- Da Mealhada a Coimbra 16:500 metros
- 105:100 metros
-
- [8] Escreveu o autor do _Portugal Antigo e Moderno_ que a via romana
- seguiria pouco mais ou menos o trajecto da linha ferrea. Assim era
- preciso, se Talabriga fosse Aveiro, quer no troço ao norte, quer no
- troço para sul, em attenção ás condições topographicas. Neste caso,
- porém, a distancia de Coimbra a Gaia seria necessariamente pelo
- menos a que hoje é por aquelle caminho; nada menos de 115
- kilometros, o que está bem longe dos 105 kilometros da via romana e
- da estrada real. Num diagramma da carta indico a differença das
- distancias entre Cale e Talabriga e Gaia e Aveiro pela via ferrea
- (45:800 metros e 59:000 metros).
-
- [9] No mappa com que documento este estudo, lancei só os elementos
- que me eram uteis. Tudo o mais ficou no original, a que até accresci
- alguma cousa a mais por assim convir á minha demonstração.
-
- [10] É força porém attentar na exigua differença que no caso
- presente existe entre a recta, que unisse os dois pontos extremos
- (Coimbra e Gaia), e o desenvolvimento da distancia effectiva pela
- estrada real, entre os mesmos pontos. Bem sei que differentes
- parcellas podem dar a mesma somma, mas difficultoso seria crer que,
- acertando o Itinerario na distancia total entre Aemiuium e Cale,
- delinquisse nas parcellas, que vem a ser as tres secções da via
- militar. Veja-se o diagramma.
-
- [11] Pela linha ferrea de Coimbra a Aveiro são 56 kilometros: pelo
- caminho romano de Coimbra a Talabriga eram 59 kilometros.
-
- [12] Nada mais possivel do que um erro de informação de Plinio. Mas
- poderia tambem haver aqui uma confusão entre a Talabriga do roteiro
- romano e a Vacua, de que parece existirem ruinas no Cabeço de Vouga
- (Cit. _Oppida restituta_, 1885). Mas o Itinerario omitte-a, o que é
- apenas argumento negativo. Ainda se poderia dar o caso de _Vacua_
- não ser _mansio_ do caminho romano. Havia um codice de Plinio que
- nomeava Talabriga e _Vacca_ e uma cosmographia antiga que refere
- _Vacca_ (_sic_) e não Talabriga, que aliás deveria ter conhecido
- pelos AA.
-
- Jorge Cardoso, no _Agiologio_, II, 65, quer que Vacua tenha sido em
- Viseu. Peor!
-
- [13] Nos _Port. Mon. Hist._, «Diplom. & Chart.», vem um documento
- (n.º 815 do anno de 1095) cujo teor nos não prende, mas onde se
- lê:.... _Ista igitur auctoritate confissus ingressus sum et ego
- densissimam silliam_ (silvam) _que ab antiquis temporibus
- habitaculum erat bestiarum_.... Trata-se de arredores de Ilhavo.
-
- [14] Nos arredores de Aveiro ha pontos com as cotas de 15, 27, 46,
- 57, 48, 38, 23, 16, 24 e 10 que correspondem a relevos suaves. Todos
- estes pontos estão situados na margem esquerda do Vouga. Mas na
- hipothese de Talabriga, a estação do Itinerario, ser Aveiro ou
- proximidades, a estrada romana, chegada ahi, ver-se-hia forçada a
- atravessar o Vouga desde Eixo para baixo, em direcção ao Norte. E
- digam-me se todo esse trato de terreno, comprehendido entre a margem
- direita do Vouga, desde a ponte de S. João de Loure, como vertice
- meridional, e os sitios de Froços, Angeja, Formelã, Canellas e
- Salreu, não eram de fazer recuar o engenheiro romano que por ahi
- tentasse obter saida para o norte, em direcção a Cale, tendo outra
- incomparavelmente melhor?
-
- [15] Tenho sempre especial satisfação quando vejo que conceitos meus
- foram já formulados por escritores de outro cunho. Assim na _Revue
- des Études Anciennes_ (1905, p. 389), Cam. Jullian, referindo-se a
- caminhos de epocas prehistoricas, diz: _Et il résulte bien.... que
- beaucoup des grandes lignes de circulation actuelle ne sont que les
- héritiers des pistes tracées il y a des milliers d'années._
-
- [16] Para os leitores habituaes do _Archeologo Português_, seria
- ociosa esta nota; para os que porventura o assunto do presente
- estudo desperte de-novo, é uma prevenção necessaria. Quando se falla
- em _castros_ com supposta referencia á epoca romana, não se trata
- dos _castra_, acampamentos ou abarracamentos (Saglio & Daremberg)
- fortificados que as forças militares de Roma construiam em campanha:
- nunca vi ruinas de nenhum d'estes _castra_, nem me consta que as
- haja verificadas no pais. E comtudo os _castros_, ou _crastos_ no
- fallar do povo, são abundantissimos entre nós... porque são cousas
- muito differentes. Estes _castros_ são apenas uns montes com
- vestigios de habitação _ante-romana_ e quasi sempre de obras de
- fortificação de terra ou de muralha. Assim os castros são outeiros,
- cabeços habitados e fortificados, não pelos romanos, mas contra os
- romanos, pelo menos, e pertencentes aos antigos habitadores do país.
- Os _castros_ devem pois aos romanos, não o seu principio, mas a sua
- decadencia e o seu fim, porque foi a conquista e foi a civilização
- romana que os tornou desnecessarios naquelle tempo. Como se lhes dá
- então este epitheto que não vem senão causar confusões? O epitheto
- encontramo-lo na toponimia local; foi o povo que conservou até hoje
- esta designação que nós vamos encontrar com frequente emprego nos
- documentos da idade media. É que no singular _castrum_ significou
- secundariamente um castello, uma fortaleza; cita Rich o capitulo VI
- da _Eneida_, onde se lê (_vv_. 771 a 776):
-
- Qui juvenes quantas ostentant, aspice, vires!
- At qui umbrata gerunt civili tempora quercu,
- Hi tibi Nomentum, et Gabios, urbemque Fidenam,
- Hi Collatinas imponent montibus arces,
- 775 Pometios, Castrumque Inui, Bolamque, Coramque:
- Haec tum nomina erunt, nunc sunt sine nomine terrae.
-
- (_Oevres de Virgile_, par E. Benoist; vol. I, Hachette, 1882).
-
- (Trad.) _Contempla como são grandes as forças que aquelles mancebos
- ostentam! Pois d'entre os que trazem a fronte sombreada pelo
- carvalho civico, uns construir-te-hão Nomento, Gabios e a cidade de
- Fidena, outros assentarão em montanhas as fortalezas Collatinas,
- Pometios, o castello de Inuo, Bola e Cora_ (antigas povoações do
- Lacio): _estes serão os nomes d'aquelles lugares, que estão agora na
- terra sem nome._
-
- Foi certamente d'esta accepção que derivou para o latim corrente, e
- em seguida para o fallar medieval das nossas populações, a
- denominação de _castro_ ou _crasto_.
-
- Na _Revue des Études Anciennes_ (IV, p. 43, 1902) vem uma serie de
- citações para demonstrar que no fim do Imperio pela palavra
- _castrum_ se designavam frequentemente as cidades fortificadas; de
- entre todas extraio a seguinte de Isidoro (_Origines_, XV, 2, 13):
- _Castrum antiqui dicebant oppidum loco altissimo situm_. Com
- referencia a sitios nossos, temos, bibliographicamente, o conhecido
- _Portumcale castrum_, de Idacio.
-
- Mas a par d'aquella, outras se formaram, como _castello_,
- _cristêlo_, _crastêlo_ e _castrêlo_. _Castellum_ (cfr. cit. _Rev.
- des Ét. Anc._) na lingua latina, era um deminutivo de _castrum_ e
- applicava-se tanto a um reducto transitorio, como a um forte
- permanente, quasi sempre situado em logar elevado (Saglio &
- Daremberg, s. v. _Castellum_). Depois, é explicavel que a linguagem
- popular prescindisse da origem não romana d'estes pontos
- estrategicos, e applicasse o termo a alguns castros, talvez aos mais
- deminutos. Aos mesmos montes se vêem tambem applicadas as
- designações de _cividade_, mais ou menos pura, _cidadêlhe_, _coroa_
- e outras ainda. Os autores antigos usam o termo _oppidum_ applicado
- a alguns d'estes centros de população (_oppidum Aeminium_). E ainda
- se encontra junto ao nome originario da povoação, a modo de suffixo,
- o termo de origem celtica _briga_, que tambem quer dizer castello,
- altura fortificada (_Talabriga_).
-
- Os romanos, no nosso caso, traçando a via militar através d'estes
- montes habitados, não fariam mais do que seguir um caminho historico
- e uma directriz frequentada.
-
- [17] O parocho de Segadães (1758) informava que a antiga cidade de
- _Vaca_ (_sic_) fôra assolada pelos _mouros_. Os Leitores conhecem
- estes _mouros_... (_Arch. Port._, VII, 191).
-
- [18] Varios outros documentos d'esta região de Entre-Vouga-e-Douro
- compulsei eu nesta collecção, que se reportavam a _castros_, mas não
- pude localizar as referencias com a presteza que era necessaria. Até
- se me deparou a fórma rara _crésto_ (_cresto ualanes_, doc. DXLIX do
- anno 1077), da qual conheço outra actual no concelho de Valdevêz.
-
- [19] Na fé de Nascimento Silveira (_Mappa breve da Lusitania_, p.
- 226), em Mancinhata, nos cruzeiros ha inscripções que ainda ninguem
- entendeu.
-
- [20] Nos _Port. Mon. Hist._, «Dipl. et Chart.», n.º CCCCLXXI, vem um
- documento que diz: _Cesari... subtus monte castro calbo..._ Cf. o
- n.º CCCCLXX. Não pude averiguar se é um _Monte Calvo_ que vejo perto
- de Romariz. _Cesári_ (gen. de _Cesarius_, _-ii_) deu Cesár, como
- _Severi_ (_Port. Mon. Hist._, «Dipl. et Ch.», _passim_, e _Arch.
- Port._, II, 252, art. do Sr. P. de Azevedo) deu Sever.
-
- [21] Virá de _Calambria_? pergunta A. Herculano (_Historia de
- Portugal_, III, 423). Cfr. _Arch. Port._, art. do Sr. A. Cortesão,
- IX, 232. Teremos aqui alguma _Calambriga_? Um thesouro de 16 argolas
- de ouro é de lá. (_Arch. Port._, II, 87).
-
- [22] Eu não me occupo especialmente da _Langobriga_ do Itinerario,
- mas é facil ver que identicos raciocinios lhe são applicaveis e em
- consequencia, a situação d'este segundo oppido deveria ser na faixa
- de terreno vagamente indicada pela curva _LL._ um pouco ao norte da
- Feira. No meu estudo da ara de Estorãos, assentei que esta não é a
- actual _Longroiva_, cuja fórma medieval era _Langobria_, (_Port.
- Mon. Hist._, «Dipl. et Chart.» CCCCXX). Do que deponho a p. 141,
- parece que é a algum dos castros de _Obil_ ou do _Monte do Murado_
- que deverá convir a localização de Langobriga. Este fica a 6:000
- metros para leste da lagoa.
-
- Para _longo-_ e _lango-_ como para _brica_ e _briga_, não encontram
- difficuldade os celtistas. (_Élém. celt. dans les noms de personnes
- des inscr. d'Esp._, por A. Carnoy. Luvaina 1907).
-
- [23] A legitimidade do processo que segui, empregando o compasso e a
- escala para determinar a zona em que, segundo as indicações do
- roteiro romano, deve encontrar-se o jazigo de Talabriga, tem uma
- averiguação facil, apesar da estranheza que possa causar. Se eu,
- collocado em Eminio, quisesse determinar a situação de Cale, cujo
- anorteamento já conhecia previamente, e para isso adoptasse identico
- systema, o compasso levar-me-hia a uma zona de terreno, onde não me
- seria impossivel encontrar localizações compativeis com uma estação
- d'aquella natureza.
-
- Creio todavia que nem com todos os terrenos assim se póde proceder.
-
- Comprova tambem a plausibilidade do resultado a circunstancia de
- fazerem pequena differença a distancia em linha recta entre Coimbra
- e Gaia e a rectificação da estrada entre os mesmos pontos.
-
- [24] ... por ser tam grande como todos sab[~e], de [~q] á prouerbio
- no pouo. (_Ibid._ p. 50). Já não é só pois grande a legua da Povoa!
-
- [25] O escritor espanhol Eduardo Saavedra, num artigo intitulado «La
- geografia árabe de Portugal» in _Revista Archeologica e Historica_,
- I, 49, suppõe que o trajecto descrito por Edrisi vae de Coimbra a
- Viseu e Braga «por um caminho muito frequentado», fazendo o primeiro
- descanso em Avô, 45 kil. a NE. de Coimbra; o segundo em S. Miguel do
- Outeiro, 10 kil. a O. de Viseu no caminho de S. Pedro do Sul; depois
- chega-se ao Douro, que se passa em embarcações defronte de uma
- aldeia, que é Villaboa de Quires, a E. de Penafiel. D'aqui duas
- jornadas a Braga e outras duas a Tuy.
-
- Salvo o devido respeito, isto parece uma viagem... _à vol d'oiseau_!
-
- [26] Nos _Port. Mon. Hist._, «Diplom. de Chart.», apparecem mais
- documentos em que se encontra esta mesma designação. Estes por
- exemplo:
-
- N.º 67 do anno 953:... _et inde per carraria mourisca..._ (Isto era
- nas vizinhanças de Villa do Conde).
-
- N.º 614 do anno 1083:... _et inde per via maurisca:..._ (territorio
- de Arouca).
-
- Póde não se tratar nestes dois documentos de vias militares romanas,
- como não se trata; mas nem por isso a designação deixa de ser
- inexacta no seu sentido proprio. Eram antigos caminhos, anteriores
- aos arabes. Aliás teriamos que admittir que os filhos do Islam
- andaram por terras de Villa do Conde e de Arouca a abrir estradas em
- fórma, por serem invios os territorios.
-
- Demonstra isto que os amanuenses do secs. X e XI já não sabiam
- estremar romanos (e visigodos) de serracenos. Era pois, como hoje, o
- fallar do povo.
-
- É tambem este o sentimento do Sr. Pedro de Azevedo (_Arch. Port._,
- III, 137 sgs.). Este facto é bastante expressivo. Não passára um
- seculo ainda depois da expulsão dos arabes naquella região, e a
- interrupção de tradições locaes tinha sido tão intensa que a mera
- conjectura tomara o logar d'aquellas, attribuindo aos muçulmanos as
- obras de viação de que elles apenas tiveram a utilidade (Veja-se
- _Hist. de Portugal_, por A. Herculano, III, 421). Em França não se
- dava isto. Ruy de Pina na _Chronica do sr. rey D. Affonso V_ (p.
- 569) diz: «E na cidade de Nimis leixou El-rey _a estrada romam_, que
- vay a Avinham».
-
- [27] Seria longo transcrever os trechos respectivos d'esses
- documentos; e nem sempre é possivel acertar a que especie de
- caminhos se referem as expressões usadas nos documentos. É commum o
- termo _strada_, _strata_; algumas vezes adjectivada _strata
- ueredaria_ (Dipl. et Chart., n.º 174) em opposição a _alia carrale_
- (id.); _estrata de uereda_ (id. n.º 13); _in estrada qui discurrit
- via de uereda_ (id. n.º 24) ou _strata maiore_ (id. n.os 563, 378 e
- 549). Tambem se encontra a expressão _carreira antiqua_ (id. n.os
- 620 e 639), _karraria antiqua_ (id. n.os 888), _carraria antiqua_
- (n.os 639 e 287), _carera antiqua_ (id. n.os 366). _Via de strada_ e
- _strada de uiminaria_ lêem-se no doc. n.º 817 (_ob. cit._) Ainda hoje
- se póde dizer _caminho de estrada_. _Carreira_ é termo agora quasi
- só locativo, mas ainda se ouve no norte applicado ás largas entradas
- de algumas casas antigas, precedidas de uma alameda plana;
- certamente _carreira_ inclue a ideia de carro, como _carrale_. Outra
- denominação que encontrei foi a de _via publica_ (_ob. cit._, n.º
- 676), que parece corresponder a caminho publico.
-
- _Karraria antiqua_ era certamente uma estrada carreteira antiga já
- naquella epoca e portanto tradicional, mas d'aqui não se póde
- concluir que essa estrada fosse _via militar_ romana. Assim o doc.
- n.º 570 do anno 1079 refere-se á freguesia moderna de Paçô, no
- concelho do Valdevêz (_uilla Palatiolo_), onde nunca passou via
- militar e onde a _carreira antiqua_ poderia bem attingir a epoca
- romana.
-
- Alguns d'estes documentos foram indicados pelo erudito conservador
- do Archivo Nacional e meu amigo o Sr. Pedro de Azevedo; outros
- rebusquei-os propositamente com o auxilio do valioso trabalho do Sr.
- Gama Barros, _A administração Publica em Portugal_, entre os que
- pertencem á região de Entre-Vouga-e-Douro.
-
- [28] No mesmo pensar encontro-me com o Sr. Alberto Sampaio na
- _Portugalia_, II, 216 (_As povoas maritimas do norte de Portugal_).
- Assim se exprime: «As unicas povoações, vizinhas do mar, existentes
- então (no tempo dos romanos), eram Calem e Portucale».
-
- [29] É o Sr. Conselheiro Luis de Magalhães, em _A arte e a natureza
- em Portugal_, vol. IV. A descrição da ria immensa de Aveiro, com as
- salinas espelhadas que a cobrem, com os seus cones alvissimos de
- sal, que marchetam a planicie sem fim, é um d'estes primores de
- prosa gracil e diaphana, que mais ninguem poderia escrever com igual
- coração e com pulso comparavel. Parece que a seducção d'esse
- panorama não me será mais intensa, quando com os olhos o vir, do que
- quando o adivinhei naquellas tão poupadas paginas.
-
- [30] A grandíssima maioria das povoações d'estas epocas era nos
- altos; ahi tem sido encontrados os seus vestigios. Para a alguma se
- attribuir situação aberta como a de Aveiro, necessario seria
- documentar a excepção.
-
- Não repugna absolutamente admitti-la no nosso caso, mas é hypothese
- pura. E depois, lá temos o distinctivo _briga_. O nome da cidade
- comsigo traz a natureza do seu assento. No Algarve, _Ossonoba_ e
- _Balsa_, não demoravam em outeiros. (Vide _Religiões da Lusitana_
- II, 85).
-
- [31] _Portugalia_, II, 220, «As póvoas marítimas do norte de
- Portugal», pelo Sr. Alberto Sampaio.
-
- [32] Explicação geologica d'estes phenomenos: «C'est après avoir
- traversé les marécages du Vouga, que l'on entre dans les terrains
- anciens; ce sont d'abord des schistes luisants, généralement cachés
- par des dêpots superficiels: sables des dunes, graviers pliocènes et
- graviers kaoliniques appartenant au Crétacique. Ces derniers ne
- montent pas plus haut qu'Estarreja et le Pliocène est rarement
- visible depuis la voie ferrée. Parfois ce soubassement de roches
- solides n'existe pas, ou du moins ne se trouve qu'à une certaine
- profondeur au-dessous du niveau de la mer; dans ce cas, la côte
- subit des alternances d'accroissement et de décroissement qui
- peuvent être funestes à l'homme trop empressé de s'approprier le
- terrain que les sables ont gagné sur la mer; tel est le cas à
- Espinho». _Promenade au Gerez (Souvenirs d'un géologue)_, por Paul
- Choffat, 1895, p. 1.
-
- [33] Poderia aqui investigar-se das alterações da costa que possam
- ter modificado o aspecto do surgidouro do Vouga. Um apello,
- publicado no _Arch. Port._, II, 301, teve em resposta o silencio.
- Não tratando dos factos de periodos geologicos ou indeterminados
- (_Arch. Port._, VII, 274 e X, 193) pouco é o que se tem recolhido e
- ás vezes antagonico. Açoreamentos em epocas historicas foram notados
- na Povoa de Varzim, Villa do Conde, Fão, Esposende, Vianna, em
- Setubal, no Algarve (_Portugalia_, I e II. _passim_), e eu mostro
- que na faixa de Esmoriz a Mira elles se deram tambem em epoca que
- não posso precisar. Num mappa que illustra o _Hisp. & Port.,
- Itinerarium_ de Martin Zeiler (1656) Aveiro é situada ao norte do
- Vouga. E não é o unico mesmo de datas mais recentes.
-
- [34] Ha um documento do sec. XI que faz uma referencia aproveitavel
- debaixo d'este aspecto: é o n.º DCCCXV do anno 1095 (doação á sé de
- Coimbra da igreja de S. Christovam, junto a Ilhavo)... _Ista igitur
- auctoritate confissus ingressus sum et ego densissimam silliamm_
- (silvam) _que ab antiquis temporibus habitaculum erat bestiarum..._
-
- [35] Entre as cartas antigas que folheei, desejo destacar uma do
- sec. XVII, assinada por N. Sanson. _christ. Gall. regis geografo_
- (_Hispaniae antiquae tabulae_, 1641). O mappa de Portugal antigo
- individúa, na região que andei estudando, _Conimbrica_ em Condeixa,
- _Aeminium_ na margem norte do Mondego; _Talabriga_ ao N. do Vouga,
- um pouco afastada do estuario, a 20 ou 25 _milliaria_ da foz do
- Vouga (isto é, na altura onde eu localizo esta povoação); e,
- seguindo no mesmo rumo, _Langobriga_. É na Bibliotheca Nacional, um
- grosso volume _in-folio_, recentemente encadernado com o
- dístico--Mappas--e sem frontispicio.
-
- [36] Esta lenda porém reproduz-se em mais localidades, fóra d'esta
- região.
-
- [37] ... _pecuniis publicis, cum reliquo publico apparatu, ademtis_.
- Isto dá bem a entender que havia uma perfeita organização politica,
- e n'ella se estribava a organização de uma defesa militar contra a
- invasão romana.
-
-
-
-
-DO AUTOR
-
-
-ESTUDOS DO ALTO-MINHO (SERIE 1.ª)
-
-
-Publicados
-
-I--Epigraphia christiano-latina (uma inscripção inedita).
-
-II--Um passeio archeologico no concelho dos Arcos de Valdevez (visita ás
-antas da serra do Soajo).
-
-III--Machados de duplo anel.
-
-IV--Ainda a inscripção christã de S. Pedro de Arcos.
-
-V--Uma primicia de epigraphia funeraria romana.
-
-VI--O portico da matriz de Monção.
-
-VII--Um castro com muralhas.
-
-VIII--Um erro de amanuense nas inquirições de D. Affonso III (C. Sancti
-Salvatoris Darcus).
-
-IX--Um Grovio autentico (cippo de Villa-Mou).
-
-X--Ara celtiberica da epoca romana (um novo «Genio»).
-
-
-PAGINAS ARCHEOLOGICAS (SERIE 2.ª)
-
-
-Publicadas
-
-I--Estatueta ithyphallica.
-
-II--Cemiterio da epoca romana em Vianna do Alemtejo.
-
-III--Situação conjectural de Talabriga.
-
-
-
-
-
-End of Project Gutenberg's Paginas Archeologicas, by Felix Alves Pereira
-
-*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30071 ***
+*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30071 *** + + FELIX ALVES PEREIRA + + + PAGINAS ARCHEOLOGICAS + + III + + SITUAÇÃO CONJECTURAL DE TALABRIGA + + + + + LISBOA + IMPRENSA NACIONAL + 1907 + + + + + * * * * * + + SITUAÇÃO CONJECTURAL DE TALABRIGA + + + Obra composta e impressa na Imprensa Nacional + + Edição e propriedade do Museu Ethnologico Português + + * * * * * + + + + + FELIX ALVES PEREIRA + + + PAGINAS ARCHEOLOGICAS + + III + + SITUAÇÃO CONJECTURAL DE TALABRIGA + + + + + LISBOA + IMPRENSA NACIONAL + 1907 + + + * * * * * + + + + Ao + + Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Conselheiro + + + _Luis Cypriano Coelho de Magalhães_ + + _O. e D._ + + _O autor._ + + * * * * * + + + + +Separata d'«O Archeologo Português», XII, n.os 5 a 8 de 1907 + + + + +SITUAÇÃO CONJECTURAL DE TALABRIGA + + +Summario + +1. Estado da questão.--2. Autores antigos--3. Itinerario--4. Exame do +mappa--5. Topographia e onomastico da região--6. Os castros do trajecto +da Via--7. Região mineira--8. Localização de Talabriga--9. Opinião de +Gaspar Barreiros--10. Geographia arabica--11. _Strata maurisca_--12. Ria +de Aveiro e o Vouga--13. Historia de Talabriga. + + +I + +Algum tanto sem o presentir, ao fazer o estudo da ara de Estorãos, +(_Arch. Port._, XII, 36) encontrei-me no limiar de um problema que, de +modo definitivo, não se resolverá senão com a verificação _in loco_ de +vestigios archeologicos incontrastaveis. + +É o problema da trajectoria exacta da via romana entre Aeminium e Calem, +da qual não se conhecem milliarios decisivos e sufficientes, +especialmente da sua passagem por Talabriga. + +O assunto, parcialmente considerado, tem sido alvo das principaes +referencias na pugna litteraria em que os paladinos de Agueda, de Aveiro +e de Coimbra patrioticamente articulavam preeminencias genealogicas, que +é da praxe mencionarem-se em monographias locaes, mas que hoje, quanto a +Coimbra (e Condeixa-a-Velha) estão sentenciadas, em prejuizo até +heraldico de Agueda[1]. + +Propositadamente, porém, o problema não foi ainda estudado debaixo do +seu aspecto geral; apenas por incidente tem sido versada a localização +de Talabriga. Não venho com o proposito de o dar como resolvido, é +certo; mas desejo englobar neste estudo um certo numero de +considerações, que podem preparar o desenlace d'este ponto controvertido +da geographia protohistorica da Lusitania, no campo adequado, e quiçá +orientar pesquisas. + +Onde foi Talabriga? Até hoje nenhum d'estes indices peremptorios que +marcam inilludivelmente a situação das antigas cidades, como para +_Conimbriga_ (Condeixa-a-Velha), _Aeminium_ (Coimbra), _Bracara Augusta_ +(Braga), _Olisippo_ (Lisboa), _Pax Julia_ (Beja), etc., se nos antolha +para dar resposta nitida áquella pergunta. + +Guiados pelas indicações geographicas do Itinerario e de Plinio, os +nossos escritores teem querido alternadamente que Aveiro, Cacia, +Esgueira occupem hoje o logar que outrora se chamou _Talabriga_. De +facto, o Itinerario, ao contar as milhas que de _Aeminium_ vão a _Calem_ +(Gaia ou Porto?) pela via militar, devia ter especial valor para este +problema; mas a comprehensão da necessidade de verificar rigorosamente +as indicações d'aquelle documento, a consulta de edições criticas, +tomando-se por base a decisão do problema de Aeminium, e talvez o +desaffecto de uma ou outra solução é que teem, no meu humilde entender, +faltado a todos os autores que mais modernamente do assunto se teem +abeirado[2]. + + +II + +A geographia classica não é de todo omissa a respeito d'esta antiga +povoação. O testimunho de Plinio, que é o A. mais expresso, vem a ser o +seguinte: _A Durio Lusitania incipit. Turduli veteres, Paesuri, flumen +Vagia[3], Oppidum Talabrica, Oppidum et flumen Aeminium, +Oppida Coniumbrica, Collippo, Eburobritium._ (C. Plinii Secundi, _Nat. +Hist._, ed. de Detlefsen, IIII, 113). Isto tem o ar de uma sêca +enumeração chorographica, que se desdoba do norte para o sul, a contar +do Douro, e que, restringida ao nosso caso, nos dá esta sequencia: + + _a_) rio Vouga; + + _b_) cidade de Talabrica; + + _c_) cidade e rio de Aeminio (Coimbra); + + _d_) e as cidades de Conimbrica (Condeixa), + + _e_) Collippo (Leiria) e + + _f_) Eburobricio (Obidos, Vejam-se _Relig. da Lusit._, II, 31). + +Se não fôr certo, como não me parece, que Vouga é ao norte de Talabriga +e este oppido ao sul do mesmo rio, pelo menos conclue-se que Talabriga +vizinha de um lado ou outro aquelle estuario. + +Não trago nenhum outro autor antigo, porque elles não adeantam o +problema chorographico. Na _Cosmografia_ de Ravennate (ed. de +Pinder & Parthey, p. 307) _Talabrica_ apparece transformada +em Terebrica e fica na seguinte localização relativa: +_Olisipona--Terebrica--Langobrica--Cenoopido--Calo_... + + +III + +Vamos pois ao _Itinerario_[4] e á discussão das suas +indicações. Encontra-se nelle, que nos sirva: + + Eminio mp. X + Talabriga mp. XL (= 59:240 metros) + Langobriga mp. XVIII (= 26:658 » ) + Calem mp. XIII (= 19:253 » ) + 105:151 » + +A equivalencia que sigo é a de 1 milha = 1:481 metros (Saglio & +Daremberg, s. v. _Milliarium_). + +A trajectoria d'esta via desde Coimbra (Aeminium) a Gaia (Calem) +deixaria de ser ponto controverso se, como succede noutras estradas +romanas, alguns milliarios sobreviventes escalonassem os seus vestigios. + +Não ha porém, neste particular, mais que isto: + +1.º Um fragmento de milliario com 2,04m de alto X 1,40m de circuito, +que appareceu na Mealhada ao norte de Coimbra e só tem M.XII. + +2.º Outro que foi encontrado mesmo em Coimbra e aponta M.IIII. + +Nem aquelle nem muito menos este servem ao meu intento; o traçado +litigioso no nosso caso é para norte da Mealhada e Anadia, e não entre +Mealhada e Coimbra. (Vid. Borges de Figueiredo, _Oppida restituta_, p. +82; Hübner, _Notas archeologicas sobre Portugal_, p. 67, trad. cit.: +_Catalogo dos objectos existentes no Museu de Archeologia do Instituto +de Coimbra_, p. 6; A. Filipe Simões, _Escritos diversos_, 1883). + +3.º Um pretenso milliario descrito por Fr. Bernardo de Brito na +_Monarchia Lusitana_, II, V, p. 3. Este vicio de origem obriga-me a pôr +ainda de parte este monumento como comprobativo da directriz; Hübner +fulmina-o com a sua desconfiança (_Corpus_, II, 55 a *) dizendo que +Brito queria demonstrar com elle a existencia de _Vacua_. Não lhe darei +porém eu maior valor que o proprio monge, que, como por prevenção, +confessa que as letras da pedra eram «mal distinctas e muy quebradas». +Assim a sua interpretação deve desinteressar-nos, visto que não ha meio +de contraprovar a leitura de Fr. Bernardo de Brito, duvidosa para elle +proprio. Para este, a lapide era porém um padrão de estrada, o que pouco +vale por entretanto para nós; mas provinha do Castello de S. Gião, ao +que parece, _castro_ rico em ruinas de muros, etc. Isto, cuja +importancia só modernamente se aprecia, é que não se inventa e dá visos +de que com effeito alguma cousa lá pudera ter apparecido. Mas Brito, com +o dizer que a lapide era padrão de estrada, contrariava sem o advertir a +propria crença de que a via romana seguia pela beiramar e _Talabriga_ +era em Aveiro. (_Mon. Lusit._, id., p. 130). + +Não obstante, ponha-se de parte a exactidão da epigraphe do supposto, +mas rehabilitavel, milliario do castro de S. Gião, e fique, +provisoriamente, apenas um facto--o achado de um padrão de via romana +num castro das margens do Caima. + +A opinião de que Aveiro fôra o assento da antiga estação do Itinerario +tinha ainda por si, alem do mappa de Abr.ão Ortelius (_Theatrum orbis +terrarum_, Antuerpia, CIC.IC.CIII) o pensar de Florez (_España Sagrada_, +tomo XIV, p. 73), que lêra Plinio e uma edição antiga do Itinerario +romano. E póde dizer-se que foi essa a corrente que dominou até hoje, se +com Aveiro abrangermos o aro circunjacente. (Vejam-se Adolfo Loureiro. +_Os portos maritimos de Portugal_, II, p. 3; Marques Gomes, _Districto +de Aveiro_, onde restringe[5] a Cacia o _ubi_ de Talabriga; +Borges de Figueiredo, _Oppida restituta_, 1885; Pinho Leal, _Portugal +Antigo e Moderno_, s. v. _Aveiro_; Gaspar Barreiros, _Chorographia de +alguns lugares_; D. Nunes de Leão, _Descripção do reino de Portugal_; +Francisco do Nascimento Silveira, _Mappa breve da Lusitania antiga_, +etc.)[6]. + +Regressemos porém ao _Itinerario_, e vejamos se será possivel concluir +algo que um dia a pesquisa e exploração persistente do archeologo possa +contraprovar. É o meu sonho. + +Que a medição total do _Itinerario_ relativa á via _ab Aeminio Calem_ +está notavelmente exacta, demonstra-o esta verificação facil: a somma +das milhas que se contaram de Eminio a Gaia, reduzida a kilometros, +(unidade mais pratica e mais exacta que a de leguas, até agora adoptada) +era de 105:151 metros, como vimos; a distancia computada actualmente na +Carta do Estado Maior d'esta região pela directriz da _estrada real_ é +de 105:100 metros[7]. Não podendo ser mais breve a distancia +d'esta estrada, como se verifica olhando os traçados rectificados ao +lado do mappa junto, em que a distancia em linha recta e a rectificação +exacta da extensão effectiva da estrada fazem pequena differença, o que +mostra que os desniveis ou as inflexões do traçado são assaz reduzidos, +conclue-se que a via romana, desde que marca igual extensão kilometrica, +não poderia seguir caminho mais longo que ella, nem portanto muito +distanciado d'ella. + +Esta coincidencia de medições é suggestiva e não permittiria, só por si, +que a trajectoria da via romana e da actual estrada real divergissem +muito. Se esta desenhasse uma inflexão pronunciada no seu trajecto de +Coimbra a Gaia, claro é que era possivel, sem exceder a mesma extensão, +encontrar outra curva symetrica que tocasse em pontos intermedios +diversos e afastados, e coincidisse apenas nos respectivos extremos, o +que nada util me seria; mas nas circunstancias que se dão e já +salientei, e que me permittiram estudar sobre uma carta este problema, a +coincidencia effectiva das duas vias de communicação deve em grande +parte quasi corresponder á coincidencia theorica, agora expendida. + +Isto oppõe-se a que a via romana passasse em Aveiro, ponto muito +afastado e divergente do trajecto theorico[8]. + + +IV + +Vou porém demonstrar por partes como isto assim deve ser. É preciso +partir do principio já demonstrado, embora para o total da distancia, +que as medições do Itinerario não contém erro. Qualquer inexactidão nas +milhas marcadas para cada uma das secções da via militar alteraria a +somma, desde que, por um acaso unico, não fosse compensada por outra +inexactidão. + +Ora a via romana de Eminio contém tres troços ou secções; o 1.º de +Eminio a Talabriga; o 2.º de Talabriga a Langobriga; o 3.º de Langobriga +a Cale. Se uma sequer das distancias correspondentes do Itinerario +contivesse erro, a somma total accusá-lo-hia; mas nós já vimos que a +distancia de 105 kilometros corresponde a uma realidade. Comecemos pelo +extremo norte da via. Isto conduz mais claramente ao meu fim; e descobre +mais prontamente o erro em que até agora me parece que tem laborado os +escritores. Tomemos o mappa[9]. + +Se traçarmos um arco de circulo, cujo centro seja Gaia e o raio igual á +distancia de Cale a Langobriga, isto é, a 19 kilometros (veja-se a +escala), teremos obtido uma curva theorica (LL no mappa) que no terreno +representa uma faixa de tolerancia, mais ou menos larga, dentro da qual +e numa zona d'ella que seja compativel com um trajecto ininterrupto da +via, cuja extensão já definida se não póde exceder, o archeologo deverá +procurar os vestigios de Lancobriga. + +Esta zona, ou este segmento, não poderá pois, em principio, afastar-se +consideravelmente da directriz da estrada real. + +Consultemos de novo o Itinerario. Entre Langobriga e Talabriga medeiam +26:600 metros. Ignorando ainda qual o ponto preciso que na curva _LL_ +marca o primeiro d'aquelles oppidos, deveremos traçar um arco de circulo +parallelo ao antecedente e á distancia que a escala indica. Como o +terreno não é propriamente uma carta celeste[10] em que os +pontos podem ser rigorosamente indicados, a nova curva deixada pelo +compasso é representativa de uma segunda faixa de tolerancia, +susceptivel de maior ou menor elasticidade, mas confinada, quanto á sua +extensão, pela continuidade do trajecto viario em direcção a Aeminium, +trajecto cujo comprimento tem limite determinado de milhas. + +E assim temos o arco _TT_. + +Nesta curva, que não é mais que uma zona media, deverão surgir ao +appellido do archeologo as ruinas do que outrora foi Talabriga. Esta +conclusão emerge logicamente das bases que tomei: o acerto evidente do +Itinerario no total e muito provavel nas secções; a coincidencia das +extensões da via antiga e da estrada moderna. + +Se agora, por contraprova, apontarmos o compasso a Eminio e girarmos com +um raio de 59 kilometros, verificado segundo a escala, obteremos outra +curva, a terceira, tangente á segunda e que tem a missão de indicar a +zona util, o segmento dos arcos, correspondente á area provavel da +situação de Talabriga. Porque o que não póde haver, é um hiato, uma +interrupção de trajecto de Cale a Aeminium[11]. + +Esta primeira phase da minha demonstração, porém, já torna incompativel +a actual situação de Aveiro com vestigios de Talabriga. E mais do que +isto; vem levantar um equivoco de Plinio, que parece suppôr aquelle +oppido ao sul do Vouga; se assim fosse, não seria possivel encontrar o +ponto de reunião do caminho que descia de Cale a encontrar Lancobriga +aos 19 kilometros e se prolongava na direcção do sul até mais 20 +kilometros, onde devia beijar a Talabriga do Itinerario sem encontrar a +de Plinio[12]. O hiato resultante fica, parece-me, fechado e +annullado, desviando Talabriga de Aveiro e aproximando-a de Albergaria, +ao norte do Vouga; isto é, a hipothese que proponho é a que se concilia +em todos os pontos com o Itinerario. + + +V + +Mas não se concilia só com esta fonte documental: é a mais plausivel em +face das condições topographicas e historicas da região de +Entre-Vouga-e-Douro. + +A actual directriz da estrada real é a que mais ou menos devia ter +seguido a via romana que procurasse unir Eminio a Cale, dado o traçado +que ella já trazia desde Lisboa. + +Em primeiro logar: as condições topographicas d'aquelle grande delta do +Vouga não eram senão de molde para difficultar a abertura de uma estrada +na epoca romana, em concorrencia com traçado mais firme e duradouro, +mais economico, mais util e mais commercial. Aquellas planuras deviam +existir já então, como um presente do Vouga, segundo se tem dito, creio, +do Nilo. + +Se eram naquelle tempo pantanos, ou bosques intransitaveis[13] +ou veigas retalhadas, como hoje, por um dedalo de canaes e +esteiros, não me cabe a mim defini-lo. De qualquer d'estas fórmas, uma +via romana não iria atravessar uma região em que a falta de pedra é +quasi absoluta, e a multiplicidade de trabalhos de architectura civil ou +de obras de arte uma consequencia inevitavel. Era preciso combater por +um lado a pouca firmeza do terreno, por outro contar com o custo da +empresa[14], ou os impecilhos da viagem. + +Por isso os mesmos motivos que na idade media afastaram a construcção, +ou melhor, a conservação de uma estrada velha para longe da costa, +obrigando-a a passar nas pontes que ainda existem, devem ter sido os +mesmos que desviaram os engenheiros romanos de lançarem a via militar +através de campinas encharcadas, só para irem buscar a embocadura do +Vouga, antes de attingir Calem. + +Depois preciso é notar que havia outra directriz ao alcance da +administração do Imperio, directriz que não podia admittir confrontos +com a traçada através do delta do Vouga. Essa directriz levava a estrada +romana pela orla fóra do terreno firme e accidentado e da região povoada +de castros e abundosa de minerios, região que ainda hoje podemos ver +acompanha-la pelo trajecto da estrada real. As vias de communicação teem +muitas vezes uma directriz fatal e tradicional através de longos tempos +e povoadores successivos[15]. + +Póde soffrer destruição o caminho, sem estancar a arteria de communicação. + +A actual estrada real ou de macadam foi ainda, por assim dizer, +decalcada pela anterior, a medieval, cujos restos subsistem nas pontes +antigas de que os chorographos fallam. Esta orientou-se pela +comprehensão das conveniencias, e afastou-se da embocadura do Vouga, +seguindo a directriz mais economica e mais util; não direi ainda a +directriz romana porque é o que pretendo demonstrar, mas a que era +directriz tradicional, como vou explicar. + + +VI + +Os castros ou montes habitados encontram-se precisamente no seguimento +da via romana; os oppidos referidos pelos AA. antigos, as _brigae_, e as +cidades romanizadas não são mais que uma evolução d'aquellas estancias, +consoante as denominações que lhes applicaram[16]; era por +essa corda alem, que o terreno baixo e plano da zona maritima começava +de elevar-se. A estrada romana desenrolava-se por entre esses centros da +habitação, abandonando ao lado um país chato, pouco firme e talvez quasi +invio. + +Do sul para o norte _Anadia_ está situada nas abas de um monte de +_Crasto_ (Pinho Leal e M. Gomes). + +_Agueda_ está tambem perto de um _Crasto_ (Pinho Leal). + +Nas margens do Vouga, naquelle logar onde subsiste ainda a ponte +medieval (Pinho Leal), encontra-se na aldeia de _Vouga_ um morro que foi +castro (Brito e P.e Carvalho, II, 161); explica Francisco do Nascimento +Silveira (_Mappa breve da Lusitania_, p. 239) que _Vacca_ existia em +sitio forte por natureza, entre as pontes de Vouga e Marnel, porque alli +se vêem vestigios de muros antigos e sinaes de uma majestosa grandeza; +existem ainda tijolos, cantarias, muralhas em _Lamas de Vouga_ (_Arch. +Port._, V, 50 e VII, 191)[17], e havia ahi a _civitas Marnele_ (_Port. +Mon. Hist._, «Diplom. de Chart.», n.º 819)[18], cuja origem deve ter +sido outro castro. + +Na carta geodesica vê-se, junto ao rio, um _Castello_ (111). Isto é +ainda do concelho de Agueda[19]. + +Na freguesia de Serem, tambem concelho de Agueda, outra _civitas_ +(Viterbo, s. v. _Cidade_); ha lá sitios elevados a norte e a sul (Cfr. +M. Gomes). + +Na freguesia da _Branca_ ha um logar de _Cristellos_ (M. Gomes e _Arch. +Port._, II, 313). + +Na serra de S. Julião, mesma freguesia, _onde passa a estrada real_, diz +o Sr. M. Gomes que ha ruinas de muralhas e fossos: acreditava-se (_Arch. +Port._, loc. cit.) que ahi era a antiga _Langobria_ (sic). Não sei se é +precisamente o mesmo local a que Brito (_Mon. Lusit._, II, V, p. 3) +chama castello de _S. Gião_, onde havia ruinas de muros e elle encontrou +o tal padrão suspeito e onde presume _Lancobriga_, não na Feira, diz, +mas entre Albergaria e Bemposta, defronte de Pinheiro. Significativa +confusão! Aquelle logar de _Cristello_ vem na carta geodesica entre +Estarreja e a estrada real[20]. + +Na freguesia de Ul ha outro castro (_aldeia do crasto_), de que porém +não conheço o _ubi_. Tem uma cintura de muralha de pedra solta ou cousa +que o valha. (Pinho Leal, s. v. _Ul_). + +Nas proximidades de Azemeis parece que não são escassos estes monumentos +(_Quatro Dias na Serra da Estrella_, por E. Navarro, Porto 1884, p. 174). + +Em _Ossella_ ha um castro com ruinas de muralhas (Brito, _loc. cit._). + +Entre _S. Martinho_ e _S. Tiago_ vê-se na carta geodesica um _crasto_, a +O. da estrada real; isto é no parallelo de Ovar. Será aquelle a que +Pinho Leal chama Castro Troncal ou Francal (s. v. _C. de Cucujães_)? + +No _Arch. Port._, VI, 68, diz-se que ha em Oliveira de Azemeis um logar +de _Lações_, onde foi a antiga Lancobriga (_sic_), porque ahi se ajustam +as medidas do Itinerario e não na Feira ou Bemposta. Este sitio é +elevado e estrategico; a sua cota é de 287 metros e fica na fronte de um +promontorio fechado por duas ribeiras e no extremo de uma chapada em +cujo prolongamento se conta ainda a altitude de 274 metros. É, pelo que +se vê, um _castro_. _Lancobriga_ e que não. + +Em _Macieira de Cambra_ ha um castro (_Arch. Port._, VII, 54)[21]. + +Em _Romariz_ informa o Sr. M. Gomes que ha um _Crasto_, onde appareceram +antiqualhas da epoca romana; o que é presumivel e prova ter recebido a +influencia dos seus conquistadores. + +Os antigos chorographos portugueses não teem dado valor aos cabeços +elevados, onde se encontram os vestigios do que póde ter sido um castro, +uma citania, emfim uma estacão archeologica pre-romana, e isso não +admira; mas o facto é esse e constitue uma deficiencia na descrição dos +logares, que actualmente seria imperdoavel, e que, num caso como o que +estou versando, sonega lamentavelmente elementos aproveitaveis de estudo. + +Junto ao mar, e bastante para o norte, em Esmoriz, encontro menção de um +castro, especializado hoje pelo erudito estudo que d'elle fez +documentalmente o meu erudito amigo Sr. Pedro de Azevedo (_Arch. Port._, +III, 137). Era o castro de _Aville_, _Ouvil_, _Ubile_ e _Obil_, +denominações que se applicavam á lagoa que ainda existe, e que elle +dominava. Crê o distincto publicista que aquelle castro é o mesmo +outeiro a que o parocho depoente de 1758 chamou _Monte do Murado_, +pertencente á freguesia de S. Martinho de Mozellos. Fico porém em +duvida, pois que estando o castro _prope litore maris_ (Docs. de 1055, +1076) bem como a lagoa (Docs. de 1057 e 1090), Mozellos parece um pouco +afastado para o interior. Confessando que, sem a inspecção dos logares, +a base é instavel, em todo o caso affiguram-se-me aqui dois castros +distinctos. + +Em S.ta Maria de _Fiães_ apparece outro castro ou «povoação de Mouros» +(_Arch. Port._, IV, 250). + +E d'ahi para o norte, são frequentes na faixa atravessada pelo caminho +romano. Será algum d'estes castros o jazigo de Langobriga? + +Este inventario, tendo origem, como tem, exclusivamente bibliographica, +não póde deixar de ser omisso. A averiguação local e a informação +competente accrescentá-lo-hiam, se eu d'estes dois factores me tivesse +soccorrido. Para o meu intento, o pouco que joeirei, era colheita bastante. + + +VII + +Alem d'estas averiguadas condições de habitabilidade que se encontravam +no trajecto da via romana e que, em meu entender, conjugadas com as da +elevação e relevos de terreno, que para as populações ante-historicas +constituiam uma necessidade vital, concorreria tambem, não sem ligação +com ellas, a existencia de jazigos metalliferos. + +Nem todas as minas que enumero seriam conhecidas na antiguidade, mas em +algumas ha vestigios da remota laboração e o que tudo attesta é que a +região era mineira e portanto centripeta de populações. + +Os locaes explorados são Telhadella, Albergaria, Palhal, Milheirós, +Cucujães, Nogueira, Ossella, Palmás, Carvalhal, Pindello, Silva Escura, +Ul, Talhadas, Braçal, Coval da Mó, Malhada. + +Os minerios são cobre, tão procurado na antiguidade, chumbo, prata, etc. + +D'estes jazigos, aquelle em que são mais importantes os vestigios de +antiga lavra, é o da Malhada, uma das concessões das chamadas Minas do +Braçal. As madeiras de entivação, que foram encontradas dentro da mina, +denotam tal antiguidade que parecem fossilizadas, em consequencia da côr +negra que adquiriram. Os trabalhos antigos attingem a profundidade de 45 +metros (_Catalogo Descriptivo da Secção de Minas_, pelos Srs. Severiano +Monteiro e J. Augusto Barata, p. 188). + +A respeito dos outros, a noticia de antiga exploração é muito vaga para +que me seja licito insistir. Nas minas de Palhal tambem ha vestigios +antigos. (Cfr. Marques Gomes, _Districto de Aveiro_). + + +VIII + +Que se póde concluir das considerações que até aqui tenho encadeado? + +Por um lado, o estudo do Itinerario levou-me a aventurar na carta +geographica, largamente circunscritas, as zonas em que o calculo faz +presumir que se devem encontrar as ruinas de Talabriga; por outro lado, +a inquirição topographica e onomastica da região, tanto quanto era +possivel com a escassez de elementos, indicou-me alguns logares de +archaicas estações archeologicas do genero da que deve ter sido +Talabriga, como castro ou oppido submettido ao poder de Roma. + +Quero lembrar que _briga_ só póde corresponder a uma posição elevada, a +um outeiro ou cabeço fortificado; por onde Talabriga nunca pudera ser +Aveiro ou arredores (Vid. _Arch. Port._, XII, 42). + +Relançando novamente o olhar ao mappa, poder-se-há notar que a zona +attribuivel á situação de Talabriga[22] não está erma de +castros, antes nella se dão varias circunstancias que não posso deixar +de aproveitar para a minha these conjectural. + +_Branca_ é uma freguesia cuja séde fica na margem direita de Caima e que +é cortada pela estrada real; ha nella um logar de _Cristellos_, que só +pelo toponimo demonstra a existencia de um castro ou oppido. Mas alem +d'este, infere-se do Sr. Marques Gomes, de Fr. Bernardo de Brito (_loc. +cit._) e d-_O Arch. Port._ (II, 313, «Mem. Parochiaes») que ha um local +sito na serra de S. Julião, atravessado pela estrada real e que Brito +mais claramente chama _castello_ de S. Gião (_castello_ por _castro_), +no qual, segundo aquelles tres testimunhos, ha ruinas de muralhas e +fossos, que o Sr. M. Gomes presume serem ruinas de uma _atalaia_ e que o +parocho das _Memorias_ tambem capitula de vestigios romanos, +acrescentando muito singularmente (note-se bem o que isto póde +significar) que ahi esteve... _Langobria_ (_sic_). Foi aqui que Brito +diz ter encontrado a tal pedra de _letras mal distinctas_ de que não +affiança a leitura, mas que lhe pareceu _padrão de estrada_. + +E aqui tem cabimento o que já atrás deixo dito, para absolver de fraude +consciente a noticia archivada em Fr. Bernardo de Brito. + +Parece-me pois ser neste aro, se não neste mesmo ponto, que se deverá +procurar o jazigo, não de Langobriga, mas da nossa Talabriga, e é +precisamente a estas immediações que o compasso me levou ao medir sobre +a carta a primeira secção da via romana de Coimbra a Gaia[23]. + +Não desconheço quanto de problematico isto tem antes de serem +perguntados pelo archeologo os logares, as ruinas, os vestigios e os +montes e as vozes da região, mas nem por isso o meu espirito deixa de +ficar demonstrado, até o possivel, que as cinzas de Talabriga nunca +podem estar guardadas em Aveiro. As coincidencias que acabo de notar, +não são bases frivolas. + +Só pois a inspecção directa do terreno, nas immediações da Branca, +poderá concorrer para confirmar ou destruir a minha conjectura. + +D'esta região para o norte, a via romana seguiria até Cale, mais ou +menos proxima do actual leito da estrada real; só alguns vestigios ou +referencias de documentos, como os de Grijó, e a inquirição dos logares +e tradições poderão concorrer para precisar a trajectoria d'aquella +antiga via de communicação; o caso em si, porém, é indifferente para a +questão primacial que motivou este estudo. O que é certo, é que a +estrada romana sulcava a faixa comprehendida entre a estrada real e a +linha ferrea até o vertice de Gaia. + +Ao sul de Branca e Albergaria, a directriz da via militar sente-se +escalonada nos vestigios medievaes que deixei explanados nas paginas +anteriores. _Albergaria_ denota bem que o sitio era de assiduo e antigo +transito (Viterbo, _Elucidario de palavras_, etc. s. v. _Albergaria_) +ponto necessario de passagem para quem do sul buscava o norte do país. +As _mansiones_ tinham o caracter de pousadas. + +Em tempos de lazer para obras de piedade, é que a instituição caritativa +se fundou, como implemento de uma necessidade que já existia. + +As pontes de Vouga e Marnel são indicios bem importantes da frequencia +das viagens através d'esta parte da região, afastada da costa baixa e +paludosa. São decerto obras da idade media, dos _mouros_, diz Pinho Leal +(s. v. _Marnel_ e _Vouga_). Mas os indicios pre-romanos e romanos +soletram-se nessas ruinas de muralhas, pedras lavradas, vestigios de +edifícios e toponymia, que os cabeços de Vouga e Marnel nos conservam, +segundo descrevem Brito, Pinho Leal e os parochos do sec. XVIII nos +extractos publicados pelo _Archeologo Português_. + + +IX + +O sentimento de Gaspar Barreiros (_Chorographia de alguns logares_, +MDLXI, p. 48 sgs.) era que a situação de Talabriga devia ser a actual +Cacia, especialmente na igreja de S. Julião, onde apparecem vestigios +antigos. Varios autores o seguem. + +As razões d'este illustre escritor do sec. XVI merecem alguma discussão. + +Barreiros funda-se no Itinerario e conta, no sentido d'este roteiro, as +milhas de Conimbriga para o norte. E por confirmação d'este argumento, +traz o passo de Plinio que eu já transportei a este estudo, mas com uma +differença que elle tomou de um archetypo Toletano (p. 51), declarando +porém que alguns exemplares de Plinio não são accordes com aquelle. A +lição citada é pois esta: _A Durio Lusitania incipit, Turduli veteres, +Pesuri, flummen Vacca, oppidum Vacca, oppidum Talabrica, oppidum et +flumen Minium_, etc. Esta variante demonstra a existencia de uma cidade +_Vouga_, que G. Barreiros colloca na Ponte de Vouga (p. 50 _v_). Algumas +cartas antigas reflectem esta indicação. Isto posto, G. Barreiros leva a +contagem de Conimbriga para Talabriga por espaço de 50 milhas, o que é +exacto, espaço que elle computa equivalente a 12,5 leguas e enumera: + + De Condeixa a Coimbra 2,5 leguas + De Coimbra á Mealhada 3,5 » + Da Mealhada a Avellãs 2 » + De Avellãs a Agueda 2 » + De Agueda á Ponte de Vouga 1,5[24] » + De Ponte de Vouga a Cacia 1 » + 12,5 + +«Na qual villa & igreja de sanct. Juliã nas ribeiras do Vouga situadas, +se acham vestigios antigos, s. os fundam[~e]tos de h[~u]a torre que na +memoria dos hom[~e]s inda staua quasi inteira, onde era outro tipo +segundo ficou fama de h[~u]s em outros chegauam nauios da foz do mar, +porque inda ali se acharam pedaços d'elles & anchoras iuncto da dicta +torre em h[~u]a lagoa Afora muitos vestigios & ruinas d'argamassa que +dentro em seu ambito cõprehende h[~u]a milha pouco mais ou menos» (p. 50). + +A não ser que tenhamos de recorrer a uma mudança da primitiva situação, +nós temos de procurar em Talabriga a cidade preromana, que no sec. II a. +C. Decimo Junio Bruto reduzia á miseria e á impotencia, segundo narra +Appiano. E esse oppidum teria que possuir condições estrategicas +identicas ás dos outros castros preromanos, taes como elles nos acenam +que foram escolhidos pelas populações proto-historicas; teria que +justificar o proprio designativo de caracter celtico _briga_--altura +fortificada. + +Creio poder affirmar que nada d'isto se encontra em Cacia. Alem d'isto o +proprio G. Barreiros, no dizer que, entre os vestigios antigos, +sobresaía uma torre, que ainda andava lembrada, e se topavam «ruinas de +argamassa», quasi estabelece uma chronologia, porque taes vestigios não +podem ser anteriores aos romanos; poderão attribuir-se menos á sua epoca +que ás posteriores. Para a contemporaneidade, teriamos que admittir e +demonstrar uma deslocação do primitivo assento de oppidum, como vimos; +se esses vestigios se affectam ás epocas successoras dos romanos, o +facto sae para fóra do problema e d'elle me não posso occupar. + +O principal estorvo, porém, que a opinião de Barreiros encontra, é +aquelle que eu quis descobrir e evitar, quando ajustei a medição do +itinerario a contar de Cale para o Sul e não de Aeminium para o Norte. +Evitei assim o erro de cair em Aveiro, em Esgueira e agora em Cacia, +onde muito bem podia ir passar com o roteiro romano nas mãos. + +Isto illumina-se á luz da carta. Barreiros vem seguindo, com os ouvidos +na tradição do seu tempo, o leito do caminho romano (dito mourisco) pela +Mealhada, Agueda, até á ponte de Vouga, e até aqui bem elle vem; chegado +porém a esta altura, desnorteia-se e inflecte para Oeste para fazer a +primeira estação de Itinerario em Cacia, imaginando-se em Talabriga. +Kilometricamente, creio não haver que lhe objectar. A distancia da ponte +de Vouga a Cacia é proximamente igual á que entre o mesmo ponto se nota +e a linha-zona _TT_, que eu determinei. Portanto não falseava o illustre +chorographo quinhentista a tabella do Itinerario, isto é, as 50 milhas +desde Condeixa (Conimbriga). + +Mas a precaução de começar a contagem de Cale para Talabriga, obsta ou +impede aquella inflexão e obriga a trazer o caminho numa directriz mais +desempenada para a ponte de Vouga. Volvendo os olhos á curva _TT_ do +mappa, ver-se-ha que Cacia lhe fica a distancia grande porque, com este +desvio da trajectoria normal, a medição romana perdeu espaço, atrasando-se. + +Se não fosse este meio de verificar o erro, era possivel a desorientação. + +Creio, pois, ter demonstrado pela ethnographia e pela geometria +topographica que Talabriga não póde ser collocada em Cacia, quer se olhe +á Talabriga preromana ou protohistorica, quer á romana ou historica; á +Talabriga de Appiano e D. J. Bruto ou á da epoca imperial e do Itinerario. + + +X + +Como, segundo se infere de Appiano (vid. adeante), o oppidum de +Talabriga continuou a ser habitado depois da sua rendição no sec. IV a. +C. e emfim ainda existia no sec. IV d. C., poderia succeder que elle +conseguisse resistir á vinda dos barbaros, e chegar ao dominio dos +arabes. Convinha pois consultar a geographia arabica, e o nome de +Edrisi, geographo do sec. XII, impunha-se-me logo. + +O que das suas differentes traducções se conclue, não é nada claro para +mim que ignoro o arabe, mas poderá auxiliar o estudo da questão por +parte dos arabistas. + +Ha uma edição de 1619 (Paris) com o titulo de _Geographia Nubiensis_, +que quero pôr em confronto com a traducção de Amédée Jaubert +(_Géographie d'Edrisi_, Paris 1840). + +Edrisi descreve dois caminhos de Coimbra a Santiago de Compostella: um +por terra, outro por mar. + + +Caminho por terra + + _Ed de 1619_ (trad. lat) + + «Iter autem terrestre a _Colimria_ ad _S. Jacobum_ est hujusmodi: a + _Colimbria_ ad oppidum _Aba_ stationis habetur intervallum. Ab _Aba_ + ad oppidum _Vatira_ statio. Ab hoc ad primos terminos regionum + Portugalliae, statio, pergit que iter secans terram Portugalliae + spatio diei, ibique conspicitur oppidum _Bonacar_ ad ripam fluminis + _Durii_, quod est flumen Samorae, atque illic trajiciendum cymbis ad + hoc paratis. Ab oppido ad amnem Minio, indeque ad castellum Abraca + LX M. P. duae videlicet stationes. A castello _Abraca_ ad castellum + _Tui_ stationes duae». + + --- + + O editor de 1619 diz que não ha medida certa para as _stationes_, + expressão que se referia a pousada dos viandantes. As _stationes_ + justas eram de 25 milhas, mas algumas tinham mais, outras menos. + Parece que seria o espaço que se poderia percorrer em um dia. + + + _Ed. de 1840_ (trad. fr.) + + «O itinerario por terra de Colomria (Coimbra) a S. Tiago é como + segue: de _Coimbra_ a _Abah_ (Ribadavia) (!) aldeia, uma jornada. De + _Abah_ a _Uetaria_ (Huctaria) (?) aldeia, uma jornada. D'ahi á + fronteira de Portugal, uma jornada. O caminho vae através das terras + de Portugal durante uma jornada, ao fim da qual se chega a + _Buna-Car_, aldeiasinha nas margens do _Douro_, que é o rio de + Zamora. Passa-se o rio em barcos proprios para isto. D'este logar ao + rio _Minho_ ou antes ao forte _Abraça_ (insua de Caminha) (?) 60 + milhas ou duas jornadas. Depois _Tuia_ (Tuy) cidade pouco notavel, + mas bella e numa região fertil, duas jornadas» (II, p. 232) + + --- + + No texto francês, ao vocabulo _statio_ corresponde _journée_, que eu + traduzi por _jornada_ (de um dia). + + +Temos aqui duas traducções do texto arabe, uma em frente da outra, e a +verdade é que sufficientemente se correspondem. O principal para o meu +fim seria a localização das estações de Edrisi; neste ponto o traductor +francês apenas conserva intemeratamente as tradições dos estrangeiros +quando, fallando ou escrevendo, debicam na nossa geographia. + +Nem ao diabo lembra que a Coimbra se siga... _Ribadavia_! + +A primeira estação ao deixar Coimbra é _Aba_ (ed. 1619) ou _Abah_ (ed. +1840). Poderá corresponder a _Agueda_? Jaubert desejaria falar em +_Riba-d'Agueda_! É provavel. + +A segunda estação foi interpretada por _Vatira_ (ed. 1610) e _Uetaria_ +(ed. 1840). Não sei identificar esta localidade, assim desfigurada. + +Em seguida a isto, se na versão latina parece haver uma incongruencia, +ella desapparece na traducção francesa. Através das terras de Portugal, +chega-se com um dia de viagem ás margens do Douro. Isto parece ser bem o +tradicional caminho que entesta na foz do Douro. + +Não diz o geographo arabe em que ponto da margem do Douro ficava _Bona_ +ou _Buna-car_, expressão que não sei reconhecer, mas parece-me que deve +ser a embocadura d'este rio, e é a seguinte a razão. Diz Edrisi que de +_Bona-car_ ao rio Minho são 60 milhas; ora, numa pagina anterior (p. +227) elle conta da foz do Douro á do Minho as mesmas 60 milhas. Portanto +creio que _Buna-car_ era aproximadamente em Gaia, onde depois o rio se +atravessava em barcos[25]. + +Descrevendo o mesmo _caminho por mar_, isto é, a viagem de Coimbra a +Santiago, o primeiro ponto onde diz que se abica, é a foz de +_nahr-Budhu_ (rio _Vadeo_, traduz A. Jaubert!) que corresponde ao Vouga, +rio, acrescenta, consideravel, onde entram embarcações grandes e +pequenas (II, 227). Esta aclaração parece indicar que naquelle tempo a +foz do Vouga e o lago interno serviam a uma navegação bastante activa. +Quanto ao relacionamento da antiga Talabriga com alguma das estações do +caminho medieval descrito por Edrisi, nenhuma conclusão posso tirar com +segurança. + +Com muita probalidade porém se infere d'isto que o caminho frequentado +então devia ser o que hoje corresponde á estrada real com a passagem nas +pontes medievaes de Vouga, mas emquanto não se fixarem estes dois ponto; +duvidosos, localização muito verosimil de _Aba_ ou _Abah_ em Agueda e +incerta de _Vatira_ ou _Ueturia_, o testemunho do geographo arabe apenas +serve seguramente para localizar as testas d'este caminho, estabelecer +com grande plausibilidade a tradição do caminho historico pela orla das +montanhas e revelar-nos o movimento commercial da foz do Vouga. + + +XI + +Tratando-se pesquisa dos vestigios da via romana _ab Aeminio ad Calem_, +o testemunho de Viterbo (_Elucidario_, s. v. _Estrada mourisca_) devia +ser ponderado. Diz este illustre antiquario que, nos documentos de +Grijó, se fazia larga menção de propriedades que ficavam umas da parte +de cima, outras da parte de baixo da estrada mourisca. No anno de 1148, +Trutesindo doa ao celebre mosteiro o que possuia em Brantães e em S. +Felix _subter illam Stratam Mauriscam, discurrente riuulo Cerzedo_. + +Acrescenta o sabio antiquario que a estrada era mourisca por ter sido +aberta pelos Mouros, que abandonaram a romana que vinha ali a passar +entre Lancobriga e o mar, pois que com o rodar dos annos a costa se +entupira e alteara por causa das areias e os rios estagnados não só +esterilizaram os campos, mas fecharam a passagem dos caminhos. E mais +depõe Viterbo que a estrada mourisca ia do Porto a Agueda por Azemeis, +Albergaria, Vouga, etc. + +Antes de mais: notemos esta opinião corrente, esta tradição, tão +concordante com o que eu já procurei accentuar, de que a tal estrada +_mourisca_ descia do Porto a Agueda precisamente por Azemeis, por +Albergaria e por Vouga. + +Que Viterbo lhe chamasse _mourisca_ não é de espantar; era a voz popular +que ainda hoje nos falla de Mouros sempre que tem de referir-se a povos +muito antigos, preromanos, romanos, barbaros, etc[26]. + +Mas o documento de 1148 já tratava de mourisca uma obra que não podia +ser dos Sarracenos, a esse tempo ainda no sul de Portugal. Creio não se +poder sustentar que a estrada que passava em Cerzedo era construida por +arabes; aproveitada sim, porque sendo o caminho que elles ainda +encontravam á sua disposição, devia ser aquelle que inundavam do terror +das suas algaras. + +Em que elementos se estribava Viterbo para dizer ainda que a mesma +estrada mourisca tocava em Oliveira de Azemeis, Albergaria, Vouga e +Agueda? Confesso que não os conheço, a não ser que a memoria e o uso +d'este caminho tradicional se perpetuassem através de tantos seculos e +tão profundas transformações sociaes. + +Informa Pinho Leal que na freguesia da Trofa (concelho de Agueda) ha +ainda o logar de _Mourisca_, á margem da estrada, e que o nome lhe veio +d'esta. Traduzindo _mourisco_ em _romano_, póde ser acertada a +supposição. Isto transcreveu-o elle de Viterbo, s. v. _Estrada_. + +Mais expressivo é o tópico de um sitio, perto de Lamas e junto da +estrada real; chama-se elle _Fundo da rua_. Tal rua não é outra senão a +via romana. Esta explicação affere pela que dá o _Corpus_ (II. p. 363) +com referencia a uma freguesia de Santo Estevam da Rua, onde passava uma +estrada romana (_oppido quod a via romana nomen duxit_). A 3:500 para O. +da Feira ha um sitio chamado _Rua Nova_. Aqui é que só a inspecção dos +logares poderia indicar-me o significado d'este tópico. + +Num escritor estrangeiro do sec. XVIII, lê-se uma descrição litteraria +do caminho através do campo de Aveiro, que só se entende se o +suppusermos encostado ás montanhas de leste, permittindo que se +descortine para a banda do mar toda aquella immensidade de terras +feracissimas que aquelle autor olhava como planicie encantadora +(_Annales de l'Espagne et du Portugal_, Alvares de Colmenar, Amsterdam +1741, p. 253). + +Isto demonstra que a estrada real de hoje é um caminho velho e +tradicionalmente batido para ligar Coimbra ao Porto. + +Nos _Port. Mon. Hist._ não se encontram referencias mais claras do que +esta de Viterbo e as que adduzi em nota, á antiga via romana. Compulsei +bastantes documentos d'aquella publicação e nella encontrei variadas +referencias a caminhos, mas em termos d'onde não se podia concluir cousa +alguma que indicasse o conhecimento da existencia de uma estrada da +epoca romana, considerada como tal[27]. + + +XII + +Um esclarecimento dá Viterbo que é exacto e tem importancia para a +historia d'esta região tributaria dos esteiros vacuenses. + +Retiro-me ao «entupimento» da costa que com o rodar dos annos se foi +alteando e ao «estagnamento» dos rios que esterilizava os campos e +fechava os caminhos. Esta acção do mar na costa de Aveiro tem sido um +problema technico e administrativo extremamente complicado para os +governos portugueses, não só pelas condições commerciaes de Aveiro, mas +pelo estado sanitario de toda esta região. O coração d'este problema é a +barra do Vouga. + +É difficultoso dizer o estado d'esta embocadura nos tempos que +interessam ao presente estudo. Tenho lido que, na epoca romana, entravam +a foz do Vacua embarcações de grande arqueamento (_Os portos maritimos +de Portugal_, pelo Sr. Adolfo Loureiro, II, 3). Não sei que fundamentos +póde ter esta asserção, que em todo o caso é relativa á tonelagem dos +antigos navios. + +Os geographos antigos que se referem a este rio lusitanico, não dizem +cousa d'onde se possa inferir a sua capacidade para grandes embarcações, +como aliás se tem escrito. + +O mais explicito é Estrabão (_Geographia_, liv. III, III), que vertido a +latim, diz: _Deinceps post Tagum nobilissima flumina sunt Muliadas, +parvas habens navigationes. Itidem Vacua fluvius, post quos Durius longo +fluens cursu_, etc. O geographo grego iguala o Mondego (_Muliadas_) rio +de navegação diminuta, ao Vouga, da mesma fórma (_itidem_) estuario de +diminuta navegação. E tanto mais é esta a natural hermeneutica, que o +contraste é frisante com a importancia do Douro, _longo fluens cursu_. +Estrabão escreveu no sec. I a. e d. de C.; como póde affirmar-se que no +tempo dos romanos entravam o Vouga embarcações de longo curso e a sua +foz era um porto de grande commercio e muita prosperidade? + +Ora isto vem ao intento de eu pretender que no surgidouro do Vouga não +havia nos primeiros seculos, pelo menos da epoca romana, povoação de +vulto que determinasse uma passagem forçada na via militar e um desvio +da natural directriz _ab Aeminio Calem_. E para um porto de tamanho +trafego, era pouco um simples _vicus_. + +Temos pois a affirmação estraboniana[28]. E antes? + +Menos ainda. Diz-se que em algumas minas da região metallifera de +Entre-Vouga-e-Caima tem apparecido vestigios de antigas laborações. +Apesar da falta de precisão chronologica nesta noticia, póde presumir-se +o facto até para a epoca preromana. E neste caso, a via fluvial seria a +mais pronta saida do mineiro para o commercio externo. + +Mas um óbice encontro agora. Seria consequente que este trafico +determinasse a formação de um povoado á beira-mar ou na enseada +interior. A essa gente faltaria, porém, uma cousa, que se lhes tornára +tão indispensavel, como o pão para a boca: era a segurança pessoal, era +o ninho de aguia. Com as planuras não se queriam elles. A não ser que +deroguemos os conhecimentos adquiridos no que até agora se tem encontrado. + +Alem disto, que motivos ha para tirar effeíto tambem retroactivo á +noticia de Estrabão? + +Um primorosissimo escritor[29], filho de Aveiro, evita, com +exemplar abnegação patriotica, o problema archeologico da origem +preromana da sua terra natal, mas propende á presumpção de que algum +povoado assentaria antigamente na foz do Vouga os seus lares. E enfeixa +o illustre homem de letras duas razoes: 1.ª, a geographica; 2.ª, a da +exploração do sal. Aquella parece-me menos conciliavel com a +ethnographia dos povos a que se deseja alludir, como notei. E esta? Para +o commercio, quer interno quer externo, temos ainda o mesmo senão. Os +marnôtos d'aquelle tempo onde se acoitariam[30]? + +Que, posteriormente a Estrabão, as _parvae navigationes_ crescessem em +numero e tonelagem não é impossivel, porque a vida social começava já a +fervilhar nas planicies. + +E a industria do sal, cuja utilização aliás já data dos tempos +neolithicos, poderia commercializar-se (perdão para o neologismo) d'essa +epoca em deante, se tomarmos por base da hypothese o caracter latino da +technologia[31] e o que sabemos por aquelle geographo da +importancia das salgas (_Geographie de Strabon_, por Am. Tardieu, 1886; +III-IV-2). Mas então já a via militar _ab Aeminio ad Calem_ lá estaria +antes de ser necessaria, se necessaria se pudesse considerar por motivo +do commercio externo, num porto afastado da linha natural de +communicação e posto em duvida pelo silencio dos textos, como vimos. + +Do que o Vouga seria na idade media possuimos o testemunho do geographo +arabico Edrisi (_Géographie d'Edrisi_, trad. de P. Amédée Jaubort. Paris +1840 II, 227). + +O nosso rio foi transposto para aquella lingoa por uma palavra que A. +Jaubert representa na graphia francêsa por _Boudhou_ (ou==u); e assim +conforme o texto arabico vemos que o _nahr-Budhu_ é um rio consideravel +onde navegam embarcações grandes e pequenas, e a navegação se estende a +70 milhas da sua foz. Agora já começamos a entrever uma população +occupada no trafego maritimo. + +A diplomatica tambem proporciona alguns elementos de estudo +relacionaveis com este, mas propriamente esta epoca já não interessa á +questão posta. + +Há porém, uma cousa que não posso omittir. + +É o documento n.º LXXVI dos _Port. Mon. Hist._, «Dipl. et Chartae», onde +se lê a fórma medievica de Aveiro, a qual é _alauario_, o que só por si +desmorona as hypotheses etymologicas a que varios chorographos se tem +apegado, mas revela pela primeira vez a existencia de uma povoação onde +hoje é Aveiro (assim tambem _Talabario_ e _Táveiro_. Doc. CXXVIII). + +O trabalho do mar e das aguas na desintegração de um subsolo brando e a +força do vento nos areaes movediços devem ter sido causa perenne e +inflexivel dos açoreamentos e obstrucção da navigabilidade[32]. O factor +é antigo, tão antigo quanto o póde ser, por maneira que aquella região +nunca teve, fóra das epocas geologicas, outra face topographica muito +diversa da dos nossos dias[33]. É presumivel que elevadas florestas +forrassem com sombras impenetraveis toda essa immensa orla limitada pelo +mar a Oeste e pelas montanhas a E., na região e na epoca de que me +occupo[34] como em outros pontos suppôe o Sr. Alberto Sampaio +(_Portugalia_, II, 215, art. cit.); mas isso não importa acreditar a +possibilidade da via romana por terrenos de tal especie. + +Informou-me o distincto engenheiro Sr. Mello de Matos, que, ao +proceder-se aos trabalhos de construcção de uma ponte nas proximidades +de _Vagos_, se encontrou encastoado nas areias o cavername de um navio, +que infelizmente não foi estudado. Na _Esgueira_, achara-se outro. + +Narra Pinho Leal que ha annos em Vagos se descobriu uma ponte sobre um +ribeiro que a areia das dunas entupiu completamente. Escusado é +acrescentar que a ponte foi logo capitulada de _romana_, nada menos. + +Estes factos não tem sido apenas recentemente verificados. Já vimos num +trecho, que desatei do nosso Gaspar Barreiros (p. 50) que pelas alturas +de Cacia se tem encontrado, submersos na terra, cascos de navios e +ancoras, o que radicou a crença de que as embarcações chegavam ate ahi +em tempos antigos. Esta apreciação já é do sec. XVI. + +D'este millenario ha um mappa, publicado por Abrahão Ortelius, onde se +reconhece nitidamente a bacia de Aveiro. (Vide _Theatrum orbis +terrarum_, já citado a pag. 132). + +Estes factos esclarecem o assunto e reatam a tradição de que os fundos +da ria se vão alteando com a obstrucçâo nos esgotos das correntes +fluviaes. Fr. Bernardo de Brito (_Monarchia Lusitana_, II. V. p. 130) +diz que, do tempo d'elle, Aveiro, muito concorrida de gente de mar e +pescarias, era cidade florescente[35]. + +O Sr. Cons.º Luis de Magalhães tambem entende que, tendo ahi embarcado +para uma jornada de Africa os terços da Beira, é porque o porto +consentia a arqueação das caravelas. + +D'esta epoca ha mais elementos concordantes no movimento commercial de +Aveiro e portanto no estado da sua barra. (Vid. _Os portos maritimos de +Portugal_, pelo Sr. A. Loureiro, II, 3). + +O que Barreiros conta relativamente a Cacia, encontra-se repercutido num +local situado muito mais acima sobre o Vouga. No sec. XVIII corria que +em eras passadas ainda os navios subiam aquelle estuario até a antiga +cidade de _Vacua_[36], onde depois foi a villa de Vouga e +agora mero cabeço de Vouga (_Arch. Port._, VII, 191), que aliás tende a +desapparecer, como desappareceu a de Marnel pelo impaludismo (Pinho +Leal, _Port, Ant. e Mod._, s. v. _Vouga_). + +Esta noticia, porém, deve interpretar-se com uma informação mais +minuciosa que encontro em uma obra de 1741 (_Annales de l'Espagne et du +Portugal_, por Alvares de Colmenar, Amsterdam). Diz este A. que Aveiro é +uma cidade bastante consideravel, situada na testa de um pequeno golfo +que a maré estabelece na embocadura do Vouga. Este rio fórma um porto de +limitadas dimensões, onde os navios mediocres, que não demandam senão 8 +ou 9 pés de agua, podem entrar na preamar, com a direcção de pilotos do +sitio. Este A. já falla na grande producção de sal e nas fortificações +constantes apenas de uma muralha flanqueada de algumas torres. + +Na lagoa de Esmoriz, de que falla um doc. do sec. IX, (_Port. Mon. +Hist._, «Dipl. et Chart.», n.º XII), havia uma barra por onde entravam +as caravelas em antigos tempos e depois se entupiu (_Arch. Port._, IV, +144). + +O caso do cavername encontrado perto de Vagos liga-se com a noticia do +sec. XVIII, transmittida pelas _Memorias Parochiaes_, segundo as quaes o +braço da ria que existe entre Aveiro e Ilhavo dava antigamente fundo +para caravelas e agora é vadeavel (_Arch. Port._, IV, 329). + +Em Mira, numa lagoa de agua doce, conta um informador que nella se +encontram vestigios de casas, moedas e alicerces de uma parede ou +caminho que a atravessou pelo meio. Alem disto, pelo norte e poente, +tem-se açoreado (_Arch. Port._, V, 297). + +Quanto se póde deduzir d'estas noticias, o extenso delta vacuense tem +sido invadido com trabalho successivo pelas areias que causam a +obstrucção dos esteiros e a diminuição da navegabilidade. De nenhuma +noticia, porém, se póde concluir que na epoca romana o aspecto +topographico e a constituição orographica da região fosse tão diverso do +que é actualmente, que a via romana lá pudesse passar preferentemente ao +trajecto mais interno, na base da montanha, através dos castros e das +minas. + + +XIII + +De Talabriga temos uma das paginas da sua historia escrita por um autor +do meio do sec. II d. C., Appiano de Alexandria. + +É certamente este um caso particular, mas não deverá deixar de ser +considerado como uma amostra de dramas analogos que succederam com os +oppidos lusitanos, no embate das cohortes romanas. + +Talabriga, escreve Appiano, era uma das cidades (da Lusitania) que mais +frequentemente se revoltava. Esta falta de resignação, este, direi eu, +germen de patriotismo ou melhor de municipalismo, não podia +tranquillizar Decimo Junio Bruto, que julgou que o caso era de reclamar +a sua presença no local da cidade. Partiu com numerosa gente, e ao seu +apparecimento responderam os irrequietos Talabrigenses com supplicas e o +seu incondicional abandono á discrição do conquistador. Então J. Bruto +foi energico e insaciavel, mas ao mesmo tempo teve um lanço inesperado +de generosidade. Quis fazer-lhes sentir primeiro a dureza cruel do seu +braço de guerreiro, e para isso impôs-lhe a immediata entrega dos +transfugas das hostes d'elle, certamente alliados dos romanos, a dos +prisioneiros, a de todo o armamento e ainda por cima exigiu refens. +Depois chegou a ordenar-lhes que abandonassem a cidade com suas mulheres +e filhos. Parece que o prestigio militar de J. Bruto não valia menos que +seu tino de politico e conquistador. Os Talabrigenses aprontaram-se para +obedecer alli mesmo. Mas o capitão romano queria compor-lhes um quadro +que lhes impressionasse perduravelmente a imaginação. E ia espreitar o +effeito produzido. + +Desdobrou em circulo as suas tropas e, agglomerando dentro a chusma dos +habitantes humilhados, arengou-lhes. Fez-lhes perceber que não receava a +sua turbulencia indomita, porque quantas vezes desertassem, outras +tantas elle viria combatê-los e reduzi-los com a necessaria firmeza, +incutido assim o receio e a convicção de que no momento adequado, J. +Bruto cairia sobre elles com toda a energia, o general romano quebrantou +a sua ira, satisfeito com estas objurgatorias. Mas não sem que lhes +tomasse os cavallos, os mantimentos, os dinheiros da cidade com todo o +outro material publico[37]. Isto era claramente deixá-los na +impotencia e até na penúria. E por fim J. Bruto, contra tudo quanto os +Talabrigenses podiam já esperar (_pratter spem_), restituiu-lhes a +cidade para nella continuarem a habitar. Isto passava-se já meado o sec. +II, antes de Christo (138 a. C). + +Feito isto, o conquistador regressou a Roma. + +Esta pagina da conquista da Lusitania é tanto mais importante quanto é, +com igual individuação, a unica que nos resta de historia escrita dos +oppidos lusitanos, e, embora narre um só episodio da guerra da +conquista, não deixa de ser elucidativa. + +Quando li este trecho de Appiano (_Appiani Alexandrini Rom. Historiarum +quae supersunt_. Parisiis. F. Didot. MDCCCXL), confesso que senti +amargura por não podermos ainda ir conversar na região do Vouga com as +ruinas da cidade onde estes successos crueis se desfiaram, e segredar ás +cinzas d'aquelle abrasado patriotismo que o mesmo sentimento, que +chammejou nesses lusitanos insoffridos, ainda se não arrefentára com o +soprar sobre ellas de vinte vezes cem invernos, e em mais de um dia, já +da nossa existencia nacional, elle se tem ateado em protestos bem +tumidos de calor. + +Talabriga continuou a existir e refazer-se, atravessando a epoca +imperatoria, como nos attesta: 1.º, a data a que pertence a ara de +Estorãos, sec. III-IV; 2.º, a sua inscripção no Itinerario (sec. IV). + +Que seculos lhe trouxeram o ultimo acto das suas tragedias? Os do mal +afamado frankisk barbaro ou os do pavor sarraceno mais verdadeiro e real +que aquelle, sobretudo no territorio portugalense? + +Entrevejo pois para a archeologia portuguesa este problema: sondar o +jazigo de Talabriga, verdadeiro simbolo do nosso sentimento de +independencia territorial e figura-se-me que mostrei onde com toda a +probabilidade elle se deve encontrar. Espero ter eu mesmo ensejo de +averiguar se o simples e frio raciocinio me guiou, sem desvio, até as +trincheiras historicas, que occultam os miserandos restos de Talabriga. + +Conservar-se-ha ainda evolucionado este toponimo? Responderá o +onomastico, paternalmente assistido pela philologia, não se dando o caso +mais provavel do verso susodito de Vergilio: + + _Haec tum nomina erunt, nunc sunt sine nomine terrae!_ + +Março de 1907. + + +_P. S._ No mappa do _Ortelius_, de que me soccorri a pp. 132 e 155, vejo +nova _Lancobriga_, pelo sul de Scalabis; teremos tres? (Ver _O Arch. +Port._, XII, 42). + + + [1] O brasão de Agueda ostenta num lemnisco o mote Aeminium. Mas + Coimbra tem hoje uma lapide, quo lhe dá irrecusavelmente o foro de + _civitas aeminiensis_. + + [2] Um dos autores que se destacam por tentar a determinação de + Talabriga e Langobriga (e ainda outras estações da via ab _Olisipone + Bracaram Augustam_) por um processo exacto é o Sr. J. Henriques + Pinheiro, fallecido professor do Lyceu de Bragança. Mas talvez em + consequencia de trabalhar sobre uma carta (a de Folque) muito + reduzida e de se servir da reducção de milhas a leguas, localiza + Talabriga em _Aveiro_ e Langobriga na _Feira_. Em todo o caso, não + podendo conciliar as distancias relativas a Langobriga, conclue que + ha erro nos Codices (_Estudo da Estrada Militar Romana de Braga a + Astorga_, por J. Henriques Pinheiro, Porto, 1896, p. 129). + + [3] O Sr. A. Coelho diz que a fórma verdadeira é a de Estrabão, como + o prova a moderna _Vouga_ e _Vauga_ dos documentos em baixo latim + anteriores ao sec. XII (Mélanges Graux, 1882). Vid. _Religiões de + Lusitania_, II, 28. + + [4] Nas _Noticias Archeologicas de Portugal_, de Hübner, trad. do + Visconde de Juromenha, vem um extracto do Itinerario segundo a ed. + de Parthey & Pinder (1848). Prefiro a lição _briga a brica_ de + Wesseling, ed. dos _Vetera romanorum Itineraria_, MDCCXXXV. + + [5] Não pude haver á mão as _Memorias_ d'este mesmo senhor. + + [6] Como preciosidade estrangeira, desejo referir que o aliás + eminente celtista D'Arbois de Jubainville, num estudo erudito sobre + «Les Celtes en Espagne» (_Revue Celtique_, XIV, § 8) diz, de + passagem, ser Talabriga a actual povoação de Sousa, conc. de + Alenquer! Presumo que esta incongruencia é proveniente do que + escreveu _C. Muller_ em uma nota da _Cl. Ptolemaei Geographia_ (I, + 137) a respeito de Talabriga: _Oppidum haud longe a Vouga, fluvio + circa, hod. Souza alicubi steterit. Accuratius locum definire non + licet._ Como ha mais Marias na terra, d'ahi proveio a confusão. + Veja-se Sousa a O. de Vagos. + + [7] Por partes temos: + + De Gaia á Feira 21:900 metros + Da Feira a Oliveira de Azemeis 10:900 metros + De Oliveira de Azemeis a Albergaria 18:000 metros + De Albergaria ao rio Vouga 6:800 metros + Do rio Vouga a Agueda 9:000 metros + De Agueda á Mealhada 22:000 metros + Da Mealhada a Coimbra 16:500 metros + 105:100 metros + + [8] Escreveu o autor do _Portugal Antigo e Moderno_ que a via romana + seguiria pouco mais ou menos o trajecto da linha ferrea. Assim era + preciso, se Talabriga fosse Aveiro, quer no troço ao norte, quer no + troço para sul, em attenção ás condições topographicas. Neste caso, + porém, a distancia de Coimbra a Gaia seria necessariamente pelo + menos a que hoje é por aquelle caminho; nada menos de 115 + kilometros, o que está bem longe dos 105 kilometros da via romana e + da estrada real. Num diagramma da carta indico a differença das + distancias entre Cale e Talabriga e Gaia e Aveiro pela via ferrea + (45:800 metros e 59:000 metros). + + [9] No mappa com que documento este estudo, lancei só os elementos + que me eram uteis. Tudo o mais ficou no original, a que até accresci + alguma cousa a mais por assim convir á minha demonstração. + + [10] É força porém attentar na exigua differença que no caso + presente existe entre a recta, que unisse os dois pontos extremos + (Coimbra e Gaia), e o desenvolvimento da distancia effectiva pela + estrada real, entre os mesmos pontos. Bem sei que differentes + parcellas podem dar a mesma somma, mas difficultoso seria crer que, + acertando o Itinerario na distancia total entre Aemiuium e Cale, + delinquisse nas parcellas, que vem a ser as tres secções da via + militar. Veja-se o diagramma. + + [11] Pela linha ferrea de Coimbra a Aveiro são 56 kilometros: pelo + caminho romano de Coimbra a Talabriga eram 59 kilometros. + + [12] Nada mais possivel do que um erro de informação de Plinio. Mas + poderia tambem haver aqui uma confusão entre a Talabriga do roteiro + romano e a Vacua, de que parece existirem ruinas no Cabeço de Vouga + (Cit. _Oppida restituta_, 1885). Mas o Itinerario omitte-a, o que é + apenas argumento negativo. Ainda se poderia dar o caso de _Vacua_ + não ser _mansio_ do caminho romano. Havia um codice de Plinio que + nomeava Talabriga e _Vacca_ e uma cosmographia antiga que refere + _Vacca_ (_sic_) e não Talabriga, que aliás deveria ter conhecido + pelos AA. + + Jorge Cardoso, no _Agiologio_, II, 65, quer que Vacua tenha sido em + Viseu. Peor! + + [13] Nos _Port. Mon. Hist._, «Diplom. & Chart.», vem um documento + (n.º 815 do anno de 1095) cujo teor nos não prende, mas onde se + lê:.... _Ista igitur auctoritate confissus ingressus sum et ego + densissimam silliam_ (silvam) _que ab antiquis temporibus + habitaculum erat bestiarum_.... Trata-se de arredores de Ilhavo. + + [14] Nos arredores de Aveiro ha pontos com as cotas de 15, 27, 46, + 57, 48, 38, 23, 16, 24 e 10 que correspondem a relevos suaves. Todos + estes pontos estão situados na margem esquerda do Vouga. Mas na + hipothese de Talabriga, a estação do Itinerario, ser Aveiro ou + proximidades, a estrada romana, chegada ahi, ver-se-hia forçada a + atravessar o Vouga desde Eixo para baixo, em direcção ao Norte. E + digam-me se todo esse trato de terreno, comprehendido entre a margem + direita do Vouga, desde a ponte de S. João de Loure, como vertice + meridional, e os sitios de Froços, Angeja, Formelã, Canellas e + Salreu, não eram de fazer recuar o engenheiro romano que por ahi + tentasse obter saida para o norte, em direcção a Cale, tendo outra + incomparavelmente melhor? + + [15] Tenho sempre especial satisfação quando vejo que conceitos meus + foram já formulados por escritores de outro cunho. Assim na _Revue + des Études Anciennes_ (1905, p. 389), Cam. Jullian, referindo-se a + caminhos de epocas prehistoricas, diz: _Et il résulte bien.... que + beaucoup des grandes lignes de circulation actuelle ne sont que les + héritiers des pistes tracées il y a des milliers d'années._ + + [16] Para os leitores habituaes do _Archeologo Português_, seria + ociosa esta nota; para os que porventura o assunto do presente + estudo desperte de-novo, é uma prevenção necessaria. Quando se falla + em _castros_ com supposta referencia á epoca romana, não se trata + dos _castra_, acampamentos ou abarracamentos (Saglio & Daremberg) + fortificados que as forças militares de Roma construiam em campanha: + nunca vi ruinas de nenhum d'estes _castra_, nem me consta que as + haja verificadas no pais. E comtudo os _castros_, ou _crastos_ no + fallar do povo, são abundantissimos entre nós... porque são cousas + muito differentes. Estes _castros_ são apenas uns montes com + vestigios de habitação _ante-romana_ e quasi sempre de obras de + fortificação de terra ou de muralha. Assim os castros são outeiros, + cabeços habitados e fortificados, não pelos romanos, mas contra os + romanos, pelo menos, e pertencentes aos antigos habitadores do país. + Os _castros_ devem pois aos romanos, não o seu principio, mas a sua + decadencia e o seu fim, porque foi a conquista e foi a civilização + romana que os tornou desnecessarios naquelle tempo. Como se lhes dá + então este epitheto que não vem senão causar confusões? O epitheto + encontramo-lo na toponimia local; foi o povo que conservou até hoje + esta designação que nós vamos encontrar com frequente emprego nos + documentos da idade media. É que no singular _castrum_ significou + secundariamente um castello, uma fortaleza; cita Rich o capitulo VI + da _Eneida_, onde se lê (_vv_. 771 a 776): + + Qui juvenes quantas ostentant, aspice, vires! + At qui umbrata gerunt civili tempora quercu, + Hi tibi Nomentum, et Gabios, urbemque Fidenam, + Hi Collatinas imponent montibus arces, + 775 Pometios, Castrumque Inui, Bolamque, Coramque: + Haec tum nomina erunt, nunc sunt sine nomine terrae. + + (_Oevres de Virgile_, par E. Benoist; vol. I, Hachette, 1882). + + (Trad.) _Contempla como são grandes as forças que aquelles mancebos + ostentam! Pois d'entre os que trazem a fronte sombreada pelo + carvalho civico, uns construir-te-hão Nomento, Gabios e a cidade de + Fidena, outros assentarão em montanhas as fortalezas Collatinas, + Pometios, o castello de Inuo, Bola e Cora_ (antigas povoações do + Lacio): _estes serão os nomes d'aquelles lugares, que estão agora na + terra sem nome._ + + Foi certamente d'esta accepção que derivou para o latim corrente, e + em seguida para o fallar medieval das nossas populações, a + denominação de _castro_ ou _crasto_. + + Na _Revue des Études Anciennes_ (IV, p. 43, 1902) vem uma serie de + citações para demonstrar que no fim do Imperio pela palavra + _castrum_ se designavam frequentemente as cidades fortificadas; de + entre todas extraio a seguinte de Isidoro (_Origines_, XV, 2, 13): + _Castrum antiqui dicebant oppidum loco altissimo situm_. Com + referencia a sitios nossos, temos, bibliographicamente, o conhecido + _Portumcale castrum_, de Idacio. + + Mas a par d'aquella, outras se formaram, como _castello_, + _cristêlo_, _crastêlo_ e _castrêlo_. _Castellum_ (cfr. cit. _Rev. + des Ét. Anc._) na lingua latina, era um deminutivo de _castrum_ e + applicava-se tanto a um reducto transitorio, como a um forte + permanente, quasi sempre situado em logar elevado (Saglio & + Daremberg, s. v. _Castellum_). Depois, é explicavel que a linguagem + popular prescindisse da origem não romana d'estes pontos + estrategicos, e applicasse o termo a alguns castros, talvez aos mais + deminutos. Aos mesmos montes se vêem tambem applicadas as + designações de _cividade_, mais ou menos pura, _cidadêlhe_, _coroa_ + e outras ainda. Os autores antigos usam o termo _oppidum_ applicado + a alguns d'estes centros de população (_oppidum Aeminium_). E ainda + se encontra junto ao nome originario da povoação, a modo de suffixo, + o termo de origem celtica _briga_, que tambem quer dizer castello, + altura fortificada (_Talabriga_). + + Os romanos, no nosso caso, traçando a via militar através d'estes + montes habitados, não fariam mais do que seguir um caminho historico + e uma directriz frequentada. + + [17] O parocho de Segadães (1758) informava que a antiga cidade de + _Vaca_ (_sic_) fôra assolada pelos _mouros_. Os Leitores conhecem + estes _mouros_... (_Arch. Port._, VII, 191). + + [18] Varios outros documentos d'esta região de Entre-Vouga-e-Douro + compulsei eu nesta collecção, que se reportavam a _castros_, mas não + pude localizar as referencias com a presteza que era necessaria. Até + se me deparou a fórma rara _crésto_ (_cresto ualanes_, doc. DXLIX do + anno 1077), da qual conheço outra actual no concelho de Valdevêz. + + [19] Na fé de Nascimento Silveira (_Mappa breve da Lusitania_, p. + 226), em Mancinhata, nos cruzeiros ha inscripções que ainda ninguem + entendeu. + + [20] Nos _Port. Mon. Hist._, «Dipl. et Chart.», n.º CCCCLXXI, vem um + documento que diz: _Cesari... subtus monte castro calbo..._ Cf. o + n.º CCCCLXX. Não pude averiguar se é um _Monte Calvo_ que vejo perto + de Romariz. _Cesári_ (gen. de _Cesarius_, _-ii_) deu Cesár, como + _Severi_ (_Port. Mon. Hist._, «Dipl. et Ch.», _passim_, e _Arch. + Port._, II, 252, art. do Sr. P. de Azevedo) deu Sever. + + [21] Virá de _Calambria_? pergunta A. Herculano (_Historia de + Portugal_, III, 423). Cfr. _Arch. Port._, art. do Sr. A. Cortesão, + IX, 232. Teremos aqui alguma _Calambriga_? Um thesouro de 16 argolas + de ouro é de lá. (_Arch. Port._, II, 87). + + [22] Eu não me occupo especialmente da _Langobriga_ do Itinerario, + mas é facil ver que identicos raciocinios lhe são applicaveis e em + consequencia, a situação d'este segundo oppido deveria ser na faixa + de terreno vagamente indicada pela curva _LL._ um pouco ao norte da + Feira. No meu estudo da ara de Estorãos, assentei que esta não é a + actual _Longroiva_, cuja fórma medieval era _Langobria_, (_Port. + Mon. Hist._, «Dipl. et Chart.» CCCCXX). Do que deponho a p. 141, + parece que é a algum dos castros de _Obil_ ou do _Monte do Murado_ + que deverá convir a localização de Langobriga. Este fica a 6:000 + metros para leste da lagoa. + + Para _longo-_ e _lango-_ como para _brica_ e _briga_, não encontram + difficuldade os celtistas. (_Élém. celt. dans les noms de personnes + des inscr. d'Esp._, por A. Carnoy. Luvaina 1907). + + [23] A legitimidade do processo que segui, empregando o compasso e a + escala para determinar a zona em que, segundo as indicações do + roteiro romano, deve encontrar-se o jazigo de Talabriga, tem uma + averiguação facil, apesar da estranheza que possa causar. Se eu, + collocado em Eminio, quisesse determinar a situação de Cale, cujo + anorteamento já conhecia previamente, e para isso adoptasse identico + systema, o compasso levar-me-hia a uma zona de terreno, onde não me + seria impossivel encontrar localizações compativeis com uma estação + d'aquella natureza. + + Creio todavia que nem com todos os terrenos assim se póde proceder. + + Comprova tambem a plausibilidade do resultado a circunstancia de + fazerem pequena differença a distancia em linha recta entre Coimbra + e Gaia e a rectificação da estrada entre os mesmos pontos. + + [24] ... por ser tam grande como todos sab[~e], de [~q] á prouerbio + no pouo. (_Ibid._ p. 50). Já não é só pois grande a legua da Povoa! + + [25] O escritor espanhol Eduardo Saavedra, num artigo intitulado «La + geografia árabe de Portugal» in _Revista Archeologica e Historica_, + I, 49, suppõe que o trajecto descrito por Edrisi vae de Coimbra a + Viseu e Braga «por um caminho muito frequentado», fazendo o primeiro + descanso em Avô, 45 kil. a NE. de Coimbra; o segundo em S. Miguel do + Outeiro, 10 kil. a O. de Viseu no caminho de S. Pedro do Sul; depois + chega-se ao Douro, que se passa em embarcações defronte de uma + aldeia, que é Villaboa de Quires, a E. de Penafiel. D'aqui duas + jornadas a Braga e outras duas a Tuy. + + Salvo o devido respeito, isto parece uma viagem... _à vol d'oiseau_! + + [26] Nos _Port. Mon. Hist._, «Diplom. de Chart.», apparecem mais + documentos em que se encontra esta mesma designação. Estes por + exemplo: + + N.º 67 do anno 953:... _et inde per carraria mourisca..._ (Isto era + nas vizinhanças de Villa do Conde). + + N.º 614 do anno 1083:... _et inde per via maurisca:..._ (territorio + de Arouca). + + Póde não se tratar nestes dois documentos de vias militares romanas, + como não se trata; mas nem por isso a designação deixa de ser + inexacta no seu sentido proprio. Eram antigos caminhos, anteriores + aos arabes. Aliás teriamos que admittir que os filhos do Islam + andaram por terras de Villa do Conde e de Arouca a abrir estradas em + fórma, por serem invios os territorios. + + Demonstra isto que os amanuenses do secs. X e XI já não sabiam + estremar romanos (e visigodos) de serracenos. Era pois, como hoje, o + fallar do povo. + + É tambem este o sentimento do Sr. Pedro de Azevedo (_Arch. Port._, + III, 137 sgs.). Este facto é bastante expressivo. Não passára um + seculo ainda depois da expulsão dos arabes naquella região, e a + interrupção de tradições locaes tinha sido tão intensa que a mera + conjectura tomara o logar d'aquellas, attribuindo aos muçulmanos as + obras de viação de que elles apenas tiveram a utilidade (Veja-se + _Hist. de Portugal_, por A. Herculano, III, 421). Em França não se + dava isto. Ruy de Pina na _Chronica do sr. rey D. Affonso V_ (p. + 569) diz: «E na cidade de Nimis leixou El-rey _a estrada romam_, que + vay a Avinham». + + [27] Seria longo transcrever os trechos respectivos d'esses + documentos; e nem sempre é possivel acertar a que especie de + caminhos se referem as expressões usadas nos documentos. É commum o + termo _strada_, _strata_; algumas vezes adjectivada _strata + ueredaria_ (Dipl. et Chart., n.º 174) em opposição a _alia carrale_ + (id.); _estrata de uereda_ (id. n.º 13); _in estrada qui discurrit + via de uereda_ (id. n.º 24) ou _strata maiore_ (id. n.os 563, 378 e + 549). Tambem se encontra a expressão _carreira antiqua_ (id. n.os + 620 e 639), _karraria antiqua_ (id. n.os 888), _carraria antiqua_ + (n.os 639 e 287), _carera antiqua_ (id. n.os 366). _Via de strada_ e + _strada de uiminaria_ lêem-se no doc. n.º 817 (_ob. cit._) Ainda hoje + se póde dizer _caminho de estrada_. _Carreira_ é termo agora quasi + só locativo, mas ainda se ouve no norte applicado ás largas entradas + de algumas casas antigas, precedidas de uma alameda plana; + certamente _carreira_ inclue a ideia de carro, como _carrale_. Outra + denominação que encontrei foi a de _via publica_ (_ob. cit._, n.º + 676), que parece corresponder a caminho publico. + + _Karraria antiqua_ era certamente uma estrada carreteira antiga já + naquella epoca e portanto tradicional, mas d'aqui não se póde + concluir que essa estrada fosse _via militar_ romana. Assim o doc. + n.º 570 do anno 1079 refere-se á freguesia moderna de Paçô, no + concelho do Valdevêz (_uilla Palatiolo_), onde nunca passou via + militar e onde a _carreira antiqua_ poderia bem attingir a epoca + romana. + + Alguns d'estes documentos foram indicados pelo erudito conservador + do Archivo Nacional e meu amigo o Sr. Pedro de Azevedo; outros + rebusquei-os propositamente com o auxilio do valioso trabalho do Sr. + Gama Barros, _A administração Publica em Portugal_, entre os que + pertencem á região de Entre-Vouga-e-Douro. + + [28] No mesmo pensar encontro-me com o Sr. Alberto Sampaio na + _Portugalia_, II, 216 (_As povoas maritimas do norte de Portugal_). + Assim se exprime: «As unicas povoações, vizinhas do mar, existentes + então (no tempo dos romanos), eram Calem e Portucale». + + [29] É o Sr. Conselheiro Luis de Magalhães, em _A arte e a natureza + em Portugal_, vol. IV. A descrição da ria immensa de Aveiro, com as + salinas espelhadas que a cobrem, com os seus cones alvissimos de + sal, que marchetam a planicie sem fim, é um d'estes primores de + prosa gracil e diaphana, que mais ninguem poderia escrever com igual + coração e com pulso comparavel. Parece que a seducção d'esse + panorama não me será mais intensa, quando com os olhos o vir, do que + quando o adivinhei naquellas tão poupadas paginas. + + [30] A grandíssima maioria das povoações d'estas epocas era nos + altos; ahi tem sido encontrados os seus vestigios. Para a alguma se + attribuir situação aberta como a de Aveiro, necessario seria + documentar a excepção. + + Não repugna absolutamente admitti-la no nosso caso, mas é hypothese + pura. E depois, lá temos o distinctivo _briga_. O nome da cidade + comsigo traz a natureza do seu assento. No Algarve, _Ossonoba_ e + _Balsa_, não demoravam em outeiros. (Vide _Religiões da Lusitana_ + II, 85). + + [31] _Portugalia_, II, 220, «As póvoas marítimas do norte de + Portugal», pelo Sr. Alberto Sampaio. + + [32] Explicação geologica d'estes phenomenos: «C'est après avoir + traversé les marécages du Vouga, que l'on entre dans les terrains + anciens; ce sont d'abord des schistes luisants, généralement cachés + par des dêpots superficiels: sables des dunes, graviers pliocènes et + graviers kaoliniques appartenant au Crétacique. Ces derniers ne + montent pas plus haut qu'Estarreja et le Pliocène est rarement + visible depuis la voie ferrée. Parfois ce soubassement de roches + solides n'existe pas, ou du moins ne se trouve qu'à une certaine + profondeur au-dessous du niveau de la mer; dans ce cas, la côte + subit des alternances d'accroissement et de décroissement qui + peuvent être funestes à l'homme trop empressé de s'approprier le + terrain que les sables ont gagné sur la mer; tel est le cas à + Espinho». _Promenade au Gerez (Souvenirs d'un géologue)_, por Paul + Choffat, 1895, p. 1. + + [33] Poderia aqui investigar-se das alterações da costa que possam + ter modificado o aspecto do surgidouro do Vouga. Um apello, + publicado no _Arch. Port._, II, 301, teve em resposta o silencio. + Não tratando dos factos de periodos geologicos ou indeterminados + (_Arch. Port._, VII, 274 e X, 193) pouco é o que se tem recolhido e + ás vezes antagonico. Açoreamentos em epocas historicas foram notados + na Povoa de Varzim, Villa do Conde, Fão, Esposende, Vianna, em + Setubal, no Algarve (_Portugalia_, I e II. _passim_), e eu mostro + que na faixa de Esmoriz a Mira elles se deram tambem em epoca que + não posso precisar. Num mappa que illustra o _Hisp. & Port., + Itinerarium_ de Martin Zeiler (1656) Aveiro é situada ao norte do + Vouga. E não é o unico mesmo de datas mais recentes. + + [34] Ha um documento do sec. XI que faz uma referencia aproveitavel + debaixo d'este aspecto: é o n.º DCCCXV do anno 1095 (doação á sé de + Coimbra da igreja de S. Christovam, junto a Ilhavo)... _Ista igitur + auctoritate confissus ingressus sum et ego densissimam silliamm_ + (silvam) _que ab antiquis temporibus habitaculum erat bestiarum..._ + + [35] Entre as cartas antigas que folheei, desejo destacar uma do + sec. XVII, assinada por N. Sanson. _christ. Gall. regis geografo_ + (_Hispaniae antiquae tabulae_, 1641). O mappa de Portugal antigo + individúa, na região que andei estudando, _Conimbrica_ em Condeixa, + _Aeminium_ na margem norte do Mondego; _Talabriga_ ao N. do Vouga, + um pouco afastada do estuario, a 20 ou 25 _milliaria_ da foz do + Vouga (isto é, na altura onde eu localizo esta povoação); e, + seguindo no mesmo rumo, _Langobriga_. É na Bibliotheca Nacional, um + grosso volume _in-folio_, recentemente encadernado com o + dístico--Mappas--e sem frontispicio. + + [36] Esta lenda porém reproduz-se em mais localidades, fóra d'esta + região. + + [37] ... _pecuniis publicis, cum reliquo publico apparatu, ademtis_. + Isto dá bem a entender que havia uma perfeita organização politica, + e n'ella se estribava a organização de uma defesa militar contra a + invasão romana. + + + + +DO AUTOR + + +ESTUDOS DO ALTO-MINHO (SERIE 1.ª) + + +Publicados + +I--Epigraphia christiano-latina (uma inscripção inedita). + +II--Um passeio archeologico no concelho dos Arcos de Valdevez (visita ás +antas da serra do Soajo). + +III--Machados de duplo anel. + +IV--Ainda a inscripção christã de S. Pedro de Arcos. + +V--Uma primicia de epigraphia funeraria romana. + +VI--O portico da matriz de Monção. + +VII--Um castro com muralhas. + +VIII--Um erro de amanuense nas inquirições de D. Affonso III (C. Sancti +Salvatoris Darcus). + +IX--Um Grovio autentico (cippo de Villa-Mou). + +X--Ara celtiberica da epoca romana (um novo «Genio»). + + +PAGINAS ARCHEOLOGICAS (SERIE 2.ª) + + +Publicadas + +I--Estatueta ithyphallica. + +II--Cemiterio da epoca romana em Vianna do Alemtejo. + +III--Situação conjectural de Talabriga. + + + + + +End of Project Gutenberg's Paginas Archeologicas, by Felix Alves Pereira + +*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30071 *** |
