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diff --git a/30070-h/30070-h.htm b/30070-h/30070-h.htm new file mode 100644 index 0000000..16c44cd --- /dev/null +++ b/30070-h/30070-h.htm @@ -0,0 +1,605 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN"> +<html lang="pt"> +<head> + <title>Bom senso e Bom Gosto, por Anthero de Quental</title> + <meta name="Author" content="Anthero de Quental"> + <meta name="Publisher" content="Imprensa da Universidade"> + <meta name="Date" content="1865"> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=UTF-8"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + font-family: sans-serif; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1em;} + h1, h2, h3, h4 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + #corpo p.centrado {text-align: center; text-indent: 0;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + </style> +</head> + +<body> +<div>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30070 ***</div> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center; border: solid 1px #000; padding: 1em;"> +<p style="font-size: 1.8em;">BOM-SENSO E BOM-GOSTO</p> + +<hr style="width: 30%;"> + +<p style="font-size: 1.8em;">CARTA</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">AO EXCELENTISSIMO SENHOR</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">POR</p> + +<p style="font-size: 1em;"><strong>Anthero do Quental</strong></p> + +<p> </p> +<p> </p> + +<hr style="width: 30%;"> +<p> </p> +<p> </p> + +<p>NOVEMBRO DE 1865</p> +</div> + +<p> </p> + +<div style="text-align: center;"> +<p style="font-size: 1.8em;">BOM-SENSO E BOM-GOSTO</p> + +<hr style="width: 30%;"> + +<p style="font-size: 1.8em;">CARTA</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">AO EXCELENTISSIMO SENHOR</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">POR</p> + +<p style="font-size: 1em;"><strong>Anthero do Quental</strong></p> + +<p> </p> +<p> </p> + +<hr style="width: 30%;"> +<p> </p> +<p> </p> + +<p>COIMBRA<br> +<small>IMPRENSA DA UNIVERSIDADE</small><br> +1865</p> +</div> + +<p> </p> + +<div id="corpo"> +<p><span class="pn">{3}</span></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: right;">Ex.<sup>mo</sup> Sr.</p> + +<p> </p> + +<p>Acabo de ler um escripto<a name="tex2html1" +href="#foot103"><sup>[1]</sup></a> de v. ex.ª onde, a proposito de faltas de +bom-senso e de bom-gosto, se falla com aspera censura da chamada eschola +litteraria de Coimbra, e entre dois nomes illustres<a name="tex2html2" +href="#foot53"><sup>[2]</sup></a> se cita o meu, quasi desconhecido e sobre +tudo desambicioso.</p> + +<p>Esta minha obscuridade faz com que a parte de censura que me cabe seja sobre +maneira diminuta: em quanto que, por outro lado, a minha despreoccupação de +fama litteraria, os meus habitos de espirito e o meu modo de vida, me tornam +essa mesma pequena parte que me resta tão indifferente, que é como que se a +nada a reduzissemos.</p> + +<p>Estas circumstancias pareceriam sufficiente para me imporem um silencio, ou +modesto ou desdenhoso. Não o são, todavia. Eu tenho para fallar dois fortes +motivos. Um é a liberdade absoluta que a minha posição independentissima de +homem sem pretenções litterarias me dá para julgar desassombradamente, com +justiça, com frieza, com boa-fé. Como não pretendo logar algum, mesmo infimo, +na brilhante phalange<span class="pn">{4}</span> das reputações contemporaneas, +é por isso que, estando de fóra, posso como ninguem avaliar a figura, a +destreza e o garbo ainda dos mais luzidos chefes do glorioso esquadrão. Posso +tambem fallar livremente. E não é esta uma pequena superioridade neste tempo de +conveniencias, de precauções, de reticencias—ou, digamos a cousa pelo seu +nome, de hypocrisia e falsidade. Livre das vaidades, das ambições, das miserias +d'uma posição, que não pretendo, posso fallar nas miserias, nas ambições, nas +vaidades d'esse mundo tão extranho para mim, atravessando por meio d'ellas e +sahindo puro, limpo e innocente.</p> + +<p>A este primeiro motivo, que é um direito, uma faculdade só, accresce um +outro, e mais grave e mais obrigatorio, porque é um dever, uma necessidade +moral. É esta força desconhecida que nos leva muitas vezes, ainda contra a +vontade, ainda contra o gosto, ainda contra o interesse, a erguer a voz pelo +que julgamos a verdade, a erguer a mão pelo que acreditamos a justiça. É ella +que me manda fallar. Não que a justiça e a verdade se offendessem com v. ex.ª +ou com as suas apreciações. Verdade e justiça estão tão altas, que não têm +olhos com que vejam as pequenas cousas e os pequenos homens das infimas +questiunculas litterarias d'um ignorado canto de terra, a que ainda se chama +Portugal.</p> + +<p>Não é isso o que as offende. Mas as idéas que estão por de trás dos homens; +o mal profundo que as cousas apenas miseraveis representam; uma grande doença +moral accusada por uma pequenez intellectual; as desgraças, tanto para +reflexões lamentosas, d'esta terra, reveladas pelas miserias, tão merecedoras +de despreso, dos que cuidam dominal-a; isso é que afflige excessivamente a +razão e o sentimento, o que prende o olhar ainda o mais desdenhoso a estas +baças intrigas; isso é que levanta esta questão do raso das personalidades para +a elevar até á altura d'uma questão de principios, e que dá ás ridiculas +chufas, que entre si trocam uns tristes litteratos, todo o valor d'uma +discussão de philosophia e de historia.</p> + +<p>Sim, ex.<sup>mo</sup> sr. Eu não sei se v. ex.ª tem olhos para ver tudo +isto. Cuido que não: porque a intelligencia dos habeis, dos prudentes, dos +espertissimos é muitas vezes<span class="pn">{5}</span> cega em lhe faltando +uma cousa bem pequena, que se encontra nos simples e nos humildes—a boa-fé. +</p> + +<p>Á luz d'ella, porem, eu hei de sempre ver uma pessima acção, digna de toda a +importancia d'um castigo, nas impensadas e infelizes palavras de v. ex.ª, +dignas quando muito d'um sorriso de desdem e do esquecimento. E se eu nem +sequer me daria ao incommodo de erguer a cabeça de cima do meu trabalho para +escutar essas palavras, entendo que não perco o meu tempo, que sirvo a moral e +a verdade, censurando, verberando a deshonesta acção de v. ex.ª</p> + +<p>Porque é uma acção deshonesta. O que se ataca na eschola de Coimbra (talvez +mesmo v. ex.ª o ignore, porque ha malevolos innocentes e inconscientes), o que +se ataca não é uma opinião litteraria menos provada, uma concepção poetica mais +atrevida, um estylo ou uma idêa. Isso é o pretexto, apenas. Mas a guerra faz-se +á independencia irreverente de escriptores, que entendem fazer por si o seu +caminho, sem pedirem licença aos <em>mestres</em>, mas consultando só o seu +trabalho e a sua consciencia. A guerra faz-se ao escandalo inaudito d'uma +litteratura desaforada, que cuidou poder correr mundo sem o sello e o visto da +chancelharia dos grãos-mestres officiaes. A guerra faz-se á impiedade d'estes +hereges das lettras, que se revoltam contra a auctoridade dos papas e +pontifices, porque, ao que parece, ainda a luz de cima lhes não escreveu nas +frontes o signal da infallibilidade. Faz-se contra quem entende pensar por si e +ser só responsavel por seus actos e palavras...</p> + +<p>Agora quem move estes ridiculos combates de phrases é a vaidade ferida dos +mestres e dos pontifices; é o espirito de rotina violentamente incommodado por +mãos rudes e inconvenientes; é a banalidade que quer dormir socegada no seu +leito de ninharias; é a vulgaridade que cuida que a forçam—nós só lhe queremos +puchar as orelhas!</p> + +<p>Isto, resumido em poucas palavras, quer dizer: combatem-se os hereges da +eschola de Coimbra por causa do negro crime de sua dignidade, do atrevimento de +sua rectidão moral, do attentado de sua probidade litteraria, da impudencia e +miseria de serem independentes e pensarem<span class="pn">{6}</span> por suas +cabeças. E combatem-se por faltarem ás virtudes de respeito humilde ás vaidades +omnipotentes, de submissão estupida, de baixeza e pequenez moral e +intellectual.</p> + +<p>V. ex.ª, com a imparcialidade que todos lhe conhecemos, deve confessar que +uma guerra assim feita é não só mal feita, mas tambem pequena e miseravelmente +feita. Mas é que a eschola de Coimbra commetteu effectivamente alguma cousa +peior de que um crime—commetteu uma grande falta: <em>quiz innovar</em>. Ora, +para as litteraturas officiaes, para as reputações estabelecidas, mais +criminoso do que manchar a verdade com a baba dos sophismas, do que envenenar +com o erro as fontes do espirito publico, do que pensar mal, do que escrever +pessimamente, peior do que isto é essa falta de querer caminhar por si, de +<em>dizer</em> e não <em>repetir</em>, de <em>inventar</em> e não de +<em>copiar</em>. Por que? Porque todos os outros crimes eram contra as idêas: +haveria sempre um perdão para elles. Mas esta falta era contra as pessoas: e +essas taes são imperdoaveis. Innovar é dizer aos prophetas, aos reveladores +encartados: «ha alguma cousa que vós ignoraes; alguma cousa que nunca pensastes +nem dissestes; ha mundo além do circulo que se vê com os vossos oculos de +theatro; ha mundo maior do que os vossos systemas, mais profundo do que os +vossos folhetins; ha universo um pouco mais extenso e mais agradavel sobre tudo +do que os vossos livros e os vossos discursos.» Isto, sim, que é intoleravel! +Isto, sim, que é infame e revoltante e impio e subversivo! Contra isto, sim, ás +armas, ergamo-nos na nossa força, mostremos o que somos e o que podemos... +escrevamos tres folhetins e um prologo!...</p> + +<p>V. ex.ª fez-se chefe d'esta cruzada tão desgraçada e tão mesquinha. Não +posso senão dar-lhe os pezames por tão triste papel. Mas se eu, como homem, +desprézo e esqueço, como escriptor é que não posso calar-me; porque atacar a +independencia do pensamento, a liberdade dos espiritos, é não só offender o que +ha de mais sancto nos individuos, mas é ainda levantar mão roubadora contra o +patrimonio sagrado da humanidade—o futuro.—É seccar as nascentes da fonte +aonde as gerações futuras têm de<span class="pn">{7}</span> beber. É cortar a +raiz da arvore a que os vindoiros tinham de pedir sombra e socego. E atrophiar +as idêas e os sentimentos das cabeças e dos corações que têm de vir.</p> + +<p>O contrario d'isto tudo é que é a bella, a immensa missão do escriptor. É um +sacerdocio, um officio publico e religioso de guarda incorruptivel das idêas, +dos sentimentos, dos costumes, das obras e das palavras. Para isso toda a +altura, toda a nobreza interior são pouco ainda. Para isso toda a independencia +de espirito, toda a despreoccupação de vaidades, toda a liberdade de jugos +impostos, de mestres, de auctoridades, nunca será de mais. O mineiro quer os +braços soltos para cavar buscando o ouro entre as areias grossas. O piloto quer +os olhos desvendados para ler nos astros o caminho da náo por entre as ondas +incertas. O sacerdote quer o coração limpo de paixões, de interesses, para +aconselhar, guiar, julgar, imparcial e justo. O escriptor quer o espirito livre +de jugos, o pensamento livre de preconceitos e respeitos inuteis, o coração +livre de vaidades, incorruptivel e intemerato. Só assim serão grandes e +fecundas as suas obras: só assim merecerá o logar de censor entre os homens, +porque o terá alcançado, não pelo favor das turbas inconstantes e injustas, ou +pelo patronato degradante dos grandes e illustres, mas elevando-se naturalmente +sobre todos pela sciencia, pelo paciente estudo de si e dos outros, pela +limpeza interior d'uma alma que só vê e busca o bem, o bello, o verdadeiro.</p> + +<p>Este é o escriptor, o poeta, o apostolo. Se o obrigassem a respeitos +convencionaes, a terrores supersticiosos diante de certos homens, a espantos +cegos diante de certas cousas; se o fizessem baixar a cabeça e as costas para +entrar a porta do pantheon litterario; elle, o pobre, ficaria sempre curvo e +submisso, humilde e sem força propria, servo de alheias idêas e apostolo apenas +de palavras decoradas e vazias d'alma. Como se havia elle pois erguer, entre +seus irmãos, tão alto que seus olhos fossem uns como pharoes para todos os +outros olhos, a sua fronte uma como montanha de luz; tão alto que as palavras +de sua bocca cahissem sobre as cabeças como uma chuva benefica e fecundante? +Seria, depois das provas e das torturas, das genuflexões e das baixezas da +iniciação no gremio dos <em>senhores</em>, seria<span class="pn">{8}</span> um +aleijão e não gigante, um aborto em vez de heroe e, em vez de sobr'exceder a +todos com a fronte, andaria sumido entre elles, visitado escassamente pelo sol +e pela luz. Elle, que não soubera procurar para si o seu caminho, como poderia +elle allumiar o dos outros? Elle, humilde, como ensinaria a altivez e a +dignidade? Respeitador de conveniencias estereis, como daria o exemplo das +revoltas fecundas? Sem alma, como a insuflaria no peito dos tristes e +humilhados? Sem vontade, como resistiria ás tyrannias da opinião omnipotente, +ao capricho dos grandes, ás ambições, ás tentações?</p> + +<p>As grandes, as bellas, as boas cousas só se fazem quando se é bom, bello e +grande. Mas a condição da grandeza, da belleza, da bondade, a primeira e +indispensavel condição, não é o talento, nem a sciencia, nem a experiencia: é a +elevação moral, a virtude da altivez interior, a independencia da alma e a +dignidade do pensamento e do caracter. Nem aos <em>mestres</em>, aos que a +maioria boçal aponta como illustres, nem á opinião, á critica sem sciencia nem +consciencia das turbas, do maior numero, deve pedir conselhos e approvação, mas +só ao seu entendimento, á sua meditação, ás suas crenças. Nesta eschola do +trabalho, da dignidade, das altas convicções, se formam os homens em cujos +peitos a humanidade encontra sempre um vasto lago onde farte a sêde de verdade, +de consolações, de ensinos para a intelligencia e confortos para o coração.</p> + +<p>No peito dos outros, dos que andam de capella em capella na lida afanosa de +incensar cada dia todos os idolos, dos que fazem da gloria uma bastilha para +aventureiros levarem de assalto, e não pulpito aonde se suba com respeito e +amor, no peito d'esses não habita mais do que ambição, vaidade, endurecimento e +miseria. Esses lisongeiam os grandes; e os grandes dão-lhes a mão para que +subam, e desprezam-nos depois. Lisongeiam as maiorias; e as maiorias +inconstantes lançam-lhes no regaço um pouco de ouro e algum applauso de +momento, e depois passam e esquecem. Afagam todas as vaidades; e têm em cada +vicio humano um capital, cujo juro dissipam em quanto vivos, porque essa moeda +corrompida para mais ninguem serve. Emfim, nos quinze ou vinte annos em que dão +que<span class="pn">{9}</span> falar ás gazetas, aos botequins, aos gremios, a +todos os vadios, a todos os futeis, folgam, vivem alegres e esquecidos de tudo +quanto não seja a satisfação do que ha no homem de mais pequeno—a vaidade e o +interesse.</p> + +<p>Para os outros a obscuridade, e a miseria muita vez—mas a estima dos +melhores entre os homens pelo espirito, e, o que excede tudo, a posse d'uma +consciencia superior a quanto não seja a verdade, a justiça e a formosura. As +idêas serenas brilham-lhes na escuridão do isolamento e alumiam-lhes com uma +luz doce mas immensa toda a sua obscuridade. Dão-se a desbaratar o mal dos +outros homens, como muitos se dão a augmentar o seu bem proprio. Vivem na +região das bençãos, escutando as palavras da bôcca invisivel, e com os echos +d'essa voz celeste compõem os hymnos de esperança e de amor para a humanidade. +Morrem; mas morrem nobres e puros. Tudo isto porque foram independentes. Não +pertenceram a corrilhos; não elogiaram ninguem para que os elogiassem a elles; +não incensaram os fetiches dos ridiculos pagodes litterarios. Foram honrados. +Foram simples.</p> + +<p>A estes taes chamo eu poetas. Porque nos ensinam o bem. Porque são originaes +e dizem sempre alguma cousa nova á nossa curiosidade de saber. Porque dão com a +elevação das vidas confirmação á sublimidade dos escriptos. Porque são tão +poeticos como os seus poemas. Porque vão adiante abrindo á luz e ao amor novos +horisontes. Porque não conhecem ambições nem orgulhos. Porque têm a cabeça do +genio e o coração da innocencia. É por isso tudo que lhes chamo poetas.</p> + +<p>Os outros adoram a <em>palavra</em>, que illude o vulgo, e desprezam a +<em>idêa</em>, que custa muito e nada luz. São apostolos do diccionario, e têm +por evangelho um tractado de metrificação. Fazem da poesia o instrumento de +suas vaidades. Pregam o bem por uso e convenção litteraria, porque se presta á +declamação poetica, mas practicam o egoismo por indole e por vontade. Fazem-nos +descrer da grandeza humana, porque são uns sophismas que nos mostram a pequenez +e a má fé aonde as apparencias são todas de nobreza. Preferem imitar a +inventar; e a imitar preferem ainda traduzir. Repetem o que está dicto ha mil +annos, e<span class="pn">{10}</span> fazem-nos duvidar se o espirito humano +será uma esteril e constante banalidade. São os enfeitadores das ninharias +luzidias. Põem os nadas em pé para parecerem alguma cousa. São os idolos +litterarios da multidão que mal sabe ler. São os philosophos queridos da turba +que nunca pensou. São, emfim, genios no Brasil como v. ex.ª</p> + +<p>Estes taes escusam da nobreza e da dignidade: têm a habilidade e a finura. +Para a obra que fazem, isso lhes basta. Mas a obra, ex.<sup>mo</sup> sr., é que +é uma obra vulgar: bem feita para agradar ao ouvido, mas esteril para o +espirito. Sôa bem, mas não ensina nem eleva. Ora a humanidade precisa que a +levantem e que a doutrinem. São, pois, necessarias outras e melhores obras.</p> + +<p>Mas, se já alguma hora da historia impoz aos que fallam alto entre os povos +obrigações de seriedade, de profunda abnegação, de sacrificio do <em>eu</em> ás +tristezas e miserias da humanidade, de trabalho e silencioso pensamento; se +alguma hora lhes mandou serem graves, puros, crentes, é certamente esta do dia +de hoje, da edade de transformação dolorosa, de scepticismo, de abaixamento +moral, de descrença, que é o nosso seculo. Refundem-se as crenças antigas. +Geram-se com esforço novas idêas. Desmoronam-se as velhas religiões. As +instituições do passado abalam-se. O futuro não apparece ainda. E, entre estas +duvidas, estes abalos, estas incertezas, as almas sentem-se menores, mais +tristes, menos ambiciosas de bem, menos dispostas ao sacrifício e ás abnegações +da consciencia. Ha toda uma humanidade em dissolução, de que é preciso extrahir +uma humanidade viva, sã, crente e formosa.</p> + +<p>Para este grande trabalho é que se querem os grandes homens. Sahirão esses +heroes das academias litterarias? das arcadias? das sinecuras opulentas? dos +corrilhos do elogio-mutuo? Sahirão as aguias das capoeiras? Saltarão as idêas +salvadoras do choque das maledicencias e dos doestos? Nascerão as dedicações do +casamento das vaidades? Darão a grande novidade os ledores de Horacio? +Inventarão as novas formulas os que decoram as phrases rabugentas dos livros +bolorentos que chamam classicos? E os Socrates e os Epictetos descerão para as +suas missões das cadeiras almofadadas, das rendosas conezias litterarias, das +prebendas, das explorações?<span class="pn">{11}</span></p> + +<p>Fóra d'essa atmosphera corrupta, e, quando não corrupta, pelo menos +esterilisadora, é mais provavel encontrarem-se as condições que precisam para +viver e crescer os homens uteis e necessarios ás transformações do espirito +humano.</p> + +<p>Não é traduzindo os velhos poetas sensualistas da Grecia e de Roma;<a +name="tex2html3" href="#foot75"><sup>[3]</sup></a> requentando fabulas insossas +diluidas em milhares de versos semsabores;<a name="tex2html4" +href="#foot76"><sup>[4]</sup></a> não é com idyllios grotescos sem expressão +nem originalidade, com allusões mythologicas que já faziam bocejar nossos +avós;<a name="tex2html5" href="#foot77"><sup>[5]</sup></a> com phrases e +sentimentos postiços de academico e rhetorico;<a name="tex2html6" +href="#foot78"><sup>[6]</sup></a> com visualidades infantis e puerilidades +vãs;<a name="tex2html7" href="#foot79"><sup>[7]</sup></a> com prosas imitadas +das algaravias mysticas de frades estonteados;<a name="tex2html8" +href="#foot80"><sup>[8]</sup></a> com banalidades;<a name="tex2html9" +href="#foot81"><sup>[9]</sup></a> com ninharias;<a name="tex2html10" +href="#foot82"><sup>[10]</sup></a> não é, sobre tudo, lisongeando o máo gosto e +as pessimas idêas das maiorias, indo atrás d'ellas, tomando por guia a +ignorancia e a vulgaridade, que se hão de produzir as ideias, as sciencias, as +crenças, os sentimentos de que a humanidade contemporanea precisa para se +reformar como uma fogueira a que a lenha vai faltando.</p> + +<p>Mas fóra de tudo isto, d'estas necedades tradicionaes, é o nevoeiro, é o +methaphysico, é o inattingivel—diz v. ex.ª</p> + +<p>Todavia, quem pensa e sabe hoje na Europa não é Portugal, não é Lisboa, +cuido eu: é Paris, é Londres, é Berlim. Não é a nossa divertida Academia das +Sciencias, que revolve, decompõe, classifica e explica o mundo dos factos e das +idêas. É o Instituto de França, é a Academia Scientifica de Berlim, são as +escholas de philosophia, de historia, de mathematica, de physica, de biologia, +de todas as sciencias e de todas as artes, em França, em Inglaterra, em +Allemanha. Pois bem: a Allemanha, a Inglaterra, a França, comprazem-se no +nevoeiro, são incomprehensiveis<span class="pn">{12}</span> e ridiculas, são +methaphysicas tambem. As tres grandes nações pensantes são risiveis deante da +critica fradesca do sr. Castilho. Os grandes genios modernos são grotescos e +despreziveis aos olhos baços do banal metrificador portuguez.</p> + +<p>O grande espirito philosophico do nosso tempo, a grande creação original, +immensa da nossa edade, não passa de confusão e embroglio desprezivel para o +professor de ninharias, que cuida que se fustiga Hegel, Stuart Mill, Augusto +Comte, Herder, Wolff, Vico, Michelet, Proudhon, Littré, Feuerbach, Creuzer, +Strauss, Taine, Renan, Buchner, Quinet, a philosophia allemã, a critica +franceza, o positivismo, o naturalismo, a historia, a methaphysica, as immensas +creações da alma moderna, o espirito mesmo da nossa civilisação.... que se +fustiga tudo isto e se ridicularisa e se derriba com a mesma sem-cerimonia com +que elle dá palmatoadas nos seus meninos de 30, 40 e 50 annos, de Lisboa, do +Gremio, da Revista Contemporanea!</p> + +<p>Quem seguir tudo isto vai com o pensamento moderno; com as tendencias da +sciencia; com os resultados de trinta annos de critica; com a nova eschola +historica; com a renovação philosophica; com os pensadores; com os sabios; com +os genios; vai com a França; vai com a Allemanha—mas que importa? não vai com +o sr. Castilho! não vai com o novo methodo repentista! não vai com o moderno +folhetim portuguez!</p> + +<p>O metrificador das Cartas d'Echo diz ao pensador da Philosophia da +natureza—<em>tira-te do meu sol!</em>—O mythologo do diccionario da fabula +diz ao profundo descubridor da Symbolica—<em>és um ignorante!</em>—A +rethorica portugueza diz á sciencia, ao espirito moderno—<em>cala-te d'ahi, +papelão!</em></p> + +<p>É que tudo isto não passa de idêas. Ora ha uma cousa que o sr. Castilho +tomou á sua conta, que não deixa em paz, que nos prometteu destruir... é a +methaphysica... é o ideal...</p> + +<p>O ideal! palavra mystica; de gothica configuração; quasi impalpavel; +espiritualista; impopular; que o artigo de fundo repelle; que desacreditaria o +deputado do centro que a empregasse; que Victor Hugo adora e de que se riem os +localistas; que não chega para um folhetim e que<span class="pn">{13}</span> +enche o maior poema; immensa aos olhos dos que a vêem com os olhos fechados e +que nunca viram os que os trazem sempre arregalados; palavra pessima para uma +rima de madrigal; palavra que faz desmaiar as beatas; grotesca num botequim; +disforme numa sala; medonha numa assembleia de litteratos horacianos... +decididamente v. ex.ª devia odiar esta desgraçada palavra!</p> + +<p>O ideal quer dizer isto: desprezo das vaidades; amor desinteressado da +verdade; preoccupação exclusiva do grande e do bom; desdem do futil, do +convencional; boa fe; desinteresse; grandeza d'alma; simplicidade; nobreza; +soberano bom gosto e soberanissimo bom senso... tudo isto quer dizer esta +palavra de cinco letras—ideal.</p> + +<p>Por todos estes motivos ella é sobremaneira odiavel; ella é desprezivel por +todas estas causas; e v. ex.ª tem toda a razão, chacoteando, bigodeando, +pulverisando esse miseravel ideal.</p> + +<p>Elle, com effeito, nada do que elle é ou do que vem d'elle, serve ou pode +servir jamais para alguma cousa do que se procura na vida, do que nella +procuram os homens graves, os homens serios, os homens de senso e gosto como v. +ex.ª, que nada querem com ideaes ou com idêas, mas só com realidades e com +tactos; para captar a admiração das turbas; o applauso das multidões; para +formar um grande nome composto de pequeninas lettras; para merecer os encomios +dos grammaticões e o assombro dos burguezes; para ser das academias; das +arcadias; commendador; citado pelos brasileiros retirados do commercio; +decorado pelos directores de collegio; o Tirteu dos mercieiros e um Homero +constitucional.</p> + +<p>Para isto é que não serve o ideal. E é por isso, pela sua absurda +inutilidade, que v. ex.ª o apeia com tanta sem cerimonia do pedestal aonde, +para o adorarem, o têm posto os loucos que nunca foram nada neste mundo, nem +das academias nem do conselho de instrucção publica, um Christo, um Socrates, +um Homero...</p> + +<p>Por isso é que v. ex.ª faz muito bem em o destruir, a esse pobre diabo do +ideal; de o pôr fóra de casa a bofetões; de o bannir das suas obras, que não +haver por lá nem a mais leve sombra d'elle. Agradam a todos assim. Os +versos<span class="pn">{14}</span> de v. ex.ª não têm ideal—mas começam por +letra pequena. As suas criticas não têm idêas—mas têm palavras quantas bastem +para um diccionario de synonimos. Os seus poemas lyricos não são methaphysicos, +não precisam d'uma excessiva attenção, de esforços de pensamento para se +comprehenderem—e têm a vantagem de não deixarem ver nem um só ideal. Nas suas +obras todas ha uma falta tão completa d'essas incomprehensibilidades, que deve +pôr muito á sua vontade os leitores que v. ex.ª têm no Brasil. V. ex.ª diz tudo +quanto se pode dizer sem idêas—boa, excellente receita para não cahir nas +nebulosidades do ideal. Os seus escriptos são optimos escriptos—menos as +idêas: e é v. ex.ª um grande homem—menos o ideal.</p> + +<p>Dante, que era um barbaro, e Shakspeare, que era um selvagem, é que +rechearam as suas obras de ideal. Victor Hugo tambem cáe muito nesse defeito. +V. ex.ª é que o tem sempre evitado cautelosamente, e por isso não é um barbaro +como Dante, nem selvagem como Shakspeare, nem um máo poeta como Victor Hugo. +Não é Dante, nem Shakspeare, nem Hugo—mas é amigo do sr. Viale, que falla +latim como Mevio e Bavio.</p> + +<p>Mas, ex.<sup>mo</sup> sr., será possivel viver sem idêas? Esta é que é a +grande questão. Em Lisboa, no curso de lettras, na academia, no conselho +superior, no gremio, nos saraus de v. ex.ª, dizem-me que sim, e que é mesmo uma +condição para viver bem. Fóra de Lisboa, isto é, no resto do mundo, em Paris, +Berlim, Londres, Turim, Goettingue, New-York, Boston, paizes mais +desfavorecidos da sorte, na velha Grecia tambem e mesmo na Roma antiga, é que +nunca poderam passar sem essas magnificas inutilidades. Ellas o muito que têm +feito é servirem de entretenimento aos visionarios como Christo (um metaphysico +bem nebuloso), como Socrates, como Çakia-Mouni, como Mahomet, como Confucio e +outros sujeitos de nenhuma consideração social, que se entretinham fazendo +systemas com ellas, e com os systemas religiões, e com as religiões povos, e +com os povos civilisações, e com as civilisações codigos, leis, sentimentos, +amores, paixões, crenças, a alma emfim da humanidade, cousa que se não vê nem +rende, e é tambem inutil e incomprehensivel. Eis ahi o mais a que as idêas +têm<span class="pn">{15}</span> chegado. Creio que pouco mais ou nada mais têm +feito do que isto.</p> + +<p>Em Lisboa é que nem isto. Não sei se tem havido quem tente introduzil-as +nessa capital. V. ex.ª é que eu tenho a certeza de que não era capaz d'essa má +acção. Por isso Lisboa não cahe como cahiram Athenas e Roma, por causa das suas +idêas, e Jerusalem e outras cidades infelizes, cujos poetas tiveram um amor +demasiado ao ideal... Uma só cousa ficou d'ellas: uma memoria grande, honrosa, +nobilissima. Cahiram, mas deram ao mundo um espectaculo raro—o espirito e a +consciencia humana triumphando da materia e brilhando no meio das ruinas como a +chamma que se alimenta da destruição da lenha d'onde sahe e que a gerou. Eu não +sei se v. ex.ª acha isto sensato e de bom gosto. Cuido que não. O que eu sei +sómente é que isto é sublime......................</p> + +<p>Paro aqui, ex.<sup>mo</sup> sr. Muito tinha eu ainda que dizer: mas temo, no +ardor do discurso, faltar ao respeito a v. ex.ª, aos seus cabellos brancos. +Cuido mesmo que já me escapou uma ou outra phrase não tão reverente e tão +lisongeira como eu desejára. Mas é que realmente não sei como hei de dizer, sem +parecer ensinar, certas cousas elementares a um homem de sessenta annos; +dizel-as eu com os meus vinte e cinco! V. ex.ª aturou-me em tempo no seu +collegio do Portico, tinha eu ainda dez annos, e confesso que devo á sua muita +paciencia o pouco francez que ainda hoje sei. Lembra-se, pois, da minha +docilidade e adivinha quanto eu desejaria agora podel-o seguir humildemente nos +seus preceitos e nos seus exemplos, em poesia e philosophia como outr'ora em +grammatica franceza, na comprehensão das verdades eternas como em outro tempo +no entendimento das fabulas de La Fontaine. Vejo, porem, com desgosto que temos +muitas vezes de renegar aos vinte e cinco annos do culto das auctoridades dos +dez; e que saber explicar bem Telemaco a crianças não é precisamente quanto +basta para dar o direito de ensinar a homens o que sejam razão e gosto. Concluo +d'aqui que a edade não a fazem os cabellos brancos, mas a madureza das idêas, o +tino e a seriedade: e, neste ponto, os meus vinte e cinco annos têm-me as +verduras de v. ex.ª convencido valerem<span class="pn">{16}</span> pelo menos +os seus sessenta. Posso pois fallar sem desacato. Levanto-me quando os cabellos +brancos de v. ex.ª passam deante de mim. Mas o travesso cerebro que está +debaixo e as garridas e pequeninas cousas, que sahem d'elle, confesso não me +merecerem nem admiração nem respeito, nem ainda estima. A futilidade num velho +desgosta-me tanto como a gravidade numa criança. V. ex.ª precisa menos +cincoenta annos de edade, ou então mais cincoenta de reflexão.</p> + +<p>É por estes motivos todos que lamento do fundo d'alma não me poder +confessar, como desejava, de v. ex.ª</p> + +<p> </p> + +<p>Coimbra 2 de Novembro de 1865.</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: right;">Nem admirador nem respeitador</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: right;"><em>Anthero do Quental.</em></p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot103" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> +No livro do sr. Pinheiro Chagas—<em>Poema da Mocidade</em>. </p> + +<p><a name="foot53" href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a> +Os srs. Theophilo Braga e Vieira de Castro. </p> + +<p><a name="foot75" href="#tex2html3"><sup>[3]</sup></a> +Allude as traducções de Ovidio e Anacreonte. </p> + +<p><a name="foot76" href="#tex2html4"><sup>[4]</sup></a> +Allude as Cartas d'Echo e Narciso.</p> + +<p><a name="foot77" href="#tex2html5"><sup>[5]</sup></a> +Allude á Primavera. </p> + +<p><a name="foot78" href="#tex2html6"><sup>[6]</sup></a> +Allude ao Tributo Portuguez na morte de Pedro V. </p> + +<p><a name="foot79" href="#tex2html7"><sup>[7]</sup></a> +Allude aos tractados de Metrificação e Mnemonica. </p> + +<p><a name="foot80" href="#tex2html8"><sup>[8]</sup></a> +Allude a todas as obras em prosa. </p> + +<p><a name="foot81" href="#tex2html9"><sup>[9]</sup></a> +Allude a todas as obras em verso. </p> + +<p><a name="foot82" href="#tex2html10"><sup>[10]</sup></a> +Allude a todas as obras junctas, prosa e verso.</p> </div> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> + + +<div style="text-align:center; border: solid 1px #000; padding: 1em;"> + +<p><em>Vende-se nas principaes livrarias... preço 100 rs.</em></p> + +<p>DO MESMO AUCTOR</p> + +<p><b>Odes Modernas</b> 1 vol. em 8.º... preço 400 rs.</p> + +<p><em>Em Lisboa na loja de livros de Lavado; Porto e Coimbra, na livraria da +Viuva Moré.</em></p> +</div> +<p> </p> + +<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30070 ***</div> +</body> +</html> |
