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diff --git a/30070-0.txt b/30070-0.txt new file mode 100644 index 0000000..c98f88b --- /dev/null +++ b/30070-0.txt @@ -0,0 +1,543 @@ +*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30070 *** + + BOM-SENSO E BOM-GOSTO + + CARTA + + AO EXCELENTISSIMO SENHOR + + ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO + + POR + + Anthero do Quental + + + + NOVEMBRO DE 1865 + + + + +BOM-SENSO E BOM-GOSTO + +CARTA + +AO EXCELENTISSIMO SENHOR + +ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO + +POR + +Anthero do Quental + + +COIMBRA +IMPRENSA DA UNIVERSIDADE +1865 + + + + + Ex.mo Sr. + + +Acabo de ler um escripto[1] de v. ex.ª onde, a proposito de +faltas de bom-senso e de bom-gosto, se falla com aspera censura da +chamada eschola litteraria de Coimbra, e entre dois nomes illustres[2] +se cita o meu, quasi desconhecido e sobre tudo desambicioso. + +Esta minha obscuridade faz com que a parte de censura que me cabe seja +sobre maneira diminuta: em quanto que, por outro lado, a minha +despreoccupação de fama litteraria, os meus habitos de espirito e o meu +modo de vida, me tornam essa mesma pequena parte que me resta tão +indifferente, que é como que se a nada a reduzissemos. + +Estas circumstancias pareceriam sufficiente para me imporem um silencio, +ou modesto ou desdenhoso. Não o são, todavia. Eu tenho para fallar dois +fortes motivos. Um é a liberdade absoluta que a minha posição +independentissima de homem sem pretenções litterarias me dá para julgar +desassombradamente, com justiça, com frieza, com boa-fé. Como não +pretendo logar algum, mesmo infimo, na brilhante phalange das +reputações contemporaneas, é por isso que, estando de fóra, posso como +ninguem avaliar a figura, a destreza e o garbo ainda dos mais luzidos +chefes do glorioso esquadrão. Posso tambem fallar livremente. E não é +esta uma pequena superioridade neste tempo de conveniencias, de +precauções, de reticencias--ou, digamos a cousa pelo seu nome, de +hypocrisia e falsidade. Livre das vaidades, das ambições, das miserias +d'uma posição, que não pretendo, posso fallar nas miserias, nas +ambições, nas vaidades d'esse mundo tão extranho para mim, atravessando +por meio d'ellas e sahindo puro, limpo e innocente. + +A este primeiro motivo, que é um direito, uma faculdade só, accresce um +outro, e mais grave e mais obrigatorio, porque é um dever, uma +necessidade moral. É esta força desconhecida que nos leva muitas vezes, +ainda contra a vontade, ainda contra o gosto, ainda contra o interesse, +a erguer a voz pelo que julgamos a verdade, a erguer a mão pelo que +acreditamos a justiça. É ella que me manda fallar. Não que a justiça e a +verdade se offendessem com v. ex.ª ou com as suas apreciações. Verdade e +justiça estão tão altas, que não têm olhos com que vejam as pequenas +cousas e os pequenos homens das infimas questiunculas litterarias d'um +ignorado canto de terra, a que ainda se chama Portugal. + +Não é isso o que as offende. Mas as idéas que estão por de trás dos +homens; o mal profundo que as cousas apenas miseraveis representam; uma +grande doença moral accusada por uma pequenez intellectual; as +desgraças, tanto para reflexões lamentosas, d'esta terra, reveladas +pelas miserias, tão merecedoras de despreso, dos que cuidam dominal-a; +isso é que afflige excessivamente a razão e o sentimento, o que prende o +olhar ainda o mais desdenhoso a estas baças intrigas; isso é que levanta +esta questão do raso das personalidades para a elevar até á altura d'uma +questão de principios, e que dá ás ridiculas chufas, que entre si trocam +uns tristes litteratos, todo o valor d'uma discussão de philosophia e de +historia. + +Sim, ex.mo sr. Eu não sei se v. ex.ª tem olhos para ver tudo isto. +Cuido que não: porque a intelligencia dos habeis, dos prudentes, dos +espertissimos é muitas vezes cega em lhe faltando uma cousa bem +pequena, que se encontra nos simples e nos humildes--a boa-fé. + +Á luz d'ella, porem, eu hei de sempre ver uma pessima acção, digna de +toda a importancia d'um castigo, nas impensadas e infelizes palavras de +v. ex.ª, dignas quando muito d'um sorriso de desdem e do esquecimento. E +se eu nem sequer me daria ao incommodo de erguer a cabeça de cima do meu +trabalho para escutar essas palavras, entendo que não perco o meu tempo, +que sirvo a moral e a verdade, censurando, verberando a deshonesta acção +de v. ex.ª + +Porque é uma acção deshonesta. O que se ataca na eschola de Coimbra +(talvez mesmo v. ex.ª o ignore, porque ha malevolos innocentes e +inconscientes), o que se ataca não é uma opinião litteraria menos +provada, uma concepção poetica mais atrevida, um estylo ou uma idêa. +Isso é o pretexto, apenas. Mas a guerra faz-se á independencia +irreverente de escriptores, que entendem fazer por si o seu caminho, sem +pedirem licença aos _mestres_, mas consultando só o seu trabalho e a sua +consciencia. A guerra faz-se ao escandalo inaudito d'uma litteratura +desaforada, que cuidou poder correr mundo sem o sello e o visto da +chancelharia dos grãos-mestres officiaes. A guerra faz-se á impiedade +d'estes hereges das lettras, que se revoltam contra a auctoridade dos +papas e pontifices, porque, ao que parece, ainda a luz de cima lhes não +escreveu nas frontes o signal da infallibilidade. Faz-se contra quem +entende pensar por si e ser só responsavel por seus actos e palavras... + +Agora quem move estes ridiculos combates de phrases é a vaidade ferida +dos mestres e dos pontifices; é o espirito de rotina violentamente +incommodado por mãos rudes e inconvenientes; é a banalidade que quer +dormir socegada no seu leito de ninharias; é a vulgaridade que cuida que +a forçam--nós só lhe queremos puchar as orelhas! + +Isto, resumido em poucas palavras, quer dizer: combatem-se os hereges da +eschola de Coimbra por causa do negro crime de sua dignidade, do +atrevimento de sua rectidão moral, do attentado de sua probidade +litteraria, da impudencia e miseria de serem independentes e pensarem +por suas cabeças. E combatem-se por faltarem ás virtudes de respeito +humilde ás vaidades omnipotentes, de submissão estupida, de baixeza e +pequenez moral e intellectual. + +V. ex.ª, com a imparcialidade que todos lhe conhecemos, deve confessar +que uma guerra assim feita é não só mal feita, mas tambem pequena e +miseravelmente feita. Mas é que a eschola de Coimbra commetteu +effectivamente alguma cousa peior de que um crime--commetteu uma grande +falta: _quiz innovar_. Ora, para as litteraturas officiaes, para as +reputações estabelecidas, mais criminoso do que manchar a verdade com a +baba dos sophismas, do que envenenar com o erro as fontes do espirito +publico, do que pensar mal, do que escrever pessimamente, peior do que +isto é essa falta de querer caminhar por si, de _dizer_ e não _repetir_, +de _inventar_ e não de _copiar_. Por que? Porque todos os outros crimes +eram contra as idêas: haveria sempre um perdão para elles. Mas esta +falta era contra as pessoas: e essas taes são imperdoaveis. Innovar é +dizer aos prophetas, aos reveladores encartados: «ha alguma cousa que +vós ignoraes; alguma cousa que nunca pensastes nem dissestes; ha mundo +além do circulo que se vê com os vossos oculos de theatro; ha mundo +maior do que os vossos systemas, mais profundo do que os vossos +folhetins; ha universo um pouco mais extenso e mais agradavel sobre tudo +do que os vossos livros e os vossos discursos.» Isto, sim, que é +intoleravel! Isto, sim, que é infame e revoltante e impio e subversivo! +Contra isto, sim, ás armas, ergamo-nos na nossa força, mostremos o que +somos e o que podemos... escrevamos tres folhetins e um prologo!... + +V. ex.ª fez-se chefe d'esta cruzada tão desgraçada e tão mesquinha. Não +posso senão dar-lhe os pezames por tão triste papel. Mas se eu, como +homem, desprézo e esqueço, como escriptor é que não posso calar-me; +porque atacar a independencia do pensamento, a liberdade dos espiritos, +é não só offender o que ha de mais sancto nos individuos, mas é ainda +levantar mão roubadora contra o patrimonio sagrado da humanidade--o +futuro.--É seccar as nascentes da fonte aonde as gerações futuras têm +de beber. É cortar a raiz da arvore a que os vindoiros tinham de +pedir sombra e socego. E atrophiar as idêas e os sentimentos das cabeças +e dos corações que têm de vir. + +O contrario d'isto tudo é que é a bella, a immensa missão do escriptor. +É um sacerdocio, um officio publico e religioso de guarda incorruptivel +das idêas, dos sentimentos, dos costumes, das obras e das palavras. Para +isso toda a altura, toda a nobreza interior são pouco ainda. Para isso +toda a independencia de espirito, toda a despreoccupação de vaidades, +toda a liberdade de jugos impostos, de mestres, de auctoridades, nunca +será de mais. O mineiro quer os braços soltos para cavar buscando o ouro +entre as areias grossas. O piloto quer os olhos desvendados para ler nos +astros o caminho da náo por entre as ondas incertas. O sacerdote quer o +coração limpo de paixões, de interesses, para aconselhar, guiar, julgar, +imparcial e justo. O escriptor quer o espirito livre de jugos, o +pensamento livre de preconceitos e respeitos inuteis, o coração livre de +vaidades, incorruptivel e intemerato. Só assim serão grandes e fecundas +as suas obras: só assim merecerá o logar de censor entre os homens, +porque o terá alcançado, não pelo favor das turbas inconstantes e +injustas, ou pelo patronato degradante dos grandes e illustres, mas +elevando-se naturalmente sobre todos pela sciencia, pelo paciente estudo +de si e dos outros, pela limpeza interior d'uma alma que só vê e busca o +bem, o bello, o verdadeiro. + +Este é o escriptor, o poeta, o apostolo. Se o obrigassem a respeitos +convencionaes, a terrores supersticiosos diante de certos homens, a +espantos cegos diante de certas cousas; se o fizessem baixar a cabeça e +as costas para entrar a porta do pantheon litterario; elle, o pobre, +ficaria sempre curvo e submisso, humilde e sem força propria, servo de +alheias idêas e apostolo apenas de palavras decoradas e vazias d'alma. +Como se havia elle pois erguer, entre seus irmãos, tão alto que seus +olhos fossem uns como pharoes para todos os outros olhos, a sua fronte +uma como montanha de luz; tão alto que as palavras de sua bocca cahissem +sobre as cabeças como uma chuva benefica e fecundante? Seria, depois das +provas e das torturas, das genuflexões e das baixezas da iniciação no +gremio dos _senhores_, seria um aleijão e não gigante, um aborto em +vez de heroe e, em vez de sobr'exceder a todos com a fronte, andaria +sumido entre elles, visitado escassamente pelo sol e pela luz. Elle, que +não soubera procurar para si o seu caminho, como poderia elle allumiar o +dos outros? Elle, humilde, como ensinaria a altivez e a dignidade? +Respeitador de conveniencias estereis, como daria o exemplo das revoltas +fecundas? Sem alma, como a insuflaria no peito dos tristes e humilhados? +Sem vontade, como resistiria ás tyrannias da opinião omnipotente, ao +capricho dos grandes, ás ambições, ás tentações? + +As grandes, as bellas, as boas cousas só se fazem quando se é bom, bello +e grande. Mas a condição da grandeza, da belleza, da bondade, a primeira +e indispensavel condição, não é o talento, nem a sciencia, nem a +experiencia: é a elevação moral, a virtude da altivez interior, a +independencia da alma e a dignidade do pensamento e do caracter. Nem aos +_mestres_, aos que a maioria boçal aponta como illustres, nem á opinião, +á critica sem sciencia nem consciencia das turbas, do maior numero, deve +pedir conselhos e approvação, mas só ao seu entendimento, á sua +meditação, ás suas crenças. Nesta eschola do trabalho, da dignidade, das +altas convicções, se formam os homens em cujos peitos a humanidade +encontra sempre um vasto lago onde farte a sêde de verdade, de +consolações, de ensinos para a intelligencia e confortos para o coração. + +No peito dos outros, dos que andam de capella em capella na lida afanosa +de incensar cada dia todos os idolos, dos que fazem da gloria uma +bastilha para aventureiros levarem de assalto, e não pulpito aonde se +suba com respeito e amor, no peito d'esses não habita mais do que +ambição, vaidade, endurecimento e miseria. Esses lisongeiam os grandes; +e os grandes dão-lhes a mão para que subam, e desprezam-nos depois. +Lisongeiam as maiorias; e as maiorias inconstantes lançam-lhes no regaço +um pouco de ouro e algum applauso de momento, e depois passam e +esquecem. Afagam todas as vaidades; e têm em cada vicio humano um +capital, cujo juro dissipam em quanto vivos, porque essa moeda +corrompida para mais ninguem serve. Emfim, nos quinze ou vinte annos em +que dão que falar ás gazetas, aos botequins, aos gremios, a todos os +vadios, a todos os futeis, folgam, vivem alegres e esquecidos de tudo +quanto não seja a satisfação do que ha no homem de mais pequeno--a +vaidade e o interesse. + +Para os outros a obscuridade, e a miseria muita vez--mas a estima dos +melhores entre os homens pelo espirito, e, o que excede tudo, a posse +d'uma consciencia superior a quanto não seja a verdade, a justiça e a +formosura. As idêas serenas brilham-lhes na escuridão do isolamento e +alumiam-lhes com uma luz doce mas immensa toda a sua obscuridade. Dão-se +a desbaratar o mal dos outros homens, como muitos se dão a augmentar o +seu bem proprio. Vivem na região das bençãos, escutando as palavras da +bôcca invisivel, e com os echos d'essa voz celeste compõem os hymnos de +esperança e de amor para a humanidade. Morrem; mas morrem nobres e +puros. Tudo isto porque foram independentes. Não pertenceram a +corrilhos; não elogiaram ninguem para que os elogiassem a elles; não +incensaram os fetiches dos ridiculos pagodes litterarios. Foram +honrados. Foram simples. + +A estes taes chamo eu poetas. Porque nos ensinam o bem. Porque são +originaes e dizem sempre alguma cousa nova á nossa curiosidade de saber. +Porque dão com a elevação das vidas confirmação á sublimidade dos +escriptos. Porque são tão poeticos como os seus poemas. Porque vão +adiante abrindo á luz e ao amor novos horisontes. Porque não conhecem +ambições nem orgulhos. Porque têm a cabeça do genio e o coração da +innocencia. É por isso tudo que lhes chamo poetas. + +Os outros adoram a _palavra_, que illude o vulgo, e desprezam a _idêa_, +que custa muito e nada luz. São apostolos do diccionario, e têm por +evangelho um tractado de metrificação. Fazem da poesia o instrumento de +suas vaidades. Pregam o bem por uso e convenção litteraria, porque se +presta á declamação poetica, mas practicam o egoismo por indole e por +vontade. Fazem-nos descrer da grandeza humana, porque são uns sophismas +que nos mostram a pequenez e a má fé aonde as apparencias são todas de +nobreza. Preferem imitar a inventar; e a imitar preferem ainda traduzir. +Repetem o que está dicto ha mil annos, e fazem-nos duvidar se o +espirito humano será uma esteril e constante banalidade. São os +enfeitadores das ninharias luzidias. Põem os nadas em pé para parecerem +alguma cousa. São os idolos litterarios da multidão que mal sabe ler. +São os philosophos queridos da turba que nunca pensou. São, emfim, +genios no Brasil como v. ex.ª + +Estes taes escusam da nobreza e da dignidade: têm a habilidade e a +finura. Para a obra que fazem, isso lhes basta. Mas a obra, ex.mo sr., +é que é uma obra vulgar: bem feita para agradar ao ouvido, mas esteril +para o espirito. Sôa bem, mas não ensina nem eleva. Ora a humanidade +precisa que a levantem e que a doutrinem. São, pois, necessarias outras +e melhores obras. + +Mas, se já alguma hora da historia impoz aos que fallam alto entre os +povos obrigações de seriedade, de profunda abnegação, de sacrificio do +_eu_ ás tristezas e miserias da humanidade, de trabalho e silencioso +pensamento; se alguma hora lhes mandou serem graves, puros, crentes, é +certamente esta do dia de hoje, da edade de transformação dolorosa, de +scepticismo, de abaixamento moral, de descrença, que é o nosso seculo. +Refundem-se as crenças antigas. Geram-se com esforço novas idêas. +Desmoronam-se as velhas religiões. As instituições do passado abalam-se. +O futuro não apparece ainda. E, entre estas duvidas, estes abalos, estas +incertezas, as almas sentem-se menores, mais tristes, menos ambiciosas +de bem, menos dispostas ao sacrifício e ás abnegações da consciencia. Ha +toda uma humanidade em dissolução, de que é preciso extrahir uma +humanidade viva, sã, crente e formosa. + +Para este grande trabalho é que se querem os grandes homens. Sahirão +esses heroes das academias litterarias? das arcadias? das sinecuras +opulentas? dos corrilhos do elogio-mutuo? Sahirão as aguias das +capoeiras? Saltarão as idêas salvadoras do choque das maledicencias e +dos doestos? Nascerão as dedicações do casamento das vaidades? Darão a +grande novidade os ledores de Horacio? Inventarão as novas formulas os +que decoram as phrases rabugentas dos livros bolorentos que chamam +classicos? E os Socrates e os Epictetos descerão para as suas missões +das cadeiras almofadadas, das rendosas conezias litterarias, das +prebendas, das explorações? + +Fóra d'essa atmosphera corrupta, e, quando não corrupta, pelo menos +esterilisadora, é mais provavel encontrarem-se as condições que precisam +para viver e crescer os homens uteis e necessarios ás transformações do +espirito humano. + +Não é traduzindo os velhos poetas sensualistas da Grecia e de Roma;[3] +requentando fabulas insossas diluidas em milhares de versos +semsabores;[4] não é com idyllios grotescos sem expressão nem +originalidade, com allusões mythologicas que já faziam bocejar nossos +avós;[5] com phrases e sentimentos postiços de academico e rhetorico;[6] +com visualidades infantis e puerilidades vãs;[7] com prosas imitadas das +algaravias mysticas de frades estonteados;[8] com banalidades;[9] com +ninharias;[10] não é, sobre tudo, lisongeando o máo gosto e as pessimas +idêas das maiorias, indo atrás d'ellas, tomando por guia a ignorancia e +a vulgaridade, que se hão de produzir as ideias, as sciencias, as +crenças, os sentimentos de que a humanidade contemporanea precisa para +se reformar como uma fogueira a que a lenha vai faltando. + +Mas fóra de tudo isto, d'estas necedades tradicionaes, é o nevoeiro, é o +methaphysico, é o inattingivel--diz v. ex.ª + +Todavia, quem pensa e sabe hoje na Europa não é Portugal, não é Lisboa, +cuido eu: é Paris, é Londres, é Berlim. Não é a nossa divertida Academia +das Sciencias, que revolve, decompõe, classifica e explica o mundo dos +factos e das idêas. É o Instituto de França, é a Academia Scientifica de +Berlim, são as escholas de philosophia, de historia, de mathematica, de +physica, de biologia, de todas as sciencias e de todas as artes, em +França, em Inglaterra, em Allemanha. Pois bem: a Allemanha, a +Inglaterra, a França, comprazem-se no nevoeiro, são incomprehensiveis e +ridiculas, são methaphysicas tambem. As tres grandes nações pensantes +são risiveis deante da critica fradesca do sr. Castilho. Os grandes +genios modernos são grotescos e despreziveis aos olhos baços do banal +metrificador portuguez. + +O grande espirito philosophico do nosso tempo, a grande creação +original, immensa da nossa edade, não passa de confusão e embroglio +desprezivel para o professor de ninharias, que cuida que se fustiga +Hegel, Stuart Mill, Augusto Comte, Herder, Wolff, Vico, Michelet, +Proudhon, Littré, Feuerbach, Creuzer, Strauss, Taine, Renan, Buchner, +Quinet, a philosophia allemã, a critica franceza, o positivismo, o +naturalismo, a historia, a methaphysica, as immensas creações da alma +moderna, o espirito mesmo da nossa civilisação.... que se fustiga tudo +isto e se ridicularisa e se derriba com a mesma sem-cerimonia com que +elle dá palmatoadas nos seus meninos de 30, 40 e 50 annos, de Lisboa, do +Gremio, da Revista Contemporanea! + +Quem seguir tudo isto vai com o pensamento moderno; com as tendencias da +sciencia; com os resultados de trinta annos de critica; com a nova +eschola historica; com a renovação philosophica; com os pensadores; com +os sabios; com os genios; vai com a França; vai com a Allemanha--mas que +importa? não vai com o sr. Castilho! não vai com o novo methodo +repentista! não vai com o moderno folhetim portuguez! + +O metrificador das Cartas d'Echo diz ao pensador da Philosophia da +natureza--_tira-te do meu sol!_--O mythologo do diccionario da fabula +diz ao profundo descubridor da Symbolica--_és um ignorante!_--A +rethorica portugueza diz á sciencia, ao espirito moderno--_cala-te +d'ahi, papelão!_ + +É que tudo isto não passa de idêas. Ora ha uma cousa que o sr. Castilho +tomou á sua conta, que não deixa em paz, que nos prometteu destruir... é +a methaphysica... é o ideal... + +O ideal! palavra mystica; de gothica configuração; quasi impalpavel; +espiritualista; impopular; que o artigo de fundo repelle; que +desacreditaria o deputado do centro que a empregasse; que Victor Hugo +adora e de que se riem os localistas; que não chega para um folhetim e +que enche o maior poema; immensa aos olhos dos que a vêem com os +olhos fechados e que nunca viram os que os trazem sempre arregalados; +palavra pessima para uma rima de madrigal; palavra que faz desmaiar as +beatas; grotesca num botequim; disforme numa sala; medonha numa +assembleia de litteratos horacianos... decididamente v. ex.ª devia odiar +esta desgraçada palavra! + +O ideal quer dizer isto: desprezo das vaidades; amor desinteressado da +verdade; preoccupação exclusiva do grande e do bom; desdem do futil, do +convencional; boa fe; desinteresse; grandeza d'alma; simplicidade; +nobreza; soberano bom gosto e soberanissimo bom senso... tudo isto quer +dizer esta palavra de cinco letras--ideal. + +Por todos estes motivos ella é sobremaneira odiavel; ella é desprezivel +por todas estas causas; e v. ex.ª tem toda a razão, chacoteando, +bigodeando, pulverisando esse miseravel ideal. + +Elle, com effeito, nada do que elle é ou do que vem d'elle, serve ou +pode servir jamais para alguma cousa do que se procura na vida, do que +nella procuram os homens graves, os homens serios, os homens de senso e +gosto como v. ex.ª, que nada querem com ideaes ou com idêas, mas só com +realidades e com tactos; para captar a admiração das turbas; o applauso +das multidões; para formar um grande nome composto de pequeninas +lettras; para merecer os encomios dos grammaticões e o assombro dos +burguezes; para ser das academias; das arcadias; commendador; citado +pelos brasileiros retirados do commercio; decorado pelos directores de +collegio; o Tirteu dos mercieiros e um Homero constitucional. + +Para isto é que não serve o ideal. E é por isso, pela sua absurda +inutilidade, que v. ex.ª o apeia com tanta sem cerimonia do pedestal +aonde, para o adorarem, o têm posto os loucos que nunca foram nada neste +mundo, nem das academias nem do conselho de instrucção publica, um +Christo, um Socrates, um Homero... + +Por isso é que v. ex.ª faz muito bem em o destruir, a esse pobre diabo +do ideal; de o pôr fóra de casa a bofetões; de o bannir das suas obras, +que não haver por lá nem a mais leve sombra d'elle. Agradam a todos +assim. Os versos de v. ex.ª não têm ideal--mas começam por letra +pequena. As suas criticas não têm idêas--mas têm palavras quantas bastem +para um diccionario de synonimos. Os seus poemas lyricos não são +methaphysicos, não precisam d'uma excessiva attenção, de esforços de +pensamento para se comprehenderem--e têm a vantagem de não deixarem ver +nem um só ideal. Nas suas obras todas ha uma falta tão completa d'essas +incomprehensibilidades, que deve pôr muito á sua vontade os leitores que +v. ex.ª têm no Brasil. V. ex.ª diz tudo quanto se pode dizer sem +idêas--boa, excellente receita para não cahir nas nebulosidades do +ideal. Os seus escriptos são optimos escriptos--menos as idêas: e é v. +ex.ª um grande homem--menos o ideal. + +Dante, que era um barbaro, e Shakspeare, que era um selvagem, é que +rechearam as suas obras de ideal. Victor Hugo tambem cáe muito nesse +defeito. V. ex.ª é que o tem sempre evitado cautelosamente, e por isso +não é um barbaro como Dante, nem selvagem como Shakspeare, nem um máo +poeta como Victor Hugo. Não é Dante, nem Shakspeare, nem Hugo--mas é +amigo do sr. Viale, que falla latim como Mevio e Bavio. + +Mas, ex.mo sr., será possivel viver sem idêas? Esta é que é a grande +questão. Em Lisboa, no curso de lettras, na academia, no conselho +superior, no gremio, nos saraus de v. ex.ª, dizem-me que sim, e que é +mesmo uma condição para viver bem. Fóra de Lisboa, isto é, no resto do +mundo, em Paris, Berlim, Londres, Turim, Goettingue, New-York, Boston, +paizes mais desfavorecidos da sorte, na velha Grecia tambem e mesmo na +Roma antiga, é que nunca poderam passar sem essas magnificas +inutilidades. Ellas o muito que têm feito é servirem de entretenimento +aos visionarios como Christo (um metaphysico bem nebuloso), como +Socrates, como Çakia-Mouni, como Mahomet, como Confucio e outros +sujeitos de nenhuma consideração social, que se entretinham fazendo +systemas com ellas, e com os systemas religiões, e com as religiões +povos, e com os povos civilisações, e com as civilisações codigos, leis, +sentimentos, amores, paixões, crenças, a alma emfim da humanidade, cousa +que se não vê nem rende, e é tambem inutil e incomprehensivel. Eis ahi o +mais a que as idêas têm chegado. Creio que pouco mais ou nada mais +têm feito do que isto. + +Em Lisboa é que nem isto. Não sei se tem havido quem tente introduzil-as +nessa capital. V. ex.ª é que eu tenho a certeza de que não era capaz +d'essa má acção. Por isso Lisboa não cahe como cahiram Athenas e Roma, +por causa das suas idêas, e Jerusalem e outras cidades infelizes, cujos +poetas tiveram um amor demasiado ao ideal... Uma só cousa ficou d'ellas: +uma memoria grande, honrosa, nobilissima. Cahiram, mas deram ao mundo um +espectaculo raro--o espirito e a consciencia humana triumphando da +materia e brilhando no meio das ruinas como a chamma que se alimenta da +destruição da lenha d'onde sahe e que a gerou. Eu não sei se v. ex.ª +acha isto sensato e de bom gosto. Cuido que não. O que eu sei sómente é +que isto é sublime...................... + +Paro aqui, ex.mo sr. Muito tinha eu ainda que dizer: mas temo, no ardor +do discurso, faltar ao respeito a v. ex.ª, aos seus cabellos brancos. +Cuido mesmo que já me escapou uma ou outra phrase não tão reverente e +tão lisongeira como eu desejára. Mas é que realmente não sei como hei de +dizer, sem parecer ensinar, certas cousas elementares a um homem de +sessenta annos; dizel-as eu com os meus vinte e cinco! V. ex.ª aturou-me +em tempo no seu collegio do Portico, tinha eu ainda dez annos, e +confesso que devo á sua muita paciencia o pouco francez que ainda hoje +sei. Lembra-se, pois, da minha docilidade e adivinha quanto eu desejaria +agora podel-o seguir humildemente nos seus preceitos e nos seus +exemplos, em poesia e philosophia como outr'ora em grammatica franceza, +na comprehensão das verdades eternas como em outro tempo no entendimento +das fabulas de La Fontaine. Vejo, porem, com desgosto que temos muitas +vezes de renegar aos vinte e cinco annos do culto das auctoridades dos +dez; e que saber explicar bem Telemaco a crianças não é precisamente +quanto basta para dar o direito de ensinar a homens o que sejam razão e +gosto. Concluo d'aqui que a edade não a fazem os cabellos brancos, mas a +madureza das idêas, o tino e a seriedade: e, neste ponto, os meus vinte +e cinco annos têm-me as verduras de v. ex.ª convencido valerem pelo +menos os seus sessenta. Posso pois fallar sem desacato. Levanto-me +quando os cabellos brancos de v. ex.ª passam deante de mim. Mas o +travesso cerebro que está debaixo e as garridas e pequeninas cousas, que +sahem d'elle, confesso não me merecerem nem admiração nem respeito, nem +ainda estima. A futilidade num velho desgosta-me tanto como a gravidade +numa criança. V. ex.ª precisa menos cincoenta annos de edade, ou então +mais cincoenta de reflexão. + +É por estes motivos todos que lamento do fundo d'alma não me poder +confessar, como desejava, de v. ex.ª + + +Coimbra 2 de Novembro de 1865. + + + Nem admirador nem respeitador + + + _Anthero do Quental._ + + + + [1] No livro do sr. Pinheiro Chagas--_Poema da Mocidade_. + + [2] Os srs. Theophilo Braga e Vieira de Castro. + + [3] Allude as traducções de Ovidio e Anacreonte. + + [4] Allude as Cartas d'Echo e Narciso. + + [5] Allude á Primavera. + + [6] Allude ao Tributo Portuguez na morte de Pedro V. + + [7] Allude aos tractados de Metrificação e Mnemonica. + + [8] Allude a todas as obras em prosa. + + [9] Allude a todas as obras em verso. + + [10] Allude a todas as obras junctas, prosa e verso. + + + + + +_Vende-se nas principaes livrarias... preço 100 rs._ + +DO MESMO AUCTOR + +*Odes Modernas* 1 vol. em 8.º... preço 400 rs. + +_Em Lisboa na loja de livros de Lavado; Porto e Coimbra, na livraria da +Viuva Moré._ + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Bom senso e bom gosto, carta ao ex.mo +sr. A. F. de Castilho, by Antero de Quental + +*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30070 *** |
