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diff --git a/30069-h/30069-h.htm b/30069-h/30069-h.htm new file mode 100644 index 0000000..64b8654 --- /dev/null +++ b/30069-h/30069-h.htm @@ -0,0 +1,397 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN"> +<html lang="pt"> +<head> + <title>Bom Senso e Bom Gosto, por Pinheiro Chagas</title> + <meta name="Author" content="Manuel Pinheiro Chagas"> + <meta name="Publisher" content="J. G. de Sousa Neves"> + <meta name="Date" content="1865"> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=UTF-8"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1em;} + h1, h2, h3 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + #corpo p.sinopse {margin: 0; font-size: small; text-indent: 0;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;} + blockquote {margin-left: 20%; font-size: small;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + </style> +</head> + +<body> +<div>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30069 ***</div> + +<p> </p> +<div style="border: solid 2px #000; padding: 1em; text-align: center;"> +<p style="font-size: 1.8em;">BOM-SENSO E BOM-GOSTO</p> + +<hr style="width: 20%;"> + +<p style="font-size: 1.8em;">FOLHETIM</p> + +<p style="font-size: 1.4em;">A PROPOSITO DA CARTA</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">QUE O SENHOR</p> + +<p style="font-size: 1.4em;">ANTHERO DO QUENTAL</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">DIRIGIU AO SENHOR</p> + +<p style="font-size: 1.4em;">ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO</p> + +<p>POR M. PINHEIRO CHAGAS</p> +<p> </p> +<p> </p> + +<hr style="width: 30%;"> +<p> </p> +<p> </p> + +<p>LISBOA<br> +<small>IMPRENSA DE J. G. DE SOUSA NEVES<br> +17—Rua do Caldeira—17</small></p> + +<p>1865</p> +</div> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="text-align: center;"> +<p style="font-size: 1.8em;">BOM-SENSO E BOM-GOSTO</p> + +<hr style="width: 20%;"> + +<p style="font-size: 1.8em;">FOLHETIM</p> + +<p style="font-size: 1.4em;">A PROPOSITO DA CARTA</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">QUE O SENHOR</p> + +<p style="font-size: 1.4em;">ANTHERO DO QUENTAL</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">DIRIGIU AO SENHOR</p> + +<p style="font-size: 1.4em;">ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO</p> + +<p>POR M. PINHEIRO CHAGAS</p> +<p> </p> +<p> </p> + +<hr style="width: 30%;"> +<p> </p> +<p> </p> + +<p>LISBOA<br> +<small>IMPRENSA DE J. G. DE SOUSA NEVES<br> +17—Rua do Caldeira—17</small></p> + +<p>1865</p> +</div> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div id="corpo"> +<p><span class="pn">{3}</span></p> + +<p style="text-indent: -1em; margin-left: 1em;"><em>A carta do sr. Anthero do Quental ao sr. Castilho—Motivo por que tomo a +palavra—O sr. Anthero apanhado em «negligé»—Vem a proposito o baixo-profundo +Marinozzi, o Banco Ultramarino, D. Ignez de Castro e Camões—As novidades +velhas—As porcelanas da Russia—Cita-se Nicoláo Tolentino—Entra-se na questão +do ideal—Evocação perigosa—As escolas da decadencia—Não falta Victor +Hugo—Para que servem as imagens—O manto de Hercules—As aguias e as +galinhas.</em></p> + +<p> </p> + +<p>Publicou-se ha tempo e tem-se espalhado em Lisboa uma carta dirigida pelo +sr. Anthero do Quental ao sr. Antonio Feliciano de Castilho, carta em que o +poeta das <em>Odes modernas</em> protesta violenta e virulentamente contra a +censura, irrogada pelo cantor do <em>Amor e Melancholia</em> á desastrada +escola, de que o sr. Anthero do Quental teve a triste honra de ser um dos +fundadores. Fôra lavrada essa censura no artigo de critica litteraria com que o +sr. Castilho acompanhou o pobre poema, que ahi publiquei, e que ficou d'essa +fórma illustre. Marengo e Austertilz, diz Victor Hugo no prologo das +<em>Orientaes</em>, eram duas ignoradas aldeias; immortalisou-as um dos +lampejos victoriosos da espada de Napoleão.</p> + +<p>Não intento responder á carta; ainda que a pessoa, a quem ella é dirigida, +esteja dispensada de responder pela inconveniencia do ataque, não me compete a +mim substituil-a. Penna mais competente e mais authorisada por todos os motivos +se está preparando para isso;<a name="tex2html1" +href="#foot24"><sup>[1]</sup></a> mas eu, que fui um dos primeiros a accusar de +falso, de affectado, de absurdo, de gongorico o estylo da escola de Coimbra, +hoje, que uma das pythonizas desce da tripode, e vem, em linguagem accessivel +aos mortaes, explicar os oraculos, e lançar a luva aos que zombaram dos livros +sybillinos, não desamparo o meu posto, e apresso-me a descer á liça, onde +encontro afinal um adversario. Não via até agora senão sombras impalpaveis, que +fluctuavam nas brumas das abstracções, e se revestiam de um certo +<em>ideal</em>, alugado a tanto por ode nos algibebes da Allemanha.</p> + +<p>Linguagem accessivel aos mortaes, disse eu já, e repito agora.<span +class="pn">{4}</span> «Uma das maiores provas do absurdo d'aquelle estylo, +dizia-me um dia d'estes Bulhão Pato illuminando a questão com um dos admiraveis +lampejos do seu espirito de poeta, é que até para o defenderem precisam de o +abandonarem.» Mais ainda, digo eu; a prova de que esse estylo é affectado é que +o sr. Anthero do Quental, quando o seu espirito, excitado pela critica justa ou +injusta, que lhe foi feita, se levantou de um impeto para defender-se, quando a +palavra lhe brotou espontaneamente dos labios, não procurou phraseado nebuloso, +não adoptou fórmas arrevezadas, deixou-a irromper envenenada mas vehemente, +resvalar pelo declive natural, reflectir na torrente espumosa o esplendor do +sol claro e limpido, o desanuviado azul do nosso firmamento. Apanhámol-o em +flagrante delicto de naturalidade. Surprehendemol-o antes de ir para o +toucador, sem peruca, sem carmim, sem pó de arroz. É verdade que o vimos tambem +em mangas de camisa, e de mangas arregaçadas. Mas antes isso, sr. Anthero do +Quental, antes isso do que vestir aquella casaca allemã, tão safadinha já, e +que nos quer dar por nova. <em>Innovar</em>, <em>inventar</em>, sr. Anthero do +Quental! no tempo de Henrique Heine já essa casaca estava no fio, e ainda +encontrou em Coimbra quem a arremendasse! Ah! Coimbra, <em>terra de encanto, do +Mondego amena flor</em> o que te falta são alfaiates, que não tenham só obra +feita, vinda pelo paquete de Bordeos.</p> + +<p>A carta, abstrahindo da verrina indigna do sr. Anthero do Quental, revela um +verdadeiro talento, infelizmente para o seu author. A unica desculpa, que tem +quem põe cabelleira, é ser calvo. Agora póde o sr. Anthero do Quental +voltar quando quizer ao seu tom de oraculo, póde trepar de novo aos pincaros +inaccessiveis do seu estylo, vestir-se, compor-se, arrebicar-se, pôr a mascara +de lata com que suppõe engrossar a voz, como os actores gregos a robusteciam +com a mascara de bronze, esbravejar na tripode, imitar a aguia de Guernesey +como o corvo da fabula, que tambem intentou seguir o exemplo da rainha dos ares +e que se emmaranhou na lã de um carneiro, exactamente como o sr. Anthero do +Quental se emmaranha nas suas lanzudas theorias; improvisar uma Pathmos da +<em>Ponte no O</em>, ser o vidente do botequim do Throno, escrever um +Apocalipse que se venda por 400 rs. nas lojas do costume, perceber o sr. +Theophilo Braga e consentir que elle o perceba, chamar ode ao que nem é charada +porque não tem conceito; mas não estranhe, quando estiver todo ufano com o +grande uniforme de sybilla, que lhe puxem pelo rabicho e que lhe digam: «Larga +a cabelleira.»</p> + +<p>Não vou responder á carta, repito, vou apenas levantar<span +class="pn">{5}</span> as phrases, que foram dirigidas a todos quantos +escrevemos n'esta profana Lisboa, para nosso ensino e aproveitamento. Oiçamos +com o devido respeito.</p> + +<p>Trata-se primeiro de saber qual é o motivo da crua guerra intentada por nós +contra a escola de Coimbra, guerra, em que ousámos, sem sermos Titães, escalar +o Olympo, o que nos ha de render o ficarmos ahi soterrados debaixo de um Etna +de palavriado. O motivo nada tem de litterario, é simplesmente o despeito que +nos causa a independencia de caracter dos escriptores da universidade, que não +vem enfileirar-se nas nossas phalanges, nem jurar fidelidade aos nossos +generaes, e a indignação que a estes inspira o verem aquelles refractarios +vagueando independentes nos plainos do Mondego.</p> + +<p>Esteve aqui em Lisboa um baixo-profundo Marinozzi, que, tendo sido +applaudido no Porto, foi pateado em S. Carlos. Nunca o digno homem se pôde +convencer de que essa pateada fosse dada sem segunda intenção, e que a +originasse simplesmente ou o seu mau methodo ou a sua má voz. «Fui pagar em +Lisboa, dizia elle voltando lacrymoso para a cidade invicta, a questão da +dissidencia do banco ultramarino, a iniciativa tomada pelo Porto na idéa da +exposição, e outras coisas que excitam os ciumes da capital.» O sr. Anthero +tambem opina pelo banco ultramarino e pela iniciativa da exposição. Não o +perturbemos n'essa illusão suave. Menos barbaro que Affonso <small>IV</small> +com D. Ignez de Castro, deixemol-o passeiar <em>pelos saudosos campos do +Mondego</em>.</p> + + +<blockquote> + N'aquelle engano d'alma ledo e cego!</blockquote> + +<p>Mas, meu caro sr. Marinozzi, seja menos injusto. Suspeita que essas ovelhas +tresmalhadas produzam tamanha desordem no aprisco lisbonense? Julga que os +pastores se ralam com a falta de rezes, que foram atacadas pela epizootia, que +grassa para esses sitios? Essa razão, que o sr. Anthero allega, não direi que +seja uma razão de cabo d'esquadra, mas, como tanto se affeiçoou aos allemães, +não se offenderá que eu lhe diga que é... <em>une raison d'allemand</em>.</p> + +<p>Qual é o outro merecimento, por causa de qual são lapidados estes prophetas? +É porque elles não imitam, mas <em>innovam</em> e <em>inventam</em>.</p> + +<p>Innovam o que? Inventam o que? A philosophia de Hegel? os systemas +historicos de Vico? a symbolica pagã de Creuzer? o esclarecimento da historia +pelo estudo da jurisprudencia de Savigny? a critica de Schlegel, do Raynouard, +de Villemain, de Michelet, de Quinet, de Taine? Mas tudo isso já lá fóra desceu +das mysteriosas alturas do saber de poucos para a erudição<span +class="pn">{6}</span> comesinha dos Diccionarios de Conversação. Applicaram +pelo menos ao estudo das coisas patrias os novos pharoes accendidos pelos +sabios estrangeiros, pharoes que projectam a sua immensa luz nos mares +tenebrosos do passado? Não, nem isso, a menos que os artigos do sr. Theophilo +Braga, que não dão um passo para além dos prologos de Garrett, não sejam +considerados como equivalentes aos trabalhos dos eruditos francezes e allemães! +E porque não ha de ser assim?</p> + + +<blockquote> + Eia ardor, coração, vaidade ao menos!</blockquote> + +<p>Ávante! Innovem, sem pagarem direitos d'alfandega. Os manufactores russos +fabricam jarras de porcelana, pondo nas de Sévres um fundo, que occulta a marca +franceza... Cautella, não lhes tirem o fundo, senhores innovadores e +inventores! Escrevam livros, artigos</p> + + +<blockquote> + Cujos credores <em>na Allemanha</em> fervem</blockquote> + +<p style="text-indent: 0em;">e fulminem com o seu despreso os que vão pelo trilho da vulgaridade. Venham as +innovações requentadas, as invenções em segunda mão, a originalidade da feira +da ladra, o ideal de contrabando! Assim fez a gralha, em quanto a não +depennaram.</p> + +<p>Mas o que tem inventado então? A fórma talvez, o estylo, o phraseado; essa +farraparia creio que ninguem lh'a reclama. Essas lentejoulas que tomam por +estrellas, essa missanga que impingem por diamantes, essa baeta vermelha com +que arremedam purpura, tudo isso é seu, pertence-lhes... Que digo? Nem isso +mesmo! nem na parodia foram originaes; já o latego de Nicolau Tolentino +flagellava as costas aos patriarchas d'essa escola, no fim do seculo passado. +</p> + +<blockquote> + Aos novos ursos todo o povo acode<br> + O estylo é sybillino, o nome é ode!</blockquote> + +<p>Um grito de consciencia obrigou o sr. Anthero do Quental a confessar o +parentesco, dando ao seu livro o titulo de <em>Odes modernas</em>. O estylo é +sybillino ainda, e parece que o nosso grande satyrico tinha as poesias do sr. +Anthero do Quental diante dos olhos, quando escrevia:</p> + +<blockquote> + As taes poesias (que a entender não chego)<br> + Podres palavras teem desenterrado;<br> + Se levam nó, é tão occulto e cego,<br> + Que quem quer desatal-o vae logrado.<br> + Dizem que imitam n'isto um certo Grego,<br> + Gloria de Thebas, Pindaro chamado,<br> + Se isto é assim, a sua lingua d'oiro<br> + Seria grega, mas fallava moiro.<span class="pn">{7}</span></blockquote> + +<p>Mas não é esta ainda a pedra de escandalo; não é essa a grande virtude, que +nos obrigou a crucificarmos o sr. Anthero do Quental entre o sr. Theophilo +Braga, e o sr. Vieira de Castro. Que este ultimo já provavelmente é repellido +como traidor, por que o sr. Vieira de Castro actualmente falla, com eloquencia +ou sem eloquencia, não é essa a questão, mas pelo menos na linguagem terrestre. +Esse renegou; mas ao sr. Theophilo Braga é que naturalmente o Christo coimbrão +abre o seio carinhoso, a esse é que elle diz: <em>Hodie mecum eris in +paradiso</em>.</p> + +<p>A maxima virtude d'essa escola, a que excita as nossas iras, é a sua +adoração pelo ideal, o sacerdocio augusto que esses poetas exercem. Isso sim, +isso é que nós não percebemos, por isso é que os apedrejamos.</p> + +<p>O ideal! mas o ideal deriva de idéa, e a idéa é o que eu em vão procuro por +baixo da tumida crosta das suas poesias. Vejo o sr. Anthero do Quental ora +abolir Deus, ora proclamar a obediencia dos astros á lei do infinito. Mas o que +é o infinito? É a materia? Materia e infinito são duas palavras que andam aos +pontapés uma á outra, como as rimas do sr. Anthero. Mas, admittindo a +conciliação do inconciliavel, se é materialista, o que faz o distincto poeta ao +ideal, que adora? É por fim de contas um ideal de convenção, bom para produzir +effeito, mas em que o poeta não crê? Esse novo idolo teve a sorte de todos os +idolos, e são os seus sacerdotes os primeiros que zombam d'elle, zombando do +crédulo publico?</p> + +<p>Ah! não profane esse nome sagrado, não beba nos vasos santos o vinho dos +seus desvairamentos! E sobretudo não profira os grandes nomes de Dante e de +Shakespeare, pallido Saul tremente perante as sombras que evoca! E se persistir +n'isso, se quizer por força que desçam do altar dos seculos o velho florentino +e o tragico britanno, acautele-se porque o bando pueril de que é chefe e que +entrou sorrateiramente no templo do ideal por descuido dos sachristães, póde +ser escorraçado e disperso, não pelo chicote, que serviu a Jesus para expulsar +os mercadores, mas pela férula, que castiga as travessuras das creanças, que +vão brincar com coisas de que nada entendem.</p> + +<p>Dante era um barbaro, e Shakespeare tambem, diz o sr. Anthero do Quental, +reclamando a confraternidade da barbaria. Engana-se; o sr. Anthero não é um +barbaro, é um grego do Baixo Imperio. A sua escola é a turba de vermes, que +brota da putrefacção de uma litteratura. É para os grandes homens do romantismo +o que foi Claudiano para Virgilio, Marini para Tasso, Campistron para +Corneille. A apparição da sua escola é um facto mil vezes repetido na historia +litteraria, e a que inevitavelmente<span class="pn">{8}</span> se segue uma +reacção salutar. Cumpram a sua missão; mas, ao resvalarem no precipicio, não se +aferrem a essas arvores gigantes, que resumem em si uma litteratura inteira. +Parasitas do ideal, não se enrosquem nos robles; mosquitos do coche litterario, +não queiram ser como a sua collega da fabula, que zunia em torno dos corseis +que puxavam o vehiculo, e andava n'uma azafama constante, esfalfada e ufana, +persuadindo-se a si, e querendo persuadir os outros de que era ella e ella só +quem arrastava o carro.</p> + +<p>Tambem Victor Hugo foi chamado a proteger as locubrações do sr. Anthero e as +suas <em>estolas do infinito</em>. Se julgam encontrar nos livros de Victor +Hugo authorisação para o emprego d'essas imagens absurdas, mostram mais uma vez +que nem entendem os modêlos que tomam. As imagens do poeta exilado, por mais +arrojadas que sejam, despertam sempre uma idéa no espirito dos leitores. A +imagem (deixem-me fallar a sua lingua, e citar até, se me não engano, o sr. +Theophilo Braga), é a expressão visivel do Sentimento. A imagem dá um corpo á +idéa, e faz com que a vejam os olhos da phantasia. Quando Victor Hugo, n'uma +synthese audaz, nos diz que a ave leva o infinito preso na ponta d'aza, vemos +de relance a cadeia immensa dos seres, cujos fusis extremos se ligam; que idéa +nos desperta a <em>estola do infinito</em>? quando encontrou o sr. Anthero do +Quental, em Victor Hugo, uma imagem tão ôca de sentido como esta! E, se alguma +vez a encontrou, foi de certo nos instantes em que a imperfectibilidade humana +venceu a inspiração divina, foi nos momentos em que dormia Homero, e é uma +covardia, sr. Anthero do Quental, aproveitar-se do somno do gigante, para lhe +ir estampar na fronte o indelevel estygma da sua imitação.</p> + +<p>Mas o gigante desperta; levanta-se o Hercules, e, ao sacudir o manto, deixa +cair os pygmeus, que lá se esconderam, na lama d'onde brotaram. <em>As aguias +não saem das capoeiras</em>, disse, com muita razão o sr. Anthero; mas tambem +não basta não sair de uma capoeira para ser aguia. As gallinhas tresmalhadas, +que se mettem nos ninhos dos alcantís, podem julgar-se similhantes ás aves de +Jupiter; mas quando se trata de voar, sobem as aguias para o ceu, desabam as +gallinhas... no quintal. Cacarejem embora vituperios; os genios, a quem +insultam, e aquelles a quem imitam (insulto ainda maior), pairam enlaçados no +firmamento, e os zoilos nem terão a triste gloria de ser amarrados por elles ao +pelourinho da sua immortalidade.</p> + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot24" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> Referia-me ao sr. +Julio de Castilho, cuja carta já foi publicada.</p> +</div> + + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + + +<h3>VENDE-SE</h3> + +<p>Em LISBOA—Livraria de A. M. Pereira, rua Augusta n.<sup>os</sup> 50, 52, e +nas mais do costume.</p> + +<p>PORTO—Livraria da Viuva Moré, e na do sr. Cruz Coutinho.</p> + +<p>COIMBRA—Livraria da Viuva Moré.</p> + +<p style="text-align: center;">PREÇO 100 RÉIS</p> + +<hr style="width: 30%;"> + +<p>Tambem se acham nas mesmas lojas:</p> + +<p><small><b>Resposta á carta que o senhor Anthero do Quental dirigiu ao senhor +Antonio Feliciano de Castilho</b>, por Manoel Roussado—100 réis.</small></p> + +<p><small><b>O senhor Antonio Feliciano de Castilho e o senhor Anthero do Quental</b>, +por Julio de Castilho—160 réis.</small></p> + +</div> + +<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30069 ***</div> +</body> +</html> |
