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+<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN">
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+<head>
+ <title>Bom Senso e Bom Gosto, por Pinheiro Chagas</title>
+ <meta name="Author" content="Manuel Pinheiro Chagas">
+ <meta name="Publisher" content="J. G. de Sousa Neves">
+ <meta name="Date" content="1865">
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+<div>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30069 ***</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<div style="border: solid 2px #000; padding: 1em; text-align: center;">
+<p style="font-size: 1.8em;">BOM-SENSO E BOM-GOSTO</p>
+
+<hr style="width: 20%;">
+
+<p style="font-size: 1.8em;">FOLHETIM</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">A PROPOSITO DA CARTA</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">QUE O SENHOR</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">ANTHERO DO QUENTAL</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">DIRIGIU AO SENHOR</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO</p>
+
+<p>POR M. PINHEIRO CHAGAS</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<hr style="width: 30%;">
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>LISBOA<br>
+<small>IMPRENSA DE J. G. DE SOUSA NEVES<br>
+17&mdash;Rua do Caldeira&mdash;17</small></p>
+
+<p>1865</p>
+</div>
+<p>&nbsp;</p>
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+<p style="font-size: 0.8em;">QUE O SENHOR</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">ANTHERO DO QUENTAL</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">DIRIGIU AO SENHOR</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO</p>
+
+<p>POR M. PINHEIRO CHAGAS</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
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+<hr style="width: 30%;">
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+<p>&nbsp;</p>
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+<p>LISBOA<br>
+<small>IMPRENSA DE J. G. DE SOUSA NEVES<br>
+17&mdash;Rua do Caldeira&mdash;17</small></p>
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+<p>1865</p>
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+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="corpo">
+<p><span class="pn">{3}</span></p>
+
+<p style="text-indent: -1em; margin-left: 1em;"><em>A carta do sr. Anthero do Quental ao sr. Castilho&mdash;Motivo por que tomo a
+palavra&mdash;O sr. Anthero apanhado em «negligé»&mdash;Vem a proposito o baixo-profundo
+Marinozzi, o Banco Ultramarino, D. Ignez de Castro e Camões&mdash;As novidades
+velhas&mdash;As porcelanas da Russia&mdash;Cita-se Nicoláo Tolentino&mdash;Entra-se na questão
+do ideal&mdash;Evocação perigosa&mdash;As escolas da decadencia&mdash;Não falta Victor
+Hugo&mdash;Para que servem as imagens&mdash;O manto de Hercules&mdash;As aguias e as
+galinhas.</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Publicou-se ha tempo e tem-se espalhado em Lisboa uma carta dirigida pelo
+sr. Anthero do Quental ao sr. Antonio Feliciano de Castilho, carta em que o
+poeta das <em>Odes modernas</em> protesta violenta e virulentamente contra a
+censura, irrogada pelo cantor do <em>Amor e Melancholia</em> á desastrada
+escola, de que o sr. Anthero do Quental teve a triste honra de ser um dos
+fundadores. Fôra lavrada essa censura no artigo de critica litteraria com que o
+sr. Castilho acompanhou o pobre poema, que ahi publiquei, e que ficou d'essa
+fórma illustre. Marengo e Austertilz, diz Victor Hugo no prologo das
+<em>Orientaes</em>, eram duas ignoradas aldeias; immortalisou-as um dos
+lampejos victoriosos da espada de Napoleão.</p>
+
+<p>Não intento responder á carta; ainda que a pessoa, a quem ella é dirigida,
+esteja dispensada de responder pela inconveniencia do ataque, não me compete a
+mim substituil-a. Penna mais competente e mais authorisada por todos os motivos
+se está preparando para isso;<a name="tex2html1"
+href="#foot24"><sup>[1]</sup></a> mas eu, que fui um dos primeiros a accusar de
+falso, de affectado, de absurdo, de gongorico o estylo da escola de Coimbra,
+hoje, que uma das pythonizas desce da tripode, e vem, em linguagem accessivel
+aos mortaes, explicar os oraculos, e lançar a luva aos que zombaram dos livros
+sybillinos, não desamparo o meu posto, e apresso-me a descer á liça, onde
+encontro afinal um adversario. Não via até agora senão sombras impalpaveis, que
+fluctuavam nas brumas das abstracções, e se revestiam de um certo
+<em>ideal</em>, alugado a tanto por ode nos algibebes da Allemanha.</p>
+
+<p>Linguagem accessivel aos mortaes, disse eu já, e repito agora.<span
+class="pn">{4}</span> «Uma das maiores provas do absurdo d'aquelle estylo,
+dizia-me um dia d'estes Bulhão Pato illuminando a questão com um dos admiraveis
+lampejos do seu espirito de poeta, é que até para o defenderem precisam de o
+abandonarem.» Mais ainda, digo eu; a prova de que esse estylo é affectado é que
+o sr. Anthero do Quental, quando o seu espirito, excitado pela critica justa ou
+injusta, que lhe foi feita, se levantou de um impeto para defender-se, quando a
+palavra lhe brotou espontaneamente dos labios, não procurou phraseado nebuloso,
+não adoptou fórmas arrevezadas, deixou-a irromper envenenada mas vehemente,
+resvalar pelo declive natural, reflectir na torrente espumosa o esplendor do
+sol claro e limpido, o desanuviado azul do nosso firmamento. Apanhámol-o em
+flagrante delicto de naturalidade. Surprehendemol-o antes de ir para o
+toucador, sem peruca, sem carmim, sem pó de arroz. É verdade que o vimos tambem
+em mangas de camisa, e de mangas arregaçadas. Mas antes isso, sr. Anthero do
+Quental, antes isso do que vestir aquella casaca allemã, tão safadinha já, e
+que nos quer dar por nova. <em>Innovar</em>, <em>inventar</em>, sr. Anthero do
+Quental! no tempo de Henrique Heine já essa casaca estava no fio, e ainda
+encontrou em Coimbra quem a arremendasse! Ah! Coimbra, <em>terra de encanto, do
+Mondego amena flor</em> o que te falta são alfaiates, que não tenham só obra
+feita, vinda pelo paquete de Bordeos.</p>
+
+<p>A carta, abstrahindo da verrina indigna do sr. Anthero do Quental, revela um
+verdadeiro talento, infelizmente para o seu author. A unica desculpa, que tem
+quem põe cabelleira, é ser calvo. Agora póde o sr. Anthero do Quental
+voltar quando quizer ao seu tom de oraculo, póde trepar de novo aos pincaros
+inaccessiveis do seu estylo, vestir-se, compor-se, arrebicar-se, pôr a mascara
+de lata com que suppõe engrossar a voz, como os actores gregos a robusteciam
+com a mascara de bronze, esbravejar na tripode, imitar a aguia de Guernesey
+como o corvo da fabula, que tambem intentou seguir o exemplo da rainha dos ares
+e que se emmaranhou na lã de um carneiro, exactamente como o sr. Anthero do
+Quental se emmaranha nas suas lanzudas theorias; improvisar uma Pathmos da
+<em>Ponte no O</em>, ser o vidente do botequim do Throno, escrever um
+Apocalipse que se venda por 400 rs. nas lojas do costume, perceber o sr.
+Theophilo Braga e consentir que elle o perceba, chamar ode ao que nem é charada
+porque não tem conceito; mas não estranhe, quando estiver todo ufano com o
+grande uniforme de sybilla, que lhe puxem pelo rabicho e que lhe digam: «Larga
+a cabelleira.»</p>
+
+<p>Não vou responder á carta, repito, vou apenas levantar<span
+class="pn">{5}</span> as phrases, que foram dirigidas a todos quantos
+escrevemos n'esta profana Lisboa, para nosso ensino e aproveitamento. Oiçamos
+com o devido respeito.</p>
+
+<p>Trata-se primeiro de saber qual é o motivo da crua guerra intentada por nós
+contra a escola de Coimbra, guerra, em que ousámos, sem sermos Titães, escalar
+o Olympo, o que nos ha de render o ficarmos ahi soterrados debaixo de um Etna
+de palavriado. O motivo nada tem de litterario, é simplesmente o despeito que
+nos causa a independencia de caracter dos escriptores da universidade, que não
+vem enfileirar-se nas nossas phalanges, nem jurar fidelidade aos nossos
+generaes, e a indignação que a estes inspira o verem aquelles refractarios
+vagueando independentes nos plainos do Mondego.</p>
+
+<p>Esteve aqui em Lisboa um baixo-profundo Marinozzi, que, tendo sido
+applaudido no Porto, foi pateado em S. Carlos. Nunca o digno homem se pôde
+convencer de que essa pateada fosse dada sem segunda intenção, e que a
+originasse simplesmente ou o seu mau methodo ou a sua má voz. «Fui pagar em
+Lisboa, dizia elle voltando lacrymoso para a cidade invicta, a questão da
+dissidencia do banco ultramarino, a iniciativa tomada pelo Porto na idéa da
+exposição, e outras coisas que excitam os ciumes da capital.» O sr. Anthero
+tambem opina pelo banco ultramarino e pela iniciativa da exposição. Não o
+perturbemos n'essa illusão suave. Menos barbaro que Affonso <small>IV</small>
+com D. Ignez de Castro, deixemol-o passeiar <em>pelos saudosos campos do
+Mondego</em>.</p>
+
+
+<blockquote>
+ N'aquelle engano d'alma ledo e cego!</blockquote>
+
+<p>Mas, meu caro sr. Marinozzi, seja menos injusto. Suspeita que essas ovelhas
+tresmalhadas produzam tamanha desordem no aprisco lisbonense? Julga que os
+pastores se ralam com a falta de rezes, que foram atacadas pela epizootia, que
+grassa para esses sitios? Essa razão, que o sr. Anthero allega, não direi que
+seja uma razão de cabo d'esquadra, mas, como tanto se affeiçoou aos allemães,
+não se offenderá que eu lhe diga que é... <em>une raison d'allemand</em>.</p>
+
+<p>Qual é o outro merecimento, por causa de qual são lapidados estes prophetas?
+É porque elles não imitam, mas <em>innovam</em> e <em>inventam</em>.</p>
+
+<p>Innovam o que? Inventam o que? A philosophia de Hegel? os systemas
+historicos de Vico? a symbolica pagã de Creuzer? o esclarecimento da historia
+pelo estudo da jurisprudencia de Savigny? a critica de Schlegel, do Raynouard,
+de Villemain, de Michelet, de Quinet, de Taine? Mas tudo isso já lá fóra desceu
+das mysteriosas alturas do saber de poucos para a erudição<span
+class="pn">{6}</span> comesinha dos Diccionarios de Conversação. Applicaram
+pelo menos ao estudo das coisas patrias os novos pharoes accendidos pelos
+sabios estrangeiros, pharoes que projectam a sua immensa luz nos mares
+tenebrosos do passado? Não, nem isso, a menos que os artigos do sr. Theophilo
+Braga, que não dão um passo para além dos prologos de Garrett, não sejam
+considerados como equivalentes aos trabalhos dos eruditos francezes e allemães!
+E porque não ha de ser assim?</p>
+
+
+<blockquote>
+ Eia ardor, coração, vaidade ao menos!</blockquote>
+
+<p>Ávante! Innovem, sem pagarem direitos d'alfandega. Os manufactores russos
+fabricam jarras de porcelana, pondo nas de Sévres um fundo, que occulta a marca
+franceza... Cautella, não lhes tirem o fundo, senhores innovadores e
+inventores! Escrevam livros, artigos</p>
+
+
+<blockquote>
+ Cujos credores <em>na Allemanha</em> fervem</blockquote>
+
+<p style="text-indent: 0em;">e fulminem com o seu despreso os que vão pelo trilho da vulgaridade. Venham as
+innovações requentadas, as invenções em segunda mão, a originalidade da feira
+da ladra, o ideal de contrabando! Assim fez a gralha, em quanto a não
+depennaram.</p>
+
+<p>Mas o que tem inventado então? A fórma talvez, o estylo, o phraseado; essa
+farraparia creio que ninguem lh'a reclama. Essas lentejoulas que tomam por
+estrellas, essa missanga que impingem por diamantes, essa baeta vermelha com
+que arremedam purpura, tudo isso é seu, pertence-lhes... Que digo? Nem isso
+mesmo! nem na parodia foram originaes; já o latego de Nicolau Tolentino
+flagellava as costas aos patriarchas d'essa escola, no fim do seculo passado.
+</p>
+
+<blockquote>
+ Aos novos ursos todo o povo acode<br>
+ O estylo é sybillino, o nome é ode!</blockquote>
+
+<p>Um grito de consciencia obrigou o sr. Anthero do Quental a confessar o
+parentesco, dando ao seu livro o titulo de <em>Odes modernas</em>. O estylo é
+sybillino ainda, e parece que o nosso grande satyrico tinha as poesias do sr.
+Anthero do Quental diante dos olhos, quando escrevia:</p>
+
+<blockquote>
+ As taes poesias (que a entender não chego)<br>
+ Podres palavras teem desenterrado;<br>
+ Se levam nó, é tão occulto e cego,<br>
+ Que quem quer desatal-o vae logrado.<br>
+ Dizem que imitam n'isto um certo Grego,<br>
+ Gloria de Thebas, Pindaro chamado,<br>
+ Se isto é assim, a sua lingua d'oiro<br>
+ Seria grega, mas fallava moiro.<span class="pn">{7}</span></blockquote>
+
+<p>Mas não é esta ainda a pedra de escandalo; não é essa a grande virtude, que
+nos obrigou a crucificarmos o sr. Anthero do Quental entre o sr. Theophilo
+Braga, e o sr. Vieira de Castro. Que este ultimo já provavelmente é repellido
+como traidor, por que o sr. Vieira de Castro actualmente falla, com eloquencia
+ou sem eloquencia, não é essa a questão, mas pelo menos na linguagem terrestre.
+Esse renegou; mas ao sr. Theophilo Braga é que naturalmente o Christo coimbrão
+abre o seio carinhoso, a esse é que elle diz: <em>Hodie mecum eris in
+paradiso</em>.</p>
+
+<p>A maxima virtude d'essa escola, a que excita as nossas iras, é a sua
+adoração pelo ideal, o sacerdocio augusto que esses poetas exercem. Isso sim,
+isso é que nós não percebemos, por isso é que os apedrejamos.</p>
+
+<p>O ideal! mas o ideal deriva de idéa, e a idéa é o que eu em vão procuro por
+baixo da tumida crosta das suas poesias. Vejo o sr. Anthero do Quental ora
+abolir Deus, ora proclamar a obediencia dos astros á lei do infinito. Mas o que
+é o infinito? É a materia? Materia e infinito são duas palavras que andam aos
+pontapés uma á outra, como as rimas do sr. Anthero. Mas, admittindo a
+conciliação do inconciliavel, se é materialista, o que faz o distincto poeta ao
+ideal, que adora? É por fim de contas um ideal de convenção, bom para produzir
+effeito, mas em que o poeta não crê? Esse novo idolo teve a sorte de todos os
+idolos, e são os seus sacerdotes os primeiros que zombam d'elle, zombando do
+crédulo publico?</p>
+
+<p>Ah! não profane esse nome sagrado, não beba nos vasos santos o vinho dos
+seus desvairamentos! E sobretudo não profira os grandes nomes de Dante e de
+Shakespeare, pallido Saul tremente perante as sombras que evoca! E se persistir
+n'isso, se quizer por força que desçam do altar dos seculos o velho florentino
+e o tragico britanno, acautele-se porque o bando pueril de que é chefe e que
+entrou sorrateiramente no templo do ideal por descuido dos sachristães, póde
+ser escorraçado e disperso, não pelo chicote, que serviu a Jesus para expulsar
+os mercadores, mas pela férula, que castiga as travessuras das creanças, que
+vão brincar com coisas de que nada entendem.</p>
+
+<p>Dante era um barbaro, e Shakespeare tambem, diz o sr. Anthero do Quental,
+reclamando a confraternidade da barbaria. Engana-se; o sr. Anthero não é um
+barbaro, é um grego do Baixo Imperio. A sua escola é a turba de vermes, que
+brota da putrefacção de uma litteratura. É para os grandes homens do romantismo
+o que foi Claudiano para Virgilio, Marini para Tasso, Campistron para
+Corneille. A apparição da sua escola é um facto mil vezes repetido na historia
+litteraria, e a que inevitavelmente<span class="pn">{8}</span> se segue uma
+reacção salutar. Cumpram a sua missão; mas, ao resvalarem no precipicio, não se
+aferrem a essas arvores gigantes, que resumem em si uma litteratura inteira.
+Parasitas do ideal, não se enrosquem nos robles; mosquitos do coche litterario,
+não queiram ser como a sua collega da fabula, que zunia em torno dos corseis
+que puxavam o vehiculo, e andava n'uma azafama constante, esfalfada e ufana,
+persuadindo-se a si, e querendo persuadir os outros de que era ella e ella só
+quem arrastava o carro.</p>
+
+<p>Tambem Victor Hugo foi chamado a proteger as locubrações do sr. Anthero e as
+suas <em>estolas do infinito</em>. Se julgam encontrar nos livros de Victor
+Hugo authorisação para o emprego d'essas imagens absurdas, mostram mais uma vez
+que nem entendem os modêlos que tomam. As imagens do poeta exilado, por mais
+arrojadas que sejam, despertam sempre uma idéa no espirito dos leitores. A
+imagem (deixem-me fallar a sua lingua, e citar até, se me não engano, o sr.
+Theophilo Braga), é a expressão visivel do Sentimento. A imagem dá um corpo á
+idéa, e faz com que a vejam os olhos da phantasia. Quando Victor Hugo, n'uma
+synthese audaz, nos diz que a ave leva o infinito preso na ponta d'aza, vemos
+de relance a cadeia immensa dos seres, cujos fusis extremos se ligam; que idéa
+nos desperta a <em>estola do infinito</em>? quando encontrou o sr. Anthero do
+Quental, em Victor Hugo, uma imagem tão ôca de sentido como esta! E, se alguma
+vez a encontrou, foi de certo nos instantes em que a imperfectibilidade humana
+venceu a inspiração divina, foi nos momentos em que dormia Homero, e é uma
+covardia, sr. Anthero do Quental, aproveitar-se do somno do gigante, para lhe
+ir estampar na fronte o indelevel estygma da sua imitação.</p>
+
+<p>Mas o gigante desperta; levanta-se o Hercules, e, ao sacudir o manto, deixa
+cair os pygmeus, que lá se esconderam, na lama d'onde brotaram. <em>As aguias
+não saem das capoeiras</em>, disse, com muita razão o sr. Anthero; mas tambem
+não basta não sair de uma capoeira para ser aguia. As gallinhas tresmalhadas,
+que se mettem nos ninhos dos alcantís, podem julgar-se similhantes ás aves de
+Jupiter; mas quando se trata de voar, sobem as aguias para o ceu, desabam as
+gallinhas... no quintal. Cacarejem embora vituperios; os genios, a quem
+insultam, e aquelles a quem imitam (insulto ainda maior), pairam enlaçados no
+firmamento, e os zoilos nem terão a triste gloria de ser amarrados por elles ao
+pelourinho da sua immortalidade.</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot24" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> Referia-me ao sr.
+Julio de Castilho, cuja carta já foi publicada.</p>
+</div>
+
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+
+<h3>VENDE-SE</h3>
+
+<p>Em LISBOA&mdash;Livraria de A. M. Pereira, rua Augusta n.<sup>os</sup> 50, 52, e
+nas mais do costume.</p>
+
+<p>PORTO&mdash;Livraria da Viuva Moré, e na do sr. Cruz Coutinho.</p>
+
+<p>COIMBRA&mdash;Livraria da Viuva Moré.</p>
+
+<p style="text-align: center;">PREÇO 100 RÉIS</p>
+
+<hr style="width: 30%;">
+
+<p>Tambem se acham nas mesmas lojas:</p>
+
+<p><small><b>Resposta á carta que o senhor Anthero do Quental dirigiu ao senhor
+Antonio Feliciano de Castilho</b>, por Manoel Roussado&mdash;100 réis.</small></p>
+
+<p><small><b>O senhor Antonio Feliciano de Castilho e o senhor Anthero do Quental</b>,
+por Julio de Castilho&mdash;160 réis.</small></p>
+
+</div>
+
+<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30069 ***</div>
+</body>
+</html>