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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-14 19:53:05 -0700
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+*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30069 ***
+
+ BOM-SENSO E BOM-GOSTO
+
+ FOLHETIM
+
+ A PROPOSITO DA CARTA
+
+ QUE O SENHOR
+
+ ANTHERO DO QUENTAL
+
+ DIRIGIU AO SENHOR
+
+ ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO
+
+ POR M. PINHEIRO CHAGAS
+
+
+
+
+LISBOA
+IMPRENSA DE J. G. DE SOUSA NEVES
+17--Rua do Caldeira--17
+
+1865
+
+
+
+BOM-SENSO E BOM-GOSTO
+
+FOLHETIM
+
+A PROPOSITO DA CARTA
+
+QUE O SENHOR
+
+ANTHERO DO QUENTAL
+
+DIRIGIU AO SENHOR
+
+ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO
+
+POR M. PINHEIRO CHAGAS
+
+
+
+
+LISBOA
+IMPRENSA DE J. G. DE SOUSA NEVES
+17--Rua do Caldeira--17
+
+1865
+
+
+
+
+ _A carta do sr. Anthero do Quental ao sr. Castilho--Motivo por que tomo
+ a palavra--O sr. Anthero apanhado em «negligé»--Vem a proposito o
+ baixo-profundo Marinozzi, o Banco Ultramarino, D. Ignez de Castro e
+ Camões--As novidades velhas--As porcelanas da Russia--Cita-se Nicoláo
+ Tolentino--Entra-se na questão do ideal--Evocação perigosa--As escolas
+ da decadencia--Não falta Victor Hugo--Para que servem as imagens--O
+ manto de Hercules--As aguias e as galinhas._
+
+
+Publicou-se ha tempo e tem-se espalhado em Lisboa uma carta dirigida
+pelo sr. Anthero do Quental ao sr. Antonio Feliciano de Castilho, carta
+em que o poeta das _Odes modernas_ protesta violenta e virulentamente
+contra a censura, irrogada pelo cantor do _Amor e Melancholia_ á
+desastrada escola, de que o sr. Anthero do Quental teve a triste honra
+de ser um dos fundadores. Fôra lavrada essa censura no artigo de critica
+litteraria com que o sr. Castilho acompanhou o pobre poema, que ahi
+publiquei, e que ficou d'essa fórma illustre. Marengo e Austertilz, diz
+Victor Hugo no prologo das _Orientaes_, eram duas ignoradas aldeias;
+immortalisou-as um dos lampejos victoriosos da espada de Napoleão.
+
+Não intento responder á carta; ainda que a pessoa, a quem ella é
+dirigida, esteja dispensada de responder pela inconveniencia do ataque,
+não me compete a mim substituil-a. Penna mais competente e mais
+authorisada por todos os motivos se está preparando para isso;[1]
+mas eu, que fui um dos primeiros a accusar de falso, de
+affectado, de absurdo, de gongorico o estylo da escola de Coimbra, hoje,
+que uma das pythonizas desce da tripode, e vem, em linguagem accessivel
+aos mortaes, explicar os oraculos, e lançar a luva aos que zombaram dos
+livros sybillinos, não desamparo o meu posto, e apresso-me a descer á
+liça, onde encontro afinal um adversario. Não via até agora senão
+sombras impalpaveis, que fluctuavam nas brumas das abstracções, e se
+revestiam de um certo _ideal_, alugado a tanto por ode nos algibebes da
+Allemanha.
+
+Linguagem accessivel aos mortaes, disse eu já, e repito agora. «Uma
+das maiores provas do absurdo d'aquelle estylo, dizia-me um dia d'estes
+Bulhão Pato illuminando a questão com um dos admiraveis lampejos do seu
+espirito de poeta, é que até para o defenderem precisam de o
+abandonarem.» Mais ainda, digo eu; a prova de que esse estylo é
+affectado é que o sr. Anthero do Quental, quando o seu espirito,
+excitado pela critica justa ou injusta, que lhe foi feita, se levantou
+de um impeto para defender-se, quando a palavra lhe brotou
+espontaneamente dos labios, não procurou phraseado nebuloso, não adoptou
+fórmas arrevezadas, deixou-a irromper envenenada mas vehemente, resvalar
+pelo declive natural, reflectir na torrente espumosa o esplendor do sol
+claro e limpido, o desanuviado azul do nosso firmamento. Apanhámol-o em
+flagrante delicto de naturalidade. Surprehendemol-o antes de ir para o
+toucador, sem peruca, sem carmim, sem pó de arroz. É verdade que o vimos
+tambem em mangas de camisa, e de mangas arregaçadas. Mas antes isso, sr.
+Anthero do Quental, antes isso do que vestir aquella casaca allemã, tão
+safadinha já, e que nos quer dar por nova. _Innovar_, _inventar_, sr.
+Anthero do Quental! no tempo de Henrique Heine já essa casaca estava no
+fio, e ainda encontrou em Coimbra quem a arremendasse! Ah! Coimbra,
+_terra de encanto, do Mondego amena flor_ o que te falta são alfaiates,
+que não tenham só obra feita, vinda pelo paquete de Bordeos.
+
+A carta, abstrahindo da verrina indigna do sr. Anthero do Quental,
+revela um verdadeiro talento, infelizmente para o seu author. A unica
+desculpa, que tem quem põe cabelleira, é ser calvo. Agora póde o
+sr. Anthero do Quental voltar quando quizer ao seu tom de oraculo, póde
+trepar de novo aos pincaros inaccessiveis do seu estylo, vestir-se,
+compor-se, arrebicar-se, pôr a mascara de lata com que suppõe engrossar
+a voz, como os actores gregos a robusteciam com a mascara de bronze,
+esbravejar na tripode, imitar a aguia de Guernesey como o corvo da
+fabula, que tambem intentou seguir o exemplo da rainha dos ares e que se
+emmaranhou na lã de um carneiro, exactamente como o sr. Anthero do
+Quental se emmaranha nas suas lanzudas theorias; improvisar uma Pathmos
+da _Ponte no O_, ser o vidente do botequim do Throno, escrever um
+Apocalipse que se venda por 400 rs. nas lojas do costume, perceber o sr.
+Theophilo Braga e consentir que elle o perceba, chamar ode ao que nem é
+charada porque não tem conceito; mas não estranhe, quando estiver todo
+ufano com o grande uniforme de sybilla, que lhe puxem pelo rabicho e que
+lhe digam: «Larga a cabelleira.»
+
+Não vou responder á carta, repito, vou apenas levantar as phrases,
+que foram dirigidas a todos quantos escrevemos n'esta profana Lisboa,
+para nosso ensino e aproveitamento. Oiçamos com o devido respeito.
+
+Trata-se primeiro de saber qual é o motivo da crua guerra intentada por
+nós contra a escola de Coimbra, guerra, em que ousámos, sem sermos
+Titães, escalar o Olympo, o que nos ha de render o ficarmos ahi
+soterrados debaixo de um Etna de palavriado. O motivo nada tem de
+litterario, é simplesmente o despeito que nos causa a independencia de
+caracter dos escriptores da universidade, que não vem enfileirar-se nas
+nossas phalanges, nem jurar fidelidade aos nossos generaes, e a
+indignação que a estes inspira o verem aquelles refractarios vagueando
+independentes nos plainos do Mondego.
+
+Esteve aqui em Lisboa um baixo-profundo Marinozzi, que, tendo sido
+applaudido no Porto, foi pateado em S. Carlos. Nunca o digno homem se
+pôde convencer de que essa pateada fosse dada sem segunda intenção, e
+que a originasse simplesmente ou o seu mau methodo ou a sua má voz. «Fui
+pagar em Lisboa, dizia elle voltando lacrymoso para a cidade invicta, a
+questão da dissidencia do banco ultramarino, a iniciativa tomada pelo
+Porto na idéa da exposição, e outras coisas que excitam os ciumes da
+capital.» O sr. Anthero tambem opina pelo banco ultramarino e pela
+iniciativa da exposição. Não o perturbemos n'essa illusão suave. Menos
+barbaro que Affonso IV com D. Ignez de Castro, deixemol-o passeiar
+_pelos saudosos campos do Mondego_.
+
+ N'aquelle engano d'alma ledo e cego!
+
+Mas, meu caro sr. Marinozzi, seja menos injusto. Suspeita que essas
+ovelhas tresmalhadas produzam tamanha desordem no aprisco lisbonense?
+Julga que os pastores se ralam com a falta de rezes, que foram atacadas
+pela epizootia, que grassa para esses sitios? Essa razão, que o sr.
+Anthero allega, não direi que seja uma razão de cabo d'esquadra, mas,
+como tanto se affeiçoou aos allemães, não se offenderá que eu lhe diga
+que é... _une raison d'allemand_.
+
+Qual é o outro merecimento, por causa de qual são lapidados estes
+prophetas? É porque elles não imitam, mas _innovam_ e _inventam_.
+
+Innovam o que? Inventam o que? A philosophia de Hegel? os systemas
+historicos de Vico? a symbolica pagã de Creuzer? o esclarecimento da
+historia pelo estudo da jurisprudencia de Savigny? a critica de
+Schlegel, do Raynouard, de Villemain, de Michelet, de Quinet, de Taine?
+Mas tudo isso já lá fóra desceu das mysteriosas alturas do saber de
+poucos para a erudição comesinha dos Diccionarios de Conversação.
+Applicaram pelo menos ao estudo das coisas patrias os novos pharoes
+accendidos pelos sabios estrangeiros, pharoes que projectam a sua
+immensa luz nos mares tenebrosos do passado? Não, nem isso, a menos que
+os artigos do sr. Theophilo Braga, que não dão um passo para além dos
+prologos de Garrett, não sejam considerados como equivalentes aos
+trabalhos dos eruditos francezes e allemães! E porque não ha de ser assim?
+
+ Eia ardor, coração, vaidade ao menos!
+
+Ávante! Innovem, sem pagarem direitos d'alfandega. Os manufactores
+russos fabricam jarras de porcelana, pondo nas de Sévres um fundo, que
+occulta a marca franceza... Cautella, não lhes tirem o fundo, senhores
+innovadores e inventores! Escrevam livros, artigos
+
+ Cujos credores _na Allemanha_ fervem
+
+e fulminem com o seu despreso os que vão pelo trilho da vulgaridade.
+Venham as innovações requentadas, as invenções em segunda mão, a
+originalidade da feira da ladra, o ideal de contrabando! Assim fez a
+gralha, em quanto a não depennaram.
+
+Mas o que tem inventado então? A fórma talvez, o estylo, o phraseado;
+essa farraparia creio que ninguem lh'a reclama. Essas lentejoulas que
+tomam por estrellas, essa missanga que impingem por diamantes, essa
+baeta vermelha com que arremedam purpura, tudo isso é seu,
+pertence-lhes... Que digo? Nem isso mesmo! nem na parodia foram
+originaes; já o latego de Nicolau Tolentino flagellava as costas aos
+patriarchas d'essa escola, no fim do seculo passado.
+
+ Aos novos ursos todo o povo acode
+ O estylo é sybillino, o nome é ode!
+
+Um grito de consciencia obrigou o sr. Anthero do Quental a confessar o
+parentesco, dando ao seu livro o titulo de _Odes modernas_. O estylo é
+sybillino ainda, e parece que o nosso grande satyrico tinha as poesias
+do sr. Anthero do Quental diante dos olhos, quando escrevia:
+
+ As taes poesias (que a entender não chego)
+ Podres palavras teem desenterrado;
+ Se levam nó, é tão occulto e cego,
+ Que quem quer desatal-o vae logrado.
+ Dizem que imitam n'isto um certo Grego,
+ Gloria de Thebas, Pindaro chamado,
+ Se isto é assim, a sua lingua d'oiro
+ Seria grega, mas fallava moiro.
+
+Mas não é esta ainda a pedra de escandalo; não é essa a grande virtude,
+que nos obrigou a crucificarmos o sr. Anthero do Quental entre o sr.
+Theophilo Braga, e o sr. Vieira de Castro. Que este ultimo já
+provavelmente é repellido como traidor, por que o sr. Vieira de Castro
+actualmente falla, com eloquencia ou sem eloquencia, não é essa a
+questão, mas pelo menos na linguagem terrestre. Esse renegou; mas ao sr.
+Theophilo Braga é que naturalmente o Christo coimbrão abre o seio
+carinhoso, a esse é que elle diz: _Hodie mecum eris in paradiso_.
+
+A maxima virtude d'essa escola, a que excita as nossas iras, é a sua
+adoração pelo ideal, o sacerdocio augusto que esses poetas exercem. Isso
+sim, isso é que nós não percebemos, por isso é que os apedrejamos.
+
+O ideal! mas o ideal deriva de idéa, e a idéa é o que eu em vão procuro
+por baixo da tumida crosta das suas poesias. Vejo o sr. Anthero do
+Quental ora abolir Deus, ora proclamar a obediencia dos astros á lei do
+infinito. Mas o que é o infinito? É a materia? Materia e infinito são
+duas palavras que andam aos pontapés uma á outra, como as rimas do sr.
+Anthero. Mas, admittindo a conciliação do inconciliavel, se é
+materialista, o que faz o distincto poeta ao ideal, que adora? É por fim
+de contas um ideal de convenção, bom para produzir effeito, mas em que o
+poeta não crê? Esse novo idolo teve a sorte de todos os idolos, e são os
+seus sacerdotes os primeiros que zombam d'elle, zombando do crédulo
+publico?
+
+Ah! não profane esse nome sagrado, não beba nos vasos santos o vinho dos
+seus desvairamentos! E sobretudo não profira os grandes nomes de Dante e
+de Shakespeare, pallido Saul tremente perante as sombras que evoca! E se
+persistir n'isso, se quizer por força que desçam do altar dos seculos o
+velho florentino e o tragico britanno, acautele-se porque o bando pueril
+de que é chefe e que entrou sorrateiramente no templo do ideal por
+descuido dos sachristães, póde ser escorraçado e disperso, não pelo
+chicote, que serviu a Jesus para expulsar os mercadores, mas pela
+férula, que castiga as travessuras das creanças, que vão brincar com
+coisas de que nada entendem.
+
+Dante era um barbaro, e Shakespeare tambem, diz o sr. Anthero do
+Quental, reclamando a confraternidade da barbaria. Engana-se; o sr.
+Anthero não é um barbaro, é um grego do Baixo Imperio. A sua escola é a
+turba de vermes, que brota da putrefacção de uma litteratura. É para os
+grandes homens do romantismo o que foi Claudiano para Virgilio, Marini
+para Tasso, Campistron para Corneille. A apparição da sua escola é um
+facto mil vezes repetido na historia litteraria, e a que
+inevitavelmente se segue uma reacção salutar. Cumpram a sua missão;
+mas, ao resvalarem no precipicio, não se aferrem a essas arvores
+gigantes, que resumem em si uma litteratura inteira. Parasitas do ideal,
+não se enrosquem nos robles; mosquitos do coche litterario, não queiram
+ser como a sua collega da fabula, que zunia em torno dos corseis que
+puxavam o vehiculo, e andava n'uma azafama constante, esfalfada e ufana,
+persuadindo-se a si, e querendo persuadir os outros de que era ella e
+ella só quem arrastava o carro.
+
+Tambem Victor Hugo foi chamado a proteger as locubrações do sr. Anthero
+e as suas _estolas do infinito_. Se julgam encontrar nos livros de
+Victor Hugo authorisação para o emprego d'essas imagens absurdas,
+mostram mais uma vez que nem entendem os modêlos que tomam. As imagens
+do poeta exilado, por mais arrojadas que sejam, despertam sempre uma
+idéa no espirito dos leitores. A imagem (deixem-me fallar a sua lingua,
+e citar até, se me não engano, o sr. Theophilo Braga), é a expressão
+visivel do Sentimento. A imagem dá um corpo á idéa, e faz com que a
+vejam os olhos da phantasia. Quando Victor Hugo, n'uma synthese audaz,
+nos diz que a ave leva o infinito preso na ponta d'aza, vemos de relance
+a cadeia immensa dos seres, cujos fusis extremos se ligam; que idéa nos
+desperta a _estola do infinito_? quando encontrou o sr. Anthero do
+Quental, em Victor Hugo, uma imagem tão ôca de sentido como esta! E, se
+alguma vez a encontrou, foi de certo nos instantes em que a
+imperfectibilidade humana venceu a inspiração divina, foi nos momentos
+em que dormia Homero, e é uma covardia, sr. Anthero do Quental,
+aproveitar-se do somno do gigante, para lhe ir estampar na fronte o
+indelevel estygma da sua imitação.
+
+Mas o gigante desperta; levanta-se o Hercules, e, ao sacudir o manto,
+deixa cair os pygmeus, que lá se esconderam, na lama d'onde brotaram.
+_As aguias não saem das capoeiras_, disse, com muita razão o sr.
+Anthero; mas tambem não basta não sair de uma capoeira para ser aguia.
+As gallinhas tresmalhadas, que se mettem nos ninhos dos alcantís, podem
+julgar-se similhantes ás aves de Jupiter; mas quando se trata de voar,
+sobem as aguias para o ceu, desabam as gallinhas... no quintal.
+Cacarejem embora vituperios; os genios, a quem insultam, e aquelles a
+quem imitam (insulto ainda maior), pairam enlaçados no firmamento, e os
+zoilos nem terão a triste gloria de ser amarrados por elles ao
+pelourinho da sua immortalidade.
+
+ [1] Referia-me ao sr. Julio de Castilho, cuja carta já foi publicada.
+
+
+
+
+VENDE-SE
+
+Em LISBOA--Livraria de A. M. Pereira, rua Augusta n.^os 50, 52, e nas
+mais do costume.
+
+PORTO--Livraria da Viuva Moré, e na do sr. Cruz Coutinho.
+
+COIMBRA--Livraria da Viuva Moré.
+
+PREÇO 100 RÉIS
+
+
+Tambem se acham nas mesmas lojas:
+
+Resposta á carta que o senhor Anthero do Quental dirigiu ao senhor
+Antonio Feliciano de Castilho, por Manoel Roussado--100 réis.
+
+O senhor Antonio Feliciano de Castilho e o senhor Anthero do Quental,
+por Julio de Castilho--160 réis.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Bom senso e bom gosto, folhetim a
+proposito da carta que o sr. Anthero do Quental dirigiu ao sr. A. F. de Castilho, by Manuel Pinheiro Chagas
+
+*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30069 ***
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+<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN">
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+<head>
+ <title>Bom Senso e Bom Gosto, por Pinheiro Chagas</title>
+ <meta name="Author" content="Manuel Pinheiro Chagas">
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+<div>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30069 ***</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<div style="border: solid 2px #000; padding: 1em; text-align: center;">
+<p style="font-size: 1.8em;">BOM-SENSO E BOM-GOSTO</p>
+
+<hr style="width: 20%;">
+
+<p style="font-size: 1.8em;">FOLHETIM</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">A PROPOSITO DA CARTA</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">QUE O SENHOR</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">ANTHERO DO QUENTAL</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">DIRIGIU AO SENHOR</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO</p>
+
+<p>POR M. PINHEIRO CHAGAS</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<hr style="width: 30%;">
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>LISBOA<br>
+<small>IMPRENSA DE J. G. DE SOUSA NEVES<br>
+17&mdash;Rua do Caldeira&mdash;17</small></p>
+
+<p>1865</p>
+</div>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
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+<div style="text-align: center;">
+<p style="font-size: 1.8em;">BOM-SENSO E BOM-GOSTO</p>
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+<p style="font-size: 1.8em;">FOLHETIM</p>
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+<p style="font-size: 1.4em;">A PROPOSITO DA CARTA</p>
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+<p style="font-size: 0.8em;">QUE O SENHOR</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">ANTHERO DO QUENTAL</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">DIRIGIU AO SENHOR</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO</p>
+
+<p>POR M. PINHEIRO CHAGAS</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<hr style="width: 30%;">
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>LISBOA<br>
+<small>IMPRENSA DE J. G. DE SOUSA NEVES<br>
+17&mdash;Rua do Caldeira&mdash;17</small></p>
+
+<p>1865</p>
+</div>
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+<p>&nbsp;</p>
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+<div id="corpo">
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+
+<p style="text-indent: -1em; margin-left: 1em;"><em>A carta do sr. Anthero do Quental ao sr. Castilho&mdash;Motivo por que tomo a
+palavra&mdash;O sr. Anthero apanhado em «negligé»&mdash;Vem a proposito o baixo-profundo
+Marinozzi, o Banco Ultramarino, D. Ignez de Castro e Camões&mdash;As novidades
+velhas&mdash;As porcelanas da Russia&mdash;Cita-se Nicoláo Tolentino&mdash;Entra-se na questão
+do ideal&mdash;Evocação perigosa&mdash;As escolas da decadencia&mdash;Não falta Victor
+Hugo&mdash;Para que servem as imagens&mdash;O manto de Hercules&mdash;As aguias e as
+galinhas.</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Publicou-se ha tempo e tem-se espalhado em Lisboa uma carta dirigida pelo
+sr. Anthero do Quental ao sr. Antonio Feliciano de Castilho, carta em que o
+poeta das <em>Odes modernas</em> protesta violenta e virulentamente contra a
+censura, irrogada pelo cantor do <em>Amor e Melancholia</em> á desastrada
+escola, de que o sr. Anthero do Quental teve a triste honra de ser um dos
+fundadores. Fôra lavrada essa censura no artigo de critica litteraria com que o
+sr. Castilho acompanhou o pobre poema, que ahi publiquei, e que ficou d'essa
+fórma illustre. Marengo e Austertilz, diz Victor Hugo no prologo das
+<em>Orientaes</em>, eram duas ignoradas aldeias; immortalisou-as um dos
+lampejos victoriosos da espada de Napoleão.</p>
+
+<p>Não intento responder á carta; ainda que a pessoa, a quem ella é dirigida,
+esteja dispensada de responder pela inconveniencia do ataque, não me compete a
+mim substituil-a. Penna mais competente e mais authorisada por todos os motivos
+se está preparando para isso;<a name="tex2html1"
+href="#foot24"><sup>[1]</sup></a> mas eu, que fui um dos primeiros a accusar de
+falso, de affectado, de absurdo, de gongorico o estylo da escola de Coimbra,
+hoje, que uma das pythonizas desce da tripode, e vem, em linguagem accessivel
+aos mortaes, explicar os oraculos, e lançar a luva aos que zombaram dos livros
+sybillinos, não desamparo o meu posto, e apresso-me a descer á liça, onde
+encontro afinal um adversario. Não via até agora senão sombras impalpaveis, que
+fluctuavam nas brumas das abstracções, e se revestiam de um certo
+<em>ideal</em>, alugado a tanto por ode nos algibebes da Allemanha.</p>
+
+<p>Linguagem accessivel aos mortaes, disse eu já, e repito agora.<span
+class="pn">{4}</span> «Uma das maiores provas do absurdo d'aquelle estylo,
+dizia-me um dia d'estes Bulhão Pato illuminando a questão com um dos admiraveis
+lampejos do seu espirito de poeta, é que até para o defenderem precisam de o
+abandonarem.» Mais ainda, digo eu; a prova de que esse estylo é affectado é que
+o sr. Anthero do Quental, quando o seu espirito, excitado pela critica justa ou
+injusta, que lhe foi feita, se levantou de um impeto para defender-se, quando a
+palavra lhe brotou espontaneamente dos labios, não procurou phraseado nebuloso,
+não adoptou fórmas arrevezadas, deixou-a irromper envenenada mas vehemente,
+resvalar pelo declive natural, reflectir na torrente espumosa o esplendor do
+sol claro e limpido, o desanuviado azul do nosso firmamento. Apanhámol-o em
+flagrante delicto de naturalidade. Surprehendemol-o antes de ir para o
+toucador, sem peruca, sem carmim, sem pó de arroz. É verdade que o vimos tambem
+em mangas de camisa, e de mangas arregaçadas. Mas antes isso, sr. Anthero do
+Quental, antes isso do que vestir aquella casaca allemã, tão safadinha já, e
+que nos quer dar por nova. <em>Innovar</em>, <em>inventar</em>, sr. Anthero do
+Quental! no tempo de Henrique Heine já essa casaca estava no fio, e ainda
+encontrou em Coimbra quem a arremendasse! Ah! Coimbra, <em>terra de encanto, do
+Mondego amena flor</em> o que te falta são alfaiates, que não tenham só obra
+feita, vinda pelo paquete de Bordeos.</p>
+
+<p>A carta, abstrahindo da verrina indigna do sr. Anthero do Quental, revela um
+verdadeiro talento, infelizmente para o seu author. A unica desculpa, que tem
+quem põe cabelleira, é ser calvo. Agora póde o sr. Anthero do Quental
+voltar quando quizer ao seu tom de oraculo, póde trepar de novo aos pincaros
+inaccessiveis do seu estylo, vestir-se, compor-se, arrebicar-se, pôr a mascara
+de lata com que suppõe engrossar a voz, como os actores gregos a robusteciam
+com a mascara de bronze, esbravejar na tripode, imitar a aguia de Guernesey
+como o corvo da fabula, que tambem intentou seguir o exemplo da rainha dos ares
+e que se emmaranhou na lã de um carneiro, exactamente como o sr. Anthero do
+Quental se emmaranha nas suas lanzudas theorias; improvisar uma Pathmos da
+<em>Ponte no O</em>, ser o vidente do botequim do Throno, escrever um
+Apocalipse que se venda por 400 rs. nas lojas do costume, perceber o sr.
+Theophilo Braga e consentir que elle o perceba, chamar ode ao que nem é charada
+porque não tem conceito; mas não estranhe, quando estiver todo ufano com o
+grande uniforme de sybilla, que lhe puxem pelo rabicho e que lhe digam: «Larga
+a cabelleira.»</p>
+
+<p>Não vou responder á carta, repito, vou apenas levantar<span
+class="pn">{5}</span> as phrases, que foram dirigidas a todos quantos
+escrevemos n'esta profana Lisboa, para nosso ensino e aproveitamento. Oiçamos
+com o devido respeito.</p>
+
+<p>Trata-se primeiro de saber qual é o motivo da crua guerra intentada por nós
+contra a escola de Coimbra, guerra, em que ousámos, sem sermos Titães, escalar
+o Olympo, o que nos ha de render o ficarmos ahi soterrados debaixo de um Etna
+de palavriado. O motivo nada tem de litterario, é simplesmente o despeito que
+nos causa a independencia de caracter dos escriptores da universidade, que não
+vem enfileirar-se nas nossas phalanges, nem jurar fidelidade aos nossos
+generaes, e a indignação que a estes inspira o verem aquelles refractarios
+vagueando independentes nos plainos do Mondego.</p>
+
+<p>Esteve aqui em Lisboa um baixo-profundo Marinozzi, que, tendo sido
+applaudido no Porto, foi pateado em S. Carlos. Nunca o digno homem se pôde
+convencer de que essa pateada fosse dada sem segunda intenção, e que a
+originasse simplesmente ou o seu mau methodo ou a sua má voz. «Fui pagar em
+Lisboa, dizia elle voltando lacrymoso para a cidade invicta, a questão da
+dissidencia do banco ultramarino, a iniciativa tomada pelo Porto na idéa da
+exposição, e outras coisas que excitam os ciumes da capital.» O sr. Anthero
+tambem opina pelo banco ultramarino e pela iniciativa da exposição. Não o
+perturbemos n'essa illusão suave. Menos barbaro que Affonso <small>IV</small>
+com D. Ignez de Castro, deixemol-o passeiar <em>pelos saudosos campos do
+Mondego</em>.</p>
+
+
+<blockquote>
+ N'aquelle engano d'alma ledo e cego!</blockquote>
+
+<p>Mas, meu caro sr. Marinozzi, seja menos injusto. Suspeita que essas ovelhas
+tresmalhadas produzam tamanha desordem no aprisco lisbonense? Julga que os
+pastores se ralam com a falta de rezes, que foram atacadas pela epizootia, que
+grassa para esses sitios? Essa razão, que o sr. Anthero allega, não direi que
+seja uma razão de cabo d'esquadra, mas, como tanto se affeiçoou aos allemães,
+não se offenderá que eu lhe diga que é... <em>une raison d'allemand</em>.</p>
+
+<p>Qual é o outro merecimento, por causa de qual são lapidados estes prophetas?
+É porque elles não imitam, mas <em>innovam</em> e <em>inventam</em>.</p>
+
+<p>Innovam o que? Inventam o que? A philosophia de Hegel? os systemas
+historicos de Vico? a symbolica pagã de Creuzer? o esclarecimento da historia
+pelo estudo da jurisprudencia de Savigny? a critica de Schlegel, do Raynouard,
+de Villemain, de Michelet, de Quinet, de Taine? Mas tudo isso já lá fóra desceu
+das mysteriosas alturas do saber de poucos para a erudição<span
+class="pn">{6}</span> comesinha dos Diccionarios de Conversação. Applicaram
+pelo menos ao estudo das coisas patrias os novos pharoes accendidos pelos
+sabios estrangeiros, pharoes que projectam a sua immensa luz nos mares
+tenebrosos do passado? Não, nem isso, a menos que os artigos do sr. Theophilo
+Braga, que não dão um passo para além dos prologos de Garrett, não sejam
+considerados como equivalentes aos trabalhos dos eruditos francezes e allemães!
+E porque não ha de ser assim?</p>
+
+
+<blockquote>
+ Eia ardor, coração, vaidade ao menos!</blockquote>
+
+<p>Ávante! Innovem, sem pagarem direitos d'alfandega. Os manufactores russos
+fabricam jarras de porcelana, pondo nas de Sévres um fundo, que occulta a marca
+franceza... Cautella, não lhes tirem o fundo, senhores innovadores e
+inventores! Escrevam livros, artigos</p>
+
+
+<blockquote>
+ Cujos credores <em>na Allemanha</em> fervem</blockquote>
+
+<p style="text-indent: 0em;">e fulminem com o seu despreso os que vão pelo trilho da vulgaridade. Venham as
+innovações requentadas, as invenções em segunda mão, a originalidade da feira
+da ladra, o ideal de contrabando! Assim fez a gralha, em quanto a não
+depennaram.</p>
+
+<p>Mas o que tem inventado então? A fórma talvez, o estylo, o phraseado; essa
+farraparia creio que ninguem lh'a reclama. Essas lentejoulas que tomam por
+estrellas, essa missanga que impingem por diamantes, essa baeta vermelha com
+que arremedam purpura, tudo isso é seu, pertence-lhes... Que digo? Nem isso
+mesmo! nem na parodia foram originaes; já o latego de Nicolau Tolentino
+flagellava as costas aos patriarchas d'essa escola, no fim do seculo passado.
+</p>
+
+<blockquote>
+ Aos novos ursos todo o povo acode<br>
+ O estylo é sybillino, o nome é ode!</blockquote>
+
+<p>Um grito de consciencia obrigou o sr. Anthero do Quental a confessar o
+parentesco, dando ao seu livro o titulo de <em>Odes modernas</em>. O estylo é
+sybillino ainda, e parece que o nosso grande satyrico tinha as poesias do sr.
+Anthero do Quental diante dos olhos, quando escrevia:</p>
+
+<blockquote>
+ As taes poesias (que a entender não chego)<br>
+ Podres palavras teem desenterrado;<br>
+ Se levam nó, é tão occulto e cego,<br>
+ Que quem quer desatal-o vae logrado.<br>
+ Dizem que imitam n'isto um certo Grego,<br>
+ Gloria de Thebas, Pindaro chamado,<br>
+ Se isto é assim, a sua lingua d'oiro<br>
+ Seria grega, mas fallava moiro.<span class="pn">{7}</span></blockquote>
+
+<p>Mas não é esta ainda a pedra de escandalo; não é essa a grande virtude, que
+nos obrigou a crucificarmos o sr. Anthero do Quental entre o sr. Theophilo
+Braga, e o sr. Vieira de Castro. Que este ultimo já provavelmente é repellido
+como traidor, por que o sr. Vieira de Castro actualmente falla, com eloquencia
+ou sem eloquencia, não é essa a questão, mas pelo menos na linguagem terrestre.
+Esse renegou; mas ao sr. Theophilo Braga é que naturalmente o Christo coimbrão
+abre o seio carinhoso, a esse é que elle diz: <em>Hodie mecum eris in
+paradiso</em>.</p>
+
+<p>A maxima virtude d'essa escola, a que excita as nossas iras, é a sua
+adoração pelo ideal, o sacerdocio augusto que esses poetas exercem. Isso sim,
+isso é que nós não percebemos, por isso é que os apedrejamos.</p>
+
+<p>O ideal! mas o ideal deriva de idéa, e a idéa é o que eu em vão procuro por
+baixo da tumida crosta das suas poesias. Vejo o sr. Anthero do Quental ora
+abolir Deus, ora proclamar a obediencia dos astros á lei do infinito. Mas o que
+é o infinito? É a materia? Materia e infinito são duas palavras que andam aos
+pontapés uma á outra, como as rimas do sr. Anthero. Mas, admittindo a
+conciliação do inconciliavel, se é materialista, o que faz o distincto poeta ao
+ideal, que adora? É por fim de contas um ideal de convenção, bom para produzir
+effeito, mas em que o poeta não crê? Esse novo idolo teve a sorte de todos os
+idolos, e são os seus sacerdotes os primeiros que zombam d'elle, zombando do
+crédulo publico?</p>
+
+<p>Ah! não profane esse nome sagrado, não beba nos vasos santos o vinho dos
+seus desvairamentos! E sobretudo não profira os grandes nomes de Dante e de
+Shakespeare, pallido Saul tremente perante as sombras que evoca! E se persistir
+n'isso, se quizer por força que desçam do altar dos seculos o velho florentino
+e o tragico britanno, acautele-se porque o bando pueril de que é chefe e que
+entrou sorrateiramente no templo do ideal por descuido dos sachristães, póde
+ser escorraçado e disperso, não pelo chicote, que serviu a Jesus para expulsar
+os mercadores, mas pela férula, que castiga as travessuras das creanças, que
+vão brincar com coisas de que nada entendem.</p>
+
+<p>Dante era um barbaro, e Shakespeare tambem, diz o sr. Anthero do Quental,
+reclamando a confraternidade da barbaria. Engana-se; o sr. Anthero não é um
+barbaro, é um grego do Baixo Imperio. A sua escola é a turba de vermes, que
+brota da putrefacção de uma litteratura. É para os grandes homens do romantismo
+o que foi Claudiano para Virgilio, Marini para Tasso, Campistron para
+Corneille. A apparição da sua escola é um facto mil vezes repetido na historia
+litteraria, e a que inevitavelmente<span class="pn">{8}</span> se segue uma
+reacção salutar. Cumpram a sua missão; mas, ao resvalarem no precipicio, não se
+aferrem a essas arvores gigantes, que resumem em si uma litteratura inteira.
+Parasitas do ideal, não se enrosquem nos robles; mosquitos do coche litterario,
+não queiram ser como a sua collega da fabula, que zunia em torno dos corseis
+que puxavam o vehiculo, e andava n'uma azafama constante, esfalfada e ufana,
+persuadindo-se a si, e querendo persuadir os outros de que era ella e ella só
+quem arrastava o carro.</p>
+
+<p>Tambem Victor Hugo foi chamado a proteger as locubrações do sr. Anthero e as
+suas <em>estolas do infinito</em>. Se julgam encontrar nos livros de Victor
+Hugo authorisação para o emprego d'essas imagens absurdas, mostram mais uma vez
+que nem entendem os modêlos que tomam. As imagens do poeta exilado, por mais
+arrojadas que sejam, despertam sempre uma idéa no espirito dos leitores. A
+imagem (deixem-me fallar a sua lingua, e citar até, se me não engano, o sr.
+Theophilo Braga), é a expressão visivel do Sentimento. A imagem dá um corpo á
+idéa, e faz com que a vejam os olhos da phantasia. Quando Victor Hugo, n'uma
+synthese audaz, nos diz que a ave leva o infinito preso na ponta d'aza, vemos
+de relance a cadeia immensa dos seres, cujos fusis extremos se ligam; que idéa
+nos desperta a <em>estola do infinito</em>? quando encontrou o sr. Anthero do
+Quental, em Victor Hugo, uma imagem tão ôca de sentido como esta! E, se alguma
+vez a encontrou, foi de certo nos instantes em que a imperfectibilidade humana
+venceu a inspiração divina, foi nos momentos em que dormia Homero, e é uma
+covardia, sr. Anthero do Quental, aproveitar-se do somno do gigante, para lhe
+ir estampar na fronte o indelevel estygma da sua imitação.</p>
+
+<p>Mas o gigante desperta; levanta-se o Hercules, e, ao sacudir o manto, deixa
+cair os pygmeus, que lá se esconderam, na lama d'onde brotaram. <em>As aguias
+não saem das capoeiras</em>, disse, com muita razão o sr. Anthero; mas tambem
+não basta não sair de uma capoeira para ser aguia. As gallinhas tresmalhadas,
+que se mettem nos ninhos dos alcantís, podem julgar-se similhantes ás aves de
+Jupiter; mas quando se trata de voar, sobem as aguias para o ceu, desabam as
+gallinhas... no quintal. Cacarejem embora vituperios; os genios, a quem
+insultam, e aquelles a quem imitam (insulto ainda maior), pairam enlaçados no
+firmamento, e os zoilos nem terão a triste gloria de ser amarrados por elles ao
+pelourinho da sua immortalidade.</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot24" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> Referia-me ao sr.
+Julio de Castilho, cuja carta já foi publicada.</p>
+</div>
+
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+
+<h3>VENDE-SE</h3>
+
+<p>Em LISBOA&mdash;Livraria de A. M. Pereira, rua Augusta n.<sup>os</sup> 50, 52, e
+nas mais do costume.</p>
+
+<p>PORTO&mdash;Livraria da Viuva Moré, e na do sr. Cruz Coutinho.</p>
+
+<p>COIMBRA&mdash;Livraria da Viuva Moré.</p>
+
+<p style="text-align: center;">PREÇO 100 RÉIS</p>
+
+<hr style="width: 30%;">
+
+<p>Tambem se acham nas mesmas lojas:</p>
+
+<p><small><b>Resposta á carta que o senhor Anthero do Quental dirigiu ao senhor
+Antonio Feliciano de Castilho</b>, por Manoel Roussado&mdash;100 réis.</small></p>
+
+<p><small><b>O senhor Antonio Feliciano de Castilho e o senhor Anthero do Quental</b>,
+por Julio de Castilho&mdash;160 réis.</small></p>
+
+</div>
+
+<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30069 ***</div>
+</body>
+</html>
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
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+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
+eBook #30069 (https://www.gutenberg.org/ebooks/30069)
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@@ -0,0 +1,724 @@
+The Project Gutenberg EBook of Bom senso e bom gosto, folhetim a proposito
+da carta que o sr. Anthero do Quental dirigiu ao sr. A. F. de Castilho, by Manuel Pinheiro Chagas
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Bom senso e bom gosto, folhetim a proposito da carta que o sr. Anthero do Quental dirigiu ao sr. A. F. de Castilho
+
+Author: Manuel Pinheiro Chagas
+
+Release Date: September 23, 2009 [EBook #30069]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-15
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK BOM SENSO E BOM GOSTO--CHAGAS ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+
+
+
+
+ BOM-SENSO E BOM-GOSTO
+
+ FOLHETIM
+
+ A PROPOSITO DA CARTA
+
+ QUE O SENHOR
+
+ ANTHERO DO QUENTAL
+
+ DIRIGIU AO SENHOR
+
+ ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO
+
+ POR M. PINHEIRO CHAGAS
+
+
+
+
+LISBOA
+IMPRENSA DE J. G. DE SOUSA NEVES
+17--Rua do Caldeira--17
+
+1865
+
+
+
+BOM-SENSO E BOM-GOSTO
+
+FOLHETIM
+
+A PROPOSITO DA CARTA
+
+QUE O SENHOR
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+ANTHERO DO QUENTAL
+
+DIRIGIU AO SENHOR
+
+ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO
+
+POR M. PINHEIRO CHAGAS
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+
+
+LISBOA
+IMPRENSA DE J. G. DE SOUSA NEVES
+17--Rua do Caldeira--17
+
+1865
+
+
+
+
+ _A carta do sr. Anthero do Quental ao sr. Castilho--Motivo por que tomo
+ a palavra--O sr. Anthero apanhado em neglig--Vem a proposito o
+ baixo-profundo Marinozzi, o Banco Ultramarino, D. Ignez de Castro e
+ Cames--As novidades velhas--As porcelanas da Russia--Cita-se Nicolo
+ Tolentino--Entra-se na questo do ideal--Evocao perigosa--As escolas
+ da decadencia--No falta Victor Hugo--Para que servem as imagens--O
+ manto de Hercules--As aguias e as galinhas._
+
+
+Publicou-se ha tempo e tem-se espalhado em Lisboa uma carta dirigida
+pelo sr. Anthero do Quental ao sr. Antonio Feliciano de Castilho, carta
+em que o poeta das _Odes modernas_ protesta violenta e virulentamente
+contra a censura, irrogada pelo cantor do _Amor e Melancholia_
+desastrada escola, de que o sr. Anthero do Quental teve a triste honra
+de ser um dos fundadores. Fra lavrada essa censura no artigo de critica
+litteraria com que o sr. Castilho acompanhou o pobre poema, que ahi
+publiquei, e que ficou d'essa frma illustre. Marengo e Austertilz, diz
+Victor Hugo no prologo das _Orientaes_, eram duas ignoradas aldeias;
+immortalisou-as um dos lampejos victoriosos da espada de Napoleo.
+
+No intento responder carta; ainda que a pessoa, a quem ella
+dirigida, esteja dispensada de responder pela inconveniencia do ataque,
+no me compete a mim substituil-a. Penna mais competente e mais
+authorisada por todos os motivos se est preparando para isso;[1]
+mas eu, que fui um dos primeiros a accusar de falso, de
+affectado, de absurdo, de gongorico o estylo da escola de Coimbra, hoje,
+que uma das pythonizas desce da tripode, e vem, em linguagem accessivel
+aos mortaes, explicar os oraculos, e lanar a luva aos que zombaram dos
+livros sybillinos, no desamparo o meu posto, e apresso-me a descer
+lia, onde encontro afinal um adversario. No via at agora seno
+sombras impalpaveis, que fluctuavam nas brumas das abstraces, e se
+revestiam de um certo _ideal_, alugado a tanto por ode nos algibebes da
+Allemanha.
+
+Linguagem accessivel aos mortaes, disse eu j, e repito agora. Uma
+das maiores provas do absurdo d'aquelle estylo, dizia-me um dia d'estes
+Bulho Pato illuminando a questo com um dos admiraveis lampejos do seu
+espirito de poeta, que at para o defenderem precisam de o
+abandonarem. Mais ainda, digo eu; a prova de que esse estylo
+affectado que o sr. Anthero do Quental, quando o seu espirito,
+excitado pela critica justa ou injusta, que lhe foi feita, se levantou
+de um impeto para defender-se, quando a palavra lhe brotou
+espontaneamente dos labios, no procurou phraseado nebuloso, no adoptou
+frmas arrevezadas, deixou-a irromper envenenada mas vehemente, resvalar
+pelo declive natural, reflectir na torrente espumosa o esplendor do sol
+claro e limpido, o desanuviado azul do nosso firmamento. Apanhmol-o em
+flagrante delicto de naturalidade. Surprehendemol-o antes de ir para o
+toucador, sem peruca, sem carmim, sem p de arroz. verdade que o vimos
+tambem em mangas de camisa, e de mangas arregaadas. Mas antes isso, sr.
+Anthero do Quental, antes isso do que vestir aquella casaca allem, to
+safadinha j, e que nos quer dar por nova. _Innovar_, _inventar_, sr.
+Anthero do Quental! no tempo de Henrique Heine j essa casaca estava no
+fio, e ainda encontrou em Coimbra quem a arremendasse! Ah! Coimbra,
+_terra de encanto, do Mondego amena flor_ o que te falta so alfaiates,
+que no tenham s obra feita, vinda pelo paquete de Bordeos.
+
+A carta, abstrahindo da verrina indigna do sr. Anthero do Quental,
+revela um verdadeiro talento, infelizmente para o seu author. A unica
+desculpa, que tem quem pe cabelleira, ser calvo. Agora pde o
+sr. Anthero do Quental voltar quando quizer ao seu tom de oraculo, pde
+trepar de novo aos pincaros inaccessiveis do seu estylo, vestir-se,
+compor-se, arrebicar-se, pr a mascara de lata com que suppe engrossar
+a voz, como os actores gregos a robusteciam com a mascara de bronze,
+esbravejar na tripode, imitar a aguia de Guernesey como o corvo da
+fabula, que tambem intentou seguir o exemplo da rainha dos ares e que se
+emmaranhou na l de um carneiro, exactamente como o sr. Anthero do
+Quental se emmaranha nas suas lanzudas theorias; improvisar uma Pathmos
+da _Ponte no O_, ser o vidente do botequim do Throno, escrever um
+Apocalipse que se venda por 400 rs. nas lojas do costume, perceber o sr.
+Theophilo Braga e consentir que elle o perceba, chamar ode ao que nem
+charada porque no tem conceito; mas no estranhe, quando estiver todo
+ufano com o grande uniforme de sybilla, que lhe puxem pelo rabicho e que
+lhe digam: Larga a cabelleira.
+
+No vou responder carta, repito, vou apenas levantar as phrases,
+que foram dirigidas a todos quantos escrevemos n'esta profana Lisboa,
+para nosso ensino e aproveitamento. Oiamos com o devido respeito.
+
+Trata-se primeiro de saber qual o motivo da crua guerra intentada por
+ns contra a escola de Coimbra, guerra, em que ousmos, sem sermos
+Tites, escalar o Olympo, o que nos ha de render o ficarmos ahi
+soterrados debaixo de um Etna de palavriado. O motivo nada tem de
+litterario, simplesmente o despeito que nos causa a independencia de
+caracter dos escriptores da universidade, que no vem enfileirar-se nas
+nossas phalanges, nem jurar fidelidade aos nossos generaes, e a
+indignao que a estes inspira o verem aquelles refractarios vagueando
+independentes nos plainos do Mondego.
+
+Esteve aqui em Lisboa um baixo-profundo Marinozzi, que, tendo sido
+applaudido no Porto, foi pateado em S. Carlos. Nunca o digno homem se
+pde convencer de que essa pateada fosse dada sem segunda inteno, e
+que a originasse simplesmente ou o seu mau methodo ou a sua m voz. Fui
+pagar em Lisboa, dizia elle voltando lacrymoso para a cidade invicta, a
+questo da dissidencia do banco ultramarino, a iniciativa tomada pelo
+Porto na ida da exposio, e outras coisas que excitam os ciumes da
+capital. O sr. Anthero tambem opina pelo banco ultramarino e pela
+iniciativa da exposio. No o perturbemos n'essa illuso suave. Menos
+barbaro que Affonso IV com D. Ignez de Castro, deixemol-o passeiar
+_pelos saudosos campos do Mondego_.
+
+ N'aquelle engano d'alma ledo e cego!
+
+Mas, meu caro sr. Marinozzi, seja menos injusto. Suspeita que essas
+ovelhas tresmalhadas produzam tamanha desordem no aprisco lisbonense?
+Julga que os pastores se ralam com a falta de rezes, que foram atacadas
+pela epizootia, que grassa para esses sitios? Essa razo, que o sr.
+Anthero allega, no direi que seja uma razo de cabo d'esquadra, mas,
+como tanto se affeioou aos allemes, no se offender que eu lhe diga
+que ... _une raison d'allemand_.
+
+Qual o outro merecimento, por causa de qual so lapidados estes
+prophetas? porque elles no imitam, mas _innovam_ e _inventam_.
+
+Innovam o que? Inventam o que? A philosophia de Hegel? os systemas
+historicos de Vico? a symbolica pag de Creuzer? o esclarecimento da
+historia pelo estudo da jurisprudencia de Savigny? a critica de
+Schlegel, do Raynouard, de Villemain, de Michelet, de Quinet, de Taine?
+Mas tudo isso j l fra desceu das mysteriosas alturas do saber de
+poucos para a erudio comesinha dos Diccionarios de Conversao.
+Applicaram pelo menos ao estudo das coisas patrias os novos pharoes
+accendidos pelos sabios estrangeiros, pharoes que projectam a sua
+immensa luz nos mares tenebrosos do passado? No, nem isso, a menos que
+os artigos do sr. Theophilo Braga, que no do um passo para alm dos
+prologos de Garrett, no sejam considerados como equivalentes aos
+trabalhos dos eruditos francezes e allemes! E porque no ha de ser assim?
+
+ Eia ardor, corao, vaidade ao menos!
+
+vante! Innovem, sem pagarem direitos d'alfandega. Os manufactores
+russos fabricam jarras de porcelana, pondo nas de Svres um fundo, que
+occulta a marca franceza... Cautella, no lhes tirem o fundo, senhores
+innovadores e inventores! Escrevam livros, artigos
+
+ Cujos credores _na Allemanha_ fervem
+
+e fulminem com o seu despreso os que vo pelo trilho da vulgaridade.
+Venham as innovaes requentadas, as invenes em segunda mo, a
+originalidade da feira da ladra, o ideal de contrabando! Assim fez a
+gralha, em quanto a no depennaram.
+
+Mas o que tem inventado ento? A frma talvez, o estylo, o phraseado;
+essa farraparia creio que ninguem lh'a reclama. Essas lentejoulas que
+tomam por estrellas, essa missanga que impingem por diamantes, essa
+baeta vermelha com que arremedam purpura, tudo isso seu,
+pertence-lhes... Que digo? Nem isso mesmo! nem na parodia foram
+originaes; j o latego de Nicolau Tolentino flagellava as costas aos
+patriarchas d'essa escola, no fim do seculo passado.
+
+ Aos novos ursos todo o povo acode
+ O estylo sybillino, o nome ode!
+
+Um grito de consciencia obrigou o sr. Anthero do Quental a confessar o
+parentesco, dando ao seu livro o titulo de _Odes modernas_. O estylo
+sybillino ainda, e parece que o nosso grande satyrico tinha as poesias
+do sr. Anthero do Quental diante dos olhos, quando escrevia:
+
+ As taes poesias (que a entender no chego)
+ Podres palavras teem desenterrado;
+ Se levam n, to occulto e cego,
+ Que quem quer desatal-o vae logrado.
+ Dizem que imitam n'isto um certo Grego,
+ Gloria de Thebas, Pindaro chamado,
+ Se isto assim, a sua lingua d'oiro
+ Seria grega, mas fallava moiro.
+
+Mas no esta ainda a pedra de escandalo; no essa a grande virtude,
+que nos obrigou a crucificarmos o sr. Anthero do Quental entre o sr.
+Theophilo Braga, e o sr. Vieira de Castro. Que este ultimo j
+provavelmente repellido como traidor, por que o sr. Vieira de Castro
+actualmente falla, com eloquencia ou sem eloquencia, no essa a
+questo, mas pelo menos na linguagem terrestre. Esse renegou; mas ao sr.
+Theophilo Braga que naturalmente o Christo coimbro abre o seio
+carinhoso, a esse que elle diz: _Hodie mecum eris in paradiso_.
+
+A maxima virtude d'essa escola, a que excita as nossas iras, a sua
+adorao pelo ideal, o sacerdocio augusto que esses poetas exercem. Isso
+sim, isso que ns no percebemos, por isso que os apedrejamos.
+
+O ideal! mas o ideal deriva de ida, e a ida o que eu em vo procuro
+por baixo da tumida crosta das suas poesias. Vejo o sr. Anthero do
+Quental ora abolir Deus, ora proclamar a obediencia dos astros lei do
+infinito. Mas o que o infinito? a materia? Materia e infinito so
+duas palavras que andam aos pontaps uma outra, como as rimas do sr.
+Anthero. Mas, admittindo a conciliao do inconciliavel, se
+materialista, o que faz o distincto poeta ao ideal, que adora? por fim
+de contas um ideal de conveno, bom para produzir effeito, mas em que o
+poeta no cr? Esse novo idolo teve a sorte de todos os idolos, e so os
+seus sacerdotes os primeiros que zombam d'elle, zombando do crdulo
+publico?
+
+Ah! no profane esse nome sagrado, no beba nos vasos santos o vinho dos
+seus desvairamentos! E sobretudo no profira os grandes nomes de Dante e
+de Shakespeare, pallido Saul tremente perante as sombras que evoca! E se
+persistir n'isso, se quizer por fora que desam do altar dos seculos o
+velho florentino e o tragico britanno, acautele-se porque o bando pueril
+de que chefe e que entrou sorrateiramente no templo do ideal por
+descuido dos sachristes, pde ser escorraado e disperso, no pelo
+chicote, que serviu a Jesus para expulsar os mercadores, mas pela
+frula, que castiga as travessuras das creanas, que vo brincar com
+coisas de que nada entendem.
+
+Dante era um barbaro, e Shakespeare tambem, diz o sr. Anthero do
+Quental, reclamando a confraternidade da barbaria. Engana-se; o sr.
+Anthero no um barbaro, um grego do Baixo Imperio. A sua escola a
+turba de vermes, que brota da putrefaco de uma litteratura. para os
+grandes homens do romantismo o que foi Claudiano para Virgilio, Marini
+para Tasso, Campistron para Corneille. A appario da sua escola um
+facto mil vezes repetido na historia litteraria, e a que
+inevitavelmente se segue uma reaco salutar. Cumpram a sua misso;
+mas, ao resvalarem no precipicio, no se aferrem a essas arvores
+gigantes, que resumem em si uma litteratura inteira. Parasitas do ideal,
+no se enrosquem nos robles; mosquitos do coche litterario, no queiram
+ser como a sua collega da fabula, que zunia em torno dos corseis que
+puxavam o vehiculo, e andava n'uma azafama constante, esfalfada e ufana,
+persuadindo-se a si, e querendo persuadir os outros de que era ella e
+ella s quem arrastava o carro.
+
+Tambem Victor Hugo foi chamado a proteger as locubraes do sr. Anthero
+e as suas _estolas do infinito_. Se julgam encontrar nos livros de
+Victor Hugo authorisao para o emprego d'essas imagens absurdas,
+mostram mais uma vez que nem entendem os modlos que tomam. As imagens
+do poeta exilado, por mais arrojadas que sejam, despertam sempre uma
+ida no espirito dos leitores. A imagem (deixem-me fallar a sua lingua,
+e citar at, se me no engano, o sr. Theophilo Braga), a expresso
+visivel do Sentimento. A imagem d um corpo ida, e faz com que a
+vejam os olhos da phantasia. Quando Victor Hugo, n'uma synthese audaz,
+nos diz que a ave leva o infinito preso na ponta d'aza, vemos de relance
+a cadeia immensa dos seres, cujos fusis extremos se ligam; que ida nos
+desperta a _estola do infinito_? quando encontrou o sr. Anthero do
+Quental, em Victor Hugo, uma imagem to ca de sentido como esta! E, se
+alguma vez a encontrou, foi de certo nos instantes em que a
+imperfectibilidade humana venceu a inspirao divina, foi nos momentos
+em que dormia Homero, e uma covardia, sr. Anthero do Quental,
+aproveitar-se do somno do gigante, para lhe ir estampar na fronte o
+indelevel estygma da sua imitao.
+
+Mas o gigante desperta; levanta-se o Hercules, e, ao sacudir o manto,
+deixa cair os pygmeus, que l se esconderam, na lama d'onde brotaram.
+_As aguias no saem das capoeiras_, disse, com muita razo o sr.
+Anthero; mas tambem no basta no sair de uma capoeira para ser aguia.
+As gallinhas tresmalhadas, que se mettem nos ninhos dos alcants, podem
+julgar-se similhantes s aves de Jupiter; mas quando se trata de voar,
+sobem as aguias para o ceu, desabam as gallinhas... no quintal.
+Cacarejem embora vituperios; os genios, a quem insultam, e aquelles a
+quem imitam (insulto ainda maior), pairam enlaados no firmamento, e os
+zoilos nem tero a triste gloria de ser amarrados por elles ao
+pelourinho da sua immortalidade.
+
+ [1] Referia-me ao sr. Julio de Castilho, cuja carta j foi publicada.
+
+
+
+
+VENDE-SE
+
+Em LISBOA--Livraria de A. M. Pereira, rua Augusta n.^os 50, 52, e nas
+mais do costume.
+
+PORTO--Livraria da Viuva Mor, e na do sr. Cruz Coutinho.
+
+COIMBRA--Livraria da Viuva Mor.
+
+PREO 100 RIS
+
+
+Tambem se acham nas mesmas lojas:
+
+Resposta carta que o senhor Anthero do Quental dirigiu ao senhor
+Antonio Feliciano de Castilho, por Manoel Roussado--100 ris.
+
+O senhor Antonio Feliciano de Castilho e o senhor Anthero do Quental,
+por Julio de Castilho--160 ris.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Bom senso e bom gosto, folhetim a
+proposito da carta que o sr. Anthero do Quental dirigiu ao sr. A. F. de Castilho, by Manuel Pinheiro Chagas
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK BOM SENSO E BOM GOSTO--CHAGAS ***
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+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
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+Foundation
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+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
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+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
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+Literary Archive Foundation
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+status with the IRS.
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+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
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+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
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+approach us with offers to donate.
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+any statements concerning tax treatment of donations received from
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+concept of a library of electronic works that could be freely shared
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+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
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+ .rodape {
+ font-size: 0.8em;
+ margin: 2em;
+ }
+ </style>
+</head>
+
+<body>
+
+
+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of Bom senso e bom gosto, folhetim a proposito
+da carta que o sr. Anthero do Quental dirigiu ao sr. A. F. de Castilho, by Manuel Pinheiro Chagas
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Bom senso e bom gosto, folhetim a proposito da carta que o sr. Anthero do Quental dirigiu ao sr. A. F. de Castilho
+
+Author: Manuel Pinheiro Chagas
+
+Release Date: September 23, 2009 [EBook #30069]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-15
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK BOM SENSO E BOM GOSTO--CHAGAS ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+
+<p>&nbsp;</p>
+<div style="border: solid 2px #000; padding: 1em; text-align: center;">
+<p style="font-size: 1.8em;">BOM-SENSO E BOM-GOSTO</p>
+
+<hr style="width: 20%;">
+
+<p style="font-size: 1.8em;">FOLHETIM</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">A PROPOSITO DA CARTA</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">QUE O SENHOR</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">ANTHERO DO QUENTAL</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">DIRIGIU AO SENHOR</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO</p>
+
+<p>POR M. PINHEIRO CHAGAS</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<hr style="width: 30%;">
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>LISBOA<br>
+<small>IMPRENSA DE J. G. DE SOUSA NEVES<br>
+17&mdash;Rua do Caldeira&mdash;17</small></p>
+
+<p>1865</p>
+</div>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center;">
+<p style="font-size: 1.8em;">BOM-SENSO E BOM-GOSTO</p>
+
+<hr style="width: 20%;">
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+<p style="font-size: 1.8em;">FOLHETIM</p>
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+<p style="font-size: 1.4em;">A PROPOSITO DA CARTA</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">QUE O SENHOR</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">ANTHERO DO QUENTAL</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">DIRIGIU AO SENHOR</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO</p>
+
+<p>POR M. PINHEIRO CHAGAS</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<hr style="width: 30%;">
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>LISBOA<br>
+<small>IMPRENSA DE J. G. DE SOUSA NEVES<br>
+17&mdash;Rua do Caldeira&mdash;17</small></p>
+
+<p>1865</p>
+</div>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="corpo">
+<p><span class="pn">{3}</span></p>
+
+<p style="text-indent: -1em; margin-left: 1em;"><em>A carta do sr. Anthero do Quental ao sr. Castilho&mdash;Motivo por que tomo a
+palavra&mdash;O sr. Anthero apanhado em neglig&mdash;Vem a proposito o baixo-profundo
+Marinozzi, o Banco Ultramarino, D. Ignez de Castro e Cames&mdash;As novidades
+velhas&mdash;As porcelanas da Russia&mdash;Cita-se Nicolo Tolentino&mdash;Entra-se na questo
+do ideal&mdash;Evocao perigosa&mdash;As escolas da decadencia&mdash;No falta Victor
+Hugo&mdash;Para que servem as imagens&mdash;O manto de Hercules&mdash;As aguias e as
+galinhas.</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Publicou-se ha tempo e tem-se espalhado em Lisboa uma carta dirigida pelo
+sr. Anthero do Quental ao sr. Antonio Feliciano de Castilho, carta em que o
+poeta das <em>Odes modernas</em> protesta violenta e virulentamente contra a
+censura, irrogada pelo cantor do <em>Amor e Melancholia</em> desastrada
+escola, de que o sr. Anthero do Quental teve a triste honra de ser um dos
+fundadores. Fra lavrada essa censura no artigo de critica litteraria com que o
+sr. Castilho acompanhou o pobre poema, que ahi publiquei, e que ficou d'essa
+frma illustre. Marengo e Austertilz, diz Victor Hugo no prologo das
+<em>Orientaes</em>, eram duas ignoradas aldeias; immortalisou-as um dos
+lampejos victoriosos da espada de Napoleo.</p>
+
+<p>No intento responder carta; ainda que a pessoa, a quem ella dirigida,
+esteja dispensada de responder pela inconveniencia do ataque, no me compete a
+mim substituil-a. Penna mais competente e mais authorisada por todos os motivos
+se est preparando para isso;<a name="tex2html1"
+href="#foot24"><sup>[1]</sup></a> mas eu, que fui um dos primeiros a accusar de
+falso, de affectado, de absurdo, de gongorico o estylo da escola de Coimbra,
+hoje, que uma das pythonizas desce da tripode, e vem, em linguagem accessivel
+aos mortaes, explicar os oraculos, e lanar a luva aos que zombaram dos livros
+sybillinos, no desamparo o meu posto, e apresso-me a descer lia, onde
+encontro afinal um adversario. No via at agora seno sombras impalpaveis, que
+fluctuavam nas brumas das abstraces, e se revestiam de um certo
+<em>ideal</em>, alugado a tanto por ode nos algibebes da Allemanha.</p>
+
+<p>Linguagem accessivel aos mortaes, disse eu j, e repito agora.<span
+class="pn">{4}</span> Uma das maiores provas do absurdo d'aquelle estylo,
+dizia-me um dia d'estes Bulho Pato illuminando a questo com um dos admiraveis
+lampejos do seu espirito de poeta, que at para o defenderem precisam de o
+abandonarem. Mais ainda, digo eu; a prova de que esse estylo affectado que
+o sr. Anthero do Quental, quando o seu espirito, excitado pela critica justa ou
+injusta, que lhe foi feita, se levantou de um impeto para defender-se, quando a
+palavra lhe brotou espontaneamente dos labios, no procurou phraseado nebuloso,
+no adoptou frmas arrevezadas, deixou-a irromper envenenada mas vehemente,
+resvalar pelo declive natural, reflectir na torrente espumosa o esplendor do
+sol claro e limpido, o desanuviado azul do nosso firmamento. Apanhmol-o em
+flagrante delicto de naturalidade. Surprehendemol-o antes de ir para o
+toucador, sem peruca, sem carmim, sem p de arroz. verdade que o vimos tambem
+em mangas de camisa, e de mangas arregaadas. Mas antes isso, sr. Anthero do
+Quental, antes isso do que vestir aquella casaca allem, to safadinha j, e
+que nos quer dar por nova. <em>Innovar</em>, <em>inventar</em>, sr. Anthero do
+Quental! no tempo de Henrique Heine j essa casaca estava no fio, e ainda
+encontrou em Coimbra quem a arremendasse! Ah! Coimbra, <em>terra de encanto, do
+Mondego amena flor</em> o que te falta so alfaiates, que no tenham s obra
+feita, vinda pelo paquete de Bordeos.</p>
+
+<p>A carta, abstrahindo da verrina indigna do sr. Anthero do Quental, revela um
+verdadeiro talento, infelizmente para o seu author. A unica desculpa, que tem
+quem pe cabelleira, ser calvo. Agora pde o sr. Anthero do Quental
+voltar quando quizer ao seu tom de oraculo, pde trepar de novo aos pincaros
+inaccessiveis do seu estylo, vestir-se, compor-se, arrebicar-se, pr a mascara
+de lata com que suppe engrossar a voz, como os actores gregos a robusteciam
+com a mascara de bronze, esbravejar na tripode, imitar a aguia de Guernesey
+como o corvo da fabula, que tambem intentou seguir o exemplo da rainha dos ares
+e que se emmaranhou na l de um carneiro, exactamente como o sr. Anthero do
+Quental se emmaranha nas suas lanzudas theorias; improvisar uma Pathmos da
+<em>Ponte no O</em>, ser o vidente do botequim do Throno, escrever um
+Apocalipse que se venda por 400 rs. nas lojas do costume, perceber o sr.
+Theophilo Braga e consentir que elle o perceba, chamar ode ao que nem charada
+porque no tem conceito; mas no estranhe, quando estiver todo ufano com o
+grande uniforme de sybilla, que lhe puxem pelo rabicho e que lhe digam: Larga
+a cabelleira.</p>
+
+<p>No vou responder carta, repito, vou apenas levantar<span
+class="pn">{5}</span> as phrases, que foram dirigidas a todos quantos
+escrevemos n'esta profana Lisboa, para nosso ensino e aproveitamento. Oiamos
+com o devido respeito.</p>
+
+<p>Trata-se primeiro de saber qual o motivo da crua guerra intentada por ns
+contra a escola de Coimbra, guerra, em que ousmos, sem sermos Tites, escalar
+o Olympo, o que nos ha de render o ficarmos ahi soterrados debaixo de um Etna
+de palavriado. O motivo nada tem de litterario, simplesmente o despeito que
+nos causa a independencia de caracter dos escriptores da universidade, que no
+vem enfileirar-se nas nossas phalanges, nem jurar fidelidade aos nossos
+generaes, e a indignao que a estes inspira o verem aquelles refractarios
+vagueando independentes nos plainos do Mondego.</p>
+
+<p>Esteve aqui em Lisboa um baixo-profundo Marinozzi, que, tendo sido
+applaudido no Porto, foi pateado em S. Carlos. Nunca o digno homem se pde
+convencer de que essa pateada fosse dada sem segunda inteno, e que a
+originasse simplesmente ou o seu mau methodo ou a sua m voz. Fui pagar em
+Lisboa, dizia elle voltando lacrymoso para a cidade invicta, a questo da
+dissidencia do banco ultramarino, a iniciativa tomada pelo Porto na ida da
+exposio, e outras coisas que excitam os ciumes da capital. O sr. Anthero
+tambem opina pelo banco ultramarino e pela iniciativa da exposio. No o
+perturbemos n'essa illuso suave. Menos barbaro que Affonso <small>IV</small>
+com D. Ignez de Castro, deixemol-o passeiar <em>pelos saudosos campos do
+Mondego</em>.</p>
+
+
+<blockquote>
+ N'aquelle engano d'alma ledo e cego!</blockquote>
+
+<p>Mas, meu caro sr. Marinozzi, seja menos injusto. Suspeita que essas ovelhas
+tresmalhadas produzam tamanha desordem no aprisco lisbonense? Julga que os
+pastores se ralam com a falta de rezes, que foram atacadas pela epizootia, que
+grassa para esses sitios? Essa razo, que o sr. Anthero allega, no direi que
+seja uma razo de cabo d'esquadra, mas, como tanto se affeioou aos allemes,
+no se offender que eu lhe diga que ... <em>une raison d'allemand</em>.</p>
+
+<p>Qual o outro merecimento, por causa de qual so lapidados estes prophetas?
+ porque elles no imitam, mas <em>innovam</em> e <em>inventam</em>.</p>
+
+<p>Innovam o que? Inventam o que? A philosophia de Hegel? os systemas
+historicos de Vico? a symbolica pag de Creuzer? o esclarecimento da historia
+pelo estudo da jurisprudencia de Savigny? a critica de Schlegel, do Raynouard,
+de Villemain, de Michelet, de Quinet, de Taine? Mas tudo isso j l fra desceu
+das mysteriosas alturas do saber de poucos para a erudio<span
+class="pn">{6}</span> comesinha dos Diccionarios de Conversao. Applicaram
+pelo menos ao estudo das coisas patrias os novos pharoes accendidos pelos
+sabios estrangeiros, pharoes que projectam a sua immensa luz nos mares
+tenebrosos do passado? No, nem isso, a menos que os artigos do sr. Theophilo
+Braga, que no do um passo para alm dos prologos de Garrett, no sejam
+considerados como equivalentes aos trabalhos dos eruditos francezes e allemes!
+E porque no ha de ser assim?</p>
+
+
+<blockquote>
+ Eia ardor, corao, vaidade ao menos!</blockquote>
+
+<p>vante! Innovem, sem pagarem direitos d'alfandega. Os manufactores russos
+fabricam jarras de porcelana, pondo nas de Svres um fundo, que occulta a marca
+franceza... Cautella, no lhes tirem o fundo, senhores innovadores e
+inventores! Escrevam livros, artigos</p>
+
+
+<blockquote>
+ Cujos credores <em>na Allemanha</em> fervem</blockquote>
+
+<p style="text-indent: 0em;">e fulminem com o seu despreso os que vo pelo trilho da vulgaridade. Venham as
+innovaes requentadas, as invenes em segunda mo, a originalidade da feira
+da ladra, o ideal de contrabando! Assim fez a gralha, em quanto a no
+depennaram.</p>
+
+<p>Mas o que tem inventado ento? A frma talvez, o estylo, o phraseado; essa
+farraparia creio que ninguem lh'a reclama. Essas lentejoulas que tomam por
+estrellas, essa missanga que impingem por diamantes, essa baeta vermelha com
+que arremedam purpura, tudo isso seu, pertence-lhes... Que digo? Nem isso
+mesmo! nem na parodia foram originaes; j o latego de Nicolau Tolentino
+flagellava as costas aos patriarchas d'essa escola, no fim do seculo passado.
+</p>
+
+<blockquote>
+ Aos novos ursos todo o povo acode<br>
+ O estylo sybillino, o nome ode!</blockquote>
+
+<p>Um grito de consciencia obrigou o sr. Anthero do Quental a confessar o
+parentesco, dando ao seu livro o titulo de <em>Odes modernas</em>. O estylo
+sybillino ainda, e parece que o nosso grande satyrico tinha as poesias do sr.
+Anthero do Quental diante dos olhos, quando escrevia:</p>
+
+<blockquote>
+ As taes poesias (que a entender no chego)<br>
+ Podres palavras teem desenterrado;<br>
+ Se levam n, to occulto e cego,<br>
+ Que quem quer desatal-o vae logrado.<br>
+ Dizem que imitam n'isto um certo Grego,<br>
+ Gloria de Thebas, Pindaro chamado,<br>
+ Se isto assim, a sua lingua d'oiro<br>
+ Seria grega, mas fallava moiro.<span class="pn">{7}</span></blockquote>
+
+<p>Mas no esta ainda a pedra de escandalo; no essa a grande virtude, que
+nos obrigou a crucificarmos o sr. Anthero do Quental entre o sr. Theophilo
+Braga, e o sr. Vieira de Castro. Que este ultimo j provavelmente repellido
+como traidor, por que o sr. Vieira de Castro actualmente falla, com eloquencia
+ou sem eloquencia, no essa a questo, mas pelo menos na linguagem terrestre.
+Esse renegou; mas ao sr. Theophilo Braga que naturalmente o Christo coimbro
+abre o seio carinhoso, a esse que elle diz: <em>Hodie mecum eris in
+paradiso</em>.</p>
+
+<p>A maxima virtude d'essa escola, a que excita as nossas iras, a sua
+adorao pelo ideal, o sacerdocio augusto que esses poetas exercem. Isso sim,
+isso que ns no percebemos, por isso que os apedrejamos.</p>
+
+<p>O ideal! mas o ideal deriva de ida, e a ida o que eu em vo procuro por
+baixo da tumida crosta das suas poesias. Vejo o sr. Anthero do Quental ora
+abolir Deus, ora proclamar a obediencia dos astros lei do infinito. Mas o que
+ o infinito? a materia? Materia e infinito so duas palavras que andam aos
+pontaps uma outra, como as rimas do sr. Anthero. Mas, admittindo a
+conciliao do inconciliavel, se materialista, o que faz o distincto poeta ao
+ideal, que adora? por fim de contas um ideal de conveno, bom para produzir
+effeito, mas em que o poeta no cr? Esse novo idolo teve a sorte de todos os
+idolos, e so os seus sacerdotes os primeiros que zombam d'elle, zombando do
+crdulo publico?</p>
+
+<p>Ah! no profane esse nome sagrado, no beba nos vasos santos o vinho dos
+seus desvairamentos! E sobretudo no profira os grandes nomes de Dante e de
+Shakespeare, pallido Saul tremente perante as sombras que evoca! E se persistir
+n'isso, se quizer por fora que desam do altar dos seculos o velho florentino
+e o tragico britanno, acautele-se porque o bando pueril de que chefe e que
+entrou sorrateiramente no templo do ideal por descuido dos sachristes, pde
+ser escorraado e disperso, no pelo chicote, que serviu a Jesus para expulsar
+os mercadores, mas pela frula, que castiga as travessuras das creanas, que
+vo brincar com coisas de que nada entendem.</p>
+
+<p>Dante era um barbaro, e Shakespeare tambem, diz o sr. Anthero do Quental,
+reclamando a confraternidade da barbaria. Engana-se; o sr. Anthero no um
+barbaro, um grego do Baixo Imperio. A sua escola a turba de vermes, que
+brota da putrefaco de uma litteratura. para os grandes homens do romantismo
+o que foi Claudiano para Virgilio, Marini para Tasso, Campistron para
+Corneille. A appario da sua escola um facto mil vezes repetido na historia
+litteraria, e a que inevitavelmente<span class="pn">{8}</span> se segue uma
+reaco salutar. Cumpram a sua misso; mas, ao resvalarem no precipicio, no se
+aferrem a essas arvores gigantes, que resumem em si uma litteratura inteira.
+Parasitas do ideal, no se enrosquem nos robles; mosquitos do coche litterario,
+no queiram ser como a sua collega da fabula, que zunia em torno dos corseis
+que puxavam o vehiculo, e andava n'uma azafama constante, esfalfada e ufana,
+persuadindo-se a si, e querendo persuadir os outros de que era ella e ella s
+quem arrastava o carro.</p>
+
+<p>Tambem Victor Hugo foi chamado a proteger as locubraes do sr. Anthero e as
+suas <em>estolas do infinito</em>. Se julgam encontrar nos livros de Victor
+Hugo authorisao para o emprego d'essas imagens absurdas, mostram mais uma vez
+que nem entendem os modlos que tomam. As imagens do poeta exilado, por mais
+arrojadas que sejam, despertam sempre uma ida no espirito dos leitores. A
+imagem (deixem-me fallar a sua lingua, e citar at, se me no engano, o sr.
+Theophilo Braga), a expresso visivel do Sentimento. A imagem d um corpo
+ida, e faz com que a vejam os olhos da phantasia. Quando Victor Hugo, n'uma
+synthese audaz, nos diz que a ave leva o infinito preso na ponta d'aza, vemos
+de relance a cadeia immensa dos seres, cujos fusis extremos se ligam; que ida
+nos desperta a <em>estola do infinito</em>? quando encontrou o sr. Anthero do
+Quental, em Victor Hugo, uma imagem to ca de sentido como esta! E, se alguma
+vez a encontrou, foi de certo nos instantes em que a imperfectibilidade humana
+venceu a inspirao divina, foi nos momentos em que dormia Homero, e uma
+covardia, sr. Anthero do Quental, aproveitar-se do somno do gigante, para lhe
+ir estampar na fronte o indelevel estygma da sua imitao.</p>
+
+<p>Mas o gigante desperta; levanta-se o Hercules, e, ao sacudir o manto, deixa
+cair os pygmeus, que l se esconderam, na lama d'onde brotaram. <em>As aguias
+no saem das capoeiras</em>, disse, com muita razo o sr. Anthero; mas tambem
+no basta no sair de uma capoeira para ser aguia. As gallinhas tresmalhadas,
+que se mettem nos ninhos dos alcants, podem julgar-se similhantes s aves de
+Jupiter; mas quando se trata de voar, sobem as aguias para o ceu, desabam as
+gallinhas... no quintal. Cacarejem embora vituperios; os genios, a quem
+insultam, e aquelles a quem imitam (insulto ainda maior), pairam enlaados no
+firmamento, e os zoilos nem tero a triste gloria de ser amarrados por elles ao
+pelourinho da sua immortalidade.</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot24" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> Referia-me ao sr.
+Julio de Castilho, cuja carta j foi publicada.</p>
+</div>
+
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+
+<h3>VENDE-SE</h3>
+
+<p>Em LISBOA&mdash;Livraria de A. M. Pereira, rua Augusta n.<sup>os</sup> 50, 52, e
+nas mais do costume.</p>
+
+<p>PORTO&mdash;Livraria da Viuva Mor, e na do sr. Cruz Coutinho.</p>
+
+<p>COIMBRA&mdash;Livraria da Viuva Mor.</p>
+
+<p style="text-align: center;">PREO 100 RIS</p>
+
+<hr style="width: 30%;">
+
+<p>Tambem se acham nas mesmas lojas:</p>
+
+<p><small><b>Resposta carta que o senhor Anthero do Quental dirigiu ao senhor
+Antonio Feliciano de Castilho</b>, por Manoel Roussado&mdash;100 ris.</small></p>
+
+<p><small><b>O senhor Antonio Feliciano de Castilho e o senhor Anthero do Quental</b>,
+por Julio de Castilho&mdash;160 ris.</small></p>
+
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Bom senso e bom gosto, folhetim a
+proposito da carta que o sr. Anthero do Quental dirigiu ao sr. A. F. de Castilho, by Manuel Pinheiro Chagas
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+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
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+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
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+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
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+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
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