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+*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30068 ***
+
+ DESCRIPÇAÕ SOBRE A CULTURA DO CANAMO, OU CANAVE.
+
+ _Sua colheita, maceraçaõ n'agua, até se pôr no estado
+ para ser gramado, ripado, assedado._
+
+ TRADUZIDA, E IMPRESSA POR ORDEM
+
+ DE SUA MAGESTADE.
+
+
+
+
+ LISBOA,
+
+ Na Offic. de JOAÕ PROCOPIO CORREA DA SILVA,
+ Impressor da Santa Igreja Patriarcal.
+ ANNO M. DCC. XCVIII.
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+
+
+DESCRIPÇAÕ SOBRE A CULTURA DO CANAMO, OU CANAVE.
+
+
+
+
+§ I.
+
+_Qual he o temperamento do ar, que convem milhor ao Canamo._
+
+
+O Canamo naõ cresce tambem nos paizes quentes, como nos climas
+temperados, e se cria muito melhor nos Paizes frigidissimos, como o
+Canada, Riga, &c.: os quaes produzem abundancia de Linho, que he o
+melhor. Se emprega todos os annos huma grande quantidade do Canamo de
+Riga, em França, em Inglaterra, e principalmente em Hollanda.
+
+
+
+
+§ II.
+
+_Qual he a terra, mais propria para o Canamo._
+
+
+He preciso para o Canamo huma terra branda, facil de lavrar, e hum pouco
+ligeira: porém fertil, e bem estercada. Os terrenos seccos naõ saõ
+proprios para semear o Canamo: porque naõ cresce muito nelles: antes
+pelo contrario he sempre baixo, e o linho, que produz, he ordinariamente
+lenhoso, o que o faz duro, e elastico: todos estes defeitos saõ
+consideraveis, principalmente para fazer as maiores cordagens, como
+veremos adiante.
+
+Com tudo nos annos chuvosos he melhor semeallo nos terrenos seccos, do
+que nos terrenos humidos: porém estes annos saõ raros, assim se deve
+semear ordinariamente á borda d'hum regato, ou d'algum souto, cheio
+d'agua, de sorte, que a agua esteja muito perto, sem que produza
+innundaçaõ; estas terras saõ muito procuradas.
+
+
+
+
+§ III.
+
+_Dos Estrumes proprios para temperar a terra dos Linhos._
+
+
+Todos os adubos, que fazem a terra leve saõ proprios para a producçaõ do
+Canamo: por conseguinte, o estrume de cavallo, d'ovelha, de pombo, o
+lodo das capoeiras se devem preferir ao estrume de boi, e de vacca, e
+naõ sei se por acaso se deve usar também, para estrumar os Linhaes de
+barro, chamado marne.
+
+He preciso estrumar todos os annos os linhaes, antes da lavoura do
+Inverno, para que o estrume tenha tempo de se consumir, durante esta
+estaçaõ, e para que se misture mais intimamente com a terra, quando se
+fazem as lavouras da Primavera.
+
+O estrume dos pombos he o unico, que se espalha nas ultimas lavouras,
+para se tirar delle melhor proveito: com tudo quando a Primavera he
+secca, se deve temer, que o estrume venha a queimar a semente, o que naõ
+succederá, se se espalhar no Inverno; porém neste caso he melhor deitar
+mais estrume, porque, fazendo o contrario, resultaria menos proveito.
+
+
+
+
+§ IV.
+
+_Das Lavouras, que se devem dar aos Linhaes._
+
+
+A Primeira, e a mais consideravel destas Lavouras, se deve dar nos mezes
+de Dezembro, e Janeiro: ha Pessoas, que costumaõ fazella com a charrua,
+lavrando a terra por traços, ou regos, outros a costumaõ fazer com a
+enchada, formando com ella regos, para que as geadas do Inverno amoleçaõ
+melhor a terra; ha tambem outros, que a fazem com a pá de ferro, com a
+qual se fazem os valados; este modo he sem contradicçaõ melhor, que os
+outros; porém he mais dilatado, e mais trabalhoso; pelo contrario a
+Lavoura da charrua he a mais expedita; porém menos proveitosa.
+
+Na primeira se deve preparar a terra para effeito de receber a semente,
+lavrando-a duas, ou tres vezes, de quinze em quinze dias, ou de tres em
+tres semanas, e depois disto, se deve alizar o terreno.
+
+Deve-se observar, que estas Lavouras se devem, ou se podem fazer como
+aquella, que se faz no Inverno com a charrua, enchada, ou com a
+sobredita pá.
+
+Finalmente, quando estas Lavouras saõ feitas, e que ficaõ alguns
+torrões, se devem pilar com huns malhos; porque he preciso, que todo o
+terreno do Linhal esteja taõ unido, e taõ movel, como o canteiro d'hum
+Jardim.
+
+
+
+
+§ V.
+
+_Do tempo, e da maneira de semear a Linhaça._
+
+
+Costuma-se semear a Linhaça no mez de Abril, alguns a semeaõ quinze dias
+mais cedo, que os outros, e todos correm differentes perigos; porque
+aquelles, que a semeaõ muito cedo, devem summamente temer as geadas da
+Primavera, que causaõ grande prejuizo ao Canamo, novamente nascido; e
+aquelles que semeaõ muito tarde, devem temer as seccuras, que impedem
+algumas vezes o nascimento do Canamo.
+
+A Linhaça se deve semear espessa, porque, sendo semeada ralla, viria a
+ser o Canamo muito grosso, a casca muito lenhosa, e a fibra muito dura,
+o que he hum grande defeito; com tudo quando a linhaça se semea muito
+espessa, ficaõ muitos pés pequenos, e abaffados pelos outros, o que he
+tambem hum inconveniente; he preciso pois observar hum meio, e
+ordinariamente os Linhaes naõ saõ rallos, senaõ quando perece huma parte
+da linhaça por causa das geadas, da seccura, ou quaesquer outros
+accidentes.
+
+Assim se deve observar, que a linhaça he huma semente oleosa; porque
+estas sortes de sementes, se fazem rançosas com o tempo, e entaõ naõ
+nascem; por conseguinte he preciso fazer de sórte, que senaõ semeie
+mais, que a linhaça da ultima colheita; porque quando se semeia aquella,
+que tem dous annos, muitos grãos naõ nascem, e se for mais velha,
+nascerá muito menos.
+
+Logo que se semeia a linhaça, he preciso enterralla, esta operaçao se
+faz com huma grade, se a terra foi lavrada com a charrua, ou com hum
+ansinho, se foi lavrada com a enchada, ou pá.
+
+Além desta precauçaõ he preciso guardar com cuidado o Linhal, até
+que a linhaça esteja inteiramente nascida: por causa da quantidade
+de passaros, e principalmente de pombos, que o destroem
+extraordinariamente. He verdade, que os pombos naõ esgravataõ, nem
+outros muitos passaros, e naõ fazem damno aos grãos de trigo, que se
+achaõ cubertos de terra; porém damnificaõ muito a linhaça, ainda que
+esteja bem cuberta; porque a differença, que ha entre estas duas
+sementes, he que os grãos de trigo naõ sahem da terra juntamente com a
+herva, que produzem; porém a linhaça sahe inteiramente com a pequena
+planta, que produz, e he neste tempo, que os pombos, e outros passaros
+lhe causaõ grande damno: porque, em comendo o graõ da linhaça, arrancaõ
+a planta, e a destroem absolutamente.
+
+Os camponezes costumaõ fazer fugir os passaros com espantalhos, e fazem
+guardar os Linhaes por seus filhos. Estas precauções naõ saõ
+sufficientes, quando os Linhaes saõ muito grandes, e que os pombos estaõ
+famintos; porque tenho visto pessoas muito robustas, e ligeiras, e
+tambem alguns cães desamparar o Linhal, por estarem excessivamente
+cançados: porém este trabalho naõ dura muito tempo; porque quando tem
+lançado muitas folhas, naõ he preciso guardar os Linhaes.
+
+
+
+
+§ VI.
+
+_Do cuidado, que se deve ter com o Linhal até a sua colheita._
+
+
+Os Linhaes, que custaõ muito trabalho até ao nascimento da linhaça, naõ
+daõ trabalho algum, até ao tempo da colheita, assim he preciso entreter
+sómente os fossos, e impedir que os animaes os naõ damnifiquem.
+
+Com tudo quando as seccuras saõ grandes, ha camponezes, que costumaõ
+regar os seus Linhaes, porém he preciso, que sejaõ pequenos, e que a
+agua esteja perto, excepto que se possaõ regar por immersaõ, como se
+pratica em alguns lugares.
+
+Temos dito, que aconteciaõ algumas vezes accidentes á linhaça, que
+faziaõ o Linhal rallo, e temos tambem observado, que entaõ o Canamo era
+grosso, ramalhudo, e incapaz de produzir boa fibra; neste caso he
+preciso sachallo para tirar maior fructo do Linhal, e para impedir, que
+as más hervas suffoquem o Canamo.
+
+
+
+
+§ VII.
+
+_Colheita do Canamo macho._
+
+
+No principio de Agosto os pés do Canamo, que naõ tem semente, aos quaes
+o vulgo chama Canamo femea, e que nós chamamos macho, principiaõ a
+fazer-se amarellos na parte superior, e brancos na inferior, o que he
+hum signal evidente d'estarem capazes de se arrancarem; entaõ as
+mulheres entraõ no Linhal, e arrancaõ todos os pés machos: dos quaes
+fazem feixinhos, que põem por ordem no chaõ, tendo grande cuidado de naõ
+damnificar o Canamo femea; porque deve ficar na terra algum tempo mais,
+para acabar de amadurecer a sua semente.
+
+Depois de ter arrancado o Canamo macho, se fórma delle feixesinhos;
+deve-se tomar cuidado, que as plantas, que os fórmaõ, sejaõ de hum igual
+comprimento pouco mais, ou menos, e que todas as raizes sejaõ iguaes,
+finalmente cada feixesinho se deve atar com hum raminho de Canamo.
+
+Depois disto se deve expor ao Sol para fazer seccar as folhas, e as
+flores: quando saõ seccas se fazem cahir, batendo cada feixinho contra o
+tronco de huma arvore, ou contra huma parede, e se ajuntaõ varios destes
+feixesinhos, para formar delles outros maiores, e transportallos para o
+lugar, aonde se devem deitar de molho.
+
+
+
+
+§ VIII.
+
+_Como se deve curtir, ou deitar de molho o Canamo._
+
+
+O Lugar, aonde se costuma curtir o linho Canamo, he hum fosso, que deve
+ter dezoito, ou vinte e quatro pés de comprimento, doze, ou dezoito de
+largura, e tres, ou quatro de profundidade, o qual se deve encher de
+agua, que se transporta para o dito lugar de alguma fonte proxima, e se
+houver occasiaõ, seria melhor introduzir no dito fosso por meio de algum
+aqueducto, para evitar algum trabalho, quando o fosso está cheio, se
+deve deixar hum lugar livre, para que a superficie da dita agua se possa
+vasar.
+
+Ha varias pessoas, que, desprezando este modo de curtir o Canamo, fazem
+sómente hum simples fosso á borda de hum rio: ha outras, que o molhaõ,
+mettendo-o no mesmo rio: finalmente quando as fontes, e os rios estaõ
+muito longe, o costumaõ curtir nos fóssos cheios de agua; ou nas lagoas.
+
+Quando se quer curtir o Canamo, se põem em ordem no fundo d'agua,
+cobrindo-o com huma pouca de palha, sobre a qual se põem alguns pedaços
+de páo, ou de pedra para segurar o Canamo.
+
+O Canamo se deve deixar neste estado até que a casca, que produz a fibra
+se despegue facilmente do tallo, que se acha no meio da planta, a qual
+se deve visitar de tempo em tempo, para ver se a dita casca se despega
+com facilidade do dito tallo, e quando se despegar facilmente, se deve
+tirar do fosso, donde se acha.
+
+A operaçaõ, de que fallamos, naõ somente serve para fazer cahir a casca
+do Canamo, mas tambem para atenrar, e afinar a fibra; para melhor
+comprehender como a agua produz este effeito, he preciso ter huma idéa
+da disposicaõ organica de huma aste do dito Canamo: assim a vou dar o
+mais breve, que for possivel.
+
+As astes do Canamo saõ ocas inteiramente, e cheias de huma tenra
+medulla: sobre esta medulla ha hum páo tenro, e quebradiço, que se chama
+tallo, ou cana, sobre o qual se acha huma casca bastantemente delgada,
+composta de fibras, que se estendem ao comprimento da aste: esta casca
+está bastantemente pegada á dita cana, e as fibras longitudinaes, de que
+a dita casca he composta se ajuntaõ humas, e outras por meio d'hum
+tecido vessicular, ou celular; finalmente tudo isto se acha coberto
+d'huma finissima membrana, que se póde chamar epiderme.
+
+O metter o Canamo na agua naõ he para outra cousa mais, senaõ para que a
+casca se despegue da cana mais facilmente, para destruir a epiderme, e
+huma parte do tecido celular, que ligaõ juntamente as fibras
+longitudinaes. Tudo isto se produz por hum principio de podridaõ; por
+cuja causa senaõ deve ter muito tempo na agua; porque entaõ naõ somente
+a epiderme se corromperia, mas tambem prejudicaria as fibras
+longitudinaes, e naõ teria força alguma: pelo contrario quando o Canamo
+naõ fica na agua o tempo necessario, a casca está pegada ao tallo, e a
+fibra fica dura, e elastica, sem se poder nunca afinar perfeitamente,
+assim se deve observar hum meio, que consiste naõ sómente no tempo, que
+deve estar de molho, mas tambem
+
+I. Na qualidade d'agua; porque he melhor curtir o Canamo n'agua
+encharcada, e turva, que naquella, que corre, e que he clara.
+
+II. No calor do ar; porque he mais util curtillo, quando faz calma, do
+que quando faz frio.
+
+III. Na qualidade do Canamo: porque aquelle, que se cria em huma terra
+branda, e humida, e que se colhe algum tanto verde, se curte mais
+depressa, que aquelle que se cria em huma terra forte, e secca, e que se
+deixa amadurecer muito.
+
+Finalmente, quando o Canamo está pouco tempo n'agua para se curtir, a
+fua fibra he melhor; por cuja causa senaõ deve curtir senaõ no tempo
+quente, e quando os Outonos saõ frios, ha pessoas, que guardaõ o Canamo
+femea para a Primavera seguinte, para entaõ se curtir: ha alguns, que
+julgaõ ser melhor curtillo n'agua encharcada, e mórta, do que n'agua
+viva.
+
+Mandei curtir o Canamo em differentes aguas, e achei mais suave aquelle,
+que tinha sido curtido n'agua encharcada, do que aquelle, que foi n'agua
+corrente: porém a fibra, que se tira do Canamo, curtido n'agua
+encharcada, adquire huma cor desagradavel, que lhe naõ causa
+verdadeiramente prejuiso algum; porque se faz branca com facilidade;
+porém esta cor desagrada, e faz-lhe perder a venda, assim se deve fazer
+passar pelo meio do lugar aonde o Canamo se curtio, huma pequena
+corrente d'agua para renovar aquella, que anticipadamente se deitou no
+fosso, e para prevenir, que senaõ corrompa: cheguei a curtir o Canamo
+estendendo-o sobre hum prado, como fazem as lavadeiras, quando querem
+córar a roupa; porém este modo de curtir he muito custoso, e além disso
+a fibra tem pouca differença daquella, que se curtio segundo o methodo.
+
+Fiz tambem a experiencia de mandar ferver o Canamo n'agua com a
+esperança de o curtir em pouco tempo; porém tendo fervido mais de dez
+horas, o tirei d'agua, e fazendo-o seccar, achei, que se naõ podia
+tascar. He verdade, que mandando-o eu tascar, estando ainda molhado, e
+quente, a casca se despegava facilmente: porém ficava, como huma fita, e
+naõ se tendo destruido o tecido celular, as fibras longitudinaes ficavaõ
+juntas humas com outras, de sorte que naõ se podendo separar era
+impossivel affinar bem a fibra; pelo referido se mostra evidentemente,
+que senaõ póde terminar o tempo, que o Canamo ha de ficar n'agua, porque
+a qualidade do Canamo, d'agua, e temperamento do ar affroixaõ, ou
+precipitaõ esta operaçaõ. Alguns julgaõ, que o Canamo está bastantemente
+curtido, quando a casca se despega facilmente da cana, e isto ajuda
+muito aos Lavradores, que cultivaõ esta planta, a naõ lhe darem, senaõ o
+gráo de curtidura, que he preciso; com tudo se enganaõ algumas vezes, e
+me parece, que ha Provincias, aonde se costuma curtir mais tempo, do que
+em outras. Naõ posso deixar d'advertir, que deve haver muita cautella em
+naõ curtir o Canamo em certas aguas, aonde se achaõ alguns pequenos
+bichos, chamados lagostins, porque roem o Canamo, e a fibra fica quasi
+perdida.
+
+
+
+
+§ IX.
+
+_Da colheita do Canamo Femea._
+
+
+Quando tratámos do Canamo macho, dissemos, que se devia deixar ainda
+algum tempo na terra o Canamo femea, para que a sua semente acabasse
+d'amadurecer: porém esta dilaçaõ faz amadurecer muito o Canamo femea, e
+faz tambem, que a sua casca, venha a ser muito lenhosa, donde se segue
+que o linho, que se tira da dita planta; he mais grosseiro, e mais
+tosco, que aquelle, que se tira do Canamo macho; assim quando se vir,
+que a semente está bem formada, se deve arrancar o Canamo femea do mesmo
+modo, que se arranca o macho, do qual se devem formar feixesinhos, e
+polos na mesma ordem, que dissemos acima.
+
+Em alguns Paizes se costuma acabar de amadurecer a linhaça, mettendo o
+Canamo femea em algumas covas redondas da profundidade d'hum pé, e de
+tres, até quatro de diametro, e pondo no fundo destas covas os
+feixesinhos de Canamo bem unidos huns com os outros de modo, que a
+linhaça fique para baixo, e a raiz da planta para cima, e atando os
+feixesinhos do Canamo com ligaduras de palha, para ficarem bem juntos, e
+lhe lançaõ ao redor toda a terra, que se tinha tirado das covas, para
+que as cabeças do Canamo fiquem bem abaffadas.
+
+As cabeças do Canamo se aquecem com o auxilio da humidade, que se contém
+na dita cova; do mesmo modo que se aquece hum montaõ de feno verde, ou
+hum montaõ d'esterco: este calor acaba d'amadurecer a linhaça, e a
+dispoem para sahir da sua casca mais facilmente.
+
+Quando a linhaça está madura, o Canamo se tira fóra da cova, porque
+criaria bolor, se o deixarem mais tempo na cova, do que he necessario.
+
+Em alguns Paizes, aonde ha muito Canamo, o naõ costumaõ enterrar do
+modo, que acabo de dizer; porém costumaõ pôr os feixesinhos em tal
+ordem, que ficaõ cabeça com cabeça, e alguns dias depois tiraõ a linhaça
+do modo, que vou dizer.
+
+
+
+
+§ X.
+
+_Da Colheita da Linhaça._
+
+
+Aquelles que tem pouco Canamo, costumaõ estender hum panno no chaõ para
+receber nelle a sua semente, outros alimpaõ, e preparaõ hum lugar bem
+unido, no qual estendem o Canamo, pondo as cabeças d'hum mesmo lado, e
+depois disto as batem ligeiramente, com hum páo, ou com hum mangoal:
+esta operaçao faz cahir a linhaça, a qual costumaõ pôla de parte, para
+semear na Primavera seguinte, porém como fica ainda muita linhaça nas
+cabeças do Canamo, esta se tira, penteando as ditas cabeças com os
+dentes d'hum instrumento, chamado ripador, e por meio desta operaçaõ se
+faz cahir ao mesmo tempo as folhas com a linhaça, tudo misturado
+juntamente: costuma-se guardar tudo isto em hum montaõ alguns dias, e
+depois se estende ao Sol para se seccar: finalmente tudo aquillo se bate
+depois de secco, e se alimpa a linhaça, joeirando-a, ou passando-a por
+hum crivo: esta segunda semente serve para fazer óleo de linhaça, e para
+nutrir as aves domesticas. Finalmente se costuma levar o Canamo ao
+lugar, onde se curte, para se preparar do mesmo modo, que o Canamo
+macho.
+
+
+
+
+§ XI.
+
+_O que he preciso fazer para tirar o Canamo do lugar, aonde se deitou de
+molho._
+
+
+Quando se tirar o Canamo do fosso, aonde se curtio, se devem desatar os
+feixesinhos para effeito de se seccar, estendendo-os ao Sol ao longo de
+hum muro, ou em hum lugar, em que naõ haja absolutamente humidade:
+deve-se ter muito cuidado de virar os ditos feixes de tempo em tempo, e
+quando o Canamo estiver bem secco, se deve pôr outra vez em feixes, e
+transportallos para a casa, onde se quer recolher em lugar secco, até
+que o queiraõ tascar.
+
+N. B. _Esta Obra he precursora de outra maior, em que se continuará esta
+Memoria, que he de M. Duhamel, e se dará tudo o mais que se tem escripto
+a este assumpto, até entrar na cordearia._
+
+
+FIM.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Descripçaõ sobre a cultura do Canamo
+ou Canave, by Henri-Louis Duhamel du Monceau
+
+*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30068 ***