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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-14 19:53:05 -0700
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+++ b/30068-h/30068-h.htm
@@ -0,0 +1,473 @@
+<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN">
+<html lang="pt">
+<head>
+ <title>Descripçaõ sobre a cultura do Canamo</title>
+ <meta name="Author" content="Duhamel du Monceau, Henri-Louis, 1700-1782">
+ <meta name="Translator"
+ content="Veloso, José Mariano da Conceição, 1742-1811">
+ <meta name="Publisher" content="Offic. de Joaõ Procopio Correa da Silva">
+ <meta name="Date" content="1798">
+ <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=UTF-8">
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+</head>
+
+<body>
+<div>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30068 ***</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center; border: solid 2px #000; padding: 1em;">
+<p style="font-size: 1.6em; margin: 0em;">DESCRIPÇAÕ</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em; margin: 0em;">SOBRE</p>
+
+<p style="font-size: 1.6em; margin: 0em;">A CULTURA</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em; margin: 0em;">DO</p>
+
+<p style="font-size: 1.6em; margin: 0em;">CANAMO,</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em; margin: 0em;">OU</p>
+
+<p style="font-size: 1.6em; margin: 0em;">CANAVE.</p>
+
+<p style="font-size: 1.0em;"><em>Sua colheita, maceraçaõ n'agua, até se pôr no estado para ser gramado,
+ripado, assedado.</em></p>
+
+<p style="font-size: 1.2em; margin: 0em;">TRADUZIDA, E IMPRESSA<br>
+
+POR ORDEM</p>
+
+<p style="font-size: 1.6em; margin: 0em;">DE SUA MAGESTADE.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.6em; margin: 0em;">LISBOA,</p>
+<p style="font-size: 1.0em;">Na Offic. de J<small>OAÕ </small>P<small>ROCOPIO </small>C<small>ORREA
+</small>D<small>A </small>S<small>ILVA</small>, <br>
+Impressor da Santa Igreja Patriarcal. <br>
+A<small>NNO M. DCC. XCVIII.</small></p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="corpo">
+<p><span class="pn">{3}</span></p>
+
+<h1>DESCRIPÇAÕ<br>
+SOBRE<br>
+A CULTURA<br>
+DO<br>
+CANAMO,<br>
+OU<br>
+CANAVE.</h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00010000000000000000">§ I.</a></h2>
+
+<h3><a name="SECTION00011000000000000000"><em>Qual he o temperamento do ar, que
+convem milhor ao Canamo.</em></a></h3>
+
+<p>O Canamo naõ cresce tambem nos paizes quentes, como nos climas temperados, e
+se cria muito melhor nos Paizes frigidissimos, como o Canada, Riga, &amp;c.: os
+quaes produzem abundancia de Linho, que he o melhor. Se emprega todos os annos
+huma grande quantidade do Canamo de Riga, em França, em Inglaterra, e
+principalmente em Hollanda.<span class="pn">{4}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00020000000000000000">§ II.</a></h2>
+
+<h3><a name="SECTION00021000000000000000"><em>Qual he a terra, mais propria para o
+Canamo.</em></a></h3>
+
+<p>He preciso para o Canamo huma terra branda, facil de lavrar, e hum pouco
+ligeira: porém fertil, e bem estercada. Os terrenos seccos naõ saõ proprios
+para semear o Canamo: porque naõ cresce muito nelles: antes pelo contrario he
+sempre baixo, e o linho, que produz, he ordinariamente lenhoso, o que o faz
+duro, e elastico: todos estes defeitos saõ consideraveis, principalmente para
+fazer as maiores cordagens, como veremos adiante.</p>
+
+<p>Com tudo nos annos chuvosos he melhor semeallo nos terrenos seccos, do que
+nos terrenos humidos: porém estes annos saõ raros, assim se deve semear
+ordinariamente á borda d'hum regato, ou d'algum souto, cheio d'agua, de sorte,
+que a agua esteja muito perto, sem que produza innundaçaõ; estas terras saõ
+muito procuradas.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00030000000000000000">§ III.</a></h2>
+
+<h3><a name="SECTION00031000000000000000"><em>Dos Estrumes proprios para
+temperar a terra dos Linhos.</em></a></h3>
+
+<p>Todos os adubos, que fazem a terra leve saõ proprios para a producçaõ do
+Canamo: por conseguinte, o estrume de cavallo, d'ovelha, de pombo, o lodo das
+capoeiras se devem preferir ao estrume de boi, e de vacca, e naõ sei se por
+acaso se deve usar também, para estrumar os Linhaes de barro, chamado marne.
+</p>
+
+<p>He preciso estrumar todos os annos os linhaes,<span class="pn">{5}</span>
+antes da lavoura do Inverno, para que o estrume tenha tempo de se consumir,
+durante esta estaçaõ, e para que se misture mais intimamente com a terra,
+quando se fazem as lavouras da Primavera.</p>
+
+<p>O estrume dos pombos he o unico, que se espalha nas ultimas lavouras, para
+se tirar delle melhor proveito: com tudo quando a Primavera he secca, se deve
+temer, que o estrume venha a queimar a semente, o que naõ succederá, se se
+espalhar no Inverno; porém neste caso he melhor deitar mais estrume, porque,
+fazendo o contrario, resultaria menos proveito.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00040000000000000000">§ IV.</a></h2>
+
+<h3><a name="SECTION00041000000000000000"><em>Das Lavouras, que se devem dar
+aos Linhaes.</em></a></h3>
+
+<p>A Primeira, e a mais consideravel destas Lavouras, se deve dar nos mezes de
+Dezembro, e Janeiro: ha Pessoas, que costumaõ fazella com a charrua, lavrando a
+terra por traços, ou regos, outros a costumaõ fazer com a enchada, formando com
+ella regos, para que as geadas do Inverno amoleçaõ melhor a terra; ha tambem
+outros, que a fazem com a pá de ferro, com a qual se fazem os valados; este
+modo he sem contradicçaõ melhor, que os outros; porém he mais dilatado, e mais
+trabalhoso; pelo contrario a Lavoura da charrua he a mais expedita; porém menos
+proveitosa.</p>
+
+<p>Na primeira se deve preparar a terra para effeito de receber a semente,
+lavrando-a duas, ou tres vezes, de quinze em quinze dias, ou de tres em tres
+semanas, e depois disto, se deve alizar o terreno.<span class="pn">{6}</span>
+</p>
+
+<p>Deve-se observar, que estas Lavouras se devem, ou se podem fazer como
+aquella, que se faz no Inverno com a charrua, enchada, ou com a sobredita pá.
+</p>
+
+<p>Finalmente, quando estas Lavouras saõ feitas, e que ficaõ alguns torrões, se
+devem pilar com huns malhos; porque he preciso, que todo o terreno do Linhal
+esteja taõ unido, e taõ movel, como o canteiro d'hum Jardim.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00050000000000000000">§ V.</a></h2>
+
+<h3><a name="SECTION00051000000000000000"><em>Do tempo, e da maneira de semear
+a Linhaça.</em></a></h3>
+
+<p>Costuma-se semear a Linhaça no mez de Abril, alguns a semeaõ quinze dias
+mais cedo, que os outros, e todos correm differentes perigos; porque aquelles,
+que a semeaõ muito cedo, devem summamente temer as geadas da Primavera, que
+causaõ grande prejuizo ao Canamo, novamente nascido; e aquelles que semeaõ
+muito tarde, devem temer as seccuras, que impedem algumas vezes o nascimento do
+Canamo.</p>
+
+<p>A Linhaça se deve semear espessa, porque, sendo semeada ralla, viria a ser o
+Canamo muito grosso, a casca muito lenhosa, e a fibra muito dura, o que he hum
+grande defeito; com tudo quando a linhaça se semea muito espessa, ficaõ muitos
+pés pequenos, e abaffados pelos outros, o que he tambem hum inconveniente; he
+preciso pois observar hum meio, e ordinariamente os Linhaes naõ saõ rallos,
+senaõ quando perece huma parte da linhaça por causa das geadas, da seccura, ou
+quaesquer outros accidentes.</p>
+
+<p>Assim se deve observar, que a linhaça he<span class="pn">{7}</span> huma
+semente oleosa; porque estas sortes de sementes, se fazem rançosas com o tempo,
+e entaõ naõ nascem; por conseguinte he preciso fazer de sórte, que senaõ semeie
+mais, que a linhaça da ultima colheita; porque quando se semeia aquella, que
+tem dous annos, muitos grãos naõ nascem, e se for mais velha, nascerá muito
+menos.</p>
+
+<p>Logo que se semeia a linhaça, he preciso enterralla, esta operaçao se faz
+com huma grade, se a terra foi lavrada com a charrua, ou com hum ansinho, se
+foi lavrada com a enchada, ou pá.</p>
+
+<p>Além desta precauçaõ he preciso guardar com cuidado o Linhal, até que a
+linhaça esteja inteiramente nascida: por causa da quantidade de passaros, e
+principalmente de pombos, que o destroem extraordinariamente. He verdade, que
+os pombos naõ esgravataõ, nem outros muitos passaros, e naõ fazem damno aos
+grãos de trigo, que se achaõ cubertos de terra; porém damnificaõ muito a
+linhaça, ainda que esteja bem cuberta; porque a differença, que ha entre estas
+duas sementes, he que os grãos de trigo naõ sahem da terra juntamente com a
+herva, que produzem; porém a linhaça sahe inteiramente com a pequena planta,
+que produz, e he neste tempo, que os pombos, e outros passaros lhe causaõ
+grande damno: porque, em comendo o graõ da linhaça, arrancaõ a planta, e a
+destroem absolutamente.</p>
+
+<p>Os camponezes costumaõ fazer fugir os passaros com espantalhos, e fazem
+guardar os Linhaes por seus filhos. Estas precauções naõ saõ sufficientes,
+quando os Linhaes saõ muito grandes, e que os pombos estaõ famintos; porque
+tenho visto pessoas muito robustas, e ligeiras, e tambem alguns cães desamparar
+o Linhal, por<span class="pn">{8}</span> estarem excessivamente cançados: porém
+este trabalho naõ dura muito tempo; porque quando tem lançado muitas folhas,
+naõ he preciso guardar os Linhaes.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00060000000000000000">§ VI.</a></h2>
+
+<h3><a name="SECTION00061000000000000000"><em>Do cuidado, que se deve ter com o
+Linhal até a sua colheita.</em></a></h3>
+
+<p>Os Linhaes, que custaõ muito trabalho até ao nascimento da linhaça, naõ daõ
+trabalho algum, até ao tempo da colheita, assim he preciso entreter sómente os
+fossos, e impedir que os animaes os naõ damnifiquem.</p>
+
+<p>Com tudo quando as seccuras saõ grandes, ha camponezes, que costumaõ regar
+os seus Linhaes, porém he preciso, que sejaõ pequenos, e que a agua esteja
+perto, excepto que se possaõ regar por immersaõ, como se pratica em alguns
+lugares.</p>
+
+<p>Temos dito, que aconteciaõ algumas vezes accidentes á linhaça, que faziaõ o
+Linhal rallo, e temos tambem observado, que entaõ o Canamo era grosso,
+ramalhudo, e incapaz de produzir boa fibra; neste caso he preciso sachallo para
+tirar maior fructo do Linhal, e para impedir, que as más hervas suffoquem o
+Canamo.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00070000000000000000">§ VII.</a></h2>
+
+<h3><a name="SECTION00071000000000000000"><em>Colheita do Canamo
+macho.</em></a></h3>
+
+<p>No principio de Agosto os pés do Canamo, que naõ tem semente, aos quaes o
+vulgo chama Canamo femea, e que nós chamamos macho, principiaõ a fazer-se
+amarellos na parte superior,<span class="pn">{9}</span> e brancos na inferior,
+o que he hum signal evidente d'estarem capazes de se arrancarem; entaõ as
+mulheres entraõ no Linhal, e arrancaõ todos os pés machos: dos quaes fazem
+feixinhos, que põem por ordem no chaõ, tendo grande cuidado de naõ damnificar o
+Canamo femea; porque deve ficar na terra algum tempo mais, para acabar de
+amadurecer a sua semente.</p>
+
+<p>Depois de ter arrancado o Canamo macho, se fórma delle feixesinhos; deve-se
+tomar cuidado, que as plantas, que os fórmaõ, sejaõ de hum igual comprimento
+pouco mais, ou menos, e que todas as raizes sejaõ iguaes, finalmente cada
+feixesinho se deve atar com hum raminho de Canamo.</p>
+
+<p>Depois disto se deve expor ao Sol para fazer seccar as folhas, e as flores:
+quando saõ seccas se fazem cahir, batendo cada feixinho contra o tronco de huma
+arvore, ou contra huma parede, e se ajuntaõ varios destes feixesinhos, para
+formar delles outros maiores, e transportallos para o lugar, aonde se devem
+deitar de molho.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00080000000000000000">§ VIII.</a></h2>
+
+<h3><a name="SECTION00081000000000000000"><em>Como se deve curtir, ou deitar de
+molho o Canamo.</em></a></h3>
+
+<p>O Lugar, aonde se costuma curtir o linho Canamo, he hum fosso, que deve ter
+dezoito, ou vinte e quatro pés de comprimento, doze, ou dezoito de largura, e
+tres, ou quatro de profundidade, o qual se deve encher de agua, que se
+transporta para o dito lugar de alguma fonte proxima, e se houver occasiaõ,
+seria melhor introduzir no dito fosso por meio de algum aqueducto,<span
+class="pn">{10}</span> para evitar algum trabalho, quando o fosso está cheio,
+se deve deixar hum lugar livre, para que a superficie da dita agua se possa
+vasar.</p>
+
+<p>Ha varias pessoas, que, desprezando este modo de curtir o Canamo, fazem
+sómente hum simples fosso á borda de hum rio: ha outras, que o molhaõ,
+mettendo-o no mesmo rio: finalmente quando as fontes, e os rios estaõ muito
+longe, o costumaõ curtir nos fóssos cheios de agua; ou nas lagoas.</p>
+
+<p>Quando se quer curtir o Canamo, se põem em ordem no fundo d'agua, cobrindo-o
+com huma pouca de palha, sobre a qual se põem alguns pedaços de páo, ou de
+pedra para segurar o Canamo.</p>
+
+<p>O Canamo se deve deixar neste estado até que a casca, que produz a fibra se
+despegue facilmente do tallo, que se acha no meio da planta, a qual se deve
+visitar de tempo em tempo, para ver se a dita casca se despega com facilidade
+do dito tallo, e quando se despegar facilmente, se deve tirar do fosso, donde
+se acha.</p>
+
+<p>A operaçaõ, de que fallamos, naõ somente serve para fazer cahir a casca do
+Canamo, mas tambem para atenrar, e afinar a fibra; para melhor comprehender
+como a agua produz este effeito, he preciso ter huma idéa da disposicaõ
+organica de huma aste do dito Canamo: assim a vou dar o mais breve, que for
+possivel.</p>
+
+<p>As astes do Canamo saõ ocas inteiramente, e cheias de huma tenra medulla:
+sobre esta medulla ha hum páo tenro, e quebradiço, que se chama tallo, ou cana,
+sobre o qual se acha huma casca bastantemente delgada, composta de fibras, que
+se estendem ao comprimento da aste: esta casca está bastantemente pegada á dita
+cana, e as fibras longitudinaes, de que a dita casca he<span
+class="pn">{11}</span> composta se ajuntaõ humas, e outras por meio d'hum
+tecido vessicular, ou celular; finalmente tudo isto se acha coberto d'huma
+finissima membrana, que se póde chamar epiderme.</p>
+
+<p>O metter o Canamo na agua naõ he para outra cousa mais, senaõ para que a
+casca se despegue da cana mais facilmente, para destruir a epiderme, e huma
+parte do tecido celular, que ligaõ juntamente as fibras longitudinaes. Tudo
+isto se produz por hum principio de podridaõ; por cuja causa senaõ deve ter
+muito tempo na agua; porque entaõ naõ somente a epiderme se corromperia, mas
+tambem prejudicaria as fibras longitudinaes, e naõ teria força alguma: pelo
+contrario quando o Canamo naõ fica na agua o tempo necessario, a casca está
+pegada ao tallo, e a fibra fica dura, e elastica, sem se poder nunca afinar
+perfeitamente, assim se deve observar hum meio, que consiste naõ sómente no
+tempo, que deve estar de molho, mas tambem</p>
+
+<p>I. Na qualidade d'agua; porque he melhor curtir o Canamo n'agua encharcada,
+e turva, que naquella, que corre, e que he clara.</p>
+
+<p>II. No calor do ar; porque he mais util curtillo, quando faz calma, do que
+quando faz frio.</p>
+
+<p>III. Na qualidade do Canamo: porque aquelle, que se cria em huma terra
+branda, e humida, e que se colhe algum tanto verde, se curte mais depressa, que
+aquelle que se cria em huma terra forte, e secca, e que se deixa amadurecer
+muito.</p>
+
+<p>Finalmente, quando o Canamo está pouco tempo n'agua para se curtir, a fua
+fibra he melhor; por cuja causa senaõ deve curtir senaõ no tempo quente, e
+quando os Outonos saõ frios, ha pessoas, que guardaõ o Canamo femea para a<span
+class="pn">{12}</span> Primavera seguinte, para entaõ se curtir: ha alguns, que
+julgaõ ser melhor curtillo n'agua encharcada, e mórta, do que n'agua viva.</p>
+
+<p>Mandei curtir o Canamo em differentes aguas, e achei mais suave aquelle, que
+tinha sido curtido n'agua encharcada, do que aquelle, que foi n'agua corrente:
+porém a fibra, que se tira do Canamo, curtido n'agua encharcada, adquire huma
+cor desagradavel, que lhe naõ causa verdadeiramente prejuiso algum; porque se
+faz branca com facilidade; porém esta cor desagrada, e faz-lhe perder a venda,
+assim se deve fazer passar pelo meio do lugar aonde o Canamo se curtio, huma
+pequena corrente d'agua para renovar aquella, que anticipadamente se deitou no
+fosso, e para prevenir, que senaõ corrompa: cheguei a curtir o Canamo
+estendendo-o sobre hum prado, como fazem as lavadeiras, quando querem córar a
+roupa; porém este modo de curtir he muito custoso, e além disso a fibra tem
+pouca differença daquella, que se curtio segundo o methodo.</p>
+
+<p>Fiz tambem a experiencia de mandar ferver o Canamo n'agua com a esperança de
+o curtir em pouco tempo; porém tendo fervido mais de dez horas, o tirei d'agua,
+e fazendo-o seccar, achei, que se naõ podia tascar. He verdade, que mandando-o
+eu tascar, estando ainda molhado, e quente, a casca se despegava facilmente:
+porém ficava, como huma fita, e naõ se tendo destruido o tecido celular, as
+fibras longitudinaes ficavaõ juntas humas com outras, de sorte que naõ se
+podendo separar era impossivel affinar bem a fibra; pelo referido se mostra
+evidentemente, que senaõ póde terminar o tempo, que o Canamo ha de ficar
+n'agua, porque a qualidade do Canamo,<span class="pn">{13}</span> d'agua, e
+temperamento do ar affroixaõ, ou precipitaõ esta operaçaõ. Alguns julgaõ, que o
+Canamo está bastantemente curtido, quando a casca se despega facilmente da
+cana, e isto ajuda muito aos Lavradores, que cultivaõ esta planta, a naõ lhe
+darem, senaõ o gráo de curtidura, que he preciso; com tudo se enganaõ algumas
+vezes, e me parece, que ha Provincias, aonde se costuma curtir mais tempo, do
+que em outras. Naõ posso deixar d'advertir, que deve haver muita cautella em
+naõ curtir o Canamo em certas aguas, aonde se achaõ alguns pequenos bichos,
+chamados lagostins, porque roem o Canamo, e a fibra fica quasi perdida.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00090000000000000000">§ IX.</a></h2>
+
+<h3><a name="SECTION00091000000000000000"><em>Da colheita do Canamo
+Femea.</em></a></h3>
+
+<p>Quando tratámos do Canamo macho, dissemos, que se devia deixar ainda algum
+tempo na terra o Canamo femea, para que a sua semente acabasse d'amadurecer:
+porém esta dilaçaõ faz amadurecer muito o Canamo femea, e faz tambem, que a sua
+casca, venha a ser muito lenhosa, donde se segue que o linho, que se tira da
+dita planta; he mais grosseiro, e mais tosco, que aquelle, que se tira do
+Canamo macho; assim quando se vir, que a semente está bem formada, se deve
+arrancar o Canamo femea do mesmo modo, que se arranca o macho, do qual se devem
+formar feixesinhos, e polos na mesma ordem, que dissemos acima.</p>
+
+<p>Em alguns Paizes se costuma acabar de amadurecer a linhaça, mettendo o
+Canamo femea em algumas covas redondas da profundidade d'hum<span
+class="pn">{14}</span> pé, e de tres, até quatro de diametro, e pondo no fundo
+destas covas os feixesinhos de Canamo bem unidos huns com os outros de modo,
+que a linhaça fique para baixo, e a raiz da planta para cima, e atando os
+feixesinhos do Canamo com ligaduras de palha, para ficarem bem juntos, e lhe
+lançaõ ao redor toda a terra, que se tinha tirado das covas, para que as
+cabeças do Canamo fiquem bem abaffadas.</p>
+
+<p>As cabeças do Canamo se aquecem com o auxilio da humidade, que se contém na
+dita cova; do mesmo modo que se aquece hum montaõ de feno verde, ou hum montaõ
+d'esterco: este calor acaba d'amadurecer a linhaça, e a dispoem para sahir da
+sua casca mais facilmente.</p>
+
+<p>Quando a linhaça está madura, o Canamo se tira fóra da cova, porque criaria
+bolor, se o deixarem mais tempo na cova, do que he necessario.</p>
+
+<p>Em alguns Paizes, aonde ha muito Canamo, o naõ costumaõ enterrar do modo,
+que acabo de dizer; porém costumaõ pôr os feixesinhos em tal ordem, que ficaõ
+cabeça com cabeça, e alguns dias depois tiraõ a linhaça do modo, que vou dizer.
+</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION000100000000000000000">§ X.</a></h2>
+
+<h3><a name="SECTION000101000000000000000"><em>Da Colheita da Linhaça.</em></a>
+</h3>
+
+<p>Aquelles que tem pouco Canamo, costumaõ estender hum panno no chaõ para
+receber nelle a sua semente, outros alimpaõ, e preparaõ hum lugar bem unido, no
+qual estendem o Canamo, pondo as cabeças d'hum mesmo lado, e depois disto as
+batem ligeiramente, com hum páo, ou com hum mangoal: esta operaçao faz cahir a
+linhaça, a qual costumaõ pôla de parte, para<span class="pn">{15}</span> semear
+na Primavera seguinte, porém como fica ainda muita linhaça nas cabeças do
+Canamo, esta se tira, penteando as ditas cabeças com os dentes d'hum
+instrumento, chamado ripador, e por meio desta operaçaõ se faz cahir ao mesmo
+tempo as folhas com a linhaça, tudo misturado juntamente: costuma-se guardar
+tudo isto em hum montaõ alguns dias, e depois se estende ao Sol para se seccar:
+finalmente tudo aquillo se bate depois de secco, e se alimpa a linhaça,
+joeirando-a, ou passando-a por hum crivo: esta segunda semente serve para fazer
+óleo de linhaça, e para nutrir as aves domesticas. Finalmente se costuma levar
+o Canamo ao lugar, onde se curte, para se preparar do mesmo modo, que o Canamo
+macho.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION000110000000000000000">§ XI.</a></h2>
+
+<h3><a name="SECTION000111000000000000000"><em>O que he preciso fazer para
+tirar o Canamo do lugar, aonde se deitou de molho.</em></a></h3>
+
+<p>Quando se tirar o Canamo do fosso, aonde se curtio, se devem desatar os
+feixesinhos para effeito de se seccar, estendendo-os ao Sol ao longo de hum
+muro, ou em hum lugar, em que naõ haja absolutamente humidade: deve-se ter
+muito cuidado de virar os ditos feixes de tempo em tempo, e quando o Canamo
+estiver bem secco, se deve pôr outra vez em feixes, e transportallos para a
+casa, onde se quer recolher em lugar secco, até que o queiraõ tascar.</p>
+
+<p>N. B. <em>Esta Obra he precursora de outra maior, em que se continuará esta
+Memoria, que he de M. Duhamel, e se dará tudo o mais que se tem escripto a este
+assumpto, até entrar na cordearia.</em></p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div align="center">
+FIM. </div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+</div>
+
+<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30068 ***</div>
+</body>
+</html>