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+<head>
+ <title>Costumes Madrilenos, por Sebastião de Magalhães Lima</title>
+ <meta name="Author" content="Sebastião de Magalhães Lima">
+ <meta name="Publisher" content="Livraria Central de J. D. Pires">
+ <meta name="Date" content="1877">
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+<pre>
+
+Project Gutenberg's Costumes Madrilenos, by Sebastião de Magalhães Lima
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Costumes Madrilenos
+ Notas de um Viajante
+
+Author: Sebastião de Magalhães Lima
+
+Release Date: September 15, 2009 [EBook #29999]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK COSTUMES MADRILENOS ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from BibRia)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center; border: solid 2px #000; padding: 1em;">
+<p style="font-size: 1.2em;">MAGALHÃES LIMA</p>
+
+<p style="font-size: 2em;">COSTUMES MADRILENOS</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.5em;">NOTAS DE UM VIAJANTE</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>SEGUNDA EDIÇÃO</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>COIMBRA<br>
+<small>LIVRARIA CENTRAL DE J. D. PIRES&mdash;EDITOR</small><br>
+1877</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;font-size: 1.5em;">COSTUMES MADRILENOS</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center;">
+<p style="font-size: 2em;">COSTUMES MADRILENOS</p>
+
+<p style="font-size: 1.5em;">NOTAS DE UM VIAJANTE</p>
+
+<p>POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">S. <small>DE</small> M<small>AGALHÃES</small> L<small>IMA</small></p>
+
+<p><small>SOCIO HONORARIO D'EL FOMENTO DE LAS ARTES DE MADRID</small></p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>2.ª EDIÇÃO</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>COIMBRA<br>
+LIVRARIA CENTRAL<br>
+<small>DE</small><br>
+JOSÉ DIOGO PIRES&mdash;EDITOR<br>
+1877</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;"><small>IMPRENSA ACADEMICA</small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="margin: 10%;">
+<p style="text-align:center;">AO</p>
+
+<p style="text-align:center;">SENHOR.</p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: 1.5em;">D. B<small>ENIGNO</small> J<small>OAQUIM</small> M<small>ARTINEZ</small></p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="margin-left: 60%;">Off.</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:right;">O auctor</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><span class="pn">{7}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION0010"></a>COSTUMES MADRILENOS</h1>
+
+<div id="corpo">
+<h2><a name="SECTION0011">I<br><br>
+CARACTERES E COMPARAÇÕES</a></h2>
+
+<p>Leitor amigo, se queres possuir a chave da vida, se queres ter o segredo da
+existencia, aprende a viajar.</p>
+
+<p>A viagem tem, como todas as cousas d'este mundo, a sua pequena philosophia e
+as suas theorias, mais ou menos complicadas, e os seus progressos mais ou menos
+notaveis.</p>
+
+<p>Viajar não é uma variedade de sensações apenas; mas ainda mais, e
+principalmente,<span class="pn">{8}</span> uma fonte inexgotavel de boa e
+salutar experiencia, um manancial perenne de vividos enthusiasmos por tudo
+quanto é bello, novo e original, e uma origem fecunda de analyse, de observação
+e de critica, que de ordinario raro é de encontrar-se no paiz onde nascemos, ou
+na cidade onde residimos.</p>
+
+<p>E assim é realmente que, se tu quizeres admirar a seriedade nos costumes, a
+robustez no corpo, a soberania na guerra, o metaphysico na sciencia, o imperio
+na familia, a fidelidade nos affectos, e a superstição na religião&mdash;tu irás á
+Allemanha.</p>
+
+<p>Se pelo contrario, tu desejares vêr a frouxidão no corpo, o indifferentismo
+em politica, a lassidão nos costumes, a perversão nos principios, a fraqueza na
+sciencia, o theologismo na religião, o lyrismo na vida&mdash;tu, sem mais trabalhos
+nem violencias, ficarás em Portugal.</p>
+
+<p>Mas se tu, embora não te repugne a debilidade physica e a pusillanimidade de
+espirito, quizeres o ideal da arte e a architectura da sciencia&mdash;então
+procurarás Italia.<span class="pn">{9}</span></p>
+
+<p>Por outro lado ainda, se te impressiona o ruido das palavras, a viveza do
+olhar, a facilidade dos affectos, a modestia do trajar, a generosidade do
+coração, o esplendor do <em>ménage</em>&mdash;parte para a Hespanha.</p>
+
+<p>Com uma mulher hespanhola vive-se bem um mez, num sensualismo delicioso,
+numa voluptuosidade tepida e numa ardencia de amores que nem sempre é vulgar
+nas outras mulheres do mundo.</p>
+
+<p>Com uma mulher franceza, porém, o espirito não se cança nunca, nem o coração
+chega jámais a desesperar&mdash;e se um seculo vivessemos, um seculo tambem
+consagrariamos a essas fadas, mais demonios do que anjos, e quasi sempre mais
+amantes do que esposas.</p>
+
+<p>No francez dá-se, a par da elevação da idéa, a agilidade elegante do corpo,
+a simplicidade maravilhosa do trajar, a delicadeza sem igual da cosinha, a
+intrepidez risonha dos factos e das circumstancias, a attenção magnetica das
+palavras, a originalidade dos costumes.</p>
+
+<p>Com elles contrastam os inglezes, os<span class="pn">{10}</span> quaes, não
+obstante serem mudaveis em religião, são, todavia, prudentes nos seus negocios,
+zelosos na sua vida intima, affaveis nas maneiras, orgulhosos no trajo e
+astuciosos na guerra.</p>
+
+<p>Subordinados ás circumstancias, ao tempo e aos logares&mdash;os povos são um
+resultado do meio em que se acham mergulhados.</p>
+
+<p>O que promoveu a questão do Oriente não foi verdadeiramente a ambição dos
+monarchas, mas antes o imperio que a civilisação moderna tem direito de exercer
+sobre tudo e sobre todos.</p>
+
+<p>E por isso a Turquia, como vestigio de barbarismo que ainda é hoje na
+Europa, foi de ha muito condemnada á morte e ao ostracismo.</p>
+
+<p>O caracter turco era facilmente domavel, mas por natureza fanatico,
+supersticioso, intolerante&mdash;tal qual como as verdades do Alcorão.</p>
+
+<p>Por isso, leitor, embora tu sintas grandes saudades do harem e das houris,
+resigna-te, e deixa de combater pelos turcos.<span class="pn">{11}</span></p>
+
+<p>Que elles e os seus sultões se dignem subir ao setimo céu de Mafoma, e que
+nos deixem.</p>
+
+<p>Mas, francamente, se tu queres viver pela natureza, se soffres dos pulmões,
+se és pantheista, se gostas das borboletas e das flores, se te enthusiasmas com
+os limpidos horisontes das montanhas e dos rios, se és socegado, melancholico,
+um tanto nostalgico e triste, escolhe a peninsula, aluga uma casa todos os
+annos no Bussaco, percorre a Andaluzia na primavera, visita as praias, e
+deixa-te ficar por cá.</p>
+
+<p>Se, porém, não temes os frios do norte, se és audaz, intrepido, valente,
+corajoso, se amas a sciencia e a arte, se não te canças em subir a uma montanha
+e em correr num <em>trenó</em> num dia gelado, e por um rio coberto de neve, se
+gostas da vida, tal como ella deve ser&mdash;valorosa, hygienica, e grande, então
+vai á Suissa, á Allemanha, á Italia, e até mesmo á Russia, se tanto fôr da tua
+vontade.</p>
+
+<p>Convém que faças uma viagem todos os annos na primavera. Para isso basta
+apenas, que no teu viver domestico, no<span class="pn">{12}</span> teu gastar
+quotidiano, tu adquiras uma sciencia tão difficil, como rara de conservar-se&mdash;a
+sciencia da economia.</p>
+
+<p>No fim de oito ou dez annos, tu sentir-te-has forte, cheio de critica,
+vigoroso na discussão, capaz de entrar em todos os assumptos, que por acaso se
+ventilarem, e susceptivel de comparar, entre si, não só todos os paizes do
+mundo, mas ainda os homens e as sociedades.</p>
+
+<p>E assim tu terás o dom do historiador, a evidencia dos factos, a observação
+da natureza e o estudo das cousas em geral.</p>
+
+<p>Eu não quero que tu te faças misanthropo, doente, regenerador. Não! Porque
+sou portuguez, e desejo que tu sejas alegre, feliz, espirituoso, bom amigo,
+excellente marido e cidadão prestante.</p>
+
+<p>E para isso, para afugentar terrores e negrumes, para que tenhas saude, vida
+e amor&mdash;é forçoso que tu viages, que deixes a tua aldeia e as tuas arvores, que
+arranjes a tua mala, que te despeças dos teus conhecidos e que partas.</p>
+
+<p>Nada de esperas. Quanto mais cedo melhor. O mundo é para quem caminha;<span
+class="pn">{13}</span> e a viagem é como a sciencia, tambem um progresso.</p>
+
+<p>Aqui tens o teu casaco. Cabeça alta e adeus á patria querida.</p>
+
+<p>Cocheiro&mdash;açoute nesses cavallos!</p>
+
+<p>Para deante. Para deante é que é o caminho.<span class="pn">{14}<br>{15}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0012">II<br><br>
+NÓS E ELLES</a></h2>
+
+<p>Não ha duvida que nós não somos elles, nem elles são nós.</p>
+
+<p>Não obstante, elles querem ser nós, mas nós é que não queremos ser elles.</p>
+
+<p>Coisas d'este mundo!</p>
+
+<p>Nós, não nos fartamos de elogiar Madrid; e elles não se cançam nunca de
+exaltar Lisboa.</p>
+
+<p><em>Mutatis mutandis</em>, ninguem está bem senão onde não está.</p>
+
+<p>A verdade, porém, é que nem a patria do sr. Fontes é má, nem as terras do
+sr. Canovas são detestaveis.<span class="pn">{16}</span></p>
+
+<p>Lisboa tem, como Madrid, as suas pequenas corrupções, os seus ministros
+ociosos, a sua realeza inutil, o seu credito abastardado, a sua administração
+vacillante, os seus empregados preguiçosos, a sua fama em decadencia e o seu
+futuro compromettido.</p>
+
+<p>Tudo isto temos nós, e tudo isto têm elles&mdash;mercê de Deus.</p>
+
+<p>Por cá, como por lá, multiplicam-se os bailes, rangem as sêdas, reluzem as
+<em>toilettes</em>, scintillam os chrystaes, refervem os vinhos nas suas taças
+preciosas, adelgaça-se o corpo, polvilham-se os cabellos, tingem-se as faces,
+alarga-se a consciencia, confundem-se os factos, adora-se a elegancia, e
+todos&mdash;ó céus! sem mesmo o presentirem&mdash;caminham para o bom tom, impellidos
+pela magreza, que os devora, arrastados pela falta de hygiene e seduzidos pela
+eterna sereia das humanas velleidades.</p>
+
+<p>D'onde se conclue que cá e lá más fadas ha.</p>
+
+<p>Mas Lisboa, com franqueza, não é de todo má: as suas ruas estão povoadas
+de<span class="pn">{17}</span> bellos e formosissimos edificios; os seus
+jantares, embora sem dinheiro, são abundantes; os seus hospedes vestem-se bem,
+não obstante faltar-lhes para isso o corpo e o sangue; as suas filhas de
+aguarella sabem calçar uma bota á <em>Benoiton</em>; Aline, a sua modista, tem
+algum gosto; Stellpflug e Manuel Lourenço, os seus sapateiros predilectos,
+contentam os seus freguezes; Barral tem bons remedios; o café, em geral, não é
+mau; os charutos satisfazem; os assassinos não tem sido demais; quem quizer
+tambem póde deixar de se suicidar; emfim, ella não é despiciente,
+acreditem:&mdash;unicamente o que lhe falta é o espirito, isto é, o <em>tic</em>
+nervoso, que dá o bom senso; o enthusiasmo, que eleva as gerações; o fanatismo
+scientifico, que torna os homens celebres e audazes; o que lhe falta
+verdadeiramente é isso&mdash;essa primeira parte da humanidade a que Shakespeare
+chamaria, talvez, o <em>to be</em> da humana existencia&mdash;o caracter.</p>
+
+<p>Emile Péreire, no tempo em que escrevia no <em>Nacional</em>, sob as ordens
+de Armand Carrel, tão pobre era que longe estava<span class="pn">{18}</span> de
+imaginar o futuro de riqueza que o esperava.</p>
+
+<p>Foi, recordando-se d'esse passado de miseria, que elle pronunciou aquella
+esplendida phrase, de que Charlet fez uma caricatura:</p>
+
+<p>&mdash;Aos trinta annos tinha dentes e não tinha pão; aos sessenta tenho pão e
+não tenho dentes.</p>
+
+<p>Pois assim está a nossa capital&mdash;quando tinha caracter e dinheiro
+faltava-lhe o espirito e o desenvolvimento intellectual; agora que naturalmente
+está mais desinvolvida e mais apta para as concepções do mundo moderno,
+escasseia-lhe o caracter e a franqueza.</p>
+
+<p>Façamos como Paulo Vernet, o pintor realista&mdash;abramos a janella, e olhemos
+serenamente o que se passa.</p>
+
+<p>Em Madrid vive-se no café e pelo café. Quando se quer procurar qualquer
+pessoa importante, não se pergunta nunca pela casa onde reside, mas sim pelo
+café que costuma frequentar. E ahi está tambem o motivo, porque, na capital da
+Hespanha, os cafés, que quasi se podem dizer<span class="pn">{19}</span>
+pequenas aldeias pela extensão e pelo comprimento, estão cheios, perfeitamente
+cheios, durante a noite e durante o dia. É ahi que se faz a politica, e é ahi
+tambem que se preparam os futuros acontecimentos do paiz.</p>
+
+<p>Dizia madame de Grirardin que um dos primeiros deveres da mulher era ser
+bonita. Pois o hespanhol tem para si, que um dos primeiros deveres do homem, em
+geral, é ser fallador, ruidoso, amante das revoltas e sinceramente admirador do
+extraordinario.</p>
+
+<p>Lembro-me que, numa noite, no theatro da zarzuella, um meu companheiro de
+viagem havia sido apresentado a uma distincta familia de Madrid, com quem
+travou estreitas relações de amizade e de quem recebeu os mais inequivocos
+testemunhos de affecto.</p>
+
+<p>Eram pae, mãe e duas filhas.</p>
+
+<p>No dia immediato ao da apresentação um grande acontecimento echoou na
+cidade. Dizia-se que uma senhora havia sido ferida na cabeça por um tiro de
+rewolver, desfechado á queima roupa por seu<span class="pn">{20}</span> marido,
+o qual, julgando-a morta, se suicidára logo em seguida.</p>
+
+<p>Este facto, importante em qualquer outro paiz, ali mal despertou a
+curiosidade publica. Quasi que passou desapercebido.</p>
+
+<p>Averiguado, porém, o caso, soube-se effectivamente que a heroina era nem
+mais nem menos do que a tal senhora, que, na vespera, pela sua attenciosa
+bizarria confundira o meu amigo, com attenções e delicadezas. Ella exigira do
+esposo dinheiros avultados, que elle asseverava abertamente não ter em casa,
+naquella occasião. Então a mulher, enfurecida, gritou, fingiu-se morta, até que
+emfim se atirou ao marido, o qual, não constando que fosse santo, se atirou por
+seu turno a ella.</p>
+
+<p>E assim, travados de razões, armaram aquella tragedia, digno exemplo de duas
+filhas menores e edificante monumento da civilisação de um povo.</p>
+
+<p>Madrid tem, sobretudo, um vicio de origem&mdash;a falta de agua. O caracter
+hespanhol, tão contradictorio em si e nas suas manifestações, é todavia secco,
+aspero<span class="pn">{21}</span> ás vezes, e irreflectido quasi sempre.</p>
+
+<p>A escassez de agua, além de escurecer toda a paisagem da Estremadura, faz
+ainda, porém, com que as flores sejam raras na cidade, e de todo o ponto
+destituidas de gosto.</p>
+
+<p>Ora todos sabem que a flôr entra hoje na vida do <em>ménage</em> como uma
+necessidade, insubstituivel. Muitas senhoras têm nella uma companheira e uma
+amiga. A aridez da vida domestica é muitas vezes compensada pela existencia de
+um jardim, ao qual a dona da casa consagra todos os seus ocios e em virtude do
+qual ella cura todos os seus tedios.</p>
+
+<p>A mulher hespanhola, como não tem flores nem jardim, procura naturalmente os
+cafés e o mundo exterior, de que aliás precisa para conviver e para se
+entreter; cousa que, em nosso juizo, ninguem, em verdade, lhe poderá levar a
+mal.</p>
+
+<p>E, no meio de tudo isto, não ha povo que sinceramente comprehenda melhor as
+leis da hospitalidade e que melhor e<span class="pn">{22}</span> mais
+bizarramente saiba attrahir a si os estrangeiros.</p>
+
+<p>Mas, embora elles queiram ser nós,&mdash;nós é que, em boa logica, não podemos
+ser elles.</p>
+
+<p>Elles, por exemplo, empregam o adjectivo <em>larga</em>&mdash;<em>esta calle es
+muy larga</em>&mdash;para significar o comprimento, ao passo que nós o empregamos
+para exprimir a largura.</p>
+
+<p>Antithese completa!</p>
+
+<p>Oh! não&mdash;decididamente nós não podemos ser elles..</p>
+
+<p>Mas, <em>se ellas</em> quizessem ser nós!...</p>
+
+<p>Se nós fossemos <em>ellas</em>!...<span class="pn">{23}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0013">III<br><br>
+A CIDADE</a></h2>
+
+<p>No centro de uma extensa planicie, acompanhando a margem esquerda do
+Manzanares e alteada sobre differentes collinas de arêa de pequena elevação,
+ergue-se a cidade de Madrid, a formosissima <em>villa coronada</em>, prodigiosa
+de encantos, opulenta de prazeres e esplendida de vida.</p>
+
+<p>Data do reinado de Philippe II, em 1560, a mudança da capital do reino
+hespanhol de Toledo para Madrid.</p>
+
+<p>Perde-se na bruma dos tempos a origem etymologica d'esta cidade. No
+entretanto<span class="pn">{24}</span> julga um illustrado escriptor que a
+verdadeira derivação de Madrid é <em>Magerit</em>, palavra arabe, que na nossa
+lingua significa <em>corrente de agua</em>.</p>
+
+<p>Muitas foram, e successivas, as invasões por que passou a cidade. Não vem
+para aqui, por deslocada, uma resenha historica de todos esses tempos de
+agitação, mais ou menos intimamente ligados com as coisas do nosso Portugal.</p>
+
+<p>Philippe IV foi para a Hespanha o mesmo que Luiz XIV foi para a França. No
+seu reinado brilharam as artes, as sciencias e a litteratura. Quiz, porém, a
+fatalidade, como que para realçar o dominio dos contrastes do mundo, que o seu
+herdeiro Carlos II fosse um rei pusillanime, fraco, fomentador da intriga e
+iniciador d'uma crise, que cessou com a assolação d'uma tremendissima guerra
+civil no tempo de Filippe V.</p>
+
+<p>Madrid soffreu immensamente nestas lutas intestinas. Sem embargo, os
+sacrificios compensaram as perdas. E quando depois Carlos III subio ao throno
+de Hespanha, a um sorriso do monarcha privilegiado<span class="pn">{25}</span>
+desabroxou a paz, e as reformas brotaram por completo naquelle paiz.</p>
+
+<p>Este estado foi, porém, de curta duração. Napoleão I, senhor da França, põe
+a Hespanha novamente em tumulto e deixa-a entregue á fome e ao saque das hordas
+estrangeiras.</p>
+
+<p>Expulsos os francezes de Madrid, começou então a luta entre realistas e
+liberaes, os quaes depois se subdividiram ainda em progressistas e moderados,
+dando assim logar a uma infinidade de fracções, que só deviam abortar na
+mallograda revolução de 1854.</p>
+
+<p>Foi d'aqui que se originaram os partidos unionista, o democrata e mais tarde
+o neo-catholico; e foi d'aqui tambem que nasceu a Hespanha revolucionaria
+moderna, de todos conhecida, desde 1868 até nós.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="estrelas">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Madrid é, pois, uma cidade pequena, não talvez muito maior que o Porto, com
+um clima excessivamente regular, comportando na sua área 360:000
+habitantes,<span class="pn">{26}</span> cuja indole póde naturalmente e com o
+maximo rigor ser observada á luz do gaz e durante a noite em qualquer dos
+principaes cafés.</p>
+
+<p>Conta-se que um alcaide hespanhol se compromettera certo dia a fazer tres
+discursos numa dada povoação.</p>
+
+<p>Chegou o primeiro dia, e perguntou á turba:</p>
+
+<p>&mdash;Entenderão o que lhes vou dizer?</p>
+
+<p>Ninguem respondeu.</p>
+
+<p>&mdash;Pois se não têm de entender-me é escusado pregar no deserto.</p>
+
+<p>No segundo dia voltou, e repetiu a mesma pergunta.</p>
+
+<p>&mdash;Sim! responderam todos, já zangados com a occorrencia do dia anterior e
+desejosos por saber o que tão illustre orador d'elles queria.</p>
+
+<p>&mdash;Nesse caso, se comprehendem, são inuteis as explicações.</p>
+
+<p>Chegou, porém, o dia da terceira e ultima prelecção, e o povo concordou em
+responder indistinctamente.</p>
+
+<p>&mdash;Serão capazes de perceber qual é o fim do meu discurso?<span
+class="pn">{27}</span></p>
+
+<p>Sim! Não! conclamou a turba em dois córos.</p>
+
+<p>&mdash;Então aquelle que percebeu que explique ao que não entendeu.</p>
+
+<p>E assim é, na verdade, o caracter hespanhol. Todos se entendem, e ninguem se
+entende. De modo que, no seio de tão estranha confusão, a vida domestica de
+Madrid, toda anarchica, toda exterior, toda ficticia, vai naturalmente
+reflectir-se nas coisas publicas&mdash;no commercio, na industria, na arte, na
+litteratura, na politica&mdash;pondo a cidade em continuo alvoroço, e deixando o
+viajante profundamente assombrado de tão fortes e repetidas contradicções.</p>
+
+<p>E tudo isto, o que mais é ainda para estranhar, num paiz onde os grupos
+dissidentes são quasi tantos como os talentos politicos, e onde o caracter de
+cada individuo varia e se modifica em justa proporção com a sua leviandade de
+espirito e seguindo naturalmente as differentes oscillações da opinião publica,
+sempre precipitada e louca.</p>
+
+<p>Obedecendo á influencia do meio que<span class="pn">{28}</span> os domina,
+os estadistas hespanhoes são mais theoricos do que practicos, mais litteratos do
+que politicos, e, sem duvida alguma, mais poetas do que observadores.</p>
+
+<p>D'aqui a impossibilidade de uma união séria, progressista e trabalhadora. As
+subdivisões prolongam-se até ao infinito. Antes de 30 de dezembro de 1875, os
+moderados formavam um unico partido. Agora, porém, avultam os moderados
+<em>transigentes</em>, tendo por orgão o jornal <em>El Tiempo</em>: os
+moderados <em>intransigentes</em> com <em>La España</em> e os moderados de
+<em>estola</em> com <em>El Siglo Futuro</em>.</p>
+
+<p>O mesmo com o partido constitucional, que hoje se acha subdividido em
+constitucional do sr. Sagasta, representado na imprensa pela <em>Iberia</em>;
+em constitucional dissidente do sr. Santa Cruz, representado pela
+<em>Patria</em> e em constitucional do sr. Ulloa, representado outr'ora pelo
+periodico <em>El Constitucional</em>, que já não se publica.</p>
+
+<p>As celebridades não escasseiam. Antes, pelo contrario: ao passo que em
+França<span class="pn">{29}</span> quasi todos os homens illustrados são
+escriptores, em Hespanha quasi todos são oradores.</p>
+
+<p>Abstrahindo mesmo de Emilio Castellar, o luminosissimo vulto do seculo XIX,
+que só em Gambetta encontraria um rival condigno, e porventura, como politico,
+mais pratico, mais accentuadamente positivo do que elle; abstrahindo do
+sympathico materialista Figueras e do advogado Martos, poucos ha, naquella
+adoravel nacionalidade, que não possuam o fogo sagrado dos sublimes
+enthusiasmos patrioticos e a brilhantissima scentelha dos grandes espiritos
+revolucionarios.</p>
+
+<p>Numa palavra, a Hespanha é o paiz solemne das occasiões, o paiz do <em>à
+propos</em>, o paiz do momento.</p>
+
+<p>Os generaes Prim e O'Donnel andam ainda hoje apregoados pela fama publica.
+Pois bem. Muitos annos não se haviam passado depois do seu regresso da Africa,
+e concluida a guerra de Marrocos, que Prim, collocado numa das janellas do
+<em>Hotel de Paris</em>, recebera a mais enthusiastica ovação que humanamente
+era licito dispensar<span class="pn">{30}</span> a um idolo. Uma noite
+regressava o illustre general do congresso, quando, subito, uma detonação
+acordou a cidade. Correram todos. Duas balas haviam-lhe destruido a emoplata, o
+ante-braço e a mão direita. Estava morto o heroe de tantas victorias e o deus
+de tamanhos enthusiasmos. A policia não apparecera. Ainda presentemente nas
+cadeias de Madrid se conservam presos, por suspeitos, seis homens. O resto,
+sabem-n'o os seus inimigos, d'elle.</p>
+
+<p>Madrid, a cidade <em>imperial</em> e <em>coronada</em>, a <em>mui nobre, mui
+leal e mui heroica</em> cidade, como em 1814 lhe chamou Fernando VII, tem,
+porém, ainda uma outra face, que realmente não deve esquecer ao historiador; e
+essa face, esse lado immensamente grande e extraordinario, que a Cervantes
+valeu uma reputação e uma immortalidade, é a anecdota, o delirio da bagatella e
+do ridiculo.</p>
+
+<p>Sim! a Hespanha, como bandoleira que é, tem uma lenda&mdash;<em>a lenda do
+bandido</em>.</p>
+
+<p>Estudando essa lenda, melhor e mais facilmente poderemos fazer uma idéa
+do<span class="pn">{31}</span> que é e do que foi a Hespanha nos seus
+movimentos, nas suas idéas, na sua politica, no seu commercio, na sua
+industria, no seu progresso e na sua civilisação.</p>
+
+<p>Voltemos, portanto, a pagina.<span class="pn">{32}<br>{33}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0014">IV<br><br>
+A LENDA DO BANDIDO</a></h2>
+
+<p>O bandido!... Mas quem o não conhece? Elle, o maganão, o seductor, o
+adultero, o perverso, elle tem vivido sempre e sempre impune, sempre ironico,
+sempre chasqueador, sempre rapaz, sempre diabo. Com mil granadas! Que sublime
+ratão...</p>
+
+<p>Houve quem lhe chamasse <em>espirito das trevas</em>; houve tambem quem o
+appellidasse com o epitheto de carne, de Satan, de magico, de serpente, de
+lagarto e não sei tambem se de <em>D. Juan</em>, se de Mephistopheles, se de
+Falstaff.</p>
+
+<p>E é que elle realmente tem esse condão.<span class="pn">{34}</span></p>
+
+<p>Todos os dias se renova, renascendo das proprias cinzas, como a phenix
+mythologica, mudando de pelle como qualquer simples giboia, usando barba
+postiça, como um grotesco que é, e dando-se os ares frescos e traiçoeiros de
+velha rapoza, já useira e veseira nos altos assumptos de quem tem o olho em
+Deus e a unha no proximo.</p>
+
+<p>Não! Elle não é simplesmente o palerma namorador, que, á meia noite, de
+guitarra em punho, vai desferir uns estupidos landuns, mal tocados, debaixo da
+janella da sua pallida amante; tambem não é apenas o ebrio impenitente, que,
+pela madrugada, carregado de vinho e de tosse, corre as ruas num tropego
+cavallo de aluguer, atropellando quem passa e vomitando injurias
+<em>aguardentadas</em> sobre a honestidade de quem trabalha. Porque, sendo tudo
+isto, o nosso typo tem, todavia, uma feição proeminente, feição grave,
+enormissima, que ninguem jámais lhe poderá disputar. Oh! sim, só elle é o
+bandido por excellencia, bandido de casaca e luva branca, mas bandido de alma
+larga<span class="pn">{35}</span> e coração esperto, emquanto a mim o peior de
+todos os bandidos.</p>
+
+<p>Cautella, meu fidalgo, que nós já te conhecemos. Tu, que não duvidaste
+vestir a farda de imperador; tu, que tens levado as insignias da realeza até á
+crapula dos bordeis; tu, que enlameaste o teu brazão ao contacto effeminado da
+fadistagem de navalha e faixa encarnada; tu, meu politico, tu, meu banqueiro,
+tu, meu villão, é que verdadeiramente és o rei do mundo, porque te falta a
+vergonha e a decencia.</p>
+
+<p>Eu queria fazer de ti um Sancho Pança, mas Sancho é gordo e póde cair na
+embuscada; não, não serás Sancho, nem D. Quixote pela razão opposta; mas o que
+tu podes ser realmente é um Claret&mdash;um Claret sem corôa, de olhar mellifluo,
+doce no dizer, suave na convivencia e insinuante nos modos.</p>
+
+<p>Que o jesuitismo esteja descançado emquanto a nós. Unicamente nós pedimos
+licença a suas reverendissimas para pegar num dos seus mais respeitaveis
+membros, para o virar, para o revirar, para<span class="pn">{36}</span> lhe dar
+umas palmadinhas no ventre; e feito isto, para o despedir com um piparote&mdash;tal
+qual, como se faz a um boneco de papel. E nada mais. Depois nem sequer
+pensaremos em similhante entidade. Tentaremos dormir sobre o caso, fazendo
+cama&mdash;e que boa cama!&mdash;de tão beatificas proezas.</p>
+
+<p>Agora o touro que saia: bandarilhas na mão e firmeza no pulso.</p>
+
+<p>Era uma vez um paiz, rico, poderoso, rodeado de magnificas paisagens,
+realçado pela formosura de mulheres peregrinas, e dominado pela ambição de
+politicos tresloucados. Um dia, porém, o sol, que era ardente, trouxe á cidade
+febres incuraveis. Adoeceram, então, os estadistas; e no delirio da doença
+cousas espantosas e horripilantes se começaram a ouvir de suas bôccas
+evangelicas. A febre tomou-os dos pés á cabeça; e então&mdash;ó céus!&mdash;doidos,
+perdidos, alucinados, elles, os doces, elles, os virtuosos, elles, os santos,
+que precisavam de saude e de vida, porque estavam mal, inventaram uma cousa
+muito melhor do que a <em>agua circassiana</em>, muito melhor<span
+class="pn">{37}</span> ainda do que a <em>Revalescière du Barry</em>... elles
+deliberaram segurar as vidas em perigo.</p>
+
+<p>E a população mecheu-se activa, energica, em favor de tão alta
+instituição.</p>
+
+<p>Estava salva a patria.</p>
+
+<p>Contra o abysmo, que a perseguia, contra o diluvio, que a ameaçava, tinha o
+governo tambem inventado a sua arca santa&mdash;as companhias de seguro de vida.</p>
+
+<p>E sem embargo, os typhos, as bexigas, os sarampos, as erysipellas não haviam
+desapparecido da terra. O paiz continuava a soffrer as suas doenças, a
+alimentar rivalidades no seu seio e a prestar-se como sempre ás mil
+intriguinhas da côrte.</p>
+
+<p>Vai então o bandido amigo, irrequieto e nervoso, começa de farejar novas
+vias de exploração.</p>
+
+<p>&mdash;Nada! dizia elle. Segurar a vida é pouco; é preciso tambem segurar o
+capital. Mãos á obra!</p>
+
+<p>E formaram-se os bancos e as casas bancarias.</p>
+
+<p>Mas bandido&mdash;manhoso tinha já propensões para abusar. A policia ia-lhe
+sempre<span class="pn">{38}</span> na pista. Todavia, elle, o heroe, elle não
+descansava nunca.</p>
+
+<p>Ah! bandido! ah! brejeiro!</p>
+
+<p>Ainda era pouco. Claret tinha a ambição louca e avara de um Shylock
+hespanhol. Queria ser rico, queria jogar, queria amar, queria divertir-se. E
+para tudo isso era preciso inventar, ser original, ter idéas.</p>
+
+<p>Crearam-se os bancos; o credito, porém ficou o mesmo, isto é, um pouco peior
+do que estava. O paiz não melhorava a sua riqueza publica. Então o governo
+pensou comsigo mesmo e disse:&mdash;Maldito bandido!&mdash;sempre desassocegado e
+criança: por Deus, cautella! nem mais um passo...</p>
+
+<p>E bandido&mdash;esperto abriu o olho e principiou a ver, ao longe uma cousa que
+lhe fallava em inscripções e em fundos publicos. Olé! Olé! Cá está a incognita!
+A elles, aos fundos publicos!</p>
+
+<p>Ao que o sr. Salaverria sorriu ironicamente, como querendo dizer:&mdash;Espera
+maroto, que te escacho!</p>
+
+<p>E assim foi.</p>
+
+<p>Bandido foi já derrotado na politica, no commercio, na industria, na
+economia,<span class="pn">{39}</span> nas artes e nas sciencias. Mas apesar de
+tudo elle não descrê. É forte, tem bom pulso, jámais teve uma dôr de dentes e
+nunca cortou os callos, porque tambem nunca os teve. Abençoado patife! Creado
+nas montanhas e industriado nas altas tricas da politica, elle só espera
+momento opportuno para tornar a apparecer em campo.</p>
+
+<p>E depois hão de vel-o. Pois julgavam que elle era sujeito para se curvar a
+qualquer Salaverria? Enganaram-se.</p>
+
+<p>Nem a Salaverria, nem á honestidade. Unicamente elle tem em vista&mdash;alcançar
+os seus fins sejam quaes forem os meios.</p>
+
+<p>E assim é a Hespanha na sua evolução social.</p>
+
+<p><em>Ah! Machiavel! ah! bandido!</em><span class="pn">{40}<br>{41}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0015">V<br><br>
+EDIFICIOS PUBLICOS E OUTRAS CURIOSIDADES HISTORICAS</a></h2>
+
+<p>Dizia um celebre escriptor allemão que a vida era uma viagem em caminho de
+ferro: o casamento um choque de trens; o somno a passagem de um tunel; um
+negocio a passagem de uma ponte; o destino um machinista que nos leva
+silencioso ao termo da viagem.</p>
+
+<p>Nestas circumstancias, e a ser verdade o que nos diz tão excentrico
+pensador, parece, de facto, que ao homem nada mais resta neste mundo do que uma
+vida de sensações rapidas e imprudentes, sem um<span class="pn">{42}</span>
+unico pensamento, que o preoccupe, sem repouso, sem ligações, sem familia, sem
+crenças, sem humanidade.</p>
+
+<p>E apesar de tudo, e sem embargo do auctor citado, o universo apresenta-nos
+um aspecto perfeitamente em contrario do que acima transcrevemos.</p>
+
+<p>Por toda a parte a fixidez se nos antólha como elemento essencialissimo na
+vida dos povos. Na evolução das sociedades a primeira cousa que o homem teve em
+vista foi certamente fixar-se, construir a cabana onde tinha de pernoitar e
+estabelecer definitivamente a séde dos seus trabalhos e operações.</p>
+
+<p>Imagine-se o leitor, em Madrid, no meio de uma praça irregular, que se chama
+<em>Puerta del Sol</em>. É o coração da cidade. Conta-se que em 1520 houvera
+alli um castello, sobre a porta do qual se encontrava uma pintura representando
+o sol. Desde então para cá póde dizer-se que é aquelle o logar destinado, aos
+despreoccupados do mundo, aos <em>flaneurs</em> do bom tom e á fina
+<em>èlite</em> dos salões madrilenos.</p>
+
+<p>Que contraste! Na propria sociedade<span class="pn">{43}</span> hespanhola,
+que mais pensa na vida externa do que na vida interna, pacifica, de casa, nessa
+mesma nos foi dado admirar a impretrerivel tendencia da natureza humana para o
+viver confortavel, commodo, alegre e quasi poderiamos tambem dizer luxuoso.</p>
+
+<p>Poucas familias ha, em Madrid, que não tenham a sua casa, excellentemente
+mobilada, e que, pelo menos, não possuam o modesto segredo do
+<em>savoir-vivre</em>, isto é, o segredo da conservação e da hygiene
+individual.</p>
+
+<p>Sem sahir da <em>Puerta del sol</em>, o viajante poderá, se quizer, fazer um
+telegramma aos seus amigos, dirigindo-se áquelle magnifico predio onde
+actualmente se acha o ministerio da <em>governação</em>, e poderá, tambem, se
+assim lhe aprouver, tomar uma chavena de chocolate no magnifico <em>café
+Imperial</em> ou subir mesmo ao primeiro andar d'esse mesmo edificio, e ordenar
+que lhe reservem um quarto no <em>Hotel de Paris</em>.</p>
+
+<p>Sahindo da <em>Puerta del sol</em> encontramos duas ruas quasi parallelas&mdash;a
+rua <em>Alcalá</em><span class="pn">{44}</span> e a <em>Carrera S.
+Jeronymo</em>. Na primeira d'estas ruas eleva-se um soberbo arco triumphal,
+erecto no reinado de Carlos III, a fim de perpetuar a memoria da sua vinda á
+côrte de Hespanha. Consta de cinco entradas, sendo tres eguaes, no meio, e em
+fórma de arco, e uma quadrada em cada extremo. A <em>Puerta de Alcalá</em>, a
+primeira de Madrid, conta 70 pés de altura, com a seguinte inscripção:</p>
+
+<p style="text-align:center;"><br>
+REGE CAROLO III<br>
+ANNO MDCCLXXVIII. </p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Além d'esta ha ainda a <em>Puerta de Toledo</em>, situada no fim da rua do
+mesmo nome, consagrada, no anno de 1827, a Fernando VII, o
+<em>desejado</em>.</p>
+
+<p>E, visto estarmos fallando nas maravilhas da arte hespanhola, bom será que
+não esqueçamos as duas principaes praças da cidade&mdash;<em>la plaza de
+Oriente</em> e <em>la plaza Mayor</em>.</p>
+
+<p>A primeira tem fórma circular, e é circumdada exteriormente por um
+formosissimo passeio, onde estão collocadas quarenta<span
+class="pn">{45}</span> e quatro magnificas estatuas, destinadas a representar
+os monarchas hespanhoes.</p>
+
+<p>No centro da praça ergue-se a estatua de Filippe IV, symbolisando o seu
+disvelo pela arte nacional, e dando-nos em allegoria o solemnissimo momento em
+que tão generoso monarcha se dignava condecorar o celebre pintor Velasques com
+a cruz de Sant'Iago.</p>
+
+<p>O theatro <em>real</em> faz tambem com que este logar seja um dos que melhor
+perspectiva apresentam na cidade.</p>
+
+<p>A segunda&mdash;a <em>plaza Mayor</em>&mdash;foi construida em 1619, sob a direcção do
+architecto D. Juam Gomes de Mora. É o logar destinado ás festas da côrte
+hespanhola. Antigamente a fidalguia armada costumava, em actos solemnes,
+esperar ali a sahida dos touros, que eram picados com a maxima destreza e
+pericia por parte dos amadores da arte de Pepe-Híllo. Já por duas vezes o
+incendio tentou destruir tão formoso recinto. No seu centro está collocada a
+estatua equestre de Philippe III, obra começada pelo architecto<span
+class="pn">{46}</span> Juan Bologna e terminada por Pedro Tacca.</p>
+
+<p>Presentemente a <em>plaza Mayor</em> acha-se reduzida ás condições de um
+deliciosissimo jardim e pouco mais.</p>
+
+<p>Passemos, porém, ao <em>Palacio Real</em>. É uma das obras de arte, que mais
+particular attenção merece da parte dos entendedores.</p>
+
+<p>Foi construido este palacio em meados do seculo passado. Situado no extremo
+occidental da povoação, precisamente no logar onde outr'ora se erguia o famoso
+alcaçar de Madrid, a sua origem remonta, segundo uns, ao reinado de Affonso VI,
+e segundo outros ao reinado de Pedro I. No cimo da escada, que é de marmore,
+existe uma estatua de Carlos III, o qual, parece, concorrêra bastante para a
+melhoria d'aquelle edificio.</p>
+
+<p>Começando pela fachada do Oriente, a pintura, que se vê na primeira sala,
+representa o Tempo descobrindo a Verdade; na segunda encontra-se Apollo
+premiando o talento; na terceira a queda dos gigantes, que uma vez tiveram a
+ousadia<span class="pn">{47}</span> de attentar contra os céus; na quinta a
+apotheose de Hercules; e na sexta, septima, oitava e nona a representação da
+philosophia, da pintura, da musica e da poesia.</p>
+
+<p>Além do que aqui deixamos mencionado, muito mais, porém, poderiamos
+accrescentar. O <em>Palacio real</em> é uma das maravilhas da capital de
+Hespanha, já pela sua riqueza, já pelos seus valiosissimos quadros, já, emfim,
+pela sua vasta opulencia.</p>
+
+<p>Não pára, comtudo, aqui a nossa admiração. Cumpre egualmente não esquecer
+outras maravilhas da cidade, taes como o <em>Palacio do Senado</em>, onde pela
+primeira vez se reuniram as côrtes hespanholas em 1820: o <em>palacio do
+congresso</em>, edificio muito moderno, principiado a construir em 1834, os
+<em>ministerios publicos</em>, as <em>reaes cavallariças</em> situadas ao norte
+do palacio, e ainda como reliquias de architectura dos seculos XVI, XVII e
+XVIII até nós, os palacios particulares de <em>Medinacellí</em>, de
+<em>Liria</em>, do <em>duque de Abrantes</em>, do <em>marquez de
+Salamanca</em>, etc.<span class="pn">{48}</span></p>
+
+<p>E ainda, se o leitor fôr poeta e se interessar pelos grandes homens, não
+deixarei de recommendar-lhe a visita ás casas de Cervantes, de Lope de Vega, de
+Torrijós, de Cisneros e da beata Maria Anna.</p>
+
+<p>A casa de Cervantes, edificada na rua do mesmo nome, tem, por cima do portal
+da entrada, em marmore branco, a seguinte inscripção:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><em>«Aqui vivió y murió Miguel de Cervantes Saavedra; cuyo ingenio admira el
+mundo. Falleció em MDCXVI».</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Na parte superior está o busto do poeta.</p>
+
+<p>A casa de Lope de Vega foi recentemente restaurada, e a de Torrijós, celebre
+general, tem tambem um distico, em que se lê pouco mais ou menos o seguinte:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><em>«Aqui nació el general D. José Maria Torrijós; defendia la independencia
+e libertad de la patria e murió em 11 de deciembro de 1831, arcabuceado em
+Malaga por haber intentado restabelecer con las armas la
+Constituicion».</em><span class="pn">{49}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="estrelas">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Agora, permitta-me o leitor que lhe offereça um charuto. Emquanto se espera
+entremos aqui neste café, no café de Sevilha. Uma chavena de chocolate não lhe
+fará de certo mal.</p>
+
+<p>&mdash;Rapaz!&mdash;Chocolate!...<span class="pn">{50}<br>{51}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0016">VI<br><br>
+A INSTRUCÇÃO PUBLICA</a></h2>
+
+<p>«Deixae-me instruir a juventude, e eu reformarei o mundo»&mdash;dizia
+Leibnitz.</p>
+
+<p>E assim é, com effeito.</p>
+
+<p>Reforma que não seja acompanhada de raciocinio, pecca por falta de seriedade
+scientifica e por ausencia de dados positivos. E por isso é que a Allemanha,
+pelo espirito de Luthero, e a França, pelo espirito de Fénelon, foram sempre as
+primeiras a accordar o coração do povo pelo sol da instrucção. Jules Simon, o
+sympathico auctor da <em>Politica radical</em>, tem consagrado quasi todos os
+annos da sua<span class="pn">{52}</span> vida á solução d'este notavel
+problema; e a verdade é que a França, neste ponto, em nada fica a dever ás
+nações, que, ainda mesmo como os Estados-Unidos, a Suissa e a Belgica, caminham
+na vanguarda da civilisação.</p>
+
+<p>É ainda o mesmo Jules Simon que nos diz:</p>
+
+<p>«No dia em que a lei obrigasse toda a gente a saber lêr, toda a gente
+estaria mais perto da liberdade».</p>
+
+<p>E assim deviam fallar todos os verdadeiros democratas; porque, sem
+instrucção, é impossivel a educação, do mesmo modo que sem o desenvolvimento
+intellectual se atrophiaria o desenvolvimento moral.</p>
+
+<p>E o homem não é só intelligencia, mas tambem coração. Desenvolver uma e
+outra cousa é hoje a missão da escola moderna, sanccionada pela philosophia
+positiva.</p>
+
+<p>Levasseur, acceitando a obrigação da instrucção, pretende, comtudo, que aos
+interessados se deixe a livre escolha de escola, confessando ao mesmo tempo,
+que, onde as escolas escasseiam, ou onde a<span class="pn">{53}</span> maioria
+da população não está no habito de concorrer a ellas, a experiencia prova que a
+obrigação não passa de uma disposição inutil; asserção que elle confirma pelos
+exemplos de Portugal, Hespanha e Italia.</p>
+
+<p>Emile de Girardin, o celebre publicista, que em duello matou Armand Carrel,
+fazendo depois elle proprio a apologia do seu infeliz adversario;&mdash;Emile de
+Girardin, embora não combatesse a instrucção obrigatoria, achava-a comtudo,
+ephemera e subjeita a erros. Assim como ninguem obriga o seu semelhante a comer
+um pedaço de pão, assim nós tambem não podemos obrigar ninguem a ser
+instruido.</p>
+
+<p><em>Necessaria</em>, portanto, é que a instrucção devia ser, isto é, todos
+deviam saber ler, contar e escrever&mdash;o que, <em>mutatis mutandis</em>, vinha a
+dar o mesmo.</p>
+
+<p>Em Portugal já a instrucção obrigatoria havia sido consignada no decreto de
+20 de setembro de 1844, onde a penalidade, imposta á negligencia das familias,
+appareceu pela primeira vez neste paiz.</p>
+
+<p>E, no entretanto, as escolas continuam<span class="pn">{54}</span> sem
+frequencia, os methodos peioram de dia para dia, o professorado anda equiparado
+aos creados das cavallariças reaes, e nós, os preguiçosos do occidente,
+navegamos em mar de bonança na quietação mais materialmente feliz d'este mundo
+sub-lunar.</p>
+
+<p>O sr. Levasseur, membro da <em>commissão franceza</em>, na ultima exposição
+internacional de Vienna d'Austria publicou a estatistica do movimento das
+escolas primarias nos diversos paizes do mundo, e achou que a frequencia das
+escolas, no Baixo Canadá, está na relação de 23 alumnos por cada 100
+habitantes, na França 13 por 100 e em Portugal 3 por 100.</p>
+
+<p>Este facto, horroroso em si, não nos é, todavia, extremamente
+desfavoravel.</p>
+
+<p>Em Hespanha, onde a instrucção superior está tão profusamente derramada, a
+ponto de haver um sem numero de universidades, de escolas, de academias, de
+archivos, de institutos e de bibliothecas; em Hespanha a instrucção primaria,
+se não é inferior, corre, pelo menos, parelhas com o nosso paiz.<span
+class="pn">{55}</span></p>
+
+<p>Quer-nos parecer que sem uma remuneração, concedida pelo estado aos paes de
+familia, nunca a instrucção <em>obrigatoria</em> será levada por deante, na
+peninsula. No inverno a grande distancia dos povoados a que ficam as escolas,
+faz com que ellas sejam menos frequentadas; no verão, as colheitas obrigam os
+lavradores a não dispensar seus filhos dos trabalhos ruraes. E por isso é,
+creio, que de facto existe uma desproporção enorme entre os algarismos da
+população rural e a frequencia numerica das respectivas escolas.</p>
+
+<p>Mas a Hespanha, <em>litterariamente</em>, ao menos, tem uma vida propria,
+sua, original, ao passo que nós tanto na arte, como na politica, estamos
+fatalmente destinados á morte e ao esquecimento.</p>
+
+<p>Entre nós o ultimo poeta, verdadeiramente, interprete do sentimento nacional
+foi Garrett. Desde então para cá a influencia da litteratura franceza tem-se
+feito por tal fórma sentir, que os nossos poetas, embora dotados de muitissimo
+talento e de vivissima imaginação, mais parecem conhecer a vida de Paris do que
+a vida de Lisboa;<span class="pn">{56}</span> e de tal modo que o nosso povo
+mal os lê, porque mal os entende tambem. O resultado é que vamos atravessando
+um periodo de transição e que a historia não poderá nunca registrar esta época,
+senão como um facto accessorio da vida portugueza.</p>
+
+<p>E, cousa singular! a causa, que tão poderosamente actua nos nossos costumes
+e na nossa vida nacional, é a mesma que, passando por cima da Hespanha nem
+sequer vestigios deixa da sua passagem. Victor Hugo, assimilado e imitado pelos
+portuguezes, emprehendeu na sua infancia uma viagem á Hespanha. «Essa
+viagem&mdash;escreve Castelar&mdash;tem analogia com a de madame de Stäel á Allemanha. A
+eminente escriptora trazia o romantismo idealista do norte, o sublime escriptor
+o romantismo pratico do Meio-Dia; Stäel inspirava-se nos tristes e profundos
+sonhos de João Paulo Richter, Victor Hugo nos singelos versos do
+<em>Romancero</em> e nos conceitos de Calderon, impressos na consciencia, como
+esses listrões de materia cosmica, a que damos o nome de nebuloses,<span
+class="pn">{57}</span> e dos quaes talvez em cada minuto se desprende como uma
+gota de luz um novo planeta na vastidão do espaço. Victor Hugo sahiu de
+Hespanha com o animo disposto a incendiar o templo dos deuses e da velha arte.
+Reinava desassombradamente a poesia classica, desde a epoca de Luiz XIV. Se o
+povo de 93 descobrisse esta realeza, tambem a teria derrubado no seu incansavel
+afan de renovar a vida. Era a Academia, o Versailles, onde aquella corôa estava
+enthesourada».</p>
+
+<p>Podem os poetas hespanhoes não ser melhores que os nossos, mas a verdade é
+que são mais originaes, e mais do seu paiz. Foi da Hespanha que partiu o grito
+destruidor do velho convencionalismo poeta, em redor do qual se haviam agrupado
+Racine, Voltaire, Corneille o outros. E esse revolucionario audaz e intrepido
+foi Lope de Vega.</p>
+
+<p>A vida litteraria de Hespanha é tal que só em Madrid se publicam
+aproximadamente 60 jornaes. Da <em>Universidade Central</em>, situada na rua de
+S. Bernardo, e dividida em 6 faculdades, sahem annualmente para cima de cem
+bachareis.<span class="pn">{58}</span></p>
+
+<p>Por onde se vê que a instrucção superior em Hespanha tem attingido um
+enormissimo progresso; progresso, em nosso entender, que lhe ha de assegurar
+sempre virilidade, independencia e vida propria, o sufficiente para que uma
+nação, em poucos annos, se eleve e conceitúe no animo dos seus inimigos.</p>
+
+<p>E posto isto, tratemos d'outro assumpto.<span class="pn">{59}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0017">VII<br><br>
+TEMPLOS E RELIGIÃO</a></h2>
+
+<p>Desapparece o carnaval, e a mulher hespanhola, de todas as mulheres do mundo
+a mais alegre, a mais festiva e a mais ruidosa, sacode os seus cabellos,
+desgrenha a sua fronte, pintada a carmim, rasga a sua ligeira mascara de seda,
+põe de parte o seu vestuario extravagante, descalça os seus sapatinhos de
+setim, toma o seu véo de Sevilha, calça a sua luva preta, e penetra
+soberanamente no templo, onde o Christo a aguarda, para, num sorriso de perdão,
+a absolver das suas culpas e dos seus peccados.<span class="pn">{60}</span></p>
+
+<p>É que ella, a feiticeira, comprehende o mundo, tal como elle é&mdash;de alegrias
+e de tristezas, de esperanças e de duvidas, de amor e de descrença, de riso e
+de lucto, de primavera e de outomno, de vida e de morte.</p>
+
+<p>O templo veste-se de negro; o orgão faz resoar os seus canticos plangentes;
+Jesus, a pallida creança, ostenta uma face macerada, e o padre, oh! o padre, o
+grande ladrão!&mdash;como raposa que espreita o galinheiro innocente, acocora-se no
+confissionario, á semelhança de gallo, que em materia de instinctos é useiro e
+vezeiro.</p>
+
+<p>E tu, minha pobre peccadora, ó minha querida&mdash;terás de ouvir
+silenciosamente, concentradamente, todos os lamentos do propheta, todas as
+dôres da mãe, todas as lagrimas dos pequeninos.</p>
+
+<p>Um dia levantar-te-has mais cedo; com ar triste e melancolico seguirás a via
+do resgate; ajoelharás timidamente deante do sr. cura da freguezia, que depois
+te dará a communhão.</p>
+
+<p>Que maldicta manhã não passarás, minha pequena catholica!&mdash;lembrando-te<span
+class="pn">{61}</span> das travessuras de que a consciencia te não accusa, e
+tendo de abrir ao padre, ao negro carcereiro da tua alma, os segredos que te
+vão no coração atribulado.</p>
+
+<p>Mas tu tens pae, bem o sei; tua avó não te dispensará o sacrificio de todos
+os annos, e tua propria mamã exigirá de ti nesse dia um beijo e um affecto.</p>
+
+<p>Que louca extravagancia! Confessar-se a gente a um homem desconhecido, que
+toma rapé e usa lenço encarnado, quando, ao contrario, podia revelar a sua vida
+ao ente predilecto da sua existencia, áquelle, que, <em>au clair de la
+lune</em>, fuma debaixo das nossas janellas um delicioso <em>breva</em> e nos
+diz umas doces palavras mysteriosas....</p>
+
+<p>E depois&mdash;que horror!&mdash;cahir no velho tumulo catholico, quando toda a
+natureza, como que por contraste, é um encanto e um paraizo?!</p>
+
+<p><em>Oh! mon Dieu, que c'est trop fort....</em></p>
+
+<p>Mas, emfim, sevilhana amiga, tu que, durante o carnaval, escapaste, de uma
+bronchite, faze tambem diligencia para, durante a quaresma, te furtares á
+insolita constipação catholica.<span class="pn">{62}</span></p>
+
+<p><em>Á la belle etoile</em> cantaremos e libaremos aos nossos amores. Bem vês
+que o convite attrahe. Tu fallar-me-has no bigode preto do teu amante, nos seus
+cabellos de azeviche, na sua fronte pallida, nos seus olhos profundos e
+apaixonados; de tudo me has de fallar, gentilissima menina, que, eu, no
+entretanto, sem deixar de ouvir-te, irei preparando uma delicadissima ceia,
+toda ella de boas aves saborosas e de finissimos vinhos francezes.</p>
+
+<p>Acceitas? Por Deus não pretendas imitar o lyrismo de Santa Thereza, aquella
+boa alma mystica, que «<em>morria de não morrer</em>!»&mdash;ou antes «<em>por não
+morrer</em>». É verdade que escusas tambem de seguir <em>madame</em> Roland,
+indo para o cadafalso, vestida de branco e Carlota Corday apunhalando Marat;
+escusas mesmo de te aproximar de <em>madame</em> de Maintenon, no seu odio
+contra a religião protestante: e escusas tambem de ser Joanna d'Arc, uma
+Margarida d'Anjou, uma Joanna de Montfort. Tudo isto seria desnecessario e
+inutil. Para serdes respeitadas e felizes, bastava apenas, minhas boas
+andorinhas<span class="pn">{63}</span> ideaes, que vós possuisseis o orgulho e
+a consciencia das vossas acções; porque emfim, se o homem é o orgulho de Deus,
+a mulher é o orgulho do homem, como mui judiciosamente escreveu um espirito
+comtemporaneo.</p>
+
+<p>Conta-se que o chefe arabe dissera da actriz Rachel:&mdash;«É uma alma de fogo
+num corpo de gaze», e que a actriz, á hora da morte, exclamára:&mdash;«O fogo
+queimou a gaze!»</p>
+
+<p>Assim, pois, que a minha gentilissima hespanhola não possa tambem nunca
+dizer, á imitação de Rachel:&mdash;<em>O fogo matou a mulher!</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="estrelas">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Em Madrid os templos são de somenos importancia. E, embora a religião
+catholica-apostolica tenha ali fanaticos e fanaticos decididos, não nos parece
+que os edificios destinados ao culto sejam dignos de uma menção especial. Ao
+ouvir fallar nas cathedraes de Cordova e Sevilha, de<span
+class="pn">{64}</span> Toledo e Burgos, de Valladolid e Zaragoza, quasi se nos
+afigura impossivel, senão mesquinho, que Madrid não possua tambem o seu templo
+official. A verdade, porém, é que, apesar de todas as tentativas, ainda até
+hoje não foi possivel levar por deante o velho projecto da edificação de uma
+cathedral na côrte de Hespanha.</p>
+
+<p>Entretanto, forçoso é confessar, que poucos paizes ha na Europa onde o
+fanatismo religioso tenha attingido tão elevadas proporções de hypocrisia e de
+retrocesso. Philippe I assemelha-se a Luiz XI, o qual antes de mandar enforcar
+qualquer subdito do seu reino, supplicava sempre a Nossa Senhora, cuja imagem
+trazia no <em>bonnet</em>, para que tivesse dó d'elle, e assim tambem a
+Hespanha deve a Philippe I uma grande parte do seu carlismo e da sua
+reacção.</p>
+
+<p>Os hospitaes, todavia, as casas de beneficencia, os asylos, e as associações
+philantropicas são innumeras em Madrid. A alta sociedade exerce mesmo a
+caridade em larga escala. Unicamente nos parece<span class="pn">{65}</span> que
+a razão publica entra pouco n'estas cousas.</p>
+
+<p>Seja, porém, como fôr, o certo é que um pouco menos de fanatismo e alguma
+cousa mais de raciocinio, nenhum mal faria a Hespanha.</p>
+
+<p>Porque, de facto, uma nacionalidade que possue criticos tão notaveis como
+Francisco Maria Tubino, director da excellente revista <em>La Academia</em>, e
+poetas tão distinctos como D. Ventura Ruiz Aguillera, fundador do magnifico
+<em>Museu archeologico</em>, e Zorrilla, o arrojado trovador peninsular, que,
+por fórma alguma, deve ser confundido com o politico, seu homonymo; uma
+nacionalidade tão forte e tão vigorosa sempre merece ser mais alguma cousa do
+que uma simples expressão dos velhos tempos theologicos.</p>
+
+<p>Toda a vida de um paiz se resume numa palavra&mdash;bom-senso.<span
+class="pn">{66}<br>{67}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0018">VIII<br><br>
+A POLITICA</a><sup><a name="L3633" id="L3633" href="#L3631">[1]</a></sup></h2>
+
+<h3><a name="SECTION00181000000000000000">(CONTRASTES)</a> </h3>
+
+<p>Ainda hontem a vimos expulsa da patria, que ella de creança aprendera a
+renegar no vilissimo ensinamento de um jesuitismo perverso; ainda hontem,
+humilhada, mas não contricta, lhe mostravam as bayonetas nacionaes que não
+podia ser<span class="pn">{68}</span> aquelle o coito das suas devassidões
+infrenes; ainda hontem, offendida no seu amor proprio, e sempre arrogante, ella
+transpunha os Pyrineus, como as columnas de Hercules, por onde jámais lhe seria
+dado volver ás terras das suas hybridas façanhas e ao solar das suas
+sabidissimas intrigas.</p>
+
+<p>E no entretanto esse magnifico sol, que parece ter brilhado para toda a
+Europa, no explendido fulgôr de uma vivissima luz, apagou-se subito no
+horisonte, deixando empós de si o triste e doloroso prenuncio de uma tempestade
+eminente.</p>
+
+<p>E, coisa singular, nada faltou áquelle dia de festa.</p>
+
+<p>Ayalla coloria o seu estylo brilhante; e com as côres douradas da sua divina
+palheta, quasi se sentira feliz por festejar aquelle sahimento funebre de uma
+mulher, justamente condemnada pelos fastos da historia e merecidamente
+repellida pelos progressos da humanidade; o duque da Torre alçava para o céo a
+sua cabeça de cidadão arrojado, congratulando-se com os seus e com os estranhos
+pela<span class="pn">{69}</span> victoria da justiça do seu paiz: Sagasta tinha
+a convicção de uma grande causa conquistada, e persuadia-se ter concluido uma
+obra meritoria; Prim, o esforçado batalhador de Marrocos, ostentava em pleno
+dia as alegrias que lhe iam na alma, e as esperanças que se lhe occultavam no
+coração; Castelar, emfim, com todo o arrojo da sua notavel eloquencia,
+suppozera-se victorioso, e victorioso para sempre.</p>
+
+<p>Mas, coisa ainda mais singular! todas estas acclamações de momento, todas
+estas palmas improvisadas, todos estes delirios de occasião, todas estas
+festas, todas estas vertigens, todos estes rumores, cahiram, n'um minuto,
+inesperadamente, abruptamente, revelando-nos, mau grado nosso, que a politica
+foi, é, e será sempre a suprema contradicção das cousas humanas e a mais
+evidente demonstração de quanto a humanidade é inconstante, leviana e
+traiçoeira.</p>
+
+<p>A entrada de Isabel II em Hespanha é a abjuração cabal da revolução de
+Cadiz.<span class="pn">{70}</span></p>
+
+<p>Pouco nos importa que o sr. Sagasta fosse agora o primeiro a cumprimentar a
+ex-rainha expulsa, acceitando-lhe o retrato e as perfidias; pouco nos importa
+que o sr. Ayalla abra tambem o cofre dos seus gabos e a cornucopia da sua
+generosidade. Tudo isso é do mundo, e nós estamos no mundo. Unicamente, nós
+temos direito a perguntar aos nossos vizinhos qual é actualmente o seu rei.</p>
+
+<p>Quem governa? Isabel II ou Affonso XII?</p>
+
+<p>A abdicação da rainha por ninguem foi ainda reconhecida. Não é ella de facto
+que occupa o throno, sabemol-o; mas na realidade é ella quem governa, desde o
+momento que o consentimento lhe foi dado, para de novo residir no palacio
+<em>del Oriente</em>.</p>
+
+<p>Que diria a isto Prim, o heroe de 1868, se por acaso hoje vivesse? Que dirão
+a isto os senhores liberaes de Hespanha, que, por suas proprias mãos, acabam de
+cavar o proprio sepulchro? E que fará o sr. Canovas del Castillo, o amigo
+duvidoso da ex-rainha?<span class="pn">{71}</span></p>
+
+<p>E a Hespanha, a nobre filha da peninsula, consentirá impunemente n'este
+attentado contra a sua dignidade? Volverá ao nefasto governo dos Clarets sem um
+protesto, sem um brado de indignação, sem uma affirmativa do seu brio e do seu
+pundonor?</p>
+
+<p>Nada temos com personalidades. A politica pessoal é, de todas as politicas,
+a mais detestavel e a mais perniciosa. Mas se isto nada é, o principio é tudo.
+É forçoso respeital-o e seguil-o. De outro modo não ha paiz que se sustente, da
+mesma maneira que sem leme é impossivel a navegação no mar.</p>
+
+<p>Amadeu I, pela sua demasiada simplicidade, não logrou nunca que os
+hespanhoes o guindassem ao fastigio da gloria. Muito bem. O sr. Zorrilla
+dispensa-o do seu serviço, e prepara-se para dirigir a politica do seu paiz.
+Mas, ó incoherencia! o proprio sr. Zorrilla, segundo affirmaram alguns, é o
+primeiro a divorciar-se dos republicanos, emigrando e dizendo-se apenas
+radical. E, por incoherencia ainda, é elle hoje o conspirador por
+excellencia,<span class="pn">{72}</span> e, segundo todas as vistas, o chefe do
+futuro gabinete republicano.</p>
+
+<p>E tão odioso é de facto o seu nome ao actual governo, que, ainda ha pouco, o
+jornal <em>El Globo</em>, orgão do sr. Castelar, e de que é director o sr.
+Olías, foi supprimido por apenas lhe ter estampado a photographia na primeira
+pagina.</p>
+
+<p>E esta suppressão indigna, violação manifesta do direito, da justiça e da
+propriedade, foi feita sem denuncias, sem accusações fiscaes e sem que os
+tribunaes fossem, ao menos, ouvidos.</p>
+
+<p>Tal é, em geral, o fructo dos governos restauradores!</p>
+
+<p>Quando Affonso XII subiu ao throno não faltaram, nem as apostas, nem os
+protestos, nem as indignações.</p>
+
+<p>Mas tudo isso passou. E <em>el niño de su madre</em>, o pequeno authomato
+dos tempos modernos, convicto de que o seu reinado havia de ser de ouro,
+sentou-se no throno, com o serenidade de um fingido Bourbon, sem consciencia e
+sem reflexão.</p>
+
+<p>Agora, porém, falla-se com insistencia numa nova revolução. Madrid agita-se;
+o<span class="pn">{73}</span> exercito divide-se; a fazenda publica está num
+estado desesperador; a população descrê; tudo isto, aggravado ainda com a vinda
+da rainha Isabel para Madrid, que a todos inspira odio e antipathia, faz suppôr
+que o movimento revolucionario se não demorará muito no seu apparecimento.</p>
+
+<p>Ninguem hoje tem o poder de resuscitar cadaveres. A elevação de Affonso XII
+ao throno nunca passou mesmo de uma mera phantasmagoria politica, especie de
+entreacto entre o passado e o futuro. Hão de tornal-o a enterrar, estou
+convencido, e sem grande difficuldade.</p>
+
+<p>Conta-se que num jantar, ultimamente dado em Barcelona, se reuniram seis
+politicos de vulto. Travada a discussão viu-se que cada um d'elles professava
+opinião differente ácerca do estado geral da patria. Progrediram assim as
+cousas; e de tal maneira que, no fim do banquete, os copos voaram pelos ares ao
+clamor estridulo e confuso de uma contenda infernal. Ninguem se entendia. O
+meio de persuasão estava já nos punhos arregaçados e<span
+class="pn">{74}</span> nos calices feitos pedaços. Finalmente parece que tão
+delicioso repasto terminou, sem levar a convicção ao espirito dos convivas, é
+verdade, mas deixando-lhes, todavia, a liberdade do vinho absorvido, e a gloria
+dos destroços por cada um operados em favor da sua causa.</p>
+
+<p>E assim é, em quanto a nós, tambem a politica em Hespanha&mdash;uma
+Babylonia!<span class="pn">{75}</span></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup id="L3625"><a name="L3631" id="L3631" href="#L3633">[1]</a></sup> Este
+artigo, embora restricto a um facto particular da actual dynastia reinante em
+Hespanha, póde, todavia, ampliar-se á politica geral do paiz, e por elle ser
+criticada.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0019">IX<br><br>
+MUSEUS</a></h2>
+
+<p>No seculo XVI, ao mesmo tempo que tudo decahia em Hespanha&mdash;politica,
+commercio, industria&mdash;como que para contrastar, surgia, por outro lado, o
+primeiro poeta hespanhol, Calderon, e o primeiro pintor, Velasquez.</p>
+
+<p>E desde então para cá as artes e as sciencias têm tomado um incremento
+verdadeiramente assombroso; a ponto de, ainda ultimamente, muitos professores
+da Universidade de Heidelberg, varios homens politicos francezes, e alguns
+sabios de Inglaterra, se terem reunido afim de<span class="pn">{76}</span>
+lançar os primeiros fundamentos da Universidade livre de Madrid, que o sr.
+Canovas del Castillo referiu que se chamasse <em>Instituto livre de
+ensino</em>.</p>
+
+<p>Em todos os museus de Madrid, que são muitos e admiraveis, se encontra a
+immortalidade da historia hespanhola aliada á eloquencia do genio e da
+inspiração individual.</p>
+
+<p>O Museu real de pintura e esculptura, situado no passeio do Prado, é ainda
+hoje um dos melhores do mundo, e foi fundado por Fernando VII, a rogo de sua
+esposa Maria Christina.</p>
+
+<p>Impossivel nos seria dar aqui uma resenha historica de todos os principaes
+quadros que adornam aquelle paraiso. Apontaremos no entanto alguns.</p>
+
+<p>A escóla de pintura <em>hespanhola</em> resente-se extraordinariamente do
+catholicismo que lhe servia de inspiração. Assim, para exemplo, pódem ver-se,
+entre outros, os quadros de Murillo, um, symbolisando a <em>Annunciação de
+Nossa Senhora</em>, outro, representando a <em>Familia Sagrada</em>, outro
+desenhando a <em>Concepção</em>, etc.; e os de Velasquez,<span
+class="pn">{77}</span> que tem um <em>Nosso Senhor Crucificado</em>
+maravilhosamente acabado, assim como um outro intitulado o <em>Quadro dos
+bebedores</em>; os de Rivera, que produziu o <em>Martyrio de S.
+Bartholomeu</em>, <em>S. Jeronymo em oração</em>, etc.; e os de Zurbaran sobre
+assumptos mysticos, e os de Goya, que realça principalmente por um retrato a
+cavallo de Carlos IV, etc.</p>
+
+<p>A escóla <em>florentina</em> é, como a hespanhola, uma escola religiosa.
+Assim, temos de Leonardo de Vinci dois esplendidos quadros: o retrato de Mona
+Lisa, mulher de D. Francisco Gicondo, cavalleiro florentino, e a representação
+da <em>Familia Sagrada</em>, tendo S. João e o menino Jesus em attitude de se
+beijarem; de Andréas del Sarto, chamado Andrea Vennucci, um retrato em busto de
+sua mulher Lucrecia Fede, e muitos outros; de Miguel Angel Buonarroti um
+<em>Nosso Senhor atado á columna</em>; e, como estes, outros de Bronsino, de
+Allori, de Carducei, de Vanni, etc.</p>
+
+<p>Na escóla <em>romana</em> o principal expositor é Sanzio Rafael, chamado
+Urbino, que possue, entre outros, <em>A queda de Nosso<span
+class="pn">{78}</span> Senhor Jesus Christo com a cruz</em>, conhecido pelo
+nome de <em>Pasmo de Sicilia</em>, e muitas allegorias á familia sagrada, umas
+conhecidas por <em>Ecce Agnus Dei</em>, outras pela <em>Rosa</em>, outras pela
+<em>Perola</em>, etc. Seguem-se-lhe Julio Romano, Sassaferrato, Barroci,
+etc.</p>
+
+<p>Na escóla <em>veneziana</em> o mais importante é Piciano, que tem uns
+magnificos quadros de Carlos V a cavallo, de Jesus Christo apresentado ao povo,
+do peccado original, da Victoria de Lepanto, da Virgem das Dôres e do <em>Ecce
+Homo</em>; depois temos Bellino, Tintoretto, Bassano e mais alguns.</p>
+
+<p>As menos notaveis, talvez, neste museu são as escolas, <em>bolonheza</em>,
+<em>lombarda</em>, a de Milão, e a de Napoles, as quaes, não obstante, ainda
+apresentam nomes como os de Corregio (<em>lombardo</em>), Dominiquino e Guido
+(<em>bolonhezes</em>) e Salvator Rosa (<em>napolitano</em>).</p>
+
+<p>Nas escólas <em>franceza</em>, <em>hollandeza</em> e <em>allemã</em> ha
+cecebridades, como Pedro Paulo Rubens, que apresenta o <em>Castello de
+Emaus</em>, <em>A serpente de metal</em>, <em>Orpheu e<span
+class="pn">{79}</span> Euridice</em>, <em>A dança dos paizanos</em>, <em>As
+tres Graças</em>, <em>Perseu libertando Andromeda</em>, e outros, sendo 62 a
+somma total dos seus quadros, ali expostos, a 28 os da sua escóla.</p>
+
+<p>Antonio Van Dyck dá-nos retratos admiraveis, taes como o do pintor David
+Rickart, o da duqueza de Oxford, o de Carlos I a cavallo, e o de D. Henrique,
+conde de Berga.</p>
+
+<p>David Teniers é pintor quasi bucolico, e offerece-nos quadros d'um mimo
+inexcedivel&mdash;<em>Um colloquio pastoril</em>, <em>Uma festa de paizanos</em>,
+<em>Um banquete campestre</em>, etc.</p>
+
+<p>Antonio Raphael Mengs (allemão) é auctor de <em>Santa Maria Magdalena</em>;
+Rembrandt (hollandez) tem <em>A rainha Artemisa</em>; e Moso Antonio (da mesma
+escóla) pintou a esposa de D. João III, rainha de Portugal.</p>
+
+<p>A escóla franceza tambem ali se acha dignamente representada por Pousin,
+Claudio de Lorena, Antonio Watteau, Claudio Vernet e muitos mais.</p>
+
+<p>Emfim, só a narração circumstanciada d'este museu daria para um grosso
+volume,<span class="pn">{80}</span> não incluindo já na conta a galeria de
+pinturas da <em>Academia de S. Fernando</em>, na rua de Alcalá, que possue mais
+de 300 quadros, e o <em>Museu nacional de pintura</em>, na rua da Atocha.</p>
+
+<p>Se o leitor fôr curioso, com certeza não deixará de visitar os
+<em>museus</em> de Madrid, que evidentemente constituem os monumentos mais
+notaveis da civilisação hespanhola.</p>
+
+<p>Só no <em>museu de antiguidades e medalhas</em>, na Bibliotheca nacional, se
+pódem ver mais de 98:000 medalhas de ouro, prata, ferro, bronze, cobre e barro,
+e muitissimas e numerosas antiguidades egipcias, etruscas, gregas, romanas,
+godas, arabes, etc.</p>
+
+<p>Na rua de Alcalá encontra-se o <em>Museu de historia natural</em>, que foi
+fundado no tempo de Carlos III, e que possue ricas collecções de mineralogia,
+de paleontologia e de zoologia.</p>
+
+<p>Dos melhores do seu genero são tambem o <em>Museu anatomico</em> de S.
+Carlos, na rua da Atocha; o <em>Museu de artilheria</em>, no Buen Retiro, e o
+<em>Museu naval</em> no<span class="pn">{81}</span> ministerio da marinha, o
+qual contém uma rica collecção de armas, tropheus, e outros muitos vestigios de
+guerra e de combate.</p>
+
+<p>Em Hespanha ha uma tendencia especial para esta arte. Raros são os
+particulares que não possuam tambem o seu museu.</p>
+
+<p>Um vi eu que me maravilhou devéras. Pertencia a Romero Ortiz. Entre outras
+raridades, foi-me dado vêr ali o mappa em que o general Moltke traçára a guerra
+franco-prussiana, e a faixa encarnada que Prim tinha cingida á cinta na noite
+em que o assaltaram. Muitas reliquias portuguezas me foram tambem mostradas, e
+creio até que uma do fallecido visconde de Castilho.</p>
+
+<p>Não ha de facto palavras que facilmente descrevam tanta arte, tanto aceio e
+tanta maravilha.</p>
+
+<p>Sobretudo&mdash;que maravilha!<span class="pn">{82}<br>{83}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00110">X<br><br>
+A MUSICA</a></h2>
+
+<p>Poucas cidades ha já hoje na Europa que não tenham o seu theatro lyrico. A
+musica não é apenas um entretenimento agradavel; é ainda mais, uma necessidade
+impreterivel.</p>
+
+<p>Aos domingos e dias santificados, aquelles que, por falta de meios, não
+podem concorrer a espectaculos pagos, procuram naturalmente os jardins
+publicos, onde, gratuitamente, lhes é dado ouvir uma orchestra ou uma banda
+musical. E assim, este simples divertimento faz com que muitas vezes se afastem
+da taberna muitos<span class="pn">{84}</span> centenares de operarios. É que a
+attracção de uma boa musica traz-nos frequentemente o esquecimento das proprias
+dôres e dos proprios soffrimentos.</p>
+
+<p>Tres escólas se disputam a palma no campo da lucta.</p>
+
+<p>Uma (a escóla allemã) é a harmonia: raciocina, descreve as lendas do seu
+paiz, e obriga á reflexão; outra (a escóla italiana) é a melodia: corre atraz
+da sua imaginação, queda-se com um sentimento triste, expande-se com a dôr, e
+recolhe-se com o amor. A primeira é grave, solemne, austera, e pertence
+naturalmente aos povos do norte; a segunda é meiga como uma mulher portugueza,
+leviana como a natureza em que vivemos, doce como os costumes da Italia, e a
+sua vida está subordinada aos povos do meio dia.</p>
+
+<p>Na <em>Africana</em>, por exemplo, ha gritos selvagens, notas lancinantes,
+harmonias plangentes; mas tudo isto com a inexcedivel pericia de um maestro
+consciencioso, e, sobretudo, pensador.</p>
+
+<p>Beethoven tem o condão maravilhoso de nos compellir ao estudo, á
+concentração<span class="pn">{85}</span> intima, ao seguimento de uma idéa, que
+é como que o desabroxar do espirito para um mundo novo.</p>
+
+<p>Grottschalk e Mendelssohn têm nas suas composições o cunho indelevel da
+tristeza, prevêem a morte, e cantam-n'a. Não têm horror ao mysterio, e por isso
+as suas partituras avivam em nós um não sei quê de vago, de indefinido, que
+involuntariamente nos obriga a interrogar os arcanos da consciencia.</p>
+
+<p>Mozart tem uma certa vivacidade que seduz; em meio das suas lucubrações
+pára, e, espraiando a vista pelos horisontes além, sente-se feliz, e sorri; e
+tão formosos são os seus sorrisos, que d'elles, como se fossem um sol, partem
+os raios animadores das suas obras monumentaes.</p>
+
+<p>Ricardo Wagner, hoje o maior vulto musical da Allemanha, tem nas suas obras,
+a par do rythmo, profundamente cadenciado e harmonico, uma feição notavelmente
+litteraria e artistica; estudando as lendas do seu paiz, conta-as com a
+superioridade de uma grande potencia, a quem não escasseia nem o genio nem a
+phantasia.<span class="pn">{86}</span></p>
+
+<p>A terceira escóla é a franceza, sem ideal definido, portentosa umas vezes,
+com os arrojos de Meyerbeer, e suavemente deliciosa n'outras occasiões, com as
+meigas melodias de Bellini ou Donizetti. E no entretanto uma coisa distingue
+esta escóla: é a <em>verve</em>, o frescôr animadissimo, transparente, que se
+exhala de todas as notas; a harmonia que nos leva á meditação; a melodia que
+nos arrasta os sentidos, á selhança de quem vive numa atmosphera impregnada de
+vapores e de perfumes.</p>
+
+<p>A escóla franceza tem, é verdade, muito de condemnavel como escóla
+<em>ecletica</em>; mas ainda assim não devemos nunca esquecer que a ella
+pertencem talentos soberbos, como o de Gounod, compositor do <em>Fausto</em>,
+e o de Berlioz, auctor do <em>Manfredo</em>, que para muitos foi o predecessor
+de Ricardo Wagner, e o de Auber, e o de Herold e o de muitos outros.</p>
+
+<p>A escóla franceza é, pois, uma intermediaria entre a escola <em>allemã</em>,
+toda <em>subjectiva</em>, inspirando-se nos grandes arrebatamentos da
+consciencia humana, cheia de gravidade, como a justiça, rodeada de<span
+class="pn">{87}</span> esplendores, como a verdade e infiltrada de meditações,
+como o espirito da humanidade, e a escóla <em>italiana</em>, toda
+<em>objectiva</em>, obedecendo mais ás impressões dos sentidos, tendo por norma
+de vida o ideal da natureza, cercada de flôres, de primaveras e de aves, e
+cantando o paraizo ao som das intimas alegrias e dos intimos prazeres.</p>
+
+<p>Os <em>dilletanti</em> do nosso theatro lyrico quasi que chegam a
+menosprezar hoje a musica italiana, por obnoxia e anachronica.</p>
+
+<p>Não nos parece razoavel semilhante proposito. A não ser a moda, não sabemos
+que outros factos possam abonar tão disparatada opinião.</p>
+
+<p>Portugal não tem uma educação musical verdadeiramente avigorada. Está longe
+ainda de poder attingir o classicismo allemão.</p>
+
+<p>Depois, nós somos um povo peninsular. Vivemos com as impressões exteriores
+da natureza; o nosso espirito segue as oscillações da temperatura atmospherica;
+somos frouxos, levianos, sem o vigor que dá a consciencia nem a elevação que
+nos<span class="pn">{88}</span> traz a idéa: a nossa escóla ainda ha de ser por
+muitos annos a escola italiana.</p>
+
+<p>A musica constitue, como a litterutura, a genuina expressão dos sentimentos
+de um povo. A França, que ri sempre e a proposito de tudo e de todos, não podia
+deixar de ser a patria da comedia moderna; por eguaes razões a Inglaterra, que
+se alimenta de fumo e de <em>spleen</em>, se não possuisse Shakespeare, o
+sublime tragico, possuiria de certo qualquer outro que lhe interpretasse os
+sentimentos e as paixões, com a mesma eloquencia com que o soube fazer aquelle
+divino artista; a Allemanha, á semelhança de quasi todos os paizes do norte, é
+mais inclinada ao drama symbolico, de que o <em>Fausto</em> é um exemplo
+maravilhoso, do que ao drama de paixão, que pertence naturalmente á raça
+latina.</p>
+
+<p>O genero musical mais favorito, em Hespanha, é o <em>tango</em>, a
+<em>habañera</em>, a <em>malagueña</em>, a <em>seguidilla</em>, n'uma palavra
+a&mdash;zarzuella, com feição especial e caracteristica, podendo tomar-se como mais
+uma affirmação do genio bandoleiro hespanhol,<span class="pn">{89}</span> e do
+espirito aspero, violento e contradictorio d'aquelle esplendido paiz.</p>
+
+<p>Que a musica entre os hespanhoes é originalissima, sabem-n'o todos. E por
+tal fórma é isto verdade que jámais povo algum do mundo foi capaz de
+assimilar-lhe a inspiração, o rythmo e o cadenciado da phrase.</p>
+
+<p>A Hespanha ficaria incompleta se porventura lhe subtrahissem este genero de
+musica, de todos os generos o mais monotono, talvez, mas com certeza o mais
+espontaneo, porque é a expressão das suas tradições e da sua nacionalidade.</p>
+
+<p>Rara é a mulher em Madrid que não sabe cantar. O proprio amor madrileno é um
+tango, em que a amada ou a amante ora quer, ora não quer, ora solluça e ora ri,
+ora finge e ora pensa.</p>
+
+<p>D'este modo vê-se que a musica em Hespanha, producto natural d'aquelle paiz
+é como tudo o que alli existe&mdash;uma contradicção agradabillissima, e talvez
+mesmo que um sonho encantador.</p>
+
+<p>Mais adeante, porém, voltaremos a este assumpto.<span class="pn">{90}<br>{91}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00111">XI<br><br>
+O CHOCOLATE E O CAFÉ</a></h2>
+
+<p>Eu havia realmente feito uma idéa da minha querida <em>señorita</em>; mas,
+por Deus, ella, a caprichosa, está muito acima da minha pobre imaginação.</p>
+
+<p>Madrid já não é simplesmente a mulher formosa, que ao sopro da
+<em>ventarola</em> agita os olhos avidos e curiosos, inflammada na eterna
+chamma do amor e docemente embriagada pelo <em>Xerez</em> do sentimentalismo
+peninsular. Não. Madrid é mais alguma coisa do que isso&mdash;Madrid resume em si a
+altissima idéa industrial<span class="pn">{92}</span> do chocolate e o
+singularissimo pensamento politico do café.</p>
+
+<p>Peço perdão, minha senhora, se porventura fui menos claro no modo de
+exprimir a minha idéa. Eu me explico. O chocolate é aqui o nosso companheiro
+inseparavel, o nosso <em>bâton</em> da manha e a nossa <em>badine</em> da
+noite.</p>
+
+<p>Pela madrugada, ao descerrar a palpebra, ainda meio adormecida pelo vivido
+enthusiasmo d'este <em>magasin</em> pittoresco&mdash;a leitora será mansamente
+despertada no seu leito, não por um formosissimo sol de abril, mas sim por um
+mysterioso toque symbolico na porta do quarto, o que lhe indicará muito
+claramente que, não longe d'ali, a está esperando uma gentil creadinha com uma
+simples chavena de chocolate.</p>
+
+<p>E, ou queira, ou não queira, ha de tomar o chocolate; do mesmo modo que, se
+estivesse no Brazil, havia de tomar café sempre que visitasse um amigo, e na
+China havia de aturar o chá vinte vezes por dia.</p>
+
+<p>Ora, em caso de luta, eu prefiro o<span class="pn">{93}</span> chocolate,
+porque, emfim, nem nos torna nervosos, como o café, nem anemicos como o chá;
+que a fallar a verdade elle&mdash;que para a Hespanha é o caracter, o amor, a vida,
+a poesia, o commercio, a industria, a politica, a arte&mdash;elle, o chocolate, é
+sobretudo nutriente e impregnado de substancias vivificadoras.</p>
+
+<p>Pobre Hespanha! Alegre filha do estreito Manzanares, eu, em ti, não canto as
+mulheres, nem as mantilhas de Sevilha, nem os teus risos infernaes&mdash;eu, em ti,
+formosa, canto, apenas, o chocolate e o café, isto é, a revolução e o
+futuro.</p>
+
+<p>Pois julgam que não? Não acreditam na efficacia do chocolate, o escuro
+semsaborão? Perguntem a s. s.ª, o dono da fabrica de <em>la Saragoza</em>.
+Perguntem-lh'o. Tenham a bondade de perguntar-lhe qual é o seu consumo
+diariamente.</p>
+
+<p>Os hespanhoes são alegres, cheios de vida, dormindo pouco, saindo muito,
+falladores, enthusiastas. E sabem porquê? Por causa do chocolate, o mysterioso,
+que traz sempre estes ventres bem fartos, e, portanto, orgulhosos de si
+mesmo.<span class="pn">{94}</span></p>
+
+<p>A Hespanha passeia muito, é ligeira nos seus affectos, caprichosa na sua
+politica, sonhadora, aventureira, risonha. E sabem porquê? É porque ella
+precisa de fazer a digestão do seu chocolate. E por isso ella, a olympica, faz
+duas ou tres corridas por anno por politicas differentes, e inventa revoluções,
+que, por causa do chocolate, apenas poderão durar poucos mezes.</p>
+
+<p>As mulheres voam como andorinhas; correm de coração em coração, são
+seductoras, amaveis, familiares, intimamente affectuosas, mas tudo isto com
+azas, e portanto, com perigo.</p>
+
+<p>Ora é por isso que eu ouso dar um conselho a s. s.<sup>as</sup> os srs.
+maridos de Hespanha&mdash;não dêem chocolate a suas esposas, se é que realmente amam
+mais o seu <em>mènage</em> do que o <em>boulevard</em>.</p>
+
+<p>Agora o café.</p>
+
+<p>É um <em>pendant</em> ao primeiro: ambos são negros, como suas
+reverendissimas os senhores jesuitas que por aqui caminham aos centos.</p>
+
+<p>O café é o complemento do chocolate.<span class="pn">{95}</span> Vive-se
+n'elle, e n'elle se apura a linguagem, a <em>toilette</em> e o bem-senso.</p>
+
+<p>As mulheres conciliam no seu coração o amor do profano e o amor do sagrado.
+Entram no templo catholico com o mesmo <em>sans façon</em> com que entram no
+templo social. Porque o café&mdash;talvez a leitora o ignorasse&mdash;o café é tambem um
+templo.</p>
+
+<p>E que templo, minha querida marqueza! De tudo se encontra ali desde o
+fidalgo da regencia <em>ci-devant</em> até ao maratista sans-cullote.</p>
+
+<p>Venha v. ex.ª a Madrid aprender a egualdade humana. Venha tomar aqui uma
+chavena de café, e verá como, embora desconheça a liberdade, v. ex.ª fallará na
+egualdade. Venha, minha senhora. Não se arreceie dos carlistas, que esses
+bandidos já hoje não vivem, e pertencem á historia.</p>
+
+<p>Quando S. M., o sr. D. Affonso XII, houve por bem entrar em Madrid, depois
+de concluida a guerra carlista, a cidade embandeirou-se, illuminou-se, gritou,
+exclamou, abriu a bôcca. E sabem tudo porquê? Porque a cidade havia tomado<span
+class="pn">{96}</span> muito chocolate. Sem <em>blague</em>. Estavam todos
+fartos de chocolate, e a vingança foi digerir o patriotismo, abertamente,
+rasgadamente, como qualquer leão do deserto.</p>
+
+<p>Só a tropa não havia tomado a sympathica droga, e, por isso, ella entrou na
+cidade esfarrapada, com as faces crestadas pelo sol das montanhas, que não pelo
+sol das batalhas, e olhos encovados e lobregos. Por isso o primeiro dever de
+sua magestade o sr. D. Affonso XII será mandar vestir os que estão nús e dar
+chocolate a quem tem fome.</p>
+
+<p>Que sua magestade seja misericordioso. Que sua magestade se inspire no amor
+do proximo e no bem da humanidade!</p>
+
+<p>Sua magestade é rapaz, que não prima pela formosura, mas que poderá, de
+certo, primar pelo espirito. Eu não tenho a honra de conhecer sua magestade.
+Sei que entrou em Madrid, e que a estas horas&mdash;tres da tarde&mdash;já terá tomado
+chocolate no seu palacio de <em>la Plaza de Oriente</em>.</p>
+
+<p>Deve ser-lhe de bom proveito, porque,<span class="pn">{97}</span> emfim, sua
+magestade como primeiro cidadão do seu paiz, tem de andar sempre bem
+alimentado, porque muito tem que trabalhar.</p>
+
+<p>Que sua magestade, portanto, haja por bem engordar e deitar fóra a magreza
+que o devora, e tornar-se rijo, como qualquer dos seus soldados.</p>
+
+<p>Que sua magestade, como bom catholico, se digne implorar da providencia tão
+alta mercê.</p>
+
+<p>Que sua magestade, reinando <em>por graça de Deus</em>, não seja frouxo nem
+anemico.</p>
+
+<p>Que sua magestade, emfim, tome muito chocolate, para assim angariar a estima
+de seus subditos e o amor do proximo!</p>
+
+<p>Que sua magestade não tenha pejo de entrar no café; que entre no café, que
+questione, que se torne hespanhol, tomando a sua capa, e passeiando pelas ruas
+da cidade, como qualquer humilde mortal.</p>
+
+<p>Posto isto nós não temos mais que dizer a sua magestade.</p>
+
+<p>E, portanto, que sua magestade passe muito bem, e me honre com as suas
+ordens sempre que assim lhe aprouver.<span class="pn">{98}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="estrelas">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Entre os muitos e notaveis cafés de Madrid, avultam, principalmente, o
+<em>Imperial</em>, o <em>Oriental</em>, o das <em>Columnas</em> e o de
+<em>Levante</em>, na Puerta del Sol, o <em>Suisso</em>, na rua de Sevilla, o da
+<em>Iberia</em>, na Carrera de S. Jeronymo e o <em>Fornos</em> na rua de
+Alcalá.</p>
+
+<p>O viajante que escolha á sua vontade; na certeza de que em todos elles
+encontrará vida, apetite e enthusiasmo.</p>
+
+<p>Portanto&mdash;<em>à l'aventure</em>!<span class="pn">{99}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00112">XII<br><br>
+O SALERO</a></h2>
+
+<p>Por Deus, que se tivesse agora de fallar numa mulher franceza, eu, á
+semelhança de um prégador d'aldeia, invocaria em meu auxilio, não a virgem pura
+dos altares, mas sim a orgulhosa modista de sua magestade a rainha&mdash;a sr.ª D.
+Cecilia Fernandes.</p>
+
+<p>Mas o caso é outro. Trata-se de uma cousa engraçada, de uma cousa
+extraordinaria, singular, de uma cousa perfeitamente real, e que não deve a sua
+existencia neste mundo nem a Marsoo, a modista, nem a Stellpflug, o
+sapateiro.<span class="pn">{100}</span></p>
+
+<p>Trata-se, minhas senhoras, trata-se meus senhores, trata-se do grande rei de
+Hespanha, da grande alma dos cafés, do grande senhor da politica, da grande
+<em>dama d'honor</em> de todos os paços, do grande, do supremo <em>Bobeche</em>
+de todos os ministerios, do grande <em>Pierrot</em> de todos os tribunos;
+trata-se (mas isto em segredo!) trata-se do <em>salero</em>.</p>
+
+<p>O <em>salero!</em> <em>Caramba!</em> Sabe a marqueza o que é o
+<em>salero</em>? Nunca na sua vida teve, ao menos, um ataque nervoso; nunca se
+irritou contra as diabruras do marquez; nunca teve as cócegas, que
+ordinariamente nos trazem as comidas apimentadas; nunca experimentou
+<em>Mabille</em>; nunca dançou um <em>can-can</em> simples, um d'estes
+<em>can-cans</em> que mesmo em familia se dançam com os pequenos da casa; nunca
+namorou, marquesa? e nesse culto virginal, não se mexia, não revirava os olhos,
+não compunha o laço da gravata, não apanhava a prega do vestido, não se
+assoava, não mudava um gancho do cabello, não tinha sorrisos frisantes, não
+fingia, não brincava?<span class="pn">{101}</span></p>
+
+<p>Fazendo tudo isto, sem mesmo o saber, a marqueza tinha <em>salero</em>, e
+era hespanhola.</p>
+
+<p>Mas, perdoe-me a leitora, para se ter <em>salero</em> não basta só conhecer
+o <em>Terreiro do Paço</em> e o <em>Rocio</em>, ir de quando em quando a S.
+Carlos ouvir mad. Sass, e frequentar aos domingos o <em>Passeio publico</em>,
+como qualquer simples burguez.</p>
+
+<p>Nada d'isto. Se a marqueza realmente quizer ter <em>salero</em> saia de
+Portugal, despeça-se dos seus amigos, vá a Madrid, tome a sua mantilha de
+andaluza, frequente todos os dias o <em>Prado</em> e o <em>Retiro</em>, entre
+no café imperial e discuta a politica do sr. Canovas del Castillo&mdash;emfim, minha
+querida senhora, se quizer ter <em>salero</em> seja hespanhola.</p>
+
+<p>Bem vê, marqueza, que isto de ser portuguez é um tanto exquisito, e
+arrasta-nos a gravissimos inconvenientes; porque, emfim, permitta-me v. ex.ª
+que espirre um pequeno sarcasmo sobre o paiz do sr. D. Affonso Henriques&mdash;nós,
+os portuguezes, nem temos a <em>coquetterie</em> franceza nem a seriedade
+britanica; de modo, que, imitando<span class="pn">{102}</span> a todos, ficamos
+sendo cousa nenhuma, o que mathematicamente equivale a zero.</p>
+
+<p>Destruir, porém, o zero, anathematisar o vacuo, preencher essa pequena
+lacuna deselegante, rotunda e burguesa&mdash;tal deve ser a missão da nossa
+mulher.</p>
+
+<p>Que o zero se retire d'este paiz: que o sr. Serpa não tenha pejo em o pôr
+fóra da sua secretaria; que os grandes algarismos herculeos nos entrem pela
+porta dentro, e exclamem soberbamente: «Nós, os finorios da arithmetica, nós é
+que somos a riqueza, o credito e a virilidade. <em>Nos quoque gem
+sumus....</em>»</p>
+
+<p>E dito isto&mdash;que <em>mylady</em>, a sr.ª marquesa, se não esqueça de mandar
+vir uma boa carroagem <em>Daumont</em>; que <em>mylord</em>, o sr. duque, mande
+preparar um bom jantar aos seus amigos intimos; e finalmente, que o
+<em>demi-monde</em> procure Keil, a gloria dos alfaiates lisbonenses,
+adquirindo assim, em virtude da thesoura, o <em>chic</em> e a pose de quem
+muito viajou.</p>
+
+<p>Já vêem que o conselho é aliás muito trivial; para o pôr em pratica uma
+unica<span class="pn">{103}</span> condição se requer&mdash;pagar aquillo que se
+deve.</p>
+
+<p>Eu desejava, é verdade, que a leitora tivesse <em>salero</em>&mdash;que o
+comprasse nos cafés, nas <em>calles</em>, na <em>Puerta del Sol</em>, que o
+adquirisse no <em>Prado</em> e no <em>Retiro</em>, onde diariamente apparecem
+de mil a duas mil carroagens, deslumbrantemente equipadas, mas, emfim, se isto
+lhe é de todo impossivel, se realmente lhe repugna o caracter hespanhol, tenha
+paciencia, e mande vir um figurino de Paris. Aprenda a calçar-se bem; arranje
+60 libras, e appareça um dia no <em>Bois de Boulogne</em>; decore dois ou tres
+bons ditos: torne-se artificial, ligeira, engraçada, mas com <em>verve</em>,
+<em>avec de l'esprit</em>&mdash;numa palavra torne-se franceza; ou ainda, se a
+menina vê difficuldade neste passo e tem aspirações a ser mãe, então tenha a
+bondade de tomar um bilhete pelo primeiro paquete de Southampton e de visitar a
+Inglaterra.</p>
+
+<p>E assim é realmente que a mulher hespanhola é mais material do que
+sentimentalista, mais da sociedade do que da familia, mais do mundo do que do
+coração.<span class="pn">{104}</span></p>
+
+<p>Por via de regra, a hespanhola é franzina, delicada do corpo, com as faces
+coloridas pelo uso do chocolate e os olhos scintillantes de vivacidade e de
+ardor verdadeiramente meridional&mdash;alguma cousa do facetado do crystal e da
+delicadeza da porcellana; nem possue o <em>coquettismo</em> da franceza, porque
+lhe falta o apuro do espirito, a revelação da ironia, o pungente do sarcasmo,
+nem a <em>mènagerie</em> da mulher ingleza, porque ella é muito simplesmente a
+negação d'esse viver intimo e famillar.</p>
+
+<p>Mas, em compensação, ella, a minha formosa andaluza, tem uma cousa que
+nenhuma mulher d'este mundo é capaz de ter&mdash;ella tem o <em>salero</em>, isto é,
+o desprendimento olympico, titanico, por tudo quanto é vida e amor, o doce
+<em>laisser-aller</em> da arte, que é luz, e magnetismo&mdash;luz, que abrasa em sua
+chamma aquellas candidas borboletas dos cafés, magnetismo, que adormece em seus
+braços aquellas ternas andorinhas, como as outras aves, suas irmãs, sequiosas
+de ar, de prazeres mundanos, de folgança, mas folgança, perfeitamente real,
+selvagem como o matar de<span class="pn">{105}</span> um touro, o esfaquear de
+uma creatura, ou o abrazar de uma consciencia&mdash;ella, a hespanhola, ella não é
+verdadeiramente uma mulher, mas muito mais do que isso:&mdash;ella é um rapaz de
+saias, um pequeno demonio alegre, juvial, attrahente, um doce mysterio de dois
+sexos, incomprehensivel, que ao mesmo tempo participa de um, pela virilidade,
+pela audacia, pelo arrojo, e de outro pela meiguice inconsequente, pelo rir
+suavemente acariciador, e pela ternura extraordinariamente singular que as
+reveste.</p>
+
+<p>Oh! as hespanholas! as originaes!...</p>
+
+<p>As nossas mulheres, por exemplo, imitam servilmente as francezas; mas
+ella&mdash;por Deus!&mdash;ella é o que é&mdash;só ella, sem mais ninguem, caprichosa, unica,
+originalissima.</p>
+
+<p>Aquelle fallar, aquelle rir, aquelle modo de dizer as cousas tão á
+<em>propôs</em> e tão seu, aquelle <em>salero</em>, e, sobre tudo isto, fazem
+com que a mulher hespanhola tenha dois lados immensamente notaveis e
+extraordinarios&mdash;a energia e o <em>salero</em>, isto é, o chocolate na sua
+consequencia digestiva<span class="pn">{106}</span> e physiologica&mdash;o movimento
+e a graça.</p>
+
+<p>Dito isto, minha querida leitora, façamos como ellas&mdash;tomemos o chocolate e
+tenhamos <em>salero</em>.</p>
+
+<p><em>Caramba! que salero!...</em><span class="pn">{107}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00113">XIII<br><br>
+THEATROS</a></h2>
+
+<p>A vivacidade do genio hespanhol tem ainda um reflexo do seu bom humor e da
+sua veia, sempre fina, alegre, e sarcastica a espaços relampagueada por um raio
+de colera ou por uma faisca de trovoada&mdash;é o theatro.</p>
+
+<p>Oh! os theatros em Hespanha! que sumptuosos edificios! que riqueza na
+<em>mise-en-scene</em> de qualquer peça! que luxo! que prodigalidade...</p>
+
+<p>Ao ouvir as doces <em>malagueñas</em> e as ternas seguidilhas, desferidas
+por labios de romã, que nem eu sei se são da terra, se<span
+class="pn">{108}</span> são do ceu, quasi chegamos a julgar-nos transportados
+ao Oriente, com todo o seu cortejo de sensualidades que matam, de
+<em>bailadeiras</em> que seduzem, e de amores que fervem.</p>
+
+<p>Que deliciosissimas sereias, em pleno seculo XIX! que sublimes actrizes,
+aquellas, meu Deus! E havia de, ainda assim, ser condemnado um cidadão, se,
+<em>à la belle etoile</em>, e a occultas da parentella, intentasse o rapto
+d'uma d'aquellas formosas <em>sabinas</em>, mais diabos que o proprio Diabo e
+ganhando em seducção á propria serpente do paraiso terreal?!...</p>
+
+<p>Uma cousa, porém, distingue o theatro hespanhol&mdash;é a <em>zarzuella</em>,
+especie de meio termo entre a opera lyrica e a opera buffa; suave umas vezes
+com as transparencias sentimentaes das paixões humanas, alegre sempre, folgasã
+quasi sempre, e por toda a parte impregnada d'um estranho frescor de malicia e
+de surpreza, que chega a prender ainda os menos atreitos aos laços de
+Satanaz.</p>
+
+<p>Em França, por exemplo, a opera buffa foi uma creação meramente do
+<em>demi-monde</em>;<span class="pn">{109}</span> creação necessaria no meio
+das corrupções do imperio, em que se fazia mister caricaturisar e pôr bem ao
+vivo todos os podres de uma sociedade effeminada, desde o imperador, que
+representava o vicio dourado e a lepra engastada em diamantes artificiaes, até
+á ultima <em>grisette</em>, que, por causa de um estudante do bairro latino,
+tinha empenhado os seus derradeiros ceitis: mas com a <em>zarzuella</em> não
+succedeu o mesmo, porque ella foi uma creação espontanea da jovialidade de um
+povo relativamente feliz, e que ha de sobreviver a todos os cataclismos
+sociaes, como até aqui tem sobrevivido a todos os tempos.</p>
+
+<p>Offenbach tem na sua gamma uma só nota caracteristica&mdash;o riso, a ironia, o
+sarcasmo. Marianno de Larra, auctor de muitas <em>zarzuellas</em> notaveis,
+possue, além do riso, a lagrima que lhe serve de contraste e que o
+dulcifica.</p>
+
+<p>A <em>Grã-Duqueza</em> é uma correcção ás momices imbecis de uma diplomacia
+estonteada, um quadro fiel das <em>cocottes</em>, arvoradas em mandadeiras de
+exercitos,<span class="pn">{110}</span> uma photographia de costumes
+pervertidos pela immoralidade de um governo inepto e pelo capricho de um
+monarcha infame; o <em>Jogar com fogo</em> é um entre-acto agradavel ás acenas
+da vida, um delicioso intervallo aos soffrimentos e ás dôres da humanidade.</p>
+
+<p>E é o que tem a <em>zarzuella</em>: não cança nunca, porque foi um producto
+natural e espontaneo dos hespanhoes, tal qual como o chocolate e o
+<em>salero</em>; ha de viver sempre, e atravez de tudo, porque tem em si
+impresso o cunho da originalidade e da tradição, que não morre, e a elevação do
+sentimento, que será sempiterno no seio dos homens e das civilisações.</p>
+
+<p>A opera-buffa foi um arranco de homens fortes, em meio da perdição que os
+ameaçava; nem ha de ter nunca a universalidade da <em>zarzuella</em> nem a
+elevação da alta-comedia. O seu dominio no theatro ha de ser, portanto,
+passageiro e ephemero.</p>
+
+<p>Numa palavra, a <em>zarzuella</em> tem as suas raizes nas immutaveis
+oscillações do coração humano, e que a torna duradoura e imperecivel; a
+opera-buffa originou-se<span class="pn">{111}</span> numa sociedade de
+transição, e ha de, por isso, como ella, ter um mediano imperio sobre as épocas
+positivas e scientificamente organisadas.</p>
+
+<p>Em quasi todos os theatros de Madrid se canta a <em>zarzuella</em>, e em
+quasi todos elles tambem com a animação, com o vigor, com a frescura com que só
+os hespanhoes a sabem cantar.</p>
+
+<p>Quando, pela primeira vez, entrei no <em>Theatro Real</em>, situado no largo
+de Isabel II, com a fachada principal para a praça do Oriente, senti-me
+sinceramente deslumbrado. É tal o luxo d'aquella casa, tal a ordem, tamanho e
+socego, que, em boa verdade, mal chega a gente a pensar que esteja na capital
+da Hespanha, no paiz dos bandoleiros de toda a especie e no centro de um
+vulcão, sempre em revolta comsigo mesmo.</p>
+
+<p>E depois, que contraste entre uma tourada e uma representação theatral! Que
+a delicadissima leitora, do meio de um deserto, confuso, anarchico, impetuoso,
+açoutado pelo <em>simuon</em> e ennegrecido pelas areias, se julgue subitamente
+transportada<span class="pn">{112}</span> a um paraiso, onde adejam os
+cherubins com as suas azas brancas e onde sorriem os anjos com as faces
+louras.</p>
+
+<p>Assim me succedeu a mim quando uma tarde, dos suburbios da Porta de Alcalá,
+onde existe a praça de touros, me lembrei de ir ao theatro, afim de ouvir
+cantar esse eterno e insubstituivel poema do coração humano, mui modestamente
+chamado&mdash;<em>Romeu e Julietta</em>.</p>
+
+<p>Nunca em Hespanha uma pateada interrompeu os espectaculos lyricos. A platêa
+do <em>Theatro real</em> não é só rica em alcatifas, em estofos, em casacas e
+gravatas brancas, mas ainda e muito principalmente na seriedade dos seus
+espectadores e na respeitabilidade mais que urbana e generosa dos seus
+<em>habitués</em>.</p>
+
+<p>Na rua de Jovellanos encontra-ae o theatro da <em>zarzuella</em>. De
+<em>zarzuella</em>... dizem elles; nós diriamos quasi um segundo theatro
+lyrico. Que vozes tão admiravelmente timbradas, e que modulações tão
+harmonicamente produzidas!</p>
+
+<p>Representava-se então uma velha <em>zarzuella</em>, muito velha e muito
+ouvida, mas<span class="pn">{113}</span> sempre fresca no rhythmo e no
+pensamento, que é nada menos do que a expressão do caracter hespanhol. Queremos
+fallar de <em>Pan y toros</em>.</p>
+
+<p>&mdash;<em>Panem et circenses</em>, gritavam os romanos; <em>Pan y toros</em>,
+exclamam os hespanhoes, como querendo mostrar a intima affinidade que, de
+facto, existe entre um e outro paiz. Mas&mdash;cousa singular! a França tambem é de
+origem latina, e no entretanto a França, a generosissima filha da revolução e
+do pensamento moderno, em vez de pão e touros, do alto das suas muralhas de
+guerra e do topo das suas fortalezas, soluça altivamente&mdash;<em>ou pão ou
+chumbo</em>.</p>
+
+<p>E assim é realmente que ella caminha, não em demanda de espectaculos que
+embrutecem, mas sim em procura de civilisações, que são como que os marcos
+milliarios da humanidade trabalhadora.</p>
+
+<p>Muito bem. Imaginemos a côrte no doido phrenesi d'um baile. Subito uma
+denotação fere os ares. Abre-se uma das janellas do palacio. Cessa a volupia.
+Um dos convivas descendo a escadaria, reconhece<span class="pn">{114}</span>
+haver-se morto ali um capitão de infanteria, ha poucos instantes. Averiguado o
+caso nada era.</p>
+
+<p>&mdash;«Póde o baile continuar, exclama o mestre. Não é nada, não é nada. Um
+homem morto. Apenas um homem morto!»</p>
+
+<p>E a orgia proseguiu; porque, a dizer-se a verdade, não vale nunca a pena
+interromper os prazeres mundanos pela simples bagatella de um assassinato.</p>
+
+<p>Ora nesta <em>zarzuella</em> transparece perfeitamente o caracter hespanhol,
+irrequieto e indomavel, com todos os seus mil caprichos de momento e as suas
+labyrinticas phantasias de occasião.</p>
+
+<p>Além, porém, d'estes dois theatros, ainda poderiamos mencionar muitos
+outros, e entre elles o theatro da <em>Comedia</em>, theatro muito moderno,
+lindissimo na fórma e admiravel pelo seu reportorio; o theatro do
+<em>Circo</em>, na praça del Rey; o theatro de <em>D. Affonso</em>, proximo da
+Porta de Alcalá; o theatro das <em>Variedades</em>, o theatro das
+<em>Novidades</em>, etc., etc.</p>
+
+<p>E tudo isto ainda por cima, rodeado de circos, de largos, de exposições, de
+musicas,<span class="pn">{115}</span> de alegrias ferozes e de mulheres
+encantadoras.</p>
+
+<p>É verdade, e os <em>patinadores</em>?</p>
+
+<p>Fallemos dos <em>patinadores</em>.<span class="pn">{116}<br>{117}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00114">XIV<br><br>
+OS PATINADORES</a></h2>
+
+<p>Princeza, o seu braço! Vossa alteza é morena, viva, alegre; tem uns bellos
+olhos rasgados, profundos, negros, como os abysmos do inferno. Pois bem: que a
+sua alma ardente e expansiva, como este bello sol da peninsula, que nos aquece
+e anima, se digne, por um pouco, acompanhar-me a aspirar o ar bom da
+natureza.</p>
+
+<p>Quero tel-a ao meu lado, rainha. Bem vê&mdash;eu não sou fidalgo, nem conde, nem
+barão. Á fé que o não sou. Mas emfim, se é verdade que a um democrata nunca
+ficou mal beijar a mão de uma aristocrata,<span class="pn">{118}</span>
+conceda-me a indiscripção. Os meus labios tocarão delicadamente á superficie
+d'essa meiga flôr de liz, mais bella e mais transparente do que uma renda de
+Bruxellas. Depois, e só depois, o paraizo...</p>
+
+<p>Antes de mais, porém, tomemos um fiacre, um commodo fiacre, ligeiro, com
+duas molas flexiveis, dois nobres cavallos, briosos, e um valoroso cocheiro de
+mão certa e pulso firme. É verdade que as rainhas hoje nem sempre estão
+prevenidas. No entretanto, tu, minha velha amiga, tu, que não tens nenhum reino
+a perder; tu, que nunca passaste do <em>boulevard</em> com todos os seus
+perigos e attracções; tu, com certeza, tens ainda os cem luizes que hontem á
+noite te deixou aquelle inglez excentrico de suissa loura e ar grave.</p>
+
+<p>É para elles que eu appello, para esses cem luizes honestos, puros, serenos,
+capazes de encher a historia do mundo, e incapazes de concitar em redor de si
+odios republicanos ou raivas demagogicas. Não! os cem luizes são de todos&mdash;de
+todos os tempos e de todos os logares&mdash;reinando<span class="pn">{119}</span>
+sempre, e sempre bem: irresponsaveis, sem exercitos, sem côrte, sem apparato,
+mas valentes, com consciencia de si, e valendo pelo silencio, aquillo que os
+mais abalisados do mundo não podem conquistar pela palavra.</p>
+
+<p>Que magnificos sujeitos!</p>
+
+<p>E agora reparo que nestas conversas iamos perdendo o tempo. Aqui está a
+carruagem. Entremos para a carruagem.</p>
+
+<p>Da <em>Puerta del Sol</em> ao <em>Prado</em> são dois passos. Olhe a
+princeza: vê aquelle cavalheiro de bigode e pera alourados, estatura regular,
+pallido de rosto e expressivo no olhar?&mdash;é o general Pavia, o celebre assassino
+da republica em Hespanha.</p>
+
+<p>Mais além, repare: aquella morenita, leve como uma penna, e adoravel como
+uma fada, é Pepa&mdash;uma heroina de amores e uma actriz de corações humanos. Mas,
+que nobre vulto, este agora? É o duque de Abrantes, por sangue descendente de
+Portugal, antigo possuidor da quinta das <em>Laranjeiras</em>, senador e
+conselheiro de Isabel II. É homem baixo, magro, secco e decidido nos seus
+gestos, o<span class="pn">{120}</span> que indica uma vontade firme e um
+caracter recto.</p>
+
+<p>Mas chegámos, finalmente. Uma vez que estamos em <em>Recoletos</em>,
+entremos num d'estes circos.</p>
+
+<p>Que magnifico sol e que supremas alegrias! A neve é pouca; e por isso nós,
+que queremos patinar, recorreremos ao artificio.</p>
+
+<p>A praça está encerada. Muito bem. Patinemos na praça.</p>
+
+<p>O seu pé, minha doce amiga. Não tenha medo. Por Deus, não trema. Não trema,
+que não morrerá, asseguro-lh'o eu. Nunca leu a admiravel historia dos
+patinadores descripta por Alexandre Dumas no <em>Colar da Rainha</em>?</p>
+
+<p>Olhe, é um encanto! Por exemplo, eu quero patinar, mesmo no circo, colloco
+debaixo de cada pé um pequeno carrinho, composto de tres rodellas de ferro.</p>
+
+<p>Dê-me o seu pé, e verá.</p>
+
+<p>Agora firme, sem attrictos, serenamente, imperturbavel; deixe-se escorregar,
+como uma pequena gondola veneziana; unicamente, para não cahir, imprima um<span
+class="pn">{121}</span> leve movimento aos joelhos, alternando-os, por causa da
+lei do equilibrio.</p>
+
+<p>Depois, oh! depois, o infinito, o ideal, o amor, as azas, mais velozes do
+que as de uma ave, as pernas mais ligeiras que as de uma corça; uma estranha
+mão apertando-nos a nossa; é o paraiso a sorrir-nos num beijo que ninguem vê,
+e a gloria a mirar-nos num céo, que nos allucina, que nos embriaga, que nos
+absorve.</p>
+
+<p>Correr, voar, amar!&mdash;tal é o triplice fim de um patinador.</p>
+
+<p>Mas, antes que se chegue a ser um bom patinador, intrepido e valente&mdash;que
+trabalhos, que luta e que risota! Que risota, sobretudo!</p>
+
+<p>Vai um portuguez a Madrid, e mesmo nisto começa por conhecer a sua
+inferioridade. Que poltrão! Aluga dois carrinhos, e vem para o circo: olha; vê,
+sorri-se, anedia as guias do bigode, dá um geito ao cabello, e toma ares de
+<em>Bayard</em> de papellão; deseja tomar a posição perpendicular, e vacilla.
+Dou-lhe um, dou-lhe dois, dou-lhe tres; por fim o heroe parte; horror! não
+parte, porque a inhabilidade o torna<span class="pn">{122}</span> pesado,
+refractario á gymnastica, e ao desenvolvimento de musculos. Risota geral&mdash;Ah!
+Ah! Ah... <em>Hic jacet infelix patinator...</em></p>
+
+<p>A victima levanta-se, desconfia d'aquelles comprimentos improvisados, e
+conclue por detestar os sabios de qualquer natureza que elles sejam.</p>
+
+<p>Mais uma tentativa. Vejamos. Talvez fosse defeito das rodas, talvez dos pés,
+talvez da falta de agilidade... Experimentemos. Novo impulso. Ah! Ah! Ah! Nova
+queda.</p>
+
+<p>E, entretanto, em quanto isto se dá, alguns milhares de cavalheiros vão
+seguindo o seu rumo, sem interrupção, olhando de soslaio os principiantes, e
+mostrando naquelle modo de correr que até a andar se póde ter consciencia de si
+e vaidade dos outros.</p>
+
+<p>Duas senhoras inglezas vi eu, um tanto esquivas ás ironias do amor, que mais
+pareciam, patinando, sonhos aéreos, visões romanticas do que realidades
+terrenas.</p>
+
+<p>Nós a tentarmos a approximação, e ellas a fugir, a fugir, como sombras
+longinquas,<span class="pn">{123}</span> que só por escarneo se approximam de
+nós, para novamente nos escapar, fazendo-nos umas tristes e desoladas figas.</p>
+
+<p>Que horror! E Frutos Martinez, o patinador illustre, avisado naquelles
+assumptos, collocando, cheio de raiva os seus carrinhos, lá se ia,
+inconscientemente, atraz d'aquellas borboletas de olhos azues e cabellos
+louros.</p>
+
+<p>Mas, certamente, meus caros concidadãos&mdash;a patinação não e simplesmente um
+espectaculo agradavel, rodeado de peripecias curiosas e movido por generosos
+impulsos de espirito. Não! na patinação ha ainda mais o desenvolvimento
+physico, que muito conviria á nossa mocidade enfesada, e o interesse moral,
+que, de certo, aproveitaria mais aos nossos rapazes do que uma facada dada no
+Bairro Alto, em pleno dia.</p>
+
+<p>Em todo o caso, uma vez que assim queremos ser, sejamos assim, sem graça,
+sem espirito, e sem a elegancia, que naturalmente se exige nas existencias
+modernas.</p>
+
+<p><em>Honra soit qui mal y pense...</em><span class="pn">{124}<br>{125}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00115">XV<br><br>
+TOURADAS</a></h2>
+
+<p><em>A los toros! a los toros!...</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>E a populaça, ebria de sangue e sedenta de prazer, empoleirava-se no cimo
+das carruagens, comprava camarotes pelo dobro do preço, corria pelas ruas como
+um possesso, gritava, ria-se, atirava ao ar os seus chapeus emplumados,
+cortejava a realeza que passava, dava vivas á <em>Marselhesa</em>, e fugia,
+fugia nas azas do phrenesi irrequieto, em demanda do mais barbaro de todos os
+espectaculos do mundo.</p>
+
+<p>Ó Hespanha, minha querida amiga, doce<span class="pn">{126}</span> filha dos
+cafés e da volupia, tu, que possues <em>museus</em> que te são um legitimo
+patrimonio de orgulho e de riqueza; tu, que amamentaste ao teu seio os maiores
+oradores da Europa contemporanea; tu, que tiveste artistas como Murillo,
+Velasques, e Goya; tu, que és o amor, a contradicção, o mysterio; tu, minha
+perola, tu não devias ser <em>torera</em>.</p>
+
+<p>Emfim, eu sei que tu tens defeitos; e o teu primeiro defeito, acredita-me
+bem, é ser militar. Os teus rapazes, porque são novos, desejam agradar ás
+mulheres: pegam numa arma com a mesma sem-ceremonia com que nós aqui bebemos um
+copo de agua. Que valentões! O campo de batalha sorri-lhes, o inimigo
+revolta-lhes as iras concentradas, e são leões, atiram-se, atiram-se ferozmente
+sobre a metralha adversa. Nem sua magestade o canhão Krupp os intimida, nem os
+joelhos lhes tremem á vista do adversario.</p>
+
+<p>Que valentões! que valentões...</p>
+
+<p>Ai! querida minha, que se não fossem as mulheres, tu serias mais feliz e
+respeitada. Mas, que diabo! para que tens tu<span class="pn">{127}</span>
+filhas tão formosas?&mdash;para que? Não te bastava já o chocolate, para, á
+semelhança de um vulcão, trazeres sempre dentro de ti o fermento da revolta?
+Ainda, por cima, olhos scintillantes, rostos abrasadores e <em>salero</em>
+atrevido? Ora pois, nada mais te faltava...</p>
+
+<p>Tem paciencia; mas tu, Hespanha, tu o que tens é excesso de calor, de
+sensualidade, de veneno, de corrupção. Os estrangeiros acham a tua cosinha
+demasiadamente apimentada; nós encontramos as tuas mulheres sempre como uma
+braza&mdash;a ferver; nos teus cafés toma-se pouca soda; o proprio sr. Canovas del
+Castillo, quando falla no congresso, não é muito atreito aos gólos de agua; o
+teu rio é semsaborão, estreito, pouco abundante e superficial. Ao que parece,
+um poucochinho de agoa de mais, um poucochinho de lume de menos não deixaria de
+fazer-te bem. Numa palavra, minha querida amiga, se queres viver independente,
+feliz, alegre, satisfeita comtigo mesmo&mdash;purga-te, manda vir da botica duzentas
+grammas de bom senso politico, que será a tua magnesia<span
+class="pn">{128}</span> calcinada;&mdash;fóra, fóra com essa bilis que te devora o
+organismo: estomago limpo e menos... chocolate aos srs. politicos.</p>
+
+<p>Mas os touros, os touros! por vida minha, que nunca assisti a espectaculo
+mais curioso, mais terrivel, mais seductor. Até as proprias mulheres se tornam
+viris, musculosas, corpulentas&mdash;ellas, que uma hora antes tinham acceitado a
+côrte a um gentil militar imberbe; ellas, que são um puro mysterio, uma alta
+excentricidade; ellas, emfim, que têm o dom mythologico de nos apparecer sob o
+duplo aspecto da força e da fraqueza, do repente e do meditado, do meigo e do
+energico.</p>
+
+<p>Inundára-se de povo a <em>Calle de Alcalá</em>. Os <em>char-á-bancs</em>
+eram sem numero; os guisos telintavam nos classicos muares; por toda a parte a
+corrida infrene, as subitas allucinações, os risos infernaes; as vertigens, que
+referviam em desejos ardentes; a loucura, que volitava em nuvens de
+enthusiasmo; a alegria, que trasbordava em ondas de amor; a vida, a mulher, o
+fumo, o chocolate, os touros emfim.<span class="pn">{129}</span></p>
+
+<p>Que delirio para aquella gente! que devoção! que irresistencia!</p>
+
+<p>Chega o primeiro touro: os leques agitam-se; no olhar ha mais irradiação;
+scintillam as moedas de prata; aos pés do bandarilheiro audaz cahem as dezenas
+de charutos.</p>
+
+<p>&mdash;A elle, meu valente, a elle...</p>
+
+<p>E o cavalleiro aponta-lhe a lança ao pescoço, e o animal investe com o
+cavallo. Com uma das pontas rasga-lhe o ventre; a multidão, embriagada,
+applaude o sangue; mais uma investida e o <em>misero cavallo lazarento</em>
+succumbirá; assim; mais uma; até que, emfim, vem a morte dulcificar este
+pandemonio infernal!</p>
+
+<p>Agora <em>Lagartijo</em> que se approxime; elle traz uma pequena espada na
+mão direita; para elle está reservada a mais garbosa <em>moña</em>, que nunca
+mão de mulher se lembrou de fazer. Deante do touro o heroe não trepida; lá
+estão ambos que parecem dois tigres: alfim o animal cança: <em>Lagartijo</em>
+investe; mais uma volta, e o touro cahirá.</p>
+
+<p>As bandas marciaes rompem em hymnos estridentes; a populaça agita os
+lenços<span class="pn">{130}</span> de côr; em todos os olhos se lê o phrenesi
+irrequieto, nervoso, indomavel: <em>Lagartijo</em> venceu, <em>Lagartijo</em> é
+o heroe da festa; triumpho a <em>Lagartijo</em>...</p>
+
+<p><em>Otro toro! otro toro!...</em></p>
+
+<p>Quasi que nem chega a haver tempo para arrastar para fóra da praça os
+derradeiros restos d'aquella barbara batalha, tão audazmente pelejada entre um
+homem e um animal, que, em vez de joguete de circo, muito bem podia ser a
+felicidade da agricultura e o alimento da miseria.</p>
+
+<p>Touro, cavallo, farpas, lanças,&mdash;tudo á uma é arrastado em padiolas para
+fóra do amphitheatro.</p>
+
+<p>Depois, esperando, faz-se sempre votos para que o outro touro seja melhor do
+que o seu antecessor; como se para saciar a avidez dos espectadores fosse pouco
+todo o sangue derramado.</p>
+
+<p>É que a Hespanha é realmente assim, em meio da sua vida tumultuosa e larga.
+Pouco lhe importa a morte de dez, vinte, trinta homens; a questão é que o
+enthusiasmo não decresça nunca, e que a vida não deixe jámais de ser uma terna
+e doce<span class="pn">{131}</span> folgança, onde os risos e as lagrimas, as
+alegrias e as tristezas crescem e augmentam, temperados na mesma proporção.</p>
+
+<p>E, no entanto, nenhum paiz existe de mais vastos recursos do que a Hespanha,
+onde as minas de cobre, de ouro, de prata são quasi tantas como as suas
+provincias e os seus concelhos.</p>
+
+<p>Nas suas planicies, por igual risonhas e productivas, medra e desenvolve-se
+toda a especie de productos agricolas; as suas paizagens, se bem que aridas na
+Extremadura, pela escacez de agoa, tomam todavia um aspecto deliciosissimo na
+Andaluzia, onde as mulheres e os horisontes se disputam a palma e o amor.</p>
+
+<p>Abençoado paiz! Nem as guerras, nem as dissidencias civis, nem as revoltas
+populares poderam ainda prostral-o.</p>
+
+<p>Uma nação que tão sinceramente ama as touradas, não poderá nunca deixar de
+ser guerreira e sanguinosa.</p>
+
+<p>Ai de nós, no momento em que a Hespanha deixasse de ser o que é&mdash;lutadora,
+<em>torera</em> e ruidosa.</p>
+
+<p><em>A los toros! a los toros!</em><span class="pn">{132}<br>{133}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00116">XVI<br><br>
+O PRADO E O RETIRO</a></h2>
+
+<p>Dizem os physiologistas que o calor é a vida; e por isso é, creio, que os
+cafés, assim como as <em>soirées</em>, assim como os <em>clubs</em>, assim como
+os <em>boulevards</em> se tornam hoje uma verdadeira e insubstituivel
+necessidade social.</p>
+
+<p>Que o homem nasceu para a sociedade&mdash;escrevem-o philosophos abalisados e
+tem-o repetido ha um seculo, e ininterruptamente, o corpo cathedratico da nossa
+universidade.</p>
+
+<p>Esta verdade passou, porém, da metaphysica á pratica; e assim é que, ao
+contrario<span class="pn">{134}</span> de Rousseau&mdash;que na natureza fundava
+todo o pacto entre os homens&mdash;se elevaram, como por encanto, o <em>Bois de
+Boulogne</em>, em Paris, o <em>Hyde Park</em>, em Londres, e o <em>Central
+Park</em>, em New-York.</p>
+
+<p>A não ser Lisboa, a velha fanatica do passeio publico, poucas cidades ha
+agora na Europa, que não tenham o seu pequeno <em>boulevard</em>, especie de
+<em>rendez-vous</em> do mundo elegante e da fina sociedade do bom tom.</p>
+
+<p>E necessario é que isto assim seja. O <em>boulevard</em> não é simplesmente
+uma ostentação de capital, mas ainda mais uma parte indispensavel á educação de
+um povo, que não é só intellectual e moral, senão tambem physica e social.</p>
+
+<p>Em Paris qualquer creança aprende mais pelos olhos e pelo ouvido do que nós
+nas nossas escolas. E o motivo é facil. Habituados desde a infancia a
+frequentar os differentes jardins&mdash;botanico, zoologico, etc.&mdash;quando chegam a
+uma edade razoavel, quasi se póde dizer que são dotadas de uma vasta e profunda
+educação.</p>
+
+<p>Praticamente aprendem os nomes aos<span class="pn">{135}</span> animaes;
+ouvem-lhes a historia; assistem-lhes ao desenvolvimento e acompanham-lhes os
+movimentos e os instinctos. E tudo isto, porque desde pequenos frequentam os
+<em>boulevards</em>, onde brincam e onde muitas vezes arranjam os meios de
+ganhar a vida no futuro.</p>
+
+<p>Mas o <em>boulevard</em> tambem é hygiene, pelo bom ar que lá se respira,
+pelos exercicios a que convida, e pela facilidade com que se passeia. Depois
+nem só isto. Ha ali campo para largas observações e assumpto para profundos
+estudos. Muitos romances conheço eu que tiveram lá a sua origem, além de muitas
+mulheres que lá foram procurar a sua felicidade e a sua riqueza.</p>
+
+<p>O <em>Prado</em> é um dos mais celebres e um dos mais concorridos passeios
+da sociedade elegante de Madrid. Diz-se que a sua origem, tal qual se acha
+presentemente, data do reinado de Carlos III. Rodeado de fontes, de lagos, de
+arvores, de estatuas, de <em>restaurantes</em>, de praças, o seu espaço é
+enorme, extendendo-se da fonte de Cybele quasi em linha recta até
+encontrar<span class="pn">{136}</span> o passeio de Atocha, formado pela
+prolongação da rua do mesmo nome.</p>
+
+<p>É raro o dia em que ali não passeiam de quinhentas a mil carruagens,
+vendo-se frequentemente dentro d'ellas rostos formosissimos, adornados de
+bellos olhos, profundos e escuros, como só os sabem ser os olhos hespanhoes.</p>
+
+<p>Com dois ou tres passeios ao <em>Prado</em> quasi se fica conhecendo toda a
+sociedade madrilena, nas suas distincções e nos seus vicios, nas suas virtudes
+e nos seus erros.</p>
+
+<p>E depois&mdash;que mulheres!</p>
+
+<p>A uma historieta assisti eu, divertidissima por signal e extremamente
+curiosa.</p>
+
+<p>Um amigo meu, amoroso e simples, encontrou-se um dia profundamente
+apaixonado por uma gentilissima menina, que todas as tardes ali costumava
+expôr-se á admiração geral dos passeiantes e dos leões da moda.</p>
+
+<p>Até aqui, já se vê, nada de extraordinario.</p>
+
+<p>O ingenuo rapaz, porém, não se podendo mais conter, entrou-se tristemente
+na<span class="pn">{137}</span> desgraçada usança portugueza, e abeirando-se da
+mulher, fez-lhe a seguinte declaração:</p>
+
+<p>&mdash;Deponho aos seus pés, minha senhora, a mais pura e sincera homenagem dos
+meus respeitos e do meu amor...</p>
+
+<p>Ao que a deusa respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Ai! que graça!... Se o cavalheiro soubesse em que eu agora estava a
+pensar?!...</p>
+
+<p>O galã aproximando-se mais:</p>
+
+<p>&mdash;Em que estava a pensar?!...</p>
+
+<p>&mdash;Sim, pois não adivinha? aflautou a ingenua.</p>
+
+<p>&mdash;Certamente que não.</p>
+
+<p>&mdash;Pois olhe estava a pensar num bonito vestido de riscas...</p>
+
+<p>Ó illusões! ó facadas!</p>
+
+<p>No dia immediato o apaixonado moço pegou num lapis, e escreveu á pressa num
+bilhete de visita as seguintes e doces palavras:</p>
+
+<p>«Pepa (era o nome da heroina)&mdash;«Pepa&mdash;aborreço-me, e adoro-te».</p>
+
+<p>A resposta, porém, não veio. Pegou noutro bilhete, e tornou a escrever:<span
+class="pn">{138}</span></p>
+
+<p>«Quem a adora, onde a poderá encontrar?»</p>
+
+<p>Então o coração de Pepa pulsou violentamente dando de si uma tremenda
+explosão que em seguida passamos a transcrever fielmente.</p>
+
+<p>«Cavalheiro&mdash;Recebi o seu primeiro e o seu segundo bilhete. Não respondi ao
+primeiro, porque não quiz, e ao segundo apenas tenho a dizer que o acho de um
+arrojo extraordinario e nunca visto».</p>
+
+<p>Assignado por um nome supposto que não era o de Pepa.</p>
+
+<p>Assim continuaram as cousas. Os episodios succederam-se uns após outros.
+Numa noite, comtudo, ás tristezas do costume seguiram-se no meu amigo umas
+alegrias estranhas. Interroguei-me a mim e interroguei-o a elle. Reparei-lhe
+nos olhos, e reconheci-os mortiços; olhei-lhe as narinas, e vi-lh'as
+extraordinariamente dilatadas. Então a minha consciencia deixou o estado de
+duvida em que se achava, e entrou serenamente na estrada da certeza. A
+conquista havia-se effectivamente realisado. Pepa, a sublime actriz, depois
+de<span class="pn">{139}</span> varias piruetas, de varios zig-zagues, de
+varias fórmulas, concluira emfim por se render. Não era praça inexpugnavel.
+Presentiu metralha, e caiu. Cumpriu religiosamente o dever que a sua condição
+lhe impunha.</p>
+
+<p>E nada mais. O meu patricio, o indigena, sahia todos os dias de casa, alegre
+e bem disposto, e entrava altas horas da noite com algumas libras de menos na
+algibeira e com algumas desillusões a mais no espirito, até que por fim se
+saciou.</p>
+
+<p>Ao deixar Madrid, elle vinha menos ingenuo e mais pratico. Lições do
+<em>boulevard</em>!</p>
+
+<p>Na hora da partida escreveu á sua amada uma carta frisante, que bem nos póde
+revelar a transformação que no seu caracter se operára ultimamente.</p>
+
+<p>«Minha menina&mdash;Um negocio urgente me chama a Lisboa. Digo-lhe adeus. A
+menina é formosa, elegante e distincta. Com duas ou tres horas de janella por
+dia, estou convencido, encontrará um digno substituto á minha pessoa. Sem mais.
+O seu...»<span class="pn">{140}</span></p>
+
+<p>E assim é, de facto, o <em>boulevard</em>:&mdash;a vida, o amor, a formosura&mdash;e
+tambem a lição aos ingenuos e a practica aos inexperientes.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="estrelas">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Agora, marqueza, tenha paciencia, caminhemos para o <em>Retiro</em>.</p>
+
+<p>Dizem que o sol é o pae da vida&mdash;approveitemos o sol. <em>Bras-dessus</em>,
+<em>bras-dessous</em>, conversemos. Que lindo tempo! É verdade!&mdash;sabe a
+marqueza de um facto que hontem se deu na cidade? Não sabe? Pois eu lhe conto.
+Conhecia a Dolores, a formosissima <em>cocotte</em> da <em>rua de Alcalá</em>?
+Que elegante mulher! Tinha uns cabellos louros, que pareciam estrellas do céo.
+Os amantes, que eram aos centos, querendo comparar a côr do seu cabello com a
+côr do ouro, por mais de uma vez tinham ficado sem o dinheiro, e, o que é peior
+ainda, privados tambem do proprio cabello de tão gentil <em>señorita</em>. Que
+ferro, minha amiga, que ferro!<span class="pn">{141}</span></p>
+
+<p>Ha de haver seis mezes, Dolores appareceu, como de costume, no
+<em>Prado</em>. Seriam quatro horas, quando eu a vi chegar. Trajava um elegante
+vestido de seda escarlate, cuja fimbria recebia quotidianamente os beijos dos
+amantes e os suspiros do solo, que muito ao de leve pisava e quasi sem mesmo se
+aperceber. Porque Dolores, a vaidosita, não era mulher que por ahi se gastasse
+em qualquer passeio solitario. Ella tinha a sua carruagem&mdash;uma bonita carruagem
+moderna e commoda&mdash;e tinha tambem, além de muitos escravos, de que o seu
+coração por vezes escarnecia, os seus creados e as suas governantas.</p>
+
+<p>Dolores era, no fim de contas, como todas as mulheres do <em>boulevard</em>,
+um espirito risonho, attrahente, leviano,&mdash;nem Rigolboche, nem Magdalena. Ella
+alimentava em seu seio o sublime sentimento da familia, educára suas irmãs; e
+conduzia seu pae&mdash;um triste cego!&mdash;pelo braço. Não amava porque não queria;
+tambem não odeiava; mas, se fugia do amor era simplesmente porque lhe
+reconhecia os<span class="pn">{142}</span> perigos. Afóra isto, como se
+encontrou só e desamparada no mundo, destituida de prendas e de educação, fez
+vida pela sua formosura, e caminhou rectamente, serenamente,
+desassombradamente, sem attrictos, sem desvios, sem atalhos pela estrada dos
+assalariados da terra.</p>
+
+<p>No subir para este calvario, ella, que não queria passar por santa, sentiu
+que a cruz lhe era demasiadamente pesada e quiz descarregar-se d'ella. Mas ao
+olhar para traz viu que a sua familia&mdash;uma pobrissima e desgraçada
+familia&mdash;carecia, para não morrer de fome, de comer e de se alimentar.</p>
+
+<p>Então chorou. Pobre Dolores! Quantas mulheres como tu não terão passado pelo
+mesmo desespero e pela mesma agonia!...</p>
+
+<p>Um raio de esperança, porém, penetrou-lhe no coração. A passo lento
+approximou-se do espelho. O espelho reflectiu-lhe a gentileza sem par. Que
+alegria, meu Deus!&mdash;exclamava ella. Finalmente... finalmente...</p>
+
+<p>E foi-se para a rua nuns impetos estranhos, nervosos,
+incomprehensiveis...<span class="pn">{143}</span></p>
+
+<p>D'ahi a um mez, Dolores, trajando sedas e veludos, era uma das mil e
+perigosissimas rainhas do <em>Prado</em>.</p>
+
+<p>Mas vamos ao escandalo. Havia um mez seguramente que em redor d'ella como
+que tentava esvoaçar um ingenuo da provincia&mdash;bom rapaz, é verdade, mas algum
+tanto lorpa. Dolores não gostava d'elle. Mas, emfim, ou por dó ou por capricho
+permittiu-lhe um dia a approximação. Effectuou-se o <em>rendez-vous</em>, que
+durou meia hora. Ella fallou sempre; elle, porém,&mdash;ó pudor!&mdash;apenas a
+comprimentou á entrada e á saída.</p>
+
+<p>Muito bem.</p>
+
+<p>No dia immediato, ao de semilhante encontro, recebia Dolores a seguinte
+carta:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:right;">«<em>Minha senhora</em>,</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Pretendo ardentemente o seu coração. Amo como nunca amei. Exijo que me
+attenda. No caso contrario, suicidar-me-hei.»<span class="pn">{144}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;Curioso, curioso!&mdash;exclamava ella, rindo e correndo pela sala.</p>
+
+<p>&mdash;Original, original!... Tinha graça... ficar sem o meu <em>chacho</em>...
+elle que me póde render ainda tão boas, tão santas libras... Oh! pois não...
+attendel-o-hei... Cahirei aos pés d'elle, que não falla... aos pés d'elle...
+não, não te suicidarás, formoso!....</p>
+
+<p>E, e sem mais, Dolores tomou a penna e escreveu laconicamente:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;">CONTA CORRENTE</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«<em>Deve o sr. F. por meia hora de conversação commigo, no dia 1.º do
+corrente, a simples quantia de 1:000$000 réis, que pagará em oiro ou prata,
+dentro de vinte e quatro horas a contar de hoje das 11 da manhã.</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:right;"><em>Assignada</em>&mdash;DOLORES.»<span class="pn">{145}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>E assim foi. O rapaz, ao receber o bilhete, sentiu-se quasi allucinado.
+Depois, porém, recobrou animo e serenidade. Pensando que seria aquelle o unico
+meio de a conquistar, volvidas duas horas, após a recepção da carta, respondeu
+com a mesma singeleza:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:right;">«<em>Minha senhora</em>,</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Por si darei tudo, a minha vida e o meu futuro. Póde, quando quizer, mandar
+receber o dinheiro que pede no banqueiro C., rua de ***, n.º....»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Dolores passou, então, pela primeira impressão forte na sua vida. Esta
+resposta laconica e expressiva, como era, agitou-lhe violentamente as fibras da
+sua alma, d'ella. Reflectindo bem no caso e na dedicação, com que fôra
+brindada, ella a orphã, ella, a <em>desdichada</em>, ella, a meiga,<span
+class="pn">{146}</span> ella&mdash;a preciosissima joia, engastada numa sociedade de
+meras apparencias e de meras formalidades, ella, a Dolores, ella chorou
+sinceramente.</p>
+
+<p>&mdash;Não!&mdash;dizia ella&mdash;Eu não receberei este dinheiro. Nunca! Mas em vez do seu
+dinheiro&mdash;oh, sim!&mdash;eu receberei o seu amor, que deve ser sublime com a sua
+generosidade; o seu amor, a pura expressão de um coração honesto e simples.</p>
+
+<p>E escrevendo, ella disse-lhe a chorar:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:right;">Meu amigo,</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Renuncio ao seu desinteresse. Sinto que o amo doidamente. Desejo vel-o.
+Venha quando quizer.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:right;">«<em>Dolores.</em>»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Assim se encadearam os acontecimentos. Dolores, sem ser Margarida
+arrependida,<span class="pn">{147}</span> tornou-se, todavia, mulher séria e
+grave. O nosso provinciano, sem ser Armando, adquiriu pelo amor de Dolores a
+consciencia de si e a elevação da sua dignidade abatida.</p>
+
+<p>Mas, quando menos a gente as espera, é quando o diabo as arma.</p>
+
+<p>Dizem-me que hontem, tanto Dolores como o seu amante, foram encontrados
+mortos, na propria casa em que desde muito habitavam.</p>
+
+<p>Oh! os <em>boulevards</em>, minha querida marqueza...</p>
+
+<p>Mas, por Deus, entremos no <em>Retiro</em>.</p>
+
+<p>O seu braço, minha amiga, o seu braço!...</p>
+
+<p class="estrelas">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>O passeio do <em>Retiro</em>, um dos mais afamados da Europa, foi fundado no
+reinado de Filippe IV, sob a inspiração do conde duque de Olivares, especie de
+marquez de Pombal na Hespanha.</p>
+
+<p>Quasi todos os despotas gostam de deixar<span class="pn">{148}</span>
+assignalada a sua passagem na terra com monumentos immorredouros, por via de
+regra attestados de inepcia, de orgulho e de mau gosto.</p>
+
+<p>Foi assim que, entre nós, no tempo de D. João V se originou o celebre
+convento de Mafra. E foi assim que nasceu o <em>Escurial</em>, embora de melhor
+gosto e de mais elevação artistica.</p>
+
+<p>Durante o reinado do seu fundador, o <em>Buen-Retiro</em>, pelos seus
+passeios, pela sua magnificencia, pelos seus jardins, pelos seus palacios,
+pelos seus theatros, quasi se podia dizer um Eden, entreaberto aos sorrisos das
+morenas feiticeiras e um paraiso entresonhado pelos cavalleiros desde aquelles
+periodos aventurosos.</p>
+
+<p>Tudo, porém, neste mundo tem a sua decadencia. Filippe V, querendo
+guindar-se á altura do monarcha francez, virou-se para os jardins de Aranjuez,
+onde lhe pareceu divisar competencias, embora longinquas, com Versailles, de
+todos os passeios actuaes da Europa o mais célebre e o mais sumptuoso, ainda
+quando mais não fosse senão pelo jogo das aguas, as quaes,<span
+class="pn">{149}</span> na sua ascensão phantastica e miraculosa, se alteiam
+muitas vezes, numa extensão de cincoenta metros acima do nivel do lago.</p>
+
+<p>Assim foi decaindo tão rara maravilha. Fernando VII tentou restituil-a á
+vida. E o facto é que o <em>Retiro</em>, mercê das grandes e enormissimas
+quantias nelle sepultadas, atravessou incolume até nós, a salvo das revoluções
+e em plenos sorrisos de felicidade.</p>
+
+<p>Leitora amiga&mdash;se realmente ama o passeio, percorra a <em>Carreira de S.
+Jeronymo</em> e entre no <em>Retiro</em>. Levante-se cedo, tome o seu chaile,
+calce as suas luvas, e prepare-se afoitamente para banhar-se numa boa
+atmosphera, salutar e agradavel. Esta pequena digressão ha de fazer-lhe bem,
+porque é hygienica e variada. Em casa póde dispensar o seu chocolate; ha de
+saboreal-o lá, depois de ter passeado, depois de ter ido ao lago, depois de ter
+visto as feras, emfim, depois de estar cançada. E verá que a não engano. Lá
+encontrará um bom <em>restaurant</em> aceiadissimo e commodo. Á cautella,
+porque o almoço<span class="pn">{150}</span> é tarde, sempre lhe aconselho que
+mande vir duas ou tres bolachas.</p>
+
+<p>Como queira. Perto de nós temos a <em>montanha artificial</em> e o <em>salão
+oriental</em>. Já lá foi? Que soberbo panorama! D'ali, d'aquella eminencia,
+apparece-nos Madrid, em toda a sua vida e em toda a florescencia. Que magnifica
+cidade, e sobretudo, que cidade tão moderna!</p>
+
+<p>É verdade&mdash;e o <em>jardim botanico</em>? É logo no passeio do
+<em>Prado</em>. Dizem que só está aberto desde 30 de maio até 30 de setembro.
+Mas é um famoso recinto, bem cultivado, com excellentes plantas e situado num
+magnifico local. Possue, além disso, este jardim uma notavel variedade de
+plantas e uma curiosissima secção <em>zoologica</em>, cujo objecto é alimentar
+e propagar, na Hespanha, toda a especie de animaes.</p>
+
+<p>E a <em>Recoletos</em>&mdash;já foi a leitora?&mdash;E á <em>fuente
+Castellana</em>?</p>
+
+<p>O primeiro tem, como o <em>Prado</em>, oito lindissimas fontes, todas ellas
+no meio de praças, de arvores, e de mil outros attractivos, que dão ao nacional
+o supremo<span class="pn">{151}</span> consolo de poder passar bem duas ou tres
+horas por dia.</p>
+
+<p>Porque estes passeios não servem apenas de meras distracções. Outros são os
+seus fins e outras são tambem as suas vantagens.</p>
+
+<p>Os <em>boulevards</em>, em geral, além de possuirem no seu seio mil cousas
+dignas de um estudo especial, são por outro lado um espectaculo que as
+municipalidades offerecem á pobreza, tão curiosa como digna de divertir-se.</p>
+
+<p>No nosso paiz os operarios não encontram um espectaculo gratuito. Por isso,
+á falta de entretenimentos, entram nas tabernas, e embriagam-se. Tivessem elles
+uma boa musica, um bom passeio, um exercicio attrahente e o amor do vinho
+desapparecera. Tivessem elles, sobretudo, municipalidades desinteressadas e
+independentes, e as suas doenças, assim como o seu mal estar não teriam mais
+razão alguma de ser.</p>
+
+<p>O artista tem no <em>boulevard</em>, uma formosa galeria, especialmente
+merecedora de analyse e de critica. Nos museus encontram-se<span
+class="pn">{152}</span> os quadros pintados. Pois o <em>boulevard</em> é um
+museu&mdash;ao vivo, já se entende.</p>
+
+<p>Dizia Richelieu que costumava esmagar o amor debaixo do tacão da sua bota.
+D'onde se vê que nem o illustre cardeal se pôde eximir ás influencias do mundo
+exterior e dos <em>boulevardiers</em>.</p>
+
+<p>O <em>boulevard</em> é ainda mais o figurino, a moda, o <em>chic</em>. Quem
+fôr á <em>fuente castellana</em>, que começa na casa da moeda e termina na
+fonte do mesmo nome, encontra ali o mais selecto da sociedade
+madrilena&mdash;<em>toilletes</em> finissimas, aristocracia elegante e burguezia
+desempenada.</p>
+
+<p>Foi na <em>fuente castellana</em> que se originou uma elegantissima paixão
+ainda hoje inedita nos annaes da historia hespanhola.</p>
+
+<p>Conta-se que um notavel tribuno, escriptor e poeta, andando um dia a
+recrear-se neste passeio, fôra apanhado de surpreza pelos olhos abrasadores de
+uma sevilhana gentil; e por tal fórma se deu este facto que elle, hoje politico
+illustre no seu paiz, nunca mais pôde subtrahir-se ás influencias d'aquelle
+dominio.<span class="pn">{153}</span></p>
+
+<p>A menina foi, passado um mez, pedida á familia em casamento. Ella acceitou,
+e o matrimonio ficou assim solemnemente tratado.</p>
+
+<p>Demorou-se, porém o negocio. A noiva pretextava desculpas, que ninguem sabia
+a que attribuir. Em casa, além da familia, só entrava um padre. O noivo,
+furioso, tratou de indagar. Sabendo finalmente, que fôra o padre o motor de
+similhante desordem, elle, com a maxima serenidade, procurou-o em casa, e
+disse-lhe expressivamente:</p>
+
+<p>&mdash;Entre o insulto e o assassinio prefiro o segundo. Queira fazer o acto de
+contricção.</p>
+
+<p>O padre ajoelhou.</p>
+
+<p>&mdash;Agora levante-se, e peça perdão a Deus.</p>
+
+<p>E zás, sem mais tir-te nem guar-te, ouviu-se a detonação de um tiro. Uma
+bala havia atravessado o peito do hypocrita.</p>
+
+<p>&mdash;Finalmente&mdash;exclamou o tribuno.&mdash;Para os frades bacamarte, para a batina
+clavina.</p>
+
+<p>E fugiu.<span class="pn">{154}</span></p>
+
+<p>Volvidos annos, este mesmo cavalheiro voltava á patria, casava com a mesma
+menina que em tempos namorára, e preparava-se para ser ministro, o que já foi
+ha muitos annos.</p>
+
+<p>Oh! os <em>boulevards</em>, minha querida marqueza, os
+<em>boulevards</em>...</p>
+
+<p>Mas, a proposito, quer a marqueza jantar commigo?<span
+class="pn">{155}</span></p>
+
+<h2><a name="SECTION00117">XVII<br><br>
+HISTORIA INEDITA</a></h2>
+
+<p>Ha de haver nove mezes que isto succedeu. Ia eu de Madrid para o Escurial. O
+unico companheiro de viagem que a fortuna me concedeu, durante o trajecto que
+vae da cidade do sr. D. Affonso XII ao Versailles hespanhol, era uma senhora
+alta, de cabello louro, de olhos azues e de uma distincção profundamente
+aristocratica.</p>
+
+<p>Mudos, por muito tempo, foi ella, afinal, quem rompeu o silencio.</p>
+
+<p>&mdash;<em>Es usted español?</em>&mdash;perguntou-me a minha amavel companheira.<span
+class="pn">{156}</span></p>
+
+<p>&mdash;Não, minha senhora, sou portuguez&mdash;respondi.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! portuguez.... conheço perfeitamente Lisboa; já lá estive tres mezes. É
+uma cidade bonita, mas muito monotona. A natureza é admiravel, mas a sociedade
+é demasiadamente ficticia. Não tem uma vida propria, e vive do que os outros
+lhe querem dar...</p>
+
+<p>&mdash;E posso eu ter a honra de saber a quem me dirijo?</p>
+
+<p>&mdash;Ora! por Deus! sou muito modesta para que deseje saber quem sou. Nasci na
+America, em Nova-York. Depois meus paes mandaram-me para Paris, onde fui
+educada. De Paris passei á Suissa, onde residi alguns annos, e da Suissa vim
+para Madrid, onde vivo ha dez annos com meu marido e um unico filho que
+tenho.</p>
+
+<p>&mdash;E a opinião de v. ex.ª ácerca de Madrid?</p>
+
+<p>&mdash;Um magnifico centro com muita vida propria e alguma corrupção. Detesto
+muito a politica hespanhola, e amo do coração a sua litteratura. Gosto muito
+dos seus poetas e dos seus litteratos. São enthusiastas<span
+class="pn">{157}</span> ardentes e mais que tudo fanaticos <em>à
+outrance</em>.</p>
+
+<p>&mdash;E a respeito das litteratas hespanholas, que me diz v. ex.ª?</p>
+
+<p>&mdash;Uns verdadeiros talentos. Conheci de perto D. Carolina Coronado. Tem uma
+historia engraçada. Um dia ella, a caprichosa, que tanto e tão a peito defendia
+a emancipação da mulher, arrojou para longe de si o trajo feminino, e fez-se
+rapaz. Engraçadissima! Entrou na universidade ao mesmo tempo que seu marido,
+formou-se em direito, e já escreveu sobre direito penal. Hoje é uma
+distinctissima poetisa, e ainda uma deslumbrante mulher.</p>
+
+<p>&mdash;Admiravel!</p>
+
+<p>&mdash;Tambem tive relações intimas com a melhor novellista hespanhola, que usava
+do pseudonymo Fernand Caballero. Havia sido perceptora dos filhos do duque de
+Montpensier, e presentemente pouco escreve, creio eu.</p>
+
+<p>&mdash;E a baroneza de Wilson, conheceu?</p>
+
+<p>&mdash;Perfeitamente. D'essa senhora conta-se tambem uma anecdota curiosa. Diz-se
+que Zorrilla estivera doente, e que, na<span class="pn">{158}</span> sua
+enfermidade, fôra tratado desveladamente por uma senhora, sua vizinha. Ao cabo
+da doença, elle, querendo ser grato, esposou a sua enfermeira, a qual, então,
+vivia com uma sobrinha, mulher de um grande talento, que mais tarde casou com
+um inglez e que por isso se chamou baroneza de Wilson. E tambem vivi muito de
+perto com D. Maria Pilar Sinués de Marco. É romancista afamada. Vem-lhe de seu
+marido o nome de Marco, e por isso os hespanhoes dizem d'elle&mdash;<em>se le conoce
+porque és marido de la Sinués</em>, (similhança de <em>Cabeza e
+Calabazas</em>).</p>
+
+<p>&mdash;Nunca fallou em Lisboa com uma distinctissima senhora, que usa do
+pseudonymo Leon de la Vega?</p>
+
+<p>&mdash;Pois não! Sei que é esposa de um engraçado escriptor chamado D. Thomaz de
+Mello.</p>
+
+<p>&mdash;Exactamente.</p>
+
+<p>&mdash;Além d'estas, convivi com Angela Grassi, mulher, talvez não muito formosa
+mas de muito talento; com D. Antonia de Arciniega e Martinez, que cultivou um
+genero de poesia quasi pastoril; com D.<span class="pn">{159}</span> Josepha
+Estevez del Canto, admiradora em excesso das fabulas de Lafontaine, com D.
+Emilia Cale Torres de Quintero, com D. Sofia Tartilau e com muitas outras. Bem
+vê que seria impossivel recordar-me agora de todas as minhas relações.
+Unicamente lhe affianço que em Hespanha as mulheres que escrevem, embora não
+sejam muitas, são todas dotadas de um immenso talento.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, minha senhora, permitta-me que lhe manifeste os meus mais ardentes
+desejos de a conhecer...</p>
+
+<p>&mdash;Perdão... isso é que não está no contracto. Tenho respondido a todas as
+suas perguntas e isso me basta... O meu nome, não lh'o posso por ora revelar. É
+possivel que mais tarde o saiba. Por agora desculpe-me.</p>
+
+<p>&mdash;<em>Escurial! Escurial!...</em>&mdash;gritaram os guardas do caminho de
+ferro.</p>
+
+<p>A minha companheira apeou-se, e, estendendo-me a mão, nem sequer me deu
+tempo para me despedir d'ella.<span class="pn">{160}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="estrelas">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Dois dias depois, o creado do hotel, em Madrid, entregava-me um bilhete
+concebido nos seguintes dizeres:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p
+style=" border: solid 1px #000; margin-left: 10%; margin-right: 10%; padding: 1em; text-align:center;"><em><big>D.
+Maria del Sarto</big><br>
+pede-lhe a fineza da sua companhia para o jantar de hoje, ás 6 horas da tarde,
+na Calle de Alcalá&mdash;8.</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;Maria del Sarto! Quem será Maria del Sarto?&mdash;exclamei.</p>
+
+<p>E ás 6 horas da tarde, em ponto, dirigi-me para a rua de Alcalá.</p>
+
+<p>Qual foi, porém, o meu espanto, quando, ao entrar na sala dei de rosto com a
+minha formosa amiga de viagem.<span class="pn">{161}</span></p>
+
+<p>&mdash;Sente-se aqui&mdash;disse-me ella, apontando para uma cadeira.</p>
+
+<p>E foi nessa occasião, e nesse jantar, que me foi dado formar um juizo seguro
+ácerca das cousas e dos homens de Hespanha.</p>
+
+<p>Devo-o principalmente áquella affectuosissima senhora, a quem d'aqui envio
+os meus respeitos e a minha gratidão.</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>Uma vez, porém, que fallamos em celebridades, conversemos um pouco sobre
+ellas.<span class="pn">{162}<br>{163}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00118">XVIII<br><br>
+HOMENS ILLUSTRES</a></h2>
+
+<p>Em Hespanha é extraordinario o numero dos homens illustres.</p>
+
+<p>Poucos são os talentos naquelle paiz que não possuam uma feição
+eminentemente litteraria. Os proprios politicos resentem-se d'este defeito, se
+defeito se lhe póde chamar.</p>
+
+<p>Do romance são innumeros os cultores. A Hespanha, como paiz de mais
+aventuras, presta-se a elle. Entre nós são já muito conhecidos os nomes dos
+srs. Manuel Fernandez y Gonzalez, homonymo do celebre ministro republicano,
+ultimamente<span class="pn">{164}</span> mandado sahir de Lisboa pelo governo
+portuguez, Henrique Peres Escrich, Ortega y Frias, Tarrago e Mateos, etc.</p>
+
+<p>O sr. Fernandez y Gonzalez é uma especie de Ponson du Terrail hespanhol. É
+escriptor fecundo e de muita força concepcional.</p>
+
+<p>Peres Escrich é quasi mystico. Os assumptos dos seus romances são quasi
+sempre religiosos. É um romancista catholico, mas são puras as suas intenções
+sem as sacrificar á seita.</p>
+
+<p>Ortega y Frias, Tarrago y Mateos, Piedro Antonio Alarcon, Peres Gadosh,
+Antonio Hurtado, Varella, Vilhoslava, Ricardo Sepulveda são os que mais se
+aproximam do romance moderno na descripção e no entrecho dos assumptos.</p>
+
+<p>Eusebio Blasco é um humorista de grande merecimento, e José Castro e Serrano
+é, em nosso juizo, talvez o primeiro novellista hespanhol.</p>
+
+<p>A estes podemos, de certo, juntar D. Manoel Silvella, Asmodeu, pseudonymo,
+Antonio Trueba, auctor de uns famosos<span class="pn">{165}</span> contos,
+sobejamente conhecidos na litteratura da Europa.</p>
+
+<p>Na poesia avultam Zorrilla, um lyrico surprehendente; Campoamor; Garcia
+Gutierres, de quem se diz que nasceu com o <em>Trovador</em> e que morreu com
+D. Urraca; Ventura Ruiz Aguillera, auctor de um famoso livro de satyras; José
+Martinez Villergas, egualmente satyrico: Roberto Robert, espécie de Voltaire no
+arrojo da palavra e do conceito; Grillo, Gaspar Nunes de Arse, Espronceda, José
+Eshegarai, Hartzenbusch, Antonio Arnao, Antonio Hurtado, José Selgas, tambem
+prosador, Trueba, Carlos Frontaura, Carlos Rubio, Larra e outros.</p>
+
+<p>Passando da poesia para a politica, são tantos os nomes, que difficilmente
+seria possivel recordal-os a todos.</p>
+
+<p>Quando estive em Hespanha, contava-se uma anecdota curiosa de Emilio
+Castelar.</p>
+
+<p>Dois estudantes da escola medico-cirurgica de Lisboa tinham ido a Madrid
+assistir á entrada de D. Affonso XII na cidade, depois de concluida a guerra
+carlista.<span class="pn">{166}</span> Era dia de sessão no congresso. Fallava
+Castelar. Nas tribunas agglomerava-se o povo. Difficilmente se obtinha um
+logar.</p>
+
+<p>Um dos estudantes, porém, reflectindo no caso, entrou numa mercearia, e
+escreveu a Emilio Castelar as seguintes linhas:</p>
+
+<p>«Estão aqui dois portuguezes, seus admiradores, que desejam ouvil-o.»</p>
+
+<p>O merceeiro, que viu que a carta era subscriptada para o insigne orador, não
+lhes levou nada, nem pelo papel, nem pela tinta.</p>
+
+<p>Castelar leu o bilhete, e immediatamente sahiu do congresso, a fim de
+introduzir os dois estudantes na tribuna, reservada á diplomacia.</p>
+
+<p>Quando acabou de fallar foi ter de novo com os dois estrangeiros, e
+offereceu-lhes os seus serviços e a sua pessoa n'aquella cidade.</p>
+
+<p>Este traço revela bem as brilhantes qualidades, que caracterisam Emilio
+Castelar.</p>
+
+<p>E, uma vez que fallámos em Castelar, não esqueceremos tambem de
+mencionar<span class="pn">{167}</span> um distincto talento, seu amigo intimo,
+director do jornal, o <em>Globo</em>, e auctor de um famoso livro sobre o
+<em>movimento operario na Europa no seculo XIX</em>. Este cavalheiro chama-se
+D. Joaquim Martin de Olias.</p>
+
+<p>Francisco Pi y Margall é um outro vulto que trouxe na memoria. Estive em sua
+casa perto de duas horas, e precisamente na mesma sala onde aquelle célebre
+padre tresloucado tentou assassinal-o. É um caracter magestoso e um talento
+deslumbrante. Fui encontral-o a brincar com dois filhinhos menores. Que
+contraste entre aquella scena puramente domestica e a dos seus actos publicos!
+O homem vigoroso da tribuna e da imprensa é um anjo de paz e de amor no seio
+dos seus! Foi-me realmente agradavel esta visita.</p>
+
+<p>Salmeron, o erudito publicista, que resignou gloriosamente o poder por não
+querer assignar a pena de morte para o exercito, vivia exclusivamente do
+professorado. Regia uma cadeira de ensino livre no Atheneu, retribuida pelos
+discipulos.</p>
+
+<p>Zorrilla, que atravessou os transes mais<span class="pn">{168}</span>
+dolorosos da vida, e que além de um grande poeta é tambem politico de notavel
+bom-senso, vê-se hoje expatriado e longe dos seus.</p>
+
+<p>O mesmo succede a talentos notaveis como Fernandez de los Rios, Fernando
+Garrido, Ramon de Cala, Estevanez, Gonzalez e outros.</p>
+
+<p>José Maria Orense, o decano da democracia hespanhola, está quasi afastado da
+politica.</p>
+
+<p>Sagasta póde talvez ser classificado entre os radicaes. Passa por excellente
+caracter e por conservador sympathico.</p>
+
+<p>Canovas del Castillo, embora defensor de uma má causa, é todavia um eminente
+orador e um notavel poeta.</p>
+
+<p>Que a dizer a verdade, abaixo de Castelar, os dois oradores mais afamados
+são Figueras e Martos.</p>
+
+<p>O verdadeiro enthusiasmo hespanhol está, porém, no exercito. Entre Olozaga e
+Martinez Campos, prefere-se este justamente pela espada, que traz á cinta. E a
+prova é que, terminada a luta com os carlistas, as acclamações da cidade
+dirigiram-se<span class="pn">{169}</span> mais a Martinez Campos do que a D.
+Affonso XII.</p>
+
+<p>De modo que em Hespanha o militarismo é um vicio galante, de que as mulheres
+não desdenham e que os politicos temem soberanamente.</p>
+
+<p>Fallando, porém, de homens illustres, não deveremos de modo algum omittir
+dois nomes, que, por mais do que um lado, nos devem ser sympathicos e
+affectuosos.</p>
+
+<p>Esses nomes são os dos srs. D. Benigno Joaquim Martinez e Antonio Romero
+Ortiz, de quem em seguida nos vamos occupar.<span class="pn">{170}<br>{171}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00119">XIX<br><br>
+D. BENIGNO JOAQUIM MARTINEZ E ANTONIO ROMERO ORTIZ</a></h2>
+
+<p>Só em Madrid o numero de jornalistas sobe talvez a mais de duzentos. Ainda
+ha pouco, por occasião de se installar o <em>Casino de la Prensa</em> na calle
+Mayôr, orçaram por 160 as adherencias da parte do jornalismo madrileno.</p>
+
+<p>Entre os mais sympathicos periodicistas hespanhoes podemos citar: Escobar,
+Perez de Guzman, José Ortega, Ulloa, Sagasta, Garcia Ruiz, Pi y Margall,
+Figueras, Navarro, Blasco, Molina, L. Rubio, Palacio, Alcalá Galliano, dr.
+Galdo,<span class="pn">{172}</span> Tubino, Diaz Perez, Quintero, Escosura,
+Soriano Fuestes, Ruti, Rivera, Calvo Ascencio, Leon Serrano, Benigno Martinez,
+Romero Ortiz e mil outras illustrações que nos seria impossivel enumerar em
+opusculo de tão limitadas proporções.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="estrelas">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>D. Benigno Joaquim Martinez é conhecido pelo doce appellido de <em>amigo dos
+portuguezes</em>. A sua casa e a sua bolsa estão sempre á disposição dos nossos
+patricios e conterraneos. Nada ha que possa retribuir tamanho affecto e tão
+devotada abnegação. Dir-se-ia que D. Benigno é, de facto, mais portuguez do que
+hespanhol.</p>
+
+<p>Martinez foi por muito tempo empregado superior no ministerio da justiça.
+Até ahi advogara e vivera do jornalismo. As suas convicções radicaes não lhe
+permittiram, porém, que continuasse a servir um governo que desde muito lhe
+era<span class="pn">{173}</span> antipathico. Então sem mais recursos,
+deliberou entregar-se exclusivamente á imprensa, tanto nacional como
+estrangeira. Tem sido correspondente de jornaes inglezes, italianos e
+francezes. A sua vida mal se descreve. Ha dias em que se senta á meza desde a
+madrugada até ao jantar e desde o jantar até á madrugada. A honra e a dignidade
+são a sua divisa. Nunca transigiu. Em Portugal já 11 jornaes lhe confiaram as
+correspondencias de Madrid, as quaes elle tem cumprido com uma pontualidade
+rigorosamente britannica. Tambem collaborou no periodico <em>Italia e
+Popolo</em> de José Mazzini. Redigiu em Madrid seis folhas politicas. Escreveu
+a biographia de 45 vultos portuguezes, e sempre, desde 1846 até hoje, se tem
+occupado, com verdadeiro fervor, das cousas, da politica e dos homens do nosso
+paiz. Por isso tambem quasi todas as sociedades portuguezas o têm distinguido
+com os seus diplomas e honrarias.</p>
+
+<p>D. Benigno é casado com uma senhora distinctissima, de quem teve tres
+filhos: uma menina, já casada, e dois rapazes,<span class="pn">{174}</span> um
+dos quaes é Frutos Martinez y Lumbreras, estudante classificado na universidade
+central e escriptor já conhecido pelas <em>Bandeiras de Portugal</em> e
+<em>Hespanha</em>.</p>
+
+<p>Em casa de Martinez tivemos a honra de travar relações com dois notaveis
+talentos, de quem não deixaremos de fallar; e são elles D. Manoel Maria José de
+Galdo e Antonio Hesse.</p>
+
+<p>Do primeiro escreveu um periodico portuguez o seguinte:</p>
+
+<p>«Pela nomeação do sr. Rivero para ministro de <em>la gobernacion</em> em
+Hespanha ficou vaga a presidencia da municipalidade de Madrid. Neste logar foi
+provido por eleição o sr. D. Manoel Maria José de Galdo, cavalheiro distincto
+de cujos precedentes diremos algumas palavras. O sr. Galdo é cathedratico
+proprietario na universidade de Madrid, e além de regente de 1.ª classe de
+sciencias, lecciona mineralogia e noções de zoologia e botanica. É licenciado
+em medicina e cirurgia, doutor na faculdade de philosophia, licenciado em
+direito civil, administrativo e canonico. É membro honorario de muitas
+sociedades<span class="pn">{175}</span> e institutos scientificos de Hespanha,
+França e Portugal. É em resumo um cavalheiro muito illustrado, e em extremo
+laborioso e modesto.»</p>
+
+<p>Em seguida á revolução de setembro foi o dr. Galdo feito 1.º alcaide da
+capital de Hespanha e commandante geral de 20.000 voluntarios de Madrid. Nestes
+dois importantes e difficeis cargos mereceu sempre os applausos de toda a
+imprensa sem distincção de côres politicas. O que prova exuberantemente o
+espirito de justiça e a alta prudencia que dirigem todos os actos d'aquelle
+cavalheiro. Ultimamente a sua eleição para presidente da municipalidade de
+Madrid, em substituição de um homem de tão reconhecido merito como o sr.
+Rivero, é mais um titulo honroso que vem juntar-se aos muitos, que já
+recommendavam ao partido radical da Hespanha, e em geral a toda a nação
+vizinha, um honrado filho da peninsula, que ao seu talento, ao trabalho e ás
+suas qualidades pessoaes deve a estima de nacionaes e estrangeiros.</p>
+
+<p>Na inauguração do canal Suez coube<span class="pn">{176}</span> ao sr. dr.
+Galdo a honra de representar a Hespanha.</p>
+
+<p>A sua integridade de caracter e a sua modestia, conservaram-no muito tempo
+afastado das lides politicas, ás quaes voltou cheio, como d'antes, de dedicação
+e amor aos principios liberaes, apenas a Hespanha sacudiu o jugo que a
+opprimia. Nos ultimos arrancos da monarchia deposta, mais de uma vez fôra tão
+illustre e inoffensivo cidadão apontado á vindicta do poder.»</p>
+
+<p>Antonio Hesse é advogado de nome; possue excellentes dotes oratorios e
+d'elle corre impresso um ajuizado opusculo sobre critica religiosa.</p>
+
+<p>Para rematar, porém, o que dissemos, ácerca de D. Benigno Joaquim Martinez,
+basta ainda accrescentar que é elle um modelo de amor de familia, um
+ousadissimo e infatigavel trabalhador, uma consciencia recta e uma
+intelligencia sã.<span class="pn">{177}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="estrelas">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Antonio Romero Ortiz é um outro amigo dos portuguezes. Nascido na Gallisa,
+onde fundou differentes jornaes liberaes e onde organisou um nobre batalhão de
+voluntarios, só em 1843 se inscreveu como advogado em <em>Santiago</em>, terra
+da sua naturalidade. Em 1856, quando mais accesa andava a lucta entre
+miguelistas e liberaes, veiu ao Porto, e ahi foi pronunciado e levado
+prisioneiro para bordo do <em>Serra do Pilar</em>, que o conduziu para
+Peniche.</p>
+
+<p>Em 1848 Narvaez, um covilheiro infame do absolutismo, descobriu uma
+conspiração de liberaes, capitaneada por Romero Ortiz. Sem mais averiguações, o
+carrasco ordenou a prisão do chefe dos revolucionarios, mandando-o para as
+masmorras de Santo Anton, perto da Corunha. O processo foi instaurado; duas
+cartas existiam de grave compromisso para o encarcerado. No momento, porém, em
+que o escrivão estava distrahido Romero<span class="pn">{178}</span> Ortiz,
+pegando nas cartas, arremessou-as pela janella. Este arrojo salvou-o do
+patibulo.</p>
+
+<p>Em 1849 veiu para Madrid, onde, entre outras obras interessantes, publicou o
+<em>Diccionario da politica</em>, de collaboração com dois amigos.</p>
+
+<p>Chegou o anno de 1854, e desde então para cá, ora na imprensa, ora na
+tribuna, têm sido assignalados os seus feitos em pro da patria e da liberdade.
+Foi elle que, sendo ministro da justiça, instituiu o matrimonio civil e aboliu
+a companhia de Jesus. Por diversas vezes foi nomeado governador civil; e quando
+em Hespanha se constituiu a <em>União liberal</em>, o sr. Rios Rosas
+dispensou-lhe a maior consideração e os maiores respeitos. Foi deputado pela
+primeira vez em 1854 pela Corunha. Tomou parte activa na revolução de 1868, e
+no governo <em>provisional</em> foi elle um dos ministros.</p>
+
+<p>O seu mais notavel discurso, que versava sobre uma concessão de direitos aos
+portuguezes, foi pronunciado no congresso em 29 de março de 1859; e a sua
+mais<span class="pn">{179}</span> afamada publicação intitula-se: «<em>La
+historia de la literatura portuguesa em el siglo XIX.</em>»</p>
+
+<p>É obra que denota boas intenções a nosso respeito. Conhece o periodo
+contemporaneo, e é seguro o estudo sobre Filinto, dos mais conscienciosos que
+conhecemos. Mas, no momento actual em que nos considerou, dá mostra de
+recebimento de más informações. Guinda a certa altura quem não merecia ir tão
+alto, e esquece nomes, em todas as pretendidas escholas, dos que, á parte
+rivalidades de que nós nos não fazemos echo, são de primeira plana em todos os
+campos.</p>
+
+<p>Com o golpe de 3 de janeiro de 1873 foi Romero Ortiz nomeado ministro do
+ultramar.</p>
+
+<p>Ultimamente vive um pouco doente e retirado das cousas politicas, quasi que
+exclusivamente entregue ao seu museu, que é curiosissimo, e aos seus
+estudos.</p>
+
+<p>No seu museu, de que já fallámos mais atraz, encontram-se muitas
+curiosidades do nosso paiz, e entre ellas uma luvas do marquez de Sá da
+Bandeira, a caixa de<span class="pn">{180}</span> rapé do visconde de Castilho,
+e uma lembrança de D. Pedro V, e outra do visconde de Paiva Manso, etc.</p>
+
+<p>Tambem alli se póde vêr a camisa de Santa Thereza de Jesus, a casaca de
+Cabrera, um crucifixo feito pela rainha Isabel II e muitas outras reliquias
+dignas da maior attenção e de estudo.<span class="pn">{181}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00120">XX<br><br>
+EM RETIRADA</a></h2>
+
+<p>Onde não ha fumo ha amor; onde não ha amor ha vinho; onde não ha vinho ha
+<em>spleen</em>.</p>
+
+<p>São estas as palavras de um poeta notavel, que muito de molde nos acudiram
+ao espirito, em relação ao caso presente.</p>
+
+<p>Quem viaja deve fumar. O fumo não é apenas um bom e doce companheiro para as
+tristes horas de tédio e de melancolia, mas ainda mais, e quasi sempre, um
+distinctivo do sabio e um facil auxiliar da nossa digestão intellectual.</p>
+
+<p>O fumo está para o cerebro na mesma<span class="pn">{182}</span> proporção
+em que o café está para o estomago. Ambos se tornam até certo ponto necessarios
+ao homem; com a simples differença de que o café nos excita, por vezes,
+demasiadamente os nervos, ao passo que o fumo se limita a produzir em nós um
+salutar estimulo ás nossas idéas e ao nosso raciocinio.</p>
+
+<p>Mas, se, além do fumo, nos falta ainda o amor e o vinho, então,&mdash;ai de nós!
+que chegaremos ao aborrecimento de nós mesmos, isto é&mdash;ao <em>spleen</em>.</p>
+
+<p>A viagem sem companhia é a peior de todas as torturas. A expansão é tão
+necessaria á nossa natureza, como o azul ao firmamento. Que nos importa ver uma
+formosissima paisagem, se depois não temos a quem communicar as nossas
+impressões e o nosso juizo de momento?</p>
+
+<p>E notavel contradicção! A companhia é-nos tanto mais necessaria, quanto é
+certo que, quando estamos no estrangeiro, nos acommette uma singular nostalgia
+por tudo o que é nosso e nos interessa, emquanto que, quando regressamos á
+patria, nos assalta uma terrivel hypocondria<span class="pn">{183}</span> por
+tudo o que é estranho e nos assombra.</p>
+
+<p>D'este modo, leitora amiga, se algum dia tiver o capricho de viajar, tenha
+paciencia, e tome uma aia; ou ainda, se isso lhe aborrece, peça a uma das suas
+intimas confidentes para a acompanhar.</p>
+
+<p>E verá que a não engano!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="estrelas">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Ora a retirada é quasi que uma recapitulação de tudo o que se fez pelas
+terras onde se esteve.</p>
+
+<p>&mdash;Que te pareceu esta gente?&mdash;perguntava-me o meu companheiro e velho
+condiscipulo&mdash;amigo José Trigueiros Martel.</p>
+
+<p>&mdash;Esta gente!... pois que diabo me havia de parecer, senão unica e
+originalissima!... retorqui.</p>
+
+<p>E começamos a enumerar os principaes partidos politicos em que se dividia a
+familia<span class="pn">{184}</span> hespanhola, que eram pouco mais ou menos
+os seguintes:</p>
+
+<p>Absolutistas de qualquer rei.</p>
+
+<p>Carlistas clericaes.</p>
+
+<p>Carlistas militares.</p>
+
+<p>Carlistas constitucionaes.</p>
+
+<p>Cabreiristas.</p>
+
+<p>Neo-dynasticos absolutistas.</p>
+
+<p>Dynasticos tolerantes.</p>
+
+<p>Moderados unitarios.</p>
+
+<p>Moderados conservadores.</p>
+
+<p>Conservadores da conciliação.</p>
+
+<p>Heterogeneos.</p>
+
+<p>Homogeneos canovistas puros.</p>
+
+<p>Santa-crucistas.</p>
+
+<p>Sagastinos.</p>
+
+<p>Neo-constitucionaes democraticos.</p>
+
+<p>Radicaes puros.</p>
+
+<p>Radicaes do X.</p>
+
+<p>Radicaes republicanos.</p>
+
+<p>Democratas monarchicos.</p>
+
+<p>Democratas puros.</p>
+
+<p>Republicanos catholicos.</p>
+
+<p>Confederados.</p>
+
+<p>Separatistas.</p>
+
+<p>Communistas.<span class="pn">{185}</span></p>
+
+<p>E não queria Amadée Achard que a Hespanha fosse alcunhada de bandoleira!
+Ninguem lhe desconhece os feitos de Numancia, de Sagunto, de Madrid, e de
+Zaragoza. Certamente que a Hespanha tem na sua historia paginas sagradas, como
+por exemplo as que resam das santas guerras das <em>communidades</em> de
+Castilla. Mas a par de tudo isto, ahi estão os factos da Andaluzia a fallar
+mais alto do que os patriotismos exagerados; e ahi estão tambem os
+acontecimentos dos ultimos vinte annos a affirmar-nos eloquentemente que esse
+paiz, embora cheio de vida e dotado de enthusiasmos respeitaveis, ha de ser
+sempre uma contradicção viva a tudo o que existe e um especialissimo parenthese
+na vida das nações.</p>
+
+<p>E provirá isto de uma simples questão de raça, de clima, de religião, de
+lingua, de costumes, de civilisação ou de <em>meio</em>?</p>
+
+<p>Que o digam os srs. philosophos historiadores.</p>
+
+<p>Nos costumes reside, principalmente, a expressão de uma nacionalidade.</p>
+
+<p>Porque hoje, francamente, não se póde<span class="pn">{186}</span> viajar
+apenas, como um simples brazileiro endinheirado&mdash;<em>em trem especial de
+exclamações</em>.</p>
+
+<p>Não basta só dizer, admiravel! magnifico! explendido! como aliás parece
+fazer a maioria dos nossos viajantes.</p>
+
+<p>&mdash;Então que me diz o amigo de Pariz?</p>
+
+<p>&mdash;<em>Ah!</em></p>
+
+<p>&mdash;E de Londres?</p>
+
+<p>&mdash;<em>Eh!</em></p>
+
+<p>&mdash;E da Suissa?</p>
+
+<p>&mdash;<em>Uh!</em></p>
+
+<p>E assim ficamos, sem passar das cinco vogaes exclamativas; sem uma unica
+noção da justiça do povo que visitamos, como ella era administrada e repartida,
+sem uma unica idéa da sua arte, da sua politica, da sua religião e dos seus
+progressos.</p>
+
+<p>A isto podia, quando muito chamar-se-lhe uma ostentação, mas nunca uma
+viagem.<span class="pn">{187}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="estrelas">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Resumindo:</p>
+
+<p>A Hespanha possue um vicio inicial de que difficilmente se libertará&mdash;a
+religião catholica-apostolica-romana guindada ás alturas de fanatismo.</p>
+
+<p>Na sua politica, como na sua justiça, reflecte-se tristemente a
+contradicção, junto a um continuo mal estar de quem não tem uma noção clara da
+evolução que a deveria reger, e das leis que deveriam presidir ao seu
+desenvolvimento moral e material.</p>
+
+<p>A sua arte afigurou-se-nos estar em perfeita harmonia com as suas mulheres:
+mais brilhante talvez, na fórma do que na concepção e no sentimento.</p>
+
+<p>Entretanto, forçoso é confessar que poucos paizes ha de tão vastos recursos
+como a Hespanha, e porventura mesmo poucos existirão com futuro tão promettedor
+como ella.</p>
+
+<p>Os casos das <em>Baldomeras</em> têem-lhe ultimamente<span
+class="pn">{188}</span> aberto os olhos para as grandes luctas da civilisação
+moderna, apurando-lhe o raciocinio para os insignes debates do espirito e da
+critica positiva.</p>
+
+<p>Que tudo isso lhe seja de bom proveito, assim como Sédan o foi para a
+França.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="estrelas">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Mas perdão! 6 horas da madrugada. Devemos estar perto de Lisboa.</p>
+
+<p>&mdash;<em>Lisboa! Lisboa!</em> exclama um guarda de fóra.</p>
+
+<p>Assim, pois, leitor amigo, permitta-me que lhe aperte a mão, e que com
+tristeza me despeça da sua extrema amabilidade.</p>
+
+<p>Um seu creado!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;">FIM<span class="pn">{189}</span></p>
+
+
+<p>&nbsp;</p>
+</div>
+
+<p><br>
+</p>
+
+<h2><a name="SECTION0020">INDICE</a></h2>
+<ul>
+ <li><a name="tex2html26" href="#SECTION0011">I&mdash;CARACTERES E COMPARAÇÕES</a></li>
+ <li><a name="tex2html27" href="#SECTION0012">II&mdash;NÓS E ELLES</a></li>
+ <li><a name="tex2html28" href="#SECTION0013">III&mdash;A CIDADE</a></li>
+ <li><a name="tex2html29" href="#SECTION0014">IV&mdash;A LENDA DO BANDIDO</a></li>
+ <li><a name="tex2html30" href="#SECTION0015">V&mdash;EDIFICIOS PUBLICOS E OUTRAS CURIOSIDADES HISTORICAS</a></li>
+ <li><a name="tex2html31" href="#SECTION0016">VI&mdash;A INSTRUCÇÃO PUBLICA</a></li>
+ <li><a name="tex2html32" href="#SECTION0017">VII&mdash;TEMPLOS E RELIGIÃO</a></li>
+ <li><a name="tex2html33" href="#SECTION0018">VIII&mdash;A POLITICA</a></li>
+ <li><a name="tex2html35" href="#SECTION0019">IX&mdash;MUSEUS</a></li>
+ <li><a name="tex2html36" href="#SECTION00110">X&mdash;A MUSICA</a></li>
+ <li><a name="tex2html37" href="#SECTION00111">XI&mdash;O CHOCOLATE E O CAFÉ</a></li>
+ <li><a name="tex2html38" href="#SECTION00112">XII&mdash;O SALERO</a></li>
+ <li><a name="tex2html39" href="#SECTION00113">XIII&mdash;THEATROS</a></li>
+ <li><a name="tex2html40" href="#SECTION00114">XIV&mdash;OS PATINADORES</a></li>
+ <li><a name="tex2html41" href="#SECTION00115">XV&mdash;TOURADAS</a></li>
+ <li><a name="tex2html42" href="#SECTION00116">XVI&mdash;O PRADO E O RETIRO</a></li>
+ <li><a name="tex2html43" href="#SECTION00117">XVII&mdash;HISTORIA INEDITA</a></li>
+ <li><a name="tex2html44" href="#SECTION00118">XVIII&mdash;HOMENS ILLUSTRES</a></li>
+ <li><a name="tex2html45" href="#SECTION00119">XIX&mdash;D. BENIGNO JOAQUIM MARTINEZ E ANTONIO ROMERO ORTIZ</a></li>
+ <li><a name="tex2html46" href="#SECTION00120">XX&mdash;EM RETIRADA</a></li>
+</ul>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's Costumes Madrilenos, by Sebastião de Magalhães Lima
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK COSTUMES MADRILENOS ***
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+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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