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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:48:36 -0700 |
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Pires"> + <meta name="Date" content="1877"> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1em;} + h1, h2, h3 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + #corpo p.estrelas {margin: 0; text-align: center; text-indent: 0em;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;} + blockquote {margin-left: 30%; font-size: small;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + ul {list-style: none;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +Project Gutenberg's Costumes Madrilenos, by Sebastião de Magalhães Lima + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Costumes Madrilenos + Notas de um Viajante + +Author: Sebastião de Magalhães Lima + +Release Date: September 15, 2009 [EBook #29999] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK COSTUMES MADRILENOS *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from BibRia) + + + + + + +</pre> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center; border: solid 2px #000; padding: 1em;"> +<p style="font-size: 1.2em;">MAGALHÃES LIMA</p> + +<p style="font-size: 2em;">COSTUMES MADRILENOS</p> +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.5em;">NOTAS DE UM VIAJANTE</p> +<p> </p> + +<p>SEGUNDA EDIÇÃO</p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p>—</p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p>COIMBRA<br> +<small>LIVRARIA CENTRAL DE J. D. PIRES—EDITOR</small><br> +1877</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;font-size: 1.5em;">COSTUMES MADRILENOS</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center;"> +<p style="font-size: 2em;">COSTUMES MADRILENOS</p> + +<p style="font-size: 1.5em;">NOTAS DE UM VIAJANTE</p> + +<p>POR</p> + +<p style="font-size: 1.4em;">S. <small>DE</small> M<small>AGALHÃES</small> L<small>IMA</small></p> + +<p><small>SOCIO HONORARIO D'EL FOMENTO DE LAS ARTES DE MADRID</small></p> +<p> </p> + +<p>2.ª EDIÇÃO</p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p>—</p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p>COIMBRA<br> +LIVRARIA CENTRAL<br> +<small>DE</small><br> +JOSÉ DIOGO PIRES—EDITOR<br> +1877</p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="text-align:center;"><small>IMPRENSA ACADEMICA</small></p> + +<p> </p> + +<div style="margin: 10%;"> +<p style="text-align:center;">AO</p> + +<p style="text-align:center;">SENHOR.</p> + +<p style="text-align:center; font-size: 1.5em;">D. B<small>ENIGNO</small> J<small>OAQUIM</small> M<small>ARTINEZ</small></p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="margin-left: 60%;">Off.</p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="text-align:right;">O auctor</p> +</div> + +<p> </p> + +<p><span class="pn">{7}</span></p> + +<h1><a name="SECTION0010"></a>COSTUMES MADRILENOS</h1> + +<div id="corpo"> +<h2><a name="SECTION0011">I<br><br> +CARACTERES E COMPARAÇÕES</a></h2> + +<p>Leitor amigo, se queres possuir a chave da vida, se queres ter o segredo da +existencia, aprende a viajar.</p> + +<p>A viagem tem, como todas as cousas d'este mundo, a sua pequena philosophia e +as suas theorias, mais ou menos complicadas, e os seus progressos mais ou menos +notaveis.</p> + +<p>Viajar não é uma variedade de sensações apenas; mas ainda mais, e +principalmente,<span class="pn">{8}</span> uma fonte inexgotavel de boa e +salutar experiencia, um manancial perenne de vividos enthusiasmos por tudo +quanto é bello, novo e original, e uma origem fecunda de analyse, de observação +e de critica, que de ordinario raro é de encontrar-se no paiz onde nascemos, ou +na cidade onde residimos.</p> + +<p>E assim é realmente que, se tu quizeres admirar a seriedade nos costumes, a +robustez no corpo, a soberania na guerra, o metaphysico na sciencia, o imperio +na familia, a fidelidade nos affectos, e a superstição na religião—tu irás á +Allemanha.</p> + +<p>Se pelo contrario, tu desejares vêr a frouxidão no corpo, o indifferentismo +em politica, a lassidão nos costumes, a perversão nos principios, a fraqueza na +sciencia, o theologismo na religião, o lyrismo na vida—tu, sem mais trabalhos +nem violencias, ficarás em Portugal.</p> + +<p>Mas se tu, embora não te repugne a debilidade physica e a pusillanimidade de +espirito, quizeres o ideal da arte e a architectura da sciencia—então +procurarás Italia.<span class="pn">{9}</span></p> + +<p>Por outro lado ainda, se te impressiona o ruido das palavras, a viveza do +olhar, a facilidade dos affectos, a modestia do trajar, a generosidade do +coração, o esplendor do <em>ménage</em>—parte para a Hespanha.</p> + +<p>Com uma mulher hespanhola vive-se bem um mez, num sensualismo delicioso, +numa voluptuosidade tepida e numa ardencia de amores que nem sempre é vulgar +nas outras mulheres do mundo.</p> + +<p>Com uma mulher franceza, porém, o espirito não se cança nunca, nem o coração +chega jámais a desesperar—e se um seculo vivessemos, um seculo tambem +consagrariamos a essas fadas, mais demonios do que anjos, e quasi sempre mais +amantes do que esposas.</p> + +<p>No francez dá-se, a par da elevação da idéa, a agilidade elegante do corpo, +a simplicidade maravilhosa do trajar, a delicadeza sem igual da cosinha, a +intrepidez risonha dos factos e das circumstancias, a attenção magnetica das +palavras, a originalidade dos costumes.</p> + +<p>Com elles contrastam os inglezes, os<span class="pn">{10}</span> quaes, não +obstante serem mudaveis em religião, são, todavia, prudentes nos seus negocios, +zelosos na sua vida intima, affaveis nas maneiras, orgulhosos no trajo e +astuciosos na guerra.</p> + +<p>Subordinados ás circumstancias, ao tempo e aos logares—os povos são um +resultado do meio em que se acham mergulhados.</p> + +<p>O que promoveu a questão do Oriente não foi verdadeiramente a ambição dos +monarchas, mas antes o imperio que a civilisação moderna tem direito de exercer +sobre tudo e sobre todos.</p> + +<p>E por isso a Turquia, como vestigio de barbarismo que ainda é hoje na +Europa, foi de ha muito condemnada á morte e ao ostracismo.</p> + +<p>O caracter turco era facilmente domavel, mas por natureza fanatico, +supersticioso, intolerante—tal qual como as verdades do Alcorão.</p> + +<p>Por isso, leitor, embora tu sintas grandes saudades do harem e das houris, +resigna-te, e deixa de combater pelos turcos.<span class="pn">{11}</span></p> + +<p>Que elles e os seus sultões se dignem subir ao setimo céu de Mafoma, e que +nos deixem.</p> + +<p>Mas, francamente, se tu queres viver pela natureza, se soffres dos pulmões, +se és pantheista, se gostas das borboletas e das flores, se te enthusiasmas com +os limpidos horisontes das montanhas e dos rios, se és socegado, melancholico, +um tanto nostalgico e triste, escolhe a peninsula, aluga uma casa todos os +annos no Bussaco, percorre a Andaluzia na primavera, visita as praias, e +deixa-te ficar por cá.</p> + +<p>Se, porém, não temes os frios do norte, se és audaz, intrepido, valente, +corajoso, se amas a sciencia e a arte, se não te canças em subir a uma montanha +e em correr num <em>trenó</em> num dia gelado, e por um rio coberto de neve, se +gostas da vida, tal como ella deve ser—valorosa, hygienica, e grande, então +vai á Suissa, á Allemanha, á Italia, e até mesmo á Russia, se tanto fôr da tua +vontade.</p> + +<p>Convém que faças uma viagem todos os annos na primavera. Para isso basta +apenas, que no teu viver domestico, no<span class="pn">{12}</span> teu gastar +quotidiano, tu adquiras uma sciencia tão difficil, como rara de conservar-se—a +sciencia da economia.</p> + +<p>No fim de oito ou dez annos, tu sentir-te-has forte, cheio de critica, +vigoroso na discussão, capaz de entrar em todos os assumptos, que por acaso se +ventilarem, e susceptivel de comparar, entre si, não só todos os paizes do +mundo, mas ainda os homens e as sociedades.</p> + +<p>E assim tu terás o dom do historiador, a evidencia dos factos, a observação +da natureza e o estudo das cousas em geral.</p> + +<p>Eu não quero que tu te faças misanthropo, doente, regenerador. Não! Porque +sou portuguez, e desejo que tu sejas alegre, feliz, espirituoso, bom amigo, +excellente marido e cidadão prestante.</p> + +<p>E para isso, para afugentar terrores e negrumes, para que tenhas saude, vida +e amor—é forçoso que tu viages, que deixes a tua aldeia e as tuas arvores, que +arranjes a tua mala, que te despeças dos teus conhecidos e que partas.</p> + +<p>Nada de esperas. Quanto mais cedo melhor. O mundo é para quem caminha;<span +class="pn">{13}</span> e a viagem é como a sciencia, tambem um progresso.</p> + +<p>Aqui tens o teu casaco. Cabeça alta e adeus á patria querida.</p> + +<p>Cocheiro—açoute nesses cavallos!</p> + +<p>Para deante. Para deante é que é o caminho.<span class="pn">{14}<br>{15}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION0012">II<br><br> +NÓS E ELLES</a></h2> + +<p>Não ha duvida que nós não somos elles, nem elles são nós.</p> + +<p>Não obstante, elles querem ser nós, mas nós é que não queremos ser elles.</p> + +<p>Coisas d'este mundo!</p> + +<p>Nós, não nos fartamos de elogiar Madrid; e elles não se cançam nunca de +exaltar Lisboa.</p> + +<p><em>Mutatis mutandis</em>, ninguem está bem senão onde não está.</p> + +<p>A verdade, porém, é que nem a patria do sr. Fontes é má, nem as terras do +sr. Canovas são detestaveis.<span class="pn">{16}</span></p> + +<p>Lisboa tem, como Madrid, as suas pequenas corrupções, os seus ministros +ociosos, a sua realeza inutil, o seu credito abastardado, a sua administração +vacillante, os seus empregados preguiçosos, a sua fama em decadencia e o seu +futuro compromettido.</p> + +<p>Tudo isto temos nós, e tudo isto têm elles—mercê de Deus.</p> + +<p>Por cá, como por lá, multiplicam-se os bailes, rangem as sêdas, reluzem as +<em>toilettes</em>, scintillam os chrystaes, refervem os vinhos nas suas taças +preciosas, adelgaça-se o corpo, polvilham-se os cabellos, tingem-se as faces, +alarga-se a consciencia, confundem-se os factos, adora-se a elegancia, e +todos—ó céus! sem mesmo o presentirem—caminham para o bom tom, impellidos +pela magreza, que os devora, arrastados pela falta de hygiene e seduzidos pela +eterna sereia das humanas velleidades.</p> + +<p>D'onde se conclue que cá e lá más fadas ha.</p> + +<p>Mas Lisboa, com franqueza, não é de todo má: as suas ruas estão povoadas +de<span class="pn">{17}</span> bellos e formosissimos edificios; os seus +jantares, embora sem dinheiro, são abundantes; os seus hospedes vestem-se bem, +não obstante faltar-lhes para isso o corpo e o sangue; as suas filhas de +aguarella sabem calçar uma bota á <em>Benoiton</em>; Aline, a sua modista, tem +algum gosto; Stellpflug e Manuel Lourenço, os seus sapateiros predilectos, +contentam os seus freguezes; Barral tem bons remedios; o café, em geral, não é +mau; os charutos satisfazem; os assassinos não tem sido demais; quem quizer +tambem póde deixar de se suicidar; emfim, ella não é despiciente, +acreditem:—unicamente o que lhe falta é o espirito, isto é, o <em>tic</em> +nervoso, que dá o bom senso; o enthusiasmo, que eleva as gerações; o fanatismo +scientifico, que torna os homens celebres e audazes; o que lhe falta +verdadeiramente é isso—essa primeira parte da humanidade a que Shakespeare +chamaria, talvez, o <em>to be</em> da humana existencia—o caracter.</p> + +<p>Emile Péreire, no tempo em que escrevia no <em>Nacional</em>, sob as ordens +de Armand Carrel, tão pobre era que longe estava<span class="pn">{18}</span> de +imaginar o futuro de riqueza que o esperava.</p> + +<p>Foi, recordando-se d'esse passado de miseria, que elle pronunciou aquella +esplendida phrase, de que Charlet fez uma caricatura:</p> + +<p>—Aos trinta annos tinha dentes e não tinha pão; aos sessenta tenho pão e +não tenho dentes.</p> + +<p>Pois assim está a nossa capital—quando tinha caracter e dinheiro +faltava-lhe o espirito e o desenvolvimento intellectual; agora que naturalmente +está mais desinvolvida e mais apta para as concepções do mundo moderno, +escasseia-lhe o caracter e a franqueza.</p> + +<p>Façamos como Paulo Vernet, o pintor realista—abramos a janella, e olhemos +serenamente o que se passa.</p> + +<p>Em Madrid vive-se no café e pelo café. Quando se quer procurar qualquer +pessoa importante, não se pergunta nunca pela casa onde reside, mas sim pelo +café que costuma frequentar. E ahi está tambem o motivo, porque, na capital da +Hespanha, os cafés, que quasi se podem dizer<span class="pn">{19}</span> +pequenas aldeias pela extensão e pelo comprimento, estão cheios, perfeitamente +cheios, durante a noite e durante o dia. É ahi que se faz a politica, e é ahi +tambem que se preparam os futuros acontecimentos do paiz.</p> + +<p>Dizia madame de Grirardin que um dos primeiros deveres da mulher era ser +bonita. Pois o hespanhol tem para si, que um dos primeiros deveres do homem, em +geral, é ser fallador, ruidoso, amante das revoltas e sinceramente admirador do +extraordinario.</p> + +<p>Lembro-me que, numa noite, no theatro da zarzuella, um meu companheiro de +viagem havia sido apresentado a uma distincta familia de Madrid, com quem +travou estreitas relações de amizade e de quem recebeu os mais inequivocos +testemunhos de affecto.</p> + +<p>Eram pae, mãe e duas filhas.</p> + +<p>No dia immediato ao da apresentação um grande acontecimento echoou na +cidade. Dizia-se que uma senhora havia sido ferida na cabeça por um tiro de +rewolver, desfechado á queima roupa por seu<span class="pn">{20}</span> marido, +o qual, julgando-a morta, se suicidára logo em seguida.</p> + +<p>Este facto, importante em qualquer outro paiz, ali mal despertou a +curiosidade publica. Quasi que passou desapercebido.</p> + +<p>Averiguado, porém, o caso, soube-se effectivamente que a heroina era nem +mais nem menos do que a tal senhora, que, na vespera, pela sua attenciosa +bizarria confundira o meu amigo, com attenções e delicadezas. Ella exigira do +esposo dinheiros avultados, que elle asseverava abertamente não ter em casa, +naquella occasião. Então a mulher, enfurecida, gritou, fingiu-se morta, até que +emfim se atirou ao marido, o qual, não constando que fosse santo, se atirou por +seu turno a ella.</p> + +<p>E assim, travados de razões, armaram aquella tragedia, digno exemplo de duas +filhas menores e edificante monumento da civilisação de um povo.</p> + +<p>Madrid tem, sobretudo, um vicio de origem—a falta de agua. O caracter +hespanhol, tão contradictorio em si e nas suas manifestações, é todavia secco, +aspero<span class="pn">{21}</span> ás vezes, e irreflectido quasi sempre.</p> + +<p>A escassez de agua, além de escurecer toda a paisagem da Estremadura, faz +ainda, porém, com que as flores sejam raras na cidade, e de todo o ponto +destituidas de gosto.</p> + +<p>Ora todos sabem que a flôr entra hoje na vida do <em>ménage</em> como uma +necessidade, insubstituivel. Muitas senhoras têm nella uma companheira e uma +amiga. A aridez da vida domestica é muitas vezes compensada pela existencia de +um jardim, ao qual a dona da casa consagra todos os seus ocios e em virtude do +qual ella cura todos os seus tedios.</p> + +<p>A mulher hespanhola, como não tem flores nem jardim, procura naturalmente os +cafés e o mundo exterior, de que aliás precisa para conviver e para se +entreter; cousa que, em nosso juizo, ninguem, em verdade, lhe poderá levar a +mal.</p> + +<p>E, no meio de tudo isto, não ha povo que sinceramente comprehenda melhor as +leis da hospitalidade e que melhor e<span class="pn">{22}</span> mais +bizarramente saiba attrahir a si os estrangeiros.</p> + +<p>Mas, embora elles queiram ser nós,—nós é que, em boa logica, não podemos +ser elles.</p> + +<p>Elles, por exemplo, empregam o adjectivo <em>larga</em>—<em>esta calle es +muy larga</em>—para significar o comprimento, ao passo que nós o empregamos +para exprimir a largura.</p> + +<p>Antithese completa!</p> + +<p>Oh! não—decididamente nós não podemos ser elles..</p> + +<p>Mas, <em>se ellas</em> quizessem ser nós!...</p> + +<p>Se nós fossemos <em>ellas</em>!...<span class="pn">{23}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION0013">III<br><br> +A CIDADE</a></h2> + +<p>No centro de uma extensa planicie, acompanhando a margem esquerda do +Manzanares e alteada sobre differentes collinas de arêa de pequena elevação, +ergue-se a cidade de Madrid, a formosissima <em>villa coronada</em>, prodigiosa +de encantos, opulenta de prazeres e esplendida de vida.</p> + +<p>Data do reinado de Philippe II, em 1560, a mudança da capital do reino +hespanhol de Toledo para Madrid.</p> + +<p>Perde-se na bruma dos tempos a origem etymologica d'esta cidade. No +entretanto<span class="pn">{24}</span> julga um illustrado escriptor que a +verdadeira derivação de Madrid é <em>Magerit</em>, palavra arabe, que na nossa +lingua significa <em>corrente de agua</em>.</p> + +<p>Muitas foram, e successivas, as invasões por que passou a cidade. Não vem +para aqui, por deslocada, uma resenha historica de todos esses tempos de +agitação, mais ou menos intimamente ligados com as coisas do nosso Portugal.</p> + +<p>Philippe IV foi para a Hespanha o mesmo que Luiz XIV foi para a França. No +seu reinado brilharam as artes, as sciencias e a litteratura. Quiz, porém, a +fatalidade, como que para realçar o dominio dos contrastes do mundo, que o seu +herdeiro Carlos II fosse um rei pusillanime, fraco, fomentador da intriga e +iniciador d'uma crise, que cessou com a assolação d'uma tremendissima guerra +civil no tempo de Filippe V.</p> + +<p>Madrid soffreu immensamente nestas lutas intestinas. Sem embargo, os +sacrificios compensaram as perdas. E quando depois Carlos III subio ao throno +de Hespanha, a um sorriso do monarcha privilegiado<span class="pn">{25}</span> +desabroxou a paz, e as reformas brotaram por completo naquelle paiz.</p> + +<p>Este estado foi, porém, de curta duração. Napoleão I, senhor da França, põe +a Hespanha novamente em tumulto e deixa-a entregue á fome e ao saque das hordas +estrangeiras.</p> + +<p>Expulsos os francezes de Madrid, começou então a luta entre realistas e +liberaes, os quaes depois se subdividiram ainda em progressistas e moderados, +dando assim logar a uma infinidade de fracções, que só deviam abortar na +mallograda revolução de 1854.</p> + +<p>Foi d'aqui que se originaram os partidos unionista, o democrata e mais tarde +o neo-catholico; e foi d'aqui tambem que nasceu a Hespanha revolucionaria +moderna, de todos conhecida, desde 1868 até nós.</p> + +<p> </p> + +<p class="estrelas">*<br> +* *</p> + +<p> </p> + +<p>Madrid é, pois, uma cidade pequena, não talvez muito maior que o Porto, com +um clima excessivamente regular, comportando na sua área 360:000 +habitantes,<span class="pn">{26}</span> cuja indole póde naturalmente e com o +maximo rigor ser observada á luz do gaz e durante a noite em qualquer dos +principaes cafés.</p> + +<p>Conta-se que um alcaide hespanhol se compromettera certo dia a fazer tres +discursos numa dada povoação.</p> + +<p>Chegou o primeiro dia, e perguntou á turba:</p> + +<p>—Entenderão o que lhes vou dizer?</p> + +<p>Ninguem respondeu.</p> + +<p>—Pois se não têm de entender-me é escusado pregar no deserto.</p> + +<p>No segundo dia voltou, e repetiu a mesma pergunta.</p> + +<p>—Sim! responderam todos, já zangados com a occorrencia do dia anterior e +desejosos por saber o que tão illustre orador d'elles queria.</p> + +<p>—Nesse caso, se comprehendem, são inuteis as explicações.</p> + +<p>Chegou, porém, o dia da terceira e ultima prelecção, e o povo concordou em +responder indistinctamente.</p> + +<p>—Serão capazes de perceber qual é o fim do meu discurso?<span +class="pn">{27}</span></p> + +<p>Sim! Não! conclamou a turba em dois córos.</p> + +<p>—Então aquelle que percebeu que explique ao que não entendeu.</p> + +<p>E assim é, na verdade, o caracter hespanhol. Todos se entendem, e ninguem se +entende. De modo que, no seio de tão estranha confusão, a vida domestica de +Madrid, toda anarchica, toda exterior, toda ficticia, vai naturalmente +reflectir-se nas coisas publicas—no commercio, na industria, na arte, na +litteratura, na politica—pondo a cidade em continuo alvoroço, e deixando o +viajante profundamente assombrado de tão fortes e repetidas contradicções.</p> + +<p>E tudo isto, o que mais é ainda para estranhar, num paiz onde os grupos +dissidentes são quasi tantos como os talentos politicos, e onde o caracter de +cada individuo varia e se modifica em justa proporção com a sua leviandade de +espirito e seguindo naturalmente as differentes oscillações da opinião publica, +sempre precipitada e louca.</p> + +<p>Obedecendo á influencia do meio que<span class="pn">{28}</span> os domina, +os estadistas hespanhoes são mais theoricos do que practicos, mais litteratos do +que politicos, e, sem duvida alguma, mais poetas do que observadores.</p> + +<p>D'aqui a impossibilidade de uma união séria, progressista e trabalhadora. As +subdivisões prolongam-se até ao infinito. Antes de 30 de dezembro de 1875, os +moderados formavam um unico partido. Agora, porém, avultam os moderados +<em>transigentes</em>, tendo por orgão o jornal <em>El Tiempo</em>: os +moderados <em>intransigentes</em> com <em>La España</em> e os moderados de +<em>estola</em> com <em>El Siglo Futuro</em>.</p> + +<p>O mesmo com o partido constitucional, que hoje se acha subdividido em +constitucional do sr. Sagasta, representado na imprensa pela <em>Iberia</em>; +em constitucional dissidente do sr. Santa Cruz, representado pela +<em>Patria</em> e em constitucional do sr. Ulloa, representado outr'ora pelo +periodico <em>El Constitucional</em>, que já não se publica.</p> + +<p>As celebridades não escasseiam. Antes, pelo contrario: ao passo que em +França<span class="pn">{29}</span> quasi todos os homens illustrados são +escriptores, em Hespanha quasi todos são oradores.</p> + +<p>Abstrahindo mesmo de Emilio Castellar, o luminosissimo vulto do seculo XIX, +que só em Gambetta encontraria um rival condigno, e porventura, como politico, +mais pratico, mais accentuadamente positivo do que elle; abstrahindo do +sympathico materialista Figueras e do advogado Martos, poucos ha, naquella +adoravel nacionalidade, que não possuam o fogo sagrado dos sublimes +enthusiasmos patrioticos e a brilhantissima scentelha dos grandes espiritos +revolucionarios.</p> + +<p>Numa palavra, a Hespanha é o paiz solemne das occasiões, o paiz do <em>à +propos</em>, o paiz do momento.</p> + +<p>Os generaes Prim e O'Donnel andam ainda hoje apregoados pela fama publica. +Pois bem. Muitos annos não se haviam passado depois do seu regresso da Africa, +e concluida a guerra de Marrocos, que Prim, collocado numa das janellas do +<em>Hotel de Paris</em>, recebera a mais enthusiastica ovação que humanamente +era licito dispensar<span class="pn">{30}</span> a um idolo. Uma noite +regressava o illustre general do congresso, quando, subito, uma detonação +acordou a cidade. Correram todos. Duas balas haviam-lhe destruido a emoplata, o +ante-braço e a mão direita. Estava morto o heroe de tantas victorias e o deus +de tamanhos enthusiasmos. A policia não apparecera. Ainda presentemente nas +cadeias de Madrid se conservam presos, por suspeitos, seis homens. O resto, +sabem-n'o os seus inimigos, d'elle.</p> + +<p>Madrid, a cidade <em>imperial</em> e <em>coronada</em>, a <em>mui nobre, mui +leal e mui heroica</em> cidade, como em 1814 lhe chamou Fernando VII, tem, +porém, ainda uma outra face, que realmente não deve esquecer ao historiador; e +essa face, esse lado immensamente grande e extraordinario, que a Cervantes +valeu uma reputação e uma immortalidade, é a anecdota, o delirio da bagatella e +do ridiculo.</p> + +<p>Sim! a Hespanha, como bandoleira que é, tem uma lenda—<em>a lenda do +bandido</em>.</p> + +<p>Estudando essa lenda, melhor e mais facilmente poderemos fazer uma idéa +do<span class="pn">{31}</span> que é e do que foi a Hespanha nos seus +movimentos, nas suas idéas, na sua politica, no seu commercio, na sua +industria, no seu progresso e na sua civilisação.</p> + +<p>Voltemos, portanto, a pagina.<span class="pn">{32}<br>{33}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION0014">IV<br><br> +A LENDA DO BANDIDO</a></h2> + +<p>O bandido!... Mas quem o não conhece? Elle, o maganão, o seductor, o +adultero, o perverso, elle tem vivido sempre e sempre impune, sempre ironico, +sempre chasqueador, sempre rapaz, sempre diabo. Com mil granadas! Que sublime +ratão...</p> + +<p>Houve quem lhe chamasse <em>espirito das trevas</em>; houve tambem quem o +appellidasse com o epitheto de carne, de Satan, de magico, de serpente, de +lagarto e não sei tambem se de <em>D. Juan</em>, se de Mephistopheles, se de +Falstaff.</p> + +<p>E é que elle realmente tem esse condão.<span class="pn">{34}</span></p> + +<p>Todos os dias se renova, renascendo das proprias cinzas, como a phenix +mythologica, mudando de pelle como qualquer simples giboia, usando barba +postiça, como um grotesco que é, e dando-se os ares frescos e traiçoeiros de +velha rapoza, já useira e veseira nos altos assumptos de quem tem o olho em +Deus e a unha no proximo.</p> + +<p>Não! Elle não é simplesmente o palerma namorador, que, á meia noite, de +guitarra em punho, vai desferir uns estupidos landuns, mal tocados, debaixo da +janella da sua pallida amante; tambem não é apenas o ebrio impenitente, que, +pela madrugada, carregado de vinho e de tosse, corre as ruas num tropego +cavallo de aluguer, atropellando quem passa e vomitando injurias +<em>aguardentadas</em> sobre a honestidade de quem trabalha. Porque, sendo tudo +isto, o nosso typo tem, todavia, uma feição proeminente, feição grave, +enormissima, que ninguem jámais lhe poderá disputar. Oh! sim, só elle é o +bandido por excellencia, bandido de casaca e luva branca, mas bandido de alma +larga<span class="pn">{35}</span> e coração esperto, emquanto a mim o peior de +todos os bandidos.</p> + +<p>Cautella, meu fidalgo, que nós já te conhecemos. Tu, que não duvidaste +vestir a farda de imperador; tu, que tens levado as insignias da realeza até á +crapula dos bordeis; tu, que enlameaste o teu brazão ao contacto effeminado da +fadistagem de navalha e faixa encarnada; tu, meu politico, tu, meu banqueiro, +tu, meu villão, é que verdadeiramente és o rei do mundo, porque te falta a +vergonha e a decencia.</p> + +<p>Eu queria fazer de ti um Sancho Pança, mas Sancho é gordo e póde cair na +embuscada; não, não serás Sancho, nem D. Quixote pela razão opposta; mas o que +tu podes ser realmente é um Claret—um Claret sem corôa, de olhar mellifluo, +doce no dizer, suave na convivencia e insinuante nos modos.</p> + +<p>Que o jesuitismo esteja descançado emquanto a nós. Unicamente nós pedimos +licença a suas reverendissimas para pegar num dos seus mais respeitaveis +membros, para o virar, para o revirar, para<span class="pn">{36}</span> lhe dar +umas palmadinhas no ventre; e feito isto, para o despedir com um piparote—tal +qual, como se faz a um boneco de papel. E nada mais. Depois nem sequer +pensaremos em similhante entidade. Tentaremos dormir sobre o caso, fazendo +cama—e que boa cama!—de tão beatificas proezas.</p> + +<p>Agora o touro que saia: bandarilhas na mão e firmeza no pulso.</p> + +<p>Era uma vez um paiz, rico, poderoso, rodeado de magnificas paisagens, +realçado pela formosura de mulheres peregrinas, e dominado pela ambição de +politicos tresloucados. Um dia, porém, o sol, que era ardente, trouxe á cidade +febres incuraveis. Adoeceram, então, os estadistas; e no delirio da doença +cousas espantosas e horripilantes se começaram a ouvir de suas bôccas +evangelicas. A febre tomou-os dos pés á cabeça; e então—ó céus!—doidos, +perdidos, alucinados, elles, os doces, elles, os virtuosos, elles, os santos, +que precisavam de saude e de vida, porque estavam mal, inventaram uma cousa +muito melhor do que a <em>agua circassiana</em>, muito melhor<span +class="pn">{37}</span> ainda do que a <em>Revalescière du Barry</em>... elles +deliberaram segurar as vidas em perigo.</p> + +<p>E a população mecheu-se activa, energica, em favor de tão alta +instituição.</p> + +<p>Estava salva a patria.</p> + +<p>Contra o abysmo, que a perseguia, contra o diluvio, que a ameaçava, tinha o +governo tambem inventado a sua arca santa—as companhias de seguro de vida.</p> + +<p>E sem embargo, os typhos, as bexigas, os sarampos, as erysipellas não haviam +desapparecido da terra. O paiz continuava a soffrer as suas doenças, a +alimentar rivalidades no seu seio e a prestar-se como sempre ás mil +intriguinhas da côrte.</p> + +<p>Vai então o bandido amigo, irrequieto e nervoso, começa de farejar novas +vias de exploração.</p> + +<p>—Nada! dizia elle. Segurar a vida é pouco; é preciso tambem segurar o +capital. Mãos á obra!</p> + +<p>E formaram-se os bancos e as casas bancarias.</p> + +<p>Mas bandido—manhoso tinha já propensões para abusar. A policia ia-lhe +sempre<span class="pn">{38}</span> na pista. Todavia, elle, o heroe, elle não +descansava nunca.</p> + +<p>Ah! bandido! ah! brejeiro!</p> + +<p>Ainda era pouco. Claret tinha a ambição louca e avara de um Shylock +hespanhol. Queria ser rico, queria jogar, queria amar, queria divertir-se. E +para tudo isso era preciso inventar, ser original, ter idéas.</p> + +<p>Crearam-se os bancos; o credito, porém ficou o mesmo, isto é, um pouco peior +do que estava. O paiz não melhorava a sua riqueza publica. Então o governo +pensou comsigo mesmo e disse:—Maldito bandido!—sempre desassocegado e +criança: por Deus, cautella! nem mais um passo...</p> + +<p>E bandido—esperto abriu o olho e principiou a ver, ao longe uma cousa que +lhe fallava em inscripções e em fundos publicos. Olé! Olé! Cá está a incognita! +A elles, aos fundos publicos!</p> + +<p>Ao que o sr. Salaverria sorriu ironicamente, como querendo dizer:—Espera +maroto, que te escacho!</p> + +<p>E assim foi.</p> + +<p>Bandido foi já derrotado na politica, no commercio, na industria, na +economia,<span class="pn">{39}</span> nas artes e nas sciencias. Mas apesar de +tudo elle não descrê. É forte, tem bom pulso, jámais teve uma dôr de dentes e +nunca cortou os callos, porque tambem nunca os teve. Abençoado patife! Creado +nas montanhas e industriado nas altas tricas da politica, elle só espera +momento opportuno para tornar a apparecer em campo.</p> + +<p>E depois hão de vel-o. Pois julgavam que elle era sujeito para se curvar a +qualquer Salaverria? Enganaram-se.</p> + +<p>Nem a Salaverria, nem á honestidade. Unicamente elle tem em vista—alcançar +os seus fins sejam quaes forem os meios.</p> + +<p>E assim é a Hespanha na sua evolução social.</p> + +<p><em>Ah! Machiavel! ah! bandido!</em><span class="pn">{40}<br>{41}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION0015">V<br><br> +EDIFICIOS PUBLICOS E OUTRAS CURIOSIDADES HISTORICAS</a></h2> + +<p>Dizia um celebre escriptor allemão que a vida era uma viagem em caminho de +ferro: o casamento um choque de trens; o somno a passagem de um tunel; um +negocio a passagem de uma ponte; o destino um machinista que nos leva +silencioso ao termo da viagem.</p> + +<p>Nestas circumstancias, e a ser verdade o que nos diz tão excentrico +pensador, parece, de facto, que ao homem nada mais resta neste mundo do que uma +vida de sensações rapidas e imprudentes, sem um<span class="pn">{42}</span> +unico pensamento, que o preoccupe, sem repouso, sem ligações, sem familia, sem +crenças, sem humanidade.</p> + +<p>E apesar de tudo, e sem embargo do auctor citado, o universo apresenta-nos +um aspecto perfeitamente em contrario do que acima transcrevemos.</p> + +<p>Por toda a parte a fixidez se nos antólha como elemento essencialissimo na +vida dos povos. Na evolução das sociedades a primeira cousa que o homem teve em +vista foi certamente fixar-se, construir a cabana onde tinha de pernoitar e +estabelecer definitivamente a séde dos seus trabalhos e operações.</p> + +<p>Imagine-se o leitor, em Madrid, no meio de uma praça irregular, que se chama +<em>Puerta del Sol</em>. É o coração da cidade. Conta-se que em 1520 houvera +alli um castello, sobre a porta do qual se encontrava uma pintura representando +o sol. Desde então para cá póde dizer-se que é aquelle o logar destinado, aos +despreoccupados do mundo, aos <em>flaneurs</em> do bom tom e á fina +<em>èlite</em> dos salões madrilenos.</p> + +<p>Que contraste! Na propria sociedade<span class="pn">{43}</span> hespanhola, +que mais pensa na vida externa do que na vida interna, pacifica, de casa, nessa +mesma nos foi dado admirar a impretrerivel tendencia da natureza humana para o +viver confortavel, commodo, alegre e quasi poderiamos tambem dizer luxuoso.</p> + +<p>Poucas familias ha, em Madrid, que não tenham a sua casa, excellentemente +mobilada, e que, pelo menos, não possuam o modesto segredo do +<em>savoir-vivre</em>, isto é, o segredo da conservação e da hygiene +individual.</p> + +<p>Sem sahir da <em>Puerta del sol</em>, o viajante poderá, se quizer, fazer um +telegramma aos seus amigos, dirigindo-se áquelle magnifico predio onde +actualmente se acha o ministerio da <em>governação</em>, e poderá, tambem, se +assim lhe aprouver, tomar uma chavena de chocolate no magnifico <em>café +Imperial</em> ou subir mesmo ao primeiro andar d'esse mesmo edificio, e ordenar +que lhe reservem um quarto no <em>Hotel de Paris</em>.</p> + +<p>Sahindo da <em>Puerta del sol</em> encontramos duas ruas quasi parallelas—a +rua <em>Alcalá</em><span class="pn">{44}</span> e a <em>Carrera S. +Jeronymo</em>. Na primeira d'estas ruas eleva-se um soberbo arco triumphal, +erecto no reinado de Carlos III, a fim de perpetuar a memoria da sua vinda á +côrte de Hespanha. Consta de cinco entradas, sendo tres eguaes, no meio, e em +fórma de arco, e uma quadrada em cada extremo. A <em>Puerta de Alcalá</em>, a +primeira de Madrid, conta 70 pés de altura, com a seguinte inscripção:</p> + +<p style="text-align:center;"><br> +REGE CAROLO III<br> +ANNO MDCCLXXVIII. </p> + +<p> </p> + +<p>Além d'esta ha ainda a <em>Puerta de Toledo</em>, situada no fim da rua do +mesmo nome, consagrada, no anno de 1827, a Fernando VII, o +<em>desejado</em>.</p> + +<p>E, visto estarmos fallando nas maravilhas da arte hespanhola, bom será que +não esqueçamos as duas principaes praças da cidade—<em>la plaza de +Oriente</em> e <em>la plaza Mayor</em>.</p> + +<p>A primeira tem fórma circular, e é circumdada exteriormente por um +formosissimo passeio, onde estão collocadas quarenta<span +class="pn">{45}</span> e quatro magnificas estatuas, destinadas a representar +os monarchas hespanhoes.</p> + +<p>No centro da praça ergue-se a estatua de Filippe IV, symbolisando o seu +disvelo pela arte nacional, e dando-nos em allegoria o solemnissimo momento em +que tão generoso monarcha se dignava condecorar o celebre pintor Velasques com +a cruz de Sant'Iago.</p> + +<p>O theatro <em>real</em> faz tambem com que este logar seja um dos que melhor +perspectiva apresentam na cidade.</p> + +<p>A segunda—a <em>plaza Mayor</em>—foi construida em 1619, sob a direcção do +architecto D. Juam Gomes de Mora. É o logar destinado ás festas da côrte +hespanhola. Antigamente a fidalguia armada costumava, em actos solemnes, +esperar ali a sahida dos touros, que eram picados com a maxima destreza e +pericia por parte dos amadores da arte de Pepe-Híllo. Já por duas vezes o +incendio tentou destruir tão formoso recinto. No seu centro está collocada a +estatua equestre de Philippe III, obra começada pelo architecto<span +class="pn">{46}</span> Juan Bologna e terminada por Pedro Tacca.</p> + +<p>Presentemente a <em>plaza Mayor</em> acha-se reduzida ás condições de um +deliciosissimo jardim e pouco mais.</p> + +<p>Passemos, porém, ao <em>Palacio Real</em>. É uma das obras de arte, que mais +particular attenção merece da parte dos entendedores.</p> + +<p>Foi construido este palacio em meados do seculo passado. Situado no extremo +occidental da povoação, precisamente no logar onde outr'ora se erguia o famoso +alcaçar de Madrid, a sua origem remonta, segundo uns, ao reinado de Affonso VI, +e segundo outros ao reinado de Pedro I. No cimo da escada, que é de marmore, +existe uma estatua de Carlos III, o qual, parece, concorrêra bastante para a +melhoria d'aquelle edificio.</p> + +<p>Começando pela fachada do Oriente, a pintura, que se vê na primeira sala, +representa o Tempo descobrindo a Verdade; na segunda encontra-se Apollo +premiando o talento; na terceira a queda dos gigantes, que uma vez tiveram a +ousadia<span class="pn">{47}</span> de attentar contra os céus; na quinta a +apotheose de Hercules; e na sexta, septima, oitava e nona a representação da +philosophia, da pintura, da musica e da poesia.</p> + +<p>Além do que aqui deixamos mencionado, muito mais, porém, poderiamos +accrescentar. O <em>Palacio real</em> é uma das maravilhas da capital de +Hespanha, já pela sua riqueza, já pelos seus valiosissimos quadros, já, emfim, +pela sua vasta opulencia.</p> + +<p>Não pára, comtudo, aqui a nossa admiração. Cumpre egualmente não esquecer +outras maravilhas da cidade, taes como o <em>Palacio do Senado</em>, onde pela +primeira vez se reuniram as côrtes hespanholas em 1820: o <em>palacio do +congresso</em>, edificio muito moderno, principiado a construir em 1834, os +<em>ministerios publicos</em>, as <em>reaes cavallariças</em> situadas ao norte +do palacio, e ainda como reliquias de architectura dos seculos XVI, XVII e +XVIII até nós, os palacios particulares de <em>Medinacellí</em>, de +<em>Liria</em>, do <em>duque de Abrantes</em>, do <em>marquez de +Salamanca</em>, etc.<span class="pn">{48}</span></p> + +<p>E ainda, se o leitor fôr poeta e se interessar pelos grandes homens, não +deixarei de recommendar-lhe a visita ás casas de Cervantes, de Lope de Vega, de +Torrijós, de Cisneros e da beata Maria Anna.</p> + +<p>A casa de Cervantes, edificada na rua do mesmo nome, tem, por cima do portal +da entrada, em marmore branco, a seguinte inscripção:</p> + +<p> </p> + +<p><em>«Aqui vivió y murió Miguel de Cervantes Saavedra; cuyo ingenio admira el +mundo. Falleció em MDCXVI».</em></p> + +<p> </p> + +<p>Na parte superior está o busto do poeta.</p> + +<p>A casa de Lope de Vega foi recentemente restaurada, e a de Torrijós, celebre +general, tem tambem um distico, em que se lê pouco mais ou menos o seguinte:</p> + +<p> </p> + +<p><em>«Aqui nació el general D. José Maria Torrijós; defendia la independencia +e libertad de la patria e murió em 11 de deciembro de 1831, arcabuceado em +Malaga por haber intentado restabelecer con las armas la +Constituicion».</em><span class="pn">{49}</span></p> + +<p> </p> + +<p class="estrelas">*<br> +* *</p> + +<p> </p> + +<p>Agora, permitta-me o leitor que lhe offereça um charuto. Emquanto se espera +entremos aqui neste café, no café de Sevilha. Uma chavena de chocolate não lhe +fará de certo mal.</p> + +<p>—Rapaz!—Chocolate!...<span class="pn">{50}<br>{51}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION0016">VI<br><br> +A INSTRUCÇÃO PUBLICA</a></h2> + +<p>«Deixae-me instruir a juventude, e eu reformarei o mundo»—dizia +Leibnitz.</p> + +<p>E assim é, com effeito.</p> + +<p>Reforma que não seja acompanhada de raciocinio, pecca por falta de seriedade +scientifica e por ausencia de dados positivos. E por isso é que a Allemanha, +pelo espirito de Luthero, e a França, pelo espirito de Fénelon, foram sempre as +primeiras a accordar o coração do povo pelo sol da instrucção. Jules Simon, o +sympathico auctor da <em>Politica radical</em>, tem consagrado quasi todos os +annos da sua<span class="pn">{52}</span> vida á solução d'este notavel +problema; e a verdade é que a França, neste ponto, em nada fica a dever ás +nações, que, ainda mesmo como os Estados-Unidos, a Suissa e a Belgica, caminham +na vanguarda da civilisação.</p> + +<p>É ainda o mesmo Jules Simon que nos diz:</p> + +<p>«No dia em que a lei obrigasse toda a gente a saber lêr, toda a gente +estaria mais perto da liberdade».</p> + +<p>E assim deviam fallar todos os verdadeiros democratas; porque, sem +instrucção, é impossivel a educação, do mesmo modo que sem o desenvolvimento +intellectual se atrophiaria o desenvolvimento moral.</p> + +<p>E o homem não é só intelligencia, mas tambem coração. Desenvolver uma e +outra cousa é hoje a missão da escola moderna, sanccionada pela philosophia +positiva.</p> + +<p>Levasseur, acceitando a obrigação da instrucção, pretende, comtudo, que aos +interessados se deixe a livre escolha de escola, confessando ao mesmo tempo, +que, onde as escolas escasseiam, ou onde a<span class="pn">{53}</span> maioria +da população não está no habito de concorrer a ellas, a experiencia prova que a +obrigação não passa de uma disposição inutil; asserção que elle confirma pelos +exemplos de Portugal, Hespanha e Italia.</p> + +<p>Emile de Girardin, o celebre publicista, que em duello matou Armand Carrel, +fazendo depois elle proprio a apologia do seu infeliz adversario;—Emile de +Girardin, embora não combatesse a instrucção obrigatoria, achava-a comtudo, +ephemera e subjeita a erros. Assim como ninguem obriga o seu semelhante a comer +um pedaço de pão, assim nós tambem não podemos obrigar ninguem a ser +instruido.</p> + +<p><em>Necessaria</em>, portanto, é que a instrucção devia ser, isto é, todos +deviam saber ler, contar e escrever—o que, <em>mutatis mutandis</em>, vinha a +dar o mesmo.</p> + +<p>Em Portugal já a instrucção obrigatoria havia sido consignada no decreto de +20 de setembro de 1844, onde a penalidade, imposta á negligencia das familias, +appareceu pela primeira vez neste paiz.</p> + +<p>E, no entretanto, as escolas continuam<span class="pn">{54}</span> sem +frequencia, os methodos peioram de dia para dia, o professorado anda equiparado +aos creados das cavallariças reaes, e nós, os preguiçosos do occidente, +navegamos em mar de bonança na quietação mais materialmente feliz d'este mundo +sub-lunar.</p> + +<p>O sr. Levasseur, membro da <em>commissão franceza</em>, na ultima exposição +internacional de Vienna d'Austria publicou a estatistica do movimento das +escolas primarias nos diversos paizes do mundo, e achou que a frequencia das +escolas, no Baixo Canadá, está na relação de 23 alumnos por cada 100 +habitantes, na França 13 por 100 e em Portugal 3 por 100.</p> + +<p>Este facto, horroroso em si, não nos é, todavia, extremamente +desfavoravel.</p> + +<p>Em Hespanha, onde a instrucção superior está tão profusamente derramada, a +ponto de haver um sem numero de universidades, de escolas, de academias, de +archivos, de institutos e de bibliothecas; em Hespanha a instrucção primaria, +se não é inferior, corre, pelo menos, parelhas com o nosso paiz.<span +class="pn">{55}</span></p> + +<p>Quer-nos parecer que sem uma remuneração, concedida pelo estado aos paes de +familia, nunca a instrucção <em>obrigatoria</em> será levada por deante, na +peninsula. No inverno a grande distancia dos povoados a que ficam as escolas, +faz com que ellas sejam menos frequentadas; no verão, as colheitas obrigam os +lavradores a não dispensar seus filhos dos trabalhos ruraes. E por isso é, +creio, que de facto existe uma desproporção enorme entre os algarismos da +população rural e a frequencia numerica das respectivas escolas.</p> + +<p>Mas a Hespanha, <em>litterariamente</em>, ao menos, tem uma vida propria, +sua, original, ao passo que nós tanto na arte, como na politica, estamos +fatalmente destinados á morte e ao esquecimento.</p> + +<p>Entre nós o ultimo poeta, verdadeiramente, interprete do sentimento nacional +foi Garrett. Desde então para cá a influencia da litteratura franceza tem-se +feito por tal fórma sentir, que os nossos poetas, embora dotados de muitissimo +talento e de vivissima imaginação, mais parecem conhecer a vida de Paris do que +a vida de Lisboa;<span class="pn">{56}</span> e de tal modo que o nosso povo +mal os lê, porque mal os entende tambem. O resultado é que vamos atravessando +um periodo de transição e que a historia não poderá nunca registrar esta época, +senão como um facto accessorio da vida portugueza.</p> + +<p>E, cousa singular! a causa, que tão poderosamente actua nos nossos costumes +e na nossa vida nacional, é a mesma que, passando por cima da Hespanha nem +sequer vestigios deixa da sua passagem. Victor Hugo, assimilado e imitado pelos +portuguezes, emprehendeu na sua infancia uma viagem á Hespanha. «Essa +viagem—escreve Castelar—tem analogia com a de madame de Stäel á Allemanha. A +eminente escriptora trazia o romantismo idealista do norte, o sublime escriptor +o romantismo pratico do Meio-Dia; Stäel inspirava-se nos tristes e profundos +sonhos de João Paulo Richter, Victor Hugo nos singelos versos do +<em>Romancero</em> e nos conceitos de Calderon, impressos na consciencia, como +esses listrões de materia cosmica, a que damos o nome de nebuloses,<span +class="pn">{57}</span> e dos quaes talvez em cada minuto se desprende como uma +gota de luz um novo planeta na vastidão do espaço. Victor Hugo sahiu de +Hespanha com o animo disposto a incendiar o templo dos deuses e da velha arte. +Reinava desassombradamente a poesia classica, desde a epoca de Luiz XIV. Se o +povo de 93 descobrisse esta realeza, tambem a teria derrubado no seu incansavel +afan de renovar a vida. Era a Academia, o Versailles, onde aquella corôa estava +enthesourada».</p> + +<p>Podem os poetas hespanhoes não ser melhores que os nossos, mas a verdade é +que são mais originaes, e mais do seu paiz. Foi da Hespanha que partiu o grito +destruidor do velho convencionalismo poeta, em redor do qual se haviam agrupado +Racine, Voltaire, Corneille o outros. E esse revolucionario audaz e intrepido +foi Lope de Vega.</p> + +<p>A vida litteraria de Hespanha é tal que só em Madrid se publicam +aproximadamente 60 jornaes. Da <em>Universidade Central</em>, situada na rua de +S. Bernardo, e dividida em 6 faculdades, sahem annualmente para cima de cem +bachareis.<span class="pn">{58}</span></p> + +<p>Por onde se vê que a instrucção superior em Hespanha tem attingido um +enormissimo progresso; progresso, em nosso entender, que lhe ha de assegurar +sempre virilidade, independencia e vida propria, o sufficiente para que uma +nação, em poucos annos, se eleve e conceitúe no animo dos seus inimigos.</p> + +<p>E posto isto, tratemos d'outro assumpto.<span class="pn">{59}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION0017">VII<br><br> +TEMPLOS E RELIGIÃO</a></h2> + +<p>Desapparece o carnaval, e a mulher hespanhola, de todas as mulheres do mundo +a mais alegre, a mais festiva e a mais ruidosa, sacode os seus cabellos, +desgrenha a sua fronte, pintada a carmim, rasga a sua ligeira mascara de seda, +põe de parte o seu vestuario extravagante, descalça os seus sapatinhos de +setim, toma o seu véo de Sevilha, calça a sua luva preta, e penetra +soberanamente no templo, onde o Christo a aguarda, para, num sorriso de perdão, +a absolver das suas culpas e dos seus peccados.<span class="pn">{60}</span></p> + +<p>É que ella, a feiticeira, comprehende o mundo, tal como elle é—de alegrias +e de tristezas, de esperanças e de duvidas, de amor e de descrença, de riso e +de lucto, de primavera e de outomno, de vida e de morte.</p> + +<p>O templo veste-se de negro; o orgão faz resoar os seus canticos plangentes; +Jesus, a pallida creança, ostenta uma face macerada, e o padre, oh! o padre, o +grande ladrão!—como raposa que espreita o galinheiro innocente, acocora-se no +confissionario, á semelhança de gallo, que em materia de instinctos é useiro e +vezeiro.</p> + +<p>E tu, minha pobre peccadora, ó minha querida—terás de ouvir +silenciosamente, concentradamente, todos os lamentos do propheta, todas as +dôres da mãe, todas as lagrimas dos pequeninos.</p> + +<p>Um dia levantar-te-has mais cedo; com ar triste e melancolico seguirás a via +do resgate; ajoelharás timidamente deante do sr. cura da freguezia, que depois +te dará a communhão.</p> + +<p>Que maldicta manhã não passarás, minha pequena catholica!—lembrando-te<span +class="pn">{61}</span> das travessuras de que a consciencia te não accusa, e +tendo de abrir ao padre, ao negro carcereiro da tua alma, os segredos que te +vão no coração atribulado.</p> + +<p>Mas tu tens pae, bem o sei; tua avó não te dispensará o sacrificio de todos +os annos, e tua propria mamã exigirá de ti nesse dia um beijo e um affecto.</p> + +<p>Que louca extravagancia! Confessar-se a gente a um homem desconhecido, que +toma rapé e usa lenço encarnado, quando, ao contrario, podia revelar a sua vida +ao ente predilecto da sua existencia, áquelle, que, <em>au clair de la +lune</em>, fuma debaixo das nossas janellas um delicioso <em>breva</em> e nos +diz umas doces palavras mysteriosas....</p> + +<p>E depois—que horror!—cahir no velho tumulo catholico, quando toda a +natureza, como que por contraste, é um encanto e um paraizo?!</p> + +<p><em>Oh! mon Dieu, que c'est trop fort....</em></p> + +<p>Mas, emfim, sevilhana amiga, tu que, durante o carnaval, escapaste, de uma +bronchite, faze tambem diligencia para, durante a quaresma, te furtares á +insolita constipação catholica.<span class="pn">{62}</span></p> + +<p><em>Á la belle etoile</em> cantaremos e libaremos aos nossos amores. Bem vês +que o convite attrahe. Tu fallar-me-has no bigode preto do teu amante, nos seus +cabellos de azeviche, na sua fronte pallida, nos seus olhos profundos e +apaixonados; de tudo me has de fallar, gentilissima menina, que, eu, no +entretanto, sem deixar de ouvir-te, irei preparando uma delicadissima ceia, +toda ella de boas aves saborosas e de finissimos vinhos francezes.</p> + +<p>Acceitas? Por Deus não pretendas imitar o lyrismo de Santa Thereza, aquella +boa alma mystica, que «<em>morria de não morrer</em>!»—ou antes «<em>por não +morrer</em>». É verdade que escusas tambem de seguir <em>madame</em> Roland, +indo para o cadafalso, vestida de branco e Carlota Corday apunhalando Marat; +escusas mesmo de te aproximar de <em>madame</em> de Maintenon, no seu odio +contra a religião protestante: e escusas tambem de ser Joanna d'Arc, uma +Margarida d'Anjou, uma Joanna de Montfort. Tudo isto seria desnecessario e +inutil. Para serdes respeitadas e felizes, bastava apenas, minhas boas +andorinhas<span class="pn">{63}</span> ideaes, que vós possuisseis o orgulho e +a consciencia das vossas acções; porque emfim, se o homem é o orgulho de Deus, +a mulher é o orgulho do homem, como mui judiciosamente escreveu um espirito +comtemporaneo.</p> + +<p>Conta-se que o chefe arabe dissera da actriz Rachel:—«É uma alma de fogo +num corpo de gaze», e que a actriz, á hora da morte, exclamára:—«O fogo +queimou a gaze!»</p> + +<p>Assim, pois, que a minha gentilissima hespanhola não possa tambem nunca +dizer, á imitação de Rachel:—<em>O fogo matou a mulher!</em></p> + +<p> </p> + +<p class="estrelas">*<br> +* *</p> + +<p> </p> + +<p>Em Madrid os templos são de somenos importancia. E, embora a religião +catholica-apostolica tenha ali fanaticos e fanaticos decididos, não nos parece +que os edificios destinados ao culto sejam dignos de uma menção especial. Ao +ouvir fallar nas cathedraes de Cordova e Sevilha, de<span +class="pn">{64}</span> Toledo e Burgos, de Valladolid e Zaragoza, quasi se nos +afigura impossivel, senão mesquinho, que Madrid não possua tambem o seu templo +official. A verdade, porém, é que, apesar de todas as tentativas, ainda até +hoje não foi possivel levar por deante o velho projecto da edificação de uma +cathedral na côrte de Hespanha.</p> + +<p>Entretanto, forçoso é confessar, que poucos paizes ha na Europa onde o +fanatismo religioso tenha attingido tão elevadas proporções de hypocrisia e de +retrocesso. Philippe I assemelha-se a Luiz XI, o qual antes de mandar enforcar +qualquer subdito do seu reino, supplicava sempre a Nossa Senhora, cuja imagem +trazia no <em>bonnet</em>, para que tivesse dó d'elle, e assim tambem a +Hespanha deve a Philippe I uma grande parte do seu carlismo e da sua +reacção.</p> + +<p>Os hospitaes, todavia, as casas de beneficencia, os asylos, e as associações +philantropicas são innumeras em Madrid. A alta sociedade exerce mesmo a +caridade em larga escala. Unicamente nos parece<span class="pn">{65}</span> que +a razão publica entra pouco n'estas cousas.</p> + +<p>Seja, porém, como fôr, o certo é que um pouco menos de fanatismo e alguma +cousa mais de raciocinio, nenhum mal faria a Hespanha.</p> + +<p>Porque, de facto, uma nacionalidade que possue criticos tão notaveis como +Francisco Maria Tubino, director da excellente revista <em>La Academia</em>, e +poetas tão distinctos como D. Ventura Ruiz Aguillera, fundador do magnifico +<em>Museu archeologico</em>, e Zorrilla, o arrojado trovador peninsular, que, +por fórma alguma, deve ser confundido com o politico, seu homonymo; uma +nacionalidade tão forte e tão vigorosa sempre merece ser mais alguma cousa do +que uma simples expressão dos velhos tempos theologicos.</p> + +<p>Toda a vida de um paiz se resume numa palavra—bom-senso.<span +class="pn">{66}<br>{67}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION0018">VIII<br><br> +A POLITICA</a><sup><a name="L3633" id="L3633" href="#L3631">[1]</a></sup></h2> + +<h3><a name="SECTION00181000000000000000">(CONTRASTES)</a> </h3> + +<p>Ainda hontem a vimos expulsa da patria, que ella de creança aprendera a +renegar no vilissimo ensinamento de um jesuitismo perverso; ainda hontem, +humilhada, mas não contricta, lhe mostravam as bayonetas nacionaes que não +podia ser<span class="pn">{68}</span> aquelle o coito das suas devassidões +infrenes; ainda hontem, offendida no seu amor proprio, e sempre arrogante, ella +transpunha os Pyrineus, como as columnas de Hercules, por onde jámais lhe seria +dado volver ás terras das suas hybridas façanhas e ao solar das suas +sabidissimas intrigas.</p> + +<p>E no entretanto esse magnifico sol, que parece ter brilhado para toda a +Europa, no explendido fulgôr de uma vivissima luz, apagou-se subito no +horisonte, deixando empós de si o triste e doloroso prenuncio de uma tempestade +eminente.</p> + +<p>E, coisa singular, nada faltou áquelle dia de festa.</p> + +<p>Ayalla coloria o seu estylo brilhante; e com as côres douradas da sua divina +palheta, quasi se sentira feliz por festejar aquelle sahimento funebre de uma +mulher, justamente condemnada pelos fastos da historia e merecidamente +repellida pelos progressos da humanidade; o duque da Torre alçava para o céo a +sua cabeça de cidadão arrojado, congratulando-se com os seus e com os estranhos +pela<span class="pn">{69}</span> victoria da justiça do seu paiz: Sagasta tinha +a convicção de uma grande causa conquistada, e persuadia-se ter concluido uma +obra meritoria; Prim, o esforçado batalhador de Marrocos, ostentava em pleno +dia as alegrias que lhe iam na alma, e as esperanças que se lhe occultavam no +coração; Castelar, emfim, com todo o arrojo da sua notavel eloquencia, +suppozera-se victorioso, e victorioso para sempre.</p> + +<p>Mas, coisa ainda mais singular! todas estas acclamações de momento, todas +estas palmas improvisadas, todos estes delirios de occasião, todas estas +festas, todas estas vertigens, todos estes rumores, cahiram, n'um minuto, +inesperadamente, abruptamente, revelando-nos, mau grado nosso, que a politica +foi, é, e será sempre a suprema contradicção das cousas humanas e a mais +evidente demonstração de quanto a humanidade é inconstante, leviana e +traiçoeira.</p> + +<p>A entrada de Isabel II em Hespanha é a abjuração cabal da revolução de +Cadiz.<span class="pn">{70}</span></p> + +<p>Pouco nos importa que o sr. Sagasta fosse agora o primeiro a cumprimentar a +ex-rainha expulsa, acceitando-lhe o retrato e as perfidias; pouco nos importa +que o sr. Ayalla abra tambem o cofre dos seus gabos e a cornucopia da sua +generosidade. Tudo isso é do mundo, e nós estamos no mundo. Unicamente, nós +temos direito a perguntar aos nossos vizinhos qual é actualmente o seu rei.</p> + +<p>Quem governa? Isabel II ou Affonso XII?</p> + +<p>A abdicação da rainha por ninguem foi ainda reconhecida. Não é ella de facto +que occupa o throno, sabemol-o; mas na realidade é ella quem governa, desde o +momento que o consentimento lhe foi dado, para de novo residir no palacio +<em>del Oriente</em>.</p> + +<p>Que diria a isto Prim, o heroe de 1868, se por acaso hoje vivesse? Que dirão +a isto os senhores liberaes de Hespanha, que, por suas proprias mãos, acabam de +cavar o proprio sepulchro? E que fará o sr. Canovas del Castillo, o amigo +duvidoso da ex-rainha?<span class="pn">{71}</span></p> + +<p>E a Hespanha, a nobre filha da peninsula, consentirá impunemente n'este +attentado contra a sua dignidade? Volverá ao nefasto governo dos Clarets sem um +protesto, sem um brado de indignação, sem uma affirmativa do seu brio e do seu +pundonor?</p> + +<p>Nada temos com personalidades. A politica pessoal é, de todas as politicas, +a mais detestavel e a mais perniciosa. Mas se isto nada é, o principio é tudo. +É forçoso respeital-o e seguil-o. De outro modo não ha paiz que se sustente, da +mesma maneira que sem leme é impossivel a navegação no mar.</p> + +<p>Amadeu I, pela sua demasiada simplicidade, não logrou nunca que os +hespanhoes o guindassem ao fastigio da gloria. Muito bem. O sr. Zorrilla +dispensa-o do seu serviço, e prepara-se para dirigir a politica do seu paiz. +Mas, ó incoherencia! o proprio sr. Zorrilla, segundo affirmaram alguns, é o +primeiro a divorciar-se dos republicanos, emigrando e dizendo-se apenas +radical. E, por incoherencia ainda, é elle hoje o conspirador por +excellencia,<span class="pn">{72}</span> e, segundo todas as vistas, o chefe do +futuro gabinete republicano.</p> + +<p>E tão odioso é de facto o seu nome ao actual governo, que, ainda ha pouco, o +jornal <em>El Globo</em>, orgão do sr. Castelar, e de que é director o sr. +Olías, foi supprimido por apenas lhe ter estampado a photographia na primeira +pagina.</p> + +<p>E esta suppressão indigna, violação manifesta do direito, da justiça e da +propriedade, foi feita sem denuncias, sem accusações fiscaes e sem que os +tribunaes fossem, ao menos, ouvidos.</p> + +<p>Tal é, em geral, o fructo dos governos restauradores!</p> + +<p>Quando Affonso XII subiu ao throno não faltaram, nem as apostas, nem os +protestos, nem as indignações.</p> + +<p>Mas tudo isso passou. E <em>el niño de su madre</em>, o pequeno authomato +dos tempos modernos, convicto de que o seu reinado havia de ser de ouro, +sentou-se no throno, com o serenidade de um fingido Bourbon, sem consciencia e +sem reflexão.</p> + +<p>Agora, porém, falla-se com insistencia numa nova revolução. Madrid agita-se; +o<span class="pn">{73}</span> exercito divide-se; a fazenda publica está num +estado desesperador; a população descrê; tudo isto, aggravado ainda com a vinda +da rainha Isabel para Madrid, que a todos inspira odio e antipathia, faz suppôr +que o movimento revolucionario se não demorará muito no seu apparecimento.</p> + +<p>Ninguem hoje tem o poder de resuscitar cadaveres. A elevação de Affonso XII +ao throno nunca passou mesmo de uma mera phantasmagoria politica, especie de +entreacto entre o passado e o futuro. Hão de tornal-o a enterrar, estou +convencido, e sem grande difficuldade.</p> + +<p>Conta-se que num jantar, ultimamente dado em Barcelona, se reuniram seis +politicos de vulto. Travada a discussão viu-se que cada um d'elles professava +opinião differente ácerca do estado geral da patria. Progrediram assim as +cousas; e de tal maneira que, no fim do banquete, os copos voaram pelos ares ao +clamor estridulo e confuso de uma contenda infernal. Ninguem se entendia. O +meio de persuasão estava já nos punhos arregaçados e<span +class="pn">{74}</span> nos calices feitos pedaços. Finalmente parece que tão +delicioso repasto terminou, sem levar a convicção ao espirito dos convivas, é +verdade, mas deixando-lhes, todavia, a liberdade do vinho absorvido, e a gloria +dos destroços por cada um operados em favor da sua causa.</p> + +<p>E assim é, em quanto a nós, tambem a politica em Hespanha—uma +Babylonia!<span class="pn">{75}</span></p> + +<div class="rodape"> +<p><sup id="L3625"><a name="L3631" id="L3631" href="#L3633">[1]</a></sup> Este +artigo, embora restricto a um facto particular da actual dynastia reinante em +Hespanha, póde, todavia, ampliar-se á politica geral do paiz, e por elle ser +criticada.</p> +</div> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION0019">IX<br><br> +MUSEUS</a></h2> + +<p>No seculo XVI, ao mesmo tempo que tudo decahia em Hespanha—politica, +commercio, industria—como que para contrastar, surgia, por outro lado, o +primeiro poeta hespanhol, Calderon, e o primeiro pintor, Velasquez.</p> + +<p>E desde então para cá as artes e as sciencias têm tomado um incremento +verdadeiramente assombroso; a ponto de, ainda ultimamente, muitos professores +da Universidade de Heidelberg, varios homens politicos francezes, e alguns +sabios de Inglaterra, se terem reunido afim de<span class="pn">{76}</span> +lançar os primeiros fundamentos da Universidade livre de Madrid, que o sr. +Canovas del Castillo referiu que se chamasse <em>Instituto livre de +ensino</em>.</p> + +<p>Em todos os museus de Madrid, que são muitos e admiraveis, se encontra a +immortalidade da historia hespanhola aliada á eloquencia do genio e da +inspiração individual.</p> + +<p>O Museu real de pintura e esculptura, situado no passeio do Prado, é ainda +hoje um dos melhores do mundo, e foi fundado por Fernando VII, a rogo de sua +esposa Maria Christina.</p> + +<p>Impossivel nos seria dar aqui uma resenha historica de todos os principaes +quadros que adornam aquelle paraiso. Apontaremos no entanto alguns.</p> + +<p>A escóla de pintura <em>hespanhola</em> resente-se extraordinariamente do +catholicismo que lhe servia de inspiração. Assim, para exemplo, pódem ver-se, +entre outros, os quadros de Murillo, um, symbolisando a <em>Annunciação de +Nossa Senhora</em>, outro, representando a <em>Familia Sagrada</em>, outro +desenhando a <em>Concepção</em>, etc.; e os de Velasquez,<span +class="pn">{77}</span> que tem um <em>Nosso Senhor Crucificado</em> +maravilhosamente acabado, assim como um outro intitulado o <em>Quadro dos +bebedores</em>; os de Rivera, que produziu o <em>Martyrio de S. +Bartholomeu</em>, <em>S. Jeronymo em oração</em>, etc.; e os de Zurbaran sobre +assumptos mysticos, e os de Goya, que realça principalmente por um retrato a +cavallo de Carlos IV, etc.</p> + +<p>A escóla <em>florentina</em> é, como a hespanhola, uma escola religiosa. +Assim, temos de Leonardo de Vinci dois esplendidos quadros: o retrato de Mona +Lisa, mulher de D. Francisco Gicondo, cavalleiro florentino, e a representação +da <em>Familia Sagrada</em>, tendo S. João e o menino Jesus em attitude de se +beijarem; de Andréas del Sarto, chamado Andrea Vennucci, um retrato em busto de +sua mulher Lucrecia Fede, e muitos outros; de Miguel Angel Buonarroti um +<em>Nosso Senhor atado á columna</em>; e, como estes, outros de Bronsino, de +Allori, de Carducei, de Vanni, etc.</p> + +<p>Na escóla <em>romana</em> o principal expositor é Sanzio Rafael, chamado +Urbino, que possue, entre outros, <em>A queda de Nosso<span +class="pn">{78}</span> Senhor Jesus Christo com a cruz</em>, conhecido pelo +nome de <em>Pasmo de Sicilia</em>, e muitas allegorias á familia sagrada, umas +conhecidas por <em>Ecce Agnus Dei</em>, outras pela <em>Rosa</em>, outras pela +<em>Perola</em>, etc. Seguem-se-lhe Julio Romano, Sassaferrato, Barroci, +etc.</p> + +<p>Na escóla <em>veneziana</em> o mais importante é Piciano, que tem uns +magnificos quadros de Carlos V a cavallo, de Jesus Christo apresentado ao povo, +do peccado original, da Victoria de Lepanto, da Virgem das Dôres e do <em>Ecce +Homo</em>; depois temos Bellino, Tintoretto, Bassano e mais alguns.</p> + +<p>As menos notaveis, talvez, neste museu são as escolas, <em>bolonheza</em>, +<em>lombarda</em>, a de Milão, e a de Napoles, as quaes, não obstante, ainda +apresentam nomes como os de Corregio (<em>lombardo</em>), Dominiquino e Guido +(<em>bolonhezes</em>) e Salvator Rosa (<em>napolitano</em>).</p> + +<p>Nas escólas <em>franceza</em>, <em>hollandeza</em> e <em>allemã</em> ha +cecebridades, como Pedro Paulo Rubens, que apresenta o <em>Castello de +Emaus</em>, <em>A serpente de metal</em>, <em>Orpheu e<span +class="pn">{79}</span> Euridice</em>, <em>A dança dos paizanos</em>, <em>As +tres Graças</em>, <em>Perseu libertando Andromeda</em>, e outros, sendo 62 a +somma total dos seus quadros, ali expostos, a 28 os da sua escóla.</p> + +<p>Antonio Van Dyck dá-nos retratos admiraveis, taes como o do pintor David +Rickart, o da duqueza de Oxford, o de Carlos I a cavallo, e o de D. Henrique, +conde de Berga.</p> + +<p>David Teniers é pintor quasi bucolico, e offerece-nos quadros d'um mimo +inexcedivel—<em>Um colloquio pastoril</em>, <em>Uma festa de paizanos</em>, +<em>Um banquete campestre</em>, etc.</p> + +<p>Antonio Raphael Mengs (allemão) é auctor de <em>Santa Maria Magdalena</em>; +Rembrandt (hollandez) tem <em>A rainha Artemisa</em>; e Moso Antonio (da mesma +escóla) pintou a esposa de D. João III, rainha de Portugal.</p> + +<p>A escóla franceza tambem ali se acha dignamente representada por Pousin, +Claudio de Lorena, Antonio Watteau, Claudio Vernet e muitos mais.</p> + +<p>Emfim, só a narração circumstanciada d'este museu daria para um grosso +volume,<span class="pn">{80}</span> não incluindo já na conta a galeria de +pinturas da <em>Academia de S. Fernando</em>, na rua de Alcalá, que possue mais +de 300 quadros, e o <em>Museu nacional de pintura</em>, na rua da Atocha.</p> + +<p>Se o leitor fôr curioso, com certeza não deixará de visitar os +<em>museus</em> de Madrid, que evidentemente constituem os monumentos mais +notaveis da civilisação hespanhola.</p> + +<p>Só no <em>museu de antiguidades e medalhas</em>, na Bibliotheca nacional, se +pódem ver mais de 98:000 medalhas de ouro, prata, ferro, bronze, cobre e barro, +e muitissimas e numerosas antiguidades egipcias, etruscas, gregas, romanas, +godas, arabes, etc.</p> + +<p>Na rua de Alcalá encontra-se o <em>Museu de historia natural</em>, que foi +fundado no tempo de Carlos III, e que possue ricas collecções de mineralogia, +de paleontologia e de zoologia.</p> + +<p>Dos melhores do seu genero são tambem o <em>Museu anatomico</em> de S. +Carlos, na rua da Atocha; o <em>Museu de artilheria</em>, no Buen Retiro, e o +<em>Museu naval</em> no<span class="pn">{81}</span> ministerio da marinha, o +qual contém uma rica collecção de armas, tropheus, e outros muitos vestigios de +guerra e de combate.</p> + +<p>Em Hespanha ha uma tendencia especial para esta arte. Raros são os +particulares que não possuam tambem o seu museu.</p> + +<p>Um vi eu que me maravilhou devéras. Pertencia a Romero Ortiz. Entre outras +raridades, foi-me dado vêr ali o mappa em que o general Moltke traçára a guerra +franco-prussiana, e a faixa encarnada que Prim tinha cingida á cinta na noite +em que o assaltaram. Muitas reliquias portuguezas me foram tambem mostradas, e +creio até que uma do fallecido visconde de Castilho.</p> + +<p>Não ha de facto palavras que facilmente descrevam tanta arte, tanto aceio e +tanta maravilha.</p> + +<p>Sobretudo—que maravilha!<span class="pn">{82}<br>{83}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00110">X<br><br> +A MUSICA</a></h2> + +<p>Poucas cidades ha já hoje na Europa que não tenham o seu theatro lyrico. A +musica não é apenas um entretenimento agradavel; é ainda mais, uma necessidade +impreterivel.</p> + +<p>Aos domingos e dias santificados, aquelles que, por falta de meios, não +podem concorrer a espectaculos pagos, procuram naturalmente os jardins +publicos, onde, gratuitamente, lhes é dado ouvir uma orchestra ou uma banda +musical. E assim, este simples divertimento faz com que muitas vezes se afastem +da taberna muitos<span class="pn">{84}</span> centenares de operarios. É que a +attracção de uma boa musica traz-nos frequentemente o esquecimento das proprias +dôres e dos proprios soffrimentos.</p> + +<p>Tres escólas se disputam a palma no campo da lucta.</p> + +<p>Uma (a escóla allemã) é a harmonia: raciocina, descreve as lendas do seu +paiz, e obriga á reflexão; outra (a escóla italiana) é a melodia: corre atraz +da sua imaginação, queda-se com um sentimento triste, expande-se com a dôr, e +recolhe-se com o amor. A primeira é grave, solemne, austera, e pertence +naturalmente aos povos do norte; a segunda é meiga como uma mulher portugueza, +leviana como a natureza em que vivemos, doce como os costumes da Italia, e a +sua vida está subordinada aos povos do meio dia.</p> + +<p>Na <em>Africana</em>, por exemplo, ha gritos selvagens, notas lancinantes, +harmonias plangentes; mas tudo isto com a inexcedivel pericia de um maestro +consciencioso, e, sobretudo, pensador.</p> + +<p>Beethoven tem o condão maravilhoso de nos compellir ao estudo, á +concentração<span class="pn">{85}</span> intima, ao seguimento de uma idéa, que +é como que o desabroxar do espirito para um mundo novo.</p> + +<p>Grottschalk e Mendelssohn têm nas suas composições o cunho indelevel da +tristeza, prevêem a morte, e cantam-n'a. Não têm horror ao mysterio, e por isso +as suas partituras avivam em nós um não sei quê de vago, de indefinido, que +involuntariamente nos obriga a interrogar os arcanos da consciencia.</p> + +<p>Mozart tem uma certa vivacidade que seduz; em meio das suas lucubrações +pára, e, espraiando a vista pelos horisontes além, sente-se feliz, e sorri; e +tão formosos são os seus sorrisos, que d'elles, como se fossem um sol, partem +os raios animadores das suas obras monumentaes.</p> + +<p>Ricardo Wagner, hoje o maior vulto musical da Allemanha, tem nas suas obras, +a par do rythmo, profundamente cadenciado e harmonico, uma feição notavelmente +litteraria e artistica; estudando as lendas do seu paiz, conta-as com a +superioridade de uma grande potencia, a quem não escasseia nem o genio nem a +phantasia.<span class="pn">{86}</span></p> + +<p>A terceira escóla é a franceza, sem ideal definido, portentosa umas vezes, +com os arrojos de Meyerbeer, e suavemente deliciosa n'outras occasiões, com as +meigas melodias de Bellini ou Donizetti. E no entretanto uma coisa distingue +esta escóla: é a <em>verve</em>, o frescôr animadissimo, transparente, que se +exhala de todas as notas; a harmonia que nos leva á meditação; a melodia que +nos arrasta os sentidos, á selhança de quem vive numa atmosphera impregnada de +vapores e de perfumes.</p> + +<p>A escóla franceza tem, é verdade, muito de condemnavel como escóla +<em>ecletica</em>; mas ainda assim não devemos nunca esquecer que a ella +pertencem talentos soberbos, como o de Gounod, compositor do <em>Fausto</em>, +e o de Berlioz, auctor do <em>Manfredo</em>, que para muitos foi o predecessor +de Ricardo Wagner, e o de Auber, e o de Herold e o de muitos outros.</p> + +<p>A escóla franceza é, pois, uma intermediaria entre a escola <em>allemã</em>, +toda <em>subjectiva</em>, inspirando-se nos grandes arrebatamentos da +consciencia humana, cheia de gravidade, como a justiça, rodeada de<span +class="pn">{87}</span> esplendores, como a verdade e infiltrada de meditações, +como o espirito da humanidade, e a escóla <em>italiana</em>, toda +<em>objectiva</em>, obedecendo mais ás impressões dos sentidos, tendo por norma +de vida o ideal da natureza, cercada de flôres, de primaveras e de aves, e +cantando o paraizo ao som das intimas alegrias e dos intimos prazeres.</p> + +<p>Os <em>dilletanti</em> do nosso theatro lyrico quasi que chegam a +menosprezar hoje a musica italiana, por obnoxia e anachronica.</p> + +<p>Não nos parece razoavel semilhante proposito. A não ser a moda, não sabemos +que outros factos possam abonar tão disparatada opinião.</p> + +<p>Portugal não tem uma educação musical verdadeiramente avigorada. Está longe +ainda de poder attingir o classicismo allemão.</p> + +<p>Depois, nós somos um povo peninsular. Vivemos com as impressões exteriores +da natureza; o nosso espirito segue as oscillações da temperatura atmospherica; +somos frouxos, levianos, sem o vigor que dá a consciencia nem a elevação que +nos<span class="pn">{88}</span> traz a idéa: a nossa escóla ainda ha de ser por +muitos annos a escola italiana.</p> + +<p>A musica constitue, como a litterutura, a genuina expressão dos sentimentos +de um povo. A França, que ri sempre e a proposito de tudo e de todos, não podia +deixar de ser a patria da comedia moderna; por eguaes razões a Inglaterra, que +se alimenta de fumo e de <em>spleen</em>, se não possuisse Shakespeare, o +sublime tragico, possuiria de certo qualquer outro que lhe interpretasse os +sentimentos e as paixões, com a mesma eloquencia com que o soube fazer aquelle +divino artista; a Allemanha, á semelhança de quasi todos os paizes do norte, é +mais inclinada ao drama symbolico, de que o <em>Fausto</em> é um exemplo +maravilhoso, do que ao drama de paixão, que pertence naturalmente á raça +latina.</p> + +<p>O genero musical mais favorito, em Hespanha, é o <em>tango</em>, a +<em>habañera</em>, a <em>malagueña</em>, a <em>seguidilla</em>, n'uma palavra +a—zarzuella, com feição especial e caracteristica, podendo tomar-se como mais +uma affirmação do genio bandoleiro hespanhol,<span class="pn">{89}</span> e do +espirito aspero, violento e contradictorio d'aquelle esplendido paiz.</p> + +<p>Que a musica entre os hespanhoes é originalissima, sabem-n'o todos. E por +tal fórma é isto verdade que jámais povo algum do mundo foi capaz de +assimilar-lhe a inspiração, o rythmo e o cadenciado da phrase.</p> + +<p>A Hespanha ficaria incompleta se porventura lhe subtrahissem este genero de +musica, de todos os generos o mais monotono, talvez, mas com certeza o mais +espontaneo, porque é a expressão das suas tradições e da sua nacionalidade.</p> + +<p>Rara é a mulher em Madrid que não sabe cantar. O proprio amor madrileno é um +tango, em que a amada ou a amante ora quer, ora não quer, ora solluça e ora ri, +ora finge e ora pensa.</p> + +<p>D'este modo vê-se que a musica em Hespanha, producto natural d'aquelle paiz +é como tudo o que alli existe—uma contradicção agradabillissima, e talvez +mesmo que um sonho encantador.</p> + +<p>Mais adeante, porém, voltaremos a este assumpto.<span class="pn">{90}<br>{91}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00111">XI<br><br> +O CHOCOLATE E O CAFÉ</a></h2> + +<p>Eu havia realmente feito uma idéa da minha querida <em>señorita</em>; mas, +por Deus, ella, a caprichosa, está muito acima da minha pobre imaginação.</p> + +<p>Madrid já não é simplesmente a mulher formosa, que ao sopro da +<em>ventarola</em> agita os olhos avidos e curiosos, inflammada na eterna +chamma do amor e docemente embriagada pelo <em>Xerez</em> do sentimentalismo +peninsular. Não. Madrid é mais alguma coisa do que isso—Madrid resume em si a +altissima idéa industrial<span class="pn">{92}</span> do chocolate e o +singularissimo pensamento politico do café.</p> + +<p>Peço perdão, minha senhora, se porventura fui menos claro no modo de +exprimir a minha idéa. Eu me explico. O chocolate é aqui o nosso companheiro +inseparavel, o nosso <em>bâton</em> da manha e a nossa <em>badine</em> da +noite.</p> + +<p>Pela madrugada, ao descerrar a palpebra, ainda meio adormecida pelo vivido +enthusiasmo d'este <em>magasin</em> pittoresco—a leitora será mansamente +despertada no seu leito, não por um formosissimo sol de abril, mas sim por um +mysterioso toque symbolico na porta do quarto, o que lhe indicará muito +claramente que, não longe d'ali, a está esperando uma gentil creadinha com uma +simples chavena de chocolate.</p> + +<p>E, ou queira, ou não queira, ha de tomar o chocolate; do mesmo modo que, se +estivesse no Brazil, havia de tomar café sempre que visitasse um amigo, e na +China havia de aturar o chá vinte vezes por dia.</p> + +<p>Ora, em caso de luta, eu prefiro o<span class="pn">{93}</span> chocolate, +porque, emfim, nem nos torna nervosos, como o café, nem anemicos como o chá; +que a fallar a verdade elle—que para a Hespanha é o caracter, o amor, a vida, +a poesia, o commercio, a industria, a politica, a arte—elle, o chocolate, é +sobretudo nutriente e impregnado de substancias vivificadoras.</p> + +<p>Pobre Hespanha! Alegre filha do estreito Manzanares, eu, em ti, não canto as +mulheres, nem as mantilhas de Sevilha, nem os teus risos infernaes—eu, em ti, +formosa, canto, apenas, o chocolate e o café, isto é, a revolução e o +futuro.</p> + +<p>Pois julgam que não? Não acreditam na efficacia do chocolate, o escuro +semsaborão? Perguntem a s. s.ª, o dono da fabrica de <em>la Saragoza</em>. +Perguntem-lh'o. Tenham a bondade de perguntar-lhe qual é o seu consumo +diariamente.</p> + +<p>Os hespanhoes são alegres, cheios de vida, dormindo pouco, saindo muito, +falladores, enthusiastas. E sabem porquê? Por causa do chocolate, o mysterioso, +que traz sempre estes ventres bem fartos, e, portanto, orgulhosos de si +mesmo.<span class="pn">{94}</span></p> + +<p>A Hespanha passeia muito, é ligeira nos seus affectos, caprichosa na sua +politica, sonhadora, aventureira, risonha. E sabem porquê? É porque ella +precisa de fazer a digestão do seu chocolate. E por isso ella, a olympica, faz +duas ou tres corridas por anno por politicas differentes, e inventa revoluções, +que, por causa do chocolate, apenas poderão durar poucos mezes.</p> + +<p>As mulheres voam como andorinhas; correm de coração em coração, são +seductoras, amaveis, familiares, intimamente affectuosas, mas tudo isto com +azas, e portanto, com perigo.</p> + +<p>Ora é por isso que eu ouso dar um conselho a s. s.<sup>as</sup> os srs. +maridos de Hespanha—não dêem chocolate a suas esposas, se é que realmente amam +mais o seu <em>mènage</em> do que o <em>boulevard</em>.</p> + +<p>Agora o café.</p> + +<p>É um <em>pendant</em> ao primeiro: ambos são negros, como suas +reverendissimas os senhores jesuitas que por aqui caminham aos centos.</p> + +<p>O café é o complemento do chocolate.<span class="pn">{95}</span> Vive-se +n'elle, e n'elle se apura a linguagem, a <em>toilette</em> e o bem-senso.</p> + +<p>As mulheres conciliam no seu coração o amor do profano e o amor do sagrado. +Entram no templo catholico com o mesmo <em>sans façon</em> com que entram no +templo social. Porque o café—talvez a leitora o ignorasse—o café é tambem um +templo.</p> + +<p>E que templo, minha querida marqueza! De tudo se encontra ali desde o +fidalgo da regencia <em>ci-devant</em> até ao maratista sans-cullote.</p> + +<p>Venha v. ex.ª a Madrid aprender a egualdade humana. Venha tomar aqui uma +chavena de café, e verá como, embora desconheça a liberdade, v. ex.ª fallará na +egualdade. Venha, minha senhora. Não se arreceie dos carlistas, que esses +bandidos já hoje não vivem, e pertencem á historia.</p> + +<p>Quando S. M., o sr. D. Affonso XII, houve por bem entrar em Madrid, depois +de concluida a guerra carlista, a cidade embandeirou-se, illuminou-se, gritou, +exclamou, abriu a bôcca. E sabem tudo porquê? Porque a cidade havia tomado<span +class="pn">{96}</span> muito chocolate. Sem <em>blague</em>. Estavam todos +fartos de chocolate, e a vingança foi digerir o patriotismo, abertamente, +rasgadamente, como qualquer leão do deserto.</p> + +<p>Só a tropa não havia tomado a sympathica droga, e, por isso, ella entrou na +cidade esfarrapada, com as faces crestadas pelo sol das montanhas, que não pelo +sol das batalhas, e olhos encovados e lobregos. Por isso o primeiro dever de +sua magestade o sr. D. Affonso XII será mandar vestir os que estão nús e dar +chocolate a quem tem fome.</p> + +<p>Que sua magestade seja misericordioso. Que sua magestade se inspire no amor +do proximo e no bem da humanidade!</p> + +<p>Sua magestade é rapaz, que não prima pela formosura, mas que poderá, de +certo, primar pelo espirito. Eu não tenho a honra de conhecer sua magestade. +Sei que entrou em Madrid, e que a estas horas—tres da tarde—já terá tomado +chocolate no seu palacio de <em>la Plaza de Oriente</em>.</p> + +<p>Deve ser-lhe de bom proveito, porque,<span class="pn">{97}</span> emfim, sua +magestade como primeiro cidadão do seu paiz, tem de andar sempre bem +alimentado, porque muito tem que trabalhar.</p> + +<p>Que sua magestade, portanto, haja por bem engordar e deitar fóra a magreza +que o devora, e tornar-se rijo, como qualquer dos seus soldados.</p> + +<p>Que sua magestade, como bom catholico, se digne implorar da providencia tão +alta mercê.</p> + +<p>Que sua magestade, reinando <em>por graça de Deus</em>, não seja frouxo nem +anemico.</p> + +<p>Que sua magestade, emfim, tome muito chocolate, para assim angariar a estima +de seus subditos e o amor do proximo!</p> + +<p>Que sua magestade não tenha pejo de entrar no café; que entre no café, que +questione, que se torne hespanhol, tomando a sua capa, e passeiando pelas ruas +da cidade, como qualquer humilde mortal.</p> + +<p>Posto isto nós não temos mais que dizer a sua magestade.</p> + +<p>E, portanto, que sua magestade passe muito bem, e me honre com as suas +ordens sempre que assim lhe aprouver.<span class="pn">{98}</span></p> + +<p> </p> + +<p class="estrelas">*<br> +* *</p> + +<p> </p> + +<p>Entre os muitos e notaveis cafés de Madrid, avultam, principalmente, o +<em>Imperial</em>, o <em>Oriental</em>, o das <em>Columnas</em> e o de +<em>Levante</em>, na Puerta del Sol, o <em>Suisso</em>, na rua de Sevilla, o da +<em>Iberia</em>, na Carrera de S. Jeronymo e o <em>Fornos</em> na rua de +Alcalá.</p> + +<p>O viajante que escolha á sua vontade; na certeza de que em todos elles +encontrará vida, apetite e enthusiasmo.</p> + +<p>Portanto—<em>à l'aventure</em>!<span class="pn">{99}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00112">XII<br><br> +O SALERO</a></h2> + +<p>Por Deus, que se tivesse agora de fallar numa mulher franceza, eu, á +semelhança de um prégador d'aldeia, invocaria em meu auxilio, não a virgem pura +dos altares, mas sim a orgulhosa modista de sua magestade a rainha—a sr.ª D. +Cecilia Fernandes.</p> + +<p>Mas o caso é outro. Trata-se de uma cousa engraçada, de uma cousa +extraordinaria, singular, de uma cousa perfeitamente real, e que não deve a sua +existencia neste mundo nem a Marsoo, a modista, nem a Stellpflug, o +sapateiro.<span class="pn">{100}</span></p> + +<p>Trata-se, minhas senhoras, trata-se meus senhores, trata-se do grande rei de +Hespanha, da grande alma dos cafés, do grande senhor da politica, da grande +<em>dama d'honor</em> de todos os paços, do grande, do supremo <em>Bobeche</em> +de todos os ministerios, do grande <em>Pierrot</em> de todos os tribunos; +trata-se (mas isto em segredo!) trata-se do <em>salero</em>.</p> + +<p>O <em>salero!</em> <em>Caramba!</em> Sabe a marqueza o que é o +<em>salero</em>? Nunca na sua vida teve, ao menos, um ataque nervoso; nunca se +irritou contra as diabruras do marquez; nunca teve as cócegas, que +ordinariamente nos trazem as comidas apimentadas; nunca experimentou +<em>Mabille</em>; nunca dançou um <em>can-can</em> simples, um d'estes +<em>can-cans</em> que mesmo em familia se dançam com os pequenos da casa; nunca +namorou, marquesa? e nesse culto virginal, não se mexia, não revirava os olhos, +não compunha o laço da gravata, não apanhava a prega do vestido, não se +assoava, não mudava um gancho do cabello, não tinha sorrisos frisantes, não +fingia, não brincava?<span class="pn">{101}</span></p> + +<p>Fazendo tudo isto, sem mesmo o saber, a marqueza tinha <em>salero</em>, e +era hespanhola.</p> + +<p>Mas, perdoe-me a leitora, para se ter <em>salero</em> não basta só conhecer +o <em>Terreiro do Paço</em> e o <em>Rocio</em>, ir de quando em quando a S. +Carlos ouvir mad. Sass, e frequentar aos domingos o <em>Passeio publico</em>, +como qualquer simples burguez.</p> + +<p>Nada d'isto. Se a marqueza realmente quizer ter <em>salero</em> saia de +Portugal, despeça-se dos seus amigos, vá a Madrid, tome a sua mantilha de +andaluza, frequente todos os dias o <em>Prado</em> e o <em>Retiro</em>, entre +no café imperial e discuta a politica do sr. Canovas del Castillo—emfim, minha +querida senhora, se quizer ter <em>salero</em> seja hespanhola.</p> + +<p>Bem vê, marqueza, que isto de ser portuguez é um tanto exquisito, e +arrasta-nos a gravissimos inconvenientes; porque, emfim, permitta-me v. ex.ª +que espirre um pequeno sarcasmo sobre o paiz do sr. D. Affonso Henriques—nós, +os portuguezes, nem temos a <em>coquetterie</em> franceza nem a seriedade +britanica; de modo, que, imitando<span class="pn">{102}</span> a todos, ficamos +sendo cousa nenhuma, o que mathematicamente equivale a zero.</p> + +<p>Destruir, porém, o zero, anathematisar o vacuo, preencher essa pequena +lacuna deselegante, rotunda e burguesa—tal deve ser a missão da nossa +mulher.</p> + +<p>Que o zero se retire d'este paiz: que o sr. Serpa não tenha pejo em o pôr +fóra da sua secretaria; que os grandes algarismos herculeos nos entrem pela +porta dentro, e exclamem soberbamente: «Nós, os finorios da arithmetica, nós é +que somos a riqueza, o credito e a virilidade. <em>Nos quoque gem +sumus....</em>»</p> + +<p>E dito isto—que <em>mylady</em>, a sr.ª marquesa, se não esqueça de mandar +vir uma boa carroagem <em>Daumont</em>; que <em>mylord</em>, o sr. duque, mande +preparar um bom jantar aos seus amigos intimos; e finalmente, que o +<em>demi-monde</em> procure Keil, a gloria dos alfaiates lisbonenses, +adquirindo assim, em virtude da thesoura, o <em>chic</em> e a pose de quem +muito viajou.</p> + +<p>Já vêem que o conselho é aliás muito trivial; para o pôr em pratica uma +unica<span class="pn">{103}</span> condição se requer—pagar aquillo que se +deve.</p> + +<p>Eu desejava, é verdade, que a leitora tivesse <em>salero</em>—que o +comprasse nos cafés, nas <em>calles</em>, na <em>Puerta del Sol</em>, que o +adquirisse no <em>Prado</em> e no <em>Retiro</em>, onde diariamente apparecem +de mil a duas mil carroagens, deslumbrantemente equipadas, mas, emfim, se isto +lhe é de todo impossivel, se realmente lhe repugna o caracter hespanhol, tenha +paciencia, e mande vir um figurino de Paris. Aprenda a calçar-se bem; arranje +60 libras, e appareça um dia no <em>Bois de Boulogne</em>; decore dois ou tres +bons ditos: torne-se artificial, ligeira, engraçada, mas com <em>verve</em>, +<em>avec de l'esprit</em>—numa palavra torne-se franceza; ou ainda, se a +menina vê difficuldade neste passo e tem aspirações a ser mãe, então tenha a +bondade de tomar um bilhete pelo primeiro paquete de Southampton e de visitar a +Inglaterra.</p> + +<p>E assim é realmente que a mulher hespanhola é mais material do que +sentimentalista, mais da sociedade do que da familia, mais do mundo do que do +coração.<span class="pn">{104}</span></p> + +<p>Por via de regra, a hespanhola é franzina, delicada do corpo, com as faces +coloridas pelo uso do chocolate e os olhos scintillantes de vivacidade e de +ardor verdadeiramente meridional—alguma cousa do facetado do crystal e da +delicadeza da porcellana; nem possue o <em>coquettismo</em> da franceza, porque +lhe falta o apuro do espirito, a revelação da ironia, o pungente do sarcasmo, +nem a <em>mènagerie</em> da mulher ingleza, porque ella é muito simplesmente a +negação d'esse viver intimo e famillar.</p> + +<p>Mas, em compensação, ella, a minha formosa andaluza, tem uma cousa que +nenhuma mulher d'este mundo é capaz de ter—ella tem o <em>salero</em>, isto é, +o desprendimento olympico, titanico, por tudo quanto é vida e amor, o doce +<em>laisser-aller</em> da arte, que é luz, e magnetismo—luz, que abrasa em sua +chamma aquellas candidas borboletas dos cafés, magnetismo, que adormece em seus +braços aquellas ternas andorinhas, como as outras aves, suas irmãs, sequiosas +de ar, de prazeres mundanos, de folgança, mas folgança, perfeitamente real, +selvagem como o matar de<span class="pn">{105}</span> um touro, o esfaquear de +uma creatura, ou o abrazar de uma consciencia—ella, a hespanhola, ella não é +verdadeiramente uma mulher, mas muito mais do que isso:—ella é um rapaz de +saias, um pequeno demonio alegre, juvial, attrahente, um doce mysterio de dois +sexos, incomprehensivel, que ao mesmo tempo participa de um, pela virilidade, +pela audacia, pelo arrojo, e de outro pela meiguice inconsequente, pelo rir +suavemente acariciador, e pela ternura extraordinariamente singular que as +reveste.</p> + +<p>Oh! as hespanholas! as originaes!...</p> + +<p>As nossas mulheres, por exemplo, imitam servilmente as francezas; mas +ella—por Deus!—ella é o que é—só ella, sem mais ninguem, caprichosa, unica, +originalissima.</p> + +<p>Aquelle fallar, aquelle rir, aquelle modo de dizer as cousas tão á +<em>propôs</em> e tão seu, aquelle <em>salero</em>, e, sobre tudo isto, fazem +com que a mulher hespanhola tenha dois lados immensamente notaveis e +extraordinarios—a energia e o <em>salero</em>, isto é, o chocolate na sua +consequencia digestiva<span class="pn">{106}</span> e physiologica—o movimento +e a graça.</p> + +<p>Dito isto, minha querida leitora, façamos como ellas—tomemos o chocolate e +tenhamos <em>salero</em>.</p> + +<p><em>Caramba! que salero!...</em><span class="pn">{107}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00113">XIII<br><br> +THEATROS</a></h2> + +<p>A vivacidade do genio hespanhol tem ainda um reflexo do seu bom humor e da +sua veia, sempre fina, alegre, e sarcastica a espaços relampagueada por um raio +de colera ou por uma faisca de trovoada—é o theatro.</p> + +<p>Oh! os theatros em Hespanha! que sumptuosos edificios! que riqueza na +<em>mise-en-scene</em> de qualquer peça! que luxo! que prodigalidade...</p> + +<p>Ao ouvir as doces <em>malagueñas</em> e as ternas seguidilhas, desferidas +por labios de romã, que nem eu sei se são da terra, se<span +class="pn">{108}</span> são do ceu, quasi chegamos a julgar-nos transportados +ao Oriente, com todo o seu cortejo de sensualidades que matam, de +<em>bailadeiras</em> que seduzem, e de amores que fervem.</p> + +<p>Que deliciosissimas sereias, em pleno seculo XIX! que sublimes actrizes, +aquellas, meu Deus! E havia de, ainda assim, ser condemnado um cidadão, se, +<em>à la belle etoile</em>, e a occultas da parentella, intentasse o rapto +d'uma d'aquellas formosas <em>sabinas</em>, mais diabos que o proprio Diabo e +ganhando em seducção á propria serpente do paraiso terreal?!...</p> + +<p>Uma cousa, porém, distingue o theatro hespanhol—é a <em>zarzuella</em>, +especie de meio termo entre a opera lyrica e a opera buffa; suave umas vezes +com as transparencias sentimentaes das paixões humanas, alegre sempre, folgasã +quasi sempre, e por toda a parte impregnada d'um estranho frescor de malicia e +de surpreza, que chega a prender ainda os menos atreitos aos laços de +Satanaz.</p> + +<p>Em França, por exemplo, a opera buffa foi uma creação meramente do +<em>demi-monde</em>;<span class="pn">{109}</span> creação necessaria no meio +das corrupções do imperio, em que se fazia mister caricaturisar e pôr bem ao +vivo todos os podres de uma sociedade effeminada, desde o imperador, que +representava o vicio dourado e a lepra engastada em diamantes artificiaes, até +á ultima <em>grisette</em>, que, por causa de um estudante do bairro latino, +tinha empenhado os seus derradeiros ceitis: mas com a <em>zarzuella</em> não +succedeu o mesmo, porque ella foi uma creação espontanea da jovialidade de um +povo relativamente feliz, e que ha de sobreviver a todos os cataclismos +sociaes, como até aqui tem sobrevivido a todos os tempos.</p> + +<p>Offenbach tem na sua gamma uma só nota caracteristica—o riso, a ironia, o +sarcasmo. Marianno de Larra, auctor de muitas <em>zarzuellas</em> notaveis, +possue, além do riso, a lagrima que lhe serve de contraste e que o +dulcifica.</p> + +<p>A <em>Grã-Duqueza</em> é uma correcção ás momices imbecis de uma diplomacia +estonteada, um quadro fiel das <em>cocottes</em>, arvoradas em mandadeiras de +exercitos,<span class="pn">{110}</span> uma photographia de costumes +pervertidos pela immoralidade de um governo inepto e pelo capricho de um +monarcha infame; o <em>Jogar com fogo</em> é um entre-acto agradavel ás acenas +da vida, um delicioso intervallo aos soffrimentos e ás dôres da humanidade.</p> + +<p>E é o que tem a <em>zarzuella</em>: não cança nunca, porque foi um producto +natural e espontaneo dos hespanhoes, tal qual como o chocolate e o +<em>salero</em>; ha de viver sempre, e atravez de tudo, porque tem em si +impresso o cunho da originalidade e da tradição, que não morre, e a elevação do +sentimento, que será sempiterno no seio dos homens e das civilisações.</p> + +<p>A opera-buffa foi um arranco de homens fortes, em meio da perdição que os +ameaçava; nem ha de ter nunca a universalidade da <em>zarzuella</em> nem a +elevação da alta-comedia. O seu dominio no theatro ha de ser, portanto, +passageiro e ephemero.</p> + +<p>Numa palavra, a <em>zarzuella</em> tem as suas raizes nas immutaveis +oscillações do coração humano, e que a torna duradoura e imperecivel; a +opera-buffa originou-se<span class="pn">{111}</span> numa sociedade de +transição, e ha de, por isso, como ella, ter um mediano imperio sobre as épocas +positivas e scientificamente organisadas.</p> + +<p>Em quasi todos os theatros de Madrid se canta a <em>zarzuella</em>, e em +quasi todos elles tambem com a animação, com o vigor, com a frescura com que só +os hespanhoes a sabem cantar.</p> + +<p>Quando, pela primeira vez, entrei no <em>Theatro Real</em>, situado no largo +de Isabel II, com a fachada principal para a praça do Oriente, senti-me +sinceramente deslumbrado. É tal o luxo d'aquella casa, tal a ordem, tamanho e +socego, que, em boa verdade, mal chega a gente a pensar que esteja na capital +da Hespanha, no paiz dos bandoleiros de toda a especie e no centro de um +vulcão, sempre em revolta comsigo mesmo.</p> + +<p>E depois, que contraste entre uma tourada e uma representação theatral! Que +a delicadissima leitora, do meio de um deserto, confuso, anarchico, impetuoso, +açoutado pelo <em>simuon</em> e ennegrecido pelas areias, se julgue subitamente +transportada<span class="pn">{112}</span> a um paraiso, onde adejam os +cherubins com as suas azas brancas e onde sorriem os anjos com as faces +louras.</p> + +<p>Assim me succedeu a mim quando uma tarde, dos suburbios da Porta de Alcalá, +onde existe a praça de touros, me lembrei de ir ao theatro, afim de ouvir +cantar esse eterno e insubstituivel poema do coração humano, mui modestamente +chamado—<em>Romeu e Julietta</em>.</p> + +<p>Nunca em Hespanha uma pateada interrompeu os espectaculos lyricos. A platêa +do <em>Theatro real</em> não é só rica em alcatifas, em estofos, em casacas e +gravatas brancas, mas ainda e muito principalmente na seriedade dos seus +espectadores e na respeitabilidade mais que urbana e generosa dos seus +<em>habitués</em>.</p> + +<p>Na rua de Jovellanos encontra-ae o theatro da <em>zarzuella</em>. De +<em>zarzuella</em>... dizem elles; nós diriamos quasi um segundo theatro +lyrico. Que vozes tão admiravelmente timbradas, e que modulações tão +harmonicamente produzidas!</p> + +<p>Representava-se então uma velha <em>zarzuella</em>, muito velha e muito +ouvida, mas<span class="pn">{113}</span> sempre fresca no rhythmo e no +pensamento, que é nada menos do que a expressão do caracter hespanhol. Queremos +fallar de <em>Pan y toros</em>.</p> + +<p>—<em>Panem et circenses</em>, gritavam os romanos; <em>Pan y toros</em>, +exclamam os hespanhoes, como querendo mostrar a intima affinidade que, de +facto, existe entre um e outro paiz. Mas—cousa singular! a França tambem é de +origem latina, e no entretanto a França, a generosissima filha da revolução e +do pensamento moderno, em vez de pão e touros, do alto das suas muralhas de +guerra e do topo das suas fortalezas, soluça altivamente—<em>ou pão ou +chumbo</em>.</p> + +<p>E assim é realmente que ella caminha, não em demanda de espectaculos que +embrutecem, mas sim em procura de civilisações, que são como que os marcos +milliarios da humanidade trabalhadora.</p> + +<p>Muito bem. Imaginemos a côrte no doido phrenesi d'um baile. Subito uma +denotação fere os ares. Abre-se uma das janellas do palacio. Cessa a volupia. +Um dos convivas descendo a escadaria, reconhece<span class="pn">{114}</span> +haver-se morto ali um capitão de infanteria, ha poucos instantes. Averiguado o +caso nada era.</p> + +<p>—«Póde o baile continuar, exclama o mestre. Não é nada, não é nada. Um +homem morto. Apenas um homem morto!»</p> + +<p>E a orgia proseguiu; porque, a dizer-se a verdade, não vale nunca a pena +interromper os prazeres mundanos pela simples bagatella de um assassinato.</p> + +<p>Ora nesta <em>zarzuella</em> transparece perfeitamente o caracter hespanhol, +irrequieto e indomavel, com todos os seus mil caprichos de momento e as suas +labyrinticas phantasias de occasião.</p> + +<p>Além, porém, d'estes dois theatros, ainda poderiamos mencionar muitos +outros, e entre elles o theatro da <em>Comedia</em>, theatro muito moderno, +lindissimo na fórma e admiravel pelo seu reportorio; o theatro do +<em>Circo</em>, na praça del Rey; o theatro de <em>D. Affonso</em>, proximo da +Porta de Alcalá; o theatro das <em>Variedades</em>, o theatro das +<em>Novidades</em>, etc., etc.</p> + +<p>E tudo isto ainda por cima, rodeado de circos, de largos, de exposições, de +musicas,<span class="pn">{115}</span> de alegrias ferozes e de mulheres +encantadoras.</p> + +<p>É verdade, e os <em>patinadores</em>?</p> + +<p>Fallemos dos <em>patinadores</em>.<span class="pn">{116}<br>{117}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00114">XIV<br><br> +OS PATINADORES</a></h2> + +<p>Princeza, o seu braço! Vossa alteza é morena, viva, alegre; tem uns bellos +olhos rasgados, profundos, negros, como os abysmos do inferno. Pois bem: que a +sua alma ardente e expansiva, como este bello sol da peninsula, que nos aquece +e anima, se digne, por um pouco, acompanhar-me a aspirar o ar bom da +natureza.</p> + +<p>Quero tel-a ao meu lado, rainha. Bem vê—eu não sou fidalgo, nem conde, nem +barão. Á fé que o não sou. Mas emfim, se é verdade que a um democrata nunca +ficou mal beijar a mão de uma aristocrata,<span class="pn">{118}</span> +conceda-me a indiscripção. Os meus labios tocarão delicadamente á superficie +d'essa meiga flôr de liz, mais bella e mais transparente do que uma renda de +Bruxellas. Depois, e só depois, o paraizo...</p> + +<p>Antes de mais, porém, tomemos um fiacre, um commodo fiacre, ligeiro, com +duas molas flexiveis, dois nobres cavallos, briosos, e um valoroso cocheiro de +mão certa e pulso firme. É verdade que as rainhas hoje nem sempre estão +prevenidas. No entretanto, tu, minha velha amiga, tu, que não tens nenhum reino +a perder; tu, que nunca passaste do <em>boulevard</em> com todos os seus +perigos e attracções; tu, com certeza, tens ainda os cem luizes que hontem á +noite te deixou aquelle inglez excentrico de suissa loura e ar grave.</p> + +<p>É para elles que eu appello, para esses cem luizes honestos, puros, serenos, +capazes de encher a historia do mundo, e incapazes de concitar em redor de si +odios republicanos ou raivas demagogicas. Não! os cem luizes são de todos—de +todos os tempos e de todos os logares—reinando<span class="pn">{119}</span> +sempre, e sempre bem: irresponsaveis, sem exercitos, sem côrte, sem apparato, +mas valentes, com consciencia de si, e valendo pelo silencio, aquillo que os +mais abalisados do mundo não podem conquistar pela palavra.</p> + +<p>Que magnificos sujeitos!</p> + +<p>E agora reparo que nestas conversas iamos perdendo o tempo. Aqui está a +carruagem. Entremos para a carruagem.</p> + +<p>Da <em>Puerta del Sol</em> ao <em>Prado</em> são dois passos. Olhe a +princeza: vê aquelle cavalheiro de bigode e pera alourados, estatura regular, +pallido de rosto e expressivo no olhar?—é o general Pavia, o celebre assassino +da republica em Hespanha.</p> + +<p>Mais além, repare: aquella morenita, leve como uma penna, e adoravel como +uma fada, é Pepa—uma heroina de amores e uma actriz de corações humanos. Mas, +que nobre vulto, este agora? É o duque de Abrantes, por sangue descendente de +Portugal, antigo possuidor da quinta das <em>Laranjeiras</em>, senador e +conselheiro de Isabel II. É homem baixo, magro, secco e decidido nos seus +gestos, o<span class="pn">{120}</span> que indica uma vontade firme e um +caracter recto.</p> + +<p>Mas chegámos, finalmente. Uma vez que estamos em <em>Recoletos</em>, +entremos num d'estes circos.</p> + +<p>Que magnifico sol e que supremas alegrias! A neve é pouca; e por isso nós, +que queremos patinar, recorreremos ao artificio.</p> + +<p>A praça está encerada. Muito bem. Patinemos na praça.</p> + +<p>O seu pé, minha doce amiga. Não tenha medo. Por Deus, não trema. Não trema, +que não morrerá, asseguro-lh'o eu. Nunca leu a admiravel historia dos +patinadores descripta por Alexandre Dumas no <em>Colar da Rainha</em>?</p> + +<p>Olhe, é um encanto! Por exemplo, eu quero patinar, mesmo no circo, colloco +debaixo de cada pé um pequeno carrinho, composto de tres rodellas de ferro.</p> + +<p>Dê-me o seu pé, e verá.</p> + +<p>Agora firme, sem attrictos, serenamente, imperturbavel; deixe-se escorregar, +como uma pequena gondola veneziana; unicamente, para não cahir, imprima um<span +class="pn">{121}</span> leve movimento aos joelhos, alternando-os, por causa da +lei do equilibrio.</p> + +<p>Depois, oh! depois, o infinito, o ideal, o amor, as azas, mais velozes do +que as de uma ave, as pernas mais ligeiras que as de uma corça; uma estranha +mão apertando-nos a nossa; é o paraiso a sorrir-nos num beijo que ninguem vê, +e a gloria a mirar-nos num céo, que nos allucina, que nos embriaga, que nos +absorve.</p> + +<p>Correr, voar, amar!—tal é o triplice fim de um patinador.</p> + +<p>Mas, antes que se chegue a ser um bom patinador, intrepido e valente—que +trabalhos, que luta e que risota! Que risota, sobretudo!</p> + +<p>Vai um portuguez a Madrid, e mesmo nisto começa por conhecer a sua +inferioridade. Que poltrão! Aluga dois carrinhos, e vem para o circo: olha; vê, +sorri-se, anedia as guias do bigode, dá um geito ao cabello, e toma ares de +<em>Bayard</em> de papellão; deseja tomar a posição perpendicular, e vacilla. +Dou-lhe um, dou-lhe dois, dou-lhe tres; por fim o heroe parte; horror! não +parte, porque a inhabilidade o torna<span class="pn">{122}</span> pesado, +refractario á gymnastica, e ao desenvolvimento de musculos. Risota geral—Ah! +Ah! Ah... <em>Hic jacet infelix patinator...</em></p> + +<p>A victima levanta-se, desconfia d'aquelles comprimentos improvisados, e +conclue por detestar os sabios de qualquer natureza que elles sejam.</p> + +<p>Mais uma tentativa. Vejamos. Talvez fosse defeito das rodas, talvez dos pés, +talvez da falta de agilidade... Experimentemos. Novo impulso. Ah! Ah! Ah! Nova +queda.</p> + +<p>E, entretanto, em quanto isto se dá, alguns milhares de cavalheiros vão +seguindo o seu rumo, sem interrupção, olhando de soslaio os principiantes, e +mostrando naquelle modo de correr que até a andar se póde ter consciencia de si +e vaidade dos outros.</p> + +<p>Duas senhoras inglezas vi eu, um tanto esquivas ás ironias do amor, que mais +pareciam, patinando, sonhos aéreos, visões romanticas do que realidades +terrenas.</p> + +<p>Nós a tentarmos a approximação, e ellas a fugir, a fugir, como sombras +longinquas,<span class="pn">{123}</span> que só por escarneo se approximam de +nós, para novamente nos escapar, fazendo-nos umas tristes e desoladas figas.</p> + +<p>Que horror! E Frutos Martinez, o patinador illustre, avisado naquelles +assumptos, collocando, cheio de raiva os seus carrinhos, lá se ia, +inconscientemente, atraz d'aquellas borboletas de olhos azues e cabellos +louros.</p> + +<p>Mas, certamente, meus caros concidadãos—a patinação não e simplesmente um +espectaculo agradavel, rodeado de peripecias curiosas e movido por generosos +impulsos de espirito. Não! na patinação ha ainda mais o desenvolvimento +physico, que muito conviria á nossa mocidade enfesada, e o interesse moral, +que, de certo, aproveitaria mais aos nossos rapazes do que uma facada dada no +Bairro Alto, em pleno dia.</p> + +<p>Em todo o caso, uma vez que assim queremos ser, sejamos assim, sem graça, +sem espirito, e sem a elegancia, que naturalmente se exige nas existencias +modernas.</p> + +<p><em>Honra soit qui mal y pense...</em><span class="pn">{124}<br>{125}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00115">XV<br><br> +TOURADAS</a></h2> + +<p><em>A los toros! a los toros!...</em></p> + +<p> </p> + +<p>E a populaça, ebria de sangue e sedenta de prazer, empoleirava-se no cimo +das carruagens, comprava camarotes pelo dobro do preço, corria pelas ruas como +um possesso, gritava, ria-se, atirava ao ar os seus chapeus emplumados, +cortejava a realeza que passava, dava vivas á <em>Marselhesa</em>, e fugia, +fugia nas azas do phrenesi irrequieto, em demanda do mais barbaro de todos os +espectaculos do mundo.</p> + +<p>Ó Hespanha, minha querida amiga, doce<span class="pn">{126}</span> filha dos +cafés e da volupia, tu, que possues <em>museus</em> que te são um legitimo +patrimonio de orgulho e de riqueza; tu, que amamentaste ao teu seio os maiores +oradores da Europa contemporanea; tu, que tiveste artistas como Murillo, +Velasques, e Goya; tu, que és o amor, a contradicção, o mysterio; tu, minha +perola, tu não devias ser <em>torera</em>.</p> + +<p>Emfim, eu sei que tu tens defeitos; e o teu primeiro defeito, acredita-me +bem, é ser militar. Os teus rapazes, porque são novos, desejam agradar ás +mulheres: pegam numa arma com a mesma sem-ceremonia com que nós aqui bebemos um +copo de agua. Que valentões! O campo de batalha sorri-lhes, o inimigo +revolta-lhes as iras concentradas, e são leões, atiram-se, atiram-se ferozmente +sobre a metralha adversa. Nem sua magestade o canhão Krupp os intimida, nem os +joelhos lhes tremem á vista do adversario.</p> + +<p>Que valentões! que valentões...</p> + +<p>Ai! querida minha, que se não fossem as mulheres, tu serias mais feliz e +respeitada. Mas, que diabo! para que tens tu<span class="pn">{127}</span> +filhas tão formosas?—para que? Não te bastava já o chocolate, para, á +semelhança de um vulcão, trazeres sempre dentro de ti o fermento da revolta? +Ainda, por cima, olhos scintillantes, rostos abrasadores e <em>salero</em> +atrevido? Ora pois, nada mais te faltava...</p> + +<p>Tem paciencia; mas tu, Hespanha, tu o que tens é excesso de calor, de +sensualidade, de veneno, de corrupção. Os estrangeiros acham a tua cosinha +demasiadamente apimentada; nós encontramos as tuas mulheres sempre como uma +braza—a ferver; nos teus cafés toma-se pouca soda; o proprio sr. Canovas del +Castillo, quando falla no congresso, não é muito atreito aos gólos de agua; o +teu rio é semsaborão, estreito, pouco abundante e superficial. Ao que parece, +um poucochinho de agoa de mais, um poucochinho de lume de menos não deixaria de +fazer-te bem. Numa palavra, minha querida amiga, se queres viver independente, +feliz, alegre, satisfeita comtigo mesmo—purga-te, manda vir da botica duzentas +grammas de bom senso politico, que será a tua magnesia<span +class="pn">{128}</span> calcinada;—fóra, fóra com essa bilis que te devora o +organismo: estomago limpo e menos... chocolate aos srs. politicos.</p> + +<p>Mas os touros, os touros! por vida minha, que nunca assisti a espectaculo +mais curioso, mais terrivel, mais seductor. Até as proprias mulheres se tornam +viris, musculosas, corpulentas—ellas, que uma hora antes tinham acceitado a +côrte a um gentil militar imberbe; ellas, que são um puro mysterio, uma alta +excentricidade; ellas, emfim, que têm o dom mythologico de nos apparecer sob o +duplo aspecto da força e da fraqueza, do repente e do meditado, do meigo e do +energico.</p> + +<p>Inundára-se de povo a <em>Calle de Alcalá</em>. Os <em>char-á-bancs</em> +eram sem numero; os guisos telintavam nos classicos muares; por toda a parte a +corrida infrene, as subitas allucinações, os risos infernaes; as vertigens, que +referviam em desejos ardentes; a loucura, que volitava em nuvens de +enthusiasmo; a alegria, que trasbordava em ondas de amor; a vida, a mulher, o +fumo, o chocolate, os touros emfim.<span class="pn">{129}</span></p> + +<p>Que delirio para aquella gente! que devoção! que irresistencia!</p> + +<p>Chega o primeiro touro: os leques agitam-se; no olhar ha mais irradiação; +scintillam as moedas de prata; aos pés do bandarilheiro audaz cahem as dezenas +de charutos.</p> + +<p>—A elle, meu valente, a elle...</p> + +<p>E o cavalleiro aponta-lhe a lança ao pescoço, e o animal investe com o +cavallo. Com uma das pontas rasga-lhe o ventre; a multidão, embriagada, +applaude o sangue; mais uma investida e o <em>misero cavallo lazarento</em> +succumbirá; assim; mais uma; até que, emfim, vem a morte dulcificar este +pandemonio infernal!</p> + +<p>Agora <em>Lagartijo</em> que se approxime; elle traz uma pequena espada na +mão direita; para elle está reservada a mais garbosa <em>moña</em>, que nunca +mão de mulher se lembrou de fazer. Deante do touro o heroe não trepida; lá +estão ambos que parecem dois tigres: alfim o animal cança: <em>Lagartijo</em> +investe; mais uma volta, e o touro cahirá.</p> + +<p>As bandas marciaes rompem em hymnos estridentes; a populaça agita os +lenços<span class="pn">{130}</span> de côr; em todos os olhos se lê o phrenesi +irrequieto, nervoso, indomavel: <em>Lagartijo</em> venceu, <em>Lagartijo</em> é +o heroe da festa; triumpho a <em>Lagartijo</em>...</p> + +<p><em>Otro toro! otro toro!...</em></p> + +<p>Quasi que nem chega a haver tempo para arrastar para fóra da praça os +derradeiros restos d'aquella barbara batalha, tão audazmente pelejada entre um +homem e um animal, que, em vez de joguete de circo, muito bem podia ser a +felicidade da agricultura e o alimento da miseria.</p> + +<p>Touro, cavallo, farpas, lanças,—tudo á uma é arrastado em padiolas para +fóra do amphitheatro.</p> + +<p>Depois, esperando, faz-se sempre votos para que o outro touro seja melhor do +que o seu antecessor; como se para saciar a avidez dos espectadores fosse pouco +todo o sangue derramado.</p> + +<p>É que a Hespanha é realmente assim, em meio da sua vida tumultuosa e larga. +Pouco lhe importa a morte de dez, vinte, trinta homens; a questão é que o +enthusiasmo não decresça nunca, e que a vida não deixe jámais de ser uma terna +e doce<span class="pn">{131}</span> folgança, onde os risos e as lagrimas, as +alegrias e as tristezas crescem e augmentam, temperados na mesma proporção.</p> + +<p>E, no entanto, nenhum paiz existe de mais vastos recursos do que a Hespanha, +onde as minas de cobre, de ouro, de prata são quasi tantas como as suas +provincias e os seus concelhos.</p> + +<p>Nas suas planicies, por igual risonhas e productivas, medra e desenvolve-se +toda a especie de productos agricolas; as suas paizagens, se bem que aridas na +Extremadura, pela escacez de agoa, tomam todavia um aspecto deliciosissimo na +Andaluzia, onde as mulheres e os horisontes se disputam a palma e o amor.</p> + +<p>Abençoado paiz! Nem as guerras, nem as dissidencias civis, nem as revoltas +populares poderam ainda prostral-o.</p> + +<p>Uma nação que tão sinceramente ama as touradas, não poderá nunca deixar de +ser guerreira e sanguinosa.</p> + +<p>Ai de nós, no momento em que a Hespanha deixasse de ser o que é—lutadora, +<em>torera</em> e ruidosa.</p> + +<p><em>A los toros! a los toros!</em><span class="pn">{132}<br>{133}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00116">XVI<br><br> +O PRADO E O RETIRO</a></h2> + +<p>Dizem os physiologistas que o calor é a vida; e por isso é, creio, que os +cafés, assim como as <em>soirées</em>, assim como os <em>clubs</em>, assim como +os <em>boulevards</em> se tornam hoje uma verdadeira e insubstituivel +necessidade social.</p> + +<p>Que o homem nasceu para a sociedade—escrevem-o philosophos abalisados e +tem-o repetido ha um seculo, e ininterruptamente, o corpo cathedratico da nossa +universidade.</p> + +<p>Esta verdade passou, porém, da metaphysica á pratica; e assim é que, ao +contrario<span class="pn">{134}</span> de Rousseau—que na natureza fundava +todo o pacto entre os homens—se elevaram, como por encanto, o <em>Bois de +Boulogne</em>, em Paris, o <em>Hyde Park</em>, em Londres, e o <em>Central +Park</em>, em New-York.</p> + +<p>A não ser Lisboa, a velha fanatica do passeio publico, poucas cidades ha +agora na Europa, que não tenham o seu pequeno <em>boulevard</em>, especie de +<em>rendez-vous</em> do mundo elegante e da fina sociedade do bom tom.</p> + +<p>E necessario é que isto assim seja. O <em>boulevard</em> não é simplesmente +uma ostentação de capital, mas ainda mais uma parte indispensavel á educação de +um povo, que não é só intellectual e moral, senão tambem physica e social.</p> + +<p>Em Paris qualquer creança aprende mais pelos olhos e pelo ouvido do que nós +nas nossas escolas. E o motivo é facil. Habituados desde a infancia a +frequentar os differentes jardins—botanico, zoologico, etc.—quando chegam a +uma edade razoavel, quasi se póde dizer que são dotadas de uma vasta e profunda +educação.</p> + +<p>Praticamente aprendem os nomes aos<span class="pn">{135}</span> animaes; +ouvem-lhes a historia; assistem-lhes ao desenvolvimento e acompanham-lhes os +movimentos e os instinctos. E tudo isto, porque desde pequenos frequentam os +<em>boulevards</em>, onde brincam e onde muitas vezes arranjam os meios de +ganhar a vida no futuro.</p> + +<p>Mas o <em>boulevard</em> tambem é hygiene, pelo bom ar que lá se respira, +pelos exercicios a que convida, e pela facilidade com que se passeia. Depois +nem só isto. Ha ali campo para largas observações e assumpto para profundos +estudos. Muitos romances conheço eu que tiveram lá a sua origem, além de muitas +mulheres que lá foram procurar a sua felicidade e a sua riqueza.</p> + +<p>O <em>Prado</em> é um dos mais celebres e um dos mais concorridos passeios +da sociedade elegante de Madrid. Diz-se que a sua origem, tal qual se acha +presentemente, data do reinado de Carlos III. Rodeado de fontes, de lagos, de +arvores, de estatuas, de <em>restaurantes</em>, de praças, o seu espaço é +enorme, extendendo-se da fonte de Cybele quasi em linha recta até +encontrar<span class="pn">{136}</span> o passeio de Atocha, formado pela +prolongação da rua do mesmo nome.</p> + +<p>É raro o dia em que ali não passeiam de quinhentas a mil carruagens, +vendo-se frequentemente dentro d'ellas rostos formosissimos, adornados de +bellos olhos, profundos e escuros, como só os sabem ser os olhos hespanhoes.</p> + +<p>Com dois ou tres passeios ao <em>Prado</em> quasi se fica conhecendo toda a +sociedade madrilena, nas suas distincções e nos seus vicios, nas suas virtudes +e nos seus erros.</p> + +<p>E depois—que mulheres!</p> + +<p>A uma historieta assisti eu, divertidissima por signal e extremamente +curiosa.</p> + +<p>Um amigo meu, amoroso e simples, encontrou-se um dia profundamente +apaixonado por uma gentilissima menina, que todas as tardes ali costumava +expôr-se á admiração geral dos passeiantes e dos leões da moda.</p> + +<p>Até aqui, já se vê, nada de extraordinario.</p> + +<p>O ingenuo rapaz, porém, não se podendo mais conter, entrou-se tristemente +na<span class="pn">{137}</span> desgraçada usança portugueza, e abeirando-se da +mulher, fez-lhe a seguinte declaração:</p> + +<p>—Deponho aos seus pés, minha senhora, a mais pura e sincera homenagem dos +meus respeitos e do meu amor...</p> + +<p>Ao que a deusa respondeu:</p> + +<p>—Ai! que graça!... Se o cavalheiro soubesse em que eu agora estava a +pensar?!...</p> + +<p>O galã aproximando-se mais:</p> + +<p>—Em que estava a pensar?!...</p> + +<p>—Sim, pois não adivinha? aflautou a ingenua.</p> + +<p>—Certamente que não.</p> + +<p>—Pois olhe estava a pensar num bonito vestido de riscas...</p> + +<p>Ó illusões! ó facadas!</p> + +<p>No dia immediato o apaixonado moço pegou num lapis, e escreveu á pressa num +bilhete de visita as seguintes e doces palavras:</p> + +<p>«Pepa (era o nome da heroina)—«Pepa—aborreço-me, e adoro-te».</p> + +<p>A resposta, porém, não veio. Pegou noutro bilhete, e tornou a escrever:<span +class="pn">{138}</span></p> + +<p>«Quem a adora, onde a poderá encontrar?»</p> + +<p>Então o coração de Pepa pulsou violentamente dando de si uma tremenda +explosão que em seguida passamos a transcrever fielmente.</p> + +<p>«Cavalheiro—Recebi o seu primeiro e o seu segundo bilhete. Não respondi ao +primeiro, porque não quiz, e ao segundo apenas tenho a dizer que o acho de um +arrojo extraordinario e nunca visto».</p> + +<p>Assignado por um nome supposto que não era o de Pepa.</p> + +<p>Assim continuaram as cousas. Os episodios succederam-se uns após outros. +Numa noite, comtudo, ás tristezas do costume seguiram-se no meu amigo umas +alegrias estranhas. Interroguei-me a mim e interroguei-o a elle. Reparei-lhe +nos olhos, e reconheci-os mortiços; olhei-lhe as narinas, e vi-lh'as +extraordinariamente dilatadas. Então a minha consciencia deixou o estado de +duvida em que se achava, e entrou serenamente na estrada da certeza. A +conquista havia-se effectivamente realisado. Pepa, a sublime actriz, depois +de<span class="pn">{139}</span> varias piruetas, de varios zig-zagues, de +varias fórmulas, concluira emfim por se render. Não era praça inexpugnavel. +Presentiu metralha, e caiu. Cumpriu religiosamente o dever que a sua condição +lhe impunha.</p> + +<p>E nada mais. O meu patricio, o indigena, sahia todos os dias de casa, alegre +e bem disposto, e entrava altas horas da noite com algumas libras de menos na +algibeira e com algumas desillusões a mais no espirito, até que por fim se +saciou.</p> + +<p>Ao deixar Madrid, elle vinha menos ingenuo e mais pratico. Lições do +<em>boulevard</em>!</p> + +<p>Na hora da partida escreveu á sua amada uma carta frisante, que bem nos póde +revelar a transformação que no seu caracter se operára ultimamente.</p> + +<p>«Minha menina—Um negocio urgente me chama a Lisboa. Digo-lhe adeus. A +menina é formosa, elegante e distincta. Com duas ou tres horas de janella por +dia, estou convencido, encontrará um digno substituto á minha pessoa. Sem mais. +O seu...»<span class="pn">{140}</span></p> + +<p>E assim é, de facto, o <em>boulevard</em>:—a vida, o amor, a formosura—e +tambem a lição aos ingenuos e a practica aos inexperientes.</p> + +<p> </p> + +<p class="estrelas">*<br> +* *</p> + +<p> </p> + +<p>Agora, marqueza, tenha paciencia, caminhemos para o <em>Retiro</em>.</p> + +<p>Dizem que o sol é o pae da vida—approveitemos o sol. <em>Bras-dessus</em>, +<em>bras-dessous</em>, conversemos. Que lindo tempo! É verdade!—sabe a +marqueza de um facto que hontem se deu na cidade? Não sabe? Pois eu lhe conto. +Conhecia a Dolores, a formosissima <em>cocotte</em> da <em>rua de Alcalá</em>? +Que elegante mulher! Tinha uns cabellos louros, que pareciam estrellas do céo. +Os amantes, que eram aos centos, querendo comparar a côr do seu cabello com a +côr do ouro, por mais de uma vez tinham ficado sem o dinheiro, e, o que é peior +ainda, privados tambem do proprio cabello de tão gentil <em>señorita</em>. Que +ferro, minha amiga, que ferro!<span class="pn">{141}</span></p> + +<p>Ha de haver seis mezes, Dolores appareceu, como de costume, no +<em>Prado</em>. Seriam quatro horas, quando eu a vi chegar. Trajava um elegante +vestido de seda escarlate, cuja fimbria recebia quotidianamente os beijos dos +amantes e os suspiros do solo, que muito ao de leve pisava e quasi sem mesmo se +aperceber. Porque Dolores, a vaidosita, não era mulher que por ahi se gastasse +em qualquer passeio solitario. Ella tinha a sua carruagem—uma bonita carruagem +moderna e commoda—e tinha tambem, além de muitos escravos, de que o seu +coração por vezes escarnecia, os seus creados e as suas governantas.</p> + +<p>Dolores era, no fim de contas, como todas as mulheres do <em>boulevard</em>, +um espirito risonho, attrahente, leviano,—nem Rigolboche, nem Magdalena. Ella +alimentava em seu seio o sublime sentimento da familia, educára suas irmãs; e +conduzia seu pae—um triste cego!—pelo braço. Não amava porque não queria; +tambem não odeiava; mas, se fugia do amor era simplesmente porque lhe +reconhecia os<span class="pn">{142}</span> perigos. Afóra isto, como se +encontrou só e desamparada no mundo, destituida de prendas e de educação, fez +vida pela sua formosura, e caminhou rectamente, serenamente, +desassombradamente, sem attrictos, sem desvios, sem atalhos pela estrada dos +assalariados da terra.</p> + +<p>No subir para este calvario, ella, que não queria passar por santa, sentiu +que a cruz lhe era demasiadamente pesada e quiz descarregar-se d'ella. Mas ao +olhar para traz viu que a sua familia—uma pobrissima e desgraçada +familia—carecia, para não morrer de fome, de comer e de se alimentar.</p> + +<p>Então chorou. Pobre Dolores! Quantas mulheres como tu não terão passado pelo +mesmo desespero e pela mesma agonia!...</p> + +<p>Um raio de esperança, porém, penetrou-lhe no coração. A passo lento +approximou-se do espelho. O espelho reflectiu-lhe a gentileza sem par. Que +alegria, meu Deus!—exclamava ella. Finalmente... finalmente...</p> + +<p>E foi-se para a rua nuns impetos estranhos, nervosos, +incomprehensiveis...<span class="pn">{143}</span></p> + +<p>D'ahi a um mez, Dolores, trajando sedas e veludos, era uma das mil e +perigosissimas rainhas do <em>Prado</em>.</p> + +<p>Mas vamos ao escandalo. Havia um mez seguramente que em redor d'ella como +que tentava esvoaçar um ingenuo da provincia—bom rapaz, é verdade, mas algum +tanto lorpa. Dolores não gostava d'elle. Mas, emfim, ou por dó ou por capricho +permittiu-lhe um dia a approximação. Effectuou-se o <em>rendez-vous</em>, que +durou meia hora. Ella fallou sempre; elle, porém,—ó pudor!—apenas a +comprimentou á entrada e á saída.</p> + +<p>Muito bem.</p> + +<p>No dia immediato, ao de semilhante encontro, recebia Dolores a seguinte +carta:</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:right;">«<em>Minha senhora</em>,</p> + +<p> </p> + +<p>«Pretendo ardentemente o seu coração. Amo como nunca amei. Exijo que me +attenda. No caso contrario, suicidar-me-hei.»<span class="pn">{144}</span></p> + +<p> </p> + +<p>—Curioso, curioso!—exclamava ella, rindo e correndo pela sala.</p> + +<p>—Original, original!... Tinha graça... ficar sem o meu <em>chacho</em>... +elle que me póde render ainda tão boas, tão santas libras... Oh! pois não... +attendel-o-hei... Cahirei aos pés d'elle, que não falla... aos pés d'elle... +não, não te suicidarás, formoso!....</p> + +<p>E, e sem mais, Dolores tomou a penna e escreveu laconicamente:</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;">CONTA CORRENTE</p> + +<p> </p> + +<p>«<em>Deve o sr. F. por meia hora de conversação commigo, no dia 1.º do +corrente, a simples quantia de 1:000$000 réis, que pagará em oiro ou prata, +dentro de vinte e quatro horas a contar de hoje das 11 da manhã.</em></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:right;"><em>Assignada</em>—DOLORES.»<span class="pn">{145}</span></p> + +<p> </p> + +<p>E assim foi. O rapaz, ao receber o bilhete, sentiu-se quasi allucinado. +Depois, porém, recobrou animo e serenidade. Pensando que seria aquelle o unico +meio de a conquistar, volvidas duas horas, após a recepção da carta, respondeu +com a mesma singeleza:</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:right;">«<em>Minha senhora</em>,</p> + +<p> </p> + +<p>«Por si darei tudo, a minha vida e o meu futuro. Póde, quando quizer, mandar +receber o dinheiro que pede no banqueiro C., rua de ***, n.º....»</p> + +<p> </p> + +<p>Dolores passou, então, pela primeira impressão forte na sua vida. Esta +resposta laconica e expressiva, como era, agitou-lhe violentamente as fibras da +sua alma, d'ella. Reflectindo bem no caso e na dedicação, com que fôra +brindada, ella a orphã, ella, a <em>desdichada</em>, ella, a meiga,<span +class="pn">{146}</span> ella—a preciosissima joia, engastada numa sociedade de +meras apparencias e de meras formalidades, ella, a Dolores, ella chorou +sinceramente.</p> + +<p>—Não!—dizia ella—Eu não receberei este dinheiro. Nunca! Mas em vez do seu +dinheiro—oh, sim!—eu receberei o seu amor, que deve ser sublime com a sua +generosidade; o seu amor, a pura expressão de um coração honesto e simples.</p> + +<p>E escrevendo, ella disse-lhe a chorar:</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:right;">Meu amigo,</p> + +<p> </p> + +<p>«Renuncio ao seu desinteresse. Sinto que o amo doidamente. Desejo vel-o. +Venha quando quizer.</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:right;">«<em>Dolores.</em>»</p> + +<p> </p> + +<p>Assim se encadearam os acontecimentos. Dolores, sem ser Margarida +arrependida,<span class="pn">{147}</span> tornou-se, todavia, mulher séria e +grave. O nosso provinciano, sem ser Armando, adquiriu pelo amor de Dolores a +consciencia de si e a elevação da sua dignidade abatida.</p> + +<p>Mas, quando menos a gente as espera, é quando o diabo as arma.</p> + +<p>Dizem-me que hontem, tanto Dolores como o seu amante, foram encontrados +mortos, na propria casa em que desde muito habitavam.</p> + +<p>Oh! os <em>boulevards</em>, minha querida marqueza...</p> + +<p>Mas, por Deus, entremos no <em>Retiro</em>.</p> + +<p>O seu braço, minha amiga, o seu braço!...</p> + +<p class="estrelas">*<br> +* *</p> + +<p>O passeio do <em>Retiro</em>, um dos mais afamados da Europa, foi fundado no +reinado de Filippe IV, sob a inspiração do conde duque de Olivares, especie de +marquez de Pombal na Hespanha.</p> + +<p>Quasi todos os despotas gostam de deixar<span class="pn">{148}</span> +assignalada a sua passagem na terra com monumentos immorredouros, por via de +regra attestados de inepcia, de orgulho e de mau gosto.</p> + +<p>Foi assim que, entre nós, no tempo de D. João V se originou o celebre +convento de Mafra. E foi assim que nasceu o <em>Escurial</em>, embora de melhor +gosto e de mais elevação artistica.</p> + +<p>Durante o reinado do seu fundador, o <em>Buen-Retiro</em>, pelos seus +passeios, pela sua magnificencia, pelos seus jardins, pelos seus palacios, +pelos seus theatros, quasi se podia dizer um Eden, entreaberto aos sorrisos das +morenas feiticeiras e um paraiso entresonhado pelos cavalleiros desde aquelles +periodos aventurosos.</p> + +<p>Tudo, porém, neste mundo tem a sua decadencia. Filippe V, querendo +guindar-se á altura do monarcha francez, virou-se para os jardins de Aranjuez, +onde lhe pareceu divisar competencias, embora longinquas, com Versailles, de +todos os passeios actuaes da Europa o mais célebre e o mais sumptuoso, ainda +quando mais não fosse senão pelo jogo das aguas, as quaes,<span +class="pn">{149}</span> na sua ascensão phantastica e miraculosa, se alteiam +muitas vezes, numa extensão de cincoenta metros acima do nivel do lago.</p> + +<p>Assim foi decaindo tão rara maravilha. Fernando VII tentou restituil-a á +vida. E o facto é que o <em>Retiro</em>, mercê das grandes e enormissimas +quantias nelle sepultadas, atravessou incolume até nós, a salvo das revoluções +e em plenos sorrisos de felicidade.</p> + +<p>Leitora amiga—se realmente ama o passeio, percorra a <em>Carreira de S. +Jeronymo</em> e entre no <em>Retiro</em>. Levante-se cedo, tome o seu chaile, +calce as suas luvas, e prepare-se afoitamente para banhar-se numa boa +atmosphera, salutar e agradavel. Esta pequena digressão ha de fazer-lhe bem, +porque é hygienica e variada. Em casa póde dispensar o seu chocolate; ha de +saboreal-o lá, depois de ter passeado, depois de ter ido ao lago, depois de ter +visto as feras, emfim, depois de estar cançada. E verá que a não engano. Lá +encontrará um bom <em>restaurant</em> aceiadissimo e commodo. Á cautella, +porque o almoço<span class="pn">{150}</span> é tarde, sempre lhe aconselho que +mande vir duas ou tres bolachas.</p> + +<p>Como queira. Perto de nós temos a <em>montanha artificial</em> e o <em>salão +oriental</em>. Já lá foi? Que soberbo panorama! D'ali, d'aquella eminencia, +apparece-nos Madrid, em toda a sua vida e em toda a florescencia. Que magnifica +cidade, e sobretudo, que cidade tão moderna!</p> + +<p>É verdade—e o <em>jardim botanico</em>? É logo no passeio do +<em>Prado</em>. Dizem que só está aberto desde 30 de maio até 30 de setembro. +Mas é um famoso recinto, bem cultivado, com excellentes plantas e situado num +magnifico local. Possue, além disso, este jardim uma notavel variedade de +plantas e uma curiosissima secção <em>zoologica</em>, cujo objecto é alimentar +e propagar, na Hespanha, toda a especie de animaes.</p> + +<p>E a <em>Recoletos</em>—já foi a leitora?—E á <em>fuente +Castellana</em>?</p> + +<p>O primeiro tem, como o <em>Prado</em>, oito lindissimas fontes, todas ellas +no meio de praças, de arvores, e de mil outros attractivos, que dão ao nacional +o supremo<span class="pn">{151}</span> consolo de poder passar bem duas ou tres +horas por dia.</p> + +<p>Porque estes passeios não servem apenas de meras distracções. Outros são os +seus fins e outras são tambem as suas vantagens.</p> + +<p>Os <em>boulevards</em>, em geral, além de possuirem no seu seio mil cousas +dignas de um estudo especial, são por outro lado um espectaculo que as +municipalidades offerecem á pobreza, tão curiosa como digna de divertir-se.</p> + +<p>No nosso paiz os operarios não encontram um espectaculo gratuito. Por isso, +á falta de entretenimentos, entram nas tabernas, e embriagam-se. Tivessem elles +uma boa musica, um bom passeio, um exercicio attrahente e o amor do vinho +desapparecera. Tivessem elles, sobretudo, municipalidades desinteressadas e +independentes, e as suas doenças, assim como o seu mal estar não teriam mais +razão alguma de ser.</p> + +<p>O artista tem no <em>boulevard</em>, uma formosa galeria, especialmente +merecedora de analyse e de critica. Nos museus encontram-se<span +class="pn">{152}</span> os quadros pintados. Pois o <em>boulevard</em> é um +museu—ao vivo, já se entende.</p> + +<p>Dizia Richelieu que costumava esmagar o amor debaixo do tacão da sua bota. +D'onde se vê que nem o illustre cardeal se pôde eximir ás influencias do mundo +exterior e dos <em>boulevardiers</em>.</p> + +<p>O <em>boulevard</em> é ainda mais o figurino, a moda, o <em>chic</em>. Quem +fôr á <em>fuente castellana</em>, que começa na casa da moeda e termina na +fonte do mesmo nome, encontra ali o mais selecto da sociedade +madrilena—<em>toilletes</em> finissimas, aristocracia elegante e burguezia +desempenada.</p> + +<p>Foi na <em>fuente castellana</em> que se originou uma elegantissima paixão +ainda hoje inedita nos annaes da historia hespanhola.</p> + +<p>Conta-se que um notavel tribuno, escriptor e poeta, andando um dia a +recrear-se neste passeio, fôra apanhado de surpreza pelos olhos abrasadores de +uma sevilhana gentil; e por tal fórma se deu este facto que elle, hoje politico +illustre no seu paiz, nunca mais pôde subtrahir-se ás influencias d'aquelle +dominio.<span class="pn">{153}</span></p> + +<p>A menina foi, passado um mez, pedida á familia em casamento. Ella acceitou, +e o matrimonio ficou assim solemnemente tratado.</p> + +<p>Demorou-se, porém o negocio. A noiva pretextava desculpas, que ninguem sabia +a que attribuir. Em casa, além da familia, só entrava um padre. O noivo, +furioso, tratou de indagar. Sabendo finalmente, que fôra o padre o motor de +similhante desordem, elle, com a maxima serenidade, procurou-o em casa, e +disse-lhe expressivamente:</p> + +<p>—Entre o insulto e o assassinio prefiro o segundo. Queira fazer o acto de +contricção.</p> + +<p>O padre ajoelhou.</p> + +<p>—Agora levante-se, e peça perdão a Deus.</p> + +<p>E zás, sem mais tir-te nem guar-te, ouviu-se a detonação de um tiro. Uma +bala havia atravessado o peito do hypocrita.</p> + +<p>—Finalmente—exclamou o tribuno.—Para os frades bacamarte, para a batina +clavina.</p> + +<p>E fugiu.<span class="pn">{154}</span></p> + +<p>Volvidos annos, este mesmo cavalheiro voltava á patria, casava com a mesma +menina que em tempos namorára, e preparava-se para ser ministro, o que já foi +ha muitos annos.</p> + +<p>Oh! os <em>boulevards</em>, minha querida marqueza, os +<em>boulevards</em>...</p> + +<p>Mas, a proposito, quer a marqueza jantar commigo?<span +class="pn">{155}</span></p> + +<h2><a name="SECTION00117">XVII<br><br> +HISTORIA INEDITA</a></h2> + +<p>Ha de haver nove mezes que isto succedeu. Ia eu de Madrid para o Escurial. O +unico companheiro de viagem que a fortuna me concedeu, durante o trajecto que +vae da cidade do sr. D. Affonso XII ao Versailles hespanhol, era uma senhora +alta, de cabello louro, de olhos azues e de uma distincção profundamente +aristocratica.</p> + +<p>Mudos, por muito tempo, foi ella, afinal, quem rompeu o silencio.</p> + +<p>—<em>Es usted español?</em>—perguntou-me a minha amavel companheira.<span +class="pn">{156}</span></p> + +<p>—Não, minha senhora, sou portuguez—respondi.</p> + +<p>—Ah! portuguez.... conheço perfeitamente Lisboa; já lá estive tres mezes. É +uma cidade bonita, mas muito monotona. A natureza é admiravel, mas a sociedade +é demasiadamente ficticia. Não tem uma vida propria, e vive do que os outros +lhe querem dar...</p> + +<p>—E posso eu ter a honra de saber a quem me dirijo?</p> + +<p>—Ora! por Deus! sou muito modesta para que deseje saber quem sou. Nasci na +America, em Nova-York. Depois meus paes mandaram-me para Paris, onde fui +educada. De Paris passei á Suissa, onde residi alguns annos, e da Suissa vim +para Madrid, onde vivo ha dez annos com meu marido e um unico filho que +tenho.</p> + +<p>—E a opinião de v. ex.ª ácerca de Madrid?</p> + +<p>—Um magnifico centro com muita vida propria e alguma corrupção. Detesto +muito a politica hespanhola, e amo do coração a sua litteratura. Gosto muito +dos seus poetas e dos seus litteratos. São enthusiastas<span +class="pn">{157}</span> ardentes e mais que tudo fanaticos <em>à +outrance</em>.</p> + +<p>—E a respeito das litteratas hespanholas, que me diz v. ex.ª?</p> + +<p>—Uns verdadeiros talentos. Conheci de perto D. Carolina Coronado. Tem uma +historia engraçada. Um dia ella, a caprichosa, que tanto e tão a peito defendia +a emancipação da mulher, arrojou para longe de si o trajo feminino, e fez-se +rapaz. Engraçadissima! Entrou na universidade ao mesmo tempo que seu marido, +formou-se em direito, e já escreveu sobre direito penal. Hoje é uma +distinctissima poetisa, e ainda uma deslumbrante mulher.</p> + +<p>—Admiravel!</p> + +<p>—Tambem tive relações intimas com a melhor novellista hespanhola, que usava +do pseudonymo Fernand Caballero. Havia sido perceptora dos filhos do duque de +Montpensier, e presentemente pouco escreve, creio eu.</p> + +<p>—E a baroneza de Wilson, conheceu?</p> + +<p>—Perfeitamente. D'essa senhora conta-se tambem uma anecdota curiosa. Diz-se +que Zorrilla estivera doente, e que, na<span class="pn">{158}</span> sua +enfermidade, fôra tratado desveladamente por uma senhora, sua vizinha. Ao cabo +da doença, elle, querendo ser grato, esposou a sua enfermeira, a qual, então, +vivia com uma sobrinha, mulher de um grande talento, que mais tarde casou com +um inglez e que por isso se chamou baroneza de Wilson. E tambem vivi muito de +perto com D. Maria Pilar Sinués de Marco. É romancista afamada. Vem-lhe de seu +marido o nome de Marco, e por isso os hespanhoes dizem d'elle—<em>se le conoce +porque és marido de la Sinués</em>, (similhança de <em>Cabeza e +Calabazas</em>).</p> + +<p>—Nunca fallou em Lisboa com uma distinctissima senhora, que usa do +pseudonymo Leon de la Vega?</p> + +<p>—Pois não! Sei que é esposa de um engraçado escriptor chamado D. Thomaz de +Mello.</p> + +<p>—Exactamente.</p> + +<p>—Além d'estas, convivi com Angela Grassi, mulher, talvez não muito formosa +mas de muito talento; com D. Antonia de Arciniega e Martinez, que cultivou um +genero de poesia quasi pastoril; com D.<span class="pn">{159}</span> Josepha +Estevez del Canto, admiradora em excesso das fabulas de Lafontaine, com D. +Emilia Cale Torres de Quintero, com D. Sofia Tartilau e com muitas outras. Bem +vê que seria impossivel recordar-me agora de todas as minhas relações. +Unicamente lhe affianço que em Hespanha as mulheres que escrevem, embora não +sejam muitas, são todas dotadas de um immenso talento.</p> + +<p>—Mas, minha senhora, permitta-me que lhe manifeste os meus mais ardentes +desejos de a conhecer...</p> + +<p>—Perdão... isso é que não está no contracto. Tenho respondido a todas as +suas perguntas e isso me basta... O meu nome, não lh'o posso por ora revelar. É +possivel que mais tarde o saiba. Por agora desculpe-me.</p> + +<p>—<em>Escurial! Escurial!...</em>—gritaram os guardas do caminho de +ferro.</p> + +<p>A minha companheira apeou-se, e, estendendo-me a mão, nem sequer me deu +tempo para me despedir d'ella.<span class="pn">{160}</span></p> + +<p> </p> + +<p class="estrelas">*<br> +* *</p> + +<p> </p> + +<p>Dois dias depois, o creado do hotel, em Madrid, entregava-me um bilhete +concebido nos seguintes dizeres:</p> + +<p> </p> + +<p +style=" border: solid 1px #000; margin-left: 10%; margin-right: 10%; padding: 1em; text-align:center;"><em><big>D. +Maria del Sarto</big><br> +pede-lhe a fineza da sua companhia para o jantar de hoje, ás 6 horas da tarde, +na Calle de Alcalá—8.</em></p> + +<p> </p> + +<p>—Maria del Sarto! Quem será Maria del Sarto?—exclamei.</p> + +<p>E ás 6 horas da tarde, em ponto, dirigi-me para a rua de Alcalá.</p> + +<p>Qual foi, porém, o meu espanto, quando, ao entrar na sala dei de rosto com a +minha formosa amiga de viagem.<span class="pn">{161}</span></p> + +<p>—Sente-se aqui—disse-me ella, apontando para uma cadeira.</p> + +<p>E foi nessa occasião, e nesse jantar, que me foi dado formar um juizo seguro +ácerca das cousas e dos homens de Hespanha.</p> + +<p>Devo-o principalmente áquella affectuosissima senhora, a quem d'aqui envio +os meus respeitos e a minha gratidão.</p> +<hr class="dotted"> + +<p>Uma vez, porém, que fallamos em celebridades, conversemos um pouco sobre +ellas.<span class="pn">{162}<br>{163}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00118">XVIII<br><br> +HOMENS ILLUSTRES</a></h2> + +<p>Em Hespanha é extraordinario o numero dos homens illustres.</p> + +<p>Poucos são os talentos naquelle paiz que não possuam uma feição +eminentemente litteraria. Os proprios politicos resentem-se d'este defeito, se +defeito se lhe póde chamar.</p> + +<p>Do romance são innumeros os cultores. A Hespanha, como paiz de mais +aventuras, presta-se a elle. Entre nós são já muito conhecidos os nomes dos +srs. Manuel Fernandez y Gonzalez, homonymo do celebre ministro republicano, +ultimamente<span class="pn">{164}</span> mandado sahir de Lisboa pelo governo +portuguez, Henrique Peres Escrich, Ortega y Frias, Tarrago e Mateos, etc.</p> + +<p>O sr. Fernandez y Gonzalez é uma especie de Ponson du Terrail hespanhol. É +escriptor fecundo e de muita força concepcional.</p> + +<p>Peres Escrich é quasi mystico. Os assumptos dos seus romances são quasi +sempre religiosos. É um romancista catholico, mas são puras as suas intenções +sem as sacrificar á seita.</p> + +<p>Ortega y Frias, Tarrago y Mateos, Piedro Antonio Alarcon, Peres Gadosh, +Antonio Hurtado, Varella, Vilhoslava, Ricardo Sepulveda são os que mais se +aproximam do romance moderno na descripção e no entrecho dos assumptos.</p> + +<p>Eusebio Blasco é um humorista de grande merecimento, e José Castro e Serrano +é, em nosso juizo, talvez o primeiro novellista hespanhol.</p> + +<p>A estes podemos, de certo, juntar D. Manoel Silvella, Asmodeu, pseudonymo, +Antonio Trueba, auctor de uns famosos<span class="pn">{165}</span> contos, +sobejamente conhecidos na litteratura da Europa.</p> + +<p>Na poesia avultam Zorrilla, um lyrico surprehendente; Campoamor; Garcia +Gutierres, de quem se diz que nasceu com o <em>Trovador</em> e que morreu com +D. Urraca; Ventura Ruiz Aguillera, auctor de um famoso livro de satyras; José +Martinez Villergas, egualmente satyrico: Roberto Robert, espécie de Voltaire no +arrojo da palavra e do conceito; Grillo, Gaspar Nunes de Arse, Espronceda, José +Eshegarai, Hartzenbusch, Antonio Arnao, Antonio Hurtado, José Selgas, tambem +prosador, Trueba, Carlos Frontaura, Carlos Rubio, Larra e outros.</p> + +<p>Passando da poesia para a politica, são tantos os nomes, que difficilmente +seria possivel recordal-os a todos.</p> + +<p>Quando estive em Hespanha, contava-se uma anecdota curiosa de Emilio +Castelar.</p> + +<p>Dois estudantes da escola medico-cirurgica de Lisboa tinham ido a Madrid +assistir á entrada de D. Affonso XII na cidade, depois de concluida a guerra +carlista.<span class="pn">{166}</span> Era dia de sessão no congresso. Fallava +Castelar. Nas tribunas agglomerava-se o povo. Difficilmente se obtinha um +logar.</p> + +<p>Um dos estudantes, porém, reflectindo no caso, entrou numa mercearia, e +escreveu a Emilio Castelar as seguintes linhas:</p> + +<p>«Estão aqui dois portuguezes, seus admiradores, que desejam ouvil-o.»</p> + +<p>O merceeiro, que viu que a carta era subscriptada para o insigne orador, não +lhes levou nada, nem pelo papel, nem pela tinta.</p> + +<p>Castelar leu o bilhete, e immediatamente sahiu do congresso, a fim de +introduzir os dois estudantes na tribuna, reservada á diplomacia.</p> + +<p>Quando acabou de fallar foi ter de novo com os dois estrangeiros, e +offereceu-lhes os seus serviços e a sua pessoa n'aquella cidade.</p> + +<p>Este traço revela bem as brilhantes qualidades, que caracterisam Emilio +Castelar.</p> + +<p>E, uma vez que fallámos em Castelar, não esqueceremos tambem de +mencionar<span class="pn">{167}</span> um distincto talento, seu amigo intimo, +director do jornal, o <em>Globo</em>, e auctor de um famoso livro sobre o +<em>movimento operario na Europa no seculo XIX</em>. Este cavalheiro chama-se +D. Joaquim Martin de Olias.</p> + +<p>Francisco Pi y Margall é um outro vulto que trouxe na memoria. Estive em sua +casa perto de duas horas, e precisamente na mesma sala onde aquelle célebre +padre tresloucado tentou assassinal-o. É um caracter magestoso e um talento +deslumbrante. Fui encontral-o a brincar com dois filhinhos menores. Que +contraste entre aquella scena puramente domestica e a dos seus actos publicos! +O homem vigoroso da tribuna e da imprensa é um anjo de paz e de amor no seio +dos seus! Foi-me realmente agradavel esta visita.</p> + +<p>Salmeron, o erudito publicista, que resignou gloriosamente o poder por não +querer assignar a pena de morte para o exercito, vivia exclusivamente do +professorado. Regia uma cadeira de ensino livre no Atheneu, retribuida pelos +discipulos.</p> + +<p>Zorrilla, que atravessou os transes mais<span class="pn">{168}</span> +dolorosos da vida, e que além de um grande poeta é tambem politico de notavel +bom-senso, vê-se hoje expatriado e longe dos seus.</p> + +<p>O mesmo succede a talentos notaveis como Fernandez de los Rios, Fernando +Garrido, Ramon de Cala, Estevanez, Gonzalez e outros.</p> + +<p>José Maria Orense, o decano da democracia hespanhola, está quasi afastado da +politica.</p> + +<p>Sagasta póde talvez ser classificado entre os radicaes. Passa por excellente +caracter e por conservador sympathico.</p> + +<p>Canovas del Castillo, embora defensor de uma má causa, é todavia um eminente +orador e um notavel poeta.</p> + +<p>Que a dizer a verdade, abaixo de Castelar, os dois oradores mais afamados +são Figueras e Martos.</p> + +<p>O verdadeiro enthusiasmo hespanhol está, porém, no exercito. Entre Olozaga e +Martinez Campos, prefere-se este justamente pela espada, que traz á cinta. E a +prova é que, terminada a luta com os carlistas, as acclamações da cidade +dirigiram-se<span class="pn">{169}</span> mais a Martinez Campos do que a D. +Affonso XII.</p> + +<p>De modo que em Hespanha o militarismo é um vicio galante, de que as mulheres +não desdenham e que os politicos temem soberanamente.</p> + +<p>Fallando, porém, de homens illustres, não deveremos de modo algum omittir +dois nomes, que, por mais do que um lado, nos devem ser sympathicos e +affectuosos.</p> + +<p>Esses nomes são os dos srs. D. Benigno Joaquim Martinez e Antonio Romero +Ortiz, de quem em seguida nos vamos occupar.<span class="pn">{170}<br>{171}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00119">XIX<br><br> +D. BENIGNO JOAQUIM MARTINEZ E ANTONIO ROMERO ORTIZ</a></h2> + +<p>Só em Madrid o numero de jornalistas sobe talvez a mais de duzentos. Ainda +ha pouco, por occasião de se installar o <em>Casino de la Prensa</em> na calle +Mayôr, orçaram por 160 as adherencias da parte do jornalismo madrileno.</p> + +<p>Entre os mais sympathicos periodicistas hespanhoes podemos citar: Escobar, +Perez de Guzman, José Ortega, Ulloa, Sagasta, Garcia Ruiz, Pi y Margall, +Figueras, Navarro, Blasco, Molina, L. Rubio, Palacio, Alcalá Galliano, dr. +Galdo,<span class="pn">{172}</span> Tubino, Diaz Perez, Quintero, Escosura, +Soriano Fuestes, Ruti, Rivera, Calvo Ascencio, Leon Serrano, Benigno Martinez, +Romero Ortiz e mil outras illustrações que nos seria impossivel enumerar em +opusculo de tão limitadas proporções.</p> + +<p> </p> + +<p class="estrelas">*<br> +* *</p> + +<p> </p> + +<p>D. Benigno Joaquim Martinez é conhecido pelo doce appellido de <em>amigo dos +portuguezes</em>. A sua casa e a sua bolsa estão sempre á disposição dos nossos +patricios e conterraneos. Nada ha que possa retribuir tamanho affecto e tão +devotada abnegação. Dir-se-ia que D. Benigno é, de facto, mais portuguez do que +hespanhol.</p> + +<p>Martinez foi por muito tempo empregado superior no ministerio da justiça. +Até ahi advogara e vivera do jornalismo. As suas convicções radicaes não lhe +permittiram, porém, que continuasse a servir um governo que desde muito lhe +era<span class="pn">{173}</span> antipathico. Então sem mais recursos, +deliberou entregar-se exclusivamente á imprensa, tanto nacional como +estrangeira. Tem sido correspondente de jornaes inglezes, italianos e +francezes. A sua vida mal se descreve. Ha dias em que se senta á meza desde a +madrugada até ao jantar e desde o jantar até á madrugada. A honra e a dignidade +são a sua divisa. Nunca transigiu. Em Portugal já 11 jornaes lhe confiaram as +correspondencias de Madrid, as quaes elle tem cumprido com uma pontualidade +rigorosamente britannica. Tambem collaborou no periodico <em>Italia e +Popolo</em> de José Mazzini. Redigiu em Madrid seis folhas politicas. Escreveu +a biographia de 45 vultos portuguezes, e sempre, desde 1846 até hoje, se tem +occupado, com verdadeiro fervor, das cousas, da politica e dos homens do nosso +paiz. Por isso tambem quasi todas as sociedades portuguezas o têm distinguido +com os seus diplomas e honrarias.</p> + +<p>D. Benigno é casado com uma senhora distinctissima, de quem teve tres +filhos: uma menina, já casada, e dois rapazes,<span class="pn">{174}</span> um +dos quaes é Frutos Martinez y Lumbreras, estudante classificado na universidade +central e escriptor já conhecido pelas <em>Bandeiras de Portugal</em> e +<em>Hespanha</em>.</p> + +<p>Em casa de Martinez tivemos a honra de travar relações com dois notaveis +talentos, de quem não deixaremos de fallar; e são elles D. Manoel Maria José de +Galdo e Antonio Hesse.</p> + +<p>Do primeiro escreveu um periodico portuguez o seguinte:</p> + +<p>«Pela nomeação do sr. Rivero para ministro de <em>la gobernacion</em> em +Hespanha ficou vaga a presidencia da municipalidade de Madrid. Neste logar foi +provido por eleição o sr. D. Manoel Maria José de Galdo, cavalheiro distincto +de cujos precedentes diremos algumas palavras. O sr. Galdo é cathedratico +proprietario na universidade de Madrid, e além de regente de 1.ª classe de +sciencias, lecciona mineralogia e noções de zoologia e botanica. É licenciado +em medicina e cirurgia, doutor na faculdade de philosophia, licenciado em +direito civil, administrativo e canonico. É membro honorario de muitas +sociedades<span class="pn">{175}</span> e institutos scientificos de Hespanha, +França e Portugal. É em resumo um cavalheiro muito illustrado, e em extremo +laborioso e modesto.»</p> + +<p>Em seguida á revolução de setembro foi o dr. Galdo feito 1.º alcaide da +capital de Hespanha e commandante geral de 20.000 voluntarios de Madrid. Nestes +dois importantes e difficeis cargos mereceu sempre os applausos de toda a +imprensa sem distincção de côres politicas. O que prova exuberantemente o +espirito de justiça e a alta prudencia que dirigem todos os actos d'aquelle +cavalheiro. Ultimamente a sua eleição para presidente da municipalidade de +Madrid, em substituição de um homem de tão reconhecido merito como o sr. +Rivero, é mais um titulo honroso que vem juntar-se aos muitos, que já +recommendavam ao partido radical da Hespanha, e em geral a toda a nação +vizinha, um honrado filho da peninsula, que ao seu talento, ao trabalho e ás +suas qualidades pessoaes deve a estima de nacionaes e estrangeiros.</p> + +<p>Na inauguração do canal Suez coube<span class="pn">{176}</span> ao sr. dr. +Galdo a honra de representar a Hespanha.</p> + +<p>A sua integridade de caracter e a sua modestia, conservaram-no muito tempo +afastado das lides politicas, ás quaes voltou cheio, como d'antes, de dedicação +e amor aos principios liberaes, apenas a Hespanha sacudiu o jugo que a +opprimia. Nos ultimos arrancos da monarchia deposta, mais de uma vez fôra tão +illustre e inoffensivo cidadão apontado á vindicta do poder.»</p> + +<p>Antonio Hesse é advogado de nome; possue excellentes dotes oratorios e +d'elle corre impresso um ajuizado opusculo sobre critica religiosa.</p> + +<p>Para rematar, porém, o que dissemos, ácerca de D. Benigno Joaquim Martinez, +basta ainda accrescentar que é elle um modelo de amor de familia, um +ousadissimo e infatigavel trabalhador, uma consciencia recta e uma +intelligencia sã.<span class="pn">{177}</span></p> + +<p> </p> + +<p class="estrelas">*<br> +* *</p> + +<p> </p> + +<p>Antonio Romero Ortiz é um outro amigo dos portuguezes. Nascido na Gallisa, +onde fundou differentes jornaes liberaes e onde organisou um nobre batalhão de +voluntarios, só em 1843 se inscreveu como advogado em <em>Santiago</em>, terra +da sua naturalidade. Em 1856, quando mais accesa andava a lucta entre +miguelistas e liberaes, veiu ao Porto, e ahi foi pronunciado e levado +prisioneiro para bordo do <em>Serra do Pilar</em>, que o conduziu para +Peniche.</p> + +<p>Em 1848 Narvaez, um covilheiro infame do absolutismo, descobriu uma +conspiração de liberaes, capitaneada por Romero Ortiz. Sem mais averiguações, o +carrasco ordenou a prisão do chefe dos revolucionarios, mandando-o para as +masmorras de Santo Anton, perto da Corunha. O processo foi instaurado; duas +cartas existiam de grave compromisso para o encarcerado. No momento, porém, em +que o escrivão estava distrahido Romero<span class="pn">{178}</span> Ortiz, +pegando nas cartas, arremessou-as pela janella. Este arrojo salvou-o do +patibulo.</p> + +<p>Em 1849 veiu para Madrid, onde, entre outras obras interessantes, publicou o +<em>Diccionario da politica</em>, de collaboração com dois amigos.</p> + +<p>Chegou o anno de 1854, e desde então para cá, ora na imprensa, ora na +tribuna, têm sido assignalados os seus feitos em pro da patria e da liberdade. +Foi elle que, sendo ministro da justiça, instituiu o matrimonio civil e aboliu +a companhia de Jesus. Por diversas vezes foi nomeado governador civil; e quando +em Hespanha se constituiu a <em>União liberal</em>, o sr. Rios Rosas +dispensou-lhe a maior consideração e os maiores respeitos. Foi deputado pela +primeira vez em 1854 pela Corunha. Tomou parte activa na revolução de 1868, e +no governo <em>provisional</em> foi elle um dos ministros.</p> + +<p>O seu mais notavel discurso, que versava sobre uma concessão de direitos aos +portuguezes, foi pronunciado no congresso em 29 de março de 1859; e a sua +mais<span class="pn">{179}</span> afamada publicação intitula-se: «<em>La +historia de la literatura portuguesa em el siglo XIX.</em>»</p> + +<p>É obra que denota boas intenções a nosso respeito. Conhece o periodo +contemporaneo, e é seguro o estudo sobre Filinto, dos mais conscienciosos que +conhecemos. Mas, no momento actual em que nos considerou, dá mostra de +recebimento de más informações. Guinda a certa altura quem não merecia ir tão +alto, e esquece nomes, em todas as pretendidas escholas, dos que, á parte +rivalidades de que nós nos não fazemos echo, são de primeira plana em todos os +campos.</p> + +<p>Com o golpe de 3 de janeiro de 1873 foi Romero Ortiz nomeado ministro do +ultramar.</p> + +<p>Ultimamente vive um pouco doente e retirado das cousas politicas, quasi que +exclusivamente entregue ao seu museu, que é curiosissimo, e aos seus +estudos.</p> + +<p>No seu museu, de que já fallámos mais atraz, encontram-se muitas +curiosidades do nosso paiz, e entre ellas uma luvas do marquez de Sá da +Bandeira, a caixa de<span class="pn">{180}</span> rapé do visconde de Castilho, +e uma lembrança de D. Pedro V, e outra do visconde de Paiva Manso, etc.</p> + +<p>Tambem alli se póde vêr a camisa de Santa Thereza de Jesus, a casaca de +Cabrera, um crucifixo feito pela rainha Isabel II e muitas outras reliquias +dignas da maior attenção e de estudo.<span class="pn">{181}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00120">XX<br><br> +EM RETIRADA</a></h2> + +<p>Onde não ha fumo ha amor; onde não ha amor ha vinho; onde não ha vinho ha +<em>spleen</em>.</p> + +<p>São estas as palavras de um poeta notavel, que muito de molde nos acudiram +ao espirito, em relação ao caso presente.</p> + +<p>Quem viaja deve fumar. O fumo não é apenas um bom e doce companheiro para as +tristes horas de tédio e de melancolia, mas ainda mais, e quasi sempre, um +distinctivo do sabio e um facil auxiliar da nossa digestão intellectual.</p> + +<p>O fumo está para o cerebro na mesma<span class="pn">{182}</span> proporção +em que o café está para o estomago. Ambos se tornam até certo ponto necessarios +ao homem; com a simples differença de que o café nos excita, por vezes, +demasiadamente os nervos, ao passo que o fumo se limita a produzir em nós um +salutar estimulo ás nossas idéas e ao nosso raciocinio.</p> + +<p>Mas, se, além do fumo, nos falta ainda o amor e o vinho, então,—ai de nós! +que chegaremos ao aborrecimento de nós mesmos, isto é—ao <em>spleen</em>.</p> + +<p>A viagem sem companhia é a peior de todas as torturas. A expansão é tão +necessaria á nossa natureza, como o azul ao firmamento. Que nos importa ver uma +formosissima paisagem, se depois não temos a quem communicar as nossas +impressões e o nosso juizo de momento?</p> + +<p>E notavel contradicção! A companhia é-nos tanto mais necessaria, quanto é +certo que, quando estamos no estrangeiro, nos acommette uma singular nostalgia +por tudo o que é nosso e nos interessa, emquanto que, quando regressamos á +patria, nos assalta uma terrivel hypocondria<span class="pn">{183}</span> por +tudo o que é estranho e nos assombra.</p> + +<p>D'este modo, leitora amiga, se algum dia tiver o capricho de viajar, tenha +paciencia, e tome uma aia; ou ainda, se isso lhe aborrece, peça a uma das suas +intimas confidentes para a acompanhar.</p> + +<p>E verá que a não engano!</p> + +<p> </p> + +<p class="estrelas">*<br> +* *</p> + +<p> </p> + +<p>Ora a retirada é quasi que uma recapitulação de tudo o que se fez pelas +terras onde se esteve.</p> + +<p>—Que te pareceu esta gente?—perguntava-me o meu companheiro e velho +condiscipulo—amigo José Trigueiros Martel.</p> + +<p>—Esta gente!... pois que diabo me havia de parecer, senão unica e +originalissima!... retorqui.</p> + +<p>E começamos a enumerar os principaes partidos politicos em que se dividia a +familia<span class="pn">{184}</span> hespanhola, que eram pouco mais ou menos +os seguintes:</p> + +<p>Absolutistas de qualquer rei.</p> + +<p>Carlistas clericaes.</p> + +<p>Carlistas militares.</p> + +<p>Carlistas constitucionaes.</p> + +<p>Cabreiristas.</p> + +<p>Neo-dynasticos absolutistas.</p> + +<p>Dynasticos tolerantes.</p> + +<p>Moderados unitarios.</p> + +<p>Moderados conservadores.</p> + +<p>Conservadores da conciliação.</p> + +<p>Heterogeneos.</p> + +<p>Homogeneos canovistas puros.</p> + +<p>Santa-crucistas.</p> + +<p>Sagastinos.</p> + +<p>Neo-constitucionaes democraticos.</p> + +<p>Radicaes puros.</p> + +<p>Radicaes do X.</p> + +<p>Radicaes republicanos.</p> + +<p>Democratas monarchicos.</p> + +<p>Democratas puros.</p> + +<p>Republicanos catholicos.</p> + +<p>Confederados.</p> + +<p>Separatistas.</p> + +<p>Communistas.<span class="pn">{185}</span></p> + +<p>E não queria Amadée Achard que a Hespanha fosse alcunhada de bandoleira! +Ninguem lhe desconhece os feitos de Numancia, de Sagunto, de Madrid, e de +Zaragoza. Certamente que a Hespanha tem na sua historia paginas sagradas, como +por exemplo as que resam das santas guerras das <em>communidades</em> de +Castilla. Mas a par de tudo isto, ahi estão os factos da Andaluzia a fallar +mais alto do que os patriotismos exagerados; e ahi estão tambem os +acontecimentos dos ultimos vinte annos a affirmar-nos eloquentemente que esse +paiz, embora cheio de vida e dotado de enthusiasmos respeitaveis, ha de ser +sempre uma contradicção viva a tudo o que existe e um especialissimo parenthese +na vida das nações.</p> + +<p>E provirá isto de uma simples questão de raça, de clima, de religião, de +lingua, de costumes, de civilisação ou de <em>meio</em>?</p> + +<p>Que o digam os srs. philosophos historiadores.</p> + +<p>Nos costumes reside, principalmente, a expressão de uma nacionalidade.</p> + +<p>Porque hoje, francamente, não se póde<span class="pn">{186}</span> viajar +apenas, como um simples brazileiro endinheirado—<em>em trem especial de +exclamações</em>.</p> + +<p>Não basta só dizer, admiravel! magnifico! explendido! como aliás parece +fazer a maioria dos nossos viajantes.</p> + +<p>—Então que me diz o amigo de Pariz?</p> + +<p>—<em>Ah!</em></p> + +<p>—E de Londres?</p> + +<p>—<em>Eh!</em></p> + +<p>—E da Suissa?</p> + +<p>—<em>Uh!</em></p> + +<p>E assim ficamos, sem passar das cinco vogaes exclamativas; sem uma unica +noção da justiça do povo que visitamos, como ella era administrada e repartida, +sem uma unica idéa da sua arte, da sua politica, da sua religião e dos seus +progressos.</p> + +<p>A isto podia, quando muito chamar-se-lhe uma ostentação, mas nunca uma +viagem.<span class="pn">{187}</span></p> + +<p> </p> + +<p class="estrelas">*<br> +* *</p> + +<p> </p> + +<p>Resumindo:</p> + +<p>A Hespanha possue um vicio inicial de que difficilmente se libertará—a +religião catholica-apostolica-romana guindada ás alturas de fanatismo.</p> + +<p>Na sua politica, como na sua justiça, reflecte-se tristemente a +contradicção, junto a um continuo mal estar de quem não tem uma noção clara da +evolução que a deveria reger, e das leis que deveriam presidir ao seu +desenvolvimento moral e material.</p> + +<p>A sua arte afigurou-se-nos estar em perfeita harmonia com as suas mulheres: +mais brilhante talvez, na fórma do que na concepção e no sentimento.</p> + +<p>Entretanto, forçoso é confessar que poucos paizes ha de tão vastos recursos +como a Hespanha, e porventura mesmo poucos existirão com futuro tão promettedor +como ella.</p> + +<p>Os casos das <em>Baldomeras</em> têem-lhe ultimamente<span +class="pn">{188}</span> aberto os olhos para as grandes luctas da civilisação +moderna, apurando-lhe o raciocinio para os insignes debates do espirito e da +critica positiva.</p> + +<p>Que tudo isso lhe seja de bom proveito, assim como Sédan o foi para a +França.</p> + +<p> </p> + +<p class="estrelas">*<br> +* *</p> + +<p> </p> + +<p>Mas perdão! 6 horas da madrugada. Devemos estar perto de Lisboa.</p> + +<p>—<em>Lisboa! Lisboa!</em> exclama um guarda de fóra.</p> + +<p>Assim, pois, leitor amigo, permitta-me que lhe aperte a mão, e que com +tristeza me despeça da sua extrema amabilidade.</p> + +<p>Um seu creado!</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;">FIM<span class="pn">{189}</span></p> + + +<p> </p> +</div> + +<p><br> +</p> + +<h2><a name="SECTION0020">INDICE</a></h2> +<ul> + <li><a name="tex2html26" href="#SECTION0011">I—CARACTERES E COMPARAÇÕES</a></li> + <li><a name="tex2html27" href="#SECTION0012">II—NÓS E ELLES</a></li> + <li><a name="tex2html28" href="#SECTION0013">III—A CIDADE</a></li> + <li><a name="tex2html29" href="#SECTION0014">IV—A LENDA DO BANDIDO</a></li> + <li><a name="tex2html30" href="#SECTION0015">V—EDIFICIOS PUBLICOS E OUTRAS CURIOSIDADES HISTORICAS</a></li> + <li><a name="tex2html31" href="#SECTION0016">VI—A INSTRUCÇÃO PUBLICA</a></li> + <li><a name="tex2html32" href="#SECTION0017">VII—TEMPLOS E RELIGIÃO</a></li> + <li><a name="tex2html33" href="#SECTION0018">VIII—A POLITICA</a></li> + <li><a name="tex2html35" href="#SECTION0019">IX—MUSEUS</a></li> + <li><a name="tex2html36" href="#SECTION00110">X—A MUSICA</a></li> + <li><a name="tex2html37" href="#SECTION00111">XI—O CHOCOLATE E O CAFÉ</a></li> + <li><a name="tex2html38" href="#SECTION00112">XII—O SALERO</a></li> + <li><a name="tex2html39" href="#SECTION00113">XIII—THEATROS</a></li> + <li><a name="tex2html40" href="#SECTION00114">XIV—OS PATINADORES</a></li> + <li><a name="tex2html41" href="#SECTION00115">XV—TOURADAS</a></li> + <li><a name="tex2html42" href="#SECTION00116">XVI—O PRADO E O RETIRO</a></li> + <li><a name="tex2html43" href="#SECTION00117">XVII—HISTORIA INEDITA</a></li> + <li><a name="tex2html44" href="#SECTION00118">XVIII—HOMENS ILLUSTRES</a></li> + <li><a name="tex2html45" href="#SECTION00119">XIX—D. BENIGNO JOAQUIM MARTINEZ E ANTONIO ROMERO ORTIZ</a></li> + <li><a name="tex2html46" href="#SECTION00120">XX—EM RETIRADA</a></li> +</ul> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's Costumes Madrilenos, by Sebastião de Magalhães Lima + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK COSTUMES MADRILENOS *** + +***** This file should be named 29999-h.htm or 29999-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/9/9/9/29999/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from BibRia) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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