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+Project Gutenberg's Costumes Madrilenos, by Sebastião de Magalhães Lima
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+
+Title: Costumes Madrilenos
+ Notas de um Viajante
+
+Author: Sebastião de Magalhães Lima
+
+Release Date: September 15, 2009 [EBook #29999]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK COSTUMES MADRILENOS ***
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+
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+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from BibRia)
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+
+ MAGALHÃES LIMA
+
+ COSTUMES MADRILENOS
+
+ NOTAS DE UM VIAJANTE
+
+ SEGUNDA EDIÇÃO
+
+
+
+ COIMBRA
+ LIVRARIA CENTRAL DE J. D. PIRES--EDITOR
+ 1877
+
+
+
+
+
+COSTUMES MADRILENOS
+
+
+
+
+
+COSTUMES MADRILENOS
+
+NOTAS DE UM VIAJANTE
+
+POR
+
+S. de Magalhães Lima
+
+SOCIO HONORARIO D'EL FOMENTO DE LAS ARTES DE MADRID
+
+2.ª EDIÇÃO
+
+
+
+COIMBRA
+LIVRARIA CENTRAL DE JOSÉ DIOGO PIRES--EDITOR
+1877
+
+
+
+IMPRENSA ACADEMICA
+
+
+
+AO
+
+SENHOR.
+
+D. BENIGNO JOAQUIM MARTINEZ
+
+Off.
+
+O auctor
+
+
+
+
+COSTUMES MADRILENOS
+
+
+
+
+I
+
+CARACTERES E COMPARAÇÕES
+
+
+Leitor amigo, se queres possuir a chave da vida, se queres ter o segredo
+da existencia, aprende a viajar.
+
+A viagem tem, como todas as cousas d'este mundo, a sua pequena
+philosophia e as suas theorias, mais ou menos complicadas, e os seus
+progressos mais ou menos notaveis.
+
+Viajar não é uma variedade de sensações apenas; mas ainda mais, e
+principalmente, uma fonte inexgotavel de boa e salutar experiencia,
+um manancial perenne de vividos enthusiasmos por tudo quanto é bello,
+novo e original, e uma origem fecunda de analyse, de observação e de
+critica, que de ordinario raro é de encontrar-se no paiz onde nascemos,
+ou na cidade onde residimos.
+
+E assim é realmente que, se tu quizeres admirar a seriedade nos
+costumes, a robustez no corpo, a soberania na guerra, o metaphysico na
+sciencia, o imperio na familia, a fidelidade nos affectos, e a
+superstição na religião--tu irás á Allemanha.
+
+Se pelo contrario, tu desejares vêr a frouxidão no corpo, o
+indifferentismo em politica, a lassidão nos costumes, a perversão nos
+principios, a fraqueza na sciencia, o theologismo na religião, o lyrismo
+na vida--tu, sem mais trabalhos nem violencias, ficarás em Portugal.
+
+Mas se tu, embora não te repugne a debilidade physica e a
+pusillanimidade de espirito, quizeres o ideal da arte e a architectura
+da sciencia--então procurarás Italia.
+
+Por outro lado ainda, se te impressiona o ruido das palavras, a viveza
+do olhar, a facilidade dos affectos, a modestia do trajar, a
+generosidade do coração, o esplendor do _ménage_--parte para a Hespanha.
+
+Com uma mulher hespanhola vive-se bem um mez, num sensualismo delicioso,
+numa voluptuosidade tepida e numa ardencia de amores que nem sempre é
+vulgar nas outras mulheres do mundo.
+
+Com uma mulher franceza, porém, o espirito não se cança nunca, nem o
+coração chega jámais a desesperar--e se um seculo vivessemos, um seculo
+tambem consagrariamos a essas fadas, mais demonios do que anjos, e quasi
+sempre mais amantes do que esposas.
+
+No francez dá-se, a par da elevação da idéa, a agilidade elegante do
+corpo, a simplicidade maravilhosa do trajar, a delicadeza sem igual da
+cosinha, a intrepidez risonha dos factos e das circumstancias, a
+attenção magnetica das palavras, a originalidade dos costumes.
+
+Com elles contrastam os inglezes, os quaes, não obstante serem
+mudaveis em religião, são, todavia, prudentes nos seus negocios, zelosos
+na sua vida intima, affaveis nas maneiras, orgulhosos no trajo e
+astuciosos na guerra.
+
+Subordinados ás circumstancias, ao tempo e aos logares--os povos são um
+resultado do meio em que se acham mergulhados.
+
+O que promoveu a questão do Oriente não foi verdadeiramente a ambição
+dos monarchas, mas antes o imperio que a civilisação moderna tem direito
+de exercer sobre tudo e sobre todos.
+
+E por isso a Turquia, como vestigio de barbarismo que ainda é hoje na
+Europa, foi de ha muito condemnada á morte e ao ostracismo.
+
+O caracter turco era facilmente domavel, mas por natureza fanatico,
+supersticioso, intolerante--tal qual como as verdades do Alcorão.
+
+Por isso, leitor, embora tu sintas grandes saudades do harem e das
+houris, resigna-te, e deixa de combater pelos turcos.
+
+Que elles e os seus sultões se dignem subir ao setimo céu de Mafoma, e
+que nos deixem.
+
+Mas, francamente, se tu queres viver pela natureza, se soffres dos
+pulmões, se és pantheista, se gostas das borboletas e das flores, se te
+enthusiasmas com os limpidos horisontes das montanhas e dos rios, se és
+socegado, melancholico, um tanto nostalgico e triste, escolhe a
+peninsula, aluga uma casa todos os annos no Bussaco, percorre a
+Andaluzia na primavera, visita as praias, e deixa-te ficar por cá.
+
+Se, porém, não temes os frios do norte, se és audaz, intrepido, valente,
+corajoso, se amas a sciencia e a arte, se não te canças em subir a uma
+montanha e em correr num _trenó_ num dia gelado, e por um rio coberto de
+neve, se gostas da vida, tal como ella deve ser--valorosa, hygienica, e
+grande, então vai á Suissa, á Allemanha, á Italia, e até mesmo á Russia,
+se tanto fôr da tua vontade.
+
+Convém que faças uma viagem todos os annos na primavera. Para isso basta
+apenas, que no teu viver domestico, no teu gastar quotidiano, tu
+adquiras uma sciencia tão difficil, como rara de conservar-se--a
+sciencia da economia.
+
+No fim de oito ou dez annos, tu sentir-te-has forte, cheio de critica,
+vigoroso na discussão, capaz de entrar em todos os assumptos, que por
+acaso se ventilarem, e susceptivel de comparar, entre si, não só todos
+os paizes do mundo, mas ainda os homens e as sociedades.
+
+E assim tu terás o dom do historiador, a evidencia dos factos, a
+observação da natureza e o estudo das cousas em geral.
+
+Eu não quero que tu te faças misanthropo, doente, regenerador. Não!
+Porque sou portuguez, e desejo que tu sejas alegre, feliz, espirituoso,
+bom amigo, excellente marido e cidadão prestante.
+
+E para isso, para afugentar terrores e negrumes, para que tenhas saude,
+vida e amor--é forçoso que tu viages, que deixes a tua aldeia e as tuas
+arvores, que arranjes a tua mala, que te despeças dos teus conhecidos e
+que partas.
+
+Nada de esperas. Quanto mais cedo melhor. O mundo é para quem
+caminha; e a viagem é como a sciencia, tambem um progresso.
+
+Aqui tens o teu casaco. Cabeça alta e adeus á patria querida.
+
+Cocheiro--açoute nesses cavallos!
+
+Para deante. Para deante é que é o caminho.
+
+
+
+
+II
+
+NÓS E ELLES
+
+
+Não ha duvida que nós não somos elles, nem elles são nós.
+
+Não obstante, elles querem ser nós, mas nós é que não queremos ser elles.
+
+Coisas d'este mundo!
+
+Nós, não nos fartamos de elogiar Madrid; e elles não se cançam nunca de
+exaltar Lisboa.
+
+_Mutatis mutandis_, ninguem está bem senão onde não está.
+
+A verdade, porém, é que nem a patria do sr. Fontes é má, nem as terras
+do sr. Canovas são detestaveis.
+
+Lisboa tem, como Madrid, as suas pequenas corrupções, os seus ministros
+ociosos, a sua realeza inutil, o seu credito abastardado, a sua
+administração vacillante, os seus empregados preguiçosos, a sua fama em
+decadencia e o seu futuro compromettido.
+
+Tudo isto temos nós, e tudo isto têm elles--mercê de Deus.
+
+Por cá, como por lá, multiplicam-se os bailes, rangem as sêdas, reluzem
+as _toilettes_, scintillam os chrystaes, refervem os vinhos nas suas
+taças preciosas, adelgaça-se o corpo, polvilham-se os cabellos,
+tingem-se as faces, alarga-se a consciencia, confundem-se os factos,
+adora-se a elegancia, e todos--ó céus! sem mesmo o presentirem--caminham
+para o bom tom, impellidos pela magreza, que os devora, arrastados pela
+falta de hygiene e seduzidos pela eterna sereia das humanas velleidades.
+
+D'onde se conclue que cá e lá más fadas ha.
+
+Mas Lisboa, com franqueza, não é de todo má: as suas ruas estão povoadas
+de bellos e formosissimos edificios; os seus jantares, embora sem
+dinheiro, são abundantes; os seus hospedes vestem-se bem, não obstante
+faltar-lhes para isso o corpo e o sangue; as suas filhas de aguarella
+sabem calçar uma bota á _Benoiton_; Aline, a sua modista, tem algum
+gosto; Stellpflug e Manuel Lourenço, os seus sapateiros predilectos,
+contentam os seus freguezes; Barral tem bons remedios; o café, em geral,
+não é mau; os charutos satisfazem; os assassinos não tem sido demais;
+quem quizer tambem póde deixar de se suicidar; emfim, ella não é
+despiciente, acreditem:--unicamente o que lhe falta é o espirito, isto
+é, o _tic_ nervoso, que dá o bom senso; o enthusiasmo, que eleva as
+gerações; o fanatismo scientifico, que torna os homens celebres e
+audazes; o que lhe falta verdadeiramente é isso--essa primeira parte da
+humanidade a que Shakespeare chamaria, talvez, o _to be_ da humana
+existencia--o caracter.
+
+Emile Péreire, no tempo em que escrevia no _Nacional_, sob as ordens de
+Armand Carrel, tão pobre era que longe estava de imaginar o futuro
+de riqueza que o esperava.
+
+Foi, recordando-se d'esse passado de miseria, que elle pronunciou
+aquella esplendida phrase, de que Charlet fez uma caricatura:
+
+--Aos trinta annos tinha dentes e não tinha pão; aos sessenta tenho pão
+e não tenho dentes.
+
+Pois assim está a nossa capital--quando tinha caracter e dinheiro
+faltava-lhe o espirito e o desenvolvimento intellectual; agora que
+naturalmente está mais desinvolvida e mais apta para as concepções do
+mundo moderno, escasseia-lhe o caracter e a franqueza.
+
+Façamos como Paulo Vernet, o pintor realista--abramos a janella, e
+olhemos serenamente o que se passa.
+
+Em Madrid vive-se no café e pelo café. Quando se quer procurar qualquer
+pessoa importante, não se pergunta nunca pela casa onde reside, mas sim
+pelo café que costuma frequentar. E ahi está tambem o motivo, porque, na
+capital da Hespanha, os cafés, que quasi se podem dizer pequenas
+aldeias pela extensão e pelo comprimento, estão cheios, perfeitamente
+cheios, durante a noite e durante o dia. É ahi que se faz a politica, e
+é ahi tambem que se preparam os futuros acontecimentos do paiz.
+
+Dizia madame de Grirardin que um dos primeiros deveres da mulher era ser
+bonita. Pois o hespanhol tem para si, que um dos primeiros deveres do
+homem, em geral, é ser fallador, ruidoso, amante das revoltas e
+sinceramente admirador do extraordinario.
+
+Lembro-me que, numa noite, no theatro da zarzuella, um meu companheiro
+de viagem havia sido apresentado a uma distincta familia de Madrid, com
+quem travou estreitas relações de amizade e de quem recebeu os mais
+inequivocos testemunhos de affecto.
+
+Eram pae, mãe e duas filhas.
+
+No dia immediato ao da apresentação um grande acontecimento echoou na
+cidade. Dizia-se que uma senhora havia sido ferida na cabeça por um tiro
+de rewolver, desfechado á queima roupa por seu marido, o qual,
+julgando-a morta, se suicidára logo em seguida.
+
+Este facto, importante em qualquer outro paiz, ali mal despertou a
+curiosidade publica. Quasi que passou desapercebido.
+
+Averiguado, porém, o caso, soube-se effectivamente que a heroina era nem
+mais nem menos do que a tal senhora, que, na vespera, pela sua
+attenciosa bizarria confundira o meu amigo, com attenções e delicadezas.
+Ella exigira do esposo dinheiros avultados, que elle asseverava
+abertamente não ter em casa, naquella occasião. Então a mulher,
+enfurecida, gritou, fingiu-se morta, até que emfim se atirou ao marido,
+o qual, não constando que fosse santo, se atirou por seu turno a ella.
+
+E assim, travados de razões, armaram aquella tragedia, digno exemplo de
+duas filhas menores e edificante monumento da civilisação de um povo.
+
+Madrid tem, sobretudo, um vicio de origem--a falta de agua. O caracter
+hespanhol, tão contradictorio em si e nas suas manifestações, é todavia
+secco, aspero ás vezes, e irreflectido quasi sempre.
+
+A escassez de agua, além de escurecer toda a paisagem da Estremadura,
+faz ainda, porém, com que as flores sejam raras na cidade, e de todo o
+ponto destituidas de gosto.
+
+Ora todos sabem que a flôr entra hoje na vida do _ménage_ como uma
+necessidade, insubstituivel. Muitas senhoras têm nella uma companheira e
+uma amiga. A aridez da vida domestica é muitas vezes compensada pela
+existencia de um jardim, ao qual a dona da casa consagra todos os seus
+ocios e em virtude do qual ella cura todos os seus tedios.
+
+A mulher hespanhola, como não tem flores nem jardim, procura
+naturalmente os cafés e o mundo exterior, de que aliás precisa para
+conviver e para se entreter; cousa que, em nosso juizo, ninguem, em
+verdade, lhe poderá levar a mal.
+
+E, no meio de tudo isto, não ha povo que sinceramente comprehenda melhor
+as leis da hospitalidade e que melhor e mais bizarramente saiba
+attrahir a si os estrangeiros.
+
+Mas, embora elles queiram ser nós,--nós é que, em boa logica, não
+podemos ser elles.
+
+Elles, por exemplo, empregam o adjectivo _larga_--_esta calle es muy
+larga_--para significar o comprimento, ao passo que nós o empregamos
+para exprimir a largura.
+
+Antithese completa!
+
+Oh! não--decididamente nós não podemos ser elles..
+
+Mas, _se ellas_ quizessem ser nós!...
+
+Se nós fossemos _ellas_!...
+
+
+
+
+III
+
+A CIDADE
+
+
+No centro de uma extensa planicie, acompanhando a margem esquerda do
+Manzanares e alteada sobre differentes collinas de arêa de pequena
+elevação, ergue-se a cidade de Madrid, a formosissima _villa coronada_,
+prodigiosa de encantos, opulenta de prazeres e esplendida de vida.
+
+Data do reinado de Philippe II, em 1560, a mudança da capital do reino
+hespanhol de Toledo para Madrid.
+
+Perde-se na bruma dos tempos a origem etymologica d'esta cidade. No
+entretanto julga um illustrado escriptor que a verdadeira derivação
+de Madrid é _Magerit_, palavra arabe, que na nossa lingua significa
+_corrente de agua_.
+
+Muitas foram, e successivas, as invasões por que passou a cidade. Não
+vem para aqui, por deslocada, uma resenha historica de todos esses
+tempos de agitação, mais ou menos intimamente ligados com as coisas do
+nosso Portugal.
+
+Philippe IV foi para a Hespanha o mesmo que Luiz XIV foi para a França.
+No seu reinado brilharam as artes, as sciencias e a litteratura. Quiz,
+porém, a fatalidade, como que para realçar o dominio dos contrastes do
+mundo, que o seu herdeiro Carlos II fosse um rei pusillanime, fraco,
+fomentador da intriga e iniciador d'uma crise, que cessou com a
+assolação d'uma tremendissima guerra civil no tempo de Filippe V.
+
+Madrid soffreu immensamente nestas lutas intestinas. Sem embargo, os
+sacrificios compensaram as perdas. E quando depois Carlos III subio ao
+throno de Hespanha, a um sorriso do monarcha privilegiado desabroxou
+a paz, e as reformas brotaram por completo naquelle paiz.
+
+Este estado foi, porém, de curta duração. Napoleão I, senhor da França,
+põe a Hespanha novamente em tumulto e deixa-a entregue á fome e ao saque
+das hordas estrangeiras.
+
+Expulsos os francezes de Madrid, começou então a luta entre realistas e
+liberaes, os quaes depois se subdividiram ainda em progressistas e
+moderados, dando assim logar a uma infinidade de fracções, que só deviam
+abortar na mallograda revolução de 1854.
+
+Foi d'aqui que se originaram os partidos unionista, o democrata e mais
+tarde o neo-catholico; e foi d'aqui tambem que nasceu a Hespanha
+revolucionaria moderna, de todos conhecida, desde 1868 até nós.
+
+ * * * * *
+
+Madrid é, pois, uma cidade pequena, não talvez muito maior que o Porto,
+com um clima excessivamente regular, comportando na sua área 360:000
+habitantes, cuja indole póde naturalmente e com o maximo rigor ser
+observada á luz do gaz e durante a noite em qualquer dos principaes cafés.
+
+Conta-se que um alcaide hespanhol se compromettera certo dia a fazer
+tres discursos numa dada povoação.
+
+Chegou o primeiro dia, e perguntou á turba:
+
+--Entenderão o que lhes vou dizer?
+
+Ninguem respondeu.
+
+--Pois se não têm de entender-me é escusado pregar no deserto.
+
+No segundo dia voltou, e repetiu a mesma pergunta.
+
+--Sim! responderam todos, já zangados com a occorrencia do dia anterior
+e desejosos por saber o que tão illustre orador d'elles queria.
+
+--Nesse caso, se comprehendem, são inuteis as explicações.
+
+Chegou, porém, o dia da terceira e ultima prelecção, e o povo concordou
+em responder indistinctamente.
+
+--Serão capazes de perceber qual é o fim do meu discurso?
+
+Sim! Não! conclamou a turba em dois córos.
+
+--Então aquelle que percebeu que explique ao que não entendeu.
+
+E assim é, na verdade, o caracter hespanhol. Todos se entendem, e
+ninguem se entende. De modo que, no seio de tão estranha confusão, a
+vida domestica de Madrid, toda anarchica, toda exterior, toda ficticia,
+vai naturalmente reflectir-se nas coisas publicas--no commercio, na
+industria, na arte, na litteratura, na politica--pondo a cidade em
+continuo alvoroço, e deixando o viajante profundamente assombrado de tão
+fortes e repetidas contradicções.
+
+E tudo isto, o que mais é ainda para estranhar, num paiz onde os grupos
+dissidentes são quasi tantos como os talentos politicos, e onde o
+caracter de cada individuo varia e se modifica em justa proporção com a
+sua leviandade de espirito e seguindo naturalmente as differentes
+oscillações da opinião publica, sempre precipitada e louca.
+
+Obedecendo á influencia do meio que os domina, os estadistas
+hespanhoes são mais theoricos do que practicos, mais litteratos do que
+politicos, e, sem duvida alguma, mais poetas do que observadores.
+
+D'aqui a impossibilidade de uma união séria, progressista e
+trabalhadora. As subdivisões prolongam-se até ao infinito. Antes de 30
+de dezembro de 1875, os moderados formavam um unico partido. Agora,
+porém, avultam os moderados _transigentes_, tendo por orgão o jornal _El
+Tiempo_: os moderados _intransigentes_ com _La España_ e os moderados de
+_estola_ com _El Siglo Futuro_.
+
+O mesmo com o partido constitucional, que hoje se acha subdividido em
+constitucional do sr. Sagasta, representado na imprensa pela _Iberia_;
+em constitucional dissidente do sr. Santa Cruz, representado pela
+_Patria_ e em constitucional do sr. Ulloa, representado outr'ora pelo
+periodico _El Constitucional_, que já não se publica.
+
+As celebridades não escasseiam. Antes, pelo contrario: ao passo que em
+França quasi todos os homens illustrados são escriptores, em
+Hespanha quasi todos são oradores.
+
+Abstrahindo mesmo de Emilio Castellar, o luminosissimo vulto do seculo
+XIX, que só em Gambetta encontraria um rival condigno, e porventura,
+como politico, mais pratico, mais accentuadamente positivo do que elle;
+abstrahindo do sympathico materialista Figueras e do advogado Martos,
+poucos ha, naquella adoravel nacionalidade, que não possuam o fogo
+sagrado dos sublimes enthusiasmos patrioticos e a brilhantissima
+scentelha dos grandes espiritos revolucionarios.
+
+Numa palavra, a Hespanha é o paiz solemne das occasiões, o paiz do _à
+propos_, o paiz do momento.
+
+Os generaes Prim e O'Donnel andam ainda hoje apregoados pela fama
+publica. Pois bem. Muitos annos não se haviam passado depois do seu
+regresso da Africa, e concluida a guerra de Marrocos, que Prim,
+collocado numa das janellas do _Hotel de Paris_, recebera a mais
+enthusiastica ovação que humanamente era licito dispensar a um
+idolo. Uma noite regressava o illustre general do congresso, quando,
+subito, uma detonação acordou a cidade. Correram todos. Duas balas
+haviam-lhe destruido a emoplata, o ante-braço e a mão direita. Estava
+morto o heroe de tantas victorias e o deus de tamanhos enthusiasmos. A
+policia não apparecera. Ainda presentemente nas cadeias de Madrid se
+conservam presos, por suspeitos, seis homens. O resto, sabem-n'o os seus
+inimigos, d'elle.
+
+Madrid, a cidade _imperial_ e _coronada_, a _mui nobre, mui leal e mui
+heroica_ cidade, como em 1814 lhe chamou Fernando VII, tem, porém, ainda
+uma outra face, que realmente não deve esquecer ao historiador; e essa
+face, esse lado immensamente grande e extraordinario, que a Cervantes
+valeu uma reputação e uma immortalidade, é a anecdota, o delirio da
+bagatella e do ridiculo.
+
+Sim! a Hespanha, como bandoleira que é, tem uma lenda--_a lenda do
+bandido_.
+
+Estudando essa lenda, melhor e mais facilmente poderemos fazer uma idéa
+do que é e do que foi a Hespanha nos seus movimentos, nas suas
+idéas, na sua politica, no seu commercio, na sua industria, no seu
+progresso e na sua civilisação.
+
+Voltemos, portanto, a pagina.
+
+
+
+
+IV
+
+A LENDA DO BANDIDO
+
+
+O bandido!... Mas quem o não conhece? Elle, o maganão, o seductor, o
+adultero, o perverso, elle tem vivido sempre e sempre impune, sempre
+ironico, sempre chasqueador, sempre rapaz, sempre diabo. Com mil
+granadas! Que sublime ratão...
+
+Houve quem lhe chamasse _espirito das trevas_; houve tambem quem o
+appellidasse com o epitheto de carne, de Satan, de magico, de serpente,
+de lagarto e não sei tambem se de _D. Juan_, se de Mephistopheles, se de
+Falstaff.
+
+E é que elle realmente tem esse condão.
+
+Todos os dias se renova, renascendo das proprias cinzas, como a phenix
+mythologica, mudando de pelle como qualquer simples giboia, usando barba
+postiça, como um grotesco que é, e dando-se os ares frescos e
+traiçoeiros de velha rapoza, já useira e veseira nos altos assumptos de
+quem tem o olho em Deus e a unha no proximo.
+
+Não! Elle não é simplesmente o palerma namorador, que, á meia noite, de
+guitarra em punho, vai desferir uns estupidos landuns, mal tocados,
+debaixo da janella da sua pallida amante; tambem não é apenas o ebrio
+impenitente, que, pela madrugada, carregado de vinho e de tosse, corre
+as ruas num tropego cavallo de aluguer, atropellando quem passa e
+vomitando injurias _aguardentadas_ sobre a honestidade de quem trabalha.
+Porque, sendo tudo isto, o nosso typo tem, todavia, uma feição
+proeminente, feição grave, enormissima, que ninguem jámais lhe poderá
+disputar. Oh! sim, só elle é o bandido por excellencia, bandido de
+casaca e luva branca, mas bandido de alma larga e coração esperto,
+emquanto a mim o peior de todos os bandidos.
+
+Cautella, meu fidalgo, que nós já te conhecemos. Tu, que não duvidaste
+vestir a farda de imperador; tu, que tens levado as insignias da realeza
+até á crapula dos bordeis; tu, que enlameaste o teu brazão ao contacto
+effeminado da fadistagem de navalha e faixa encarnada; tu, meu politico,
+tu, meu banqueiro, tu, meu villão, é que verdadeiramente és o rei do
+mundo, porque te falta a vergonha e a decencia.
+
+Eu queria fazer de ti um Sancho Pança, mas Sancho é gordo e póde cair na
+embuscada; não, não serás Sancho, nem D. Quixote pela razão opposta; mas
+o que tu podes ser realmente é um Claret--um Claret sem corôa, de olhar
+mellifluo, doce no dizer, suave na convivencia e insinuante nos modos.
+
+Que o jesuitismo esteja descançado emquanto a nós. Unicamente nós
+pedimos licença a suas reverendissimas para pegar num dos seus mais
+respeitaveis membros, para o virar, para o revirar, para lhe dar
+umas palmadinhas no ventre; e feito isto, para o despedir com um
+piparote--tal qual, como se faz a um boneco de papel. E nada mais.
+Depois nem sequer pensaremos em similhante entidade. Tentaremos dormir
+sobre o caso, fazendo cama--e que boa cama!--de tão beatificas proezas.
+
+Agora o touro que saia: bandarilhas na mão e firmeza no pulso.
+
+Era uma vez um paiz, rico, poderoso, rodeado de magnificas paisagens,
+realçado pela formosura de mulheres peregrinas, e dominado pela ambição
+de politicos tresloucados. Um dia, porém, o sol, que era ardente, trouxe
+á cidade febres incuraveis. Adoeceram, então, os estadistas; e no
+delirio da doença cousas espantosas e horripilantes se começaram a ouvir
+de suas bôccas evangelicas. A febre tomou-os dos pés á cabeça; e
+então--ó céus!--doidos, perdidos, alucinados, elles, os doces, elles, os
+virtuosos, elles, os santos, que precisavam de saude e de vida, porque
+estavam mal, inventaram uma cousa muito melhor do que a _agua
+circassiana_, muito melhor ainda do que a _Revalescière du Barry_...
+elles deliberaram segurar as vidas em perigo.
+
+E a população mecheu-se activa, energica, em favor de tão alta instituição.
+
+Estava salva a patria.
+
+Contra o abysmo, que a perseguia, contra o diluvio, que a ameaçava,
+tinha o governo tambem inventado a sua arca santa--as companhias de
+seguro de vida.
+
+E sem embargo, os typhos, as bexigas, os sarampos, as erysipellas não
+haviam desapparecido da terra. O paiz continuava a soffrer as suas
+doenças, a alimentar rivalidades no seu seio e a prestar-se como sempre
+ás mil intriguinhas da côrte.
+
+Vai então o bandido amigo, irrequieto e nervoso, começa de farejar novas
+vias de exploração.
+
+--Nada! dizia elle. Segurar a vida é pouco; é preciso tambem segurar o
+capital. Mãos á obra!
+
+E formaram-se os bancos e as casas bancarias.
+
+Mas bandido--manhoso tinha já propensões para abusar. A policia ia-lhe
+sempre na pista. Todavia, elle, o heroe, elle não descansava nunca.
+
+Ah! bandido! ah! brejeiro!
+
+Ainda era pouco. Claret tinha a ambição louca e avara de um Shylock
+hespanhol. Queria ser rico, queria jogar, queria amar, queria
+divertir-se. E para tudo isso era preciso inventar, ser original, ter
+idéas.
+
+Crearam-se os bancos; o credito, porém ficou o mesmo, isto é, um pouco
+peior do que estava. O paiz não melhorava a sua riqueza publica. Então o
+governo pensou comsigo mesmo e disse:--Maldito bandido!--sempre
+desassocegado e criança: por Deus, cautella! nem mais um passo...
+
+E bandido--esperto abriu o olho e principiou a ver, ao longe uma cousa
+que lhe fallava em inscripções e em fundos publicos. Olé! Olé! Cá está a
+incognita! A elles, aos fundos publicos!
+
+Ao que o sr. Salaverria sorriu ironicamente, como querendo
+dizer:--Espera maroto, que te escacho!
+
+E assim foi.
+
+Bandido foi já derrotado na politica, no commercio, na industria, na
+economia, nas artes e nas sciencias. Mas apesar de tudo elle não
+descrê. É forte, tem bom pulso, jámais teve uma dôr de dentes e nunca
+cortou os callos, porque tambem nunca os teve. Abençoado patife! Creado
+nas montanhas e industriado nas altas tricas da politica, elle só espera
+momento opportuno para tornar a apparecer em campo.
+
+E depois hão de vel-o. Pois julgavam que elle era sujeito para se curvar
+a qualquer Salaverria? Enganaram-se.
+
+Nem a Salaverria, nem á honestidade. Unicamente elle tem em
+vista--alcançar os seus fins sejam quaes forem os meios.
+
+E assim é a Hespanha na sua evolução social.
+
+_Ah! Machiavel! ah! bandido!_
+
+
+
+
+V
+
+EDIFICIOS PUBLICOS E OUTRAS CURIOSIDADES HISTORICAS
+
+
+Dizia um celebre escriptor allemão que a vida era uma viagem em caminho
+de ferro: o casamento um choque de trens; o somno a passagem de um
+tunel; um negocio a passagem de uma ponte; o destino um machinista que
+nos leva silencioso ao termo da viagem.
+
+Nestas circumstancias, e a ser verdade o que nos diz tão excentrico
+pensador, parece, de facto, que ao homem nada mais resta neste mundo do
+que uma vida de sensações rapidas e imprudentes, sem um unico
+pensamento, que o preoccupe, sem repouso, sem ligações, sem familia, sem
+crenças, sem humanidade.
+
+E apesar de tudo, e sem embargo do auctor citado, o universo
+apresenta-nos um aspecto perfeitamente em contrario do que acima
+transcrevemos.
+
+Por toda a parte a fixidez se nos antólha como elemento essencialissimo
+na vida dos povos. Na evolução das sociedades a primeira cousa que o
+homem teve em vista foi certamente fixar-se, construir a cabana onde
+tinha de pernoitar e estabelecer definitivamente a séde dos seus
+trabalhos e operações.
+
+Imagine-se o leitor, em Madrid, no meio de uma praça irregular, que se
+chama _Puerta del Sol_. É o coração da cidade. Conta-se que em 1520
+houvera alli um castello, sobre a porta do qual se encontrava uma
+pintura representando o sol. Desde então para cá póde dizer-se que é
+aquelle o logar destinado, aos despreoccupados do mundo, aos _flaneurs_
+do bom tom e á fina _èlite_ dos salões madrilenos.
+
+Que contraste! Na propria sociedade hespanhola, que mais pensa na
+vida externa do que na vida interna, pacifica, de casa, nessa mesma nos
+foi dado admirar a impretrerivel tendencia da natureza humana para o
+viver confortavel, commodo, alegre e quasi poderiamos tambem dizer luxuoso.
+
+Poucas familias ha, em Madrid, que não tenham a sua casa,
+excellentemente mobilada, e que, pelo menos, não possuam o modesto
+segredo do _savoir-vivre_, isto é, o segredo da conservação e da hygiene
+individual.
+
+Sem sahir da _Puerta del sol_, o viajante poderá, se quizer, fazer um
+telegramma aos seus amigos, dirigindo-se áquelle magnifico predio onde
+actualmente se acha o ministerio da _governação_, e poderá, tambem, se
+assim lhe aprouver, tomar uma chavena de chocolate no magnifico _café
+Imperial_ ou subir mesmo ao primeiro andar d'esse mesmo edificio, e
+ordenar que lhe reservem um quarto no _Hotel de Paris_.
+
+Sahindo da _Puerta del sol_ encontramos duas ruas quasi parallelas--a
+rua _Alcalá_ e a _Carrera S. Jeronymo_. Na primeira d'estas ruas
+eleva-se um soberbo arco triumphal, erecto no reinado de Carlos III, a
+fim de perpetuar a memoria da sua vinda á côrte de Hespanha. Consta de
+cinco entradas, sendo tres eguaes, no meio, e em fórma de arco, e uma
+quadrada em cada extremo. A _Puerta de Alcalá_, a primeira de Madrid,
+conta 70 pés de altura, com a seguinte inscripção:
+
+
+REGE CAROLO III
+ANNO MDCCLXXVIII.
+
+
+Além d'esta ha ainda a _Puerta de Toledo_, situada no fim da rua do
+mesmo nome, consagrada, no anno de 1827, a Fernando VII, o _desejado_.
+
+E, visto estarmos fallando nas maravilhas da arte hespanhola, bom será
+que não esqueçamos as duas principaes praças da cidade--_la plaza de
+Oriente_ e _la plaza Mayor_.
+
+A primeira tem fórma circular, e é circumdada exteriormente por um
+formosissimo passeio, onde estão collocadas quarenta e quatro
+magnificas estatuas, destinadas a representar os monarchas hespanhoes.
+
+No centro da praça ergue-se a estatua de Filippe IV, symbolisando o seu
+disvelo pela arte nacional, e dando-nos em allegoria o solemnissimo
+momento em que tão generoso monarcha se dignava condecorar o celebre
+pintor Velasques com a cruz de Sant'Iago.
+
+O theatro _real_ faz tambem com que este logar seja um dos que melhor
+perspectiva apresentam na cidade.
+
+A segunda--a _plaza Mayor_--foi construida em 1619, sob a direcção do
+architecto D. Juam Gomes de Mora. É o logar destinado ás festas da côrte
+hespanhola. Antigamente a fidalguia armada costumava, em actos solemnes,
+esperar ali a sahida dos touros, que eram picados com a maxima destreza
+e pericia por parte dos amadores da arte de Pepe-Híllo. Já por duas
+vezes o incendio tentou destruir tão formoso recinto. No seu centro está
+collocada a estatua equestre de Philippe III, obra começada pelo
+architecto Juan Bologna e terminada por Pedro Tacca.
+
+Presentemente a _plaza Mayor_ acha-se reduzida ás condições de um
+deliciosissimo jardim e pouco mais.
+
+Passemos, porém, ao _Palacio Real_. É uma das obras de arte, que mais
+particular attenção merece da parte dos entendedores.
+
+Foi construido este palacio em meados do seculo passado. Situado no
+extremo occidental da povoação, precisamente no logar onde outr'ora se
+erguia o famoso alcaçar de Madrid, a sua origem remonta, segundo uns, ao
+reinado de Affonso VI, e segundo outros ao reinado de Pedro I. No cimo
+da escada, que é de marmore, existe uma estatua de Carlos III, o qual,
+parece, concorrêra bastante para a melhoria d'aquelle edificio.
+
+Começando pela fachada do Oriente, a pintura, que se vê na primeira
+sala, representa o Tempo descobrindo a Verdade; na segunda encontra-se
+Apollo premiando o talento; na terceira a queda dos gigantes, que uma
+vez tiveram a ousadia de attentar contra os céus; na quinta a
+apotheose de Hercules; e na sexta, septima, oitava e nona a
+representação da philosophia, da pintura, da musica e da poesia.
+
+Além do que aqui deixamos mencionado, muito mais, porém, poderiamos
+accrescentar. O _Palacio real_ é uma das maravilhas da capital de
+Hespanha, já pela sua riqueza, já pelos seus valiosissimos quadros, já,
+emfim, pela sua vasta opulencia.
+
+Não pára, comtudo, aqui a nossa admiração. Cumpre egualmente não
+esquecer outras maravilhas da cidade, taes como o _Palacio do Senado_,
+onde pela primeira vez se reuniram as côrtes hespanholas em 1820: o
+_palacio do congresso_, edificio muito moderno, principiado a construir
+em 1834, os _ministerios publicos_, as _reaes cavallariças_ situadas ao
+norte do palacio, e ainda como reliquias de architectura dos seculos
+XVI, XVII e XVIII até nós, os palacios particulares de _Medinacellí_, de
+_Liria_, do _duque de Abrantes_, do _marquez de Salamanca_, etc.
+
+E ainda, se o leitor fôr poeta e se interessar pelos grandes homens, não
+deixarei de recommendar-lhe a visita ás casas de Cervantes, de Lope de
+Vega, de Torrijós, de Cisneros e da beata Maria Anna.
+
+A casa de Cervantes, edificada na rua do mesmo nome, tem, por cima do
+portal da entrada, em marmore branco, a seguinte inscripção:
+
+
+_«Aqui vivió y murió Miguel de Cervantes Saavedra; cuyo ingenio admira
+el mundo. Falleció em MDCXVI»._
+
+
+Na parte superior está o busto do poeta.
+
+A casa de Lope de Vega foi recentemente restaurada, e a de Torrijós,
+celebre general, tem tambem um distico, em que se lê pouco mais ou menos
+o seguinte:
+
+
+_«Aqui nació el general D. José Maria Torrijós; defendia la
+independencia e libertad de la patria e murió em 11 de deciembro de
+1831, arcabuceado em Malaga por haber intentado restabelecer con las
+armas la Constituicion»._
+
+ * * * * *
+
+Agora, permitta-me o leitor que lhe offereça um charuto. Emquanto se
+espera entremos aqui neste café, no café de Sevilha. Uma chavena de
+chocolate não lhe fará de certo mal.
+
+--Rapaz!--Chocolate!...
+
+
+
+
+VI
+
+A INSTRUCÇÃO PUBLICA
+
+
+«Deixae-me instruir a juventude, e eu reformarei o mundo»--dizia Leibnitz.
+
+E assim é, com effeito.
+
+Reforma que não seja acompanhada de raciocinio, pecca por falta de
+seriedade scientifica e por ausencia de dados positivos. E por isso é
+que a Allemanha, pelo espirito de Luthero, e a França, pelo espirito de
+Fénelon, foram sempre as primeiras a accordar o coração do povo pelo sol
+da instrucção. Jules Simon, o sympathico auctor da _Politica radical_,
+tem consagrado quasi todos os annos da sua vida á solução d'este
+notavel problema; e a verdade é que a França, neste ponto, em nada fica
+a dever ás nações, que, ainda mesmo como os Estados-Unidos, a Suissa e a
+Belgica, caminham na vanguarda da civilisação.
+
+É ainda o mesmo Jules Simon que nos diz:
+
+«No dia em que a lei obrigasse toda a gente a saber lêr, toda a gente
+estaria mais perto da liberdade».
+
+E assim deviam fallar todos os verdadeiros democratas; porque, sem
+instrucção, é impossivel a educação, do mesmo modo que sem o
+desenvolvimento intellectual se atrophiaria o desenvolvimento moral.
+
+E o homem não é só intelligencia, mas tambem coração. Desenvolver uma e
+outra cousa é hoje a missão da escola moderna, sanccionada pela
+philosophia positiva.
+
+Levasseur, acceitando a obrigação da instrucção, pretende, comtudo, que
+aos interessados se deixe a livre escolha de escola, confessando ao
+mesmo tempo, que, onde as escolas escasseiam, ou onde a maioria da
+população não está no habito de concorrer a ellas, a experiencia prova
+que a obrigação não passa de uma disposição inutil; asserção que elle
+confirma pelos exemplos de Portugal, Hespanha e Italia.
+
+Emile de Girardin, o celebre publicista, que em duello matou Armand
+Carrel, fazendo depois elle proprio a apologia do seu infeliz
+adversario;--Emile de Girardin, embora não combatesse a instrucção
+obrigatoria, achava-a comtudo, ephemera e subjeita a erros. Assim como
+ninguem obriga o seu semelhante a comer um pedaço de pão, assim nós
+tambem não podemos obrigar ninguem a ser instruido.
+
+_Necessaria_, portanto, é que a instrucção devia ser, isto é, todos
+deviam saber ler, contar e escrever--o que, _mutatis mutandis_, vinha a
+dar o mesmo.
+
+Em Portugal já a instrucção obrigatoria havia sido consignada no decreto
+de 20 de setembro de 1844, onde a penalidade, imposta á negligencia das
+familias, appareceu pela primeira vez neste paiz.
+
+E, no entretanto, as escolas continuam sem frequencia, os methodos
+peioram de dia para dia, o professorado anda equiparado aos creados das
+cavallariças reaes, e nós, os preguiçosos do occidente, navegamos em mar
+de bonança na quietação mais materialmente feliz d'este mundo sub-lunar.
+
+O sr. Levasseur, membro da _commissão franceza_, na ultima exposição
+internacional de Vienna d'Austria publicou a estatistica do movimento
+das escolas primarias nos diversos paizes do mundo, e achou que a
+frequencia das escolas, no Baixo Canadá, está na relação de 23 alumnos
+por cada 100 habitantes, na França 13 por 100 e em Portugal 3 por 100.
+
+Este facto, horroroso em si, não nos é, todavia, extremamente desfavoravel.
+
+Em Hespanha, onde a instrucção superior está tão profusamente derramada,
+a ponto de haver um sem numero de universidades, de escolas, de
+academias, de archivos, de institutos e de bibliothecas; em Hespanha a
+instrucção primaria, se não é inferior, corre, pelo menos, parelhas com
+o nosso paiz.
+
+Quer-nos parecer que sem uma remuneração, concedida pelo estado aos paes
+de familia, nunca a instrucção _obrigatoria_ será levada por deante, na
+peninsula. No inverno a grande distancia dos povoados a que ficam as
+escolas, faz com que ellas sejam menos frequentadas; no verão, as
+colheitas obrigam os lavradores a não dispensar seus filhos dos
+trabalhos ruraes. E por isso é, creio, que de facto existe uma
+desproporção enorme entre os algarismos da população rural e a
+frequencia numerica das respectivas escolas.
+
+Mas a Hespanha, _litterariamente_, ao menos, tem uma vida propria, sua,
+original, ao passo que nós tanto na arte, como na politica, estamos
+fatalmente destinados á morte e ao esquecimento.
+
+Entre nós o ultimo poeta, verdadeiramente, interprete do sentimento
+nacional foi Garrett. Desde então para cá a influencia da litteratura
+franceza tem-se feito por tal fórma sentir, que os nossos poetas, embora
+dotados de muitissimo talento e de vivissima imaginação, mais parecem
+conhecer a vida de Paris do que a vida de Lisboa; e de tal modo que
+o nosso povo mal os lê, porque mal os entende tambem. O resultado é que
+vamos atravessando um periodo de transição e que a historia não poderá
+nunca registrar esta época, senão como um facto accessorio da vida
+portugueza.
+
+E, cousa singular! a causa, que tão poderosamente actua nos nossos
+costumes e na nossa vida nacional, é a mesma que, passando por cima da
+Hespanha nem sequer vestigios deixa da sua passagem. Victor Hugo,
+assimilado e imitado pelos portuguezes, emprehendeu na sua infancia uma
+viagem á Hespanha. «Essa viagem--escreve Castelar--tem analogia com a de
+madame de Stäel á Allemanha. A eminente escriptora trazia o romantismo
+idealista do norte, o sublime escriptor o romantismo pratico do
+Meio-Dia; Stäel inspirava-se nos tristes e profundos sonhos de João
+Paulo Richter, Victor Hugo nos singelos versos do _Romancero_ e nos
+conceitos de Calderon, impressos na consciencia, como esses listrões de
+materia cosmica, a que damos o nome de nebuloses, e dos quaes talvez em
+cada minuto se desprende como uma gota de luz um novo planeta na
+vastidão do espaço. Victor Hugo sahiu de Hespanha com o animo
+disposto a incendiar o templo dos deuses e da velha arte. Reinava
+desassombradamente a poesia classica, desde a epoca de Luiz XIV. Se o
+povo de 93 descobrisse esta realeza, tambem a teria derrubado no seu
+incansavel afan de renovar a vida. Era a Academia, o Versailles, onde
+aquella corôa estava enthesourada».
+
+Podem os poetas hespanhoes não ser melhores que os nossos, mas a verdade
+é que são mais originaes, e mais do seu paiz. Foi da Hespanha que partiu
+o grito destruidor do velho convencionalismo poeta, em redor do qual se
+haviam agrupado Racine, Voltaire, Corneille o outros. E esse
+revolucionario audaz e intrepido foi Lope de Vega.
+
+A vida litteraria de Hespanha é tal que só em Madrid se publicam
+aproximadamente 60 jornaes. Da _Universidade Central_, situada na rua de
+S. Bernardo, e dividida em 6 faculdades, sahem annualmente para cima de
+cem bachareis.
+
+Por onde se vê que a instrucção superior em Hespanha tem attingido um
+enormissimo progresso; progresso, em nosso entender, que lhe ha de
+assegurar sempre virilidade, independencia e vida propria, o sufficiente
+para que uma nação, em poucos annos, se eleve e conceitúe no animo dos
+seus inimigos.
+
+E posto isto, tratemos d'outro assumpto.
+
+
+
+
+VII
+
+TEMPLOS E RELIGIÃO
+
+
+Desapparece o carnaval, e a mulher hespanhola, de todas as mulheres do
+mundo a mais alegre, a mais festiva e a mais ruidosa, sacode os seus
+cabellos, desgrenha a sua fronte, pintada a carmim, rasga a sua ligeira
+mascara de seda, põe de parte o seu vestuario extravagante, descalça os
+seus sapatinhos de setim, toma o seu véo de Sevilha, calça a sua luva
+preta, e penetra soberanamente no templo, onde o Christo a aguarda,
+para, num sorriso de perdão, a absolver das suas culpas e dos seus
+peccados.
+
+É que ella, a feiticeira, comprehende o mundo, tal como elle é--de
+alegrias e de tristezas, de esperanças e de duvidas, de amor e de
+descrença, de riso e de lucto, de primavera e de outomno, de vida e de
+morte.
+
+O templo veste-se de negro; o orgão faz resoar os seus canticos
+plangentes; Jesus, a pallida creança, ostenta uma face macerada, e o
+padre, oh! o padre, o grande ladrão!--como raposa que espreita o
+galinheiro innocente, acocora-se no confissionario, á semelhança de
+gallo, que em materia de instinctos é useiro e vezeiro.
+
+E tu, minha pobre peccadora, ó minha querida--terás de ouvir
+silenciosamente, concentradamente, todos os lamentos do propheta, todas
+as dôres da mãe, todas as lagrimas dos pequeninos.
+
+Um dia levantar-te-has mais cedo; com ar triste e melancolico seguirás a
+via do resgate; ajoelharás timidamente deante do sr. cura da freguezia,
+que depois te dará a communhão.
+
+Que maldicta manhã não passarás, minha pequena
+catholica!--lembrando-te das travessuras de que a consciencia te não
+accusa, e tendo de abrir ao padre, ao negro carcereiro da tua alma, os
+segredos que te vão no coração atribulado.
+
+Mas tu tens pae, bem o sei; tua avó não te dispensará o sacrificio de
+todos os annos, e tua propria mamã exigirá de ti nesse dia um beijo e um
+affecto.
+
+Que louca extravagancia! Confessar-se a gente a um homem desconhecido,
+que toma rapé e usa lenço encarnado, quando, ao contrario, podia revelar
+a sua vida ao ente predilecto da sua existencia, áquelle, que, _au clair
+de la lune_, fuma debaixo das nossas janellas um delicioso _breva_ e nos
+diz umas doces palavras mysteriosas....
+
+E depois--que horror!--cahir no velho tumulo catholico, quando toda a
+natureza, como que por contraste, é um encanto e um paraizo?!
+
+_Oh! mon Dieu, que c'est trop fort...._
+
+Mas, emfim, sevilhana amiga, tu que, durante o carnaval, escapaste, de
+uma bronchite, faze tambem diligencia para, durante a quaresma, te
+furtares á insolita constipação catholica.
+
+_Á la belle etoile_ cantaremos e libaremos aos nossos amores. Bem vês
+que o convite attrahe. Tu fallar-me-has no bigode preto do teu amante,
+nos seus cabellos de azeviche, na sua fronte pallida, nos seus olhos
+profundos e apaixonados; de tudo me has de fallar, gentilissima menina,
+que, eu, no entretanto, sem deixar de ouvir-te, irei preparando uma
+delicadissima ceia, toda ella de boas aves saborosas e de finissimos
+vinhos francezes.
+
+Acceitas? Por Deus não pretendas imitar o lyrismo de Santa Thereza,
+aquella boa alma mystica, que «_morria de não morrer_!»--ou antes «_por
+não morrer_». É verdade que escusas tambem de seguir _madame_ Roland,
+indo para o cadafalso, vestida de branco e Carlota Corday apunhalando
+Marat; escusas mesmo de te aproximar de _madame_ de Maintenon, no seu
+odio contra a religião protestante: e escusas tambem de ser Joanna
+d'Arc, uma Margarida d'Anjou, uma Joanna de Montfort. Tudo isto seria
+desnecessario e inutil. Para serdes respeitadas e felizes, bastava
+apenas, minhas boas andorinhas ideaes, que vós possuisseis o orgulho
+e a consciencia das vossas acções; porque emfim, se o homem é o orgulho
+de Deus, a mulher é o orgulho do homem, como mui judiciosamente escreveu
+um espirito comtemporaneo.
+
+Conta-se que o chefe arabe dissera da actriz Rachel:--«É uma alma de
+fogo num corpo de gaze», e que a actriz, á hora da morte, exclamára:--«O
+fogo queimou a gaze!»
+
+Assim, pois, que a minha gentilissima hespanhola não possa tambem nunca
+dizer, á imitação de Rachel:--_O fogo matou a mulher!_
+
+ * * * * *
+
+Em Madrid os templos são de somenos importancia. E, embora a religião
+catholica-apostolica tenha ali fanaticos e fanaticos decididos, não nos
+parece que os edificios destinados ao culto sejam dignos de uma menção
+especial. Ao ouvir fallar nas cathedraes de Cordova e Sevilha, de
+Toledo e Burgos, de Valladolid e Zaragoza, quasi se nos afigura
+impossivel, senão mesquinho, que Madrid não possua tambem o seu templo
+official. A verdade, porém, é que, apesar de todas as tentativas, ainda
+até hoje não foi possivel levar por deante o velho projecto da
+edificação de uma cathedral na côrte de Hespanha.
+
+Entretanto, forçoso é confessar, que poucos paizes ha na Europa onde o
+fanatismo religioso tenha attingido tão elevadas proporções de
+hypocrisia e de retrocesso. Philippe I assemelha-se a Luiz XI, o qual
+antes de mandar enforcar qualquer subdito do seu reino, supplicava
+sempre a Nossa Senhora, cuja imagem trazia no _bonnet_, para que tivesse
+dó d'elle, e assim tambem a Hespanha deve a Philippe I uma grande parte
+do seu carlismo e da sua reacção.
+
+Os hospitaes, todavia, as casas de beneficencia, os asylos, e as
+associações philantropicas são innumeras em Madrid. A alta sociedade
+exerce mesmo a caridade em larga escala. Unicamente nos parece que a
+razão publica entra pouco n'estas cousas.
+
+Seja, porém, como fôr, o certo é que um pouco menos de fanatismo e
+alguma cousa mais de raciocinio, nenhum mal faria a Hespanha.
+
+Porque, de facto, uma nacionalidade que possue criticos tão notaveis
+como Francisco Maria Tubino, director da excellente revista _La
+Academia_, e poetas tão distinctos como D. Ventura Ruiz Aguillera,
+fundador do magnifico _Museu archeologico_, e Zorrilla, o arrojado
+trovador peninsular, que, por fórma alguma, deve ser confundido com o
+politico, seu homonymo; uma nacionalidade tão forte e tão vigorosa
+sempre merece ser mais alguma cousa do que uma simples expressão dos
+velhos tempos theologicos.
+
+Toda a vida de um paiz se resume numa palavra--bom-senso.
+
+
+
+
+VIII
+
+A POLITICA[1]
+
+
+(CONTRASTES)
+
+Ainda hontem a vimos expulsa da patria, que ella de creança aprendera a
+renegar no vilissimo ensinamento de um jesuitismo perverso; ainda
+hontem, humilhada, mas não contricta, lhe mostravam as bayonetas
+nacionaes que não podia ser aquelle o coito das suas devassidões
+infrenes; ainda hontem, offendida no seu amor proprio, e sempre
+arrogante, ella transpunha os Pyrineus, como as columnas de Hercules,
+por onde jámais lhe seria dado volver ás terras das suas hybridas
+façanhas e ao solar das suas sabidissimas intrigas.
+
+E no entretanto esse magnifico sol, que parece ter brilhado para toda a
+Europa, no explendido fulgôr de uma vivissima luz, apagou-se subito no
+horisonte, deixando empós de si o triste e doloroso prenuncio de uma
+tempestade eminente.
+
+E, coisa singular, nada faltou áquelle dia de festa.
+
+Ayalla coloria o seu estylo brilhante; e com as côres douradas da sua
+divina palheta, quasi se sentira feliz por festejar aquelle sahimento
+funebre de uma mulher, justamente condemnada pelos fastos da historia e
+merecidamente repellida pelos progressos da humanidade; o duque da Torre
+alçava para o céo a sua cabeça de cidadão arrojado, congratulando-se com
+os seus e com os estranhos pela victoria da justiça do seu paiz:
+Sagasta tinha a convicção de uma grande causa conquistada, e
+persuadia-se ter concluido uma obra meritoria; Prim, o esforçado
+batalhador de Marrocos, ostentava em pleno dia as alegrias que lhe iam
+na alma, e as esperanças que se lhe occultavam no coração; Castelar,
+emfim, com todo o arrojo da sua notavel eloquencia, suppozera-se
+victorioso, e victorioso para sempre.
+
+Mas, coisa ainda mais singular! todas estas acclamações de momento,
+todas estas palmas improvisadas, todos estes delirios de occasião, todas
+estas festas, todas estas vertigens, todos estes rumores, cahiram, n'um
+minuto, inesperadamente, abruptamente, revelando-nos, mau grado nosso,
+que a politica foi, é, e será sempre a suprema contradicção das cousas
+humanas e a mais evidente demonstração de quanto a humanidade é
+inconstante, leviana e traiçoeira.
+
+A entrada de Isabel II em Hespanha é a abjuração cabal da revolução de
+Cadiz.
+
+Pouco nos importa que o sr. Sagasta fosse agora o primeiro a
+cumprimentar a ex-rainha expulsa, acceitando-lhe o retrato e as
+perfidias; pouco nos importa que o sr. Ayalla abra tambem o cofre dos
+seus gabos e a cornucopia da sua generosidade. Tudo isso é do mundo, e
+nós estamos no mundo. Unicamente, nós temos direito a perguntar aos
+nossos vizinhos qual é actualmente o seu rei.
+
+Quem governa? Isabel II ou Affonso XII?
+
+A abdicação da rainha por ninguem foi ainda reconhecida. Não é ella de
+facto que occupa o throno, sabemol-o; mas na realidade é ella quem
+governa, desde o momento que o consentimento lhe foi dado, para de novo
+residir no palacio _del Oriente_.
+
+Que diria a isto Prim, o heroe de 1868, se por acaso hoje vivesse? Que
+dirão a isto os senhores liberaes de Hespanha, que, por suas proprias
+mãos, acabam de cavar o proprio sepulchro? E que fará o sr. Canovas del
+Castillo, o amigo duvidoso da ex-rainha?
+
+E a Hespanha, a nobre filha da peninsula, consentirá impunemente n'este
+attentado contra a sua dignidade? Volverá ao nefasto governo dos Clarets
+sem um protesto, sem um brado de indignação, sem uma affirmativa do seu
+brio e do seu pundonor?
+
+Nada temos com personalidades. A politica pessoal é, de todas as
+politicas, a mais detestavel e a mais perniciosa. Mas se isto nada é, o
+principio é tudo. É forçoso respeital-o e seguil-o. De outro modo não ha
+paiz que se sustente, da mesma maneira que sem leme é impossivel a
+navegação no mar.
+
+Amadeu I, pela sua demasiada simplicidade, não logrou nunca que os
+hespanhoes o guindassem ao fastigio da gloria. Muito bem. O sr. Zorrilla
+dispensa-o do seu serviço, e prepara-se para dirigir a politica do seu
+paiz. Mas, ó incoherencia! o proprio sr. Zorrilla, segundo affirmaram
+alguns, é o primeiro a divorciar-se dos republicanos, emigrando e
+dizendo-se apenas radical. E, por incoherencia ainda, é elle hoje o
+conspirador por excellencia, e, segundo todas as vistas, o chefe do
+futuro gabinete republicano.
+
+E tão odioso é de facto o seu nome ao actual governo, que, ainda ha
+pouco, o jornal _El Globo_, orgão do sr. Castelar, e de que é director o
+sr. Olías, foi supprimido por apenas lhe ter estampado a photographia na
+primeira pagina.
+
+E esta suppressão indigna, violação manifesta do direito, da justiça e
+da propriedade, foi feita sem denuncias, sem accusações fiscaes e sem
+que os tribunaes fossem, ao menos, ouvidos.
+
+Tal é, em geral, o fructo dos governos restauradores!
+
+Quando Affonso XII subiu ao throno não faltaram, nem as apostas, nem os
+protestos, nem as indignações.
+
+Mas tudo isso passou. E _el niño de su madre_, o pequeno authomato dos
+tempos modernos, convicto de que o seu reinado havia de ser de ouro,
+sentou-se no throno, com o serenidade de um fingido Bourbon, sem
+consciencia e sem reflexão.
+
+Agora, porém, falla-se com insistencia numa nova revolução. Madrid
+agita-se; o exercito divide-se; a fazenda publica está num estado
+desesperador; a população descrê; tudo isto, aggravado ainda com a vinda
+da rainha Isabel para Madrid, que a todos inspira odio e antipathia, faz
+suppôr que o movimento revolucionario se não demorará muito no seu
+apparecimento.
+
+Ninguem hoje tem o poder de resuscitar cadaveres. A elevação de Affonso
+XII ao throno nunca passou mesmo de uma mera phantasmagoria politica,
+especie de entreacto entre o passado e o futuro. Hão de tornal-o a
+enterrar, estou convencido, e sem grande difficuldade.
+
+Conta-se que num jantar, ultimamente dado em Barcelona, se reuniram seis
+politicos de vulto. Travada a discussão viu-se que cada um d'elles
+professava opinião differente ácerca do estado geral da patria.
+Progrediram assim as cousas; e de tal maneira que, no fim do banquete,
+os copos voaram pelos ares ao clamor estridulo e confuso de uma contenda
+infernal. Ninguem se entendia. O meio de persuasão estava já nos punhos
+arregaçados e nos calices feitos pedaços. Finalmente parece que tão
+delicioso repasto terminou, sem levar a convicção ao espirito dos
+convivas, é verdade, mas deixando-lhes, todavia, a liberdade do vinho
+absorvido, e a gloria dos destroços por cada um operados em favor da sua
+causa.
+
+E assim é, em quanto a nós, tambem a politica em Hespanha--uma
+Babylonia!
+
+ [1] Este artigo, embora restricto a um facto particular da
+ actual dynastia reinante em Hespanha, póde, todavia, ampliar-se
+ á politica geral do paiz, e por elle ser criticada.
+
+
+
+
+IX
+
+MUSEUS
+
+
+No seculo XVI, ao mesmo tempo que tudo decahia em Hespanha--politica,
+commercio, industria--como que para contrastar, surgia, por outro lado,
+o primeiro poeta hespanhol, Calderon, e o primeiro pintor, Velasquez.
+
+E desde então para cá as artes e as sciencias têm tomado um incremento
+verdadeiramente assombroso; a ponto de, ainda ultimamente, muitos
+professores da Universidade de Heidelberg, varios homens politicos
+francezes, e alguns sabios de Inglaterra, se terem reunido afim de
+lançar os primeiros fundamentos da Universidade livre de Madrid, que o
+sr. Canovas del Castillo referiu que se chamasse _Instituto livre de
+ensino_.
+
+Em todos os museus de Madrid, que são muitos e admiraveis, se encontra a
+immortalidade da historia hespanhola aliada á eloquencia do genio e da
+inspiração individual.
+
+O Museu real de pintura e esculptura, situado no passeio do Prado, é
+ainda hoje um dos melhores do mundo, e foi fundado por Fernando VII, a
+rogo de sua esposa Maria Christina.
+
+Impossivel nos seria dar aqui uma resenha historica de todos os
+principaes quadros que adornam aquelle paraiso. Apontaremos no entanto
+alguns.
+
+A escóla de pintura _hespanhola_ resente-se extraordinariamente do
+catholicismo que lhe servia de inspiração. Assim, para exemplo, pódem
+ver-se, entre outros, os quadros de Murillo, um, symbolisando a
+_Annunciação de Nossa Senhora_, outro, representando a _Familia
+Sagrada_, outro desenhando a _Concepção_, etc.; e os de Velasquez,
+que tem um _Nosso Senhor Crucificado_ maravilhosamente acabado, assim
+como um outro intitulado o _Quadro dos bebedores_; os de Rivera, que
+produziu o _Martyrio de S. Bartholomeu_, _S. Jeronymo em oração_, etc.;
+e os de Zurbaran sobre assumptos mysticos, e os de Goya, que realça
+principalmente por um retrato a cavallo de Carlos IV, etc.
+
+A escóla _florentina_ é, como a hespanhola, uma escola religiosa. Assim,
+temos de Leonardo de Vinci dois esplendidos quadros: o retrato de Mona
+Lisa, mulher de D. Francisco Gicondo, cavalleiro florentino, e a
+representação da _Familia Sagrada_, tendo S. João e o menino Jesus em
+attitude de se beijarem; de Andréas del Sarto, chamado Andrea Vennucci,
+um retrato em busto de sua mulher Lucrecia Fede, e muitos outros; de
+Miguel Angel Buonarroti um _Nosso Senhor atado á columna_; e, como
+estes, outros de Bronsino, de Allori, de Carducei, de Vanni, etc.
+
+Na escóla _romana_ o principal expositor é Sanzio Rafael, chamado
+Urbino, que possue, entre outros, _A queda de Nosso Senhor Jesus
+Christo com a cruz_, conhecido pelo nome de _Pasmo de Sicilia_, e muitas
+allegorias á familia sagrada, umas conhecidas por _Ecce Agnus Dei_,
+outras pela _Rosa_, outras pela _Perola_, etc. Seguem-se-lhe Julio
+Romano, Sassaferrato, Barroci, etc.
+
+Na escóla _veneziana_ o mais importante é Piciano, que tem uns
+magnificos quadros de Carlos V a cavallo, de Jesus Christo apresentado
+ao povo, do peccado original, da Victoria de Lepanto, da Virgem das
+Dôres e do _Ecce Homo_; depois temos Bellino, Tintoretto, Bassano e mais
+alguns.
+
+As menos notaveis, talvez, neste museu são as escolas, _bolonheza_,
+_lombarda_, a de Milão, e a de Napoles, as quaes, não obstante, ainda
+apresentam nomes como os de Corregio (_lombardo_), Dominiquino e Guido
+(_bolonhezes_) e Salvator Rosa (_napolitano_).
+
+Nas escólas _franceza_, _hollandeza_ e _allemã_ ha cecebridades, como
+Pedro Paulo Rubens, que apresenta o _Castello de Emaus_, _A serpente de
+metal_, _Orpheu e Euridice_, _A dança dos paizanos_, _As tres
+Graças_, _Perseu libertando Andromeda_, e outros, sendo 62 a somma total
+dos seus quadros, ali expostos, a 28 os da sua escóla.
+
+Antonio Van Dyck dá-nos retratos admiraveis, taes como o do pintor David
+Rickart, o da duqueza de Oxford, o de Carlos I a cavallo, e o de D.
+Henrique, conde de Berga.
+
+David Teniers é pintor quasi bucolico, e offerece-nos quadros d'um mimo
+inexcedivel--_Um colloquio pastoril_, _Uma festa de paizanos_, _Um
+banquete campestre_, etc.
+
+Antonio Raphael Mengs (allemão) é auctor de _Santa Maria Magdalena_;
+Rembrandt (hollandez) tem _A rainha Artemisa_; e Moso Antonio (da mesma
+escóla) pintou a esposa de D. João III, rainha de Portugal.
+
+A escóla franceza tambem ali se acha dignamente representada por Pousin,
+Claudio de Lorena, Antonio Watteau, Claudio Vernet e muitos mais.
+
+Emfim, só a narração circumstanciada d'este museu daria para um grosso
+volume, não incluindo já na conta a galeria de pinturas da _Academia
+de S. Fernando_, na rua de Alcalá, que possue mais de 300 quadros, e o
+_Museu nacional de pintura_, na rua da Atocha.
+
+Se o leitor fôr curioso, com certeza não deixará de visitar os _museus_
+de Madrid, que evidentemente constituem os monumentos mais notaveis da
+civilisação hespanhola.
+
+Só no _museu de antiguidades e medalhas_, na Bibliotheca nacional, se
+pódem ver mais de 98:000 medalhas de ouro, prata, ferro, bronze, cobre e
+barro, e muitissimas e numerosas antiguidades egipcias, etruscas,
+gregas, romanas, godas, arabes, etc.
+
+Na rua de Alcalá encontra-se o _Museu de historia natural_, que foi
+fundado no tempo de Carlos III, e que possue ricas collecções de
+mineralogia, de paleontologia e de zoologia.
+
+Dos melhores do seu genero são tambem o _Museu anatomico_ de S. Carlos,
+na rua da Atocha; o _Museu de artilheria_, no Buen Retiro, e o _Museu
+naval_ no ministerio da marinha, o qual contém uma rica collecção de
+armas, tropheus, e outros muitos vestigios de guerra e de combate.
+
+Em Hespanha ha uma tendencia especial para esta arte. Raros são os
+particulares que não possuam tambem o seu museu.
+
+Um vi eu que me maravilhou devéras. Pertencia a Romero Ortiz. Entre
+outras raridades, foi-me dado vêr ali o mappa em que o general Moltke
+traçára a guerra franco-prussiana, e a faixa encarnada que Prim tinha
+cingida á cinta na noite em que o assaltaram. Muitas reliquias
+portuguezas me foram tambem mostradas, e creio até que uma do fallecido
+visconde de Castilho.
+
+Não ha de facto palavras que facilmente descrevam tanta arte, tanto
+aceio e tanta maravilha.
+
+Sobretudo--que maravilha!
+
+
+
+
+X
+
+A MUSICA
+
+
+Poucas cidades ha já hoje na Europa que não tenham o seu theatro lyrico.
+A musica não é apenas um entretenimento agradavel; é ainda mais, uma
+necessidade impreterivel.
+
+Aos domingos e dias santificados, aquelles que, por falta de meios, não
+podem concorrer a espectaculos pagos, procuram naturalmente os jardins
+publicos, onde, gratuitamente, lhes é dado ouvir uma orchestra ou uma
+banda musical. E assim, este simples divertimento faz com que muitas
+vezes se afastem da taberna muitos centenares de operarios. É que a
+attracção de uma boa musica traz-nos frequentemente o esquecimento das
+proprias dôres e dos proprios soffrimentos.
+
+Tres escólas se disputam a palma no campo da lucta.
+
+Uma (a escóla allemã) é a harmonia: raciocina, descreve as lendas do seu
+paiz, e obriga á reflexão; outra (a escóla italiana) é a melodia: corre
+atraz da sua imaginação, queda-se com um sentimento triste, expande-se
+com a dôr, e recolhe-se com o amor. A primeira é grave, solemne,
+austera, e pertence naturalmente aos povos do norte; a segunda é meiga
+como uma mulher portugueza, leviana como a natureza em que vivemos, doce
+como os costumes da Italia, e a sua vida está subordinada aos povos do
+meio dia.
+
+Na _Africana_, por exemplo, ha gritos selvagens, notas lancinantes,
+harmonias plangentes; mas tudo isto com a inexcedivel pericia de um
+maestro consciencioso, e, sobretudo, pensador.
+
+Beethoven tem o condão maravilhoso de nos compellir ao estudo, á
+concentração intima, ao seguimento de uma idéa, que é como que o
+desabroxar do espirito para um mundo novo.
+
+Grottschalk e Mendelssohn têm nas suas composições o cunho indelevel da
+tristeza, prevêem a morte, e cantam-n'a. Não têm horror ao mysterio, e
+por isso as suas partituras avivam em nós um não sei quê de vago, de
+indefinido, que involuntariamente nos obriga a interrogar os arcanos da
+consciencia.
+
+Mozart tem uma certa vivacidade que seduz; em meio das suas lucubrações
+pára, e, espraiando a vista pelos horisontes além, sente-se feliz, e
+sorri; e tão formosos são os seus sorrisos, que d'elles, como se fossem
+um sol, partem os raios animadores das suas obras monumentaes.
+
+Ricardo Wagner, hoje o maior vulto musical da Allemanha, tem nas suas
+obras, a par do rythmo, profundamente cadenciado e harmonico, uma feição
+notavelmente litteraria e artistica; estudando as lendas do seu paiz,
+conta-as com a superioridade de uma grande potencia, a quem não
+escasseia nem o genio nem a phantasia.
+
+A terceira escóla é a franceza, sem ideal definido, portentosa umas
+vezes, com os arrojos de Meyerbeer, e suavemente deliciosa n'outras
+occasiões, com as meigas melodias de Bellini ou Donizetti. E no
+entretanto uma coisa distingue esta escóla: é a _verve_, o frescôr
+animadissimo, transparente, que se exhala de todas as notas; a harmonia
+que nos leva á meditação; a melodia que nos arrasta os sentidos, á
+selhança de quem vive numa atmosphera impregnada de vapores e de perfumes.
+
+A escóla franceza tem, é verdade, muito de condemnavel como escóla
+_ecletica_; mas ainda assim não devemos nunca esquecer que a ella
+pertencem talentos soberbos, como o de Gounod, compositor do _Fausto_,
+e o de Berlioz, auctor do _Manfredo_, que para muitos foi o predecessor
+de Ricardo Wagner, e o de Auber, e o de Herold e o de muitos outros.
+
+A escóla franceza é, pois, uma intermediaria entre a escola _allemã_,
+toda _subjectiva_, inspirando-se nos grandes arrebatamentos da
+consciencia humana, cheia de gravidade, como a justiça, rodeada de
+esplendores, como a verdade e infiltrada de meditações, como o espirito
+da humanidade, e a escóla _italiana_, toda _objectiva_, obedecendo mais
+ás impressões dos sentidos, tendo por norma de vida o ideal da natureza,
+cercada de flôres, de primaveras e de aves, e cantando o paraizo ao som
+das intimas alegrias e dos intimos prazeres.
+
+Os _dilletanti_ do nosso theatro lyrico quasi que chegam a menosprezar
+hoje a musica italiana, por obnoxia e anachronica.
+
+Não nos parece razoavel semilhante proposito. A não ser a moda, não
+sabemos que outros factos possam abonar tão disparatada opinião.
+
+Portugal não tem uma educação musical verdadeiramente avigorada. Está
+longe ainda de poder attingir o classicismo allemão.
+
+Depois, nós somos um povo peninsular. Vivemos com as impressões
+exteriores da natureza; o nosso espirito segue as oscillações da
+temperatura atmospherica; somos frouxos, levianos, sem o vigor que dá a
+consciencia nem a elevação que nos traz a idéa: a nossa escóla ainda
+ha de ser por muitos annos a escola italiana.
+
+A musica constitue, como a litterutura, a genuina expressão dos
+sentimentos de um povo. A França, que ri sempre e a proposito de tudo e
+de todos, não podia deixar de ser a patria da comedia moderna; por
+eguaes razões a Inglaterra, que se alimenta de fumo e de _spleen_, se
+não possuisse Shakespeare, o sublime tragico, possuiria de certo
+qualquer outro que lhe interpretasse os sentimentos e as paixões, com a
+mesma eloquencia com que o soube fazer aquelle divino artista; a
+Allemanha, á semelhança de quasi todos os paizes do norte, é mais
+inclinada ao drama symbolico, de que o _Fausto_ é um exemplo
+maravilhoso, do que ao drama de paixão, que pertence naturalmente á raça
+latina.
+
+O genero musical mais favorito, em Hespanha, é o _tango_, a _habañera_,
+a _malagueña_, a _seguidilla_, n'uma palavra a--zarzuella, com feição
+especial e caracteristica, podendo tomar-se como mais uma affirmação do
+genio bandoleiro hespanhol, e do espirito aspero, violento e
+contradictorio d'aquelle esplendido paiz.
+
+Que a musica entre os hespanhoes é originalissima, sabem-n'o todos. E
+por tal fórma é isto verdade que jámais povo algum do mundo foi capaz de
+assimilar-lhe a inspiração, o rythmo e o cadenciado da phrase.
+
+A Hespanha ficaria incompleta se porventura lhe subtrahissem este genero
+de musica, de todos os generos o mais monotono, talvez, mas com certeza
+o mais espontaneo, porque é a expressão das suas tradições e da sua
+nacionalidade.
+
+Rara é a mulher em Madrid que não sabe cantar. O proprio amor madrileno
+é um tango, em que a amada ou a amante ora quer, ora não quer, ora
+solluça e ora ri, ora finge e ora pensa.
+
+D'este modo vê-se que a musica em Hespanha, producto natural d'aquelle
+paiz é como tudo o que alli existe--uma contradicção agradabillissima, e
+talvez mesmo que um sonho encantador.
+
+Mais adeante, porém, voltaremos a este assumpto.
+
+
+
+
+XI
+
+O CHOCOLATE E O CAFÉ
+
+
+Eu havia realmente feito uma idéa da minha querida _señorita_; mas, por
+Deus, ella, a caprichosa, está muito acima da minha pobre imaginação.
+
+Madrid já não é simplesmente a mulher formosa, que ao sopro da
+_ventarola_ agita os olhos avidos e curiosos, inflammada na eterna
+chamma do amor e docemente embriagada pelo _Xerez_ do sentimentalismo
+peninsular. Não. Madrid é mais alguma coisa do que isso--Madrid resume
+em si a altissima idéa industrial do chocolate e o singularissimo
+pensamento politico do café.
+
+Peço perdão, minha senhora, se porventura fui menos claro no modo de
+exprimir a minha idéa. Eu me explico. O chocolate é aqui o nosso
+companheiro inseparavel, o nosso _bâton_ da manha e a nossa _badine_ da
+noite.
+
+Pela madrugada, ao descerrar a palpebra, ainda meio adormecida pelo
+vivido enthusiasmo d'este _magasin_ pittoresco--a leitora será
+mansamente despertada no seu leito, não por um formosissimo sol de
+abril, mas sim por um mysterioso toque symbolico na porta do quarto, o
+que lhe indicará muito claramente que, não longe d'ali, a está esperando
+uma gentil creadinha com uma simples chavena de chocolate.
+
+E, ou queira, ou não queira, ha de tomar o chocolate; do mesmo modo que,
+se estivesse no Brazil, havia de tomar café sempre que visitasse um
+amigo, e na China havia de aturar o chá vinte vezes por dia.
+
+Ora, em caso de luta, eu prefiro o chocolate, porque, emfim, nem nos
+torna nervosos, como o café, nem anemicos como o chá; que a fallar a
+verdade elle--que para a Hespanha é o caracter, o amor, a vida, a
+poesia, o commercio, a industria, a politica, a arte--elle, o chocolate,
+é sobretudo nutriente e impregnado de substancias vivificadoras.
+
+Pobre Hespanha! Alegre filha do estreito Manzanares, eu, em ti, não
+canto as mulheres, nem as mantilhas de Sevilha, nem os teus risos
+infernaes--eu, em ti, formosa, canto, apenas, o chocolate e o café, isto
+é, a revolução e o futuro.
+
+Pois julgam que não? Não acreditam na efficacia do chocolate, o escuro
+semsaborão? Perguntem a s. s.ª, o dono da fabrica de _la Saragoza_.
+Perguntem-lh'o. Tenham a bondade de perguntar-lhe qual é o seu consumo
+diariamente.
+
+Os hespanhoes são alegres, cheios de vida, dormindo pouco, saindo muito,
+falladores, enthusiastas. E sabem porquê? Por causa do chocolate, o
+mysterioso, que traz sempre estes ventres bem fartos, e, portanto,
+orgulhosos de si mesmo.
+
+A Hespanha passeia muito, é ligeira nos seus affectos, caprichosa na sua
+politica, sonhadora, aventureira, risonha. E sabem porquê? É porque ella
+precisa de fazer a digestão do seu chocolate. E por isso ella, a
+olympica, faz duas ou tres corridas por anno por politicas differentes,
+e inventa revoluções, que, por causa do chocolate, apenas poderão durar
+poucos mezes.
+
+As mulheres voam como andorinhas; correm de coração em coração, são
+seductoras, amaveis, familiares, intimamente affectuosas, mas tudo isto
+com azas, e portanto, com perigo.
+
+Ora é por isso que eu ouso dar um conselho a s. s.as os srs. maridos de
+Hespanha--não dêem chocolate a suas esposas, se é que realmente amam
+mais o seu _mènage_ do que o _boulevard_.
+
+Agora o café.
+
+É um _pendant_ ao primeiro: ambos são negros, como suas reverendissimas
+os senhores jesuitas que por aqui caminham aos centos.
+
+O café é o complemento do chocolate. Vive-se n'elle, e n'elle se
+apura a linguagem, a _toilette_ e o bem-senso.
+
+As mulheres conciliam no seu coração o amor do profano e o amor do
+sagrado. Entram no templo catholico com o mesmo _sans façon_ com que
+entram no templo social. Porque o café--talvez a leitora o ignorasse--o
+café é tambem um templo.
+
+E que templo, minha querida marqueza! De tudo se encontra ali desde o
+fidalgo da regencia _ci-devant_ até ao maratista sans-cullote.
+
+Venha v. ex.ª a Madrid aprender a egualdade humana. Venha tomar aqui uma
+chavena de café, e verá como, embora desconheça a liberdade, v. ex.ª
+fallará na egualdade. Venha, minha senhora. Não se arreceie dos
+carlistas, que esses bandidos já hoje não vivem, e pertencem á historia.
+
+Quando S. M., o sr. D. Affonso XII, houve por bem entrar em Madrid,
+depois de concluida a guerra carlista, a cidade embandeirou-se,
+illuminou-se, gritou, exclamou, abriu a bôcca. E sabem tudo porquê?
+Porque a cidade havia tomado muito chocolate. Sem _blague_. Estavam
+todos fartos de chocolate, e a vingança foi digerir o patriotismo,
+abertamente, rasgadamente, como qualquer leão do deserto.
+
+Só a tropa não havia tomado a sympathica droga, e, por isso, ella entrou
+na cidade esfarrapada, com as faces crestadas pelo sol das montanhas,
+que não pelo sol das batalhas, e olhos encovados e lobregos. Por isso o
+primeiro dever de sua magestade o sr. D. Affonso XII será mandar vestir
+os que estão nús e dar chocolate a quem tem fome.
+
+Que sua magestade seja misericordioso. Que sua magestade se inspire no
+amor do proximo e no bem da humanidade!
+
+Sua magestade é rapaz, que não prima pela formosura, mas que poderá, de
+certo, primar pelo espirito. Eu não tenho a honra de conhecer sua
+magestade. Sei que entrou em Madrid, e que a estas horas--tres da
+tarde--já terá tomado chocolate no seu palacio de _la Plaza de Oriente_.
+
+Deve ser-lhe de bom proveito, porque, emfim, sua magestade como
+primeiro cidadão do seu paiz, tem de andar sempre bem alimentado, porque
+muito tem que trabalhar.
+
+Que sua magestade, portanto, haja por bem engordar e deitar fóra a
+magreza que o devora, e tornar-se rijo, como qualquer dos seus soldados.
+
+Que sua magestade, como bom catholico, se digne implorar da providencia
+tão alta mercê.
+
+Que sua magestade, reinando _por graça de Deus_, não seja frouxo nem
+anemico.
+
+Que sua magestade, emfim, tome muito chocolate, para assim angariar a
+estima de seus subditos e o amor do proximo!
+
+Que sua magestade não tenha pejo de entrar no café; que entre no café,
+que questione, que se torne hespanhol, tomando a sua capa, e passeiando
+pelas ruas da cidade, como qualquer humilde mortal.
+
+Posto isto nós não temos mais que dizer a sua magestade.
+
+E, portanto, que sua magestade passe muito bem, e me honre com as suas
+ordens sempre que assim lhe aprouver.
+
+ * * * * *
+
+Entre os muitos e notaveis cafés de Madrid, avultam, principalmente, o
+_Imperial_, o _Oriental_, o das _Columnas_ e o de _Levante_, na Puerta
+del Sol, o _Suisso_, na rua de Sevilla, o da _Iberia_, na Carrera de S.
+Jeronymo e o _Fornos_ na rua de Alcalá.
+
+O viajante que escolha á sua vontade; na certeza de que em todos elles
+encontrará vida, apetite e enthusiasmo.
+
+Portanto--_à l'aventure_!
+
+
+
+
+XII
+
+O SALERO
+
+
+Por Deus, que se tivesse agora de fallar numa mulher franceza, eu, á
+semelhança de um prégador d'aldeia, invocaria em meu auxilio, não a
+virgem pura dos altares, mas sim a orgulhosa modista de sua magestade a
+rainha--a sr.ª D. Cecilia Fernandes.
+
+Mas o caso é outro. Trata-se de uma cousa engraçada, de uma cousa
+extraordinaria, singular, de uma cousa perfeitamente real, e que não
+deve a sua existencia neste mundo nem a Marsoo, a modista, nem a
+Stellpflug, o sapateiro.
+
+Trata-se, minhas senhoras, trata-se meus senhores, trata-se do grande
+rei de Hespanha, da grande alma dos cafés, do grande senhor da politica,
+da grande _dama d'honor_ de todos os paços, do grande, do supremo
+_Bobeche_ de todos os ministerios, do grande _Pierrot_ de todos os
+tribunos; trata-se (mas isto em segredo!) trata-se do _salero_.
+
+O _salero!_ _Caramba!_ Sabe a marqueza o que é o _salero_? Nunca na sua
+vida teve, ao menos, um ataque nervoso; nunca se irritou contra as
+diabruras do marquez; nunca teve as cócegas, que ordinariamente nos
+trazem as comidas apimentadas; nunca experimentou _Mabille_; nunca
+dançou um _can-can_ simples, um d'estes _can-cans_ que mesmo em familia
+se dançam com os pequenos da casa; nunca namorou, marquesa? e nesse
+culto virginal, não se mexia, não revirava os olhos, não compunha o laço
+da gravata, não apanhava a prega do vestido, não se assoava, não mudava
+um gancho do cabello, não tinha sorrisos frisantes, não fingia, não
+brincava?
+
+Fazendo tudo isto, sem mesmo o saber, a marqueza tinha _salero_, e era
+hespanhola.
+
+Mas, perdoe-me a leitora, para se ter _salero_ não basta só conhecer o
+_Terreiro do Paço_ e o _Rocio_, ir de quando em quando a S. Carlos ouvir
+mad. Sass, e frequentar aos domingos o _Passeio publico_, como qualquer
+simples burguez.
+
+Nada d'isto. Se a marqueza realmente quizer ter _salero_ saia de
+Portugal, despeça-se dos seus amigos, vá a Madrid, tome a sua mantilha
+de andaluza, frequente todos os dias o _Prado_ e o _Retiro_, entre no
+café imperial e discuta a politica do sr. Canovas del Castillo--emfim,
+minha querida senhora, se quizer ter _salero_ seja hespanhola.
+
+Bem vê, marqueza, que isto de ser portuguez é um tanto exquisito, e
+arrasta-nos a gravissimos inconvenientes; porque, emfim, permitta-me v.
+ex.ª que espirre um pequeno sarcasmo sobre o paiz do sr. D. Affonso
+Henriques--nós, os portuguezes, nem temos a _coquetterie_ franceza nem a
+seriedade britanica; de modo, que, imitando a todos, ficamos sendo
+cousa nenhuma, o que mathematicamente equivale a zero.
+
+Destruir, porém, o zero, anathematisar o vacuo, preencher essa pequena
+lacuna deselegante, rotunda e burguesa--tal deve ser a missão da nossa
+mulher.
+
+Que o zero se retire d'este paiz: que o sr. Serpa não tenha pejo em o
+pôr fóra da sua secretaria; que os grandes algarismos herculeos nos
+entrem pela porta dentro, e exclamem soberbamente: «Nós, os finorios da
+arithmetica, nós é que somos a riqueza, o credito e a virilidade. _Nos
+quoque gem sumus...._»
+
+E dito isto--que _mylady_, a sr.ª marquesa, se não esqueça de mandar vir
+uma boa carroagem _Daumont_; que _mylord_, o sr. duque, mande preparar
+um bom jantar aos seus amigos intimos; e finalmente, que o _demi-monde_
+procure Keil, a gloria dos alfaiates lisbonenses, adquirindo assim, em
+virtude da thesoura, o _chic_ e a pose de quem muito viajou.
+
+Já vêem que o conselho é aliás muito trivial; para o pôr em pratica uma
+unica condição se requer--pagar aquillo que se deve.
+
+Eu desejava, é verdade, que a leitora tivesse _salero_--que o comprasse
+nos cafés, nas _calles_, na _Puerta del Sol_, que o adquirisse no
+_Prado_ e no _Retiro_, onde diariamente apparecem de mil a duas mil
+carroagens, deslumbrantemente equipadas, mas, emfim, se isto lhe é de
+todo impossivel, se realmente lhe repugna o caracter hespanhol, tenha
+paciencia, e mande vir um figurino de Paris. Aprenda a calçar-se bem;
+arranje 60 libras, e appareça um dia no _Bois de Boulogne_; decore dois
+ou tres bons ditos: torne-se artificial, ligeira, engraçada, mas com
+_verve_, _avec de l'esprit_--numa palavra torne-se franceza; ou ainda,
+se a menina vê difficuldade neste passo e tem aspirações a ser mãe,
+então tenha a bondade de tomar um bilhete pelo primeiro paquete de
+Southampton e de visitar a Inglaterra.
+
+E assim é realmente que a mulher hespanhola é mais material do que
+sentimentalista, mais da sociedade do que da familia, mais do mundo do
+que do coração.
+
+Por via de regra, a hespanhola é franzina, delicada do corpo, com as
+faces coloridas pelo uso do chocolate e os olhos scintillantes de
+vivacidade e de ardor verdadeiramente meridional--alguma cousa do
+facetado do crystal e da delicadeza da porcellana; nem possue o
+_coquettismo_ da franceza, porque lhe falta o apuro do espirito, a
+revelação da ironia, o pungente do sarcasmo, nem a _mènagerie_ da mulher
+ingleza, porque ella é muito simplesmente a negação d'esse viver intimo
+e famillar.
+
+Mas, em compensação, ella, a minha formosa andaluza, tem uma cousa que
+nenhuma mulher d'este mundo é capaz de ter--ella tem o _salero_, isto é,
+o desprendimento olympico, titanico, por tudo quanto é vida e amor, o
+doce _laisser-aller_ da arte, que é luz, e magnetismo--luz, que abrasa
+em sua chamma aquellas candidas borboletas dos cafés, magnetismo, que
+adormece em seus braços aquellas ternas andorinhas, como as outras aves,
+suas irmãs, sequiosas de ar, de prazeres mundanos, de folgança, mas
+folgança, perfeitamente real, selvagem como o matar de um touro, o
+esfaquear de uma creatura, ou o abrazar de uma consciencia--ella, a
+hespanhola, ella não é verdadeiramente uma mulher, mas muito mais do que
+isso:--ella é um rapaz de saias, um pequeno demonio alegre, juvial,
+attrahente, um doce mysterio de dois sexos, incomprehensivel, que ao
+mesmo tempo participa de um, pela virilidade, pela audacia, pelo arrojo,
+e de outro pela meiguice inconsequente, pelo rir suavemente acariciador,
+e pela ternura extraordinariamente singular que as reveste.
+
+Oh! as hespanholas! as originaes!...
+
+As nossas mulheres, por exemplo, imitam servilmente as francezas; mas
+ella--por Deus!--ella é o que é--só ella, sem mais ninguem, caprichosa,
+unica, originalissima.
+
+Aquelle fallar, aquelle rir, aquelle modo de dizer as cousas tão á
+_propôs_ e tão seu, aquelle _salero_, e, sobre tudo isto, fazem com que
+a mulher hespanhola tenha dois lados immensamente notaveis e
+extraordinarios--a energia e o _salero_, isto é, o chocolate na sua
+consequencia digestiva e physiologica--o movimento e a graça.
+
+Dito isto, minha querida leitora, façamos como ellas--tomemos o
+chocolate e tenhamos _salero_.
+
+_Caramba! que salero!..._
+
+
+
+
+XIII
+
+THEATROS
+
+
+A vivacidade do genio hespanhol tem ainda um reflexo do seu bom humor e
+da sua veia, sempre fina, alegre, e sarcastica a espaços relampagueada
+por um raio de colera ou por uma faisca de trovoada--é o theatro.
+
+Oh! os theatros em Hespanha! que sumptuosos edificios! que riqueza na
+_mise-en-scene_ de qualquer peça! que luxo! que prodigalidade...
+
+Ao ouvir as doces _malagueñas_ e as ternas seguidilhas, desferidas por
+labios de romã, que nem eu sei se são da terra, se são do ceu,
+quasi chegamos a julgar-nos transportados ao Oriente, com todo o seu
+cortejo de sensualidades que matam, de _bailadeiras_ que seduzem, e de
+amores que fervem.
+
+Que deliciosissimas sereias, em pleno seculo XIX! que sublimes actrizes,
+aquellas, meu Deus! E havia de, ainda assim, ser condemnado um cidadão,
+se, _à la belle etoile_, e a occultas da parentella, intentasse o rapto
+d'uma d'aquellas formosas _sabinas_, mais diabos que o proprio Diabo e
+ganhando em seducção á propria serpente do paraiso terreal?!...
+
+Uma cousa, porém, distingue o theatro hespanhol--é a _zarzuella_,
+especie de meio termo entre a opera lyrica e a opera buffa; suave umas
+vezes com as transparencias sentimentaes das paixões humanas, alegre
+sempre, folgasã quasi sempre, e por toda a parte impregnada d'um
+estranho frescor de malicia e de surpreza, que chega a prender ainda os
+menos atreitos aos laços de Satanaz.
+
+Em França, por exemplo, a opera buffa foi uma creação meramente do
+_demi-monde_; creação necessaria no meio das corrupções do imperio,
+em que se fazia mister caricaturisar e pôr bem ao vivo todos os podres
+de uma sociedade effeminada, desde o imperador, que representava o vicio
+dourado e a lepra engastada em diamantes artificiaes, até á ultima
+_grisette_, que, por causa de um estudante do bairro latino, tinha
+empenhado os seus derradeiros ceitis: mas com a _zarzuella_ não succedeu
+o mesmo, porque ella foi uma creação espontanea da jovialidade de um
+povo relativamente feliz, e que ha de sobreviver a todos os cataclismos
+sociaes, como até aqui tem sobrevivido a todos os tempos.
+
+Offenbach tem na sua gamma uma só nota caracteristica--o riso, a ironia,
+o sarcasmo. Marianno de Larra, auctor de muitas _zarzuellas_ notaveis,
+possue, além do riso, a lagrima que lhe serve de contraste e que o
+dulcifica.
+
+A _Grã-Duqueza_ é uma correcção ás momices imbecis de uma diplomacia
+estonteada, um quadro fiel das _cocottes_, arvoradas em mandadeiras de
+exercitos, uma photographia de costumes pervertidos pela
+immoralidade de um governo inepto e pelo capricho de um monarcha infame;
+o _Jogar com fogo_ é um entre-acto agradavel ás acenas da vida, um
+delicioso intervallo aos soffrimentos e ás dôres da humanidade.
+
+E é o que tem a _zarzuella_: não cança nunca, porque foi um producto
+natural e espontaneo dos hespanhoes, tal qual como o chocolate e o
+_salero_; ha de viver sempre, e atravez de tudo, porque tem em si
+impresso o cunho da originalidade e da tradição, que não morre, e a
+elevação do sentimento, que será sempiterno no seio dos homens e das
+civilisações.
+
+A opera-buffa foi um arranco de homens fortes, em meio da perdição que
+os ameaçava; nem ha de ter nunca a universalidade da _zarzuella_ nem a
+elevação da alta-comedia. O seu dominio no theatro ha de ser, portanto,
+passageiro e ephemero.
+
+Numa palavra, a _zarzuella_ tem as suas raizes nas immutaveis
+oscillações do coração humano, e que a torna duradoura e imperecivel; a
+opera-buffa originou-se numa sociedade de transição, e ha de, por
+isso, como ella, ter um mediano imperio sobre as épocas positivas e
+scientificamente organisadas.
+
+Em quasi todos os theatros de Madrid se canta a _zarzuella_, e em quasi
+todos elles tambem com a animação, com o vigor, com a frescura com que
+só os hespanhoes a sabem cantar.
+
+Quando, pela primeira vez, entrei no _Theatro Real_, situado no largo de
+Isabel II, com a fachada principal para a praça do Oriente, senti-me
+sinceramente deslumbrado. É tal o luxo d'aquella casa, tal a ordem,
+tamanho e socego, que, em boa verdade, mal chega a gente a pensar que
+esteja na capital da Hespanha, no paiz dos bandoleiros de toda a especie
+e no centro de um vulcão, sempre em revolta comsigo mesmo.
+
+E depois, que contraste entre uma tourada e uma representação theatral!
+Que a delicadissima leitora, do meio de um deserto, confuso, anarchico,
+impetuoso, açoutado pelo _simuon_ e ennegrecido pelas areias, se julgue
+subitamente transportada a um paraiso, onde adejam os cherubins com
+as suas azas brancas e onde sorriem os anjos com as faces louras.
+
+Assim me succedeu a mim quando uma tarde, dos suburbios da Porta de
+Alcalá, onde existe a praça de touros, me lembrei de ir ao theatro, afim
+de ouvir cantar esse eterno e insubstituivel poema do coração humano,
+mui modestamente chamado--_Romeu e Julietta_.
+
+Nunca em Hespanha uma pateada interrompeu os espectaculos lyricos. A
+platêa do _Theatro real_ não é só rica em alcatifas, em estofos, em
+casacas e gravatas brancas, mas ainda e muito principalmente na
+seriedade dos seus espectadores e na respeitabilidade mais que urbana e
+generosa dos seus _habitués_.
+
+Na rua de Jovellanos encontra-ae o theatro da _zarzuella_. De
+_zarzuella_... dizem elles; nós diriamos quasi um segundo theatro
+lyrico. Que vozes tão admiravelmente timbradas, e que modulações tão
+harmonicamente produzidas!
+
+Representava-se então uma velha _zarzuella_, muito velha e muito ouvida,
+mas sempre fresca no rhythmo e no pensamento, que é nada menos do
+que a expressão do caracter hespanhol. Queremos fallar de _Pan y toros_.
+
+--_Panem et circenses_, gritavam os romanos; _Pan y toros_, exclamam os
+hespanhoes, como querendo mostrar a intima affinidade que, de facto,
+existe entre um e outro paiz. Mas--cousa singular! a França tambem é de
+origem latina, e no entretanto a França, a generosissima filha da
+revolução e do pensamento moderno, em vez de pão e touros, do alto das
+suas muralhas de guerra e do topo das suas fortalezas, soluça
+altivamente--_ou pão ou chumbo_.
+
+E assim é realmente que ella caminha, não em demanda de espectaculos que
+embrutecem, mas sim em procura de civilisações, que são como que os
+marcos milliarios da humanidade trabalhadora.
+
+Muito bem. Imaginemos a côrte no doido phrenesi d'um baile. Subito uma
+denotação fere os ares. Abre-se uma das janellas do palacio. Cessa a
+volupia. Um dos convivas descendo a escadaria, reconhece haver-se
+morto ali um capitão de infanteria, ha poucos instantes. Averiguado o
+caso nada era.
+
+--«Póde o baile continuar, exclama o mestre. Não é nada, não é nada. Um
+homem morto. Apenas um homem morto!»
+
+E a orgia proseguiu; porque, a dizer-se a verdade, não vale nunca a pena
+interromper os prazeres mundanos pela simples bagatella de um assassinato.
+
+Ora nesta _zarzuella_ transparece perfeitamente o caracter hespanhol,
+irrequieto e indomavel, com todos os seus mil caprichos de momento e as
+suas labyrinticas phantasias de occasião.
+
+Além, porém, d'estes dois theatros, ainda poderiamos mencionar muitos
+outros, e entre elles o theatro da _Comedia_, theatro muito moderno,
+lindissimo na fórma e admiravel pelo seu reportorio; o theatro do
+_Circo_, na praça del Rey; o theatro de _D. Affonso_, proximo da Porta
+de Alcalá; o theatro das _Variedades_, o theatro das _Novidades_, etc.,
+etc.
+
+E tudo isto ainda por cima, rodeado de circos, de largos, de exposições,
+de musicas, de alegrias ferozes e de mulheres encantadoras.
+
+É verdade, e os _patinadores_?
+
+Fallemos dos _patinadores_.
+
+
+
+
+XIV
+
+OS PATINADORES
+
+
+Princeza, o seu braço! Vossa alteza é morena, viva, alegre; tem uns
+bellos olhos rasgados, profundos, negros, como os abysmos do inferno.
+Pois bem: que a sua alma ardente e expansiva, como este bello sol da
+peninsula, que nos aquece e anima, se digne, por um pouco, acompanhar-me
+a aspirar o ar bom da natureza.
+
+Quero tel-a ao meu lado, rainha. Bem vê--eu não sou fidalgo, nem conde,
+nem barão. Á fé que o não sou. Mas emfim, se é verdade que a um
+democrata nunca ficou mal beijar a mão de uma aristocrata,
+conceda-me a indiscripção. Os meus labios tocarão delicadamente á
+superficie d'essa meiga flôr de liz, mais bella e mais transparente do
+que uma renda de Bruxellas. Depois, e só depois, o paraizo...
+
+Antes de mais, porém, tomemos um fiacre, um commodo fiacre, ligeiro, com
+duas molas flexiveis, dois nobres cavallos, briosos, e um valoroso
+cocheiro de mão certa e pulso firme. É verdade que as rainhas hoje nem
+sempre estão prevenidas. No entretanto, tu, minha velha amiga, tu, que
+não tens nenhum reino a perder; tu, que nunca passaste do _boulevard_
+com todos os seus perigos e attracções; tu, com certeza, tens ainda os
+cem luizes que hontem á noite te deixou aquelle inglez excentrico de
+suissa loura e ar grave.
+
+É para elles que eu appello, para esses cem luizes honestos, puros,
+serenos, capazes de encher a historia do mundo, e incapazes de concitar
+em redor de si odios republicanos ou raivas demagogicas. Não! os cem
+luizes são de todos--de todos os tempos e de todos os logares--reinando
+sempre, e sempre bem: irresponsaveis, sem exercitos, sem côrte, sem
+apparato, mas valentes, com consciencia de si, e valendo pelo silencio,
+aquillo que os mais abalisados do mundo não podem conquistar pela
+palavra.
+
+Que magnificos sujeitos!
+
+E agora reparo que nestas conversas iamos perdendo o tempo. Aqui está a
+carruagem. Entremos para a carruagem.
+
+Da _Puerta del Sol_ ao _Prado_ são dois passos. Olhe a princeza: vê
+aquelle cavalheiro de bigode e pera alourados, estatura regular, pallido
+de rosto e expressivo no olhar?--é o general Pavia, o celebre assassino
+da republica em Hespanha.
+
+Mais além, repare: aquella morenita, leve como uma penna, e adoravel
+como uma fada, é Pepa--uma heroina de amores e uma actriz de corações
+humanos. Mas, que nobre vulto, este agora? É o duque de Abrantes, por
+sangue descendente de Portugal, antigo possuidor da quinta das
+_Laranjeiras_, senador e conselheiro de Isabel II. É homem baixo, magro,
+secco e decidido nos seus gestos, o que indica uma vontade firme e
+um caracter recto.
+
+Mas chegámos, finalmente. Uma vez que estamos em _Recoletos_, entremos
+num d'estes circos.
+
+Que magnifico sol e que supremas alegrias! A neve é pouca; e por isso
+nós, que queremos patinar, recorreremos ao artificio.
+
+A praça está encerada. Muito bem. Patinemos na praça.
+
+O seu pé, minha doce amiga. Não tenha medo. Por Deus, não trema. Não
+trema, que não morrerá, asseguro-lh'o eu. Nunca leu a admiravel historia
+dos patinadores descripta por Alexandre Dumas no _Colar da Rainha_?
+
+Olhe, é um encanto! Por exemplo, eu quero patinar, mesmo no circo,
+colloco debaixo de cada pé um pequeno carrinho, composto de tres
+rodellas de ferro.
+
+Dê-me o seu pé, e verá.
+
+Agora firme, sem attrictos, serenamente, imperturbavel; deixe-se
+escorregar, como uma pequena gondola veneziana; unicamente, para não
+cahir, imprima um leve movimento aos joelhos, alternando-os, por
+causa da lei do equilibrio.
+
+Depois, oh! depois, o infinito, o ideal, o amor, as azas, mais velozes
+do que as de uma ave, as pernas mais ligeiras que as de uma corça; uma
+estranha mão apertando-nos a nossa; é o paraiso a sorrir-nos num beijo
+que ninguem vê, e a gloria a mirar-nos num céo, que nos allucina, que
+nos embriaga, que nos absorve.
+
+Correr, voar, amar!--tal é o triplice fim de um patinador.
+
+Mas, antes que se chegue a ser um bom patinador, intrepido e
+valente--que trabalhos, que luta e que risota! Que risota, sobretudo!
+
+Vai um portuguez a Madrid, e mesmo nisto começa por conhecer a sua
+inferioridade. Que poltrão! Aluga dois carrinhos, e vem para o circo:
+olha; vê, sorri-se, anedia as guias do bigode, dá um geito ao cabello, e
+toma ares de _Bayard_ de papellão; deseja tomar a posição perpendicular,
+e vacilla. Dou-lhe um, dou-lhe dois, dou-lhe tres; por fim o heroe parte;
+horror! não parte, porque a inhabilidade o torna pesado,
+refractario á gymnastica, e ao desenvolvimento de musculos. Risota
+geral--Ah! Ah! Ah... _Hic jacet infelix patinator..._
+
+A victima levanta-se, desconfia d'aquelles comprimentos improvisados, e
+conclue por detestar os sabios de qualquer natureza que elles sejam.
+
+Mais uma tentativa. Vejamos. Talvez fosse defeito das rodas, talvez dos
+pés, talvez da falta de agilidade... Experimentemos. Novo impulso. Ah!
+Ah! Ah! Nova queda.
+
+E, entretanto, em quanto isto se dá, alguns milhares de cavalheiros vão
+seguindo o seu rumo, sem interrupção, olhando de soslaio os
+principiantes, e mostrando naquelle modo de correr que até a andar se
+póde ter consciencia de si e vaidade dos outros.
+
+Duas senhoras inglezas vi eu, um tanto esquivas ás ironias do amor, que
+mais pareciam, patinando, sonhos aéreos, visões romanticas do que
+realidades terrenas.
+
+Nós a tentarmos a approximação, e ellas a fugir, a fugir, como sombras
+longinquas, que só por escarneo se approximam de nós, para
+novamente nos escapar, fazendo-nos umas tristes e desoladas figas.
+
+Que horror! E Frutos Martinez, o patinador illustre, avisado naquelles
+assumptos, collocando, cheio de raiva os seus carrinhos, lá se ia,
+inconscientemente, atraz d'aquellas borboletas de olhos azues e cabellos
+louros.
+
+Mas, certamente, meus caros concidadãos--a patinação não e simplesmente
+um espectaculo agradavel, rodeado de peripecias curiosas e movido por
+generosos impulsos de espirito. Não! na patinação ha ainda mais o
+desenvolvimento physico, que muito conviria á nossa mocidade enfesada, e
+o interesse moral, que, de certo, aproveitaria mais aos nossos rapazes
+do que uma facada dada no Bairro Alto, em pleno dia.
+
+Em todo o caso, uma vez que assim queremos ser, sejamos assim, sem
+graça, sem espirito, e sem a elegancia, que naturalmente se exige nas
+existencias modernas.
+
+_Honra soit qui mal y pense..._
+
+
+
+
+XV
+
+TOURADAS
+
+
+_A los toros! a los toros!..._
+
+
+E a populaça, ebria de sangue e sedenta de prazer, empoleirava-se no
+cimo das carruagens, comprava camarotes pelo dobro do preço, corria
+pelas ruas como um possesso, gritava, ria-se, atirava ao ar os seus
+chapeus emplumados, cortejava a realeza que passava, dava vivas á
+_Marselhesa_, e fugia, fugia nas azas do phrenesi irrequieto, em demanda
+do mais barbaro de todos os espectaculos do mundo.
+
+Ó Hespanha, minha querida amiga, doce filha dos cafés e da volupia,
+tu, que possues _museus_ que te são um legitimo patrimonio de orgulho e
+de riqueza; tu, que amamentaste ao teu seio os maiores oradores da
+Europa contemporanea; tu, que tiveste artistas como Murillo, Velasques,
+e Goya; tu, que és o amor, a contradicção, o mysterio; tu, minha perola,
+tu não devias ser _torera_.
+
+Emfim, eu sei que tu tens defeitos; e o teu primeiro defeito,
+acredita-me bem, é ser militar. Os teus rapazes, porque são novos,
+desejam agradar ás mulheres: pegam numa arma com a mesma sem-ceremonia
+com que nós aqui bebemos um copo de agua. Que valentões! O campo de
+batalha sorri-lhes, o inimigo revolta-lhes as iras concentradas, e são
+leões, atiram-se, atiram-se ferozmente sobre a metralha adversa. Nem sua
+magestade o canhão Krupp os intimida, nem os joelhos lhes tremem á vista
+do adversario.
+
+Que valentões! que valentões...
+
+Ai! querida minha, que se não fossem as mulheres, tu serias mais feliz e
+respeitada. Mas, que diabo! para que tens tu filhas tão
+formosas?--para que? Não te bastava já o chocolate, para, á semelhança
+de um vulcão, trazeres sempre dentro de ti o fermento da revolta? Ainda,
+por cima, olhos scintillantes, rostos abrasadores e _salero_ atrevido?
+Ora pois, nada mais te faltava...
+
+Tem paciencia; mas tu, Hespanha, tu o que tens é excesso de calor, de
+sensualidade, de veneno, de corrupção. Os estrangeiros acham a tua
+cosinha demasiadamente apimentada; nós encontramos as tuas mulheres
+sempre como uma braza--a ferver; nos teus cafés toma-se pouca soda; o
+proprio sr. Canovas del Castillo, quando falla no congresso, não é muito
+atreito aos gólos de agua; o teu rio é semsaborão, estreito, pouco
+abundante e superficial. Ao que parece, um poucochinho de agoa de mais,
+um poucochinho de lume de menos não deixaria de fazer-te bem. Numa
+palavra, minha querida amiga, se queres viver independente, feliz,
+alegre, satisfeita comtigo mesmo--purga-te, manda vir da botica duzentas
+grammas de bom senso politico, que será a tua magnesia calcinada;--fóra,
+fóra com essa bilis que te devora o organismo: estomago limpo e menos...
+chocolate aos srs. politicos.
+
+Mas os touros, os touros! por vida minha, que nunca assisti a
+espectaculo mais curioso, mais terrivel, mais seductor. Até as proprias
+mulheres se tornam viris, musculosas, corpulentas--ellas, que uma hora
+antes tinham acceitado a côrte a um gentil militar imberbe; ellas, que
+são um puro mysterio, uma alta excentricidade; ellas, emfim, que têm o
+dom mythologico de nos apparecer sob o duplo aspecto da força e da
+fraqueza, do repente e do meditado, do meigo e do energico.
+
+Inundára-se de povo a _Calle de Alcalá_. Os _char-á-bancs_ eram sem
+numero; os guisos telintavam nos classicos muares; por toda a parte a
+corrida infrene, as subitas allucinações, os risos infernaes; as
+vertigens, que referviam em desejos ardentes; a loucura, que volitava em
+nuvens de enthusiasmo; a alegria, que trasbordava em ondas de amor; a
+vida, a mulher, o fumo, o chocolate, os touros emfim.
+
+Que delirio para aquella gente! que devoção! que irresistencia!
+
+Chega o primeiro touro: os leques agitam-se; no olhar ha mais
+irradiação; scintillam as moedas de prata; aos pés do bandarilheiro
+audaz cahem as dezenas de charutos.
+
+--A elle, meu valente, a elle...
+
+E o cavalleiro aponta-lhe a lança ao pescoço, e o animal investe com o
+cavallo. Com uma das pontas rasga-lhe o ventre; a multidão, embriagada,
+applaude o sangue; mais uma investida e o _misero cavallo lazarento_
+succumbirá; assim; mais uma; até que, emfim, vem a morte dulcificar este
+pandemonio infernal!
+
+Agora _Lagartijo_ que se approxime; elle traz uma pequena espada na mão
+direita; para elle está reservada a mais garbosa _moña_, que nunca mão
+de mulher se lembrou de fazer. Deante do touro o heroe não trepida; lá
+estão ambos que parecem dois tigres: alfim o animal cança: _Lagartijo_
+investe; mais uma volta, e o touro cahirá.
+
+As bandas marciaes rompem em hymnos estridentes; a populaça agita os
+lenços de côr; em todos os olhos se lê o phrenesi irrequieto,
+nervoso, indomavel: _Lagartijo_ venceu, _Lagartijo_ é o heroe da festa;
+triumpho a _Lagartijo_...
+
+_Otro toro! otro toro!..._
+
+Quasi que nem chega a haver tempo para arrastar para fóra da praça os
+derradeiros restos d'aquella barbara batalha, tão audazmente pelejada
+entre um homem e um animal, que, em vez de joguete de circo, muito bem
+podia ser a felicidade da agricultura e o alimento da miseria.
+
+Touro, cavallo, farpas, lanças,--tudo á uma é arrastado em padiolas para
+fóra do amphitheatro.
+
+Depois, esperando, faz-se sempre votos para que o outro touro seja
+melhor do que o seu antecessor; como se para saciar a avidez dos
+espectadores fosse pouco todo o sangue derramado.
+
+É que a Hespanha é realmente assim, em meio da sua vida tumultuosa e
+larga. Pouco lhe importa a morte de dez, vinte, trinta homens; a questão
+é que o enthusiasmo não decresça nunca, e que a vida não deixe jámais de
+ser uma terna e doce folgança, onde os risos e as lagrimas, as
+alegrias e as tristezas crescem e augmentam, temperados na mesma proporção.
+
+E, no entanto, nenhum paiz existe de mais vastos recursos do que a
+Hespanha, onde as minas de cobre, de ouro, de prata são quasi tantas
+como as suas provincias e os seus concelhos.
+
+Nas suas planicies, por igual risonhas e productivas, medra e
+desenvolve-se toda a especie de productos agricolas; as suas paizagens,
+se bem que aridas na Extremadura, pela escacez de agoa, tomam todavia um
+aspecto deliciosissimo na Andaluzia, onde as mulheres e os horisontes se
+disputam a palma e o amor.
+
+Abençoado paiz! Nem as guerras, nem as dissidencias civis, nem as
+revoltas populares poderam ainda prostral-o.
+
+Uma nação que tão sinceramente ama as touradas, não poderá nunca deixar
+de ser guerreira e sanguinosa.
+
+Ai de nós, no momento em que a Hespanha deixasse de ser o que
+é--lutadora, _torera_ e ruidosa.
+
+_A los toros! a los toros!_
+
+
+
+
+XVI
+
+O PRADO E O RETIRO
+
+
+Dizem os physiologistas que o calor é a vida; e por isso é, creio, que
+os cafés, assim como as _soirées_, assim como os _clubs_, assim como os
+_boulevards_ se tornam hoje uma verdadeira e insubstituivel necessidade
+social.
+
+Que o homem nasceu para a sociedade--escrevem-o philosophos abalisados e
+tem-o repetido ha um seculo, e ininterruptamente, o corpo cathedratico
+da nossa universidade.
+
+Esta verdade passou, porém, da metaphysica á pratica; e assim é que, ao
+contrario de Rousseau--que na natureza fundava todo o pacto entre
+os homens--se elevaram, como por encanto, o _Bois de Boulogne_, em
+Paris, o _Hyde Park_, em Londres, e o _Central Park_, em New-York.
+
+A não ser Lisboa, a velha fanatica do passeio publico, poucas cidades ha
+agora na Europa, que não tenham o seu pequeno _boulevard_, especie de
+_rendez-vous_ do mundo elegante e da fina sociedade do bom tom.
+
+E necessario é que isto assim seja. O _boulevard_ não é simplesmente uma
+ostentação de capital, mas ainda mais uma parte indispensavel á educação
+de um povo, que não é só intellectual e moral, senão tambem physica e
+social.
+
+Em Paris qualquer creança aprende mais pelos olhos e pelo ouvido do que
+nós nas nossas escolas. E o motivo é facil. Habituados desde a infancia
+a frequentar os differentes jardins--botanico, zoologico, etc.--quando
+chegam a uma edade razoavel, quasi se póde dizer que são dotadas de uma
+vasta e profunda educação.
+
+Praticamente aprendem os nomes aos animaes; ouvem-lhes a historia;
+assistem-lhes ao desenvolvimento e acompanham-lhes os movimentos e os
+instinctos. E tudo isto, porque desde pequenos frequentam os
+_boulevards_, onde brincam e onde muitas vezes arranjam os meios de
+ganhar a vida no futuro.
+
+Mas o _boulevard_ tambem é hygiene, pelo bom ar que lá se respira, pelos
+exercicios a que convida, e pela facilidade com que se passeia. Depois
+nem só isto. Ha ali campo para largas observações e assumpto para
+profundos estudos. Muitos romances conheço eu que tiveram lá a sua
+origem, além de muitas mulheres que lá foram procurar a sua felicidade e
+a sua riqueza.
+
+O _Prado_ é um dos mais celebres e um dos mais concorridos passeios da
+sociedade elegante de Madrid. Diz-se que a sua origem, tal qual se acha
+presentemente, data do reinado de Carlos III. Rodeado de fontes, de
+lagos, de arvores, de estatuas, de _restaurantes_, de praças, o seu
+espaço é enorme, extendendo-se da fonte de Cybele quasi em linha recta
+até encontrar o passeio de Atocha, formado pela prolongação da rua
+do mesmo nome.
+
+É raro o dia em que ali não passeiam de quinhentas a mil carruagens,
+vendo-se frequentemente dentro d'ellas rostos formosissimos, adornados
+de bellos olhos, profundos e escuros, como só os sabem ser os olhos
+hespanhoes.
+
+Com dois ou tres passeios ao _Prado_ quasi se fica conhecendo toda a
+sociedade madrilena, nas suas distincções e nos seus vicios, nas suas
+virtudes e nos seus erros.
+
+E depois--que mulheres!
+
+A uma historieta assisti eu, divertidissima por signal e extremamente
+curiosa.
+
+Um amigo meu, amoroso e simples, encontrou-se um dia profundamente
+apaixonado por uma gentilissima menina, que todas as tardes ali
+costumava expôr-se á admiração geral dos passeiantes e dos leões da moda.
+
+Até aqui, já se vê, nada de extraordinario.
+
+O ingenuo rapaz, porém, não se podendo mais conter, entrou-se
+tristemente na desgraçada usança portugueza, e abeirando-se da
+mulher, fez-lhe a seguinte declaração:
+
+--Deponho aos seus pés, minha senhora, a mais pura e sincera homenagem
+dos meus respeitos e do meu amor...
+
+Ao que a deusa respondeu:
+
+--Ai! que graça!... Se o cavalheiro soubesse em que eu agora estava a
+pensar?!...
+
+O galã aproximando-se mais:
+
+--Em que estava a pensar?!...
+
+--Sim, pois não adivinha? aflautou a ingenua.
+
+--Certamente que não.
+
+--Pois olhe estava a pensar num bonito vestido de riscas...
+
+Ó illusões! ó facadas!
+
+No dia immediato o apaixonado moço pegou num lapis, e escreveu á pressa
+num bilhete de visita as seguintes e doces palavras:
+
+«Pepa (era o nome da heroina)--«Pepa--aborreço-me, e adoro-te».
+
+A resposta, porém, não veio. Pegou noutro bilhete, e tornou a escrever:
+
+«Quem a adora, onde a poderá encontrar?»
+
+Então o coração de Pepa pulsou violentamente dando de si uma tremenda
+explosão que em seguida passamos a transcrever fielmente.
+
+«Cavalheiro--Recebi o seu primeiro e o seu segundo bilhete. Não respondi
+ao primeiro, porque não quiz, e ao segundo apenas tenho a dizer que o
+acho de um arrojo extraordinario e nunca visto».
+
+Assignado por um nome supposto que não era o de Pepa.
+
+Assim continuaram as cousas. Os episodios succederam-se uns após outros.
+Numa noite, comtudo, ás tristezas do costume seguiram-se no meu amigo
+umas alegrias estranhas. Interroguei-me a mim e interroguei-o a elle.
+Reparei-lhe nos olhos, e reconheci-os mortiços; olhei-lhe as narinas, e
+vi-lh'as extraordinariamente dilatadas. Então a minha consciencia deixou
+o estado de duvida em que se achava, e entrou serenamente na estrada da
+certeza. A conquista havia-se effectivamente realisado. Pepa, a sublime
+actriz, depois de varias piruetas, de varios zig-zagues, de varias
+fórmulas, concluira emfim por se render. Não era praça inexpugnavel.
+Presentiu metralha, e caiu. Cumpriu religiosamente o dever que a sua
+condição lhe impunha.
+
+E nada mais. O meu patricio, o indigena, sahia todos os dias de casa,
+alegre e bem disposto, e entrava altas horas da noite com algumas libras
+de menos na algibeira e com algumas desillusões a mais no espirito, até
+que por fim se saciou.
+
+Ao deixar Madrid, elle vinha menos ingenuo e mais pratico. Lições do
+_boulevard_!
+
+Na hora da partida escreveu á sua amada uma carta frisante, que bem nos
+póde revelar a transformação que no seu caracter se operára ultimamente.
+
+«Minha menina--Um negocio urgente me chama a Lisboa. Digo-lhe adeus. A
+menina é formosa, elegante e distincta. Com duas ou tres horas de
+janella por dia, estou convencido, encontrará um digno substituto á
+minha pessoa. Sem mais. O seu...»
+
+E assim é, de facto, o _boulevard_:--a vida, o amor, a formosura--e
+tambem a lição aos ingenuos e a practica aos inexperientes.
+
+ * * * * *
+
+Agora, marqueza, tenha paciencia, caminhemos para o _Retiro_.
+
+Dizem que o sol é o pae da vida--approveitemos o sol. _Bras-dessus_,
+_bras-dessous_, conversemos. Que lindo tempo! É verdade!--sabe a
+marqueza de um facto que hontem se deu na cidade? Não sabe? Pois eu lhe
+conto. Conhecia a Dolores, a formosissima _cocotte_ da _rua de Alcalá_?
+Que elegante mulher! Tinha uns cabellos louros, que pareciam estrellas
+do céo. Os amantes, que eram aos centos, querendo comparar a côr do seu
+cabello com a côr do ouro, por mais de uma vez tinham ficado sem o
+dinheiro, e, o que é peior ainda, privados tambem do proprio cabello de
+tão gentil _señorita_. Que ferro, minha amiga, que ferro!
+
+Ha de haver seis mezes, Dolores appareceu, como de costume, no _Prado_.
+Seriam quatro horas, quando eu a vi chegar. Trajava um elegante vestido
+de seda escarlate, cuja fimbria recebia quotidianamente os beijos dos
+amantes e os suspiros do solo, que muito ao de leve pisava e quasi sem
+mesmo se aperceber. Porque Dolores, a vaidosita, não era mulher que por
+ahi se gastasse em qualquer passeio solitario. Ella tinha a sua
+carruagem--uma bonita carruagem moderna e commoda--e tinha tambem, além
+de muitos escravos, de que o seu coração por vezes escarnecia, os seus
+creados e as suas governantas.
+
+Dolores era, no fim de contas, como todas as mulheres do _boulevard_, um
+espirito risonho, attrahente, leviano,--nem Rigolboche, nem Magdalena.
+Ella alimentava em seu seio o sublime sentimento da familia, educára
+suas irmãs; e conduzia seu pae--um triste cego!--pelo braço. Não amava
+porque não queria; tambem não odeiava; mas, se fugia do amor era
+simplesmente porque lhe reconhecia os perigos. Afóra isto, como se
+encontrou só e desamparada no mundo, destituida de prendas e de
+educação, fez vida pela sua formosura, e caminhou rectamente,
+serenamente, desassombradamente, sem attrictos, sem desvios, sem atalhos
+pela estrada dos assalariados da terra.
+
+No subir para este calvario, ella, que não queria passar por santa,
+sentiu que a cruz lhe era demasiadamente pesada e quiz descarregar-se
+d'ella. Mas ao olhar para traz viu que a sua familia--uma pobrissima e
+desgraçada familia--carecia, para não morrer de fome, de comer e de se
+alimentar.
+
+Então chorou. Pobre Dolores! Quantas mulheres como tu não terão passado
+pelo mesmo desespero e pela mesma agonia!...
+
+Um raio de esperança, porém, penetrou-lhe no coração. A passo lento
+approximou-se do espelho. O espelho reflectiu-lhe a gentileza sem par.
+Que alegria, meu Deus!--exclamava ella. Finalmente... finalmente...
+
+E foi-se para a rua nuns impetos estranhos, nervosos,
+incomprehensiveis...
+
+D'ahi a um mez, Dolores, trajando sedas e veludos, era uma das mil e
+perigosissimas rainhas do _Prado_.
+
+Mas vamos ao escandalo. Havia um mez seguramente que em redor d'ella
+como que tentava esvoaçar um ingenuo da provincia--bom rapaz, é verdade,
+mas algum tanto lorpa. Dolores não gostava d'elle. Mas, emfim, ou por dó
+ou por capricho permittiu-lhe um dia a approximação. Effectuou-se o
+_rendez-vous_, que durou meia hora. Ella fallou sempre; elle, porém,--ó
+pudor!--apenas a comprimentou á entrada e á saída.
+
+Muito bem.
+
+No dia immediato, ao de semilhante encontro, recebia Dolores a seguinte
+carta:
+
+
+ «_Minha senhora_,
+
+
+«Pretendo ardentemente o seu coração. Amo como nunca amei. Exijo que me
+attenda. No caso contrario, suicidar-me-hei.»
+
+
+--Curioso, curioso!--exclamava ella, rindo e correndo pela sala.
+
+--Original, original!... Tinha graça... ficar sem o meu _chacho_... elle
+que me póde render ainda tão boas, tão santas libras... Oh! pois não...
+attendel-o-hei... Cahirei aos pés d'elle, que não falla... aos pés
+d'elle... não, não te suicidarás, formoso!....
+
+E, e sem mais, Dolores tomou a penna e escreveu laconicamente:
+
+
+ CONTA CORRENTE
+
+
+«_Deve o sr. F. por meia hora de conversação commigo, no dia 1.º do
+corrente, a simples quantia de 1:000$000 réis, que pagará em oiro ou
+prata, dentro de vinte e quatro horas a contar de hoje das 11 da manhã._
+
+
+ _Assignada_--DOLORES.»
+
+
+E assim foi. O rapaz, ao receber o bilhete, sentiu-se quasi allucinado.
+Depois, porém, recobrou animo e serenidade. Pensando que seria aquelle o
+unico meio de a conquistar, volvidas duas horas, após a recepção da
+carta, respondeu com a mesma singeleza:
+
+
+ «_Minha senhora_,
+
+
+«Por si darei tudo, a minha vida e o meu futuro. Póde, quando quizer,
+mandar receber o dinheiro que pede no banqueiro C., rua de ***, n.º....»
+
+
+Dolores passou, então, pela primeira impressão forte na sua vida. Esta
+resposta laconica e expressiva, como era, agitou-lhe violentamente as
+fibras da sua alma, d'ella. Reflectindo bem no caso e na dedicação, com
+que fôra brindada, ella a orphã, ella, a _desdichada_, ella, a
+meiga, ella--a preciosissima joia, engastada numa sociedade de
+meras apparencias e de meras formalidades, ella, a Dolores, ella chorou
+sinceramente.
+
+--Não!--dizia ella--Eu não receberei este dinheiro. Nunca! Mas em vez do
+seu dinheiro--oh, sim!--eu receberei o seu amor, que deve ser sublime
+com a sua generosidade; o seu amor, a pura expressão de um coração
+honesto e simples.
+
+E escrevendo, ella disse-lhe a chorar:
+
+
+ Meu amigo,
+
+
+«Renuncio ao seu desinteresse. Sinto que o amo doidamente. Desejo vel-o.
+Venha quando quizer.
+
+
+ «_Dolores._»
+
+
+Assim se encadearam os acontecimentos. Dolores, sem ser Margarida
+arrependida, tornou-se, todavia, mulher séria e grave. O nosso
+provinciano, sem ser Armando, adquiriu pelo amor de Dolores a
+consciencia de si e a elevação da sua dignidade abatida.
+
+Mas, quando menos a gente as espera, é quando o diabo as arma.
+
+Dizem-me que hontem, tanto Dolores como o seu amante, foram encontrados
+mortos, na propria casa em que desde muito habitavam.
+
+Oh! os _boulevards_, minha querida marqueza...
+
+Mas, por Deus, entremos no _Retiro_.
+
+O seu braço, minha amiga, o seu braço!...
+
+ * * * * *
+
+O passeio do _Retiro_, um dos mais afamados da Europa, foi fundado no
+reinado de Filippe IV, sob a inspiração do conde duque de Olivares,
+especie de marquez de Pombal na Hespanha.
+
+Quasi todos os despotas gostam de deixar assignalada a sua passagem
+na terra com monumentos immorredouros, por via de regra attestados de
+inepcia, de orgulho e de mau gosto.
+
+Foi assim que, entre nós, no tempo de D. João V se originou o celebre
+convento de Mafra. E foi assim que nasceu o _Escurial_, embora de melhor
+gosto e de mais elevação artistica.
+
+Durante o reinado do seu fundador, o _Buen-Retiro_, pelos seus passeios,
+pela sua magnificencia, pelos seus jardins, pelos seus palacios, pelos
+seus theatros, quasi se podia dizer um Eden, entreaberto aos sorrisos
+das morenas feiticeiras e um paraiso entresonhado pelos cavalleiros
+desde aquelles periodos aventurosos.
+
+Tudo, porém, neste mundo tem a sua decadencia. Filippe V, querendo
+guindar-se á altura do monarcha francez, virou-se para os jardins de
+Aranjuez, onde lhe pareceu divisar competencias, embora longinquas, com
+Versailles, de todos os passeios actuaes da Europa o mais célebre e o
+mais sumptuoso, ainda quando mais não fosse senão pelo jogo das aguas,
+as quaes, na sua ascensão phantastica e miraculosa, se alteiam
+muitas vezes, numa extensão de cincoenta metros acima do nivel do lago.
+
+Assim foi decaindo tão rara maravilha. Fernando VII tentou restituil-a á
+vida. E o facto é que o _Retiro_, mercê das grandes e enormissimas
+quantias nelle sepultadas, atravessou incolume até nós, a salvo das
+revoluções e em plenos sorrisos de felicidade.
+
+Leitora amiga--se realmente ama o passeio, percorra a _Carreira de S.
+Jeronymo_ e entre no _Retiro_. Levante-se cedo, tome o seu chaile, calce
+as suas luvas, e prepare-se afoitamente para banhar-se numa boa
+atmosphera, salutar e agradavel. Esta pequena digressão ha de fazer-lhe
+bem, porque é hygienica e variada. Em casa póde dispensar o seu
+chocolate; ha de saboreal-o lá, depois de ter passeado, depois de ter
+ido ao lago, depois de ter visto as feras, emfim, depois de estar
+cançada. E verá que a não engano. Lá encontrará um bom _restaurant_
+aceiadissimo e commodo. Á cautella, porque o almoço é tarde, sempre
+lhe aconselho que mande vir duas ou tres bolachas.
+
+Como queira. Perto de nós temos a _montanha artificial_ e o _salão
+oriental_. Já lá foi? Que soberbo panorama! D'ali, d'aquella eminencia,
+apparece-nos Madrid, em toda a sua vida e em toda a florescencia. Que
+magnifica cidade, e sobretudo, que cidade tão moderna!
+
+É verdade--e o _jardim botanico_? É logo no passeio do _Prado_. Dizem
+que só está aberto desde 30 de maio até 30 de setembro. Mas é um famoso
+recinto, bem cultivado, com excellentes plantas e situado num magnifico
+local. Possue, além disso, este jardim uma notavel variedade de plantas
+e uma curiosissima secção _zoologica_, cujo objecto é alimentar e
+propagar, na Hespanha, toda a especie de animaes.
+
+E a _Recoletos_--já foi a leitora?--E á _fuente Castellana_?
+
+O primeiro tem, como o _Prado_, oito lindissimas fontes, todas ellas no
+meio de praças, de arvores, e de mil outros attractivos, que dão ao
+nacional o supremo consolo de poder passar bem duas ou tres horas
+por dia.
+
+Porque estes passeios não servem apenas de meras distracções. Outros são
+os seus fins e outras são tambem as suas vantagens.
+
+Os _boulevards_, em geral, além de possuirem no seu seio mil cousas
+dignas de um estudo especial, são por outro lado um espectaculo que as
+municipalidades offerecem á pobreza, tão curiosa como digna de divertir-se.
+
+No nosso paiz os operarios não encontram um espectaculo gratuito. Por
+isso, á falta de entretenimentos, entram nas tabernas, e embriagam-se.
+Tivessem elles uma boa musica, um bom passeio, um exercicio attrahente e
+o amor do vinho desapparecera. Tivessem elles, sobretudo,
+municipalidades desinteressadas e independentes, e as suas doenças,
+assim como o seu mal estar não teriam mais razão alguma de ser.
+
+O artista tem no _boulevard_, uma formosa galeria, especialmente
+merecedora de analyse e de critica. Nos museus encontram-se os
+quadros pintados. Pois o _boulevard_ é um museu--ao vivo, já se entende.
+
+Dizia Richelieu que costumava esmagar o amor debaixo do tacão da sua
+bota. D'onde se vê que nem o illustre cardeal se pôde eximir ás
+influencias do mundo exterior e dos _boulevardiers_.
+
+O _boulevard_ é ainda mais o figurino, a moda, o _chic_. Quem fôr á
+_fuente castellana_, que começa na casa da moeda e termina na
+fonte do mesmo nome, encontra ali o mais selecto da sociedade
+madrilena--_toilletes_ finissimas, aristocracia elegante e burguezia
+desempenada.
+
+Foi na _fuente castellana_ que se originou uma elegantissima paixão
+ainda hoje inedita nos annaes da historia hespanhola.
+
+Conta-se que um notavel tribuno, escriptor e poeta, andando um dia a
+recrear-se neste passeio, fôra apanhado de surpreza pelos olhos
+abrasadores de uma sevilhana gentil; e por tal fórma se deu este facto
+que elle, hoje politico illustre no seu paiz, nunca mais pôde
+subtrahir-se ás influencias d'aquelle dominio.
+
+A menina foi, passado um mez, pedida á familia em casamento. Ella
+acceitou, e o matrimonio ficou assim solemnemente tratado.
+
+Demorou-se, porém o negocio. A noiva pretextava desculpas, que ninguem
+sabia a que attribuir. Em casa, além da familia, só entrava um padre. O
+noivo, furioso, tratou de indagar. Sabendo finalmente, que fôra o padre
+o motor de similhante desordem, elle, com a maxima serenidade,
+procurou-o em casa, e disse-lhe expressivamente:
+
+--Entre o insulto e o assassinio prefiro o segundo. Queira fazer o acto
+de contricção.
+
+O padre ajoelhou.
+
+--Agora levante-se, e peça perdão a Deus.
+
+E zás, sem mais tir-te nem guar-te, ouviu-se a detonação de um tiro. Uma
+bala havia atravessado o peito do hypocrita.
+
+--Finalmente--exclamou o tribuno.--Para os frades bacamarte, para a
+batina clavina.
+
+E fugiu.
+
+Volvidos annos, este mesmo cavalheiro voltava á patria, casava com a
+mesma menina que em tempos namorára, e preparava-se para ser ministro, o
+que já foi ha muitos annos.
+
+Oh! os _boulevards_, minha querida marqueza, os _boulevards_...
+
+Mas, a proposito, quer a marqueza jantar commigo?
+
+
+XVII
+
+HISTORIA INEDITA
+
+
+Ha de haver nove mezes que isto succedeu. Ia eu de Madrid para o
+Escurial. O unico companheiro de viagem que a fortuna me concedeu,
+durante o trajecto que vae da cidade do sr. D. Affonso XII ao Versailles
+hespanhol, era uma senhora alta, de cabello louro, de olhos azues e de
+uma distincção profundamente aristocratica.
+
+Mudos, por muito tempo, foi ella, afinal, quem rompeu o silencio.
+
+--_Es usted español?_--perguntou-me a minha amavel companheira.
+
+--Não, minha senhora, sou portuguez--respondi.
+
+--Ah! portuguez.... conheço perfeitamente Lisboa; já lá estive tres
+mezes. É uma cidade bonita, mas muito monotona. A natureza é admiravel,
+mas a sociedade é demasiadamente ficticia. Não tem uma vida propria, e
+vive do que os outros lhe querem dar...
+
+--E posso eu ter a honra de saber a quem me dirijo?
+
+--Ora! por Deus! sou muito modesta para que deseje saber quem sou. Nasci
+na America, em Nova-York. Depois meus paes mandaram-me para Paris, onde
+fui educada. De Paris passei á Suissa, onde residi alguns annos, e da
+Suissa vim para Madrid, onde vivo ha dez annos com meu marido e um unico
+filho que tenho.
+
+--E a opinião de v. ex.ª ácerca de Madrid?
+
+--Um magnifico centro com muita vida propria e alguma corrupção. Detesto
+muito a politica hespanhola, e amo do coração a sua litteratura. Gosto
+muito dos seus poetas e dos seus litteratos. São enthusiastas
+ardentes e mais que tudo fanaticos _à outrance_.
+
+--E a respeito das litteratas hespanholas, que me diz v. ex.ª?
+
+--Uns verdadeiros talentos. Conheci de perto D. Carolina Coronado. Tem
+uma historia engraçada. Um dia ella, a caprichosa, que tanto e tão a
+peito defendia a emancipação da mulher, arrojou para longe de si o trajo
+feminino, e fez-se rapaz. Engraçadissima! Entrou na universidade ao
+mesmo tempo que seu marido, formou-se em direito, e já escreveu sobre
+direito penal. Hoje é uma distinctissima poetisa, e ainda uma
+deslumbrante mulher.
+
+--Admiravel!
+
+--Tambem tive relações intimas com a melhor novellista hespanhola, que
+usava do pseudonymo Fernand Caballero. Havia sido perceptora dos filhos
+do duque de Montpensier, e presentemente pouco escreve, creio eu.
+
+--E a baroneza de Wilson, conheceu?
+
+--Perfeitamente. D'essa senhora conta-se tambem uma anecdota curiosa.
+Diz-se que Zorrilla estivera doente, e que, na sua enfermidade,
+fôra tratado desveladamente por uma senhora, sua vizinha. Ao cabo da
+doença, elle, querendo ser grato, esposou a sua enfermeira, a qual,
+então, vivia com uma sobrinha, mulher de um grande talento, que mais
+tarde casou com um inglez e que por isso se chamou baroneza de Wilson. E
+tambem vivi muito de perto com D. Maria Pilar Sinués de Marco. É
+romancista afamada. Vem-lhe de seu marido o nome de Marco, e por isso os
+hespanhoes dizem d'elle--_se le conoce porque és marido de la Sinués_,
+(similhança de _Cabeza e Calabazas_).
+
+--Nunca fallou em Lisboa com uma distinctissima senhora, que usa do
+pseudonymo Leon de la Vega?
+
+--Pois não! Sei que é esposa de um engraçado escriptor chamado D. Thomaz
+de Mello.
+
+--Exactamente.
+
+--Além d'estas, convivi com Angela Grassi, mulher, talvez não muito
+formosa mas de muito talento; com D. Antonia de Arciniega e Martinez,
+que cultivou um genero de poesia quasi pastoril; com D. Josepha
+Estevez del Canto, admiradora em excesso das fabulas de Lafontaine, com
+D. Emilia Cale Torres de Quintero, com D. Sofia Tartilau e com muitas
+outras. Bem vê que seria impossivel recordar-me agora de todas as minhas
+relações. Unicamente lhe affianço que em Hespanha as mulheres que
+escrevem, embora não sejam muitas, são todas dotadas de um immenso talento.
+
+--Mas, minha senhora, permitta-me que lhe manifeste os meus mais
+ardentes desejos de a conhecer...
+
+--Perdão... isso é que não está no contracto. Tenho respondido a todas
+as suas perguntas e isso me basta... O meu nome, não lh'o posso por ora
+revelar. É possivel que mais tarde o saiba. Por agora desculpe-me.
+
+--_Escurial! Escurial!..._--gritaram os guardas do caminho de ferro.
+
+A minha companheira apeou-se, e, estendendo-me a mão, nem sequer me deu
+tempo para me despedir d'ella.
+
+ * * * * *
+
+Dois dias depois, o creado do hotel, em Madrid, entregava-me um bilhete
+concebido nos seguintes dizeres:
+
+ _D. Maria del Sarto_
+ _pede-lhe a fineza da sua companhia para o jantar de hoje,
+ ás 6 horas da tarde, na Calle de Alcalá---8._
+
+--Maria del Sarto! Quem será Maria del Sarto?--exclamei.
+
+E ás 6 horas da tarde, em ponto, dirigi-me para a rua de Alcalá.
+
+Qual foi, porém, o meu espanto, quando, ao entrar na sala dei de rosto
+com a minha formosa amiga de viagem.
+
+--Sente-se aqui--disse-me ella, apontando para uma cadeira.
+
+E foi nessa occasião, e nesse jantar, que me foi dado formar um juizo
+seguro ácerca das cousas e dos homens de Hespanha.
+
+Devo-o principalmente áquella affectuosissima senhora, a quem d'aqui
+envio os meus respeitos e a minha gratidão.
+
+.........................................................................
+
+Uma vez, porém, que fallamos em celebridades, conversemos um pouco sobre
+ellas.
+
+
+
+
+XVIII
+
+HOMENS ILLUSTRES
+
+
+Em Hespanha é extraordinario o numero dos homens illustres.
+
+Poucos são os talentos naquelle paiz que não possuam uma feição
+eminentemente litteraria. Os proprios politicos resentem-se d'este
+defeito, se defeito se lhe póde chamar.
+
+Do romance são innumeros os cultores. A Hespanha, como paiz de mais
+aventuras, presta-se a elle. Entre nós são já muito conhecidos os nomes
+dos srs. Manuel Fernandez y Gonzalez, homonymo do celebre ministro
+republicano, ultimamente mandado sahir de Lisboa pelo governo
+portuguez, Henrique Peres Escrich, Ortega y Frias, Tarrago e Mateos, etc.
+
+O sr. Fernandez y Gonzalez é uma especie de Ponson du Terrail hespanhol.
+É escriptor fecundo e de muita força concepcional.
+
+Peres Escrich é quasi mystico. Os assumptos dos seus romances são quasi
+sempre religiosos. É um romancista catholico, mas são puras as suas
+intenções sem as sacrificar á seita.
+
+Ortega y Frias, Tarrago y Mateos, Piedro Antonio Alarcon, Peres Gadosh,
+Antonio Hurtado, Varella, Vilhoslava, Ricardo Sepulveda são os que mais
+se aproximam do romance moderno na descripção e no entrecho dos assumptos.
+
+Eusebio Blasco é um humorista de grande merecimento, e José Castro e
+Serrano é, em nosso juizo, talvez o primeiro novellista hespanhol.
+
+A estes podemos, de certo, juntar D. Manoel Silvella, Asmodeu,
+pseudonymo, Antonio Trueba, auctor de uns famosos contos,
+sobejamente conhecidos na litteratura da Europa.
+
+Na poesia avultam Zorrilla, um lyrico surprehendente; Campoamor; Garcia
+Gutierres, de quem se diz que nasceu com o _Trovador_ e que morreu com
+D. Urraca; Ventura Ruiz Aguillera, auctor de um famoso livro de satyras;
+José Martinez Villergas, egualmente satyrico: Roberto Robert, espécie de
+Voltaire no arrojo da palavra e do conceito; Grillo, Gaspar Nunes de
+Arse, Espronceda, José Eshegarai, Hartzenbusch, Antonio Arnao, Antonio
+Hurtado, José Selgas, tambem prosador, Trueba, Carlos Frontaura, Carlos
+Rubio, Larra e outros.
+
+Passando da poesia para a politica, são tantos os nomes, que
+difficilmente seria possivel recordal-os a todos.
+
+Quando estive em Hespanha, contava-se uma anecdota curiosa de Emilio
+Castelar.
+
+Dois estudantes da escola medico-cirurgica de Lisboa tinham ido a Madrid
+assistir á entrada de D. Affonso XII na cidade, depois de concluida a
+guerra carlista. Era dia de sessão no congresso. Fallava Castelar.
+Nas tribunas agglomerava-se o povo. Difficilmente se obtinha um logar.
+
+Um dos estudantes, porém, reflectindo no caso, entrou numa mercearia, e
+escreveu a Emilio Castelar as seguintes linhas:
+
+«Estão aqui dois portuguezes, seus admiradores, que desejam ouvil-o.»
+
+O merceeiro, que viu que a carta era subscriptada para o insigne orador,
+não lhes levou nada, nem pelo papel, nem pela tinta.
+
+Castelar leu o bilhete, e immediatamente sahiu do congresso, a fim de
+introduzir os dois estudantes na tribuna, reservada á diplomacia.
+
+Quando acabou de fallar foi ter de novo com os dois estrangeiros, e
+offereceu-lhes os seus serviços e a sua pessoa n'aquella cidade.
+
+Este traço revela bem as brilhantes qualidades, que caracterisam Emilio
+Castelar.
+
+E, uma vez que fallámos em Castelar, não esqueceremos tambem de
+mencionar um distincto talento, seu amigo intimo, director do
+jornal, o _Globo_, e auctor de um famoso livro sobre o _movimento
+operario na Europa no seculo XIX_. Este cavalheiro chama-se D. Joaquim
+Martin de Olias.
+
+Francisco Pi y Margall é um outro vulto que trouxe na memoria. Estive em
+sua casa perto de duas horas, e precisamente na mesma sala onde aquelle
+célebre padre tresloucado tentou assassinal-o. É um caracter magestoso e
+um talento deslumbrante. Fui encontral-o a brincar com dois filhinhos
+menores. Que contraste entre aquella scena puramente domestica e a dos
+seus actos publicos! O homem vigoroso da tribuna e da imprensa é um anjo
+de paz e de amor no seio dos seus! Foi-me realmente agradavel esta visita.
+
+Salmeron, o erudito publicista, que resignou gloriosamente o poder por
+não querer assignar a pena de morte para o exercito, vivia
+exclusivamente do professorado. Regia uma cadeira de ensino livre no
+Atheneu, retribuida pelos discipulos.
+
+Zorrilla, que atravessou os transes mais dolorosos da vida, e que
+além de um grande poeta é tambem politico de notavel bom-senso, vê-se
+hoje expatriado e longe dos seus.
+
+O mesmo succede a talentos notaveis como Fernandez de los Rios, Fernando
+Garrido, Ramon de Cala, Estevanez, Gonzalez e outros.
+
+José Maria Orense, o decano da democracia hespanhola, está quasi
+afastado da politica.
+
+Sagasta póde talvez ser classificado entre os radicaes. Passa por
+excellente caracter e por conservador sympathico.
+
+Canovas del Castillo, embora defensor de uma má causa, é todavia um
+eminente orador e um notavel poeta.
+
+Que a dizer a verdade, abaixo de Castelar, os dois oradores mais
+afamados são Figueras e Martos.
+
+O verdadeiro enthusiasmo hespanhol está, porém, no exercito. Entre
+Olozaga e Martinez Campos, prefere-se este justamente pela espada, que
+traz á cinta. E a prova é que, terminada a luta com os carlistas, as
+acclamações da cidade dirigiram-se mais a Martinez Campos do que a
+D. Affonso XII.
+
+De modo que em Hespanha o militarismo é um vicio galante, de que as
+mulheres não desdenham e que os politicos temem soberanamente.
+
+Fallando, porém, de homens illustres, não deveremos de modo algum
+omittir dois nomes, que, por mais do que um lado, nos devem ser
+sympathicos e affectuosos.
+
+Esses nomes são os dos srs. D. Benigno Joaquim Martinez e Antonio Romero
+Ortiz, de quem em seguida nos vamos occupar.
+
+
+
+
+XIX
+
+D. BENIGNO JOAQUIM MARTINEZ E ANTONIO ROMERO ORTIZ
+
+
+Só em Madrid o numero de jornalistas sobe talvez a mais de duzentos.
+Ainda ha pouco, por occasião de se installar o _Casino de la Prensa_ na
+calle Mayôr, orçaram por 160 as adherencias da parte do jornalismo
+madrileno.
+
+Entre os mais sympathicos periodicistas hespanhoes podemos citar:
+Escobar, Perez de Guzman, José Ortega, Ulloa, Sagasta, Garcia Ruiz, Pi y
+Margall, Figueras, Navarro, Blasco, Molina, L. Rubio, Palacio, Alcalá
+Galliano, dr. Galdo, Tubino, Diaz Perez, Quintero, Escosura,
+Soriano Fuestes, Ruti, Rivera, Calvo Ascencio, Leon Serrano, Benigno
+Martinez, Romero Ortiz e mil outras illustrações que nos seria
+impossivel enumerar em opusculo de tão limitadas proporções.
+
+ * * * * *
+
+D. Benigno Joaquim Martinez é conhecido pelo doce appellido de _amigo
+dos portuguezes_. A sua casa e a sua bolsa estão sempre á disposição dos
+nossos patricios e conterraneos. Nada ha que possa retribuir tamanho
+affecto e tão devotada abnegação. Dir-se-ia que D. Benigno é, de facto,
+mais portuguez do que hespanhol.
+
+Martinez foi por muito tempo empregado superior no ministerio da
+justiça. Até ahi advogara e vivera do jornalismo. As suas convicções
+radicaes não lhe permittiram, porém, que continuasse a servir um governo
+que desde muito lhe era antipathico. Então sem mais recursos, deliberou
+entregar-se exclusivamente á imprensa, tanto nacional como estrangeira.
+Tem sido correspondente de jornaes inglezes, italianos e francezes. A
+sua vida mal se descreve. Ha dias em que se senta á meza desde a
+madrugada até ao jantar e desde o jantar até á madrugada. A honra e a
+dignidade são a sua divisa. Nunca transigiu. Em Portugal já 11 jornaes
+lhe confiaram as correspondencias de Madrid, as quaes elle tem cumprido
+com uma pontualidade rigorosamente britannica. Tambem collaborou no
+periodico _Italia e Popolo_ de José Mazzini. Redigiu em Madrid seis
+folhas politicas. Escreveu a biographia de 45 vultos portuguezes, e
+sempre, desde 1846 até hoje, se tem occupado, com verdadeiro fervor, das
+cousas, da politica e dos homens do nosso paiz. Por isso tambem quasi
+todas as sociedades portuguezas o têm distinguido com os seus diplomas e
+honrarias.
+
+D. Benigno é casado com uma senhora distinctissima, de quem teve tres
+filhos: uma menina, já casada, e dois rapazes, um dos quaes é Frutos
+Martinez y Lumbreras, estudante classificado na universidade central e
+escriptor já conhecido pelas _Bandeiras de Portugal_ e _Hespanha_.
+
+Em casa de Martinez tivemos a honra de travar relações com dois notaveis
+talentos, de quem não deixaremos de fallar; e são elles D. Manoel Maria
+José de Galdo e Antonio Hesse.
+
+Do primeiro escreveu um periodico portuguez o seguinte:
+
+«Pela nomeação do sr. Rivero para ministro de _la gobernacion_ em
+Hespanha ficou vaga a presidencia da municipalidade de Madrid. Neste
+logar foi provido por eleição o sr. D. Manoel Maria José de Galdo,
+cavalheiro distincto de cujos precedentes diremos algumas palavras. O
+sr. Galdo é cathedratico proprietario na universidade de Madrid, e além
+de regente de 1.ª classe de sciencias, lecciona mineralogia e noções de
+zoologia e botanica. É licenciado em medicina e cirurgia, doutor na
+faculdade de philosophia, licenciado em direito civil, administrativo e
+canonico. É membro honorario de muitas sociedades e institutos
+scientificos de Hespanha, França e Portugal. É em resumo um cavalheiro
+muito illustrado, e em extremo laborioso e modesto.»
+
+Em seguida á revolução de setembro foi o dr. Galdo feito 1.º alcaide da
+capital de Hespanha e commandante geral de 20.000 voluntarios de Madrid.
+Nestes dois importantes e difficeis cargos mereceu sempre os applausos
+de toda a imprensa sem distincção de côres politicas. O que prova
+exuberantemente o espirito de justiça e a alta prudencia que dirigem
+todos os actos d'aquelle cavalheiro. Ultimamente a sua eleição para
+presidente da municipalidade de Madrid, em substituição de um homem de
+tão reconhecido merito como o sr. Rivero, é mais um titulo honroso que
+vem juntar-se aos muitos, que já recommendavam ao partido radical da
+Hespanha, e em geral a toda a nação vizinha, um honrado filho da
+peninsula, que ao seu talento, ao trabalho e ás suas qualidades pessoaes
+deve a estima de nacionaes e estrangeiros.
+
+Na inauguração do canal Suez coube ao sr. dr. Galdo a honra de
+representar a Hespanha.
+
+A sua integridade de caracter e a sua modestia, conservaram-no muito
+tempo afastado das lides politicas, ás quaes voltou cheio, como d'antes,
+de dedicação e amor aos principios liberaes, apenas a Hespanha sacudiu o
+jugo que a opprimia. Nos ultimos arrancos da monarchia deposta, mais de
+uma vez fôra tão illustre e inoffensivo cidadão apontado á vindicta do
+poder.»
+
+Antonio Hesse é advogado de nome; possue excellentes dotes oratorios e
+d'elle corre impresso um ajuizado opusculo sobre critica religiosa.
+
+Para rematar, porém, o que dissemos, ácerca de D. Benigno Joaquim
+Martinez, basta ainda accrescentar que é elle um modelo de amor de
+familia, um ousadissimo e infatigavel trabalhador, uma consciencia recta
+e uma intelligencia sã.
+
+ * * * * *
+
+Antonio Romero Ortiz é um outro amigo dos portuguezes. Nascido na
+Gallisa, onde fundou differentes jornaes liberaes e onde organisou um
+nobre batalhão de voluntarios, só em 1843 se inscreveu como advogado em
+_Santiago_, terra da sua naturalidade. Em 1856, quando mais accesa
+andava a lucta entre miguelistas e liberaes, veiu ao Porto, e ahi foi
+pronunciado e levado prisioneiro para bordo do _Serra do Pilar_, que o
+conduziu para Peniche.
+
+Em 1848 Narvaez, um covilheiro infame do absolutismo, descobriu uma
+conspiração de liberaes, capitaneada por Romero Ortiz. Sem mais
+averiguações, o carrasco ordenou a prisão do chefe dos revolucionarios,
+mandando-o para as masmorras de Santo Anton, perto da Corunha. O
+processo foi instaurado; duas cartas existiam de grave compromisso para
+o encarcerado. No momento, porém, em que o escrivão estava distrahido
+Romero Ortiz, pegando nas cartas, arremessou-as pela janella. Este
+arrojo salvou-o do patibulo.
+
+Em 1849 veiu para Madrid, onde, entre outras obras interessantes,
+publicou o _Diccionario da politica_, de collaboração com dois amigos.
+
+Chegou o anno de 1854, e desde então para cá, ora na imprensa, ora na
+tribuna, têm sido assignalados os seus feitos em pro da patria e da
+liberdade. Foi elle que, sendo ministro da justiça, instituiu o
+matrimonio civil e aboliu a companhia de Jesus. Por diversas vezes foi
+nomeado governador civil; e quando em Hespanha se constituiu a _União
+liberal_, o sr. Rios Rosas dispensou-lhe a maior consideração e os
+maiores respeitos. Foi deputado pela primeira vez em 1854 pela Corunha.
+Tomou parte activa na revolução de 1868, e no governo _provisional_ foi
+elle um dos ministros.
+
+O seu mais notavel discurso, que versava sobre uma concessão de direitos
+aos portuguezes, foi pronunciado no congresso em 29 de março de 1859; e
+a sua mais afamada publicação intitula-se: «_La historia de la
+literatura portuguesa em el siglo XIX._»
+
+É obra que denota boas intenções a nosso respeito. Conhece o periodo
+contemporaneo, e é seguro o estudo sobre Filinto, dos mais
+conscienciosos que conhecemos. Mas, no momento actual em que nos
+considerou, dá mostra de recebimento de más informações. Guinda a certa
+altura quem não merecia ir tão alto, e esquece nomes, em todas as
+pretendidas escholas, dos que, á parte rivalidades de que nós nos não
+fazemos echo, são de primeira plana em todos os campos.
+
+Com o golpe de 3 de janeiro de 1873 foi Romero Ortiz nomeado ministro do
+ultramar.
+
+Ultimamente vive um pouco doente e retirado das cousas politicas, quasi
+que exclusivamente entregue ao seu museu, que é curiosissimo, e aos seus
+estudos.
+
+No seu museu, de que já fallámos mais atraz, encontram-se muitas
+curiosidades do nosso paiz, e entre ellas uma luvas do marquez de Sá da
+Bandeira, a caixa de rapé do visconde de Castilho, e uma lembrança
+de D. Pedro V, e outra do visconde de Paiva Manso, etc.
+
+Tambem alli se póde vêr a camisa de Santa Thereza de Jesus, a casaca de
+Cabrera, um crucifixo feito pela rainha Isabel II e muitas outras
+reliquias dignas da maior attenção e de estudo.
+
+
+
+
+XX
+
+EM RETIRADA
+
+
+Onde não ha fumo ha amor; onde não ha amor ha vinho; onde não ha vinho
+ha _spleen_.
+
+São estas as palavras de um poeta notavel, que muito de molde nos
+acudiram ao espirito, em relação ao caso presente.
+
+Quem viaja deve fumar. O fumo não é apenas um bom e doce companheiro
+para as tristes horas de tédio e de melancolia, mas ainda mais, e quasi
+sempre, um distinctivo do sabio e um facil auxiliar da nossa digestão
+intellectual.
+
+O fumo está para o cerebro na mesma proporção em que o café está
+para o estomago. Ambos se tornam até certo ponto necessarios ao homem;
+com a simples differença de que o café nos excita, por vezes,
+demasiadamente os nervos, ao passo que o fumo se limita a produzir em
+nós um salutar estimulo ás nossas idéas e ao nosso raciocinio.
+
+Mas, se, além do fumo, nos falta ainda o amor e o vinho, então,--ai de
+nós! que chegaremos ao aborrecimento de nós mesmos, isto é--ao _spleen_.
+
+A viagem sem companhia é a peior de todas as torturas. A expansão é tão
+necessaria á nossa natureza, como o azul ao firmamento. Que nos importa
+ver uma formosissima paisagem, se depois não temos a quem communicar as
+nossas impressões e o nosso juizo de momento?
+
+E notavel contradicção! A companhia é-nos tanto mais necessaria, quanto
+é certo que, quando estamos no estrangeiro, nos acommette uma singular
+nostalgia por tudo o que é nosso e nos interessa, emquanto que, quando
+regressamos á patria, nos assalta uma terrivel hypocondria por tudo
+o que é estranho e nos assombra.
+
+D'este modo, leitora amiga, se algum dia tiver o capricho de viajar,
+tenha paciencia, e tome uma aia; ou ainda, se isso lhe aborrece, peça a
+uma das suas intimas confidentes para a acompanhar.
+
+E verá que a não engano!
+
+ * * * * *
+
+Ora a retirada é quasi que uma recapitulação de tudo o que se fez pelas
+terras onde se esteve.
+
+--Que te pareceu esta gente?--perguntava-me o meu companheiro e velho
+condiscipulo--amigo José Trigueiros Martel.
+
+--Esta gente!... pois que diabo me havia de parecer, senão unica e
+originalissima!... retorqui.
+
+E começamos a enumerar os principaes partidos politicos em que se
+dividia a familia hespanhola, que eram pouco mais ou menos os
+seguintes:
+
+Absolutistas de qualquer rei.
+
+Carlistas clericaes.
+
+Carlistas militares.
+
+Carlistas constitucionaes.
+
+Cabreiristas.
+
+Neo-dynasticos absolutistas.
+
+Dynasticos tolerantes.
+
+Moderados unitarios.
+
+Moderados conservadores.
+
+Conservadores da conciliação.
+
+Heterogeneos.
+
+Homogeneos canovistas puros.
+
+Santa-crucistas.
+
+Sagastinos.
+
+Neo-constitucionaes democraticos.
+
+Radicaes puros.
+
+Radicaes do X.
+
+Radicaes republicanos.
+
+Democratas monarchicos.
+
+Democratas puros.
+
+Republicanos catholicos.
+
+Confederados.
+
+Separatistas.
+
+Communistas.
+
+E não queria Amadée Achard que a Hespanha fosse alcunhada de bandoleira!
+Ninguem lhe desconhece os feitos de Numancia, de Sagunto, de Madrid, e
+de Zaragoza. Certamente que a Hespanha tem na sua historia paginas
+sagradas, como por exemplo as que resam das santas guerras das
+_communidades_ de Castilla. Mas a par de tudo isto, ahi estão os factos
+da Andaluzia a fallar mais alto do que os patriotismos exagerados; e ahi
+estão tambem os acontecimentos dos ultimos vinte annos a affirmar-nos
+eloquentemente que esse paiz, embora cheio de vida e dotado de
+enthusiasmos respeitaveis, ha de ser sempre uma contradicção viva a tudo
+o que existe e um especialissimo parenthese na vida das nações.
+
+E provirá isto de uma simples questão de raça, de clima, de religião, de
+lingua, de costumes, de civilisação ou de _meio_?
+
+Que o digam os srs. philosophos historiadores.
+
+Nos costumes reside, principalmente, a expressão de uma nacionalidade.
+
+Porque hoje, francamente, não se póde viajar apenas, como um
+simples brazileiro endinheirado--_em trem especial de exclamações_.
+
+Não basta só dizer, admiravel! magnifico! explendido! como aliás parece
+fazer a maioria dos nossos viajantes.
+
+--Então que me diz o amigo de Pariz?
+
+--_Ah!_
+
+--E de Londres?
+
+--_Eh!_
+
+--E da Suissa?
+
+--_Uh!_
+
+E assim ficamos, sem passar das cinco vogaes exclamativas; sem uma unica
+noção da justiça do povo que visitamos, como ella era administrada e
+repartida, sem uma unica idéa da sua arte, da sua politica, da sua
+religião e dos seus progressos.
+
+A isto podia, quando muito chamar-se-lhe uma ostentação, mas nunca uma
+viagem.
+
+ * * * * *
+
+Resumindo:
+
+A Hespanha possue um vicio inicial de que difficilmente se libertará--a
+religião catholica-apostolica-romana guindada ás alturas de fanatismo.
+
+Na sua politica, como na sua justiça, reflecte-se tristemente a
+contradicção, junto a um continuo mal estar de quem não tem uma noção
+clara da evolução que a deveria reger, e das leis que deveriam presidir
+ao seu desenvolvimento moral e material.
+
+A sua arte afigurou-se-nos estar em perfeita harmonia com as suas
+mulheres: mais brilhante talvez, na fórma do que na concepção e no
+sentimento.
+
+Entretanto, forçoso é confessar que poucos paizes ha de tão vastos
+recursos como a Hespanha, e porventura mesmo poucos existirão com futuro
+tão promettedor como ella.
+
+Os casos das _Baldomeras_ têem-lhe ultimamente aberto os olhos para
+as grandes luctas da civilisação moderna, apurando-lhe o raciocinio para
+os insignes debates do espirito e da critica positiva.
+
+Que tudo isso lhe seja de bom proveito, assim como Sédan o foi para a
+França.
+
+ * * * * *
+
+Mas perdão! 6 horas da madrugada. Devemos estar perto de Lisboa.
+
+--_Lisboa! Lisboa!_ exclama um guarda de fóra.
+
+Assim, pois, leitor amigo, permitta-me que lhe aperte a mão, e que com
+tristeza me despeça da sua extrema amabilidade.
+
+Um seu creado!
+
+FIM
+
+
+
+
+INDICE
+
+ Pag.
+ I--CARACTERES E COMPARAÇÕES 7
+ II--NÓS E ELLES 15
+ III--A CIDADE 23
+ IV--A LENDA DO BANDIDO 33
+ V--EDIFICIOS PUBLICOS E OUTRAS CURIOSIDADES HISTORICAS 41
+ VI--A INSTRUCÇÃO PUBLICA 51
+ VII--TEMPLOS E RELIGIÃO 59
+ VIII--A POLITICA 67
+ IX--MUSEUS 75
+ X--A MUSICA 83
+ XI--O CHOCOLATE E O CAFÉ 91
+ XII--O SALERO 99
+ XIII--THEATROS 107
+ XIV--OS PATINADORES 117
+ XV--TOURADAS 125
+ XVI--O PRADO E O RETIRO 133
+ XVII--HISTORIA INEDITA 155
+ XVIII--HOMENS ILLUSTRES 163
+ XIX--D. BENIGNO JOAQUIM MARTINEZ E ANTONIO ROMERO ORTIZ 171
+ XX--EM RETIRADA 181
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's Costumes Madrilenos, by Sebastião de Magalhães Lima
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK COSTUMES MADRILENOS ***
+
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+of public domain material from BibRia)
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+will be renamed.
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+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
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+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
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+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
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