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Figueirinhas"> + <meta name="Date" content="1860"> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1em;} + h1 {text-align: left; margin-top: 4em; margin-bottom: 2em; text-decoration: underline;} + h2 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + #corpo p.sinopse {margin: 0; font-size: small; text-indent: 0;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;} + blockquote {margin-left: 40%; font-size: small;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +Project Gutenberg's Rogações de Eremita, by Jaime de Magalhães Lima + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Rogações de Eremita + +Author: Jaime de Magalhães Lima + +Release Date: September 1, 2009 [EBook #29884] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ROGAÇÕES DE EREMITA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + +</pre> + + +<div style="border: double 10px #000; padding: 1em;"> +<p style="text-align:center;">JAIME DE MAGALHÃES LIMA</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center; font-size: 2.5em;">Rogações de Eremita</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;">CASA EDITORA <br> +DE<br> + A. FIGUEIRINHAS<br> + PORTO</p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 0.8em;">Empresa Gráfica "A Universal".—Porto.</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div> +<p style="text-align:center;">HOMENAGEM DO EDITOR</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center; font-size: 1.5em;">Rogações de Eremita</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center; font-size: 0.8em; margin-left: 30%; width: 60%;"> +<p>Composição e impressão</p> + +<p>Empresa Gráfica «A UNIVERSAL»</p> + +<p>—Rua Duque de Loulé, 111—Porto.—</p> +</div> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div> + +<div> +<p style="text-decoration: underline; font-size: 1.5em;">Jaime de Magalhães +Lima</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:right; font-size: 3em; margin-right: 20%;">Rogações<br> +de Eremita</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-decoration: underline; font-size: 0.8em;">CASA EDITORA de A. +FIGUEIRINHAS</p> + +<p style="font-size: 0.8em; margin-left: 20%;">Deposito geral:<br> +Livraria Portuense de Lopes & C.ª—Suc.<br> +119, Rua do Almada, 123—Porto.</p> +</div> +</div> + +<div id="corpo"> +<p><span class="pn">{5}</span></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p><em>No ermo que eu percorro neste mundo,—ermo de corações cativos dos +meus sonhos—ao suplicar dos céus a claridade na qual a alma habite e se +engrandeça, deixei na terra gotas do meu sangue, onde a dor o soltou do peito +ansiado por abundância de erros e de culpas e por amargura de infinitas mágoas, +e onde jorrou seus cantos de alegria em louvor e contemplação da beleza +eterna.</em></p> + +<p><em>E, como assim vulnerável tenha sido, misteriosa comunhão uniu-me +àqueles, solitários e crentes, que na cruz da aspiração também sofreram. Muitas +vezes me guiou o rasto estranho, se porventura o vi ensanguentado de sangue +igual ao meu pela paixão que o derramou em oferenda a altares de amor. São +rogações de todos esses passos as que neste livro traduzi e confesso para quem +no mesmo error se houver perdido ou se tiver remido em iguais +enlevos.</em><span class="pn">{6}</span><span class="pn">{7}</span></p> + +<h1><a name="SECTION0010">ROSAS DO MEU CAMINHO</a></h1> + +<h2><a name="SECTION0011">I</a></h2> + +<p>Parei no meu caminho a colher rosas. No doce esplendor da sua gloria, +brotavam purpurinas entre o cômoro renovado no viço pelo outono. E o sol brando +que vinha do nascente, e a palidez do céu já esmorecido do seu fulgor candente +do Estio, e a atmosfera quieta e orvalhada, e o silencio do campo onde desponta +o prado que no inverno o cobre e é a sua túnica,—cantavam com as rosas a +doçura e em minha alma infundiam subtilmente os salutares enlêvos dos seus +sonhos.</p> + +<p>Acordou-me de encantos a pobreza. Alguém, passando, me estendeu a mão, +mirrada e pálida de fadiga e fome. Ouvi um brando murmurar de suplica; e o +coração turvado de piedade transmudou em misericórdia o seu deleite. Um +resplendor mais alto escurecera a cintilação da terra em seu fulgor.</p> + +<p>Levei comigo as rosas que colhi, para me alentarem de um sorrir ingénuo meu +peito ferido na<span class="pn">{8}</span> jornada agreste em que dolorosamente +se consome sangrando magoado de perversidade, de ódios, de mentira, de quanto +avilta os homens desvairando-os nos seus cruéis infernos de cobiças. Mas sempre +que senti a rosa bafejar-me, senti perpassar também vozes mendigas. Por +singular magia, confundi em uma só aspiração e um só amor as rosas e a +pobreza.</p> + +<h2><a name="SECTION0012">II</a></h2> + +<p>Senhor! No meu caminho entretecei as rosas na pobreza, para que, adorando em +extasi vosso encanto, eu adore também as vossas dores e o meu peito comungue da +miséria! Que todo o meu coração se enleie e prenda nas grinaldas, Senhor, com +que coroais de espinhos e de rosas vossos servos; e que, enquanto sentir +deleite infindo na doçura que sobre a terra semeastes, eu vos seja fiel +inteiramente sentindo ao mesmo tempo e em igual fervor toda a infinita agrura +da desgraça.<span class="pn">{9}</span></p> + +<h1><a name="SECTION0020">AS TAÇAS DO BANQUETE</a></h1> + +<h2><a name="SECTION0021">I</a></h2> + +<p>No banquete da vida em que o destino me deu lugar onde os prazeres abundam e +os regalos são o pão quotidiano, provei das suas taças mais queridas e vi meus +companheiros de igual sorte ora erguidos na sua embriaguez ora prostrados pelos +seus travores.</p> + +<p>Riquezas, ambições, paixões, gloria, amor, as taças mais cobiçadas do +banquete, a todas eu senti o seu sabor, todas vi disputadas com ardor e todas +continham gotas de amargura, os traiçoeiros bens das alegrias cedo mudadas em +desengano e dor.</p> + +<p>Vi a riqueza inútil perante a morte, assistindo impotente à corrupção do +corpo que no seu ser trazia os filtros de fatal caducidade inexorável. Vi +ambições gerando em seus triunfos ambições maiores ainda, insaciáveis, de +contínuo torturando suas vitimas, de degrau em degrau as elevando até que do +mais alto as precipitam no torvo abismo das<span class="pn">{10}</span> +desilusões. Vi as paixões mirrando-se exauridas, em vergonha, em remorso e +inanidade, o orgulho aviltado nas fraquezas; vi a gloria a desfazer-se em fumo +e apedrejando hoje por infames os que ontem beijara por heróis e em seus +altares pusera como deuses. Vi transmudar-se amor numa mentira, a sua fé +perjura na traição; vi a ternura magoada em lágrimas. E até a própria +humildade, desprendida dos enganos do mundo, a mais pura das taças que anjos +bons dos céus trazem à terra para remir quantos na terra penam suas penas, até +a própria humildade eu vi chorar porque, salvando os bem-aventurados em cujo +coração habita e resplandece, não lhes pôde poupar a compaixão de quantos +desfalecem no martírio, pois, desventurados, não partilham das bênçãos da +alegria no Senhor, naquela conformidade austera e santa que é a nossa redenção +suprema e única.</p> + +<h2><a name="SECTION0022">II</a></h2> + +<p>Senhor! Sê piedoso! Socorram-me os teus anjos. Reanimem-me em cálices de +vida; humedeçam-me os lábios na tua paz; iluminem-me o mundo na tua luz.</p> + +<p>Afasta dos meus passos esse espectro que me enegrece de terrores as noites, +essa sombra de gélidas<span class="pn">{11}</span> vigílias que me murmura o +desespero e a dúvida, e, rindo dos meus sonhos piedosos, repete escarnecendo +cruelmente:</p> + +<p>Doçura! louco, só na morte a encontras!<span class="pn">{12}</span><span +class="pn">{13}</span></p> + +<h1><a name="SECTION0030">A DOR E A VIDA</a></h1> + +<blockquote> + Na mão de Deus, na sua mão direita, <br> + Descançou afinal meu coração. </blockquote> + +<blockquote> + A<small>NTERO DE </small>Q<small>UENTAL</small>. </blockquote> + +<h2><a name="SECTION0031">I</a></h2> + +<p>Turvou-se de amargura a alma do poeta quando, sentindo o vento do outono +anunciar tormenta e escuridão, viu as aves felizes, cautelosas, abandonarem +campos e florestas e partirem velozes à procura de terras sorridentes, animadas +pelos carinhos tépidos do sol.</p> + +<p>Já não tardava a cerração das neves, mortalha e sepultura dessas vidas que +ao poeta exaltavam o espírito e o corpo, pelo rumor, verduras e perfume, pela +graça, pela força e pela opulência, pelo florir de impulsos da sua seiva.</p> + +<p>Vai a esconder-se tudo o que o inspira. A esperança do peregrino desfalece à +mingua do sustento e do conforto sorvido a jorros no calor do Estio, incensado +de aromas e reflectindo os delírios da cor pulverizada. Onde irá saciar a sede +ardente de intenso resplendor que lhe alimente as cobiças<span +class="pn">{14}</span> profundas do seu ser? Porque foi acorrentado à +imobilidade, porque não foge, como a ave foge, àquilo que o oprime e o ameaça? +Porque não lhe foi dada a asa vibrante que percorresse espaços infinitos, de +céu em céu, sem nunca se afastar dum translucido puríssimo azul? Que culpa lhe +forjou essas cadeias que sujeitaram o mísero forçado a rastejar exposto à +contingência das estações altivas, sem piedade, queimando sob o sol canicular, +sufocando nos gelos a expansão, inflexíveis, mudas, ignorando o desejo dos +homens e as suas mágoas, para prosseguirem no combate austero da suprema beleza +que sonharam? Porque, liberta, a ave se eximiu a padecer igual +escravidão?!...</p> + +<p>Sucumbido, cismando tristemente, ao escutar o sibilante agoiro da tormenta, +vendo o bando das aves em demanda de benignas terras generosas que aos seus +amores lhes dessem agasalho e em doçura fecunda fossem pátria aos ninhos +embalados pelo canto de pequeninos peitos ansiados, o poeta chorou a sorte +negra que o entregava às penas do inverno.</p> + +<h2><a name="SECTION0032">II</a></h2> + +<p>E dentre brumas frias, apressando precocemente a noite de Novembro, veio +beija-lo cândida<span class="pn">{15}</span> e singela, na palidez etérea que é +o seu manto, a Dor, a companheira do poeta.</p> + +<p>E disse:</p> + +<p>—«Nunca ninguém te amou como eu te amei! Nunca ninguém te deu ao +coração inquieto mais alto arrojo e mais sagrado êxtase. Só por mim alcançaste +renascer naquele renascimento do Apostolo em que o sangue se isenta de veneno e +se converte em filtro do amor. Quantas rosas colheste no caminho, quanto +perfume te turvou os sentidos, visões do paraíso, toda a atracção, toda a +harmonia, todo o laço, felicidade, risos e ternuras, tudo para ti foi breve e +se afogou nos abismos mortais donde surgira, abandonando-te errante, ao +desamparo, no louco vaguear do coração. Só por mim fez sacrário no teu seio, +numa aurora perene, sem poente, esse facho de ardor que te consome e é a +suprema gloria, a eternidade.</p> + +<p>«E sabes, meu irmão e meu amigo, que o silêncio é o levita nosso eleito cuja +bênção nos liga e arrebata; e os altares em que oramos são sombrios, duma +sombra celeste, benfazeja, tal qual, no inverno, essa outra sombra que por erro +temeste e será sempre confessionário e templo da minha alma.</p> + +<p>«Nunca ninguém te amou como eu te amei!... Deixa que a ave siga no seu rumo, +em busca de ilusões da vida efémera. Une-te a mim e, desprendido então de +quanto foge e passa na incerteza,<span class="pn">{16}</span> redimido em meu +peito hás-de subir à divina presença do Senhor!»</p> + +<p>Libertado, o poeta ergueu-se ouvindo a Dor.</p> + +<p>Por sua vez beijou a mensageira.</p> + +<p>—«Bendita sejas!» disse.</p> + +<p>E nesse instante passou na treva estranho clarão.</p> + +<h2><a name="SECTION0033">III</a></h2> + +<p>Segue a sua jornada paciente o poeta cuja fronte a Dor beijou. A macerada +face da visão jamais se apaga nos seus doces olhos, humildemente isentos de +desanimo, suavemente escravos dum poder que sem cessar o fortalece e ampara nas +provações mais ásperas do mundo.</p> + +<p>Onde uma aspiração palpita e cresce, palpita e cresce a dor que a atormenta +e nega, ou seja um gérmen que gelou na terra, ingrata e fria, surda ao seu +anseio ou seja um coração crucificado do seu amor traído e profanado.</p> + +<p>Sentiu o poeta a Dor nas rosas que decaem; sentiu sofrer os astros que +desmaiam no frio alvor de brancas madrugadas. Na haste quebrada entre iras das +rajadas, na inquietação das águas despenhando-se, nos alcantis rasgados pelas +neves, na criança a que o soluço corta o riso, no peito ferido por paixões +humanas, onde quer que o destino<span class="pn">{17}</span> cegamente +castigue, mortifique e desengane, onde quer que proíba ou estrangule um arrojo, +um impulso, uma vontade, ou desfaça os rochedos na mudez dos seus combates +loucos da montanha, ou escarneça a suplica do mísero, redobrando de ardor em +atormentá-lo—a Dor foi companheira do poeta, no seu seio chorou divinas +lágrimas, em seus braços buscou acolhimento.</p> + +<p>Foi assim que o poeta amou a Dor. Foi assim que, curvado, ela o levou a +ungir de piedade as agonias de todo o ser que os olhos contemplassem caído em +desventura ou malfadado. Fielmente a adorou no seu mistério! Fielmente a serviu +nos seus mandados!</p> + +<h2><a name="SECTION0034">IV</a></h2> + +<p>Exangue do pungir da Dor que nunca o abandona, ou na solidão dos montes o +encontre ou, perdido, vagueie entre o tumulto das multidões humanas +desvairadas, o poeta parou no seu caminho e contemplando a serrania e o prado +que a seus pés se alargavam repousados em sereno esplendor, deixou cerrar seus +olhos deslumbrados e adormeceu, dormindo o torpor magoado dos vencidos.</p> + +<p>Cantava o sol o «cântico» do Santo, o ressurgir de toda a criação resgatada +para a terra e para os<span class="pn">{18}</span> céus em um só Deus. Cantava +os seus louvores ao «altíssimo, omnipotente, bom Senhor», a quem «toda a honra +e bênção são devidas». Por todas as criaturas o louvava! Por sua própria luz +que o iluminava; pela «irmã lua» que no firmamento tão «preciosa e bela» se +formara; pelo «irmão vento e pelo ar e pela nuvem e todo o tempo» no qual as +criaturas têm sustento; pela «irmã água» que é «humilde e casta», e também pelo +«irmão fogo corajoso, e por nossa mãe a terra e por seus frutos, e pela «irmã +morte» que à sua paz nos arrebata.</p> + +<p>Desusada carícia o seduziu; ignorada ternura o fascinou! Gloriosa visão +despertou o poeta e, beijando-o, o exalta naquela divina luz que em torno ela +espargia.</p> + +<p>E disse-lhe a visão:</p> + +<p>«Desterrado da ventura que com o sangue marcaste o teu caminho e em cada +passo feriste o teu coração! Onde um espinho te rasgar a carne, o perfume das +rosas a embalsama. Onde o vento derruba a floresta, exultaram renovos na +verdura. Onde o ódio, a mentira e o desespero te entenebrecem de terror e +dúvida, a bondade e a fé virão salvar-te em sua luz bendita. Onde cai uma +lágrima, a mão de Deus a enxuga. Ergue os teus olhos! Beija a minha fronte! +Aviventa teu ser mortificado na salutar candura que me alenta!</p> + +<p>E dos lábios vermelhos transfundindo a alegria<span class="pn">{19}</span> e +a vida e a exaltação em lábios pálidos de sofrer e mágoas, enlevado seu peito +em caridade e possuído de doçura infinda, a visão benfazeja do poeta restituiu +à terra e seus paraísos, à luz do sol e a quanto ele ilumina, aquele que à Dor +votara todo o ser e só a Dor servia sequestrado desse supremo amor que na +bondade se libertou de toda a contingência.</p> + +<h2><a name="SECTION0035">V</a></h2> + +<p>Tal qual o poeta que a Dor e a Vida, vossos mensageiros, encaminharam, +Senhor, à vossa presença, mandai-me, a mim também, os vossos sonhos, visitem-me +as visões do vosso reino, para que me guardem e guiem e me conduzam, para na +Vida me exaltar convosco e para na Dor sofrer as vossas penas, «na mão de Deus, +na sua mão direita, descansando afinal meu coração!»<span +class="pn">{20}</span><span class="pn">{21}</span></p> + +<h1><a name="SECTION0040">MAIS FORTE QUE O MAR</a></h1> + +<h2><a name="SECTION0041">I</a></h2> + +<p>Sonhei que o peregrino ao apartar-se dos lugares em que amara e fora amado +no benigno lar onde abrigara o corpo enfermo e o coração sequioso de carinho, +afectos e de graças, passou ondas do mar escuro e turvo, e ao passá-las deixou +nas vagas fundas um sulco ténue, vermelho, coruscante entre o negrume da +cerração ambiente.</p> + +<p>Longos anos, por séculos infindos, na esteira do peregrino o mar cavou suas +iradas vagas espumantes de espumas alvas, claras, diamantinas; e iluminaram-nas +pálidos luares; e a tempestade atroz escureceu-as; e pairaram sobre elas +sorridentes as primaveras brandas incitando toda a terra a renascer em +alegria.</p> + +<p>Em vão, em vão! Bafejo algum dos astros, ou propício trouxesse a exaltação +da vida triunfante, ou inclemente derramasse a dor, jamais pôde apagar esse +sulco vermelho sobre o mar que ali deixara<span class="pn">{22}</span> o +peregrino ferido. Mais forte que as ondas, a saudade traçou nas águas lúgubre +derrota. Em vão os poderes da terra as agitaram provocando-lhes a fúria +temerosa! Em vão as repousaram em cristalina calma suavíssima! Em vão ali +passaram combatendo seus raivosos combates os titãs! Em vão tentaram afundar na +voragem aquele sangue que do coração brotara por saudade!</p> + +<p>Em séculos infindos, para sempre, esse rasto de angústia ali ficou.</p> + +<h2><a name="SECTION0042">II</a></h2> + +<p>Senhor! Se misericórdia vos merece a fé de quem no amor espera a salvação e +lhe confia a vida miseranda, erguendo-a dos seus erros para a remir na +consagração ao ser que é a vossa própria essência, a essa etérea bondade +omnipotente que a Deus vos une e nele vos confunde, concedei-me, Senhor, aquela +bênção que ao peregrino ferido concedeste, permitindo-lhe a graça de traçar nas +ondas com o seu sangue a dor pungente, esvaindo-se em puríssima saudade. Onde +quer que o destino o dilacere, onde quer que, infeliz ou louco, se atormente, +que o meu coração desmaie por saudade, que por saudade verta todo o sangue, que +em saudade amortalhe os seus anseios!...</p> + +<p>Mais pura exaltação não conheceu! Mais próximo de ti jamais se sente!<span +class="pn">{23}</span></p> + +<h1><a name="SECTION0043">HUMILHAÇÃO</a></h1> + +<h2><a name="SECTION0044">I</a></h2> + +<p>Vi sair da prisão o criminoso e encaminhar-se ao lobrego covil onde deixara +a companheira e os filhos a estorcer-se de fome nos andrajos. Macilento, +esquálido, trémulo nos passos, espectro erguido duma sepultura, atravessa a +cidade entre inimigos. A aversão, o desprezo e o desamparo são o seu cortejo e +com horror o escoltam; tomando por pureza a inanidade, arrogantes se afastam a +tremer de macular o orgulho na miséria dum corpo pestilento de seus erros.</p> + +<p>Nem os filhos nem a companheira se atrevem a sair do seu tugúrio para beijar +o mísero e o proscrito que volta a consumir-se na desgraça, na treva da +embriaguez em que se afoita para a sinistra aventura dos seus crimes.</p> + +<p>De súbito, quebrou-se o trágico silencio. Um grito de alegria ecoa nas +choupanas. Saltando da morada um cão exulta em seu bradar duma ferina<span +class="pn">{24}</span> ânsia; e louco de carinho afaga o homem que outros +homens maldizem, como se esse não fosse o filho infeliz da mesma podridão que a +todos gera e por igual corrompe.</p> + +<p>Estranha aberração! Cruel estigma! Humilhação fatal dum ente eleito em que +Deus fez morada e se revela!... Coube a um cão parasita dos monturos a ternura +generosa, esse perdão que os homens atraiçoam negando a piedade ao criminoso, +não sabendo sorrir à sua face e tendo por dignidade a cobardia que os privou de +ver irmãos, os seus iguais, em quantos seres a criação produz, para que o nosso +coração todos confunda numa só luz de amor e de bondade.</p> + +<h2><a name="SECTION0045">II</a></h2> + +<p>Senhor! Porque me roubas, a mim a quem mandaste o teu Espírito para eu +sentir claramente o teu império, a quem tu deste um coração ardente para +abrigar-te e a voz para louvar teu nome e o repetir,—porque me roubas +aquele ingénuo anseio de indulgencia, esse perdão tecido de caricias com que +dotaste inconscientes servos, obreiros mudos da tua vontade?!... Porque, +Senhor, me privas desse bem de esquecer toda a injuria, todo o mal, e de cobrir +de afectos todo o crime e em carinhos dissipar sua lembrança?!...<span +class="pn">{25}</span></p> + +<p>Isenta-me, Senhor, desse tormento da consciência algoz que até perdoando +volta a julgar os homens e os condena! Pois que lhe deste entrada no meu peito, +salvai-a do martírio em que adorando-te te veja distinguindo nos homens bem e +mal em vez de os confundir no teu sagrado amor omnisciente.<span +class="pn">{26}</span><span class="pn">{27}</span></p> + +<h1><a name="SECTION0050">BÊNÇÃO DO POENTE</a></h1> + +<h2><a name="SECTION0051">I</a></h2> + +<p>Foi calmo o dia. A rosa húmida, que desabrochando saudou no descerrar do +seio a madrugada, prateou ao sol as cetinosas pétalas sem que a brisa lhe +ferisse a formosura; e o vento adormecido nos seus antros, vencido por estranha +letargia, inerte e mudo não blasfemou suas ímpias cóleras contra o ardor do +sol. Os milheirais tardios e o medronheiro, tão lento no crescer como moroso no +arrastado fabricar da sua doçura, sazonaram seus frutos generosos na paz dessa +propícia quietação. Ao redor do casal, ao cimo da encosta onde o horizonte é +largo e os céus são amplos, esvai-se na calmaria toda a forma, agora que o sol +perdido ao poente se escondeu para lá da cerração austera dos pinhais. Descoram +as urzes roxas na charneca, não mais lobrigo a ténue palidez da flor da estêva, +já não distingo no silvado o aderno: tudo o crepúsculo vem tingindo em +sombras.<span class="pn">{28}</span></p> + +<p>Ao longe, os montes altos da serrania e o manto das florestas nas quebradas +e os campos verdes à beira dos regatos e os pomares e os vinhedos e as aldeias +e a inquietação da água nas jornadas, eterna aventureira,—todos vão a +dissolver-se nessa neblina, duma inundante alvura caprichosa, caótica, erradia, +absorvente e mansa na avidez, como afagando o mundo e resumindo-o em um só +sonho incerto, indefinível.</p> + +<p>Olho, e nem um tremor diviso em todo o ambiente. Escuto, e nem um rumor +pressinto próximo ou distante. Por sua calmaria a atmosfera adormeceu a vida em +serenidade, e quantas divindades a interpretam e a regulam e a movem em seu +anseio, desde a arrogância da montanha austera até à pequenez da célula mais +ínfima, consagraram juntas numa paz divina a trégua religiosa de seus feitos, +talvez a consciência da inanidade final de todo o esforço, porventura uma +dúvida, uma céptica interrogação dos seus destinos, senão o antegozo da morte +experimentada em passageiro cessar das energias.</p> + +<p>Porque, não o sei nem jamais, pobre enfermo arrastado em vale de lágrimas, o +poderei saber; pois a fraqueza é o nosso eterno anátema, é irrevogável maldição +do orgulho. Mas na olímpica mansidão desse crepúsculo em que a vastidão da +terra adormeceu sorridente e benigna, alguém, ser de bondade, um alado eco +fugitivo, um murmúrio<span class="pn">{29}</span> de esperança, me segreda a +confiança e a fé, robusta crença na libertação final de toda a angústia, na +fatal paralisia dos tumultos da nossa alma e do mundo, tarde ou cedo remidos, +confundidos em amorosa quietação de penas, amortalhados em mortalha branca como +esta que eu vi crepuscular, vestindo em alva neblina a terra e os astros.</p> + +<h2><a name="SECTION0052">II</a></h2> + +<p>Então, comovido e grato, reconhecendo a esmola que me alegrava o coração, +quis dizer ao Senhor a minha prece, quis confessar-lhe a exaltação da minha +alma pela serena luz que ele acendia no meu peito turvado de combates. +Loucamente balbuciei palavras loucas, e todas se perdiam apagadas! Tão alto e +tão profundo o meu sentir, não souberam dizê-lo esses murmúrios frouxos e +mortais de lábios débeis que mortais nasceram.</p> + +<p>Cessou minha oração nesse momento. Pressenti sombras de orgulho, desvairado, +na tentação de ver e penetrar a omnipotência de harmonia e ordem que é a razão +de ser de quanto existe. E humildemente apenas repeti:</p> + +<p>—Senhor! Senhor! Senhor!...<span class="pn">{30}</span><span +class="pn">{31}</span></p> + +<h1><a name="SECTION0060">O SONO DO TRIGAL</a></h1> + +<h2><a name="SECTION0061">I</a></h2> + +<p>Crepúsculo de Maio! O céu baixo e sombrio, revolvendo nuvens pesadas, +violáceas, lentas, promete dentro em breve as chuvas tépidas, pelas quais a +verdura espera e anseia, na cobiça de crescer e renovar-se.</p> + +<p>As seivas abundantes, criadoras, na túrbida estação em que se elevam, a +modelar os lírios e os salgueiros, latejam silenciosas; não as tenta a cantar o +voo da brisa. Desde a cerração escura da floresta à humilde melancolia da +campina, as legiões das frechas dos pinhais, a coma faustosa dos carvalhos, o +arrelvado extenso em desafogo, livre de manchas das plantas altas, e o que se +alarga na espessura umbrosa, todos repousam quietos e calados, pressentindo a +visita salutar que dos céus lhes trará toda a opulência, a abençoar a terra de +humidade, alimento e riqueza das ervagens, onde despontam frutos e sementes, e +das vergônteas<span class="pn">{32}</span> frágeis, ainda tenras, em cuidados +de robustecer-se, para suportarem calmas estivais.</p> + +<p>E o trigal, como os irmãos, dorme também, se em temor ou na prece é o seu +segredo!</p> + +<p>Imóvel, na firmeza imperturbável dos fieis que crêem no Senhor e sem +lamentos todo o destino aceitam por ser justo, a toda a sorte querem +igualmente, em qualquer perfazendo obra de amor;—aquele que ao mais leve +passar do vento respondia, cedendo fácil ao bulício alado das ondas repetidas +sussurrantes, sempre agitado dum sonhar sem fim, em delírio incessante +rumoroso, recordando carinhos e promessas da abastança e fortuna que concede +aos casais bem providos do seu grão, esse mesmo trigal se sujeitou à extática +mudez de todo o ambiente.</p> + +<p>Já parece esquecido do inverno! Parece atraiçoar a aspiração de gerar em +leite doce o pão dos míseros que por caridade santa ele sustenta.</p> + +<h2><a name="SECTION0062">II</a></h2> + +<p>Não te iludas, porém, oh Sonhador! tu que procuras ler, na contingência de +impulsos vagos e caducas formas, a perene oferta do mover dos mundos à lei +suprema do supremo amor. Não te engane o torpor em que o trigal se abandonou +à<span class="pn">{33}</span> paz da atmosfera. Não cuides porque o vês assim +submisso que deixou de elaborar fartas sementes.</p> + +<p>De contínuo escutará vozes divinas, e há-de segui-las, destilando os sucos, +que pela raiz beber na aspereza fria. Das entranhas do chão tira e semeia, +constantemente, ou se mova ou pare, a rescendente esmola das doçuras com que +suaviza a fome a quem trabalha e descerra em sorrisos de alegria, flores +sanguíneas! os lábios das crianças.</p> + +<p>Também passaste um dia ao pé do leito em que a mãe aquecia o filho ao seio. +Não sentiste rumor que confessasse quanto afecto em silencio se derrama, +transfundindo a quentura do sangue em outro sangue. E entretanto, fervorosa e +muda, uma vida se consumia ali em outra vida.</p> + +<p>Assim vi o trigal quando dormia, tal qual como em vigília, consagrando à +paixão do seu ser inquebrantável aquele amor que é nosso alento e força.<span +class="pn">{34}</span><span class="pn">{35}</span></p> + +<h1><a name="SECTION0070">TERRA LACRIMOSA</a></h1> + +<h2><a name="SECTION0071">I</a></h2> + +<p>Conheci os cativos da vaidade, sorrindo, se por acaso conquistavam os +ouropéis e fama e o espanto de multidões atónitas, turvadas, ignorantes cegas +no caminho, que da desgraça nunca se libertam para banhar-se em luz de +eternidade. Na vertigem do orgulho e da soberba, julgando erguer-se por +entumecida inanidade, ao verem rastejantes a seus pés os aviltados míseros do +mundo, passaram sobranceiros, desdenhosos; e porque, desvanecidos, +contemplando-se, só da própria grandeza iam sonhando, sem baixarem seus olhos +aos humildes, desconheceram a alegria, beleza e formosura que os pequeninos têm +por seu quinhão.</p> + +<p>Conheci o avaro entesourando, na obsessão de transformar em ouro a opressão, +a fome e o martírio de quantos por astúcia ou pela força subjugasse. As +riquezas cresciam, construindo a fortaleza em que, confiado e firme, seria +poderoso<span class="pn">{36}</span> e invencível; e entretanto o seu corpo +definhava nas penas da velhice, desditoso, como se a ordem cósmica dos astros +castigasse, escarnecendo, as ambições.</p> + +<p>Insaciados de domínio efémero, porque, efémero, mal se criou e logo se +arruína, avaros, orgulhosos e soberbos morreram entre pompas clamorosas, +envolto o seu cadáver corrompido nas vestes recamadas que o cobriam, quando +ainda o sangue nele palpitava e cria deslumbrar túrbidas gentes, ocultando em +bordados fulgurantes a carne de contínuo apodrecida no decair fatal do seu +destino. E a terra de infinita misericórdia deixou cerrar na campa esse +cadáver, sem que de luto se vestisse um ramo, sem que uma folha desmaiasse +murcha, em lembrança ou saudade do amigo que a alentava e, estremecido, dela +recebia recompensa de fadigas carinhosas.</p> + +<p>Na morte desses loucos condenados ao pó estéril de estéreis sepulturas, +entre a dureza fria dos bronzes e a rigidez do mármore impenetrável, as +palavras dos homens lamentavam a ruína da grandeza mentirosa, tão cedo ali +desfeita e aniquilada. Mas de tais lágrimas não partilha a terra. Indiferente +ao rumor do falso pranto, não cessou de brilhar e de cantar. Nem um só veio de +água emudeceu, perdido o murmurar da sua lida! Nem uma só flor do prado se +estiolou à míngua de cuidado e de sustento! Nem um só átomo de fecundidade<span +class="pn">{37}</span> se atrofiou em toda a criação! Aos cativos da vaidade e +da avareza, perdoou-lhes a terra piedosa; mas não soube chorar quem, +transviado, ingratamente a desamou, traindo amor materno, o leite gerador.</p> + +<h2><a name="SECTION0072">II</a></h2> + +<p>E conheci também o cavador, que para morada e leito de repouso, não +encontrando um tecto hospitaleiro nos vilares, foi levantar a mísera cabana, de +colmos de centeio e frágeis varas, no pousio comum inculto e virgem, despido, +tosquiado de contínuo por ovelhas bravias, únicos gados que a gente pobre ali +ia soltar, aproveitando esse pascigo escasso.</p> + +<p>Rasgou a leiva dura, empedernida; lançou no pó sequioso a semente leve e +todo o manancial de vida que ela encerra; e fez brotar a água das prisões em +que a guardava o peso dos rochedos. A cavar, a regar e a semear, banhando +sempre a terra com o suor do rosto, despertando-lhe a férvida energia com os +arrancos heróicos do seu braço e o pulsar gigantesco do seu peito, o cavador +criou verde abundância onde fora a infecunda e negra gândara, e tirou o pão e +os frutos do chão áspero onde nem os silvados já medravam.<span +class="pn">{38}</span></p> + +<p>Foram passados anos nessa faina. Ao fim, surgiu ali a mancha branca duma +casita estreita, ávida de sol. A cabana alargou-se. Transformada, anunciou nos +fumos da lareira o agasalho, o sustento e o tépido conforto dum benigno casal, +servido e amado pela esposa do servo da gleba; e o embalar do berço acompanhou +com o rumor alado duma esperança essa vitoria que em torno se espraiava, +dilatando-se na infatigável ânsia de remir pela seara farta e latejante os +longuíssimos tempos de indigência, a que a ingratidão humana, criminosa, +abandonara aquelas pequenas geiras devastadas. Mais tarde, em horas negras, +tenebrosas, as ambições e a guerra assoladoras vieram separar o cavador dos +filhos que criou para companheiros, e um sinistro poder arremessara para longe, +labutando dispersados. Escravos uns do rei e seus ministros, por seu mandado e +força coagidos a ensanguentar o mundo, combatendo pelo ódio apaixonado e +latrocínios em malditas pelejas mentirosas, que na suprema infâmia ousam sem +pejo invocar o amor da pátria e atraiçoá-lo, foram-se a derramar a morte sobre +os campos, que o Senhor nos ofereceu para a vida, e a prostrar atrozmente o +nosso irmão, ao qual por lei divina só devemos afecto, protecção e piedade, o +auxílio compassivo na desgraça e o sorrir de simpatia, quando a ventura ao +passar o bafeja generosa. Outros, não mais felizes, seduzidos pela visão da +cidade e seu engano, enfermos<span class="pn">{39}</span> das demências do +tumulto, perderam-se entre os fumos da oficina, pela própria vontade +escravizados dos lúgubres dragões que guardam o ouro e de contínuo o movem e +entesouram, fundindo num só cadinho incandescente a fome e o ferro, minério +bruto e corações humanos, lubrificando maquinas com lágrimas e fundando o +palácio em sepulturas, pondo a brilhar em pedras preciosas, por alquimia da sua +crueldade, as ossadas dos que apodreceram, transitando da pobreza à vala comum, +sem algum dia terem experimentado a alegria, a abastança ou o desafogo.</p> + +<p>Assim desamparado, entre ruínas do seu próprio sonho dissipado nas vagas da +agonia como uma aparição de luz que apenas rompe e subitamente se esvai na +tempestade, o cavador ficou-se a envelhecer, no silencio da gândara, amando +todavia o seu casal e querendo sempre à terra, com a fé que à terra o +consagrara submisso, quando pela primeira vez a fecundou e renovou no repetir +das estações a verdura e o pão e a sombra e o refrigério, sem lamento ou +desânimo, curvado a trabalhar, desde o romper da aurora ao cair da noite.</p> + +<h2><a name="SECTION0073">III</a></h2> + +<p>A terra que ele amou, amou-o também!...</p> + +<p>Quando morreu, calaram-se no ermo os seixos que cantavam, rolando +alegremente pela enxada;<span class="pn">{40}</span> murchou endurecido o prado +à míngua do sustento que alimentava as ávidas raízes, entumecida a erva +verdejante, quando, pelas madrugadas calmas do Estio, o cavador se erguia a +socorrê-las, atento, diligente, cortando breve o sono, para que por sua culpa +não sofressem as miríades de seres sob sua guarda, mudos para os demais mas +eloquentes para quem lhes conhecia a aspiração. Não mais ao despontar da aurora +respondeu o jorro da água límpida tirada entre o mover estrídulo das rodas pelo +jugo robusto que a elevava da frescura dos poços obscuros à claridade rútila +dos céus.</p> + +<p>Foram essas as lágrimas que a terra, lacrimosa e viúva, chorou pelo criador +humilde do seu viço,—aquela mesma terra desdenhosa que, indiferente, +sepulta os orgulhosos, degenerados do seu culto e crença.<span +class="pn">{41}</span></p> + +<h1><a name="SECTION0080">CULTO DE QUIMERAS</a></h1> + +<h2><a name="SECTION0081">I</a></h2> + +<p>Onde começam áridos incultos, que os gados, sem cessar, têm +devastado,—quase ao cimo da encosta—, voltei-me a olhar o vale e os +montes que o formavam, as aldeias perdidas nas ramagens, e os campanários que +as protegiam. Não sei se fatigado, se encantado, por necessidade instante de +repouso, cedendo a quebranto estranho, parei; e ao prazer de esforçado caminhar +preferi essa delícia calma de contemplar.</p> + +<p>E, quando atentei bem no turbilhão de seres que ao redor e a meus pés +pulsavam o seu pulsar olímpico, indomável, infinito, eterno, achei-me enleado e +preso em multidões de divindades, todas poderosas, que dos céus de claríssima +gloria, e das profundezas infernais do orbe, e do frescor das sombras da +floresta corriam a arrebatar-me no tropel em que cada qual se agita e é seu +delírio.</p> + +<p>Então, na turbação confusa de um neófito, converteu-se-me<span +class="pn">{42}</span> a caverna em santuário, e, no lugar consagrado pelo raio +ou sobre a pedra que caiu dos astros, ouvi oráculos, e o sacerdote orava. Um +deus protegia os lares e sua fortuna; outro firmava os marcos que repartem os +campos entre o povo dos vilares; e os mortos e os heróis erguiam-se das cinzas +a ditar seu conselho e a impor os seus mandados, prolongando, em uma vida só, +vidas diversas. Na forma nobre como na mesquinha, em todas se ocultava uma +vontade, consciente e grande, e inflexível. Apolo e Juno, Hércules e Ceres, +Afrodite e Plutão, e Pã, deus dos pastores, e as Amadriades que viviam nos rios +e nas árvores, todos tinham na terra seu quinhão, onde reinavam livres; e +todos, nessa hora de visões, por mim passaram, severos ou folgando, rindo ou +chorando, tristes e majestosos uns, outros alados, dizendo seus mistérios e +incitando-me a que, adorando-os, eu lhes tributasse o incenso devido ao seu +poder.</p> + +<p>Guerreiros incansáveis, triunfantes, povoaram os espaços de deidades e o +coração de graças e favores. Negaram a solidão em todo o universo, confiado ao +império sempiterno de demónios e anjos que encarnavam na poeira, no vento, na +folha e na neblina, em rochedos e águas e no murmúrio da asa mais leve do menor +insecto, sorrindo, consolando e castigando, soltando com igual prodigalidade +afagos e ameaças, esperanças e terrores, a indulgencia, a ira e o escárnio, a +abundância e a<span class="pn">{43}</span> fome, o mal e o bem, toda a infinda +vibração das nossas almas.</p> + +<p>Que mundo radiante de aparições, capricho e formosura, não tentou derruir, +aquele ímpio sectário do saber que pensando, e dissecando, e inquirindo +friamente, quis dissipar, num ímpeto de orgulho, esses entes celestes, +benfazejos, que andavam entre os homens e lhes vertiam no sangue fraco e impuro +a firmeza, a coragem, a gratidão, salutares alegrias e a serenidade, a +exaltação suprema, a mais sublime, a consagração plena dos mortais em altares +de religiosa poesia e de um dever mais forte do que a mísera carne +transitória!</p> + +<p>Que demência julgou virtude haver privado de magnânimo amparo de seus +religiosos filhos a imaginação fecunda e inquieta que jamais sofrerá os +cativeiros da razão, altiva e austera, sem piedade?!...</p> + +<p>Ah! não morreram! Esses filtros da nossa fantasia todos vivem ainda e nos +seguem, ocultamente, semeando de rosas os caminhos que os fados nos +traçaram.</p> + +<h2><a name="SECTION0082">II</a></h2> + +<p>No silêncio dessa tarde em que comovidamente os invoquei, ouvi-os; e a sua +voz, de mansidão dulcíssima, trouxe-me ao corpo como um refrigério, sacudindo a +letífera inércia e o torpor em que<span class="pn">{44}</span> a venenosa sede +de saber desvaira e mata, inquirindo sem amor, só por orgulho—senão, pior +ainda!, por cobiça—, da aspiração ingénua dos fraguedos, das fontes e das +ervas, das nuvens e dos sóis, da natureza inteira no seu frémito.</p> + +<p>Pedi-te então, Senhor, que me concedas a quimera, a ilusão, esse cismar que +a qualquer forma deu energia e vontade igual à nossa. Pedi-te então que ampares +os meus passos dos companheiros bons que uma ciência vã afugentou.</p> + +<p>Não me abandoneis, Senhor, nesse deserto em que espíritos cruéis nos +atormentam roubando aos nossos olhos a beleza! Dá-me, Senhor, os sonhos +criadores! Possa eu ver as ninfas das nascentes, os faunos das florestas, e os +tritões lançando à praia as ondas arrojadas. Se da vida me tiras as quimeras, +irisada espuma capitosa da taça que gota a gota vou bebendo,—que lhe +encontrarei no fundo senão o sal de abrasada e mortífera amargura?!<span +class="pn">{45}</span></p> + +<h1><a name="SECTION0090">ANSEIO DA MANHÃ</a></h1> + +<h2><a name="SECTION0091">I</a></h2> + +<p>Sobre as negras montanhas do horizonte, indolente rebanho fabuloso, de +peregrinas formas em desordem, de prodígios, quimeras e abantesmas, domados uns +em dócil mansidão, outros soltando fúrias e ameaças; sobre essa multidão +tumultuosa que pela manhã tardia do outono alongara o dormir a custo +afugentado;—crescia o rubor da aurora iluminando-a, sem que no céu, pouco +a pouco embranquecido, uma só nuvem lhe lançasse um véu, embargando o pregão da +claridade.</p> + +<p>Apenas no poente, sobre o mar, ocultando o limite das suas águas, vagueavam +em sonhos, arrastadas, nesse perpétuo e incerto devaneio, que é seu destino e +glória, as comas violáceas das neblinas. Mas, humildes, deixavam conquistar-se +pelos fachos da luz que além rompia.</p> + +<p>Era a hora consagrada a esse culto, que ao Senhor os homens prestam no +trabalho, reconhecendo<span class="pn">{46}</span> toda a sua fraqueza e +sujeição. No bronze solene que difunde os mandados austeros da oração, +segredando-a, igual e única, aos indigentes míseros e aos ricos, a sãos e +enfermos, à fera e à borboleta, aos orvalhos e rios, ao vale e à encosta, ao +mais timorato musgo e ao maior roble, à pulverizada argila solta ao vento e à +firmeza invencível dos penhascos, sem escolher nem distinguir no seu vibrar, em +mística insinuação de súplica indeclinável; no caminhar heróico desses servos +que, enxada ao ombro, deixam seu lar e vão servir a terra nossa mãe, banhando-a +com o suor do rosto, unção sagrada, para que a sua bênção nos proteja e ampare; +no palpitar do jugo aureolado pela própria exalação do espesso hálito +condensando-se em frescores de Novembro, que a leiva bebe enquanto o ferro a +rasga para os trigais:—em todo o ambiente cantava uma só voz religiosa, +como nenhuma outra tão pura e casta e tão fecunda e pródiga, jamais poderá +ouvir-se nos apertados templos mesquinhos que somente por ilusões de orgulho +foram grandes perante o louco imaginar dos seus obreiros.</p> + +<p>E o sol rubro da aurora ia-se erguendo, pausado e lento, seguro da sua força +e omnipotência, sorrindo ao esforço humano e afagando-o, latejante de brilhos +sanguíneos, porventura misteriosamente repassados do mesmo filtro que repassa o +coração e o inunda de amor quando o anima.<span class="pn">{47}</span></p> + +<p>Mas, de súbito, a luz esmoreceu no seu triunfo. Apressadas, correram-lhe ao +encontro as névoas que dormiam sobre o mar. Cercam-na, ocultam-na, e, mal a têm +vencida, logo a soltam e fogem dispersadas, por momentos vestidas de ouropéis +que imediatamente deixam, por preferirem a doçura do manto lutuoso que em sorte +coube à sua condição. Sem tardar, ei-las que voltam, prosseguindo na indecisa +jornada flutuante; e—suave castigo dum orgulho ingénuo, bem de perto +seguido de indulgência ou talvez de remorso ou contrição! as névoas renovavam +seus combates, turvando a cada instante a opalina transparência da manhã.</p> + +<p>Ao fim, o sol venceu. Quando ia alto, a luz avassalara o espaço inteiro, +isenta de todo o anseio e hesitação. E assim soberana se manteve sempre, até +que o véu da noite a submergiu na limpidez das ondas diamantinas, depois de +haver semeado sobre a terra a alegria e o pão, suprema esmola.</p> + +<h2><a name="SECTION0092">II</a></h2> + +<p>Senhor! Fazei que a minha vida seja espelho do anseio divino da manhã, tal +qual o vi nesse romper da aurora! Possa eu dissipar sombras funestas que me +escureçam o céu fundo e claro, onde a alma se expande e voa, resgatada, a +eternos<span class="pn">{48}</span> reinos de bem-aventurança! Que a ténue +irradiação do meu sonhar fortalecesse os homens no trabalho e lhes abrandasse +as dores e as fadigas, assim como o calor do dia os aviventa! E que ao fim em +mortalha de pureza eu dormisse também, à semelhança de luz perdida em águas +cristalinas!<span class="pn">{49}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00100">A ASA DO REMORSO</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00101">I</a></h2> + +<p>Em êxtase de luz rompe a manhã. Seus clarins sonoros de alvorada despertam o +povoado, a serra e as águas. Dos salgueirais curvados sobre o rio erguem-se +mansas neblinas, castas, sacrificando ao sol toda a pureza. Os píncaros severos +da montanha desprendem da escuridão da noite a fortaleza. E na oficina e nos +lares acordam fumos de carinhos e penas e trabalho.</p> + +<p>E acordando também desse torpor em que, cansada, dorme a consciência exausta +de torturas e de dúvidas, pensei, mísero e fraco, nas fadigas a que a luz da +manhã me convidava. Por tenebrosa perversão da alma senti-me o escravo do ardor +mundano, das cobiças, dos ódios, das vaidades, da cegueira que me oculta um +irmão em cada homem e que me arroja a disputar-lhe o pão e que me afoita a +exprobrar-lhe os erros, a mim que ouvi no peito voz divina de amor, de caridade +e de perdão<span class="pn">{50}</span> e que ouvindo-a a deixei esmorecer, de +culpa em culpa, traindo-lhe os mandados.</p> + +<p>Enquanto à maldição desses infernos descia meu turvado pensamento, cantou a +toutinegra na oliveira e ergueu seu doce canto à madrugada. Comungava na taça +da alegria que na luz o Senhor oferece à terra. Isenta das cobiças e dos ódios, +sem conhecer espinhos da ambição, confiando na suprema misericórdia que lhe +alimente o sangue e o ninho e lhe module o inspirado enlevo dos seus hinos e a +cada mágoa traga seu consolo, imaculada voz dum peito inocente, turíbulo +sagrado, a toutinegra depunha no altar de Deus a sua oferenda, antes de partir +em busca de sustento.</p> + +<p>Então uma asa negra de remorso me fustigou o orgulho; e tremendo da própria +impiedade, compungido de dor, eu perguntei que destino fatal e tão cruel me +induzia em perjúrio à minha fé, sufocando em meus lábios, cerrados para o +louvor da madrugada, essas canções benditas que a ave cantava e eram uma +oração, que eu esquecera e eram redenção.</p> + +<h2><a name="SECTION00102">II</a></h2> + +<p>Minha mãe que do seu sangue me gerou, deu-me com o leite haustos de amor por +ti, Senhor. Enquanto me criava o corpo e a forma, toda esta<span +class="pn">{51}</span> ilusão da vida efémera, em seu último termo inexorável +predestinada à consumpção dos vermes, ardentemente me ensinou a ver-te, +ensinou-me a invocar-te, e em teu puro espírito renascer, liberto de corrupção, +para a vida eterna. Ensinou-me a adorar-te em teu poder, a implorar humilde a +tua graça, e prostrado sofrer tua vontade, contente por servir-te e em ti +buscando a suprema alegria. E queria em sua fé, que dela recebi e é também +minha, queria que ao despertar da minha consciência após suas horas de repouso +e inércia, fosse teu nome o primeiro proferido por meus lábios; que para me +sentir erguido à tua presença esquecesse eu o mundo e o seu tumulto e assim +purificado, assim armado desse escudo inviolável, fortalecido contra todas as +tentações de desvario, atravessasse a via dolorosa e de toda a fraqueza me +isentasse.</p> + +<p>Nessa manhã clara, entenebrecida em um momento fugaz e aflitivo pelo +perpassar da asa do remorso, pequei, Senhor, porque transviado, perdido o meu +espírito no tropel das cobiças orgulhosas, assaltou-me a miséria o pensamento e +outro nome proferi que não o teu, antes que a ave me lembrasse a culpa cantando +os teus louvores e a tua grandeza.</p> + +<p>Perdoa-me, Senhor, se então traí essa fé que é o melhor dos meus tesoiros e +me incendeia o peito em teu amor! Amparem-me as tuas aves,<span +class="pn">{52}</span> teus arautos, mensageiros fieis da tua glória! Em cada +aurora que os meus olhos vejam despontar nos céus, fazei, Senhor, que a +toutinegra volte e me venha ensinar a repetir essas divinas orações de infância +que à minha mãe ouvi no seu regaço!<span class="pn">{53}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00110">SERVAS DA LUZ</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00111">I</a></h2> + +<p>Logo após a cerração da noite, voltam-se para o oriente aquelas flores, +servas da luz, cujo rosto olha o sol constantemente e por condição estranha o +segue sempre no resplendente percurso da sua órbita. Ainda a escuridão é densa +e vem distante o mais tímido alvor da madrugada, mal o poente se toldou de +sombras, começam essas flores a volver sua face para os lugares onde o sol +há-de romper. Por um segredo seu que nos perturba, subtil inspiração as ensinou +a serem fieis à luz tão firmemente que nem a treva nem a tempestade nem a +alvura do luar e a imensidade de astros brilhantes povoando o espaço puderam +transviá-las e perdê-las naquela adoração do sol que é sua crença. Enquanto o +sol se afasta divagando por ignotos mares, aprestam-se a servi-lo. O seu +primeiro alento, o raiar da aurora, há-de aquecer-lhes o seio ávido de receber +seus fogos.<span class="pn">{54}</span></p> + +<h2><a name="SECTION00112">II</a></h2> + +<p>Porque, Senhor, assim inspiraste mudas flores, singelas e felizes, e deixas +que os homens vão de treva em treva, rasgando o coração até à morte, ignorando +donde a luz se ergue—aqueles mesmos homens aos quais deste a consciência +do amor da luz?!...</p> + +<p>Nas trevas da ruindade que escurecem a alegria e o riso e a bondade, divina +aspiração da luz da nossa alma, possa eu, Senhor, como a flor em tua graça, +pressentir constantemente a tua presença e só para a tua luz voltar a minha +face, mortificada, ensanguentada, enferma dos tormentos fatais da +escuridão!<span class="pn">{55}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00120">TROFÉUS DO ESTIO</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00121">I</a></h2> + +<p>Como gotas candentes destiladas de cristalinas urnas de safira que vertessem +sobre a terra o azul dos céus para converter em luz a inércia e a treva, o +Estio derrama sobre os campos queimaduras adustas dos seus fogos +incendiando-lhes a fecundidade.</p> + +<p>Mirrou-se a leiva. A fonte emudeceu. Endureceu-se o pâmpano na vide. O viço +converteu-se em austeridade, denegrindo a espessura da floresta. Murcharam os +prados e ali, onde exalaram suave embriaguez do seu frescor, levanta agora o +vento nuvens ásperas de calcinado pó da terra nua. Rolam no chão as palhas +trituradas como restos de vidas insepultas.</p> + +<p>São troféus do Estio em sua glória. São os despojos que arrasta na vitória, +na ufania cruel do seu triunfo. São mistérios duma maternidade santa e +dolorosa.<span class="pn">{56}</span></p> + +<p>Para fecundar a terra e nos deixar o seu sagrado leite, o nosso pão, para +lhe enriquecer os filhos de sustento, de calor, de abrigo e de doçura, para +madurar os pomos e as searas e para criar o lenho que nos salve dos golpes +traiçoeiros do inverno, abrasou o Estio em seus ardores aquela mesma terra que +por amor beijou, vestindo-a de opulência, ao despertar-lhe sua paixão constante +de abundância, o seu fascinante arfar de formosura e a pródiga caridade do seu +seio.</p> + +<h2><a name="SECTION00122">II</a></h2> + +<p>Abrase-me, Senhor, o teu ardor! Que se me converta em pó o mísero invólucro +deste ser que nasceu para servir-te, e desfeito em teus férvidos alentos crie +uma gota desse imenso amor que é o teu eterno cálice de vida!—Tal qual o +Estio abrasa e queima a terra para transmudar em pão a rocha árida e fria, +incendeia de amor meu coração para em tua fé remir os infiéis!<span +class="pn">{57}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00130">LOUCOS DE HUMILDADE</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00131">I</a></h2> + +<p>Á beira do paul, onde ele se estreita e recebe do vale o seu ribeiro, sobre +a arcada da ponte que o transpõe, unindo e prolongando caminhos ensombrados das +suas margens, quedei-me a ouvir o marulhar das águas, batidas pelas lufadas de +Dezembro e, sombrias, reflectindo o céu sombrio.</p> + +<p>Vindo do mar o rouco sudoeste, gerado na violência das tormentas, turvava a +atmosfera escurecendo-a. Baniu do céu o azul, de todo oculto sob bandos de +nuvens violáceas, fugidias, mudáveis como fumos, almas errantes, cinzas +dispersas de apagados lares.</p> + +<p>Crescidas pelo despenhar das águas da montanha que verteram nos rios as suas +neves, as lagunas cavavam funda a vaga, nessa agonia que a inquieta e é seu +destino. E incessantemente a repetiam—assim como no coração volta a +saudade, sem fim, a repetir-se e sem desanimo, renovando<span +class="pn">{58}</span> dorida a aspiração que uma estrela sinistra lhe converte +no repetir da mágoa, no infortúnio de se sentir privado dos seus bens.</p> + +<p>Inconsistentes algas sonhadoras, dos sonhos dessas ninfas que as protegem e +gentilmente as levam no toucado, frouxamente flutuavam enleadas nas hastes de +robustos nenúfares, em cuja espessura habitam mais isentas da mortal violência +das correntes.</p> + +<p>Também elas, imagem da nossa alma, naquela tão minguada vida que as anima, +chorariam ilusões de liberdade e em desengano igual aos que sofremos, pensando +haver nascido para expandir-se e seguirem erradias seus caprichos na luz de +mansas águas transparentes, também elas sentiriam afinal um cativeiro na dureza +das hastes que as amparam e enquanto lhes são arrimo as sujeitaram à própria +imobilidade e à própria sorte?!...</p> + +<p>Além, vai inundado o salgueiral. Parece naufragado, entregue às ondas, +arrancado da terra em que medrou. Até despido e nu, de todo despojado da graça +que no Estio lhe agitava sua abundante coma viridente, paira sobre ele um +sonho, um palpitar de afago e de brandura. Ainda no mais áspero rigor, sob o +queimar das neves, nos seus cinéreos gomos veludosos e nos ramos banhados em +alvuras vagueia uma carícia que consola, uma tímida promessa de doçura, alentos +da primavera que suspeita e de cujas primícias de alegria será para nós o +portador bem-vindo.<span class="pn">{59}</span></p> + +<p>Para que na terra sempre permaneça uma esperança, um refúgio de toda a ira e +toda a tempestade, a redenção de todo o desalento e toda a treva, sorri na +encosta o prado. Serenamente, ignora a tormenta e os seus combates. Rebelde ao +vento, unido ao chão e a salvo do transbordar das águas mais subido, repousa os +nossos olhos, já fatigados desse tropel de lutas de extermínio, essa mancha de +deleitosa cor e de brandura. Tranquila, em sua mansidão firme e piedosa, +afronta e vence a túrbida violência em que astros funestos dilaceram, +fúnebremente, a terra desolada.</p> + +<h2><a name="SECTION00132">II</a></h2> + +<p>Em andrajos, curvada, carregando o parco e mesquinho feixe de caruma, vem +recolhendo ao lar da sua choupana, uma pobre velhinha. No rosto emaciado estão +marcadas por fundas rugas, restos de agonias, as canseiras, velhice e +privações. Nem uma só faúlha já lhe resta do fogo que algum dia entumeceu as +veias duma face enamorada de ventura e prazer, e em ventura enlevando os que a +buscavam. Aqueles sadios braços que acudiam a recolher o pão no sol do eirado, +são mal definidas sombras esqueléticas de formosuras que passaram breves. E os +olhos que brilharam amorosos, em zelos inflamando e fascinando os turbulentos +moços<span class="pn">{60}</span> do arraial, esmoreceram todo o seu calor, +amortecidos em descorados véus, quase sem luz.</p> + +<p>Mansamente, quando eu cismava no turbilhão de vidas tão diversas que ali +contemplava, no mistério sem fim dos seus combates para expandirem na luz os +seus anseios, a velhinha, arrastando seus passos no caminho em que resignada +arrasta a sua pobreza, saudou-me e disse, interrompendo o sonho e outros sonhos +trazendo em sua voz:</p> + +<p>—«Boa tarde, meu senhor, salve-o Deus!»</p> + +<h2><a name="SECTION00133">III</a></h2> + +<p>Delira de humildade esta velhinha que em seu santo delírio desvairada, +aureolada de fulgores angélicos, me dá teu nome, Senhor, só porque a sorte cega +em seu capricho me envaideceu com os falsos bens do mundo, enquanto a +enriquecia de pobreza e me induzia, a mim, a ser soberbo, e a me esquecer de ti +no meu orgulho? Foi por isso, por ser a mais humilde, por ser abençoada desse +delírio santo de humildade que a enlouquece, mostrando-lhe os seus senhores nos +desgarrados da tua larga senda de bondade, perdidos nos infernos das cobiças, +foi por isso, Senhor, que a escolheste para a enviar dizer-me que além desse +outro mundo que ali contemplava em confusão de esperanças, formosuras e +terrores, mortal, incerto, atormentado<span class="pn">{61}</span> e turvo, +além desse outro mundo um outro existe onde Deus tem seu reino e onde nos +salva?!...</p> + +<p>Possa eu sempre ouvir a sua voz! Resgate-me essa fé, essa humildade que no +mais pervertido vê um senhor e o saúda e o serve obediente, e suplicante, por +ele erguendo aos céus a sua súplica, fraternamente para ele implora a graça de +salvação em Deus!...<span class="pn">{62}</span><span class="pn">{63}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00140">ORAÇÃO DOS LARES</a></h1> + +<blockquote> + <em>Et jam summa procul villarum culmina fumant,</em> <br> + <em>Majores-que cadunt altis de montibus umbrae.</em> </blockquote> + +<h2><a name="SECTION00141">I</a></h2> + +<p>«Começam a fumegar ao longe os tectos dos vilares e lá dos montes altos vem +crescendo as sombras que se alastram sobre a terra». Tingiu-se de ametistas o +poente. O campo adormeceu. Calaram-se as enxadas na deveza. Entre rumores dos +gados que recolhem, caminha para a morada o cavador. Erguem-se aos céus os +fumos dos casais e, desprendidos da pureza do fogo em que se geram, em +vespertinos cantos abençoam o repouso da noite a aproximar-se.</p> + +<p>São sacramento que une os lares da vida humana à luz infinita. São oração, +anelo, um palpitar, um voo, anseio de brandura transportando ao espaço sem fim +aspirações que os nossos corações mal balbuciam, que palavras algumas +traduziram. Confundem seu mistério de beleza, um tímido mistério que se abriga +sob a pobre nudeza<span class="pn">{64}</span> das choupanas, em um outro +mistério ainda mais alto que tem por templo a abobada celeste, por voz a voz de +Deus e por fieis miríades de seres que se dispersam na vastidão do cosmos +insondável.</p> + +<h2><a name="SECTION00142">II</a></h2> + +<p>Assim seja, Senhor, minha oração! Tão alto ela se erga e tão suave se eleve +em vosso amor e o sinta e adore, como o fumo dos casais quando anoitece levando +aos céus as orações dos lares.<span class="pn">{65}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00150">CANTARES DAS SEBES</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00151">I</a></h2> + +<p>Ao longo do caminho da jornada na qual, dorido, vou calcando a terra, ouvi o +cantar das sebes nas vigílias em que constantemente nos defendem e nos guardam +os pomos, as searas e os lírios, todo o bendito pão que nos anima de vigor o +sangue e nos enleva em alegria a alma.</p> + +<p>Valos fundos em volta do pinhal, tosco acervo de pedras que circunda o campo +onde o trigal vem a brotar, viridentes cômoros abrigando os ninhos sob +grinaldas de rosais floridos, ramos espinhosos protegendo o alfobre para que as +sementes desabrochem e vinguem, os silvados que escondem os vinhedos,—se +uma vida despontando teme a avidez ingénua dos rebanhos e de aves diligentes em +buscar sustento tenro para mimosos filhos; ou se a cegueira humana pervertida +pode quebrar a árvore que nasce ou desrespeitar ruimmente o suor alheio, +ergue-se a sebe e entoa os seus mandados,<span class="pn">{66}</span> e cobre +de fortalezas todo o chão traçando os seus limites à cobiça, à imprevidência, à +malvadez e ao próprio dano da inocência instigada por amor—como um gládio +de justiça austera repartindo toda a terra entre os seus filhos. Ora severa e +rude na mudez, ora coroada de verdura errante, murmurando o agreste murmúrio +desprendido pelo beijar de brisas fugidias, pacientemente a sebe nos protege a +selva, o prado, o pão e as açucenas, quanto pode amparar os nossos braços e +encantar nossos olhos em beleza.</p> + +<h2><a name="SECTION00152">II</a></h2> + +<p>Se para nos guardar na terra a formosura e alimentar nas veias o calor +elegeste na sebe um missionário, servidor desvelado da tua graça, se nem esses +teus bens mais preciosos viveram sem o abrigo e a caridade dos companheiros que +lhes destinaste, como poderei eu, Senhor, criar no peito, neste peito gerado da +fraqueza, o amor fecundo em que ele se arrebate, florindo em bondade e +mansidão, se em tua misericórdia não mandares anjos bons que me guardem e dos +teus inimigos me defendam?!...</p> + +<p>Sinta eu sempre a meu lado, protegendo-me, o doce abrigo de filhos teus, +Senhor, daqueles teus eleitos e inspirados que na tua bondade e em teu<span +class="pn">{67}</span> amor souberam redimir-se! Que por sua voz e sua +fortaleza arranquem meu coração ao sinistro abutre da descrença, do ódio e da +avareza a que lugubremente se entregaram os que em solitário orgulho te +ignoram!<span class="pn">{68}</span><span class="pn">{69}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00160">COMPANHEIRO E GUARDA</a></h1> + +<p>Do vale aos cerros onde me encontrei, vai minguando a vida. Lentamente, a +solidão alarga o seu domínio até que ao cimo, pela planura extensa que remata o +encastelar de montes sobre montes, de todo impera na aridez ingrata que despiu +de verdura a terra rasa e a adormeceu, estéril, semi-morta de avareza e +silêncio.</p> + +<p>No deserto severo a que subi, apagou-se distante e emudeceu quanto na veiga +fértil me fascina, esse fremente rebrilhar de vidas irrompendo da terra +alegremente que por seus anseios vinham demandando seu lugar e glória à luz do +sol—a carícia agitada das ramagens, mugidos da manada no pascigo, o +argentino rebater da forja, a espessura ondeante das searas, a viveza das rosas +nos jardins, a murmurante faina dos casais, toda a abundância, toda a flor e +toda a lida que no vale se expandiram opulentas, na abrigada largueza dos seus +campos e nos bastos vilares que ela alimenta.<span class="pn">{70}</span></p> + +<p>Eis que, porém, no árido silêncio dessa terra sem viço, devastada, se ergueu +um casebre humilde, o mais humilde, e dali se elevou um ténue fumo! E logo se +povoou e foi amena a solidão austera desse chão que o desamor dos homens e dos +astros asperamente votara ao abandono. Foi como se uma afeição dali emanasse e +banisse, amorável, por encanto, todo o ermo da gândara desolada.</p> + +<p>É a morada singela dum pastor. Recolhe agora ao aprisco o seu rebanho, o seu +pobre rebanho, filho e imagem da pobreza da urze endurecida na terra recalcada +dos invernos que nunca conheceu o arado e o jugo. E protegidas do rigor da +noite as ovelhas, seu único tesoiro, por sua vez procura acautelar-se da aragem +fria que lhe tolhe os membros, acendendo a fogueira mal nutrida das escassas +giestas que juntou.</p> + +<p>Outro alento de vida não pressinto em redor do bravio solitário. Mas só por +magia desse ténue fumo, companheiro e conforto do pastor no ríspido exílio em +que perfaz sua missão de amor servindo a terra, senti que até ali mesmo me +guardava das sombrias visões do desamparo não sei que voz estranha e +poderosa.</p> + +<p>E pedi ao Senhor que recebesse em sua bondade eterna e eterna glória este +infinito anseio da minha alma que sem cessar o vê e ao seu amor, na opulência +da terra e na aridez, na maior chama como em débil fumo.<span +class="pn">{71}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00170">REINO INFINITO</a></h1> + +<blockquote> + <em>Dico vobis quod quemcumque locum calcaverit pes vester, vester erit.</em> +</blockquote> + +<blockquote> + (<small>SACRUM COMMERCIUM</small>, cap. <small>III</small>) </blockquote> + +<h2><a name="SECTION00171">I</a></h2> + +<p>«Eu digo-te que é teu todo e qualquer lugar que os teus calquem»—assim +o ensinava o Santo aos seus irmãos, voltando em puro espírito a ilumina-los, +daquela eternidade em que resplendia o seu amor ardente, o mais sublime que ao +mundo trouxe a vida e a salvação, depois que alguém morrendo no Calvário +derramou por amor todo o seu sangue.</p> + +<p>É nossa toda a terra que pisamos, toda aquela vastidão que nós sentimos, em +seu alento respirando a fortaleza e em sua formosura extasiando os olhos e a +nossa alma. E só é nossa aquela que sentirmos e enquanto o nosso coração a +adora e louva; e é alheia, muda, estéril toda a terra que o nosso amor em tudo +desconhece, ou distante dos olhos a não veja ou, estando a nossos pés, a não +sintamos enchendo o nosso peito de bênçãos e<span class="pn">{72}</span> +alegrias. As boninas, os lírios e os rosais não são dessa avareza pervertida +que lhes pôs em redor um muro alto, para privar os homens de os tocarem, e só +por isso julga possui-los como escravos do orgulho e da vaidade; são desse +peregrino pobre e semi-nu que na estrada os sentiu e, cantando e bem-dizendo o +seu enlevo, prosseguiu na jornada, iluminada a vida e exaltada na fragrância e +frescor de formosura e na divina crença que ela inspira em tua fé, Senhor, em +teu poder de eterna graça e beleza. Esse foi rico e, na verdade, teve na terra +que os seus pés calcaram um reino infinito—tão rico quanto foi miserável, +indigente, esse outro que quis contar os bens pela demência cega e malfazeja +com que privara da terra quem a ama e nessa sinistra força resumiu seu ser e +aspiração. Este foi pobre, tudo perdeu do salutar alento que lhe mostrou um +Deus em cada flor, o resplendor duma essência divina imperscrutável; por mais +terra que seus pés possam calcar, jamais possui um só e estreito palmo do chão +bendito que as flores orvalhadas consagraram. Possuir é admirar e comungar, e +só é nossa a terra e tudo aquilo em cujo amor sentimos consumir-nos.</p> + +<h2><a name="SECTION00172">II</a></h2> + +<p>Bens da terra, Senhor, também os quero! Também instantemente vo-los peço! +Também avidamente<span class="pn">{73}</span> os apeteço! E reconheço os +muitos, gloriosos, com que prodigamente enriqueceste os que têm como sua toda a +terra que os seus pés vão calcando e os olhos vêem, enquanto a sua alma se +extasia na beleza da vossa criação.</p> + +<p>Riqueza é o coração que vós tocaste na perene harmonia incorruptível que é o +vosso ser e vibra em todo o espaço e se espelha em luares e na açucena.</p> + +<p>Dai-me, Senhor, a graça de a sentir, e nessa graça os reinos infinitos a que +ela e só ela nos conduz! Para que então eu possua toda a terra e seja meu todo +e qualquer lugar que os meus pés calquem.<span class="pn">{74}</span><span +class="pn">{75}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00180">PODERES DA TERRA</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00181">I</a></h2> + +<p>Rolam fundas as águas nos caudais. Fundiu-se em torrente a neve que cobria +de doce alvura a aspereza da montanha. Nuvens negras do sul que o vento +apressa, jorraram o seu dilúvio sobre os campos. A inundação cobriu sebes e +vales, e a seara, o prado e o burgo que agasalha o cavador, os jugos e as +enxadas. De outeiro a outeiro, onde ontem perpassava o suave esplendor de +mansas vidas,—em tímidas boninas, em rebanhos, pascendo repousados a +abundância, e nesse fecundo arranco heróico e hercúleo dos servos da gleba +generosa—a devastação das águas desapiedadas estende turvamente uma +mortalha. E onde se ouvia murmurar a paz, o embalar dos berços carinhosos e +estrídulos descantes de ceifeiras, felizes e esforçadas na sua faina, lançou a +inundação roucos pregões de ameaça e terror, tumultuosa e lúgubre no ímpeto. +Dia e noite, ou brilhe o sol vencendo<span class="pn">{76}</span> a tempestade +ou a escuridão se cerre impenetrável, rugem no vale horrendos clamores de +morte, de ruína e de crueza.</p> + +<p>Ouviram-nos ao longe os povoados; os montes e as quebradas repetiram-nos. E, +sentindo como um grito de aves fúnebres que dos céus nos mandassem seus +agoiros, um sombrio pavor me subjuga. Seus lívidos espectros de desgraça +escurecem-me em mágoa o pensamento, mostrando-me os infernos neste mundo +entregue sem resgate às suas penas.</p> + +<h2><a name="SECTION00182">II</a></h2> + +<p>Não me culpes, Senhor, se eu esquecendo, em momentos mortais de desalento, a +sabedoria infinda do teu ser que o orbe rege e funde em harmonia, sucumbi de +fraqueza e de descrença perante os poderes da terra no seu auge! Não me culpes, +Senhor, se assim vencido, atónito de espanto e de terror, senti passar a cólera +das águas e tremi de sofrer sua inclemência! Não me culpes, Senhor, se um +instante de assombro me oprimiu perante as iras da vossa criação e nelas vi +tiranias indómitas cruéis! Logo me emenda o erro, crê, e me resgata de vãos +temores e de fraquezas ímpias a inteira fé na suprema perfeição de quanto é +teu. Mais alta que os clamores da inundação, uma outra voz me ergue no desejo +de que a «tua vontade seja feita, quer nos céus, quer na terra», +eternamente.<span class="pn">{77}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00190">PERPETUAS DO ROMEIRO</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00191">I</a></h2> + +<p>Entardecer de outono tépido e quieto!.... O sol baixa ao poente, +brandamente, em seu rubor velado de neblinas. A soberba do Estio esmoreceu. Há +manchas desbotadas sobre os campos; empalidecem vinhas e pomares. A ceifeira já +ergueu da terra a seara e deixou cor de cinza todo o chão. Os frutos coram +derradeiras cores nas hastes semi-nuas e vergadas, e os mostos, refervendo +capitosos seus túrbidos perfumes traiçoeiros, semeiam nos vilares visões pagãs +de bacantes e faunos em delírio.</p> + +<p>Descem do monte os bandos dos romeiros. A essa orgia da terra generosa, +embalsamando a aldeia em seu deleite e remindo-a da fome com o seu pão, +responderam na ermida da montanha descantes amorosos, plangentes, orvalhados da +noite e abençoados do sereno fulgor de astros propícios.</p> + +<p>Rebeldes à fadiga, alegremente, voltam à paz da<span class="pn">{78}</span> +aldeia e ao seu trabalho os romeiros que foram à capela a confessar as penas e +paixões, implorando do bem-aventurado santo que lá mora, nessa agreste pureza +do seu ermo, que às suas penas lhes mandasse alívio e que às paixões lhes desse +horas fagueiras. E para que dilatadamente se prolonguem confissões e promessas +murmuradas candidamente em estos de ternura, para que jamais se apague a sua +lembrança nos lares em que se abriga o coração cativo do juramento bafejado +pelo resplendor do santo do altar que entre lírios e rosas lhe sorriu, trazem +no peito um ramo de perpetuas os romeiros saudosos da vigília em que sonharam o +céu e o paraíso. Querem que um tão breve instante de ventura, por magia de +amor, se torne eterno e que perpétuamente o guarde a flor em que sempre o verão +como em sacrário.</p> + +<h2><a name="SECTION00192">II</a></h2> + +<p>O mais rude como o mais experimentado adorou neste mundo a eternidade. Na +hora mais breve que se esvai e passa, no sorrir e nos olhos dos que amou, quis +ver e quis sentir luz que não morre; e fielmente, talvez para não cair em +tentação de perjúrio ou fraqueza, quis encarnar a crença na flor, dar um cálice +à fé e o seu quinhão da formosura que na terra a louva.<span +class="pn">{79}</span></p> + +<p>A vida só é vida enquanto ama e traduz e adora a eternidade na beleza do +mundo e da nossa alma. É a tua lei, Senhor!</p> + +<p>Possa eu servi-la e fosse este meu peito perpetua do romeiro onde abrigasse +um infinito amor e eterna graça!<span class="pn">{80}</span><span +class="pn">{81}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00200">PODER DO VERBO</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00201">I</a></h2> + +<p>No apolíneo sonho do poeta, à beira da torrente, sobre os montes, o pastor +que além viu a moça linda e ingénua, revestida de viço e de frescura tão +perfeitos como os da primavera em torno que o afagava, cativo o coração e +confundindo no mesmo vago enlevo a graça e a formosura, cantou assim ternuras +do seu peito:</p> + +<p>«A erva cresce agora livremente. Há lírios sobre os prados. A maré verde de +Abril transborda no seu crescer. E para traz, muito longe, perdeu-se cego o +inverno.</p> + +<p>«Assim como a primavera surge da tormenta, assim da morada escura surges +tu.</p> + +<p>«Em ti reside a luz, e qual espraiada no contorno dos lírios a primavera +brilha, assim do teu coração, pelos lábios vermelhos entreabertos, vem palavras +e amor aos feixes erguidos do acónito. E aquele que o movimento agita lança à +terra a bênção,<span class="pn">{82}</span> pelo suspirar ardente e pelo amor, +pelo desejo bom e pela alegria.»</p> + +<p>«Quando tu partires, no inverno incerto, entre os fumos da morada e no rumor +dos homens, então verei sempre os teus cabelos de oiro e os teus pés brancos +ágeis no volteio. E do limiar da porta até ao lar, canções vindas do sul, as +palavras da tua boca hão-de esvoaçar, aqui e além, a repetir-se em todo o +espaço.»<a name="tex2html1" href="#foot270"><sup>[1]</sup></a></p> + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot270" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> William Morris. +<em>The Sundering Flood.</em></p> +</div> + +<h2><a name="SECTION00202">II</a></h2> + +<p>Oh, magia do verbo que converte passageiro murmúrio em eternidade!...</p> + +<p>Por que subtil poder e invencível palavras dum instante, etéreamente aladas +e fugazes, voltam do infinito espaço em que as lançou a vibração dum peito +comovido, para de novo as ouvirmos tão altas e claras e tocantes como da vez +primeira que as sentimos?!... Por que energia oculta se renovam, e nos povoam +de visões os sonhos, e nos amparam os passos com o conselho, e nos fazem +sangrar o coração, e nos desprendem o sorriso e o canto, e nos elevam na oração +divina, as palavras que alguém,<span class="pn">{83}</span> um pequenino ser +mortal e fraco, mínimo átomo no volver dos mundos, um dia segredou timidamente +na mansidão dos seus lábios mortais?!...</p> + +<p>São anjos teus, Senhor, são anjos teus! Pastores do teu rebanho louco e +débil, os enviados bons do teu amor que vem a encaminhar nossa fraqueza no +caminho da tua salvação!</p> + +<p>Antes, Senhor, a inconsciência, a morte, o infindo dormir da própria alma, +do que o errar no mundo ao desamparo, sem a bendita voz dessas palavras que de +contínuo ouvimos repetir-se, «aqui e além, perpétuamente, em todo o espaço», e +nos renovam quantas visões de amor nos enlevaram, quanta beleza e graça nos +mostraram para além deste mundo os céus e os anjos!<span +class="pn">{84}</span><span class="pn">{85}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00210">UNÇÃO DE GLORIA</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00211">I</a></h2> + +<p>Nasce para vida curta e breve passa seu sonho de candura e de beleza a flor +que a primavera descerrou. Brisas ligeiras que lhe baloiçaram ao sol do meio +dia o seu turíbulo de dulcíssima seiva perfumada, essas mesmas virão rasgar-lhe +as pétalas antes que o vento abrande no crepúsculo.</p> + +<p>Foi um celeste instante de brancura aquela que poisou sobre o espinheiro +florido entre a pálida verdura. Os oiros reluzentes do ranúnculo brilharam +curtos dias entre os prados; e a desmaiada púrpura da olaia, no suave rubor que +nos fascina, parece ter nascido para uma hora, tão cedo ela decai e junca o +chão e se dissolve e perde emurchecida. E as rosas—é seu fatal destino, +bem o sabem! «nasceram para viver uma manhã». O seu frescor é o beijo duma +aurora e uma só vez na vida hão-de senti-lo.</p> + +<p>Entretanto, na sombra, humildemente, a hera sempre verde, persistente, de +contínuo cresceu sobre<span class="pn">{86}</span> a ruína, e ou a neve +embranqueça no trigal a verdura da terra requeimando-a, ou o sol alente as +seivas dos vinhedos, ou o inverno a castigue rudemente, ou o Estio sequioso a +abrase, vai urdindo, incansável, esse manto de viço túmido e quente com que +protege feridas da ruína e, remoçando-a, a veste de grinaldas. E caem desfeitas +sobre as heras as flores que a primavera desfolhou, na vida curta e breve em +que viveram seu sonho de candura e de beleza.</p> + +<h2><a name="SECTION00212">II</a></h2> + +<p>Ah! Bem feliz, Senhor, seria o filho teu cuja sorte escutando o seu desejo +lhe deixasse escolher para seu quinhão a frescura das rosas passageira vivendo +longa vida prolongada na robustez das heras caridosas; porque esse seria a tua +imagem, bebendo sobre a terra dum só cálice a suprema beleza e o teu poder. +Mas, pois que à imperfeição eu fui votado e nela hei-de cumprir o teu querer, +vivesse eu como as rosas um momento de candura e de graça e de perfume, e +morresse incensando heras robustas de caridade e viço imarcescível!... Passasse +assim na terra, como passa, numa tarde de Abril embalsamada, a unção de gloria +que os rosais verteram sobre o vigor das eras persistente!... E seria feliz, +abençoado, tendo sonhado a tua eternidade envolta num alento de doçura.<span +class="pn">{87}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00220">SACRO HOLOCAUSTO</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00221">I</a></h2> + +<p>O outono palpita nos orvalhos. Já a manhã é tardia em despontar e o cavador +trabalha em bem prover seu refúgio para a aspereza do inverno. Antes que rasgue +a terra para o trigal, há-de juntar em torno do seu lar a provisão de lenhas +que alimentem calor e vida em noites de Dezembro, a alegre e rubra chama da +fogueira.</p> + +<p>No pinheiral da gândara, que dormiu prolongados silêncios abrasados quando o +sol ia alto, fulminando verdes searas a beber seu leite da terra criadora, +entre cantares dos filhos do seu seio e seus escravos que em suor a banhavam +fecundando-a—no pinheiral da gândara, a árvore ferida, decepada do chão +pelo aço luzente que o lenheiro vibrou em hercúleo arranco, solta tombando +clamores tremendos; e a paz da floresta repetiu-os em ecos de saudade +compassiva.<span class="pn">{88}</span></p> + +<h2><a name="SECTION00222">II</a></h2> + +<p>Oh, sagrado holocausto duma vida austera e solitária, corajosa, vivida a +todo o tempo, paciente labor de muitos sóis, de rudes provações que +experimentaram a tempestade, a calma, a noite e o dia, águas violentas que +flagelavam e águas de brandura, salutar afago, luares calados, doces +sonhadores, e o desalento do ardor do Estio e a branca inércia das manhãs do +inverno, toda a luz, todo o tumulto e toda a paz, todo o infinito ser de +infinitos mundos!... Tu morreste bendita dando aos homens todo o calor que +guardas nas entranhas, para agasalhares os berços e o trabalho, para +retemperares os seios que amamentam e para aquecer os braços que se tisnam na +escravidão da terra redentora!</p> + +<p>Eu não sei se é de dor, se de gloria, se é louvor ou lamento que te envia, a +ti, Senhor, que lhe traçaste a sorte, esse grito que ouvi no pinheiral quando +ao cair da árvore bradou seu ansiado brado a sonorosa haste que cantara a +mansidão das brisas que a tangiam. Mas ouvindo-o, Senhor, ouvi tua voz; e, +turvado da abundância da tua caridade, implorei-a—não me abandonasse, +como não me abandona a fé que eu tenho em teu mistério de bondade e amor.<span +class="pn">{89}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00230">SAGRAÇÃO DO ESCRAVO</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00231">I</a></h2> + +<p>No alto da montanha, ao romper de alva, já moureja no campo o cavador a +alentar essa terra de que é escravo, seu sonho e seu tirano, e sempre amada, +fidelíssimamente obedecida, ou a sonhe feliz dando-lhe frutos entre rosais +corados olorosos, ou a sinta opressiva, insaciável, bebendo-lhe no suor do +rosto todo o sangue. O tépido conforto do seu lar, o dormir sorridente dos seus +filhos, o desvelado afã da companheira no seu mudo lidar e em seus carinhos, +quanto lhe afaga o coração e o tenta a esquecer na ternura a escravidão, tudo +deixou por essa tirania, para fecundar a terra à qual o prende o rigor de +apaixonada sujeição. Mal ao nascente a luz embranqueceu, ei-lo que parte, +erguido e corajoso, a pelejar a peleja bendita de criar!</p> + +<p>Dorme além a cidade ainda prostrada da tenebrosa orgia que a desvaira. No +dissipar de pálidas<span class="pn">{90}</span> neblinas, que a madrugada rasga +pouco a pouco, irrompem, lentamente, as sombras orgulhosas dos palácios em que +o luxo entorpece seus filhos corrompidos e enfermos, de alma e do corpo, por +suas vãs loucuras tão cruéis.</p> + +<p>Surgem a par as torres das igrejas, onde a fé, a mentira e a hipocrisia +lançaram de tropel em um só templo a cruz de Cristo, a mais santa das crenças, +e a mais torpe traição, essa que oculta sob véus da pureza e na oração toda a +cobiça sórdida de mundos que em podridões sustentam o seu deleite.</p> + +<p>É frouxo ainda o fumo da oficina. Nos seus leitos de ferro e de granito mal +despertaram os monstros que, rugindo pelos lúgubres antros denegridos, +convertem todo o sangue em alavanca ou em um numero, como se fora a haste fria +e rígida do mais frio aço endurecido. Toda a emanação de Deus que anime um ser +em Deus criado e nele engrandecido, coração, formosura, o próprio seio que +amamenta um filho, supremo alento dum supremo amor, qualquer impulso duma +consciência iluminado por visões dos céus, o mais leve passar duma +alegria,—morrem, são nada à porta da oficina, escoria inútil que os +dragões arrastam àquelas profundezas tenebrosas em que ter alma é um crime, e o +pensar e o sentir são uma traição, um erro, um prejuízo dos argênteos tesouros +mercantis.</p> + +<p>No declive estreito dos outeiros e na sombra<span class="pn">{91}</span> +mais húmida das suas pregas, ao redor dos palácios e dos templos, como varridos +em monturo abjecto para longe das grandezas que afrontavam, confundem-se e +amontoam-se os casebres onde a fome e a sua negra corte de vícios, de loucura, +de enfermidade e morte e blasfémia têm seus covís e dilaceram os mártires que a +crueza dos ricos lhes votou.</p> + +<p>O próprio rio que regara os prados e os tingira em verdura e macieza, que +adoçara vinhedos das encostas e orvalhara os vergéis alcandorados na ribanceira +que a pervenca esmalta, o próprio rio onde foi espelhar-se o rosto lindo da +donzela ingénua cativada dos olhos que respondem comungando nos seus o seu +anseio, o rio que serviu a obra de Deus, sua pura beleza +salutar,—tristemente se roja na cidade, turvado por as suas maldições e +servindo a avareza despiedosa que roubou o pão de míseros humildes para em +opulências cobrir de oiro a soberba.</p> + +<p>E perante a cidade em seu letargo, atormentada e pálida de dores, sucumbida +nas suas maldições, o sol rompendo ao longe sobre os montes, na resplendente +luz do seu nascer, aureolou de gloria o cavador, sagrando-lhe a sua crença e o +seu vigor, a robustez hercúlea do seu peito e a consagração bendita de sua alma +a esse tributo infindo, heróico e santo, de em suor pagar à terra o nosso +pão.<span class="pn">{92}</span></p> + +<h2><a name="SECTION00232">II</a></h2> + +<p>Senhor! Em vossa caridade reparti vossos bens por quantos, infelizes, a +fraqueza condena a mendigar dos fortes o seu pão, embora o orgulho os traga +confiados em pérfidas grandezas traiçoeiras! Por esses que o destino arrasta na +tristeza, no cansaço e desgosto de viver, porque em hora sinistra se apartaram +do caminho da vossa salvação!... Deixai que chorem sua desventura, e em seu +queixume ouvi a minha voz!... Deixai que chorem em doloroso exílio esses +proscritos que jamais comungam com o cavador na bênção de criar na terra o +nosso pão com o suor do rosto! À luz da aurora que o beijou no monte, juntai as +lágrimas dos que vão chorando sua desgraça, sua perversão!... Fossem elas +incenso e ouro e mirra que os débeis reis do mundo tributassem à sagração +divina do escravo!... Resgatassem humildes todo o erro que os desprendeu da +escravidão da terra!...<span class="pn">{93}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00240">MALDIÇÃO</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00241">I</a></h2> + +<p>Entenebrecidas noites de tristeza afastaram-me da via iluminada para lugares +distantes, desprezados dos escravos das seduções mundanas, prisioneiros fieis +dos seus regalos.</p> + +<p>Passei pelas vielas lobregas, estreitas, onde se acoitam multidões abjectas, +que os ricos aviltaram condenando-as à ignorância, à fome, aos vícios do +infortúnio, à loucura e ao crime, a epilépticas convulsões da embriaguez, à +indigência, ora prostrada ou insolente, ora mendiga lacrimosa e tímida, ora +cuspindo pragas e blasfémias em sua altivez irada, revoltada. Vi os negros +covís dos desgraçados que a opulência arrojou longe dos olhos para os monturos +humanos da cidade,—não fossem os andrajos e os vermes confundir-se entre +vestes de purpura manchando-as!</p> + +<p>Dos gemidos que vinham desses antros, tantas vezes castigando as nossas +faces como um<span class="pn">{94}</span> viperino jacto de veneno, a procurar +vingança; do rugido da miséria nos seus transes nenhum me tocou mais o coração +do que o grito das crianças açoitadas, entre imprecações raivosas de possessos, +flageladas com desprezo e ódio vermelho, somente por chorarem doloridas de fome +e frio e ínfima indigência, sem carinho e sem pão, sem um leve consolo, que +conforte e que alegre e vivifique dum reflexo de divina essência o corpo +enfermo e a empedernida e bruta animalidade.</p> + +<p>Longas horas depois de ter deixado os coitos dessa escoria penitente que +sofre e geme em vão nos seus infernos, sem alcançar mover à misericórdia os +soberbos e grandes que em seu fausto, emudecida e cega a consciência, lhe +negaram justiça, ainda ouvia insistente o clamor desse tormento louco das +crianças.</p> + +<p>E nenhum mais cruel tenho encontrado!</p> + +<p>Em nenhum—e são muitos entre os homens! encontrei maior dor e +perversão.</p> + +<h2><a name="SECTION00242">II</a></h2> + +<p>Se o Estio esgotou fontes e rios e secou a campina, a ave infeliz, que tem +filhos no ninho a sustentar, e em vão moureja, diligente e muda, por todo o +abrasado e ingrato espaço, tem de voltar<span class="pn">{95}</span> ao poiso +desprovida. Mas não castiga essas famintas bocas que a esperam, gritando e +atribuladas, a pedir-lhe o alimento que não pode dar-lhes, pois lho recusam os +calcinados campos adversos. Sofreu resignada o suplício, a fome, a sede, e a +amarga invocação dos que um mau sestro confiou ao seu amparo.</p> + +<p>Se o leite seca ao animal bravio, por qualquer contingência da sua sorte, +oferece o peito exausto ao filho débil, todo o seu sangue quereria dar-lhe; e +sentindo-o a morrer de inanição, responde com os carinhos ao queixume da +vergontea que vai a definhar, aquece-a junto ao corpo, mas jamais se abandona a +ímpetos de cólera, só porque um ser amado lhe suplicou, inquieto, angustiado e +lacrimoso, o mantimento que carece para viver.</p> + +<h2><a name="SECTION00243">III</a></h2> + +<p>Que estranha aberração induziu o homem a negar a robusta caridade, comum, +vulgar, no peito inconsciente?!... Que estranha perversão o fez acrescentar à +indigência a crueldade, torturando, somente por lhes sentir as agonias, aquelas +mesmas vidas que criou, carne da sua carne, almas da sua alma?!...</p> + +<p>Discípulo de Cristo a quem adoras, por comunhão<span class="pn">{96}</span> +na sua vontade e anseio erguido à plena luz do entendimento que te mostrou +irmãos nas ínfimas partículas, na argila e na poeira, como no coração, na rosa +e em tudo quanto existe! Senhor soberano dessas forças terrenas formidáveis que +dominaste e trazes por escravas em proveito do teu gozo e teu triunfo, +convertendo-as do terror à mansidão, dócilmente vergadas ao capricho!... Por +maldição de trágico império, em tenebrosa queda degradado, foste sujeito, +louco, em teu orgulho de virtude e de crença e de isenção, a repassar de fel a +dor dos próprios filhos!<span class="pn">{97}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00250">PROFISSÃO DE FÉ</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00251">I</a></h2> + +<p>Não ajoelhei no adito do templo e, como o filho querido do poeta, fiquei +também de pé, rebelde e incrédulo, «quando um povo fiel na sombra das abobadas +se curvava ao passar de cânticos celestes, tal qual se verga a multidão das +canas quando sobre elas sopra o vento norte.»</p> + +<p>Irreverente e altivo, passei coberta a fronte por monumentos altos, +insensatos, em que orgulhosa demência de grandezas, poluindo com o fausto a +divindade, num estranho tumulto de blasfémia e súplica, de mentira e verdade, +de confissão ingénua e de impostura, pôs o sinal da cruz e da oração ao sagrado +retiro em que confunde religião, vaidade, amor e ódio, fanatismo e doçura, +mansidão, crueldade, perdão, vingança, cobardia e coragem, o nobre e o mísero, +o sacripanta e o santo.</p> + +<p>Muita vez me afastei desse desvairo, satânica traição, em que o resplendor +de Deus no cálice e<span class="pn">{98}</span> na hóstia se empana esmorecendo +em nuvens de vileza que derramam em torno a escuridão da impiedade e das +paixões mundanas.</p> + +<h2><a name="SECTION00252">II</a></h2> + +<p>Mas não te desamei, Senhor, porque assim fiz!...</p> + +<p>Sempre que o coração tentou seus voos de candura, sempre que se sentiu +sujeito a forças sobre-humanas para as servir guardando os seus mandados, no +remorso e na dúvida, em todo o penar de angustia e em toda a esperança, em +afecto e ternura, em sonhos de pureza, aspirando ao enlevo no Eterno, cansado +deste mundo de fraqueza, ergui olhos chorosos ao azul, onde cintilam astros +diamantinos, e invoquei-te, Senhor, meu Deus e Pai, a ti «que estás nos céus, +nome santíssimo, para que tu me acolhas no teu reino e eu fielmente cumpra a +tua vontade; para que me dês o pão de cada dia e me perdões quanto te dever, +assim como aos meus devedores também perdoo; para que afastes de mim a tentação +e de todo o mal me livres para sempre.»</p> + +<p>E fui humilde então!... Nesses altares me despi totalmente da soberba e +ajoelhei prostrado, submisso, a escutar tua voz e a adorá-la, religioso, +confiado e crente, curvado como o canavial vergado ao vento.<span +class="pn">{99}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00260">DRÍADE ENFERMA</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00261">I</a></h2> + +<p>Pelo musgoso atalho da floresta, entre o tojo bravio e urzes austeras, fui +saciar meus olhos na beleza e reanimar o corpo na carícia que o sol esquivo e +brando de Dezembro frouxamente derrama através da espessura do pinhal.</p> + +<p>A custo ia abrandando o frio da manhã. São curtas nesse tempo as horas +tépidas. Mal se fundiram os gelos da derradeira noite, logo vem renová-los mais +profundos a palidez de frígidos crepúsculos.</p> + +<p>Experiente, já certo dessa lei que dos astros nos vem e é impreterível, +sorvia com avidez a delícia breve que eu sentia fugaz, quase uma ilusão de +transitórios sonhos luminosos.</p> + +<p>E lembrava o Estio e a primavera!... Ali, naquela mesma floresta, ali +busquei abrigo da violência dos abrasados dias inflamados pela calma do mês de +Santiago. Ali me defenderam dos seus<span class="pn">{100}</span> fogos as +vastidões umbrosas impenetráveis. Ali ouvi passar no vale vizinho o sussurrar +das águas que corriam a reanimar o prado emurchecido por aturadas horas +refulgentes. Ali senti esse leve sorrir vindo da terra, desprendido dos +borbotões das fontes do seu seio para redimir a vida extenuada, desfalecida à +míngua de frescor.</p> + +<p>Ali encontrei passando ao entardecer, em sua plena graça juvenil, como se +alada rosa eu entrevisse, a moça que subia das lenturas fecundas do juncal a +regalar seus gados com o pascigo, entre cantares ceifado alegremente, vibrando +firme a foice, despiedosa, a traçar nos seus dentes a bonina mais branca, e o +malmequer, e a mais esbelta haste do azevém onde já despontavam as palmas +rígidas em que guarda a semente.</p> + +<p>E eis que de novo a encontro agora na floresta, a essa mesma dríade que +outrora, em perfumadas horas estivais, passou por mim turvando-me os sentidos +de súbito embebidos, cativados, na gentil maravilha de seus gestos.</p> + +<p>Mas quanto vem diferente e vem mudada!...</p> + +<p>Que é da graça subtil que a envolvia, envolvendo na sua formosura os olhos +confundidos, fascinados do latejar sadio que igualava o florir ingénuo da +açucena?!...</p> + +<p>Filha da terra e sua humilde serva, também ela conhece o outono e o inverno; +também arrasta penas e fraquezas; também se empobreceu de seus<span +class="pn">{101}</span> enleios. Não fugiu ao rigor da lei comum. Enferma, traz +enfermo o seu encanto; vai quebrada a magia do seu poder divino. Curvada sob o +feixe de duros ramos secos que para seu conforto esforçada colheu de orgulhosos +robles, castigada a frescura rosada dos seus braços pelos espinhos ímpios dos +silvados, tisnada a face pela aspereza cortante das manhãs, é agora a lenheira +paciente, mortificada e débil, imagem do trabalho e do sofrer, aquela ceifeira +airosa que ainda há pouco foi para mim missionário feliz da alegria sagrada de +viver, afortunada voz e alto pregão das seduções da terra, claro espelho de +todo o seu amor.</p> + +<h2><a name="SECTION00262">II</a></h2> + +<p>Se em toda a vida passa a enfermidade, se a formosura é incerta, e se o +lírio e a estrela e a nuvem e o mármore mais duro, e a alegria e o riso e a +doçura infinita da bondade e a própria luz do sol são perecíveis; se a criação +inteira que os olhos vêem e que a nossa alma sente, toda a beleza íntima e a do +mundo, decai e desfalece, sofre e se apaga: se só tu és eterno, Senhor! em tua +caridade e teu saber, e se a suprema harmonia, que é o teu sonho, não distingue +o prazer e a dor, a caricia, o flagelo, a rosa e o cardo, por igual +divinos<span class="pn">{102}</span> em teu divino ser—se é esse o teu +querer, bendita seja a hora em que encontrei a dríade enferma do inverno que em +seu dissipado encanto e em sua mágoa correu a ensinar-me a crer em teus +desígnios e me segredou louvor e obediência, a inteira abdicação em teu +mistério!<span class="pn">{103}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00270">MONJAS DO OUTONO</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00271">I</a></h2> + +<p>Ouvi cantar no monte as urzes roxas.</p> + +<p>Cantavam ao romper de alva, ainda banhadas do cintilante orvalho da manhã +que pela noite calada e arrefecida as estrelas pousaram nos seus braços, +trigueiros como a terra onde se criam.</p> + +<p>Cantaram ao cair da tarde, iluminadas por brazeiros corados do poente que o +tumultuar das nuvens inflamou, ao longe, sobre o mar, no extremo horizonte.</p> + +<p>E enquanto assim cantavam nos seus bandos, vagabundos das fragas e dos +seixos, cobriam toda a terra da sua purpura, esmorecida e branda, tímido +murmúrio da vermelhidão que hesita em seu clamor e teme ferir quando só quer +dar vida.</p> + +<p>Cantavam livres percorrendo a gândara rasa onde nem um desgarrado arbusto se +afoitou a erguer mais alto o ramo castigado, sem remissão votado a rastejar +porque o pascer contínuo dos<span class="pn">{104}</span> rebanhos mais não +consente. Pelos recessos húmidos das grutas, sob a curvada abobada do roble, +entre ogivas audazes dos pinheiros, na alumiada encosta que conduz à azenha +encastelada sobre o rio, ou adornando frígidos penhascos que só conhecem os +rigores do norte—cantaram sempre e com a mesma voz as urzes roxas, monjas +do outono.</p> + +<p>Conformada doçura bem casada com o declinar das pompas do Estio, renuncia da +opulência, resignação entre a pobreza árdua do inverno que o encurtar do dia já +promete, um sereno caminhar para a austeridade, aquele desprendimento +sobre-humano que descreu das grandezas deste mundo, da ansiosa tormenta da +ambição, e procura o resgate em singeleza—tudo eu ouvi cantar às urzes +roxas, monjas do outono bem-aventuradas, que aos olhos me trouxeram suavidade +entre ameaças ríspidas da aspereza e a minha alma engrandecem conduzindo-a aos +reinos religiosos da sua paz.</p> + +<h2><a name="SECTION00272">II</a></h2> + +<p>Senhor! Tu que me consentiste a graça de escutar a voz bendita com que no +outono as urzes roxas vem a libertar-nos das dores de embriaguez obcecada que +pôs sua ambição em querer<span class="pn">{105}</span> muito, em vez de a +consagrar à fortaleza de se sujeitar à lei que em teu mistério deste ao +universo, não permitas, Senhor, que eu desfaleça! Enquanto a minha jornada não +findar, que eu não deixe jamais de te escutar no canto benfazejo das urzes +roxas, monjas do outono!</p> + +<p>Possa eu beber com elas no seu cálice a suave resignação da sua pobreza, seu +valoroso animo que afronta, cantando e derramando suavidade, pressentimentos +que aos demais oprimem, esse cair da noite do inverno, seus flagelos, suas +privações, o gelo, a morte, todo o seu cortejo de crueldades sem fim, +inexoráveis!<span class="pn">{106}</span><span class="pn">{107}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00280">A TERRA ESCRAVA</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00281">I</a></h2> + +<p>Esta terra que no homem tem o escravo e, toda poderosa, o traz curvado a +amá-la, essa mesma por sua vez foi também escrava quando, obediente e humilde, +serve o esposo ao qual sorri ansiosa e abre o seu seio.</p> + +<p>Há-de rasgá-la o aço da charrua para que a seara acorde nos seus sulcos; e +há-de a foice resplender, ceifando o pão, para que ela aos servos dê o seu +sustento. Se esse beijo de amor a não alenta, jaz infecunda, endurecida e nua, +como triste proscrita da alegria, desamparada à beira do caminho, em vão +sonhando caridade e gloria.</p> + +<h2><a name="SECTION00282">II</a></h2> + +<p>A escravidão é a tua lei, Senhor! A ninguém que tu ames a ocultaste. É o +mantimento e guia<span class="pn">{108}</span> da jornada que à tua fé nos +leva. Nem a estrela mais rútila dos céus deixou de ser escrava de outra +estrela. Sintam os meus pulsos todas as algemas que me acorrentem a esse teu +querer de fecunda bondade, sujeitando o meu ser a outro ser e perfazendo assim +a vida eterna do amor e da humildade! Sirva-as o sangue, dê-lhes o calor!... +Adore-as meu coração!... Por elas se resgate da treva das tristezas e das dores +em que o solitário orgulho pena a culpa!<span class="pn">{109}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00290">MISTÉRIOS DE CERES</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00291">I</a></h2> + +<p>O nocturno ulular do negro inverno solta no pinheiral espectros clamorosos. +Abrigam-se refugiados nos casais, em volta da viva chama que os aquece, os +tímidos foragidos da tormenta e os colos que acalentam criancinhas.</p> + +<p>E, heroicamente, afrontando a rudeza da inclemência, despontam nas campinas +os trigais. E, alegremente, esvoaçam na levada alvas farinhas, bailando o seu +delírio sob os colmos que protegem a azenha sonorosa. E, ardentemente, o +brazido dos fornos vigilantes fabrica no seu fogo o doce pão que, quando +alvorecer, nos reanime para seguirmos na terra essa jornada da via dolorosa, +via ingrata.</p> + +<p>São os mistérios de Ceres que do seu seio destila o abençoado leite que +amamenta os infinitos bandos dos seus filhos.</p> + +<p>A terra, o fogo, a água e o nosso braço, quanto<span class="pn">{110}</span> +a criação sonhou de grande e belo e santo e generoso, desde a fecundidade casta +duma leiva até ao nosso alento, consumido pela consciência do dever +cumprido,—todos Ceres arrastou em seu mistério, todos são seus escravos, +obreiros dóceis, servos diligentes da sua caridade. E a sua esmola, o pão, que +por igual aviventa nos berços a inocência, renova a energia ao cavador, e +piedosamente desce às geenas túrbidas dos míseros proscritos que em desgraça e +no crime resvalaram—o pão gerado para criar o sangue é também sacramento +que une a alma a todas as divinas forças que o geraram, partícula de +insondáveis mundos e infinitos de poder e de amor.</p> + +<p>O inspirado rude plebeu que, se o pão caiu no chão, o ergue e o beija, +consagrou na candura religiosa esse mistério que une a nossa alma à terra e aos +céus e só a religião suspeita e adora.</p> + +<h2><a name="SECTION00292">II</a></h2> + +<p>Conduzi-me, Senhor, ao altar de Ceres! Ensinai-me sua graça e os seus +mistérios! Assim como o pão renova no meu sangue o calor que o agita e o move e +o fortalece, fazei, Senhor, que ele nutra também meu coração para sentir, +prostrado em<span class="pn">{111}</span> gratidão, tua eterna bondade +generosa! Que por meu braço o louve e engrandeça!... Que, curvado, lhe tribute +o suor do rosto!...</p> + +<p>É o teu mensageiro o mais fiel. Seja eu o seu servo o mais humilde! Pois +que, servindo-o, Senhor, te glorifico e em ti resgato a miseranda vida.<span +class="pn">{112}</span><span class="pn">{113}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00300">HORAS DO MEU PEITO</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00301">I</a></h2> + +<p>Fica à beira do rio o campanário que do alto da sua fortaleza conta as horas +da vida passageira em que ao redor se agitam ou repousam os campos remansosos e +os vilares, afadigados na fadiga humana. E quantas horas caem do bronze, lento +e sonoro, que as solta ao vento, ou tormentosas sejam ou benignas, leva-as o +rio para o mar profundo, na sua imensidade vão perder-se.</p> + +<h2><a name="SECTION00302">II</a></h2> + +<p>Assim caudais de amor, e esses somente, me recebessem horas do meu peito, +quantas meu coração puder contar, ou na mágoa e na dor ou na alegria, e todas +elas as levassem celeres, na candidez das águas baptizando-as, a perder-se, +Senhor, na imensidade da bondade infinita do teu seio!<span +class="pn">{114}</span><span class="pn">{115}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00310">ÁGUAS VIÚVAS</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00311">I</a></h2> + +<p>Não distantes do mar, entre rochedos, brotam as águas que, em seu breve +curso, desoladas se internam na aridez, até que de todo as bebe o areal adusto +e as confunde perdidas na amargura de ondas salgadas que destroem e queimam.</p> + +<p>Foi-lhes árduo o caminho. Apenas surgem da terra e viram o dia, encontraram +a fragura impenetrável, madrasta avara de mirrados líquenes. Depois, como +cativos escoltados por alcantis que os cingem ao caminho apertado no sombrio +vale estreito, nem sequer por momentos gloriosos sentiram a liberdade das +campinas que amorosas quisessem e se exaltassem em seu fecundante afago. Por +fim, engolfando-se em mares insaciáveis, estéril se dissipa para sempre esse +anseio de amor que prometia a rosa e o trigal e a sombra viridente e que, +infeliz, nasceu só para sofrer, por negra sorte cedo condenado a jamais se +expandir<span class="pn">{116}</span> em formosura e nunca amassar o pão que +mata a fome. Malfadadas, essas águas das fontes junto ao mar beijaram o +pequenino campo minguado entre rochas rebeldes e soberbas, e eis que o mar as +vem beber e logo as lança nas suas profundezas insondáveis.</p> + +<p>Foi seu destino serem infecundas!</p> + +<h2><a name="SECTION00312">II</a></h2> + +<p>«Águas viúvas!» disse o cavador. «Na vida não tiveram quem as ame. São +viúvas do chão que as recebesse no seu seio profundo e generoso para as +restituir á luz em flores e em frutos, para vestirem de doçura a terra, para +salvarem da fome os que a padecem, para se alargarem em lagos dos açudes e para +cantarem na levada alegre seu louco impulso, todo o seu folgar».</p> + +<p>E o cavador cismava na sua leiva, naquela que rasgara no bravio, e era +regada só do suor do rosto e pelos orvalhos breves da manhã, e em dias +tormentosos dilacerada pela rispidez de invernos inclementes, severos, tanto ou +mais que o sol de Julho. Por que erro ou mistério chorava ali a água a viuvez +dum benigno chão que a desposasse, e lá no cimo do monte o campo pobre +desfalecia à mingua da lentura que lhe acordasse<span class="pn">{117}</span> +os germes e os trouxesse a viverem a gloria de crescer?!...</p> + +<p>E o poeta, ao ouvir o cavador, pensou na viuvez das almas que no mundo, +nascidas para a bondade e para o amor, voam seus voos na ruindade agreste dos +egoísmos míseros dos homens e, à mingua de almas irmãs que lhes recebam seus +anseios fecundos de carinhos, mirram-se estéreis entre desenganos, e do mundo +se apartam dissolvido o seu desditoso anseio benfazejo nas profundezas da +desilusão.</p> + +<p>Por sua vez incerto e compungido, tremendo da desgraça dos infernos onde +penam os corações desamparados que em desventura nunca sentem irmãos pulsando a +par do seu pulsar de amor, o poeta responde ao cavador:</p> + +<p>«Por que erro ou mistério do destino, andam perdidos e, chorando, sofrem a +viuvez duma ternura irmã da que os alenta e ampara e os ergue a Deus, os +corações que amam sem encontrarem amor que o seu fecunde e alimente para o +florir em bênçãos e consolo dos que em desdita esmolam esses bens?!...»</p> + +<h2><a name="SECTION00313">III</a></h2> + +<p>Isentai-me, Senhor, do atroz martírio que o coração sedento de bondade +padece nesta vida<span class="pn">{118}</span> quando à sua voz só responde a +dureza das paixões e uma cobiça ardente, insaciável! Roubai-o a essa cruz, toda +de espinhos, em que rasgado se desfaz e muda um infinito amor em amarguras! +Ensinai-lhe, Senhor, a fortaleza e que, entre o desamor que o perseguir, saiba +ao menos amar a desventura!<span class="pn">{119}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00320">PUREZA AMARGA</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00321">I</a></h2> + +<p>A pureza que a neve da montanha desprendeu gota a gota em claro fio, era +doce nas pedras do regato onde o pastor bebia o refrigério das canseiras do +monte e do rebanho.</p> + +<p>E correu, correu sempre clara e doce, enquanto se despenhou de fraga em +fraga, apressada, descendo ao horizonte que distante a chamava e a seduzia.</p> + +<p>E foi doce ainda quando se juntou ao largo rio em que os cinceirais +encaminhavam brandamente ao mar, entre verduras tenras rumorosas, as +diamantinas, fúlgidas, correntes de peregrinas águas caudalosas.</p> + +<p>Até que ao fim entregue à imensidade, porque ansiava louca de paixão, e a +que corria desde o seu nascer, na pureza de neve assim lançada às convulsões +das vagas sem repouso, transmudou-se em travoso amargor de ondas salgadas<span +class="pn">{120}</span> quanta doçura tinha no seu cálice—como se por +vontade e obra divina essa pureza que nos foi doçura, irmãmente nos dê sua +amargura.</p> + +<h2><a name="SECTION00322">II</a></h2> + +<p>Senhor! Fosse a amargura o preço da pureza!... E eu quereria que quanta +amargura em todo o mar se encerra, toda ela coubesse no meu peito, se por ela +pudesse converter meu coração, turvado de paixões, na virgínia pureza que se +gera da neve cristalina da montanha.<span class="pn">{121}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00330">TIRANIA DO FOGO</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00331">I</a></h2> + +<p>Após um breve e pálido crescente perdido além, ao longe, sobre o mar, na +cerrada treva que se lhe seguiu, fulguram tragicamente as labaredas do incêndio +que se ateia na montanha e enegrece o pousio, raso e nu, em toda a vastidão +onde implacável o fogo apascentou os mortíferos rebanhos das suas chamas. É +cinza a urze que tingiu de púrpura a aspereza mais ingrata dos fraguedos. É +cinza o tojo que arrojadamente floriu doirando, de oiro precioso, o chão ainda +gelado de Dezembro. E os renovos do sobro e o pinheiral, que entre os seixos +avaros despontavam, em cinzas converteram a curta e tenra vida das suas +hastes.</p> + +<p>A tirania do fogo em sua gloria toda a beleza esquece e todo o bem. Em sua +austeridade e em seu mistério, enquanto nos fascina e nos subjuga, ou nos +avivente e exalte em manso alento ou em delírio lavre devastando, tem por +escrava<span class="pn">{122}</span> toda a formosura, dissipa-a sem piedade em +seus altares. A flor que canta a aurora e é o seu sacrário, a árvore que ao +peregrino deu sombras e pomos, sumas riquezas, sumas alegrias desta vida mortal +dos nossos olhos—são pó e em pó se volvem, se a pureza do fogo as +inflamou.</p> + +<h2><a name="SECTION00332">II</a></h2> + +<p>Ser escravo, Senhor, é o meu anseio! Libertai-me o meu peito da miséria dos +mundos vãos de vãs aspirações da vaidosa existência corruptível, e convertei-me +em cinza o coração, na tirania de um amor ardente, por ele purificado e +consumido—assim como o fogo abrasa o cedro e o roble, em chamas gloriosas +redimindo na luz, que é vida eterna, do transitório orgulho da opulência que se +nutriu das seivas da floresta!</p> + +<p style="text-align: center;">FIM</p> + +<p> </p> +</div> + +<p> </p> + +<p><span class="pn">{123}</span></p> + +<h2><a name="SECTION00340">ÍNDICE</a></h2> +<ul class="TofC"> + <li><a name="tex2html110" href="#SECTION0010">ROSAS DO MEU CAMINHO</a></li> + <li><a name="tex2html113" href="#SECTION0020">AS TAÇAS DO BANQUETE</a></li> + <li><a name="tex2html116" href="#SECTION0030">A DOR E A VIDA</a></li> + <li><a name="tex2html122" href="#SECTION0040" id="tex2html122">MAIS FORTE QUE + O MAR</a><a name="tex2html125" href="#SECTION0043" + id="tex2html125"></a></li> + <li><a name="tex2html1251" href="#SECTION0043" + id="tex2html1251">HUMILHAÇÃO</a></li> + <li><a name="tex2html128" href="#SECTION0050">BÊNÇÃO DO POENTE</a></li> + <li><a name="tex2html131" href="#SECTION0060">O SONO DO TRIGAL</a></li> + <li><a name="tex2html134" href="#SECTION0070">TERRA LACRIMOSA</a></li> + <li><a name="tex2html138" href="#SECTION0080">CULTO DE QUIMERAS</a></li> + <li><a name="tex2html141" href="#SECTION0090">ANSEIO DA MANHÃ</a></li> + <li><a name="tex2html144" href="#SECTION00100">A ASA DO REMORSO</a></li> + <li><a name="tex2html147" href="#SECTION00110">SERVAS DA LUZ</a></li> + <li><a name="tex2html150" href="#SECTION00120">TROFÉUS DO ESTIO</a></li> + <li><a name="tex2html153" href="#SECTION00130">LOUCOS DE HUMILDADE</a></li> + <li><a name="tex2html157" href="#SECTION00140">ORAÇÃO DOS LARES</a></li> + <li><a name="tex2html160" href="#SECTION00150">CANTARES DAS SEBES</a></li> + <li><a name="tex2html162" href="#SECTION00160">COMPANHEIRO E GUARDA</a> </li> + <li><a name="tex2html163" href="#SECTION00170">REINO INFINITO</a></li> + <li><a name="tex2html166" href="#SECTION00180">PODERES DA TERRA</a></li> + <li><a name="tex2html169" href="#SECTION00190">PERPETUAS DO ROMEIRO</a></li> + <li><a name="tex2html172" href="#SECTION00200">PODER DO VERBO</a></li> + <li><a name="tex2html175" href="#SECTION00210">UNÇÃO DE GLORIA</a></li> + <li><a name="tex2html178" href="#SECTION00220">SACRO HOLOCAUSTO</a></li> + <li><a name="tex2html181" href="#SECTION00230">SAGRAÇÃO DO ESCRAVO</a></li> + <li><a name="tex2html184" href="#SECTION00240">MALDIÇÃO</a></li> + <li><a name="tex2html188" href="#SECTION00250">PROFISSÃO DE FÉ</a></li> + <li><a name="tex2html191" href="#SECTION00260">DRÍADE ENFERMA</a> </li> + <li><a name="tex2html194" href="#SECTION00270">MONJAS DO OUTONO</a> </li> + <li><a name="tex2html197" href="#SECTION00280">A TERRA ESCRAVA</a> </li> + <li><a name="tex2html200" href="#SECTION00290">MISTÉRIOS DE CERES</a> </li> + <li><a name="tex2html203" href="#SECTION00300">HORAS DO MEU PEITO</a> </li> + <li><a name="tex2html206" href="#SECTION00310">ÁGUAS VIÚVAS</a> </li> + <li><a name="tex2html210" href="#SECTION00320">PUREZA AMARGA</a> </li> + <li><a name="tex2html213" href="#SECTION00330">TIRANIA DO FOGO</a> </li> +</ul> + +<p><span class="pn">{124}</span></p> + +<p> </p> + +<table summary="Obras publicadas pelo editor."> + <tbody> + <tr> + <th colspan="2">Casa Editora de A. Figueirinhas</th> + </tr> + <tr> + <th colspan="2">PORTO</th> + </tr> + <tr> + <th colspan="2">Paulo Combes</th> + </tr> + <tr> + <td><strong>O Livro da Esposa</strong>, br. 500, enc.</td> + <td>700</td> + </tr> + <tr> + <td><strong>O Livro da Dona-de-Casa</strong>, br. 500, enc.</td> + <td>700</td> + </tr> + <tr> + <td><strong>O Livro da Mãe</strong>, br. 500, enc.</td> + <td>700</td> + </tr> + <tr> + <td><strong>O Livro da Educadora</strong>, br. 500, enc.</td> + <td>700</td> + </tr> + <tr> + <th colspan="2">Jaime de Magalhães Lima</th> + </tr> + <tr> + <td><strong>Rogações de Eremita</strong>, br.</td> + <td>300</td> + </tr> + <tr> + <th colspan="2">José Agostinho</th> + </tr> + <tr> + <td><strong>A Mulher em Portugal</strong>, br. 500, enc.</td> + <td>700</td> + </tr> + <tr> + <td><strong>O Caminho das Lágrimas</strong>, br. 600, enc.</td> + <td>800</td> + </tr> + <tr> + <td><strong>Cristo</strong> (Poema), 1.º vol. br.</td> + <td>500</td> + </tr> + <tr> + <td><strong>A Religião e a Arte</strong>, br.</td> + <td>100</td> + </tr> + <tr> + <th colspan="2">Frederico Mistral</th> + </tr> + <tr> + <td><strong>Mireia</strong>—Tradução de João Aires de Azevedo e + Manuel Teles—br. 500, enc.</td> + <td>700</td> + </tr> + <tr> + <th colspan="2">Bossuet</th> + </tr> + <tr> + <td><strong>Sermões</strong>, vol. I, br. 500, enc.</td> + <td>700</td> + </tr> + <tr> + <td><strong>Sermões</strong>, vol. II, br. 500, enc.</td> + <td>700</td> + </tr> + <tr> + <th colspan="2">Maria Pinto Figueirinhas</th> + </tr> + <tr> + <td><strong>Contos das Crianças</strong>, br. 300, enc.</td> + <td>500</td> + </tr> + <tr> + <td><strong>O Livro das Maravilhas</strong>, br. 300, enc.</td> + <td>500</td> + </tr> + <tr> + <td><strong>Os Serões das Crianças</strong>, br.</td> + <td>100</td> + </tr> + <tr> + <th colspan="2">Pedir Catálogos da Casa Editora de A. + Figueirinhas—Porto</th> + </tr> + <tr> + <th colspan="2" style="font-size: 0.8em;">DEPOSITÁRIO GERAL:</th> + </tr> + <tr> + <th colspan="2">Livraria Portuense LOPES & C.ª—Sucessor</th> + </tr> + </tbody> +</table> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's Rogações de Eremita, by Jaime de Magalhães Lima + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ROGAÇÕES DE EREMITA *** + +***** This file should be named 29884-h.htm or 29884-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/9/8/8/29884/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance +with this agreement, and any volunteers associated with the production, +promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works, +harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees, +that arise directly or indirectly from any of the following which you do +or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm +work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any +Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause. + + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of computers +including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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