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diff --git a/29550-h/29550-h.htm b/29550-h/29550-h.htm new file mode 100644 index 0000000..6d111cd --- /dev/null +++ b/29550-h/29550-h.htm @@ -0,0 +1,15901 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"> +<head> + <title>Mulheres e creanças</title> + + + <meta name="AUTHOR" content="Maria Amália Vaz de Carvalho" /> + + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=ISO-8859-1" /> + + <style type="text/css"> +body {width: 50%; margin-left:10%; text-align: justify;} +h1, h2, h3, h4, h5 { text-align: center;} +h1 {margin: 2em; text-align: center;} +h2, h4 {margin-top: 2em;} +.bbox {border: solid black 1px; margin-left: 5%; margin-right: 5%;} +.fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 75%; margin-left: 10%; margin-right: 10%;} +.signature { +margin-right: 5%; +text-align: right;} +.bbreak { +width: 80%; +margin-left:10%;} +.break { +width: 40%; +margin-left:30%;} +.sbreak { +width: 20%; +margin-left:40%;} +.breaks { +width: 10%; +margin-left:45%;} +.dots {color: #fff; background-color: inherit; border: 3px dotted #555; border-style: none none dotted;} +.pagenum { position: absolute; right: 35%; +font-size: 75%; +text-align: right; +text-indent: 0em; +font-style: normal; +font-weight: normal; +color: silver; background-color: inherit; +font-variant: normal;} + </style> +</head> + + +<body> + + +<pre> + +Project Gutenberg's Mulheres e creanças, by Maria Amália Vaz de Carvalho + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Mulheres e creanças + notas sobre educação + +Author: Maria Amália Vaz de Carvalho + +Release Date: July 30, 2009 [EBook #29550] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MULHERES E CREANÇAS *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + +</pre> + + +<div> +<div> +<div class="fbox"> <b>Nota de editor:</b> +Devido à +existência de erros tipográficos neste texto, +foram tomadas várias decisões quanto à +versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi +mantida de acordo com o original. No final deste livro +encontrará a lista de erros corrigidos.<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita +Farinha (Jul. 2009) +</div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="bbox"><br /> + +<h4>BIBLIOTHECA DO CURA DE ALDEIA </h4> + +<div class="bbreak"> +<hr /></div> + +<div class="bbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">D. MARIA AMALIA VAZ DE +CARVALHO <br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<h2>MULHERES E CREANÇAS</h2> + +<br /> + +<div class="breaks"> +<hr /></div> + +<h4>(NOTAS SOBRE EDUCAÇÃO) </h4> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 150px; height: 71px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<h4> +Editores―JOAQUIM ANTUNES LEITÃO & IRMÃO<br /> + +Rua do Almada 209―1.º andar<br /> + +PORTO </h4> + +<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<h3>MULHERES E CREANÇAS +</h3> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +A propriedade d'esta obra pertence: <br /> + +<br /> + +Em Portugal á <em>Bibliotheca do Cura de +Aldeia</em>. <br /> + +<br /> + +No Brazil ao snr. Adriano de Castro, residente no Rio de Janeiro.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="bbox"><br /> + +<h4>BIBLIOTHECA DO CURA DE ALDEIA </h4> + +<div class="bbreak"> +<hr /></div> + +<div class="bbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">D. MARIA AMALIA VAZ DE +CARVALHO <br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<h2>MULHERES E CREANÇAS</h2> + +<br /> + +<div class="breaks"> +<hr /></div> + +<h4>(NOTAS SOBRE EDUCAÇÃO) </h4> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 150px; height: 71px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<h4> +PORTO<br /> + +Editores―JOAQUIM ANTUNES LEITÃO & IRMÃO <br /> + +Rua do Almada 209―1.º andar <br /> + +1880 </h4> + +<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="bbreak"> +<hr /></div> + +<div class="bbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">TYP. DE ALEXANDRE DA +FONSECA VASCONCELLOS <br /> + +29, Rua do Moinho de Vento, 29<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">Á <br /> + +<br /> + +Minha querida mãe <br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="breaks"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<em>Companheira constante e fiel de toda a minha vida, +offereço-lhe este livro humilde, que escrevi inspirada pelos +seus conselhos e pelo seu santo e nunca desmentido exemplo.</em><br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>CAPITULO I </h3> + +<br /> + +<div class="breaks"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Falla-se hoje muito a respeito da dissolução +domestica, manifestada e provada constantemente por casos de divorcio, +suicidios, questões miseraveis entre parentes proximos, +rebelliões filiaes, etc., etc. <br /> + +<br /> + +Surprehende a todos aquelles, que sem aprofundarem radicalmente as +questões sociaes, se preoccupam todavia com ellas um pouco +mais +do que o vulgo, que este mal que todos sentem e que poucos definem, que +este estado inquieto e doloroso que depois de agitar a familia assusta +e perturba a sociedade, se haja aggravado justamente na +época em +que o homem auxiliado por grandes e immortaes pensadores, tem adquirido +a mais elevada e justa noção do Bem que ainda lhe +foi dado alcançar no seu caminho de seculos.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[8]</span> +A manifesta e clara contradicção que hoje mais do +que nunca existe entre as idéas e os factos desnorteia e +desanima ainda os espiritos mais penetrantes. <br /> + +<br /> + +Como é que o homem que tem domado a materia a ponto de fazer +d'ella a escrava submissa da intelligencia; que forçou a +grande +e muda Natureza a tornal-o seu confidente e seu senhor; que arrancou ao +astro e á planta o segredo immortal da vida que os anima; +que +penetrou―investigador implacavel―nas catacumbas das mortas +religiões, e que ouviu de cada uma a palavra suprema que as +explica e desvenda; porque é que o homem que tem hoje a +percepção lucida e +completa do seu destino, não soube ainda prostrar, vencer, +amordaçar o animal indomito que vive dentro d'elle, que o +martyrisa, que o rebaixa, que o leva muitas vezes ao abysmo, quando o +não leva ao lodaçal? Se o bom e +o bello lhe revelaram a sua larga claridade benefica, porque se +não revigora elle, e se não robustece +n'esse grande banho de luz? porque não estabelece uma +harmonia +perfeita e intima entre a idéa que fórma dos +deveres e a +sua manifestação pratica e vizivel? <br /> + +<br /> + +Depois de havermos concedido ás paixõe +Depois de havermos concedido ás paixões humanas o +imperio +relativo que ellas não podem perder, somos ainda +forçados +a confessar que na culpa d'esta desgraça que todos lamentam, +compete ás mulheres um grandissimo quinhão. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[9]</span> +Concorrem ellas em grande parte para dar força ao impulso +que +contraria a marcha triumphante e apesar de tudo invencivel, que leva a +civilisação no +caminho da verdadeira luz. E concorrem por varias e complexas +razões que devem analysar-se e depois combater-se. <br /> + +<br /> + +Ignorantes impoem resistencia inconsciente ás +transformações continuas do progresso. <br /> + +<br /> + +Retrogradas por educação e por natureza, cada +innovação se lhes affigura ou uma cousa inutil, +ou uma cousa perigosa. <br /> + +<br /> + +Amesquinhadas pela profunda escuridão intellectual em que +jazem +immersas, em vez de auxiliarem o homem no cumprimento difficil do dever +afastam-no pelo desdem, desanimam-no pela frivolidade, +cançam-no +com as exigencias loucas, gastam-lhe a força, o alento, as +aspirações arrojadas e grandes na +satisfação de desejos pueris, ou lhe destroem a +dignidade +e lhe annullam a energia obrigando-o a transigir com os desvairamentos +d'uma imaginação doentia. <br /> + +<br /> + +Mas se as mulheres produzem este effeito funesto confesse-se para bem +da justiça que aos homens se deve o atrazo intellectual em +que +todas nós estamos. <br /> + +<br /> + +Sentem elles, e a meu ver sentem muito bem, que para conservar este +equilibrio necessario á +manutenção da ordem na familia e na sociedade, +cumpre que a mulher se não +<span class="pagenum">[10]</span> +revolte contra a inferioridade a que +fatalmente a condemnam as leis, e contra a dependencia a que a +condemnam os costumes. <br /> + +<br /> + +Para alcançarem porém esta submissão +voluntaria entenderam desde muito, que o melhor meio consistia em +condensar as trevas da ignorancia e da +superstição em torno d'aquella de quem +são forçados a fazer a +sua companheira na vida, o seu consolo nas horas da +provação, a mãe de seus filhos, a +carne da sua carne. <br /> + +<br /> + +Terrivel contradicção, systema absurdo que tem +como +resultado a lenta desorganisação da familia +e que corrompendo a mulher atravez do homem, não +póde +deixar d'ir com o andar dos tempos corrompendo o homem atravez da +mulher. <br /> + +<br /> + +D'um lado querem conservar-nos n'uma plana muito inferior á +sua, como +illustração, conhecimentos, intelligencia, isto +para que nunca nos venha á +idéa aspirar á perfeita igualdade dos direitos e +dos privilegios; +d'outro lado exigem de nós prodigios de virtude, de +abnegação, de paciencia, de que só +são capazes as almas bafejadas pelo sopro ideal da eterna +Perfeição. <br /> + +<br /> + +A mulher precisa de ser moralmente mais forte do que o homem, para +conseguir levar a cabo a tarefa relativamente superior que a natureza e +a sociedade lhe impoem. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[11]</span> +No dia em que se assentar este ponto como verdade incontestavel, o +mundo terá dado um dos seus passos mais gigantescos no +caminho +da felicidade. <br /> + +<br /> + +Educar a mulher eis o grande problema que resta ainda a resolver. <br /> + +<br /> + +Educar a mulher é arrancal-a na infancia ao seu +berço fôfo e tepido de beijos, e leval-a por +caminhos d'uma magestade austera que ella nunca trilhou. <br /> + +<br /> + +É preparal-a para a grande lucta moral que é a +Vida, com +os cuidados com que Sparta, a guerreira cidade antiga, preparava os +seus filhos para as luctas do corpo, para as victorias da destreza +physica. <br /> + +<br /> + +É associal-a pela comprehensão e pela sympathia a +todos os trabalhos e investigações do homem +moderno; é dar-lhe ao lado d'este um lugar honroso e +definido, não egual pois que são diversas as +attribuições de ambos, mas equivalente em +direitos e em deveres. <br /> + +<br /> + +É fazer-lhe comprehender bem claro que as +seducções do corpo―seu orgulho supremo e seu +constante desvanecimento―quando não são reflexo +da +formosura e da robustez da alma, não passam d'um +laço +ignobil armado ao animal malefico e bravio que todo o homem encerra em +si. <br /> + +<br /> + +Educar a mulher é leval-a a compenetrar-se do seu papel +providencial na familia, e achal-o grande, util, elevado, digno de +saciar as mais levantadas ambições, +<span class="pagenum">[12]</span> +e +tambem―o que é d'uma importancia capital―de pezar como uma +responsabilidade tremenda no animo mais altivo. <br /> + +<br /> + +É dar-lhe uma idéa perfeita do dever e da +justiça, um Ideal a que tendam incessantemente as +aspirações do seu espirito, uma +religião que a +hypocrisia e os calculos interesseiros não maculem nem +amesquinhem, que se resuma para ella no sacrificio e no amor, mas +sacrificio sem voluptuosidades dissolventes e amor sem extasis +hystericos e sem raptos de paixão sensual. <br /> + +<br /> + +Não basta porém exprimir tudo que se ousa esperar +da mulher de ámanhã, é preciso tambem +lançar um olhar demorado e justo ao que é a +mulher d'hoje. <br /> + +<br /> + +Só assim poderão comprehender-se os erros que +é preciso desarreigar, os preconceitos que é +indispensavel destruir, a distancia enorme que temos de +transpôr +para chegar ao momento da sua completa e salutar +transformação.<br /> + +<h4>II </h4> + +<br /> + +As divisões sociaes que hoje em face dos homens educados nos +mesmos collegios, nas mesmas academias, +<span class="pagenum">[13]</span> +nas mesmas escolas +superiores, quasi que se não distinguem, ou se distinguem +apenas +por ligeiros cambiantes imperceptiveis ás vistas +superficiaes, +imperam ainda na mulher com extraordinaria força. Vamos pois +procurar ás diversas classes as suas femeninas +representantes, e +pincipiemos pela mulher da classe media, classe que considerada no seu +elemento masculino representa a intelligencia, a riqueza, o commercio, +a industria, o progresso d'um paiz. <br /> + +<br /> + +A mulher d'essa classe especial divide-se em dous generos +accentuadamente distinctos: aquella que as vaidades sociaes ainda +não corromperam, e aquella que pretende offuscar com os +deslumbramentos da sua opulencia, as finas graças, as +exterioridades elegantes, os requintes herdados e tradicionaes que +pompeiam nas regiões mais elevadas da sociedade. <br /> + +<br /> + +A primeira é evidentemente mais sympathica; é +laboriosa e +tem a rude sensatez plebeia da sua raça. Tem o amor dos +filhos, +um amor animal, um amor physico, mais instincto do que +religião. +Não +raciocina mas sente com uma energia poderosa e creadora. <br /> + +<br /> + +É d'uma ignorancia absoluta, ingenua, profunda, quasi +sublime na +sua cegueira. Imagina-se porém investida d'um dever supremo +a +que todos se subordinam:―o de proporcionar por todos os meios ao seu +alcance o bem estar material do marido, e da familia. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[14]</span> +Não tem conversação, não +tem espirito, não tem aquella doçura benevola e +intelligente que é para +o coração dos homens o que o algodão +em +rama é para o ninho das aves. <br /> + +<br /> + +Quando aconselha irrita; quando quer guiar contraria, quanto tenta +convencer, despersuade. <br /> + +<br /> + +É porém activa, aceada, robusta, fiel, e nas +horas de adversidade, de doença, de desfallecimento ou de +miseria, tem os carinhos rudes, tem a dedicação +humilde, tem a vigilancia perseverante, tem o exemplo energico e +fecundo por isso mesmo. <br /> + +<br /> + +O homem anda lá fóra, na lucta, no trabalho, na +investigação, na sciencia; vae vivendo e vendo +como n'uma ascensão rude, desvendarem-se todos os dias +horisontes novos, vae estudando e sentindo como n'uma +iniciação progressiva dilatar-se-lhe o +espirito, clarear-se-lhe o entendimento. <br /> + +<br /> + +Ella a esposa, a sua companheira, a sua melhor amiga, ignora os seus +combates, as suas glorias, as acres delicias do seu sacrificio, os +desanimos, as horas de impotencia, as aspirações, +os +arrebatamentos +triumphantes da victoria. <br /> + +<br /> + +Percebe simplesmente se o marido está doente, se anda magro, +se +tem fastio, se tem roupa branca. Inventa-lhe pequenos pratos, +manipula-lhe remedios caseiros, vigia para que lhe não +faltem aquelles commodos +<span class="pagenum">[15]</span> +que elle aprecia, tem prodigios de +invenção espontanea para o envolver no bem estar +tão necessario aos que se consomem n'uma actividade sem +treguas. +<br /> + +<br /> + +De que ha de elle queixar-se? De nada. <br /> + +<br /> + +É amado, é estremecido, obedecem-lhe cegamente, +tem a +certeza de encontrar ao seu lado sempre que o precise um sincero e leal +affecto. <br /> + +<br /> + +Mas quando um sentimento superior o transporta, quando uma grande +idéa o levanta e ennobrece, quando um nobre desejo do bello +e do +bom lhe faz palpitar de enthusiasmo o coração, +é +debalde que elle busca junto de si o espirito que comprehenda o seu +espirito, que partilhe as suas impressões, que lhe revele +emfim +intima, absoluta, indestructivel, essa união ideal sem a +qual o +casamento é espiritualmente infecundo e incompleto. <br /> + +<br /> + +Isto tem de esmorecer fatalmente o impulso que levava esse trabalhador, +esse homem de pensamento ou de sciencia á conquista e +á +posse da sua +felicidade. <br /> + +<br /> + +Sem que elle talvez mesmo dê por isso, uma tristeza +indefinivel, vaga, sem traducção, +lança como que um sopro esterilisador sobre as suas mais +queridas +concepções. Falta-lhe alguma cousa que elle +precisava e que no entretanto não conhece nem sabe definir. <br /> + +<br /> + +Falta-lhe o complemento do seu sêr! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[16]</span> +Subamos agora na escala social mais um degrau. <br /> + +<br /> + +O trabalhador incansavel venceu. <br /> + +<br /> + +O dono da fabrica fez-se capitalista; o chimico enriqueceu com a sua +descoberta; o medico alcançou uma popularidade subita; o +industrial ganhou um milhão. <br /> + +<br /> + +Elle é simples e modesto, lembra-se dos dias em que +trabalhava e +combatia, como dos seus dias melhores; não quer offuscar +ninguem, basta-lhe hoje como hontem lhe bastava a consciencia do seu +valor individual. <br /> + +<br /> + +Ella porém a mulher―e eis a segunda variedade que acima +citamos―ella que deixou penetrar na sua alma ignorante o veneno da +vaidade, ella a quem o trabalho forçado já +não +absorve, e a +quem as distracções elevadas e nobres d'um +espirito culto +são vedadas, ella que não pensa, que +não medita, +que +não entendeu bem na sua acepção +levantada e digna +a +missão exercida pelo marido pois que se envergonhava da +pobreza +honesta em que vivera largo tempo, eil-a que deseja esmagar as que a +esmagaram n'outra época com o pezo da sua superioridade +social, +eil-a que opera a pouco e pouco, quasi imperceptivelmente, uma +influencia funesta no homem, que o corrompe, e que o arrasta. <br /> + +<br /> + +Emquanto elle tivera as serenas e robustas +consolações do trabalho que a intelligencia +illumina, e a +que a intelligencia preside, tinha ella apenas na sua profunda +<span class="pagenum">[17]</span> +escuridão mental, as +pequenas +humilhações, as raivas mal dissimuladas, os +despeitos mal +contidos. <br /> + +<br /> + +Não podendo ter a consciencia do seu dever o que a faria +sublime, só tivera a consciencia da sua +inferioridade, que a tornara mesquinha e redicula. Chegando o momento +da desforra exigi-a completa. <br /> + +<br /> + +Leitora, quando tu vires passar triumphante, grosseiramente desdenhosa, +mal sentada nos flaccidos coxins d'um <em>coupé</em> +de oito molas, +coberta de velludos e de rendas a altiva burgueza dos nossos dias, +lembra-te que é o fructo pernicioso da ignorancia combinada +com +a mais feroz vaidade. <br /> + +<br /> + +Ninguem a excede no absurdo desprezo por tudo que está +abaixo d'ella, que é mais pobre, mais +humilde, menos cheio de lantejoilas e de falsos brilhantes. <br /> + +<br /> + +Tem as refinadas atrocidades do paria que se vinga. <br /> + +<br /> + +Como para ella ser pobre foi o maximo dos martyrios e a maxima das +humilhações envolve todos os +pobres no mesmo olhar de cruel desdem. <br /> + +<br /> + +As filhas d'esta mãe são as +desgraçadas creanças que por ahi vendem a sua +mocidade e +os seus carinhos por um titulo avariado ou pelos milhões +d'um +negreiro enriquecido. <br /> + +<br /> + +Não as accusemos, accusemos antes a perniciosa, a funesta +educação que receberam, germens que +teem no +Não as accusemos, accusemos antes a perniciosa, a funesta +educação que receberam, germens que +teem no passado as suas raizes damninhas e que vão estender +<span class="pagenum">[18]</span> +sobre o futuro a sua +sombra deleteria e esterelisadora. <br /> + +<br /> + +Combater estes erros, lançar por terra estes preconceitos +deve ser a mira de todo o ser que pensa e crê!<br /> + +<h4>III </h4> + +<br /> + +Deixemos agora os <em>menages</em> modestos +onde reina o trabalho ou os salões vulgarmente luxuosos onde +a +riqueza ostenta os seus vãos orgulhos, e penetremos no <em>boudoir</em> +elegante, onde a mulher do +alto mundo proclama o que se lhe afigura a sua incontestavel +superioridade. <br /> + +<br /> + +Ha um preconceito falsamente democrata, e digo <em>falsamente</em> +porque a democracia tem +obrigação de ser justa, imparcial e intelligente, +que +attribue aos restos desmantelados da nossa aristocracia, todas as +culpas e todas as inferioridades. <br /> + +<br /> + +Engano! <br /> + +<br /> + +É verdade que a aristocracia portugueza avaliada no seu +conjuncto, se annullou pela ignorancia, como a aristocracia franceza se +annullou pelo desdem, e a prova temol-a nós em Inglaterra +onde esta classe que +<span class="pagenum">[19]</span> +não foi nunca ignorante nem desdenhosa, predomina com todo o +pezo d'uma robusta instituição de +seculos nos destinos politicos, economicos e sociaes da +nação. <br /> + +<br /> + +Hoje porém, o que em Portugal resta de uma raça +que teve +todos os privilegios e todas as prepotencias, tenta instruir-se de boa +vontade, aspira a levantar-se pelo valor individual, e se raras vezes o +consegue, é que o passado exerce ainda a sua influencia +nefasta, +é que a decadencia e o abastardamento das raças +são uma verdade scientifica contra a qual nada +póde a +vontade humana. <br /> + +<br /> + +A fidalga tradicional e lendaria, soberba, sem conseguir ser magestosa, +ignorante, cheia de preconceitos, de rediculos e de toda a especie de +idéas estapafurdias, olhando de muito alto com um pasmo +idiota +que aspira a ser desdenhoso, para as maravilhas d'uma +civilisação que não comprehende, +vae desapparecendo completamente até dos velhos solares da +provincia acastellados e altivos. <br /> + +<br /> + +Morre sem deixar saudades e sem ter quem a substitua. <br /> + +<br /> + +Hoje as representantes femeninas das altas classes se não +seguem +um caminho mais verdadeiro, mais util, mais fecundo em resultados +praticos, revestem ao menos a sua falsa percepção +da +idéa moderna, +d'um prestigio que á primeira vista agrada e seduz. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[20]</span> +A educação d'ellas, uma +educação toda exterioridades brilhantes, se +não +é aquella de que carecem as mães, as perceptoras +de +futuro, estabelece comtudo e accentua incontestavelmente a sua +superioridade social sobre as gerações que as +precederam. +<br /> + +<br /> + +A influencia estrangeira e sobretudo a franceza, penetrou nas salas +desbotadas dos nossos palacios e nas luxuosas residencias da nossa +aristocracia moderna. <br /> + +<br /> + +Se não temos a mulher de familia, a creadora de uma +geração robusta, conscienciosa, crente e +leal, temos a <em>mulher de sala</em>, que é +uma nova face da transformação lenta por que +vão passando as idéas e os acontecimentos. <br /> + +<br /> + +A mulher de sala é um producto exotico entre nós. +<br /> + +<br /> + +A França recebeu-a da Italia, cultivou-a, transformou-a, +deu-lhe +todos os requintes falsos, todos os donaires artificiaes, ergueu-lhe um +throno no seio das suas côrtes galantes, e deixou que +nós, +vendo-a de +longe a cubiçassemos e tentassemos transplantal-a para os +nossos +costumes chãos, para a nossa pobreza envergonhada e modesta. +<br /> + +<br /> + +Sahiu-nos uma cousa hybrida e estranha, que não +está em relação com o seu meio, +deslocada, inutil, mas em todo o caso attrahente para os olhos +superficiaes. <br /> + +<br /> + +A mulher de sala falla umas poucas de linguas, com facilidade e +fluencia; escreve bem, com uma certa +<span class="pagenum">[21]</span> +graça adquirida que +não +occulta a frivolidade, +mas que a envolve em véu rendilhado; conversa com vivesa e +com +chiste, sabe dar aos pequenos +<em>nadas</em> da sua vida uma elegancia que illude os +incautos. Quem +a vê de longe, no scenario pomposo da sua opulencia, sente-se +deslumbrado; quem a observar de perto conhece que ella tem de facto +caminhado para se afastar das suas predecessoras, mas que o caminho que +vae trilhando é como o que ellas trilharam, um caminho +falso, um +caminho sem sahida. <br /> + +<br /> + +O primeiro obstaculo que a separa da verdadeira luz, é uma +devoção inteiramente +errada, em que a idéa luminosa e fecunda prégada +pelo +Christo se subverte e se afoga n'uma onda de preconceitos e de mentiras +anti-christãs. <br /> + +<br /> + +Se a mulher das classes inferiores estabelece entre si e o marido uma +barreira enorme―a sua ignorancia―a mulher mais culta e mais educada +das classes elevadas separa-se do marido, como se separa mais tarde dos +filhos isolando-se na esphera inaccessivel do seu intransigente +fanatismo. <br /> + +<br /> + +Quando digo fanatismo, não quero referir-me a uma +crença +exaggerada e absoluta, que impere em todos os actos da vida, e que os +subordine ás suas austeras exigencias. <br /> + +<br /> + +É um fanatismo elegante, um fanatismo de +<em>alta</em> +<span class="pagenum">[22]</span> +<em>vida</em>, +bastante indulgente para se +permittir todos os gozos sociaes, bastante severo para não +admittir que haja virtudes, merito, nobreza, sublimidade possivel +fóra do seu estreito gremio. <br /> + +<br /> + +Aqui como alli é sempre o divorcio na familia debaixo de +qualquer dos aspectos. <br /> + +<br /> + +Aqui porém mais completo ainda, visto que a vida da +sociedade +exige mais da mulher, visto que n'esta existencia de +representação exterior e pueril, +nem ao menos subsiste entre a mulher e o marido aquella intimidade +material, aquella protecção mutua que faz com que +o homem +seja o braço, o amparo, o sustentaculo, e a mulher o +desvelo, a +economia, a vigilancia continua, a dispensadora e reguladora de todos +os confortos materiaes da familia. <br /> + +<br /> + +A mulher de sala vive para todos, menos para os seus. <br /> + +<br /> + +Veste-se, despe-se, reza, confessa-se, recebe visitas, tagarella, +agrada, encanta, mas no meio d'este labyrintho de pequenas +occupações, de pequenos deveres, de pequenas +caridades +officiaes, de pequenas praticas devotas, ignora completamente e +absolutamente tudo que póde constituir a verdadeira +missão da mulher +no mundo e na familia. <br /> + +<br /> + +Se alguem tivesse a ousadia de dizer-lhe: <br /> + +<br /> + +―Julgas-te superior e moralmente fallando a mulher +<span class="pagenum">[23]</span> +do povo que ganha com o suor +do rosto ao lado do homem, o pão que os filhos +hão de +comer +á noite, tem sobre ti superioridade moral incontestavel. <br /> + +<br /> + +Julgas-te instruida e não tens no teu pequeno cerebro +recheiado +de insignificancias bonitinhas, a noção +mais elementar dos milhões de cousas que precisas de saber +para +estares em harmonia com o teu tempo, para educares dignamente aquelles +em cujas mãos estão +os destinos de ámanhã. <br /> + +<br /> + +Julgas-te virtuosa e não pratícas nem concebes +sequer nenhuma d'aquellas virtudes sãs que são a +dignidade, o imperio e a força da mulher. <br /> + +<br /> + +Julgas-te religiosa e cada uma das tuas praticas acanhadas, cada um dos +teus preconceitos mesquinhos te aparta da verdadeira +religião +que allumia e esclarece os fortes. <br /> + +<br /> + +Julgas-te boa esposa e boa mãe e vives sósinha +n'um mundo +teu, povoado de phantasias morbidas, onde teu marido e teus filhos +não penetram; não +tentas acompanhal-os, consolal-os, comprehendel-os; nunca te veio +á idéa que a mãe de familia +precisa de viver no coração dos seus, +identificada +completamente com +elles, para ser digna d'este sagrado nome! <br /> + +<br /> + +Se alguem lhe dissesse isto ella julgaria ouvir fallar uma lingua +estranha, ou rir-se-ia com desdenhosa incredulidade. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[24]</span> +Pois é necessario que ella entenda esta +lição, que ella ouça estas palavras, e +que pelo +seu esforço +permanente e consciencioso, ella tente sahir das trevas intellectuaes e +moraes em que a sua funesta e falsa educação a +teem +submergido. <br /> + +<h4>IV </h4> + +<br /> + +No meio do desalento profundo, da inconsolavel tristeza, que n'esta +época parece obumbrar de espessas nuvens a alma do homem, e +como +que vencer-lhe as aspirações e as energias, +erguemos a +voz +desauctorisada e humilde para apontar algumas das causas que produzem +effeitos tão deploraveis. <br /> + +<br /> + +Temos visto a desharmonia que existe no lar domestico, e encontramos +como unico motor de tamanho desastre a desigualdade intellectual que a +educação estabelece e nutre entre os dous sexos. <br /> + +<br /> + +Mas não se trata sómente de observar as causas e +os +effeitos, trata-se de pensar n'um remedio que seja efficaz para este +estado de cousas, que a prolongar-se indefinidamente produz a +dissolução social nos +seus aspectos mais dolorosos e mais repellentes. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[25]</span> +Se a sociedade e a civilisação requintada e +corrupta dos nossos tempos ainda não ensinaram á +mulher o +caminho verdadeiro e util que tem a seguir, antes d'elle a teem +afastado mais e mais, ella póde ainda erguer-se do marasmo +intellectual em que se compraz, e mostrar ao homem que é +digna +de coadjuval-o na sua obra de reedificação, digna +de +acompanhal-o +na realisação pratica do que para elle, +desajudado e +só, não tem passado d'uma bella +concepção +theorica onde ás vezes transluzem não sei que +visos de +chimera. +<br /> + +<br /> + +Todos os seculos teem mais ou menos acceitado a herança dos +seculos precedentes. <br /> + +<br /> + +Ao nosso cabe porém a gloria de ter renegado muitos erros do +passado, de ter proclamado a sua independencia, de ter produzido um +reviramento absoluto n'esse conjuncto de idéas, de +conhecimentos, de +aspirações e de theorias que constituem o <em>ideal</em> +humano. <br /> + +<br /> + +O que hoje se exige da mulher é positivamente o contrario do +que +a sociedade antiga affeiçoada por moldes diversissimos +exigia +até agora. <br /> + +<br /> + +Este ponto d'uma importancia capital precisa de ser esclarecido a +fundo. <br /> + +<br /> + +Á escravidão absoluta a que o nosso sexo se +curvou sob o imperio de religiões extinctas, á +bruteza +dilacerante em que elle viveu submerso entre as sombras das idades +barbaras, succedeu―e succedeu providencialmente―a +<span class="pagenum">[26]</span> +apotheose da +mulher divinisada pelo christianismo, aureolada por aquella poesia +artificial, exageradamente requintada e platonica dos trovadores da +Edade media, e aquella abnegação amorosa e +idealista dos +paladinos da cruz! <br /> + +<br /> + +Essa transformação radical no destino da mulher +fez sentir a sua influencia até hoje, em phases e +gradações successivas e diversas. <br /> + +<br /> + +Á castellã de repente acordada do seu lethargo +mental, +pela tiorba namorada do pagem, ou pela supplica ardente do cavalleiro, +succedeu a rainha das +<em>côrtes de amor</em>, a que erigia em dogma +ideal o adulterio, a que proclamava em sentenças +<em>preciosas</em> a quebra de todos os laços da +familia, a que +via no amor requintado, falsamente seraphico, um direito superior a +todos os direitos e deveres domesticos. Veio depois a gentil +pagã da Renascença, a inspiradora dos artistas, a +amante dos papas, a musa dos loucos poetas, a princeza dos festins, +erudita, apaixonada, intelligente, cheia de phantasias superiores, que +se era virtuosa se chamava Victoria Colonna, e se era dissoluta se +chamava Lucrecia Borgia. <br /> + +<br /> + +A esta que correspondia ao seu meio social, que cumpria uma +missão civilisadora, que tinha o seu destino marcado, e a +sua +orbita descripta succedeu a mulher de sala do seculo XVII e do seculo +XVIII, de que +<span class="pagenum">[27]</span> +hoje +só temos a descendencia amesquinhada, decadente, +anachronica, e, +o que é peor de tudo, inutil quando não +é funesta, +ridicula quando não +é tambem perniciosa, o que lhe succede quasi sempre. <br /> + +<br /> + +O homem que muitos seculos considerou a mulher um animal inferior e mal +domesticado, fez d'ella movido por influencias que não +podemos +historiar aqui, o seu luxo, a sua poezia, o enlêvo das suas +horas +de ocio, depois novamente a escrava dos seus vicios ou o instrumento +dos seus prazeres, e por fim um mero ornamento social, um brinquedo sem +importancia, uma creança indocil, ante a qual se curvava, +não +porque a respeitasse mas porque n'esta falsa e mentida +submissão +encontrava novos requintes de prazer. <br /> + +<br /> + +Não comprehendeu porém que era victima da sua +propria +injustiça, que a corrupção da +mulher se convertia para elle em gangrena, que o seu amesquinhamento se +lhe communicava em villeza, que a sua ignorancia o fazia tambem +retrogradar, que ha relações reciprocas que +não +podem quebrar-se, e influencias mutuas a que os dous sexos ao mesmo +tempo divorciados e unidos, não podem por mais que queiram +furtar-se.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Hoje uma corrente de ar puro, a corrente das idéas +democraticas, +purificou a atmosphera viciada +<span class="pagenum">[28]</span> +onde uns poucos de seculos haviam +deixado os vestigios das suas paixões insalubres. <br /> + +<br /> + +Tudo se transfigurou sob esta influencia benefica. Fez-se uma grande +claridade na alma dos povos e na dos individuos, o pensamento +reconquistou a sua independencia perdida, e uma voz firme e poderosa +bradou bem +alto: <br /> + +<br /> + +―Não se tracta de continuar no caminho que iamos trilhando, +tracta-se de procurar uma nova +direcção que nos conduza á verdade. <br /> + +<br /> + +Ouvir esta voz é renunciar aos erros do passado, e cumpre +que +nós mulheres renunciemos a elles, para não +caminharmos +por uma estrada opposta áquella por onde vão +subindo +fortes, illuminados, convencidos, os nossos paes, os nossos esposos, os +nossos irmãos. <br /> + +<br /> + +Não é a uma penna tão obscura como +é a minha que pertence dar leis absolutas sobre um systema +de educação diverso do que hoje está +geralmente adoptado. <br /> + +<br /> + +Limitar-me-hei rapidamente e apenas animada com a força da +consciencia, consultando o bom senso que é apanagio dos mais +humildes, e a +observação que póde ser partilha dos +mais pobres, +a indicar alguns dos obstaculos que nos separam moralmente d'aquelles +de quem sômos companheiras e de quem devemos ser auxilio e +complemento.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[29]</span> +A vida da sociedade é uma vida toda de egoismo e de vaidade, +a +vida de familia uma vida de renunciamento e de +abnegação. +<br /> + +<br /> + +Para viver na sociedade a mulher só precisa de ser +exteriormente +agradavel, para viver na familia a mulher precisa de ser forte. <br /> + +<br /> + +O mundo exige as graças, as garridices, as subtilezas do +espirito, as louçanias do tracto; a familia sem prescrever +inteiramente aquellas, exige acima de tudo a consciencia firme, a +idéa clara e definida dos deveres, o espirito do sacrificio, +e +aquella energia branda que resiste ás +tentações +dissolventes +do peccado. <br /> + +<br /> + +Entendemos pois que os esforços de todos os educadores, de +todos +os que se preoccupam com o futuro da sociedade devem convergir para +annullar a mulher dos salões, e para crear e fortalecer a +mulher +da familia. <br /> + +<br /> + +Não nos revoltamos contra as graciosas futilidades que hoje +constituem a educação feminina, +não as condemnamos a um completo ostracismo, desejamos +simplesmente vel-as collocadas no lugar que por sua natureza lhes +compete. São simples ornatos decorativos, como taes os +applaudimos e os queremos, não como fundo solido e base de +todo +o cultivo intellectual da mulher. <br /> + +<br /> + +Tambem não pedimos para o nosso sexo a +emancipação, +<span class="pagenum">[30]</span> +essa utopia de que hoje se falla tanto +e com tantas banalidades impensadas. <br /> + +<br /> + +O que nós desejariamos era vêr na mulher uma +personalidade +robusta e consciente, inaccessivel ás chimeras +da sentimentalidade, solidamente e despretenciosamente instruida, tendo +todas as noções praticas necessarias para +subordinarem o +seu destino ás leis do bom senso, ao alcance de todos os +descobrimentos e de todas as conquistas do seu tempo, comprehendendo o +bello debaixo de todos os seus aspectos; prompta para perdoar o mal mas +não para transigir com elle; sabendo resistir-lhe mas +sabendo +explicar as circumstancias que o attenuam ás vezes. <br /> + +<br /> + +Tendo acima de todas as religiões a religião do +Bem, +sacrificando-se aos seus affectos, mas sacrificando-se principalmente +aos seus deveres. <br /> + +<br /> + +Laboriosa como condição indispensavel da propria +dignidade. <br /> + +<br /> + +O trabalho é a redempção. <br /> + +<br /> + +Não ha mulher que não tenha conhecido mais ou +menos +fugitivas, mais ou menos traiçoeiras, mais ou menos +perigosas, +essas horas más chamadas +tentações. O trabalho é a salvaguarda +para essas +horas. <br /> + +<br /> + +Os espiritos ociosos são os espiritos accessiveis. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[31]</span> +No dia em que este novo ideal tiver tomado uma fórma +tangivel até para os mais humildes e para +os mais ignorantes a familia estará salva, porque +terá por esteio a moralidade. <br /> + +<br /> + +Até então ha de haver as incertezas, as duvidas, +as vacillações, os desalentos que tornam esta +hora da vida das nações, uma hora contradictoria, +estranha, profundamente dolorosa, que já não tem +raizes no passado sem ter ainda um ficto no futuro. <br /> + +<br /> + +Trabalhem todas as mães n'esta obra sublime, e como a +mythica +Minerva sahiu armada do cerebro olympico de seu pae, assim a mulher +sahirá do ninho em que se educou, já prompta para +receber +a pé firme o embate tempestuoso das paixões, que +se a +vencem a inutilisam e a degradam. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>CAPITULO II </h3> + +<h3> +O falso luxo </h3> + +<br /> + +<div class="breaks"> +<hr /></div> + +<h4>I </h4> + +<br /> + +Na nossa pequena sociedade de Lisboa, em que os meios estão +em +completo desequilibrio com os desejos, chega todos os annos um periodo, +o periodo que antecede o carnaval, em que nos julgamos mais ou menos +obrigados a sacrificar ao amor da sociabilidade. <br /> + +<br /> + +Entendemos que uma sociedade civilisada não póde +viver sem festas e sem saraus, portanto é +necessario que sem hesitação façamos +tudo que nos +seja possivel, e mesmo impossivel, para darmos e recebermos saraus e +festas. <br /> + +<br /> + +Ouço eu por ahi dizer e affirmar que os talentos +<span class="pagenum">[34]</span> +e os genios enxameiam como papoulas nas +seáras de abril. <br /> + +<br /> + +Não duvido, não senhor; temos talento, temos +genio, temos +superioridade, temos phantasia, temos tudo quando quizerem. <br /> + +<br /> + +O que nós não temos é uma cousa +pequena, humilde, despertenciosa, desdenhada. <br /> + +<br /> + +Não temos <em>bom-senso</em>. <br /> + +<br /> + +Não quero aqui entrar na questão muito complexa e +muito +complicada de saber se as festas, se os bailes, se os jantares de gala, +se todas as ceremonias pomposas da vida mundana podem ter no +desenvolvimento da industria, no progresso da +civilisação +moderna +alguma influencia benefica. <br /> + +<br /> + +Em outros paizes mais ricos, em outras nações +mais +industriaes, em outro regimen mais favoravel ao luxo creio que sim. <br /> + +<br /> + +Entendo eu, porém, que as leis geraes não se +podem applicar a casos especiaes, e que nós não +podemos +conservar a vida falsamente luxuosa que é e +continuará a ser por muito tempo o nosso ideal supremo! <br /> + +<br /> + +Em Lisboa haverá cem familias que estejam no caso de gastar +em superfluidades um rendimento avantajado. <br /> + +<br /> + +Mas, como o amor da representação é o +nosso cunho +<span class="pagenum">[35]</span> +nacional, +como o desprezo pelos pobres é o timbre e o +brazão da +nossa sociedade, como o luxo é o sonho e a +aspiração constante de todos os +cerebros juvenis, provém d'aqui que dia a dia, se sente na +familia uma perturbação e uma desharmonia mais +graves que +o contentamento intimo e desinvejoso vae-se tornando uma flôr +rara, que só aqui ou alli enfeita +suavemente a fronte ignorante de uma collegial de quinze annos! <br /> + +<br /> + +Depois, como se não póde vencer o impossivel, +mesmo as +que empregam os maximos sacrificios para apparecerem e brilharem, +depois de alcançado o fim a que aspiravam, ficam mais +tristes e +mais despeitadas do que antes de o ter realisado. <br /> + +<br /> + +No baile, á luz opalina dos lustres, no aroma capitoso das +violetas, entre as magnificencias avelludadas das camelias, percebem―e +com que amargo desespero!―que o seu vestido não +está +fresco, que +estão machucadas as suas flores, que a ninguem illude o +amarellado artificial das suas rendas falsas, e que o <em>strass</em> +não +póde substituir com muita vantagem os diamantes verdadeiros. +<br /> + +<br /> + +Oh! quantas privações, quantos sacrificios, +quantas luctas conjugaes, que scenas intimas, para +alcançarem aquella <em>toillete</em> +mesquinha, +desbotada, humilhante, que parece ter malicias diabolicas em cada +<span class="pagenum">[36]</span> +uma das suas pregas, a rir-se +ferozmente no seu +<em>fru-fru</em> escarnecedor. <br /> + +<br /> + +E a dona d'esse vestuario hybrido pensa de si para si com uma furia +concentrada, que põe manchas biliosas nas suas faces, e +chispas +sombrias nos seus olhos pisados. <br /> + +<br /> + +―«Não consigo humilhar nenhuma das minhas +inimigas, +não venço nenhuma das minhas rivaes! As +pobres adivinharão todas as penas que esta hora de +ostentação me tem custado! as ricas +terão dó, um dó profundo da minha +miseria mal +disfarçada e mal occulta! Que ganhei eu com isto?» +<br /> + +<br /> + +Ganhou, minha senhora, ganhou alguma cousa, póde crer. +Ganhou a +certeza de que seu marido ou não a estima já, se +é +honesto e digno +e tem a alta comprehensão dos deveres da familia, ou +continua a +sentir o mesmo que até alli tinha sentido, uma +paixão insalubre ou uma indifferença bestial, e +n'esse +caso não passa de um homem tolo, ou de um homem +máu! <br /> + +<br /> + +Ganhou o haver definido, de si para comsigo a sua propria +situação; ganhou o reconhecer bem a que especie +de marido +entregou o destino de seus filhos e o seu. <br /> + +<br /> + +E não se diga que ha n'estas minhas palavras demasiada +acrimonia, ou injustiça flagrante. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[37]</span> +O nosso defeito consiste positivamente n'isso: em dar pouca +attenção a todas as cousas; em ver os +resultados sem observar e sem julgar as causas; em perdermos +completamente de vista, que não ha effeito por mais +mesquinho +que não seja o corollario de uma lei importante. <br /> + +<br /> + +Não quero, já se vê, condemnar sem +appello as senhoras que frequentam a sociedade e se habituam +á atmosphera artificial dos salões. <br /> + +<br /> + +Quero provar simplesmente que entre cem senhoras que o fazem, +só +dez é que o podiam fazer, e que o nosso modo de ser social +se +não coaduna com esses costumes pomposos, restos e +herança +de um extincto regimen. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Para se saber quanto o luxo corrompe e adoece um paiz bastar-nos-hia +apontar para a França de Luiz XV e para a França +do +segundo imperio. <br /> + +<br /> + +A historia e as chronicas d'esses dias de ominosa memoria +revelar-nos-hiam de um modo bem claro e bem frisante quanto +é +escorregadio o declive que do luxo exagerado conduz á +immoralidade, ao impudor da mulher e ás deshonestas +transigencias do homem. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[38]</span> +Não queremos, porém, n'este estudo despretencioso +evocar a historia, nem revolver o lodo das passadas +corrupções. <br /> + +<br /> + +Queremos simplesmente fallar ao bom senso das leitoras, e queremos +fallar chãmente, simplesmente, sem +declamações, +nem idéas +preconcebidas. <br /> + +<br /> + +Todos sabem que o nivelamento das classes, a livre divisão +dos +bens, a democratisação das +fortunas, se teem conseguido debellar muitas e crueis +injustiças +sociaes do passado, teem sido tambem a destruição +das colossaes fortunas de outro tempo. <br /> + +<br /> + +Hoje, quando essas fortunas por acaso existem, são creadas +pelo +trabalho em grande escala, pelas importantes emprezas commerciaes, pela +actividade devoradora de homens privilegiados. <br /> + +<br /> + +Já se não fundam como antigamente em direitos +estaveis e +indestructiveis. São ephemeras, contingentes, dependem de +muitas +causas com que se não póde absolutamente contar. <br /> + +<br /> + +Uma crise financeira, uma guerra européa, uma quebra +importante, +um abalo qualquer de credito, e eis por terra um edificio +assombroso e complicado que parecia dever resistir ao embate de todas +as tempestades, e que um sôpro logra alluir! <br /> + +<br /> + +Ora, se isto tem relação com as grandes fortunas, +se nem ellas podem contar com o dia de ámanhã, +que +<span class="pagenum">[39]</span> +farão os que +não possuem mais que o necessario, +os que ás vezes nem isso possuem? <br /> + +<br /> + +Antigamente, no modo por que estava constituida a hierarchia social, +uns tinham todos os bens, e outros soffriam todos os males; hoje como +todos teem eguaes direitos, todos querem ter eguaes regalias. <br /> + +<br /> + +Seria isso muito bom, se a egualdade que existe entre as prerogativas +podesse existir tambem entre as riquezas, se em vez de haver pobres e +ricos, houvesse sómente ricos, cousa a que nem os mais +exaltados +socialistas se lembraram ainda de aspirar. <br /> + +<br /> + +Ora, se está sobejamente provado que, principalmente no +nosso +pequeno paiz, ha uma minoria pequenissima que é rica, ha uma +maioria enorme que é miseravel, e ha, entre os dous +extremos, +uma classe, a mais importante―no fim de contas, visto que tem a +superioridade da educação e da +intelligencia, que é simplesmente remediada, porque +é que +não havemos de sujeitar o nosso regimen social ás +exigencias e necessidades d'essa classe, que é a +predominante, +senão pelo numero, ao menos pela influencia que exerce? <br /> + +<br /> + +Essa classe póde conhecer as +distracções de uma agradavel intimidade, mas +não +as pompas decorativas, as ceremoniosas galas de uma vida de +salão apparatosa e futil. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[40]</span> +Se os filhos d'essa classe olhassem para baixo e vissem as +privações, as luctas, as miserias dos +que só conseguem com o suor do rosto ganhar um +pedaço de +pão duro e cobrir pobremente o corpo emmagrecido, de certo +que +se sentiriam felizes, triumphantes, dignos de inveja, na sua +mediocridade aurea, na modesta fartura da sua vida domestica, nas +distracções intimas de +um circulo affectuoso e limitado. <br /> + +<br /> + +Mas não! Olham para cima, vêem os ricos, os +potentados, os +dominadores do seculo, ouvem nas tentações febris +das +suas noites o tilintar +magnetico do ouro, vêem passar no fundo dos seus ligeiros +coupés, pallidas e desdenhosas mulheres, que medram como +flôres exoticas de fulva folhagem metallica na estufa das +suas +salas opulentas, sentem em si o desejo insaciado de todos os prazeres +que não teem, e sem prudencia, sem pudor, sem dignidade, +atiram-se ás especulações vergonhosas, +transigem +com a sua propria probidade, vendem, desde os bens que herdaram de seus +paes, até á consciencia que lhes veio de Deus, e +quando +conhecem que n'esta lucta ingloria, n'esta lucta impossivel +só +podem ser vencidos, já +não é tempo para retrocederem no funesto caminho +encetado! <br /> + +<br /> + +E que não ha parar n'esta ingreme descida. <br /> + +<br /> + +Teem-me dito por varias vezes que eu sou feroz +<span class="pagenum">[41]</span> +para com o sexo a que +pertenço; +que accuso com muita injustiça as mulheres de todos os males +que +teem succedido, que succedem ou que estão para succeder no +nosso +mesquinho planeta. <br /> + +<br /> + +Ora eu, pelo contrario, estou convencida de que o meu orgulho, de que a +minha vaidade feminil me levam a dar ás mulheres uma +importancia +que mais ninguem lhes quer reconhecer. <br /> + +<br /> + +Eu digo que d'ellas provéem todos os males, porque estou +convencida―talvez sem razão―que d'ellas podiam provir +todos os +bens. <br /> + +<br /> + +Ainda no ponto de que se tracta é d'ellas toda a culpa, no +meu humilde entender. <br /> + +<br /> + +Sim, porque no fim de contas, não são os pobres +maridos +que mais desejam figurar nos bailes e nos saraus, e que de boa vontade +sacrificam a commoda poltrona em que podiam dormir a sesta, o bom e +saboroso jantarinho que podiam comer, o livro util e proveitoso que +comprariam, para gastarem esse dinheiro n'uma <em>toilette</em> +falsamente luxuosa, +n'uma <em>soirée</em> +ridiculamente burgueza, n'um jantar de ceremonia cujos acepipes, na +opinião do conviva mais guloso, seriam só dignos +de +figurarem n'um banquete de theatro com pratos de... papelão. +<br /> + +<br /> + +São as mulheres que teem sempre a louca +ambição de figurarem ao par de outras mais ricas, +embora +<span class="pagenum">[42]</span> +n'essa lucta desigual +só consigam tornar bem visivel e bem grotesca a sua derrota! +<br /> + +<br /> + +São as mulheres que consideram os prazeres mundanos como o +indispensavel elemento para a sua completa felicidade. <br /> + +<br /> + +São ellas que arrancam ás primeiras necessidades +do <em>ménage</em>, +á +carne que os filhos devem comer, ás roupas brancas da +familia, +aos abafos do inverno, á lenha do fogão das +noutes frias, +á mobilia +commoda e confortavel das casas, ao peculio das doenças, ao +asseio e ao conforto domestico, o dinheiro com que adquirem esse luxo +ridiculo, esse luxo de +<em>pacotille</em> que não illude, nem excita a +commiseração de ninguem. <br /> + +<br /> + +E quando ellas percebem no olhar e na bôcca dos que assistem +a +essa lucta absurda, um sorriso malicioso, uma faisca de ironico desdem, +são ellas que irritadas, desvairadas, fóra de si, +arrastam o marido á extravagancia, á +dissipação, +á prodigalidade, ao crime, e arrastam os filhos á +miseria +e á +desolação! <br /> + +<br /> + +Nada mais funebre, mais triste, mais sombrio do que o interior de uma +d'essas casas, em que o necessario é sacrificado ao +superfluo, +em que o real é +sacrificado ás apparencias, em que o conforto intimo +é +sacrificado ao apparato exterior. <br /> + +<br /> + +As criadas sujas, despenteadas, petulantes; as +<span class="pagenum">[43]</span> +creanças pallidas, anemicas, sem +educação e sem solas; com os dentes podres e +nodoas no +vestido; os moveis indiscretos na mal disfarçada miseria, +uma +unica casa elegante―a sala―falsa taboleta de uma vida de imposturas; +a roupa branca do marido encardida e grosseira, a <em>toilette</em> +da mulher +vistosa e <em>mirabolante</em>. As côres <em>tapageuses</em>, +substituindo a qualidade fina e solida; a multiplicidade dos +arrebiques, substituindo a simplicidade opulenta do trajo. <br /> + +<br /> + +Quem depois de conhecer dous annos estas galés conjugaes, se +resigna a viver n'ellas? <br /> + +<br /> + +Os pequenos preferem o collegio sordido e brutal; o homem foge para o +botequim ou para outros sitios peiores; a mulher vive na rua, na +modista, no theatro, nas salas do seu conhecimento, no passeio, na +ociosidade e depois Deus sabe em que! <br /> + +<br /> + +Eis a vida creada pelo immoderado amor do luxo. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Afastemos porém os olhos d'estes quadros sombrios e que no +entanto, leitora querida, tu bem sabes que não +são +carregados. <br /> + +<br /> + +Imagine-se que transformada a sua educação, a +mulher se formava unicamente para o interior da sua casa. <br /> + +<br /> + +D'essa casa não fugiriam de certo os amigos fieis +<span class="pagenum">[44]</span> +e dedicados, não se +excluiam as +pequenas reuniões +intimas, a musica, as conversações artisticas, as +leituras agradaveis, os alegres e joviaes serões. <br /> + +<br /> + +O que se excluia sem appellação eram os inuteis +apparatos. <br /> + +<br /> + +Como a mulher tinha em mira ser só agradavel aos seus, +deixava +logo de armazenar todas as suas armas―o espirito, a graça, +o +sorriso, a amabilidade―para distrahir os estranhos, para agradar aos +indifferentes. <br /> + +<br /> + +Como desejava fugir ao tedio, á melancolia, ás +enervantes +tristezas da solidão, aprendia a dispensar as companhias +banaes, +fazendo seus companheiros, os melhores, os que nunca +atraiçoam, +os livros, a musica boa, as flôres, o trabalho. <br /> + +<br /> + +Logo que, em vez de se enfastiar em casa, ella se, divertisse e se +achasse bem junto dos seus, elles começariam mesmo +involuntariamente a sentir-se aquecidos por essa boa e salutar +influencia. <br /> + +<br /> + +Ninguem póde estar aborrecido ao pé de uma pessoa +que se diverte francamente. <br /> + +<br /> + +O marido por mais que os negocios de fóra o preoccupem e +enfadem, por mais que as luctas da arte, do commercio, da politica, da +industria, o cansem e mortifiquem, ha de sentir forçosamente +um +raio de bom e salutar contentamento ao pé da esposa +<span class="pagenum">[45]</span> +que volitar em torno d'elle +viva e chalreadora como um pardal, fresca como uma flôr, +animada, +activa, cheia de invenções felizes, e de sincera +e +desaffectada alegria! <br /> + +<br /> + +E depois, eliminado o luxo exagerado da existencia de qualquer familia, +eliminam-se ao mesmo tempo os cuidados mais lancinantes, as +preoccupações +mais absorventes, as luctas mais dolorosas, os despeitos mais +corruptores. <br /> + +<br /> + +Temos visto varias vezes o seguinte: O homem trabalha para dar o +bem-estar á mulher, e rouba para lhe dar o luxo! <br /> + +<br /> + +É que―note-se isso bem―o luxo quando não +é a atmosphera natural em que se nasceu e se tem sempre +vivido, +uma cousa que á força de estar +identificada comnosco, nós já nem se quer +percebemos―o +luxo quando é o fim a que aspira a nossa desenfreada +ambição, torna-se um elemento profundamente +desmoralisador. <br /> + +<br /> + +Enerva o corpo, excita fatalmente a imaginação, +aggrava a +insaciabilidade natural aos desejos da mulher, dá-lhe a +idéa de requintes romanescos, de +aventuras, de amores vedados, attrahe um cortejo de voluptuosas +tentações. <br /> + +<br /> + +A vida das salas é a consequencia inevitavel do amor do luxo +que +devora a mulher de hoje. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[46]</span> +Não a mulher de uma certa e determinada classe, a mulher de +todas as classes sociaes. <br /> + +<br /> + +A esposa do alto financeiro, do colosso da industria, deseja vestir-se +de um modo que logo de uma vez córte pela raiz na alma ainda +mais ambiciosa o desejo de a vencer. <br /> + +<br /> + +Ora, como este desejo se nutre de difficuldades, todas as que +estão no mesmo caso d'ella travam a lucta e empregam os mais +loucos esforços para lograrem a palma. <br /> + +<br /> + +As raras flôres da nossa velha aristocracia, não +querendo +ser desthronadas pelos potentados modernos, entram, já se +vê, no combate com grave transtorno das bolsas de seus +respectivos maridos. <br /> + +<br /> + +A nenhuma d'ellas cabe completa victoria; se as rendas de Bruxellas que +guarnecem o vestido d'esta são mais preciosas, os diamantes +que +enfeitam o collo e os braços d'aquella são mais +raros; se +a +<em>traine</em> de velludo d'est'outra é mais +distincta, a tunica de setim e ouro da outra é mais +singular. <br /> + +<br /> + +E o combate recomeça mais feroz, mais acceso, mais +desapiedado. <br /> + +<br /> + +Cá em baixo a lucta toma as mesmas fórmas. +É a lucta da falsa riqueza, a lucta das pedras que fingem +brilhantes, das +<em>imitações</em> que +fingem rendas, dos vestidos concertados que fingem vestidos novos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[47]</span> +São mais profundos ainda os despeitos, é mais +desesperada ainda a energia que se gasta! <br /> + +<br /> + +Quem vive esta vida ardente, inflammada de +ambições insalubres, exaltada de mesquinhas +invejas, corroida de miseraveis tricas, não póde, +não sabe, não tem forças para ser boa +esposa, boa +mãe, boa dona de casa! <br /> + +<br /> + +Pintámos em traços rapidos a vida das nossas +mundanas; +procuraremos desenhar, se tanto nos fôr possivel, a vida que +ambicionamos e desejamos para a mulher de familia. <br /> + +<br /> + +No dia em que ella a quizer adoptar, reconquistar-se-ha a serena +dignidade, a tranquilla doçura do lar domestico, que pouco a +pouco se vae tornando desflorido, melancolico e deserto. <br /> + +<h4>II </h4> + +<br /> + +Nas paginas antecedentes condemnava eu a vida de apparato, a vida da +sociedade, a <em>vida de +sala</em>, +pela influencia corruptora que ella exerce nos costumes e nos +sentimentos, e pela absoluta desharmonia em que ella está +com a +moderna +concepção da familia e da sociedade. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[48]</span> +No entanto não basta só lavrar a +condemnação de um modo de ser social, +é necessario +apontar o remedio, ou pelo menos apresentar um alvitre que á +nossa consciencia pareça proficuo e salutar. <br /> + +<br /> + +As mulheres gostam da vida frivola e inutil dos salões, +pelos seguintes motivos: <br /> + +<br /> + +―Porque as salas são o theatro dos seus triumphos e +conquistas. <br /> + +<br /> + +―Porque é ahi que ellas são lisongeadas, +louvadas, incensadas e queridas. <br /> + +<br /> + +―Porque os homens só prestam homenagem ás mais +bonitas, ás mais vaidosas, e ás mais ricas, +na realidade ou na apparencia. <br /> + +<br /> + +Além d'estas causas que as levam a gostar da +representação e da pompa mundana, ha outras +dependentes +d'estas ou relacionadas com ellas, que as levam a aborrecer-se no +interior das suas casas. <br /> + +<br /> + +Primeiramente, e acima de tudo, a falta de uma +educação solida e positiva, que as +faça encarar a vida debaixo do seu verdadeiro aspecto. Um +aspecto de seriedade e de justiça, assentando na +comprehensão de todos os deveres. <br /> + +<br /> + +Segundo, a inhabilidade e a ignorancia, que as torna incapazes de +qualquer trabalho seguido. A falta de gosto natural ou de gosto +adquirido, para se entreterem, para se distrahirem, para revestirem de +uma +<span class="pagenum">[49]</span> +fórma +sympathica e attrahente as suas +obrigações de donzellas, de esposas, de +mães, de +donas de casa. <br /> + +<br /> + +Terceiro, a inveterada frivolidade que herdaram, e que os exemplos +recebidos, e a falsa educação +mais aggravou e desenvolveu, tornando-a um perigo, o maior de todos os +perigos que ameaçam a familia. <br /> + +<br /> + +Eu tenho repetido isto tantas e tantas vezes, que receio por fim +enfastiar as minhas leitoras. <br /> + +<br /> + +<em>É necessário antes de tudo +transformar radicalmente a educação das mulheres.</em> +<br /> + +<br /> + +Muitas das cousas que hoje se ensinam é mister que deixem de +se ensinar. <br /> + +<br /> + +Muitas outras que se encaram debaixo de um certo e determinado ponto de +vista, cumpre que se vejam sob outro aspecto inteiramente differente. <br /> + +<br /> + +Outras ha ainda a que ninguem attende e que se não ensinam, +e é positivamente a essas que se +deve dar a maxima e a mais desvelada attenção. <br /> + +<br /> + +Tratemos de apresentar exemplos das tres +asserções que acabamos de apresentar. <br /> + +<br /> + +Das cousas inuteis que hoje se consideram ainda partes integrantes de +uma educação perfeita. <br /> + +<br /> + +Ha a <em>dança</em>: um talento +absolutamente dispensavel, que nas meninas só serve para +desenvolver a +<em>coquetterie</em>, o desejo de brilhar e de agradar. <br /> + +<br /> + +A <em>tapeçaria</em>: um pretexto +futil para estragar o +<span class="pagenum">[50]</span> +tempo. Em quanto a mão vae preguiçosamente +bordando a talagarça, a phantasia irrequieta da mulher, da +creança, corre e vôa por montes e valles, +á procura de um vedado ou de um impossivel ideal. Chama-se a +este genero especial de trabalho feminino, a +<em>hypocrisia da preguiça</em>. <br /> + +<br /> + +Como estas duas cousas, ha muitas mais que não temos tempo +de enumerar, mas que se não são +nocivas como a primeira, são pelo menos inuteis como a +segunda. <br /> + +<br /> + +Procuremos agora muitas das materias que se ensinam, e devem continuar +a ensinar-se, mas ás quaes a educação +tal como +está +rotineiramente estabelecida, não sabe dar a importancia e o +valor devido. <br /> + +<br /> + +São a musica, a historia, as linguas, a geographia, a +arithmetica, etc., etc. <br /> + +<br /> + +O primeiro cuidado de toda a mãe vaidosa ou illustrada, +intelligente ou mediocre, é que as suas filhas aprendam a +tocar +piano. <br /> + +<br /> + +Muito bem. <br /> + +<br /> + +É preciso, porém, advertir-se que a +<em>monomania do piano</em>, tal como ahi anda inoculada e +propagada, +é um flagello, um temivel flagello e nada mais. <br /> + +<br /> + +A musica é de todas as artes aquella que mais falla aos +sentidos e á alma do homem. <br /> + +<br /> + +Modera, dulcifica, adormenta, +consola, estimula, +<span class="pagenum">[51]</span> +apaixona, enternece e muitas +vezes, quando profanada e desvirtuada por sacerdotes sacrilegos, +enerva, abranda a energia e a vitalidade do espirito, e vence todas as +resistencias viris do caracter. <br /> + +<br /> + +É uma amiga, póde ser uma cumplice. <br /> + +<br /> + +Em todos os casos é um grande, um milagroso, um divino, um +terrivel poder. <br /> + +<br /> + +Mas mesmo pelo papel importante que occupa, mesmo pela influencia +profunda que exerce, não é dado a todos +interpretal-a e +comprehendel-a. <br /> + +<br /> + +Muitos ha que se submettem ao seu irresistivel dominio, sem saber +sequer adivinhal-o ou presentil-o. <br /> + +<br /> + +Quantas vezes não temos visto uma pobre mulher +boçal, uma +modesta e ignorante creatura, chorar de commoção +ouvindo +as notas tristes de uma flauta +ou de uma guitarra! <br /> + +<br /> + +Não tem a consciencia da commoção que +a perturba, mas vibram-lhe os nervos, latejam-lhe as fontes, toda ella +palpita e estremece como que agitada por uma potencia ignota. <br /> + +<br /> + +Como todas as artes, a musica só póde ser +interpretada por quem a comprehenda com o seu espirito, e por quem a +sinta com o seu coração. <br /> + +<br /> + +De outro modo é uma profanação e +é um escarneo. <br /> + +<br /> + +Achamos, portanto a musica, um elemento poderosissimo +<span class="pagenum">[52]</span> +de educação, mas exigimos que haja +intelligencia e vocação nas pessoas que a +aprendem. <br /> + +<br /> + +Não é fazer do piano um attributo indispensavel +de todo o +ensinamento elegante, e obrigar sem discernimento e sem escolha todas +as meninas a estudal-o e a atormentar com elle o ouvido do proximo. <br /> + +<br /> + +Logo que se comprehenda bem o grande alcance da musica, a sua +influencia moralisadora, a sua missão artistica, as +mães +escolherão de entre as suas +filhas, aquella ou aquellas que mostrarem +predisposição +para este genero de estudo e auxiliarão por todos os modos o +desenvolvimento d'essa vocação. <br /> + +<br /> + +O piano deixará de ser o flagello e a peste das <em>soirées</em> +sem ceremonia, o +tormento dos visinhos proximos, o pezadello dos maridos, o martyrio das +proprias executantes. Não reinará exclusivamente +como +até aqui esse despotico e terrivel instrumento. <br /> + +<br /> + +Não se dirá das meninas <em>bem +educadas</em>: <em>toca +admiravelmente</em>, subentendendo já o malfadado +<em>piano</em>. <br /> + +<br /> + +Dir-se-ha mais acertadamente: <em>sabe +musica</em>, <em>toca muito bem violoncello</em>, ou +<em>harpa</em>, ou +<em>rebeca</em>, ou +<em>piano</em> mesmo, porque nós não +queremos condemnar +nenhum instrumento ao ostracismo, pelo contrario queremos livrar os +outros do ostracismo a que estão injustamente condemnados. <br /> + +<br /> + +Com esta escolha sensata das pessoas que particularmente +<span class="pagenum">[53]</span> +devessem cultivar a sua +vocação +musical, muitos bens proviriam á +educação da +mulher. <br /> + +<br /> + +A musica executada só por quem a entendesse, ouvida +só +por quem a apreciasse, tornar-se-hia, em vez de um ornato de vaidade, +uma elevada +distracção artistica. <br /> + +<br /> + +Educaria e apuraria o gosto, exerceria a sua pura e civilisadora +influencia, seria o repouso depois do trabalho ou a +consolação no meio d'elle. <br /> + +<br /> + +Os velhos mestres allemães com as suas largas e simples +harmonias, ouvidas á noute no serão +modesto da familia, ao pé de um ou dous amigos intelligentes +e sinceros, penetrariam o coração da mulher de +uma serenidade affectuosa e dôce, de um casto enternecimento +salutar! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +O que dizemos da musica instrumental tem +applicação a todas as outras artes. <br /> + +<br /> + +O canto, o desenho, a pintura, a escultura mesmo. <br /> + +<br /> + +Todas merecem o nosso respeito, não como adornos pueris, mas +como elementos de util e fecunda +moralisação. <br /> + +<br /> + +Sempre que a mãe ou que a educadora descubra em sua filha, +ou na +sua discipula, tendencia pronunciada para um ramo qualquer de +actividade intellectual, +<span class="pagenum">[54]</span> +deve por todos os modos facilitar e desenvolver essa +vocação espontanea. <br /> + +<br /> + +Mas que a educação de todas não seja +pautada por um molde uniforme! <br /> + +<br /> + +Mas, por Deus! que não se faça d'esta grande e +sublime +missão de cultivar um espirito infantil, uma +questão de +moda, uma questão de vaidade, uma +questão de mutua inveja mesquinha. <br /> + +<br /> + +As linguas são hoje ensinadas com muito esmero. <br /> + +<br /> + +Mas que applicação se dá a essa +sciencia adquirida em muitos annos de estudo e de pratica? <br /> + +<br /> + +Uma applicação deveras ridicula! <br /> + +<br /> + +Entre vinte das meninas que sabem hoje francez, inglez, +allemão +ou italiano, não ha quatro que +tenham lido Hugo ou Bossuet, Racine ou Montaigne, Shakspeare ou Milton, +Goethe ou o Dante, não ha quatro sobretudo que estejam aptas +para comprehenderem estes mestres do pensamento e da palavra. <br /> + +<br /> + +E no entanto para que servem as linguas estrangeiras? <br /> + +<br /> + +Não passam de meros instrumentos com os quaes adquirimos +noções, factos, idéas, +conhecimentos, que nos seriam estranhos sem ellas. <br /> + +<br /> + +Na lingua de um povo está consubstanciado muito do que elle +é moral, physica e intellectualmente. Penetra-se +<span class="pagenum">[55]</span> +no caracter de uma +nação conhecendo a +fundo as locuções de que ella se serve. <br /> + +<br /> + +E quem é que hoje encara as linguas d'este modo a +não ser +algum philosopho retirado na sua torre ideal, ou algum philologo +embebecido nos seus estudos? <br /> + +<br /> + +É preciso que este conhecimento se vulgarise e se propague, +para +que as linguas estrangeiras tomem na educação o +lugar que +lhes compete. <br /> + +<br /> + +A historia, que é um apontoado de datas e de nomes proprios, +de +dynastias e de batalhas, logo que passasse a ser na +educação das mulheres o que +ella é já no espirito dos criticos, seria um +estudo +attrahente, mais dramatico do que todos os romances, de uma realidade +mais poderosa e dominadora. <br /> + +<br /> + +A geographia, que não é mais do que uma arida e +enfadonha +nomenclatura, animada pelo espirito da mãe intelligente, +levaria +a imaginação +infantil, não já pelos paizes chimericos, do +sonho e do +impossivel, mas por essas regiões pittorescas, onde tanto ha +que +vêr e que aprender. <br /> + +<br /> + +Mais tarde as sciencias naturaes, a botanica, a mineralogia, a +biologia, abririam ao espirito já preparado, horisontes +larguissimos, onde pudesse espraiar-se livremente. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[56]</span> +Assim educada, quer dizer, sabendo tudo que sabe hoje, mas classificado +por outra ordem, e encarado debaixo de outro aspecto, e muitissimas +cousas que hoje não sabe, mas ás quaes a +conduziria +naturalmente, +o novo methodo dos seus estudos, a mulher transfigurada, levantada, +fortalecida, podia aspirar a uma vida inteiramente diversa da que hoje +tem. <br /> + +<br /> + +Teria grandes vantagens esta modificação profunda +no seu modo de ver, de pensar e de sentir. <br /> + +<br /> + +Vulgarisada para todos a educação cujas bases +apontamos, desapparecia da sociedade essa entidade singular chamada <em>mulher +pedante</em>. <br /> + +<br /> + +É extraordinario mas é verdade, a ignorancia das +outras é que constitue o pedantismo d'esta. <br /> + +<br /> + +Sendo uma excepção no seu meio, tem as qualidades +e os defeitos das +<em>excepções</em>. <br /> + +<br /> + +Comprehende que é alvo da curiosidade, do pasmo, da +observação dos que a rodeiam, e a pouco e pouco +vae +cahindo n'uma <em>pose</em> +artificial que a torna ridicula. <br /> + +<br /> + +Poucas são as que téem a coragem de―tendo um +lado superior―se conservarem simples, desartificiosas, naturaes. <br /> + +<br /> + +Lêram, estudaram, compararam; no meio da estupidez geral, +produzem um vago assombro que lentamente vae distinguindo n'ellas! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[57]</span> +Oh! mas no dia em que a mulher instruida deixasse de ser uma +excepção admiravel, como ellas, as pobres <em>mulheres +pedantes</em> se +sentiriam humilhadas e deslocadas! <br /> + +<br /> + +A vida de sala iria pouco a pouco sendo o apanagio das frivolas e das +tôlas, e acabaria por desapparecer completamente. <br /> + +<br /> + +A mulher dentro de sua casa sentir-se-hia bem, porque teria em si +recursos sufficientes não só +para entreter os seus, como tambem―e é isto o +principal―para se <em>entreter a si</em>. <br /> + +<br /> + +É essa a grande questão! <br /> + +<br /> + +É preciso que as mães preparem o espirito de suas +filhas +de modo que ellas não precisem dos outros para viver +contentes. <br /> + +<br /> + +E como se ha de conseguir este fim? <br /> + +<br /> + +Educando-as para que ellas bastem a si proprias. Dando-lhes ao espirito +todos os recursos, ao corpo todo o vigor, ao caracter toda a austera +dignidade; cultivando e desenvolvendo todas as faculdades superiores +que ellas revelem, encadeando harmonicamente as suas +acquisições intellectuaes, para que +d'essa harmonia interior resulte para ellas uma exacta e elevada +comprehensão da vida! <br /> + +<br /> + +E não é muito o que nós exigimos. <br /> + +<br /> + +Somos a primeira a confessar que hoje ha muito +<span class="pagenum">[58]</span> +mais esmero e apuro do que havia +antigamente na instrucção que as classes +abastadas +dão ás suas filhas. <br /> + +<br /> + +Pouco mais precisam de aprender; o que lhes falta é a +ligação logica entre as +varias cousas que aprendem, é uma +concepção mais +larga +das mesmas sciencias que adquirem, é o conhecimento das +proprias +armas que possuem, contra esse inimigo poderoso da mulher, chamado +Tedio. <br /> + +<br /> + +Em nosso humilde entender classificariamos d'este modo os conhecimentos +indispensaveis a toda a mulher, para esta ser julgada apta a exercer o +sacerdocio de esposa, de mãe, e de dona de casa. <br /> + +<br /> + +As linguas estrangeiras, consideradas como meios de adquirir +noções praticas, idéas +justas, factos positivos; como meios de comparar, de julgar, de +aquilatar, de exercer emfim o seu senso critico, de modo que o +desenvolvesse, elevasse e afinasse; como meios de conhecer as +differentes manifestações do bello +e de as poder relacionar entre si. <br /> + +<br /> + +A Historia, com o fim de conhecer através d'ella a +humanidade de +todos os tempos, de seguir a sua lenta e continua +evolução, e de penetrar +lucidamente no sentido da palavra―progresso. <br /> + +<br /> + +O conhecimento profundo e philosophico da historia moralisa, pacifica, +e revigora as crenças. Dá ao +<span class="pagenum"><a name="p59">[59]</a></span> +espirito, além de notavel +perspicacia, grande justeza de pontos de vista. <br /> + +<br /> + +Viriam depois, como já dissemos, a geographia natural, a +arithmetica, a geometria, as sciencias da natureza, e isto +harmonicamente, progressivamente, de deducção em +deducção, +sem esforço, ligando um conhecimento a outro conhecimento, +n'uma +cadeia logica e inquebrantavel. <br /> + +<br /> + +Juntamente com estas <a href="#e1">acquisições</a> +uteis, e como que amenisando os +esforços que ellas por ventura custassem, a mãe +intelligente levaria sua filha a cultivar especialmente a arte para a +qual sentisse mais accentuada vocação. <br /> + +<br /> + +Preparada por esta iniciação em que o espirito +fosse +exigindo dia a dia alimento mais substancioso e mais forte, +á +proporção que mais rico +de vigor e de vitalidade elle se sentisse, escusado é dizer, +que +nenhuma mulher deixaria de comprehender e de saborear com intimas +delicias o encanto novo e superior com que a arte illuminasse a sua +vida. <br /> + +<br /> + +Seria uma ascensão gloriosa e lenta, ás alturas +onde se respira um ar mais puro e mais subtil. <br /> + +<br /> + +D'alli, d'aquella montanha ideal, a que ella houvesse subido, levada +pela sciencia e pela arte, pelo estudo e pelo sentimento, ser-lhe-hia +facil descobrir o caminho que devesse seguir na vida. A idéa +do +<span class="pagenum">[60]</span> +dever, esta idéa que é o remate e a +corôa da educação perfeita, +apresentar-se-lhe-hia +como um resultado natural de todo o trabalho interior que no seu +espirito se houvesse feito. <br /> + +<br /> + +Chegariamos emfim ao ponto que queremos attingir. <br /> + +<br /> + +A educação deixaria de ser um fim e tornar-se-hia +o meio elevado e transformado de alcançar a +perfeição moral. <br /> + +<br /> + +Resta, porém, fazer uma pergunta que está no +animo de todos. <br /> + +<br /> + +Sujeitar-se-ha a mulher, assim arrancada de chofre á +banalidade +da esphera limitada em que tem vivido até agora, a cumprir +as +mesmas humildes +obrigações, que teem sido e +continuarão a ser a +sua tarefa quotidiana, e o seu quinhão na vida? <br /> + +<br /> + +De certo que sim, e seguindo o mesmo methodo que seguimos para o seu +cultivo intellectual não nos será difficil provar +que +esses mesmos deveres, logo que sejam comprehendidos dignamente, em vez +de humilharem, são um triumpho para aquella que os sabe +exercer. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>CAPITULO III </h3> + +<h3> +A velhice das mulheres </h3> + +<br /> + +<div class="breaks"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Nas nossas continuadas predicas ácerca da +transformação que é necessario +operar-se em tudo +que respeita á educação feminina, +levamos em mira +principal, duas cousas muito dignas de attender-se. <br /> + +<br /> + +Primeiro: que a mulher torne quanto possa, independente de +circumstancias exteriores, a marcha do seu destino, quer dizer, que +ella não seja +forçada fatalmente a seguir um caminho para o qual haja no +seu +espirito instinctiva repugnancia, que ella dispense na sua vida +influencias estranhas e muitas vezes incompativeis com a sua indole. <br /> + +<br /> + +Segundo: que ella se vá lentamente preparando na infancia e +na +sua tão curta e ephemera mocidade, para a quadra mais longa, +mais difficil e podemos hoje dizer, mais dolorosa da sua existencia: a +velhice. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[62]</span> +Exemplifiquemos, para que melhor seja comprehendido o nosso raciocinio. +<br /> + +<br /> + +No que toca ao primeiro ponto, lancemos em roda os olhos e vejamos. Por +toda a parte encontraremos argumentos victoriosos. <br /> + +<br /> + +No estado presente da educação a mulher +está sujeita a uma funesta dependencia, a qual mesmo sem +tendencia para exagerações declamatorias, se +póde chamar escravidão. <br /> + +<br /> + +Assim como descuram dar ao seu corpo por meio da gymnastica a +força, a elasticidade, a ligeireza, o vigor, assim descuram +dar +á sua alma a energia, que a torne superior aos preconceitos, +e +ao seu espirito a forte e larga educação, que a +habilite +para +ganhar honestamente a sua modesta subsistencia. <br /> + +<br /> + +Sente-se fraca, e pusillanime diante do trabalho, diante das luctas, +diante da desgraça. <br /> + +<br /> + +Confessa a cada instante o medo pueril que a avassalla; medo de +não resistir ás +tentações que a covardia dos homens arma +á +insensatez da mulher; medo do riso alvar com que os tolos lhe +castigariam a viril energia; medo de se sujeitar ao trabalho incansavel +e tenaz que ha de dar-lhe a independencia, a dignidade, a livre posse +do seu destino. <br /> + +<br /> + +Além do medo a impossibilidade absoluta. <br /> + +<br /> + +Se nada sabe, o que ha de ella fazer? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[63]</span> +Podia dirigir a contabilidade de uma casa de commercio importante. <br /> + +<br /> + +As mulheres com o seu instincto de ordem, mais desenvolvido do que os +homens, são proprias para este genero de trabalho. <br /> + +<br /> + +Podia, sendo medianamente illustrada, ser caixeira de um +estabelecimento de modas, de uma loja de papel, de um mercador de +fazendas, etc., etc. Tudo isto está em harmonia com a +delicadeza +dos seus orgãos. <br /> + +<br /> + +Podia ensinar linguas, ensinar musica, ensinar e explicar as sciencias +que houvesse aprendido, a historia, a arithmetica, a litteratura, a +geographia. <br /> + +<br /> + +Podia, tendo alguns fundos que houvesse herdado de seus paes, +estabelecer qualquer pequena industria, emfim, ter uma +acção propria, independente e +não subordinada aos caprichos alheios, ou ás +circumstancias eventuaes. <br /> + +<br /> + +Mas como não sabe fazer nada d'isto, como a sua +educação a pôz e a conserva n'um estado +de absoluta e desoladora humildade, não tem senão +tres +caminhos a seguir. <br /> + +<br /> + +Ou casar mesmo que não tenha pelo seu noivo nenhum +sentimento de +respeito; mesmo que o ache ridiculo ou estupido ou máu; +mesmo +que elle lhe seja imposto unicamente pelas conveniencias egoisticas do +seu +<span class="pagenum">[64]</span> +futuro; mesmo que +nenhum laço de sympathia a elle a prenda, e d'esta funesta +causa +escusado será dizer quantos males terriveis não +resultam +para a sociedade e para a familia! <br /> + +<br /> + +Ou ficar a cargo dos parentes mais ricos, que por +commiseração a acolham, a alimentem, a vistam, a +protejam, e n'este caso soffre e decahe a sua dignidade propria, a alma +curva-se-lhe n'uma postura humilhante, deixa de ter responsabilidade, +de ter opinião, de ter individualidade emfim; constitue-se +um +ser mutilado cujo aspecto enfermiço faz tristeza e +dó, quando se não torna um temperamento azedo, +atrabiliario, perverso, folgando no espectaculo de todas as +desgraças alheias. <br /> + +<br /> + +A terceira hypothese já todos a adivinharam infelizmente. <br /> + +<br /> + +A mulher repellida da familia, porque a não quizeram inutil +e +pobre, não achando em si nem a coragem, nem a sciencia do +trabalho, lucta contra o mal que lhe revela as suas traidoras miragens, +mas se mão estranha a não soccorre e a +não +prende, succumbe, precipita-se e perde-se. <br /> + +<br /> + +D'estas tres hypotheses exceptuamos, já se entende, todas as +mulheres que tiverem a suprema felicidade de encontrar no homem a quem +entregaram absolutamente o seu destino, além do noivo +escolhido +<span class="pagenum">[65]</span> +e preferido entre todos, o +protector mais util e mais dedicado. <br /> + +<br /> + +Exceptuamos tambem as ricas, porque essas que não tinham em +si +proprias a independencia, adquiriram-na indirectamente por meio da sua +fortuna. <br /> + +<br /> + +Mas a divisão infinita dos bens vae diminuindo mais e mais o +numero das ultimas, e a felicidade negativa que ha na maior parte dos +<em>ménages</em> tornando as meninas de pouca +edade impacientes +de sahirem da casa paterna, imprudentes e precipitadas na escolha, vae +diminuindo em não menor proporção +o numero das primeiras. <br /> + +<br /> + +Como quer que seja, abandonemos essas duas cathegorias de +excepções e achamo-nos em frente de uma +numerosissima +maioria. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Os resultados que encontramos são, portanto, os seguintes: <br /> + +<br /> + +A incapacidade absoluta da mulher dominar o seu destino, incapacidade +cujas causas já apontámos, +produz estes tres generos de victimas. <br /> + +<br /> + +A mulher que casou, porque não podia deixar de o fazer, que +casou para ter pão, para ter casa, para ter luxo, para ter +protector, um editor responsavel da +<span class="pagenum">[66]</span> +sua vida, e que tendo sómente este objectivo, se +não occupou nem um instante em estudar e conhecer o homem a +quem ia para sempre entregar-se. <br /> + +<br /> + +A creatura humilhada, dependente, parasita, vivendo das migalhas do +luxo que a rodeia. <br /> + +<br /> + +A desgraçada que a sua fraqueza inteiramente desprotegida +perdeu e abysmou. <br /> + +<br /> + +Nenhuma d'estas mulheres condemnadas ao descontentamento intimo, +á dolorosa inquietação da +consciencia, em resultado de uma causa identica, póde estar +satisfeita comsigo mesma. <br /> + +<br /> + +O que fazem, pois, para fugirem de si? Procuram quanto sabem e como +podem, os outros. <br /> + +<br /> + +As festas de uma folia burlesca, ou as festas de uma pompa +deslumbrante, o mundo, emfim, a convivencia, o barulho, tudo que +aturde, tudo que faz esquecer. <br /> + +<br /> + +Ainda aqui os nossos calculos nos não illudiram. <br /> + +<br /> + +A mulher procura o mundo, porque as alegrias que póde +encontrar +em si mesma, não só +lhe não bastam para illuminar com ellas o lar onde vive com +os +seus, como lhe não chegam para si propria se distrahir e se +contentar. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Entremos agora no segundo ponto que ha pouco tocámos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[67]</span> +A mocidade da mulher é forçosamente curta. +Aquella que se +compenetrar sensatamente d'esta idéa, o que deve fazer para +attenuar a amargura? <br /> + +<br /> + +Preparar-se com dignidade, com resignação, +diremos mesmo com alegria para esse longo supplicio da mundana, que se +chama velhice. <br /> + +<br /> + +O homem, desenvolvendo em muito mais larga escala e de um modo muito +mais variado a sua actividade complexa, póde gosar +até +á mais +avançada edade dos prazeres que por assim dizer mais +apreciou. <br /> + +<br /> + +A ambição, as luctas da politica, as +lucubrações da sciencia, as argucias da +diplomacia, as +investigações da historia e da critica, e mesmo +os gosos ardentes da arte. <br /> + +<br /> + +Vejam-se Gœthe, Miguel Angelo, Hugo, Beethoven, +Talleyrand, Thiers e tantos e tantos mais. <br /> + +<br /> + +A mulher de hoje, a mulher educada por este acanhado ideal que a +domina, funda o seu fragil poder nas graças fugitivas da sua +formosura, no encanto juvenil da sua vivacidade, na sua elegancia, no +seu riso frivolo e pueril, no esplendor radiante do seu luxo, na sua +convivencia inutil e perfumada como a das flôres! <br /> + +<br /> + +Um dia alveja-lhe na massa fulva, cendrada, ou +<span class="pagenum">[68]</span> +negra dos seus cabellos, um fio de +prata, o primeiro, invisivel para todos os olhos, mas que o espelho +revelou aos seus. <br /> + +<br /> + +Esse fio traz preso a si a desventura! <br /> + +<br /> + +Oh! ella reinou, dominou, teve subjugadas aos seus pés todas +as forças e todas as vontades! <br /> + +<br /> + +A casa, mesmo sendo a casa um ninho fôfo e perfumado, +parecia-lhe +bem pequena e bem mesquinha para theatro dos seus triumphos. <br /> + +<br /> + +Era das salas que ella gostava! <br /> + +<br /> + +Do murmurio surdo, abafado, voluptuoso de +admiração, que ella excitava ao entrar nos +salões +pelo braço do seu pobre marido, muito enfastiado e +soberanamente +ridiculo! <br /> + +<br /> + +Como todos gabavam o sabio decote do seu corpete, revelando com uma +indiscrição que accendia invejas e desejos em +torno +d'ella―invejas e desejos que a enroscavam como serpentes de fogo―a +brancura do seu collo e dos seus hombros, aquella brancura setinosa de +camelia, que o orvalho da madrugada humedeceu. <br /> + +<br /> + +Como era magestosa a cauda do seu vestido! como as flôres e +as +perolas se ennastravam bem nas suas tranças opulentas! como +os +braceletes de brilhantes mordiam de raios iriados a +carnação explendida +dos seus braços! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[69]</span> +Como a adoravam, como a detestavam ferozmente aquelles homens e +aquellas mulheres! <br /> + +<br /> + +Cada olhar tinha a agudeza de uma lamina de aço! <br /> + +<br /> + +Traspassavam-n'a, feriam-n'a, beijavam-n'a aquellas mudas caricias +insolentes, e aquelles odios violentos e felinos! <br /> + +<br /> + +E a consciencia da sua formosura, da sua soberania omnipotente, do seu +prestigio invencivel, fazia-a vibrar toda como ao contacto de uma +pilha. <br /> + +<br /> + +Sentia-se rainha. Tinha ditos graciosos, tinha repentes felizes, tinha +epigrammas implacaveis, +<em>coquettismos</em> crueis; era espirituosa, era bella, +era triumphante! <br /> + +<br /> + +A casa, os filhos pequeninos, o marido, os livros, que são +tão bons companheiros da honestidade e da +modestia, onde ficara tudo isso? Nas brumas indecisas de um passado que +ella não queria ver. <br /> + +<br /> + +Oh! que intensidade de vida n'estas horas! <br /> + +<br /> + +Era só pensando n'ellas que vivera. Para que havia de +lêr, +para que havia de instruir-se, para que havia de ir perguntar +á +natureza muda, o segredo de todas as suas riquezas, para ella inuteis e +desdenhadas? <br /> + +<br /> + +Era feliz porque era admirada. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[70]</span> +Como desce o panno sobre o tablado cheio dos deslumbramentos de uma +magica, assim para ella descera agora o panno, sobre os prestigiosos +esplendores da sua vida de garridice e de vaidade, de luxo e de +loucura. <br /> + +<br /> + +Aquelle cabello branco avisou-a sinistramente de que tudo acabara. <br /> + +<br /> + +Se continúa a luctar com a velhice que nunca se deixa +vencer, achará só escarneos onde +antigamente achára cultos, só baldões +onde a +tinham acclamado em triumpho. <br /> + +<br /> + +Se vae procurar as alegrias e as distracções +proprias d'essa nova phase da sua vida, o que é que encontra +em torno de si? <br /> + +<br /> + +Não ficára ninguem no lar, que primeiro do que os +outros, ella havia desertado. <br /> + +<br /> + +O marido andava lá fóra no trabalho absorvente, +ou na +dissipação criminosa. Como ella nada lhe +dera nos dias florentes da mocidade, elle tambem nada lhe queria dar +agora nas tardes glaciaes da velhice. Creára outros +interesses +ou outras affeições, seguira +outro rumo, outra ordem de idéas. Já agora +não era possivel tornarem-se a encontrar na terra. <br /> + +<br /> + +Os filhos esquecidos, indifferentes, quasi estranhos, estavam no +collegio ou nas escolas, se o pae tinha tido piedade; estavam na +vergonhosa ociosidade, +<span class="pagenum">[71]</span> +na +vadiagem ignobil, se o pae tinha tido indifferença. <br /> + +<br /> + +Em todos os casos, nada de commum podia haver entre essa mãe +frivola e vaidosa, e esses filhos +desprezados. <br /> + +<br /> + +Os livros? Sim, os livros... Os que ella conhecera. <br /> + +<br /> + +Eram romances. <br /> + +<br /> + +Fallavam de paixões indomitas, de amores +<em>mais fortes do que a morte</em>, de aventuras +romanescas ao luar, com escadas de seda e capas <em>couleur de +muraille</em>; +de juramentos feitos em voz soluçante na sombra voluptuosa +das +alamedas; de duettos de ternura cantados pelas Rosinas e pelos +Almavivas de torna-viagem. <br /> + +<br /> + +Que lhe importava a ella tudo isso, que era agora o enlevo d'outras, +embebecidas na mesma mentira que a transviára, mas que aos +seus +cabellos brancos parecia uma ironia cruel! <br /> + +<br /> + +Mas a natureza é sempre mãe, a natureza acolhe +até os mesmos parias. <br /> + +<br /> + +Ella tem a sombra das suas arvores, a musica dos seus passaros, o aroma +das suas charnecas em flôr, as serenas linhas das suas +montanhas +azues! Ella tem a claridade pallida das suas estrellas, a doce +melopéa das suas fontes, o soturno e angustioso +<span class="pagenum">[72]</span> +bramido dos +seus +mares, a +influencia calmante das suas noites tepidas! <br /> + +<br /> + +Acolherá a natureza aquella que tantos e tantos annos a +desconheceu? Não. <br /> + +<br /> + +E não é que ella seja implacavel ou severa, +não é que ella saiba sequer das mesquinhas +miserias que +se agitam no seu seio. É porque não é +na +velhice que a alma póde iniciar-se n'um culto novo. <br /> + +<br /> + +É que para tudo é indispensavel uma aprendizagem +gradual, +é que a vasta creação +só tem consolos tranquillisadores, caricias adormecedoras, +para +os velhos, quando teve para os moços sonhos, sorrisos, +radiosas +esperanças. <br /> + +<br /> + +É que a alma, que ao desabrochar não soube ser +sensivel +á enternecedora poesia das cousas, nunca +saberá entender na hora triste do declinar, a sua ineffavel +e +divina linguagem! é que os longos horisontes de purpura e de +ouro sabem vestir de bemditas claridades a alma dos velhos, quando os +velhos se recordam, e vêem docemente descer a noute cheia de +estrellas e de harmonias mysteriosas sobre uma vida que teve por +companheiros o trabalho, o amor puro, o sacrificio, a +abnegação! <br /> + +<br /> + +Resta apenas como pasto e alimento a estas almas que andaram em busca +da felicidade por toda a parte, menos no lugar tão proximo e +tão accessivel, +<span class="pagenum">[73]</span> +onde ella estava, +resta-lhe apenas a falsa +devoção. <br /> + +<br /> + +É lá que ellas vão buscar refugio. <br /> + +<br /> + +Vivem nas egrejas, procuram um confessor que tenha a jesuitica +paciencia de revolver com ellas o montão de flôres +murchas +do passado, a ver se +ainda de lá vem o vestigio da extincta fragrancia, praticam +fervorosamente toda a casta de superstições +rediculas; entram em associações +pseudo-caridosas, gastam +o resto da vida de outra fórma não menos redicula +e +não menos balofa do que gastaram os dias da juventude. <br /> + +<br /> + +E de vez em quando, para maior espanto nosso, morre uma em cheiro de +santidade entre a piedosa confraria. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +O que é pois necessario e indispensavel para todas +nós? <br /> + +<br /> + +É que possamos viver sem o auxilio dos outros, e tirando +unicamente dos intimos mananciaes do nosso espirito e da nossa alma, +elementos para construir com elles a nossa propria felicidade. <br /> + +<br /> + +Quando a mulher depois de ter recebido uma +educação robusta, depois de ter desenvolvido as +suas +faculdades no sentido mais amplo e mais favoravel, depois +<span class="pagenum">[74]</span> +de estar apta a viver de pouco, a +dispensar tudo que seja luxo ou vaidade, de ter dado uma +applicação util ás suas +aptidões especiaes, +depois de ter +adquirido uma larga somma de idéas geraes, de +noções e de pensamentos justos, quando a mulher +emfim, +tendo a consciencia de que mesmo sósinha na vida, +saberá +grangear dignamente o seu pão, olhar em torno de si,―forte, +intelligente e instruida―e entre os homens que a rodearem, e que a +preferirem, fixar a sua escolha n'um homem, esse póde +sentir-se +justamente ufano. <br /> + +<br /> + +Não haverá n'este consorcio nenhuma +especulação e nenhum calculo. <br /> + +<br /> + +Ella está apta a julgal-o, a estudal-o, a entendel-o, por +isso +foi raciocinada a sua escolha. Elle achou uma companheira fiel do seu +destino, um guia incorruptivel, um precioso auxiliar. <br /> + +<br /> + +Trabalharão ambos. <br /> + +<br /> + +Commerciante ou sabio, poeta ou diplomata, artista ou especulador, +negociante ou politico, sempre a +coadjuvação de uma intelligencia cultivada e +flexivel, +penetrante e fina, será de incalculavel utilidade ao homem. <br /> + +<br /> + +Não viverão de certo nos arrobamentos e +transportes dos romanescos e rapidos amores; terão um fim +commum, o bem proprio e o bem de seus filhos. +<span class="pagenum">[75]</span> +Terão meios identicos, o +trabalho, a mais escrupulosa dignidade de vida, o estudo +perseverante, a +economia e a paz. <br /> + +<br /> + +Como o casamento foi um acto em que não entrou a +paixão +irreflectida, a precipitação +estupida, ou o calculo inevitavel, ha muito mais garantia de que essa +união seja duradoura e feliz. Como a phantasia da mulher +é irrequieta e audaz, logo que ella faça o +seu fito de alguma cousa de maior e de mais elevado, +deixarão de +ser perigosos os seus caprichos. <br /> + +<br /> + +O homem, preparando-se para casar, tambem não +dirá comsigo: Vou buscar um encargo. <br /> + +<br /> + +Dirá com muito mais propriedade: Vou buscar um auxilio. <br /> + +<br /> + +Eis inteiramente deslocado o velho ponto de vista. <br /> + +<br /> + +Provirá d'esta nova interpretação do +casamento o haver muito menos mulheres solteiras. <br /> + +<br /> + +As que houver, porém, terão o seu lugar, o seu +destino, a sua tarefa. <br /> + +<br /> + +Trabalharão. <br /> + +<br /> + +Não ha ninguem que querendo e sabendo, se não +possa tornar util, e produzir em bem, tudo que consome em sustento. <br /> + +<br /> + +Descrescerão de certo as industrias que vivem do luxo e da +dissipação, mas crear-se-hão +outras novas, +<span class="pagenum">[76]</span> +mais +necessarias, e para as quaes a mulher poderá levar as suas +faculdades felizes, ás quaes só +falta educação condigna. E quando para todas +chegar a +velhice será como a corôa e o remate de um +monumento sublime. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Ha muito quem alcunhe de pretensão esta minha teima de +attribuir +todos os males da familia á falsa +educação das +mulheres. <br /> + +<br /> + +Como se ellas fossem tudo! <br /> + +<br /> + +Como se d'ellas dependesse tudo! <br /> + +<br /> + +É que realmente, directa ou indirectamente, pela sua +influencia +immediata ou pela sua longinqua influencia, o caso é que +muitos +males, que muitas desgraças, que muitas immoralidades se +lhes +devem! <br /> + +<br /> + +<em>Cherchez la femme</em>, direi eu sempre, +por mais que achem vaidosa pretensão feminina esta minha +idéa. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>CAPITULO IV </h3> + +<h3> +A dissolução dos costumes e o casamento +</h3> + +<br /> + +<div class="breaks"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Os philosophos, os moralistas, os observadores clamam continuamente +contra a dissolução dos +costumes modernos, ou descrevem-na com o pungente <em>realismo</em> +da sua solta e desbragada +ironia. <br /> + +<br /> + +Uns accusam, outros fulminam, outros contentam-se com chascos e satyras +de Juvenaes <em>au petit pied</em>. <br /> + +<br /> + +Poucos são os que ao passo que apontam o mal, indiquem o +remedio, ou pelo menos o caminho que deve seguir-se para chegar a +alcançal-o. <br /> + +<br /> + +As theorias são optimas, a pratica é deploravel. <br /> + +<br /> + +Ninguem é já tão ignorante e +tão desallumiado da scentelha sagrada, que confunda o bem +com o +mal, mas o criminoso desleixo de todos, é mais funesto +á +<span class="pagenum">[78]</span> +sociedade e +á +familia, do que a idéa confusa que +em épocas menos adiantadas se formava dos deveres de cada +um. <br /> + +<br /> + +Sim, a familia parece corroida por um occulto verme, que pouco a pouco +vae dando a essa arvore frondosa, cheia de fructos e de flores, um +aspecto morbido e doentio que entristece e causa profundo assombro aos +que de perto lhe observam o progressivo definhar. <br /> + +<br /> + +Mas não basta mostrar ao mundo este indicio da sua +decadencia +moral, cumpre investigar as causas para oppôr um dique aos +effeitos desastrosos que todos os dias se vão mais +claramente +revelando. <br /> + +<br /> + +Este dever é de todos; dos grandes e dos humildes. +Não ha +ninguem que não esteja interessado igualmente na +destruição de tão +terrivel flagello. <br /> + +<br /> + +Tragam uns os esplendores do talento que vê de cima, e que +das +alturas onde paira, derrama luz clara sobre os que labutam na sombra; +tragam outros o bom senso, a experiencia, a fé e a boa +vontade. <br /> + +<br /> + +Parece que metade do caminho está vencido, porque se +muitos,―se +a maioria―anda transviada, todos pelo menos sabem definir o ideal a +que aspiram, o fim que desejam attingir e do qual involuntariamente se +afastam. <br /> + +<br /> + +O grande mal da nossa época é―quem tal o +diria?―é +<span class="pagenum">[79]</span> +a preguiça +intellectual. Todos trabalham +mais ou menos, porém ha poucos que meditem e que pensem. <br /> + +<br /> + +O seculo desoito foi o seculo do pensamento; o seculo desenove +é o seculo da industria. <br /> + +<br /> + +Predomina a materia, aspira-se ao bem-estar do corpo, aos gozos da +riqueza, ao sybaritismo refinado e artistico e pouco se attende +á voz prophetica d'essa Cassandra, chamada philosophia, que +debalde clama aos homens que elles vão por um caminho +errado, +que trilham uma estrada que não é a verdadeira, +visto que +a não illumina e lhe não mostra os +precipicios, a verdadeira e eterna luz. <br /> + +<br /> + +Os males que affligem a sociedade, que affrouxam os laços da +familia, que contaminam e dissolvem lentamente os costumes, +provém de uma causa, composta de muitas causas complexas, e +para +combater a qual devem juntar-se os esforços de todos os que +amam +o bem. <br /> + +<br /> + +Ninguem considera o casamento como elle precisa de ser considerado, +não já sob um ponto de vista mystico e +sentimental, +porém no seu verdadeiro aspecto, nas suas +relações +inilludiveis com a sociedade e com a verdadeira moral. <br /> + +<br /> + +Como sempre, é á mulher que aqui me dirijo, +é com a mulher que eu fallo. O homem tem-se em muita +<span class="pagenum">[80]</span> +conta para dar +attenção +á minha debil +e desautorisada voz. <br /> + +<br /> + +A mulher attender-me-ha porque é em vista da sua felicidade, +da +felicidade de seus filhos, da solidez e do aconchego de seu ninho, que +eu lhe estou aqui fallando. <br /> + +<br /> + +O casamento não é um contracto puramente social, +não é uma união só filha da +religião e do sentimento, não é uma +sancção legal de +affectos egoistas e de paixões indomadas, de tudo isso tem +alguma cousa, mas é muito mais sério, mais +sagrado e mais +santo do que isso tudo. <br /> + +<br /> + +Se esta quadra transitoria e convulsa que atravessa a +geração de que fazemos parte, é +triste como nenhuma outra, essa tristeza provém +principalmente +das imperfeições que maculam o casamento, das +duvidas que assaltam todos os espiritos ao vêr tão +longe +da sua resolução definitiva o problema importante +da familia. <br /> + +<br /> + +Por toda a parte o desconsolo, o desalento, a duvida, a melancolia +insanavel dos que, depois de haverem sonhado um esplendido e estrellado +sonho, despertam para as agras tristezas da realidade e nada encontram +que corresponda ás radiosas esperanças com que se +haviam +embalado. <br /> + +<br /> + +É que realmente depois da escuridão caliginosa, +da +<span class="pagenum">[81]</span> +noute lugubre e sinistra +que durante seculos envolveu a humanidade, fizeram-lhe esperar tanto, +evocaram diante do seu deslumbrado olhar tantas +apparições +luminosas, apontaram-lhe para um ideal tão levantado, +fizeram-lhe crêr em tão divinas utopias, que todos +os desalentos se desculpam ao vêr quão pouco a +realidade dos factos correspondeu a todos esses sonhos por ora +infecundos. <br /> + +<br /> + +Mas não percamos a fé; sem ella o mundo +caminhará sem ter outro norte que não seja o +perigoso conselho das suas paixões desordenadas. <br /> + +<br /> + +Se ainda pouco está feito, appellemos para o futuro e vamos +preparando essa evolução pacifica e +luminosa de que já talvez nenhum de nós aproveite +os resultados beneficos. <br /> + +<br /> + +Esqueçamos este egoismo feroz e improductivo que nos faz +desanimar em todas as emprezas de que não possamos com +mão soffrega e impaciente colher +os fructos embora prematuros e mal sasonados. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Não ha nada mais triste do que ouvir o modo desdenhoso, +quasi +sacrilego, com que os moços de hoje, os moços de +ambos os +sexos, fallam do casamento e da familia. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[82]</span> +Elles duvidam, rindo com ironia ignobil de tudo que n'outro tempo +amavam devotamente. Foram-se os bardos sentimentaes e um tanto +rediculos, diga-se a verdade! que amavam sem esperança, mas +com +ternura apaixonada, as queridas perfidas, que desprezavam o seu +desinteressado affecto. <br /> + +<br /> + +A litteratura, que é o espelho das sociedades, tem por +feição a ironia mordente, a analyse fria, a +dissecação anatomica mais positiva e mais crua. <br /> + +<br /> + +O desdem pela mulher manifesta-se sob todas as fórmas, e +debaixo de todos os aspectos. <br /> + +<br /> + +Se acabaram as declamaçães de +<em>Benedicto</em> e de <em>Antony</em> contra +a tyrannia esmagadora +da instituição conjugal, apparecem em logar +d'estas os +quadros mais abjectos da dissolução e da +decadencia a que +chegou o casamento e com elle a mulher. <br /> + +<br /> + +No limiar da adolescencia os que não alardeiam um cynismo +falso +e tão ridiculo como os transportes romanticos do passado, +calculam arithmeticamente o que póde provir-lhes em +beneficios +liquidos d'aquillo a que chamam um <em>bom casamento</em>. +<br /> + +<br /> + +Não attendem ás qualidades moraes, que +não podem apreciar nem conhecer; quando muito, +lançam no +orçamento como uma verba de certa importancia as vantagens +physicas da noiva escolhida. <br /> + +<br /> + +Nenhum grande pensamento os exalta, nenhuma +<span class="pagenum">[83]</span> +idéa definida e clara da +missão que aceitam os +eleva a seus proprios olhos. <br /> + +<br /> + +Pelo seu lado a <em>noiva</em>, a +creança radiosa que enfeitam todas as galas e todas as +flôres dos vinte annos, gaba-se em confidencia ás +amigas +intimas, de que <em>já não tem +illusões</em> e que <em>conhece a +vida</em>, a vida de que ella não leu ainda sequer a +primeira pagina! <br /> + +<br /> + +Casa porque a familia quer, casa porque encontrou aquelle rapaz em dous +bailes, porque o achou <em>interessante</em>, +<em>sympathico</em>, <em>muito +amavel</em>, porque emfim é um <em>bom partido</em>, +segundo +diz o papá! <br /> + +<br /> + +Outras vezes casa porque gosta d'elle, mas gosta d'elle +instinctivamente, animalmente, sem o conhecer, sem saber se essa +mão que aperta nas suas mãos +virginaes, será sempre em todas as crises, em todas as +occasiões da vida, a mão de um homem honrado. <br /> + +<br /> + +No dia em que se acham ligados indissoluvelmente o seu primeiro +sentimento é um sentimento de surpreza, quasi de susto. <br /> + +<br /> + +Dizem então os frivolos e os superficiaes: o +<em>melhor tempo é o da lua de mel</em>. <br /> + +<br /> + +Engano! Esses dias são os dias da vertigem, mas +não são os dias da felicidade. <br /> + +<br /> + +Cada defeito que os dous mutuamente se descobrem, é como uma +semente envenenada que ha de germinar mais tarde. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[84]</span> +Não se lembram do futuro, saboreiam com a volupia da +paixão sensual os prazeres ephemeros d'essa hora que passa. +No +fundo, bem no fundo do pensamento, n'um escaninho escuro em que ambos +fogem de entrar, porque sabem que lá os espera a +desillusão, teem guardadas muitas das tristes descobertas +que +fizeram n'aquellas horas de abandono, de loucura, de extasi, em que as +suas almas se embeberam voluptuosamente. <br /> + +<br /> + +<em>Elle</em> sabe já que a mulher +é frivola, é ignorante, é vaidosa, que +vê no casamento as alegrias da +vaidade, antes de ver os deveres e os sacrificios; +<em>ella</em> tem a certeza de que todas aquellas promessas +radiosas +não passam de uma chimera que o tempo desfará, +que o +marido não tem as delicadezas que satisfariam a alma da +mulher +ainda a menos exigente, e a menos ambiciosa. <br /> + +<br /> + +Na ebriedade d'aquelles primeiros tempos perdoam-se mutuamente os +defeitos, que parecem até graciosos, lindos e feiticeiros. <br /> + +<br /> + +O que os entristecerá mais tarde, o que avincará +de rugas +de mau prenuncio o rosto do marido, e fará encher de +insondavel +tristeza o coração da +mulher, não é mais que a resultante das pequenas +e +todavia fataes concessões e desculpas que reciprocamente +fizeram +os noivos aos defeitos que viram apparecer nas +<span class="pagenum">[85]</span> +primeiras horas da convivencia, nos +risonhos dias do noivado. <br /> + +<br /> + +<em>Ella</em> sahiu do aconchego tepido da +familia, das doçuras do lar paterno, dos braços +amoraveis +da +mãe; vem acostumada a quererem-lhe muito, a ser muito +estimada e +amada. Em casa conheciam-lhe os gostos, as +inclinações, +os habitos e os defeitos, porque +a par das boas qualidades ha sempre no coração +humano um +recanto onde se abrigam as deficiencias de caracter e de genio. <br /> + +<br /> + +Aquillo que os paes, as mães e as pessoas que de mais perto +conviviam com <em>ella</em> lhe +perdoavam, é desculpado tacitamente por <em>elle</em> +no +extasi e na delicia ineffavel do noivado; porém, mais tarde +tudo isso +servirá de base a accusações asperas, +e a censuras +amargas. <br /> + +<br /> + +<em>Ella</em>, pelo seu lado, retrahir-se-ha, +offendida e triste ante as imperfeições que +outr'ora +desculpava, e para as quaes hoje é intolerante e severa. <br /> + +<br /> + +Por isso, a mãe, quando dá o ultimo +abraço á filha que parte para os +braços do noivo +expede dilacerantes soluços de +afflicção, e +lamenta-se +desesperadamente. <br /> + +<br /> + +―É um estranho, pensa a mãe, pouco viveu com +ella; mal a +conhece, viu-a apenas nos saráus, á +luz viva do gaz, cercada de adorações, risonha, +feliz, espirituosa +<span class="pagenum">[86]</span> +e +delicada. Eu tambem fui assim... Mas como me +custou a +aprendizagem da vida! E como esta é devéras +tão +outra e differente do +que suppunha! <br /> + +<br /> + +Pobre creança! <br /> + +<br /> + +Isto pensam as mães, com aquelle sagrado affecto que nunca +se +desmente, e que não trepida ante nenhum sacrificio, por mais +arduo e assombroso que seja. <br /> + +<br /> + +Mas, de quem é a culpa, bom Deus? <br /> + +<br /> + +Sobre quem deve recahir a culpa das nuvens que se acastellaram no +futuro da vida dos noivos, a culpa das horas longas e plumbeas que os +esperam, das +recriminações azedas, que farão +explosão +mais tarde, e que levarão áquelle dôce +lar +tranquillo +o desassocego, a duvida, a desillusão, e a algida tristeza +desconsoladora de vermos as ridentes chimeras que se desfazem +lugubremente, e que nunca mais resurgirão? <br /> + +<br /> + +A culpa deve caber tanto a um como a outro, tanto á mulher +como ao marido. <br /> + +<br /> + +O noivado é uma iniciação augusta, uma +escóla onde devemos aprender a ser justos e tolerantes. <br /> + +<br /> + +O que hoje transparece vagamente, o defeito que aponta subtil e timido +em meio das alegrias do noivado, será pouco tempo depois +injustamente considerado uma cousa horrivel e monstruosa. <br /> + +<br /> + +E mister que o marido e a mulher se não julguem +<span class="pagenum">[87]</span> +a suprema e alta +perfeição, e que sejam +complacentes para as maculas e defeitos a que ninguem escapa. <br /> + +<br /> + +O homem, com a sua vida ruidosa e trabalhadora de militar, de +negociante, de artista e de proprietario terá impaciencias, +phrenesis e agastamentos. Quando a sua natureza se expandir livremente +e sem peias, não será o mesmo que estava mezes ou +annos +atraz aos pés da noiva, submisso, trémulo e +feliz, +não medindo o mundo senão pelo ambito aquecido +pelo bafo +da sua gentil amada; perderá todo esse ar de +humildade e +de escravidão, e, sem o querer, ha de ferir a pobre +creatura, +machucar-lhe os mimosos caprichos e offender-lhe a ingenua e nativa +delicadeza. <br /> + +<br /> + +A mulher com o seu pouco ou nenhum conhecimento das difficuldades da +administração de uma casa, ante o enorme peso das +responsabilidades que prevê, terá +hesitações, +duvidas e receios, que lhe farão rebentar muitas e repetidas +vezes as lagrimas, no principio da sua difficil e tão +ambicionada +posição de senhora e dona de casa. <br /> + +<br /> + +Quando o marido recolher da rua, da praça, das officinas, +das +academias, desgostoso, com o +coração mordido pelo infortunio, magoado pela +ingratidão de um amigo, pela falsidade de um outro em que +cégamente confiara, pelas mil contrariedades emfim da vida, +<span class="pagenum">[88]</span> +e precisar de uma boa e querida +palavra de affecto, de um conselho leal e sincero, de uma +consolação +benigna, a mulher deve esquecer-se de si, velar resolutamente as +feridas que sangram, para só pensar no +marido de +que é solidaria +companheira, e de cuja consciencia viril deve ser amoravel directora. <br /> + +<br /> + +Nas mãos da mulher está a tranquillidade, o +socego, a ventura e a honestidade do lar, porque ella deve ser a +perseverança inalteravel, a bondade suprema e inexgotavel, a +intelligencia allumiada pela doce luz que dimana do +coração. <br /> + +<br /> + +Que a mulher saiba perdoar, que a mulher desculpe o egoismo, a dureza, +as coleras bruscas do marido, e verá como este +saberá +fingir que ignora que tambem n'ella existem maculas, que tambem n'ella +avultam defeitos. <br /> + +<br /> + +Se deseja ser perdoada, que perdôe ella primeiro, que +dê o +exemplo, e os resultados d'essa condescendencia serão de +maravilhoso alcance. <br /> + +<br /> + +Ah! é preciso repetil-o mil vezes, dêmos um +caracter de austera seriedade ao casamento, respeitemol-o, cerquemol-o +de garantias duradouras, se não quizermos que a familia se +desmanche, e que a immoralidade triumphe. <br /> + +<br /> + +Que as noivas antes de pensarem na inveja que o seu vestido branco e a +grinalda de flôr de laranjeira +<span class="pagenum">[89]</span> +causarão ás suas +mais intimas amigas, entrem no +seu novo lar, resolvidas a crearem a felicidade do ente, que apesar de +viril e forte ha de ter durante a vida muitas horas de abatimento e +tristeza, que só os beijos de uma esposa honesta espancam. <br /> + +<br /> + +Que se compenetrem as noivas, que dos primeiros dias do noivado depende +a paz dos dias futuros, a saude, a educação e o +porvir +dos filhos. <br /> + +<br /> + +Passados os primeiros dias, volvidos os primeiros mezes, sendo o marido +intelligente e a mulher bondosa, tendo ambos uma completa +noção do justo e da verdade, poderão +facilmente +escolher o caminho que os leve mais direitos á felicidade, +de +que tantos casados andam distantes porque se não souberam +corrigir a tempo, e porque deixaram que se expandissem em espraiada e +opulenta rama os defeitos que ambos conheceram e viram com olhos +benevolamente complacentes, e só então +complacentes! de +noivos. <br /> + +<br /> + +No campo não é raro ouvir-se ás +aldeãs a quem se pergunta se se dão bem com a +vida de +casadas, o seguinte dizer quasi invariavel na bocca d'essas mulheres: <br /> + +<br /> + +―Ao principio tivemos as nossas +<em>turras</em>, mas a gente, como o outro que diz, foi-se +habituando +um ao outro, e agora não ha que se lhe diga; o que elle +quer, quero eu tambem. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[90]</span> +<em>Ao principio tinhamos as nossas +turras</em>... ouviram? É que no campo ao primeiro +beijo segue-se bem cedo a primeira recriminação; +é +que no campo o noivado dura menos, mas em +compensação +descobrem-se brutalmente as differenças de genio e as +desigualdades que a pouco e pouco vão desapparecendo. <br /> + +<br /> + +A mulher, porém, que é sempre mulher, quer ande +vestida +de sedas, quer ande envolvida em saragoça, póde +com a sua +benefica e pacificadora influencia, tanto no campo como na cidade, +desculpando o marido, conseguir que este lhe desculpe e lhe attenue as +imperfeições e defeitos que estão +fatalmente inherentes, ai de nós! á mesquinha +natureza +humana. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>CAPITULO V </h3> + +<h3>As mães e as filhas </h3> + +<br /> + +<div class="breaks"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Venho ainda hoje fallar ás mães a respeito das +suas +filhas. Creio que é um meio de ser ouvida com +attenção. <br /> + +<br /> + +Se as mães são pela maior parte das vezes a causa +inconsciente dos males que affligem a educação de +seus filhos, não é d'ellas a culpa, que +só +levam em mira o bem e a felicidade dos queridos fructos das suas +entranhas. <br /> + +<br /> + +Mas o amor das mães é cego como um instincto, e +como tal precisa de ser guiado e dirigido. <br /> + +<br /> + +Entregues a si, transviadas pelas noções +incompletas que já lhes eivaram de erros funestos a +educação que receberam na infancia, ouvindo mais +a voz da propria vaidade, que a voz austera da razão, as +mães continuam a suppôr que na +educação de uma menina +<span class="pagenum">[92]</span> +se deve attender antes de tudo ás +<em>exterioridades brilhantes</em>, que farão +d'ella a favorita +dos salões mundanos, a elegante e afamada cultora de todas +as +delicadas frivolidades sociaes. <br /> + +<br /> + +Desde a burgueza, que, apenas sahe dos desfiladeiros sombrios da +miseria, já cuida tão +sómente em hombrear com as duquezas que inveja de longe, +até á mais aristocratica descendente das antigas +paladinas, todas teem as mesmas noções +falsissimas +ácerca da educação que suas filhas +devem receber. <br /> + +<br /> + +Não estudam os diversos espiritos que se propoem a adornar +com as mesmas galas sediças; para ellas uma <em>educação +de +senhora</em> não varia. <br /> + +<br /> + +Segue sempre a mesma norma absurdamente anachronica. <br /> + +<br /> + +Os filhos são reclamados pela escola, pelo lyceu, pelo +instituto, e teem de sujeitar-se ás regras acanhadas e +incompletas da educação official; as filhas, +debaixo da direcção mediata ou immediata das +mães, começam no lar domestico a sua +aprendizagem, que +é como que a opposição systematica a +todos os +instinctos poderosos de que a natureza as dotou. <br /> + +<br /> + +Turbulentas, como é natural que sejam as +creanças, aprendem a suffocar a espontanea e salutar +actividade +dos seus pequenos membros. A primeira obrigação +que +reconhecem é a <em>de não +fazerem bulha</em>. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[93]</span> +Tornam-se taciturnas e sonsas. <br /> + +<br /> + +O habito de contrariarem incessantemente os impulsos tão +naturaes da sua idade, como que lhes abre o caminho para a hypocrisia, +o peior e o mais vulgar dos vicios femininos. <br /> + +<br /> + +Sentindo continuamente pesar-lhe sobre a cabeça uma +pressão despotica, de que não podem +reconhecer a justiça, aspiram instinctivamente ao +livramento, +teem surdas revoltas intimas, de que nenhum olhar sonda os segredos. <br /> + +<br /> + +Não se desenvolvem na plena liberdade da natureza, ha nos +seus +corpos miudinhos um aspecto de enfezamento e de fraqueza que faz pena. <br /> + +<br /> + +A vaidade maternal cuida então de as enfeitar; o vestuario +das +suas pequenas joias torna-se para as mães―para as +mulheres―um +negocio de alta e gravissima importancia. <br /> + +<br /> + +Não ha nada que as satisfaça; os bordados finos, +as +rendas, as sedas, as plumas, os velludos, tudo se combina para adornar +o gracioso e querido anjo. <br /> + +<br /> + +Dous resultados inevitaveis: <br /> + +<br /> + +A immobilidade a que este luxo condemna as suas victimas pequeninas, e +a feroz vaidade de que elle lhes lança n'alma a primeira +semente, que mais tarde ha de desatar-se em venenosos fructos. <br /> + +<br /> + +A pequena assim vestida julga-se forçosamente de +<span class="pagenum">[94]</span> +uma essencia superior +ás +que não podem competir +com ella em opulencia; de um lado levanta-se o orgulho, de outro lado +rasteja a inveja. <br /> + +<br /> + +O gosto de ser contemplada, admirada, de excitar +emulações raivosas, de ser apontada como um +modelo de elegancia infantil, accende no espirito da creança +a +funesta luz que mais tarde ha de allumiar os erros da mulher. <br /> + +<br /> + +Quando sôa emfim a hora em que o espirito exige a sua +indispensavel cultura, o mesmo systema que até alli dominou +na +educação da pequenina +continúa a fazer sentir a sua corruptora influencia. <br /> + +<br /> + +«―Quero que a minha filha se não possa +envergonhar de apparecer ao pé das mais ricas!―diz a +mãe enfatuada na sua funesta vaidade. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Chamam-se os professores de dança, de musica, de linguas, de +desenho, ou conduz-se a menina ao collegio mais afamado em prendas +d'este genero. <br /> + +<br /> + +Algumas mães exigem tambem que as filhas aprendam a <em>bordar</em> +a lã, a +<em>bordar</em> a ouro, a +<em>bordar</em> sobre escomilha, a fazer <em>crochet</em>, +flôres, pequenos trabalhos de agulha, proprios para +ornamentação de um +quarto de pensionista ingenua. <br /> + +<br /> + +Outras, mais dadas á sciencia, querem uns elementos +<span class="pagenum">[95]</span> +de geographia, alguma +historia sagrada e profana, uma leve tintura de arithmetica. <br /> + +<br /> + +Por cima de tudo isto um pó dourado de +devoção elegante, ministrada pelo director das +consciencias do <em>high-life</em>. <br /> + +<br /> + +Não se admitte de modo nenhum que um velho sacerdote obscuro +e +despretencioso, cujos sermões +não tenham fama, cujas predicas não sejam +ouvidas, entre +suspiros e lagrimas, pelas devotas da aristocracia, inicie a pequena +neophyta nos mysterios subtis da doutrina catholica. <br /> + +<br /> + +É indispensavel um padre galante, perfumado, estrangeiro, +que +torne o ensino da religião alguma cousa de artistico e de +adocicado como elle. <br /> + +<br /> + +<em>Saber bem doutrina</em> constitue um dos +deveres de uma educação primorosa, e no entanto a +filha +que aprendeu, a mãe que a mandou ensinar, ignoram todos os +deveres a que esta sciencia, a ser bem comprehendida, as obrigaria. <br /> + +<br /> + +Sabem doutrina como sabem grammatica; quer dizer repetem de +cór +umas certas e determinadas regras de que não percebem a +applicação +pratica. <br /> + +<br /> + +Aos quinze annos a menina preparada por estes elementos tem a sua +educação completa. <br /> + +<br /> + +Quer seja filha de um duque, quer seja filha de um fabricante, quer o +seu destino a reserve para receber +<span class="pagenum">[96]</span> +n'uma sala faustuosa os altos +personagens da politica e da diplomacia, para fazer parte da +côrte, para conviver n'um pé de intimidade com +todos os +grandes, e com todos os opulentos; quer ella tenha de partilhar as +luctas obscuras de um modesto empregado, de um industrial de poucos +haveres, de um artista desprotegido, é a mesma a sua +educação +moral, physica e intellectual. <br /> + +<br /> + +Está do mesmo modo preparada para as luctas e para os +combates +da vida; tem a mesma força nos musculos, tem as mesmas +faculdades no espirito, tem as mesmas noções na +consciencia. <br /> + +<br /> + +A burgueza ou a fidalga, com tanto que tenham dinheiro, teem os mesmos +direitos, as mesmas +aspirações, ambicionam para suas filhas o mesmo +lugar na sociedade. <br /> + +<br /> + +Mas o que deve confessar-se uma vez por todas é que esta +educação, toda vaidade, +toda orgulho frivolo, toda inutil ostentação, +convem tão +pouco á filha da aristocracia e da opulencia, como +á filha da burguezia e da mediocridade. <br /> + +<br /> + +Uma, collocada nos altos pincaros sociaes, precisa de ter o juizo recto +e seguro para conhecer os homens, a graça ondeante e fina +para +os attrahir, o conhecimento profundo dos seus interesses e +paixões, para os conciliar entre si; precisa de fallar a +cada um +<span class="pagenum"><a name="p97">[97]</a></span> +a linguagem mais +propria para o convencer e dominar; precisa de ser, junto de seu marido +um auxiliar proficuo com que elle conte, uma intima e fiel alliada, que +o ajude a conservar dignamente a posição que +herdou dos +seus avós ou que conquistou com o braço e com o +pensamento. <br /> + +<br /> + +A outra, n'uma esphera que é inferior á da +primeira, segundo o ponto de vista social, mas que de feito lhe +é superior, porque inclue mais altos e mais complexos +deveres―a +outra precisa de descer com seu marido á arena onde combatem +os +modernos trabalhadores, precisa de lhe ser em tudo e por tudo ajuda, +guia e conselho, precisa de acceitar para si terriveis +responsabilidades, para as quaes nenhuma lição a +preparou! <br /> + +<br /> + +<a href="#e2">Dir-me-hão que</a> o +nivelamento democratico das modernas sociedades dá a todos +os +mesmos direitos, porque dá a todos os mesmos deveres; que a +mãe opulenta e nobre que cria suas filhas nos +fôfos ocios +da riqueza não sabe se em breve terá de vel-as +curvadas ao peso da maxima miseria, assim como a mulher de um humilde +empregado não sabe se verá sua filha ascender a +uma +prospera e brilhante +posição, elevada por um d'esses casamentos que +são +vulgares, como d'antes eram raros. <br /> + +<br /> + +D'accordo, meus senhores; mas essa hypothese +<span class="pagenum">[98]</span> +em cousa alguma destróe a minha +asserção, pois o que eu disse e repito +é que a educação +feminina, tal como hoje a entendem, para nenhuma classe da sociedade, +para nenhuma posição brilhante ou precaria +é util ou conveniente. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Que desenvolvimento moral, physico ou intellectual, póde +adquirir-se partindo de tão errados +principios? <br /> + +<br /> + +A que fim se aspira, que fim se attinge, alcançando uma +educação que tem por unica base a vaidade? <br /> + +<br /> + +Pois a mulher, que levou annos e annos da sua vida a adquirir +conhecimentos inuteis, está porventura armada para resistir +ás tentações, +ás adversidades, ás miserias, aos combates da +vida? <br /> + +<br /> + +Imagine-se, em contraposição a esta falsa +cultura, que constitue o que os burguezes embebecidos em comico +enthusiasmo chamam uma <em>educação +muito fina</em>, imagine-se que as mães, juntando-se +n'uma piedosa cruzada, conseguiam crear uma +instituição +moderna, onde suas filhas recebessem a educação +que hoje +lhes poderia servir, para se tornarem uteis na sociedade e na familia. <br /> + +<br /> + +Quantas vezes não tenho eu acariciado em sonhos +<span class="pagenum">[99]</span> +a idéa d'essa +escola-modelo, onde a creança +aprendesse a ser mulher, onde a mulher aprendesse a ser mãe! +onde uma direcção harmonica e +intelligente presidisse ao desenvolvimento do espirito e ao +desenvolvimento não menos sagrado do corpo; onde a moral +caminhasse a par da sciencia, onde a primeira +noção que o +entendimento feminino recebesse fosse esta: «Todo o trabalho +nobilita e exalta a quem o executa com a consciencia de cumprir um +dever!» <br /> + +<br /> + +Eu não quizera por certo proscrever da +educação da mulher as graças, que +são para ella o que o +perfume é para a flôr. <br /> + +<br /> + +Não queria vêr o mundo convertido n'um viveiro de <em>pedantes</em>, +enfronhadas em sciencia +e tornando antipathica a virtude, á força de lhe +darem ares dogmaticos. <br /> + +<br /> + +Se a leitora suppõe de mim tal +abominação, é que eu bem pouco tenho +conseguido revelar-me aos seus olhos. <br /> + +<br /> + +O meu intento é outro; permitta-me que lhe torne aqui bem +palpavel. <br /> + +<br /> + +V. exc.<sup>a</sup>, minha senhora, tem uma filha, um +pequenino anjo, louro e +risonho, que é n'este mundo o seu enlevo, como que um +bocadinho +do céu azul, que lhe cahiu no seio n'um dia +abençoado. <br /> + +<br /> + +Tome o meu conselho: não siga na +educação do +<span class="pagenum">[100]</span> +seu pequeno amor o systema que +sua mãe seguiu comsigo, que as suas amigas seguem com as +filhas +que teem. <br /> + +<br /> + +Córte de uma vez este fatal nó gordio da +tradicção, do costume, da rotina, que faz morrer +em flôr tantas innovações beneficas. <br /> + +<br /> + +Tenha a coragem das suas opiniões; inutilise esse formoso e +rico +enxoval que umas modistas banaes inventaram por ordem sua; deite +fóra essas sedas, essas rendas, esses instrumentos de +perdição para a alma pequenina que Deus lhe +confiou. <br /> + +<br /> + +Vista sua filha simplesmente, com um aceio gracioso e poetico, que +revele os seus desvelos de mãe, mas que não +denuncie as +suas vaidades de rica. <br /> + +<br /> + +Bem vê que, livre de todo aquelle fausto que a incommodava, +como +um laço de fita incommoda uma ave, a sua doce pequenina se +sente +mais livre e mais contente. <br /> + +<br /> + +Eu bem sei que ainda ha pouco uma amiga sua, passando por ella, a mediu +dos pés á +cabeça, muito espantada e um pouco desdenhosa, perguntando a +si +mesma se v. exc.<sup>a</sup> já não +era tão rica +como ella julgou; mas em compensação d'esta +pequena +ferida de seu amor proprio, houve uma creança pobre, que ao +parar junto da sua filhinha, ousou estender a bocca de rosas, e +beijal-a com um dôce e fraterno beijo, +<span class="pagenum">[101]</span> +como os anjos se dão +entre si, e para os quaes Deus do alto da sua gloria teve sempre um +sorriso bom! <br /> + +<br /> + +Que importam os desdens dos parvos e dos mediocres aos que +não +teem as invejas dos miseraveis a pezarem-lhe na cabeça como +uma +eterna +maldição! <br /> + +<br /> + +Quando a sua filha passa com o seu vestidinho branco, muito simples e +muito aceiado, as mães pobres sorriem-se com amor por dous +motivos, ambos santos: porque ella não humilha ninguem, e +deixa +uma esmola de pão e um rasto de luz no seu caminho de anjo +inconsciente. <br /> + +<br /> + +Oh! como são doces ao coração das +mães as bençãos que se desfiam como um +rosario de perolas sobre a cabeça loura de seus filhos. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Quando a intelligencia já viva e luminosa da sua filha lhe +pedir +cultivo, como as flores pedem agua, não a force a um +trabalho +pesado e tenaz, nem tão pouco lhe dê da vida uma +idéa tão frivola, +que ella só aprenda o que é superfluo para +não +dizer inutil. <br /> + +<br /> + +Abra-lhe com a sua mão maternal tão delicada e +tão +subtil o vasto livro da natureza, e deixe que ella, enlevada e curiosa, +o folheie cheia de amor e de fé. Toda a sciencia se encerra +n'isto, minha senhora. <br /> + +<br /> + +Faça-a penetrar na alma de todas as cousas para +<span class="pagenum">[102]</span> +que a vida se não +conserve +aos seus olhos inanimada e esteril. <br /> + +<br /> + +Em vez de lhe ensinar a doutrina morta que vem nos livros, leve-a +brandamente por um declive suave a comprehender o espirito d'essa lei, +que é feita de tanto amor! <br /> + +<br /> + +Conte-lhe as miserias occultas que ha n'este mundo, ensine-a, ou antes, +deixe que ella adivinhe como essas miserias se consolam pela esmola do +pão e pela esmola do carinho, e, quando ella voltar do +albergue +da desgraça, ao seu lado, calada, pensativa, com os olhos +cravados nas nuvens alaranjadas do poente, pergunte-lhe +então +baixinho, com a sua voz de +mãe, a unica que nunca perturba nem afugenta os sonhos de +uma +virgem:―Comprehendes agora as palavras do Christo: <em>Ama a +Deus sobre todas as cousas e ao proximo como a ti mesmo</em>? <br /> + +<br /> + +Só este commentario das lições do +Justo póde fazer com que ellas dêem +abençoados fructos! <br /> + +<br /> + +Em vez de lhe occultar os mil subterfugios com que a maldade humana +tenta avassallar e corromper a innocencia, innocule-lhe lentamente com +a sua palavra serena e firme a força necessaria para vencer +e +dominar as astucias criminosas e traiçoeiras. <br /> + +<br /> + +Faça-lhe sentir com a lição e com o +exemplo que a mulher tem quasi sempre em si o seu peior inimigo, +<span class="pagenum">[103]</span> +e que este inimigo, que toma +todas as fórmas +imaginaveis, é sempre no +fundo o +mesmo! o orgulho. <br /> + +<br /> + +Que ella comprehenda bem que o dominio que a mulher exerce pela sua +bondade nobilita aquelle que se lhe submette, emquanto que o +despotismo, que tem como origem a belleza e a graça +artificial +das +seducções, rebaixa o homem que o acceita, e a +mulher que +o põe em acção. <br /> + +<br /> + +Nas cousas triviaes da vida pratica prepare-a para todas as +eventualidades. <br /> + +<br /> + +Que se não ache deslocada n'um throno, nem atraz d'um +balcão. <br /> + +<br /> + +Eis o ideal. <br /> + +<br /> + +Ha uma dignidade que está comnosco, que participa da nossa +propria assencia, que provém da +noção elevada que nós temos dos nossos +direitos e +dos nossos deveres, e que é portanto independente de +qualquer +circumstancia exterior. <br /> + +<br /> + +É d'esta dignidade que uma educação +justa e forte deve dar á mulher, e que em todas as +peripecias da +vida, por mais desusadas e estranhas, a deve acompanhar. <br /> + +<br /> + +Ter bastante humildade para exercer sem repugnancia os trabalhos menos +delicados, e bastante superioridade para comprehender a idéa +do +dever que os exalta e sobredoira; ver na vida, primeiramente as +<span class="pagenum">[104]</span> +obrigações, depois as +distracções, eis aquillo que todas as +mães devem ensinar ás suas filhas. <br /> + +<br /> + +No dia em que todas o souberem, teremos então, em vez das +creanças fracas e inuteis, que o homem ora protege, ora +escravisa, segundo o impulso das suas ephemeras paixões, uns +seres pensantes, conscios da sua força, sem +ambições desregradas +de um poder que lhes não deve pertencer, sem a hypocrita +humildade, que faz de cada mulher uma victima pouco sympathica. <br /> + +<br /> + +As salas terão menos estatuetas de +<em>biscuit</em> amaneiradas e ridiculas, mas a familia +terá mais elementos na vida e duração; +os pianos deixarão +de suspirar em noutes de luar as suas sentimentaes confidencias; mas a +verdadeira comprehensão da arte, da +religião, e da poesia penetrará como por encanto +nos entendimentos feminis. <br /> + +<br /> + +Teremos emfim ao lado do batalhador das modernas lides uma companheira, +não só digna d'elle, +porém capaz de o levantar a um nivel que elle ainda, +desacompanhado e desprotegido, não pôde +desgraçadamente attingir. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>CAPITULO VI </h3> + +<h3>Leitura para nossas filhas </h3> + +<br /> + +<div class="breaks"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature">«Minha querida amiga:</div> + +<br /> + +<br /> + +Disse-me hontem que sua filha tinha esgotado a pequena bibliotheca +infantil, que a muito custo colligio para ella, e que esse candido e +luminoso espirito, de quinze annos exige energicamente mais alimento +que a nutra e que a deleite. <br /> + +<br /> + +Pergunta-me a respeito da leitura que ha de permittir a sua filha, a +minha opinião, o meu conselho. <br /> + +<br /> + +É um caso difficil este que me propõe. <br /> + +<br /> + +Lili é uma graciosa e excepcional creatura; tem a logica +inflexivel das creanças intelligentes, tira +rapidamente a conclusão das premissas que submettam ao seu +criterio. A leitura póde fazer-lhe muito mal ou muito bem; +não póde de modo algum ser-lhe +indifferente. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[106]</span> +A minha amiga seguindo as tradicções que +já encontrou assentes, pergunta-me se póde deixar +ler a sua filha <em>Paulo e Virginia</em>, esse +idyllio que tem cem annos e que ameaça ser eterno, ou +<em>Jocelyn</em>, o poema mais perigosamente mystico que eu +conheço. Falla-me no <em>Genio do Christianismo</em>, +de +Chateaubriand, e nas tragedias sacras de Racine. <br /> + +<br /> + +Não se lembra para sua filha de nenhum outro escripto e +lembrou-se justamente d'aquelles que só lhe podiam fazer +mal. <br /> + +<br /> + +Antes de mais nada, responda-me francamente: quer fazer de sua filha +uma mulher solidamente instruida ou então uma mulher +ignorante? <br /> + +<br /> + +Quer que ella saiba resistir ás +tentações que forçosamente ha de +encontrar na +vida, ou quer que ella se conserve na mais completa e absoluta +inexperiencia até á edade em que ha de entregal-a +ao +homem que tem de ser seu marido? <br /> + +<br /> + +Da resposta a estas duas perguntas é que tudo depende, +porque +segundo a idéa que a minha amiga fórma da +educação de uma mulher, +segundo o systema que tenciona pôr em pratica com +relação +á educação de sua filha, o futuro +d'esta ha de +levar um outro caminho. <br /> + +<br /> + +Eu não posso dizer-lhe positivamente: faça isto, +faça aquillo. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[107]</span> +Posso apenas contar-lhe o que fiz. <br /> + +<br /> + +Minha filha tem hoje vinte seis annos, é casada, +é mãe, e tem sabido cumprir a dupla e difficil +missão que a sorte lhe confiou. <br /> + +<br /> + +Não sei se deva attribuir os meritos que todos lhe +reconhecem +á educação que procurei +dar-lhe; parece-me, porém, que sem falsa modestia poderei +confessar, que os meus cuidados não foram de todo +inefficazes, e +que o muito que pensei e meditei sobre o caracter da minha querida +filha, me ajudou a guial-o no caminho do seu +aperfeiçoamento. <br /> + +<br /> + +Ha gente que diz que as mulheres não devem ler. <br /> + +<br /> + +Não sei se alguma vez tem ouvido essas opiniões +estupidas ou perfidas; não lhes dê credito minha +boa amiga. <br /> + +<br /> + +Eu não acho merito algum á mulher ignorante, que +se +resigna ao cumprimento dos seus obscuros deveres de todos os dias. <br /> + +<br /> + +Segue rotineiramente um caminho de que não conhece as +difficuldades, e se não se afasta d'elle é +porque não sabe de nenhum outro. <br /> + +<br /> + +A mulher deve ler, mas se mais tarde no pleno uso das suas faculdades +mentaes, e da sua força moral, ella póde ler tudo +sem +perigo, é indispensavel +que uma educação anterior a tenha preparado e +fortalecido, é indispensavel que haja o maior cuidado na +cultura +<span class="pagenum">[108]</span> +intellectual que ella +deve receber na infancia e na adolescencia. <br /> + +<br /> + +Diz-me a minha amiga, que a maior parte dos romances são +immoraes, que os que não são +immoraes nos intuitos são perigosamente exaltados ou +revellam ao +espirito da mocidade quadros que ella não deve conhecer: +diz-me +que a historia de todos os povos não é mais que +um +amontoado confuso de crimes e de vicios, que a sciencia está +em +contradicção +absoluta com as verdades de religião, e no meio das duvidas +que +se desnorteiam e assaltam quasi que prefere condemnar sua filha a uma +ignorancia que ao menos a conserve simples de +coração e +tranquilla de +espirito. <br /> + +<br /> + +Tenho duas objecções a fazer-lhe minha amiga, e +parece-me +que ambas hão de impressionar o seu esclarecido +entendimento. <br /> + +<br /> + +Em primeiro logar, se consultar bem a sua consciencia, verá +que +transige por fraqueza e por preguiça com a ignorancia de sua +filha. <br /> + +<br /> + +Prefere que ella não tenha quasi nada, a ter de se entregar +a +trabalho difficilimo de escolher com o mais delicado dos escrupulos o +que ella deve saber. <br /> + +<br /> + +Em segundo logar, essa ignorancia, que para a mulher lhe parece o porto +socegado e tranquillo onde ella repousará affoutamente, +parece-me a mim um +<span class="pagenum">[109]</span> +banco de +perfidas areias onde facilmente ella póde +naufragar. <br /> + +<br /> + +Já estou d'aqui prevendo a sua +objecção. <br /> + +<br /> + +Mas eu não quero tal que minha filha seja ignorante. Pelo +contrario, dei-lhe uma excellente educação. Aqui +não se tracta senão das leituras que depois +de educada eu lhe devo permittir ou recusar. <br /> + +<br /> + +Minha amiga, creia isto que lhe vou dizer. Se sua filha não +souber senão o que tem aprendido +até agora, de poucos recursos fica munida para combater na +grande batalha em que vae entrar. <br /> + +<br /> + +Ensinou-lhe o cathecismo, bem sei; Lili fez já a sua +primeira +communhão, e respondeu ao exame de doutrina com admiravel +facilidade, e com uma memoria impecavel. <br /> + +<br /> + +E depois? <br /> + +<br /> + +Em que é que essas noções a auxiliam +para que ella chegue a conceber o bem absoluto, a eterna +justiça, o Espirito Supremo que anima a grande natureza? <br /> + +<br /> + +É preciso que ella forme de Deus uma larga e fecunda +idéa, e as manifestações da sua +grandeza não estão no cathecismo, +estão espalhadas n'essa +creação universal que ella não sabe +ver e que ella não +conhece. <br /> + +<br /> + +Conhece a historia pelos pequenos opusculos cheios de todas as maculas +e impurezas, que deixaram chegar ás suas mãos +infantís. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[110]</span> +Não será uma irrisão dizer que ella +conhece a historia? <br /> + +<br /> + +Sabe os nomes dos reis, as datas dos seus nascimentos e mortes, +coroações e consorcios, e os filhos que +tiveram e as cidades e villas que conquistaram; mas que idéa +tem +ella d'essa historia sublime, que participa do drama e da +epopêa, +que tem paginas doloridas e paginas brilhantes, que tem cantos +triumphaes, e gemidos de lutuosa angustia, d'essa historia em que +estão registradas tantas luctas heroicas, tantas conquistas +immortaes, e que se chama a historia da humanidade? <br /> + +<br /> + +Não lhe parece que deve ser um estudo elevado, fortificante, +robustecedor, que faz conhecer melhor, os esforços titanicos +que +o homem tem empregado para alcançar a quasi omnipotencia que +hoje possue? <br /> + +<br /> + +Do homem rude, primitivo, inhabil, rodeiado de perigos para o corpo e +de chimeras para o espirito, esmagado pela força brutal da +natureza, sem comprehensão do destino que o esperava e da +missão a que vinha, até ao homem dos nossos dias, +ao rei, +ao victorioso, ao vencedor, ao que tem dominado todas as tyrannias que +o dominavam, que differença enorme vae, minha querida amiga! +<br /> + +<br /> + +Entre o pária errante das selvas pre-historicas e esse +triumphador que se chama Newton ou Goethe, +<span class="pagenum">[111]</span> +Claude Bernard ou Victor Hugo, ha a +distancia de uns poucos de milhares de seculos, que é +preciso +conhecer ao menos pelos marcos milliarios que teem assignalado a +passagem dos mais illustres caminhantes n'essa estrada luminosa que se +chama civilisação. +<br /> + +<br /> + +É isso que eu chamo conhecer a historia. <br /> + +<br /> + +D'essa sciencia o espirito de sua filha, curioso, ávido, +aberto para todas as grandes cousas, só +póde colher proveito, um enorme proveito cujo alcance mal +lhe posso explicar! <br /> + +<br /> + +Dir-me-ha que n'essa historia ha crimes ignobeis, ha quadros +revoltantes, ha homens condemnados cujo contacto póde ferir +o +delicado e original espirito de uma creança. <br /> + +<br /> + +Oh! mas tambem ha martyrios, sacrificios, +abnegações, arrojos sublimes! <br /> + +<br /> + +Se ha criminosos, tambem ha heroes; se ha algozes, tambem ha martyres; +se ha monstros, tambem ha santos. <br /> + +<br /> + +Deixe que no cerebro da creança se faça a +mysteriosa elaboração de que ha de sahir o culto +pelo que +fôr bello e bom, o odio raciocinado e violento a tudo que +fôr abjecto e vil, a compaixão virtuosa e +divina para tudo que fôr fragil e ignorante! <br /> + +<br /> + +Ponha nas mãos de sua filha todos os cantos d'essa +epopêa +enorme. Faça-lhe lêr com +attenção essa historia, +<span class="pagenum">[112]</span> +e quando ella tiver chegado +á ultima pagina, +será mulher. Uma mulher instruida, uma mulher forte, capaz +de +ser esposa digna, e mãe desvellada, tendo aprendido a +conhecer, +comparar, julgar e a pensar. <br /> + +<br /> + +Não sei se comprehendeu bem a idéa que procurei +expôr-lhe. Apontei a traços largos a +direcção <em>una</em> que deve dar +ás leituras de sua filha. Isto a que chamei conhecer a +historia, não é, como viu, ler +simplesmente os historiadores. <br /> + +<br /> + +É lêr, dominada por uma idéa de elevada +critica, que as conversações d'uma mãe +intelligente podem dar, todas as que tenham trazido a este thesouro +formado pelos seculos, algum conhecimento precioso e util. <br /> + +<br /> + +Os bons historiadores como Macaulay e como Herculano, os poetas que +vivificam e animam o passado, que entram no espirito de todos os +seculos, como Michelet: os viajantes intrepidos, os exploradores, os +navegantes, os homens de sciencia, conquistadores tambem e dos mais +gloriosos; os moralistas, os criticos, todos aquelles que buscam +lealmente a verdade e que aspiram ao aperfeiçoamento do +homem. <br /> + +<br /> + +Fallei-lhe de Michelet e deixe-me dizer-lhe o que penso d'elle. <br /> + +<br /> + +É o coração mais apaixonado de +justiça que eu conheço, o que o não +priva de ser injusto muitas vezes; +<span class="pagenum">[113]</span> +mas tem uma alma tão grande, tem uma +comprehensão tão viva do bello, tem faculdades +artisticas +tão poderosas, que para mim não ha companheiro +melhor +para um espirito moço. <br /> + +<br /> + +Deixe que sua filha leia muito Michelet. <br /> + +<br /> + +É um grande mestre. Atravez d'elle ella saberá +sentir melhor, amar com um amor mais intelligente a natureza. <br /> + +<br /> + +Michelet tem a doçura misericordiosa que redime e levanta os +humildes e anima os fracos, tem a paciencia que penetra no intimo dos +sêres mais inferiores, e que o illumina de uma luz +sympathica. <br /> + +<br /> + +Sabe fazer ver tudo, sabe explicar todos os mysterios. <br /> + +<br /> + +É um genio que tem alguma cousa de propheta. <br /> + +<br /> + +Como é bom, divinamente bom, o contacto d'aquelle espirito, +dá bondade e força. <br /> + +<br /> + +«Para elle não ha na natureza, nada que tenha +vida, e não tenha alma! <br /> + +<br /> + +Da planta ao mollusco, e do mollusco ao homem tudo que vive ama, e tudo +que ama tem direito ao nosso amor. <br /> + +<br /> + +Doce philosophia que nos ensina o segredo de todas as misericordias! <br /> + +<br /> + +Minha querida, ainda que para mim Michelet seja o melhor dos poetas, +não entendo que das leituras de +<span class="pagenum">[114]</span> +uma menina se deva proscrever +implacavelmente a outra poesia. <br /> + +<br /> + +Quando digo isto refiro-me á poesia rimada, á que +canta +no ouvido, com uma musica que é muitas vezes +traiçoeira. <br /> + +<br /> + +Procure no entanto que seja o mais tarde possivel, que essas vozes de +sereia penetrem no ouvido de sua filha. <br /> + +<br /> + +Oh! é que é preciso muita força para +resistir á influencia dissolvente que ellas teem em +nós. <br /> + +<br /> + +Nunca perca de vista que a vida é um combate, um rude e +terrivel +combate, e elles os que cantam e os que choram em vez de inocularem no +espirito a força de que este precisa, tornam-n'o debil, +amollecem-n'o, em voluptuosidades enervantes. <br /> + +<br /> + +Ninguem tem medo de Lamartine. <br /> + +<br /> + +As mães dão-n'o a ler ás suas filhas, +os noivos dão-n'o de presente ás suas noivas. <br /> + +<br /> + +Para todos elles é o mais puro dos poetas, um cysne que +nunca +maculou as suas pennas brancas no lodaçal das +paixões +insalubres! <br /> + +<br /> + +Não se illuda com este juizo que universalmente se formou a +respeito de Lamartine e dos melancolicos da sua escola. <br /> + +<br /> + +Que maior perigo para uma alma juvenil do que a +aspiração a um ideal impossivel? do que a sede de +<span class="pagenum">[115]</span> +venturas irrealisaveis e do +que o sonho de amores que não existem? <br /> + +<br /> + +E depois os poetas inconsolados e inconsolaveis não ensinam +a +luctar contra as magoas da vida. Ensinam a curvar a cabeça +aos +golpes da fatalidade, ensinam a chorar covardemente, a deliciar-se nas +agonias, a saborear a doçura debilisadora das lagrimas! <br /> + +<br /> + +Saudemos os que combatem virilmente, os que vencem a +desgraça, os que furtam a sua alma ás +languidas tristezas da desesperança, saudemos os que +são fortes, alegres e bons. <br /> + +<br /> + +É d'essas intelligencias eleitas, que sua filha deve +sómente alimentar-se. <br /> + +<br /> + +Ella ha de querer ler romances. <br /> + +<br /> + +É natural. <br /> + +<br /> + +Os romances são a fantasia, e na vida das mulheres a +fantasia tem um grande logar. <br /> + +<br /> + +É na escolha d'esses que precisa ter o maior cuidado. <br /> + +<br /> + +Proscreva sem dó, da bibliotheca de sua filha, as obras +primas dos romancistas francezes. <br /> + +<br /> + +Balzac é um anatomista implacavel. <br /> + +<br /> + +Os seus romances matam a flôr da fé na alma dos +innocentes. <br /> + +<br /> + +Georg Sand é um bello anjo revoltado. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[116]</span> +Tem o orgulho de Satanaz na imaginação de uma +mulher apaixonada. <br /> + +<br /> + +Octave Feuillet tão fino, tão delicado, +só deve ser lido depois dos trinta annos. <br /> + +<br /> + +Daudet um delicioso romancista, começou a escrever n'uma +época doentia; ha n'elle um não sei que de +morbido que +entristece e que faz mal. <br /> + +<br /> + +Escusa de procurar minha amiga. <br /> + +<br /> + +Nós as mulheres para quem a vida já +não tem segredos, adoramos esses escriptores, porque elles +contam-nos o que já tinhamos adivinhado, relembrando-nos o +que +tinhamos sentido; descrevem-nos o que tinhamos a curiosidade de +conhecer, mas as creanças que os lerem devem experimentar +bem +dolorosas surprezas. <br /> + +<br /> + +É a litteratura ingleza a mais rica, a mais fecunda no +genero que procura. <br /> + +<br /> + +Walter Scott um verdadeiro poeta, reviverá para sua filha as +scenas mais pittorescas de um passado aventuroso. <br /> + +<br /> + +Puros amores, enthusiasticos guerreiros, heroismos nacionaes, +sentimentos caracteristicos de uma raça energica e arrojada, +incidentes romanescos, mas de um romanesco são, tudo que tem +o +poder de enlevar e attrahir a imaginação colorida +e ardente de uma mulher de poucos annos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[117]</span> +Não ha creações femininas mais +diliciosamente virginaes do que as do romancista escossez. <br /> + +<br /> + +As suas mulheres, como as mulheres de Sakspeare, como as mulheres de +Dickens, são feitas de um raio de luar, de uma petala de +rosa, +de um canto de rouxinol. <br /> + +<br /> + +O crime nem de leve se approximou d'ellas; o vicio, de envergonhado, +córa na sua presença; +não conhecem as más +tentações, as vigilias +ardentes, os sonhos que perturbam e agitam a alma das outras mulheres. <br /> + +<br /> + +Que doces e queridos exemplos! que bellas e radiosas companheiras. <br /> + +<br /> + +As escriptoras inglezas seguiram a tendencia moralisadora da sua +nação. <br /> + +<br /> + +Os livros de algumas d'ellas teem a graça d'um narrar +discreto e <em>nuancé</em>. +<br /> + +<br /> + +Não se queixe de que não póde dar +á sua filha romances que a distraiam, sem a inquietarem. <br /> + +<br /> + +Dickens o mais energico e convencido dos moralistas, Mrs. Graswell, +Broute, Georges Elliot e muitos mais que não tenho tempo de +enumerar, ahi estão para desmentirem. <br /> + +<br /> + +Que sua filha entremeie a leitura de escriptores mais instructivos com +esta outra leitura amena e agradavel, e verá como ella +aprende a gozar da companhia +<span class="pagenum">[118]</span> +dos bons +livros, e a dispensar as futeis +distracções mundanas que esterelisam o espirito, +e o +tornam mesquinho e baixo. <br /> + +<br /> + +Assim, absorvida pelo estudo bem dirigido, pelas elevadas +distracções intellectuaes, assim +educada, fortalecida, illucidada, verá como ella chega +á +edade propria de escolher o seu destino, possuindo um são +criterio, uma penetração delicada, uma firmeza de +principios que a ponha ao abrigo de qualquer +tentação menos digna. <br /> + +<br /> + +Conhecendo o bem e o mal, e comprehendendo o que um e outro significam +e valem, saberá o que +não sabem os ignorantes, saberá escolher o +caminho que tém de seguir se lhe confiarem a escolha. <br /> + +<br /> + +Parece-me que para chegar a este fim a leitura, o cuidadoso cultivo da +intelligencia devem ser auxiliares preciosos, não +acha?» <br /> + +<br /> + +Encontramos esta carta nos papeis velhos de uma excellente amiga nossa, +e sem a corrigir vimos offerecel-a ás nossas leitoras. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>CAPITULO VII </h3> + +<h3>As dactas d'uma vida</h3> + +<br /> + +<div class="breaks"> +<hr /></div> + +<br /> + +<h4>A ida para o collegio </h4> + +<br /> + +<br /> + +―Então achaste o que procuravas? <br /> + +<br /> + +―Achei. Eu tinha consultado a este respeito a baroneza de +S., +que tem, como sabes, immenso juizo. Indicou-me o collegio de M.<sup>me</sup> +Maubry. <br /> + +<br /> + +Uma franceza elegantissima. <br /> + +<br /> + +Parece-me que fiquei muito bem servida. <br /> + +<br /> + +―Tu é que foste ao collegio fallar com a directora? <br /> + +<br /> + +―Pois a quem havia eu de confiar similhante encargo? Fui, vi, julguei +por meus proprios olhos, e fiquei satisfeita. <br /> + +<br /> + +―O collegio está bem situado? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[120]</span> +―Sim. Está n'um sitio muito central, muito concorrido, tudo +muito á mão. Um constante vai-vem de carruagens, +que nas +horas de recreação ha de +distrahir immenso as creanças. <br /> + +<br /> + +―E a respeito de jardim para ellas correrem? <br /> + +<br /> + +―Tem um jardim pequeno, mas muito bonito, +muito bem tratado, á ingleza. Conhece-se +á primeira vista a obediencia e a docilidade das discipulas, +olhando para o jardim. Nem um vestigio de travessuras +infantís. Uma limpeza ideal nas pequenas ruas +arêadas. <br /> + +<br /> + +Fui lá na hora do recreio da tarde; andavam as meninas +passeiando e conversando com uma gravidade! uma compostura!.. pareciam +senhoras em miniatura!.. Achei engraçadissima aquella +parodia de +uma das nossas salas. <br /> + +<br /> + +―Ainda bem que me contas isso tudo, Mathilde. Ando com vontade de +metter as minhas pequenas em um collegio, porque estão de +uma +maldade!.. Não pára nada com ellas! Importunam-me +extraordinariamente. Tu sabes. Nem eu nem o pae gostamos de barulho, e +dous diabretes em uma casa pequena, é de se morrer. +Decido-me +pelo teu collegio. Perguntaste o que lá ensinam. <br /> + +<br /> + +―Oh! a esse respeito podes estar descansadissima. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[121]</span> +Uma perfeita educação de senhora. M.<sup>me</sup> +Maubry +é o typo da parisiense delicada e graciosa. <br /> + +<br /> + +Tem um cuidado inexcedivel com as maneiras das discipulas, com o seu +modo de se apresentarem, com a sua <em>toilette</em>. <br /> + +<br /> + +Disse-me ella que tinha por systema, dar-lhes desde muito cedo o gosto +de agradarem na sociedade, de excitarem em torno de si uma +sensação +agradavel... impregnal-as d'aquella graça especial que +constitue +a mulher do mundo!.. Approvo immenso aquella maneira superior de +entender a vida social. <br /> + +<br /> + +―Mas não me fallaste ainda da +instrucção que recebem as discipulas... <br /> + +<br /> + +―Oh! já se vê, correspondente ao resto. +Linguas... nas linguas M.<sup>me</sup> Maury tem um apuro +especial. Piano, +canto, um pouco de historia, de geographia, dança, desenho, +varios bordados, etc., etc. Creio que é o sufficiente para +brilhar entre as primeiras. <br /> + +<br /> + +M.<sup>me</sup> Maubry segue o systema moderno no que elle +tem de muito +aproveitavel. Ministra a +instrucção brincando por assim dizer. Ha +concertos +semanaes em que figuram as melhores discipulas; ha cursos de +conversação; ha noutes em que se lê +alto, se recita ou se representa. N'uma palavra, o fim d'ella +é +tornar deleitoso o estudo, e desenvolver a +emulação entre +<span class="pagenum">[122]</span> +as discipulas. Como verdadeira +franceza, percebeu que a vaidade é o motor principal da +mulher e... <br /> + +<br /> + +―Minha querida, interrompeu n'este momento o marido da +oradora; +faze o que quizeres, visto que tive a imprudencia de te jurar que +educarias tua filha conforme te aprouvesse e sem que eu nunca entrasse +n'isso; mas o que desde já te affirmo é que a tua +M.<sup>me</sup> +Maubry é uma corruptora inconsciente da mocidade, e que a +tua +filha nunca passará de uma boneca! +<br /> + +<br /> + +<h4><em>Durante as ferias</em></h4> + +<br /> + +―Mamã, eu antes quero o laço côr de +rosa... <br /> + +<br /> + +―Pois faz a Lili muito mal. O azul fica-lhe muito melhor. Olha que no <em>baile +infantil</em> +hão de estar muitas companheiras tuas do collegio. Que +alegria para ellas se te virem feia! <br /> + +<br /> + +―Alegria, mamã? Alegria porque? As meninas do meu collegio +são todas minhas amigas, hão de +gostar muito de me ver bonita e bem vestida. <br /> + +<br /> + +―Assim será, minha filha, mas as +<em>mamãs</em> d'ellas é que com +certeza hão de ter inveja de mim se tu +fores a mais linda, a mais bem vestida, a que dançar melhor! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[123]</span> +Chega-te aqui Lili! Deixa-me annellar os teus cabellos. Assim +é +que ficas bonita, ouviste? Levanta os teus olhos para mim, +são +tão bonitos os teus +olhos!.. <br /> + +<br /> + +―A mamã quer que eu levante os olhos? M.<sup>me</sup> +Maubry ralha +commigo por eu os levantar de mais. Diz ella que uma menina deve andar +sempre de olhos baixos, deve córar de vez em quando... nunca +se +deve rir com vontade. <br /> + +<br /> + +―M.<sup>me</sup> Maubry diz-te isso?.. <br /> + +<br /> + +―Diz, mamã, e que assim é que as senhoras +agradam e se tornam amaveis. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +―Então, minha Lili, tu e a mamã divertiram-se +muito no tal <em>baile infantil</em>? <br /> + +<br /> + +―Ah! papá, não imagina! Dancei muito, e todos me +disseram que eu era a menina mais bonita que lá estava. <br /> + +<br /> + +―É verdade! a Lili estava encantadora. Não +imaginas como +a elogiaram! Todas me perguntaram onde ella aprendeu a +dançar. <br /> + +<br /> + +―E a mim tambem, mamã. <br /> + +<br /> + +As outras meninas perguntaram-me onde era o meu collegio. <br /> + +<br /> + +―Vês! dizias tu, meu maridinho ralhador, que M.<sup>me</sup> +Maubry +era uma professora má. Vê o +triumpho +<span class="pagenum">[124]</span> +que teve a +nossa filha no primeiro dia em que appareceu em publico! <br /> + +<br /> + +Lili, corada de alegria, foi dar uma pirueta defronte do espelho. +<br /> + +<br /> + +<h4><em>A primeira communhão</em></h4> + +<br /> + +Acabou agora mesmo de vestir-se. Branca, branca que parece uma pomba. <br /> + +<br /> + +O véu de gaze cahe em prégas soltas e ondeantes +por sobre +aquelle corpo esbelto e franzino, de 14 annos; a corôa de +rozas +emmoldura-lhe deliciosamente a fronte eburnea e levemente sombreada por +uns toques de infantil melancolia. <br /> + +<br /> + +Acha-se linda, e sente que todos que a virem hão de achal-a +assim! <br /> + +<br /> + +Dentro da sua alma resôa como que um cantico de orgulho! <br /> + +<br /> + +Vae ser noiva do Senhor, vae receber pela primeira vez no puro +tabernaculo do seu coração a visita mysteriosa do +Esposo! +<br /> + +<br /> + +O seu director espiritual, um moço sacerdote francez, fino, +louro, delicado, com uma voz branda e persuasiva, com umas +mãos +brancas, de cardeal, com uns gestos lentos e graves de irreprehensivel +bom gosto, acabou hontem de a conduzir até aos umbraes +<span class="pagenum">[125]</span> +d'essa nova vida, em +que ella vae penetrar já consciente do que é e do +que +vale. <br /> + +<br /> + +Que doçura mystica tinham as palavras d'aquelle padre! <br /> + +<br /> + +Eram ternas, unctuosas, de uma graça desconhecida! <br /> + +<br /> + +Até alli para ella a religião fôra um +não sei quê de vago, triste e indefinivel, mais +para assombro e terror do que para delicioso extasi... <br /> + +<br /> + +O Christo macilento e ensanguentado, com a fronte coroada de espinhos, +e o corpo cravejado de prégos, dera-lhe a idéa de +uma +angustia desoladora e desesperada, que ás vezes enchera de +lagrimas a sua pequenina alma de dez annos. <br /> + +<br /> + +Porque seria que, á voz do moço confessor, o +Martyr do Calvario como que se tinha transfigurado aos olhos d'ella? <br /> + +<br /> + +O padre pintara-o bello, radiante de mocidade, prodigo de ineffaveis +esperanças, chamando a si as almas virginaes, e +promettendo-lhe +a eternidade no amor, a radiosa alegria das nupcias celestiaes. <br /> + +<br /> + +Era uma nova musica, a que elle fizera vibrar aos ouvidos da gentil +neophyta, que sentia, sem saber como, inundal-a uma alegria anciosa, um +pungitivo arrebatamento, inteiramente desconhecido ao seu passado! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[126]</span> +E olhava para o espelho, e sentia-se bella, moça, radiosa de +vida e de esperanças, com um profano desejo de alegrias +novas, +de triumphos ignorados a alvoroçar-lhe o seio juvenil. <br /> + +<br /> + +E agitando em torno de si as prégas fluctuantes do +véo de +noiva do Christo, baixou os olhos languidos sobre o livro das +orações e leu em voz baixa e +palpitante as palavras sagradas, na lingua melodiosa em que se +habituara, por um requinte de aristocracia, a fallar com Deus: <br /> + +<br /> + +«<em>Oh! venez le bien-aimé de mon +coeur! venez, Agneau de Dieu, chair adorable, venez servir de +nourriture á mon âme! Que je te voie, ô +le Dieu de mon coeur, ma joie, mes délices, mon amour, mon +tout!</em> <br /> + +<br /> + +«<em>Qui me donnera des ailes pour voler vers +toi! Mon âme éloigneé de toi, +impatiente +d'être remplie de toi, languit, te souhaite avec ardeur et +soupire après toi, ô mon Dieu, ô mon +unique bien, ma +consolation! +Embrase moi, mon Dieu, brule, consume mon coeur de ton amour... Mon +bien-aimé est à +moi</em>» <br /> + +<br /> + +O que, traduzido na nossa lingua, decididamente reputada impropria para +fallar com a Divindade, significa pouco mais ou menos a seguinte +edificante +declaração de amor: <br /> + +<br /> + +«Vem, amado da minh'alma! cordeiro de Deus! +<span class="pagenum">[127]</span> +carne que eu adoro! vem servir-me +de alimento ao coração! Quero ver-te, oh Deus +amado, +minha +alegria, minha delicia, meu amor, meu tudo! <br /> + +<br /> + +«Quem me dera azas com que voasse para ti! <br /> + +<br /> + +«Minh'alma afastada da tua presença almeja por se +impregnar de ti, enlanguece, deseja-te com ardor, e suspira por ti, oh +meu Deus, oh meu unico bem, minha consolação! <br /> + +<br /> + +«Abraza-me oh Deus! queima, consome o meu +coração com as chammas do teu amor!.. <br /> + +<br /> + +«És meu, oh bem amado, pertences-me!»<br /> + +<br /> + +<h4><em>Na volta do baile</em> </h4> + +<br /> + +Lili vem extraordinariamente pallida e pensativa! As brancuras +opalisadas do alvorecer penetram atravez dos vidros da carruagem, e +como que cingem de uma graça ideal os contornos delicados do +seu +rosto, que o capuz de baile emmoldura em alvas rendas. <br /> + +<br /> + +Dançou até ás seis da +manhã; vem cansada, abatida, toda ennovellada nos +fôfos coxins do seu +<em>coupé</em>, mas vem pensando muito. <br /> + +<br /> + +É que o viu no baile, e lhe disseram que +<em>elle</em> seria o seu marido. <br /> + +<br /> + +O pae antes d'ella partir de casa―vestida de tulle e rendas, coroada +de myosotis, e com um collar +<span class="pagenum">[128]</span> +de perolas lacteas e iriadas, a +affagar voluptuosamente a transparencia rosea do seu collo―o pae, +antes d'ella partir, dissera-lhe gravemente, mas com uma gravidade em +que havia muito affecto: <br /> + +<br /> + +―<em>Elle</em> é moço, +é nobre, é herdeiro de uma casa riquissima. <br /> + +<br /> + +A familia deseja este enlace. Não te quero +forçar, Lili; mas, se gostares d'elle, approvarei com +enthusiasmo essa affeição! <br /> + +<br /> + +―É moço e nobre, pensára Lili +comsigo. Hei de amal-o por força. Terá maneiras +distinctas, um +porte correcto, um sorriso levemente desdenhoso. E dirá <em>amo-te</em>, +com uma graça +fina e superior! <br /> + +<br /> + +Depois, á proporção que o baile se ia +approximando, com o esplendor prestigioso dos seus lustres, com o +capitoso aroma das suas montanhas de flores, com as prismaticas +scintillações dos seus diamantes, +com o ruge-ruge que fazem ouvir as serpentes e as sedas, Lili pensava +que era positivamente uma cousa agradabilissima ser rica! <br /> + +<br /> + +―Irei muitas vezes ao baile, ouvirei em torno de mim o murmurio +discreto de admiração que +enlouquece as mulheres, terei vestidos de velludo negro, com diademas +de brilhantes a morderem o ouro fulvo dos meus cabellos! +Invejar-me-hão, e quando eu sahir acclamada e triumphante +das +salas em que fôr rainha, +<span class="pagenum">[129]</span> +deixarei no meu caminho um rasto de admirações +apaixonadas! <br /> + +<br /> + +Vira-o no baile, fallara com elle, tinham dançado juntos. <br /> + +<br /> + +Percebera que o noivo que lhe destinavam era um pobre rapaz, ignorante +e enfatuado, muito feliz de ser nobre, de ser rico, e de haver mulheres +que em torno d'elle cubiçassem o seu titulo futuro e a sua +riqueza presente. <br /> + +<br /> + +Apesar d'isso, Lili estava contente. <br /> + +<br /> + +Era ella que <em>elle</em> preferira, e visto +que <em>elle</em> era +rico, teria carruagens, daria bailes e festas, teria um modo original, +severo e elegante de vestir-se, as suas amigas imitariam a mobilia das +suas salas, e o feitio dos seus chapéus, seria uma das raras +mulheres que sabem gozar, em toda a sua plenitude, a vida social no que +ella tem de fastoso e brilhante. <br /> + +<br /> + +Que importa que <em>elle</em> não +saiba dizer <em>amo-te</em> com a voz que Lili tinha +sonhado! <br /> + +<br /> + +A troco do seu ouro, ouviria dos labios d'ella sem +hesitação e sem lagrimas as palavras mysteriosas +que a mulher pura só deve dizer ao eleito do seu +coração, as palavras magicas: <br /> + +<br /> + +<em>Sou para sempre tua!</em> <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[130]</span> +<h4><em>Dez annos depois</em> </h4> + +<br /> + +Já lhe não chamam Lili. É condessa. <br /> + +<br /> + +Tem um palacio magestoso e severo, povoado com obras primas de todas as +artes e de todas as +civilisações. <br /> + +<br /> + +As festas que ella dá são citadas pela sua pompa +severa e +artistica, pela sua graça principesca, pelos requintes de +bom +gosto que as singularisam entre todas. <br /> + +<br /> + +Tem um povo de criados correctamente respeitosos, que obedecem a cada +um dos seus accenos. <br /> + +<br /> + +As suas carruagens quando passam ao trote largo dos finos cavallos +inglezes excitam a admiração +dos entendidos e a inveja dos profanos. <br /> + +<br /> + +A condessa nunca está só. <br /> + +<br /> + +Hoje uma recepção a que não +póde faltar, ámanhã um baile, no outro +dia um +jantar diplomatico, e as mil praticas da sua +devoção +aristocratica, e +as pequenas <em>soirées</em> intimas que +dá, e as festas a que preside em sua casa, e que o seu gosto +escrupuloso e cultivado dirige desde os minimos accessorios. <br /> + +<br /> + +Tudo isto lhe prende o tempo, a absorve e a distrae. <br /> + +<br /> + +Tem duas filhas... que uma governante ingleza educa e acompanha. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[131]</span> +Tem um filho... que está no collegio. <br /> + +<br /> + +Tem marido... que anda sempre por fóra! <br /> + +<br /> + +Será feliz? Quem ha que o possa dizer? Na sua pallida fronte +marmorea não se reflecte senão uma +sombra. <br /> + +<br /> + +É a mulher do mundo na sua accepção +mais genuina. <br /> + +<br /> + +Viveu e vive da monstruosa vaidade que desde a infancia lhe deram por +exclusivo alimento. <br /> + +<br /> + +Sabe que é bella, invejada, cubiçada, admirada, +odiada até! <br /> + +<br /> + +Isto basta-lhe, isso a sacia e satisfaz! <br /> + +<br /> + +<h4><em>Na velhice</em> </h4> + +<br /> + +Está sentada ao fogão na vasta sala opulenta +povoada como outr'ora por tudo que ha mais bello e mais luxuoso. <br /> + +<br /> + +Um grande candieiro espalha, atravez do seu globo fosco, uma luz +discreta e tranquilla sobre a mesa oval cheia de bagatellas preciosas. <br /> + +<br /> + +A condessa está só, e os seus olhos +baços e amortecidos seguem as chammazinhas iriadas do +fogão com uma insistencia pensativa. <br /> + +<br /> + +Com a formosura perdeu a força dominadora que a tornava +poderosa +e querida. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[132]</span> +Os amigos da hora dos triumphos povoam agora as salas illuminadas e +festivas onde suas filhas já casadas segundo as +conveniencias da +alta posição que occupavam, continuam a vida de +que sua +mãe lhes +déra o exemplo tentador. <br /> + +<br /> + +O seu confessor começa a sentir-se cansado do escrupulo +esmiuçador com que a condessa aproveita os longos ocios da +solidão para esgravatar piedosamente nos mais escuros +escaninhos +da consciencia. <br /> + +<br /> + +―Minha senhora, diz-lhe o bom do abbade, que já +não era +o moço almiscarado dos dias +da mocidade, e que ganhára em abdomen o que perdera em +mystica +elegancia; minha senhora, não nos percamos em funestos +exageros. +Deus não quer a morte do peccador, snr.<sup>a</sup> +condessa. <br /> + +<br /> + +Nem essa distracção ultima lhe ficára. +<br /> + +<br /> + +As praticas adocicadas do confessionario, aquelles extasis a um tempo +deliciosos e pungitivos, as confidencias segredadas a meia voz, a +analyse fina e delicada dos peccados mais subtis, tudo isso lhe falta +para suprema distracção. <br /> + +<br /> + +No fim de contas a sua vida não fôra mais do que +um sonho +frustrado, a carreira impetuosa e desvairada atrás de uma +sombra +que fugia sempre! <br /> + +<br /> + +Não tivera as livres e salutares expansões da +alegria infantil, não tivera os sonhos cariciosos e ideaes +<span class="pagenum">[133]</span> +da adolescencia, +não fôra filha, nem amante, nem +esposa, nem mãe! <br /> + +<br /> + +Agora já não saberia ao menos ser avó! +<br /> + +<br /> + +E pelos recantos sombrios do aposento enorme, a condessa julgou ver +deslisar uma pequenina figura de cabeça annellada e loura, +uma +figurinha que dava pelo nome de Lili! <br /> + +<br /> + +Era o phantasma saudoso de sua infancia que passara! <br /> + +<br /> + +―Minhas filhas―murmurou baixinho a altiva senhora,―perdoae-me pelo +amor de Deus, assim como n'este momento eu perdôo +á minha +mãe! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>CAPITULO VIII </h3> + +<h3>Casamentos pobres e casamentos ricos</h3> + +<br /> + +<div class="breaks"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Uma das accusações mais frequentes que hoje se +dirigem aos homens é que elles são egoistas, +interesseiros, que introduzem o calculo e as finanças no que +devia ser um impulso espontaneo do coração, que +confundem um pouco nos seus sonhos do futuro o mercantilismo e o amor. <br /> + +<br /> + +Eu, que não gosto de julgar sem ter conhecido ao menos as +causas +que produzem um certo e determinado effeito, lembrei-me de observar de +perto, nos costumes e praticas de todos os dias, se eram realmente bem +cabidas as censuras frisantes que por ahi ouço continuamente +á porção mais +<em>feia</em> da humanidade. <br /> + +<br /> + +<em>Uma cabana e o teu +coração!</em> eis o que antigamente +soluçavam aos pés das suas deusas de +<em>biscuit</em> os trovadores de algodão em +rama. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[136]</span> +Um <em>rez de chaussée muito commodo e quatro +contos de réis de rendimento!</em> eis o minimo a que +hoje aspiram nas suas suspirosas alegrias os pretendentes mais +positivistas da nossa quadra utilitaria e mercantil. <br /> + +<br /> + +Mudou a tal ponto o coração humano, que +já os sinceros e impetuosos sentimentos não +possam acclimatar-se n'elle? <br /> + +<br /> + +Isto caminha n'uma tal e tão rapida decadencia, que tudo que +era +bom, honesto, sincero no amor, tenha fugido assustado para outras +regiões ainda inexploradas? <br /> + +<br /> + +Sinceramente não o acreditamos. <br /> + +<br /> + +Em primeiro logar, em todas as épocas e em todos os paizes, +o +desinteresse absoluto, o completo desprendimento dos bens da terra, foi +cousa muito rara, e muito para notar-se com espanto. <br /> + +<br /> + +Que o digam os claustros sem conto, povoados de pallidas monjas +juvenis, que o mundo expulsava do seu seio, por não +têr +que lhes dar nenhuma das +alegrias naturaes que são o apanagio mais caro da mulher! <br /> + +<br /> + +Se alguma differença temos que apontar são as +conquistas +alcançadas pela familia, nos terrenos que até +aqui +usurpara o egoismo e a +ambição do homem. <br /> + +<br /> + +Mas, admittindo mesmo que se accentue na nossa época, com +uma certa força o interesse pessoal, que +<span class="pagenum">[137]</span> +é um dos +elementos mais esterilisadores que póde +existir na sociedade, não demos só ao homem a +culpa de essa tendencia nefasta. <br /> + +<br /> + +É incontestavel que á +proporção que as +civilisações se desenvolvem, crescem as +necessidades, +cresce o amor do luxo, sem que para todos cresçam +proporcionalmente os meios de satisfazer essas +aspirações +fataes. <br /> + +<br /> + +Não é portanto espantoso, que o homem, ainda o +mais +dedicado e crente, antes de tomar aos hombros o pesadissimo encargo da +familia, meça as suas +forças, calcule com precisão mathematica os meios +de que +dispõe para cumprir as obrigações que +acceita, e muitas vezes diante da grande +desproporção que +encontra entre aquelles e estas, suffoque a voz do sentimento e siga os +austeros e aridos conselhos da razão! <br /> + +<br /> + +É que a familia, tal como está constituida na sua +generalidade, estabelece um grandissimo desequilibrio entre os deveres +do homem e os deveres da mulher. <br /> + +<br /> + +Se a esta, em face da consciencia e da razão, cabe a tarefa +mais +espinhosa, a missão mais elevada e mais complexa, nem por +isso, +logo que ella fecha os ouvidos a esta voz superior que tão +poucas escutam e que +tão poucas entendem, se acha realmente forçada a +outra +<span class="pagenum">[138]</span> +cousa que não +seja consumir sem produzir, receber sem dar, acceitar +protecção, amparo, ajuda, sem +pagar estes beneficios com beneficios equivalentes. <br /> + +<br /> + +Queixam-se do homem porque elle conta com o dote da noiva, e este entra +com bastante peso na balança dos seus affectos. <br /> + +<br /> + +Que dizem então da mulher que casa para ser livre, para ser +independente, para ter diamantes e rendas preciosas, para frequentar os +bailes, os theatros, os passeios, para ser uma taboleta ambulante do +luxo real ou do luxo hypothetico do +<em>ménage</em>? <br /> + +<br /> + +Imagine-se, por instantes um rapaz moço, intelligente, cheio +de +aspirações sãs, de boa +vontade e de energia, dotado de ricas faculdades intellectuaes, capaz +de conquistar á força de perseverança, +de trabalho e de privações, um lugar distincto na +sciencia ou +na industria, na politica ou no magisterio. <br /> + +<br /> + +Não tem dinheiro, ou tem apenas uma pequena fortuna que o +pae lhe legou, juntamente com um nome honrado. <br /> + +<br /> + +Sente a natural aspiração de completar a sua +existencia, +unindo-se á mulher que mais ou menos lhe povoou os sonhos de +adolescente. <br /> + +<br /> + +Não tem tempo para escolher; absorve-o o trabalho a que +forçosamente tem de consagrar quasi todas as suas horas. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[139]</span> +Não tem um conhecimento profundo da natureza feminina. <br /> + +<br /> + +Os nossos costumes com as suas reservas hypocritas, com as suas +precauções restrictas, que +dão idéa pouco lisongeira do pudor e da castidade +das +mulheres portuguezas, oppoem-se a que o homem tenha d'ellas um +conhecimento que não seja frivolo, ridiculo, superficial―o +conhecimento que se adquire em uma sala entre duas quadrilhas +sensaboronas, ou n'um camarote durantre um entre-acto cheio de tedio. <br /> + +<br /> + +Não póde pôr-se pelo mundo á +busca de uma excepção: o molde das nossas meninas +da sociedade varia muito pouco. <br /> + +<br /> + +Todas sabem bordar a matiz, tocar a +<em>Somnambula</em> e o <em>Trovador</em> ao +piano, fazer +<em>housses</em> de crochet, papaguear em duas ou tres +linguas puerilidades comicas, dançar os <em>Lanceiros</em> +e +criticar as <em>amigas intimas</em>. <br /> + +<br /> + +N'estas circumstancias o que póde fazer o pobre +moço? <br /> + +<br /> + +Ou resistir ás solicitações impetuosas +da mocidade, á necessidade instinctiva que sente do +conchêgo de +familia, d'aquelle <em>sweet home</em> que tanto +imperio tem no coração de todo o homem de +pensamento e de +trabalho; ou tem de contentar-se com a escolha feita á +pressa de uma d'essas rachiticas flôres de salão. <br /> + +<br /> + +É desinteressado no sentido mais amplo da palavra, +<span class="pagenum">[140]</span> +tem aquellas santas +utopias que são a suprema riqueza dos vinte annos; na sua +escolha impera tudo menos o calculo e a arithmetica. <br /> + +<br /> + +Prefere, pois, uma noiva pobre. <br /> + +<br /> + +Applaudem-lhe a generosa imprevidencia; gabam-lhe os sentimentos +honestos e cavalleirosos; envolve-o um certo prestigio durante uns +poucos de mezes. <br /> + +<br /> + +Os mezes da <em>lua de mel</em>. <br /> + +<br /> + +―Portou-se admiravelmente!―exclamam as +<em>mamãs</em>, contemplando com ar piedoso as +filhas sem dote, e envolvendo na sua furia rancorosa os +<em>dandys</em> que andam á pesca de noivas +ricas, pelas aguas turvas da nossa sociedade. <br /> + +<br /> + +Resultado pratico de tudo isto: seis mezes depois de casado, o nosso +pobre heroe vê-se a braços com +todos os encargos de um <em>ménage</em>a +que falta o conchêgo e a alegria. Como não teve +tempo de +fazer-se amado, como o amor é no fim de contas um genero +carissimo que o coração das meninas de hoje +prodigalisa +muito pouco, encontra em casa ao voltar das luctas quotidianas, a que +se arrojou com novos alentos e nova fé, um acolhimento frio, +um +rosto desconsolado, uma mulher que finge +resignação e que +só tem +despeito, porque o casamento lhe não deu nenhumas das +frivolas +vantagens que lhe promettera. <br /> + +<br /> + +Tinha sonhado com <em>toilettes</em> +elegantes, uma <em>robe</em> +<span class="pagenum">[141]</span> +<em>de chambre</em> bordada, uma touca de +manhã como as que desenha a phantasia pittoresca dos +caixeiros da <em>Mode Illustrée</em>, queria +uma casa de jantar elegante com mobilia <em>en vieux +chêne</em>, +aparadores carregados de finas porcellanas, um criado de casaca preta e +modos de embaixador, passando discretamente, sem fazer barulho, por +cima do <em>parquet</em> suisso, +cuidadosamente encerrado. <br /> + +<br /> + +Gostava de ter um <em>boudoir</em> todo de +seda côr de perola onde ella podesse ler, +preguiçosamente deitada no no seu pequeno <em>fauteuil</em> +muito +flascido, diante de um <em>guéridon</em> cheio +de +violetas e de <em>gardenias</em>, os ultimos romances, as +revistas estrangeiras, as criticas musicaes dos mestres mais famosos. <br /> + +<br /> + +Sempre tivera a esperança de fugir pelo casamento +á pressão sordida da miseria paterna. <br /> + +<br /> + +Detestava a vida que tinha levado em solteira, fazendo ella propria os +vestidos para ir ao baile, cerzindo redes nas botinas de setim branco, +com os dedos picados, um roupão de chita amarrotado, e o +coração cheio de rancor e inveja ás +que tinham o +luxo e o conforto que ella não tinha. <br /> + +<br /> + +Aquelle homem apparecera-lhe. <br /> + +<br /> + +Era pobre, é verdade, mas disseram-lhe que +<em>tinha talento</em>, que tinha <em>ou que ia ter +uma +posição</em>; +acceitara-o por cansaço, por desalento, porque se +impacientava já de esperar mais tempo. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[142]</span> +Levara comsigo os mesmos sonhos que a tinham perseguido, imaginava +casas imprevistas, edificava hypotheses extravagantes; á +força de ambicionar a riqueza, acabava por se convencer que +havia de ser rica. <br /> + +<br /> + +E agora! <br /> + +<br /> + +Tudo que a cercava era tão mediocre! <br /> + +<br /> + +Se tivesse pachorra, se tivesse boa vontade, podia enfeitar com plantas +o seu pequenino quarto de trabalho, pôr ao menos umas +cortinas de +cassa branca na janella. <br /> + +<br /> + +Não tendo a riqueza, podia ter o aceio; não tendo +o luxo, podia ter a graça. <br /> + +<br /> + +Os livros bem dispostos sobre a mesa, cujo tapete ella propria houvesse +feito ao serão, uma jarra de +louça com um ramo de madresilva ou de rosas de maio, as +cadeiras +agrupadas com um certo ar de intimidade e de alegria, um aspecto de +pobreza satisfeita que faz tão bem á alma! <br /> + +<br /> + +Vestiria um simples roupão de fazenda clara, sem enfeites, +mas +de um feitio elegante e gracioso, os cabellos bem penteados, uma +flôr presa nas tranças. <br /> + +<br /> + +Iria ella mesma á cosinha arranjar uns pratinhos de que elle +gostasse, o pobre trabalhador que á noute voltaria cansado, +mas +cheio de fé robusta e de profundas crenças, +porque o amor +o amparava e lhe sorria! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[143]</span> +Dentro de uma gaiola, na janella da casa de jantar, haveria um canario +muito alegre, não tanto ainda assim como ella, a pequenina +<em>ménagere</em> muito atarefada, +muito contente, espalhando na sua casa modesta e pobre um perfume de +virtude, de castidade, de ternura animadora e sã! <br /> + +<br /> + +Mas quem é que a tinha educado para cumprir este programma +tão simples e tão difficil? <br /> + +<br /> + +Quem lhe tinha communicado com o leite a noção +d'estes graves e honestos deveres? <br /> + +<br /> + +A mãe que a passeara de baile em baile, á cata de +um marido? <br /> + +<br /> + +Os livros que ella lêra e que fallavam de duetos apaixonados +entre um bardo <em>pelintra</em> +e uma menina romantica com olheiras e muito pó de arroz? <br /> + +<br /> + +O marido ao principio quer luctar; procura educal-a elle, já +que +a familia a não educou; vem de fóra muitas vezes +preoccupado com os seus estudos, com um problema scientifico que deseja +resolver, com uma especulação industrial que +talvez lhe +dê a paz e a aurea mediocridade a que tanto aspira, por amor +da +sua querida mulhersinha... não importa! <br /> + +<br /> + +Sacode como um peso importuno todos os pensamentos que o absorviam, +senta-se ao pé d'ella, porque a vê triste, +enfastiada, com +um certo desleixo no aspecto que lhe aperta o +coração, procura não reparar, +<span class="pagenum">[144]</span> +para a casa +sem arranjo a que falta aquella poesia do lar que tanto o captivou nas +suas scismas de rapaz; conversa, afaga-a, desenrola diante do olhar +d'ella vago e distrahido um horisonte de futuras alegrias. <br /> + +<br /> + +Um dia, porém, descobre com magoa que ninguem +jámais +poderá sondar nem comprehender, que tudo que elle esperou um +dia +assenta n'uma base chimerica; que essa mulher, a quem associou a sua +vida, em vez de ser-lhe amparo, guia, consolação, +conselho, em vez de luctar ao lado d'elle para conquistarem ambos a +ventura dos filhos, o dôce e tranquillo socego da velhice, +vive +toda absorta n'um sonho de imaginarias riquezas; que empallidece de +raiva de vêr as outras ricas emquanto ella é +pobre; que +amaldiçôa todos os dias o alimento que elle lhe +ganha +laboriosamente, porque lhe não é servido em +pratos do Japão; que olha com desdem para os modestos +presentes +que elle á custa de longas economias consegue comprar-lhe; +que +detesta emfim tudo que elle ama; que tem o tedio invencivel de tudo que +elle julgou, por muito tempo, o resumo de todas as suas alegrias! <br /> + +<br /> + +N'essa hora dolorosa e que tem de soar fatalmente na vida de quasi +todos estes obscuros luctadores, alguns, os mais fracos, +amaldiçoam tambem a sua austera +<span class="pagenum">[145]</span> +e honrada pobreza, e +tractam de fugir-lhe atirando-se a todos os turvos mares da +especulação e do mercantilismo! <br /> + +<br /> + +Outros―os fortes―afastam-se com desdem de aquella que, sem talvez +saber o que fazia, tentava arrastal-os por um declive funesto, e +isolam-se n'um mundo onde não querem a companhia de ninguem. +<br /> + +<br /> + +Ha tambem os que, despertando do sonho em que andaram embebidos, +descrêem de tudo em que um dia acreditaram e cedem +á +convicção fatal +de que no mundo não ha cousa alguma que seja digna, +desinteressada e sem liga de calculos vis. <br /> + +<br /> + +A verdade é que mais ou menos todos se arrependem e todos o +deixam ver! <br /> + +<br /> + +Este exemplo é que vae a pouco e pouco destruindo no +coração dos moços a idéa +de que a familia, em vez de roubar o alento e a força ao +homem, os robustece e lhes dá mais solidos alicerces. <br /> + +<br /> + +No dia em que as mulheres tiverem coragem para supportarem com alegria +e com intrepidez a pobreza que tanto as assusta, verão como +a +base do casamento deixa de ser o calculo que hoje o macula. <br /> + +<br /> + +Se o homem, que é por natureza egoista, comprehender que +unindo +a sua vida á vida d'uma mulher dedicada, adquire novas +forças para a lucta em que anda empenhado, é +incontestavel que deixará de considerar +<span class="pagenum">[146]</span> +como +unico elemento de prosperidade futura o dote da noiva que houver +escolhido. <br /> + +<br /> + +Não basta ter coragem e ter intrepidez para supportar as +privações da pobreza; é preciso +antes de tudo compenetrar-se bem da idéa de que a pobreza +tem +grandes alegrias defezas aos ricos; que a modestia dos meios +não +obsta a que possamos enflorar a vida dos que amamos, com aquelle +dôce e poetico conchego, que é para a alma um +ninho mais +tepido e mais macio, do que as pompas magestosas que envolvem +theatralmente a vida dos millionarios. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<a name="c9"></a> +<h3>CAPITULO IX </h3> + +<h3>A uma noiva </h3> + +<br /> + +<div class="breaks"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature">Minha querida Maria: </div> + +<br /> + +<br /> + +A tua carta conta-me as tuas primeiras e adoraveis alegrias de noiva. <br /> + +<br /> + +Estás radiante! <br /> + +<br /> + +Subiste ao <em>setimo céo</em> da +ventura humana e crês que não é +possivel cahir de lá. <br /> + +<br /> + +Fallas-me do teu véo branco, da tua corôa, das +palavras enternecidas que <em>elle</em> te +disse, das opulencias do teu enxoval, do teu quarto de cama +á Pompadour, do amor que tens ao teu +<a href="#e3"><em>maridinho</em></a>, do +futuro que sonhas radioso, eu sei; +fallas-me de tudo, filha, e eu li esse poema gentil da tua mocidade com +um verdadeiro enternecimento bem sincero. <br /> + +<br /> + +Fallas-me de tudo, digo eu; engano-me. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[148]</span> +Não me fallaste de uma cousa importantissima, filha. <br /> + +<br /> + +Não me fallaste da panella. <br /> + +<br /> + +Sou eu, pois, que vou fallar-te, com a mais profana das irreverencias, +d'este assumpto que é um dos mais graves n'um <em>ménage</em> +que principia. <br /> + +<br /> + +Credo! exclamas tu com aquella <em>moue</em> +engraçadissima, que eu te conheço do collegio, e +que sempre teve a habilidade de me fazer rir immenso. <br /> + +<br /> + +―«Pois eu sei lá sequer se ha em minha casa uma +panella! +Pois eu hei de misturar as confidencias extaticas da minha mysteriosa e +ideal felicidade com a relação das minhas +cassarolas! Que +tem este +amor que me enleva e me arrebata, com a comida que se manipula na +cosinha! Deixa que eu te descreva as rendas e os setins com que me +enfeito para lhe agradar a <em>elle</em>; mas, por Deus, +pelo amor da +arte, da poesia, da delicadeza feminil, não queiras que eu +ajunte a essas descripções uma nova receita de +refugado.» <br /> + +<br /> + +Ouve-me, filha; ninguem attende por ahi estas verdades, que +são elementares, tudo quanto ha de mais elementar. <br /> + +<br /> + +Sabes onde se fabríca e se consolída a felicidade +de um <em>ménage</em>? +<br /> + +<br /> + +Na cosinha. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[149]</span> +Sabes de onde sahe muitas vezes a ruina de uma casa? <br /> + +<br /> + +Da cosinha. <br /> + +<br /> + +Sabes qual é a origem de tantas doenças que por +ahi nos desconsolam com os seus aspectos repulsivos? <br /> + +<br /> + +A cosinha. <br /> + +<br /> + +E tu entrando na vida conjugal, acceitando o +<em>encargo</em> d'almas, porque a dona da casa acceita-o, +recebendo +nas tuas pequenas mãos delicadas a responsabilidade complexa +de +mãe de familia, tu pobre querida ignorante, ousas dizer +desdenhosamente que nem sabes sequer se em tua casa ha cosinha. <br /> + +<br /> + +Pois sabe. <br /> + +<br /> + +Estás habituada a evocar com a aerea ligeireza dos teus +longos +dedos brancos as notas immortaes em que Beethoven, Rossini, Mayerbeer +nos legaram as mysteriosas riquezas da sua alma? <br /> + +<br /> + +Gostas dos delicados lavores inventados, pela paciencia feminal, dos +bordados custosos, das matizadas sedas, de todo esse conjunto de +graciosas futilidades em que nós dispendemos horas e horas +da +nossa vida? <br /> + +<br /> + +Pois, minha querida, logo que a mulher penetra no limiar da sua casa de +esposa tem de antepôr tudo que é util a tudo que +é +agradavel, tem de adoptar +<span class="pagenum">[150]</span> +como suprema divisa da +sua vida a palavra―sacrificio! <br /> + +<br /> + +E não creias que isto seja uma dolorosa e inutil +mutilação do teu ser. <br /> + +<br /> + +Quanto mais te sacrificares, crê que maior e que melhor te +has de sentir. <br /> + +<br /> + +Será como um progressivo ascender a uma esphera superior. <br /> + +<br /> + +Cá em baixo ficam as pequenas vaidades, as frioleiras +inuteis, +as puerilidades infantis, os despeitos raivosos, toda a +expressão mesquinha e imperfeita do teu organismo; +lá em +cima está a larga +tranquillidade que ha de envolver-te como um delicioso banho tepido, a +consciencia plena de haveres attingido o fim para que foste creada, a +certeza divina da felicidade que communicas em torno de ti, a +satisfação do +dever preenchido, tudo emfim que nos eleva, que nos depura, que nos faz +comprehender o motivo para que viemos a este mundo―aqui para +nós―eminentemente estupido! <br /> + +<br /> + +Não te deslumbrem, pois, as primeiras alegrias da tua <em>lua +de mel</em>. <br /> + +<br /> + +Entre parenthesis, é esta uma phrase que eu abomino, pela +simples razão de a achar falsa, e causadora de falsas e +funestas interpretações da vida conjugal. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[151]</span> +A <em>lua de mel</em> é uma +mentira; não existe, ou, se existe, não deve de +modo nenhum existir, o que vem a dar na mesma. <br /> + +<br /> + +Esse periodo officialmente consagrado, que se funda em toda a especie +de +impostura, deve ser abolido sem appellação por +todos os +pares honestos que se estimem e prezem. <br /> + +<br /> + +Imagine-se por um instante que os novos conjuges assumiram a +liberdade de formularem em palavras tudo que tivessem no pensamento, o +que diziam um para o outro: <br /> + +<br /> + +«Já conheço todos os teus defeitos, +já sei que hei de vir a dar-me muito mal comtigo: achei-te +ainda +agora profundamente ridiculo n'aquella phrase que me disseste; mas como +estamos na <em>lua de +mel</em>, +deixa-me que te beije com transporte, que te recite ao piano o idyllio +apaixonado da minha ventura, que olhe para ti com a sentimentalidade +piégas com que os caixeiros romanticos olham para as +namoradas, +que minta emfim conscienciosamente, como compete a quem se acha de +posse de uma posição official e a quem +não póde renunciar sem desdouro!» <br /> + +<br /> + +Não seria profundamente ridiculo este dialogo? <br /> + +<br /> + +Pois sabe, minha querida, que em cada cem casaes, oitenta podiam em boa +consciencia traval-o entre si. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[152]</span> +Muitas vezes a <em>lua de mel</em> +não passa de uma dolorosa iniciação. <br /> + +<br /> + +Mais tarde as circumstancias modificam-se, o que nos parecia prenuncio +de desgraças transforma-se em tranquilla felicidade; os +caracteres, que no fundo se repelliam, embora na apparencia se +afagassem, adaptam-se e identificam-se em resultado da ultima +convivencia; a paz domestica conquista-se, com esforços +meritorios de parte a parte; o que ha pouco era mentira, torna-se uma +verdade luminosa e pura. <br /> + +<br /> + +E o que prova tudo isto, minha amiga? <br /> + +<br /> + +É que o tempo mais difficil da nossa vida de casadas +é +aquelle que os tolos e os impostores chamam, seguindo a estupida rotina +de seculos, o mais delicioso! <br /> + +<br /> + +Sou adoravelmente feliz, porque ainda não conheço +bem meu marido, nem meu marido me conhece a mim... <br /> + +<br /> + +Palavra, que acho isto uma esplendida +interpretação da vida domestica!.. <br /> + +<br /> + +Commentem bem esta phrase implicitamente incluida em todos os louvores +que se tecem á celebre <em>lua de mel</em>, +e ahi téem os +divorcios, os adulterios, os intimos dramas conjugaes, as luctas +atr, +e ahi téem os +divorcios, os adulterios, os intimos dramas conjugaes, as luctas +atrozes em que dous entes se dilaceram até que n'elles morra +a +alma e o corpo! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[153]</span> +Mas, minha Maria, que longe me arrastou esta digressão +apaixonada. <br /> + +<br /> + +Perdoa-me. <br /> + +<br /> + +Se bem me lembro, estavamos ambas muito mais <em>terra a terra</em>. +<br /> + +<br /> + +Eu tinha conseguido fazer-te largar o teu piano de Erard, as tuas +aquarellas e os teus bordados, e tinha-te arrastado até +á +cosinha de tua casa, cuja +existencia tu teimavas em ignorar. <br /> + +<br /> + +Talvez tu penses, minha pobre amiga, que esse <em>senhor</em>, +discreto, ameno, gracioso, +condescente, que acha graça a tudo que tu dizes, que +concorda +com todas as tuas opiniões, que ás vezes se +ajoelha +submissamente aos teus pés, e te diz +baixinho―adoro-te!―com +uma expressão de <em>tenor</em> em +disponibilidade, que se delicia com as tuas +<em>toilettes</em>, que dá muita +attenção á variedade artistica do teu +penteado, que é, emfim, <em>todo teu</em> no +sentido falso +d'esta palavra, pensa tudo quanto diz, e se conservará por +muito tempo n'esse adoravel e massador diapasão?.. <br /> + +<br /> + +Enganas-te. <br /> + +<br /> + +Elle enfastia-se soberanamente do seu papel, estuda-te com ar +sorrateiro, e pede a Deus que acabe o periodo em que tem de renunciar +á sua individualidade, para se conformar com os usos e +costumes +da sociedade elegante, de que faz ou quer fazer parte. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[154]</span> +Acabado que seja esse periodo que tem limites determinados, dize-me tu +qual o meio de que tencionas usar para o prenderes junto de ti, para +que elle comece então a ser sincera e dignamente <em>o +teu +marido</em>, isto é, o teu melhor e mais fiel amigo, +para que a vossa vida commum assente em bases solidas e perduraveis. <br /> + +<br /> + +Julgas que basta para isso vestires o teu mais bonito vestido, +penteares o teu bello cabello louro do modo mais excentrico e original, +dizeres com a tua voz sonora e grave os paradoxos mais scintillantes, +mostrares-lhe as riquezas com que uma esmerada +educação +povoou o teu espirito? <br /> + +<br /> + +Innocente creatura! não conheces o que é o +<em>homem</em>, o animal mais prosaico e positivo da +creação! <br /> + +<br /> + +O que elle quer depois das suas luctas com os outros homens, das +farças que é obrigado a representar para o +publico, dos +combates em que é alternativamente vencido e vencedor, o que +elle quer é descanso, conchego, esquecimento de todos os +artificios que vão lá por fóra, e +sobretudo +(não te horrorises, minha sonhadora!) e sobretudo +commodidades +physicas. <br /> + +<br /> + +Dá-lhe a melhor das poltronas, o mais confortavel dos +gabinetes, +o mais suave e caricioso dos sorrisos, e, principalmente, +dá-lhe +<em>um bom +jantar</em>. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[155]</span> +Cheguei emfim, ao ponto a que tendia desde o principio d'esta carta. <br /> + +<br /> + +Confesso que me custou! Isto de mulheres!.. <br /> + +<br /> + +Tu provavelmente imaginas que um bom jantar é cousa que +pertence exclusivamente aos dominios do bom cosinheiro. <br /> + +<br /> + +Como te enganas! <br /> + +<br /> + +Em primeiro logar, não ha nada peior que um +<em>bom</em> cosinheiro. <br /> + +<br /> + +Um <em>bom</em> cosinheiro é a +ruina de uma casa, é um envenenador de barrete branco, +é um assassino de abdomen tranquillisador e hypocrita. <br /> + +<br /> + +Um <em>bom</em> cosinheiro começa +por nos dar cabo da bolsa, o que é terrivel; acaba por nos +dar +cabo do estomago, o que é simplesmente irremediavel. <br /> + +<br /> + +Todos os <em>restaurants</em> luxuosos +possuem a prenda de um <em>bom</em> cosinheiro. <br /> + +<br /> + +Põe um pobre homem a jantar durante dous annos a fio n'um +d'esses <em>restaurants</em> +elegantes, e depois conta-me por miudos em que estado miseravel vaes +dar com elle. <br /> + +<br /> + +Destruida esta primeira idéa, deixa-me ainda dizer-te uma +cousa que tu não sabes. <br /> + +<br /> + +A mesa não tem tal a importancia insignificante que tu +embirras em querer dar-lhe. <br /> + +<br /> + +Sendo o estomago um dos orgãos principaes da +<span class="pagenum">[156]</span> +humanidade, é absurdo +desdenhar d'esse modo o que tem com tão elle estreitas +relações. <br /> + +<br /> + +Se eu fosse pedante era capaz até de te provar que o livro +que +descrevesse o que o homem tem comido nas épocas primitivas e +nas +quadras de +civilisação refinada e perfeita, nos periodos de +barbaria +e nos tempos de desenvolvimento e de progresso, seria o livro mais +completo da historia universal da humanidade. <br /> + +<br /> + +O alimento faz o homem. <br /> + +<br /> + +Os antigos scandinavos, <em>os reis do +mar</em>, os impetuosos e bravios caçadores de +<em>uroch</em>, brancos, athleticos, sanguinarios, de olhos +azues +metallicos e faiscantes; alimentavam-se nos seus festins cyclopicos da +carne quasi crua dos animaes que matavam. <br /> + +<br /> + +Nero gostava de saborear as contorsões de agonia das <em>murêas</em> +que creava nos +seus viveiros, e que alimentava muitas vezes com o corpo palpitante dos +escravos, e nas festas voluptuosas e crueis que dava na sua <em>Casa +de ouro</em>, +emquanto +dançavam as bailarinas gaditanas e egypcias, os convivas, +coroados de rosas, esperavam que o peixe tivesse soltado o ultimo +arranco de vida para se servirem do saboroso acepipe. <br /> + +<br /> + +Não vês atravez d'estes dous exemplos uma +raça de instinctos barbaros, e uma +civilisação +pavorosa e apodrecida? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[157]</span> +O homem moderno enfraquecido pela degeneração +progressiva +de umas poucas de gerações, tendo de +dispender uma enorme porção de energia e de +força nas luctas incessantes a que o obrigam as infernaes +exigencias da nossa época, precisa, por assim dizer, de ser +reconstituido dia a dia. <br /> + +<br /> + +É n'isto que as mulheres não pensam bastante. <br /> + +<br /> + +Depois em um <em>ménage</em>, +sobretudo de medianos haveres, a mesa relaciona-se com tres +questões de uma alta importancia. <br /> + +<br /> + +Primeiro, a questão da saude, que sobreleva a todas. <br /> + +<br /> + +Segundo, a questão da economia de que depende a paz, a +alegria, +o socego, a elegancia modesta da vida intima; o bom humor do marido, a +<em>toilette</em> fresca e garrida da esposa, a alvura da +toalha +pezada de linho adamascado, tudo que emfim constitue o conforto e a +alegria domestica. <br /> + +<br /> + +Terceiro, a fidelidade do marido ás modestas mas saborosas +iguarias da sua mesa de familia. <br /> + +<br /> + +O jantar tem de ser bem feito, economico e salubre. Eis o grande +problema. <br /> + +<br /> + +Para o resolveres não te fies n'uma cosinheira muito +estupida, +muito suja e muito rotineira, nem n'um altivo sujeito cheio de theorias +estapafurdias e de nomes francezes estropiados. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[158]</span> +Fia-te em ti. <br /> + +<br /> + +É o mais seguro, o mais razoavel, aquillo que teu marido te +ha de agradecer mais. <br /> + +<br /> + +Não estragues as tuas finas mãos de duqueza, +não desças á humilhante +posição +de <em>cordon bleu</em> da tua propria casa, mas dirige tu +esse ramo tão importante de +administração domestica. <br /> + +<br /> + +Estuda essa sciencia tão util e tão +descurada que se chama <em>chimica culinaria</em>, e +verás como a saude dos que tens debaixo da tua guarda ha de +progredir com isso. <br /> + +<br /> + +Não te injuries, nem te afflijas então quando +conheceres que o sorriso que teu marido negou ás sabias +architecturas do teu penteado, lhe desabrocha nos labios franco e +alegre em frente de um caldo feito sob a tua +direcção, de +um +<em>roastbeef</em> temperado pelas tuas +mãosinhas de fada, de um novo acepipe que inventastes e que +lhe despertou o esmorecido appetite. <br /> + +<br /> + +A arte de ser esposa e de ser mãe funda-se n'um segredo +muito simples. <br /> + +<br /> + +Não se trata de sermos felizes á custa dos que +são nossos; trata-se de fazermos felizes os nossos, +á nossa propria custa. <br /> + +<br /> + +Começamos pelo sacrificio, e acabamos pela apotheose! <br /> + +<br /> + +Mas que de cousas eu fui buscar para te dar uma +lição de <em>azeites e +vinagres</em>. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[159]</span> +Ai! filha, é que tenho aprendido á minha custa +que na +terra não ha nada pequeno, e que todas as cousas que de +perto se +nos afiguram mesquinhas, estão de tal maneira ligadas e +relacionadas entre si, que formam unidas este grande conjuncto que se +chama a vida. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<a name="c10"></a> +<h3>CAPITULO X </h3> + +<h3>O dever de ser bonita </h3> + +<br /> + +<div class="breaks"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Dizia uma das mais espirituosas escriptoras da França, +aquella +para quem Theophile Gauthier inventou o gracioso epitheto de <em>bas +lilas</em>, +livrando-a d'este modo da terrivel, grotesca e immerecida alcunha de <em>bas +bleu</em>, que <em>o +primeiro e mais sagrado dever da mulher é ser bonita</em>. +<br /> + +<br /> + +Abaixo o paradoxo! bradou logo em torno a turba-multa das feias, +furiosas contra a sentença que as punha por assim dizer +fóra da lei. <br /> + +<br /> + +Foi necessario entrar em explicações, e todas +nós vemos então a comprehender o que Madame de +<a href="#e4">Girardin</a> +entendia pela belleza feminina. <br /> + +<br /> + +Ser bonita no fim de contas não é ter +fórmas esculpturaes―isso já passou de moda, +não é ter +feições perfeitas―não ha nada mais +profundamente monotono e massador; não é ter +collo de +<em>alabastro</em>, cabellos de +<span class="pagenum">[162]</span> +<em>ebano</em>, labios de <em>rubis</em>, +dentes de +<em>perolas</em>, olhos de <em>diamante preto</em>, +testa de +<em>marfim</em>, etc., etc., etc. <br /> + +<br /> + +―Deixemos isso aos artifices mais ou menos engenhosos, que trabalham +com as sobreditas materias, e aos <em>trovadores</em> +mais ou menos +choramigas, que manejam as sobreditas rimas; não +é saber +olhar com +expressão ardente ou languida consoante o genero da +phisionomia; +saber sorrir com malicia ou com ternura, saber inclinar-se meiga e +scismadora ao influxo do um sentimento occulto, ou erguer a +cabeça altiva e triumphante com a plena consciencia da +propria +formosura! <br /> + +<br /> + +Ser bonita, ser bella, na accepção elevada e +completa d'esta palavra, é possuir a graça +mysteriosa que +prende os que param junto de nós, que attrahe os que +vão +passando ao nosso lado. <br /> + +<br /> + +Resta agora analysar os fios tenuissimos de que se tece este divino +encanto da mulher! <br /> + +<br /> + +A graça de que eu fallo é feita principalmente de +intelligencia e de bondade. <br /> + +<br /> + +O primeiro dom concede-o Deus, e aperfeiçoa-o e depura-o a +vontade humana; o segundo adquire-se á custa de sacrificios +cccultos, de abnegações +intimas, de aspirações continuas e incessantes +para a +suprema perfeição! <br /> + +<br /> + +Todos podem ser bons! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[163]</span> +É preciso que os espiritos se compenetrem profundamente +d'esta +verdade, que é o primeiro passo para a conquista do bem, que +todos ambicionam e que tantos julgam vedado. <br /> + +<br /> + +Não ha terreno, por mais duro, inhospito e ingrato, a que um +cultivo cuidadoso e vigilante não possa arrancar +flôres. <br /> + +<br /> + +No homem―e quando digo <em>homem</em>, +refiro-me geralmente á humanidade―, no homem ha preso, +algemado, vencido, um robusto animal de tendencias bravias, que lucta +continuamente para reconquistar a perdida +liberdade.<br /> + +<br /> + +Foi a acção civilisadora de seculos sem conta que +domou essa féra de funestos instinctos; é a +pressão continuada e constante de uma vontade energica, de +uma razão esclarecida, de uma +percepção profunda de todos os deveres, que +conserva e sustem intimidado e submisso o terrivel selvagem. <br /> + +<br /> + +Uns precisam de desenvolver n'esta porfia assidua, mais tenacidade e +mais força, outros de indole nativamente branda e pacifica, +podem deixar adormecer de vez em quando a accesa vigilancia. <br /> + +<br /> + +São no fim de contas os primeiros que teem maior +merecimento. <br /> + +<br /> + +Ser bom é quasi sempre um esforço, mas para ser +meritorio +cumpre que este esforço seja tão +invisivel +<span class="pagenum">[164]</span> +para todos os +olhos, que a analyse ainda a mais perspicaz não chegue a dar +por +elle. A bondade é o supremo attractivo da mulher, aquelle +que +mais acção exerce em torno de si. <br /> + +<br /> + +A bondade é pois a verdadeira belleza feminina. <br /> + +<br /> + +Imaginae que a ella se reune a intelligencia, e tendes o ideal da +perfeita formosura, da unica que só se apaga e extingue com +a +vida, da que excita os grandes, os eternos, os sãos e +robustos +amores. <br /> + +<br /> + +O culto pagão da belleza plastica é um dos erros +que mais +ha de custar a destruir, e que no entanto se acha tão +deslocado +no ideal moderno, como se achava no seu verdadeiro lugar, no velho +mundo que a +revolução deitou por terra alluido e decomposto! <br /> + +<br /> + +A mulher transviada por esta falsa comprehensão do seu +destino, +só aspira a ser bonita no sentido futil e exterior da +palavra, +só inveja as que possuem os ephemeros encantos de que foi +desherdada, e não percebe que a belleza interior +é +aquella cuja gloriosa conquista, accessivel para todos, lhe podia dar a +realeza e o predominio. <br /> + +<br /> + +A quantas meninas sentimentaes de olheiras roxas e phrases sonoras +não temos nós ouvido lamentar a +pouca duração dos affectos terrestres, a +<em>inconstancia</em> do homem, a ingratidão +cruel que faz +definhar as suas victimas em desolador abandono! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[165]</span> +Apesar do aspecto ridiculo de que estas romanticas e elegiacas +creaturas se revestem, que ninguem se ria d'elles! <br /> + +<br /> + +Victimas se chamam, e victimas são de certo, mas +não de imaginarias perfidias ou de tragicas aventuras. <br /> + +<br /> + +São victimas da sua educação falsa, da +sua sentimentalidade piégas, da idéa inteiramente +errada que formam da vida pratica. <br /> + +<br /> + +Imaginaram que haviam de ser eternamente amadas, amadas com extasis +poeticos, com grandes discursos inflammados, com acompanhamento de +viola franceza e de epistolas em verso, que tivessem de mais em amor, o +que tivessem de menos em grammatica; sonharam ser as pallidas Julietas +apaixonadas, recebendo á luz branca da lua, as confidencias +convulsas dos seus Romeos de obra grossa; e para attingirem este ideal +dos seus desejos suppozeram que lhes bastavam a alvura da tez, o brilho +do olhar, a frescura dos labios, a abundancia dos cabellos, e por cima +de tudo isto a garridice, a pretensão, a ignorancia e a <em>toilette</em>! +<br /> + +<br /> + +Em muito menos tempo do que é preciso para murchar uma rosa, +os proprios homens se enfastiaram. <br /> + +<br /> + +E eil-as inconsolaveis e inconsoladas, maldizendo a +traição masculina, que lhes não deu +mais que o castigo merecido! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[166]</span> +Houve tempo em que a mulher feia tinha como unico refugio o convento. <br /> + +<br /> + +Felizmente, porém, esse tempo vae longe. <br /> + +<br /> + +O homem já não exige da companheira do seu +destino, como condição unica de felicidade, +encantos que murcham com os annos. <br /> + +<br /> + +Assenta em mais solidas bases a ventura conjugal. <br /> + +<br /> + +Mulheres, sêde boas, cultivae o espirito, e allumiae a +consciencia; na vida do homem ha horas escuras; que a luz que sabeis +diffundir as illumine. <br /> + +<br /> + +A sociedade tem desfiladeiros sombrios, tem <em>selvas ignotas</em>, +como o +<em>inferno</em> do Florentino, aprendei a guiar com a +vossa pequena +mão branca e macia os robustos luctadores, que ás +vezes +param no limiar d'esses caminhos, com a vista incerta e o passo +hesitante. <br /> + +<br /> + +E isso que hoje se exige de vós. <br /> + +<br /> + +Eu vou mais longe que <em>madame</em> de +Girardin, na sua arrojada proposição que +tão poucos +comprehenderam. <br /> + +<br /> + +Quando vejo um homem sou capaz de adivinhar a que genero pertence a +mulher que elle tem por esposa; quando entro n'uma casa basta-me +vêr a +disposição dos moveis, a escolha dos livros, o +aspecto +das creanças, a expressão das <em>cousas +mudas</em>, +para poder afiançar se a dona d'essa casa, a divindade +modesta e +tutelar d'esse pequeno templo, é digna do seu titulo sagrado +de esposa e mãe. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[167]</span> +É que tudo falla, para quem sabe ouvir, e a mulher +sobretudo―natureza expansiva e vibratil―põe uma +indiscrição involuntaria em cada objecto de +que se rodeia. <br /> + +<br /> + +Mais de uma vez tenho ouvido vozes femininas levantarem-se em favor da +emancipação politica e social do seu sexo. <br /> + +<br /> + +Pobres sêres hybridos e incompletos são de certo +os que teem tão acanhada idéa do destino da +mulher. <br /> + +<br /> + +No dia em que esta fôr emancipada, cahirá para +sempre do throno que tem seculos por degraus. <br /> + +<br /> + +É que a emancipação politica seria a +abdicação domestica, quer dizer, a mais dolorosa +catastrophe que tem affligido as sociedades. <br /> + +<br /> + +Imagino que nenhuma verdadeira mulher a acceitaria! <br /> + +<br /> + +A familia tal como a entendem todos que sabem sentir e pensar, +é +o refugio onde se vae buscar paz e esquecimento; é o templo +onde +encontram +<em>direito de asylo os parias</em> que andam cá +fóra aos baldões da ira popular; é o +lugar +querido, inaccessivel onde os athletas do pensamento acham momentos de +alegria descuidada, onde os mineiros cansados da sciencia, os que andam +pelos antros obscuros arrancando segredos aos seios da natureza, +procuram a clara e festiva luz dos affectos simples, onde os politicos +esquecem a maldade +<span class="pagenum">[168]</span> +e a +mesquinhez humana, onde os diplomatas fallam verdade, onde os +argentarios fecham os ouvidos ao tinir metallico do ouro, onde os que +caminham levando no coração as terriveis hydras +do odio e +da +inveja se assentam por instantes embevecidos na musica matinal de umas +vozes infantis que chilrêam, de uma voz crystallina que +adverte, +aconselha e consola. <br /> + +<br /> + +Os que roubarem a familia ao incansavel trabalhador d'estas eras de +febre e de combate, roubam-lhe a força, a energia, a +consciencia, a dignidade, o amor, roubam-lhe tudo emfim! <br /> + +<br /> + +Emancipar a mulher é atacar na sua base a familia, +é trazer para dentro do lar as paixões +tumultuosas da praça publica, é destruir o mais +doce dos +poderes a que o homem se curva, o temivel poder da fraqueza feminina! <br /> + +<br /> + +E não se diga que eu combato a mulher quando combato a sua +libertação absoluta perante a +sociedade e perante a lei. <br /> + +<br /> + +Os que pretendem furtal-a á tutella salutar, que a +contém na esphera que lhe é propria, é +que são os seus peiores inimigos. <br /> + +<br /> + +Dentro, porém, d'essa esphera quantos serviços +ella deve fazer e não faz! <br /> + +<br /> + +Exemplifiquemos: A mulher é na generalidade ambiciosa. +Qualidade que não está de todo em todo desligada +<span class="pagenum">[169]</span> +de peccado, mas qualidade util +na maior parte dos seus resultados. <br /> + +<br /> + +Esta ambição pela influencia latente que exerce +no animo masculino leva-o, não poucas vezes a arrojados +commettimentos e a grandes e nobres cousas. <br /> + +<br /> + +Até um certo e determinado limite, é portanto +benefica a ambição da mulher. <br /> + +<br /> + +Transviada, porém, do seu verdadeiro fito, quantas vezes +esta +ambição mal dirigida por uma +educação eivada de mesquinhos preconceitos +não +arrasta o homem até á infamia, á +deshonra, +á quebra de todos os pudores, ao suicidio! <br /> + +<br /> + +A garridice, o amor da <em>toilette</em>, das +pequenas futilidades elegantes, o gosto do luxo, das graciosas +invenções da moda, ahi está uma das +graças, um dos elementos do dominio da mulher. <br /> + +<br /> + +Mas ainda n'este ponto cumpre que uma razão clara, que uma +percepção definida do dever, a guie, a dirija, a +constranja nas suas tendencias muitas vezes exageradas. <br /> + +<br /> + +Não ha nada mais agradavel n'um +<em>ménage</em> do que uma mulher +moça, fresca, elegante, +da graciosa e simples elegancia que provém do gosto apurado +e +distincto; os requintes de luxo exterior são, por assim +dizer, +na vida do homem, uma superfluidade necessaria, são um +conchego +para o corpo, uma caricia para a alma, +<span class="pagenum">[170]</span> +mas que nunca o luxo conduza a +familia á mais leve transigencia indelicada, que nunca a +mulher +lhe sacrifique um só dos seus deveres! <br /> + +<br /> + +Todos são igualmente respeitaveis; todos estão +unidos entre si por uma cadeia de élos inquebrantaveis. <br /> + +<br /> + +Na mulher ainda mais do que no homem, o abuso das qualidades uteis leva +ás mais funestas consequencias. <br /> + +<br /> + +Para a mulher ainda é mais delgada a linha do dever. <br /> + +<br /> + +O caminho é estreito, difficil, sinuoso: para +áquem d'elle ou para além d'elle está +o erro. <br /> + +<br /> + +Por isso quantas senhoras ás vezes dizem: <br /> + +<br /> + +«Queixam-se de nós porque somos garridas, e se nos +vêem modestas, sem prendermos a minima +attenção ás futilidades perigosas do +luxo, condemnam-nos ou fogem do nosso lado. <br /> + +<br /> + +«Queixam-se de nós porque somos ignorantes, mas se +o nosso +espirito se accende em curiosidades scientificas, se lêmos, +se +estudamos, se tentamos ir um pouco além dos limites impostos +ao +nosso sexo, somos alcunhadas de pedantes, e de <em>preciosas</em> +ridiculas! <br /> + +<br /> + +«Queixam-se de nós porque somos devotas, +supersticiosas, porque levamos ao exagero as praticas do catholicismo, +porque nos deixamos guiar mysteriosamente pela mão occulta +do padre, mas se procuramos livrar-nos +<span class="pagenum">[171]</span> +d'este jugo, se queremos a independencia absoluta do espirito +e da consciencia, chamam-nos <em>livres pensadoras</em>, e +os homens sentem medo instinctivo de entregar a sua honra nas nossas +mãos.» <br /> + +<br /> + +E por aqui adiante uma longa jeremiada n'este teor. <br /> + +<br /> + +Eu, porém, mesmo concedendo que ha um fundo de incontestavel +verdade no que dizeis, respondo-vos, minhas senhoras, que é +positivamente porque a vossa missão é difficil +que ella +tem tamanha +importancia e póde adquirir de dia para dia uma importancia +ainda maior. <br /> + +<br /> + +No dia em que comprehenderdes claramente o vosso destino, sabereis +então o que é ter a +graça, a elegancia, o encanto exterior, sem que vos +contaminem +as criminosas vaidades; o que é ser intelligente, instruida, +reflexiva sem conhecer o pedantismo, e a ridicula pretensão; +o +que é ter o ideal religioso, sem o +manchar com superstições, preconceitos, +intolerancias +funestas; o que é aproveitar cada uma das vossas riquissimas +faculdades equivalentes, mas não iguaes, das do homem, sem +que a +vossa inercia as esterilise, sem que a vivacidade nervosa do vosso +temperamento as leve a extremos e demazias altamente funestas +á +familia e á sociedade da qual é aquella o mais +perfeito +reflexo. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>CAPITULO XI </h3> + +<h3>O trabalho das mulheres </h3> + +<br /> + +<div class="breaks"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +O preconceito mais funesto, que ainda nasceu e medrou n'este mundo, +é o que considera o trabalho uma escravidão +deshonrosa. <br /> + +<br /> + +Começa hoje a irradiar os seus primeiros clarões +rubros a +aurora do dia que ha de vêr o trabalho santificado, que ha de +assistir á divina apotheose d'esse bemfeitor supremo da +humanidade, d'esse amigo de todas as horas, que conforta os animos +desconsolados, que levanta os animos abatidos, que distráe +de +todos os tédios, que lucta contra todas as inercias. <br /> + +<br /> + +Por emquanto, sobretudo entre nós, é rara a +mulher bastante superior para confessar que trabalha, e o que +é peior de tudo, é rara a mulher que +trabalha sem absoluta e incontestavel precisão. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[174]</span> +Mais d'uma vez temos visto senhoras, que pela sua +educação mais apurada e mais completa deviam +estar a cima +de tão profunda ignorancia dos seus deveres, confessarem que +não gostam de fazer nada, que são +preguiçosas, que +não +téem com que se distrahir, que os dias lhes parecem seculos, +etc., etc. <br /> + +<br /> + +E no entanto qual será a creatura bastante desfavorecida de +Deus, para não poder aproveitar proficuamente as horas do +dia, +sempre curtas para quem as sabe empregar bem? <br /> + +<br /> + +Fallemos primeiramente das meninas solteiras de pouca edade; para +essas, logo que queiram tornar-se dignas do alto destino que as espera, +pouco será sempre o tempo para se instruirem, para +adquirirem os +varios e complexos conhecimentos de que carecem antes de exercerem a +sua missão complexa. <br /> + +<br /> + +Não são sómente os futeis ornamentos +superficiaes em que ellas devem pôr a mira; a par d'esses, +que +tambem são indispensaveis, ha todo um mundo, que a mulher +ignora, e cuja exploração lhe +enriqueceria o espirito de thesouros incomparaveis. <br /> + +<br /> + +E depois, mesmo os frivolos adornos, que constituem uma alta +educação mundana, podem ter uma +significação elevada, um sentido occulto, uma +<em>alma</em> emfim, logo que se não considerem +um +<em>todo</em>, mas uma parte insignificante do mais alto e +perfeito conjuncto; +<span class="pagenum">[175]</span> +logo que occupem o lugar que lhes compete, na +classificação harmoniosa e bem graduada das +varias riquezas que formam um espirito. <br /> + +<br /> + +Saber cantar, saber tocar piano, saber fallar as linguas, saber desenho +e pintura, que vale tudo isso quando se não tenha uma +idéa elevada e +synthetica, que ligue entre si estas diversas +acquisições +intellectuaes, e que por assim dizer as vivifique? <br /> + +<br /> + +O que é preciso antes de tudo, é comprehender a +musica e +a sua influencia poderosa nas almas e nos organismos; é +saber +usar com aproveitamento esses instrumentos que se chamam linguas, as +quaes por si, só, tomadas abstractamente, nada significam e +para +nada servem; é estudar a natureza sob os seus multiplos +aspectos +e transplantal-a para a tela ou para o papel; é ter emfim um +ideal, que sobredoire todas estas prendas, que superficialmente +entendidas e superficialmente executadas, não teem valor nem +tem +utilidade alguma na vida pratica. <br /> + +<br /> + +Basta a qualquer espirito feminino entrar n'este caminho, que +imperfeitamente acabamos de apontar, e, sem que elle mesmo tenha a +consciencia d'isso, as suas idéas hão de +dilatar-se e +encadeiar-se +por uma successão logica, e dar á vida um novo e +imprevisto aspecto. <br /> + +<br /> + +As meninas bem educadas das nossas altas classes +<span class="pagenum">[176]</span> +sociaes, teem todas uma grande +facilidade em fallar varias linguas; aproveitam porém essa +facilidade... conversando com os diplomatas. <br /> + +<br /> + +Não lêem Schiller, nem Goethe, nem Shakespeare, +nem +Macaulay, nem Pascal, nem Montaigne; não entram no genio das +differentes nacionalidades e das differentes litteraturas; +não +comparam entre si as civilisações, chegando por +esta +comparação a conhecerem de um modo mais ou menos +perfeito +a humanidade, não senhor! Conversam com os +<em>gommeux</em> da diplomacia estrangeira e contentam-se +com isso! <br /> + +<br /> + +Na musica que, mais do que nenhuma arte, lhes revelaria o +coração do homem no +coração de tantos homens de genio, o que ellas +vêem sómente +é o modo de executarem mais difficuldades e de desesperarem +de inveja mais rivaes!.. <br /> + +<br /> + +Na pintura, copia da natureza que as podia fazer penetrar no seio +carinhoso e fecundo da grande mãe, são +tão +frivolas, tão superficiaes, +como em todas as outras cousas. <br /> + +<br /> + +As mais das vezes não teem animo de colherem uma +flôr do +jardim e de a copiarem com o pincel ou com o lapis! Copiam copias, +amesquinhando a natureza, e atrophiando a propria +imaginação! <br /> + +<br /> + +São estes defeitos, que todas nós as que pensamos +<span class="pagenum">[177]</span> +um pouco, devemos +combater com todas as nossas forças! <br /> + +<br /> + +Longe de mim o aconselhar á mulher que se emancipe dos seus +graves e obscuros deveres, que tente luctar com o homem, e arrancar-lhe +a palma das grandes descobertas e das grandes conquistas! <br /> + +<br /> + +O que eu pretendo é provar-lhe que é divina entre +todas, a missão a que o futuro a convida. <br /> + +<br /> + +A mulher de sala tem por força de morrer; surja pois a +mulher da +familia, ser complexo, grande e nobre sêr, que as +geraçães vindouras +hão de admirar fervorosamente. <br /> + +<br /> + +A mulher da familia não é de certo a matrona +desgeitosa, deselegante, só occupada em dar a vida, o leite +e o +alimento aos filhos de um affecto, despido de todas as flores e de +todas as poesias. <br /> + +<br /> + +Não, ella deve ser instruida, profundamente instruida, tendo +ao +mesmo tempo a consciencia de que essa instrucção +a +não aparta do +cumprimento religioso dos mais humildes deveres do amanho da casa e da +maternidade. <br /> + +<br /> + +O homem deve achar n'ella não só a +enfermeira desvelada das suas doenças; não +só a +distribuidora sensata e economica do seu alimento; não +só +a +dona de casa aceiada, vigilante, infatigavel; não +só a +mãe carinhosa, dedicada, capaz dos maximos e dos mais +<span class="pagenum">[178]</span> +perseverantes sacrificios, +senão tambem a companheira do seu espirito; a socia das suas +aspirações; a +intelligencia que comprehenda e partilhe as suas legitimas +ambições e as suas chimericas phantasias; o animo +viril que saiba amparal-o nas horas de desalento; a mão +firme e +branda, que saiba guial-o nos momentos escuros de lucta e de +tentação: o seio terno que +lhe acolha a cabeça cansada na hora sinistra das derrotas; o +bello e enthusiastico espirito que applauda a suprema embriaguez das +suas victorias; n'uma palavra, a mulher digna de ser mãe e +de +educar uma +geração de fortes. <br /> + +<br /> + +É preciso, que se compenetrem bem d'esta idéa +fundamental: o trabalho, seja de que especie fôr +não +desdoira uma mulher nem deixa de ser compativel com as mais delicadas +distracções de um espirito culto. <br /> + +<br /> + +Trabalhar não é fazer +<em>crochet</em>, não é +cozer durante seis mezes na mesma camisa, que ha de ser offerecida a um +pobre romantico, a um pobre de +<em>opera-comica</em>; não é bordar +umas eternas +<em>babouches</em>, que se começam no dia +seguinte ao do casamento, e que se acabam dez annos depois. <br /> + +<br /> + +Trabalhar é ser util, é occupar o espirito, +é adquirir conhecimentos ou espalhal-os em torno de si, +é +concorrer para o bem-estar dos outros e para o seu +aperfeiçoamento proprio. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[179]</span> +A mulher que trabalha levanta-se cedo, não conhece as +scismas voluptuosas, os languores morbidos, as <em>flâneries</em> +sem motivo e +sem fim. <br /> + +<br /> + +É activa, por isso não tem aquellas horas de +tédio profundo, que descobrem diante de um olhar os +horisontes +sinistros e esbraseados do suicidio; tem saude porque o tempo bem +applicado e bem dividido não lhe deixa intervallos para se +<em>escutar</em>, se sondar, para analysar as suas pequenas +dôres, os seus pequenos incommodos, e os aggravar tomando +remedios nocivos, e entregando-se á molleza que a pouco e +pouco +destroe a robustez do corpo; gosa de tudo com alegria, com vitalidade, +com expansão, não desdenha nenhum dever, nenhuma +occupação, nenhum trabalho porque o amor e a +intelligencia prendem-se a tudo que ella faz. <br /> + +<br /> + +Porque sabe conversar na sala com facilidade e chiste, nem por isso +deixa de saber estar na cosinha, observar um por um todos os +utensilios, vêr se +estão limpos, inventar um <em>menu</em> que +reuna +as condições da economia e da variedade, ensinar +a sua +cosinheira, fazer mesmo por suas mãos um prato predilecto, +que +á mesa o marido e os filhos hão de saudar com +alegria e saborear com appetite. <br /> + +<br /> + +Desejo que ella saiba bordar, mas exijo que saiba serzir panno, dar +rêdes com perfeição, +cozer a roupa +<span class="pagenum">[180]</span> +da casa e +a roupa dos filhos, cortar e fazer os seus vestidos, dando assim mais +que um exemplo de economia, um exemplo de moralidade! protestando +até onde chegam os seus limites, contra a torrente impetuosa +e +funesta, que arrasta as familias desde o luxo até +á +infamia, desde a impostura até +á quebra de todas as dignidades e de todos os pudores. <br /> + +<br /> + +Quero mais, que ella se não envergonhe de confessar que +trabalha, e que não diga que o seu fato é feito +por uma +qualquer modista estrangeira, quando é ao seu laborioso +serão que ella deve a +elegancia que d'este modo é duplamente preciosa e +sympathica. <br /> + +<br /> + +Não imagine a mulher, que entre os deveres que acceitou ha +uns que a deslustram, e outros que lhe ficam bem. <br /> + +<br /> + +Debaixo do ponto de vista da razão todos os deveres +são eguaes e estão prezos entre si por uma cadeia +invisivel. <br /> + +<br /> + +Da alegria da mesa depende a alegria do lar; da economia de todos os +instantes, depende o bom humor das festas de familia; da elegancia e +primoroso aceio da mulher depende a ternura inexgotavel do marido; do +modo porque ella rege e domina o seu pequeno imperio domestico, depende +a educação dos filhos, +a moralidade do interior, a harmonia intima da vida, e +<span class="pagenum">[181]</span> +até a graça, o espirito, a liberdade com que ella +conversa e ri na sala. <br /> + +<br /> + +Todas as mulheres se queixam dos maridos, e nenhuma ainda percebeu o +seguinte: são ellas que preparam e determinam o seu destino; +é a ellas que a familia em geral deve a sua desordem, a sua +dissolução, ou a sua felicidade. <br /> + +<br /> + +Não basta ter todas as graças, é +preciso ser util, e no fardo que se acceita em commum tomar a parte que +mais custa a supportar. <br /> + +<br /> + +Não basta ser util, prestadia, arranjada, economica; +é +preciso ter a intelligencia que idealisa um pouco os tristes e aridos +encargos da vida. <br /> + +<br /> + +Toda ou quasi toda a mulher se sente amesquinhada pelo seu destino, e +protesta contra as leis, contra os usos, contra as +instituições, que a exilaram +dos altos cargos da republica, que lhe tolheram o passo para todas as +eminencias sociaes, e que a condemnam á obscuridade e +á +lhaneza do viver domestico. <br /> + +<br /> + +Oh! abençoados sejam os costumes, as leis, as +instituições, que deram ao homem tudo que +é ruido, +pompa, ostentação, orgulho e vaidade, e que nos +deram a +nós a dôce missão de encaminharmos o +futuro, de guiarmos a humanidade no caminho do bello e do bom! <br /> + +<br /> + +Se até agora temos trahido essa missão a que +fomos +<span class="pagenum">[182]</span> +destinadas, a +culpa é nossa e não de quem +constituio sob uma fórma tão racional e +tão justa +a sociedade. <br /> + +<br /> + +O tempo que passamos no barulho vazio das festas mundanas, colhendo +decepções e rancores, +excitando invejas, provocando sensuaes applausos, porque o +não +gastamos a lêr, a estudar, a penetrar no +mundo da natureza e no mundo da sciencia em todos os seus aspectos +tão varios, em todas as suas +manifestações tão sympathicas; porque +não +dirigimos a poder de trabalho e de esforço a primeira +educação de nossos filhos, e deixamos que +mãos +mercenarias lhe arranquem aquella dôce penugem da alma que +é a ignorancia dos pequeninos? <br /> + +<br /> + +Porque não fazemos da nossa casa, um ninho alegre e +fôfo, +que o nosso marido prefira ao botequim, ao Gremio, ao Club, ao +restaurante, á casa dos seus amigos, e onde elle esteja +certo de +encontrar o alimento mais saboroso e mais hygienico, o ar mais puro e +lavado, a poltrona mais commoda, a +conversação mais animada, mais substancial, mais +chistosa +e menos pedante? <br /> + +<br /> + +Pouco a pouco á regeneração da mulher, +seguir-se-hia a regeneração do homem, deixariamos +de ser +a ruina, para nos tornarmos o conforto; deixariamos de ser o +tédio para nos tornarmos a alegria. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[183]</span> +Talvez não houvesse tantos bailes e saraus, talvez +Offenbach, +Dumas filho, Sardou tivessem menos espectadores, talvez as salas de +bilhar perdessem um pouco da sua popularidade; talvez os ourives e as +modistas fechassem algumas das suas lojas, mas em +compensação quebravam menos negociantes, +perdiam-se menos +mulheres, a calumnia renunciava a uma grande +porção do seu alimento diario, o falso luxo que +mata de +fome os filhos e que arrasta sedas pelas ruas enlameiadas da cidade, ou +se reclina voluptuosamente nos coxins flascidos d'um coupé +de +oito mollas, o falso luxo deixaria de ostentar com tão +descarada +altivez as suas lentejoulas compradas com moeda vil, e esta nossa +sociedade, que parodía tão ridicula e +tão desgraçadamente a sociedade cosmopolita, +opulenta e +artificial da França, tomava diverso rumo, assumia a +dignidade +que lhe falta, e descobriria no futuro o ideal, que não tem +e +que procura nas trevas. <br /> + +<br /> + +O primeiro passo para que este deploravel estado de cousas melhore um +pouco, é que as mulheres comecem a trabalhar. <br /> + +<br /> + +As ricas instruam-se; as pobres ajudem seu marido sem se envergonharem +da sua honesta pobreza, e todas sem exceptuar qualquer +posição social, +occupem o tempo para não darem logar ás +tentações da vaidade, aos sonhos morbidos que +enfraquecem o corpo +<span class="pagenum">[184]</span> +e o espirito, ás negras horas dissolventes do +tédio, em que tudo se concebe e se admitte como possivel, +até o esquecimento de todos os deveres, até o +proprio crime com o seu romantico cortejo de +sensações e +de terrores. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>CAPITULO XII </h3> + +<h3>A toilette </h3> + +<br /> + +<div class="breaks"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +As mulheres teem, na generalidade, um costume deploravel! Só +se vestem e se enfeitam e querem ser amaveis para o publico. <br /> + +<br /> + +O marido, ainda o mais feliz e mais extremoso, tem sempre um rival +terrivel, um rival exigente, um rival que lhe rouba parte das +prerogativas e lhe cerceia parte dos direitos. <br /> + +<br /> + +Esse rival é o publico, é esse detestavel tyranno +chamado <em>tout le monde</em>, a quem tudo +se sacrifica, e do qual em recompensa só se recebem criticas +e desdens! <br /> + +<br /> + +Para elle nos vestimos, para elle levamos horas e horas a combinar o +effeito da nossa +<em>toilette</em>, para elle estamos defronte do espelho +prendendo +flores no cabello, inventando as difficeis architecturas do penteado, +<span class="pagenum">[186]</span> +para elle sabemos +tocar piano e sabemos cantar, para elle desejamos ser formosas! para +que elle nos applauda―mentiroso e humilhante applauso!―exhaurimos +todos os recursos da nossa imaginação. <br /> + +<br /> + +Para agradarmos a elle, que é o +<em>extranho</em>, nos esquecemos dos que são +nossos! <br /> + +<br /> + +Em casa as mulheres, pelo menos as mulheres portuguezas, as que eu de +mais perto conheço, preferem a tudo, aquillo a que +tão +impropriamente chamam <em>estar á vontade</em>. +<br /> + +<br /> + +Usam uma <em>robe-de-chambre</em> desbotada, +quando não trazem um vestido velho que já +não serve para a +rua; trazem o cabello em <em>papelotes</em> +ou +frisado em ganchos, e como querem descansar um pouco das talas que +impuzeram aos pés, consolam-nos, mettendo-os em umas largas <em>babouches</em> +desgeitosas. <br /> + +<br /> + +Pela manhã, á hora do almoço +dão vontade de chorar! <br /> + +<br /> + +O marido olha para ellas e... de duas uma:―ou sente fastio ou come +como um lobo. <br /> + +<br /> + +De qualquer dos modos manifesta a sua melancolia. <br /> + +<br /> + +Questão de temperamento que não vem ao caso +analysar aqui. <br /> + +<br /> + +Ao meio dia, eis porém, que se lembram das visitas que +não tardam, das <em>inimigas intimas</em> que +veem +<span class="pagenum">[187]</span> +colhêr invejas e semear despeitos, de todas as ferozes +exigencias +sociaes, de que são submissas escravas! <br /> + +<br /> + +Desfranzem a testa, ageitam um sorriso malicioso ou sentimental, +consoante o genero da physionomia, mergulham o corpo nas +tepidas +e perfumadas caricias do banho, vestem-se, burnem-se, penteiam-se, +pintam-se... e apparecem transformadas. <br /> + +<br /> + +Durante umas poucas de horas estão no palco. <br /> + +<br /> + +O auditorio é escrupulosissimo. Ao menor indicio que lhe +destôe, manifesta sem piedade o seu desagrado. <br /> + +<br /> + +Ellas, no entanto, suam <em>sous le +harnais</em>, mas são intrepidas até +á heroicidade. <br /> + +<br /> + +Teem caricias felinas, sorrisos que adormecem a tristeza nos +corações mais desconsolados, sabem +ser engenhosas, cheias de invenções felizes, +conseguem plenamente o seu fim, e ao deixarem a scena fica no ar uma +impressão boa, quasi enternecida. <br /> + +<br /> + +Chegou a occasião de voltar aos +<em>bastidores</em>. <br /> + +<br /> + +N'este caso os bastidores são a +companhia do marido. <br /> + +<br /> + +Oh! Como ellas veem cansadas, aborrecidas, cheias de tedio, e de +desalento! Despem, com a voluptuosidade com que se despe um cilicio, +todas essas elegancias que as torturavam; o sorriso ficticio +apaga-se-lhes dos labios, a luz ficticia esmorece-lhes no olhar. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[188]</span> +A pelle precisa de <em>cold-cream</em>, de +<em>veloutine</em>, de todos os ingredientes nauseabundos: +o cabello +cahe-lhes aos pés, solto dos ganchos que o prendiam, e em +quanto +a aia, com um sorriso ladino, os recolhe cuidadosamente na caixa de +cartão, o marido contempla assarapantado, cheio de ingenuo e +comico assombro, aquella cabeça que ainda ha pouco, no +orgulho +com que se erguia, na magestade altiva com que ostentava o delicado +edificio das tranças e dos +<em>riçados</em>, lembrava uma das +cabeças gentis que o seculo +XVIII beijou com enlevos e que a guilhotina beijou com volupia +selvagem. <br /> + +<br /> + +O pé estreito e +<em>cambré</em>, que ainda ha +pouco nos circulos vertiginosos da valsa, fazia pensar n'aquellas +andorinhas forasteiras, que roçam a terra com o +vôo inquieto e leve, sacode as prisões que o +ligavam +dolorosamente, e dilata-se á vontade, com uma furia de +independencia verdadeiramente demagogica e revolucionaria, na primeira +chinela que apparece. <br /> + +<br /> + +Todo o aspecto physico se transfigura e―consequencia fatal d'esta +mesma causa―o aspecto moral transfigura-se tambem. <br /> + +<br /> + +Como a dissimulação eterna é +impossivel ainda aos mais hypocritas, os defeitos que tão +cuidadosamente se esconderam ao publico, revelam-se ao marido. <br /> + +<br /> + +Riamos sem vontade ainda agora! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p189">[189]</a></span> +Com a fortuna! Desabafemos o nosso mau humor, visto que estamos em +casa! <br /> + +<br /> + +Tinhamos paciencia para aturar com expressão interessada e +benevola as sensaborias muito estafadas de um senhor engravatado, de +luvas côr de canario e bigode retorcido e insolente?... <br /> + +<br /> + +Sejamos agora desapiedadas para as historias já um pouco +velhas, +mas em summa bastante apresentaveis que o nosso marido nos quer contar! +<br /> + +<br /> + +Fingir! sempre fingir!... Impossivel! <br /> + +<br /> + +Sejamos verdadeiras, ao menos n'esta occasião, já +que só desagradamos áquelle que tem +obrigação restricta de nos aturar, quer queira, +quer não! <br /> + +<br /> + +Isto, que á primeira vista parece insignificante, quasi +frivolo, tem <a href="#e5">um alcance</a> enorme no +destino de vv. ex.<sup>as</sup>, +minhas senhoras! <br /> + +<br /> + +O marido, ao perceber que de todas as mulheres a mais desagradavel +é a sua, tem um momento de profunda tristeza, ao qual +succedem +uns poucos de annos de revolta! <br /> + +<br /> + +É assim que se destroe a familia, é assim que se +torna desflorido e deserto o lar. <br /> + +<br /> + +Em compensação enchem-se os salões, os +<em>clubs</em>, os theatros, os botequins. Resta saber se +uma das +cousas póde n'uma sociedade honesta e bem constituida +supprir a outra. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[190]</span> +Sejam mais garridas em casa, e sejam-no menos fóra; aspirem +á elegancia desprezando os +mentirosos artificios; procurem, antes de tudo, agradar á +familia e conseguirão a pouco e pouco, sem +esforço +premeditado, agradar aos estranhos. <br /> + +<br /> + +Uma familia boa, unida e feliz é como um fóco de +calor que attrahe e que irradia luz benefica. <br /> + +<br /> + +Ha casas onde se entra e onde nos sentimos como n'um meio sympathico e +captivante. <br /> + +<br /> + +São sempre as casas em que a mulher possue a intelligencia +do coração, essa cousa rara e +preciosa, que suppre a formosura, o talento e todos os attractivos do +espirito. <br /> + +<br /> + +Vestir-se com uma graça despretenciosa e simples, rodear-se +de +cousas bellas, sentir e communicar em torno de si o prazer das +distracções delicadas, +ser em casa um perfume vivo, uma harmonia suave que não +cansa, +uma luz serena que allumia e que não deslumbra, eis o que +é ser mulher na accepção +completa da palavra. <br /> + +<br /> + +Toda a mulher tem de ser <em>coquette</em> +para o marido emquanto para o marido a eterna +tentação for o +pômo vedado. <br /> + +<br /> + +Em geral só se conhecem os dous extremos. <br /> + +<br /> + +Ou a matrona envolvida na sua virtude como n'uma couraça, +temivel, assanhadiça, formidavel, imaginando +<span class="pagenum">[191]</span> +merecer +todas as homenagens do esposo, porque afugenta com medonho aspecto as +homenagens de todos os outros; ou então a mulher dos +salões, a +flôr exotica das nossas estufas mundanas, Salamandra que vive +no +fogo, Ninon de <em>biscuit</em> que +se compraz nas adorações que provoca e que +inspira, infativel +actriz que só á luz da +<em>ribalta</em> sabe desenvolver e +manifestar todos os seus recursos. <br /> + +<br /> + +Entre os dous contrastes é que fica a verdade. <br /> + +<br /> + +Mulheres, desenvolvei no seio da familia as graças que +desperdiçaes pelas voragens d'este mundo. <br /> + +<br /> + +Tende todas as flexibilidades e todas as resistentencias, todas as +graças e todas as energias; sêde o encanto, sem +deixardes +de ser a virtude; e sobretudo perdei de vista o publico, esse brutal +amante que vos absorve, que vos perde e que nunca vos corresponde. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>CAPITULO XIII </h3> + +<h3>Victoria Woodhall</h3> + +<br /> + +<div class="breaks"> +<hr /></div> + +<br /> + +<h4>Uma oradora americana </h4> + +<br /> + +<br /> + +Os Estados-Unidos, que são decididamente a patria das +excentricidades colossaes, o paiz em que o excesso do positivismo, como +que para justificar o axioma de que <em>os extremos se tocam</em>, +tem conduzido a intelligencia a uma especie de permanente +hallucinação, os Estados-Unidos estiveram para +dar +segundo affirmou a imprensa ingleza, mais uma prova evidente do seu +amor pelas originalidades ruidosas. <br /> + +<br /> + +Dizia-se que a presidencia d'esta republica tão poderosa e +florescente ia ser offerecida a uma mulher, e citava-se o nome d'essa +mulher, que é uma das mais fervorosas e apaixonadas +propagandistas da reforma politica e social, uma das advogadas mais +eloquentes da emancipação completa do seu sexo. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[194]</span> +Já muitas vezes o temos dito, antipathisamos formalmente com +esta doutrina revolucionaria, da qual não esperamos +senão +funestos resultados, por isso +nenhum laço de sympathia póde prender-nos +á +famosa Victoria Woodhall, de que se occupam com verdadeiro enthusiasmo +alguns dos jornaes importantes da Inglaterra e da America do Norte. <br /> + +<br /> + +Não deixaremos, porém, de estudar com +attenção os poucos dados que conhecemos do seu +caracter e +da sua intelligencia, porque, embora como mulher―não +concordemos com as suas theorias,―como artista―não podemos +deixar de reconhecer que ella é um producto perfeito do seu +meio. <br /> + +<br /> + +Victoria Woodhall é moça, tem uma formosa +presença, <em>sabe vestir-se</em>, o que +já +é deveras para notar-se n'uma advogada convicta dos <em>direitos +politicos da +mulher</em>, +e se aprecia os triumphos que a sua palavra um pouco emphatica costuma +arrancar aos numerosos ouvintes que a escutam, nem por isso desdenha os +cuidados minuciosos da elegancia mundana. <br /> + +<br /> + +Teem-na visto prégar sobre um texto biblico, que ella +modernisa +segundo as conveniencias da sua these, trajando elegantemente um +vestido de velludo preto, e com uma rosa purpurea aninhada nas +lustrosas tranças escuras do seu cabello garridamente +penteado. <br /> + +<br /> + +É casada, visto que lhe chamam Mistres Woodhall, +<span class="pagenum">[195]</span> +mas nos salões onde tem +preleccionado apparece sempre só sobre uma elevada +platafórma, de onde préga ás turbas. <br /> + +<br /> + +O marido, se existe, é um simples comparsa, ninguem o nota e +ninguem se occupa em fallar d'elle. Entre parenthesis: não +ha +posição mais +deploravel que a do marido de uma mulher <em>celebre</em>, +quer dizer de uma mulher que falla em publico, que apparece, que +declama, que tem os ruidosos triumphos da actriz, da cantora, da +agitadora politica, e agora os mais modernos da preleccionista social. <br /> + +<br /> + +Nunca pudemos deixar de sentir muito dó do Barão +Stael, de <em>monsieur</em> +Rolland, do +marido de Henriqueta Beecher Stowe, e de tantos outros +forçados +e obscuros satelites d'esse astro brilhante e phenomenal que +é a +mulher acclamada pelo indiscreto applauso das multidões. <br /> + +<br /> + +Agora o marido de Mr. Victoria Woodhall, se acaso vive, o que +não podemos de modo algum affirmar, não tendo +nunca +ouvido citar o seu nome, parece-nos uma victima igualmente lamentavel +do mesmo negro fado. <br /> + +<br /> + +Victoria tem dado conferencias, extraordinariamente +concorridas, em +Nova-York, em Londres, em Liverpool e em outros centros industriaes da +Inglaterra e da America. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[196]</span> +Tem a voz insinuante e harmoniosa, a gesticulação +arrebatada e artistica, a palavra facil, fluente, emphatica, mas +tão quente e apaixonada que exerce sempre uma +impressão +profunda nos que a escutam. <br /> + +<br /> + +Como já dissemos não tem os terriveis oculos +azues, nem o rosto anguloso e severo de Mrs. Beecher Stowe, uma mulher +que fez no seu paiz uma revolução +humanitaria, e que destruiu aos nossos olhos todo o effeito sympathico +da sua cruzada contra a escravatura com aquellas conferencias pedantes +pelas quaes concluiu a sua carreira litteraria. <br /> + +<br /> + +A mulher oradora precisa de ser formosa, sob pena de ser +ultra-ridicula. Parece-nos, porém, que do ridiculo simples, +sem +circumstancias aggravantes, não a salva nem mesmo a +formosura. <br /> + +<br /> + +Victoria Woodhall no seu paiz préga em favor da santidade do +matrimonio, da reforma da educação, +de todos os graves e momentosos assumptos de que hoje depende a +regeneração politica e moral das +sociedades. <br /> + +<br /> + +Fóra do seu paiz, porém, não +vão tão longe ainda as suas +aspirações. <br /> + +<br /> + +O que ella por emquanto reclama é a igualdade e nivelamento +absoluto de deveres e direitos entre a mulher e o homem. <br /> + +<br /> + +Adoptamos com todo o coração não os +meios, mas o fim d'essa propaganda tão necessaria; mas +não podemos +<span class="pagenum">[197]</span> +concordar de modo algum com o complemento que a feminil oradora +proclama indispensavel. <br /> + +<br /> + +Achamol-o contraproducente, illogico, funesto ás +instituições abaladas, que se pretendem +salvaguardar. <br /> + +<br /> + +Queremos o casamento grave, austero e santo, querermos a +creança +educada com solicitude extremosa, queremos a mulher respeitada e +querida, consciencia de bronze e coração de +cêra, +queremos +na arte um ideal severo e levantado, queremos na sociedade a +incorruptivel e serena justiça, queremos o homem regenerado +e +forte, e é porque desejamos tudo isso, que pedimos a Deus +afaste +para bem longe de nós o terrivel flagello da mulher +dominando o +seu proprio destino e o destino da sociedade. <br /> + +<br /> + +N'um discurso de Victoria Woodhall, pronunciado em Nova-York e +applaudido enthusiasticamente por um auditorio de 40:000 pessoas +leem-se os trechos seguintes: <br /> + +<br /> + +«Fallando do casamento, é escusado dizer que +falamos n'esse casamento ideal que toda a maldade dos homens +não póde destruir; n'esse casamento, de +cujos membros poderá dizer-se com verdade: <em>Foram +unidos por Deus, e o poder do homem, não logrará +desunil-os</em>; +n'esse casamento, de cujas alegrias jámais +quererão apartar-se os que um dia as conhecerem; n'esse +casamento que é tão sagrado, tão puro, +tão santo, que +<span class="pagenum">[198]</span> +nem a sombra de uma discussão póde existir entre, +os dous factores que o determinam; fallamos n'esse casamento em que os +dous representantes oppostos da humanidade―o elemento positivo e o +negativo das raças―se tornam pela +acção e pelo +pensamento n'um unico ser, e tão perfeito, que os mesmos +motores +o movam e o façam pensar e obrar; em resumo, n'esse +casamento do +qual nem a sombra d'um elemento estranho possa alterar a pureza, a +unidade, a ideal +perfeição. <br /> + +<br /> + +«O casamento é geralmente considerado como um +assumpto por demais frivolo ou pueril. <br /> + +<br /> + +«Aceitam-no ou quebram-lhe os laços com a mesma +pressa e a +mesma idéa das responsabilidades que elle impõe, +como se +o considerassem uma +instituição especialmente designada para +satisfazer as +egoisticas paixões da humanidade.» <br /> + +<br /> + +Sim, concordamos plenamente com este levantado ideal do casamento que a +formosa preleccionista apresenta e proclama, mas affirmamos que elle +nunca poderá realisar-se se triumpharem universalmente as +doutrinas que ella tão ardentemente advoga. <br /> + +<br /> + +A prova evidente d'esta nova asserção +é ella quem se encarrega de nol-a fornecer. <br /> + +<br /> + +A mulher, como nós a sonhamos e a queremos, não +é +a forasteira acclamada e illustre que anda espalhando +<span class="pagenum">[199]</span> +por sobre a cabeça das turbas indifferentes ou +passageiramente +commovidas, as suas convicções +e as suas theorias sociaes. <br /> + +<br /> + +Recolhida no seu modesto e placido interior, mãe de um bando +infantil, mimoso e louro, de que ella fosse a providencia, o amparo, a +suprema alegria, esposa de um homem forte e honesto, de um trabalhador, +de um membro activo e laborioso da moderna sociedade, a +acção d'esta mulher seria muito mais restricta, +mas incontestavelmente mais util e mais salutar. <br /> + +<br /> + +Não daria uma hora de commoção +dramatica ao auditorio que viesse ouvil-a, curioso de excentricidades +novas; não julgariam possivel a sua +eleição como presidente de uma republica +poderosa; mas as +pessoas que vivessem em mais ou menos estreito contacto com ella +receberiam a influencia honesta do seu exemplo, e os filhos que ella +educasse seriam outros tantos elementos fecundos da futura +regeneração social. <br /> + +<br /> + +Não é prégando o respeito ao casamento +que se convencem os homens, é provando esse respeito nas +minimas acções e nas acções +mais decisivas de uma existencia. <br /> + +<br /> + +Mrs. Victoria Woodhall tem arrebatamentos soberbos de eloquencia +oratoria, fulminando a decadencia em que o sentimento da familia tem +modernamente cahido, mas como quer ella provar-nos que comprehende +<span class="pagenum">[200]</span> +essa absoluta identificação de duas almas, +essa absorpção de um espirito em outro espirito +seu +irmão, ella que affirma tão rasgadamente a sua +individualidade, ella que apparece em plena luz deixando na sombra +aquelle de que não póde ser senão a +metade incompleta, a porção imperfeita e +mutilada. <br /> + +<br /> + +Anda n'uma gloriosa faina a converter as suas irmãs que +prevaricam ou descreem, ou ignoram. <br /> + +<br /> + +Mas se o exemplo da gloriosa propagandista as tentar e seduzir? <br /> + +<br /> + +Onde fica o lar modesto, o aceio do ninho, o terno amor dos filhos +pequeninos, as obscuras virtudes domesticas, toda a graça, +toda +a poesia, todo o conchego, todo o encanto mysterioso e indestructivel +d'essa ineffavel união chamada o casamento? +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Não nos surprende, porém, este producto +extraordinario de uma sociedade agitadissima e ainda para si propria +indefinida e indefinivel. <br /> + +<br /> + +A America tem-se feito a si mesmo, não procura para as suas +leis e para os seus costumes uma solida base tradicional. <br /> + +<br /> + +N'ella que é tão forte como +nação, tão pertinaz nos intentos, +tão energica nas acções, +n'ella que é uma prova terminante de como em dous seculos se +fórma +<span class="pagenum">[201]</span> +uma raça, +unica e cheia de virginal vigor, ha cousas que estão ainda +perfeitamente vagas e fluctuantes. <br /> + +<br /> + +O destino das mulheres é uma d'essas cousas. <br /> + +<br /> + +Politicamente possuem os mais amplos direitos, podem ser tudo, aspirar +a tudo, todas as carreiras estão abertas diante dos seus +passos; +socialmente é quasi um dogma o respeito que inspiram. <br /> + +<br /> + +Ninguem ousa insultal-as nem com uma palavra, nem com uma suspeita, +gosam de uma liberdade absoluta, andam sós, viajam +desprotegidas +ou antes protegidas pela sua fraqueza omnipotente, nos caminhos de +ferro, nos omnibus, nos paquetes; sentam-se sósinhas +á +meza redonda de um +<em>hotel</em>, fazem emfim impunemente, apoiadas pela +despotica soberania dos costumes, tudo que a nós, +européas de facto ou de +tradição, se affigura quasi monstruoso de +inconveniencia. <br /> + +<br /> + +E no entanto, apesar d'este reinado apparente, apesar d'este predominio +ostensivo, é bem mais profunda a invisivel influencia que as +mulheres do velho mundo exercem em torno de si, não sobre as +leis, o que seria pouco, mas sobre os costumes, o que é +quasi +tudo. <br /> + +<br /> + +É que somos as rainhas do lar; de nosso bom ou mau juizo +depende +a paz ou a guerra, a ventura ou a desgraça, a prosperidade +ou a +ruina, a dôce mediania tranquilla ou a agitada e tempestuosa +existencia mundana. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[202]</span> +Não parecemos nada e somos tudo! <br /> + +<br /> + +Os que mais nos desdenham não escapam ao nosso poder. +Submettem-se-lhe inconscientemente. Os que luctam contra nós +teem de confessar-se vencidos. <br /> + +<br /> + +Não somos medicas, não somos advogadas, +não somos professoras, não somos preleccionistas +officiosas de qualquer theoria, mais ou menos arriscada; mas somos a +influencia continua e permanente, a voz surda que sempre se escuta, a +tentação funesta ou a +guia providencial, o grande poder obscuro, a que se não +furta o +filho, o irmão, o marido, o proprio pae! <br /> + +<br /> + +Que importa que não possamos exercer a nossa +acção dentro da esphera restricta e limitada das +leis, se os costumes ahi estão, para que nós os +criêmos, os modifiquemos, os transformemos, para que +nós lhes dêmos o nosso collectivo impulso enorme! <br /> + +<br /> + +Na America, visto que a mulher tem a faculdade de luctar com o homem no +campo da actividade pratica, é-lhe restringido fatalmente o +seu +poder na esphera em que ella póde e deve ser rainha. <br /> + +<br /> + +O casamento na America protestante, dizem os viajantes que teem +observado os costumes d'essa raça estranha e vigorosa, +é +um contracto temporario que se baseia no calculo, e que o mais leve +atricto póde destruir. <br /> + +<br /> + +O divorcio é alli um facto vulgarissimo, ha mulheres +<span class="pagenum">[203]</span> +divorciadas de tres maridos que +contrahem muito serenamente um quarto matrimonio tão sagrado +e +tão respeitavel como os tres primeiros. <br /> + +<br /> + +Os filhos resentem-se inevitavelmente d'este estado transitorio em que +permanece a familia. <br /> + +<br /> + +Não teem respeito nem disciplina, e é mais do que +provavel que não tenham amor. <br /> + +<br /> + +Em pequenos teem de sujeitar-se ás regras estabelecidas, +logo +porém que sahem da infancia representam por si proprios, +encetam +a grande lucta da vida. <br /> + +<br /> + +A independencia pessoal, o individualismo britannico, accentua-se alli +d'uma fórma muito mais saliente. <br /> + +<br /> + +<em>Cada um por si</em>, eis a lei que rege o +verdadeiro <em>Yankee</em>, lei que herdou de seus +avós anglo-saxonios e que exagerou, accommodando-a +ás despoticas exigencias do seu meio. <br /> + +<br /> + +Assim como a sociedade politica, assenta no principio da mais ampla e +rasgada descentralisação, assim a sociedade moral +é dominada por um principio exagerado de independencia, que +afrouxa necessariamente os laços da familia. <br /> + +<br /> + +Não se faz idéa entre nós do que +é um interior nos Estados-Unidos. <br /> + +<br /> + +Nas classes burguezas e medianamente favorecidas dos bens de fortuna, +vive-se por assim dizer em commum +<span class="pagenum">[204]</span> +n'uma especie de hospedaria, em que +se reune uma duzia ou mais de familias. <br /> + +<br /> + +Ás horas da refeição agglomera-se em +torno da meza aquella multidão de indifferentes que mal se +conhecem; comem á pressa absortos em +preoccupações de ordens diversas que ainda mais +os separam e os distanceiam. <br /> + +<br /> + +A comida feita sem amor, sem solicitude, sem o cuidado que inspiram +á boa mãe e á boa +esposa as predilecções dos filhos e do marido, a +hygiene +da familia, a economia do lar, não tem para nenhum dos +commensaes nem alegria nem sabor. <br /> + +<br /> + +Comem como quem cumpre uma obrigação +indispensavel e enfadonha, e d'alli partem para a faina, para o +trabalho sem treguas, para a lucta acerba e pertinaz. <br /> + +<br /> + +Nem um momento de repouso ou de tranquillo devaneio. <br /> + +<br /> + +A vida é o trabalho; o tempo é mais do que +dinheiro, é sangue. <br /> + +<br /> + +A existencia dos americanos é uma existencia de operario, +tressuada, esmagadora. <br /> + +<br /> + +Todos querem conquistar a sua porção legitima de +abundancia ou mais ainda, de riqueza. <br /> + +<br /> + +Para que? <br /> + +<br /> + +Para terem bem firme a consciencia de que a mereceram. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[205]</span> +Ha uma pressa febril, uma impaciencia vertiginosa, uma ancia de todos +os instantes n'esta raça de impetuosos luctadores. <br /> + +<br /> + +As qualidades e os defeitos britannicos attingem além do +Atlantico um relevo exagerado. <br /> + +<br /> + +N'esta vida cortada de obstaculos e difficuldades, n'esta vida em que a +energia do homem, o seu vigor physico e moral, a dura tenacidade do seu +querer, se exercitam e robustecem na mais desenvolvida escala, que +lugar póde haver para a poesia, para a arte, para as +tranquillas +doçuras da vida domestica, para os prazeres de uma culta +sociabilidade? <br /> + +<br /> + +Ha tempo apenas para admirar as extravagancias imprevistas, as cousas +novas e excentricas que firam a attenção, que se +imponham +rapida e subitamente ao +pasmo das turbas. <br /> + +<br /> + +Deriva do modo inteiramente caracteristico porque os americanos +entendem a vida, o lugar que n'ella dão á mulher. +Isolada +por um esteril respeito, despojada de todo o predominio que entre +nós lhe concedem os costumes, e a +tradição +religiosa e social, a +mulher para tentar adquirir a consciencia da sua +força, +tem +fatalmente de ir procural-a na arena em que luctam os homens. <br /> + +<br /> + +Isto em vez de os converter, mais os liberta d'aquelle poder occulto e +latente, d'aquella doce e invisivel influencia +<span class="pagenum">[206]</span> +que partindo d'alto lhes +suavisaria a indole, os costumes e os gostos. <br /> + +<br /> + +Victoria Woodhall é o fructo genuino d'esta sociedade +incompleta +n'uns pontos e n'outros inteiramente transviada do verdadeiro caminho, +do caminho que conduz á felicidade e ao equilibrio de todas +as +faculdades humanas. <br /> + +<br /> + +Só na America do Norte é que esta valente +prégadora das reformas sociaes podia ter nascido, +só a +America é que podia entendel-a e applaudil-a com +tão +sincero enthusiasmo! <br /> + +<br /> + +Se ámanhã uma das nossas mulheres +começasse a percorrer as grandes cidades da Europa +meridional, +prégando a transformação dos costumes, +os direitos politicos do sexo feminino, a reforma das +instituições, a sua prédica, por mais +eloquente +que fosse, seria abafada em uma tempestade homerica de risos! <br /> + +<br /> + +Aqui muito á puridade, eu não sei se somos +nós, que temos razão!<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 350px; height: 216px;" alt="Criados e Amos" title="Criados e Amos" src="images/fig02.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>CAPITULO XIV </h3> + +<h3>I </h3> + +<br /> + +<div class="breaks"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Fallemos dos nossos criados. <br /> + +<br /> + +É um assumpto este de importancia summa. <br /> + +<br /> + +Tem relações estreitas com a +administração da casa, com o seu aceio, arranjo, +conforto +e bom governo; com a moralidade que n'ella existe, com a figura que +ella representa em relação ás outras +casas. <br /> + +<br /> + +Parece uma questão ridicula e comesinha; tem sido estragada +por +todas as matronas de mau humor que desafogam n'ella a superabundancia +da sua bilis; é o assumpto obrigado das +conversações das +mães burguezas, em quanto nas pequenas +<em>soirées</em> dos quartos +andares <em>as meninas</em> estafam um +desgraçado piano asthmatico, os <em>litteratos</em> +da familia recitam versos a <em>Ella</em>, +<span class="pagenum">[210]</span> +e tres commendadores gordos e +vermelhos disputam acalorada e ferozmente a uma banca de voltarete. <br /> + +<br /> + +Ninguem todavia ainda encarou esta questão debaixo do seu +verdadeiro aspecto. <br /> + +<br /> + +Declama-se contra a decadencia e desmoralisação +dos +criados de hoje, mas ninguem pensou que esta decadencia, que esta +desmoralisação, provém +forçosamente de alguma causa que é necessario +conhecer e +destruir. <br /> + +<br /> + +Á primeira vista, observando na familia, esse elemento que +se +tem tornado tão indispensavel quanto perigoso, nota-se o +seguinte: <br /> + +<br /> + +―Que os criados de hoje não se podem comparar aos criados +antigos, nem na fidelidade, nem na lealdade, nem no desinteresse, nem +na moralidade. <br /> + +<br /> + +Já se vê que esta regra tem +excepções numerosas, de que não +tractaremos, mas que reconhecemos e admittimos. <br /> + +<br /> + +―Que dia a dia se nota n'esta classe um desapego mais profundo pelas +familias a quem serve, e em cujo seio penetra. <br /> + +<br /> + +―Que elles são sempre ou quasi sempre os auxiliares da +traição, do vicio, da desobediencia, e que +portanto é profundamente corruptora a influencia que exercem +na +familia. <br /> + +<br /> + +―Que o seu interesse consiste em especularem com +<span class="pagenum">[211]</span> +as fraquezas ou as maldades d'aquelles +de quem dependem, e que vivem e medram na immoralidade dos seus +superiores. <br /> + +<br /> + +―Que pelo seu comportamento se revelam inimigos natos de todos que +estão acima d'elles, e que presentindo a vantagem que lhes +póde provir do rebaixamento dos entes de quem receiam a +severidade ou que são forçados, muito contra sua +vontade, +a +respeitar, o fim que elles teem, e que procuram por todos os modos +attingir, é o seguinte: penetrar vagarosa e +cautelosamente na confiança dos amos, extorquir-lhes os seus +segredos, e divulgal-os por sêde instinctiva de +vingança, +ou exploral-os, por desejo immoderado de ganho. <br /> + +<br /> + +Posto isto, provado está que os criados são os +nossos <em>inimigos necessarios</em>, e que +é preciso que para com elles a nossa attitude seja por em +quanto inteiramente defensiva. <br /> + +<br /> + +E dizemos <em>por em quanto</em>, por uma +razão muito simples. <br /> + +<br /> + +Porque entendemos que, quando n'uma classe inteira se manifestam +symptomas de corrupção e de +gangrena, a culpa vem por força de longe, e <em>de +cima</em>, +e que devemos applicar-nos com todas as nossas forças e +todos os nossos desejos, a modificar essa culpa, e a redimil-a por fim. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[212]</span> +A que póde attribuir-se o contraste notavel que se reconhece +entre os criados <em>antigos</em> e +os criados de hoje? <br /> + +<br /> + +A muitas causas independentes da nossa vontade, e sobretudo da vontade +d'elles; as causas que teem o seu <em>quê</em> +de politicas, e +seu <em>quê</em> de economicas, o +seu <em>quê</em> de sociaes, o seu +<em>quê</em> de philosophicas. <br /> + +<br /> + +Vejam em quantas questões nebulosas e importantes entesta +esta humilde questão de criados. <br /> + +<br /> + +Transformação completa do viver social e do viver +domestico. <br /> + +<br /> + +D'antes a familia era fundada n'um principio de muito menos +justiça, mas n'uma base de muita mais solidez. <br /> + +<br /> + +Havia o <em>chefe</em> que acolhia +á sua vasta sombra, os irmãos, os parentes +pobres, os +filhos, os servos que eram tambem uma tradição e +tambem +uma +herança. <br /> + +<br /> + +Quando o chefe morria succedia o filho ou o irmão mais +velho, +que herdava os irmãos, os tios, os parentes pobres, os +servos, +todos os haveres, e tambem todas os encargos da numerosa communidade. <br /> + +<br /> + +Os criados entravam ao collo de sua mãe que vinha ser aia, +ou +varredora, ou engommadeira, ou outra cousa qualquer e sahiam de 60 ou +80 annos no caixão para o cemiterio, deixando na familia +nova +geração de servos que eram seus filhos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[213]</span> +D'este modo havia estabilidade nos seus empregos. Só eram +demittidos por <em>erro de +officio</em>. <br /> + +<br /> + +Não receiavam o dia de ámanhã, +não sentiam a esmagadora indifferença dos +superiores a +revelar-lhes que na familia eram párias, eram estranhos, +eram +inimigos. <br /> + +<br /> + +Não precisavam de se apossar de um segredo, de +ameaçar +tacitamente com uma denuncia, de lisongear vilmente um vicio ou mesmo +uma mania, para darem solidez e garantia de +duração +á sua +posição dependente e precaria! <br /> + +<br /> + +Em quanto que na vasta sala de jantar, de tectos apainelados, e +custosos pannos de Arras, em torno da pesada meza de carvalho, +primorosamente entalhada, se reunia alegre a numerosa familia, em que +umas poucas de gerações se enlaçavam, +na +cosinha do palacio, ao lume crepitante das fornalhas enormes, reunia-se +tambem a familia ainda mais numerosa dos antigos servos. <br /> + +<br /> + +Eram paes, mães, filhos, ás vezes netos. <br /> + +<br /> + +Não estavam privados de todas as +condições humanas, tinham as suas festas intimas, +as suas alegrias, os seus affectos. <br /> + +<br /> + +O seu maior empenho consistia em que a familia de que dependiam, +florescesse e prosperasse; a sorte d'elles e dos seus, estava por assim +dizer, identificada com a sorte dos amos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[214]</span> +Affeiçoavam-se áquellas paredes, ou +áquelles moveis, á senhora que era branda e +protectora +para elles, ás creanças que tinham ajudado a +crear, e que +um +dia viriam a conceder-lhes a mesma protecção que +hoje +recebiam dos paes. <br /> + +<br /> + +Eram maus, interesseiros, crueis ás vezes! Embora! +É porque eram homens, e não porque eram servos. <br /> + +<br /> + +Tinham as qualidades boas ou más da humanidade e +não as de uma determinada classe. <br /> + +<br /> + +D'aqui a sua superioridade sobre os criados de hoje. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +No regimen moderno, a familia tem outra +constituição e outros costumes. <br /> + +<br /> + +As fortunas extremamente divididas já não +consentem esse modo de viver opulento e patriarchal. <br /> + +<br /> + +Os mesmos ricos, que são no fim de contas os grandes +financeiros +modernos, esses que juntaram a fortuna de que gosam á custa +de +privações e de trabalho, são egoistas +para todos, +e particularmente duros para os inferiores. <br /> + +<br /> + +Na sua opinião os criados são machinas. Umas +machinas que vestem casaca, e usam gravata branca. <br /> + +<br /> + +Exigem d'elles um serviço irreprehensivel, uma obediencia +passiva, uma disciplina exemplar. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[215]</span> +De resto odeiam-nos porque lhes teem um certo mêdo. <br /> + +<br /> + +Comprehendem perfeitamente que são rediculos, elles que +andaram +tanto tempo de tamancos, a varrer os armazens, a levarem +empurrões e maus tractos dos caixeiros grandes da casa, a +curvarem-se humildemente diante dos <em>patrões</em>, +dando-se agora aquelles ares superiores e desdenhosos de potentados. <br /> + +<br /> + +Emquanto comem em pratos de Sevres ou do Japão, uns manjares +exquisitos que o cosinheiro, o seu cosinheiro de dez ou doze libras por +mez, lhes impinge traiçoeiramente, sentem-se acanhados +diante do +olhar frio, do olhar metallico dos criados de meza, e imaginam que +elles no mudo escarneo d'esse olhar, lhes dizem que estão +percebendo o seu desastramento, os seus gestos grosseiros, e +até +a saudade com que recordam a assorda e o bacalhau salgado dos bons dias +da mocidade. <br /> + +<br /> + +D'esta hostilidade mutua nada bom póde resultar. <br /> + +<br /> + +Os amos são orgulhosos, cheios de desdem, de +indiferença, de duro egoismo; os criados são +hypocritamente humildes, são invejosos, e malevolamente +escarnecedores. <br /> + +<br /> + +Só um laço póde ligar estes +sêres; a cumplicidade. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[216]</span> +De cima não haverá brandura em quanto de baixo +não houver subserviencia criminosa. <br /> + +<br /> + +Ambos o comprehendem de sobejo; comprehendem-no sobretudo os criados +que andam á mira d'um segredo, d'uma +indiscrição, +d'uma descoberta +qualquer que os faça levantar a cabeça. <br /> + +<br /> + +No dia em que a aia recebe a primeira confidencia da senhora, no dia em +que entrega o primeiro bilhete, no dia em que lhe é escutado +o +primeiro recado de que a encarregam, invertem-se os papeis, e +só +continua apparentemente aquella humildade que a suffocava de colera e +de despeito. <br /> + +<br /> + +Era escrava obediente e muda, hoje é cumplice, o que quer +dizer tyranna. <br /> + +<br /> + +Ao marido em caso identico succede o mesmo. <br /> + +<br /> + +Moralidade d'esta situação: o criado de hoje +triumpha quando seus amos se rebaixam. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Entremos nas casas burguezas, que constituem hoje a maioria. <br /> + +<br /> + +Vive-se com pouco, ha uma ou duas criadas, a pobreza traz comsigo uma +certa promiscuidade que abala o respeito. <br /> + +<br /> + +Já aqui os criados não são automatos +que se movem ao impulso d'uma vontade superior. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[217]</span> +Não são mudos, não teem a fria +apparencia aristocratica que revela a opulencia da casa em que servem. <br /> + +<br /> + +Pelo contrario; as criadas estão iniciadas nos pequenos +segredos +da familia, mas como a vida de hoje, toda de expedientes, toda no ar, +desiquilibrada, impostora, não tem aquella dignidade da vida +antiga, as criadas com o seu malicioso instincto plebeu penetram esse +viver, julgam-no e escarnecem-o. <br /> + +<br /> + +Podia-se viver decentemente com o pouco que ha. Chega mesmo para uma +alimentação sadia, para a +satisfação das necessidades indispensaveis; se a +dona da +casa desenvolver os seus recursos de economia, conseguir-se-hia sem +muito trabalho, no fim do anno, <em>joindre les deux bouts</em> +como expressivamente dizem os francezes. <br /> + +<br /> + +O pae é um funccionario bem collocado, o rendimento se +não é grande pelo menos é +sufficiente para uma vida mediocre e laboriosa. <br /> + +<br /> + +Diante d'este quadro parece-nos que não ha brecha por onde +possa penetrar a malicia interesseira da criadagem. <br /> + +<br /> + +Pois ha, minhas senhoras! <br /> + +<br /> + +O dono da casa tem um emprego bom, é verdade, mas aspira a +subir +de posto, quer de mais a mais a carta de conselho, leva isto <em>em +capricho</em> por causa das +<span class="pagenum">[218]</span> +<em>picuinhas</em> do seu collega da +secretaria, o conselheiro Fulano; logo, para attingir este fim desejado +é preciso antes de tudo <em>figurar</em>. <br /> + +<br /> + +Tem de ir aos <em>chás</em> do seu +amigo deputado, ás +<em>soirées</em> do barão de tal <em>que +é muito +influente</em>, tem de dar de jantar de vez em quando ao seu +amigo +<em>cicrano</em> que é parente do primo da +mulher do secretario +particular do ministro, tem de gastar muito em apparato ridiculo, em +luxo avariado, em pompa feita de remendinhos. <br /> + +<br /> + +A mulher, já se entende, não lhe fica atraz! <br /> + +<br /> + +Podéra! <br /> + +<br /> + +E ella então que tem de se vingar d'uns chascos que as +snr.<sup>as</sup> +Silvas fizeram ha tres annos a um vestido de seda um tanto usado que +ella trazia; e que tem de fazer rebentar de inveja a <em>D. +Leocadia</em> que é mulher d'um commendador seu +conhecido; e de <em>quebrar os olhos</em> á +prima Ausenda que anda a dizer +pelas casas do seu conhecimento «que não sabe onde +ella vae buscar para tanto luxo!» <br /> + +<br /> + +Filhas d'estes paes o que serão as meninas? <br /> + +<br /> + +Querem vestidos de seda, embora os comprem em <em>segunda +mão</em>, +querem joias +embora sejam falsas, querem botinas de tacão alto, porque as +teem visto ás pequenas da viscondessa de M. e da baroneza de +S. e da marqueza de V.; querem apparecer no theatro, +<span class="pagenum">[219]</span> +querem ir ao <em>Club</em>, querem tomar +banhos quando não seja em praia elegante, ao menos na +Ericeira; querem <em>reunir á noute</em> uma +vez +por semana, umas visitas que nunca vão, querem fazer emfim o +que por ahi faz <em>toda a gente</em>. <br /> + +<br /> + +Resultado d'isto, resultado inevitavel. <br /> + +<br /> + +Deve-se na tenda, deve-se no carvoeiro, deve-se na modista, deve-se no +sapateiro, deve-se na loja de fazendas, deve-se ás criadas. <br /> + +<br /> + +A falta de seriedade na vida, acarreta comsigo um milhar de pequeninas +humilhações insupportaveis. <br /> + +<br /> + +As criadas vão á porta receber os credores, e +trazem dentro os recados com um sorriso maganão que escapa a +todas as reprehensões e a todos os castigos. <br /> + +<br /> + +Se estão de mau humor resmungam, fazem causa commum com o <em>inimigo</em>, +que +é no fim de contas o <em>confrade</em>; se +estão bem +dispostas dão alvitres, inventam e lembram desculpas, +lamentam a +<em>senhora</em>, etc., etc. <br /> + +<br /> + +De qualquer dos modos amesquinham os amos, estabelece-se entre elles e +ellas uma intimidade funesta. <br /> + +<br /> + +Destroe-se assim o respeito, disciplina, a obediencia, aquella +hierarchia que tem de existir n'uma familia para que essa familia +esteja bem organisada. <br /> + +<br /> + +Um dia, as <em>meninas</em>, que teem recebido a +educação +<span class="pagenum">[220]</span> +mais perniciosa e mais falsa, fartam-se +d'aquella vida de privações intimas, de balofas +apparencias +e querem fugir d'ella. <br /> + +<br /> + +Teem só uma porta: o casamento. <br /> + +<br /> + +Nas familias pobres da burguezia, o casamento é julgado a +porta por onde se sahe da miseria! <br /> + +<br /> + +Quantas vezes não é elle a porta por onde se +entra na desgraça! <br /> + +<br /> + +Começam então a namorar. <br /> + +<br /> + +A namorar seja quem fôr. O alferes que passa, o <em>dandy</em> +pelintra que encontram nos +seus passeios, o <em>litterato</em> pallido e fatal que +olhou +para ellas da plateia. <br /> + +<br /> + +Quem é a confidente natural d'este +<em>namoro</em>, a auxiliar forçada d'esta +intriga ridicula? <br /> + +<br /> + +A criada! <br /> + +<br /> + +É ella quem espia a mãe, e quem ajuda a +enganal-a; é ella quem entrega e recebe as cartas, +é ella quem se <em>farta de rir</em> com a +menina, +ouvindo contar o que ella lhe disse, e o que elle lhe tornou! <br /> + +<br /> + +Quantos perigos, quantas humilhações, quantas +vergonhas n'este facto que é hoje trivial e repetidissimo! <br /> + +<br /> + +A criada só tem a ganhar na execução +d'estes misteres. <br /> + +<br /> + +Ganha indulgencia para as suas proprias faltas, +<span class="pagenum">[221]</span> +uma advogada que ou por medo ou por +sympathia defende a sua causa, e até se tanto fôr +preciso +se revolta +por amor d'ella contra a authoridade maternal. Ganha quem a ajude no +trabalho! <br /> + +<br /> + +Ganha a possibilidade de ser insolente e atrevida, de se vingar da sua +posição inferior, de +desafogar o mau genio, e isto sem perigo de qualidade alguma. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Quando se não dão estes casos que ahi deixamos +apontados dão-se outros identicos ou outros similhantes. <br /> + +<br /> + +Da parte dos superiores indifferença profunda, desejo de +explorar de todos os modos e feitios os dependentes, rudeza, orgulho, +egoismo, desapego. <br /> + +<br /> + +Da parte dos inferiores, a mesma indifferença creada a pouco +e +pouco pela incerteza ácerca do dia de +ámanhã; +desaffeição +pronunciada, despeito, inveja, e desejo de trabalhar o menos possivel, +em troca do maior salario que poderem alcançar, +separação de vida, de interesses, de alegrias, de +affectos. <br /> + +<br /> + +Se entra em casa a doença com todo o seu cortejo de lugubres +tristezas, de vigilias e de lagrimas, nunca a criada saberá +ser +enfermeira. Fará o +serviço, resmungando, furiosa, desattenta, fazendo esperar +um caldo para ir á janella <em>ver quem +passa</em>; deixando apagar +<span class="pagenum">[222]</span> +o lume de +noite porque adormecerá inteiramente esquecida dos que +soffrem e +velam. <br /> + +<br /> + +E que lhe importa a ella no fim de contas que elles morram ou se +salvem. <br /> + +<br /> + +Hoje está aqui, ámanhã +estará n'outra parte! <br /> + +<br /> + +Se adoecer vem uma maca e leva-a para o hospital abandonada, +sósinha como um cão! <br /> + +<br /> + +Não dá porque não recebe. <br /> + +<br /> + +Entre os criados e os amos os interesses são absolutamente +oppostos. <br /> + +<br /> + +A unica circumstancia que póde alterar esta +situação reciproca: a cumplicidade. <br /> + +<br /> + +Que admira, pois, que todos os dias se observe maior e mais profunda +immoralidade nos criados das grandes cidades? que admira que as +excepções se +vão tornando dia a dia mais raras? <br /> + +<br /> + +A culpa é de uns e d'outros, mas o mal tem ainda remedio. <br /> + +<br /> + +Procuremos apontal-o. <br /> + +<br /> + +No que respeita aos amos cumpre: <br /> + +<br /> + +Que sejamos benevolos para que a humildade dos nossos inferiores nunca +seja para elles uma +humilhação. <br /> + +<br /> + +Que tenhamos no interior das nossas casas a maxima dignidade e o maximo +respeito de nós mesmos e dos outros, para que o nosso +exemplo +levante ainda os que estão mais baixo. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[223]</span> +Que vivamos de modo que nunca receiemos o escarneo, ou a censura de +alguem, para que sobre nós nunca possam exercer-se +influencias +funestas. <br /> + +<br /> + +Que não exploremos a actividade dos pobres, para que os +pobres +não tenham interesse em explorar as nossas fraquezas, e +já que é indispensavel +crear-se e educar-se a classe dos criados, juntemos todos os recursos +da nossa experiencia e do nosso bom senso, para dar prompto e efficaz +remedio a todos os males que são por assim dizer o +privilegio +especial d'essa classe. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>II </h3> + +<br /> + +No capitulo anterior, tractando d'esta questão, +tentámos apresentar as causas que determinam e aggravam a +decadencia e desmoralisação dos criados +modernos. <br /> + +<br /> + +Essas causas teem um resultado fatal que vem a ser o seguinte: <br /> + +<br /> + +É tão precaria, tão falta de +garantias, tão exposta a continuas +alterações a sorte dos criados, que +para ella só descem os que n'outra esphera não +poderiam achar collocação que lhes dê a +subsistencia. <br /> + +<br /> + +Os bons, que por acaso ou por circumstancias fortuitas +<span class="pagenum">[224]</span> +acceitam este modo de vida, +são ainda mais desgraçados do que os maus, porque +são mais explorados. <br /> + +<br /> + +Portanto ou fogem d'elle, ou se corrompem fatalmente. <br /> + +<br /> + +Estamos, pois, em face d'este dilemma. <br /> + +<br /> + +Ou havemos de não ter criados, ou havemos de os ter maus. <br /> + +<br /> + +É verdade que fomos nós que voluntaria ou +involuntariamente os corrompemos e estragámos. <br /> + +<br /> + +Concedo. <br /> + +<br /> + +Agora, porém, não se tracta d'isso. <br /> + +<br /> + +Achamos o resultado das nossas proprias culpas e procuramos os meios de +o modificar. <br /> + +<br /> + +Primeira necessidade imprescindivel: é preciso educarmos os +nossos futuros criados. <br /> + +<br /> + +Mas como? <br /> + +<br /> + +Creando para isso instituições especiaes, ou +modificando a indole das que já existem. <br /> + +<br /> + +Tractemos antes de tudo das mulheres. <br /> + +<br /> + +Estão por todo o reino espalhadas, e ainda bem que assim +é, as instituições de +caridade, tanto de iniciativa dos particulares, como de iniciativa do +Estado. <br /> + +<br /> + +O que é que n'esses asylos se aprende, salvo +excepções possiveis, mas que não +chegaram ainda ao nosso conhecimento? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[225]</span> +Aprende-se em primeiro lugar o que hoje é indispensavel para +toda e qualquer situação, por mais humilde que +seja; +aprende-se a ler, escrever, contar, coser e marcar. <br /> + +<br /> + +Aprende-se em segundo lugar a bordar de branco, a bordar de missanga, a +bordar com cabello, a fazer crochet, a tocar orgão ou +<em>harmonium</em>; ha alguns onde se aprende grammatica, +historia, geographia, etc., etc. <br /> + +<br /> + +Muito bem. <br /> + +<br /> + +Em cada cem raparigas, admittimos que haja dez, cuja intelligencia +superior possa mais tarde aproveitar-se d'este genero de estudos. <br /> + +<br /> + +Serão mestras regias, serão talvez caixeiras de +alguma pequena loja, serão mesmo professoras particulares se +houverem progredido no estudo e adquirido uma +instituição +mais solida e mais proficua. <br /> + +<br /> + +Que fazemos das outras noventa? <br /> + +<br /> + +Imaginemos que cincoenta casaram muito moças. <br /> + +<br /> + +Acham um artista, um carpinteiro, um chapeleiro, um entalhador, um +pedreiro, um operario de fabrica, que as rouba á desamparada +solidão que estava á espera d'ellas e que as leva +para o +seu pobre albergue desguarnecido e miseravel. <br /> + +<br /> + +Dos conhecimentos que adquiriram na educação dada +pelo asylo quaes aproveitarão, quaes +applicarão á sua felicidade, ao seu bem estar +domestico? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[226]</span> +Com que trabalho poderão auxiliar o trabalho do marido, +insufficiente para acudir a todas as necessidades do <em>ménage</em>? +<br /> + +<br /> + +Que officio aprenderam a exercer? <br /> + +<br /> + +Dão as voltas de casa, varrem, limpam o pó, +cosinham, mas fazem tudo isto mal. <br /> + +<br /> + +Nunca ninguem as compenetrou bem da importancia altissima +d'estes misteres tão humildes. <br /> + +<br /> + +Ter a roupa do marido bem desencardida, bem engommada, com os seus +remendos bem deitados, ter a casa acciada e fresca, ter uma comida +pobre mas saborosa e bem temperada, ter a alegria, a +abnegação, a boa vontade, e, em muitas das horas +que +ficam vagas, exercer qualquer pequena industria que ajude o marido, +banir de casa a tagarellice das visinhas, viver só com o seu +homem, com os seus filhos, no trabalho continuo, no trabalho fecundo, +isso que é de certo o ideal, quem é que lh'o +ensinou a +praticar? <br /> + +<br /> + +Deixemos, porém, essas cujo destino agora não +precisamos de apreciar e voltemos para as que ficam. <br /> + +<br /> + +Sahem do asylo, vão umas servir, outras vão ser +costureiras, vendedeiras, etc., etc. <br /> + +<br /> + +Umas são as pobres creaturas roucas e aguardentadas que ahi +vemos atravessar as ruas, apregoando hortaliças, ou fructa, +outras as pallidas e anemicas +<span class="pagenum">[227]</span> +creanças, de <em>cuia</em> +postiça, chapeu de aba revirada, polonaise phenomenal, bota +de +tacão alto e cambada, que encontramos á noutinha +ou de +manhã cedo, indo +para casa das modistas, ou voltando de lá. <br /> + +<br /> + +As outras quem as não conhece, ao menos por ter ouvido +fallar d'ellas? <br /> + +<br /> + +São as criadas de hoje, ou serão as criadas de +ámanhã. <br /> + +<br /> + +A educação que lhes deram está em +contraposição perfeita com a tarefa que teem de +cumprir. <br /> + +<br /> + +Uma que foi apresentada para cosinheira, não tem as minimas +noções culinarias, mas em +compensação lê correctamente os jornaes +que veem de manhã. <br /> + +<br /> + +Outra, cuja obrigação é engommar, +não tem geito senão para bordar de matiz. <br /> + +<br /> + +Algumas, menos favorecidas da intelligencia, não sabem o que +aprenderam, nem aprenderam aquillo que fazem. <br /> + +<br /> + +São as mais vulgares! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Porque é pois que se não dá +ás raparigas do povo, ao menos ás que +são educadas nos asylos de +beneficencia, uma educação em harmonia com o seu +futuro papel? <br /> + +<br /> + +Não reprovamos de certo a leitura, a ortographia, +<span class="pagenum">[228]</span> +uns elementos de arithmetica, mas o que +reprovamos é que haja uma uniformidade absoluta na +educação que se ministra a tantas e tantas +creanças de indoles diversas, de intelligencias +diversissimas. <br /> + +<br /> + +Aquellas que tivessem disposições para um genero +de +trabalhos mais levantados, deviam encontral-o n'uma casa especialmente +destinada para as filhas do povo que até aos 12 annos +tivessem +dado +manifestações inequivocas de claro e perspicaz +entendimento. <br /> + +<br /> + +Ali formar-se-hiam futuras professoras, ou futuras artistas. <br /> + +<br /> + +Haveria n'esse estabelecimento mestras ou mestres que a cada uma +conforme a sua vocação ensinassem +as linguas, a musica, a pintura em porcellana, a grammatica, a +geographia, a contabilidade, etc., etc. <br /> + +<br /> + +A essa casa, que devia ser subsidiada pelo governo e auxiliada pela +bolsa particular, iriam as mães de familia procurar <em>professoras +portuguezas</em> para as suas filhas, professoras cuja +educação fosse completa, +e cuja moralidade podesse ser affiançada. <br /> + +<br /> + +Mais tarde os chefes de casas de commercio, mais capazes de +comprehenderem o grande alcance d'esta innovação, +iriam +tambem buscar a essa casa +raparigas honestas, que elles podessem sentar á mesa ao lado +de +suas filhas, e a quem confiassem a contabilidade e os livros do seu +estabelecimento. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[229]</span> +Os fabricantes de louças e outros industriaes achariam na +intelligencia e na prompta comprehensão feminina grande +auxilio, +e auxilio mais economico. <br /> + +<br /> + +Abaixo logo d'essa cathegoria mais elevada de intelligencia, haveria, +n'outra casa, as que tivessem especial tendencia para os trabalhos que +requerem não só engenho, mas tambem habilidade +manual. <br /> + +<br /> + +Costureiras de vestidos, modistas de chapeus, raparigas que soubessem +fazer rendas, fazer franjas, etc., etc., e que o asylo logo que lhes +houvesse completado a aprendizagem, podia empregar convenientemente. <br /> + +<br /> + +Seriam estas, preferidas de certo a raparigas avulsas que entram para +qualquer officio completamente ignorantes do trabalho que teem a fazer. +<br /> + +<br /> + +A disciplina escolar, a instrucção elementar +recebida, a aprendizagem methodica, affirmava-lhes a sua superioridade +enorme sobre as outras. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Collocadas assim as mais destras e as mais intelligentes, ficariam +aquellas cujo espirito menos desenvolvido se recusava a uma +applicação difficil. <br /> + +<br /> + +Estas seriam educadas expressamente para criadas de servir. <br /> + +<br /> + +Mas que educação precisa uma criada? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[230]</span> +Ora essa! <br /> + +<br /> + +Uma criada precisa uma educação tão +cuidadosa como uma duqueza. <br /> + +<br /> + +A differença consiste unicamente n'isto: <br /> + +<br /> + +Uma tem de educar-se para criada, e outra tem de educar-se para +duqueza. <br /> + +<br /> + +No asylo destinado a formar criadas, haveria o mesmo escrupulo na +escolha das mestras. <br /> + +<br /> + +Antes de tudo uma moralidade austera. <br /> + +<br /> + +Depois no que toca á parte technica da +educação, officinas distinctas onde cada uma das +discipulas fosse alternativamente aprender os serviços que +mais +tarde tivesse a cumprir. <br /> + +<br /> + +Officinas onde se aprendesse a cosinhar segundo as regras da hygiene. +Officinas onde se aprendesse a engommar segundo os processos mais +adiantados. Outras onde se lavasse roupa de lã, e roupa de +linho +e algodão. <br /> + +<br /> + +Outras onde se talhasse roupa branca, fatos de creança, e +fatos de senhora. <br /> + +<br /> + +Não se attenderia aqui como no +<em>atelier</em> das modistas do asylo superior, aos +caprichos da moda, mas unicamente á commodidade, ao bom +gosto e á +hygiene. <br /> + +<br /> + +Outras ainda onde se cozesse á machina. <br /> + +<br /> + +Haveria mulheres especialmente encarregadas de +<span class="pagenum">[231]</span> +ensinarem as discipulas a varrer, a limpar o +pó, a esfregar o sobrado, ou a enceral-o á moda +franceza, +a deitar bem <em>rêdes</em>, a fazer +meias, a cerzir panno, etc., etc. <br /> + +<br /> + +Haveria n'este estabelecimento um requinte de aceio hollandez. <br /> + +<br /> + +As mestras escolhidas primeiro nos paizes estrangeiros, e depois +educadas pelo mesmo asylo, ensinariam com o maior cuidado ás +suas discipulas, que as criadas destinadas pelo seu trabalho a +penetrarem no seio de familias inteiramente estranhas a viverem em +contacto com gente de muita qualidade eram forçadas a ter, +além da honestidade commum a todas as mulheres honestas, uma +honestidade particular da sua classe, uma honestidade composta de +elementos muito variados. <br /> + +<br /> + +Dir-lhes-hiam que uma criada boa tem de ser leal, tem de ser digna, de +resistir ás más +tentações, de ser fiel, de ser boa companheira, +de ser +laboriosa e de ter o escrupulo mais exagerado no cumprimento das suas +obrigações. <br /> + +<br /> + +N'este asylo ainda haveria subdivisões necessarias. <br /> + +<br /> + +As mais geitosas para um certo e determinado trabalho applicar-se-hiam +a elle de preferencia, não desprezando porém os +outros. <br /> + +<br /> + +Aquella que fosse destra para tudo, aproveitaria +<span class="pagenum">[232]</span> +egualmente todos os elementos que houvessem de +constituir a sua educação. <br /> + +<br /> + +Ser criada não é―entenda-se bem―nem uma +vergonha nem um <em>pis aller</em>; ser +criada é um officio, ás vezes mais complicado que +os outros, porque comprehende muitos. <br /> + +<br /> + +A unica differença é que se póde ser +uma boa criada não sendo excessivamente intelligente, e que +as +qualidades aqui indispensaveis são robustez, destreza de +mãos, fidelidade, amor de trabalho. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Não se diga que isto é uma utopia impossivel. <br /> + +<br /> + +No estado de adiantamento a que chegou entre nós o principio +de associação applicado á +beneficencia, nada mais facil do que organisar por este modo os asylos +do paiz, ou pelo menos de uma cidade do paiz. <br /> + +<br /> + +Não augmentaria de modo algum a despeza, mas progrediria +necessariamente a educação popular. <br /> + +<br /> + +Reunidas debaixo de uma direcção geral, todas as +casas de +Beneficencia de uma cidade, passaria esta não a crear asylos +novos, mas a modificar a indole dos que existem. <br /> + +<br /> + +Estabelecer-se-hia uma especie de gradação +natural. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[233]</span> +Em baixo a casa que recebesse sem distincçao todas as +creanças de 4 a 10 annos que estivessem no caso de serem +admittidas. <br /> + +<br /> + +Alli, sob a direcção de professores +intelligentes, e de directoras de espirito cultivado, far-se-hia aos 12 +annos de edade a escolha. <br /> + +<br /> + +Umas seriam enviadas para o asylo profissional de 1.ª classe, +outras +para o asylo profissional de 2.ª classe, a terceira para o +asylo das +criadas futuras. <br /> + +<br /> + +Aquellas que estivessem mais adiantadas trabalhariam logo, de modo que +grangeassem um salario por mesquinho que fosse. <br /> + +<br /> + +Esse salario entraria como elemento de receita na caixa central. <br /> + +<br /> + +Este plano, como se vê, não é mais que +um plano embryonario, o germen d'uma idéa que se nos +affigura util e praticavel. <br /> + +<br /> + +Outros melhor do que nós o estudem e desenvolvam, se +entenderem que o merece. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Quanto a nós, acreditamos piamente que só +então começariamos a ter criadas. <br /> + +<br /> + +As que sahissem do asylo com 20 annos de edade ficariam sujeitas a uma +certa e determinada vigilancia, +<span class="pagenum">[234]</span> +cujo systema e cujas bases nos não compete agora explicar. <br /> + +<br /> + +Com estas garantias de moralidade, e de bom serviço, seriam +preferidas a todas que as não tivessem, e pelo menos fariam +uma +util concorrencia ás criadas +indisciplinadas e ignorantes que hoje temos. <br /> + +<br /> + +As casas dignas e honestas teriam criadas cujo comportamento as +não deslustrasse. <br /> + +<br /> + +As outras ficariam com as que teem hoje. <br /> + +<br /> + +Não merecem mais. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Nos asylos dos rapazes, seguir-se-hia uma norma egual ou parecida. <br /> + +<br /> + +Esses como teem campo muito mais vasto para exercerem as suas +actividades complexas, dariam de certo, bem educados e bem dirigidos, +um pequeno contingente para a classe dos criados. <br /> + +<br /> + +Seria um bem. <br /> + +<br /> + +Uma criada representa sempre uma necessidade, um criado representa +sempre um luxo! <br /> + +<br /> + +Para que ha de haver criados de meza ociosos e insolentes, cosinheiros +envenadores e infieis? <br /> + +<br /> + +Estes serviços tão faceis +não podem ser feitos por mulheres? <br /> + +<br /> + +Logo que este uso se propagasse entre os ricos, +<span class="pagenum">[235]</span> +deixaria de ser indicio de pobreza, ou de +habitos plebeus. <br /> + +<br /> + +No fim de contas tudo isto não passa de +convenção! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Já que o Estado julga descer occupando-se d'estas <em>pequeninas</em> +questões de +moralidade domestica, que a iniciativa individual o substitua. <br /> + +<br /> + +Ninguem mais do que nós tem applaudido o engrandecimento +progressivo, o rapido desenvolvimento das +instituições de +caridade. <br /> + +<br /> + +Não é o dinheiro que falta, porque entre +nós quando se falla na miseria, a caridade nunca faltou; o +que falta é uma direcção boa. <br /> + +<br /> + +A rotina n'isto como em tudo é funestissima. <br /> + +<br /> + +A nossa caridade official dá pão e vestuario +ás creanças, mas que faz em favor das mulheres? <br /> + +<br /> + +Dando-lhes uma educação que não +está em harmonia com os seus meios futuros, condemna-as +á +miseria, á desgraça, quantas vezes á +ociosidade +e á ignominia? <br /> + +<br /> + +A educação deve fazer-se pratica e positiva, deve +tornar-se um preventivo efficaz contra os maus conselhos da pobreza ou +da preguiça! <br /> + +<br /> + +Os que pensarem n'isto farão um bem á familia, e +á +sociedade. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 350px; height: 230px;" alt="Creanças" title="Creanças" src="images/fig03.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>CAPITULO XV </h3> + +<h3>I </h3> + +<br /> + +<div class="breaks"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +São ellas a alegria da familia, como a familia é +a suprema ventura dos felizes, e o supremo consolo dos +desgraçados. <br /> + +<br /> + +Quando apparecem trazem comsigo o sol; tudo se illumina. <br /> + +<br /> + +Sorriem os labios mais ironicos, marejam-se de lagrimas doces os olhos +mais aridos, estendem-se prodigas de bençães as +mãos mais avaras. <br /> + +<br /> + +Ellas são a graça que se ignora, a fraqueza que +nenhum +poder assusta, a innocencia que interroga, a aurora intellectual que +desponta e que diffunde em torno de si uma luz cariciosa e limpida, uma +luz que se reflecte em jubilos no coração das +mães. <br /> + +<br /> + +Tudo na vida é para ellas mysterio, mysterio que as chama e +as attrahe, cujas trevas as não apavoram, +<span class="pagenum">[240]</span> +em cujos sinistros meandros nem sequer +receiam perder-se. <br /> + +<br /> + +Em cada um d'aquelles pequeninos cerebros encerra-se em germen tudo que +é no homem pequenez ou grandeza, genio ou mediocridade, +força ou impotencia, virtude, +abnegação, +esquecimento de si ou +egoismo, vicio e crime. <br /> + +<br /> + +Onde ha maior mysterio do que a creança? <br /> + +<br /> + +Debalde a interrogamos; não sabe responder, senão +áquelles que pelo poder da sympathia logram identificar-se +com ella. <br /> + +<br /> + +Recebel-a das mãos de Deus é para a mulher, para +a mãe a mais tremenda das responsabilidades, e +desgraçadamente aquella de que tem a consciencia menos +definida e menos clara! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Ser mãe, quem o não é? <br /> + +<br /> + +A difficuldade e o segredo é saber sel-o. <br /> + +<br /> + +Na sociedade, tal como ella está constituida e +continuará a estar por largos e dilatados annos, dous entes, +um +homem e uma mulher, moços ambos, encontram-se, olham-se, +sorriem-se e pensam de si para comsigo que estão +<em>apaixonados</em>. <br /> + +<br /> + +Durante alguns dias, alguns mezes, a que elles em falsa e sentimental +linguagem chamam <em>seculos</em>, repetem +<span class="pagenum">[241]</span> +um ao outro, n'um tom mais ou menos +desafinado os <em>duettos</em> de ternura doentia que os +romancistas, os prosadores e os <em>maestros</em> +inventaram +para conveniencia sua... dos seus emprezarios e editores, e para +envenenamento do resto da humanidade. <br /> + +<br /> + +N'este meio tempo, por detraz dos bastidores, os paes, que fingem <em>não +ver +nada</em>, calculam <em>in +petto</em> quaes os prós e os contras pecuniarios do +matrimonio hypothetico. <br /> + +<br /> + +Se os primeiros levam certa vantagem aos segundos, celebra-se com a +devida pompa o almejado consorcio, e n'essa noite ha mais dois +desconhecidos, dois indifferentes, dois estranhos acorrentados um ao +outro por um laço que devia ser sagrado, e que muitas vezes +consegue sómente ser... dourado! <br /> + +<br /> + +O marido no outro dia vae para as suas labutações +do costume, para a vida exterior que o reclama e absorve, a mulher fica +em casa provando os vestidos do enxoval, experimentando se lhe fica bem +a touca, distinctivo invejavel das noivas, ensaiando os seus primeiros +vôos timidos de senhora independente, que póde +á sua vontade fechar o piano, atirar fóra o lapis +e as +tintas, +deixar para um canto a costura e o bordado, e subverter-se sem receio +das censuras maternas no <em>dolce +far niente</em>, que tanto a namorava em seus dias de educanda +submissa. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[242]</span> +D'alli a um anno, se é boa, docil, se tem a +intuição das cousas delicadas, se um poderoso +instincto +de creatura amoravel lhe pede que espalhe em volta de si a felicidade, +concedamos-lhe que já tem tido tempo de conhecer e apreciar +seu +marido, que principia a estimal-o, que se lembra um poucochinho +envergonhada dos falsos lyrismos de solteira, das cartas que lhe +escrevia <em>fazendo estylo</em> +e copiando phrases +dos grandes apaixonados que a lenda e o romance immortalisam; que tem, +emfim, ainda incompleta, mas já accentuada a +noção +da verdade e da justiça que ha +de guiar-lhe a vida. <br /> + +<br /> + +Param, porém, aqui os seus conhecimentos, e um dia, +surpreza, +encantada, extactica, chorando de alegria, umas lagrimas verdadeiras, +d'estas que se escoam entre risos de gratidão, percebe que +tem +nos braços um pequenino ser, a quem tem direito de chamar +filho, +porque o gerou no seio em longos mezes de agonia insondavel. <br /> + +<br /> + +Que ha de fazer d'elle? Como ha de desenvolver, robustecer, cultivar a +saude d'aquelle entezinho, fragil e indefezo, que lhe solta no +regaço os seus primeiros vagidos, buscando com a boquinha +faminta e o instincto animal, que Deus concede a todos os seres +creados, a primeira gotta do leite materno, que é a sua +vida? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[243]</span> +Entram as amigas e dizem-lhe em côro: <br /> + +<br /> + +―Não o cries que perdes a formosura, o viço, a +mocidade, tudo o que prende e captiva teu marido. <br /> + +<br /> + +―Não o cries, que tens de te despedir dos bailes, das +noites +triumphantes em que a valsa nos arrebata nos circulos vertiginosos, em +que as flôres e as finas essencias nos embriagam com o +perfume +enervante, em que a musica nos côa nos sentidos as suas +caricias +languidas, em que a luz crúa do gaz nos beija as espaduas +opalinas, em que a admiração dos homens nos +envolve na +audaz provocação dos seus olhares, em +que a inveja das mulheres nos enrosca em espiraes de cobra. <br /> + +<br /> + +―Não o cries, que terás de perder as noutes, +não entre alegrias e folgares, mas na alcova, onde a medo +bruxoleia a luz mortiça da lamparina, junto de um pequeno +berço, ouvindo aquelle choro da infancia, +tão doloroso para os ouvidos maternaes. <br /> + +<br /> + +Teu marido fugirá de ti; elle, que anda cansado da faina +diaria, +quer as noutes tranquillas, os somnos fartos, as placidas madrugadas; +repugnam-lhe os primeiros trabalhos que a creança tem que +dar +por força á mãe, que fôr +mãe, na +accepção plena da palavra. <br /> + +<br /> + +Não creio que a maior parte das mulheres ouça os +funestos +e corrosivos conselhos das amigas falsas; hoje começa a +radicar-se em todos os espiritos a convicção <span class="pagenum">[244]</span> +justa e sensata de que só a mãe, quando +é robusta, ou quando é simplesmente +sã, deve amamentar o filho. <br /> + +<br /> + +Entregal-o aos braços mercenarios de mulher estranha +é aceitar a mais tremenda das responsabilidades. <br /> + +<br /> + +A ama póde communicar no leite os seus vicios, os seus +instinctos maus, as suas doenças ou defeitos de +organisação hereditaria, toda a +herança fatal de um passado inteiramente desconhecido para +as +pessoas que tão levianamente lhe confiam o que devia ser o +mais +precioso thesouro da sua alma. <br /> + +<br /> + +Abstraiamos, pois, a ama, por não querermos suppôr +que se trata aqui de uma mãe frivola até ao +crime, despiedosa até á ferocidade, ou fraca a +ponto de não poder cumprir os deveres da sua +missão +maternal. <br /> + +<br /> + +Fica-nos simplesmente a mãe inexperiente e ignorante em face +da +recem-nascida creatura, flôr que precisa o mais desvelado +cultivo, a mais complexa das educações. <br /> + +<br /> + +Não a accusemos ao vel-a aceitar o seu mimoso fardo com +tão leviana confiança, com uma +tão plena inconsciencia da grande missão que +precisa de cumprir. <br /> + +<br /> + +A culpa não é d'ella; n'este ponto ha um +criminoso apenas―é o homem. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[245]</span> +Abrem-se universidades, lyceus, escolas, seminarios, institutos +scientificos, para educarem no seu seio os jurisconsultos, os medicos, +os sacerdotes, os mathematicos, os commerciantes, os sabios, os +cidadãos do futuro. <br /> + +<br /> + +Só falta uma escola, a primeira, a mais indispensavel das +escolas, a que facilitaria e tornaria fructiferos os trabalhos das +outras: falta a <em>escola das +mães</em>! <br /> + +<br /> + +Ninguem se lembrou ainda de a crear, julgam-na desnecessaria, ou talvez +que a julguem frivola. <br /> + +<br /> + +―Como é que se ha de ensinar a ser mãe? +é só a natureza que instrue a mulher. Ha +mães de +quinze annos que sabem mais n'este assumpto do que velhos pensadores de +sessenta. Deixae obrar a natureza, é ella a grande mestra, a +suprema inspiradora! <br /> + +<br /> + +De accordo, meus senhores; quem é que nunca se lembrou de +negar +á mãe o seu divino instincto de +protecção e de ternura? Quem ao vel-a segurar com +tão delicado carinho o tenro corpo do filho, acalental-o nos +braços, adivinhar-lhe as necessidades e os desejos +até para elle indistinctos, negará que entre +esses dous +entes ha uma cadeia mysteriosa, que a natureza nunca poderá +mais +desatar? <br /> + +<br /> + +Mas é necessario que o estudo auxilie o maravilhoso +instincto, +que elle ensine á mãe a comprehender no seu +triplice aspecto, physico, moral e intellectual, +<span class="pagenum">[246]</span> +a educação do ser complexo, que hoje é +uma fraqueza que implora auxilio e ajuda, que +ámanhã +será uma força util ou funesta, conforme a +direcção que haja recebido desde os mais tenros +annos. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<em>O estudo que comprehende todos os outros estudos, e que deve, +portanto, constituir o ponto culminante da +instrucção, +é a theoria e a pratica da +educação da infancia.</em> <br /> + +<br /> + +Estas palavras de Herbert Spencer, o philosopho mais notavel da moderna +Inglaterra, um grande pensador, um chefe de escola, provam de sobejo +até que ponto, aos olhos do homem que medita, avulta hoje o +grande problema da educação. <br /> + +<br /> + +É um erro imaginar que a creança nasce boa. <br /> + +<br /> + +Ha n'ella instinctos innatos de natureza selvagem, instinctos +primitivos, que só uma habil cultura modifica, transforma, +encaminha ou desarreiga. <br /> + +<br /> + +Toda a creança é curiosa: mães +aproveitae essa grande força, que conduz o homem +á conquista de +todas as grandes descobertas da sciencia e da arte, e que +póde quando entregue a si conduzir a creança +ao mais deploravel e mesquinho dos vicios de caracter, á +curiosidade esteril do ocioso, da <em>senhora +visinha</em>. +A creança tem o instincto do roubo. Apossa-se do que +<span class="pagenum">[247]</span> +vê, do que attrahe pelo brilho, do +que lhe desafia a cubiça, a gulodice, o amor da posse. <br /> + +<br /> + +Leitora, quando o teu pequenino de tres ou quatro annos tiver artes de +te roubar uma joia muito querida, um manjar muito reservado, um +<em>bibelot</em> qualquer, que seja para ti de grande +estimação, não +chores desconsolada, lendo n'esse primeiro symptoma sinistras +prophecias. Esse prenuncio de ambição desregrada +póde, dirigido com previdente vigilancia, transformar-se na +legitima energia que leva o homem a desejar a posse das riquezas +honestamente adquiridas, a exercer no seu espirito uma influencia +fortificante, a tornal-o pertinaz no caminhar para um ficto que de +longe antevio. <br /> + +<br /> + +Dirigir toda e qualquer tendencia para um fim elevado e util, combater +a inercia, a preguiça physica e intellectual da +creança, +empregando activos reagentes, ir ajudando lenta e gradualmente a +evolução +natural do entendimento infantil, abrir-lhe o espirito a todas as +curiosidades sãs, apontar para a natureza inteira como para +um +livro enorme, mysterioso, cheio de apaixonado interesse, de peripecias +dramaticas, de imagens vistosas, que elle ha de ir decorando a pouco e +pouco, conduzil-o até ao limiar da adolescencia, puro de +coração, immaculado no corpo, prompto e apto para +absorver em si os conhecimentos complexos que o esperam, robusto, +são, energico, confiante, cheio de crença +<span class="pagenum">[248]</span> +nos outros, e de +crença maior em si, eis a missão +das mães. Que de cousas não são +indispensaveis para a saber cumprir! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Uma das cousas que a mulher quasi geralmente ignora +é a +hygiene pratica, que ella tanto precisava saber, tendo, como tem, a seu +cargo a +distribuição e direcção do +alimento da +familia. <br /> + +<br /> + +Do alimento que se ministra á creança depende em +grande parte não só a sua futura saude, mas, o +que poucas mulheres sabem,―o seu caracter futuro! <br /> + +<br /> + +Dae a uma creança alimentos irritantes, inflammaveis, +apimentados; deixae-a usar sem discernimento de bebidas em que o alcool +predomine, e tereis o temperamento adulterado, o caracter azedo, os +habitos baixos, os gostos perversos, todas as +aberrações +de um organismo estragado. <br /> + +<br /> + +Dae-lhe só carne, alimentae-a brutalmente de materias +fortemente +azotadas, e fareis d'ella, da meiga e fragil creatura, do pequeno anjo +de cabellos louros e olhos innocentes, um temperamento sanguinario, +selvagem, amigo das luctas bravias, das +distracções +violentas, dos exercicios athleticos, que caracterisam as rigorosas +raças do norte. <br /> + +<br /> + +Exemplo: os inglezes, que só domam as revoltas +<span class="pagenum">[249]</span> +brutaes do temperamento com a forte +disciplina de uma educação que é o +supremo +milagre do espirito sobre a materia. <br /> + +<br /> + +A alimentação fraca produz os organismos inertes, +fleugmaticos, sem impulso, sem fibra, sem energia duravel. <br /> + +<br /> + +Saber pois, conhecer os diversos attributos que caracterisam a +alimentação do homem, saber +combinal-os de modo que todos concorram para o seu bem-estar physico, e +que nenhum produza as graves +perturbações organicas de que podem ser origem, +é +a sciencia das mães, sciencia para cujo estudo devem tender +todos os seus esforços. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +A actividade quasi incessante da creança é um dos +meios +que mais efficazmente concorrem para o seu crescimento physico e, por +consequencia, para o seu desenvolvimento intellectual. <br /> + +<br /> + +As mães, julgando fazer n'isto um grande serviço +a seus +filhos, combatem por todos os modos esta actividade, obrigando as +creanças a uma quietação +que se transforma em supplicio para os pequeninos corpos +buliçosos, que um impulso involuntario leva a um quasi +continuo movimento. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p250">[250]</a></span> +Não é só com as +reprehensões, ás vezes asperas e sempre injustas, +não é só encerrando +os pobres seres pequeninos em espaço muito estreito para os +seus +desejos, é tambem vestindo-os para obedecer ao despotismo da +moda, e ás exigencias da propria vaidade de um modo que +está em pleno contraste com a idéa +que todo o espirito um pouco sensato deve formar das +aspirações e necessidades da infancia! <br /> + +<br /> + +A creança, que quer e que precisa de correr no +espaço +amplo, pelas ruas pedregosas, pelos campos lavrados, pela matta cheia +de raizes, traz quasi sempre uma botina alta, justa, de salto levantado +e estreito! Ella, que aspira aos movimentos livres, que se compraz nos +<a href="#e6">grandes gestos</a>, que trepa +ás arvores, que se roja pelo +chão, que atira ao longe os improvisados projectis que +encontra, +sente-se cruelmente cingida por um fato rico, elegante, phantasioso, +caro por força, e que tem o defeito duplo e contradictorio +de a +entristecer lentamente, inconscientemente pelas censuras e ralhos de +que lhe é motivo incessante―visto que +não ha nada mais avarento do que a prodigalidade e nada mais +economico do que a ostentação―e de a tornar +vaidosa pelo habito e pelo gosto de attrahir as vistas dos frivolos, e +a inveja dos pobres, dos pequenos rotos, dos miseraveis de cinco annos, +que ignoram as alegrias bemditas da sua liberdade indomada! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[251]</span> +Mães, arrancae ao vestuario dos vossos filhos tudo que +fôr vaidade, falso luxo, ostentação +ridicula! <br /> + +<br /> + +A graça das creanças consiste na plena +expansão da sua vitalidade; o luxo d'ellas está +no doce +aroma de infancia que de si exhalam, e que falla de aceio, de pureza, +de carinho materno, que revela―aos que sabem ver―as matinaes e +frescas alegrias do banho, as risadas crystallinas como perolas que se +desfiam, os gritinhos infantis, as fugidas subitas, todo esse poema, +que ninguem traduz, de um bando de pequeninos corpos, feitos de leite e +rosas, com cabelleiras louras por aureola, que uns braços +amorosos amparam, susteem, acariciam, em quanto que um sorriso meigo e +pensativo illumina em clarões de limpidez ideal, uma bocca +que +só sabe abençoar, uns olhos +de mãe, que nunca desamparam nem desfitam o tepido ninho das +suas doces aves implumes. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>II </h3> + +<br /> + +Por muito tempo todas as attenções do homem se +fixaram +n'um ponto que se avistava para além da vida terrestre. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[252]</span> +Curava-se sómente da alma considerando a terra morada +transitoria, cheia de males e de miserias, e o corpo ephemero +involucro, especie de lodoso carcere onde o espirito prisioneiro +anciava por levantar o vôo para as altas espheras da eterna +bemaventurança. <br /> + +<br /> + +Este pensamento, que dominava todos os outros e ao qual todos os outros +se subordinavam, é a causa suprema de onde deriva toda a +philosophia da edade média, e que determina o ideal a que +tenderam os sonhos de milhares de gerações, +nossas +predecessoras na vida. <br /> + +<br /> + +Foi elle que estabeleceu o medonho antagonismo entre o espirito e a +materia, causa de tantos erros e de tão falsas +interpretações; foi elle +que levou o homem perdido e transviado a considerar a natureza como a +sua mais cruel inimiga, como a sua +tentação mais perigosa e abominavel. <br /> + +<br /> + +D'esta guerra anti-humana e anti-natural nenhuma conquista verdadeira +poderia provir. <br /> + +<br /> + +Era falso o ponto de vista de que o homem partia, falsissimas todas as +deducções que d'esse ponto de vista resultavam. <br /> + +<br /> + +O corpo era um farrapo miseravel que só merecia desprezo e +humilhação; todo o prazer, ainda o +mais natural era um peccado que cumpria expiar cruelmente; +<span class="pagenum">[253]</span> +a vida era um periodo curto de +passagem e penitencia; a creança nascida já vinha +contaminada do peccado original; a alma, só a alma precisava +dos nossos cuidados, das nossas meditações, do +nosso +mais especial e esmerado cultivo! <br /> + +<br /> + +Quantos erros de educação, de moralidade e de +hygiene! <br /> + +<br /> + +Quantas revoltas medonhas este despotismo espiritual não +excitava! <br /> + +<br /> + +Mas foi por acaso esse tempo de pura espiritualidade? <br /> + +<br /> + +Pelo contrario! <br /> + +<br /> + +Nunca os instinctos maus do homem imperaram com mais violencia! Nunca +se materialisaram mais todos os cultos e todas as idéas! <br /> + +<br /> + +O Deus que todos adoravam em extasis apaixonados, era o Christo +dolorido, cadaverico, crivado de pregos, escorrendo sangue de cada uma +das suas chagas abertas. <br /> + +<br /> + +A dôr maternal era symbolisada por sete espadas atravessando +um coração dilacerado. <br /> + +<br /> + +Os fanaticos mostravam á admiração das +turbas os estygmas sangrentos das suas carnes palpitantes. <br /> + +<br /> + +Os ascetas tinham visões nas quaes o Padre Eterno, o +Christo, a +Virgem, os Santos, lhes appareciam sob a fórma humana, com +feições diversas e caracteristicamente +<span class="pagenum">[254]</span> +accentuadas, fallando na linguagem mais correntia e mais +chã. <br /> + +<br /> + +A <em>resurreição da +carne</em> era um dos pontos fundamentaes do dogma catholico. O +espiritualismo d'essas éras barbaras era muito mais +<em>material</em> do que a sciencia de hoje. <br /> + +<br /> + +―Para que aperfeiçoarmos e amenisarmos a vida,―diziam do +alto +dos seus pulpitos ou nas paginas dos seus tractados as +terriveis +authoridades d'essas éras tão hostis para o +homem.―Quanto maiores supplicios houvermos padecido n'este momento +rapido, maior quinhão de gloria tem para nós a +eternidade. Sofframos todas as humilhações mais +abjectas, +curvemo-nos diante de todas as tyrannias, deixemos que os vermes +devorem o nosso corpo ulcerado, sejamos grandes em face do Senhor, como +Job na sua gloriosa estrumeira. Os que forem ultimos cá em +baixo, serão os primeiros no céu! <br /> + +<br /> + +E a humanidade, ébria de um sonho de beatitude immortal, +perdia +a força para combater, e esperava passivamente a +resurreição esplendida que os +illuminados lhe promettiam! <br /> + +<br /> + +Oh! quanto devemos á robustez de espirito, á +fé fecunda e creadora que moveu alguns homens privilegiados +a +fazerem-nos sahir d'esse marasmo estagnador! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[255]</span> +Foram esses homens os verdadeiros creadores da sciencia, que hoje +illumina até os mais ignorantes, dos bens que hoje +desfructam +até os mais desgraçados. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Um dos problemas resolvidos pelos modernos, e que se não +fossem +esses benemeritos de que acima fallamos ficaria para sempre obscuro, +é o problema da educação. <br /> + +<br /> + +Segundo o ponto de vista da edade média, a mãe +não devia attender senão á alma de seu +filho. <br /> + +<br /> + +Era preciso fazer d'elle um santo, e as mais das vezes só se +fazia um bandido. <br /> + +<br /> + +E que o alvo a que se tendia era estupido e anti-natural e os meios de +que se usava eram inteiramente contraproducentes. <br /> + +<br /> + +Hoje a mãe já não tem desculpa nem da +sua ignorancia propria, nem da ignorancia da sua época. <br /> + +<br /> + +Se não sabe é porque não quer saber. <br /> + +<br /> + +O homem moderno tem applicado grande parcella da sua prodigiosa +actividade em descobrir os meios mais efficazes de fazer as +gerações que vão seguir-se-lhe +melhores do que as +gerações que o precederam. <br /> + +<br /> + +Está pacificada a guerra que se havia travado entre a alma e +o corpo. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[256]</span> +Mais ainda; hoje comprehende-se perfeitamente que é da saude +do +corpo que depende a saude da alma, e que os maus são quasi +sempre os enfermos ou os defeituosos. <br /> + +<br /> + +O caminho das boas mães está naturalmente +traçado. <br /> + +<br /> + +Não poupar esforços para aperfeiçoar e +robustecer o corpinho querido, dentro do qual está crescendo +e desabrochando a flôr maravilhosa, a flôr +delicadissima, que é a alma infantil. <br /> + +<br /> + +Poucas pessoas comprehendem a fundo qual seja a responsabilidade de +ser mãe. <br /> + +<br /> + +Não a póde haver mais seria e mais tremenda. <br /> + +<br /> + +Desde que a creança nasce até ao segundo periodo +da sua vida, em que ella já começa a ser +susceptivel de ensino, quantos cuidados multiplos, engenhosos, +delicados e constantes! <br /> + +<br /> + +Um movimento menos suave, um golpe de ar quando a creança +está no banho, um abafo excessivo ou uma imprudente e rapida +mudança de habitos, qualquer pequena cousa que á +primeira +vista parece insignificante, póde ter um alcance enorme no +futuro do querido entezinho. <br /> + +<br /> + +Sabemos de uma creança que ficou cega, porque estabeleceram +uma +corrente de ar no quarto em que ella tomava um banho tepido. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[257]</span> +Conhecemos uma pobre mulher, que tem padecido toda a vida cruelmente, +que nunca pôde trabalhar, nem ser util a ninguem, porque a +tornou +rachitica uma quéda que a fizeram dar brincando com ella em +pequena. <br /> + +<br /> + +Ha muita gente que se diverte estupidamente atirando as +creanças +ao ar, fazendo-as dar voltas, abalando-lhes o pequeno cerebro. <br /> + +<br /> + +Quem póde dizer os resultados fataes para o seu organismo +que d'ahi resultam! <br /> + +<br /> + +A creança é tudo que ha de mais fragil e de mais +delicado. <br /> + +<br /> + +Pensem bem todas as mães que um erro de hygiene +póde ás vezes fazer de uma indole pacifica uma +indole perversa. <br /> + +<br /> + +A alma e o corpo, os dous irreconciliaveis, inimigos de outro tempo, +estão hoje para todos os olhos +tão estreitamente unidos, tão profundamente +identificados, que não ha abalo ou +sensação que um +experimente e de que o outro deixe de resentir-se logo. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Pensam muitas mães que o melhor meio de emendarem os erros +de +seus filhos, são os ralhos repetidos e os castigos severos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[258]</span> +Engano perfeito! <br /> + +<br /> + +O unico meio de educação verdadeiramente proficuo +é o exemplo. <br /> + +<br /> + +Que encargo de almas não assume a mulher que quizer ser boa +mãe! <br /> + +<br /> + +A mais doce e a mais tocante relação reciproca +que existe entre a mãe e o filho, é aquella em +virtude da qual a mãe educando-se educa, e o filho sendo +ensinado ensina. <br /> + +<br /> + +Emquanto ensinamos os nossos filhos, a nós proprias nos +estamos illustrando. <br /> + +<br /> + +Pensando nas virtudes que elles devem adquirir e no meio de lh'as +inocularmos no coração, como que +se nos vão lentamente revelando todas as bellezas +incomparaveis +d'este mundo moral, de cuja contemplação +andavamos, senão alheiadas, ao menos distrahidas. <br /> + +<br /> + +Oh! de quantos rasgos bons não é origem para a +mãe, o receio de vêr traduzir-se um espanto +accusador nos olhos limpidos de seu filho. <br /> + +<br /> + +E depois é necessario que todas as educadoras pensem muito +n'esta verdade tão simples e tão lucida. <br /> + +<br /> + +O exemplo, é que ensina, guia e robustece a alma e educa o +espirito. <br /> + +<br /> + +Que importa que ella pregue e ensine as boas palavras, e a brandura do +caracter, se ella não provar +<span class="pagenum">[259]</span> +com o seu exemplo de todos os dias a +divina graça d'estas qualidades e d'estes usos? <br /> + +<br /> + +A creança obedecerá talvez, mas sem convencimento +e sem alma! <br /> + +<br /> + +Para que todas as bençãos de Deus chovam sobre a +cabeça das que sabem ser boas mães, nem esta +benção suprema lhes faltou. <br /> + +<br /> + +Ao contacto divino da infancia, na doce intimidade da innocencia, +perdem defeitos e ganham virtudes. <br /> + +<br /> + +A educação bem comprehendida é +tão util á mãe como á +creança.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Imagine-se uma creatura fraca, indolente, tendo sido de pequena +criminosamente amimada, mas ao mesmo tempo possuidora de claro e +perspicaz entendimento. <br /> + +<br /> + +Tem habitos inveterados de preguiça, tem horas desoladoras +de +tedio e de morbida melancolia. O tempo para ella é pesado e +longo. <br /> + +<br /> + +Vive, não <em>gosando</em> as +horas porém <em>matando-as</em> como +póde. <br /> + +<br /> + +Não se occupa, não reage contra o seu natural e +funesto +prostramento, não tem um fim util e querido para o qual +viva. <br /> + +<br /> + +Um dia esta creatura infeliz é mãe! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[260]</span> +Comprehende toda a responsabilidade que lhe cahiu sobre os hombros, e +como no fim de contas é intelligente e boa, quer cumprir +dignamente a sua sagrada missão. <br /> + +<br /> + +Como é milagrosa e abençoada a influencia que +n'este caso +a creança innocente exerce no caracter de sua +mãe. <br /> + +<br /> + +Acabaram-se as longas scismas dolentes, as doentias tristezas, os +inuteis desalentos! É preciso que ella ensine a viver +á +fragil creaturinha que Deus confiou aos seus braços. <br /> + +<br /> + +Quantas d'estas redempções se não +devem á infancia! Quantas vezes a mão +inconsciente de um +pequeno ser de dous ou tres annos não tem redimido +os +erros de seus paes! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Lembra-nos, a proposito d'isto, uma poesia deliciosa que +lêmos ha muitos annos, e cuja idéa +é esta. <br /> + +<br /> + +Duas desgraçadas creaturas, d'estas que a miseria prende +ás vezes mutuamente por ephemeros laços, +arrastavam juntas uma vida angustiada e degradante. <br /> + +<br /> + +<em>Ella </em>sem coragem, sem aceio, sem +actividade, sem aquella força que ao mais negro +albergue póde dar +a mysteriosa graça dos ninhos; +<em>elle</em>, ocioso, cruel, covarde diante da +desgraça e +diante do trabalho, ébrio +<span class="pagenum">[261]</span> +ás vezes, d'aquella selvagem +embriaguez da aguardente e do absintho. <br /> + +<br /> + +Porque se conservaram unidos? <br /> + +<br /> + +Nem elles proprios o sabiam. <br /> + +<br /> + +Poder do habito, abjecto marasmo das supremas +degradações. <br /> + +<br /> + +Um dia, n'aquelle antro miseravel, soou o vagido de uma +creança. <br /> + +<br /> + +Não se admirem. <br /> + +<br /> + +Tambem ás vezes das podridões de uma sepultura +desabrocha uma rosa de maio. <br /> + +<br /> + +Quando á noite o homem voltou de suas +divagações sem rumo, a pobre mulher prostrada nas +palhas apodrecidas da enxerga, perguntou-lhe espantada: <br /> + +<br /> + +―Porque me não bates? porque me não ralhas? quem +é que suspendeu o insulto da tua bocca, e os golpes dos teus +braços? <br /> + +<br /> + +E elle, o homem perdido e brutal, respondeu baixinho com um +enternecimento desconhecido na voz rouca: <br /> + +<br /> + +―<em>Tenho medo de acordar o pequenino.</em> +<br /> + +<br /> + +―<em>J'ai peur de réveiller +l'enfant.</em> <br /> + +<br /> + +Oh! creanças, creanças, como isto revela bem o +poder +divino que é tão vosso! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[262]</span> +Tenho fallado muito ás mães n'este assumpto. <br /> + +<br /> + +Nunca me cansarei de lhes repetir que se entreguem bem do intimo d'alma +á educação dos +seus filhos! <br /> + +<br /> + +É que não ha creanças más, +como não ha homens perversos. <br /> + +<br /> + +Ha creanças mal educadas e ha homens pervertidos. <br /> + +<br /> + +Na educação que as creanças recebem +dominam ainda perigosos preconceitos, e dizemos +<em>perigosos</em>, por que n'este grave assumpto todo o +erro é um perigo. <br /> + +<br /> + +Apontemos alguns. <br /> + +<br /> + +Toda a mãe ambiciona possuir um filho modelo. <br /> + +<br /> + +Quer dizer, um menino muito direito, muito aprumado, que falla como um +livro, que sabe grammatica, maximas moraes, que repete versos +classicos, que nunca faz bulha, que tem gestos desdenhosos e +reprehensivos para a travessura dos outros, que nunca se esquece das +lições, que é emfim um +<em>prodigio</em> que todas as mães invejam, e +apontam como ideal a seus filhos menos privilegiados. <br /> + +<br /> + +Esta classe de creanças póde dizer-se que +é a unica verdadeiramente antipathica. <br /> + +<br /> + +Evitemos quanto possivel que os nossos filhos sejam <em>meninos +modelos</em>. <br /> + +<br /> + +Para evitar este resultado, é preciso não dar +excessiva +<span class="pagenum"><a name="p263">[263]</a></span> +attenção ás graças +naturaes da creança, não a louvar de modo que +ella ouça, não a +forçar a estudos precoces, fazel-a brincar, correr dar-lhe +plena liberdade de movimentos e de impulsos. <br /> + +<br /> + +Se a creança tem demasiada propensão para os +estudos mais +proprios de outra edade, cumpre distrahil-a, pôl-a em +contacto +com a natureza, ensinal-a a comprehender a alma +das cousas. <br /> + +<br /> + +Nada melhor para <a href="#e7">desenvolver</a> o +espirito e o +coração das creanças do que a vida no +campo. <br /> + +<br /> + +Plantas, arvores, animaes, os alegres trabalhos da lavoura, tudo que +desperta sans curiosidades no entendimento infantil. <br /> + +<br /> + +Dae ao vosso filhinho um alegrete do jardim para elle tratar, dae-lhe +um animalzinho manso e inoffensivo a que elle se affeiçoe.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Ás vezes quando o nosso filhinho bate com a cabecinha no +chão, ou em qualquer movel da casa, vemos com +indifferença a criada que o trata bater tambem, fingindo-se +muito zangada, no objecto que sem culpa nem consciencia é a +causa da magoa que <a href="#e8">afflige</a> o +nosso pequeno +amor. <br /> + +<br /> + +Este velho costume das aias e das mães pouco atiladas, +é um erro. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[264]</span> +Torna a creança absurdamente vingativa. <br /> + +<br /> + +D'ahi a bater ou a ter vontade de bater em quem a contraria, +não vae nada. <br /> + +<br /> + +De cada idéa falsa se faz n'estes cerebros delicados e +impressionaveis o germen de um vicio ou de um defeito. <br /> + +<br /> + +Quantas mães eu não tenho ouvido dizer: Meu filho +é tão teimoso! Meu filho é +tão guloso! Ou tão tagarella, ou tão +curioso!―ou tão colerico! <br /> + +<br /> + +Mães, procurae bem no passado e achareis a semente d'isso +que hoje é planta damninha e venenosa.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Combater a teima, com a teima, a gulodice natural com a abstinencia +forçada, a cólera instinctiva, com os castigos +implacaveis, é pessima tactica. <br /> + +<br /> + +O meio de levar uma creança a esquecer-se de que teimava, +é distrahir-lhe a +attenção para assumpto muito diverso d'aquelle +que a absorvia. <br /> + +<br /> + +Quando uma creança é exageradamente gulosa, o +meio de a +emendar é leval-a a envergonhar-se do seu defeito, a +córar d'elle diante de si propria. <br /> + +<br /> + +Nas cóleras a que todas as creanças +são mais ou menos sujeitas, o remedio mais efficaz +é uma brandura magoada. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[265]</span> +Que a mãe deixe ver que os erros de seu filho a +não enfurecem, mas a fazem soffrer muito. <br /> + +<br /> + +A creança ficará desarmada e moralisada. <br /> + +<br /> + +Para ella a revelação subita de que foi causa de +grande +amargura para aquella a quem mais estremece, corresponde ao despertar +da consciencia e ao pungir do seu primeiro espinho! <br /> + +<br /> + +Usemos na educação dos meios puramente moraes, e +não das degradantes correcções +physicas. <br /> + +<br /> + +Acordemos por todos os modos imaginaveis o bom senso da +creança, e a impressionabilidade do seu ser moral. <br /> + +<br /> + +Que ella conheça sempre o mal e o bem, não pelos +inconvenientes ou vantagens que d'estas duas cousas possam provir, mas +pelo que ellas valem, pelo que significam, pelo rebaixamento que uma +inclue em si, e pela essencia superior de que a outra é +feita. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>III </h3> + +<br /> + +N'este delicioso e querido assumpto da educação +infantil tudo está dito, e tudo está ainda por +dizer. <br /> + +<br /> + +As regras geraes teem forçosamente de ser modificadas na sua +applicação a casos particulares; nenhuma +<span class="pagenum">[266]</span> +creança existe no mundo +que seja absolutamente egual a outra creança; é +ao espirito da mãe que pertence o gravissimo e +delicado encargo de corrigir, ampliar, alterar, restringir +as regras e os preceitos enunciados pelos +educadores e pelos moralistas. <br /> + +<br /> + +O que é, pois, necessario antes de tudo, é levar +as mães a pensarem profundamente n'estas altas +questões, e a estudarem com pertinaz paciencia o caracter +das creanças cujos destinos teem de dirigir. <br /> + +<br /> + +Conhecemos uma senhora, aliás muito boa e muito dedicada, +que, tendo cinco filhos, os educa a todos pelo mesmo systema. <br /> + +<br /> + +Resultado inevitavel e fatal: <br /> + +<br /> + +As creanças são todas deploravelmente educadas. <br /> + +<br /> + +Ernesto Legouvé, distincto escriptor francez, que tem +consagrado +grande parte da sua vida a notaveis estudos sobre a sorte da mulher, e +sobre a +educação da creança, publicou ha mezes +um bello +livro que d'aqui recommendo a todas as minhas leitoras. <br /> + +<br /> + +Intitula-se―<em>Nos filles et nos fils</em>, +e contém uma serie de scenas e estudos de familia, muito +proprios para ampliar e esclarecer o coração e o +entendimento das mães em certos momentos criticos da sua +difficil missão. <br /> + +<br /> + +Um d'esses trechos, e talvez um dos mais importantes, trata das +creanças e dos criados, da intimidade +<span class="pagenum">[267]</span> +forçada e muitas vezes +perigosa que entre elles se estabelece, e dos resultados nocivos que +d'essas relações resultam para a +educação. <br /> + +<br /> + +Legouvé leu este trecho na <em>Academia +Franceza</em>; por aqui se reconhece a sua importancia, a maneira +superior por que foi tratado. <br /> + +<br /> + +Muitas mães desattendem na educação +dos seus filhos a questão gravissima dos criados. <br /> + +<br /> + +Deixam que as creanças vivam n'um contacto muito intimo com +gente de tracto grosseiro, de comportamento equivoco, de linguagem +eivada de erros, de conversação baixa e +degradante. <br /> + +<br /> + +Quantas mães eu não tenho ouvido dizer +ás suas filhinhas de quatro, cinco e oito annos:―<em>Vae +lá para dentro; deixa-me conversar?!</em> <br /> + +<br /> + +Imaginam ellas que para a creança nenhuma consequencia +má póde provir da sua intimidade com as criadas. <br /> + +<br /> + +Enganam-se. <br /> + +<br /> + +Antigamente, quando os domesticos faziam, por assim dizer, parte +integrante da familia, nasciam e morriam na casa, não havia +perigo em que as +creanças estivessem junto d'elles e com elles tagarellassem +e +brincassem. <br /> + +<br /> + +O instincto d'essas boas creaturas, afinado na convivencia de pessoas +de educação elevada, fazia-lhes +<span class="pagenum">[268]</span> +comprehender que as creancinhas eram uns +seres sagrados e queridos, cuja intelligencia se não devia +macular nem de leve, cujos ouvidos tinham de ser escrupulosamente +respeitados. <br /> + +<br /> + +Hoje, infelizmente, como já o dissemos, esse modo de +comprehender a vida de familia, modificou-se completamente. <br /> + +<br /> + +Os nossos criados entram e sahem com uma rapidez e uma facilidade +incrivel; não criam raizes em parte alguma, e este viver de +párias no meio dos que teem lar e alegrias intimas e familia +e +tecto seu, desenvolve-lhes contra os amos uma estranha hostilidade. <br /> + +<br /> + +Dizem mal por gosto, por necessidade, por um costume de classe. <br /> + +<br /> + +Precisam de vingar-se, e vingam-se dos maus e dos bons, sem escrupulo e +sem remorso. <br /> + +<br /> + +De cada casa d'onde sahem trazem os segredos, as +anecdotas mais +intimas, os incidentes comicos, os acontecimentos grotescos; e contam +tudo isto, uns aos outros, n'uma grande liberdade de palavras, de +apreciações e de commentarios. <br /> + +<br /> + +Surprehenderam aqui um drama, alli um ridiculo, conhecem as miserias de +muito interior, os vicios que se fazem pobreza, e a pobreza que se faz +vicio. <br /> + +<br /> + +Com o amor do pittoresco e do maravilhoso, que +<span class="pagenum">[269]</span> +ha sempre na alma do povo, dão +um colorido phantastico aos seus contos, que attrahe por +força a curiosidade da creança. <br /> + +<br /> + +Imaginem-se uns ouvidos de cinco, de seis, de oito ou nove annos a +beberem essa deploravel sciencia! <br /> + +<br /> + +E não se diga que a creança não +entende! <br /> + +<br /> + +A creança tem o instincto da curiosidade desenvolvido n'um +extraordinario grau! <br /> + +<br /> + +A creança entende quasi tudo, e d'aquillo que não +entende guarda a memoria até á +edade em que o mysterio lhe seja naturalmente explicado. <br /> + +<br /> + +Não levar nunca para um caminho mau a curiosidade de uma +creança, deve ser um dos maiores cuidados da mãe. +<br /> + +<br /> + +Mas dir-me-hão: as pessoas crescidas conversam por +força +em mil assumptos melindrosos; se realmente as creanças +percebem, +como evitar que ouçam? <br /> + +<br /> + +É n'isso positivamente que está o mal. <br /> + +<br /> + +Na sala de uma senhora que tem filhos e que se compenetra absolutamente +dos seus deveres de mãe, deve haver o maximo escrupulo na +escolha das diversas conversações. <br /> + +<br /> + +Assim como ha limpeza nas habitações, porque +não haverá limpeza nos espiritos? <br /> + +<br /> + +Não ha tantos assumptos attrahentes de +conversação? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[270]</span> +Será absolutamente preciso dizer mal, murmurar, revelar +indiscretamente mysterios alheios? <br /> + +<br /> + +Não quer isto dizer que a humanidade se limite a um +puritanismo +de palavras, que degenerará por +força em hypocrisia; mas entre esse excesso ridiculo e a +liberdade absoluta que se usa diante das creanças, creio que +ha +um meio termo que seria facil de adoptar. <br /> + +<br /> + +E depois, seja dito com toda a coragem: ou se é +mãe no +sentido completo e absoluto d'esta palavra ou se é mulher do +mundo. <br /> + +<br /> + +Ou nos havemos de consagrar á companhia dos nossos filhos, +á sua educação, ao +desenvolvimento gradual das suas delicadas faculdades, á +vigilancia solicita das suas almas e dos seus corpos, ou havemos de dar +aos tenros espiritos de quem somos guias, o deploravel espectaculo das +fraquezas e dos defeitos que tanto lhes desejamos fazer evitar. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Na creanca do sexo feminino a tendencia que mais cedo se desenvolve +é a vaidade. <br /> + +<br /> + +A pequenita de tres annos já começa a ter orgulho +e presumpção no seu vestidinho bordado, nas suas +saias de +folhos, no seu chapéu vistoso e garrido. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[271]</span> +Todos se riem da <em>gracinha</em>. <br /> + +<br /> + +―Meu anjinho! Como é presumida! Diz a mãe toda +enlevada. +E gaba-a muito.―Estás linda! a minha filha é +muito +bonita. Fica-lhe tão bem este +vestido! <br /> + +<br /> + +Mais tarde, d'ahi a quinze annos, quando a creancinha do outro tempo +é um rapariga delambida, arrebicada, cheia de appetites +luxuosos, de ambições +extravagantes, sonhando com um noivo <em>muito rico</em> +que +lhe sacie todos os seus desejos de riqueza e de pomposa elegancia, +quando os homens serios e honestos olham para ella com desdem, e no seu +intimo a desprezam como uma boneca inutil e frivola, de quem +é a +culpa, digam-no sinceramente? <br /> + +<br /> + +A culpa é de quem favoreceu, em vez de combater, esse pendor +funesto, tão natural á mulher, e que +só á +custa de muita reflexão ella +consegue vencer. <br /> + +<br /> + +A culpa é da mãe, que teve orgulho dos defeitos +da sua filha, em vez de lidar por transformal-os em virtudes. <br /> + +<br /> + +A mulher é vaidosa? Pois bem! se não podemos +destruir +esse vicio organico, demos-lhe ao menos um rumo diverso do que elle +leva. <br /> + +<br /> + +Que, em vez de ter vaidade dos seus trapos e dos seus miseraveis +arrebiques, ella tenha vaidade de ser boa, laboriosa, honesta, +instruida e forte. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[272]</span> +Façamos comprehender bem ao nosso anjinho de tres annos, que +é bem mais difficil e glorioso ser docil do que ter um +vestido +novo; que é muito mais digno de louvor saber ler do que +trazer +um chapéu de plumas. <br /> + +<br /> + +Isto não é mais do que indicar o caminho. <br /> + +<br /> + +Não ha mãe cujo instincto a não +advirta de que estamos fallando verdade. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Até a escolha da boneca é uma cousa importante! <br /> + +<br /> + +Uma boneca esplendidamente vestida, de chapéu com flores, de +luvas e cabellos d'ouro annellados, inspira um certo assombro, e depois +uma certa inveja. Uma boneca de trapos, estupida, inerte e molle causa +desdem e antipathia. <br /> + +<br /> + +Oh! a primeira boneca! que jubilo supremo que ella não deu a +todas nós! Comparavel á +alegria da primeira boneca, só a alegria do primeiro filho! <br /> + +<br /> + +É a mesma hesitação em lhe tocarmos +com medo que ella se <em>quebre</em>! o mesmo susto! a +mesma curiosidade! o mesmo enlevo! o mesmo espanto namorado e feliz! <br /> + +<br /> + +A mãe intelligente comprehende e sabe aproveitar isto. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[273]</span> +A boneca é como a aprendizagem da maternidade! <br /> + +<br /> + +―Está nua, coitadinha, está nua a tua boneca, +Lili. Que +frio que ella deve ter! Que desconforto! Que pena de olhar para ti e de +te vêr tão bem +vestida e quente e confortavel. Senta-te aqui ao pé de mim, +Lili, vamos nós fazer o fatinho da tua boneca! <br /> + +<br /> + +E como o coração é que sempre domina e +guia a mulher, eis o coração fazendo um milagre +n'aquella mulhersinha de oito annos, que deixa de ser a traquinas, a +turbulenta, a ociosa creaturinha, e que principia a conhecer as +delicias do trabalho e os santos prazeres do sacrificio. <br /> + +<br /> + +O sacrificio por uma boneca! <br /> + +<br /> + +Sim, o sacrificio, e porque não? <br /> + +<br /> + +Só quem não é mãe e quem +nunca foi creança é que escarnecerá da +expressão que empregamos. <br /> + +<br /> + +Pois não sabem que essa primeira boneca, que se recolhe nua +nos braços, e que se veste, que se +calça, que se conchega, que se adormece entre beijos e +affagos, é o primeiro sonho de um +coração de +mãe? +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +As amigas das nossas filhas! <br /> + +<br /> + +Grave e momentoso assumpto, não raro descurado +<span class="pagenum">[274]</span> +e de cujo esquecimento ou de cujo +desleixo resultam ás vezes damnos irremediaveis. <br /> + +<br /> + +No collegio é que se travam quasi sempre as primeiras +amizades. Ora, nós para as meninas desadoramos o collegio. <br /> + +<br /> + +Por muito bom que elle seja, achamol-o sempre pessimo. <br /> + +<br /> + +Quem é que nos responde pela boa escolha de +relações que alli adquirem nossas filhas? <br /> + +<br /> + +Quem nos diz que essas creanças todas que alli se reunem, e +que +entre si trocam as mais intimas e minuciosas confidencias, +só +viram bons exemplos, +só conhecem quadros de santa e impeccavel moralidade? <br /> + +<br /> + +Pois nenhuma d'ellas trará comsigo aquella funesta +curiosidade, que perdeu a nossa primeira mãe? <br /> + +<br /> + +Todas são innocentes, todas ignoram da vida o que ella tem +de baixo ou de corrosivo? <br /> + +<br /> + +Quem nos affirma que ellas saberão ser boas e honestas +companheiras, que não lançarão com uma +palavra imprudente um germen venenoso, que não +corromperão com precoce perversidade o espirito da +creança innocente, que n'ellas se confiar? <br /> + +<br /> + +As amigas das nossas filhas são aquellas de quem logo depois +de +nós depende a pureza, a candura, a innocencia d'ellas! <br /> + +<br /> + +É de uma grave imprudencia acceitar para uma +<span class="pagenum">[275]</span> +filha nossa, sem escolha e +sem criterio, a companhia de outra creança. <br /> + +<br /> + +Cumpre conhecer bem a mãe, a educação +que ella dá aos seus filhos, o modo porque vivem, o +caracter, a moralidade d'essa familia. <br /> + +<br /> + +E que as mães, n'este ponto, se não prendam com +preoccupações de banal delicadeza. Primeiro que +tudo está o futuro das suas filhas. <br /> + +<br /> + +Se a educação de um rapaz é +já difficilima, que será a +educação de uma menina? <br /> + +<br /> + +Quantos perigos a evitar, quantos obstaculos a temer, quantas +contrariedades em meio do caminho! <br /> + +<br /> + +Que a mãe procure ser a melhor amiga de sua filha, e que +esta +não receie confiar-lhe nem os seus pequeninos segredos +infantis, +nem as mysteriosas comoções da sua alma +adolescente. <br /> + +<br /> + +N'esta deploravel educação que hoje se +dá e se recebe, a primeira cousa de que os filhos tratam +é de enganar os paes. <br /> + +<br /> + +De que provém isto? Da mal entendida severidade d'estes. <br /> + +<br /> + +A indulgencia para as primeiras travessuras prepara naturalmente a +creança para se confiar sem medo ao +coração que a +sabe entender e lhe sabe +perdoar. <br /> + +<br /> + +Mas é muito delicado este ponto da missão +maternal. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[276]</span> +Se o excesso da severidade cria a desconfiança e a mentira, +o excesso da indulgencia cria o cynismo e a desvergonha. <br /> + +<br /> + +Que difficil não é para um espirito de +mãe saber ao mesmo tempo attrahir a confiança e +impôr o +respeito! <br /> + +<br /> + +Levar o filho que peccou a confessar a culpa, não por ter a +certeza de que será facilmente perdoado, mas por lhe exigir +a +consciencia que não esconda o seu delicto aos olhos +d'aquella +que sabe com mão delicada e firme repôr no caminho +direito +o ente fragil que se transviou. <br /> + +<br /> + +No dia em que a mãe tiver alcançado do +coração de sua filha ou de seu filho esta +singular +conquista de veneração e de amor, póde +sentir-se +tranquilla e satisfeita, póde sem medo responder pelo +futuro. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Para concluirmos este capitulo que, talvez por muito incorrectamente +desenvolvido enfastiasse as leitoras, sem lograr a ventura de as +convencer, damos em seguida o fragmento de uma carta, que por +circumstancias que seria inutil referir, ha pouco tempo chegou +ás nossas mãos. <br /> + +<br /> + +Como verão, pertence esse trecho a uma carta +<span class="pagenum">[277]</span> +que na vespera do seu casamento +foi dirigida á sua +filha por uma extremosa mãe. <br /> + +<br /> + +Explica muito melhor do que nós o podemos fazer o triumpho +de um bom coração maternal. <br /> + +<br /> + +«Não tive animo de te dizer todas estas cousas +frente a frente. <br /> + +<br /> + +Tive medo de chorar, e tu sabes, meu anjo, que detésto acima +de tudo os enternecimentos intempestivos. <br /> + +<br /> + +Depois, teria pejo, eu, tua mãe, eu que julgo ter concorrido +pelos cuidados de toda a vida para o excellente exito da minha +obra―quer dizer, da tua +educação―teria pejo de te encher de louvores que +embora +justos, recahiriam um pouco sobre mim. <br /> + +<br /> + +Sabes que eu nunca te deixei, que por amor de ti renunciei, e de muito +boa vontade, á companhia dos indifferentes e dos frivolos, +que +só viriam destruir ou modificar o effeito de todos os meus +esforços, +tão santamente abençoados por Deus! <br /> + +<br /> + +Com que saudades eu me lembro dos serões de outro tempo, em +que +tu já serena, grave e modesta como és hoje, lias +ao +pé de mim, emquanto os +nossos bons e velhos amigos conversavam em cousas sãs, em +cousas +simples, das que não podem ferir os ouvidos de uma menina! <br /> + +<br /> + +Não te aconselho que renuncies ao mundo por +<span class="pagenum">[278]</span> +amor dos anjinhos que virão de +certo abençoar e consagrar o teu casamento; mas +peço-te +que sejas escrupulosa +como eu sempre fui na escolha d'aquelles que admittires na sagrada +intimidade do teu lar. <br /> + +<br /> + +Procurei sempre evitar em ti todos os excessos, mesmo os excessos bons. +Não te quiz beata, nem +<em>espirito forte</em>; não desejei que fosses +uma +metaphysica, nem um entendimento demasiadamente positivo, nem mulher +só de sala, nem mulher exclusivamente do +<em>ménage</em>. <br /> + +<br /> + +O ideal, minha filha, é que de tudo se saiba ser um pouco. <br /> + +<br /> + +Gostarei que recebas com graça senhoril na tua saleta de +todos +os dias, artistica e confortavel, mas não desejarei menos +que +saibas ensinar a tua cozinheira, fazer o rol da tua roupa, concertar o +fato de teus filhos, e economisar sem mesquinhez e gastar sem avareza. <br /> + +<br /> + +Não quiz nunca que tivesses outra amiga, e creio ter feito +bem. <br /> + +<br /> + +Se foi egoismo, Deus não me castigou por elle, porque devi a +essa precaução, por ventura +excessiva, ter tido a deliciosa confidencia das tuas primeiras alegrias +e dos teus primeiros sonhos. <br /> + +<br /> + +Ámanhã já não +serás minha, querido encanto; nem já +serão os meus beijos os unicos que a tua pura +<span class="pagenum">[279]</span> +testa de vinte annos +receberá! Mas n'esta saudade dilacerante que me punge, +quantas compensações +supremas eu não encontro! <br /> + +<br /> + +Entrego-te ao teu noivo, tão candida, tão +ignorante do mal como deviam ser todas as creanças da tua +edade, que tivessem mãe, que só n'ellas +pensasse e só por ellas vivesse! <br /> + +<br /> + +Nunca ouviste pronunciar uma palavra grosseira, nunca ouviste applaudir +um acto injusto, nunca se abaixaram os teus olhos seraphicos a um +espectaculo ignobil. <br /> + +<br /> + +Eu fui sempre a tua fiel companheira; e, como as vestaes velavam o fogo +sagrado, velei eu pela tua immaculada innocencia! <br /> + +<br /> + +De que ventura se privam as que preferem o mundo aos seus filhos! <br /> + +<br /> + +Ignoram as alegrias profundas de ser mãe, como eu fui, como +tu serás, minha joia! <br /> + +<br /> + +Não ha na tua alma um pensamento, uma idéa, uma +saudade, +que eu não conheça, e se +ámanhã quizer folhear diante de teu marido o +livro +radioso da tua infancia e da tua adolescencia, não haveria +n'elle uma só pagina que eu lhe não podesse +repetir de +cór. <br /> + +<br /> + +Respondo pelo passado e respondo pelo futuro. Basta-me essa gloria para +me consolar de todas as minhas saudades! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[280]</span> +É bem pezada n'este mundo a cruz das boas mães, +mas +não te esqueças nunca, minha filha, que mesmo +n'esta hora de tantas lagrimas, eu confesso bem alto, não ha +rosas mais frescas, mais puras e mais orvalhadas do que as rosas que +enfloram e entrelaçam essa cruz! <br /> + +<br /> + +Só d'aqui a muitos annos comprehenderás a +angustia com que te digo―<em>adeus</em>! <br /> + +<br /> + +Então, sei que has de chorar por mim!» +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>CAPITULO XVI </h3> + +<h3>Cartas de um marido </h3> + +<br /> + +<div class="breaks"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Meu caro amigo.<br /> + +<br /> + +Onde é que fui desencantal-a? perguntas tu com justificado +espanto. <br /> + +<br /> + +E tens razão. <br /> + +<br /> + +O facto é que nunca a vi, valsando n'um baile á +luz +quente e abafadiça do gaz, decotada, cheia +de pó de arroz e de suor, abandonando-se n'uma postura +voluptuosa, nos braços de um sujeito esgrouviado, de casaca, +collarinhos de papelão, e olhar que tenta ser magnetisador e +irresistivel, e que depois de tamanhos esforços +não +consegue ser senão +comico. <br /> + +<br /> + +Nunca a encontrei cantando n'um concerto duetos apaixonados em +beneficio dos meninos pobres, vendendo n'um bazar sorrisos de +dançarina e +<em>bibelots</em> de fancaria em beneficio dos velhinhos +aleijados, representando +<span class="pagenum">[282]</span> +n'um sarau dramatico, comediazinhas maliciosas em beneficio +dos adultos +cegos. <br /> + +<br /> + +Frequentando os theatros de segunda ordem, onde os palhaços +e as <em>cocottes</em> +de Offenbach, e dos modernissimos <em>maestrinos</em> da +decadencia se +desengonsam em scena, fazendo gestos desmanchados e sublinhando com +sorrisos torpes as suas cantilenas de +<em>café-concerto</em>, debalde a procurei pelas +frisas, e pelos +camarotes, applaudindo as farçadas impuras, e dando +gargalhadas +que attrahissem a attenção e os maliciosos +commentarios +da platéa. <br /> + +<br /> + +Nas noites de verão, no Passeio Publico, quando ha musica, +fogo +de artificio, muito calor e muito aperto, e as meninas burguezas que +ainda não podem gozar da <em>villeggiatura</em> +elegante, passeiam +com <em>toilettes</em> claras, na plena +expansão da +<em>flirtation</em> lisbonense, confesso que muitas vezes +atravessei a +multidão, pisado, empurrado, offegante, sem respeito pelas +caudas de seda, de <em>foulard</em>, de linho +transparente, que para alli vão desfructar o prazer de se +encherem de poeira e de rasgões, e que debalde procurava +reconhecel-a em cada vulto feminino, esbelto, gracioso, que passava +pisando a areia das ruas, com o tacão alto das estreitas +botinas +de pellica. <br /> + +<br /> + +Até comecei a frequentar S. Luiz, a igreja da +devoção fidalga, do arrependimento perfumado de +<em>poudre</em> +<span class="pagenum">[283]</span> +<em>d'iris</em>, do mais alto, +do mais distincto e do mais desdenhoso beaterio... <br /> + +<br /> + +Vi todas as nossas flores da <em>alta +vida</em>, trajando com +discrição finamente aristocratica, revelando +a elegancia que as distingue, no modo de se ajoelharem, de se +persignarem devotamente, de erguerem os olhos com extasi piedoso, para +a imagem alabastrina da Virgem, que parece erguer-se como um lyrio +desabrochado, d'entre as verduras e as brancas florescencias que a +cercam de todos os lados. <br /> + +<br /> + +Vi-as descalçarem, das suas estreitas luvas de cinco +botões, as mãos esguias, +avelludadas, feitas da alvura dos marfins; vi-as curvarem-se +até +ao +chão, humilhadas, contritas, +mas sempre correctas; lerem uma +oração +privilegiada, em cada +um dos quatro ou +seis grossos volumes devotos que trazem comsigo, beijarem com felina +graça as mãos rechonchudas e macias dos +louros abbades francezes, disputarem entre si com delicadeza, +não +inteiramente isenta de colera, a sua vez de confissionario, e de +confidencias adocicadas e asceticas; mas nenhuma d'essas encantadoras +filhas de Eva, com os seus gestos miudos, os seus movimentos +ondeantes de serpente, as multiplas seducções da +sua +artificial formosura, me deu a idéa boa, sã, +carinhosa, +como um affago de mãe, que eu tivera vendo-a, a ella. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[284]</span> +Escuso de accrescentar que <em>ella</em> +não se encontrava entre essas todas. <br /> + +<br /> + +Um dia porém,―que bom dia aquelle!―tornei a vel-a em casa +de uma amiga de minha mãe. <br /> + +<br /> + +Não me pareceu bella, pareceu-me boa, mas de uma bondade em +que +a belleza não deixava de entrar, embora como elemento +secundario. <br /> + +<br /> + +Estava com as suas amigas em volta de uma grande mesa de +serão. Largára um pequeno trabalho +da agulha, e começara a lêr alto a pedido de todas +as companheiras. <br /> + +<br /> + +Lia um livro de Michelet, <em>L'insecte</em>. +<br /> + +<br /> + +Tinha a voz grave, sonora, musical, como eu sempre imaginei que havia +de ser; a luz coada pelo globo fosco do alto candieiro, banhava de +vagos tons dourados o seu cabello simplesmente penteado, torcido n'um +grosso rolo luminoso sobre a nuca torneada e forte. <br /> + +<br /> + +Não me lembro bem de como estava vestida, signal de que era +tão despretencioso o seu trajo que não prendia +nem +demorava a attenção. +Havia de ser por força bastante distincto para lhe +não +alterar +a graça; bastante singelo para não dar um aspecto +de artificio á sua natural e casta formosura. <br /> + +<br /> + +Emquanto a ouvia ler, parecia-me comprehender melhor aquella grande +alma luminosa do velho Michelet. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[285]</span> +E sentia em mim a vivificante sympathia da natureza, o amor dos +pequeninos, a ternura comprehensiva para tudo que vive, que sente, que +palpita na enorme Creação. <br /> + +<br /> + +Quando acabou de ler, fechou o livro, e naturalmente, sem languidez, +sem cansaço, pegou de novo no trabalho, e +recomeçou a +bordar. <br /> + +<br /> + +Aproveitei o ensejo e sentei-me n'uma cadeira vaga ao seu lado. <br /> + +<br /> + +Conversámos muito. Em muita cousa, em quasi tudo. <br /> + +<br /> + +Era um gosto ver de perto a luz tranquilla e doce d'aquelle olhar azul +escuro, reflectido, serio, innocente. <br /> + +<br /> + +Não baixava os olhos deixando transparecer nas faces rubor +intempestivo; tinha um modo seu de olhar, franco, sincero, de uma +limpidez de lago suisso em que se reflectisse o largo céu da +primavera. <br /> + +<br /> + +De vez em quando ria-se. <br /> + +<br /> + +Que musica crystallina a do seu riso! <br /> + +<br /> + +Uma das vezes lembra-me, que seguindo o falso pendor da nossa +detestavel educação de sala, fui +sentimental, sem dar por isso, de uma +<em>sentimentalidade</em> piegas, da que produz sempre um +certo effeito no espirito das meninas que <em>valsam</em>. +<br /> + +<br /> + +Levantou subitamente a cabeça, como se ficasse um tanto +surprehendida, como se tivesse agourado melhor de mim, á +primeira vista. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[286]</span> +Depois, não sei o quê, provavelmente a +expressão alambicada da minha cara, desafiou-lhe a vontade +de rir, uma vontade de rir irresistivel! <br /> + +<br /> + +Coitadinha! Que bem educada que ella é! <br /> + +<br /> + +Suffocou aquella boa hilaridade tão espontanea! +Disfarçou +perfeitamente o effeito comico que eu lhe produzira, isto com uma +graça, tão cheia de +infantilidade! <br /> + +<br /> + +Castigou-me melhor assim, do que outra qualquer fingindo um enleio +theatral. <br /> + +<br /> + +D'alli a nada, a dona da casa, uma senhora de aspecto muito distincto e +muito bondoso, veio pedir-lhe com grande empenho que fosse para o +piano. <br /> + +<br /> + +Levantou-se docilmente, e tocou e cantou emquanto quizeram ouvil-a! <br /> + +<br /> + +Era a simplicidade, a graça, a mais delicada +intuição artistica, isto acompanhando uma +vocação musical deveras notabilissima. <br /> + +<br /> + +Nem uma só d'aquellas languidas arias italianas, de um +sentimentalismo tão dissolvente e que parecem banhar a alma +que +as escuta n'um tepido banho de caricias molles! <br /> + +<br /> + +Musicas graves e de uma austera melancolia como as dos mestres +allemães; ou musicas graciosas, ligeiras, scintillantes, +inoculando no espirito uma +sensação de frescura matutina, de robusta +alegria, levando-nos +<span class="pagenum">[287]</span> +atraz das suas +notas de crystal, pelas pradarias illuminadas da luz das alvoradas +estivas, onde os melros maliciosos assobiam, saltando de ramo em ramo! <br /> + +<br /> + +Quando sahi d'alli, d'aquella casa hospitaleira, em que o espirito +parecia dilatar-se affectuosamente, pensei de mim para mim que ella +havia de ser minha mulher! <br /> + +<br /> + +<div class="dots"> +</div> + +<br /> + +...Sabes uma cousa? Temos um filho! Estas palavras a ti não +te +dizem nada, a mim banham-me o coração n'uma +alegria que +em lingua humana se +não póde exprimir. <br /> + +<br /> + +A deliciosa canção da minha felicidade, canto-a +eu em +beijos chilreados, no corpinho roliço e avelludado, no +corpinho +de leite do meu primeiro pequenino! <br /> + +<br /> + +Vivemos em um bairro pouco central, em uma rua muito socegada, onde +passam pouquissimos trens, e onde se não ouve o pregoar +rouquenho dos +vendilhões ambulantes. <br /> + +<br /> + +O nosso orçamento é de uma exiguidade que faz +rir, mas +não sei porque minha mulher tem a habilidade de fazer render +da +maneira mais milagrosa os nossos modestissimos haveres. <br /> + +<br /> + +Creio que se ámanhã me visse rico, não +podia ser tão feliz. <br /> + +<br /> + +Se eu fosse rico, havia de ter criados, não é +verdade? +<span class="pagenum">[288]</span> +Criados graves, +solemnes, de olhar sonso, que vivessem da minha vida, que maculassem +com a sua ironia baixa as santas expansões do meu affecto de +marido e de pae, que invejassem a minha felicidade, que calumniassem as +minhas intenções, os meus +actos, a minha vida toda! <br /> + +<br /> + +Ao jantar um ou dous d'aquelles figurões altos, espadaudos, +ociosos, vestidos de preto, haviam de espreitar com olhar guloso cada +bocado que eu mettesse na bôca; teria um cozinheiro gordo, de +barrete branco, que me fizesse molhos indigestos, uma criadinha de +quarto buliçosa, e petulante que se risse do +<em>burguezismo</em> pacato dos meus habitos. <br /> + +<br /> + +Viveria escravo, preso nas malhas de ouro, d'esta grande rede que se +chama a riqueza. <br /> + +<br /> + +Receberia muitas visitas, muita gente indifferente ou hostil, que +viesse para me bajular, e que se fosse embora para me morder +traiçoeiramente pelas costas. <br /> + +<br /> + +Uma governante ingleza empavezada, grotesca, um pouco pedante, cortaria +na sua flôr, na querida alma transparente do meu pequeno +anjo, os +carinhos, as expansões innocentes, os risos inextinguiveis e +sem +causa, tudo que é hoje a nossa alegria! <br /> + +<br /> + +E depois, habituado ao luxo não sentiria o conchego! +Satisfeitos até á saciedade todos os desejos, +<span class="pagenum">[289]</span> +não teria nunca a boa, a vivificante +sensação do obstaculo vencido! <br /> + +<br /> + +E o socego depois do trabalho! E as alegrias da posse, quando o objecto +longo tempo cubiçado, para alcançar o qual se +fizeram +tantas economias, se supportaram tantas +privaçõesinhas, +nos apparece emfim em todo o prestigioso brilho do impossivel, que de +repente se deixa conquistar! <br /> + +<br /> + +Ai! as minhas alegrias de pobre, que saudades que eu terei d'ellas mais +tarde! <br /> + +<br /> + +Mas, meu querido A., não comeces tu agora a lamentar-me +imaginando-me novo monge entregue ás austeridades da +penitencia +voluntariamente acceita! <br /> + +<br /> + +Não te disse eu que uma boa mulher que nos ame, e que nos +saiba +amar, é um thesouro inestimavel, que o homem desdenha, e que +por +isso, se tem feito tão raro? <br /> + +<br /> + +A minha casa não tem estofos de seda, não tem +custosos +moveis de carvalho entalhado, não tem frageis porcellanas de +Saxe, de Sevres ou do Japão, não tem tapetes +turcos, nem +artisticos Gobelinos. <br /> + +<br /> + +Mas olha que nem sempre o luxo é o conforto, nem sempre a +opulencia é a graça, nem sempre as +cousas caras são as cousas elegantes! <br /> + +<br /> + +A nossa pequenina casa, toda forrada de papel claro, com as suas +cadeiras de +<em>cretonne</em>, as suas cortinas muito brancas, e vasos +de plantas em pequenas +<span class="pagenum">[290]</span> +estantes de madeira, e jarras de flôres na mesa de +jantar, com a luz clara e +festiva do sol, a illuminal-a toda, com o aceio escrupuloso que +é o luxo dos pobres, com a tranquilidade doce e recolhida, +que é a poesia dos que se amam e na qual põe a +espaços a nota clara e festiva o riso do nosso +filhinho, a nossa casa é +como que a deliciosa encardenação do +poema do nosso amor! <br /> + +<br /> + +Todas as senhoras que eu conheço sahem muito; os maridos +voltam +á noite exangues das enfadonhas +labutações do dia, com o espirito abatido, com o +corpo +cansado e no entanto teem de seguil-as ao baile, ao theatro, a casa das +amigas, de figurarem de comparsas na fastidiosa comedia social, de se +mostrarem debaixo de um aspecto desfavoravel, de realizarem emfim +á risca o lendario typo que o +<em>romantismo</em> amarrou ao pelourinho do ridiculo, o <em>marido</em> +macambuzio, o <em>marido</em> desengraçado, o +<em>marido</em> sem espirito, em quanto á roda, +fresco, +malicioso, cheio de ditos e anecdotas, com uma rosa na abotoadura, +borboleteia o <em>galan</em> que povôa de +perigosas seducções a fantasia de todas as pobres +mulheres frageis! <br /> + +<br /> + +Minha mulher á noite sahe raras vezes, de modo que eu +durante o +dia, na atmosphera pesada e asphyxiante do escriptorio, estou sem +querer a scismar no conforto que me espera quando eu voltar. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[291]</span> +O jantarinho quente, saboroso, cozinhado pela nossa velha Anna, debaixo +da direcção da minha querida Maria, a toalha +muito +branca, um ramo de lilazes no centro, as fructeiras de vidro com as +suas pyramides de fructas, sahindo do ninho fresco e avelludado das +folhas verdes, os talheres muito bem limpos, um grande +conchêgo +na atmosphera, e em tudo visiveis o gosto <em>d'ella</em>, +os cuidados +<em>d'ella</em>, o affecto <em>d'ella</em> +manifestando-se no bem-estar +que me envolve e me acaricia! <br /> + +<br /> + +Depois, á noite, o gabinete com a mesa redonda no centro, o +candieiro de Carcel de luz clara e discreta, a poltrona de marroquim, +com os grandes braços abertos que me convidam, os jornaes do +dia, a ultima <em>Revista</em>, +um romance novo, e a minha +querida mulhersinha, com um vestido que lhe fica muito bem e que andou +ella propria a fazer ás minhas escondidas―a ladina!―como +se eu +não tivesse olhos perspicazes que vêem de longe! +com os +seus longos cabellos louros penteados d'aquelle modo simples e +puramente artistico, que faz da cabeça de cada estatua grega +uma +cabeça encantadora, e sobretudo com o seu sorriso bom, o seu +olhar affectuoso e honesto, a sua voz consoladora que é uma +musica, a melhor das musicas para o meu coração! <br /> + +<br /> + +Para além do reposteiro entre-aberto, vê-se a +alcova, +<span class="pagenum">[292]</span> +o berço de cortinados brancos, e á luz +branda da lamparina, sobre uma cadeira, um vestidinho claro, uns +pequenos sapatos, umas meiazinhas de côr, umas cousas para +que +ninguem repara, e que a mim me fazem ás vezes chorar. <br /> + +<br /> + +Tenho já perguntado a mim mesmo, que differença +existe +entre mim e os outros homens, porque é que elles andam pelo +gremio, pelos cafés, pelos theatros, alguns pelas salas, e +porque estou eu tanto em casa, finda que seja a minha tarefa diaria? <br /> + +<br /> + +Serei melhor do que os outros maridos? <br /> + +<br /> + +Não; ella é que é melhor do que as +outras mulheres. <br /> + +<br /> + +A felicidade de que eu gozo devo-a á sua +comprehensão tão santa dos deveres, e ao meu +egoismo todo masculino. <br /> + +<br /> + +Vou para onde me chama maior somma de alegrias e de confortos que posso +conhecer n'este mundo. <br /> + +<br /> + +Não ha n'isto merito nem dedicação +dignos de louvor. <br /> + +<br /> + +Se á noite a nossa pequena sala se enchesse das amigas de +minha +mulher, palradeiras, frivolas, pueris, a discutirem banalidades, +é provavel que eu fugisse para qualquer outra parte. <br /> + +<br /> + +Se quando chegasse a casa, a visse prompta para sahir, á +minha espera para me fazer envergar uma +<span class="pagenum">[293]</span> +terrivel casaca muito hostil, que me +acenasse de longe com as suas azas de gafanhoto, se ella me apparecesse +toda occupada de si, da sua +<em>toilette</em>, dos triumphos que ia ter, e esquecendo +completamente as exigencias mais prosaicas, do meu temperamento de +homem, da minha vida de trabalhador, com certeza que me chegaria a +minha hora de revolta, que o trabalho deixaria de ser o meio de que eu +me servisse para alcançar o bem estar dos meus, e que se +tornaria simplesmente uma tarefa exercida sem alma, sem alento +interior, só para que o mundo me não alcunhasse +de ocioso e de zangão da grande colmêa social. <br /> + +<br /> + +Dos defeitos d'ella proviriam todos os meus defeitos, dos seus +esquecimentos, todas as minhas faltas. <br /> + +<br /> + +Já vês quanto ganhei casando-me com esta querida e +nobre creatura. <br /> + +<br /> + +Se me perguntares o que ella sabe, dir-te-hei que sabe tudo, e que a +sciencia toda lhe provém de uma só fonte―o +coração. <br /> + +<br /> + +Comprehende Shakespeare e faz deliciosamente uma <em>omellete</em>, +toca com o sentimento +mais fino e mais ideal, uma phantasia de Beethoven, e inventou um +systema engenhoso e abreviado de fazer o rol da lavadeira; adora as +flores, os versos, as creanças, os livros, tudo que +é bello, tudo que é bom na natureza, e de +manhã, +com a sua touquinha de cambraia branca, +<span class="pagenum">[294]</span> +o seu avental de merino, um <em>espanador</em> de pennas +na +mão, pondo os moveis em +harmonia, tocando em todas as cousas, imprimindo em tudo o cunho da +symetria e da ordem, atarefada, sem distracção, +sem enfado, parece uma <em>spinster</em> ingleza atacada +da +monomania do arranjo. <br /> + +<br /> + +A brincar com o filho, na rua areada do nosso pequeno jardim, +dir-se-hia a sua irmã mais velha; na hora da +atribulação, na hora difficil em que de +um bom conselho depende ás vezes a dignidade de um homem, +lembra +um espirito austero, cheio de altivas +aspirações estoicas. <br /> + +<br /> + +O contacto d'ella faz bons os que são maus, faz +robustos os que são fracos! <br /> + +<br /> + +São estas as mulheres que salvam a honra e a felicidade dos +maridos. <br /> + +<br /> + +Queres um conselho? Procura no mundo outra Maria como +é a minha e casa-te. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>CAPITULO XVII </h3> + +<h3>Confidencias maternaes </h3> + +<br /> + +<div class="breaks"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Minha querida amiga.<br /> + +<br /> + +Ha quasi quatro mezes que te não escrevo, e supponho que +não estarás por isso mal comigo. <br /> + +<br /> + +Não sei bem dizer-te como se passam os meus dias, e quando +ás onze horas da noite adormeço, +um poucochinho fatigada e deixando sempre para o dia seguinte parte da +tarefa d'aquelle dia, metto a mão na consciencia e sinto que +não commetti o delicto de desperdiçar um +só +instante. <br /> + +<br /> + +E talvez que no fim de contas assim não seja. <br /> + +<br /> + +Ouve-me tu, e julga. <br /> + +<br /> + +Fez hontem um anno o meu querido +<em>baby</em>. <br /> + +<br /> + +É louro, é rosado, tem uma cabelleira revolta e +crespa +que lembra uma aureola de anjo, ou uma juba de leão +pequenino, tem um corpo roliço, mimoso, redondinho +<span class="pagenum">[296]</span> +que parece +feito por uma fada muito habilidosa no seu torno de marfim. <br /> + +<br /> + +Começa a andar, e os passos d'elle, desastrados e timidos +enchem-me a alma de um susto, de uma +inquietação, de uma delicia, de um <em>não +sei +quê</em> profundamente novo na minha vida e que eu +não encontro palavras que exprimam bem! <br /> + +<br /> + +Até aqui parecia-me que +<em>elle</em> era +<em>eu</em>, que fazia parte de mim, que nós +ambos formavamos um todo. <br /> + +<br /> + +Agora percebo e com uma surpreza que ás vezes chega a ser +dolorosa! que me enganara, e que cada um d'aquelles passinhos hoje +tão miudos e tão +vacillantes, ámanhã apressados e firmes, o +irá +afastando +de mim na vida, se eu o não souber seguir, fazendo-me como +elle +pequena, como elle infantil, penetrando intimamente na sua alma e ao +mesmo tempo compenetrando-me bem de todas as doces claridades matutinas +que ha dentro d'aquelle espirito que vae desabrochar. <br /> + +<br /> + +Não comprehendes bem esta iniciação +lenta, que no momento em que o corpo da mãe e o corpo do +filho +deixam de ser um só, faz uma só das duas almas de +ambos? <br /> + +<br /> + +Visto que elle já não póde ser +<em>eu</em>, é preciso que eu seja <em>elle</em>; +só assim lhe poderei ir inoculando na alma e +no entendimento, tudo que no meu entendimento +<span class="pagenum">[297]</span> +e na minha +alma houver de bom; só assim me poderei ir lentamente +transformando sob a influencia regeneradora e purificante d'aquella +immaculada innocencia! <br /> + +<br /> + +Oh! divina transmissão mutua de virtudes e de +forças, que constitue o laço +moral e inquebrantavel que une a mãe ao filho das suas +doloridas entranhas! <br /> + +<br /> + +Por ora nada tenho que ensinar ao meu louro +<em>bébé</em>. <br /> + +<br /> + +Tenho só de escutar o que diz no silencio, aquella pequenina +alma em embryão, e de aprender a ler n'aquelle mysterioso +livro +que é indecifravel para todos e que é +tão +eloquente para mim. <br /> + +<br /> + +Bébé tem uns grandes olhos; uns dizem que +são azues, outros dizem que não. Por ora +não tem +côr; ou para melhor dizer ha na sua limpidez de crystal todos +os +cambiantes e todos os reflexos. Os olhos de Bébé +são como a alma d'elle, teem a +doçura do leite que bebe, teem a suavidade dos beijos com +que o +visto noite e dia. <br /> + +<br /> + +Scisma ás vezes vagamente... longamente... Em que? +Não ha +ninguem que o saiba dizer, visto que um coração +de +mãe o não +adivinha. Scisma no céu d'onde veio? Talvez. Ha mysterios de +luz +na alma profunda das creanças. <br /> + +<br /> + +Gosta da claridade dos dias limpidos, das arvores, das côres +vivas, e tambem da opalina tristeza do luar. +<span class="pagenum">[298]</span> +Gosta dos sons, dos risos, das caricias, +é uma alma que vive em pleno azul. <br /> + +<br /> + +Nenhuma sombra n'aquella tela transparente onde a mão de sua +mãe vae escrever as primeiras +palavras. <br /> + +<br /> + +Muita gente imagina que ser mãe custa apenas as +dôres +dilacerantes de algumas horas, os incommodos mais ou menos crueis d'um +certo periodo, e depois os cuidados de doze ou treze mezes. <br /> + +<br /> + +Quem pensa assim não sabe o que é ser +mãe! <br /> + +<br /> + +Pois tu não ouviste que elle espera, e que a primeira +palavra +definida e clara que ha de vibrar na sua alma, sou eu que hei de +dizel-a, é a minha +mão tremula, fraca e inexperiente que ha de tornar-se firme +para +a gravar indelevelmente? <br /> + +<br /> + +E se a voz esmorecer? E se a mão vacillar? <br /> + +<br /> + +Quem me disse a mim que acertarei? quem me deu forças para +encaminhar um sêr que só de +mim ha de receber na terra o santo e a senha? <br /> + +<br /> + +E depois quando o vejo tão lindo, querendo já +esboçar o primeiro capricho, querendo experimentar a +primeira +vontade, querendo vencer o primeiro obstaculo, pergunto a mim mesma se +terei valor sufficiente para lhe fazer perceber que a vida é +uma lucta, para se tanto fôr preciso, ser eu propria que +lucte +com elle, e que o ensine a ser vencido! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[299]</span> +De quantas coragens mais que viris precisa de compor-se a fraqueza +maternal! <br /> + +<br /> + +<div class="dots"> +</div> + +<br /> + +Mas nenhum d'estes vagos pensamentos que eu deixo aqui tão +mal expressos te diz quaes são as +occupações em que levo os meus dias! <br /> + +<br /> + +Meu Deus! e olha que acordo cedo! <br /> + +<br /> + +Ainda bem a cotovia não deixa ouvir a sua alegre voz +matinal, +ainda bem o gallo não atrôa os campos +com o seu grito estridulo de combate, que é um convite +impetuoso +para o trabalho, já a voz do meu filho me acorda tambem a +mim. <br /> + +<br /> + +Que penna póde contar as delicias d'aquelle despertar! Os +risos, +as negaças, os beijos, e o modo malicioso com que elle +deitado +nos meus braços e depois de fartar as exigencias do +pequenino +estomago, larga o seio para me sorrir com os beicinhos tintos de leite, +e torna de novo a pegar-lhe para saborear voluptuosamente, lentamente o +que já não tem vontade de engulir com a avidez +deliciosamente glutona da infancia. <br /> + +<br /> + +Vem depois o banho, o banho que é um poema! <br /> + +<br /> + +Está alli a grande bacia de agua tepida, e emquanto o dispo, +elle salta e ri, e deita-se para traz e namora a transparencia da agua, +até ao instante em que mergulha emfim entre risadas de +crystal que me echoam no coração. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[300]</span> +Tu sabes lá os cuidados, as manhas, as idéas +engenhosas que é necessario pôr em +pratica para +illudir a impaciencia d'estes seres adoraveis! O banho dura meia hora, +e acabo d'alli encharcada, despenteada, cançada, +triumphante. <br /> + +<br /> + +É uma victoria de todos os dias. <br /> + +<br /> + +O resto do dia pertence-lhe a elle quasi exclusivamente. <br /> + +<br /> + +É um tyranno o meu +<em>bébé</em>. <br /> + +<br /> + +Tenho de o passear, de lhe dar de comer, porque é preciso +que +saibas que o doutor vendo que elle +já tem oito dentes―carnivora creatura!―me deu +licença +emfim para lhe dar tres vezes ao dia a sua competente papinha, tenho +sobretudo de o entreter porque a imaginação +infantil que +desperta tem +exigencias de que tu não podes fazer idéa! <br /> + +<br /> + +É <em>spleenetico</em> como um +velho <em>lord</em> o meu seraphim de palmo e meio de +altura. <br /> + +<br /> + +Dá-se-lhe um brinquedo agora, recebe-o com uma apparencia de +enthusiasmo que illude os inexperientes; d'alli a um instante +põe-n'o de parte desdenhoso, enfastiado, insaciavel... <br /> + +<br /> + +Quer ver sempre cousas novas, quer que o emballem, e lhe cantem e o +levantem ao ar e o façam rir. <br /> + +<br /> + +Por'ora trata-se simplesmente de enganar aquella +<span class="pagenum">[301]</span> +actividade graciosa e irrequieta, mas +quando chegar o momento de a applicar? <br /> + +<br /> + +Sabes uma cousa? sou felicissima e tenho muito mêdo... <br /> + +<br /> + +<div class="dots"> +</div> + +<br /> + +<div class="dots"> +</div> + +<br /> + +<em>Quatro annos depois.</em> +<br /> + +<br /> + +<div class="dots"> +</div> + +<br /> + +Cinco annos! Sabes lá! Um homem, positivamente um homem! <br /> + +<br /> + +É mau. <br /> + +<br /> + +Deixa lá dizer que são boas as +creanças. Olha que é uma perfeita +illusão, minha querida. <br /> + +<br /> + +Que bem se conhece n'elle já, o bravio animal que todos +nós somos! <br /> + +<br /> + +<em>Bébé</em> +é um monstro! <br /> + +<br /> + +No outro dia levei-o commigo a casa d'uma senhora minha amiga. Pois +imagina que elle matou com a sua espada de pau, a boneca de pellica e +semeas de Julia, uma pequenita de 3 annos, a filha mais nova da dona da +casa! <br /> + +<br /> + +E como ella chorasse muito humilde, muito medrosa diante d'aquella +sanha terrivel, chegou a ameaçal-a―o +desgraçado!―com a +mesma espada de pau que já fizera tamanhos maleficios. <br /> + +<br /> + +Chorei de pena de o ver tão mau, tão irascivel, +<span class="pagenum">[302]</span> +tão colerico, e elle o leão pequenino, +ajoelhou-se com as mãosinhas postas aos meus pés, +e gago, +cheio +de lagrimas, com os grandes olhos espavoridos, +disse-me―perdão +mamã! <br /> + +<br /> + +Ó Magdalena, imagina tu a força de que eu +precisei para o não devorar de beijos! Pois não o +fiz! <br /> + +<br /> + +Mostrei-lhe uma cara seria, magoada, cheia de +consternação e não o abracei em todo o +dia. <br /> + +<br /> + +Ha de ser colerico, já vês. <br /> + +<br /> + +Quem me ensinará a mim a corrigil-o? <br /> + +<br /> + +Já sei o que me respondes.―Faze queixa ao pae. O pae que +lhe ralhe. <br /> + +<br /> + +Deus me defenda de tal. <br /> + +<br /> + +Em primeiro lugar o medo não corrige, humilha; +não modifica, rebaixa. Depois eu não quero +recorrer a ninguem para influenciar a alma de meu filho. <br /> + +<br /> + +O pae ha de intervir sim senhor, porém mais tarde. Por'ora +é elle meu, só meu. <br /> + +<br /> + +Toda a creança tem defeitos, e ai d'aquella que os +não tem! Arrenego das +<em>creanças-modêlos</em>. +Transformar esses defeitos―que são indicios caracteristicos +do temperamento da organisação, de qualidades +muitas vezes herdadas―em forças activas e fecundas, eis o +grande problema da educação. <br /> + +<br /> + +E talvez tu cuides, minha pobre amiga, que as <em>gracinhas</em> +de +<em>bébé</em> ficam por +aqui? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[303]</span> +Pois ainda ha mais? exclamas tu assustada. <br /> + +<br /> + +Sim, ha muito mais. Ha cousas que eu com a ajuda de Deus tenciono +aproveitar e dirigir para o futuro bem d'elle. <br /> + +<br /> + +Bébé roubou!... imagina! <br /> + +<br /> + +No outro dia desappareceram-me de cima de uma <em>etagére</em> +da saleta umas +bugigangas de marfim que me tinham trazido de Macau; adivinha onde fui +dar com ellas? <br /> + +<br /> + +No seu quarto dos <em>bonitos</em>. <br /> + +<br /> + +Não estavam escondidas, valha a verdade! estavam +impudicamente espalhadas ao sol, com uma +ostentação de cynismo deveras aterradora. <br /> + +<br /> + +Não posso explicar bem o trabalho que tive para, sem polluir +aquella innocencia sagrada, lhe explicar que n'este mundo ha <em>meu</em> +e +<em>teu</em>, e que a propriedade é um direito +inviolavel. <br /> + +<br /> + +Como não ha nada mais difficil―para não dizer +impossivel―do que introduzir uma idéa abstracta na +cabeça d'uma creança, não imaginas de +quantos artificios e quantas manhas me valí. <br /> + +<br /> + +Cheguei a <em>roubar-lhe</em> tambem eu +propria, parte dos seus <em>bonitos</em>. <br /> + +<br /> + +Então é que era vel-o, sem se atrever a +condemnar-me, e no entanto sentindo revoltados, lá dentro da +sua alminha de cinco annos, todos os instinctos de justiça +<span class="pagenum">[304]</span> +que sempre mais tarde ou mais cêdo alli tinham de +manifestar-se. <br /> + +<br /> + +―Tiveste muito pena de te tirarem os teus bonitos? <br /> + +<br /> + +―Tive muita sim, mamã, respondeu todo sobresaltado e ainda +mal restabelecido do susto. <br /> + +<br /> + +―Ora ainda bem! O +<em>bébé</em> agora +nunca mais tira nada a ninguem, ouviu? <br /> + +<br /> + +―Ah! sim, e ficou-se instantes como que seguindo um trabalho que sem +elle mesmo querer se lhe ia fazendo lá dentro. Ah! sim, +é +muito feio tirar +ás pessoas o que ellas teem. Bébé +nunca mais +tira... <br /> + +<br /> + +No outro dia a Guilhermina, a minha velha aia que tu conheces +perfeitamente, dizia-me consternadissima: <br /> + +<br /> + +―Ninguem faz idéa de como o menino é +mentiroso. Inventa cousas que é de fazer tremer uma pessoa. <br /> + +<br /> + +De feito, não ha nada mais prodigioso do que a phantasia de +bébé. <br /> + +<br /> + +Conta os factos mais extraordinarios que nunca se deram, como se +tivesse assistido a elles. Da mais pequenina cousa deduz uma longa +historia falsa. Umas vezes encontrou na rua um homem muito feio que o +quiz levar comsigo; outras vezes mordeu-lhe um bicho, que elle parece +ter visto e que descreve com as côres mais vivas. Quando +está um pedaço longe de +<span class="pagenum">[305]</span> +mim vem narrar-me +assombrosos acontecimentos que se deram com elle, do mesmo modo quando +me deixa instantes, conta á Guilhermina uma infinidade de +pormenores que só existiram na sua +imaginação. <br /> + +<br /> + +Como é que eu hei de conseguir subordinar a um principio de +exactidão e de verdade aquelle espirito iriado e +phantastico, +para o qual todas as cousas tomam uma fórma differente da +realidade? <br /> + +<br /> + +Crear uma alma! que missão difficil, que missão +esmagadora. <br /> + +<br /> + +No fim de contas as forças da natureza não +são boas nem más; da +applicação d'ellas +é que tudo depende. <br /> + +<br /> + +Do meu anjinho, impetuoso cheio de ambições, de +curiosidades, de irrequieta alegria, de cubiças intuitivas, +de +energia vital, póde uma direcção +boa fazer um caracter nobre, viril, pertinaz, capaz de todas as luctas, +prompto para todos os combates, investigador, inventivo, cheio das +beneficas curiosidades do bem, e das ambições +generosas +que levantam e enobrecem. <br /> + +<br /> + +E pensar, meu Deus, que mal dirigidas, todas estas qualidades, todas +estas forças, todas estas +manifestações de vida intensa, podem leval-o +á +perdição, á infamia, ao crime!.. <br /> + +<br /> + +Oh! meu Deus, dae-me vida e entendimento para que só eu +amolde e affeiçôe a querida +alma de meu filho! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[306]</span> +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +O Luiz faz hoje o seu primeiro exame no Lyceu; já se +não chama +<em>bébé</em>, +já não tem aquelles annellados cabellos de ouro +que eram +o meu orgulho e as minhas unicas joias, os seus bellos olhos escuros +já não +tem a doçura pensativa, o pasmo encantador da alma que se +busca +e que se ignora; usa jaquetinha e calças, e hontem dei a uma +vizinha pobre uma blusa que era d'elle, a sua ultima blusa de ha dous +annos. <br /> + +<br /> + +Que tolice! Sabes que lh'a dei a chorar? <br /> + +<br /> + +O meu Luiz é quasi um homem. <br /> + +<br /> + +É bom, é meigo, é d'uma deliciosa +innocencia, de uma expansão de vida que assombra! <br /> + +<br /> + +Não é meditativo, nem poeta; nada d'isso. +É d'uma alegria impetuosa; d'uma actividade sem limites. <br /> + +<br /> + +Gosta de estudar para me satisfazer a mim, mas tenho a certeza que +gosta de brincar para se satisfazer a si. <br /> + +<br /> + +Não sabe muito; ao pé dos nossos +<em>sabichõesinhos</em> em miniatura, creio +mesmo que +passará por um ignorante; mas a verdade é que +está +apto e preparado para aprender tudo. <br /> + +<br /> + +Suppõe tu um lavrador que fizesse as suas sementeiras antes +de +preparar a terra com os convenientes adubos, e aqui tens parte dos +educadores de hoje. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[307]</span> +No meu filho―perdôa-me este santo orgulho―nenhuma qualidade +foi +atrophiada, todas estão no pleno desenvolvimento que lhe +é proprio, n'aquella florescencia opulenta no fim da qual +já se antevê +sazonado e saboroso o promettido fructo. <br /> + +<br /> + +Tem o corpo d'um pequeno atleta. Capaz de resistir ás longas +viagens, aos estudos complicados da sciencia moderna, aos trabalhos +complexos do luctador d'este seculo estranho e poderoso. <br /> + +<br /> + +Até os seus recreios e distracções +foram dirigidos com desvelo. <br /> + +<br /> + +Desenvolvem-lhe o corpo dia a dia, a natação, a +gymnastica, a equitação, todos os exercicios +physicos que tendem a duplicar e desenvolver o vigor natural do homem, +a creal-o mesmo se elle originariamente não existe. <br /> + +<br /> + +Vivemos muito no campo, durante a sua risonha infancia. O amor e o +conhecimento intimo da natureza, das plantas e dos bichos, das cousas +inanimadas e das cousas mudas, o espectaculo grandioso ou suave dos +campos e das montanhas, dos tempestuosos mares, ou das placidas e +fartas lezirias, entra como um elemento fortalecedor, vivificante, +cheio de ensinamentos praticos na educação das +creanças. +Nunca uma arvore ensinou uma acção má; +nunca +uma flôr ou um ninho de aves crearam um pensamento abjecto. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p308">[308]</a></span> +Não poz nunca o pé n'um collegio. Não +conhece nem as alegrias nem as lastimas d'essa intimidade que tem +decididamente mais resultados funestos do que vantagens conhecidas. <br /> + +<br /> + +Aprendi quanto me foi possivel, não para lhe ensinar, mas +para +estudar com elle, e comprehender antes d'elle o que era preciso que +elle comprehendesse. <br /> + +<br /> + +Diante dos seus bellos olhos limpidos e curiosos não +consenti +nunca que passassem os abjectos quadros que polluem tanta +imaginação infantil. <br /> + +<br /> + +Não me cancei inutilmente a prégar-lhe +sermões de moralidade abstracta; pratiquei o bem para que +elle o praticasse; em minha casa só tem visto +<a href="#e9">exemplos dignos</a>. <br /> + +<br /> + +Mais tarde, quando os maus, rindo lugubremente, lhe disserem que o bem +não existe, elle não +acreditará n'essa blasphemia porque pensará em +mim! <br /> + +<br /> + +Não é ainda um homem, mas promette vir a sel-o! <br /> + +<br /> + +Está quasi cumprida a minha tarefa. <br /> + +<br /> + +Hoje quando elle voltar contente de haver sido premiado―porque estou +certa de que o será―acceitarei ainda os seus beijos como +uma +recompensa. <br /> + +<br /> + +D'aqui ávante é a seu pae que pertence a +direcção suprema d'aquelle espirito que +desabrocha para +todas as altas curiosidades da vida. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[309]</span> +Choro porque as mães são fracas, Magdalena, mas +para que choro eu? <br /> + +<br /> + +Já nada, nada na terra nem mesmo a minha morte nos +póde separar. <br /> + +<br /> + +Todas as virtudes que elle tiver, serão simplesmente o +fructo +das flores que eu tenho cuidado com tanto amor, assim como essas flores +veem dos germens que eu semeei cheia de susto, de delicias, de +ambições, de louco anceio! <br /> + +<br /> + +Fui eu que o conduzi pela mão, ao mesmo tempo tremula e +confiante, até ao limiar da sua pura adolescencia. +<br /> + +<br /> + +Sinto orgulho é verdade, mas tambem sinto saudades! <br /> + +<br /> + +Saudades do tempo em que o embalava nos meus braços, em que +elle só de mim vivia, como eu +vivia só para elle. <br /> + +<br /> + +Foram as minhas alegrias mais superiores e mais completas. <br /> + +<br /> + +D'ora ávante é preciso que elle se emancipe um +pouco da minha tutella extremosa, que elle se vá +robustecendo ao contacto rude dos homens e das cousas. <br /> + +<br /> + +Fui eu que o formei. Sinto que pertencerá ao numero dos +fortes, e que não succumbirá na lucta da vida...<br /> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<span class="pagenum">[310]</span> +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +Como estou velha, minha querida amiga de outros dias! <br /> + +<br /> + +Lembrei-me tanto de ti, hoje, na igreja onde fui assistir ao casamento +do meu Luiz! <br /> + +<br /> + +Tem 24 annos, realisou as doces promessas que eu sonhara e sahiu hoje +de casa de seus paes para outra casa que vae ser d'elle. <br /> + +<br /> + +Tu não sabes a nuvem de tristeza que obumbra a minha alma, +não sabes como todos os egoismos humanos se revoltam em mim, +e +ameaçam fazer-me naufragar na sua formidavel tempestade! <br /> + +<br /> + +Oh! deixa-me desabafar comtigo! <br /> + +<br /> + +Quem é que ainda revelou ao mundo o martyrio que crucifica +as mães! <br /> + +<br /> + +Foi para outra que eu andei formando aquelle divino thesouro com todas +as riquezas que pude juntar dentro da minha alma! <br /> + +<br /> + +Tantas noites que velei a pensar, a estudar, a pedir á voz +intima da consciencia que esclarecesse e fortalecesse e guiasse o meu +fragil coração de +mulher! <br /> + +<br /> + +Tantos annos de abnegação profunda, de +abnegação sem nome, de todas as horas, de todos +os +instantes, esquecida de tudo que não fosse aquella alma +pequenina que andava a crear e a robustecer. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[311]</span> +N'esse empenho me fugiu a mocidade. Por elle, pelo meu adorado ingrato +me esqueci de tudo que fôra meu! <br /> + +<br /> + +E hoje elle partiu; partiu risonho, triumphante, orgulhoso como um rei, +sem se lembrar que onde vira até alli sua mãe, +deixava +uma triste +condemnada!... <br /> + +<br /> + +E ha quem falle por ahi em ciumes romanescos, em ciumes ephemeros, em +ciumes d'um instante! Qual ciume poderá comparar-se a este +que +me está +dilacerando o peito? <br /> + +<br /> + +Oh! Luiz! oh! meu amor! oh! minha solidão!... <br /> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +Na ultima vez que te escrevi estava louca, minha velha amiga. <br /> + +<br /> + +Nunca está só quem ama, e espera, e crê +em Deus, e semeou o bem no seu caminho. <br /> + +<br /> + +Veio lembrar-me tudo isso n'essa hora de amarga revolta que passou, o +querido companheiro de toda a minha vida, o meu honesto guia, aquelle +que partilhou commigo todas a sublimes responsabilidades que ha no amor +dos paes. <br /> + +<br /> + +Já sou avó minha amiga, o meu Luiz é +já pae. <br /> + +<br /> + +Nas alegrias d'elle vejo reflectidas as alegrias extinctas, cujo aroma +vago perfuma a minha alma de uma saudade ineffavel. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[312]</span> +Não se esqueceu de mim, o meu querido filho; tem presentes +todas +as minhas licções, o +laço mysterioso que um dia nos uniu conserva-se +inquebrantavel, +e hoje não deixa ainda de vir consultar-me a cada instante +como +nos dias em que a sua alma e a minha trocavam incessantemente +confidencias mutuas. <br /> + +<br /> + +Estou consolada! <br /> + +<br /> + +Vejo descer a velhice sobre mim como uma noite calma, tranquilla e +cheia de estrellas! <br /> + +<br /> + +Não é nunca infructifera a obra das +mães. <br /> + +<br /> + +O meu sacrificio, se o foi, será continuado, e desatar-se-ha +em flores bemditas de geração em +geração. <br /> + +<br /> + +Felizes todas as que puderem adormecer como eu no seio de um filho a +quem deram tudo que tinham de melhor, de quem receberam tudo que n'este +momento levanta a minha alma para além da vida terrestre, e +me +faz antever o somno tranquillo e doce das consciencias justas. <br /> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<h4>FIM. </h4> + +<br /> + +<hr /> +<hr /><br /> + +<h4> +DA MESMA AUTHORA<br /> + +<br /> + +NO PRÉLO<br /> + +<br /> + +CONTOS E PHANTASIAS, 1 vol.</h4> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="fbox"> +<h2>Lista de erros corrigidos</h2> + +<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se +listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> + +<br /> + +<br /> + +<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4"> + + <tbody> + + <tr align="right"> + + <td style="width: 61px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correcção</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e1"></a><a href="#p59">#pág. 59</a></td> + + <td style="text-align: center;">acquisiçõos</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">acquisições</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e2"></a><a href="#p97">#pág. +97</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 121px;">Dir-me-hão +quo</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;">Dir-me-hão +que</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e3"></a><a href="#c9">#pág. +147</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 121px;"><em>mar +dinho</em></td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;"><em>maridinho</em></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e4"></a><a href="#c10">#pág. 161</a></td> + + <td style="text-align: center;">Girardiu</td> + + <td>...</td> + + <td style="text-align: center;">Girardin</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top;"><a name="e5"></a><a href="#p189">#pág. +189</a></td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: middle;">uma +lcance</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: middle;">...</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: middle;">um +alcance</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e6"></a><a href="#p250">#pág. 250</a></td> + + <td style="text-align: center;">grande gestos</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">grandes gestos</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e7"></a><a href="#p263">#pág. 263</a></td> + + <td style="text-align: center;">desonvolver</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">desenvolver</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e8"></a><a href="#p263">#pág. 263</a></td> + + <td style="text-align: center;">affiige</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">afflige</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e9"></a><a href="#p308">#pág. 308</a></td> + + <td style="text-align: center;">exemplo dignos</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">exemplos dignos</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +</div> + +</div> + +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Mulheres e creanças, by +Maria Amália Vaz de Carvalho + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MULHERES E CREANÇAS *** + +***** This file should be named 29550-h.htm or 29550-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/9/5/5/29550/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/29550-h/images/fig01.png b/29550-h/images/fig01.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..b38a0a7 --- /dev/null +++ b/29550-h/images/fig01.png diff --git a/29550-h/images/fig02.png b/29550-h/images/fig02.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..64559a8 --- /dev/null +++ b/29550-h/images/fig02.png diff --git a/29550-h/images/fig03.png b/29550-h/images/fig03.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..2bebdd5 --- /dev/null +++ b/29550-h/images/fig03.png |
