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+ <title>Mulheres e crean&ccedil;as</title>
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+ <meta name="AUTHOR" content="Maria Am&aacute;lia Vaz de Carvalho" />
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+
+<pre>
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+Project Gutenberg's Mulheres e creanças, by Maria Amália Vaz de Carvalho
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Mulheres e creanças
+ notas sobre educação
+
+Author: Maria Amália Vaz de Carvalho
+
+Release Date: July 30, 2009 [EBook #29550]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MULHERES E CREANÇAS ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+
+<div>
+<div>
+<div class="fbox"> <b>Nota de editor:</b>
+Devido &agrave;
+exist&ecirc;ncia de erros tipogr&aacute;ficos neste texto,
+foram tomadas v&aacute;rias decis&otilde;es quanto &agrave;
+vers&atilde;o final. Em caso de d&uacute;vida, a grafia foi
+mantida de acordo com o original. No final deste livro
+encontrar&aacute; a lista de erros corrigidos.<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita
+Farinha (Jul. 2009)
+</div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="bbox"><br />
+
+<h4>BIBLIOTHECA DO CURA DE ALDEIA </h4>
+
+<div class="bbreak">
+<hr /></div>
+
+<div class="bbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">D. MARIA AMALIA VAZ DE
+CARVALHO <br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<h2>MULHERES E CREAN&Ccedil;AS</h2>
+
+<br />
+
+<div class="breaks">
+<hr /></div>
+
+<h4>(NOTAS SOBRE EDUCA&Ccedil;&Atilde;O) </h4>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 150px; height: 71px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<h4>
+Editores&#8213;JOAQUIM ANTUNES LEIT&Atilde;O &amp; IRM&Atilde;O<br />
+
+Rua do Almada 209&#8213;1.&ordm; andar<br />
+
+PORTO </h4>
+
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<h3>MULHERES E CREAN&Ccedil;AS
+</h3>
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+A propriedade d'esta obra pertence: <br />
+
+<br />
+
+Em Portugal &aacute; <em>Bibliotheca do Cura de
+Aldeia</em>. <br />
+
+<br />
+
+No Brazil ao snr. Adriano de Castro, residente no Rio de Janeiro.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="bbox"><br />
+
+<h4>BIBLIOTHECA DO CURA DE ALDEIA </h4>
+
+<div class="bbreak">
+<hr /></div>
+
+<div class="bbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">D. MARIA AMALIA VAZ DE
+CARVALHO <br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<h2>MULHERES E CREAN&Ccedil;AS</h2>
+
+<br />
+
+<div class="breaks">
+<hr /></div>
+
+<h4>(NOTAS SOBRE EDUCA&Ccedil;&Atilde;O) </h4>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 150px; height: 71px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<h4>
+PORTO<br />
+
+Editores&#8213;JOAQUIM ANTUNES LEIT&Atilde;O &amp; IRM&Atilde;O <br />
+
+Rua do Almada 209&#8213;1.&ordm; andar <br />
+
+1880 </h4>
+
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="bbreak">
+<hr /></div>
+
+<div class="bbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">TYP. DE ALEXANDRE DA
+FONSECA VASCONCELLOS <br />
+
+29, Rua do Moinho de Vento, 29<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">&Aacute; <br />
+
+<br />
+
+Minha querida m&atilde;e <br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="breaks">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Companheira constante e fiel de toda a minha vida,
+offere&ccedil;o-lhe este livro humilde, que escrevi inspirada pelos
+seus conselhos e pelo seu santo e nunca desmentido exemplo.</em><br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>CAPITULO I </h3>
+
+<br />
+
+<div class="breaks">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Falla-se hoje muito a respeito da dissolu&ccedil;&atilde;o
+domestica, manifestada e provada constantemente por casos de divorcio,
+suicidios, quest&otilde;es miseraveis entre parentes proximos,
+rebelli&otilde;es filiaes, etc., etc. <br />
+
+<br />
+
+Surprehende a todos aquelles, que sem aprofundarem radicalmente as
+quest&otilde;es sociaes, se preoccupam todavia com ellas um pouco
+mais
+do que o vulgo, que este mal que todos sentem e que poucos definem, que
+este estado inquieto e doloroso que depois de agitar a familia assusta
+e perturba a sociedade, se haja aggravado justamente na
+&eacute;poca em
+que o homem auxiliado por grandes e immortaes pensadores, tem adquirido
+a mais elevada e justa no&ccedil;&atilde;o do Bem que ainda lhe
+foi dado alcan&ccedil;ar no seu caminho de seculos.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[8]</span>
+A manifesta e clara contradic&ccedil;&atilde;o que hoje mais do
+que nunca existe entre as id&eacute;as e os factos desnorteia e
+desanima ainda os espiritos mais penetrantes. <br />
+
+<br />
+
+Como &eacute; que o homem que tem domado a materia a ponto de fazer
+d'ella a escrava submissa da intelligencia; que for&ccedil;ou a
+grande
+e muda Natureza a tornal-o seu confidente e seu senhor; que arrancou ao
+astro e &aacute; planta o segredo immortal da vida que os anima;
+que
+penetrou&#8213;investigador implacavel&#8213;nas catacumbas das mortas
+religi&otilde;es, e que ouviu de cada uma a palavra suprema que as
+explica e desvenda; porque &eacute; que o homem que tem hoje a
+percep&ccedil;&atilde;o lucida e
+completa do seu destino, n&atilde;o soube ainda prostrar, vencer,
+amorda&ccedil;ar o animal indomito que vive dentro d'elle, que o
+martyrisa, que o rebaixa, que o leva muitas vezes ao abysmo, quando o
+n&atilde;o leva ao loda&ccedil;al? Se o bom e
+o bello lhe revelaram a sua larga claridade benefica, porque se
+n&atilde;o revigora elle, e se n&atilde;o robustece
+n'esse grande banho de luz? porque n&atilde;o estabelece uma
+harmonia
+perfeita e intima entre a id&eacute;a que f&oacute;rma dos
+deveres e a
+sua manifesta&ccedil;&atilde;o pratica e vizivel? <br />
+
+<br />
+
+Depois de havermos concedido &aacute;s paix&otilde;e
+Depois de havermos concedido &aacute;s paix&otilde;es humanas o
+imperio
+relativo que ellas n&atilde;o podem perder, somos ainda
+for&ccedil;ados
+a confessar que na culpa d'esta desgra&ccedil;a que todos lamentam,
+compete &aacute;s mulheres um grandissimo quinh&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[9]</span>
+Concorrem ellas em grande parte para dar for&ccedil;a ao impulso
+que
+contraria a marcha triumphante e apesar de tudo invencivel, que leva a
+civilisa&ccedil;&atilde;o no
+caminho da verdadeira luz. E concorrem por varias e complexas
+raz&otilde;es que devem analysar-se e depois combater-se. <br />
+
+<br />
+
+Ignorantes impoem resistencia inconsciente &aacute;s
+transforma&ccedil;&otilde;es continuas do progresso. <br />
+
+<br />
+
+Retrogradas por educa&ccedil;&atilde;o e por natureza, cada
+innova&ccedil;&atilde;o se lhes affigura ou uma cousa inutil,
+ou uma cousa perigosa. <br />
+
+<br />
+
+Amesquinhadas pela profunda escurid&atilde;o intellectual em que
+jazem
+immersas, em vez de auxiliarem o homem no cumprimento difficil do dever
+afastam-no pelo desdem, desanimam-no pela frivolidade,
+can&ccedil;am-no
+com as exigencias loucas, gastam-lhe a for&ccedil;a, o alento, as
+aspira&ccedil;&otilde;es arrojadas e grandes na
+satisfa&ccedil;&atilde;o de desejos pueris, ou lhe destroem a
+dignidade
+e lhe annullam a energia obrigando-o a transigir com os desvairamentos
+d'uma imagina&ccedil;&atilde;o doentia. <br />
+
+<br />
+
+Mas se as mulheres produzem este effeito funesto confesse-se para bem
+da justi&ccedil;a que aos homens se deve o atrazo intellectual em
+que
+todas n&oacute;s estamos. <br />
+
+<br />
+
+Sentem elles, e a meu ver sentem muito bem, que para conservar este
+equilibrio necessario &aacute;
+manuten&ccedil;&atilde;o da ordem na familia e na sociedade,
+cumpre que a mulher se n&atilde;o
+<span class="pagenum">[10]</span>
+revolte contra a inferioridade a que
+fatalmente a condemnam as leis, e contra a dependencia a que a
+condemnam os costumes. <br />
+
+<br />
+
+Para alcan&ccedil;arem por&eacute;m esta submiss&atilde;o
+voluntaria entenderam desde muito, que o melhor meio consistia em
+condensar as trevas da ignorancia e da
+supersti&ccedil;&atilde;o em torno d'aquella de quem
+s&atilde;o for&ccedil;ados a fazer a
+sua companheira na vida, o seu consolo nas horas da
+prova&ccedil;&atilde;o, a m&atilde;e de seus filhos, a
+carne da sua carne. <br />
+
+<br />
+
+Terrivel contradic&ccedil;&atilde;o, systema absurdo que tem
+como
+resultado a lenta desorganisa&ccedil;&atilde;o da familia
+e que corrompendo a mulher atravez do homem, n&atilde;o
+p&oacute;de
+deixar d'ir com o andar dos tempos corrompendo o homem atravez da
+mulher. <br />
+
+<br />
+
+D'um lado querem conservar-nos n'uma plana muito inferior &aacute;
+sua, como
+illustra&ccedil;&atilde;o, conhecimentos, intelligencia, isto
+para que nunca nos venha &aacute;
+id&eacute;a aspirar &aacute; perfeita igualdade dos direitos e
+dos privilegios;
+d'outro lado exigem de n&oacute;s prodigios de virtude, de
+abnega&ccedil;&atilde;o, de paciencia, de que s&oacute;
+s&atilde;o capazes as almas bafejadas pelo sopro ideal da eterna
+Perfei&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+A mulher precisa de ser moralmente mais forte do que o homem, para
+conseguir levar a cabo a tarefa relativamente superior que a natureza e
+a sociedade lhe impoem.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[11]</span>
+No dia em que se assentar este ponto como verdade incontestavel, o
+mundo ter&aacute; dado um dos seus passos mais gigantescos no
+caminho
+da felicidade. <br />
+
+<br />
+
+Educar a mulher eis o grande problema que resta ainda a resolver. <br />
+
+<br />
+
+Educar a mulher &eacute; arrancal-a na infancia ao seu
+ber&ccedil;o f&ocirc;fo e tepido de beijos, e leval-a por
+caminhos d'uma magestade austera que ella nunca trilhou. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; preparal-a para a grande lucta moral que &eacute; a
+Vida, com
+os cuidados com que Sparta, a guerreira cidade antiga, preparava os
+seus filhos para as luctas do corpo, para as victorias da destreza
+physica. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; associal-a pela comprehens&atilde;o e pela sympathia a
+todos os trabalhos e investiga&ccedil;&otilde;es do homem
+moderno; &eacute; dar-lhe ao lado d'este um lugar honroso e
+definido, n&atilde;o egual pois que s&atilde;o diversas as
+attribui&ccedil;&otilde;es de ambos, mas equivalente em
+direitos e em deveres. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; fazer-lhe comprehender bem claro que as
+seduc&ccedil;&otilde;es do corpo&#8213;seu orgulho supremo e seu
+constante desvanecimento&#8213;quando n&atilde;o s&atilde;o reflexo
+da
+formosura e da robustez da alma, n&atilde;o passam d'um
+la&ccedil;o
+ignobil armado ao animal malefico e bravio que todo o homem encerra em
+si. <br />
+
+<br />
+
+Educar a mulher &eacute; leval-a a compenetrar-se do seu papel
+providencial na familia, e achal-o grande, util, elevado, digno de
+saciar as mais levantadas ambi&ccedil;&otilde;es,
+<span class="pagenum">[12]</span>
+e
+tambem&#8213;o que &eacute; d'uma importancia capital&#8213;de pezar como uma
+responsabilidade tremenda no animo mais altivo. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; dar-lhe uma id&eacute;a perfeita do dever e da
+justi&ccedil;a, um Ideal a que tendam incessantemente as
+aspira&ccedil;&otilde;es do seu espirito, uma
+religi&atilde;o que a
+hypocrisia e os calculos interesseiros n&atilde;o maculem nem
+amesquinhem, que se resuma para ella no sacrificio e no amor, mas
+sacrificio sem voluptuosidades dissolventes e amor sem extasis
+hystericos e sem raptos de paix&atilde;o sensual. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o basta por&eacute;m exprimir tudo que se ousa esperar
+da mulher de &aacute;manh&atilde;, &eacute; preciso tambem
+lan&ccedil;ar um olhar demorado e justo ao que &eacute; a
+mulher d'hoje. <br />
+
+<br />
+
+S&oacute; assim poder&atilde;o comprehender-se os erros que
+&eacute; preciso desarreigar, os preconceitos que &eacute;
+indispensavel destruir, a distancia enorme que temos de
+transp&ocirc;r
+para chegar ao momento da sua completa e salutar
+transforma&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<h4>II </h4>
+
+<br />
+
+As divis&otilde;es sociaes que hoje em face dos homens educados nos
+mesmos collegios, nas mesmas academias,
+<span class="pagenum">[13]</span>
+nas mesmas escolas
+superiores, quasi que se n&atilde;o distinguem, ou se distinguem
+apenas
+por ligeiros cambiantes imperceptiveis &aacute;s vistas
+superficiaes,
+imperam ainda na mulher com extraordinaria for&ccedil;a. Vamos pois
+procurar &aacute;s diversas classes as suas femeninas
+representantes, e
+pincipiemos pela mulher da classe media, classe que considerada no seu
+elemento masculino representa a intelligencia, a riqueza, o commercio,
+a industria, o progresso d'um paiz. <br />
+
+<br />
+
+A mulher d'essa classe especial divide-se em dous generos
+accentuadamente distinctos: aquella que as vaidades sociaes ainda
+n&atilde;o corromperam, e aquella que pretende offuscar com os
+deslumbramentos da sua opulencia, as finas gra&ccedil;as, as
+exterioridades elegantes, os requintes herdados e tradicionaes que
+pompeiam nas regi&otilde;es mais elevadas da sociedade. <br />
+
+<br />
+
+A primeira &eacute; evidentemente mais sympathica; &eacute;
+laboriosa e
+tem a rude sensatez plebeia da sua ra&ccedil;a. Tem o amor dos
+filhos,
+um amor animal, um amor physico, mais instincto do que
+religi&atilde;o.
+N&atilde;o
+raciocina mas sente com uma energia poderosa e creadora. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; d'uma ignorancia absoluta, ingenua, profunda, quasi
+sublime na
+sua cegueira. Imagina-se por&eacute;m investida d'um dever supremo
+a
+que todos se subordinam:&#8213;o de proporcionar por todos os meios ao seu
+alcance o bem estar material do marido, e da familia.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[14]</span>
+N&atilde;o tem conversa&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o
+tem espirito, n&atilde;o tem aquella do&ccedil;ura benevola e
+intelligente que &eacute; para
+o cora&ccedil;&atilde;o dos homens o que o algod&atilde;o
+em
+rama &eacute; para o ninho das aves. <br />
+
+<br />
+
+Quando aconselha irrita; quando quer guiar contraria, quanto tenta
+convencer, despersuade. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; por&eacute;m activa, aceada, robusta, fiel, e nas
+horas de adversidade, de doen&ccedil;a, de desfallecimento ou de
+miseria, tem os carinhos rudes, tem a dedica&ccedil;&atilde;o
+humilde, tem a vigilancia perseverante, tem o exemplo energico e
+fecundo por isso mesmo. <br />
+
+<br />
+
+O homem anda l&aacute; f&oacute;ra, na lucta, no trabalho, na
+investiga&ccedil;&atilde;o, na sciencia; vae vivendo e vendo
+como n'uma ascens&atilde;o rude, desvendarem-se todos os dias
+horisontes novos, vae estudando e sentindo como n'uma
+inicia&ccedil;&atilde;o progressiva dilatar-se-lhe o
+espirito, clarear-se-lhe o entendimento. <br />
+
+<br />
+
+Ella a esposa, a sua companheira, a sua melhor amiga, ignora os seus
+combates, as suas glorias, as acres delicias do seu sacrificio, os
+desanimos, as horas de impotencia, as aspira&ccedil;&otilde;es,
+os
+arrebatamentos
+triumphantes da victoria. <br />
+
+<br />
+
+Percebe simplesmente se o marido est&aacute; doente, se anda magro,
+se
+tem fastio, se tem roupa branca. Inventa-lhe pequenos pratos,
+manipula-lhe remedios caseiros, vigia para que lhe n&atilde;o
+faltem aquelles commodos
+<span class="pagenum">[15]</span>
+que elle aprecia, tem prodigios de
+inven&ccedil;&atilde;o espontanea para o envolver no bem estar
+t&atilde;o necessario aos que se consomem n'uma actividade sem
+treguas.
+<br />
+
+<br />
+
+De que ha de elle queixar-se? De nada. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; amado, &eacute; estremecido, obedecem-lhe cegamente,
+tem a
+certeza de encontrar ao seu lado sempre que o precise um sincero e leal
+affecto. <br />
+
+<br />
+
+Mas quando um sentimento superior o transporta, quando uma grande
+id&eacute;a o levanta e ennobrece, quando um nobre desejo do bello
+e do
+bom lhe faz palpitar de enthusiasmo o cora&ccedil;&atilde;o,
+&eacute;
+debalde que elle busca junto de si o espirito que comprehenda o seu
+espirito, que partilhe as suas impress&otilde;es, que lhe revele
+emfim
+intima, absoluta, indestructivel, essa uni&atilde;o ideal sem a
+qual o
+casamento &eacute; espiritualmente infecundo e incompleto. <br />
+
+<br />
+
+Isto tem de esmorecer fatalmente o impulso que levava esse trabalhador,
+esse homem de pensamento ou de sciencia &aacute; conquista e
+&aacute;
+posse da sua
+felicidade. <br />
+
+<br />
+
+Sem que elle talvez mesmo d&ecirc; por isso, uma tristeza
+indefinivel, vaga, sem traduc&ccedil;&atilde;o,
+lan&ccedil;a como que um sopro esterilisador sobre as suas mais
+queridas
+concep&ccedil;&otilde;es. Falta-lhe alguma cousa que elle
+precisava e que no entretanto n&atilde;o conhece nem sabe definir. <br />
+
+<br />
+
+Falta-lhe o complemento do seu s&ecirc;r!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[16]</span>
+Subamos agora na escala social mais um degrau. <br />
+
+<br />
+
+O trabalhador incansavel venceu. <br />
+
+<br />
+
+O dono da fabrica fez-se capitalista; o chimico enriqueceu com a sua
+descoberta; o medico alcan&ccedil;ou uma popularidade subita; o
+industrial ganhou um milh&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Elle &eacute; simples e modesto, lembra-se dos dias em que
+trabalhava e
+combatia, como dos seus dias melhores; n&atilde;o quer offuscar
+ninguem, basta-lhe hoje como hontem lhe bastava a consciencia do seu
+valor individual. <br />
+
+<br />
+
+Ella por&eacute;m a mulher&#8213;e eis a segunda variedade que acima
+citamos&#8213;ella que deixou penetrar na sua alma ignorante o veneno da
+vaidade, ella a quem o trabalho for&ccedil;ado j&aacute;
+n&atilde;o
+absorve, e a
+quem as distrac&ccedil;&otilde;es elevadas e nobres d'um
+espirito culto
+s&atilde;o vedadas, ella que n&atilde;o pensa, que
+n&atilde;o medita,
+que
+n&atilde;o entendeu bem na sua acep&ccedil;&atilde;o
+levantada e digna
+a
+miss&atilde;o exercida pelo marido pois que se envergonhava da
+pobreza
+honesta em que vivera largo tempo, eil-a que deseja esmagar as que a
+esmagaram n'outra &eacute;poca com o pezo da sua superioridade
+social,
+eil-a que opera a pouco e pouco, quasi imperceptivelmente, uma
+influencia funesta no homem, que o corrompe, e que o arrasta. <br />
+
+<br />
+
+Emquanto elle tivera as serenas e robustas
+consola&ccedil;&otilde;es do trabalho que a intelligencia
+illumina, e a
+que a intelligencia preside, tinha ella apenas na sua profunda
+<span class="pagenum">[17]</span>
+escurid&atilde;o mental, as
+pequenas
+humilha&ccedil;&otilde;es, as raivas mal dissimuladas, os
+despeitos mal
+contidos. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o podendo ter a consciencia do seu dever o que a faria
+sublime, s&oacute; tivera a consciencia da sua
+inferioridade, que a tornara mesquinha e redicula. Chegando o momento
+da desforra exigi-a completa. <br />
+
+<br />
+
+Leitora, quando tu vires passar triumphante, grosseiramente desdenhosa,
+mal sentada nos flaccidos coxins d'um <em>coup&eacute;</em>
+de oito molas,
+coberta de velludos e de rendas a altiva burgueza dos nossos dias,
+lembra-te que &eacute; o fructo pernicioso da ignorancia combinada
+com
+a mais feroz vaidade. <br />
+
+<br />
+
+Ninguem a excede no absurdo desprezo por tudo que est&aacute;
+abaixo d'ella, que &eacute; mais pobre, mais
+humilde, menos cheio de lantejoilas e de falsos brilhantes. <br />
+
+<br />
+
+Tem as refinadas atrocidades do paria que se vinga. <br />
+
+<br />
+
+Como para ella ser pobre foi o maximo dos martyrios e a maxima das
+humilha&ccedil;&otilde;es envolve todos os
+pobres no mesmo olhar de cruel desdem. <br />
+
+<br />
+
+As filhas d'esta m&atilde;e s&atilde;o as
+desgra&ccedil;adas crean&ccedil;as que por ahi vendem a sua
+mocidade e
+os seus carinhos por um titulo avariado ou pelos milh&otilde;es
+d'um
+negreiro enriquecido. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o as accusemos, accusemos antes a perniciosa, a funesta
+educa&ccedil;&atilde;o que receberam, germens que
+teem no
+N&atilde;o as accusemos, accusemos antes a perniciosa, a funesta
+educa&ccedil;&atilde;o que receberam, germens que
+teem no passado as suas raizes damninhas e que v&atilde;o estender
+<span class="pagenum">[18]</span>
+sobre o futuro a sua
+sombra deleteria e esterelisadora. <br />
+
+<br />
+
+Combater estes erros, lan&ccedil;ar por terra estes preconceitos
+deve ser a mira de todo o ser que pensa e cr&ecirc;!<br />
+
+<h4>III </h4>
+
+<br />
+
+Deixemos agora os <em>menages</em> modestos
+onde reina o trabalho ou os sal&otilde;es vulgarmente luxuosos onde
+a
+riqueza ostenta os seus v&atilde;os orgulhos, e penetremos no <em>boudoir</em>
+elegante, onde a mulher do
+alto mundo proclama o que se lhe afigura a sua incontestavel
+superioridade. <br />
+
+<br />
+
+Ha um preconceito falsamente democrata, e digo <em>falsamente</em>
+porque a democracia tem
+obriga&ccedil;&atilde;o de ser justa, imparcial e intelligente,
+que
+attribue aos restos desmantelados da nossa aristocracia, todas as
+culpas e todas as inferioridades. <br />
+
+<br />
+
+Engano! <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; verdade que a aristocracia portugueza avaliada no seu
+conjuncto, se annullou pela ignorancia, como a aristocracia franceza se
+annullou pelo desdem, e a prova temol-a n&oacute;s em Inglaterra
+onde esta classe que
+<span class="pagenum">[19]</span>
+n&atilde;o foi nunca ignorante nem desdenhosa, predomina com todo o
+pezo d'uma robusta institui&ccedil;&atilde;o de
+seculos nos destinos politicos, economicos e sociaes da
+na&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Hoje por&eacute;m, o que em Portugal resta de uma ra&ccedil;a
+que teve
+todos os privilegios e todas as prepotencias, tenta instruir-se de boa
+vontade, aspira a levantar-se pelo valor individual, e se raras vezes o
+consegue, &eacute; que o passado exerce ainda a sua influencia
+nefasta,
+&eacute; que a decadencia e o abastardamento das ra&ccedil;as
+s&atilde;o uma verdade scientifica contra a qual nada
+p&oacute;de a
+vontade humana. <br />
+
+<br />
+
+A fidalga tradicional e lendaria, soberba, sem conseguir ser magestosa,
+ignorante, cheia de preconceitos, de rediculos e de toda a especie de
+id&eacute;as estapafurdias, olhando de muito alto com um pasmo
+idiota
+que aspira a ser desdenhoso, para as maravilhas d'uma
+civilisa&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o comprehende,
+vae desapparecendo completamente at&eacute; dos velhos solares da
+provincia acastellados e altivos. <br />
+
+<br />
+
+Morre sem deixar saudades e sem ter quem a substitua. <br />
+
+<br />
+
+Hoje as representantes femeninas das altas classes se n&atilde;o
+seguem
+um caminho mais verdadeiro, mais util, mais fecundo em resultados
+praticos, revestem ao menos a sua falsa percep&ccedil;&atilde;o
+da
+id&eacute;a moderna,
+d'um prestigio que &aacute; primeira vista agrada e seduz.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[20]</span>
+A educa&ccedil;&atilde;o d'ellas, uma
+educa&ccedil;&atilde;o toda exterioridades brilhantes, se
+n&atilde;o
+&eacute; aquella de que carecem as m&atilde;es, as perceptoras
+de
+futuro, estabelece comtudo e accentua incontestavelmente a sua
+superioridade social sobre as gera&ccedil;&otilde;es que as
+precederam.
+<br />
+
+<br />
+
+A influencia estrangeira e sobretudo a franceza, penetrou nas salas
+desbotadas dos nossos palacios e nas luxuosas residencias da nossa
+aristocracia moderna. <br />
+
+<br />
+
+Se n&atilde;o temos a mulher de familia, a creadora de uma
+gera&ccedil;&atilde;o robusta, conscienciosa, crente e
+leal, temos a <em>mulher de sala</em>, que &eacute;
+uma nova face da transforma&ccedil;&atilde;o lenta por que
+v&atilde;o passando as id&eacute;as e os acontecimentos. <br />
+
+<br />
+
+A mulher de sala &eacute; um producto exotico entre n&oacute;s.
+<br />
+
+<br />
+
+A Fran&ccedil;a recebeu-a da Italia, cultivou-a, transformou-a,
+deu-lhe
+todos os requintes falsos, todos os donaires artificiaes, ergueu-lhe um
+throno no seio das suas c&ocirc;rtes galantes, e deixou que
+n&oacute;s,
+vendo-a de
+longe a cubi&ccedil;assemos e tentassemos transplantal-a para os
+nossos
+costumes ch&atilde;os, para a nossa pobreza envergonhada e modesta.
+<br />
+
+<br />
+
+Sahiu-nos uma cousa hybrida e estranha, que n&atilde;o
+est&aacute; em rela&ccedil;&atilde;o com o seu meio,
+deslocada, inutil, mas em todo o caso attrahente para os olhos
+superficiaes. <br />
+
+<br />
+
+A mulher de sala falla umas poucas de linguas, com facilidade e
+fluencia; escreve bem, com uma certa
+<span class="pagenum">[21]</span>
+gra&ccedil;a adquirida que
+n&atilde;o
+occulta a frivolidade,
+mas que a envolve em v&eacute;u rendilhado; conversa com vivesa e
+com
+chiste, sabe dar aos pequenos
+<em>nadas</em> da sua vida uma elegancia que illude os
+incautos. Quem
+a v&ecirc; de longe, no scenario pomposo da sua opulencia, sente-se
+deslumbrado; quem a observar de perto conhece que ella tem de facto
+caminhado para se afastar das suas predecessoras, mas que o caminho que
+vae trilhando &eacute; como o que ellas trilharam, um caminho
+falso, um
+caminho sem sahida. <br />
+
+<br />
+
+O primeiro obstaculo que a separa da verdadeira luz, &eacute; uma
+devo&ccedil;&atilde;o inteiramente
+errada, em que a id&eacute;a luminosa e fecunda pr&eacute;gada
+pelo
+Christo se subverte e se afoga n'uma onda de preconceitos e de mentiras
+anti-christ&atilde;s. <br />
+
+<br />
+
+Se a mulher das classes inferiores estabelece entre si e o marido uma
+barreira enorme&#8213;a sua ignorancia&#8213;a mulher mais culta e mais educada
+das classes elevadas separa-se do marido, como se separa mais tarde dos
+filhos isolando-se na esphera inaccessivel do seu intransigente
+fanatismo. <br />
+
+<br />
+
+Quando digo fanatismo, n&atilde;o quero referir-me a uma
+cren&ccedil;a
+exaggerada e absoluta, que impere em todos os actos da vida, e que os
+subordine &aacute;s suas austeras exigencias. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; um fanatismo elegante, um fanatismo de
+<em>alta</em>
+<span class="pagenum">[22]</span>
+<em>vida</em>,
+bastante indulgente para se
+permittir todos os gozos sociaes, bastante severo para n&atilde;o
+admittir que haja virtudes, merito, nobreza, sublimidade possivel
+f&oacute;ra do seu estreito gremio. <br />
+
+<br />
+
+Aqui como alli &eacute; sempre o divorcio na familia debaixo de
+qualquer dos aspectos. <br />
+
+<br />
+
+Aqui por&eacute;m mais completo ainda, visto que a vida da
+sociedade
+exige mais da mulher, visto que n'esta existencia de
+representa&ccedil;&atilde;o exterior e pueril,
+nem ao menos subsiste entre a mulher e o marido aquella intimidade
+material, aquella protec&ccedil;&atilde;o mutua que faz com que
+o homem
+seja o bra&ccedil;o, o amparo, o sustentaculo, e a mulher o
+desvelo, a
+economia, a vigilancia continua, a dispensadora e reguladora de todos
+os confortos materiaes da familia. <br />
+
+<br />
+
+A mulher de sala vive para todos, menos para os seus. <br />
+
+<br />
+
+Veste-se, despe-se, reza, confessa-se, recebe visitas, tagarella,
+agrada, encanta, mas no meio d'este labyrintho de pequenas
+occupa&ccedil;&otilde;es, de pequenos deveres, de pequenas
+caridades
+officiaes, de pequenas praticas devotas, ignora completamente e
+absolutamente tudo que p&oacute;de constituir a verdadeira
+miss&atilde;o da mulher
+no mundo e na familia. <br />
+
+<br />
+
+Se alguem tivesse a ousadia de dizer-lhe: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Julgas-te superior e moralmente fallando a mulher
+<span class="pagenum">[23]</span>
+do povo que ganha com o suor
+do rosto ao lado do homem, o p&atilde;o que os filhos
+h&atilde;o de
+comer
+&aacute; noite, tem sobre ti superioridade moral incontestavel. <br />
+
+<br />
+
+Julgas-te instruida e n&atilde;o tens no teu pequeno cerebro
+recheiado
+de insignificancias bonitinhas, a no&ccedil;&atilde;o
+mais elementar dos milh&otilde;es de cousas que precisas de saber
+para
+estares em harmonia com o teu tempo, para educares dignamente aquelles
+em cujas m&atilde;os est&atilde;o
+os destinos de &aacute;manh&atilde;. <br />
+
+<br />
+
+Julgas-te virtuosa e n&atilde;o prat&iacute;cas nem concebes
+sequer nenhuma d'aquellas virtudes s&atilde;s que s&atilde;o a
+dignidade, o imperio e a for&ccedil;a da mulher. <br />
+
+<br />
+
+Julgas-te religiosa e cada uma das tuas praticas acanhadas, cada um dos
+teus preconceitos mesquinhos te aparta da verdadeira
+religi&atilde;o
+que allumia e esclarece os fortes. <br />
+
+<br />
+
+Julgas-te boa esposa e boa m&atilde;e e vives s&oacute;sinha
+n'um mundo
+teu, povoado de phantasias morbidas, onde teu marido e teus filhos
+n&atilde;o penetram; n&atilde;o
+tentas acompanhal-os, consolal-os, comprehendel-os; nunca te veio
+&aacute; id&eacute;a que a m&atilde;e de familia
+precisa de viver no cora&ccedil;&atilde;o dos seus,
+identificada
+completamente com
+elles, para ser digna d'este sagrado nome! <br />
+
+<br />
+
+Se alguem lhe dissesse isto ella julgaria ouvir fallar uma lingua
+estranha, ou rir-se-ia com desdenhosa incredulidade.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[24]</span>
+Pois &eacute; necessario que ella entenda esta
+li&ccedil;&atilde;o, que ella ou&ccedil;a estas palavras, e
+que pelo
+seu esfor&ccedil;o
+permanente e consciencioso, ella tente sahir das trevas intellectuaes e
+moraes em que a sua funesta e falsa educa&ccedil;&atilde;o a
+teem
+submergido. <br />
+
+<h4>IV </h4>
+
+<br />
+
+No meio do desalento profundo, da inconsolavel tristeza, que n'esta
+&eacute;poca parece obumbrar de espessas nuvens a alma do homem, e
+como
+que vencer-lhe as aspira&ccedil;&otilde;es e as energias,
+erguemos a
+voz
+desauctorisada e humilde para apontar algumas das causas que produzem
+effeitos t&atilde;o deploraveis. <br />
+
+<br />
+
+Temos visto a desharmonia que existe no lar domestico, e encontramos
+como unico motor de tamanho desastre a desigualdade intellectual que a
+educa&ccedil;&atilde;o estabelece e nutre entre os dous sexos. <br />
+
+<br />
+
+Mas n&atilde;o se trata s&oacute;mente de observar as causas e
+os
+effeitos, trata-se de pensar n'um remedio que seja efficaz para este
+estado de cousas, que a prolongar-se indefinidamente produz a
+dissolu&ccedil;&atilde;o social nos
+seus aspectos mais dolorosos e mais repellentes.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[25]</span>
+Se a sociedade e a civilisa&ccedil;&atilde;o requintada e
+corrupta dos nossos tempos ainda n&atilde;o ensinaram &aacute;
+mulher o
+caminho verdadeiro e util que tem a seguir, antes d'elle a teem
+afastado mais e mais, ella p&oacute;de ainda erguer-se do marasmo
+intellectual em que se compraz, e mostrar ao homem que &eacute;
+digna
+de coadjuval-o na sua obra de reedifica&ccedil;&atilde;o, digna
+de
+acompanhal-o
+na realisa&ccedil;&atilde;o pratica do que para elle,
+desajudado e
+s&oacute;, n&atilde;o tem passado d'uma bella
+concep&ccedil;&atilde;o
+theorica onde &aacute;s vezes transluzem n&atilde;o sei que
+visos de
+chimera.
+<br />
+
+<br />
+
+Todos os seculos teem mais ou menos acceitado a heran&ccedil;a dos
+seculos precedentes. <br />
+
+<br />
+
+Ao nosso cabe por&eacute;m a gloria de ter renegado muitos erros do
+passado, de ter proclamado a sua independencia, de ter produzido um
+reviramento absoluto n'esse conjuncto de id&eacute;as, de
+conhecimentos, de
+aspira&ccedil;&otilde;es e de theorias que constituem o <em>ideal</em>
+humano. <br />
+
+<br />
+
+O que hoje se exige da mulher &eacute; positivamente o contrario do
+que
+a sociedade antiga affei&ccedil;oada por moldes diversissimos
+exigia
+at&eacute; agora. <br />
+
+<br />
+
+Este ponto d'uma importancia capital precisa de ser esclarecido a
+fundo. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute; escravid&atilde;o absoluta a que o nosso sexo se
+curvou sob o imperio de religi&otilde;es extinctas, &aacute;
+bruteza
+dilacerante em que elle viveu submerso entre as sombras das idades
+barbaras, succedeu&#8213;e succedeu providencialmente&#8213;a
+<span class="pagenum">[26]</span>
+apotheose da
+mulher divinisada pelo christianismo, aureolada por aquella poesia
+artificial, exageradamente requintada e platonica dos trovadores da
+Edade media, e aquella abnega&ccedil;&atilde;o amorosa e
+idealista dos
+paladinos da cruz! <br />
+
+<br />
+
+Essa transforma&ccedil;&atilde;o radical no destino da mulher
+fez sentir a sua influencia at&eacute; hoje, em phases e
+grada&ccedil;&otilde;es successivas e diversas. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute; castell&atilde; de repente acordada do seu lethargo
+mental,
+pela tiorba namorada do pagem, ou pela supplica ardente do cavalleiro,
+succedeu a rainha das
+<em>c&ocirc;rtes de amor</em>, a que erigia em dogma
+ideal o adulterio, a que proclamava em senten&ccedil;as
+<em>preciosas</em> a quebra de todos os la&ccedil;os da
+familia, a que
+via no amor requintado, falsamente seraphico, um direito superior a
+todos os direitos e deveres domesticos. Veio depois a gentil
+pag&atilde; da Renascen&ccedil;a, a inspiradora dos artistas, a
+amante dos papas, a musa dos loucos poetas, a princeza dos festins,
+erudita, apaixonada, intelligente, cheia de phantasias superiores, que
+se era virtuosa se chamava Victoria Colonna, e se era dissoluta se
+chamava Lucrecia Borgia. <br />
+
+<br />
+
+A esta que correspondia ao seu meio social, que cumpria uma
+miss&atilde;o civilisadora, que tinha o seu destino marcado, e a
+sua
+orbita descripta succedeu a mulher de sala do seculo XVII e do seculo
+XVIII, de que
+<span class="pagenum">[27]</span>
+hoje
+s&oacute; temos a descendencia amesquinhada, decadente,
+anachronica, e,
+o que &eacute; peor de tudo, inutil quando n&atilde;o
+&eacute; funesta,
+ridicula quando n&atilde;o
+&eacute; tambem perniciosa, o que lhe succede quasi sempre. <br />
+
+<br />
+
+O homem que muitos seculos considerou a mulher um animal inferior e mal
+domesticado, fez d'ella movido por influencias que n&atilde;o
+podemos
+historiar aqui, o seu luxo, a sua poezia, o enl&ecirc;vo das suas
+horas
+de ocio, depois novamente a escrava dos seus vicios ou o instrumento
+dos seus prazeres, e por fim um mero ornamento social, um brinquedo sem
+importancia, uma crean&ccedil;a indocil, ante a qual se curvava,
+n&atilde;o
+porque a respeitasse mas porque n'esta falsa e mentida
+submiss&atilde;o
+encontrava novos requintes de prazer. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o comprehendeu por&eacute;m que era victima da sua
+propria
+injusti&ccedil;a, que a corrup&ccedil;&atilde;o da
+mulher se convertia para elle em gangrena, que o seu amesquinhamento se
+lhe communicava em villeza, que a sua ignorancia o fazia tambem
+retrogradar, que ha rela&ccedil;&otilde;es reciprocas que
+n&atilde;o
+podem quebrar-se, e influencias mutuas a que os dous sexos ao mesmo
+tempo divorciados e unidos, n&atilde;o podem por mais que queiram
+furtar-se.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Hoje uma corrente de ar puro, a corrente das id&eacute;as
+democraticas,
+purificou a atmosphera viciada
+<span class="pagenum">[28]</span>
+onde uns poucos de seculos haviam
+deixado os vestigios das suas paix&otilde;es insalubres. <br />
+
+<br />
+
+Tudo se transfigurou sob esta influencia benefica. Fez-se uma grande
+claridade na alma dos povos e na dos individuos, o pensamento
+reconquistou a sua independencia perdida, e uma voz firme e poderosa
+bradou bem
+alto: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o se tracta de continuar no caminho que iamos trilhando,
+tracta-se de procurar uma nova
+direc&ccedil;&atilde;o que nos conduza &aacute; verdade. <br />
+
+<br />
+
+Ouvir esta voz &eacute; renunciar aos erros do passado, e cumpre
+que
+n&oacute;s mulheres renunciemos a elles, para n&atilde;o
+caminharmos
+por uma estrada opposta &aacute;quella por onde v&atilde;o
+subindo
+fortes, illuminados, convencidos, os nossos paes, os nossos esposos, os
+nossos irm&atilde;os. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o &eacute; a uma penna t&atilde;o obscura como
+&eacute; a minha que pertence dar leis absolutas sobre um systema
+de educa&ccedil;&atilde;o diverso do que hoje est&aacute;
+geralmente adoptado. <br />
+
+<br />
+
+Limitar-me-hei rapidamente e apenas animada com a for&ccedil;a da
+consciencia, consultando o bom senso que &eacute; apanagio dos mais
+humildes, e a
+observa&ccedil;&atilde;o que p&oacute;de ser partilha dos
+mais pobres,
+a indicar alguns dos obstaculos que nos separam moralmente d'aquelles
+de quem s&ocirc;mos companheiras e de quem devemos ser auxilio e
+complemento.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[29]</span>
+A vida da sociedade &eacute; uma vida toda de egoismo e de vaidade,
+a
+vida de familia uma vida de renunciamento e de
+abnega&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Para viver na sociedade a mulher s&oacute; precisa de ser
+exteriormente
+agradavel, para viver na familia a mulher precisa de ser forte. <br />
+
+<br />
+
+O mundo exige as gra&ccedil;as, as garridices, as subtilezas do
+espirito, as lou&ccedil;anias do tracto; a familia sem prescrever
+inteiramente aquellas, exige acima de tudo a consciencia firme, a
+id&eacute;a clara e definida dos deveres, o espirito do sacrificio,
+e
+aquella energia branda que resiste &aacute;s
+tenta&ccedil;&otilde;es
+dissolventes
+do peccado. <br />
+
+<br />
+
+Entendemos pois que os esfor&ccedil;os de todos os educadores, de
+todos
+os que se preoccupam com o futuro da sociedade devem convergir para
+annullar a mulher dos sal&otilde;es, e para crear e fortalecer a
+mulher
+da familia. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o nos revoltamos contra as graciosas futilidades que hoje
+constituem a educa&ccedil;&atilde;o feminina,
+n&atilde;o as condemnamos a um completo ostracismo, desejamos
+simplesmente vel-as collocadas no lugar que por sua natureza lhes
+compete. S&atilde;o simples ornatos decorativos, como taes os
+applaudimos e os queremos, n&atilde;o como fundo solido e base de
+todo
+o cultivo intellectual da mulher. <br />
+
+<br />
+
+Tambem n&atilde;o pedimos para o nosso sexo a
+emancipa&ccedil;&atilde;o,
+<span class="pagenum">[30]</span>
+essa utopia de que hoje se falla tanto
+e com tantas banalidades impensadas. <br />
+
+<br />
+
+O que n&oacute;s desejariamos era v&ecirc;r na mulher uma
+personalidade
+robusta e consciente, inaccessivel &aacute;s chimeras
+da sentimentalidade, solidamente e despretenciosamente instruida, tendo
+todas as no&ccedil;&otilde;es praticas necessarias para
+subordinarem o
+seu destino &aacute;s leis do bom senso, ao alcance de todos os
+descobrimentos e de todas as conquistas do seu tempo, comprehendendo o
+bello debaixo de todos os seus aspectos; prompta para perdoar o mal mas
+n&atilde;o para transigir com elle; sabendo resistir-lhe mas
+sabendo
+explicar as circumstancias que o attenuam &aacute;s vezes. <br />
+
+<br />
+
+Tendo acima de todas as religi&otilde;es a religi&atilde;o do
+Bem,
+sacrificando-se aos seus affectos, mas sacrificando-se principalmente
+aos seus deveres. <br />
+
+<br />
+
+Laboriosa como condi&ccedil;&atilde;o indispensavel da propria
+dignidade. <br />
+
+<br />
+
+O trabalho &eacute; a redemp&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ha mulher que n&atilde;o tenha conhecido mais ou
+menos
+fugitivas, mais ou menos trai&ccedil;oeiras, mais ou menos
+perigosas,
+essas horas m&aacute;s chamadas
+tenta&ccedil;&otilde;es. O trabalho &eacute; a salvaguarda
+para essas
+horas. <br />
+
+<br />
+
+Os espiritos ociosos s&atilde;o os espiritos accessiveis.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[31]</span>
+No dia em que este novo ideal tiver tomado uma f&oacute;rma
+tangivel at&eacute; para os mais humildes e para
+os mais ignorantes a familia estar&aacute; salva, porque
+ter&aacute; por esteio a moralidade. <br />
+
+<br />
+
+At&eacute; ent&atilde;o ha de haver as incertezas, as duvidas,
+as vacilla&ccedil;&otilde;es, os desalentos que tornam esta
+hora da vida das na&ccedil;&otilde;es, uma hora contradictoria,
+estranha, profundamente dolorosa, que j&aacute; n&atilde;o tem
+raizes no passado sem ter ainda um ficto no futuro. <br />
+
+<br />
+
+Trabalhem todas as m&atilde;es n'esta obra sublime, e como a
+mythica
+Minerva sahiu armada do cerebro olympico de seu pae, assim a mulher
+sahir&aacute; do ninho em que se educou, j&aacute; prompta para
+receber
+a p&eacute; firme o embate tempestuoso das paix&otilde;es, que
+se a
+vencem a inutilisam e a degradam.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>CAPITULO II </h3>
+
+<h3>
+O falso luxo </h3>
+
+<br />
+
+<div class="breaks">
+<hr /></div>
+
+<h4>I </h4>
+
+<br />
+
+Na nossa pequena sociedade de Lisboa, em que os meios est&atilde;o
+em
+completo desequilibrio com os desejos, chega todos os annos um periodo,
+o periodo que antecede o carnaval, em que nos julgamos mais ou menos
+obrigados a sacrificar ao amor da sociabilidade. <br />
+
+<br />
+
+Entendemos que uma sociedade civilisada n&atilde;o p&oacute;de
+viver sem festas e sem saraus, portanto &eacute;
+necessario que sem hesita&ccedil;&atilde;o fa&ccedil;amos
+tudo que nos
+seja possivel, e mesmo impossivel, para darmos e recebermos saraus e
+festas. <br />
+
+<br />
+
+Ou&ccedil;o eu por ahi dizer e affirmar que os talentos
+<span class="pagenum">[34]</span>
+e os genios enxameiam como papoulas nas
+se&aacute;ras de abril. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o duvido, n&atilde;o senhor; temos talento, temos
+genio, temos
+superioridade, temos phantasia, temos tudo quando quizerem. <br />
+
+<br />
+
+O que n&oacute;s n&atilde;o temos &eacute; uma cousa
+pequena, humilde, despertenciosa, desdenhada. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o temos <em>bom-senso</em>. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o quero aqui entrar na quest&atilde;o muito complexa e
+muito
+complicada de saber se as festas, se os bailes, se os jantares de gala,
+se todas as ceremonias pomposas da vida mundana podem ter no
+desenvolvimento da industria, no progresso da
+civilisa&ccedil;&atilde;o
+moderna
+alguma influencia benefica. <br />
+
+<br />
+
+Em outros paizes mais ricos, em outras na&ccedil;&otilde;es
+mais
+industriaes, em outro regimen mais favoravel ao luxo creio que sim. <br />
+
+<br />
+
+Entendo eu, por&eacute;m, que as leis geraes n&atilde;o se
+podem applicar a casos especiaes, e que n&oacute;s n&atilde;o
+podemos
+conservar a vida falsamente luxuosa que &eacute; e
+continuar&aacute; a ser por muito tempo o nosso ideal supremo! <br />
+
+<br />
+
+Em Lisboa haver&aacute; cem familias que estejam no caso de gastar
+em superfluidades um rendimento avantajado. <br />
+
+<br />
+
+Mas, como o amor da representa&ccedil;&atilde;o &eacute; o
+nosso cunho
+<span class="pagenum">[35]</span>
+nacional,
+como o desprezo pelos pobres &eacute; o timbre e o
+braz&atilde;o da
+nossa sociedade, como o luxo &eacute; o sonho e a
+aspira&ccedil;&atilde;o constante de todos os
+cerebros juvenis, prov&eacute;m d'aqui que dia a dia, se sente na
+familia uma perturba&ccedil;&atilde;o e uma desharmonia mais
+graves que
+o contentamento intimo e desinvejoso vae-se tornando uma fl&ocirc;r
+rara, que s&oacute; aqui ou alli enfeita
+suavemente a fronte ignorante de uma collegial de quinze annos! <br />
+
+<br />
+
+Depois, como se n&atilde;o p&oacute;de vencer o impossivel,
+mesmo as
+que empregam os maximos sacrificios para apparecerem e brilharem,
+depois de alcan&ccedil;ado o fim a que aspiravam, ficam mais
+tristes e
+mais despeitadas do que antes de o ter realisado. <br />
+
+<br />
+
+No baile, &aacute; luz opalina dos lustres, no aroma capitoso das
+violetas, entre as magnificencias avelludadas das camelias, percebem&#8213;e
+com que amargo desespero!&#8213;que o seu vestido n&atilde;o
+est&aacute;
+fresco, que
+est&atilde;o machucadas as suas flores, que a ninguem illude o
+amarellado artificial das suas rendas falsas, e que o <em>strass</em>
+n&atilde;o
+p&oacute;de substituir com muita vantagem os diamantes verdadeiros.
+<br />
+
+<br />
+
+Oh! quantas priva&ccedil;&otilde;es, quantos sacrificios,
+quantas luctas conjugaes, que scenas intimas, para
+alcan&ccedil;arem aquella <em>toillete</em>
+mesquinha,
+desbotada, humilhante, que parece ter malicias diabolicas em cada
+<span class="pagenum">[36]</span>
+uma das suas pregas, a rir-se
+ferozmente no seu
+<em>fru-fru</em> escarnecedor. <br />
+
+<br />
+
+E a dona d'esse vestuario hybrido pensa de si para si com uma furia
+concentrada, que p&otilde;e manchas biliosas nas suas faces, e
+chispas
+sombrias nos seus olhos pisados. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;N&atilde;o consigo humilhar nenhuma das minhas
+inimigas,
+n&atilde;o ven&ccedil;o nenhuma das minhas rivaes! As
+pobres adivinhar&atilde;o todas as penas que esta hora de
+ostenta&ccedil;&atilde;o me tem custado! as ricas
+ter&atilde;o d&oacute;, um d&oacute; profundo da minha
+miseria mal
+disfar&ccedil;ada e mal occulta! Que ganhei eu com isto?&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Ganhou, minha senhora, ganhou alguma cousa, p&oacute;de crer.
+Ganhou a
+certeza de que seu marido ou n&atilde;o a estima j&aacute;, se
+&eacute;
+honesto e digno
+e tem a alta comprehens&atilde;o dos deveres da familia, ou
+continua a
+sentir o mesmo que at&eacute; alli tinha sentido, uma
+paix&atilde;o insalubre ou uma indifferen&ccedil;a bestial, e
+n'esse
+caso n&atilde;o passa de um homem tolo, ou de um homem
+m&aacute;u! <br />
+
+<br />
+
+Ganhou o haver definido, de si para comsigo a sua propria
+situa&ccedil;&atilde;o; ganhou o reconhecer bem a que especie
+de marido
+entregou o destino de seus filhos e o seu. <br />
+
+<br />
+
+E n&atilde;o se diga que ha n'estas minhas palavras demasiada
+acrimonia, ou injusti&ccedil;a flagrante.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[37]</span>
+O nosso defeito consiste positivamente n'isso: em dar pouca
+atten&ccedil;&atilde;o a todas as cousas; em ver os
+resultados sem observar e sem julgar as causas; em perdermos
+completamente de vista, que n&atilde;o ha effeito por mais
+mesquinho
+que n&atilde;o seja o corollario de uma lei importante. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o quero, j&aacute; se v&ecirc;, condemnar sem
+appello as senhoras que frequentam a sociedade e se habituam
+&aacute; atmosphera artificial dos sal&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+Quero provar simplesmente que entre cem senhoras que o fazem,
+s&oacute;
+dez &eacute; que o podiam fazer, e que o nosso modo de ser social
+se
+n&atilde;o coaduna com esses costumes pomposos, restos e
+heran&ccedil;a
+de um extincto regimen. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Para se saber quanto o luxo corrompe e adoece um paiz bastar-nos-hia
+apontar para a Fran&ccedil;a de Luiz XV e para a Fran&ccedil;a
+do
+segundo imperio. <br />
+
+<br />
+
+A historia e as chronicas d'esses dias de ominosa memoria
+revelar-nos-hiam de um modo bem claro e bem frisante quanto
+&eacute;
+escorregadio o declive que do luxo exagerado conduz &aacute;
+immoralidade, ao impudor da mulher e &aacute;s deshonestas
+transigencias do homem.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[38]</span>
+N&atilde;o queremos, por&eacute;m, n'este estudo despretencioso
+evocar a historia, nem revolver o lodo das passadas
+corrup&ccedil;&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+Queremos simplesmente fallar ao bom senso das leitoras, e queremos
+fallar ch&atilde;mente, simplesmente, sem
+declama&ccedil;&otilde;es,
+nem id&eacute;as
+preconcebidas. <br />
+
+<br />
+
+Todos sabem que o nivelamento das classes, a livre divis&atilde;o
+dos
+bens, a democratisa&ccedil;&atilde;o das
+fortunas, se teem conseguido debellar muitas e crueis
+injusti&ccedil;as
+sociaes do passado, teem sido tambem a destrui&ccedil;&atilde;o
+das colossaes fortunas de outro tempo. <br />
+
+<br />
+
+Hoje, quando essas fortunas por acaso existem, s&atilde;o creadas
+pelo
+trabalho em grande escala, pelas importantes emprezas commerciaes, pela
+actividade devoradora de homens privilegiados. <br />
+
+<br />
+
+J&aacute; se n&atilde;o fundam como antigamente em direitos
+estaveis e
+indestructiveis. S&atilde;o ephemeras, contingentes, dependem de
+muitas
+causas com que se n&atilde;o p&oacute;de absolutamente contar. <br />
+
+<br />
+
+Uma crise financeira, uma guerra europ&eacute;a, uma quebra
+importante,
+um abalo qualquer de credito, e eis por terra um edificio
+assombroso e complicado que parecia dever resistir ao embate de todas
+as tempestades, e que um s&ocirc;pro logra alluir! <br />
+
+<br />
+
+Ora, se isto tem rela&ccedil;&atilde;o com as grandes fortunas,
+se nem ellas podem contar com o dia de &aacute;manh&atilde;,
+que
+<span class="pagenum">[39]</span>
+far&atilde;o os que
+n&atilde;o possuem mais que o necessario,
+os que &aacute;s vezes nem isso possuem? <br />
+
+<br />
+
+Antigamente, no modo por que estava constituida a hierarchia social,
+uns tinham todos os bens, e outros soffriam todos os males; hoje como
+todos teem eguaes direitos, todos querem ter eguaes regalias. <br />
+
+<br />
+
+Seria isso muito bom, se a egualdade que existe entre as prerogativas
+podesse existir tambem entre as riquezas, se em vez de haver pobres e
+ricos, houvesse s&oacute;mente ricos, cousa a que nem os mais
+exaltados
+socialistas se lembraram ainda de aspirar. <br />
+
+<br />
+
+Ora, se est&aacute; sobejamente provado que, principalmente no
+nosso
+pequeno paiz, ha uma minoria pequenissima que &eacute; rica, ha uma
+maioria enorme que &eacute; miseravel, e ha, entre os dous
+extremos,
+uma classe, a mais importante&#8213;no fim de contas, visto que tem a
+superioridade da educa&ccedil;&atilde;o e da
+intelligencia, que &eacute; simplesmente remediada, porque
+&eacute; que
+n&atilde;o havemos de sujeitar o nosso regimen social &aacute;s
+exigencias e necessidades d'essa classe, que &eacute; a
+predominante,
+sen&atilde;o pelo numero, ao menos pela influencia que exerce? <br />
+
+<br />
+
+Essa classe p&oacute;de conhecer as
+distrac&ccedil;&otilde;es de uma agradavel intimidade, mas
+n&atilde;o
+as pompas decorativas, as ceremoniosas galas de uma vida de
+sal&atilde;o apparatosa e futil.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[40]</span>
+Se os filhos d'essa classe olhassem para baixo e vissem as
+priva&ccedil;&otilde;es, as luctas, as miserias dos
+que s&oacute; conseguem com o suor do rosto ganhar um
+peda&ccedil;o de
+p&atilde;o duro e cobrir pobremente o corpo emmagrecido, de certo
+que
+se sentiriam felizes, triumphantes, dignos de inveja, na sua
+mediocridade aurea, na modesta fartura da sua vida domestica, nas
+distrac&ccedil;&otilde;es intimas de
+um circulo affectuoso e limitado. <br />
+
+<br />
+
+Mas n&atilde;o! Olham para cima, v&ecirc;em os ricos, os
+potentados, os
+dominadores do seculo, ouvem nas tenta&ccedil;&otilde;es febris
+das
+suas noites o tilintar
+magnetico do ouro, v&ecirc;em passar no fundo dos seus ligeiros
+coup&eacute;s, pallidas e desdenhosas mulheres, que medram como
+fl&ocirc;res exoticas de fulva folhagem metallica na estufa das
+suas
+salas opulentas, sentem em si o desejo insaciado de todos os prazeres
+que n&atilde;o teem, e sem prudencia, sem pudor, sem dignidade,
+atiram-se &aacute;s especula&ccedil;&otilde;es vergonhosas,
+transigem
+com a sua propria probidade, vendem, desde os bens que herdaram de seus
+paes, at&eacute; &aacute; consciencia que lhes veio de Deus, e
+quando
+conhecem que n'esta lucta ingloria, n'esta lucta impossivel
+s&oacute;
+podem ser vencidos, j&aacute;
+n&atilde;o &eacute; tempo para retrocederem no funesto caminho
+encetado! <br />
+
+<br />
+
+E que n&atilde;o ha parar n'esta ingreme descida. <br />
+
+<br />
+
+Teem-me dito por varias vezes que eu sou feroz
+<span class="pagenum">[41]</span>
+para com o sexo a que
+perten&ccedil;o;
+que accuso com muita injusti&ccedil;a as mulheres de todos os males
+que
+teem succedido, que succedem ou que est&atilde;o para succeder no
+nosso
+mesquinho planeta. <br />
+
+<br />
+
+Ora eu, pelo contrario, estou convencida de que o meu orgulho, de que a
+minha vaidade feminil me levam a dar &aacute;s mulheres uma
+importancia
+que mais ninguem lhes quer reconhecer. <br />
+
+<br />
+
+Eu digo que d'ellas prov&eacute;em todos os males, porque estou
+convencida&#8213;talvez sem raz&atilde;o&#8213;que d'ellas podiam provir
+todos os
+bens. <br />
+
+<br />
+
+Ainda no ponto de que se tracta &eacute; d'ellas toda a culpa, no
+meu humilde entender. <br />
+
+<br />
+
+Sim, porque no fim de contas, n&atilde;o s&atilde;o os pobres
+maridos
+que mais desejam figurar nos bailes e nos saraus, e que de boa vontade
+sacrificam a commoda poltrona em que podiam dormir a sesta, o bom e
+saboroso jantarinho que podiam comer, o livro util e proveitoso que
+comprariam, para gastarem esse dinheiro n'uma <em>toilette</em>
+falsamente luxuosa,
+n'uma <em>soir&eacute;e</em>
+ridiculamente burgueza, n'um jantar de ceremonia cujos acepipes, na
+opini&atilde;o do conviva mais guloso, seriam s&oacute; dignos
+de
+figurarem n'um banquete de theatro com pratos de... papel&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o as mulheres que teem sempre a louca
+ambi&ccedil;&atilde;o de figurarem ao par de outras mais ricas,
+embora
+<span class="pagenum">[42]</span>
+n'essa lucta desigual
+s&oacute; consigam tornar bem visivel e bem grotesca a sua derrota!
+<br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o as mulheres que consideram os prazeres mundanos como o
+indispensavel elemento para a sua completa felicidade. <br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o ellas que arrancam &aacute;s primeiras necessidades
+do <em>m&eacute;nage</em>,
+&aacute;
+carne que os filhos devem comer, &aacute;s roupas brancas da
+familia,
+aos abafos do inverno, &aacute; lenha do fog&atilde;o das
+noutes frias,
+&aacute; mobilia
+commoda e confortavel das casas, ao peculio das doen&ccedil;as, ao
+asseio e ao conforto domestico, o dinheiro com que adquirem esse luxo
+ridiculo, esse luxo de
+<em>pacotille</em> que n&atilde;o illude, nem excita a
+commisera&ccedil;&atilde;o de ninguem. <br />
+
+<br />
+
+E quando ellas percebem no olhar e na b&ocirc;cca dos que assistem
+a
+essa lucta absurda, um sorriso malicioso, uma faisca de ironico desdem,
+s&atilde;o ellas que irritadas, desvairadas, f&oacute;ra de si,
+arrastam o marido &aacute; extravagancia, &aacute;
+dissipa&ccedil;&atilde;o,
+&aacute; prodigalidade, ao crime, e arrastam os filhos &aacute;
+miseria
+e &aacute;
+desola&ccedil;&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+Nada mais funebre, mais triste, mais sombrio do que o interior de uma
+d'essas casas, em que o necessario &eacute; sacrificado ao
+superfluo,
+em que o real &eacute;
+sacrificado &aacute;s apparencias, em que o conforto intimo
+&eacute;
+sacrificado ao apparato exterior. <br />
+
+<br />
+
+As criadas sujas, despenteadas, petulantes; as
+<span class="pagenum">[43]</span>
+crean&ccedil;as pallidas, anemicas, sem
+educa&ccedil;&atilde;o e sem solas; com os dentes podres e
+nodoas no
+vestido; os moveis indiscretos na mal disfar&ccedil;ada miseria,
+uma
+unica casa elegante&#8213;a sala&#8213;falsa taboleta de uma vida de imposturas;
+a roupa branca do marido encardida e grosseira, a <em>toilette</em>
+da mulher
+vistosa e <em>mirabolante</em>. As c&ocirc;res <em>tapageuses</em>,
+substituindo a qualidade fina e solida; a multiplicidade dos
+arrebiques, substituindo a simplicidade opulenta do trajo. <br />
+
+<br />
+
+Quem depois de conhecer dous annos estas gal&eacute;s conjugaes, se
+resigna a viver n'ellas? <br />
+
+<br />
+
+Os pequenos preferem o collegio sordido e brutal; o homem foge para o
+botequim ou para outros sitios peiores; a mulher vive na rua, na
+modista, no theatro, nas salas do seu conhecimento, no passeio, na
+ociosidade e depois Deus sabe em que! <br />
+
+<br />
+
+Eis a vida creada pelo immoderado amor do luxo.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Afastemos por&eacute;m os olhos d'estes quadros sombrios e que no
+entanto, leitora querida, tu bem sabes que n&atilde;o
+s&atilde;o
+carregados. <br />
+
+<br />
+
+Imagine-se que transformada a sua educa&ccedil;&atilde;o, a
+mulher se formava unicamente para o interior da sua casa. <br />
+
+<br />
+
+D'essa casa n&atilde;o fugiriam de certo os amigos fieis
+<span class="pagenum">[44]</span>
+e dedicados, n&atilde;o se
+excluiam as
+pequenas reuni&otilde;es
+intimas, a musica, as conversa&ccedil;&otilde;es artisticas, as
+leituras agradaveis, os alegres e joviaes ser&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+O que se excluia sem appella&ccedil;&atilde;o eram os inuteis
+apparatos. <br />
+
+<br />
+
+Como a mulher tinha em mira ser s&oacute; agradavel aos seus,
+deixava
+logo de armazenar todas as suas armas&#8213;o espirito, a gra&ccedil;a,
+o
+sorriso, a amabilidade&#8213;para distrahir os estranhos, para agradar aos
+indifferentes. <br />
+
+<br />
+
+Como desejava fugir ao tedio, &aacute; melancolia, &aacute;s
+enervantes
+tristezas da solid&atilde;o, aprendia a dispensar as companhias
+banaes,
+fazendo seus companheiros, os melhores, os que nunca
+atrai&ccedil;oam,
+os livros, a musica boa, as fl&ocirc;res, o trabalho. <br />
+
+<br />
+
+Logo que, em vez de se enfastiar em casa, ella se, divertisse e se
+achasse bem junto dos seus, elles come&ccedil;ariam mesmo
+involuntariamente a sentir-se aquecidos por essa boa e salutar
+influencia. <br />
+
+<br />
+
+Ninguem p&oacute;de estar aborrecido ao p&eacute; de uma pessoa
+que se diverte francamente. <br />
+
+<br />
+
+O marido por mais que os negocios de f&oacute;ra o preoccupem e
+enfadem, por mais que as luctas da arte, do commercio, da politica, da
+industria, o cansem e mortifiquem, ha de sentir for&ccedil;osamente
+um
+raio de bom e salutar contentamento ao p&eacute; da esposa
+<span class="pagenum">[45]</span>
+que volitar em torno d'elle
+viva e chalreadora como um pardal, fresca como uma fl&ocirc;r,
+animada,
+activa, cheia de inven&ccedil;&otilde;es felizes, e de sincera
+e
+desaffectada alegria! <br />
+
+<br />
+
+E depois, eliminado o luxo exagerado da existencia de qualquer familia,
+eliminam-se ao mesmo tempo os cuidados mais lancinantes, as
+preoccupa&ccedil;&otilde;es
+mais absorventes, as luctas mais dolorosas, os despeitos mais
+corruptores. <br />
+
+<br />
+
+Temos visto varias vezes o seguinte: O homem trabalha para dar o
+bem-estar &aacute; mulher, e rouba para lhe dar o luxo! <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; que&#8213;note-se isso bem&#8213;o luxo quando n&atilde;o
+&eacute; a atmosphera natural em que se nasceu e se tem sempre
+vivido,
+uma cousa que &aacute; for&ccedil;a de estar
+identificada comnosco, n&oacute;s j&aacute; nem se quer
+percebemos&#8213;o
+luxo quando &eacute; o fim a que aspira a nossa desenfreada
+ambi&ccedil;&atilde;o, torna-se um elemento profundamente
+desmoralisador. <br />
+
+<br />
+
+Enerva o corpo, excita fatalmente a imagina&ccedil;&atilde;o,
+aggrava a
+insaciabilidade natural aos desejos da mulher, d&aacute;-lhe a
+id&eacute;a de requintes romanescos, de
+aventuras, de amores vedados, attrahe um cortejo de voluptuosas
+tenta&ccedil;&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+A vida das salas &eacute; a consequencia inevitavel do amor do luxo
+que
+devora a mulher de hoje.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[46]</span>
+N&atilde;o a mulher de uma certa e determinada classe, a mulher de
+todas as classes sociaes. <br />
+
+<br />
+
+A esposa do alto financeiro, do colosso da industria, deseja vestir-se
+de um modo que logo de uma vez c&oacute;rte pela raiz na alma ainda
+mais ambiciosa o desejo de a vencer. <br />
+
+<br />
+
+Ora, como este desejo se nutre de difficuldades, todas as que
+est&atilde;o no mesmo caso d'ella travam a lucta e empregam os mais
+loucos esfor&ccedil;os para lograrem a palma. <br />
+
+<br />
+
+As raras fl&ocirc;res da nossa velha aristocracia, n&atilde;o
+querendo
+ser desthronadas pelos potentados modernos, entram, j&aacute; se
+v&ecirc;, no combate com grave transtorno das bolsas de seus
+respectivos maridos. <br />
+
+<br />
+
+A nenhuma d'ellas cabe completa victoria; se as rendas de Bruxellas que
+guarnecem o vestido d'esta s&atilde;o mais preciosas, os diamantes
+que
+enfeitam o collo e os bra&ccedil;os d'aquella s&atilde;o mais
+raros; se
+a
+<em>traine</em> de velludo d'est'outra &eacute; mais
+distincta, a tunica de setim e ouro da outra &eacute; mais
+singular. <br />
+
+<br />
+
+E o combate recome&ccedil;a mais feroz, mais acceso, mais
+desapiedado. <br />
+
+<br />
+
+C&aacute; em baixo a lucta toma as mesmas f&oacute;rmas.
+&Eacute; a lucta da falsa riqueza, a lucta das pedras que fingem
+brilhantes, das
+<em>imita&ccedil;&otilde;es</em> que
+fingem rendas, dos vestidos concertados que fingem vestidos novos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[47]</span>
+S&atilde;o mais profundos ainda os despeitos, &eacute; mais
+desesperada ainda a energia que se gasta! <br />
+
+<br />
+
+Quem vive esta vida ardente, inflammada de
+ambi&ccedil;&otilde;es insalubres, exaltada de mesquinhas
+invejas, corroida de miseraveis tricas, n&atilde;o p&oacute;de,
+n&atilde;o sabe, n&atilde;o tem for&ccedil;as para ser boa
+esposa, boa
+m&atilde;e, boa dona de casa! <br />
+
+<br />
+
+Pint&aacute;mos em tra&ccedil;os rapidos a vida das nossas
+mundanas;
+procuraremos desenhar, se tanto nos f&ocirc;r possivel, a vida que
+ambicionamos e desejamos para a mulher de familia. <br />
+
+<br />
+
+No dia em que ella a quizer adoptar, reconquistar-se-ha a serena
+dignidade, a tranquilla do&ccedil;ura do lar domestico, que pouco a
+pouco se vae tornando desflorido, melancolico e deserto. <br />
+
+<h4>II </h4>
+
+<br />
+
+Nas paginas antecedentes condemnava eu a vida de apparato, a vida da
+sociedade, a <em>vida de
+sala</em>,
+pela influencia corruptora que ella exerce nos costumes e nos
+sentimentos, e pela absoluta desharmonia em que ella est&aacute;
+com a
+moderna
+concep&ccedil;&atilde;o da familia e da sociedade.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[48]</span>
+No entanto n&atilde;o basta s&oacute; lavrar a
+condemna&ccedil;&atilde;o de um modo de ser social,
+&eacute; necessario
+apontar o remedio, ou pelo menos apresentar um alvitre que &aacute;
+nossa consciencia pare&ccedil;a proficuo e salutar. <br />
+
+<br />
+
+As mulheres gostam da vida frivola e inutil dos sal&otilde;es,
+pelos seguintes motivos: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque as salas s&atilde;o o theatro dos seus triumphos e
+conquistas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque &eacute; ahi que ellas s&atilde;o lisongeadas,
+louvadas, incensadas e queridas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque os homens s&oacute; prestam homenagem &aacute;s mais
+bonitas, &aacute;s mais vaidosas, e &aacute;s mais ricas,
+na realidade ou na apparencia. <br />
+
+<br />
+
+Al&eacute;m d'estas causas que as levam a gostar da
+representa&ccedil;&atilde;o e da pompa mundana, ha outras
+dependentes
+d'estas ou relacionadas com ellas, que as levam a aborrecer-se no
+interior das suas casas. <br />
+
+<br />
+
+Primeiramente, e acima de tudo, a falta de uma
+educa&ccedil;&atilde;o solida e positiva, que as
+fa&ccedil;a encarar a vida debaixo do seu verdadeiro aspecto. Um
+aspecto de seriedade e de justi&ccedil;a, assentando na
+comprehens&atilde;o de todos os deveres. <br />
+
+<br />
+
+Segundo, a inhabilidade e a ignorancia, que as torna incapazes de
+qualquer trabalho seguido. A falta de gosto natural ou de gosto
+adquirido, para se entreterem, para se distrahirem, para revestirem de
+uma
+<span class="pagenum">[49]</span>
+f&oacute;rma
+sympathica e attrahente as suas
+obriga&ccedil;&otilde;es de donzellas, de esposas, de
+m&atilde;es, de
+donas de casa. <br />
+
+<br />
+
+Terceiro, a inveterada frivolidade que herdaram, e que os exemplos
+recebidos, e a falsa educa&ccedil;&atilde;o
+mais aggravou e desenvolveu, tornando-a um perigo, o maior de todos os
+perigos que amea&ccedil;am a familia. <br />
+
+<br />
+
+Eu tenho repetido isto tantas e tantas vezes, que receio por fim
+enfastiar as minhas leitoras. <br />
+
+<br />
+
+<em>&Eacute; necess&aacute;rio antes de tudo
+transformar radicalmente a educa&ccedil;&atilde;o das mulheres.</em>
+<br />
+
+<br />
+
+Muitas das cousas que hoje se ensinam &eacute; mister que deixem de
+se ensinar. <br />
+
+<br />
+
+Muitas outras que se encaram debaixo de um certo e determinado ponto de
+vista, cumpre que se vejam sob outro aspecto inteiramente differente. <br />
+
+<br />
+
+Outras ha ainda a que ninguem attende e que se n&atilde;o ensinam,
+e &eacute; positivamente a essas que se
+deve dar a maxima e a mais desvelada atten&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Tratemos de apresentar exemplos das tres
+asser&ccedil;&otilde;es que acabamos de apresentar. <br />
+
+<br />
+
+Das cousas inuteis que hoje se consideram ainda partes integrantes de
+uma educa&ccedil;&atilde;o perfeita. <br />
+
+<br />
+
+Ha a <em>dan&ccedil;a</em>: um talento
+absolutamente dispensavel, que nas meninas s&oacute; serve para
+desenvolver a
+<em>coquetterie</em>, o desejo de brilhar e de agradar. <br />
+
+<br />
+
+A <em>tape&ccedil;aria</em>: um pretexto
+futil para estragar o
+<span class="pagenum">[50]</span>
+tempo. Em quanto a m&atilde;o vae pregui&ccedil;osamente
+bordando a talagar&ccedil;a, a phantasia irrequieta da mulher, da
+crean&ccedil;a, corre e v&ocirc;a por montes e valles,
+&aacute; procura de um vedado ou de um impossivel ideal. Chama-se a
+este genero especial de trabalho feminino, a
+<em>hypocrisia da pregui&ccedil;a</em>. <br />
+
+<br />
+
+Como estas duas cousas, ha muitas mais que n&atilde;o temos tempo
+de enumerar, mas que se n&atilde;o s&atilde;o
+nocivas como a primeira, s&atilde;o pelo menos inuteis como a
+segunda. <br />
+
+<br />
+
+Procuremos agora muitas das materias que se ensinam, e devem continuar
+a ensinar-se, mas &aacute;s quaes a educa&ccedil;&atilde;o
+tal como
+est&aacute;
+rotineiramente estabelecida, n&atilde;o sabe dar a importancia e o
+valor devido. <br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o a musica, a historia, as linguas, a geographia, a
+arithmetica, etc., etc. <br />
+
+<br />
+
+O primeiro cuidado de toda a m&atilde;e vaidosa ou illustrada,
+intelligente ou mediocre, &eacute; que as suas filhas aprendam a
+tocar
+piano. <br />
+
+<br />
+
+Muito bem. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; preciso, por&eacute;m, advertir-se que a
+<em>monomania do piano</em>, tal como ahi anda inoculada e
+propagada,
+&eacute; um flagello, um temivel flagello e nada mais. <br />
+
+<br />
+
+A musica &eacute; de todas as artes aquella que mais falla aos
+sentidos e &aacute; alma do homem. <br />
+
+<br />
+
+Modera, dulcifica, adormenta,
+consola, estimula,
+<span class="pagenum">[51]</span>
+apaixona, enternece e muitas
+vezes, quando profanada e desvirtuada por sacerdotes sacrilegos,
+enerva, abranda a energia e a vitalidade do espirito, e vence todas as
+resistencias viris do caracter. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; uma amiga, p&oacute;de ser uma cumplice. <br />
+
+<br />
+
+Em todos os casos &eacute; um grande, um milagroso, um divino, um
+terrivel poder. <br />
+
+<br />
+
+Mas mesmo pelo papel importante que occupa, mesmo pela influencia
+profunda que exerce, n&atilde;o &eacute; dado a todos
+interpretal-a e
+comprehendel-a. <br />
+
+<br />
+
+Muitos ha que se submettem ao seu irresistivel dominio, sem saber
+sequer adivinhal-o ou presentil-o. <br />
+
+<br />
+
+Quantas vezes n&atilde;o temos visto uma pobre mulher
+bo&ccedil;al, uma
+modesta e ignorante creatura, chorar de commo&ccedil;&atilde;o
+ouvindo
+as notas tristes de uma flauta
+ou de uma guitarra! <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o tem a consciencia da commo&ccedil;&atilde;o que
+a perturba, mas vibram-lhe os nervos, latejam-lhe as fontes, toda ella
+palpita e estremece como que agitada por uma potencia ignota. <br />
+
+<br />
+
+Como todas as artes, a musica s&oacute; p&oacute;de ser
+interpretada por quem a comprehenda com o seu espirito, e por quem a
+sinta com o seu cora&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+De outro modo &eacute; uma profana&ccedil;&atilde;o e
+&eacute; um escarneo. <br />
+
+<br />
+
+Achamos, portanto a musica, um elemento poderosissimo
+<span class="pagenum">[52]</span>
+de educa&ccedil;&atilde;o, mas exigimos que haja
+intelligencia e voca&ccedil;&atilde;o nas pessoas que a
+aprendem. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o &eacute; fazer do piano um attributo indispensavel
+de todo o
+ensinamento elegante, e obrigar sem discernimento e sem escolha todas
+as meninas a estudal-o e a atormentar com elle o ouvido do proximo. <br />
+
+<br />
+
+Logo que se comprehenda bem o grande alcance da musica, a sua
+influencia moralisadora, a sua miss&atilde;o artistica, as
+m&atilde;es
+escolher&atilde;o de entre as suas
+filhas, aquella ou aquellas que mostrarem
+predisposi&ccedil;&atilde;o
+para este genero de estudo e auxiliar&atilde;o por todos os modos o
+desenvolvimento d'essa voca&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+O piano deixar&aacute; de ser o flagello e a peste das <em>soir&eacute;es</em>
+sem ceremonia, o
+tormento dos visinhos proximos, o pezadello dos maridos, o martyrio das
+proprias executantes. N&atilde;o reinar&aacute; exclusivamente
+como
+at&eacute; aqui esse despotico e terrivel instrumento. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se dir&aacute; das meninas <em>bem
+educadas</em>: <em>toca
+admiravelmente</em>, subentendendo j&aacute; o malfadado
+<em>piano</em>. <br />
+
+<br />
+
+Dir-se-ha mais acertadamente: <em>sabe
+musica</em>, <em>toca muito bem violoncello</em>, ou
+<em>harpa</em>, ou
+<em>rebeca</em>, ou
+<em>piano</em> mesmo, porque n&oacute;s n&atilde;o
+queremos condemnar
+nenhum instrumento ao ostracismo, pelo contrario queremos livrar os
+outros do ostracismo a que est&atilde;o injustamente condemnados. <br />
+
+<br />
+
+Com esta escolha sensata das pessoas que particularmente
+<span class="pagenum">[53]</span>
+devessem cultivar a sua
+voca&ccedil;&atilde;o
+musical, muitos bens proviriam &aacute;
+educa&ccedil;&atilde;o da
+mulher. <br />
+
+<br />
+
+A musica executada s&oacute; por quem a entendesse, ouvida
+s&oacute;
+por quem a apreciasse, tornar-se-hia, em vez de um ornato de vaidade,
+uma elevada
+distrac&ccedil;&atilde;o artistica. <br />
+
+<br />
+
+Educaria e apuraria o gosto, exerceria a sua pura e civilisadora
+influencia, seria o repouso depois do trabalho ou a
+consola&ccedil;&atilde;o no meio d'elle. <br />
+
+<br />
+
+Os velhos mestres allem&atilde;es com as suas largas e simples
+harmonias, ouvidas &aacute; noute no ser&atilde;o
+modesto da familia, ao p&eacute; de um ou dous amigos intelligentes
+e sinceros, penetrariam o cora&ccedil;&atilde;o da mulher de
+uma serenidade affectuosa e d&ocirc;ce, de um casto enternecimento
+salutar!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O que dizemos da musica instrumental tem
+applica&ccedil;&atilde;o a todas as outras artes. <br />
+
+<br />
+
+O canto, o desenho, a pintura, a escultura mesmo. <br />
+
+<br />
+
+Todas merecem o nosso respeito, n&atilde;o como adornos pueris, mas
+como elementos de util e fecunda
+moralisa&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Sempre que a m&atilde;e ou que a educadora descubra em sua filha,
+ou na
+sua discipula, tendencia pronunciada para um ramo qualquer de
+actividade intellectual,
+<span class="pagenum">[54]</span>
+deve por todos os modos facilitar e desenvolver essa
+voca&ccedil;&atilde;o espontanea. <br />
+
+<br />
+
+Mas que a educa&ccedil;&atilde;o de todas n&atilde;o seja
+pautada por um molde uniforme! <br />
+
+<br />
+
+Mas, por Deus! que n&atilde;o se fa&ccedil;a d'esta grande e
+sublime
+miss&atilde;o de cultivar um espirito infantil, uma
+quest&atilde;o de
+moda, uma quest&atilde;o de vaidade, uma
+quest&atilde;o de mutua inveja mesquinha. <br />
+
+<br />
+
+As linguas s&atilde;o hoje ensinadas com muito esmero. <br />
+
+<br />
+
+Mas que applica&ccedil;&atilde;o se d&aacute; a essa
+sciencia adquirida em muitos annos de estudo e de pratica? <br />
+
+<br />
+
+Uma applica&ccedil;&atilde;o deveras ridicula! <br />
+
+<br />
+
+Entre vinte das meninas que sabem hoje francez, inglez,
+allem&atilde;o
+ou italiano, n&atilde;o ha quatro que
+tenham lido Hugo ou Bossuet, Racine ou Montaigne, Shakspeare ou Milton,
+Goethe ou o Dante, n&atilde;o ha quatro sobretudo que estejam aptas
+para comprehenderem estes mestres do pensamento e da palavra. <br />
+
+<br />
+
+E no entanto para que servem as linguas estrangeiras? <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o passam de meros instrumentos com os quaes adquirimos
+no&ccedil;&otilde;es, factos, id&eacute;as,
+conhecimentos, que nos seriam estranhos sem ellas. <br />
+
+<br />
+
+Na lingua de um povo est&aacute; consubstanciado muito do que elle
+&eacute; moral, physica e intellectualmente. Penetra-se
+<span class="pagenum">[55]</span>
+no caracter de uma
+na&ccedil;&atilde;o conhecendo a
+fundo as locu&ccedil;&otilde;es de que ella se serve. <br />
+
+<br />
+
+E quem &eacute; que hoje encara as linguas d'este modo a
+n&atilde;o ser
+algum philosopho retirado na sua torre ideal, ou algum philologo
+embebecido nos seus estudos? <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; preciso que este conhecimento se vulgarise e se propague,
+para
+que as linguas estrangeiras tomem na educa&ccedil;&atilde;o o
+lugar que
+lhes compete. <br />
+
+<br />
+
+A historia, que &eacute; um apontoado de datas e de nomes proprios,
+de
+dynastias e de batalhas, logo que passasse a ser na
+educa&ccedil;&atilde;o das mulheres o que
+ella &eacute; j&aacute; no espirito dos criticos, seria um
+estudo
+attrahente, mais dramatico do que todos os romances, de uma realidade
+mais poderosa e dominadora. <br />
+
+<br />
+
+A geographia, que n&atilde;o &eacute; mais do que uma arida e
+enfadonha
+nomenclatura, animada pelo espirito da m&atilde;e intelligente,
+levaria
+a imagina&ccedil;&atilde;o
+infantil, n&atilde;o j&aacute; pelos paizes chimericos, do
+sonho e do
+impossivel, mas por essas regi&otilde;es pittorescas, onde tanto ha
+que
+v&ecirc;r e que aprender. <br />
+
+<br />
+
+Mais tarde as sciencias naturaes, a botanica, a mineralogia, a
+biologia, abririam ao espirito j&aacute; preparado, horisontes
+larguissimos, onde pudesse espraiar-se livremente.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[56]</span>
+Assim educada, quer dizer, sabendo tudo que sabe hoje, mas classificado
+por outra ordem, e encarado debaixo de outro aspecto, e muitissimas
+cousas que hoje n&atilde;o sabe, mas &aacute;s quaes a
+conduziria
+naturalmente,
+o novo methodo dos seus estudos, a mulher transfigurada, levantada,
+fortalecida, podia aspirar a uma vida inteiramente diversa da que hoje
+tem. <br />
+
+<br />
+
+Teria grandes vantagens esta modifica&ccedil;&atilde;o profunda
+no seu modo de ver, de pensar e de sentir. <br />
+
+<br />
+
+Vulgarisada para todos a educa&ccedil;&atilde;o cujas bases
+apontamos, desapparecia da sociedade essa entidade singular chamada <em>mulher
+pedante</em>. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; extraordinario mas &eacute; verdade, a ignorancia das
+outras &eacute; que constitue o pedantismo d'esta. <br />
+
+<br />
+
+Sendo uma excep&ccedil;&atilde;o no seu meio, tem as qualidades
+e os defeitos das
+<em>excep&ccedil;&otilde;es</em>. <br />
+
+<br />
+
+Comprehende que &eacute; alvo da curiosidade, do pasmo, da
+observa&ccedil;&atilde;o dos que a rodeiam, e a pouco e pouco
+vae
+cahindo n'uma <em>pose</em>
+artificial que a torna ridicula. <br />
+
+<br />
+
+Poucas s&atilde;o as que t&eacute;em a coragem de&#8213;tendo um
+lado superior&#8213;se conservarem simples, desartificiosas, naturaes. <br />
+
+<br />
+
+L&ecirc;ram, estudaram, compararam; no meio da estupidez geral,
+produzem um vago assombro que lentamente vae distinguindo n'ellas!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[57]</span>
+Oh! mas no dia em que a mulher instruida deixasse de ser uma
+excep&ccedil;&atilde;o admiravel, como ellas, as pobres <em>mulheres
+pedantes</em> se
+sentiriam humilhadas e deslocadas! <br />
+
+<br />
+
+A vida de sala iria pouco a pouco sendo o apanagio das frivolas e das
+t&ocirc;las, e acabaria por desapparecer completamente. <br />
+
+<br />
+
+A mulher dentro de sua casa sentir-se-hia bem, porque teria em si
+recursos sufficientes n&atilde;o s&oacute;
+para entreter os seus, como tambem&#8213;e &eacute; isto o
+principal&#8213;para se <em>entreter a si</em>. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; essa a grande quest&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; preciso que as m&atilde;es preparem o espirito de suas
+filhas
+de modo que ellas n&atilde;o precisem dos outros para viver
+contentes. <br />
+
+<br />
+
+E como se ha de conseguir este fim? <br />
+
+<br />
+
+Educando-as para que ellas bastem a si proprias. Dando-lhes ao espirito
+todos os recursos, ao corpo todo o vigor, ao caracter toda a austera
+dignidade; cultivando e desenvolvendo todas as faculdades superiores
+que ellas revelem, encadeando harmonicamente as suas
+acquisi&ccedil;&otilde;es intellectuaes, para que
+d'essa harmonia interior resulte para ellas uma exacta e elevada
+comprehens&atilde;o da vida! <br />
+
+<br />
+
+E n&atilde;o &eacute; muito o que n&oacute;s exigimos. <br />
+
+<br />
+
+Somos a primeira a confessar que hoje ha muito
+<span class="pagenum">[58]</span>
+mais esmero e apuro do que havia
+antigamente na instruc&ccedil;&atilde;o que as classes
+abastadas
+d&atilde;o &aacute;s suas filhas. <br />
+
+<br />
+
+Pouco mais precisam de aprender; o que lhes falta &eacute; a
+liga&ccedil;&atilde;o logica entre as
+varias cousas que aprendem, &eacute; uma
+concep&ccedil;&atilde;o mais
+larga
+das mesmas sciencias que adquirem, &eacute; o conhecimento das
+proprias
+armas que possuem, contra esse inimigo poderoso da mulher, chamado
+Tedio. <br />
+
+<br />
+
+Em nosso humilde entender classificariamos d'este modo os conhecimentos
+indispensaveis a toda a mulher, para esta ser julgada apta a exercer o
+sacerdocio de esposa, de m&atilde;e, e de dona de casa. <br />
+
+<br />
+
+As linguas estrangeiras, consideradas como meios de adquirir
+no&ccedil;&otilde;es praticas, id&eacute;as
+justas, factos positivos; como meios de comparar, de julgar, de
+aquilatar, de exercer emfim o seu senso critico, de modo que o
+desenvolvesse, elevasse e afinasse; como meios de conhecer as
+differentes manifesta&ccedil;&otilde;es do bello
+e de as poder relacionar entre si. <br />
+
+<br />
+
+A Historia, com o fim de conhecer atrav&eacute;s d'ella a
+humanidade de
+todos os tempos, de seguir a sua lenta e continua
+evolu&ccedil;&atilde;o, e de penetrar
+lucidamente no sentido da palavra&#8213;progresso. <br />
+
+<br />
+
+O conhecimento profundo e philosophico da historia moralisa, pacifica,
+e revigora as cren&ccedil;as. D&aacute; ao
+<span class="pagenum"><a name="p59">[59]</a></span>
+espirito, al&eacute;m de notavel
+perspicacia, grande justeza de pontos de vista. <br />
+
+<br />
+
+Viriam depois, como j&aacute; dissemos, a geographia natural, a
+arithmetica, a geometria, as sciencias da natureza, e isto
+harmonicamente, progressivamente, de deduc&ccedil;&atilde;o em
+deduc&ccedil;&atilde;o,
+sem esfor&ccedil;o, ligando um conhecimento a outro conhecimento,
+n'uma
+cadeia logica e inquebrantavel. <br />
+
+<br />
+
+Juntamente com estas <a href="#e1">acquisi&ccedil;&otilde;es</a>
+uteis, e como que amenisando os
+esfor&ccedil;os que ellas por ventura custassem, a m&atilde;e
+intelligente levaria sua filha a cultivar especialmente a arte para a
+qual sentisse mais accentuada voca&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Preparada por esta inicia&ccedil;&atilde;o em que o espirito
+fosse
+exigindo dia a dia alimento mais substancioso e mais forte,
+&aacute;
+propor&ccedil;&atilde;o que mais rico
+de vigor e de vitalidade elle se sentisse, escusado &eacute; dizer,
+que
+nenhuma mulher deixaria de comprehender e de saborear com intimas
+delicias o encanto novo e superior com que a arte illuminasse a sua
+vida. <br />
+
+<br />
+
+Seria uma ascens&atilde;o gloriosa e lenta, &aacute;s alturas
+onde se respira um ar mais puro e mais subtil. <br />
+
+<br />
+
+D'alli, d'aquella montanha ideal, a que ella houvesse subido, levada
+pela sciencia e pela arte, pelo estudo e pelo sentimento, ser-lhe-hia
+facil descobrir o caminho que devesse seguir na vida. A id&eacute;a
+do
+<span class="pagenum">[60]</span>
+dever, esta id&eacute;a que &eacute; o remate e a
+cor&ocirc;a da educa&ccedil;&atilde;o perfeita,
+apresentar-se-lhe-hia
+como um resultado natural de todo o trabalho interior que no seu
+espirito se houvesse feito. <br />
+
+<br />
+
+Chegariamos emfim ao ponto que queremos attingir. <br />
+
+<br />
+
+A educa&ccedil;&atilde;o deixaria de ser um fim e tornar-se-hia
+o meio elevado e transformado de alcan&ccedil;ar a
+perfei&ccedil;&atilde;o moral. <br />
+
+<br />
+
+Resta, por&eacute;m, fazer uma pergunta que est&aacute; no
+animo de todos. <br />
+
+<br />
+
+Sujeitar-se-ha a mulher, assim arrancada de chofre &aacute;
+banalidade
+da esphera limitada em que tem vivido at&eacute; agora, a cumprir
+as
+mesmas humildes
+obriga&ccedil;&otilde;es, que teem sido e
+continuar&atilde;o a ser a
+sua tarefa quotidiana, e o seu quinh&atilde;o na vida? <br />
+
+<br />
+
+De certo que sim, e seguindo o mesmo methodo que seguimos para o seu
+cultivo intellectual n&atilde;o nos ser&aacute; difficil provar
+que
+esses mesmos deveres, logo que sejam comprehendidos dignamente, em vez
+de humilharem, s&atilde;o um triumpho para aquella que os sabe
+exercer.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>CAPITULO III </h3>
+
+<h3>
+A velhice das mulheres </h3>
+
+<br />
+
+<div class="breaks">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Nas nossas continuadas predicas &aacute;cerca da
+transforma&ccedil;&atilde;o que &eacute; necessario
+operar-se em tudo
+que respeita &aacute; educa&ccedil;&atilde;o feminina,
+levamos em mira
+principal, duas cousas muito dignas de attender-se. <br />
+
+<br />
+
+Primeiro: que a mulher torne quanto possa, independente de
+circumstancias exteriores, a marcha do seu destino, quer dizer, que
+ella n&atilde;o seja
+for&ccedil;ada fatalmente a seguir um caminho para o qual haja no
+seu
+espirito instinctiva repugnancia, que ella dispense na sua vida
+influencias estranhas e muitas vezes incompativeis com a sua indole. <br />
+
+<br />
+
+Segundo: que ella se v&aacute; lentamente preparando na infancia e
+na
+sua t&atilde;o curta e ephemera mocidade, para a quadra mais longa,
+mais difficil e podemos hoje dizer, mais dolorosa da sua existencia: a
+velhice.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[62]</span>
+Exemplifiquemos, para que melhor seja comprehendido o nosso raciocinio.
+<br />
+
+<br />
+
+No que toca ao primeiro ponto, lancemos em roda os olhos e vejamos. Por
+toda a parte encontraremos argumentos victoriosos. <br />
+
+<br />
+
+No estado presente da educa&ccedil;&atilde;o a mulher
+est&aacute; sujeita a uma funesta dependencia, a qual mesmo sem
+tendencia para exagera&ccedil;&otilde;es declamatorias, se
+p&oacute;de chamar escravid&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Assim como descuram dar ao seu corpo por meio da gymnastica a
+for&ccedil;a, a elasticidade, a ligeireza, o vigor, assim descuram
+dar
+&aacute; sua alma a energia, que a torne superior aos preconceitos,
+e
+ao seu espirito a forte e larga educa&ccedil;&atilde;o, que a
+habilite
+para
+ganhar honestamente a sua modesta subsistencia. <br />
+
+<br />
+
+Sente-se fraca, e pusillanime diante do trabalho, diante das luctas,
+diante da desgra&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+Confessa a cada instante o medo pueril que a avassalla; medo de
+n&atilde;o resistir &aacute;s
+tenta&ccedil;&otilde;es que a covardia dos homens arma
+&aacute;
+insensatez da mulher; medo do riso alvar com que os tolos lhe
+castigariam a viril energia; medo de se sujeitar ao trabalho incansavel
+e tenaz que ha de dar-lhe a independencia, a dignidade, a livre posse
+do seu destino. <br />
+
+<br />
+
+Al&eacute;m do medo a impossibilidade absoluta. <br />
+
+<br />
+
+Se nada sabe, o que ha de ella fazer?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[63]</span>
+Podia dirigir a contabilidade de uma casa de commercio importante. <br />
+
+<br />
+
+As mulheres com o seu instincto de ordem, mais desenvolvido do que os
+homens, s&atilde;o proprias para este genero de trabalho. <br />
+
+<br />
+
+Podia, sendo medianamente illustrada, ser caixeira de um
+estabelecimento de modas, de uma loja de papel, de um mercador de
+fazendas, etc., etc. Tudo isto est&aacute; em harmonia com a
+delicadeza
+dos seus org&atilde;os. <br />
+
+<br />
+
+Podia ensinar linguas, ensinar musica, ensinar e explicar as sciencias
+que houvesse aprendido, a historia, a arithmetica, a litteratura, a
+geographia. <br />
+
+<br />
+
+Podia, tendo alguns fundos que houvesse herdado de seus paes,
+estabelecer qualquer pequena industria, emfim, ter uma
+ac&ccedil;&atilde;o propria, independente e
+n&atilde;o subordinada aos caprichos alheios, ou &aacute;s
+circumstancias eventuaes. <br />
+
+<br />
+
+Mas como n&atilde;o sabe fazer nada d'isto, como a sua
+educa&ccedil;&atilde;o a p&ocirc;z e a conserva n'um estado
+de absoluta e desoladora humildade, n&atilde;o tem sen&atilde;o
+tres
+caminhos a seguir. <br />
+
+<br />
+
+Ou casar mesmo que n&atilde;o tenha pelo seu noivo nenhum
+sentimento de
+respeito; mesmo que o ache ridiculo ou estupido ou m&aacute;u;
+mesmo
+que elle lhe seja imposto unicamente pelas conveniencias egoisticas do
+seu
+<span class="pagenum">[64]</span>
+futuro; mesmo que
+nenhum la&ccedil;o de sympathia a elle a prenda, e d'esta funesta
+causa
+escusado ser&aacute; dizer quantos males terriveis n&atilde;o
+resultam
+para a sociedade e para a familia! <br />
+
+<br />
+
+Ou ficar a cargo dos parentes mais ricos, que por
+commisera&ccedil;&atilde;o a acolham, a alimentem, a vistam, a
+protejam, e n'este caso soffre e decahe a sua dignidade propria, a alma
+curva-se-lhe n'uma postura humilhante, deixa de ter responsabilidade,
+de ter opini&atilde;o, de ter individualidade emfim; constitue-se
+um
+ser mutilado cujo aspecto enfermi&ccedil;o faz tristeza e
+d&oacute;, quando se n&atilde;o torna um temperamento azedo,
+atrabiliario, perverso, folgando no espectaculo de todas as
+desgra&ccedil;as alheias. <br />
+
+<br />
+
+A terceira hypothese j&aacute; todos a adivinharam infelizmente. <br />
+
+<br />
+
+A mulher repellida da familia, porque a n&atilde;o quizeram inutil
+e
+pobre, n&atilde;o achando em si nem a coragem, nem a sciencia do
+trabalho, lucta contra o mal que lhe revela as suas traidoras miragens,
+mas se m&atilde;o estranha a n&atilde;o soccorre e a
+n&atilde;o
+prende, succumbe, precipita-se e perde-se. <br />
+
+<br />
+
+D'estas tres hypotheses exceptuamos, j&aacute; se entende, todas as
+mulheres que tiverem a suprema felicidade de encontrar no homem a quem
+entregaram absolutamente o seu destino, al&eacute;m do noivo
+escolhido
+<span class="pagenum">[65]</span>
+e preferido entre todos, o
+protector mais util e mais dedicado. <br />
+
+<br />
+
+Exceptuamos tambem as ricas, porque essas que n&atilde;o tinham em
+si
+proprias a independencia, adquiriram-na indirectamente por meio da sua
+fortuna. <br />
+
+<br />
+
+Mas a divis&atilde;o infinita dos bens vae diminuindo mais e mais o
+numero das ultimas, e a felicidade negativa que ha na maior parte dos
+<em>m&eacute;nages</em> tornando as meninas de pouca
+edade impacientes
+de sahirem da casa paterna, imprudentes e precipitadas na escolha, vae
+diminuindo em n&atilde;o menor propor&ccedil;&atilde;o
+o numero das primeiras. <br />
+
+<br />
+
+Como quer que seja, abandonemos essas duas cathegorias de
+excep&ccedil;&otilde;es e achamo-nos em frente de uma
+numerosissima
+maioria.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Os resultados que encontramos s&atilde;o, portanto, os seguintes: <br />
+
+<br />
+
+A incapacidade absoluta da mulher dominar o seu destino, incapacidade
+cujas causas j&aacute; apont&aacute;mos,
+produz estes tres generos de victimas. <br />
+
+<br />
+
+A mulher que casou, porque n&atilde;o podia deixar de o fazer, que
+casou para ter p&atilde;o, para ter casa, para ter luxo, para ter
+protector, um editor responsavel da
+<span class="pagenum">[66]</span>
+sua vida, e que tendo s&oacute;mente este objectivo, se
+n&atilde;o occupou nem um instante em estudar e conhecer o homem a
+quem ia para sempre entregar-se. <br />
+
+<br />
+
+A creatura humilhada, dependente, parasita, vivendo das migalhas do
+luxo que a rodeia. <br />
+
+<br />
+
+A desgra&ccedil;ada que a sua fraqueza inteiramente desprotegida
+perdeu e abysmou. <br />
+
+<br />
+
+Nenhuma d'estas mulheres condemnadas ao descontentamento intimo,
+&aacute; dolorosa inquieta&ccedil;&atilde;o da
+consciencia, em resultado de uma causa identica, p&oacute;de estar
+satisfeita comsigo mesma. <br />
+
+<br />
+
+O que fazem, pois, para fugirem de si? Procuram quanto sabem e como
+podem, os outros. <br />
+
+<br />
+
+As festas de uma folia burlesca, ou as festas de uma pompa
+deslumbrante, o mundo, emfim, a convivencia, o barulho, tudo que
+aturde, tudo que faz esquecer. <br />
+
+<br />
+
+Ainda aqui os nossos calculos nos n&atilde;o illudiram. <br />
+
+<br />
+
+A mulher procura o mundo, porque as alegrias que p&oacute;de
+encontrar
+em si mesma, n&atilde;o s&oacute;
+lhe n&atilde;o bastam para illuminar com ellas o lar onde vive com
+os
+seus, como lhe n&atilde;o chegam para si propria se distrahir e se
+contentar.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Entremos agora no segundo ponto que ha pouco toc&aacute;mos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[67]</span>
+A mocidade da mulher &eacute; for&ccedil;osamente curta.
+Aquella que se
+compenetrar sensatamente d'esta id&eacute;a, o que deve fazer para
+attenuar a amargura? <br />
+
+<br />
+
+Preparar-se com dignidade, com resigna&ccedil;&atilde;o,
+diremos mesmo com alegria para esse longo supplicio da mundana, que se
+chama velhice. <br />
+
+<br />
+
+O homem, desenvolvendo em muito mais larga escala e de um modo muito
+mais variado a sua actividade complexa, p&oacute;de gosar
+at&eacute;
+&aacute; mais
+avan&ccedil;ada edade dos prazeres que por assim dizer mais
+apreciou. <br />
+
+<br />
+
+A ambi&ccedil;&atilde;o, as luctas da politica, as
+lucubra&ccedil;&otilde;es da sciencia, as argucias da
+diplomacia, as
+investiga&ccedil;&otilde;es da historia e da critica, e mesmo
+os gosos ardentes da arte. <br />
+
+<br />
+
+Vejam-se G&oelig;the, Miguel Angelo, Hugo, Beethoven,
+Talleyrand, Thiers e tantos e tantos mais. <br />
+
+<br />
+
+A mulher de hoje, a mulher educada por este acanhado ideal que a
+domina, funda o seu fragil poder nas gra&ccedil;as fugitivas da sua
+formosura, no encanto juvenil da sua vivacidade, na sua elegancia, no
+seu riso frivolo e pueril, no esplendor radiante do seu luxo, na sua
+convivencia inutil e perfumada como a das fl&ocirc;res! <br />
+
+<br />
+
+Um dia alveja-lhe na massa fulva, cendrada, ou
+<span class="pagenum">[68]</span>
+negra dos seus cabellos, um fio de
+prata, o primeiro, invisivel para todos os olhos, mas que o espelho
+revelou aos seus. <br />
+
+<br />
+
+Esse fio traz preso a si a desventura! <br />
+
+<br />
+
+Oh! ella reinou, dominou, teve subjugadas aos seus p&eacute;s todas
+as for&ccedil;as e todas as vontades! <br />
+
+<br />
+
+A casa, mesmo sendo a casa um ninho f&ocirc;fo e perfumado,
+parecia-lhe
+bem pequena e bem mesquinha para theatro dos seus triumphos. <br />
+
+<br />
+
+Era das salas que ella gostava! <br />
+
+<br />
+
+Do murmurio surdo, abafado, voluptuoso de
+admira&ccedil;&atilde;o, que ella excitava ao entrar nos
+sal&otilde;es
+pelo bra&ccedil;o do seu pobre marido, muito enfastiado e
+soberanamente
+ridiculo! <br />
+
+<br />
+
+Como todos gabavam o sabio decote do seu corpete, revelando com uma
+indiscri&ccedil;&atilde;o que accendia invejas e desejos em
+torno
+d'ella&#8213;invejas e desejos que a enroscavam como serpentes de fogo&#8213;a
+brancura do seu collo e dos seus hombros, aquella brancura setinosa de
+camelia, que o orvalho da madrugada humedeceu. <br />
+
+<br />
+
+Como era magestosa a cauda do seu vestido! como as fl&ocirc;res e
+as
+perolas se ennastravam bem nas suas tran&ccedil;as opulentas! como
+os
+braceletes de brilhantes mordiam de raios iriados a
+carna&ccedil;&atilde;o explendida
+dos seus bra&ccedil;os!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[69]</span>
+Como a adoravam, como a detestavam ferozmente aquelles homens e
+aquellas mulheres! <br />
+
+<br />
+
+Cada olhar tinha a agudeza de uma lamina de a&ccedil;o! <br />
+
+<br />
+
+Traspassavam-n'a, feriam-n'a, beijavam-n'a aquellas mudas caricias
+insolentes, e aquelles odios violentos e felinos! <br />
+
+<br />
+
+E a consciencia da sua formosura, da sua soberania omnipotente, do seu
+prestigio invencivel, fazia-a vibrar toda como ao contacto de uma
+pilha. <br />
+
+<br />
+
+Sentia-se rainha. Tinha ditos graciosos, tinha repentes felizes, tinha
+epigrammas implacaveis,
+<em>coquettismos</em> crueis; era espirituosa, era bella,
+era triumphante! <br />
+
+<br />
+
+A casa, os filhos pequeninos, o marido, os livros, que s&atilde;o
+t&atilde;o bons companheiros da honestidade e da
+modestia, onde ficara tudo isso? Nas brumas indecisas de um passado que
+ella n&atilde;o queria ver. <br />
+
+<br />
+
+Oh! que intensidade de vida n'estas horas! <br />
+
+<br />
+
+Era s&oacute; pensando n'ellas que vivera. Para que havia de
+l&ecirc;r,
+para que havia de instruir-se, para que havia de ir perguntar
+&aacute;
+natureza muda, o segredo de todas as suas riquezas, para ella inuteis e
+desdenhadas? <br />
+
+<br />
+
+Era feliz porque era admirada.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[70]</span>
+Como desce o panno sobre o tablado cheio dos deslumbramentos de uma
+magica, assim para ella descera agora o panno, sobre os prestigiosos
+esplendores da sua vida de garridice e de vaidade, de luxo e de
+loucura. <br />
+
+<br />
+
+Aquelle cabello branco avisou-a sinistramente de que tudo acabara. <br />
+
+<br />
+
+Se contin&uacute;a a luctar com a velhice que nunca se deixa
+vencer, achar&aacute; s&oacute; escarneos onde
+antigamente ach&aacute;ra cultos, s&oacute; bald&otilde;es
+onde a
+tinham acclamado em triumpho. <br />
+
+<br />
+
+Se vae procurar as alegrias e as distrac&ccedil;&otilde;es
+proprias d'essa nova phase da sua vida, o que &eacute; que encontra
+em torno de si? <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o fic&aacute;ra ninguem no lar, que primeiro do que os
+outros, ella havia desertado. <br />
+
+<br />
+
+O marido andava l&aacute; f&oacute;ra no trabalho absorvente,
+ou na
+dissipa&ccedil;&atilde;o criminosa. Como ella nada lhe
+dera nos dias florentes da mocidade, elle tambem nada lhe queria dar
+agora nas tardes glaciaes da velhice. Cre&aacute;ra outros
+interesses
+ou outras affei&ccedil;&otilde;es, seguira
+outro rumo, outra ordem de id&eacute;as. J&aacute; agora
+n&atilde;o era possivel tornarem-se a encontrar na terra. <br />
+
+<br />
+
+Os filhos esquecidos, indifferentes, quasi estranhos, estavam no
+collegio ou nas escolas, se o pae tinha tido piedade; estavam na
+vergonhosa ociosidade,
+<span class="pagenum">[71]</span>
+na
+vadiagem ignobil, se o pae tinha tido indifferen&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+Em todos os casos, nada de commum podia haver entre essa m&atilde;e
+frivola e vaidosa, e esses filhos
+desprezados. <br />
+
+<br />
+
+Os livros? Sim, os livros... Os que ella conhecera. <br />
+
+<br />
+
+Eram romances. <br />
+
+<br />
+
+Fallavam de paix&otilde;es indomitas, de amores
+<em>mais fortes do que a morte</em>, de aventuras
+romanescas ao luar, com escadas de seda e capas <em>couleur de
+muraille</em>;
+de juramentos feitos em voz solu&ccedil;ante na sombra voluptuosa
+das
+alamedas; de duettos de ternura cantados pelas Rosinas e pelos
+Almavivas de torna-viagem. <br />
+
+<br />
+
+Que lhe importava a ella tudo isso, que era agora o enlevo d'outras,
+embebecidas na mesma mentira que a transvi&aacute;ra, mas que aos
+seus
+cabellos brancos parecia uma ironia cruel! <br />
+
+<br />
+
+Mas a natureza &eacute; sempre m&atilde;e, a natureza acolhe
+at&eacute; os mesmos parias. <br />
+
+<br />
+
+Ella tem a sombra das suas arvores, a musica dos seus passaros, o aroma
+das suas charnecas em fl&ocirc;r, as serenas linhas das suas
+montanhas
+azues! Ella tem a claridade pallida das suas estrellas, a doce
+melop&eacute;a das suas fontes, o soturno e angustioso
+<span class="pagenum">[72]</span>
+bramido dos
+seus
+mares, a
+influencia calmante das suas noites tepidas! <br />
+
+<br />
+
+Acolher&aacute; a natureza aquella que tantos e tantos annos a
+desconheceu? N&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+E n&atilde;o &eacute; que ella seja implacavel ou severa,
+n&atilde;o &eacute; que ella saiba sequer das mesquinhas
+miserias que
+se agitam no seu seio. &Eacute; porque n&atilde;o &eacute;
+na
+velhice que a alma p&oacute;de iniciar-se n'um culto novo. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; que para tudo &eacute; indispensavel uma aprendizagem
+gradual,
+&eacute; que a vasta crea&ccedil;&atilde;o
+s&oacute; tem consolos tranquillisadores, caricias adormecedoras,
+para
+os velhos, quando teve para os mo&ccedil;os sonhos, sorrisos,
+radiosas
+esperan&ccedil;as. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; que a alma, que ao desabrochar n&atilde;o soube ser
+sensivel
+&aacute; enternecedora poesia das cousas, nunca
+saber&aacute; entender na hora triste do declinar, a sua ineffavel
+e
+divina linguagem! &eacute; que os longos horisontes de purpura e de
+ouro sabem vestir de bemditas claridades a alma dos velhos, quando os
+velhos se recordam, e v&ecirc;em docemente descer a noute cheia de
+estrellas e de harmonias mysteriosas sobre uma vida que teve por
+companheiros o trabalho, o amor puro, o sacrificio, a
+abnega&ccedil;&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+Resta apenas como pasto e alimento a estas almas que andaram em busca
+da felicidade por toda a parte, menos no lugar t&atilde;o proximo e
+t&atilde;o accessivel,
+<span class="pagenum">[73]</span>
+onde ella estava,
+resta-lhe apenas a falsa
+devo&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; l&aacute; que ellas v&atilde;o buscar refugio. <br />
+
+<br />
+
+Vivem nas egrejas, procuram um confessor que tenha a jesuitica
+paciencia de revolver com ellas o mont&atilde;o de fl&ocirc;res
+murchas
+do passado, a ver se
+ainda de l&aacute; vem o vestigio da extincta fragrancia, praticam
+fervorosamente toda a casta de supersti&ccedil;&otilde;es
+rediculas; entram em associa&ccedil;&otilde;es
+pseudo-caridosas, gastam
+o resto da vida de outra f&oacute;rma n&atilde;o menos redicula
+e
+n&atilde;o menos balofa do que gastaram os dias da juventude. <br />
+
+<br />
+
+E de vez em quando, para maior espanto nosso, morre uma em cheiro de
+santidade entre a piedosa confraria.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O que &eacute; pois necessario e indispensavel para todas
+n&oacute;s? <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; que possamos viver sem o auxilio dos outros, e tirando
+unicamente dos intimos mananciaes do nosso espirito e da nossa alma,
+elementos para construir com elles a nossa propria felicidade. <br />
+
+<br />
+
+Quando a mulher depois de ter recebido uma
+educa&ccedil;&atilde;o robusta, depois de ter desenvolvido as
+suas
+faculdades no sentido mais amplo e mais favoravel, depois
+<span class="pagenum">[74]</span>
+de estar apta a viver de pouco, a
+dispensar tudo que seja luxo ou vaidade, de ter dado uma
+applica&ccedil;&atilde;o util &aacute;s suas
+aptid&otilde;es especiaes,
+depois de ter
+adquirido uma larga somma de id&eacute;as geraes, de
+no&ccedil;&otilde;es e de pensamentos justos, quando a mulher
+emfim,
+tendo a consciencia de que mesmo s&oacute;sinha na vida,
+saber&aacute;
+grangear dignamente o seu p&atilde;o, olhar em torno de si,&#8213;forte,
+intelligente e instruida&#8213;e entre os homens que a rodearem, e que a
+preferirem, fixar a sua escolha n'um homem, esse p&oacute;de
+sentir-se
+justamente ufano. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o haver&aacute; n'este consorcio nenhuma
+especula&ccedil;&atilde;o e nenhum calculo. <br />
+
+<br />
+
+Ella est&aacute; apta a julgal-o, a estudal-o, a entendel-o, por
+isso
+foi raciocinada a sua escolha. Elle achou uma companheira fiel do seu
+destino, um guia incorruptivel, um precioso auxiliar. <br />
+
+<br />
+
+Trabalhar&atilde;o ambos. <br />
+
+<br />
+
+Commerciante ou sabio, poeta ou diplomata, artista ou especulador,
+negociante ou politico, sempre a
+coadjuva&ccedil;&atilde;o de uma intelligencia cultivada e
+flexivel,
+penetrante e fina, ser&aacute; de incalculavel utilidade ao homem. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o viver&atilde;o de certo nos arrobamentos e
+transportes dos romanescos e rapidos amores; ter&atilde;o um fim
+commum, o bem proprio e o bem de seus filhos.
+<span class="pagenum">[75]</span>
+Ter&atilde;o meios identicos, o
+trabalho, a mais escrupulosa dignidade de vida, o estudo
+perseverante, a
+economia e a paz. <br />
+
+<br />
+
+Como o casamento foi um acto em que n&atilde;o entrou a
+paix&atilde;o
+irreflectida, a precipita&ccedil;&atilde;o
+estupida, ou o calculo inevitavel, ha muito mais garantia de que essa
+uni&atilde;o seja duradoura e feliz. Como a phantasia da mulher
+&eacute; irrequieta e audaz, logo que ella fa&ccedil;a o
+seu fito de alguma cousa de maior e de mais elevado,
+deixar&atilde;o de
+ser perigosos os seus caprichos. <br />
+
+<br />
+
+O homem, preparando-se para casar, tambem n&atilde;o
+dir&aacute; comsigo: Vou buscar um encargo. <br />
+
+<br />
+
+Dir&aacute; com muito mais propriedade: Vou buscar um auxilio. <br />
+
+<br />
+
+Eis inteiramente deslocado o velho ponto de vista. <br />
+
+<br />
+
+Provir&aacute; d'esta nova interpreta&ccedil;&atilde;o do
+casamento o haver muito menos mulheres solteiras. <br />
+
+<br />
+
+As que houver, por&eacute;m, ter&atilde;o o seu lugar, o seu
+destino, a sua tarefa. <br />
+
+<br />
+
+Trabalhar&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ha ninguem que querendo e sabendo, se n&atilde;o
+possa tornar util, e produzir em bem, tudo que consome em sustento. <br />
+
+<br />
+
+Descrescer&atilde;o de certo as industrias que vivem do luxo e da
+dissipa&ccedil;&atilde;o, mas crear-se-h&atilde;o
+outras novas,
+<span class="pagenum">[76]</span>
+mais
+necessarias, e para as quaes a mulher poder&aacute; levar as suas
+faculdades felizes, &aacute;s quaes s&oacute;
+falta educa&ccedil;&atilde;o condigna. E quando para todas
+chegar a
+velhice ser&aacute; como a cor&ocirc;a e o remate de um
+monumento sublime.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Ha muito quem alcunhe de pretens&atilde;o esta minha teima de
+attribuir
+todos os males da familia &aacute; falsa
+educa&ccedil;&atilde;o das
+mulheres. <br />
+
+<br />
+
+Como se ellas fossem tudo! <br />
+
+<br />
+
+Como se d'ellas dependesse tudo! <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; que realmente, directa ou indirectamente, pela sua
+influencia
+immediata ou pela sua longinqua influencia, o caso &eacute; que
+muitos
+males, que muitas desgra&ccedil;as, que muitas immoralidades se
+lhes
+devem! <br />
+
+<br />
+
+<em>Cherchez la femme</em>, direi eu sempre,
+por mais que achem vaidosa pretens&atilde;o feminina esta minha
+id&eacute;a.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>CAPITULO IV </h3>
+
+<h3>
+A dissolu&ccedil;&atilde;o dos costumes e o casamento
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="breaks">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Os philosophos, os moralistas, os observadores clamam continuamente
+contra a dissolu&ccedil;&atilde;o dos
+costumes modernos, ou descrevem-na com o pungente <em>realismo</em>
+da sua solta e desbragada
+ironia. <br />
+
+<br />
+
+Uns accusam, outros fulminam, outros contentam-se com chascos e satyras
+de Juvenaes <em>au petit pied</em>. <br />
+
+<br />
+
+Poucos s&atilde;o os que ao passo que apontam o mal, indiquem o
+remedio, ou pelo menos o caminho que deve seguir-se para chegar a
+alcan&ccedil;al-o. <br />
+
+<br />
+
+As theorias s&atilde;o optimas, a pratica &eacute; deploravel. <br />
+
+<br />
+
+Ninguem &eacute; j&aacute; t&atilde;o ignorante e
+t&atilde;o desallumiado da scentelha sagrada, que confunda o bem
+com o
+mal, mas o criminoso desleixo de todos, &eacute; mais funesto
+&aacute;
+<span class="pagenum">[78]</span>
+sociedade e
+&aacute;
+familia, do que a id&eacute;a confusa que
+em &eacute;pocas menos adiantadas se formava dos deveres de cada
+um. <br />
+
+<br />
+
+Sim, a familia parece corroida por um occulto verme, que pouco a pouco
+vae dando a essa arvore frondosa, cheia de fructos e de flores, um
+aspecto morbido e doentio que entristece e causa profundo assombro aos
+que de perto lhe observam o progressivo definhar. <br />
+
+<br />
+
+Mas n&atilde;o basta mostrar ao mundo este indicio da sua
+decadencia
+moral, cumpre investigar as causas para opp&ocirc;r um dique aos
+effeitos desastrosos que todos os dias se v&atilde;o mais
+claramente
+revelando. <br />
+
+<br />
+
+Este dever &eacute; de todos; dos grandes e dos humildes.
+N&atilde;o ha
+ninguem que n&atilde;o esteja interessado igualmente na
+destrui&ccedil;&atilde;o de t&atilde;o
+terrivel flagello. <br />
+
+<br />
+
+Tragam uns os esplendores do talento que v&ecirc; de cima, e que
+das
+alturas onde paira, derrama luz clara sobre os que labutam na sombra;
+tragam outros o bom senso, a experiencia, a f&eacute; e a boa
+vontade. <br />
+
+<br />
+
+Parece que metade do caminho est&aacute; vencido, porque se
+muitos,&#8213;se
+a maioria&#8213;anda transviada, todos pelo menos sabem definir o ideal a
+que aspiram, o fim que desejam attingir e do qual involuntariamente se
+afastam. <br />
+
+<br />
+
+O grande mal da nossa &eacute;poca &eacute;&#8213;quem tal o
+diria?&#8213;&eacute;
+<span class="pagenum">[79]</span>
+a pregui&ccedil;a
+intellectual. Todos trabalham
+mais ou menos, por&eacute;m ha poucos que meditem e que pensem. <br />
+
+<br />
+
+O seculo desoito foi o seculo do pensamento; o seculo desenove
+&eacute; o seculo da industria. <br />
+
+<br />
+
+Predomina a materia, aspira-se ao bem-estar do corpo, aos gozos da
+riqueza, ao sybaritismo refinado e artistico e pouco se attende
+&aacute; voz prophetica d'essa Cassandra, chamada philosophia, que
+debalde clama aos homens que elles v&atilde;o por um caminho
+errado,
+que trilham uma estrada que n&atilde;o &eacute; a verdadeira,
+visto que
+a n&atilde;o illumina e lhe n&atilde;o mostra os
+precipicios, a verdadeira e eterna luz. <br />
+
+<br />
+
+Os males que affligem a sociedade, que affrouxam os la&ccedil;os da
+familia, que contaminam e dissolvem lentamente os costumes,
+prov&eacute;m de uma causa, composta de muitas causas complexas, e
+para
+combater a qual devem juntar-se os esfor&ccedil;os de todos os que
+amam
+o bem. <br />
+
+<br />
+
+Ninguem considera o casamento como elle precisa de ser considerado,
+n&atilde;o j&aacute; sob um ponto de vista mystico e
+sentimental,
+por&eacute;m no seu verdadeiro aspecto, nas suas
+rela&ccedil;&otilde;es
+inilludiveis com a sociedade e com a verdadeira moral. <br />
+
+<br />
+
+Como sempre, &eacute; &aacute; mulher que aqui me dirijo,
+&eacute; com a mulher que eu fallo. O homem tem-se em muita
+<span class="pagenum">[80]</span>
+conta para dar
+atten&ccedil;&atilde;o
+&aacute; minha debil
+e desautorisada voz. <br />
+
+<br />
+
+A mulher attender-me-ha porque &eacute; em vista da sua felicidade,
+da
+felicidade de seus filhos, da solidez e do aconchego de seu ninho, que
+eu lhe estou aqui fallando. <br />
+
+<br />
+
+O casamento n&atilde;o &eacute; um contracto puramente social,
+n&atilde;o &eacute; uma uni&atilde;o s&oacute; filha da
+religi&atilde;o e do sentimento, n&atilde;o &eacute; uma
+sanc&ccedil;&atilde;o legal de
+affectos egoistas e de paix&otilde;es indomadas, de tudo isso tem
+alguma cousa, mas &eacute; muito mais s&eacute;rio, mais
+sagrado e mais
+santo do que isso tudo. <br />
+
+<br />
+
+Se esta quadra transitoria e convulsa que atravessa a
+gera&ccedil;&atilde;o de que fazemos parte, &eacute;
+triste como nenhuma outra, essa tristeza prov&eacute;m
+principalmente
+das imperfei&ccedil;&otilde;es que maculam o casamento, das
+duvidas que assaltam todos os espiritos ao v&ecirc;r t&atilde;o
+longe
+da sua resolu&ccedil;&atilde;o definitiva o problema importante
+da familia. <br />
+
+<br />
+
+Por toda a parte o desconsolo, o desalento, a duvida, a melancolia
+insanavel dos que, depois de haverem sonhado um esplendido e estrellado
+sonho, despertam para as agras tristezas da realidade e nada encontram
+que corresponda &aacute;s radiosas esperan&ccedil;as com que se
+haviam
+embalado. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; que realmente depois da escurid&atilde;o caliginosa,
+da
+<span class="pagenum">[81]</span>
+noute lugubre e sinistra
+que durante seculos envolveu a humanidade, fizeram-lhe esperar tanto,
+evocaram diante do seu deslumbrado olhar tantas
+appari&ccedil;&otilde;es
+luminosas, apontaram-lhe para um ideal t&atilde;o levantado,
+fizeram-lhe cr&ecirc;r em t&atilde;o divinas utopias, que todos
+os desalentos se desculpam ao v&ecirc;r qu&atilde;o pouco a
+realidade dos factos correspondeu a todos esses sonhos por ora
+infecundos. <br />
+
+<br />
+
+Mas n&atilde;o percamos a f&eacute;; sem ella o mundo
+caminhar&aacute; sem ter outro norte que n&atilde;o seja o
+perigoso conselho das suas paix&otilde;es desordenadas. <br />
+
+<br />
+
+Se ainda pouco est&aacute; feito, appellemos para o futuro e vamos
+preparando essa evolu&ccedil;&atilde;o pacifica e
+luminosa de que j&aacute; talvez nenhum de n&oacute;s aproveite
+os resultados beneficos. <br />
+
+<br />
+
+Esque&ccedil;amos este egoismo feroz e improductivo que nos faz
+desanimar em todas as emprezas de que n&atilde;o possamos com
+m&atilde;o soffrega e impaciente colher
+os fructos embora prematuros e mal sasonados.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ha nada mais triste do que ouvir o modo desdenhoso,
+quasi
+sacrilego, com que os mo&ccedil;os de hoje, os mo&ccedil;os de
+ambos os
+sexos, fallam do casamento e da familia.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[82]</span>
+Elles duvidam, rindo com ironia ignobil de tudo que n'outro tempo
+amavam devotamente. Foram-se os bardos sentimentaes e um tanto
+rediculos, diga-se a verdade! que amavam sem esperan&ccedil;a, mas
+com
+ternura apaixonada, as queridas perfidas, que desprezavam o seu
+desinteressado affecto. <br />
+
+<br />
+
+A litteratura, que &eacute; o espelho das sociedades, tem por
+fei&ccedil;&atilde;o a ironia mordente, a analyse fria, a
+disseca&ccedil;&atilde;o anatomica mais positiva e mais crua. <br />
+
+<br />
+
+O desdem pela mulher manifesta-se sob todas as f&oacute;rmas, e
+debaixo de todos os aspectos. <br />
+
+<br />
+
+Se acabaram as declama&ccedil;&atilde;es de
+<em>Benedicto</em> e de <em>Antony</em> contra
+a tyrannia esmagadora
+da institui&ccedil;&atilde;o conjugal, apparecem em logar
+d'estas os
+quadros mais abjectos da dissolu&ccedil;&atilde;o e da
+decadencia a que
+chegou o casamento e com elle a mulher. <br />
+
+<br />
+
+No limiar da adolescencia os que n&atilde;o alardeiam um cynismo
+falso
+e t&atilde;o ridiculo como os transportes romanticos do passado,
+calculam arithmeticamente o que p&oacute;de provir-lhes em
+beneficios
+liquidos d'aquillo a que chamam um <em>bom casamento</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o attendem &aacute;s qualidades moraes, que
+n&atilde;o podem apreciar nem conhecer; quando muito,
+lan&ccedil;am no
+or&ccedil;amento como uma verba de certa importancia as vantagens
+physicas da noiva escolhida. <br />
+
+<br />
+
+Nenhum grande pensamento os exalta, nenhuma
+<span class="pagenum">[83]</span>
+id&eacute;a definida e clara da
+miss&atilde;o que aceitam os
+eleva a seus proprios olhos. <br />
+
+<br />
+
+Pelo seu lado a <em>noiva</em>, a
+crean&ccedil;a radiosa que enfeitam todas as galas e todas as
+fl&ocirc;res dos vinte annos, gaba-se em confidencia &aacute;s
+amigas
+intimas, de que <em>j&aacute; n&atilde;o tem
+illus&otilde;es</em> e que <em>conhece a
+vida</em>, a vida de que ella n&atilde;o leu ainda sequer a
+primeira pagina! <br />
+
+<br />
+
+Casa porque a familia quer, casa porque encontrou aquelle rapaz em dous
+bailes, porque o achou <em>interessante</em>,
+<em>sympathico</em>, <em>muito
+amavel</em>, porque emfim &eacute; um <em>bom partido</em>,
+segundo
+diz o pap&aacute;! <br />
+
+<br />
+
+Outras vezes casa porque gosta d'elle, mas gosta d'elle
+instinctivamente, animalmente, sem o conhecer, sem saber se essa
+m&atilde;o que aperta nas suas m&atilde;os
+virginaes, ser&aacute; sempre em todas as crises, em todas as
+occasi&otilde;es da vida, a m&atilde;o de um homem honrado. <br />
+
+<br />
+
+No dia em que se acham ligados indissoluvelmente o seu primeiro
+sentimento &eacute; um sentimento de surpreza, quasi de susto. <br />
+
+<br />
+
+Dizem ent&atilde;o os frivolos e os superficiaes: o
+<em>melhor tempo &eacute; o da lua de mel</em>. <br />
+
+<br />
+
+Engano! Esses dias s&atilde;o os dias da vertigem, mas
+n&atilde;o s&atilde;o os dias da felicidade. <br />
+
+<br />
+
+Cada defeito que os dous mutuamente se descobrem, &eacute; como uma
+semente envenenada que ha de germinar mais tarde.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[84]</span>
+N&atilde;o se lembram do futuro, saboreiam com a volupia da
+paix&atilde;o sensual os prazeres ephemeros d'essa hora que passa.
+No
+fundo, bem no fundo do pensamento, n'um escaninho escuro em que ambos
+fogem de entrar, porque sabem que l&aacute; os espera a
+desillus&atilde;o, teem guardadas muitas das tristes descobertas
+que
+fizeram n'aquellas horas de abandono, de loucura, de extasi, em que as
+suas almas se embeberam voluptuosamente. <br />
+
+<br />
+
+<em>Elle</em> sabe j&aacute; que a mulher
+&eacute; frivola, &eacute; ignorante, &eacute; vaidosa, que
+v&ecirc; no casamento as alegrias da
+vaidade, antes de ver os deveres e os sacrificios;
+<em>ella</em> tem a certeza de que todas aquellas promessas
+radiosas
+n&atilde;o passam de uma chimera que o tempo desfar&aacute;,
+que o
+marido n&atilde;o tem as delicadezas que satisfariam a alma da
+mulher
+ainda a menos exigente, e a menos ambiciosa. <br />
+
+<br />
+
+Na ebriedade d'aquelles primeiros tempos perdoam-se mutuamente os
+defeitos, que parecem at&eacute; graciosos, lindos e feiticeiros. <br />
+
+<br />
+
+O que os entristecer&aacute; mais tarde, o que avincar&aacute;
+de rugas
+de mau prenuncio o rosto do marido, e far&aacute; encher de
+insondavel
+tristeza o cora&ccedil;&atilde;o da
+mulher, n&atilde;o &eacute; mais que a resultante das pequenas
+e
+todavia fataes concess&otilde;es e desculpas que reciprocamente
+fizeram
+os noivos aos defeitos que viram apparecer nas
+<span class="pagenum">[85]</span>
+primeiras horas da convivencia, nos
+risonhos dias do noivado. <br />
+
+<br />
+
+<em>Ella</em> sahiu do aconchego tepido da
+familia, das do&ccedil;uras do lar paterno, dos bra&ccedil;os
+amoraveis
+da
+m&atilde;e; vem acostumada a quererem-lhe muito, a ser muito
+estimada e
+amada. Em casa conheciam-lhe os gostos, as
+inclina&ccedil;&otilde;es,
+os habitos e os defeitos, porque
+a par das boas qualidades ha sempre no cora&ccedil;&atilde;o
+humano um
+recanto onde se abrigam as deficiencias de caracter e de genio. <br />
+
+<br />
+
+Aquillo que os paes, as m&atilde;es e as pessoas que de mais perto
+conviviam com <em>ella</em> lhe
+perdoavam, &eacute; desculpado tacitamente por <em>elle</em>
+no
+extasi e na delicia ineffavel do noivado; por&eacute;m, mais tarde
+tudo isso
+servir&aacute; de base a accusa&ccedil;&otilde;es asperas,
+e a censuras
+amargas. <br />
+
+<br />
+
+<em>Ella</em>, pelo seu lado, retrahir-se-ha,
+offendida e triste ante as imperfei&ccedil;&otilde;es que
+outr'ora
+desculpava, e para as quaes hoje &eacute; intolerante e severa. <br />
+
+<br />
+
+Por isso, a m&atilde;e, quando d&aacute; o ultimo
+abra&ccedil;o &aacute; filha que parte para os
+bra&ccedil;os do noivo
+expede dilacerantes solu&ccedil;os de
+afflic&ccedil;&atilde;o, e
+lamenta-se
+desesperadamente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; um estranho, pensa a m&atilde;e, pouco viveu com
+ella; mal a
+conhece, viu-a apenas nos sar&aacute;us, &aacute;
+luz viva do gaz, cercada de adora&ccedil;&otilde;es, risonha,
+feliz, espirituosa
+<span class="pagenum">[86]</span>
+e
+delicada. Eu tambem fui assim... Mas como me
+custou a
+aprendizagem da vida! E como esta &eacute; dev&eacute;ras
+t&atilde;o
+outra e differente do
+que suppunha! <br />
+
+<br />
+
+Pobre crean&ccedil;a! <br />
+
+<br />
+
+Isto pensam as m&atilde;es, com aquelle sagrado affecto que nunca
+se
+desmente, e que n&atilde;o trepida ante nenhum sacrificio, por mais
+arduo e assombroso que seja. <br />
+
+<br />
+
+Mas, de quem &eacute; a culpa, bom Deus? <br />
+
+<br />
+
+Sobre quem deve recahir a culpa das nuvens que se acastellaram no
+futuro da vida dos noivos, a culpa das horas longas e plumbeas que os
+esperam, das
+recrimina&ccedil;&otilde;es azedas, que far&atilde;o
+explos&atilde;o
+mais tarde, e que levar&atilde;o &aacute;quelle d&ocirc;ce
+lar
+tranquillo
+o desassocego, a duvida, a desillus&atilde;o, e a algida tristeza
+desconsoladora de vermos as ridentes chimeras que se desfazem
+lugubremente, e que nunca mais resurgir&atilde;o? <br />
+
+<br />
+
+A culpa deve caber tanto a um como a outro, tanto &aacute; mulher
+como ao marido. <br />
+
+<br />
+
+O noivado &eacute; uma inicia&ccedil;&atilde;o augusta, uma
+esc&oacute;la onde devemos aprender a ser justos e tolerantes. <br />
+
+<br />
+
+O que hoje transparece vagamente, o defeito que aponta subtil e timido
+em meio das alegrias do noivado, ser&aacute; pouco tempo depois
+injustamente considerado uma cousa horrivel e monstruosa. <br />
+
+<br />
+
+E mister que o marido e a mulher se n&atilde;o julguem
+<span class="pagenum">[87]</span>
+a suprema e alta
+perfei&ccedil;&atilde;o, e que sejam
+complacentes para as maculas e defeitos a que ninguem escapa. <br />
+
+<br />
+
+O homem, com a sua vida ruidosa e trabalhadora de militar, de
+negociante, de artista e de proprietario ter&aacute; impaciencias,
+phrenesis e agastamentos. Quando a sua natureza se expandir livremente
+e sem peias, n&atilde;o ser&aacute; o mesmo que estava mezes ou
+annos
+atraz aos p&eacute;s da noiva, submisso, tr&eacute;mulo e
+feliz,
+n&atilde;o medindo o mundo sen&atilde;o pelo ambito aquecido
+pelo bafo
+da sua gentil amada; perder&aacute; todo esse ar de
+humildade e
+de escravid&atilde;o, e, sem o querer, ha de ferir a pobre
+creatura,
+machucar-lhe os mimosos caprichos e offender-lhe a ingenua e nativa
+delicadeza. <br />
+
+<br />
+
+A mulher com o seu pouco ou nenhum conhecimento das difficuldades da
+administra&ccedil;&atilde;o de uma casa, ante o enorme peso das
+responsabilidades que prev&ecirc;, ter&aacute;
+hesita&ccedil;&otilde;es,
+duvidas e receios, que lhe far&atilde;o rebentar muitas e repetidas
+vezes as lagrimas, no principio da sua difficil e t&atilde;o
+ambicionada
+posi&ccedil;&atilde;o de senhora e dona de casa. <br />
+
+<br />
+
+Quando o marido recolher da rua, da pra&ccedil;a, das officinas,
+das
+academias, desgostoso, com o
+cora&ccedil;&atilde;o mordido pelo infortunio, magoado pela
+ingratid&atilde;o de um amigo, pela falsidade de um outro em que
+c&eacute;gamente confiara, pelas mil contrariedades emfim da vida,
+<span class="pagenum">[88]</span>
+e precisar de uma boa e querida
+palavra de affecto, de um conselho leal e sincero, de uma
+consola&ccedil;&atilde;o
+benigna, a mulher deve esquecer-se de si, velar resolutamente as
+feridas que sangram, para s&oacute; pensar no
+marido de
+que &eacute; solidaria
+companheira, e de cuja consciencia viril deve ser amoravel directora. <br />
+
+<br />
+
+Nas m&atilde;os da mulher est&aacute; a tranquillidade, o
+socego, a ventura e a honestidade do lar, porque ella deve ser a
+perseveran&ccedil;a inalteravel, a bondade suprema e inexgotavel, a
+intelligencia allumiada pela doce luz que dimana do
+cora&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Que a mulher saiba perdoar, que a mulher desculpe o egoismo, a dureza,
+as coleras bruscas do marido, e ver&aacute; como este
+saber&aacute;
+fingir que ignora que tambem n'ella existem maculas, que tambem n'ella
+avultam defeitos. <br />
+
+<br />
+
+Se deseja ser perdoada, que perd&ocirc;e ella primeiro, que
+d&ecirc; o
+exemplo, e os resultados d'essa condescendencia ser&atilde;o de
+maravilhoso alcance. <br />
+
+<br />
+
+Ah! &eacute; preciso repetil-o mil vezes, d&ecirc;mos um
+caracter de austera seriedade ao casamento, respeitemol-o, cerquemol-o
+de garantias duradouras, se n&atilde;o quizermos que a familia se
+desmanche, e que a immoralidade triumphe. <br />
+
+<br />
+
+Que as noivas antes de pensarem na inveja que o seu vestido branco e a
+grinalda de fl&ocirc;r de laranjeira
+<span class="pagenum">[89]</span>
+causar&atilde;o &aacute;s suas
+mais intimas amigas, entrem no
+seu novo lar, resolvidas a crearem a felicidade do ente, que apesar de
+viril e forte ha de ter durante a vida muitas horas de abatimento e
+tristeza, que s&oacute; os beijos de uma esposa honesta espancam. <br />
+
+<br />
+
+Que se compenetrem as noivas, que dos primeiros dias do noivado depende
+a paz dos dias futuros, a saude, a educa&ccedil;&atilde;o e o
+porvir
+dos filhos. <br />
+
+<br />
+
+Passados os primeiros dias, volvidos os primeiros mezes, sendo o marido
+intelligente e a mulher bondosa, tendo ambos uma completa
+no&ccedil;&atilde;o do justo e da verdade, poder&atilde;o
+facilmente
+escolher o caminho que os leve mais direitos &aacute; felicidade,
+de
+que tantos casados andam distantes porque se n&atilde;o souberam
+corrigir a tempo, e porque deixaram que se expandissem em espraiada e
+opulenta rama os defeitos que ambos conheceram e viram com olhos
+benevolamente complacentes, e s&oacute; ent&atilde;o
+complacentes! de
+noivos. <br />
+
+<br />
+
+No campo n&atilde;o &eacute; raro ouvir-se &aacute;s
+alde&atilde;s a quem se pergunta se se d&atilde;o bem com a
+vida de
+casadas, o seguinte dizer quasi invariavel na bocca d'essas mulheres: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ao principio tivemos as nossas
+<em>turras</em>, mas a gente, como o outro que diz, foi-se
+habituando
+um ao outro, e agora n&atilde;o ha que se lhe diga; o que elle
+quer, quero eu tambem.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[90]</span>
+<em>Ao principio tinhamos as nossas
+turras</em>... ouviram? &Eacute; que no campo ao primeiro
+beijo segue-se bem cedo a primeira recrimina&ccedil;&atilde;o;
+&eacute;
+que no campo o noivado dura menos, mas em
+compensa&ccedil;&atilde;o
+descobrem-se brutalmente as differen&ccedil;as de genio e as
+desigualdades que a pouco e pouco v&atilde;o desapparecendo. <br />
+
+<br />
+
+A mulher, por&eacute;m, que &eacute; sempre mulher, quer ande
+vestida
+de sedas, quer ande envolvida em sarago&ccedil;a, p&oacute;de
+com a sua
+benefica e pacificadora influencia, tanto no campo como na cidade,
+desculpando o marido, conseguir que este lhe desculpe e lhe attenue as
+imperfei&ccedil;&otilde;es e defeitos que est&atilde;o
+fatalmente inherentes, ai de n&oacute;s! &aacute; mesquinha
+natureza
+humana.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>CAPITULO V </h3>
+
+<h3>As m&atilde;es e as filhas </h3>
+
+<br />
+
+<div class="breaks">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Venho ainda hoje fallar &aacute;s m&atilde;es a respeito das
+suas
+filhas. Creio que &eacute; um meio de ser ouvida com
+atten&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Se as m&atilde;es s&atilde;o pela maior parte das vezes a causa
+inconsciente dos males que affligem a educa&ccedil;&atilde;o de
+seus filhos, n&atilde;o &eacute; d'ellas a culpa, que
+s&oacute;
+levam em mira o bem e a felicidade dos queridos fructos das suas
+entranhas. <br />
+
+<br />
+
+Mas o amor das m&atilde;es &eacute; cego como um instincto, e
+como tal precisa de ser guiado e dirigido. <br />
+
+<br />
+
+Entregues a si, transviadas pelas no&ccedil;&otilde;es
+incompletas que j&aacute; lhes eivaram de erros funestos a
+educa&ccedil;&atilde;o que receberam na infancia, ouvindo mais
+a voz da propria vaidade, que a voz austera da raz&atilde;o, as
+m&atilde;es continuam a supp&ocirc;r que na
+educa&ccedil;&atilde;o de uma menina
+<span class="pagenum">[92]</span>
+se deve attender antes de tudo &aacute;s
+<em>exterioridades brilhantes</em>, que far&atilde;o
+d'ella a favorita
+dos sal&otilde;es mundanos, a elegante e afamada cultora de todas
+as
+delicadas frivolidades sociaes. <br />
+
+<br />
+
+Desde a burgueza, que, apenas sahe dos desfiladeiros sombrios da
+miseria, j&aacute; cuida t&atilde;o
+s&oacute;mente em hombrear com as duquezas que inveja de longe,
+at&eacute; &aacute; mais aristocratica descendente das antigas
+paladinas, todas teem as mesmas no&ccedil;&otilde;es
+falsissimas
+&aacute;cerca da educa&ccedil;&atilde;o que suas filhas
+devem receber. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o estudam os diversos espiritos que se propoem a adornar
+com as mesmas galas sedi&ccedil;as; para ellas uma <em>educa&ccedil;&atilde;o
+de
+senhora</em> n&atilde;o varia. <br />
+
+<br />
+
+Segue sempre a mesma norma absurdamente anachronica. <br />
+
+<br />
+
+Os filhos s&atilde;o reclamados pela escola, pelo lyceu, pelo
+instituto, e teem de sujeitar-se &aacute;s regras acanhadas e
+incompletas da educa&ccedil;&atilde;o official; as filhas,
+debaixo da direc&ccedil;&atilde;o mediata ou immediata das
+m&atilde;es, come&ccedil;am no lar domestico a sua
+aprendizagem, que
+&eacute; como que a opposi&ccedil;&atilde;o systematica a
+todos os
+instinctos poderosos de que a natureza as dotou. <br />
+
+<br />
+
+Turbulentas, como &eacute; natural que sejam as
+crean&ccedil;as, aprendem a suffocar a espontanea e salutar
+actividade
+dos seus pequenos membros. A primeira obriga&ccedil;&atilde;o
+que
+reconhecem &eacute; a <em>de n&atilde;o
+fazerem bulha</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[93]</span>
+Tornam-se taciturnas e sonsas. <br />
+
+<br />
+
+O habito de contrariarem incessantemente os impulsos t&atilde;o
+naturaes da sua idade, como que lhes abre o caminho para a hypocrisia,
+o peior e o mais vulgar dos vicios femininos. <br />
+
+<br />
+
+Sentindo continuamente pesar-lhe sobre a cabe&ccedil;a uma
+press&atilde;o despotica, de que n&atilde;o podem
+reconhecer a justi&ccedil;a, aspiram instinctivamente ao
+livramento,
+teem surdas revoltas intimas, de que nenhum olhar sonda os segredos. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se desenvolvem na plena liberdade da natureza, ha nos
+seus
+corpos miudinhos um aspecto de enfezamento e de fraqueza que faz pena. <br />
+
+<br />
+
+A vaidade maternal cuida ent&atilde;o de as enfeitar; o vestuario
+das
+suas pequenas joias torna-se para as m&atilde;es&#8213;para as
+mulheres&#8213;um
+negocio de alta e gravissima importancia. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ha nada que as satisfa&ccedil;a; os bordados finos,
+as
+rendas, as sedas, as plumas, os velludos, tudo se combina para adornar
+o gracioso e querido anjo. <br />
+
+<br />
+
+Dous resultados inevitaveis: <br />
+
+<br />
+
+A immobilidade a que este luxo condemna as suas victimas pequeninas, e
+a feroz vaidade de que elle lhes lan&ccedil;a n'alma a primeira
+semente, que mais tarde ha de desatar-se em venenosos fructos. <br />
+
+<br />
+
+A pequena assim vestida julga-se for&ccedil;osamente de
+<span class="pagenum">[94]</span>
+uma essencia superior
+&aacute;s
+que n&atilde;o podem competir
+com ella em opulencia; de um lado levanta-se o orgulho, de outro lado
+rasteja a inveja. <br />
+
+<br />
+
+O gosto de ser contemplada, admirada, de excitar
+emula&ccedil;&otilde;es raivosas, de ser apontada como um
+modelo de elegancia infantil, accende no espirito da crean&ccedil;a
+a
+funesta luz que mais tarde ha de allumiar os erros da mulher. <br />
+
+<br />
+
+Quando s&ocirc;a emfim a hora em que o espirito exige a sua
+indispensavel cultura, o mesmo systema que at&eacute; alli dominou
+na
+educa&ccedil;&atilde;o da pequenina
+contin&uacute;a a fazer sentir a sua corruptora influencia. <br />
+
+<br />
+
+&laquo;&#8213;Quero que a minha filha se n&atilde;o possa
+envergonhar de apparecer ao p&eacute; das mais ricas!&#8213;diz a
+m&atilde;e enfatuada na sua funesta vaidade.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Chamam-se os professores de dan&ccedil;a, de musica, de linguas, de
+desenho, ou conduz-se a menina ao collegio mais afamado em prendas
+d'este genero. <br />
+
+<br />
+
+Algumas m&atilde;es exigem tambem que as filhas aprendam a <em>bordar</em>
+a l&atilde;, a
+<em>bordar</em> a ouro, a
+<em>bordar</em> sobre escomilha, a fazer <em>crochet</em>,
+fl&ocirc;res, pequenos trabalhos de agulha, proprios para
+ornamenta&ccedil;&atilde;o de um
+quarto de pensionista ingenua. <br />
+
+<br />
+
+Outras, mais dadas &aacute; sciencia, querem uns elementos
+<span class="pagenum">[95]</span>
+de geographia, alguma
+historia sagrada e profana, uma leve tintura de arithmetica. <br />
+
+<br />
+
+Por cima de tudo isto um p&oacute; dourado de
+devo&ccedil;&atilde;o elegante, ministrada pelo director das
+consciencias do <em>high-life</em>. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se admitte de modo nenhum que um velho sacerdote obscuro
+e
+despretencioso, cujos serm&otilde;es
+n&atilde;o tenham fama, cujas predicas n&atilde;o sejam
+ouvidas, entre
+suspiros e lagrimas, pelas devotas da aristocracia, inicie a pequena
+neophyta nos mysterios subtis da doutrina catholica. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; indispensavel um padre galante, perfumado, estrangeiro,
+que
+torne o ensino da religi&atilde;o alguma cousa de artistico e de
+adocicado como elle. <br />
+
+<br />
+
+<em>Saber bem doutrina</em> constitue um dos
+deveres de uma educa&ccedil;&atilde;o primorosa, e no entanto a
+filha
+que aprendeu, a m&atilde;e que a mandou ensinar, ignoram todos os
+deveres a que esta sciencia, a ser bem comprehendida, as obrigaria. <br />
+
+<br />
+
+Sabem doutrina como sabem grammatica; quer dizer repetem de
+c&oacute;r
+umas certas e determinadas regras de que n&atilde;o percebem a
+applica&ccedil;&atilde;o
+pratica. <br />
+
+<br />
+
+Aos quinze annos a menina preparada por estes elementos tem a sua
+educa&ccedil;&atilde;o completa. <br />
+
+<br />
+
+Quer seja filha de um duque, quer seja filha de um fabricante, quer o
+seu destino a reserve para receber
+<span class="pagenum">[96]</span>
+n'uma sala faustuosa os altos
+personagens da politica e da diplomacia, para fazer parte da
+c&ocirc;rte, para conviver n'um p&eacute; de intimidade com
+todos os
+grandes, e com todos os opulentos; quer ella tenha de partilhar as
+luctas obscuras de um modesto empregado, de um industrial de poucos
+haveres, de um artista desprotegido, &eacute; a mesma a sua
+educa&ccedil;&atilde;o
+moral, physica e intellectual. <br />
+
+<br />
+
+Est&aacute; do mesmo modo preparada para as luctas e para os
+combates
+da vida; tem a mesma for&ccedil;a nos musculos, tem as mesmas
+faculdades no espirito, tem as mesmas no&ccedil;&otilde;es na
+consciencia. <br />
+
+<br />
+
+A burgueza ou a fidalga, com tanto que tenham dinheiro, teem os mesmos
+direitos, as mesmas
+aspira&ccedil;&otilde;es, ambicionam para suas filhas o mesmo
+lugar na sociedade. <br />
+
+<br />
+
+Mas o que deve confessar-se uma vez por todas &eacute; que esta
+educa&ccedil;&atilde;o, toda vaidade,
+toda orgulho frivolo, toda inutil ostenta&ccedil;&atilde;o,
+convem t&atilde;o
+pouco &aacute; filha da aristocracia e da opulencia, como
+&aacute; filha da burguezia e da mediocridade. <br />
+
+<br />
+
+Uma, collocada nos altos pincaros sociaes, precisa de ter o juizo recto
+e seguro para conhecer os homens, a gra&ccedil;a ondeante e fina
+para
+os attrahir, o conhecimento profundo dos seus interesses e
+paix&otilde;es, para os conciliar entre si; precisa de fallar a
+cada um
+<span class="pagenum"><a name="p97">[97]</a></span>
+a linguagem mais
+propria para o convencer e dominar; precisa de ser, junto de seu marido
+um auxiliar proficuo com que elle conte, uma intima e fiel alliada, que
+o ajude a conservar dignamente a posi&ccedil;&atilde;o que
+herdou dos
+seus av&oacute;s ou que conquistou com o bra&ccedil;o e com o
+pensamento. <br />
+
+<br />
+
+A outra, n'uma esphera que &eacute; inferior &aacute; da
+primeira, segundo o ponto de vista social, mas que de feito lhe
+&eacute; superior, porque inclue mais altos e mais complexos
+deveres&#8213;a
+outra precisa de descer com seu marido &aacute; arena onde combatem
+os
+modernos trabalhadores, precisa de lhe ser em tudo e por tudo ajuda,
+guia e conselho, precisa de acceitar para si terriveis
+responsabilidades, para as quaes nenhuma li&ccedil;&atilde;o a
+preparou! <br />
+
+<br />
+
+<a href="#e2">Dir-me-h&atilde;o que</a> o
+nivelamento democratico das modernas sociedades d&aacute; a todos
+os
+mesmos direitos, porque d&aacute; a todos os mesmos deveres; que a
+m&atilde;e opulenta e nobre que cria suas filhas nos
+f&ocirc;fos ocios
+da riqueza n&atilde;o sabe se em breve ter&aacute; de vel-as
+curvadas ao peso da maxima miseria, assim como a mulher de um humilde
+empregado n&atilde;o sabe se ver&aacute; sua filha ascender a
+uma
+prospera e brilhante
+posi&ccedil;&atilde;o, elevada por um d'esses casamentos que
+s&atilde;o
+vulgares, como d'antes eram raros. <br />
+
+<br />
+
+D'accordo, meus senhores; mas essa hypothese
+<span class="pagenum">[98]</span>
+em cousa alguma destr&oacute;e a minha
+asser&ccedil;&atilde;o, pois o que eu disse e repito
+&eacute; que a educa&ccedil;&atilde;o
+feminina, tal como hoje a entendem, para nenhuma classe da sociedade,
+para nenhuma posi&ccedil;&atilde;o brilhante ou precaria
+&eacute; util ou conveniente.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Que desenvolvimento moral, physico ou intellectual, p&oacute;de
+adquirir-se partindo de t&atilde;o errados
+principios? <br />
+
+<br />
+
+A que fim se aspira, que fim se attinge, alcan&ccedil;ando uma
+educa&ccedil;&atilde;o que tem por unica base a vaidade? <br />
+
+<br />
+
+Pois a mulher, que levou annos e annos da sua vida a adquirir
+conhecimentos inuteis, est&aacute; porventura armada para resistir
+&aacute;s tenta&ccedil;&otilde;es,
+&aacute;s adversidades, &aacute;s miserias, aos combates da
+vida? <br />
+
+<br />
+
+Imagine-se, em contraposi&ccedil;&atilde;o a esta falsa
+cultura, que constitue o que os burguezes embebecidos em comico
+enthusiasmo chamam uma <em>educa&ccedil;&atilde;o
+muito fina</em>, imagine-se que as m&atilde;es, juntando-se
+n'uma piedosa cruzada, conseguiam crear uma
+institui&ccedil;&atilde;o
+moderna, onde suas filhas recebessem a educa&ccedil;&atilde;o
+que hoje
+lhes poderia servir, para se tornarem uteis na sociedade e na familia. <br />
+
+<br />
+
+Quantas vezes n&atilde;o tenho eu acariciado em sonhos
+<span class="pagenum">[99]</span>
+a id&eacute;a d'essa
+escola-modelo, onde a crean&ccedil;a
+aprendesse a ser mulher, onde a mulher aprendesse a ser m&atilde;e!
+onde uma direc&ccedil;&atilde;o harmonica e
+intelligente presidisse ao desenvolvimento do espirito e ao
+desenvolvimento n&atilde;o menos sagrado do corpo; onde a moral
+caminhasse a par da sciencia, onde a primeira
+no&ccedil;&atilde;o que o
+entendimento feminino recebesse fosse esta: &laquo;Todo o trabalho
+nobilita e exalta a quem o executa com a consciencia de cumprir um
+dever!&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Eu n&atilde;o quizera por certo proscrever da
+educa&ccedil;&atilde;o da mulher as gra&ccedil;as, que
+s&atilde;o para ella o que o
+perfume &eacute; para a fl&ocirc;r. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o queria v&ecirc;r o mundo convertido n'um viveiro de <em>pedantes</em>,
+enfronhadas em sciencia
+e tornando antipathica a virtude, &aacute; for&ccedil;a de lhe
+darem ares dogmaticos. <br />
+
+<br />
+
+Se a leitora supp&otilde;e de mim tal
+abomina&ccedil;&atilde;o, &eacute; que eu bem pouco tenho
+conseguido revelar-me aos seus olhos. <br />
+
+<br />
+
+O meu intento &eacute; outro; permitta-me que lhe torne aqui bem
+palpavel. <br />
+
+<br />
+
+V. exc.<sup>a</sup>, minha senhora, tem uma filha, um
+pequenino anjo, louro e
+risonho, que &eacute; n'este mundo o seu enlevo, como que um
+bocadinho
+do c&eacute;u azul, que lhe cahiu no seio n'um dia
+aben&ccedil;oado. <br />
+
+<br />
+
+Tome o meu conselho: n&atilde;o siga na
+educa&ccedil;&atilde;o do
+<span class="pagenum">[100]</span>
+seu pequeno amor o systema que
+sua m&atilde;e seguiu comsigo, que as suas amigas seguem com as
+filhas
+que teem. <br />
+
+<br />
+
+C&oacute;rte de uma vez este fatal n&oacute; gordio da
+tradic&ccedil;&atilde;o, do costume, da rotina, que faz morrer
+em fl&ocirc;r tantas innova&ccedil;&otilde;es beneficas. <br />
+
+<br />
+
+Tenha a coragem das suas opini&otilde;es; inutilise esse formoso e
+rico
+enxoval que umas modistas banaes inventaram por ordem sua; deite
+f&oacute;ra essas sedas, essas rendas, esses instrumentos de
+perdi&ccedil;&atilde;o para a alma pequenina que Deus lhe
+confiou. <br />
+
+<br />
+
+Vista sua filha simplesmente, com um aceio gracioso e poetico, que
+revele os seus desvelos de m&atilde;e, mas que n&atilde;o
+denuncie as
+suas vaidades de rica. <br />
+
+<br />
+
+Bem v&ecirc; que, livre de todo aquelle fausto que a incommodava,
+como
+um la&ccedil;o de fita incommoda uma ave, a sua doce pequenina se
+sente
+mais livre e mais contente. <br />
+
+<br />
+
+Eu bem sei que ainda ha pouco uma amiga sua, passando por ella, a mediu
+dos p&eacute;s &aacute;
+cabe&ccedil;a, muito espantada e um pouco desdenhosa, perguntando a
+si
+mesma se v. exc.<sup>a</sup> j&aacute; n&atilde;o
+era t&atilde;o rica
+como ella julgou; mas em compensa&ccedil;&atilde;o d'esta
+pequena
+ferida de seu amor proprio, houve uma crean&ccedil;a pobre, que ao
+parar junto da sua filhinha, ousou estender a bocca de rosas, e
+beijal-a com um d&ocirc;ce e fraterno beijo,
+<span class="pagenum">[101]</span>
+como os anjos se d&atilde;o
+entre si, e para os quaes Deus do alto da sua gloria teve sempre um
+sorriso bom! <br />
+
+<br />
+
+Que importam os desdens dos parvos e dos mediocres aos que
+n&atilde;o
+teem as invejas dos miseraveis a pezarem-lhe na cabe&ccedil;a como
+uma
+eterna
+maldi&ccedil;&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+Quando a sua filha passa com o seu vestidinho branco, muito simples e
+muito aceiado, as m&atilde;es pobres sorriem-se com amor por dous
+motivos, ambos santos: porque ella n&atilde;o humilha ninguem, e
+deixa
+uma esmola de p&atilde;o e um rasto de luz no seu caminho de anjo
+inconsciente. <br />
+
+<br />
+
+Oh! como s&atilde;o doces ao cora&ccedil;&atilde;o das
+m&atilde;es as ben&ccedil;&atilde;os que se desfiam como um
+rosario de perolas sobre a cabe&ccedil;a loura de seus filhos.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Quando a intelligencia j&aacute; viva e luminosa da sua filha lhe
+pedir
+cultivo, como as flores pedem agua, n&atilde;o a force a um
+trabalho
+pesado e tenaz, nem t&atilde;o pouco lhe d&ecirc; da vida uma
+id&eacute;a t&atilde;o frivola,
+que ella s&oacute; aprenda o que &eacute; superfluo para
+n&atilde;o
+dizer inutil. <br />
+
+<br />
+
+Abra-lhe com a sua m&atilde;o maternal t&atilde;o delicada e
+t&atilde;o
+subtil o vasto livro da natureza, e deixe que ella, enlevada e curiosa,
+o folheie cheia de amor e de f&eacute;. Toda a sciencia se encerra
+n'isto, minha senhora. <br />
+
+<br />
+
+Fa&ccedil;a-a penetrar na alma de todas as cousas para
+<span class="pagenum">[102]</span>
+que a vida se n&atilde;o
+conserve
+aos seus olhos inanimada e esteril. <br />
+
+<br />
+
+Em vez de lhe ensinar a doutrina morta que vem nos livros, leve-a
+brandamente por um declive suave a comprehender o espirito d'essa lei,
+que &eacute; feita de tanto amor! <br />
+
+<br />
+
+Conte-lhe as miserias occultas que ha n'este mundo, ensine-a, ou antes,
+deixe que ella adivinhe como essas miserias se consolam pela esmola do
+p&atilde;o e pela esmola do carinho, e, quando ella voltar do
+albergue
+da desgra&ccedil;a, ao seu lado, calada, pensativa, com os olhos
+cravados nas nuvens alaranjadas do poente, pergunte-lhe
+ent&atilde;o
+baixinho, com a sua voz de
+m&atilde;e, a unica que nunca perturba nem afugenta os sonhos de
+uma
+virgem:&#8213;Comprehendes agora as palavras do Christo: <em>Ama a
+Deus sobre todas as cousas e ao proximo como a ti mesmo</em>? <br />
+
+<br />
+
+S&oacute; este commentario das li&ccedil;&otilde;es do
+Justo p&oacute;de fazer com que ellas d&ecirc;em
+aben&ccedil;oados fructos! <br />
+
+<br />
+
+Em vez de lhe occultar os mil subterfugios com que a maldade humana
+tenta avassallar e corromper a innocencia, innocule-lhe lentamente com
+a sua palavra serena e firme a for&ccedil;a necessaria para vencer
+e
+dominar as astucias criminosas e trai&ccedil;oeiras. <br />
+
+<br />
+
+Fa&ccedil;a-lhe sentir com a li&ccedil;&atilde;o e com o
+exemplo que a mulher tem quasi sempre em si o seu peior inimigo,
+<span class="pagenum">[103]</span>
+e que este inimigo, que toma
+todas as f&oacute;rmas
+imaginaveis, &eacute; sempre no
+fundo o
+mesmo! o orgulho. <br />
+
+<br />
+
+Que ella comprehenda bem que o dominio que a mulher exerce pela sua
+bondade nobilita aquelle que se lhe submette, emquanto que o
+despotismo, que tem como origem a belleza e a gra&ccedil;a
+artificial
+das
+seduc&ccedil;&otilde;es, rebaixa o homem que o acceita, e a
+mulher que
+o p&otilde;e em ac&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Nas cousas triviaes da vida pratica prepare-a para todas as
+eventualidades. <br />
+
+<br />
+
+Que se n&atilde;o ache deslocada n'um throno, nem atraz d'um
+balc&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Eis o ideal. <br />
+
+<br />
+
+Ha uma dignidade que est&aacute; comnosco, que participa da nossa
+propria assencia, que prov&eacute;m da
+no&ccedil;&atilde;o elevada que n&oacute;s temos dos nossos
+direitos e
+dos nossos deveres, e que &eacute; portanto independente de
+qualquer
+circumstancia exterior. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; d'esta dignidade que uma educa&ccedil;&atilde;o
+justa e forte deve dar &aacute; mulher, e que em todas as
+peripecias da
+vida, por mais desusadas e estranhas, a deve acompanhar. <br />
+
+<br />
+
+Ter bastante humildade para exercer sem repugnancia os trabalhos menos
+delicados, e bastante superioridade para comprehender a id&eacute;a
+do
+dever que os exalta e sobredoira; ver na vida, primeiramente as
+<span class="pagenum">[104]</span>
+obriga&ccedil;&otilde;es, depois as
+distrac&ccedil;&otilde;es, eis aquillo que todas as
+m&atilde;es devem ensinar &aacute;s suas filhas. <br />
+
+<br />
+
+No dia em que todas o souberem, teremos ent&atilde;o, em vez das
+crean&ccedil;as fracas e inuteis, que o homem ora protege, ora
+escravisa, segundo o impulso das suas ephemeras paix&otilde;es, uns
+seres pensantes, conscios da sua for&ccedil;a, sem
+ambi&ccedil;&otilde;es desregradas
+de um poder que lhes n&atilde;o deve pertencer, sem a hypocrita
+humildade, que faz de cada mulher uma victima pouco sympathica. <br />
+
+<br />
+
+As salas ter&atilde;o menos estatuetas de
+<em>biscuit</em> amaneiradas e ridiculas, mas a familia
+ter&aacute; mais elementos na vida e dura&ccedil;&atilde;o;
+os pianos deixar&atilde;o
+de suspirar em noutes de luar as suas sentimentaes confidencias; mas a
+verdadeira comprehens&atilde;o da arte, da
+religi&atilde;o, e da poesia penetrar&aacute; como por encanto
+nos entendimentos feminis. <br />
+
+<br />
+
+Teremos emfim ao lado do batalhador das modernas lides uma companheira,
+n&atilde;o s&oacute; digna d'elle,
+por&eacute;m capaz de o levantar a um nivel que elle ainda,
+desacompanhado e desprotegido, n&atilde;o p&ocirc;de
+desgra&ccedil;adamente attingir.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>CAPITULO VI </h3>
+
+<h3>Leitura para nossas filhas </h3>
+
+<br />
+
+<div class="breaks">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature">&laquo;Minha querida amiga:</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Disse-me hontem que sua filha tinha esgotado a pequena bibliotheca
+infantil, que a muito custo colligio para ella, e que esse candido e
+luminoso espirito, de quinze annos exige energicamente mais alimento
+que a nutra e que a deleite. <br />
+
+<br />
+
+Pergunta-me a respeito da leitura que ha de permittir a sua filha, a
+minha opini&atilde;o, o meu conselho. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; um caso difficil este que me prop&otilde;e. <br />
+
+<br />
+
+Lili &eacute; uma graciosa e excepcional creatura; tem a logica
+inflexivel das crean&ccedil;as intelligentes, tira
+rapidamente a conclus&atilde;o das premissas que submettam ao seu
+criterio. A leitura p&oacute;de fazer-lhe muito mal ou muito bem;
+n&atilde;o p&oacute;de de modo algum ser-lhe
+indifferente.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[106]</span>
+A minha amiga seguindo as tradic&ccedil;&otilde;es que
+j&aacute; encontrou assentes, pergunta-me se p&oacute;de deixar
+ler a sua filha <em>Paulo e Virginia</em>, esse
+idyllio que tem cem annos e que amea&ccedil;a ser eterno, ou
+<em>Jocelyn</em>, o poema mais perigosamente mystico que eu
+conhe&ccedil;o. Falla-me no <em>Genio do Christianismo</em>,
+de
+Chateaubriand, e nas tragedias sacras de Racine. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se lembra para sua filha de nenhum outro escripto e
+lembrou-se justamente d'aquelles que s&oacute; lhe podiam fazer
+mal. <br />
+
+<br />
+
+Antes de mais nada, responda-me francamente: quer fazer de sua filha
+uma mulher solidamente instruida ou ent&atilde;o uma mulher
+ignorante? <br />
+
+<br />
+
+Quer que ella saiba resistir &aacute;s
+tenta&ccedil;&otilde;es que for&ccedil;osamente ha de
+encontrar na
+vida, ou quer que ella se conserve na mais completa e absoluta
+inexperiencia at&eacute; &aacute; edade em que ha de entregal-a
+ao
+homem que tem de ser seu marido? <br />
+
+<br />
+
+Da resposta a estas duas perguntas &eacute; que tudo depende,
+porque
+segundo a id&eacute;a que a minha amiga f&oacute;rma da
+educa&ccedil;&atilde;o de uma mulher,
+segundo o systema que tenciona p&ocirc;r em pratica com
+rela&ccedil;&atilde;o
+&aacute; educa&ccedil;&atilde;o de sua filha, o futuro
+d'esta ha de
+levar um outro caminho. <br />
+
+<br />
+
+Eu n&atilde;o posso dizer-lhe positivamente: fa&ccedil;a isto,
+fa&ccedil;a aquillo.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[107]</span>
+Posso apenas contar-lhe o que fiz. <br />
+
+<br />
+
+Minha filha tem hoje vinte seis annos, &eacute; casada,
+&eacute; m&atilde;e, e tem sabido cumprir a dupla e difficil
+miss&atilde;o que a sorte lhe confiou. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o sei se deva attribuir os meritos que todos lhe
+reconhecem
+&aacute; educa&ccedil;&atilde;o que procurei
+dar-lhe; parece-me, por&eacute;m, que sem falsa modestia poderei
+confessar, que os meus cuidados n&atilde;o foram de todo
+inefficazes, e
+que o muito que pensei e meditei sobre o caracter da minha querida
+filha, me ajudou a guial-o no caminho do seu
+aperfei&ccedil;oamento. <br />
+
+<br />
+
+Ha gente que diz que as mulheres n&atilde;o devem ler. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o sei se alguma vez tem ouvido essas opini&otilde;es
+estupidas ou perfidas; n&atilde;o lhes d&ecirc; credito minha
+boa amiga. <br />
+
+<br />
+
+Eu n&atilde;o acho merito algum &aacute; mulher ignorante, que
+se
+resigna ao cumprimento dos seus obscuros deveres de todos os dias. <br />
+
+<br />
+
+Segue rotineiramente um caminho de que n&atilde;o conhece as
+difficuldades, e se n&atilde;o se afasta d'elle &eacute;
+porque n&atilde;o sabe de nenhum outro. <br />
+
+<br />
+
+A mulher deve ler, mas se mais tarde no pleno uso das suas faculdades
+mentaes, e da sua for&ccedil;a moral, ella p&oacute;de ler tudo
+sem
+perigo, &eacute; indispensavel
+que uma educa&ccedil;&atilde;o anterior a tenha preparado e
+fortalecido, &eacute; indispensavel que haja o maior cuidado na
+cultura
+<span class="pagenum">[108]</span>
+intellectual que ella
+deve receber na infancia e na adolescencia. <br />
+
+<br />
+
+Diz-me a minha amiga, que a maior parte dos romances s&atilde;o
+immoraes, que os que n&atilde;o s&atilde;o
+immoraes nos intuitos s&atilde;o perigosamente exaltados ou
+revellam ao
+espirito da mocidade quadros que ella n&atilde;o deve conhecer:
+diz-me
+que a historia de todos os povos n&atilde;o &eacute; mais que
+um
+amontoado confuso de crimes e de vicios, que a sciencia est&aacute;
+em
+contradic&ccedil;&atilde;o
+absoluta com as verdades de religi&atilde;o, e no meio das duvidas
+que
+se desnorteiam e assaltam quasi que prefere condemnar sua filha a uma
+ignorancia que ao menos a conserve simples de
+cora&ccedil;&atilde;o e
+tranquilla de
+espirito. <br />
+
+<br />
+
+Tenho duas objec&ccedil;&otilde;es a fazer-lhe minha amiga, e
+parece-me
+que ambas h&atilde;o de impressionar o seu esclarecido
+entendimento. <br />
+
+<br />
+
+Em primeiro logar, se consultar bem a sua consciencia, ver&aacute;
+que
+transige por fraqueza e por pregui&ccedil;a com a ignorancia de sua
+filha. <br />
+
+<br />
+
+Prefere que ella n&atilde;o tenha quasi nada, a ter de se entregar
+a
+trabalho difficilimo de escolher com o mais delicado dos escrupulos o
+que ella deve saber. <br />
+
+<br />
+
+Em segundo logar, essa ignorancia, que para a mulher lhe parece o porto
+socegado e tranquillo onde ella repousar&aacute; affoutamente,
+parece-me a mim um
+<span class="pagenum">[109]</span>
+banco de
+perfidas areias onde facilmente ella p&oacute;de
+naufragar. <br />
+
+<br />
+
+J&aacute; estou d'aqui prevendo a sua
+objec&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Mas eu n&atilde;o quero tal que minha filha seja ignorante. Pelo
+contrario, dei-lhe uma excellente educa&ccedil;&atilde;o. Aqui
+n&atilde;o se tracta sen&atilde;o das leituras que depois
+de educada eu lhe devo permittir ou recusar. <br />
+
+<br />
+
+Minha amiga, creia isto que lhe vou dizer. Se sua filha n&atilde;o
+souber sen&atilde;o o que tem aprendido
+at&eacute; agora, de poucos recursos fica munida para combater na
+grande batalha em que vae entrar. <br />
+
+<br />
+
+Ensinou-lhe o cathecismo, bem sei; Lili fez j&aacute; a sua
+primeira
+communh&atilde;o, e respondeu ao exame de doutrina com admiravel
+facilidade, e com uma memoria impecavel. <br />
+
+<br />
+
+E depois? <br />
+
+<br />
+
+Em que &eacute; que essas no&ccedil;&otilde;es a auxiliam
+para que ella chegue a conceber o bem absoluto, a eterna
+justi&ccedil;a, o Espirito Supremo que anima a grande natureza? <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; preciso que ella forme de Deus uma larga e fecunda
+id&eacute;a, e as manifesta&ccedil;&otilde;es da sua
+grandeza n&atilde;o est&atilde;o no cathecismo,
+est&atilde;o espalhadas n'essa
+crea&ccedil;&atilde;o universal que ella n&atilde;o sabe
+ver e que ella n&atilde;o
+conhece. <br />
+
+<br />
+
+Conhece a historia pelos pequenos opusculos cheios de todas as maculas
+e impurezas, que deixaram chegar &aacute;s suas m&atilde;os
+infant&iacute;s.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[110]</span>
+N&atilde;o ser&aacute; uma irris&atilde;o dizer que ella
+conhece a historia? <br />
+
+<br />
+
+Sabe os nomes dos reis, as datas dos seus nascimentos e mortes,
+coroa&ccedil;&otilde;es e consorcios, e os filhos que
+tiveram e as cidades e villas que conquistaram; mas que id&eacute;a
+tem
+ella d'essa historia sublime, que participa do drama e da
+epop&ecirc;a,
+que tem paginas doloridas e paginas brilhantes, que tem cantos
+triumphaes, e gemidos de lutuosa angustia, d'essa historia em que
+est&atilde;o registradas tantas luctas heroicas, tantas conquistas
+immortaes, e que se chama a historia da humanidade? <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o lhe parece que deve ser um estudo elevado, fortificante,
+robustecedor, que faz conhecer melhor, os esfor&ccedil;os titanicos
+que
+o homem tem empregado para alcan&ccedil;ar a quasi omnipotencia que
+hoje possue? <br />
+
+<br />
+
+Do homem rude, primitivo, inhabil, rodeiado de perigos para o corpo e
+de chimeras para o espirito, esmagado pela for&ccedil;a brutal da
+natureza, sem comprehens&atilde;o do destino que o esperava e da
+miss&atilde;o a que vinha, at&eacute; ao homem dos nossos dias,
+ao rei,
+ao victorioso, ao vencedor, ao que tem dominado todas as tyrannias que
+o dominavam, que differen&ccedil;a enorme vae, minha querida amiga!
+<br />
+
+<br />
+
+Entre o p&aacute;ria errante das selvas pre-historicas e esse
+triumphador que se chama Newton ou Goethe,
+<span class="pagenum">[111]</span>
+Claude Bernard ou Victor Hugo, ha a
+distancia de uns poucos de milhares de seculos, que &eacute;
+preciso
+conhecer ao menos pelos marcos milliarios que teem assignalado a
+passagem dos mais illustres caminhantes n'essa estrada luminosa que se
+chama civilisa&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; isso que eu chamo conhecer a historia. <br />
+
+<br />
+
+D'essa sciencia o espirito de sua filha, curioso, &aacute;vido,
+aberto para todas as grandes cousas, s&oacute;
+p&oacute;de colher proveito, um enorme proveito cujo alcance mal
+lhe posso explicar! <br />
+
+<br />
+
+Dir-me-ha que n'essa historia ha crimes ignobeis, ha quadros
+revoltantes, ha homens condemnados cujo contacto p&oacute;de ferir
+o
+delicado e original espirito de uma crean&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+Oh! mas tambem ha martyrios, sacrificios,
+abnega&ccedil;&otilde;es, arrojos sublimes! <br />
+
+<br />
+
+Se ha criminosos, tambem ha heroes; se ha algozes, tambem ha martyres;
+se ha monstros, tambem ha santos. <br />
+
+<br />
+
+Deixe que no cerebro da crean&ccedil;a se fa&ccedil;a a
+mysteriosa elabora&ccedil;&atilde;o de que ha de sahir o culto
+pelo que
+f&ocirc;r bello e bom, o odio raciocinado e violento a tudo que
+f&ocirc;r abjecto e vil, a compaix&atilde;o virtuosa e
+divina para tudo que f&ocirc;r fragil e ignorante! <br />
+
+<br />
+
+Ponha nas m&atilde;os de sua filha todos os cantos d'essa
+epop&ecirc;a
+enorme. Fa&ccedil;a-lhe l&ecirc;r com
+atten&ccedil;&atilde;o essa historia,
+<span class="pagenum">[112]</span>
+e quando ella tiver chegado
+&aacute; ultima pagina,
+ser&aacute; mulher. Uma mulher instruida, uma mulher forte, capaz
+de
+ser esposa digna, e m&atilde;e desvellada, tendo aprendido a
+conhecer,
+comparar, julgar e a pensar. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o sei se comprehendeu bem a id&eacute;a que procurei
+exp&ocirc;r-lhe. Apontei a tra&ccedil;os largos a
+direc&ccedil;&atilde;o <em>una</em> que deve dar
+&aacute;s leituras de sua filha. Isto a que chamei conhecer a
+historia, n&atilde;o &eacute;, como viu, ler
+simplesmente os historiadores. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; l&ecirc;r, dominada por uma id&eacute;a de elevada
+critica, que as conversa&ccedil;&otilde;es d'uma m&atilde;e
+intelligente podem dar, todas as que tenham trazido a este thesouro
+formado pelos seculos, algum conhecimento precioso e util. <br />
+
+<br />
+
+Os bons historiadores como Macaulay e como Herculano, os poetas que
+vivificam e animam o passado, que entram no espirito de todos os
+seculos, como Michelet: os viajantes intrepidos, os exploradores, os
+navegantes, os homens de sciencia, conquistadores tambem e dos mais
+gloriosos; os moralistas, os criticos, todos aquelles que buscam
+lealmente a verdade e que aspiram ao aperfei&ccedil;oamento do
+homem. <br />
+
+<br />
+
+Fallei-lhe de Michelet e deixe-me dizer-lhe o que penso d'elle. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; o cora&ccedil;&atilde;o mais apaixonado de
+justi&ccedil;a que eu conhe&ccedil;o, o que o n&atilde;o
+priva de ser injusto muitas vezes;
+<span class="pagenum">[113]</span>
+mas tem uma alma t&atilde;o grande, tem uma
+comprehens&atilde;o t&atilde;o viva do bello, tem faculdades
+artisticas
+t&atilde;o poderosas, que para mim n&atilde;o ha companheiro
+melhor
+para um espirito mo&ccedil;o. <br />
+
+<br />
+
+Deixe que sua filha leia muito Michelet. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; um grande mestre. Atravez d'elle ella saber&aacute;
+sentir melhor, amar com um amor mais intelligente a natureza. <br />
+
+<br />
+
+Michelet tem a do&ccedil;ura misericordiosa que redime e levanta os
+humildes e anima os fracos, tem a paciencia que penetra no intimo dos
+s&ecirc;res mais inferiores, e que o illumina de uma luz
+sympathica. <br />
+
+<br />
+
+Sabe fazer ver tudo, sabe explicar todos os mysterios. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; um genio que tem alguma cousa de propheta. <br />
+
+<br />
+
+Como &eacute; bom, divinamente bom, o contacto d'aquelle espirito,
+d&aacute; bondade e for&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Para elle n&atilde;o ha na natureza, nada que tenha
+vida, e n&atilde;o tenha alma! <br />
+
+<br />
+
+Da planta ao mollusco, e do mollusco ao homem tudo que vive ama, e tudo
+que ama tem direito ao nosso amor. <br />
+
+<br />
+
+Doce philosophia que nos ensina o segredo de todas as misericordias! <br />
+
+<br />
+
+Minha querida, ainda que para mim Michelet seja o melhor dos poetas,
+n&atilde;o entendo que das leituras de
+<span class="pagenum">[114]</span>
+uma menina se deva proscrever
+implacavelmente a outra poesia. <br />
+
+<br />
+
+Quando digo isto refiro-me &aacute; poesia rimada, &aacute; que
+canta
+no ouvido, com uma musica que &eacute; muitas vezes
+trai&ccedil;oeira. <br />
+
+<br />
+
+Procure no entanto que seja o mais tarde possivel, que essas vozes de
+sereia penetrem no ouvido de sua filha. <br />
+
+<br />
+
+Oh! &eacute; que &eacute; preciso muita for&ccedil;a para
+resistir &aacute; influencia dissolvente que ellas teem em
+n&oacute;s. <br />
+
+<br />
+
+Nunca perca de vista que a vida &eacute; um combate, um rude e
+terrivel
+combate, e elles os que cantam e os que choram em vez de inocularem no
+espirito a for&ccedil;a de que este precisa, tornam-n'o debil,
+amollecem-n'o, em voluptuosidades enervantes. <br />
+
+<br />
+
+Ninguem tem medo de Lamartine. <br />
+
+<br />
+
+As m&atilde;es d&atilde;o-n'o a ler &aacute;s suas filhas,
+os noivos d&atilde;o-n'o de presente &aacute;s suas noivas. <br />
+
+<br />
+
+Para todos elles &eacute; o mais puro dos poetas, um cysne que
+nunca
+maculou as suas pennas brancas no loda&ccedil;al das
+paix&otilde;es
+insalubres! <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se illuda com este juizo que universalmente se formou a
+respeito de Lamartine e dos melancolicos da sua escola. <br />
+
+<br />
+
+Que maior perigo para uma alma juvenil do que a
+aspira&ccedil;&atilde;o a um ideal impossivel? do que a sede de
+<span class="pagenum">[115]</span>
+venturas irrealisaveis e do
+que o sonho de amores que n&atilde;o existem? <br />
+
+<br />
+
+E depois os poetas inconsolados e inconsolaveis n&atilde;o ensinam
+a
+luctar contra as magoas da vida. Ensinam a curvar a cabe&ccedil;a
+aos
+golpes da fatalidade, ensinam a chorar covardemente, a deliciar-se nas
+agonias, a saborear a do&ccedil;ura debilisadora das lagrimas! <br />
+
+<br />
+
+Saudemos os que combatem virilmente, os que vencem a
+desgra&ccedil;a, os que furtam a sua alma &aacute;s
+languidas tristezas da desesperan&ccedil;a, saudemos os que
+s&atilde;o fortes, alegres e bons. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; d'essas intelligencias eleitas, que sua filha deve
+s&oacute;mente alimentar-se. <br />
+
+<br />
+
+Ella ha de querer ler romances. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; natural. <br />
+
+<br />
+
+Os romances s&atilde;o a fantasia, e na vida das mulheres a
+fantasia tem um grande logar. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; na escolha d'esses que precisa ter o maior cuidado. <br />
+
+<br />
+
+Proscreva sem d&oacute;, da bibliotheca de sua filha, as obras
+primas dos romancistas francezes. <br />
+
+<br />
+
+Balzac &eacute; um anatomista implacavel. <br />
+
+<br />
+
+Os seus romances matam a fl&ocirc;r da f&eacute; na alma dos
+innocentes. <br />
+
+<br />
+
+Georg Sand &eacute; um bello anjo revoltado.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[116]</span>
+Tem o orgulho de Satanaz na imagina&ccedil;&atilde;o de uma
+mulher apaixonada. <br />
+
+<br />
+
+Octave Feuillet t&atilde;o fino, t&atilde;o delicado,
+s&oacute; deve ser lido depois dos trinta annos. <br />
+
+<br />
+
+Daudet um delicioso romancista, come&ccedil;ou a escrever n'uma
+&eacute;poca doentia; ha n'elle um n&atilde;o sei que de
+morbido que
+entristece e que faz mal. <br />
+
+<br />
+
+Escusa de procurar minha amiga. <br />
+
+<br />
+
+N&oacute;s as mulheres para quem a vida j&aacute;
+n&atilde;o tem segredos, adoramos esses escriptores, porque elles
+contam-nos o que j&aacute; tinhamos adivinhado, relembrando-nos o
+que
+tinhamos sentido; descrevem-nos o que tinhamos a curiosidade de
+conhecer, mas as crean&ccedil;as que os lerem devem experimentar
+bem
+dolorosas surprezas. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; a litteratura ingleza a mais rica, a mais fecunda no
+genero que procura. <br />
+
+<br />
+
+Walter Scott um verdadeiro poeta, reviver&aacute; para sua filha as
+scenas mais pittorescas de um passado aventuroso. <br />
+
+<br />
+
+Puros amores, enthusiasticos guerreiros, heroismos nacionaes,
+sentimentos caracteristicos de uma ra&ccedil;a energica e arrojada,
+incidentes romanescos, mas de um romanesco s&atilde;o, tudo que tem
+o
+poder de enlevar e attrahir a imagina&ccedil;&atilde;o colorida
+e ardente de uma mulher de poucos annos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[117]</span>
+N&atilde;o ha crea&ccedil;&otilde;es femininas mais
+diliciosamente virginaes do que as do romancista escossez. <br />
+
+<br />
+
+As suas mulheres, como as mulheres de Sakspeare, como as mulheres de
+Dickens, s&atilde;o feitas de um raio de luar, de uma petala de
+rosa,
+de um canto de rouxinol. <br />
+
+<br />
+
+O crime nem de leve se approximou d'ellas; o vicio, de envergonhado,
+c&oacute;ra na sua presen&ccedil;a;
+n&atilde;o conhecem as m&aacute;s
+tenta&ccedil;&otilde;es, as vigilias
+ardentes, os sonhos que perturbam e agitam a alma das outras mulheres. <br />
+
+<br />
+
+Que doces e queridos exemplos! que bellas e radiosas companheiras. <br />
+
+<br />
+
+As escriptoras inglezas seguiram a tendencia moralisadora da sua
+na&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Os livros de algumas d'ellas teem a gra&ccedil;a d'um narrar
+discreto e <em>nuanc&eacute;</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se queixe de que n&atilde;o p&oacute;de dar
+&aacute; sua filha romances que a distraiam, sem a inquietarem. <br />
+
+<br />
+
+Dickens o mais energico e convencido dos moralistas, Mrs. Graswell,
+Broute, Georges Elliot e muitos mais que n&atilde;o tenho tempo de
+enumerar, ahi est&atilde;o para desmentirem. <br />
+
+<br />
+
+Que sua filha entremeie a leitura de escriptores mais instructivos com
+esta outra leitura amena e agradavel, e ver&aacute; como ella
+aprende a gozar da companhia
+<span class="pagenum">[118]</span>
+dos bons
+livros, e a dispensar as futeis
+distrac&ccedil;&otilde;es mundanas que esterelisam o espirito,
+e o
+tornam mesquinho e baixo. <br />
+
+<br />
+
+Assim, absorvida pelo estudo bem dirigido, pelas elevadas
+distrac&ccedil;&otilde;es intellectuaes, assim
+educada, fortalecida, illucidada, ver&aacute; como ella chega
+&aacute;
+edade propria de escolher o seu destino, possuindo um s&atilde;o
+criterio, uma penetra&ccedil;&atilde;o delicada, uma firmeza de
+principios que a ponha ao abrigo de qualquer
+tenta&ccedil;&atilde;o menos digna. <br />
+
+<br />
+
+Conhecendo o bem e o mal, e comprehendendo o que um e outro significam
+e valem, saber&aacute; o que
+n&atilde;o sabem os ignorantes, saber&aacute; escolher o
+caminho que t&eacute;m de seguir se lhe confiarem a escolha. <br />
+
+<br />
+
+Parece-me que para chegar a este fim a leitura, o cuidadoso cultivo da
+intelligencia devem ser auxiliares preciosos, n&atilde;o
+acha?&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Encontramos esta carta nos papeis velhos de uma excellente amiga nossa,
+e sem a corrigir vimos offerecel-a &aacute;s nossas leitoras.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>CAPITULO VII </h3>
+
+<h3>As dactas d'uma vida</h3>
+
+<br />
+
+<div class="breaks">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<h4>A ida para o collegio </h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o achaste o que procuravas? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Achei. Eu tinha consultado a este respeito a baroneza de
+S.,
+que tem, como sabes, immenso juizo. Indicou-me o collegio de M.<sup>me</sup>
+Maubry. <br />
+
+<br />
+
+Uma franceza elegantissima. <br />
+
+<br />
+
+Parece-me que fiquei muito bem servida. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu &eacute; que foste ao collegio fallar com a directora? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois a quem havia eu de confiar similhante encargo? Fui, vi, julguei
+por meus proprios olhos, e fiquei satisfeita. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O collegio est&aacute; bem situado?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[120]</span>
+&#8213;Sim. Est&aacute; n'um sitio muito central, muito concorrido, tudo
+muito &aacute; m&atilde;o. Um constante vai-vem de carruagens,
+que nas
+horas de recrea&ccedil;&atilde;o ha de
+distrahir immenso as crean&ccedil;as. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E a respeito de jardim para ellas correrem? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem um jardim pequeno, mas muito bonito,
+muito bem tratado, &aacute; ingleza. Conhece-se
+&aacute; primeira vista a obediencia e a docilidade das discipulas,
+olhando para o jardim. Nem um vestigio de travessuras
+infant&iacute;s. Uma limpeza ideal nas pequenas ruas
+ar&ecirc;adas. <br />
+
+<br />
+
+Fui l&aacute; na hora do recreio da tarde; andavam as meninas
+passeiando e conversando com uma gravidade! uma compostura!.. pareciam
+senhoras em miniatura!.. Achei engra&ccedil;adissima aquella
+parodia de
+uma das nossas salas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ainda bem que me contas isso tudo, Mathilde. Ando com vontade de
+metter as minhas pequenas em um collegio, porque est&atilde;o de
+uma
+maldade!.. N&atilde;o p&aacute;ra nada com ellas! Importunam-me
+extraordinariamente. Tu sabes. Nem eu nem o pae gostamos de barulho, e
+dous diabretes em uma casa pequena, &eacute; de se morrer.
+Decido-me
+pelo teu collegio. Perguntaste o que l&aacute; ensinam. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! a esse respeito podes estar descansadissima.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[121]</span>
+Uma perfeita educa&ccedil;&atilde;o de senhora. M.<sup>me</sup>
+Maubry
+&eacute; o typo da parisiense delicada e graciosa. <br />
+
+<br />
+
+Tem um cuidado inexcedivel com as maneiras das discipulas, com o seu
+modo de se apresentarem, com a sua <em>toilette</em>. <br />
+
+<br />
+
+Disse-me ella que tinha por systema, dar-lhes desde muito cedo o gosto
+de agradarem na sociedade, de excitarem em torno de si uma
+sensa&ccedil;&atilde;o
+agradavel... impregnal-as d'aquella gra&ccedil;a especial que
+constitue
+a mulher do mundo!.. Approvo immenso aquella maneira superior de
+entender a vida social. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas n&atilde;o me fallaste ainda da
+instruc&ccedil;&atilde;o que recebem as discipulas... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! j&aacute; se v&ecirc;, correspondente ao resto.
+Linguas... nas linguas M.<sup>me</sup> Maury tem um apuro
+especial. Piano,
+canto, um pouco de historia, de geographia, dan&ccedil;a, desenho,
+varios bordados, etc., etc. Creio que &eacute; o sufficiente para
+brilhar entre as primeiras. <br />
+
+<br />
+
+M.<sup>me</sup> Maubry segue o systema moderno no que elle
+tem de muito
+aproveitavel. Ministra a
+instruc&ccedil;&atilde;o brincando por assim dizer. Ha
+concertos
+semanaes em que figuram as melhores discipulas; ha cursos de
+conversa&ccedil;&atilde;o; ha noutes em que se l&ecirc;
+alto, se recita ou se representa. N'uma palavra, o fim d'ella
+&eacute;
+tornar deleitoso o estudo, e desenvolver a
+emula&ccedil;&atilde;o entre
+<span class="pagenum">[122]</span>
+as discipulas. Como verdadeira
+franceza, percebeu que a vaidade &eacute; o motor principal da
+mulher e... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha querida, interrompeu n'este momento o marido da
+oradora;
+faze o que quizeres, visto que tive a imprudencia de te jurar que
+educarias tua filha conforme te aprouvesse e sem que eu nunca entrasse
+n'isso; mas o que desde j&aacute; te affirmo &eacute; que a tua
+M.<sup>me</sup>
+Maubry &eacute; uma corruptora inconsciente da mocidade, e que a
+tua
+filha nunca passar&aacute; de uma boneca!
+<br />
+
+<br />
+
+<h4><em>Durante as ferias</em></h4>
+
+<br />
+
+&#8213;Mam&atilde;, eu antes quero o la&ccedil;o c&ocirc;r de
+rosa... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois faz a Lili muito mal. O azul fica-lhe muito melhor. Olha que no <em>baile
+infantil</em>
+h&atilde;o de estar muitas companheiras tuas do collegio. Que
+alegria para ellas se te virem feia! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Alegria, mam&atilde;? Alegria porque? As meninas do meu collegio
+s&atilde;o todas minhas amigas, h&atilde;o de
+gostar muito de me ver bonita e bem vestida. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Assim ser&aacute;, minha filha, mas as
+<em>mam&atilde;s</em> d'ellas &eacute; que com
+certeza h&atilde;o de ter inveja de mim se tu
+fores a mais linda, a mais bem vestida, a que dan&ccedil;ar melhor!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[123]</span>
+Chega-te aqui Lili! Deixa-me annellar os teus cabellos. Assim
+&eacute;
+que ficas bonita, ouviste? Levanta os teus olhos para mim,
+s&atilde;o
+t&atilde;o bonitos os teus
+olhos!.. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A mam&atilde; quer que eu levante os olhos? M.<sup>me</sup>
+Maubry ralha
+commigo por eu os levantar de mais. Diz ella que uma menina deve andar
+sempre de olhos baixos, deve c&oacute;rar de vez em quando... nunca
+se
+deve rir com vontade. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;M.<sup>me</sup> Maubry diz-te isso?.. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diz, mam&atilde;, e que assim &eacute; que as senhoras
+agradam e se tornam amaveis.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, minha Lili, tu e a mam&atilde; divertiram-se
+muito no tal <em>baile infantil</em>? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! pap&aacute;, n&atilde;o imagina! Dancei muito, e todos me
+disseram que eu era a menina mais bonita que l&aacute; estava. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade! a Lili estava encantadora. N&atilde;o
+imaginas como
+a elogiaram! Todas me perguntaram onde ella aprendeu a
+dan&ccedil;ar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E a mim tambem, mam&atilde;. <br />
+
+<br />
+
+As outras meninas perguntaram-me onde era o meu collegio. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&ecirc;s! dizias tu, meu maridinho ralhador, que M.<sup>me</sup>
+Maubry
+era uma professora m&aacute;. V&ecirc; o
+triumpho
+<span class="pagenum">[124]</span>
+que teve a
+nossa filha no primeiro dia em que appareceu em publico! <br />
+
+<br />
+
+Lili, corada de alegria, foi dar uma pirueta defronte do espelho.
+<br />
+
+<br />
+
+<h4><em>A primeira communh&atilde;o</em></h4>
+
+<br />
+
+Acabou agora mesmo de vestir-se. Branca, branca que parece uma pomba. <br />
+
+<br />
+
+O v&eacute;u de gaze cahe em pr&eacute;gas soltas e ondeantes
+por sobre
+aquelle corpo esbelto e franzino, de 14 annos; a cor&ocirc;a de
+rozas
+emmoldura-lhe deliciosamente a fronte eburnea e levemente sombreada por
+uns toques de infantil melancolia. <br />
+
+<br />
+
+Acha-se linda, e sente que todos que a virem h&atilde;o de achal-a
+assim! <br />
+
+<br />
+
+Dentro da sua alma res&ocirc;a como que um cantico de orgulho! <br />
+
+<br />
+
+Vae ser noiva do Senhor, vae receber pela primeira vez no puro
+tabernaculo do seu cora&ccedil;&atilde;o a visita mysteriosa do
+Esposo!
+<br />
+
+<br />
+
+O seu director espiritual, um mo&ccedil;o sacerdote francez, fino,
+louro, delicado, com uma voz branda e persuasiva, com umas
+m&atilde;os
+brancas, de cardeal, com uns gestos lentos e graves de irreprehensivel
+bom gosto, acabou hontem de a conduzir at&eacute; aos umbraes
+<span class="pagenum">[125]</span>
+d'essa nova vida, em
+que ella vae penetrar j&aacute; consciente do que &eacute; e do
+que
+vale. <br />
+
+<br />
+
+Que do&ccedil;ura mystica tinham as palavras d'aquelle padre! <br />
+
+<br />
+
+Eram ternas, unctuosas, de uma gra&ccedil;a desconhecida! <br />
+
+<br />
+
+At&eacute; alli para ella a religi&atilde;o f&ocirc;ra um
+n&atilde;o sei qu&ecirc; de vago, triste e indefinivel, mais
+para assombro e terror do que para delicioso extasi... <br />
+
+<br />
+
+O Christo macilento e ensanguentado, com a fronte coroada de espinhos,
+e o corpo cravejado de pr&eacute;gos, dera-lhe a id&eacute;a de
+uma
+angustia desoladora e desesperada, que &aacute;s vezes enchera de
+lagrimas a sua pequenina alma de dez annos. <br />
+
+<br />
+
+Porque seria que, &aacute; voz do mo&ccedil;o confessor, o
+Martyr do Calvario como que se tinha transfigurado aos olhos d'ella? <br />
+
+<br />
+
+O padre pintara-o bello, radiante de mocidade, prodigo de ineffaveis
+esperan&ccedil;as, chamando a si as almas virginaes, e
+promettendo-lhe
+a eternidade no amor, a radiosa alegria das nupcias celestiaes. <br />
+
+<br />
+
+Era uma nova musica, a que elle fizera vibrar aos ouvidos da gentil
+neophyta, que sentia, sem saber como, inundal-a uma alegria anciosa, um
+pungitivo arrebatamento, inteiramente desconhecido ao seu passado!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[126]</span>
+E olhava para o espelho, e sentia-se bella, mo&ccedil;a, radiosa de
+vida e de esperan&ccedil;as, com um profano desejo de alegrias
+novas,
+de triumphos ignorados a alvoro&ccedil;ar-lhe o seio juvenil. <br />
+
+<br />
+
+E agitando em torno de si as pr&eacute;gas fluctuantes do
+v&eacute;o de
+noiva do Christo, baixou os olhos languidos sobre o livro das
+ora&ccedil;&otilde;es e leu em voz baixa e
+palpitante as palavras sagradas, na lingua melodiosa em que se
+habituara, por um requinte de aristocracia, a fallar com Deus: <br />
+
+<br />
+
+&laquo;<em>Oh! venez le bien-aim&eacute; de mon
+coeur! venez, Agneau de Dieu, chair adorable, venez servir de
+nourriture &aacute; mon &acirc;me! Que je te voie, &ocirc;
+le Dieu de mon coeur, ma joie, mes d&eacute;lices, mon amour, mon
+tout!</em> <br />
+
+<br />
+
+&laquo;<em>Qui me donnera des ailes pour voler vers
+toi! Mon &acirc;me &eacute;loigne&eacute; de toi,
+impatiente
+d'&ecirc;tre remplie de toi, languit, te souhaite avec ardeur et
+soupire apr&egrave;s toi, &ocirc; mon Dieu, &ocirc; mon
+unique bien, ma
+consolation!
+Embrase moi, mon Dieu, brule, consume mon coeur de ton amour... Mon
+bien-aim&eacute; est &agrave;
+moi</em>&raquo; <br />
+
+<br />
+
+O que, traduzido na nossa lingua, decididamente reputada impropria para
+fallar com a Divindade, significa pouco mais ou menos a seguinte
+edificante
+declara&ccedil;&atilde;o de amor: <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Vem, amado da minh'alma! cordeiro de Deus!
+<span class="pagenum">[127]</span>
+carne que eu adoro! vem servir-me
+de alimento ao cora&ccedil;&atilde;o! Quero ver-te, oh Deus
+amado,
+minha
+alegria, minha delicia, meu amor, meu tudo! <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Quem me dera azas com que voasse para ti! <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Minh'alma afastada da tua presen&ccedil;a almeja por se
+impregnar de ti, enlanguece, deseja-te com ardor, e suspira por ti, oh
+meu Deus, oh meu unico bem, minha consola&ccedil;&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Abraza-me oh Deus! queima, consome o meu
+cora&ccedil;&atilde;o com as chammas do teu amor!.. <br />
+
+<br />
+
+&laquo;&Eacute;s meu, oh bem amado, pertences-me!&raquo;<br />
+
+<br />
+
+<h4><em>Na volta do baile</em> </h4>
+
+<br />
+
+Lili vem extraordinariamente pallida e pensativa! As brancuras
+opalisadas do alvorecer penetram atravez dos vidros da carruagem, e
+como que cingem de uma gra&ccedil;a ideal os contornos delicados do
+seu
+rosto, que o capuz de baile emmoldura em alvas rendas. <br />
+
+<br />
+
+Dan&ccedil;ou at&eacute; &aacute;s seis da
+manh&atilde;; vem cansada, abatida, toda ennovellada nos
+f&ocirc;fos coxins do seu
+<em>coup&eacute;</em>, mas vem pensando muito. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; que o viu no baile, e lhe disseram que
+<em>elle</em> seria o seu marido. <br />
+
+<br />
+
+O pae antes d'ella partir de casa&#8213;vestida de tulle e rendas, coroada
+de myosotis, e com um collar
+<span class="pagenum">[128]</span>
+de perolas lacteas e iriadas, a
+affagar voluptuosamente a transparencia rosea do seu collo&#8213;o pae,
+antes d'ella partir, dissera-lhe gravemente, mas com uma gravidade em
+que havia muito affecto: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;<em>Elle</em> &eacute; mo&ccedil;o,
+&eacute; nobre, &eacute; herdeiro de uma casa riquissima. <br />
+
+<br />
+
+A familia deseja este enlace. N&atilde;o te quero
+for&ccedil;ar, Lili; mas, se gostares d'elle, approvarei com
+enthusiasmo essa affei&ccedil;&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; mo&ccedil;o e nobre, pens&aacute;ra Lili
+comsigo. Hei de amal-o por for&ccedil;a. Ter&aacute; maneiras
+distinctas, um
+porte correcto, um sorriso levemente desdenhoso. E dir&aacute; <em>amo-te</em>,
+com uma gra&ccedil;a
+fina e superior! <br />
+
+<br />
+
+Depois, &aacute; propor&ccedil;&atilde;o que o baile se ia
+approximando, com o esplendor prestigioso dos seus lustres, com o
+capitoso aroma das suas montanhas de flores, com as prismaticas
+scintilla&ccedil;&otilde;es dos seus diamantes,
+com o ruge-ruge que fazem ouvir as serpentes e as sedas, Lili pensava
+que era positivamente uma cousa agradabilissima ser rica! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Irei muitas vezes ao baile, ouvirei em torno de mim o murmurio
+discreto de admira&ccedil;&atilde;o que
+enlouquece as mulheres, terei vestidos de velludo negro, com diademas
+de brilhantes a morderem o ouro fulvo dos meus cabellos!
+Invejar-me-h&atilde;o, e quando eu sahir acclamada e triumphante
+das
+salas em que f&ocirc;r rainha,
+<span class="pagenum">[129]</span>
+deixarei no meu caminho um rasto de admira&ccedil;&otilde;es
+apaixonadas! <br />
+
+<br />
+
+Vira-o no baile, fallara com elle, tinham dan&ccedil;ado juntos. <br />
+
+<br />
+
+Percebera que o noivo que lhe destinavam era um pobre rapaz, ignorante
+e enfatuado, muito feliz de ser nobre, de ser rico, e de haver mulheres
+que em torno d'elle cubi&ccedil;assem o seu titulo futuro e a sua
+riqueza presente. <br />
+
+<br />
+
+Apesar d'isso, Lili estava contente. <br />
+
+<br />
+
+Era ella que <em>elle</em> preferira, e visto
+que <em>elle</em> era
+rico, teria carruagens, daria bailes e festas, teria um modo original,
+severo e elegante de vestir-se, as suas amigas imitariam a mobilia das
+suas salas, e o feitio dos seus chap&eacute;us, seria uma das raras
+mulheres que sabem gozar, em toda a sua plenitude, a vida social no que
+ella tem de fastoso e brilhante. <br />
+
+<br />
+
+Que importa que <em>elle</em> n&atilde;o
+saiba dizer <em>amo-te</em> com a voz que Lili tinha
+sonhado! <br />
+
+<br />
+
+A troco do seu ouro, ouviria dos labios d'ella sem
+hesita&ccedil;&atilde;o e sem lagrimas as palavras mysteriosas
+que a mulher pura s&oacute; deve dizer ao eleito do seu
+cora&ccedil;&atilde;o, as palavras magicas: <br />
+
+<br />
+
+<em>Sou para sempre tua!</em> <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[130]</span>
+<h4><em>Dez annos depois</em> </h4>
+
+<br />
+
+J&aacute; lhe n&atilde;o chamam Lili. &Eacute; condessa. <br />
+
+<br />
+
+Tem um palacio magestoso e severo, povoado com obras primas de todas as
+artes e de todas as
+civilisa&ccedil;&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+As festas que ella d&aacute; s&atilde;o citadas pela sua pompa
+severa e
+artistica, pela sua gra&ccedil;a principesca, pelos requintes de
+bom
+gosto que as singularisam entre todas. <br />
+
+<br />
+
+Tem um povo de criados correctamente respeitosos, que obedecem a cada
+um dos seus accenos. <br />
+
+<br />
+
+As suas carruagens quando passam ao trote largo dos finos cavallos
+inglezes excitam a admira&ccedil;&atilde;o
+dos entendidos e a inveja dos profanos. <br />
+
+<br />
+
+A condessa nunca est&aacute; s&oacute;. <br />
+
+<br />
+
+Hoje uma recep&ccedil;&atilde;o a que n&atilde;o
+p&oacute;de faltar, &aacute;manh&atilde; um baile, no outro
+dia um
+jantar diplomatico, e as mil praticas da sua
+devo&ccedil;&atilde;o
+aristocratica, e
+as pequenas <em>soir&eacute;es</em> intimas que
+d&aacute;, e as festas a que preside em sua casa, e que o seu gosto
+escrupuloso e cultivado dirige desde os minimos accessorios. <br />
+
+<br />
+
+Tudo isto lhe prende o tempo, a absorve e a distrae. <br />
+
+<br />
+
+Tem duas filhas... que uma governante ingleza educa e acompanha.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[131]</span>
+Tem um filho... que est&aacute; no collegio. <br />
+
+<br />
+
+Tem marido... que anda sempre por f&oacute;ra! <br />
+
+<br />
+
+Ser&aacute; feliz? Quem ha que o possa dizer? Na sua pallida fronte
+marmorea n&atilde;o se reflecte sen&atilde;o uma
+sombra. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; a mulher do mundo na sua accep&ccedil;&atilde;o
+mais genuina. <br />
+
+<br />
+
+Viveu e vive da monstruosa vaidade que desde a infancia lhe deram por
+exclusivo alimento. <br />
+
+<br />
+
+Sabe que &eacute; bella, invejada, cubi&ccedil;ada, admirada,
+odiada at&eacute;! <br />
+
+<br />
+
+Isto basta-lhe, isso a sacia e satisfaz! <br />
+
+<br />
+
+<h4><em>Na velhice</em> </h4>
+
+<br />
+
+Est&aacute; sentada ao fog&atilde;o na vasta sala opulenta
+povoada como outr'ora por tudo que ha mais bello e mais luxuoso. <br />
+
+<br />
+
+Um grande candieiro espalha, atravez do seu globo fosco, uma luz
+discreta e tranquilla sobre a mesa oval cheia de bagatellas preciosas. <br />
+
+<br />
+
+A condessa est&aacute; s&oacute;, e os seus olhos
+ba&ccedil;os e amortecidos seguem as chammazinhas iriadas do
+fog&atilde;o com uma insistencia pensativa. <br />
+
+<br />
+
+Com a formosura perdeu a for&ccedil;a dominadora que a tornava
+poderosa
+e querida.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[132]</span>
+Os amigos da hora dos triumphos povoam agora as salas illuminadas e
+festivas onde suas filhas j&aacute; casadas segundo as
+conveniencias da
+alta posi&ccedil;&atilde;o que occupavam, continuam a vida de
+que sua
+m&atilde;e lhes
+d&eacute;ra o exemplo tentador. <br />
+
+<br />
+
+O seu confessor come&ccedil;a a sentir-se cansado do escrupulo
+esmiu&ccedil;ador com que a condessa aproveita os longos ocios da
+solid&atilde;o para esgravatar piedosamente nos mais escuros
+escaninhos
+da consciencia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha senhora, diz-lhe o bom do abbade, que j&aacute;
+n&atilde;o era
+o mo&ccedil;o almiscarado dos dias
+da mocidade, e que ganh&aacute;ra em abdomen o que perdera em
+mystica
+elegancia; minha senhora, n&atilde;o nos percamos em funestos
+exageros.
+Deus n&atilde;o quer a morte do peccador, snr.<sup>a</sup>
+condessa. <br />
+
+<br />
+
+Nem essa distrac&ccedil;&atilde;o ultima lhe fic&aacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+As praticas adocicadas do confessionario, aquelles extasis a um tempo
+deliciosos e pungitivos, as confidencias segredadas a meia voz, a
+analyse fina e delicada dos peccados mais subtis, tudo isso lhe falta
+para suprema distrac&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+No fim de contas a sua vida n&atilde;o f&ocirc;ra mais do que
+um sonho
+frustrado, a carreira impetuosa e desvairada atr&aacute;s de uma
+sombra
+que fugia sempre! <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o tivera as livres e salutares expans&otilde;es da
+alegria infantil, n&atilde;o tivera os sonhos cariciosos e ideaes
+<span class="pagenum">[133]</span>
+da adolescencia,
+n&atilde;o f&ocirc;ra filha, nem amante, nem
+esposa, nem m&atilde;e! <br />
+
+<br />
+
+Agora j&aacute; n&atilde;o saberia ao menos ser av&oacute;!
+<br />
+
+<br />
+
+E pelos recantos sombrios do aposento enorme, a condessa julgou ver
+deslisar uma pequenina figura de cabe&ccedil;a annellada e loura,
+uma
+figurinha que dava pelo nome de Lili! <br />
+
+<br />
+
+Era o phantasma saudoso de sua infancia que passara! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minhas filhas&#8213;murmurou baixinho a altiva senhora,&#8213;perdoae-me pelo
+amor de Deus, assim como n'este momento eu perd&ocirc;o
+&aacute; minha
+m&atilde;e!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>CAPITULO VIII </h3>
+
+<h3>Casamentos pobres e casamentos ricos</h3>
+
+<br />
+
+<div class="breaks">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Uma das accusa&ccedil;&otilde;es mais frequentes que hoje se
+dirigem aos homens &eacute; que elles s&atilde;o egoistas,
+interesseiros, que introduzem o calculo e as finan&ccedil;as no que
+devia ser um impulso espontaneo do cora&ccedil;&atilde;o, que
+confundem um pouco nos seus sonhos do futuro o mercantilismo e o amor. <br />
+
+<br />
+
+Eu, que n&atilde;o gosto de julgar sem ter conhecido ao menos as
+causas
+que produzem um certo e determinado effeito, lembrei-me de observar de
+perto, nos costumes e praticas de todos os dias, se eram realmente bem
+cabidas as censuras frisantes que por ahi ou&ccedil;o continuamente
+&aacute; por&ccedil;&atilde;o mais
+<em>feia</em> da humanidade. <br />
+
+<br />
+
+<em>Uma cabana e o teu
+cora&ccedil;&atilde;o!</em> eis o que antigamente
+solu&ccedil;avam aos p&eacute;s das suas deusas de
+<em>biscuit</em> os trovadores de algod&atilde;o em
+rama.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[136]</span>
+Um <em>rez de chauss&eacute;e muito commodo e quatro
+contos de r&eacute;is de rendimento!</em> eis o minimo a que
+hoje aspiram nas suas suspirosas alegrias os pretendentes mais
+positivistas da nossa quadra utilitaria e mercantil. <br />
+
+<br />
+
+Mudou a tal ponto o cora&ccedil;&atilde;o humano, que
+j&aacute; os sinceros e impetuosos sentimentos n&atilde;o
+possam acclimatar-se n'elle? <br />
+
+<br />
+
+Isto caminha n'uma tal e t&atilde;o rapida decadencia, que tudo que
+era
+bom, honesto, sincero no amor, tenha fugido assustado para outras
+regi&otilde;es ainda inexploradas? <br />
+
+<br />
+
+Sinceramente n&atilde;o o acreditamos. <br />
+
+<br />
+
+Em primeiro logar, em todas as &eacute;pocas e em todos os paizes,
+o
+desinteresse absoluto, o completo desprendimento dos bens da terra, foi
+cousa muito rara, e muito para notar-se com espanto. <br />
+
+<br />
+
+Que o digam os claustros sem conto, povoados de pallidas monjas
+juvenis, que o mundo expulsava do seu seio, por n&atilde;o
+t&ecirc;r
+que lhes dar nenhuma das
+alegrias naturaes que s&atilde;o o apanagio mais caro da mulher! <br />
+
+<br />
+
+Se alguma differen&ccedil;a temos que apontar s&atilde;o as
+conquistas
+alcan&ccedil;adas pela familia, nos terrenos que at&eacute;
+aqui
+usurpara o egoismo e a
+ambi&ccedil;&atilde;o do homem. <br />
+
+<br />
+
+Mas, admittindo mesmo que se accentue na nossa &eacute;poca, com
+uma certa for&ccedil;a o interesse pessoal, que
+<span class="pagenum">[137]</span>
+&eacute; um dos
+elementos mais esterilisadores que p&oacute;de
+existir na sociedade, n&atilde;o demos s&oacute; ao homem a
+culpa de essa tendencia nefasta. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; incontestavel que &aacute;
+propor&ccedil;&atilde;o que as
+civilisa&ccedil;&otilde;es se desenvolvem, crescem as
+necessidades,
+cresce o amor do luxo, sem que para todos cres&ccedil;am
+proporcionalmente os meios de satisfazer essas
+aspira&ccedil;&otilde;es
+fataes. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o &eacute; portanto espantoso, que o homem, ainda o
+mais
+dedicado e crente, antes de tomar aos hombros o pesadissimo encargo da
+familia, me&ccedil;a as suas
+for&ccedil;as, calcule com precis&atilde;o mathematica os meios
+de que
+disp&otilde;e para cumprir as obriga&ccedil;&otilde;es que
+acceita, e muitas vezes diante da grande
+despropor&ccedil;&atilde;o que
+encontra entre aquelles e estas, suffoque a voz do sentimento e siga os
+austeros e aridos conselhos da raz&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; que a familia, tal como est&aacute; constituida na sua
+generalidade, estabelece um grandissimo desequilibrio entre os deveres
+do homem e os deveres da mulher. <br />
+
+<br />
+
+Se a esta, em face da consciencia e da raz&atilde;o, cabe a tarefa
+mais
+espinhosa, a miss&atilde;o mais elevada e mais complexa, nem por
+isso,
+logo que ella fecha os ouvidos a esta voz superior que t&atilde;o
+poucas escutam e que
+t&atilde;o poucas entendem, se acha realmente for&ccedil;ada a
+outra
+<span class="pagenum">[138]</span>
+cousa que n&atilde;o
+seja consumir sem produzir, receber sem dar, acceitar
+protec&ccedil;&atilde;o, amparo, ajuda, sem
+pagar estes beneficios com beneficios equivalentes. <br />
+
+<br />
+
+Queixam-se do homem porque elle conta com o dote da noiva, e este entra
+com bastante peso na balan&ccedil;a dos seus affectos. <br />
+
+<br />
+
+Que dizem ent&atilde;o da mulher que casa para ser livre, para ser
+independente, para ter diamantes e rendas preciosas, para frequentar os
+bailes, os theatros, os passeios, para ser uma taboleta ambulante do
+luxo real ou do luxo hypothetico do
+<em>m&eacute;nage</em>? <br />
+
+<br />
+
+Imagine-se, por instantes um rapaz mo&ccedil;o, intelligente, cheio
+de
+aspira&ccedil;&otilde;es s&atilde;s, de boa
+vontade e de energia, dotado de ricas faculdades intellectuaes, capaz
+de conquistar &aacute; for&ccedil;a de perseveran&ccedil;a,
+de trabalho e de priva&ccedil;&otilde;es, um lugar distincto na
+sciencia ou
+na industria, na politica ou no magisterio. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o tem dinheiro, ou tem apenas uma pequena fortuna que o
+pae lhe legou, juntamente com um nome honrado. <br />
+
+<br />
+
+Sente a natural aspira&ccedil;&atilde;o de completar a sua
+existencia,
+unindo-se &aacute; mulher que mais ou menos lhe povoou os sonhos de
+adolescente. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o tem tempo para escolher; absorve-o o trabalho a que
+for&ccedil;osamente tem de consagrar quasi todas as suas horas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[139]</span>
+N&atilde;o tem um conhecimento profundo da natureza feminina. <br />
+
+<br />
+
+Os nossos costumes com as suas reservas hypocritas, com as suas
+precau&ccedil;&otilde;es restrictas, que
+d&atilde;o id&eacute;a pouco lisongeira do pudor e da castidade
+das
+mulheres portuguezas, oppoem-se a que o homem tenha d'ellas um
+conhecimento que n&atilde;o seja frivolo, ridiculo, superficial&#8213;o
+conhecimento que se adquire em uma sala entre duas quadrilhas
+sensaboronas, ou n'um camarote durantre um entre-acto cheio de tedio. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o p&oacute;de p&ocirc;r-se pelo mundo &aacute;
+busca de uma excep&ccedil;&atilde;o: o molde das nossas meninas
+da sociedade varia muito pouco. <br />
+
+<br />
+
+Todas sabem bordar a matiz, tocar a
+<em>Somnambula</em> e o <em>Trovador</em> ao
+piano, fazer
+<em>housses</em> de crochet, papaguear em duas ou tres
+linguas puerilidades comicas, dan&ccedil;ar os <em>Lanceiros</em>
+e
+criticar as <em>amigas intimas</em>. <br />
+
+<br />
+
+N'estas circumstancias o que p&oacute;de fazer o pobre
+mo&ccedil;o? <br />
+
+<br />
+
+Ou resistir &aacute;s solicita&ccedil;&otilde;es impetuosas
+da mocidade, &aacute; necessidade instinctiva que sente do
+conch&ecirc;go de
+familia, d'aquelle <em>sweet home</em> que tanto
+imperio tem no cora&ccedil;&atilde;o de todo o homem de
+pensamento e de
+trabalho; ou tem de contentar-se com a escolha feita &aacute;
+pressa de uma d'essas rachiticas fl&ocirc;res de sal&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; desinteressado no sentido mais amplo da palavra,
+<span class="pagenum">[140]</span>
+tem aquellas santas
+utopias que s&atilde;o a suprema riqueza dos vinte annos; na sua
+escolha impera tudo menos o calculo e a arithmetica. <br />
+
+<br />
+
+Prefere, pois, uma noiva pobre. <br />
+
+<br />
+
+Applaudem-lhe a generosa imprevidencia; gabam-lhe os sentimentos
+honestos e cavalleirosos; envolve-o um certo prestigio durante uns
+poucos de mezes. <br />
+
+<br />
+
+Os mezes da <em>lua de mel</em>. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Portou-se admiravelmente!&#8213;exclamam as
+<em>mam&atilde;s</em>, contemplando com ar piedoso as
+filhas sem dote, e envolvendo na sua furia rancorosa os
+<em>dandys</em> que andam &aacute; pesca de noivas
+ricas, pelas aguas turvas da nossa sociedade. <br />
+
+<br />
+
+Resultado pratico de tudo isto: seis mezes depois de casado, o nosso
+pobre heroe v&ecirc;-se a bra&ccedil;os com
+todos os encargos de um <em>m&eacute;nage</em>a
+que falta o conch&ecirc;go e a alegria. Como n&atilde;o teve
+tempo de
+fazer-se amado, como o amor &eacute; no fim de contas um genero
+carissimo que o cora&ccedil;&atilde;o das meninas de hoje
+prodigalisa
+muito pouco, encontra em casa ao voltar das luctas quotidianas, a que
+se arrojou com novos alentos e nova f&eacute;, um acolhimento frio,
+um
+rosto desconsolado, uma mulher que finge
+resigna&ccedil;&atilde;o e que
+s&oacute; tem
+despeito, porque o casamento lhe n&atilde;o deu nenhumas das
+frivolas
+vantagens que lhe promettera. <br />
+
+<br />
+
+Tinha sonhado com <em>toilettes</em>
+elegantes, uma <em>robe</em>
+<span class="pagenum">[141]</span>
+<em>de chambre</em> bordada, uma touca de
+manh&atilde; como as que desenha a phantasia pittoresca dos
+caixeiros da <em>Mode Illustr&eacute;e</em>, queria
+uma casa de jantar elegante com mobilia <em>en vieux
+ch&ecirc;ne</em>,
+aparadores carregados de finas porcellanas, um criado de casaca preta e
+modos de embaixador, passando discretamente, sem fazer barulho, por
+cima do <em>parquet</em> suisso,
+cuidadosamente encerrado. <br />
+
+<br />
+
+Gostava de ter um <em>boudoir</em> todo de
+seda c&ocirc;r de perola onde ella podesse ler,
+pregui&ccedil;osamente deitada no no seu pequeno <em>fauteuil</em>
+muito
+flascido, diante de um <em>gu&eacute;ridon</em> cheio
+de
+violetas e de <em>gardenias</em>, os ultimos romances, as
+revistas estrangeiras, as criticas musicaes dos mestres mais famosos. <br />
+
+<br />
+
+Sempre tivera a esperan&ccedil;a de fugir pelo casamento
+&aacute; press&atilde;o sordida da miseria paterna. <br />
+
+<br />
+
+Detestava a vida que tinha levado em solteira, fazendo ella propria os
+vestidos para ir ao baile, cerzindo redes nas botinas de setim branco,
+com os dedos picados, um roup&atilde;o de chita amarrotado, e o
+cora&ccedil;&atilde;o cheio de rancor e inveja &aacute;s
+que tinham o
+luxo e o conforto que ella n&atilde;o tinha. <br />
+
+<br />
+
+Aquelle homem apparecera-lhe. <br />
+
+<br />
+
+Era pobre, &eacute; verdade, mas disseram-lhe que
+<em>tinha talento</em>, que tinha <em>ou que ia ter
+uma
+posi&ccedil;&atilde;o</em>;
+acceitara-o por cansa&ccedil;o, por desalento, porque se
+impacientava j&aacute; de esperar mais tempo.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[142]</span>
+Levara comsigo os mesmos sonhos que a tinham perseguido, imaginava
+casas imprevistas, edificava hypotheses extravagantes; &aacute;
+for&ccedil;a de ambicionar a riqueza, acabava por se convencer que
+havia de ser rica. <br />
+
+<br />
+
+E agora! <br />
+
+<br />
+
+Tudo que a cercava era t&atilde;o mediocre! <br />
+
+<br />
+
+Se tivesse pachorra, se tivesse boa vontade, podia enfeitar com plantas
+o seu pequenino quarto de trabalho, p&ocirc;r ao menos umas
+cortinas de
+cassa branca na janella. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o tendo a riqueza, podia ter o aceio; n&atilde;o tendo
+o luxo, podia ter a gra&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+Os livros bem dispostos sobre a mesa, cujo tapete ella propria houvesse
+feito ao ser&atilde;o, uma jarra de
+lou&ccedil;a com um ramo de madresilva ou de rosas de maio, as
+cadeiras
+agrupadas com um certo ar de intimidade e de alegria, um aspecto de
+pobreza satisfeita que faz t&atilde;o bem &aacute; alma! <br />
+
+<br />
+
+Vestiria um simples roup&atilde;o de fazenda clara, sem enfeites,
+mas
+de um feitio elegante e gracioso, os cabellos bem penteados, uma
+fl&ocirc;r presa nas tran&ccedil;as. <br />
+
+<br />
+
+Iria ella mesma &aacute; cosinha arranjar uns pratinhos de que elle
+gostasse, o pobre trabalhador que &aacute; noute voltaria cansado,
+mas
+cheio de f&eacute; robusta e de profundas cren&ccedil;as,
+porque o amor
+o amparava e lhe sorria!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[143]</span>
+Dentro de uma gaiola, na janella da casa de jantar, haveria um canario
+muito alegre, n&atilde;o tanto ainda assim como ella, a pequenina
+<em>m&eacute;nagere</em> muito atarefada,
+muito contente, espalhando na sua casa modesta e pobre um perfume de
+virtude, de castidade, de ternura animadora e s&atilde;! <br />
+
+<br />
+
+Mas quem &eacute; que a tinha educado para cumprir este programma
+t&atilde;o simples e t&atilde;o difficil? <br />
+
+<br />
+
+Quem lhe tinha communicado com o leite a no&ccedil;&atilde;o
+d'estes graves e honestos deveres? <br />
+
+<br />
+
+A m&atilde;e que a passeara de baile em baile, &aacute; cata de
+um marido? <br />
+
+<br />
+
+Os livros que ella l&ecirc;ra e que fallavam de duetos apaixonados
+entre um bardo <em>pelintra</em>
+e uma menina romantica com olheiras e muito p&oacute; de arroz? <br />
+
+<br />
+
+O marido ao principio quer luctar; procura educal-a elle, j&aacute;
+que
+a familia a n&atilde;o educou; vem de f&oacute;ra muitas vezes
+preoccupado com os seus estudos, com um problema scientifico que deseja
+resolver, com uma especula&ccedil;&atilde;o industrial que
+talvez lhe
+d&ecirc; a paz e a aurea mediocridade a que tanto aspira, por amor
+da
+sua querida mulhersinha... n&atilde;o importa! <br />
+
+<br />
+
+Sacode como um peso importuno todos os pensamentos que o absorviam,
+senta-se ao p&eacute; d'ella, porque a v&ecirc; triste,
+enfastiada, com
+um certo desleixo no aspecto que lhe aperta o
+cora&ccedil;&atilde;o, procura n&atilde;o reparar,
+<span class="pagenum">[144]</span>
+para a casa
+sem arranjo a que falta aquella poesia do lar que tanto o captivou nas
+suas scismas de rapaz; conversa, afaga-a, desenrola diante do olhar
+d'ella vago e distrahido um horisonte de futuras alegrias. <br />
+
+<br />
+
+Um dia, por&eacute;m, descobre com magoa que ninguem
+j&aacute;mais
+poder&aacute; sondar nem comprehender, que tudo que elle esperou um
+dia
+assenta n'uma base chimerica; que essa mulher, a quem associou a sua
+vida, em vez de ser-lhe amparo, guia, consola&ccedil;&atilde;o,
+conselho, em vez de luctar ao lado d'elle para conquistarem ambos a
+ventura dos filhos, o d&ocirc;ce e tranquillo socego da velhice,
+vive
+toda absorta n'um sonho de imaginarias riquezas; que empallidece de
+raiva de v&ecirc;r as outras ricas emquanto ella &eacute;
+pobre; que
+amaldi&ccedil;&ocirc;a todos os dias o alimento que elle lhe
+ganha
+laboriosamente, porque lhe n&atilde;o &eacute; servido em
+pratos do Jap&atilde;o; que olha com desdem para os modestos
+presentes
+que elle &aacute; custa de longas economias consegue comprar-lhe;
+que
+detesta emfim tudo que elle ama; que tem o tedio invencivel de tudo que
+elle julgou, por muito tempo, o resumo de todas as suas alegrias! <br />
+
+<br />
+
+N'essa hora dolorosa e que tem de soar fatalmente na vida de quasi
+todos estes obscuros luctadores, alguns, os mais fracos,
+amaldi&ccedil;oam tambem a sua austera
+<span class="pagenum">[145]</span>
+e honrada pobreza, e
+tractam de fugir-lhe atirando-se a todos os turvos mares da
+especula&ccedil;&atilde;o e do mercantilismo! <br />
+
+<br />
+
+Outros&#8213;os fortes&#8213;afastam-se com desdem de aquella que, sem talvez
+saber o que fazia, tentava arrastal-os por um declive funesto, e
+isolam-se n'um mundo onde n&atilde;o querem a companhia de ninguem.
+<br />
+
+<br />
+
+Ha tambem os que, despertando do sonho em que andaram embebidos,
+descr&ecirc;em de tudo em que um dia acreditaram e cedem
+&aacute;
+convic&ccedil;&atilde;o fatal
+de que no mundo n&atilde;o ha cousa alguma que seja digna,
+desinteressada e sem liga de calculos vis. <br />
+
+<br />
+
+A verdade &eacute; que mais ou menos todos se arrependem e todos o
+deixam ver! <br />
+
+<br />
+
+Este exemplo &eacute; que vae a pouco e pouco destruindo no
+cora&ccedil;&atilde;o dos mo&ccedil;os a id&eacute;a
+de que a familia, em vez de roubar o alento e a for&ccedil;a ao
+homem, os robustece e lhes d&aacute; mais solidos alicerces. <br />
+
+<br />
+
+No dia em que as mulheres tiverem coragem para supportarem com alegria
+e com intrepidez a pobreza que tanto as assusta, ver&atilde;o como
+a
+base do casamento deixa de ser o calculo que hoje o macula. <br />
+
+<br />
+
+Se o homem, que &eacute; por natureza egoista, comprehender que
+unindo
+a sua vida &aacute; vida d'uma mulher dedicada, adquire novas
+for&ccedil;as para a lucta em que anda empenhado, &eacute;
+incontestavel que deixar&aacute; de considerar
+<span class="pagenum">[146]</span>
+como
+unico elemento de prosperidade futura o dote da noiva que houver
+escolhido. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o basta ter coragem e ter intrepidez para supportar as
+priva&ccedil;&otilde;es da pobreza; &eacute; preciso
+antes de tudo compenetrar-se bem da id&eacute;a de que a pobreza
+tem
+grandes alegrias defezas aos ricos; que a modestia dos meios
+n&atilde;o
+obsta a que possamos enflorar a vida dos que amamos, com aquelle
+d&ocirc;ce e poetico conchego, que &eacute; para a alma um
+ninho mais
+tepido e mais macio, do que as pompas magestosas que envolvem
+theatralmente a vida dos millionarios.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="c9"></a>
+<h3>CAPITULO IX </h3>
+
+<h3>A uma noiva </h3>
+
+<br />
+
+<div class="breaks">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature">Minha querida Maria: </div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A tua carta conta-me as tuas primeiras e adoraveis alegrias de noiva. <br />
+
+<br />
+
+Est&aacute;s radiante! <br />
+
+<br />
+
+Subiste ao <em>setimo c&eacute;o</em> da
+ventura humana e cr&ecirc;s que n&atilde;o &eacute;
+possivel cahir de l&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+Fallas-me do teu v&eacute;o branco, da tua cor&ocirc;a, das
+palavras enternecidas que <em>elle</em> te
+disse, das opulencias do teu enxoval, do teu quarto de cama
+&aacute; Pompadour, do amor que tens ao teu
+<a href="#e3"><em>maridinho</em></a>, do
+futuro que sonhas radioso, eu sei;
+fallas-me de tudo, filha, e eu li esse poema gentil da tua mocidade com
+um verdadeiro enternecimento bem sincero. <br />
+
+<br />
+
+Fallas-me de tudo, digo eu; engano-me.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[148]</span>
+N&atilde;o me fallaste de uma cousa importantissima, filha. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o me fallaste da panella. <br />
+
+<br />
+
+Sou eu, pois, que vou fallar-te, com a mais profana das irreverencias,
+d'este assumpto que &eacute; um dos mais graves n'um <em>m&eacute;nage</em>
+que principia. <br />
+
+<br />
+
+Credo! exclamas tu com aquella <em>moue</em>
+engra&ccedil;adissima, que eu te conhe&ccedil;o do collegio, e
+que sempre teve a habilidade de me fazer rir immenso. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Pois eu sei l&aacute; sequer se ha em minha casa uma
+panella!
+Pois eu hei de misturar as confidencias extaticas da minha mysteriosa e
+ideal felicidade com a rela&ccedil;&atilde;o das minhas
+cassarolas! Que
+tem este
+amor que me enleva e me arrebata, com a comida que se manipula na
+cosinha! Deixa que eu te descreva as rendas e os setins com que me
+enfeito para lhe agradar a <em>elle</em>; mas, por Deus,
+pelo amor da
+arte, da poesia, da delicadeza feminil, n&atilde;o queiras que eu
+ajunte a essas descrip&ccedil;&otilde;es uma nova receita de
+refugado.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Ouve-me, filha; ninguem attende por ahi estas verdades, que
+s&atilde;o elementares, tudo quanto ha de mais elementar. <br />
+
+<br />
+
+Sabes onde se fabr&iacute;ca e se consol&iacute;da a felicidade
+de um <em>m&eacute;nage</em>?
+<br />
+
+<br />
+
+Na cosinha.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[149]</span>
+Sabes de onde sahe muitas vezes a ruina de uma casa? <br />
+
+<br />
+
+Da cosinha. <br />
+
+<br />
+
+Sabes qual &eacute; a origem de tantas doen&ccedil;as que por
+ahi nos desconsolam com os seus aspectos repulsivos? <br />
+
+<br />
+
+A cosinha. <br />
+
+<br />
+
+E tu entrando na vida conjugal, acceitando o
+<em>encargo</em> d'almas, porque a dona da casa acceita-o,
+recebendo
+nas tuas pequenas m&atilde;os delicadas a responsabilidade complexa
+de
+m&atilde;e de familia, tu pobre querida ignorante, ousas dizer
+desdenhosamente que nem sabes sequer se em tua casa ha cosinha. <br />
+
+<br />
+
+Pois sabe. <br />
+
+<br />
+
+Est&aacute;s habituada a evocar com a aerea ligeireza dos teus
+longos
+dedos brancos as notas immortaes em que Beethoven, Rossini, Mayerbeer
+nos legaram as mysteriosas riquezas da sua alma? <br />
+
+<br />
+
+Gostas dos delicados lavores inventados, pela paciencia feminal, dos
+bordados custosos, das matizadas sedas, de todo esse conjunto de
+graciosas futilidades em que n&oacute;s dispendemos horas e horas
+da
+nossa vida? <br />
+
+<br />
+
+Pois, minha querida, logo que a mulher penetra no limiar da sua casa de
+esposa tem de antep&ocirc;r tudo que &eacute; util a tudo que
+&eacute;
+agradavel, tem de adoptar
+<span class="pagenum">[150]</span>
+como suprema divisa da
+sua vida a palavra&#8213;sacrificio! <br />
+
+<br />
+
+E n&atilde;o creias que isto seja uma dolorosa e inutil
+mutila&ccedil;&atilde;o do teu ser. <br />
+
+<br />
+
+Quanto mais te sacrificares, cr&ecirc; que maior e que melhor te
+has de sentir. <br />
+
+<br />
+
+Ser&aacute; como um progressivo ascender a uma esphera superior. <br />
+
+<br />
+
+C&aacute; em baixo ficam as pequenas vaidades, as frioleiras
+inuteis,
+as puerilidades infantis, os despeitos raivosos, toda a
+express&atilde;o mesquinha e imperfeita do teu organismo;
+l&aacute; em
+cima est&aacute; a larga
+tranquillidade que ha de envolver-te como um delicioso banho tepido, a
+consciencia plena de haveres attingido o fim para que foste creada, a
+certeza divina da felicidade que communicas em torno de ti, a
+satisfa&ccedil;&atilde;o do
+dever preenchido, tudo emfim que nos eleva, que nos depura, que nos faz
+comprehender o motivo para que viemos a este mundo&#8213;aqui para
+n&oacute;s&#8213;eminentemente estupido! <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o te deslumbrem, pois, as primeiras alegrias da tua <em>lua
+de mel</em>. <br />
+
+<br />
+
+Entre parenthesis, &eacute; esta uma phrase que eu abomino, pela
+simples raz&atilde;o de a achar falsa, e causadora de falsas e
+funestas interpreta&ccedil;&otilde;es da vida conjugal.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[151]</span>
+A <em>lua de mel</em> &eacute; uma
+mentira; n&atilde;o existe, ou, se existe, n&atilde;o deve de
+modo nenhum existir, o que vem a dar na mesma. <br />
+
+<br />
+
+Esse periodo officialmente consagrado, que se funda em toda a especie
+de
+impostura, deve ser abolido sem appella&ccedil;&atilde;o por
+todos os
+pares honestos que se estimem e prezem. <br />
+
+<br />
+
+Imagine-se por um instante que os novos conjuges assumiram a
+liberdade de formularem em palavras tudo que tivessem no pensamento, o
+que diziam um para o outro: <br />
+
+<br />
+
+&laquo;J&aacute; conhe&ccedil;o todos os teus defeitos,
+j&aacute; sei que hei de vir a dar-me muito mal comtigo: achei-te
+ainda
+agora profundamente ridiculo n'aquella phrase que me disseste; mas como
+estamos na <em>lua de
+mel</em>,
+deixa-me que te beije com transporte, que te recite ao piano o idyllio
+apaixonado da minha ventura, que olhe para ti com a sentimentalidade
+pi&eacute;gas com que os caixeiros romanticos olham para as
+namoradas,
+que minta emfim conscienciosamente, como compete a quem se acha de
+posse de uma posi&ccedil;&atilde;o official e a quem
+n&atilde;o p&oacute;de renunciar sem desdouro!&raquo; <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o seria profundamente ridiculo este dialogo? <br />
+
+<br />
+
+Pois sabe, minha querida, que em cada cem casaes, oitenta podiam em boa
+consciencia traval-o entre si.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[152]</span>
+Muitas vezes a <em>lua de mel</em>
+n&atilde;o passa de uma dolorosa inicia&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Mais tarde as circumstancias modificam-se, o que nos parecia prenuncio
+de desgra&ccedil;as transforma-se em tranquilla felicidade; os
+caracteres, que no fundo se repelliam, embora na apparencia se
+afagassem, adaptam-se e identificam-se em resultado da ultima
+convivencia; a paz domestica conquista-se, com esfor&ccedil;os
+meritorios de parte a parte; o que ha pouco era mentira, torna-se uma
+verdade luminosa e pura. <br />
+
+<br />
+
+E o que prova tudo isto, minha amiga? <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; que o tempo mais difficil da nossa vida de casadas
+&eacute;
+aquelle que os tolos e os impostores chamam, seguindo a estupida rotina
+de seculos, o mais delicioso! <br />
+
+<br />
+
+Sou adoravelmente feliz, porque ainda n&atilde;o conhe&ccedil;o
+bem meu marido, nem meu marido me conhece a mim... <br />
+
+<br />
+
+Palavra, que acho isto uma esplendida
+interpreta&ccedil;&atilde;o da vida domestica!.. <br />
+
+<br />
+
+Commentem bem esta phrase implicitamente incluida em todos os louvores
+que se tecem &aacute; celebre <em>lua de mel</em>,
+e ahi t&eacute;em os
+divorcios, os adulterios, os intimos dramas conjugaes, as luctas
+atr,
+e ahi t&eacute;em os
+divorcios, os adulterios, os intimos dramas conjugaes, as luctas
+atrozes em que dous entes se dilaceram at&eacute; que n'elles morra
+a
+alma e o corpo!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[153]</span>
+Mas, minha Maria, que longe me arrastou esta digress&atilde;o
+apaixonada. <br />
+
+<br />
+
+Perdoa-me. <br />
+
+<br />
+
+Se bem me lembro, estavamos ambas muito mais <em>terra a terra</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Eu tinha conseguido fazer-te largar o teu piano de Erard, as tuas
+aquarellas e os teus bordados, e tinha-te arrastado at&eacute;
+&aacute;
+cosinha de tua casa, cuja
+existencia tu teimavas em ignorar. <br />
+
+<br />
+
+Talvez tu penses, minha pobre amiga, que esse <em>senhor</em>,
+discreto, ameno, gracioso,
+condescente, que acha gra&ccedil;a a tudo que tu dizes, que
+concorda
+com todas as tuas opini&otilde;es, que &aacute;s vezes se
+ajoelha
+submissamente aos teus p&eacute;s, e te diz
+baixinho&#8213;adoro-te!&#8213;com
+uma express&atilde;o de <em>tenor</em> em
+disponibilidade, que se delicia com as tuas
+<em>toilettes</em>, que d&aacute; muita
+atten&ccedil;&atilde;o &aacute; variedade artistica do teu
+penteado, que &eacute;, emfim, <em>todo teu</em> no
+sentido falso
+d'esta palavra, pensa tudo quanto diz, e se conservar&aacute; por
+muito tempo n'esse adoravel e massador diapas&atilde;o?.. <br />
+
+<br />
+
+Enganas-te. <br />
+
+<br />
+
+Elle enfastia-se soberanamente do seu papel, estuda-te com ar
+sorrateiro, e pede a Deus que acabe o periodo em que tem de renunciar
+&aacute; sua individualidade, para se conformar com os usos e
+costumes
+da sociedade elegante, de que faz ou quer fazer parte.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[154]</span>
+Acabado que seja esse periodo que tem limites determinados, dize-me tu
+qual o meio de que tencionas usar para o prenderes junto de ti, para
+que elle comece ent&atilde;o a ser sincera e dignamente <em>o
+teu
+marido</em>, isto &eacute;, o teu melhor e mais fiel amigo,
+para que a vossa vida commum assente em bases solidas e perduraveis. <br />
+
+<br />
+
+Julgas que basta para isso vestires o teu mais bonito vestido,
+penteares o teu bello cabello louro do modo mais excentrico e original,
+dizeres com a tua voz sonora e grave os paradoxos mais scintillantes,
+mostrares-lhe as riquezas com que uma esmerada
+educa&ccedil;&atilde;o
+povoou o teu espirito? <br />
+
+<br />
+
+Innocente creatura! n&atilde;o conheces o que &eacute; o
+<em>homem</em>, o animal mais prosaico e positivo da
+crea&ccedil;&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+O que elle quer depois das suas luctas com os outros homens, das
+far&ccedil;as que &eacute; obrigado a representar para o
+publico, dos
+combates em que &eacute; alternativamente vencido e vencedor, o que
+elle quer &eacute; descanso, conchego, esquecimento de todos os
+artificios que v&atilde;o l&aacute; por f&oacute;ra, e
+sobretudo
+(n&atilde;o te horrorises, minha sonhadora!) e sobretudo
+commodidades
+physicas. <br />
+
+<br />
+
+D&aacute;-lhe a melhor das poltronas, o mais confortavel dos
+gabinetes,
+o mais suave e caricioso dos sorrisos, e, principalmente,
+d&aacute;-lhe
+<em>um bom
+jantar</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[155]</span>
+Cheguei emfim, ao ponto a que tendia desde o principio d'esta carta. <br />
+
+<br />
+
+Confesso que me custou! Isto de mulheres!.. <br />
+
+<br />
+
+Tu provavelmente imaginas que um bom jantar &eacute; cousa que
+pertence exclusivamente aos dominios do bom cosinheiro. <br />
+
+<br />
+
+Como te enganas! <br />
+
+<br />
+
+Em primeiro logar, n&atilde;o ha nada peior que um
+<em>bom</em> cosinheiro. <br />
+
+<br />
+
+Um <em>bom</em> cosinheiro &eacute; a
+ruina de uma casa, &eacute; um envenenador de barrete branco,
+&eacute; um assassino de abdomen tranquillisador e hypocrita. <br />
+
+<br />
+
+Um <em>bom</em> cosinheiro come&ccedil;a
+por nos dar cabo da bolsa, o que &eacute; terrivel; acaba por nos
+dar
+cabo do estomago, o que &eacute; simplesmente irremediavel. <br />
+
+<br />
+
+Todos os <em>restaurants</em> luxuosos
+possuem a prenda de um <em>bom</em> cosinheiro. <br />
+
+<br />
+
+P&otilde;e um pobre homem a jantar durante dous annos a fio n'um
+d'esses <em>restaurants</em>
+elegantes, e depois conta-me por miudos em que estado miseravel vaes
+dar com elle. <br />
+
+<br />
+
+Destruida esta primeira id&eacute;a, deixa-me ainda dizer-te uma
+cousa que tu n&atilde;o sabes. <br />
+
+<br />
+
+A mesa n&atilde;o tem tal a importancia insignificante que tu
+embirras em querer dar-lhe. <br />
+
+<br />
+
+Sendo o estomago um dos org&atilde;os principaes da
+<span class="pagenum">[156]</span>
+humanidade, &eacute; absurdo
+desdenhar d'esse modo o que tem com t&atilde;o elle estreitas
+rela&ccedil;&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+Se eu fosse pedante era capaz at&eacute; de te provar que o livro
+que
+descrevesse o que o homem tem comido nas &eacute;pocas primitivas e
+nas
+quadras de
+civilisa&ccedil;&atilde;o refinada e perfeita, nos periodos de
+barbaria
+e nos tempos de desenvolvimento e de progresso, seria o livro mais
+completo da historia universal da humanidade. <br />
+
+<br />
+
+O alimento faz o homem. <br />
+
+<br />
+
+Os antigos scandinavos, <em>os reis do
+mar</em>, os impetuosos e bravios ca&ccedil;adores de
+<em>uroch</em>, brancos, athleticos, sanguinarios, de olhos
+azues
+metallicos e faiscantes; alimentavam-se nos seus festins cyclopicos da
+carne quasi crua dos animaes que matavam. <br />
+
+<br />
+
+Nero gostava de saborear as contors&otilde;es de agonia das <em>mur&ecirc;as</em>
+que creava nos
+seus viveiros, e que alimentava muitas vezes com o corpo palpitante dos
+escravos, e nas festas voluptuosas e crueis que dava na sua <em>Casa
+de ouro</em>,
+emquanto
+dan&ccedil;avam as bailarinas gaditanas e egypcias, os convivas,
+coroados de rosas, esperavam que o peixe tivesse soltado o ultimo
+arranco de vida para se servirem do saboroso acepipe. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o v&ecirc;s atravez d'estes dous exemplos uma
+ra&ccedil;a de instinctos barbaros, e uma
+civilisa&ccedil;&atilde;o
+pavorosa e apodrecida?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[157]</span>
+O homem moderno enfraquecido pela degenera&ccedil;&atilde;o
+progressiva
+de umas poucas de gera&ccedil;&otilde;es, tendo de
+dispender uma enorme por&ccedil;&atilde;o de energia e de
+for&ccedil;a nas luctas incessantes a que o obrigam as infernaes
+exigencias da nossa &eacute;poca, precisa, por assim dizer, de ser
+reconstituido dia a dia. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; n'isto que as mulheres n&atilde;o pensam bastante. <br />
+
+<br />
+
+Depois em um <em>m&eacute;nage</em>,
+sobretudo de medianos haveres, a mesa relaciona-se com tres
+quest&otilde;es de uma alta importancia. <br />
+
+<br />
+
+Primeiro, a quest&atilde;o da saude, que sobreleva a todas. <br />
+
+<br />
+
+Segundo, a quest&atilde;o da economia de que depende a paz, a
+alegria,
+o socego, a elegancia modesta da vida intima; o bom humor do marido, a
+<em>toilette</em> fresca e garrida da esposa, a alvura da
+toalha
+pezada de linho adamascado, tudo que emfim constitue o conforto e a
+alegria domestica. <br />
+
+<br />
+
+Terceiro, a fidelidade do marido &aacute;s modestas mas saborosas
+iguarias da sua mesa de familia. <br />
+
+<br />
+
+O jantar tem de ser bem feito, economico e salubre. Eis o grande
+problema. <br />
+
+<br />
+
+Para o resolveres n&atilde;o te fies n'uma cosinheira muito
+estupida,
+muito suja e muito rotineira, nem n'um altivo sujeito cheio de theorias
+estapafurdias e de nomes francezes estropiados.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[158]</span>
+Fia-te em ti. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; o mais seguro, o mais razoavel, aquillo que teu marido te
+ha de agradecer mais. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o estragues as tuas finas m&atilde;os de duqueza,
+n&atilde;o des&ccedil;as &aacute; humilhante
+posi&ccedil;&atilde;o
+de <em>cordon bleu</em> da tua propria casa, mas dirige tu
+esse ramo t&atilde;o importante de
+administra&ccedil;&atilde;o domestica. <br />
+
+<br />
+
+Estuda essa sciencia t&atilde;o util e t&atilde;o
+descurada que se chama <em>chimica culinaria</em>, e
+ver&aacute;s como a saude dos que tens debaixo da tua guarda ha de
+progredir com isso. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o te injuries, nem te afflijas ent&atilde;o quando
+conheceres que o sorriso que teu marido negou &aacute;s sabias
+architecturas do teu penteado, lhe desabrocha nos labios franco e
+alegre em frente de um caldo feito sob a tua
+direc&ccedil;&atilde;o, de
+um
+<em>roastbeef</em> temperado pelas tuas
+m&atilde;osinhas de fada, de um novo acepipe que inventastes e que
+lhe despertou o esmorecido appetite. <br />
+
+<br />
+
+A arte de ser esposa e de ser m&atilde;e funda-se n'um segredo
+muito simples. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se trata de sermos felizes &aacute; custa dos que
+s&atilde;o nossos; trata-se de fazermos felizes os nossos,
+&aacute; nossa propria custa. <br />
+
+<br />
+
+Come&ccedil;amos pelo sacrificio, e acabamos pela apotheose! <br />
+
+<br />
+
+Mas que de cousas eu fui buscar para te dar uma
+li&ccedil;&atilde;o de <em>azeites e
+vinagres</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[159]</span>
+Ai! filha, &eacute; que tenho aprendido &aacute; minha custa
+que na
+terra n&atilde;o ha nada pequeno, e que todas as cousas que de
+perto se
+nos afiguram mesquinhas, est&atilde;o de tal maneira ligadas e
+relacionadas entre si, que formam unidas este grande conjuncto que se
+chama a vida.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="c10"></a>
+<h3>CAPITULO X </h3>
+
+<h3>O dever de ser bonita </h3>
+
+<br />
+
+<div class="breaks">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Dizia uma das mais espirituosas escriptoras da Fran&ccedil;a,
+aquella
+para quem Theophile Gauthier inventou o gracioso epitheto de <em>bas
+lilas</em>,
+livrando-a d'este modo da terrivel, grotesca e immerecida alcunha de <em>bas
+bleu</em>, que <em>o
+primeiro e mais sagrado dever da mulher &eacute; ser bonita</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Abaixo o paradoxo! bradou logo em torno a turba-multa das feias,
+furiosas contra a senten&ccedil;a que as punha por assim dizer
+f&oacute;ra da lei. <br />
+
+<br />
+
+Foi necessario entrar em explica&ccedil;&otilde;es, e todas
+n&oacute;s vemos ent&atilde;o a comprehender o que Madame de
+<a href="#e4">Girardin</a>
+entendia pela belleza feminina. <br />
+
+<br />
+
+Ser bonita no fim de contas n&atilde;o &eacute; ter
+f&oacute;rmas esculpturaes&#8213;isso j&aacute; passou de moda,
+n&atilde;o &eacute; ter
+fei&ccedil;&otilde;es perfeitas&#8213;n&atilde;o ha nada mais
+profundamente monotono e massador; n&atilde;o &eacute; ter
+collo de
+<em>alabastro</em>, cabellos de
+<span class="pagenum">[162]</span>
+<em>ebano</em>, labios de <em>rubis</em>,
+dentes de
+<em>perolas</em>, olhos de <em>diamante preto</em>,
+testa de
+<em>marfim</em>, etc., etc., etc. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixemos isso aos artifices mais ou menos engenhosos, que trabalham
+com as sobreditas materias, e aos <em>trovadores</em>
+mais ou menos
+choramigas, que manejam as sobreditas rimas; n&atilde;o
+&eacute; saber
+olhar com
+express&atilde;o ardente ou languida consoante o genero da
+phisionomia;
+saber sorrir com malicia ou com ternura, saber inclinar-se meiga e
+scismadora ao influxo do um sentimento occulto, ou erguer a
+cabe&ccedil;a altiva e triumphante com a plena consciencia da
+propria
+formosura! <br />
+
+<br />
+
+Ser bonita, ser bella, na accep&ccedil;&atilde;o elevada e
+completa d'esta palavra, &eacute; possuir a gra&ccedil;a
+mysteriosa que
+prende os que param junto de n&oacute;s, que attrahe os que
+v&atilde;o
+passando ao nosso lado. <br />
+
+<br />
+
+Resta agora analysar os fios tenuissimos de que se tece este divino
+encanto da mulher! <br />
+
+<br />
+
+A gra&ccedil;a de que eu fallo &eacute; feita principalmente de
+intelligencia e de bondade. <br />
+
+<br />
+
+O primeiro dom concede-o Deus, e aperfei&ccedil;oa-o e depura-o a
+vontade humana; o segundo adquire-se &aacute; custa de sacrificios
+cccultos, de abnega&ccedil;&otilde;es
+intimas, de aspira&ccedil;&otilde;es continuas e incessantes
+para a
+suprema perfei&ccedil;&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+Todos podem ser bons!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[163]</span>
+&Eacute; preciso que os espiritos se compenetrem profundamente
+d'esta
+verdade, que &eacute; o primeiro passo para a conquista do bem, que
+todos ambicionam e que tantos julgam vedado. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ha terreno, por mais duro, inhospito e ingrato, a que um
+cultivo cuidadoso e vigilante n&atilde;o possa arrancar
+fl&ocirc;res. <br />
+
+<br />
+
+No homem&#8213;e quando digo <em>homem</em>,
+refiro-me geralmente &aacute; humanidade&#8213;, no homem ha preso,
+algemado, vencido, um robusto animal de tendencias bravias, que lucta
+continuamente para reconquistar a perdida
+liberdade.<br />
+
+<br />
+
+Foi a ac&ccedil;&atilde;o civilisadora de seculos sem conta que
+domou essa f&eacute;ra de funestos instinctos; &eacute; a
+press&atilde;o continuada e constante de uma vontade energica, de
+uma raz&atilde;o esclarecida, de uma
+percep&ccedil;&atilde;o profunda de todos os deveres, que
+conserva e sustem intimidado e submisso o terrivel selvagem. <br />
+
+<br />
+
+Uns precisam de desenvolver n'esta porfia assidua, mais tenacidade e
+mais for&ccedil;a, outros de indole nativamente branda e pacifica,
+podem deixar adormecer de vez em quando a accesa vigilancia. <br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o no fim de contas os primeiros que teem maior
+merecimento. <br />
+
+<br />
+
+Ser bom &eacute; quasi sempre um esfor&ccedil;o, mas para ser
+meritorio
+cumpre que este esfor&ccedil;o seja t&atilde;o
+invisivel
+<span class="pagenum">[164]</span>
+para todos os
+olhos, que a analyse ainda a mais perspicaz n&atilde;o chegue a dar
+por
+elle. A bondade &eacute; o supremo attractivo da mulher, aquelle
+que
+mais ac&ccedil;&atilde;o exerce em torno de si. <br />
+
+<br />
+
+A bondade &eacute; pois a verdadeira belleza feminina. <br />
+
+<br />
+
+Imaginae que a ella se reune a intelligencia, e tendes o ideal da
+perfeita formosura, da unica que s&oacute; se apaga e extingue com
+a
+vida, da que excita os grandes, os eternos, os s&atilde;os e
+robustos
+amores. <br />
+
+<br />
+
+O culto pag&atilde;o da belleza plastica &eacute; um dos erros
+que mais
+ha de custar a destruir, e que no entanto se acha t&atilde;o
+deslocado
+no ideal moderno, como se achava no seu verdadeiro lugar, no velho
+mundo que a
+revolu&ccedil;&atilde;o deitou por terra alluido e decomposto! <br />
+
+<br />
+
+A mulher transviada por esta falsa comprehens&atilde;o do seu
+destino,
+s&oacute; aspira a ser bonita no sentido futil e exterior da
+palavra,
+s&oacute; inveja as que possuem os ephemeros encantos de que foi
+desherdada, e n&atilde;o percebe que a belleza interior
+&eacute;
+aquella cuja gloriosa conquista, accessivel para todos, lhe podia dar a
+realeza e o predominio. <br />
+
+<br />
+
+A quantas meninas sentimentaes de olheiras roxas e phrases sonoras
+n&atilde;o temos n&oacute;s ouvido lamentar a
+pouca dura&ccedil;&atilde;o dos affectos terrestres, a
+<em>inconstancia</em> do homem, a ingratid&atilde;o
+cruel que faz
+definhar as suas victimas em desolador abandono!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[165]</span>
+Apesar do aspecto ridiculo de que estas romanticas e elegiacas
+creaturas se revestem, que ninguem se ria d'elles! <br />
+
+<br />
+
+Victimas se chamam, e victimas s&atilde;o de certo, mas
+n&atilde;o de imaginarias perfidias ou de tragicas aventuras. <br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o victimas da sua educa&ccedil;&atilde;o falsa, da
+sua sentimentalidade pi&eacute;gas, da id&eacute;a inteiramente
+errada que formam da vida pratica. <br />
+
+<br />
+
+Imaginaram que haviam de ser eternamente amadas, amadas com extasis
+poeticos, com grandes discursos inflammados, com acompanhamento de
+viola franceza e de epistolas em verso, que tivessem de mais em amor, o
+que tivessem de menos em grammatica; sonharam ser as pallidas Julietas
+apaixonadas, recebendo &aacute; luz branca da lua, as confidencias
+convulsas dos seus Romeos de obra grossa; e para attingirem este ideal
+dos seus desejos suppozeram que lhes bastavam a alvura da tez, o brilho
+do olhar, a frescura dos labios, a abundancia dos cabellos, e por cima
+de tudo isto a garridice, a pretens&atilde;o, a ignorancia e a <em>toilette</em>!
+<br />
+
+<br />
+
+Em muito menos tempo do que &eacute; preciso para murchar uma rosa,
+os proprios homens se enfastiaram. <br />
+
+<br />
+
+E eil-as inconsolaveis e inconsoladas, maldizendo a
+trai&ccedil;&atilde;o masculina, que lhes n&atilde;o deu
+mais que o castigo merecido!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[166]</span>
+Houve tempo em que a mulher feia tinha como unico refugio o convento. <br />
+
+<br />
+
+Felizmente, por&eacute;m, esse tempo vae longe. <br />
+
+<br />
+
+O homem j&aacute; n&atilde;o exige da companheira do seu
+destino, como condi&ccedil;&atilde;o unica de felicidade,
+encantos que murcham com os annos. <br />
+
+<br />
+
+Assenta em mais solidas bases a ventura conjugal. <br />
+
+<br />
+
+Mulheres, s&ecirc;de boas, cultivae o espirito, e allumiae a
+consciencia; na vida do homem ha horas escuras; que a luz que sabeis
+diffundir as illumine. <br />
+
+<br />
+
+A sociedade tem desfiladeiros sombrios, tem <em>selvas ignotas</em>,
+como o
+<em>inferno</em> do Florentino, aprendei a guiar com a
+vossa pequena
+m&atilde;o branca e macia os robustos luctadores, que &aacute;s
+vezes
+param no limiar d'esses caminhos, com a vista incerta e o passo
+hesitante. <br />
+
+<br />
+
+E isso que hoje se exige de v&oacute;s. <br />
+
+<br />
+
+Eu vou mais longe que <em>madame</em> de
+Girardin, na sua arrojada proposi&ccedil;&atilde;o que
+t&atilde;o poucos
+comprehenderam. <br />
+
+<br />
+
+Quando vejo um homem sou capaz de adivinhar a que genero pertence a
+mulher que elle tem por esposa; quando entro n'uma casa basta-me
+v&ecirc;r a
+disposi&ccedil;&atilde;o dos moveis, a escolha dos livros, o
+aspecto
+das crean&ccedil;as, a express&atilde;o das <em>cousas
+mudas</em>,
+para poder afian&ccedil;ar se a dona d'essa casa, a divindade
+modesta e
+tutelar d'esse pequeno templo, &eacute; digna do seu titulo sagrado
+de esposa e m&atilde;e.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[167]</span>
+&Eacute; que tudo falla, para quem sabe ouvir, e a mulher
+sobretudo&#8213;natureza expansiva e vibratil&#8213;p&otilde;e uma
+indiscri&ccedil;&atilde;o involuntaria em cada objecto de
+que se rodeia. <br />
+
+<br />
+
+Mais de uma vez tenho ouvido vozes femininas levantarem-se em favor da
+emancipa&ccedil;&atilde;o politica e social do seu sexo. <br />
+
+<br />
+
+Pobres s&ecirc;res hybridos e incompletos s&atilde;o de certo
+os que teem t&atilde;o acanhada id&eacute;a do destino da
+mulher. <br />
+
+<br />
+
+No dia em que esta f&ocirc;r emancipada, cahir&aacute; para
+sempre do throno que tem seculos por degraus. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; que a emancipa&ccedil;&atilde;o politica seria a
+abdica&ccedil;&atilde;o domestica, quer dizer, a mais dolorosa
+catastrophe que tem affligido as sociedades. <br />
+
+<br />
+
+Imagino que nenhuma verdadeira mulher a acceitaria! <br />
+
+<br />
+
+A familia tal como a entendem todos que sabem sentir e pensar,
+&eacute;
+o refugio onde se vae buscar paz e esquecimento; &eacute; o templo
+onde
+encontram
+<em>direito de asylo os parias</em> que andam c&aacute;
+f&oacute;ra aos bald&otilde;es da ira popular; &eacute; o
+lugar
+querido, inaccessivel onde os athletas do pensamento acham momentos de
+alegria descuidada, onde os mineiros cansados da sciencia, os que andam
+pelos antros obscuros arrancando segredos aos seios da natureza,
+procuram a clara e festiva luz dos affectos simples, onde os politicos
+esquecem a maldade
+<span class="pagenum">[168]</span>
+e a
+mesquinhez humana, onde os diplomatas fallam verdade, onde os
+argentarios fecham os ouvidos ao tinir metallico do ouro, onde os que
+caminham levando no cora&ccedil;&atilde;o as terriveis hydras
+do odio e
+da
+inveja se assentam por instantes embevecidos na musica matinal de umas
+vozes infantis que chilr&ecirc;am, de uma voz crystallina que
+adverte,
+aconselha e consola. <br />
+
+<br />
+
+Os que roubarem a familia ao incansavel trabalhador d'estas eras de
+febre e de combate, roubam-lhe a for&ccedil;a, a energia, a
+consciencia, a dignidade, o amor, roubam-lhe tudo emfim! <br />
+
+<br />
+
+Emancipar a mulher &eacute; atacar na sua base a familia,
+&eacute; trazer para dentro do lar as paix&otilde;es
+tumultuosas da pra&ccedil;a publica, &eacute; destruir o mais
+doce dos
+poderes a que o homem se curva, o temivel poder da fraqueza feminina! <br />
+
+<br />
+
+E n&atilde;o se diga que eu combato a mulher quando combato a sua
+liberta&ccedil;&atilde;o absoluta perante a
+sociedade e perante a lei. <br />
+
+<br />
+
+Os que pretendem furtal-a &aacute; tutella salutar, que a
+cont&eacute;m na esphera que lhe &eacute; propria, &eacute;
+que s&atilde;o os seus peiores inimigos. <br />
+
+<br />
+
+Dentro, por&eacute;m, d'essa esphera quantos servi&ccedil;os
+ella deve fazer e n&atilde;o faz! <br />
+
+<br />
+
+Exemplifiquemos: A mulher &eacute; na generalidade ambiciosa.
+Qualidade que n&atilde;o est&aacute; de todo em todo desligada
+<span class="pagenum">[169]</span>
+de peccado, mas qualidade util
+na maior parte dos seus resultados. <br />
+
+<br />
+
+Esta ambi&ccedil;&atilde;o pela influencia latente que exerce
+no animo masculino leva-o, n&atilde;o poucas vezes a arrojados
+commettimentos e a grandes e nobres cousas. <br />
+
+<br />
+
+At&eacute; um certo e determinado limite, &eacute; portanto
+benefica a ambi&ccedil;&atilde;o da mulher. <br />
+
+<br />
+
+Transviada, por&eacute;m, do seu verdadeiro fito, quantas vezes
+esta
+ambi&ccedil;&atilde;o mal dirigida por uma
+educa&ccedil;&atilde;o eivada de mesquinhos preconceitos
+n&atilde;o
+arrasta o homem at&eacute; &aacute; infamia, &aacute;
+deshonra,
+&aacute; quebra de todos os pudores, ao suicidio! <br />
+
+<br />
+
+A garridice, o amor da <em>toilette</em>, das
+pequenas futilidades elegantes, o gosto do luxo, das graciosas
+inven&ccedil;&otilde;es da moda, ahi est&aacute; uma das
+gra&ccedil;as, um dos elementos do dominio da mulher. <br />
+
+<br />
+
+Mas ainda n'este ponto cumpre que uma raz&atilde;o clara, que uma
+percep&ccedil;&atilde;o definida do dever, a guie, a dirija, a
+constranja nas suas tendencias muitas vezes exageradas. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ha nada mais agradavel n'um
+<em>m&eacute;nage</em> do que uma mulher
+mo&ccedil;a, fresca, elegante,
+da graciosa e simples elegancia que prov&eacute;m do gosto apurado
+e
+distincto; os requintes de luxo exterior s&atilde;o, por assim
+dizer,
+na vida do homem, uma superfluidade necessaria, s&atilde;o um
+conchego
+para o corpo, uma caricia para a alma,
+<span class="pagenum">[170]</span>
+mas que nunca o luxo conduza a
+familia &aacute; mais leve transigencia indelicada, que nunca a
+mulher
+lhe sacrifique um s&oacute; dos seus deveres! <br />
+
+<br />
+
+Todos s&atilde;o igualmente respeitaveis; todos est&atilde;o
+unidos entre si por uma cadeia de &eacute;los inquebrantaveis. <br />
+
+<br />
+
+Na mulher ainda mais do que no homem, o abuso das qualidades uteis leva
+&aacute;s mais funestas consequencias. <br />
+
+<br />
+
+Para a mulher ainda &eacute; mais delgada a linha do dever. <br />
+
+<br />
+
+O caminho &eacute; estreito, difficil, sinuoso: para
+&aacute;quem d'elle ou para al&eacute;m d'elle est&aacute;
+o erro. <br />
+
+<br />
+
+Por isso quantas senhoras &aacute;s vezes dizem: <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Queixam-se de n&oacute;s porque somos garridas, e se nos
+v&ecirc;em modestas, sem prendermos a minima
+atten&ccedil;&atilde;o &aacute;s futilidades perigosas do
+luxo, condemnam-nos ou fogem do nosso lado. <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Queixam-se de n&oacute;s porque somos ignorantes, mas se
+o nosso
+espirito se accende em curiosidades scientificas, se l&ecirc;mos,
+se
+estudamos, se tentamos ir um pouco al&eacute;m dos limites impostos
+ao
+nosso sexo, somos alcunhadas de pedantes, e de <em>preciosas</em>
+ridiculas! <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Queixam-se de n&oacute;s porque somos devotas,
+supersticiosas, porque levamos ao exagero as praticas do catholicismo,
+porque nos deixamos guiar mysteriosamente pela m&atilde;o occulta
+do padre, mas se procuramos livrar-nos
+<span class="pagenum">[171]</span>
+d'este jugo, se queremos a independencia absoluta do espirito
+e da consciencia, chamam-nos <em>livres pensadoras</em>, e
+os homens sentem medo instinctivo de entregar a sua honra nas nossas
+m&atilde;os.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+E por aqui adiante uma longa jeremiada n'este teor. <br />
+
+<br />
+
+Eu, por&eacute;m, mesmo concedendo que ha um fundo de incontestavel
+verdade no que dizeis, respondo-vos, minhas senhoras, que &eacute;
+positivamente porque a vossa miss&atilde;o &eacute; difficil
+que ella
+tem tamanha
+importancia e p&oacute;de adquirir de dia para dia uma importancia
+ainda maior. <br />
+
+<br />
+
+No dia em que comprehenderdes claramente o vosso destino, sabereis
+ent&atilde;o o que &eacute; ter a
+gra&ccedil;a, a elegancia, o encanto exterior, sem que vos
+contaminem
+as criminosas vaidades; o que &eacute; ser intelligente, instruida,
+reflexiva sem conhecer o pedantismo, e a ridicula pretens&atilde;o;
+o
+que &eacute; ter o ideal religioso, sem o
+manchar com supersti&ccedil;&otilde;es, preconceitos,
+intolerancias
+funestas; o que &eacute; aproveitar cada uma das vossas riquissimas
+faculdades equivalentes, mas n&atilde;o iguaes, das do homem, sem
+que a
+vossa inercia as esterilise, sem que a vivacidade nervosa do vosso
+temperamento as leve a extremos e demazias altamente funestas
+&aacute;
+familia e &aacute; sociedade da qual &eacute; aquella o mais
+perfeito
+reflexo.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>CAPITULO XI </h3>
+
+<h3>O trabalho das mulheres </h3>
+
+<br />
+
+<div class="breaks">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O preconceito mais funesto, que ainda nasceu e medrou n'este mundo,
+&eacute; o que considera o trabalho uma escravid&atilde;o
+deshonrosa. <br />
+
+<br />
+
+Come&ccedil;a hoje a irradiar os seus primeiros clar&otilde;es
+rubros a
+aurora do dia que ha de v&ecirc;r o trabalho santificado, que ha de
+assistir &aacute; divina apotheose d'esse bemfeitor supremo da
+humanidade, d'esse amigo de todas as horas, que conforta os animos
+desconsolados, que levanta os animos abatidos, que distr&aacute;e
+de
+todos os t&eacute;dios, que lucta contra todas as inercias. <br />
+
+<br />
+
+Por emquanto, sobretudo entre n&oacute;s, &eacute; rara a
+mulher bastante superior para confessar que trabalha, e o que
+&eacute; peior de tudo, &eacute; rara a mulher que
+trabalha sem absoluta e incontestavel precis&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[174]</span>
+Mais d'uma vez temos visto senhoras, que pela sua
+educa&ccedil;&atilde;o mais apurada e mais completa deviam
+estar a cima
+de t&atilde;o profunda ignorancia dos seus deveres, confessarem que
+n&atilde;o gostam de fazer nada, que s&atilde;o
+pregui&ccedil;osas, que
+n&atilde;o
+t&eacute;em com que se distrahir, que os dias lhes parecem seculos,
+etc., etc. <br />
+
+<br />
+
+E no entanto qual ser&aacute; a creatura bastante desfavorecida de
+Deus, para n&atilde;o poder aproveitar proficuamente as horas do
+dia,
+sempre curtas para quem as sabe empregar bem? <br />
+
+<br />
+
+Fallemos primeiramente das meninas solteiras de pouca edade; para
+essas, logo que queiram tornar-se dignas do alto destino que as espera,
+pouco ser&aacute; sempre o tempo para se instruirem, para
+adquirirem os
+varios e complexos conhecimentos de que carecem antes de exercerem a
+sua miss&atilde;o complexa. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o s&atilde;o s&oacute;mente os futeis ornamentos
+superficiaes em que ellas devem p&ocirc;r a mira; a par d'esses,
+que
+tambem s&atilde;o indispensaveis, ha todo um mundo, que a mulher
+ignora, e cuja explora&ccedil;&atilde;o lhe
+enriqueceria o espirito de thesouros incomparaveis. <br />
+
+<br />
+
+E depois, mesmo os frivolos adornos, que constituem uma alta
+educa&ccedil;&atilde;o mundana, podem ter uma
+significa&ccedil;&atilde;o elevada, um sentido occulto, uma
+<em>alma</em> emfim, logo que se n&atilde;o considerem
+um
+<em>todo</em>, mas uma parte insignificante do mais alto e
+perfeito conjuncto;
+<span class="pagenum">[175]</span>
+logo que occupem o lugar que lhes compete, na
+classifica&ccedil;&atilde;o harmoniosa e bem graduada das
+varias riquezas que formam um espirito. <br />
+
+<br />
+
+Saber cantar, saber tocar piano, saber fallar as linguas, saber desenho
+e pintura, que vale tudo isso quando se n&atilde;o tenha uma
+id&eacute;a elevada e
+synthetica, que ligue entre si estas diversas
+acquisi&ccedil;&otilde;es
+intellectuaes, e que por assim dizer as vivifique? <br />
+
+<br />
+
+O que &eacute; preciso antes de tudo, &eacute; comprehender a
+musica e
+a sua influencia poderosa nas almas e nos organismos; &eacute;
+saber
+usar com aproveitamento esses instrumentos que se chamam linguas, as
+quaes por si, s&oacute;, tomadas abstractamente, nada significam e
+para
+nada servem; &eacute; estudar a natureza sob os seus multiplos
+aspectos
+e transplantal-a para a tela ou para o papel; &eacute; ter emfim um
+ideal, que sobredoire todas estas prendas, que superficialmente
+entendidas e superficialmente executadas, n&atilde;o teem valor nem
+tem
+utilidade alguma na vida pratica. <br />
+
+<br />
+
+Basta a qualquer espirito feminino entrar n'este caminho, que
+imperfeitamente acabamos de apontar, e, sem que elle mesmo tenha a
+consciencia d'isso, as suas id&eacute;as h&atilde;o de
+dilatar-se e
+encadeiar-se
+por uma success&atilde;o logica, e dar &aacute; vida um novo e
+imprevisto aspecto. <br />
+
+<br />
+
+As meninas bem educadas das nossas altas classes
+<span class="pagenum">[176]</span>
+sociaes, teem todas uma grande
+facilidade em fallar varias linguas; aproveitam por&eacute;m essa
+facilidade... conversando com os diplomatas. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o l&ecirc;em Schiller, nem Goethe, nem Shakespeare,
+nem
+Macaulay, nem Pascal, nem Montaigne; n&atilde;o entram no genio das
+differentes nacionalidades e das differentes litteraturas;
+n&atilde;o
+comparam entre si as civilisa&ccedil;&otilde;es, chegando por
+esta
+compara&ccedil;&atilde;o a conhecerem de um modo mais ou menos
+perfeito
+a humanidade, n&atilde;o senhor! Conversam com os
+<em>gommeux</em> da diplomacia estrangeira e contentam-se
+com isso! <br />
+
+<br />
+
+Na musica que, mais do que nenhuma arte, lhes revelaria o
+cora&ccedil;&atilde;o do homem no
+cora&ccedil;&atilde;o de tantos homens de genio, o que ellas
+v&ecirc;em s&oacute;mente
+&eacute; o modo de executarem mais difficuldades e de desesperarem
+de inveja mais rivaes!.. <br />
+
+<br />
+
+Na pintura, copia da natureza que as podia fazer penetrar no seio
+carinhoso e fecundo da grande m&atilde;e, s&atilde;o
+t&atilde;o
+frivolas, t&atilde;o superficiaes,
+como em todas as outras cousas. <br />
+
+<br />
+
+As mais das vezes n&atilde;o teem animo de colherem uma
+fl&ocirc;r do
+jardim e de a copiarem com o pincel ou com o lapis! Copiam copias,
+amesquinhando a natureza, e atrophiando a propria
+imagina&ccedil;&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o estes defeitos, que todas n&oacute;s as que pensamos
+<span class="pagenum">[177]</span>
+um pouco, devemos
+combater com todas as nossas for&ccedil;as! <br />
+
+<br />
+
+Longe de mim o aconselhar &aacute; mulher que se emancipe dos seus
+graves e obscuros deveres, que tente luctar com o homem, e arrancar-lhe
+a palma das grandes descobertas e das grandes conquistas! <br />
+
+<br />
+
+O que eu pretendo &eacute; provar-lhe que &eacute; divina entre
+todas, a miss&atilde;o a que o futuro a convida. <br />
+
+<br />
+
+A mulher de sala tem por for&ccedil;a de morrer; surja pois a
+mulher da
+familia, ser complexo, grande e nobre s&ecirc;r, que as
+gera&ccedil;&atilde;es vindouras
+h&atilde;o de admirar fervorosamente. <br />
+
+<br />
+
+A mulher da familia n&atilde;o &eacute; de certo a matrona
+desgeitosa, deselegante, s&oacute; occupada em dar a vida, o leite
+e o
+alimento aos filhos de um affecto, despido de todas as flores e de
+todas as poesias. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o, ella deve ser instruida, profundamente instruida, tendo
+ao
+mesmo tempo a consciencia de que essa instruc&ccedil;&atilde;o
+a
+n&atilde;o aparta do
+cumprimento religioso dos mais humildes deveres do amanho da casa e da
+maternidade. <br />
+
+<br />
+
+O homem deve achar n'ella n&atilde;o s&oacute; a
+enfermeira desvelada das suas doen&ccedil;as; n&atilde;o
+s&oacute; a
+distribuidora sensata e economica do seu alimento; n&atilde;o
+s&oacute;
+a
+dona de casa aceiada, vigilante, infatigavel; n&atilde;o
+s&oacute; a
+m&atilde;e carinhosa, dedicada, capaz dos maximos e dos mais
+<span class="pagenum">[178]</span>
+perseverantes sacrificios,
+sen&atilde;o tambem a companheira do seu espirito; a socia das suas
+aspira&ccedil;&otilde;es; a
+intelligencia que comprehenda e partilhe as suas legitimas
+ambi&ccedil;&otilde;es e as suas chimericas phantasias; o animo
+viril que saiba amparal-o nas horas de desalento; a m&atilde;o
+firme e
+branda, que saiba guial-o nos momentos escuros de lucta e de
+tenta&ccedil;&atilde;o: o seio terno que
+lhe acolha a cabe&ccedil;a cansada na hora sinistra das derrotas; o
+bello e enthusiastico espirito que applauda a suprema embriaguez das
+suas victorias; n'uma palavra, a mulher digna de ser m&atilde;e e
+de
+educar uma
+gera&ccedil;&atilde;o de fortes. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; preciso, que se compenetrem bem d'esta id&eacute;a
+fundamental: o trabalho, seja de que especie f&ocirc;r
+n&atilde;o
+desdoira uma mulher nem deixa de ser compativel com as mais delicadas
+distrac&ccedil;&otilde;es de um espirito culto. <br />
+
+<br />
+
+Trabalhar n&atilde;o &eacute; fazer
+<em>crochet</em>, n&atilde;o &eacute;
+cozer durante seis mezes na mesma camisa, que ha de ser offerecida a um
+pobre romantico, a um pobre de
+<em>opera-comica</em>; n&atilde;o &eacute; bordar
+umas eternas
+<em>babouches</em>, que se come&ccedil;am no dia
+seguinte ao do casamento, e que se acabam dez annos depois. <br />
+
+<br />
+
+Trabalhar &eacute; ser util, &eacute; occupar o espirito,
+&eacute; adquirir conhecimentos ou espalhal-os em torno de si,
+&eacute;
+concorrer para o bem-estar dos outros e para o seu
+aperfei&ccedil;oamento proprio.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[179]</span>
+A mulher que trabalha levanta-se cedo, n&atilde;o conhece as
+scismas voluptuosas, os languores morbidos, as <em>fl&acirc;neries</em>
+sem motivo e
+sem fim. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; activa, por isso n&atilde;o tem aquellas horas de
+t&eacute;dio profundo, que descobrem diante de um olhar os
+horisontes
+sinistros e esbraseados do suicidio; tem saude porque o tempo bem
+applicado e bem dividido n&atilde;o lhe deixa intervallos para se
+<em>escutar</em>, se sondar, para analysar as suas pequenas
+d&ocirc;res, os seus pequenos incommodos, e os aggravar tomando
+remedios nocivos, e entregando-se &aacute; molleza que a pouco e
+pouco
+destroe a robustez do corpo; gosa de tudo com alegria, com vitalidade,
+com expans&atilde;o, n&atilde;o desdenha nenhum dever, nenhuma
+occupa&ccedil;&atilde;o, nenhum trabalho porque o amor e a
+intelligencia prendem-se a tudo que ella faz. <br />
+
+<br />
+
+Porque sabe conversar na sala com facilidade e chiste, nem por isso
+deixa de saber estar na cosinha, observar um por um todos os
+utensilios, v&ecirc;r se
+est&atilde;o limpos, inventar um <em>menu</em> que
+reuna
+as condi&ccedil;&otilde;es da economia e da variedade, ensinar
+a sua
+cosinheira, fazer mesmo por suas m&atilde;os um prato predilecto,
+que
+&aacute; mesa o marido e os filhos h&atilde;o de saudar com
+alegria e saborear com appetite. <br />
+
+<br />
+
+Desejo que ella saiba bordar, mas exijo que saiba serzir panno, dar
+r&ecirc;des com perfei&ccedil;&atilde;o,
+cozer a roupa
+<span class="pagenum">[180]</span>
+da casa e
+a roupa dos filhos, cortar e fazer os seus vestidos, dando assim mais
+que um exemplo de economia, um exemplo de moralidade! protestando
+at&eacute; onde chegam os seus limites, contra a torrente impetuosa
+e
+funesta, que arrasta as familias desde o luxo at&eacute;
+&aacute;
+infamia, desde a impostura at&eacute;
+&aacute; quebra de todas as dignidades e de todos os pudores. <br />
+
+<br />
+
+Quero mais, que ella se n&atilde;o envergonhe de confessar que
+trabalha, e que n&atilde;o diga que o seu fato &eacute; feito
+por uma
+qualquer modista estrangeira, quando &eacute; ao seu laborioso
+ser&atilde;o que ella deve a
+elegancia que d'este modo &eacute; duplamente preciosa e
+sympathica. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o imagine a mulher, que entre os deveres que acceitou ha
+uns que a deslustram, e outros que lhe ficam bem. <br />
+
+<br />
+
+Debaixo do ponto de vista da raz&atilde;o todos os deveres
+s&atilde;o eguaes e est&atilde;o prezos entre si por uma cadeia
+invisivel. <br />
+
+<br />
+
+Da alegria da mesa depende a alegria do lar; da economia de todos os
+instantes, depende o bom humor das festas de familia; da elegancia e
+primoroso aceio da mulher depende a ternura inexgotavel do marido; do
+modo porque ella rege e domina o seu pequeno imperio domestico, depende
+a educa&ccedil;&atilde;o dos filhos,
+a moralidade do interior, a harmonia intima da vida, e
+<span class="pagenum">[181]</span>
+at&eacute; a gra&ccedil;a, o espirito, a liberdade com que ella
+conversa e ri na sala. <br />
+
+<br />
+
+Todas as mulheres se queixam dos maridos, e nenhuma ainda percebeu o
+seguinte: s&atilde;o ellas que preparam e determinam o seu destino;
+&eacute; a ellas que a familia em geral deve a sua desordem, a sua
+dissolu&ccedil;&atilde;o, ou a sua felicidade. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o basta ter todas as gra&ccedil;as, &eacute;
+preciso ser util, e no fardo que se acceita em commum tomar a parte que
+mais custa a supportar. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o basta ser util, prestadia, arranjada, economica;
+&eacute;
+preciso ter a intelligencia que idealisa um pouco os tristes e aridos
+encargos da vida. <br />
+
+<br />
+
+Toda ou quasi toda a mulher se sente amesquinhada pelo seu destino, e
+protesta contra as leis, contra os usos, contra as
+institui&ccedil;&otilde;es, que a exilaram
+dos altos cargos da republica, que lhe tolheram o passo para todas as
+eminencias sociaes, e que a condemnam &aacute; obscuridade e
+&aacute;
+lhaneza do viver domestico. <br />
+
+<br />
+
+Oh! aben&ccedil;oados sejam os costumes, as leis, as
+institui&ccedil;&otilde;es, que deram ao homem tudo que
+&eacute; ruido,
+pompa, ostenta&ccedil;&atilde;o, orgulho e vaidade, e que nos
+deram a
+n&oacute;s a d&ocirc;ce miss&atilde;o de encaminharmos o
+futuro, de guiarmos a humanidade no caminho do bello e do bom! <br />
+
+<br />
+
+Se at&eacute; agora temos trahido essa miss&atilde;o a que
+fomos
+<span class="pagenum">[182]</span>
+destinadas, a
+culpa &eacute; nossa e n&atilde;o de quem
+constituio sob uma f&oacute;rma t&atilde;o racional e
+t&atilde;o justa
+a sociedade. <br />
+
+<br />
+
+O tempo que passamos no barulho vazio das festas mundanas, colhendo
+decep&ccedil;&otilde;es e rancores,
+excitando invejas, provocando sensuaes applausos, porque o
+n&atilde;o
+gastamos a l&ecirc;r, a estudar, a penetrar no
+mundo da natureza e no mundo da sciencia em todos os seus aspectos
+t&atilde;o varios, em todas as suas
+manifesta&ccedil;&otilde;es t&atilde;o sympathicas; porque
+n&atilde;o
+dirigimos a poder de trabalho e de esfor&ccedil;o a primeira
+educa&ccedil;&atilde;o de nossos filhos, e deixamos que
+m&atilde;os
+mercenarias lhe arranquem aquella d&ocirc;ce penugem da alma que
+&eacute; a ignorancia dos pequeninos? <br />
+
+<br />
+
+Porque n&atilde;o fazemos da nossa casa, um ninho alegre e
+f&ocirc;fo,
+que o nosso marido prefira ao botequim, ao Gremio, ao Club, ao
+restaurante, &aacute; casa dos seus amigos, e onde elle esteja
+certo de
+encontrar o alimento mais saboroso e mais hygienico, o ar mais puro e
+lavado, a poltrona mais commoda, a
+conversa&ccedil;&atilde;o mais animada, mais substancial, mais
+chistosa
+e menos pedante? <br />
+
+<br />
+
+Pouco a pouco &aacute; regenera&ccedil;&atilde;o da mulher,
+seguir-se-hia a regenera&ccedil;&atilde;o do homem, deixariamos
+de ser
+a ruina, para nos tornarmos o conforto; deixariamos de ser o
+t&eacute;dio para nos tornarmos a alegria.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[183]</span>
+Talvez n&atilde;o houvesse tantos bailes e saraus, talvez
+Offenbach,
+Dumas filho, Sardou tivessem menos espectadores, talvez as salas de
+bilhar perdessem um pouco da sua popularidade; talvez os ourives e as
+modistas fechassem algumas das suas lojas, mas em
+compensa&ccedil;&atilde;o quebravam menos negociantes,
+perdiam-se menos
+mulheres, a calumnia renunciava a uma grande
+por&ccedil;&atilde;o do seu alimento diario, o falso luxo que
+mata de
+fome os filhos e que arrasta sedas pelas ruas enlameiadas da cidade, ou
+se reclina voluptuosamente nos coxins flascidos d'um coup&eacute;
+de
+oito mollas, o falso luxo deixaria de ostentar com t&atilde;o
+descarada
+altivez as suas lentejoulas compradas com moeda vil, e esta nossa
+sociedade, que parod&iacute;a t&atilde;o ridicula e
+t&atilde;o desgra&ccedil;adamente a sociedade cosmopolita,
+opulenta e
+artificial da Fran&ccedil;a, tomava diverso rumo, assumia a
+dignidade
+que lhe falta, e descobriria no futuro o ideal, que n&atilde;o tem
+e
+que procura nas trevas. <br />
+
+<br />
+
+O primeiro passo para que este deploravel estado de cousas melhore um
+pouco, &eacute; que as mulheres comecem a trabalhar. <br />
+
+<br />
+
+As ricas instruam-se; as pobres ajudem seu marido sem se envergonharem
+da sua honesta pobreza, e todas sem exceptuar qualquer
+posi&ccedil;&atilde;o social,
+occupem o tempo para n&atilde;o darem logar &aacute;s
+tenta&ccedil;&otilde;es da vaidade, aos sonhos morbidos que
+enfraquecem o corpo
+<span class="pagenum">[184]</span>
+e o espirito, &aacute;s negras horas dissolventes do
+t&eacute;dio, em que tudo se concebe e se admitte como possivel,
+at&eacute; o esquecimento de todos os deveres, at&eacute; o
+proprio crime com o seu romantico cortejo de
+sensa&ccedil;&otilde;es e
+de terrores.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>CAPITULO XII </h3>
+
+<h3>A toilette </h3>
+
+<br />
+
+<div class="breaks">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+As mulheres teem, na generalidade, um costume deploravel! S&oacute;
+se vestem e se enfeitam e querem ser amaveis para o publico. <br />
+
+<br />
+
+O marido, ainda o mais feliz e mais extremoso, tem sempre um rival
+terrivel, um rival exigente, um rival que lhe rouba parte das
+prerogativas e lhe cerceia parte dos direitos. <br />
+
+<br />
+
+Esse rival &eacute; o publico, &eacute; esse detestavel tyranno
+chamado <em>tout le monde</em>, a quem tudo
+se sacrifica, e do qual em recompensa s&oacute; se recebem criticas
+e desdens! <br />
+
+<br />
+
+Para elle nos vestimos, para elle levamos horas e horas a combinar o
+effeito da nossa
+<em>toilette</em>, para elle estamos defronte do espelho
+prendendo
+flores no cabello, inventando as difficeis architecturas do penteado,
+<span class="pagenum">[186]</span>
+para elle sabemos
+tocar piano e sabemos cantar, para elle desejamos ser formosas! para
+que elle nos applauda&#8213;mentiroso e humilhante applauso!&#8213;exhaurimos
+todos os recursos da nossa imagina&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Para agradarmos a elle, que &eacute; o
+<em>extranho</em>, nos esquecemos dos que s&atilde;o
+nossos! <br />
+
+<br />
+
+Em casa as mulheres, pelo menos as mulheres portuguezas, as que eu de
+mais perto conhe&ccedil;o, preferem a tudo, aquillo a que
+t&atilde;o
+impropriamente chamam <em>estar &aacute; vontade</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Usam uma <em>robe-de-chambre</em> desbotada,
+quando n&atilde;o trazem um vestido velho que j&aacute;
+n&atilde;o serve para a
+rua; trazem o cabello em <em>papelotes</em>
+ou
+frisado em ganchos, e como querem descansar um pouco das talas que
+impuzeram aos p&eacute;s, consolam-nos, mettendo-os em umas largas <em>babouches</em>
+desgeitosas. <br />
+
+<br />
+
+Pela manh&atilde;, &aacute; hora do almo&ccedil;o
+d&atilde;o vontade de chorar! <br />
+
+<br />
+
+O marido olha para ellas e... de duas uma:&#8213;ou sente fastio ou come
+como um lobo. <br />
+
+<br />
+
+De qualquer dos modos manifesta a sua melancolia. <br />
+
+<br />
+
+Quest&atilde;o de temperamento que n&atilde;o vem ao caso
+analysar aqui. <br />
+
+<br />
+
+Ao meio dia, eis por&eacute;m, que se lembram das visitas que
+n&atilde;o tardam, das <em>inimigas intimas</em> que
+veem
+<span class="pagenum">[187]</span>
+colh&ecirc;r invejas e semear despeitos, de todas as ferozes
+exigencias
+sociaes, de que s&atilde;o submissas escravas! <br />
+
+<br />
+
+Desfranzem a testa, ageitam um sorriso malicioso ou sentimental,
+consoante o genero da physionomia, mergulham o corpo nas
+tepidas
+e perfumadas caricias do banho, vestem-se, burnem-se, penteiam-se,
+pintam-se... e apparecem transformadas. <br />
+
+<br />
+
+Durante umas poucas de horas est&atilde;o no palco. <br />
+
+<br />
+
+O auditorio &eacute; escrupulosissimo. Ao menor indicio que lhe
+dest&ocirc;e, manifesta sem piedade o seu desagrado. <br />
+
+<br />
+
+Ellas, no entanto, suam <em>sous le
+harnais</em>, mas s&atilde;o intrepidas at&eacute;
+&aacute; heroicidade. <br />
+
+<br />
+
+Teem caricias felinas, sorrisos que adormecem a tristeza nos
+cora&ccedil;&otilde;es mais desconsolados, sabem
+ser engenhosas, cheias de inven&ccedil;&otilde;es felizes,
+conseguem plenamente o seu fim, e ao deixarem a scena fica no ar uma
+impress&atilde;o boa, quasi enternecida. <br />
+
+<br />
+
+Chegou a occasi&atilde;o de voltar aos
+<em>bastidores</em>. <br />
+
+<br />
+
+N'este caso os bastidores s&atilde;o a
+companhia do marido. <br />
+
+<br />
+
+Oh! Como ellas veem cansadas, aborrecidas, cheias de tedio, e de
+desalento! Despem, com a voluptuosidade com que se despe um cilicio,
+todas essas elegancias que as torturavam; o sorriso ficticio
+apaga-se-lhes dos labios, a luz ficticia esmorece-lhes no olhar.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[188]</span>
+A pelle precisa de <em>cold-cream</em>, de
+<em>veloutine</em>, de todos os ingredientes nauseabundos:
+o cabello
+cahe-lhes aos p&eacute;s, solto dos ganchos que o prendiam, e em
+quanto
+a aia, com um sorriso ladino, os recolhe cuidadosamente na caixa de
+cart&atilde;o, o marido contempla assarapantado, cheio de ingenuo e
+comico assombro, aquella cabe&ccedil;a que ainda ha pouco, no
+orgulho
+com que se erguia, na magestade altiva com que ostentava o delicado
+edificio das tran&ccedil;as e dos
+<em>ri&ccedil;ados</em>, lembrava uma das
+cabe&ccedil;as gentis que o seculo
+XVIII beijou com enlevos e que a guilhotina beijou com volupia
+selvagem. <br />
+
+<br />
+
+O p&eacute; estreito e
+<em>cambr&eacute;</em>, que ainda ha
+pouco nos circulos vertiginosos da valsa, fazia pensar n'aquellas
+andorinhas forasteiras, que ro&ccedil;am a terra com o
+v&ocirc;o inquieto e leve, sacode as pris&otilde;es que o
+ligavam
+dolorosamente, e dilata-se &aacute; vontade, com uma furia de
+independencia verdadeiramente demagogica e revolucionaria, na primeira
+chinela que apparece. <br />
+
+<br />
+
+Todo o aspecto physico se transfigura e&#8213;consequencia fatal d'esta
+mesma causa&#8213;o aspecto moral transfigura-se tambem. <br />
+
+<br />
+
+Como a dissimula&ccedil;&atilde;o eterna &eacute;
+impossivel ainda aos mais hypocritas, os defeitos que t&atilde;o
+cuidadosamente se esconderam ao publico, revelam-se ao marido. <br />
+
+<br />
+
+Riamos sem vontade ainda agora!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p189">[189]</a></span>
+Com a fortuna! Desabafemos o nosso mau humor, visto que estamos em
+casa! <br />
+
+<br />
+
+Tinhamos paciencia para aturar com express&atilde;o interessada e
+benevola as sensaborias muito estafadas de um senhor engravatado, de
+luvas c&ocirc;r de canario e bigode retorcido e insolente?... <br />
+
+<br />
+
+Sejamos agora desapiedadas para as historias j&aacute; um pouco
+velhas,
+mas em summa bastante apresentaveis que o nosso marido nos quer contar!
+<br />
+
+<br />
+
+Fingir! sempre fingir!... Impossivel! <br />
+
+<br />
+
+Sejamos verdadeiras, ao menos n'esta occasi&atilde;o, j&aacute;
+que s&oacute; desagradamos &aacute;quelle que tem
+obriga&ccedil;&atilde;o restricta de nos aturar, quer queira,
+quer n&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+Isto, que &aacute; primeira vista parece insignificante, quasi
+frivolo, tem <a href="#e5">um alcance</a> enorme no
+destino de vv. ex.<sup>as</sup>,
+minhas senhoras! <br />
+
+<br />
+
+O marido, ao perceber que de todas as mulheres a mais desagradavel
+&eacute; a sua, tem um momento de profunda tristeza, ao qual
+succedem
+uns poucos de annos de revolta! <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; assim que se destroe a familia, &eacute; assim que se
+torna desflorido e deserto o lar. <br />
+
+<br />
+
+Em compensa&ccedil;&atilde;o enchem-se os sal&otilde;es, os
+<em>clubs</em>, os theatros, os botequins. Resta saber se
+uma das
+cousas p&oacute;de n'uma sociedade honesta e bem constituida
+supprir a outra.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[190]</span>
+Sejam mais garridas em casa, e sejam-no menos f&oacute;ra; aspirem
+&aacute; elegancia desprezando os
+mentirosos artificios; procurem, antes de tudo, agradar &aacute;
+familia e conseguir&atilde;o a pouco e pouco, sem
+esfor&ccedil;o
+premeditado, agradar aos estranhos. <br />
+
+<br />
+
+Uma familia boa, unida e feliz &eacute; como um f&oacute;co de
+calor que attrahe e que irradia luz benefica. <br />
+
+<br />
+
+Ha casas onde se entra e onde nos sentimos como n'um meio sympathico e
+captivante. <br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o sempre as casas em que a mulher possue a intelligencia
+do cora&ccedil;&atilde;o, essa cousa rara e
+preciosa, que suppre a formosura, o talento e todos os attractivos do
+espirito. <br />
+
+<br />
+
+Vestir-se com uma gra&ccedil;a despretenciosa e simples, rodear-se
+de
+cousas bellas, sentir e communicar em torno de si o prazer das
+distrac&ccedil;&otilde;es delicadas,
+ser em casa um perfume vivo, uma harmonia suave que n&atilde;o
+cansa,
+uma luz serena que allumia e que n&atilde;o deslumbra, eis o que
+&eacute; ser mulher na accep&ccedil;&atilde;o
+completa da palavra. <br />
+
+<br />
+
+Toda a mulher tem de ser <em>coquette</em>
+para o marido emquanto para o marido a eterna
+tenta&ccedil;&atilde;o for o
+p&ocirc;mo vedado. <br />
+
+<br />
+
+Em geral s&oacute; se conhecem os dous extremos. <br />
+
+<br />
+
+Ou a matrona envolvida na sua virtude como n'uma coura&ccedil;a,
+temivel, assanhadi&ccedil;a, formidavel, imaginando
+<span class="pagenum">[191]</span>
+merecer
+todas as homenagens do esposo, porque afugenta com medonho aspecto as
+homenagens de todos os outros; ou ent&atilde;o a mulher dos
+sal&otilde;es, a
+fl&ocirc;r exotica das nossas estufas mundanas, Salamandra que vive
+no
+fogo, Ninon de <em>biscuit</em> que
+se compraz nas adora&ccedil;&otilde;es que provoca e que
+inspira, infativel
+actriz que s&oacute; &aacute; luz da
+<em>ribalta</em> sabe desenvolver e
+manifestar todos os seus recursos. <br />
+
+<br />
+
+Entre os dous contrastes &eacute; que fica a verdade. <br />
+
+<br />
+
+Mulheres, desenvolvei no seio da familia as gra&ccedil;as que
+desperdi&ccedil;aes pelas voragens d'este mundo. <br />
+
+<br />
+
+Tende todas as flexibilidades e todas as resistentencias, todas as
+gra&ccedil;as e todas as energias; s&ecirc;de o encanto, sem
+deixardes
+de ser a virtude; e sobretudo perdei de vista o publico, esse brutal
+amante que vos absorve, que vos perde e que nunca vos corresponde.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>CAPITULO XIII </h3>
+
+<h3>Victoria Woodhall</h3>
+
+<br />
+
+<div class="breaks">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<h4>Uma oradora americana </h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Os Estados-Unidos, que s&atilde;o decididamente a patria das
+excentricidades colossaes, o paiz em que o excesso do positivismo, como
+que para justificar o axioma de que <em>os extremos se tocam</em>,
+tem conduzido a intelligencia a uma especie de permanente
+hallucina&ccedil;&atilde;o, os Estados-Unidos estiveram para
+dar
+segundo affirmou a imprensa ingleza, mais uma prova evidente do seu
+amor pelas originalidades ruidosas. <br />
+
+<br />
+
+Dizia-se que a presidencia d'esta republica t&atilde;o poderosa e
+florescente ia ser offerecida a uma mulher, e citava-se o nome d'essa
+mulher, que &eacute; uma das mais fervorosas e apaixonadas
+propagandistas da reforma politica e social, uma das advogadas mais
+eloquentes da emancipa&ccedil;&atilde;o completa do seu sexo.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[194]</span>
+J&aacute; muitas vezes o temos dito, antipathisamos formalmente com
+esta doutrina revolucionaria, da qual n&atilde;o esperamos
+sen&atilde;o
+funestos resultados, por isso
+nenhum la&ccedil;o de sympathia p&oacute;de prender-nos
+&aacute;
+famosa Victoria Woodhall, de que se occupam com verdadeiro enthusiasmo
+alguns dos jornaes importantes da Inglaterra e da America do Norte. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o deixaremos, por&eacute;m, de estudar com
+atten&ccedil;&atilde;o os poucos dados que conhecemos do seu
+caracter e
+da sua intelligencia, porque, embora como mulher&#8213;n&atilde;o
+concordemos com as suas theorias,&#8213;como artista&#8213;n&atilde;o podemos
+deixar de reconhecer que ella &eacute; um producto perfeito do seu
+meio. <br />
+
+<br />
+
+Victoria Woodhall &eacute; mo&ccedil;a, tem uma formosa
+presen&ccedil;a, <em>sabe vestir-se</em>, o que
+j&aacute;
+&eacute; deveras para notar-se n'uma advogada convicta dos <em>direitos
+politicos da
+mulher</em>,
+e se aprecia os triumphos que a sua palavra um pouco emphatica costuma
+arrancar aos numerosos ouvintes que a escutam, nem por isso desdenha os
+cuidados minuciosos da elegancia mundana. <br />
+
+<br />
+
+Teem-na visto pr&eacute;gar sobre um texto biblico, que ella
+modernisa
+segundo as conveniencias da sua these, trajando elegantemente um
+vestido de velludo preto, e com uma rosa purpurea aninhada nas
+lustrosas tran&ccedil;as escuras do seu cabello garridamente
+penteado. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; casada, visto que lhe chamam Mistres Woodhall,
+<span class="pagenum">[195]</span>
+mas nos sal&otilde;es onde tem
+preleccionado apparece sempre s&oacute; sobre uma elevada
+plataf&oacute;rma, de onde pr&eacute;ga &aacute;s turbas. <br />
+
+<br />
+
+O marido, se existe, &eacute; um simples comparsa, ninguem o nota e
+ninguem se occupa em fallar d'elle. Entre parenthesis: n&atilde;o
+ha
+posi&ccedil;&atilde;o mais
+deploravel que a do marido de uma mulher <em>celebre</em>,
+quer dizer de uma mulher que falla em publico, que apparece, que
+declama, que tem os ruidosos triumphos da actriz, da cantora, da
+agitadora politica, e agora os mais modernos da preleccionista social. <br />
+
+<br />
+
+Nunca pudemos deixar de sentir muito d&oacute; do Bar&atilde;o
+Stael, de <em>monsieur</em>
+Rolland, do
+marido de Henriqueta Beecher Stowe, e de tantos outros
+for&ccedil;ados
+e obscuros satelites d'esse astro brilhante e phenomenal que
+&eacute; a
+mulher acclamada pelo indiscreto applauso das multid&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+Agora o marido de Mr. Victoria Woodhall, se acaso vive, o que
+n&atilde;o podemos de modo algum affirmar, n&atilde;o tendo
+nunca
+ouvido citar o seu nome, parece-nos uma victima igualmente lamentavel
+do mesmo negro fado. <br />
+
+<br />
+
+Victoria tem dado conferencias, extraordinariamente
+concorridas, em
+Nova-York, em Londres, em Liverpool e em outros centros industriaes da
+Inglaterra e da America.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[196]</span>
+Tem a voz insinuante e harmoniosa, a gesticula&ccedil;&atilde;o
+arrebatada e artistica, a palavra facil, fluente, emphatica, mas
+t&atilde;o quente e apaixonada que exerce sempre uma
+impress&atilde;o
+profunda nos que a escutam. <br />
+
+<br />
+
+Como j&aacute; dissemos n&atilde;o tem os terriveis oculos
+azues, nem o rosto anguloso e severo de Mrs. Beecher Stowe, uma mulher
+que fez no seu paiz uma revolu&ccedil;&atilde;o
+humanitaria, e que destruiu aos nossos olhos todo o effeito sympathico
+da sua cruzada contra a escravatura com aquellas conferencias pedantes
+pelas quaes concluiu a sua carreira litteraria. <br />
+
+<br />
+
+A mulher oradora precisa de ser formosa, sob pena de ser
+ultra-ridicula. Parece-nos, por&eacute;m, que do ridiculo simples,
+sem
+circumstancias aggravantes, n&atilde;o a salva nem mesmo a
+formosura. <br />
+
+<br />
+
+Victoria Woodhall no seu paiz pr&eacute;ga em favor da santidade do
+matrimonio, da reforma da educa&ccedil;&atilde;o,
+de todos os graves e momentosos assumptos de que hoje depende a
+regenera&ccedil;&atilde;o politica e moral das
+sociedades. <br />
+
+<br />
+
+F&oacute;ra do seu paiz, por&eacute;m, n&atilde;o
+v&atilde;o t&atilde;o longe ainda as suas
+aspira&ccedil;&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+O que ella por emquanto reclama &eacute; a igualdade e nivelamento
+absoluto de deveres e direitos entre a mulher e o homem. <br />
+
+<br />
+
+Adoptamos com todo o cora&ccedil;&atilde;o n&atilde;o os
+meios, mas o fim d'essa propaganda t&atilde;o necessaria; mas
+n&atilde;o podemos
+<span class="pagenum">[197]</span>
+concordar de modo algum com o complemento que a feminil oradora
+proclama indispensavel. <br />
+
+<br />
+
+Achamol-o contraproducente, illogico, funesto &aacute;s
+institui&ccedil;&otilde;es abaladas, que se pretendem
+salvaguardar. <br />
+
+<br />
+
+Queremos o casamento grave, austero e santo, querermos a
+crean&ccedil;a
+educada com solicitude extremosa, queremos a mulher respeitada e
+querida, consciencia de bronze e cora&ccedil;&atilde;o de
+c&ecirc;ra,
+queremos
+na arte um ideal severo e levantado, queremos na sociedade a
+incorruptivel e serena justi&ccedil;a, queremos o homem regenerado
+e
+forte, e &eacute; porque desejamos tudo isso, que pedimos a Deus
+afaste
+para bem longe de n&oacute;s o terrivel flagello da mulher
+dominando o
+seu proprio destino e o destino da sociedade. <br />
+
+<br />
+
+N'um discurso de Victoria Woodhall, pronunciado em Nova-York e
+applaudido enthusiasticamente por um auditorio de 40:000 pessoas
+leem-se os trechos seguintes: <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Fallando do casamento, &eacute; escusado dizer que
+falamos n'esse casamento ideal que toda a maldade dos homens
+n&atilde;o p&oacute;de destruir; n'esse casamento, de
+cujos membros poder&aacute; dizer-se com verdade: <em>Foram
+unidos por Deus, e o poder do homem, n&atilde;o lograr&aacute;
+desunil-os</em>;
+n'esse casamento, de cujas alegrias j&aacute;mais
+querer&atilde;o apartar-se os que um dia as conhecerem; n'esse
+casamento que &eacute; t&atilde;o sagrado, t&atilde;o puro,
+t&atilde;o santo, que
+<span class="pagenum">[198]</span>
+nem a sombra de uma discuss&atilde;o p&oacute;de existir entre,
+os dous factores que o determinam; fallamos n'esse casamento em que os
+dous representantes oppostos da humanidade&#8213;o elemento positivo e o
+negativo das ra&ccedil;as&#8213;se tornam pela
+ac&ccedil;&atilde;o e pelo
+pensamento n'um unico ser, e t&atilde;o perfeito, que os mesmos
+motores
+o movam e o fa&ccedil;am pensar e obrar; em resumo, n'esse
+casamento do
+qual nem a sombra d'um elemento estranho possa alterar a pureza, a
+unidade, a ideal
+perfei&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&laquo;O casamento &eacute; geralmente considerado como um
+assumpto por demais frivolo ou pueril. <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Aceitam-no ou quebram-lhe os la&ccedil;os com a mesma
+pressa e a
+mesma id&eacute;a das responsabilidades que elle imp&otilde;e,
+como se
+o considerassem uma
+institui&ccedil;&atilde;o especialmente designada para
+satisfazer as
+egoisticas paix&otilde;es da humanidade.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Sim, concordamos plenamente com este levantado ideal do casamento que a
+formosa preleccionista apresenta e proclama, mas affirmamos que elle
+nunca poder&aacute; realisar-se se triumpharem universalmente as
+doutrinas que ella t&atilde;o ardentemente advoga. <br />
+
+<br />
+
+A prova evidente d'esta nova asser&ccedil;&atilde;o
+&eacute; ella quem se encarrega de nol-a fornecer. <br />
+
+<br />
+
+A mulher, como n&oacute;s a sonhamos e a queremos, n&atilde;o
+&eacute;
+a forasteira acclamada e illustre que anda espalhando
+<span class="pagenum">[199]</span>
+por sobre a cabe&ccedil;a das turbas indifferentes ou
+passageiramente
+commovidas, as suas convic&ccedil;&otilde;es
+e as suas theorias sociaes. <br />
+
+<br />
+
+Recolhida no seu modesto e placido interior, m&atilde;e de um bando
+infantil, mimoso e louro, de que ella fosse a providencia, o amparo, a
+suprema alegria, esposa de um homem forte e honesto, de um trabalhador,
+de um membro activo e laborioso da moderna sociedade, a
+ac&ccedil;&atilde;o d'esta mulher seria muito mais restricta,
+mas incontestavelmente mais util e mais salutar. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o daria uma hora de commo&ccedil;&atilde;o
+dramatica ao auditorio que viesse ouvil-a, curioso de excentricidades
+novas; n&atilde;o julgariam possivel a sua
+elei&ccedil;&atilde;o como presidente de uma republica
+poderosa; mas as
+pessoas que vivessem em mais ou menos estreito contacto com ella
+receberiam a influencia honesta do seu exemplo, e os filhos que ella
+educasse seriam outros tantos elementos fecundos da futura
+regenera&ccedil;&atilde;o social. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o &eacute; pr&eacute;gando o respeito ao casamento
+que se convencem os homens, &eacute; provando esse respeito nas
+minimas ac&ccedil;&otilde;es e nas ac&ccedil;&otilde;es
+mais decisivas de uma existencia. <br />
+
+<br />
+
+Mrs. Victoria Woodhall tem arrebatamentos soberbos de eloquencia
+oratoria, fulminando a decadencia em que o sentimento da familia tem
+modernamente cahido, mas como quer ella provar-nos que comprehende
+<span class="pagenum">[200]</span>
+essa absoluta identifica&ccedil;&atilde;o de duas almas,
+essa absorp&ccedil;&atilde;o de um espirito em outro espirito
+seu
+irm&atilde;o, ella que affirma t&atilde;o rasgadamente a sua
+individualidade, ella que apparece em plena luz deixando na sombra
+aquelle de que n&atilde;o p&oacute;de ser sen&atilde;o a
+metade incompleta, a por&ccedil;&atilde;o imperfeita e
+mutilada. <br />
+
+<br />
+
+Anda n'uma gloriosa faina a converter as suas irm&atilde;s que
+prevaricam ou descreem, ou ignoram. <br />
+
+<br />
+
+Mas se o exemplo da gloriosa propagandista as tentar e seduzir? <br />
+
+<br />
+
+Onde fica o lar modesto, o aceio do ninho, o terno amor dos filhos
+pequeninos, as obscuras virtudes domesticas, toda a gra&ccedil;a,
+toda
+a poesia, todo o conchego, todo o encanto mysterioso e indestructivel
+d'essa ineffavel uni&atilde;o chamada o casamento?
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o nos surprende, por&eacute;m, este producto
+extraordinario de uma sociedade agitadissima e ainda para si propria
+indefinida e indefinivel. <br />
+
+<br />
+
+A America tem-se feito a si mesmo, n&atilde;o procura para as suas
+leis e para os seus costumes uma solida base tradicional. <br />
+
+<br />
+
+N'ella que &eacute; t&atilde;o forte como
+na&ccedil;&atilde;o, t&atilde;o pertinaz nos intentos,
+t&atilde;o energica nas ac&ccedil;&otilde;es,
+n'ella que &eacute; uma prova terminante de como em dous seculos se
+f&oacute;rma
+<span class="pagenum">[201]</span>
+uma ra&ccedil;a,
+unica e cheia de virginal vigor, ha cousas que est&atilde;o ainda
+perfeitamente vagas e fluctuantes. <br />
+
+<br />
+
+O destino das mulheres &eacute; uma d'essas cousas. <br />
+
+<br />
+
+Politicamente possuem os mais amplos direitos, podem ser tudo, aspirar
+a tudo, todas as carreiras est&atilde;o abertas diante dos seus
+passos;
+socialmente &eacute; quasi um dogma o respeito que inspiram. <br />
+
+<br />
+
+Ninguem ousa insultal-as nem com uma palavra, nem com uma suspeita,
+gosam de uma liberdade absoluta, andam s&oacute;s, viajam
+desprotegidas
+ou antes protegidas pela sua fraqueza omnipotente, nos caminhos de
+ferro, nos omnibus, nos paquetes; sentam-se s&oacute;sinhas
+&aacute;
+meza redonda de um
+<em>hotel</em>, fazem emfim impunemente, apoiadas pela
+despotica soberania dos costumes, tudo que a n&oacute;s,
+europ&eacute;as de facto ou de
+tradi&ccedil;&atilde;o, se affigura quasi monstruoso de
+inconveniencia. <br />
+
+<br />
+
+E no entanto, apesar d'este reinado apparente, apesar d'este predominio
+ostensivo, &eacute; bem mais profunda a invisivel influencia que as
+mulheres do velho mundo exercem em torno de si, n&atilde;o sobre as
+leis, o que seria pouco, mas sobre os costumes, o que &eacute;
+quasi
+tudo. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; que somos as rainhas do lar; de nosso bom ou mau juizo
+depende
+a paz ou a guerra, a ventura ou a desgra&ccedil;a, a prosperidade
+ou a
+ruina, a d&ocirc;ce mediania tranquilla ou a agitada e tempestuosa
+existencia mundana.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[202]</span>
+N&atilde;o parecemos nada e somos tudo! <br />
+
+<br />
+
+Os que mais nos desdenham n&atilde;o escapam ao nosso poder.
+Submettem-se-lhe inconscientemente. Os que luctam contra n&oacute;s
+teem de confessar-se vencidos. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o somos medicas, n&atilde;o somos advogadas,
+n&atilde;o somos professoras, n&atilde;o somos preleccionistas
+officiosas de qualquer theoria, mais ou menos arriscada; mas somos a
+influencia continua e permanente, a voz surda que sempre se escuta, a
+tenta&ccedil;&atilde;o funesta ou a
+guia providencial, o grande poder obscuro, a que se n&atilde;o
+furta o
+filho, o irm&atilde;o, o marido, o proprio pae! <br />
+
+<br />
+
+Que importa que n&atilde;o possamos exercer a nossa
+ac&ccedil;&atilde;o dentro da esphera restricta e limitada das
+leis, se os costumes ahi est&atilde;o, para que n&oacute;s os
+cri&ecirc;mos, os modifiquemos, os transformemos, para que
+n&oacute;s lhes d&ecirc;mos o nosso collectivo impulso enorme! <br />
+
+<br />
+
+Na America, visto que a mulher tem a faculdade de luctar com o homem no
+campo da actividade pratica, &eacute;-lhe restringido fatalmente o
+seu
+poder na esphera em que ella p&oacute;de e deve ser rainha. <br />
+
+<br />
+
+O casamento na America protestante, dizem os viajantes que teem
+observado os costumes d'essa ra&ccedil;a estranha e vigorosa,
+&eacute;
+um contracto temporario que se baseia no calculo, e que o mais leve
+atricto p&oacute;de destruir. <br />
+
+<br />
+
+O divorcio &eacute; alli um facto vulgarissimo, ha mulheres
+<span class="pagenum">[203]</span>
+divorciadas de tres maridos que
+contrahem muito serenamente um quarto matrimonio t&atilde;o sagrado
+e
+t&atilde;o respeitavel como os tres primeiros. <br />
+
+<br />
+
+Os filhos resentem-se inevitavelmente d'este estado transitorio em que
+permanece a familia. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o teem respeito nem disciplina, e &eacute; mais do que
+provavel que n&atilde;o tenham amor. <br />
+
+<br />
+
+Em pequenos teem de sujeitar-se &aacute;s regras estabelecidas,
+logo
+por&eacute;m que sahem da infancia representam por si proprios,
+encetam
+a grande lucta da vida. <br />
+
+<br />
+
+A independencia pessoal, o individualismo britannico, accentua-se alli
+d'uma f&oacute;rma muito mais saliente. <br />
+
+<br />
+
+<em>Cada um por si</em>, eis a lei que rege o
+verdadeiro <em>Yankee</em>, lei que herdou de seus
+av&oacute;s anglo-saxonios e que exagerou, accommodando-a
+&aacute;s despoticas exigencias do seu meio. <br />
+
+<br />
+
+Assim como a sociedade politica, assenta no principio da mais ampla e
+rasgada descentralisa&ccedil;&atilde;o, assim a sociedade moral
+&eacute; dominada por um principio exagerado de independencia, que
+afrouxa necessariamente os la&ccedil;os da familia. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se faz id&eacute;a entre n&oacute;s do que
+&eacute; um interior nos Estados-Unidos. <br />
+
+<br />
+
+Nas classes burguezas e medianamente favorecidas dos bens de fortuna,
+vive-se por assim dizer em commum
+<span class="pagenum">[204]</span>
+n'uma especie de hospedaria, em que
+se reune uma duzia ou mais de familias. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute;s horas da refei&ccedil;&atilde;o agglomera-se em
+torno da meza aquella multid&atilde;o de indifferentes que mal se
+conhecem; comem &aacute; pressa absortos em
+preoccupa&ccedil;&otilde;es de ordens diversas que ainda mais
+os separam e os distanceiam. <br />
+
+<br />
+
+A comida feita sem amor, sem solicitude, sem o cuidado que inspiram
+&aacute; boa m&atilde;e e &aacute; boa
+esposa as predilec&ccedil;&otilde;es dos filhos e do marido, a
+hygiene
+da familia, a economia do lar, n&atilde;o tem para nenhum dos
+commensaes nem alegria nem sabor. <br />
+
+<br />
+
+Comem como quem cumpre uma obriga&ccedil;&atilde;o
+indispensavel e enfadonha, e d'alli partem para a faina, para o
+trabalho sem treguas, para a lucta acerba e pertinaz. <br />
+
+<br />
+
+Nem um momento de repouso ou de tranquillo devaneio. <br />
+
+<br />
+
+A vida &eacute; o trabalho; o tempo &eacute; mais do que
+dinheiro, &eacute; sangue. <br />
+
+<br />
+
+A existencia dos americanos &eacute; uma existencia de operario,
+tressuada, esmagadora. <br />
+
+<br />
+
+Todos querem conquistar a sua por&ccedil;&atilde;o legitima de
+abundancia ou mais ainda, de riqueza. <br />
+
+<br />
+
+Para que? <br />
+
+<br />
+
+Para terem bem firme a consciencia de que a mereceram.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[205]</span>
+Ha uma pressa febril, uma impaciencia vertiginosa, uma ancia de todos
+os instantes n'esta ra&ccedil;a de impetuosos luctadores. <br />
+
+<br />
+
+As qualidades e os defeitos britannicos attingem al&eacute;m do
+Atlantico um relevo exagerado. <br />
+
+<br />
+
+N'esta vida cortada de obstaculos e difficuldades, n'esta vida em que a
+energia do homem, o seu vigor physico e moral, a dura tenacidade do seu
+querer, se exercitam e robustecem na mais desenvolvida escala, que
+lugar p&oacute;de haver para a poesia, para a arte, para as
+tranquillas
+do&ccedil;uras da vida domestica, para os prazeres de uma culta
+sociabilidade? <br />
+
+<br />
+
+Ha tempo apenas para admirar as extravagancias imprevistas, as cousas
+novas e excentricas que firam a atten&ccedil;&atilde;o, que se
+imponham
+rapida e subitamente ao
+pasmo das turbas. <br />
+
+<br />
+
+Deriva do modo inteiramente caracteristico porque os americanos
+entendem a vida, o lugar que n'ella d&atilde;o &aacute; mulher.
+Isolada
+por um esteril respeito, despojada de todo o predominio que entre
+n&oacute;s lhe concedem os costumes, e a
+tradi&ccedil;&atilde;o
+religiosa e social, a
+mulher para tentar adquirir a consciencia da sua
+for&ccedil;a,
+tem
+fatalmente de ir procural-a na arena em que luctam os homens. <br />
+
+<br />
+
+Isto em vez de os converter, mais os liberta d'aquelle poder occulto e
+latente, d'aquella doce e invisivel influencia
+<span class="pagenum">[206]</span>
+que partindo d'alto lhes
+suavisaria a indole, os costumes e os gostos. <br />
+
+<br />
+
+Victoria Woodhall &eacute; o fructo genuino d'esta sociedade
+incompleta
+n'uns pontos e n'outros inteiramente transviada do verdadeiro caminho,
+do caminho que conduz &aacute; felicidade e ao equilibrio de todas
+as
+faculdades humanas. <br />
+
+<br />
+
+S&oacute; na America do Norte &eacute; que esta valente
+pr&eacute;gadora das reformas sociaes podia ter nascido,
+s&oacute; a
+America &eacute; que podia entendel-a e applaudil-a com
+t&atilde;o
+sincero enthusiasmo! <br />
+
+<br />
+
+Se &aacute;manh&atilde; uma das nossas mulheres
+come&ccedil;asse a percorrer as grandes cidades da Europa
+meridional,
+pr&eacute;gando a transforma&ccedil;&atilde;o dos costumes,
+os direitos politicos do sexo feminino, a reforma das
+institui&ccedil;&otilde;es, a sua pr&eacute;dica, por mais
+eloquente
+que fosse, seria abafada em uma tempestade homerica de risos! <br />
+
+<br />
+
+Aqui muito &aacute; puridade, eu n&atilde;o sei se somos
+n&oacute;s, que temos raz&atilde;o!<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 350px; height: 216px;" alt="Criados e Amos" title="Criados e Amos" src="images/fig02.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>CAPITULO XIV </h3>
+
+<h3>I </h3>
+
+<br />
+
+<div class="breaks">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Fallemos dos nossos criados. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; um assumpto este de importancia summa. <br />
+
+<br />
+
+Tem rela&ccedil;&otilde;es estreitas com a
+administra&ccedil;&atilde;o da casa, com o seu aceio, arranjo,
+conforto
+e bom governo; com a moralidade que n'ella existe, com a figura que
+ella representa em rela&ccedil;&atilde;o &aacute;s outras
+casas. <br />
+
+<br />
+
+Parece uma quest&atilde;o ridicula e comesinha; tem sido estragada
+por
+todas as matronas de mau humor que desafogam n'ella a superabundancia
+da sua bilis; &eacute; o assumpto obrigado das
+conversa&ccedil;&otilde;es das
+m&atilde;es burguezas, em quanto nas pequenas
+<em>soir&eacute;es</em> dos quartos
+andares <em>as meninas</em> estafam um
+desgra&ccedil;ado piano asthmatico, os <em>litteratos</em>
+da familia recitam versos a <em>Ella</em>,
+<span class="pagenum">[210]</span>
+e tres commendadores gordos e
+vermelhos disputam acalorada e ferozmente a uma banca de voltarete. <br />
+
+<br />
+
+Ninguem todavia ainda encarou esta quest&atilde;o debaixo do seu
+verdadeiro aspecto. <br />
+
+<br />
+
+Declama-se contra a decadencia e desmoralisa&ccedil;&atilde;o
+dos
+criados de hoje, mas ninguem pensou que esta decadencia, que esta
+desmoralisa&ccedil;&atilde;o, prov&eacute;m
+for&ccedil;osamente de alguma causa que &eacute; necessario
+conhecer e
+destruir. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute; primeira vista, observando na familia, esse elemento que
+se
+tem tornado t&atilde;o indispensavel quanto perigoso, nota-se o
+seguinte: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que os criados de hoje n&atilde;o se podem comparar aos criados
+antigos, nem na fidelidade, nem na lealdade, nem no desinteresse, nem
+na moralidade. <br />
+
+<br />
+
+J&aacute; se v&ecirc; que esta regra tem
+excep&ccedil;&otilde;es numerosas, de que n&atilde;o
+tractaremos, mas que reconhecemos e admittimos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que dia a dia se nota n'esta classe um desapego mais profundo pelas
+familias a quem serve, e em cujo seio penetra. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que elles s&atilde;o sempre ou quasi sempre os auxiliares da
+trai&ccedil;&atilde;o, do vicio, da desobediencia, e que
+portanto &eacute; profundamente corruptora a influencia que exercem
+na
+familia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que o seu interesse consiste em especularem com
+<span class="pagenum">[211]</span>
+as fraquezas ou as maldades d'aquelles
+de quem dependem, e que vivem e medram na immoralidade dos seus
+superiores. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que pelo seu comportamento se revelam inimigos natos de todos que
+est&atilde;o acima d'elles, e que presentindo a vantagem que lhes
+p&oacute;de provir do rebaixamento dos entes de quem receiam a
+severidade ou que s&atilde;o for&ccedil;ados, muito contra sua
+vontade,
+a
+respeitar, o fim que elles teem, e que procuram por todos os modos
+attingir, &eacute; o seguinte: penetrar vagarosa e
+cautelosamente na confian&ccedil;a dos amos, extorquir-lhes os seus
+segredos, e divulgal-os por s&ecirc;de instinctiva de
+vingan&ccedil;a,
+ou exploral-os, por desejo immoderado de ganho. <br />
+
+<br />
+
+Posto isto, provado est&aacute; que os criados s&atilde;o os
+nossos <em>inimigos necessarios</em>, e que
+&eacute; preciso que para com elles a nossa attitude seja por em
+quanto inteiramente defensiva. <br />
+
+<br />
+
+E dizemos <em>por em quanto</em>, por uma
+raz&atilde;o muito simples. <br />
+
+<br />
+
+Porque entendemos que, quando n'uma classe inteira se manifestam
+symptomas de corrup&ccedil;&atilde;o e de
+gangrena, a culpa vem por for&ccedil;a de longe, e <em>de
+cima</em>,
+e que devemos applicar-nos com todas as nossas for&ccedil;as e
+todos os nossos desejos, a modificar essa culpa, e a redimil-a por fim.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[212]</span>
+A que p&oacute;de attribuir-se o contraste notavel que se reconhece
+entre os criados <em>antigos</em> e
+os criados de hoje? <br />
+
+<br />
+
+A muitas causas independentes da nossa vontade, e sobretudo da vontade
+d'elles; as causas que teem o seu <em>qu&ecirc;</em>
+de politicas, e
+seu <em>qu&ecirc;</em> de economicas, o
+seu <em>qu&ecirc;</em> de sociaes, o seu
+<em>qu&ecirc;</em> de philosophicas. <br />
+
+<br />
+
+Vejam em quantas quest&otilde;es nebulosas e importantes entesta
+esta humilde quest&atilde;o de criados. <br />
+
+<br />
+
+Transforma&ccedil;&atilde;o completa do viver social e do viver
+domestico. <br />
+
+<br />
+
+D'antes a familia era fundada n'um principio de muito menos
+justi&ccedil;a, mas n'uma base de muita mais solidez. <br />
+
+<br />
+
+Havia o <em>chefe</em> que acolhia
+&aacute; sua vasta sombra, os irm&atilde;os, os parentes
+pobres, os
+filhos, os servos que eram tambem uma tradi&ccedil;&atilde;o e
+tambem
+uma
+heran&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+Quando o chefe morria succedia o filho ou o irm&atilde;o mais
+velho,
+que herdava os irm&atilde;os, os tios, os parentes pobres, os
+servos,
+todos os haveres, e tambem todas os encargos da numerosa communidade. <br />
+
+<br />
+
+Os criados entravam ao collo de sua m&atilde;e que vinha ser aia,
+ou
+varredora, ou engommadeira, ou outra cousa qualquer e sahiam de 60 ou
+80 annos no caix&atilde;o para o cemiterio, deixando na familia
+nova
+gera&ccedil;&atilde;o de servos que eram seus filhos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[213]</span>
+D'este modo havia estabilidade nos seus empregos. S&oacute; eram
+demittidos por <em>erro de
+officio</em>. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o receiavam o dia de &aacute;manh&atilde;,
+n&atilde;o sentiam a esmagadora indifferen&ccedil;a dos
+superiores a
+revelar-lhes que na familia eram p&aacute;rias, eram estranhos,
+eram
+inimigos. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o precisavam de se apossar de um segredo, de
+amea&ccedil;ar
+tacitamente com uma denuncia, de lisongear vilmente um vicio ou mesmo
+uma mania, para darem solidez e garantia de
+dura&ccedil;&atilde;o
+&aacute; sua
+posi&ccedil;&atilde;o dependente e precaria! <br />
+
+<br />
+
+Em quanto que na vasta sala de jantar, de tectos apainelados, e
+custosos pannos de Arras, em torno da pesada meza de carvalho,
+primorosamente entalhada, se reunia alegre a numerosa familia, em que
+umas poucas de gera&ccedil;&otilde;es se enla&ccedil;avam,
+na
+cosinha do palacio, ao lume crepitante das fornalhas enormes, reunia-se
+tambem a familia ainda mais numerosa dos antigos servos. <br />
+
+<br />
+
+Eram paes, m&atilde;es, filhos, &aacute;s vezes netos. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o estavam privados de todas as
+condi&ccedil;&otilde;es humanas, tinham as suas festas intimas,
+as suas alegrias, os seus affectos. <br />
+
+<br />
+
+O seu maior empenho consistia em que a familia de que dependiam,
+florescesse e prosperasse; a sorte d'elles e dos seus, estava por assim
+dizer, identificada com a sorte dos amos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[214]</span>
+Affei&ccedil;oavam-se &aacute;quellas paredes, ou
+&aacute;quelles moveis, &aacute; senhora que era branda e
+protectora
+para elles, &aacute;s crean&ccedil;as que tinham ajudado a
+crear, e que
+um
+dia viriam a conceder-lhes a mesma protec&ccedil;&atilde;o que
+hoje
+recebiam dos paes. <br />
+
+<br />
+
+Eram maus, interesseiros, crueis &aacute;s vezes! Embora!
+&Eacute; porque eram homens, e n&atilde;o porque eram servos. <br />
+
+<br />
+
+Tinham as qualidades boas ou m&aacute;s da humanidade e
+n&atilde;o as de uma determinada classe. <br />
+
+<br />
+
+D'aqui a sua superioridade sobre os criados de hoje.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+No regimen moderno, a familia tem outra
+constitui&ccedil;&atilde;o e outros costumes. <br />
+
+<br />
+
+As fortunas extremamente divididas j&aacute; n&atilde;o
+consentem esse modo de viver opulento e patriarchal. <br />
+
+<br />
+
+Os mesmos ricos, que s&atilde;o no fim de contas os grandes
+financeiros
+modernos, esses que juntaram a fortuna de que gosam &aacute; custa
+de
+priva&ccedil;&otilde;es e de trabalho, s&atilde;o egoistas
+para todos,
+e particularmente duros para os inferiores. <br />
+
+<br />
+
+Na sua opini&atilde;o os criados s&atilde;o machinas. Umas
+machinas que vestem casaca, e usam gravata branca. <br />
+
+<br />
+
+Exigem d'elles um servi&ccedil;o irreprehensivel, uma obediencia
+passiva, uma disciplina exemplar.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[215]</span>
+De resto odeiam-nos porque lhes teem um certo m&ecirc;do. <br />
+
+<br />
+
+Comprehendem perfeitamente que s&atilde;o rediculos, elles que
+andaram
+tanto tempo de tamancos, a varrer os armazens, a levarem
+empurr&otilde;es e maus tractos dos caixeiros grandes da casa, a
+curvarem-se humildemente diante dos <em>patr&otilde;es</em>,
+dando-se agora aquelles ares superiores e desdenhosos de potentados. <br />
+
+<br />
+
+Emquanto comem em pratos de Sevres ou do Jap&atilde;o, uns manjares
+exquisitos que o cosinheiro, o seu cosinheiro de dez ou doze libras por
+mez, lhes impinge trai&ccedil;oeiramente, sentem-se acanhados
+diante do
+olhar frio, do olhar metallico dos criados de meza, e imaginam que
+elles no mudo escarneo d'esse olhar, lhes dizem que est&atilde;o
+percebendo o seu desastramento, os seus gestos grosseiros, e
+at&eacute;
+a saudade com que recordam a assorda e o bacalhau salgado dos bons dias
+da mocidade. <br />
+
+<br />
+
+D'esta hostilidade mutua nada bom p&oacute;de resultar. <br />
+
+<br />
+
+Os amos s&atilde;o orgulhosos, cheios de desdem, de
+indiferen&ccedil;a, de duro egoismo; os criados s&atilde;o
+hypocritamente humildes, s&atilde;o invejosos, e malevolamente
+escarnecedores. <br />
+
+<br />
+
+S&oacute; um la&ccedil;o p&oacute;de ligar estes
+s&ecirc;res; a cumplicidade.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[216]</span>
+De cima n&atilde;o haver&aacute; brandura em quanto de baixo
+n&atilde;o houver subserviencia criminosa. <br />
+
+<br />
+
+Ambos o comprehendem de sobejo; comprehendem-no sobretudo os criados
+que andam &aacute; mira d'um segredo, d'uma
+indiscri&ccedil;&atilde;o,
+d'uma descoberta
+qualquer que os fa&ccedil;a levantar a cabe&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+No dia em que a aia recebe a primeira confidencia da senhora, no dia em
+que entrega o primeiro bilhete, no dia em que lhe &eacute; escutado
+o
+primeiro recado de que a encarregam, invertem-se os papeis, e
+s&oacute;
+continua apparentemente aquella humildade que a suffocava de colera e
+de despeito. <br />
+
+<br />
+
+Era escrava obediente e muda, hoje &eacute; cumplice, o que quer
+dizer tyranna. <br />
+
+<br />
+
+Ao marido em caso identico succede o mesmo. <br />
+
+<br />
+
+Moralidade d'esta situa&ccedil;&atilde;o: o criado de hoje
+triumpha quando seus amos se rebaixam.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Entremos nas casas burguezas, que constituem hoje a maioria. <br />
+
+<br />
+
+Vive-se com pouco, ha uma ou duas criadas, a pobreza traz comsigo uma
+certa promiscuidade que abala o respeito. <br />
+
+<br />
+
+J&aacute; aqui os criados n&atilde;o s&atilde;o automatos
+que se movem ao impulso d'uma vontade superior.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[217]</span>
+N&atilde;o s&atilde;o mudos, n&atilde;o teem a fria
+apparencia aristocratica que revela a opulencia da casa em que servem. <br />
+
+<br />
+
+Pelo contrario; as criadas est&atilde;o iniciadas nos pequenos
+segredos
+da familia, mas como a vida de hoje, toda de expedientes, toda no ar,
+desiquilibrada, impostora, n&atilde;o tem aquella dignidade da vida
+antiga, as criadas com o seu malicioso instincto plebeu penetram esse
+viver, julgam-no e escarnecem-o. <br />
+
+<br />
+
+Podia-se viver decentemente com o pouco que ha. Chega mesmo para uma
+alimenta&ccedil;&atilde;o sadia, para a
+satisfa&ccedil;&atilde;o das necessidades indispensaveis; se a
+dona da
+casa desenvolver os seus recursos de economia, conseguir-se-hia sem
+muito trabalho, no fim do anno, <em>joindre les deux bouts</em>
+como expressivamente dizem os francezes. <br />
+
+<br />
+
+O pae &eacute; um funccionario bem collocado, o rendimento se
+n&atilde;o &eacute; grande pelo menos &eacute;
+sufficiente para uma vida mediocre e laboriosa. <br />
+
+<br />
+
+Diante d'este quadro parece-nos que n&atilde;o ha brecha por onde
+possa penetrar a malicia interesseira da criadagem. <br />
+
+<br />
+
+Pois ha, minhas senhoras! <br />
+
+<br />
+
+O dono da casa tem um emprego bom, &eacute; verdade, mas aspira a
+subir
+de posto, quer de mais a mais a carta de conselho, leva isto <em>em
+capricho</em> por causa das
+<span class="pagenum">[218]</span>
+<em>picuinhas</em> do seu collega da
+secretaria, o conselheiro Fulano; logo, para attingir este fim desejado
+&eacute; preciso antes de tudo <em>figurar</em>. <br />
+
+<br />
+
+Tem de ir aos <em>ch&aacute;s</em> do seu
+amigo deputado, &aacute;s
+<em>soir&eacute;es</em> do bar&atilde;o de tal <em>que
+&eacute; muito
+influente</em>, tem de dar de jantar de vez em quando ao seu
+amigo
+<em>cicrano</em> que &eacute; parente do primo da
+mulher do secretario
+particular do ministro, tem de gastar muito em apparato ridiculo, em
+luxo avariado, em pompa feita de remendinhos. <br />
+
+<br />
+
+A mulher, j&aacute; se entende, n&atilde;o lhe fica atraz! <br />
+
+<br />
+
+Pod&eacute;ra! <br />
+
+<br />
+
+E ella ent&atilde;o que tem de se vingar d'uns chascos que as
+snr.<sup>as</sup>
+Silvas fizeram ha tres annos a um vestido de seda um tanto usado que
+ella trazia; e que tem de fazer rebentar de inveja a <em>D.
+Leocadia</em> que &eacute; mulher d'um commendador seu
+conhecido; e de <em>quebrar os olhos</em> &aacute;
+prima Ausenda que anda a dizer
+pelas casas do seu conhecimento &laquo;que n&atilde;o sabe onde
+ella vae buscar para tanto luxo!&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Filhas d'estes paes o que ser&atilde;o as meninas? <br />
+
+<br />
+
+Querem vestidos de seda, embora os comprem em <em>segunda
+m&atilde;o</em>,
+querem joias
+embora sejam falsas, querem botinas de tac&atilde;o alto, porque as
+teem visto &aacute;s pequenas da viscondessa de M. e da baroneza de
+S. e da marqueza de V.; querem apparecer no theatro,
+<span class="pagenum">[219]</span>
+querem ir ao <em>Club</em>, querem tomar
+banhos quando n&atilde;o seja em praia elegante, ao menos na
+Ericeira; querem <em>reunir &aacute; noute</em> uma
+vez
+por semana, umas visitas que nunca v&atilde;o, querem fazer emfim o
+que por ahi faz <em>toda a gente</em>. <br />
+
+<br />
+
+Resultado d'isto, resultado inevitavel. <br />
+
+<br />
+
+Deve-se na tenda, deve-se no carvoeiro, deve-se na modista, deve-se no
+sapateiro, deve-se na loja de fazendas, deve-se &aacute;s criadas. <br />
+
+<br />
+
+A falta de seriedade na vida, acarreta comsigo um milhar de pequeninas
+humilha&ccedil;&otilde;es insupportaveis. <br />
+
+<br />
+
+As criadas v&atilde;o &aacute; porta receber os credores, e
+trazem dentro os recados com um sorriso magan&atilde;o que escapa a
+todas as reprehens&otilde;es e a todos os castigos. <br />
+
+<br />
+
+Se est&atilde;o de mau humor resmungam, fazem causa commum com o <em>inimigo</em>,
+que
+&eacute; no fim de contas o <em>confrade</em>; se
+est&atilde;o bem
+dispostas d&atilde;o alvitres, inventam e lembram desculpas,
+lamentam a
+<em>senhora</em>, etc., etc. <br />
+
+<br />
+
+De qualquer dos modos amesquinham os amos, estabelece-se entre elles e
+ellas uma intimidade funesta. <br />
+
+<br />
+
+Destroe-se assim o respeito, disciplina, a obediencia, aquella
+hierarchia que tem de existir n'uma familia para que essa familia
+esteja bem organisada. <br />
+
+<br />
+
+Um dia, as <em>meninas</em>, que teem recebido a
+educa&ccedil;&atilde;o
+<span class="pagenum">[220]</span>
+mais perniciosa e mais falsa, fartam-se
+d'aquella vida de priva&ccedil;&otilde;es intimas, de balofas
+apparencias
+e querem fugir d'ella. <br />
+
+<br />
+
+Teem s&oacute; uma porta: o casamento. <br />
+
+<br />
+
+Nas familias pobres da burguezia, o casamento &eacute; julgado a
+porta por onde se sahe da miseria! <br />
+
+<br />
+
+Quantas vezes n&atilde;o &eacute; elle a porta por onde se
+entra na desgra&ccedil;a! <br />
+
+<br />
+
+Come&ccedil;am ent&atilde;o a namorar. <br />
+
+<br />
+
+A namorar seja quem f&ocirc;r. O alferes que passa, o <em>dandy</em>
+pelintra que encontram nos
+seus passeios, o <em>litterato</em> pallido e fatal que
+olhou
+para ellas da plateia. <br />
+
+<br />
+
+Quem &eacute; a confidente natural d'este
+<em>namoro</em>, a auxiliar for&ccedil;ada d'esta
+intriga ridicula? <br />
+
+<br />
+
+A criada! <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; ella quem espia a m&atilde;e, e quem ajuda a
+enganal-a; &eacute; ella quem entrega e recebe as cartas,
+&eacute; ella quem se <em>farta de rir</em> com a
+menina,
+ouvindo contar o que ella lhe disse, e o que elle lhe tornou! <br />
+
+<br />
+
+Quantos perigos, quantas humilha&ccedil;&otilde;es, quantas
+vergonhas n'este facto que &eacute; hoje trivial e repetidissimo! <br />
+
+<br />
+
+A criada s&oacute; tem a ganhar na execu&ccedil;&atilde;o
+d'estes misteres. <br />
+
+<br />
+
+Ganha indulgencia para as suas proprias faltas,
+<span class="pagenum">[221]</span>
+uma advogada que ou por medo ou por
+sympathia defende a sua causa, e at&eacute; se tanto f&ocirc;r
+preciso
+se revolta
+por amor d'ella contra a authoridade maternal. Ganha quem a ajude no
+trabalho! <br />
+
+<br />
+
+Ganha a possibilidade de ser insolente e atrevida, de se vingar da sua
+posi&ccedil;&atilde;o inferior, de
+desafogar o mau genio, e isto sem perigo de qualidade alguma.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Quando se n&atilde;o d&atilde;o estes casos que ahi deixamos
+apontados d&atilde;o-se outros identicos ou outros similhantes. <br />
+
+<br />
+
+Da parte dos superiores indifferen&ccedil;a profunda, desejo de
+explorar de todos os modos e feitios os dependentes, rudeza, orgulho,
+egoismo, desapego. <br />
+
+<br />
+
+Da parte dos inferiores, a mesma indifferen&ccedil;a creada a pouco
+e
+pouco pela incerteza &aacute;cerca do dia de
+&aacute;manh&atilde;;
+desaffei&ccedil;&atilde;o
+pronunciada, despeito, inveja, e desejo de trabalhar o menos possivel,
+em troca do maior salario que poderem alcan&ccedil;ar,
+separa&ccedil;&atilde;o de vida, de interesses, de alegrias, de
+affectos. <br />
+
+<br />
+
+Se entra em casa a doen&ccedil;a com todo o seu cortejo de lugubres
+tristezas, de vigilias e de lagrimas, nunca a criada saber&aacute;
+ser
+enfermeira. Far&aacute; o
+servi&ccedil;o, resmungando, furiosa, desattenta, fazendo esperar
+um caldo para ir &aacute; janella <em>ver quem
+passa</em>; deixando apagar
+<span class="pagenum">[222]</span>
+o lume de
+noite porque adormecer&aacute; inteiramente esquecida dos que
+soffrem e
+velam. <br />
+
+<br />
+
+E que lhe importa a ella no fim de contas que elles morram ou se
+salvem. <br />
+
+<br />
+
+Hoje est&aacute; aqui, &aacute;manh&atilde;
+estar&aacute; n'outra parte! <br />
+
+<br />
+
+Se adoecer vem uma maca e leva-a para o hospital abandonada,
+s&oacute;sinha como um c&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o d&aacute; porque n&atilde;o recebe. <br />
+
+<br />
+
+Entre os criados e os amos os interesses s&atilde;o absolutamente
+oppostos. <br />
+
+<br />
+
+A unica circumstancia que p&oacute;de alterar esta
+situa&ccedil;&atilde;o reciproca: a cumplicidade. <br />
+
+<br />
+
+Que admira, pois, que todos os dias se observe maior e mais profunda
+immoralidade nos criados das grandes cidades? que admira que as
+excep&ccedil;&otilde;es se
+v&atilde;o tornando dia a dia mais raras? <br />
+
+<br />
+
+A culpa &eacute; de uns e d'outros, mas o mal tem ainda remedio. <br />
+
+<br />
+
+Procuremos apontal-o. <br />
+
+<br />
+
+No que respeita aos amos cumpre: <br />
+
+<br />
+
+Que sejamos benevolos para que a humildade dos nossos inferiores nunca
+seja para elles uma
+humilha&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Que tenhamos no interior das nossas casas a maxima dignidade e o maximo
+respeito de n&oacute;s mesmos e dos outros, para que o nosso
+exemplo
+levante ainda os que est&atilde;o mais baixo.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[223]</span>
+Que vivamos de modo que nunca receiemos o escarneo, ou a censura de
+alguem, para que sobre n&oacute;s nunca possam exercer-se
+influencias
+funestas. <br />
+
+<br />
+
+Que n&atilde;o exploremos a actividade dos pobres, para que os
+pobres
+n&atilde;o tenham interesse em explorar as nossas fraquezas, e
+j&aacute; que &eacute; indispensavel
+crear-se e educar-se a classe dos criados, juntemos todos os recursos
+da nossa experiencia e do nosso bom senso, para dar prompto e efficaz
+remedio a todos os males que s&atilde;o por assim dizer o
+privilegio
+especial d'essa classe. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>II </h3>
+
+<br />
+
+No capitulo anterior, tractando d'esta quest&atilde;o,
+tent&aacute;mos apresentar as causas que determinam e aggravam a
+decadencia e desmoralisa&ccedil;&atilde;o dos criados
+modernos. <br />
+
+<br />
+
+Essas causas teem um resultado fatal que vem a ser o seguinte: <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; t&atilde;o precaria, t&atilde;o falta de
+garantias, t&atilde;o exposta a continuas
+altera&ccedil;&otilde;es a sorte dos criados, que
+para ella s&oacute; descem os que n'outra esphera n&atilde;o
+poderiam achar colloca&ccedil;&atilde;o que lhes d&ecirc; a
+subsistencia. <br />
+
+<br />
+
+Os bons, que por acaso ou por circumstancias fortuitas
+<span class="pagenum">[224]</span>
+acceitam este modo de vida,
+s&atilde;o ainda mais desgra&ccedil;ados do que os maus, porque
+s&atilde;o mais explorados. <br />
+
+<br />
+
+Portanto ou fogem d'elle, ou se corrompem fatalmente. <br />
+
+<br />
+
+Estamos, pois, em face d'este dilemma. <br />
+
+<br />
+
+Ou havemos de n&atilde;o ter criados, ou havemos de os ter maus. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; verdade que fomos n&oacute;s que voluntaria ou
+involuntariamente os corrompemos e estrag&aacute;mos. <br />
+
+<br />
+
+Concedo. <br />
+
+<br />
+
+Agora, por&eacute;m, n&atilde;o se tracta d'isso. <br />
+
+<br />
+
+Achamos o resultado das nossas proprias culpas e procuramos os meios de
+o modificar. <br />
+
+<br />
+
+Primeira necessidade imprescindivel: &eacute; preciso educarmos os
+nossos futuros criados. <br />
+
+<br />
+
+Mas como? <br />
+
+<br />
+
+Creando para isso institui&ccedil;&otilde;es especiaes, ou
+modificando a indole das que j&aacute; existem. <br />
+
+<br />
+
+Tractemos antes de tudo das mulheres. <br />
+
+<br />
+
+Est&atilde;o por todo o reino espalhadas, e ainda bem que assim
+&eacute;, as institui&ccedil;&otilde;es de
+caridade, tanto de iniciativa dos particulares, como de iniciativa do
+Estado. <br />
+
+<br />
+
+O que &eacute; que n'esses asylos se aprende, salvo
+excep&ccedil;&otilde;es possiveis, mas que n&atilde;o
+chegaram ainda ao nosso conhecimento?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[225]</span>
+Aprende-se em primeiro lugar o que hoje &eacute; indispensavel para
+toda e qualquer situa&ccedil;&atilde;o, por mais humilde que
+seja;
+aprende-se a ler, escrever, contar, coser e marcar. <br />
+
+<br />
+
+Aprende-se em segundo lugar a bordar de branco, a bordar de missanga, a
+bordar com cabello, a fazer crochet, a tocar org&atilde;o ou
+<em>harmonium</em>; ha alguns onde se aprende grammatica,
+historia, geographia, etc., etc. <br />
+
+<br />
+
+Muito bem. <br />
+
+<br />
+
+Em cada cem raparigas, admittimos que haja dez, cuja intelligencia
+superior possa mais tarde aproveitar-se d'este genero de estudos. <br />
+
+<br />
+
+Ser&atilde;o mestras regias, ser&atilde;o talvez caixeiras de
+alguma pequena loja, ser&atilde;o mesmo professoras particulares se
+houverem progredido no estudo e adquirido uma
+institui&ccedil;&atilde;o
+mais solida e mais proficua. <br />
+
+<br />
+
+Que fazemos das outras noventa? <br />
+
+<br />
+
+Imaginemos que cincoenta casaram muito mo&ccedil;as. <br />
+
+<br />
+
+Acham um artista, um carpinteiro, um chapeleiro, um entalhador, um
+pedreiro, um operario de fabrica, que as rouba &aacute; desamparada
+solid&atilde;o que estava &aacute; espera d'ellas e que as leva
+para o
+seu pobre albergue desguarnecido e miseravel. <br />
+
+<br />
+
+Dos conhecimentos que adquiriram na educa&ccedil;&atilde;o dada
+pelo asylo quaes aproveitar&atilde;o, quaes
+applicar&atilde;o &aacute; sua felicidade, ao seu bem estar
+domestico?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[226]</span>
+Com que trabalho poder&atilde;o auxiliar o trabalho do marido,
+insufficiente para acudir a todas as necessidades do <em>m&eacute;nage</em>?
+<br />
+
+<br />
+
+Que officio aprenderam a exercer? <br />
+
+<br />
+
+D&atilde;o as voltas de casa, varrem, limpam o p&oacute;,
+cosinham, mas fazem tudo isto mal. <br />
+
+<br />
+
+Nunca ninguem as compenetrou bem da importancia altissima
+d'estes misteres t&atilde;o humildes. <br />
+
+<br />
+
+Ter a roupa do marido bem desencardida, bem engommada, com os seus
+remendos bem deitados, ter a casa acciada e fresca, ter uma comida
+pobre mas saborosa e bem temperada, ter a alegria, a
+abnega&ccedil;&atilde;o, a boa vontade, e, em muitas das horas
+que
+ficam vagas, exercer qualquer pequena industria que ajude o marido,
+banir de casa a tagarellice das visinhas, viver s&oacute; com o seu
+homem, com os seus filhos, no trabalho continuo, no trabalho fecundo,
+isso que &eacute; de certo o ideal, quem &eacute; que lh'o
+ensinou a
+praticar? <br />
+
+<br />
+
+Deixemos, por&eacute;m, essas cujo destino agora n&atilde;o
+precisamos de apreciar e voltemos para as que ficam. <br />
+
+<br />
+
+Sahem do asylo, v&atilde;o umas servir, outras v&atilde;o ser
+costureiras, vendedeiras, etc., etc. <br />
+
+<br />
+
+Umas s&atilde;o as pobres creaturas roucas e aguardentadas que ahi
+vemos atravessar as ruas, apregoando hortali&ccedil;as, ou fructa,
+outras as pallidas e anemicas
+<span class="pagenum">[227]</span>
+crean&ccedil;as, de <em>cuia</em>
+posti&ccedil;a, chapeu de aba revirada, polonaise phenomenal, bota
+de
+tac&atilde;o alto e cambada, que encontramos &aacute; noutinha
+ou de
+manh&atilde; cedo, indo
+para casa das modistas, ou voltando de l&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+As outras quem as n&atilde;o conhece, ao menos por ter ouvido
+fallar d'ellas? <br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o as criadas de hoje, ou ser&atilde;o as criadas de
+&aacute;manh&atilde;. <br />
+
+<br />
+
+A educa&ccedil;&atilde;o que lhes deram est&aacute; em
+contraposi&ccedil;&atilde;o perfeita com a tarefa que teem de
+cumprir. <br />
+
+<br />
+
+Uma que foi apresentada para cosinheira, n&atilde;o tem as minimas
+no&ccedil;&otilde;es culinarias, mas em
+compensa&ccedil;&atilde;o l&ecirc; correctamente os jornaes
+que veem de manh&atilde;. <br />
+
+<br />
+
+Outra, cuja obriga&ccedil;&atilde;o &eacute; engommar,
+n&atilde;o tem geito sen&atilde;o para bordar de matiz. <br />
+
+<br />
+
+Algumas, menos favorecidas da intelligencia, n&atilde;o sabem o que
+aprenderam, nem aprenderam aquillo que fazem. <br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o as mais vulgares!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Porque &eacute; pois que se n&atilde;o d&aacute;
+&aacute;s raparigas do povo, ao menos &aacute;s que
+s&atilde;o educadas nos asylos de
+beneficencia, uma educa&ccedil;&atilde;o em harmonia com o seu
+futuro papel? <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o reprovamos de certo a leitura, a ortographia,
+<span class="pagenum">[228]</span>
+uns elementos de arithmetica, mas o que
+reprovamos &eacute; que haja uma uniformidade absoluta na
+educa&ccedil;&atilde;o que se ministra a tantas e tantas
+crean&ccedil;as de indoles diversas, de intelligencias
+diversissimas. <br />
+
+<br />
+
+Aquellas que tivessem disposi&ccedil;&otilde;es para um genero
+de
+trabalhos mais levantados, deviam encontral-o n'uma casa especialmente
+destinada para as filhas do povo que at&eacute; aos 12 annos
+tivessem
+dado
+manifesta&ccedil;&otilde;es inequivocas de claro e perspicaz
+entendimento. <br />
+
+<br />
+
+Ali formar-se-hiam futuras professoras, ou futuras artistas. <br />
+
+<br />
+
+Haveria n'esse estabelecimento mestras ou mestres que a cada uma
+conforme a sua voca&ccedil;&atilde;o ensinassem
+as linguas, a musica, a pintura em porcellana, a grammatica, a
+geographia, a contabilidade, etc., etc. <br />
+
+<br />
+
+A essa casa, que devia ser subsidiada pelo governo e auxiliada pela
+bolsa particular, iriam as m&atilde;es de familia procurar <em>professoras
+portuguezas</em> para as suas filhas, professoras cuja
+educa&ccedil;&atilde;o fosse completa,
+e cuja moralidade podesse ser affian&ccedil;ada. <br />
+
+<br />
+
+Mais tarde os chefes de casas de commercio, mais capazes de
+comprehenderem o grande alcance d'esta innova&ccedil;&atilde;o,
+iriam
+tambem buscar a essa casa
+raparigas honestas, que elles podessem sentar &aacute; mesa ao lado
+de
+suas filhas, e a quem confiassem a contabilidade e os livros do seu
+estabelecimento.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[229]</span>
+Os fabricantes de lou&ccedil;as e outros industriaes achariam na
+intelligencia e na prompta comprehens&atilde;o feminina grande
+auxilio,
+e auxilio mais economico. <br />
+
+<br />
+
+Abaixo logo d'essa cathegoria mais elevada de intelligencia, haveria,
+n'outra casa, as que tivessem especial tendencia para os trabalhos que
+requerem n&atilde;o s&oacute; engenho, mas tambem habilidade
+manual. <br />
+
+<br />
+
+Costureiras de vestidos, modistas de chapeus, raparigas que soubessem
+fazer rendas, fazer franjas, etc., etc., e que o asylo logo que lhes
+houvesse completado a aprendizagem, podia empregar convenientemente. <br />
+
+<br />
+
+Seriam estas, preferidas de certo a raparigas avulsas que entram para
+qualquer officio completamente ignorantes do trabalho que teem a fazer.
+<br />
+
+<br />
+
+A disciplina escolar, a instruc&ccedil;&atilde;o elementar
+recebida, a aprendizagem methodica, affirmava-lhes a sua superioridade
+enorme sobre as outras.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Collocadas assim as mais destras e as mais intelligentes, ficariam
+aquellas cujo espirito menos desenvolvido se recusava a uma
+applica&ccedil;&atilde;o difficil. <br />
+
+<br />
+
+Estas seriam educadas expressamente para criadas de servir. <br />
+
+<br />
+
+Mas que educa&ccedil;&atilde;o precisa uma criada?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[230]</span>
+Ora essa! <br />
+
+<br />
+
+Uma criada precisa uma educa&ccedil;&atilde;o t&atilde;o
+cuidadosa como uma duqueza. <br />
+
+<br />
+
+A differen&ccedil;a consiste unicamente n'isto: <br />
+
+<br />
+
+Uma tem de educar-se para criada, e outra tem de educar-se para
+duqueza. <br />
+
+<br />
+
+No asylo destinado a formar criadas, haveria o mesmo escrupulo na
+escolha das mestras. <br />
+
+<br />
+
+Antes de tudo uma moralidade austera. <br />
+
+<br />
+
+Depois no que toca &aacute; parte technica da
+educa&ccedil;&atilde;o, officinas distinctas onde cada uma das
+discipulas fosse alternativamente aprender os servi&ccedil;os que
+mais
+tarde tivesse a cumprir. <br />
+
+<br />
+
+Officinas onde se aprendesse a cosinhar segundo as regras da hygiene.
+Officinas onde se aprendesse a engommar segundo os processos mais
+adiantados. Outras onde se lavasse roupa de l&atilde;, e roupa de
+linho
+e algod&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Outras onde se talhasse roupa branca, fatos de crean&ccedil;a, e
+fatos de senhora. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se attenderia aqui como no
+<em>atelier</em> das modistas do asylo superior, aos
+caprichos da moda, mas unicamente &aacute; commodidade, ao bom
+gosto e &aacute;
+hygiene. <br />
+
+<br />
+
+Outras ainda onde se cozesse &aacute; machina. <br />
+
+<br />
+
+Haveria mulheres especialmente encarregadas de
+<span class="pagenum">[231]</span>
+ensinarem as discipulas a varrer, a limpar o
+p&oacute;, a esfregar o sobrado, ou a enceral-o &aacute; moda
+franceza,
+a deitar bem <em>r&ecirc;des</em>, a fazer
+meias, a cerzir panno, etc., etc. <br />
+
+<br />
+
+Haveria n'este estabelecimento um requinte de aceio hollandez. <br />
+
+<br />
+
+As mestras escolhidas primeiro nos paizes estrangeiros, e depois
+educadas pelo mesmo asylo, ensinariam com o maior cuidado &aacute;s
+suas discipulas, que as criadas destinadas pelo seu trabalho a
+penetrarem no seio de familias inteiramente estranhas a viverem em
+contacto com gente de muita qualidade eram for&ccedil;adas a ter,
+al&eacute;m da honestidade commum a todas as mulheres honestas, uma
+honestidade particular da sua classe, uma honestidade composta de
+elementos muito variados. <br />
+
+<br />
+
+Dir-lhes-hiam que uma criada boa tem de ser leal, tem de ser digna, de
+resistir &aacute;s m&aacute;s
+tenta&ccedil;&otilde;es, de ser fiel, de ser boa companheira,
+de ser
+laboriosa e de ter o escrupulo mais exagerado no cumprimento das suas
+obriga&ccedil;&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+N'este asylo ainda haveria subdivis&otilde;es necessarias. <br />
+
+<br />
+
+As mais geitosas para um certo e determinado trabalho applicar-se-hiam
+a elle de preferencia, n&atilde;o desprezando por&eacute;m os
+outros. <br />
+
+<br />
+
+Aquella que fosse destra para tudo, aproveitaria
+<span class="pagenum">[232]</span>
+egualmente todos os elementos que houvessem de
+constituir a sua educa&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Ser criada n&atilde;o &eacute;&#8213;entenda-se bem&#8213;nem uma
+vergonha nem um <em>pis aller</em>; ser
+criada &eacute; um officio, &aacute;s vezes mais complicado que
+os outros, porque comprehende muitos. <br />
+
+<br />
+
+A unica differen&ccedil;a &eacute; que se p&oacute;de ser
+uma boa criada n&atilde;o sendo excessivamente intelligente, e que
+as
+qualidades aqui indispensaveis s&atilde;o robustez, destreza de
+m&atilde;os, fidelidade, amor de trabalho.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se diga que isto &eacute; uma utopia impossivel. <br />
+
+<br />
+
+No estado de adiantamento a que chegou entre n&oacute;s o principio
+de associa&ccedil;&atilde;o applicado &aacute;
+beneficencia, nada mais facil do que organisar por este modo os asylos
+do paiz, ou pelo menos de uma cidade do paiz. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o augmentaria de modo algum a despeza, mas progrediria
+necessariamente a educa&ccedil;&atilde;o popular. <br />
+
+<br />
+
+Reunidas debaixo de uma direc&ccedil;&atilde;o geral, todas as
+casas de
+Beneficencia de uma cidade, passaria esta n&atilde;o a crear asylos
+novos, mas a modificar a indole dos que existem. <br />
+
+<br />
+
+Estabelecer-se-hia uma especie de grada&ccedil;&atilde;o
+natural.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[233]</span>
+Em baixo a casa que recebesse sem distinc&ccedil;ao todas as
+crean&ccedil;as de 4 a 10 annos que estivessem no caso de serem
+admittidas. <br />
+
+<br />
+
+Alli, sob a direc&ccedil;&atilde;o de professores
+intelligentes, e de directoras de espirito cultivado, far-se-hia aos 12
+annos de edade a escolha. <br />
+
+<br />
+
+Umas seriam enviadas para o asylo profissional de 1.&ordf; classe,
+outras
+para o asylo profissional de 2.&ordf; classe, a terceira para o
+asylo das
+criadas futuras. <br />
+
+<br />
+
+Aquellas que estivessem mais adiantadas trabalhariam logo, de modo que
+grangeassem um salario por mesquinho que fosse. <br />
+
+<br />
+
+Esse salario entraria como elemento de receita na caixa central. <br />
+
+<br />
+
+Este plano, como se v&ecirc;, n&atilde;o &eacute; mais que
+um plano embryonario, o germen d'uma id&eacute;a que se nos
+affigura util e praticavel. <br />
+
+<br />
+
+Outros melhor do que n&oacute;s o estudem e desenvolvam, se
+entenderem que o merece.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Quanto a n&oacute;s, acreditamos piamente que s&oacute;
+ent&atilde;o come&ccedil;ariamos a ter criadas. <br />
+
+<br />
+
+As que sahissem do asylo com 20 annos de edade ficariam sujeitas a uma
+certa e determinada vigilancia,
+<span class="pagenum">[234]</span>
+cujo systema e cujas bases nos n&atilde;o compete agora explicar. <br />
+
+<br />
+
+Com estas garantias de moralidade, e de bom servi&ccedil;o, seriam
+preferidas a todas que as n&atilde;o tivessem, e pelo menos fariam
+uma
+util concorrencia &aacute;s criadas
+indisciplinadas e ignorantes que hoje temos. <br />
+
+<br />
+
+As casas dignas e honestas teriam criadas cujo comportamento as
+n&atilde;o deslustrasse. <br />
+
+<br />
+
+As outras ficariam com as que teem hoje. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o merecem mais.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Nos asylos dos rapazes, seguir-se-hia uma norma egual ou parecida. <br />
+
+<br />
+
+Esses como teem campo muito mais vasto para exercerem as suas
+actividades complexas, dariam de certo, bem educados e bem dirigidos,
+um pequeno contingente para a classe dos criados. <br />
+
+<br />
+
+Seria um bem. <br />
+
+<br />
+
+Uma criada representa sempre uma necessidade, um criado representa
+sempre um luxo! <br />
+
+<br />
+
+Para que ha de haver criados de meza ociosos e insolentes, cosinheiros
+envenadores e infieis? <br />
+
+<br />
+
+Estes servi&ccedil;os t&atilde;o faceis
+n&atilde;o podem ser feitos por mulheres? <br />
+
+<br />
+
+Logo que este uso se propagasse entre os ricos,
+<span class="pagenum">[235]</span>
+deixaria de ser indicio de pobreza, ou de
+habitos plebeus. <br />
+
+<br />
+
+No fim de contas tudo isto n&atilde;o passa de
+conven&ccedil;&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; que o Estado julga descer occupando-se d'estas <em>pequeninas</em>
+quest&otilde;es de
+moralidade domestica, que a iniciativa individual o substitua. <br />
+
+<br />
+
+Ninguem mais do que n&oacute;s tem applaudido o engrandecimento
+progressivo, o rapido desenvolvimento das
+institui&ccedil;&otilde;es de
+caridade. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o &eacute; o dinheiro que falta, porque entre
+n&oacute;s quando se falla na miseria, a caridade nunca faltou; o
+que falta &eacute; uma direc&ccedil;&atilde;o boa. <br />
+
+<br />
+
+A rotina n'isto como em tudo &eacute; funestissima. <br />
+
+<br />
+
+A nossa caridade official d&aacute; p&atilde;o e vestuario
+&aacute;s crean&ccedil;as, mas que faz em favor das mulheres? <br />
+
+<br />
+
+Dando-lhes uma educa&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o
+est&aacute; em harmonia com os seus meios futuros, condemna-as
+&aacute;
+miseria, &aacute; desgra&ccedil;a, quantas vezes &aacute;
+ociosidade
+e &aacute; ignominia? <br />
+
+<br />
+
+A educa&ccedil;&atilde;o deve fazer-se pratica e positiva, deve
+tornar-se um preventivo efficaz contra os maus conselhos da pobreza ou
+da pregui&ccedil;a! <br />
+
+<br />
+
+Os que pensarem n'isto far&atilde;o um bem &aacute; familia, e
+&aacute;
+sociedade.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 350px; height: 230px;" alt="Crean&ccedil;as" title="Crean&ccedil;as" src="images/fig03.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>CAPITULO XV </h3>
+
+<h3>I </h3>
+
+<br />
+
+<div class="breaks">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o ellas a alegria da familia, como a familia &eacute;
+a suprema ventura dos felizes, e o supremo consolo dos
+desgra&ccedil;ados. <br />
+
+<br />
+
+Quando apparecem trazem comsigo o sol; tudo se illumina. <br />
+
+<br />
+
+Sorriem os labios mais ironicos, marejam-se de lagrimas doces os olhos
+mais aridos, estendem-se prodigas de ben&ccedil;&atilde;es as
+m&atilde;os mais avaras. <br />
+
+<br />
+
+Ellas s&atilde;o a gra&ccedil;a que se ignora, a fraqueza que
+nenhum
+poder assusta, a innocencia que interroga, a aurora intellectual que
+desponta e que diffunde em torno de si uma luz cariciosa e limpida, uma
+luz que se reflecte em jubilos no cora&ccedil;&atilde;o das
+m&atilde;es. <br />
+
+<br />
+
+Tudo na vida &eacute; para ellas mysterio, mysterio que as chama e
+as attrahe, cujas trevas as n&atilde;o apavoram,
+<span class="pagenum">[240]</span>
+em cujos sinistros meandros nem sequer
+receiam perder-se. <br />
+
+<br />
+
+Em cada um d'aquelles pequeninos cerebros encerra-se em germen tudo que
+&eacute; no homem pequenez ou grandeza, genio ou mediocridade,
+for&ccedil;a ou impotencia, virtude,
+abnega&ccedil;&atilde;o,
+esquecimento de si ou
+egoismo, vicio e crime. <br />
+
+<br />
+
+Onde ha maior mysterio do que a crean&ccedil;a? <br />
+
+<br />
+
+Debalde a interrogamos; n&atilde;o sabe responder, sen&atilde;o
+&aacute;quelles que pelo poder da sympathia logram identificar-se
+com ella. <br />
+
+<br />
+
+Recebel-a das m&atilde;os de Deus &eacute; para a mulher, para
+a m&atilde;e a mais tremenda das responsabilidades, e
+desgra&ccedil;adamente aquella de que tem a consciencia menos
+definida e menos clara!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Ser m&atilde;e, quem o n&atilde;o &eacute;? <br />
+
+<br />
+
+A difficuldade e o segredo &eacute; saber sel-o. <br />
+
+<br />
+
+Na sociedade, tal como ella est&aacute; constituida e
+continuar&aacute; a estar por largos e dilatados annos, dous entes,
+um
+homem e uma mulher, mo&ccedil;os ambos, encontram-se, olham-se,
+sorriem-se e pensam de si para comsigo que est&atilde;o
+<em>apaixonados</em>. <br />
+
+<br />
+
+Durante alguns dias, alguns mezes, a que elles em falsa e sentimental
+linguagem chamam <em>seculos</em>, repetem
+<span class="pagenum">[241]</span>
+um ao outro, n'um tom mais ou menos
+desafinado os <em>duettos</em> de ternura doentia que os
+romancistas, os prosadores e os <em>maestros</em>
+inventaram
+para conveniencia sua... dos seus emprezarios e editores, e para
+envenenamento do resto da humanidade. <br />
+
+<br />
+
+N'este meio tempo, por detraz dos bastidores, os paes, que fingem <em>n&atilde;o
+ver
+nada</em>, calculam <em>in
+petto</em> quaes os pr&oacute;s e os contras pecuniarios do
+matrimonio hypothetico. <br />
+
+<br />
+
+Se os primeiros levam certa vantagem aos segundos, celebra-se com a
+devida pompa o almejado consorcio, e n'essa noite ha mais dois
+desconhecidos, dois indifferentes, dois estranhos acorrentados um ao
+outro por um la&ccedil;o que devia ser sagrado, e que muitas vezes
+consegue s&oacute;mente ser... dourado! <br />
+
+<br />
+
+O marido no outro dia vae para as suas labuta&ccedil;&otilde;es
+do costume, para a vida exterior que o reclama e absorve, a mulher fica
+em casa provando os vestidos do enxoval, experimentando se lhe fica bem
+a touca, distinctivo invejavel das noivas, ensaiando os seus primeiros
+v&ocirc;os timidos de senhora independente, que p&oacute;de
+&aacute; sua vontade fechar o piano, atirar f&oacute;ra o lapis
+e as
+tintas,
+deixar para um canto a costura e o bordado, e subverter-se sem receio
+das censuras maternas no <em>dolce
+far niente</em>, que tanto a namorava em seus dias de educanda
+submissa.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[242]</span>
+D'alli a um anno, se &eacute; boa, docil, se tem a
+intui&ccedil;&atilde;o das cousas delicadas, se um poderoso
+instincto
+de creatura amoravel lhe pede que espalhe em volta de si a felicidade,
+concedamos-lhe que j&aacute; tem tido tempo de conhecer e apreciar
+seu
+marido, que principia a estimal-o, que se lembra um poucochinho
+envergonhada dos falsos lyrismos de solteira, das cartas que lhe
+escrevia <em>fazendo estylo</em>
+e copiando phrases
+dos grandes apaixonados que a lenda e o romance immortalisam; que tem,
+emfim, ainda incompleta, mas j&aacute; accentuada a
+no&ccedil;&atilde;o
+da verdade e da justi&ccedil;a que ha
+de guiar-lhe a vida. <br />
+
+<br />
+
+Param, por&eacute;m, aqui os seus conhecimentos, e um dia,
+surpreza,
+encantada, extactica, chorando de alegria, umas lagrimas verdadeiras,
+d'estas que se escoam entre risos de gratid&atilde;o, percebe que
+tem
+nos bra&ccedil;os um pequenino ser, a quem tem direito de chamar
+filho,
+porque o gerou no seio em longos mezes de agonia insondavel. <br />
+
+<br />
+
+Que ha de fazer d'elle? Como ha de desenvolver, robustecer, cultivar a
+saude d'aquelle entezinho, fragil e indefezo, que lhe solta no
+rega&ccedil;o os seus primeiros vagidos, buscando com a boquinha
+faminta e o instincto animal, que Deus concede a todos os seres
+creados, a primeira gotta do leite materno, que &eacute; a sua
+vida?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[243]</span>
+Entram as amigas e dizem-lhe em c&ocirc;ro: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o o cries que perdes a formosura, o vi&ccedil;o, a
+mocidade, tudo o que prende e captiva teu marido. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o o cries, que tens de te despedir dos bailes, das
+noites
+triumphantes em que a valsa nos arrebata nos circulos vertiginosos, em
+que as fl&ocirc;res e as finas essencias nos embriagam com o
+perfume
+enervante, em que a musica nos c&ocirc;a nos sentidos as suas
+caricias
+languidas, em que a luz cr&uacute;a do gaz nos beija as espaduas
+opalinas, em que a admira&ccedil;&atilde;o dos homens nos
+envolve na
+audaz provoca&ccedil;&atilde;o dos seus olhares, em
+que a inveja das mulheres nos enrosca em espiraes de cobra. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o o cries, que ter&aacute;s de perder as noutes,
+n&atilde;o entre alegrias e folgares, mas na alcova, onde a medo
+bruxoleia a luz morti&ccedil;a da lamparina, junto de um pequeno
+ber&ccedil;o, ouvindo aquelle choro da infancia,
+t&atilde;o doloroso para os ouvidos maternaes. <br />
+
+<br />
+
+Teu marido fugir&aacute; de ti; elle, que anda cansado da faina
+diaria,
+quer as noutes tranquillas, os somnos fartos, as placidas madrugadas;
+repugnam-lhe os primeiros trabalhos que a crean&ccedil;a tem que
+dar
+por for&ccedil;a &aacute; m&atilde;e, que f&ocirc;r
+m&atilde;e, na
+accep&ccedil;&atilde;o plena da palavra. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o creio que a maior parte das mulheres ou&ccedil;a os
+funestos
+e corrosivos conselhos das amigas falsas; hoje come&ccedil;a a
+radicar-se em todos os espiritos a convic&ccedil;&atilde;o <span class="pagenum">[244]</span>
+justa e sensata de que s&oacute; a m&atilde;e, quando
+&eacute; robusta, ou quando &eacute; simplesmente
+s&atilde;, deve amamentar o filho. <br />
+
+<br />
+
+Entregal-o aos bra&ccedil;os mercenarios de mulher estranha
+&eacute; aceitar a mais tremenda das responsabilidades. <br />
+
+<br />
+
+A ama p&oacute;de communicar no leite os seus vicios, os seus
+instinctos maus, as suas doen&ccedil;as ou defeitos de
+organisa&ccedil;&atilde;o hereditaria, toda a
+heran&ccedil;a fatal de um passado inteiramente desconhecido para
+as
+pessoas que t&atilde;o levianamente lhe confiam o que devia ser o
+mais
+precioso thesouro da sua alma. <br />
+
+<br />
+
+Abstraiamos, pois, a ama, por n&atilde;o querermos supp&ocirc;r
+que se trata aqui de uma m&atilde;e frivola at&eacute; ao
+crime, despiedosa at&eacute; &aacute; ferocidade, ou fraca a
+ponto de n&atilde;o poder cumprir os deveres da sua
+miss&atilde;o
+maternal. <br />
+
+<br />
+
+Fica-nos simplesmente a m&atilde;e inexperiente e ignorante em face
+da
+recem-nascida creatura, fl&ocirc;r que precisa o mais desvelado
+cultivo, a mais complexa das educa&ccedil;&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o a accusemos ao vel-a aceitar o seu mimoso fardo com
+t&atilde;o leviana confian&ccedil;a, com uma
+t&atilde;o plena inconsciencia da grande miss&atilde;o que
+precisa de cumprir. <br />
+
+<br />
+
+A culpa n&atilde;o &eacute; d'ella; n'este ponto ha um
+criminoso apenas&#8213;&eacute; o homem.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[245]</span>
+Abrem-se universidades, lyceus, escolas, seminarios, institutos
+scientificos, para educarem no seu seio os jurisconsultos, os medicos,
+os sacerdotes, os mathematicos, os commerciantes, os sabios, os
+cidad&atilde;os do futuro. <br />
+
+<br />
+
+S&oacute; falta uma escola, a primeira, a mais indispensavel das
+escolas, a que facilitaria e tornaria fructiferos os trabalhos das
+outras: falta a <em>escola das
+m&atilde;es</em>! <br />
+
+<br />
+
+Ninguem se lembrou ainda de a crear, julgam-na desnecessaria, ou talvez
+que a julguem frivola. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como &eacute; que se ha de ensinar a ser m&atilde;e?
+&eacute; s&oacute; a natureza que instrue a mulher. Ha
+m&atilde;es de
+quinze annos que sabem mais n'este assumpto do que velhos pensadores de
+sessenta. Deixae obrar a natureza, &eacute; ella a grande mestra, a
+suprema inspiradora! <br />
+
+<br />
+
+De accordo, meus senhores; quem &eacute; que nunca se lembrou de
+negar
+&aacute; m&atilde;e o seu divino instincto de
+protec&ccedil;&atilde;o e de ternura? Quem ao vel-a segurar com
+t&atilde;o delicado carinho o tenro corpo do filho, acalental-o nos
+bra&ccedil;os, adivinhar-lhe as necessidades e os desejos
+at&eacute; para elle indistinctos, negar&aacute; que entre
+esses dous
+entes ha uma cadeia mysteriosa, que a natureza nunca poder&aacute;
+mais
+desatar? <br />
+
+<br />
+
+Mas &eacute; necessario que o estudo auxilie o maravilhoso
+instincto,
+que elle ensine &aacute; m&atilde;e a comprehender no seu
+triplice aspecto, physico, moral e intellectual,
+<span class="pagenum">[246]</span>
+a educa&ccedil;&atilde;o do ser complexo, que hoje &eacute;
+uma fraqueza que implora auxilio e ajuda, que
+&aacute;manh&atilde;
+ser&aacute; uma for&ccedil;a util ou funesta, conforme a
+direc&ccedil;&atilde;o que haja recebido desde os mais tenros
+annos.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<em>O estudo que comprehende todos os outros estudos, e que deve,
+portanto, constituir o ponto culminante da
+instruc&ccedil;&atilde;o,
+&eacute; a theoria e a pratica da
+educa&ccedil;&atilde;o da infancia.</em> <br />
+
+<br />
+
+Estas palavras de Herbert Spencer, o philosopho mais notavel da moderna
+Inglaterra, um grande pensador, um chefe de escola, provam de sobejo
+at&eacute; que ponto, aos olhos do homem que medita, avulta hoje o
+grande problema da educa&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; um erro imaginar que a crean&ccedil;a nasce boa. <br />
+
+<br />
+
+Ha n'ella instinctos innatos de natureza selvagem, instinctos
+primitivos, que s&oacute; uma habil cultura modifica, transforma,
+encaminha ou desarreiga. <br />
+
+<br />
+
+Toda a crean&ccedil;a &eacute; curiosa: m&atilde;es
+aproveitae essa grande for&ccedil;a, que conduz o homem
+&aacute; conquista de
+todas as grandes descobertas da sciencia e da arte, e que
+p&oacute;de quando entregue a si conduzir a crean&ccedil;a
+ao mais deploravel e mesquinho dos vicios de caracter, &aacute;
+curiosidade esteril do ocioso, da <em>senhora
+visinha</em>.
+A crean&ccedil;a tem o instincto do roubo. Apossa-se do que
+<span class="pagenum">[247]</span>
+v&ecirc;, do que attrahe pelo brilho, do
+que lhe desafia a cubi&ccedil;a, a gulodice, o amor da posse. <br />
+
+<br />
+
+Leitora, quando o teu pequenino de tres ou quatro annos tiver artes de
+te roubar uma joia muito querida, um manjar muito reservado, um
+<em>bibelot</em> qualquer, que seja para ti de grande
+estima&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o
+chores desconsolada, lendo n'esse primeiro symptoma sinistras
+prophecias. Esse prenuncio de ambi&ccedil;&atilde;o desregrada
+p&oacute;de, dirigido com previdente vigilancia, transformar-se na
+legitima energia que leva o homem a desejar a posse das riquezas
+honestamente adquiridas, a exercer no seu espirito uma influencia
+fortificante, a tornal-o pertinaz no caminhar para um ficto que de
+longe antevio. <br />
+
+<br />
+
+Dirigir toda e qualquer tendencia para um fim elevado e util, combater
+a inercia, a pregui&ccedil;a physica e intellectual da
+crean&ccedil;a,
+empregando activos reagentes, ir ajudando lenta e gradualmente a
+evolu&ccedil;&atilde;o
+natural do entendimento infantil, abrir-lhe o espirito a todas as
+curiosidades s&atilde;s, apontar para a natureza inteira como para
+um
+livro enorme, mysterioso, cheio de apaixonado interesse, de peripecias
+dramaticas, de imagens vistosas, que elle ha de ir decorando a pouco e
+pouco, conduzil-o at&eacute; ao limiar da adolescencia, puro de
+cora&ccedil;&atilde;o, immaculado no corpo, prompto e apto para
+absorver em si os conhecimentos complexos que o esperam, robusto,
+s&atilde;o, energico, confiante, cheio de cren&ccedil;a
+<span class="pagenum">[248]</span>
+nos outros, e de
+cren&ccedil;a maior em si, eis a miss&atilde;o
+das m&atilde;es. Que de cousas n&atilde;o s&atilde;o
+indispensaveis para a saber cumprir!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Uma das cousas que a mulher quasi geralmente ignora
+&eacute; a
+hygiene pratica, que ella tanto precisava saber, tendo, como tem, a seu
+cargo a
+distribui&ccedil;&atilde;o e direc&ccedil;&atilde;o do
+alimento da
+familia. <br />
+
+<br />
+
+Do alimento que se ministra &aacute; crean&ccedil;a depende em
+grande parte n&atilde;o s&oacute; a sua futura saude, mas, o
+que poucas mulheres sabem,&#8213;o seu caracter futuro! <br />
+
+<br />
+
+Dae a uma crean&ccedil;a alimentos irritantes, inflammaveis,
+apimentados; deixae-a usar sem discernimento de bebidas em que o alcool
+predomine, e tereis o temperamento adulterado, o caracter azedo, os
+habitos baixos, os gostos perversos, todas as
+aberra&ccedil;&otilde;es
+de um organismo estragado. <br />
+
+<br />
+
+Dae-lhe s&oacute; carne, alimentae-a brutalmente de materias
+fortemente
+azotadas, e fareis d'ella, da meiga e fragil creatura, do pequeno anjo
+de cabellos louros e olhos innocentes, um temperamento sanguinario,
+selvagem, amigo das luctas bravias, das
+distrac&ccedil;&otilde;es
+violentas, dos exercicios athleticos, que caracterisam as rigorosas
+ra&ccedil;as do norte. <br />
+
+<br />
+
+Exemplo: os inglezes, que s&oacute; domam as revoltas
+<span class="pagenum">[249]</span>
+brutaes do temperamento com a forte
+disciplina de uma educa&ccedil;&atilde;o que &eacute; o
+supremo
+milagre do espirito sobre a materia. <br />
+
+<br />
+
+A alimenta&ccedil;&atilde;o fraca produz os organismos inertes,
+fleugmaticos, sem impulso, sem fibra, sem energia duravel. <br />
+
+<br />
+
+Saber pois, conhecer os diversos attributos que caracterisam a
+alimenta&ccedil;&atilde;o do homem, saber
+combinal-os de modo que todos concorram para o seu bem-estar physico, e
+que nenhum produza as graves
+perturba&ccedil;&otilde;es organicas de que podem ser origem,
+&eacute;
+a sciencia das m&atilde;es, sciencia para cujo estudo devem tender
+todos os seus esfor&ccedil;os.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A actividade quasi incessante da crean&ccedil;a &eacute; um dos
+meios
+que mais efficazmente concorrem para o seu crescimento physico e, por
+consequencia, para o seu desenvolvimento intellectual. <br />
+
+<br />
+
+As m&atilde;es, julgando fazer n'isto um grande servi&ccedil;o
+a seus
+filhos, combatem por todos os modos esta actividade, obrigando as
+crean&ccedil;as a uma quieta&ccedil;&atilde;o
+que se transforma em supplicio para os pequeninos corpos
+buli&ccedil;osos, que um impulso involuntario leva a um quasi
+continuo movimento.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p250">[250]</a></span>
+N&atilde;o &eacute; s&oacute; com as
+reprehens&otilde;es, &aacute;s vezes asperas e sempre injustas,
+n&atilde;o &eacute; s&oacute; encerrando
+os pobres seres pequeninos em espa&ccedil;o muito estreito para os
+seus
+desejos, &eacute; tambem vestindo-os para obedecer ao despotismo da
+moda, e &aacute;s exigencias da propria vaidade de um modo que
+est&aacute; em pleno contraste com a id&eacute;a
+que todo o espirito um pouco sensato deve formar das
+aspira&ccedil;&otilde;es e necessidades da infancia! <br />
+
+<br />
+
+A crean&ccedil;a, que quer e que precisa de correr no
+espa&ccedil;o
+amplo, pelas ruas pedregosas, pelos campos lavrados, pela matta cheia
+de raizes, traz quasi sempre uma botina alta, justa, de salto levantado
+e estreito! Ella, que aspira aos movimentos livres, que se compraz nos
+<a href="#e6">grandes gestos</a>, que trepa
+&aacute;s arvores, que se roja pelo
+ch&atilde;o, que atira ao longe os improvisados projectis que
+encontra,
+sente-se cruelmente cingida por um fato rico, elegante, phantasioso,
+caro por for&ccedil;a, e que tem o defeito duplo e contradictorio
+de a
+entristecer lentamente, inconscientemente pelas censuras e ralhos de
+que lhe &eacute; motivo incessante&#8213;visto que
+n&atilde;o ha nada mais avarento do que a prodigalidade e nada mais
+economico do que a ostenta&ccedil;&atilde;o&#8213;e de a tornar
+vaidosa pelo habito e pelo gosto de attrahir as vistas dos frivolos, e
+a inveja dos pobres, dos pequenos rotos, dos miseraveis de cinco annos,
+que ignoram as alegrias bemditas da sua liberdade indomada!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[251]</span>
+M&atilde;es, arrancae ao vestuario dos vossos filhos tudo que
+f&ocirc;r vaidade, falso luxo, ostenta&ccedil;&atilde;o
+ridicula! <br />
+
+<br />
+
+A gra&ccedil;a das crean&ccedil;as consiste na plena
+expans&atilde;o da sua vitalidade; o luxo d'ellas est&aacute;
+no doce
+aroma de infancia que de si exhalam, e que falla de aceio, de pureza,
+de carinho materno, que revela&#8213;aos que sabem ver&#8213;as matinaes e
+frescas alegrias do banho, as risadas crystallinas como perolas que se
+desfiam, os gritinhos infantis, as fugidas subitas, todo esse poema,
+que ninguem traduz, de um bando de pequeninos corpos, feitos de leite e
+rosas, com cabelleiras louras por aureola, que uns bra&ccedil;os
+amorosos amparam, susteem, acariciam, em quanto que um sorriso meigo e
+pensativo illumina em clar&otilde;es de limpidez ideal, uma bocca
+que
+s&oacute; sabe aben&ccedil;oar, uns olhos
+de m&atilde;e, que nunca desamparam nem desfitam o tepido ninho das
+suas doces aves implumes. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>II </h3>
+
+<br />
+
+Por muito tempo todas as atten&ccedil;&otilde;es do homem se
+fixaram
+n'um ponto que se avistava para al&eacute;m da vida terrestre.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[252]</span>
+Curava-se s&oacute;mente da alma considerando a terra morada
+transitoria, cheia de males e de miserias, e o corpo ephemero
+involucro, especie de lodoso carcere onde o espirito prisioneiro
+anciava por levantar o v&ocirc;o para as altas espheras da eterna
+bemaventuran&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+Este pensamento, que dominava todos os outros e ao qual todos os outros
+se subordinavam, &eacute; a causa suprema de onde deriva toda a
+philosophia da edade m&eacute;dia, e que determina o ideal a que
+tenderam os sonhos de milhares de gera&ccedil;&otilde;es,
+nossas
+predecessoras na vida. <br />
+
+<br />
+
+Foi elle que estabeleceu o medonho antagonismo entre o espirito e a
+materia, causa de tantos erros e de t&atilde;o falsas
+interpreta&ccedil;&otilde;es; foi elle
+que levou o homem perdido e transviado a considerar a natureza como a
+sua mais cruel inimiga, como a sua
+tenta&ccedil;&atilde;o mais perigosa e abominavel. <br />
+
+<br />
+
+D'esta guerra anti-humana e anti-natural nenhuma conquista verdadeira
+poderia provir. <br />
+
+<br />
+
+Era falso o ponto de vista de que o homem partia, falsissimas todas as
+deduc&ccedil;&otilde;es que d'esse ponto de vista resultavam. <br />
+
+<br />
+
+O corpo era um farrapo miseravel que s&oacute; merecia desprezo e
+humilha&ccedil;&atilde;o; todo o prazer, ainda o
+mais natural era um peccado que cumpria expiar cruelmente;
+<span class="pagenum">[253]</span>
+a vida era um periodo curto de
+passagem e penitencia; a crean&ccedil;a nascida j&aacute; vinha
+contaminada do peccado original; a alma, s&oacute; a alma precisava
+dos nossos cuidados, das nossas medita&ccedil;&otilde;es, do
+nosso
+mais especial e esmerado cultivo! <br />
+
+<br />
+
+Quantos erros de educa&ccedil;&atilde;o, de moralidade e de
+hygiene! <br />
+
+<br />
+
+Quantas revoltas medonhas este despotismo espiritual n&atilde;o
+excitava! <br />
+
+<br />
+
+Mas foi por acaso esse tempo de pura espiritualidade? <br />
+
+<br />
+
+Pelo contrario! <br />
+
+<br />
+
+Nunca os instinctos maus do homem imperaram com mais violencia! Nunca
+se materialisaram mais todos os cultos e todas as id&eacute;as! <br />
+
+<br />
+
+O Deus que todos adoravam em extasis apaixonados, era o Christo
+dolorido, cadaverico, crivado de pregos, escorrendo sangue de cada uma
+das suas chagas abertas. <br />
+
+<br />
+
+A d&ocirc;r maternal era symbolisada por sete espadas atravessando
+um cora&ccedil;&atilde;o dilacerado. <br />
+
+<br />
+
+Os fanaticos mostravam &aacute; admira&ccedil;&atilde;o das
+turbas os estygmas sangrentos das suas carnes palpitantes. <br />
+
+<br />
+
+Os ascetas tinham vis&otilde;es nas quaes o Padre Eterno, o
+Christo, a
+Virgem, os Santos, lhes appareciam sob a f&oacute;rma humana, com
+fei&ccedil;&otilde;es diversas e caracteristicamente
+<span class="pagenum">[254]</span>
+accentuadas, fallando na linguagem mais correntia e mais
+ch&atilde;. <br />
+
+<br />
+
+A <em>resurrei&ccedil;&atilde;o da
+carne</em> era um dos pontos fundamentaes do dogma catholico. O
+espiritualismo d'essas &eacute;ras barbaras era muito mais
+<em>material</em> do que a sciencia de hoje. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para que aperfei&ccedil;oarmos e amenisarmos a vida,&#8213;diziam do
+alto
+dos seus pulpitos ou nas paginas dos seus tractados as
+terriveis
+authoridades d'essas &eacute;ras t&atilde;o hostis para o
+homem.&#8213;Quanto maiores supplicios houvermos padecido n'este momento
+rapido, maior quinh&atilde;o de gloria tem para n&oacute;s a
+eternidade. Sofframos todas as humilha&ccedil;&otilde;es mais
+abjectas,
+curvemo-nos diante de todas as tyrannias, deixemos que os vermes
+devorem o nosso corpo ulcerado, sejamos grandes em face do Senhor, como
+Job na sua gloriosa estrumeira. Os que forem ultimos c&aacute; em
+baixo, ser&atilde;o os primeiros no c&eacute;u! <br />
+
+<br />
+
+E a humanidade, &eacute;bria de um sonho de beatitude immortal,
+perdia
+a for&ccedil;a para combater, e esperava passivamente a
+resurrei&ccedil;&atilde;o esplendida que os
+illuminados lhe promettiam! <br />
+
+<br />
+
+Oh! quanto devemos &aacute; robustez de espirito, &aacute;
+f&eacute; fecunda e creadora que moveu alguns homens privilegiados
+a
+fazerem-nos sahir d'esse marasmo estagnador!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[255]</span>
+Foram esses homens os verdadeiros creadores da sciencia, que hoje
+illumina at&eacute; os mais ignorantes, dos bens que hoje
+desfructam
+at&eacute; os mais desgra&ccedil;ados.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Um dos problemas resolvidos pelos modernos, e que se n&atilde;o
+fossem
+esses benemeritos de que acima fallamos ficaria para sempre obscuro,
+&eacute; o problema da educa&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Segundo o ponto de vista da edade m&eacute;dia, a m&atilde;e
+n&atilde;o devia attender sen&atilde;o &aacute; alma de seu
+filho. <br />
+
+<br />
+
+Era preciso fazer d'elle um santo, e as mais das vezes s&oacute; se
+fazia um bandido. <br />
+
+<br />
+
+E que o alvo a que se tendia era estupido e anti-natural e os meios de
+que se usava eram inteiramente contraproducentes. <br />
+
+<br />
+
+Hoje a m&atilde;e j&aacute; n&atilde;o tem desculpa nem da
+sua ignorancia propria, nem da ignorancia da sua &eacute;poca. <br />
+
+<br />
+
+Se n&atilde;o sabe &eacute; porque n&atilde;o quer saber. <br />
+
+<br />
+
+O homem moderno tem applicado grande parcella da sua prodigiosa
+actividade em descobrir os meios mais efficazes de fazer as
+gera&ccedil;&otilde;es que v&atilde;o seguir-se-lhe
+melhores do que as
+gera&ccedil;&otilde;es que o precederam. <br />
+
+<br />
+
+Est&aacute; pacificada a guerra que se havia travado entre a alma e
+o corpo.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[256]</span>
+Mais ainda; hoje comprehende-se perfeitamente que &eacute; da saude
+do
+corpo que depende a saude da alma, e que os maus s&atilde;o quasi
+sempre os enfermos ou os defeituosos. <br />
+
+<br />
+
+O caminho das boas m&atilde;es est&aacute; naturalmente
+tra&ccedil;ado. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o poupar esfor&ccedil;os para aperfei&ccedil;oar e
+robustecer o corpinho querido, dentro do qual est&aacute; crescendo
+e desabrochando a fl&ocirc;r maravilhosa, a fl&ocirc;r
+delicadissima, que &eacute; a alma infantil. <br />
+
+<br />
+
+Poucas pessoas comprehendem a fundo qual seja a responsabilidade de
+ser m&atilde;e. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o a p&oacute;de haver mais seria e mais tremenda. <br />
+
+<br />
+
+Desde que a crean&ccedil;a nasce at&eacute; ao segundo periodo
+da sua vida, em que ella j&aacute; come&ccedil;a a ser
+susceptivel de ensino, quantos cuidados multiplos, engenhosos,
+delicados e constantes! <br />
+
+<br />
+
+Um movimento menos suave, um golpe de ar quando a crean&ccedil;a
+est&aacute; no banho, um abafo excessivo ou uma imprudente e rapida
+mudan&ccedil;a de habitos, qualquer pequena cousa que &aacute;
+primeira
+vista parece insignificante, p&oacute;de ter um alcance enorme no
+futuro do querido entezinho. <br />
+
+<br />
+
+Sabemos de uma crean&ccedil;a que ficou cega, porque estabeleceram
+uma
+corrente de ar no quarto em que ella tomava um banho tepido.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[257]</span>
+Conhecemos uma pobre mulher, que tem padecido toda a vida cruelmente,
+que nunca p&ocirc;de trabalhar, nem ser util a ninguem, porque a
+tornou
+rachitica uma qu&eacute;da que a fizeram dar brincando com ella em
+pequena. <br />
+
+<br />
+
+Ha muita gente que se diverte estupidamente atirando as
+crean&ccedil;as
+ao ar, fazendo-as dar voltas, abalando-lhes o pequeno cerebro. <br />
+
+<br />
+
+Quem p&oacute;de dizer os resultados fataes para o seu organismo
+que d'ahi resultam! <br />
+
+<br />
+
+A crean&ccedil;a &eacute; tudo que ha de mais fragil e de mais
+delicado. <br />
+
+<br />
+
+Pensem bem todas as m&atilde;es que um erro de hygiene
+p&oacute;de &aacute;s vezes fazer de uma indole pacifica uma
+indole perversa. <br />
+
+<br />
+
+A alma e o corpo, os dous irreconciliaveis, inimigos de outro tempo,
+est&atilde;o hoje para todos os olhos
+t&atilde;o estreitamente unidos, t&atilde;o profundamente
+identificados, que n&atilde;o ha abalo ou
+sensa&ccedil;&atilde;o que um
+experimente e de que o outro deixe de resentir-se logo.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Pensam muitas m&atilde;es que o melhor meio de emendarem os erros
+de
+seus filhos, s&atilde;o os ralhos repetidos e os castigos severos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[258]</span>
+Engano perfeito! <br />
+
+<br />
+
+O unico meio de educa&ccedil;&atilde;o verdadeiramente proficuo
+&eacute; o exemplo. <br />
+
+<br />
+
+Que encargo de almas n&atilde;o assume a mulher que quizer ser boa
+m&atilde;e! <br />
+
+<br />
+
+A mais doce e a mais tocante rela&ccedil;&atilde;o reciproca
+que existe entre a m&atilde;e e o filho, &eacute; aquella em
+virtude da qual a m&atilde;e educando-se educa, e o filho sendo
+ensinado ensina. <br />
+
+<br />
+
+Emquanto ensinamos os nossos filhos, a n&oacute;s proprias nos
+estamos illustrando. <br />
+
+<br />
+
+Pensando nas virtudes que elles devem adquirir e no meio de lh'as
+inocularmos no cora&ccedil;&atilde;o, como que
+se nos v&atilde;o lentamente revelando todas as bellezas
+incomparaveis
+d'este mundo moral, de cuja contempla&ccedil;&atilde;o
+andavamos, sen&atilde;o alheiadas, ao menos distrahidas. <br />
+
+<br />
+
+Oh! de quantos rasgos bons n&atilde;o &eacute; origem para a
+m&atilde;e, o receio de v&ecirc;r traduzir-se um espanto
+accusador nos olhos limpidos de seu filho. <br />
+
+<br />
+
+E depois &eacute; necessario que todas as educadoras pensem muito
+n'esta verdade t&atilde;o simples e t&atilde;o lucida. <br />
+
+<br />
+
+O exemplo, &eacute; que ensina, guia e robustece a alma e educa o
+espirito. <br />
+
+<br />
+
+Que importa que ella pregue e ensine as boas palavras, e a brandura do
+caracter, se ella n&atilde;o provar
+<span class="pagenum">[259]</span>
+com o seu exemplo de todos os dias a
+divina gra&ccedil;a d'estas qualidades e d'estes usos? <br />
+
+<br />
+
+A crean&ccedil;a obedecer&aacute; talvez, mas sem convencimento
+e sem alma! <br />
+
+<br />
+
+Para que todas as ben&ccedil;&atilde;os de Deus chovam sobre a
+cabe&ccedil;a das que sabem ser boas m&atilde;es, nem esta
+ben&ccedil;&atilde;o suprema lhes faltou. <br />
+
+<br />
+
+Ao contacto divino da infancia, na doce intimidade da innocencia,
+perdem defeitos e ganham virtudes. <br />
+
+<br />
+
+A educa&ccedil;&atilde;o bem comprehendida &eacute;
+t&atilde;o util &aacute; m&atilde;e como &aacute;
+crean&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Imagine-se uma creatura fraca, indolente, tendo sido de pequena
+criminosamente amimada, mas ao mesmo tempo possuidora de claro e
+perspicaz entendimento. <br />
+
+<br />
+
+Tem habitos inveterados de pregui&ccedil;a, tem horas desoladoras
+de
+tedio e de morbida melancolia. O tempo para ella &eacute; pesado e
+longo. <br />
+
+<br />
+
+Vive, n&atilde;o <em>gosando</em> as
+horas por&eacute;m <em>matando-as</em> como
+p&oacute;de. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se occupa, n&atilde;o reage contra o seu natural e
+funesto
+prostramento, n&atilde;o tem um fim util e querido para o qual
+viva. <br />
+
+<br />
+
+Um dia esta creatura infeliz &eacute; m&atilde;e!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[260]</span>
+Comprehende toda a responsabilidade que lhe cahiu sobre os hombros, e
+como no fim de contas &eacute; intelligente e boa, quer cumprir
+dignamente a sua sagrada miss&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Como &eacute; milagrosa e aben&ccedil;oada a influencia que
+n'este caso
+a crean&ccedil;a innocente exerce no caracter de sua
+m&atilde;e. <br />
+
+<br />
+
+Acabaram-se as longas scismas dolentes, as doentias tristezas, os
+inuteis desalentos! &Eacute; preciso que ella ensine a viver
+&aacute;
+fragil creaturinha que Deus confiou aos seus bra&ccedil;os. <br />
+
+<br />
+
+Quantas d'estas redemp&ccedil;&otilde;es se n&atilde;o
+devem &aacute; infancia! Quantas vezes a m&atilde;o
+inconsciente de um
+pequeno ser de dous ou tres annos n&atilde;o tem redimido
+os
+erros de seus paes!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Lembra-nos, a proposito d'isto, uma poesia deliciosa que
+l&ecirc;mos ha muitos annos, e cuja id&eacute;a
+&eacute; esta. <br />
+
+<br />
+
+Duas desgra&ccedil;adas creaturas, d'estas que a miseria prende
+&aacute;s vezes mutuamente por ephemeros la&ccedil;os,
+arrastavam juntas uma vida angustiada e degradante. <br />
+
+<br />
+
+<em>Ella </em>sem coragem, sem aceio, sem
+actividade, sem aquella for&ccedil;a que ao mais negro
+albergue p&oacute;de dar
+a mysteriosa gra&ccedil;a dos ninhos;
+<em>elle</em>, ocioso, cruel, covarde diante da
+desgra&ccedil;a e
+diante do trabalho, &eacute;brio
+<span class="pagenum">[261]</span>
+&aacute;s vezes, d'aquella selvagem
+embriaguez da aguardente e do absintho. <br />
+
+<br />
+
+Porque se conservaram unidos? <br />
+
+<br />
+
+Nem elles proprios o sabiam. <br />
+
+<br />
+
+Poder do habito, abjecto marasmo das supremas
+degrada&ccedil;&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+Um dia, n'aquelle antro miseravel, soou o vagido de uma
+crean&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se admirem. <br />
+
+<br />
+
+Tambem &aacute;s vezes das podrid&otilde;es de uma sepultura
+desabrocha uma rosa de maio. <br />
+
+<br />
+
+Quando &aacute; noite o homem voltou de suas
+divaga&ccedil;&otilde;es sem rumo, a pobre mulher prostrada nas
+palhas apodrecidas da enxerga, perguntou-lhe espantada: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque me n&atilde;o bates? porque me n&atilde;o ralhas? quem
+&eacute; que suspendeu o insulto da tua bocca, e os golpes dos teus
+bra&ccedil;os? <br />
+
+<br />
+
+E elle, o homem perdido e brutal, respondeu baixinho com um
+enternecimento desconhecido na voz rouca: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;<em>Tenho medo de acordar o pequenino.</em>
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;<em>J'ai peur de r&eacute;veiller
+l'enfant.</em> <br />
+
+<br />
+
+Oh! crean&ccedil;as, crean&ccedil;as, como isto revela bem o
+poder
+divino que &eacute; t&atilde;o vosso!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[262]</span>
+Tenho fallado muito &aacute;s m&atilde;es n'este assumpto. <br />
+
+<br />
+
+Nunca me cansarei de lhes repetir que se entreguem bem do intimo d'alma
+&aacute; educa&ccedil;&atilde;o dos
+seus filhos! <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; que n&atilde;o ha crean&ccedil;as m&aacute;s,
+como n&atilde;o ha homens perversos. <br />
+
+<br />
+
+Ha crean&ccedil;as mal educadas e ha homens pervertidos. <br />
+
+<br />
+
+Na educa&ccedil;&atilde;o que as crean&ccedil;as recebem
+dominam ainda perigosos preconceitos, e dizemos
+<em>perigosos</em>, por que n'este grave assumpto todo o
+erro &eacute; um perigo. <br />
+
+<br />
+
+Apontemos alguns. <br />
+
+<br />
+
+Toda a m&atilde;e ambiciona possuir um filho modelo. <br />
+
+<br />
+
+Quer dizer, um menino muito direito, muito aprumado, que falla como um
+livro, que sabe grammatica, maximas moraes, que repete versos
+classicos, que nunca faz bulha, que tem gestos desdenhosos e
+reprehensivos para a travessura dos outros, que nunca se esquece das
+li&ccedil;&otilde;es, que &eacute; emfim um
+<em>prodigio</em> que todas as m&atilde;es invejam, e
+apontam como ideal a seus filhos menos privilegiados. <br />
+
+<br />
+
+Esta classe de crean&ccedil;as p&oacute;de dizer-se que
+&eacute; a unica verdadeiramente antipathica. <br />
+
+<br />
+
+Evitemos quanto possivel que os nossos filhos sejam <em>meninos
+modelos</em>. <br />
+
+<br />
+
+Para evitar este resultado, &eacute; preciso n&atilde;o dar
+excessiva
+<span class="pagenum"><a name="p263">[263]</a></span>
+atten&ccedil;&atilde;o &aacute;s gra&ccedil;as
+naturaes da crean&ccedil;a, n&atilde;o a louvar de modo que
+ella ou&ccedil;a, n&atilde;o a
+for&ccedil;ar a estudos precoces, fazel-a brincar, correr dar-lhe
+plena liberdade de movimentos e de impulsos. <br />
+
+<br />
+
+Se a crean&ccedil;a tem demasiada propens&atilde;o para os
+estudos mais
+proprios de outra edade, cumpre distrahil-a, p&ocirc;l-a em
+contacto
+com a natureza, ensinal-a a comprehender a alma
+das cousas. <br />
+
+<br />
+
+Nada melhor para <a href="#e7">desenvolver</a> o
+espirito e o
+cora&ccedil;&atilde;o das crean&ccedil;as do que a vida no
+campo. <br />
+
+<br />
+
+Plantas, arvores, animaes, os alegres trabalhos da lavoura, tudo que
+desperta sans curiosidades no entendimento infantil. <br />
+
+<br />
+
+Dae ao vosso filhinho um alegrete do jardim para elle tratar, dae-lhe
+um animalzinho manso e inoffensivo a que elle se affei&ccedil;oe.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute;s vezes quando o nosso filhinho bate com a cabecinha no
+ch&atilde;o, ou em qualquer movel da casa, vemos com
+indifferen&ccedil;a a criada que o trata bater tambem, fingindo-se
+muito zangada, no objecto que sem culpa nem consciencia &eacute; a
+causa da magoa que <a href="#e8">afflige</a> o
+nosso pequeno
+amor. <br />
+
+<br />
+
+Este velho costume das aias e das m&atilde;es pouco atiladas,
+&eacute; um erro.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[264]</span>
+Torna a crean&ccedil;a absurdamente vingativa. <br />
+
+<br />
+
+D'ahi a bater ou a ter vontade de bater em quem a contraria,
+n&atilde;o vae nada. <br />
+
+<br />
+
+De cada id&eacute;a falsa se faz n'estes cerebros delicados e
+impressionaveis o germen de um vicio ou de um defeito. <br />
+
+<br />
+
+Quantas m&atilde;es eu n&atilde;o tenho ouvido dizer: Meu filho
+&eacute; t&atilde;o teimoso! Meu filho &eacute;
+t&atilde;o guloso! Ou t&atilde;o tagarella, ou t&atilde;o
+curioso!&#8213;ou t&atilde;o colerico! <br />
+
+<br />
+
+M&atilde;es, procurae bem no passado e achareis a semente d'isso
+que hoje &eacute; planta damninha e venenosa.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Combater a teima, com a teima, a gulodice natural com a abstinencia
+for&ccedil;ada, a c&oacute;lera instinctiva, com os castigos
+implacaveis, &eacute; pessima tactica. <br />
+
+<br />
+
+O meio de levar uma crean&ccedil;a a esquecer-se de que teimava,
+&eacute; distrahir-lhe a
+atten&ccedil;&atilde;o para assumpto muito diverso d'aquelle
+que a absorvia. <br />
+
+<br />
+
+Quando uma crean&ccedil;a &eacute; exageradamente gulosa, o
+meio de a
+emendar &eacute; leval-a a envergonhar-se do seu defeito, a
+c&oacute;rar d'elle diante de si propria. <br />
+
+<br />
+
+Nas c&oacute;leras a que todas as crean&ccedil;as
+s&atilde;o mais ou menos sujeitas, o remedio mais efficaz
+&eacute; uma brandura magoada.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[265]</span>
+Que a m&atilde;e deixe ver que os erros de seu filho a
+n&atilde;o enfurecem, mas a fazem soffrer muito. <br />
+
+<br />
+
+A crean&ccedil;a ficar&aacute; desarmada e moralisada. <br />
+
+<br />
+
+Para ella a revela&ccedil;&atilde;o subita de que foi causa de
+grande
+amargura para aquella a quem mais estremece, corresponde ao despertar
+da consciencia e ao pungir do seu primeiro espinho! <br />
+
+<br />
+
+Usemos na educa&ccedil;&atilde;o dos meios puramente moraes, e
+n&atilde;o das degradantes correc&ccedil;&otilde;es
+physicas. <br />
+
+<br />
+
+Acordemos por todos os modos imaginaveis o bom senso da
+crean&ccedil;a, e a impressionabilidade do seu ser moral. <br />
+
+<br />
+
+Que ella conhe&ccedil;a sempre o mal e o bem, n&atilde;o pelos
+inconvenientes ou vantagens que d'estas duas cousas possam provir, mas
+pelo que ellas valem, pelo que significam, pelo rebaixamento que uma
+inclue em si, e pela essencia superior de que a outra &eacute;
+feita. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>III </h3>
+
+<br />
+
+N'este delicioso e querido assumpto da educa&ccedil;&atilde;o
+infantil tudo est&aacute; dito, e tudo est&aacute; ainda por
+dizer. <br />
+
+<br />
+
+As regras geraes teem for&ccedil;osamente de ser modificadas na sua
+applica&ccedil;&atilde;o a casos particulares; nenhuma
+<span class="pagenum">[266]</span>
+crean&ccedil;a existe no mundo
+que seja absolutamente egual a outra crean&ccedil;a; &eacute;
+ao espirito da m&atilde;e que pertence o gravissimo e
+delicado encargo de corrigir, ampliar, alterar, restringir
+as regras e os preceitos enunciados pelos
+educadores e pelos moralistas. <br />
+
+<br />
+
+O que &eacute;, pois, necessario antes de tudo, &eacute; levar
+as m&atilde;es a pensarem profundamente n'estas altas
+quest&otilde;es, e a estudarem com pertinaz paciencia o caracter
+das crean&ccedil;as cujos destinos teem de dirigir. <br />
+
+<br />
+
+Conhecemos uma senhora, ali&aacute;s muito boa e muito dedicada,
+que, tendo cinco filhos, os educa a todos pelo mesmo systema. <br />
+
+<br />
+
+Resultado inevitavel e fatal: <br />
+
+<br />
+
+As crean&ccedil;as s&atilde;o todas deploravelmente educadas. <br />
+
+<br />
+
+Ernesto Legouv&eacute;, distincto escriptor francez, que tem
+consagrado
+grande parte da sua vida a notaveis estudos sobre a sorte da mulher, e
+sobre a
+educa&ccedil;&atilde;o da crean&ccedil;a, publicou ha mezes
+um bello
+livro que d'aqui recommendo a todas as minhas leitoras. <br />
+
+<br />
+
+Intitula-se&#8213;<em>Nos filles et nos fils</em>,
+e cont&eacute;m uma serie de scenas e estudos de familia, muito
+proprios para ampliar e esclarecer o cora&ccedil;&atilde;o e o
+entendimento das m&atilde;es em certos momentos criticos da sua
+difficil miss&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Um d'esses trechos, e talvez um dos mais importantes, trata das
+crean&ccedil;as e dos criados, da intimidade
+<span class="pagenum">[267]</span>
+for&ccedil;ada e muitas vezes
+perigosa que entre elles se estabelece, e dos resultados nocivos que
+d'essas rela&ccedil;&otilde;es resultam para a
+educa&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Legouv&eacute; leu este trecho na <em>Academia
+Franceza</em>; por aqui se reconhece a sua importancia, a maneira
+superior por que foi tratado. <br />
+
+<br />
+
+Muitas m&atilde;es desattendem na educa&ccedil;&atilde;o
+dos seus filhos a quest&atilde;o gravissima dos criados. <br />
+
+<br />
+
+Deixam que as crean&ccedil;as vivam n'um contacto muito intimo com
+gente de tracto grosseiro, de comportamento equivoco, de linguagem
+eivada de erros, de conversa&ccedil;&atilde;o baixa e
+degradante. <br />
+
+<br />
+
+Quantas m&atilde;es eu n&atilde;o tenho ouvido dizer
+&aacute;s suas filhinhas de quatro, cinco e oito annos:&#8213;<em>Vae
+l&aacute; para dentro; deixa-me conversar?!</em> <br />
+
+<br />
+
+Imaginam ellas que para a crean&ccedil;a nenhuma consequencia
+m&aacute; p&oacute;de provir da sua intimidade com as criadas. <br />
+
+<br />
+
+Enganam-se. <br />
+
+<br />
+
+Antigamente, quando os domesticos faziam, por assim dizer, parte
+integrante da familia, nasciam e morriam na casa, n&atilde;o havia
+perigo em que as
+crean&ccedil;as estivessem junto d'elles e com elles tagarellassem
+e
+brincassem. <br />
+
+<br />
+
+O instincto d'essas boas creaturas, afinado na convivencia de pessoas
+de educa&ccedil;&atilde;o elevada, fazia-lhes
+<span class="pagenum">[268]</span>
+comprehender que as creancinhas eram uns
+seres sagrados e queridos, cuja intelligencia se n&atilde;o devia
+macular nem de leve, cujos ouvidos tinham de ser escrupulosamente
+respeitados. <br />
+
+<br />
+
+Hoje, infelizmente, como j&aacute; o dissemos, esse modo de
+comprehender a vida de familia, modificou-se completamente. <br />
+
+<br />
+
+Os nossos criados entram e sahem com uma rapidez e uma facilidade
+incrivel; n&atilde;o criam raizes em parte alguma, e este viver de
+p&aacute;rias no meio dos que teem lar e alegrias intimas e familia
+e
+tecto seu, desenvolve-lhes contra os amos uma estranha hostilidade. <br />
+
+<br />
+
+Dizem mal por gosto, por necessidade, por um costume de classe. <br />
+
+<br />
+
+Precisam de vingar-se, e vingam-se dos maus e dos bons, sem escrupulo e
+sem remorso. <br />
+
+<br />
+
+De cada casa d'onde sahem trazem os segredos, as
+anecdotas mais
+intimas, os incidentes comicos, os acontecimentos grotescos; e contam
+tudo isto, uns aos outros, n'uma grande liberdade de palavras, de
+aprecia&ccedil;&otilde;es e de commentarios. <br />
+
+<br />
+
+Surprehenderam aqui um drama, alli um ridiculo, conhecem as miserias de
+muito interior, os vicios que se fazem pobreza, e a pobreza que se faz
+vicio. <br />
+
+<br />
+
+Com o amor do pittoresco e do maravilhoso, que
+<span class="pagenum">[269]</span>
+ha sempre na alma do povo, d&atilde;o
+um colorido phantastico aos seus contos, que attrahe por
+for&ccedil;a a curiosidade da crean&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+Imaginem-se uns ouvidos de cinco, de seis, de oito ou nove annos a
+beberem essa deploravel sciencia! <br />
+
+<br />
+
+E n&atilde;o se diga que a crean&ccedil;a n&atilde;o
+entende! <br />
+
+<br />
+
+A crean&ccedil;a tem o instincto da curiosidade desenvolvido n'um
+extraordinario grau! <br />
+
+<br />
+
+A crean&ccedil;a entende quasi tudo, e d'aquillo que n&atilde;o
+entende guarda a memoria at&eacute; &aacute;
+edade em que o mysterio lhe seja naturalmente explicado. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o levar nunca para um caminho mau a curiosidade de uma
+crean&ccedil;a, deve ser um dos maiores cuidados da m&atilde;e.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas dir-me-h&atilde;o: as pessoas crescidas conversam por
+for&ccedil;a
+em mil assumptos melindrosos; se realmente as crean&ccedil;as
+percebem,
+como evitar que ou&ccedil;am? <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; n'isso positivamente que est&aacute; o mal. <br />
+
+<br />
+
+Na sala de uma senhora que tem filhos e que se compenetra absolutamente
+dos seus deveres de m&atilde;e, deve haver o maximo escrupulo na
+escolha das diversas conversa&ccedil;&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+Assim como ha limpeza nas habita&ccedil;&otilde;es, porque
+n&atilde;o haver&aacute; limpeza nos espiritos? <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ha tantos assumptos attrahentes de
+conversa&ccedil;&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[270]</span>
+Ser&aacute; absolutamente preciso dizer mal, murmurar, revelar
+indiscretamente mysterios alheios? <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o quer isto dizer que a humanidade se limite a um
+puritanismo
+de palavras, que degenerar&aacute; por
+for&ccedil;a em hypocrisia; mas entre esse excesso ridiculo e a
+liberdade absoluta que se usa diante das crean&ccedil;as, creio que
+ha
+um meio termo que seria facil de adoptar. <br />
+
+<br />
+
+E depois, seja dito com toda a coragem: ou se &eacute;
+m&atilde;e no
+sentido completo e absoluto d'esta palavra ou se &eacute; mulher do
+mundo. <br />
+
+<br />
+
+Ou nos havemos de consagrar &aacute; companhia dos nossos filhos,
+&aacute; sua educa&ccedil;&atilde;o, ao
+desenvolvimento gradual das suas delicadas faculdades, &aacute;
+vigilancia solicita das suas almas e dos seus corpos, ou havemos de dar
+aos tenros espiritos de quem somos guias, o deploravel espectaculo das
+fraquezas e dos defeitos que tanto lhes desejamos fazer evitar.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Na creanca do sexo feminino a tendencia que mais cedo se desenvolve
+&eacute; a vaidade. <br />
+
+<br />
+
+A pequenita de tres annos j&aacute; come&ccedil;a a ter orgulho
+e presump&ccedil;&atilde;o no seu vestidinho bordado, nas suas
+saias de
+folhos, no seu chap&eacute;u vistoso e garrido.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[271]</span>
+Todos se riem da <em>gracinha</em>. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu anjinho! Como &eacute; presumida! Diz a m&atilde;e toda
+enlevada.
+E gaba-a muito.&#8213;Est&aacute;s linda! a minha filha &eacute;
+muito
+bonita. Fica-lhe t&atilde;o bem este
+vestido! <br />
+
+<br />
+
+Mais tarde, d'ahi a quinze annos, quando a creancinha do outro tempo
+&eacute; um rapariga delambida, arrebicada, cheia de appetites
+luxuosos, de ambi&ccedil;&otilde;es
+extravagantes, sonhando com um noivo <em>muito rico</em>
+que
+lhe sacie todos os seus desejos de riqueza e de pomposa elegancia,
+quando os homens serios e honestos olham para ella com desdem, e no seu
+intimo a desprezam como uma boneca inutil e frivola, de quem
+&eacute; a
+culpa, digam-no sinceramente? <br />
+
+<br />
+
+A culpa &eacute; de quem favoreceu, em vez de combater, esse pendor
+funesto, t&atilde;o natural &aacute; mulher, e que
+s&oacute; &aacute;
+custa de muita reflex&atilde;o ella
+consegue vencer. <br />
+
+<br />
+
+A culpa &eacute; da m&atilde;e, que teve orgulho dos defeitos
+da sua filha, em vez de lidar por transformal-os em virtudes. <br />
+
+<br />
+
+A mulher &eacute; vaidosa? Pois bem! se n&atilde;o podemos
+destruir
+esse vicio organico, demos-lhe ao menos um rumo diverso do que elle
+leva. <br />
+
+<br />
+
+Que, em vez de ter vaidade dos seus trapos e dos seus miseraveis
+arrebiques, ella tenha vaidade de ser boa, laboriosa, honesta,
+instruida e forte.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[272]</span>
+Fa&ccedil;amos comprehender bem ao nosso anjinho de tres annos, que
+&eacute; bem mais difficil e glorioso ser docil do que ter um
+vestido
+novo; que &eacute; muito mais digno de louvor saber ler do que
+trazer
+um chap&eacute;u de plumas. <br />
+
+<br />
+
+Isto n&atilde;o &eacute; mais do que indicar o caminho. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ha m&atilde;e cujo instincto a n&atilde;o
+advirta de que estamos fallando verdade.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+At&eacute; a escolha da boneca &eacute; uma cousa importante! <br />
+
+<br />
+
+Uma boneca esplendidamente vestida, de chap&eacute;u com flores, de
+luvas e cabellos d'ouro annellados, inspira um certo assombro, e depois
+uma certa inveja. Uma boneca de trapos, estupida, inerte e molle causa
+desdem e antipathia. <br />
+
+<br />
+
+Oh! a primeira boneca! que jubilo supremo que ella n&atilde;o deu a
+todas n&oacute;s! Comparavel &aacute;
+alegria da primeira boneca, s&oacute; a alegria do primeiro filho! <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; a mesma hesita&ccedil;&atilde;o em lhe tocarmos
+com medo que ella se <em>quebre</em>! o mesmo susto! a
+mesma curiosidade! o mesmo enlevo! o mesmo espanto namorado e feliz! <br />
+
+<br />
+
+A m&atilde;e intelligente comprehende e sabe aproveitar isto.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[273]</span>
+A boneca &eacute; como a aprendizagem da maternidade! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; nua, coitadinha, est&aacute; nua a tua boneca,
+Lili. Que
+frio que ella deve ter! Que desconforto! Que pena de olhar para ti e de
+te v&ecirc;r t&atilde;o bem
+vestida e quente e confortavel. Senta-te aqui ao p&eacute; de mim,
+Lili, vamos n&oacute;s fazer o fatinho da tua boneca! <br />
+
+<br />
+
+E como o cora&ccedil;&atilde;o &eacute; que sempre domina e
+guia a mulher, eis o cora&ccedil;&atilde;o fazendo um milagre
+n'aquella mulhersinha de oito annos, que deixa de ser a traquinas, a
+turbulenta, a ociosa creaturinha, e que principia a conhecer as
+delicias do trabalho e os santos prazeres do sacrificio. <br />
+
+<br />
+
+O sacrificio por uma boneca! <br />
+
+<br />
+
+Sim, o sacrificio, e porque n&atilde;o? <br />
+
+<br />
+
+S&oacute; quem n&atilde;o &eacute; m&atilde;e e quem
+nunca foi crean&ccedil;a &eacute; que escarnecer&aacute; da
+express&atilde;o que empregamos. <br />
+
+<br />
+
+Pois n&atilde;o sabem que essa primeira boneca, que se recolhe nua
+nos bra&ccedil;os, e que se veste, que se
+cal&ccedil;a, que se conchega, que se adormece entre beijos e
+affagos, &eacute; o primeiro sonho de um
+cora&ccedil;&atilde;o de
+m&atilde;e?
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+As amigas das nossas filhas! <br />
+
+<br />
+
+Grave e momentoso assumpto, n&atilde;o raro descurado
+<span class="pagenum">[274]</span>
+e de cujo esquecimento ou de cujo
+desleixo resultam &aacute;s vezes damnos irremediaveis. <br />
+
+<br />
+
+No collegio &eacute; que se travam quasi sempre as primeiras
+amizades. Ora, n&oacute;s para as meninas desadoramos o collegio. <br />
+
+<br />
+
+Por muito bom que elle seja, achamol-o sempre pessimo. <br />
+
+<br />
+
+Quem &eacute; que nos responde pela boa escolha de
+rela&ccedil;&otilde;es que alli adquirem nossas filhas? <br />
+
+<br />
+
+Quem nos diz que essas crean&ccedil;as todas que alli se reunem, e
+que
+entre si trocam as mais intimas e minuciosas confidencias,
+s&oacute;
+viram bons exemplos,
+s&oacute; conhecem quadros de santa e impeccavel moralidade? <br />
+
+<br />
+
+Pois nenhuma d'ellas trar&aacute; comsigo aquella funesta
+curiosidade, que perdeu a nossa primeira m&atilde;e? <br />
+
+<br />
+
+Todas s&atilde;o innocentes, todas ignoram da vida o que ella tem
+de baixo ou de corrosivo? <br />
+
+<br />
+
+Quem nos affirma que ellas saber&atilde;o ser boas e honestas
+companheiras, que n&atilde;o lan&ccedil;ar&atilde;o com uma
+palavra imprudente um germen venenoso, que n&atilde;o
+corromper&atilde;o com precoce perversidade o espirito da
+crean&ccedil;a innocente, que n'ellas se confiar? <br />
+
+<br />
+
+As amigas das nossas filhas s&atilde;o aquellas de quem logo depois
+de
+n&oacute;s depende a pureza, a candura, a innocencia d'ellas! <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; de uma grave imprudencia acceitar para uma
+<span class="pagenum">[275]</span>
+filha nossa, sem escolha e
+sem criterio, a companhia de outra crean&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+Cumpre conhecer bem a m&atilde;e, a educa&ccedil;&atilde;o
+que ella d&aacute; aos seus filhos, o modo porque vivem, o
+caracter, a moralidade d'essa familia. <br />
+
+<br />
+
+E que as m&atilde;es, n'este ponto, se n&atilde;o prendam com
+preoccupa&ccedil;&otilde;es de banal delicadeza. Primeiro que
+tudo est&aacute; o futuro das suas filhas. <br />
+
+<br />
+
+Se a educa&ccedil;&atilde;o de um rapaz &eacute;
+j&aacute; difficilima, que ser&aacute; a
+educa&ccedil;&atilde;o de uma menina? <br />
+
+<br />
+
+Quantos perigos a evitar, quantos obstaculos a temer, quantas
+contrariedades em meio do caminho! <br />
+
+<br />
+
+Que a m&atilde;e procure ser a melhor amiga de sua filha, e que
+esta
+n&atilde;o receie confiar-lhe nem os seus pequeninos segredos
+infantis,
+nem as mysteriosas como&ccedil;&otilde;es da sua alma
+adolescente. <br />
+
+<br />
+
+N'esta deploravel educa&ccedil;&atilde;o que hoje se
+d&aacute; e se recebe, a primeira cousa de que os filhos tratam
+&eacute; de enganar os paes. <br />
+
+<br />
+
+De que prov&eacute;m isto? Da mal entendida severidade d'estes. <br />
+
+<br />
+
+A indulgencia para as primeiras travessuras prepara naturalmente a
+crean&ccedil;a para se confiar sem medo ao
+cora&ccedil;&atilde;o que a
+sabe entender e lhe sabe
+perdoar. <br />
+
+<br />
+
+Mas &eacute; muito delicado este ponto da miss&atilde;o
+maternal.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[276]</span>
+Se o excesso da severidade cria a desconfian&ccedil;a e a mentira,
+o excesso da indulgencia cria o cynismo e a desvergonha. <br />
+
+<br />
+
+Que difficil n&atilde;o &eacute; para um espirito de
+m&atilde;e saber ao mesmo tempo attrahir a confian&ccedil;a e
+imp&ocirc;r o
+respeito! <br />
+
+<br />
+
+Levar o filho que peccou a confessar a culpa, n&atilde;o por ter a
+certeza de que ser&aacute; facilmente perdoado, mas por lhe exigir
+a
+consciencia que n&atilde;o esconda o seu delicto aos olhos
+d'aquella
+que sabe com m&atilde;o delicada e firme rep&ocirc;r no caminho
+direito
+o ente fragil que se transviou. <br />
+
+<br />
+
+No dia em que a m&atilde;e tiver alcan&ccedil;ado do
+cora&ccedil;&atilde;o de sua filha ou de seu filho esta
+singular
+conquista de venera&ccedil;&atilde;o e de amor, p&oacute;de
+sentir-se
+tranquilla e satisfeita, p&oacute;de sem medo responder pelo
+futuro. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Para concluirmos este capitulo que, talvez por muito incorrectamente
+desenvolvido enfastiasse as leitoras, sem lograr a ventura de as
+convencer, damos em seguida o fragmento de uma carta, que por
+circumstancias que seria inutil referir, ha pouco tempo chegou
+&aacute;s nossas m&atilde;os. <br />
+
+<br />
+
+Como ver&atilde;o, pertence esse trecho a uma carta
+<span class="pagenum">[277]</span>
+que na vespera do seu casamento
+foi dirigida &aacute; sua
+filha por uma extremosa m&atilde;e. <br />
+
+<br />
+
+Explica muito melhor do que n&oacute;s o podemos fazer o triumpho
+de um bom cora&ccedil;&atilde;o maternal. <br />
+
+<br />
+
+&laquo;N&atilde;o tive animo de te dizer todas estas cousas
+frente a frente. <br />
+
+<br />
+
+Tive medo de chorar, e tu sabes, meu anjo, que det&eacute;sto acima
+de tudo os enternecimentos intempestivos. <br />
+
+<br />
+
+Depois, teria pejo, eu, tua m&atilde;e, eu que julgo ter concorrido
+pelos cuidados de toda a vida para o excellente exito da minha
+obra&#8213;quer dizer, da tua
+educa&ccedil;&atilde;o&#8213;teria pejo de te encher de louvores que
+embora
+justos, recahiriam um pouco sobre mim. <br />
+
+<br />
+
+Sabes que eu nunca te deixei, que por amor de ti renunciei, e de muito
+boa vontade, &aacute; companhia dos indifferentes e dos frivolos,
+que
+s&oacute; viriam destruir ou modificar o effeito de todos os meus
+esfor&ccedil;os,
+t&atilde;o santamente aben&ccedil;oados por Deus! <br />
+
+<br />
+
+Com que saudades eu me lembro dos ser&otilde;es de outro tempo, em
+que
+tu j&aacute; serena, grave e modesta como &eacute;s hoje, lias
+ao
+p&eacute; de mim, emquanto os
+nossos bons e velhos amigos conversavam em cousas s&atilde;s, em
+cousas
+simples, das que n&atilde;o podem ferir os ouvidos de uma menina! <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o te aconselho que renuncies ao mundo por
+<span class="pagenum">[278]</span>
+amor dos anjinhos que vir&atilde;o de
+certo aben&ccedil;oar e consagrar o teu casamento; mas
+pe&ccedil;o-te
+que sejas escrupulosa
+como eu sempre fui na escolha d'aquelles que admittires na sagrada
+intimidade do teu lar. <br />
+
+<br />
+
+Procurei sempre evitar em ti todos os excessos, mesmo os excessos bons.
+N&atilde;o te quiz beata, nem
+<em>espirito forte</em>; n&atilde;o desejei que fosses
+uma
+metaphysica, nem um entendimento demasiadamente positivo, nem mulher
+s&oacute; de sala, nem mulher exclusivamente do
+<em>m&eacute;nage</em>. <br />
+
+<br />
+
+O ideal, minha filha, &eacute; que de tudo se saiba ser um pouco. <br />
+
+<br />
+
+Gostarei que recebas com gra&ccedil;a senhoril na tua saleta de
+todos
+os dias, artistica e confortavel, mas n&atilde;o desejarei menos
+que
+saibas ensinar a tua cozinheira, fazer o rol da tua roupa, concertar o
+fato de teus filhos, e economisar sem mesquinhez e gastar sem avareza. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o quiz nunca que tivesses outra amiga, e creio ter feito
+bem. <br />
+
+<br />
+
+Se foi egoismo, Deus n&atilde;o me castigou por elle, porque devi a
+essa precau&ccedil;&atilde;o, por ventura
+excessiva, ter tido a deliciosa confidencia das tuas primeiras alegrias
+e dos teus primeiros sonhos. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute;manh&atilde; j&aacute; n&atilde;o
+ser&aacute;s minha, querido encanto; nem j&aacute;
+ser&atilde;o os meus beijos os unicos que a tua pura
+<span class="pagenum">[279]</span>
+testa de vinte annos
+receber&aacute;! Mas n'esta saudade dilacerante que me punge,
+quantas compensa&ccedil;&otilde;es
+supremas eu n&atilde;o encontro! <br />
+
+<br />
+
+Entrego-te ao teu noivo, t&atilde;o candida, t&atilde;o
+ignorante do mal como deviam ser todas as crean&ccedil;as da tua
+edade, que tivessem m&atilde;e, que s&oacute; n'ellas
+pensasse e s&oacute; por ellas vivesse! <br />
+
+<br />
+
+Nunca ouviste pronunciar uma palavra grosseira, nunca ouviste applaudir
+um acto injusto, nunca se abaixaram os teus olhos seraphicos a um
+espectaculo ignobil. <br />
+
+<br />
+
+Eu fui sempre a tua fiel companheira; e, como as vestaes velavam o fogo
+sagrado, velei eu pela tua immaculada innocencia! <br />
+
+<br />
+
+De que ventura se privam as que preferem o mundo aos seus filhos! <br />
+
+<br />
+
+Ignoram as alegrias profundas de ser m&atilde;e, como eu fui, como
+tu ser&aacute;s, minha joia! <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ha na tua alma um pensamento, uma id&eacute;a, uma
+saudade,
+que eu n&atilde;o conhe&ccedil;a, e se
+&aacute;manh&atilde; quizer folhear diante de teu marido o
+livro
+radioso da tua infancia e da tua adolescencia, n&atilde;o haveria
+n'elle uma s&oacute; pagina que eu lhe n&atilde;o podesse
+repetir de
+c&oacute;r. <br />
+
+<br />
+
+Respondo pelo passado e respondo pelo futuro. Basta-me essa gloria para
+me consolar de todas as minhas saudades!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[280]</span>
+&Eacute; bem pezada n'este mundo a cruz das boas m&atilde;es,
+mas
+n&atilde;o te esque&ccedil;as nunca, minha filha, que mesmo
+n'esta hora de tantas lagrimas, eu confesso bem alto, n&atilde;o ha
+rosas mais frescas, mais puras e mais orvalhadas do que as rosas que
+enfloram e entrela&ccedil;am essa cruz! <br />
+
+<br />
+
+S&oacute; d'aqui a muitos annos comprehender&aacute;s a
+angustia com que te digo&#8213;<em>adeus</em>! <br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o, sei que has de chorar por mim!&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>CAPITULO XVI </h3>
+
+<h3>Cartas de um marido </h3>
+
+<br />
+
+<div class="breaks">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Meu caro amigo.<br />
+
+<br />
+
+Onde &eacute; que fui desencantal-a? perguntas tu com justificado
+espanto. <br />
+
+<br />
+
+E tens raz&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+O facto &eacute; que nunca a vi, valsando n'um baile &aacute;
+luz
+quente e abafadi&ccedil;a do gaz, decotada, cheia
+de p&oacute; de arroz e de suor, abandonando-se n'uma postura
+voluptuosa, nos bra&ccedil;os de um sujeito esgrouviado, de casaca,
+collarinhos de papel&atilde;o, e olhar que tenta ser magnetisador e
+irresistivel, e que depois de tamanhos esfor&ccedil;os
+n&atilde;o
+consegue ser sen&atilde;o
+comico. <br />
+
+<br />
+
+Nunca a encontrei cantando n'um concerto duetos apaixonados em
+beneficio dos meninos pobres, vendendo n'um bazar sorrisos de
+dan&ccedil;arina e
+<em>bibelots</em> de fancaria em beneficio dos velhinhos
+aleijados, representando
+<span class="pagenum">[282]</span>
+n'um sarau dramatico, comediazinhas maliciosas em beneficio
+dos adultos
+cegos. <br />
+
+<br />
+
+Frequentando os theatros de segunda ordem, onde os palha&ccedil;os
+e as <em>cocottes</em>
+de Offenbach, e dos modernissimos <em>maestrinos</em> da
+decadencia se
+desengonsam em scena, fazendo gestos desmanchados e sublinhando com
+sorrisos torpes as suas cantilenas de
+<em>caf&eacute;-concerto</em>, debalde a procurei pelas
+frisas, e pelos
+camarotes, applaudindo as far&ccedil;adas impuras, e dando
+gargalhadas
+que attrahissem a atten&ccedil;&atilde;o e os maliciosos
+commentarios
+da plat&eacute;a. <br />
+
+<br />
+
+Nas noites de ver&atilde;o, no Passeio Publico, quando ha musica,
+fogo
+de artificio, muito calor e muito aperto, e as meninas burguezas que
+ainda n&atilde;o podem gozar da <em>villeggiatura</em>
+elegante, passeiam
+com <em>toilettes</em> claras, na plena
+expans&atilde;o da
+<em>flirtation</em> lisbonense, confesso que muitas vezes
+atravessei a
+multid&atilde;o, pisado, empurrado, offegante, sem respeito pelas
+caudas de seda, de <em>foulard</em>, de linho
+transparente, que para alli v&atilde;o desfructar o prazer de se
+encherem de poeira e de rasg&otilde;es, e que debalde procurava
+reconhecel-a em cada vulto feminino, esbelto, gracioso, que passava
+pisando a areia das ruas, com o tac&atilde;o alto das estreitas
+botinas
+de pellica. <br />
+
+<br />
+
+At&eacute; comecei a frequentar S. Luiz, a igreja da
+devo&ccedil;&atilde;o fidalga, do arrependimento perfumado de
+<em>poudre</em>
+<span class="pagenum">[283]</span>
+<em>d'iris</em>, do mais alto,
+do mais distincto e do mais desdenhoso beaterio... <br />
+
+<br />
+
+Vi todas as nossas flores da <em>alta
+vida</em>, trajando com
+discri&ccedil;&atilde;o finamente aristocratica, revelando
+a elegancia que as distingue, no modo de se ajoelharem, de se
+persignarem devotamente, de erguerem os olhos com extasi piedoso, para
+a imagem alabastrina da Virgem, que parece erguer-se como um lyrio
+desabrochado, d'entre as verduras e as brancas florescencias que a
+cercam de todos os lados. <br />
+
+<br />
+
+Vi-as descal&ccedil;arem, das suas estreitas luvas de cinco
+bot&otilde;es, as m&atilde;os esguias,
+avelludadas, feitas da alvura dos marfins; vi-as curvarem-se
+at&eacute;
+ao
+ch&atilde;o, humilhadas, contritas,
+mas sempre correctas; lerem uma
+ora&ccedil;&atilde;o
+privilegiada, em cada
+um dos quatro ou
+seis grossos volumes devotos que trazem comsigo, beijarem com felina
+gra&ccedil;a as m&atilde;os rechonchudas e macias dos
+louros abbades francezes, disputarem entre si com delicadeza,
+n&atilde;o
+inteiramente isenta de colera, a sua vez de confissionario, e de
+confidencias adocicadas e asceticas; mas nenhuma d'essas encantadoras
+filhas de Eva, com os seus gestos miudos, os seus movimentos
+ondeantes de serpente, as multiplas seduc&ccedil;&otilde;es da
+sua
+artificial formosura, me deu a id&eacute;a boa, s&atilde;,
+carinhosa,
+como um affago de m&atilde;e, que eu tivera vendo-a, a ella.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[284]</span>
+Escuso de accrescentar que <em>ella</em>
+n&atilde;o se encontrava entre essas todas. <br />
+
+<br />
+
+Um dia por&eacute;m,&#8213;que bom dia aquelle!&#8213;tornei a vel-a em casa
+de uma amiga de minha m&atilde;e. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o me pareceu bella, pareceu-me boa, mas de uma bondade em
+que
+a belleza n&atilde;o deixava de entrar, embora como elemento
+secundario. <br />
+
+<br />
+
+Estava com as suas amigas em volta de uma grande mesa de
+ser&atilde;o. Larg&aacute;ra um pequeno trabalho
+da agulha, e come&ccedil;ara a l&ecirc;r alto a pedido de todas
+as companheiras. <br />
+
+<br />
+
+Lia um livro de Michelet, <em>L'insecte</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Tinha a voz grave, sonora, musical, como eu sempre imaginei que havia
+de ser; a luz coada pelo globo fosco do alto candieiro, banhava de
+vagos tons dourados o seu cabello simplesmente penteado, torcido n'um
+grosso rolo luminoso sobre a nuca torneada e forte. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o me lembro bem de como estava vestida, signal de que era
+t&atilde;o despretencioso o seu trajo que n&atilde;o prendia
+nem
+demorava a atten&ccedil;&atilde;o.
+Havia de ser por for&ccedil;a bastante distincto para lhe
+n&atilde;o
+alterar
+a gra&ccedil;a; bastante singelo para n&atilde;o dar um aspecto
+de artificio &aacute; sua natural e casta formosura. <br />
+
+<br />
+
+Emquanto a ouvia ler, parecia-me comprehender melhor aquella grande
+alma luminosa do velho Michelet.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[285]</span>
+E sentia em mim a vivificante sympathia da natureza, o amor dos
+pequeninos, a ternura comprehensiva para tudo que vive, que sente, que
+palpita na enorme Crea&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Quando acabou de ler, fechou o livro, e naturalmente, sem languidez,
+sem cansa&ccedil;o, pegou de novo no trabalho, e
+recome&ccedil;ou a
+bordar. <br />
+
+<br />
+
+Aproveitei o ensejo e sentei-me n'uma cadeira vaga ao seu lado. <br />
+
+<br />
+
+Convers&aacute;mos muito. Em muita cousa, em quasi tudo. <br />
+
+<br />
+
+Era um gosto ver de perto a luz tranquilla e doce d'aquelle olhar azul
+escuro, reflectido, serio, innocente. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o baixava os olhos deixando transparecer nas faces rubor
+intempestivo; tinha um modo seu de olhar, franco, sincero, de uma
+limpidez de lago suisso em que se reflectisse o largo c&eacute;u da
+primavera. <br />
+
+<br />
+
+De vez em quando ria-se. <br />
+
+<br />
+
+Que musica crystallina a do seu riso! <br />
+
+<br />
+
+Uma das vezes lembra-me, que seguindo o falso pendor da nossa
+detestavel educa&ccedil;&atilde;o de sala, fui
+sentimental, sem dar por isso, de uma
+<em>sentimentalidade</em> piegas, da que produz sempre um
+certo effeito no espirito das meninas que <em>valsam</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Levantou subitamente a cabe&ccedil;a, como se ficasse um tanto
+surprehendida, como se tivesse agourado melhor de mim, &aacute;
+primeira vista.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[286]</span>
+Depois, n&atilde;o sei o qu&ecirc;, provavelmente a
+express&atilde;o alambicada da minha cara, desafiou-lhe a vontade
+de rir, uma vontade de rir irresistivel! <br />
+
+<br />
+
+Coitadinha! Que bem educada que ella &eacute;! <br />
+
+<br />
+
+Suffocou aquella boa hilaridade t&atilde;o espontanea!
+Disfar&ccedil;ou
+perfeitamente o effeito comico que eu lhe produzira, isto com uma
+gra&ccedil;a, t&atilde;o cheia de
+infantilidade! <br />
+
+<br />
+
+Castigou-me melhor assim, do que outra qualquer fingindo um enleio
+theatral. <br />
+
+<br />
+
+D'alli a nada, a dona da casa, uma senhora de aspecto muito distincto e
+muito bondoso, veio pedir-lhe com grande empenho que fosse para o
+piano. <br />
+
+<br />
+
+Levantou-se docilmente, e tocou e cantou emquanto quizeram ouvil-a! <br />
+
+<br />
+
+Era a simplicidade, a gra&ccedil;a, a mais delicada
+intui&ccedil;&atilde;o artistica, isto acompanhando uma
+voca&ccedil;&atilde;o musical deveras notabilissima. <br />
+
+<br />
+
+Nem uma s&oacute; d'aquellas languidas arias italianas, de um
+sentimentalismo t&atilde;o dissolvente e que parecem banhar a alma
+que
+as escuta n'um tepido banho de caricias molles! <br />
+
+<br />
+
+Musicas graves e de uma austera melancolia como as dos mestres
+allem&atilde;es; ou musicas graciosas, ligeiras, scintillantes,
+inoculando no espirito uma
+sensa&ccedil;&atilde;o de frescura matutina, de robusta
+alegria, levando-nos
+<span class="pagenum">[287]</span>
+atraz das suas
+notas de crystal, pelas pradarias illuminadas da luz das alvoradas
+estivas, onde os melros maliciosos assobiam, saltando de ramo em ramo! <br />
+
+<br />
+
+Quando sahi d'alli, d'aquella casa hospitaleira, em que o espirito
+parecia dilatar-se affectuosamente, pensei de mim para mim que ella
+havia de ser minha mulher! <br />
+
+<br />
+
+<div class="dots">
+</div>
+
+<br />
+
+...Sabes uma cousa? Temos um filho! Estas palavras a ti n&atilde;o
+te
+dizem nada, a mim banham-me o cora&ccedil;&atilde;o n'uma
+alegria que
+em lingua humana se
+n&atilde;o p&oacute;de exprimir. <br />
+
+<br />
+
+A deliciosa can&ccedil;&atilde;o da minha felicidade, canto-a
+eu em
+beijos chilreados, no corpinho roli&ccedil;o e avelludado, no
+corpinho
+de leite do meu primeiro pequenino! <br />
+
+<br />
+
+Vivemos em um bairro pouco central, em uma rua muito socegada, onde
+passam pouquissimos trens, e onde se n&atilde;o ouve o pregoar
+rouquenho dos
+vendilh&otilde;es ambulantes. <br />
+
+<br />
+
+O nosso or&ccedil;amento &eacute; de uma exiguidade que faz
+rir, mas
+n&atilde;o sei porque minha mulher tem a habilidade de fazer render
+da
+maneira mais milagrosa os nossos modestissimos haveres. <br />
+
+<br />
+
+Creio que se &aacute;manh&atilde; me visse rico, n&atilde;o
+podia ser t&atilde;o feliz. <br />
+
+<br />
+
+Se eu fosse rico, havia de ter criados, n&atilde;o &eacute;
+verdade?
+<span class="pagenum">[288]</span>
+Criados graves,
+solemnes, de olhar sonso, que vivessem da minha vida, que maculassem
+com a sua ironia baixa as santas expans&otilde;es do meu affecto de
+marido e de pae, que invejassem a minha felicidade, que calumniassem as
+minhas inten&ccedil;&otilde;es, os meus
+actos, a minha vida toda! <br />
+
+<br />
+
+Ao jantar um ou dous d'aquelles figur&otilde;es altos, espadaudos,
+ociosos, vestidos de preto, haviam de espreitar com olhar guloso cada
+bocado que eu mettesse na b&ocirc;ca; teria um cozinheiro gordo, de
+barrete branco, que me fizesse molhos indigestos, uma criadinha de
+quarto buli&ccedil;osa, e petulante que se risse do
+<em>burguezismo</em> pacato dos meus habitos. <br />
+
+<br />
+
+Viveria escravo, preso nas malhas de ouro, d'esta grande rede que se
+chama a riqueza. <br />
+
+<br />
+
+Receberia muitas visitas, muita gente indifferente ou hostil, que
+viesse para me bajular, e que se fosse embora para me morder
+trai&ccedil;oeiramente pelas costas. <br />
+
+<br />
+
+Uma governante ingleza empavezada, grotesca, um pouco pedante, cortaria
+na sua fl&ocirc;r, na querida alma transparente do meu pequeno
+anjo, os
+carinhos, as expans&otilde;es innocentes, os risos inextinguiveis e
+sem
+causa, tudo que &eacute; hoje a nossa alegria! <br />
+
+<br />
+
+E depois, habituado ao luxo n&atilde;o sentiria o conchego!
+Satisfeitos at&eacute; &aacute; saciedade todos os desejos,
+<span class="pagenum">[289]</span>
+n&atilde;o teria nunca a boa, a vivificante
+sensa&ccedil;&atilde;o do obstaculo vencido! <br />
+
+<br />
+
+E o socego depois do trabalho! E as alegrias da posse, quando o objecto
+longo tempo cubi&ccedil;ado, para alcan&ccedil;ar o qual se
+fizeram
+tantas economias, se supportaram tantas
+priva&ccedil;&otilde;esinhas,
+nos apparece emfim em todo o prestigioso brilho do impossivel, que de
+repente se deixa conquistar! <br />
+
+<br />
+
+Ai! as minhas alegrias de pobre, que saudades que eu terei d'ellas mais
+tarde! <br />
+
+<br />
+
+Mas, meu querido A., n&atilde;o comeces tu agora a lamentar-me
+imaginando-me novo monge entregue &aacute;s austeridades da
+penitencia
+voluntariamente acceita! <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o te disse eu que uma boa mulher que nos ame, e que nos
+saiba
+amar, &eacute; um thesouro inestimavel, que o homem desdenha, e que
+por
+isso, se tem feito t&atilde;o raro? <br />
+
+<br />
+
+A minha casa n&atilde;o tem estofos de seda, n&atilde;o tem
+custosos
+moveis de carvalho entalhado, n&atilde;o tem frageis porcellanas de
+Saxe, de Sevres ou do Jap&atilde;o, n&atilde;o tem tapetes
+turcos, nem
+artisticos Gobelinos. <br />
+
+<br />
+
+Mas olha que nem sempre o luxo &eacute; o conforto, nem sempre a
+opulencia &eacute; a gra&ccedil;a, nem sempre as
+cousas caras s&atilde;o as cousas elegantes! <br />
+
+<br />
+
+A nossa pequenina casa, toda forrada de papel claro, com as suas
+cadeiras de
+<em>cretonne</em>, as suas cortinas muito brancas, e vasos
+de plantas em pequenas
+<span class="pagenum">[290]</span>
+estantes de madeira, e jarras de fl&ocirc;res na mesa de
+jantar, com a luz clara e
+festiva do sol, a illuminal-a toda, com o aceio escrupuloso que
+&eacute; o luxo dos pobres, com a tranquilidade doce e recolhida,
+que &eacute; a poesia dos que se amam e na qual p&otilde;e a
+espa&ccedil;os a nota clara e festiva o riso do nosso
+filhinho, a nossa casa &eacute;
+como que a deliciosa encardena&ccedil;&atilde;o do
+poema do nosso amor! <br />
+
+<br />
+
+Todas as senhoras que eu conhe&ccedil;o sahem muito; os maridos
+voltam
+&aacute; noite exangues das enfadonhas
+labuta&ccedil;&otilde;es do dia, com o espirito abatido, com o
+corpo
+cansado e no entanto teem de seguil-as ao baile, ao theatro, a casa das
+amigas, de figurarem de comparsas na fastidiosa comedia social, de se
+mostrarem debaixo de um aspecto desfavoravel, de realizarem emfim
+&aacute; risca o lendario typo que o
+<em>romantismo</em> amarrou ao pelourinho do ridiculo, o <em>marido</em>
+macambuzio, o <em>marido</em> desengra&ccedil;ado, o
+<em>marido</em> sem espirito, em quanto &aacute; roda,
+fresco,
+malicioso, cheio de ditos e anecdotas, com uma rosa na abotoadura,
+borboleteia o <em>galan</em> que pov&ocirc;a de
+perigosas seduc&ccedil;&otilde;es a fantasia de todas as pobres
+mulheres frageis! <br />
+
+<br />
+
+Minha mulher &aacute; noite sahe raras vezes, de modo que eu
+durante o
+dia, na atmosphera pesada e asphyxiante do escriptorio, estou sem
+querer a scismar no conforto que me espera quando eu voltar.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[291]</span>
+O jantarinho quente, saboroso, cozinhado pela nossa velha Anna, debaixo
+da direc&ccedil;&atilde;o da minha querida Maria, a toalha
+muito
+branca, um ramo de lilazes no centro, as fructeiras de vidro com as
+suas pyramides de fructas, sahindo do ninho fresco e avelludado das
+folhas verdes, os talheres muito bem limpos, um grande
+conch&ecirc;go
+na atmosphera, e em tudo visiveis o gosto <em>d'ella</em>,
+os cuidados
+<em>d'ella</em>, o affecto <em>d'ella</em>
+manifestando-se no bem-estar
+que me envolve e me acaricia! <br />
+
+<br />
+
+Depois, &aacute; noite, o gabinete com a mesa redonda no centro, o
+candieiro de Carcel de luz clara e discreta, a poltrona de marroquim,
+com os grandes bra&ccedil;os abertos que me convidam, os jornaes do
+dia, a ultima <em>Revista</em>,
+um romance novo, e a minha
+querida mulhersinha, com um vestido que lhe fica muito bem e que andou
+ella propria a fazer &aacute;s minhas escondidas&#8213;a ladina!&#8213;como
+se eu
+n&atilde;o tivesse olhos perspicazes que v&ecirc;em de longe!
+com os
+seus longos cabellos louros penteados d'aquelle modo simples e
+puramente artistico, que faz da cabe&ccedil;a de cada estatua grega
+uma
+cabe&ccedil;a encantadora, e sobretudo com o seu sorriso bom, o seu
+olhar affectuoso e honesto, a sua voz consoladora que &eacute; uma
+musica, a melhor das musicas para o meu cora&ccedil;&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+Para al&eacute;m do reposteiro entre-aberto, v&ecirc;-se a
+alcova,
+<span class="pagenum">[292]</span>
+o ber&ccedil;o de cortinados brancos, e &aacute; luz
+branda da lamparina, sobre uma cadeira, um vestidinho claro, uns
+pequenos sapatos, umas meiazinhas de c&ocirc;r, umas cousas para
+que
+ninguem repara, e que a mim me fazem &aacute;s vezes chorar. <br />
+
+<br />
+
+Tenho j&aacute; perguntado a mim mesmo, que differen&ccedil;a
+existe
+entre mim e os outros homens, porque &eacute; que elles andam pelo
+gremio, pelos caf&eacute;s, pelos theatros, alguns pelas salas, e
+porque estou eu tanto em casa, finda que seja a minha tarefa diaria? <br />
+
+<br />
+
+Serei melhor do que os outros maridos? <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o; ella &eacute; que &eacute; melhor do que as
+outras mulheres. <br />
+
+<br />
+
+A felicidade de que eu gozo devo-a &aacute; sua
+comprehens&atilde;o t&atilde;o santa dos deveres, e ao meu
+egoismo todo masculino. <br />
+
+<br />
+
+Vou para onde me chama maior somma de alegrias e de confortos que posso
+conhecer n'este mundo. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ha n'isto merito nem dedica&ccedil;&atilde;o
+dignos de louvor. <br />
+
+<br />
+
+Se &aacute; noite a nossa pequena sala se enchesse das amigas de
+minha
+mulher, palradeiras, frivolas, pueris, a discutirem banalidades,
+&eacute; provavel que eu fugisse para qualquer outra parte. <br />
+
+<br />
+
+Se quando chegasse a casa, a visse prompta para sahir, &aacute;
+minha espera para me fazer envergar uma
+<span class="pagenum">[293]</span>
+terrivel casaca muito hostil, que me
+acenasse de longe com as suas azas de gafanhoto, se ella me apparecesse
+toda occupada de si, da sua
+<em>toilette</em>, dos triumphos que ia ter, e esquecendo
+completamente as exigencias mais prosaicas, do meu temperamento de
+homem, da minha vida de trabalhador, com certeza que me chegaria a
+minha hora de revolta, que o trabalho deixaria de ser o meio de que eu
+me servisse para alcan&ccedil;ar o bem estar dos meus, e que se
+tornaria simplesmente uma tarefa exercida sem alma, sem alento
+interior, s&oacute; para que o mundo me n&atilde;o alcunhasse
+de ocioso e de zang&atilde;o da grande colm&ecirc;a social. <br />
+
+<br />
+
+Dos defeitos d'ella proviriam todos os meus defeitos, dos seus
+esquecimentos, todas as minhas faltas. <br />
+
+<br />
+
+J&aacute; v&ecirc;s quanto ganhei casando-me com esta querida e
+nobre creatura. <br />
+
+<br />
+
+Se me perguntares o que ella sabe, dir-te-hei que sabe tudo, e que a
+sciencia toda lhe prov&eacute;m de uma s&oacute; fonte&#8213;o
+cora&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Comprehende Shakespeare e faz deliciosamente uma <em>omellete</em>,
+toca com o sentimento
+mais fino e mais ideal, uma phantasia de Beethoven, e inventou um
+systema engenhoso e abreviado de fazer o rol da lavadeira; adora as
+flores, os versos, as crean&ccedil;as, os livros, tudo que
+&eacute; bello, tudo que &eacute; bom na natureza, e de
+manh&atilde;,
+com a sua touquinha de cambraia branca,
+<span class="pagenum">[294]</span>
+o seu avental de merino, um <em>espanador</em> de pennas
+na
+m&atilde;o, pondo os moveis em
+harmonia, tocando em todas as cousas, imprimindo em tudo o cunho da
+symetria e da ordem, atarefada, sem distrac&ccedil;&atilde;o,
+sem enfado, parece uma <em>spinster</em> ingleza atacada
+da
+monomania do arranjo. <br />
+
+<br />
+
+A brincar com o filho, na rua areada do nosso pequeno jardim,
+dir-se-hia a sua irm&atilde; mais velha; na hora da
+atribula&ccedil;&atilde;o, na hora difficil em que de
+um bom conselho depende &aacute;s vezes a dignidade de um homem,
+lembra
+um espirito austero, cheio de altivas
+aspira&ccedil;&otilde;es estoicas. <br />
+
+<br />
+
+O contacto d'ella faz bons os que s&atilde;o maus, faz
+robustos os que s&atilde;o fracos! <br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o estas as mulheres que salvam a honra e a felicidade dos
+maridos. <br />
+
+<br />
+
+Queres um conselho? Procura no mundo outra Maria como
+&eacute; a minha e casa-te.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>CAPITULO XVII </h3>
+
+<h3>Confidencias maternaes </h3>
+
+<br />
+
+<div class="breaks">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Minha querida amiga.<br />
+
+<br />
+
+Ha quasi quatro mezes que te n&atilde;o escrevo, e supponho que
+n&atilde;o estar&aacute;s por isso mal comigo. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o sei bem dizer-te como se passam os meus dias, e quando
+&aacute;s onze horas da noite adorme&ccedil;o,
+um poucochinho fatigada e deixando sempre para o dia seguinte parte da
+tarefa d'aquelle dia, metto a m&atilde;o na consciencia e sinto que
+n&atilde;o commetti o delicto de desperdi&ccedil;ar um
+s&oacute;
+instante. <br />
+
+<br />
+
+E talvez que no fim de contas assim n&atilde;o seja. <br />
+
+<br />
+
+Ouve-me tu, e julga. <br />
+
+<br />
+
+Fez hontem um anno o meu querido
+<em>baby</em>. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; louro, &eacute; rosado, tem uma cabelleira revolta e
+crespa
+que lembra uma aureola de anjo, ou uma juba de le&atilde;o
+pequenino, tem um corpo roli&ccedil;o, mimoso, redondinho
+<span class="pagenum">[296]</span>
+que parece
+feito por uma fada muito habilidosa no seu torno de marfim. <br />
+
+<br />
+
+Come&ccedil;a a andar, e os passos d'elle, desastrados e timidos
+enchem-me a alma de um susto, de uma
+inquieta&ccedil;&atilde;o, de uma delicia, de um <em>n&atilde;o
+sei
+qu&ecirc;</em> profundamente novo na minha vida e que eu
+n&atilde;o encontro palavras que exprimam bem! <br />
+
+<br />
+
+At&eacute; aqui parecia-me que
+<em>elle</em> era
+<em>eu</em>, que fazia parte de mim, que n&oacute;s
+ambos formavamos um todo. <br />
+
+<br />
+
+Agora percebo e com uma surpreza que &aacute;s vezes chega a ser
+dolorosa! que me enganara, e que cada um d'aquelles passinhos hoje
+t&atilde;o miudos e t&atilde;o
+vacillantes, &aacute;manh&atilde; apressados e firmes, o
+ir&aacute;
+afastando
+de mim na vida, se eu o n&atilde;o souber seguir, fazendo-me como
+elle
+pequena, como elle infantil, penetrando intimamente na sua alma e ao
+mesmo tempo compenetrando-me bem de todas as doces claridades matutinas
+que ha dentro d'aquelle espirito que vae desabrochar. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o comprehendes bem esta inicia&ccedil;&atilde;o
+lenta, que no momento em que o corpo da m&atilde;e e o corpo do
+filho
+deixam de ser um s&oacute;, faz uma s&oacute; das duas almas de
+ambos? <br />
+
+<br />
+
+Visto que elle j&aacute; n&atilde;o p&oacute;de ser
+<em>eu</em>, &eacute; preciso que eu seja <em>elle</em>;
+s&oacute; assim lhe poderei ir inoculando na alma e
+no entendimento, tudo que no meu entendimento
+<span class="pagenum">[297]</span>
+e na minha
+alma houver de bom; s&oacute; assim me poderei ir lentamente
+transformando sob a influencia regeneradora e purificante d'aquella
+immaculada innocencia! <br />
+
+<br />
+
+Oh! divina transmiss&atilde;o mutua de virtudes e de
+for&ccedil;as, que constitue o la&ccedil;o
+moral e inquebrantavel que une a m&atilde;e ao filho das suas
+doloridas entranhas! <br />
+
+<br />
+
+Por ora nada tenho que ensinar ao meu louro
+<em>b&eacute;b&eacute;</em>. <br />
+
+<br />
+
+Tenho s&oacute; de escutar o que diz no silencio, aquella pequenina
+alma em embry&atilde;o, e de aprender a ler n'aquelle mysterioso
+livro
+que &eacute; indecifravel para todos e que &eacute;
+t&atilde;o
+eloquente para mim. <br />
+
+<br />
+
+B&eacute;b&eacute; tem uns grandes olhos; uns dizem que
+s&atilde;o azues, outros dizem que n&atilde;o. Por ora
+n&atilde;o tem
+c&ocirc;r; ou para melhor dizer ha na sua limpidez de crystal todos
+os
+cambiantes e todos os reflexos. Os olhos de B&eacute;b&eacute;
+s&atilde;o como a alma d'elle, teem a
+do&ccedil;ura do leite que bebe, teem a suavidade dos beijos com
+que o
+visto noite e dia. <br />
+
+<br />
+
+Scisma &aacute;s vezes vagamente... longamente... Em que?
+N&atilde;o ha
+ninguem que o saiba dizer, visto que um cora&ccedil;&atilde;o
+de
+m&atilde;e o n&atilde;o
+adivinha. Scisma no c&eacute;u d'onde veio? Talvez. Ha mysterios de
+luz
+na alma profunda das crean&ccedil;as. <br />
+
+<br />
+
+Gosta da claridade dos dias limpidos, das arvores, das c&ocirc;res
+vivas, e tambem da opalina tristeza do luar.
+<span class="pagenum">[298]</span>
+Gosta dos sons, dos risos, das caricias,
+&eacute; uma alma que vive em pleno azul. <br />
+
+<br />
+
+Nenhuma sombra n'aquella tela transparente onde a m&atilde;o de sua
+m&atilde;e vae escrever as primeiras
+palavras. <br />
+
+<br />
+
+Muita gente imagina que ser m&atilde;e custa apenas as
+d&ocirc;res
+dilacerantes de algumas horas, os incommodos mais ou menos crueis d'um
+certo periodo, e depois os cuidados de doze ou treze mezes. <br />
+
+<br />
+
+Quem pensa assim n&atilde;o sabe o que &eacute; ser
+m&atilde;e! <br />
+
+<br />
+
+Pois tu n&atilde;o ouviste que elle espera, e que a primeira
+palavra
+definida e clara que ha de vibrar na sua alma, sou eu que hei de
+dizel-a, &eacute; a minha
+m&atilde;o tremula, fraca e inexperiente que ha de tornar-se firme
+para
+a gravar indelevelmente? <br />
+
+<br />
+
+E se a voz esmorecer? E se a m&atilde;o vacillar? <br />
+
+<br />
+
+Quem me disse a mim que acertarei? quem me deu for&ccedil;as para
+encaminhar um s&ecirc;r que s&oacute; de
+mim ha de receber na terra o santo e a senha? <br />
+
+<br />
+
+E depois quando o vejo t&atilde;o lindo, querendo j&aacute;
+esbo&ccedil;ar o primeiro capricho, querendo experimentar a
+primeira
+vontade, querendo vencer o primeiro obstaculo, pergunto a mim mesma se
+terei valor sufficiente para lhe fazer perceber que a vida &eacute;
+uma lucta, para se tanto f&ocirc;r preciso, ser eu propria que
+lucte
+com elle, e que o ensine a ser vencido!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[299]</span>
+De quantas coragens mais que viris precisa de compor-se a fraqueza
+maternal! <br />
+
+<br />
+
+<div class="dots">
+</div>
+
+<br />
+
+Mas nenhum d'estes vagos pensamentos que eu deixo aqui t&atilde;o
+mal expressos te diz quaes s&atilde;o as
+occupa&ccedil;&otilde;es em que levo os meus dias! <br />
+
+<br />
+
+Meu Deus! e olha que acordo cedo! <br />
+
+<br />
+
+Ainda bem a cotovia n&atilde;o deixa ouvir a sua alegre voz
+matinal,
+ainda bem o gallo n&atilde;o atr&ocirc;a os campos
+com o seu grito estridulo de combate, que &eacute; um convite
+impetuoso
+para o trabalho, j&aacute; a voz do meu filho me acorda tambem a
+mim. <br />
+
+<br />
+
+Que penna p&oacute;de contar as delicias d'aquelle despertar! Os
+risos,
+as nega&ccedil;as, os beijos, e o modo malicioso com que elle
+deitado
+nos meus bra&ccedil;os e depois de fartar as exigencias do
+pequenino
+estomago, larga o seio para me sorrir com os beicinhos tintos de leite,
+e torna de novo a pegar-lhe para saborear voluptuosamente, lentamente o
+que j&aacute; n&atilde;o tem vontade de engulir com a avidez
+deliciosamente glutona da infancia. <br />
+
+<br />
+
+Vem depois o banho, o banho que &eacute; um poema! <br />
+
+<br />
+
+Est&aacute; alli a grande bacia de agua tepida, e emquanto o dispo,
+elle salta e ri, e deita-se para traz e namora a transparencia da agua,
+at&eacute; ao instante em que mergulha emfim entre risadas de
+crystal que me echoam no cora&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[300]</span>
+Tu sabes l&aacute; os cuidados, as manhas, as id&eacute;as
+engenhosas que &eacute; necessario p&ocirc;r em
+pratica para
+illudir a impaciencia d'estes seres adoraveis! O banho dura meia hora,
+e acabo d'alli encharcada, despenteada, can&ccedil;ada,
+triumphante. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; uma victoria de todos os dias. <br />
+
+<br />
+
+O resto do dia pertence-lhe a elle quasi exclusivamente. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; um tyranno o meu
+<em>b&eacute;b&eacute;</em>. <br />
+
+<br />
+
+Tenho de o passear, de lhe dar de comer, porque &eacute; preciso
+que
+saibas que o doutor vendo que elle
+j&aacute; tem oito dentes&#8213;carnivora creatura!&#8213;me deu
+licen&ccedil;a
+emfim para lhe dar tres vezes ao dia a sua competente papinha, tenho
+sobretudo de o entreter porque a imagina&ccedil;&atilde;o
+infantil que
+desperta tem
+exigencias de que tu n&atilde;o podes fazer id&eacute;a! <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; <em>spleenetico</em> como um
+velho <em>lord</em> o meu seraphim de palmo e meio de
+altura. <br />
+
+<br />
+
+D&aacute;-se-lhe um brinquedo agora, recebe-o com uma apparencia de
+enthusiasmo que illude os inexperientes; d'alli a um instante
+p&otilde;e-n'o de parte desdenhoso, enfastiado, insaciavel... <br />
+
+<br />
+
+Quer ver sempre cousas novas, quer que o emballem, e lhe cantem e o
+levantem ao ar e o fa&ccedil;am rir. <br />
+
+<br />
+
+Por'ora trata-se simplesmente de enganar aquella
+<span class="pagenum">[301]</span>
+actividade graciosa e irrequieta, mas
+quando chegar o momento de a applicar? <br />
+
+<br />
+
+Sabes uma cousa? sou felicissima e tenho muito m&ecirc;do... <br />
+
+<br />
+
+<div class="dots">
+</div>
+
+<br />
+
+<div class="dots">
+</div>
+
+<br />
+
+<em>Quatro annos depois.</em>
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="dots">
+</div>
+
+<br />
+
+Cinco annos! Sabes l&aacute;! Um homem, positivamente um homem! <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; mau. <br />
+
+<br />
+
+Deixa l&aacute; dizer que s&atilde;o boas as
+crean&ccedil;as. Olha que &eacute; uma perfeita
+illus&atilde;o, minha querida. <br />
+
+<br />
+
+Que bem se conhece n'elle j&aacute;, o bravio animal que todos
+n&oacute;s somos! <br />
+
+<br />
+
+<em>B&eacute;b&eacute;</em>
+&eacute; um monstro! <br />
+
+<br />
+
+No outro dia levei-o commigo a casa d'uma senhora minha amiga. Pois
+imagina que elle matou com a sua espada de pau, a boneca de pellica e
+semeas de Julia, uma pequenita de 3 annos, a filha mais nova da dona da
+casa! <br />
+
+<br />
+
+E como ella chorasse muito humilde, muito medrosa diante d'aquella
+sanha terrivel, chegou a amea&ccedil;al-a&#8213;o
+desgra&ccedil;ado!&#8213;com a
+mesma espada de pau que j&aacute; fizera tamanhos maleficios. <br />
+
+<br />
+
+Chorei de pena de o ver t&atilde;o mau, t&atilde;o irascivel,
+<span class="pagenum">[302]</span>
+t&atilde;o colerico, e elle o le&atilde;o pequenino,
+ajoelhou-se com as m&atilde;osinhas postas aos meus p&eacute;s,
+e gago,
+cheio
+de lagrimas, com os grandes olhos espavoridos,
+disse-me&#8213;perd&atilde;o
+mam&atilde;! <br />
+
+<br />
+
+&Oacute; Magdalena, imagina tu a for&ccedil;a de que eu
+precisei para o n&atilde;o devorar de beijos! Pois n&atilde;o o
+fiz! <br />
+
+<br />
+
+Mostrei-lhe uma cara seria, magoada, cheia de
+consterna&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o o abracei em todo o
+dia. <br />
+
+<br />
+
+Ha de ser colerico, j&aacute; v&ecirc;s. <br />
+
+<br />
+
+Quem me ensinar&aacute; a mim a corrigil-o? <br />
+
+<br />
+
+J&aacute; sei o que me respondes.&#8213;Faze queixa ao pae. O pae que
+lhe ralhe. <br />
+
+<br />
+
+Deus me defenda de tal. <br />
+
+<br />
+
+Em primeiro lugar o medo n&atilde;o corrige, humilha;
+n&atilde;o modifica, rebaixa. Depois eu n&atilde;o quero
+recorrer a ninguem para influenciar a alma de meu filho. <br />
+
+<br />
+
+O pae ha de intervir sim senhor, por&eacute;m mais tarde. Por'ora
+&eacute; elle meu, s&oacute; meu. <br />
+
+<br />
+
+Toda a crean&ccedil;a tem defeitos, e ai d'aquella que os
+n&atilde;o tem! Arrenego das
+<em>crean&ccedil;as-mod&ecirc;los</em>.
+Transformar esses defeitos&#8213;que s&atilde;o indicios caracteristicos
+do temperamento da organisa&ccedil;&atilde;o, de qualidades
+muitas vezes herdadas&#8213;em for&ccedil;as activas e fecundas, eis o
+grande problema da educa&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+E talvez tu cuides, minha pobre amiga, que as <em>gracinhas</em>
+de
+<em>b&eacute;b&eacute;</em> ficam por
+aqui?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[303]</span>
+Pois ainda ha mais? exclamas tu assustada. <br />
+
+<br />
+
+Sim, ha muito mais. Ha cousas que eu com a ajuda de Deus tenciono
+aproveitar e dirigir para o futuro bem d'elle. <br />
+
+<br />
+
+B&eacute;b&eacute; roubou!... imagina! <br />
+
+<br />
+
+No outro dia desappareceram-me de cima de uma <em>etag&eacute;re</em>
+da saleta umas
+bugigangas de marfim que me tinham trazido de Macau; adivinha onde fui
+dar com ellas? <br />
+
+<br />
+
+No seu quarto dos <em>bonitos</em>. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o estavam escondidas, valha a verdade! estavam
+impudicamente espalhadas ao sol, com uma
+ostenta&ccedil;&atilde;o de cynismo deveras aterradora. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o posso explicar bem o trabalho que tive para, sem polluir
+aquella innocencia sagrada, lhe explicar que n'este mundo ha <em>meu</em>
+e
+<em>teu</em>, e que a propriedade &eacute; um direito
+inviolavel. <br />
+
+<br />
+
+Como n&atilde;o ha nada mais difficil&#8213;para n&atilde;o dizer
+impossivel&#8213;do que introduzir uma id&eacute;a abstracta na
+cabe&ccedil;a d'uma crean&ccedil;a, n&atilde;o imaginas de
+quantos artificios e quantas manhas me val&iacute;. <br />
+
+<br />
+
+Cheguei a <em>roubar-lhe</em> tambem eu
+propria, parte dos seus <em>bonitos</em>. <br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o &eacute; que era vel-o, sem se atrever a
+condemnar-me, e no entanto sentindo revoltados, l&aacute; dentro da
+sua alminha de cinco annos, todos os instinctos de justi&ccedil;a
+<span class="pagenum">[304]</span>
+que sempre mais tarde ou mais c&ecirc;do alli tinham de
+manifestar-se. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tiveste muito pena de te tirarem os teus bonitos? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tive muita sim, mam&atilde;, respondeu todo sobresaltado e ainda
+mal restabelecido do susto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora ainda bem! O
+<em>b&eacute;b&eacute;</em> agora
+nunca mais tira nada a ninguem, ouviu? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! sim, e ficou-se instantes como que seguindo um trabalho que sem
+elle mesmo querer se lhe ia fazendo l&aacute; dentro. Ah! sim,
+&eacute;
+muito feio tirar
+&aacute;s pessoas o que ellas teem. B&eacute;b&eacute;
+nunca mais
+tira... <br />
+
+<br />
+
+No outro dia a Guilhermina, a minha velha aia que tu conheces
+perfeitamente, dizia-me consternadissima: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ninguem faz id&eacute;a de como o menino &eacute;
+mentiroso. Inventa cousas que &eacute; de fazer tremer uma pessoa. <br />
+
+<br />
+
+De feito, n&atilde;o ha nada mais prodigioso do que a phantasia de
+b&eacute;b&eacute;. <br />
+
+<br />
+
+Conta os factos mais extraordinarios que nunca se deram, como se
+tivesse assistido a elles. Da mais pequenina cousa deduz uma longa
+historia falsa. Umas vezes encontrou na rua um homem muito feio que o
+quiz levar comsigo; outras vezes mordeu-lhe um bicho, que elle parece
+ter visto e que descreve com as c&ocirc;res mais vivas. Quando
+est&aacute; um peda&ccedil;o longe de
+<span class="pagenum">[305]</span>
+mim vem narrar-me
+assombrosos acontecimentos que se deram com elle, do mesmo modo quando
+me deixa instantes, conta &aacute; Guilhermina uma infinidade de
+pormenores que s&oacute; existiram na sua
+imagina&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Como &eacute; que eu hei de conseguir subordinar a um principio de
+exactid&atilde;o e de verdade aquelle espirito iriado e
+phantastico,
+para o qual todas as cousas tomam uma f&oacute;rma differente da
+realidade? <br />
+
+<br />
+
+Crear uma alma! que miss&atilde;o difficil, que miss&atilde;o
+esmagadora. <br />
+
+<br />
+
+No fim de contas as for&ccedil;as da natureza n&atilde;o
+s&atilde;o boas nem m&aacute;s; da
+applica&ccedil;&atilde;o d'ellas
+&eacute; que tudo depende. <br />
+
+<br />
+
+Do meu anjinho, impetuoso cheio de ambi&ccedil;&otilde;es, de
+curiosidades, de irrequieta alegria, de cubi&ccedil;as intuitivas,
+de
+energia vital, p&oacute;de uma direc&ccedil;&atilde;o
+boa fazer um caracter nobre, viril, pertinaz, capaz de todas as luctas,
+prompto para todos os combates, investigador, inventivo, cheio das
+beneficas curiosidades do bem, e das ambi&ccedil;&otilde;es
+generosas
+que levantam e enobrecem. <br />
+
+<br />
+
+E pensar, meu Deus, que mal dirigidas, todas estas qualidades, todas
+estas for&ccedil;as, todas estas
+manifesta&ccedil;&otilde;es de vida intensa, podem leval-o
+&aacute;
+perdi&ccedil;&atilde;o, &aacute; infamia, ao crime!.. <br />
+
+<br />
+
+Oh! meu Deus, dae-me vida e entendimento para que s&oacute; eu
+amolde e affei&ccedil;&ocirc;e a querida
+alma de meu filho!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[306]</span>
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+O Luiz faz hoje o seu primeiro exame no Lyceu; j&aacute; se
+n&atilde;o chama
+<em>b&eacute;b&eacute;</em>,
+j&aacute; n&atilde;o tem aquelles annellados cabellos de ouro
+que eram
+o meu orgulho e as minhas unicas joias, os seus bellos olhos escuros
+j&aacute; n&atilde;o
+tem a do&ccedil;ura pensativa, o pasmo encantador da alma que se
+busca
+e que se ignora; usa jaquetinha e cal&ccedil;as, e hontem dei a uma
+vizinha pobre uma blusa que era d'elle, a sua ultima blusa de ha dous
+annos. <br />
+
+<br />
+
+Que tolice! Sabes que lh'a dei a chorar? <br />
+
+<br />
+
+O meu Luiz &eacute; quasi um homem. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; bom, &eacute; meigo, &eacute; d'uma deliciosa
+innocencia, de uma expans&atilde;o de vida que assombra! <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o &eacute; meditativo, nem poeta; nada d'isso.
+&Eacute; d'uma alegria impetuosa; d'uma actividade sem limites. <br />
+
+<br />
+
+Gosta de estudar para me satisfazer a mim, mas tenho a certeza que
+gosta de brincar para se satisfazer a si. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o sabe muito; ao p&eacute; dos nossos
+<em>sabich&otilde;esinhos</em> em miniatura, creio
+mesmo que
+passar&aacute; por um ignorante; mas a verdade &eacute; que
+est&aacute;
+apto e preparado para aprender tudo. <br />
+
+<br />
+
+Supp&otilde;e tu um lavrador que fizesse as suas sementeiras antes
+de
+preparar a terra com os convenientes adubos, e aqui tens parte dos
+educadores de hoje.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[307]</span>
+No meu filho&#8213;perd&ocirc;a-me este santo orgulho&#8213;nenhuma qualidade
+foi
+atrophiada, todas est&atilde;o no pleno desenvolvimento que lhe
+&eacute; proprio, n'aquella florescencia opulenta no fim da qual
+j&aacute; se antev&ecirc;
+sazonado e saboroso o promettido fructo. <br />
+
+<br />
+
+Tem o corpo d'um pequeno atleta. Capaz de resistir &aacute;s longas
+viagens, aos estudos complicados da sciencia moderna, aos trabalhos
+complexos do luctador d'este seculo estranho e poderoso. <br />
+
+<br />
+
+At&eacute; os seus recreios e distrac&ccedil;&otilde;es
+foram dirigidos com desvelo. <br />
+
+<br />
+
+Desenvolvem-lhe o corpo dia a dia, a nata&ccedil;&atilde;o, a
+gymnastica, a equita&ccedil;&atilde;o, todos os exercicios
+physicos que tendem a duplicar e desenvolver o vigor natural do homem,
+a creal-o mesmo se elle originariamente n&atilde;o existe. <br />
+
+<br />
+
+Vivemos muito no campo, durante a sua risonha infancia. O amor e o
+conhecimento intimo da natureza, das plantas e dos bichos, das cousas
+inanimadas e das cousas mudas, o espectaculo grandioso ou suave dos
+campos e das montanhas, dos tempestuosos mares, ou das placidas e
+fartas lezirias, entra como um elemento fortalecedor, vivificante,
+cheio de ensinamentos praticos na educa&ccedil;&atilde;o das
+crean&ccedil;as.
+Nunca uma arvore ensinou uma ac&ccedil;&atilde;o m&aacute;;
+nunca
+uma fl&ocirc;r ou um ninho de aves crearam um pensamento abjecto.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p308">[308]</a></span>
+N&atilde;o poz nunca o p&eacute; n'um collegio. N&atilde;o
+conhece nem as alegrias nem as lastimas d'essa intimidade que tem
+decididamente mais resultados funestos do que vantagens conhecidas. <br />
+
+<br />
+
+Aprendi quanto me foi possivel, n&atilde;o para lhe ensinar, mas
+para
+estudar com elle, e comprehender antes d'elle o que era preciso que
+elle comprehendesse. <br />
+
+<br />
+
+Diante dos seus bellos olhos limpidos e curiosos n&atilde;o
+consenti
+nunca que passassem os abjectos quadros que polluem tanta
+imagina&ccedil;&atilde;o infantil. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o me cancei inutilmente a pr&eacute;gar-lhe
+serm&otilde;es de moralidade abstracta; pratiquei o bem para que
+elle o praticasse; em minha casa s&oacute; tem visto
+<a href="#e9">exemplos dignos</a>. <br />
+
+<br />
+
+Mais tarde, quando os maus, rindo lugubremente, lhe disserem que o bem
+n&atilde;o existe, elle n&atilde;o
+acreditar&aacute; n'essa blasphemia porque pensar&aacute; em
+mim! <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o &eacute; ainda um homem, mas promette vir a sel-o! <br />
+
+<br />
+
+Est&aacute; quasi cumprida a minha tarefa. <br />
+
+<br />
+
+Hoje quando elle voltar contente de haver sido premiado&#8213;porque estou
+certa de que o ser&aacute;&#8213;acceitarei ainda os seus beijos como
+uma
+recompensa. <br />
+
+<br />
+
+D'aqui &aacute;vante &eacute; a seu pae que pertence a
+direc&ccedil;&atilde;o suprema d'aquelle espirito que
+desabrocha para
+todas as altas curiosidades da vida.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[309]</span>
+Choro porque as m&atilde;es s&atilde;o fracas, Magdalena, mas
+para que choro eu? <br />
+
+<br />
+
+J&aacute; nada, nada na terra nem mesmo a minha morte nos
+p&oacute;de separar. <br />
+
+<br />
+
+Todas as virtudes que elle tiver, ser&atilde;o simplesmente o
+fructo
+das flores que eu tenho cuidado com tanto amor, assim como essas flores
+veem dos germens que eu semeei cheia de susto, de delicias, de
+ambi&ccedil;&otilde;es, de louco anceio! <br />
+
+<br />
+
+Fui eu que o conduzi pela m&atilde;o, ao mesmo tempo tremula e
+confiante, at&eacute; ao limiar da sua pura adolescencia.
+<br />
+
+<br />
+
+Sinto orgulho &eacute; verdade, mas tambem sinto saudades! <br />
+
+<br />
+
+Saudades do tempo em que o embalava nos meus bra&ccedil;os, em que
+elle s&oacute; de mim vivia, como eu
+vivia s&oacute; para elle. <br />
+
+<br />
+
+Foram as minhas alegrias mais superiores e mais completas. <br />
+
+<br />
+
+D'ora &aacute;vante &eacute; preciso que elle se emancipe um
+pouco da minha tutella extremosa, que elle se v&aacute;
+robustecendo ao contacto rude dos homens e das cousas. <br />
+
+<br />
+
+Fui eu que o formei. Sinto que pertencer&aacute; ao numero dos
+fortes, e que n&atilde;o succumbir&aacute; na lucta da vida...<br />
+
+<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[310]</span>
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+Como estou velha, minha querida amiga de outros dias! <br />
+
+<br />
+
+Lembrei-me tanto de ti, hoje, na igreja onde fui assistir ao casamento
+do meu Luiz! <br />
+
+<br />
+
+Tem 24 annos, realisou as doces promessas que eu sonhara e sahiu hoje
+de casa de seus paes para outra casa que vae ser d'elle. <br />
+
+<br />
+
+Tu n&atilde;o sabes a nuvem de tristeza que obumbra a minha alma,
+n&atilde;o sabes como todos os egoismos humanos se revoltam em mim,
+e
+amea&ccedil;am fazer-me naufragar na sua formidavel tempestade! <br />
+
+<br />
+
+Oh! deixa-me desabafar comtigo! <br />
+
+<br />
+
+Quem &eacute; que ainda revelou ao mundo o martyrio que crucifica
+as m&atilde;es! <br />
+
+<br />
+
+Foi para outra que eu andei formando aquelle divino thesouro com todas
+as riquezas que pude juntar dentro da minha alma! <br />
+
+<br />
+
+Tantas noites que velei a pensar, a estudar, a pedir &aacute; voz
+intima da consciencia que esclarecesse e fortalecesse e guiasse o meu
+fragil cora&ccedil;&atilde;o de
+mulher! <br />
+
+<br />
+
+Tantos annos de abnega&ccedil;&atilde;o profunda, de
+abnega&ccedil;&atilde;o sem nome, de todas as horas, de todos
+os
+instantes, esquecida de tudo que n&atilde;o fosse aquella alma
+pequenina que andava a crear e a robustecer.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[311]</span>
+N'esse empenho me fugiu a mocidade. Por elle, pelo meu adorado ingrato
+me esqueci de tudo que f&ocirc;ra meu! <br />
+
+<br />
+
+E hoje elle partiu; partiu risonho, triumphante, orgulhoso como um rei,
+sem se lembrar que onde vira at&eacute; alli sua m&atilde;e,
+deixava
+uma triste
+condemnada!... <br />
+
+<br />
+
+E ha quem falle por ahi em ciumes romanescos, em ciumes ephemeros, em
+ciumes d'um instante! Qual ciume poder&aacute; comparar-se a este
+que
+me est&aacute;
+dilacerando o peito? <br />
+
+<br />
+
+Oh! Luiz! oh! meu amor! oh! minha solid&atilde;o!... <br />
+
+<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+Na ultima vez que te escrevi estava louca, minha velha amiga. <br />
+
+<br />
+
+Nunca est&aacute; s&oacute; quem ama, e espera, e cr&ecirc;
+em Deus, e semeou o bem no seu caminho. <br />
+
+<br />
+
+Veio lembrar-me tudo isso n'essa hora de amarga revolta que passou, o
+querido companheiro de toda a minha vida, o meu honesto guia, aquelle
+que partilhou commigo todas a sublimes responsabilidades que ha no amor
+dos paes. <br />
+
+<br />
+
+J&aacute; sou av&oacute; minha amiga, o meu Luiz &eacute;
+j&aacute; pae. <br />
+
+<br />
+
+Nas alegrias d'elle vejo reflectidas as alegrias extinctas, cujo aroma
+vago perfuma a minha alma de uma saudade ineffavel.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[312]</span>
+N&atilde;o se esqueceu de mim, o meu querido filho; tem presentes
+todas
+as minhas lic&ccedil;&otilde;es, o
+la&ccedil;o mysterioso que um dia nos uniu conserva-se
+inquebrantavel,
+e hoje n&atilde;o deixa ainda de vir consultar-me a cada instante
+como
+nos dias em que a sua alma e a minha trocavam incessantemente
+confidencias mutuas. <br />
+
+<br />
+
+Estou consolada! <br />
+
+<br />
+
+Vejo descer a velhice sobre mim como uma noite calma, tranquilla e
+cheia de estrellas! <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o &eacute; nunca infructifera a obra das
+m&atilde;es. <br />
+
+<br />
+
+O meu sacrificio, se o foi, ser&aacute; continuado, e desatar-se-ha
+em flores bemditas de gera&ccedil;&atilde;o em
+gera&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Felizes todas as que puderem adormecer como eu no seio de um filho a
+quem deram tudo que tinham de melhor, de quem receberam tudo que n'este
+momento levanta a minha alma para al&eacute;m da vida terrestre, e
+me
+faz antever o somno tranquillo e doce das consciencias justas. <br />
+
+<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+<h4>FIM. </h4>
+
+<br />
+
+<hr />
+<hr /><br />
+
+<h4>
+DA MESMA AUTHORA<br />
+
+<br />
+
+NO PR&Eacute;LO<br />
+
+<br />
+
+CONTOS E PHANTASIAS, 1 vol.</h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="fbox">
+<h2>Lista de erros corrigidos</h2>
+
+<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se
+listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4">
+
+ <tbody>
+
+ <tr align="right">
+
+ <td style="width: 61px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correc&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e1"></a><a href="#p59">#p&aacute;g. 59</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">acquisi&ccedil;&otilde;os</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">acquisi&ccedil;&otilde;es</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e2"></a><a href="#p97">#p&aacute;g.
+97</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 121px;">Dir-me-h&atilde;o
+quo</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">Dir-me-h&atilde;o
+que</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e3"></a><a href="#c9">#p&aacute;g.
+147</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 121px;"><em>mar
+dinho</em></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;"><em>maridinho</em></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e4"></a><a href="#c10">#p&aacute;g. 161</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">Girardiu</td>
+
+ <td>...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Girardin</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top;"><a name="e5"></a><a href="#p189">#p&aacute;g.
+189</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; vertical-align: middle;">uma
+lcance</td>
+
+ <td style="text-align: center; vertical-align: middle;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; vertical-align: middle;">um
+alcance</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e6"></a><a href="#p250">#p&aacute;g. 250</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">grande gestos</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">grandes gestos</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e7"></a><a href="#p263">#p&aacute;g. 263</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">desonvolver</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">desenvolver</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e8"></a><a href="#p263">#p&aacute;g. 263</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">affiige</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">afflige</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e9"></a><a href="#p308">#p&aacute;g. 308</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">exemplo dignos</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">exemplos dignos</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+</div>
+
+</div>
+
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Mulheres e creanças, by
+Maria Amália Vaz de Carvalho
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MULHERES E CREANÇAS ***
+
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+1.E.9.
+
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+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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