diff options
| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:47:47 -0700 |
|---|---|---|
| committer | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:47:47 -0700 |
| commit | e8750dcf552029dbba09155518904c742d0ff28f (patch) | |
| tree | 0ac390a92d436da095e4b82504a8064e952a8f2d /29550-8.txt | |
Diffstat (limited to '29550-8.txt')
| -rw-r--r-- | 29550-8.txt | 8090 |
1 files changed, 8090 insertions, 0 deletions
diff --git a/29550-8.txt b/29550-8.txt new file mode 100644 index 0000000..5123086 --- /dev/null +++ b/29550-8.txt @@ -0,0 +1,8090 @@ +Project Gutenberg's Mulheres e creanças, by Maria Amália Vaz de Carvalho + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Mulheres e creanças + notas sobre educação + +Author: Maria Amália Vaz de Carvalho + +Release Date: July 30, 2009 [EBook #29550] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MULHERES E CREANÇAS *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + + *Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos neste + texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em + caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. + No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos. + + Rita Farinha (Jul. 2009) + + + + +BIBLIOTHECA DO CURA DE ALDEIA + + +D. MARIA AMALIA VAZ DE CARVALHO + + +MULHERES E CREANÇAS + +(NOTAS SOBRE EDUCAÇÃO) + + +Editores--JOAQUIM ANTUNES LEITÃO & IRMÃO +Rua do Almada 209--1.^o andar +PORTO + + + + +MULHERES E CREANÇAS + + + + +A propriedade d'esta obra pertence: + +Em Portugal á _Bibliotheca do Cura de Aldeia_. + +No Brazil ao snr. Adriano de Castro, residente no Rio de Janeiro. + + + + +BIBLIOTHECA DO CURA DE ALDEIA + +MARIA AMALIA VAZ DE CARVALHO + + +MULHERES E CREANÇAS + +(NOTAS SOBRE EDUCAÇÃO) + + +PORTO +Editores--JOAQUIM ANTUNES LEITÃO & IRMÃO +Rua do Almada 209--1.^o andar +1880 + + + + +TYP. DE ALEXANDRE DA FONSECA VASCONCELLOS + +29, Rua do Moinho de Vento, 29 + + + + +Á + +Minha querida mãe + + +_Companheira constante e fiel de toda a minha vida, offereço-lhe este +livro humilde, que escrevi inspirada pelos seus conselhos e pelo seu +santo e nunca desmentido exemplo._ + + + + +CAPITULO I + + +Falla-se hoje muito a respeito da dissolução domestica, manifestada e +provada constantemente por casos de divorcio, suicidios, questões +miseraveis entre parentes proximos, rebelliões filiaes, etc., etc. + +Surprehende a todos aquelles, que sem aprofundarem radicalmente as +questões sociaes, se preoccupam todavia com ellas um pouco mais do que o +vulgo, que este mal que todos sentem e que poucos definem, que este +estado inquieto e doloroso que depois de agitar a familia assusta e +perturba a sociedade, se haja aggravado justamente na época em que o +homem auxiliado por grandes e immortaes pensadores, tem adquirido a mais +elevada e justa noção do Bem que ainda lhe foi dado alcançar no seu +caminho de seculos. + +A manifesta e clara contradicção que hoje mais do que nunca existe entre +as idéas e os factos desnorteia e desanima ainda os espiritos mais +penetrantes. + +Como é que o homem que tem domado a materia a ponto de fazer d'ella a +escrava submissa da intelligencia; que forçou a grande e muda Natureza a +tornal-o seu confidente e seu senhor; que arrancou ao astro e á planta o +segredo immortal da vida que os anima; que penetrou--investigador +implacavel--nas catacumbas das mortas religiões, e que ouviu de cada uma +a palavra suprema que as explica e desvenda; porque é que o homem que +tem hoje a percepção lucida e completa do seu destino, não soube ainda +prostrar, vencer, amordaçar o animal indomito que vive dentro d'elle, +que o martyrisa, que o rebaixa, que o leva muitas vezes ao abysmo, +quando o não leva ao lodaçal? Se o bom e o bello lhe revelaram a sua +larga claridade benefica, porque se não revigora elle, e se não +robustece n'esse grande banho de luz? porque não estabelece uma harmonia +perfeita e intima entre a idéa que fórma dos deveres e a sua +manifestação pratica e vizivel? + +Depois de havermos concedido ás paixões humanas o imperio relativo que +ellas não podem perder, somos ainda forçados a confessar que na culpa +d'esta desgraça que todos lamentam, compete ás mulheres um grandissimo +quinhão. + +Concorrem ellas em grande parte para dar força ao impulso que contraria +a marcha triumphante e apesar de tudo invencivel, que leva a civilisação +no caminho da verdadeira luz. E concorrem por varias e complexas razões +que devem analysar-se e depois combater-se. + +Ignorantes impoem resistencia inconsciente ás transformações continuas +do progresso. + +Retrogradas por educação e por natureza, cada innovação se lhes affigura +ou uma cousa inutil, ou uma cousa perigosa. + +Amesquinhadas pela profunda escuridão intellectual em que jazem +immersas, em vez de auxiliarem o homem no cumprimento difficil do dever +afastam-no pelo desdem, desanimam-no pela frivolidade, cançam-no com as +exigencias loucas, gastam-lhe a força, o alento, as aspirações arrojadas +e grandes na satisfação de desejos pueris, ou lhe destroem a dignidade e +lhe annullam a energia obrigando-o a transigir com os desvairamentos +d'uma imaginação doentia. + +Mas se as mulheres produzem este effeito funesto confesse-se para bem da +justiça que aos homens se deve o atrazo intellectual em que todas nós +estamos. + +Sentem elles, e a meu ver sentem muito bem, que para conservar este +equilibrio necessario á manutenção da ordem na familia e na sociedade, +cumpre que a mulher se não revolte contra a inferioridade a que +fatalmente a condemnam as leis, e contra a dependencia a que a condemnam +os costumes. + +Para alcançarem porém esta submissão voluntaria entenderam desde muito, +que o melhor meio consistia em condensar as trevas da ignorancia e da +superstição em torno d'aquella de quem são forçados a fazer a sua +companheira na vida, o seu consolo nas horas da provação, a mãe de seus +filhos, a carne da sua carne. + +Terrivel contradicção, systema absurdo que tem como resultado a lenta +desorganisação da familia e que corrompendo a mulher atravez do homem, +não póde deixar d'ir com o andar dos tempos corrompendo o homem atravez +da mulher. + +D'um lado querem conservar-nos n'uma plana muito inferior á sua, como +illustração, conhecimentos, intelligencia, isto para que nunca nos venha +á idéa aspirar á perfeita igualdade dos direitos e dos privilegios; +d'outro lado exigem de nós prodigios de virtude, de abnegação, de +paciencia, de que só são capazes as almas bafejadas pelo sopro ideal da +eterna Perfeição. + +A mulher precisa de ser moralmente mais forte do que o homem, para +conseguir levar a cabo a tarefa relativamente superior que a natureza e +a sociedade lhe impoem. + +No dia em que se assentar este ponto como verdade incontestavel, o mundo +terá dado um dos seus passos mais gigantescos no caminho da felicidade. + +Educar a mulher eis o grande problema que resta ainda a resolver. + +Educar a mulher é arrancal-a na infancia ao seu berço fôfo e tepido de +beijos, e leval-a por caminhos d'uma magestade austera que ella nunca +trilhou. + +É preparal-a para a grande lucta moral que é a Vida, com os cuidados com +que Sparta, a guerreira cidade antiga, preparava os seus filhos para as +luctas do corpo, para as victorias da destreza physica. + +É associal-a pela comprehensão e pela sympathia a todos os trabalhos e +investigações do homem moderno; é dar-lhe ao lado d'este um lugar +honroso e definido, não egual pois que são diversas as attribuições de +ambos, mas equivalente em direitos e em deveres. + +É fazer-lhe comprehender bem claro que as seducções do corpo--seu +orgulho supremo e seu constante desvanecimento--quando não são reflexo +da formosura e da robustez da alma, não passam d'um laço ignobil armado +ao animal malefico e bravio que todo o homem encerra em si. + +Educar a mulher é leval-a a compenetrar-se do seu papel providencial na +familia, e achal-o grande, util, elevado, digno de saciar as mais +levantadas ambições, e tambem--o que é d'uma importancia capital--de +pezar como uma responsabilidade tremenda no animo mais altivo. + +É dar-lhe uma idéa perfeita do dever e da justiça, um Ideal a que tendam +incessantemente as aspirações do seu espirito, uma religião que a +hypocrisia e os calculos interesseiros não maculem nem amesquinhem, que +se resuma para ella no sacrificio e no amor, mas sacrificio sem +voluptuosidades dissolventes e amor sem extasis hystericos e sem raptos +de paixão sensual. + +Não basta porém exprimir tudo que se ousa esperar da mulher de ámanhã, é +preciso tambem lançar um olhar demorado e justo ao que é a mulher +d'hoje. + +Só assim poderão comprehender-se os erros que é preciso desarreigar, os +preconceitos que é indispensavel destruir, a distancia enorme que temos +de transpôr para chegar ao momento da sua completa e salutar +transformação. + + +II + +As divisões sociaes que hoje em face dos homens educados nos mesmos +collegios, nas mesmas academias, nas mesmas escolas superiores, quasi +que se não distinguem, ou se distinguem apenas por ligeiros cambiantes +imperceptiveis ás vistas superficiaes, imperam ainda na mulher com +extraordinaria força. Vamos pois procurar ás diversas classes as suas +femeninas representantes, e pincipiemos pela mulher da classe media, +classe que considerada no seu elemento masculino representa a +intelligencia, a riqueza, o commercio, a industria, o progresso d'um +paiz. + +A mulher d'essa classe especial divide-se em dous generos +accentuadamente distinctos: aquella que as vaidades sociaes ainda não +corromperam, e aquella que pretende offuscar com os deslumbramentos da +sua opulencia, as finas graças, as exterioridades elegantes, os +requintes herdados e tradicionaes que pompeiam nas regiões mais elevadas +da sociedade. + +A primeira é evidentemente mais sympathica; é laboriosa e tem a rude +sensatez plebeia da sua raça. Tem o amor dos filhos, um amor animal, um +amor physico, mais instincto do que religião. Não raciocina mas sente +com uma energia poderosa e creadora. + +É d'uma ignorancia absoluta, ingenua, profunda, quasi sublime na sua +cegueira. Imagina-se porém investida d'um dever supremo a que todos se +subordinam:--o de proporcionar por todos os meios ao seu alcance o bem +estar material do marido, e da familia. + +Não tem conversação, não tem espirito, não tem aquella doçura benevola e +intelligente que é para o coração dos homens o que o algodão em rama é +para o ninho das aves. + +Quando aconselha irrita; quando quer guiar contraria, quanto tenta +convencer, despersuade. + +É porém activa, aceada, robusta, fiel, e nas horas de adversidade, de +doença, de desfallecimento ou de miseria, tem os carinhos rudes, tem a +dedicação humilde, tem a vigilancia perseverante, tem o exemplo energico +e fecundo por isso mesmo. + +O homem anda lá fóra, na lucta, no trabalho, na investigação, na +sciencia; vae vivendo e vendo como n'uma ascensão rude, desvendarem-se +todos os dias horisontes novos, vae estudando e sentindo como n'uma +iniciação progressiva dilatar-se-lhe o espirito, clarear-se-lhe o +entendimento. + +Ella a esposa, a sua companheira, a sua melhor amiga, ignora os seus +combates, as suas glorias, as acres delicias do seu sacrificio, os +desanimos, as horas de impotencia, as aspirações, os arrebatamentos +triumphantes da victoria. + +Percebe simplesmente se o marido está doente, se anda magro, se tem +fastio, se tem roupa branca. Inventa-lhe pequenos pratos, manipula-lhe +remedios caseiros, vigia para que lhe não faltem aquelles commodos que +elle aprecia, tem prodigios de invenção espontanea para o envolver no +bem estar tão necessario aos que se consomem n'uma actividade sem +treguas. + +De que ha de elle queixar-se? De nada. + +É amado, é estremecido, obedecem-lhe cegamente, tem a certeza de +encontrar ao seu lado sempre que o precise um sincero e leal affecto. + +Mas quando um sentimento superior o transporta, quando uma grande idéa o +levanta e ennobrece, quando um nobre desejo do bello e do bom lhe faz +palpitar de enthusiasmo o coração, é debalde que elle busca junto de si +o espirito que comprehenda o seu espirito, que partilhe as suas +impressões, que lhe revele emfim intima, absoluta, indestructivel, essa +união ideal sem a qual o casamento é espiritualmente infecundo e +incompleto. + +Isto tem de esmorecer fatalmente o impulso que levava esse trabalhador, +esse homem de pensamento ou de sciencia á conquista e á posse da sua +felicidade. + +Sem que elle talvez mesmo dê por isso, uma tristeza indefinivel, vaga, +sem traducção, lança como que um sopro esterilisador sobre as suas mais +queridas concepções. Falta-lhe alguma cousa que elle precisava e que no +entretanto não conhece nem sabe definir. + +Falta-lhe o complemento do seu sêr! + +Subamos agora na escala social mais um degrau. + +O trabalhador incansavel venceu. + +O dono da fabrica fez-se capitalista; o chimico enriqueceu com a sua +descoberta; o medico alcançou uma popularidade subita; o industrial +ganhou um milhão. + +Elle é simples e modesto, lembra-se dos dias em que trabalhava e +combatia, como dos seus dias melhores; não quer offuscar ninguem, +basta-lhe hoje como hontem lhe bastava a consciencia do seu valor +individual. + +Ella porém a mulher--e eis a segunda variedade que acima citamos--ella +que deixou penetrar na sua alma ignorante o veneno da vaidade, ella a +quem o trabalho forçado já não absorve, e a quem as distracções elevadas +e nobres d'um espirito culto são vedadas, ella que não pensa, que não +medita, que não entendeu bem na sua acepção levantada e digna a missão +exercida pelo marido pois que se envergonhava da pobreza honesta em que +vivera largo tempo, eil-a que deseja esmagar as que a esmagaram n'outra +época com o pezo da sua superioridade social, eil-a que opera a pouco e +pouco, quasi imperceptivelmente, uma influencia funesta no homem, que o +corrompe, e que o arrasta. + +Emquanto elle tivera as serenas e robustas consolações do trabalho que a +intelligencia illumina, e a que a intelligencia preside, tinha ella +apenas na sua profunda escuridão mental, as pequenas humilhações, as +raivas mal dissimuladas, os despeitos mal contidos. + +Não podendo ter a consciencia do seu dever o que a faria sublime, só +tivera a consciencia da sua inferioridade, que a tornara mesquinha e +redicula. Chegando o momento da desforra exigi-a completa. + +Leitora, quando tu vires passar triumphante, grosseiramente desdenhosa, +mal sentada nos flaccidos coxins d'um _coupé_ de oito molas, coberta de +velludos e de rendas a altiva burgueza dos nossos dias, lembra-te que é +o fructo pernicioso da ignorancia combinada com a mais feroz vaidade. + +Ninguem a excede no absurdo desprezo por tudo que está abaixo d'ella, +que é mais pobre, mais humilde, menos cheio de lantejoilas e de falsos +brilhantes. + +Tem as refinadas atrocidades do paria que se vinga. + +Como para ella ser pobre foi o maximo dos martyrios e a maxima das +humilhações envolve todos os pobres no mesmo olhar de cruel desdem. + +As filhas d'esta mãe são as desgraçadas creanças que por ahi vendem a +sua mocidade e os seus carinhos por um titulo avariado ou pelos milhões +d'um negreiro enriquecido. + +Não as accusemos, accusemos antes a perniciosa, a funesta educação que +receberam, germens que teem no passado as suas raizes damninhas e que +vão estender sobre o futuro a sua sombra deleteria e esterelisadora. + +Combater estes erros, lançar por terra estes preconceitos deve ser a +mira de todo o ser que pensa e crê! + + +III + +Deixemos agora os _menages_ modestos onde reina o trabalho ou os salões +vulgarmente luxuosos onde a riqueza ostenta os seus vãos orgulhos, e +penetremos no _boudoir_ elegante, onde a mulher do alto mundo proclama o +que se lhe afigura a sua incontestavel superioridade. + +Ha um preconceito falsamente democrata, e digo _falsamente_ porque a +democracia tem obrigação de ser justa, imparcial e intelligente, que +attribue aos restos desmantelados da nossa aristocracia, todas as culpas +e todas as inferioridades. + +Engano! + +É verdade que a aristocracia portugueza avaliada no seu conjuncto, se +annullou pela ignorancia, como a aristocracia franceza se annullou pelo +desdem, e a prova temol-a nós em Inglaterra onde esta classe que não foi +nunca ignorante nem desdenhosa, predomina com todo o pezo d'uma robusta +instituição de seculos nos destinos politicos, economicos e sociaes da +nação. + +Hoje porém, o que em Portugal resta de uma raça que teve todos os +privilegios e todas as prepotencias, tenta instruir-se de boa vontade, +aspira a levantar-se pelo valor individual, e se raras vezes o consegue, +é que o passado exerce ainda a sua influencia nefasta, é que a +decadencia e o abastardamento das raças são uma verdade scientifica +contra a qual nada póde a vontade humana. + +A fidalga tradicional e lendaria, soberba, sem conseguir ser magestosa, +ignorante, cheia de preconceitos, de rediculos e de toda a especie de +idéas estapafurdias, olhando de muito alto com um pasmo idiota que +aspira a ser desdenhoso, para as maravilhas d'uma civilisação que não +comprehende, vae desapparecendo completamente até dos velhos solares da +provincia acastellados e altivos. + +Morre sem deixar saudades e sem ter quem a substitua. + +Hoje as representantes femeninas das altas classes se não seguem um +caminho mais verdadeiro, mais util, mais fecundo em resultados praticos, +revestem ao menos a sua falsa percepção da idéa moderna, d'um prestigio +que á primeira vista agrada e seduz. + +A educação d'ellas, uma educação toda exterioridades brilhantes, se não +é aquella de que carecem as mães, as perceptoras de futuro, estabelece +comtudo e accentua incontestavelmente a sua superioridade social sobre +as gerações que as precederam. + +A influencia estrangeira e sobretudo a franceza, penetrou nas salas +desbotadas dos nossos palacios e nas luxuosas residencias da nossa +aristocracia moderna. + +Se não temos a mulher de familia, a creadora de uma geração robusta, +conscienciosa, crente e leal, temos a _mulher de sala_, que é uma nova +face da transformação lenta por que vão passando as idéas e os +acontecimentos. + +A mulher de sala é um producto exotico entre nós. + +A França recebeu-a da Italia, cultivou-a, transformou-a, deu-lhe todos +os requintes falsos, todos os donaires artificiaes, ergueu-lhe um throno +no seio das suas côrtes galantes, e deixou que nós, vendo-a de longe a +cubiçassemos e tentassemos transplantal-a para os nossos costumes chãos, +para a nossa pobreza envergonhada e modesta. + +Sahiu-nos uma cousa hybrida e estranha, que não está em relação com o +seu meio, deslocada, inutil, mas em todo o caso attrahente para os olhos +superficiaes. + +A mulher de sala falla umas poucas de linguas, com facilidade e +fluencia; escreve bem, com uma certa graça adquirida que não occulta a +frivolidade, mas que a envolve em véu rendilhado; conversa com vivesa e +com chiste, sabe dar aos pequenos _nadas_ da sua vida uma elegancia que +illude os incautos. Quem a vê de longe, no scenario pomposo da sua +opulencia, sente-se deslumbrado; quem a observar de perto conhece que +ella tem de facto caminhado para se afastar das suas predecessoras, mas +que o caminho que vae trilhando é como o que ellas trilharam, um caminho +falso, um caminho sem sahida. + +O primeiro obstaculo que a separa da verdadeira luz, é uma devoção +inteiramente errada, em que a idéa luminosa e fecunda prégada pelo +Christo se subverte e se afoga n'uma onda de preconceitos e de mentiras +anti-christãs. + +Se a mulher das classes inferiores estabelece entre si e o marido uma +barreira enorme--a sua ignorancia--a mulher mais culta e mais educada +das classes elevadas separa-se do marido, como se separa mais tarde dos +filhos isolando-se na esphera inaccessivel do seu intransigente +fanatismo. + +Quando digo fanatismo, não quero referir-me a uma crença exaggerada e +absoluta, que impere em todos os actos da vida, e que os subordine ás +suas austeras exigencias. + +É um fanatismo elegante, um fanatismo de _alta vida_, bastante +indulgente para se permittir todos os gozos sociaes, bastante severo +para não admittir que haja virtudes, merito, nobreza, sublimidade +possivel fóra do seu estreito gremio. + +Aqui como alli é sempre o divorcio na familia debaixo de qualquer dos +aspectos. + +Aqui porém mais completo ainda, visto que a vida da sociedade exige mais +da mulher, visto que n'esta existencia de representação exterior e +pueril, nem ao menos subsiste entre a mulher e o marido aquella +intimidade material, aquella protecção mutua que faz com que o homem +seja o braço, o amparo, o sustentaculo, e a mulher o desvelo, a +economia, a vigilancia continua, a dispensadora e reguladora de todos os +confortos materiaes da familia. + +A mulher de sala vive para todos, menos para os seus. + +Veste-se, despe-se, reza, confessa-se, recebe visitas, tagarella, +agrada, encanta, mas no meio d'este labyrintho de pequenas occupações, +de pequenos deveres, de pequenas caridades officiaes, de pequenas +praticas devotas, ignora completamente e absolutamente tudo que póde +constituir a verdadeira missão da mulher no mundo e na familia. + +Se alguem tivesse a ousadia de dizer-lhe: + +--Julgas-te superior e moralmente fallando a mulher do povo que ganha +com o suor do rosto ao lado do homem, o pão que os filhos hão de comer á +noite, tem sobre ti superioridade moral incontestavel. + +Julgas-te instruida e não tens no teu pequeno cerebro recheiado de +insignificancias bonitinhas, a noção mais elementar dos milhões de +cousas que precisas de saber para estares em harmonia com o teu tempo, +para educares dignamente aquelles em cujas mãos estão os destinos de +ámanhã. + +Julgas-te virtuosa e não pratícas nem concebes sequer nenhuma d'aquellas +virtudes sãs que são a dignidade, o imperio e a força da mulher. + +Julgas-te religiosa e cada uma das tuas praticas acanhadas, cada um dos +teus preconceitos mesquinhos te aparta da verdadeira religião que +allumia e esclarece os fortes. + +Julgas-te boa esposa e boa mãe e vives sósinha n'um mundo teu, povoado +de phantasias morbidas, onde teu marido e teus filhos não penetram; não +tentas acompanhal-os, consolal-os, comprehendel-os; nunca te veio á idéa +que a mãe de familia precisa de viver no coração dos seus, identificada +completamente com elles, para ser digna d'este sagrado nome! + +Se alguem lhe dissesse isto ella julgaria ouvir fallar uma lingua +estranha, ou rir-se-ia com desdenhosa incredulidade. + +Pois é necessario que ella entenda esta lição, que ella ouça estas +palavras, e que pelo seu esforço permanente e consciencioso, ella tente +sahir das trevas intellectuaes e moraes em que a sua funesta e falsa +educação a teem submergido. + + +IV + +No meio do desalento profundo, da inconsolavel tristeza, que n'esta +época parece obumbrar de espessas nuvens a alma do homem, e como que +vencer-lhe as aspirações e as energias, erguemos a voz desauctorisada e +humilde para apontar algumas das causas que produzem effeitos tão +deploraveis. + +Temos visto a desharmonia que existe no lar domestico, e encontramos +como unico motor de tamanho desastre a desigualdade intellectual que a +educação estabelece e nutre entre os dous sexos. + +Mas não se trata sómente de observar as causas e os effeitos, trata-se +de pensar n'um remedio que seja efficaz para este estado de cousas, que +a prolongar-se indefinidamente produz a dissolução social nos seus +aspectos mais dolorosos e mais repellentes. + +Se a sociedade e a civilisação requintada e corrupta dos nossos tempos +ainda não ensinaram á mulher o caminho verdadeiro e util que tem a +seguir, antes d'elle a teem afastado mais e mais, ella póde ainda +erguer-se do marasmo intellectual em que se compraz, e mostrar ao homem +que é digna de coadjuval-o na sua obra de reedificação, digna de +acompanhal-o na realisação pratica do que para elle, desajudado e só, +não tem passado d'uma bella concepção theorica onde ás vezes transluzem +não sei que visos de chimera. + +Todos os seculos teem mais ou menos acceitado a herança dos seculos +precedentes. + +Ao nosso cabe porém a gloria de ter renegado muitos erros do passado, de +ter proclamado a sua independencia, de ter produzido um reviramento +absoluto n'esse conjuncto de idéas, de conhecimentos, de aspirações e de +theorias que constituem o _ideal_ humano. + +O que hoje se exige da mulher é positivamente o contrario do que a +sociedade antiga affeiçoada por moldes diversissimos exigia até agora. + +Este ponto d'uma importancia capital precisa de ser esclarecido a fundo. + +Á escravidão absoluta a que o nosso sexo se curvou sob o imperio de +religiões extinctas, á bruteza dilacerante em que elle viveu submerso +entre as sombras das idades barbaras, succedeu--e succedeu +providencialmente--a apotheose da mulher divinisada pelo christianismo, +aureolada por aquella poesia artificial, exageradamente requintada e +platonica dos trovadores da Edade media, e aquella abnegação amorosa e +idealista dos paladinos da cruz! + +Essa transformação radical no destino da mulher fez sentir a sua +influencia até hoje, em phases e gradações successivas e diversas. + +Á castellã de repente acordada do seu lethargo mental, pela tiorba +namorada do pagem, ou pela supplica ardente do cavalleiro, succedeu a +rainha das _côrtes de amor_, a que erigia em dogma ideal o adulterio, a +que proclamava em sentenças _preciosas_ a quebra de todos os laços da +familia, a que via no amor requintado, falsamente seraphico, um direito +superior a todos os direitos e deveres domesticos. Veio depois a gentil +pagã da Renascença, a inspiradora dos artistas, a amante dos papas, a +musa dos loucos poetas, a princeza dos festins, erudita, apaixonada, +intelligente, cheia de phantasias superiores, que se era virtuosa se +chamava Victoria Colonna, e se era dissoluta se chamava Lucrecia Borgia. + +A esta que correspondia ao seu meio social, que cumpria uma missão +civilisadora, que tinha o seu destino marcado, e a sua orbita descripta +succedeu a mulher de sala do seculo XVII e do seculo XVIII, de que hoje +só temos a descendencia amesquinhada, decadente, anachronica, e, o que é +peor de tudo, inutil quando não é funesta, ridicula quando não é tambem +perniciosa, o que lhe succede quasi sempre. + +O homem que muitos seculos considerou a mulher um animal inferior e mal +domesticado, fez d'ella movido por influencias que não podemos historiar +aqui, o seu luxo, a sua poezia, o enlêvo das suas horas de ocio, depois +novamente a escrava dos seus vicios ou o instrumento dos seus prazeres, +e por fim um mero ornamento social, um brinquedo sem importancia, uma +creança indocil, ante a qual se curvava, não porque a respeitasse mas +porque n'esta falsa e mentida submissão encontrava novos requintes de +prazer. + +Não comprehendeu porém que era victima da sua propria injustiça, que a +corrupção da mulher se convertia para elle em gangrena, que o seu +amesquinhamento se lhe communicava em villeza, que a sua ignorancia o +fazia tambem retrogradar, que ha relações reciprocas que não podem +quebrar-se, e influencias mutuas a que os dous sexos ao mesmo tempo +divorciados e unidos, não podem por mais que queiram furtar-se. + + * * * * * + +Hoje uma corrente de ar puro, a corrente das idéas democraticas, +purificou a atmosphera viciada onde uns poucos de seculos haviam deixado +os vestigios das suas paixões insalubres. + +Tudo se transfigurou sob esta influencia benefica. Fez-se uma grande +claridade na alma dos povos e na dos individuos, o pensamento +reconquistou a sua independencia perdida, e uma voz firme e poderosa +bradou bem alto: t + +--Não se tracta de continuar no caminho que iamos trilhando, tracta-se +de procurar uma nova direcção que nos conduza á verdade. + +Ouvir esta voz é renunciar aos erros do passado, e cumpre que nós +mulheres renunciemos a elles, para não caminharmos por uma estrada +opposta áquella por onde vão subindo fortes, illuminados, convencidos, +os nossos paes, os nossos esposos, os nossos irmãos. + +Não é a uma penna tão obscura como é a minha que pertence dar leis +absolutas sobre um systema de educação diverso do que hoje está +geralmente adoptado. + +Limitar-me-hei rapidamente e apenas animada com a força da consciencia, +consultando o bom senso que é apanagio dos mais humildes, e a observação +que póde ser partilha dos mais pobres, a indicar alguns dos obstaculos +que nos separam moralmente d'aquelles de quem sômos companheiras e de +quem devemos ser auxilio e complemento. + +A vida da sociedade é uma vida toda de egoismo e de vaidade, a vida de +familia uma vida de renunciamento e de abnegação. + +Para viver na sociedade a mulher só precisa de ser exteriormente +agradavel, para viver na familia a mulher precisa de ser forte. + +O mundo exige as graças, as garridices, as subtilezas do espirito, as +louçanias do tracto; a familia sem prescrever inteiramente aquellas, +exige acima de tudo a consciencia firme, a idéa clara e definida dos +deveres, o espirito do sacrificio, e aquella energia branda que resiste +ás tentações dissolventes do peccado. + +Entendemos pois que os esforços de todos os educadores, de todos os que +se preoccupam com o futuro da sociedade devem convergir para annullar a +mulher dos salões, e para crear e fortalecer a mulher da familia. + +Não nos revoltamos contra as graciosas futilidades que hoje constituem a +educação feminina, não as condemnamos a um completo ostracismo, +desejamos simplesmente vel-as collocadas no lugar que por sua natureza +lhes compete. São simples ornatos decorativos, como taes os applaudimos +e os queremos, não como fundo solido e base de todo o cultivo +intellectual da mulher. + +Tambem não pedimos para o nosso sexo a emancipação, essa utopia de que +hoje se falla tanto e com tantas banalidades impensadas. + +O que nós desejariamos era vêr na mulher uma personalidade robusta e +consciente, inaccessivel ás chimeras da sentimentalidade, solidamente e +despretenciosamente instruida, tendo todas as noções praticas +necessarias para subordinarem o seu destino ás leis do bom senso, ao +alcance de todos os descobrimentos e de todas as conquistas do seu +tempo, comprehendendo o bello debaixo de todos os seus aspectos; prompta +para perdoar o mal mas não para transigir com elle; sabendo resistir-lhe +mas sabendo explicar as circumstancias que o attenuam ás vezes. + +Tendo acima de todas as religiões a religião do Bem, sacrificando-se aos +seus affectos, mas sacrificando-se principalmente aos seus deveres. + +Laboriosa como condição indispensavel da propria dignidade. + +O trabalho é a redempção. + +Não ha mulher que não tenha conhecido mais ou menos fugitivas, mais ou +menos traiçoeiras, mais ou menos perigosas, essas horas más chamadas +tentações. O trabalho é a salvaguarda para essas horas. + +Os espiritos ociosos são os espiritos accessiveis. + + * * * * * + +No dia em que este novo ideal tiver tomado uma fórma tangivel até para +os mais humildes e para os mais ignorantes a familia estará salva, +porque terá por esteio a moralidade. + +Até então ha de haver as incertezas, as duvidas, as vacillações, os +desalentos que tornam esta hora da vida das nações, uma hora +contradictoria, estranha, profundamente dolorosa, que já não tem raizes +no passado sem ter ainda um ficto no futuro. + +Trabalhem todas as mães n'esta obra sublime, e como a mythica Minerva +sahiu armada do cerebro olympico de seu pae, assim a mulher sahirá do +ninho em que se educou, já prompta para receber a pé firme o embate +tempestuoso das paixões, que se a vencem a inutilisam e a degradam. + + * * * * * + + + + +CAPITULO II + +O falso luxo + + +I + +Na nossa pequena sociedade de Lisboa, em que os meios estão em completo +desequilibrio com os desejos, chega todos os annos um periodo, o periodo +que antecede o carnaval, em que nos julgamos mais ou menos obrigados a +sacrificar ao amor da sociabilidade. + +Entendemos que uma sociedade civilisada não póde viver sem festas e sem +saraus, portanto é necessario que sem hesitação façamos tudo que nos +seja possivel, e mesmo impossivel, para darmos e recebermos saraus e +festas. + +Ouço eu por ahi dizer e affirmar que os talentos e os genios enxameiam +como papoulas nas seáras de abril. + +Não duvido, não senhor; temos talento, temos genio, temos superioridade, +temos phantasia, temos tudo quando quizerem. + +O que nós não temos é uma cousa pequena, humilde, despertenciosa, +desdenhada. + +Não temos _bom-senso_. + +Não quero aqui entrar na questão muito complexa e muito complicada de +saber se as festas, se os bailes, se os jantares de gala, se todas as +ceremonias pomposas da vida mundana podem ter no desenvolvimento da +industria, no progresso da civilisação moderna alguma influencia +benefica. + +Em outros paizes mais ricos, em outras nações mais industriaes, em outro +regimen mais favoravel ao luxo creio que sim. + +Entendo eu, porém, que as leis geraes não se podem applicar a casos +especiaes, e que nós não podemos conservar a vida falsamente luxuosa que +é e continuará a ser por muito tempo o nosso ideal supremo! + +Em Lisboa haverá cem familias que estejam no caso de gastar em +superfluidades um rendimento avantajado. + +Mas, como o amor da representação é o nosso cunho nacional, como o +desprezo pelos pobres é o timbre e o brazão da nossa sociedade, como o +luxo é o sonho e a aspiração constante de todos os cerebros juvenis, +provém d'aqui que dia a dia, se sente na familia uma perturbação e uma +desharmonia mais graves que o contentamento intimo e desinvejoso vae-se +tornando uma flôr rara, que só aqui ou alli enfeita suavemente a fronte +ignorante de uma collegial de quinze annos! + +Depois, como se não póde vencer o impossivel, mesmo as que empregam os +maximos sacrificios para apparecerem e brilharem, depois de alcançado o +fim a que aspiravam, ficam mais tristes e mais despeitadas do que antes +de o ter realisado. + +No baile, á luz opalina dos lustres, no aroma capitoso das violetas, +entre as magnificencias avelludadas das camelias, percebem--e com que +amargo desespero!--que o seu vestido não está fresco, que estão +machucadas as suas flores, que a ninguem illude o amarellado artificial +das suas rendas falsas, e que o _strass_ não póde substituir com muita +vantagem os diamantes verdadeiros. + +Oh! quantas privações, quantos sacrificios, quantas luctas conjugaes, +que scenas intimas, para alcançarem aquella _toillete_ mesquinha, +desbotada, humilhante, que parece ter malicias diabolicas em cada uma +das suas pregas, a rir-se ferozmente no seu _fru-fru_ escarnecedor. + +E a dona d'esse vestuario hybrido pensa de si para si com uma furia +concentrada, que põe manchas biliosas nas suas faces, e chispas sombrias +nos seus olhos pisados. + +--«Não consigo humilhar nenhuma das minhas inimigas, não venço nenhuma +das minhas rivaes! As pobres adivinharão todas as penas que esta hora de +ostentação me tem custado! as ricas terão dó, um dó profundo da minha +miseria mal disfarçada e mal occulta! Que ganhei eu com isto?» + +Ganhou, minha senhora, ganhou alguma cousa, póde crer. Ganhou a certeza +de que seu marido ou não a estima já, se é honesto e digno e tem a alta +comprehensão dos deveres da familia, ou continua a sentir o mesmo que +até alli tinha sentido, uma paixão insalubre ou uma indifferença +bestial, e n'esse caso não passa de um homem tolo, ou de um homem máu! + +Ganhou o haver definido, de si para comsigo a sua propria situação; +ganhou o reconhecer bem a que especie de marido entregou o destino de +seus filhos e o seu. + +E não se diga que ha n'estas minhas palavras demasiada acrimonia, ou +injustiça flagrante. + +O nosso defeito consiste positivamente n'isso: em dar pouca attenção a +todas as cousas; em ver os resultados sem observar e sem julgar as +causas; em perdermos completamente de vista, que não ha effeito por mais +mesquinho que não seja o corollario de uma lei importante. + +Não quero, já se vê, condemnar sem appello as senhoras que frequentam a +sociedade e se habituam á atmosphera artificial dos salões. + +Quero provar simplesmente que entre cem senhoras que o fazem, só dez é +que o podiam fazer, e que o nosso modo de ser social se não coaduna com +esses costumes pomposos, restos e herança de um extincto regimen. + + * * * * * + +Para se saber quanto o luxo corrompe e adoece um paiz bastar-nos-hia +apontar para a França de Luiz XV e para a França do segundo imperio. + +A historia e as chronicas d'esses dias de ominosa memoria +revelar-nos-hiam de um modo bem claro e bem frisante quanto é +escorregadio o declive que do luxo exagerado conduz á immoralidade, ao +impudor da mulher e ás deshonestas transigencias do homem. + +Não queremos, porém, n'este estudo despretencioso evocar a historia, nem +revolver o lodo das passadas corrupções. + +Queremos simplesmente fallar ao bom senso das leitoras, e queremos +fallar chãmente, simplesmente, sem declamações, nem idéas preconcebidas. + +Todos sabem que o nivelamento das classes, a livre divisão dos bens, a +democratisação das fortunas, se teem conseguido debellar muitas e crueis +injustiças sociaes do passado, teem sido tambem a destruição das +colossaes fortunas de outro tempo. + +Hoje, quando essas fortunas por acaso existem, são creadas pelo trabalho +em grande escala, pelas importantes emprezas commerciaes, pela +actividade devoradora de homens privilegiados. + +Já se não fundam como antigamente em direitos estaveis e +indestructiveis. São ephemeras, contingentes, dependem de muitas causas +com que se não póde absolutamente contar. + +Uma crise financeira, uma guerra européa, uma quebra importante, um +abalo qualquer de credito, e eis por terra um edificio assombroso e +complicado que parecia dever resistir ao embate de todas as tempestades, +e que um sôpro logra alluir! + +Ora, se isto tem relação com as grandes fortunas, se nem ellas podem +contar com o dia de ámanhã, que farão os que não possuem mais que o +necessario, os que ás vezes nem isso possuem? + +Antigamente, no modo por que estava constituida a hierarchia social, uns +tinham todos os bens, e outros soffriam todos os males; hoje como todos +teem eguaes direitos, todos querem ter eguaes regalias. + +Seria isso muito bom, se a egualdade que existe entre as prerogativas +podesse existir tambem entre as riquezas, se em vez de haver pobres e +ricos, houvesse sómente ricos, cousa a que nem os mais exaltados +socialistas se lembraram ainda de aspirar. + +Ora, se está sobejamente provado que, principalmente no nosso pequeno +paiz, ha uma minoria pequenissima que é rica, ha uma maioria enorme que +é miseravel, e ha, entre os dous extremos, uma classe, a mais +importante--no fim de contas, visto que tem a superioridade da educação +e da intelligencia, que é simplesmente remediada, porque é que não +havemos de sujeitar o nosso regimen social ás exigencias e necessidades +d'essa classe, que é a predominante, senão pelo numero, ao menos pela +influencia que exerce? + +Essa classe póde conhecer as distracções de uma agradavel intimidade, +mas não as pompas decorativas, as ceremoniosas galas de uma vida de +salão apparatosa e futil. + +Se os filhos d'essa classe olhassem para baixo e vissem as privações, as +luctas, as miserias dos que só conseguem com o suor do rosto ganhar um +pedaço de pão duro e cobrir pobremente o corpo emmagrecido, de certo que +se sentiriam felizes, triumphantes, dignos de inveja, na sua +mediocridade aurea, na modesta fartura da sua vida domestica, nas +distracções intimas de um circulo affectuoso e limitado. + +Mas não! Olham para cima, vêem os ricos, os potentados, os dominadores +do seculo, ouvem nas tentações febris das suas noites o tilintar +magnetico do ouro, vêem passar no fundo dos seus ligeiros coupés, +pallidas e desdenhosas mulheres, que medram como flôres exoticas de +fulva folhagem metallica na estufa das suas salas opulentas, sentem em +si o desejo insaciado de todos os prazeres que não teem, e sem +prudencia, sem pudor, sem dignidade, atiram-se ás especulações +vergonhosas, transigem com a sua propria probidade, vendem, desde os +bens que herdaram de seus paes, até á consciencia que lhes veio de Deus, +e quando conhecem que n'esta lucta ingloria, n'esta lucta impossivel só +podem ser vencidos, já não é tempo para retrocederem no funesto caminho +encetado! + +E que não ha parar n'esta ingreme descida. + +Teem-me dito por varias vezes que eu sou feroz para com o sexo a que +pertenço; que accuso com muita injustiça as mulheres de todos os males +que teem succedido, que succedem ou que estão para succeder no nosso +mesquinho planeta. + +Ora eu, pelo contrario, estou convencida de que o meu orgulho, de que a +minha vaidade feminil me levam a dar ás mulheres uma importancia que +mais ninguem lhes quer reconhecer. + +Eu digo que d'ellas provéem todos os males, porque estou +convencida--talvez sem razão--que d'ellas podiam provir todos os bens. + +Ainda no ponto de que se tracta é d'ellas toda a culpa, no meu humilde +entender. + +Sim, porque no fim de contas, não são os pobres maridos que mais desejam +figurar nos bailes e nos saraus, e que de boa vontade sacrificam a +commoda poltrona em que podiam dormir a sesta, o bom e saboroso +jantarinho que podiam comer, o livro util e proveitoso que comprariam, +para gastarem esse dinheiro n'uma _toilette_ falsamente luxuosa, n'uma +_soirée_ ridiculamente burgueza, n'um jantar de ceremonia cujos +acepipes, na opinião do conviva mais guloso, seriam só dignos de +figurarem n'um banquete de theatro com pratos de... papelão. + +São as mulheres que teem sempre a louca ambição de figurarem ao par de +outras mais ricas, embora n'essa lucta desigual só consigam tornar bem +visivel e bem grotesca a sua derrota! + +São as mulheres que consideram os prazeres mundanos como o indispensavel +elemento para a sua completa felicidade. + +São ellas que arrancam ás primeiras necessidades do _ménage_, á carne +que os filhos devem comer, ás roupas brancas da familia, aos abafos do +inverno, á lenha do fogão das noutes frias, á mobilia commoda e +confortavel das casas, ao peculio das doenças, ao asseio e ao conforto +domestico, o dinheiro com que adquirem esse luxo ridiculo, esse luxo de +_pacotille_ que não illude, nem excita a commiseração de ninguem. + +E quando ellas percebem no olhar e na bôcca dos que assistem a essa +lucta absurda, um sorriso malicioso, uma faisca de ironico desdem, são +ellas que irritadas, desvairadas, fóra de si, arrastam o marido á +extravagancia, á dissipação, á prodigalidade, ao crime, e arrastam os +filhos á miseria e á desolação! + +Nada mais funebre, mais triste, mais sombrio do que o interior de uma +d'essas casas, em que o necessario é sacrificado ao superfluo, em que o +real é sacrificado ás apparencias, em que o conforto intimo é +sacrificado ao apparato exterior. + +As criadas sujas, despenteadas, petulantes; as creanças pallidas, +anemicas, sem educação e sem solas; com os dentes podres e nodoas no +vestido; os moveis indiscretos na mal disfarçada miseria, uma unica casa +elegante--a sala--falsa taboleta de uma vida de imposturas; a roupa +branca do marido encardida e grosseira, a _toilette_ da mulher vistosa e +_mirabolante_. As côres _tapageuses_, substituindo a qualidade fina e +solida; a multiplicidade dos arrebiques, substituindo a simplicidade +opulenta do trajo. + +Quem depois de conhecer dous annos estas galés conjugaes, se resigna a +viver n'ellas? + +Os pequenos preferem o collegio sordido e brutal; o homem foge para o +botequim ou para outros sitios peiores; a mulher vive na rua, na +modista, no theatro, nas salas do seu conhecimento, no passeio, na +ociosidade e depois Deus sabe em que! + +Eis a vida creada pelo immoderado amor do luxo. + + * * * * * + +Afastemos porém os olhos d'estes quadros sombrios e que no entanto, +leitora querida, tu bem sabes que não são carregados. + +Imagine-se que transformada a sua educação, a mulher se formava +unicamente para o interior da sua casa. + +D'essa casa não fugiriam de certo os amigos fieis e dedicados, não se +excluiam as pequenas reuniões intimas, a musica, as conversações +artisticas, as leituras agradaveis, os alegres e joviaes serões. + +O que se excluia sem appellação eram os inuteis apparatos. + +Como a mulher tinha em mira ser só agradavel aos seus, deixava logo de +armazenar todas as suas armas--o espirito, a graça, o sorriso, a +amabilidade--para distrahir os estranhos, para agradar aos +indifferentes. + +Como desejava fugir ao tedio, á melancolia, ás enervantes tristezas da +solidão, aprendia a dispensar as companhias banaes, fazendo seus +companheiros, os melhores, os que nunca atraiçoam, os livros, a musica +boa, as flôres, o trabalho. + +Logo que, em vez de se enfastiar em casa, ella se, divertisse e se +achasse bem junto dos seus, elles começariam mesmo involuntariamente a +sentir-se aquecidos por essa boa e salutar influencia. + +Ninguem póde estar aborrecido ao pé de uma pessoa que se diverte +francamente. + +O marido por mais que os negocios de fóra o preoccupem e enfadem, por +mais que as luctas da arte, do commercio, da politica, da industria, o +cansem e mortifiquem, ha de sentir forçosamente um raio de bom e salutar +contentamento ao pé da esposa que volitar em torno d'elle viva e +chalreadora como um pardal, fresca como uma flôr, animada, activa, cheia +de invenções felizes, e de sincera e desaffectada alegria! + +E depois, eliminado o luxo exagerado da existencia de qualquer familia, +eliminam-se ao mesmo tempo os cuidados mais lancinantes, as +preoccupações mais absorventes, as luctas mais dolorosas, os despeitos +mais corruptores. + +Temos visto varias vezes o seguinte: O homem trabalha para dar o +bem-estar á mulher, e rouba para lhe dar o luxo! + +É que--note-se isso bem--o luxo quando não é a atmosphera natural em que +se nasceu e se tem sempre vivido, uma cousa que á força de estar +identificada comnosco, nós já nem se quer percebemos--o luxo quando é o +fim a que aspira a nossa desenfreada ambição, torna-se um elemento +profundamente desmoralisador. + +Enerva o corpo, excita fatalmente a imaginação, aggrava a +insaciabilidade natural aos desejos da mulher, dá-lhe a idéa de +requintes romanescos, de aventuras, de amores vedados, attrahe um +cortejo de voluptuosas tentações. + +A vida das salas é a consequencia inevitavel do amor do luxo que devora +a mulher de hoje. + +Não a mulher de uma certa e determinada classe, a mulher de todas as +classes sociaes. + +A esposa do alto financeiro, do colosso da industria, deseja vestir-se +de um modo que logo de uma vez córte pela raiz na alma ainda mais +ambiciosa o desejo de a vencer. + +Ora, como este desejo se nutre de difficuldades, todas as que estão no +mesmo caso d'ella travam a lucta e empregam os mais loucos esforços para +lograrem a palma. + +As raras flôres da nossa velha aristocracia, não querendo ser +desthronadas pelos potentados modernos, entram, já se vê, no combate com +grave transtorno das bolsas de seus respectivos maridos. + +A nenhuma d'ellas cabe completa victoria; se as rendas de Bruxellas que +guarnecem o vestido d'esta são mais preciosas, os diamantes que enfeitam +o collo e os braços d'aquella são mais raros; se a _traine_ de velludo +d'est'outra é mais distincta, a tunica de setim e ouro da outra é mais +singular. + +E o combate recomeça mais feroz, mais acceso, mais desapiedado. + +Cá em baixo a lucta toma as mesmas fórmas. É a lucta da falsa riqueza, a +lucta das pedras que fingem brilhantes, das _imitações_ que fingem +rendas, dos vestidos concertados que fingem vestidos novos. + +São mais profundos ainda os despeitos, é mais desesperada ainda a +energia que se gasta! + +Quem vive esta vida ardente, inflammada de ambições insalubres, exaltada +de mesquinhas invejas, corroida de miseraveis tricas, não póde, não +sabe, não tem forças para ser boa esposa, boa mãe, boa dona de casa! + +Pintámos em traços rapidos a vida das nossas mundanas; procuraremos +desenhar, se tanto nos fôr possivel, a vida que ambicionamos e desejamos +para a mulher de familia. + +No dia em que ella a quizer adoptar, reconquistar-se-ha a serena +dignidade, a tranquilla doçura do lar domestico, que pouco a pouco se +vae tornando desflorido, melancolico e deserto. + + +II + +Nas paginas antecedentes condemnava eu a vida de apparato, a vida da +sociedade, a _vida de sala_, pela influencia corruptora que ella exerce +nos costumes e nos sentimentos, e pela absoluta desharmonia em que ella +está com a moderna concepção da familia e da sociedade. + +No entanto não basta só lavrar a condemnação de um modo de ser social, é +necessario apontar o remedio, ou pelo menos apresentar um alvitre que á +nossa consciencia pareça proficuo e salutar. + +As mulheres gostam da vida frivola e inutil dos salões, pelos seguintes +motivos: + +--Porque as salas são o theatro dos seus triumphos e conquistas. + +--Porque é ahi que ellas são lisongeadas, louvadas, incensadas e +queridas. + +--Porque os homens só prestam homenagem ás mais bonitas, ás mais +vaidosas, e ás mais ricas, na realidade ou na apparencia. + +Além d'estas causas que as levam a gostar da representação e da pompa +mundana, ha outras dependentes d'estas ou relacionadas com ellas, que as +levam a aborrecer-se no interior das suas casas. + +Primeiramente, e acima de tudo, a falta de uma educação solida e +positiva, que as faça encarar a vida debaixo do seu verdadeiro aspecto. +Um aspecto de seriedade e de justiça, assentando na comprehensão de +todos os deveres. + +Segundo, a inhabilidade e a ignorancia, que as torna incapazes de +qualquer trabalho seguido. A falta de gosto natural ou de gosto +adquirido, para se entreterem, para se distrahirem, para revestirem de +uma fórma sympathica e attrahente as suas obrigações de donzellas, de +esposas, de mães, de donas de casa. + +Terceiro, a inveterada frivolidade que herdaram, e que os exemplos +recebidos, e a falsa educação mais aggravou e desenvolveu, tornando-a um +perigo, o maior de todos os perigos que ameaçam a familia. + +Eu tenho repetido isto tantas e tantas vezes, que receio por fim +enfastiar as minhas leitoras. + +_É necessário antes de tudo transformar radicalmente a educação das +mulheres._ + +Muitas das cousas que hoje se ensinam é mister que deixem de se ensinar. + +Muitas outras que se encaram debaixo de um certo e determinado ponto de +vista, cumpre que se vejam sob outro aspecto inteiramente differente. + +Outras ha ainda a que ninguem attende e que se não ensinam, e é +positivamente a essas que se deve dar a maxima e a mais desvelada +attenção. + +Tratemos de apresentar exemplos das tres asserções que acabamos de +apresentar. + +Das cousas inuteis que hoje se consideram ainda partes integrantes de +uma educação perfeita. + +Ha a _dança_: um talento absolutamente dispensavel, que nas meninas só +serve para desenvolver a _coquetterie_, o desejo de brilhar e de +agradar. + +A _tapeçaria_: um pretexto futil para estragar o tempo. Em quanto a mão +vae preguiçosamente bordando a talagarça, a phantasia irrequieta da +mulher, da creança, corre e vôa por montes e valles, á procura de um +vedado ou de um impossivel ideal. Chama-se a este genero especial de +trabalho feminino, a _hypocrisia da preguiça_. + +Como estas duas cousas, ha muitas mais que não temos tempo de enumerar, +mas que se não são nocivas como a primeira, são pelo menos inuteis como +a segunda. + +Procuremos agora muitas das materias que se ensinam, e devem continuar a +ensinar-se, mas ás quaes a educação tal como está rotineiramente +estabelecida, não sabe dar a importancia e o valor devido. + +São a musica, a historia, as linguas, a geographia, a arithmetica, etc., +etc. + +O primeiro cuidado de toda a mãe vaidosa ou illustrada, intelligente ou +mediocre, é que as suas filhas aprendam a tocar piano. + +Muito bem. + +É preciso, porém, advertir-se que a _monomania do piano_, tal como ahi +anda inoculada e propagada, é um flagello, um temivel flagello e nada +mais. + +A musica é de todas as artes aquella que mais falla aos sentidos e á +alma do homem. + +Modera, dulcifica, adormenta, consola, estimula, apaixona, enternece e +muitas vezes, quando profanada e desvirtuada por sacerdotes sacrilegos, +enerva, abranda a energia e a vitalidade do espirito, e vence todas as +resistencias viris do caracter. + +É uma amiga, póde ser uma cumplice. + +Em todos os casos é um grande, um milagroso, um divino, um terrivel +poder. + +Mas mesmo pelo papel importante que occupa, mesmo pela influencia +profunda que exerce, não é dado a todos interpretal-a e comprehendel-a. + +Muitos ha que se submettem ao seu irresistivel dominio, sem saber sequer +adivinhal-o ou presentil-o. + +Quantas vezes não temos visto uma pobre mulher boçal, uma modesta e +ignorante creatura, chorar de commoção ouvindo as notas tristes de uma +flauta ou de uma guitarra! + +Não tem a consciencia da commoção que a perturba, mas vibram-lhe os +nervos, latejam-lhe as fontes, toda ella palpita e estremece como que +agitada por uma potencia ignota. + +Como todas as artes, a musica só póde ser interpretada por quem a +comprehenda com o seu espirito, e por quem a sinta com o seu coração. + +De outro modo é uma profanação e é um escarneo. + +Achamos, portanto a musica, um elemento poderosissimo de educação, mas +exigimos que haja intelligencia e vocação nas pessoas que a aprendem. + +Não é fazer do piano um attributo indispensavel de todo o ensinamento +elegante, e obrigar sem discernimento e sem escolha todas as meninas a +estudal-o e a atormentar com elle o ouvido do proximo. + +Logo que se comprehenda bem o grande alcance da musica, a sua influencia +moralisadora, a sua missão artistica, as mães escolherão de entre as +suas filhas, aquella ou aquellas que mostrarem predisposição para este +genero de estudo e auxiliarão por todos os modos o desenvolvimento +d'essa vocação. + +O piano deixará de ser o flagello e a peste das _soirées_ sem ceremonia, +o tormento dos visinhos proximos, o pezadello dos maridos, o martyrio +das proprias executantes. Não reinará exclusivamente como até aqui esse +despotico e terrivel instrumento. + +Não se dirá das meninas _bem educadas_: _toca admiravelmente_, +subentendendo já o malfadado _piano_. + +Dir-se-ha mais acertadamente: _sabe musica_, _toca muito bem +violoncello_, ou _harpa_, ou _rebeca_, ou _piano_ mesmo, porque nós não +queremos condemnar nenhum instrumento ao ostracismo, pelo contrario +queremos livrar os outros do ostracismo a que estão injustamente +condemnados. + +Com esta escolha sensata das pessoas que particularmente devessem +cultivar a sua vocação musical, muitos bens proviriam á educação da +mulher. + +A musica executada só por quem a entendesse, ouvida só por quem a +apreciasse, tornar-se-hia, em vez de um ornato de vaidade, uma elevada +distracção artistica. + +Educaria e apuraria o gosto, exerceria a sua pura e civilisadora +influencia, seria o repouso depois do trabalho ou a consolação no meio +d'elle. + +Os velhos mestres allemães com as suas largas e simples harmonias, +ouvidas á noute no serão modesto da familia, ao pé de um ou dous amigos +intelligentes e sinceros, penetrariam o coração da mulher de uma +serenidade affectuosa e dôce, de um casto enternecimento salutar! + + * * * * * + +O que dizemos da musica instrumental tem applicação a todas as outras +artes. + +O canto, o desenho, a pintura, a escultura mesmo. + +Todas merecem o nosso respeito, não como adornos pueris, mas como +elementos de util e fecunda moralisação. + +Sempre que a mãe ou que a educadora descubra em sua filha, ou na sua +discipula, tendencia pronunciada para um ramo qualquer de actividade +intellectual, deve por todos os modos facilitar e desenvolver essa +vocação espontanea. + +Mas que a educação de todas não seja pautada por um molde uniforme! + +Mas, por Deus! que não se faça d'esta grande e sublime missão de +cultivar um espirito infantil, uma questão de moda, uma questão de +vaidade, uma questão de mutua inveja mesquinha. + +As linguas são hoje ensinadas com muito esmero. + +Mas que applicação se dá a essa sciencia adquirida em muitos annos de +estudo e de pratica? + +Uma applicação deveras ridicula! + +Entre vinte das meninas que sabem hoje francez, inglez, allemão ou +italiano, não ha quatro que tenham lido Hugo ou Bossuet, Racine ou +Montaigne, Shakspeare ou Milton, Goethe ou o Dante, não ha quatro +sobretudo que estejam aptas para comprehenderem estes mestres do +pensamento e da palavra. + +E no entanto para que servem as linguas estrangeiras? + +Não passam de meros instrumentos com os quaes adquirimos noções, factos, +idéas, conhecimentos, que nos seriam estranhos sem ellas. + +Na lingua de um povo está consubstanciado muito do que elle é moral, +physica e intellectualmente. Penetra-se no caracter de uma nação +conhecendo a fundo as locuções de que ella se serve. + +E quem é que hoje encara as linguas d'este modo a não ser algum +philosopho retirado na sua torre ideal, ou algum philologo embebecido +nos seus estudos? + +É preciso que este conhecimento se vulgarise e se propague, para que as +linguas estrangeiras tomem na educação o lugar que lhes compete. + +A historia, que é um apontoado de datas e de nomes proprios, de +dynastias e de batalhas, logo que passasse a ser na educação das +mulheres o que ella é já no espirito dos criticos, seria um estudo +attrahente, mais dramatico do que todos os romances, de uma realidade +mais poderosa e dominadora. + +A geographia, que não é mais do que uma arida e enfadonha nomenclatura, +animada pelo espirito da mãe intelligente, levaria a imaginação +infantil, não já pelos paizes chimericos, do sonho e do impossivel, mas +por essas regiões pittorescas, onde tanto ha que vêr e que aprender. + +Mais tarde as sciencias naturaes, a botanica, a mineralogia, a biologia, +abririam ao espirito já preparado, horisontes larguissimos, onde pudesse +espraiar-se livremente. + + * * * * * + +Assim educada, quer dizer, sabendo tudo que sabe hoje, mas classificado +por outra ordem, e encarado debaixo de outro aspecto, e muitissimas +cousas que hoje não sabe, mas ás quaes a conduziria naturalmente, o novo +methodo dos seus estudos, a mulher transfigurada, levantada, +fortalecida, podia aspirar a uma vida inteiramente diversa da que hoje +tem. + +Teria grandes vantagens esta modificação profunda no seu modo de ver, de +pensar e de sentir. + +Vulgarisada para todos a educação cujas bases apontamos, desapparecia da +sociedade essa entidade singular chamada _mulher pedante_. + +É extraordinario mas é verdade, a ignorancia das outras é que constitue +o pedantismo d'esta. + +Sendo uma excepção no seu meio, tem as qualidades e os defeitos das +_excepções_. + +Comprehende que é alvo da curiosidade, do pasmo, da observação dos que a +rodeiam, e a pouco e pouco vae cahindo n'uma _pose_ artificial que a +torna ridicula. + +Poucas são as que téem a coragem de--tendo um lado superior--se +conservarem simples, desartificiosas, naturaes. + +Lêram, estudaram, compararam; no meio da estupidez geral, produzem um +vago assombro que lentamente vae distinguindo n'ellas! + +Oh! mas no dia em que a mulher instruida deixasse de ser uma excepção +admiravel, como ellas, as pobres _mulheres pedantes_ se sentiriam +humilhadas e deslocadas! + +A vida de sala iria pouco a pouco sendo o apanagio das frivolas e das +tôlas, e acabaria por desapparecer completamente. + +A mulher dentro de sua casa sentir-se-hia bem, porque teria em si +recursos sufficientes não só para entreter os seus, como tambem--e é +isto o principal--para se _entreter a si_. + +É essa a grande questão! + +É preciso que as mães preparem o espirito de suas filhas de modo que +ellas não precisem dos outros para viver contentes. + +E como se ha de conseguir este fim? + +Educando-as para que ellas bastem a si proprias. Dando-lhes ao espirito +todos os recursos, ao corpo todo o vigor, ao caracter toda a austera +dignidade; cultivando e desenvolvendo todas as faculdades superiores que +ellas revelem, encadeando harmonicamente as suas acquisições +intellectuaes, para que d'essa harmonia interior resulte para ellas uma +exacta e elevada comprehensão da vida! + +E não é muito o que nós exigimos. + +Somos a primeira a confessar que hoje ha muito mais esmero e apuro do +que havia antigamente na instrucção que as classes abastadas dão ás suas +filhas. + +Pouco mais precisam de aprender; o que lhes falta é a ligação logica +entre as varias cousas que aprendem, é uma concepção mais larga das +mesmas sciencias que adquirem, é o conhecimento das proprias armas que +possuem, contra esse inimigo poderoso da mulher, chamado Tedio. + +Em nosso humilde entender classificariamos d'este modo os conhecimentos +indispensaveis a toda a mulher, para esta ser julgada apta a exercer o +sacerdocio de esposa, de mãe, e de dona de casa. + +As linguas estrangeiras, consideradas como meios de adquirir noções +praticas, idéas justas, factos positivos; como meios de comparar, de +julgar, de aquilatar, de exercer emfim o seu senso critico, de modo que +o desenvolvesse, elevasse e afinasse; como meios de conhecer as +differentes manifestações do bello e de as poder relacionar entre si. + +A Historia, com o fim de conhecer através d'ella a humanidade de todos +os tempos, de seguir a sua lenta e continua evolução, e de penetrar +lucidamente no sentido da palavra--progresso. + +O conhecimento profundo e philosophico da historia moralisa, pacifica, e +revigora as crenças. Dá ao espirito, além de notavel perspicacia, grande +justeza de pontos de vista. + +Viriam depois, como já dissemos, a geographia natural, a arithmetica, a +geometria, as sciencias da natureza, e isto harmonicamente, +progressivamente, de deducção em deducção, sem esforço, ligando um +conhecimento a outro conhecimento, n'uma cadeia logica e inquebrantavel. + +Juntamente com estas acquisições uteis, e como que amenisando os +esforços que ellas por ventura custassem, a mãe intelligente levaria sua +filha a cultivar especialmente a arte para a qual sentisse mais +accentuada vocação. + +Preparada por esta iniciação em que o espirito fosse exigindo dia a dia +alimento mais substancioso e mais forte, á proporção que mais rico de +vigor e de vitalidade elle se sentisse, escusado é dizer, que nenhuma +mulher deixaria de comprehender e de saborear com intimas delicias o +encanto novo e superior com que a arte illuminasse a sua vida. + +Seria uma ascensão gloriosa e lenta, ás alturas onde se respira um ar +mais puro e mais subtil. + +D'alli, d'aquella montanha ideal, a que ella houvesse subido, levada +pela sciencia e pela arte, pelo estudo e pelo sentimento, ser-lhe-hia +facil descobrir o caminho que devesse seguir na vida. A idéa do dever, +esta idéa que é o remate e a corôa da educação perfeita, +apresentar-se-lhe-hia como um resultado natural de todo o trabalho +interior que no seu espirito se houvesse feito. + +Chegariamos emfim ao ponto que queremos attingir. + +A educação deixaria de ser um fim e tornar-se-hia o meio elevado e +transformado de alcançar a perfeição moral. + +Resta, porém, fazer uma pergunta que está no animo de todos. + +Sujeitar-se-ha a mulher, assim arrancada de chofre á banalidade da +esphera limitada em que tem vivido até agora, a cumprir as mesmas +humildes obrigações, que teem sido e continuarão a ser a sua tarefa +quotidiana, e o seu quinhão na vida? + +De certo que sim, e seguindo o mesmo methodo que seguimos para o seu +cultivo intellectual não nos será difficil provar que esses mesmos +deveres, logo que sejam comprehendidos dignamente, em vez de humilharem, +são um triumpho para aquella que os sabe exercer. + + + + +CAPITULO III + +A velhice das mulheres + + +Nas nossas continuadas predicas ácerca da transformação que é necessario +operar-se em tudo que respeita á educação feminina, levamos em mira +principal, duas cousas muito dignas de attender-se. + +Primeiro: que a mulher torne quanto possa, independente de +circumstancias exteriores, a marcha do seu destino, quer dizer, que ella +não seja forçada fatalmente a seguir um caminho para o qual haja no seu +espirito instinctiva repugnancia, que ella dispense na sua vida +influencias estranhas e muitas vezes incompativeis com a sua indole. + +Segundo: que ella se vá lentamente preparando na infancia e na sua tão +curta e ephemera mocidade, para a quadra mais longa, mais difficil e +podemos hoje dizer, mais dolorosa da sua existencia: a velhice. + +Exemplifiquemos, para que melhor seja comprehendido o nosso raciocinio. + +No que toca ao primeiro ponto, lancemos em roda os olhos e vejamos. Por +toda a parte encontraremos argumentos victoriosos. + +No estado presente da educação a mulher está sujeita a uma funesta +dependencia, a qual mesmo sem tendencia para exagerações declamatorias, +se póde chamar escravidão. + +Assim como descuram dar ao seu corpo por meio da gymnastica a força, a +elasticidade, a ligeireza, o vigor, assim descuram dar á sua alma a +energia, que a torne superior aos preconceitos, e ao seu espirito a +forte e larga educação, que a habilite para ganhar honestamente a sua +modesta subsistencia. + +Sente-se fraca, e pusillanime diante do trabalho, diante das luctas, +diante da desgraça. + +Confessa a cada instante o medo pueril que a avassalla; medo de não +resistir ás tentações que a covardia dos homens arma á insensatez da +mulher; medo do riso alvar com que os tolos lhe castigariam a viril +energia; medo de se sujeitar ao trabalho incansavel e tenaz que ha de +dar-lhe a independencia, a dignidade, a livre posse do seu destino. + +Além do medo a impossibilidade absoluta. + +Se nada sabe, o que ha de ella fazer? + +Podia dirigir a contabilidade de uma casa de commercio importante. + +As mulheres com o seu instincto de ordem, mais desenvolvido do que os +homens, são proprias para este genero de trabalho. + +Podia, sendo medianamente illustrada, ser caixeira de um estabelecimento +de modas, de uma loja de papel, de um mercador de fazendas, etc., etc. +Tudo isto está em harmonia com a delicadeza dos seus orgãos. + +Podia ensinar linguas, ensinar musica, ensinar e explicar as sciencias +que houvesse aprendido, a historia, a arithmetica, a litteratura, a +geographia. + +Podia, tendo alguns fundos que houvesse herdado de seus paes, +estabelecer qualquer pequena industria, emfim, ter uma acção propria, +independente e não subordinada aos caprichos alheios, ou ás +circumstancias eventuaes. + +Mas como não sabe fazer nada d'isto, como a sua educação a pôz e a +conserva n'um estado de absoluta e desoladora humildade, não tem senão +tres caminhos a seguir. + +Ou casar mesmo que não tenha pelo seu noivo nenhum sentimento de +respeito; mesmo que o ache ridiculo ou estupido ou máu; mesmo que elle +lhe seja imposto unicamente pelas conveniencias egoisticas do seu +futuro; mesmo que nenhum laço de sympathia a elle a prenda, e d'esta +funesta causa escusado será dizer quantos males terriveis não resultam +para a sociedade e para a familia! + +Ou ficar a cargo dos parentes mais ricos, que por commiseração a +acolham, a alimentem, a vistam, a protejam, e n'este caso soffre e +decahe a sua dignidade propria, a alma curva-se-lhe n'uma postura +humilhante, deixa de ter responsabilidade, de ter opinião, de ter +individualidade emfim; constitue-se um ser mutilado cujo aspecto +enfermiço faz tristeza e dó, quando se não torna um temperamento azedo, +atrabiliario, perverso, folgando no espectaculo de todas as desgraças +alheias. + +A terceira hypothese já todos a adivinharam infelizmente. + +A mulher repellida da familia, porque a não quizeram inutil e pobre, não +achando em si nem a coragem, nem a sciencia do trabalho, lucta contra o +mal que lhe revela as suas traidoras miragens, mas se mão estranha a não +soccorre e a não prende, succumbe, precipita-se e perde-se. + +D'estas tres hypotheses exceptuamos, já se entende, todas as mulheres +que tiverem a suprema felicidade de encontrar no homem a quem entregaram +absolutamente o seu destino, além do noivo escolhido e preferido entre +todos, o protector mais util e mais dedicado. + +Exceptuamos tambem as ricas, porque essas que não tinham em si proprias +a independencia, adquiriram-na indirectamente por meio da sua fortuna. + +Mas a divisão infinita dos bens vae diminuindo mais e mais o numero das +ultimas, e a felicidade negativa que ha na maior parte dos _ménages_ +tornando as meninas de pouca edade impacientes de sahirem da casa +paterna, imprudentes e precipitadas na escolha, vae diminuindo em não +menor proporção o numero das primeiras. + +Como quer que seja, abandonemos essas duas cathegorias de excepções e +achamo-nos em frente de uma numerosissima maioria. + + * * * * * + +Os resultados que encontramos são, portanto, os seguintes: + +A incapacidade absoluta da mulher dominar o seu destino, incapacidade +cujas causas já apontámos, produz estes tres generos de victimas. + +A mulher que casou, porque não podia deixar de o fazer, que casou para +ter pão, para ter casa, para ter luxo, para ter protector, um editor +responsavel da sua vida, e que tendo sómente este objectivo, se não +occupou nem um instante em estudar e conhecer o homem a quem ia para +sempre entregar-se. + +A creatura humilhada, dependente, parasita, vivendo das migalhas do luxo +que a rodeia. + +A desgraçada que a sua fraqueza inteiramente desprotegida perdeu e +abysmou. + +Nenhuma d'estas mulheres condemnadas ao descontentamento intimo, á +dolorosa inquietação da consciencia, em resultado de uma causa identica, +póde estar satisfeita comsigo mesma. + +O que fazem, pois, para fugirem de si? Procuram quanto sabem e como +podem, os outros. + +As festas de uma folia burlesca, ou as festas de uma pompa deslumbrante, +o mundo, emfim, a convivencia, o barulho, tudo que aturde, tudo que faz +esquecer. + +Ainda aqui os nossos calculos nos não illudiram. + +A mulher procura o mundo, porque as alegrias que póde encontrar em si +mesma, não só lhe não bastam para illuminar com ellas o lar onde vive +com os seus, como lhe não chegam para si propria se distrahir e se +contentar. + + * * * * * + +Entremos agora no segundo ponto que ha pouco tocámos. + +A mocidade da mulher é forçosamente curta. Aquella que se compenetrar +sensatamente d'esta idéa, o que deve fazer para attenuar a amargura? + +Preparar-se com dignidade, com resignação, diremos mesmo com alegria +para esse longo supplicio da mundana, que se chama velhice. + +O homem, desenvolvendo em muito mais larga escala e de um modo muito +mais variado a sua actividade complexa, póde gosar até á mais avançada +edade dos prazeres que por assim dizer mais apreciou. + +A ambição, as luctas da politica, as lucubrações da sciencia, as +argucias da diplomacia, as investigações da historia e da critica, e +mesmo os gosos ardentes da arte. + +Vejam-se Goethe, Miguel Angelo, Hugo, Beethoven, Talleyrand, Thiers e +tantos e tantos mais. + +A mulher de hoje, a mulher educada por este acanhado ideal que a domina, +funda o seu fragil poder nas graças fugitivas da sua formosura, no +encanto juvenil da sua vivacidade, na sua elegancia, no seu riso frivolo +e pueril, no esplendor radiante do seu luxo, na sua convivencia inutil e +perfumada como a das flôres! + +Um dia alveja-lhe na massa fulva, cendrada, ou negra dos seus cabellos, +um fio de prata, o primeiro, invisivel para todos os olhos, mas que o +espelho revelou aos seus. + +Esse fio traz preso a si a desventura! + +Oh! ella reinou, dominou, teve subjugadas aos seus pés todas as forças e +todas as vontades! + +A casa, mesmo sendo a casa um ninho fôfo e perfumado, parecia-lhe bem +pequena e bem mesquinha para theatro dos seus triumphos. + +Era das salas que ella gostava! + +Do murmurio surdo, abafado, voluptuoso de admiração, que ella excitava +ao entrar nos salões pelo braço do seu pobre marido, muito enfastiado e +soberanamente ridiculo! + +Como todos gabavam o sabio decote do seu corpete, revelando com uma +indiscrição que accendia invejas e desejos em torno d'ella--invejas e +desejos que a enroscavam como serpentes de fogo--a brancura do seu collo +e dos seus hombros, aquella brancura setinosa de camelia, que o orvalho +da madrugada humedeceu. + +Como era magestosa a cauda do seu vestido! como as flôres e as perolas +se ennastravam bem nas suas tranças opulentas! como os braceletes de +brilhantes mordiam de raios iriados a carnação explendida dos seus +braços! + +Como a adoravam, como a detestavam ferozmente aquelles homens e aquellas +mulheres! + +Cada olhar tinha a agudeza de uma lamina de aço! + +Traspassavam-n'a, feriam-n'a, beijavam-n'a aquellas mudas caricias +insolentes, e aquelles odios violentos e felinos! + +E a consciencia da sua formosura, da sua soberania omnipotente, do seu +prestigio invencivel, fazia-a vibrar toda como ao contacto de uma pilha. + +Sentia-se rainha. Tinha ditos graciosos, tinha repentes felizes, tinha +epigrammas implacaveis, _coquettismos_ crueis; era espirituosa, era +bella, era triumphante! + +A casa, os filhos pequeninos, o marido, os livros, que são tão bons +companheiros da honestidade e da modestia, onde ficara tudo isso? Nas +brumas indecisas de um passado que ella não queria ver. + +Oh! que intensidade de vida n'estas horas! + +Era só pensando n'ellas que vivera. Para que havia de lêr, para que +havia de instruir-se, para que havia de ir perguntar á natureza muda, o +segredo de todas as suas riquezas, para ella inuteis e desdenhadas? + +Era feliz porque era admirada. + + * * * * * + +Como desce o panno sobre o tablado cheio dos deslumbramentos de uma +magica, assim para ella descera agora o panno, sobre os prestigiosos +esplendores da sua vida de garridice e de vaidade, de luxo e de loucura. + +Aquelle cabello branco avisou-a sinistramente de que tudo acabara. + +Se continúa a luctar com a velhice que nunca se deixa vencer, achará só +escarneos onde antigamente achára cultos, só baldões onde a tinham +acclamado em triumpho. + +Se vae procurar as alegrias e as distracções proprias d'essa nova phase +da sua vida, o que é que encontra em torno de si? + +Não ficára ninguem no lar, que primeiro do que os outros, ella havia +desertado. + +O marido andava lá fóra no trabalho absorvente, ou na dissipação +criminosa. Como ella nada lhe dera nos dias florentes da mocidade, elle +tambem nada lhe queria dar agora nas tardes glaciaes da velhice. Creára +outros interesses ou outras affeições, seguira outro rumo, outra ordem +de idéas. Já agora não era possivel tornarem-se a encontrar na terra. + +Os filhos esquecidos, indifferentes, quasi estranhos, estavam no +collegio ou nas escolas, se o pae tinha tido piedade; estavam na +vergonhosa ociosidade, na vadiagem ignobil, se o pae tinha tido +indifferença. + +Em todos os casos, nada de commum podia haver entre essa mãe frivola e +vaidosa, e esses filhos desprezados. + +Os livros? Sim, os livros... Os que ella conhecera. + +Eram romances. + +Fallavam de paixões indomitas, de amores _mais fortes do que a morte_, +de aventuras romanescas ao luar, com escadas de seda e capas _couleur de +muraille_; de juramentos feitos em voz soluçante na sombra voluptuosa +das alamedas; de duettos de ternura cantados pelas Rosinas e pelos +Almavivas de torna-viagem. + +Que lhe importava a ella tudo isso, que era agora o enlevo d'outras, +embebecidas na mesma mentira que a transviára, mas que aos seus cabellos +brancos parecia uma ironia cruel! + +Mas a natureza é sempre mãe, a natureza acolhe até os mesmos parias. + +Ella tem a sombra das suas arvores, a musica dos seus passaros, o aroma +das suas charnecas em flôr, as serenas linhas das suas montanhas azues! +Ella tem a claridade pallida das suas estrellas, a doce melopéa das suas +fontes, o soturno e angustioso bramido dos seus mares, a influencia +calmante das suas noites tepidas! + +Acolherá a natureza aquella que tantos e tantos annos a desconheceu? +Não. + +E não é que ella seja implacavel ou severa, não é que ella saiba sequer +das mesquinhas miserias que se agitam no seu seio. É porque não é na +velhice que a alma póde iniciar-se n'um culto novo. + +É que para tudo é indispensavel uma aprendizagem gradual, é que a vasta +creação só tem consolos tranquillisadores, caricias adormecedoras, para +os velhos, quando teve para os moços sonhos, sorrisos, radiosas +esperanças. + +É que a alma, que ao desabrochar não soube ser sensivel á enternecedora +poesia das cousas, nunca saberá entender na hora triste do declinar, a +sua ineffavel e divina linguagem! é que os longos horisontes de purpura +e de ouro sabem vestir de bemditas claridades a alma dos velhos, quando +os velhos se recordam, e vêem docemente descer a noute cheia de +estrellas e de harmonias mysteriosas sobre uma vida que teve por +companheiros o trabalho, o amor puro, o sacrificio, a abnegação! + +Resta apenas como pasto e alimento a estas almas que andaram em busca da +felicidade por toda a parte, menos no lugar tão proximo e tão +accessivel, onde ella estava, resta-lhe apenas a falsa devoção. + +É lá que ellas vão buscar refugio. + +Vivem nas egrejas, procuram um confessor que tenha a jesuitica paciencia +de revolver com ellas o montão de flôres murchas do passado, a ver se +ainda de lá vem o vestigio da extincta fragrancia, praticam +fervorosamente toda a casta de superstições rediculas; entram em +associações pseudo-caridosas, gastam o resto da vida de outra fórma não +menos redicula e não menos balofa do que gastaram os dias da juventude. + +E de vez em quando, para maior espanto nosso, morre uma em cheiro de +santidade entre a piedosa confraria. + + * * * * * + +O que é pois necessario e indispensavel para todas nós? + +É que possamos viver sem o auxilio dos outros, e tirando unicamente dos +intimos mananciaes do nosso espirito e da nossa alma, elementos para +construir com elles a nossa propria felicidade. + +Quando a mulher depois de ter recebido uma educação robusta, depois de +ter desenvolvido as suas faculdades no sentido mais amplo e mais +favoravel, depois de estar apta a viver de pouco, a dispensar tudo que +seja luxo ou vaidade, de ter dado uma applicação util ás suas aptidões +especiaes, depois de ter adquirido uma larga somma de idéas geraes, de +noções e de pensamentos justos, quando a mulher emfim, tendo a +consciencia de que mesmo sósinha na vida, saberá grangear dignamente o +seu pão, olhar em torno de si,--forte, intelligente e instruida--e entre +os homens que a rodearem, e que a preferirem, fixar a sua escolha n'um +homem, esse póde sentir-se justamente ufano. + +Não haverá n'este consorcio nenhuma especulação e nenhum calculo. + +Ella está apta a julgal-o, a estudal-o, a entendel-o, por isso foi +raciocinada a sua escolha. Elle achou uma companheira fiel do seu +destino, um guia incorruptivel, um precioso auxiliar. + +Trabalharão ambos. + +Commerciante ou sabio, poeta ou diplomata, artista ou especulador, +negociante ou politico, sempre a coadjuvação de uma intelligencia +cultivada e flexivel, penetrante e fina, será de incalculavel utilidade +ao homem. + +Não viverão de certo nos arrobamentos e transportes dos romanescos e +rapidos amores; terão um fim commum, o bem proprio e o bem de seus +filhos. Terão meios identicos, o trabalho, a mais escrupulosa dignidade +de vida, o estudo perseverante, a economia e a paz. + +Como o casamento foi um acto em que não entrou a paixão irreflectida, a +precipitação estupida, ou o calculo inevitavel, ha muito mais garantia +de que essa união seja duradoura e feliz. Como a phantasia da mulher é +irrequieta e audaz, logo que ella faça o seu fito de alguma cousa de +maior e de mais elevado, deixarão de ser perigosos os seus caprichos. + +O homem, preparando-se para casar, tambem não dirá comsigo: Vou buscar +um encargo. + +Dirá com muito mais propriedade: Vou buscar um auxilio. + +Eis inteiramente deslocado o velho ponto de vista. + +Provirá d'esta nova interpretação do casamento o haver muito menos +mulheres solteiras. + +As que houver, porém, terão o seu lugar, o seu destino, a sua tarefa. + +Trabalharão. + +Não ha ninguem que querendo e sabendo, se não possa tornar util, e +produzir em bem, tudo que consome em sustento. + +Descrescerão de certo as industrias que vivem do luxo e da dissipação, +mas crear-se-hão outras novas, mais necessarias, e para as quaes a +mulher poderá levar as suas faculdades felizes, ás quaes só falta +educação condigna. E quando para todas chegar a velhice será como a +corôa e o remate de um monumento sublime. + + * * * * * + +Ha muito quem alcunhe de pretensão esta minha teima de attribuir todos +os males da familia á falsa educação das mulheres. + +Como se ellas fossem tudo! + +Como se d'ellas dependesse tudo! + +É que realmente, directa ou indirectamente, pela sua influencia +immediata ou pela sua longinqua influencia, o caso é que muitos males, +que muitas desgraças, que muitas immoralidades se lhes devem! + +_Cherchez la femme_, direi eu sempre, por mais que achem vaidosa +pretensão feminina esta minha idéa. + + + + +CAPITULO IV + +A dissolução dos costumes e o casamento + + +Os philosophos, os moralistas, os observadores clamam continuamente +contra a dissolução dos costumes modernos, ou descrevem-na com o +pungente _realismo_ da sua solta e desbragada ironia. + +Uns accusam, outros fulminam, outros contentam-se com chascos e satyras +de Juvenaes _au petit pied_. + +Poucos são os que ao passo que apontam o mal, indiquem o remedio, ou +pelo menos o caminho que deve seguir-se para chegar a alcançal-o. + +As theorias são optimas, a pratica é deploravel. + +Ninguem é já tão ignorante e tão desallumiado da scentelha sagrada, que +confunda o bem com o mal, mas o criminoso desleixo de todos, é mais +funesto á sociedade e á familia, do que a idéa confusa que em épocas +menos adiantadas se formava dos deveres de cada um. + +Sim, a familia parece corroida por um occulto verme, que pouco a pouco +vae dando a essa arvore frondosa, cheia de fructos e de flores, um +aspecto morbido e doentio que entristece e causa profundo assombro aos +que de perto lhe observam o progressivo definhar. + +Mas não basta mostrar ao mundo este indicio da sua decadencia moral, +cumpre investigar as causas para oppôr um dique aos effeitos desastrosos +que todos os dias se vão mais claramente revelando. + +Este dever é de todos; dos grandes e dos humildes. Não ha ninguem que +não esteja interessado igualmente na destruição de tão terrivel +flagello. + +Tragam uns os esplendores do talento que vê de cima, e que das alturas +onde paira, derrama luz clara sobre os que labutam na sombra; tragam +outros o bom senso, a experiencia, a fé e a boa vontade. + +Parece que metade do caminho está vencido, porque se muitos,--se a +maioria--anda transviada, todos pelo menos sabem definir o ideal a que +aspiram, o fim que desejam attingir e do qual involuntariamente se +afastam. + +O grande mal da nossa época é--quem tal o diria?--é a preguiça +intellectual. Todos trabalham mais ou menos, porém ha poucos que meditem +e que pensem. + +O seculo desoito foi o seculo do pensamento; o seculo desenove é o +seculo da industria. + +Predomina a materia, aspira-se ao bem-estar do corpo, aos gozos da +riqueza, ao sybaritismo refinado e artistico e pouco se attende á voz +prophetica d'essa Cassandra, chamada philosophia, que debalde clama aos +homens que elles vão por um caminho errado, que trilham uma estrada que +não é a verdadeira, visto que a não illumina e lhe não mostra os +precipicios, a verdadeira e eterna luz. + +Os males que affligem a sociedade, que affrouxam os laços da familia, +que contaminam e dissolvem lentamente os costumes, provém de uma causa, +composta de muitas causas complexas, e para combater a qual devem +juntar-se os esforços de todos os que amam o bem. + +Ninguem considera o casamento como elle precisa de ser considerado, não +já sob um ponto de vista mystico e sentimental, porém no seu verdadeiro +aspecto, nas suas relações inilludiveis com a sociedade e com a +verdadeira moral. + +Como sempre, é á mulher que aqui me dirijo, é com a mulher que eu fallo. +O homem tem-se em muita conta para dar attenção á minha debil e +desautorisada voz. + +A mulher attender-me-ha porque é em vista da sua felicidade, da +felicidade de seus filhos, da solidez e do aconchego de seu ninho, que +eu lhe estou aqui fallando. + +O casamento não é um contracto puramente social, não é uma união só +filha da religião e do sentimento, não é uma sancção legal de affectos +egoistas e de paixões indomadas, de tudo isso tem alguma cousa, mas é +muito mais sério, mais sagrado e mais santo do que isso tudo. + +Se esta quadra transitoria e convulsa que atravessa a geração de que +fazemos parte, é triste como nenhuma outra, essa tristeza provém +principalmente das imperfeições que maculam o casamento, das duvidas que +assaltam todos os espiritos ao vêr tão longe da sua resolução definitiva +o problema importante da familia. + +Por toda a parte o desconsolo, o desalento, a duvida, a melancolia +insanavel dos que, depois de haverem sonhado um esplendido e estrellado +sonho, despertam para as agras tristezas da realidade e nada encontram +que corresponda ás radiosas esperanças com que se haviam embalado. + +É que realmente depois da escuridão caliginosa, da noute lugubre e +sinistra que durante seculos envolveu a humanidade, fizeram-lhe esperar +tanto, evocaram diante do seu deslumbrado olhar tantas apparições +luminosas, apontaram-lhe para um ideal tão levantado, fizeram-lhe crêr +em tão divinas utopias, que todos os desalentos se desculpam ao vêr quão +pouco a realidade dos factos correspondeu a todos esses sonhos por ora +infecundos. + +Mas não percamos a fé; sem ella o mundo caminhará sem ter outro norte +que não seja o perigoso conselho das suas paixões desordenadas. + +Se ainda pouco está feito, appellemos para o futuro e vamos preparando +essa evolução pacifica e luminosa de que já talvez nenhum de nós +aproveite os resultados beneficos. + +Esqueçamos este egoismo feroz e improductivo que nos faz desanimar em +todas as emprezas de que não possamos com mão soffrega e impaciente +colher os fructos embora prematuros e mal sasonados. + + * * * * * + +Não ha nada mais triste do que ouvir o modo desdenhoso, quasi sacrilego, +com que os moços de hoje, os moços de ambos os sexos, fallam do +casamento e da familia. + +Elles duvidam, rindo com ironia ignobil de tudo que n'outro tempo amavam +devotamente. Foram-se os bardos sentimentaes e um tanto rediculos, +diga-se a verdade! que amavam sem esperança, mas com ternura apaixonada, +as queridas perfidas, que desprezavam o seu desinteressado affecto. + +A litteratura, que é o espelho das sociedades, tem por feição a ironia +mordente, a analyse fria, a dissecação anatomica mais positiva e mais +crua. + +O desdem pela mulher manifesta-se sob todas as fórmas, e debaixo de +todos os aspectos. + +Se acabaram as declamaçães de _Benedicto_ e de _Antony_ contra a +tyrannia esmagadora da instituição conjugal, apparecem em logar d'estas +os quadros mais abjectos da dissolução e da decadencia a que chegou o +casamento e com elle a mulher. + +No limiar da adolescencia os que não alardeiam um cynismo falso e tão +ridiculo como os transportes romanticos do passado, calculam +arithmeticamente o que póde provir-lhes em beneficios liquidos d'aquillo +a que chamam um _bom casamento_. + +Não attendem ás qualidades moraes, que não podem apreciar nem conhecer; +quando muito, lançam no orçamento como uma verba de certa importancia as +vantagens physicas da noiva escolhida. + +Nenhum grande pensamento os exalta, nenhuma idéa definida e clara da +missão que aceitam os eleva a seus proprios olhos. + +Pelo seu lado a _noiva_, a creança radiosa que enfeitam todas as galas e +todas as flôres dos vinte annos, gaba-se em confidencia ás amigas +intimas, de que _já não tem illusões_ e que _conhece a vida_, a vida de +que ella não leu ainda sequer a primeira pagina! + +Casa porque a familia quer, casa porque encontrou aquelle rapaz em dous +bailes, porque o achou _interessante_, _sympathico_, _muito amavel_, +porque emfim é um _bom partido_, segundo diz o papá! + +Outras vezes casa porque gosta d'elle, mas gosta d'elle +instinctivamente, animalmente, sem o conhecer, sem saber se essa mão que +aperta nas suas mãos virginaes, será sempre em todas as crises, em todas +as occasiões da vida, a mão de um homem honrado. + +No dia em que se acham ligados indissoluvelmente o seu primeiro +sentimento é um sentimento de surpreza, quasi de susto. + +Dizem então os frivolos e os superficiaes: o _melhor tempo é o da lua de +mel_. + +Engano! Esses dias são os dias da vertigem, mas não são os dias da +felicidade. + +Cada defeito que os dous mutuamente se descobrem, é como uma semente +envenenada que ha de germinar mais tarde. + +Não se lembram do futuro, saboreiam com a volupia da paixão sensual os +prazeres ephemeros d'essa hora que passa. No fundo, bem no fundo do +pensamento, n'um escaninho escuro em que ambos fogem de entrar, porque +sabem que lá os espera a desillusão, teem guardadas muitas das tristes +descobertas que fizeram n'aquellas horas de abandono, de loucura, de +extasi, em que as suas almas se embeberam voluptuosamente. + +_Elle_ sabe já que a mulher é frivola, é ignorante, é vaidosa, que vê no +casamento as alegrias da vaidade, antes de ver os deveres e os +sacrificios; _ella_ tem a certeza de que todas aquellas promessas +radiosas não passam de uma chimera que o tempo desfará, que o marido não +tem as delicadezas que satisfariam a alma da mulher ainda a menos +exigente, e a menos ambiciosa. + +Na ebriedade d'aquelles primeiros tempos perdoam-se mutuamente os +defeitos, que parecem até graciosos, lindos e feiticeiros. + +O que os entristecerá mais tarde, o que avincará de rugas de mau +prenuncio o rosto do marido, e fará encher de insondavel tristeza o +coração da mulher, não é mais que a resultante das pequenas e todavia +fataes concessões e desculpas que reciprocamente fizeram os noivos aos +defeitos que viram apparecer nas primeiras horas da convivencia, nos +risonhos dias do noivado. + +_Ella_ sahiu do aconchego tepido da familia, das doçuras do lar paterno, +dos braços amoraveis da mãe; vem acostumada a quererem-lhe muito, a ser +muito estimada e amada. Em casa conheciam-lhe os gostos, as inclinações, +os habitos e os defeitos, porque a par das boas qualidades ha sempre no +coração humano um recanto onde se abrigam as deficiencias de caracter e +de genio. + +Aquillo que os paes, as mães e as pessoas que de mais perto conviviam +com _ella_ lhe perdoavam, é desculpado tacitamente por _elle_ no extasi +e na delicia ineffavel do noivado; porém, mais tarde tudo isso servirá +de base a accusações asperas, e a censuras amargas. + +_Ella_, pelo seu lado, retrahir-se-ha, offendida e triste ante as +imperfeições que outr'ora desculpava, e para as quaes hoje é intolerante +e severa. + +Por isso, a mãe, quando dá o ultimo abraço á filha que parte para os +braços do noivo expede dilacerantes soluços de afflicção, e lamenta-se +desesperadamente. + +--É um estranho, pensa a mãe, pouco viveu com ella; mal a conhece, viu-a +apenas nos saráus, á luz viva do gaz, cercada de adorações, risonha, +feliz, espirituosa e delicada. Eu tambem fui assim... Mas como me custou +a aprendizagem da vida! E como esta é devéras tão outra e differente do +que suppunha! + +Pobre creança! + +Isto pensam as mães, com aquelle sagrado affecto que nunca se desmente, +e que não trepida ante nenhum sacrificio, por mais arduo e assombroso +que seja. + +Mas, de quem é a culpa, bom Deus? + +Sobre quem deve recahir a culpa das nuvens que se acastellaram no futuro +da vida dos noivos, a culpa das horas longas e plumbeas que os esperam, +das recriminações azedas, que farão explosão mais tarde, e que levarão +áquelle dôce lar tranquillo o desassocego, a duvida, a desillusão, e a +algida tristeza desconsoladora de vermos as ridentes chimeras que se +desfazem lugubremente, e que nunca mais resurgirão? + +A culpa deve caber tanto a um como a outro, tanto á mulher como ao +marido. + +O noivado é uma iniciação augusta, uma escóla onde devemos aprender a +ser justos e tolerantes. + +O que hoje transparece vagamente, o defeito que aponta subtil e timido +em meio das alegrias do noivado, será pouco tempo depois injustamente +considerado uma cousa horrivel e monstruosa. + +E mister que o marido e a mulher se não julguem a suprema e alta +perfeição, e que sejam complacentes para as maculas e defeitos a que +ninguem escapa. + +O homem, com a sua vida ruidosa e trabalhadora de militar, de +negociante, de artista e de proprietario terá impaciencias, phrenesis e +agastamentos. Quando a sua natureza se expandir livremente e sem peias, +não será o mesmo que estava mezes ou annos atraz aos pés da noiva, +submisso, trémulo e feliz, não medindo o mundo senão pelo ambito +aquecido pelo bafo da sua gentil amada; perderá todo esse ar de +humildade e de escravidão, e, sem o querer, ha de ferir a pobre +creatura, machucar-lhe os mimosos caprichos e offender-lhe a ingenua e +nativa delicadeza. + +A mulher com o seu pouco ou nenhum conhecimento das difficuldades da +administração de uma casa, ante o enorme peso das responsabilidades que +prevê, terá hesitações, duvidas e receios, que lhe farão rebentar muitas +e repetidas vezes as lagrimas, no principio da sua difficil e tão +ambicionada posição de senhora e dona de casa. + +Quando o marido recolher da rua, da praça, das officinas, das academias, +desgostoso, com o coração mordido pelo infortunio, magoado pela +ingratidão de um amigo, pela falsidade de um outro em que cégamente +confiara, pelas mil contrariedades emfim da vida, e precisar de uma boa +e querida palavra de affecto, de um conselho leal e sincero, de uma +consolação benigna, a mulher deve esquecer-se de si, velar resolutamente +as feridas que sangram, para só pensar no marido de que é solidaria +companheira, e de cuja consciencia viril deve ser amoravel directora. + +Nas mãos da mulher está a tranquillidade, o socego, a ventura e a +honestidade do lar, porque ella deve ser a perseverança inalteravel, a +bondade suprema e inexgotavel, a intelligencia allumiada pela doce luz +que dimana do coração. + +Que a mulher saiba perdoar, que a mulher desculpe o egoismo, a dureza, +as coleras bruscas do marido, e verá como este saberá fingir que ignora +que tambem n'ella existem maculas, que tambem n'ella avultam defeitos. + +Se deseja ser perdoada, que perdôe ella primeiro, que dê o exemplo, e os +resultados d'essa condescendencia serão de maravilhoso alcance. + +Ah! é preciso repetil-o mil vezes, dêmos um caracter de austera +seriedade ao casamento, respeitemol-o, cerquemol-o de garantias +duradouras, se não quizermos que a familia se desmanche, e que a +immoralidade triumphe. + +Que as noivas antes de pensarem na inveja que o seu vestido branco e a +grinalda de flôr de laranjeira causarão ás suas mais intimas amigas, +entrem no seu novo lar, resolvidas a crearem a felicidade do ente, que +apesar de viril e forte ha de ter durante a vida muitas horas de +abatimento e tristeza, que só os beijos de uma esposa honesta espancam. + +Que se compenetrem as noivas, que dos primeiros dias do noivado depende +a paz dos dias futuros, a saude, a educação e o porvir dos filhos. + +Passados os primeiros dias, volvidos os primeiros mezes, sendo o marido +intelligente e a mulher bondosa, tendo ambos uma completa noção do justo +e da verdade, poderão facilmente escolher o caminho que os leve mais +direitos á felicidade, de que tantos casados andam distantes porque se +não souberam corrigir a tempo, e porque deixaram que se expandissem em +espraiada e opulenta rama os defeitos que ambos conheceram e viram com +olhos benevolamente complacentes, e só então complacentes! de noivos. + +No campo não é raro ouvir-se ás aldeãs a quem se pergunta se se dão bem +com a vida de casadas, o seguinte dizer quasi invariavel na bocca +d'essas mulheres: + +--Ao principio tivemos as nossas _turras_, mas a gente, como o outro que +diz, foi-se habituando um ao outro, e agora não ha que se lhe diga; o +que elle quer, quero eu tambem. + +_Ao principio tinhamos as nossas turras_... ouviram? É que no campo ao +primeiro beijo segue-se bem cedo a primeira recriminação; é que no campo +o noivado dura menos, mas em compensação descobrem-se brutalmente as +differenças de genio e as desigualdades que a pouco e pouco vão +desapparecendo. + +A mulher, porém, que é sempre mulher, quer ande vestida de sedas, quer +ande envolvida em saragoça, póde com a sua benefica e pacificadora +influencia, tanto no campo como na cidade, desculpando o marido, +conseguir que este lhe desculpe e lhe attenue as imperfeições e defeitos +que estão fatalmente inherentes, ai de nós! á mesquinha natureza humana. + + + + +CAPITULO V + +As mães e as filhas + + +Venho ainda hoje fallar ás mães a respeito das suas filhas. Creio que é +um meio de ser ouvida com attenção. + +Se as mães são pela maior parte das vezes a causa inconsciente dos males +que affligem a educação de seus filhos, não é d'ellas a culpa, que só +levam em mira o bem e a felicidade dos queridos fructos das suas +entranhas. + +Mas o amor das mães é cego como um instincto, e como tal precisa de ser +guiado e dirigido. + +Entregues a si, transviadas pelas noções incompletas que já lhes eivaram +de erros funestos a educação que receberam na infancia, ouvindo mais a +voz da propria vaidade, que a voz austera da razão, as mães continuam a +suppôr que na educação de uma menina se deve attender antes de tudo ás +_exterioridades brilhantes_, que farão d'ella a favorita dos salões +mundanos, a elegante e afamada cultora de todas as delicadas +frivolidades sociaes. + +Desde a burgueza, que, apenas sahe dos desfiladeiros sombrios da +miseria, já cuida tão sómente em hombrear com as duquezas que inveja de +longe, até á mais aristocratica descendente das antigas paladinas, todas +teem as mesmas noções falsissimas ácerca da educação que suas filhas +devem receber. + +Não estudam os diversos espiritos que se propoem a adornar com as mesmas +galas sediças; para ellas uma _educação de senhora_ não varia. + +Segue sempre a mesma norma absurdamente anachronica. + +Os filhos são reclamados pela escola, pelo lyceu, pelo instituto, e teem +de sujeitar-se ás regras acanhadas e incompletas da educação official; +as filhas, debaixo da direcção mediata ou immediata das mães, começam no +lar domestico a sua aprendizagem, que é como que a opposição systematica +a todos os instinctos poderosos de que a natureza as dotou. + +Turbulentas, como é natural que sejam as creanças, aprendem a suffocar a +espontanea e salutar actividade dos seus pequenos membros. A primeira +obrigação que reconhecem é a _de não fazerem bulha_. + +Tornam-se taciturnas e sonsas. + +O habito de contrariarem incessantemente os impulsos tão naturaes da sua +idade, como que lhes abre o caminho para a hypocrisia, o peior e o mais +vulgar dos vicios femininos. + +Sentindo continuamente pesar-lhe sobre a cabeça uma pressão despotica, +de que não podem reconhecer a justiça, aspiram instinctivamente ao +livramento, teem surdas revoltas intimas, de que nenhum olhar sonda os +segredos. + +Não se desenvolvem na plena liberdade da natureza, ha nos seus corpos +miudinhos um aspecto de enfezamento e de fraqueza que faz pena. + +A vaidade maternal cuida então de as enfeitar; o vestuario das suas +pequenas joias torna-se para as mães--para as mulheres--um negocio de +alta e gravissima importancia. + +Não ha nada que as satisfaça; os bordados finos, as rendas, as sedas, as +plumas, os velludos, tudo se combina para adornar o gracioso e querido +anjo. + +Dous resultados inevitaveis: + +A immobilidade a que este luxo condemna as suas victimas pequeninas, e a +feroz vaidade de que elle lhes lança n'alma a primeira semente, que mais +tarde ha de desatar-se em venenosos fructos. + +A pequena assim vestida julga-se forçosamente de uma essencia superior +ás que não podem competir com ella em opulencia; de um lado levanta-se o +orgulho, de outro lado rasteja a inveja. + +O gosto de ser contemplada, admirada, de excitar emulações raivosas, de +ser apontada como um modelo de elegancia infantil, accende no espirito +da creança a funesta luz que mais tarde ha de allumiar os erros da +mulher. + +Quando sôa emfim a hora em que o espirito exige a sua indispensavel +cultura, o mesmo systema que até alli dominou na educação da pequenina +continúa a fazer sentir a sua corruptora influencia. + +«--Quero que a minha filha se não possa envergonhar de apparecer ao pé +das mais ricas!--diz a mãe enfatuada na sua funesta vaidade. + + * * * * * + +Chamam-se os professores de dança, de musica, de linguas, de desenho, ou +conduz-se a menina ao collegio mais afamado em prendas d'este genero. + +Algumas mães exigem tambem que as filhas aprendam a _bordar_ a lã, a +_bordar_ a ouro, a _bordar_ sobre escomilha, a fazer _crochet_, flôres, +pequenos trabalhos de agulha, proprios para ornamentação de um quarto de +pensionista ingenua. + +Outras, mais dadas á sciencia, querem uns elementos de geographia, +alguma historia sagrada e profana, uma leve tintura de arithmetica. + +Por cima de tudo isto um pó dourado de devoção elegante, ministrada pelo +director das consciencias do _high-life_. + +Não se admitte de modo nenhum que um velho sacerdote obscuro e +despretencioso, cujos sermões não tenham fama, cujas predicas não sejam +ouvidas, entre suspiros e lagrimas, pelas devotas da aristocracia, +inicie a pequena neophyta nos mysterios subtis da doutrina catholica. + +É indispensavel um padre galante, perfumado, estrangeiro, que torne o +ensino da religião alguma cousa de artistico e de adocicado como elle. + +_Saber bem doutrina_ constitue um dos deveres de uma educação primorosa, +e no entanto a filha que aprendeu, a mãe que a mandou ensinar, ignoram +todos os deveres a que esta sciencia, a ser bem comprehendida, as +obrigaria. + +Sabem doutrina como sabem grammatica; quer dizer repetem de cór umas +certas e determinadas regras de que não percebem a applicação pratica. + +Aos quinze annos a menina preparada por estes elementos tem a sua +educação completa. + +Quer seja filha de um duque, quer seja filha de um fabricante, quer o +seu destino a reserve para receber n'uma sala faustuosa os altos +personagens da politica e da diplomacia, para fazer parte da côrte, para +conviver n'um pé de intimidade com todos os grandes, e com todos os +opulentos; quer ella tenha de partilhar as luctas obscuras de um modesto +empregado, de um industrial de poucos haveres, de um artista +desprotegido, é a mesma a sua educação moral, physica e intellectual. + +Está do mesmo modo preparada para as luctas e para os combates da vida; +tem a mesma força nos musculos, tem as mesmas faculdades no espirito, +tem as mesmas noções na consciencia. + +A burgueza ou a fidalga, com tanto que tenham dinheiro, teem os mesmos +direitos, as mesmas aspirações, ambicionam para suas filhas o mesmo +lugar na sociedade. + +Mas o que deve confessar-se uma vez por todas é que esta educação, toda +vaidade, toda orgulho frivolo, toda inutil ostentação, convem tão pouco +á filha da aristocracia e da opulencia, como á filha da burguezia e da +mediocridade. + +Uma, collocada nos altos pincaros sociaes, precisa de ter o juizo recto +e seguro para conhecer os homens, a graça ondeante e fina para os +attrahir, o conhecimento profundo dos seus interesses e paixões, para os +conciliar entre si; precisa de fallar a cada um a linguagem mais propria +para o convencer e dominar; precisa de ser, junto de seu marido um +auxiliar proficuo com que elle conte, uma intima e fiel alliada, que o +ajude a conservar dignamente a posição que herdou dos seus avós ou que +conquistou com o braço e com o pensamento. + +A outra, n'uma esphera que é inferior á da primeira, segundo o ponto de +vista social, mas que de feito lhe é superior, porque inclue mais altos +e mais complexos deveres--a outra precisa de descer com seu marido á +arena onde combatem os modernos trabalhadores, precisa de lhe ser em +tudo e por tudo ajuda, guia e conselho, precisa de acceitar para si +terriveis responsabilidades, para as quaes nenhuma lição a preparou! + +Dir-me-hão que o nivelamento democratico das modernas sociedades dá a +todos os mesmos direitos, porque dá a todos os mesmos deveres; que a mãe +opulenta e nobre que cria suas filhas nos fôfos ocios da riqueza não +sabe se em breve terá de vel-as curvadas ao peso da maxima miseria, +assim como a mulher de um humilde empregado não sabe se verá sua filha +ascender a uma prospera e brilhante posição, elevada por um d'esses +casamentos que são vulgares, como d'antes eram raros. + +D'accordo, meus senhores; mas essa hypothese em cousa alguma destróe a +minha asserção, pois o que eu disse e repito é que a educação feminina, +tal como hoje a entendem, para nenhuma classe da sociedade, para nenhuma +posição brilhante ou precaria é util ou conveniente. + + * * * * * + +Que desenvolvimento moral, physico ou intellectual, póde adquirir-se +partindo de tão errados principios? + +A que fim se aspira, que fim se attinge, alcançando uma educação que tem +por unica base a vaidade? + +Pois a mulher, que levou annos e annos da sua vida a adquirir +conhecimentos inuteis, está porventura armada para resistir ás +tentações, ás adversidades, ás miserias, aos combates da vida? + +Imagine-se, em contraposição a esta falsa cultura, que constitue o que +os burguezes embebecidos em comico enthusiasmo chamam uma _educação +muito fina_, imagine-se que as mães, juntando-se n'uma piedosa cruzada, +conseguiam crear uma instituição moderna, onde suas filhas recebessem a +educação que hoje lhes poderia servir, para se tornarem uteis na +sociedade e na familia. + +Quantas vezes não tenho eu acariciado em sonhos a idéa d'essa +escola-modelo, onde a creança aprendesse a ser mulher, onde a mulher +aprendesse a ser mãe! onde uma direcção harmonica e intelligente +presidisse ao desenvolvimento do espirito e ao desenvolvimento não menos +sagrado do corpo; onde a moral caminhasse a par da sciencia, onde a +primeira noção que o entendimento feminino recebesse fosse esta: «Todo o +trabalho nobilita e exalta a quem o executa com a consciencia de cumprir +um dever!» + +Eu não quizera por certo proscrever da educação da mulher as graças, que +são para ella o que o perfume é para a flôr. + +Não queria vêr o mundo convertido n'um viveiro de _pedantes_, +enfronhadas em sciencia e tornando antipathica a virtude, á força de lhe +darem ares dogmaticos. + +Se a leitora suppõe de mim tal abominação, é que eu bem pouco tenho +conseguido revelar-me aos seus olhos. + +O meu intento é outro; permitta-me que lhe torne aqui bem palpavel. + +V. exc.^a, minha senhora, tem uma filha, um pequenino anjo, louro e +risonho, que é n'este mundo o seu enlevo, como que um bocadinho do céu +azul, que lhe cahiu no seio n'um dia abençoado. + +Tome o meu conselho: não siga na educação do seu pequeno amor o systema +que sua mãe seguiu comsigo, que as suas amigas seguem com as filhas que +teem. + +Córte de uma vez este fatal nó gordio da tradicção, do costume, da +rotina, que faz morrer em flôr tantas innovações beneficas. + +Tenha a coragem das suas opiniões; inutilise esse formoso e rico enxoval +que umas modistas banaes inventaram por ordem sua; deite fóra essas +sedas, essas rendas, esses instrumentos de perdição para a alma +pequenina que Deus lhe confiou. + +Vista sua filha simplesmente, com um aceio gracioso e poetico, que +revele os seus desvelos de mãe, mas que não denuncie as suas vaidades de +rica. + +Bem vê que, livre de todo aquelle fausto que a incommodava, como um laço +de fita incommoda uma ave, a sua doce pequenina se sente mais livre e +mais contente. + +Eu bem sei que ainda ha pouco uma amiga sua, passando por ella, a mediu +dos pés á cabeça, muito espantada e um pouco desdenhosa, perguntando a +si mesma se v. exc.^a já não era tão rica como ella julgou; mas em +compensação d'esta pequena ferida de seu amor proprio, houve uma creança +pobre, que ao parar junto da sua filhinha, ousou estender a bocca de +rosas, e beijal-a com um dôce e fraterno beijo, como os anjos se dão +entre si, e para os quaes Deus do alto da sua gloria teve sempre um +sorriso bom! + +Que importam os desdens dos parvos e dos mediocres aos que não teem as +invejas dos miseraveis a pezarem-lhe na cabeça como uma eterna maldição! + +Quando a sua filha passa com o seu vestidinho branco, muito simples e +muito aceiado, as mães pobres sorriem-se com amor por dous motivos, +ambos santos: porque ella não humilha ninguem, e deixa uma esmola de pão +e um rasto de luz no seu caminho de anjo inconsciente. + +Oh! como são doces ao coração das mães as bençãos que se desfiam como um +rosario de perolas sobre a cabeça loura de seus filhos. + + * * * * * + +Quando a intelligencia já viva e luminosa da sua filha lhe pedir +cultivo, como as flores pedem agua, não a force a um trabalho pesado e +tenaz, nem tão pouco lhe dê da vida uma idéa tão frivola, que ella só +aprenda o que é superfluo para não dizer inutil. + +Abra-lhe com a sua mão maternal tão delicada e tão subtil o vasto livro +da natureza, e deixe que ella, enlevada e curiosa, o folheie cheia de +amor e de fé. Toda a sciencia se encerra n'isto, minha senhora. + +Faça-a penetrar na alma de todas as cousas para que a vida se não +conserve aos seus olhos inanimada e esteril. + +Em vez de lhe ensinar a doutrina morta que vem nos livros, leve-a +brandamente por um declive suave a comprehender o espirito d'essa lei, +que é feita de tanto amor! + +Conte-lhe as miserias occultas que ha n'este mundo, ensine-a, ou antes, +deixe que ella adivinhe como essas miserias se consolam pela esmola do +pão e pela esmola do carinho, e, quando ella voltar do albergue da +desgraça, ao seu lado, calada, pensativa, com os olhos cravados nas +nuvens alaranjadas do poente, pergunte-lhe então baixinho, com a sua voz +de mãe, a unica que nunca perturba nem afugenta os sonhos de uma +virgem:--Comprehendes agora as palavras do Christo: _Ama a Deus sobre +todas as cousas e ao proximo como a ti mesmo_? + +Só este commentario das lições do Justo póde fazer com que ellas dêem +abençoados fructos! + +Em vez de lhe occultar os mil subterfugios com que a maldade humana +tenta avassallar e corromper a innocencia, innocule-lhe lentamente com a +sua palavra serena e firme a força necessaria para vencer e dominar as +astucias criminosas e traiçoeiras. + +Faça-lhe sentir com a lição e com o exemplo que a mulher tem quasi +sempre em si o seu peior inimigo, e que este inimigo, que toma todas as +fórmas imaginaveis, é sempre no fundo o mesmo! o orgulho. + +Que ella comprehenda bem que o dominio que a mulher exerce pela sua +bondade nobilita aquelle que se lhe submette, emquanto que o despotismo, +que tem como origem a belleza e a graça artificial das seducções, +rebaixa o homem que o acceita, e a mulher que o põe em acção. + +Nas cousas triviaes da vida pratica prepare-a para todas as +eventualidades. + +Que se não ache deslocada n'um throno, nem atraz d'um balcão. + +Eis o ideal. + +Ha uma dignidade que está comnosco, que participa da nossa propria +assencia, que provém da noção elevada que nós temos dos nossos direitos +e dos nossos deveres, e que é portanto independente de qualquer +circumstancia exterior. + +É d'esta dignidade que uma educação justa e forte deve dar á mulher, e +que em todas as peripecias da vida, por mais desusadas e estranhas, a +deve acompanhar. + +Ter bastante humildade para exercer sem repugnancia os trabalhos menos +delicados, e bastante superioridade para comprehender a idéa do dever +que os exalta e sobredoira; ver na vida, primeiramente as obrigações, +depois as distracções, eis aquillo que todas as mães devem ensinar ás +suas filhas. + +No dia em que todas o souberem, teremos então, em vez das creanças +fracas e inuteis, que o homem ora protege, ora escravisa, segundo o +impulso das suas ephemeras paixões, uns seres pensantes, conscios da sua +força, sem ambições desregradas de um poder que lhes não deve pertencer, +sem a hypocrita humildade, que faz de cada mulher uma victima pouco +sympathica. + +As salas terão menos estatuetas de _biscuit_ amaneiradas e ridiculas, +mas a familia terá mais elementos na vida e duração; os pianos deixarão +de suspirar em noutes de luar as suas sentimentaes confidencias; mas a +verdadeira comprehensão da arte, da religião, e da poesia penetrará como +por encanto nos entendimentos feminis. + +Teremos emfim ao lado do batalhador das modernas lides uma companheira, +não só digna d'elle, porém capaz de o levantar a um nivel que elle +ainda, desacompanhado e desprotegido, não pôde desgraçadamente attingir. + + + + +CAPITULO VI + +Leitura para nossas filhas + + + «Minha querida amiga: + +Disse-me hontem que sua filha tinha esgotado a pequena bibliotheca +infantil, que a muito custo colligio para ella, e que esse candido e +luminoso espirito, de quinze annos exige energicamente mais alimento que +a nutra e que a deleite. + +Pergunta-me a respeito da leitura que ha de permittir a sua filha, a +minha opinião, o meu conselho. + +É um caso difficil este que me propõe. + +Lili é uma graciosa e excepcional creatura; tem a logica inflexivel das +creanças intelligentes, tira rapidamente a conclusão das premissas que +submettam ao seu criterio. A leitura póde fazer-lhe muito mal ou muito +bem; não póde de modo algum ser-lhe indifferente. + +A minha amiga seguindo as tradicções que já encontrou assentes, +pergunta-me se póde deixar ler a sua filha _Paulo e Virginia_, esse +idyllio que tem cem annos e que ameaça ser eterno, ou _Jocelyn_, o poema +mais perigosamente mystico que eu conheço. Falla-me no _Genio do +Christianismo_, de Chateaubriand, e nas tragedias sacras de Racine. + +Não se lembra para sua filha de nenhum outro escripto e lembrou-se +justamente d'aquelles que só lhe podiam fazer mal. + +Antes de mais nada, responda-me francamente: quer fazer de sua filha uma +mulher solidamente instruida ou então uma mulher ignorante? + +Quer que ella saiba resistir ás tentações que forçosamente ha de +encontrar na vida, ou quer que ella se conserve na mais completa e +absoluta inexperiencia até á edade em que ha de entregal-a ao homem que +tem de ser seu marido? + +Da resposta a estas duas perguntas é que tudo depende, porque segundo a +idéa que a minha amiga fórma da educação de uma mulher, segundo o +systema que tenciona pôr em pratica com relação á educação de sua filha, +o futuro d'esta ha de levar um outro caminho. + +Eu não posso dizer-lhe positivamente: faça isto, faça aquillo. + +Posso apenas contar-lhe o que fiz. + +Minha filha tem hoje vinte seis annos, é casada, é mãe, e tem sabido +cumprir a dupla e difficil missão que a sorte lhe confiou. + +Não sei se deva attribuir os meritos que todos lhe reconhecem á educação +que procurei dar-lhe; parece-me, porém, que sem falsa modestia poderei +confessar, que os meus cuidados não foram de todo inefficazes, e que o +muito que pensei e meditei sobre o caracter da minha querida filha, me +ajudou a guial-o no caminho do seu aperfeiçoamento. + +Ha gente que diz que as mulheres não devem ler. + +Não sei se alguma vez tem ouvido essas opiniões estupidas ou perfidas; +não lhes dê credito minha boa amiga. + +Eu não acho merito algum á mulher ignorante, que se resigna ao +cumprimento dos seus obscuros deveres de todos os dias. + +Segue rotineiramente um caminho de que não conhece as difficuldades, e +se não se afasta d'elle é porque não sabe de nenhum outro. + +A mulher deve ler, mas se mais tarde no pleno uso das suas faculdades +mentaes, e da sua força moral, ella póde ler tudo sem perigo, é +indispensavel que uma educação anterior a tenha preparado e fortalecido, +é indispensavel que haja o maior cuidado na cultura intellectual que +ella deve receber na infancia e na adolescencia. + +Diz-me a minha amiga, que a maior parte dos romances são immoraes, que +os que não são immoraes nos intuitos são perigosamente exaltados ou +revellam ao espirito da mocidade quadros que ella não deve conhecer: +diz-me que a historia de todos os povos não é mais que um amontoado +confuso de crimes e de vicios, que a sciencia está em contradicção +absoluta com as verdades de religião, e no meio das duvidas que se +desnorteiam e assaltam quasi que prefere condemnar sua filha a uma +ignorancia que ao menos a conserve simples de coração e tranquilla de +espirito. + +Tenho duas objecções a fazer-lhe minha amiga, e parece-me que ambas hão +de impressionar o seu esclarecido entendimento. + +Em primeiro logar, se consultar bem a sua consciencia, verá que transige +por fraqueza e por preguiça com a ignorancia de sua filha. + +Prefere que ella não tenha quasi nada, a ter de se entregar a trabalho +difficilimo de escolher com o mais delicado dos escrupulos o que ella +deve saber. + +Em segundo logar, essa ignorancia, que para a mulher lhe parece o porto +socegado e tranquillo onde ella repousará affoutamente, parece-me a mim +um banco de perfidas areias onde facilmente ella póde naufragar. + +Já estou d'aqui prevendo a sua objecção. + +Mas eu não quero tal que minha filha seja ignorante. Pelo contrario, +dei-lhe uma excellente educação. Aqui não se tracta senão das leituras +que depois de educada eu lhe devo permittir ou recusar. + +Minha amiga, creia isto que lhe vou dizer. Se sua filha não souber senão +o que tem aprendido até agora, de poucos recursos fica munida para +combater na grande batalha em que vae entrar. + +Ensinou-lhe o cathecismo, bem sei; Lili fez já a sua primeira communhão, +e respondeu ao exame de doutrina com admiravel facilidade, e com uma +memoria impecavel. + +E depois? + +Em que é que essas noções a auxiliam para que ella chegue a conceber o +bem absoluto, a eterna justiça, o Espirito Supremo que anima a grande +natureza? + +É preciso que ella forme de Deus uma larga e fecunda idéa, e as +manifestações da sua grandeza não estão no cathecismo, estão espalhadas +n'essa creação universal que ella não sabe ver e que ella não conhece. + +Conhece a historia pelos pequenos opusculos cheios de todas as maculas e +impurezas, que deixaram chegar ás suas mãos infantís. + +Não será uma irrisão dizer que ella conhece a historia? + +Sabe os nomes dos reis, as datas dos seus nascimentos e mortes, +coroações e consorcios, e os filhos que tiveram e as cidades e villas +que conquistaram; mas que idéa tem ella d'essa historia sublime, que +participa do drama e da epopêa, que tem paginas doloridas e paginas +brilhantes, que tem cantos triumphaes, e gemidos de lutuosa angustia, +d'essa historia em que estão registradas tantas luctas heroicas, tantas +conquistas immortaes, e que se chama a historia da humanidade? + +Não lhe parece que deve ser um estudo elevado, fortificante, +robustecedor, que faz conhecer melhor, os esforços titanicos que o homem +tem empregado para alcançar a quasi omnipotencia que hoje possue? + +Do homem rude, primitivo, inhabil, rodeiado de perigos para o corpo e de +chimeras para o espirito, esmagado pela força brutal da natureza, sem +comprehensão do destino que o esperava e da missão a que vinha, até ao +homem dos nossos dias, ao rei, ao victorioso, ao vencedor, ao que tem +dominado todas as tyrannias que o dominavam, que differença enorme vae, +minha querida amiga! + +Entre o pária errante das selvas pre-historicas e esse triumphador que +se chama Newton ou Goethe, Claude Bernard ou Victor Hugo, ha a distancia +de uns poucos de milhares de seculos, que é preciso conhecer ao menos +pelos marcos milliarios que teem assignalado a passagem dos mais +illustres caminhantes n'essa estrada luminosa que se chama civilisação. + +É isso que eu chamo conhecer a historia. + +D'essa sciencia o espirito de sua filha, curioso, ávido, aberto para +todas as grandes cousas, só póde colher proveito, um enorme proveito +cujo alcance mal lhe posso explicar! + +Dir-me-ha que n'essa historia ha crimes ignobeis, ha quadros +revoltantes, ha homens condemnados cujo contacto póde ferir o delicado e +original espirito de uma creança. + +Oh! mas tambem ha martyrios, sacrificios, abnegações, arrojos sublimes! + +Se ha criminosos, tambem ha heroes; se ha algozes, tambem ha martyres; +se ha monstros, tambem ha santos. + +Deixe que no cerebro da creança se faça a mysteriosa elaboração de que +ha de sahir o culto pelo que fôr bello e bom, o odio raciocinado e +violento a tudo que fôr abjecto e vil, a compaixão virtuosa e divina +para tudo que fôr fragil e ignorante! + +Ponha nas mãos de sua filha todos os cantos d'essa epopêa enorme. +Faça-lhe lêr com attenção essa historia, e quando ella tiver chegado á +ultima pagina, será mulher. Uma mulher instruida, uma mulher forte, +capaz de ser esposa digna, e mãe desvellada, tendo aprendido a conhecer, +comparar, julgar e a pensar. + +Não sei se comprehendeu bem a idéa que procurei expôr-lhe. Apontei a +traços largos a direcção _una_ que deve dar ás leituras de sua filha. +Isto a que chamei conhecer a historia, não é, como viu, ler simplesmente +os historiadores. + +É lêr, dominada por uma idéa de elevada critica, que as conversações +d'uma mãe intelligente podem dar, todas as que tenham trazido a este +thesouro formado pelos seculos, algum conhecimento precioso e util. + +Os bons historiadores como Macaulay e como Herculano, os poetas que +vivificam e animam o passado, que entram no espirito de todos os +seculos, como Michelet: os viajantes intrepidos, os exploradores, os +navegantes, os homens de sciencia, conquistadores tambem e dos mais +gloriosos; os moralistas, os criticos, todos aquelles que buscam +lealmente a verdade e que aspiram ao aperfeiçoamento do homem. + +Fallei-lhe de Michelet e deixe-me dizer-lhe o que penso d'elle. + +É o coração mais apaixonado de justiça que eu conheço, o que o não priva +de ser injusto muitas vezes; mas tem uma alma tão grande, tem uma +comprehensão tão viva do bello, tem faculdades artisticas tão poderosas, +que para mim não ha companheiro melhor para um espirito moço. + +Deixe que sua filha leia muito Michelet. + +É um grande mestre. Atravez d'elle ella saberá sentir melhor, amar com +um amor mais intelligente a natureza. + +Michelet tem a doçura misericordiosa que redime e levanta os humildes e +anima os fracos, tem a paciencia que penetra no intimo dos sêres mais +inferiores, e que o illumina de uma luz sympathica. + +Sabe fazer ver tudo, sabe explicar todos os mysterios. + +É um genio que tem alguma cousa de propheta. + +Como é bom, divinamente bom, o contacto d'aquelle espirito, dá bondade e +força. + +«Para elle não ha na natureza, nada que tenha vida, e não tenha alma! + +Da planta ao mollusco, e do mollusco ao homem tudo que vive ama, e tudo +que ama tem direito ao nosso amor. + +Doce philosophia que nos ensina o segredo de todas as misericordias! + +Minha querida, ainda que para mim Michelet seja o melhor dos poetas, não +entendo que das leituras de uma menina se deva proscrever +implacavelmente a outra poesia. + +Quando digo isto refiro-me á poesia rimada, á que canta no ouvido, com +uma musica que é muitas vezes traiçoeira. + +Procure no entanto que seja o mais tarde possivel, que essas vozes de +sereia penetrem no ouvido de sua filha. + +Oh! é que é preciso muita força para resistir á influencia dissolvente +que ellas teem em nós. + +Nunca perca de vista que a vida é um combate, um rude e terrivel +combate, e elles os que cantam e os que choram em vez de inocularem no +espirito a força de que este precisa, tornam-n'o debil, amollecem-n'o, +em voluptuosidades enervantes. + +Ninguem tem medo de Lamartine. + +As mães dão-n'o a ler ás suas filhas, os noivos dão-n'o de presente ás +suas noivas. + +Para todos elles é o mais puro dos poetas, um cysne que nunca maculou as +suas pennas brancas no lodaçal das paixões insalubres! + +Não se illuda com este juizo que universalmente se formou a respeito de +Lamartine e dos melancolicos da sua escola. + +Que maior perigo para uma alma juvenil do que a aspiração a um ideal +impossivel? do que a sede de venturas irrealisaveis e do que o sonho de +amores que não existem? + +E depois os poetas inconsolados e inconsolaveis não ensinam a luctar +contra as magoas da vida. Ensinam a curvar a cabeça aos golpes da +fatalidade, ensinam a chorar covardemente, a deliciar-se nas agonias, a +saborear a doçura debilisadora das lagrimas! + +Saudemos os que combatem virilmente, os que vencem a desgraça, os que +furtam a sua alma ás languidas tristezas da desesperança, saudemos os +que são fortes, alegres e bons. + +É d'essas intelligencias eleitas, que sua filha deve sómente +alimentar-se. + +Ella ha de querer ler romances. + +É natural. + +Os romances são a fantasia, e na vida das mulheres a fantasia tem um +grande logar. + +É na escolha d'esses que precisa ter o maior cuidado. + +Proscreva sem dó, da bibliotheca de sua filha, as obras primas dos +romancistas francezes. + +Balzac é um anatomista implacavel. + +Os seus romances matam a flôr da fé na alma dos innocentes. + +Georg Sand é um bello anjo revoltado. + +Tem o orgulho de Satanaz na imaginação de uma mulher apaixonada. + +Octave Feuillet tão fino, tão delicado, só deve ser lido depois dos +trinta annos. + +Daudet um delicioso romancista, começou a escrever n'uma época doentia; +ha n'elle um não sei que de morbido que entristece e que faz mal. + +Escusa de procurar minha amiga. + +Nós as mulheres para quem a vida já não tem segredos, adoramos esses +escriptores, porque elles contam-nos o que já tinhamos adivinhado, +relembrando-nos o que tinhamos sentido; descrevem-nos o que tinhamos a +curiosidade de conhecer, mas as creanças que os lerem devem experimentar +bem dolorosas surprezas. + +É a litteratura ingleza a mais rica, a mais fecunda no genero que +procura. + +Walter Scott um verdadeiro poeta, reviverá para sua filha as scenas mais +pittorescas de um passado aventuroso. + +Puros amores, enthusiasticos guerreiros, heroismos nacionaes, +sentimentos caracteristicos de uma raça energica e arrojada, incidentes +romanescos, mas de um romanesco são, tudo que tem o poder de enlevar e +attrahir a imaginação colorida e ardente de uma mulher de poucos annos. + +Não ha creações femininas mais diliciosamente virginaes do que as do +romancista escossez. + +As suas mulheres, como as mulheres de Sakspeare, como as mulheres de +Dickens, são feitas de um raio de luar, de uma petala de rosa, de um +canto de rouxinol. + +O crime nem de leve se approximou d'ellas; o vicio, de envergonhado, +córa na sua presença; não conhecem as más tentações, as vigilias +ardentes, os sonhos que perturbam e agitam a alma das outras mulheres. + +Que doces e queridos exemplos! que bellas e radiosas companheiras. + +As escriptoras inglezas seguiram a tendencia moralisadora da sua nação. + +Os livros de algumas d'ellas teem a graça d'um narrar discreto e +_nuancé_. + +Não se queixe de que não póde dar á sua filha romances que a distraiam, +sem a inquietarem. + +Dickens o mais energico e convencido dos moralistas, Mrs. Graswell, +Broute, Georges Elliot e muitos mais que não tenho tempo de enumerar, +ahi estão para desmentirem. + +Que sua filha entremeie a leitura de escriptores mais instructivos com +esta outra leitura amena e agradavel, e verá como ella aprende a gozar +da companhia dos bons livros, e a dispensar as futeis distracções +mundanas que esterelisam o espirito, e o tornam mesquinho e baixo. + +Assim, absorvida pelo estudo bem dirigido, pelas elevadas distracções +intellectuaes, assim educada, fortalecida, illucidada, verá como ella +chega á edade propria de escolher o seu destino, possuindo um são +criterio, uma penetração delicada, uma firmeza de principios que a ponha +ao abrigo de qualquer tentação menos digna. + +Conhecendo o bem e o mal, e comprehendendo o que um e outro significam e +valem, saberá o que não sabem os ignorantes, saberá escolher o caminho +que tém de seguir se lhe confiarem a escolha. + +Parece-me que para chegar a este fim a leitura, o cuidadoso cultivo da +intelligencia devem ser auxiliares preciosos, não acha?» + +Encontramos esta carta nos papeis velhos de uma excellente amiga nossa, +e sem a corrigir vimos offerecel-a ás nossas leitoras. + + + + +CAPITULO VII + +As dactas d'uma vida + + +A ida para o collegio + + +--Então achaste o que procuravas? + +--Achei. Eu tinha consultado a este respeito a baroneza de S., que tem, +como sabes, immenso juizo. Indicou-me o collegio de M.^{me} Maubry. + +Uma franceza elegantissima. + +Parece-me que fiquei muito bem servida. + +--Tu é que foste ao collegio fallar com a directora? + +--Pois a quem havia eu de confiar similhante encargo? Fui, vi, julguei +por meus proprios olhos, e fiquei satisfeita. + +--O collegio está bem situado? + +--Sim. Está n'um sitio muito central, muito concorrido, tudo muito á +mão. Um constante vai-vem de carruagens, que nas horas de recreação ha +de distrahir immenso as creanças. + +--E a respeito de jardim para ellas correrem? + +--Tem um jardim pequeno, mas muito bonito, muito bem tratado, á ingleza. +Conhece-se á primeira vista a obediencia e a docilidade das discipulas, +olhando para o jardim. Nem um vestigio de travessuras infantís. Uma +limpeza ideal nas pequenas ruas arêadas. + +Fui lá na hora do recreio da tarde; andavam as meninas passeiando e +conversando com uma gravidade! uma compostura!.. pareciam senhoras em +miniatura!.. Achei engraçadissima aquella parodia de uma das nossas +salas. + +--Ainda bem que me contas isso tudo, Mathilde. Ando com vontade de +metter as minhas pequenas em um collegio, porque estão de uma maldade!.. +Não pára nada com ellas! Importunam-me extraordinariamente. Tu sabes. +Nem eu nem o pae gostamos de barulho, e dous diabretes em uma casa +pequena, é de se morrer. Decido-me pelo teu collegio. Perguntaste o que +lá ensinam. + +--Oh! a esse respeito podes estar descansadissima. + +Uma perfeita educação de senhora. M.^{me} Maubry é o typo da parisiense +delicada e graciosa. + +Tem um cuidado inexcedivel com as maneiras das discipulas, com o seu +modo de se apresentarem, com a sua _toilette_. + +Disse-me ella que tinha por systema, dar-lhes desde muito cedo o gosto +de agradarem na sociedade, de excitarem em torno de si uma sensação +agradavel... impregnal-as d'aquella graça especial que constitue a +mulher do mundo!.. Approvo immenso aquella maneira superior de entender +a vida social. + +--Mas não me fallaste ainda da instrucção que recebem as discipulas... + +--Oh! já se vê, correspondente ao resto. Linguas... nas linguas M.^{me} +Maury tem um apuro especial. Piano, canto, um pouco de historia, de +geographia, dança, desenho, varios bordados, etc., etc. Creio que é o +sufficiente para brilhar entre as primeiras. + +M.^{me} Maubry segue o systema moderno no que elle tem de muito +aproveitavel. Ministra a instrucção brincando por assim dizer. Ha +concertos semanaes em que figuram as melhores discipulas; ha cursos de +conversação; ha noutes em que se lê alto, se recita ou se representa. +N'uma palavra, o fim d'ella é tornar deleitoso o estudo, e desenvolver a +emulação entre as discipulas. Como verdadeira franceza, percebeu que a +vaidade é o motor principal da mulher e... + +--Minha querida, interrompeu n'este momento o marido da oradora; faze o +que quizeres, visto que tive a imprudencia de te jurar que educarias tua +filha conforme te aprouvesse e sem que eu nunca entrasse n'isso; mas o +que desde já te affirmo é que a tua M.^{me} Maubry é uma corruptora +inconsciente da mocidade, e que a tua filha nunca passará de uma boneca! + + * * * * * + + +_Durante as ferias_ + + +--Mamã, eu antes quero o laço côr de rosa... + +--Pois faz a Lili muito mal. O azul fica-lhe muito melhor. Olha que no +_baile infantil_ hão de estar muitas companheiras tuas do collegio. Que +alegria para ellas se te virem feia! + +--Alegria, mamã? Alegria porque? As meninas do meu collegio são todas +minhas amigas, hão de gostar muito de me ver bonita e bem vestida. + +--Assim será, minha filha, mas as _mamãs_ d'ellas é que com certeza hão +de ter inveja de mim se tu fores a mais linda, a mais bem vestida, a que +dançar melhor! + +Chega-te aqui Lili! Deixa-me annellar os teus cabellos. Assim é que +ficas bonita, ouviste? Levanta os teus olhos para mim, são tão bonitos +os teus olhos!.. + +--A mamã quer que eu levante os olhos? M.^{me} Maubry ralha commigo por +eu os levantar de mais. Diz ella que uma menina deve andar sempre de +olhos baixos, deve córar de vez em quando... nunca se deve rir com +vontade. + +--M.^{me} Maubry diz-te isso?.. + +--Diz, mamã, e que assim é que as senhoras agradam e se tornam amaveis. + + * * * * * + +--Então, minha Lili, tu e a mamã divertiram-se muito no tal _baile +infantil_? + +--Ah! papá, não imagina! Dancei muito, e todos me disseram que eu era a +menina mais bonita que lá estava. + +--É verdade! a Lili estava encantadora. Não imaginas como a elogiaram! +Todas me perguntaram onde ella aprendeu a dançar. + +--E a mim tambem, mamã. + +As outras meninas perguntaram-me onde era o meu collegio. + +--Vês! dizias tu, meu maridinho ralhador, que M.^{me} Maubry era uma +professora má. Vê o triumpho que teve a nossa filha no primeiro dia em +que appareceu em publico! + +Lili, corada de alegria, foi dar uma pirueta defronte do espelho. + + +_A primeira communhão_ + + +Acabou agora mesmo de vestir-se. Branca, branca que parece uma pomba. + +O véu de gaze cahe em prégas soltas e ondeantes por sobre aquelle corpo +esbelto e franzino, de 14 annos; a corôa de rozas emmoldura-lhe +deliciosamente a fronte eburnea e levemente sombreada por uns toques de +infantil melancolia. + +Acha-se linda, e sente que todos que a virem hão de achal-a assim! + +Dentro da sua alma resôa como que um cantico de orgulho! + +Vae ser noiva do Senhor, vae receber pela primeira vez no puro +tabernaculo do seu coração a visita mysteriosa do Esposo! + +O seu director espiritual, um moço sacerdote francez, fino, louro, +delicado, com uma voz branda e persuasiva, com umas mãos brancas, de +cardeal, com uns gestos lentos e graves de irreprehensivel bom gosto, +acabou hontem de a conduzir até aos umbraes d'essa nova vida, em que +ella vae penetrar já consciente do que é e do que vale. + +Que doçura mystica tinham as palavras d'aquelle padre! + +Eram ternas, unctuosas, de uma graça desconhecida! + +Até alli para ella a religião fôra um não sei quê de vago, triste e +indefinivel, mais para assombro e terror do que para delicioso extasi... + +O Christo macilento e ensanguentado, com a fronte coroada de espinhos, e +o corpo cravejado de prégos, dera-lhe a idéa de uma angustia desoladora +e desesperada, que ás vezes enchera de lagrimas a sua pequenina alma de +dez annos. + +Porque seria que, á voz do moço confessor, o Martyr do Calvario como que +se tinha transfigurado aos olhos d'ella? + +O padre pintara-o bello, radiante de mocidade, prodigo de ineffaveis +esperanças, chamando a si as almas virginaes, e promettendo-lhe a +eternidade no amor, a radiosa alegria das nupcias celestiaes. + +Era uma nova musica, a que elle fizera vibrar aos ouvidos da gentil +neophyta, que sentia, sem saber como, inundal-a uma alegria anciosa, um +pungitivo arrebatamento, inteiramente desconhecido ao seu passado! + +E olhava para o espelho, e sentia-se bella, moça, radiosa de vida e de +esperanças, com um profano desejo de alegrias novas, de triumphos +ignorados a alvoroçar-lhe o seio juvenil. + +E agitando em torno de si as prégas fluctuantes do véo de noiva do +Christo, baixou os olhos languidos sobre o livro das orações e leu em +voz baixa e palpitante as palavras sagradas, na lingua melodiosa em que +se habituara, por um requinte de aristocracia, a fallar com Deus: + +«_Oh! venez le bien-aimé de mon coeur! venez, Agneau de Dieu, chair +adorable, venez servir de nourriture á mon âme! Que je te voie, ô le +Dieu de mon coeur, ma joie, mes délices, mon amour, mon tout!_ + +«_Qui me donnera des ailes pour voler vers toi! Mon âme éloigneé de toi, +impatiente d'être remplie de toi, languit, te souhaite avec ardeur et +soupire après toi, ô mon Dieu, ô mon unique bien, ma consolation! +Embrase moi, mon Dieu, brule, consume mon coeur de ton amour... Mon +bien-aimé est à moi_» + +O que, traduzido na nossa lingua, decididamente reputada impropria para +fallar com a Divindade, significa pouco mais ou menos a seguinte +edificante declaração de amor: + +«Vem, amado da minh'alma! cordeiro de Deus! carne que eu adoro! vem +servir-me de alimento ao coração! Quero ver-te, oh Deus amado, minha +alegria, minha delicia, meu amor, meu tudo! + +«Quem me dera azas com que voasse para ti! + +«Minh'alma afastada da tua presença almeja por se impregnar de ti, +enlanguece, deseja-te com ardor, e suspira por ti, oh meu Deus, oh meu +unico bem, minha consolação! + +«Abraza-me oh Deus! queima, consome o meu coração com as chammas do teu +amor!.. + +«És meu, oh bem amado, pertences-me!» + + +_Na volta do baile_ + + +Lili vem extraordinariamente pallida e pensativa! As brancuras +opalisadas do alvorecer penetram atravez dos vidros da carruagem, e como +que cingem de uma graça ideal os contornos delicados do seu rosto, que o +capuz de baile emmoldura em alvas rendas. + +Dançou até ás seis da manhã; vem cansada, abatida, toda ennovellada nos +fôfos coxins do seu _coupé_, mas vem pensando muito. + +É que o viu no baile, e lhe disseram que _elle_ seria o seu marido. + +O pae antes d'ella partir de casa--vestida de tulle e rendas, coroada de +myosotis, e com um collar de perolas lacteas e iriadas, a affagar +voluptuosamente a transparencia rosea do seu collo--o pae, antes d'ella +partir, dissera-lhe gravemente, mas com uma gravidade em que havia muito +affecto: + +--_Elle_ é moço, é nobre, é herdeiro de uma casa riquissima. + +A familia deseja este enlace. Não te quero forçar, Lili; mas, se +gostares d'elle, approvarei com enthusiasmo essa affeição! + +--É moço e nobre, pensára Lili comsigo. Hei de amal-o por força. Terá +maneiras distinctas, um porte correcto, um sorriso levemente desdenhoso. +E dirá _amo-te_, com uma graça fina e superior! + +Depois, á proporção que o baile se ia approximando, com o esplendor +prestigioso dos seus lustres, com o capitoso aroma das suas montanhas de +flores, com as prismaticas scintillações dos seus diamantes, com o +ruge-ruge que fazem ouvir as serpentes e as sedas, Lili pensava que era +positivamente uma cousa agradabilissima ser rica! + +--Irei muitas vezes ao baile, ouvirei em torno de mim o murmurio +discreto de admiração que enlouquece as mulheres, terei vestidos de +velludo negro, com diademas de brilhantes a morderem o ouro fulvo dos +meus cabellos! Invejar-me-hão, e quando eu sahir acclamada e triumphante +das salas em que fôr rainha, deixarei no meu caminho um rasto de +admirações apaixonadas! + +Vira-o no baile, fallara com elle, tinham dançado juntos. + +Percebera que o noivo que lhe destinavam era um pobre rapaz, ignorante e +enfatuado, muito feliz de ser nobre, de ser rico, e de haver mulheres +que em torno d'elle cubiçassem o seu titulo futuro e a sua riqueza +presente. + +Apesar d'isso, Lili estava contente. + +Era ella que _elle_ preferira, e visto que _elle_ era rico, teria +carruagens, daria bailes e festas, teria um modo original, severo e +elegante de vestir-se, as suas amigas imitariam a mobilia das suas +salas, e o feitio dos seus chapéus, seria uma das raras mulheres que +sabem gozar, em toda a sua plenitude, a vida social no que ella tem de +fastoso e brilhante. + +Que importa que _elle_ não saiba dizer _amo-te_ com a voz que Lili tinha +sonhado! + +A troco do seu ouro, ouviria dos labios d'ella sem hesitação e sem +lagrimas as palavras mysteriosas que a mulher pura só deve dizer ao +eleito do seu coração, as palavras magicas: + +_Sou para sempre tua!_ + + +_Dez annos depois_ + + +Já lhe não chamam Lili. É condessa. + +Tem um palacio magestoso e severo, povoado com obras primas de todas as +artes e de todas as civilisações. + +As festas que ella dá são citadas pela sua pompa severa e artistica, +pela sua graça principesca, pelos requintes de bom gosto que as +singularisam entre todas. + +Tem um povo de criados correctamente respeitosos, que obedecem a cada um +dos seus accenos. + +As suas carruagens quando passam ao trote largo dos finos cavallos +inglezes excitam a admiração dos entendidos e a inveja dos profanos. + +A condessa nunca está só. + +Hoje uma recepção a que não póde faltar, ámanhã um baile, no outro dia +um jantar diplomatico, e as mil praticas da sua devoção aristocratica, e +as pequenas _soirées_ intimas que dá, e as festas a que preside em sua +casa, e que o seu gosto escrupuloso e cultivado dirige desde os minimos +accessorios. + +Tudo isto lhe prende o tempo, a absorve e a distrae. + +Tem duas filhas... que uma governante ingleza educa e acompanha. + +Tem um filho... que está no collegio. + +Tem marido... que anda sempre por fóra! + +Será feliz? Quem ha que o possa dizer? Na sua pallida fronte marmorea +não se reflecte senão uma sombra. + +É a mulher do mundo na sua accepção mais genuina. + +Viveu e vive da monstruosa vaidade que desde a infancia lhe deram por +exclusivo alimento. + +Sabe que é bella, invejada, cubiçada, admirada, odiada até! + +Isto basta-lhe, isso a sacia e satisfaz! + + +_Na velhice_ + + +Está sentada ao fogão na vasta sala opulenta povoada como outr'ora por +tudo que ha mais bello e mais luxuoso. + +Um grande candieiro espalha, atravez do seu globo fosco, uma luz +discreta e tranquilla sobre a mesa oval cheia de bagatellas preciosas. + +A condessa está só, e os seus olhos baços e amortecidos seguem as +chammazinhas iriadas do fogão com uma insistencia pensativa. + +Com a formosura perdeu a força dominadora que a tornava poderosa e +querida. + +Os amigos da hora dos triumphos povoam agora as salas illuminadas e +festivas onde suas filhas já casadas segundo as conveniencias da alta +posição que occupavam, continuam a vida de que sua mãe lhes déra o +exemplo tentador. + +O seu confessor começa a sentir-se cansado do escrupulo esmiuçador com +que a condessa aproveita os longos ocios da solidão para esgravatar +piedosamente nos mais escuros escaninhos da consciencia. + +--Minha senhora, diz-lhe o bom do abbade, que já não era o moço +almiscarado dos dias da mocidade, e que ganhára em abdomen o que perdera +em mystica elegancia; minha senhora, não nos percamos em funestos +exageros. Deus não quer a morte do peccador, snr.^a condessa. + +Nem essa distracção ultima lhe ficára. + +As praticas adocicadas do confessionario, aquelles extasis a um tempo +deliciosos e pungitivos, as confidencias segredadas a meia voz, a +analyse fina e delicada dos peccados mais subtis, tudo isso lhe falta +para suprema distracção. + +No fim de contas a sua vida não fôra mais do que um sonho frustrado, a +carreira impetuosa e desvairada atrás de uma sombra que fugia sempre! + +Não tivera as livres e salutares expansões da alegria infantil, não +tivera os sonhos cariciosos e ideaes da adolescencia, não fôra filha, +nem amante, nem esposa, nem mãe! + +Agora já não saberia ao menos ser avó! + +E pelos recantos sombrios do aposento enorme, a condessa julgou ver +deslisar uma pequenina figura de cabeça annellada e loura, uma figurinha +que dava pelo nome de Lili! + +Era o phantasma saudoso de sua infancia que passara! + +--Minhas filhas--murmurou baixinho a altiva senhora,--perdoae-me pelo +amor de Deus, assim como n'este momento eu perdôo á minha mãe! + + + + +CAPITULO VIII + +Casamentos pobres e casamentos ricos + + +Uma das accusações mais frequentes que hoje se dirigem aos homens é que +elles são egoistas, interesseiros, que introduzem o calculo e as +finanças no que devia ser um impulso espontaneo do coração, que +confundem um pouco nos seus sonhos do futuro o mercantilismo e o amor. + +Eu, que não gosto de julgar sem ter conhecido ao menos as causas que +produzem um certo e determinado effeito, lembrei-me de observar de +perto, nos costumes e praticas de todos os dias, se eram realmente bem +cabidas as censuras frisantes que por ahi ouço continuamente á porção +mais _feia_ da humanidade. + +_Uma cabana e o teu coração!_ eis o que antigamente soluçavam aos pés +das suas deusas de _biscuit_ os trovadores de algodão em rama. + +Um _rez de chaussée muito commodo e quatro contos de réis de +rendimento!_ eis o minimo a que hoje aspiram nas suas suspirosas +alegrias os pretendentes mais positivistas da nossa quadra utilitaria e +mercantil. + +Mudou a tal ponto o coração humano, que já os sinceros e impetuosos +sentimentos não possam acclimatar-se n'elle? + +Isto caminha n'uma tal e tão rapida decadencia, que tudo que era bom, +honesto, sincero no amor, tenha fugido assustado para outras regiões +ainda inexploradas? + +Sinceramente não o acreditamos. + +Em primeiro logar, em todas as épocas e em todos os paizes, o +desinteresse absoluto, o completo desprendimento dos bens da terra, foi +cousa muito rara, e muito para notar-se com espanto. + +Que o digam os claustros sem conto, povoados de pallidas monjas juvenis, +que o mundo expulsava do seu seio, por não têr que lhes dar nenhuma das +alegrias naturaes que são o apanagio mais caro da mulher! + +Se alguma differença temos que apontar são as conquistas alcançadas pela +familia, nos terrenos que até aqui usurpara o egoismo e a ambição do +homem. + +Mas, admittindo mesmo que se accentue na nossa época, com uma certa +força o interesse pessoal, que é um dos elementos mais esterilisadores +que póde existir na sociedade, não demos só ao homem a culpa de essa +tendencia nefasta. + +É incontestavel que á proporção que as civilisações se desenvolvem, +crescem as necessidades, cresce o amor do luxo, sem que para todos +cresçam proporcionalmente os meios de satisfazer essas aspirações +fataes. + +Não é portanto espantoso, que o homem, ainda o mais dedicado e crente, +antes de tomar aos hombros o pesadissimo encargo da familia, meça as +suas forças, calcule com precisão mathematica os meios de que dispõe +para cumprir as obrigações que acceita, e muitas vezes diante da grande +desproporção que encontra entre aquelles e estas, suffoque a voz do +sentimento e siga os austeros e aridos conselhos da razão! + +É que a familia, tal como está constituida na sua generalidade, +estabelece um grandissimo desequilibrio entre os deveres do homem e os +deveres da mulher. + +Se a esta, em face da consciencia e da razão, cabe a tarefa mais +espinhosa, a missão mais elevada e mais complexa, nem por isso, logo que +ella fecha os ouvidos a esta voz superior que tão poucas escutam e que +tão poucas entendem, se acha realmente forçada a outra cousa que não +seja consumir sem produzir, receber sem dar, acceitar protecção, amparo, +ajuda, sem pagar estes beneficios com beneficios equivalentes. + +Queixam-se do homem porque elle conta com o dote da noiva, e este entra +com bastante peso na balança dos seus affectos. + +Que dizem então da mulher que casa para ser livre, para ser +independente, para ter diamantes e rendas preciosas, para frequentar os +bailes, os theatros, os passeios, para ser uma taboleta ambulante do +luxo real ou do luxo hypothetico do _ménage_? + +Imagine-se, por instantes um rapaz moço, intelligente, cheio de +aspirações sãs, de boa vontade e de energia, dotado de ricas faculdades +intellectuaes, capaz de conquistar á força de perseverança, de trabalho +e de privações, um lugar distincto na sciencia ou na industria, na +politica ou no magisterio. + +Não tem dinheiro, ou tem apenas uma pequena fortuna que o pae lhe legou, +juntamente com um nome honrado. + +Sente a natural aspiração de completar a sua existencia, unindo-se á +mulher que mais ou menos lhe povoou os sonhos de adolescente. + +Não tem tempo para escolher; absorve-o o trabalho a que forçosamente tem +de consagrar quasi todas as suas horas. + +Não tem um conhecimento profundo da natureza feminina. + +Os nossos costumes com as suas reservas hypocritas, com as suas +precauções restrictas, que dão idéa pouco lisongeira do pudor e da +castidade das mulheres portuguezas, oppoem-se a que o homem tenha +d'ellas um conhecimento que não seja frivolo, ridiculo, superficial--o +conhecimento que se adquire em uma sala entre duas quadrilhas +sensaboronas, ou n'um camarote durantre um entre-acto cheio de tedio. + +Não póde pôr-se pelo mundo á busca de uma excepção: o molde das nossas +meninas da sociedade varia muito pouco. + +Todas sabem bordar a matiz, tocar a _Somnambula_ e o _Trovador_ ao +piano, fazer _housses_ de crochet, papaguear em duas ou tres linguas +puerilidades comicas, dançar os _Lanceiros_ e criticar as _amigas +intimas_. + +N'estas circumstancias o que póde fazer o pobre moço? + +Ou resistir ás solicitações impetuosas da mocidade, á necessidade +instinctiva que sente do conchêgo de familia, d'aquelle _sweet home_ que +tanto imperio tem no coração de todo o homem de pensamento e de +trabalho; ou tem de contentar-se com a escolha feita á pressa de uma +d'essas rachiticas flôres de salão. + +É desinteressado no sentido mais amplo da palavra, tem aquellas santas +utopias que são a suprema riqueza dos vinte annos; na sua escolha impera +tudo menos o calculo e a arithmetica. + +Prefere, pois, uma noiva pobre. + +Applaudem-lhe a generosa imprevidencia; gabam-lhe os sentimentos +honestos e cavalleirosos; envolve-o um certo prestigio durante uns +poucos de mezes. + +Os mezes da _lua de mel_. + +--Portou-se admiravelmente!--exclamam as _mamãs_, contemplando com ar +piedoso as filhas sem dote, e envolvendo na sua furia rancorosa os +_dandys_ que andam á pesca de noivas ricas, pelas aguas turvas da nossa +sociedade. + +Resultado pratico de tudo isto: seis mezes depois de casado, o nosso +pobre heroe vê-se a braços com todos os encargos de um _ménage_ a que +falta o conchêgo e a alegria. Como não teve tempo de fazer-se amado, +como o amor é no fim de contas um genero carissimo que o coração das +meninas de hoje prodigalisa muito pouco, encontra em casa ao voltar das +luctas quotidianas, a que se arrojou com novos alentos e nova fé, um +acolhimento frio, um rosto desconsolado, uma mulher que finge resignação +e que só tem despeito, porque o casamento lhe não deu nenhumas das +frivolas vantagens que lhe promettera. + +Tinha sonhado com _toilettes_ elegantes, uma _robe de chambre_ bordada, +uma touca de manhã como as que desenha a phantasia pittoresca dos +caixeiros da _Mode Illustrée_, queria uma casa de jantar elegante com +mobilia _en vieux chêne_, aparadores carregados de finas porcellanas, um +criado de casaca preta e modos de embaixador, passando discretamente, +sem fazer barulho, por cima do _parquet_ suisso, cuidadosamente +encerrado. + +Gostava de ter um _boudoir_ todo de seda côr de perola onde ella podesse +ler, preguiçosamente deitada no no seu pequeno _fauteuil_ muito +flascido, diante de um _guéridon_ cheio de violetas e de _gardenias_, os +ultimos romances, as revistas estrangeiras, as criticas musicaes dos +mestres mais famosos. + +Sempre tivera a esperança de fugir pelo casamento á pressão sordida da +miseria paterna. + +Detestava a vida que tinha levado em solteira, fazendo ella propria os +vestidos para ir ao baile, cerzindo redes nas botinas de setim branco, +com os dedos picados, um roupão de chita amarrotado, e o coração cheio +de rancor e inveja ás que tinham o luxo e o conforto que ella não tinha. + +Aquelle homem apparecera-lhe. + +Era pobre, é verdade, mas disseram-lhe que _tinha talento_, que tinha +_ou que ia ter uma posição_; acceitara-o por cansaço, por desalento, +porque se impacientava já de esperar mais tempo. + +Levara comsigo os mesmos sonhos que a tinham perseguido, imaginava casas +imprevistas, edificava hypotheses extravagantes; á força de ambicionar a +riqueza, acabava por se convencer que havia de ser rica. + +E agora! + +Tudo que a cercava era tão mediocre! + +Se tivesse pachorra, se tivesse boa vontade, podia enfeitar com plantas +o seu pequenino quarto de trabalho, pôr ao menos umas cortinas de cassa +branca na janella. + +Não tendo a riqueza, podia ter o aceio; não tendo o luxo, podia ter a +graça. + +Os livros bem dispostos sobre a mesa, cujo tapete ella propria houvesse +feito ao serão, uma jarra de louça com um ramo de madresilva ou de rosas +de maio, as cadeiras agrupadas com um certo ar de intimidade e de +alegria, um aspecto de pobreza satisfeita que faz tão bem á alma! + +Vestiria um simples roupão de fazenda clara, sem enfeites, mas de um +feitio elegante e gracioso, os cabellos bem penteados, uma flôr presa +nas tranças. + +Iria ella mesma á cosinha arranjar uns pratinhos de que elle gostasse, o +pobre trabalhador que á noute voltaria cansado, mas cheio de fé robusta +e de profundas crenças, porque o amor o amparava e lhe sorria! + +Dentro de uma gaiola, na janella da casa de jantar, haveria um canario +muito alegre, não tanto ainda assim como ella, a pequenina _ménagere_ +muito atarefada, muito contente, espalhando na sua casa modesta e pobre +um perfume de virtude, de castidade, de ternura animadora e sã! + +Mas quem é que a tinha educado para cumprir este programma tão simples e +tão difficil? + +Quem lhe tinha communicado com o leite a noção d'estes graves e honestos +deveres? + +A mãe que a passeara de baile em baile, á cata de um marido? + +Os livros que ella lêra e que fallavam de duetos apaixonados entre um +bardo _pelintra_ e uma menina romantica com olheiras e muito pó de +arroz? + +O marido ao principio quer luctar; procura educal-a elle, já que a +familia a não educou; vem de fóra muitas vezes preoccupado com os seus +estudos, com um problema scientifico que deseja resolver, com uma +especulação industrial que talvez lhe dê a paz e a aurea mediocridade a +que tanto aspira, por amor da sua querida mulhersinha... não importa! + +Sacode como um peso importuno todos os pensamentos que o absorviam, +senta-se ao pé d'ella, porque a vê triste, enfastiada, com um certo +desleixo no aspecto que lhe aperta o coração, procura não reparar, para +a casa sem arranjo a que falta aquella poesia do lar que tanto o +captivou nas suas scismas de rapaz; conversa, afaga-a, desenrola diante +do olhar d'ella vago e distrahido um horisonte de futuras alegrias. + +Um dia, porém, descobre com magoa que ninguem jámais poderá sondar nem +comprehender, que tudo que elle esperou um dia assenta n'uma base +chimerica; que essa mulher, a quem associou a sua vida, em vez de +ser-lhe amparo, guia, consolação, conselho, em vez de luctar ao lado +d'elle para conquistarem ambos a ventura dos filhos, o dôce e tranquillo +socego da velhice, vive toda absorta n'um sonho de imaginarias riquezas; +que empallidece de raiva de vêr as outras ricas emquanto ella é pobre; +que amaldiçôa todos os dias o alimento que elle lhe ganha +laboriosamente, porque lhe não é servido em pratos do Japão; que olha +com desdem para os modestos presentes que elle á custa de longas +economias consegue comprar-lhe; que detesta emfim tudo que elle ama; que +tem o tedio invencivel de tudo que elle julgou, por muito tempo, o +resumo de todas as suas alegrias! + +N'essa hora dolorosa e que tem de soar fatalmente na vida de quasi todos +estes obscuros luctadores, alguns, os mais fracos, amaldiçoam tambem a +sua austera e honrada pobreza, e tractam de fugir-lhe atirando-se a +todos os turvos mares da especulação e do mercantilismo! + +Outros--os fortes--afastam-se com desdem de aquella que, sem talvez +saber o que fazia, tentava arrastal-os por um declive funesto, e +isolam-se n'um mundo onde não querem a companhia de ninguem. + +Ha tambem os que, despertando do sonho em que andaram embebidos, +descrêem de tudo em que um dia acreditaram e cedem á convicção fatal de +que no mundo não ha cousa alguma que seja digna, desinteressada e sem +liga de calculos vis. + +A verdade é que mais ou menos todos se arrependem e todos o deixam ver! + +Este exemplo é que vae a pouco e pouco destruindo no coração dos moços a +idéa de que a familia, em vez de roubar o alento e a força ao homem, os +robustece e lhes dá mais solidos alicerces. + +No dia em que as mulheres tiverem coragem para supportarem com alegria e +com intrepidez a pobreza que tanto as assusta, verão como a base do +casamento deixa de ser o calculo que hoje o macula. + +Se o homem, que é por natureza egoista, comprehender que unindo a sua +vida á vida d'uma mulher dedicada, adquire novas forças para a lucta em +que anda empenhado, é incontestavel que deixará de considerar como unico +elemento de prosperidade futura o dote da noiva que houver escolhido. + +Não basta ter coragem e ter intrepidez para supportar as privações da +pobreza; é preciso antes de tudo compenetrar-se bem da idéa de que a +pobreza tem grandes alegrias defezas aos ricos; que a modestia dos meios +não obsta a que possamos enflorar a vida dos que amamos, com aquelle +dôce e poetico conchego, que é para a alma um ninho mais tepido e mais +macio, do que as pompas magestosas que envolvem theatralmente a vida dos +millionarios. + + + + +CAPITULO IX + +A uma noiva + + + Minha querida Maria: + +A tua carta conta-me as tuas primeiras e adoraveis alegrias de noiva. + +Estás radiante! + +Subiste ao _setimo céo_ da ventura humana e crês que não é possivel +cahir de lá. + +Fallas-me do teu véo branco, da tua corôa, das palavras enternecidas que +_elle_ te disse, das opulencias do teu enxoval, do teu quarto de cama á +Pompadour, do amor que tens ao teu _maridinho_, do futuro que sonhas +radioso, eu sei; fallas-me de tudo, filha, e eu li esse poema gentil da +tua mocidade com um verdadeiro enternecimento bem sincero. + +Fallas-me de tudo, digo eu; engano-me. + +Não me fallaste de uma cousa importantissima, filha. + +Não me fallaste da panella. + +Sou eu, pois, que vou fallar-te, com a mais profana das irreverencias, +d'este assumpto que é um dos mais graves n'um _ménage_ que principia. + +Credo! exclamas tu com aquella _moue_ engraçadissima, que eu te conheço +do collegio, e que sempre teve a habilidade de me fazer rir immenso. + +--«Pois eu sei lá sequer se ha em minha casa uma panella! Pois eu hei de +misturar as confidencias extaticas da minha mysteriosa e ideal +felicidade com a relação das minhas cassarolas! Que tem este amor que me +enleva e me arrebata, com a comida que se manipula na cosinha! Deixa que +eu te descreva as rendas e os setins com que me enfeito para lhe agradar +a _elle_; mas, por Deus, pelo amor da arte, da poesia, da delicadeza +feminil, não queiras que eu ajunte a essas descripções uma nova receita +de refugado.» + +Ouve-me, filha; ninguem attende por ahi estas verdades, que são +elementares, tudo quanto ha de mais elementar. + +Sabes onde se fabríca e se consolída a felicidade de um _ménage_? + +Na cosinha. + +Sabes de onde sahe muitas vezes a ruina de uma casa? + +Da cosinha. + +Sabes qual é a origem de tantas doenças que por ahi nos desconsolam com +os seus aspectos repulsivos? + +A cosinha. + +E tu entrando na vida conjugal, acceitando o _encargo_ d'almas, porque a +dona da casa acceita-o, recebendo nas tuas pequenas mãos delicadas a +responsabilidade complexa de mãe de familia, tu pobre querida ignorante, +ousas dizer desdenhosamente que nem sabes sequer se em tua casa ha +cosinha. + +Pois sabe. + +Estás habituada a evocar com a aerea ligeireza dos teus longos dedos +brancos as notas immortaes em que Beethoven, Rossini, Mayerbeer nos +legaram as mysteriosas riquezas da sua alma? + +Gostas dos delicados lavores inventados, pela paciencia feminal, dos +bordados custosos, das matizadas sedas, de todo esse conjunto de +graciosas futilidades em que nós dispendemos horas e horas da nossa +vida? + +Pois, minha querida, logo que a mulher penetra no limiar da sua casa de +esposa tem de antepôr tudo que é util a tudo que é agradavel, tem de +adoptar como suprema divisa da sua vida a palavra--sacrificio! + +E não creias que isto seja uma dolorosa e inutil mutilação do teu ser. + +Quanto mais te sacrificares, crê que maior e que melhor te has de +sentir. + +Será como um progressivo ascender a uma esphera superior. + +Cá em baixo ficam as pequenas vaidades, as frioleiras inuteis, as +puerilidades infantis, os despeitos raivosos, toda a expressão mesquinha +e imperfeita do teu organismo; lá em cima está a larga tranquillidade +que ha de envolver-te como um delicioso banho tepido, a consciencia +plena de haveres attingido o fim para que foste creada, a certeza divina +da felicidade que communicas em torno de ti, a satisfação do dever +preenchido, tudo emfim que nos eleva, que nos depura, que nos faz +comprehender o motivo para que viemos a este mundo--aqui para +nós--eminentemente estupido! + +Não te deslumbrem, pois, as primeiras alegrias da tua _lua de mel_. + +Entre parenthesis, é esta uma phrase que eu abomino, pela simples razão +de a achar falsa, e causadora de falsas e funestas interpretações da +vida conjugal. + +A _lua de mel_ é uma mentira; não existe, ou, se existe, não deve de +modo nenhum existir, o que vem a dar na mesma. + +Esse periodo officialmente consagrado, que se funda em toda a especie de +impostura, deve ser abolido sem appellação por todos os pares honestos +que se estimem e prezem. + +Imagine-se por um instante que os novos conjuges assumiram a liberdade +de formularem em palavras tudo que tivessem no pensamento, o que diziam +um para o outro: + +«Já conheço todos os teus defeitos, já sei que hei de vir a dar-me muito +mal comtigo: achei-te ainda agora profundamente ridiculo n'aquella +phrase que me disseste; mas como estamos na _lua de mel_, deixa-me que +te beije com transporte, que te recite ao piano o idyllio apaixonado da +minha ventura, que olhe para ti com a sentimentalidade piégas com que os +caixeiros romanticos olham para as namoradas, que minta emfim +conscienciosamente, como compete a quem se acha de posse de uma posição +official e a quem não póde renunciar sem desdouro!» + +Não seria profundamente ridiculo este dialogo? + +Pois sabe, minha querida, que em cada cem casaes, oitenta podiam em boa +consciencia traval-o entre si. + +Muitas vezes a _lua de mel_ não passa de uma dolorosa iniciação. + +Mais tarde as circumstancias modificam-se, o que nos parecia prenuncio +de desgraças transforma-se em tranquilla felicidade; os caracteres, que +no fundo se repelliam, embora na apparencia se afagassem, adaptam-se e +identificam-se em resultado da ultima convivencia; a paz domestica +conquista-se, com esforços meritorios de parte a parte; o que ha pouco +era mentira, torna-se uma verdade luminosa e pura. + +E o que prova tudo isto, minha amiga? + +É que o tempo mais difficil da nossa vida de casadas é aquelle que os +tolos e os impostores chamam, seguindo a estupida rotina de seculos, o +mais delicioso! + +Sou adoravelmente feliz, porque ainda não conheço bem meu marido, nem +meu marido me conhece a mim... + +Palavra, que acho isto uma esplendida interpretação da vida domestica!.. + +Commentem bem esta phrase implicitamente incluida em todos os louvores +que se tecem á celebre _lua de mel_, e ahi téem os divorcios, os +adulterios, os intimos dramas conjugaes, as luctas atrozes em que dous +entes se dilaceram até que n'elles morra a alma e o corpo! + +Mas, minha Maria, que longe me arrastou esta digressão apaixonada. + +Perdoa-me. + +Se bem me lembro, estavamos ambas muito mais _terra a terra_. + +Eu tinha conseguido fazer-te largar o teu piano de Erard, as tuas +aquarellas e os teus bordados, e tinha-te arrastado até á cosinha de tua +casa, cuja existencia tu teimavas em ignorar. + +Talvez tu penses, minha pobre amiga, que esse _senhor_, discreto, ameno, +gracioso, condescente, que acha graça a tudo que tu dizes, que concorda +com todas as tuas opiniões, que ás vezes se ajoelha submissamente aos +teus pés, e te diz baixinho--adoro-te!--com uma expressão de _tenor_ em +disponibilidade, que se delicia com as tuas _toilettes_, que dá muita +attenção á variedade artistica do teu penteado, que é, emfim, _todo teu_ +no sentido falso d'esta palavra, pensa tudo quanto diz, e se conservará +por muito tempo n'esse adoravel e massador diapasão?.. + +Enganas-te. + +Elle enfastia-se soberanamente do seu papel, estuda-te com ar +sorrateiro, e pede a Deus que acabe o periodo em que tem de renunciar á +sua individualidade, para se conformar com os usos e costumes da +sociedade elegante, de que faz ou quer fazer parte. + +Acabado que seja esse periodo que tem limites determinados, dize-me tu +qual o meio de que tencionas usar para o prenderes junto de ti, para que +elle comece então a ser sincera e dignamente _o teu marido_, isto é, o +teu melhor e mais fiel amigo, para que a vossa vida commum assente em +bases solidas e perduraveis. + +Julgas que basta para isso vestires o teu mais bonito vestido, penteares +o teu bello cabello louro do modo mais excentrico e original, dizeres +com a tua voz sonora e grave os paradoxos mais scintillantes, +mostrares-lhe as riquezas com que uma esmerada educação povoou o teu +espirito? + +Innocente creatura! não conheces o que é o _homem_, o animal mais +prosaico e positivo da creação! + +O que elle quer depois das suas luctas com os outros homens, das farças +que é obrigado a representar para o publico, dos combates em que é +alternativamente vencido e vencedor, o que elle quer é descanso, +conchego, esquecimento de todos os artificios que vão lá por fóra, e +sobretudo (não te horrorises, minha sonhadora!) e sobretudo commodidades +physicas. + +Dá-lhe a melhor das poltronas, o mais confortavel dos gabinetes, o mais +suave e caricioso dos sorrisos, e, principalmente, dá-lhe _um bom +jantar_. + +Cheguei emfim, ao ponto a que tendia desde o principio d'esta carta. + +Confesso que me custou! Isto de mulheres!.. + +Tu provavelmente imaginas que um bom jantar é cousa que pertence +exclusivamente aos dominios do bom cosinheiro. + +Como te enganas! + +Em primeiro logar, não ha nada peior que um _bom_ cosinheiro. + +Um _bom_ cosinheiro é a ruina de uma casa, é um envenenador de barrete +branco, é um assassino de abdomen tranquillisador e hypocrita. + +Um _bom_ cosinheiro começa por nos dar cabo da bolsa, o que é terrivel; +acaba por nos dar cabo do estomago, o que é simplesmente irremediavel. + +Todos os _restaurants_ luxuosos possuem a prenda de um _bom_ cosinheiro. + +Põe um pobre homem a jantar durante dous annos a fio n'um d'esses +_restaurants_ elegantes, e depois conta-me por miudos em que estado +miseravel vaes dar com elle. + +Destruida esta primeira idéa, deixa-me ainda dizer-te uma cousa que tu +não sabes. + +A mesa não tem tal a importancia insignificante que tu embirras em +querer dar-lhe. + +Sendo o estomago um dos orgãos principaes da humanidade, é absurdo +desdenhar d'esse modo o que tem com tão elle estreitas relações. + +Se eu fosse pedante era capaz até de te provar que o livro que +descrevesse o que o homem tem comido nas épocas primitivas e nas quadras +de civilisação refinada e perfeita, nos periodos de barbaria e nos +tempos de desenvolvimento e de progresso, seria o livro mais completo da +historia universal da humanidade. + +O alimento faz o homem. + +Os antigos scandinavos, _os reis do mar_, os impetuosos e bravios +caçadores de _uroch_, brancos, athleticos, sanguinarios, de olhos azues +metallicos e faiscantes; alimentavam-se nos seus festins cyclopicos da +carne quasi crua dos animaes que matavam. + +Nero gostava de saborear as contorsões de agonia das _murêas_ que creava +nos seus viveiros, e que alimentava muitas vezes com o corpo palpitante +dos escravos, e nas festas voluptuosas e crueis que dava na sua _Casa de +ouro_, emquanto dançavam as bailarinas gaditanas e egypcias, os +convivas, coroados de rosas, esperavam que o peixe tivesse soltado o +ultimo arranco de vida para se servirem do saboroso acepipe. + +Não vês atravez d'estes dous exemplos uma raça de instinctos barbaros, e +uma civilisação pavorosa e apodrecida? + +O homem moderno enfraquecido pela degeneração progressiva de umas poucas +de gerações, tendo de dispender uma enorme porção de energia e de força +nas luctas incessantes a que o obrigam as infernaes exigencias da nossa +época, precisa, por assim dizer, de ser reconstituido dia a dia. + +É n'isto que as mulheres não pensam bastante. + +Depois em um _ménage_, sobretudo de medianos haveres, a mesa +relaciona-se com tres questões de uma alta importancia. + +Primeiro, a questão da saude, que sobreleva a todas. + +Segundo, a questão da economia de que depende a paz, a alegria, o +socego, a elegancia modesta da vida intima; o bom humor do marido, a +_toilette_ fresca e garrida da esposa, a alvura da toalha pezada de +linho adamascado, tudo que emfim constitue o conforto e a alegria +domestica. + +Terceiro, a fidelidade do marido ás modestas mas saborosas iguarias da +sua mesa de familia. + +O jantar tem de ser bem feito, economico e salubre. Eis o grande +problema. + +Para o resolveres não te fies n'uma cosinheira muito estupida, muito +suja e muito rotineira, nem n'um altivo sujeito cheio de theorias +estapafurdias e de nomes francezes estropiados. + +Fia-te em ti. + +É o mais seguro, o mais razoavel, aquillo que teu marido te ha de +agradecer mais. + +Não estragues as tuas finas mãos de duqueza, não desças á humilhante +posição de _cordon bleu_ da tua propria casa, mas dirige tu esse ramo +tão importante de administração domestica. + +Estuda essa sciencia tão util e tão descurada que se chama _chimica +culinaria_, e verás como a saude dos que tens debaixo da tua guarda ha +de progredir com isso. + +Não te injuries, nem te afflijas então quando conheceres que o sorriso +que teu marido negou ás sabias architecturas do teu penteado, lhe +desabrocha nos labios franco e alegre em frente de um caldo feito sob a +tua direcção, de um _roastbeef_ temperado pelas tuas mãosinhas de fada, +de um novo acepipe que inventastes e que lhe despertou o esmorecido +appetite. + +A arte de ser esposa e de ser mãe funda-se n'um segredo muito simples. + +Não se trata de sermos felizes á custa dos que são nossos; trata-se de +fazermos felizes os nossos, á nossa propria custa. + +Começamos pelo sacrificio, e acabamos pela apotheose! + +Mas que de cousas eu fui buscar para te dar uma lição de _azeites e +vinagres_. + +Ai! filha, é que tenho aprendido á minha custa que na terra não ha nada +pequeno, e que todas as cousas que de perto se nos afiguram mesquinhas, +estão de tal maneira ligadas e relacionadas entre si, que formam unidas +este grande conjuncto que se chama a vida. + + + + +CAPITULO X + +O dever de ser bonita + + +Dizia uma das mais espirituosas escriptoras da França, aquella para quem +Theophile Gauthier inventou o gracioso epitheto de _bas lilas_, +livrando-a d'este modo da terrivel, grotesca e immerecida alcunha de +_bas bleu_, que _o primeiro e mais sagrado dever da mulher é ser +bonita_. + +Abaixo o paradoxo! bradou logo em torno a turba-multa das feias, +furiosas contra a sentença que as punha por assim dizer fóra da lei. + +Foi necessario entrar em explicações, e todas nós vemos então a +comprehender o que Madame de Girardin entendia pela belleza feminina. + +Ser bonita no fim de contas não é ter fórmas esculpturaes--isso já +passou de moda, não é ter feições perfeitas--não ha nada mais +profundamente monotono e massador; não é ter collo de _alabastro_, +cabellos de _ebano_, labios de _rubis_, dentes de _perolas_, olhos de +_diamante preto_, testa de _marfim_, etc., etc., etc. + +--Deixemos isso aos artifices mais ou menos engenhosos, que trabalham +com as sobreditas materias, e aos _trovadores_ mais ou menos choramigas, +que manejam as sobreditas rimas; não é saber olhar com expressão ardente +ou languida consoante o genero da phisionomia; saber sorrir com malicia +ou com ternura, saber inclinar-se meiga e scismadora ao influxo do um +sentimento occulto, ou erguer a cabeça altiva e triumphante com a plena +consciencia da propria formosura! + +Ser bonita, ser bella, na accepção elevada e completa d'esta palavra, é +possuir a graça mysteriosa que prende os que param junto de nós, que +attrahe os que vão passando ao nosso lado. + +Resta agora analysar os fios tenuissimos de que se tece este divino +encanto da mulher! + +A graça de que eu fallo é feita principalmente de intelligencia e de +bondade. + +O primeiro dom concede-o Deus, e aperfeiçoa-o e depura-o a vontade +humana; o segundo adquire-se á custa de sacrificios cccultos, de +abnegações intimas, de aspirações continuas e incessantes para a suprema +perfeição! + +Todos podem ser bons! + +É preciso que os espiritos se compenetrem profundamente d'esta verdade, +que é o primeiro passo para a conquista do bem, que todos ambicionam e +que tantos julgam vedado. + +Não ha terreno, por mais duro, inhospito e ingrato, a que um cultivo +cuidadoso e vigilante não possa arrancar flôres. + +No homem--e quando digo _homem_, refiro-me geralmente á humanidade--, no +homem ha preso, algemado, vencido, um robusto animal de tendencias +bravias, que lucta continuamente para reconquistar a perdida liberdade. + +Foi a acção civilisadora de seculos sem conta que domou essa féra de +funestos instinctos; é a pressão continuada e constante de uma vontade +energica, de uma razão esclarecida, de uma percepção profunda de todos +os deveres, que conserva e sustem intimidado e submisso o terrivel +selvagem. + +Uns precisam de desenvolver n'esta porfia assidua, mais tenacidade e +mais força, outros de indole nativamente branda e pacifica, podem deixar +adormecer de vez em quando a accesa vigilancia. + +São no fim de contas os primeiros que teem maior merecimento. + +Ser bom é quasi sempre um esforço, mas para ser meritorio cumpre que +este esforço seja tão invisivel para todos os olhos, que a analyse ainda +a mais perspicaz não chegue a dar por elle. A bondade é o supremo +attractivo da mulher, aquelle que mais acção exerce em torno de si. + +A bondade é pois a verdadeira belleza feminina. + +Imaginae que a ella se reune a intelligencia, e tendes o ideal da +perfeita formosura, da unica que só se apaga e extingue com a vida, da +que excita os grandes, os eternos, os sãos e robustos amores. + +O culto pagão da belleza plastica é um dos erros que mais ha de custar a +destruir, e que no entanto se acha tão deslocado no ideal moderno, como +se achava no seu verdadeiro lugar, no velho mundo que a revolução deitou +por terra alluido e decomposto! + +A mulher transviada por esta falsa comprehensão do seu destino, só +aspira a ser bonita no sentido futil e exterior da palavra, só inveja as +que possuem os ephemeros encantos de que foi desherdada, e não percebe +que a belleza interior é aquella cuja gloriosa conquista, accessivel +para todos, lhe podia dar a realeza e o predominio. + +A quantas meninas sentimentaes de olheiras roxas e phrases sonoras não +temos nós ouvido lamentar a pouca duração dos affectos terrestres, a +_inconstancia_ do homem, a ingratidão cruel que faz definhar as suas +victimas em desolador abandono! + +Apesar do aspecto ridiculo de que estas romanticas e elegiacas creaturas +se revestem, que ninguem se ria d'elles! + +Victimas se chamam, e victimas são de certo, mas não de imaginarias +perfidias ou de tragicas aventuras. + +São victimas da sua educação falsa, da sua sentimentalidade piégas, da +idéa inteiramente errada que formam da vida pratica. + +Imaginaram que haviam de ser eternamente amadas, amadas com extasis +poeticos, com grandes discursos inflammados, com acompanhamento de viola +franceza e de epistolas em verso, que tivessem de mais em amor, o que +tivessem de menos em grammatica; sonharam ser as pallidas Julietas +apaixonadas, recebendo á luz branca da lua, as confidencias convulsas +dos seus Romeos de obra grossa; e para attingirem este ideal dos seus +desejos suppozeram que lhes bastavam a alvura da tez, o brilho do olhar, +a frescura dos labios, a abundancia dos cabellos, e por cima de tudo +isto a garridice, a pretensão, a ignorancia e a _toilette_! + +Em muito menos tempo do que é preciso para murchar uma rosa, os proprios +homens se enfastiaram. + +E eil-as inconsolaveis e inconsoladas, maldizendo a traição masculina, +que lhes não deu mais que o castigo merecido! + +Houve tempo em que a mulher feia tinha como unico refugio o convento. + +Felizmente, porém, esse tempo vae longe. + +O homem já não exige da companheira do seu destino, como condição unica +de felicidade, encantos que murcham com os annos. + +Assenta em mais solidas bases a ventura conjugal. + +Mulheres, sêde boas, cultivae o espirito, e allumiae a consciencia; na +vida do homem ha horas escuras; que a luz que sabeis diffundir as +illumine. + +A sociedade tem desfiladeiros sombrios, tem _selvas ignotas_, como o +_inferno_ do Florentino, aprendei a guiar com a vossa pequena mão branca +e macia os robustos luctadores, que ás vezes param no limiar d'esses +caminhos, com a vista incerta e o passo hesitante. + +E isso que hoje se exige de vós. + +Eu vou mais longe que _madame_ de Girardin, na sua arrojada proposição +que tão poucos comprehenderam. + +Quando vejo um homem sou capaz de adivinhar a que genero pertence a +mulher que elle tem por esposa; quando entro n'uma casa basta-me vêr a +disposição dos moveis, a escolha dos livros, o aspecto das creanças, a +expressão das _cousas mudas_, para poder afiançar se a dona d'essa casa, +a divindade modesta e tutelar d'esse pequeno templo, é digna do seu +titulo sagrado de esposa e mãe. + +É que tudo falla, para quem sabe ouvir, e a mulher sobretudo--natureza +expansiva e vibratil--põe uma indiscrição involuntaria em cada objecto +de que se rodeia. + +Mais de uma vez tenho ouvido vozes femininas levantarem-se em favor da +emancipação politica e social do seu sexo. + +Pobres sêres hybridos e incompletos são de certo os que teem tão +acanhada idéa do destino da mulher. + +No dia em que esta fôr emancipada, cahirá para sempre do throno que tem +seculos por degraus. + +É que a emancipação politica seria a abdicação domestica, quer dizer, a +mais dolorosa catastrophe que tem affligido as sociedades. + +Imagino que nenhuma verdadeira mulher a acceitaria! + +A familia tal como a entendem todos que sabem sentir e pensar, é o +refugio onde se vae buscar paz e esquecimento; é o templo onde encontram +_direito de asylo os parias_ que andam cá fóra aos baldões da ira +popular; é o lugar querido, inaccessivel onde os athletas do pensamento +acham momentos de alegria descuidada, onde os mineiros cansados da +sciencia, os que andam pelos antros obscuros arrancando segredos aos +seios da natureza, procuram a clara e festiva luz dos affectos simples, +onde os politicos esquecem a maldade e a mesquinhez humana, onde os +diplomatas fallam verdade, onde os argentarios fecham os ouvidos ao +tinir metallico do ouro, onde os que caminham levando no coração as +terriveis hydras do odio e da inveja se assentam por instantes +embevecidos na musica matinal de umas vozes infantis que chilrêam, de +uma voz crystallina que adverte, aconselha e consola. + +Os que roubarem a familia ao incansavel trabalhador d'estas eras de +febre e de combate, roubam-lhe a força, a energia, a consciencia, a +dignidade, o amor, roubam-lhe tudo emfim! + +Emancipar a mulher é atacar na sua base a familia, é trazer para dentro +do lar as paixões tumultuosas da praça publica, é destruir o mais doce +dos poderes a que o homem se curva, o temivel poder da fraqueza +feminina! + +E não se diga que eu combato a mulher quando combato a sua libertação +absoluta perante a sociedade e perante a lei. + +Os que pretendem furtal-a á tutella salutar, que a contém na esphera que +lhe é propria, é que são os seus peiores inimigos. + +Dentro, porém, d'essa esphera quantos serviços ella deve fazer e não +faz! + +Exemplifiquemos: A mulher é na generalidade ambiciosa. Qualidade que não +está de todo em todo desligada de peccado, mas qualidade util na maior +parte dos seus resultados. + +Esta ambição pela influencia latente que exerce no animo masculino +leva-o, não poucas vezes a arrojados commettimentos e a grandes e nobres +cousas. + +Até um certo e determinado limite, é portanto benefica a ambição da +mulher. + +Transviada, porém, do seu verdadeiro fito, quantas vezes esta ambição +mal dirigida por uma educação eivada de mesquinhos preconceitos não +arrasta o homem até á infamia, á deshonra, á quebra de todos os pudores, +ao suicidio! + +A garridice, o amor da _toilette_, das pequenas futilidades elegantes, o +gosto do luxo, das graciosas invenções da moda, ahi está uma das graças, +um dos elementos do dominio da mulher. + +Mas ainda n'este ponto cumpre que uma razão clara, que uma percepção +definida do dever, a guie, a dirija, a constranja nas suas tendencias +muitas vezes exageradas. + +Não ha nada mais agradavel n'um _ménage_ do que uma mulher moça, fresca, +elegante, da graciosa e simples elegancia que provém do gosto apurado e +distincto; os requintes de luxo exterior são, por assim dizer, na vida +do homem, uma superfluidade necessaria, são um conchego para o corpo, +uma caricia para a alma, mas que nunca o luxo conduza a familia á mais +leve transigencia indelicada, que nunca a mulher lhe sacrifique um só +dos seus deveres! + +Todos são igualmente respeitaveis; todos estão unidos entre si por uma +cadeia de élos inquebrantaveis. + +Na mulher ainda mais do que no homem, o abuso das qualidades uteis leva +ás mais funestas consequencias. + +Para a mulher ainda é mais delgada a linha do dever. + +O caminho é estreito, difficil, sinuoso: para áquem d'elle ou para além +d'elle está o erro. + +Por isso quantas senhoras ás vezes dizem: + +«Queixam-se de nós porque somos garridas, e se nos vêem modestas, sem +prendermos a minima attenção ás futilidades perigosas do luxo, +condemnam-nos ou fogem do nosso lado. + +«Queixam-se de nós porque somos ignorantes, mas se o nosso espirito se +accende em curiosidades scientificas, se lêmos, se estudamos, se +tentamos ir um pouco além dos limites impostos ao nosso sexo, somos +alcunhadas de pedantes, e de _preciosas_ ridiculas! + +«Queixam-se de nós porque somos devotas, supersticiosas, porque levamos +ao exagero as praticas do catholicismo, porque nos deixamos guiar +mysteriosamente pela mão occulta do padre, mas se procuramos livrar-nos +d'este jugo, se queremos a independencia absoluta do espirito e da +consciencia, chamam-nos _livres pensadoras_, e os homens sentem medo +instinctivo de entregar a sua honra nas nossas mãos.» + +E por aqui adiante uma longa jeremiada n'este teor. + +Eu, porém, mesmo concedendo que ha um fundo de incontestavel verdade no +que dizeis, respondo-vos, minhas senhoras, que é positivamente porque a +vossa missão é difficil que ella tem tamanha importancia e póde adquirir +de dia para dia uma importancia ainda maior. + +No dia em que comprehenderdes claramente o vosso destino, sabereis então +o que é ter a graça, a elegancia, o encanto exterior, sem que vos +contaminem as criminosas vaidades; o que é ser intelligente, instruida, +reflexiva sem conhecer o pedantismo, e a ridicula pretensão; o que é ter +o ideal religioso, sem o manchar com superstições, preconceitos, +intolerancias funestas; o que é aproveitar cada uma das vossas +riquissimas faculdades equivalentes, mas não iguaes, das do homem, sem +que a vossa inercia as esterilise, sem que a vivacidade nervosa do vosso +temperamento as leve a extremos e demazias altamente funestas á familia +e á sociedade da qual é aquella o mais perfeito reflexo. + + + + +CAPITULO XI + +O trabalho das mulheres + + +O preconceito mais funesto, que ainda nasceu e medrou n'este mundo, é o +que considera o trabalho uma escravidão deshonrosa. + +Começa hoje a irradiar os seus primeiros clarões rubros a aurora do dia +que ha de vêr o trabalho santificado, que ha de assistir á divina +apotheose d'esse bemfeitor supremo da humanidade, d'esse amigo de todas +as horas, que conforta os animos desconsolados, que levanta os animos +abatidos, que distráe de todos os tédios, que lucta contra todas as +inercias. + +Por emquanto, sobretudo entre nós, é rara a mulher bastante superior +para confessar que trabalha, e o que é peior de tudo, é rara a mulher +que trabalha sem absoluta e incontestavel precisão. + +Mais d'uma vez temos visto senhoras, que pela sua educação mais apurada +e mais completa deviam estar a cima de tão profunda ignorancia dos seus +deveres, confessarem que não gostam de fazer nada, que são preguiçosas, +que não téem com que se distrahir, que os dias lhes parecem seculos, +etc., etc. + +E no entanto qual será a creatura bastante desfavorecida de Deus, para +não poder aproveitar proficuamente as horas do dia, sempre curtas para +quem as sabe empregar bem? + +Fallemos primeiramente das meninas solteiras de pouca edade; para essas, +logo que queiram tornar-se dignas do alto destino que as espera, pouco +será sempre o tempo para se instruirem, para adquirirem os varios e +complexos conhecimentos de que carecem antes de exercerem a sua missão +complexa. + +Não são sómente os futeis ornamentos superficiaes em que ellas devem pôr +a mira; a par d'esses, que tambem são indispensaveis, ha todo um mundo, +que a mulher ignora, e cuja exploração lhe enriqueceria o espirito de +thesouros incomparaveis. + +E depois, mesmo os frivolos adornos, que constituem uma alta educação +mundana, podem ter uma significação elevada, um sentido occulto, uma +_alma_ emfim, logo que se não considerem um _todo_, mas uma parte +insignificante do mais alto e perfeito conjuncto; logo que occupem o +lugar que lhes compete, na classificação harmoniosa e bem graduada das +varias riquezas que formam um espirito. + +Saber cantar, saber tocar piano, saber fallar as linguas, saber desenho +e pintura, que vale tudo isso quando se não tenha uma idéa elevada e +synthetica, que ligue entre si estas diversas acquisições intellectuaes, +e que por assim dizer as vivifique? + +O que é preciso antes de tudo, é comprehender a musica e a sua +influencia poderosa nas almas e nos organismos; é saber usar com +aproveitamento esses instrumentos que se chamam linguas, as quaes por +si, só, tomadas abstractamente, nada significam e para nada servem; é +estudar a natureza sob os seus multiplos aspectos e transplantal-a para +a tela ou para o papel; é ter emfim um ideal, que sobredoire todas estas +prendas, que superficialmente entendidas e superficialmente executadas, +não teem valor nem tem utilidade alguma na vida pratica. + +Basta a qualquer espirito feminino entrar n'este caminho, que +imperfeitamente acabamos de apontar, e, sem que elle mesmo tenha a +consciencia d'isso, as suas idéas hão de dilatar-se e encadeiar-se por +uma successão logica, e dar á vida um novo e imprevisto aspecto. + +As meninas bem educadas das nossas altas classes sociaes, teem todas uma +grande facilidade em fallar varias linguas; aproveitam porém essa +facilidade... conversando com os diplomatas. + +Não lêem Schiller, nem Goethe, nem Shakespeare, nem Macaulay, nem +Pascal, nem Montaigne; não entram no genio das differentes +nacionalidades e das differentes litteraturas; não comparam entre si as +civilisações, chegando por esta comparação a conhecerem de um modo mais +ou menos perfeito a humanidade, não senhor! Conversam com os _gommeux_ +da diplomacia estrangeira e contentam-se com isso! + +Na musica que, mais do que nenhuma arte, lhes revelaria o coração do +homem no coração de tantos homens de genio, o que ellas vêem sómente é o +modo de executarem mais difficuldades e de desesperarem de inveja mais +rivaes!.. + +Na pintura, copia da natureza que as podia fazer penetrar no seio +carinhoso e fecundo da grande mãe, são tão frivolas, tão superficiaes, +como em todas as outras cousas. + +As mais das vezes não teem animo de colherem uma flôr do jardim e de a +copiarem com o pincel ou com o lapis! Copiam copias, amesquinhando a +natureza, e atrophiando a propria imaginação! + +São estes defeitos, que todas nós as que pensamos um pouco, devemos +combater com todas as nossas forças! + +Longe de mim o aconselhar á mulher que se emancipe dos seus graves e +obscuros deveres, que tente luctar com o homem, e arrancar-lhe a palma +das grandes descobertas e das grandes conquistas! + +O que eu pretendo é provar-lhe que é divina entre todas, a missão a que +o futuro a convida. + +A mulher de sala tem por força de morrer; surja pois a mulher da +familia, ser complexo, grande e nobre sêr, que as geraçães vindouras hão +de admirar fervorosamente. + +A mulher da familia não é de certo a matrona desgeitosa, deselegante, só +occupada em dar a vida, o leite e o alimento aos filhos de um affecto, +despido de todas as flores e de todas as poesias. + +Não, ella deve ser instruida, profundamente instruida, tendo ao mesmo +tempo a consciencia de que essa instrucção a não aparta do cumprimento +religioso dos mais humildes deveres do amanho da casa e da maternidade. + +O homem deve achar n'ella não só a enfermeira desvelada das suas +doenças; não só a distribuidora sensata e economica do seu alimento; não +só a dona de casa aceiada, vigilante, infatigavel; não só a mãe +carinhosa, dedicada, capaz dos maximos e dos mais perseverantes +sacrificios, senão tambem a companheira do seu espirito; a socia das +suas aspirações; a intelligencia que comprehenda e partilhe as suas +legitimas ambições e as suas chimericas phantasias; o animo viril que +saiba amparal-o nas horas de desalento; a mão firme e branda, que saiba +guial-o nos momentos escuros de lucta e de tentação: o seio terno que +lhe acolha a cabeça cansada na hora sinistra das derrotas; o bello e +enthusiastico espirito que applauda a suprema embriaguez das suas +victorias; n'uma palavra, a mulher digna de ser mãe e de educar uma +geração de fortes. + +É preciso, que se compenetrem bem d'esta idéa fundamental: o trabalho, +seja de que especie fôr não desdoira uma mulher nem deixa de ser +compativel com as mais delicadas distracções de um espirito culto. + +Trabalhar não é fazer _crochet_, não é cozer durante seis mezes na mesma +camisa, que ha de ser offerecida a um pobre romantico, a um pobre de +_opera-comica_; não é bordar umas eternas _babouches_, que se começam no +dia seguinte ao do casamento, e que se acabam dez annos depois. + +Trabalhar é ser util, é occupar o espirito, é adquirir conhecimentos ou +espalhal-os em torno de si, é concorrer para o bem-estar dos outros e +para o seu aperfeiçoamento proprio. + +A mulher que trabalha levanta-se cedo, não conhece as scismas +voluptuosas, os languores morbidos, as _flâneries_ sem motivo e sem fim. + +É activa, por isso não tem aquellas horas de tédio profundo, que +descobrem diante de um olhar os horisontes sinistros e esbraseados do +suicidio; tem saude porque o tempo bem applicado e bem dividido não lhe +deixa intervallos para se _escutar_, se sondar, para analysar as suas +pequenas dôres, os seus pequenos incommodos, e os aggravar tomando +remedios nocivos, e entregando-se á molleza que a pouco e pouco destroe +a robustez do corpo; gosa de tudo com alegria, com vitalidade, com +expansão, não desdenha nenhum dever, nenhuma occupação, nenhum trabalho +porque o amor e a intelligencia prendem-se a tudo que ella faz. + +Porque sabe conversar na sala com facilidade e chiste, nem por isso +deixa de saber estar na cosinha, observar um por um todos os utensilios, +vêr se estão limpos, inventar um _menu_ que reuna as condições da +economia e da variedade, ensinar a sua cosinheira, fazer mesmo por suas +mãos um prato predilecto, que á mesa o marido e os filhos hão de saudar +com alegria e saborear com appetite. + +Desejo que ella saiba bordar, mas exijo que saiba serzir panno, dar +rêdes com perfeição, cozer a roupa da casa e a roupa dos filhos, cortar +e fazer os seus vestidos, dando assim mais que um exemplo de economia, +um exemplo de moralidade! protestando até onde chegam os seus limites, +contra a torrente impetuosa e funesta, que arrasta as familias desde o +luxo até á infamia, desde a impostura até á quebra de todas as +dignidades e de todos os pudores. + +Quero mais, que ella se não envergonhe de confessar que trabalha, e que +não diga que o seu fato é feito por uma qualquer modista estrangeira, +quando é ao seu laborioso serão que ella deve a elegancia que d'este +modo é duplamente preciosa e sympathica. + +Não imagine a mulher, que entre os deveres que acceitou ha uns que a +deslustram, e outros que lhe ficam bem. + +Debaixo do ponto de vista da razão todos os deveres são eguaes e estão +prezos entre si por uma cadeia invisivel. + +Da alegria da mesa depende a alegria do lar; da economia de todos os +instantes, depende o bom humor das festas de familia; da elegancia e +primoroso aceio da mulher depende a ternura inexgotavel do marido; do +modo porque ella rege e domina o seu pequeno imperio domestico, depende +a educação dos filhos, a moralidade do interior, a harmonia intima da +vida, e até a graça, o espirito, a liberdade com que ella conversa e ri +na sala. + +Todas as mulheres se queixam dos maridos, e nenhuma ainda percebeu o +seguinte: são ellas que preparam e determinam o seu destino; é a ellas +que a familia em geral deve a sua desordem, a sua dissolução, ou a sua +felicidade. + +Não basta ter todas as graças, é preciso ser util, e no fardo que se +acceita em commum tomar a parte que mais custa a supportar. + +Não basta ser util, prestadia, arranjada, economica; é preciso ter a +intelligencia que idealisa um pouco os tristes e aridos encargos da +vida. + +Toda ou quasi toda a mulher se sente amesquinhada pelo seu destino, e +protesta contra as leis, contra os usos, contra as instituições, que a +exilaram dos altos cargos da republica, que lhe tolheram o passo para +todas as eminencias sociaes, e que a condemnam á obscuridade e á lhaneza +do viver domestico. + +Oh! abençoados sejam os costumes, as leis, as instituições, que deram ao +homem tudo que é ruido, pompa, ostentação, orgulho e vaidade, e que nos +deram a nós a dôce missão de encaminharmos o futuro, de guiarmos a +humanidade no caminho do bello e do bom! + +Se até agora temos trahido essa missão a que fomos destinadas, a culpa é +nossa e não de quem constituio sob uma fórma tão racional e tão justa a +sociedade. + +O tempo que passamos no barulho vazio das festas mundanas, colhendo +decepções e rancores, excitando invejas, provocando sensuaes applausos, +porque o não gastamos a lêr, a estudar, a penetrar no mundo da natureza +e no mundo da sciencia em todos os seus aspectos tão varios, em todas as +suas manifestações tão sympathicas; porque não dirigimos a poder de +trabalho e de esforço a primeira educação de nossos filhos, e deixamos +que mãos mercenarias lhe arranquem aquella dôce penugem da alma que é a +ignorancia dos pequeninos? + +Porque não fazemos da nossa casa, um ninho alegre e fôfo, que o nosso +marido prefira ao botequim, ao Gremio, ao Club, ao restaurante, á casa +dos seus amigos, e onde elle esteja certo de encontrar o alimento mais +saboroso e mais hygienico, o ar mais puro e lavado, a poltrona mais +commoda, a conversação mais animada, mais substancial, mais chistosa e +menos pedante? + +Pouco a pouco á regeneração da mulher, seguir-se-hia a regeneração do +homem, deixariamos de ser a ruina, para nos tornarmos o conforto; +deixariamos de ser o tédio para nos tornarmos a alegria. + +Talvez não houvesse tantos bailes e saraus, talvez Offenbach, Dumas +filho, Sardou tivessem menos espectadores, talvez as salas de bilhar +perdessem um pouco da sua popularidade; talvez os ourives e as modistas +fechassem algumas das suas lojas, mas em compensação quebravam menos +negociantes, perdiam-se menos mulheres, a calumnia renunciava a uma +grande porção do seu alimento diario, o falso luxo que mata de fome os +filhos e que arrasta sedas pelas ruas enlameiadas da cidade, ou se +reclina voluptuosamente nos coxins flascidos d'um coupé de oito mollas, +o falso luxo deixaria de ostentar com tão descarada altivez as suas +lentejoulas compradas com moeda vil, e esta nossa sociedade, que parodía +tão ridicula e tão desgraçadamente a sociedade cosmopolita, opulenta e +artificial da França, tomava diverso rumo, assumia a dignidade que lhe +falta, e descobriria no futuro o ideal, que não tem e que procura nas +trevas. + +O primeiro passo para que este deploravel estado de cousas melhore um +pouco, é que as mulheres comecem a trabalhar. + +As ricas instruam-se; as pobres ajudem seu marido sem se envergonharem +da sua honesta pobreza, e todas sem exceptuar qualquer posição social, +occupem o tempo para não darem logar ás tentações da vaidade, aos sonhos +morbidos que enfraquecem o corpo e o espirito, ás negras horas +dissolventes do tédio, em que tudo se concebe e se admitte como +possivel, até o esquecimento de todos os deveres, até o proprio crime +com o seu romantico cortejo de sensações e de terrores. + + + + +CAPITULO XII + +A toilette + + +As mulheres teem, na generalidade, um costume deploravel! Só se vestem e +se enfeitam e querem ser amaveis para o publico. + +O marido, ainda o mais feliz e mais extremoso, tem sempre um rival +terrivel, um rival exigente, um rival que lhe rouba parte das +prerogativas e lhe cerceia parte dos direitos. + +Esse rival é o publico, é esse detestavel tyranno chamado _tout le +monde_, a quem tudo se sacrifica, e do qual em recompensa só se recebem +criticas e desdens! + +Para elle nos vestimos, para elle levamos horas e horas a combinar o +effeito da nossa _toilette_, para elle estamos defronte do espelho +prendendo flores no cabello, inventando as difficeis architecturas do +penteado, para elle sabemos tocar piano e sabemos cantar, para elle +desejamos ser formosas! para que elle nos applauda--mentiroso e +humilhante applauso!--exhaurimos todos os recursos da nossa imaginação. + +Para agradarmos a elle, que é o _extranho_, nos esquecemos dos que são +nossos! + +Em casa as mulheres, pelo menos as mulheres portuguezas, as que eu de +mais perto conheço, preferem a tudo, aquillo a que tão impropriamente +chamam _estar á vontade_. + +Usam uma _robe-de-chambre_ desbotada, quando não trazem um vestido velho +que já não serve para a rua; trazem o cabello em _papelotes_ ou frisado +em ganchos, e como querem descansar um pouco das talas que impuzeram aos +pés, consolam-nos, mettendo-os em umas largas _babouches_ desgeitosas. + +Pela manhã, á hora do almoço dão vontade de chorar! + +O marido olha para ellas e... de duas uma:--ou sente fastio ou come como +um lobo. + +De qualquer dos modos manifesta a sua melancolia. + +Questão de temperamento que não vem ao caso analysar aqui. + +Ao meio dia, eis porém, que se lembram das visitas que não tardam, das +_inimigas intimas_ que veem colhêr invejas e semear despeitos, de todas +as ferozes exigencias sociaes, de que são submissas escravas! + +Desfranzem a testa, ageitam um sorriso malicioso ou sentimental, +consoante o genero da physionomia, mergulham o corpo nas tepidas e +perfumadas caricias do banho, vestem-se, burnem-se, penteiam-se, +pintam-se... e apparecem transformadas. + +Durante umas poucas de horas estão no palco. + +O auditorio é escrupulosissimo. Ao menor indicio que lhe destôe, +manifesta sem piedade o seu desagrado. + +Ellas, no entanto, suam _sous le harnais_, mas são intrepidas até á +heroicidade. + +Teem caricias felinas, sorrisos que adormecem a tristeza nos corações +mais desconsolados, sabem ser engenhosas, cheias de invenções felizes, +conseguem plenamente o seu fim, e ao deixarem a scena fica no ar uma +impressão boa, quasi enternecida. + +Chegou a occasião de voltar aos _bastidores_. + +N'este caso os bastidores são a companhia do marido. + +Oh! Como ellas veem cansadas, aborrecidas, cheias de tedio, e de +desalento! Despem, com a voluptuosidade com que se despe um cilicio, +todas essas elegancias que as torturavam; o sorriso ficticio +apaga-se-lhes dos labios, a luz ficticia esmorece-lhes no olhar. + +A pelle precisa de _cold-cream_, de _veloutine_, de todos os +ingredientes nauseabundos: o cabello cahe-lhes aos pés, solto dos +ganchos que o prendiam, e em quanto a aia, com um sorriso ladino, os +recolhe cuidadosamente na caixa de cartão, o marido contempla +assarapantado, cheio de ingenuo e comico assombro, aquella cabeça que +ainda ha pouco, no orgulho com que se erguia, na magestade altiva com +que ostentava o delicado edificio das tranças e dos _riçados_, lembrava +uma das cabeças gentis que o seculo XVIII beijou com enlevos e que a +guilhotina beijou com volupia selvagem. + +O pé estreito e _cambré_, que ainda ha pouco nos circulos vertiginosos +da valsa, fazia pensar n'aquellas andorinhas forasteiras, que roçam a +terra com o vôo inquieto e leve, sacode as prisões que o ligavam +dolorosamente, e dilata-se á vontade, com uma furia de independencia +verdadeiramente demagogica e revolucionaria, na primeira chinela que +apparece. + +Todo o aspecto physico se transfigura e--consequencia fatal d'esta mesma +causa--o aspecto moral transfigura-se tambem. + +Como a dissimulação eterna é impossivel ainda aos mais hypocritas, os +defeitos que tão cuidadosamente se esconderam ao publico, revelam-se ao +marido. + +Riamos sem vontade ainda agora! + +Com a fortuna! Desabafemos o nosso mau humor, visto que estamos em casa! + +Tinhamos paciencia para aturar com expressão interessada e benevola as +sensaborias muito estafadas de um senhor engravatado, de luvas côr de +canario e bigode retorcido e insolente?... + +Sejamos agora desapiedadas para as historias já um pouco velhas, mas em +summa bastante apresentaveis que o nosso marido nos quer contar! + +Fingir! sempre fingir!... Impossivel! + +Sejamos verdadeiras, ao menos n'esta occasião, já que só desagradamos +áquelle que tem obrigação restricta de nos aturar, quer queira, quer +não! + +Isto, que á primeira vista parece insignificante, quasi frivolo, tem um +alcance enorme no destino de vv. ex.^{as}, minhas senhoras! + +O marido, ao perceber que de todas as mulheres a mais desagradavel é a +sua, tem um momento de profunda tristeza, ao qual succedem uns poucos de +annos de revolta! + +É assim que se destroe a familia, é assim que se torna desflorido e +deserto o lar. + +Em compensação enchem-se os salões, os _clubs_, os theatros, os +botequins. Resta saber se uma das cousas póde n'uma sociedade honesta e +bem constituida supprir a outra. + +Sejam mais garridas em casa, e sejam-no menos fóra; aspirem á elegancia +desprezando os mentirosos artificios; procurem, antes de tudo, agradar á +familia e conseguirão a pouco e pouco, sem esforço premeditado, agradar +aos estranhos. + +Uma familia boa, unida e feliz é como um fóco de calor que attrahe e que +irradia luz benefica. + +Ha casas onde se entra e onde nos sentimos como n'um meio sympathico e +captivante. + +São sempre as casas em que a mulher possue a intelligencia do coração, +essa cousa rara e preciosa, que suppre a formosura, o talento e todos os +attractivos do espirito. + +Vestir-se com uma graça despretenciosa e simples, rodear-se de cousas +bellas, sentir e communicar em torno de si o prazer das distracções +delicadas, ser em casa um perfume vivo, uma harmonia suave que não +cansa, uma luz serena que allumia e que não deslumbra, eis o que é ser +mulher na accepção completa da palavra. + +Toda a mulher tem de ser _coquette_ para o marido emquanto para o marido +a eterna tentação for o pômo vedado. + +Em geral só se conhecem os dous extremos. + +Ou a matrona envolvida na sua virtude como n'uma couraça, temivel, +assanhadiça, formidavel, imaginando merecer todas as homenagens do +esposo, porque afugenta com medonho aspecto as homenagens de todos os +outros; ou então a mulher dos salões, a flôr exotica das nossas estufas +mundanas, Salamandra que vive no fogo, Ninon de _biscuit_ que se compraz +nas adorações que provoca e que inspira, infativel actriz que só á luz +da _ribalta_ sabe desenvolver e manifestar todos os seus recursos. + +Entre os dous contrastes é que fica a verdade. + +Mulheres, desenvolvei no seio da familia as graças que desperdiçaes +pelas voragens d'este mundo. + +Tende todas as flexibilidades e todas as resistentencias, todas as +graças e todas as energias; sêde o encanto, sem deixardes de ser a +virtude; e sobretudo perdei de vista o publico, esse brutal amante que +vos absorve, que vos perde e que nunca vos corresponde. + + + + +CAPITULO XIII + +Victoria Woodhall + + +Uma oradora americana + + +Os Estados-Unidos, que são decididamente a patria das excentricidades +colossaes, o paiz em que o excesso do positivismo, como que para +justificar o axioma de que _os extremos se tocam_, tem conduzido a +intelligencia a uma especie de permanente hallucinação, os +Estados-Unidos estiveram para dar segundo affirmou a imprensa ingleza, +mais uma prova evidente do seu amor pelas originalidades ruidosas. + +Dizia-se que a presidencia d'esta republica tão poderosa e florescente +ia ser offerecida a uma mulher, e citava-se o nome d'essa mulher, que é +uma das mais fervorosas e apaixonadas propagandistas da reforma politica +e social, uma das advogadas mais eloquentes da emancipação completa do +seu sexo. + +Já muitas vezes o temos dito, antipathisamos formalmente com esta +doutrina revolucionaria, da qual não esperamos senão funestos +resultados, por isso nenhum laço de sympathia póde prender-nos á famosa +Victoria Woodhall, de que se occupam com verdadeiro enthusiasmo alguns +dos jornaes importantes da Inglaterra e da America do Norte. + +Não deixaremos, porém, de estudar com attenção os poucos dados que +conhecemos do seu caracter e da sua intelligencia, porque, embora como +mulher--não concordemos com as suas theorias,--como artista--não podemos +deixar de reconhecer que ella é um producto perfeito do seu meio. + +Victoria Woodhall é moça, tem uma formosa presença, _sabe vestir-se_, o +que já é deveras para notar-se n'uma advogada convicta dos _direitos +politicos da mulher_, e se aprecia os triumphos que a sua palavra um +pouco emphatica costuma arrancar aos numerosos ouvintes que a escutam, +nem por isso desdenha os cuidados minuciosos da elegancia mundana. + +Teem-na visto prégar sobre um texto biblico, que ella modernisa segundo +as conveniencias da sua these, trajando elegantemente um vestido de +velludo preto, e com uma rosa purpurea aninhada nas lustrosas tranças +escuras do seu cabello garridamente penteado. + +É casada, visto que lhe chamam Mistres Woodhall, mas nos salões onde tem +preleccionado apparece sempre só sobre uma elevada platafórma, de onde +préga ás turbas. + +O marido, se existe, é um simples comparsa, ninguem o nota e ninguem se +occupa em fallar d'elle. Entre parenthesis: não ha posição mais +deploravel que a do marido de uma mulher _celebre_, quer dizer de uma +mulher que falla em publico, que apparece, que declama, que tem os +ruidosos triumphos da actriz, da cantora, da agitadora politica, e agora +os mais modernos da preleccionista social. + +Nunca pudemos deixar de sentir muito dó do Barão Stael, de _monsieur_ +Rolland, do marido de Henriqueta Beecher Stowe, e de tantos outros +forçados e obscuros satelites d'esse astro brilhante e phenomenal que é +a mulher acclamada pelo indiscreto applauso das multidões. + +Agora o marido de Mr. Victoria Woodhall, se acaso vive, o que não +podemos de modo algum affirmar, não tendo nunca ouvido citar o seu nome, +parece-nos uma victima igualmente lamentavel do mesmo negro fado. + +Victoria tem dado conferencias, extraordinariamente concorridas, em +Nova-York, em Londres, em Liverpool e em outros centros industriaes da +Inglaterra e da America. + +Tem a voz insinuante e harmoniosa, a gesticulação arrebatada e +artistica, a palavra facil, fluente, emphatica, mas tão quente e +apaixonada que exerce sempre uma impressão profunda nos que a escutam. + +Como já dissemos não tem os terriveis oculos azues, nem o rosto anguloso +e severo de Mrs. Beecher Stowe, uma mulher que fez no seu paiz uma +revolução humanitaria, e que destruiu aos nossos olhos todo o effeito +sympathico da sua cruzada contra a escravatura com aquellas conferencias +pedantes pelas quaes concluiu a sua carreira litteraria. + +A mulher oradora precisa de ser formosa, sob pena de ser ultra-ridicula. +Parece-nos, porém, que do ridiculo simples, sem circumstancias +aggravantes, não a salva nem mesmo a formosura. + +Victoria Woodhall no seu paiz préga em favor da santidade do matrimonio, +da reforma da educação, de todos os graves e momentosos assumptos de que +hoje depende a regeneração politica e moral das sociedades. + +Fóra do seu paiz, porém, não vão tão longe ainda as suas aspirações. + +O que ella por emquanto reclama é a igualdade e nivelamento absoluto de +deveres e direitos entre a mulher e o homem. + +Adoptamos com todo o coração não os meios, mas o fim d'essa propaganda +tão necessaria; mas não podemos concordar de modo algum com o +complemento que a feminil oradora proclama indispensavel. + +Achamol-o contraproducente, illogico, funesto ás instituições abaladas, +que se pretendem salvaguardar. + +Queremos o casamento grave, austero e santo, querermos a creança educada +com solicitude extremosa, queremos a mulher respeitada e querida, +consciencia de bronze e coração de cêra, queremos na arte um ideal +severo e levantado, queremos na sociedade a incorruptivel e serena +justiça, queremos o homem regenerado e forte, e é porque desejamos tudo +isso, que pedimos a Deus afaste para bem longe de nós o terrivel +flagello da mulher dominando o seu proprio destino e o destino da +sociedade. + +N'um discurso de Victoria Woodhall, pronunciado em Nova-York e +applaudido enthusiasticamente por um auditorio de 40:000 pessoas leem-se +os trechos seguintes: + +«Fallando do casamento, é escusado dizer que falamos n'esse casamento +ideal que toda a maldade dos homens não póde destruir; n'esse casamento, +de cujos membros poderá dizer-se com verdade: _Foram unidos por Deus, e +o poder do homem, não logrará desunil-os_; n'esse casamento, de cujas +alegrias jámais quererão apartar-se os que um dia as conhecerem; n'esse +casamento que é tão sagrado, tão puro, tão santo, que nem a sombra de +uma discussão póde existir entre, os dous factores que o determinam; +fallamos n'esse casamento em que os dous representantes oppostos da +humanidade--o elemento positivo e o negativo das raças--se tornam pela +acção e pelo pensamento n'um unico ser, e tão perfeito, que os mesmos +motores o movam e o façam pensar e obrar; em resumo, n'esse casamento do +qual nem a sombra d'um elemento estranho possa alterar a pureza, a +unidade, a ideal perfeição. + +«O casamento é geralmente considerado como um assumpto por demais +frivolo ou pueril. + +«Aceitam-no ou quebram-lhe os laços com a mesma pressa e a mesma idéa +das responsabilidades que elle impõe, como se o considerassem uma +instituição especialmente designada para satisfazer as egoisticas +paixões da humanidade.» + +Sim, concordamos plenamente com este levantado ideal do casamento que a +formosa preleccionista apresenta e proclama, mas affirmamos que elle +nunca poderá realisar-se se triumpharem universalmente as doutrinas que +ella tão ardentemente advoga. + +A prova evidente d'esta nova asserção é ella quem se encarrega de nol-a +fornecer. + +A mulher, como nós a sonhamos e a queremos, não é a forasteira acclamada +e illustre que anda espalhando por sobre a cabeça das turbas +indifferentes ou passageiramente commovidas, as suas convicções e as +suas theorias sociaes. + +Recolhida no seu modesto e placido interior, mãe de um bando infantil, +mimoso e louro, de que ella fosse a providencia, o amparo, a suprema +alegria, esposa de um homem forte e honesto, de um trabalhador, de um +membro activo e laborioso da moderna sociedade, a acção d'esta mulher +seria muito mais restricta, mas incontestavelmente mais util e mais +salutar. + +Não daria uma hora de commoção dramatica ao auditorio que viesse +ouvil-a, curioso de excentricidades novas; não julgariam possivel a sua +eleição como presidente de uma republica poderosa; mas as pessoas que +vivessem em mais ou menos estreito contacto com ella receberiam a +influencia honesta do seu exemplo, e os filhos que ella educasse seriam +outros tantos elementos fecundos da futura regeneração social. + +Não é prégando o respeito ao casamento que se convencem os homens, é +provando esse respeito nas minimas acções e nas acções mais decisivas de +uma existencia. + +Mrs. Victoria Woodhall tem arrebatamentos soberbos de eloquencia +oratoria, fulminando a decadencia em que o sentimento da familia tem +modernamente cahido, mas como quer ella provar-nos que comprehende essa +absoluta identificação de duas almas, essa absorpção de um espirito em +outro espirito seu irmão, ella que affirma tão rasgadamente a sua +individualidade, ella que apparece em plena luz deixando na sombra +aquelle de que não póde ser senão a metade incompleta, a porção +imperfeita e mutilada. + +Anda n'uma gloriosa faina a converter as suas irmãs que prevaricam ou +descreem, ou ignoram. + +Mas se o exemplo da gloriosa propagandista as tentar e seduzir? + +Onde fica o lar modesto, o aceio do ninho, o terno amor dos filhos +pequeninos, as obscuras virtudes domesticas, toda a graça, toda a +poesia, todo o conchego, todo o encanto mysterioso e indestructivel +d'essa ineffavel união chamada o casamento? + + * * * * * + +Não nos surprende, porém, este producto extraordinario de uma sociedade +agitadissima e ainda para si propria indefinida e indefinivel. + +A America tem-se feito a si mesmo, não procura para as suas leis e para +os seus costumes uma solida base tradicional. + +N'ella que é tão forte como nação, tão pertinaz nos intentos, tão +energica nas acções, n'ella que é uma prova terminante de como em dous +seculos se fórma uma raça, unica e cheia de virginal vigor, ha cousas +que estão ainda perfeitamente vagas e fluctuantes. + +O destino das mulheres é uma d'essas cousas. + +Politicamente possuem os mais amplos direitos, podem ser tudo, aspirar a +tudo, todas as carreiras estão abertas diante dos seus passos; +socialmente é quasi um dogma o respeito que inspiram. + +Ninguem ousa insultal-as nem com uma palavra, nem com uma suspeita, +gosam de uma liberdade absoluta, andam sós, viajam desprotegidas ou +antes protegidas pela sua fraqueza omnipotente, nos caminhos de ferro, +nos omnibus, nos paquetes; sentam-se sósinhas á meza redonda de um +_hotel_, fazem emfim impunemente, apoiadas pela despotica soberania dos +costumes, tudo que a nós, européas de facto ou de tradição, se affigura +quasi monstruoso de inconveniencia. + +E no entanto, apesar d'este reinado apparente, apesar d'este predominio +ostensivo, é bem mais profunda a invisivel influencia que as mulheres do +velho mundo exercem em torno de si, não sobre as leis, o que seria +pouco, mas sobre os costumes, o que é quasi tudo. + +É que somos as rainhas do lar; de nosso bom ou mau juizo depende a paz +ou a guerra, a ventura ou a desgraça, a prosperidade ou a ruina, a dôce +mediania tranquilla ou a agitada e tempestuosa existencia mundana. + +Não parecemos nada e somos tudo! + +Os que mais nos desdenham não escapam ao nosso poder. Submettem-se-lhe +inconscientemente. Os que luctam contra nós teem de confessar-se +vencidos. + +Não somos medicas, não somos advogadas, não somos professoras, não somos +preleccionistas officiosas de qualquer theoria, mais ou menos arriscada; +mas somos a influencia continua e permanente, a voz surda que sempre se +escuta, a tentação funesta ou a guia providencial, o grande poder +obscuro, a que se não furta o filho, o irmão, o marido, o proprio pae! + +Que importa que não possamos exercer a nossa acção dentro da esphera +restricta e limitada das leis, se os costumes ahi estão, para que nós os +criêmos, os modifiquemos, os transformemos, para que nós lhes dêmos o +nosso collectivo impulso enorme! + +Na America, visto que a mulher tem a faculdade de luctar com o homem no +campo da actividade pratica, é-lhe restringido fatalmente o seu poder na +esphera em que ella póde e deve ser rainha. + +O casamento na America protestante, dizem os viajantes que teem +observado os costumes d'essa raça estranha e vigorosa, é um contracto +temporario que se baseia no calculo, e que o mais leve atricto póde +destruir. + +O divorcio é alli um facto vulgarissimo, ha mulheres divorciadas de tres +maridos que contrahem muito serenamente um quarto matrimonio tão sagrado +e tão respeitavel como os tres primeiros. + +Os filhos resentem-se inevitavelmente d'este estado transitorio em que +permanece a familia. + +Não teem respeito nem disciplina, e é mais do que provavel que não +tenham amor. + +Em pequenos teem de sujeitar-se ás regras estabelecidas, logo porém que +sahem da infancia representam por si proprios, encetam a grande lucta da +vida. + +A independencia pessoal, o individualismo britannico, accentua-se alli +d'uma fórma muito mais saliente. + +_Cada um por si_, eis a lei que rege o verdadeiro _Yankee_, lei que +herdou de seus avós anglo-saxonios e que exagerou, accommodando-a ás +despoticas exigencias do seu meio. + +Assim como a sociedade politica, assenta no principio da mais ampla e +rasgada descentralisação, assim a sociedade moral é dominada por um +principio exagerado de independencia, que afrouxa necessariamente os +laços da familia. + +Não se faz idéa entre nós do que é um interior nos Estados-Unidos. + +Nas classes burguezas e medianamente favorecidas dos bens de fortuna, +vive-se por assim dizer em commum n'uma especie de hospedaria, em que se +reune uma duzia ou mais de familias. + +Ás horas da refeição agglomera-se em torno da meza aquella multidão de +indifferentes que mal se conhecem; comem á pressa absortos em +preoccupações de ordens diversas que ainda mais os separam e os +distanceiam. + +A comida feita sem amor, sem solicitude, sem o cuidado que inspiram á +boa mãe e á boa esposa as predilecções dos filhos e do marido, a hygiene +da familia, a economia do lar, não tem para nenhum dos commensaes nem +alegria nem sabor. + +Comem como quem cumpre uma obrigação indispensavel e enfadonha, e d'alli +partem para a faina, para o trabalho sem treguas, para a lucta acerba e +pertinaz. + +Nem um momento de repouso ou de tranquillo devaneio. + +A vida é o trabalho; o tempo é mais do que dinheiro, é sangue. + +A existencia dos americanos é uma existencia de operario, tressuada, +esmagadora. + +Todos querem conquistar a sua porção legitima de abundancia ou mais +ainda, de riqueza. + +Para que? + +Para terem bem firme a consciencia de que a mereceram. + +Ha uma pressa febril, uma impaciencia vertiginosa, uma ancia de todos os +instantes n'esta raça de impetuosos luctadores. + +As qualidades e os defeitos britannicos attingem além do Atlantico um +relevo exagerado. + +N'esta vida cortada de obstaculos e difficuldades, n'esta vida em que a +energia do homem, o seu vigor physico e moral, a dura tenacidade do seu +querer, se exercitam e robustecem na mais desenvolvida escala, que lugar +póde haver para a poesia, para a arte, para as tranquillas doçuras da +vida domestica, para os prazeres de uma culta sociabilidade? + +Ha tempo apenas para admirar as extravagancias imprevistas, as cousas +novas e excentricas que firam a attenção, que se imponham rapida e +subitamente ao pasmo das turbas. + +Deriva do modo inteiramente caracteristico porque os americanos entendem +a vida, o lugar que n'ella dão á mulher. Isolada por um esteril +respeito, despojada de todo o predominio que entre nós lhe concedem os +costumes, e a tradição religiosa e social, a mulher para tentar adquirir +a consciencia da sua força, tem fatalmente de ir procural-a na arena em +que luctam os homens. + +Isto em vez de os converter, mais os liberta d'aquelle poder occulto e +latente, d'aquella doce e invisivel influencia que partindo d'alto lhes +suavisaria a indole, os costumes e os gostos. + +Victoria Woodhall é o fructo genuino d'esta sociedade incompleta n'uns +pontos e n'outros inteiramente transviada do verdadeiro caminho, do +caminho que conduz á felicidade e ao equilibrio de todas as faculdades +humanas. + +Só na America do Norte é que esta valente prégadora das reformas sociaes +podia ter nascido, só a America é que podia entendel-a e applaudil-a com +tão sincero enthusiasmo! + +Se ámanhã uma das nossas mulheres começasse a percorrer as grandes +cidades da Europa meridional, prégando a transformação dos costumes, os +direitos politicos do sexo feminino, a reforma das instituições, a sua +prédica, por mais eloquente que fosse, seria abafada em uma tempestade +homerica de risos! + +Aqui muito á puridade, eu não sei se somos nós, que temos razão! + + + + +Criados e Amos + + + + +CAPITULO XIV + + +I + + +Fallemos dos nossos criados. + +É um assumpto este de importancia summa. + +Tem relações estreitas com a administração da casa, com o seu aceio, +arranjo, conforto e bom governo; com a moralidade que n'ella existe, com +a figura que ella representa em relação ás outras casas. + +Parece uma questão ridicula e comesinha; tem sido estragada por todas as +matronas de mau humor que desafogam n'ella a superabundancia da sua +bilis; é o assumpto obrigado das conversações das mães burguezas, em +quanto nas pequenas _soirées_ dos quartos andares _as meninas_ estafam +um desgraçado piano asthmatico, os _litteratos_ da familia recitam +versos a _Ella_, e tres commendadores gordos e vermelhos disputam +acalorada e ferozmente a uma banca de voltarete. + +Ninguem todavia ainda encarou esta questão debaixo do seu verdadeiro +aspecto. + +Declama-se contra a decadencia e desmoralisação dos criados de hoje, mas +ninguem pensou que esta decadencia, que esta desmoralisação, provém +forçosamente de alguma causa que é necessario conhecer e destruir. + +Á primeira vista, observando na familia, esse elemento que se tem +tornado tão indispensavel quanto perigoso, nota-se o seguinte: + +--Que os criados de hoje não se podem comparar aos criados antigos, nem +na fidelidade, nem na lealdade, nem no desinteresse, nem na moralidade. + +Já se vê que esta regra tem excepções numerosas, de que não tractaremos, +mas que reconhecemos e admittimos. + +--Que dia a dia se nota n'esta classe um desapego mais profundo pelas +familias a quem serve, e em cujo seio penetra. + +--Que elles são sempre ou quasi sempre os auxiliares da traição, do +vicio, da desobediencia, e que portanto é profundamente corruptora a +influencia que exercem na familia. + +--Que o seu interesse consiste em especularem com as fraquezas ou as +maldades d'aquelles de quem dependem, e que vivem e medram na +immoralidade dos seus superiores. + +--Que pelo seu comportamento se revelam inimigos natos de todos que +estão acima d'elles, e que presentindo a vantagem que lhes póde provir +do rebaixamento dos entes de quem receiam a severidade ou que são +forçados, muito contra sua vontade, a respeitar, o fim que elles teem, e +que procuram por todos os modos attingir, é o seguinte: penetrar +vagarosa e cautelosamente na confiança dos amos, extorquir-lhes os seus +segredos, e divulgal-os por sêde instinctiva de vingança, ou +exploral-os, por desejo immoderado de ganho. + +Posto isto, provado está que os criados são os nossos _inimigos +necessarios_, e que é preciso que para com elles a nossa attitude seja +por em quanto inteiramente defensiva. + +E dizemos _por em quanto_, por uma razão muito simples. + +Porque entendemos que, quando n'uma classe inteira se manifestam +symptomas de corrupção e de gangrena, a culpa vem por força de longe, e +_de cima_, e que devemos applicar-nos com todas as nossas forças e todos +os nossos desejos, a modificar essa culpa, e a redimil-a por fim. + +A que póde attribuir-se o contraste notavel que se reconhece entre os +criados _antigos_ e os criados de hoje? + +A muitas causas independentes da nossa vontade, e sobretudo da vontade +d'elles; as causas que teem o seu _quê_ de politicas, e seu _quê_ de +economicas, o seu _quê_ de sociaes, o seu _quê_ de philosophicas. + +Vejam em quantas questões nebulosas e importantes entesta esta humilde +questão de criados. + +Transformação completa do viver social e do viver domestico. + +D'antes a familia era fundada n'um principio de muito menos justiça, mas +n'uma base de muita mais solidez. + +Havia o _chefe_ que acolhia á sua vasta sombra, os irmãos, os parentes +pobres, os filhos, os servos que eram tambem uma tradição e tambem uma +herança. + +Quando o chefe morria succedia o filho ou o irmão mais velho, que +herdava os irmãos, os tios, os parentes pobres, os servos, todos os +haveres, e tambem todas os encargos da numerosa communidade. + +Os criados entravam ao collo de sua mãe que vinha ser aia, ou varredora, +ou engommadeira, ou outra cousa qualquer e sahiam de 60 ou 80 annos no +caixão para o cemiterio, deixando na familia nova geração de servos que +eram seus filhos. + +D'este modo havia estabilidade nos seus empregos. Só eram demittidos por +_erro de officio_. + +Não receiavam o dia de ámanhã, não sentiam a esmagadora indifferença dos +superiores a revelar-lhes que na familia eram párias, eram estranhos, +eram inimigos. + +Não precisavam de se apossar de um segredo, de ameaçar tacitamente com +uma denuncia, de lisongear vilmente um vicio ou mesmo uma mania, para +darem solidez e garantia de duração á sua posição dependente e precaria! + +Em quanto que na vasta sala de jantar, de tectos apainelados, e custosos +pannos de Arras, em torno da pesada meza de carvalho, primorosamente +entalhada, se reunia alegre a numerosa familia, em que umas poucas de +gerações se enlaçavam, na cosinha do palacio, ao lume crepitante das +fornalhas enormes, reunia-se tambem a familia ainda mais numerosa dos +antigos servos. + +Eram paes, mães, filhos, ás vezes netos. + +Não estavam privados de todas as condições humanas, tinham as suas +festas intimas, as suas alegrias, os seus affectos. + +O seu maior empenho consistia em que a familia de que dependiam, +florescesse e prosperasse; a sorte d'elles e dos seus, estava por assim +dizer, identificada com a sorte dos amos. + +Affeiçoavam-se áquellas paredes, ou áquelles moveis, á senhora que era +branda e protectora para elles, ás creanças que tinham ajudado a crear, +e que um dia viriam a conceder-lhes a mesma protecção que hoje recebiam +dos paes. + +Eram maus, interesseiros, crueis ás vezes! Embora! É porque eram homens, +e não porque eram servos. + +Tinham as qualidades boas ou más da humanidade e não as de uma +determinada classe. + +D'aqui a sua superioridade sobre os criados de hoje. + + * * * * * + +No regimen moderno, a familia tem outra constituição e outros costumes. + +As fortunas extremamente divididas já não consentem esse modo de viver +opulento e patriarchal. + +Os mesmos ricos, que são no fim de contas os grandes financeiros +modernos, esses que juntaram a fortuna de que gosam á custa de privações +e de trabalho, são egoistas para todos, e particularmente duros para os +inferiores. + +Na sua opinião os criados são machinas. Umas machinas que vestem casaca, +e usam gravata branca. + +Exigem d'elles um serviço irreprehensivel, uma obediencia passiva, uma +disciplina exemplar. + +De resto odeiam-nos porque lhes teem um certo mêdo. + +Comprehendem perfeitamente que são rediculos, elles que andaram tanto +tempo de tamancos, a varrer os armazens, a levarem empurrões e maus +tractos dos caixeiros grandes da casa, a curvarem-se humildemente diante +dos _patrões_, dando-se agora aquelles ares superiores e desdenhosos de +potentados. + +Emquanto comem em pratos de Sevres ou do Japão, uns manjares exquisitos +que o cosinheiro, o seu cosinheiro de dez ou doze libras por mez, lhes +impinge traiçoeiramente, sentem-se acanhados diante do olhar frio, do +olhar metallico dos criados de meza, e imaginam que elles no mudo +escarneo d'esse olhar, lhes dizem que estão percebendo o seu +desastramento, os seus gestos grosseiros, e até a saudade com que +recordam a assorda e o bacalhau salgado dos bons dias da mocidade. + +D'esta hostilidade mutua nada bom póde resultar. + +Os amos são orgulhosos, cheios de desdem, de indiferença, de duro +egoismo; os criados são hypocritamente humildes, são invejosos, e +malevolamente escarnecedores. + +Só um laço póde ligar estes sêres; a cumplicidade. + +De cima não haverá brandura em quanto de baixo não houver subserviencia +criminosa. + +Ambos o comprehendem de sobejo; comprehendem-no sobretudo os criados que +andam á mira d'um segredo, d'uma indiscrição, d'uma descoberta qualquer +que os faça levantar a cabeça. + +No dia em que a aia recebe a primeira confidencia da senhora, no dia em +que entrega o primeiro bilhete, no dia em que lhe é escutado o primeiro +recado de que a encarregam, invertem-se os papeis, e só continua +apparentemente aquella humildade que a suffocava de colera e de +despeito. + +Era escrava obediente e muda, hoje é cumplice, o que quer dizer tyranna. + +Ao marido em caso identico succede o mesmo. + +Moralidade d'esta situação: o criado de hoje triumpha quando seus amos +se rebaixam. + + * * * * * + +Entremos nas casas burguezas, que constituem hoje a maioria. + +Vive-se com pouco, ha uma ou duas criadas, a pobreza traz comsigo uma +certa promiscuidade que abala o respeito. + +Já aqui os criados não são automatos que se movem ao impulso d'uma +vontade superior. + +Não são mudos, não teem a fria apparencia aristocratica que revela a +opulencia da casa em que servem. + +Pelo contrario; as criadas estão iniciadas nos pequenos segredos da +familia, mas como a vida de hoje, toda de expedientes, toda no ar, +desiquilibrada, impostora, não tem aquella dignidade da vida antiga, as +criadas com o seu malicioso instincto plebeu penetram esse viver, +julgam-no e escarnecem-o. + +Podia-se viver decentemente com o pouco que ha. Chega mesmo para uma +alimentação sadia, para a satisfação das necessidades indispensaveis; se +a dona da casa desenvolver os seus recursos de economia, +conseguir-se-hia sem muito trabalho, no fim do anno, _joindre les deux +bouts_ como expressivamente dizem os francezes. + +O pae é um funccionario bem collocado, o rendimento se não é grande pelo +menos é sufficiente para uma vida mediocre e laboriosa. + +Diante d'este quadro parece-nos que não ha brecha por onde possa +penetrar a malicia interesseira da criadagem. + +Pois ha, minhas senhoras! + +O dono da casa tem um emprego bom, é verdade, mas aspira a subir de +posto, quer de mais a mais a carta de conselho, leva isto _em capricho_ +por causa das _picuinhas_ do seu collega da secretaria, o conselheiro +Fulano; logo, para attingir este fim desejado é preciso antes de tudo +_figurar_. + +Tem de ir aos _chás_ do seu amigo deputado, ás _soirées_ do barão de tal +_que é muito influente_, tem de dar de jantar de vez em quando ao seu +amigo _cicrano_ que é parente do primo da mulher do secretario +particular do ministro, tem de gastar muito em apparato ridiculo, em +luxo avariado, em pompa feita de remendinhos. + +A mulher, já se entende, não lhe fica atraz! + +Podéra! + +E ella então que tem de se vingar d'uns chascos que as snr.^{as} Silvas +fizeram ha tres annos a um vestido de seda um tanto usado que ella +trazia; e que tem de fazer rebentar de inveja a _D. Leocadia_ que é +mulher d'um commendador seu conhecido; e de _quebrar os olhos_ á prima +Ausenda que anda a dizer pelas casas do seu conhecimento «que não sabe +onde ella vae buscar para tanto luxo!» + +Filhas d'estes paes o que serão as meninas? + +Querem vestidos de seda, embora os comprem em _segunda mão_, querem +joias embora sejam falsas, querem botinas de tacão alto, porque as teem +visto ás pequenas da viscondessa de M. e da baroneza de S. e da marqueza +de V.; querem apparecer no theatro, querem ir ao _Club_, querem tomar +banhos quando não seja em praia elegante, ao menos na Ericeira; querem +_reunir á noute_ uma vez por semana, umas visitas que nunca vão, querem +fazer emfim o que por ahi faz _toda a gente_. + +Resultado d'isto, resultado inevitavel. + +Deve-se na tenda, deve-se no carvoeiro, deve-se na modista, deve-se no +sapateiro, deve-se na loja de fazendas, deve-se ás criadas. + +A falta de seriedade na vida, acarreta comsigo um milhar de pequeninas +humilhações insupportaveis. + +As criadas vão á porta receber os credores, e trazem dentro os recados +com um sorriso maganão que escapa a todas as reprehensões e a todos os +castigos. + +Se estão de mau humor resmungam, fazem causa commum com o _inimigo_, que +é no fim de contas o _confrade_; se estão bem dispostas dão alvitres, +inventam e lembram desculpas, lamentam a _senhora_, etc., etc. + +De qualquer dos modos amesquinham os amos, estabelece-se entre elles e +ellas uma intimidade funesta. + +Destroe-se assim o respeito, disciplina, a obediencia, aquella +hierarchia que tem de existir n'uma familia para que essa familia esteja +bem organisada. + +Um dia, as _meninas_, que teem recebido a educação mais perniciosa e +mais falsa, fartam-se d'aquella vida de privações intimas, de balofas +apparencias e querem fugir d'ella. + +Teem só uma porta: o casamento. + +Nas familias pobres da burguezia, o casamento é julgado a porta por onde +se sahe da miseria! + +Quantas vezes não é elle a porta por onde se entra na desgraça! + +Começam então a namorar. + +A namorar seja quem fôr. O alferes que passa, o _dandy_ pelintra que +encontram nos seus passeios, o _litterato_ pallido e fatal que olhou +para ellas da plateia. + +Quem é a confidente natural d'este _namoro_, a auxiliar forçada d'esta +intriga ridicula? + +A criada! + +É ella quem espia a mãe, e quem ajuda a enganal-a; é ella quem entrega e +recebe as cartas, é ella quem se _farta de rir_ com a menina, ouvindo +contar o que ella lhe disse, e o que elle lhe tornou! + +Quantos perigos, quantas humilhações, quantas vergonhas n'este facto que +é hoje trivial e repetidissimo! + +A criada só tem a ganhar na execução d'estes misteres. + +Ganha indulgencia para as suas proprias faltas, uma advogada que ou por +medo ou por sympathia defende a sua causa, e até se tanto fôr preciso se +revolta por amor d'ella contra a authoridade maternal. Ganha quem a +ajude no trabalho! + +Ganha a possibilidade de ser insolente e atrevida, de se vingar da sua +posição inferior, de desafogar o mau genio, e isto sem perigo de +qualidade alguma. + + * * * * * + +Quando se não dão estes casos que ahi deixamos apontados dão-se outros +identicos ou outros similhantes. + +Da parte dos superiores indifferença profunda, desejo de explorar de +todos os modos e feitios os dependentes, rudeza, orgulho, egoismo, +desapego. + +Da parte dos inferiores, a mesma indifferença creada a pouco e pouco +pela incerteza ácerca do dia de ámanhã; desaffeição pronunciada, +despeito, inveja, e desejo de trabalhar o menos possivel, em troca do +maior salario que poderem alcançar, separação de vida, de interesses, de +alegrias, de affectos. + +Se entra em casa a doença com todo o seu cortejo de lugubres tristezas, +de vigilias e de lagrimas, nunca a criada saberá ser enfermeira. Fará o +serviço, resmungando, furiosa, desattenta, fazendo esperar um caldo para +ir á janella _ver quem passa_; deixando apagar o lume de noite porque +adormecerá inteiramente esquecida dos que soffrem e velam. + +E que lhe importa a ella no fim de contas que elles morram ou se salvem. + +Hoje está aqui, ámanhã estará n'outra parte! + +Se adoecer vem uma maca e leva-a para o hospital abandonada, sósinha +como um cão! + +Não dá porque não recebe. + +Entre os criados e os amos os interesses são absolutamente oppostos. + +A unica circumstancia que póde alterar esta situação reciproca: a +cumplicidade. + +Que admira, pois, que todos os dias se observe maior e mais profunda +immoralidade nos criados das grandes cidades? que admira que as +excepções se vão tornando dia a dia mais raras? + +A culpa é de uns e d'outros, mas o mal tem ainda remedio. + +Procuremos apontal-o. + +No que respeita aos amos cumpre: + +Que sejamos benevolos para que a humildade dos nossos inferiores nunca +seja para elles uma humilhação. + +Que tenhamos no interior das nossas casas a maxima dignidade e o maximo +respeito de nós mesmos e dos outros, para que o nosso exemplo levante +ainda os que estão mais baixo. + +Que vivamos de modo que nunca receiemos o escarneo, ou a censura de +alguem, para que sobre nós nunca possam exercer-se influencias funestas. + +Que não exploremos a actividade dos pobres, para que os pobres não +tenham interesse em explorar as nossas fraquezas, e já que é +indispensavel crear-se e educar-se a classe dos criados, juntemos todos +os recursos da nossa experiencia e do nosso bom senso, para dar prompto +e efficaz remedio a todos os males que são por assim dizer o privilegio +especial d'essa classe. + + +II + +No capitulo anterior, tractando d'esta questão, tentámos apresentar as +causas que determinam e aggravam a decadencia e desmoralisação dos +criados modernos. + +Essas causas teem um resultado fatal que vem a ser o seguinte: + +É tão precaria, tão falta de garantias, tão exposta a continuas +alterações a sorte dos criados, que para ella só descem os que n'outra +esphera não poderiam achar collocação que lhes dê a subsistencia. + +Os bons, que por acaso ou por circumstancias fortuitas acceitam este +modo de vida, são ainda mais desgraçados do que os maus, porque são mais +explorados. + +Portanto ou fogem d'elle, ou se corrompem fatalmente. + +Estamos, pois, em face d'este dilemma. + +Ou havemos de não ter criados, ou havemos de os ter maus. + +É verdade que fomos nós que voluntaria ou involuntariamente os +corrompemos e estragámos. + +Concedo. + +Agora, porém, não se tracta d'isso. + +Achamos o resultado das nossas proprias culpas e procuramos os meios de +o modificar. + +Primeira necessidade imprescindivel: é preciso educarmos os nossos +futuros criados. + +Mas como? + +Creando para isso instituições especiaes, ou modificando a indole das +que já existem. + +Tractemos antes de tudo das mulheres. + +Estão por todo o reino espalhadas, e ainda bem que assim é, as +instituições de caridade, tanto de iniciativa dos particulares, como de +iniciativa do Estado. + +O que é que n'esses asylos se aprende, salvo excepções possiveis, mas +que não chegaram ainda ao nosso conhecimento? + +Aprende-se em primeiro lugar o que hoje é indispensavel para toda e +qualquer situação, por mais humilde que seja; aprende-se a ler, +escrever, contar, coser e marcar. + +Aprende-se em segundo lugar a bordar de branco, a bordar de missanga, a +bordar com cabello, a fazer crochet, a tocar orgão ou _harmonium_; ha +alguns onde se aprende grammatica, historia, geographia, etc., etc. + +Muito bem. + +Em cada cem raparigas, admittimos que haja dez, cuja intelligencia +superior possa mais tarde aproveitar-se d'este genero de estudos. + +Serão mestras regias, serão talvez caixeiras de alguma pequena loja, +serão mesmo professoras particulares se houverem progredido no estudo e +adquirido uma instituição mais solida e mais proficua. + +Que fazemos das outras noventa? + +Imaginemos que cincoenta casaram muito moças. + +Acham um artista, um carpinteiro, um chapeleiro, um entalhador, um +pedreiro, um operario de fabrica, que as rouba á desamparada solidão que +estava á espera d'ellas e que as leva para o seu pobre albergue +desguarnecido e miseravel. + +Dos conhecimentos que adquiriram na educação dada pelo asylo quaes +aproveitarão, quaes applicarão á sua felicidade, ao seu bem estar +domestico? + +Com que trabalho poderão auxiliar o trabalho do marido, insufficiente +para acudir a todas as necessidades do _ménage_? + +Que officio aprenderam a exercer? + +Dão as voltas de casa, varrem, limpam o pó, cosinham, mas fazem tudo +isto mal. + +Nunca ninguem as compenetrou bem da importancia altissima d'estes +misteres tão humildes. + +Ter a roupa do marido bem desencardida, bem engommada, com os seus +remendos bem deitados, ter a casa acciada e fresca, ter uma comida pobre +mas saborosa e bem temperada, ter a alegria, a abnegação, a boa vontade, +e, em muitas das horas que ficam vagas, exercer qualquer pequena +industria que ajude o marido, banir de casa a tagarellice das visinhas, +viver só com o seu homem, com os seus filhos, no trabalho continuo, no +trabalho fecundo, isso que é de certo o ideal, quem é que lh'o ensinou a +praticar? + +Deixemos, porém, essas cujo destino agora não precisamos de apreciar e +voltemos para as que ficam. + +Sahem do asylo, vão umas servir, outras vão ser costureiras, +vendedeiras, etc., etc. + +Umas são as pobres creaturas roucas e aguardentadas que ahi vemos +atravessar as ruas, apregoando hortaliças, ou fructa, outras as pallidas +e anemicas creanças, de _cuia_ postiça, chapeu de aba revirada, +polonaise phenomenal, bota de tacão alto e cambada, que encontramos á +noutinha ou de manhã cedo, indo para casa das modistas, ou voltando de +lá. + +As outras quem as não conhece, ao menos por ter ouvido fallar d'ellas? + +São as criadas de hoje, ou serão as criadas de ámanhã. + +A educação que lhes deram está em contraposição perfeita com a tarefa +que teem de cumprir. + +Uma que foi apresentada para cosinheira, não tem as minimas noções +culinarias, mas em compensação lê correctamente os jornaes que veem de +manhã. + +Outra, cuja obrigação é engommar, não tem geito senão para bordar de +matiz. + +Algumas, menos favorecidas da intelligencia, não sabem o que aprenderam, +nem aprenderam aquillo que fazem. + +São as mais vulgares! + + * * * * * + +Porque é pois que se não dá ás raparigas do povo, ao menos ás que são +educadas nos asylos de beneficencia, uma educação em harmonia com o seu +futuro papel? + +Não reprovamos de certo a leitura, a ortographia, uns elementos de +arithmetica, mas o que reprovamos é que haja uma uniformidade absoluta +na educação que se ministra a tantas e tantas creanças de indoles +diversas, de intelligencias diversissimas. + +Aquellas que tivessem disposições para um genero de trabalhos mais +levantados, deviam encontral-o n'uma casa especialmente destinada para +as filhas do povo que até aos 12 annos tivessem dado manifestações +inequivocas de claro e perspicaz entendimento. + +Ali formar-se-hiam futuras professoras, ou futuras artistas. + +Haveria n'esse estabelecimento mestras ou mestres que a cada uma +conforme a sua vocação ensinassem as linguas, a musica, a pintura em +porcellana, a grammatica, a geographia, a contabilidade, etc., etc. + +A essa casa, que devia ser subsidiada pelo governo e auxiliada pela +bolsa particular, iriam as mães de familia procurar _professoras +portuguezas_ para as suas filhas, professoras cuja educação fosse +completa, e cuja moralidade podesse ser affiançada. + +Mais tarde os chefes de casas de commercio, mais capazes de +comprehenderem o grande alcance d'esta innovação, iriam tambem buscar a +essa casa raparigas honestas, que elles podessem sentar á mesa ao lado +de suas filhas, e a quem confiassem a contabilidade e os livros do seu +estabelecimento. + +Os fabricantes de louças e outros industriaes achariam na intelligencia +e na prompta comprehensão feminina grande auxilio, e auxilio mais +economico. + +Abaixo logo d'essa cathegoria mais elevada de intelligencia, haveria, +n'outra casa, as que tivessem especial tendencia para os trabalhos que +requerem não só engenho, mas tambem habilidade manual. + +Costureiras de vestidos, modistas de chapeus, raparigas que soubessem +fazer rendas, fazer franjas, etc., etc., e que o asylo logo que lhes +houvesse completado a aprendizagem, podia empregar convenientemente. + +Seriam estas, preferidas de certo a raparigas avulsas que entram para +qualquer officio completamente ignorantes do trabalho que teem a fazer. + +A disciplina escolar, a instrucção elementar recebida, a aprendizagem +methodica, affirmava-lhes a sua superioridade enorme sobre as outras. + + * * * * * + +Collocadas assim as mais destras e as mais intelligentes, ficariam +aquellas cujo espirito menos desenvolvido se recusava a uma applicação +difficil. + +Estas seriam educadas expressamente para criadas de servir. + +Mas que educação precisa uma criada? + +Ora essa! + +Uma criada precisa uma educação tão cuidadosa como uma duqueza. + +A differença consiste unicamente n'isto: + +Uma tem de educar-se para criada, e outra tem de educar-se para duqueza. + +No asylo destinado a formar criadas, haveria o mesmo escrupulo na +escolha das mestras. + +Antes de tudo uma moralidade austera. + +Depois no que toca á parte technica da educação, officinas distinctas +onde cada uma das discipulas fosse alternativamente aprender os serviços +que mais tarde tivesse a cumprir. + +Officinas onde se aprendesse a cosinhar segundo as regras da hygiene. +Officinas onde se aprendesse a engommar segundo os processos mais +adiantados. Outras onde se lavasse roupa de lã, e roupa de linho e +algodão. + +Outras onde se talhasse roupa branca, fatos de creança, e fatos de +senhora. + +Não se attenderia aqui como no _atelier_ das modistas do asylo superior, +aos caprichos da moda, mas unicamente á commodidade, ao bom gosto e á +hygiene. + +Outras ainda onde se cozesse á machina. + +Haveria mulheres especialmente encarregadas de ensinarem as discipulas a +varrer, a limpar o pó, a esfregar o sobrado, ou a enceral-o á moda +franceza, a deitar bem _rêdes_, a fazer meias, a cerzir panno, etc., +etc. + +Haveria n'este estabelecimento um requinte de aceio hollandez. + +As mestras escolhidas primeiro nos paizes estrangeiros, e depois +educadas pelo mesmo asylo, ensinariam com o maior cuidado ás suas +discipulas, que as criadas destinadas pelo seu trabalho a penetrarem no +seio de familias inteiramente estranhas a viverem em contacto com gente +de muita qualidade eram forçadas a ter, além da honestidade commum a +todas as mulheres honestas, uma honestidade particular da sua classe, +uma honestidade composta de elementos muito variados. + +Dir-lhes-hiam que uma criada boa tem de ser leal, tem de ser digna, de +resistir ás más tentações, de ser fiel, de ser boa companheira, de ser +laboriosa e de ter o escrupulo mais exagerado no cumprimento das suas +obrigações. + +N'este asylo ainda haveria subdivisões necessarias. + +As mais geitosas para um certo e determinado trabalho applicar-se-hiam a +elle de preferencia, não desprezando porém os outros. + +Aquella que fosse destra para tudo, aproveitaria egualmente todos os +elementos que houvessem de constituir a sua educação. + +Ser criada não é--entenda-se bem--nem uma vergonha nem um _pis aller_; +ser criada é um officio, ás vezes mais complicado que os outros, porque +comprehende muitos. + +A unica differença é que se póde ser uma boa criada não sendo +excessivamente intelligente, e que as qualidades aqui indispensaveis são +robustez, destreza de mãos, fidelidade, amor de trabalho. + + * * * * * + +Não se diga que isto é uma utopia impossivel. + +No estado de adiantamento a que chegou entre nós o principio de +associação applicado á beneficencia, nada mais facil do que organisar +por este modo os asylos do paiz, ou pelo menos de uma cidade do paiz. + +Não augmentaria de modo algum a despeza, mas progrediria necessariamente +a educação popular. + +Reunidas debaixo de uma direcção geral, todas as casas de Beneficencia +de uma cidade, passaria esta não a crear asylos novos, mas a modificar a +indole dos que existem. + +Estabelecer-se-hia uma especie de gradação natural. + +Em baixo a casa que recebesse sem distincçao todas as creanças de 4 a 10 +annos que estivessem no caso de serem admittidas. + +Alli, sob a direcção de professores intelligentes, e de directoras de +espirito cultivado, far-se-hia aos 12 annos de edade a escolha. + +Umas seriam enviadas para o asylo profissional de 1.^a classe, outras +para o asylo profissional de 2.^a classe, a terceira para o asylo das +criadas futuras. + +Aquellas que estivessem mais adiantadas trabalhariam logo, de modo que +grangeassem um salario por mesquinho que fosse. + +Esse salario entraria como elemento de receita na caixa central. + +Este plano, como se vê, não é mais que um plano embryonario, o germen +d'uma idéa que se nos affigura util e praticavel. + +Outros melhor do que nós o estudem e desenvolvam, se entenderem que o +merece. + + * * * * * + +Quanto a nós, acreditamos piamente que só então começariamos a ter +criadas. + +As que sahissem do asylo com 20 annos de edade ficariam sujeitas a uma +certa e determinada vigilancia, cujo systema e cujas bases nos não +compete agora explicar. + +Com estas garantias de moralidade, e de bom serviço, seriam preferidas a +todas que as não tivessem, e pelo menos fariam uma util concorrencia ás +criadas indisciplinadas e ignorantes que hoje temos. + +As casas dignas e honestas teriam criadas cujo comportamento as não +deslustrasse. + +As outras ficariam com as que teem hoje. + +Não merecem mais. + + * * * * * + +Nos asylos dos rapazes, seguir-se-hia uma norma egual ou parecida. + +Esses como teem campo muito mais vasto para exercerem as suas +actividades complexas, dariam de certo, bem educados e bem dirigidos, um +pequeno contingente para a classe dos criados. + +Seria um bem. + +Uma criada representa sempre uma necessidade, um criado representa +sempre um luxo! + +Para que ha de haver criados de meza ociosos e insolentes, cosinheiros +envenadores e infieis? + +Estes serviços tão faceis não podem ser feitos por mulheres? + +Logo que este uso se propagasse entre os ricos, deixaria de ser indicio +de pobreza, ou de habitos plebeus. + +No fim de contas tudo isto não passa de convenção! + + * * * * * + +Já que o Estado julga descer occupando-se d'estas _pequeninas_ questões +de moralidade domestica, que a iniciativa individual o substitua. + +Ninguem mais do que nós tem applaudido o engrandecimento progressivo, o +rapido desenvolvimento das instituições de caridade. + +Não é o dinheiro que falta, porque entre nós quando se falla na miseria, +a caridade nunca faltou; o que falta é uma direcção boa. + +A rotina n'isto como em tudo é funestissima. + +A nossa caridade official dá pão e vestuario ás creanças, mas que faz em +favor das mulheres? + +Dando-lhes uma educação que não está em harmonia com os seus meios +futuros, condemna-as á miseria, á desgraça, quantas vezes á ociosidade e +á ignominia? + +A educação deve fazer-se pratica e positiva, deve tornar-se um +preventivo efficaz contra os maus conselhos da pobreza ou da preguiça! + +Os que pensarem n'isto farão um bem á familia, e á sociedade. + + + + +Creanças + + + + +CAPITULO XV + + +I + +São ellas a alegria da familia, como a familia é a suprema ventura dos +felizes, e o supremo consolo dos desgraçados. + +Quando apparecem trazem comsigo o sol; tudo se illumina. + +Sorriem os labios mais ironicos, marejam-se de lagrimas doces os olhos +mais aridos, estendem-se prodigas de bençães as mãos mais avaras. + +Ellas são a graça que se ignora, a fraqueza que nenhum poder assusta, a +innocencia que interroga, a aurora intellectual que desponta e que +diffunde em torno de si uma luz cariciosa e limpida, uma luz que se +reflecte em jubilos no coração das mães. + +Tudo na vida é para ellas mysterio, mysterio que as chama e as attrahe, +cujas trevas as não apavoram, em cujos sinistros meandros nem sequer +receiam perder-se. + +Em cada um d'aquelles pequeninos cerebros encerra-se em germen tudo que +é no homem pequenez ou grandeza, genio ou mediocridade, força ou +impotencia, virtude, abnegação, esquecimento de si ou egoismo, vicio e +crime. + +Onde ha maior mysterio do que a creança? + +Debalde a interrogamos; não sabe responder, senão áquelles que pelo +poder da sympathia logram identificar-se com ella. + +Recebel-a das mãos de Deus é para a mulher, para a mãe a mais tremenda +das responsabilidades, e desgraçadamente aquella de que tem a +consciencia menos definida e menos clara! + + * * * * * + +Ser mãe, quem o não é? + +A difficuldade e o segredo é saber sel-o. + +Na sociedade, tal como ella está constituida e continuará a estar por +largos e dilatados annos, dous entes, um homem e uma mulher, moços +ambos, encontram-se, olham-se, sorriem-se e pensam de si para comsigo +que estão _apaixonados_. + +Durante alguns dias, alguns mezes, a que elles em falsa e sentimental +linguagem chamam _seculos_, repetem um ao outro, n'um tom mais ou menos +desafinado os _duettos_ de ternura doentia que os romancistas, os +prosadores e os _maestros_ inventaram para conveniencia sua... dos seus +emprezarios e editores, e para envenenamento do resto da humanidade. + +N'este meio tempo, por detraz dos bastidores, os paes, que fingem _não +ver nada_, calculam _in petto_ quaes os prós e os contras pecuniarios do +matrimonio hypothetico. + +Se os primeiros levam certa vantagem aos segundos, celebra-se com a +devida pompa o almejado consorcio, e n'essa noite ha mais dois +desconhecidos, dois indifferentes, dois estranhos acorrentados um ao +outro por um laço que devia ser sagrado, e que muitas vezes consegue +sómente ser... dourado! + +O marido no outro dia vae para as suas labutações do costume, para a +vida exterior que o reclama e absorve, a mulher fica em casa provando os +vestidos do enxoval, experimentando se lhe fica bem a touca, distinctivo +invejavel das noivas, ensaiando os seus primeiros vôos timidos de +senhora independente, que póde á sua vontade fechar o piano, atirar fóra +o lapis e as tintas, deixar para um canto a costura e o bordado, e +subverter-se sem receio das censuras maternas no _dolce far niente_, que +tanto a namorava em seus dias de educanda submissa. + +D'alli a um anno, se é boa, docil, se tem a intuição das cousas +delicadas, se um poderoso instincto de creatura amoravel lhe pede que +espalhe em volta de si a felicidade, concedamos-lhe que já tem tido +tempo de conhecer e apreciar seu marido, que principia a estimal-o, que +se lembra um poucochinho envergonhada dos falsos lyrismos de solteira, +das cartas que lhe escrevia _fazendo estylo_ e copiando phrases dos +grandes apaixonados que a lenda e o romance immortalisam; que tem, +emfim, ainda incompleta, mas já accentuada a noção da verdade e da +justiça que ha de guiar-lhe a vida. + +Param, porém, aqui os seus conhecimentos, e um dia, surpreza, encantada, +extactica, chorando de alegria, umas lagrimas verdadeiras, d'estas que +se escoam entre risos de gratidão, percebe que tem nos braços um +pequenino ser, a quem tem direito de chamar filho, porque o gerou no +seio em longos mezes de agonia insondavel. + +Que ha de fazer d'elle? Como ha de desenvolver, robustecer, cultivar a +saude d'aquelle entezinho, fragil e indefezo, que lhe solta no regaço os +seus primeiros vagidos, buscando com a boquinha faminta e o instincto +animal, que Deus concede a todos os seres creados, a primeira gotta do +leite materno, que é a sua vida? + +Entram as amigas e dizem-lhe em côro: + +--Não o cries que perdes a formosura, o viço, a mocidade, tudo o que +prende e captiva teu marido. + +--Não o cries, que tens de te despedir dos bailes, das noites +triumphantes em que a valsa nos arrebata nos circulos vertiginosos, em +que as flôres e as finas essencias nos embriagam com o perfume +enervante, em que a musica nos côa nos sentidos as suas caricias +languidas, em que a luz crúa do gaz nos beija as espaduas opalinas, em +que a admiração dos homens nos envolve na audaz provocação dos seus +olhares, em que a inveja das mulheres nos enrosca em espiraes de cobra. + +--Não o cries, que terás de perder as noutes, não entre alegrias e +folgares, mas na alcova, onde a medo bruxoleia a luz mortiça da +lamparina, junto de um pequeno berço, ouvindo aquelle choro da infancia, +tão doloroso para os ouvidos maternaes. + +Teu marido fugirá de ti; elle, que anda cansado da faina diaria, quer as +noutes tranquillas, os somnos fartos, as placidas madrugadas; +repugnam-lhe os primeiros trabalhos que a creança tem que dar por força +á mãe, que fôr mãe, na accepção plena da palavra. + +Não creio que a maior parte das mulheres ouça os funestos e corrosivos +conselhos das amigas falsas; hoje começa a radicar-se em todos os +espiritos a convicção justa e sensata de que só a mãe, quando é robusta, +ou quando é simplesmente sã, deve amamentar o filho. + +Entregal-o aos braços mercenarios de mulher estranha é aceitar a mais +tremenda das responsabilidades. + +A ama póde communicar no leite os seus vicios, os seus instinctos maus, +as suas doenças ou defeitos de organisação hereditaria, toda a herança +fatal de um passado inteiramente desconhecido para as pessoas que tão +levianamente lhe confiam o que devia ser o mais precioso thesouro da sua +alma. + +Abstraiamos, pois, a ama, por não querermos suppôr que se trata aqui de +uma mãe frivola até ao crime, despiedosa até á ferocidade, ou fraca a +ponto de não poder cumprir os deveres da sua missão maternal. + +Fica-nos simplesmente a mãe inexperiente e ignorante em face da +recem-nascida creatura, flôr que precisa o mais desvelado cultivo, a +mais complexa das educações. + +Não a accusemos ao vel-a aceitar o seu mimoso fardo com tão leviana +confiança, com uma tão plena inconsciencia da grande missão que precisa +de cumprir. + +A culpa não é d'ella; n'este ponto ha um criminoso apenas--é o homem. + + * * * * * + +Abrem-se universidades, lyceus, escolas, seminarios, institutos +scientificos, para educarem no seu seio os jurisconsultos, os medicos, +os sacerdotes, os mathematicos, os commerciantes, os sabios, os cidadãos +do futuro. + +Só falta uma escola, a primeira, a mais indispensavel das escolas, a que +facilitaria e tornaria fructiferos os trabalhos das outras: falta a +_escola das mães_! + +Ninguem se lembrou ainda de a crear, julgam-na desnecessaria, ou talvez +que a julguem frivola. + +--Como é que se ha de ensinar a ser mãe? é só a natureza que instrue a +mulher. Ha mães de quinze annos que sabem mais n'este assumpto do que +velhos pensadores de sessenta. Deixae obrar a natureza, é ella a grande +mestra, a suprema inspiradora! + +De accordo, meus senhores; quem é que nunca se lembrou de negar á mãe o +seu divino instincto de protecção e de ternura? Quem ao vel-a segurar +com tão delicado carinho o tenro corpo do filho, acalental-o nos braços, +adivinhar-lhe as necessidades e os desejos até para elle indistinctos, +negará que entre esses dous entes ha uma cadeia mysteriosa, que a +natureza nunca poderá mais desatar? + +Mas é necessario que o estudo auxilie o maravilhoso instincto, que elle +ensine á mãe a comprehender no seu triplice aspecto, physico, moral e +intellectual, a educação do ser complexo, que hoje é uma fraqueza que +implora auxilio e ajuda, que ámanhã será uma força util ou funesta, +conforme a direcção que haja recebido desde os mais tenros annos. + + + * * * * * + + +_O estudo que comprehende todos os outros estudos, e que deve, portanto, +constituir o ponto culminante da instrucção, é a theoria e a pratica da +educação da infancia._ + +Estas palavras de Herbert Spencer, o philosopho mais notavel da moderna +Inglaterra, um grande pensador, um chefe de escola, provam de sobejo até +que ponto, aos olhos do homem que medita, avulta hoje o grande problema +da educação. + +É um erro imaginar que a creança nasce boa. + +Ha n'ella instinctos innatos de natureza selvagem, instinctos +primitivos, que só uma habil cultura modifica, transforma, encaminha ou +desarreiga. + +Toda a creança é curiosa: mães aproveitae essa grande força, que conduz +o homem á conquista de todas as grandes descobertas da sciencia e da +arte, e que póde quando entregue a si conduzir a creança ao mais +deploravel e mesquinho dos vicios de caracter, á curiosidade esteril do +ocioso, da _senhora visinha_. A creança tem o instincto do roubo. +Apossa-se do que vê, do que attrahe pelo brilho, do que lhe desafia a +cubiça, a gulodice, o amor da posse. + +Leitora, quando o teu pequenino de tres ou quatro annos tiver artes de +te roubar uma joia muito querida, um manjar muito reservado, um +_bibelot_ qualquer, que seja para ti de grande estimação, não chores +desconsolada, lendo n'esse primeiro symptoma sinistras prophecias. Esse +prenuncio de ambição desregrada póde, dirigido com previdente +vigilancia, transformar-se na legitima energia que leva o homem a +desejar a posse das riquezas honestamente adquiridas, a exercer no seu +espirito uma influencia fortificante, a tornal-o pertinaz no caminhar +para um ficto que de longe antevio. + +Dirigir toda e qualquer tendencia para um fim elevado e util, combater a +inercia, a preguiça physica e intellectual da creança, empregando +activos reagentes, ir ajudando lenta e gradualmente a evolução natural +do entendimento infantil, abrir-lhe o espirito a todas as curiosidades +sãs, apontar para a natureza inteira como para um livro enorme, +mysterioso, cheio de apaixonado interesse, de peripecias dramaticas, de +imagens vistosas, que elle ha de ir decorando a pouco e pouco, +conduzil-o até ao limiar da adolescencia, puro de coração, immaculado no +corpo, prompto e apto para absorver em si os conhecimentos complexos que +o esperam, robusto, são, energico, confiante, cheio de crença nos +outros, e de crença maior em si, eis a missão das mães. Que de cousas +não são indispensaveis para a saber cumprir! + + * * * * * + +Uma das cousas que a mulher quasi geralmente ignora é a hygiene pratica, +que ella tanto precisava saber, tendo, como tem, a seu cargo a +distribuição e direcção do alimento da familia. + +Do alimento que se ministra á creança depende em grande parte não só a +sua futura saude, mas, o que poucas mulheres sabem,--o seu caracter +futuro! + +Dae a uma creança alimentos irritantes, inflammaveis, apimentados; +deixae-a usar sem discernimento de bebidas em que o alcool predomine, e +tereis o temperamento adulterado, o caracter azedo, os habitos baixos, +os gostos perversos, todas as aberrações de um organismo estragado. + +Dae-lhe só carne, alimentae-a brutalmente de materias fortemente +azotadas, e fareis d'ella, da meiga e fragil creatura, do pequeno anjo +de cabellos louros e olhos innocentes, um temperamento sanguinario, +selvagem, amigo das luctas bravias, das distracções violentas, dos +exercicios athleticos, que caracterisam as rigorosas raças do norte. + +Exemplo: os inglezes, que só domam as revoltas brutaes do temperamento +com a forte disciplina de uma educação que é o supremo milagre do +espirito sobre a materia. + +A alimentação fraca produz os organismos inertes, fleugmaticos, sem +impulso, sem fibra, sem energia duravel. + +Saber pois, conhecer os diversos attributos que caracterisam a +alimentação do homem, saber combinal-os de modo que todos concorram para +o seu bem-estar physico, e que nenhum produza as graves perturbações +organicas de que podem ser origem, é a sciencia das mães, sciencia para +cujo estudo devem tender todos os seus esforços. + + * * * * * + +A actividade quasi incessante da creança é um dos meios que mais +efficazmente concorrem para o seu crescimento physico e, por +consequencia, para o seu desenvolvimento intellectual. + +As mães, julgando fazer n'isto um grande serviço a seus filhos, combatem +por todos os modos esta actividade, obrigando as creanças a uma +quietação que se transforma em supplicio para os pequeninos corpos +buliçosos, que um impulso involuntario leva a um quasi continuo +movimento. + +Não é só com as reprehensões, ás vezes asperas e sempre injustas, não é +só encerrando os pobres seres pequeninos em espaço muito estreito para +os seus desejos, é tambem vestindo-os para obedecer ao despotismo da +moda, e ás exigencias da propria vaidade de um modo que está em pleno +contraste com a idéa que todo o espirito um pouco sensato deve formar +das aspirações e necessidades da infancia! + +A creança, que quer e que precisa de correr no espaço amplo, pelas ruas +pedregosas, pelos campos lavrados, pela matta cheia de raizes, traz +quasi sempre uma botina alta, justa, de salto levantado e estreito! +Ella, que aspira aos movimentos livres, que se compraz nos grandes +gestos, que trepa ás arvores, que se roja pelo chão, que atira ao longe +os improvisados projectis que encontra, sente-se cruelmente cingida por +um fato rico, elegante, phantasioso, caro por força, e que tem o defeito +duplo e contradictorio de a entristecer lentamente, inconscientemente +pelas censuras e ralhos de que lhe é motivo incessante--visto que não ha +nada mais avarento do que a prodigalidade e nada mais economico do que a +ostentação--e de a tornar vaidosa pelo habito e pelo gosto de attrahir +as vistas dos frivolos, e a inveja dos pobres, dos pequenos rotos, dos +miseraveis de cinco annos, que ignoram as alegrias bemditas da sua +liberdade indomada! + +Mães, arrancae ao vestuario dos vossos filhos tudo que fôr vaidade, +falso luxo, ostentação ridicula! + +A graça das creanças consiste na plena expansão da sua vitalidade; o +luxo d'ellas está no doce aroma de infancia que de si exhalam, e que +falla de aceio, de pureza, de carinho materno, que revela--aos que sabem +ver--as matinaes e frescas alegrias do banho, as risadas crystallinas +como perolas que se desfiam, os gritinhos infantis, as fugidas subitas, +todo esse poema, que ninguem traduz, de um bando de pequeninos corpos, +feitos de leite e rosas, com cabelleiras louras por aureola, que uns +braços amorosos amparam, susteem, acariciam, em quanto que um sorriso +meigo e pensativo illumina em clarões de limpidez ideal, uma bocca que +só sabe abençoar, uns olhos de mãe, que nunca desamparam nem desfitam o +tepido ninho das suas doces aves implumes. + + +II + +Por muito tempo todas as attenções do homem se fixaram n'um ponto que se +avistava para além da vida terrestre. + +Curava-se sómente da alma considerando a terra morada transitoria, cheia +de males e de miserias, e o corpo ephemero involucro, especie de lodoso +carcere onde o espirito prisioneiro anciava por levantar o vôo para as +altas espheras da eterna bemaventurança. + +Este pensamento, que dominava todos os outros e ao qual todos os outros +se subordinavam, é a causa suprema de onde deriva toda a philosophia da +edade média, e que determina o ideal a que tenderam os sonhos de +milhares de gerações, nossas predecessoras na vida. + +Foi elle que estabeleceu o medonho antagonismo entre o espirito e a +materia, causa de tantos erros e de tão falsas interpretações; foi elle +que levou o homem perdido e transviado a considerar a natureza como a +sua mais cruel inimiga, como a sua tentação mais perigosa e abominavel. + +D'esta guerra anti-humana e anti-natural nenhuma conquista verdadeira +poderia provir. + +Era falso o ponto de vista de que o homem partia, falsissimas todas as +deducções que d'esse ponto de vista resultavam. + +O corpo era um farrapo miseravel que só merecia desprezo e humilhação; +todo o prazer, ainda o mais natural era um peccado que cumpria expiar +cruelmente; a vida era um periodo curto de passagem e penitencia; a +creança nascida já vinha contaminada do peccado original; a alma, só a +alma precisava dos nossos cuidados, das nossas meditações, do nosso mais +especial e esmerado cultivo! + +Quantos erros de educação, de moralidade e de hygiene! + +Quantas revoltas medonhas este despotismo espiritual não excitava! + +Mas foi por acaso esse tempo de pura espiritualidade? + +Pelo contrario! + +Nunca os instinctos maus do homem imperaram com mais violencia! Nunca se +materialisaram mais todos os cultos e todas as idéas! + +O Deus que todos adoravam em extasis apaixonados, era o Christo +dolorido, cadaverico, crivado de pregos, escorrendo sangue de cada uma +das suas chagas abertas. + +A dôr maternal era symbolisada por sete espadas atravessando um coração +dilacerado. + +Os fanaticos mostravam á admiração das turbas os estygmas sangrentos das +suas carnes palpitantes. + +Os ascetas tinham visões nas quaes o Padre Eterno, o Christo, a Virgem, +os Santos, lhes appareciam sob a fórma humana, com feições diversas e +caracteristicamente accentuadas, fallando na linguagem mais correntia e +mais chã. + +A _resurreição da carne_ era um dos pontos fundamentaes do dogma +catholico. O espiritualismo d'essas éras barbaras era muito mais +_material_ do que a sciencia de hoje. + +--Para que aperfeiçoarmos e amenisarmos a vida,--diziam do alto dos seus +pulpitos ou nas paginas dos seus tractados as terriveis authoridades +d'essas éras tão hostis para o homem.--Quanto maiores supplicios +houvermos padecido n'este momento rapido, maior quinhão de gloria tem +para nós a eternidade. Sofframos todas as humilhações mais abjectas, +curvemo-nos diante de todas as tyrannias, deixemos que os vermes devorem +o nosso corpo ulcerado, sejamos grandes em face do Senhor, como Job na +sua gloriosa estrumeira. Os que forem ultimos cá em baixo, serão os +primeiros no céu! + +E a humanidade, ébria de um sonho de beatitude immortal, perdia a força +para combater, e esperava passivamente a resurreição esplendida que os +illuminados lhe promettiam! + +Oh! quanto devemos á robustez de espirito, á fé fecunda e creadora que +moveu alguns homens privilegiados a fazerem-nos sahir d'esse marasmo +estagnador! + +Foram esses homens os verdadeiros creadores da sciencia, que hoje +illumina até os mais ignorantes, dos bens que hoje desfructam até os +mais desgraçados. + + * * * * * + +Um dos problemas resolvidos pelos modernos, e que se não fossem esses +benemeritos de que acima fallamos ficaria para sempre obscuro, é o +problema da educação. + +Segundo o ponto de vista da edade média, a mãe não devia attender senão +á alma de seu filho. + +Era preciso fazer d'elle um santo, e as mais das vezes só se fazia um +bandido. + +E que o alvo a que se tendia era estupido e anti-natural e os meios de +que se usava eram inteiramente contraproducentes. + +Hoje a mãe já não tem desculpa nem da sua ignorancia propria, nem da +ignorancia da sua época. + +Se não sabe é porque não quer saber. + +O homem moderno tem applicado grande parcella da sua prodigiosa +actividade em descobrir os meios mais efficazes de fazer as gerações que +vão seguir-se-lhe melhores do que as gerações que o precederam. + +Está pacificada a guerra que se havia travado entre a alma e o corpo. + +Mais ainda; hoje comprehende-se perfeitamente que é da saude do corpo +que depende a saude da alma, e que os maus são quasi sempre os enfermos +ou os defeituosos. + +O caminho das boas mães está naturalmente traçado. + +Não poupar esforços para aperfeiçoar e robustecer o corpinho querido, +dentro do qual está crescendo e desabrochando a flôr maravilhosa, a flôr +delicadissima, que é a alma infantil. + +Poucas pessoas comprehendem a fundo qual seja a responsabilidade de ser +mãe. + +Não a póde haver mais seria e mais tremenda. + +Desde que a creança nasce até ao segundo periodo da sua vida, em que +ella já começa a ser susceptivel de ensino, quantos cuidados multiplos, +engenhosos, delicados e constantes! + +Um movimento menos suave, um golpe de ar quando a creança está no banho, +um abafo excessivo ou uma imprudente e rapida mudança de habitos, +qualquer pequena cousa que á primeira vista parece insignificante, póde +ter um alcance enorme no futuro do querido entezinho. + +Sabemos de uma creança que ficou cega, porque estabeleceram uma corrente +de ar no quarto em que ella tomava um banho tepido. + +Conhecemos uma pobre mulher, que tem padecido toda a vida cruelmente, +que nunca pôde trabalhar, nem ser util a ninguem, porque a tornou +rachitica uma quéda que a fizeram dar brincando com ella em pequena. + +Ha muita gente que se diverte estupidamente atirando as creanças ao ar, +fazendo-as dar voltas, abalando-lhes o pequeno cerebro. + +Quem póde dizer os resultados fataes para o seu organismo que d'ahi +resultam! + +A creança é tudo que ha de mais fragil e de mais delicado. + +Pensem bem todas as mães que um erro de hygiene póde ás vezes fazer de +uma indole pacifica uma indole perversa. + +A alma e o corpo, os dous irreconciliaveis, inimigos de outro tempo, +estão hoje para todos os olhos tão estreitamente unidos, tão +profundamente identificados, que não ha abalo ou sensação que um +experimente e de que o outro deixe de resentir-se logo. + + * * * * * + +Pensam muitas mães que o melhor meio de emendarem os erros de seus +filhos, são os ralhos repetidos e os castigos severos. + +Engano perfeito! + +O unico meio de educação verdadeiramente proficuo é o exemplo. + +Que encargo de almas não assume a mulher que quizer ser boa mãe! + +A mais doce e a mais tocante relação reciproca que existe entre a mãe e +o filho, é aquella em virtude da qual a mãe educando-se educa, e o filho +sendo ensinado ensina. + +Emquanto ensinamos os nossos filhos, a nós proprias nos estamos +illustrando. + +Pensando nas virtudes que elles devem adquirir e no meio de lh'as +inocularmos no coração, como que se nos vão lentamente revelando todas +as bellezas incomparaveis d'este mundo moral, de cuja contemplação +andavamos, senão alheiadas, ao menos distrahidas. + +Oh! de quantos rasgos bons não é origem para a mãe, o receio de vêr +traduzir-se um espanto accusador nos olhos limpidos de seu filho. + +E depois é necessario que todas as educadoras pensem muito n'esta +verdade tão simples e tão lucida. + +O exemplo, é que ensina, guia e robustece a alma e educa o espirito. + +Que importa que ella pregue e ensine as boas palavras, e a brandura do +caracter, se ella não provar com o seu exemplo de todos os dias a divina +graça d'estas qualidades e d'estes usos? + +A creança obedecerá talvez, mas sem convencimento e sem alma! + +Para que todas as bençãos de Deus chovam sobre a cabeça das que sabem +ser boas mães, nem esta benção suprema lhes faltou. + +Ao contacto divino da infancia, na doce intimidade da innocencia, perdem +defeitos e ganham virtudes. + +A educação bem comprehendida é tão util á mãe como á creança. + + * * * * * + +Imagine-se uma creatura fraca, indolente, tendo sido de pequena +criminosamente amimada, mas ao mesmo tempo possuidora de claro e +perspicaz entendimento. + +Tem habitos inveterados de preguiça, tem horas desoladoras de tedio e de +morbida melancolia. O tempo para ella é pesado e longo. + +Vive, não _gosando_ as horas porém _matando-as_ como póde. + +Não se occupa, não reage contra o seu natural e funesto prostramento, +não tem um fim util e querido para o qual viva. + +Um dia esta creatura infeliz é mãe! + +Comprehende toda a responsabilidade que lhe cahiu sobre os hombros, e +como no fim de contas é intelligente e boa, quer cumprir dignamente a +sua sagrada missão. + +Como é milagrosa e abençoada a influencia que n'este caso a creança +innocente exerce no caracter de sua mãe. + +Acabaram-se as longas scismas dolentes, as doentias tristezas, os +inuteis desalentos! É preciso que ella ensine a viver á fragil +creaturinha que Deus confiou aos seus braços. + +Quantas d'estas redempções se não devem á infancia! Quantas vezes a mão +inconsciente de um pequeno ser de dous ou tres annos não tem redimido os +erros de seus paes! + + * * * * * + +Lembra-nos, a proposito d'isto, uma poesia deliciosa que lêmos ha muitos +annos, e cuja idéa é esta. + +Duas desgraçadas creaturas, d'estas que a miseria prende ás vezes +mutuamente por ephemeros laços, arrastavam juntas uma vida angustiada e +degradante. + +_Ella _sem coragem, sem aceio, sem actividade, sem aquella força que ao +mais negro albergue póde dar a mysteriosa graça dos ninhos; _elle_, +ocioso, cruel, covarde diante da desgraça e diante do trabalho, ébrio ás +vezes, d'aquella selvagem embriaguez da aguardente e do absintho. + +Porque se conservaram unidos? + +Nem elles proprios o sabiam. + +Poder do habito, abjecto marasmo das supremas degradações. + +Um dia, n'aquelle antro miseravel, soou o vagido de uma creança. + +Não se admirem. + +Tambem ás vezes das podridões de uma sepultura desabrocha uma rosa de +maio. + +Quando á noite o homem voltou de suas divagações sem rumo, a pobre +mulher prostrada nas palhas apodrecidas da enxerga, perguntou-lhe +espantada: + +--Porque me não bates? porque me não ralhas? quem é que suspendeu o +insulto da tua bocca, e os golpes dos teus braços? + +E elle, o homem perdido e brutal, respondeu baixinho com um +enternecimento desconhecido na voz rouca: + +--_Tenho medo de acordar o pequenino._ + +--_J'ai peur de réveiller l'enfant._ + +Oh! creanças, creanças, como isto revela bem o poder divino que é tão +vosso! + + * * * * * + +Tenho fallado muito ás mães n'este assumpto. + +Nunca me cansarei de lhes repetir que se entreguem bem do intimo d'alma +á educação dos seus filhos! + +É que não ha creanças más, como não ha homens perversos. + +Ha creanças mal educadas e ha homens pervertidos. + +Na educação que as creanças recebem dominam ainda perigosos +preconceitos, e dizemos _perigosos_, por que n'este grave assumpto todo +o erro é um perigo. + +Apontemos alguns. + +Toda a mãe ambiciona possuir um filho modelo. + +Quer dizer, um menino muito direito, muito aprumado, que falla como um +livro, que sabe grammatica, maximas moraes, que repete versos classicos, +que nunca faz bulha, que tem gestos desdenhosos e reprehensivos para a +travessura dos outros, que nunca se esquece das lições, que é emfim um +_prodigio_ que todas as mães invejam, e apontam como ideal a seus filhos +menos privilegiados. + +Esta classe de creanças póde dizer-se que é a unica verdadeiramente +antipathica. + +Evitemos quanto possivel que os nossos filhos sejam _meninos modelos_. + +Para evitar este resultado, é preciso não dar excessiva attenção ás +graças naturaes da creança, não a louvar de modo que ella ouça, não a +forçar a estudos precoces, fazel-a brincar, correr dar-lhe plena +liberdade de movimentos e de impulsos. + +Se a creança tem demasiada propensão para os estudos mais proprios de +outra edade, cumpre distrahil-a, pôl-a em contacto com a natureza, +ensinal-a a comprehender a alma das cousas. + +Nada melhor para desenvolver o espirito e o coração das creanças do que +a vida no campo. + +Plantas, arvores, animaes, os alegres trabalhos da lavoura, tudo que +desperta sans curiosidades no entendimento infantil. + +Dae ao vosso filhinho um alegrete do jardim para elle tratar, dae-lhe um +animalzinho manso e inoffensivo a que elle se affeiçoe. + + * * * * * + +Ás vezes quando o nosso filhinho bate com a cabecinha no chão, ou em +qualquer movel da casa, vemos com indifferença a criada que o trata +bater tambem, fingindo-se muito zangada, no objecto que sem culpa nem +consciencia é a causa da magoa que afflige o nosso pequeno amor. + +Este velho costume das aias e das mães pouco atiladas, é um erro. + +Torna a creança absurdamente vingativa. + +D'ahi a bater ou a ter vontade de bater em quem a contraria, não vae +nada. + +De cada idéa falsa se faz n'estes cerebros delicados e impressionaveis o +germen de um vicio ou de um defeito. + +Quantas mães eu não tenho ouvido dizer: Meu filho é tão teimoso! Meu +filho é tão guloso! Ou tão tagarella, ou tão curioso!--ou tão colerico! + +Mães, procurae bem no passado e achareis a semente d'isso que hoje é +planta damninha e venenosa. + + * * * * * + +Combater a teima, com a teima, a gulodice natural com a abstinencia +forçada, a cólera instinctiva, com os castigos implacaveis, é pessima +tactica. + +O meio de levar uma creança a esquecer-se de que teimava, é +distrahir-lhe a attenção para assumpto muito diverso d'aquelle que a +absorvia. + +Quando uma creança é exageradamente gulosa, o meio de a emendar é +leval-a a envergonhar-se do seu defeito, a córar d'elle diante de si +propria. + +Nas cóleras a que todas as creanças são mais ou menos sujeitas, o +remedio mais efficaz é uma brandura magoada. + +Que a mãe deixe ver que os erros de seu filho a não enfurecem, mas a +fazem soffrer muito. + +A creança ficará desarmada e moralisada. + +Para ella a revelação subita de que foi causa de grande amargura para +aquella a quem mais estremece, corresponde ao despertar da consciencia e +ao pungir do seu primeiro espinho! + +Usemos na educação dos meios puramente moraes, e não das degradantes +correcções physicas. + +Acordemos por todos os modos imaginaveis o bom senso da creança, e a +impressionabilidade do seu ser moral. + +Que ella conheça sempre o mal e o bem, não pelos inconvenientes ou +vantagens que d'estas duas cousas possam provir, mas pelo que ellas +valem, pelo que significam, pelo rebaixamento que uma inclue em si, e +pela essencia superior de que a outra é feita. + + +III + +N'este delicioso e querido assumpto da educação infantil tudo está dito, +e tudo está ainda por dizer. + +As regras geraes teem forçosamente de ser modificadas na sua applicação +a casos particulares; nenhuma creança existe no mundo que seja +absolutamente egual a outra creança; é ao espirito da mãe que pertence o +gravissimo e delicado encargo de corrigir, ampliar, alterar, restringir +as regras e os preceitos enunciados pelos educadores e pelos moralistas. + +O que é, pois, necessario antes de tudo, é levar as mães a pensarem +profundamente n'estas altas questões, e a estudarem com pertinaz +paciencia o caracter das creanças cujos destinos teem de dirigir. + +Conhecemos uma senhora, aliás muito boa e muito dedicada, que, tendo +cinco filhos, os educa a todos pelo mesmo systema. + +Resultado inevitavel e fatal: + +As creanças são todas deploravelmente educadas. + +Ernesto Legouvé, distincto escriptor francez, que tem consagrado grande +parte da sua vida a notaveis estudos sobre a sorte da mulher, e sobre a +educação da creança, publicou ha mezes um bello livro que d'aqui +recommendo a todas as minhas leitoras. + +Intitula-se--_Nos filles et nos fils_, e contém uma serie de scenas e +estudos de familia, muito proprios para ampliar e esclarecer o coração e +o entendimento das mães em certos momentos criticos da sua difficil +missão. + +Um d'esses trechos, e talvez um dos mais importantes, trata das creanças +e dos criados, da intimidade forçada e muitas vezes perigosa que entre +elles se estabelece, e dos resultados nocivos que d'essas relações +resultam para a educação. + +Legouvé leu este trecho na _Academia Franceza_; por aqui se reconhece a +sua importancia, a maneira superior por que foi tratado. + +Muitas mães desattendem na educação dos seus filhos a questão gravissima +dos criados. + +Deixam que as creanças vivam n'um contacto muito intimo com gente de +tracto grosseiro, de comportamento equivoco, de linguagem eivada de +erros, de conversação baixa e degradante. + +Quantas mães eu não tenho ouvido dizer ás suas filhinhas de quatro, +cinco e oito annos:--_Vae lá para dentro; deixa-me conversar?!_ + +Imaginam ellas que para a creança nenhuma consequencia má póde provir da +sua intimidade com as criadas. + +Enganam-se. + +Antigamente, quando os domesticos faziam, por assim dizer, parte +integrante da familia, nasciam e morriam na casa, não havia perigo em +que as creanças estivessem junto d'elles e com elles tagarellassem e +brincassem. + +O instincto d'essas boas creaturas, afinado na convivencia de pessoas de +educação elevada, fazia-lhes comprehender que as creancinhas eram uns +seres sagrados e queridos, cuja intelligencia se não devia macular nem +de leve, cujos ouvidos tinham de ser escrupulosamente respeitados. + +Hoje, infelizmente, como já o dissemos, esse modo de comprehender a vida +de familia, modificou-se completamente. + +Os nossos criados entram e sahem com uma rapidez e uma facilidade +incrivel; não criam raizes em parte alguma, e este viver de párias no +meio dos que teem lar e alegrias intimas e familia e tecto seu, +desenvolve-lhes contra os amos uma estranha hostilidade. + +Dizem mal por gosto, por necessidade, por um costume de classe. + +Precisam de vingar-se, e vingam-se dos maus e dos bons, sem escrupulo e +sem remorso. + +De cada casa d'onde sahem trazem os segredos, as anecdotas mais intimas, +os incidentes comicos, os acontecimentos grotescos; e contam tudo isto, +uns aos outros, n'uma grande liberdade de palavras, de apreciações e de +commentarios. + +Surprehenderam aqui um drama, alli um ridiculo, conhecem as miserias de +muito interior, os vicios que se fazem pobreza, e a pobreza que se faz +vicio. + +Com o amor do pittoresco e do maravilhoso, que ha sempre na alma do +povo, dão um colorido phantastico aos seus contos, que attrahe por força +a curiosidade da creança. + +Imaginem-se uns ouvidos de cinco, de seis, de oito ou nove annos a +beberem essa deploravel sciencia! + +E não se diga que a creança não entende! + +A creança tem o instincto da curiosidade desenvolvido n'um +extraordinario grau! + +A creança entende quasi tudo, e d'aquillo que não entende guarda a +memoria até á edade em que o mysterio lhe seja naturalmente explicado. + +Não levar nunca para um caminho mau a curiosidade de uma creança, deve +ser um dos maiores cuidados da mãe. + +Mas dir-me-hão: as pessoas crescidas conversam por força em mil +assumptos melindrosos; se realmente as creanças percebem, como evitar +que ouçam? + +É n'isso positivamente que está o mal. + +Na sala de uma senhora que tem filhos e que se compenetra absolutamente +dos seus deveres de mãe, deve haver o maximo escrupulo na escolha das +diversas conversações. + +Assim como ha limpeza nas habitações, porque não haverá limpeza nos +espiritos? + +Não ha tantos assumptos attrahentes de conversação? + +Será absolutamente preciso dizer mal, murmurar, revelar indiscretamente +mysterios alheios? + +Não quer isto dizer que a humanidade se limite a um puritanismo de +palavras, que degenerará por força em hypocrisia; mas entre esse excesso +ridiculo e a liberdade absoluta que se usa diante das creanças, creio +que ha um meio termo que seria facil de adoptar. + +E depois, seja dito com toda a coragem: ou se é mãe no sentido completo +e absoluto d'esta palavra ou se é mulher do mundo. + +Ou nos havemos de consagrar á companhia dos nossos filhos, á sua +educação, ao desenvolvimento gradual das suas delicadas faculdades, á +vigilancia solicita das suas almas e dos seus corpos, ou havemos de dar +aos tenros espiritos de quem somos guias, o deploravel espectaculo das +fraquezas e dos defeitos que tanto lhes desejamos fazer evitar. + + * * * * * + +Na creanca do sexo feminino a tendencia que mais cedo se desenvolve é a +vaidade. + +A pequenita de tres annos já começa a ter orgulho e presumpção no seu +vestidinho bordado, nas suas saias de folhos, no seu chapéu vistoso e +garrido. + +Todos se riem da _gracinha_. + +--Meu anjinho! Como é presumida! Diz a mãe toda enlevada. E gaba-a +muito.--Estás linda! a minha filha é muito bonita. Fica-lhe tão bem este +vestido! + +Mais tarde, d'ahi a quinze annos, quando a creancinha do outro tempo é +um rapariga delambida, arrebicada, cheia de appetites luxuosos, de +ambições extravagantes, sonhando com um noivo _muito rico_ que lhe sacie +todos os seus desejos de riqueza e de pomposa elegancia, quando os +homens serios e honestos olham para ella com desdem, e no seu intimo a +desprezam como uma boneca inutil e frivola, de quem é a culpa, digam-no +sinceramente? + +A culpa é de quem favoreceu, em vez de combater, esse pendor funesto, +tão natural á mulher, e que só á custa de muita reflexão ella consegue +vencer. + +A culpa é da mãe, que teve orgulho dos defeitos da sua filha, em vez de +lidar por transformal-os em virtudes. + +A mulher é vaidosa? Pois bem! se não podemos destruir esse vicio +organico, demos-lhe ao menos um rumo diverso do que elle leva. + +Que, em vez de ter vaidade dos seus trapos e dos seus miseraveis +arrebiques, ella tenha vaidade de ser boa, laboriosa, honesta, instruida +e forte. + +Façamos comprehender bem ao nosso anjinho de tres annos, que é bem mais +difficil e glorioso ser docil do que ter um vestido novo; que é muito +mais digno de louvor saber ler do que trazer um chapéu de plumas. + +Isto não é mais do que indicar o caminho. + +Não ha mãe cujo instincto a não advirta de que estamos fallando verdade. + + * * * * * + +Até a escolha da boneca é uma cousa importante! + +Uma boneca esplendidamente vestida, de chapéu com flores, de luvas e +cabellos d'ouro annellados, inspira um certo assombro, e depois uma +certa inveja. Uma boneca de trapos, estupida, inerte e molle causa +desdem e antipathia. + +Oh! a primeira boneca! que jubilo supremo que ella não deu a todas nós! +Comparavel á alegria da primeira boneca, só a alegria do primeiro filho! + +É a mesma hesitação em lhe tocarmos com medo que ella se _quebre_! o +mesmo susto! a mesma curiosidade! o mesmo enlevo! o mesmo espanto +namorado e feliz! + +A mãe intelligente comprehende e sabe aproveitar isto. + +A boneca é como a aprendizagem da maternidade! + +--Está nua, coitadinha, está nua a tua boneca, Lili. Que frio que ella +deve ter! Que desconforto! Que pena de olhar para ti e de te vêr tão bem +vestida e quente e confortavel. Senta-te aqui ao pé de mim, Lili, vamos +nós fazer o fatinho da tua boneca! + +E como o coração é que sempre domina e guia a mulher, eis o coração +fazendo um milagre n'aquella mulhersinha de oito annos, que deixa de ser +a traquinas, a turbulenta, a ociosa creaturinha, e que principia a +conhecer as delicias do trabalho e os santos prazeres do sacrificio. + +O sacrificio por uma boneca! + +Sim, o sacrificio, e porque não? + +Só quem não é mãe e quem nunca foi creança é que escarnecerá da +expressão que empregamos. + +Pois não sabem que essa primeira boneca, que se recolhe nua nos braços, +e que se veste, que se calça, que se conchega, que se adormece entre +beijos e affagos, é o primeiro sonho de um coração de mãe? + + * * * * * + +As amigas das nossas filhas! + +Grave e momentoso assumpto, não raro descurado e de cujo esquecimento ou +de cujo desleixo resultam ás vezes damnos irremediaveis. + +No collegio é que se travam quasi sempre as primeiras amizades. Ora, nós +para as meninas desadoramos o collegio. + +Por muito bom que elle seja, achamol-o sempre pessimo. + +Quem é que nos responde pela boa escolha de relações que alli adquirem +nossas filhas? + +Quem nos diz que essas creanças todas que alli se reunem, e que entre si +trocam as mais intimas e minuciosas confidencias, só viram bons +exemplos, só conhecem quadros de santa e impeccavel moralidade? + +Pois nenhuma d'ellas trará comsigo aquella funesta curiosidade, que +perdeu a nossa primeira mãe? + +Todas são innocentes, todas ignoram da vida o que ella tem de baixo ou +de corrosivo? + +Quem nos affirma que ellas saberão ser boas e honestas companheiras, que +não lançarão com uma palavra imprudente um germen venenoso, que não +corromperão com precoce perversidade o espirito da creança innocente, +que n'ellas se confiar? + +As amigas das nossas filhas são aquellas de quem logo depois de nós +depende a pureza, a candura, a innocencia d'ellas! + +É de uma grave imprudencia acceitar para uma filha nossa, sem escolha e +sem criterio, a companhia de outra creança. + +Cumpre conhecer bem a mãe, a educação que ella dá aos seus filhos, o +modo porque vivem, o caracter, a moralidade d'essa familia. + +E que as mães, n'este ponto, se não prendam com preoccupações de banal +delicadeza. Primeiro que tudo está o futuro das suas filhas. + +Se a educação de um rapaz é já difficilima, que será a educação de uma +menina? + +Quantos perigos a evitar, quantos obstaculos a temer, quantas +contrariedades em meio do caminho! + +Que a mãe procure ser a melhor amiga de sua filha, e que esta não receie +confiar-lhe nem os seus pequeninos segredos infantis, nem as mysteriosas +comoções da sua alma adolescente. + +N'esta deploravel educação que hoje se dá e se recebe, a primeira cousa +de que os filhos tratam é de enganar os paes. + +De que provém isto? Da mal entendida severidade d'estes. + +A indulgencia para as primeiras travessuras prepara naturalmente a +creança para se confiar sem medo ao coração que a sabe entender e lhe +sabe perdoar. + +Mas é muito delicado este ponto da missão maternal. + +Se o excesso da severidade cria a desconfiança e a mentira, o excesso da +indulgencia cria o cynismo e a desvergonha. + +Que difficil não é para um espirito de mãe saber ao mesmo tempo attrahir +a confiança e impôr o respeito! + +Levar o filho que peccou a confessar a culpa, não por ter a certeza de +que será facilmente perdoado, mas por lhe exigir a consciencia que não +esconda o seu delicto aos olhos d'aquella que sabe com mão delicada e +firme repôr no caminho direito o ente fragil que se transviou. + +No dia em que a mãe tiver alcançado do coração de sua filha ou de seu +filho esta singular conquista de veneração e de amor, póde sentir-se +tranquilla e satisfeita, póde sem medo responder pelo futuro. + + * * * * * + +Para concluirmos este capitulo que, talvez por muito incorrectamente +desenvolvido enfastiasse as leitoras, sem lograr a ventura de as +convencer, damos em seguida o fragmento de uma carta, que por +circumstancias que seria inutil referir, ha pouco tempo chegou ás nossas +mãos. + +Como verão, pertence esse trecho a uma carta que na vespera do seu +casamento foi dirigida á sua filha por uma extremosa mãe. + +Explica muito melhor do que nós o podemos fazer o triumpho de um bom +coração maternal. + +«Não tive animo de te dizer todas estas cousas frente a frente. + +Tive medo de chorar, e tu sabes, meu anjo, que detésto acima de tudo os +enternecimentos intempestivos. + +Depois, teria pejo, eu, tua mãe, eu que julgo ter concorrido pelos +cuidados de toda a vida para o excellente exito da minha obra--quer +dizer, da tua educação--teria pejo de te encher de louvores que embora +justos, recahiriam um pouco sobre mim. + +Sabes que eu nunca te deixei, que por amor de ti renunciei, e de muito +boa vontade, á companhia dos indifferentes e dos frivolos, que só viriam +destruir ou modificar o effeito de todos os meus esforços, tão +santamente abençoados por Deus! + +Com que saudades eu me lembro dos serões de outro tempo, em que tu já +serena, grave e modesta como és hoje, lias ao pé de mim, emquanto os +nossos bons e velhos amigos conversavam em cousas sãs, em cousas +simples, das que não podem ferir os ouvidos de uma menina! + +Não te aconselho que renuncies ao mundo por amor dos anjinhos que virão +de certo abençoar e consagrar o teu casamento; mas peço-te que sejas +escrupulosa como eu sempre fui na escolha d'aquelles que admittires na +sagrada intimidade do teu lar. + +Procurei sempre evitar em ti todos os excessos, mesmo os excessos bons. +Não te quiz beata, nem _espirito forte_; não desejei que fosses uma +metaphysica, nem um entendimento demasiadamente positivo, nem mulher só +de sala, nem mulher exclusivamente do _ménage_. + +O ideal, minha filha, é que de tudo se saiba ser um pouco. + +Gostarei que recebas com graça senhoril na tua saleta de todos os dias, +artistica e confortavel, mas não desejarei menos que saibas ensinar a +tua cozinheira, fazer o rol da tua roupa, concertar o fato de teus +filhos, e economisar sem mesquinhez e gastar sem avareza. + +Não quiz nunca que tivesses outra amiga, e creio ter feito bem. + +Se foi egoismo, Deus não me castigou por elle, porque devi a essa +precaução, por ventura excessiva, ter tido a deliciosa confidencia das +tuas primeiras alegrias e dos teus primeiros sonhos. + +Ámanhã já não serás minha, querido encanto; nem já serão os meus beijos +os unicos que a tua pura testa de vinte annos receberá! Mas n'esta +saudade dilacerante que me punge, quantas compensações supremas eu não +encontro! + +Entrego-te ao teu noivo, tão candida, tão ignorante do mal como deviam +ser todas as creanças da tua edade, que tivessem mãe, que só n'ellas +pensasse e só por ellas vivesse! + +Nunca ouviste pronunciar uma palavra grosseira, nunca ouviste applaudir +um acto injusto, nunca se abaixaram os teus olhos seraphicos a um +espectaculo ignobil. + +Eu fui sempre a tua fiel companheira; e, como as vestaes velavam o fogo +sagrado, velei eu pela tua immaculada innocencia! + +De que ventura se privam as que preferem o mundo aos seus filhos! + +Ignoram as alegrias profundas de ser mãe, como eu fui, como tu serás, +minha joia! + +Não ha na tua alma um pensamento, uma idéa, uma saudade, que eu não +conheça, e se ámanhã quizer folhear diante de teu marido o livro radioso +da tua infancia e da tua adolescencia, não haveria n'elle uma só pagina +que eu lhe não podesse repetir de cór. + +Respondo pelo passado e respondo pelo futuro. Basta-me essa gloria para +me consolar de todas as minhas saudades! + +É bem pezada n'este mundo a cruz das boas mães, mas não te esqueças +nunca, minha filha, que mesmo n'esta hora de tantas lagrimas, eu +confesso bem alto, não ha rosas mais frescas, mais puras e mais +orvalhadas do que as rosas que enfloram e entrelaçam essa cruz! + +Só d'aqui a muitos annos comprehenderás a angustia com que te +digo--_adeus_! + +Então, sei que has de chorar por mim!» + + + + +CAPITULO XVI + +Cartas de um marido + + +Meu caro amigo. + +Onde é que fui desencantal-a? perguntas tu com justificado espanto. + +E tens razão. + +O facto é que nunca a vi, valsando n'um baile á luz quente e abafadiça +do gaz, decotada, cheia de pó de arroz e de suor, abandonando-se n'uma +postura voluptuosa, nos braços de um sujeito esgrouviado, de casaca, +collarinhos de papelão, e olhar que tenta ser magnetisador e +irresistivel, e que depois de tamanhos esforços não consegue ser senão +comico. + +Nunca a encontrei cantando n'um concerto duetos apaixonados em beneficio +dos meninos pobres, vendendo n'um bazar sorrisos de dançarina e +_bibelots_ de fancaria em beneficio dos velhinhos aleijados, +representando n'um sarau dramatico, comediazinhas maliciosas em +beneficio dos adultos cegos. + +Frequentando os theatros de segunda ordem, onde os palhaços e as +_cocottes_ de Offenbach, e dos modernissimos _maestrinos_ da decadencia +se desengonsam em scena, fazendo gestos desmanchados e sublinhando com +sorrisos torpes as suas cantilenas de _café-concerto_, debalde a +procurei pelas frisas, e pelos camarotes, applaudindo as farçadas +impuras, e dando gargalhadas que attrahissem a attenção e os maliciosos +commentarios da platéa. + +Nas noites de verão, no Passeio Publico, quando ha musica, fogo de +artificio, muito calor e muito aperto, e as meninas burguezas que ainda +não podem gozar da _villeggiatura_ elegante, passeiam com _toilettes_ +claras, na plena expansão da _flirtation_ lisbonense, confesso que +muitas vezes atravessei a multidão, pisado, empurrado, offegante, sem +respeito pelas caudas de seda, de _foulard_, de linho transparente, que +para alli vão desfructar o prazer de se encherem de poeira e de rasgões, +e que debalde procurava reconhecel-a em cada vulto feminino, esbelto, +gracioso, que passava pisando a areia das ruas, com o tacão alto das +estreitas botinas de pellica. + +Até comecei a frequentar S. Luiz, a igreja da devoção fidalga, do +arrependimento perfumado de _poudre d'iris_, do mais alto, do mais +distincto e do mais desdenhoso beaterio... + +Vi todas as nossas flores da _alta vida_, trajando com discrição +finamente aristocratica, revelando a elegancia que as distingue, no modo +de se ajoelharem, de se persignarem devotamente, de erguerem os olhos +com extasi piedoso, para a imagem alabastrina da Virgem, que parece +erguer-se como um lyrio desabrochado, d'entre as verduras e as brancas +florescencias que a cercam de todos os lados. + +Vi-as descalçarem, das suas estreitas luvas de cinco botões, as mãos +esguias, avelludadas, feitas da alvura dos marfins; vi-as curvarem-se +até ao chão, humilhadas, contritas, mas sempre correctas; lerem uma +oração privilegiada, em cada um dos quatro ou seis grossos volumes +devotos que trazem comsigo, beijarem com felina graça as mãos +rechonchudas e macias dos louros abbades francezes, disputarem entre si +com delicadeza, não inteiramente isenta de colera, a sua vez de +confissionario, e de confidencias adocicadas e asceticas; mas nenhuma +d'essas encantadoras filhas de Eva, com os seus gestos miudos, os seus +movimentos ondeantes de serpente, as multiplas seducções da sua +artificial formosura, me deu a idéa boa, sã, carinhosa, como um affago +de mãe, que eu tivera vendo-a, a ella. + +Escuso de accrescentar que _ella_ não se encontrava entre essas todas. + +Um dia porém,--que bom dia aquelle!--tornei a vel-a em casa de uma amiga +de minha mãe. + +Não me pareceu bella, pareceu-me boa, mas de uma bondade em que a +belleza não deixava de entrar, embora como elemento secundario. + +Estava com as suas amigas em volta de uma grande mesa de serão. Largára +um pequeno trabalho da agulha, e começara a lêr alto a pedido de todas +as companheiras. + +Lia um livro de Michelet, _L'insecte_. + +Tinha a voz grave, sonora, musical, como eu sempre imaginei que havia de +ser; a luz coada pelo globo fosco do alto candieiro, banhava de vagos +tons dourados o seu cabello simplesmente penteado, torcido n'um grosso +rolo luminoso sobre a nuca torneada e forte. + +Não me lembro bem de como estava vestida, signal de que era tão +despretencioso o seu trajo que não prendia nem demorava a attenção. +Havia de ser por força bastante distincto para lhe não alterar a graça; +bastante singelo para não dar um aspecto de artificio á sua natural e +casta formosura. + +Emquanto a ouvia ler, parecia-me comprehender melhor aquella grande alma +luminosa do velho Michelet. + +E sentia em mim a vivificante sympathia da natureza, o amor dos +pequeninos, a ternura comprehensiva para tudo que vive, que sente, que +palpita na enorme Creação. + +Quando acabou de ler, fechou o livro, e naturalmente, sem languidez, sem +cansaço, pegou de novo no trabalho, e recomeçou a bordar. + +Aproveitei o ensejo e sentei-me n'uma cadeira vaga ao seu lado. + +Conversámos muito. Em muita cousa, em quasi tudo. + +Era um gosto ver de perto a luz tranquilla e doce d'aquelle olhar azul +escuro, reflectido, serio, innocente. + +Não baixava os olhos deixando transparecer nas faces rubor intempestivo; +tinha um modo seu de olhar, franco, sincero, de uma limpidez de lago +suisso em que se reflectisse o largo céu da primavera. + +De vez em quando ria-se. + +Que musica crystallina a do seu riso! + +Uma das vezes lembra-me, que seguindo o falso pendor da nossa detestavel +educação de sala, fui sentimental, sem dar por isso, de uma +_sentimentalidade_ piegas, da que produz sempre um certo effeito no +espirito das meninas que _valsam_. + +Levantou subitamente a cabeça, como se ficasse um tanto surprehendida, +como se tivesse agourado melhor de mim, á primeira vista. + +Depois, não sei o quê, provavelmente a expressão alambicada da minha +cara, desafiou-lhe a vontade de rir, uma vontade de rir irresistivel! + +Coitadinha! Que bem educada que ella é! + +Suffocou aquella boa hilaridade tão espontanea! Disfarçou perfeitamente +o effeito comico que eu lhe produzira, isto com uma graça, tão cheia de +infantilidade! + +Castigou-me melhor assim, do que outra qualquer fingindo um enleio +theatral. + +D'alli a nada, a dona da casa, uma senhora de aspecto muito distincto e +muito bondoso, veio pedir-lhe com grande empenho que fosse para o piano. + +Levantou-se docilmente, e tocou e cantou emquanto quizeram ouvil-a! + +Era a simplicidade, a graça, a mais delicada intuição artistica, isto +acompanhando uma vocação musical deveras notabilissima. + +Nem uma só d'aquellas languidas arias italianas, de um sentimentalismo +tão dissolvente e que parecem banhar a alma que as escuta n'um tepido +banho de caricias molles! + +Musicas graves e de uma austera melancolia como as dos mestres allemães; +ou musicas graciosas, ligeiras, scintillantes, inoculando no espirito +uma sensação de frescura matutina, de robusta alegria, levando-nos atraz +das suas notas de crystal, pelas pradarias illuminadas da luz das +alvoradas estivas, onde os melros maliciosos assobiam, saltando de ramo +em ramo! + +Quando sahi d'alli, d'aquella casa hospitaleira, em que o espirito +parecia dilatar-se affectuosamente, pensei de mim para mim que ella +havia de ser minha mulher! + +..................................................................... + +...Sabes uma cousa? Temos um filho! Estas palavras a ti não te dizem +nada, a mim banham-me o coração n'uma alegria que em lingua humana se +não póde exprimir. + +A deliciosa canção da minha felicidade, canto-a eu em beijos chilreados, +no corpinho roliço e avelludado, no corpinho de leite do meu primeiro +pequenino! + +Vivemos em um bairro pouco central, em uma rua muito socegada, onde +passam pouquissimos trens, e onde se não ouve o pregoar rouquenho dos +vendilhões ambulantes. + +O nosso orçamento é de uma exiguidade que faz rir, mas não sei porque +minha mulher tem a habilidade de fazer render da maneira mais milagrosa +os nossos modestissimos haveres. + +Creio que se ámanhã me visse rico, não podia ser tão feliz. + +Se eu fosse rico, havia de ter criados, não é verdade? Criados graves, +solemnes, de olhar sonso, que vivessem da minha vida, que maculassem com +a sua ironia baixa as santas expansões do meu affecto de marido e de +pae, que invejassem a minha felicidade, que calumniassem as minhas +intenções, os meus actos, a minha vida toda! + +Ao jantar um ou dous d'aquelles figurões altos, espadaudos, ociosos, +vestidos de preto, haviam de espreitar com olhar guloso cada bocado que +eu mettesse na bôca; teria um cozinheiro gordo, de barrete branco, que +me fizesse molhos indigestos, uma criadinha de quarto buliçosa, e +petulante que se risse do _burguezismo_ pacato dos meus habitos. + +Viveria escravo, preso nas malhas de ouro, d'esta grande rede que se +chama a riqueza. + +Receberia muitas visitas, muita gente indifferente ou hostil, que viesse +para me bajular, e que se fosse embora para me morder traiçoeiramente +pelas costas. + +Uma governante ingleza empavezada, grotesca, um pouco pedante, cortaria +na sua flôr, na querida alma transparente do meu pequeno anjo, os +carinhos, as expansões innocentes, os risos inextinguiveis e sem causa, +tudo que é hoje a nossa alegria! + +E depois, habituado ao luxo não sentiria o conchego! Satisfeitos até á +saciedade todos os desejos, não teria nunca a boa, a vivificante +sensação do obstaculo vencido! + +E o socego depois do trabalho! E as alegrias da posse, quando o objecto +longo tempo cubiçado, para alcançar o qual se fizeram tantas economias, +se supportaram tantas privaçõesinhas, nos apparece emfim em todo o +prestigioso brilho do impossivel, que de repente se deixa conquistar! + +Ai! as minhas alegrias de pobre, que saudades que eu terei d'ellas mais +tarde! + +Mas, meu querido A., não comeces tu agora a lamentar-me imaginando-me +novo monge entregue ás austeridades da penitencia voluntariamente +acceita! + +Não te disse eu que uma boa mulher que nos ame, e que nos saiba amar, é +um thesouro inestimavel, que o homem desdenha, e que por isso, se tem +feito tão raro? + +A minha casa não tem estofos de seda, não tem custosos moveis de +carvalho entalhado, não tem frageis porcellanas de Saxe, de Sevres ou do +Japão, não tem tapetes turcos, nem artisticos Gobelinos. + +Mas olha que nem sempre o luxo é o conforto, nem sempre a opulencia é a +graça, nem sempre as cousas caras são as cousas elegantes! + +A nossa pequenina casa, toda forrada de papel claro, com as suas +cadeiras de _cretonne_, as suas cortinas muito brancas, e vasos de +plantas em pequenas estantes de madeira, e jarras de flôres na mesa de +jantar, com a luz clara e festiva do sol, a illuminal-a toda, com o +aceio escrupuloso que é o luxo dos pobres, com a tranquilidade doce e +recolhida, que é a poesia dos que se amam e na qual põe a espaços a nota +clara e festiva o riso do nosso filhinho, a nossa casa é como que a +deliciosa encardenação do poema do nosso amor! + +Todas as senhoras que eu conheço sahem muito; os maridos voltam á noite +exangues das enfadonhas labutações do dia, com o espirito abatido, com o +corpo cansado e no entanto teem de seguil-as ao baile, ao theatro, a +casa das amigas, de figurarem de comparsas na fastidiosa comedia social, +de se mostrarem debaixo de um aspecto desfavoravel, de realizarem emfim +á risca o lendario typo que o _romantismo_ amarrou ao pelourinho do +ridiculo, o _marido_ macambuzio, o _marido_ desengraçado, o _marido_ sem +espirito, em quanto á roda, fresco, malicioso, cheio de ditos e +anecdotas, com uma rosa na abotoadura, borboleteia o _galan_ que povôa +de perigosas seducções a fantasia de todas as pobres mulheres frageis! + +Minha mulher á noite sahe raras vezes, de modo que eu durante o dia, na +atmosphera pesada e asphyxiante do escriptorio, estou sem querer a +scismar no conforto que me espera quando eu voltar. + +O jantarinho quente, saboroso, cozinhado pela nossa velha Anna, debaixo +da direcção da minha querida Maria, a toalha muito branca, um ramo de +lilazes no centro, as fructeiras de vidro com as suas pyramides de +fructas, sahindo do ninho fresco e avelludado das folhas verdes, os +talheres muito bem limpos, um grande conchêgo na atmosphera, e em tudo +visiveis o gosto _d'ella_, os cuidados _d'ella_, o affecto _d'ella_ +manifestando-se no bem-estar que me envolve e me acaricia! + +Depois, á noite, o gabinete com a mesa redonda no centro, o candieiro de +Carcel de luz clara e discreta, a poltrona de marroquim, com os grandes +braços abertos que me convidam, os jornaes do dia, a ultima _Revista_, +um romance novo, e a minha querida mulhersinha, com um vestido que lhe +fica muito bem e que andou ella propria a fazer ás minhas escondidas--a +ladina!--como se eu não tivesse olhos perspicazes que vêem de longe! com +os seus longos cabellos louros penteados d'aquelle modo simples e +puramente artistico, que faz da cabeça de cada estatua grega uma cabeça +encantadora, e sobretudo com o seu sorriso bom, o seu olhar affectuoso e +honesto, a sua voz consoladora que é uma musica, a melhor das musicas +para o meu coração! + +Para além do reposteiro entre-aberto, vê-se a alcova, o berço de +cortinados brancos, e á luz branda da lamparina, sobre uma cadeira, um +vestidinho claro, uns pequenos sapatos, umas meiazinhas de côr, umas +cousas para que ninguem repara, e que a mim me fazem ás vezes chorar. + +Tenho já perguntado a mim mesmo, que differença existe entre mim e os +outros homens, porque é que elles andam pelo gremio, pelos cafés, pelos +theatros, alguns pelas salas, e porque estou eu tanto em casa, finda que +seja a minha tarefa diaria? + +Serei melhor do que os outros maridos? + +Não; ella é que é melhor do que as outras mulheres. + +A felicidade de que eu gozo devo-a á sua comprehensão tão santa dos +deveres, e ao meu egoismo todo masculino. + +Vou para onde me chama maior somma de alegrias e de confortos que posso +conhecer n'este mundo. + +Não ha n'isto merito nem dedicação dignos de louvor. + +Se á noite a nossa pequena sala se enchesse das amigas de minha mulher, +palradeiras, frivolas, pueris, a discutirem banalidades, é provavel que +eu fugisse para qualquer outra parte. + +Se quando chegasse a casa, a visse prompta para sahir, á minha espera +para me fazer envergar uma terrivel casaca muito hostil, que me acenasse +de longe com as suas azas de gafanhoto, se ella me apparecesse toda +occupada de si, da sua _toilette_, dos triumphos que ia ter, e +esquecendo completamente as exigencias mais prosaicas, do meu +temperamento de homem, da minha vida de trabalhador, com certeza que me +chegaria a minha hora de revolta, que o trabalho deixaria de ser o meio +de que eu me servisse para alcançar o bem estar dos meus, e que se +tornaria simplesmente uma tarefa exercida sem alma, sem alento interior, +só para que o mundo me não alcunhasse de ocioso e de zangão da grande +colmêa social. + +Dos defeitos d'ella proviriam todos os meus defeitos, dos seus +esquecimentos, todas as minhas faltas. + +Já vês quanto ganhei casando-me com esta querida e nobre creatura. + +Se me perguntares o que ella sabe, dir-te-hei que sabe tudo, e que a +sciencia toda lhe provém de uma só fonte--o coração. + +Comprehende Shakespeare e faz deliciosamente uma _omellete_, toca com o +sentimento mais fino e mais ideal, uma phantasia de Beethoven, e +inventou um systema engenhoso e abreviado de fazer o rol da lavadeira; +adora as flores, os versos, as creanças, os livros, tudo que é bello, +tudo que é bom na natureza, e de manhã, com a sua touquinha de cambraia +branca, o seu avental de merino, um _espanador_ de pennas na mão, pondo +os moveis em harmonia, tocando em todas as cousas, imprimindo em tudo o +cunho da symetria e da ordem, atarefada, sem distracção, sem enfado, +parece uma _spinster_ ingleza atacada da monomania do arranjo. + +A brincar com o filho, na rua areada do nosso pequeno jardim, dir-se-hia +a sua irmã mais velha; na hora da atribulação, na hora difficil em que +de um bom conselho depende ás vezes a dignidade de um homem, lembra um +espirito austero, cheio de altivas aspirações estoicas. + +O contacto d'ella faz bons os que são maus, faz robustos os que são +fracos! + +São estas as mulheres que salvam a honra e a felicidade dos maridos. + +Queres um conselho? Procura no mundo outra Maria como é a minha e +casa-te. + + + + +CAPITULO XVII + +Confidencias maternaes + + +Minha querida amiga. + +Ha quasi quatro mezes que te não escrevo, e supponho que não estarás por +isso mal comigo. + +Não sei bem dizer-te como se passam os meus dias, e quando ás onze horas +da noite adormeço, um poucochinho fatigada e deixando sempre para o dia +seguinte parte da tarefa d'aquelle dia, metto a mão na consciencia e +sinto que não commetti o delicto de desperdiçar um só instante. + +E talvez que no fim de contas assim não seja. + +Ouve-me tu, e julga. + +Fez hontem um anno o meu querido _baby_. + +É louro, é rosado, tem uma cabelleira revolta e crespa que lembra uma +aureola de anjo, ou uma juba de leão pequenino, tem um corpo roliço, +mimoso, redondinho que parece feito por uma fada muito habilidosa no seu +torno de marfim. + +Começa a andar, e os passos d'elle, desastrados e timidos enchem-me a +alma de um susto, de uma inquietação, de uma delicia, de um _não sei +quê_ profundamente novo na minha vida e que eu não encontro palavras que +exprimam bem! + +Até aqui parecia-me que _elle_ era _eu_, que fazia parte de mim, que nós +ambos formavamos um todo. + +Agora percebo e com uma surpreza que ás vezes chega a ser dolorosa! que +me enganara, e que cada um d'aquelles passinhos hoje tão miudos e tão +vacillantes, ámanhã apressados e firmes, o irá afastando de mim na vida, +se eu o não souber seguir, fazendo-me como elle pequena, como elle +infantil, penetrando intimamente na sua alma e ao mesmo tempo +compenetrando-me bem de todas as doces claridades matutinas que ha +dentro d'aquelle espirito que vae desabrochar. + +Não comprehendes bem esta iniciação lenta, que no momento em que o corpo +da mãe e o corpo do filho deixam de ser um só, faz uma só das duas almas +de ambos? + +Visto que elle já não póde ser _eu_, é preciso que eu seja _elle_; só +assim lhe poderei ir inoculando na alma e no entendimento, tudo que no +meu entendimento e na minha alma houver de bom; só assim me poderei ir +lentamente transformando sob a influencia regeneradora e purificante +d'aquella immaculada innocencia! + +Oh! divina transmissão mutua de virtudes e de forças, que constitue o +laço moral e inquebrantavel que une a mãe ao filho das suas doloridas +entranhas! + +Por ora nada tenho que ensinar ao meu louro _bébé_. + +Tenho só de escutar o que diz no silencio, aquella pequenina alma em +embryão, e de aprender a ler n'aquelle mysterioso livro que é +indecifravel para todos e que é tão eloquente para mim. + +Bébé tem uns grandes olhos; uns dizem que são azues, outros dizem que +não. Por ora não tem côr; ou para melhor dizer ha na sua limpidez de +crystal todos os cambiantes e todos os reflexos. Os olhos de Bébé são +como a alma d'elle, teem a doçura do leite que bebe, teem a suavidade +dos beijos com que o visto noite e dia. + +Scisma ás vezes vagamente... longamente... Em que? Não ha ninguem que o +saiba dizer, visto que um coração de mãe o não adivinha. Scisma no céu +d'onde veio? Talvez. Ha mysterios de luz na alma profunda das creanças. + +Gosta da claridade dos dias limpidos, das arvores, das côres vivas, e +tambem da opalina tristeza do luar. Gosta dos sons, dos risos, das +caricias, é uma alma que vive em pleno azul. + +Nenhuma sombra n'aquella tela transparente onde a mão de sua mãe vae +escrever as primeiras palavras. + +Muita gente imagina que ser mãe custa apenas as dôres dilacerantes de +algumas horas, os incommodos mais ou menos crueis d'um certo periodo, e +depois os cuidados de doze ou treze mezes. + +Quem pensa assim não sabe o que é ser mãe! + +Pois tu não ouviste que elle espera, e que a primeira palavra definida e +clara que ha de vibrar na sua alma, sou eu que hei de dizel-a, é a minha +mão tremula, fraca e inexperiente que ha de tornar-se firme para a +gravar indelevelmente? + +E se a voz esmorecer? E se a mão vacillar? + +Quem me disse a mim que acertarei? quem me deu forças para encaminhar um +sêr que só de mim ha de receber na terra o santo e a senha? + +E depois quando o vejo tão lindo, querendo já esboçar o primeiro +capricho, querendo experimentar a primeira vontade, querendo vencer o +primeiro obstaculo, pergunto a mim mesma se terei valor sufficiente para +lhe fazer perceber que a vida é uma lucta, para se tanto fôr preciso, +ser eu propria que lucte com elle, e que o ensine a ser vencido! + +De quantas coragens mais que viris precisa de compor-se a fraqueza +maternal! + +..................................................................... + +Mas nenhum d'estes vagos pensamentos que eu deixo aqui tão mal expressos +te diz quaes são as occupações em que levo os meus dias! + +Meu Deus! e olha que acordo cedo! + +Ainda bem a cotovia não deixa ouvir a sua alegre voz matinal, ainda bem +o gallo não atrôa os campos com o seu grito estridulo de combate, que é +um convite impetuoso para o trabalho, já a voz do meu filho me acorda +tambem a mim. + +Que penna póde contar as delicias d'aquelle despertar! Os risos, as +negaças, os beijos, e o modo malicioso com que elle deitado nos meus +braços e depois de fartar as exigencias do pequenino estomago, larga o +seio para me sorrir com os beicinhos tintos de leite, e torna de novo a +pegar-lhe para saborear voluptuosamente, lentamente o que já não tem +vontade de engulir com a avidez deliciosamente glutona da infancia. + +Vem depois o banho, o banho que é um poema! + +Está alli a grande bacia de agua tepida, e emquanto o dispo, elle salta +e ri, e deita-se para traz e namora a transparencia da agua, até ao +instante em que mergulha emfim entre risadas de crystal que me echoam no +coração. + +Tu sabes lá os cuidados, as manhas, as idéas engenhosas que é necessario +pôr em pratica para illudir a impaciencia d'estes seres adoraveis! O +banho dura meia hora, e acabo d'alli encharcada, despenteada, cançada, +triumphante. + +É uma victoria de todos os dias. + +O resto do dia pertence-lhe a elle quasi exclusivamente. + +É um tyranno o meu _bébé_. + +Tenho de o passear, de lhe dar de comer, porque é preciso que saibas que +o doutor vendo que elle já tem oito dentes--carnivora creatura!--me deu +licença emfim para lhe dar tres vezes ao dia a sua competente papinha, +tenho sobretudo de o entreter porque a imaginação infantil que desperta +tem exigencias de que tu não podes fazer idéa! + +É _spleenetico_ como um velho _lord_ o meu seraphim de palmo e meio de +altura. + +Dá-se-lhe um brinquedo agora, recebe-o com uma apparencia de enthusiasmo +que illude os inexperientes; d'alli a um instante põe-n'o de parte +desdenhoso, enfastiado, insaciavel... + +Quer ver sempre cousas novas, quer que o emballem, e lhe cantem e o +levantem ao ar e o façam rir. + +Por'ora trata-se simplesmente de enganar aquella actividade graciosa e +irrequieta, mas quando chegar o momento de a applicar? + +Sabes uma cousa? sou felicissima e tenho muito mêdo... + +..................................................................... +..................................................................... + +_Quatro annos depois._ + +..................................................................... + +Cinco annos! Sabes lá! Um homem, positivamente um homem! + +É mau. + +Deixa lá dizer que são boas as creanças. Olha que é uma perfeita +illusão, minha querida. + +Que bem se conhece n'elle já, o bravio animal que todos nós somos! + +_Bébé_ é um monstro! + +No outro dia levei-o commigo a casa d'uma senhora minha amiga. Pois +imagina que elle matou com a sua espada de pau, a boneca de pellica e +semeas de Julia, uma pequenita de 3 annos, a filha mais nova da dona da +casa! + +E como ella chorasse muito humilde, muito medrosa diante d'aquella sanha +terrivel, chegou a ameaçal-a--o desgraçado!--com a mesma espada de pau +que já fizera tamanhos maleficios. + +Chorei de pena de o ver tão mau, tão irascivel, tão colerico, e elle o +leão pequenino, ajoelhou-se com as mãosinhas postas aos meus pés, e +gago, cheio de lagrimas, com os grandes olhos espavoridos, +disse-me--perdão mamã! + +Ó Magdalena, imagina tu a força de que eu precisei para o não devorar de +beijos! Pois não o fiz! + +Mostrei-lhe uma cara seria, magoada, cheia de consternação e não o +abracei em todo o dia. + +Ha de ser colerico, já vês. + +Quem me ensinará a mim a corrigil-o? + +Já sei o que me respondes.--Faze queixa ao pae. O pae que lhe ralhe. + +Deus me defenda de tal. + +Em primeiro lugar o medo não corrige, humilha; não modifica, rebaixa. +Depois eu não quero recorrer a ninguem para influenciar a alma de meu +filho. + +O pae ha de intervir sim senhor, porém mais tarde. Por'ora é elle meu, +só meu. + +Toda a creança tem defeitos, e ai d'aquella que os não tem! Arrenego das +_creanças-modêlos_. Transformar esses defeitos--que são indicios +caracteristicos do temperamento da organisação, de qualidades muitas +vezes herdadas--em forças activas e fecundas, eis o grande problema da +educação. + +E talvez tu cuides, minha pobre amiga, que as _gracinhas_ de _bébé_ +ficam por aqui? + +Pois ainda ha mais? exclamas tu assustada. + +Sim, ha muito mais. Ha cousas que eu com a ajuda de Deus tenciono +aproveitar e dirigir para o futuro bem d'elle. + +Bébé roubou!... imagina! + +No outro dia desappareceram-me de cima de uma _etagére_ da saleta umas +bugigangas de marfim que me tinham trazido de Macau; adivinha onde fui +dar com ellas? + +No seu quarto dos _bonitos_. + +Não estavam escondidas, valha a verdade! estavam impudicamente +espalhadas ao sol, com uma ostentação de cynismo deveras aterradora. + +Não posso explicar bem o trabalho que tive para, sem polluir aquella +innocencia sagrada, lhe explicar que n'este mundo ha _meu_ e _teu_, e +que a propriedade é um direito inviolavel. + +Como não ha nada mais difficil--para não dizer impossivel--do que +introduzir uma idéa abstracta na cabeça d'uma creança, não imaginas de +quantos artificios e quantas manhas me valí. + +Cheguei a _roubar-lhe_ tambem eu propria, parte dos seus _bonitos_. + +Então é que era vel-o, sem se atrever a condemnar-me, e no entanto +sentindo revoltados, lá dentro da sua alminha de cinco annos, todos os +instinctos de justiça que sempre mais tarde ou mais cêdo alli tinham de +manifestar-se. + +--Tiveste muito pena de te tirarem os teus bonitos? + +--Tive muita sim, mamã, respondeu todo sobresaltado e ainda mal +restabelecido do susto. + +--Ora ainda bem! O _bébé_ agora nunca mais tira nada a ninguem, ouviu? + +--Ah! sim, e ficou-se instantes como que seguindo um trabalho que sem +elle mesmo querer se lhe ia fazendo lá dentro. Ah! sim, é muito feio +tirar ás pessoas o que ellas teem. Bébé nunca mais tira... + +No outro dia a Guilhermina, a minha velha aia que tu conheces +perfeitamente, dizia-me consternadissima: + +--Ninguem faz idéa de como o menino é mentiroso. Inventa cousas que é de +fazer tremer uma pessoa. + +De feito, não ha nada mais prodigioso do que a phantasia de bébé. + +Conta os factos mais extraordinarios que nunca se deram, como se tivesse +assistido a elles. Da mais pequenina cousa deduz uma longa historia +falsa. Umas vezes encontrou na rua um homem muito feio que o quiz levar +comsigo; outras vezes mordeu-lhe um bicho, que elle parece ter visto e +que descreve com as côres mais vivas. Quando está um pedaço longe de mim +vem narrar-me assombrosos acontecimentos que se deram com elle, do mesmo +modo quando me deixa instantes, conta á Guilhermina uma infinidade de +pormenores que só existiram na sua imaginação. + +Como é que eu hei de conseguir subordinar a um principio de exactidão e +de verdade aquelle espirito iriado e phantastico, para o qual todas as +cousas tomam uma fórma differente da realidade? + +Crear uma alma! que missão difficil, que missão esmagadora. + +No fim de contas as forças da natureza não são boas nem más; da +applicação d'ellas é que tudo depende. + +Do meu anjinho, impetuoso cheio de ambições, de curiosidades, de +irrequieta alegria, de cubiças intuitivas, de energia vital, póde uma +direcção boa fazer um caracter nobre, viril, pertinaz, capaz de todas as +luctas, prompto para todos os combates, investigador, inventivo, cheio +das beneficas curiosidades do bem, e das ambições generosas que levantam +e enobrecem. + +E pensar, meu Deus, que mal dirigidas, todas estas qualidades, todas +estas forças, todas estas manifestações de vida intensa, podem leval-o á +perdição, á infamia, ao crime!.. + +Oh! meu Deus, dae-me vida e entendimento para que só eu amolde e +affeiçôe a querida alma de meu filho! + +..................................................................... +..................................................................... + +O Luiz faz hoje o seu primeiro exame no Lyceu; já se não chama _bébé_, +já não tem aquelles annellados cabellos de ouro que eram o meu orgulho e +as minhas unicas joias, os seus bellos olhos escuros já não tem a doçura +pensativa, o pasmo encantador da alma que se busca e que se ignora; usa +jaquetinha e calças, e hontem dei a uma vizinha pobre uma blusa que era +d'elle, a sua ultima blusa de ha dous annos. + +Que tolice! Sabes que lh'a dei a chorar? + +O meu Luiz é quasi um homem. + +É bom, é meigo, é d'uma deliciosa innocencia, de uma expansão de vida +que assombra! + +Não é meditativo, nem poeta; nada d'isso. É d'uma alegria impetuosa; +d'uma actividade sem limites. + +Gosta de estudar para me satisfazer a mim, mas tenho a certeza que gosta +de brincar para se satisfazer a si. + +Não sabe muito; ao pé dos nossos _sabichõesinhos_ em miniatura, creio +mesmo que passará por um ignorante; mas a verdade é que está apto e +preparado para aprender tudo. + +Suppõe tu um lavrador que fizesse as suas sementeiras antes de preparar +a terra com os convenientes adubos, e aqui tens parte dos educadores de +hoje. + +No meu filho--perdôa-me este santo orgulho--nenhuma qualidade foi +atrophiada, todas estão no pleno desenvolvimento que lhe é proprio, +n'aquella florescencia opulenta no fim da qual já se antevê sazonado e +saboroso o promettido fructo. + +Tem o corpo d'um pequeno atleta. Capaz de resistir ás longas viagens, +aos estudos complicados da sciencia moderna, aos trabalhos complexos do +luctador d'este seculo estranho e poderoso. + +Até os seus recreios e distracções foram dirigidos com desvelo. + +Desenvolvem-lhe o corpo dia a dia, a natação, a gymnastica, a equitação, +todos os exercicios physicos que tendem a duplicar e desenvolver o vigor +natural do homem, a creal-o mesmo se elle originariamente não existe. + +Vivemos muito no campo, durante a sua risonha infancia. O amor e o +conhecimento intimo da natureza, das plantas e dos bichos, das cousas +inanimadas e das cousas mudas, o espectaculo grandioso ou suave dos +campos e das montanhas, dos tempestuosos mares, ou das placidas e fartas +lezirias, entra como um elemento fortalecedor, vivificante, cheio de +ensinamentos praticos na educação das creanças. Nunca uma arvore ensinou +uma acção má; nunca uma flôr ou um ninho de aves crearam um pensamento +abjecto. + +Não poz nunca o pé n'um collegio. Não conhece nem as alegrias nem as +lastimas d'essa intimidade que tem decididamente mais resultados +funestos do que vantagens conhecidas. + +Aprendi quanto me foi possivel, não para lhe ensinar, mas para estudar +com elle, e comprehender antes d'elle o que era preciso que elle +comprehendesse. + +Diante dos seus bellos olhos limpidos e curiosos não consenti nunca que +passassem os abjectos quadros que polluem tanta imaginação infantil. + +Não me cancei inutilmente a prégar-lhe sermões de moralidade abstracta; +pratiquei o bem para que elle o praticasse; em minha casa só tem visto +exemplos dignos. + +Mais tarde, quando os maus, rindo lugubremente, lhe disserem que o bem +não existe, elle não acreditará n'essa blasphemia porque pensará em mim! + +Não é ainda um homem, mas promette vir a sel-o! + +Está quasi cumprida a minha tarefa. + +Hoje quando elle voltar contente de haver sido premiado--porque estou +certa de que o será--acceitarei ainda os seus beijos como uma +recompensa. + +D'aqui ávante é a seu pae que pertence a direcção suprema d'aquelle +espirito que desabrocha para todas as altas curiosidades da vida. + +Choro porque as mães são fracas, Magdalena, mas para que choro eu? + +Já nada, nada na terra nem mesmo a minha morte nos póde separar. + +Todas as virtudes que elle tiver, serão simplesmente o fructo das flores +que eu tenho cuidado com tanto amor, assim como essas flores veem dos +germens que eu semeei cheia de susto, de delicias, de ambições, de louco +anceio! + +Fui eu que o conduzi pela mão, ao mesmo tempo tremula e confiante, até +ao limiar da sua pura adolescencia. + +Sinto orgulho é verdade, mas tambem sinto saudades! + +Saudades do tempo em que o embalava nos meus braços, em que elle só de +mim vivia, como eu vivia só para elle. + +Foram as minhas alegrias mais superiores e mais completas. + +D'ora ávante é preciso que elle se emancipe um pouco da minha tutella +extremosa, que elle se vá robustecendo ao contacto rude dos homens e das +cousas. + +Fui eu que o formei. Sinto que pertencerá ao numero dos fortes, e que +não succumbirá na lucta da vida... + +..................................................................... +..................................................................... +..................................................................... + +Como estou velha, minha querida amiga de outros dias! + +Lembrei-me tanto de ti, hoje, na igreja onde fui assistir ao casamento +do meu Luiz! + +Tem 24 annos, realisou as doces promessas que eu sonhara e sahiu hoje de +casa de seus paes para outra casa que vae ser d'elle. + +Tu não sabes a nuvem de tristeza que obumbra a minha alma, não sabes +como todos os egoismos humanos se revoltam em mim, e ameaçam fazer-me +naufragar na sua formidavel tempestade! + +Oh! deixa-me desabafar comtigo! + +Quem é que ainda revelou ao mundo o martyrio que crucifica as mães! + +Foi para outra que eu andei formando aquelle divino thesouro com todas +as riquezas que pude juntar dentro da minha alma! + +Tantas noites que velei a pensar, a estudar, a pedir á voz intima da +consciencia que esclarecesse e fortalecesse e guiasse o meu fragil +coração de mulher! + +Tantos annos de abnegação profunda, de abnegação sem nome, de todas as +horas, de todos os instantes, esquecida de tudo que não fosse aquella +alma pequenina que andava a crear e a robustecer. + +N'esse empenho me fugiu a mocidade. Por elle, pelo meu adorado ingrato +me esqueci de tudo que fôra meu! + +E hoje elle partiu; partiu risonho, triumphante, orgulhoso como um rei, +sem se lembrar que onde vira até alli sua mãe, deixava uma triste +condemnada!... + +E ha quem falle por ahi em ciumes romanescos, em ciumes ephemeros, em +ciumes d'um instante! Qual ciume poderá comparar-se a este que me está +dilacerando o peito? + +Oh! Luiz! oh! meu amor! oh! minha solidão!... + +..................................................................... +..................................................................... + +Na ultima vez que te escrevi estava louca, minha velha amiga. + +Nunca está só quem ama, e espera, e crê em Deus, e semeou o bem no seu +caminho. + +Veio lembrar-me tudo isso n'essa hora de amarga revolta que passou, o +querido companheiro de toda a minha vida, o meu honesto guia, aquelle +que partilhou commigo todas a sublimes responsabilidades que ha no amor +dos paes. + +Já sou avó minha amiga, o meu Luiz é já pae. + +Nas alegrias d'elle vejo reflectidas as alegrias extinctas, cujo aroma +vago perfuma a minha alma de uma saudade ineffavel. + +Não se esqueceu de mim, o meu querido filho; tem presentes todas as +minhas licções, o laço mysterioso que um dia nos uniu conserva-se +inquebrantavel, e hoje não deixa ainda de vir consultar-me a cada +instante como nos dias em que a sua alma e a minha trocavam +incessantemente confidencias mutuas. + +Estou consolada! + +Vejo descer a velhice sobre mim como uma noite calma, tranquilla e cheia +de estrellas! + +Não é nunca infructifera a obra das mães. + +O meu sacrificio, se o foi, será continuado, e desatar-se-ha em flores +bemditas de geração em geração. + +Felizes todas as que puderem adormecer como eu no seio de um filho a +quem deram tudo que tinham de melhor, de quem receberam tudo que n'este +momento levanta a minha alma para além da vida terrestre, e me faz +antever o somno tranquillo e doce das consciencias justas. + +..................................................................... +..................................................................... + + +FIM. + + + * * * * * + + +DA MESMA AUTHORA + +NO PRÉLO + +CONTOS E PHANTASIAS, 1 vol. + + + + +Lista de erros corrigidos + + +Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos: + + + +----------+---------------------+----------------------+ + | | Original | Correcção | + +----------+---------------------+----------------------+ + |#pág. 59| acquisiçõos | acquisições | + |#pág. 97| Dir-me-hão quo | Dir-me-hão que | + |#pág. 147| _mar dinho_ | _maridinho_ | + |#pág. 161| Girardiu | Girardin | + |#pág. 189| uma lcance | um alcance | + |#pág. 250| grande gestos | grandes gestos | + |#pág. 263| desonvolver | desenvolver | + |#pág. 263| affiige | afflige | + |#pág. 308| exemplo dignos | exemplos dignos | + +----------+---------------------+----------------------+ + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Mulheres e creanças, by +Maria Amália Vaz de Carvalho + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MULHERES E CREANÇAS *** + +***** This file should be named 29550-8.txt or 29550-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/9/5/5/29550/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement +and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic +works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" +or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project +Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the +collection are in the public domain in the United States. If an +individual work is in the public domain in the United States and you are +located in the United States, we do not claim a right to prevent you from +copying, distributing, performing, displaying or creating derivative +works based on the work as long as all references to Project Gutenberg +are removed. Of course, we hope that you will support the Project +Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by +freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of +this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with +the work. You can easily comply with the terms of this agreement by +keeping this work in the same format with its attached full Project +Gutenberg-tm License when you share it without charge with others. + +1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern +what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in +a constant state of change. If you are outside the United States, check +the laws of your country in addition to the terms of this agreement +before downloading, copying, displaying, performing, distributing or +creating derivative works based on this work or any other Project +Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning +the copyright status of any work in any country outside the United +States. + +1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: + +1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate +access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently +whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the +phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project +Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed, +copied or distributed: + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + +1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived +from the public domain (does not contain a notice indicating that it is +posted with permission of the copyright holder), the work can be copied +and distributed to anyone in the United States without paying any fees +or charges. If you are redistributing or providing access to a work +with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the +work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1 +through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the +Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or +1.E.9. + +1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted +with the permission of the copyright holder, your use and distribution +must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional +terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked +to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the +permission of the copyright holder found at the beginning of this work. + +1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm +License terms from this work, or any files containing a part of this +work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. + +1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this +electronic work, or any part of this electronic work, without +prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with +active links or immediate access to the full terms of the Project +Gutenberg-tm License. + +1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, +compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any +word processing or hypertext form. However, if you provide access to or +distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than +"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version +posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org), +you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a +copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon +request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other +form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm +License as specified in paragraph 1.E.1. + +1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, +performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works +unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. + +1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing +access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided +that + +- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from + the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method + you already use to calculate your applicable taxes. The fee is + owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he + has agreed to donate royalties under this paragraph to the + Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments + must be paid within 60 days following each date on which you + prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax + returns. Royalty payments should be clearly marked as such and + sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the + address specified in Section 4, "Information about donations to + the Project Gutenberg Literary Archive Foundation." + +- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies + you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he + does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm + License. You must require such a user to return or + destroy all copies of the works possessed in a physical medium + and discontinue all use of and all access to other copies of + Project Gutenberg-tm works. + +- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any + money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the + electronic work is discovered and reported to you within 90 days + of receipt of the work. + +- You comply with all other terms of this agreement for free + distribution of Project Gutenberg-tm works. + +1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm +electronic work or group of works on different terms than are set +forth in this agreement, you must obtain permission in writing from +both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael +Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the +Foundation as set forth in Section 3 below. + +1.F. + +1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable +effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread +public domain works in creating the Project Gutenberg-tm +collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic +works, and the medium on which they may be stored, may contain +"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or +corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual +property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a +computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by +your equipment. + +1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right +of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project +Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project +Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all +liability to you for damages, costs and expenses, including legal +fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT +LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE +PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE +TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE +LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR +INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH +DAMAGE. + +1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a +defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can +receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a +written explanation to the person you received the work from. If you +received the work on a physical medium, you must return the medium with +your written explanation. The person or entity that provided you with +the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a +refund. If you received the work electronically, the person or entity +providing it to you may choose to give you a second opportunity to +receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy +is also defective, you may demand a refund in writing without further +opportunities to fix the problem. + +1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth +in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER +WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO +WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. + +1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied +warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages. +If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the +law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be +interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by +the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any +provision of this agreement shall not void the remaining provisions. + +1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance +with this agreement, and any volunteers associated with the production, +promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works, +harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees, +that arise directly or indirectly from any of the following which you do +or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm +work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any +Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause. + + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of computers +including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit https://pglaf.org + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. |
