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+Project Gutenberg's Mulheres e creanças, by Maria Amália Vaz de Carvalho
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Mulheres e creanças
+ notas sobre educação
+
+Author: Maria Amália Vaz de Carvalho
+
+Release Date: July 30, 2009 [EBook #29550]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MULHERES E CREANÇAS ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
+
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+
+ *Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos neste
+ texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em
+ caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original.
+ No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.
+
+ Rita Farinha (Jul. 2009)
+
+
+
+
+BIBLIOTHECA DO CURA DE ALDEIA
+
+
+D. MARIA AMALIA VAZ DE CARVALHO
+
+
+MULHERES E CREANÇAS
+
+(NOTAS SOBRE EDUCAÇÃO)
+
+
+Editores--JOAQUIM ANTUNES LEITÃO & IRMÃO
+Rua do Almada 209--1.^o andar
+PORTO
+
+
+
+
+MULHERES E CREANÇAS
+
+
+
+
+A propriedade d'esta obra pertence:
+
+Em Portugal á _Bibliotheca do Cura de Aldeia_.
+
+No Brazil ao snr. Adriano de Castro, residente no Rio de Janeiro.
+
+
+
+
+BIBLIOTHECA DO CURA DE ALDEIA
+
+MARIA AMALIA VAZ DE CARVALHO
+
+
+MULHERES E CREANÇAS
+
+(NOTAS SOBRE EDUCAÇÃO)
+
+
+PORTO
+Editores--JOAQUIM ANTUNES LEITÃO & IRMÃO
+Rua do Almada 209--1.^o andar
+1880
+
+
+
+
+TYP. DE ALEXANDRE DA FONSECA VASCONCELLOS
+
+29, Rua do Moinho de Vento, 29
+
+
+
+
+
+Minha querida mãe
+
+
+_Companheira constante e fiel de toda a minha vida, offereço-lhe este
+livro humilde, que escrevi inspirada pelos seus conselhos e pelo seu
+santo e nunca desmentido exemplo._
+
+
+
+
+CAPITULO I
+
+
+Falla-se hoje muito a respeito da dissolução domestica, manifestada e
+provada constantemente por casos de divorcio, suicidios, questões
+miseraveis entre parentes proximos, rebelliões filiaes, etc., etc.
+
+Surprehende a todos aquelles, que sem aprofundarem radicalmente as
+questões sociaes, se preoccupam todavia com ellas um pouco mais do que o
+vulgo, que este mal que todos sentem e que poucos definem, que este
+estado inquieto e doloroso que depois de agitar a familia assusta e
+perturba a sociedade, se haja aggravado justamente na época em que o
+homem auxiliado por grandes e immortaes pensadores, tem adquirido a mais
+elevada e justa noção do Bem que ainda lhe foi dado alcançar no seu
+caminho de seculos.
+
+A manifesta e clara contradicção que hoje mais do que nunca existe entre
+as idéas e os factos desnorteia e desanima ainda os espiritos mais
+penetrantes.
+
+Como é que o homem que tem domado a materia a ponto de fazer d'ella a
+escrava submissa da intelligencia; que forçou a grande e muda Natureza a
+tornal-o seu confidente e seu senhor; que arrancou ao astro e á planta o
+segredo immortal da vida que os anima; que penetrou--investigador
+implacavel--nas catacumbas das mortas religiões, e que ouviu de cada uma
+a palavra suprema que as explica e desvenda; porque é que o homem que
+tem hoje a percepção lucida e completa do seu destino, não soube ainda
+prostrar, vencer, amordaçar o animal indomito que vive dentro d'elle,
+que o martyrisa, que o rebaixa, que o leva muitas vezes ao abysmo,
+quando o não leva ao lodaçal? Se o bom e o bello lhe revelaram a sua
+larga claridade benefica, porque se não revigora elle, e se não
+robustece n'esse grande banho de luz? porque não estabelece uma harmonia
+perfeita e intima entre a idéa que fórma dos deveres e a sua
+manifestação pratica e vizivel?
+
+Depois de havermos concedido ás paixões humanas o imperio relativo que
+ellas não podem perder, somos ainda forçados a confessar que na culpa
+d'esta desgraça que todos lamentam, compete ás mulheres um grandissimo
+quinhão.
+
+Concorrem ellas em grande parte para dar força ao impulso que contraria
+a marcha triumphante e apesar de tudo invencivel, que leva a civilisação
+no caminho da verdadeira luz. E concorrem por varias e complexas razões
+que devem analysar-se e depois combater-se.
+
+Ignorantes impoem resistencia inconsciente ás transformações continuas
+do progresso.
+
+Retrogradas por educação e por natureza, cada innovação se lhes affigura
+ou uma cousa inutil, ou uma cousa perigosa.
+
+Amesquinhadas pela profunda escuridão intellectual em que jazem
+immersas, em vez de auxiliarem o homem no cumprimento difficil do dever
+afastam-no pelo desdem, desanimam-no pela frivolidade, cançam-no com as
+exigencias loucas, gastam-lhe a força, o alento, as aspirações arrojadas
+e grandes na satisfação de desejos pueris, ou lhe destroem a dignidade e
+lhe annullam a energia obrigando-o a transigir com os desvairamentos
+d'uma imaginação doentia.
+
+Mas se as mulheres produzem este effeito funesto confesse-se para bem da
+justiça que aos homens se deve o atrazo intellectual em que todas nós
+estamos.
+
+Sentem elles, e a meu ver sentem muito bem, que para conservar este
+equilibrio necessario á manutenção da ordem na familia e na sociedade,
+cumpre que a mulher se não revolte contra a inferioridade a que
+fatalmente a condemnam as leis, e contra a dependencia a que a condemnam
+os costumes.
+
+Para alcançarem porém esta submissão voluntaria entenderam desde muito,
+que o melhor meio consistia em condensar as trevas da ignorancia e da
+superstição em torno d'aquella de quem são forçados a fazer a sua
+companheira na vida, o seu consolo nas horas da provação, a mãe de seus
+filhos, a carne da sua carne.
+
+Terrivel contradicção, systema absurdo que tem como resultado a lenta
+desorganisação da familia e que corrompendo a mulher atravez do homem,
+não póde deixar d'ir com o andar dos tempos corrompendo o homem atravez
+da mulher.
+
+D'um lado querem conservar-nos n'uma plana muito inferior á sua, como
+illustração, conhecimentos, intelligencia, isto para que nunca nos venha
+á idéa aspirar á perfeita igualdade dos direitos e dos privilegios;
+d'outro lado exigem de nós prodigios de virtude, de abnegação, de
+paciencia, de que só são capazes as almas bafejadas pelo sopro ideal da
+eterna Perfeição.
+
+A mulher precisa de ser moralmente mais forte do que o homem, para
+conseguir levar a cabo a tarefa relativamente superior que a natureza e
+a sociedade lhe impoem.
+
+No dia em que se assentar este ponto como verdade incontestavel, o mundo
+terá dado um dos seus passos mais gigantescos no caminho da felicidade.
+
+Educar a mulher eis o grande problema que resta ainda a resolver.
+
+Educar a mulher é arrancal-a na infancia ao seu berço fôfo e tepido de
+beijos, e leval-a por caminhos d'uma magestade austera que ella nunca
+trilhou.
+
+É preparal-a para a grande lucta moral que é a Vida, com os cuidados com
+que Sparta, a guerreira cidade antiga, preparava os seus filhos para as
+luctas do corpo, para as victorias da destreza physica.
+
+É associal-a pela comprehensão e pela sympathia a todos os trabalhos e
+investigações do homem moderno; é dar-lhe ao lado d'este um lugar
+honroso e definido, não egual pois que são diversas as attribuições de
+ambos, mas equivalente em direitos e em deveres.
+
+É fazer-lhe comprehender bem claro que as seducções do corpo--seu
+orgulho supremo e seu constante desvanecimento--quando não são reflexo
+da formosura e da robustez da alma, não passam d'um laço ignobil armado
+ao animal malefico e bravio que todo o homem encerra em si.
+
+Educar a mulher é leval-a a compenetrar-se do seu papel providencial na
+familia, e achal-o grande, util, elevado, digno de saciar as mais
+levantadas ambições, e tambem--o que é d'uma importancia capital--de
+pezar como uma responsabilidade tremenda no animo mais altivo.
+
+É dar-lhe uma idéa perfeita do dever e da justiça, um Ideal a que tendam
+incessantemente as aspirações do seu espirito, uma religião que a
+hypocrisia e os calculos interesseiros não maculem nem amesquinhem, que
+se resuma para ella no sacrificio e no amor, mas sacrificio sem
+voluptuosidades dissolventes e amor sem extasis hystericos e sem raptos
+de paixão sensual.
+
+Não basta porém exprimir tudo que se ousa esperar da mulher de ámanhã, é
+preciso tambem lançar um olhar demorado e justo ao que é a mulher
+d'hoje.
+
+Só assim poderão comprehender-se os erros que é preciso desarreigar, os
+preconceitos que é indispensavel destruir, a distancia enorme que temos
+de transpôr para chegar ao momento da sua completa e salutar
+transformação.
+
+
+II
+
+As divisões sociaes que hoje em face dos homens educados nos mesmos
+collegios, nas mesmas academias, nas mesmas escolas superiores, quasi
+que se não distinguem, ou se distinguem apenas por ligeiros cambiantes
+imperceptiveis ás vistas superficiaes, imperam ainda na mulher com
+extraordinaria força. Vamos pois procurar ás diversas classes as suas
+femeninas representantes, e pincipiemos pela mulher da classe media,
+classe que considerada no seu elemento masculino representa a
+intelligencia, a riqueza, o commercio, a industria, o progresso d'um
+paiz.
+
+A mulher d'essa classe especial divide-se em dous generos
+accentuadamente distinctos: aquella que as vaidades sociaes ainda não
+corromperam, e aquella que pretende offuscar com os deslumbramentos da
+sua opulencia, as finas graças, as exterioridades elegantes, os
+requintes herdados e tradicionaes que pompeiam nas regiões mais elevadas
+da sociedade.
+
+A primeira é evidentemente mais sympathica; é laboriosa e tem a rude
+sensatez plebeia da sua raça. Tem o amor dos filhos, um amor animal, um
+amor physico, mais instincto do que religião. Não raciocina mas sente
+com uma energia poderosa e creadora.
+
+É d'uma ignorancia absoluta, ingenua, profunda, quasi sublime na sua
+cegueira. Imagina-se porém investida d'um dever supremo a que todos se
+subordinam:--o de proporcionar por todos os meios ao seu alcance o bem
+estar material do marido, e da familia.
+
+Não tem conversação, não tem espirito, não tem aquella doçura benevola e
+intelligente que é para o coração dos homens o que o algodão em rama é
+para o ninho das aves.
+
+Quando aconselha irrita; quando quer guiar contraria, quanto tenta
+convencer, despersuade.
+
+É porém activa, aceada, robusta, fiel, e nas horas de adversidade, de
+doença, de desfallecimento ou de miseria, tem os carinhos rudes, tem a
+dedicação humilde, tem a vigilancia perseverante, tem o exemplo energico
+e fecundo por isso mesmo.
+
+O homem anda lá fóra, na lucta, no trabalho, na investigação, na
+sciencia; vae vivendo e vendo como n'uma ascensão rude, desvendarem-se
+todos os dias horisontes novos, vae estudando e sentindo como n'uma
+iniciação progressiva dilatar-se-lhe o espirito, clarear-se-lhe o
+entendimento.
+
+Ella a esposa, a sua companheira, a sua melhor amiga, ignora os seus
+combates, as suas glorias, as acres delicias do seu sacrificio, os
+desanimos, as horas de impotencia, as aspirações, os arrebatamentos
+triumphantes da victoria.
+
+Percebe simplesmente se o marido está doente, se anda magro, se tem
+fastio, se tem roupa branca. Inventa-lhe pequenos pratos, manipula-lhe
+remedios caseiros, vigia para que lhe não faltem aquelles commodos que
+elle aprecia, tem prodigios de invenção espontanea para o envolver no
+bem estar tão necessario aos que se consomem n'uma actividade sem
+treguas.
+
+De que ha de elle queixar-se? De nada.
+
+É amado, é estremecido, obedecem-lhe cegamente, tem a certeza de
+encontrar ao seu lado sempre que o precise um sincero e leal affecto.
+
+Mas quando um sentimento superior o transporta, quando uma grande idéa o
+levanta e ennobrece, quando um nobre desejo do bello e do bom lhe faz
+palpitar de enthusiasmo o coração, é debalde que elle busca junto de si
+o espirito que comprehenda o seu espirito, que partilhe as suas
+impressões, que lhe revele emfim intima, absoluta, indestructivel, essa
+união ideal sem a qual o casamento é espiritualmente infecundo e
+incompleto.
+
+Isto tem de esmorecer fatalmente o impulso que levava esse trabalhador,
+esse homem de pensamento ou de sciencia á conquista e á posse da sua
+felicidade.
+
+Sem que elle talvez mesmo dê por isso, uma tristeza indefinivel, vaga,
+sem traducção, lança como que um sopro esterilisador sobre as suas mais
+queridas concepções. Falta-lhe alguma cousa que elle precisava e que no
+entretanto não conhece nem sabe definir.
+
+Falta-lhe o complemento do seu sêr!
+
+Subamos agora na escala social mais um degrau.
+
+O trabalhador incansavel venceu.
+
+O dono da fabrica fez-se capitalista; o chimico enriqueceu com a sua
+descoberta; o medico alcançou uma popularidade subita; o industrial
+ganhou um milhão.
+
+Elle é simples e modesto, lembra-se dos dias em que trabalhava e
+combatia, como dos seus dias melhores; não quer offuscar ninguem,
+basta-lhe hoje como hontem lhe bastava a consciencia do seu valor
+individual.
+
+Ella porém a mulher--e eis a segunda variedade que acima citamos--ella
+que deixou penetrar na sua alma ignorante o veneno da vaidade, ella a
+quem o trabalho forçado já não absorve, e a quem as distracções elevadas
+e nobres d'um espirito culto são vedadas, ella que não pensa, que não
+medita, que não entendeu bem na sua acepção levantada e digna a missão
+exercida pelo marido pois que se envergonhava da pobreza honesta em que
+vivera largo tempo, eil-a que deseja esmagar as que a esmagaram n'outra
+época com o pezo da sua superioridade social, eil-a que opera a pouco e
+pouco, quasi imperceptivelmente, uma influencia funesta no homem, que o
+corrompe, e que o arrasta.
+
+Emquanto elle tivera as serenas e robustas consolações do trabalho que a
+intelligencia illumina, e a que a intelligencia preside, tinha ella
+apenas na sua profunda escuridão mental, as pequenas humilhações, as
+raivas mal dissimuladas, os despeitos mal contidos.
+
+Não podendo ter a consciencia do seu dever o que a faria sublime, só
+tivera a consciencia da sua inferioridade, que a tornara mesquinha e
+redicula. Chegando o momento da desforra exigi-a completa.
+
+Leitora, quando tu vires passar triumphante, grosseiramente desdenhosa,
+mal sentada nos flaccidos coxins d'um _coupé_ de oito molas, coberta de
+velludos e de rendas a altiva burgueza dos nossos dias, lembra-te que é
+o fructo pernicioso da ignorancia combinada com a mais feroz vaidade.
+
+Ninguem a excede no absurdo desprezo por tudo que está abaixo d'ella,
+que é mais pobre, mais humilde, menos cheio de lantejoilas e de falsos
+brilhantes.
+
+Tem as refinadas atrocidades do paria que se vinga.
+
+Como para ella ser pobre foi o maximo dos martyrios e a maxima das
+humilhações envolve todos os pobres no mesmo olhar de cruel desdem.
+
+As filhas d'esta mãe são as desgraçadas creanças que por ahi vendem a
+sua mocidade e os seus carinhos por um titulo avariado ou pelos milhões
+d'um negreiro enriquecido.
+
+Não as accusemos, accusemos antes a perniciosa, a funesta educação que
+receberam, germens que teem no passado as suas raizes damninhas e que
+vão estender sobre o futuro a sua sombra deleteria e esterelisadora.
+
+Combater estes erros, lançar por terra estes preconceitos deve ser a
+mira de todo o ser que pensa e crê!
+
+
+III
+
+Deixemos agora os _menages_ modestos onde reina o trabalho ou os salões
+vulgarmente luxuosos onde a riqueza ostenta os seus vãos orgulhos, e
+penetremos no _boudoir_ elegante, onde a mulher do alto mundo proclama o
+que se lhe afigura a sua incontestavel superioridade.
+
+Ha um preconceito falsamente democrata, e digo _falsamente_ porque a
+democracia tem obrigação de ser justa, imparcial e intelligente, que
+attribue aos restos desmantelados da nossa aristocracia, todas as culpas
+e todas as inferioridades.
+
+Engano!
+
+É verdade que a aristocracia portugueza avaliada no seu conjuncto, se
+annullou pela ignorancia, como a aristocracia franceza se annullou pelo
+desdem, e a prova temol-a nós em Inglaterra onde esta classe que não foi
+nunca ignorante nem desdenhosa, predomina com todo o pezo d'uma robusta
+instituição de seculos nos destinos politicos, economicos e sociaes da
+nação.
+
+Hoje porém, o que em Portugal resta de uma raça que teve todos os
+privilegios e todas as prepotencias, tenta instruir-se de boa vontade,
+aspira a levantar-se pelo valor individual, e se raras vezes o consegue,
+é que o passado exerce ainda a sua influencia nefasta, é que a
+decadencia e o abastardamento das raças são uma verdade scientifica
+contra a qual nada póde a vontade humana.
+
+A fidalga tradicional e lendaria, soberba, sem conseguir ser magestosa,
+ignorante, cheia de preconceitos, de rediculos e de toda a especie de
+idéas estapafurdias, olhando de muito alto com um pasmo idiota que
+aspira a ser desdenhoso, para as maravilhas d'uma civilisação que não
+comprehende, vae desapparecendo completamente até dos velhos solares da
+provincia acastellados e altivos.
+
+Morre sem deixar saudades e sem ter quem a substitua.
+
+Hoje as representantes femeninas das altas classes se não seguem um
+caminho mais verdadeiro, mais util, mais fecundo em resultados praticos,
+revestem ao menos a sua falsa percepção da idéa moderna, d'um prestigio
+que á primeira vista agrada e seduz.
+
+A educação d'ellas, uma educação toda exterioridades brilhantes, se não
+é aquella de que carecem as mães, as perceptoras de futuro, estabelece
+comtudo e accentua incontestavelmente a sua superioridade social sobre
+as gerações que as precederam.
+
+A influencia estrangeira e sobretudo a franceza, penetrou nas salas
+desbotadas dos nossos palacios e nas luxuosas residencias da nossa
+aristocracia moderna.
+
+Se não temos a mulher de familia, a creadora de uma geração robusta,
+conscienciosa, crente e leal, temos a _mulher de sala_, que é uma nova
+face da transformação lenta por que vão passando as idéas e os
+acontecimentos.
+
+A mulher de sala é um producto exotico entre nós.
+
+A França recebeu-a da Italia, cultivou-a, transformou-a, deu-lhe todos
+os requintes falsos, todos os donaires artificiaes, ergueu-lhe um throno
+no seio das suas côrtes galantes, e deixou que nós, vendo-a de longe a
+cubiçassemos e tentassemos transplantal-a para os nossos costumes chãos,
+para a nossa pobreza envergonhada e modesta.
+
+Sahiu-nos uma cousa hybrida e estranha, que não está em relação com o
+seu meio, deslocada, inutil, mas em todo o caso attrahente para os olhos
+superficiaes.
+
+A mulher de sala falla umas poucas de linguas, com facilidade e
+fluencia; escreve bem, com uma certa graça adquirida que não occulta a
+frivolidade, mas que a envolve em véu rendilhado; conversa com vivesa e
+com chiste, sabe dar aos pequenos _nadas_ da sua vida uma elegancia que
+illude os incautos. Quem a vê de longe, no scenario pomposo da sua
+opulencia, sente-se deslumbrado; quem a observar de perto conhece que
+ella tem de facto caminhado para se afastar das suas predecessoras, mas
+que o caminho que vae trilhando é como o que ellas trilharam, um caminho
+falso, um caminho sem sahida.
+
+O primeiro obstaculo que a separa da verdadeira luz, é uma devoção
+inteiramente errada, em que a idéa luminosa e fecunda prégada pelo
+Christo se subverte e se afoga n'uma onda de preconceitos e de mentiras
+anti-christãs.
+
+Se a mulher das classes inferiores estabelece entre si e o marido uma
+barreira enorme--a sua ignorancia--a mulher mais culta e mais educada
+das classes elevadas separa-se do marido, como se separa mais tarde dos
+filhos isolando-se na esphera inaccessivel do seu intransigente
+fanatismo.
+
+Quando digo fanatismo, não quero referir-me a uma crença exaggerada e
+absoluta, que impere em todos os actos da vida, e que os subordine ás
+suas austeras exigencias.
+
+É um fanatismo elegante, um fanatismo de _alta vida_, bastante
+indulgente para se permittir todos os gozos sociaes, bastante severo
+para não admittir que haja virtudes, merito, nobreza, sublimidade
+possivel fóra do seu estreito gremio.
+
+Aqui como alli é sempre o divorcio na familia debaixo de qualquer dos
+aspectos.
+
+Aqui porém mais completo ainda, visto que a vida da sociedade exige mais
+da mulher, visto que n'esta existencia de representação exterior e
+pueril, nem ao menos subsiste entre a mulher e o marido aquella
+intimidade material, aquella protecção mutua que faz com que o homem
+seja o braço, o amparo, o sustentaculo, e a mulher o desvelo, a
+economia, a vigilancia continua, a dispensadora e reguladora de todos os
+confortos materiaes da familia.
+
+A mulher de sala vive para todos, menos para os seus.
+
+Veste-se, despe-se, reza, confessa-se, recebe visitas, tagarella,
+agrada, encanta, mas no meio d'este labyrintho de pequenas occupações,
+de pequenos deveres, de pequenas caridades officiaes, de pequenas
+praticas devotas, ignora completamente e absolutamente tudo que póde
+constituir a verdadeira missão da mulher no mundo e na familia.
+
+Se alguem tivesse a ousadia de dizer-lhe:
+
+--Julgas-te superior e moralmente fallando a mulher do povo que ganha
+com o suor do rosto ao lado do homem, o pão que os filhos hão de comer á
+noite, tem sobre ti superioridade moral incontestavel.
+
+Julgas-te instruida e não tens no teu pequeno cerebro recheiado de
+insignificancias bonitinhas, a noção mais elementar dos milhões de
+cousas que precisas de saber para estares em harmonia com o teu tempo,
+para educares dignamente aquelles em cujas mãos estão os destinos de
+ámanhã.
+
+Julgas-te virtuosa e não pratícas nem concebes sequer nenhuma d'aquellas
+virtudes sãs que são a dignidade, o imperio e a força da mulher.
+
+Julgas-te religiosa e cada uma das tuas praticas acanhadas, cada um dos
+teus preconceitos mesquinhos te aparta da verdadeira religião que
+allumia e esclarece os fortes.
+
+Julgas-te boa esposa e boa mãe e vives sósinha n'um mundo teu, povoado
+de phantasias morbidas, onde teu marido e teus filhos não penetram; não
+tentas acompanhal-os, consolal-os, comprehendel-os; nunca te veio á idéa
+que a mãe de familia precisa de viver no coração dos seus, identificada
+completamente com elles, para ser digna d'este sagrado nome!
+
+Se alguem lhe dissesse isto ella julgaria ouvir fallar uma lingua
+estranha, ou rir-se-ia com desdenhosa incredulidade.
+
+Pois é necessario que ella entenda esta lição, que ella ouça estas
+palavras, e que pelo seu esforço permanente e consciencioso, ella tente
+sahir das trevas intellectuaes e moraes em que a sua funesta e falsa
+educação a teem submergido.
+
+
+IV
+
+No meio do desalento profundo, da inconsolavel tristeza, que n'esta
+época parece obumbrar de espessas nuvens a alma do homem, e como que
+vencer-lhe as aspirações e as energias, erguemos a voz desauctorisada e
+humilde para apontar algumas das causas que produzem effeitos tão
+deploraveis.
+
+Temos visto a desharmonia que existe no lar domestico, e encontramos
+como unico motor de tamanho desastre a desigualdade intellectual que a
+educação estabelece e nutre entre os dous sexos.
+
+Mas não se trata sómente de observar as causas e os effeitos, trata-se
+de pensar n'um remedio que seja efficaz para este estado de cousas, que
+a prolongar-se indefinidamente produz a dissolução social nos seus
+aspectos mais dolorosos e mais repellentes.
+
+Se a sociedade e a civilisação requintada e corrupta dos nossos tempos
+ainda não ensinaram á mulher o caminho verdadeiro e util que tem a
+seguir, antes d'elle a teem afastado mais e mais, ella póde ainda
+erguer-se do marasmo intellectual em que se compraz, e mostrar ao homem
+que é digna de coadjuval-o na sua obra de reedificação, digna de
+acompanhal-o na realisação pratica do que para elle, desajudado e só,
+não tem passado d'uma bella concepção theorica onde ás vezes transluzem
+não sei que visos de chimera.
+
+Todos os seculos teem mais ou menos acceitado a herança dos seculos
+precedentes.
+
+Ao nosso cabe porém a gloria de ter renegado muitos erros do passado, de
+ter proclamado a sua independencia, de ter produzido um reviramento
+absoluto n'esse conjuncto de idéas, de conhecimentos, de aspirações e de
+theorias que constituem o _ideal_ humano.
+
+O que hoje se exige da mulher é positivamente o contrario do que a
+sociedade antiga affeiçoada por moldes diversissimos exigia até agora.
+
+Este ponto d'uma importancia capital precisa de ser esclarecido a fundo.
+
+Á escravidão absoluta a que o nosso sexo se curvou sob o imperio de
+religiões extinctas, á bruteza dilacerante em que elle viveu submerso
+entre as sombras das idades barbaras, succedeu--e succedeu
+providencialmente--a apotheose da mulher divinisada pelo christianismo,
+aureolada por aquella poesia artificial, exageradamente requintada e
+platonica dos trovadores da Edade media, e aquella abnegação amorosa e
+idealista dos paladinos da cruz!
+
+Essa transformação radical no destino da mulher fez sentir a sua
+influencia até hoje, em phases e gradações successivas e diversas.
+
+Á castellã de repente acordada do seu lethargo mental, pela tiorba
+namorada do pagem, ou pela supplica ardente do cavalleiro, succedeu a
+rainha das _côrtes de amor_, a que erigia em dogma ideal o adulterio, a
+que proclamava em sentenças _preciosas_ a quebra de todos os laços da
+familia, a que via no amor requintado, falsamente seraphico, um direito
+superior a todos os direitos e deveres domesticos. Veio depois a gentil
+pagã da Renascença, a inspiradora dos artistas, a amante dos papas, a
+musa dos loucos poetas, a princeza dos festins, erudita, apaixonada,
+intelligente, cheia de phantasias superiores, que se era virtuosa se
+chamava Victoria Colonna, e se era dissoluta se chamava Lucrecia Borgia.
+
+A esta que correspondia ao seu meio social, que cumpria uma missão
+civilisadora, que tinha o seu destino marcado, e a sua orbita descripta
+succedeu a mulher de sala do seculo XVII e do seculo XVIII, de que hoje
+só temos a descendencia amesquinhada, decadente, anachronica, e, o que é
+peor de tudo, inutil quando não é funesta, ridicula quando não é tambem
+perniciosa, o que lhe succede quasi sempre.
+
+O homem que muitos seculos considerou a mulher um animal inferior e mal
+domesticado, fez d'ella movido por influencias que não podemos historiar
+aqui, o seu luxo, a sua poezia, o enlêvo das suas horas de ocio, depois
+novamente a escrava dos seus vicios ou o instrumento dos seus prazeres,
+e por fim um mero ornamento social, um brinquedo sem importancia, uma
+creança indocil, ante a qual se curvava, não porque a respeitasse mas
+porque n'esta falsa e mentida submissão encontrava novos requintes de
+prazer.
+
+Não comprehendeu porém que era victima da sua propria injustiça, que a
+corrupção da mulher se convertia para elle em gangrena, que o seu
+amesquinhamento se lhe communicava em villeza, que a sua ignorancia o
+fazia tambem retrogradar, que ha relações reciprocas que não podem
+quebrar-se, e influencias mutuas a que os dous sexos ao mesmo tempo
+divorciados e unidos, não podem por mais que queiram furtar-se.
+
+ * * * * *
+
+Hoje uma corrente de ar puro, a corrente das idéas democraticas,
+purificou a atmosphera viciada onde uns poucos de seculos haviam deixado
+os vestigios das suas paixões insalubres.
+
+Tudo se transfigurou sob esta influencia benefica. Fez-se uma grande
+claridade na alma dos povos e na dos individuos, o pensamento
+reconquistou a sua independencia perdida, e uma voz firme e poderosa
+bradou bem alto: t
+
+--Não se tracta de continuar no caminho que iamos trilhando, tracta-se
+de procurar uma nova direcção que nos conduza á verdade.
+
+Ouvir esta voz é renunciar aos erros do passado, e cumpre que nós
+mulheres renunciemos a elles, para não caminharmos por uma estrada
+opposta áquella por onde vão subindo fortes, illuminados, convencidos,
+os nossos paes, os nossos esposos, os nossos irmãos.
+
+Não é a uma penna tão obscura como é a minha que pertence dar leis
+absolutas sobre um systema de educação diverso do que hoje está
+geralmente adoptado.
+
+Limitar-me-hei rapidamente e apenas animada com a força da consciencia,
+consultando o bom senso que é apanagio dos mais humildes, e a observação
+que póde ser partilha dos mais pobres, a indicar alguns dos obstaculos
+que nos separam moralmente d'aquelles de quem sômos companheiras e de
+quem devemos ser auxilio e complemento.
+
+A vida da sociedade é uma vida toda de egoismo e de vaidade, a vida de
+familia uma vida de renunciamento e de abnegação.
+
+Para viver na sociedade a mulher só precisa de ser exteriormente
+agradavel, para viver na familia a mulher precisa de ser forte.
+
+O mundo exige as graças, as garridices, as subtilezas do espirito, as
+louçanias do tracto; a familia sem prescrever inteiramente aquellas,
+exige acima de tudo a consciencia firme, a idéa clara e definida dos
+deveres, o espirito do sacrificio, e aquella energia branda que resiste
+ás tentações dissolventes do peccado.
+
+Entendemos pois que os esforços de todos os educadores, de todos os que
+se preoccupam com o futuro da sociedade devem convergir para annullar a
+mulher dos salões, e para crear e fortalecer a mulher da familia.
+
+Não nos revoltamos contra as graciosas futilidades que hoje constituem a
+educação feminina, não as condemnamos a um completo ostracismo,
+desejamos simplesmente vel-as collocadas no lugar que por sua natureza
+lhes compete. São simples ornatos decorativos, como taes os applaudimos
+e os queremos, não como fundo solido e base de todo o cultivo
+intellectual da mulher.
+
+Tambem não pedimos para o nosso sexo a emancipação, essa utopia de que
+hoje se falla tanto e com tantas banalidades impensadas.
+
+O que nós desejariamos era vêr na mulher uma personalidade robusta e
+consciente, inaccessivel ás chimeras da sentimentalidade, solidamente e
+despretenciosamente instruida, tendo todas as noções praticas
+necessarias para subordinarem o seu destino ás leis do bom senso, ao
+alcance de todos os descobrimentos e de todas as conquistas do seu
+tempo, comprehendendo o bello debaixo de todos os seus aspectos; prompta
+para perdoar o mal mas não para transigir com elle; sabendo resistir-lhe
+mas sabendo explicar as circumstancias que o attenuam ás vezes.
+
+Tendo acima de todas as religiões a religião do Bem, sacrificando-se aos
+seus affectos, mas sacrificando-se principalmente aos seus deveres.
+
+Laboriosa como condição indispensavel da propria dignidade.
+
+O trabalho é a redempção.
+
+Não ha mulher que não tenha conhecido mais ou menos fugitivas, mais ou
+menos traiçoeiras, mais ou menos perigosas, essas horas más chamadas
+tentações. O trabalho é a salvaguarda para essas horas.
+
+Os espiritos ociosos são os espiritos accessiveis.
+
+ * * * * *
+
+No dia em que este novo ideal tiver tomado uma fórma tangivel até para
+os mais humildes e para os mais ignorantes a familia estará salva,
+porque terá por esteio a moralidade.
+
+Até então ha de haver as incertezas, as duvidas, as vacillações, os
+desalentos que tornam esta hora da vida das nações, uma hora
+contradictoria, estranha, profundamente dolorosa, que já não tem raizes
+no passado sem ter ainda um ficto no futuro.
+
+Trabalhem todas as mães n'esta obra sublime, e como a mythica Minerva
+sahiu armada do cerebro olympico de seu pae, assim a mulher sahirá do
+ninho em que se educou, já prompta para receber a pé firme o embate
+tempestuoso das paixões, que se a vencem a inutilisam e a degradam.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+CAPITULO II
+
+O falso luxo
+
+
+I
+
+Na nossa pequena sociedade de Lisboa, em que os meios estão em completo
+desequilibrio com os desejos, chega todos os annos um periodo, o periodo
+que antecede o carnaval, em que nos julgamos mais ou menos obrigados a
+sacrificar ao amor da sociabilidade.
+
+Entendemos que uma sociedade civilisada não póde viver sem festas e sem
+saraus, portanto é necessario que sem hesitação façamos tudo que nos
+seja possivel, e mesmo impossivel, para darmos e recebermos saraus e
+festas.
+
+Ouço eu por ahi dizer e affirmar que os talentos e os genios enxameiam
+como papoulas nas seáras de abril.
+
+Não duvido, não senhor; temos talento, temos genio, temos superioridade,
+temos phantasia, temos tudo quando quizerem.
+
+O que nós não temos é uma cousa pequena, humilde, despertenciosa,
+desdenhada.
+
+Não temos _bom-senso_.
+
+Não quero aqui entrar na questão muito complexa e muito complicada de
+saber se as festas, se os bailes, se os jantares de gala, se todas as
+ceremonias pomposas da vida mundana podem ter no desenvolvimento da
+industria, no progresso da civilisação moderna alguma influencia
+benefica.
+
+Em outros paizes mais ricos, em outras nações mais industriaes, em outro
+regimen mais favoravel ao luxo creio que sim.
+
+Entendo eu, porém, que as leis geraes não se podem applicar a casos
+especiaes, e que nós não podemos conservar a vida falsamente luxuosa que
+é e continuará a ser por muito tempo o nosso ideal supremo!
+
+Em Lisboa haverá cem familias que estejam no caso de gastar em
+superfluidades um rendimento avantajado.
+
+Mas, como o amor da representação é o nosso cunho nacional, como o
+desprezo pelos pobres é o timbre e o brazão da nossa sociedade, como o
+luxo é o sonho e a aspiração constante de todos os cerebros juvenis,
+provém d'aqui que dia a dia, se sente na familia uma perturbação e uma
+desharmonia mais graves que o contentamento intimo e desinvejoso vae-se
+tornando uma flôr rara, que só aqui ou alli enfeita suavemente a fronte
+ignorante de uma collegial de quinze annos!
+
+Depois, como se não póde vencer o impossivel, mesmo as que empregam os
+maximos sacrificios para apparecerem e brilharem, depois de alcançado o
+fim a que aspiravam, ficam mais tristes e mais despeitadas do que antes
+de o ter realisado.
+
+No baile, á luz opalina dos lustres, no aroma capitoso das violetas,
+entre as magnificencias avelludadas das camelias, percebem--e com que
+amargo desespero!--que o seu vestido não está fresco, que estão
+machucadas as suas flores, que a ninguem illude o amarellado artificial
+das suas rendas falsas, e que o _strass_ não póde substituir com muita
+vantagem os diamantes verdadeiros.
+
+Oh! quantas privações, quantos sacrificios, quantas luctas conjugaes,
+que scenas intimas, para alcançarem aquella _toillete_ mesquinha,
+desbotada, humilhante, que parece ter malicias diabolicas em cada uma
+das suas pregas, a rir-se ferozmente no seu _fru-fru_ escarnecedor.
+
+E a dona d'esse vestuario hybrido pensa de si para si com uma furia
+concentrada, que põe manchas biliosas nas suas faces, e chispas sombrias
+nos seus olhos pisados.
+
+--«Não consigo humilhar nenhuma das minhas inimigas, não venço nenhuma
+das minhas rivaes! As pobres adivinharão todas as penas que esta hora de
+ostentação me tem custado! as ricas terão dó, um dó profundo da minha
+miseria mal disfarçada e mal occulta! Que ganhei eu com isto?»
+
+Ganhou, minha senhora, ganhou alguma cousa, póde crer. Ganhou a certeza
+de que seu marido ou não a estima já, se é honesto e digno e tem a alta
+comprehensão dos deveres da familia, ou continua a sentir o mesmo que
+até alli tinha sentido, uma paixão insalubre ou uma indifferença
+bestial, e n'esse caso não passa de um homem tolo, ou de um homem máu!
+
+Ganhou o haver definido, de si para comsigo a sua propria situação;
+ganhou o reconhecer bem a que especie de marido entregou o destino de
+seus filhos e o seu.
+
+E não se diga que ha n'estas minhas palavras demasiada acrimonia, ou
+injustiça flagrante.
+
+O nosso defeito consiste positivamente n'isso: em dar pouca attenção a
+todas as cousas; em ver os resultados sem observar e sem julgar as
+causas; em perdermos completamente de vista, que não ha effeito por mais
+mesquinho que não seja o corollario de uma lei importante.
+
+Não quero, já se vê, condemnar sem appello as senhoras que frequentam a
+sociedade e se habituam á atmosphera artificial dos salões.
+
+Quero provar simplesmente que entre cem senhoras que o fazem, só dez é
+que o podiam fazer, e que o nosso modo de ser social se não coaduna com
+esses costumes pomposos, restos e herança de um extincto regimen.
+
+ * * * * *
+
+Para se saber quanto o luxo corrompe e adoece um paiz bastar-nos-hia
+apontar para a França de Luiz XV e para a França do segundo imperio.
+
+A historia e as chronicas d'esses dias de ominosa memoria
+revelar-nos-hiam de um modo bem claro e bem frisante quanto é
+escorregadio o declive que do luxo exagerado conduz á immoralidade, ao
+impudor da mulher e ás deshonestas transigencias do homem.
+
+Não queremos, porém, n'este estudo despretencioso evocar a historia, nem
+revolver o lodo das passadas corrupções.
+
+Queremos simplesmente fallar ao bom senso das leitoras, e queremos
+fallar chãmente, simplesmente, sem declamações, nem idéas preconcebidas.
+
+Todos sabem que o nivelamento das classes, a livre divisão dos bens, a
+democratisação das fortunas, se teem conseguido debellar muitas e crueis
+injustiças sociaes do passado, teem sido tambem a destruição das
+colossaes fortunas de outro tempo.
+
+Hoje, quando essas fortunas por acaso existem, são creadas pelo trabalho
+em grande escala, pelas importantes emprezas commerciaes, pela
+actividade devoradora de homens privilegiados.
+
+Já se não fundam como antigamente em direitos estaveis e
+indestructiveis. São ephemeras, contingentes, dependem de muitas causas
+com que se não póde absolutamente contar.
+
+Uma crise financeira, uma guerra européa, uma quebra importante, um
+abalo qualquer de credito, e eis por terra um edificio assombroso e
+complicado que parecia dever resistir ao embate de todas as tempestades,
+e que um sôpro logra alluir!
+
+Ora, se isto tem relação com as grandes fortunas, se nem ellas podem
+contar com o dia de ámanhã, que farão os que não possuem mais que o
+necessario, os que ás vezes nem isso possuem?
+
+Antigamente, no modo por que estava constituida a hierarchia social, uns
+tinham todos os bens, e outros soffriam todos os males; hoje como todos
+teem eguaes direitos, todos querem ter eguaes regalias.
+
+Seria isso muito bom, se a egualdade que existe entre as prerogativas
+podesse existir tambem entre as riquezas, se em vez de haver pobres e
+ricos, houvesse sómente ricos, cousa a que nem os mais exaltados
+socialistas se lembraram ainda de aspirar.
+
+Ora, se está sobejamente provado que, principalmente no nosso pequeno
+paiz, ha uma minoria pequenissima que é rica, ha uma maioria enorme que
+é miseravel, e ha, entre os dous extremos, uma classe, a mais
+importante--no fim de contas, visto que tem a superioridade da educação
+e da intelligencia, que é simplesmente remediada, porque é que não
+havemos de sujeitar o nosso regimen social ás exigencias e necessidades
+d'essa classe, que é a predominante, senão pelo numero, ao menos pela
+influencia que exerce?
+
+Essa classe póde conhecer as distracções de uma agradavel intimidade,
+mas não as pompas decorativas, as ceremoniosas galas de uma vida de
+salão apparatosa e futil.
+
+Se os filhos d'essa classe olhassem para baixo e vissem as privações, as
+luctas, as miserias dos que só conseguem com o suor do rosto ganhar um
+pedaço de pão duro e cobrir pobremente o corpo emmagrecido, de certo que
+se sentiriam felizes, triumphantes, dignos de inveja, na sua
+mediocridade aurea, na modesta fartura da sua vida domestica, nas
+distracções intimas de um circulo affectuoso e limitado.
+
+Mas não! Olham para cima, vêem os ricos, os potentados, os dominadores
+do seculo, ouvem nas tentações febris das suas noites o tilintar
+magnetico do ouro, vêem passar no fundo dos seus ligeiros coupés,
+pallidas e desdenhosas mulheres, que medram como flôres exoticas de
+fulva folhagem metallica na estufa das suas salas opulentas, sentem em
+si o desejo insaciado de todos os prazeres que não teem, e sem
+prudencia, sem pudor, sem dignidade, atiram-se ás especulações
+vergonhosas, transigem com a sua propria probidade, vendem, desde os
+bens que herdaram de seus paes, até á consciencia que lhes veio de Deus,
+e quando conhecem que n'esta lucta ingloria, n'esta lucta impossivel só
+podem ser vencidos, já não é tempo para retrocederem no funesto caminho
+encetado!
+
+E que não ha parar n'esta ingreme descida.
+
+Teem-me dito por varias vezes que eu sou feroz para com o sexo a que
+pertenço; que accuso com muita injustiça as mulheres de todos os males
+que teem succedido, que succedem ou que estão para succeder no nosso
+mesquinho planeta.
+
+Ora eu, pelo contrario, estou convencida de que o meu orgulho, de que a
+minha vaidade feminil me levam a dar ás mulheres uma importancia que
+mais ninguem lhes quer reconhecer.
+
+Eu digo que d'ellas provéem todos os males, porque estou
+convencida--talvez sem razão--que d'ellas podiam provir todos os bens.
+
+Ainda no ponto de que se tracta é d'ellas toda a culpa, no meu humilde
+entender.
+
+Sim, porque no fim de contas, não são os pobres maridos que mais desejam
+figurar nos bailes e nos saraus, e que de boa vontade sacrificam a
+commoda poltrona em que podiam dormir a sesta, o bom e saboroso
+jantarinho que podiam comer, o livro util e proveitoso que comprariam,
+para gastarem esse dinheiro n'uma _toilette_ falsamente luxuosa, n'uma
+_soirée_ ridiculamente burgueza, n'um jantar de ceremonia cujos
+acepipes, na opinião do conviva mais guloso, seriam só dignos de
+figurarem n'um banquete de theatro com pratos de... papelão.
+
+São as mulheres que teem sempre a louca ambição de figurarem ao par de
+outras mais ricas, embora n'essa lucta desigual só consigam tornar bem
+visivel e bem grotesca a sua derrota!
+
+São as mulheres que consideram os prazeres mundanos como o indispensavel
+elemento para a sua completa felicidade.
+
+São ellas que arrancam ás primeiras necessidades do _ménage_, á carne
+que os filhos devem comer, ás roupas brancas da familia, aos abafos do
+inverno, á lenha do fogão das noutes frias, á mobilia commoda e
+confortavel das casas, ao peculio das doenças, ao asseio e ao conforto
+domestico, o dinheiro com que adquirem esse luxo ridiculo, esse luxo de
+_pacotille_ que não illude, nem excita a commiseração de ninguem.
+
+E quando ellas percebem no olhar e na bôcca dos que assistem a essa
+lucta absurda, um sorriso malicioso, uma faisca de ironico desdem, são
+ellas que irritadas, desvairadas, fóra de si, arrastam o marido á
+extravagancia, á dissipação, á prodigalidade, ao crime, e arrastam os
+filhos á miseria e á desolação!
+
+Nada mais funebre, mais triste, mais sombrio do que o interior de uma
+d'essas casas, em que o necessario é sacrificado ao superfluo, em que o
+real é sacrificado ás apparencias, em que o conforto intimo é
+sacrificado ao apparato exterior.
+
+As criadas sujas, despenteadas, petulantes; as creanças pallidas,
+anemicas, sem educação e sem solas; com os dentes podres e nodoas no
+vestido; os moveis indiscretos na mal disfarçada miseria, uma unica casa
+elegante--a sala--falsa taboleta de uma vida de imposturas; a roupa
+branca do marido encardida e grosseira, a _toilette_ da mulher vistosa e
+_mirabolante_. As côres _tapageuses_, substituindo a qualidade fina e
+solida; a multiplicidade dos arrebiques, substituindo a simplicidade
+opulenta do trajo.
+
+Quem depois de conhecer dous annos estas galés conjugaes, se resigna a
+viver n'ellas?
+
+Os pequenos preferem o collegio sordido e brutal; o homem foge para o
+botequim ou para outros sitios peiores; a mulher vive na rua, na
+modista, no theatro, nas salas do seu conhecimento, no passeio, na
+ociosidade e depois Deus sabe em que!
+
+Eis a vida creada pelo immoderado amor do luxo.
+
+ * * * * *
+
+Afastemos porém os olhos d'estes quadros sombrios e que no entanto,
+leitora querida, tu bem sabes que não são carregados.
+
+Imagine-se que transformada a sua educação, a mulher se formava
+unicamente para o interior da sua casa.
+
+D'essa casa não fugiriam de certo os amigos fieis e dedicados, não se
+excluiam as pequenas reuniões intimas, a musica, as conversações
+artisticas, as leituras agradaveis, os alegres e joviaes serões.
+
+O que se excluia sem appellação eram os inuteis apparatos.
+
+Como a mulher tinha em mira ser só agradavel aos seus, deixava logo de
+armazenar todas as suas armas--o espirito, a graça, o sorriso, a
+amabilidade--para distrahir os estranhos, para agradar aos
+indifferentes.
+
+Como desejava fugir ao tedio, á melancolia, ás enervantes tristezas da
+solidão, aprendia a dispensar as companhias banaes, fazendo seus
+companheiros, os melhores, os que nunca atraiçoam, os livros, a musica
+boa, as flôres, o trabalho.
+
+Logo que, em vez de se enfastiar em casa, ella se, divertisse e se
+achasse bem junto dos seus, elles começariam mesmo involuntariamente a
+sentir-se aquecidos por essa boa e salutar influencia.
+
+Ninguem póde estar aborrecido ao pé de uma pessoa que se diverte
+francamente.
+
+O marido por mais que os negocios de fóra o preoccupem e enfadem, por
+mais que as luctas da arte, do commercio, da politica, da industria, o
+cansem e mortifiquem, ha de sentir forçosamente um raio de bom e salutar
+contentamento ao pé da esposa que volitar em torno d'elle viva e
+chalreadora como um pardal, fresca como uma flôr, animada, activa, cheia
+de invenções felizes, e de sincera e desaffectada alegria!
+
+E depois, eliminado o luxo exagerado da existencia de qualquer familia,
+eliminam-se ao mesmo tempo os cuidados mais lancinantes, as
+preoccupações mais absorventes, as luctas mais dolorosas, os despeitos
+mais corruptores.
+
+Temos visto varias vezes o seguinte: O homem trabalha para dar o
+bem-estar á mulher, e rouba para lhe dar o luxo!
+
+É que--note-se isso bem--o luxo quando não é a atmosphera natural em que
+se nasceu e se tem sempre vivido, uma cousa que á força de estar
+identificada comnosco, nós já nem se quer percebemos--o luxo quando é o
+fim a que aspira a nossa desenfreada ambição, torna-se um elemento
+profundamente desmoralisador.
+
+Enerva o corpo, excita fatalmente a imaginação, aggrava a
+insaciabilidade natural aos desejos da mulher, dá-lhe a idéa de
+requintes romanescos, de aventuras, de amores vedados, attrahe um
+cortejo de voluptuosas tentações.
+
+A vida das salas é a consequencia inevitavel do amor do luxo que devora
+a mulher de hoje.
+
+Não a mulher de uma certa e determinada classe, a mulher de todas as
+classes sociaes.
+
+A esposa do alto financeiro, do colosso da industria, deseja vestir-se
+de um modo que logo de uma vez córte pela raiz na alma ainda mais
+ambiciosa o desejo de a vencer.
+
+Ora, como este desejo se nutre de difficuldades, todas as que estão no
+mesmo caso d'ella travam a lucta e empregam os mais loucos esforços para
+lograrem a palma.
+
+As raras flôres da nossa velha aristocracia, não querendo ser
+desthronadas pelos potentados modernos, entram, já se vê, no combate com
+grave transtorno das bolsas de seus respectivos maridos.
+
+A nenhuma d'ellas cabe completa victoria; se as rendas de Bruxellas que
+guarnecem o vestido d'esta são mais preciosas, os diamantes que enfeitam
+o collo e os braços d'aquella são mais raros; se a _traine_ de velludo
+d'est'outra é mais distincta, a tunica de setim e ouro da outra é mais
+singular.
+
+E o combate recomeça mais feroz, mais acceso, mais desapiedado.
+
+Cá em baixo a lucta toma as mesmas fórmas. É a lucta da falsa riqueza, a
+lucta das pedras que fingem brilhantes, das _imitações_ que fingem
+rendas, dos vestidos concertados que fingem vestidos novos.
+
+São mais profundos ainda os despeitos, é mais desesperada ainda a
+energia que se gasta!
+
+Quem vive esta vida ardente, inflammada de ambições insalubres, exaltada
+de mesquinhas invejas, corroida de miseraveis tricas, não póde, não
+sabe, não tem forças para ser boa esposa, boa mãe, boa dona de casa!
+
+Pintámos em traços rapidos a vida das nossas mundanas; procuraremos
+desenhar, se tanto nos fôr possivel, a vida que ambicionamos e desejamos
+para a mulher de familia.
+
+No dia em que ella a quizer adoptar, reconquistar-se-ha a serena
+dignidade, a tranquilla doçura do lar domestico, que pouco a pouco se
+vae tornando desflorido, melancolico e deserto.
+
+
+II
+
+Nas paginas antecedentes condemnava eu a vida de apparato, a vida da
+sociedade, a _vida de sala_, pela influencia corruptora que ella exerce
+nos costumes e nos sentimentos, e pela absoluta desharmonia em que ella
+está com a moderna concepção da familia e da sociedade.
+
+No entanto não basta só lavrar a condemnação de um modo de ser social, é
+necessario apontar o remedio, ou pelo menos apresentar um alvitre que á
+nossa consciencia pareça proficuo e salutar.
+
+As mulheres gostam da vida frivola e inutil dos salões, pelos seguintes
+motivos:
+
+--Porque as salas são o theatro dos seus triumphos e conquistas.
+
+--Porque é ahi que ellas são lisongeadas, louvadas, incensadas e
+queridas.
+
+--Porque os homens só prestam homenagem ás mais bonitas, ás mais
+vaidosas, e ás mais ricas, na realidade ou na apparencia.
+
+Além d'estas causas que as levam a gostar da representação e da pompa
+mundana, ha outras dependentes d'estas ou relacionadas com ellas, que as
+levam a aborrecer-se no interior das suas casas.
+
+Primeiramente, e acima de tudo, a falta de uma educação solida e
+positiva, que as faça encarar a vida debaixo do seu verdadeiro aspecto.
+Um aspecto de seriedade e de justiça, assentando na comprehensão de
+todos os deveres.
+
+Segundo, a inhabilidade e a ignorancia, que as torna incapazes de
+qualquer trabalho seguido. A falta de gosto natural ou de gosto
+adquirido, para se entreterem, para se distrahirem, para revestirem de
+uma fórma sympathica e attrahente as suas obrigações de donzellas, de
+esposas, de mães, de donas de casa.
+
+Terceiro, a inveterada frivolidade que herdaram, e que os exemplos
+recebidos, e a falsa educação mais aggravou e desenvolveu, tornando-a um
+perigo, o maior de todos os perigos que ameaçam a familia.
+
+Eu tenho repetido isto tantas e tantas vezes, que receio por fim
+enfastiar as minhas leitoras.
+
+_É necessário antes de tudo transformar radicalmente a educação das
+mulheres._
+
+Muitas das cousas que hoje se ensinam é mister que deixem de se ensinar.
+
+Muitas outras que se encaram debaixo de um certo e determinado ponto de
+vista, cumpre que se vejam sob outro aspecto inteiramente differente.
+
+Outras ha ainda a que ninguem attende e que se não ensinam, e é
+positivamente a essas que se deve dar a maxima e a mais desvelada
+attenção.
+
+Tratemos de apresentar exemplos das tres asserções que acabamos de
+apresentar.
+
+Das cousas inuteis que hoje se consideram ainda partes integrantes de
+uma educação perfeita.
+
+Ha a _dança_: um talento absolutamente dispensavel, que nas meninas só
+serve para desenvolver a _coquetterie_, o desejo de brilhar e de
+agradar.
+
+A _tapeçaria_: um pretexto futil para estragar o tempo. Em quanto a mão
+vae preguiçosamente bordando a talagarça, a phantasia irrequieta da
+mulher, da creança, corre e vôa por montes e valles, á procura de um
+vedado ou de um impossivel ideal. Chama-se a este genero especial de
+trabalho feminino, a _hypocrisia da preguiça_.
+
+Como estas duas cousas, ha muitas mais que não temos tempo de enumerar,
+mas que se não são nocivas como a primeira, são pelo menos inuteis como
+a segunda.
+
+Procuremos agora muitas das materias que se ensinam, e devem continuar a
+ensinar-se, mas ás quaes a educação tal como está rotineiramente
+estabelecida, não sabe dar a importancia e o valor devido.
+
+São a musica, a historia, as linguas, a geographia, a arithmetica, etc.,
+etc.
+
+O primeiro cuidado de toda a mãe vaidosa ou illustrada, intelligente ou
+mediocre, é que as suas filhas aprendam a tocar piano.
+
+Muito bem.
+
+É preciso, porém, advertir-se que a _monomania do piano_, tal como ahi
+anda inoculada e propagada, é um flagello, um temivel flagello e nada
+mais.
+
+A musica é de todas as artes aquella que mais falla aos sentidos e á
+alma do homem.
+
+Modera, dulcifica, adormenta, consola, estimula, apaixona, enternece e
+muitas vezes, quando profanada e desvirtuada por sacerdotes sacrilegos,
+enerva, abranda a energia e a vitalidade do espirito, e vence todas as
+resistencias viris do caracter.
+
+É uma amiga, póde ser uma cumplice.
+
+Em todos os casos é um grande, um milagroso, um divino, um terrivel
+poder.
+
+Mas mesmo pelo papel importante que occupa, mesmo pela influencia
+profunda que exerce, não é dado a todos interpretal-a e comprehendel-a.
+
+Muitos ha que se submettem ao seu irresistivel dominio, sem saber sequer
+adivinhal-o ou presentil-o.
+
+Quantas vezes não temos visto uma pobre mulher boçal, uma modesta e
+ignorante creatura, chorar de commoção ouvindo as notas tristes de uma
+flauta ou de uma guitarra!
+
+Não tem a consciencia da commoção que a perturba, mas vibram-lhe os
+nervos, latejam-lhe as fontes, toda ella palpita e estremece como que
+agitada por uma potencia ignota.
+
+Como todas as artes, a musica só póde ser interpretada por quem a
+comprehenda com o seu espirito, e por quem a sinta com o seu coração.
+
+De outro modo é uma profanação e é um escarneo.
+
+Achamos, portanto a musica, um elemento poderosissimo de educação, mas
+exigimos que haja intelligencia e vocação nas pessoas que a aprendem.
+
+Não é fazer do piano um attributo indispensavel de todo o ensinamento
+elegante, e obrigar sem discernimento e sem escolha todas as meninas a
+estudal-o e a atormentar com elle o ouvido do proximo.
+
+Logo que se comprehenda bem o grande alcance da musica, a sua influencia
+moralisadora, a sua missão artistica, as mães escolherão de entre as
+suas filhas, aquella ou aquellas que mostrarem predisposição para este
+genero de estudo e auxiliarão por todos os modos o desenvolvimento
+d'essa vocação.
+
+O piano deixará de ser o flagello e a peste das _soirées_ sem ceremonia,
+o tormento dos visinhos proximos, o pezadello dos maridos, o martyrio
+das proprias executantes. Não reinará exclusivamente como até aqui esse
+despotico e terrivel instrumento.
+
+Não se dirá das meninas _bem educadas_: _toca admiravelmente_,
+subentendendo já o malfadado _piano_.
+
+Dir-se-ha mais acertadamente: _sabe musica_, _toca muito bem
+violoncello_, ou _harpa_, ou _rebeca_, ou _piano_ mesmo, porque nós não
+queremos condemnar nenhum instrumento ao ostracismo, pelo contrario
+queremos livrar os outros do ostracismo a que estão injustamente
+condemnados.
+
+Com esta escolha sensata das pessoas que particularmente devessem
+cultivar a sua vocação musical, muitos bens proviriam á educação da
+mulher.
+
+A musica executada só por quem a entendesse, ouvida só por quem a
+apreciasse, tornar-se-hia, em vez de um ornato de vaidade, uma elevada
+distracção artistica.
+
+Educaria e apuraria o gosto, exerceria a sua pura e civilisadora
+influencia, seria o repouso depois do trabalho ou a consolação no meio
+d'elle.
+
+Os velhos mestres allemães com as suas largas e simples harmonias,
+ouvidas á noute no serão modesto da familia, ao pé de um ou dous amigos
+intelligentes e sinceros, penetrariam o coração da mulher de uma
+serenidade affectuosa e dôce, de um casto enternecimento salutar!
+
+ * * * * *
+
+O que dizemos da musica instrumental tem applicação a todas as outras
+artes.
+
+O canto, o desenho, a pintura, a escultura mesmo.
+
+Todas merecem o nosso respeito, não como adornos pueris, mas como
+elementos de util e fecunda moralisação.
+
+Sempre que a mãe ou que a educadora descubra em sua filha, ou na sua
+discipula, tendencia pronunciada para um ramo qualquer de actividade
+intellectual, deve por todos os modos facilitar e desenvolver essa
+vocação espontanea.
+
+Mas que a educação de todas não seja pautada por um molde uniforme!
+
+Mas, por Deus! que não se faça d'esta grande e sublime missão de
+cultivar um espirito infantil, uma questão de moda, uma questão de
+vaidade, uma questão de mutua inveja mesquinha.
+
+As linguas são hoje ensinadas com muito esmero.
+
+Mas que applicação se dá a essa sciencia adquirida em muitos annos de
+estudo e de pratica?
+
+Uma applicação deveras ridicula!
+
+Entre vinte das meninas que sabem hoje francez, inglez, allemão ou
+italiano, não ha quatro que tenham lido Hugo ou Bossuet, Racine ou
+Montaigne, Shakspeare ou Milton, Goethe ou o Dante, não ha quatro
+sobretudo que estejam aptas para comprehenderem estes mestres do
+pensamento e da palavra.
+
+E no entanto para que servem as linguas estrangeiras?
+
+Não passam de meros instrumentos com os quaes adquirimos noções, factos,
+idéas, conhecimentos, que nos seriam estranhos sem ellas.
+
+Na lingua de um povo está consubstanciado muito do que elle é moral,
+physica e intellectualmente. Penetra-se no caracter de uma nação
+conhecendo a fundo as locuções de que ella se serve.
+
+E quem é que hoje encara as linguas d'este modo a não ser algum
+philosopho retirado na sua torre ideal, ou algum philologo embebecido
+nos seus estudos?
+
+É preciso que este conhecimento se vulgarise e se propague, para que as
+linguas estrangeiras tomem na educação o lugar que lhes compete.
+
+A historia, que é um apontoado de datas e de nomes proprios, de
+dynastias e de batalhas, logo que passasse a ser na educação das
+mulheres o que ella é já no espirito dos criticos, seria um estudo
+attrahente, mais dramatico do que todos os romances, de uma realidade
+mais poderosa e dominadora.
+
+A geographia, que não é mais do que uma arida e enfadonha nomenclatura,
+animada pelo espirito da mãe intelligente, levaria a imaginação
+infantil, não já pelos paizes chimericos, do sonho e do impossivel, mas
+por essas regiões pittorescas, onde tanto ha que vêr e que aprender.
+
+Mais tarde as sciencias naturaes, a botanica, a mineralogia, a biologia,
+abririam ao espirito já preparado, horisontes larguissimos, onde pudesse
+espraiar-se livremente.
+
+ * * * * *
+
+Assim educada, quer dizer, sabendo tudo que sabe hoje, mas classificado
+por outra ordem, e encarado debaixo de outro aspecto, e muitissimas
+cousas que hoje não sabe, mas ás quaes a conduziria naturalmente, o novo
+methodo dos seus estudos, a mulher transfigurada, levantada,
+fortalecida, podia aspirar a uma vida inteiramente diversa da que hoje
+tem.
+
+Teria grandes vantagens esta modificação profunda no seu modo de ver, de
+pensar e de sentir.
+
+Vulgarisada para todos a educação cujas bases apontamos, desapparecia da
+sociedade essa entidade singular chamada _mulher pedante_.
+
+É extraordinario mas é verdade, a ignorancia das outras é que constitue
+o pedantismo d'esta.
+
+Sendo uma excepção no seu meio, tem as qualidades e os defeitos das
+_excepções_.
+
+Comprehende que é alvo da curiosidade, do pasmo, da observação dos que a
+rodeiam, e a pouco e pouco vae cahindo n'uma _pose_ artificial que a
+torna ridicula.
+
+Poucas são as que téem a coragem de--tendo um lado superior--se
+conservarem simples, desartificiosas, naturaes.
+
+Lêram, estudaram, compararam; no meio da estupidez geral, produzem um
+vago assombro que lentamente vae distinguindo n'ellas!
+
+Oh! mas no dia em que a mulher instruida deixasse de ser uma excepção
+admiravel, como ellas, as pobres _mulheres pedantes_ se sentiriam
+humilhadas e deslocadas!
+
+A vida de sala iria pouco a pouco sendo o apanagio das frivolas e das
+tôlas, e acabaria por desapparecer completamente.
+
+A mulher dentro de sua casa sentir-se-hia bem, porque teria em si
+recursos sufficientes não só para entreter os seus, como tambem--e é
+isto o principal--para se _entreter a si_.
+
+É essa a grande questão!
+
+É preciso que as mães preparem o espirito de suas filhas de modo que
+ellas não precisem dos outros para viver contentes.
+
+E como se ha de conseguir este fim?
+
+Educando-as para que ellas bastem a si proprias. Dando-lhes ao espirito
+todos os recursos, ao corpo todo o vigor, ao caracter toda a austera
+dignidade; cultivando e desenvolvendo todas as faculdades superiores que
+ellas revelem, encadeando harmonicamente as suas acquisições
+intellectuaes, para que d'essa harmonia interior resulte para ellas uma
+exacta e elevada comprehensão da vida!
+
+E não é muito o que nós exigimos.
+
+Somos a primeira a confessar que hoje ha muito mais esmero e apuro do
+que havia antigamente na instrucção que as classes abastadas dão ás suas
+filhas.
+
+Pouco mais precisam de aprender; o que lhes falta é a ligação logica
+entre as varias cousas que aprendem, é uma concepção mais larga das
+mesmas sciencias que adquirem, é o conhecimento das proprias armas que
+possuem, contra esse inimigo poderoso da mulher, chamado Tedio.
+
+Em nosso humilde entender classificariamos d'este modo os conhecimentos
+indispensaveis a toda a mulher, para esta ser julgada apta a exercer o
+sacerdocio de esposa, de mãe, e de dona de casa.
+
+As linguas estrangeiras, consideradas como meios de adquirir noções
+praticas, idéas justas, factos positivos; como meios de comparar, de
+julgar, de aquilatar, de exercer emfim o seu senso critico, de modo que
+o desenvolvesse, elevasse e afinasse; como meios de conhecer as
+differentes manifestações do bello e de as poder relacionar entre si.
+
+A Historia, com o fim de conhecer através d'ella a humanidade de todos
+os tempos, de seguir a sua lenta e continua evolução, e de penetrar
+lucidamente no sentido da palavra--progresso.
+
+O conhecimento profundo e philosophico da historia moralisa, pacifica, e
+revigora as crenças. Dá ao espirito, além de notavel perspicacia, grande
+justeza de pontos de vista.
+
+Viriam depois, como já dissemos, a geographia natural, a arithmetica, a
+geometria, as sciencias da natureza, e isto harmonicamente,
+progressivamente, de deducção em deducção, sem esforço, ligando um
+conhecimento a outro conhecimento, n'uma cadeia logica e inquebrantavel.
+
+Juntamente com estas acquisições uteis, e como que amenisando os
+esforços que ellas por ventura custassem, a mãe intelligente levaria sua
+filha a cultivar especialmente a arte para a qual sentisse mais
+accentuada vocação.
+
+Preparada por esta iniciação em que o espirito fosse exigindo dia a dia
+alimento mais substancioso e mais forte, á proporção que mais rico de
+vigor e de vitalidade elle se sentisse, escusado é dizer, que nenhuma
+mulher deixaria de comprehender e de saborear com intimas delicias o
+encanto novo e superior com que a arte illuminasse a sua vida.
+
+Seria uma ascensão gloriosa e lenta, ás alturas onde se respira um ar
+mais puro e mais subtil.
+
+D'alli, d'aquella montanha ideal, a que ella houvesse subido, levada
+pela sciencia e pela arte, pelo estudo e pelo sentimento, ser-lhe-hia
+facil descobrir o caminho que devesse seguir na vida. A idéa do dever,
+esta idéa que é o remate e a corôa da educação perfeita,
+apresentar-se-lhe-hia como um resultado natural de todo o trabalho
+interior que no seu espirito se houvesse feito.
+
+Chegariamos emfim ao ponto que queremos attingir.
+
+A educação deixaria de ser um fim e tornar-se-hia o meio elevado e
+transformado de alcançar a perfeição moral.
+
+Resta, porém, fazer uma pergunta que está no animo de todos.
+
+Sujeitar-se-ha a mulher, assim arrancada de chofre á banalidade da
+esphera limitada em que tem vivido até agora, a cumprir as mesmas
+humildes obrigações, que teem sido e continuarão a ser a sua tarefa
+quotidiana, e o seu quinhão na vida?
+
+De certo que sim, e seguindo o mesmo methodo que seguimos para o seu
+cultivo intellectual não nos será difficil provar que esses mesmos
+deveres, logo que sejam comprehendidos dignamente, em vez de humilharem,
+são um triumpho para aquella que os sabe exercer.
+
+
+
+
+CAPITULO III
+
+A velhice das mulheres
+
+
+Nas nossas continuadas predicas ácerca da transformação que é necessario
+operar-se em tudo que respeita á educação feminina, levamos em mira
+principal, duas cousas muito dignas de attender-se.
+
+Primeiro: que a mulher torne quanto possa, independente de
+circumstancias exteriores, a marcha do seu destino, quer dizer, que ella
+não seja forçada fatalmente a seguir um caminho para o qual haja no seu
+espirito instinctiva repugnancia, que ella dispense na sua vida
+influencias estranhas e muitas vezes incompativeis com a sua indole.
+
+Segundo: que ella se vá lentamente preparando na infancia e na sua tão
+curta e ephemera mocidade, para a quadra mais longa, mais difficil e
+podemos hoje dizer, mais dolorosa da sua existencia: a velhice.
+
+Exemplifiquemos, para que melhor seja comprehendido o nosso raciocinio.
+
+No que toca ao primeiro ponto, lancemos em roda os olhos e vejamos. Por
+toda a parte encontraremos argumentos victoriosos.
+
+No estado presente da educação a mulher está sujeita a uma funesta
+dependencia, a qual mesmo sem tendencia para exagerações declamatorias,
+se póde chamar escravidão.
+
+Assim como descuram dar ao seu corpo por meio da gymnastica a força, a
+elasticidade, a ligeireza, o vigor, assim descuram dar á sua alma a
+energia, que a torne superior aos preconceitos, e ao seu espirito a
+forte e larga educação, que a habilite para ganhar honestamente a sua
+modesta subsistencia.
+
+Sente-se fraca, e pusillanime diante do trabalho, diante das luctas,
+diante da desgraça.
+
+Confessa a cada instante o medo pueril que a avassalla; medo de não
+resistir ás tentações que a covardia dos homens arma á insensatez da
+mulher; medo do riso alvar com que os tolos lhe castigariam a viril
+energia; medo de se sujeitar ao trabalho incansavel e tenaz que ha de
+dar-lhe a independencia, a dignidade, a livre posse do seu destino.
+
+Além do medo a impossibilidade absoluta.
+
+Se nada sabe, o que ha de ella fazer?
+
+Podia dirigir a contabilidade de uma casa de commercio importante.
+
+As mulheres com o seu instincto de ordem, mais desenvolvido do que os
+homens, são proprias para este genero de trabalho.
+
+Podia, sendo medianamente illustrada, ser caixeira de um estabelecimento
+de modas, de uma loja de papel, de um mercador de fazendas, etc., etc.
+Tudo isto está em harmonia com a delicadeza dos seus orgãos.
+
+Podia ensinar linguas, ensinar musica, ensinar e explicar as sciencias
+que houvesse aprendido, a historia, a arithmetica, a litteratura, a
+geographia.
+
+Podia, tendo alguns fundos que houvesse herdado de seus paes,
+estabelecer qualquer pequena industria, emfim, ter uma acção propria,
+independente e não subordinada aos caprichos alheios, ou ás
+circumstancias eventuaes.
+
+Mas como não sabe fazer nada d'isto, como a sua educação a pôz e a
+conserva n'um estado de absoluta e desoladora humildade, não tem senão
+tres caminhos a seguir.
+
+Ou casar mesmo que não tenha pelo seu noivo nenhum sentimento de
+respeito; mesmo que o ache ridiculo ou estupido ou máu; mesmo que elle
+lhe seja imposto unicamente pelas conveniencias egoisticas do seu
+futuro; mesmo que nenhum laço de sympathia a elle a prenda, e d'esta
+funesta causa escusado será dizer quantos males terriveis não resultam
+para a sociedade e para a familia!
+
+Ou ficar a cargo dos parentes mais ricos, que por commiseração a
+acolham, a alimentem, a vistam, a protejam, e n'este caso soffre e
+decahe a sua dignidade propria, a alma curva-se-lhe n'uma postura
+humilhante, deixa de ter responsabilidade, de ter opinião, de ter
+individualidade emfim; constitue-se um ser mutilado cujo aspecto
+enfermiço faz tristeza e dó, quando se não torna um temperamento azedo,
+atrabiliario, perverso, folgando no espectaculo de todas as desgraças
+alheias.
+
+A terceira hypothese já todos a adivinharam infelizmente.
+
+A mulher repellida da familia, porque a não quizeram inutil e pobre, não
+achando em si nem a coragem, nem a sciencia do trabalho, lucta contra o
+mal que lhe revela as suas traidoras miragens, mas se mão estranha a não
+soccorre e a não prende, succumbe, precipita-se e perde-se.
+
+D'estas tres hypotheses exceptuamos, já se entende, todas as mulheres
+que tiverem a suprema felicidade de encontrar no homem a quem entregaram
+absolutamente o seu destino, além do noivo escolhido e preferido entre
+todos, o protector mais util e mais dedicado.
+
+Exceptuamos tambem as ricas, porque essas que não tinham em si proprias
+a independencia, adquiriram-na indirectamente por meio da sua fortuna.
+
+Mas a divisão infinita dos bens vae diminuindo mais e mais o numero das
+ultimas, e a felicidade negativa que ha na maior parte dos _ménages_
+tornando as meninas de pouca edade impacientes de sahirem da casa
+paterna, imprudentes e precipitadas na escolha, vae diminuindo em não
+menor proporção o numero das primeiras.
+
+Como quer que seja, abandonemos essas duas cathegorias de excepções e
+achamo-nos em frente de uma numerosissima maioria.
+
+ * * * * *
+
+Os resultados que encontramos são, portanto, os seguintes:
+
+A incapacidade absoluta da mulher dominar o seu destino, incapacidade
+cujas causas já apontámos, produz estes tres generos de victimas.
+
+A mulher que casou, porque não podia deixar de o fazer, que casou para
+ter pão, para ter casa, para ter luxo, para ter protector, um editor
+responsavel da sua vida, e que tendo sómente este objectivo, se não
+occupou nem um instante em estudar e conhecer o homem a quem ia para
+sempre entregar-se.
+
+A creatura humilhada, dependente, parasita, vivendo das migalhas do luxo
+que a rodeia.
+
+A desgraçada que a sua fraqueza inteiramente desprotegida perdeu e
+abysmou.
+
+Nenhuma d'estas mulheres condemnadas ao descontentamento intimo, á
+dolorosa inquietação da consciencia, em resultado de uma causa identica,
+póde estar satisfeita comsigo mesma.
+
+O que fazem, pois, para fugirem de si? Procuram quanto sabem e como
+podem, os outros.
+
+As festas de uma folia burlesca, ou as festas de uma pompa deslumbrante,
+o mundo, emfim, a convivencia, o barulho, tudo que aturde, tudo que faz
+esquecer.
+
+Ainda aqui os nossos calculos nos não illudiram.
+
+A mulher procura o mundo, porque as alegrias que póde encontrar em si
+mesma, não só lhe não bastam para illuminar com ellas o lar onde vive
+com os seus, como lhe não chegam para si propria se distrahir e se
+contentar.
+
+ * * * * *
+
+Entremos agora no segundo ponto que ha pouco tocámos.
+
+A mocidade da mulher é forçosamente curta. Aquella que se compenetrar
+sensatamente d'esta idéa, o que deve fazer para attenuar a amargura?
+
+Preparar-se com dignidade, com resignação, diremos mesmo com alegria
+para esse longo supplicio da mundana, que se chama velhice.
+
+O homem, desenvolvendo em muito mais larga escala e de um modo muito
+mais variado a sua actividade complexa, póde gosar até á mais avançada
+edade dos prazeres que por assim dizer mais apreciou.
+
+A ambição, as luctas da politica, as lucubrações da sciencia, as
+argucias da diplomacia, as investigações da historia e da critica, e
+mesmo os gosos ardentes da arte.
+
+Vejam-se Goethe, Miguel Angelo, Hugo, Beethoven, Talleyrand, Thiers e
+tantos e tantos mais.
+
+A mulher de hoje, a mulher educada por este acanhado ideal que a domina,
+funda o seu fragil poder nas graças fugitivas da sua formosura, no
+encanto juvenil da sua vivacidade, na sua elegancia, no seu riso frivolo
+e pueril, no esplendor radiante do seu luxo, na sua convivencia inutil e
+perfumada como a das flôres!
+
+Um dia alveja-lhe na massa fulva, cendrada, ou negra dos seus cabellos,
+um fio de prata, o primeiro, invisivel para todos os olhos, mas que o
+espelho revelou aos seus.
+
+Esse fio traz preso a si a desventura!
+
+Oh! ella reinou, dominou, teve subjugadas aos seus pés todas as forças e
+todas as vontades!
+
+A casa, mesmo sendo a casa um ninho fôfo e perfumado, parecia-lhe bem
+pequena e bem mesquinha para theatro dos seus triumphos.
+
+Era das salas que ella gostava!
+
+Do murmurio surdo, abafado, voluptuoso de admiração, que ella excitava
+ao entrar nos salões pelo braço do seu pobre marido, muito enfastiado e
+soberanamente ridiculo!
+
+Como todos gabavam o sabio decote do seu corpete, revelando com uma
+indiscrição que accendia invejas e desejos em torno d'ella--invejas e
+desejos que a enroscavam como serpentes de fogo--a brancura do seu collo
+e dos seus hombros, aquella brancura setinosa de camelia, que o orvalho
+da madrugada humedeceu.
+
+Como era magestosa a cauda do seu vestido! como as flôres e as perolas
+se ennastravam bem nas suas tranças opulentas! como os braceletes de
+brilhantes mordiam de raios iriados a carnação explendida dos seus
+braços!
+
+Como a adoravam, como a detestavam ferozmente aquelles homens e aquellas
+mulheres!
+
+Cada olhar tinha a agudeza de uma lamina de aço!
+
+Traspassavam-n'a, feriam-n'a, beijavam-n'a aquellas mudas caricias
+insolentes, e aquelles odios violentos e felinos!
+
+E a consciencia da sua formosura, da sua soberania omnipotente, do seu
+prestigio invencivel, fazia-a vibrar toda como ao contacto de uma pilha.
+
+Sentia-se rainha. Tinha ditos graciosos, tinha repentes felizes, tinha
+epigrammas implacaveis, _coquettismos_ crueis; era espirituosa, era
+bella, era triumphante!
+
+A casa, os filhos pequeninos, o marido, os livros, que são tão bons
+companheiros da honestidade e da modestia, onde ficara tudo isso? Nas
+brumas indecisas de um passado que ella não queria ver.
+
+Oh! que intensidade de vida n'estas horas!
+
+Era só pensando n'ellas que vivera. Para que havia de lêr, para que
+havia de instruir-se, para que havia de ir perguntar á natureza muda, o
+segredo de todas as suas riquezas, para ella inuteis e desdenhadas?
+
+Era feliz porque era admirada.
+
+ * * * * *
+
+Como desce o panno sobre o tablado cheio dos deslumbramentos de uma
+magica, assim para ella descera agora o panno, sobre os prestigiosos
+esplendores da sua vida de garridice e de vaidade, de luxo e de loucura.
+
+Aquelle cabello branco avisou-a sinistramente de que tudo acabara.
+
+Se continúa a luctar com a velhice que nunca se deixa vencer, achará só
+escarneos onde antigamente achára cultos, só baldões onde a tinham
+acclamado em triumpho.
+
+Se vae procurar as alegrias e as distracções proprias d'essa nova phase
+da sua vida, o que é que encontra em torno de si?
+
+Não ficára ninguem no lar, que primeiro do que os outros, ella havia
+desertado.
+
+O marido andava lá fóra no trabalho absorvente, ou na dissipação
+criminosa. Como ella nada lhe dera nos dias florentes da mocidade, elle
+tambem nada lhe queria dar agora nas tardes glaciaes da velhice. Creára
+outros interesses ou outras affeições, seguira outro rumo, outra ordem
+de idéas. Já agora não era possivel tornarem-se a encontrar na terra.
+
+Os filhos esquecidos, indifferentes, quasi estranhos, estavam no
+collegio ou nas escolas, se o pae tinha tido piedade; estavam na
+vergonhosa ociosidade, na vadiagem ignobil, se o pae tinha tido
+indifferença.
+
+Em todos os casos, nada de commum podia haver entre essa mãe frivola e
+vaidosa, e esses filhos desprezados.
+
+Os livros? Sim, os livros... Os que ella conhecera.
+
+Eram romances.
+
+Fallavam de paixões indomitas, de amores _mais fortes do que a morte_,
+de aventuras romanescas ao luar, com escadas de seda e capas _couleur de
+muraille_; de juramentos feitos em voz soluçante na sombra voluptuosa
+das alamedas; de duettos de ternura cantados pelas Rosinas e pelos
+Almavivas de torna-viagem.
+
+Que lhe importava a ella tudo isso, que era agora o enlevo d'outras,
+embebecidas na mesma mentira que a transviára, mas que aos seus cabellos
+brancos parecia uma ironia cruel!
+
+Mas a natureza é sempre mãe, a natureza acolhe até os mesmos parias.
+
+Ella tem a sombra das suas arvores, a musica dos seus passaros, o aroma
+das suas charnecas em flôr, as serenas linhas das suas montanhas azues!
+Ella tem a claridade pallida das suas estrellas, a doce melopéa das suas
+fontes, o soturno e angustioso bramido dos seus mares, a influencia
+calmante das suas noites tepidas!
+
+Acolherá a natureza aquella que tantos e tantos annos a desconheceu?
+Não.
+
+E não é que ella seja implacavel ou severa, não é que ella saiba sequer
+das mesquinhas miserias que se agitam no seu seio. É porque não é na
+velhice que a alma póde iniciar-se n'um culto novo.
+
+É que para tudo é indispensavel uma aprendizagem gradual, é que a vasta
+creação só tem consolos tranquillisadores, caricias adormecedoras, para
+os velhos, quando teve para os moços sonhos, sorrisos, radiosas
+esperanças.
+
+É que a alma, que ao desabrochar não soube ser sensivel á enternecedora
+poesia das cousas, nunca saberá entender na hora triste do declinar, a
+sua ineffavel e divina linguagem! é que os longos horisontes de purpura
+e de ouro sabem vestir de bemditas claridades a alma dos velhos, quando
+os velhos se recordam, e vêem docemente descer a noute cheia de
+estrellas e de harmonias mysteriosas sobre uma vida que teve por
+companheiros o trabalho, o amor puro, o sacrificio, a abnegação!
+
+Resta apenas como pasto e alimento a estas almas que andaram em busca da
+felicidade por toda a parte, menos no lugar tão proximo e tão
+accessivel, onde ella estava, resta-lhe apenas a falsa devoção.
+
+É lá que ellas vão buscar refugio.
+
+Vivem nas egrejas, procuram um confessor que tenha a jesuitica paciencia
+de revolver com ellas o montão de flôres murchas do passado, a ver se
+ainda de lá vem o vestigio da extincta fragrancia, praticam
+fervorosamente toda a casta de superstições rediculas; entram em
+associações pseudo-caridosas, gastam o resto da vida de outra fórma não
+menos redicula e não menos balofa do que gastaram os dias da juventude.
+
+E de vez em quando, para maior espanto nosso, morre uma em cheiro de
+santidade entre a piedosa confraria.
+
+ * * * * *
+
+O que é pois necessario e indispensavel para todas nós?
+
+É que possamos viver sem o auxilio dos outros, e tirando unicamente dos
+intimos mananciaes do nosso espirito e da nossa alma, elementos para
+construir com elles a nossa propria felicidade.
+
+Quando a mulher depois de ter recebido uma educação robusta, depois de
+ter desenvolvido as suas faculdades no sentido mais amplo e mais
+favoravel, depois de estar apta a viver de pouco, a dispensar tudo que
+seja luxo ou vaidade, de ter dado uma applicação util ás suas aptidões
+especiaes, depois de ter adquirido uma larga somma de idéas geraes, de
+noções e de pensamentos justos, quando a mulher emfim, tendo a
+consciencia de que mesmo sósinha na vida, saberá grangear dignamente o
+seu pão, olhar em torno de si,--forte, intelligente e instruida--e entre
+os homens que a rodearem, e que a preferirem, fixar a sua escolha n'um
+homem, esse póde sentir-se justamente ufano.
+
+Não haverá n'este consorcio nenhuma especulação e nenhum calculo.
+
+Ella está apta a julgal-o, a estudal-o, a entendel-o, por isso foi
+raciocinada a sua escolha. Elle achou uma companheira fiel do seu
+destino, um guia incorruptivel, um precioso auxiliar.
+
+Trabalharão ambos.
+
+Commerciante ou sabio, poeta ou diplomata, artista ou especulador,
+negociante ou politico, sempre a coadjuvação de uma intelligencia
+cultivada e flexivel, penetrante e fina, será de incalculavel utilidade
+ao homem.
+
+Não viverão de certo nos arrobamentos e transportes dos romanescos e
+rapidos amores; terão um fim commum, o bem proprio e o bem de seus
+filhos. Terão meios identicos, o trabalho, a mais escrupulosa dignidade
+de vida, o estudo perseverante, a economia e a paz.
+
+Como o casamento foi um acto em que não entrou a paixão irreflectida, a
+precipitação estupida, ou o calculo inevitavel, ha muito mais garantia
+de que essa união seja duradoura e feliz. Como a phantasia da mulher é
+irrequieta e audaz, logo que ella faça o seu fito de alguma cousa de
+maior e de mais elevado, deixarão de ser perigosos os seus caprichos.
+
+O homem, preparando-se para casar, tambem não dirá comsigo: Vou buscar
+um encargo.
+
+Dirá com muito mais propriedade: Vou buscar um auxilio.
+
+Eis inteiramente deslocado o velho ponto de vista.
+
+Provirá d'esta nova interpretação do casamento o haver muito menos
+mulheres solteiras.
+
+As que houver, porém, terão o seu lugar, o seu destino, a sua tarefa.
+
+Trabalharão.
+
+Não ha ninguem que querendo e sabendo, se não possa tornar util, e
+produzir em bem, tudo que consome em sustento.
+
+Descrescerão de certo as industrias que vivem do luxo e da dissipação,
+mas crear-se-hão outras novas, mais necessarias, e para as quaes a
+mulher poderá levar as suas faculdades felizes, ás quaes só falta
+educação condigna. E quando para todas chegar a velhice será como a
+corôa e o remate de um monumento sublime.
+
+ * * * * *
+
+Ha muito quem alcunhe de pretensão esta minha teima de attribuir todos
+os males da familia á falsa educação das mulheres.
+
+Como se ellas fossem tudo!
+
+Como se d'ellas dependesse tudo!
+
+É que realmente, directa ou indirectamente, pela sua influencia
+immediata ou pela sua longinqua influencia, o caso é que muitos males,
+que muitas desgraças, que muitas immoralidades se lhes devem!
+
+_Cherchez la femme_, direi eu sempre, por mais que achem vaidosa
+pretensão feminina esta minha idéa.
+
+
+
+
+CAPITULO IV
+
+A dissolução dos costumes e o casamento
+
+
+Os philosophos, os moralistas, os observadores clamam continuamente
+contra a dissolução dos costumes modernos, ou descrevem-na com o
+pungente _realismo_ da sua solta e desbragada ironia.
+
+Uns accusam, outros fulminam, outros contentam-se com chascos e satyras
+de Juvenaes _au petit pied_.
+
+Poucos são os que ao passo que apontam o mal, indiquem o remedio, ou
+pelo menos o caminho que deve seguir-se para chegar a alcançal-o.
+
+As theorias são optimas, a pratica é deploravel.
+
+Ninguem é já tão ignorante e tão desallumiado da scentelha sagrada, que
+confunda o bem com o mal, mas o criminoso desleixo de todos, é mais
+funesto á sociedade e á familia, do que a idéa confusa que em épocas
+menos adiantadas se formava dos deveres de cada um.
+
+Sim, a familia parece corroida por um occulto verme, que pouco a pouco
+vae dando a essa arvore frondosa, cheia de fructos e de flores, um
+aspecto morbido e doentio que entristece e causa profundo assombro aos
+que de perto lhe observam o progressivo definhar.
+
+Mas não basta mostrar ao mundo este indicio da sua decadencia moral,
+cumpre investigar as causas para oppôr um dique aos effeitos desastrosos
+que todos os dias se vão mais claramente revelando.
+
+Este dever é de todos; dos grandes e dos humildes. Não ha ninguem que
+não esteja interessado igualmente na destruição de tão terrivel
+flagello.
+
+Tragam uns os esplendores do talento que vê de cima, e que das alturas
+onde paira, derrama luz clara sobre os que labutam na sombra; tragam
+outros o bom senso, a experiencia, a fé e a boa vontade.
+
+Parece que metade do caminho está vencido, porque se muitos,--se a
+maioria--anda transviada, todos pelo menos sabem definir o ideal a que
+aspiram, o fim que desejam attingir e do qual involuntariamente se
+afastam.
+
+O grande mal da nossa época é--quem tal o diria?--é a preguiça
+intellectual. Todos trabalham mais ou menos, porém ha poucos que meditem
+e que pensem.
+
+O seculo desoito foi o seculo do pensamento; o seculo desenove é o
+seculo da industria.
+
+Predomina a materia, aspira-se ao bem-estar do corpo, aos gozos da
+riqueza, ao sybaritismo refinado e artistico e pouco se attende á voz
+prophetica d'essa Cassandra, chamada philosophia, que debalde clama aos
+homens que elles vão por um caminho errado, que trilham uma estrada que
+não é a verdadeira, visto que a não illumina e lhe não mostra os
+precipicios, a verdadeira e eterna luz.
+
+Os males que affligem a sociedade, que affrouxam os laços da familia,
+que contaminam e dissolvem lentamente os costumes, provém de uma causa,
+composta de muitas causas complexas, e para combater a qual devem
+juntar-se os esforços de todos os que amam o bem.
+
+Ninguem considera o casamento como elle precisa de ser considerado, não
+já sob um ponto de vista mystico e sentimental, porém no seu verdadeiro
+aspecto, nas suas relações inilludiveis com a sociedade e com a
+verdadeira moral.
+
+Como sempre, é á mulher que aqui me dirijo, é com a mulher que eu fallo.
+O homem tem-se em muita conta para dar attenção á minha debil e
+desautorisada voz.
+
+A mulher attender-me-ha porque é em vista da sua felicidade, da
+felicidade de seus filhos, da solidez e do aconchego de seu ninho, que
+eu lhe estou aqui fallando.
+
+O casamento não é um contracto puramente social, não é uma união só
+filha da religião e do sentimento, não é uma sancção legal de affectos
+egoistas e de paixões indomadas, de tudo isso tem alguma cousa, mas é
+muito mais sério, mais sagrado e mais santo do que isso tudo.
+
+Se esta quadra transitoria e convulsa que atravessa a geração de que
+fazemos parte, é triste como nenhuma outra, essa tristeza provém
+principalmente das imperfeições que maculam o casamento, das duvidas que
+assaltam todos os espiritos ao vêr tão longe da sua resolução definitiva
+o problema importante da familia.
+
+Por toda a parte o desconsolo, o desalento, a duvida, a melancolia
+insanavel dos que, depois de haverem sonhado um esplendido e estrellado
+sonho, despertam para as agras tristezas da realidade e nada encontram
+que corresponda ás radiosas esperanças com que se haviam embalado.
+
+É que realmente depois da escuridão caliginosa, da noute lugubre e
+sinistra que durante seculos envolveu a humanidade, fizeram-lhe esperar
+tanto, evocaram diante do seu deslumbrado olhar tantas apparições
+luminosas, apontaram-lhe para um ideal tão levantado, fizeram-lhe crêr
+em tão divinas utopias, que todos os desalentos se desculpam ao vêr quão
+pouco a realidade dos factos correspondeu a todos esses sonhos por ora
+infecundos.
+
+Mas não percamos a fé; sem ella o mundo caminhará sem ter outro norte
+que não seja o perigoso conselho das suas paixões desordenadas.
+
+Se ainda pouco está feito, appellemos para o futuro e vamos preparando
+essa evolução pacifica e luminosa de que já talvez nenhum de nós
+aproveite os resultados beneficos.
+
+Esqueçamos este egoismo feroz e improductivo que nos faz desanimar em
+todas as emprezas de que não possamos com mão soffrega e impaciente
+colher os fructos embora prematuros e mal sasonados.
+
+ * * * * *
+
+Não ha nada mais triste do que ouvir o modo desdenhoso, quasi sacrilego,
+com que os moços de hoje, os moços de ambos os sexos, fallam do
+casamento e da familia.
+
+Elles duvidam, rindo com ironia ignobil de tudo que n'outro tempo amavam
+devotamente. Foram-se os bardos sentimentaes e um tanto rediculos,
+diga-se a verdade! que amavam sem esperança, mas com ternura apaixonada,
+as queridas perfidas, que desprezavam o seu desinteressado affecto.
+
+A litteratura, que é o espelho das sociedades, tem por feição a ironia
+mordente, a analyse fria, a dissecação anatomica mais positiva e mais
+crua.
+
+O desdem pela mulher manifesta-se sob todas as fórmas, e debaixo de
+todos os aspectos.
+
+Se acabaram as declamaçães de _Benedicto_ e de _Antony_ contra a
+tyrannia esmagadora da instituição conjugal, apparecem em logar d'estas
+os quadros mais abjectos da dissolução e da decadencia a que chegou o
+casamento e com elle a mulher.
+
+No limiar da adolescencia os que não alardeiam um cynismo falso e tão
+ridiculo como os transportes romanticos do passado, calculam
+arithmeticamente o que póde provir-lhes em beneficios liquidos d'aquillo
+a que chamam um _bom casamento_.
+
+Não attendem ás qualidades moraes, que não podem apreciar nem conhecer;
+quando muito, lançam no orçamento como uma verba de certa importancia as
+vantagens physicas da noiva escolhida.
+
+Nenhum grande pensamento os exalta, nenhuma idéa definida e clara da
+missão que aceitam os eleva a seus proprios olhos.
+
+Pelo seu lado a _noiva_, a creança radiosa que enfeitam todas as galas e
+todas as flôres dos vinte annos, gaba-se em confidencia ás amigas
+intimas, de que _já não tem illusões_ e que _conhece a vida_, a vida de
+que ella não leu ainda sequer a primeira pagina!
+
+Casa porque a familia quer, casa porque encontrou aquelle rapaz em dous
+bailes, porque o achou _interessante_, _sympathico_, _muito amavel_,
+porque emfim é um _bom partido_, segundo diz o papá!
+
+Outras vezes casa porque gosta d'elle, mas gosta d'elle
+instinctivamente, animalmente, sem o conhecer, sem saber se essa mão que
+aperta nas suas mãos virginaes, será sempre em todas as crises, em todas
+as occasiões da vida, a mão de um homem honrado.
+
+No dia em que se acham ligados indissoluvelmente o seu primeiro
+sentimento é um sentimento de surpreza, quasi de susto.
+
+Dizem então os frivolos e os superficiaes: o _melhor tempo é o da lua de
+mel_.
+
+Engano! Esses dias são os dias da vertigem, mas não são os dias da
+felicidade.
+
+Cada defeito que os dous mutuamente se descobrem, é como uma semente
+envenenada que ha de germinar mais tarde.
+
+Não se lembram do futuro, saboreiam com a volupia da paixão sensual os
+prazeres ephemeros d'essa hora que passa. No fundo, bem no fundo do
+pensamento, n'um escaninho escuro em que ambos fogem de entrar, porque
+sabem que lá os espera a desillusão, teem guardadas muitas das tristes
+descobertas que fizeram n'aquellas horas de abandono, de loucura, de
+extasi, em que as suas almas se embeberam voluptuosamente.
+
+_Elle_ sabe já que a mulher é frivola, é ignorante, é vaidosa, que vê no
+casamento as alegrias da vaidade, antes de ver os deveres e os
+sacrificios; _ella_ tem a certeza de que todas aquellas promessas
+radiosas não passam de uma chimera que o tempo desfará, que o marido não
+tem as delicadezas que satisfariam a alma da mulher ainda a menos
+exigente, e a menos ambiciosa.
+
+Na ebriedade d'aquelles primeiros tempos perdoam-se mutuamente os
+defeitos, que parecem até graciosos, lindos e feiticeiros.
+
+O que os entristecerá mais tarde, o que avincará de rugas de mau
+prenuncio o rosto do marido, e fará encher de insondavel tristeza o
+coração da mulher, não é mais que a resultante das pequenas e todavia
+fataes concessões e desculpas que reciprocamente fizeram os noivos aos
+defeitos que viram apparecer nas primeiras horas da convivencia, nos
+risonhos dias do noivado.
+
+_Ella_ sahiu do aconchego tepido da familia, das doçuras do lar paterno,
+dos braços amoraveis da mãe; vem acostumada a quererem-lhe muito, a ser
+muito estimada e amada. Em casa conheciam-lhe os gostos, as inclinações,
+os habitos e os defeitos, porque a par das boas qualidades ha sempre no
+coração humano um recanto onde se abrigam as deficiencias de caracter e
+de genio.
+
+Aquillo que os paes, as mães e as pessoas que de mais perto conviviam
+com _ella_ lhe perdoavam, é desculpado tacitamente por _elle_ no extasi
+e na delicia ineffavel do noivado; porém, mais tarde tudo isso servirá
+de base a accusações asperas, e a censuras amargas.
+
+_Ella_, pelo seu lado, retrahir-se-ha, offendida e triste ante as
+imperfeições que outr'ora desculpava, e para as quaes hoje é intolerante
+e severa.
+
+Por isso, a mãe, quando dá o ultimo abraço á filha que parte para os
+braços do noivo expede dilacerantes soluços de afflicção, e lamenta-se
+desesperadamente.
+
+--É um estranho, pensa a mãe, pouco viveu com ella; mal a conhece, viu-a
+apenas nos saráus, á luz viva do gaz, cercada de adorações, risonha,
+feliz, espirituosa e delicada. Eu tambem fui assim... Mas como me custou
+a aprendizagem da vida! E como esta é devéras tão outra e differente do
+que suppunha!
+
+Pobre creança!
+
+Isto pensam as mães, com aquelle sagrado affecto que nunca se desmente,
+e que não trepida ante nenhum sacrificio, por mais arduo e assombroso
+que seja.
+
+Mas, de quem é a culpa, bom Deus?
+
+Sobre quem deve recahir a culpa das nuvens que se acastellaram no futuro
+da vida dos noivos, a culpa das horas longas e plumbeas que os esperam,
+das recriminações azedas, que farão explosão mais tarde, e que levarão
+áquelle dôce lar tranquillo o desassocego, a duvida, a desillusão, e a
+algida tristeza desconsoladora de vermos as ridentes chimeras que se
+desfazem lugubremente, e que nunca mais resurgirão?
+
+A culpa deve caber tanto a um como a outro, tanto á mulher como ao
+marido.
+
+O noivado é uma iniciação augusta, uma escóla onde devemos aprender a
+ser justos e tolerantes.
+
+O que hoje transparece vagamente, o defeito que aponta subtil e timido
+em meio das alegrias do noivado, será pouco tempo depois injustamente
+considerado uma cousa horrivel e monstruosa.
+
+E mister que o marido e a mulher se não julguem a suprema e alta
+perfeição, e que sejam complacentes para as maculas e defeitos a que
+ninguem escapa.
+
+O homem, com a sua vida ruidosa e trabalhadora de militar, de
+negociante, de artista e de proprietario terá impaciencias, phrenesis e
+agastamentos. Quando a sua natureza se expandir livremente e sem peias,
+não será o mesmo que estava mezes ou annos atraz aos pés da noiva,
+submisso, trémulo e feliz, não medindo o mundo senão pelo ambito
+aquecido pelo bafo da sua gentil amada; perderá todo esse ar de
+humildade e de escravidão, e, sem o querer, ha de ferir a pobre
+creatura, machucar-lhe os mimosos caprichos e offender-lhe a ingenua e
+nativa delicadeza.
+
+A mulher com o seu pouco ou nenhum conhecimento das difficuldades da
+administração de uma casa, ante o enorme peso das responsabilidades que
+prevê, terá hesitações, duvidas e receios, que lhe farão rebentar muitas
+e repetidas vezes as lagrimas, no principio da sua difficil e tão
+ambicionada posição de senhora e dona de casa.
+
+Quando o marido recolher da rua, da praça, das officinas, das academias,
+desgostoso, com o coração mordido pelo infortunio, magoado pela
+ingratidão de um amigo, pela falsidade de um outro em que cégamente
+confiara, pelas mil contrariedades emfim da vida, e precisar de uma boa
+e querida palavra de affecto, de um conselho leal e sincero, de uma
+consolação benigna, a mulher deve esquecer-se de si, velar resolutamente
+as feridas que sangram, para só pensar no marido de que é solidaria
+companheira, e de cuja consciencia viril deve ser amoravel directora.
+
+Nas mãos da mulher está a tranquillidade, o socego, a ventura e a
+honestidade do lar, porque ella deve ser a perseverança inalteravel, a
+bondade suprema e inexgotavel, a intelligencia allumiada pela doce luz
+que dimana do coração.
+
+Que a mulher saiba perdoar, que a mulher desculpe o egoismo, a dureza,
+as coleras bruscas do marido, e verá como este saberá fingir que ignora
+que tambem n'ella existem maculas, que tambem n'ella avultam defeitos.
+
+Se deseja ser perdoada, que perdôe ella primeiro, que dê o exemplo, e os
+resultados d'essa condescendencia serão de maravilhoso alcance.
+
+Ah! é preciso repetil-o mil vezes, dêmos um caracter de austera
+seriedade ao casamento, respeitemol-o, cerquemol-o de garantias
+duradouras, se não quizermos que a familia se desmanche, e que a
+immoralidade triumphe.
+
+Que as noivas antes de pensarem na inveja que o seu vestido branco e a
+grinalda de flôr de laranjeira causarão ás suas mais intimas amigas,
+entrem no seu novo lar, resolvidas a crearem a felicidade do ente, que
+apesar de viril e forte ha de ter durante a vida muitas horas de
+abatimento e tristeza, que só os beijos de uma esposa honesta espancam.
+
+Que se compenetrem as noivas, que dos primeiros dias do noivado depende
+a paz dos dias futuros, a saude, a educação e o porvir dos filhos.
+
+Passados os primeiros dias, volvidos os primeiros mezes, sendo o marido
+intelligente e a mulher bondosa, tendo ambos uma completa noção do justo
+e da verdade, poderão facilmente escolher o caminho que os leve mais
+direitos á felicidade, de que tantos casados andam distantes porque se
+não souberam corrigir a tempo, e porque deixaram que se expandissem em
+espraiada e opulenta rama os defeitos que ambos conheceram e viram com
+olhos benevolamente complacentes, e só então complacentes! de noivos.
+
+No campo não é raro ouvir-se ás aldeãs a quem se pergunta se se dão bem
+com a vida de casadas, o seguinte dizer quasi invariavel na bocca
+d'essas mulheres:
+
+--Ao principio tivemos as nossas _turras_, mas a gente, como o outro que
+diz, foi-se habituando um ao outro, e agora não ha que se lhe diga; o
+que elle quer, quero eu tambem.
+
+_Ao principio tinhamos as nossas turras_... ouviram? É que no campo ao
+primeiro beijo segue-se bem cedo a primeira recriminação; é que no campo
+o noivado dura menos, mas em compensação descobrem-se brutalmente as
+differenças de genio e as desigualdades que a pouco e pouco vão
+desapparecendo.
+
+A mulher, porém, que é sempre mulher, quer ande vestida de sedas, quer
+ande envolvida em saragoça, póde com a sua benefica e pacificadora
+influencia, tanto no campo como na cidade, desculpando o marido,
+conseguir que este lhe desculpe e lhe attenue as imperfeições e defeitos
+que estão fatalmente inherentes, ai de nós! á mesquinha natureza humana.
+
+
+
+
+CAPITULO V
+
+As mães e as filhas
+
+
+Venho ainda hoje fallar ás mães a respeito das suas filhas. Creio que é
+um meio de ser ouvida com attenção.
+
+Se as mães são pela maior parte das vezes a causa inconsciente dos males
+que affligem a educação de seus filhos, não é d'ellas a culpa, que só
+levam em mira o bem e a felicidade dos queridos fructos das suas
+entranhas.
+
+Mas o amor das mães é cego como um instincto, e como tal precisa de ser
+guiado e dirigido.
+
+Entregues a si, transviadas pelas noções incompletas que já lhes eivaram
+de erros funestos a educação que receberam na infancia, ouvindo mais a
+voz da propria vaidade, que a voz austera da razão, as mães continuam a
+suppôr que na educação de uma menina se deve attender antes de tudo ás
+_exterioridades brilhantes_, que farão d'ella a favorita dos salões
+mundanos, a elegante e afamada cultora de todas as delicadas
+frivolidades sociaes.
+
+Desde a burgueza, que, apenas sahe dos desfiladeiros sombrios da
+miseria, já cuida tão sómente em hombrear com as duquezas que inveja de
+longe, até á mais aristocratica descendente das antigas paladinas, todas
+teem as mesmas noções falsissimas ácerca da educação que suas filhas
+devem receber.
+
+Não estudam os diversos espiritos que se propoem a adornar com as mesmas
+galas sediças; para ellas uma _educação de senhora_ não varia.
+
+Segue sempre a mesma norma absurdamente anachronica.
+
+Os filhos são reclamados pela escola, pelo lyceu, pelo instituto, e teem
+de sujeitar-se ás regras acanhadas e incompletas da educação official;
+as filhas, debaixo da direcção mediata ou immediata das mães, começam no
+lar domestico a sua aprendizagem, que é como que a opposição systematica
+a todos os instinctos poderosos de que a natureza as dotou.
+
+Turbulentas, como é natural que sejam as creanças, aprendem a suffocar a
+espontanea e salutar actividade dos seus pequenos membros. A primeira
+obrigação que reconhecem é a _de não fazerem bulha_.
+
+Tornam-se taciturnas e sonsas.
+
+O habito de contrariarem incessantemente os impulsos tão naturaes da sua
+idade, como que lhes abre o caminho para a hypocrisia, o peior e o mais
+vulgar dos vicios femininos.
+
+Sentindo continuamente pesar-lhe sobre a cabeça uma pressão despotica,
+de que não podem reconhecer a justiça, aspiram instinctivamente ao
+livramento, teem surdas revoltas intimas, de que nenhum olhar sonda os
+segredos.
+
+Não se desenvolvem na plena liberdade da natureza, ha nos seus corpos
+miudinhos um aspecto de enfezamento e de fraqueza que faz pena.
+
+A vaidade maternal cuida então de as enfeitar; o vestuario das suas
+pequenas joias torna-se para as mães--para as mulheres--um negocio de
+alta e gravissima importancia.
+
+Não ha nada que as satisfaça; os bordados finos, as rendas, as sedas, as
+plumas, os velludos, tudo se combina para adornar o gracioso e querido
+anjo.
+
+Dous resultados inevitaveis:
+
+A immobilidade a que este luxo condemna as suas victimas pequeninas, e a
+feroz vaidade de que elle lhes lança n'alma a primeira semente, que mais
+tarde ha de desatar-se em venenosos fructos.
+
+A pequena assim vestida julga-se forçosamente de uma essencia superior
+ás que não podem competir com ella em opulencia; de um lado levanta-se o
+orgulho, de outro lado rasteja a inveja.
+
+O gosto de ser contemplada, admirada, de excitar emulações raivosas, de
+ser apontada como um modelo de elegancia infantil, accende no espirito
+da creança a funesta luz que mais tarde ha de allumiar os erros da
+mulher.
+
+Quando sôa emfim a hora em que o espirito exige a sua indispensavel
+cultura, o mesmo systema que até alli dominou na educação da pequenina
+continúa a fazer sentir a sua corruptora influencia.
+
+«--Quero que a minha filha se não possa envergonhar de apparecer ao pé
+das mais ricas!--diz a mãe enfatuada na sua funesta vaidade.
+
+ * * * * *
+
+Chamam-se os professores de dança, de musica, de linguas, de desenho, ou
+conduz-se a menina ao collegio mais afamado em prendas d'este genero.
+
+Algumas mães exigem tambem que as filhas aprendam a _bordar_ a lã, a
+_bordar_ a ouro, a _bordar_ sobre escomilha, a fazer _crochet_, flôres,
+pequenos trabalhos de agulha, proprios para ornamentação de um quarto de
+pensionista ingenua.
+
+Outras, mais dadas á sciencia, querem uns elementos de geographia,
+alguma historia sagrada e profana, uma leve tintura de arithmetica.
+
+Por cima de tudo isto um pó dourado de devoção elegante, ministrada pelo
+director das consciencias do _high-life_.
+
+Não se admitte de modo nenhum que um velho sacerdote obscuro e
+despretencioso, cujos sermões não tenham fama, cujas predicas não sejam
+ouvidas, entre suspiros e lagrimas, pelas devotas da aristocracia,
+inicie a pequena neophyta nos mysterios subtis da doutrina catholica.
+
+É indispensavel um padre galante, perfumado, estrangeiro, que torne o
+ensino da religião alguma cousa de artistico e de adocicado como elle.
+
+_Saber bem doutrina_ constitue um dos deveres de uma educação primorosa,
+e no entanto a filha que aprendeu, a mãe que a mandou ensinar, ignoram
+todos os deveres a que esta sciencia, a ser bem comprehendida, as
+obrigaria.
+
+Sabem doutrina como sabem grammatica; quer dizer repetem de cór umas
+certas e determinadas regras de que não percebem a applicação pratica.
+
+Aos quinze annos a menina preparada por estes elementos tem a sua
+educação completa.
+
+Quer seja filha de um duque, quer seja filha de um fabricante, quer o
+seu destino a reserve para receber n'uma sala faustuosa os altos
+personagens da politica e da diplomacia, para fazer parte da côrte, para
+conviver n'um pé de intimidade com todos os grandes, e com todos os
+opulentos; quer ella tenha de partilhar as luctas obscuras de um modesto
+empregado, de um industrial de poucos haveres, de um artista
+desprotegido, é a mesma a sua educação moral, physica e intellectual.
+
+Está do mesmo modo preparada para as luctas e para os combates da vida;
+tem a mesma força nos musculos, tem as mesmas faculdades no espirito,
+tem as mesmas noções na consciencia.
+
+A burgueza ou a fidalga, com tanto que tenham dinheiro, teem os mesmos
+direitos, as mesmas aspirações, ambicionam para suas filhas o mesmo
+lugar na sociedade.
+
+Mas o que deve confessar-se uma vez por todas é que esta educação, toda
+vaidade, toda orgulho frivolo, toda inutil ostentação, convem tão pouco
+á filha da aristocracia e da opulencia, como á filha da burguezia e da
+mediocridade.
+
+Uma, collocada nos altos pincaros sociaes, precisa de ter o juizo recto
+e seguro para conhecer os homens, a graça ondeante e fina para os
+attrahir, o conhecimento profundo dos seus interesses e paixões, para os
+conciliar entre si; precisa de fallar a cada um a linguagem mais propria
+para o convencer e dominar; precisa de ser, junto de seu marido um
+auxiliar proficuo com que elle conte, uma intima e fiel alliada, que o
+ajude a conservar dignamente a posição que herdou dos seus avós ou que
+conquistou com o braço e com o pensamento.
+
+A outra, n'uma esphera que é inferior á da primeira, segundo o ponto de
+vista social, mas que de feito lhe é superior, porque inclue mais altos
+e mais complexos deveres--a outra precisa de descer com seu marido á
+arena onde combatem os modernos trabalhadores, precisa de lhe ser em
+tudo e por tudo ajuda, guia e conselho, precisa de acceitar para si
+terriveis responsabilidades, para as quaes nenhuma lição a preparou!
+
+Dir-me-hão que o nivelamento democratico das modernas sociedades dá a
+todos os mesmos direitos, porque dá a todos os mesmos deveres; que a mãe
+opulenta e nobre que cria suas filhas nos fôfos ocios da riqueza não
+sabe se em breve terá de vel-as curvadas ao peso da maxima miseria,
+assim como a mulher de um humilde empregado não sabe se verá sua filha
+ascender a uma prospera e brilhante posição, elevada por um d'esses
+casamentos que são vulgares, como d'antes eram raros.
+
+D'accordo, meus senhores; mas essa hypothese em cousa alguma destróe a
+minha asserção, pois o que eu disse e repito é que a educação feminina,
+tal como hoje a entendem, para nenhuma classe da sociedade, para nenhuma
+posição brilhante ou precaria é util ou conveniente.
+
+ * * * * *
+
+Que desenvolvimento moral, physico ou intellectual, póde adquirir-se
+partindo de tão errados principios?
+
+A que fim se aspira, que fim se attinge, alcançando uma educação que tem
+por unica base a vaidade?
+
+Pois a mulher, que levou annos e annos da sua vida a adquirir
+conhecimentos inuteis, está porventura armada para resistir ás
+tentações, ás adversidades, ás miserias, aos combates da vida?
+
+Imagine-se, em contraposição a esta falsa cultura, que constitue o que
+os burguezes embebecidos em comico enthusiasmo chamam uma _educação
+muito fina_, imagine-se que as mães, juntando-se n'uma piedosa cruzada,
+conseguiam crear uma instituição moderna, onde suas filhas recebessem a
+educação que hoje lhes poderia servir, para se tornarem uteis na
+sociedade e na familia.
+
+Quantas vezes não tenho eu acariciado em sonhos a idéa d'essa
+escola-modelo, onde a creança aprendesse a ser mulher, onde a mulher
+aprendesse a ser mãe! onde uma direcção harmonica e intelligente
+presidisse ao desenvolvimento do espirito e ao desenvolvimento não menos
+sagrado do corpo; onde a moral caminhasse a par da sciencia, onde a
+primeira noção que o entendimento feminino recebesse fosse esta: «Todo o
+trabalho nobilita e exalta a quem o executa com a consciencia de cumprir
+um dever!»
+
+Eu não quizera por certo proscrever da educação da mulher as graças, que
+são para ella o que o perfume é para a flôr.
+
+Não queria vêr o mundo convertido n'um viveiro de _pedantes_,
+enfronhadas em sciencia e tornando antipathica a virtude, á força de lhe
+darem ares dogmaticos.
+
+Se a leitora suppõe de mim tal abominação, é que eu bem pouco tenho
+conseguido revelar-me aos seus olhos.
+
+O meu intento é outro; permitta-me que lhe torne aqui bem palpavel.
+
+V. exc.^a, minha senhora, tem uma filha, um pequenino anjo, louro e
+risonho, que é n'este mundo o seu enlevo, como que um bocadinho do céu
+azul, que lhe cahiu no seio n'um dia abençoado.
+
+Tome o meu conselho: não siga na educação do seu pequeno amor o systema
+que sua mãe seguiu comsigo, que as suas amigas seguem com as filhas que
+teem.
+
+Córte de uma vez este fatal nó gordio da tradicção, do costume, da
+rotina, que faz morrer em flôr tantas innovações beneficas.
+
+Tenha a coragem das suas opiniões; inutilise esse formoso e rico enxoval
+que umas modistas banaes inventaram por ordem sua; deite fóra essas
+sedas, essas rendas, esses instrumentos de perdição para a alma
+pequenina que Deus lhe confiou.
+
+Vista sua filha simplesmente, com um aceio gracioso e poetico, que
+revele os seus desvelos de mãe, mas que não denuncie as suas vaidades de
+rica.
+
+Bem vê que, livre de todo aquelle fausto que a incommodava, como um laço
+de fita incommoda uma ave, a sua doce pequenina se sente mais livre e
+mais contente.
+
+Eu bem sei que ainda ha pouco uma amiga sua, passando por ella, a mediu
+dos pés á cabeça, muito espantada e um pouco desdenhosa, perguntando a
+si mesma se v. exc.^a já não era tão rica como ella julgou; mas em
+compensação d'esta pequena ferida de seu amor proprio, houve uma creança
+pobre, que ao parar junto da sua filhinha, ousou estender a bocca de
+rosas, e beijal-a com um dôce e fraterno beijo, como os anjos se dão
+entre si, e para os quaes Deus do alto da sua gloria teve sempre um
+sorriso bom!
+
+Que importam os desdens dos parvos e dos mediocres aos que não teem as
+invejas dos miseraveis a pezarem-lhe na cabeça como uma eterna maldição!
+
+Quando a sua filha passa com o seu vestidinho branco, muito simples e
+muito aceiado, as mães pobres sorriem-se com amor por dous motivos,
+ambos santos: porque ella não humilha ninguem, e deixa uma esmola de pão
+e um rasto de luz no seu caminho de anjo inconsciente.
+
+Oh! como são doces ao coração das mães as bençãos que se desfiam como um
+rosario de perolas sobre a cabeça loura de seus filhos.
+
+ * * * * *
+
+Quando a intelligencia já viva e luminosa da sua filha lhe pedir
+cultivo, como as flores pedem agua, não a force a um trabalho pesado e
+tenaz, nem tão pouco lhe dê da vida uma idéa tão frivola, que ella só
+aprenda o que é superfluo para não dizer inutil.
+
+Abra-lhe com a sua mão maternal tão delicada e tão subtil o vasto livro
+da natureza, e deixe que ella, enlevada e curiosa, o folheie cheia de
+amor e de fé. Toda a sciencia se encerra n'isto, minha senhora.
+
+Faça-a penetrar na alma de todas as cousas para que a vida se não
+conserve aos seus olhos inanimada e esteril.
+
+Em vez de lhe ensinar a doutrina morta que vem nos livros, leve-a
+brandamente por um declive suave a comprehender o espirito d'essa lei,
+que é feita de tanto amor!
+
+Conte-lhe as miserias occultas que ha n'este mundo, ensine-a, ou antes,
+deixe que ella adivinhe como essas miserias se consolam pela esmola do
+pão e pela esmola do carinho, e, quando ella voltar do albergue da
+desgraça, ao seu lado, calada, pensativa, com os olhos cravados nas
+nuvens alaranjadas do poente, pergunte-lhe então baixinho, com a sua voz
+de mãe, a unica que nunca perturba nem afugenta os sonhos de uma
+virgem:--Comprehendes agora as palavras do Christo: _Ama a Deus sobre
+todas as cousas e ao proximo como a ti mesmo_?
+
+Só este commentario das lições do Justo póde fazer com que ellas dêem
+abençoados fructos!
+
+Em vez de lhe occultar os mil subterfugios com que a maldade humana
+tenta avassallar e corromper a innocencia, innocule-lhe lentamente com a
+sua palavra serena e firme a força necessaria para vencer e dominar as
+astucias criminosas e traiçoeiras.
+
+Faça-lhe sentir com a lição e com o exemplo que a mulher tem quasi
+sempre em si o seu peior inimigo, e que este inimigo, que toma todas as
+fórmas imaginaveis, é sempre no fundo o mesmo! o orgulho.
+
+Que ella comprehenda bem que o dominio que a mulher exerce pela sua
+bondade nobilita aquelle que se lhe submette, emquanto que o despotismo,
+que tem como origem a belleza e a graça artificial das seducções,
+rebaixa o homem que o acceita, e a mulher que o põe em acção.
+
+Nas cousas triviaes da vida pratica prepare-a para todas as
+eventualidades.
+
+Que se não ache deslocada n'um throno, nem atraz d'um balcão.
+
+Eis o ideal.
+
+Ha uma dignidade que está comnosco, que participa da nossa propria
+assencia, que provém da noção elevada que nós temos dos nossos direitos
+e dos nossos deveres, e que é portanto independente de qualquer
+circumstancia exterior.
+
+É d'esta dignidade que uma educação justa e forte deve dar á mulher, e
+que em todas as peripecias da vida, por mais desusadas e estranhas, a
+deve acompanhar.
+
+Ter bastante humildade para exercer sem repugnancia os trabalhos menos
+delicados, e bastante superioridade para comprehender a idéa do dever
+que os exalta e sobredoira; ver na vida, primeiramente as obrigações,
+depois as distracções, eis aquillo que todas as mães devem ensinar ás
+suas filhas.
+
+No dia em que todas o souberem, teremos então, em vez das creanças
+fracas e inuteis, que o homem ora protege, ora escravisa, segundo o
+impulso das suas ephemeras paixões, uns seres pensantes, conscios da sua
+força, sem ambições desregradas de um poder que lhes não deve pertencer,
+sem a hypocrita humildade, que faz de cada mulher uma victima pouco
+sympathica.
+
+As salas terão menos estatuetas de _biscuit_ amaneiradas e ridiculas,
+mas a familia terá mais elementos na vida e duração; os pianos deixarão
+de suspirar em noutes de luar as suas sentimentaes confidencias; mas a
+verdadeira comprehensão da arte, da religião, e da poesia penetrará como
+por encanto nos entendimentos feminis.
+
+Teremos emfim ao lado do batalhador das modernas lides uma companheira,
+não só digna d'elle, porém capaz de o levantar a um nivel que elle
+ainda, desacompanhado e desprotegido, não pôde desgraçadamente attingir.
+
+
+
+
+CAPITULO VI
+
+Leitura para nossas filhas
+
+
+ «Minha querida amiga:
+
+Disse-me hontem que sua filha tinha esgotado a pequena bibliotheca
+infantil, que a muito custo colligio para ella, e que esse candido e
+luminoso espirito, de quinze annos exige energicamente mais alimento que
+a nutra e que a deleite.
+
+Pergunta-me a respeito da leitura que ha de permittir a sua filha, a
+minha opinião, o meu conselho.
+
+É um caso difficil este que me propõe.
+
+Lili é uma graciosa e excepcional creatura; tem a logica inflexivel das
+creanças intelligentes, tira rapidamente a conclusão das premissas que
+submettam ao seu criterio. A leitura póde fazer-lhe muito mal ou muito
+bem; não póde de modo algum ser-lhe indifferente.
+
+A minha amiga seguindo as tradicções que já encontrou assentes,
+pergunta-me se póde deixar ler a sua filha _Paulo e Virginia_, esse
+idyllio que tem cem annos e que ameaça ser eterno, ou _Jocelyn_, o poema
+mais perigosamente mystico que eu conheço. Falla-me no _Genio do
+Christianismo_, de Chateaubriand, e nas tragedias sacras de Racine.
+
+Não se lembra para sua filha de nenhum outro escripto e lembrou-se
+justamente d'aquelles que só lhe podiam fazer mal.
+
+Antes de mais nada, responda-me francamente: quer fazer de sua filha uma
+mulher solidamente instruida ou então uma mulher ignorante?
+
+Quer que ella saiba resistir ás tentações que forçosamente ha de
+encontrar na vida, ou quer que ella se conserve na mais completa e
+absoluta inexperiencia até á edade em que ha de entregal-a ao homem que
+tem de ser seu marido?
+
+Da resposta a estas duas perguntas é que tudo depende, porque segundo a
+idéa que a minha amiga fórma da educação de uma mulher, segundo o
+systema que tenciona pôr em pratica com relação á educação de sua filha,
+o futuro d'esta ha de levar um outro caminho.
+
+Eu não posso dizer-lhe positivamente: faça isto, faça aquillo.
+
+Posso apenas contar-lhe o que fiz.
+
+Minha filha tem hoje vinte seis annos, é casada, é mãe, e tem sabido
+cumprir a dupla e difficil missão que a sorte lhe confiou.
+
+Não sei se deva attribuir os meritos que todos lhe reconhecem á educação
+que procurei dar-lhe; parece-me, porém, que sem falsa modestia poderei
+confessar, que os meus cuidados não foram de todo inefficazes, e que o
+muito que pensei e meditei sobre o caracter da minha querida filha, me
+ajudou a guial-o no caminho do seu aperfeiçoamento.
+
+Ha gente que diz que as mulheres não devem ler.
+
+Não sei se alguma vez tem ouvido essas opiniões estupidas ou perfidas;
+não lhes dê credito minha boa amiga.
+
+Eu não acho merito algum á mulher ignorante, que se resigna ao
+cumprimento dos seus obscuros deveres de todos os dias.
+
+Segue rotineiramente um caminho de que não conhece as difficuldades, e
+se não se afasta d'elle é porque não sabe de nenhum outro.
+
+A mulher deve ler, mas se mais tarde no pleno uso das suas faculdades
+mentaes, e da sua força moral, ella póde ler tudo sem perigo, é
+indispensavel que uma educação anterior a tenha preparado e fortalecido,
+é indispensavel que haja o maior cuidado na cultura intellectual que
+ella deve receber na infancia e na adolescencia.
+
+Diz-me a minha amiga, que a maior parte dos romances são immoraes, que
+os que não são immoraes nos intuitos são perigosamente exaltados ou
+revellam ao espirito da mocidade quadros que ella não deve conhecer:
+diz-me que a historia de todos os povos não é mais que um amontoado
+confuso de crimes e de vicios, que a sciencia está em contradicção
+absoluta com as verdades de religião, e no meio das duvidas que se
+desnorteiam e assaltam quasi que prefere condemnar sua filha a uma
+ignorancia que ao menos a conserve simples de coração e tranquilla de
+espirito.
+
+Tenho duas objecções a fazer-lhe minha amiga, e parece-me que ambas hão
+de impressionar o seu esclarecido entendimento.
+
+Em primeiro logar, se consultar bem a sua consciencia, verá que transige
+por fraqueza e por preguiça com a ignorancia de sua filha.
+
+Prefere que ella não tenha quasi nada, a ter de se entregar a trabalho
+difficilimo de escolher com o mais delicado dos escrupulos o que ella
+deve saber.
+
+Em segundo logar, essa ignorancia, que para a mulher lhe parece o porto
+socegado e tranquillo onde ella repousará affoutamente, parece-me a mim
+um banco de perfidas areias onde facilmente ella póde naufragar.
+
+Já estou d'aqui prevendo a sua objecção.
+
+Mas eu não quero tal que minha filha seja ignorante. Pelo contrario,
+dei-lhe uma excellente educação. Aqui não se tracta senão das leituras
+que depois de educada eu lhe devo permittir ou recusar.
+
+Minha amiga, creia isto que lhe vou dizer. Se sua filha não souber senão
+o que tem aprendido até agora, de poucos recursos fica munida para
+combater na grande batalha em que vae entrar.
+
+Ensinou-lhe o cathecismo, bem sei; Lili fez já a sua primeira communhão,
+e respondeu ao exame de doutrina com admiravel facilidade, e com uma
+memoria impecavel.
+
+E depois?
+
+Em que é que essas noções a auxiliam para que ella chegue a conceber o
+bem absoluto, a eterna justiça, o Espirito Supremo que anima a grande
+natureza?
+
+É preciso que ella forme de Deus uma larga e fecunda idéa, e as
+manifestações da sua grandeza não estão no cathecismo, estão espalhadas
+n'essa creação universal que ella não sabe ver e que ella não conhece.
+
+Conhece a historia pelos pequenos opusculos cheios de todas as maculas e
+impurezas, que deixaram chegar ás suas mãos infantís.
+
+Não será uma irrisão dizer que ella conhece a historia?
+
+Sabe os nomes dos reis, as datas dos seus nascimentos e mortes,
+coroações e consorcios, e os filhos que tiveram e as cidades e villas
+que conquistaram; mas que idéa tem ella d'essa historia sublime, que
+participa do drama e da epopêa, que tem paginas doloridas e paginas
+brilhantes, que tem cantos triumphaes, e gemidos de lutuosa angustia,
+d'essa historia em que estão registradas tantas luctas heroicas, tantas
+conquistas immortaes, e que se chama a historia da humanidade?
+
+Não lhe parece que deve ser um estudo elevado, fortificante,
+robustecedor, que faz conhecer melhor, os esforços titanicos que o homem
+tem empregado para alcançar a quasi omnipotencia que hoje possue?
+
+Do homem rude, primitivo, inhabil, rodeiado de perigos para o corpo e de
+chimeras para o espirito, esmagado pela força brutal da natureza, sem
+comprehensão do destino que o esperava e da missão a que vinha, até ao
+homem dos nossos dias, ao rei, ao victorioso, ao vencedor, ao que tem
+dominado todas as tyrannias que o dominavam, que differença enorme vae,
+minha querida amiga!
+
+Entre o pária errante das selvas pre-historicas e esse triumphador que
+se chama Newton ou Goethe, Claude Bernard ou Victor Hugo, ha a distancia
+de uns poucos de milhares de seculos, que é preciso conhecer ao menos
+pelos marcos milliarios que teem assignalado a passagem dos mais
+illustres caminhantes n'essa estrada luminosa que se chama civilisação.
+
+É isso que eu chamo conhecer a historia.
+
+D'essa sciencia o espirito de sua filha, curioso, ávido, aberto para
+todas as grandes cousas, só póde colher proveito, um enorme proveito
+cujo alcance mal lhe posso explicar!
+
+Dir-me-ha que n'essa historia ha crimes ignobeis, ha quadros
+revoltantes, ha homens condemnados cujo contacto póde ferir o delicado e
+original espirito de uma creança.
+
+Oh! mas tambem ha martyrios, sacrificios, abnegações, arrojos sublimes!
+
+Se ha criminosos, tambem ha heroes; se ha algozes, tambem ha martyres;
+se ha monstros, tambem ha santos.
+
+Deixe que no cerebro da creança se faça a mysteriosa elaboração de que
+ha de sahir o culto pelo que fôr bello e bom, o odio raciocinado e
+violento a tudo que fôr abjecto e vil, a compaixão virtuosa e divina
+para tudo que fôr fragil e ignorante!
+
+Ponha nas mãos de sua filha todos os cantos d'essa epopêa enorme.
+Faça-lhe lêr com attenção essa historia, e quando ella tiver chegado á
+ultima pagina, será mulher. Uma mulher instruida, uma mulher forte,
+capaz de ser esposa digna, e mãe desvellada, tendo aprendido a conhecer,
+comparar, julgar e a pensar.
+
+Não sei se comprehendeu bem a idéa que procurei expôr-lhe. Apontei a
+traços largos a direcção _una_ que deve dar ás leituras de sua filha.
+Isto a que chamei conhecer a historia, não é, como viu, ler simplesmente
+os historiadores.
+
+É lêr, dominada por uma idéa de elevada critica, que as conversações
+d'uma mãe intelligente podem dar, todas as que tenham trazido a este
+thesouro formado pelos seculos, algum conhecimento precioso e util.
+
+Os bons historiadores como Macaulay e como Herculano, os poetas que
+vivificam e animam o passado, que entram no espirito de todos os
+seculos, como Michelet: os viajantes intrepidos, os exploradores, os
+navegantes, os homens de sciencia, conquistadores tambem e dos mais
+gloriosos; os moralistas, os criticos, todos aquelles que buscam
+lealmente a verdade e que aspiram ao aperfeiçoamento do homem.
+
+Fallei-lhe de Michelet e deixe-me dizer-lhe o que penso d'elle.
+
+É o coração mais apaixonado de justiça que eu conheço, o que o não priva
+de ser injusto muitas vezes; mas tem uma alma tão grande, tem uma
+comprehensão tão viva do bello, tem faculdades artisticas tão poderosas,
+que para mim não ha companheiro melhor para um espirito moço.
+
+Deixe que sua filha leia muito Michelet.
+
+É um grande mestre. Atravez d'elle ella saberá sentir melhor, amar com
+um amor mais intelligente a natureza.
+
+Michelet tem a doçura misericordiosa que redime e levanta os humildes e
+anima os fracos, tem a paciencia que penetra no intimo dos sêres mais
+inferiores, e que o illumina de uma luz sympathica.
+
+Sabe fazer ver tudo, sabe explicar todos os mysterios.
+
+É um genio que tem alguma cousa de propheta.
+
+Como é bom, divinamente bom, o contacto d'aquelle espirito, dá bondade e
+força.
+
+«Para elle não ha na natureza, nada que tenha vida, e não tenha alma!
+
+Da planta ao mollusco, e do mollusco ao homem tudo que vive ama, e tudo
+que ama tem direito ao nosso amor.
+
+Doce philosophia que nos ensina o segredo de todas as misericordias!
+
+Minha querida, ainda que para mim Michelet seja o melhor dos poetas, não
+entendo que das leituras de uma menina se deva proscrever
+implacavelmente a outra poesia.
+
+Quando digo isto refiro-me á poesia rimada, á que canta no ouvido, com
+uma musica que é muitas vezes traiçoeira.
+
+Procure no entanto que seja o mais tarde possivel, que essas vozes de
+sereia penetrem no ouvido de sua filha.
+
+Oh! é que é preciso muita força para resistir á influencia dissolvente
+que ellas teem em nós.
+
+Nunca perca de vista que a vida é um combate, um rude e terrivel
+combate, e elles os que cantam e os que choram em vez de inocularem no
+espirito a força de que este precisa, tornam-n'o debil, amollecem-n'o,
+em voluptuosidades enervantes.
+
+Ninguem tem medo de Lamartine.
+
+As mães dão-n'o a ler ás suas filhas, os noivos dão-n'o de presente ás
+suas noivas.
+
+Para todos elles é o mais puro dos poetas, um cysne que nunca maculou as
+suas pennas brancas no lodaçal das paixões insalubres!
+
+Não se illuda com este juizo que universalmente se formou a respeito de
+Lamartine e dos melancolicos da sua escola.
+
+Que maior perigo para uma alma juvenil do que a aspiração a um ideal
+impossivel? do que a sede de venturas irrealisaveis e do que o sonho de
+amores que não existem?
+
+E depois os poetas inconsolados e inconsolaveis não ensinam a luctar
+contra as magoas da vida. Ensinam a curvar a cabeça aos golpes da
+fatalidade, ensinam a chorar covardemente, a deliciar-se nas agonias, a
+saborear a doçura debilisadora das lagrimas!
+
+Saudemos os que combatem virilmente, os que vencem a desgraça, os que
+furtam a sua alma ás languidas tristezas da desesperança, saudemos os
+que são fortes, alegres e bons.
+
+É d'essas intelligencias eleitas, que sua filha deve sómente
+alimentar-se.
+
+Ella ha de querer ler romances.
+
+É natural.
+
+Os romances são a fantasia, e na vida das mulheres a fantasia tem um
+grande logar.
+
+É na escolha d'esses que precisa ter o maior cuidado.
+
+Proscreva sem dó, da bibliotheca de sua filha, as obras primas dos
+romancistas francezes.
+
+Balzac é um anatomista implacavel.
+
+Os seus romances matam a flôr da fé na alma dos innocentes.
+
+Georg Sand é um bello anjo revoltado.
+
+Tem o orgulho de Satanaz na imaginação de uma mulher apaixonada.
+
+Octave Feuillet tão fino, tão delicado, só deve ser lido depois dos
+trinta annos.
+
+Daudet um delicioso romancista, começou a escrever n'uma época doentia;
+ha n'elle um não sei que de morbido que entristece e que faz mal.
+
+Escusa de procurar minha amiga.
+
+Nós as mulheres para quem a vida já não tem segredos, adoramos esses
+escriptores, porque elles contam-nos o que já tinhamos adivinhado,
+relembrando-nos o que tinhamos sentido; descrevem-nos o que tinhamos a
+curiosidade de conhecer, mas as creanças que os lerem devem experimentar
+bem dolorosas surprezas.
+
+É a litteratura ingleza a mais rica, a mais fecunda no genero que
+procura.
+
+Walter Scott um verdadeiro poeta, reviverá para sua filha as scenas mais
+pittorescas de um passado aventuroso.
+
+Puros amores, enthusiasticos guerreiros, heroismos nacionaes,
+sentimentos caracteristicos de uma raça energica e arrojada, incidentes
+romanescos, mas de um romanesco são, tudo que tem o poder de enlevar e
+attrahir a imaginação colorida e ardente de uma mulher de poucos annos.
+
+Não ha creações femininas mais diliciosamente virginaes do que as do
+romancista escossez.
+
+As suas mulheres, como as mulheres de Sakspeare, como as mulheres de
+Dickens, são feitas de um raio de luar, de uma petala de rosa, de um
+canto de rouxinol.
+
+O crime nem de leve se approximou d'ellas; o vicio, de envergonhado,
+córa na sua presença; não conhecem as más tentações, as vigilias
+ardentes, os sonhos que perturbam e agitam a alma das outras mulheres.
+
+Que doces e queridos exemplos! que bellas e radiosas companheiras.
+
+As escriptoras inglezas seguiram a tendencia moralisadora da sua nação.
+
+Os livros de algumas d'ellas teem a graça d'um narrar discreto e
+_nuancé_.
+
+Não se queixe de que não póde dar á sua filha romances que a distraiam,
+sem a inquietarem.
+
+Dickens o mais energico e convencido dos moralistas, Mrs. Graswell,
+Broute, Georges Elliot e muitos mais que não tenho tempo de enumerar,
+ahi estão para desmentirem.
+
+Que sua filha entremeie a leitura de escriptores mais instructivos com
+esta outra leitura amena e agradavel, e verá como ella aprende a gozar
+da companhia dos bons livros, e a dispensar as futeis distracções
+mundanas que esterelisam o espirito, e o tornam mesquinho e baixo.
+
+Assim, absorvida pelo estudo bem dirigido, pelas elevadas distracções
+intellectuaes, assim educada, fortalecida, illucidada, verá como ella
+chega á edade propria de escolher o seu destino, possuindo um são
+criterio, uma penetração delicada, uma firmeza de principios que a ponha
+ao abrigo de qualquer tentação menos digna.
+
+Conhecendo o bem e o mal, e comprehendendo o que um e outro significam e
+valem, saberá o que não sabem os ignorantes, saberá escolher o caminho
+que tém de seguir se lhe confiarem a escolha.
+
+Parece-me que para chegar a este fim a leitura, o cuidadoso cultivo da
+intelligencia devem ser auxiliares preciosos, não acha?»
+
+Encontramos esta carta nos papeis velhos de uma excellente amiga nossa,
+e sem a corrigir vimos offerecel-a ás nossas leitoras.
+
+
+
+
+CAPITULO VII
+
+As dactas d'uma vida
+
+
+A ida para o collegio
+
+
+--Então achaste o que procuravas?
+
+--Achei. Eu tinha consultado a este respeito a baroneza de S., que tem,
+como sabes, immenso juizo. Indicou-me o collegio de M.^{me} Maubry.
+
+Uma franceza elegantissima.
+
+Parece-me que fiquei muito bem servida.
+
+--Tu é que foste ao collegio fallar com a directora?
+
+--Pois a quem havia eu de confiar similhante encargo? Fui, vi, julguei
+por meus proprios olhos, e fiquei satisfeita.
+
+--O collegio está bem situado?
+
+--Sim. Está n'um sitio muito central, muito concorrido, tudo muito á
+mão. Um constante vai-vem de carruagens, que nas horas de recreação ha
+de distrahir immenso as creanças.
+
+--E a respeito de jardim para ellas correrem?
+
+--Tem um jardim pequeno, mas muito bonito, muito bem tratado, á ingleza.
+Conhece-se á primeira vista a obediencia e a docilidade das discipulas,
+olhando para o jardim. Nem um vestigio de travessuras infantís. Uma
+limpeza ideal nas pequenas ruas arêadas.
+
+Fui lá na hora do recreio da tarde; andavam as meninas passeiando e
+conversando com uma gravidade! uma compostura!.. pareciam senhoras em
+miniatura!.. Achei engraçadissima aquella parodia de uma das nossas
+salas.
+
+--Ainda bem que me contas isso tudo, Mathilde. Ando com vontade de
+metter as minhas pequenas em um collegio, porque estão de uma maldade!..
+Não pára nada com ellas! Importunam-me extraordinariamente. Tu sabes.
+Nem eu nem o pae gostamos de barulho, e dous diabretes em uma casa
+pequena, é de se morrer. Decido-me pelo teu collegio. Perguntaste o que
+lá ensinam.
+
+--Oh! a esse respeito podes estar descansadissima.
+
+Uma perfeita educação de senhora. M.^{me} Maubry é o typo da parisiense
+delicada e graciosa.
+
+Tem um cuidado inexcedivel com as maneiras das discipulas, com o seu
+modo de se apresentarem, com a sua _toilette_.
+
+Disse-me ella que tinha por systema, dar-lhes desde muito cedo o gosto
+de agradarem na sociedade, de excitarem em torno de si uma sensação
+agradavel... impregnal-as d'aquella graça especial que constitue a
+mulher do mundo!.. Approvo immenso aquella maneira superior de entender
+a vida social.
+
+--Mas não me fallaste ainda da instrucção que recebem as discipulas...
+
+--Oh! já se vê, correspondente ao resto. Linguas... nas linguas M.^{me}
+Maury tem um apuro especial. Piano, canto, um pouco de historia, de
+geographia, dança, desenho, varios bordados, etc., etc. Creio que é o
+sufficiente para brilhar entre as primeiras.
+
+M.^{me} Maubry segue o systema moderno no que elle tem de muito
+aproveitavel. Ministra a instrucção brincando por assim dizer. Ha
+concertos semanaes em que figuram as melhores discipulas; ha cursos de
+conversação; ha noutes em que se lê alto, se recita ou se representa.
+N'uma palavra, o fim d'ella é tornar deleitoso o estudo, e desenvolver a
+emulação entre as discipulas. Como verdadeira franceza, percebeu que a
+vaidade é o motor principal da mulher e...
+
+--Minha querida, interrompeu n'este momento o marido da oradora; faze o
+que quizeres, visto que tive a imprudencia de te jurar que educarias tua
+filha conforme te aprouvesse e sem que eu nunca entrasse n'isso; mas o
+que desde já te affirmo é que a tua M.^{me} Maubry é uma corruptora
+inconsciente da mocidade, e que a tua filha nunca passará de uma boneca!
+
+ * * * * *
+
+
+_Durante as ferias_
+
+
+--Mamã, eu antes quero o laço côr de rosa...
+
+--Pois faz a Lili muito mal. O azul fica-lhe muito melhor. Olha que no
+_baile infantil_ hão de estar muitas companheiras tuas do collegio. Que
+alegria para ellas se te virem feia!
+
+--Alegria, mamã? Alegria porque? As meninas do meu collegio são todas
+minhas amigas, hão de gostar muito de me ver bonita e bem vestida.
+
+--Assim será, minha filha, mas as _mamãs_ d'ellas é que com certeza hão
+de ter inveja de mim se tu fores a mais linda, a mais bem vestida, a que
+dançar melhor!
+
+Chega-te aqui Lili! Deixa-me annellar os teus cabellos. Assim é que
+ficas bonita, ouviste? Levanta os teus olhos para mim, são tão bonitos
+os teus olhos!..
+
+--A mamã quer que eu levante os olhos? M.^{me} Maubry ralha commigo por
+eu os levantar de mais. Diz ella que uma menina deve andar sempre de
+olhos baixos, deve córar de vez em quando... nunca se deve rir com
+vontade.
+
+--M.^{me} Maubry diz-te isso?..
+
+--Diz, mamã, e que assim é que as senhoras agradam e se tornam amaveis.
+
+ * * * * *
+
+--Então, minha Lili, tu e a mamã divertiram-se muito no tal _baile
+infantil_?
+
+--Ah! papá, não imagina! Dancei muito, e todos me disseram que eu era a
+menina mais bonita que lá estava.
+
+--É verdade! a Lili estava encantadora. Não imaginas como a elogiaram!
+Todas me perguntaram onde ella aprendeu a dançar.
+
+--E a mim tambem, mamã.
+
+As outras meninas perguntaram-me onde era o meu collegio.
+
+--Vês! dizias tu, meu maridinho ralhador, que M.^{me} Maubry era uma
+professora má. Vê o triumpho que teve a nossa filha no primeiro dia em
+que appareceu em publico!
+
+Lili, corada de alegria, foi dar uma pirueta defronte do espelho.
+
+
+_A primeira communhão_
+
+
+Acabou agora mesmo de vestir-se. Branca, branca que parece uma pomba.
+
+O véu de gaze cahe em prégas soltas e ondeantes por sobre aquelle corpo
+esbelto e franzino, de 14 annos; a corôa de rozas emmoldura-lhe
+deliciosamente a fronte eburnea e levemente sombreada por uns toques de
+infantil melancolia.
+
+Acha-se linda, e sente que todos que a virem hão de achal-a assim!
+
+Dentro da sua alma resôa como que um cantico de orgulho!
+
+Vae ser noiva do Senhor, vae receber pela primeira vez no puro
+tabernaculo do seu coração a visita mysteriosa do Esposo!
+
+O seu director espiritual, um moço sacerdote francez, fino, louro,
+delicado, com uma voz branda e persuasiva, com umas mãos brancas, de
+cardeal, com uns gestos lentos e graves de irreprehensivel bom gosto,
+acabou hontem de a conduzir até aos umbraes d'essa nova vida, em que
+ella vae penetrar já consciente do que é e do que vale.
+
+Que doçura mystica tinham as palavras d'aquelle padre!
+
+Eram ternas, unctuosas, de uma graça desconhecida!
+
+Até alli para ella a religião fôra um não sei quê de vago, triste e
+indefinivel, mais para assombro e terror do que para delicioso extasi...
+
+O Christo macilento e ensanguentado, com a fronte coroada de espinhos, e
+o corpo cravejado de prégos, dera-lhe a idéa de uma angustia desoladora
+e desesperada, que ás vezes enchera de lagrimas a sua pequenina alma de
+dez annos.
+
+Porque seria que, á voz do moço confessor, o Martyr do Calvario como que
+se tinha transfigurado aos olhos d'ella?
+
+O padre pintara-o bello, radiante de mocidade, prodigo de ineffaveis
+esperanças, chamando a si as almas virginaes, e promettendo-lhe a
+eternidade no amor, a radiosa alegria das nupcias celestiaes.
+
+Era uma nova musica, a que elle fizera vibrar aos ouvidos da gentil
+neophyta, que sentia, sem saber como, inundal-a uma alegria anciosa, um
+pungitivo arrebatamento, inteiramente desconhecido ao seu passado!
+
+E olhava para o espelho, e sentia-se bella, moça, radiosa de vida e de
+esperanças, com um profano desejo de alegrias novas, de triumphos
+ignorados a alvoroçar-lhe o seio juvenil.
+
+E agitando em torno de si as prégas fluctuantes do véo de noiva do
+Christo, baixou os olhos languidos sobre o livro das orações e leu em
+voz baixa e palpitante as palavras sagradas, na lingua melodiosa em que
+se habituara, por um requinte de aristocracia, a fallar com Deus:
+
+«_Oh! venez le bien-aimé de mon coeur! venez, Agneau de Dieu, chair
+adorable, venez servir de nourriture á mon âme! Que je te voie, ô le
+Dieu de mon coeur, ma joie, mes délices, mon amour, mon tout!_
+
+«_Qui me donnera des ailes pour voler vers toi! Mon âme éloigneé de toi,
+impatiente d'être remplie de toi, languit, te souhaite avec ardeur et
+soupire après toi, ô mon Dieu, ô mon unique bien, ma consolation!
+Embrase moi, mon Dieu, brule, consume mon coeur de ton amour... Mon
+bien-aimé est à moi_»
+
+O que, traduzido na nossa lingua, decididamente reputada impropria para
+fallar com a Divindade, significa pouco mais ou menos a seguinte
+edificante declaração de amor:
+
+«Vem, amado da minh'alma! cordeiro de Deus! carne que eu adoro! vem
+servir-me de alimento ao coração! Quero ver-te, oh Deus amado, minha
+alegria, minha delicia, meu amor, meu tudo!
+
+«Quem me dera azas com que voasse para ti!
+
+«Minh'alma afastada da tua presença almeja por se impregnar de ti,
+enlanguece, deseja-te com ardor, e suspira por ti, oh meu Deus, oh meu
+unico bem, minha consolação!
+
+«Abraza-me oh Deus! queima, consome o meu coração com as chammas do teu
+amor!..
+
+«És meu, oh bem amado, pertences-me!»
+
+
+_Na volta do baile_
+
+
+Lili vem extraordinariamente pallida e pensativa! As brancuras
+opalisadas do alvorecer penetram atravez dos vidros da carruagem, e como
+que cingem de uma graça ideal os contornos delicados do seu rosto, que o
+capuz de baile emmoldura em alvas rendas.
+
+Dançou até ás seis da manhã; vem cansada, abatida, toda ennovellada nos
+fôfos coxins do seu _coupé_, mas vem pensando muito.
+
+É que o viu no baile, e lhe disseram que _elle_ seria o seu marido.
+
+O pae antes d'ella partir de casa--vestida de tulle e rendas, coroada de
+myosotis, e com um collar de perolas lacteas e iriadas, a affagar
+voluptuosamente a transparencia rosea do seu collo--o pae, antes d'ella
+partir, dissera-lhe gravemente, mas com uma gravidade em que havia muito
+affecto:
+
+--_Elle_ é moço, é nobre, é herdeiro de uma casa riquissima.
+
+A familia deseja este enlace. Não te quero forçar, Lili; mas, se
+gostares d'elle, approvarei com enthusiasmo essa affeição!
+
+--É moço e nobre, pensára Lili comsigo. Hei de amal-o por força. Terá
+maneiras distinctas, um porte correcto, um sorriso levemente desdenhoso.
+E dirá _amo-te_, com uma graça fina e superior!
+
+Depois, á proporção que o baile se ia approximando, com o esplendor
+prestigioso dos seus lustres, com o capitoso aroma das suas montanhas de
+flores, com as prismaticas scintillações dos seus diamantes, com o
+ruge-ruge que fazem ouvir as serpentes e as sedas, Lili pensava que era
+positivamente uma cousa agradabilissima ser rica!
+
+--Irei muitas vezes ao baile, ouvirei em torno de mim o murmurio
+discreto de admiração que enlouquece as mulheres, terei vestidos de
+velludo negro, com diademas de brilhantes a morderem o ouro fulvo dos
+meus cabellos! Invejar-me-hão, e quando eu sahir acclamada e triumphante
+das salas em que fôr rainha, deixarei no meu caminho um rasto de
+admirações apaixonadas!
+
+Vira-o no baile, fallara com elle, tinham dançado juntos.
+
+Percebera que o noivo que lhe destinavam era um pobre rapaz, ignorante e
+enfatuado, muito feliz de ser nobre, de ser rico, e de haver mulheres
+que em torno d'elle cubiçassem o seu titulo futuro e a sua riqueza
+presente.
+
+Apesar d'isso, Lili estava contente.
+
+Era ella que _elle_ preferira, e visto que _elle_ era rico, teria
+carruagens, daria bailes e festas, teria um modo original, severo e
+elegante de vestir-se, as suas amigas imitariam a mobilia das suas
+salas, e o feitio dos seus chapéus, seria uma das raras mulheres que
+sabem gozar, em toda a sua plenitude, a vida social no que ella tem de
+fastoso e brilhante.
+
+Que importa que _elle_ não saiba dizer _amo-te_ com a voz que Lili tinha
+sonhado!
+
+A troco do seu ouro, ouviria dos labios d'ella sem hesitação e sem
+lagrimas as palavras mysteriosas que a mulher pura só deve dizer ao
+eleito do seu coração, as palavras magicas:
+
+_Sou para sempre tua!_
+
+
+_Dez annos depois_
+
+
+Já lhe não chamam Lili. É condessa.
+
+Tem um palacio magestoso e severo, povoado com obras primas de todas as
+artes e de todas as civilisações.
+
+As festas que ella dá são citadas pela sua pompa severa e artistica,
+pela sua graça principesca, pelos requintes de bom gosto que as
+singularisam entre todas.
+
+Tem um povo de criados correctamente respeitosos, que obedecem a cada um
+dos seus accenos.
+
+As suas carruagens quando passam ao trote largo dos finos cavallos
+inglezes excitam a admiração dos entendidos e a inveja dos profanos.
+
+A condessa nunca está só.
+
+Hoje uma recepção a que não póde faltar, ámanhã um baile, no outro dia
+um jantar diplomatico, e as mil praticas da sua devoção aristocratica, e
+as pequenas _soirées_ intimas que dá, e as festas a que preside em sua
+casa, e que o seu gosto escrupuloso e cultivado dirige desde os minimos
+accessorios.
+
+Tudo isto lhe prende o tempo, a absorve e a distrae.
+
+Tem duas filhas... que uma governante ingleza educa e acompanha.
+
+Tem um filho... que está no collegio.
+
+Tem marido... que anda sempre por fóra!
+
+Será feliz? Quem ha que o possa dizer? Na sua pallida fronte marmorea
+não se reflecte senão uma sombra.
+
+É a mulher do mundo na sua accepção mais genuina.
+
+Viveu e vive da monstruosa vaidade que desde a infancia lhe deram por
+exclusivo alimento.
+
+Sabe que é bella, invejada, cubiçada, admirada, odiada até!
+
+Isto basta-lhe, isso a sacia e satisfaz!
+
+
+_Na velhice_
+
+
+Está sentada ao fogão na vasta sala opulenta povoada como outr'ora por
+tudo que ha mais bello e mais luxuoso.
+
+Um grande candieiro espalha, atravez do seu globo fosco, uma luz
+discreta e tranquilla sobre a mesa oval cheia de bagatellas preciosas.
+
+A condessa está só, e os seus olhos baços e amortecidos seguem as
+chammazinhas iriadas do fogão com uma insistencia pensativa.
+
+Com a formosura perdeu a força dominadora que a tornava poderosa e
+querida.
+
+Os amigos da hora dos triumphos povoam agora as salas illuminadas e
+festivas onde suas filhas já casadas segundo as conveniencias da alta
+posição que occupavam, continuam a vida de que sua mãe lhes déra o
+exemplo tentador.
+
+O seu confessor começa a sentir-se cansado do escrupulo esmiuçador com
+que a condessa aproveita os longos ocios da solidão para esgravatar
+piedosamente nos mais escuros escaninhos da consciencia.
+
+--Minha senhora, diz-lhe o bom do abbade, que já não era o moço
+almiscarado dos dias da mocidade, e que ganhára em abdomen o que perdera
+em mystica elegancia; minha senhora, não nos percamos em funestos
+exageros. Deus não quer a morte do peccador, snr.^a condessa.
+
+Nem essa distracção ultima lhe ficára.
+
+As praticas adocicadas do confessionario, aquelles extasis a um tempo
+deliciosos e pungitivos, as confidencias segredadas a meia voz, a
+analyse fina e delicada dos peccados mais subtis, tudo isso lhe falta
+para suprema distracção.
+
+No fim de contas a sua vida não fôra mais do que um sonho frustrado, a
+carreira impetuosa e desvairada atrás de uma sombra que fugia sempre!
+
+Não tivera as livres e salutares expansões da alegria infantil, não
+tivera os sonhos cariciosos e ideaes da adolescencia, não fôra filha,
+nem amante, nem esposa, nem mãe!
+
+Agora já não saberia ao menos ser avó!
+
+E pelos recantos sombrios do aposento enorme, a condessa julgou ver
+deslisar uma pequenina figura de cabeça annellada e loura, uma figurinha
+que dava pelo nome de Lili!
+
+Era o phantasma saudoso de sua infancia que passara!
+
+--Minhas filhas--murmurou baixinho a altiva senhora,--perdoae-me pelo
+amor de Deus, assim como n'este momento eu perdôo á minha mãe!
+
+
+
+
+CAPITULO VIII
+
+Casamentos pobres e casamentos ricos
+
+
+Uma das accusações mais frequentes que hoje se dirigem aos homens é que
+elles são egoistas, interesseiros, que introduzem o calculo e as
+finanças no que devia ser um impulso espontaneo do coração, que
+confundem um pouco nos seus sonhos do futuro o mercantilismo e o amor.
+
+Eu, que não gosto de julgar sem ter conhecido ao menos as causas que
+produzem um certo e determinado effeito, lembrei-me de observar de
+perto, nos costumes e praticas de todos os dias, se eram realmente bem
+cabidas as censuras frisantes que por ahi ouço continuamente á porção
+mais _feia_ da humanidade.
+
+_Uma cabana e o teu coração!_ eis o que antigamente soluçavam aos pés
+das suas deusas de _biscuit_ os trovadores de algodão em rama.
+
+Um _rez de chaussée muito commodo e quatro contos de réis de
+rendimento!_ eis o minimo a que hoje aspiram nas suas suspirosas
+alegrias os pretendentes mais positivistas da nossa quadra utilitaria e
+mercantil.
+
+Mudou a tal ponto o coração humano, que já os sinceros e impetuosos
+sentimentos não possam acclimatar-se n'elle?
+
+Isto caminha n'uma tal e tão rapida decadencia, que tudo que era bom,
+honesto, sincero no amor, tenha fugido assustado para outras regiões
+ainda inexploradas?
+
+Sinceramente não o acreditamos.
+
+Em primeiro logar, em todas as épocas e em todos os paizes, o
+desinteresse absoluto, o completo desprendimento dos bens da terra, foi
+cousa muito rara, e muito para notar-se com espanto.
+
+Que o digam os claustros sem conto, povoados de pallidas monjas juvenis,
+que o mundo expulsava do seu seio, por não têr que lhes dar nenhuma das
+alegrias naturaes que são o apanagio mais caro da mulher!
+
+Se alguma differença temos que apontar são as conquistas alcançadas pela
+familia, nos terrenos que até aqui usurpara o egoismo e a ambição do
+homem.
+
+Mas, admittindo mesmo que se accentue na nossa época, com uma certa
+força o interesse pessoal, que é um dos elementos mais esterilisadores
+que póde existir na sociedade, não demos só ao homem a culpa de essa
+tendencia nefasta.
+
+É incontestavel que á proporção que as civilisações se desenvolvem,
+crescem as necessidades, cresce o amor do luxo, sem que para todos
+cresçam proporcionalmente os meios de satisfazer essas aspirações
+fataes.
+
+Não é portanto espantoso, que o homem, ainda o mais dedicado e crente,
+antes de tomar aos hombros o pesadissimo encargo da familia, meça as
+suas forças, calcule com precisão mathematica os meios de que dispõe
+para cumprir as obrigações que acceita, e muitas vezes diante da grande
+desproporção que encontra entre aquelles e estas, suffoque a voz do
+sentimento e siga os austeros e aridos conselhos da razão!
+
+É que a familia, tal como está constituida na sua generalidade,
+estabelece um grandissimo desequilibrio entre os deveres do homem e os
+deveres da mulher.
+
+Se a esta, em face da consciencia e da razão, cabe a tarefa mais
+espinhosa, a missão mais elevada e mais complexa, nem por isso, logo que
+ella fecha os ouvidos a esta voz superior que tão poucas escutam e que
+tão poucas entendem, se acha realmente forçada a outra cousa que não
+seja consumir sem produzir, receber sem dar, acceitar protecção, amparo,
+ajuda, sem pagar estes beneficios com beneficios equivalentes.
+
+Queixam-se do homem porque elle conta com o dote da noiva, e este entra
+com bastante peso na balança dos seus affectos.
+
+Que dizem então da mulher que casa para ser livre, para ser
+independente, para ter diamantes e rendas preciosas, para frequentar os
+bailes, os theatros, os passeios, para ser uma taboleta ambulante do
+luxo real ou do luxo hypothetico do _ménage_?
+
+Imagine-se, por instantes um rapaz moço, intelligente, cheio de
+aspirações sãs, de boa vontade e de energia, dotado de ricas faculdades
+intellectuaes, capaz de conquistar á força de perseverança, de trabalho
+e de privações, um lugar distincto na sciencia ou na industria, na
+politica ou no magisterio.
+
+Não tem dinheiro, ou tem apenas uma pequena fortuna que o pae lhe legou,
+juntamente com um nome honrado.
+
+Sente a natural aspiração de completar a sua existencia, unindo-se á
+mulher que mais ou menos lhe povoou os sonhos de adolescente.
+
+Não tem tempo para escolher; absorve-o o trabalho a que forçosamente tem
+de consagrar quasi todas as suas horas.
+
+Não tem um conhecimento profundo da natureza feminina.
+
+Os nossos costumes com as suas reservas hypocritas, com as suas
+precauções restrictas, que dão idéa pouco lisongeira do pudor e da
+castidade das mulheres portuguezas, oppoem-se a que o homem tenha
+d'ellas um conhecimento que não seja frivolo, ridiculo, superficial--o
+conhecimento que se adquire em uma sala entre duas quadrilhas
+sensaboronas, ou n'um camarote durantre um entre-acto cheio de tedio.
+
+Não póde pôr-se pelo mundo á busca de uma excepção: o molde das nossas
+meninas da sociedade varia muito pouco.
+
+Todas sabem bordar a matiz, tocar a _Somnambula_ e o _Trovador_ ao
+piano, fazer _housses_ de crochet, papaguear em duas ou tres linguas
+puerilidades comicas, dançar os _Lanceiros_ e criticar as _amigas
+intimas_.
+
+N'estas circumstancias o que póde fazer o pobre moço?
+
+Ou resistir ás solicitações impetuosas da mocidade, á necessidade
+instinctiva que sente do conchêgo de familia, d'aquelle _sweet home_ que
+tanto imperio tem no coração de todo o homem de pensamento e de
+trabalho; ou tem de contentar-se com a escolha feita á pressa de uma
+d'essas rachiticas flôres de salão.
+
+É desinteressado no sentido mais amplo da palavra, tem aquellas santas
+utopias que são a suprema riqueza dos vinte annos; na sua escolha impera
+tudo menos o calculo e a arithmetica.
+
+Prefere, pois, uma noiva pobre.
+
+Applaudem-lhe a generosa imprevidencia; gabam-lhe os sentimentos
+honestos e cavalleirosos; envolve-o um certo prestigio durante uns
+poucos de mezes.
+
+Os mezes da _lua de mel_.
+
+--Portou-se admiravelmente!--exclamam as _mamãs_, contemplando com ar
+piedoso as filhas sem dote, e envolvendo na sua furia rancorosa os
+_dandys_ que andam á pesca de noivas ricas, pelas aguas turvas da nossa
+sociedade.
+
+Resultado pratico de tudo isto: seis mezes depois de casado, o nosso
+pobre heroe vê-se a braços com todos os encargos de um _ménage_ a que
+falta o conchêgo e a alegria. Como não teve tempo de fazer-se amado,
+como o amor é no fim de contas um genero carissimo que o coração das
+meninas de hoje prodigalisa muito pouco, encontra em casa ao voltar das
+luctas quotidianas, a que se arrojou com novos alentos e nova fé, um
+acolhimento frio, um rosto desconsolado, uma mulher que finge resignação
+e que só tem despeito, porque o casamento lhe não deu nenhumas das
+frivolas vantagens que lhe promettera.
+
+Tinha sonhado com _toilettes_ elegantes, uma _robe de chambre_ bordada,
+uma touca de manhã como as que desenha a phantasia pittoresca dos
+caixeiros da _Mode Illustrée_, queria uma casa de jantar elegante com
+mobilia _en vieux chêne_, aparadores carregados de finas porcellanas, um
+criado de casaca preta e modos de embaixador, passando discretamente,
+sem fazer barulho, por cima do _parquet_ suisso, cuidadosamente
+encerrado.
+
+Gostava de ter um _boudoir_ todo de seda côr de perola onde ella podesse
+ler, preguiçosamente deitada no no seu pequeno _fauteuil_ muito
+flascido, diante de um _guéridon_ cheio de violetas e de _gardenias_, os
+ultimos romances, as revistas estrangeiras, as criticas musicaes dos
+mestres mais famosos.
+
+Sempre tivera a esperança de fugir pelo casamento á pressão sordida da
+miseria paterna.
+
+Detestava a vida que tinha levado em solteira, fazendo ella propria os
+vestidos para ir ao baile, cerzindo redes nas botinas de setim branco,
+com os dedos picados, um roupão de chita amarrotado, e o coração cheio
+de rancor e inveja ás que tinham o luxo e o conforto que ella não tinha.
+
+Aquelle homem apparecera-lhe.
+
+Era pobre, é verdade, mas disseram-lhe que _tinha talento_, que tinha
+_ou que ia ter uma posição_; acceitara-o por cansaço, por desalento,
+porque se impacientava já de esperar mais tempo.
+
+Levara comsigo os mesmos sonhos que a tinham perseguido, imaginava casas
+imprevistas, edificava hypotheses extravagantes; á força de ambicionar a
+riqueza, acabava por se convencer que havia de ser rica.
+
+E agora!
+
+Tudo que a cercava era tão mediocre!
+
+Se tivesse pachorra, se tivesse boa vontade, podia enfeitar com plantas
+o seu pequenino quarto de trabalho, pôr ao menos umas cortinas de cassa
+branca na janella.
+
+Não tendo a riqueza, podia ter o aceio; não tendo o luxo, podia ter a
+graça.
+
+Os livros bem dispostos sobre a mesa, cujo tapete ella propria houvesse
+feito ao serão, uma jarra de louça com um ramo de madresilva ou de rosas
+de maio, as cadeiras agrupadas com um certo ar de intimidade e de
+alegria, um aspecto de pobreza satisfeita que faz tão bem á alma!
+
+Vestiria um simples roupão de fazenda clara, sem enfeites, mas de um
+feitio elegante e gracioso, os cabellos bem penteados, uma flôr presa
+nas tranças.
+
+Iria ella mesma á cosinha arranjar uns pratinhos de que elle gostasse, o
+pobre trabalhador que á noute voltaria cansado, mas cheio de fé robusta
+e de profundas crenças, porque o amor o amparava e lhe sorria!
+
+Dentro de uma gaiola, na janella da casa de jantar, haveria um canario
+muito alegre, não tanto ainda assim como ella, a pequenina _ménagere_
+muito atarefada, muito contente, espalhando na sua casa modesta e pobre
+um perfume de virtude, de castidade, de ternura animadora e sã!
+
+Mas quem é que a tinha educado para cumprir este programma tão simples e
+tão difficil?
+
+Quem lhe tinha communicado com o leite a noção d'estes graves e honestos
+deveres?
+
+A mãe que a passeara de baile em baile, á cata de um marido?
+
+Os livros que ella lêra e que fallavam de duetos apaixonados entre um
+bardo _pelintra_ e uma menina romantica com olheiras e muito pó de
+arroz?
+
+O marido ao principio quer luctar; procura educal-a elle, já que a
+familia a não educou; vem de fóra muitas vezes preoccupado com os seus
+estudos, com um problema scientifico que deseja resolver, com uma
+especulação industrial que talvez lhe dê a paz e a aurea mediocridade a
+que tanto aspira, por amor da sua querida mulhersinha... não importa!
+
+Sacode como um peso importuno todos os pensamentos que o absorviam,
+senta-se ao pé d'ella, porque a vê triste, enfastiada, com um certo
+desleixo no aspecto que lhe aperta o coração, procura não reparar, para
+a casa sem arranjo a que falta aquella poesia do lar que tanto o
+captivou nas suas scismas de rapaz; conversa, afaga-a, desenrola diante
+do olhar d'ella vago e distrahido um horisonte de futuras alegrias.
+
+Um dia, porém, descobre com magoa que ninguem jámais poderá sondar nem
+comprehender, que tudo que elle esperou um dia assenta n'uma base
+chimerica; que essa mulher, a quem associou a sua vida, em vez de
+ser-lhe amparo, guia, consolação, conselho, em vez de luctar ao lado
+d'elle para conquistarem ambos a ventura dos filhos, o dôce e tranquillo
+socego da velhice, vive toda absorta n'um sonho de imaginarias riquezas;
+que empallidece de raiva de vêr as outras ricas emquanto ella é pobre;
+que amaldiçôa todos os dias o alimento que elle lhe ganha
+laboriosamente, porque lhe não é servido em pratos do Japão; que olha
+com desdem para os modestos presentes que elle á custa de longas
+economias consegue comprar-lhe; que detesta emfim tudo que elle ama; que
+tem o tedio invencivel de tudo que elle julgou, por muito tempo, o
+resumo de todas as suas alegrias!
+
+N'essa hora dolorosa e que tem de soar fatalmente na vida de quasi todos
+estes obscuros luctadores, alguns, os mais fracos, amaldiçoam tambem a
+sua austera e honrada pobreza, e tractam de fugir-lhe atirando-se a
+todos os turvos mares da especulação e do mercantilismo!
+
+Outros--os fortes--afastam-se com desdem de aquella que, sem talvez
+saber o que fazia, tentava arrastal-os por um declive funesto, e
+isolam-se n'um mundo onde não querem a companhia de ninguem.
+
+Ha tambem os que, despertando do sonho em que andaram embebidos,
+descrêem de tudo em que um dia acreditaram e cedem á convicção fatal de
+que no mundo não ha cousa alguma que seja digna, desinteressada e sem
+liga de calculos vis.
+
+A verdade é que mais ou menos todos se arrependem e todos o deixam ver!
+
+Este exemplo é que vae a pouco e pouco destruindo no coração dos moços a
+idéa de que a familia, em vez de roubar o alento e a força ao homem, os
+robustece e lhes dá mais solidos alicerces.
+
+No dia em que as mulheres tiverem coragem para supportarem com alegria e
+com intrepidez a pobreza que tanto as assusta, verão como a base do
+casamento deixa de ser o calculo que hoje o macula.
+
+Se o homem, que é por natureza egoista, comprehender que unindo a sua
+vida á vida d'uma mulher dedicada, adquire novas forças para a lucta em
+que anda empenhado, é incontestavel que deixará de considerar como unico
+elemento de prosperidade futura o dote da noiva que houver escolhido.
+
+Não basta ter coragem e ter intrepidez para supportar as privações da
+pobreza; é preciso antes de tudo compenetrar-se bem da idéa de que a
+pobreza tem grandes alegrias defezas aos ricos; que a modestia dos meios
+não obsta a que possamos enflorar a vida dos que amamos, com aquelle
+dôce e poetico conchego, que é para a alma um ninho mais tepido e mais
+macio, do que as pompas magestosas que envolvem theatralmente a vida dos
+millionarios.
+
+
+
+
+CAPITULO IX
+
+A uma noiva
+
+
+ Minha querida Maria:
+
+A tua carta conta-me as tuas primeiras e adoraveis alegrias de noiva.
+
+Estás radiante!
+
+Subiste ao _setimo céo_ da ventura humana e crês que não é possivel
+cahir de lá.
+
+Fallas-me do teu véo branco, da tua corôa, das palavras enternecidas que
+_elle_ te disse, das opulencias do teu enxoval, do teu quarto de cama á
+Pompadour, do amor que tens ao teu _maridinho_, do futuro que sonhas
+radioso, eu sei; fallas-me de tudo, filha, e eu li esse poema gentil da
+tua mocidade com um verdadeiro enternecimento bem sincero.
+
+Fallas-me de tudo, digo eu; engano-me.
+
+Não me fallaste de uma cousa importantissima, filha.
+
+Não me fallaste da panella.
+
+Sou eu, pois, que vou fallar-te, com a mais profana das irreverencias,
+d'este assumpto que é um dos mais graves n'um _ménage_ que principia.
+
+Credo! exclamas tu com aquella _moue_ engraçadissima, que eu te conheço
+do collegio, e que sempre teve a habilidade de me fazer rir immenso.
+
+--«Pois eu sei lá sequer se ha em minha casa uma panella! Pois eu hei de
+misturar as confidencias extaticas da minha mysteriosa e ideal
+felicidade com a relação das minhas cassarolas! Que tem este amor que me
+enleva e me arrebata, com a comida que se manipula na cosinha! Deixa que
+eu te descreva as rendas e os setins com que me enfeito para lhe agradar
+a _elle_; mas, por Deus, pelo amor da arte, da poesia, da delicadeza
+feminil, não queiras que eu ajunte a essas descripções uma nova receita
+de refugado.»
+
+Ouve-me, filha; ninguem attende por ahi estas verdades, que são
+elementares, tudo quanto ha de mais elementar.
+
+Sabes onde se fabríca e se consolída a felicidade de um _ménage_?
+
+Na cosinha.
+
+Sabes de onde sahe muitas vezes a ruina de uma casa?
+
+Da cosinha.
+
+Sabes qual é a origem de tantas doenças que por ahi nos desconsolam com
+os seus aspectos repulsivos?
+
+A cosinha.
+
+E tu entrando na vida conjugal, acceitando o _encargo_ d'almas, porque a
+dona da casa acceita-o, recebendo nas tuas pequenas mãos delicadas a
+responsabilidade complexa de mãe de familia, tu pobre querida ignorante,
+ousas dizer desdenhosamente que nem sabes sequer se em tua casa ha
+cosinha.
+
+Pois sabe.
+
+Estás habituada a evocar com a aerea ligeireza dos teus longos dedos
+brancos as notas immortaes em que Beethoven, Rossini, Mayerbeer nos
+legaram as mysteriosas riquezas da sua alma?
+
+Gostas dos delicados lavores inventados, pela paciencia feminal, dos
+bordados custosos, das matizadas sedas, de todo esse conjunto de
+graciosas futilidades em que nós dispendemos horas e horas da nossa
+vida?
+
+Pois, minha querida, logo que a mulher penetra no limiar da sua casa de
+esposa tem de antepôr tudo que é util a tudo que é agradavel, tem de
+adoptar como suprema divisa da sua vida a palavra--sacrificio!
+
+E não creias que isto seja uma dolorosa e inutil mutilação do teu ser.
+
+Quanto mais te sacrificares, crê que maior e que melhor te has de
+sentir.
+
+Será como um progressivo ascender a uma esphera superior.
+
+Cá em baixo ficam as pequenas vaidades, as frioleiras inuteis, as
+puerilidades infantis, os despeitos raivosos, toda a expressão mesquinha
+e imperfeita do teu organismo; lá em cima está a larga tranquillidade
+que ha de envolver-te como um delicioso banho tepido, a consciencia
+plena de haveres attingido o fim para que foste creada, a certeza divina
+da felicidade que communicas em torno de ti, a satisfação do dever
+preenchido, tudo emfim que nos eleva, que nos depura, que nos faz
+comprehender o motivo para que viemos a este mundo--aqui para
+nós--eminentemente estupido!
+
+Não te deslumbrem, pois, as primeiras alegrias da tua _lua de mel_.
+
+Entre parenthesis, é esta uma phrase que eu abomino, pela simples razão
+de a achar falsa, e causadora de falsas e funestas interpretações da
+vida conjugal.
+
+A _lua de mel_ é uma mentira; não existe, ou, se existe, não deve de
+modo nenhum existir, o que vem a dar na mesma.
+
+Esse periodo officialmente consagrado, que se funda em toda a especie de
+impostura, deve ser abolido sem appellação por todos os pares honestos
+que se estimem e prezem.
+
+Imagine-se por um instante que os novos conjuges assumiram a liberdade
+de formularem em palavras tudo que tivessem no pensamento, o que diziam
+um para o outro:
+
+«Já conheço todos os teus defeitos, já sei que hei de vir a dar-me muito
+mal comtigo: achei-te ainda agora profundamente ridiculo n'aquella
+phrase que me disseste; mas como estamos na _lua de mel_, deixa-me que
+te beije com transporte, que te recite ao piano o idyllio apaixonado da
+minha ventura, que olhe para ti com a sentimentalidade piégas com que os
+caixeiros romanticos olham para as namoradas, que minta emfim
+conscienciosamente, como compete a quem se acha de posse de uma posição
+official e a quem não póde renunciar sem desdouro!»
+
+Não seria profundamente ridiculo este dialogo?
+
+Pois sabe, minha querida, que em cada cem casaes, oitenta podiam em boa
+consciencia traval-o entre si.
+
+Muitas vezes a _lua de mel_ não passa de uma dolorosa iniciação.
+
+Mais tarde as circumstancias modificam-se, o que nos parecia prenuncio
+de desgraças transforma-se em tranquilla felicidade; os caracteres, que
+no fundo se repelliam, embora na apparencia se afagassem, adaptam-se e
+identificam-se em resultado da ultima convivencia; a paz domestica
+conquista-se, com esforços meritorios de parte a parte; o que ha pouco
+era mentira, torna-se uma verdade luminosa e pura.
+
+E o que prova tudo isto, minha amiga?
+
+É que o tempo mais difficil da nossa vida de casadas é aquelle que os
+tolos e os impostores chamam, seguindo a estupida rotina de seculos, o
+mais delicioso!
+
+Sou adoravelmente feliz, porque ainda não conheço bem meu marido, nem
+meu marido me conhece a mim...
+
+Palavra, que acho isto uma esplendida interpretação da vida domestica!..
+
+Commentem bem esta phrase implicitamente incluida em todos os louvores
+que se tecem á celebre _lua de mel_, e ahi téem os divorcios, os
+adulterios, os intimos dramas conjugaes, as luctas atrozes em que dous
+entes se dilaceram até que n'elles morra a alma e o corpo!
+
+Mas, minha Maria, que longe me arrastou esta digressão apaixonada.
+
+Perdoa-me.
+
+Se bem me lembro, estavamos ambas muito mais _terra a terra_.
+
+Eu tinha conseguido fazer-te largar o teu piano de Erard, as tuas
+aquarellas e os teus bordados, e tinha-te arrastado até á cosinha de tua
+casa, cuja existencia tu teimavas em ignorar.
+
+Talvez tu penses, minha pobre amiga, que esse _senhor_, discreto, ameno,
+gracioso, condescente, que acha graça a tudo que tu dizes, que concorda
+com todas as tuas opiniões, que ás vezes se ajoelha submissamente aos
+teus pés, e te diz baixinho--adoro-te!--com uma expressão de _tenor_ em
+disponibilidade, que se delicia com as tuas _toilettes_, que dá muita
+attenção á variedade artistica do teu penteado, que é, emfim, _todo teu_
+no sentido falso d'esta palavra, pensa tudo quanto diz, e se conservará
+por muito tempo n'esse adoravel e massador diapasão?..
+
+Enganas-te.
+
+Elle enfastia-se soberanamente do seu papel, estuda-te com ar
+sorrateiro, e pede a Deus que acabe o periodo em que tem de renunciar á
+sua individualidade, para se conformar com os usos e costumes da
+sociedade elegante, de que faz ou quer fazer parte.
+
+Acabado que seja esse periodo que tem limites determinados, dize-me tu
+qual o meio de que tencionas usar para o prenderes junto de ti, para que
+elle comece então a ser sincera e dignamente _o teu marido_, isto é, o
+teu melhor e mais fiel amigo, para que a vossa vida commum assente em
+bases solidas e perduraveis.
+
+Julgas que basta para isso vestires o teu mais bonito vestido, penteares
+o teu bello cabello louro do modo mais excentrico e original, dizeres
+com a tua voz sonora e grave os paradoxos mais scintillantes,
+mostrares-lhe as riquezas com que uma esmerada educação povoou o teu
+espirito?
+
+Innocente creatura! não conheces o que é o _homem_, o animal mais
+prosaico e positivo da creação!
+
+O que elle quer depois das suas luctas com os outros homens, das farças
+que é obrigado a representar para o publico, dos combates em que é
+alternativamente vencido e vencedor, o que elle quer é descanso,
+conchego, esquecimento de todos os artificios que vão lá por fóra, e
+sobretudo (não te horrorises, minha sonhadora!) e sobretudo commodidades
+physicas.
+
+Dá-lhe a melhor das poltronas, o mais confortavel dos gabinetes, o mais
+suave e caricioso dos sorrisos, e, principalmente, dá-lhe _um bom
+jantar_.
+
+Cheguei emfim, ao ponto a que tendia desde o principio d'esta carta.
+
+Confesso que me custou! Isto de mulheres!..
+
+Tu provavelmente imaginas que um bom jantar é cousa que pertence
+exclusivamente aos dominios do bom cosinheiro.
+
+Como te enganas!
+
+Em primeiro logar, não ha nada peior que um _bom_ cosinheiro.
+
+Um _bom_ cosinheiro é a ruina de uma casa, é um envenenador de barrete
+branco, é um assassino de abdomen tranquillisador e hypocrita.
+
+Um _bom_ cosinheiro começa por nos dar cabo da bolsa, o que é terrivel;
+acaba por nos dar cabo do estomago, o que é simplesmente irremediavel.
+
+Todos os _restaurants_ luxuosos possuem a prenda de um _bom_ cosinheiro.
+
+Põe um pobre homem a jantar durante dous annos a fio n'um d'esses
+_restaurants_ elegantes, e depois conta-me por miudos em que estado
+miseravel vaes dar com elle.
+
+Destruida esta primeira idéa, deixa-me ainda dizer-te uma cousa que tu
+não sabes.
+
+A mesa não tem tal a importancia insignificante que tu embirras em
+querer dar-lhe.
+
+Sendo o estomago um dos orgãos principaes da humanidade, é absurdo
+desdenhar d'esse modo o que tem com tão elle estreitas relações.
+
+Se eu fosse pedante era capaz até de te provar que o livro que
+descrevesse o que o homem tem comido nas épocas primitivas e nas quadras
+de civilisação refinada e perfeita, nos periodos de barbaria e nos
+tempos de desenvolvimento e de progresso, seria o livro mais completo da
+historia universal da humanidade.
+
+O alimento faz o homem.
+
+Os antigos scandinavos, _os reis do mar_, os impetuosos e bravios
+caçadores de _uroch_, brancos, athleticos, sanguinarios, de olhos azues
+metallicos e faiscantes; alimentavam-se nos seus festins cyclopicos da
+carne quasi crua dos animaes que matavam.
+
+Nero gostava de saborear as contorsões de agonia das _murêas_ que creava
+nos seus viveiros, e que alimentava muitas vezes com o corpo palpitante
+dos escravos, e nas festas voluptuosas e crueis que dava na sua _Casa de
+ouro_, emquanto dançavam as bailarinas gaditanas e egypcias, os
+convivas, coroados de rosas, esperavam que o peixe tivesse soltado o
+ultimo arranco de vida para se servirem do saboroso acepipe.
+
+Não vês atravez d'estes dous exemplos uma raça de instinctos barbaros, e
+uma civilisação pavorosa e apodrecida?
+
+O homem moderno enfraquecido pela degeneração progressiva de umas poucas
+de gerações, tendo de dispender uma enorme porção de energia e de força
+nas luctas incessantes a que o obrigam as infernaes exigencias da nossa
+época, precisa, por assim dizer, de ser reconstituido dia a dia.
+
+É n'isto que as mulheres não pensam bastante.
+
+Depois em um _ménage_, sobretudo de medianos haveres, a mesa
+relaciona-se com tres questões de uma alta importancia.
+
+Primeiro, a questão da saude, que sobreleva a todas.
+
+Segundo, a questão da economia de que depende a paz, a alegria, o
+socego, a elegancia modesta da vida intima; o bom humor do marido, a
+_toilette_ fresca e garrida da esposa, a alvura da toalha pezada de
+linho adamascado, tudo que emfim constitue o conforto e a alegria
+domestica.
+
+Terceiro, a fidelidade do marido ás modestas mas saborosas iguarias da
+sua mesa de familia.
+
+O jantar tem de ser bem feito, economico e salubre. Eis o grande
+problema.
+
+Para o resolveres não te fies n'uma cosinheira muito estupida, muito
+suja e muito rotineira, nem n'um altivo sujeito cheio de theorias
+estapafurdias e de nomes francezes estropiados.
+
+Fia-te em ti.
+
+É o mais seguro, o mais razoavel, aquillo que teu marido te ha de
+agradecer mais.
+
+Não estragues as tuas finas mãos de duqueza, não desças á humilhante
+posição de _cordon bleu_ da tua propria casa, mas dirige tu esse ramo
+tão importante de administração domestica.
+
+Estuda essa sciencia tão util e tão descurada que se chama _chimica
+culinaria_, e verás como a saude dos que tens debaixo da tua guarda ha
+de progredir com isso.
+
+Não te injuries, nem te afflijas então quando conheceres que o sorriso
+que teu marido negou ás sabias architecturas do teu penteado, lhe
+desabrocha nos labios franco e alegre em frente de um caldo feito sob a
+tua direcção, de um _roastbeef_ temperado pelas tuas mãosinhas de fada,
+de um novo acepipe que inventastes e que lhe despertou o esmorecido
+appetite.
+
+A arte de ser esposa e de ser mãe funda-se n'um segredo muito simples.
+
+Não se trata de sermos felizes á custa dos que são nossos; trata-se de
+fazermos felizes os nossos, á nossa propria custa.
+
+Começamos pelo sacrificio, e acabamos pela apotheose!
+
+Mas que de cousas eu fui buscar para te dar uma lição de _azeites e
+vinagres_.
+
+Ai! filha, é que tenho aprendido á minha custa que na terra não ha nada
+pequeno, e que todas as cousas que de perto se nos afiguram mesquinhas,
+estão de tal maneira ligadas e relacionadas entre si, que formam unidas
+este grande conjuncto que se chama a vida.
+
+
+
+
+CAPITULO X
+
+O dever de ser bonita
+
+
+Dizia uma das mais espirituosas escriptoras da França, aquella para quem
+Theophile Gauthier inventou o gracioso epitheto de _bas lilas_,
+livrando-a d'este modo da terrivel, grotesca e immerecida alcunha de
+_bas bleu_, que _o primeiro e mais sagrado dever da mulher é ser
+bonita_.
+
+Abaixo o paradoxo! bradou logo em torno a turba-multa das feias,
+furiosas contra a sentença que as punha por assim dizer fóra da lei.
+
+Foi necessario entrar em explicações, e todas nós vemos então a
+comprehender o que Madame de Girardin entendia pela belleza feminina.
+
+Ser bonita no fim de contas não é ter fórmas esculpturaes--isso já
+passou de moda, não é ter feições perfeitas--não ha nada mais
+profundamente monotono e massador; não é ter collo de _alabastro_,
+cabellos de _ebano_, labios de _rubis_, dentes de _perolas_, olhos de
+_diamante preto_, testa de _marfim_, etc., etc., etc.
+
+--Deixemos isso aos artifices mais ou menos engenhosos, que trabalham
+com as sobreditas materias, e aos _trovadores_ mais ou menos choramigas,
+que manejam as sobreditas rimas; não é saber olhar com expressão ardente
+ou languida consoante o genero da phisionomia; saber sorrir com malicia
+ou com ternura, saber inclinar-se meiga e scismadora ao influxo do um
+sentimento occulto, ou erguer a cabeça altiva e triumphante com a plena
+consciencia da propria formosura!
+
+Ser bonita, ser bella, na accepção elevada e completa d'esta palavra, é
+possuir a graça mysteriosa que prende os que param junto de nós, que
+attrahe os que vão passando ao nosso lado.
+
+Resta agora analysar os fios tenuissimos de que se tece este divino
+encanto da mulher!
+
+A graça de que eu fallo é feita principalmente de intelligencia e de
+bondade.
+
+O primeiro dom concede-o Deus, e aperfeiçoa-o e depura-o a vontade
+humana; o segundo adquire-se á custa de sacrificios cccultos, de
+abnegações intimas, de aspirações continuas e incessantes para a suprema
+perfeição!
+
+Todos podem ser bons!
+
+É preciso que os espiritos se compenetrem profundamente d'esta verdade,
+que é o primeiro passo para a conquista do bem, que todos ambicionam e
+que tantos julgam vedado.
+
+Não ha terreno, por mais duro, inhospito e ingrato, a que um cultivo
+cuidadoso e vigilante não possa arrancar flôres.
+
+No homem--e quando digo _homem_, refiro-me geralmente á humanidade--, no
+homem ha preso, algemado, vencido, um robusto animal de tendencias
+bravias, que lucta continuamente para reconquistar a perdida liberdade.
+
+Foi a acção civilisadora de seculos sem conta que domou essa féra de
+funestos instinctos; é a pressão continuada e constante de uma vontade
+energica, de uma razão esclarecida, de uma percepção profunda de todos
+os deveres, que conserva e sustem intimidado e submisso o terrivel
+selvagem.
+
+Uns precisam de desenvolver n'esta porfia assidua, mais tenacidade e
+mais força, outros de indole nativamente branda e pacifica, podem deixar
+adormecer de vez em quando a accesa vigilancia.
+
+São no fim de contas os primeiros que teem maior merecimento.
+
+Ser bom é quasi sempre um esforço, mas para ser meritorio cumpre que
+este esforço seja tão invisivel para todos os olhos, que a analyse ainda
+a mais perspicaz não chegue a dar por elle. A bondade é o supremo
+attractivo da mulher, aquelle que mais acção exerce em torno de si.
+
+A bondade é pois a verdadeira belleza feminina.
+
+Imaginae que a ella se reune a intelligencia, e tendes o ideal da
+perfeita formosura, da unica que só se apaga e extingue com a vida, da
+que excita os grandes, os eternos, os sãos e robustos amores.
+
+O culto pagão da belleza plastica é um dos erros que mais ha de custar a
+destruir, e que no entanto se acha tão deslocado no ideal moderno, como
+se achava no seu verdadeiro lugar, no velho mundo que a revolução deitou
+por terra alluido e decomposto!
+
+A mulher transviada por esta falsa comprehensão do seu destino, só
+aspira a ser bonita no sentido futil e exterior da palavra, só inveja as
+que possuem os ephemeros encantos de que foi desherdada, e não percebe
+que a belleza interior é aquella cuja gloriosa conquista, accessivel
+para todos, lhe podia dar a realeza e o predominio.
+
+A quantas meninas sentimentaes de olheiras roxas e phrases sonoras não
+temos nós ouvido lamentar a pouca duração dos affectos terrestres, a
+_inconstancia_ do homem, a ingratidão cruel que faz definhar as suas
+victimas em desolador abandono!
+
+Apesar do aspecto ridiculo de que estas romanticas e elegiacas creaturas
+se revestem, que ninguem se ria d'elles!
+
+Victimas se chamam, e victimas são de certo, mas não de imaginarias
+perfidias ou de tragicas aventuras.
+
+São victimas da sua educação falsa, da sua sentimentalidade piégas, da
+idéa inteiramente errada que formam da vida pratica.
+
+Imaginaram que haviam de ser eternamente amadas, amadas com extasis
+poeticos, com grandes discursos inflammados, com acompanhamento de viola
+franceza e de epistolas em verso, que tivessem de mais em amor, o que
+tivessem de menos em grammatica; sonharam ser as pallidas Julietas
+apaixonadas, recebendo á luz branca da lua, as confidencias convulsas
+dos seus Romeos de obra grossa; e para attingirem este ideal dos seus
+desejos suppozeram que lhes bastavam a alvura da tez, o brilho do olhar,
+a frescura dos labios, a abundancia dos cabellos, e por cima de tudo
+isto a garridice, a pretensão, a ignorancia e a _toilette_!
+
+Em muito menos tempo do que é preciso para murchar uma rosa, os proprios
+homens se enfastiaram.
+
+E eil-as inconsolaveis e inconsoladas, maldizendo a traição masculina,
+que lhes não deu mais que o castigo merecido!
+
+Houve tempo em que a mulher feia tinha como unico refugio o convento.
+
+Felizmente, porém, esse tempo vae longe.
+
+O homem já não exige da companheira do seu destino, como condição unica
+de felicidade, encantos que murcham com os annos.
+
+Assenta em mais solidas bases a ventura conjugal.
+
+Mulheres, sêde boas, cultivae o espirito, e allumiae a consciencia; na
+vida do homem ha horas escuras; que a luz que sabeis diffundir as
+illumine.
+
+A sociedade tem desfiladeiros sombrios, tem _selvas ignotas_, como o
+_inferno_ do Florentino, aprendei a guiar com a vossa pequena mão branca
+e macia os robustos luctadores, que ás vezes param no limiar d'esses
+caminhos, com a vista incerta e o passo hesitante.
+
+E isso que hoje se exige de vós.
+
+Eu vou mais longe que _madame_ de Girardin, na sua arrojada proposição
+que tão poucos comprehenderam.
+
+Quando vejo um homem sou capaz de adivinhar a que genero pertence a
+mulher que elle tem por esposa; quando entro n'uma casa basta-me vêr a
+disposição dos moveis, a escolha dos livros, o aspecto das creanças, a
+expressão das _cousas mudas_, para poder afiançar se a dona d'essa casa,
+a divindade modesta e tutelar d'esse pequeno templo, é digna do seu
+titulo sagrado de esposa e mãe.
+
+É que tudo falla, para quem sabe ouvir, e a mulher sobretudo--natureza
+expansiva e vibratil--põe uma indiscrição involuntaria em cada objecto
+de que se rodeia.
+
+Mais de uma vez tenho ouvido vozes femininas levantarem-se em favor da
+emancipação politica e social do seu sexo.
+
+Pobres sêres hybridos e incompletos são de certo os que teem tão
+acanhada idéa do destino da mulher.
+
+No dia em que esta fôr emancipada, cahirá para sempre do throno que tem
+seculos por degraus.
+
+É que a emancipação politica seria a abdicação domestica, quer dizer, a
+mais dolorosa catastrophe que tem affligido as sociedades.
+
+Imagino que nenhuma verdadeira mulher a acceitaria!
+
+A familia tal como a entendem todos que sabem sentir e pensar, é o
+refugio onde se vae buscar paz e esquecimento; é o templo onde encontram
+_direito de asylo os parias_ que andam cá fóra aos baldões da ira
+popular; é o lugar querido, inaccessivel onde os athletas do pensamento
+acham momentos de alegria descuidada, onde os mineiros cansados da
+sciencia, os que andam pelos antros obscuros arrancando segredos aos
+seios da natureza, procuram a clara e festiva luz dos affectos simples,
+onde os politicos esquecem a maldade e a mesquinhez humana, onde os
+diplomatas fallam verdade, onde os argentarios fecham os ouvidos ao
+tinir metallico do ouro, onde os que caminham levando no coração as
+terriveis hydras do odio e da inveja se assentam por instantes
+embevecidos na musica matinal de umas vozes infantis que chilrêam, de
+uma voz crystallina que adverte, aconselha e consola.
+
+Os que roubarem a familia ao incansavel trabalhador d'estas eras de
+febre e de combate, roubam-lhe a força, a energia, a consciencia, a
+dignidade, o amor, roubam-lhe tudo emfim!
+
+Emancipar a mulher é atacar na sua base a familia, é trazer para dentro
+do lar as paixões tumultuosas da praça publica, é destruir o mais doce
+dos poderes a que o homem se curva, o temivel poder da fraqueza
+feminina!
+
+E não se diga que eu combato a mulher quando combato a sua libertação
+absoluta perante a sociedade e perante a lei.
+
+Os que pretendem furtal-a á tutella salutar, que a contém na esphera que
+lhe é propria, é que são os seus peiores inimigos.
+
+Dentro, porém, d'essa esphera quantos serviços ella deve fazer e não
+faz!
+
+Exemplifiquemos: A mulher é na generalidade ambiciosa. Qualidade que não
+está de todo em todo desligada de peccado, mas qualidade util na maior
+parte dos seus resultados.
+
+Esta ambição pela influencia latente que exerce no animo masculino
+leva-o, não poucas vezes a arrojados commettimentos e a grandes e nobres
+cousas.
+
+Até um certo e determinado limite, é portanto benefica a ambição da
+mulher.
+
+Transviada, porém, do seu verdadeiro fito, quantas vezes esta ambição
+mal dirigida por uma educação eivada de mesquinhos preconceitos não
+arrasta o homem até á infamia, á deshonra, á quebra de todos os pudores,
+ao suicidio!
+
+A garridice, o amor da _toilette_, das pequenas futilidades elegantes, o
+gosto do luxo, das graciosas invenções da moda, ahi está uma das graças,
+um dos elementos do dominio da mulher.
+
+Mas ainda n'este ponto cumpre que uma razão clara, que uma percepção
+definida do dever, a guie, a dirija, a constranja nas suas tendencias
+muitas vezes exageradas.
+
+Não ha nada mais agradavel n'um _ménage_ do que uma mulher moça, fresca,
+elegante, da graciosa e simples elegancia que provém do gosto apurado e
+distincto; os requintes de luxo exterior são, por assim dizer, na vida
+do homem, uma superfluidade necessaria, são um conchego para o corpo,
+uma caricia para a alma, mas que nunca o luxo conduza a familia á mais
+leve transigencia indelicada, que nunca a mulher lhe sacrifique um só
+dos seus deveres!
+
+Todos são igualmente respeitaveis; todos estão unidos entre si por uma
+cadeia de élos inquebrantaveis.
+
+Na mulher ainda mais do que no homem, o abuso das qualidades uteis leva
+ás mais funestas consequencias.
+
+Para a mulher ainda é mais delgada a linha do dever.
+
+O caminho é estreito, difficil, sinuoso: para áquem d'elle ou para além
+d'elle está o erro.
+
+Por isso quantas senhoras ás vezes dizem:
+
+«Queixam-se de nós porque somos garridas, e se nos vêem modestas, sem
+prendermos a minima attenção ás futilidades perigosas do luxo,
+condemnam-nos ou fogem do nosso lado.
+
+«Queixam-se de nós porque somos ignorantes, mas se o nosso espirito se
+accende em curiosidades scientificas, se lêmos, se estudamos, se
+tentamos ir um pouco além dos limites impostos ao nosso sexo, somos
+alcunhadas de pedantes, e de _preciosas_ ridiculas!
+
+«Queixam-se de nós porque somos devotas, supersticiosas, porque levamos
+ao exagero as praticas do catholicismo, porque nos deixamos guiar
+mysteriosamente pela mão occulta do padre, mas se procuramos livrar-nos
+d'este jugo, se queremos a independencia absoluta do espirito e da
+consciencia, chamam-nos _livres pensadoras_, e os homens sentem medo
+instinctivo de entregar a sua honra nas nossas mãos.»
+
+E por aqui adiante uma longa jeremiada n'este teor.
+
+Eu, porém, mesmo concedendo que ha um fundo de incontestavel verdade no
+que dizeis, respondo-vos, minhas senhoras, que é positivamente porque a
+vossa missão é difficil que ella tem tamanha importancia e póde adquirir
+de dia para dia uma importancia ainda maior.
+
+No dia em que comprehenderdes claramente o vosso destino, sabereis então
+o que é ter a graça, a elegancia, o encanto exterior, sem que vos
+contaminem as criminosas vaidades; o que é ser intelligente, instruida,
+reflexiva sem conhecer o pedantismo, e a ridicula pretensão; o que é ter
+o ideal religioso, sem o manchar com superstições, preconceitos,
+intolerancias funestas; o que é aproveitar cada uma das vossas
+riquissimas faculdades equivalentes, mas não iguaes, das do homem, sem
+que a vossa inercia as esterilise, sem que a vivacidade nervosa do vosso
+temperamento as leve a extremos e demazias altamente funestas á familia
+e á sociedade da qual é aquella o mais perfeito reflexo.
+
+
+
+
+CAPITULO XI
+
+O trabalho das mulheres
+
+
+O preconceito mais funesto, que ainda nasceu e medrou n'este mundo, é o
+que considera o trabalho uma escravidão deshonrosa.
+
+Começa hoje a irradiar os seus primeiros clarões rubros a aurora do dia
+que ha de vêr o trabalho santificado, que ha de assistir á divina
+apotheose d'esse bemfeitor supremo da humanidade, d'esse amigo de todas
+as horas, que conforta os animos desconsolados, que levanta os animos
+abatidos, que distráe de todos os tédios, que lucta contra todas as
+inercias.
+
+Por emquanto, sobretudo entre nós, é rara a mulher bastante superior
+para confessar que trabalha, e o que é peior de tudo, é rara a mulher
+que trabalha sem absoluta e incontestavel precisão.
+
+Mais d'uma vez temos visto senhoras, que pela sua educação mais apurada
+e mais completa deviam estar a cima de tão profunda ignorancia dos seus
+deveres, confessarem que não gostam de fazer nada, que são preguiçosas,
+que não téem com que se distrahir, que os dias lhes parecem seculos,
+etc., etc.
+
+E no entanto qual será a creatura bastante desfavorecida de Deus, para
+não poder aproveitar proficuamente as horas do dia, sempre curtas para
+quem as sabe empregar bem?
+
+Fallemos primeiramente das meninas solteiras de pouca edade; para essas,
+logo que queiram tornar-se dignas do alto destino que as espera, pouco
+será sempre o tempo para se instruirem, para adquirirem os varios e
+complexos conhecimentos de que carecem antes de exercerem a sua missão
+complexa.
+
+Não são sómente os futeis ornamentos superficiaes em que ellas devem pôr
+a mira; a par d'esses, que tambem são indispensaveis, ha todo um mundo,
+que a mulher ignora, e cuja exploração lhe enriqueceria o espirito de
+thesouros incomparaveis.
+
+E depois, mesmo os frivolos adornos, que constituem uma alta educação
+mundana, podem ter uma significação elevada, um sentido occulto, uma
+_alma_ emfim, logo que se não considerem um _todo_, mas uma parte
+insignificante do mais alto e perfeito conjuncto; logo que occupem o
+lugar que lhes compete, na classificação harmoniosa e bem graduada das
+varias riquezas que formam um espirito.
+
+Saber cantar, saber tocar piano, saber fallar as linguas, saber desenho
+e pintura, que vale tudo isso quando se não tenha uma idéa elevada e
+synthetica, que ligue entre si estas diversas acquisições intellectuaes,
+e que por assim dizer as vivifique?
+
+O que é preciso antes de tudo, é comprehender a musica e a sua
+influencia poderosa nas almas e nos organismos; é saber usar com
+aproveitamento esses instrumentos que se chamam linguas, as quaes por
+si, só, tomadas abstractamente, nada significam e para nada servem; é
+estudar a natureza sob os seus multiplos aspectos e transplantal-a para
+a tela ou para o papel; é ter emfim um ideal, que sobredoire todas estas
+prendas, que superficialmente entendidas e superficialmente executadas,
+não teem valor nem tem utilidade alguma na vida pratica.
+
+Basta a qualquer espirito feminino entrar n'este caminho, que
+imperfeitamente acabamos de apontar, e, sem que elle mesmo tenha a
+consciencia d'isso, as suas idéas hão de dilatar-se e encadeiar-se por
+uma successão logica, e dar á vida um novo e imprevisto aspecto.
+
+As meninas bem educadas das nossas altas classes sociaes, teem todas uma
+grande facilidade em fallar varias linguas; aproveitam porém essa
+facilidade... conversando com os diplomatas.
+
+Não lêem Schiller, nem Goethe, nem Shakespeare, nem Macaulay, nem
+Pascal, nem Montaigne; não entram no genio das differentes
+nacionalidades e das differentes litteraturas; não comparam entre si as
+civilisações, chegando por esta comparação a conhecerem de um modo mais
+ou menos perfeito a humanidade, não senhor! Conversam com os _gommeux_
+da diplomacia estrangeira e contentam-se com isso!
+
+Na musica que, mais do que nenhuma arte, lhes revelaria o coração do
+homem no coração de tantos homens de genio, o que ellas vêem sómente é o
+modo de executarem mais difficuldades e de desesperarem de inveja mais
+rivaes!..
+
+Na pintura, copia da natureza que as podia fazer penetrar no seio
+carinhoso e fecundo da grande mãe, são tão frivolas, tão superficiaes,
+como em todas as outras cousas.
+
+As mais das vezes não teem animo de colherem uma flôr do jardim e de a
+copiarem com o pincel ou com o lapis! Copiam copias, amesquinhando a
+natureza, e atrophiando a propria imaginação!
+
+São estes defeitos, que todas nós as que pensamos um pouco, devemos
+combater com todas as nossas forças!
+
+Longe de mim o aconselhar á mulher que se emancipe dos seus graves e
+obscuros deveres, que tente luctar com o homem, e arrancar-lhe a palma
+das grandes descobertas e das grandes conquistas!
+
+O que eu pretendo é provar-lhe que é divina entre todas, a missão a que
+o futuro a convida.
+
+A mulher de sala tem por força de morrer; surja pois a mulher da
+familia, ser complexo, grande e nobre sêr, que as geraçães vindouras hão
+de admirar fervorosamente.
+
+A mulher da familia não é de certo a matrona desgeitosa, deselegante, só
+occupada em dar a vida, o leite e o alimento aos filhos de um affecto,
+despido de todas as flores e de todas as poesias.
+
+Não, ella deve ser instruida, profundamente instruida, tendo ao mesmo
+tempo a consciencia de que essa instrucção a não aparta do cumprimento
+religioso dos mais humildes deveres do amanho da casa e da maternidade.
+
+O homem deve achar n'ella não só a enfermeira desvelada das suas
+doenças; não só a distribuidora sensata e economica do seu alimento; não
+só a dona de casa aceiada, vigilante, infatigavel; não só a mãe
+carinhosa, dedicada, capaz dos maximos e dos mais perseverantes
+sacrificios, senão tambem a companheira do seu espirito; a socia das
+suas aspirações; a intelligencia que comprehenda e partilhe as suas
+legitimas ambições e as suas chimericas phantasias; o animo viril que
+saiba amparal-o nas horas de desalento; a mão firme e branda, que saiba
+guial-o nos momentos escuros de lucta e de tentação: o seio terno que
+lhe acolha a cabeça cansada na hora sinistra das derrotas; o bello e
+enthusiastico espirito que applauda a suprema embriaguez das suas
+victorias; n'uma palavra, a mulher digna de ser mãe e de educar uma
+geração de fortes.
+
+É preciso, que se compenetrem bem d'esta idéa fundamental: o trabalho,
+seja de que especie fôr não desdoira uma mulher nem deixa de ser
+compativel com as mais delicadas distracções de um espirito culto.
+
+Trabalhar não é fazer _crochet_, não é cozer durante seis mezes na mesma
+camisa, que ha de ser offerecida a um pobre romantico, a um pobre de
+_opera-comica_; não é bordar umas eternas _babouches_, que se começam no
+dia seguinte ao do casamento, e que se acabam dez annos depois.
+
+Trabalhar é ser util, é occupar o espirito, é adquirir conhecimentos ou
+espalhal-os em torno de si, é concorrer para o bem-estar dos outros e
+para o seu aperfeiçoamento proprio.
+
+A mulher que trabalha levanta-se cedo, não conhece as scismas
+voluptuosas, os languores morbidos, as _flâneries_ sem motivo e sem fim.
+
+É activa, por isso não tem aquellas horas de tédio profundo, que
+descobrem diante de um olhar os horisontes sinistros e esbraseados do
+suicidio; tem saude porque o tempo bem applicado e bem dividido não lhe
+deixa intervallos para se _escutar_, se sondar, para analysar as suas
+pequenas dôres, os seus pequenos incommodos, e os aggravar tomando
+remedios nocivos, e entregando-se á molleza que a pouco e pouco destroe
+a robustez do corpo; gosa de tudo com alegria, com vitalidade, com
+expansão, não desdenha nenhum dever, nenhuma occupação, nenhum trabalho
+porque o amor e a intelligencia prendem-se a tudo que ella faz.
+
+Porque sabe conversar na sala com facilidade e chiste, nem por isso
+deixa de saber estar na cosinha, observar um por um todos os utensilios,
+vêr se estão limpos, inventar um _menu_ que reuna as condições da
+economia e da variedade, ensinar a sua cosinheira, fazer mesmo por suas
+mãos um prato predilecto, que á mesa o marido e os filhos hão de saudar
+com alegria e saborear com appetite.
+
+Desejo que ella saiba bordar, mas exijo que saiba serzir panno, dar
+rêdes com perfeição, cozer a roupa da casa e a roupa dos filhos, cortar
+e fazer os seus vestidos, dando assim mais que um exemplo de economia,
+um exemplo de moralidade! protestando até onde chegam os seus limites,
+contra a torrente impetuosa e funesta, que arrasta as familias desde o
+luxo até á infamia, desde a impostura até á quebra de todas as
+dignidades e de todos os pudores.
+
+Quero mais, que ella se não envergonhe de confessar que trabalha, e que
+não diga que o seu fato é feito por uma qualquer modista estrangeira,
+quando é ao seu laborioso serão que ella deve a elegancia que d'este
+modo é duplamente preciosa e sympathica.
+
+Não imagine a mulher, que entre os deveres que acceitou ha uns que a
+deslustram, e outros que lhe ficam bem.
+
+Debaixo do ponto de vista da razão todos os deveres são eguaes e estão
+prezos entre si por uma cadeia invisivel.
+
+Da alegria da mesa depende a alegria do lar; da economia de todos os
+instantes, depende o bom humor das festas de familia; da elegancia e
+primoroso aceio da mulher depende a ternura inexgotavel do marido; do
+modo porque ella rege e domina o seu pequeno imperio domestico, depende
+a educação dos filhos, a moralidade do interior, a harmonia intima da
+vida, e até a graça, o espirito, a liberdade com que ella conversa e ri
+na sala.
+
+Todas as mulheres se queixam dos maridos, e nenhuma ainda percebeu o
+seguinte: são ellas que preparam e determinam o seu destino; é a ellas
+que a familia em geral deve a sua desordem, a sua dissolução, ou a sua
+felicidade.
+
+Não basta ter todas as graças, é preciso ser util, e no fardo que se
+acceita em commum tomar a parte que mais custa a supportar.
+
+Não basta ser util, prestadia, arranjada, economica; é preciso ter a
+intelligencia que idealisa um pouco os tristes e aridos encargos da
+vida.
+
+Toda ou quasi toda a mulher se sente amesquinhada pelo seu destino, e
+protesta contra as leis, contra os usos, contra as instituições, que a
+exilaram dos altos cargos da republica, que lhe tolheram o passo para
+todas as eminencias sociaes, e que a condemnam á obscuridade e á lhaneza
+do viver domestico.
+
+Oh! abençoados sejam os costumes, as leis, as instituições, que deram ao
+homem tudo que é ruido, pompa, ostentação, orgulho e vaidade, e que nos
+deram a nós a dôce missão de encaminharmos o futuro, de guiarmos a
+humanidade no caminho do bello e do bom!
+
+Se até agora temos trahido essa missão a que fomos destinadas, a culpa é
+nossa e não de quem constituio sob uma fórma tão racional e tão justa a
+sociedade.
+
+O tempo que passamos no barulho vazio das festas mundanas, colhendo
+decepções e rancores, excitando invejas, provocando sensuaes applausos,
+porque o não gastamos a lêr, a estudar, a penetrar no mundo da natureza
+e no mundo da sciencia em todos os seus aspectos tão varios, em todas as
+suas manifestações tão sympathicas; porque não dirigimos a poder de
+trabalho e de esforço a primeira educação de nossos filhos, e deixamos
+que mãos mercenarias lhe arranquem aquella dôce penugem da alma que é a
+ignorancia dos pequeninos?
+
+Porque não fazemos da nossa casa, um ninho alegre e fôfo, que o nosso
+marido prefira ao botequim, ao Gremio, ao Club, ao restaurante, á casa
+dos seus amigos, e onde elle esteja certo de encontrar o alimento mais
+saboroso e mais hygienico, o ar mais puro e lavado, a poltrona mais
+commoda, a conversação mais animada, mais substancial, mais chistosa e
+menos pedante?
+
+Pouco a pouco á regeneração da mulher, seguir-se-hia a regeneração do
+homem, deixariamos de ser a ruina, para nos tornarmos o conforto;
+deixariamos de ser o tédio para nos tornarmos a alegria.
+
+Talvez não houvesse tantos bailes e saraus, talvez Offenbach, Dumas
+filho, Sardou tivessem menos espectadores, talvez as salas de bilhar
+perdessem um pouco da sua popularidade; talvez os ourives e as modistas
+fechassem algumas das suas lojas, mas em compensação quebravam menos
+negociantes, perdiam-se menos mulheres, a calumnia renunciava a uma
+grande porção do seu alimento diario, o falso luxo que mata de fome os
+filhos e que arrasta sedas pelas ruas enlameiadas da cidade, ou se
+reclina voluptuosamente nos coxins flascidos d'um coupé de oito mollas,
+o falso luxo deixaria de ostentar com tão descarada altivez as suas
+lentejoulas compradas com moeda vil, e esta nossa sociedade, que parodía
+tão ridicula e tão desgraçadamente a sociedade cosmopolita, opulenta e
+artificial da França, tomava diverso rumo, assumia a dignidade que lhe
+falta, e descobriria no futuro o ideal, que não tem e que procura nas
+trevas.
+
+O primeiro passo para que este deploravel estado de cousas melhore um
+pouco, é que as mulheres comecem a trabalhar.
+
+As ricas instruam-se; as pobres ajudem seu marido sem se envergonharem
+da sua honesta pobreza, e todas sem exceptuar qualquer posição social,
+occupem o tempo para não darem logar ás tentações da vaidade, aos sonhos
+morbidos que enfraquecem o corpo e o espirito, ás negras horas
+dissolventes do tédio, em que tudo se concebe e se admitte como
+possivel, até o esquecimento de todos os deveres, até o proprio crime
+com o seu romantico cortejo de sensações e de terrores.
+
+
+
+
+CAPITULO XII
+
+A toilette
+
+
+As mulheres teem, na generalidade, um costume deploravel! Só se vestem e
+se enfeitam e querem ser amaveis para o publico.
+
+O marido, ainda o mais feliz e mais extremoso, tem sempre um rival
+terrivel, um rival exigente, um rival que lhe rouba parte das
+prerogativas e lhe cerceia parte dos direitos.
+
+Esse rival é o publico, é esse detestavel tyranno chamado _tout le
+monde_, a quem tudo se sacrifica, e do qual em recompensa só se recebem
+criticas e desdens!
+
+Para elle nos vestimos, para elle levamos horas e horas a combinar o
+effeito da nossa _toilette_, para elle estamos defronte do espelho
+prendendo flores no cabello, inventando as difficeis architecturas do
+penteado, para elle sabemos tocar piano e sabemos cantar, para elle
+desejamos ser formosas! para que elle nos applauda--mentiroso e
+humilhante applauso!--exhaurimos todos os recursos da nossa imaginação.
+
+Para agradarmos a elle, que é o _extranho_, nos esquecemos dos que são
+nossos!
+
+Em casa as mulheres, pelo menos as mulheres portuguezas, as que eu de
+mais perto conheço, preferem a tudo, aquillo a que tão impropriamente
+chamam _estar á vontade_.
+
+Usam uma _robe-de-chambre_ desbotada, quando não trazem um vestido velho
+que já não serve para a rua; trazem o cabello em _papelotes_ ou frisado
+em ganchos, e como querem descansar um pouco das talas que impuzeram aos
+pés, consolam-nos, mettendo-os em umas largas _babouches_ desgeitosas.
+
+Pela manhã, á hora do almoço dão vontade de chorar!
+
+O marido olha para ellas e... de duas uma:--ou sente fastio ou come como
+um lobo.
+
+De qualquer dos modos manifesta a sua melancolia.
+
+Questão de temperamento que não vem ao caso analysar aqui.
+
+Ao meio dia, eis porém, que se lembram das visitas que não tardam, das
+_inimigas intimas_ que veem colhêr invejas e semear despeitos, de todas
+as ferozes exigencias sociaes, de que são submissas escravas!
+
+Desfranzem a testa, ageitam um sorriso malicioso ou sentimental,
+consoante o genero da physionomia, mergulham o corpo nas tepidas e
+perfumadas caricias do banho, vestem-se, burnem-se, penteiam-se,
+pintam-se... e apparecem transformadas.
+
+Durante umas poucas de horas estão no palco.
+
+O auditorio é escrupulosissimo. Ao menor indicio que lhe destôe,
+manifesta sem piedade o seu desagrado.
+
+Ellas, no entanto, suam _sous le harnais_, mas são intrepidas até á
+heroicidade.
+
+Teem caricias felinas, sorrisos que adormecem a tristeza nos corações
+mais desconsolados, sabem ser engenhosas, cheias de invenções felizes,
+conseguem plenamente o seu fim, e ao deixarem a scena fica no ar uma
+impressão boa, quasi enternecida.
+
+Chegou a occasião de voltar aos _bastidores_.
+
+N'este caso os bastidores são a companhia do marido.
+
+Oh! Como ellas veem cansadas, aborrecidas, cheias de tedio, e de
+desalento! Despem, com a voluptuosidade com que se despe um cilicio,
+todas essas elegancias que as torturavam; o sorriso ficticio
+apaga-se-lhes dos labios, a luz ficticia esmorece-lhes no olhar.
+
+A pelle precisa de _cold-cream_, de _veloutine_, de todos os
+ingredientes nauseabundos: o cabello cahe-lhes aos pés, solto dos
+ganchos que o prendiam, e em quanto a aia, com um sorriso ladino, os
+recolhe cuidadosamente na caixa de cartão, o marido contempla
+assarapantado, cheio de ingenuo e comico assombro, aquella cabeça que
+ainda ha pouco, no orgulho com que se erguia, na magestade altiva com
+que ostentava o delicado edificio das tranças e dos _riçados_, lembrava
+uma das cabeças gentis que o seculo XVIII beijou com enlevos e que a
+guilhotina beijou com volupia selvagem.
+
+O pé estreito e _cambré_, que ainda ha pouco nos circulos vertiginosos
+da valsa, fazia pensar n'aquellas andorinhas forasteiras, que roçam a
+terra com o vôo inquieto e leve, sacode as prisões que o ligavam
+dolorosamente, e dilata-se á vontade, com uma furia de independencia
+verdadeiramente demagogica e revolucionaria, na primeira chinela que
+apparece.
+
+Todo o aspecto physico se transfigura e--consequencia fatal d'esta mesma
+causa--o aspecto moral transfigura-se tambem.
+
+Como a dissimulação eterna é impossivel ainda aos mais hypocritas, os
+defeitos que tão cuidadosamente se esconderam ao publico, revelam-se ao
+marido.
+
+Riamos sem vontade ainda agora!
+
+Com a fortuna! Desabafemos o nosso mau humor, visto que estamos em casa!
+
+Tinhamos paciencia para aturar com expressão interessada e benevola as
+sensaborias muito estafadas de um senhor engravatado, de luvas côr de
+canario e bigode retorcido e insolente?...
+
+Sejamos agora desapiedadas para as historias já um pouco velhas, mas em
+summa bastante apresentaveis que o nosso marido nos quer contar!
+
+Fingir! sempre fingir!... Impossivel!
+
+Sejamos verdadeiras, ao menos n'esta occasião, já que só desagradamos
+áquelle que tem obrigação restricta de nos aturar, quer queira, quer
+não!
+
+Isto, que á primeira vista parece insignificante, quasi frivolo, tem um
+alcance enorme no destino de vv. ex.^{as}, minhas senhoras!
+
+O marido, ao perceber que de todas as mulheres a mais desagradavel é a
+sua, tem um momento de profunda tristeza, ao qual succedem uns poucos de
+annos de revolta!
+
+É assim que se destroe a familia, é assim que se torna desflorido e
+deserto o lar.
+
+Em compensação enchem-se os salões, os _clubs_, os theatros, os
+botequins. Resta saber se uma das cousas póde n'uma sociedade honesta e
+bem constituida supprir a outra.
+
+Sejam mais garridas em casa, e sejam-no menos fóra; aspirem á elegancia
+desprezando os mentirosos artificios; procurem, antes de tudo, agradar á
+familia e conseguirão a pouco e pouco, sem esforço premeditado, agradar
+aos estranhos.
+
+Uma familia boa, unida e feliz é como um fóco de calor que attrahe e que
+irradia luz benefica.
+
+Ha casas onde se entra e onde nos sentimos como n'um meio sympathico e
+captivante.
+
+São sempre as casas em que a mulher possue a intelligencia do coração,
+essa cousa rara e preciosa, que suppre a formosura, o talento e todos os
+attractivos do espirito.
+
+Vestir-se com uma graça despretenciosa e simples, rodear-se de cousas
+bellas, sentir e communicar em torno de si o prazer das distracções
+delicadas, ser em casa um perfume vivo, uma harmonia suave que não
+cansa, uma luz serena que allumia e que não deslumbra, eis o que é ser
+mulher na accepção completa da palavra.
+
+Toda a mulher tem de ser _coquette_ para o marido emquanto para o marido
+a eterna tentação for o pômo vedado.
+
+Em geral só se conhecem os dous extremos.
+
+Ou a matrona envolvida na sua virtude como n'uma couraça, temivel,
+assanhadiça, formidavel, imaginando merecer todas as homenagens do
+esposo, porque afugenta com medonho aspecto as homenagens de todos os
+outros; ou então a mulher dos salões, a flôr exotica das nossas estufas
+mundanas, Salamandra que vive no fogo, Ninon de _biscuit_ que se compraz
+nas adorações que provoca e que inspira, infativel actriz que só á luz
+da _ribalta_ sabe desenvolver e manifestar todos os seus recursos.
+
+Entre os dous contrastes é que fica a verdade.
+
+Mulheres, desenvolvei no seio da familia as graças que desperdiçaes
+pelas voragens d'este mundo.
+
+Tende todas as flexibilidades e todas as resistentencias, todas as
+graças e todas as energias; sêde o encanto, sem deixardes de ser a
+virtude; e sobretudo perdei de vista o publico, esse brutal amante que
+vos absorve, que vos perde e que nunca vos corresponde.
+
+
+
+
+CAPITULO XIII
+
+Victoria Woodhall
+
+
+Uma oradora americana
+
+
+Os Estados-Unidos, que são decididamente a patria das excentricidades
+colossaes, o paiz em que o excesso do positivismo, como que para
+justificar o axioma de que _os extremos se tocam_, tem conduzido a
+intelligencia a uma especie de permanente hallucinação, os
+Estados-Unidos estiveram para dar segundo affirmou a imprensa ingleza,
+mais uma prova evidente do seu amor pelas originalidades ruidosas.
+
+Dizia-se que a presidencia d'esta republica tão poderosa e florescente
+ia ser offerecida a uma mulher, e citava-se o nome d'essa mulher, que é
+uma das mais fervorosas e apaixonadas propagandistas da reforma politica
+e social, uma das advogadas mais eloquentes da emancipação completa do
+seu sexo.
+
+Já muitas vezes o temos dito, antipathisamos formalmente com esta
+doutrina revolucionaria, da qual não esperamos senão funestos
+resultados, por isso nenhum laço de sympathia póde prender-nos á famosa
+Victoria Woodhall, de que se occupam com verdadeiro enthusiasmo alguns
+dos jornaes importantes da Inglaterra e da America do Norte.
+
+Não deixaremos, porém, de estudar com attenção os poucos dados que
+conhecemos do seu caracter e da sua intelligencia, porque, embora como
+mulher--não concordemos com as suas theorias,--como artista--não podemos
+deixar de reconhecer que ella é um producto perfeito do seu meio.
+
+Victoria Woodhall é moça, tem uma formosa presença, _sabe vestir-se_, o
+que já é deveras para notar-se n'uma advogada convicta dos _direitos
+politicos da mulher_, e se aprecia os triumphos que a sua palavra um
+pouco emphatica costuma arrancar aos numerosos ouvintes que a escutam,
+nem por isso desdenha os cuidados minuciosos da elegancia mundana.
+
+Teem-na visto prégar sobre um texto biblico, que ella modernisa segundo
+as conveniencias da sua these, trajando elegantemente um vestido de
+velludo preto, e com uma rosa purpurea aninhada nas lustrosas tranças
+escuras do seu cabello garridamente penteado.
+
+É casada, visto que lhe chamam Mistres Woodhall, mas nos salões onde tem
+preleccionado apparece sempre só sobre uma elevada platafórma, de onde
+préga ás turbas.
+
+O marido, se existe, é um simples comparsa, ninguem o nota e ninguem se
+occupa em fallar d'elle. Entre parenthesis: não ha posição mais
+deploravel que a do marido de uma mulher _celebre_, quer dizer de uma
+mulher que falla em publico, que apparece, que declama, que tem os
+ruidosos triumphos da actriz, da cantora, da agitadora politica, e agora
+os mais modernos da preleccionista social.
+
+Nunca pudemos deixar de sentir muito dó do Barão Stael, de _monsieur_
+Rolland, do marido de Henriqueta Beecher Stowe, e de tantos outros
+forçados e obscuros satelites d'esse astro brilhante e phenomenal que é
+a mulher acclamada pelo indiscreto applauso das multidões.
+
+Agora o marido de Mr. Victoria Woodhall, se acaso vive, o que não
+podemos de modo algum affirmar, não tendo nunca ouvido citar o seu nome,
+parece-nos uma victima igualmente lamentavel do mesmo negro fado.
+
+Victoria tem dado conferencias, extraordinariamente concorridas, em
+Nova-York, em Londres, em Liverpool e em outros centros industriaes da
+Inglaterra e da America.
+
+Tem a voz insinuante e harmoniosa, a gesticulação arrebatada e
+artistica, a palavra facil, fluente, emphatica, mas tão quente e
+apaixonada que exerce sempre uma impressão profunda nos que a escutam.
+
+Como já dissemos não tem os terriveis oculos azues, nem o rosto anguloso
+e severo de Mrs. Beecher Stowe, uma mulher que fez no seu paiz uma
+revolução humanitaria, e que destruiu aos nossos olhos todo o effeito
+sympathico da sua cruzada contra a escravatura com aquellas conferencias
+pedantes pelas quaes concluiu a sua carreira litteraria.
+
+A mulher oradora precisa de ser formosa, sob pena de ser ultra-ridicula.
+Parece-nos, porém, que do ridiculo simples, sem circumstancias
+aggravantes, não a salva nem mesmo a formosura.
+
+Victoria Woodhall no seu paiz préga em favor da santidade do matrimonio,
+da reforma da educação, de todos os graves e momentosos assumptos de que
+hoje depende a regeneração politica e moral das sociedades.
+
+Fóra do seu paiz, porém, não vão tão longe ainda as suas aspirações.
+
+O que ella por emquanto reclama é a igualdade e nivelamento absoluto de
+deveres e direitos entre a mulher e o homem.
+
+Adoptamos com todo o coração não os meios, mas o fim d'essa propaganda
+tão necessaria; mas não podemos concordar de modo algum com o
+complemento que a feminil oradora proclama indispensavel.
+
+Achamol-o contraproducente, illogico, funesto ás instituições abaladas,
+que se pretendem salvaguardar.
+
+Queremos o casamento grave, austero e santo, querermos a creança educada
+com solicitude extremosa, queremos a mulher respeitada e querida,
+consciencia de bronze e coração de cêra, queremos na arte um ideal
+severo e levantado, queremos na sociedade a incorruptivel e serena
+justiça, queremos o homem regenerado e forte, e é porque desejamos tudo
+isso, que pedimos a Deus afaste para bem longe de nós o terrivel
+flagello da mulher dominando o seu proprio destino e o destino da
+sociedade.
+
+N'um discurso de Victoria Woodhall, pronunciado em Nova-York e
+applaudido enthusiasticamente por um auditorio de 40:000 pessoas leem-se
+os trechos seguintes:
+
+«Fallando do casamento, é escusado dizer que falamos n'esse casamento
+ideal que toda a maldade dos homens não póde destruir; n'esse casamento,
+de cujos membros poderá dizer-se com verdade: _Foram unidos por Deus, e
+o poder do homem, não logrará desunil-os_; n'esse casamento, de cujas
+alegrias jámais quererão apartar-se os que um dia as conhecerem; n'esse
+casamento que é tão sagrado, tão puro, tão santo, que nem a sombra de
+uma discussão póde existir entre, os dous factores que o determinam;
+fallamos n'esse casamento em que os dous representantes oppostos da
+humanidade--o elemento positivo e o negativo das raças--se tornam pela
+acção e pelo pensamento n'um unico ser, e tão perfeito, que os mesmos
+motores o movam e o façam pensar e obrar; em resumo, n'esse casamento do
+qual nem a sombra d'um elemento estranho possa alterar a pureza, a
+unidade, a ideal perfeição.
+
+«O casamento é geralmente considerado como um assumpto por demais
+frivolo ou pueril.
+
+«Aceitam-no ou quebram-lhe os laços com a mesma pressa e a mesma idéa
+das responsabilidades que elle impõe, como se o considerassem uma
+instituição especialmente designada para satisfazer as egoisticas
+paixões da humanidade.»
+
+Sim, concordamos plenamente com este levantado ideal do casamento que a
+formosa preleccionista apresenta e proclama, mas affirmamos que elle
+nunca poderá realisar-se se triumpharem universalmente as doutrinas que
+ella tão ardentemente advoga.
+
+A prova evidente d'esta nova asserção é ella quem se encarrega de nol-a
+fornecer.
+
+A mulher, como nós a sonhamos e a queremos, não é a forasteira acclamada
+e illustre que anda espalhando por sobre a cabeça das turbas
+indifferentes ou passageiramente commovidas, as suas convicções e as
+suas theorias sociaes.
+
+Recolhida no seu modesto e placido interior, mãe de um bando infantil,
+mimoso e louro, de que ella fosse a providencia, o amparo, a suprema
+alegria, esposa de um homem forte e honesto, de um trabalhador, de um
+membro activo e laborioso da moderna sociedade, a acção d'esta mulher
+seria muito mais restricta, mas incontestavelmente mais util e mais
+salutar.
+
+Não daria uma hora de commoção dramatica ao auditorio que viesse
+ouvil-a, curioso de excentricidades novas; não julgariam possivel a sua
+eleição como presidente de uma republica poderosa; mas as pessoas que
+vivessem em mais ou menos estreito contacto com ella receberiam a
+influencia honesta do seu exemplo, e os filhos que ella educasse seriam
+outros tantos elementos fecundos da futura regeneração social.
+
+Não é prégando o respeito ao casamento que se convencem os homens, é
+provando esse respeito nas minimas acções e nas acções mais decisivas de
+uma existencia.
+
+Mrs. Victoria Woodhall tem arrebatamentos soberbos de eloquencia
+oratoria, fulminando a decadencia em que o sentimento da familia tem
+modernamente cahido, mas como quer ella provar-nos que comprehende essa
+absoluta identificação de duas almas, essa absorpção de um espirito em
+outro espirito seu irmão, ella que affirma tão rasgadamente a sua
+individualidade, ella que apparece em plena luz deixando na sombra
+aquelle de que não póde ser senão a metade incompleta, a porção
+imperfeita e mutilada.
+
+Anda n'uma gloriosa faina a converter as suas irmãs que prevaricam ou
+descreem, ou ignoram.
+
+Mas se o exemplo da gloriosa propagandista as tentar e seduzir?
+
+Onde fica o lar modesto, o aceio do ninho, o terno amor dos filhos
+pequeninos, as obscuras virtudes domesticas, toda a graça, toda a
+poesia, todo o conchego, todo o encanto mysterioso e indestructivel
+d'essa ineffavel união chamada o casamento?
+
+ * * * * *
+
+Não nos surprende, porém, este producto extraordinario de uma sociedade
+agitadissima e ainda para si propria indefinida e indefinivel.
+
+A America tem-se feito a si mesmo, não procura para as suas leis e para
+os seus costumes uma solida base tradicional.
+
+N'ella que é tão forte como nação, tão pertinaz nos intentos, tão
+energica nas acções, n'ella que é uma prova terminante de como em dous
+seculos se fórma uma raça, unica e cheia de virginal vigor, ha cousas
+que estão ainda perfeitamente vagas e fluctuantes.
+
+O destino das mulheres é uma d'essas cousas.
+
+Politicamente possuem os mais amplos direitos, podem ser tudo, aspirar a
+tudo, todas as carreiras estão abertas diante dos seus passos;
+socialmente é quasi um dogma o respeito que inspiram.
+
+Ninguem ousa insultal-as nem com uma palavra, nem com uma suspeita,
+gosam de uma liberdade absoluta, andam sós, viajam desprotegidas ou
+antes protegidas pela sua fraqueza omnipotente, nos caminhos de ferro,
+nos omnibus, nos paquetes; sentam-se sósinhas á meza redonda de um
+_hotel_, fazem emfim impunemente, apoiadas pela despotica soberania dos
+costumes, tudo que a nós, européas de facto ou de tradição, se affigura
+quasi monstruoso de inconveniencia.
+
+E no entanto, apesar d'este reinado apparente, apesar d'este predominio
+ostensivo, é bem mais profunda a invisivel influencia que as mulheres do
+velho mundo exercem em torno de si, não sobre as leis, o que seria
+pouco, mas sobre os costumes, o que é quasi tudo.
+
+É que somos as rainhas do lar; de nosso bom ou mau juizo depende a paz
+ou a guerra, a ventura ou a desgraça, a prosperidade ou a ruina, a dôce
+mediania tranquilla ou a agitada e tempestuosa existencia mundana.
+
+Não parecemos nada e somos tudo!
+
+Os que mais nos desdenham não escapam ao nosso poder. Submettem-se-lhe
+inconscientemente. Os que luctam contra nós teem de confessar-se
+vencidos.
+
+Não somos medicas, não somos advogadas, não somos professoras, não somos
+preleccionistas officiosas de qualquer theoria, mais ou menos arriscada;
+mas somos a influencia continua e permanente, a voz surda que sempre se
+escuta, a tentação funesta ou a guia providencial, o grande poder
+obscuro, a que se não furta o filho, o irmão, o marido, o proprio pae!
+
+Que importa que não possamos exercer a nossa acção dentro da esphera
+restricta e limitada das leis, se os costumes ahi estão, para que nós os
+criêmos, os modifiquemos, os transformemos, para que nós lhes dêmos o
+nosso collectivo impulso enorme!
+
+Na America, visto que a mulher tem a faculdade de luctar com o homem no
+campo da actividade pratica, é-lhe restringido fatalmente o seu poder na
+esphera em que ella póde e deve ser rainha.
+
+O casamento na America protestante, dizem os viajantes que teem
+observado os costumes d'essa raça estranha e vigorosa, é um contracto
+temporario que se baseia no calculo, e que o mais leve atricto póde
+destruir.
+
+O divorcio é alli um facto vulgarissimo, ha mulheres divorciadas de tres
+maridos que contrahem muito serenamente um quarto matrimonio tão sagrado
+e tão respeitavel como os tres primeiros.
+
+Os filhos resentem-se inevitavelmente d'este estado transitorio em que
+permanece a familia.
+
+Não teem respeito nem disciplina, e é mais do que provavel que não
+tenham amor.
+
+Em pequenos teem de sujeitar-se ás regras estabelecidas, logo porém que
+sahem da infancia representam por si proprios, encetam a grande lucta da
+vida.
+
+A independencia pessoal, o individualismo britannico, accentua-se alli
+d'uma fórma muito mais saliente.
+
+_Cada um por si_, eis a lei que rege o verdadeiro _Yankee_, lei que
+herdou de seus avós anglo-saxonios e que exagerou, accommodando-a ás
+despoticas exigencias do seu meio.
+
+Assim como a sociedade politica, assenta no principio da mais ampla e
+rasgada descentralisação, assim a sociedade moral é dominada por um
+principio exagerado de independencia, que afrouxa necessariamente os
+laços da familia.
+
+Não se faz idéa entre nós do que é um interior nos Estados-Unidos.
+
+Nas classes burguezas e medianamente favorecidas dos bens de fortuna,
+vive-se por assim dizer em commum n'uma especie de hospedaria, em que se
+reune uma duzia ou mais de familias.
+
+Ás horas da refeição agglomera-se em torno da meza aquella multidão de
+indifferentes que mal se conhecem; comem á pressa absortos em
+preoccupações de ordens diversas que ainda mais os separam e os
+distanceiam.
+
+A comida feita sem amor, sem solicitude, sem o cuidado que inspiram á
+boa mãe e á boa esposa as predilecções dos filhos e do marido, a hygiene
+da familia, a economia do lar, não tem para nenhum dos commensaes nem
+alegria nem sabor.
+
+Comem como quem cumpre uma obrigação indispensavel e enfadonha, e d'alli
+partem para a faina, para o trabalho sem treguas, para a lucta acerba e
+pertinaz.
+
+Nem um momento de repouso ou de tranquillo devaneio.
+
+A vida é o trabalho; o tempo é mais do que dinheiro, é sangue.
+
+A existencia dos americanos é uma existencia de operario, tressuada,
+esmagadora.
+
+Todos querem conquistar a sua porção legitima de abundancia ou mais
+ainda, de riqueza.
+
+Para que?
+
+Para terem bem firme a consciencia de que a mereceram.
+
+Ha uma pressa febril, uma impaciencia vertiginosa, uma ancia de todos os
+instantes n'esta raça de impetuosos luctadores.
+
+As qualidades e os defeitos britannicos attingem além do Atlantico um
+relevo exagerado.
+
+N'esta vida cortada de obstaculos e difficuldades, n'esta vida em que a
+energia do homem, o seu vigor physico e moral, a dura tenacidade do seu
+querer, se exercitam e robustecem na mais desenvolvida escala, que lugar
+póde haver para a poesia, para a arte, para as tranquillas doçuras da
+vida domestica, para os prazeres de uma culta sociabilidade?
+
+Ha tempo apenas para admirar as extravagancias imprevistas, as cousas
+novas e excentricas que firam a attenção, que se imponham rapida e
+subitamente ao pasmo das turbas.
+
+Deriva do modo inteiramente caracteristico porque os americanos entendem
+a vida, o lugar que n'ella dão á mulher. Isolada por um esteril
+respeito, despojada de todo o predominio que entre nós lhe concedem os
+costumes, e a tradição religiosa e social, a mulher para tentar adquirir
+a consciencia da sua força, tem fatalmente de ir procural-a na arena em
+que luctam os homens.
+
+Isto em vez de os converter, mais os liberta d'aquelle poder occulto e
+latente, d'aquella doce e invisivel influencia que partindo d'alto lhes
+suavisaria a indole, os costumes e os gostos.
+
+Victoria Woodhall é o fructo genuino d'esta sociedade incompleta n'uns
+pontos e n'outros inteiramente transviada do verdadeiro caminho, do
+caminho que conduz á felicidade e ao equilibrio de todas as faculdades
+humanas.
+
+Só na America do Norte é que esta valente prégadora das reformas sociaes
+podia ter nascido, só a America é que podia entendel-a e applaudil-a com
+tão sincero enthusiasmo!
+
+Se ámanhã uma das nossas mulheres começasse a percorrer as grandes
+cidades da Europa meridional, prégando a transformação dos costumes, os
+direitos politicos do sexo feminino, a reforma das instituições, a sua
+prédica, por mais eloquente que fosse, seria abafada em uma tempestade
+homerica de risos!
+
+Aqui muito á puridade, eu não sei se somos nós, que temos razão!
+
+
+
+
+Criados e Amos
+
+
+
+
+CAPITULO XIV
+
+
+I
+
+
+Fallemos dos nossos criados.
+
+É um assumpto este de importancia summa.
+
+Tem relações estreitas com a administração da casa, com o seu aceio,
+arranjo, conforto e bom governo; com a moralidade que n'ella existe, com
+a figura que ella representa em relação ás outras casas.
+
+Parece uma questão ridicula e comesinha; tem sido estragada por todas as
+matronas de mau humor que desafogam n'ella a superabundancia da sua
+bilis; é o assumpto obrigado das conversações das mães burguezas, em
+quanto nas pequenas _soirées_ dos quartos andares _as meninas_ estafam
+um desgraçado piano asthmatico, os _litteratos_ da familia recitam
+versos a _Ella_, e tres commendadores gordos e vermelhos disputam
+acalorada e ferozmente a uma banca de voltarete.
+
+Ninguem todavia ainda encarou esta questão debaixo do seu verdadeiro
+aspecto.
+
+Declama-se contra a decadencia e desmoralisação dos criados de hoje, mas
+ninguem pensou que esta decadencia, que esta desmoralisação, provém
+forçosamente de alguma causa que é necessario conhecer e destruir.
+
+Á primeira vista, observando na familia, esse elemento que se tem
+tornado tão indispensavel quanto perigoso, nota-se o seguinte:
+
+--Que os criados de hoje não se podem comparar aos criados antigos, nem
+na fidelidade, nem na lealdade, nem no desinteresse, nem na moralidade.
+
+Já se vê que esta regra tem excepções numerosas, de que não tractaremos,
+mas que reconhecemos e admittimos.
+
+--Que dia a dia se nota n'esta classe um desapego mais profundo pelas
+familias a quem serve, e em cujo seio penetra.
+
+--Que elles são sempre ou quasi sempre os auxiliares da traição, do
+vicio, da desobediencia, e que portanto é profundamente corruptora a
+influencia que exercem na familia.
+
+--Que o seu interesse consiste em especularem com as fraquezas ou as
+maldades d'aquelles de quem dependem, e que vivem e medram na
+immoralidade dos seus superiores.
+
+--Que pelo seu comportamento se revelam inimigos natos de todos que
+estão acima d'elles, e que presentindo a vantagem que lhes póde provir
+do rebaixamento dos entes de quem receiam a severidade ou que são
+forçados, muito contra sua vontade, a respeitar, o fim que elles teem, e
+que procuram por todos os modos attingir, é o seguinte: penetrar
+vagarosa e cautelosamente na confiança dos amos, extorquir-lhes os seus
+segredos, e divulgal-os por sêde instinctiva de vingança, ou
+exploral-os, por desejo immoderado de ganho.
+
+Posto isto, provado está que os criados são os nossos _inimigos
+necessarios_, e que é preciso que para com elles a nossa attitude seja
+por em quanto inteiramente defensiva.
+
+E dizemos _por em quanto_, por uma razão muito simples.
+
+Porque entendemos que, quando n'uma classe inteira se manifestam
+symptomas de corrupção e de gangrena, a culpa vem por força de longe, e
+_de cima_, e que devemos applicar-nos com todas as nossas forças e todos
+os nossos desejos, a modificar essa culpa, e a redimil-a por fim.
+
+A que póde attribuir-se o contraste notavel que se reconhece entre os
+criados _antigos_ e os criados de hoje?
+
+A muitas causas independentes da nossa vontade, e sobretudo da vontade
+d'elles; as causas que teem o seu _quê_ de politicas, e seu _quê_ de
+economicas, o seu _quê_ de sociaes, o seu _quê_ de philosophicas.
+
+Vejam em quantas questões nebulosas e importantes entesta esta humilde
+questão de criados.
+
+Transformação completa do viver social e do viver domestico.
+
+D'antes a familia era fundada n'um principio de muito menos justiça, mas
+n'uma base de muita mais solidez.
+
+Havia o _chefe_ que acolhia á sua vasta sombra, os irmãos, os parentes
+pobres, os filhos, os servos que eram tambem uma tradição e tambem uma
+herança.
+
+Quando o chefe morria succedia o filho ou o irmão mais velho, que
+herdava os irmãos, os tios, os parentes pobres, os servos, todos os
+haveres, e tambem todas os encargos da numerosa communidade.
+
+Os criados entravam ao collo de sua mãe que vinha ser aia, ou varredora,
+ou engommadeira, ou outra cousa qualquer e sahiam de 60 ou 80 annos no
+caixão para o cemiterio, deixando na familia nova geração de servos que
+eram seus filhos.
+
+D'este modo havia estabilidade nos seus empregos. Só eram demittidos por
+_erro de officio_.
+
+Não receiavam o dia de ámanhã, não sentiam a esmagadora indifferença dos
+superiores a revelar-lhes que na familia eram párias, eram estranhos,
+eram inimigos.
+
+Não precisavam de se apossar de um segredo, de ameaçar tacitamente com
+uma denuncia, de lisongear vilmente um vicio ou mesmo uma mania, para
+darem solidez e garantia de duração á sua posição dependente e precaria!
+
+Em quanto que na vasta sala de jantar, de tectos apainelados, e custosos
+pannos de Arras, em torno da pesada meza de carvalho, primorosamente
+entalhada, se reunia alegre a numerosa familia, em que umas poucas de
+gerações se enlaçavam, na cosinha do palacio, ao lume crepitante das
+fornalhas enormes, reunia-se tambem a familia ainda mais numerosa dos
+antigos servos.
+
+Eram paes, mães, filhos, ás vezes netos.
+
+Não estavam privados de todas as condições humanas, tinham as suas
+festas intimas, as suas alegrias, os seus affectos.
+
+O seu maior empenho consistia em que a familia de que dependiam,
+florescesse e prosperasse; a sorte d'elles e dos seus, estava por assim
+dizer, identificada com a sorte dos amos.
+
+Affeiçoavam-se áquellas paredes, ou áquelles moveis, á senhora que era
+branda e protectora para elles, ás creanças que tinham ajudado a crear,
+e que um dia viriam a conceder-lhes a mesma protecção que hoje recebiam
+dos paes.
+
+Eram maus, interesseiros, crueis ás vezes! Embora! É porque eram homens,
+e não porque eram servos.
+
+Tinham as qualidades boas ou más da humanidade e não as de uma
+determinada classe.
+
+D'aqui a sua superioridade sobre os criados de hoje.
+
+ * * * * *
+
+No regimen moderno, a familia tem outra constituição e outros costumes.
+
+As fortunas extremamente divididas já não consentem esse modo de viver
+opulento e patriarchal.
+
+Os mesmos ricos, que são no fim de contas os grandes financeiros
+modernos, esses que juntaram a fortuna de que gosam á custa de privações
+e de trabalho, são egoistas para todos, e particularmente duros para os
+inferiores.
+
+Na sua opinião os criados são machinas. Umas machinas que vestem casaca,
+e usam gravata branca.
+
+Exigem d'elles um serviço irreprehensivel, uma obediencia passiva, uma
+disciplina exemplar.
+
+De resto odeiam-nos porque lhes teem um certo mêdo.
+
+Comprehendem perfeitamente que são rediculos, elles que andaram tanto
+tempo de tamancos, a varrer os armazens, a levarem empurrões e maus
+tractos dos caixeiros grandes da casa, a curvarem-se humildemente diante
+dos _patrões_, dando-se agora aquelles ares superiores e desdenhosos de
+potentados.
+
+Emquanto comem em pratos de Sevres ou do Japão, uns manjares exquisitos
+que o cosinheiro, o seu cosinheiro de dez ou doze libras por mez, lhes
+impinge traiçoeiramente, sentem-se acanhados diante do olhar frio, do
+olhar metallico dos criados de meza, e imaginam que elles no mudo
+escarneo d'esse olhar, lhes dizem que estão percebendo o seu
+desastramento, os seus gestos grosseiros, e até a saudade com que
+recordam a assorda e o bacalhau salgado dos bons dias da mocidade.
+
+D'esta hostilidade mutua nada bom póde resultar.
+
+Os amos são orgulhosos, cheios de desdem, de indiferença, de duro
+egoismo; os criados são hypocritamente humildes, são invejosos, e
+malevolamente escarnecedores.
+
+Só um laço póde ligar estes sêres; a cumplicidade.
+
+De cima não haverá brandura em quanto de baixo não houver subserviencia
+criminosa.
+
+Ambos o comprehendem de sobejo; comprehendem-no sobretudo os criados que
+andam á mira d'um segredo, d'uma indiscrição, d'uma descoberta qualquer
+que os faça levantar a cabeça.
+
+No dia em que a aia recebe a primeira confidencia da senhora, no dia em
+que entrega o primeiro bilhete, no dia em que lhe é escutado o primeiro
+recado de que a encarregam, invertem-se os papeis, e só continua
+apparentemente aquella humildade que a suffocava de colera e de
+despeito.
+
+Era escrava obediente e muda, hoje é cumplice, o que quer dizer tyranna.
+
+Ao marido em caso identico succede o mesmo.
+
+Moralidade d'esta situação: o criado de hoje triumpha quando seus amos
+se rebaixam.
+
+ * * * * *
+
+Entremos nas casas burguezas, que constituem hoje a maioria.
+
+Vive-se com pouco, ha uma ou duas criadas, a pobreza traz comsigo uma
+certa promiscuidade que abala o respeito.
+
+Já aqui os criados não são automatos que se movem ao impulso d'uma
+vontade superior.
+
+Não são mudos, não teem a fria apparencia aristocratica que revela a
+opulencia da casa em que servem.
+
+Pelo contrario; as criadas estão iniciadas nos pequenos segredos da
+familia, mas como a vida de hoje, toda de expedientes, toda no ar,
+desiquilibrada, impostora, não tem aquella dignidade da vida antiga, as
+criadas com o seu malicioso instincto plebeu penetram esse viver,
+julgam-no e escarnecem-o.
+
+Podia-se viver decentemente com o pouco que ha. Chega mesmo para uma
+alimentação sadia, para a satisfação das necessidades indispensaveis; se
+a dona da casa desenvolver os seus recursos de economia,
+conseguir-se-hia sem muito trabalho, no fim do anno, _joindre les deux
+bouts_ como expressivamente dizem os francezes.
+
+O pae é um funccionario bem collocado, o rendimento se não é grande pelo
+menos é sufficiente para uma vida mediocre e laboriosa.
+
+Diante d'este quadro parece-nos que não ha brecha por onde possa
+penetrar a malicia interesseira da criadagem.
+
+Pois ha, minhas senhoras!
+
+O dono da casa tem um emprego bom, é verdade, mas aspira a subir de
+posto, quer de mais a mais a carta de conselho, leva isto _em capricho_
+por causa das _picuinhas_ do seu collega da secretaria, o conselheiro
+Fulano; logo, para attingir este fim desejado é preciso antes de tudo
+_figurar_.
+
+Tem de ir aos _chás_ do seu amigo deputado, ás _soirées_ do barão de tal
+_que é muito influente_, tem de dar de jantar de vez em quando ao seu
+amigo _cicrano_ que é parente do primo da mulher do secretario
+particular do ministro, tem de gastar muito em apparato ridiculo, em
+luxo avariado, em pompa feita de remendinhos.
+
+A mulher, já se entende, não lhe fica atraz!
+
+Podéra!
+
+E ella então que tem de se vingar d'uns chascos que as snr.^{as} Silvas
+fizeram ha tres annos a um vestido de seda um tanto usado que ella
+trazia; e que tem de fazer rebentar de inveja a _D. Leocadia_ que é
+mulher d'um commendador seu conhecido; e de _quebrar os olhos_ á prima
+Ausenda que anda a dizer pelas casas do seu conhecimento «que não sabe
+onde ella vae buscar para tanto luxo!»
+
+Filhas d'estes paes o que serão as meninas?
+
+Querem vestidos de seda, embora os comprem em _segunda mão_, querem
+joias embora sejam falsas, querem botinas de tacão alto, porque as teem
+visto ás pequenas da viscondessa de M. e da baroneza de S. e da marqueza
+de V.; querem apparecer no theatro, querem ir ao _Club_, querem tomar
+banhos quando não seja em praia elegante, ao menos na Ericeira; querem
+_reunir á noute_ uma vez por semana, umas visitas que nunca vão, querem
+fazer emfim o que por ahi faz _toda a gente_.
+
+Resultado d'isto, resultado inevitavel.
+
+Deve-se na tenda, deve-se no carvoeiro, deve-se na modista, deve-se no
+sapateiro, deve-se na loja de fazendas, deve-se ás criadas.
+
+A falta de seriedade na vida, acarreta comsigo um milhar de pequeninas
+humilhações insupportaveis.
+
+As criadas vão á porta receber os credores, e trazem dentro os recados
+com um sorriso maganão que escapa a todas as reprehensões e a todos os
+castigos.
+
+Se estão de mau humor resmungam, fazem causa commum com o _inimigo_, que
+é no fim de contas o _confrade_; se estão bem dispostas dão alvitres,
+inventam e lembram desculpas, lamentam a _senhora_, etc., etc.
+
+De qualquer dos modos amesquinham os amos, estabelece-se entre elles e
+ellas uma intimidade funesta.
+
+Destroe-se assim o respeito, disciplina, a obediencia, aquella
+hierarchia que tem de existir n'uma familia para que essa familia esteja
+bem organisada.
+
+Um dia, as _meninas_, que teem recebido a educação mais perniciosa e
+mais falsa, fartam-se d'aquella vida de privações intimas, de balofas
+apparencias e querem fugir d'ella.
+
+Teem só uma porta: o casamento.
+
+Nas familias pobres da burguezia, o casamento é julgado a porta por onde
+se sahe da miseria!
+
+Quantas vezes não é elle a porta por onde se entra na desgraça!
+
+Começam então a namorar.
+
+A namorar seja quem fôr. O alferes que passa, o _dandy_ pelintra que
+encontram nos seus passeios, o _litterato_ pallido e fatal que olhou
+para ellas da plateia.
+
+Quem é a confidente natural d'este _namoro_, a auxiliar forçada d'esta
+intriga ridicula?
+
+A criada!
+
+É ella quem espia a mãe, e quem ajuda a enganal-a; é ella quem entrega e
+recebe as cartas, é ella quem se _farta de rir_ com a menina, ouvindo
+contar o que ella lhe disse, e o que elle lhe tornou!
+
+Quantos perigos, quantas humilhações, quantas vergonhas n'este facto que
+é hoje trivial e repetidissimo!
+
+A criada só tem a ganhar na execução d'estes misteres.
+
+Ganha indulgencia para as suas proprias faltas, uma advogada que ou por
+medo ou por sympathia defende a sua causa, e até se tanto fôr preciso se
+revolta por amor d'ella contra a authoridade maternal. Ganha quem a
+ajude no trabalho!
+
+Ganha a possibilidade de ser insolente e atrevida, de se vingar da sua
+posição inferior, de desafogar o mau genio, e isto sem perigo de
+qualidade alguma.
+
+ * * * * *
+
+Quando se não dão estes casos que ahi deixamos apontados dão-se outros
+identicos ou outros similhantes.
+
+Da parte dos superiores indifferença profunda, desejo de explorar de
+todos os modos e feitios os dependentes, rudeza, orgulho, egoismo,
+desapego.
+
+Da parte dos inferiores, a mesma indifferença creada a pouco e pouco
+pela incerteza ácerca do dia de ámanhã; desaffeição pronunciada,
+despeito, inveja, e desejo de trabalhar o menos possivel, em troca do
+maior salario que poderem alcançar, separação de vida, de interesses, de
+alegrias, de affectos.
+
+Se entra em casa a doença com todo o seu cortejo de lugubres tristezas,
+de vigilias e de lagrimas, nunca a criada saberá ser enfermeira. Fará o
+serviço, resmungando, furiosa, desattenta, fazendo esperar um caldo para
+ir á janella _ver quem passa_; deixando apagar o lume de noite porque
+adormecerá inteiramente esquecida dos que soffrem e velam.
+
+E que lhe importa a ella no fim de contas que elles morram ou se salvem.
+
+Hoje está aqui, ámanhã estará n'outra parte!
+
+Se adoecer vem uma maca e leva-a para o hospital abandonada, sósinha
+como um cão!
+
+Não dá porque não recebe.
+
+Entre os criados e os amos os interesses são absolutamente oppostos.
+
+A unica circumstancia que póde alterar esta situação reciproca: a
+cumplicidade.
+
+Que admira, pois, que todos os dias se observe maior e mais profunda
+immoralidade nos criados das grandes cidades? que admira que as
+excepções se vão tornando dia a dia mais raras?
+
+A culpa é de uns e d'outros, mas o mal tem ainda remedio.
+
+Procuremos apontal-o.
+
+No que respeita aos amos cumpre:
+
+Que sejamos benevolos para que a humildade dos nossos inferiores nunca
+seja para elles uma humilhação.
+
+Que tenhamos no interior das nossas casas a maxima dignidade e o maximo
+respeito de nós mesmos e dos outros, para que o nosso exemplo levante
+ainda os que estão mais baixo.
+
+Que vivamos de modo que nunca receiemos o escarneo, ou a censura de
+alguem, para que sobre nós nunca possam exercer-se influencias funestas.
+
+Que não exploremos a actividade dos pobres, para que os pobres não
+tenham interesse em explorar as nossas fraquezas, e já que é
+indispensavel crear-se e educar-se a classe dos criados, juntemos todos
+os recursos da nossa experiencia e do nosso bom senso, para dar prompto
+e efficaz remedio a todos os males que são por assim dizer o privilegio
+especial d'essa classe.
+
+
+II
+
+No capitulo anterior, tractando d'esta questão, tentámos apresentar as
+causas que determinam e aggravam a decadencia e desmoralisação dos
+criados modernos.
+
+Essas causas teem um resultado fatal que vem a ser o seguinte:
+
+É tão precaria, tão falta de garantias, tão exposta a continuas
+alterações a sorte dos criados, que para ella só descem os que n'outra
+esphera não poderiam achar collocação que lhes dê a subsistencia.
+
+Os bons, que por acaso ou por circumstancias fortuitas acceitam este
+modo de vida, são ainda mais desgraçados do que os maus, porque são mais
+explorados.
+
+Portanto ou fogem d'elle, ou se corrompem fatalmente.
+
+Estamos, pois, em face d'este dilemma.
+
+Ou havemos de não ter criados, ou havemos de os ter maus.
+
+É verdade que fomos nós que voluntaria ou involuntariamente os
+corrompemos e estragámos.
+
+Concedo.
+
+Agora, porém, não se tracta d'isso.
+
+Achamos o resultado das nossas proprias culpas e procuramos os meios de
+o modificar.
+
+Primeira necessidade imprescindivel: é preciso educarmos os nossos
+futuros criados.
+
+Mas como?
+
+Creando para isso instituições especiaes, ou modificando a indole das
+que já existem.
+
+Tractemos antes de tudo das mulheres.
+
+Estão por todo o reino espalhadas, e ainda bem que assim é, as
+instituições de caridade, tanto de iniciativa dos particulares, como de
+iniciativa do Estado.
+
+O que é que n'esses asylos se aprende, salvo excepções possiveis, mas
+que não chegaram ainda ao nosso conhecimento?
+
+Aprende-se em primeiro lugar o que hoje é indispensavel para toda e
+qualquer situação, por mais humilde que seja; aprende-se a ler,
+escrever, contar, coser e marcar.
+
+Aprende-se em segundo lugar a bordar de branco, a bordar de missanga, a
+bordar com cabello, a fazer crochet, a tocar orgão ou _harmonium_; ha
+alguns onde se aprende grammatica, historia, geographia, etc., etc.
+
+Muito bem.
+
+Em cada cem raparigas, admittimos que haja dez, cuja intelligencia
+superior possa mais tarde aproveitar-se d'este genero de estudos.
+
+Serão mestras regias, serão talvez caixeiras de alguma pequena loja,
+serão mesmo professoras particulares se houverem progredido no estudo e
+adquirido uma instituição mais solida e mais proficua.
+
+Que fazemos das outras noventa?
+
+Imaginemos que cincoenta casaram muito moças.
+
+Acham um artista, um carpinteiro, um chapeleiro, um entalhador, um
+pedreiro, um operario de fabrica, que as rouba á desamparada solidão que
+estava á espera d'ellas e que as leva para o seu pobre albergue
+desguarnecido e miseravel.
+
+Dos conhecimentos que adquiriram na educação dada pelo asylo quaes
+aproveitarão, quaes applicarão á sua felicidade, ao seu bem estar
+domestico?
+
+Com que trabalho poderão auxiliar o trabalho do marido, insufficiente
+para acudir a todas as necessidades do _ménage_?
+
+Que officio aprenderam a exercer?
+
+Dão as voltas de casa, varrem, limpam o pó, cosinham, mas fazem tudo
+isto mal.
+
+Nunca ninguem as compenetrou bem da importancia altissima d'estes
+misteres tão humildes.
+
+Ter a roupa do marido bem desencardida, bem engommada, com os seus
+remendos bem deitados, ter a casa acciada e fresca, ter uma comida pobre
+mas saborosa e bem temperada, ter a alegria, a abnegação, a boa vontade,
+e, em muitas das horas que ficam vagas, exercer qualquer pequena
+industria que ajude o marido, banir de casa a tagarellice das visinhas,
+viver só com o seu homem, com os seus filhos, no trabalho continuo, no
+trabalho fecundo, isso que é de certo o ideal, quem é que lh'o ensinou a
+praticar?
+
+Deixemos, porém, essas cujo destino agora não precisamos de apreciar e
+voltemos para as que ficam.
+
+Sahem do asylo, vão umas servir, outras vão ser costureiras,
+vendedeiras, etc., etc.
+
+Umas são as pobres creaturas roucas e aguardentadas que ahi vemos
+atravessar as ruas, apregoando hortaliças, ou fructa, outras as pallidas
+e anemicas creanças, de _cuia_ postiça, chapeu de aba revirada,
+polonaise phenomenal, bota de tacão alto e cambada, que encontramos á
+noutinha ou de manhã cedo, indo para casa das modistas, ou voltando de
+lá.
+
+As outras quem as não conhece, ao menos por ter ouvido fallar d'ellas?
+
+São as criadas de hoje, ou serão as criadas de ámanhã.
+
+A educação que lhes deram está em contraposição perfeita com a tarefa
+que teem de cumprir.
+
+Uma que foi apresentada para cosinheira, não tem as minimas noções
+culinarias, mas em compensação lê correctamente os jornaes que veem de
+manhã.
+
+Outra, cuja obrigação é engommar, não tem geito senão para bordar de
+matiz.
+
+Algumas, menos favorecidas da intelligencia, não sabem o que aprenderam,
+nem aprenderam aquillo que fazem.
+
+São as mais vulgares!
+
+ * * * * *
+
+Porque é pois que se não dá ás raparigas do povo, ao menos ás que são
+educadas nos asylos de beneficencia, uma educação em harmonia com o seu
+futuro papel?
+
+Não reprovamos de certo a leitura, a ortographia, uns elementos de
+arithmetica, mas o que reprovamos é que haja uma uniformidade absoluta
+na educação que se ministra a tantas e tantas creanças de indoles
+diversas, de intelligencias diversissimas.
+
+Aquellas que tivessem disposições para um genero de trabalhos mais
+levantados, deviam encontral-o n'uma casa especialmente destinada para
+as filhas do povo que até aos 12 annos tivessem dado manifestações
+inequivocas de claro e perspicaz entendimento.
+
+Ali formar-se-hiam futuras professoras, ou futuras artistas.
+
+Haveria n'esse estabelecimento mestras ou mestres que a cada uma
+conforme a sua vocação ensinassem as linguas, a musica, a pintura em
+porcellana, a grammatica, a geographia, a contabilidade, etc., etc.
+
+A essa casa, que devia ser subsidiada pelo governo e auxiliada pela
+bolsa particular, iriam as mães de familia procurar _professoras
+portuguezas_ para as suas filhas, professoras cuja educação fosse
+completa, e cuja moralidade podesse ser affiançada.
+
+Mais tarde os chefes de casas de commercio, mais capazes de
+comprehenderem o grande alcance d'esta innovação, iriam tambem buscar a
+essa casa raparigas honestas, que elles podessem sentar á mesa ao lado
+de suas filhas, e a quem confiassem a contabilidade e os livros do seu
+estabelecimento.
+
+Os fabricantes de louças e outros industriaes achariam na intelligencia
+e na prompta comprehensão feminina grande auxilio, e auxilio mais
+economico.
+
+Abaixo logo d'essa cathegoria mais elevada de intelligencia, haveria,
+n'outra casa, as que tivessem especial tendencia para os trabalhos que
+requerem não só engenho, mas tambem habilidade manual.
+
+Costureiras de vestidos, modistas de chapeus, raparigas que soubessem
+fazer rendas, fazer franjas, etc., etc., e que o asylo logo que lhes
+houvesse completado a aprendizagem, podia empregar convenientemente.
+
+Seriam estas, preferidas de certo a raparigas avulsas que entram para
+qualquer officio completamente ignorantes do trabalho que teem a fazer.
+
+A disciplina escolar, a instrucção elementar recebida, a aprendizagem
+methodica, affirmava-lhes a sua superioridade enorme sobre as outras.
+
+ * * * * *
+
+Collocadas assim as mais destras e as mais intelligentes, ficariam
+aquellas cujo espirito menos desenvolvido se recusava a uma applicação
+difficil.
+
+Estas seriam educadas expressamente para criadas de servir.
+
+Mas que educação precisa uma criada?
+
+Ora essa!
+
+Uma criada precisa uma educação tão cuidadosa como uma duqueza.
+
+A differença consiste unicamente n'isto:
+
+Uma tem de educar-se para criada, e outra tem de educar-se para duqueza.
+
+No asylo destinado a formar criadas, haveria o mesmo escrupulo na
+escolha das mestras.
+
+Antes de tudo uma moralidade austera.
+
+Depois no que toca á parte technica da educação, officinas distinctas
+onde cada uma das discipulas fosse alternativamente aprender os serviços
+que mais tarde tivesse a cumprir.
+
+Officinas onde se aprendesse a cosinhar segundo as regras da hygiene.
+Officinas onde se aprendesse a engommar segundo os processos mais
+adiantados. Outras onde se lavasse roupa de lã, e roupa de linho e
+algodão.
+
+Outras onde se talhasse roupa branca, fatos de creança, e fatos de
+senhora.
+
+Não se attenderia aqui como no _atelier_ das modistas do asylo superior,
+aos caprichos da moda, mas unicamente á commodidade, ao bom gosto e á
+hygiene.
+
+Outras ainda onde se cozesse á machina.
+
+Haveria mulheres especialmente encarregadas de ensinarem as discipulas a
+varrer, a limpar o pó, a esfregar o sobrado, ou a enceral-o á moda
+franceza, a deitar bem _rêdes_, a fazer meias, a cerzir panno, etc.,
+etc.
+
+Haveria n'este estabelecimento um requinte de aceio hollandez.
+
+As mestras escolhidas primeiro nos paizes estrangeiros, e depois
+educadas pelo mesmo asylo, ensinariam com o maior cuidado ás suas
+discipulas, que as criadas destinadas pelo seu trabalho a penetrarem no
+seio de familias inteiramente estranhas a viverem em contacto com gente
+de muita qualidade eram forçadas a ter, além da honestidade commum a
+todas as mulheres honestas, uma honestidade particular da sua classe,
+uma honestidade composta de elementos muito variados.
+
+Dir-lhes-hiam que uma criada boa tem de ser leal, tem de ser digna, de
+resistir ás más tentações, de ser fiel, de ser boa companheira, de ser
+laboriosa e de ter o escrupulo mais exagerado no cumprimento das suas
+obrigações.
+
+N'este asylo ainda haveria subdivisões necessarias.
+
+As mais geitosas para um certo e determinado trabalho applicar-se-hiam a
+elle de preferencia, não desprezando porém os outros.
+
+Aquella que fosse destra para tudo, aproveitaria egualmente todos os
+elementos que houvessem de constituir a sua educação.
+
+Ser criada não é--entenda-se bem--nem uma vergonha nem um _pis aller_;
+ser criada é um officio, ás vezes mais complicado que os outros, porque
+comprehende muitos.
+
+A unica differença é que se póde ser uma boa criada não sendo
+excessivamente intelligente, e que as qualidades aqui indispensaveis são
+robustez, destreza de mãos, fidelidade, amor de trabalho.
+
+ * * * * *
+
+Não se diga que isto é uma utopia impossivel.
+
+No estado de adiantamento a que chegou entre nós o principio de
+associação applicado á beneficencia, nada mais facil do que organisar
+por este modo os asylos do paiz, ou pelo menos de uma cidade do paiz.
+
+Não augmentaria de modo algum a despeza, mas progrediria necessariamente
+a educação popular.
+
+Reunidas debaixo de uma direcção geral, todas as casas de Beneficencia
+de uma cidade, passaria esta não a crear asylos novos, mas a modificar a
+indole dos que existem.
+
+Estabelecer-se-hia uma especie de gradação natural.
+
+Em baixo a casa que recebesse sem distincçao todas as creanças de 4 a 10
+annos que estivessem no caso de serem admittidas.
+
+Alli, sob a direcção de professores intelligentes, e de directoras de
+espirito cultivado, far-se-hia aos 12 annos de edade a escolha.
+
+Umas seriam enviadas para o asylo profissional de 1.^a classe, outras
+para o asylo profissional de 2.^a classe, a terceira para o asylo das
+criadas futuras.
+
+Aquellas que estivessem mais adiantadas trabalhariam logo, de modo que
+grangeassem um salario por mesquinho que fosse.
+
+Esse salario entraria como elemento de receita na caixa central.
+
+Este plano, como se vê, não é mais que um plano embryonario, o germen
+d'uma idéa que se nos affigura util e praticavel.
+
+Outros melhor do que nós o estudem e desenvolvam, se entenderem que o
+merece.
+
+ * * * * *
+
+Quanto a nós, acreditamos piamente que só então começariamos a ter
+criadas.
+
+As que sahissem do asylo com 20 annos de edade ficariam sujeitas a uma
+certa e determinada vigilancia, cujo systema e cujas bases nos não
+compete agora explicar.
+
+Com estas garantias de moralidade, e de bom serviço, seriam preferidas a
+todas que as não tivessem, e pelo menos fariam uma util concorrencia ás
+criadas indisciplinadas e ignorantes que hoje temos.
+
+As casas dignas e honestas teriam criadas cujo comportamento as não
+deslustrasse.
+
+As outras ficariam com as que teem hoje.
+
+Não merecem mais.
+
+ * * * * *
+
+Nos asylos dos rapazes, seguir-se-hia uma norma egual ou parecida.
+
+Esses como teem campo muito mais vasto para exercerem as suas
+actividades complexas, dariam de certo, bem educados e bem dirigidos, um
+pequeno contingente para a classe dos criados.
+
+Seria um bem.
+
+Uma criada representa sempre uma necessidade, um criado representa
+sempre um luxo!
+
+Para que ha de haver criados de meza ociosos e insolentes, cosinheiros
+envenadores e infieis?
+
+Estes serviços tão faceis não podem ser feitos por mulheres?
+
+Logo que este uso se propagasse entre os ricos, deixaria de ser indicio
+de pobreza, ou de habitos plebeus.
+
+No fim de contas tudo isto não passa de convenção!
+
+ * * * * *
+
+Já que o Estado julga descer occupando-se d'estas _pequeninas_ questões
+de moralidade domestica, que a iniciativa individual o substitua.
+
+Ninguem mais do que nós tem applaudido o engrandecimento progressivo, o
+rapido desenvolvimento das instituições de caridade.
+
+Não é o dinheiro que falta, porque entre nós quando se falla na miseria,
+a caridade nunca faltou; o que falta é uma direcção boa.
+
+A rotina n'isto como em tudo é funestissima.
+
+A nossa caridade official dá pão e vestuario ás creanças, mas que faz em
+favor das mulheres?
+
+Dando-lhes uma educação que não está em harmonia com os seus meios
+futuros, condemna-as á miseria, á desgraça, quantas vezes á ociosidade e
+á ignominia?
+
+A educação deve fazer-se pratica e positiva, deve tornar-se um
+preventivo efficaz contra os maus conselhos da pobreza ou da preguiça!
+
+Os que pensarem n'isto farão um bem á familia, e á sociedade.
+
+
+
+
+Creanças
+
+
+
+
+CAPITULO XV
+
+
+I
+
+São ellas a alegria da familia, como a familia é a suprema ventura dos
+felizes, e o supremo consolo dos desgraçados.
+
+Quando apparecem trazem comsigo o sol; tudo se illumina.
+
+Sorriem os labios mais ironicos, marejam-se de lagrimas doces os olhos
+mais aridos, estendem-se prodigas de bençães as mãos mais avaras.
+
+Ellas são a graça que se ignora, a fraqueza que nenhum poder assusta, a
+innocencia que interroga, a aurora intellectual que desponta e que
+diffunde em torno de si uma luz cariciosa e limpida, uma luz que se
+reflecte em jubilos no coração das mães.
+
+Tudo na vida é para ellas mysterio, mysterio que as chama e as attrahe,
+cujas trevas as não apavoram, em cujos sinistros meandros nem sequer
+receiam perder-se.
+
+Em cada um d'aquelles pequeninos cerebros encerra-se em germen tudo que
+é no homem pequenez ou grandeza, genio ou mediocridade, força ou
+impotencia, virtude, abnegação, esquecimento de si ou egoismo, vicio e
+crime.
+
+Onde ha maior mysterio do que a creança?
+
+Debalde a interrogamos; não sabe responder, senão áquelles que pelo
+poder da sympathia logram identificar-se com ella.
+
+Recebel-a das mãos de Deus é para a mulher, para a mãe a mais tremenda
+das responsabilidades, e desgraçadamente aquella de que tem a
+consciencia menos definida e menos clara!
+
+ * * * * *
+
+Ser mãe, quem o não é?
+
+A difficuldade e o segredo é saber sel-o.
+
+Na sociedade, tal como ella está constituida e continuará a estar por
+largos e dilatados annos, dous entes, um homem e uma mulher, moços
+ambos, encontram-se, olham-se, sorriem-se e pensam de si para comsigo
+que estão _apaixonados_.
+
+Durante alguns dias, alguns mezes, a que elles em falsa e sentimental
+linguagem chamam _seculos_, repetem um ao outro, n'um tom mais ou menos
+desafinado os _duettos_ de ternura doentia que os romancistas, os
+prosadores e os _maestros_ inventaram para conveniencia sua... dos seus
+emprezarios e editores, e para envenenamento do resto da humanidade.
+
+N'este meio tempo, por detraz dos bastidores, os paes, que fingem _não
+ver nada_, calculam _in petto_ quaes os prós e os contras pecuniarios do
+matrimonio hypothetico.
+
+Se os primeiros levam certa vantagem aos segundos, celebra-se com a
+devida pompa o almejado consorcio, e n'essa noite ha mais dois
+desconhecidos, dois indifferentes, dois estranhos acorrentados um ao
+outro por um laço que devia ser sagrado, e que muitas vezes consegue
+sómente ser... dourado!
+
+O marido no outro dia vae para as suas labutações do costume, para a
+vida exterior que o reclama e absorve, a mulher fica em casa provando os
+vestidos do enxoval, experimentando se lhe fica bem a touca, distinctivo
+invejavel das noivas, ensaiando os seus primeiros vôos timidos de
+senhora independente, que póde á sua vontade fechar o piano, atirar fóra
+o lapis e as tintas, deixar para um canto a costura e o bordado, e
+subverter-se sem receio das censuras maternas no _dolce far niente_, que
+tanto a namorava em seus dias de educanda submissa.
+
+D'alli a um anno, se é boa, docil, se tem a intuição das cousas
+delicadas, se um poderoso instincto de creatura amoravel lhe pede que
+espalhe em volta de si a felicidade, concedamos-lhe que já tem tido
+tempo de conhecer e apreciar seu marido, que principia a estimal-o, que
+se lembra um poucochinho envergonhada dos falsos lyrismos de solteira,
+das cartas que lhe escrevia _fazendo estylo_ e copiando phrases dos
+grandes apaixonados que a lenda e o romance immortalisam; que tem,
+emfim, ainda incompleta, mas já accentuada a noção da verdade e da
+justiça que ha de guiar-lhe a vida.
+
+Param, porém, aqui os seus conhecimentos, e um dia, surpreza, encantada,
+extactica, chorando de alegria, umas lagrimas verdadeiras, d'estas que
+se escoam entre risos de gratidão, percebe que tem nos braços um
+pequenino ser, a quem tem direito de chamar filho, porque o gerou no
+seio em longos mezes de agonia insondavel.
+
+Que ha de fazer d'elle? Como ha de desenvolver, robustecer, cultivar a
+saude d'aquelle entezinho, fragil e indefezo, que lhe solta no regaço os
+seus primeiros vagidos, buscando com a boquinha faminta e o instincto
+animal, que Deus concede a todos os seres creados, a primeira gotta do
+leite materno, que é a sua vida?
+
+Entram as amigas e dizem-lhe em côro:
+
+--Não o cries que perdes a formosura, o viço, a mocidade, tudo o que
+prende e captiva teu marido.
+
+--Não o cries, que tens de te despedir dos bailes, das noites
+triumphantes em que a valsa nos arrebata nos circulos vertiginosos, em
+que as flôres e as finas essencias nos embriagam com o perfume
+enervante, em que a musica nos côa nos sentidos as suas caricias
+languidas, em que a luz crúa do gaz nos beija as espaduas opalinas, em
+que a admiração dos homens nos envolve na audaz provocação dos seus
+olhares, em que a inveja das mulheres nos enrosca em espiraes de cobra.
+
+--Não o cries, que terás de perder as noutes, não entre alegrias e
+folgares, mas na alcova, onde a medo bruxoleia a luz mortiça da
+lamparina, junto de um pequeno berço, ouvindo aquelle choro da infancia,
+tão doloroso para os ouvidos maternaes.
+
+Teu marido fugirá de ti; elle, que anda cansado da faina diaria, quer as
+noutes tranquillas, os somnos fartos, as placidas madrugadas;
+repugnam-lhe os primeiros trabalhos que a creança tem que dar por força
+á mãe, que fôr mãe, na accepção plena da palavra.
+
+Não creio que a maior parte das mulheres ouça os funestos e corrosivos
+conselhos das amigas falsas; hoje começa a radicar-se em todos os
+espiritos a convicção justa e sensata de que só a mãe, quando é robusta,
+ou quando é simplesmente sã, deve amamentar o filho.
+
+Entregal-o aos braços mercenarios de mulher estranha é aceitar a mais
+tremenda das responsabilidades.
+
+A ama póde communicar no leite os seus vicios, os seus instinctos maus,
+as suas doenças ou defeitos de organisação hereditaria, toda a herança
+fatal de um passado inteiramente desconhecido para as pessoas que tão
+levianamente lhe confiam o que devia ser o mais precioso thesouro da sua
+alma.
+
+Abstraiamos, pois, a ama, por não querermos suppôr que se trata aqui de
+uma mãe frivola até ao crime, despiedosa até á ferocidade, ou fraca a
+ponto de não poder cumprir os deveres da sua missão maternal.
+
+Fica-nos simplesmente a mãe inexperiente e ignorante em face da
+recem-nascida creatura, flôr que precisa o mais desvelado cultivo, a
+mais complexa das educações.
+
+Não a accusemos ao vel-a aceitar o seu mimoso fardo com tão leviana
+confiança, com uma tão plena inconsciencia da grande missão que precisa
+de cumprir.
+
+A culpa não é d'ella; n'este ponto ha um criminoso apenas--é o homem.
+
+ * * * * *
+
+Abrem-se universidades, lyceus, escolas, seminarios, institutos
+scientificos, para educarem no seu seio os jurisconsultos, os medicos,
+os sacerdotes, os mathematicos, os commerciantes, os sabios, os cidadãos
+do futuro.
+
+Só falta uma escola, a primeira, a mais indispensavel das escolas, a que
+facilitaria e tornaria fructiferos os trabalhos das outras: falta a
+_escola das mães_!
+
+Ninguem se lembrou ainda de a crear, julgam-na desnecessaria, ou talvez
+que a julguem frivola.
+
+--Como é que se ha de ensinar a ser mãe? é só a natureza que instrue a
+mulher. Ha mães de quinze annos que sabem mais n'este assumpto do que
+velhos pensadores de sessenta. Deixae obrar a natureza, é ella a grande
+mestra, a suprema inspiradora!
+
+De accordo, meus senhores; quem é que nunca se lembrou de negar á mãe o
+seu divino instincto de protecção e de ternura? Quem ao vel-a segurar
+com tão delicado carinho o tenro corpo do filho, acalental-o nos braços,
+adivinhar-lhe as necessidades e os desejos até para elle indistinctos,
+negará que entre esses dous entes ha uma cadeia mysteriosa, que a
+natureza nunca poderá mais desatar?
+
+Mas é necessario que o estudo auxilie o maravilhoso instincto, que elle
+ensine á mãe a comprehender no seu triplice aspecto, physico, moral e
+intellectual, a educação do ser complexo, que hoje é uma fraqueza que
+implora auxilio e ajuda, que ámanhã será uma força util ou funesta,
+conforme a direcção que haja recebido desde os mais tenros annos.
+
+
+ * * * * *
+
+
+_O estudo que comprehende todos os outros estudos, e que deve, portanto,
+constituir o ponto culminante da instrucção, é a theoria e a pratica da
+educação da infancia._
+
+Estas palavras de Herbert Spencer, o philosopho mais notavel da moderna
+Inglaterra, um grande pensador, um chefe de escola, provam de sobejo até
+que ponto, aos olhos do homem que medita, avulta hoje o grande problema
+da educação.
+
+É um erro imaginar que a creança nasce boa.
+
+Ha n'ella instinctos innatos de natureza selvagem, instinctos
+primitivos, que só uma habil cultura modifica, transforma, encaminha ou
+desarreiga.
+
+Toda a creança é curiosa: mães aproveitae essa grande força, que conduz
+o homem á conquista de todas as grandes descobertas da sciencia e da
+arte, e que póde quando entregue a si conduzir a creança ao mais
+deploravel e mesquinho dos vicios de caracter, á curiosidade esteril do
+ocioso, da _senhora visinha_. A creança tem o instincto do roubo.
+Apossa-se do que vê, do que attrahe pelo brilho, do que lhe desafia a
+cubiça, a gulodice, o amor da posse.
+
+Leitora, quando o teu pequenino de tres ou quatro annos tiver artes de
+te roubar uma joia muito querida, um manjar muito reservado, um
+_bibelot_ qualquer, que seja para ti de grande estimação, não chores
+desconsolada, lendo n'esse primeiro symptoma sinistras prophecias. Esse
+prenuncio de ambição desregrada póde, dirigido com previdente
+vigilancia, transformar-se na legitima energia que leva o homem a
+desejar a posse das riquezas honestamente adquiridas, a exercer no seu
+espirito uma influencia fortificante, a tornal-o pertinaz no caminhar
+para um ficto que de longe antevio.
+
+Dirigir toda e qualquer tendencia para um fim elevado e util, combater a
+inercia, a preguiça physica e intellectual da creança, empregando
+activos reagentes, ir ajudando lenta e gradualmente a evolução natural
+do entendimento infantil, abrir-lhe o espirito a todas as curiosidades
+sãs, apontar para a natureza inteira como para um livro enorme,
+mysterioso, cheio de apaixonado interesse, de peripecias dramaticas, de
+imagens vistosas, que elle ha de ir decorando a pouco e pouco,
+conduzil-o até ao limiar da adolescencia, puro de coração, immaculado no
+corpo, prompto e apto para absorver em si os conhecimentos complexos que
+o esperam, robusto, são, energico, confiante, cheio de crença nos
+outros, e de crença maior em si, eis a missão das mães. Que de cousas
+não são indispensaveis para a saber cumprir!
+
+ * * * * *
+
+Uma das cousas que a mulher quasi geralmente ignora é a hygiene pratica,
+que ella tanto precisava saber, tendo, como tem, a seu cargo a
+distribuição e direcção do alimento da familia.
+
+Do alimento que se ministra á creança depende em grande parte não só a
+sua futura saude, mas, o que poucas mulheres sabem,--o seu caracter
+futuro!
+
+Dae a uma creança alimentos irritantes, inflammaveis, apimentados;
+deixae-a usar sem discernimento de bebidas em que o alcool predomine, e
+tereis o temperamento adulterado, o caracter azedo, os habitos baixos,
+os gostos perversos, todas as aberrações de um organismo estragado.
+
+Dae-lhe só carne, alimentae-a brutalmente de materias fortemente
+azotadas, e fareis d'ella, da meiga e fragil creatura, do pequeno anjo
+de cabellos louros e olhos innocentes, um temperamento sanguinario,
+selvagem, amigo das luctas bravias, das distracções violentas, dos
+exercicios athleticos, que caracterisam as rigorosas raças do norte.
+
+Exemplo: os inglezes, que só domam as revoltas brutaes do temperamento
+com a forte disciplina de uma educação que é o supremo milagre do
+espirito sobre a materia.
+
+A alimentação fraca produz os organismos inertes, fleugmaticos, sem
+impulso, sem fibra, sem energia duravel.
+
+Saber pois, conhecer os diversos attributos que caracterisam a
+alimentação do homem, saber combinal-os de modo que todos concorram para
+o seu bem-estar physico, e que nenhum produza as graves perturbações
+organicas de que podem ser origem, é a sciencia das mães, sciencia para
+cujo estudo devem tender todos os seus esforços.
+
+ * * * * *
+
+A actividade quasi incessante da creança é um dos meios que mais
+efficazmente concorrem para o seu crescimento physico e, por
+consequencia, para o seu desenvolvimento intellectual.
+
+As mães, julgando fazer n'isto um grande serviço a seus filhos, combatem
+por todos os modos esta actividade, obrigando as creanças a uma
+quietação que se transforma em supplicio para os pequeninos corpos
+buliçosos, que um impulso involuntario leva a um quasi continuo
+movimento.
+
+Não é só com as reprehensões, ás vezes asperas e sempre injustas, não é
+só encerrando os pobres seres pequeninos em espaço muito estreito para
+os seus desejos, é tambem vestindo-os para obedecer ao despotismo da
+moda, e ás exigencias da propria vaidade de um modo que está em pleno
+contraste com a idéa que todo o espirito um pouco sensato deve formar
+das aspirações e necessidades da infancia!
+
+A creança, que quer e que precisa de correr no espaço amplo, pelas ruas
+pedregosas, pelos campos lavrados, pela matta cheia de raizes, traz
+quasi sempre uma botina alta, justa, de salto levantado e estreito!
+Ella, que aspira aos movimentos livres, que se compraz nos grandes
+gestos, que trepa ás arvores, que se roja pelo chão, que atira ao longe
+os improvisados projectis que encontra, sente-se cruelmente cingida por
+um fato rico, elegante, phantasioso, caro por força, e que tem o defeito
+duplo e contradictorio de a entristecer lentamente, inconscientemente
+pelas censuras e ralhos de que lhe é motivo incessante--visto que não ha
+nada mais avarento do que a prodigalidade e nada mais economico do que a
+ostentação--e de a tornar vaidosa pelo habito e pelo gosto de attrahir
+as vistas dos frivolos, e a inveja dos pobres, dos pequenos rotos, dos
+miseraveis de cinco annos, que ignoram as alegrias bemditas da sua
+liberdade indomada!
+
+Mães, arrancae ao vestuario dos vossos filhos tudo que fôr vaidade,
+falso luxo, ostentação ridicula!
+
+A graça das creanças consiste na plena expansão da sua vitalidade; o
+luxo d'ellas está no doce aroma de infancia que de si exhalam, e que
+falla de aceio, de pureza, de carinho materno, que revela--aos que sabem
+ver--as matinaes e frescas alegrias do banho, as risadas crystallinas
+como perolas que se desfiam, os gritinhos infantis, as fugidas subitas,
+todo esse poema, que ninguem traduz, de um bando de pequeninos corpos,
+feitos de leite e rosas, com cabelleiras louras por aureola, que uns
+braços amorosos amparam, susteem, acariciam, em quanto que um sorriso
+meigo e pensativo illumina em clarões de limpidez ideal, uma bocca que
+só sabe abençoar, uns olhos de mãe, que nunca desamparam nem desfitam o
+tepido ninho das suas doces aves implumes.
+
+
+II
+
+Por muito tempo todas as attenções do homem se fixaram n'um ponto que se
+avistava para além da vida terrestre.
+
+Curava-se sómente da alma considerando a terra morada transitoria, cheia
+de males e de miserias, e o corpo ephemero involucro, especie de lodoso
+carcere onde o espirito prisioneiro anciava por levantar o vôo para as
+altas espheras da eterna bemaventurança.
+
+Este pensamento, que dominava todos os outros e ao qual todos os outros
+se subordinavam, é a causa suprema de onde deriva toda a philosophia da
+edade média, e que determina o ideal a que tenderam os sonhos de
+milhares de gerações, nossas predecessoras na vida.
+
+Foi elle que estabeleceu o medonho antagonismo entre o espirito e a
+materia, causa de tantos erros e de tão falsas interpretações; foi elle
+que levou o homem perdido e transviado a considerar a natureza como a
+sua mais cruel inimiga, como a sua tentação mais perigosa e abominavel.
+
+D'esta guerra anti-humana e anti-natural nenhuma conquista verdadeira
+poderia provir.
+
+Era falso o ponto de vista de que o homem partia, falsissimas todas as
+deducções que d'esse ponto de vista resultavam.
+
+O corpo era um farrapo miseravel que só merecia desprezo e humilhação;
+todo o prazer, ainda o mais natural era um peccado que cumpria expiar
+cruelmente; a vida era um periodo curto de passagem e penitencia; a
+creança nascida já vinha contaminada do peccado original; a alma, só a
+alma precisava dos nossos cuidados, das nossas meditações, do nosso mais
+especial e esmerado cultivo!
+
+Quantos erros de educação, de moralidade e de hygiene!
+
+Quantas revoltas medonhas este despotismo espiritual não excitava!
+
+Mas foi por acaso esse tempo de pura espiritualidade?
+
+Pelo contrario!
+
+Nunca os instinctos maus do homem imperaram com mais violencia! Nunca se
+materialisaram mais todos os cultos e todas as idéas!
+
+O Deus que todos adoravam em extasis apaixonados, era o Christo
+dolorido, cadaverico, crivado de pregos, escorrendo sangue de cada uma
+das suas chagas abertas.
+
+A dôr maternal era symbolisada por sete espadas atravessando um coração
+dilacerado.
+
+Os fanaticos mostravam á admiração das turbas os estygmas sangrentos das
+suas carnes palpitantes.
+
+Os ascetas tinham visões nas quaes o Padre Eterno, o Christo, a Virgem,
+os Santos, lhes appareciam sob a fórma humana, com feições diversas e
+caracteristicamente accentuadas, fallando na linguagem mais correntia e
+mais chã.
+
+A _resurreição da carne_ era um dos pontos fundamentaes do dogma
+catholico. O espiritualismo d'essas éras barbaras era muito mais
+_material_ do que a sciencia de hoje.
+
+--Para que aperfeiçoarmos e amenisarmos a vida,--diziam do alto dos seus
+pulpitos ou nas paginas dos seus tractados as terriveis authoridades
+d'essas éras tão hostis para o homem.--Quanto maiores supplicios
+houvermos padecido n'este momento rapido, maior quinhão de gloria tem
+para nós a eternidade. Sofframos todas as humilhações mais abjectas,
+curvemo-nos diante de todas as tyrannias, deixemos que os vermes devorem
+o nosso corpo ulcerado, sejamos grandes em face do Senhor, como Job na
+sua gloriosa estrumeira. Os que forem ultimos cá em baixo, serão os
+primeiros no céu!
+
+E a humanidade, ébria de um sonho de beatitude immortal, perdia a força
+para combater, e esperava passivamente a resurreição esplendida que os
+illuminados lhe promettiam!
+
+Oh! quanto devemos á robustez de espirito, á fé fecunda e creadora que
+moveu alguns homens privilegiados a fazerem-nos sahir d'esse marasmo
+estagnador!
+
+Foram esses homens os verdadeiros creadores da sciencia, que hoje
+illumina até os mais ignorantes, dos bens que hoje desfructam até os
+mais desgraçados.
+
+ * * * * *
+
+Um dos problemas resolvidos pelos modernos, e que se não fossem esses
+benemeritos de que acima fallamos ficaria para sempre obscuro, é o
+problema da educação.
+
+Segundo o ponto de vista da edade média, a mãe não devia attender senão
+á alma de seu filho.
+
+Era preciso fazer d'elle um santo, e as mais das vezes só se fazia um
+bandido.
+
+E que o alvo a que se tendia era estupido e anti-natural e os meios de
+que se usava eram inteiramente contraproducentes.
+
+Hoje a mãe já não tem desculpa nem da sua ignorancia propria, nem da
+ignorancia da sua época.
+
+Se não sabe é porque não quer saber.
+
+O homem moderno tem applicado grande parcella da sua prodigiosa
+actividade em descobrir os meios mais efficazes de fazer as gerações que
+vão seguir-se-lhe melhores do que as gerações que o precederam.
+
+Está pacificada a guerra que se havia travado entre a alma e o corpo.
+
+Mais ainda; hoje comprehende-se perfeitamente que é da saude do corpo
+que depende a saude da alma, e que os maus são quasi sempre os enfermos
+ou os defeituosos.
+
+O caminho das boas mães está naturalmente traçado.
+
+Não poupar esforços para aperfeiçoar e robustecer o corpinho querido,
+dentro do qual está crescendo e desabrochando a flôr maravilhosa, a flôr
+delicadissima, que é a alma infantil.
+
+Poucas pessoas comprehendem a fundo qual seja a responsabilidade de ser
+mãe.
+
+Não a póde haver mais seria e mais tremenda.
+
+Desde que a creança nasce até ao segundo periodo da sua vida, em que
+ella já começa a ser susceptivel de ensino, quantos cuidados multiplos,
+engenhosos, delicados e constantes!
+
+Um movimento menos suave, um golpe de ar quando a creança está no banho,
+um abafo excessivo ou uma imprudente e rapida mudança de habitos,
+qualquer pequena cousa que á primeira vista parece insignificante, póde
+ter um alcance enorme no futuro do querido entezinho.
+
+Sabemos de uma creança que ficou cega, porque estabeleceram uma corrente
+de ar no quarto em que ella tomava um banho tepido.
+
+Conhecemos uma pobre mulher, que tem padecido toda a vida cruelmente,
+que nunca pôde trabalhar, nem ser util a ninguem, porque a tornou
+rachitica uma quéda que a fizeram dar brincando com ella em pequena.
+
+Ha muita gente que se diverte estupidamente atirando as creanças ao ar,
+fazendo-as dar voltas, abalando-lhes o pequeno cerebro.
+
+Quem póde dizer os resultados fataes para o seu organismo que d'ahi
+resultam!
+
+A creança é tudo que ha de mais fragil e de mais delicado.
+
+Pensem bem todas as mães que um erro de hygiene póde ás vezes fazer de
+uma indole pacifica uma indole perversa.
+
+A alma e o corpo, os dous irreconciliaveis, inimigos de outro tempo,
+estão hoje para todos os olhos tão estreitamente unidos, tão
+profundamente identificados, que não ha abalo ou sensação que um
+experimente e de que o outro deixe de resentir-se logo.
+
+ * * * * *
+
+Pensam muitas mães que o melhor meio de emendarem os erros de seus
+filhos, são os ralhos repetidos e os castigos severos.
+
+Engano perfeito!
+
+O unico meio de educação verdadeiramente proficuo é o exemplo.
+
+Que encargo de almas não assume a mulher que quizer ser boa mãe!
+
+A mais doce e a mais tocante relação reciproca que existe entre a mãe e
+o filho, é aquella em virtude da qual a mãe educando-se educa, e o filho
+sendo ensinado ensina.
+
+Emquanto ensinamos os nossos filhos, a nós proprias nos estamos
+illustrando.
+
+Pensando nas virtudes que elles devem adquirir e no meio de lh'as
+inocularmos no coração, como que se nos vão lentamente revelando todas
+as bellezas incomparaveis d'este mundo moral, de cuja contemplação
+andavamos, senão alheiadas, ao menos distrahidas.
+
+Oh! de quantos rasgos bons não é origem para a mãe, o receio de vêr
+traduzir-se um espanto accusador nos olhos limpidos de seu filho.
+
+E depois é necessario que todas as educadoras pensem muito n'esta
+verdade tão simples e tão lucida.
+
+O exemplo, é que ensina, guia e robustece a alma e educa o espirito.
+
+Que importa que ella pregue e ensine as boas palavras, e a brandura do
+caracter, se ella não provar com o seu exemplo de todos os dias a divina
+graça d'estas qualidades e d'estes usos?
+
+A creança obedecerá talvez, mas sem convencimento e sem alma!
+
+Para que todas as bençãos de Deus chovam sobre a cabeça das que sabem
+ser boas mães, nem esta benção suprema lhes faltou.
+
+Ao contacto divino da infancia, na doce intimidade da innocencia, perdem
+defeitos e ganham virtudes.
+
+A educação bem comprehendida é tão util á mãe como á creança.
+
+ * * * * *
+
+Imagine-se uma creatura fraca, indolente, tendo sido de pequena
+criminosamente amimada, mas ao mesmo tempo possuidora de claro e
+perspicaz entendimento.
+
+Tem habitos inveterados de preguiça, tem horas desoladoras de tedio e de
+morbida melancolia. O tempo para ella é pesado e longo.
+
+Vive, não _gosando_ as horas porém _matando-as_ como póde.
+
+Não se occupa, não reage contra o seu natural e funesto prostramento,
+não tem um fim util e querido para o qual viva.
+
+Um dia esta creatura infeliz é mãe!
+
+Comprehende toda a responsabilidade que lhe cahiu sobre os hombros, e
+como no fim de contas é intelligente e boa, quer cumprir dignamente a
+sua sagrada missão.
+
+Como é milagrosa e abençoada a influencia que n'este caso a creança
+innocente exerce no caracter de sua mãe.
+
+Acabaram-se as longas scismas dolentes, as doentias tristezas, os
+inuteis desalentos! É preciso que ella ensine a viver á fragil
+creaturinha que Deus confiou aos seus braços.
+
+Quantas d'estas redempções se não devem á infancia! Quantas vezes a mão
+inconsciente de um pequeno ser de dous ou tres annos não tem redimido os
+erros de seus paes!
+
+ * * * * *
+
+Lembra-nos, a proposito d'isto, uma poesia deliciosa que lêmos ha muitos
+annos, e cuja idéa é esta.
+
+Duas desgraçadas creaturas, d'estas que a miseria prende ás vezes
+mutuamente por ephemeros laços, arrastavam juntas uma vida angustiada e
+degradante.
+
+_Ella _sem coragem, sem aceio, sem actividade, sem aquella força que ao
+mais negro albergue póde dar a mysteriosa graça dos ninhos; _elle_,
+ocioso, cruel, covarde diante da desgraça e diante do trabalho, ébrio ás
+vezes, d'aquella selvagem embriaguez da aguardente e do absintho.
+
+Porque se conservaram unidos?
+
+Nem elles proprios o sabiam.
+
+Poder do habito, abjecto marasmo das supremas degradações.
+
+Um dia, n'aquelle antro miseravel, soou o vagido de uma creança.
+
+Não se admirem.
+
+Tambem ás vezes das podridões de uma sepultura desabrocha uma rosa de
+maio.
+
+Quando á noite o homem voltou de suas divagações sem rumo, a pobre
+mulher prostrada nas palhas apodrecidas da enxerga, perguntou-lhe
+espantada:
+
+--Porque me não bates? porque me não ralhas? quem é que suspendeu o
+insulto da tua bocca, e os golpes dos teus braços?
+
+E elle, o homem perdido e brutal, respondeu baixinho com um
+enternecimento desconhecido na voz rouca:
+
+--_Tenho medo de acordar o pequenino._
+
+--_J'ai peur de réveiller l'enfant._
+
+Oh! creanças, creanças, como isto revela bem o poder divino que é tão
+vosso!
+
+ * * * * *
+
+Tenho fallado muito ás mães n'este assumpto.
+
+Nunca me cansarei de lhes repetir que se entreguem bem do intimo d'alma
+á educação dos seus filhos!
+
+É que não ha creanças más, como não ha homens perversos.
+
+Ha creanças mal educadas e ha homens pervertidos.
+
+Na educação que as creanças recebem dominam ainda perigosos
+preconceitos, e dizemos _perigosos_, por que n'este grave assumpto todo
+o erro é um perigo.
+
+Apontemos alguns.
+
+Toda a mãe ambiciona possuir um filho modelo.
+
+Quer dizer, um menino muito direito, muito aprumado, que falla como um
+livro, que sabe grammatica, maximas moraes, que repete versos classicos,
+que nunca faz bulha, que tem gestos desdenhosos e reprehensivos para a
+travessura dos outros, que nunca se esquece das lições, que é emfim um
+_prodigio_ que todas as mães invejam, e apontam como ideal a seus filhos
+menos privilegiados.
+
+Esta classe de creanças póde dizer-se que é a unica verdadeiramente
+antipathica.
+
+Evitemos quanto possivel que os nossos filhos sejam _meninos modelos_.
+
+Para evitar este resultado, é preciso não dar excessiva attenção ás
+graças naturaes da creança, não a louvar de modo que ella ouça, não a
+forçar a estudos precoces, fazel-a brincar, correr dar-lhe plena
+liberdade de movimentos e de impulsos.
+
+Se a creança tem demasiada propensão para os estudos mais proprios de
+outra edade, cumpre distrahil-a, pôl-a em contacto com a natureza,
+ensinal-a a comprehender a alma das cousas.
+
+Nada melhor para desenvolver o espirito e o coração das creanças do que
+a vida no campo.
+
+Plantas, arvores, animaes, os alegres trabalhos da lavoura, tudo que
+desperta sans curiosidades no entendimento infantil.
+
+Dae ao vosso filhinho um alegrete do jardim para elle tratar, dae-lhe um
+animalzinho manso e inoffensivo a que elle se affeiçoe.
+
+ * * * * *
+
+Ás vezes quando o nosso filhinho bate com a cabecinha no chão, ou em
+qualquer movel da casa, vemos com indifferença a criada que o trata
+bater tambem, fingindo-se muito zangada, no objecto que sem culpa nem
+consciencia é a causa da magoa que afflige o nosso pequeno amor.
+
+Este velho costume das aias e das mães pouco atiladas, é um erro.
+
+Torna a creança absurdamente vingativa.
+
+D'ahi a bater ou a ter vontade de bater em quem a contraria, não vae
+nada.
+
+De cada idéa falsa se faz n'estes cerebros delicados e impressionaveis o
+germen de um vicio ou de um defeito.
+
+Quantas mães eu não tenho ouvido dizer: Meu filho é tão teimoso! Meu
+filho é tão guloso! Ou tão tagarella, ou tão curioso!--ou tão colerico!
+
+Mães, procurae bem no passado e achareis a semente d'isso que hoje é
+planta damninha e venenosa.
+
+ * * * * *
+
+Combater a teima, com a teima, a gulodice natural com a abstinencia
+forçada, a cólera instinctiva, com os castigos implacaveis, é pessima
+tactica.
+
+O meio de levar uma creança a esquecer-se de que teimava, é
+distrahir-lhe a attenção para assumpto muito diverso d'aquelle que a
+absorvia.
+
+Quando uma creança é exageradamente gulosa, o meio de a emendar é
+leval-a a envergonhar-se do seu defeito, a córar d'elle diante de si
+propria.
+
+Nas cóleras a que todas as creanças são mais ou menos sujeitas, o
+remedio mais efficaz é uma brandura magoada.
+
+Que a mãe deixe ver que os erros de seu filho a não enfurecem, mas a
+fazem soffrer muito.
+
+A creança ficará desarmada e moralisada.
+
+Para ella a revelação subita de que foi causa de grande amargura para
+aquella a quem mais estremece, corresponde ao despertar da consciencia e
+ao pungir do seu primeiro espinho!
+
+Usemos na educação dos meios puramente moraes, e não das degradantes
+correcções physicas.
+
+Acordemos por todos os modos imaginaveis o bom senso da creança, e a
+impressionabilidade do seu ser moral.
+
+Que ella conheça sempre o mal e o bem, não pelos inconvenientes ou
+vantagens que d'estas duas cousas possam provir, mas pelo que ellas
+valem, pelo que significam, pelo rebaixamento que uma inclue em si, e
+pela essencia superior de que a outra é feita.
+
+
+III
+
+N'este delicioso e querido assumpto da educação infantil tudo está dito,
+e tudo está ainda por dizer.
+
+As regras geraes teem forçosamente de ser modificadas na sua applicação
+a casos particulares; nenhuma creança existe no mundo que seja
+absolutamente egual a outra creança; é ao espirito da mãe que pertence o
+gravissimo e delicado encargo de corrigir, ampliar, alterar, restringir
+as regras e os preceitos enunciados pelos educadores e pelos moralistas.
+
+O que é, pois, necessario antes de tudo, é levar as mães a pensarem
+profundamente n'estas altas questões, e a estudarem com pertinaz
+paciencia o caracter das creanças cujos destinos teem de dirigir.
+
+Conhecemos uma senhora, aliás muito boa e muito dedicada, que, tendo
+cinco filhos, os educa a todos pelo mesmo systema.
+
+Resultado inevitavel e fatal:
+
+As creanças são todas deploravelmente educadas.
+
+Ernesto Legouvé, distincto escriptor francez, que tem consagrado grande
+parte da sua vida a notaveis estudos sobre a sorte da mulher, e sobre a
+educação da creança, publicou ha mezes um bello livro que d'aqui
+recommendo a todas as minhas leitoras.
+
+Intitula-se--_Nos filles et nos fils_, e contém uma serie de scenas e
+estudos de familia, muito proprios para ampliar e esclarecer o coração e
+o entendimento das mães em certos momentos criticos da sua difficil
+missão.
+
+Um d'esses trechos, e talvez um dos mais importantes, trata das creanças
+e dos criados, da intimidade forçada e muitas vezes perigosa que entre
+elles se estabelece, e dos resultados nocivos que d'essas relações
+resultam para a educação.
+
+Legouvé leu este trecho na _Academia Franceza_; por aqui se reconhece a
+sua importancia, a maneira superior por que foi tratado.
+
+Muitas mães desattendem na educação dos seus filhos a questão gravissima
+dos criados.
+
+Deixam que as creanças vivam n'um contacto muito intimo com gente de
+tracto grosseiro, de comportamento equivoco, de linguagem eivada de
+erros, de conversação baixa e degradante.
+
+Quantas mães eu não tenho ouvido dizer ás suas filhinhas de quatro,
+cinco e oito annos:--_Vae lá para dentro; deixa-me conversar?!_
+
+Imaginam ellas que para a creança nenhuma consequencia má póde provir da
+sua intimidade com as criadas.
+
+Enganam-se.
+
+Antigamente, quando os domesticos faziam, por assim dizer, parte
+integrante da familia, nasciam e morriam na casa, não havia perigo em
+que as creanças estivessem junto d'elles e com elles tagarellassem e
+brincassem.
+
+O instincto d'essas boas creaturas, afinado na convivencia de pessoas de
+educação elevada, fazia-lhes comprehender que as creancinhas eram uns
+seres sagrados e queridos, cuja intelligencia se não devia macular nem
+de leve, cujos ouvidos tinham de ser escrupulosamente respeitados.
+
+Hoje, infelizmente, como já o dissemos, esse modo de comprehender a vida
+de familia, modificou-se completamente.
+
+Os nossos criados entram e sahem com uma rapidez e uma facilidade
+incrivel; não criam raizes em parte alguma, e este viver de párias no
+meio dos que teem lar e alegrias intimas e familia e tecto seu,
+desenvolve-lhes contra os amos uma estranha hostilidade.
+
+Dizem mal por gosto, por necessidade, por um costume de classe.
+
+Precisam de vingar-se, e vingam-se dos maus e dos bons, sem escrupulo e
+sem remorso.
+
+De cada casa d'onde sahem trazem os segredos, as anecdotas mais intimas,
+os incidentes comicos, os acontecimentos grotescos; e contam tudo isto,
+uns aos outros, n'uma grande liberdade de palavras, de apreciações e de
+commentarios.
+
+Surprehenderam aqui um drama, alli um ridiculo, conhecem as miserias de
+muito interior, os vicios que se fazem pobreza, e a pobreza que se faz
+vicio.
+
+Com o amor do pittoresco e do maravilhoso, que ha sempre na alma do
+povo, dão um colorido phantastico aos seus contos, que attrahe por força
+a curiosidade da creança.
+
+Imaginem-se uns ouvidos de cinco, de seis, de oito ou nove annos a
+beberem essa deploravel sciencia!
+
+E não se diga que a creança não entende!
+
+A creança tem o instincto da curiosidade desenvolvido n'um
+extraordinario grau!
+
+A creança entende quasi tudo, e d'aquillo que não entende guarda a
+memoria até á edade em que o mysterio lhe seja naturalmente explicado.
+
+Não levar nunca para um caminho mau a curiosidade de uma creança, deve
+ser um dos maiores cuidados da mãe.
+
+Mas dir-me-hão: as pessoas crescidas conversam por força em mil
+assumptos melindrosos; se realmente as creanças percebem, como evitar
+que ouçam?
+
+É n'isso positivamente que está o mal.
+
+Na sala de uma senhora que tem filhos e que se compenetra absolutamente
+dos seus deveres de mãe, deve haver o maximo escrupulo na escolha das
+diversas conversações.
+
+Assim como ha limpeza nas habitações, porque não haverá limpeza nos
+espiritos?
+
+Não ha tantos assumptos attrahentes de conversação?
+
+Será absolutamente preciso dizer mal, murmurar, revelar indiscretamente
+mysterios alheios?
+
+Não quer isto dizer que a humanidade se limite a um puritanismo de
+palavras, que degenerará por força em hypocrisia; mas entre esse excesso
+ridiculo e a liberdade absoluta que se usa diante das creanças, creio
+que ha um meio termo que seria facil de adoptar.
+
+E depois, seja dito com toda a coragem: ou se é mãe no sentido completo
+e absoluto d'esta palavra ou se é mulher do mundo.
+
+Ou nos havemos de consagrar á companhia dos nossos filhos, á sua
+educação, ao desenvolvimento gradual das suas delicadas faculdades, á
+vigilancia solicita das suas almas e dos seus corpos, ou havemos de dar
+aos tenros espiritos de quem somos guias, o deploravel espectaculo das
+fraquezas e dos defeitos que tanto lhes desejamos fazer evitar.
+
+ * * * * *
+
+Na creanca do sexo feminino a tendencia que mais cedo se desenvolve é a
+vaidade.
+
+A pequenita de tres annos já começa a ter orgulho e presumpção no seu
+vestidinho bordado, nas suas saias de folhos, no seu chapéu vistoso e
+garrido.
+
+Todos se riem da _gracinha_.
+
+--Meu anjinho! Como é presumida! Diz a mãe toda enlevada. E gaba-a
+muito.--Estás linda! a minha filha é muito bonita. Fica-lhe tão bem este
+vestido!
+
+Mais tarde, d'ahi a quinze annos, quando a creancinha do outro tempo é
+um rapariga delambida, arrebicada, cheia de appetites luxuosos, de
+ambições extravagantes, sonhando com um noivo _muito rico_ que lhe sacie
+todos os seus desejos de riqueza e de pomposa elegancia, quando os
+homens serios e honestos olham para ella com desdem, e no seu intimo a
+desprezam como uma boneca inutil e frivola, de quem é a culpa, digam-no
+sinceramente?
+
+A culpa é de quem favoreceu, em vez de combater, esse pendor funesto,
+tão natural á mulher, e que só á custa de muita reflexão ella consegue
+vencer.
+
+A culpa é da mãe, que teve orgulho dos defeitos da sua filha, em vez de
+lidar por transformal-os em virtudes.
+
+A mulher é vaidosa? Pois bem! se não podemos destruir esse vicio
+organico, demos-lhe ao menos um rumo diverso do que elle leva.
+
+Que, em vez de ter vaidade dos seus trapos e dos seus miseraveis
+arrebiques, ella tenha vaidade de ser boa, laboriosa, honesta, instruida
+e forte.
+
+Façamos comprehender bem ao nosso anjinho de tres annos, que é bem mais
+difficil e glorioso ser docil do que ter um vestido novo; que é muito
+mais digno de louvor saber ler do que trazer um chapéu de plumas.
+
+Isto não é mais do que indicar o caminho.
+
+Não ha mãe cujo instincto a não advirta de que estamos fallando verdade.
+
+ * * * * *
+
+Até a escolha da boneca é uma cousa importante!
+
+Uma boneca esplendidamente vestida, de chapéu com flores, de luvas e
+cabellos d'ouro annellados, inspira um certo assombro, e depois uma
+certa inveja. Uma boneca de trapos, estupida, inerte e molle causa
+desdem e antipathia.
+
+Oh! a primeira boneca! que jubilo supremo que ella não deu a todas nós!
+Comparavel á alegria da primeira boneca, só a alegria do primeiro filho!
+
+É a mesma hesitação em lhe tocarmos com medo que ella se _quebre_! o
+mesmo susto! a mesma curiosidade! o mesmo enlevo! o mesmo espanto
+namorado e feliz!
+
+A mãe intelligente comprehende e sabe aproveitar isto.
+
+A boneca é como a aprendizagem da maternidade!
+
+--Está nua, coitadinha, está nua a tua boneca, Lili. Que frio que ella
+deve ter! Que desconforto! Que pena de olhar para ti e de te vêr tão bem
+vestida e quente e confortavel. Senta-te aqui ao pé de mim, Lili, vamos
+nós fazer o fatinho da tua boneca!
+
+E como o coração é que sempre domina e guia a mulher, eis o coração
+fazendo um milagre n'aquella mulhersinha de oito annos, que deixa de ser
+a traquinas, a turbulenta, a ociosa creaturinha, e que principia a
+conhecer as delicias do trabalho e os santos prazeres do sacrificio.
+
+O sacrificio por uma boneca!
+
+Sim, o sacrificio, e porque não?
+
+Só quem não é mãe e quem nunca foi creança é que escarnecerá da
+expressão que empregamos.
+
+Pois não sabem que essa primeira boneca, que se recolhe nua nos braços,
+e que se veste, que se calça, que se conchega, que se adormece entre
+beijos e affagos, é o primeiro sonho de um coração de mãe?
+
+ * * * * *
+
+As amigas das nossas filhas!
+
+Grave e momentoso assumpto, não raro descurado e de cujo esquecimento ou
+de cujo desleixo resultam ás vezes damnos irremediaveis.
+
+No collegio é que se travam quasi sempre as primeiras amizades. Ora, nós
+para as meninas desadoramos o collegio.
+
+Por muito bom que elle seja, achamol-o sempre pessimo.
+
+Quem é que nos responde pela boa escolha de relações que alli adquirem
+nossas filhas?
+
+Quem nos diz que essas creanças todas que alli se reunem, e que entre si
+trocam as mais intimas e minuciosas confidencias, só viram bons
+exemplos, só conhecem quadros de santa e impeccavel moralidade?
+
+Pois nenhuma d'ellas trará comsigo aquella funesta curiosidade, que
+perdeu a nossa primeira mãe?
+
+Todas são innocentes, todas ignoram da vida o que ella tem de baixo ou
+de corrosivo?
+
+Quem nos affirma que ellas saberão ser boas e honestas companheiras, que
+não lançarão com uma palavra imprudente um germen venenoso, que não
+corromperão com precoce perversidade o espirito da creança innocente,
+que n'ellas se confiar?
+
+As amigas das nossas filhas são aquellas de quem logo depois de nós
+depende a pureza, a candura, a innocencia d'ellas!
+
+É de uma grave imprudencia acceitar para uma filha nossa, sem escolha e
+sem criterio, a companhia de outra creança.
+
+Cumpre conhecer bem a mãe, a educação que ella dá aos seus filhos, o
+modo porque vivem, o caracter, a moralidade d'essa familia.
+
+E que as mães, n'este ponto, se não prendam com preoccupações de banal
+delicadeza. Primeiro que tudo está o futuro das suas filhas.
+
+Se a educação de um rapaz é já difficilima, que será a educação de uma
+menina?
+
+Quantos perigos a evitar, quantos obstaculos a temer, quantas
+contrariedades em meio do caminho!
+
+Que a mãe procure ser a melhor amiga de sua filha, e que esta não receie
+confiar-lhe nem os seus pequeninos segredos infantis, nem as mysteriosas
+comoções da sua alma adolescente.
+
+N'esta deploravel educação que hoje se dá e se recebe, a primeira cousa
+de que os filhos tratam é de enganar os paes.
+
+De que provém isto? Da mal entendida severidade d'estes.
+
+A indulgencia para as primeiras travessuras prepara naturalmente a
+creança para se confiar sem medo ao coração que a sabe entender e lhe
+sabe perdoar.
+
+Mas é muito delicado este ponto da missão maternal.
+
+Se o excesso da severidade cria a desconfiança e a mentira, o excesso da
+indulgencia cria o cynismo e a desvergonha.
+
+Que difficil não é para um espirito de mãe saber ao mesmo tempo attrahir
+a confiança e impôr o respeito!
+
+Levar o filho que peccou a confessar a culpa, não por ter a certeza de
+que será facilmente perdoado, mas por lhe exigir a consciencia que não
+esconda o seu delicto aos olhos d'aquella que sabe com mão delicada e
+firme repôr no caminho direito o ente fragil que se transviou.
+
+No dia em que a mãe tiver alcançado do coração de sua filha ou de seu
+filho esta singular conquista de veneração e de amor, póde sentir-se
+tranquilla e satisfeita, póde sem medo responder pelo futuro.
+
+ * * * * *
+
+Para concluirmos este capitulo que, talvez por muito incorrectamente
+desenvolvido enfastiasse as leitoras, sem lograr a ventura de as
+convencer, damos em seguida o fragmento de uma carta, que por
+circumstancias que seria inutil referir, ha pouco tempo chegou ás nossas
+mãos.
+
+Como verão, pertence esse trecho a uma carta que na vespera do seu
+casamento foi dirigida á sua filha por uma extremosa mãe.
+
+Explica muito melhor do que nós o podemos fazer o triumpho de um bom
+coração maternal.
+
+«Não tive animo de te dizer todas estas cousas frente a frente.
+
+Tive medo de chorar, e tu sabes, meu anjo, que detésto acima de tudo os
+enternecimentos intempestivos.
+
+Depois, teria pejo, eu, tua mãe, eu que julgo ter concorrido pelos
+cuidados de toda a vida para o excellente exito da minha obra--quer
+dizer, da tua educação--teria pejo de te encher de louvores que embora
+justos, recahiriam um pouco sobre mim.
+
+Sabes que eu nunca te deixei, que por amor de ti renunciei, e de muito
+boa vontade, á companhia dos indifferentes e dos frivolos, que só viriam
+destruir ou modificar o effeito de todos os meus esforços, tão
+santamente abençoados por Deus!
+
+Com que saudades eu me lembro dos serões de outro tempo, em que tu já
+serena, grave e modesta como és hoje, lias ao pé de mim, emquanto os
+nossos bons e velhos amigos conversavam em cousas sãs, em cousas
+simples, das que não podem ferir os ouvidos de uma menina!
+
+Não te aconselho que renuncies ao mundo por amor dos anjinhos que virão
+de certo abençoar e consagrar o teu casamento; mas peço-te que sejas
+escrupulosa como eu sempre fui na escolha d'aquelles que admittires na
+sagrada intimidade do teu lar.
+
+Procurei sempre evitar em ti todos os excessos, mesmo os excessos bons.
+Não te quiz beata, nem _espirito forte_; não desejei que fosses uma
+metaphysica, nem um entendimento demasiadamente positivo, nem mulher só
+de sala, nem mulher exclusivamente do _ménage_.
+
+O ideal, minha filha, é que de tudo se saiba ser um pouco.
+
+Gostarei que recebas com graça senhoril na tua saleta de todos os dias,
+artistica e confortavel, mas não desejarei menos que saibas ensinar a
+tua cozinheira, fazer o rol da tua roupa, concertar o fato de teus
+filhos, e economisar sem mesquinhez e gastar sem avareza.
+
+Não quiz nunca que tivesses outra amiga, e creio ter feito bem.
+
+Se foi egoismo, Deus não me castigou por elle, porque devi a essa
+precaução, por ventura excessiva, ter tido a deliciosa confidencia das
+tuas primeiras alegrias e dos teus primeiros sonhos.
+
+Ámanhã já não serás minha, querido encanto; nem já serão os meus beijos
+os unicos que a tua pura testa de vinte annos receberá! Mas n'esta
+saudade dilacerante que me punge, quantas compensações supremas eu não
+encontro!
+
+Entrego-te ao teu noivo, tão candida, tão ignorante do mal como deviam
+ser todas as creanças da tua edade, que tivessem mãe, que só n'ellas
+pensasse e só por ellas vivesse!
+
+Nunca ouviste pronunciar uma palavra grosseira, nunca ouviste applaudir
+um acto injusto, nunca se abaixaram os teus olhos seraphicos a um
+espectaculo ignobil.
+
+Eu fui sempre a tua fiel companheira; e, como as vestaes velavam o fogo
+sagrado, velei eu pela tua immaculada innocencia!
+
+De que ventura se privam as que preferem o mundo aos seus filhos!
+
+Ignoram as alegrias profundas de ser mãe, como eu fui, como tu serás,
+minha joia!
+
+Não ha na tua alma um pensamento, uma idéa, uma saudade, que eu não
+conheça, e se ámanhã quizer folhear diante de teu marido o livro radioso
+da tua infancia e da tua adolescencia, não haveria n'elle uma só pagina
+que eu lhe não podesse repetir de cór.
+
+Respondo pelo passado e respondo pelo futuro. Basta-me essa gloria para
+me consolar de todas as minhas saudades!
+
+É bem pezada n'este mundo a cruz das boas mães, mas não te esqueças
+nunca, minha filha, que mesmo n'esta hora de tantas lagrimas, eu
+confesso bem alto, não ha rosas mais frescas, mais puras e mais
+orvalhadas do que as rosas que enfloram e entrelaçam essa cruz!
+
+Só d'aqui a muitos annos comprehenderás a angustia com que te
+digo--_adeus_!
+
+Então, sei que has de chorar por mim!»
+
+
+
+
+CAPITULO XVI
+
+Cartas de um marido
+
+
+Meu caro amigo.
+
+Onde é que fui desencantal-a? perguntas tu com justificado espanto.
+
+E tens razão.
+
+O facto é que nunca a vi, valsando n'um baile á luz quente e abafadiça
+do gaz, decotada, cheia de pó de arroz e de suor, abandonando-se n'uma
+postura voluptuosa, nos braços de um sujeito esgrouviado, de casaca,
+collarinhos de papelão, e olhar que tenta ser magnetisador e
+irresistivel, e que depois de tamanhos esforços não consegue ser senão
+comico.
+
+Nunca a encontrei cantando n'um concerto duetos apaixonados em beneficio
+dos meninos pobres, vendendo n'um bazar sorrisos de dançarina e
+_bibelots_ de fancaria em beneficio dos velhinhos aleijados,
+representando n'um sarau dramatico, comediazinhas maliciosas em
+beneficio dos adultos cegos.
+
+Frequentando os theatros de segunda ordem, onde os palhaços e as
+_cocottes_ de Offenbach, e dos modernissimos _maestrinos_ da decadencia
+se desengonsam em scena, fazendo gestos desmanchados e sublinhando com
+sorrisos torpes as suas cantilenas de _café-concerto_, debalde a
+procurei pelas frisas, e pelos camarotes, applaudindo as farçadas
+impuras, e dando gargalhadas que attrahissem a attenção e os maliciosos
+commentarios da platéa.
+
+Nas noites de verão, no Passeio Publico, quando ha musica, fogo de
+artificio, muito calor e muito aperto, e as meninas burguezas que ainda
+não podem gozar da _villeggiatura_ elegante, passeiam com _toilettes_
+claras, na plena expansão da _flirtation_ lisbonense, confesso que
+muitas vezes atravessei a multidão, pisado, empurrado, offegante, sem
+respeito pelas caudas de seda, de _foulard_, de linho transparente, que
+para alli vão desfructar o prazer de se encherem de poeira e de rasgões,
+e que debalde procurava reconhecel-a em cada vulto feminino, esbelto,
+gracioso, que passava pisando a areia das ruas, com o tacão alto das
+estreitas botinas de pellica.
+
+Até comecei a frequentar S. Luiz, a igreja da devoção fidalga, do
+arrependimento perfumado de _poudre d'iris_, do mais alto, do mais
+distincto e do mais desdenhoso beaterio...
+
+Vi todas as nossas flores da _alta vida_, trajando com discrição
+finamente aristocratica, revelando a elegancia que as distingue, no modo
+de se ajoelharem, de se persignarem devotamente, de erguerem os olhos
+com extasi piedoso, para a imagem alabastrina da Virgem, que parece
+erguer-se como um lyrio desabrochado, d'entre as verduras e as brancas
+florescencias que a cercam de todos os lados.
+
+Vi-as descalçarem, das suas estreitas luvas de cinco botões, as mãos
+esguias, avelludadas, feitas da alvura dos marfins; vi-as curvarem-se
+até ao chão, humilhadas, contritas, mas sempre correctas; lerem uma
+oração privilegiada, em cada um dos quatro ou seis grossos volumes
+devotos que trazem comsigo, beijarem com felina graça as mãos
+rechonchudas e macias dos louros abbades francezes, disputarem entre si
+com delicadeza, não inteiramente isenta de colera, a sua vez de
+confissionario, e de confidencias adocicadas e asceticas; mas nenhuma
+d'essas encantadoras filhas de Eva, com os seus gestos miudos, os seus
+movimentos ondeantes de serpente, as multiplas seducções da sua
+artificial formosura, me deu a idéa boa, sã, carinhosa, como um affago
+de mãe, que eu tivera vendo-a, a ella.
+
+Escuso de accrescentar que _ella_ não se encontrava entre essas todas.
+
+Um dia porém,--que bom dia aquelle!--tornei a vel-a em casa de uma amiga
+de minha mãe.
+
+Não me pareceu bella, pareceu-me boa, mas de uma bondade em que a
+belleza não deixava de entrar, embora como elemento secundario.
+
+Estava com as suas amigas em volta de uma grande mesa de serão. Largára
+um pequeno trabalho da agulha, e começara a lêr alto a pedido de todas
+as companheiras.
+
+Lia um livro de Michelet, _L'insecte_.
+
+Tinha a voz grave, sonora, musical, como eu sempre imaginei que havia de
+ser; a luz coada pelo globo fosco do alto candieiro, banhava de vagos
+tons dourados o seu cabello simplesmente penteado, torcido n'um grosso
+rolo luminoso sobre a nuca torneada e forte.
+
+Não me lembro bem de como estava vestida, signal de que era tão
+despretencioso o seu trajo que não prendia nem demorava a attenção.
+Havia de ser por força bastante distincto para lhe não alterar a graça;
+bastante singelo para não dar um aspecto de artificio á sua natural e
+casta formosura.
+
+Emquanto a ouvia ler, parecia-me comprehender melhor aquella grande alma
+luminosa do velho Michelet.
+
+E sentia em mim a vivificante sympathia da natureza, o amor dos
+pequeninos, a ternura comprehensiva para tudo que vive, que sente, que
+palpita na enorme Creação.
+
+Quando acabou de ler, fechou o livro, e naturalmente, sem languidez, sem
+cansaço, pegou de novo no trabalho, e recomeçou a bordar.
+
+Aproveitei o ensejo e sentei-me n'uma cadeira vaga ao seu lado.
+
+Conversámos muito. Em muita cousa, em quasi tudo.
+
+Era um gosto ver de perto a luz tranquilla e doce d'aquelle olhar azul
+escuro, reflectido, serio, innocente.
+
+Não baixava os olhos deixando transparecer nas faces rubor intempestivo;
+tinha um modo seu de olhar, franco, sincero, de uma limpidez de lago
+suisso em que se reflectisse o largo céu da primavera.
+
+De vez em quando ria-se.
+
+Que musica crystallina a do seu riso!
+
+Uma das vezes lembra-me, que seguindo o falso pendor da nossa detestavel
+educação de sala, fui sentimental, sem dar por isso, de uma
+_sentimentalidade_ piegas, da que produz sempre um certo effeito no
+espirito das meninas que _valsam_.
+
+Levantou subitamente a cabeça, como se ficasse um tanto surprehendida,
+como se tivesse agourado melhor de mim, á primeira vista.
+
+Depois, não sei o quê, provavelmente a expressão alambicada da minha
+cara, desafiou-lhe a vontade de rir, uma vontade de rir irresistivel!
+
+Coitadinha! Que bem educada que ella é!
+
+Suffocou aquella boa hilaridade tão espontanea! Disfarçou perfeitamente
+o effeito comico que eu lhe produzira, isto com uma graça, tão cheia de
+infantilidade!
+
+Castigou-me melhor assim, do que outra qualquer fingindo um enleio
+theatral.
+
+D'alli a nada, a dona da casa, uma senhora de aspecto muito distincto e
+muito bondoso, veio pedir-lhe com grande empenho que fosse para o piano.
+
+Levantou-se docilmente, e tocou e cantou emquanto quizeram ouvil-a!
+
+Era a simplicidade, a graça, a mais delicada intuição artistica, isto
+acompanhando uma vocação musical deveras notabilissima.
+
+Nem uma só d'aquellas languidas arias italianas, de um sentimentalismo
+tão dissolvente e que parecem banhar a alma que as escuta n'um tepido
+banho de caricias molles!
+
+Musicas graves e de uma austera melancolia como as dos mestres allemães;
+ou musicas graciosas, ligeiras, scintillantes, inoculando no espirito
+uma sensação de frescura matutina, de robusta alegria, levando-nos atraz
+das suas notas de crystal, pelas pradarias illuminadas da luz das
+alvoradas estivas, onde os melros maliciosos assobiam, saltando de ramo
+em ramo!
+
+Quando sahi d'alli, d'aquella casa hospitaleira, em que o espirito
+parecia dilatar-se affectuosamente, pensei de mim para mim que ella
+havia de ser minha mulher!
+
+.....................................................................
+
+...Sabes uma cousa? Temos um filho! Estas palavras a ti não te dizem
+nada, a mim banham-me o coração n'uma alegria que em lingua humana se
+não póde exprimir.
+
+A deliciosa canção da minha felicidade, canto-a eu em beijos chilreados,
+no corpinho roliço e avelludado, no corpinho de leite do meu primeiro
+pequenino!
+
+Vivemos em um bairro pouco central, em uma rua muito socegada, onde
+passam pouquissimos trens, e onde se não ouve o pregoar rouquenho dos
+vendilhões ambulantes.
+
+O nosso orçamento é de uma exiguidade que faz rir, mas não sei porque
+minha mulher tem a habilidade de fazer render da maneira mais milagrosa
+os nossos modestissimos haveres.
+
+Creio que se ámanhã me visse rico, não podia ser tão feliz.
+
+Se eu fosse rico, havia de ter criados, não é verdade? Criados graves,
+solemnes, de olhar sonso, que vivessem da minha vida, que maculassem com
+a sua ironia baixa as santas expansões do meu affecto de marido e de
+pae, que invejassem a minha felicidade, que calumniassem as minhas
+intenções, os meus actos, a minha vida toda!
+
+Ao jantar um ou dous d'aquelles figurões altos, espadaudos, ociosos,
+vestidos de preto, haviam de espreitar com olhar guloso cada bocado que
+eu mettesse na bôca; teria um cozinheiro gordo, de barrete branco, que
+me fizesse molhos indigestos, uma criadinha de quarto buliçosa, e
+petulante que se risse do _burguezismo_ pacato dos meus habitos.
+
+Viveria escravo, preso nas malhas de ouro, d'esta grande rede que se
+chama a riqueza.
+
+Receberia muitas visitas, muita gente indifferente ou hostil, que viesse
+para me bajular, e que se fosse embora para me morder traiçoeiramente
+pelas costas.
+
+Uma governante ingleza empavezada, grotesca, um pouco pedante, cortaria
+na sua flôr, na querida alma transparente do meu pequeno anjo, os
+carinhos, as expansões innocentes, os risos inextinguiveis e sem causa,
+tudo que é hoje a nossa alegria!
+
+E depois, habituado ao luxo não sentiria o conchego! Satisfeitos até á
+saciedade todos os desejos, não teria nunca a boa, a vivificante
+sensação do obstaculo vencido!
+
+E o socego depois do trabalho! E as alegrias da posse, quando o objecto
+longo tempo cubiçado, para alcançar o qual se fizeram tantas economias,
+se supportaram tantas privaçõesinhas, nos apparece emfim em todo o
+prestigioso brilho do impossivel, que de repente se deixa conquistar!
+
+Ai! as minhas alegrias de pobre, que saudades que eu terei d'ellas mais
+tarde!
+
+Mas, meu querido A., não comeces tu agora a lamentar-me imaginando-me
+novo monge entregue ás austeridades da penitencia voluntariamente
+acceita!
+
+Não te disse eu que uma boa mulher que nos ame, e que nos saiba amar, é
+um thesouro inestimavel, que o homem desdenha, e que por isso, se tem
+feito tão raro?
+
+A minha casa não tem estofos de seda, não tem custosos moveis de
+carvalho entalhado, não tem frageis porcellanas de Saxe, de Sevres ou do
+Japão, não tem tapetes turcos, nem artisticos Gobelinos.
+
+Mas olha que nem sempre o luxo é o conforto, nem sempre a opulencia é a
+graça, nem sempre as cousas caras são as cousas elegantes!
+
+A nossa pequenina casa, toda forrada de papel claro, com as suas
+cadeiras de _cretonne_, as suas cortinas muito brancas, e vasos de
+plantas em pequenas estantes de madeira, e jarras de flôres na mesa de
+jantar, com a luz clara e festiva do sol, a illuminal-a toda, com o
+aceio escrupuloso que é o luxo dos pobres, com a tranquilidade doce e
+recolhida, que é a poesia dos que se amam e na qual põe a espaços a nota
+clara e festiva o riso do nosso filhinho, a nossa casa é como que a
+deliciosa encardenação do poema do nosso amor!
+
+Todas as senhoras que eu conheço sahem muito; os maridos voltam á noite
+exangues das enfadonhas labutações do dia, com o espirito abatido, com o
+corpo cansado e no entanto teem de seguil-as ao baile, ao theatro, a
+casa das amigas, de figurarem de comparsas na fastidiosa comedia social,
+de se mostrarem debaixo de um aspecto desfavoravel, de realizarem emfim
+á risca o lendario typo que o _romantismo_ amarrou ao pelourinho do
+ridiculo, o _marido_ macambuzio, o _marido_ desengraçado, o _marido_ sem
+espirito, em quanto á roda, fresco, malicioso, cheio de ditos e
+anecdotas, com uma rosa na abotoadura, borboleteia o _galan_ que povôa
+de perigosas seducções a fantasia de todas as pobres mulheres frageis!
+
+Minha mulher á noite sahe raras vezes, de modo que eu durante o dia, na
+atmosphera pesada e asphyxiante do escriptorio, estou sem querer a
+scismar no conforto que me espera quando eu voltar.
+
+O jantarinho quente, saboroso, cozinhado pela nossa velha Anna, debaixo
+da direcção da minha querida Maria, a toalha muito branca, um ramo de
+lilazes no centro, as fructeiras de vidro com as suas pyramides de
+fructas, sahindo do ninho fresco e avelludado das folhas verdes, os
+talheres muito bem limpos, um grande conchêgo na atmosphera, e em tudo
+visiveis o gosto _d'ella_, os cuidados _d'ella_, o affecto _d'ella_
+manifestando-se no bem-estar que me envolve e me acaricia!
+
+Depois, á noite, o gabinete com a mesa redonda no centro, o candieiro de
+Carcel de luz clara e discreta, a poltrona de marroquim, com os grandes
+braços abertos que me convidam, os jornaes do dia, a ultima _Revista_,
+um romance novo, e a minha querida mulhersinha, com um vestido que lhe
+fica muito bem e que andou ella propria a fazer ás minhas escondidas--a
+ladina!--como se eu não tivesse olhos perspicazes que vêem de longe! com
+os seus longos cabellos louros penteados d'aquelle modo simples e
+puramente artistico, que faz da cabeça de cada estatua grega uma cabeça
+encantadora, e sobretudo com o seu sorriso bom, o seu olhar affectuoso e
+honesto, a sua voz consoladora que é uma musica, a melhor das musicas
+para o meu coração!
+
+Para além do reposteiro entre-aberto, vê-se a alcova, o berço de
+cortinados brancos, e á luz branda da lamparina, sobre uma cadeira, um
+vestidinho claro, uns pequenos sapatos, umas meiazinhas de côr, umas
+cousas para que ninguem repara, e que a mim me fazem ás vezes chorar.
+
+Tenho já perguntado a mim mesmo, que differença existe entre mim e os
+outros homens, porque é que elles andam pelo gremio, pelos cafés, pelos
+theatros, alguns pelas salas, e porque estou eu tanto em casa, finda que
+seja a minha tarefa diaria?
+
+Serei melhor do que os outros maridos?
+
+Não; ella é que é melhor do que as outras mulheres.
+
+A felicidade de que eu gozo devo-a á sua comprehensão tão santa dos
+deveres, e ao meu egoismo todo masculino.
+
+Vou para onde me chama maior somma de alegrias e de confortos que posso
+conhecer n'este mundo.
+
+Não ha n'isto merito nem dedicação dignos de louvor.
+
+Se á noite a nossa pequena sala se enchesse das amigas de minha mulher,
+palradeiras, frivolas, pueris, a discutirem banalidades, é provavel que
+eu fugisse para qualquer outra parte.
+
+Se quando chegasse a casa, a visse prompta para sahir, á minha espera
+para me fazer envergar uma terrivel casaca muito hostil, que me acenasse
+de longe com as suas azas de gafanhoto, se ella me apparecesse toda
+occupada de si, da sua _toilette_, dos triumphos que ia ter, e
+esquecendo completamente as exigencias mais prosaicas, do meu
+temperamento de homem, da minha vida de trabalhador, com certeza que me
+chegaria a minha hora de revolta, que o trabalho deixaria de ser o meio
+de que eu me servisse para alcançar o bem estar dos meus, e que se
+tornaria simplesmente uma tarefa exercida sem alma, sem alento interior,
+só para que o mundo me não alcunhasse de ocioso e de zangão da grande
+colmêa social.
+
+Dos defeitos d'ella proviriam todos os meus defeitos, dos seus
+esquecimentos, todas as minhas faltas.
+
+Já vês quanto ganhei casando-me com esta querida e nobre creatura.
+
+Se me perguntares o que ella sabe, dir-te-hei que sabe tudo, e que a
+sciencia toda lhe provém de uma só fonte--o coração.
+
+Comprehende Shakespeare e faz deliciosamente uma _omellete_, toca com o
+sentimento mais fino e mais ideal, uma phantasia de Beethoven, e
+inventou um systema engenhoso e abreviado de fazer o rol da lavadeira;
+adora as flores, os versos, as creanças, os livros, tudo que é bello,
+tudo que é bom na natureza, e de manhã, com a sua touquinha de cambraia
+branca, o seu avental de merino, um _espanador_ de pennas na mão, pondo
+os moveis em harmonia, tocando em todas as cousas, imprimindo em tudo o
+cunho da symetria e da ordem, atarefada, sem distracção, sem enfado,
+parece uma _spinster_ ingleza atacada da monomania do arranjo.
+
+A brincar com o filho, na rua areada do nosso pequeno jardim, dir-se-hia
+a sua irmã mais velha; na hora da atribulação, na hora difficil em que
+de um bom conselho depende ás vezes a dignidade de um homem, lembra um
+espirito austero, cheio de altivas aspirações estoicas.
+
+O contacto d'ella faz bons os que são maus, faz robustos os que são
+fracos!
+
+São estas as mulheres que salvam a honra e a felicidade dos maridos.
+
+Queres um conselho? Procura no mundo outra Maria como é a minha e
+casa-te.
+
+
+
+
+CAPITULO XVII
+
+Confidencias maternaes
+
+
+Minha querida amiga.
+
+Ha quasi quatro mezes que te não escrevo, e supponho que não estarás por
+isso mal comigo.
+
+Não sei bem dizer-te como se passam os meus dias, e quando ás onze horas
+da noite adormeço, um poucochinho fatigada e deixando sempre para o dia
+seguinte parte da tarefa d'aquelle dia, metto a mão na consciencia e
+sinto que não commetti o delicto de desperdiçar um só instante.
+
+E talvez que no fim de contas assim não seja.
+
+Ouve-me tu, e julga.
+
+Fez hontem um anno o meu querido _baby_.
+
+É louro, é rosado, tem uma cabelleira revolta e crespa que lembra uma
+aureola de anjo, ou uma juba de leão pequenino, tem um corpo roliço,
+mimoso, redondinho que parece feito por uma fada muito habilidosa no seu
+torno de marfim.
+
+Começa a andar, e os passos d'elle, desastrados e timidos enchem-me a
+alma de um susto, de uma inquietação, de uma delicia, de um _não sei
+quê_ profundamente novo na minha vida e que eu não encontro palavras que
+exprimam bem!
+
+Até aqui parecia-me que _elle_ era _eu_, que fazia parte de mim, que nós
+ambos formavamos um todo.
+
+Agora percebo e com uma surpreza que ás vezes chega a ser dolorosa! que
+me enganara, e que cada um d'aquelles passinhos hoje tão miudos e tão
+vacillantes, ámanhã apressados e firmes, o irá afastando de mim na vida,
+se eu o não souber seguir, fazendo-me como elle pequena, como elle
+infantil, penetrando intimamente na sua alma e ao mesmo tempo
+compenetrando-me bem de todas as doces claridades matutinas que ha
+dentro d'aquelle espirito que vae desabrochar.
+
+Não comprehendes bem esta iniciação lenta, que no momento em que o corpo
+da mãe e o corpo do filho deixam de ser um só, faz uma só das duas almas
+de ambos?
+
+Visto que elle já não póde ser _eu_, é preciso que eu seja _elle_; só
+assim lhe poderei ir inoculando na alma e no entendimento, tudo que no
+meu entendimento e na minha alma houver de bom; só assim me poderei ir
+lentamente transformando sob a influencia regeneradora e purificante
+d'aquella immaculada innocencia!
+
+Oh! divina transmissão mutua de virtudes e de forças, que constitue o
+laço moral e inquebrantavel que une a mãe ao filho das suas doloridas
+entranhas!
+
+Por ora nada tenho que ensinar ao meu louro _bébé_.
+
+Tenho só de escutar o que diz no silencio, aquella pequenina alma em
+embryão, e de aprender a ler n'aquelle mysterioso livro que é
+indecifravel para todos e que é tão eloquente para mim.
+
+Bébé tem uns grandes olhos; uns dizem que são azues, outros dizem que
+não. Por ora não tem côr; ou para melhor dizer ha na sua limpidez de
+crystal todos os cambiantes e todos os reflexos. Os olhos de Bébé são
+como a alma d'elle, teem a doçura do leite que bebe, teem a suavidade
+dos beijos com que o visto noite e dia.
+
+Scisma ás vezes vagamente... longamente... Em que? Não ha ninguem que o
+saiba dizer, visto que um coração de mãe o não adivinha. Scisma no céu
+d'onde veio? Talvez. Ha mysterios de luz na alma profunda das creanças.
+
+Gosta da claridade dos dias limpidos, das arvores, das côres vivas, e
+tambem da opalina tristeza do luar. Gosta dos sons, dos risos, das
+caricias, é uma alma que vive em pleno azul.
+
+Nenhuma sombra n'aquella tela transparente onde a mão de sua mãe vae
+escrever as primeiras palavras.
+
+Muita gente imagina que ser mãe custa apenas as dôres dilacerantes de
+algumas horas, os incommodos mais ou menos crueis d'um certo periodo, e
+depois os cuidados de doze ou treze mezes.
+
+Quem pensa assim não sabe o que é ser mãe!
+
+Pois tu não ouviste que elle espera, e que a primeira palavra definida e
+clara que ha de vibrar na sua alma, sou eu que hei de dizel-a, é a minha
+mão tremula, fraca e inexperiente que ha de tornar-se firme para a
+gravar indelevelmente?
+
+E se a voz esmorecer? E se a mão vacillar?
+
+Quem me disse a mim que acertarei? quem me deu forças para encaminhar um
+sêr que só de mim ha de receber na terra o santo e a senha?
+
+E depois quando o vejo tão lindo, querendo já esboçar o primeiro
+capricho, querendo experimentar a primeira vontade, querendo vencer o
+primeiro obstaculo, pergunto a mim mesma se terei valor sufficiente para
+lhe fazer perceber que a vida é uma lucta, para se tanto fôr preciso,
+ser eu propria que lucte com elle, e que o ensine a ser vencido!
+
+De quantas coragens mais que viris precisa de compor-se a fraqueza
+maternal!
+
+.....................................................................
+
+Mas nenhum d'estes vagos pensamentos que eu deixo aqui tão mal expressos
+te diz quaes são as occupações em que levo os meus dias!
+
+Meu Deus! e olha que acordo cedo!
+
+Ainda bem a cotovia não deixa ouvir a sua alegre voz matinal, ainda bem
+o gallo não atrôa os campos com o seu grito estridulo de combate, que é
+um convite impetuoso para o trabalho, já a voz do meu filho me acorda
+tambem a mim.
+
+Que penna póde contar as delicias d'aquelle despertar! Os risos, as
+negaças, os beijos, e o modo malicioso com que elle deitado nos meus
+braços e depois de fartar as exigencias do pequenino estomago, larga o
+seio para me sorrir com os beicinhos tintos de leite, e torna de novo a
+pegar-lhe para saborear voluptuosamente, lentamente o que já não tem
+vontade de engulir com a avidez deliciosamente glutona da infancia.
+
+Vem depois o banho, o banho que é um poema!
+
+Está alli a grande bacia de agua tepida, e emquanto o dispo, elle salta
+e ri, e deita-se para traz e namora a transparencia da agua, até ao
+instante em que mergulha emfim entre risadas de crystal que me echoam no
+coração.
+
+Tu sabes lá os cuidados, as manhas, as idéas engenhosas que é necessario
+pôr em pratica para illudir a impaciencia d'estes seres adoraveis! O
+banho dura meia hora, e acabo d'alli encharcada, despenteada, cançada,
+triumphante.
+
+É uma victoria de todos os dias.
+
+O resto do dia pertence-lhe a elle quasi exclusivamente.
+
+É um tyranno o meu _bébé_.
+
+Tenho de o passear, de lhe dar de comer, porque é preciso que saibas que
+o doutor vendo que elle já tem oito dentes--carnivora creatura!--me deu
+licença emfim para lhe dar tres vezes ao dia a sua competente papinha,
+tenho sobretudo de o entreter porque a imaginação infantil que desperta
+tem exigencias de que tu não podes fazer idéa!
+
+É _spleenetico_ como um velho _lord_ o meu seraphim de palmo e meio de
+altura.
+
+Dá-se-lhe um brinquedo agora, recebe-o com uma apparencia de enthusiasmo
+que illude os inexperientes; d'alli a um instante põe-n'o de parte
+desdenhoso, enfastiado, insaciavel...
+
+Quer ver sempre cousas novas, quer que o emballem, e lhe cantem e o
+levantem ao ar e o façam rir.
+
+Por'ora trata-se simplesmente de enganar aquella actividade graciosa e
+irrequieta, mas quando chegar o momento de a applicar?
+
+Sabes uma cousa? sou felicissima e tenho muito mêdo...
+
+.....................................................................
+.....................................................................
+
+_Quatro annos depois._
+
+.....................................................................
+
+Cinco annos! Sabes lá! Um homem, positivamente um homem!
+
+É mau.
+
+Deixa lá dizer que são boas as creanças. Olha que é uma perfeita
+illusão, minha querida.
+
+Que bem se conhece n'elle já, o bravio animal que todos nós somos!
+
+_Bébé_ é um monstro!
+
+No outro dia levei-o commigo a casa d'uma senhora minha amiga. Pois
+imagina que elle matou com a sua espada de pau, a boneca de pellica e
+semeas de Julia, uma pequenita de 3 annos, a filha mais nova da dona da
+casa!
+
+E como ella chorasse muito humilde, muito medrosa diante d'aquella sanha
+terrivel, chegou a ameaçal-a--o desgraçado!--com a mesma espada de pau
+que já fizera tamanhos maleficios.
+
+Chorei de pena de o ver tão mau, tão irascivel, tão colerico, e elle o
+leão pequenino, ajoelhou-se com as mãosinhas postas aos meus pés, e
+gago, cheio de lagrimas, com os grandes olhos espavoridos,
+disse-me--perdão mamã!
+
+Ó Magdalena, imagina tu a força de que eu precisei para o não devorar de
+beijos! Pois não o fiz!
+
+Mostrei-lhe uma cara seria, magoada, cheia de consternação e não o
+abracei em todo o dia.
+
+Ha de ser colerico, já vês.
+
+Quem me ensinará a mim a corrigil-o?
+
+Já sei o que me respondes.--Faze queixa ao pae. O pae que lhe ralhe.
+
+Deus me defenda de tal.
+
+Em primeiro lugar o medo não corrige, humilha; não modifica, rebaixa.
+Depois eu não quero recorrer a ninguem para influenciar a alma de meu
+filho.
+
+O pae ha de intervir sim senhor, porém mais tarde. Por'ora é elle meu,
+só meu.
+
+Toda a creança tem defeitos, e ai d'aquella que os não tem! Arrenego das
+_creanças-modêlos_. Transformar esses defeitos--que são indicios
+caracteristicos do temperamento da organisação, de qualidades muitas
+vezes herdadas--em forças activas e fecundas, eis o grande problema da
+educação.
+
+E talvez tu cuides, minha pobre amiga, que as _gracinhas_ de _bébé_
+ficam por aqui?
+
+Pois ainda ha mais? exclamas tu assustada.
+
+Sim, ha muito mais. Ha cousas que eu com a ajuda de Deus tenciono
+aproveitar e dirigir para o futuro bem d'elle.
+
+Bébé roubou!... imagina!
+
+No outro dia desappareceram-me de cima de uma _etagére_ da saleta umas
+bugigangas de marfim que me tinham trazido de Macau; adivinha onde fui
+dar com ellas?
+
+No seu quarto dos _bonitos_.
+
+Não estavam escondidas, valha a verdade! estavam impudicamente
+espalhadas ao sol, com uma ostentação de cynismo deveras aterradora.
+
+Não posso explicar bem o trabalho que tive para, sem polluir aquella
+innocencia sagrada, lhe explicar que n'este mundo ha _meu_ e _teu_, e
+que a propriedade é um direito inviolavel.
+
+Como não ha nada mais difficil--para não dizer impossivel--do que
+introduzir uma idéa abstracta na cabeça d'uma creança, não imaginas de
+quantos artificios e quantas manhas me valí.
+
+Cheguei a _roubar-lhe_ tambem eu propria, parte dos seus _bonitos_.
+
+Então é que era vel-o, sem se atrever a condemnar-me, e no entanto
+sentindo revoltados, lá dentro da sua alminha de cinco annos, todos os
+instinctos de justiça que sempre mais tarde ou mais cêdo alli tinham de
+manifestar-se.
+
+--Tiveste muito pena de te tirarem os teus bonitos?
+
+--Tive muita sim, mamã, respondeu todo sobresaltado e ainda mal
+restabelecido do susto.
+
+--Ora ainda bem! O _bébé_ agora nunca mais tira nada a ninguem, ouviu?
+
+--Ah! sim, e ficou-se instantes como que seguindo um trabalho que sem
+elle mesmo querer se lhe ia fazendo lá dentro. Ah! sim, é muito feio
+tirar ás pessoas o que ellas teem. Bébé nunca mais tira...
+
+No outro dia a Guilhermina, a minha velha aia que tu conheces
+perfeitamente, dizia-me consternadissima:
+
+--Ninguem faz idéa de como o menino é mentiroso. Inventa cousas que é de
+fazer tremer uma pessoa.
+
+De feito, não ha nada mais prodigioso do que a phantasia de bébé.
+
+Conta os factos mais extraordinarios que nunca se deram, como se tivesse
+assistido a elles. Da mais pequenina cousa deduz uma longa historia
+falsa. Umas vezes encontrou na rua um homem muito feio que o quiz levar
+comsigo; outras vezes mordeu-lhe um bicho, que elle parece ter visto e
+que descreve com as côres mais vivas. Quando está um pedaço longe de mim
+vem narrar-me assombrosos acontecimentos que se deram com elle, do mesmo
+modo quando me deixa instantes, conta á Guilhermina uma infinidade de
+pormenores que só existiram na sua imaginação.
+
+Como é que eu hei de conseguir subordinar a um principio de exactidão e
+de verdade aquelle espirito iriado e phantastico, para o qual todas as
+cousas tomam uma fórma differente da realidade?
+
+Crear uma alma! que missão difficil, que missão esmagadora.
+
+No fim de contas as forças da natureza não são boas nem más; da
+applicação d'ellas é que tudo depende.
+
+Do meu anjinho, impetuoso cheio de ambições, de curiosidades, de
+irrequieta alegria, de cubiças intuitivas, de energia vital, póde uma
+direcção boa fazer um caracter nobre, viril, pertinaz, capaz de todas as
+luctas, prompto para todos os combates, investigador, inventivo, cheio
+das beneficas curiosidades do bem, e das ambições generosas que levantam
+e enobrecem.
+
+E pensar, meu Deus, que mal dirigidas, todas estas qualidades, todas
+estas forças, todas estas manifestações de vida intensa, podem leval-o á
+perdição, á infamia, ao crime!..
+
+Oh! meu Deus, dae-me vida e entendimento para que só eu amolde e
+affeiçôe a querida alma de meu filho!
+
+.....................................................................
+.....................................................................
+
+O Luiz faz hoje o seu primeiro exame no Lyceu; já se não chama _bébé_,
+já não tem aquelles annellados cabellos de ouro que eram o meu orgulho e
+as minhas unicas joias, os seus bellos olhos escuros já não tem a doçura
+pensativa, o pasmo encantador da alma que se busca e que se ignora; usa
+jaquetinha e calças, e hontem dei a uma vizinha pobre uma blusa que era
+d'elle, a sua ultima blusa de ha dous annos.
+
+Que tolice! Sabes que lh'a dei a chorar?
+
+O meu Luiz é quasi um homem.
+
+É bom, é meigo, é d'uma deliciosa innocencia, de uma expansão de vida
+que assombra!
+
+Não é meditativo, nem poeta; nada d'isso. É d'uma alegria impetuosa;
+d'uma actividade sem limites.
+
+Gosta de estudar para me satisfazer a mim, mas tenho a certeza que gosta
+de brincar para se satisfazer a si.
+
+Não sabe muito; ao pé dos nossos _sabichõesinhos_ em miniatura, creio
+mesmo que passará por um ignorante; mas a verdade é que está apto e
+preparado para aprender tudo.
+
+Suppõe tu um lavrador que fizesse as suas sementeiras antes de preparar
+a terra com os convenientes adubos, e aqui tens parte dos educadores de
+hoje.
+
+No meu filho--perdôa-me este santo orgulho--nenhuma qualidade foi
+atrophiada, todas estão no pleno desenvolvimento que lhe é proprio,
+n'aquella florescencia opulenta no fim da qual já se antevê sazonado e
+saboroso o promettido fructo.
+
+Tem o corpo d'um pequeno atleta. Capaz de resistir ás longas viagens,
+aos estudos complicados da sciencia moderna, aos trabalhos complexos do
+luctador d'este seculo estranho e poderoso.
+
+Até os seus recreios e distracções foram dirigidos com desvelo.
+
+Desenvolvem-lhe o corpo dia a dia, a natação, a gymnastica, a equitação,
+todos os exercicios physicos que tendem a duplicar e desenvolver o vigor
+natural do homem, a creal-o mesmo se elle originariamente não existe.
+
+Vivemos muito no campo, durante a sua risonha infancia. O amor e o
+conhecimento intimo da natureza, das plantas e dos bichos, das cousas
+inanimadas e das cousas mudas, o espectaculo grandioso ou suave dos
+campos e das montanhas, dos tempestuosos mares, ou das placidas e fartas
+lezirias, entra como um elemento fortalecedor, vivificante, cheio de
+ensinamentos praticos na educação das creanças. Nunca uma arvore ensinou
+uma acção má; nunca uma flôr ou um ninho de aves crearam um pensamento
+abjecto.
+
+Não poz nunca o pé n'um collegio. Não conhece nem as alegrias nem as
+lastimas d'essa intimidade que tem decididamente mais resultados
+funestos do que vantagens conhecidas.
+
+Aprendi quanto me foi possivel, não para lhe ensinar, mas para estudar
+com elle, e comprehender antes d'elle o que era preciso que elle
+comprehendesse.
+
+Diante dos seus bellos olhos limpidos e curiosos não consenti nunca que
+passassem os abjectos quadros que polluem tanta imaginação infantil.
+
+Não me cancei inutilmente a prégar-lhe sermões de moralidade abstracta;
+pratiquei o bem para que elle o praticasse; em minha casa só tem visto
+exemplos dignos.
+
+Mais tarde, quando os maus, rindo lugubremente, lhe disserem que o bem
+não existe, elle não acreditará n'essa blasphemia porque pensará em mim!
+
+Não é ainda um homem, mas promette vir a sel-o!
+
+Está quasi cumprida a minha tarefa.
+
+Hoje quando elle voltar contente de haver sido premiado--porque estou
+certa de que o será--acceitarei ainda os seus beijos como uma
+recompensa.
+
+D'aqui ávante é a seu pae que pertence a direcção suprema d'aquelle
+espirito que desabrocha para todas as altas curiosidades da vida.
+
+Choro porque as mães são fracas, Magdalena, mas para que choro eu?
+
+Já nada, nada na terra nem mesmo a minha morte nos póde separar.
+
+Todas as virtudes que elle tiver, serão simplesmente o fructo das flores
+que eu tenho cuidado com tanto amor, assim como essas flores veem dos
+germens que eu semeei cheia de susto, de delicias, de ambições, de louco
+anceio!
+
+Fui eu que o conduzi pela mão, ao mesmo tempo tremula e confiante, até
+ao limiar da sua pura adolescencia.
+
+Sinto orgulho é verdade, mas tambem sinto saudades!
+
+Saudades do tempo em que o embalava nos meus braços, em que elle só de
+mim vivia, como eu vivia só para elle.
+
+Foram as minhas alegrias mais superiores e mais completas.
+
+D'ora ávante é preciso que elle se emancipe um pouco da minha tutella
+extremosa, que elle se vá robustecendo ao contacto rude dos homens e das
+cousas.
+
+Fui eu que o formei. Sinto que pertencerá ao numero dos fortes, e que
+não succumbirá na lucta da vida...
+
+.....................................................................
+.....................................................................
+.....................................................................
+
+Como estou velha, minha querida amiga de outros dias!
+
+Lembrei-me tanto de ti, hoje, na igreja onde fui assistir ao casamento
+do meu Luiz!
+
+Tem 24 annos, realisou as doces promessas que eu sonhara e sahiu hoje de
+casa de seus paes para outra casa que vae ser d'elle.
+
+Tu não sabes a nuvem de tristeza que obumbra a minha alma, não sabes
+como todos os egoismos humanos se revoltam em mim, e ameaçam fazer-me
+naufragar na sua formidavel tempestade!
+
+Oh! deixa-me desabafar comtigo!
+
+Quem é que ainda revelou ao mundo o martyrio que crucifica as mães!
+
+Foi para outra que eu andei formando aquelle divino thesouro com todas
+as riquezas que pude juntar dentro da minha alma!
+
+Tantas noites que velei a pensar, a estudar, a pedir á voz intima da
+consciencia que esclarecesse e fortalecesse e guiasse o meu fragil
+coração de mulher!
+
+Tantos annos de abnegação profunda, de abnegação sem nome, de todas as
+horas, de todos os instantes, esquecida de tudo que não fosse aquella
+alma pequenina que andava a crear e a robustecer.
+
+N'esse empenho me fugiu a mocidade. Por elle, pelo meu adorado ingrato
+me esqueci de tudo que fôra meu!
+
+E hoje elle partiu; partiu risonho, triumphante, orgulhoso como um rei,
+sem se lembrar que onde vira até alli sua mãe, deixava uma triste
+condemnada!...
+
+E ha quem falle por ahi em ciumes romanescos, em ciumes ephemeros, em
+ciumes d'um instante! Qual ciume poderá comparar-se a este que me está
+dilacerando o peito?
+
+Oh! Luiz! oh! meu amor! oh! minha solidão!...
+
+.....................................................................
+.....................................................................
+
+Na ultima vez que te escrevi estava louca, minha velha amiga.
+
+Nunca está só quem ama, e espera, e crê em Deus, e semeou o bem no seu
+caminho.
+
+Veio lembrar-me tudo isso n'essa hora de amarga revolta que passou, o
+querido companheiro de toda a minha vida, o meu honesto guia, aquelle
+que partilhou commigo todas a sublimes responsabilidades que ha no amor
+dos paes.
+
+Já sou avó minha amiga, o meu Luiz é já pae.
+
+Nas alegrias d'elle vejo reflectidas as alegrias extinctas, cujo aroma
+vago perfuma a minha alma de uma saudade ineffavel.
+
+Não se esqueceu de mim, o meu querido filho; tem presentes todas as
+minhas licções, o laço mysterioso que um dia nos uniu conserva-se
+inquebrantavel, e hoje não deixa ainda de vir consultar-me a cada
+instante como nos dias em que a sua alma e a minha trocavam
+incessantemente confidencias mutuas.
+
+Estou consolada!
+
+Vejo descer a velhice sobre mim como uma noite calma, tranquilla e cheia
+de estrellas!
+
+Não é nunca infructifera a obra das mães.
+
+O meu sacrificio, se o foi, será continuado, e desatar-se-ha em flores
+bemditas de geração em geração.
+
+Felizes todas as que puderem adormecer como eu no seio de um filho a
+quem deram tudo que tinham de melhor, de quem receberam tudo que n'este
+momento levanta a minha alma para além da vida terrestre, e me faz
+antever o somno tranquillo e doce das consciencias justas.
+
+.....................................................................
+.....................................................................
+
+
+FIM.
+
+
+ * * * * *
+
+
+DA MESMA AUTHORA
+
+NO PRÉLO
+
+CONTOS E PHANTASIAS, 1 vol.
+
+
+
+
+Lista de erros corrigidos
+
+
+Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+
+
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ | | Original | Correcção |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ |#pág. 59| acquisiçõos | acquisições |
+ |#pág. 97| Dir-me-hão quo | Dir-me-hão que |
+ |#pág. 147| _mar dinho_ | _maridinho_ |
+ |#pág. 161| Girardiu | Girardin |
+ |#pág. 189| uma lcance | um alcance |
+ |#pág. 250| grande gestos | grandes gestos |
+ |#pág. 263| desonvolver | desenvolver |
+ |#pág. 263| affiige | afflige |
+ |#pág. 308| exemplo dignos | exemplos dignos |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Mulheres e creanças, by
+Maria Amália Vaz de Carvalho
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MULHERES E CREANÇAS ***
+
+***** This file should be named 29550-8.txt or 29550-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/2/9/5/5/29550/
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
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+*** START: FULL LICENSE ***
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+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
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+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
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+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
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+electronic works
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+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
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+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
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+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
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+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
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+
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+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
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+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
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+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
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+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
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+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
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+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
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+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
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+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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