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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 02:47:44 -0700
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+<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN">
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+<head>
+ <title>Historia Antiga</title>
+ <meta name="Publisher" content="Companhia Nacional Editora">
+ <meta name="Date" content="1900">
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+</head>
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+<body>
+
+
+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of Historia Antiga, by Unknown
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Historia Antiga
+
+Author: Unknown
+
+Release Date: July 28, 2009 [EBook #29529]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIA ANTIGA ***
+
+
+
+
+Produced by M. Silva
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+
+<div style="border: double 10px #000; padding: 1em; text-align: center;">
+<span class="pn">{1}</span>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">PROPAGANDA DE INSTRUCÇÃO<br>
+PARA<br>
+Portuguezes e Brazileiros</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">B<small>IBLIOTHECA DO</small>
+P<small>OVO</small></p>
+
+<p>E DAS ESCOLAS</p>
+
+<p style="font-size: 3em;">HISTORIA ANTIGA</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">CADA VOLUME 50 RÉIS</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">TERCEIRO ANNO&mdash;OITAVA SERIE</p>
+
+<p
+style="font-size: 0.8em; margin: 10%; text-align: justify; text-indent: 1em; border: solid 1px #000; padding: 1em;">Cada
+volume abrange 64 paginas, de composição cheia, edição estereotypada,&mdash;e
+fórma um tratado elementar completo n'algum ramo de sciencias, artes ou
+industrias, um florilegio litterario, ou um aggregado de conhecimentos uteis e
+indispensaveis, expostos por fórma succinta e concisa, mas clara,
+despretensiosa, popular, ao alcance de todas as intelligencias.</p>
+
+<p>LISBOA<br>
+SECÇÃO EDITORIAL DA COMPANHIA NACIONAL EDITORA<br>
+Adm. Justino Guedes<br>
+Largo do Conde Barão, 50<br>
+Agencias: PORTO&mdash;Largo dos Loyos, 47,1.º<br>
+RIO DE JANEIRO&mdash;R. da Quitanda, 38<br>
+1900<br>
+NUMERO 58<span class="pn">{2}</span></p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0010">INDICE</a> </h2>
+<ul class="TofC">
+ <li><a name="tex2html18" href="#SECTION0021">INTRODUCÇÃO</a> </li>
+ <li><a name="tex2html19" href="#SECTION0022">CAPITULO I&mdash;OS HEBREUS</a>
+ </li>
+ <li><a name="tex2html20" href="#SECTION0023">CAPITULO II&mdash;OS
+ EGYPCIOS</a> </li>
+ <li><a name="tex2html21" href="#SECTION0024">CAPITULO III&mdash;OS ASSYRIOS E
+ BABYLONIOS</a> </li>
+ <li><a name="tex2html22" href="#SECTION0025">CAPITULO IV&mdash;OS
+ PHENICIOS</a> </li>
+ <li><a name="tex2html23" href="#SECTION0026">CAPITULO V&mdash;OS
+ CARTHAGINEZES</a> </li>
+ <li><a name="tex2html24" href="#SECTION0027">CAPITULO VI&mdash;OS SYRIOS</a>
+ </li>
+ <li><a name="tex2html25" href="#SECTION0028">CAPITULO VII&mdash;OS PERSAS</a>
+ </li>
+ <li><a name="tex2html26" href="#SECTION0029">CAPITULO VIII&mdash;OS
+ INDIOS</a> </li>
+ <li><a name="tex2html27" href="#SECTION00210">CAPITULO IX&mdash;OS CHINS</a>
+ </li>
+ <li><a name="tex2html28" href="#SECTION00211">CAPITULO X&mdash;OS GREGOS</a>
+ </li>
+ <li><a name="tex2html29" href="#SECTION00212">CAPITULO XI&mdash;OS
+ ROMANOS</a> </li>
+</ul>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<table align="center" style="font-size: 0.8em;" summary="errata">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <th colspan="3">ERRATAS IMPORTANTES</th>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Pag.</td>
+ <td>Linha</td>
+ <td>Onde se lê</td>
+ <td>Leia-se</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>11</td>
+ <td>36</td>
+ <td>elementos</td>
+ <td>alimentos</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>12</td>
+ <td>18</td>
+ <td>Amvrão</td>
+ <td>Amrão</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>»</td>
+ <td>27</td>
+ <td>Egypto</td>
+ <td>Egypto, por meio</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>14</td>
+ <td>26</td>
+ <td>peccado,</td>
+ <td>peccado,&mdash;</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>»</td>
+ <td>42</td>
+ <td>altar,</td>
+ <td>um altar</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>»</td>
+ <td>44</td>
+ <td>estão</td>
+ <td>estavam</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>15</td>
+ <td>38</td>
+ <td>incluindo</td>
+ <td>incluido</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>22</td>
+ <td>6</td>
+ <td>de que</td>
+ <td>do que</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>33</td>
+ <td>19</td>
+ <td>moisaica</td>
+ <td>moysayca</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>52</td>
+ <td>31</td>
+ <td>tomam</td>
+ <td>tomaram</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>53</td>
+ <td>6</td>
+ <td>impervas</td>
+ <td>impervias</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>57</td>
+ <td>33</td>
+ <td>notas</td>
+ <td>novas</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>58</td>
+ <td>17</td>
+ <td>seis</td>
+ <td>reis</td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+
+<p><span class="pn">{3}</span></p>
+
+<div id="corpo">
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION0020">HISTORIA ANTIGA</a> </h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION0021">INTRODUCÇÃO</a> </h1>
+
+<p>L<small>IMITES DA </small>H<small>ISTORIA
+</small>A<small>NTIGA&mdash;</small>S<small>UA
+DIVISÃO&mdash;</small>T<small>EMPOS PRE-HISTORICOS&mdash;</small>O <small>HOMEM
+PRE-HISTORICO&mdash;</small>E<small>DADE DE PEDRA&mdash;</small>E<small>DADE DE
+BRONZE&mdash;</small>R<small>AÇAS HISTORICAS OU
+PRIMITIVAS&mdash;</small>O<small>S POVOS DA
+</small>A<small>NTIGUIDADE</small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Conforme ao que dissémos no tratadinho de <em>Historia Universal</em> (vol.
+XLVI da <em>Bibliotheca do Povo e das Escolas</em>), começa a <em>Historia
+Antiga</em> desde as mais remotas epochas de que possa haver-se conhecimento e
+prolonga-se até ao seculo <small>V</small> da era christan.</p>
+
+<p>N'ella se comprehende a epocha da phase brilhante dos povos orientaes, a
+qual mais tarde esmoreceu perante a supremacia que vieram a adquirir as
+civilizações classicas&mdash;primeiro a grega e depois a romana&mdash;na
+Europa, comparativamente com os poderosos e vastos imperios da Asia e do norte
+da Africa. O longo periodo da Historia Antiga fecha com o desmoronamento do
+imperio romano.</p>
+
+<p>A <em>Historia Antiga</em> pode dividir-se em tres periodos, cada um dos
+quaes se divide por sua vez em epochas principaes.</p>
+
+<p>Os tres periodos são;&mdash;o dos <em>tempos primitivos</em>;&mdash;o dos
+<em>tempos mythologicos</em>;&mdash;e o dos <em>tempos historicos</em>.</p>
+
+<p>O primeiro periodo comprehende duas epochas principaes: a da <em>origem do
+homem</em>, e a do <em>diluvio</em> e da <em>dispersão dos homens</em>, segundo
+a tradição biblica.</p>
+
+<p>No segundo periodo notam-se tres epochas principaes que são:&mdash;a dos
+<em>tempos idolatras</em>, caracterizada pela fundação dos imperios da China,
+da Asia, do Egypto, e da Grecia, e pela<span class="pn">{4}</span> tendencia
+que os povos tinham a elevar á categoria de deuses os seus primeiros
+soberanos;&mdash;a dos <em>tempos heroicos</em>, em que appareceram grandes
+conquistadores, fundadores de cidades, e outros homens notaveis, que os povos,
+então já mais adeantados, se limitaram a considerar na categoria de heroes ou
+semi-deuses;&mdash;a dos <em>tempos poeticos</em>, ou epocha em que os
+prophetas e os poetas exerceram uma acção efficaz sobre o progresso da
+civilização, e deram a fórma poetica ás tradições e á legislação.</p>
+
+<p>No periodo dos <em>tempos historicos</em> (aquelle de que possuimos noções
+mais seguras e mais positivas) são seis as epochas principaes, a saber:&mdash;a
+<em>epocha legislativa</em>, em que sobresaem quatro personagens mais notaveis:
+Lycurgo, Numa, Solon e Confucio;&mdash;a <em>epocha da grande gloria da
+Grecia</em>, na qual esta nação teve a supremacia da civilização na Europa,
+então começada a aproveitar pela expansão progressiva do Oriente;&mdash;a das
+<em>conquistas dos Romanos</em>, que se substituiram aos Gregos na dominação e
+na influencia, e alargaram consideravelmente a colonização até ao occidente da
+Europa;&mdash;a das <em>dissenções intestinas da republica romana</em>;&mdash;a
+do <em>grande explendor do imperio romano</em>;&mdash;a da <em>decadencia do
+mesmo imperio</em>, cujo desmoronamento põe termo á Historia Antiga, e abre com
+a invasão dos Barbaros do norte o periodo da Historia da Edade-Média.</p>
+
+<p>Reina ainda bastante incerteza na sciencia da Historia ácêrca da verdadeira
+epocha do apparecimento do homem sobre a superficie da Terra. Por muito tempo
+foi geralmente acceito que, se tal epocha não era exactamente contemporanea das
+mais antigas civilizações orientaes de que temos noticia, pelo menos não era
+anterior ao actual periodo geologico, e que o homem sómente havia apparecido
+pela primeira vez n'um periodo relativamente recente e já contemporaneo da
+fauna e da flóra actuaes, cêrca do logar em que as tradições de differentes
+povos fazem demorar o berço da especie humana.</p>
+
+<p>Os descobrimentos da Geologia, sciencia moderna mas já abundante em
+resultados definidos, têem, porêm, tirado o valor áquella noção e demonstram
+ser mais antiga a existencia do homem na superficie da Terra. Com os elementos
+que aquella sciencia lhe fornece, a Archeologia Pre-historica, de creação muito
+recente mas de rapidos progressos, tem chegado a adquirir o conhecimento de que
+o homem existia desde uma epocha muitos milhares de annos anterior á actual,
+tendo até chegado a ganhar n'essas remotissimas edades um certo gráu de<span
+class="pn">{5}</span> cultura, traduzido no exercicio de industria, de
+commercio, e ainda n'outras manifestações de actividade.</p>
+
+<p>A existencia do homem primitivo, ou do <em>homem pre-historico</em>, ou de
+raças humanas de que pela Historia propriamente dita não temos conhecimento
+algum, é-nos revelada pelo descobrimento de instrumentos de pedra (utensilios
+mais ou menos grosseiramente fabricados com aquelle mineral, e affeiçoados a
+differentes usos) e pelo de fragmentos de peças de loiça, de armas e de
+differentes outros utensilios de uso domestico,&mdash;tudo em camadas de
+formação anterior ao actual periodo geologico.</p>
+
+<p>Estes vestigios evidentes do homem pre-historico incontram-se nas excavações
+feitas nas camadas de terreno correspondentes ao periodo que a Geologia
+denomina <em>quaternario</em>, periodo que é o immediatamente anterior ao
+actual. Mais recentes descobrimentos, porêm, parecem provar que a existencia do
+homem é ainda anterior áquelle periodo. Excavações feitas em terrenos do
+periodo <em>terciario</em> tendem effectivamente a revelar a existencia do
+homem durante a formação dos mesmos terrenos. É no terreno denominado
+<em>mioceno</em> que se incontram os vestigios que levam a essa conclusão, e
+d'ahi provêm o nome de <em>homem mioceno</em> ou <em>homem terciario</em> ao
+homem que se julga ter existido no referido periodo geologico<a
+name="tex2html1" href="#foot257"><sup>[1]</sup></a>.</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot257" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> Veja-se o livrinho de
+<em>Geologia</em> (vol. XXXI da <em>Bibliotheca do Povo e das Escolas</em>).</p>
+</div>
+
+<p>Não acceitam ainda todos os archeologos a existencia do homem terciario; mas
+a opinião que a defende vai cada dia ganhando mais terreno. O congresso de
+Anthropologia e de Archeologia pre-historica, que em 1880 se reuniu em Lisboa,
+tratou essa questão e contribuiu muito para a sua resolução definitiva, sendo
+importantes os dados que para isso forneceram as excavações feitas no nosso
+paiz e os achados n'ellas realizados pelo eminente geologo portuguez Carlos
+Ribeiro, ha pouco fallecido.</p>
+
+<p>A Archeologia Pre-historica divide o periodo <em>quaternario</em>, sob o
+ponto-de-vista da existencia de vestigios da especie humana, em duas
+epochas:&mdash;a <em>edade paleolithica</em>, ou da pedra lascada;&mdash;e a
+<em>edade neolithica</em>, ou da pedra polida. A substancia de que são
+fabricados os instrumentos achados, e a perfeição relativa do seu fabrico, são
+os fundamentos que fornecem os caracteres distinctivos das duas edades.</p>
+
+<p>Á edade paleolithica pertencem armas e instrumentos de silex, principalmente
+machados, talhados toscamente pela separação<span class="pn">{6}</span> de
+lascas tiradas pela percussão. Estes instrumentos tinham evidentemente por fim
+o cortar, e alguns, de pontas mais aguçadas, o de furar. Alguns ha, com fórma
+similhante á das raspadeiras, que deviam servir para preparar as pelles de
+animaes, com que se vestiam os primeiros homens. Os vestigios correspondentes a
+esta epocha pre-historica fazem crer que o modo de viver da especie humana foi
+então de extrema simplicidade, que eram desconhecidos os animaes domesticos e a
+agricultura, que os homens vagueavam pelas florestas virgens, alimentando-se
+com os fructos silvestres e com o producto da caça, e abrigando-se nas cavernas
+naturaes, cuja posse ás vezes se viam obrigados a disputar aos animaes ferozes.
+A alimentação dos que viviam á beira do mar ou dos lagos consistia em peixe e
+marisco. O estado social devia ser o mais rudimentar possivel; apenas se pode
+considerar n'aquella epocha esboçado o viver da familia. Aquelle modo de viver
+era por certo ainda mais simples e primitivo do que o dos actuaes selvagens da
+Nova Caledonia.</p>
+
+<p>Um pouco mais perfeito foi de certo o viver na edade neolithica. As armas e
+os utensilios d'aquella epocha são distinctos dos da edade paleolithica por
+certas particularidades de fórma e pela maior perfeição do trabalho, a qual já
+denuncia um mais adeantado estado de educação, havendo entre os fragmentos de
+loiça e entre os objectos de ornato incontrados alguns que revelam uma certa
+industria, ainda rudimentar, mas já com algum desinvolvimento. Julga-se que
+n'estas epochas se practicou já o commercio, por se encontrarem n'algumas
+localidades substancias que eram produzidas em sitios distantes, assim como
+vestigios da existencia de officinas levam a crer que effectivamente a
+industria se delineava já com feições pronunciadas.</p>
+
+<p>Aos ultimos tempos da edade neolithica pertencem os chamados
+<em>kjoeckkenmoeddinger</em> («restos de cozinha»), que são grandes
+aglomerações de conchas de differentes mariscos, misturadas com carvão,
+incontradas nas costas da Dinamarca, e tambem mais recentemente no valle do
+Tejo, junto a Mugem, pelo já citado geologo Carlos Ribeiro. Pertencem tambem á
+mesma epocha as <em>palafittas</em>, ou povoações lacustres, achadas pela
+primeira vez no lago de Zurich em 1853, e que consistem em reuniões de cabanas
+junto das margens dos lagos, construidas sobre base de estacaria mergulhada na
+agua. Nas <em>palafittas</em> incontram-se notaveis vestigios, que provam o
+relativo adeantamento da especie humana n'aquelles tempos. É assim que a
+existencia de cereaes demonstra que já havia<span class="pn">{7}</span>
+agricultura; a de tecidos, que a industria se tinha adeantado; a de fragmentos
+de animaes domesticos, um viver social em via de progresso.</p>
+
+<p>A existencia de utensilios de metal nas <em>palafittas</em> indica que a
+epocha d'estas se prende chronologicamente ao começo dos tempos historicos, ou
+pelo menos ao periodo que precedeu a aurora das mais antigas civilizações do
+Oriente. Começa n'esse ponto a <em>edade de bronze</em>, ou aquella em que as
+armas e os diversos utensilios, até então construidos exclusivamente de pedra,
+começam a ser substituidos por outros fabricados de bronze.</p>
+
+<p>A <em>edade de bronze</em> variou muito em duração nos diversos paizes da
+Europa, sendo n'alguns povos uma epocha inteiramente historica, e pertencendo,
+pelo que respeita a outros, á Archeologia Pre-historica. No seu todo deve
+considerar-se como um periodo de transição entre os tempos pre-historicos e os
+tempos historicos.</p>
+
+<p>Os povos que figuram na Historia da Antiguidade provêm de uma das tres raças
+<em>semitica</em>, <em>chamitica</em> e <em>japhetida</em> (mais geralmente
+denominada <em>aryana</em> ou <em>indo-européa</em>), as quaes por isso se
+dizem <em>raças historicas</em>. A existencia d'estes tres troncos primitivos é
+revelada pela tradição biblica e confirmada pelas modernas investigações
+ethnographicas. Quando, decorrido longo periodo depois da creação do homem,
+Deus, offendido pelos vicios que haviam lavrado em toda a especia humana,
+resolveu castigál-a com o diluvio, apenas quiz que escapasse Noé, que era
+justo, com sua familia. Terminado aquelle cataclismo, só os tres filhos d'elle
+ficaram incumbidos de povoar o mundo, e cada um d'elles&mdash;Sem, Cham e
+Japhet&mdash;indo estabelecer-se em pontos differentes deu origem a uma raça.
+Sem ficou na Asia e foi o pai da raça semitica; Cham passou á Africa e originou
+a raça chamitica; e finalmente Japhet, estabelecendo-se no oriente da Europa,
+deu origem á raça japhetida, ou aryana, ou indo-europêa, assim denominada,
+porque na sua expansão ulterior se estendeu até ás Indias.</p>
+
+<p>A raça semitica&mdash;(ou os semitas)&mdash;apparece-nos, no decorrer da
+Historia Antiga, povoando um vasto territorio cingido de um lado peia alta
+Mesopotamia e pela parte meridional da Arabia, e do outro pelas costas do
+Mediterraneo e pelo rio Tigre. Eram d'esta raça os habitantes do imperio da
+Assyria e de parte da Babylonia, os Hebreus, os Lydios e parte das populações
+da Syria. Presentemente esta raça está representada pelos Judeus e pelos
+Arabes. A sua importancia historica<span class="pn">{8}</span> deriva
+principalmente das religiões que n'ella tiveram origem e do desinvolvimento a
+que estas chegaram. N'ella nasceram a antiga religião moysaica, o christianismo
+e o mahometanismo. Na Edade-Média um ramo d'esta raça&mdash;os Arabes&mdash;,
+invadindo a Europa, trouxeram-lhe grande copia da sciencia grega, contribuindo
+assim para a civilização d'esta parte do mundo.</p>
+
+<p>A raça chamitica&mdash;(ou os chamitas)&mdash;povoou na Antiguidade a
+Ethiopia, o Egypto e a Nubia, e incorporou-se tambem na população de Babylonia
+e da Arabia meridional. Na actualidade está representada pelos <em>fellahs</em>
+do Egypto, pelos habitantes da Nubia, pelos <em>abexins</em> e pelos
+<em>tuaregs</em>.</p>
+
+<p>A raça aryana&mdash;os aryas, os indo-europeus&mdash;foi representada na
+Antiguidade pelos Indus, Persas, Romanos e Gregos; e actualmente está-o sendo
+pelos descendentes d'estes povos e pelos Germanos e Slavos. Os povos
+indo-europeus são os mais importantes sob o ponto-de-vista historico; extendem
+hoje o seu <em>habitat</em> desde o norte da Europa até ás margens do Ganges; é
+no meio d'elles que se passa o grande movimento do progresso social, e a sua
+expansão colonizadora extende-se até aos confins do Novo Mundo, para onde têem
+transplantado as maravilhas do progresso e os mais perfeitos methodos de
+cultura intellectual.</p>
+
+<p>Ha nas tres raças historicas de que temos falado um grande numero de
+variedades, devidas, não só a cruzamentos, mas tambem a modificações filhas da
+differente acção dos climas e da diversa influencia do meio.</p>
+
+<p>O estudo d'essas differentes variedades leva a uma classificação differente
+da que sob o ponto-de-vista historico fizemos, e baseada em caracteres
+anatomicos que são do dominio da Anthropologia.</p>
+
+<p>Os principaes povos que figuram na Historia da Antiguidade são: os Hebreus,
+os Egypcios, os Assyrios e Babylonyos, os Phenicios, os Carthaginezes, os
+Syrios, os Persas, os Indios, os Chins, os Gregos e os Romanos. De cada um
+d'elles trataremos em capitulo especial.<span class="pn">{9}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION0022">CAPITULO I<br>
+OS HEBREUS</a> </h1>
+
+<p>A historia dos Hebreus confunde-se no seu principio com as mais antigas
+tradições da primitiva edade historica do homem. A mais antiga fonte em que
+ella se estuda é o <em>Genesis</em>, no qual se acham compendiadas as tradições
+da creação do homem e da primitiva dispersão das raças historicas, em que
+primeiro se dividiu a familia humana.</p>
+
+<p>Segundo o <em>Genesis</em>, Deus, depois de ter creado o mundo, separado a
+terra dos mares, e povoado aquella de plantas e de animaes, creou o primeiro
+homem, que teve o nome de Adão, e creou-lhe logo depois para companheira a
+primeira mulher, que se chamou Eva. D'este primeiro par nasceram tres filhos:
+Caim, Abel e Seth. O primeiro, que se deu á cultura dos campos, matou por
+ciumes a seu irmão Abel, expatriando-se em seguida e indo fundar a cidade de
+Henochia, que tomou tal nome do primeiro filho (Henoch) do seu fundador. Abel
+exercêra o mister de pastor. Seth, o terceiro filho de Adão, teve numerosa
+descendencia, na qual se tornou notavel Noé, pelas circumstancias que vamos
+referir.</p>
+
+<p>Em tal devassidão haviam cahido os homens, que Deus, como que arrependido de
+os haver creado, resolveu exterminál-os; mas, como Noé e sua familia
+conservavam vida virtuosa, no meio do viver vicioso do resto da humanidade,
+determinou tambem Deus fazer excepção a respeito d'elles. Mandou por isso a Noé
+que construisse uma arca, na qual se mettesse com a sua familia e com um certo
+numero de animaes de todas as especies; e, feito isso, mandou á terra o
+diluvio, que tudo alagou e em que pereceram todos os homens e animaes, excepto
+os que se continham na arca, a qual fluctuava na superficie da agua.</p>
+
+<p>Terminado o diluvio, que durou quarenta dias, e tendo baixado as aguas e
+descoberto de novo a superficie da terra, poisou por fim a arca sobre o monte
+Ararat, na Armenia. Sahiu d'ella Noé, com sua familia e com os differentes
+animaes, e começou a cultivar a terra. Foi elle o primeiro que cultivou a
+vinha, fabricou vinho e com este se embriagou.</p>
+
+<p>Falavam a principio todos os homens a mesma linguagem; mas o seguinte
+acontecimento deu origem a que entre elles<span class="pn">{10}</span> se
+multiplicassem as linguas. Tendo-se estabelecido e havendo alargado a sua
+occupação nas planicies de Sennaar, entre o Tigre e o Euphrates, tornaram-se
+orgulhosos do seu valor e poder, e conceberam o plano de construir uma torre,
+que chegasse ao céu. Começaram a pôr em practica o seu temerario intento; mas
+Deus, para castigar tamanha ousadia, confundiu-lhes as linguagens, por fórma
+que elles, deixando de comprehender-se uns aos outros, tiveram que abandonar a
+obra e que dispersar-se. A torre ficou, pois, por construir-se e denominou-se
+<em>Babel</em>, vocabulo que quer dizer: <em>confusão</em>. Foi aquella
+dispersão que deu origem á separação das tres raças, <em>semitica</em>,
+<em>chamitica</em> o <em>japhetida</em>, dos nomes dos tres filhos de
+Noé&mdash;Sem, Cham e Japhet.</p>
+
+<p>Pouco a pouco se extinguíra na memoria dos homens a sua historia primitiva e
+as licções e preceitos que n'essa historia se continham. Resolveu por isso o
+Senhor escolher entre os descendentes de Sem uma familia, que houvesse de ser a
+guarda e a depositaria das antigas crenças e tradições. Essa familia foi a de
+Tharé, originaria de Ur (na Chaldéa), e que, por causa da falta de pastagens
+para os gados, havia ido estabelecer-se na cidade de Haran (na Mesopotamia).
+Foi alli que Deus revelou a Abrahão, filho do dito Tharé, a missão divina que
+lhe destinára e como resolvêra constituil-o chefe da raça predestinada ou do
+<em>povo escolhido</em>. Por mandado do Senhor fez Abrahão varias
+peregrinações. O Senhor abençoou-o, prometteu-lhe grande descendencia e
+disse-lhe que teria de sua mulher Sára, até então esteril, um filho,&mdash;o
+que se realizou com o nascimento de Isaac.</p>
+
+<p>Deus, para experimentar a fé e a obediencia de Abrahão, ordenou-lhe que lhe
+sacrificasse seu filho Isaac, ao que elle sem repugnancia se promptificou,
+afastando-se para consummar tal sacrificio. Quando ía a descarregar o golpe,
+Deus lh'o impediu, detendo-lhe o braço e dando-se por satisfeito com aquella
+prova de obediencia.</p>
+
+<p>Isaac teve dois filhos, que foram Esaú e Jacob. Este ultimo, comquanto mais
+novo, foi o que recebeu a benção do pae, que estava cego, e que foi inganado,
+julgando que abençoava Esaú. Áquella benção, obtida subrepticiamente, por
+conselhos e industria de sua mãe, Rebecca, e á qual estava annexo o cumprimento
+das promessas que Deus fizera a Abrahão, deveu Jacob o herdar o patriarchado do
+povo hebreu. Temendo, porêm, a vingança de Esaú, ausentou-se para a
+Mesopotamia, onde, depois de servir por muitos annos a seu tio Labão, casou com
+as duas filhas d'este, Lia e Rachel.<span class="pn">{11}</span></p>
+
+<p>Teve Jacob doze filhos, que são os doze patiarchas, cabeças e origens das
+doze tribus do povo de Israel, nome que tambem teve o mesmo Jacob. Esses
+patriarchas foram:&mdash;o 1.º, Ruben; o 2.º, Simeão; o 3.º, Levi (cujos
+descendentes foram destinados ao sacerdocio e a serem ministros do templo de
+Deus); o 4.º, Judá; o 5.º, Dan; o 6.º, Nephtali; o 7.º Gad; o 8.º, Azer; o 9.º,
+Isachar; o 10.º, Zabulon; o 11.º José; o 12.º, Benjamin.</p>
+
+<p>Os mais velhos de entre elles começaram a ter inveja a José, por verem que
+era o mais estimado de Jacob, e porfim intentaram matál-o, lançando-o n'uma
+cisterna; mas, mudando de resolução, venderam-n'o como escravo a uns
+madianitas, que o levaram para o Egypto, onde foi comprado por Putiphar, creado
+de Pharaó, rei d'aquella nação. Serviu José a Putiphar com tanta fidelidade,
+que não se prestou a um crime para que o provocava a esposa do mesmo Putiphar.
+Esta, para d'elle se vingar, accusou-o aleivosamente de falso crime e por esse
+motivo foi elle mettido n'um carcere. Alli Deus revelou-lhe a significação
+mysteriosa de uns sonhos que haviam tido dois dos seus companheiros de
+captiveiro. Um d'estes, como Pharaó tivesse um sonho em que viu septe vaccas
+magras e septe espigas delgadas, que devoravam septe vaccas gordas e septe
+espigas fartas, indicou-o ao rei, como capaz de lhe interpretar o sonho. José
+explicou com effeito ao rei o sentido d'aquella visão. Surprehendido e
+maravilhado Pharaó com a sabedoria d'elle, elegeu-o para seu ministro, e
+deu-lhe grandes honras e distinções. José casou com a filha de um sacerdote de
+Heliopolis, da qual lhe nasceram seus dois filhos Manassés e Ephraim. Como
+ministro, e gozando toda a confiança do rei, organizou a arrecadação dos
+cereaes, de modo que, quando chegaram os septe annos de fome, symbolizados nas
+septe vaccas magras e nas septe espigas delgadas do sonho, o Egypto estava
+provido contra a escassez e ainda poude efficazmente soccorrer as povoações
+proximas, nas quaes se não tinham adoptado eguaes providencias.</p>
+
+<p>A escassez de alimentos, que tambem se sentiu em Chanaan, terra onde com sua
+familia habitava Jacob, obrigou este a mandar ao Egypto seus filhos, a comprar
+trigo. Soube da chegada d'elles José e, sem se lhes revelar como seu irmão,
+obrigou-os a declarar quem eram e a deixarem em poder d'elle, em refem, a
+Simeão, emquanto iam a Chanaan a buscar-lhe Benjamin, o irmão mais novo.</p>
+
+<p>Obrigados a voltarem ao Egypto, por causa da fome que continuava,
+conseguiram que Jacob, apesar da sua repugnancia,<span class="pn">{12}</span>
+deixasse ir Benjamin; e então José, dando-se a conhecer aos irmãos, entre
+lagrimas de alegria, mandou-lhes que voltassem a Chanaan, a buscar Jacob e toda
+a familia. Assim aconteceu, indo toda a familia de Jacob estabelecer-se no
+Egypto. Alli viveu ainda Jacob 17 annos, vindo a finar-se na edade de 147,
+depois de abençoar seus filhos, com bençãos mysteriosas e propheticas,
+vaticinando que na descendencia de seu filho Judá estaria o imperio e o governo
+do povo, até vir ao mundo o Messias, que havia de remir o peccado de Adão.
+Fallecido Jacob, ficaram residindo no Egypto seus filhos, nas terras que, em
+attenção a José, lhes havia dado o Pharaó, e nas quaes tiveram numerosa
+descendencia.</p>
+
+<p>Permaneceram os Israelitas ou Hebreus no Egypto por espaço de 217 annos. No
+decurso d'estes, os Egypcios, desconfiando d'elles, opprimiam-n'os cruelmente,
+obrigando-os a trabalhos duros, e o rei mandava matar-lhes todos os filhos
+recem-nascidos do sexo masculino, os quaes eram lançados ao Nilo. Nascendo
+Moysés, filho de Amrão e de Jocabed, esta conseguiu occultál-o por espaço de
+tres mezes; mas, não o podendo conservar escondido por mais tempo, lançou-o
+áquelle rio, dentro de um cesto. Estando a filha do rei a banhar-se no rio, viu
+a creança, salvou-a e deu-lhe o nome de Moysés, que quer dizer: «salvo das
+aguas». Depois levou-o para a côrte, onde foi creado e passou a mocidade.</p>
+
+<p>Deus, condoido de quanto os Hebreus soffriam entre os Egypcios, resolveu
+livrál-os da oppressão, fazendo-os sahir do Egypto, por meio de assombrosos
+milagres. Foram esses prodigios obrados por intermedio de Moysés e de seu irmão
+Arão, apparecendo primeiro Deus a Moysés no monte Horeb, e mandando-lhe que
+fosse á presença de Pharaó, a pedir-lhe que deixasse sahir do Egypto o povo de
+Israel. O rei, bem longe de acceder ao pedido, antes redobrou a perseguição.
+</p>
+
+<p>Então começaram os milagres. Indo Moysés e Arão á presença de Pharaó, para
+lhe mostrarem como era vontade de Deus o que lhe pediam, lançou Arão na terra
+uma vara que levava na mão, e a vara logo se converteu em serpente. Quiseram os
+magos imitar a transformação, convertendo tambem outras varas em serpentes; mas
+a serpente em que se tornára a vara de Arão devorou todas as outras. Continuou,
+apezar de tudo, a obstinação de Pharaó; e Deus, para mais claro aviso e para
+castigo, mandou ao Egypto as dez pragas, que assolaram todo o paiz.</p>
+
+<p>Essas pragas foram as seguintes: a primeira consistiu em se converter em
+sangue a agua dos rios e das fontes do Egypto,<span class="pn">{13}</span>
+morrendo todos os peixes; a segunda, n'uma innumeravel multidão de rans que
+intravam por todas as casas; a terceira, n'uma quantidade enormissima de
+mosquitos e de outros insectos, que tornavam a vida insupportavel; a quarta,
+n'uma abundancia de moscas, que perseguiam atrozmente homens e animaes; a
+quinta foi uma peste que matou um numero enorme de pessoas e fez tambem grande
+devastação nos animaes; a sexta foi uma epidemia de chagas hediondas e
+repugnantes, que appareciam nos corpos dos Egypcios e dos animaes; a septima,
+uma grande chuva de pedra, acompanhada de terrivel trovoada, ficando destruidas
+por ellas as arvores, plantações, sementeiras e pastos; a oitava foi o
+apparecimento de uma nuvem de gafanhotos, que tambem produziram incalculavel
+estrago nos campos; a nona manifestou-se por umas trevas muito espessas, que
+por tres dias escureceram o Egypto, excepto a terra de Gessen (logar em que
+habitavam os Hebreus, aos quaes não chegou nenhuma das pragas); a decima
+consistiu na morte de todos os primogenitos egypcios, desde o filho de Pharaó
+até ao do escravo mais humilde, e tambem na de todos os primogenitos dos
+animaes.</p>
+
+<p>Movido finalmente Pharaó pela decima praga, consentiu que os Hebreus
+sahissem do Egypto. Na noite do dia 14 do mez de Nisan, que corresponde ao de
+março, sahiram, pois, os descendentes de Jacob da terra dos Pharaós, em tão
+grande numero, que só homens armados e capazes de pelejar eram mais de 600:000.
+Guiava-os um anjo por meio de uma columna, que de dia era formada como que de
+uma nuvem, e de noite era de fogo. Esta columna precedia os Hebreus e
+indicava-lhes o caminho atravez do deserto. Caminhavam por este, quando Pharaó,
+de novo indurecido, se arrependeu da concessão que fizera, mandou armar todos
+os seus carros bellicos e sahiu com um numeroso exercito, a perseguir e
+captivar outra vez o povo de Israel, que ia já perto do Mar Vermelho. Vendo-se
+de novo perseguidos pelos Egypcios, os Israelitas começaram a murmurar contra
+Moysés, por havel-os mettido n'aquelle perigo; mas este exhortou-os a que
+tivessem Esperança em Deus e, extendendo uma vara, que levava na mão, sobre o
+Mar Vermelho, as aguas dividiram-se para um e outro lado, deixando no meio um
+caminho enxuto, pelo qual passaram a salvo os Israelitas. Chegando os Egypcios
+e vendo as aguas divididas, intraram no mesmo caminho para os perseguirem; mas,
+estando já todos n'elle, Moysés levantou outra vez a vara sobre o mar e as
+aguas voltaram á sua posição natural, ficando submerso todo o exercito de
+Pharaó.<span class="pn">{14}</span></p>
+
+<p>Em memoria da sahida do Egypto, mandou Deus aos Hebreus que celebrassem
+perpetuamente a Paschoa, matando todos os annos e comendo com certas ceremonias
+um cordeiro.</p>
+
+<p>Passado o Mar Vermelho, fôram elles caminhando por diversos logares até ao
+deserto,&mdash;onde começou o Milagre do maná. Era este um manjar delicioso que
+cahiu do céu durante quarenta annos, emquanto os Israelitas peregrinaram no
+deserto até intrarem na terra da promissão. Com elle se alimentavam, colhendo
+cada um diariamente uma certa medida, por fórma que, se queria guardar alguma
+porção para o dia seguinte, logo o manjar se corrompia. A peregrinação pelo
+deserto durou tanto tempo, porque assim o determinou Deus, em castigo das
+murmurações e falta de fé dos Israelitas á sahida do Egypto, fazendo-os
+retrogradar para o deserto, quando estavam já perto da terra da promissão.</p>
+
+<p>Appareceu Deus a Moysés sobre o monte Sinai, e entre raios lhe deu as taboas
+da lei, em que estavam escriptos os dez preceitos do decalogo, e dictou-lhe as
+outras leis e ceremonias que queria que fossem usadas pelo seu povo. Emquanto
+Moysés estava sobre o Sinai&mdash;que foi por quarenta dias e quarenta
+noites&mdash;pediram os Israelitas a Arão que lhes fizesse um deus que
+adorassem e que os governasse. Annuiu elle ao pedido e fabricou um bezerro de
+oiro, que puzeram n'um altar e adoraram, e ao qual offereceram sacrificios.
+Quando Moysés desceu do monte e teve noticia d'este acto de idolatria, depois
+de orar ao Senhor&mdash;em desaggravo de tão grande peccado,&mdash;em signal de
+indignação, quebrou as taboas da lei, mandou aos levitas que matassem os
+Israelitas que incontrassem no caminho, calcou aos pés e reduziu a pó o bezerro
+de oiro, e supplicou a Deus que perdoasse ao seu povo, o que elle fez a
+final.</p>
+
+<p>Perdoado o peccado do povo, mandou Deus a Moysés que voltasse ao cume do
+Sinai, com duas taboas de pedra, nas quaes foram de novo gravados os dez
+preceitos. Mandou depois se construisse um templo cuja guarda e governo foram
+confiados a Arão, irmão de Moysés, sendo os mais descendentes de Levi feitos
+ministros do mesmo templo, com o nome de levitas. Este templo, que era
+portatil, e se chamava tambem <em>tabernaculo</em>, acompanhava o exercito e
+era dividido em duas partes: na interior, que se chamava <em>sancta
+sanctorum</em>, estava a arca do testamento, e só intrava o summo sacerdote; na
+exterior havia um altar, em que se queimavam essencias e um candelabro com
+septe lumes.</p>
+
+<p>Passados quarenta annos de peregrinação estavam os Israelitas<span
+class="pn">{15}</span> na terra da promissão, a cuja vista havia morrido
+Moysés, na edade de 120 annos e depois de ter abençoado o povo.</p>
+
+<p>A terra da promissão era uma provincia da Asia, chamada hoje Palestina ou
+Terra Santa, que comprehendia varios reinos pequenos, conhecidos pela
+denominação de <em>reinos dos Cananeus</em>. Morto Moysés, ficou com o governo
+do povo Josué filho de Num, ao qual o Senhor appareceu dizendo-lhe que metesse
+os Hebreus na posse da terra da promissão, dividindo as terras pellas
+differentes tribus e familias. Josué teve que combater e vencer varios povos e
+reis, e que conquistar varias cidades da Palestina. Dividida esta pelos povos
+de Israel, obrigaram-se estes a dar a decima parte dos fructos da terra aos
+levitas.</p>
+
+<p>Morrendo Josué na edade de 110 annos, seguiu-se-lhe o governo dos juizes,
+dos quaes os mais celebres foram Debora, Gedeão, Jephte e Sansão. D'este ultimo
+contam os livros santos que, sendo ainda muito moço e sahindo-lhe ao incontro
+um leão, o despedaçou logo; depois matou de uma vez trinta Philisteus; e de
+outra, depois de haver quebrado umas cordas muito fortes com que o tinham
+amarrado, matou mil Philisteus com a queixada de um jumento. N'outra occasião,
+incerrado pelos Philisteus na cidade de Gaza, sahindo de noite, arrancou as
+portas da cidade e levou-as a um alto monte. Depois d'aquellas façanhas e de
+outras, deixou-se inlear no amor de Dalila, á qual declarou que a verdadeira
+causa da sua força consistia em ser dedicado a Deus e em não lhe terem jámais
+cortado os cabellos; Dalila, senhora de tal segredo, fez com que Sansão
+adormecesse nos seus braços e, vindo os Philisteus, cortaram áquelle os
+cabellos, pelo que perdeu a força e foi aprizionado.</p>
+
+<p>Os Philisteus, vencido assim Sansão, tiraram-lhe os olhos e trataram-n'o
+indignamente até que, passado algum tempo, tendo-lhe novamente crescido os
+cabellos, recuperou a força; e, sendo então levado pelos Philisteus ao templo
+de seu falso deus Dagão, para zombarem d'elle, abraçou Sansão duas columnas do
+mesmo templo e moveu-as com tal impeto, que o edificio abateu, morrendo
+esmagados quantos n'elle estavam, incluido o proprio Sansão.</p>
+
+<p>O ultimo juiz que governou o povo hebreu foi o propheta Samuel, durante o
+governo do qual os Israelitas pediram a Deus que lhes désse um rei, o que Deus
+concedeu, mandando a Samuel que ungisse a Saul, como rei, e esse foi o primeiro
+dos reis de Israel. A principio regeu Saul, conforme ás leis e ao temor de
+Deus, mas depois faltou a uma e outra<span class="pn">{16}</span> coisa, pelo
+que mandou o Senhor a Samuel que ungisse como rei a David, mancebo muito
+valoroso, da tribu de Judá, e que havia morto o gigante Golias, que desafiava o
+exercito de Israel. Saul, sabendo da eleição de David, perseguiu-o e não quiz
+depor o poder; mas afinal, vencido na guerra contra os Philisteus, suicidou-se.
+Introu então David na posse pacifica do governo, comquanto tivesse que
+sustentar guerras contra os Philisteus, os Ammonitas, os Syrios, os Idumeus e
+os habitantes de Damasco, vencendo a todos estes inimigos. Preparou os
+materiaes necessarios para edificar um magnifico templo, que não chegou a
+construir por Deus lh'o haver prohibido; trasladou a arca do testamento para o
+seu palacio de Jerusalem, fez rigorosa penitencia por graves peccados que tinha
+commetido; compoz muitos psalmos em louvor de Deus; e practicou muitos outros
+actos de soberano justo e sabio.</p>
+
+<p>A David succedeu no reinado seu filho Salomão, que foi muito sabio e sagaz,
+e cujo governo foi assignalado por grandes riquezas e prosperidades. Durante
+todo o tempo que governou, conservou em paz o reino de Israel; foi temido e
+respeitado pelos principes vizinhos, muitos dos quaes eram seus tributarios; as
+suas frotas levavam-lhe grande quantidade de oiro e de materias preciosas;
+floresceu o commercio em todo o paiz; e a sabedoria do rei era admirada nos
+reinos estranhos. Empregou Salomão grandes riquezas em edificar um templo
+grandioso, para a adoração de Deus, onde havia preciosissimos vasos e um grande
+numero de ministros do Senhor. Esse templo excedeu tudo quanto se pode imaginar
+de magnificente. Edificou tambem um sumptuoso palacio, para sua morada.</p>
+
+<p>Antes de ter revelado a sua sabedoria em muitos livros que escreveu,
+mostrou-a tambem na sabia sentença que pronunciou, conhecida pelo nome de
+«juizo de Salomão». Teve ella a seguinte origem. Duas mulheres viviam juntas e
+tinham cada uma seu filho. Aconteceu morrer uma das creanças, e cada uma das
+mães dizia ser seu o que ficára vivo. Foram ambas ter com Salomão, para que
+decidisse a contenda. Decidiu o rei que se cortasse ao meio o menino disputado
+e que se désse metade d'elle a cada contendora. Uma das mães acceitou a
+sentença; mas a outra clamou que antes se désse o menino inteiro e vivo á sua
+rival. Assim concluiu Salomão que a verdadeira mãe era aquella que não
+consentia na morte da creança. Mandou por isso que esta lhe fôsse intregue.</p>
+
+<p>Por espaço de muitos annos observou Salomão a lei de Deus, governando o seu
+povo com grande sabedoria e justiça; mas nos ultimos annos da vida prevaricou,
+edificando templos<span class="pn">{17}</span> aos falsos deuses, adorados por
+mulheres estrangeiras que tomou contra os preceitos de Deus. Não se sabe com
+certeza se chegou a arrepender-se d'este peccado, de que foi reprehendido pelo
+Senhor; mas julga-se que se arrependeu, compondo então o livro sagrado chamado
+<em>Ecclesiastes</em>, que figura no Novo Testamento e em que mostrou a vaidade
+das grandezas humanas.</p>
+
+<p>A Salomão succedeu Roboão, seu filho, principe imprudente e tyrannico, que,
+pedindo-lhe o povo que o alliviasse dos tributos, respondeu que não só o não
+faria, antes os havia de augmentar e tratar os Israelitas como escravos. Vendo
+e ouvindo isto, dez tribus rebellaram-se contra Roboão, acclamando por seu rei
+a Jeroboão, homem sedicioso e impio; e só as tribus de Judá e de Benjamin
+ficaram na obediencia de Roboão, que se viu obrigado a fugir precipitadamente
+para Jerusalem.</p>
+
+<p>Dividiu-se assim o reino em dois: a parte que permaneceu sujeita a Roboão
+chamou-se Reino de Judá, ou Judéa; a outra, que seguiu a Jeroboão, denominou-se
+Reino de Israel.</p>
+
+<p>Jeroboão esqueceu a lei de Deus, mandou fabricar bezerros de oiro, que fez
+adorar como divindades, sendo assim causa da maior parte dos Israelitas cahirem
+em idolatria. Na mesma impiedade viveram os seus successores, os 21 reis que
+governaram Israel por espaço de 254 annos, findos os quaes foi o reino
+destruido pelos Assyrios e seu rei Salmanazar, que tomou Samaria e levou
+captivas as dez tribus de Israel.</p>
+
+<p>No reino de Judá continuou-se a adorar o verdadeiro Deus, ainda que Roboão e
+muitos dos seus successores por varias vezes permittiram a idolatria; por isso
+foi o reino castigado pelo Senhor, que o intregou aos seus inimigos. O reino de
+Judá durou por 468 annos, contados do principio do reinado de David. Os
+peccados dos Judeus foram causa de Deus os intregar aos Chaldeus que,
+governados por seu rei Nabucodonosor, tomaram a cidade de Jerusalem, queimaram
+o templo do Senhor, e levaram os Judeus para o seu paiz. Este captiveiro
+chamou-se o «captiveiro de Babylonia» que durou por mais de 70 annos.</p>
+
+<p>Foi dada a liberdade aos Judeus por Cyro, rei dos Médos, Persas e Chaldeus,
+o qual subjugou estes dois ultimos povos, ganhou varias batalhas e tomou
+Babylonia. Tomada esta cidade permittiu Cyro aos Judeus que regressassem á sua
+patria, o que se effectuou sob o mando do summo pontifice Josué e de Zobadel.
+Mal chegaram a Jerusalem, o seu primeiro cuidado foi a re-edificação do templo,
+a qual não poderam logo<span class="pn">{18}</span> levar a effeito por lh'o
+impedirem os Samaritanos, conseguindo por fim concluil-a Zorobabel, mediante o
+auxilio de Dario I. por pouco durou a independencia dos Hebreus. As reformas de
+Esdras, nas quaes se comprehendia a prohibição de casamentos com mulheres de
+outras nações, e a dissolução das familias até então constituidas contra esse
+preceito, originaram um scisma, em que parte do povo se reuniu aos Samaritanos,
+ficando a nação muitissimo infraquecida. Aproveitando este estado, subjugaram
+os Persas a Judéa, cuja historia desde então até á conquista de Alexandre se
+confunde com a das outras provincias humildes, sujeitas ao dominio d'aquelle
+imperador. Continuou a rivalidade entre os Judeus e os Samaritanos, aos quaes
+os primeiros não permittiam a intrada no templo de Jerusalem. Os Judeus não
+constituiam assim já um povo, mas uma simples communidade religiosa ou uma
+casta sacerdotal, isolada no meio das outras populações do grande imperio
+persa.</p>
+
+<p>Realizada a conquista d'este imperio em tempo de Dario Codomanno,
+submetteu-se a Judéa ao conquistador, sem resistencia; por morte de Alexandre
+foi governada successivamente por Laomedonte e pelos reis do Egypto e da Syria.
+Com os Machabeus chegou a recobrar a sua independencia, sendo Aristobulo
+proclamado rei; mas repetidas guerras civis deram logar á intervenção dos
+Romanos na Palestina, chegando Pompeu a intrar em Jerusalem, que ficou desde
+essa epocha em estado de incompleta servidão.</p>
+
+<p>Por fim realizou-se a annexação da Judéa aos dominios de Roma, sendo Herodes
+incarregado do governo d'ella pelo imperador Augusto; mais tarde augmentaram as
+dissensões e rixas, que desde o principio houvera entre Judeus e Romanos, o que
+levou Nero a mandar Vespasiano, seu general, para reduzir completamente á
+obediencia a Judéa. A conquista d'esta foi interrompida pelo regresso de
+Vespasiano a Roma, para assumir o governo imperial, e só veio a ser ultimada
+pelo imperador Tito, que foi em pessoa á Palestina com um exercito de 60:000
+homens. Á vista do exercito romano, applacaram-se as contendas civis que havia
+em Jerusalem, e esta cidade defendeu-se durante muito tempo, com um denodo
+verdadeiramente heroico, contra o inimigo que a cercava. Por fim cahiu a ultima
+obra de defesa, a cidade foi invadida, e o templo incendiado. Os Judeus,
+perdida toda a esperança, mataram suas mulheres e filhas e suicidaram-se em
+seguida, preferindo isso a intregarem-se com vida aos Romanos. A tomada de
+Jerusalem deu-se no anno 70 da era christan. O<span class="pn">{19}</span> povo
+Hebreu perdeu, desde então e para sempre, a sua unidade politica, apezar de
+continuar até hoje a existir disperso pelo mundo, com os caracteres
+particulares da sua raça e da sua religião.</p>
+
+<p>Já depois de submettida a Judéa aos Romanos, mas antes da tomada de
+Jerusalem, nasceu perto d'esta cidade, em Bethlem, Jesus Christo, quatro annos
+antes da era actual (ou era christan).</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION0023">CAPITULO II<br>
+OS EGYPCIOS</a> </h1>
+
+<p>As populações que primitivamente habitaram o valle do Nilo foram subjugadas,
+ou compellidas para o sul, por um povo vindo da Asia pelo isthmo de Suez.
+Passou-se isto em tempo anterior aos mais antigos monumentos historicos.
+Aquelle povo conquistador, que alli se estabeleceu, veio a constituir o que na
+Historia Antiga é conhecido pela denominação de <em>povo egypcio</em>.</p>
+
+<p>Nada ao certo é conhecido quanto ao governo primitivo dos Egypcios, que se
+presume ter sido nos primordios <em>theocratico</em> ou <em>sacerdotal</em>.
+Parece provavel que aquelle paiz tinha chegado já a um certo estado de
+civilização e estava bastante povoado pela epocha de 2000 annos antes da era de
+Christo. Segundo Herodoto, foi Menés o fundador da monarchia egypcia, a qual
+durou 1663 annos, desde a sua origem até á conquista do Egypto por Cambyses. O
+dominio d'aquella monarchia limitou-se primeiro a Thebas, cidade fundada pelo
+mesmo Menés, e aos seus arredores; mas este monarcha accrescentou
+consideravelmente o seu territorio, construindo diques para impedir que o Nilo
+continuasse a alagar os seus campos marginaes. Nos terrenos assim conquistados
+ao rio, e na extremidade do <em>delta</em> d'este, edificou uma cidade grande e
+importante, que teve o nome de Memphis.</p>
+
+<p>Dos seculos que se seguiram ao reinado de Menés apenas ha vestigios muito
+obscuros na Historia. Reinaram durante elles differentes dynastias, a mais
+notavel das quaes foi a quarta, de que foi fundador Snervu, e que se denominou
+«a dynastia dos Pharaós». Os tres Pharaós immediatos successores de Snervu
+foram Cheops, Khavrá e Mycerino, que se tornaram<span class="pn">{20}</span>
+celebres por haverem mandado construir as tres grandes pyramides, que foram
+destinadas a servir-lhes de tumulos. Situadas na planicie de Gyzeh, na margem
+esquerda do Nilo, a breve distancia de Memphis, são aquellas pyramides os mais
+notaveis monumentos da civilização egypcia. A de Cheops tem 147 metros de
+altura, a de Khavrá 138, e a de Mycerino 66. A mais alta foi construida em 30
+annos, por 100:000 homens, que eram substituidos de seis em seis mezes.</p>
+
+<p>Os reis de outra dynastia, a duodecima, tornaram-se notaveis pelas grandes
+obras hydraulicas que imprehenderam no Nilo, construindo um grande numero de
+canaes, para distribuirem as aguas pelas differentes regiões do sólo, afim de
+lhes augmentar a fertilidade e de prevenir as inundações.</p>
+
+<p>Mais tarde, reinando Timaos, um povo originario da Asia (os Hyksos ou
+<em>Pastores</em>) invadiu o Egypto, cuja antiga civilização destruiu. A
+invasão, comtudo, não se extendeu além do <em>delta</em> do Nilo e do baixo
+Egypto. A parte, de que Thebas era capital, escapou á dominação dos Hyksos que
+porfim foram expulsos do paiz por Amenophis Thetmosis, descendente dos antigos
+reis do Egypto.</p>
+
+<p>Entre os reis que succederam a este, houve notavel (alêm de outros) M[oe]ris
+que executou differentes obras muito importantes, no numero das quaes figura o
+famoso lago que tomou o nome d'elle, e que foi destinado a receber as aguas do
+Nilo, quando a sua grande abundancia ameaçasse o Egypto de ser totalmente
+inundado. Este lago fornecia agua, por um grande numero de canaes, a
+differentes zonas que fertilizava.</p>
+
+<p>Tornou-se tambem muito notavel o rei Sesostris (Ramsés-Meiamun), que foi o
+primeiro que armou uma esquadrilha; bateu-se com os Arabes, que subjugou, e
+outrotanto fez aos Lydios e Ethiopicos. Imprehendeu a conquista da Asia; e,
+tendo deixado seu irmão Danao no governo do reino, bateu e derrotou os
+Assyrios, os Medos, os Scythas e os Phenicios; submetteu a Thracia, a Colchida,
+e chegou até ás margens do Ganges. Deixou por toda a parte inscripções,
+commemorando as suas victorias. Regressando aos seus estados, dedicou-se a
+promover o progresso das artes, felicitou o povo com uma paz duradoura, e
+accrescentou ás suas glorias militares a de ter fundado instituições politicas
+e promulgado leis de geral utilidade. Tendo cegado na velhice, não poude
+resistir a essa infelicidade e suicidou-se. Os Egypcios, gratos á sua memoria,
+ergueram-lhe templos, nos quaes lhe prestavam as mesmas honras que aos seus
+deuses. Por esse tempo tinha chegado o Egypto á phase do seu<span
+class="pn">{21}</span> maior esplendor. Tempos depois começou a pronunciar-se a
+sua decadencia, que as perturbações intestinas contribuiram bastante para
+precipitar. A Ethiopia proclamou a sua independencia; e os povos da Syria,
+sempre insubordinados e irrequietos, negaram-se a pagar os tributos. A unidade
+nacional veio a quebrar-se, e o paiz dividiu-se em vinte pequenos estados
+independentes. As rivalidades entre estes differentes estados levou-os a
+admittirem no seu seio os estrangeiros, cuja intrada até alli fôra sempre
+vedada no Egypto. Foi então que os Ethiopes e os Assyrios disputaram o paiz e
+fizeram conquistas que, comquanto não fossem duradouras, comtudo apressaram
+bastante a ruina da nação. Depois de expulsos aquelles dois povos, o Egypto
+ficou sendo governado outra vez por principes independentes. No delta do Nilo
+havia doze d'estes principes, os quaes constituiram uma confederação, formada
+dos seus estados, a que se chamou <em>dodecarchia</em>. Um d'aquelles
+principes, porêm, chamado Psammeticho I, derrubou á mão armada os outros
+principes e restabeleceu a unidade nacional. Durante o reinado d'este monarcha,
+ainda o Egypto se ergueu um pouco da sua decadencia e pareceu querer voltar ao
+seu antigo esplendor e grandeza; floresceram de novo as lettras, as
+bellas-artes e a industria; e continuaram outra vez um pouco as grandes obras
+de irrigação que estavam&mdash;havia muito&mdash;suspensas. Sustentou-se no
+throno durante 47 annos a dynastia de Psammeticho; no reinado de um dos seus
+descendentes, Amasis, teve o Egypto uns annos de certa prosperidade, a que logo
+poz termo a conquista persa, realizada por Cambyses. Desde esta até á conquista
+por Alexandre Magno medeiam dois seculos, durante os quaes os Egypcios tiveram
+politicamente uma existencia miseravel. Com a conquista pelos Romanos, depois
+da morte de Cleopatra, incerra-se a Historia Antiga do Egypto, que durou uns
+cincoenta seculos, e na qual se contam 34 dynastias.</p>
+
+<p>Gosou sempre de grande fama a civilização dos Egypcios durante o periodo da
+Historia Antiga. Os proprios Gregos chegaram a gabar-se de que muitos dos seus
+philosophos e legisladores tinham ido á terra do Nilo instruir-se nas sciencias
+ou na arte de governar. Comtudo, fez-se em tempo uma idéa muito exaggerada do
+estado a que a sciencia havia chegado no Egypto. Attribuem-se a este povo
+conhecimentos mathematicos, e especialmente astronomicos, muito adeantados; mas
+não é averiguado que os possuisse em tal desinvolmento,&mdash;e bem poucos
+vestigios existiam d'elles, quando<span class="pn">{22}</span> alli foram da
+Grecia, Eudoxio e Platão. A religião, as artes e a philosophia, é que
+floresceram muito notavelmente n'aquelle paiz. As ruinas innumeraveis de que
+todo o seu sólo está coberto, bastariam para attestar o grande estado de
+esplendor a que elle chegou. A historia das artes apresenta alli muito mais
+caracteres de certeza do que a das sciencias. Os monumentos, as ruinas, os
+templos, os palacios, os colossos, que nem a acção do tempo nem a do homem
+puderam ainda destruir, dão conhecimento do elevado grau de perfeição até onde
+os Egypcios levaram a cultura das artes; mas, de todos os monumentos do Egypto,
+os mais assombrosos são sem duvida as pyramides (construcções colossaes que se
+vêem ainda em differentes pontos, e das quaes as tres mais notaveis são as de
+que atraz falámos).</p>
+
+<p>O antigo governo do Egypto era theocratico; reinavam alli os sacerdotes em
+nome dos deuses. Os proprios reis estiveram quasi sempre sujeitos ao poder
+sacerdotal, que se mantinha principalmente por effeito da severa distincção das
+castas. Os sacerdotes constituiam a primeira d'estas, á qual se seguia a dos
+guerreiros, depois a dos interpretes, e a dos trabalhadores (divididos ainda
+estes em diversas classes, que nunca se confundiam). A todo o egypcio era
+prohibido sahir da condição em que nascêra e abraçar profissão que não fosse a
+de seu pae.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION0024">CAPITULO III<br>
+OS ASSYRIOS E BABYLONIOS</a> </h1>
+
+<p>O imperio assyrio no principio apenas comprehendeu o territorio situado a
+leste do rio Tigre; mais tarde veio a ser formado por todo o territorio que
+ficava entre aquelle e o Euphrates, e comprehendeu, juntamente com a Assyria
+propriamente dita, a Chaldéa, a Mesopotamia, a Babylonia e differentes paizes
+tributarios. A Chaldéa foi, como o Egypto, um dos primeiros paizes em que
+começou a desinvolver-se com certo grau a civilização; os Chaldeus e os
+Babylonios passam por ser os primeiros povos que fizeram descobrimentos
+astronomicos; deve-se-lhes a divisão do anno em 365 dias, 6 horas e alguns
+minutos. É muito incerta a chronologia da historia dos Assyrios: segundo os
+livros santos, a fundação de Babylonia e<span class="pn">{23}</span> de Ninive
+realisou-se pelo seculo <small>XXII</small> antes de Jesus Christo, Nemrod foi
+fundador da primeira e Assur da segunda. Nada certo se sabe sobre a historia
+dos povos que habitaram aquellas cidades e ainda outras, anteriormente ao tempo
+de Belo que, por 1780 antes de Jesus Christo, creou o imperio da Assyria,
+reunindo o reino de Babylonia com o de Ninive.</p>
+
+<p>Nino, successor de Belo, alliou-se com os Arabes, derrotou os Armenios e os
+Medos, estendeu o seu dominio por grande parte da Asia, e levou as suas
+conquistas desde o Egypto até ás Indias. Augmentou consideravelmente a cidade
+de Ninive, que dotou com palacios e outros edificios sumptuosos. Depois de
+tomar a cidade de Bactres (capital da Bactriana), casou com Semiramis, viuva do
+governador da mesma cidade e uma das mulheres mais bellas d'aquelle tempo, da
+qual teve um filho chamado Ninias. Pela morte de Nino, ficou Semiramis herdeira
+do imperio, que augmentou com conquistas novas; subjugou a Arabia, o Egypto e a
+Lybia; illustrou o seu reinado não sómente por grandes acções militares, mas
+tambem pela administração do paiz e pelas assombrosas construcções, das quaes
+ainda hoje existem ruinas muito notaveis. Tornou Babylonia uma cidade magnifica
+e grandiosa, cingiu-a com uma muralha de 15 leguas de circumferencia, de altura
+consideravel, e com cem portas de bronze em toda a sua extensão. Era tão larga
+essa muralha que sobre ella podiam passar quatro carroças a par. Construiu
+tambem Semiramis uma ponte magnifica sobre o Euphrates (rio que atravessava a
+cidade) e em cada uma das extremidades d'ella dois palacios. Um d'estes era a
+habitação ordinaria da rainha e deposito das consideraveis riquezas que esta
+recebia de todas as provincias do imperio; o outro, incimado por oito torres de
+consideravel altura, era um templo consagrado a Belo, e em cujo interior
+Semiramis tinha mandado collocar estatuas de oiro, de quarenta pés de altura,
+representando varias divindades. Todo o interior do templo era cheio de
+baixos-relevos com grande valor artistico, de magnificas estatuas e de vasos de
+oiro e de prata primorosamente trabalhados. A cidade era muito bella e cortada
+de lindas ruas e praças, ornadas de opulentos palacios; mas o que sobretudo
+maravilhava eram os jardins estabelecidos em terraços elevados sobre o
+Euphrates e sustentados por abobadas de altura prodigiosa. Ornados das mais
+bellas arvores, inriquecidos com abundancia das mais vistosas flores, eram
+cortados de limpidos arroios, alimentados por agua levada áquella altura por
+meio de aqueductos e de apparelhos ingenhosissimos. Davam ingresso no jardim
+suberbas escadarias,<span class="pn">{24}</span> ornadas de estatuas e de vasos
+preciosos, em que vegetavam as mais raras flores e arbustos de todos os paizes
+então conhecidos.</p>
+
+<p>Na construcção d'aquellas muralhas e de outras com que opulentou Babylonia,
+empregou Semiramis 2.000:000 homens durante muitos annos. Immortalizou-se
+aquella rainha, não só n'isso, mas tambem na sabia administração que exerceu
+nos seus estados e na organização dos seus exercitos, em que reinou sempre a
+disciplina mais rigorosa e mais severa e que ella em pessoa commandou muitas
+vezes.</p>
+
+<p>Tendo-se ausentado no commando de uma expedição destinada a alargar os
+limites dos seus estados, soube que na capital se estava urdindo uma
+conspiração para a depôr e substituil-a no governo por seu filho Ninias. Não
+quiz ella conservar pela força o throno, que ninguem lhe poderia disputar; e,
+intregando voluntariamente o governo ao filho, absteve-se de punir os
+conspiradores, e retirou-se do mundo. A população surprehendida e maravilhada
+pelo seu subito desapparecimento&mdash;que considerou
+sobrenatural&mdash;erigiu-lhe templos e prestou-lhe honras divinas.</p>
+
+<p>Ninias foi apenas um simulacro de rei. Passou a vida na ociosidade e na
+indolencia, e foi o primeiro que estabeleceu o governo do serralho.
+Seguiram-se-lhe trinta e tres reis que nada fizeram pelo bem do paiz e de que a
+Historia apenas faz menção. O ultimo foi Sardanapalo, cujo nome ficou lendario
+e serve para caracterizar os soberanos que põem de lado os cuidados da
+governação, para se darem tão sómente á ociosidade e aos prazeres physicos.
+Sardanapalo, indolente e crapuloso, estabeleceu a sua residencia em Ninive,
+onde passava a vida mettido n'um palacio, cercado de mulheres, cujos habitos e
+adornos imitava, deixando em Babylonia o governo intregue a valídos que de tudo
+dispunham. Nunca visto de seus subditos, sempre incerrado no palacio, onde
+passava as noites em libações e folgares, não lhe importavam nada os negocios
+publicos, e só tratava de esconder aos olhos dos subditos os seus ignominiosos
+habitos. Um dia Arbaces, governador da Média, surprehendeu-o no meio de um
+grupo de mulheres impudicas, trajando como ellas. Indignado por ver que tantos
+valorosos Assyrios estavam sujeitos a um monarcha desprezivel, revelou aos seus
+amigos os vergonhosos habitos de Sardanapalo, ligou-se com Belesis (governador
+da Babylonia), e ambos foram pôr cerco ao rei no proprio palacio em que
+habitava. Depois de tenue resistencia, Sardanapalo reduzido a circumstancias
+extremas, quiz apagar com um esforço supremo<span class="pn">{25}</span> de
+coragem a memoria da sua vergonhosa vida. Mandou accender n'um dos pateos
+interiores do palacio uma grande fogueira, na qual se queimou com suas
+mulheres, seus escravos e seus thesouros.</p>
+
+<p>Dos restos do imperio assyrio assim desfeito, formaram-se tres grandes
+reinos: o de Babylonia, o da Média, e o de Ninive ou da Assyria propriamente
+dita. De Babylonia tornou-se rei Belesis, que transmitiu o poder á sua
+dynastia, na qual só houve notavel o rei Nabonassar, que deu o seu nome a uma
+era especial começada no anno 747, e sob cujo governo a astronomia fez grandes
+progressos. Mais tarde cahiu Babylonia em poder dos reis de Ninive.</p>
+
+<p>Na quéda de Sardanapalo, o principal promotor d'ella, Arbaces, ficou senhor
+do reino da Média, e tentou concentrar alli a supremacia assyria sobre o resto
+da Asia. Deu certas franquias liberaes aos Medos, os quaes por si mesmos
+trataram de fazer leis, dividiram-se em seis tribus, e crearam juizes para lhes
+dirimirem os pleitos. Depois da morte de Arbaces, elegeram elles para rei a
+Dejoces, um dos seus juizes, que fundou a cidade de Ecbatane, onde se
+estabeleceu com sua familia e seu erario, e concentrou a parte mais importante
+da população, constituindo alli a capital da Média. Aquella cidade, pela sua
+opulencia e pelos seus monumentos, tornou-se em breve tão celebre como
+Babylonia e como Ninive.</p>
+
+<p>Dejoces teve por successor a Phraorto, ao qual succedeu seu filho Cyaxaro I,
+que conquistou a Persia. Desde então a historia da Média confunde-se com a do
+segundo imperio assyrio. Sobre a parte do antigo imperio assyrio, de que Ninive
+era capital, ficou reinando, por morte de Sardanapalo, Nino o <em>Moço</em>. Os
+seus successores tentaram reunir aos seus dominios Babylonia, o que chegaram a
+conseguir em tempo de Assar-Haddon. Entre os reis de Ninive, houve notaveis:
+Phul; Teglath-Phalasar, que conquistou Damasco; Salmanazar, que subjugou os
+Israelitas (como atraz vimos); e o terrivel Sennacherib. Reinando Sarac,
+Nabopolassar (governador da Babylonia) ligou-se com Cyaxaro I, rei dos Medos, e
+ambos foram pôr cerco a Ninive. Esta cidade foi tomada depois de uma sangrenta
+batalha, e completamente destruida. Assim acabou, depois de 1:800 annos de
+existencia, esta celebre e opulenta cidade. Nabopolassar tomou o titulo de rei
+da Babylonia, que se appropriou de toda a importancia e vantagens que
+desfructava Ninive e se tornou a capital do segundo imperio assyrio.</p>
+
+<p>Nabuchodonosor succedeu a seu pae Nabopolassar, tonando-se<span
+class="pn">{26}</span> celebre pela conquista do reino da Judéa e pela tomada
+de Jerusalem (cujos habitantes levou captivos para Babylonia) e por se haver
+apoderado da Phenicia e destruido a cidade de Tyro. Balthazar foi o ultimo rei
+do segundo imperio assyrio que, subjugado por Cyro, cahiu no dominio dos
+Persas.</p>
+
+<p>A civilização dos Assyrios e Babylonios foi uma das mais notaveis, não só da
+Antiguidade Oriental, mas tambem de toda a Historia Antiga. Ao passo que vão
+progredindo os estudos historicos e que se vão descobrindo novos monumentos,
+vai-se pondo cada vez mais em relevo a influencia que aquelles povos exerceram
+no Oriente e na cultura intellectual das populações da Grecia. A civilização
+dos Assyrios e a dos Babylonios apresentam-se-nos como uma só, quer isso fosse
+devido á commum origem dos dois povos, quer á mutua transmissão de
+conhecimentos e de usos nos tempos historicos, podendo dizer-se que havia então
+homogeneidade de meio. Apenas differem em pontos, a que os differentes
+caracteres dos dois povos imprimiam feições especiaes. Os Assyrios, por
+exemplo, eram sobretudo guerreiros, corajosos e intrepidos, incançaveis nos
+exercicios mais violentos e conquistadores insaciaveis; os Babylonios,
+comquanto tambem fossem bons soldados, tinham menos tendencia para a guerra de
+conquista, o que em parte dá a razão de ter sido tão pouco duradoiro o seu
+dominio. Os Babylonios representaram um papel muito importante no commercio da
+Asia. Na industria, elles e os Assyrios adeantaram-se consideravelmente,
+chegando a notavel perfeição, sobretudo no que tocava a tecidos preciosos, a
+ourivesaria, a loiça, a esmaltes, etc. De esculptura deixaram os Assyrios obras
+de alto valor e merecimento artistico, sempre admiradas e tidas como objectos
+de grande estimação.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION0025">CAPITULO IV<br>
+OS PHENICIOS</a> </h1>
+
+<p>Os Phenicios foram um dos povos mais notaveis da Antiguidade Oriental; mas,
+apezar d'isso, escasseiam bastante os documentos historicos directos da sua
+civilização. A Phenica comprehendia apenas uma estreita faixa de terreno, entre
+as faldas do monte Libano e o mar Mediterraneo. N'aquella apertada<span
+class="pn">{27}</span> zona teve a sua evolução um dos movimentos civilizadores
+da Antiguidade, cuja influencia se sente de modo consideravel na Historia
+Antiga e chega ainda até nós, por meio do alphabeto, pelos Phenicios inventado
+e propagado.</p>
+
+<p>Os Phenicios são geralmente considerados como um povo pertencente á raça
+chamitica, tendo grandes affinidades com as tribus cananéas que, uns vinte e
+quatro seculos antes de Christo, se estabeleceram, disseminando-se, nos valles
+do Jordão e do Oronte, e nas margens do Mediterraneo. Comtudo elles falavam uma
+lingua da familia dos semitas, muito similhante á dos Hebreus,&mdash;e as suas
+relações com os povos semiticos da Palestina foram sempre muito estreitas.</p>
+
+<p>Em nenhuma epocha da sua historia apparecem os Phenicios com uma unidade
+nacional caracterizada, como os povos de que anteriormente tratámos. Viveram
+sempre em cidades separadas, com chefes independentes, de jurisdicção limitada
+a certa porção de territorio. Era o ultimo limite da descentralização
+governativa. Comtudo sempre uma cidade exerceu hegemonia entre todas as outras
+povoações phenicias. As duas cidades que, como grandes centros politicos e
+commerciaes, exerceram successivamente essa hegemonia foram Sidon e Tyro. D'ahi
+provêm a divisão da historia da Phenicia em dois periodos: o <em>sidonio</em> e
+o <em>tyrio</em>.</p>
+
+<p>No primeiro periodo, Sidon (que foi a mais antiga das cidades phenicias de
+que ha memoria nos livros dos historiadores) exerceu a supremacia da influencia
+sobre as demais populações, organizou grandes expedições maritimas e teve um
+grande movimento de expansão colonizadora. Thutmés I, rei do Egypto, fez
+acceitar pelos Phenicios a sua suzerania; mas esse facto foi-lhes antes util do
+que prejudicial, porque lhes proporcionou a faculdade de commerciarem no
+Egypto, passando a estabelecer feitorias nas cidades do <em>delta</em>, e
+chegando até a terem uma colonia sua estabelecida n'um bairro especial de
+Memphis, por elles exclusivamente habitado. N'essa epocha navegaram por todo o
+oriente do Mediterraneo, e chegaram até Chypre, sendo com o auxilio d'elles que
+esta ilha ficou submettida ao dominio dos Egypcios. As suas tendencias e
+habitos commerciaes levaram-n'os á ilha de Creta, á Cilicia e até ao Mar-Negro,
+estabelecendo por toda a parte colonias e feitorias. No Occidente alargaram-se
+pelo littoral do norte da Africa e estabeleceram colonias nos territorios em
+que hoje existem as regencias de Tripoli e de Tunis. Cruzando-se alli com a
+população indigena, deram origem ao povo dos liby-phenicos, que chegaram a
+adquirir importancia<span class="pn">{28}</span> na Antiguidade. Pelo interior
+da Asia extenderam as suas relações commerciaes até ao rio Tigre e á Arabia.
+</p>
+
+<p>Pelo seculo <small>XIII</small> antes da era christan os Phenicios de Sidon
+tinham chegado ao maximo estado de adeantamento e de influencia. Foram então
+victimas dos Philisteus, que se haviam estabelecido entre a Phenicia e o
+Egypto. Sidon foi tomada e destruida por estes; e a hegemonia phenicia passou
+depois para Tyro, começando então o segundo periodo da historia d'este povo.
+</p>
+
+<p>N'esse novo periodo, Tyro, succedendo a Sidon como centro do dominio
+colonial dos Phenicios, elevou-o bem depressa ao auge da prosperidade. A
+direcção, porêm, que imprimiu ao movimento de expansão colonizadora teve que
+ser diversa. As populações gregas tinham-se ido desinvolvendo pelas duas
+margens do mar Egeu, e não só obstaram a que os Phenicios fossem por alli
+estabelecendo novas colonias, mas chegaram a desalojál-os de algumas posições
+adquiridas. Por isso os Tyrios tiveram que abandonar aquelle caminho e trataram
+de espalhar-se para os lados do occidente do Mediterraneo, que ainda estava
+desimbaraçado. Foi assim que se occuparam em estabelecer colonias e feitorias
+na Sicilia, na Sardenha, na Corsega, em Malta, nas ilhas Baleares, nas costas
+da Gallia, e nas da peninsula iberica, ao mesmo tempo que na margem meridional
+do mesmo mar alargaram tambem os seus dominios, fundando as cidades de Utica e
+de Hippona. Por fim, transpuseram o estreito hoje chamado de Gibraltar, indo
+fundar estabelecimentos pela costa occidental da Europa, onde se suppõe que
+chegaram ás costas da Gran-Bretanha, e indo tambem para o sul, onde talvez
+chegassem a aportar ás ilhas Canarias e ás de Cabo-Verde.</p>
+
+<p>Então o poderio phenicio chegou ao maximo esplendor e teve a sua edade de
+oiro. Reinava Hirão I, que foi contemporaneo dos reinados de David e de Salomão
+nos Hebreus. Com estes reis teve elle alliança e por tal modo promoveu a
+grandeza phenicia, que a influencia d'esta chegou a sentir-se consideravelmente
+em Jerusalem, onde Astarte (uma divindade dos Phenicios) teve culto, sendo esse
+um dos actos de idolatria, com que por vezes os Israelitas offenderam a Deus.
+</p>
+
+<p>Logo depois se começou, porêm, a manifestar a decadencia da Phenicia. Duas
+causas poderosas concorreram para ella: as luctas civis dentro de Tyro, com
+successivas revoluções, e os progressos das navegações e da colonização dos
+Gregos que vieram a deslocar as dos Phenicios. N'uma d'aquellas resoluções, que
+occorreu durante a menoridade do rei Pygmalião,<span class="pn">{29}</span> foi
+assassinado o regente do estado e teve que expatriar-se sua viuva Elisa, que
+com os seus partidarios foi para a Africa, onde fundou a cidade de Carthago.
+Esta Elisa é a rainha que figura com o nome de Dido na <em>Eneida</em> de
+Virgilio.</p>
+
+<p>A diminuição do dominio no exterior e a fraqueza do poder no interior,
+fizeram que a Phenicia fosse successivamente invadida pelos Assyrios, pelos
+Babylonios e pelos Egypcios. Do dominio d'estes tres povos passou depois ao dos
+Persas, a que se submetteu voluntariamente, e porfim veio a ser conquistada por
+Antigono, um dos generaes de Alexandre Magno, que a assediou com uma numerosa
+frota e a venceu, passando ella ao dominio d'aquelle imperador, que substituiu
+na Asia a dominação dos Persas.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION0026">CAPITULO V<br>
+OS CARTHAGINEZES</a> </h1>
+
+<p>Crê-se geralmente que a cidade de Carthago foi fundada, (como acima
+dissémos) por Dido, pelos annos 888 antes da era christan; comtudo ha quem
+affirme que ella havia sido edificada antes, pelos annos 1059, por uma colonia
+phenicia de Tyro.</p>
+
+<p>Seja como fôr, o que é certo é que os Carthaginezes apparecem-nos, pelos
+annos de 540 antes de Christo, constituindo já uma republica de certa
+importancia. N'essa epocha alliaram-se com os Etruscos e forneceram-lhes trinta
+navios para o ataque da Corsega.</p>
+
+<p>A republica de Carthago tinha um senado e duas assembléas populares, que
+elegiam os magistrados incarregados da administração civil e os generaes
+incumbidos do commando dos exercitos. O senado era formado por todos os
+cidadãos notaveis por sua edade, nascimento, riqueza ou merito pessoal.</p>
+
+<p>Carthago, nas suas guerras, empregava unicamente soldados extrangeiros
+assalariados, para não despovoar a republica que occupava apenas uma limitada
+área de 75 leguas quadradas, e para que os seus cidadãos não abandonassem o
+commercio, que era a fonte da riqueza e do poderio do estado. A Numidia e a
+Hespanha forneciam-lhe a sua cavallaria;<span class="pn">{30}</span> a Gallia,
+a Liguria e a Grecia, a sua infanteria; e as ilhas Baleares, os seus
+fundibularios, tão notaveis pela destreza.</p>
+
+<p>Os Carthaginezes foram senhores da Sardenha; tiveram estabelecimentos seus
+na Hespanha e na costa da Sicilia. Eram habeis e ousados navegadores,&mdash;o
+que, junto á vantajosa posição geographica de Carthago, foi causa do seu
+ingrandecimento e riqueza.</p>
+
+<p>Durante dois seculos viveram em paz com os Romanos, com os quaes celebraram
+tratados, que estabeleciam os limites reciprocos da navegação e regulavam o
+commercio entre aa duas republicas. Mas a crescente prosperidade de Carthago
+começou a inspirar inveja aos Romanos, e esse sentimento mais tarde ou mais
+cedo devia accender a guerra entre as duas nações. Foi o que succedeu.</p>
+
+<p>Tendo-se originado guerra na Sicilia entre os Mammertinos e Hierão (rei de
+Syracusa), pediram os primeiros soccorro aos Romanos, emquanto Hierão recorreu
+ao auxilio dos Carthaginezes. Tal foi a causa das guerras entre Carthaginezes e
+Romanos, conhecidas pelo nome de <em>guerras punicas</em> (do latim
+<em>P[oe]eni</em>, que a principio queria dizer «<em>Phenicios</em>», mas que
+mais tarde se ampliou em significação, comprehendendo os Carthaginezes). Houve
+tres <em>guerras punicas</em> designadas por sua ordem chronologica: primeira,
+segunda e terceira.</p>
+
+<p>A primeira guerra punica durou do anno 264 a 241 antes de Christo. N'ella os
+Romanos, comquanto muito menos prácticos do que os Carthaginezes na arte de
+navegar, começaram por uma brilhante victoria naval. Perto das ilhas de Lipari,
+batteram a frota de Carthago e metteram-n'a a pique. A frota romana era
+commandada por Duilio Nepote, a quem por isso Roma ergueu uma estatua. Cornelio
+Scipião, general romano, expulsou os Carthaginezes da Corsega e da Sardenha. E
+Regulo, depois de tomar Chypre, chegou triumphante deante de Carthago; mas,
+vencido por sua vez por Xantippo (general lacedemonio que fôra em soccorro dos
+Carthaginezes), foi aprisionado. Inviado, sob palavra, a Roma para que
+negociasse a troca dos prisioneiros, Regulo aconselhou, pelo contrario, o
+senado a que não intrasse em taes negociações,&mdash;pelo que, voltando a
+Carthago, soffreu morte cruel.</p>
+
+<p>Metello, outro general romano, expulsou os Carthaginezes da Sicilia; mas,
+emquanto isto se passava, a frota romana, commandada por Claudio Pulcher, era
+completamente destruida junto de Lilybea. Por fim, depois de uma grande
+victoria dos Romanos, commandados pelo consul Luctacio, sobre os Carthaginezes
+sob o mando de Amilcar, celebrou-se<span class="pn">{31}</span> a paz com a
+condição dos segundos cederem aos primeiros todas as ilhas situadas entre a
+Italia e a Africa e pagarem-lhes durante dez annos um tributo annual de 2:200
+talentos.</p>
+
+<p>A segunda guerra punica teve a seguinte origem. Os Carthaginezes, para
+compensação das perdas soffridas em resultado da primeira guerra, trataram de
+alargar os seus dominios na peninsula hispanica. Amilcar Barcas subjugou uma
+grande parte d'ella e Asdrubal edificou Carthagena. Os Romanos, que não podiam
+ver com bons olhos o novo ingrandecimento dos seus rivaes, começaram a
+inquietar-se com aquellas conquistas e exigiram dos Carthaginezes que firmassem
+tratados, pelos quaes se obrigassem a não extender as suas conquistas alêm do
+Ebro e a respeitarem Sagunto, que era alliada de Roma. Mas Annibal, filho de
+Amilcar, depois de se haver apoderado de varias outras povoações, poz cêrco a
+Sagunto e deatruiu-a. Isso foi motivo para a segunda guerra punica.</p>
+
+<p>Annibal, tomando a offensiva, invade a Italia e ganha differentes victorias,
+chegando Roma (não obstante o talento do pro-dictador Fabio) a estar seriamente
+ameaçada. Mas o senado de Carthago hesitou em mandar a Annibal os soccorros
+pedidos; este teve que procurál-os na Sardenha, na Sicilia e na Macedonia, e
+mandou ir da Hespanha seu irmão Asdrubal com um novo exercito de Hespanhoes e
+de Gaulezes. A desorganização, a heterogeniedade d'estes elementos, e a sua
+indisciplina, valeram aos Romanos nas apertadas circumstancias a que haviam
+chegado. Alêm d'isso o soccorro levado por Asdrubal não poude chegar ao seu
+destino, porque aquelle general, detido no caminho por um exercito romano sob o
+mando dos dois consules, teve que dar-lhe batalha em que morreu, sendo
+desbaratada toda a sua gente.</p>
+
+<p>Entretanto Publio Scipião com um exercito romano passou a Africa e foi
+cercar a propria cidade de Carthago. Annibal teve que deixar a Italia para
+acudir em soccorro da capital da sua patria, e alli foi derrotado nas planicies
+de Zama. Passou-se isto no anno 202 antes da era christan. Esta victoria de
+Scipião poz termo á segunda guerra punica.</p>
+
+<p>No seu regresso a Roma, Scipião foi alvo das mais esplendidas ovações, e
+deram-lhe o cognome de <em>Africano</em>.</p>
+
+<p>Depois da paz de Zama, pode dizer-se que a existencia de Carthago foi uma
+lenta agonia. Massinissa, rei da Numidia, expoliou-a de muitas povoações e de
+grande extensão de territorio; os Carthaginezes appellaram para Roma, porque
+Massinissa era alliado dos Romanos; mas o senado de Roma, promettendo-lhes<span
+class="pn">{32}</span> justiça, deixou que aquelle rei permanecesse na posse
+dos territorios de que se tinha apoderado. Para apparentar uma arbitragem,
+inviou Catão a Carthago; mas este, vendo a cidade rica e prospera, sentiu
+reviver o odio contra a rival de Roma. E voltando, sempre terminava os seus
+discursos no senado pela phrase, que ficou celebre: <em>delenda Carthago</em>
+(«deve ser destruida Carthago»). Tendo os Carthaginezes repellido um novo
+ataque de Massinissa, Roma pretextou que houvera violação do tratado de paz de
+Zama e declarou a terceira guerra punica, que, depois de varia sorte, terminou
+por um cêrco a Carthago, no qual os Carthaginezes foram reduzidos pela fome.
+Scipião Emilio, o segundo <em>Africano</em>, general romano, tomou a cidade e
+arrazou-a. Commissarios do senado de Roma tomaram posse do territorio
+carthaginez e fizeram d'elle uma provincia romana, com o nome de
+<em>Africa</em>. Foi isto no anno 146 antes de Christo.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION0027">CAPITULO VI<br>
+OS SYRIOS</a> </h1>
+
+<p>Nada se conhece ao certo dos tempos primitivos da historia da Syria. A
+historia dos seus reis confunde-se inteiramente n'aquella epocha com a dos
+monarchas assyrios. Até ao desmembramento dos estados de Alexandre, a Syria foi
+successivamente invadida pelos reis de Ninive, pelos de Babylonia, pelos Persas
+em tempo de Cyro, e finalmente pelo dito Alexandre. Depois da morte d'este,
+Nicator Seleuco (um dos seus generaes) começou a fundação do grande reino da
+Syria, appellidado tambem «reino dos Seleucidas» do nome do seu fundador. A
+Nicator Seleuco succedeu no throno Antiocho Soter, que bateu os Bithyneos, os
+Macedonios e os Galates.</p>
+
+<p>O rei mais celebre da Syria foi Antiocho, cognominado o <em>Grande</em>.
+Depois de ter conquistado a Judéa, a Phenicia e diversos outros paizes,
+concebeu o plano de submetter ao seu dominio as cidades livres da Grecia
+asiatica, Lampsaco, Smyrna e outras. Pediram estas cidades soccorro aos
+Romanos, e estes inviaram embaixadores a Antiocho, convidando-o a que deixasse
+aquellas cidades em paz e a que restituisse a Ptolomeu Philadelpho o territorio
+que por conquista lhe tinha tirado. Antiocho respondeu, declarando guerra aos
+Romanos. Seguiu-se uma lucta em que aquelle rei foi vencido por Scipião<span
+class="pn">{33}</span> o <em>Asiatico</em>, que só lhe concedeu a paz depois
+d'elle haver dado satisfacção aos Romanos. Mais tarde Antiocho Epiphanes
+usurpou a Demetrio o throno da Syria; teve varias guerras com os extrangeiros e
+tomou Jerusalem. N'aquella cidade mandou matar grande numero de habitantes,
+roubou os vasos sagrados do templo; e, voltando á Syria, deixou a Judéa
+governada, em seu nome, por seus generaes, que exerceram muitas perseguições
+contra os Judeus. Ordenou por uma lei que todos os povos sujeitos ao seu
+imperio usassem as mesmas superstições gentilicas seguidas n'este; e, depois de
+ter profanado o templo de Jerusalem, mandou n'elle collocar uma estatua de
+Jupiter Olympico. Por medo das perseguições, muitos Judeus abandonaram o culto
+do verdadeiro Deus e lançaram-se no seio da idolatria; outros, fieis ás suas
+crenças e ás suas leis, soffreram por isso tormentos crueis. Alguns d'estes
+tornaram-se muito notaveis, pela sua corajosa resistencia ás ordens do
+conquistador, e pelo valor com que soffreram o martyrio. O velho Eleazar, varão
+de mais de 90 annos, foi apresentado em Antiochia ao rei Antiocho, como réu de
+observar a lei moysayca e de não querer sacrificar aos falsos deuses. Não sendo
+possivel obrigál-o a comer das carnes prohibidas nem a fingir que o fazia, foi
+cruelmente martyrizado. Septe irmãos, conhecidos pelo nome de «Irmãos
+Machabeus», juntamente com sua mãe, que os exhortava á perseverança na lei e na
+fé, soffreram os mais atrozes supplicios até expirarem, desprezando as
+promessas e as ameaças com que o rei os queria vencer.</p>
+
+<p>Mathatias (sacerdote da tribu de Levi), sendo já de edade muito avançada,
+matou a um israelita que na sua presença, obedecendo ás ordens de um soldado de
+Antiocho, ia para Sacrificar aos falsos deuses, e em seguida matou tambem o
+mesmo soldado. Feito isto, retirou-se com seus cinco filhos Judas Machabeu,
+João, Simão, Eleazar e Jonathas; e, juntando os Judeus que ainda seguiam o
+verdadeiro Deus, foi restabelecendo por toda a parte o verdadeiro culto e
+derrubando os altares e estatuas dos falsos deuses. Cahindo doente, recommendou
+á hora da morte aos filhos que com as armas defendessem a patria e a religião
+contra os tyrannos. Judas Machabeu tomou logo o commando das tropas; e, com
+grande valor, foi lançando fóra da Judéa os Syrios. Venceu varios generaes de
+Antiocho em differentes batalhas, e reparou e purificou o templo de Jerusalem.
+Morreu entretanto Antiocho; e, ainda depois d'isso, Judas Machabeu proseguiu na
+guerra contra os Syrios, dos quaes libertou completamente a Judéa.</p>
+
+<p>O ultimo rei da Syria foi Antiocho II. No seu tempo, o reino<span
+class="pn">{34}</span> da Syria, que tinha durado por 238 annos, cahiu em poder
+de Roma, da qual ficou sendo uma provincia.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION0028">CAPITULO VII<br>
+OS PERSAS</a> </h1>
+
+<p>É extremamente obscura e confusa a historia dos Persas anterior a Cyro, que
+viveu no seculo <small>VI</small> antes da era christan. Está intimamente
+ligada á dos Médos.</p>
+
+<p>Cyro era filho de Cambyses, rei da Persia, tributario dos Médos, de cujo rei
+Cyaxaro II era sobrinho.</p>
+
+<p>Pela morte de Cambyses e Cyaxaro, Cyro succedeu-lhes nos governos e reuniu o
+obscuro reino da Persia ao da Média. Sob o seu governo, foi a Persia um grande
+imperio, ao qual estiveram sujeitos a Grande Asia, a Asia Menor, a Syria e a
+Arabia.</p>
+
+<p>A Cyro succedeu seu filho, tambem chamado Cambyses. Sob o mando d'este
+soberano ainda mais cresceu o poderio da Persia, que se accrescentou com a
+conquista do Egypto. A causa da guerra entre as duas nações foi Cambyses ter
+pedido a Amasis (rei do Egypto) sua filha em casamento, e este, inganando-o,
+ter-lhe inviado, em vez d'ella, a filha de Apriés. Para tirar vingança de tal
+affronta, Cambyses introu no Egypto, incontrou-se perto de Pelma com o exercito
+egypcio, commandado por Psammenito (filho e successor de Amasis), batteu-o e
+desbaratou-o. Depois apoderou-se de Memphis e de Sais; e em seguida imprehendeu
+a conquista da Ethiopia. Para isso seguiu o curso do Nilo até Thebas, e d'alli
+destacou 50:000 homens do seu exercito para irem combater os Ammonitas e
+queimar o templo de Jupiter; mas aquella gente, tres dias depois da sahida de
+Thebas, ficou toda sepultada nas areias do deserto, levantadas e revoltas por
+um tremendo furacão. Tambem Cambyses se viu impedido de continuar a sua marcha
+sobre a Ethiopia, por haver perdido, em resultado do calor e de privações de
+todo o genero, as tres quartas partes do seu exercito e por ter depois soffrido
+uma horrivel fome, durante a qual os soldados se devoravam uns aos outros.</p>
+
+<p>Cambyses no principio mostrára-se no Egypto com disposições para usar de uma
+politica de conciliação para com os<span class="pn">{35}</span> vencidos,
+chegando a adoptar os titulos e os trajos dos antigos Pharaós, e fazendo-se
+iniciar nos mysterios de Osiris. Porém, depois do mallogro das suas tentativas
+contra a Ethiopia e contra os Ammonitas, mudou completamente de systema e
+mostrou-se animado de grande intolerancia e ferocidade. Saqueou e incendiou as
+cidades e os templos; mandou assassinar os sacerdotes do boi Apis, o qual por
+sua propria mão apunhalou; destruiu por toda a parte as imagens dos deuses; e
+por fim sahiu do Egypto para se recolher á Persia. Quando chegou á Syria,
+rebentou a revolta do falso Smerdis, um impostor que se inculcava como o irmão
+de Cambyses (que este assassinára logo nos primeiros tempos do seu reinado).
+Apressou-se em ir desmascarar o rebelde que usurpava o nome de seu irmão, que
+elle sabia estar morto; mas, ferindo-se n'uma perna ao montar a cavallo, d'esse
+ferimento lhe resultou a morte, succedida logo depois da intrada na Persia.</p>
+
+<p>Herodoto e outros historiadores pintam este Cambyses como um monstro de
+ferocidade, e contam d'elle varios feitos atrozes, como o de ter assassinado
+com um ponta-pé dado no ventre a sua irman Meroé (com quem tinha casado,
+conforme ao uso da Persia, e que d'elle estava gravida).</p>
+
+<p>Morto Cambyses, succedeu-lhe no throno o falso Smerdis, que continuou a
+fazer-se passar por seu irmão, e que era simplesmente o irmão de um mago, a
+quem estava incumbida a administração do palacio real. Conseguiu reinar oito
+mezes; mas, passados elles, septe dos mais poderosos chefes persas urdiram uma
+conspiração, desmascararam-n'o, deram-lhe a morte, e acclamaram rei o mais
+illustre entre elles (Dario, filho de Hystapes).</p>
+
+<p>No reinado de Dario os Babylonios revoltaram-se, e foram reduzidos á
+obediencia pelo estratagema de um official persa chamado Zopiro que, havendo
+mutilado voluntariamente o rosto, foi persuadir os Babylonios de que tinha sido
+victima da crueldade de Dario. Admittido na cidade, abriu as portas ao exercito
+persa. Dario intentou depois subjugar os Gregos; inviando contra elles um
+numeroso exercito, commandado por seu genro Mardonio, exercito que foi
+desbaratado por Milciades na planicie de Marathona. Quando Dario tinha
+apparelhado novo exercito e se dispunha para segunda expedição, foi
+surprehendido pela morte.</p>
+
+<p>Seu filho Xerxes, que lhe succedeu, poz-se á frente d'aquelle numeroso
+exercito, cuja força alguns historiadores elevam a 1.700:000 homens, e de uma
+esquadra de 1:200 navios,<span class="pn">{36}</span> dirigiu-se a atacar a
+Grecia para vingar a derrota de seu pae em Marathona; mas foi completamente
+derrotado na batalha de Salamina, e teve que tornar a passar o Hellesponto. No
+anno seguinte, novo exercito, commandado por Mardonio e inviado com egual
+intento contra a Grecia, foi desfeito junto de Platéa por Pausanias (general da
+Lacedemonia), e por Aristides. Xerxes veio a morrer assassinado, no vigessimo
+anno de governo, por Artabano (capitão da sua guarda). Succedeu-lhe seu filho
+Artaxerxes que, constrangido por Cimon (filho de Milciades), que o venceu perto
+de Chypre, teve que dar a liberdade aos Gregos da Asia.</p>
+
+<p>Depois d'elle reinou Dario II, que se alliou com Sparta contra Athenas; e a
+este succedeu Artaxerxes Mnemon, cujo irmão, Cyro o <em>Moço</em>, se revoltou
+contra elle, com o concurso de tropas gregas, terminando a revolta pela batalha
+de Cunaxa, em que aquelle principe foi morto, facto a que se seguiu a celebre
+«retirada dos dez mil» picturescamente descripta pelo historiador Xenophonte.
+</p>
+
+<p>Pela paz de Antalcidas os Gregos da Asia tornaram a cahir sob o jugo dos
+Persas&mdash;cujo imperio se ia, comtudo, progressivamente infraquecendo. O
+ultimo rei foi Dario Codomano, no principio de cujo governo foi a Persia
+invadida pelas tropas de Alexandre Magno, o qual, nas tres batalhas de Granico,
+do Isso, e de Arbella, destruiu todo o poder d'aquella nação, que na ultima
+d'ellas se rendeu á discreção do vencedor.</p>
+
+<p>Durante seis seculos permaneceu a Persia confundida no immenso imperio dos
+Parthos; mas, no anno 228 da era actual, Artaxerxes, filho de um simples
+soldado, tendo-se elevado pelos seus meritos ás mais altas dignidades, levantou
+os Persas contra Artabano, ganhou diversas victorias e, sendo acclamado rei,
+fundou o segundo imperio persa. Depois de haver reinado treze annos, com muito
+discernimento e prestigio, morreu, legando a corôa a seu filho Sapor. Este
+devastou a Mesopotamia, a Syria e a Cilicia; e ter-se-ia tornado senhor de toda
+a Asia, se Odenato, rei de Palmyra e alliado dos Romanos, não tivesse obstado á
+continuação das suas victorias e conquistas. Aprisionou o imperador romano
+Valeriano ao qual, depois de o conservar por algum tempo captivo, mandou
+esfollar em vida. Sapor foi, por sua vez, vencido por Odenato; e, tendo
+regressado aos seus estados, foi pouco depois assassinado. Depois d'estes
+acontecimentos foi successivamente infraquecendo o segundo imperio persa. No
+seculo <small>IV</small> da era christan Sapor II tornou a fortalecêl-o com
+suas conquistas,<span class="pn">{37}</span> mas por pouco durou essa epocha de
+renascimento. O imperio recahiu bem depressa, e a decadencia foi progredindo
+até ao momento em que no seculo <small>VII</small> a Persia foi subjugada pelos
+Arabes.</p>
+
+<p>Os Persas foram celebres no tempo de Cyro pela sua austeridade e pela sua
+coragem. As creanças (segundo conta Platão) recebiam uma educação propria para
+d'ellas formar bons cidadãos, uteis á patria. Até á edade de dezesete annos
+permaneciam fóra da casa paterna, intregues a educadores, especialmente
+incumbidos de lhes inocularem no espirito os dictames da coragem e da virtude.
+</p>
+
+<p>O imperio era dividido em provincias, governada cada uma por um
+<em>satrapa</em>, que recebia directamente ordens do rei. Era tida em especial
+consideração a agricultura, e muito honrados os que a exerciam; os cultivadores
+mais activos e laboriosos eram recompensados e admittidos uma vez em cada anno
+á mesa do soberano. A administração da justiça estava confiada a varões sabios
+e prudentes, e os juizes que prevaricavam eram punidos com a pena de morte. A
+legislação não se limitava a comminar penas contra os crimes e delictos;
+tratava tambem de os evitar, inspirando o horror ao vicio e o amor á virtude.
+</p>
+
+<p>Os Persas eram monotheistas; adoravam uma só divindade, que era Mithra (o
+Sol); os emblemas da omnipotencia do Creador eram entre elles os fogos
+sagrados, mantidos com o maior respeito e solicitude. Os <em>magos</em>, ou
+sacerdotes, eram homens notaveis pelo seu saber, pela sua gravidade e pela
+austeridade da sua vida; eram os sabios e os jurisconsultos da nação.</p>
+
+<p>Depois da epocha de Cyro, intregaram-se os Persas a todos os excessos de
+devassidão; dissolveu-se a disciplina do exercito; os grandes da nação
+abandonaram a existencia viril, que os distinguia, e cahiram na inacção e na
+ociosidade, o que foi uma das principaes causas da decadencia e da quéda, do
+imperio.<span class="pn">{38}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION0029">CAPITULO VIII<br>
+OS INDIOS</a> </h1>
+
+<p>Dá a Geographia a denominação de India a uma extensa peninsula, situada ao
+sul da cordilheira do Himaiaya, que é uma das de maior altitude no mundo.
+Divide-se a peninsula em tres regiões differentes:&mdash;1.ª, o
+<em>Hindustão</em> propriamente dito, constituido pelo territorio das duas
+bacias do Indo e do Ganges;&mdash;2.ª, o <em>Deccan</em>, peninsula situada ao
+sul d'aquella região e que termina no cabo Comorim;&mdash;3.ª, a <em>India
+central</em>, constituida pela zona de planaltos, que se extende, do occidente
+para o oriente, desde o mar de Oman até ao golpho de Bengala.</p>
+
+<p>As populações que habitam a vasta peninsula indiana podem classificar-se do
+seguinte modo:&mdash;a raça aryana, ou hindú (Gujarati, Bengali, etc.), que é a
+que predomina no Hindustão; a raça dravidica (Tamul, Telinga, Karnataka, etc.),
+predominante no Deccan; os restos das raças primitivas (Ghond, Bhilla, Kolaria,
+etc.), estabelecidos nas diversas regiões da India central.</p>
+
+<p>A historia da raça aryana divide-se em quatro periodos, que podem chamar-se:
+<em>vedico</em>, <em>epico</em>, <em>brahmanico</em> e <em>buddhico</em>.</p>
+
+<p>No <em>periodo vedico</em>, e em epocha que não pode determinar-se com
+precisão, uma parte do grupo dos Aryas orientaes destacou-se, constituiu uma
+nação á parte (os <em>Hindus</em>), que se dirigiu para o valle de Cabul
+(antigamente, Kubha), atravessou o rio Indo e extendeu-se pelas campinas de
+Pendjab (antigamente, Panchanada).</p>
+
+<p>Grande numero dos hymnos que figuram no celebre <em>Rig-Veda</em> referem-se
+a factos, que se passaram n'este primeiro periodo historico, caracterizado pela
+immigração e pelo primitivo estabelecimento da raça aryana em terras da India.
+Quando esta raça alli chegou, incontrou o territorio occupado por differentes
+populações que, ou eram aborigenes, ou pelo menos tinham longo tempo de
+habitação n'aquellas paragens. Parte d'estas populações foi absorvida e
+assimilada pela raça invasora; outra parte foi pouco a pouco destruida em
+luctas porfiadas de seculos. A principio os Aryas não formavam uma nação unica,
+mas conservaram-se por muito tempo<span class="pn">{39}</span> divididos n'um
+certo numero de tribus, as mais notaveis das quaes foram a dos
+<em>Bharatas</em>, a dos <em>Iksuakus</em> e a dos <em>Pauravas</em>, que
+chegaram ainda independentes até ao periodo historico seguinte, e vieram a ser
+troncos das poderosas dynastias que então se estabeleceram em terras do
+Hindustão.</p>
+
+<p>Durante todo o periodo vedico o viver dos Hindus teve a natureza pastoril, e
+a sua organização sociologica distinguiu-se pelo caracter patriarchal. Ainda
+entre elles não havia o regimen das castas, que só mais tarde veio a apparecer.
+</p>
+
+<p>O periodo <em>epico</em> ou <em>heroico</em> decorreu desde que os primeiros
+hindus intrados na India passaram o rio Sarasuati até que, deslocando-se
+progressivamente, chegaram á foz do Ganges. Este periodo foi caracterizado pela
+immigração continuada e pelas luctas entre os que primeiro tinham occupado uma
+localidade e os que, vindo mais tarde, os obrigavam a abandonal-a e a progredir
+na immigração.</p>
+
+<p>Deu-se durante este periodo um curioso phenomeno historico. Chegando os
+primeiros hindus á peninsula indiana, por muito tempo limitaram a sua occupação
+a uma zona de territorio que tinha por limite oriental o rio Sarasuati. Novas
+tribus, descendo tambem o valle de Cabul, obrigaram as primeiras, que tinham
+começado a estabelecer-se nas planicies de Pendjab, a abandonar as posições
+primitivas e a ir successivamente immigrando de localidade em localidade. Isto
+deu como resultado o phenomeno de uma enorme massa de população a deslocar-se,
+com movimento lento e secular ao longo de uma vasta região, até que esse
+progredir parou na imboccadura do Ganges.</p>
+
+<p>Estas deslocações successivas originaram grandes guerras entre as
+differentes tribus; e não só essas luctas, mas tambem as que houve entre os
+Hindus e os povos que primitivamente occuparam aquelles territorios,
+assignalaram todo o periodo epico. A mais antiga das luctas conhecidas entre as
+tribus aryanas é designada na Historia por «guerra dos dez reis», e deu-se
+entre a tribu dos Bharatas (cabeça de uma confederação de dez nações, que tinha
+por chefe o celebre Vishuamitra) e a tribu dos Tritsus (a que presidia o
+egualmente celebre Vasista). Esta ultima tribu havia passado o Sarasuati antes
+da das dez nações; e depois, tendo occupado territorio, oppunha-se á passagem
+d'ella, que ia invadir-lh'o. Por occasião d'aquella guerra, conseguiu deter o
+movimento dos rivaes; mas mais tarde viu-se obrigada a ceder o logar perante o
+impeto, cada vez mais irresistivel, de novas ondas de população que invadiam a
+India.<span class="pn">{40}</span></p>
+
+<p>Ao passo que as tribus invasoras iam occupando definitivamente territorios e
+iam assentando posições, iam-se formando dynastias. As duas mais importantes
+d'este periodo foram: a chamada <em>Solar</em>, que reinou sobre os Tritsus ou
+Kosalas e teve a sua capital em Ayodhia; e a <em>Lunar</em>, que reinou sobre
+os Bharatas e teve a sua capital em Hastinapura. Entre dois ramos da dynastia
+<em>Lunar</em> houve uma tremenda guerra; foi entre os Kurus e os Pandus.
+Depois de varias phases que a grande lucta apresentou, os Kurus foram por fim
+inteiramente desbaratados pelos Pandus, que ficaram reinando em Hastinapura.
+Com esta guerra terminou o periodo epico ou heroico.</p>
+
+<p>No <em>periodo brahmanico</em> os Pandus, vencidos os Kurus, ficaram
+constituindo uma poderosa dynastia, á qual foi facil, com o andar dos tempos,
+subjugar as diversas populações aryanas que occupavam aquella região. Formada
+assim uma grande e opulenta nacionalidade, em breve esta se sentiu naturalmente
+animada de tendencia expansiva, mandando successivas expedições a colonizar o
+Deccan, o qual tentou conquistar arrancando-o ás nações dravidicas, que até
+então o haviam occupado. A historia d'estas guerras deu assumpto ao grande
+poema indio o <em>Ramayana</em> que tem por thema fundamental a conquista do
+sul da India e da ilha de Lanká (hoje Ceylão) pelos Aryas. Nada, porêm,
+positivo se apura n'aquelle poema com respeito aos factos intimos da referida
+guerra,&mdash;porque o caracter do <em>Ramayana</em> é inteiramente mythico; e
+só um grande esforço de interpretação chega a explicar os seus episodios e a
+significação dos seus personagens.</p>
+
+<p>Alêm d'aquellas expedições, o interesse historico d'este periodo da historia
+antiga da India concentrou-se todo na nova constituição social que n'esta
+despontou e se veio a firmar e radicar com o tempo. A classe dos guerreiros,
+que até então fôra a primeira em categoria e consideração, cedeu o logar á dos
+sacerdotes, que ficou sendo a aristocratica e preponderante. O regimen que
+desde aquella epocha dominou na India, e que ainda hoje alli tem profundas
+raizes, é o chamado <em>regimen das castas</em>. Por esse regimen a sociedade é
+dividida na India em quatro classes, religiosa e intransigentemente fechada
+cada uma d'ellas a elementos extranhos, e dispostas hierarchicamente na fórma
+seguinte:&mdash;1.ª a dos <em>brahmanes</em> ou sacerdotes;&mdash;2.ª a dos
+<em>kshatrias</em> ou guerreiros;&mdash;3.ª a dos <em>vaishias</em> ou
+commerciantes;&mdash;4.ª a dos <em>sudràs</em> (a infima) ou dos servidores.
+Esta ultima julga-se que provêm dos restos da população aborigene, que os Aryas
+não poderam anniquilar nem assimilar, e que so admittiram no seu corpo social
+com aquella<span class="pn">{41}</span> fórma e aquelle mister degradantes. No
+chamado «Código de Manu» está expressa e formulada esta fórma do regimen
+estabelecido na sociedade indiana.</p>
+
+<p>Ao <em>periodo brahmanico</em> succedeu o <em>periodo buddhico</em>, que
+fecha a historia antiga da India. N'este periodo a theocracia brahmanica
+soffreu um grande abalo e teve que defender-se em lucta porfiada. No seculo
+<small>VI</small> antes da era de Christo appareceu na India um homem de
+talento extraordinario, que era ao mesmo tempo um propagandista audacioso e
+infatigavel. Chamava-se Çakya-muni, era filho de um rajah de um paiz vizinho do
+Nepaul, e teve o cognome (pelo qual ficou eternizado na Historia) de Buddha (ou
+<em>sabio</em>). Philosopho de temperamento, aos vinte e nove annos de edade
+abandonou o palacio paterno, as riquezas e o direito á realeza para viver no
+deserto, investigando a verdade. Nove annos depois, fortalecido o espirito com
+as meditações da solidão, voltou ao povoado; e começou a pregar nova doutrina
+ás multidões, reunidas ao acaso. Por toda a parte orava,&mdash;expondo os seus
+principios, (quer nas povoações, quer nos campos) á gente de todas as condições
+sociaes. Servia-se na sua predica, de parabolas (o mesmo systema que depois foi
+seguido por Christo). Apresentava a principio a sua doutrina como uma simples
+reforma; mas ella tendia á ruina completa do brahmanismo, substituindo ao
+regimen das castas o principio da egualdade de todos os homens perante a lei
+moral, e ás falsas virtudes prégadas pelos brahmanes a práctica do bem. Ás
+promessas de salvação (isto é, da união com a essencia divina) só concedida
+pela religião antiga aos brahmanes, substituia a capacidade, para todos os
+homens, de gozarem da bemaventurança, ganha por seus meritos e virtudes. Rompia
+com o privilegio da casta dos brahmanes, para chamar ao sacerdocio os pobres e
+os mendigos que quizessem dedicar-se á vida religiosa. A sua doutrina admittia
+seis elementos de perfeição, que eram: a sciencia, que devia ter por objecto
+distinguir os verdadeiros dos falsos bens; a energia, que devia consistir na
+resistencia contra os nossos maiores inimigos, os prazeres dos sentidos; a
+pureza, que era a victoria adquirida por aquella resistencia; a paciencia, que
+consistia em soffrer os males imaginarios e os transitorios; a caridade, laço
+de união entre os homens; a esmola, como consequencia necessaria da caridade.
+</p>
+
+<p>Tão sympathica e tão santa doutrina, que tantos pontos de similhança tem com
+a de Christo, não podia deixar de fazer, como fez, um proselytismo enorme.</p>
+
+<p>Assim prégou até aos oitenta annos, respeitando sempre a<span
+class="pn">{42}</span> ordem estabelecida, e proclamando (como o fez mais tarde
+Christo) que aos principes se devia dar o que lhes era devido. Por sua morte,
+os discipulos reuniram os principaes discursos d'elle e convocaram o primeiro
+concilio buddhico, em que tomaram parte 500 religiosos. Depois de septe mezes
+de discussão, esse concilio assentou na fórma do culto e no corpo das
+doutrinas, o que tudo ficou mais precisado em segundo e terceiro concilio, que
+se reuniram, um no seculo <small>V</small> e o outro 150 annos antes de
+Christo.</p>
+
+<p>Por fim os brahmanes, conhecendo o perigo eminente que já corria a religião
+antiga e o edificio social, que elles haviam construido, e á sombra dos quaes
+viviam e desfructavam commodidades, honras e distincções, começaram uma lucta
+feroz contra o buddhismo, chegando a desincadear contra os seus proselytos uma
+atroz perseguição. Entre outros anathemas, prégavam os brahmanes: «Que desde
+Ceylão até ao Himalaya, coberto de neve, os buddhistas sejam exterminados. Quem
+poupar a creança ou o velho, soffra a pena de morte». Esta perseguição deu
+resultado na India, que voltou toda ao brahmanismo; mas o buddhismo espalhou-se
+no Thibet (que é hoje o seu centro), na Mongolia, na China, na Indo-China e em
+Ceylão. N'estes paizes conta ainda muitos milhões de seguidores, sendo comtudo
+poucos os que practicam as doutrinas e os preceitos de Buddha na sua pureza.
+</p>
+
+<p>A civilização indiana, toda com caracter religioso, não primou nem pelo
+progresso das sciencias nem pelo das artes. Em sciencia, só a da grammatica e
+da linguagem se desinvolveu consideravelmente; da arte só ficaram monumentos
+grandiosos nas proporções, mas de pouca belleza artistica. Prosperaram, porêm,
+algumas industrias entre os Indios.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION00210">CAPITULO IX<br>
+OS CHINS</a> </h1>
+
+<p>Não se conhece a duração da sociedade chineza, á qual as suas tradições
+maravilhosas attribuem 80:000 a 100:000 annos de existencia. O que é certo é
+que o povo chinez é muitissimo antigo, havendo nas suas tradições mais ou menos
+certas conhecimento de factos anteriores 3:500 annos a Christo,&mdash;e,<span
+class="pn">{43}</span> desde o seculo <small>XXVI</small> da mesma era,
+historia positiva que apresenta seguidos annaes.</p>
+
+<p>Ignora-se completamente quaes foram a origem e o modo de formação dos Chins,
+habitantes do <em>Celeste Imperio</em> ou <em>Imperio do Meio</em>. Até ao
+seculo <small>XXII</small> antes de Christo os imperadores eram electivos;
+d'aquella epocha em deante estabeleceu-se o principio heriditario na successão,
+modificado n'um ponto (e era que os grandes do imperio podiam escolher entre os
+filhos do soberano defuncto o que julgassem digno de succeder-lhe).</p>
+
+<p>O imperador Yu foi fundador da dynastia dos <em>Hia</em>, que durou quatro
+seculos e que acabou no meio de grandes desordens e de uma atroz tyrannia. A
+segunda dynastia, a dos <em>Chang</em>, foi fundada por um principe de
+merecimento superior cujas virtudes foram celebradas por Confucio, e veio a
+acabar como a anterior, sendo o seu ultimo representante um tyranno abominavel,
+desthronado por Wu-Wang, principe de <em>Tehéu</em>, que contra elle se
+revoltou. Este, tomando o governo, reorganizou o antigo «tribunal da historia»,
+cujos membros gozavam de inamobilidade, que lhes assegurava a independencia.
+Durante esta dynastia os reinos feudatarios da China, que já desde antiga data
+existiam, augmentaram até ao numero de 125, e na China constituiu-se um
+verdadeiro feudalismo. Este, porêm, acabou em perfeita anarchia; o imperador
+chegou a absoluta impotencia, e um dos seus feudatarios offereceu sacrificio ao
+céu (prerogativa exclusiva do soberano), e prendeu no palacio o ultimo
+imperador d'aquella dynastia. Começou nova dynastia, a dos <em>Thsin</em> que,
+destruindo todos os pequenos principados, reconstruiu com sua unidade e poderio
+o grande imperio. Um imperador d'ella, Chi-Hoang-Ti, concluiu aquella
+transformação, abriu grande numero de estradas, perfurou montanhas e, para
+impedir as correrias dos Tartaros nomadas, mandou construir a <em>grande
+muralha</em>, que mede 2:500 kilometros de comprimento. Tornou-se porêm,
+tristemente celebre pela perseguição dos lettrados e pelo incendio dos livros.
+Na sua enorme vaidade, queria que tudo datasse do seu reinado e pretendeu assim
+apagar os vestigios do passado. Não poude, felizmente, matar todos os sabios,
+nem destruir todos os livros. A monarchia chineza, que n'aquella data foi
+perturbada por tão violento e insensato reformador, voltou depois á sua
+tradicional quietação; os sabios recuperaram a sua influencia; e o paiz
+augmentou consideravelmente em prosperidade. Mas depois, minada por vicios de
+dissolução interior, não teve força para resistir ás invasões<span
+class="pn">{44}</span> dos Mongoes que, transpondo a grande muralha, foram
+causa da divisão da China em dois reinos, separados pelo rio Azul, e nos quaes
+houve differentes dynastias, que todas tiveram uma existencia obscura. Li-Ang
+tornou a reunil-os no anno 618 da era actual; mas não conseguiu robustecer o
+imperio restaurado, de modo que pudesse resistir ás repetidas Invasões
+mongolicas. Estas invasões continuaram durante a Edade-Média, e são já
+estranhas ao assumpto do presente livrinho.</p>
+
+<p>É a civilização da China uma das mais antigas que se conhecem; mas, apezar
+d'isso, é a que menos tem progredido ou, melhor diremos, a que por maior
+decurso de tempo tem permanecido estacionaria. Tem sido causas d'esse
+estacionamento o temperamento proprio da raça chineza, a sua fórma de governo,
+a sua religião e o isolamento em que a nação se tem conservado a respeito do
+resto do mundo.</p>
+
+<p>A fórma de governo tem sido sempre como que patriarchal. O imperador é
+simultaneamente soberano e pae de todos os seus subditos, que de um extremo a
+outro do imperio formam uma unica familia, sem distincção de castas ou
+hierarchias. As doutrinas de Confucio têem contribuido principalmente para
+conservar ás instituições chinezas a sua estabilidade.</p>
+
+<p>Confucio viveu no seculo <small>VI</small> antes de Christo. Os seus livros,
+sendo como que o evangelho do Imperio Celeste, são estudados por todos os que
+têem que sujeitar-se aos exames que habilitam para os titulos litterarios e
+para o exercicio dos cargos publicos. Confucio não foi legislador, nem teve
+auctoriade para promulgar leis; mas ensinou a «sabedoria». E na práctica das
+doutrinas por elle professadas assenta todo o edificio politico e religioso na
+China.</p>
+
+<p>Segundo elle, a moral dos antigos sabios, que é a da verdadeira e eterna
+sabedoria, consiste na observancia das tres leis fundamentaes das relações
+entre o soberano e os subditos, entre o pae e os filhos, e entre o marido e a
+mulher; e tambem em practicar as cinco virtudes capitaes (que são: a
+humanidade, isto é, uma caridade universal para com todos os individuos da
+nossa especie sem distincção; a justiça, que dá a cada um o que lhe é devido,
+sem favorecer um em prejuizo de outro; a conformidade aos ritos prescriptos e
+aos usos estabelecidos, a fim de que os que formam a sociedade tenham uma
+maneira commum de viver, e participem todos de eguaes vantagens e de eguaes
+incommodos; a rectidão, ou a inteireza de espirito e de coração, que faz que
+cada um busque a verdade, sem se deixar offuscar pelo interesse, proprio
+ou<span class="pn">{45}</span> alheio; a sinceridade e boa fé, ou a lisura e
+confiança, que exclue toda a dissimulação e toda a falsidade, quer nos actos
+quer nas palavras).</p>
+
+<p>Os seus principios religiosos fundamentaes são os seguintes. O céu é o
+principio universal, a origem fecunda de que todas as coisas procederam. Os
+nossos antepassados, d'elle oriundos, foram a origem das gerações seguintes.
+Dar ao céu testemunhos de agradecimento é o primeiro dever do homem; mostrar
+gratidão aos antepassados é o segundo. É por isso que Fou-Hi estabeleceu
+ceremonias em honra do céu e dos antepassados.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION00211">CAPITULO X<br>
+OS GREGOS</a> </h1>
+
+<p>Na Antiguidade, a Grecia propriamente dita era apenas uma região constituida
+por uma pequena porção de territorio do continente europeu, e pela peninsula
+que na bacia Oriental do Mediterraneo termina o mesmo continente, entre o mar
+Jonio ao occidente e o mar Egeu (hoje denominado Archipelago) ao oriente.
+Tambem pertenciam á Grecia as numerosas ilhas que ha nas proximidades d'aquella
+região. As diversas populações que na Grecia vieram a ter importancia historica
+derivaram-se todas da raça aryana, da qual constituiam um grupo especial (o
+hellenico). Este grupo, pela brilhante civilização que no seu seio se elaborou,
+constitue um dos mais nobres da historia, e formou uma individualidade
+distinctissima atravez dos seculos.</p>
+
+<p>Na obscuridade dos primitivos tempos, parece que os primeiros habitadores da
+Grecia foram os Pelasgos e os Jonios. Os primeiros povoaram com suas tribus a
+Asia Menor, a Grecia e a Italia, lançaram n'estes paizes os primeiros
+fundamentos da civilização, e por toda a parte deixaram nos seus monumentos
+provas eternas da sua actividade e das suas poderosas aptidões. Desappareceram,
+porêm, sem que sobre o seu destino ulterior haja tradição segura.</p>
+
+<p>Quando a Grecia apenas sahia do estado selvagem, vieram (segundo antigas
+tradições) colonias dos paizes mais civilizados da Asia e da Africa trazer-lhe
+os conhecimentos das artes uteis e uma religião mais pura. Foi assim que
+Cecrops,<span class="pn">{46}</span> oriundo do Egypto, desimbarcou na Attica,
+reunindo os habitantes d'ella em diversas povoações, das quaes Athenas veio a
+ser a capital; ensinou-lhes algumas culturas, promulgou as leis do casamento e
+instituiu o tribunal do Areopago, destinado a julgar os pleitos. Do mesmo modo
+na Beocia, Cadmo introduziu o alphabeto phenicio e edificou Cadméa, emtorno da
+qual se elevou mais tarde a cidade de Thebas. Dano introduziu em Argos algumas
+das artes do Egypto; e Pelops, phrygio, estabeleceu-se na Elida, d'onde a sua
+raça se espalhou por toda a peninsula que d'elle tirou o nome. O acontecimento
+dominante d'aquella epocha foi a invasão dos Hellenos que do norte da Grecia,
+sua primeira habitação, se derramaram por todas as outras partes da peninsula,
+á custa dos Pelasgos que foram absorvidos pela população invasora.</p>
+
+<p>Apoz esta epocha primitiva seguiram-se os tempos heroicos, em que homens de
+grande valor physico percorriam a Grecia, para a libertar dos salteadores, dos
+oppressores e dos animaes selvagens. Passando a sua vida a combater todos os
+flagellos, aquelles heroes recebiam dos povos agradecidos as honras de
+semi-deuses; mas muitas vezes abusavam da sua força e das suas vantagens
+pessoaes. Entre outros foram notaveis Hercules e Theseu. Tambem ficaram nas
+tradições poeticas: os Argonautas e a sua viagem aventurosa até á Colchida, em
+busca do <em>vellocino de oiro</em>; os septe chefes que foram cercar Thebas,
+infamada pelos crimes de [OE]dipo e pelas dissenções entre seus filhos; o sabio
+Minos; etc.</p>
+
+<p>Foi n'este periodo que se deu a guerra de Troya. Esta cidade era a capital
+de um poderoso reino estabelecido no noroeste da Asia Menor e o ultimo resto do
+dominio dos Pelasgos. O celebre Páris, filho de Priamo (rei de Troya), fez uma
+viagem ao Peloponeso e d'alli furtou e levou para a sua patria Helena, mulher
+de Meneláu (rei de Esparta ou Lacedemonia). Pedindo-a depois o marido e os mais
+Gregos aos Troyanos, estes negaram-se a intregál-a, pelo que lhes foi por
+aquelles declarada a guerra. Quasi toda a Grecia com seus principes foi a esta
+expedição, levando por general supremo o rei Agamemnon. Ás ordens d'este
+principe iam Achilles (capitão de grande valor), Ajax Tellamonio, Ajax Oileu,
+Diomedes, Menesteu, Ulysses (rei de Itaca), e Nestor (varão de edade já muito
+avançada). Foi posto cêrco a Troya; mas durante quasi dez annos não houve
+batalha decisiva. Troya, defendia-se e parecia disposta e habilitada a
+continuar a defender-se com vantagem, não obstante a falta de Heitor, que a
+commandava e que morreu ás mãos de Achilles.<span class="pn">{47}</span> Os
+Gregos usaram por fim de um estratagema; fingiram retirar-se, deixando no
+campo, como presente, um gigantesco cavallo de madeira, que os Troyanos
+recolheram dentro de suas muralhas. Mas no corpo do animal occultavam-se os
+mais bravos d'entre os Gregos, que assim se introduziram na cidade, cujas
+portas abriram ao resto do exercito. Desse modo cahiu Troya, sendo Priamo
+assassinado ao pé dos altares. Os principes gregos que não haviam morrido na
+lucta, voltaram a caminho da sua patria; mas grandes infelicidades os
+esperavam. Uns morreram na viagem; outros, como Ulysses, andaram muito tempo
+desviados do caminho por ventos adversos; outros (como Agamemnon) ao chegarem
+aos seus paizes, incontraram os thronos occupados por usurpadores, de que foram
+victimas; outros, emfim, viram-se obrigados a ir estabelecer habitação em
+regiões longiquas, como Diomedes e Idomeneu.</p>
+
+<p>Toda a historia d'esta epocha está tão eivada de fabula, que é quasi
+impossivel apurar-se a verdade.</p>
+
+<p>Os oitenta annos que se seguiram á guerra de Troya foram todos occupados por
+dissenções intestinas, que derrubaram as antigas dynastias, e transferiram a
+preponderancia para as mãos de novos povos. Estas revoluções, e outras que mais
+tarde houve, deram logar a varias correntes de emigração; e ao longo das costas
+da Asia Menor, da Africa, da Sicilia, e da Italia, formou-se uma nova Grecia,
+que cresceu e prosperou, e por muito tempo foi mais rica do que a metropole.
+Foi assim que os Gregos se estabeleceram em Smyrna, Phocéa, Epheso e Mileto (na
+Asia Menor); em Cyrena (na Africa); em Messina e Syracusa (na Sicilia); e em
+Taranto, Napoles e Sybaris (na Italia). Nas colonias da Asia, em contacto com
+as velhas sociedades do Oriente, começou a evolução civilizadora, de que
+Athenas veio a ser mais tarde o brilhantissimo fóco.</p>
+
+<p>Mas, apezar de tão grande dispersão da população grega, apezar da divisão da
+Grecia em tantos estados, a grande familia hellenica conservou a sua unidade
+nacional, pela communidade da lingua e da religião, pela celebridade de alguns
+oraculos (o de Delphos principalmente, ao qual concorria gente de todos os
+pontos do mundo grego), e por algumas instituições geraes que conservavam
+estreitos os laços moraes das populações entre si.</p>
+
+<p>Entre 800 e 700 annos antes de Christo, houve de notavel na Grecia o
+apparecimento das leis de Lycurgo. Este personagem nasceu em Esparta. A viuva
+do rei Polydecto, seu irmão,<span class="pn">{48}</span> offereceu-lhe com a
+sua mão de esposa o throno de Esparta, com a condição d'elle matar seu sobrinho
+Charilaus. Recusou-se a isso Lycurgo; e, como os grandes do reino se mostrassem
+contra elle irritados pela sabia administração que usára como regente, durante
+a menoridade do sobrinho, resolveu exilar-se e viajou por muito tempo,
+estudando a legislação dos outros povos e voltando a Lacedemonia, depois de uma
+ausencia de dezoito annos, com o intento de fazer adoptar reformas importantes
+nas leis do reino. A pythonisa de Delphos apoiou com a sua auctoridade
+religiosa as reformas propostas; e os Espartanos, fatigados das suas dissenções
+intestinas, que laceravam o estado, acolheram-n'as favoravelmente.</p>
+
+<p>As leis politicas de Lycurgo mantiveram as relações estabelecidas entre os
+Espartanos, como povo dominador, e os Laconianos, como povo subjugado.
+Regularam os direitos da realeza distribuidos por duas casas soberanas; os do
+senado, composto de varões de edade superior a sessenta annos; os da assembléa
+geral, que podia acceitar ou regeitar as propostas feitas pelo senado ou pelos
+reis; enfim, os dos <em>ephoros</em>, magistrados annuaes, que administravam a
+justiça. As suas leis civis são muito mais notaveis e de muito maior alcance; e
+tiveram por fim estabelecer a egualdade entre todos os cidadãos. Para chegar a
+tal fim, dividiu elle as terras em 39:000 porções (30:000 para os Laconianos e
+9:000 para os Espartanos). Para manter a egualdade entre os cidadãos, Lycurgo
+prohibiu o luxo e a moeda de oiro e de prata; e instituiu as refeições
+publicas, em que reinava a maior frugalidade. Vedou aos Espartanos o commercio
+e a cultura das artes e das lettras, sujeitando-os todos a eguaes exercicios
+physicos, com a mira de formar cidadãos robustos para a defesa da patria. Ao
+mesmo fim era dirigida a educação das creanças, que mais pertenciam ao estado
+do que á familia; a creança que nascia disforme, matavam-n'a.</p>
+
+<p>Acabadas por esta legislação rigorosa as discordias interiores, e
+robustecida assim Esparta, concluiu esta a conquista da Laconia e imprehendeu a
+do Peloponeso. Combateu a tribu dorica dos Messenios, com a qual teve duas
+guerras, (uma que durou vinte annos e a outra dezesepte). As victorias n'estas
+luctas alcançadas deram grande nomeada aos Espartanos, que no seculo
+<small>VI</small> antes da era christan eram considerados como o primeiro povo
+da Grecia.</p>
+
+<p>Pelo mesmo tempo florescia tambem Athenas, comquanto os defeitos da sua
+organização social déssem origem a grande mal-estar interior e a repetidas
+perturbações. A grande<span class="pn">{49}</span> desegualdade dos haveres
+tinha dado origem á formação de duas classes: a dos <em>eupatridas</em>, ou
+senhores das terras, e a dos <em>thetas</em>, ou servos que as cultivavam. Além
+d'estas duas havia ainda a dos escravos propriamente ditos.</p>
+
+<p>A morte de Codro, ultimo rei dos Athenienses, deu logar a estabelecer-se uma
+nova fórma de governo. Os dois filhos d'elle, Medon e Nileu, disputaram entre
+si a corôa. Os Athenienses, que tinham sido sempre muito ciosos da sua
+liberdade, aproveitaram este ensejo para a reivindicarem completamente;
+declararam que depois de Codro não havia ninguem digno do titulo de rei e
+puzeram á testa da republica um primeiro magistrado a que deram o nome de
+<em>archonte</em>, e cuja auctoridade era muito limitada. Durante mais de tres
+seculos foi esta magistratura vitalicia e hereditaria; no fim d'esse tempo
+tornou-se electiva, e as funcções de <em>archonte</em> foram limitadas a dez
+annos. Mais tarde ainda, o poder foi distribuido por nove <em>archontes</em>,
+cujo mandato durava um anno. D'ahi provieram grandes dissenções, divisões de
+partidos, rivalidades e desordens.</p>
+
+<p>Para obviar a tantos males viu-se que era necessario fazer leis, que fossem
+superiores a todas as magistraturas. Foi escolhido para as formular Dracon,
+homem de virtudes austeras e que gosava da estima geral. Dracon apresentou um
+codigo de leis de tal severidade, que revoltaram os espiritos mais exigentes e
+que não puderam ser executadas. Como novas dissenções puzeram em novo perigo o
+estado, recorreu-se a Solon, varão illustrado e de grande patriotismo, a quem
+foi dada a missão de fazer as necessarias leis e organizar uma constituição
+fundada em principios racionaes e estaveis.</p>
+
+<p>Dividiu Solon o povo em quatro classes, segundo o rendimento de cada um. Os
+cidadãos das tres primeiras classes eram os unicos que podiam exercer cargos
+publicos; os da quarta, composta da infima plebe, eram admittidos a votar nas
+assembléas publicas, das quaes se excluiam os estrangeiros. Decretou a pena de
+morte contra todo o <em>archonte</em> que se embriagasse, e declarou excluido
+da tribuna e indigno de falar ao povo todo o homem de vida depravada.
+Estabeleceu que os <em>archontes</em> se informassem da occupação de todos os
+cidadãos e que declarassem infames os que persistissem na ociosidade, depois de
+por ella terem soffrido tres condemnações. Decretou que o estado sustentasse
+até á edade de vinte annos todos os filhos dos cidadãos que morressem no
+serviço da patria. Das leis draconianas apenas conservou as que eram<span
+class="pn">{50}</span> dirigidas contra os assassinos. Não fez lei penal contra
+o parricidio, porque não julgou possivel que tal crime se commettesse em
+Athenas. Para tornar duravel a sua legislação, fêl-a gravar toda em pranchas de
+madeira, e depois sahiu de Athenas por algum tempo para ir estudar a sabedoria
+das antigas nações do Oriente.</p>
+
+<p>Quando regressou, notaveis acontecimentos o esperavam. Os partidos tinham
+re-apparecido e das luctas entre elles tinha surgido a tyrannia de Pisistrato,
+o qual, sem abolir a constituição, exercia tal influencia, que dominava todos
+os magistrados. Pisistrato duas vezes foi expulso do poder e de Athenas; mas
+duas vezes conseguiu recuperar o governo, que por fim conservou até á morte.
+Depois d'esta succederam-lhe seus dois filhos Hipparco e Hippias, que
+governaram conjunctamente; mas em seguida houve novas e continuadas dissensões,
+até ao tempo de Themistocles, no qual a Grecia, ingrandecida com as conquistas
+de Milciades e arvorada já em verdadeira potencia maritima, viu ainda o seu
+poder naval accrescentado com 200 navios, mandados construir com o producto das
+minas de prata de Laurion.</p>
+
+<p>Foram esta armada poderosissima, e o valor e pericia dos seus generaes, que
+salvaram a Grecia das expedições contra ella organizadas por Dario e Xerxes, de
+que já falámos no capitulo VII d'este livrinho.</p>
+
+<p>Foi sobre todos notavel na Grecia o periodo d'estas guerras e o tempo que se
+lhes seguiu. Appareceram então distinctissimos generaes, e excellentes
+estadistas; e o povo grego, não obstante o seu animo irrequieto e o seu
+espirito sedicioso, parece que reprimiu todos os ardores que podiam ser
+prejudiciaes á causa publica, para só dar livre curso a todas as tendencias
+conducentes ao ingrandecimento da patria e á sua victoria contra os ataques dos
+inimigos.</p>
+
+<p>Por esta epocha appareceu Pericles&mdash;homem de tal merito, que deu o seu
+nome ao seculo em que viveu e em que a Grecia foi o grande fóco da civilização
+do mundo.</p>
+
+<p>Era filho de Xanthippo, o vencedor de Mycale. Educado pelos sabios mais
+notaveis do seu tempo, mostrou-se desde a adolescencia muito instruido em todos
+os ramos do saber humano. Apesar de estar pelo seu alto nascimento destinado a
+ser chefe do partido aristocratico, que no começo da vida d'elle tinha a maior
+influencia em Athenas, esposou a causa do povo, fazendo-se chefe do partido
+democratico. Fez reformas profundas, em que cerceou as attribuições dos altos
+poderes do estado em beneficio do povo. Em virtude d'essas reformas,<span
+class="pn">{51}</span> todas as funcções publicas, ainda as mais elevadas,
+ficaram sendo accessiveis aos cidadãos mais humildes, contanto que a sorte ou a
+eleição a ellas os chamassem.</p>
+
+<p>Como o imperio sujeito á pequena cidade de Athenas fosse demasiado vasto,
+para que ella pudésse mantêl-o sujeito, Pericles expediu numerosas colonias que
+não formaram, como as anteriores, cidades independentes da metropole, mas sim
+fortalezas e estabelecimentos militares que mantinham na sujeição a Athenas os
+paizes onde existiam.</p>
+
+<p>Não teve Pericles sómente em vista a grandeza e o poderio de Athenas; cuidou
+tambem da gloria d'ella. Chamou para alli todos os homens eminentes que então
+havia na raça hellenica, os quaes todos para lá concorreram, como para a
+capital da intelligencia. Celebravam-se alli festas esplendidas, que attrahiam
+enorme concurso de todas as povoações gregas.</p>
+
+<p>Athenas chegou assim a ser um dos mais intensos fócos de civilização que o
+mundo tem visto. Ao lado do eminente vulto de Pericles, viram-se então alli
+brilhar: Sophocles e Euripedes, dois dos maiores poetas tragicos conhecidos;
+Lysias, orador eloquentissimo; Herodoto, narrador admiravel; Aristophanes, o
+maior poeta comico da Antiguidade; Phidias, o mais illustre dos seus artistas;
+Apollodoro, Zeuxis, Polygnoto e Parrhasios, pintores bastante celebres;
+Anaxagoras e Socrates, philosophos notabilissimos. Ainda depois d'estes vultos
+de primeira ordem vieram Eschylo, Thucydides, Xenophonte, Platão e Aristoteles.
+Athenas teve por aquella epocha, a honra de ser não só a «mestra da Grecia»,
+como lhe chamaram, mas tambem a mestra do mundo.</p>
+
+<p>Depois de vencida a batalha de Salamina, tinha-se Athenas collocado á frente
+de uma confederação dos gregos insulares e asiaticos, afim de proseguir na
+guerra contra os Persas; mas tendo-se os sitiados cançado de combater, havia
+ella acceitado os seus tributos em vez de contingentes militares e continuára
+por si só a sustentar a lucta, no interesse commum. Depois da guerra, continuou
+a cobrar os mesmos tributos, pretextando que precisava estar prompta para
+impedir uma nova invasão. Os alliados, com o tempo, intenderam que era duro
+estar a pagar para as festas e para os monumentos de Athenas; e queixaram-se.
+As suas queixas, porêm, foram duramente repellidas, pelo que elles dirigiram as
+suas supplicas a Esparta. Esta, ciosa sempre da grandeza e das glorias de
+Athenas, procurou formar uma liga continental, cujas forças oppuzesse ás das
+cidades maritimas e insulanas sujeitas aos Athenienses. A principio houve só
+hostilidades<span class="pn">{52}</span> parciaes; mas mais tarde tornou-se
+geral a guerra, depois do ataque de Platéa (alliada dos Athenienses) pelos
+Thebanos (alliados de Esparta). Essa lucta é conhecida pela designação de
+«guerra do Peloponeso».</p>
+
+<p>Durante dez annos correu esta guerra, com vantagem ora para uma ora para
+outra das contendoras, até que Nicias assignou um tratado de paz, que tem o seu
+nome. A paz, porêm, contrariava os calculos de Alcibiades, que contava com a
+guerra para se elevar; por isso propoz este a expedição á Sicilia, que teria
+sido bem succedida, se elle, accusado de sacrilegio, não fosse privado do
+commando do exercito. Alcibiades retirou-se então para Esparta, d'onde dirigiu
+duros golpes contra a sua patria. Os Athenienses puzeram cêrco a Syracusa; mas,
+em resultado da pouca energia de Nicias, tal cêrco terminou pela destruição da
+esquadra e do exercito atheniense, cujos chefes foram mortos pelos Syracusanos
+e os soldados reduzidos á escravidão. Este desastre foi um enorme golpe para
+Athenas.</p>
+
+<p>Comtudo a guerra continuou; e os Athenienses ainda por vezes obtiveram
+vantagens, que obrigaram Alcibiades a fugir de Esparta. Entretanto em Athenas
+rebentou uma revolução, na qual a democracia foi sacrificada a um conselho
+superior composto de 400 membros, que substituiu o senado, e a uma reunião de
+5:000 cidadãos escolhidos, que substituiu a assembléa do povo; mas pouco depois
+um exercito que operava em Samos fez uma contra-revolução, restabelecendo o
+governo democratico e acclamando Alcibiades. Este foi chamado a Athenas, e com
+a sua vinda restabeleceu-se a auctoridade do povo. Os Athenienses ganharam duas
+batalhas navaes no Hellesponto, uma grande victoria, tanto em terra como no
+mar, em Cyzica, e por fim tomaram Byzancio. Estas victorias foram, porêm, o
+resultado de um grande esforço, que exhauriu o resto da vitalidade de Athenas.
+</p>
+
+<p>Cyro o <em>Moço</em>, que buscava a alliança de Esparta, para arrancar a seu
+irmão Artaxerxes II a corôa da Persia, forneceu a Lysandro, que governava em
+Esparta, grandes recursos para levar a cabo a guerra. Com este auxilio, os
+Espartanos derrotaram os Athenienses em Egos-Potamos; e pouco depois Athenas
+foi tomada, as suas fortificações arrazadas, a sua marinha reduzida,
+desorganizado o seu exercito e abolida a constituição democratica, que
+principalmente concorreu para a sua grandeza e para a sua gloria.</p>
+
+<p>A hegemonia grega passou para Esparta, que não soube usar d'ella com a mesma
+habilidade e esplendor com que o<span class="pn">{53}</span> fizera Athenas.
+Cyro o <em>Moço</em> levou por deante o seu plano com o auxilio dos Espartanos,
+avançou até ao pé de Babylonia, onde ganhou a batalha de Cunaxa; mas foi morto,
+e á sua morte seguiu-se a retirada chamada «dos dez mil» a que já nos
+referimos, operada atravez de 400 leguas de terreno, pelas montanhas impervias
+da Mesopotamia e da Armenia até ao Mar-Negro. O exito d'esta retirada revelou o
+infraquecimento do grande imperio persa; por isso, poucos annos depois o
+espartano Agesilau, resolveu conquistál-o. Chegou a reunir grandes forças e
+muitas allianças, mas o seu plano ficou frustrado, porque os Persas tiveram
+artes de suscitar guerra interior no seio da propria Grecia. Por sua
+instigação, Corintho, Thebas e Argos formaram uma liga, em que intraram tambem
+Athenas e a Thessalia. Agesilau, regressando da Asia, conseguiu vantagens em
+terra, restabelecendo o dominio de Esparta; mas o atheniense Conon, commandante
+de uma frota phenicia, arrancou-lhe das mãos o dominio maritimo e com o oiro
+dos Persas, restaurou as fortificações de Athenas.</p>
+
+<p>Esparta, inquieta pelo renascimento da sua rival, inviou mandatarios á
+Persia, a tratar com ella dos meios de lhe intregar os gregos da Asia,
+acceitando todas as condições. Era o resultado do abatimento moral e da
+depravação que tinha ganhado a raça hellenica. Destruiu algumas cidades e
+perseguiu diversas populações sujeitas a Athenas, até que os seus excessos
+tiveram um castigo. Um dos seus generaes surprehendeu e tomou á falsa fé
+Cadmea, cidadella de Thebas, que era então alliada de Esparta. O thebano
+Pelopidas, á frente de alguns proscriptos, libertou, porêm, a sua patria, e
+reuniu n'uma alliança commum todas as cidades da Beocia. Tendo os Espartanos
+mandado contra estes povos colligados um exercito, Epaminondas desbaratou-o na
+batalha de Leuctras, levando a guerra até ao seio do Peloponeso. Abriu caminho
+até aos muros de Esparta, na qual, comtudo, não poude intrar; mas, para a
+conter em respeito, edificou aos seus lados Megalopolis e Messena, dois optimos
+pontos fortificados. Esparta procurou por toda a parte alliados contra estes
+novos dominadores da Grecia; mas Epaminondas em activa guerra sustentou firme a
+dominação de Thebas, dominação que veiu a cahir com elle, morto no meio da sua
+victoria de Mantinéa.</p>
+
+<p>Poucos annos depois, Filippe da Macedonia, tendo libertado o seu paiz do
+jugo e da influencia dos extrangeiros, quiz ingrandecêl-o, accrescentando-lhe a
+Grecia. Tomou e submetteu differentes povoações, com que foi augmentado o seu
+imperio, observando-se por toda a extensão da Grecia uma<span
+class="pn">{54}</span> grande falta de energia e um fraco espirito de
+resistencia. Só os Athenienses velavam pela patria commum, guiados pelo grande
+cidadão e grande orador Demosthenes, que nas suas eloquentes orações mostrava
+os planos ambiciosos de Filippe. Mas Athenas não poude sustentar por si só,
+durante longo tempo, uma lucta tão desegual, e por fim teve que firmar, por
+conselho do proprio Demosthenes, um tratado de paz com o rei da Macedonia.</p>
+
+<p>Emquanto Athenas, descançando na fé d'este tratado, se abandonava ás festas
+e ás suas occupações ordinarias, Filippe transpoz as Thermophylas, penetrou na
+Phocida, e conseguiu ser adimittido no conselho amphictionico. Os Athenienses
+salvaram ainda Perintho e Byzancio, ás quaes Filippe seria obrigado a levantar
+os cêrcos. Á voz de Demosthenes, que não cessava de lhes mostrar os perigos,
+nas suas immortaes <em>Filippinas</em>, os Athenienses e os Thebanos,
+esquecendo a sua mutua rivalidade, reunem os seus exforços para opporem ao
+inimigo commum; mas o seu exercito, commandado por generaes inhabeis e talvez
+vendidos ao oiro de Filippe, foi desbaratado n'uma grande batalha na planicie
+de Cheronéa. Depois d'esta batalha, Filippe propoz-se captar a sympathia dos
+Gregos, que tratou com as maiores blandicias, e conseguiu ser por elles nomeado
+generalissimo das tropas destinadas a marchar contra a Persia. Para preparar
+esta grande expedição voltou a Macedonia, onde foi assassinado por Pausanias
+durante a celebração dos jogos olympicos.</p>
+
+<p>Succedeu-lhe seu filho Alexandre com vinte e um annos de edade. Tendo os
+barbaros, que seu pai subjugára, tomado as armas, elle, para lhes estorvar os
+movimentos, levou o seu exercito até ao Danubio, passou este rio n'uma noite e
+derrotou os rebeldes. Julgando os Thebanos aquelle ensejo propicio para se
+libertarem dos Macedonios, apoderaram-se da cidadella, cuja guarnição
+degollaram. Alexandre reuniu logo um exercito, com que introu na Beocia,
+exigindo d'elles que lhe intregassem os auctores da revolta. Como lh'os
+recusassem, deu-lhes batalha, destroçando-os e tomando Thebas; que saqueou e
+destruiu.</p>
+
+<p>Os Athenienses, receando então haver incorrido na colera de Alexandre,
+mandaram-lhe emissarios a implorar clemencia. Este usou para com elles de
+generosidade, da qual comtudo esperava tirar partido para os seus planos de
+conquista; pacificou a Grecia e reuniu em Corintho deputados de todas as
+republicas hellenicas, que o nomearam general em chefe de uma expedição contra
+os Persas. Para levar d'esse modo a effeito<span class="pn">{55}</span> o plano
+de seu pae, confiou o governo da Macedonia e da Grecia a Antipater e partiu com
+um exercito de 30:000 homens de infanteria e 5:000 de cavallaria, á conquista
+da Persia, onde então reinava Dario Codomano.</p>
+
+<p>Então começou para Alexandre uma serie de victorias e de conquistas, que
+constituem uma verdadeira epopéa. Introu na Phrygia depois de atravessar o
+Hellesponto sem difficuldade; na passagem do Granico, defendida por um exercito
+persa de 100:000 homens de infanteria e mais de 10:000 de cavallaria, derrotou
+este, apoderando-se depois de Sardes, que era a chave da Alta-Asia. Epheso,
+Mileto, Halycarnasso e todas as cidades da costa da Asia intregaram-se-lhe.</p>
+
+<p>No anno seguinte, para se oppor á continuação das suas conquistas, levantou
+Dario um grande exercito e resolveu levar a guerra ao coração da Macedonia.
+Memnon, seu general em chefe, á testa da expedição, tomou as ilhas de Chio e de
+Lesbos. Alexandre não quiz intregar ao acaso de um combate naval a gloria até
+alli alcançada; abandonou aos Persas o dominio do mar e fez convergir todos os
+seus exforços para se apoderar dos portos e cortar toda a communicação entre o
+exercito inimigo e a Grecia. Tendo subjugado a Lydia, dirigiu-se para a
+Pamphylia sem incontrar obstaculos; atravessou a Cappadocia, foi á Cilicia e a
+Tarso, d'onde partiu ao incontro do exercito de Dario, que derrotou nos
+desfiladeiros do Isso. A mãe, mulher e filhos de Dario cahiram em seu poder e
+Alexandre tratou-os com a maior generosidade. Apoderou-se depois da Phenicia, e
+tomou Tyro depois de septe mezes de cêrco. Subjugou em seguida a Judéa, e tomou
+Damasco, onde estavam os thesouros de Dario. Intentou destruir Jerusalem, por
+lhe haver recusado viveres; mas desistiu do seu proposito, em presença das
+supplicas que lhe dirigiu o summo sacerdote Jaddo.</p>
+
+<p>Da Judéa dirigiu-se para o Egypto, onde bastou a sua presença, para que
+todas as povoações se lhe intregasem. Foi até á imboccadura do Nilo, onde
+lançou os fundamentos da cidade de Alexandria. Incaminhou-se para o
+Alto-Egypto, penetrou no deserto e chegou até ao oasis em que estava
+estabelecido o templo de Jupiter Ammon, e onde os sacerdotes lhe concederam o
+titulo de «filho de Jupiter».</p>
+
+<p>Do Egypto voltou á Asia e penetrou na Armenia, indo ao incontro de um
+terceiro exercito de Dario, que derrotou, apezar da grande superioridade
+numerica d'este, intrando triumphante em Babylonia. Esta victoria tornou-o
+senhor do grande imperio persa; e elle, para segurar as suas conquistas,
+marchou<span class="pn">{56}</span> em persiguição de Dario que foi morto por
+um traidor do seu proprio exercito, Besso, em Ecbatana.</p>
+
+<p>Alexandre tomou sob a sua protecção a familia de Dario; marchou contra
+Besso, que se fizera proclamar rei em Bactriana, apoderou-se d'elle e mandou-o
+matar. A posse do mar Caspio e as estradas militares que abriu para Herat e
+para Nichapur patentearam-lhe as communicações com todos os differentes pontos
+da Persia.</p>
+
+<p>Depois de ter assentado tão vasto dominio, resolveu passar á India.
+Atravessou o Indo, alliou-se com o rei Daxilo e subjugou differentes estados
+vizinhos d'este. Adeantou-se até ao interior da India, onde edificou diversas
+cidades, e preparava-se para atravessar o Hyphaso, quando as suas tropas,
+fartas de tão longo exilio e de tanta peregrinação, se recusaram a seguil-o e
+lhe pediram para voltar á patria. Alexandre annuiu a este desejo. Depois do seu
+regresso, ainda subjugou os Oxidracos e outros povos, percorreu a Média, e
+introu em Ecbatana, onde falleceu o seu favorito Ephestion.</p>
+
+<p>Voltando a Babylonia, foi alli alvo do maior triumpho. Recebeu embaixadores
+de todas as partes do mundo, acolhendo com especial agrado os da Grecia. Quiz
+fundir os Gregos e os Persas n'um só povo, por meio de allianças e de colonias,
+e espalhou por todo o Oriente as idéas, a litteratura e a civilização da
+Grecia. Durante um anno elaborou esses planos, mas não poude pôl-os em
+execução, porque veiu a morrer aos 39 annos de edade, no anno 324 antes de
+Christo.</p>
+
+<p>Fallecido Alexandre, os Macedonios, depois de alguns dias de contestações e
+de jogo de intrigas e de ambições, escolheram para rei a Arideu; mas bem
+depressa se desfizeram d'elle, bem como da familia de Alexandre. Os generaes,
+que haviam sido d'este, trataram de apoderar-se das conquistas que elle fizera,
+e a partilha foi origem de uma guerra que veio a terminar com a batalha de
+Ipso.</p>
+
+<p>Emquanto os successores de Alexandre disputavam entre si as conquistas da
+Asia, a Grecia intentou recuperar a sua liberdade. Demosthenes, que ficára
+sendo o inspirador do patriotismo e do partido nacional, promoveu a guerra da
+independencia, que acabou por um desastre. O grande orador sendo proscripto,
+invenenou-se no exilio. Com esta morte toda a esperança se perdeu. Ainda Arato
+conseguiu restaurar a antiga confederação das cidades de Achaia; e essa
+confederação ia talvez extender-se, para formar uma barreira perante as
+ambições da Macedonia. Mas Esparta, que se tinha novamente elevado sob o
+governo de Cleomenes, correu a imbargar-lhe<span class="pn">{57}</span> o
+passo. Cleomenes foi vencido; porêm os Macedonios, que tinham auxiliado os
+Acheus contra elle, ficaram outra vez preponderantes. Os Romanos começam a
+inquietar-se com essa preponderancia, resolvem intervir, ganham a batalha de
+Cynocephalo, dissolvem a confederação achaica, e declaram livres todas as
+cidades da Grecia. Estas regosijam-se com o facto, sem comprehenderem que os
+Romanos dividiam para dominar e absorver. Conheceram tarde o seu erro; e,
+quando quizeram reconstruir a confederação e se armaram para resistir aos
+Romanos, estes venceram a batalha de Leucopetra, junto de Corintho; esta cidade
+foi queimada pelo consul Mummio, que commandava o exercito de Roma; a Grecia
+foi declarada provincia romana, e o povo que a habitava, e que tão brilhante
+papel representára na civilização do mundo, foi absorvido na grande massa das
+populações sujeitas ao dominio de Roma. Ficou a Grecia sendo governada por um
+pretor, nomeado annualmente pelo senado romano. Só Athenas conservou até ao
+tempo do imperador Vespasiano uma constituição republicana.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION00212">CAPITULO XI<br>
+OS ROMANOS</a> </h1>
+
+<p>A Italia, como a conheciam e designavam na Antiguidade, era constituida pela
+peninsula alongada, existente no sul da Europa, que se prolonga com direcção
+sueste entre os mares Adriatico e Tyrrheno e na extensão de 800 kilometros.
+Tambem lhe pertencia a Sicilia (ilha d'ella separada por um pequeno estreito),
+bem como a vasta planicie que se extende até á base dos Alpes (que é
+atravessada pelo rio Pó e cuja metade superior era conhecida pelo nome de
+Gallia Cisalpina). Aos pés das montanhas da Sabina, iam incontrar-se as ferteis
+planicies do Lacio e da Etruria, sobre as margens do rio Tibre. A alguma
+distancia da sua confluencia com o Arno, passa este rio entre novas collinas,
+duas das quaes&mdash;o Janiculo e o Vaticano&mdash;dominam a sua margem direita
+e as outras estão sobranceiras á esquerda. Foi alli que se edificou Roma.</p>
+
+<p>Durante muito tempo, e apezar da preponderancia que a população e os
+estabelecimentos do Lacio adquiriram, conservou-se a peninsula dividida em
+diversas nacionalidades, estabelecidas<span class="pn">{58}</span> nas
+seguintes regiões do territorio; Liguria, Etruria, Campania, Lucania, Apulia,
+Samnio, Umbria, etc. A unidade politica da Italia peninsular sómente veio a
+realizar-se depois de um grande numero de tentativas e de esforços continuos e
+pertinazes de Roma, para vencer as nacionalidades autonomas locaes, que eram
+muito ciosas dos seus direitos o da sua independencia.</p>
+
+<p>Roma deve ter sido primitivamente uma colonia de Alba-Longa, cidade que
+pertencia á confederação do Lacio. Ignora-se, porêm, ao certo como se fundou,
+quaes os elementos a que deveu origem, e as circumstancias que se deram nos
+seus primeiros tempos. A historia verdadeira da sua primeira epocha é ainda
+hoje ignorada, porque como historia verdadeira não pode considerar-se a
+collecção de fabulas e de tradições maravilhosas e inverosimeis, que antigos
+historiadores colheram das lendas e das crendices populares.</p>
+
+<p>A historia dos septe reis de Roma passa por ser uma lenda em que figuram:
+1.º rei, Romulo, que com seu irmão Remo edificou no monte Palatino a cidade de
+Roma; 2.º rei, Numa, monarcha religioso inspirado pela nympha Egeria; 3.º rei,
+Tullo Hostilio, que destruiu Alba-Longa, depois da guerra entre Horacios e
+Curiacios; 4.º rei, Anco Marcio, que foi o fundador de Ostia; 5.º rei,
+Tarquinio o <em>Antigo</em>, vencedor das cidades latinas do Tibre superior;
+6.º rei, Servio Tullio, o legislador, amigo do povo; 7.º rei, Tarquinio o
+<em>Soberbo</em>, tyranno abominavel que foi expulso pelos Romanos, sendo com
+essa expulsão abolida a realeza.</p>
+
+<p>Contam os antigos historiadores nos seguintes termos a fabula da fundação de
+Roma. Romulo e Remo eram filhos do deus Marte e de Rhea Silvia (filha de um rei
+de Alba), que fôra feita vestal (para não poder casar nem ter descendencia) por
+seu tio Amulio que derrubou seu pae do throno. Sabendo Amulio do nascimento das
+duas creanças, mandou-as lançar ao Tibre; mas a pessoa incarregada de as deitar
+ao rio, por compaixão deixou-as na margem, d'onde um pastor as recolheu, sendo
+ellas, segundo uns, amamentadas por uma loba, e segundo outros pela mulher do
+pastor, que dizem se chamava <em>Lupa</em> (Loba).</p>
+
+<p>Quando chegaram a homens, Romulo e Remo reuniram grande numero de
+aventureiros, vagabundos e descontentes; e com elles tiraram o throno a Amulio,
+restituindo-o a seu avô materno Numitor, que d'elle havia sido desapossado.
+Feito isto, foram fundar uma cidade no sitio em que haviam sido creados,<span
+class="pn">{59}</span> e essa cidade foi Roma. Passou-se isto no anno 753 antes
+de Christo.</p>
+
+<p>Romulo mandou matar a Remo com o pretexto de que este, saltando por um
+vallado (que foi a primeira muralha de Roma), pretendêra zombar d'elle. Povoou
+a nova cidade com homens dos povos vizinhos que a si attrahiu; e, como não
+houvesse mulheres para com elles casarem, mandou fazer umas festas publicas,
+para as quaes convidou os Sabinos, e ás quaes concorreram estes em grande
+numero com suas familias. Em meio dos festejos os Romanos roubaram as mulheres
+aos Sabinos, fazendo-os fugir. Ao rapto das Sabinas seguiu-se uma guerra entre
+os dois povos, a qual não teve grande duração, porque as proprias raptadas,
+então já casadas, intervieram para fazer a paz entre os maridos e os paes e
+irmãos.</p>
+
+<p>A fabula narrada como causa da expulsão de Tarquinio o Soberbo e da abolição
+da realeza em Roma é a seguinte. Contam que tendo Sexto Tarquinio (filho do
+rei) injuriado em seu pudor a Lucrecia (mulher do nobre Collatino), esta
+convocára todos os seus parentes e os outros nobres da cidade para lhes pedir
+vingança e em seguida se suicidára. D'ahi resultou uma revolução, capitaneada
+por Collatino e por Lucio Junio Bruto, sendo expulso Tarquinio, abolida a
+realeza e estabelecida a fórma republicana. Esta revolução foi toda feita pelos
+patricios, e por isso a republica ficou nas mãos d'elles e com feição
+aristocratica. O governo foi confiado a dois consules, sendo os primeiros os
+dois auctores da deposição de Tarquinio, Bruto e Collatino. Refere-se este
+acontecimento ao anno 509 antes de Christo.</p>
+
+<p>Tiveram pouco depois os Romanos que sustentar uma guerra contra Parsenna,
+rei da Etruria, que os atacou para restabelecer no poder a Tarquinio. O
+exercito de Persenna chegou a tomar o Janiculo e a acampar junto dos muros de
+Roma, pretendendo reduzil-a pela fome; mas foi repellido pelos Romanos com
+grande denodo, e Persenna veio depois a tornar-se amigo e alliado de Roma.</p>
+
+<p>Os Tarquinios continuaram ainda a fazer guerra á republica até á morte de
+Aruns (filho de Tarquinio) que succumbiu ás mãos de Bruto. Este fôra ferido
+mortalmente por Aruns e, concitando todas as suas forças e energia, matou-o,
+cahindo sem vida sobre o seu cadaver.</p>
+
+<p>Annos depois Manlio (genro de Tarquinio) suscitou contra Roma a guerra,
+chamada dos Latinos. Estes chegaram a approximar-se da cidade com um exercito
+numeroso. O povo romano recusava-se a tomar as armas se os nobres ou
+patricios,<span class="pn">{60}</span> que os opprimiam, não o desobrigassem
+das suas dividas e não lhe tornassem melhor o viver. Representava que era elle
+que fazia a guerra, mas que as vantagens e as honras eram todas para os ricos e
+nobres. Estes promptificaram-se a adiar a exigencia das dividas, mas não a
+dál-as por findas. Em tal apuro, por consenso mutuo, creou-se um magistrado
+supremo, denominado <em>dictador</em>, com poder absoluto por seis mezes e
+incarregado de conciliar todos os interesses. Para esse cargo foi escolhido
+Largio que, fazendo-se acompanhar de 24 lictores armados de machados, apparecia
+em toda a parte, obrigando todos a intrar na ordem, sob ameaça de morte. O povo
+amedrontou-se perante esta energia, fez-se o alistamento, e o exercito marchou
+contra os Latinos. Estes pediram um armisticio, que lhes foi concedido; e
+Largio exonerou-se da dictadura. Reappareceram mais tarde os Latinos; mas Aulo
+Posthumio, nomeado dictador, foi ao seu incontro, vencendo-os n'uma batalha
+decisiva em que ficaram mortos Tito e Sexto, filhos de Tarquinio o Soberbo.</p>
+
+<p>Tendo depois os Romanos guerras com os Volscos e os Equos, foi Cincinnato
+incarregado do commando do exercito. O lictor que ia dar-lhe noticia da
+nomeação, incontrou-o com a charrua a arar o campo. Cincinnato largou a
+cultura, poz-se á frente do exercito, e, em quinze dias, derrotou os inimigos.
+Alcançada a victoria, o heroe voltou ao trabalho da sua cultura agricola, que
+deixára interrompido. Coriolano, que se vira obrigado a sahir de Roma, em
+resultado de dissenções civis entre os tribunos da plebe e os patricios, aos
+quaes aquelle pertencia, lançou-se no partido dos Volscos e recomeçou com elles
+a guerra contra os Romanos. Vencido, porêm, pelas supplicas de sua mulher e de
+sua mãe, retirou-se e recolheu ao paiz dos Volscos que (segundo alguns) o
+assassinaram.</p>
+
+<p>Seguiu-se a guerra contra os Veientes,&mdash;um dos povos etruscos, inimigo
+eterno dos Romanos, que todos os annos renovava as hostilidades. Os Fabios,
+familia nobre de Roma, offereceram á republica um concurso poderoso e
+extraordinario, fazendo por si sós uma guerra particular contra os Veientes;
+mas foram horrivelmente derrotados, ficando os trezentos patricios, que
+compunham este pequeno exercito, todos mortos junto a Cremera. Notaveis
+victorias vingaram, porêm, depois esta derrota; differentes generaes romanos
+ganharam grandes batalhas e se apoderaram das praças fortes do inimigo. Os
+Veientes eram tão poderosos que, cercados na sua cidade, defenderam-se durante
+dez annos dos Romanos, os quaes haviam jurado não voltar a Roma sem haverem
+tomado<span class="pn">{61}</span> a valorosa povoação dos Veientes. O
+juramento cumpriu-se e a cidade foi tomada.</p>
+
+<p>Por esse tempo Roma tratou de aperfeiçoar as suas instituições e a sua
+legislação, adoptando algumas das leis vigentes na Grecia. Crearam-se os
+<em>decemviros</em>, para exercerem o poder em vez dos dois consules. As leis
+que adoptaram de Athenas foram pelos Romanos gravadas em doze tábuas, o que
+lhes originou a designação de <em>leis das doze tábuas</em>. Teve pouca duração
+a instituição dos decemviros, que foi por sua vez substituida pela de dois
+consules. Esta substituição fez-se por exigencia do povo, cançado da tyrannia
+dos decemviros e dos excessos dos nobres. O povo ainda obteve outra victoria:
+estabeleceu-se que os consules tanto pudessem ser eleitos entre os patricios
+como entre a plebe, e que se pudessem fazer casamentos entre individuos de
+differentes classes sociaes.</p>
+
+<p>Seguiram-se outras guerras, de algumas das quaes tratámos atraz, em
+differentes capitulos, a proposito dos outros diversos povos, como a de
+Tarento, a de Pyrrho, a de Syracusa, as tres guerras punicas, a dos Corinthios,
+e a da Hespanha, que os Romanos submetteram tambem. Todas estas guerras tiveram
+como resultado dar a Roma uma vastissima dominação no mundo.</p>
+
+<p>Assim, no anno 130 antes de Christo, dominava ella desde o littoral da
+peninsula iberica até ao centro da Asia Menor. Estava sujeito ao seu dominio
+quasi todo o antigo mundo.</p>
+
+<p>Mas a conquista de tão vastos e tão ricos paizes tinha tido sobre os
+costumes dos Romanos uma influencia desastrosa. Tinham estes renunciado á sua
+antiga simplicidade e tinham aberto as portas ao luxo. Os nobres tinham-se
+tornado crapulosos e perdularios; o povo, accessivel á venalidade. D'ali
+proveio a decadencia que a pouco e pouco produziu a ruina da republica e da
+liberdade.</p>
+
+<p>Catilina, um nobre romano, eivado de todos os vicios da sua classe,
+aproveitando-se da ausencia dos exercitos, que estavam na Asia combatendo
+contra Mithridates, concebeu o negro plano da perda da patria, tendo por
+cumplices alguns dos seus mais nobres compatriotas. Incontrou porêm a opposição
+patriotica dos consules Cicero e Antonio; o primeiro, nos seus eloquentes
+discursos, punha em evidencia as conspirações do traidor e concitava contra
+elle o patriotismo da plebe; o segundo marchou contra o exercito com que
+Catilina vinha, da Etruria sobre Roma e desbaratou-o. Catilina foi morto no
+combate.<span class="pn">{62}</span></p>
+
+<p>Novas calamidades esperavam, porêm, a republica romana. No meio do excessivo
+poderio e da dissolução dos costumes, quando Roma celebrava as victorias
+alcançadas por Pompeu no Oriente, a grande influencia e o grande prestigio
+d'este general despertou a inveja de outros generaes e outros nobres
+ambiciosos, como Metello, Crasso e Cesar.</p>
+
+<p>Aspirando Cesar a ganhar poder, Crasso a augmentar o seu, e Pompeu a
+conservar o que possuia, facil foi aos tres ambiciosos combinarem-se para se
+apoderarem da republica. Distribuindo elles a sua força commum, Cesar
+assenhorou-se da Gallia, Crasso da Asia, e Pompeu de Hespanha; cada um tinha um
+grande exercito sob as suas ordens, por fórma que o imperio do mundo ficou
+assim dividido entre aquelles tres dominadores. Mas a concordia que
+apparentavam entre si era unicamente o resultado do receio que cada um d'elles
+tinha dos outros. Morto Crasso, bem depressa se rompeu a harmonia entre Cesar e
+Pompeu. Este, apoiado pelo senado, intimou Cesar para que abandonasse o seu
+governo e o commando do seu exercito. Cesar, em vez de obedecer, marchou sobre
+Roma e fez sabir d'ahi Pompeu e todos os seus partidarios. Seguia-os até á
+Hespanha, onde bateu todos os logar-tenentes de Pompeu, e passou depois á
+Grecia, onde se incontrou com este na Thessalia, perto de Pharsalia. Vieram ás
+mãos os exercitos de um e outro, a victoria ficou indecisa; mas, tendo-se
+afastado Pompeu do campo,&mdash;o seu exercito, perdendo a força moral, foi
+completamente destroçado.</p>
+
+<p>Pompeu viu-se obrigado a refugiar-se no Egypto, onde foi assassinado no
+momento de desimbarcar, por ordem de Ptolomeu. Depois de em Africa bater Juba,
+que sustentára o partido de Pompeu, e de derrotar os filhos d'este em
+Hespanha,&mdash;Cesar recolheu a Roma, onde foi recebido com grande ovação, e
+onde sobre sua cabeça foram accumuladas as maximas honras.</p>
+
+<p>Bem depressa se urdiu, porêm, uma conspiração contra a sua vida. Foram
+auctores d'ella Bruto, Cassio e outros patricios; e Cesar morreu sob o punhal
+de Bruto.</p>
+
+<p>Livres os Romanos de Pompeu e de Cesar, parecia que iam recuperar a antiga
+liberdade; mas Sexto Pompeu, reclamando os bens de seu pae, tornou-se o
+flagello do mar; Octavio, procurando vingar Cesar, soprou a guerra na
+Thessalia, e Antonio amotinou o povo contra os assassinos de Cesar, fazendo com
+que elles fossem expulsos de Roma.</p>
+
+<p>Antonio, Lepido e Augusto constituiram-se em triumvirato para vingar a morte
+de Cesar. Octavio e Antonio marcharam<span class="pn">{63}</span> contra Bruto
+e Cassio, que sustentavam o senado, e deixaram Lepido em Roma. Incontraram-se
+os dois exercitos inimigos na Thessalia; a victoria esteve a principio
+indecisa; mas depois Cassio, sendo repellido, persuadiu-se de que o mesmo tinha
+acontecido a Bruto e suicidou-se. Isso produziu a derrota de Bruto, que tambem
+se matou, para não cahir nas mãos dos inimigos.</p>
+
+<p>A harmonia entre os triumviros não se manteve muito tempo. Lepido foi
+desterrado para uma ilha, onde morreu. Antonio e Augusto desavieram-se e
+romperam hostilidades, acabando a contenda pela batalha de Accio. Antonio,
+vencido, suicidou-se; e o Egypto foi reduzido a uma provincia romana.</p>
+
+<p>Doze annos depois de se haver constituido o triumvirato, viu-se Octavio
+senhor absoluto do grande imperio romano. Depois de ter estabelecido a paz na
+terra e no mar, fechou o templo de Jano, em signal de paz geral. Senhor de
+tudo, tendo nas suas mãos a força militar, investido nas funcções de todas as
+magistraturas do estado, apezar de conservar as formulas republicanas, tomou o
+titulo de imperador, com o nome de <em>Augusto</em>. Pouco depois, declarou que
+ia intregar os poderes nas mãos do senado e do povo; mas, tendo disposto
+convenientemente as coisas, obteve que, em nome do bem publico, lhe
+conservassem o poder por mais dez annos.</p>
+
+<p>Não tendo filhos que pudessem ser herdeiros do imperio, declarou como tal a
+Tiberio Nero, que adoptou por filho. Deu o commando de oito legiões, inviadas
+ao Rheno, a Germanico Cesar, filho de Druso, e fez com que Tiberio o adoptasse.
+Veio a morrer na edade de 76 annos.</p>
+
+<p>Foi no seu reinado que, no anno 753 da fundação de Roma, nasceu Jesus
+Christo em Bethlem, cidade da Palestina.</p>
+
+<p>O imperio romano tentou continuar o dominio universal. Succederam-se uns aos
+outros os imperadores, muitos dos quaes foram tyrannos, e muitos morreram
+assassinados. O imperio foi successivamente infraquecendo. Tres invasões lhe
+deram o ultimo golpe: a dos Wisigodos, a dos Vandalos e a dos Hunos. Por morte
+do imperador Theodosio, o imperio fôra dividido entre seus dois filhos: Arcadio
+teve em partilha o imperio do Oriente; Honorio o do Occidente. Foi este o que
+cahiu perante a invasão d'aquelles Barbaros, no anno 476 da era christan,
+fechando com esse acontecimento a Historia Antiga. O imperio do Oriente logrou
+acompanhar ainda o periodo historico da Edade-Média.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;">FIM<span class="pn">{64}</span></p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: 2.5em;">Os Mysterios da Inquisição</p>
+
+<p style="text-align:center;">POR</p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: 1.6em;">F. Gomes da Silva</p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: 1.4em;">Obra illustrada a côres</p>
+
+<p style="text-align:center;">POR</p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: 1.6em;">MANUEL DE MACEDO E ROQUE GAMEIRO.</p>
+
+<p>Sob o titulo <strong>Os Mysterios da Inquisição</strong> condensam-se
+variadissimos factos historicos, desentranham-se os horrores d'epochas
+passadas, escalpellam-se figuras d'outros seculos, investigam-se
+particularidades estupendas, encadeiam-se acontecimentos dispersos e
+tenebrosos, enaltecem-se as grandes virtudes, faz-se rebrilhar a verdade, e
+põem-se em relevo todas as personagens que entram n'este grande drama, em que
+vibram commoções da maior intensidade e affectos do mais exaltado amor.</p>
+
+<p>O romance <strong>Os Mysterios da Inquisição</strong> constará de 3 volumes
+de grande formato. A distribuição será feita semanalmente em fasciculos de 3
+folhas ou 24 paginas com uma gravura a côres pelo preço de 60 réis, ou em tomos
+de 15 folhas ou 120 paginas com 5 gravuras por 300 réis.</p>
+
+<p>Para as provincias a distribuição é feita em tomos de 300 réis ou em
+fasciculos quinzenaes de 48 paginas e 2 gravuras por 120 réis.</p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: 1.2em;"><em>Precioso brinde a todos os Srs.
+assignantes</em></p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: 1.2em;">Uma magnifica estampa a côres, medindo
+0,57x0,44</p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Historia Antiga, by Unknown
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIA ANTIGA ***
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+Produced by M. Silva
+
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+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
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+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
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+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
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+such as creation of derivative works, reports, performances and
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+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
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+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
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+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
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+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
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+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
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+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
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+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
+</pre>
+
+</body>
+</html>