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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:47:44 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Historia Antiga + +Author: Unknown + +Release Date: July 28, 2009 [EBook #29529] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIA ANTIGA *** + + + + +Produced by M. Silva + + + + + +</pre> + + +<div style="border: double 10px #000; padding: 1em; text-align: center;"> +<span class="pn">{1}</span> + +<p style="font-size: 0.8em;">PROPAGANDA DE INSTRUCÇÃO<br> +PARA<br> +Portuguezes e Brazileiros</p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.4em;">B<small>IBLIOTHECA DO</small> +P<small>OVO</small></p> + +<p>E DAS ESCOLAS</p> + +<p style="font-size: 3em;">HISTORIA ANTIGA</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">CADA VOLUME 50 RÉIS</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">TERCEIRO ANNO—OITAVA SERIE</p> + +<p +style="font-size: 0.8em; margin: 10%; text-align: justify; text-indent: 1em; border: solid 1px #000; padding: 1em;">Cada +volume abrange 64 paginas, de composição cheia, edição estereotypada,—e +fórma um tratado elementar completo n'algum ramo de sciencias, artes ou +industrias, um florilegio litterario, ou um aggregado de conhecimentos uteis e +indispensaveis, expostos por fórma succinta e concisa, mas clara, +despretensiosa, popular, ao alcance de todas as intelligencias.</p> + +<p>LISBOA<br> +SECÇÃO EDITORIAL DA COMPANHIA NACIONAL EDITORA<br> +Adm. Justino Guedes<br> +Largo do Conde Barão, 50<br> +Agencias: PORTO—Largo dos Loyos, 47,1.º<br> +RIO DE JANEIRO—R. da Quitanda, 38<br> +1900<br> +NUMERO 58<span class="pn">{2}</span></p> +</div> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION0010">INDICE</a> </h2> +<ul class="TofC"> + <li><a name="tex2html18" href="#SECTION0021">INTRODUCÇÃO</a> </li> + <li><a name="tex2html19" href="#SECTION0022">CAPITULO I—OS HEBREUS</a> + </li> + <li><a name="tex2html20" href="#SECTION0023">CAPITULO II—OS + EGYPCIOS</a> </li> + <li><a name="tex2html21" href="#SECTION0024">CAPITULO III—OS ASSYRIOS E + BABYLONIOS</a> </li> + <li><a name="tex2html22" href="#SECTION0025">CAPITULO IV—OS + PHENICIOS</a> </li> + <li><a name="tex2html23" href="#SECTION0026">CAPITULO V—OS + CARTHAGINEZES</a> </li> + <li><a name="tex2html24" href="#SECTION0027">CAPITULO VI—OS SYRIOS</a> + </li> + <li><a name="tex2html25" href="#SECTION0028">CAPITULO VII—OS PERSAS</a> + </li> + <li><a name="tex2html26" href="#SECTION0029">CAPITULO VIII—OS + INDIOS</a> </li> + <li><a name="tex2html27" href="#SECTION00210">CAPITULO IX—OS CHINS</a> + </li> + <li><a name="tex2html28" href="#SECTION00211">CAPITULO X—OS GREGOS</a> + </li> + <li><a name="tex2html29" href="#SECTION00212">CAPITULO XI—OS + ROMANOS</a> </li> +</ul> + +<p> </p> + +<table align="center" style="font-size: 0.8em;" summary="errata"> + <tbody> + <tr> + <th colspan="3">ERRATAS IMPORTANTES</th> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td>Pag.</td> + <td>Linha</td> + <td>Onde se lê</td> + <td>Leia-se</td> + </tr> + <tr> + <td>11</td> + <td>36</td> + <td>elementos</td> + <td>alimentos</td> + </tr> + <tr> + <td>12</td> + <td>18</td> + <td>Amvrão</td> + <td>Amrão</td> + </tr> + <tr> + <td>»</td> + <td>27</td> + <td>Egypto</td> + <td>Egypto, por meio</td> + </tr> + <tr> + <td>14</td> + <td>26</td> + <td>peccado,</td> + <td>peccado,—</td> + </tr> + <tr> + <td>»</td> + <td>42</td> + <td>altar,</td> + <td>um altar</td> + </tr> + <tr> + <td>»</td> + <td>44</td> + <td>estão</td> + <td>estavam</td> + </tr> + <tr> + <td>15</td> + <td>38</td> + <td>incluindo</td> + <td>incluido</td> + </tr> + <tr> + <td>22</td> + <td>6</td> + <td>de que</td> + <td>do que</td> + </tr> + <tr> + <td>33</td> + <td>19</td> + <td>moisaica</td> + <td>moysayca</td> + </tr> + <tr> + <td>52</td> + <td>31</td> + <td>tomam</td> + <td>tomaram</td> + </tr> + <tr> + <td>53</td> + <td>6</td> + <td>impervas</td> + <td>impervias</td> + </tr> + <tr> + <td>57</td> + <td>33</td> + <td>notas</td> + <td>novas</td> + </tr> + <tr> + <td>58</td> + <td>17</td> + <td>seis</td> + <td>reis</td> + </tr> + </tbody> +</table> + +<p><span class="pn">{3}</span></p> + +<div id="corpo"> +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION0020">HISTORIA ANTIGA</a> </h1> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION0021">INTRODUCÇÃO</a> </h1> + +<p>L<small>IMITES DA </small>H<small>ISTORIA +</small>A<small>NTIGA—</small>S<small>UA +DIVISÃO—</small>T<small>EMPOS PRE-HISTORICOS—</small>O <small>HOMEM +PRE-HISTORICO—</small>E<small>DADE DE PEDRA—</small>E<small>DADE DE +BRONZE—</small>R<small>AÇAS HISTORICAS OU +PRIMITIVAS—</small>O<small>S POVOS DA +</small>A<small>NTIGUIDADE</small></p> + +<p> </p> + +<p>Conforme ao que dissémos no tratadinho de <em>Historia Universal</em> (vol. +XLVI da <em>Bibliotheca do Povo e das Escolas</em>), começa a <em>Historia +Antiga</em> desde as mais remotas epochas de que possa haver-se conhecimento e +prolonga-se até ao seculo <small>V</small> da era christan.</p> + +<p>N'ella se comprehende a epocha da phase brilhante dos povos orientaes, a +qual mais tarde esmoreceu perante a supremacia que vieram a adquirir as +civilizações classicas—primeiro a grega e depois a romana—na +Europa, comparativamente com os poderosos e vastos imperios da Asia e do norte +da Africa. O longo periodo da Historia Antiga fecha com o desmoronamento do +imperio romano.</p> + +<p>A <em>Historia Antiga</em> pode dividir-se em tres periodos, cada um dos +quaes se divide por sua vez em epochas principaes.</p> + +<p>Os tres periodos são;—o dos <em>tempos primitivos</em>;—o dos +<em>tempos mythologicos</em>;—e o dos <em>tempos historicos</em>.</p> + +<p>O primeiro periodo comprehende duas epochas principaes: a da <em>origem do +homem</em>, e a do <em>diluvio</em> e da <em>dispersão dos homens</em>, segundo +a tradição biblica.</p> + +<p>No segundo periodo notam-se tres epochas principaes que são:—a dos +<em>tempos idolatras</em>, caracterizada pela fundação dos imperios da China, +da Asia, do Egypto, e da Grecia, e pela<span class="pn">{4}</span> tendencia +que os povos tinham a elevar á categoria de deuses os seus primeiros +soberanos;—a dos <em>tempos heroicos</em>, em que appareceram grandes +conquistadores, fundadores de cidades, e outros homens notaveis, que os povos, +então já mais adeantados, se limitaram a considerar na categoria de heroes ou +semi-deuses;—a dos <em>tempos poeticos</em>, ou epocha em que os +prophetas e os poetas exerceram uma acção efficaz sobre o progresso da +civilização, e deram a fórma poetica ás tradições e á legislação.</p> + +<p>No periodo dos <em>tempos historicos</em> (aquelle de que possuimos noções +mais seguras e mais positivas) são seis as epochas principaes, a saber:—a +<em>epocha legislativa</em>, em que sobresaem quatro personagens mais notaveis: +Lycurgo, Numa, Solon e Confucio;—a <em>epocha da grande gloria da +Grecia</em>, na qual esta nação teve a supremacia da civilização na Europa, +então começada a aproveitar pela expansão progressiva do Oriente;—a das +<em>conquistas dos Romanos</em>, que se substituiram aos Gregos na dominação e +na influencia, e alargaram consideravelmente a colonização até ao occidente da +Europa;—a das <em>dissenções intestinas da republica romana</em>;—a +do <em>grande explendor do imperio romano</em>;—a da <em>decadencia do +mesmo imperio</em>, cujo desmoronamento põe termo á Historia Antiga, e abre com +a invasão dos Barbaros do norte o periodo da Historia da Edade-Média.</p> + +<p>Reina ainda bastante incerteza na sciencia da Historia ácêrca da verdadeira +epocha do apparecimento do homem sobre a superficie da Terra. Por muito tempo +foi geralmente acceito que, se tal epocha não era exactamente contemporanea das +mais antigas civilizações orientaes de que temos noticia, pelo menos não era +anterior ao actual periodo geologico, e que o homem sómente havia apparecido +pela primeira vez n'um periodo relativamente recente e já contemporaneo da +fauna e da flóra actuaes, cêrca do logar em que as tradições de differentes +povos fazem demorar o berço da especie humana.</p> + +<p>Os descobrimentos da Geologia, sciencia moderna mas já abundante em +resultados definidos, têem, porêm, tirado o valor áquella noção e demonstram +ser mais antiga a existencia do homem na superficie da Terra. Com os elementos +que aquella sciencia lhe fornece, a Archeologia Pre-historica, de creação muito +recente mas de rapidos progressos, tem chegado a adquirir o conhecimento de que +o homem existia desde uma epocha muitos milhares de annos anterior á actual, +tendo até chegado a ganhar n'essas remotissimas edades um certo gráu de<span +class="pn">{5}</span> cultura, traduzido no exercicio de industria, de +commercio, e ainda n'outras manifestações de actividade.</p> + +<p>A existencia do homem primitivo, ou do <em>homem pre-historico</em>, ou de +raças humanas de que pela Historia propriamente dita não temos conhecimento +algum, é-nos revelada pelo descobrimento de instrumentos de pedra (utensilios +mais ou menos grosseiramente fabricados com aquelle mineral, e affeiçoados a +differentes usos) e pelo de fragmentos de peças de loiça, de armas e de +differentes outros utensilios de uso domestico,—tudo em camadas de +formação anterior ao actual periodo geologico.</p> + +<p>Estes vestigios evidentes do homem pre-historico incontram-se nas excavações +feitas nas camadas de terreno correspondentes ao periodo que a Geologia +denomina <em>quaternario</em>, periodo que é o immediatamente anterior ao +actual. Mais recentes descobrimentos, porêm, parecem provar que a existencia do +homem é ainda anterior áquelle periodo. Excavações feitas em terrenos do +periodo <em>terciario</em> tendem effectivamente a revelar a existencia do +homem durante a formação dos mesmos terrenos. É no terreno denominado +<em>mioceno</em> que se incontram os vestigios que levam a essa conclusão, e +d'ahi provêm o nome de <em>homem mioceno</em> ou <em>homem terciario</em> ao +homem que se julga ter existido no referido periodo geologico<a +name="tex2html1" href="#foot257"><sup>[1]</sup></a>.</p> + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot257" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> Veja-se o livrinho de +<em>Geologia</em> (vol. XXXI da <em>Bibliotheca do Povo e das Escolas</em>).</p> +</div> + +<p>Não acceitam ainda todos os archeologos a existencia do homem terciario; mas +a opinião que a defende vai cada dia ganhando mais terreno. O congresso de +Anthropologia e de Archeologia pre-historica, que em 1880 se reuniu em Lisboa, +tratou essa questão e contribuiu muito para a sua resolução definitiva, sendo +importantes os dados que para isso forneceram as excavações feitas no nosso +paiz e os achados n'ellas realizados pelo eminente geologo portuguez Carlos +Ribeiro, ha pouco fallecido.</p> + +<p>A Archeologia Pre-historica divide o periodo <em>quaternario</em>, sob o +ponto-de-vista da existencia de vestigios da especie humana, em duas +epochas:—a <em>edade paleolithica</em>, ou da pedra lascada;—e a +<em>edade neolithica</em>, ou da pedra polida. A substancia de que são +fabricados os instrumentos achados, e a perfeição relativa do seu fabrico, são +os fundamentos que fornecem os caracteres distinctivos das duas edades.</p> + +<p>Á edade paleolithica pertencem armas e instrumentos de silex, principalmente +machados, talhados toscamente pela separação<span class="pn">{6}</span> de +lascas tiradas pela percussão. Estes instrumentos tinham evidentemente por fim +o cortar, e alguns, de pontas mais aguçadas, o de furar. Alguns ha, com fórma +similhante á das raspadeiras, que deviam servir para preparar as pelles de +animaes, com que se vestiam os primeiros homens. Os vestigios correspondentes a +esta epocha pre-historica fazem crer que o modo de viver da especie humana foi +então de extrema simplicidade, que eram desconhecidos os animaes domesticos e a +agricultura, que os homens vagueavam pelas florestas virgens, alimentando-se +com os fructos silvestres e com o producto da caça, e abrigando-se nas cavernas +naturaes, cuja posse ás vezes se viam obrigados a disputar aos animaes ferozes. +A alimentação dos que viviam á beira do mar ou dos lagos consistia em peixe e +marisco. O estado social devia ser o mais rudimentar possivel; apenas se pode +considerar n'aquella epocha esboçado o viver da familia. Aquelle modo de viver +era por certo ainda mais simples e primitivo do que o dos actuaes selvagens da +Nova Caledonia.</p> + +<p>Um pouco mais perfeito foi de certo o viver na edade neolithica. As armas e +os utensilios d'aquella epocha são distinctos dos da edade paleolithica por +certas particularidades de fórma e pela maior perfeição do trabalho, a qual já +denuncia um mais adeantado estado de educação, havendo entre os fragmentos de +loiça e entre os objectos de ornato incontrados alguns que revelam uma certa +industria, ainda rudimentar, mas já com algum desinvolvimento. Julga-se que +n'estas epochas se practicou já o commercio, por se encontrarem n'algumas +localidades substancias que eram produzidas em sitios distantes, assim como +vestigios da existencia de officinas levam a crer que effectivamente a +industria se delineava já com feições pronunciadas.</p> + +<p>Aos ultimos tempos da edade neolithica pertencem os chamados +<em>kjoeckkenmoeddinger</em> («restos de cozinha»), que são grandes +aglomerações de conchas de differentes mariscos, misturadas com carvão, +incontradas nas costas da Dinamarca, e tambem mais recentemente no valle do +Tejo, junto a Mugem, pelo já citado geologo Carlos Ribeiro. Pertencem tambem á +mesma epocha as <em>palafittas</em>, ou povoações lacustres, achadas pela +primeira vez no lago de Zurich em 1853, e que consistem em reuniões de cabanas +junto das margens dos lagos, construidas sobre base de estacaria mergulhada na +agua. Nas <em>palafittas</em> incontram-se notaveis vestigios, que provam o +relativo adeantamento da especie humana n'aquelles tempos. É assim que a +existencia de cereaes demonstra que já havia<span class="pn">{7}</span> +agricultura; a de tecidos, que a industria se tinha adeantado; a de fragmentos +de animaes domesticos, um viver social em via de progresso.</p> + +<p>A existencia de utensilios de metal nas <em>palafittas</em> indica que a +epocha d'estas se prende chronologicamente ao começo dos tempos historicos, ou +pelo menos ao periodo que precedeu a aurora das mais antigas civilizações do +Oriente. Começa n'esse ponto a <em>edade de bronze</em>, ou aquella em que as +armas e os diversos utensilios, até então construidos exclusivamente de pedra, +começam a ser substituidos por outros fabricados de bronze.</p> + +<p>A <em>edade de bronze</em> variou muito em duração nos diversos paizes da +Europa, sendo n'alguns povos uma epocha inteiramente historica, e pertencendo, +pelo que respeita a outros, á Archeologia Pre-historica. No seu todo deve +considerar-se como um periodo de transição entre os tempos pre-historicos e os +tempos historicos.</p> + +<p>Os povos que figuram na Historia da Antiguidade provêm de uma das tres raças +<em>semitica</em>, <em>chamitica</em> e <em>japhetida</em> (mais geralmente +denominada <em>aryana</em> ou <em>indo-européa</em>), as quaes por isso se +dizem <em>raças historicas</em>. A existencia d'estes tres troncos primitivos é +revelada pela tradição biblica e confirmada pelas modernas investigações +ethnographicas. Quando, decorrido longo periodo depois da creação do homem, +Deus, offendido pelos vicios que haviam lavrado em toda a especia humana, +resolveu castigál-a com o diluvio, apenas quiz que escapasse Noé, que era +justo, com sua familia. Terminado aquelle cataclismo, só os tres filhos d'elle +ficaram incumbidos de povoar o mundo, e cada um d'elles—Sem, Cham e +Japhet—indo estabelecer-se em pontos differentes deu origem a uma raça. +Sem ficou na Asia e foi o pai da raça semitica; Cham passou á Africa e originou +a raça chamitica; e finalmente Japhet, estabelecendo-se no oriente da Europa, +deu origem á raça japhetida, ou aryana, ou indo-europêa, assim denominada, +porque na sua expansão ulterior se estendeu até ás Indias.</p> + +<p>A raça semitica—(ou os semitas)—apparece-nos, no decorrer da +Historia Antiga, povoando um vasto territorio cingido de um lado peia alta +Mesopotamia e pela parte meridional da Arabia, e do outro pelas costas do +Mediterraneo e pelo rio Tigre. Eram d'esta raça os habitantes do imperio da +Assyria e de parte da Babylonia, os Hebreus, os Lydios e parte das populações +da Syria. Presentemente esta raça está representada pelos Judeus e pelos +Arabes. A sua importancia historica<span class="pn">{8}</span> deriva +principalmente das religiões que n'ella tiveram origem e do desinvolvimento a +que estas chegaram. N'ella nasceram a antiga religião moysaica, o christianismo +e o mahometanismo. Na Edade-Média um ramo d'esta raça—os Arabes—, +invadindo a Europa, trouxeram-lhe grande copia da sciencia grega, contribuindo +assim para a civilização d'esta parte do mundo.</p> + +<p>A raça chamitica—(ou os chamitas)—povoou na Antiguidade a +Ethiopia, o Egypto e a Nubia, e incorporou-se tambem na população de Babylonia +e da Arabia meridional. Na actualidade está representada pelos <em>fellahs</em> +do Egypto, pelos habitantes da Nubia, pelos <em>abexins</em> e pelos +<em>tuaregs</em>.</p> + +<p>A raça aryana—os aryas, os indo-europeus—foi representada na +Antiguidade pelos Indus, Persas, Romanos e Gregos; e actualmente está-o sendo +pelos descendentes d'estes povos e pelos Germanos e Slavos. Os povos +indo-europeus são os mais importantes sob o ponto-de-vista historico; extendem +hoje o seu <em>habitat</em> desde o norte da Europa até ás margens do Ganges; é +no meio d'elles que se passa o grande movimento do progresso social, e a sua +expansão colonizadora extende-se até aos confins do Novo Mundo, para onde têem +transplantado as maravilhas do progresso e os mais perfeitos methodos de +cultura intellectual.</p> + +<p>Ha nas tres raças historicas de que temos falado um grande numero de +variedades, devidas, não só a cruzamentos, mas tambem a modificações filhas da +differente acção dos climas e da diversa influencia do meio.</p> + +<p>O estudo d'essas differentes variedades leva a uma classificação differente +da que sob o ponto-de-vista historico fizemos, e baseada em caracteres +anatomicos que são do dominio da Anthropologia.</p> + +<p>Os principaes povos que figuram na Historia da Antiguidade são: os Hebreus, +os Egypcios, os Assyrios e Babylonyos, os Phenicios, os Carthaginezes, os +Syrios, os Persas, os Indios, os Chins, os Gregos e os Romanos. De cada um +d'elles trataremos em capitulo especial.<span class="pn">{9}</span></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION0022">CAPITULO I<br> +OS HEBREUS</a> </h1> + +<p>A historia dos Hebreus confunde-se no seu principio com as mais antigas +tradições da primitiva edade historica do homem. A mais antiga fonte em que +ella se estuda é o <em>Genesis</em>, no qual se acham compendiadas as tradições +da creação do homem e da primitiva dispersão das raças historicas, em que +primeiro se dividiu a familia humana.</p> + +<p>Segundo o <em>Genesis</em>, Deus, depois de ter creado o mundo, separado a +terra dos mares, e povoado aquella de plantas e de animaes, creou o primeiro +homem, que teve o nome de Adão, e creou-lhe logo depois para companheira a +primeira mulher, que se chamou Eva. D'este primeiro par nasceram tres filhos: +Caim, Abel e Seth. O primeiro, que se deu á cultura dos campos, matou por +ciumes a seu irmão Abel, expatriando-se em seguida e indo fundar a cidade de +Henochia, que tomou tal nome do primeiro filho (Henoch) do seu fundador. Abel +exercêra o mister de pastor. Seth, o terceiro filho de Adão, teve numerosa +descendencia, na qual se tornou notavel Noé, pelas circumstancias que vamos +referir.</p> + +<p>Em tal devassidão haviam cahido os homens, que Deus, como que arrependido de +os haver creado, resolveu exterminál-os; mas, como Noé e sua familia +conservavam vida virtuosa, no meio do viver vicioso do resto da humanidade, +determinou tambem Deus fazer excepção a respeito d'elles. Mandou por isso a Noé +que construisse uma arca, na qual se mettesse com a sua familia e com um certo +numero de animaes de todas as especies; e, feito isso, mandou á terra o +diluvio, que tudo alagou e em que pereceram todos os homens e animaes, excepto +os que se continham na arca, a qual fluctuava na superficie da agua.</p> + +<p>Terminado o diluvio, que durou quarenta dias, e tendo baixado as aguas e +descoberto de novo a superficie da terra, poisou por fim a arca sobre o monte +Ararat, na Armenia. Sahiu d'ella Noé, com sua familia e com os differentes +animaes, e começou a cultivar a terra. Foi elle o primeiro que cultivou a +vinha, fabricou vinho e com este se embriagou.</p> + +<p>Falavam a principio todos os homens a mesma linguagem; mas o seguinte +acontecimento deu origem a que entre elles<span class="pn">{10}</span> se +multiplicassem as linguas. Tendo-se estabelecido e havendo alargado a sua +occupação nas planicies de Sennaar, entre o Tigre e o Euphrates, tornaram-se +orgulhosos do seu valor e poder, e conceberam o plano de construir uma torre, +que chegasse ao céu. Começaram a pôr em practica o seu temerario intento; mas +Deus, para castigar tamanha ousadia, confundiu-lhes as linguagens, por fórma +que elles, deixando de comprehender-se uns aos outros, tiveram que abandonar a +obra e que dispersar-se. A torre ficou, pois, por construir-se e denominou-se +<em>Babel</em>, vocabulo que quer dizer: <em>confusão</em>. Foi aquella +dispersão que deu origem á separação das tres raças, <em>semitica</em>, +<em>chamitica</em> o <em>japhetida</em>, dos nomes dos tres filhos de +Noé—Sem, Cham e Japhet.</p> + +<p>Pouco a pouco se extinguíra na memoria dos homens a sua historia primitiva e +as licções e preceitos que n'essa historia se continham. Resolveu por isso o +Senhor escolher entre os descendentes de Sem uma familia, que houvesse de ser a +guarda e a depositaria das antigas crenças e tradições. Essa familia foi a de +Tharé, originaria de Ur (na Chaldéa), e que, por causa da falta de pastagens +para os gados, havia ido estabelecer-se na cidade de Haran (na Mesopotamia). +Foi alli que Deus revelou a Abrahão, filho do dito Tharé, a missão divina que +lhe destinára e como resolvêra constituil-o chefe da raça predestinada ou do +<em>povo escolhido</em>. Por mandado do Senhor fez Abrahão varias +peregrinações. O Senhor abençoou-o, prometteu-lhe grande descendencia e +disse-lhe que teria de sua mulher Sára, até então esteril, um filho,—o +que se realizou com o nascimento de Isaac.</p> + +<p>Deus, para experimentar a fé e a obediencia de Abrahão, ordenou-lhe que lhe +sacrificasse seu filho Isaac, ao que elle sem repugnancia se promptificou, +afastando-se para consummar tal sacrificio. Quando ía a descarregar o golpe, +Deus lh'o impediu, detendo-lhe o braço e dando-se por satisfeito com aquella +prova de obediencia.</p> + +<p>Isaac teve dois filhos, que foram Esaú e Jacob. Este ultimo, comquanto mais +novo, foi o que recebeu a benção do pae, que estava cego, e que foi inganado, +julgando que abençoava Esaú. Áquella benção, obtida subrepticiamente, por +conselhos e industria de sua mãe, Rebecca, e á qual estava annexo o cumprimento +das promessas que Deus fizera a Abrahão, deveu Jacob o herdar o patriarchado do +povo hebreu. Temendo, porêm, a vingança de Esaú, ausentou-se para a +Mesopotamia, onde, depois de servir por muitos annos a seu tio Labão, casou com +as duas filhas d'este, Lia e Rachel.<span class="pn">{11}</span></p> + +<p>Teve Jacob doze filhos, que são os doze patiarchas, cabeças e origens das +doze tribus do povo de Israel, nome que tambem teve o mesmo Jacob. Esses +patriarchas foram:—o 1.º, Ruben; o 2.º, Simeão; o 3.º, Levi (cujos +descendentes foram destinados ao sacerdocio e a serem ministros do templo de +Deus); o 4.º, Judá; o 5.º, Dan; o 6.º, Nephtali; o 7.º Gad; o 8.º, Azer; o 9.º, +Isachar; o 10.º, Zabulon; o 11.º José; o 12.º, Benjamin.</p> + +<p>Os mais velhos de entre elles começaram a ter inveja a José, por verem que +era o mais estimado de Jacob, e porfim intentaram matál-o, lançando-o n'uma +cisterna; mas, mudando de resolução, venderam-n'o como escravo a uns +madianitas, que o levaram para o Egypto, onde foi comprado por Putiphar, creado +de Pharaó, rei d'aquella nação. Serviu José a Putiphar com tanta fidelidade, +que não se prestou a um crime para que o provocava a esposa do mesmo Putiphar. +Esta, para d'elle se vingar, accusou-o aleivosamente de falso crime e por esse +motivo foi elle mettido n'um carcere. Alli Deus revelou-lhe a significação +mysteriosa de uns sonhos que haviam tido dois dos seus companheiros de +captiveiro. Um d'estes, como Pharaó tivesse um sonho em que viu septe vaccas +magras e septe espigas delgadas, que devoravam septe vaccas gordas e septe +espigas fartas, indicou-o ao rei, como capaz de lhe interpretar o sonho. José +explicou com effeito ao rei o sentido d'aquella visão. Surprehendido e +maravilhado Pharaó com a sabedoria d'elle, elegeu-o para seu ministro, e +deu-lhe grandes honras e distinções. José casou com a filha de um sacerdote de +Heliopolis, da qual lhe nasceram seus dois filhos Manassés e Ephraim. Como +ministro, e gozando toda a confiança do rei, organizou a arrecadação dos +cereaes, de modo que, quando chegaram os septe annos de fome, symbolizados nas +septe vaccas magras e nas septe espigas delgadas do sonho, o Egypto estava +provido contra a escassez e ainda poude efficazmente soccorrer as povoações +proximas, nas quaes se não tinham adoptado eguaes providencias.</p> + +<p>A escassez de alimentos, que tambem se sentiu em Chanaan, terra onde com sua +familia habitava Jacob, obrigou este a mandar ao Egypto seus filhos, a comprar +trigo. Soube da chegada d'elles José e, sem se lhes revelar como seu irmão, +obrigou-os a declarar quem eram e a deixarem em poder d'elle, em refem, a +Simeão, emquanto iam a Chanaan a buscar-lhe Benjamin, o irmão mais novo.</p> + +<p>Obrigados a voltarem ao Egypto, por causa da fome que continuava, +conseguiram que Jacob, apesar da sua repugnancia,<span class="pn">{12}</span> +deixasse ir Benjamin; e então José, dando-se a conhecer aos irmãos, entre +lagrimas de alegria, mandou-lhes que voltassem a Chanaan, a buscar Jacob e toda +a familia. Assim aconteceu, indo toda a familia de Jacob estabelecer-se no +Egypto. Alli viveu ainda Jacob 17 annos, vindo a finar-se na edade de 147, +depois de abençoar seus filhos, com bençãos mysteriosas e propheticas, +vaticinando que na descendencia de seu filho Judá estaria o imperio e o governo +do povo, até vir ao mundo o Messias, que havia de remir o peccado de Adão. +Fallecido Jacob, ficaram residindo no Egypto seus filhos, nas terras que, em +attenção a José, lhes havia dado o Pharaó, e nas quaes tiveram numerosa +descendencia.</p> + +<p>Permaneceram os Israelitas ou Hebreus no Egypto por espaço de 217 annos. No +decurso d'estes, os Egypcios, desconfiando d'elles, opprimiam-n'os cruelmente, +obrigando-os a trabalhos duros, e o rei mandava matar-lhes todos os filhos +recem-nascidos do sexo masculino, os quaes eram lançados ao Nilo. Nascendo +Moysés, filho de Amrão e de Jocabed, esta conseguiu occultál-o por espaço de +tres mezes; mas, não o podendo conservar escondido por mais tempo, lançou-o +áquelle rio, dentro de um cesto. Estando a filha do rei a banhar-se no rio, viu +a creança, salvou-a e deu-lhe o nome de Moysés, que quer dizer: «salvo das +aguas». Depois levou-o para a côrte, onde foi creado e passou a mocidade.</p> + +<p>Deus, condoido de quanto os Hebreus soffriam entre os Egypcios, resolveu +livrál-os da oppressão, fazendo-os sahir do Egypto, por meio de assombrosos +milagres. Foram esses prodigios obrados por intermedio de Moysés e de seu irmão +Arão, apparecendo primeiro Deus a Moysés no monte Horeb, e mandando-lhe que +fosse á presença de Pharaó, a pedir-lhe que deixasse sahir do Egypto o povo de +Israel. O rei, bem longe de acceder ao pedido, antes redobrou a perseguição. +</p> + +<p>Então começaram os milagres. Indo Moysés e Arão á presença de Pharaó, para +lhe mostrarem como era vontade de Deus o que lhe pediam, lançou Arão na terra +uma vara que levava na mão, e a vara logo se converteu em serpente. Quiseram os +magos imitar a transformação, convertendo tambem outras varas em serpentes; mas +a serpente em que se tornára a vara de Arão devorou todas as outras. Continuou, +apezar de tudo, a obstinação de Pharaó; e Deus, para mais claro aviso e para +castigo, mandou ao Egypto as dez pragas, que assolaram todo o paiz.</p> + +<p>Essas pragas foram as seguintes: a primeira consistiu em se converter em +sangue a agua dos rios e das fontes do Egypto,<span class="pn">{13}</span> +morrendo todos os peixes; a segunda, n'uma innumeravel multidão de rans que +intravam por todas as casas; a terceira, n'uma quantidade enormissima de +mosquitos e de outros insectos, que tornavam a vida insupportavel; a quarta, +n'uma abundancia de moscas, que perseguiam atrozmente homens e animaes; a +quinta foi uma peste que matou um numero enorme de pessoas e fez tambem grande +devastação nos animaes; a sexta foi uma epidemia de chagas hediondas e +repugnantes, que appareciam nos corpos dos Egypcios e dos animaes; a septima, +uma grande chuva de pedra, acompanhada de terrivel trovoada, ficando destruidas +por ellas as arvores, plantações, sementeiras e pastos; a oitava foi o +apparecimento de uma nuvem de gafanhotos, que tambem produziram incalculavel +estrago nos campos; a nona manifestou-se por umas trevas muito espessas, que +por tres dias escureceram o Egypto, excepto a terra de Gessen (logar em que +habitavam os Hebreus, aos quaes não chegou nenhuma das pragas); a decima +consistiu na morte de todos os primogenitos egypcios, desde o filho de Pharaó +até ao do escravo mais humilde, e tambem na de todos os primogenitos dos +animaes.</p> + +<p>Movido finalmente Pharaó pela decima praga, consentiu que os Hebreus +sahissem do Egypto. Na noite do dia 14 do mez de Nisan, que corresponde ao de +março, sahiram, pois, os descendentes de Jacob da terra dos Pharaós, em tão +grande numero, que só homens armados e capazes de pelejar eram mais de 600:000. +Guiava-os um anjo por meio de uma columna, que de dia era formada como que de +uma nuvem, e de noite era de fogo. Esta columna precedia os Hebreus e +indicava-lhes o caminho atravez do deserto. Caminhavam por este, quando Pharaó, +de novo indurecido, se arrependeu da concessão que fizera, mandou armar todos +os seus carros bellicos e sahiu com um numeroso exercito, a perseguir e +captivar outra vez o povo de Israel, que ia já perto do Mar Vermelho. Vendo-se +de novo perseguidos pelos Egypcios, os Israelitas começaram a murmurar contra +Moysés, por havel-os mettido n'aquelle perigo; mas este exhortou-os a que +tivessem Esperança em Deus e, extendendo uma vara, que levava na mão, sobre o +Mar Vermelho, as aguas dividiram-se para um e outro lado, deixando no meio um +caminho enxuto, pelo qual passaram a salvo os Israelitas. Chegando os Egypcios +e vendo as aguas divididas, intraram no mesmo caminho para os perseguirem; mas, +estando já todos n'elle, Moysés levantou outra vez a vara sobre o mar e as +aguas voltaram á sua posição natural, ficando submerso todo o exercito de +Pharaó.<span class="pn">{14}</span></p> + +<p>Em memoria da sahida do Egypto, mandou Deus aos Hebreus que celebrassem +perpetuamente a Paschoa, matando todos os annos e comendo com certas ceremonias +um cordeiro.</p> + +<p>Passado o Mar Vermelho, fôram elles caminhando por diversos logares até ao +deserto,—onde começou o Milagre do maná. Era este um manjar delicioso que +cahiu do céu durante quarenta annos, emquanto os Israelitas peregrinaram no +deserto até intrarem na terra da promissão. Com elle se alimentavam, colhendo +cada um diariamente uma certa medida, por fórma que, se queria guardar alguma +porção para o dia seguinte, logo o manjar se corrompia. A peregrinação pelo +deserto durou tanto tempo, porque assim o determinou Deus, em castigo das +murmurações e falta de fé dos Israelitas á sahida do Egypto, fazendo-os +retrogradar para o deserto, quando estavam já perto da terra da promissão.</p> + +<p>Appareceu Deus a Moysés sobre o monte Sinai, e entre raios lhe deu as taboas +da lei, em que estavam escriptos os dez preceitos do decalogo, e dictou-lhe as +outras leis e ceremonias que queria que fossem usadas pelo seu povo. Emquanto +Moysés estava sobre o Sinai—que foi por quarenta dias e quarenta +noites—pediram os Israelitas a Arão que lhes fizesse um deus que +adorassem e que os governasse. Annuiu elle ao pedido e fabricou um bezerro de +oiro, que puzeram n'um altar e adoraram, e ao qual offereceram sacrificios. +Quando Moysés desceu do monte e teve noticia d'este acto de idolatria, depois +de orar ao Senhor—em desaggravo de tão grande peccado,—em signal de +indignação, quebrou as taboas da lei, mandou aos levitas que matassem os +Israelitas que incontrassem no caminho, calcou aos pés e reduziu a pó o bezerro +de oiro, e supplicou a Deus que perdoasse ao seu povo, o que elle fez a +final.</p> + +<p>Perdoado o peccado do povo, mandou Deus a Moysés que voltasse ao cume do +Sinai, com duas taboas de pedra, nas quaes foram de novo gravados os dez +preceitos. Mandou depois se construisse um templo cuja guarda e governo foram +confiados a Arão, irmão de Moysés, sendo os mais descendentes de Levi feitos +ministros do mesmo templo, com o nome de levitas. Este templo, que era +portatil, e se chamava tambem <em>tabernaculo</em>, acompanhava o exercito e +era dividido em duas partes: na interior, que se chamava <em>sancta +sanctorum</em>, estava a arca do testamento, e só intrava o summo sacerdote; na +exterior havia um altar, em que se queimavam essencias e um candelabro com +septe lumes.</p> + +<p>Passados quarenta annos de peregrinação estavam os Israelitas<span +class="pn">{15}</span> na terra da promissão, a cuja vista havia morrido +Moysés, na edade de 120 annos e depois de ter abençoado o povo.</p> + +<p>A terra da promissão era uma provincia da Asia, chamada hoje Palestina ou +Terra Santa, que comprehendia varios reinos pequenos, conhecidos pela +denominação de <em>reinos dos Cananeus</em>. Morto Moysés, ficou com o governo +do povo Josué filho de Num, ao qual o Senhor appareceu dizendo-lhe que metesse +os Hebreus na posse da terra da promissão, dividindo as terras pellas +differentes tribus e familias. Josué teve que combater e vencer varios povos e +reis, e que conquistar varias cidades da Palestina. Dividida esta pelos povos +de Israel, obrigaram-se estes a dar a decima parte dos fructos da terra aos +levitas.</p> + +<p>Morrendo Josué na edade de 110 annos, seguiu-se-lhe o governo dos juizes, +dos quaes os mais celebres foram Debora, Gedeão, Jephte e Sansão. D'este ultimo +contam os livros santos que, sendo ainda muito moço e sahindo-lhe ao incontro +um leão, o despedaçou logo; depois matou de uma vez trinta Philisteus; e de +outra, depois de haver quebrado umas cordas muito fortes com que o tinham +amarrado, matou mil Philisteus com a queixada de um jumento. N'outra occasião, +incerrado pelos Philisteus na cidade de Gaza, sahindo de noite, arrancou as +portas da cidade e levou-as a um alto monte. Depois d'aquellas façanhas e de +outras, deixou-se inlear no amor de Dalila, á qual declarou que a verdadeira +causa da sua força consistia em ser dedicado a Deus e em não lhe terem jámais +cortado os cabellos; Dalila, senhora de tal segredo, fez com que Sansão +adormecesse nos seus braços e, vindo os Philisteus, cortaram áquelle os +cabellos, pelo que perdeu a força e foi aprizionado.</p> + +<p>Os Philisteus, vencido assim Sansão, tiraram-lhe os olhos e trataram-n'o +indignamente até que, passado algum tempo, tendo-lhe novamente crescido os +cabellos, recuperou a força; e, sendo então levado pelos Philisteus ao templo +de seu falso deus Dagão, para zombarem d'elle, abraçou Sansão duas columnas do +mesmo templo e moveu-as com tal impeto, que o edificio abateu, morrendo +esmagados quantos n'elle estavam, incluido o proprio Sansão.</p> + +<p>O ultimo juiz que governou o povo hebreu foi o propheta Samuel, durante o +governo do qual os Israelitas pediram a Deus que lhes désse um rei, o que Deus +concedeu, mandando a Samuel que ungisse a Saul, como rei, e esse foi o primeiro +dos reis de Israel. A principio regeu Saul, conforme ás leis e ao temor de +Deus, mas depois faltou a uma e outra<span class="pn">{16}</span> coisa, pelo +que mandou o Senhor a Samuel que ungisse como rei a David, mancebo muito +valoroso, da tribu de Judá, e que havia morto o gigante Golias, que desafiava o +exercito de Israel. Saul, sabendo da eleição de David, perseguiu-o e não quiz +depor o poder; mas afinal, vencido na guerra contra os Philisteus, suicidou-se. +Introu então David na posse pacifica do governo, comquanto tivesse que +sustentar guerras contra os Philisteus, os Ammonitas, os Syrios, os Idumeus e +os habitantes de Damasco, vencendo a todos estes inimigos. Preparou os +materiaes necessarios para edificar um magnifico templo, que não chegou a +construir por Deus lh'o haver prohibido; trasladou a arca do testamento para o +seu palacio de Jerusalem, fez rigorosa penitencia por graves peccados que tinha +commetido; compoz muitos psalmos em louvor de Deus; e practicou muitos outros +actos de soberano justo e sabio.</p> + +<p>A David succedeu no reinado seu filho Salomão, que foi muito sabio e sagaz, +e cujo governo foi assignalado por grandes riquezas e prosperidades. Durante +todo o tempo que governou, conservou em paz o reino de Israel; foi temido e +respeitado pelos principes vizinhos, muitos dos quaes eram seus tributarios; as +suas frotas levavam-lhe grande quantidade de oiro e de materias preciosas; +floresceu o commercio em todo o paiz; e a sabedoria do rei era admirada nos +reinos estranhos. Empregou Salomão grandes riquezas em edificar um templo +grandioso, para a adoração de Deus, onde havia preciosissimos vasos e um grande +numero de ministros do Senhor. Esse templo excedeu tudo quanto se pode imaginar +de magnificente. Edificou tambem um sumptuoso palacio, para sua morada.</p> + +<p>Antes de ter revelado a sua sabedoria em muitos livros que escreveu, +mostrou-a tambem na sabia sentença que pronunciou, conhecida pelo nome de +«juizo de Salomão». Teve ella a seguinte origem. Duas mulheres viviam juntas e +tinham cada uma seu filho. Aconteceu morrer uma das creanças, e cada uma das +mães dizia ser seu o que ficára vivo. Foram ambas ter com Salomão, para que +decidisse a contenda. Decidiu o rei que se cortasse ao meio o menino disputado +e que se désse metade d'elle a cada contendora. Uma das mães acceitou a +sentença; mas a outra clamou que antes se désse o menino inteiro e vivo á sua +rival. Assim concluiu Salomão que a verdadeira mãe era aquella que não +consentia na morte da creança. Mandou por isso que esta lhe fôsse intregue.</p> + +<p>Por espaço de muitos annos observou Salomão a lei de Deus, governando o seu +povo com grande sabedoria e justiça; mas nos ultimos annos da vida prevaricou, +edificando templos<span class="pn">{17}</span> aos falsos deuses, adorados por +mulheres estrangeiras que tomou contra os preceitos de Deus. Não se sabe com +certeza se chegou a arrepender-se d'este peccado, de que foi reprehendido pelo +Senhor; mas julga-se que se arrependeu, compondo então o livro sagrado chamado +<em>Ecclesiastes</em>, que figura no Novo Testamento e em que mostrou a vaidade +das grandezas humanas.</p> + +<p>A Salomão succedeu Roboão, seu filho, principe imprudente e tyrannico, que, +pedindo-lhe o povo que o alliviasse dos tributos, respondeu que não só o não +faria, antes os havia de augmentar e tratar os Israelitas como escravos. Vendo +e ouvindo isto, dez tribus rebellaram-se contra Roboão, acclamando por seu rei +a Jeroboão, homem sedicioso e impio; e só as tribus de Judá e de Benjamin +ficaram na obediencia de Roboão, que se viu obrigado a fugir precipitadamente +para Jerusalem.</p> + +<p>Dividiu-se assim o reino em dois: a parte que permaneceu sujeita a Roboão +chamou-se Reino de Judá, ou Judéa; a outra, que seguiu a Jeroboão, denominou-se +Reino de Israel.</p> + +<p>Jeroboão esqueceu a lei de Deus, mandou fabricar bezerros de oiro, que fez +adorar como divindades, sendo assim causa da maior parte dos Israelitas cahirem +em idolatria. Na mesma impiedade viveram os seus successores, os 21 reis que +governaram Israel por espaço de 254 annos, findos os quaes foi o reino +destruido pelos Assyrios e seu rei Salmanazar, que tomou Samaria e levou +captivas as dez tribus de Israel.</p> + +<p>No reino de Judá continuou-se a adorar o verdadeiro Deus, ainda que Roboão e +muitos dos seus successores por varias vezes permittiram a idolatria; por isso +foi o reino castigado pelo Senhor, que o intregou aos seus inimigos. O reino de +Judá durou por 468 annos, contados do principio do reinado de David. Os +peccados dos Judeus foram causa de Deus os intregar aos Chaldeus que, +governados por seu rei Nabucodonosor, tomaram a cidade de Jerusalem, queimaram +o templo do Senhor, e levaram os Judeus para o seu paiz. Este captiveiro +chamou-se o «captiveiro de Babylonia» que durou por mais de 70 annos.</p> + +<p>Foi dada a liberdade aos Judeus por Cyro, rei dos Médos, Persas e Chaldeus, +o qual subjugou estes dois ultimos povos, ganhou varias batalhas e tomou +Babylonia. Tomada esta cidade permittiu Cyro aos Judeus que regressassem á sua +patria, o que se effectuou sob o mando do summo pontifice Josué e de Zobadel. +Mal chegaram a Jerusalem, o seu primeiro cuidado foi a re-edificação do templo, +a qual não poderam logo<span class="pn">{18}</span> levar a effeito por lh'o +impedirem os Samaritanos, conseguindo por fim concluil-a Zorobabel, mediante o +auxilio de Dario I. por pouco durou a independencia dos Hebreus. As reformas de +Esdras, nas quaes se comprehendia a prohibição de casamentos com mulheres de +outras nações, e a dissolução das familias até então constituidas contra esse +preceito, originaram um scisma, em que parte do povo se reuniu aos Samaritanos, +ficando a nação muitissimo infraquecida. Aproveitando este estado, subjugaram +os Persas a Judéa, cuja historia desde então até á conquista de Alexandre se +confunde com a das outras provincias humildes, sujeitas ao dominio d'aquelle +imperador. Continuou a rivalidade entre os Judeus e os Samaritanos, aos quaes +os primeiros não permittiam a intrada no templo de Jerusalem. Os Judeus não +constituiam assim já um povo, mas uma simples communidade religiosa ou uma +casta sacerdotal, isolada no meio das outras populações do grande imperio +persa.</p> + +<p>Realizada a conquista d'este imperio em tempo de Dario Codomanno, +submetteu-se a Judéa ao conquistador, sem resistencia; por morte de Alexandre +foi governada successivamente por Laomedonte e pelos reis do Egypto e da Syria. +Com os Machabeus chegou a recobrar a sua independencia, sendo Aristobulo +proclamado rei; mas repetidas guerras civis deram logar á intervenção dos +Romanos na Palestina, chegando Pompeu a intrar em Jerusalem, que ficou desde +essa epocha em estado de incompleta servidão.</p> + +<p>Por fim realizou-se a annexação da Judéa aos dominios de Roma, sendo Herodes +incarregado do governo d'ella pelo imperador Augusto; mais tarde augmentaram as +dissensões e rixas, que desde o principio houvera entre Judeus e Romanos, o que +levou Nero a mandar Vespasiano, seu general, para reduzir completamente á +obediencia a Judéa. A conquista d'esta foi interrompida pelo regresso de +Vespasiano a Roma, para assumir o governo imperial, e só veio a ser ultimada +pelo imperador Tito, que foi em pessoa á Palestina com um exercito de 60:000 +homens. Á vista do exercito romano, applacaram-se as contendas civis que havia +em Jerusalem, e esta cidade defendeu-se durante muito tempo, com um denodo +verdadeiramente heroico, contra o inimigo que a cercava. Por fim cahiu a ultima +obra de defesa, a cidade foi invadida, e o templo incendiado. Os Judeus, +perdida toda a esperança, mataram suas mulheres e filhas e suicidaram-se em +seguida, preferindo isso a intregarem-se com vida aos Romanos. A tomada de +Jerusalem deu-se no anno 70 da era christan. O<span class="pn">{19}</span> povo +Hebreu perdeu, desde então e para sempre, a sua unidade politica, apezar de +continuar até hoje a existir disperso pelo mundo, com os caracteres +particulares da sua raça e da sua religião.</p> + +<p>Já depois de submettida a Judéa aos Romanos, mas antes da tomada de +Jerusalem, nasceu perto d'esta cidade, em Bethlem, Jesus Christo, quatro annos +antes da era actual (ou era christan).</p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION0023">CAPITULO II<br> +OS EGYPCIOS</a> </h1> + +<p>As populações que primitivamente habitaram o valle do Nilo foram subjugadas, +ou compellidas para o sul, por um povo vindo da Asia pelo isthmo de Suez. +Passou-se isto em tempo anterior aos mais antigos monumentos historicos. +Aquelle povo conquistador, que alli se estabeleceu, veio a constituir o que na +Historia Antiga é conhecido pela denominação de <em>povo egypcio</em>.</p> + +<p>Nada ao certo é conhecido quanto ao governo primitivo dos Egypcios, que se +presume ter sido nos primordios <em>theocratico</em> ou <em>sacerdotal</em>. +Parece provavel que aquelle paiz tinha chegado já a um certo estado de +civilização e estava bastante povoado pela epocha de 2000 annos antes da era de +Christo. Segundo Herodoto, foi Menés o fundador da monarchia egypcia, a qual +durou 1663 annos, desde a sua origem até á conquista do Egypto por Cambyses. O +dominio d'aquella monarchia limitou-se primeiro a Thebas, cidade fundada pelo +mesmo Menés, e aos seus arredores; mas este monarcha accrescentou +consideravelmente o seu territorio, construindo diques para impedir que o Nilo +continuasse a alagar os seus campos marginaes. Nos terrenos assim conquistados +ao rio, e na extremidade do <em>delta</em> d'este, edificou uma cidade grande e +importante, que teve o nome de Memphis.</p> + +<p>Dos seculos que se seguiram ao reinado de Menés apenas ha vestigios muito +obscuros na Historia. Reinaram durante elles differentes dynastias, a mais +notavel das quaes foi a quarta, de que foi fundador Snervu, e que se denominou +«a dynastia dos Pharaós». Os tres Pharaós immediatos successores de Snervu +foram Cheops, Khavrá e Mycerino, que se tornaram<span class="pn">{20}</span> +celebres por haverem mandado construir as tres grandes pyramides, que foram +destinadas a servir-lhes de tumulos. Situadas na planicie de Gyzeh, na margem +esquerda do Nilo, a breve distancia de Memphis, são aquellas pyramides os mais +notaveis monumentos da civilização egypcia. A de Cheops tem 147 metros de +altura, a de Khavrá 138, e a de Mycerino 66. A mais alta foi construida em 30 +annos, por 100:000 homens, que eram substituidos de seis em seis mezes.</p> + +<p>Os reis de outra dynastia, a duodecima, tornaram-se notaveis pelas grandes +obras hydraulicas que imprehenderam no Nilo, construindo um grande numero de +canaes, para distribuirem as aguas pelas differentes regiões do sólo, afim de +lhes augmentar a fertilidade e de prevenir as inundações.</p> + +<p>Mais tarde, reinando Timaos, um povo originario da Asia (os Hyksos ou +<em>Pastores</em>) invadiu o Egypto, cuja antiga civilização destruiu. A +invasão, comtudo, não se extendeu além do <em>delta</em> do Nilo e do baixo +Egypto. A parte, de que Thebas era capital, escapou á dominação dos Hyksos que +porfim foram expulsos do paiz por Amenophis Thetmosis, descendente dos antigos +reis do Egypto.</p> + +<p>Entre os reis que succederam a este, houve notavel (alêm de outros) M[oe]ris +que executou differentes obras muito importantes, no numero das quaes figura o +famoso lago que tomou o nome d'elle, e que foi destinado a receber as aguas do +Nilo, quando a sua grande abundancia ameaçasse o Egypto de ser totalmente +inundado. Este lago fornecia agua, por um grande numero de canaes, a +differentes zonas que fertilizava.</p> + +<p>Tornou-se tambem muito notavel o rei Sesostris (Ramsés-Meiamun), que foi o +primeiro que armou uma esquadrilha; bateu-se com os Arabes, que subjugou, e +outrotanto fez aos Lydios e Ethiopicos. Imprehendeu a conquista da Asia; e, +tendo deixado seu irmão Danao no governo do reino, bateu e derrotou os +Assyrios, os Medos, os Scythas e os Phenicios; submetteu a Thracia, a Colchida, +e chegou até ás margens do Ganges. Deixou por toda a parte inscripções, +commemorando as suas victorias. Regressando aos seus estados, dedicou-se a +promover o progresso das artes, felicitou o povo com uma paz duradoura, e +accrescentou ás suas glorias militares a de ter fundado instituições politicas +e promulgado leis de geral utilidade. Tendo cegado na velhice, não poude +resistir a essa infelicidade e suicidou-se. Os Egypcios, gratos á sua memoria, +ergueram-lhe templos, nos quaes lhe prestavam as mesmas honras que aos seus +deuses. Por esse tempo tinha chegado o Egypto á phase do seu<span +class="pn">{21}</span> maior esplendor. Tempos depois começou a pronunciar-se a +sua decadencia, que as perturbações intestinas contribuiram bastante para +precipitar. A Ethiopia proclamou a sua independencia; e os povos da Syria, +sempre insubordinados e irrequietos, negaram-se a pagar os tributos. A unidade +nacional veio a quebrar-se, e o paiz dividiu-se em vinte pequenos estados +independentes. As rivalidades entre estes differentes estados levou-os a +admittirem no seu seio os estrangeiros, cuja intrada até alli fôra sempre +vedada no Egypto. Foi então que os Ethiopes e os Assyrios disputaram o paiz e +fizeram conquistas que, comquanto não fossem duradouras, comtudo apressaram +bastante a ruina da nação. Depois de expulsos aquelles dois povos, o Egypto +ficou sendo governado outra vez por principes independentes. No delta do Nilo +havia doze d'estes principes, os quaes constituiram uma confederação, formada +dos seus estados, a que se chamou <em>dodecarchia</em>. Um d'aquelles +principes, porêm, chamado Psammeticho I, derrubou á mão armada os outros +principes e restabeleceu a unidade nacional. Durante o reinado d'este monarcha, +ainda o Egypto se ergueu um pouco da sua decadencia e pareceu querer voltar ao +seu antigo esplendor e grandeza; floresceram de novo as lettras, as +bellas-artes e a industria; e continuaram outra vez um pouco as grandes obras +de irrigação que estavam—havia muito—suspensas. Sustentou-se no +throno durante 47 annos a dynastia de Psammeticho; no reinado de um dos seus +descendentes, Amasis, teve o Egypto uns annos de certa prosperidade, a que logo +poz termo a conquista persa, realizada por Cambyses. Desde esta até á conquista +por Alexandre Magno medeiam dois seculos, durante os quaes os Egypcios tiveram +politicamente uma existencia miseravel. Com a conquista pelos Romanos, depois +da morte de Cleopatra, incerra-se a Historia Antiga do Egypto, que durou uns +cincoenta seculos, e na qual se contam 34 dynastias.</p> + +<p>Gosou sempre de grande fama a civilização dos Egypcios durante o periodo da +Historia Antiga. Os proprios Gregos chegaram a gabar-se de que muitos dos seus +philosophos e legisladores tinham ido á terra do Nilo instruir-se nas sciencias +ou na arte de governar. Comtudo, fez-se em tempo uma idéa muito exaggerada do +estado a que a sciencia havia chegado no Egypto. Attribuem-se a este povo +conhecimentos mathematicos, e especialmente astronomicos, muito adeantados; mas +não é averiguado que os possuisse em tal desinvolmento,—e bem poucos +vestigios existiam d'elles, quando<span class="pn">{22}</span> alli foram da +Grecia, Eudoxio e Platão. A religião, as artes e a philosophia, é que +floresceram muito notavelmente n'aquelle paiz. As ruinas innumeraveis de que +todo o seu sólo está coberto, bastariam para attestar o grande estado de +esplendor a que elle chegou. A historia das artes apresenta alli muito mais +caracteres de certeza do que a das sciencias. Os monumentos, as ruinas, os +templos, os palacios, os colossos, que nem a acção do tempo nem a do homem +puderam ainda destruir, dão conhecimento do elevado grau de perfeição até onde +os Egypcios levaram a cultura das artes; mas, de todos os monumentos do Egypto, +os mais assombrosos são sem duvida as pyramides (construcções colossaes que se +vêem ainda em differentes pontos, e das quaes as tres mais notaveis são as de +que atraz falámos).</p> + +<p>O antigo governo do Egypto era theocratico; reinavam alli os sacerdotes em +nome dos deuses. Os proprios reis estiveram quasi sempre sujeitos ao poder +sacerdotal, que se mantinha principalmente por effeito da severa distincção das +castas. Os sacerdotes constituiam a primeira d'estas, á qual se seguia a dos +guerreiros, depois a dos interpretes, e a dos trabalhadores (divididos ainda +estes em diversas classes, que nunca se confundiam). A todo o egypcio era +prohibido sahir da condição em que nascêra e abraçar profissão que não fosse a +de seu pae.</p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION0024">CAPITULO III<br> +OS ASSYRIOS E BABYLONIOS</a> </h1> + +<p>O imperio assyrio no principio apenas comprehendeu o territorio situado a +leste do rio Tigre; mais tarde veio a ser formado por todo o territorio que +ficava entre aquelle e o Euphrates, e comprehendeu, juntamente com a Assyria +propriamente dita, a Chaldéa, a Mesopotamia, a Babylonia e differentes paizes +tributarios. A Chaldéa foi, como o Egypto, um dos primeiros paizes em que +começou a desinvolver-se com certo grau a civilização; os Chaldeus e os +Babylonios passam por ser os primeiros povos que fizeram descobrimentos +astronomicos; deve-se-lhes a divisão do anno em 365 dias, 6 horas e alguns +minutos. É muito incerta a chronologia da historia dos Assyrios: segundo os +livros santos, a fundação de Babylonia e<span class="pn">{23}</span> de Ninive +realisou-se pelo seculo <small>XXII</small> antes de Jesus Christo, Nemrod foi +fundador da primeira e Assur da segunda. Nada certo se sabe sobre a historia +dos povos que habitaram aquellas cidades e ainda outras, anteriormente ao tempo +de Belo que, por 1780 antes de Jesus Christo, creou o imperio da Assyria, +reunindo o reino de Babylonia com o de Ninive.</p> + +<p>Nino, successor de Belo, alliou-se com os Arabes, derrotou os Armenios e os +Medos, estendeu o seu dominio por grande parte da Asia, e levou as suas +conquistas desde o Egypto até ás Indias. Augmentou consideravelmente a cidade +de Ninive, que dotou com palacios e outros edificios sumptuosos. Depois de +tomar a cidade de Bactres (capital da Bactriana), casou com Semiramis, viuva do +governador da mesma cidade e uma das mulheres mais bellas d'aquelle tempo, da +qual teve um filho chamado Ninias. Pela morte de Nino, ficou Semiramis herdeira +do imperio, que augmentou com conquistas novas; subjugou a Arabia, o Egypto e a +Lybia; illustrou o seu reinado não sómente por grandes acções militares, mas +tambem pela administração do paiz e pelas assombrosas construcções, das quaes +ainda hoje existem ruinas muito notaveis. Tornou Babylonia uma cidade magnifica +e grandiosa, cingiu-a com uma muralha de 15 leguas de circumferencia, de altura +consideravel, e com cem portas de bronze em toda a sua extensão. Era tão larga +essa muralha que sobre ella podiam passar quatro carroças a par. Construiu +tambem Semiramis uma ponte magnifica sobre o Euphrates (rio que atravessava a +cidade) e em cada uma das extremidades d'ella dois palacios. Um d'estes era a +habitação ordinaria da rainha e deposito das consideraveis riquezas que esta +recebia de todas as provincias do imperio; o outro, incimado por oito torres de +consideravel altura, era um templo consagrado a Belo, e em cujo interior +Semiramis tinha mandado collocar estatuas de oiro, de quarenta pés de altura, +representando varias divindades. Todo o interior do templo era cheio de +baixos-relevos com grande valor artistico, de magnificas estatuas e de vasos de +oiro e de prata primorosamente trabalhados. A cidade era muito bella e cortada +de lindas ruas e praças, ornadas de opulentos palacios; mas o que sobretudo +maravilhava eram os jardins estabelecidos em terraços elevados sobre o +Euphrates e sustentados por abobadas de altura prodigiosa. Ornados das mais +bellas arvores, inriquecidos com abundancia das mais vistosas flores, eram +cortados de limpidos arroios, alimentados por agua levada áquella altura por +meio de aqueductos e de apparelhos ingenhosissimos. Davam ingresso no jardim +suberbas escadarias,<span class="pn">{24}</span> ornadas de estatuas e de vasos +preciosos, em que vegetavam as mais raras flores e arbustos de todos os paizes +então conhecidos.</p> + +<p>Na construcção d'aquellas muralhas e de outras com que opulentou Babylonia, +empregou Semiramis 2.000:000 homens durante muitos annos. Immortalizou-se +aquella rainha, não só n'isso, mas tambem na sabia administração que exerceu +nos seus estados e na organização dos seus exercitos, em que reinou sempre a +disciplina mais rigorosa e mais severa e que ella em pessoa commandou muitas +vezes.</p> + +<p>Tendo-se ausentado no commando de uma expedição destinada a alargar os +limites dos seus estados, soube que na capital se estava urdindo uma +conspiração para a depôr e substituil-a no governo por seu filho Ninias. Não +quiz ella conservar pela força o throno, que ninguem lhe poderia disputar; e, +intregando voluntariamente o governo ao filho, absteve-se de punir os +conspiradores, e retirou-se do mundo. A população surprehendida e maravilhada +pelo seu subito desapparecimento—que considerou +sobrenatural—erigiu-lhe templos e prestou-lhe honras divinas.</p> + +<p>Ninias foi apenas um simulacro de rei. Passou a vida na ociosidade e na +indolencia, e foi o primeiro que estabeleceu o governo do serralho. +Seguiram-se-lhe trinta e tres reis que nada fizeram pelo bem do paiz e de que a +Historia apenas faz menção. O ultimo foi Sardanapalo, cujo nome ficou lendario +e serve para caracterizar os soberanos que põem de lado os cuidados da +governação, para se darem tão sómente á ociosidade e aos prazeres physicos. +Sardanapalo, indolente e crapuloso, estabeleceu a sua residencia em Ninive, +onde passava a vida mettido n'um palacio, cercado de mulheres, cujos habitos e +adornos imitava, deixando em Babylonia o governo intregue a valídos que de tudo +dispunham. Nunca visto de seus subditos, sempre incerrado no palacio, onde +passava as noites em libações e folgares, não lhe importavam nada os negocios +publicos, e só tratava de esconder aos olhos dos subditos os seus ignominiosos +habitos. Um dia Arbaces, governador da Média, surprehendeu-o no meio de um +grupo de mulheres impudicas, trajando como ellas. Indignado por ver que tantos +valorosos Assyrios estavam sujeitos a um monarcha desprezivel, revelou aos seus +amigos os vergonhosos habitos de Sardanapalo, ligou-se com Belesis (governador +da Babylonia), e ambos foram pôr cerco ao rei no proprio palacio em que +habitava. Depois de tenue resistencia, Sardanapalo reduzido a circumstancias +extremas, quiz apagar com um esforço supremo<span class="pn">{25}</span> de +coragem a memoria da sua vergonhosa vida. Mandou accender n'um dos pateos +interiores do palacio uma grande fogueira, na qual se queimou com suas +mulheres, seus escravos e seus thesouros.</p> + +<p>Dos restos do imperio assyrio assim desfeito, formaram-se tres grandes +reinos: o de Babylonia, o da Média, e o de Ninive ou da Assyria propriamente +dita. De Babylonia tornou-se rei Belesis, que transmitiu o poder á sua +dynastia, na qual só houve notavel o rei Nabonassar, que deu o seu nome a uma +era especial começada no anno 747, e sob cujo governo a astronomia fez grandes +progressos. Mais tarde cahiu Babylonia em poder dos reis de Ninive.</p> + +<p>Na quéda de Sardanapalo, o principal promotor d'ella, Arbaces, ficou senhor +do reino da Média, e tentou concentrar alli a supremacia assyria sobre o resto +da Asia. Deu certas franquias liberaes aos Medos, os quaes por si mesmos +trataram de fazer leis, dividiram-se em seis tribus, e crearam juizes para lhes +dirimirem os pleitos. Depois da morte de Arbaces, elegeram elles para rei a +Dejoces, um dos seus juizes, que fundou a cidade de Ecbatane, onde se +estabeleceu com sua familia e seu erario, e concentrou a parte mais importante +da população, constituindo alli a capital da Média. Aquella cidade, pela sua +opulencia e pelos seus monumentos, tornou-se em breve tão celebre como +Babylonia e como Ninive.</p> + +<p>Dejoces teve por successor a Phraorto, ao qual succedeu seu filho Cyaxaro I, +que conquistou a Persia. Desde então a historia da Média confunde-se com a do +segundo imperio assyrio. Sobre a parte do antigo imperio assyrio, de que Ninive +era capital, ficou reinando, por morte de Sardanapalo, Nino o <em>Moço</em>. Os +seus successores tentaram reunir aos seus dominios Babylonia, o que chegaram a +conseguir em tempo de Assar-Haddon. Entre os reis de Ninive, houve notaveis: +Phul; Teglath-Phalasar, que conquistou Damasco; Salmanazar, que subjugou os +Israelitas (como atraz vimos); e o terrivel Sennacherib. Reinando Sarac, +Nabopolassar (governador da Babylonia) ligou-se com Cyaxaro I, rei dos Medos, e +ambos foram pôr cerco a Ninive. Esta cidade foi tomada depois de uma sangrenta +batalha, e completamente destruida. Assim acabou, depois de 1:800 annos de +existencia, esta celebre e opulenta cidade. Nabopolassar tomou o titulo de rei +da Babylonia, que se appropriou de toda a importancia e vantagens que +desfructava Ninive e se tornou a capital do segundo imperio assyrio.</p> + +<p>Nabuchodonosor succedeu a seu pae Nabopolassar, tonando-se<span +class="pn">{26}</span> celebre pela conquista do reino da Judéa e pela tomada +de Jerusalem (cujos habitantes levou captivos para Babylonia) e por se haver +apoderado da Phenicia e destruido a cidade de Tyro. Balthazar foi o ultimo rei +do segundo imperio assyrio que, subjugado por Cyro, cahiu no dominio dos +Persas.</p> + +<p>A civilização dos Assyrios e Babylonios foi uma das mais notaveis, não só da +Antiguidade Oriental, mas tambem de toda a Historia Antiga. Ao passo que vão +progredindo os estudos historicos e que se vão descobrindo novos monumentos, +vai-se pondo cada vez mais em relevo a influencia que aquelles povos exerceram +no Oriente e na cultura intellectual das populações da Grecia. A civilização +dos Assyrios e a dos Babylonios apresentam-se-nos como uma só, quer isso fosse +devido á commum origem dos dois povos, quer á mutua transmissão de +conhecimentos e de usos nos tempos historicos, podendo dizer-se que havia então +homogeneidade de meio. Apenas differem em pontos, a que os differentes +caracteres dos dois povos imprimiam feições especiaes. Os Assyrios, por +exemplo, eram sobretudo guerreiros, corajosos e intrepidos, incançaveis nos +exercicios mais violentos e conquistadores insaciaveis; os Babylonios, +comquanto tambem fossem bons soldados, tinham menos tendencia para a guerra de +conquista, o que em parte dá a razão de ter sido tão pouco duradoiro o seu +dominio. Os Babylonios representaram um papel muito importante no commercio da +Asia. Na industria, elles e os Assyrios adeantaram-se consideravelmente, +chegando a notavel perfeição, sobretudo no que tocava a tecidos preciosos, a +ourivesaria, a loiça, a esmaltes, etc. De esculptura deixaram os Assyrios obras +de alto valor e merecimento artistico, sempre admiradas e tidas como objectos +de grande estimação.</p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION0025">CAPITULO IV<br> +OS PHENICIOS</a> </h1> + +<p>Os Phenicios foram um dos povos mais notaveis da Antiguidade Oriental; mas, +apezar d'isso, escasseiam bastante os documentos historicos directos da sua +civilização. A Phenica comprehendia apenas uma estreita faixa de terreno, entre +as faldas do monte Libano e o mar Mediterraneo. N'aquella apertada<span +class="pn">{27}</span> zona teve a sua evolução um dos movimentos civilizadores +da Antiguidade, cuja influencia se sente de modo consideravel na Historia +Antiga e chega ainda até nós, por meio do alphabeto, pelos Phenicios inventado +e propagado.</p> + +<p>Os Phenicios são geralmente considerados como um povo pertencente á raça +chamitica, tendo grandes affinidades com as tribus cananéas que, uns vinte e +quatro seculos antes de Christo, se estabeleceram, disseminando-se, nos valles +do Jordão e do Oronte, e nas margens do Mediterraneo. Comtudo elles falavam uma +lingua da familia dos semitas, muito similhante á dos Hebreus,—e as suas +relações com os povos semiticos da Palestina foram sempre muito estreitas.</p> + +<p>Em nenhuma epocha da sua historia apparecem os Phenicios com uma unidade +nacional caracterizada, como os povos de que anteriormente tratámos. Viveram +sempre em cidades separadas, com chefes independentes, de jurisdicção limitada +a certa porção de territorio. Era o ultimo limite da descentralização +governativa. Comtudo sempre uma cidade exerceu hegemonia entre todas as outras +povoações phenicias. As duas cidades que, como grandes centros politicos e +commerciaes, exerceram successivamente essa hegemonia foram Sidon e Tyro. D'ahi +provêm a divisão da historia da Phenicia em dois periodos: o <em>sidonio</em> e +o <em>tyrio</em>.</p> + +<p>No primeiro periodo, Sidon (que foi a mais antiga das cidades phenicias de +que ha memoria nos livros dos historiadores) exerceu a supremacia da influencia +sobre as demais populações, organizou grandes expedições maritimas e teve um +grande movimento de expansão colonizadora. Thutmés I, rei do Egypto, fez +acceitar pelos Phenicios a sua suzerania; mas esse facto foi-lhes antes util do +que prejudicial, porque lhes proporcionou a faculdade de commerciarem no +Egypto, passando a estabelecer feitorias nas cidades do <em>delta</em>, e +chegando até a terem uma colonia sua estabelecida n'um bairro especial de +Memphis, por elles exclusivamente habitado. N'essa epocha navegaram por todo o +oriente do Mediterraneo, e chegaram até Chypre, sendo com o auxilio d'elles que +esta ilha ficou submettida ao dominio dos Egypcios. As suas tendencias e +habitos commerciaes levaram-n'os á ilha de Creta, á Cilicia e até ao Mar-Negro, +estabelecendo por toda a parte colonias e feitorias. No Occidente alargaram-se +pelo littoral do norte da Africa e estabeleceram colonias nos territorios em +que hoje existem as regencias de Tripoli e de Tunis. Cruzando-se alli com a +população indigena, deram origem ao povo dos liby-phenicos, que chegaram a +adquirir importancia<span class="pn">{28}</span> na Antiguidade. Pelo interior +da Asia extenderam as suas relações commerciaes até ao rio Tigre e á Arabia. +</p> + +<p>Pelo seculo <small>XIII</small> antes da era christan os Phenicios de Sidon +tinham chegado ao maximo estado de adeantamento e de influencia. Foram então +victimas dos Philisteus, que se haviam estabelecido entre a Phenicia e o +Egypto. Sidon foi tomada e destruida por estes; e a hegemonia phenicia passou +depois para Tyro, começando então o segundo periodo da historia d'este povo. +</p> + +<p>N'esse novo periodo, Tyro, succedendo a Sidon como centro do dominio +colonial dos Phenicios, elevou-o bem depressa ao auge da prosperidade. A +direcção, porêm, que imprimiu ao movimento de expansão colonizadora teve que +ser diversa. As populações gregas tinham-se ido desinvolvendo pelas duas +margens do mar Egeu, e não só obstaram a que os Phenicios fossem por alli +estabelecendo novas colonias, mas chegaram a desalojál-os de algumas posições +adquiridas. Por isso os Tyrios tiveram que abandonar aquelle caminho e trataram +de espalhar-se para os lados do occidente do Mediterraneo, que ainda estava +desimbaraçado. Foi assim que se occuparam em estabelecer colonias e feitorias +na Sicilia, na Sardenha, na Corsega, em Malta, nas ilhas Baleares, nas costas +da Gallia, e nas da peninsula iberica, ao mesmo tempo que na margem meridional +do mesmo mar alargaram tambem os seus dominios, fundando as cidades de Utica e +de Hippona. Por fim, transpuseram o estreito hoje chamado de Gibraltar, indo +fundar estabelecimentos pela costa occidental da Europa, onde se suppõe que +chegaram ás costas da Gran-Bretanha, e indo tambem para o sul, onde talvez +chegassem a aportar ás ilhas Canarias e ás de Cabo-Verde.</p> + +<p>Então o poderio phenicio chegou ao maximo esplendor e teve a sua edade de +oiro. Reinava Hirão I, que foi contemporaneo dos reinados de David e de Salomão +nos Hebreus. Com estes reis teve elle alliança e por tal modo promoveu a +grandeza phenicia, que a influencia d'esta chegou a sentir-se consideravelmente +em Jerusalem, onde Astarte (uma divindade dos Phenicios) teve culto, sendo esse +um dos actos de idolatria, com que por vezes os Israelitas offenderam a Deus. +</p> + +<p>Logo depois se começou, porêm, a manifestar a decadencia da Phenicia. Duas +causas poderosas concorreram para ella: as luctas civis dentro de Tyro, com +successivas revoluções, e os progressos das navegações e da colonização dos +Gregos que vieram a deslocar as dos Phenicios. N'uma d'aquellas resoluções, que +occorreu durante a menoridade do rei Pygmalião,<span class="pn">{29}</span> foi +assassinado o regente do estado e teve que expatriar-se sua viuva Elisa, que +com os seus partidarios foi para a Africa, onde fundou a cidade de Carthago. +Esta Elisa é a rainha que figura com o nome de Dido na <em>Eneida</em> de +Virgilio.</p> + +<p>A diminuição do dominio no exterior e a fraqueza do poder no interior, +fizeram que a Phenicia fosse successivamente invadida pelos Assyrios, pelos +Babylonios e pelos Egypcios. Do dominio d'estes tres povos passou depois ao dos +Persas, a que se submetteu voluntariamente, e porfim veio a ser conquistada por +Antigono, um dos generaes de Alexandre Magno, que a assediou com uma numerosa +frota e a venceu, passando ella ao dominio d'aquelle imperador, que substituiu +na Asia a dominação dos Persas.</p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION0026">CAPITULO V<br> +OS CARTHAGINEZES</a> </h1> + +<p>Crê-se geralmente que a cidade de Carthago foi fundada, (como acima +dissémos) por Dido, pelos annos 888 antes da era christan; comtudo ha quem +affirme que ella havia sido edificada antes, pelos annos 1059, por uma colonia +phenicia de Tyro.</p> + +<p>Seja como fôr, o que é certo é que os Carthaginezes apparecem-nos, pelos +annos de 540 antes de Christo, constituindo já uma republica de certa +importancia. N'essa epocha alliaram-se com os Etruscos e forneceram-lhes trinta +navios para o ataque da Corsega.</p> + +<p>A republica de Carthago tinha um senado e duas assembléas populares, que +elegiam os magistrados incarregados da administração civil e os generaes +incumbidos do commando dos exercitos. O senado era formado por todos os +cidadãos notaveis por sua edade, nascimento, riqueza ou merito pessoal.</p> + +<p>Carthago, nas suas guerras, empregava unicamente soldados extrangeiros +assalariados, para não despovoar a republica que occupava apenas uma limitada +área de 75 leguas quadradas, e para que os seus cidadãos não abandonassem o +commercio, que era a fonte da riqueza e do poderio do estado. A Numidia e a +Hespanha forneciam-lhe a sua cavallaria;<span class="pn">{30}</span> a Gallia, +a Liguria e a Grecia, a sua infanteria; e as ilhas Baleares, os seus +fundibularios, tão notaveis pela destreza.</p> + +<p>Os Carthaginezes foram senhores da Sardenha; tiveram estabelecimentos seus +na Hespanha e na costa da Sicilia. Eram habeis e ousados navegadores,—o +que, junto á vantajosa posição geographica de Carthago, foi causa do seu +ingrandecimento e riqueza.</p> + +<p>Durante dois seculos viveram em paz com os Romanos, com os quaes celebraram +tratados, que estabeleciam os limites reciprocos da navegação e regulavam o +commercio entre aa duas republicas. Mas a crescente prosperidade de Carthago +começou a inspirar inveja aos Romanos, e esse sentimento mais tarde ou mais +cedo devia accender a guerra entre as duas nações. Foi o que succedeu.</p> + +<p>Tendo-se originado guerra na Sicilia entre os Mammertinos e Hierão (rei de +Syracusa), pediram os primeiros soccorro aos Romanos, emquanto Hierão recorreu +ao auxilio dos Carthaginezes. Tal foi a causa das guerras entre Carthaginezes e +Romanos, conhecidas pelo nome de <em>guerras punicas</em> (do latim +<em>P[oe]eni</em>, que a principio queria dizer «<em>Phenicios</em>», mas que +mais tarde se ampliou em significação, comprehendendo os Carthaginezes). Houve +tres <em>guerras punicas</em> designadas por sua ordem chronologica: primeira, +segunda e terceira.</p> + +<p>A primeira guerra punica durou do anno 264 a 241 antes de Christo. N'ella os +Romanos, comquanto muito menos prácticos do que os Carthaginezes na arte de +navegar, começaram por uma brilhante victoria naval. Perto das ilhas de Lipari, +batteram a frota de Carthago e metteram-n'a a pique. A frota romana era +commandada por Duilio Nepote, a quem por isso Roma ergueu uma estatua. Cornelio +Scipião, general romano, expulsou os Carthaginezes da Corsega e da Sardenha. E +Regulo, depois de tomar Chypre, chegou triumphante deante de Carthago; mas, +vencido por sua vez por Xantippo (general lacedemonio que fôra em soccorro dos +Carthaginezes), foi aprisionado. Inviado, sob palavra, a Roma para que +negociasse a troca dos prisioneiros, Regulo aconselhou, pelo contrario, o +senado a que não intrasse em taes negociações,—pelo que, voltando a +Carthago, soffreu morte cruel.</p> + +<p>Metello, outro general romano, expulsou os Carthaginezes da Sicilia; mas, +emquanto isto se passava, a frota romana, commandada por Claudio Pulcher, era +completamente destruida junto de Lilybea. Por fim, depois de uma grande +victoria dos Romanos, commandados pelo consul Luctacio, sobre os Carthaginezes +sob o mando de Amilcar, celebrou-se<span class="pn">{31}</span> a paz com a +condição dos segundos cederem aos primeiros todas as ilhas situadas entre a +Italia e a Africa e pagarem-lhes durante dez annos um tributo annual de 2:200 +talentos.</p> + +<p>A segunda guerra punica teve a seguinte origem. Os Carthaginezes, para +compensação das perdas soffridas em resultado da primeira guerra, trataram de +alargar os seus dominios na peninsula hispanica. Amilcar Barcas subjugou uma +grande parte d'ella e Asdrubal edificou Carthagena. Os Romanos, que não podiam +ver com bons olhos o novo ingrandecimento dos seus rivaes, começaram a +inquietar-se com aquellas conquistas e exigiram dos Carthaginezes que firmassem +tratados, pelos quaes se obrigassem a não extender as suas conquistas alêm do +Ebro e a respeitarem Sagunto, que era alliada de Roma. Mas Annibal, filho de +Amilcar, depois de se haver apoderado de varias outras povoações, poz cêrco a +Sagunto e deatruiu-a. Isso foi motivo para a segunda guerra punica.</p> + +<p>Annibal, tomando a offensiva, invade a Italia e ganha differentes victorias, +chegando Roma (não obstante o talento do pro-dictador Fabio) a estar seriamente +ameaçada. Mas o senado de Carthago hesitou em mandar a Annibal os soccorros +pedidos; este teve que procurál-os na Sardenha, na Sicilia e na Macedonia, e +mandou ir da Hespanha seu irmão Asdrubal com um novo exercito de Hespanhoes e +de Gaulezes. A desorganização, a heterogeniedade d'estes elementos, e a sua +indisciplina, valeram aos Romanos nas apertadas circumstancias a que haviam +chegado. Alêm d'isso o soccorro levado por Asdrubal não poude chegar ao seu +destino, porque aquelle general, detido no caminho por um exercito romano sob o +mando dos dois consules, teve que dar-lhe batalha em que morreu, sendo +desbaratada toda a sua gente.</p> + +<p>Entretanto Publio Scipião com um exercito romano passou a Africa e foi +cercar a propria cidade de Carthago. Annibal teve que deixar a Italia para +acudir em soccorro da capital da sua patria, e alli foi derrotado nas planicies +de Zama. Passou-se isto no anno 202 antes da era christan. Esta victoria de +Scipião poz termo á segunda guerra punica.</p> + +<p>No seu regresso a Roma, Scipião foi alvo das mais esplendidas ovações, e +deram-lhe o cognome de <em>Africano</em>.</p> + +<p>Depois da paz de Zama, pode dizer-se que a existencia de Carthago foi uma +lenta agonia. Massinissa, rei da Numidia, expoliou-a de muitas povoações e de +grande extensão de territorio; os Carthaginezes appellaram para Roma, porque +Massinissa era alliado dos Romanos; mas o senado de Roma, promettendo-lhes<span +class="pn">{32}</span> justiça, deixou que aquelle rei permanecesse na posse +dos territorios de que se tinha apoderado. Para apparentar uma arbitragem, +inviou Catão a Carthago; mas este, vendo a cidade rica e prospera, sentiu +reviver o odio contra a rival de Roma. E voltando, sempre terminava os seus +discursos no senado pela phrase, que ficou celebre: <em>delenda Carthago</em> +(«deve ser destruida Carthago»). Tendo os Carthaginezes repellido um novo +ataque de Massinissa, Roma pretextou que houvera violação do tratado de paz de +Zama e declarou a terceira guerra punica, que, depois de varia sorte, terminou +por um cêrco a Carthago, no qual os Carthaginezes foram reduzidos pela fome. +Scipião Emilio, o segundo <em>Africano</em>, general romano, tomou a cidade e +arrazou-a. Commissarios do senado de Roma tomaram posse do territorio +carthaginez e fizeram d'elle uma provincia romana, com o nome de +<em>Africa</em>. Foi isto no anno 146 antes de Christo.</p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION0027">CAPITULO VI<br> +OS SYRIOS</a> </h1> + +<p>Nada se conhece ao certo dos tempos primitivos da historia da Syria. A +historia dos seus reis confunde-se inteiramente n'aquella epocha com a dos +monarchas assyrios. Até ao desmembramento dos estados de Alexandre, a Syria foi +successivamente invadida pelos reis de Ninive, pelos de Babylonia, pelos Persas +em tempo de Cyro, e finalmente pelo dito Alexandre. Depois da morte d'este, +Nicator Seleuco (um dos seus generaes) começou a fundação do grande reino da +Syria, appellidado tambem «reino dos Seleucidas» do nome do seu fundador. A +Nicator Seleuco succedeu no throno Antiocho Soter, que bateu os Bithyneos, os +Macedonios e os Galates.</p> + +<p>O rei mais celebre da Syria foi Antiocho, cognominado o <em>Grande</em>. +Depois de ter conquistado a Judéa, a Phenicia e diversos outros paizes, +concebeu o plano de submetter ao seu dominio as cidades livres da Grecia +asiatica, Lampsaco, Smyrna e outras. Pediram estas cidades soccorro aos +Romanos, e estes inviaram embaixadores a Antiocho, convidando-o a que deixasse +aquellas cidades em paz e a que restituisse a Ptolomeu Philadelpho o territorio +que por conquista lhe tinha tirado. Antiocho respondeu, declarando guerra aos +Romanos. Seguiu-se uma lucta em que aquelle rei foi vencido por Scipião<span +class="pn">{33}</span> o <em>Asiatico</em>, que só lhe concedeu a paz depois +d'elle haver dado satisfacção aos Romanos. Mais tarde Antiocho Epiphanes +usurpou a Demetrio o throno da Syria; teve varias guerras com os extrangeiros e +tomou Jerusalem. N'aquella cidade mandou matar grande numero de habitantes, +roubou os vasos sagrados do templo; e, voltando á Syria, deixou a Judéa +governada, em seu nome, por seus generaes, que exerceram muitas perseguições +contra os Judeus. Ordenou por uma lei que todos os povos sujeitos ao seu +imperio usassem as mesmas superstições gentilicas seguidas n'este; e, depois de +ter profanado o templo de Jerusalem, mandou n'elle collocar uma estatua de +Jupiter Olympico. Por medo das perseguições, muitos Judeus abandonaram o culto +do verdadeiro Deus e lançaram-se no seio da idolatria; outros, fieis ás suas +crenças e ás suas leis, soffreram por isso tormentos crueis. Alguns d'estes +tornaram-se muito notaveis, pela sua corajosa resistencia ás ordens do +conquistador, e pelo valor com que soffreram o martyrio. O velho Eleazar, varão +de mais de 90 annos, foi apresentado em Antiochia ao rei Antiocho, como réu de +observar a lei moysayca e de não querer sacrificar aos falsos deuses. Não sendo +possivel obrigál-o a comer das carnes prohibidas nem a fingir que o fazia, foi +cruelmente martyrizado. Septe irmãos, conhecidos pelo nome de «Irmãos +Machabeus», juntamente com sua mãe, que os exhortava á perseverança na lei e na +fé, soffreram os mais atrozes supplicios até expirarem, desprezando as +promessas e as ameaças com que o rei os queria vencer.</p> + +<p>Mathatias (sacerdote da tribu de Levi), sendo já de edade muito avançada, +matou a um israelita que na sua presença, obedecendo ás ordens de um soldado de +Antiocho, ia para Sacrificar aos falsos deuses, e em seguida matou tambem o +mesmo soldado. Feito isto, retirou-se com seus cinco filhos Judas Machabeu, +João, Simão, Eleazar e Jonathas; e, juntando os Judeus que ainda seguiam o +verdadeiro Deus, foi restabelecendo por toda a parte o verdadeiro culto e +derrubando os altares e estatuas dos falsos deuses. Cahindo doente, recommendou +á hora da morte aos filhos que com as armas defendessem a patria e a religião +contra os tyrannos. Judas Machabeu tomou logo o commando das tropas; e, com +grande valor, foi lançando fóra da Judéa os Syrios. Venceu varios generaes de +Antiocho em differentes batalhas, e reparou e purificou o templo de Jerusalem. +Morreu entretanto Antiocho; e, ainda depois d'isso, Judas Machabeu proseguiu na +guerra contra os Syrios, dos quaes libertou completamente a Judéa.</p> + +<p>O ultimo rei da Syria foi Antiocho II. No seu tempo, o reino<span +class="pn">{34}</span> da Syria, que tinha durado por 238 annos, cahiu em poder +de Roma, da qual ficou sendo uma provincia.</p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION0028">CAPITULO VII<br> +OS PERSAS</a> </h1> + +<p>É extremamente obscura e confusa a historia dos Persas anterior a Cyro, que +viveu no seculo <small>VI</small> antes da era christan. Está intimamente +ligada á dos Médos.</p> + +<p>Cyro era filho de Cambyses, rei da Persia, tributario dos Médos, de cujo rei +Cyaxaro II era sobrinho.</p> + +<p>Pela morte de Cambyses e Cyaxaro, Cyro succedeu-lhes nos governos e reuniu o +obscuro reino da Persia ao da Média. Sob o seu governo, foi a Persia um grande +imperio, ao qual estiveram sujeitos a Grande Asia, a Asia Menor, a Syria e a +Arabia.</p> + +<p>A Cyro succedeu seu filho, tambem chamado Cambyses. Sob o mando d'este +soberano ainda mais cresceu o poderio da Persia, que se accrescentou com a +conquista do Egypto. A causa da guerra entre as duas nações foi Cambyses ter +pedido a Amasis (rei do Egypto) sua filha em casamento, e este, inganando-o, +ter-lhe inviado, em vez d'ella, a filha de Apriés. Para tirar vingança de tal +affronta, Cambyses introu no Egypto, incontrou-se perto de Pelma com o exercito +egypcio, commandado por Psammenito (filho e successor de Amasis), batteu-o e +desbaratou-o. Depois apoderou-se de Memphis e de Sais; e em seguida imprehendeu +a conquista da Ethiopia. Para isso seguiu o curso do Nilo até Thebas, e d'alli +destacou 50:000 homens do seu exercito para irem combater os Ammonitas e +queimar o templo de Jupiter; mas aquella gente, tres dias depois da sahida de +Thebas, ficou toda sepultada nas areias do deserto, levantadas e revoltas por +um tremendo furacão. Tambem Cambyses se viu impedido de continuar a sua marcha +sobre a Ethiopia, por haver perdido, em resultado do calor e de privações de +todo o genero, as tres quartas partes do seu exercito e por ter depois soffrido +uma horrivel fome, durante a qual os soldados se devoravam uns aos outros.</p> + +<p>Cambyses no principio mostrára-se no Egypto com disposições para usar de uma +politica de conciliação para com os<span class="pn">{35}</span> vencidos, +chegando a adoptar os titulos e os trajos dos antigos Pharaós, e fazendo-se +iniciar nos mysterios de Osiris. Porém, depois do mallogro das suas tentativas +contra a Ethiopia e contra os Ammonitas, mudou completamente de systema e +mostrou-se animado de grande intolerancia e ferocidade. Saqueou e incendiou as +cidades e os templos; mandou assassinar os sacerdotes do boi Apis, o qual por +sua propria mão apunhalou; destruiu por toda a parte as imagens dos deuses; e +por fim sahiu do Egypto para se recolher á Persia. Quando chegou á Syria, +rebentou a revolta do falso Smerdis, um impostor que se inculcava como o irmão +de Cambyses (que este assassinára logo nos primeiros tempos do seu reinado). +Apressou-se em ir desmascarar o rebelde que usurpava o nome de seu irmão, que +elle sabia estar morto; mas, ferindo-se n'uma perna ao montar a cavallo, d'esse +ferimento lhe resultou a morte, succedida logo depois da intrada na Persia.</p> + +<p>Herodoto e outros historiadores pintam este Cambyses como um monstro de +ferocidade, e contam d'elle varios feitos atrozes, como o de ter assassinado +com um ponta-pé dado no ventre a sua irman Meroé (com quem tinha casado, +conforme ao uso da Persia, e que d'elle estava gravida).</p> + +<p>Morto Cambyses, succedeu-lhe no throno o falso Smerdis, que continuou a +fazer-se passar por seu irmão, e que era simplesmente o irmão de um mago, a +quem estava incumbida a administração do palacio real. Conseguiu reinar oito +mezes; mas, passados elles, septe dos mais poderosos chefes persas urdiram uma +conspiração, desmascararam-n'o, deram-lhe a morte, e acclamaram rei o mais +illustre entre elles (Dario, filho de Hystapes).</p> + +<p>No reinado de Dario os Babylonios revoltaram-se, e foram reduzidos á +obediencia pelo estratagema de um official persa chamado Zopiro que, havendo +mutilado voluntariamente o rosto, foi persuadir os Babylonios de que tinha sido +victima da crueldade de Dario. Admittido na cidade, abriu as portas ao exercito +persa. Dario intentou depois subjugar os Gregos; inviando contra elles um +numeroso exercito, commandado por seu genro Mardonio, exercito que foi +desbaratado por Milciades na planicie de Marathona. Quando Dario tinha +apparelhado novo exercito e se dispunha para segunda expedição, foi +surprehendido pela morte.</p> + +<p>Seu filho Xerxes, que lhe succedeu, poz-se á frente d'aquelle numeroso +exercito, cuja força alguns historiadores elevam a 1.700:000 homens, e de uma +esquadra de 1:200 navios,<span class="pn">{36}</span> dirigiu-se a atacar a +Grecia para vingar a derrota de seu pae em Marathona; mas foi completamente +derrotado na batalha de Salamina, e teve que tornar a passar o Hellesponto. No +anno seguinte, novo exercito, commandado por Mardonio e inviado com egual +intento contra a Grecia, foi desfeito junto de Platéa por Pausanias (general da +Lacedemonia), e por Aristides. Xerxes veio a morrer assassinado, no vigessimo +anno de governo, por Artabano (capitão da sua guarda). Succedeu-lhe seu filho +Artaxerxes que, constrangido por Cimon (filho de Milciades), que o venceu perto +de Chypre, teve que dar a liberdade aos Gregos da Asia.</p> + +<p>Depois d'elle reinou Dario II, que se alliou com Sparta contra Athenas; e a +este succedeu Artaxerxes Mnemon, cujo irmão, Cyro o <em>Moço</em>, se revoltou +contra elle, com o concurso de tropas gregas, terminando a revolta pela batalha +de Cunaxa, em que aquelle principe foi morto, facto a que se seguiu a celebre +«retirada dos dez mil» picturescamente descripta pelo historiador Xenophonte. +</p> + +<p>Pela paz de Antalcidas os Gregos da Asia tornaram a cahir sob o jugo dos +Persas—cujo imperio se ia, comtudo, progressivamente infraquecendo. O +ultimo rei foi Dario Codomano, no principio de cujo governo foi a Persia +invadida pelas tropas de Alexandre Magno, o qual, nas tres batalhas de Granico, +do Isso, e de Arbella, destruiu todo o poder d'aquella nação, que na ultima +d'ellas se rendeu á discreção do vencedor.</p> + +<p>Durante seis seculos permaneceu a Persia confundida no immenso imperio dos +Parthos; mas, no anno 228 da era actual, Artaxerxes, filho de um simples +soldado, tendo-se elevado pelos seus meritos ás mais altas dignidades, levantou +os Persas contra Artabano, ganhou diversas victorias e, sendo acclamado rei, +fundou o segundo imperio persa. Depois de haver reinado treze annos, com muito +discernimento e prestigio, morreu, legando a corôa a seu filho Sapor. Este +devastou a Mesopotamia, a Syria e a Cilicia; e ter-se-ia tornado senhor de toda +a Asia, se Odenato, rei de Palmyra e alliado dos Romanos, não tivesse obstado á +continuação das suas victorias e conquistas. Aprisionou o imperador romano +Valeriano ao qual, depois de o conservar por algum tempo captivo, mandou +esfollar em vida. Sapor foi, por sua vez, vencido por Odenato; e, tendo +regressado aos seus estados, foi pouco depois assassinado. Depois d'estes +acontecimentos foi successivamente infraquecendo o segundo imperio persa. No +seculo <small>IV</small> da era christan Sapor II tornou a fortalecêl-o com +suas conquistas,<span class="pn">{37}</span> mas por pouco durou essa epocha de +renascimento. O imperio recahiu bem depressa, e a decadencia foi progredindo +até ao momento em que no seculo <small>VII</small> a Persia foi subjugada pelos +Arabes.</p> + +<p>Os Persas foram celebres no tempo de Cyro pela sua austeridade e pela sua +coragem. As creanças (segundo conta Platão) recebiam uma educação propria para +d'ellas formar bons cidadãos, uteis á patria. Até á edade de dezesete annos +permaneciam fóra da casa paterna, intregues a educadores, especialmente +incumbidos de lhes inocularem no espirito os dictames da coragem e da virtude. +</p> + +<p>O imperio era dividido em provincias, governada cada uma por um +<em>satrapa</em>, que recebia directamente ordens do rei. Era tida em especial +consideração a agricultura, e muito honrados os que a exerciam; os cultivadores +mais activos e laboriosos eram recompensados e admittidos uma vez em cada anno +á mesa do soberano. A administração da justiça estava confiada a varões sabios +e prudentes, e os juizes que prevaricavam eram punidos com a pena de morte. A +legislação não se limitava a comminar penas contra os crimes e delictos; +tratava tambem de os evitar, inspirando o horror ao vicio e o amor á virtude. +</p> + +<p>Os Persas eram monotheistas; adoravam uma só divindade, que era Mithra (o +Sol); os emblemas da omnipotencia do Creador eram entre elles os fogos +sagrados, mantidos com o maior respeito e solicitude. Os <em>magos</em>, ou +sacerdotes, eram homens notaveis pelo seu saber, pela sua gravidade e pela +austeridade da sua vida; eram os sabios e os jurisconsultos da nação.</p> + +<p>Depois da epocha de Cyro, intregaram-se os Persas a todos os excessos de +devassidão; dissolveu-se a disciplina do exercito; os grandes da nação +abandonaram a existencia viril, que os distinguia, e cahiram na inacção e na +ociosidade, o que foi uma das principaes causas da decadencia e da quéda, do +imperio.<span class="pn">{38}</span></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION0029">CAPITULO VIII<br> +OS INDIOS</a> </h1> + +<p>Dá a Geographia a denominação de India a uma extensa peninsula, situada ao +sul da cordilheira do Himaiaya, que é uma das de maior altitude no mundo. +Divide-se a peninsula em tres regiões differentes:—1.ª, o +<em>Hindustão</em> propriamente dito, constituido pelo territorio das duas +bacias do Indo e do Ganges;—2.ª, o <em>Deccan</em>, peninsula situada ao +sul d'aquella região e que termina no cabo Comorim;—3.ª, a <em>India +central</em>, constituida pela zona de planaltos, que se extende, do occidente +para o oriente, desde o mar de Oman até ao golpho de Bengala.</p> + +<p>As populações que habitam a vasta peninsula indiana podem classificar-se do +seguinte modo:—a raça aryana, ou hindú (Gujarati, Bengali, etc.), que é a +que predomina no Hindustão; a raça dravidica (Tamul, Telinga, Karnataka, etc.), +predominante no Deccan; os restos das raças primitivas (Ghond, Bhilla, Kolaria, +etc.), estabelecidos nas diversas regiões da India central.</p> + +<p>A historia da raça aryana divide-se em quatro periodos, que podem chamar-se: +<em>vedico</em>, <em>epico</em>, <em>brahmanico</em> e <em>buddhico</em>.</p> + +<p>No <em>periodo vedico</em>, e em epocha que não pode determinar-se com +precisão, uma parte do grupo dos Aryas orientaes destacou-se, constituiu uma +nação á parte (os <em>Hindus</em>), que se dirigiu para o valle de Cabul +(antigamente, Kubha), atravessou o rio Indo e extendeu-se pelas campinas de +Pendjab (antigamente, Panchanada).</p> + +<p>Grande numero dos hymnos que figuram no celebre <em>Rig-Veda</em> referem-se +a factos, que se passaram n'este primeiro periodo historico, caracterizado pela +immigração e pelo primitivo estabelecimento da raça aryana em terras da India. +Quando esta raça alli chegou, incontrou o territorio occupado por differentes +populações que, ou eram aborigenes, ou pelo menos tinham longo tempo de +habitação n'aquellas paragens. Parte d'estas populações foi absorvida e +assimilada pela raça invasora; outra parte foi pouco a pouco destruida em +luctas porfiadas de seculos. A principio os Aryas não formavam uma nação unica, +mas conservaram-se por muito tempo<span class="pn">{39}</span> divididos n'um +certo numero de tribus, as mais notaveis das quaes foram a dos +<em>Bharatas</em>, a dos <em>Iksuakus</em> e a dos <em>Pauravas</em>, que +chegaram ainda independentes até ao periodo historico seguinte, e vieram a ser +troncos das poderosas dynastias que então se estabeleceram em terras do +Hindustão.</p> + +<p>Durante todo o periodo vedico o viver dos Hindus teve a natureza pastoril, e +a sua organização sociologica distinguiu-se pelo caracter patriarchal. Ainda +entre elles não havia o regimen das castas, que só mais tarde veio a apparecer. +</p> + +<p>O periodo <em>epico</em> ou <em>heroico</em> decorreu desde que os primeiros +hindus intrados na India passaram o rio Sarasuati até que, deslocando-se +progressivamente, chegaram á foz do Ganges. Este periodo foi caracterizado pela +immigração continuada e pelas luctas entre os que primeiro tinham occupado uma +localidade e os que, vindo mais tarde, os obrigavam a abandonal-a e a progredir +na immigração.</p> + +<p>Deu-se durante este periodo um curioso phenomeno historico. Chegando os +primeiros hindus á peninsula indiana, por muito tempo limitaram a sua occupação +a uma zona de territorio que tinha por limite oriental o rio Sarasuati. Novas +tribus, descendo tambem o valle de Cabul, obrigaram as primeiras, que tinham +começado a estabelecer-se nas planicies de Pendjab, a abandonar as posições +primitivas e a ir successivamente immigrando de localidade em localidade. Isto +deu como resultado o phenomeno de uma enorme massa de população a deslocar-se, +com movimento lento e secular ao longo de uma vasta região, até que esse +progredir parou na imboccadura do Ganges.</p> + +<p>Estas deslocações successivas originaram grandes guerras entre as +differentes tribus; e não só essas luctas, mas tambem as que houve entre os +Hindus e os povos que primitivamente occuparam aquelles territorios, +assignalaram todo o periodo epico. A mais antiga das luctas conhecidas entre as +tribus aryanas é designada na Historia por «guerra dos dez reis», e deu-se +entre a tribu dos Bharatas (cabeça de uma confederação de dez nações, que tinha +por chefe o celebre Vishuamitra) e a tribu dos Tritsus (a que presidia o +egualmente celebre Vasista). Esta ultima tribu havia passado o Sarasuati antes +da das dez nações; e depois, tendo occupado territorio, oppunha-se á passagem +d'ella, que ia invadir-lh'o. Por occasião d'aquella guerra, conseguiu deter o +movimento dos rivaes; mas mais tarde viu-se obrigada a ceder o logar perante o +impeto, cada vez mais irresistivel, de novas ondas de população que invadiam a +India.<span class="pn">{40}</span></p> + +<p>Ao passo que as tribus invasoras iam occupando definitivamente territorios e +iam assentando posições, iam-se formando dynastias. As duas mais importantes +d'este periodo foram: a chamada <em>Solar</em>, que reinou sobre os Tritsus ou +Kosalas e teve a sua capital em Ayodhia; e a <em>Lunar</em>, que reinou sobre +os Bharatas e teve a sua capital em Hastinapura. Entre dois ramos da dynastia +<em>Lunar</em> houve uma tremenda guerra; foi entre os Kurus e os Pandus. +Depois de varias phases que a grande lucta apresentou, os Kurus foram por fim +inteiramente desbaratados pelos Pandus, que ficaram reinando em Hastinapura. +Com esta guerra terminou o periodo epico ou heroico.</p> + +<p>No <em>periodo brahmanico</em> os Pandus, vencidos os Kurus, ficaram +constituindo uma poderosa dynastia, á qual foi facil, com o andar dos tempos, +subjugar as diversas populações aryanas que occupavam aquella região. Formada +assim uma grande e opulenta nacionalidade, em breve esta se sentiu naturalmente +animada de tendencia expansiva, mandando successivas expedições a colonizar o +Deccan, o qual tentou conquistar arrancando-o ás nações dravidicas, que até +então o haviam occupado. A historia d'estas guerras deu assumpto ao grande +poema indio o <em>Ramayana</em> que tem por thema fundamental a conquista do +sul da India e da ilha de Lanká (hoje Ceylão) pelos Aryas. Nada, porêm, +positivo se apura n'aquelle poema com respeito aos factos intimos da referida +guerra,—porque o caracter do <em>Ramayana</em> é inteiramente mythico; e +só um grande esforço de interpretação chega a explicar os seus episodios e a +significação dos seus personagens.</p> + +<p>Alêm d'aquellas expedições, o interesse historico d'este periodo da historia +antiga da India concentrou-se todo na nova constituição social que n'esta +despontou e se veio a firmar e radicar com o tempo. A classe dos guerreiros, +que até então fôra a primeira em categoria e consideração, cedeu o logar á dos +sacerdotes, que ficou sendo a aristocratica e preponderante. O regimen que +desde aquella epocha dominou na India, e que ainda hoje alli tem profundas +raizes, é o chamado <em>regimen das castas</em>. Por esse regimen a sociedade é +dividida na India em quatro classes, religiosa e intransigentemente fechada +cada uma d'ellas a elementos extranhos, e dispostas hierarchicamente na fórma +seguinte:—1.ª a dos <em>brahmanes</em> ou sacerdotes;—2.ª a dos +<em>kshatrias</em> ou guerreiros;—3.ª a dos <em>vaishias</em> ou +commerciantes;—4.ª a dos <em>sudràs</em> (a infima) ou dos servidores. +Esta ultima julga-se que provêm dos restos da população aborigene, que os Aryas +não poderam anniquilar nem assimilar, e que so admittiram no seu corpo social +com aquella<span class="pn">{41}</span> fórma e aquelle mister degradantes. No +chamado «Código de Manu» está expressa e formulada esta fórma do regimen +estabelecido na sociedade indiana.</p> + +<p>Ao <em>periodo brahmanico</em> succedeu o <em>periodo buddhico</em>, que +fecha a historia antiga da India. N'este periodo a theocracia brahmanica +soffreu um grande abalo e teve que defender-se em lucta porfiada. No seculo +<small>VI</small> antes da era de Christo appareceu na India um homem de +talento extraordinario, que era ao mesmo tempo um propagandista audacioso e +infatigavel. Chamava-se Çakya-muni, era filho de um rajah de um paiz vizinho do +Nepaul, e teve o cognome (pelo qual ficou eternizado na Historia) de Buddha (ou +<em>sabio</em>). Philosopho de temperamento, aos vinte e nove annos de edade +abandonou o palacio paterno, as riquezas e o direito á realeza para viver no +deserto, investigando a verdade. Nove annos depois, fortalecido o espirito com +as meditações da solidão, voltou ao povoado; e começou a pregar nova doutrina +ás multidões, reunidas ao acaso. Por toda a parte orava,—expondo os seus +principios, (quer nas povoações, quer nos campos) á gente de todas as condições +sociaes. Servia-se na sua predica, de parabolas (o mesmo systema que depois foi +seguido por Christo). Apresentava a principio a sua doutrina como uma simples +reforma; mas ella tendia á ruina completa do brahmanismo, substituindo ao +regimen das castas o principio da egualdade de todos os homens perante a lei +moral, e ás falsas virtudes prégadas pelos brahmanes a práctica do bem. Ás +promessas de salvação (isto é, da união com a essencia divina) só concedida +pela religião antiga aos brahmanes, substituia a capacidade, para todos os +homens, de gozarem da bemaventurança, ganha por seus meritos e virtudes. Rompia +com o privilegio da casta dos brahmanes, para chamar ao sacerdocio os pobres e +os mendigos que quizessem dedicar-se á vida religiosa. A sua doutrina admittia +seis elementos de perfeição, que eram: a sciencia, que devia ter por objecto +distinguir os verdadeiros dos falsos bens; a energia, que devia consistir na +resistencia contra os nossos maiores inimigos, os prazeres dos sentidos; a +pureza, que era a victoria adquirida por aquella resistencia; a paciencia, que +consistia em soffrer os males imaginarios e os transitorios; a caridade, laço +de união entre os homens; a esmola, como consequencia necessaria da caridade. +</p> + +<p>Tão sympathica e tão santa doutrina, que tantos pontos de similhança tem com +a de Christo, não podia deixar de fazer, como fez, um proselytismo enorme.</p> + +<p>Assim prégou até aos oitenta annos, respeitando sempre a<span +class="pn">{42}</span> ordem estabelecida, e proclamando (como o fez mais tarde +Christo) que aos principes se devia dar o que lhes era devido. Por sua morte, +os discipulos reuniram os principaes discursos d'elle e convocaram o primeiro +concilio buddhico, em que tomaram parte 500 religiosos. Depois de septe mezes +de discussão, esse concilio assentou na fórma do culto e no corpo das +doutrinas, o que tudo ficou mais precisado em segundo e terceiro concilio, que +se reuniram, um no seculo <small>V</small> e o outro 150 annos antes de +Christo.</p> + +<p>Por fim os brahmanes, conhecendo o perigo eminente que já corria a religião +antiga e o edificio social, que elles haviam construido, e á sombra dos quaes +viviam e desfructavam commodidades, honras e distincções, começaram uma lucta +feroz contra o buddhismo, chegando a desincadear contra os seus proselytos uma +atroz perseguição. Entre outros anathemas, prégavam os brahmanes: «Que desde +Ceylão até ao Himalaya, coberto de neve, os buddhistas sejam exterminados. Quem +poupar a creança ou o velho, soffra a pena de morte». Esta perseguição deu +resultado na India, que voltou toda ao brahmanismo; mas o buddhismo espalhou-se +no Thibet (que é hoje o seu centro), na Mongolia, na China, na Indo-China e em +Ceylão. N'estes paizes conta ainda muitos milhões de seguidores, sendo comtudo +poucos os que practicam as doutrinas e os preceitos de Buddha na sua pureza. +</p> + +<p>A civilização indiana, toda com caracter religioso, não primou nem pelo +progresso das sciencias nem pelo das artes. Em sciencia, só a da grammatica e +da linguagem se desinvolveu consideravelmente; da arte só ficaram monumentos +grandiosos nas proporções, mas de pouca belleza artistica. Prosperaram, porêm, +algumas industrias entre os Indios.</p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION00210">CAPITULO IX<br> +OS CHINS</a> </h1> + +<p>Não se conhece a duração da sociedade chineza, á qual as suas tradições +maravilhosas attribuem 80:000 a 100:000 annos de existencia. O que é certo é +que o povo chinez é muitissimo antigo, havendo nas suas tradições mais ou menos +certas conhecimento de factos anteriores 3:500 annos a Christo,—e,<span +class="pn">{43}</span> desde o seculo <small>XXVI</small> da mesma era, +historia positiva que apresenta seguidos annaes.</p> + +<p>Ignora-se completamente quaes foram a origem e o modo de formação dos Chins, +habitantes do <em>Celeste Imperio</em> ou <em>Imperio do Meio</em>. Até ao +seculo <small>XXII</small> antes de Christo os imperadores eram electivos; +d'aquella epocha em deante estabeleceu-se o principio heriditario na successão, +modificado n'um ponto (e era que os grandes do imperio podiam escolher entre os +filhos do soberano defuncto o que julgassem digno de succeder-lhe).</p> + +<p>O imperador Yu foi fundador da dynastia dos <em>Hia</em>, que durou quatro +seculos e que acabou no meio de grandes desordens e de uma atroz tyrannia. A +segunda dynastia, a dos <em>Chang</em>, foi fundada por um principe de +merecimento superior cujas virtudes foram celebradas por Confucio, e veio a +acabar como a anterior, sendo o seu ultimo representante um tyranno abominavel, +desthronado por Wu-Wang, principe de <em>Tehéu</em>, que contra elle se +revoltou. Este, tomando o governo, reorganizou o antigo «tribunal da historia», +cujos membros gozavam de inamobilidade, que lhes assegurava a independencia. +Durante esta dynastia os reinos feudatarios da China, que já desde antiga data +existiam, augmentaram até ao numero de 125, e na China constituiu-se um +verdadeiro feudalismo. Este, porêm, acabou em perfeita anarchia; o imperador +chegou a absoluta impotencia, e um dos seus feudatarios offereceu sacrificio ao +céu (prerogativa exclusiva do soberano), e prendeu no palacio o ultimo +imperador d'aquella dynastia. Começou nova dynastia, a dos <em>Thsin</em> que, +destruindo todos os pequenos principados, reconstruiu com sua unidade e poderio +o grande imperio. Um imperador d'ella, Chi-Hoang-Ti, concluiu aquella +transformação, abriu grande numero de estradas, perfurou montanhas e, para +impedir as correrias dos Tartaros nomadas, mandou construir a <em>grande +muralha</em>, que mede 2:500 kilometros de comprimento. Tornou-se porêm, +tristemente celebre pela perseguição dos lettrados e pelo incendio dos livros. +Na sua enorme vaidade, queria que tudo datasse do seu reinado e pretendeu assim +apagar os vestigios do passado. Não poude, felizmente, matar todos os sabios, +nem destruir todos os livros. A monarchia chineza, que n'aquella data foi +perturbada por tão violento e insensato reformador, voltou depois á sua +tradicional quietação; os sabios recuperaram a sua influencia; e o paiz +augmentou consideravelmente em prosperidade. Mas depois, minada por vicios de +dissolução interior, não teve força para resistir ás invasões<span +class="pn">{44}</span> dos Mongoes que, transpondo a grande muralha, foram +causa da divisão da China em dois reinos, separados pelo rio Azul, e nos quaes +houve differentes dynastias, que todas tiveram uma existencia obscura. Li-Ang +tornou a reunil-os no anno 618 da era actual; mas não conseguiu robustecer o +imperio restaurado, de modo que pudesse resistir ás repetidas Invasões +mongolicas. Estas invasões continuaram durante a Edade-Média, e são já +estranhas ao assumpto do presente livrinho.</p> + +<p>É a civilização da China uma das mais antigas que se conhecem; mas, apezar +d'isso, é a que menos tem progredido ou, melhor diremos, a que por maior +decurso de tempo tem permanecido estacionaria. Tem sido causas d'esse +estacionamento o temperamento proprio da raça chineza, a sua fórma de governo, +a sua religião e o isolamento em que a nação se tem conservado a respeito do +resto do mundo.</p> + +<p>A fórma de governo tem sido sempre como que patriarchal. O imperador é +simultaneamente soberano e pae de todos os seus subditos, que de um extremo a +outro do imperio formam uma unica familia, sem distincção de castas ou +hierarchias. As doutrinas de Confucio têem contribuido principalmente para +conservar ás instituições chinezas a sua estabilidade.</p> + +<p>Confucio viveu no seculo <small>VI</small> antes de Christo. Os seus livros, +sendo como que o evangelho do Imperio Celeste, são estudados por todos os que +têem que sujeitar-se aos exames que habilitam para os titulos litterarios e +para o exercicio dos cargos publicos. Confucio não foi legislador, nem teve +auctoriade para promulgar leis; mas ensinou a «sabedoria». E na práctica das +doutrinas por elle professadas assenta todo o edificio politico e religioso na +China.</p> + +<p>Segundo elle, a moral dos antigos sabios, que é a da verdadeira e eterna +sabedoria, consiste na observancia das tres leis fundamentaes das relações +entre o soberano e os subditos, entre o pae e os filhos, e entre o marido e a +mulher; e tambem em practicar as cinco virtudes capitaes (que são: a +humanidade, isto é, uma caridade universal para com todos os individuos da +nossa especie sem distincção; a justiça, que dá a cada um o que lhe é devido, +sem favorecer um em prejuizo de outro; a conformidade aos ritos prescriptos e +aos usos estabelecidos, a fim de que os que formam a sociedade tenham uma +maneira commum de viver, e participem todos de eguaes vantagens e de eguaes +incommodos; a rectidão, ou a inteireza de espirito e de coração, que faz que +cada um busque a verdade, sem se deixar offuscar pelo interesse, proprio +ou<span class="pn">{45}</span> alheio; a sinceridade e boa fé, ou a lisura e +confiança, que exclue toda a dissimulação e toda a falsidade, quer nos actos +quer nas palavras).</p> + +<p>Os seus principios religiosos fundamentaes são os seguintes. O céu é o +principio universal, a origem fecunda de que todas as coisas procederam. Os +nossos antepassados, d'elle oriundos, foram a origem das gerações seguintes. +Dar ao céu testemunhos de agradecimento é o primeiro dever do homem; mostrar +gratidão aos antepassados é o segundo. É por isso que Fou-Hi estabeleceu +ceremonias em honra do céu e dos antepassados.</p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION00211">CAPITULO X<br> +OS GREGOS</a> </h1> + +<p>Na Antiguidade, a Grecia propriamente dita era apenas uma região constituida +por uma pequena porção de territorio do continente europeu, e pela peninsula +que na bacia Oriental do Mediterraneo termina o mesmo continente, entre o mar +Jonio ao occidente e o mar Egeu (hoje denominado Archipelago) ao oriente. +Tambem pertenciam á Grecia as numerosas ilhas que ha nas proximidades d'aquella +região. As diversas populações que na Grecia vieram a ter importancia historica +derivaram-se todas da raça aryana, da qual constituiam um grupo especial (o +hellenico). Este grupo, pela brilhante civilização que no seu seio se elaborou, +constitue um dos mais nobres da historia, e formou uma individualidade +distinctissima atravez dos seculos.</p> + +<p>Na obscuridade dos primitivos tempos, parece que os primeiros habitadores da +Grecia foram os Pelasgos e os Jonios. Os primeiros povoaram com suas tribus a +Asia Menor, a Grecia e a Italia, lançaram n'estes paizes os primeiros +fundamentos da civilização, e por toda a parte deixaram nos seus monumentos +provas eternas da sua actividade e das suas poderosas aptidões. Desappareceram, +porêm, sem que sobre o seu destino ulterior haja tradição segura.</p> + +<p>Quando a Grecia apenas sahia do estado selvagem, vieram (segundo antigas +tradições) colonias dos paizes mais civilizados da Asia e da Africa trazer-lhe +os conhecimentos das artes uteis e uma religião mais pura. Foi assim que +Cecrops,<span class="pn">{46}</span> oriundo do Egypto, desimbarcou na Attica, +reunindo os habitantes d'ella em diversas povoações, das quaes Athenas veio a +ser a capital; ensinou-lhes algumas culturas, promulgou as leis do casamento e +instituiu o tribunal do Areopago, destinado a julgar os pleitos. Do mesmo modo +na Beocia, Cadmo introduziu o alphabeto phenicio e edificou Cadméa, emtorno da +qual se elevou mais tarde a cidade de Thebas. Dano introduziu em Argos algumas +das artes do Egypto; e Pelops, phrygio, estabeleceu-se na Elida, d'onde a sua +raça se espalhou por toda a peninsula que d'elle tirou o nome. O acontecimento +dominante d'aquella epocha foi a invasão dos Hellenos que do norte da Grecia, +sua primeira habitação, se derramaram por todas as outras partes da peninsula, +á custa dos Pelasgos que foram absorvidos pela população invasora.</p> + +<p>Apoz esta epocha primitiva seguiram-se os tempos heroicos, em que homens de +grande valor physico percorriam a Grecia, para a libertar dos salteadores, dos +oppressores e dos animaes selvagens. Passando a sua vida a combater todos os +flagellos, aquelles heroes recebiam dos povos agradecidos as honras de +semi-deuses; mas muitas vezes abusavam da sua força e das suas vantagens +pessoaes. Entre outros foram notaveis Hercules e Theseu. Tambem ficaram nas +tradições poeticas: os Argonautas e a sua viagem aventurosa até á Colchida, em +busca do <em>vellocino de oiro</em>; os septe chefes que foram cercar Thebas, +infamada pelos crimes de [OE]dipo e pelas dissenções entre seus filhos; o sabio +Minos; etc.</p> + +<p>Foi n'este periodo que se deu a guerra de Troya. Esta cidade era a capital +de um poderoso reino estabelecido no noroeste da Asia Menor e o ultimo resto do +dominio dos Pelasgos. O celebre Páris, filho de Priamo (rei de Troya), fez uma +viagem ao Peloponeso e d'alli furtou e levou para a sua patria Helena, mulher +de Meneláu (rei de Esparta ou Lacedemonia). Pedindo-a depois o marido e os mais +Gregos aos Troyanos, estes negaram-se a intregál-a, pelo que lhes foi por +aquelles declarada a guerra. Quasi toda a Grecia com seus principes foi a esta +expedição, levando por general supremo o rei Agamemnon. Ás ordens d'este +principe iam Achilles (capitão de grande valor), Ajax Tellamonio, Ajax Oileu, +Diomedes, Menesteu, Ulysses (rei de Itaca), e Nestor (varão de edade já muito +avançada). Foi posto cêrco a Troya; mas durante quasi dez annos não houve +batalha decisiva. Troya, defendia-se e parecia disposta e habilitada a +continuar a defender-se com vantagem, não obstante a falta de Heitor, que a +commandava e que morreu ás mãos de Achilles.<span class="pn">{47}</span> Os +Gregos usaram por fim de um estratagema; fingiram retirar-se, deixando no +campo, como presente, um gigantesco cavallo de madeira, que os Troyanos +recolheram dentro de suas muralhas. Mas no corpo do animal occultavam-se os +mais bravos d'entre os Gregos, que assim se introduziram na cidade, cujas +portas abriram ao resto do exercito. Desse modo cahiu Troya, sendo Priamo +assassinado ao pé dos altares. Os principes gregos que não haviam morrido na +lucta, voltaram a caminho da sua patria; mas grandes infelicidades os +esperavam. Uns morreram na viagem; outros, como Ulysses, andaram muito tempo +desviados do caminho por ventos adversos; outros (como Agamemnon) ao chegarem +aos seus paizes, incontraram os thronos occupados por usurpadores, de que foram +victimas; outros, emfim, viram-se obrigados a ir estabelecer habitação em +regiões longiquas, como Diomedes e Idomeneu.</p> + +<p>Toda a historia d'esta epocha está tão eivada de fabula, que é quasi +impossivel apurar-se a verdade.</p> + +<p>Os oitenta annos que se seguiram á guerra de Troya foram todos occupados por +dissenções intestinas, que derrubaram as antigas dynastias, e transferiram a +preponderancia para as mãos de novos povos. Estas revoluções, e outras que mais +tarde houve, deram logar a varias correntes de emigração; e ao longo das costas +da Asia Menor, da Africa, da Sicilia, e da Italia, formou-se uma nova Grecia, +que cresceu e prosperou, e por muito tempo foi mais rica do que a metropole. +Foi assim que os Gregos se estabeleceram em Smyrna, Phocéa, Epheso e Mileto (na +Asia Menor); em Cyrena (na Africa); em Messina e Syracusa (na Sicilia); e em +Taranto, Napoles e Sybaris (na Italia). Nas colonias da Asia, em contacto com +as velhas sociedades do Oriente, começou a evolução civilizadora, de que +Athenas veio a ser mais tarde o brilhantissimo fóco.</p> + +<p>Mas, apezar de tão grande dispersão da população grega, apezar da divisão da +Grecia em tantos estados, a grande familia hellenica conservou a sua unidade +nacional, pela communidade da lingua e da religião, pela celebridade de alguns +oraculos (o de Delphos principalmente, ao qual concorria gente de todos os +pontos do mundo grego), e por algumas instituições geraes que conservavam +estreitos os laços moraes das populações entre si.</p> + +<p>Entre 800 e 700 annos antes de Christo, houve de notavel na Grecia o +apparecimento das leis de Lycurgo. Este personagem nasceu em Esparta. A viuva +do rei Polydecto, seu irmão,<span class="pn">{48}</span> offereceu-lhe com a +sua mão de esposa o throno de Esparta, com a condição d'elle matar seu sobrinho +Charilaus. Recusou-se a isso Lycurgo; e, como os grandes do reino se mostrassem +contra elle irritados pela sabia administração que usára como regente, durante +a menoridade do sobrinho, resolveu exilar-se e viajou por muito tempo, +estudando a legislação dos outros povos e voltando a Lacedemonia, depois de uma +ausencia de dezoito annos, com o intento de fazer adoptar reformas importantes +nas leis do reino. A pythonisa de Delphos apoiou com a sua auctoridade +religiosa as reformas propostas; e os Espartanos, fatigados das suas dissenções +intestinas, que laceravam o estado, acolheram-n'as favoravelmente.</p> + +<p>As leis politicas de Lycurgo mantiveram as relações estabelecidas entre os +Espartanos, como povo dominador, e os Laconianos, como povo subjugado. +Regularam os direitos da realeza distribuidos por duas casas soberanas; os do +senado, composto de varões de edade superior a sessenta annos; os da assembléa +geral, que podia acceitar ou regeitar as propostas feitas pelo senado ou pelos +reis; enfim, os dos <em>ephoros</em>, magistrados annuaes, que administravam a +justiça. As suas leis civis são muito mais notaveis e de muito maior alcance; e +tiveram por fim estabelecer a egualdade entre todos os cidadãos. Para chegar a +tal fim, dividiu elle as terras em 39:000 porções (30:000 para os Laconianos e +9:000 para os Espartanos). Para manter a egualdade entre os cidadãos, Lycurgo +prohibiu o luxo e a moeda de oiro e de prata; e instituiu as refeições +publicas, em que reinava a maior frugalidade. Vedou aos Espartanos o commercio +e a cultura das artes e das lettras, sujeitando-os todos a eguaes exercicios +physicos, com a mira de formar cidadãos robustos para a defesa da patria. Ao +mesmo fim era dirigida a educação das creanças, que mais pertenciam ao estado +do que á familia; a creança que nascia disforme, matavam-n'a.</p> + +<p>Acabadas por esta legislação rigorosa as discordias interiores, e +robustecida assim Esparta, concluiu esta a conquista da Laconia e imprehendeu a +do Peloponeso. Combateu a tribu dorica dos Messenios, com a qual teve duas +guerras, (uma que durou vinte annos e a outra dezesepte). As victorias n'estas +luctas alcançadas deram grande nomeada aos Espartanos, que no seculo +<small>VI</small> antes da era christan eram considerados como o primeiro povo +da Grecia.</p> + +<p>Pelo mesmo tempo florescia tambem Athenas, comquanto os defeitos da sua +organização social déssem origem a grande mal-estar interior e a repetidas +perturbações. A grande<span class="pn">{49}</span> desegualdade dos haveres +tinha dado origem á formação de duas classes: a dos <em>eupatridas</em>, ou +senhores das terras, e a dos <em>thetas</em>, ou servos que as cultivavam. Além +d'estas duas havia ainda a dos escravos propriamente ditos.</p> + +<p>A morte de Codro, ultimo rei dos Athenienses, deu logar a estabelecer-se uma +nova fórma de governo. Os dois filhos d'elle, Medon e Nileu, disputaram entre +si a corôa. Os Athenienses, que tinham sido sempre muito ciosos da sua +liberdade, aproveitaram este ensejo para a reivindicarem completamente; +declararam que depois de Codro não havia ninguem digno do titulo de rei e +puzeram á testa da republica um primeiro magistrado a que deram o nome de +<em>archonte</em>, e cuja auctoridade era muito limitada. Durante mais de tres +seculos foi esta magistratura vitalicia e hereditaria; no fim d'esse tempo +tornou-se electiva, e as funcções de <em>archonte</em> foram limitadas a dez +annos. Mais tarde ainda, o poder foi distribuido por nove <em>archontes</em>, +cujo mandato durava um anno. D'ahi provieram grandes dissenções, divisões de +partidos, rivalidades e desordens.</p> + +<p>Para obviar a tantos males viu-se que era necessario fazer leis, que fossem +superiores a todas as magistraturas. Foi escolhido para as formular Dracon, +homem de virtudes austeras e que gosava da estima geral. Dracon apresentou um +codigo de leis de tal severidade, que revoltaram os espiritos mais exigentes e +que não puderam ser executadas. Como novas dissenções puzeram em novo perigo o +estado, recorreu-se a Solon, varão illustrado e de grande patriotismo, a quem +foi dada a missão de fazer as necessarias leis e organizar uma constituição +fundada em principios racionaes e estaveis.</p> + +<p>Dividiu Solon o povo em quatro classes, segundo o rendimento de cada um. Os +cidadãos das tres primeiras classes eram os unicos que podiam exercer cargos +publicos; os da quarta, composta da infima plebe, eram admittidos a votar nas +assembléas publicas, das quaes se excluiam os estrangeiros. Decretou a pena de +morte contra todo o <em>archonte</em> que se embriagasse, e declarou excluido +da tribuna e indigno de falar ao povo todo o homem de vida depravada. +Estabeleceu que os <em>archontes</em> se informassem da occupação de todos os +cidadãos e que declarassem infames os que persistissem na ociosidade, depois de +por ella terem soffrido tres condemnações. Decretou que o estado sustentasse +até á edade de vinte annos todos os filhos dos cidadãos que morressem no +serviço da patria. Das leis draconianas apenas conservou as que eram<span +class="pn">{50}</span> dirigidas contra os assassinos. Não fez lei penal contra +o parricidio, porque não julgou possivel que tal crime se commettesse em +Athenas. Para tornar duravel a sua legislação, fêl-a gravar toda em pranchas de +madeira, e depois sahiu de Athenas por algum tempo para ir estudar a sabedoria +das antigas nações do Oriente.</p> + +<p>Quando regressou, notaveis acontecimentos o esperavam. Os partidos tinham +re-apparecido e das luctas entre elles tinha surgido a tyrannia de Pisistrato, +o qual, sem abolir a constituição, exercia tal influencia, que dominava todos +os magistrados. Pisistrato duas vezes foi expulso do poder e de Athenas; mas +duas vezes conseguiu recuperar o governo, que por fim conservou até á morte. +Depois d'esta succederam-lhe seus dois filhos Hipparco e Hippias, que +governaram conjunctamente; mas em seguida houve novas e continuadas dissensões, +até ao tempo de Themistocles, no qual a Grecia, ingrandecida com as conquistas +de Milciades e arvorada já em verdadeira potencia maritima, viu ainda o seu +poder naval accrescentado com 200 navios, mandados construir com o producto das +minas de prata de Laurion.</p> + +<p>Foram esta armada poderosissima, e o valor e pericia dos seus generaes, que +salvaram a Grecia das expedições contra ella organizadas por Dario e Xerxes, de +que já falámos no capitulo VII d'este livrinho.</p> + +<p>Foi sobre todos notavel na Grecia o periodo d'estas guerras e o tempo que se +lhes seguiu. Appareceram então distinctissimos generaes, e excellentes +estadistas; e o povo grego, não obstante o seu animo irrequieto e o seu +espirito sedicioso, parece que reprimiu todos os ardores que podiam ser +prejudiciaes á causa publica, para só dar livre curso a todas as tendencias +conducentes ao ingrandecimento da patria e á sua victoria contra os ataques dos +inimigos.</p> + +<p>Por esta epocha appareceu Pericles—homem de tal merito, que deu o seu +nome ao seculo em que viveu e em que a Grecia foi o grande fóco da civilização +do mundo.</p> + +<p>Era filho de Xanthippo, o vencedor de Mycale. Educado pelos sabios mais +notaveis do seu tempo, mostrou-se desde a adolescencia muito instruido em todos +os ramos do saber humano. Apesar de estar pelo seu alto nascimento destinado a +ser chefe do partido aristocratico, que no começo da vida d'elle tinha a maior +influencia em Athenas, esposou a causa do povo, fazendo-se chefe do partido +democratico. Fez reformas profundas, em que cerceou as attribuições dos altos +poderes do estado em beneficio do povo. Em virtude d'essas reformas,<span +class="pn">{51}</span> todas as funcções publicas, ainda as mais elevadas, +ficaram sendo accessiveis aos cidadãos mais humildes, contanto que a sorte ou a +eleição a ellas os chamassem.</p> + +<p>Como o imperio sujeito á pequena cidade de Athenas fosse demasiado vasto, +para que ella pudésse mantêl-o sujeito, Pericles expediu numerosas colonias que +não formaram, como as anteriores, cidades independentes da metropole, mas sim +fortalezas e estabelecimentos militares que mantinham na sujeição a Athenas os +paizes onde existiam.</p> + +<p>Não teve Pericles sómente em vista a grandeza e o poderio de Athenas; cuidou +tambem da gloria d'ella. Chamou para alli todos os homens eminentes que então +havia na raça hellenica, os quaes todos para lá concorreram, como para a +capital da intelligencia. Celebravam-se alli festas esplendidas, que attrahiam +enorme concurso de todas as povoações gregas.</p> + +<p>Athenas chegou assim a ser um dos mais intensos fócos de civilização que o +mundo tem visto. Ao lado do eminente vulto de Pericles, viram-se então alli +brilhar: Sophocles e Euripedes, dois dos maiores poetas tragicos conhecidos; +Lysias, orador eloquentissimo; Herodoto, narrador admiravel; Aristophanes, o +maior poeta comico da Antiguidade; Phidias, o mais illustre dos seus artistas; +Apollodoro, Zeuxis, Polygnoto e Parrhasios, pintores bastante celebres; +Anaxagoras e Socrates, philosophos notabilissimos. Ainda depois d'estes vultos +de primeira ordem vieram Eschylo, Thucydides, Xenophonte, Platão e Aristoteles. +Athenas teve por aquella epocha, a honra de ser não só a «mestra da Grecia», +como lhe chamaram, mas tambem a mestra do mundo.</p> + +<p>Depois de vencida a batalha de Salamina, tinha-se Athenas collocado á frente +de uma confederação dos gregos insulares e asiaticos, afim de proseguir na +guerra contra os Persas; mas tendo-se os sitiados cançado de combater, havia +ella acceitado os seus tributos em vez de contingentes militares e continuára +por si só a sustentar a lucta, no interesse commum. Depois da guerra, continuou +a cobrar os mesmos tributos, pretextando que precisava estar prompta para +impedir uma nova invasão. Os alliados, com o tempo, intenderam que era duro +estar a pagar para as festas e para os monumentos de Athenas; e queixaram-se. +As suas queixas, porêm, foram duramente repellidas, pelo que elles dirigiram as +suas supplicas a Esparta. Esta, ciosa sempre da grandeza e das glorias de +Athenas, procurou formar uma liga continental, cujas forças oppuzesse ás das +cidades maritimas e insulanas sujeitas aos Athenienses. A principio houve só +hostilidades<span class="pn">{52}</span> parciaes; mas mais tarde tornou-se +geral a guerra, depois do ataque de Platéa (alliada dos Athenienses) pelos +Thebanos (alliados de Esparta). Essa lucta é conhecida pela designação de +«guerra do Peloponeso».</p> + +<p>Durante dez annos correu esta guerra, com vantagem ora para uma ora para +outra das contendoras, até que Nicias assignou um tratado de paz, que tem o seu +nome. A paz, porêm, contrariava os calculos de Alcibiades, que contava com a +guerra para se elevar; por isso propoz este a expedição á Sicilia, que teria +sido bem succedida, se elle, accusado de sacrilegio, não fosse privado do +commando do exercito. Alcibiades retirou-se então para Esparta, d'onde dirigiu +duros golpes contra a sua patria. Os Athenienses puzeram cêrco a Syracusa; mas, +em resultado da pouca energia de Nicias, tal cêrco terminou pela destruição da +esquadra e do exercito atheniense, cujos chefes foram mortos pelos Syracusanos +e os soldados reduzidos á escravidão. Este desastre foi um enorme golpe para +Athenas.</p> + +<p>Comtudo a guerra continuou; e os Athenienses ainda por vezes obtiveram +vantagens, que obrigaram Alcibiades a fugir de Esparta. Entretanto em Athenas +rebentou uma revolução, na qual a democracia foi sacrificada a um conselho +superior composto de 400 membros, que substituiu o senado, e a uma reunião de +5:000 cidadãos escolhidos, que substituiu a assembléa do povo; mas pouco depois +um exercito que operava em Samos fez uma contra-revolução, restabelecendo o +governo democratico e acclamando Alcibiades. Este foi chamado a Athenas, e com +a sua vinda restabeleceu-se a auctoridade do povo. Os Athenienses ganharam duas +batalhas navaes no Hellesponto, uma grande victoria, tanto em terra como no +mar, em Cyzica, e por fim tomaram Byzancio. Estas victorias foram, porêm, o +resultado de um grande esforço, que exhauriu o resto da vitalidade de Athenas. +</p> + +<p>Cyro o <em>Moço</em>, que buscava a alliança de Esparta, para arrancar a seu +irmão Artaxerxes II a corôa da Persia, forneceu a Lysandro, que governava em +Esparta, grandes recursos para levar a cabo a guerra. Com este auxilio, os +Espartanos derrotaram os Athenienses em Egos-Potamos; e pouco depois Athenas +foi tomada, as suas fortificações arrazadas, a sua marinha reduzida, +desorganizado o seu exercito e abolida a constituição democratica, que +principalmente concorreu para a sua grandeza e para a sua gloria.</p> + +<p>A hegemonia grega passou para Esparta, que não soube usar d'ella com a mesma +habilidade e esplendor com que o<span class="pn">{53}</span> fizera Athenas. +Cyro o <em>Moço</em> levou por deante o seu plano com o auxilio dos Espartanos, +avançou até ao pé de Babylonia, onde ganhou a batalha de Cunaxa; mas foi morto, +e á sua morte seguiu-se a retirada chamada «dos dez mil» a que já nos +referimos, operada atravez de 400 leguas de terreno, pelas montanhas impervias +da Mesopotamia e da Armenia até ao Mar-Negro. O exito d'esta retirada revelou o +infraquecimento do grande imperio persa; por isso, poucos annos depois o +espartano Agesilau, resolveu conquistál-o. Chegou a reunir grandes forças e +muitas allianças, mas o seu plano ficou frustrado, porque os Persas tiveram +artes de suscitar guerra interior no seio da propria Grecia. Por sua +instigação, Corintho, Thebas e Argos formaram uma liga, em que intraram tambem +Athenas e a Thessalia. Agesilau, regressando da Asia, conseguiu vantagens em +terra, restabelecendo o dominio de Esparta; mas o atheniense Conon, commandante +de uma frota phenicia, arrancou-lhe das mãos o dominio maritimo e com o oiro +dos Persas, restaurou as fortificações de Athenas.</p> + +<p>Esparta, inquieta pelo renascimento da sua rival, inviou mandatarios á +Persia, a tratar com ella dos meios de lhe intregar os gregos da Asia, +acceitando todas as condições. Era o resultado do abatimento moral e da +depravação que tinha ganhado a raça hellenica. Destruiu algumas cidades e +perseguiu diversas populações sujeitas a Athenas, até que os seus excessos +tiveram um castigo. Um dos seus generaes surprehendeu e tomou á falsa fé +Cadmea, cidadella de Thebas, que era então alliada de Esparta. O thebano +Pelopidas, á frente de alguns proscriptos, libertou, porêm, a sua patria, e +reuniu n'uma alliança commum todas as cidades da Beocia. Tendo os Espartanos +mandado contra estes povos colligados um exercito, Epaminondas desbaratou-o na +batalha de Leuctras, levando a guerra até ao seio do Peloponeso. Abriu caminho +até aos muros de Esparta, na qual, comtudo, não poude intrar; mas, para a +conter em respeito, edificou aos seus lados Megalopolis e Messena, dois optimos +pontos fortificados. Esparta procurou por toda a parte alliados contra estes +novos dominadores da Grecia; mas Epaminondas em activa guerra sustentou firme a +dominação de Thebas, dominação que veiu a cahir com elle, morto no meio da sua +victoria de Mantinéa.</p> + +<p>Poucos annos depois, Filippe da Macedonia, tendo libertado o seu paiz do +jugo e da influencia dos extrangeiros, quiz ingrandecêl-o, accrescentando-lhe a +Grecia. Tomou e submetteu differentes povoações, com que foi augmentado o seu +imperio, observando-se por toda a extensão da Grecia uma<span +class="pn">{54}</span> grande falta de energia e um fraco espirito de +resistencia. Só os Athenienses velavam pela patria commum, guiados pelo grande +cidadão e grande orador Demosthenes, que nas suas eloquentes orações mostrava +os planos ambiciosos de Filippe. Mas Athenas não poude sustentar por si só, +durante longo tempo, uma lucta tão desegual, e por fim teve que firmar, por +conselho do proprio Demosthenes, um tratado de paz com o rei da Macedonia.</p> + +<p>Emquanto Athenas, descançando na fé d'este tratado, se abandonava ás festas +e ás suas occupações ordinarias, Filippe transpoz as Thermophylas, penetrou na +Phocida, e conseguiu ser adimittido no conselho amphictionico. Os Athenienses +salvaram ainda Perintho e Byzancio, ás quaes Filippe seria obrigado a levantar +os cêrcos. Á voz de Demosthenes, que não cessava de lhes mostrar os perigos, +nas suas immortaes <em>Filippinas</em>, os Athenienses e os Thebanos, +esquecendo a sua mutua rivalidade, reunem os seus exforços para opporem ao +inimigo commum; mas o seu exercito, commandado por generaes inhabeis e talvez +vendidos ao oiro de Filippe, foi desbaratado n'uma grande batalha na planicie +de Cheronéa. Depois d'esta batalha, Filippe propoz-se captar a sympathia dos +Gregos, que tratou com as maiores blandicias, e conseguiu ser por elles nomeado +generalissimo das tropas destinadas a marchar contra a Persia. Para preparar +esta grande expedição voltou a Macedonia, onde foi assassinado por Pausanias +durante a celebração dos jogos olympicos.</p> + +<p>Succedeu-lhe seu filho Alexandre com vinte e um annos de edade. Tendo os +barbaros, que seu pai subjugára, tomado as armas, elle, para lhes estorvar os +movimentos, levou o seu exercito até ao Danubio, passou este rio n'uma noite e +derrotou os rebeldes. Julgando os Thebanos aquelle ensejo propicio para se +libertarem dos Macedonios, apoderaram-se da cidadella, cuja guarnição +degollaram. Alexandre reuniu logo um exercito, com que introu na Beocia, +exigindo d'elles que lhe intregassem os auctores da revolta. Como lh'os +recusassem, deu-lhes batalha, destroçando-os e tomando Thebas; que saqueou e +destruiu.</p> + +<p>Os Athenienses, receando então haver incorrido na colera de Alexandre, +mandaram-lhe emissarios a implorar clemencia. Este usou para com elles de +generosidade, da qual comtudo esperava tirar partido para os seus planos de +conquista; pacificou a Grecia e reuniu em Corintho deputados de todas as +republicas hellenicas, que o nomearam general em chefe de uma expedição contra +os Persas. Para levar d'esse modo a effeito<span class="pn">{55}</span> o plano +de seu pae, confiou o governo da Macedonia e da Grecia a Antipater e partiu com +um exercito de 30:000 homens de infanteria e 5:000 de cavallaria, á conquista +da Persia, onde então reinava Dario Codomano.</p> + +<p>Então começou para Alexandre uma serie de victorias e de conquistas, que +constituem uma verdadeira epopéa. Introu na Phrygia depois de atravessar o +Hellesponto sem difficuldade; na passagem do Granico, defendida por um exercito +persa de 100:000 homens de infanteria e mais de 10:000 de cavallaria, derrotou +este, apoderando-se depois de Sardes, que era a chave da Alta-Asia. Epheso, +Mileto, Halycarnasso e todas as cidades da costa da Asia intregaram-se-lhe.</p> + +<p>No anno seguinte, para se oppor á continuação das suas conquistas, levantou +Dario um grande exercito e resolveu levar a guerra ao coração da Macedonia. +Memnon, seu general em chefe, á testa da expedição, tomou as ilhas de Chio e de +Lesbos. Alexandre não quiz intregar ao acaso de um combate naval a gloria até +alli alcançada; abandonou aos Persas o dominio do mar e fez convergir todos os +seus exforços para se apoderar dos portos e cortar toda a communicação entre o +exercito inimigo e a Grecia. Tendo subjugado a Lydia, dirigiu-se para a +Pamphylia sem incontrar obstaculos; atravessou a Cappadocia, foi á Cilicia e a +Tarso, d'onde partiu ao incontro do exercito de Dario, que derrotou nos +desfiladeiros do Isso. A mãe, mulher e filhos de Dario cahiram em seu poder e +Alexandre tratou-os com a maior generosidade. Apoderou-se depois da Phenicia, e +tomou Tyro depois de septe mezes de cêrco. Subjugou em seguida a Judéa, e tomou +Damasco, onde estavam os thesouros de Dario. Intentou destruir Jerusalem, por +lhe haver recusado viveres; mas desistiu do seu proposito, em presença das +supplicas que lhe dirigiu o summo sacerdote Jaddo.</p> + +<p>Da Judéa dirigiu-se para o Egypto, onde bastou a sua presença, para que +todas as povoações se lhe intregasem. Foi até á imboccadura do Nilo, onde +lançou os fundamentos da cidade de Alexandria. Incaminhou-se para o +Alto-Egypto, penetrou no deserto e chegou até ao oasis em que estava +estabelecido o templo de Jupiter Ammon, e onde os sacerdotes lhe concederam o +titulo de «filho de Jupiter».</p> + +<p>Do Egypto voltou á Asia e penetrou na Armenia, indo ao incontro de um +terceiro exercito de Dario, que derrotou, apezar da grande superioridade +numerica d'este, intrando triumphante em Babylonia. Esta victoria tornou-o +senhor do grande imperio persa; e elle, para segurar as suas conquistas, +marchou<span class="pn">{56}</span> em persiguição de Dario que foi morto por +um traidor do seu proprio exercito, Besso, em Ecbatana.</p> + +<p>Alexandre tomou sob a sua protecção a familia de Dario; marchou contra +Besso, que se fizera proclamar rei em Bactriana, apoderou-se d'elle e mandou-o +matar. A posse do mar Caspio e as estradas militares que abriu para Herat e +para Nichapur patentearam-lhe as communicações com todos os differentes pontos +da Persia.</p> + +<p>Depois de ter assentado tão vasto dominio, resolveu passar á India. +Atravessou o Indo, alliou-se com o rei Daxilo e subjugou differentes estados +vizinhos d'este. Adeantou-se até ao interior da India, onde edificou diversas +cidades, e preparava-se para atravessar o Hyphaso, quando as suas tropas, +fartas de tão longo exilio e de tanta peregrinação, se recusaram a seguil-o e +lhe pediram para voltar á patria. Alexandre annuiu a este desejo. Depois do seu +regresso, ainda subjugou os Oxidracos e outros povos, percorreu a Média, e +introu em Ecbatana, onde falleceu o seu favorito Ephestion.</p> + +<p>Voltando a Babylonia, foi alli alvo do maior triumpho. Recebeu embaixadores +de todas as partes do mundo, acolhendo com especial agrado os da Grecia. Quiz +fundir os Gregos e os Persas n'um só povo, por meio de allianças e de colonias, +e espalhou por todo o Oriente as idéas, a litteratura e a civilização da +Grecia. Durante um anno elaborou esses planos, mas não poude pôl-os em +execução, porque veiu a morrer aos 39 annos de edade, no anno 324 antes de +Christo.</p> + +<p>Fallecido Alexandre, os Macedonios, depois de alguns dias de contestações e +de jogo de intrigas e de ambições, escolheram para rei a Arideu; mas bem +depressa se desfizeram d'elle, bem como da familia de Alexandre. Os generaes, +que haviam sido d'este, trataram de apoderar-se das conquistas que elle fizera, +e a partilha foi origem de uma guerra que veio a terminar com a batalha de +Ipso.</p> + +<p>Emquanto os successores de Alexandre disputavam entre si as conquistas da +Asia, a Grecia intentou recuperar a sua liberdade. Demosthenes, que ficára +sendo o inspirador do patriotismo e do partido nacional, promoveu a guerra da +independencia, que acabou por um desastre. O grande orador sendo proscripto, +invenenou-se no exilio. Com esta morte toda a esperança se perdeu. Ainda Arato +conseguiu restaurar a antiga confederação das cidades de Achaia; e essa +confederação ia talvez extender-se, para formar uma barreira perante as +ambições da Macedonia. Mas Esparta, que se tinha novamente elevado sob o +governo de Cleomenes, correu a imbargar-lhe<span class="pn">{57}</span> o +passo. Cleomenes foi vencido; porêm os Macedonios, que tinham auxiliado os +Acheus contra elle, ficaram outra vez preponderantes. Os Romanos começam a +inquietar-se com essa preponderancia, resolvem intervir, ganham a batalha de +Cynocephalo, dissolvem a confederação achaica, e declaram livres todas as +cidades da Grecia. Estas regosijam-se com o facto, sem comprehenderem que os +Romanos dividiam para dominar e absorver. Conheceram tarde o seu erro; e, +quando quizeram reconstruir a confederação e se armaram para resistir aos +Romanos, estes venceram a batalha de Leucopetra, junto de Corintho; esta cidade +foi queimada pelo consul Mummio, que commandava o exercito de Roma; a Grecia +foi declarada provincia romana, e o povo que a habitava, e que tão brilhante +papel representára na civilização do mundo, foi absorvido na grande massa das +populações sujeitas ao dominio de Roma. Ficou a Grecia sendo governada por um +pretor, nomeado annualmente pelo senado romano. Só Athenas conservou até ao +tempo do imperador Vespasiano uma constituição republicana.</p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION00212">CAPITULO XI<br> +OS ROMANOS</a> </h1> + +<p>A Italia, como a conheciam e designavam na Antiguidade, era constituida pela +peninsula alongada, existente no sul da Europa, que se prolonga com direcção +sueste entre os mares Adriatico e Tyrrheno e na extensão de 800 kilometros. +Tambem lhe pertencia a Sicilia (ilha d'ella separada por um pequeno estreito), +bem como a vasta planicie que se extende até á base dos Alpes (que é +atravessada pelo rio Pó e cuja metade superior era conhecida pelo nome de +Gallia Cisalpina). Aos pés das montanhas da Sabina, iam incontrar-se as ferteis +planicies do Lacio e da Etruria, sobre as margens do rio Tibre. A alguma +distancia da sua confluencia com o Arno, passa este rio entre novas collinas, +duas das quaes—o Janiculo e o Vaticano—dominam a sua margem direita +e as outras estão sobranceiras á esquerda. Foi alli que se edificou Roma.</p> + +<p>Durante muito tempo, e apezar da preponderancia que a população e os +estabelecimentos do Lacio adquiriram, conservou-se a peninsula dividida em +diversas nacionalidades, estabelecidas<span class="pn">{58}</span> nas +seguintes regiões do territorio; Liguria, Etruria, Campania, Lucania, Apulia, +Samnio, Umbria, etc. A unidade politica da Italia peninsular sómente veio a +realizar-se depois de um grande numero de tentativas e de esforços continuos e +pertinazes de Roma, para vencer as nacionalidades autonomas locaes, que eram +muito ciosas dos seus direitos o da sua independencia.</p> + +<p>Roma deve ter sido primitivamente uma colonia de Alba-Longa, cidade que +pertencia á confederação do Lacio. Ignora-se, porêm, ao certo como se fundou, +quaes os elementos a que deveu origem, e as circumstancias que se deram nos +seus primeiros tempos. A historia verdadeira da sua primeira epocha é ainda +hoje ignorada, porque como historia verdadeira não pode considerar-se a +collecção de fabulas e de tradições maravilhosas e inverosimeis, que antigos +historiadores colheram das lendas e das crendices populares.</p> + +<p>A historia dos septe reis de Roma passa por ser uma lenda em que figuram: +1.º rei, Romulo, que com seu irmão Remo edificou no monte Palatino a cidade de +Roma; 2.º rei, Numa, monarcha religioso inspirado pela nympha Egeria; 3.º rei, +Tullo Hostilio, que destruiu Alba-Longa, depois da guerra entre Horacios e +Curiacios; 4.º rei, Anco Marcio, que foi o fundador de Ostia; 5.º rei, +Tarquinio o <em>Antigo</em>, vencedor das cidades latinas do Tibre superior; +6.º rei, Servio Tullio, o legislador, amigo do povo; 7.º rei, Tarquinio o +<em>Soberbo</em>, tyranno abominavel que foi expulso pelos Romanos, sendo com +essa expulsão abolida a realeza.</p> + +<p>Contam os antigos historiadores nos seguintes termos a fabula da fundação de +Roma. Romulo e Remo eram filhos do deus Marte e de Rhea Silvia (filha de um rei +de Alba), que fôra feita vestal (para não poder casar nem ter descendencia) por +seu tio Amulio que derrubou seu pae do throno. Sabendo Amulio do nascimento das +duas creanças, mandou-as lançar ao Tibre; mas a pessoa incarregada de as deitar +ao rio, por compaixão deixou-as na margem, d'onde um pastor as recolheu, sendo +ellas, segundo uns, amamentadas por uma loba, e segundo outros pela mulher do +pastor, que dizem se chamava <em>Lupa</em> (Loba).</p> + +<p>Quando chegaram a homens, Romulo e Remo reuniram grande numero de +aventureiros, vagabundos e descontentes; e com elles tiraram o throno a Amulio, +restituindo-o a seu avô materno Numitor, que d'elle havia sido desapossado. +Feito isto, foram fundar uma cidade no sitio em que haviam sido creados,<span +class="pn">{59}</span> e essa cidade foi Roma. Passou-se isto no anno 753 antes +de Christo.</p> + +<p>Romulo mandou matar a Remo com o pretexto de que este, saltando por um +vallado (que foi a primeira muralha de Roma), pretendêra zombar d'elle. Povoou +a nova cidade com homens dos povos vizinhos que a si attrahiu; e, como não +houvesse mulheres para com elles casarem, mandou fazer umas festas publicas, +para as quaes convidou os Sabinos, e ás quaes concorreram estes em grande +numero com suas familias. Em meio dos festejos os Romanos roubaram as mulheres +aos Sabinos, fazendo-os fugir. Ao rapto das Sabinas seguiu-se uma guerra entre +os dois povos, a qual não teve grande duração, porque as proprias raptadas, +então já casadas, intervieram para fazer a paz entre os maridos e os paes e +irmãos.</p> + +<p>A fabula narrada como causa da expulsão de Tarquinio o Soberbo e da abolição +da realeza em Roma é a seguinte. Contam que tendo Sexto Tarquinio (filho do +rei) injuriado em seu pudor a Lucrecia (mulher do nobre Collatino), esta +convocára todos os seus parentes e os outros nobres da cidade para lhes pedir +vingança e em seguida se suicidára. D'ahi resultou uma revolução, capitaneada +por Collatino e por Lucio Junio Bruto, sendo expulso Tarquinio, abolida a +realeza e estabelecida a fórma republicana. Esta revolução foi toda feita pelos +patricios, e por isso a republica ficou nas mãos d'elles e com feição +aristocratica. O governo foi confiado a dois consules, sendo os primeiros os +dois auctores da deposição de Tarquinio, Bruto e Collatino. Refere-se este +acontecimento ao anno 509 antes de Christo.</p> + +<p>Tiveram pouco depois os Romanos que sustentar uma guerra contra Parsenna, +rei da Etruria, que os atacou para restabelecer no poder a Tarquinio. O +exercito de Persenna chegou a tomar o Janiculo e a acampar junto dos muros de +Roma, pretendendo reduzil-a pela fome; mas foi repellido pelos Romanos com +grande denodo, e Persenna veio depois a tornar-se amigo e alliado de Roma.</p> + +<p>Os Tarquinios continuaram ainda a fazer guerra á republica até á morte de +Aruns (filho de Tarquinio) que succumbiu ás mãos de Bruto. Este fôra ferido +mortalmente por Aruns e, concitando todas as suas forças e energia, matou-o, +cahindo sem vida sobre o seu cadaver.</p> + +<p>Annos depois Manlio (genro de Tarquinio) suscitou contra Roma a guerra, +chamada dos Latinos. Estes chegaram a approximar-se da cidade com um exercito +numeroso. O povo romano recusava-se a tomar as armas se os nobres ou +patricios,<span class="pn">{60}</span> que os opprimiam, não o desobrigassem +das suas dividas e não lhe tornassem melhor o viver. Representava que era elle +que fazia a guerra, mas que as vantagens e as honras eram todas para os ricos e +nobres. Estes promptificaram-se a adiar a exigencia das dividas, mas não a +dál-as por findas. Em tal apuro, por consenso mutuo, creou-se um magistrado +supremo, denominado <em>dictador</em>, com poder absoluto por seis mezes e +incarregado de conciliar todos os interesses. Para esse cargo foi escolhido +Largio que, fazendo-se acompanhar de 24 lictores armados de machados, apparecia +em toda a parte, obrigando todos a intrar na ordem, sob ameaça de morte. O povo +amedrontou-se perante esta energia, fez-se o alistamento, e o exercito marchou +contra os Latinos. Estes pediram um armisticio, que lhes foi concedido; e +Largio exonerou-se da dictadura. Reappareceram mais tarde os Latinos; mas Aulo +Posthumio, nomeado dictador, foi ao seu incontro, vencendo-os n'uma batalha +decisiva em que ficaram mortos Tito e Sexto, filhos de Tarquinio o Soberbo.</p> + +<p>Tendo depois os Romanos guerras com os Volscos e os Equos, foi Cincinnato +incarregado do commando do exercito. O lictor que ia dar-lhe noticia da +nomeação, incontrou-o com a charrua a arar o campo. Cincinnato largou a +cultura, poz-se á frente do exercito, e, em quinze dias, derrotou os inimigos. +Alcançada a victoria, o heroe voltou ao trabalho da sua cultura agricola, que +deixára interrompido. Coriolano, que se vira obrigado a sahir de Roma, em +resultado de dissenções civis entre os tribunos da plebe e os patricios, aos +quaes aquelle pertencia, lançou-se no partido dos Volscos e recomeçou com elles +a guerra contra os Romanos. Vencido, porêm, pelas supplicas de sua mulher e de +sua mãe, retirou-se e recolheu ao paiz dos Volscos que (segundo alguns) o +assassinaram.</p> + +<p>Seguiu-se a guerra contra os Veientes,—um dos povos etruscos, inimigo +eterno dos Romanos, que todos os annos renovava as hostilidades. Os Fabios, +familia nobre de Roma, offereceram á republica um concurso poderoso e +extraordinario, fazendo por si sós uma guerra particular contra os Veientes; +mas foram horrivelmente derrotados, ficando os trezentos patricios, que +compunham este pequeno exercito, todos mortos junto a Cremera. Notaveis +victorias vingaram, porêm, depois esta derrota; differentes generaes romanos +ganharam grandes batalhas e se apoderaram das praças fortes do inimigo. Os +Veientes eram tão poderosos que, cercados na sua cidade, defenderam-se durante +dez annos dos Romanos, os quaes haviam jurado não voltar a Roma sem haverem +tomado<span class="pn">{61}</span> a valorosa povoação dos Veientes. O +juramento cumpriu-se e a cidade foi tomada.</p> + +<p>Por esse tempo Roma tratou de aperfeiçoar as suas instituições e a sua +legislação, adoptando algumas das leis vigentes na Grecia. Crearam-se os +<em>decemviros</em>, para exercerem o poder em vez dos dois consules. As leis +que adoptaram de Athenas foram pelos Romanos gravadas em doze tábuas, o que +lhes originou a designação de <em>leis das doze tábuas</em>. Teve pouca duração +a instituição dos decemviros, que foi por sua vez substituida pela de dois +consules. Esta substituição fez-se por exigencia do povo, cançado da tyrannia +dos decemviros e dos excessos dos nobres. O povo ainda obteve outra victoria: +estabeleceu-se que os consules tanto pudessem ser eleitos entre os patricios +como entre a plebe, e que se pudessem fazer casamentos entre individuos de +differentes classes sociaes.</p> + +<p>Seguiram-se outras guerras, de algumas das quaes tratámos atraz, em +differentes capitulos, a proposito dos outros diversos povos, como a de +Tarento, a de Pyrrho, a de Syracusa, as tres guerras punicas, a dos Corinthios, +e a da Hespanha, que os Romanos submetteram tambem. Todas estas guerras tiveram +como resultado dar a Roma uma vastissima dominação no mundo.</p> + +<p>Assim, no anno 130 antes de Christo, dominava ella desde o littoral da +peninsula iberica até ao centro da Asia Menor. Estava sujeito ao seu dominio +quasi todo o antigo mundo.</p> + +<p>Mas a conquista de tão vastos e tão ricos paizes tinha tido sobre os +costumes dos Romanos uma influencia desastrosa. Tinham estes renunciado á sua +antiga simplicidade e tinham aberto as portas ao luxo. Os nobres tinham-se +tornado crapulosos e perdularios; o povo, accessivel á venalidade. D'ali +proveio a decadencia que a pouco e pouco produziu a ruina da republica e da +liberdade.</p> + +<p>Catilina, um nobre romano, eivado de todos os vicios da sua classe, +aproveitando-se da ausencia dos exercitos, que estavam na Asia combatendo +contra Mithridates, concebeu o negro plano da perda da patria, tendo por +cumplices alguns dos seus mais nobres compatriotas. Incontrou porêm a opposição +patriotica dos consules Cicero e Antonio; o primeiro, nos seus eloquentes +discursos, punha em evidencia as conspirações do traidor e concitava contra +elle o patriotismo da plebe; o segundo marchou contra o exercito com que +Catilina vinha, da Etruria sobre Roma e desbaratou-o. Catilina foi morto no +combate.<span class="pn">{62}</span></p> + +<p>Novas calamidades esperavam, porêm, a republica romana. No meio do excessivo +poderio e da dissolução dos costumes, quando Roma celebrava as victorias +alcançadas por Pompeu no Oriente, a grande influencia e o grande prestigio +d'este general despertou a inveja de outros generaes e outros nobres +ambiciosos, como Metello, Crasso e Cesar.</p> + +<p>Aspirando Cesar a ganhar poder, Crasso a augmentar o seu, e Pompeu a +conservar o que possuia, facil foi aos tres ambiciosos combinarem-se para se +apoderarem da republica. Distribuindo elles a sua força commum, Cesar +assenhorou-se da Gallia, Crasso da Asia, e Pompeu de Hespanha; cada um tinha um +grande exercito sob as suas ordens, por fórma que o imperio do mundo ficou +assim dividido entre aquelles tres dominadores. Mas a concordia que +apparentavam entre si era unicamente o resultado do receio que cada um d'elles +tinha dos outros. Morto Crasso, bem depressa se rompeu a harmonia entre Cesar e +Pompeu. Este, apoiado pelo senado, intimou Cesar para que abandonasse o seu +governo e o commando do seu exercito. Cesar, em vez de obedecer, marchou sobre +Roma e fez sabir d'ahi Pompeu e todos os seus partidarios. Seguia-os até á +Hespanha, onde bateu todos os logar-tenentes de Pompeu, e passou depois á +Grecia, onde se incontrou com este na Thessalia, perto de Pharsalia. Vieram ás +mãos os exercitos de um e outro, a victoria ficou indecisa; mas, tendo-se +afastado Pompeu do campo,—o seu exercito, perdendo a força moral, foi +completamente destroçado.</p> + +<p>Pompeu viu-se obrigado a refugiar-se no Egypto, onde foi assassinado no +momento de desimbarcar, por ordem de Ptolomeu. Depois de em Africa bater Juba, +que sustentára o partido de Pompeu, e de derrotar os filhos d'este em +Hespanha,—Cesar recolheu a Roma, onde foi recebido com grande ovação, e +onde sobre sua cabeça foram accumuladas as maximas honras.</p> + +<p>Bem depressa se urdiu, porêm, uma conspiração contra a sua vida. Foram +auctores d'ella Bruto, Cassio e outros patricios; e Cesar morreu sob o punhal +de Bruto.</p> + +<p>Livres os Romanos de Pompeu e de Cesar, parecia que iam recuperar a antiga +liberdade; mas Sexto Pompeu, reclamando os bens de seu pae, tornou-se o +flagello do mar; Octavio, procurando vingar Cesar, soprou a guerra na +Thessalia, e Antonio amotinou o povo contra os assassinos de Cesar, fazendo com +que elles fossem expulsos de Roma.</p> + +<p>Antonio, Lepido e Augusto constituiram-se em triumvirato para vingar a morte +de Cesar. Octavio e Antonio marcharam<span class="pn">{63}</span> contra Bruto +e Cassio, que sustentavam o senado, e deixaram Lepido em Roma. Incontraram-se +os dois exercitos inimigos na Thessalia; a victoria esteve a principio +indecisa; mas depois Cassio, sendo repellido, persuadiu-se de que o mesmo tinha +acontecido a Bruto e suicidou-se. Isso produziu a derrota de Bruto, que tambem +se matou, para não cahir nas mãos dos inimigos.</p> + +<p>A harmonia entre os triumviros não se manteve muito tempo. Lepido foi +desterrado para uma ilha, onde morreu. Antonio e Augusto desavieram-se e +romperam hostilidades, acabando a contenda pela batalha de Accio. Antonio, +vencido, suicidou-se; e o Egypto foi reduzido a uma provincia romana.</p> + +<p>Doze annos depois de se haver constituido o triumvirato, viu-se Octavio +senhor absoluto do grande imperio romano. Depois de ter estabelecido a paz na +terra e no mar, fechou o templo de Jano, em signal de paz geral. Senhor de +tudo, tendo nas suas mãos a força militar, investido nas funcções de todas as +magistraturas do estado, apezar de conservar as formulas republicanas, tomou o +titulo de imperador, com o nome de <em>Augusto</em>. Pouco depois, declarou que +ia intregar os poderes nas mãos do senado e do povo; mas, tendo disposto +convenientemente as coisas, obteve que, em nome do bem publico, lhe +conservassem o poder por mais dez annos.</p> + +<p>Não tendo filhos que pudessem ser herdeiros do imperio, declarou como tal a +Tiberio Nero, que adoptou por filho. Deu o commando de oito legiões, inviadas +ao Rheno, a Germanico Cesar, filho de Druso, e fez com que Tiberio o adoptasse. +Veio a morrer na edade de 76 annos.</p> + +<p>Foi no seu reinado que, no anno 753 da fundação de Roma, nasceu Jesus +Christo em Bethlem, cidade da Palestina.</p> + +<p>O imperio romano tentou continuar o dominio universal. Succederam-se uns aos +outros os imperadores, muitos dos quaes foram tyrannos, e muitos morreram +assassinados. O imperio foi successivamente infraquecendo. Tres invasões lhe +deram o ultimo golpe: a dos Wisigodos, a dos Vandalos e a dos Hunos. Por morte +do imperador Theodosio, o imperio fôra dividido entre seus dois filhos: Arcadio +teve em partilha o imperio do Oriente; Honorio o do Occidente. Foi este o que +cahiu perante a invasão d'aquelles Barbaros, no anno 476 da era christan, +fechando com esse acontecimento a Historia Antiga. O imperio do Oriente logrou +acompanhar ainda o periodo historico da Edade-Média.</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;">FIM<span class="pn">{64}</span></p> +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center; font-size: 2.5em;">Os Mysterios da Inquisição</p> + +<p style="text-align:center;">POR</p> + +<p style="text-align:center; font-size: 1.6em;">F. Gomes da Silva</p> + +<p style="text-align:center; font-size: 1.4em;">Obra illustrada a côres</p> + +<p style="text-align:center;">POR</p> + +<p style="text-align:center; font-size: 1.6em;">MANUEL DE MACEDO E ROQUE GAMEIRO.</p> + +<p>Sob o titulo <strong>Os Mysterios da Inquisição</strong> condensam-se +variadissimos factos historicos, desentranham-se os horrores d'epochas +passadas, escalpellam-se figuras d'outros seculos, investigam-se +particularidades estupendas, encadeiam-se acontecimentos dispersos e +tenebrosos, enaltecem-se as grandes virtudes, faz-se rebrilhar a verdade, e +põem-se em relevo todas as personagens que entram n'este grande drama, em que +vibram commoções da maior intensidade e affectos do mais exaltado amor.</p> + +<p>O romance <strong>Os Mysterios da Inquisição</strong> constará de 3 volumes +de grande formato. A distribuição será feita semanalmente em fasciculos de 3 +folhas ou 24 paginas com uma gravura a côres pelo preço de 60 réis, ou em tomos +de 15 folhas ou 120 paginas com 5 gravuras por 300 réis.</p> + +<p>Para as provincias a distribuição é feita em tomos de 300 réis ou em +fasciculos quinzenaes de 48 paginas e 2 gravuras por 120 réis.</p> + +<p style="text-align:center; font-size: 1.2em;"><em>Precioso brinde a todos os Srs. +assignantes</em></p> + +<p style="text-align:center; font-size: 1.2em;">Uma magnifica estampa a côres, medindo +0,57x0,44</p> +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Historia Antiga, by Unknown + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIA ANTIGA *** + +***** This file should be named 29529-h.htm or 29529-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/9/5/2/29529/ + +Produced by M. Silva + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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