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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 02:47:32 -0700
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+The Project Gutenberg EBook of O descobrimento da Australia pelos
+portuguezes em 1601, by Richard Henry Major
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: O descobrimento da Australia pelos portuguezes em 1601
+
+Author: Richard Henry Major
+
+Translator: José de Lacerda
+
+Release Date: July 17, 2009 [EBook #29428]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O DESCOBRIMENTO DA AUSTRALIA ***
+
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+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
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+
+
+
+ O DESCOBRIMENTO DA AUSTRALIA
+
+ PELOS PORTUGUEZES
+
+ EM 1601
+
+ CINCO ANNOS ANTES DO PRIMEIRO DESCOBRIMENTO ATÉ ENTÃO MENCIONADO
+
+ COM ARGUMENTOS A FAVOR DO PREVIO DESCOBRIMENTO PELA MESMA NAÇÃO NO
+ PRINCIPIO DO SECULO XVI
+
+ COMMUNICADO Á SOCIEDADE DOS ANTIQUARIOS DE LONDRES
+
+ PELO SR. RICHARD HENRY MAJOR, ESQ. F. S. A.
+
+ E POR ELLE OFFERECIDO
+
+ Á ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA
+
+ TRADUZIDO DE ORDEM DA MESMA ACADEMIA
+
+ PELO SOCIO EFFECTIVO
+
+ D. José de Lacerda
+
+
+ LISBOA
+ TYPOGRAPHIA DA ACADEMIA
+ 1863
+
+
+
+
+ DESCOBRIMENTO DA AUSTRALIA
+
+ PELOS PORTUGUEZES
+
+
+
+
+ O DESCOBRIMENTO DA AUSTRALIA
+
+ PELOS PORTUGUEZES
+
+ EM 1601
+
+ CINCO ANNOS ANTES DO PRIMEIRO DESCOBRIMENTO ATÉ ENTÃO MENCIONADO
+
+ COM ARGUMENTOS A FAVOR DO PREVIO DESCOBRIMENTO PELA MESMA NAÇÃO NO
+ PRINCIPIO DO SECULO XVI
+
+ COMMUNICADO Á SOCIEDADE DOS ANTIQUARIOS DE LONDRES
+
+ PELO SR. RICHARD HENRY MAJOR, ESQ. F. S. A.
+
+ E POR ELLE OFFERECIDO
+
+ Á ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA
+
+ TRADUZIDO DE ORDEM DA MESMA ACADEMIA
+
+ PELO SOCIO EFFECTIVO
+
+ D. José de Lacerda
+
+
+ LISBOA
+ TYPOGRAPHIA DA ACADEMIA
+ 1863
+
+
+
+
+O DESCOBRIMENTO DA AUSTRALIA PELOS PORTUGUEZES EM 1601
+
+COMMUNICADO
+Á SOCIEDADE DOS ANTIQUARIOS DE LONDRES
+
+PELO SR. RICHARD HENRY MAJOR, ESQ. F. S. A.
+
+E POR ELLE OFFERECIDO
+
+Á ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA
+
+TRADUZIDO DE ORDEM DA MESMA ACADEMIA
+
+PELO SOCIO EFFECTIVO
+
+D. JOSÉ DE LACERDA
+
+
+
+
+ Meu presado sir Henry.
+
+Se podesse haver logar a alguma duvida ácerca da importancia de
+colligir, e metter no corpo da nossa litteratura, as reliquias dispersas
+das primeiras relações dos descobrimentos geographicos, a duvida acharia
+condigna resposta na inquieta curiosidade com que os mais esclarecidos
+anglo-saxões, habitantes da America, voltam a attenção para as
+particularidades, ainda de menos monta, que respeitam ás primeiras
+narrações historicas da sua terra adoptiva.
+
+Um vasto campo de colonisação, inferior sómente á America, se está
+desenvolvendo com rapidez no sul; e podemos presumir naturalmente que se
+ha de tornar questão de não pequeno interesse para os que tiverem
+escolhido a Australia como terra natal de seus filhos, o conhecer
+quaes foram os primeiros descobridores de um territorio tão vasto nas
+suas dimensões, tão importante nas suas condições essenciaes, e cujo
+verdadeiro modo de existir se conservou todavia em segredo por milhares
+de annos.
+
+No anno de 1859 tive a honra de publicar para a sociedade Hakluyt uma
+obra intitulada _Primeiras viagens á terra Austral_, comprehendendo uma
+collecção de documentos e de extractos dos primeiros mappas
+manuscriptos, tendentes a esclarecer a historia dos descobrimentos sobre
+as costas daquella vasta ilha, desde o começo do seculo XVI até ao tempo
+do capitão Cook. Na minha introducção áquella obra coube-me fazer vêr
+que, na primeira parte do seculo XVI, havia indicações, nos mappas, de
+ter sido já descoberta a Australia, mas sem documentos escriptos para o
+confirmar; emquanto que, no seculo XVII ha documentos auctorisados para
+demonstrarem que as suas costas foram visitadas pelos hollandezes em
+grande numero de viagens, posto que não se encontrem documentos que as
+descrevessem immediatamente. As primeiras viagens dos hollandezes foram
+feitas em 1606, e ficou para todos manifesto, como ponto historico fóra
+de questão, que, n'aquelle anno, o primeiro descobrimento authentico da
+Australia foi feito pelos hollandezes.
+
+É meu objecto n'este escripto annunciar que, nos dias ultimamente
+findos, o Musêo Britannico me deparou um documento, que, sem hesitação,
+transfere aquella honra da Hollanda para Portugal, por tal modo que dá a
+este ultimo paiz uma vantagem sobre o primeiro de cinco annos de
+indisputavel prioridade. O facto de que a Australia foi na realidade
+descoberta mais de sessenta annos antes, e com toda a probabilidade
+tambem por portuguezes, não diminue a importancia d'este outro
+facto--que desejo agora recordar como pela primeira vez revelado--que a
+primeira viagem conhecida á Australia, a que se póde marcar data, e o
+nome do descobridor, foi feita pelos portuguezes em 1601. Comtudo, se eu
+houvesse de limitar-me á simples enunciação do facto, sem mostrar a
+posição que tem de tomar na historia do indicado e authentico
+descobrimento da Australia, receio que a noticia por mim annunciada
+fosse para vós tão destituida de interesse, como a mim proprio me
+deixaria descontente. A fim, por tanto, de estabelecer com clareza a
+minha questão, julgo que devo apresentar-vos um summario do que mais
+amplamente já escrevi na introducção da minha obra _Primeiras viagens á
+Australia_, declarando, que por amor da brevidade, tenho omittido as
+circumstancias de menos momento, e algumas vezes modificado a minha
+linguagem; porém não me atrevi, por mera ostentação, e quando não ha
+com isso a ganhar, a fazer alteração no que primeiramente havia
+escripto. Um tal procedimento affigurou-se-me pouco delicado e menos digno.
+
+Fallei das suppostas indicações da Australia, porque, assim como em
+relação á America, assim tambem em relação á Australia, podem
+assignalar-se suspeitas da existencia d'aquelles differentes territorios
+nos escriptos dos antigos, nos monumentos geographicos da idade média,
+e, testimunhos ainda mais positivos, com respeito á Australia, nos bem
+delineados mappas manuscriptos da primeira parte do seculo XVI.
+
+Entre os primeiros escriptores, a citação mais notavel que posso
+offerecer com referencia ao continente austral, é a que se encontra no
+Astronomicon de Manilio, liv. 1.º, v. 234-238, onde, em seguida a uma
+extensa dissertação, diz:
+
+ Ex quo colligitur terrarum forma rotunda:
+ Hanc circum variae gentes hominum atque ferarum
+ Aeriaeque colunt volucres. Pars ejus ad arctos
+ Eminet, Austrinis pars est habitabilis oris,
+ Sub pedibusque jacet nostris.
+
+A data em que Manilio escreveu, posto que não possa fixar-se com
+exactidão, suppõe-se, com fundamento nas conclusões deduzidas das provas
+internas que nos suggere o seu poema, que foi no reinado de Tiberio.
+
+No ultimo periodo, a crença da existencia de um grande continente
+austral anterior aos descobrimentos dos portuguezes no oceano Pacifico,
+demonstra-se pelos mappas manuscriptos e outros monumentos geographicos,
+colligidos pelas investigações do meu chorado amigo, o fallecido
+erudito, e laborioso visconde de Santarem no seu _Essai sur l'Histoire
+de la Comosgraphie et de la Cartographie du Moyen Age_. No vol. I, pag.
+229 d'esta obra, informa-nos de que «D'autres cartographies du moyen-âge
+continuèrent à représenter encore dans leurs mappemondes l'Antichthone,
+d'après la croyance qu'au delá de la ceinture de l'océan Homérique il y
+avait une habitation d'hommes, une autre région temperée, qu'on appelait
+la terre opposée, ou il était impossible de pénétrer á cause de la zone
+torride.»
+
+A mais antiga _asserção_ do descobrimento de uma terra que tem posição,
+no primeiro mappa, analoga á da Australia, foi feita a favor dos chins,
+que se suppoem terem tido conhecimento daquellas costas muito antes do
+periodo da navegação européa ao oriente.
+
+Thévenot, nas suas _Relations de divers voyages curieuses_, part. I,
+pref. París, 1663, diz: «La terre Austral, qui fait maintenant une
+cinquième partie du monde, a été découverte á plusieurs fois. Les
+chinois en ont eu connaissance il y a longtemps; car l'on voit que Marco
+Polo marque deux grandes isles au sud-est de Java, ce qu'il avait appris
+apparemment des chinois».
+
+A relação de Marco Polo descreve um territorio na direcção da Australia,
+que contêm oiro, elephantes e especiarias, descripção que se vê
+claramente não poder applicar-se á Australia. Sem duvida houve erro na
+direcção da indicação suggerida, e parece certo que a terra que se
+pretendeu descrever era a Cambodia. Não me detenho a dissertar sobre os
+varios erros crassos a que esta relação deu origem, em presença dos
+primeiros mappas hollandezes, gravados, que appareceram na derradeira
+parte do seculo XVI. Fallei d'elles circumstanciadamente no meu
+_Hakluyt_. São interessantes em relação ao importante territorio a que
+parece terem referencia, e na realidade recrêam pela sua natureza,
+variedade e numero.
+
+O primeiro descobrimento da Australia, reclamado por alguma nação, é o
+de um francez chamado Binot Paulmier de Gonneville, natural de Honfleur,
+que deu á vela d'aquelle porto em junho, 1503, de viagem para os mares
+do sul. Depois de ter dobrado o cabo da Boa Esperança, foi assaltado
+d'uma tempestade que o lançou sobre uma terra desconhecida, na qual foi
+tractado com hospitalidade, e d'onde, depois da demora de seis mezes,
+voltou á França, trazendo coinsigo o filho do rei d'aquella região.
+Infelizmente o diario de Gonneville, na sua tornada, cahiu nas mãos dos
+inglezes e perdeu-se; porém um ecclesiastico, descendente d'um dos
+naturaes d'esta região austral, que fôra casado com uma parenta de
+Gonneville, havia colligido das tradições, e papeis avulsos da familia,
+e egualmente d'uma declaração judicial, feita perante o almirantado
+francez em data de 19 de junho de 1505, materiaes para a obra que foi
+impressa em París por Cramoisy em 1663, intitulada _Mémoire touchant
+l'établissement d'une mission chretienne dans la terra Australe; par un
+ecclesiastique originaire de cette même terre_. O auctor, de feito,
+estava animado do ardente desejo de prégar o Evangelho na terra dos seus
+antepassados, e consumiu a vida em diligenciar obter dos que tinham a
+seu cargo as missões estrangeiras o enviarem-no para alli; e demais
+d'isso, preencher d'alguma sorte, a promessa que fôra feita pelo
+primitivo navegador francez de que visitaria novamente aquella região. O
+trato amigavel com os naturaes, descriptos por Gonneville, que falla
+d'elles como tendo feito alguns progressos na civilisação, é
+absolutamente incompativel com o caracter desleal e barbara crueldade
+que vemos attribuida aos naturaes da Australia-Norte por todos os mais
+recentes viajantes. «Considere-se toda a narração desprevenidamente, diz
+Burney, e a idea que de prompto e muito naturalmente ha de occorrer é
+que a India Austral, descoberta por Gonneville, foi Madagascar. Tendo
+rodeado o Cabo, foi arrojado pelos temporaes para as latitudes
+pacificas, e tão proximo d'esta terra que para alli foi encaminhado pelo
+vôo dos pássaros. Outro ponto que merece ser conhecido, a recusa da
+tripulação de proseguir até á India Oriental, difficilmente póde crer-se
+que tivesse logar, a estarem tanto ávante para o nascente como a Nova
+Hollanda.»
+
+Reclamação mais razoavel do que a precedente, ao descobrimento da
+Australia nos principios do seculo XVI, pode ser produzida pelos
+portuguezes, fundando-se no testimunho de varios mappas manuscriptos
+ainda existentes, pois que a tentativa, feita recentemente, de
+accrescentar a honra d'este descobrimento a Magalhães, na famosa viagem
+do Victoria ao redor do mundo em 1520, é, como procurei mostrar, de todo
+o ponto insustentavel. A reclamação d'esta honra para a Hespanha, é
+defendida nos seguintes termos no _Compendio Geographico Estadistico de
+Portugal y sus posesiones ultramarinas_ por Aldama Ayala, 8.º Madrid,
+1855, p. 482: «Os hollandezes reclamam o descobrimento do continente da
+Australia no seculo XVII, com quanto haja sido descoberta por Fernando
+de Magalhães, portuguez, de ordem do imperador Carlos V, no anno de
+1520, como se prova com documentos authenticos, taes como o Atlas de
+Fernando Vaz Dourado, feito em Goa em 1570, n'um dos mappas do qual está
+traçada a costa da Australia. O dito magnifico Atlas, illuminado com
+perfeição, conservava-se antigamente na livraria da Cartucha em Evora.»
+
+Similhante reclamação foi tambem feita por um seu distincto conterraneo,
+embora a viagem fosse emprehendida em serviço da Hespanha, em um
+almanack publicado em Angra, na ilha Terceira, pela imprensa do governo
+em 1832, e composto, segundo se suppõe, pelo visconde de Sá da Bandeira,
+actual ministro da Marinha em Lisboa.
+
+Na investigação d'este assumpto tive por fortuna o auxilio do dr.
+Martin, de Lisboa, editor do _Mariner's Tonga Islands_, cujo exame do
+mappa de Dourado me dá o convencimento de que o tracto descripto no
+mappa como descoberto por Magalhães, é de feito um memorandum ou
+nota-marginal carthographica do real descobrimento da Terra do Fogo por
+Magalhães, e que, em consequencia da sua inexacta collocação no
+pergaminho, foi ao depois applicada erradamente por Mercator áquella
+parte do mundo agora conhecida como Australia, e d'ahi a reclamação de
+que se tracta.
+
+Agora porém passo a uma indicação mais plausivel do descobrimento da
+Australia pelos portuguezes na primeira parte do seculo XVI, que decorre
+entre os annos de 1512 e 1542. Esta indicação acha-se por fórma
+similhante em diversos mappas manuscriptos, todos francezes, onde,
+immediatamente abaixo de Java, e separado d'aquella ilha sómente por um
+apertado braço do mar, está traçado, na margem dos differentes mappas,
+um largo territorio que se vai estreitando para o sul. Este territorio é
+chamado a grande Java. No maior numero d'estes mappas, o largo
+territorio continúa sempre ao longo da porção sul do globo, formando a
+grande terra Austral, em que desde tempos immemoriaes tão largamente se
+tem acreditado, e juntando-se novamente com o mundo conhecido na _Tierra
+del Fuego_. Mas n'um d'estes mappas occorre uma excepção, muito para
+notar, a esta regra; o traçado da costa dos dois lados, oriental e
+occidental, da grande Java, termina em pontos que offerecem fundado
+argumento de que representam os actuaes descobrimentos. Por exemplo, o
+ponto mais austral em que termina o traçado da costa occidental é o grau
+35, latitude real do ponto sudoeste. O traçado da costa oriental não é
+tão correcto, mas estende-se muito por baixo do ponto mais ao sul da
+terra de Van Diemen; comtudo pela sua distante posição teria de ser a
+parte de menos provavel investigação, e, posto que incorrectamente
+delineado, concorda com o facto geral de que a inclinação sul do traçado
+oriental da costa é muito maior que o da linha occidental. Com respeito
+á longitude da grande Java, póde affirmar-se que, apesar de todas as
+discrepancias que se notam nos mappas, não ha outro territorio que
+demore dentro das mesmas parallelas e na mesma extensão, entre a costa
+oriental da Africa e a costa occidental da America; e que a Australia
+realmente jaz entre os mesmos meridianos que a grande massa de
+territorio ali traçada. Relativamente ao contorno da costa, basta um
+mero relancear dos olhos para descobrir a geral similhança no lado
+occidental, embora no oriental as discrepancias, como era de esperar,
+sejam mais consideraveis.
+
+Na totalidade das inscripções particulares d'estes mappas occorrem
+alguns nomes de bahias e costas, que Alexandre Dalrymple, hydrographo do
+almirantado e companhia das Indias Orientaes, primeiro de todos advirtiu
+assimilharem-se a nomes dados pelo capitão Cook ás partes da Nova
+Hollanda, por elle mesmo descobertas. Na memoria concernente a Chagos
+e ilhas adjacentes, 1786, p. 4, fallando d'este mappa, diz: «A costa
+oriental da Nova Hollanda, como nós lhe chamamos, está designada com
+algumas circumstancias curiosas por condizer com o manuscripto do
+capitão Cook. O que o mappa chama bahia das Angras (Bay of Inlets)
+chama-se no manuscripto bahia Perdida; bahia das Ilhas (R. de beaucoup
+d'Isles); o logar onde tocou o Audaz (Endeavour) coste Dangereuse. De
+sorte que podemos dizer como Salomão, nada ha novo debaixo do sol.»
+
+Esta mal cabida insinuação houve, com prazer me recordo, judiciosa
+refutação da penna d'um francez, M. Frederico Metz, em um artigo
+impresso a p. 261, vol. XLVII da _Revue ou Décade Philosophique,
+Litteraire et Politique_, Nov. 1805, que mui maliciosamente observa. «Se
+Cook teve conhecimento dos mappas em questão, e pretendeu appropriar-se
+dos descobrimentos de outrem, é preciso suppol-o muito pouco atilado por
+ter conservado a estes descobrimentos os mesmos nomes, que haviam de
+denunciar o seu plagiato, a todo tempo que se tornassem conhecidas as
+fontes que tinha consultado. A «costa Perigosa» foi assim chamada,
+porque, por espaço de quatro horas elle proprio se achou ali em perigo
+imminente de naufragar. Devemos portanto suppôr que se expôz a si e á
+sua tripulação a morte quasi certa, a fim de ter plausivel desculpa de
+applicar um nome similhante ao que a mesma costa havia já recebido do
+navegador, desconhecido e anonymo, que precedentemente a descobrira.
+Entretanto nomes taes como «bahia das Ilhas» «costa Perigosa» são muito
+conhecidos na geographia. Achamos uma «bahia das Ilhas» na Nova
+Hollanda; e na costa oriental da ilha de Borneo ha uma «costa das
+Hervagens.»
+
+O bom senso d'este raciocinio, sem fallar da questão de honra com
+relação a um homem do elevado caracter do capitão Cook, devia parecer
+decisivo; com tudo esta similhança de nomes, segundo eu proprio estou
+informado, tem sido notada por pessoas de alta posição que tem muito
+conhecimento d'esta região, posto que sem nenhuma intenção de affrontar
+o capitão Cook, como prova da identidade d'aquelle territorio com a
+Australia. A similhança de «côte des Herbages» com o nome de «Botany
+Bay» dado a uma parte correspondente da costa pelo capitão Cook, tem
+merecido particular attenção, com quanto se saiba que esta bahia,
+chamada originariamente _Stingray_, e depois _Botany Bay_, não foi assim
+chamada por causa da fertilidade do solo, mas sim por causa da variedade
+das plantas, novas para a sciencia botanica, as quaes foram descobertas
+em um solo que aliás nada promettia. É claro que os primeiros
+navegadores deviam assignar uma denominação tal como a «côte des
+Herbages,» a uma praia digna de reparo pela rica producção da relva ou
+de outra qualquer vegetação, antes do que pela apreciação d'algum
+descobrimento botanico[1]. Se a similhança dos nomes «rivière de
+beaucoup d'Isles» e «côte Dangereuse» com os nomes de Cook «bahia das
+Ilhas» e o logar «onde o Audaz tocou» descriptivos de indisputaveis
+realidades, fossem apresentados por Dalrymple como prova de grande
+probabilidade de que o territorio representado no primeiro mappa era a
+Nova Hollanda, sem pretender arriscar nenhuma insinuação contra o
+merecimento do seu rival, nós receberiamos esta plausivel observação com
+deferencia e justo assentimento.
+
+Que a Nova Hollanda era o territorio assim representado, é asserção
+sustentada com varios argumentos por mais de um dos nossos visinhos
+francezes. M. Coquebert Montbret, em uma memoria impressa no num. 81 do
+_Bulletin des Sciences_ de 1804, cita a injuriosa observação de
+Dalrymple, e tacitamente concorda em ter ella produzido o seu effeito
+deceptivo no espirito de leitores incautos.
+
+Um atlas, que se acha ao presente na mão de sir Thomas Phillipps, e
+contém indicações similhantes ás que deixo descriptas, veiu á mão do
+principe de Talleyrand no principio d'este seculo; e attrahindo a
+attenção do celebrado geographo M. Barbié du Bocage, d'elle tirou uma
+larga noticia, que foi lida n'uma sessão publica do Instituto em 3 de
+julho de 1807. N'esta diz que «devemos chegar á conclusão de que estes
+atlas foram copiados dos mappas portuguezes, e por conseguinte que o
+descobrimento da Nova Hollanda pertence aos portuguezes. É esta a
+opinião» continua elle «de M. M. Dalrymple, Pinkerton, De la Rochelt, e
+de varios outros; e não creio que possa allegar-se nenhuma boa razão
+para refutar uma opinião tão bem fundada.» Entretanto M. Barbié du
+Bocage soltou esta expressão do seu convencimento tentando fixar o
+periodo do descobrimento, em cuja tentativa cahiu em erros que me propuz
+refutar, porém a que seria fastidioso aqui alludir.
+
+A prova que subministram estes mappas, de terem tido por base os
+descobrimentos portugueses, é a seguinte. Todos elles são francezes; e
+que todos são repetições, com ligeiras variações, de uma unica origem,
+mostra-se pelo facto de que os defeitos sao os mesmos em todos. As
+indicações portuguezas occorrem em alguns nomes, taes como «terre
+ennegade» forma afrancezada de «tierra anegada» isto é «terra coberta
+d'agua» ou «baixios»; «Graçal» «cabo da Formosa.» Levanta-se por tanto a
+questão, julgando por taes provas, se foram os francezes ou portuguezes
+os descobridores? Em resposta offereço a seguinte exposição.
+
+No anno de 1529 João Parmentier de Dieppe fez uma viagem a Sumatra, e
+durante a viagem morreu. Parmentier era poeta, douto classico, e
+igualmente navegador e bom hydrographo. Acompanhou-o n'esta viagem seu
+intimo amigo o poeta Pedro Crignon, que, regressando a França, publicou
+em 1531 os poemas de Parmentier, com um prologo que contém o seu elogio,
+no qual diz que Parmentier foi «le premier françois qui a entrepris à
+estre pilolte pour mener navires à la terre Amérique qu'on dit Brésil,
+et semblablement le premier françois qui a descouvert les Indes jusqu'à
+l'Isle de Taprobane, et, si mort ne l'eust pas prévenu, je crois qu'il
+eust ésté jusques aux Moluques». É de pêso esta auctoridade n'este
+ponto, porque vem de um homem de distincção, o segundo do navio, e
+intimo do mesmo Parmentier. Assim pois os francezes não passaram, nos
+mares do sul, além de Sumatra antes de 1529. A data do mais antigo dos
+mappas citados não é anterior a 1535, pois que contém o descobrimento de
+S. Lourenço por Jacques Cartier n'aquelle anno; porém ainda quando não o
+supponhamos mais antigo que o de Rotz, que tem a data de 1542, se
+perguntamos de quaes viagens dos francezes nos mares do sul temos
+conhecimento entre os annos de 1529 e 1542, nem o abbade Raynal, nem
+nenhum moderno escriptor francez, nem tão pouco os antiquarios que
+investigaram com maior indagação a historia dos descobrimentos
+francezes, como, por exemplo M. Léon Guérin, auctor da _Histoire
+Maritime de France_, París, 1843, 8.º; e _Les Navigateurs Français_,
+París, 1847, 8.º, nenhum apresenta a mais leve pretenção de que os
+francezes navegassem para aquellas paragens na primeira parte ou no
+meiado do XVI seculo.
+
+É certo, comtudo, que a França estava n'aquelle tempo muito pobre, e
+muito implicada em cuidados politicos para entremetter-se em longinquas
+investigações nauticas. Se assim o tivesse feito, toda a America do
+norte e o Brasil poderiam agora pertencer-lhe. Todavia sabemos ao mesmo
+tempo, que os portuguezes tinham anteriormente a 1529 estabelecimentos
+nas ilhas das Indias orientaes; e a existencia de nomes portuguezes nos
+territorios de que fallamos, como se acham delineados n'estes mappas
+francezes, é de si mesma o reconhecimento de terem sido descobertas
+pelos portuguezes; como sem duvida a opinião dos francezes, com respeito
+á cobiça e exclusivismo dos portuguezes, não só devia ter tornado os
+primeiros mais diligentes em reclamarem tudo que lhes fosse possivel em
+materia de descobrimentos, mas tambem devia ter estorvado a gratuita
+introducção de nomes portuguezes em regiões tão remotas, se elles
+proprios as houvessem descoberto. No tomo 3.º da Collecção de Ramusio,
+na noticia do «Discorso d'un gran capitano di mare francese del luogo di
+Dieppa, etc.,» que sabemos agora ser a viagem de João Parmentier a
+Sumatra em 1529, e com toda a probabilidade escripto pelo seu
+companheiro e elogiador o poeta Pedro Crignon, encontra-se esta
+expressão: «Io penso che li Portoghesi debbano haver bevuto della
+polvere del cuore del re Alessandro..... e credo che si persuadino che
+Iddio non fece il mare nè la terra, se non per loro, e che l'altre
+nationi non siano degne di navigare, e se fosse nel poter loro di
+mettere termini e serrar il mare del Capo di Finisterre fin in Hirlanda,
+gia molto tempo saria che essi ne haveriano serrato il passo.» Mas,
+demais d'isto, pois que tira d'ahi muita força este argumento, não
+devemos deixar de ter em conta o ciume dos portuguezes, que vedavam a
+communicação das informações hydrographicas relativamente aos seus
+descobrimentos n'aquelles mares. Humboldt affirmou, _Histoire de la
+Geographie du Nouveau Continent_, tom. 4.º, p. 70, sobre a auctoridade
+de cartas de Angelo Trevigiano, secretario de Domenico Pisani,
+embaixador de Veneza na Hespanha, que os reis de Portugal defenderam,
+sob pena de morte, a exportação de cartas maritimas que revelassem a
+derrota a Calecut. Achamos igualmente em Ramusio, _Discorso sopra el
+libro di Odoardo Barbosa_, e _Sommario delle Indie Orientali_, tom. 1.º,
+p. 287 b, imposta similhante prohibição. Diz elle que estes livros
+«estiveram occultos por muito tempo, e não se consentiu que fossem
+publicados por convenientes razões, que não devo aqui manifestar.»
+Tambem falla da grande difficuldade que elle mesmo tivera de obter uma
+copia, posto que imperfeita, em Lisboa, «Tanto possono» observa elle
+«gli interessi del principe.»
+
+Póde formar-se alguma idéa do conhecimento que possuiam os hespanhoes no
+meiado do seculo XVI ácerca da parte do mundo de que tractamos, pelo
+seguinte extracto d'uma obra intitulada _El Libro de los Costumbres de
+todas las Gentes del Mundo y de las Indias_, traduzida e compilada pelo
+bacharel Francisco Thamara, Antuerpia, 1556: «A treynta leguas de Java
+la menor, está el Gatigara a nueve y diez grados de la Equinocial de la
+otra parte azia el sur. Desde aqui adelante no ay noticia de mas
+tierras, porque no se ha navegado por esta parte mas adelante, y por
+tierra no se puede andar por los muchos lagos y grandes y altas
+montarias que por aqui ay. Y aun dizese que por aqui es el parayso
+terrenal.» Ainda que isto não foi escripto originariamente em hespanhol,
+porém traduzido de Johannes Bohemus, não é facil de crêr que fosse
+apresentado aos hespanhoes, se entre elles houvessem mais exactas
+informações a este respeito.
+
+Os factos assim reunidos levam-me á conclusão de que a terra descripta
+como «la Grande Java» nos mappas francezes a que tenho feito referencia,
+não póde ser senão a Australia; e que foi descoberta antes de 1542,
+quasi que póde acceitar-se como certeza demonstrada; porém, quanto tempo
+antes, não é claro. Creio tambem que tenho conseguido fazer sentir a
+grande probabilidade de terem sido os portuguezes os seus descobridores.
+
+Em um mappa destinado a servir de esclarecimento ás viagens de Drake e
+Cavendish por Jodocus Hondius, é apresentada a Nova Guiné como uma ilha
+perfeita, sem uma só palavra que faça nascer duvida ácerca da exactidão
+do desenho; emquanto que a terra Austral, separada da Nova Guiné apenas
+por um estreito, tem um perfil notavelmente parecido ao do golpho de
+Carpentaria. Estas indicações dão a este mappa um interesse especial,
+principalmente porque se mostra que é anterior á passagem de Torres pelo
+estreito de Torres, em 1606, pois que tem as armas da rainha Elizabeth,
+antes que o unicornio da Escocia expulsasse o dragão dos Tudors.
+
+No artigo _Terra Australis_, na obra de Cornelio Wytfliet,
+_Descriptionis Ptolemaicae Augmentum_, Louvain, 1598, encontramos o
+seguinte passo: «Australis terra omnium aliarum terrarum australissima
+tenuique discreta freto Novam Guineam orienti objicit, paucis tantum
+hactenus littoribus cognitam, quod post unam atque alteram navigationem,
+cursus ille intermissus sit, et nisi coactis impulsisque nautis ventorum
+turbine rarius eo adnavigetur. Australis terra initium sumit duobus aut
+tribus gradibus sub aequatore, tantaeque a quibusdam magnitudinis esse
+perhibetur, ut si quando integrè delecta erit, quintam illam mundi
+partem fore arbitrentur.» A declaração que fica citada foi impressa,
+convém recordal-o, antes d'algum descobrimento da Australia de que
+tenhamos noticia authentica.
+
+Porém quando se examinam estas indicações do descobrimento da Australia
+no XVI seculo, é natural perguntar quaes explorações haviam sido feitas
+pelos hespanhoes n'aquella parte do mundo, no decurso do dito seculo?
+Depois do periodo da viagem de D. Alvaro de Saavedra ás Molucas em 1527,
+cessamos de encontrar a actividade do espirito de investigação por parte
+dos hespanhoes nos mares do sul. Embaraçados pela sua situação politica,
+e pelos apuros do thesouro, o imperador, em 1529, renunciou
+definitivamente as suas pretenções ás Molucas a troco de uma somma de
+dinheiro, posto que manteve a sua reclamação ás ilhas descobertas pelos
+seus vassallos, ao nascente da linha de demarcação limitada agora aos
+portuguezes. Em 1542 foi mal succedida a tentativa de formar um
+estabelecimento nas ilhas Philippinas que fez Ruy Lopez de Villalobos;
+porém tendo-se attribuido o mau resultado á falta de direcção, foi
+enviada com igual intento nova expedição em 1564 sob o mando de Miguel
+Lopez de Legaspi, que obteve completo exito, e uma colonia hespanhola
+foi estabelecida em Zebu. Não é impossivel que este estabelecimento
+désse occasião ás viagens de descobrimento feitas n'este tempo pelos
+hespanhoes, das quaes nenhuma noticia foi publicada. Em 1567 Alvaro de
+Mendanha deu á véla de Calláo para uma viagem de descobrimentos, na qual
+descobriu as ilhas de Salomão e varias outras. Ha grande divergencia nas
+differentes relações d'esta viagem. Em 1595 fez segunda viagem ao Perú,
+na qual descobriu as ilhas Marquezas, e o grupo depois chamado por
+Carteret ilhas da rainha Carlota. O objecto d'esta expedição era fundar
+uma colonia nas ilhas de Salomão, que elle descobrira na precedente
+viagem, mas que pela inexactidão dos seus calculos não foi capaz de
+encontrar. Tentou estabelecer uma colonia na ilha de Santa Cruz, mas não
+o conseguiu, e falleceu n'esta ilha. N'esta segunda viagem teve por
+principal piloto Pedro Fernandez de Quiros, que póde ser considerado
+como o ultimo dos distinctos marinheiros de Hespanha, e cujo nome
+reclama especial menção em uma obra que tracta das primeiras indicações
+da Australia, posto que elle mesmo nunca visse as praias d'aquella
+grande ilha continental[2].
+
+O descobrimento da ilha de Santa Cruz suggeriu ao espirito de Quiros que
+o grande continente sul estava emfim descoberto, e encontramos em duas
+memorias por elle dirigidas a D. L. de Velasco, vice-rei do Perú, o
+primeiro debate circumstanciado ácerca d'esta grande questão
+geographica, a qual, posto que elle proprio não estava destinado a
+demonstrar por via d'algum descobrimento actual, não obstante póde
+dizer-se que, directamente mediante elle mesmo, foi posta no caso de ser
+resolvida. É certo que, nutrindo estas vagas hesitações com respeito á
+existencia de um continente sul, se torna difficil fazer distincção
+entre a Australia propriamente dita e o grande continente descoberto
+no presente seculo, vinte ou trinta graus ao sul d'aquella vasta ilha.
+Dalrymple, que, ha perto de dois seculos, advogava com energia a causa
+sustentada por Quiros, fallando d'este navegador, diz: «O descobrimento
+do continente sul em qualquer tempo, e por quem quer que tenha de ser
+effeituado completamente, de justiça é devido a este nome immortal.»
+Deveria advertir-se, que, de feito ha tres motivos de duvida
+relativamente ao nome d'aquelle navegador, o que convém notar, porque
+podem transviar o juizo do leitor superficial da historia da navegação
+d'aquelle periodo, quanto á sua connexão com o descobrimento da
+Australia. Em primeiro logar, com quanto geralmente seja reputado
+hespanhol, é descripto por Nicolau Antonio, auctor da _Bibliotheca
+Hispana_, que era hespanhol, e não deixaria de querer, como deve
+suppôr-se, reclamar um tão distincto navegador para seu concidadão, como
+«lusitanus, eborensis, ut aiunt lusitani» (portuguez, que os portuguezes
+affirmam ser natural d'Evora), e o estylo dos seus escriptos justifica a
+supposição. Em segundo logar, Antonio de Ulloa, no seu _Resumen_, p.
+119, cita uma relação da viagem de Quiros, que se diz dada na _Historia
+de la Religion Serafica_, de Diogo de Cordova (obra que eu não tenho
+tido a boa fortuna de encontrar), onde se menciona o descobrimento de
+uma larga ilha no vigesimo oitavo grau de latitude sul, a qual latitude
+fica mais ao sul do que de qualquer modo se sabe terem chegado Quiros ou
+os seus companheiros. Em terceiro logar, as memorias impressas de Quiros
+têem o titulo de _Terra Australis Incognita_, em quanto que a terra
+Austral sul, descoberta pelo mesmo Quiros, e por elle denominada «del
+Espiritu Santo» não é senão a «New Hebrides» dos mappas de hoje.
+
+A Quiros e Dalrymple somos de feito devedores indirectamente da primeira
+designação que dá algum sentido á nomenclatura moderna que se refere á
+Australia, a saber, em relação ao estreito de Torres. Que Quiros,
+portuguez, ou hespanhol por nascimento, estava ao serviço de Hespanha,
+não padece duvida nenhuma. O vice-rei do Perú favoreceu com ardor os
+seus planos, porém considerou a execução d'elles como fóra dos limites
+da sua propria alçada. Em consequencia, instou com Quiros para que
+puzesse a questão na presença do monarcha hespanhol em Madrid, e lhe deu
+cartas para recommendar a sua pretenção. Se Philippe III foi movido
+pelos argumentos de Quiros relativamente ao descobrimento do continente
+do sul, ou antes pelo desejo de explorar a estrada entre a Hespanha e
+America pelo nascente, com a esperança de descobrir as opulentas ilhas
+que demoram entre a Nova Guiné e a China, não precisamos deter-nos a
+disputal-o. É possivel que pesassem ambos estes motivos, porque
+Quiros foi enviado ao Perú com plenos poderes, dirigidos ao vice-rei,
+conde de Monterey, para pôr por obra o seu plano, e foi assistido
+amplamente com dois navios bem armados e uma corveta, com cujas forças
+deu á vela de Calláo a 21 de dezembro de 1605. Luiz Vaez de Torres
+commandou o _Almirante_, ou segundo navio, d'esta expedição. A viagem
+foi considerada como da maior importancia, e Torquemada, na relação que
+faz d'ella na _Monarchia Indica_, diz que os navios eram os mais
+alterosos e bem armados que se tinham visto n'aquelles mares. O objecto
+era fazer um estabelecimento na ilha de Santa Cruz, e partir d'ali para
+procurar a Tierra Austral, ou continente sul.
+
+Depois do descobrimento de varias ilhas, Quiros chegou a uma terra que
+nomeou Australia del Espiritu Santo, julgando fazer parte do grande
+continente sul. Á meia noite do dia 11 de junho de 1606, em quanto os
+tres navios jaziam ancorados na bahia a que deram o nome de São Philippe
+e São Thiago, Quiros, por motivos ignorados, e sem dar signal nem aviso,
+ou foi arrojado por uma tempestade, ou largou do porto, e achou-se
+apartado dos outros dois navios.
+
+Subsequentemente á separação, Torres achou que a Australia del Espiritu
+Santo era uma ilha, e então continuou a derrota para o poente,
+proseguindo as suas investigações. Pelo mez de agosto de 1606 cahiu
+sobre uma costa no undecimo e meio grau de latitude sul, que chamou
+principio da Nova Guiné--apparentemente a parte sudoeste da ilha, ao
+depois chamada Luisiada por M. de Bougainville, e que se sabe hoje ser
+uma cadéa de ilhas. Como não pôde passar para a parte do vento d'esta
+terra, Torres margeou na extensão do lado sul, e elle mesmo deu a
+seguinte relação do rumo que seguiu. «Navegámos trezentas leguas de
+costa, como já disse, e encurtámos a latitude 2 1/2 graus, o que nos
+trouxe a 9 graus. Dahi achámo-nos sobre um banco de tres a nove braças,
+que se estende ao longo da costa por espaço de cento e oitenta leguas.
+Proseguimos, acompanhando a costa, até 7 1/2 graus de latitude sul; e
+o seu termo é em 5 graus. Não podémos ir mais além por causa das muitas
+restingas e fortes correntes, de sorte que fomos obrigados a navegar ao
+sudoeste, n'aquelle fundo d'agua, até 11 graus de latitude sul. Todo
+aquelle espaço é um archipelago de ilhas sem numero pelas quaes
+passámos; e no fim do undecimo grau o banco torna-se mais areento. Ha
+aqui mui grandes ilhas, e outras apparecem mais ao sul. São habitadas
+por negros, corpulentos e nús. As suas armas são lanças, settas, e
+massas armadas com pedras mal affeiçoadas. Não podémos obter nenhuma das
+suas armas. Colhemos em toda esta terra obra de vinte pessoas de
+differentes nações, a fim de podermos, por via dellas, dar melhor
+informação das coisas a Vossa Magestade. Dão larga noticia de outro
+povo, posto que não se fazem entender com facilidade. Detivemo-nos sobre
+este banco dois mezes, ao cabo do qual tempo nos achámos em vinte e
+cinco braças, 5 graus de latitude sul, e dez leguas de distancia da
+costa; e, tendo caminhado quatrocentas e oitenta leguas, a costa corta
+ao nordeste. Não a examinei, porque o banco torna-se muito baixo. Assim,
+pois, navegámos para o norte.»
+
+As grandes ilhas vistas por Torres no undecimo grau de latitude sul, são
+evidentemente os serros do cabo York; e os dois mezes de difficil
+navegação foram consumidos em passar o estreito que separa a Australia
+da Nova Guiné. Uma cópia da carta de Torres foi guardada felizmente nos
+archivos de Manilha, e até que foi tomada aquella cidade em 1762 pelos
+inglezes, não se sabe que este documento fosse descoberto por Dalrymple,
+que pagou merecido tributo á memoria do distincto navegador hespanhol,
+dando a este perigoso passo o nome de _estreito de Torres_, que desde
+então ha conservado.
+
+Quiros chegou ao Mexico a 3 de outubro de 1606, nove mezes depois da sua
+partida de Calláo. Tomado profundamente do sentimento da importancia dos
+seus descobrimentos, dirigiu varias memorias a Philippe III,
+manifestando vehemente desejo de investigações ulteriores n'aquellas
+regiões desconhecidas; porém, depois d'alguns annos de frustrada
+perseverança falleceu em Panamá no anno de 1614, deixando após de si um
+nome que, no merito, com quanto não no resultado, foi o segundo sómente
+depois de Colombo; e com elle expirou o heroismo naval da Hespanha.
+«Raciocinando» como diz Dalrymple «segundo os principios da sciencia, e
+com profunda reflexão, affirmou a existencia do continente sul, e
+votou-se durante o resto da vida, com diligencia infatigavel, posto que
+mal apreciada, a fazer vingar esta concepção sublime.» Em um documento
+dirigido ao rei d'Hespanha por frei João Luiz Arias, dá-se noticia do
+teor energico com que se houve Quiros para resuscitar as empresas
+hespanholas nos mares do sul, e com especialidade em relação ao grande
+continente sul.
+
+Comtudo, em quanto a gloria das empresas navaes hespanholas assim
+declinava, essa mesma nação que a Hespanha tinha esmagado e perseguido,
+preparava-se para supplantal-a na carreira da audacia e da prosperidade.
+A guerra da independencia tinha excitado a energia das provincias dos
+Paizes-Baixos, que se haviam libertado do jugo hespanhol; ao passo que
+as crueldades, perpetradas nas provincias que os hespanhoes tinham
+conseguido novamente subjugar, levavam ao exilio um numero de familias
+quasi incrivel. A maior parte d'estas estabeleceu-se nas provincias do
+norte, e por conseguinte, levou para ali o influxo de prodigiosa
+actividade. Entre os emigrados havia numerosos commerciantes
+emprehendedores, principalmente de Antuerpia, cidade que por largos
+annos teve quinhão muito consideravel, posto que indirecto, no commercio
+transatlantico de Hespanha e Portugal, e que de sobejo conhecia as suas
+immensas vantagens. Estes homens estavam naturalmente animados com o
+odio mais rancoroso dos desterrados, exacerbado pela differença da fé, e
+pela memoria de muitas injurias. A idéa que tomou vulto entre elles foi
+privar a Hespanha do commercio transatlantico, e por este meio
+acanhar-lhe os recursos, accrescentar os dos protestantes, e d'esta arte
+resgatar eventualmente as provincias do sul dos Paizes-Baixos do poder
+dos seus oppressores. Esta idéa, ao principio praticada vagamente entre
+poucos, tornou-se geral quando os hespanhoes prohibiram aos navios
+hollandezes o empregarem-se em qualquer sorte de trafico com a Hespanha.
+Esse trafico existira apesar das guerras, e havia subministrado aos
+hollandezes os principaes meios de as sustentarem.
+
+Vendo-se expulsos com tal violencia do quinhão que lhes cabia no
+commercio transatlantico, os hollandezes determinaram rehavel-o com
+juros. A geographia e hydrographia tornaram-se então objecto do estudo e
+applicação mais desvelada; e este periodo distinguiu-se pela apparição
+de homens como Ortelius, Mercator, Plancius, De Bry, Hulsius, Cluverius,
+etc., que somos agora obrigados a considerar como paes da moderna
+geographia. D'estes, o mais ardente em transformar os recursos da
+sciencia em arma contra os oppressores da sua patria, foi Peter
+Plancius, ecclesiastico calvinista, que abriu em Amsterdam uma escola
+nautica e geographica, com o expresso designio de ensinar os seus
+concidadãos a acharem o caminho da India, e outros mananciaes d'onde a
+Hespanha derivára a sua força. Não nos detemos em apreciar os seus
+esforços de achar pelo norte vereda para o oriente. O conhecimento do
+caminho que levava directamente áquella opulenta porção do mundo,
+accrescentou-se notavelmente com o apparecimento da grande obra de João
+Huyghen van Linschoten (Amst. 1595-1596). Linschoten havia vivido
+quatorze annos com os portuguezes nas suas possessões do oriente, e
+colligira ali abundante cabedal d'informações. A companhia hollandeza da
+India oriental foi estabelecida em 1602; e em 1606, encontramos um navio
+da Hollanda fazendo o primeiro descobrimento authentico do grande
+territorio sul, a que deram o nome de Nova Hollanda. No nosso tempo,
+aquella designação foi trocada por indicação de Matthew Flinders, a quem
+somos devedores dos conhecimentos da hydrographia d'aquelle paiz, pelo
+distincto e apropriado nome de Australia.
+
+Dos descobrimentos feitos pelos hollandezes nas costas da Australia,
+pouca noticia tiveram os nossos antecessores ainda ha cem annos, e os
+proprios hollandezes. O que então era conhecido, conserva-se na obra
+_Relations de divers Voyages Curieux_ de Melchisedech Thevenot (Paris
+1663-72, fol.); em o _Noord en Oost Tartarye_ de Nicoláo Witsen, (Amst.
+1692-1705, fol.); na de Valentyn _Oud en Nieuw Oost Indien_ (Amst.
+1724-26, fol.); e na _Inleidning tot de algemeen Geographie_ de Nicolau
+Struyk, (Amst. 1740, 4.º). Temos obtido, todavia, depois d'isso varios
+esclarecimentos, por via de um documento que chegou ás mãos de sir
+Joseph Banks, e foi publicado por Alexandre Dalrymple (áquelle tempo
+hydrographo do almirantado na companhia da India oriental), na sua
+collecção concernente a Papua. Este curioso e interessante documento é
+cópia das instrucções dadas ao commodoro Abel Jansz Tasman para a sua
+segunda viagem de descobrimentos. Aquelle distincto commandante já tinha
+descoberto, em 1642, não só a ilha agora do seu nome chamada Tasmania,
+mas tambem a Nova Zelandia, e, rodeando o lado oriental da Australia,
+mas sem o vêr, navegou na viagem de volta ao longo da praia-norte da
+Nova Guiné. Em janeiro, 1644, foi enviado a fazer segunda viagem; e
+acompanhou as instrucções assignadas pelo governador geral, Antonio Van
+Diemen e pelos membros do conselho, de um preambulo, no qual, segundo a
+ordem chronologica, se referem os precedentes descobrimentos dos
+hollandezes.
+
+Por esta narração, combinada com um passo de Saris, inserto em
+_Purchas_, vol. I, p. 385, sabemos que: «Em 18 de novembro, 1655, o
+hiate hollandez, Duyfhen (o Pombo), foi enviado de Bantam para examinar
+as ilhas da Nova Guiné, e navegou ao longo do que se pensava ser a parte
+occidental d'aquelle territorio, até 19 3/4 graus de latitude sul».
+Este extenso territorio achou-se pela maior parte deserto; mas em alguns
+logares era habitado por negros selvagens, bravios e crueis, que mataram
+alguns homens da tripulação, por cujo motivo não se póde saber coisa
+alguma ácerca da terra e das aguas, como se pretendia; e por falta de
+provisões, e de outros objectos necessarios, foram obrigados a deixar o
+descobrimento incompleto. A extremidade mais saliente da terra tem nos
+seus mappas o nome de cabo Keer Weer, ou «Torna-viagem» segundo observa
+Flinders. «A navegação de Fuyfhen da Nova Guiné foi para o sul, ao
+longo das ilhas do lado occidental do estreito de Torres, para a parte
+da terra Austral um tanto ao poente e sul do cabo York. Porém pensava-se
+que todas estas terras eram continuadas, e que formavam a costa
+occidental da Nova Guiné.» Assim que, sem ter d'isso advertencia, o
+commandante da Duyfhen fez o primeiro descobrimento authentico de uma
+parte da grande Terra-Sul pelo mez de março de 1606; porque se mostra
+que tinha regressado a Banda no começo, ou antes de junho d'aquelle anno.
+
+A honra d'aquelle primeiro descobrimento authentico, como até aqui a
+historia o tem acceitado, estou agora no caso de a disputar. Ainda ha
+poucos dias descobri no Musêo Britannico um Mappamundi Ms. em o qual, na
+extremidade noroeste de um territorio, que ao presente poderei
+demonstrar sem nenhuma duvida ser a Australia, occorre a seguinte
+legenda: «Nuca antara foi descuberta o anno 1601 por mano (sic) el
+godinho de Evedia (sic) por mandado de (sic) Viço Rey Aives (sic) de
+Saldaha» (sic) o que quasi não precisava de ser traduzido. «Nuca Antara
+foi descoberta no anno de 1601, por Manuel Godinho de Eredia, por
+mandado do vice-rei Ayres de Saldanha».
+
+A desgraça é ser este mappa sómente uma cópia, porém creio que seria
+capaz de responder, fundado nas provas internas, que nenhuma duvida póde
+padecer a authenticidade da informação que n'elle se contém. O original
+foi feito pelo anno de 1620, depois do descobrimento da terra de
+Eendraght (Eendraght's Land), na costa occidental da Australia, pelos
+hollandezes em 1616, porém antes do descobrimento da costa sul por
+Pieter Nuyts em 1627. Longe do auctor suspeitar a existencia da costa
+sul, persevera no antigo erro, que prevalecera pelo decurso de todo o
+seculo XVI, representando a terra Austral como um vasto continente,
+cujas partes, as que tinham sido realmente descobertas, se prolongam
+para o norte até á parallela, em que jazem respectivamente áquelles
+descobrimentos. Assim, pois, temos n'este mappa a Australia, como foi já
+descripta, ao lado direito do mappa; e a ilha de Santa Cruz nas Novas
+Hebridas (New Hebrides), alli chamada Nova Jerusalem, descoberta por
+Quiros, ao lado esquerdo, porém ligadas ambas e formando parte de um
+grande continente sul.
+
+[Ilustração: Fac simile de uma porção do mappa Ms. que se acha no Musêo
+Britanico.]
+
+Agora pode objectar-se com respeito a este mappa, que não sendo senão
+cópia tirada no começo do presente ou ao fechar do seculo passado, a
+exposição que dá materia a este escripto pode ter sido inserta
+fraudulentamente. Porém para que pese uma tal consideração é preciso
+apresentar um motivo, e o mais razoavel é assignar a honra do primeiro
+descobrimento authentico a Portugal em vez de o attribuir á Hollanda.
+Para isto é necessario suppormos que o falsificador foi portuguez. Tenho
+a responder que, ao passo que tudo que está escripto no mappa é em
+portuguez, a cópia foi tirada por pessoa que não só não era portugueza,
+mas demais a mais ignorava o portuguez. Por exemplo, a legenda em
+questão, breve como é, contém não menos de cinco erros crassos que
+provam ignorancia da lingua; assim pois as palavras «por Manuel» estão
+escriptas «por mano el» «Eredia» está escripto «Evedia» «do» está
+escripto «de» «Ayres» está escripto «Aives» «Saldanha» está escripto
+«Saldaha» sem o til para indicar a abbreviatura.
+
+Mais ainda: se ha de attribuir-se a supposta falsificação ao intento de
+reclamar ulteriormente para os portuguezes a honra do primitivo
+descobrimento, d'onde nasce que nunca esse intento foi posto em
+execução? Nunca, até hoje, aquelle facto se fez publico, e os mais
+interessados na antiga gloria da nação portugueza, ignoram o
+descobrimento que este mappa declara ter sido feito. Em quanto a não se
+ter tornado este objecto do dominio da historia, póde explicar-se pela
+comparativa pequena importancia que no tempo seria dada a um tal
+descobrimento, e tambem pelo facto de que, não estando já então os
+portuguezes no apogêo da sua prosperidade, não tomaram este objecto em
+maior conta, repetindo as expedições áquelle territorio, como pouco
+depois os hollandezes realmente começaram a fazer.
+
+Além d'isto, póde aventurar-se a conjectura de que, sendo o mappa uma
+cópia, a data do descobrimento pode ter sido transcripta menos
+cuidadosamente; assim, por exemplo, 1601 podia facilmente estar escripto
+no original 1610, e haver-se copiado erradamente. Por felicidade a
+exactidão da data póde ser provada sem hesitação. Declara-se
+distinctamente que a viagem foi feita de ordem do vice-rei Ayres de
+Saldanha, o periodo de cujo vice-reinado abrange sómente de 1600 até
+1604, e por este modo fecha-se a porta á possibilidade do erro
+imaginado, pois que termina antes do periodo dos primeiros
+descobrimentos dos hollandezes.
+
+Ainda mais; póde objectar-se, que é possivel que um territorio indicado
+tão vaga e incorrectamente não seja a Australia. A resposta é tão
+indisputavel como a que fixa a data do descobrimento. Immediatamente por
+baixo da legenda de que se trata, segue-se outra assim concebida: «Terra
+descuberta pelos Holandeses a que chamarão Enduacht (sic) au Cõcordia»
+(terra descoberta pelos hollandezes, a que elles chamaram Endracht ou
+Concordia). Eendraghtsland, como todos sabemos, foi o nome dado a um
+largo tracto da costa occidental da Australia, descoberto pelo navio
+hollandez o Eendraght, em 1616.
+
+Todavia, se a legenda de que fallamos não é cópia genuina de um
+antigo mappa genuino, como conseguiu o moderno falsificador ter
+conhecimento do nome de um cosmographo não imaginario, que viveu em Goa
+n'um periodo que se ajusta com o estado dos descobrimentos geographicos
+representado no mappa, do qual porém nenhuma producção manuscripta ha
+sido impressa no tempo em que o supposto mappa ficticio foi traçado ou a
+legenda ficticiamente inserta?
+
+Penso que estes argumentos concluem, e estabelecem a legitimidade da
+cópia moderna do antigo mappa. Com respeito ao descobridor Manuel
+Godinho de Eredia (ou antes Heredia, como escrevem Barbosa Machado e
+Figanière), encontro a seguinte obra de que elle é auctor: _Historia do
+Martyrio de Luiz Monteiro Coutinho, que padeceu por ordem do Rey Achem
+Raiamancor no anno de 1588, e dedicada ao illustrissimo D. Aleixo de
+Menezes, arcebispo de Braga_; cuja dedicatoria é datada de Goa, em 11 de
+novembro de 1615; fol. Ms. com varias notas.
+
+Barbosa Machado chama-lhe distincto mathematico; e Figanière um
+cosmographo residente em Goa. Segue-se, como consequencia natural, que o
+mappa original foi executado por elle mesmo. A cópia veiu de Madrid, e
+foi comprada pelo Muséo Britannico, em 1848, ao sr. de Michelena y
+Roxas. Será materia de interesse descobrir algum dia a existencia do
+mappa original; mas, se aquella estava na livraria de Madrid, ou em
+alguma outra parte, deve ser assumpto de futuras investigações.
+
+N'um pequeno volume intitulado _Informação da Aurea Chersoneso ou
+Peninsula e das ilhas Auriferas, Carbunculas e Aromaticas, ordenada por
+Manuel Godinho de Eredia, cosmographo_, copiada de um antigo Ms. e dada
+á luz por Antonio Lourenço Caminha, em uma reimpressão das _Ordenações
+da India, do Senhor Rei D. Manuel_, Lisboa, Imprensa Regia, 1807, 8.º,
+encontra-se um logar que pode ser traduzido como segue:
+
+«_Ilha do Ouro._ Em quanto os pescadores de Lamakera, na ilha de
+Solor[3] estavam occupados na pesca, levantou-se um tão
+grande temporal que se lhes tornou absolutamente impossivel o regressar
+á praia, e por tanto tiveram de ceder á força da tormenta, que foi tal,
+que por espaço de cinco dias os deteve fora da ilha do Ouro, a qual jaz
+no mar na costa fronteira, ou contra-costa de Timor, que propriamente se
+chama costa do Sul. Quando os pescadores abicaram á terra do Ouro, não
+tendo comido durante os dias da tormenta, saíram a procurar
+provisões. Foram tão felizes e bem succedidos, que, em quanto
+inquiriam o terreno, buscando inhames e batatas, encontraram-se com tão
+grande quantidade d'ouro, que carregaram o bote a ponto de não poder
+levar mais. Depois tomando agua e os necessarios bastecimentos para
+voltarem á terra natal, padeceram outra borrasca, que os arremessou para
+a ilha do grande Ende[4]; alli desembarcaram todo o ouro, o
+que excitou grande inveja entre os endes. Estes mesmos endes
+determinaram por tanto, como os pescadores lamacheres, repetir a viagem;
+e quando estavam promptos para desaferrar, endes e lamacheres,
+apoderou-se d'elles tão grande temor, que não se atreveram, por causa da
+sua ignorancia, a atravessar aquelle mar do Ouro.
+
+«Parece na verdade, ser acto providencial do Altissimo que Manuel
+Godinho de Eredia, o cosmographo, tivesse recebido com missão do conde
+almirante, vice-rei da India dentro e além do Ganges, para que o mesmo
+Eredia podesse ser meio de se accrescentarem novos patrimonios á corôa
+de Portugal, e de tornar-se rico o dito conde e a nação portugueza. E
+todos por tanto, e especialmente o dito senhor, houveram de reconhecer
+com gratidão este serviço assignalado, o qual obtendo completa
+realisação, merecerá ser considerado como um dos mais ditosos e
+afortunados acontecimentos do mundo para gloria de Portugal. Em todo o
+caso, pois, o descobridor deve, por muitas razões, ser assistido
+efficazmente na empreza do ouro. Primeiramente, por se haver de ter
+attenção á primeira posse do ouro pela corôa de Portugal. Em segundo,
+pela facilidade da descoberta do ouro. Em terceiro, por serem as minas
+do ouro as maiores do mundo. Em quarto, porque o descobridor é um
+instruido cosmographo. Em quinto, porque póde verificar ao mesmo tempo a
+descripção das ilhas do sul. Em sexto, por causa da nova christandade.
+Em setimo logar, porque o descobridor é um capitão experimentado, que se
+propõe prestar muito grandes serviços ao rei de Portugal, e ao
+felicissimo D. Francisco da Gama, conde da Vidigueira, almirante e
+vice-rei das Indias dentro e além do Ganges, e senhor do ouro,
+carbunculos e especiaria do mar do oriente que pertence a Portugal.»
+
+Desprovido da relação especial da viagem, mediante a qual foi feito o
+descobrimento, que dá principal assumpto a este papel, quasi que não
+podemos contar para ulterior confirmação da sua verdade, senão com o
+que nos subministra o extracto que deixamos transcripto. Manuel Godinho
+de Eredia é alli designado como um douto cosmographo e habil capitão,
+que tinha recebido commissão especial para fazer a exploração das minas
+de ouro, e para verificar a descripção das ilhas do Sul. A propria ilha
+do Ouro é descripta «como situada na costa fronteira ou contra-costa de
+Timor, que propriamente se chama costa do Sul». É muito provavel,
+conforme a esta descripção, que seja a mesma Nuca Antara do nosso mappa
+Ms., que demora sobre a costa sul em frente de Timor. É tambem, além
+djsso, de notar que o periodo da commissão dada a Eredia se approxima na
+data, como prova grande numero de factos, do descobrimento que se lhe
+attribue da Australia. O vice-rei, Francisco da Gama, que deu aquella
+commissão, foi o immediato predecessor de Ayres de Saldanha. A duração
+do seu governo abrange sómente de 1597 a 1600, e o attribuido
+descobrimento foi feito em 1601, posto que não saibamos o mez.
+Difficilmente póde esperar-se mais cabal confirmação de um
+descobrimento, que não se acha mencionado senão n'um mappa provavelmente
+unico.
+
+Apresentando esta carta á sociedade dos Antiquarios, que veneram o
+passado, não a fecharei sem uma palavra de reverencia e acatamento para
+com as antigas glorias de uma nação n'outros tempos poderosa. Os
+verdadeiros heroes do mundo são os iniciadores dos grandes feitos, os
+gastadores dos grandes descobridores. Taes foram os portuguezes nos dias
+em que o mundo quasi que não estava senão meio e mal conhecido. A
+Portugal devemos não só um Gama, porém, não menos, um Colombo, sem o
+qual o magestoso imperio d'aquella em cujo dominio nunca se esconde o
+sol, não fôra acaso senão um sonho, em vez de uma realidade. A
+Inglaterra, cujos atrevidos marinheiros têem feito caminho por todos os
+mares, conhece quanta justiça deve ser feita á intrepidez dos seus
+nobres predecessores, que, em frageis caravellas, e atravez dos
+incommensuraveis páramos do oceano, poderam abrir estrada, não sómente á
+gloria da sua propria nação, mas tambem á civilisação e prosperidade do
+mundo inteiro.
+
+ Fico sendo,
+
+ meu presado sir Henry,
+
+ vosso de veras
+
+ R. H. MAJOR.
+
+A sir Henry Ellis, K. H. etc., etc., etc.
+
+
+ [1] Esta razão irrespondivel foi-me suggerida pelo fallecido
+ distincto dr. Brown, que não só, como Humboldt o descreveu, era
+ _Botanicorum facile princeps_, porém de si proprio tinha
+ conhecimento da localidade de que fallava.
+
+ [2] Com respeito á noticia d'esta viagem vê-de a carta de Quiros a
+ D. Antonio de Morga, cap. VI, pag. 29, na obra _De Morga's Sucesos
+ en las islas Philippinas_, Mexico 1609, 4.º; e obra de Figueiroa,
+ _Hechos de D. Garcia Hurtado de Mendoza_, quarto marqués de Cañete,
+ Madrid, 1613, 4.º, liv. 6, p. 238.
+
+ [3] Os habitantes da costa de Solor são designados especialmente
+ como pescadores por Crawfurd no seu _Dictionary of the Indian
+ Islands_.
+
+ [4] Esta é a ilha das Flores. Em uma «Lista das principaes minas de
+ ouro, obtida por curiosidade de Manuel Godinho de Heredia,
+ cosmographo, residente em Malaca por espaço de mais de vinte annos»
+ publicada tambem com as «Ordenações da India», Lisboa, 1807,
+ conta-se a mesma historia, porém a ilha Ende é chamada ilha do
+ Conde.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of O descobrimento da Australia pelos
+portuguezes em 1601, by Richard Henry Major
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O DESCOBRIMENTO DA AUSTRALIA ***
+
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+works. See paragraph 1.E below.
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
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+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
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+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
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+Foundation
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+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
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+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+works.
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+concept of a library of electronic works that could be freely shared
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+The Project Gutenberg EBook of O descobrimento da Australia pelos
+portuguezes em 1601, by Richard Henry Major
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+Title: O descobrimento da Australia pelos portuguezes em 1601
+
+Author: Richard Henry Major
+
+Translator: José de Lacerda
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+Release Date: July 17, 2009 [EBook #29428]
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+Language: Portuguese
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O DESCOBRIMENTO DA AUSTRALIA ***
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+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
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+
+<div style="text-align:center; border: double 10px #000; padding: 1em;">
+<p style="font-size: 1.8em;"><strong>O DESCOBRIMENTO DA AUSTRALIA</strong></p>
+
+
+<p style="font-size: 2.5em;"><strong>PELOS PORTUGUEZES</strong></p>
+
+
+<p style="font-size: 1.5em;">EM 1601</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">CINCO ANNOS ANTES DO PRIMEIRO DESCOBRIMENTO ATÉ ENTÃO MENCIONADO</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">COM ARGUMENTOS A FAVOR DO PREVIO DESCOBRIMENTO PELA MESMA NAÇÃO NO PRINCIPIO
+DO SECULO XVI</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">COMMUNICADO Á SOCIEDADE DOS ANTIQUARIOS DE LONDRES</p>
+
+<p>PELO S<small>R</small>. RICHARD HENRY MAJOR, ESQ. F. S. A.</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">E POR ELLE OFFERECIDO</p>
+
+<p style="font-size: 1.5em;">Á ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA</p>
+
+<p>TRADUZIDO DE ORDEM DA MESMA ACADEMIA</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">PELO SOCIO EFFECTIVO</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;"><strong>D. José de Lacerda</strong></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><strong>LISBOA</strong><br>
+
+TYPOGRAPHIA DA ACADEMIA<br>
+
+1863</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center;">
+
+<p style="font-size: 1.5em;"><strong>DESCOBRIMENTO DA AUSTRALIA</strong></p>
+
+<p style="font-size: 2em;"><strong>PELOS PORTUGUEZES</strong></p>
+
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
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+<p>&nbsp;</p>
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+<div style="text-align:center;">
+<p style="font-size: 1.8em;"><strong>O DESCOBRIMENTO DA AUSTRALIA</strong></p>
+
+
+<p style="font-size: 2.5em;"><strong>PELOS PORTUGUEZES</strong></p>
+
+
+<p style="font-size: 1.5em;">EM 1601</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">CINCO ANNOS ANTES DO PRIMEIRO DESCOBRIMENTO ATÉ ENTÃO MENCIONADO</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">COM ARGUMENTOS A FAVOR DO PREVIO DESCOBRIMENTO PELA MESMA NAÇÃO NO PRINCIPIO
+DO SECULO XVI</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">COMMUNICADO Á SOCIEDADE DOS ANTIQUARIOS DE LONDRES</p>
+
+<p>PELO S<small>R</small>. RICHARD HENRY MAJOR, ESQ. F. S. A.</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">E POR ELLE OFFERECIDO</p>
+
+<p style="font-size: 1.5em;">Á ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA</p>
+
+<p>TRADUZIDO DE ORDEM DA MESMA ACADEMIA</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">PELO SOCIO EFFECTIVO</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;"><strong>D. José de Lacerda</strong></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><strong>LISBOA</strong><br>
+
+TYPOGRAPHIA DA ACADEMIA<br>
+
+1863</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
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+<p>&nbsp;</p>
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+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
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+<div style="text-align:center;">
+<p><span class="pn">{1}</span></p>
+
+<p style="font-size: 1.6em;">O DESCOBRIMENTO DA AUSTRALIA PELOS PORTUGUEZES EM 1601</p>
+
+<p>COMMUNICADO</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">Á SOCIEDADE DOS ANTIQUARIOS DE LONDRES</p>
+
+<p>PELO SR. RICHARD HENRY MAJOR, ESQ. F. S. A.</p>
+
+<p>E POR ELLE OFFERECIDO</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">Á ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA</p>
+
+<p>TRADUZIDO DE ORDEM DA MESMA ACADEMIA</p>
+
+<p>PELO SOCIO EFFECTIVO</p>
+
+<p style="font-size: 1.6em;">D. JOSÉ DE LACERDA</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="corpo">
+<p style="text-align:right;">Meu presado sir Henry.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Se podesse haver logar a alguma duvida ácerca da importancia de colligir, e
+metter no corpo da nossa litteratura, as reliquias dispersas das primeiras
+relações dos descobrimentos geographicos, a duvida acharia condigna resposta na
+inquieta curiosidade com que os mais esclarecidos anglo-saxões, habitantes da
+America, voltam a attenção para as particularidades, ainda de menos monta, que
+respeitam ás primeiras narrações historicas da sua terra adoptiva.</p>
+
+<p>Um vasto campo de colonisação, inferior sómente á America, se está
+desenvolvendo com rapidez no sul; e podemos presumir naturalmente que se ha de
+tornar questão de não pequeno interesse para os que tiverem escolhido a
+Australia como terra natal de seus filhos, o<span class="pn">{2}</span> conhecer
+quaes foram os primeiros descobridores de um territorio tão vasto nas suas
+dimensões, tão importante nas suas condições essenciaes, e cujo verdadeiro modo
+de existir se conservou todavia em segredo por milhares de annos.</p>
+
+<p>No anno de 1859 tive a honra de publicar para a sociedade Hakluyt uma obra
+intitulada <em>Primeiras viagens á terra Austral</em>, comprehendendo uma
+collecção de documentos e de extractos dos primeiros mappas manuscriptos,
+tendentes a esclarecer a historia dos descobrimentos sobre as costas daquella
+vasta ilha, desde o começo do seculo <small>XVI</small> até ao tempo do capitão
+Cook. Na minha introducção áquella obra coube-me fazer vêr que, na primeira
+parte do seculo <small>XVI</small>, havia indicações, nos mappas, de ter sido
+já descoberta a Australia, mas sem documentos escriptos para o confirmar;
+emquanto que, no seculo <small>XVII</small> ha documentos auctorisados para
+demonstrarem que as suas costas foram visitadas pelos hollandezes em grande
+numero de viagens, posto que não se encontrem documentos que as descrevessem
+immediatamente. As primeiras viagens dos hollandezes foram feitas em 1606, e
+ficou para todos manifesto, como ponto historico fóra de questão, que,
+n'aquelle anno, o primeiro descobrimento authentico da Australia foi feito
+pelos hollandezes.</p>
+
+<p>É meu objecto n'este escripto annunciar que, nos dias ultimamente findos, o
+Musêo Britannico me deparou um documento, que, sem hesitação, transfere aquella
+honra da Hollanda para Portugal, por tal modo que dá a este ultimo paiz uma
+vantagem sobre o primeiro de cinco annos de indisputavel prioridade. O facto de
+que a Australia foi na realidade descoberta mais de sessenta annos antes, e com
+toda a probabilidade tambem por portuguezes, não diminue a importancia d'este
+outro facto&mdash;que desejo agora recordar como pela primeira vez revelado&mdash;que a
+primeira viagem conhecida á Australia, a que se póde marcar data, e o nome do
+descobridor, foi feita pelos portuguezes em 1601. Comtudo, se eu houvesse de
+limitar-me á simples enunciação do facto, sem mostrar a posição que tem de
+tomar na historia do indicado e authentico descobrimento da Australia, receio
+que a noticia por mim annunciada fosse para vós tão destituida de interesse,
+como a mim proprio me deixaria descontente. A fim, por tanto, de estabelecer
+com clareza a minha questão, julgo que devo apresentar-vos um summario do que
+mais amplamente já escrevi na introducção da minha obra <em>Primeiras viagens á
+Australia</em>, declarando, que por amor da brevidade, tenho omittido as
+circumstancias de menos momento, e algumas vezes modificado a minha linguagem;
+porém não me<span class="pn">{3}</span> atrevi, por mera ostentação, e quando
+não ha com isso a ganhar, a fazer alteração no que primeiramente havia
+escripto. Um tal procedimento affigurou-se-me pouco delicado e menos digno.</p>
+
+<p>Fallei das suppostas indicações da Australia, porque, assim como em relação
+á America, assim tambem em relação á Australia, podem assignalar-se suspeitas
+da existencia d'aquelles differentes territorios nos escriptos dos antigos, nos
+monumentos geographicos da idade média, e, testimunhos ainda mais positivos,
+com respeito á Australia, nos bem delineados mappas manuscriptos da primeira
+parte do seculo <small>XVI</small>.</p>
+
+<p>Entre os primeiros escriptores, a citação mais notavel que posso offerecer
+com referencia ao continente austral, é a que se encontra no Astronomicon de
+Manilio, liv. 1.º, v. 234-238, onde, em seguida a uma extensa dissertação, diz:
+</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ Ex quo colligitur terrarum forma rotunda: <br>
+ Hanc circum variae gentes hominum atque ferarum <br>
+ Aeriaeque colunt volucres. Pars ejus ad arctos <br>
+ Eminet, Austrinis pars est habitabilis oris, <br>
+ Sub pedibusque jacet nostris. </blockquote>
+A data em que Manilio escreveu, posto que não possa fixar-se com exactidão,
+suppõe-se, com fundamento nas conclusões deduzidas das provas internas que nos
+suggere o seu poema, que foi no reinado de Tiberio.
+
+<p>No ultimo periodo, a crença da existencia de um grande continente austral
+anterior aos descobrimentos dos portuguezes no oceano Pacifico, demonstra-se
+pelos mappas manuscriptos e outros monumentos geographicos, colligidos pelas
+investigações do meu chorado amigo, o fallecido erudito, e laborioso visconde
+de Santarem no seu <em>Essai sur l'Histoire de la Comosgraphie et de la
+Cartographie du Moyen Age</em>. No vol. <small>I</small>, pag. 229 d'esta obra,
+informa-nos de que «D'autres cartographies du moyen-âge continuèrent à
+représenter encore dans leurs mappemondes l'Antichthone, d'après la croyance
+qu'au delá de la ceinture de l'océan Homérique il y avait une habitation
+d'hommes, une autre région temperée, qu'on appelait la terre opposée, ou il
+était impossible de pénétrer á cause de la zone torride.»</p>
+
+<p>A mais antiga <em>asserção</em> do descobrimento de uma terra que tem
+posição, no primeiro mappa, analoga á da Australia, foi feita a favor dos
+chins, que se suppoem terem tido conhecimento daquellas costas muito antes do
+periodo da navegação européa ao oriente.<span class="pn">{4}</span></p>
+
+<p>Thévenot, nas suas <em>Relations de divers voyages curieuses</em>, part.
+<small>I</small>, pref. París, 1663, diz: «La terre Austral, qui fait
+maintenant une cinquième partie du monde, a été découverte á plusieurs fois.
+Les chinois en ont eu connaissance il y a longtemps; car l'on voit que Marco
+Polo marque deux grandes isles au sud-est de Java, ce qu'il avait appris
+apparemment des chinois».</p>
+
+<p>A relação de Marco Polo descreve um territorio na direcção da Australia, que
+contêm oiro, elephantes e especiarias, descripção que se vê claramente não
+poder applicar-se á Australia. Sem duvida houve erro na direcção da indicação
+suggerida, e parece certo que a terra que se pretendeu descrever era a
+Cambodia. Não me detenho a dissertar sobre os varios erros crassos a que esta
+relação deu origem, em presença dos primeiros mappas hollandezes, gravados, que
+appareceram na derradeira parte do seculo <small>XVI</small>. Fallei d'elles
+circumstanciadamente no meu <em>Hakluyt</em>. São interessantes em relação ao
+importante territorio a que parece terem referencia, e na realidade recrêam
+pela sua natureza, variedade e numero.</p>
+
+<p>O primeiro descobrimento da Australia, reclamado por alguma nação, é o de um
+francez chamado Binot Paulmier de Gonneville, natural de Honfleur, que deu á
+vela d'aquelle porto em junho, 1503, de viagem para os mares do sul. Depois de
+ter dobrado o cabo da Boa Esperança, foi assaltado d'uma tempestade que o
+lançou sobre uma terra desconhecida, na qual foi tractado com hospitalidade, e
+d'onde, depois da demora de seis mezes, voltou á França, trazendo coinsigo o
+filho do rei d'aquella região. Infelizmente o diario de Gonneville, na sua
+tornada, cahiu nas mãos dos inglezes e perdeu-se; porém um ecclesiastico,
+descendente d'um dos naturaes d'esta região austral, que fôra casado com uma
+parenta de Gonneville, havia colligido das tradições, e papeis avulsos da
+familia, e egualmente d'uma declaração judicial, feita perante o almirantado
+francez em data de 19 de junho de 1505, materiaes para a obra que foi impressa
+em París por Cramoisy em 1663, intitulada <em>Mémoire touchant l'établissement
+d'une mission chretienne dans la terra Australe; par un ecclesiastique
+originaire de cette même terre</em>. O auctor, de feito, estava animado do
+ardente desejo de prégar o Evangelho na terra dos seus antepassados, e consumiu
+a vida em diligenciar obter dos que tinham a seu cargo as missões estrangeiras
+o enviarem-no para alli; e demais d'isso, preencher d'alguma sorte, a promessa
+que fôra feita pelo primitivo navegador francez de que visitaria novamente
+aquella região. O trato amigavel com os naturaes, descriptos por Gonneville,
+que falla d'elles como<span class="pn">{5}</span> tendo feito alguns progressos
+na civilisação, é absolutamente incompativel com o caracter desleal e barbara
+crueldade que vemos attribuida aos naturaes da Australia-Norte por todos os
+mais recentes viajantes. «Considere-se toda a narração desprevenidamente, diz
+Burney, e a idea que de prompto e muito naturalmente ha de occorrer é que a
+India Austral, descoberta por Gonneville, foi Madagascar. Tendo rodeado o Cabo,
+foi arrojado pelos temporaes para as latitudes pacificas, e tão proximo d'esta
+terra que para alli foi encaminhado pelo vôo dos pássaros. Outro ponto que
+merece ser conhecido, a recusa da tripulação de proseguir até á India Oriental,
+difficilmente póde crer-se que tivesse logar, a estarem tanto ávante para o
+nascente como a Nova Hollanda.»</p>
+
+<p>Reclamação mais razoavel do que a precedente, ao descobrimento da Australia
+nos principios do seculo <small>XVI</small>, pode ser produzida pelos
+portuguezes, fundando-se no testimunho de varios mappas manuscriptos ainda
+existentes, pois que a tentativa, feita recentemente, de accrescentar a honra
+d'este descobrimento a Magalhães, na famosa viagem do Victoria ao redor do
+mundo em 1520, é, como procurei mostrar, de todo o ponto insustentavel. A
+reclamação d'esta honra para a Hespanha, é defendida nos seguintes termos no
+<em>Compendio Geographico Estadistico de Portugal y sus posesiones
+ultramarinas</em> por Aldama Ayala, 8.º Madrid, 1855, p. 482: «Os hollandezes
+reclamam o descobrimento do continente da Australia no seculo
+<small>XVII</small>, com quanto haja sido descoberta por Fernando de Magalhães,
+portuguez, de ordem do imperador Carlos <small>V</small>, no anno de 1520, como
+se prova com documentos authenticos, taes como o Atlas de Fernando Vaz Dourado,
+feito em Goa em 1570, n'um dos mappas do qual está traçada a costa da
+Australia. O dito magnifico Atlas, illuminado com perfeição, conservava-se
+antigamente na livraria da Cartucha em Evora.»</p>
+
+<p>Similhante reclamação foi tambem feita por um seu distincto conterraneo,
+embora a viagem fosse emprehendida em serviço da Hespanha, em um almanack
+publicado em Angra, na ilha Terceira, pela imprensa do governo em 1832, e
+composto, segundo se suppõe, pelo visconde de Sá da Bandeira, actual ministro
+da Marinha em Lisboa.</p>
+
+<p>Na investigação d'este assumpto tive por fortuna o auxilio do dr. Martin, de
+Lisboa, editor do <em>Mariner's Tonga Islands</em>, cujo exame do mappa de
+Dourado me dá o convencimento de que o tracto descripto no mappa como
+descoberto por Magalhães, é de feito um memorandum ou nota-marginal
+carthographica do real descobrimento da Terra do Fogo por Magalhães, e que, em
+consequencia da sua inexacta collocação<span class="pn">{6}</span> no
+pergaminho, foi ao depois applicada erradamente por Mercator áquella parte do
+mundo agora conhecida como Australia, e d'ahi a reclamação de que se tracta.
+</p>
+
+<p>Agora porém passo a uma indicação mais plausivel do descobrimento da
+Australia pelos portuguezes na primeira parte do seculo <small>XVI</small>, que
+decorre entre os annos de 1512 e 1542. Esta indicação acha-se por fórma
+similhante em diversos mappas manuscriptos, todos francezes, onde,
+immediatamente abaixo de Java, e separado d'aquella ilha sómente por um
+apertado braço do mar, está traçado, na margem dos differentes mappas, um largo
+territorio que se vai estreitando para o sul. Este territorio é chamado a
+grande Java. No maior numero d'estes mappas, o largo territorio continúa sempre
+ao longo da porção sul do globo, formando a grande terra Austral, em que desde
+tempos immemoriaes tão largamente se tem acreditado, e juntando-se novamente
+com o mundo conhecido na <em>Tierra del Fuego</em>. Mas n'um d'estes mappas
+occorre uma excepção, muito para notar, a esta regra; o traçado da costa dos
+dois lados, oriental e occidental, da grande Java, termina em pontos que
+offerecem fundado argumento de que representam os actuaes descobrimentos. Por
+exemplo, o ponto mais austral em que termina o traçado da costa occidental é o
+grau 35, latitude real do ponto sudoeste. O traçado da costa oriental não é tão
+correcto, mas estende-se muito por baixo do ponto mais ao sul da terra de Van
+Diemen; comtudo pela sua distante posição teria de ser a parte de menos
+provavel investigação, e, posto que incorrectamente delineado, concorda com o
+facto geral de que a inclinação sul do traçado oriental da costa é muito maior
+que o da linha occidental. Com respeito á longitude da grande Java, póde
+affirmar-se que, apesar de todas as discrepancias que se notam nos mappas, não
+ha outro territorio que demore dentro das mesmas parallelas e na mesma
+extensão, entre a costa oriental da Africa e a costa occidental da America; e
+que a Australia realmente jaz entre os mesmos meridianos que a grande massa de
+territorio ali traçada. Relativamente ao contorno da costa, basta um mero
+relancear dos olhos para descobrir a geral similhança no lado occidental,
+embora no oriental as discrepancias, como era de esperar, sejam mais
+consideraveis.</p>
+
+<p>Na totalidade das inscripções particulares d'estes mappas occorrem alguns
+nomes de bahias e costas, que Alexandre Dalrymple, hydrographo do almirantado e
+companhia das Indias Orientaes, primeiro de todos advirtiu assimilharem-se a
+nomes dados pelo capitão Cook ás partes da Nova Hollanda, por elle mesmo
+descobertas. Na memoria concernente<span class="pn">{7}</span> a Chagos e ilhas
+adjacentes, 1786, p. 4, fallando d'este mappa, diz: «A costa oriental da Nova
+Hollanda, como nós lhe chamamos, está designada com algumas circumstancias
+curiosas por condizer com o manuscripto do capitão Cook. O que o mappa chama
+bahia das Angras (Bay of Inlets) chama-se no manuscripto bahia Perdida; bahia
+das Ilhas (R. de beaucoup d'Isles); o logar onde tocou o Audaz (Endeavour)
+coste Dangereuse. De sorte que podemos dizer como Salomão, nada ha novo debaixo
+do sol.»</p>
+
+<p>Esta mal cabida insinuação houve, com prazer me recordo, judiciosa refutação
+da penna d'um francez, M. Frederico Metz, em um artigo impresso a p. 261, vol.
+<small>XLVII</small> da <em>Revue ou Décade Philosophique, Litteraire et
+Politique</em>, Nov. 1805, que mui maliciosamente observa. «Se Cook teve
+conhecimento dos mappas em questão, e pretendeu appropriar-se dos descobrimentos
+de outrem, é preciso suppol-o muito pouco atilado por ter conservado a estes
+descobrimentos os mesmos nomes, que haviam de denunciar o seu plagiato, a todo
+tempo que se tornassem conhecidas as fontes que tinha consultado. A «costa
+Perigosa» foi assim chamada, porque, por espaço de quatro horas elle proprio se
+achou ali em perigo imminente de naufragar. Devemos portanto suppôr que se
+expôz a si e á sua tripulação a morte quasi certa, a fim de ter plausivel
+desculpa de applicar um nome similhante ao que a mesma costa havia já recebido
+do navegador, desconhecido e anonymo, que precedentemente a descobrira.
+Entretanto nomes taes como «bahia das Ilhas» «costa Perigosa» são muito
+conhecidos na geographia. Achamos uma «bahia das Ilhas» na Nova Hollanda; e na
+costa oriental da ilha de Borneo ha uma «costa das Hervagens.»</p>
+
+<p>O bom senso d'este raciocinio, sem fallar da questão de honra com relação a
+um homem do elevado caracter do capitão Cook, devia parecer decisivo; com tudo
+esta similhança de nomes, segundo eu proprio estou informado, tem sido notada
+por pessoas de alta posição que tem muito conhecimento d'esta região, posto que
+sem nenhuma intenção de affrontar o capitão Cook, como prova da identidade
+d'aquelle territorio com a Australia. A similhança de «côte des Herbages» com o
+nome de «Botany Bay» dado a uma parte correspondente da costa pelo capitão
+Cook, tem merecido particular attenção, com quanto se saiba que esta bahia,
+chamada originariamente <em>Stingray</em>, e depois <em>Botany Bay</em>, não
+foi assim chamada por causa da fertilidade do solo, mas sim por causa da
+variedade das plantas, novas para a sciencia botanica, as quaes foram
+descobertas em um solo que aliás nada promettia. É claro que os primeiros
+navegadores deviam assignar uma denominação<span class="pn">{8}</span> tal como
+a «côte des Herbages,» a uma praia digna de reparo pela rica producção da relva
+ou de outra qualquer vegetação, antes do que pela apreciação d'algum
+descobrimento botanico<a name="tex2html1" href="#foot243"><sup>[1]</sup></a>. Se
+a similhança dos nomes «rivière de beaucoup d'Isles» e «côte Dangereuse» com os
+nomes de Cook «bahia das Ilhas» e o logar «onde o Audaz tocou» descriptivos de
+indisputaveis realidades, fossem apresentados por Dalrymple como prova de
+grande probabilidade de que o territorio representado no primeiro mappa era a
+Nova Hollanda, sem pretender arriscar nenhuma insinuação contra o merecimento
+do seu rival, nós receberiamos esta plausivel observação com deferencia e justo
+assentimento.</p>
+
+<p>Que a Nova Hollanda era o territorio assim representado, é asserção
+sustentada com varios argumentos por mais de um dos nossos visinhos francezes.
+M. Coquebert Montbret, em uma memoria impressa no num. 81 do <em>Bulletin des
+Sciences</em> de 1804, cita a injuriosa observação de Dalrymple, e tacitamente
+concorda em ter ella produzido o seu effeito deceptivo no espirito de leitores
+incautos.</p>
+
+<p>Um atlas, que se acha ao presente na mão de sir Thomas Phillipps, e contém
+indicações similhantes ás que deixo descriptas, veiu á mão do principe de
+Talleyrand no principio d'este seculo; e attrahindo a attenção do celebrado
+geographo M. Barbié du Bocage, d'elle tirou uma larga noticia, que foi lida
+n'uma sessão publica do Instituto em 3 de julho de 1807. N'esta diz que
+«devemos chegar á conclusão de que estes atlas foram copiados dos mappas
+portuguezes, e por conseguinte que o descobrimento da Nova Hollanda pertence
+aos portuguezes. É esta a opinião» continua elle «de M. M. Dalrymple,
+Pinkerton, De la Rochelt, e de varios outros; e não creio que possa allegar-se
+nenhuma boa razão para refutar uma opinião tão bem fundada.» Entretanto M.
+Barbié du Bocage soltou esta expressão do seu convencimento tentando fixar o
+periodo do descobrimento, em cuja tentativa cahiu em erros que me propuz
+refutar, porém a que seria fastidioso aqui alludir.</p>
+
+<p>A prova que subministram estes mappas, de terem tido por base os
+descobrimentos portugueses, é a seguinte. Todos elles são francezes; e que
+todos são repetições, com ligeiras variações, de uma unica origem, mostra-se
+pelo facto de que os defeitos sao os mesmos em todos. As indicações portuguezas
+occorrem em alguns nomes, taes como «terre ennegade» forma afrancezada de
+«tierra anegada» isto é «terra<span class="pn">{9}</span> coberta d'agua» ou
+«baixios»; «Graçal» «cabo da Formosa.» Levanta-se por tanto a questão, julgando
+por taes provas, se foram os francezes ou portuguezes os descobridores? Em
+resposta offereço a seguinte exposição.</p>
+
+<p>No anno de 1529 João Parmentier de Dieppe fez uma viagem a Sumatra, e
+durante a viagem morreu. Parmentier era poeta, douto classico, e igualmente
+navegador e bom hydrographo. Acompanhou-o n'esta viagem seu intimo amigo o
+poeta Pedro Crignon, que, regressando a França, publicou em 1531 os poemas de
+Parmentier, com um prologo que contém o seu elogio, no qual diz que Parmentier
+foi «le premier françois qui a entrepris à estre pilolte pour mener navires à
+la terre Amérique qu'on dit Brésil, et semblablement le premier françois qui a
+descouvert les Indes jusqu'à l'Isle de Taprobane, et, si mort ne l'eust pas
+prévenu, je crois qu'il eust ésté jusques aux Moluques». É de pêso esta
+auctoridade n'este ponto, porque vem de um homem de distincção, o segundo do
+navio, e intimo do mesmo Parmentier. Assim pois os francezes não passaram, nos
+mares do sul, além de Sumatra antes de 1529. A data do mais antigo dos mappas
+citados não é anterior a 1535, pois que contém o descobrimento de S. Lourenço
+por Jacques Cartier n'aquelle anno; porém ainda quando não o supponhamos mais
+antigo que o de Rotz, que tem a data de 1542, se perguntamos de quaes viagens
+dos francezes nos mares do sul temos conhecimento entre os annos de 1529 e
+1542, nem o abbade Raynal, nem nenhum moderno escriptor francez, nem tão pouco
+os antiquarios que investigaram com maior indagação a historia dos
+descobrimentos francezes, como, por exemplo M. Léon Guérin, auctor da
+<em>Histoire Maritime de France</em>, París, 1843, 8.º; e <em>Les Navigateurs
+Français</em>, París, 1847, 8.º, nenhum apresenta a mais leve pretenção de que
+os francezes navegassem para aquellas paragens na primeira parte ou no meiado
+do <small>XVI</small> seculo.</p>
+
+<p>É certo, comtudo, que a França estava n'aquelle tempo muito pobre, e muito
+implicada em cuidados politicos para entremetter-se em longinquas investigações
+nauticas. Se assim o tivesse feito, toda a America do norte e o Brasil poderiam
+agora pertencer-lhe. Todavia sabemos ao mesmo tempo, que os portuguezes tinham
+anteriormente a 1529 estabelecimentos nas ilhas das Indias orientaes; e a
+existencia de nomes portuguezes nos territorios de que fallamos, como se acham
+delineados n'estes mappas francezes, é de si mesma o reconhecimento de terem
+sido descobertas pelos portuguezes; como sem duvida a opinião dos francezes,
+com respeito á cobiça e exclusivismo dos portuguezes,<span
+class="pn">{10}</span> não só devia ter tornado os primeiros mais diligentes em
+reclamarem tudo que lhes fosse possivel em materia de descobrimentos, mas
+tambem devia ter estorvado a gratuita introducção de nomes portuguezes em
+regiões tão remotas, se elles proprios as houvessem descoberto. No tomo 3.º da
+Collecção de Ramusio, na noticia do «Discorso d'un gran capitano di mare
+francese del luogo di Dieppa, etc.,» que sabemos agora ser a viagem de João
+Parmentier a Sumatra em 1529, e com toda a probabilidade escripto pelo seu
+companheiro e elogiador o poeta Pedro Crignon, encontra-se esta expressão: «Io
+penso che li Portoghesi debbano haver bevuto della polvere del cuore del re
+Alessandro..... e credo che si persuadino che Iddio non fece il mare nè la
+terra, se non per loro, e che l'altre nationi non siano degne di navigare, e se
+fosse nel poter loro di mettere termini e serrar il mare del Capo di Finisterre
+fin in Hirlanda, gia molto tempo saria che essi ne haveriano serrato il passo.»
+Mas, demais d'isto, pois que tira d'ahi muita força este argumento, não devemos
+deixar de ter em conta o ciume dos portuguezes, que vedavam a communicação das
+informações hydrographicas relativamente aos seus descobrimentos n'aquelles
+mares. Humboldt affirmou, <em>Histoire de la Geographie du Nouveau
+Continent</em>, tom. 4.º, p. 70, sobre a auctoridade de cartas de Angelo
+Trevigiano, secretario de Domenico Pisani, embaixador de Veneza na Hespanha,
+que os reis de Portugal defenderam, sob pena de morte, a exportação de cartas
+maritimas que revelassem a derrota a Calecut. Achamos igualmente em Ramusio,
+<em>Discorso sopra el libro di Odoardo Barbosa</em>, e <em>Sommario delle Indie
+Orientali</em>, tom. 1.º, p. 287 b, imposta similhante prohibição. Diz elle que
+estes livros «estiveram occultos por muito tempo, e não se consentiu que fossem
+publicados por convenientes razões, que não devo aqui manifestar.» Tambem falla
+da grande difficuldade que elle mesmo tivera de obter uma copia, posto que
+imperfeita, em Lisboa, «Tanto possono» observa elle «gli interessi del
+principe.»</p>
+
+<p>Póde formar-se alguma idéa do conhecimento que possuiam os hespanhoes no
+meiado do seculo <small>XVI</small> ácerca da parte do mundo de que tractamos,
+pelo seguinte extracto d'uma obra intitulada <em>El Libro de los Costumbres de
+todas las Gentes del Mundo y de las Indias</em>, traduzida e compilada pelo
+bacharel Francisco Thamara, Antuerpia, 1556: «A treynta leguas de Java la
+menor, está el Gatigara a nueve y diez grados de la Equinocial de la otra parte
+azia el sur. Desde aqui adelante no ay noticia de mas tierras, porque no se ha
+navegado por esta parte mas adelante, y por tierra no se puede andar por los
+muchos lagos y grandes y altas montarias que por aqui ay. Y aun dizese que<span
+class="pn">{11}</span> por aqui es el parayso terrenal.» Ainda que isto não foi
+escripto originariamente em hespanhol, porém traduzido de Johannes Bohemus, não
+é facil de crêr que fosse apresentado aos hespanhoes, se entre elles houvessem
+mais exactas informações a este respeito.</p>
+
+<p>Os factos assim reunidos levam-me á conclusão de que a terra descripta como
+«la Grande Java» nos mappas francezes a que tenho feito referencia, não póde
+ser senão a Australia; e que foi descoberta antes de 1542, quasi que póde
+acceitar-se como certeza demonstrada; porém, quanto tempo antes, não é claro.
+Creio tambem que tenho conseguido fazer sentir a grande probabilidade de terem
+sido os portuguezes os seus descobridores.</p>
+
+<p>Em um mappa destinado a servir de esclarecimento ás viagens de Drake e
+Cavendish por Jodocus Hondius, é apresentada a Nova Guiné como uma ilha
+perfeita, sem uma só palavra que faça nascer duvida ácerca da exactidão do
+desenho; emquanto que a terra Austral, separada da Nova Guiné apenas por um
+estreito, tem um perfil notavelmente parecido ao do golpho de Carpentaria.
+Estas indicações dão a este mappa um interesse especial, principalmente porque
+se mostra que é anterior á passagem de Torres pelo estreito de Torres, em 1606,
+pois que tem as armas da rainha Elizabeth, antes que o unicornio da Escocia
+expulsasse o dragão dos Tudors.</p>
+
+<p>No artigo <em>Terra Australis</em>, na obra de Cornelio Wytfliet,
+<em>Descriptionis Ptolemaicae Augmentum</em>, Louvain, 1598, encontramos o
+seguinte passo: «Australis terra omnium aliarum terrarum australissima tenuique
+discreta freto Novam Guineam orienti objicit, paucis tantum hactenus littoribus
+cognitam, quod post unam atque alteram navigationem, cursus ille intermissus
+sit, et nisi coactis impulsisque nautis ventorum turbine rarius eo adnavigetur.
+Australis terra initium sumit duobus aut tribus gradibus sub aequatore,
+tantaeque a quibusdam magnitudinis esse perhibetur, ut si quando integrè
+delecta erit, quintam illam mundi partem fore arbitrentur.» A declaração que
+fica citada foi impressa, convém recordal-o, antes d'algum descobrimento da
+Australia de que tenhamos noticia authentica.</p>
+
+<p>Porém quando se examinam estas indicações do descobrimento da Australia no
+<small>XVI</small> seculo, é natural perguntar quaes explorações haviam sido
+feitas pelos hespanhoes n'aquella parte do mundo, no decurso do dito seculo?
+Depois do periodo da viagem de D. Alvaro de Saavedra ás Molucas em 1527,
+cessamos de encontrar a actividade do espirito de investigação por parte dos
+hespanhoes nos mares do sul. Embaraçados pela sua situação politica, e pelos
+apuros do thesouro, o imperador,<span class="pn">{12}</span> em 1529, renunciou
+definitivamente as suas pretenções ás Molucas a troco de uma somma de dinheiro,
+posto que manteve a sua reclamação ás ilhas descobertas pelos seus vassallos,
+ao nascente da linha de demarcação limitada agora aos portuguezes. Em 1542 foi
+mal succedida a tentativa de formar um estabelecimento nas ilhas Philippinas
+que fez Ruy Lopez de Villalobos; porém tendo-se attribuido o mau resultado á
+falta de direcção, foi enviada com igual intento nova expedição em 1564 sob o
+mando de Miguel Lopez de Legaspi, que obteve completo exito, e uma colonia
+hespanhola foi estabelecida em Zebu. Não é impossivel que este estabelecimento
+désse occasião ás viagens de descobrimento feitas n'este tempo pelos
+hespanhoes, das quaes nenhuma noticia foi publicada. Em 1567 Alvaro de Mendanha
+deu á véla de Calláo para uma viagem de descobrimentos, na qual descobriu as
+ilhas de Salomão e varias outras. Ha grande divergencia nas differentes
+relações d'esta viagem. Em 1595 fez segunda viagem ao Perú, na qual descobriu
+as ilhas Marquezas, e o grupo depois chamado por Carteret ilhas da rainha
+Carlota. O objecto d'esta expedição era fundar uma colonia nas ilhas de
+Salomão, que elle descobrira na precedente viagem, mas que pela inexactidão dos
+seus calculos não foi capaz de encontrar. Tentou estabelecer uma colonia na
+ilha de Santa Cruz, mas não o conseguiu, e falleceu n'esta ilha. N'esta segunda
+viagem teve por principal piloto Pedro Fernandez de Quiros, que póde ser
+considerado como o ultimo dos distinctos marinheiros de Hespanha, e cujo nome
+reclama especial menção em uma obra que tracta das primeiras indicações da
+Australia, posto que elle mesmo nunca visse as praias d'aquella grande ilha
+continental<a name="tex2html2" href="#foot244"><sup>[2]</sup></a>.</p>
+
+<p>O descobrimento da ilha de Santa Cruz suggeriu ao espirito de Quiros que o
+grande continente sul estava emfim descoberto, e encontramos em duas memorias
+por elle dirigidas a D. L. de Velasco, vice-rei do Perú, o primeiro debate
+circumstanciado ácerca d'esta grande questão geographica, a qual, posto que
+elle proprio não estava destinado a demonstrar por via d'algum descobrimento
+actual, não obstante póde dizer-se que, directamente mediante elle mesmo, foi
+posta no caso de ser resolvida. É certo que, nutrindo estas vagas hesitações
+com respeito á existencia de um continente sul, se torna difficil fazer
+distincção entre a Australia propriamente dita e o grande continente
+descoberto<span class="pn">{13}</span> no presente seculo, vinte ou trinta
+graus ao sul d'aquella vasta ilha. Dalrymple, que, ha perto de dois seculos,
+advogava com energia a causa sustentada por Quiros, fallando d'este navegador,
+diz: «O descobrimento do continente sul em qualquer tempo, e por quem quer que
+tenha de ser effeituado completamente, de justiça é devido a este nome
+immortal.» Deveria advertir-se, que, de feito ha tres motivos de duvida
+relativamente ao nome d'aquelle navegador, o que convém notar, porque podem
+transviar o juizo do leitor superficial da historia da navegação d'aquelle
+periodo, quanto á sua connexão com o descobrimento da Australia. Em primeiro
+logar, com quanto geralmente seja reputado hespanhol, é descripto por Nicolau
+Antonio, auctor da <em>Bibliotheca Hispana</em>, que era hespanhol, e não
+deixaria de querer, como deve suppôr-se, reclamar um tão distincto navegador
+para seu concidadão, como «lusitanus, eborensis, ut aiunt lusitani» (portuguez,
+que os portuguezes affirmam ser natural d'Evora), e o estylo dos seus escriptos
+justifica a supposição. Em segundo logar, Antonio de Ulloa, no seu
+<em>Resumen</em>, p. 119, cita uma relação da viagem de Quiros, que se diz dada
+na <em>Historia de la Religion Serafica</em>, de Diogo de Cordova (obra que eu
+não tenho tido a boa fortuna de encontrar), onde se menciona o descobrimento de
+uma larga ilha no vigesimo oitavo grau de latitude sul, a qual latitude fica
+mais ao sul do que de qualquer modo se sabe terem chegado Quiros ou os seus
+companheiros. Em terceiro logar, as memorias impressas de Quiros têem o titulo
+de <em>Terra Australis Incognita</em>, em quanto que a terra Austral sul,
+descoberta pelo mesmo Quiros, e por elle denominada «del Espiritu Santo» não é
+senão a «New Hebrides» dos mappas de hoje.</p>
+
+<p>A Quiros e Dalrymple somos de feito devedores indirectamente da primeira
+designação que dá algum sentido á nomenclatura moderna que se refere á
+Australia, a saber, em relação ao estreito de Torres. Que Quiros, portuguez, ou
+hespanhol por nascimento, estava ao serviço de Hespanha, não padece duvida
+nenhuma. O vice-rei do Perú favoreceu com ardor os seus planos, porém
+considerou a execução d'elles como fóra dos limites da sua propria alçada. Em
+consequencia, instou com Quiros para que puzesse a questão na presença do
+monarcha hespanhol em Madrid, e lhe deu cartas para recommendar a sua
+pretenção. Se Philippe <small>III</small> foi movido pelos argumentos de Quiros
+relativamente ao descobrimento do continente do sul, ou antes pelo desejo de
+explorar a estrada entre a Hespanha e America pelo nascente, com a esperança de
+descobrir as opulentas ilhas que demoram entre a Nova Guiné e a China, não
+precisamos deter-nos a disputal-o. É possivel<span class="pn">{14}</span> que
+pesassem ambos estes motivos, porque Quiros foi enviado ao Perú com plenos
+poderes, dirigidos ao vice-rei, conde de Monterey, para pôr por obra o seu
+plano, e foi assistido amplamente com dois navios bem armados e uma corveta,
+com cujas forças deu á vela de Calláo a 21 de dezembro de 1605. Luiz Vaez de
+Torres commandou o <em>Almirante</em>, ou segundo navio, d'esta expedição. A
+viagem foi considerada como da maior importancia, e Torquemada, na relação que
+faz d'ella na <em>Monarchia Indica</em>, diz que os navios eram os mais
+alterosos e bem armados que se tinham visto n'aquelles mares. O objecto era
+fazer um estabelecimento na ilha de Santa Cruz, e partir d'ali para procurar a
+Tierra Austral, ou continente sul.</p>
+
+<p>Depois do descobrimento de varias ilhas, Quiros chegou a uma terra que
+nomeou Australia del Espiritu Santo, julgando fazer parte do grande continente
+sul. Á meia noite do dia 11 de junho de 1606, em quanto os tres navios jaziam
+ancorados na bahia a que deram o nome de São Philippe e São Thiago, Quiros, por
+motivos ignorados, e sem dar signal nem aviso, ou foi arrojado por uma
+tempestade, ou largou do porto, e achou-se apartado dos outros dois navios.</p>
+
+<p>Subsequentemente á separação, Torres achou que a Australia del Espiritu
+Santo era uma ilha, e então continuou a derrota para o poente, proseguindo as
+suas investigações. Pelo mez de agosto de 1606 cahiu sobre uma costa no
+undecimo e meio grau de latitude sul, que chamou principio da Nova
+Guiné&mdash;apparentemente a parte sudoeste da ilha, ao depois chamada Luisiada por
+M. de Bougainville, e que se sabe hoje ser uma cadéa de ilhas. Como não pôde
+passar para a parte do vento d'esta terra, Torres margeou na extensão do lado
+sul, e elle mesmo deu a seguinte relação do rumo que seguiu. «Navegámos
+trezentas leguas de costa, como já disse, e encurtámos a latitude 2<sup>1</sup>/<sub>2</sub> graus,
+o que nos trouxe a 9 graus. Dahi achámo-nos sobre um banco de tres a nove
+braças, que se estende ao longo da costa por espaço de cento e oitenta leguas.
+Proseguimos, acompanhando a costa, até 7<sup>1</sup>/<sub>2</sub> graus de latitude sul; e o seu
+termo é em 5 graus. Não podémos ir mais além por causa das muitas restingas e
+fortes correntes, de sorte que fomos obrigados a navegar ao sudoeste, n'aquelle
+fundo d'agua, até 11 graus de latitude sul. Todo aquelle espaço é um
+archipelago de ilhas sem numero pelas quaes passámos; e no fim do undecimo grau
+o banco torna-se mais areento. Ha aqui mui grandes ilhas, e outras apparecem
+mais ao sul. São habitadas por negros, corpulentos e nús. As suas armas são
+lanças, settas, e massas armadas com pedras mal affeiçoadas. Não podémos obter
+nenhuma das suas armas. Colhemos em toda esta<span class="pn">{15}</span> terra
+obra de vinte pessoas de differentes nações, a fim de podermos, por via dellas,
+dar melhor informação das coisas a Vossa Magestade. Dão larga noticia de outro
+povo, posto que não se fazem entender com facilidade. Detivemo-nos sobre este
+banco dois mezes, ao cabo do qual tempo nos achámos em vinte e cinco braças, 5
+graus de latitude sul, e dez leguas de distancia da costa; e, tendo caminhado
+quatrocentas e oitenta leguas, a costa corta ao nordeste. Não a examinei,
+porque o banco torna-se muito baixo. Assim, pois, navegámos para o norte.»</p>
+
+<p>As grandes ilhas vistas por Torres no undecimo grau de latitude sul, são
+evidentemente os serros do cabo York; e os dois mezes de difficil navegação
+foram consumidos em passar o estreito que separa a Australia da Nova Guiné. Uma
+cópia da carta de Torres foi guardada felizmente nos archivos de Manilha, e até
+que foi tomada aquella cidade em 1762 pelos inglezes, não se sabe que este
+documento fosse descoberto por Dalrymple, que pagou merecido tributo á memoria
+do distincto navegador hespanhol, dando a este perigoso passo o nome de
+<em>estreito de Torres</em>, que desde então ha conservado.</p>
+
+<p>Quiros chegou ao Mexico a 3 de outubro de 1606, nove mezes depois da sua
+partida de Calláo. Tomado profundamente do sentimento da importancia dos seus
+descobrimentos, dirigiu varias memorias a Philippe <small>III</small>,
+manifestando vehemente desejo de investigações ulteriores n'aquellas regiões
+desconhecidas; porém, depois d'alguns annos de frustrada perseverança falleceu
+em Panamá no anno de 1614, deixando após de si um nome que, no merito, com
+quanto não no resultado, foi o segundo sómente depois de Colombo; e com elle
+expirou o heroismo naval da Hespanha. «Raciocinando» como diz Dalrymple
+«segundo os principios da sciencia, e com profunda reflexão, affirmou a
+existencia do continente sul, e votou-se durante o resto da vida, com
+diligencia infatigavel, posto que mal apreciada, a fazer vingar esta concepção
+sublime.» Em um documento dirigido ao rei d'Hespanha por frei João Luiz Arias,
+dá-se noticia do teor energico com que se houve Quiros para resuscitar as
+empresas hespanholas nos mares do sul, e com especialidade em relação ao grande
+continente sul.</p>
+
+<p>Comtudo, em quanto a gloria das empresas navaes hespanholas assim declinava,
+essa mesma nação que a Hespanha tinha esmagado e perseguido, preparava-se para
+supplantal-a na carreira da audacia e da prosperidade. A guerra da
+independencia tinha excitado a energia das provincias dos Paizes-Baixos, que se
+haviam libertado do jugo hespanhol; ao passo que as crueldades, perpetradas nas
+provincias que os<span class="pn">{16}</span> hespanhoes tinham conseguido
+novamente subjugar, levavam ao exilio um numero de familias quasi incrivel. A
+maior parte d'estas estabeleceu-se nas provincias do norte, e por conseguinte,
+levou para ali o influxo de prodigiosa actividade. Entre os emigrados havia
+numerosos commerciantes emprehendedores, principalmente de Antuerpia, cidade
+que por largos annos teve quinhão muito consideravel, posto que indirecto, no
+commercio transatlantico de Hespanha e Portugal, e que de sobejo conhecia as
+suas immensas vantagens. Estes homens estavam naturalmente animados com o odio
+mais rancoroso dos desterrados, exacerbado pela differença da fé, e pela
+memoria de muitas injurias. A idéa que tomou vulto entre elles foi privar a
+Hespanha do commercio transatlantico, e por este meio acanhar-lhe os recursos,
+accrescentar os dos protestantes, e d'esta arte resgatar eventualmente as
+provincias do sul dos Paizes-Baixos do poder dos seus oppressores. Esta idéa,
+ao principio praticada vagamente entre poucos, tornou-se geral quando os
+hespanhoes prohibiram aos navios hollandezes o empregarem-se em qualquer sorte
+de trafico com a Hespanha. Esse trafico existira apesar das guerras, e havia
+subministrado aos hollandezes os principaes meios de as sustentarem.</p>
+
+<p>Vendo-se expulsos com tal violencia do quinhão que lhes cabia no commercio
+transatlantico, os hollandezes determinaram rehavel-o com juros. A geographia e
+hydrographia tornaram-se então objecto do estudo e applicação mais desvelada; e
+este periodo distinguiu-se pela apparição de homens como Ortelius, Mercator,
+Plancius, De Bry, Hulsius, Cluverius, etc., que somos agora obrigados a
+considerar como paes da moderna geographia. D'estes, o mais ardente em
+transformar os recursos da sciencia em arma contra os oppressores da sua
+patria, foi Peter Plancius, ecclesiastico calvinista, que abriu em Amsterdam
+uma escola nautica e geographica, com o expresso designio de ensinar os seus
+concidadãos a acharem o caminho da India, e outros mananciaes d'onde a Hespanha
+derivára a sua força. Não nos detemos em apreciar os seus esforços de achar
+pelo norte vereda para o oriente. O conhecimento do caminho que levava
+directamente áquella opulenta porção do mundo, accrescentou-se notavelmente com
+o apparecimento da grande obra de João Huyghen van Linschoten (Amst.
+1595-1596). Linschoten havia vivido quatorze annos com os portuguezes nas suas
+possessões do oriente, e colligira ali abundante cabedal d'informações. A
+companhia hollandeza da India oriental foi estabelecida em 1602; e em 1606,
+encontramos um navio da Hollanda fazendo o primeiro descobrimento authentico do
+grande territorio sul, a que deram o nome<span class="pn">{17}</span> de Nova
+Hollanda. No nosso tempo, aquella designação foi trocada por indicação de
+Matthew Flinders, a quem somos devedores dos conhecimentos da hydrographia
+d'aquelle paiz, pelo distincto e apropriado nome de Australia.</p>
+
+<p>Dos descobrimentos feitos pelos hollandezes nas costas da Australia, pouca
+noticia tiveram os nossos antecessores ainda ha cem annos, e os proprios
+hollandezes. O que então era conhecido, conserva-se na obra <em>Relations de
+divers Voyages Curieux</em> de Melchisedech Thevenot (Paris 1663-72, fol.); em
+o <em>Noord en Oost Tartarye</em> de Nicoláo Witsen, (Amst. 1692-1705, fol.);
+na de Valentyn <em>Oud en Nieuw Oost Indien</em> (Amst. 1724-26, fol.); e na
+<em>Inleidning tot de algemeen Geographie</em> de Nicolau Struyk, (Amst. 1740,
+4.º). Temos obtido, todavia, depois d'isso varios esclarecimentos, por via de um
+documento que chegou ás mãos de sir Joseph Banks, e foi publicado por Alexandre
+Dalrymple (áquelle tempo hydrographo do almirantado na companhia da India
+oriental), na sua collecção concernente a Papua. Este curioso e interessante
+documento é cópia das instrucções dadas ao commodoro Abel Jansz Tasman para a
+sua segunda viagem de descobrimentos. Aquelle distincto commandante já tinha
+descoberto, em 1642, não só a ilha agora do seu nome chamada Tasmania, mas
+tambem a Nova Zelandia, e, rodeando o lado oriental da Australia, mas sem o
+vêr, navegou na viagem de volta ao longo da praia-norte da Nova Guiné. Em
+janeiro, 1644, foi enviado a fazer segunda viagem; e acompanhou as instrucções
+assignadas pelo governador geral, Antonio Van Diemen e pelos membros do
+conselho, de um preambulo, no qual, segundo a ordem chronologica, se referem os
+precedentes descobrimentos dos hollandezes.</p>
+
+<p>Por esta narração, combinada com um passo de Saris, inserto em
+<em>Purchas</em>, vol. <small>I</small>, p. 385, sabemos que: «Em 18 de
+novembro, 1655, o hiate hollandez, Duyfhen (o Pombo), foi enviado de Bantam
+para examinar as ilhas da Nova Guiné, e navegou ao longo do que se pensava ser
+a parte occidental d'aquelle territorio, até 19<sup>3</sup>/<sub>4</sub> graus de latitude sul».
+Este extenso territorio achou-se pela maior parte deserto; mas em alguns
+logares era habitado por negros selvagens, bravios e crueis, que mataram alguns
+homens da tripulação, por cujo motivo não se póde saber coisa alguma ácerca da
+terra e das aguas, como se pretendia; e por falta de provisões, e de outros
+objectos necessarios, foram obrigados a deixar o descobrimento incompleto. A
+extremidade mais saliente da terra tem nos seus mappas o nome de cabo Keer
+Weer, ou «Torna-viagem» segundo observa Flinders. «A navegação de Fuyfhen<span
+class="pn">{18}</span> da Nova Guiné foi para o sul, ao longo das ilhas do lado
+occidental do estreito de Torres, para a parte da terra Austral um tanto ao
+poente e sul do cabo York. Porém pensava-se que todas estas terras eram
+continuadas, e que formavam a costa occidental da Nova Guiné.» Assim que, sem
+ter d'isso advertencia, o commandante da Duyfhen fez o primeiro descobrimento
+authentico de uma parte da grande Terra-Sul pelo mez de março de 1606; porque
+se mostra que tinha regressado a Banda no começo, ou antes de junho d'aquelle
+anno.</p>
+
+<p>A honra d'aquelle primeiro descobrimento authentico, como até aqui a
+historia o tem acceitado, estou agora no caso de a disputar. Ainda ha poucos
+dias descobri no Musêo Britannico um Mappamundi Ms. em o qual, na extremidade
+noroeste de um territorio, que ao presente poderei demonstrar sem nenhuma
+duvida ser a Australia, occorre a seguinte legenda: «Nuca antara foi descuberta
+o anno 1601 por mano (sic) el godinho de Evedia (sic) por mandado de (sic) Viço
+Rey Aives (sic) de Saldaha» (sic) o que quasi não precisava de ser traduzido.
+«Nuca Antara foi descoberta no anno de 1601, por Manuel Godinho de Eredia, por
+mandado do vice-rei Ayres de Saldanha».</p>
+
+<p>A desgraça é ser este mappa sómente uma cópia, porém creio que seria capaz
+de responder, fundado nas provas internas, que nenhuma duvida póde padecer a
+authenticidade da informação que n'elle se contém. O original foi feito pelo
+anno de 1620, depois do descobrimento da terra de Eendraght (Eendraght's Land),
+na costa occidental da Australia, pelos hollandezes em 1616, porém antes do
+descobrimento da costa sul por Pieter Nuyts em 1627. Longe do auctor suspeitar
+a existencia da costa sul, persevera no antigo erro, que prevalecera pelo
+decurso de todo o seculo <small>XVI</small>, representando a terra Austral como
+um vasto continente, cujas partes, as que tinham sido realmente descobertas, se
+prolongam para o norte até á parallela, em que jazem respectivamente áquelles
+descobrimentos. Assim, pois, temos n'este mappa a Australia, como foi já
+descripta, ao lado direito do mappa; e a ilha de Santa Cruz nas Novas Hebridas
+(New Hebrides), alli chamada Nova Jerusalem, descoberta por Quiros, ao lado
+esquerdo, porém ligadas ambas e formando parte de um grande continente
+sul.<span class="pn">{19}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;"><a href="images/mapa.png"><img
+alt="Fac simile de uma porção do mappa Ms. que se acha no Musêo Britanico."
+src="images/mapa.png"
+style="display: block; text-align: center; margin-left: auto; margin-right: auto"
+width="100%" border="0"></a>
+<br>
+<em>Fac simile de uma porção do mappa Ms. que se
+acha no Musêo Britannico.</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Agora pode objectar-se com respeito a este mappa, que não sendo senão cópia
+tirada no começo do presente ou ao fechar do seculo passado, a exposição que dá
+materia a este escripto pode ter sido inserta fraudulentamente. Porém para que
+pese uma tal consideração é preciso apresentar um motivo, e o mais razoavel é
+assignar a honra do primeiro descobrimento authentico a Portugal em vez de o
+attribuir á Hollanda. Para isto é necessario suppormos que o falsificador foi
+portuguez. Tenho a responder que, ao passo que tudo que está escripto<span
+class="pn">{20}</span> no mappa é em portuguez, a cópia foi tirada por pessoa
+que não só não era portugueza, mas demais a mais ignorava o portuguez. Por
+exemplo, a legenda em questão, breve como é, contém não menos de cinco erros
+crassos que provam ignorancia da lingua; assim pois as palavras «por Manuel»
+estão escriptas «por mano el» «Eredia» está escripto «Evedia» «do» está
+escripto «de» «Ayres» está escripto «Aives» «Saldanha» está escripto «Saldaha»
+sem o til para indicar a abbreviatura.</p>
+
+<p>Mais ainda: se ha de attribuir-se a supposta falsificação ao intento de
+reclamar ulteriormente para os portuguezes a honra do primitivo descobrimento,
+d'onde nasce que nunca esse intento foi posto em execução? Nunca, até hoje,
+aquelle facto se fez publico, e os mais interessados na antiga gloria da nação
+portugueza, ignoram o descobrimento que este mappa declara ter sido feito. Em
+quanto a não se ter tornado este objecto do dominio da historia, póde
+explicar-se pela comparativa pequena importancia que no tempo seria dada a um
+tal descobrimento, e tambem pelo facto de que, não estando já então os
+portuguezes no apogêo da sua prosperidade, não tomaram este objecto em maior
+conta, repetindo as expedições áquelle territorio, como pouco depois os
+hollandezes realmente começaram a fazer.</p>
+
+<p>Além d'isto, póde aventurar-se a conjectura de que, sendo o mappa uma cópia,
+a data do descobrimento pode ter sido transcripta menos cuidadosamente; assim,
+por exemplo, 1601 podia facilmente estar escripto no original 1610, e haver-se
+copiado erradamente. Por felicidade a exactidão da data póde ser provada sem
+hesitação. Declara-se distinctamente que a viagem foi feita de ordem do
+vice-rei Ayres de Saldanha, o periodo de cujo vice-reinado abrange sómente de
+1600 até 1604, e por este modo fecha-se a porta á possibilidade do erro
+imaginado, pois que termina antes do periodo dos primeiros descobrimentos dos
+hollandezes.</p>
+
+<p>Ainda mais; póde objectar-se, que é possivel que um territorio indicado tão
+vaga e incorrectamente não seja a Australia. A resposta é tão indisputavel como
+a que fixa a data do descobrimento. Immediatamente por baixo da legenda de que
+se trata, segue-se outra assim concebida: «Terra descuberta pelos Holandeses a
+que chamarão Enduacht (sic) au Cõcordia» (terra descoberta pelos hollandezes, a
+que elles chamaram Endracht ou Concordia). Eendraghtsland, como todos sabemos,
+foi o nome dado a um largo tracto da costa occidental da Australia, descoberto
+pelo navio hollandez o Eendraght, em 1616.</p>
+
+<p>Todavia, se a legenda de que fallamos não é cópia genuina de<span
+class="pn">{21}</span> um antigo mappa genuino, como conseguiu o moderno
+falsificador ter conhecimento do nome de um cosmographo não imaginario, que
+viveu em Goa n'um periodo que se ajusta com o estado dos descobrimentos
+geographicos representado no mappa, do qual porém nenhuma producção manuscripta
+ha sido impressa no tempo em que o supposto mappa ficticio foi traçado ou a
+legenda ficticiamente inserta?</p>
+
+<p>Penso que estes argumentos concluem, e estabelecem a legitimidade da cópia
+moderna do antigo mappa. Com respeito ao descobridor Manuel Godinho de Eredia
+(ou antes Heredia, como escrevem Barbosa Machado e Figanière), encontro a
+seguinte obra de que elle é auctor: <em>Historia do Martyrio de Luiz Monteiro
+Coutinho, que padeceu por ordem do Rey Achem Raiamancor no anno de 1588, e
+dedicada ao illustrissimo D. Aleixo de Menezes, arcebispo de Braga</em>; cuja
+dedicatoria é datada de Goa, em 11 de novembro de 1615; fol. Ms. com varias
+notas.</p>
+
+<p>Barbosa Machado chama-lhe distincto mathematico; e Figanière um cosmographo
+residente em Goa. Segue-se, como consequencia natural, que o mappa original foi
+executado por elle mesmo. A cópia veiu de Madrid, e foi comprada pelo Muséo
+Britannico, em 1848, ao sr. de Michelena y Roxas. Será materia de interesse
+descobrir algum dia a existencia do mappa original; mas, se aquella estava na
+livraria de Madrid, ou em alguma outra parte, deve ser assumpto de futuras
+investigações.</p>
+
+<p>N'um pequeno volume intitulado <em>Informação da Aurea Chersoneso ou
+Peninsula e das ilhas Auriferas, Carbunculas e Aromaticas, ordenada por Manuel
+Godinho de Eredia, cosmographo</em>, copiada de um antigo Ms. e dada á luz por
+Antonio Lourenço Caminha, em uma reimpressão das <em>Ordenações da India, do
+Senhor Rei D. Manuel</em>, Lisboa, Imprensa Regia, 1807, 8.º, encontra-se um
+logar que pode ser traduzido como segue:</p>
+
+<p>«<em>Ilha do Ouro.</em> Em quanto os pescadores de Lamakera, na ilha de
+Solor<a name="tex2html3" href="#foot245"><sup>[3]</sup></a> estavam occupados na
+pesca, levantou-se um tão grande temporal que se lhes tornou absolutamente
+impossivel o regressar á praia, e por tanto tiveram de ceder á força da
+tormenta, que foi tal, que por espaço de cinco dias os deteve fora da ilha do
+Ouro, a qual jaz no mar na costa fronteira, ou contra-costa de Timor, que
+propriamente se chama costa do Sul. Quando os pescadores abicaram á terra do
+Ouro, não tendo comido durante os dias da tormenta, saíram a procurar
+provisões.<span class="pn">{22}</span> Foram tão felizes e bem succedidos, que,
+em quanto inquiriam o terreno, buscando inhames e batatas, encontraram-se com
+tão grande quantidade d'ouro, que carregaram o bote a ponto de não poder levar
+mais. Depois tomando agua e os necessarios bastecimentos para voltarem á terra
+natal, padeceram outra borrasca, que os arremessou para a ilha do grande Ende<a
+name="tex2html4" href="#foot230"><sup>[4]</sup></a>; alli desembarcaram todo o
+ouro, o que excitou grande inveja entre os endes. Estes mesmos endes
+determinaram por tanto, como os pescadores lamacheres, repetir a viagem; e
+quando estavam promptos para desaferrar, endes e lamacheres, apoderou-se
+d'elles tão grande temor, que não se atreveram, por causa da sua ignorancia, a
+atravessar aquelle mar do Ouro.</p>
+
+<p>«Parece na verdade, ser acto providencial do Altissimo que Manuel Godinho de
+Eredia, o cosmographo, tivesse recebido com missão do conde almirante, vice-rei
+da India dentro e além do Ganges, para que o mesmo Eredia podesse ser meio de
+se accrescentarem novos patrimonios á corôa de Portugal, e de tornar-se rico o
+dito conde e a nação portugueza. E todos por tanto, e especialmente o dito
+senhor, houveram de reconhecer com gratidão este serviço assignalado, o qual
+obtendo completa realisação, merecerá ser considerado como um dos mais ditosos
+e afortunados acontecimentos do mundo para gloria de Portugal. Em todo o caso,
+pois, o descobridor deve, por muitas razões, ser assistido efficazmente na
+empreza do ouro. Primeiramente, por se haver de ter attenção á primeira posse
+do ouro pela corôa de Portugal. Em segundo, pela facilidade da descoberta do
+ouro. Em terceiro, por serem as minas do ouro as maiores do mundo. Em quarto,
+porque o descobridor é um instruido cosmographo. Em quinto, porque póde
+verificar ao mesmo tempo a descripção das ilhas do sul. Em sexto, por causa da
+nova christandade. Em setimo logar, porque o descobridor é um capitão
+experimentado, que se propõe prestar muito grandes serviços ao rei de Portugal,
+e ao felicissimo D. Francisco da Gama, conde da Vidigueira, almirante e
+vice-rei das Indias dentro e além do Ganges, e senhor do ouro, carbunculos e
+especiaria do mar do oriente que pertence a Portugal.»</p>
+
+<p>Desprovido da relação especial da viagem, mediante a qual foi feito o
+descobrimento, que dá principal assumpto a este papel, quasi que não podemos
+contar para ulterior confirmação da sua verdade, senão<span
+class="pn">{23}</span> com o que nos subministra o extracto que deixamos
+transcripto. Manuel Godinho de Eredia é alli designado como um douto
+cosmographo e habil capitão, que tinha recebido commissão especial para fazer a
+exploração das minas de ouro, e para verificar a descripção das ilhas do Sul. A
+propria ilha do Ouro é descripta «como situada na costa fronteira ou
+contra-costa de Timor, que propriamente se chama costa do Sul». É muito
+provavel, conforme a esta descripção, que seja a mesma Nuca Antara do nosso
+mappa Ms., que demora sobre a costa sul em frente de Timor. É tambem, além
+djsso, de notar que o periodo da commissão dada a Eredia se approxima na data,
+como prova grande numero de factos, do descobrimento que se lhe attribue da
+Australia. O vice-rei, Francisco da Gama, que deu aquella commissão, foi o
+immediato predecessor de Ayres de Saldanha. A duração do seu governo abrange
+sómente de 1597 a 1600, e o attribuido descobrimento foi feito em 1601, posto
+que não saibamos o mez. Difficilmente póde esperar-se mais cabal confirmação de
+um descobrimento, que não se acha mencionado senão n'um mappa provavelmente
+unico.</p>
+
+<p>Apresentando esta carta á sociedade dos Antiquarios, que veneram o passado,
+não a fecharei sem uma palavra de reverencia e acatamento para com as antigas
+glorias de uma nação n'outros tempos poderosa. Os verdadeiros heroes do mundo
+são os iniciadores dos grandes feitos, os gastadores dos grandes descobridores.
+Taes foram os portuguezes nos dias em que o mundo quasi que não estava senão
+meio e mal conhecido. A Portugal devemos não só um Gama, porém, não menos, um
+Colombo, sem o qual o magestoso imperio d'aquella em cujo dominio nunca se
+esconde o sol, não fôra acaso senão um sonho, em vez de uma realidade. A
+Inglaterra, cujos atrevidos marinheiros têem feito caminho por todos os mares,
+conhece quanta justiça deve ser feita á intrepidez dos seus nobres
+predecessores, que, em frageis caravellas, e atravez dos incommensuraveis
+páramos do oceano, poderam abrir estrada, não sómente á gloria da sua propria
+nação, mas tambem á civilisação e prosperidade do mundo inteiro.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:right; margin-right: 12em;">Fico sendo,</p>
+
+
+<p style="text-align:right; margin-right: 5em;">meu presado sir Henry,</p>
+
+
+<p style="text-align:right; margin-right: 6em;">vosso de veras</p>
+
+
+<p style="text-align:right; margin-right: 2em;">R. H. MAJOR.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>A sir Henry Ellis, K. H. etc., etc., etc.</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot243" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> Esta razão
+irrespondivel foi-me suggerida pelo fallecido distincto dr. Brown, que não só,
+como Humboldt o descreveu, era <em>Botanicorum facile princeps</em>, porém de
+si proprio tinha conhecimento da localidade de que fallava.</p>
+
+<p><a name="foot244" href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a> Com respeito á noticia
+d'esta viagem vê-de a carta de Quiros a D. Antonio de Morga, cap.
+<small>VI</small>, pag. 29, na obra <em>De Morga's Sucesos en las islas
+Philippinas</em>, Mexico 1609, 4.º; e obra de Figueiroa, <em>Hechos de D.
+Garcia Hurtado de Mendoza</em>, quarto marqués de Cañete, Madrid, 1613, 4.º,
+liv. 6, p. 238.</p>
+
+<p><a name="foot245" href="#tex2html3"><sup>[3]</sup></a> Os habitantes da costa
+de Solor são designados especialmente como pescadores por Crawfurd no seu
+<em>Dictionary of the Indian Islands</em>.</p>
+
+<p><a name="foot230" href="#tex2html4"><sup>[4]</sup></a> Esta é a ilha das
+Flores. Em uma «Lista das principaes minas de ouro, obtida por curiosidade de
+Manuel Godinho de Heredia, cosmographo, residente em Malaca por espaço de mais
+de vinte annos» publicada tambem com as «Ordenações da India», Lisboa, 1807,
+conta-se a mesma historia, porém a ilha Ende é chamada ilha do Conde.</p>
+</div>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of O descobrimento da Australia pelos
+portuguezes em 1601, by Richard Henry Major
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O DESCOBRIMENTO DA AUSTRALIA ***
+
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+
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+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
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+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
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