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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: As Noites do Asceta + +Author: Alberto Pimentel + +Release Date: July 7, 2009 [EBook #29347] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS NOITES DO ASCETA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +</pre> + + +<div style="text-align:center; border: double 4px #000; padding: 1em;"> +<p>OPUSCULOS ROMANTICOS</p> + +<p>II</p> + +<hr style="border: 0; border-bottom: solid 2px #000; width: 80%;"> + +<p style="font-size: 2.5em;">AS NOITES DO ASCETA</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">POR</p> + +<p>ALBERTO PIMENTEL</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<hr style="border: 0; border-bottom: solid 2px #000; width: 30%;"> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="font-size: 0.8em;">LISBOA<br> +Empreza Editora, Carvalho & C.ª<br> +<small>RUA LARGA DE S. ROQUE, 100, 1.º</small><br> +1876</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center;"> +<p style="font-size: 2.5em;">AS NOITES DO ASCETA</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">POR</p> + +<p><em>Alberto Pimentel</em></p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<hr style="border: 0; border-bottom: solid 2px #000; width: 20%;"> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="font-size: 0.8em;">LISBOA<br> +Empreza Editora, Carvalho & C.ª<br> +<small>RUA LARGA DE S. ROQUE, 100, 1.º</small><br> +1876</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;font-size: 0.8em;">Typ. de J. C. Almeida, Rua da Vinha, +65—Lisboa.</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="text-align:center;"> +<p style="font-size: 1.5em;"><em>a</em></p> + +<p style="font-size: 1.5em;"><em>Jacintho Maria Rodrigues</em></p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="margin-left: 30%; font-size: 0.8em;"> + +<blockquote> + Oh, que viesse o que não crê, comigo,<br> + Á vecejante Arrabida, de noite,<br> + E se assentasse aqui sobre estas fragas,<br> + Escutando o sussurro incerto e triste<br> + Das movediças ramas, que povoa<br> + De saudade e amor nocturna brisa;<br> + Que visse a lua, o espaço oppresso de astros,<br> + E ouvisse o mar soando:—Elle chorára<br> + Qual eu chorei......................... </blockquote> + +<blockquote style="margin-left: 20%;"> +Alexandre Herculano—<em>A Harpa do Crente.</em> + + <p> </p> +</blockquote> + +<blockquote style="text-align: justify;"> + «Ajuntava a esta abstinencia (Frei Agostinho da Cruz) as muitas vigilias, + ásperas disciplinas, em que se exercitava, e outras mortificações, que elle + depositou no archivo do silencio, e só nos deixou as inferencias, de que eram + muito esquisitas.» </blockquote> + +<blockquote style="text-align: justify; margin-left: 20%;"> + Frei Antonio da Piedade—<em>Espelho de penitentes e chronica da Provincia + de Santa Maria da Arrabida.</em> Tomo I, part. I, liv. V. </blockquote> +</div> + +<div id="corpo"> +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p><span class="pn">{7}</span> </p> + +<p>Eram aquelles os tempos do Amor.</p> + +<p>Por toda a parte o coração era a mais fecunda, a mais vivida, a mais +completa manifestação da Vida. A humanidade entrára no idyllico periodo da sua +primavera. As flores do sentimento brotavam candidas e perfumadas sob os pés da +Mulher deificada pela adoração. Deus estava no ceu e a Mulher na terra. A mesma +religião absorvia e confundia estas duas grandes individualidades mysteriosas, +porque Deus fôra gerado no ventre da Mulher virgem. Pois que o amor divino se +librava puro, austero, immaculado, o amor terreno procurava igualal-o pela +candura das suas intenções. O seculo XIV, um dos mais famosos seculos do grande +cyclo amoroso, vê um rei de Inglaterra curvar-se para levantar a fina liga de +seda da condessa de Salisbury, e ouve a legendaria imprecação do rei aos +maliciosos cortezãos cujo riso envenenava esse extremo de galanteria<span +class="pn">{8}</span> palaciana. E é d'essa pequena fita, acolchetada por +esmaltadas fivelas de oiro, que o rei namorado quer fazer o mais ambicionado, o +mais nobre, o mais difficil galardão cavalheiresco:—a jarreteira azul. O mesmo +seculo vê um rei portuguez realisar á beira do Mondego o mais ardente e +lacrimoso idyllio da tradição amorosa nacional, e, para diluir as sombras com +que os validos de Affonso IV quizeram ennegrecer o que n'esse grande amor havia +de puresa, mandar rasgar-lhes o peito e lavar a crudelissima affronta no sangue +d'elles. A loira Ignez apparece depois de morta menos princesa que martyr. Os +seus funeraes são uma apotheose; a memoria que de si deixa completa a +deificação. D. Pedro quer que desde Coimbra a Alcobaça passe o athaude por +entre duas filas de cirios, duas fitas d'estrellas—como diz Schœffer—; no +tumulo de Ignez avultam entre os phantasiosos ornatos as azas que denunciam os +cherubins. O Amor faz de Ignez um anjo, e é ainda pelo anjo, que voou, que a +pequena fonte da margem do Mondego chora lagrimas de casta saudade.</p> + +<p>Petrarcha não pôde esquecer n'este poetico seculo do Amor. Elle representa o +mais puro, o mais santo, o mais ideial amor que é dado conceber-se: o amor sem +esperança. Elle renega as tendencias voluptuosas da Roma classica, em que foi +educado, e lança-se na solidão de Valchiusa, sem amaldiçoar Laura, quando o +amor lhe dilacera o peito, como o açor póde dilacerar a pomba que empolgou.</p> + +<p>Illumina-se phantasiosamente o seculo decimo-quinto com o renascimento das +artes e das letras.<span class="pn">{9}</span> É o seculo de Lourenço de +Medicis—o Magnifico—, o grande seculo em que tudo traduz o Amor: o marmore, a +tinta, a linha. Leonardo de Vinci lança na tela a encantadora figura da +Gioconda, a esposa adorada; Raphael dá á Virgem a formosura da florista de +Florença, a <em>fioraia</em>, divinisando a Mulher. E ainda a Religião a +companheira dilecta do Amor. São os papas que protegem as artes. Roma, a +capital do mundo catholico, tambem o é do mundo artistico. São religiosos os +assumptos de todos os quadros, que se pedem do Meio-dia e do Occidente. Sómente +a Renascença torna a alma menos pura e o corpo mais formoso. Desapparecem das +telas as pallidas figuras asceticas, e relevam sobre o peito feminino as curvas +voluptuosas das mulheres pagãs. Magdalena transforma-se em Venus. Ainda um +prodigio do Amor! É que o artista amante quer perpetuar na tela a mulher amada. +A madona deixa vêr a <em>fioraia</em>.</p> + +<p>O Bernardim das <em>Saudades</em> é a ponte amorosa lançada entre o seculo +XV e o seculo XVI. Vós, cavalleiros gentis, para quem o Amor é uma tradição +gloriosa, atravessai d'um seculo para outro por sobre o cadaver d'este pobre +trovador, que deixou partido o bandolim sobre os tapetes da côrte.</p> + +<p>O seculo XVI é o seculo de Camões. Basta dizer isto. Na alma do poeta pulsam +as tendencias do seculo. O Amor anda na epopea a par da Gloria. As luctas do +coração dão maior relevo aos poetas d'essa idade. A gruta de Macau ouve os +suspiros de Camões; Diogo Bernardes chora á beira do Lima a traição de Sylvia; +Agostinho da Cruz foge do paço<span class="pn">{10}</span> do infante D. Duarte +para o eremiterio da serra da Arrabida.</p> + +<p>Mas em Portugal as sinistras fogueiras dos autos de fé, mandadas accender +por D. João III, haviam empallidecido nas telas as figuras pagãs da Renascença. +Então, se o Amor pintasse na côrte portugueza, usaria as sombrias tintas da +eschola de Ombria. Dir-se-hia que Fra Angelico resuscitára para succeder a +Raphael.</p> + +<p>Frei Agostinho da Cruz é o Fra Angelico da poesia portugueza. Um ia cobrindo +de melancolicos <em>frescos</em> os muros do seu convento de Fiesole; o outro, +entalhava nas arvores da Arrabida os seus versos religiosamente tristes e +amorosos. Em ambos um coração de artista amortalhado no habito. Ambos +abençoados por Deus na hora do passamento.</p> + +<p>Assim, porém, como por sobre o cadaver de Bernardim, involto na sua capa de +trovador, atravessa do seculo XV para o seculo XVI a tradição amorosa, assim +tambem o cadaver de Frei Agostinho da Cruz, involto no seu habito de +franciscano, é a ponte lançada entre o seculo XVI e o seculo XVII, entre as +caladas grutas da Arrabida, onde Agostinho poetava, e a cella do convento da +Conceição de Beja, onde Marianna Alcoforado recebia o sr. de Chamilly; entre o +paço do infante D. Duarte, onde os monges arrabidos iam praticar sobre a +conversão de Frei Jacome Peregrino, devida a uma simples visita que fizera á +santa montanha barbarica, e a côrte de Luiz XIV, onde o Amor não havia perdido +ainda a sua velha influencia de tres seculos, mas decotava<span +class="pn">{11}</span> as suas impuresas com a mesma thesoira doirada com que a +La Valliére, a Montespan, a Fontanges e a Maintenon decotavam os seus vestidos. +</p> + +<p>Iam a desfolhar as ultimas florescencias da Primavera do coração, crestadas +pelo bafo ardente da sensualidade palaciana. Começavam a amadurecer os pomos do +Outomno.</p> + +<p>Á flor, na sociedade como na natureza, succedia o fructo. Após os seculos da +Guerra, das correrias, das conquistas, das lanças e das cruzadas, tinham vindo +os seculos do Amor, das ambições de gloria, das grandes proesas namoradas, dos +altos feitos poeticos. Era chegado o momento de soar no eterno relogio das +gerações a hora dos indeterminados seculos do trabalho e do pensamento, da +força moral e da potencia intellectual, das conquistas pelo estudo e pela +perseverança, do cyclo vencedor e forte, não da duresa do ferro, de que se +fabricavam as velhas armaduras, mas da duresa do silex, de que brotam +centelhas.</p> + +<p>Sim, meu solitario poeta da montanha da Arrabida, humillimo eremita d'esses +fraguedos bemditos, o teu vulto melancolico e pensativo apparece ainda de pé, +olhando para o mar sereno e curvo, ao limiar da tua ermida, como encostado á +porta d'um templosinho invisivel onde se rendesse o derradeiro culto ao doce +platonismo de Petrarcha, onde ao sopé da Cruz houvesse duas mulheres, ambas +santas, ambas moças, ambas formosas, chorando uma de saudade, outra de +arrependimento, mas ambas por Amor,—Maria e Magdalena. Sim, eu ahi te vejo a +meditar<span class="pn">{12}</span> no que foi a tua breve mocidade, ó +castissimo asceta, em quanto os passarinhos da serra te vinham poisar sobre os +hombros descarnados, como diz a legenda, e as feras da matta vinham procurar-te +á mão, como aos antigos padres do deserto, o teu duro e escasso alimento de +solitario.</p> + +<p>Sim, eu entrevejo-te nas tuas longas noites silenciosas, na bem-aventurada +velhice dos teus sessenta e cinco annos, nos primeiros tempos da tua religiosa +solidão, antes que o duque de Aveiro te mandasse edificar a ermidinha que ainda +hoje se conserva, escondido ao fundo da tua cabana, por ti mesmo entretecida de +ramos, encostado ao breviario, e ao pé dos seccos feixes de matto, que te +serviam de cama... Por unicas alfaias em toda a choça, as disciplinas e os +cilicios. Fóra, a noite, a noite tepida e luminosa, esmaltada de estrellas +dormentes; e em baixo, ao fundo, o grande mar, a ampla bahia, curva como um +alfange, narcotisada pelos effluvios do luar.</p> + +<p>E tu, mudo e recolhido, deixando invadir-te a alma a placida doçura das +estrellas e das aguas, escutando—porque não hei de dizel-o?—os eloquentes +silencios da noite, que desciam á profundesa harmoniosa do teu peito, e +mansamente o atravessavam, e de lá voltavam a derramar-se na amplidão luminosa +do firmamento, já transformados n'estas e outras palavras puras e sonoras como +o oiro:</p> + +<blockquote> + Alta Serra deserta, d'onde vejo<br> + As aguas do Oceano d'uma banda,<br> + E d'outra, já salgadas, as do Tejo:<br> + <em>Aquella saudade</em>, que me manda<span class="pn">{13}</span><br> + Lagrimas derramar em toda a parte,<br> + Que fará n'esta saudosa, e branda?<br> + D'aqui mais saudoso o sol se parte;<br> + D'aqui muito mais claro, mais dourado,<br> + Pelos montes, nascendo se reparte.<br> + Aqui sobe-lo mar dependurado<br> + Um penedo sobre outro me ameaça<br> + Das importunas ondas solapado.<br> + Duvido poder ser que se desfaça<br> + Com agua clara, e branda a pedra dura<br> + Com quem assi se beija, assi se abraça.<br> + Mas ouço queixar dentro a lapa escura,<br> + Roidas as entranhas apparecem<br> + D'aquella rouca voz, que lá murmura.<br> + Eis por cima da rocha aspera descem<br> + Os troncos meio sêccos encurvados,<br> + Eis sobem os que n'elles enverdecem.<br> + Os olhos meus d'ali dependurados;<br> + Pergunto ó mar, ás plantas, ós penedos<br> + Como, quando, por quem fôram creados?<br> + Respondem-me em segredo mil segredos,<br> + Cujas primeiras letras vou cortando<br> + Nos pés d'outros mais verdes arvoredos. </blockquote> + +<p>Esta musica ineffavel, que subia para Deus em ondulações maviosas, traziam +da tua alma os silencios da noite: tal as abelhas do Hymetto, atravessando a +florida espessura do açafrão cheiroso, traziam para o colmeal o alvo mel dos +banquetes atticos. </p> + +<p>Outras vezes rugia sobre o mar a tormenta, rasgavam-se de instante a +instante em listrões de fogo os fluctuantes crepes do ceu, o ribombar do trovão +vinha rolando montanha abaixo em echos entrecortados, o gigante de pedra, em +cujo dorso se entremostrou radiosa de nimbos mysteriosos, em remotos<span +class="pn">{14}</span> tempos, a imagem de Nossa Senhora, ao mercador +Haildebrant, cuja embarcação, contrastada dos ventos, dobrára o cabo de +Espichel,—o gigante de pedra, minado pelo oceano, cingia contra o seu peito +robusto a Cruz da Redempção, e com ella cobria as caladas ermidas dos +solitarios arrabidos a essa hora prostrados em meditação piedosa...</p> + +<p>E tu eras entre todos o que melhor comprehendias a linguagem vaga da noite, +quer a houvesses de interpretar no poema das estrellas, quer na epopea da +procella, porque no teu claro espirito havia aquella fina sensibilidade que tem +ouvidos para os mais subtis rumores, olhos para as mais fugazes visões, e voz +para responder ás mais incoerciveis revelações...</p> + +<p>A noite! a noite!</p> + +<p>De noite avoejam errantes pela atmosphera pensamentos vagos e alados, que +umas pessoas sabem traduzir, outras presentem sem comprehender. Tem a noite +seus insectos e pensamentos peculiares, e uns e outros passam no ar com +fremitos mysteriosos. Só o naturalista conhece os primeiros, atravez da +negrura; só o poeta conhece os segundos. E quem não é uma nem outra coisa, +philosopho ou poeta, fica amedrontado do rumor que passa adejando, e phantasia +espiritos maleficos e creações sobrenaturaes no que são apenas manifestações +subtis da grande vitalidade nocturna. E d'aqui nasce a visionaria cobardia que +pelas horas do silencio e da quietação saltea o animo do commum das pessoas. E +como tudo o que ha de mais incerto, escuro e insondavel<span +class="pn">{15}</span> é a morte, esses ligeiros fremitos que passam +remoinhando arrastam aereamente o grande, o triste, o fatal pensamento da +morte. Quantas pessoas não ha ahi que vivem despercebidas da mortalidade do +corpo os mais trabalhosos, os mais duros, os mais soffridos dias da sua vida? +Expostas a perigos temerosos, durante as horas de sol, ellas os atravessam +fortalecidas pela esperança de que os hão de vencer finalmente. Oh! mas se de +noite acontece lembrar-lhes a materia que são mortaes, e que é incerto o +momento da anniquilação corporal, ahi acodem de tropel os estremecimentos +nervosos, os sustos imaginarios, os pavores phantasticos. A noite +affigura-se-lhes uma sepultura enorme, cheia das concavas sombras das grandes +cavidades, coberta pela bronca abobada das cryptas tenebrosas, e sentem-se +despenhar, saccudidas por mão invisivel e herculea, ao vacuo d'essa profunda +negrura, em cujo fundo está um mysterio terrivel e insondavel —a eternidade! +</p> + +<p>Cuidam ouvir o baque do proprio corpo, e depois um como estrondoso ranger de +enormes ferrolhos em anneis de ferro, como se se estivessem cerrando para todo +o sempre as portas que separam o mundo das visualidades terrenas do mundo da +eterna realidade.</p> + +<p>Portanto, que admiraveis são as almas que, á similhança da tua, ó pallido +eremita! se concentram serenas e firmes deante dos horrores da noite, +sondando-a, contemplando-a, lendo-a, adivinhando-a no que ella tem de mais +fugitivo e aereo, por mais ermo<span class="pn">{16}</span> que seja o logar, +por mais adeantada que seja a hora, por mais profunda que seja a meditação!</p> + +<p>Admirado sejas tu, que estendias os braços ciliciados para abarcares a nuvem +collossal da escuridão e do silencio contra o seio desoffegado e placido, como +se lhe quizesses dizer, a essa grande massa feita de trevas e de mysterios: +«Tu, que és a eternidade, a morte, o repouso, ouve bem as compassadas +palpitações do meu coração tranquillo. Eu estou resignado, e até ancioso de que +a tua aza negra me arrebate.»</p> + +<p>Isto dizia por ventura elle, na vasta solidão alpestre da Arrabida, na hora +em que, pelas mais populosas cidades, os outros homens, apesar de reunidos como +em exercitos, para melhor baterem os phantasmas imaginarios da noite, +levantavam barreiras de musica e de luz, dentro de suas casas, e reuniam em +torno de si as seducções femininas, que possuem o segredo de aligeirar as +horas, para fazerem rosto á invasão da treva e do silencio, á onda escura que +se derrama pelo ar, pelas ruas, pelas praças, pela vastidão da terra e das +aguas.</p> + +<p>Uma coisa ha grandiosa, imponente, por vezes terrivel e invencivel como a +noite: é o Mar.</p> + +<p>Tem querido o homem explicar a noite e o mar, descer ás profundesas d'uma e +d'outro, estudar as radiações nocturnas do firmamento e as brancas e rosadas +ramificações dos jardins submarinos; desenvencilhar os rastros de luz que se +cruzam sobre a saphira celeste e as enormes filigranas de animalculos e +plantasinhas que se enredam no fundo das<span class="pn">{17}</span> aguas +marinhas; explicar a vida que palpita sob a nuvem e a vida que palpita sob a +onda.</p> + +<p>Oh! mas que de mysterios ainda! que de problemas a resolver! que de factos a +demonstrar!</p> + +<p>Por isso a noite e o mar serão ainda por muito tempo, e talvez eternamente o +sejam, companheiros inseparaveis de superstições tradicionaes e horrores +irresistiveis.</p> + +<p>Mas tu, ó poeta do ermo, escondido na tua montanha, que sobrancea o mar, tu +contemplavas, de dia ou de noite, com religiosa firmesa, esse magestoso visinho +cheio de mysterios e de vozes, de força e de humildade, de sanha e de candura. +</p> + +<p>Para ti a fragil embarcação que navegava dobrando o famoso cabo, onde os +geographos antigos quizeram assignalar o <em>fim da terra</em>, não era a +ousadia humana que passava, orgulhosa de domar as aguas, vaidosa das suas +flammulas e das suas velas desfraldadas: a ti affigurava-se-te um enorme altar +fluctuante, no qual se erguiam os mastros cortados pelas vergas em forma de +cruz; e o cordame fazia-te lembrar o labyrintho phantasioso de estreitas +cortinas e sanefas pendentes d'um templo que fosse vogando mar em fóra em +louvor de Deus.</p> + +<p>E mais fundo se te arreigava no coração esta crença quando a maruja, +passando em frente da santa montanha, saudava em brados festivos a <em>Estrella +do mar</em>, não menos resplendente que no tempo de Haildebrant, a <em>Estrella +do mar</em> engastada no seu vasto oratorio rustico, que de nordeste a sudueste +corre na extensão de cinco leguas, dominando pelo<span class="pn">{18}</span> +norte as aguas do Tejo e esse formoso archipelago de pequenas aldeas que se +chama Azeitão; sobranceando pelo sul a larga corrente do Sado, e as ruinas da +velha Troya; avistando no horisonte que se rasga pelo sudueste a orla alvacenta +do Alemtejo e dos Algarves.</p> + +<p>Onde houve na terra mais dilatado, magestoso e perduravel altar! Assombroso +era o templo de Diana em Epheso, e um dia os incendios atiçados por Erostrato +devoraram-n'o. Mas pelas tuas columnas e os teus artesãos de pedra, ó santa +montanha da Arrabida, pódem collear á vontade as chammas dos fachos +iconoclastas, que os não hão de crestar nem abalar na sua immobilidade eterna. +</p> + +<p>Estas e outras grandesas do formoso retiro monastico referiam os monges +arrabidos em Lisboa nas salas piedosas da infanta D. Izabel fundadora do +convento de Santa Catharina de Ribamar, e viuva do infante D. Duarte, irmão de +D. João III. Quando este monarcha houve por bem dar casa a seu sobrinho D. +Duarte, orphão d'aquelle infante de egual nome, o pae de Agostinho Pimenta +conseguiu acommodar o filho no paço do imberbe neto de D. Manuel, onde Pedro +d'Andrade Caminha tinha os cargos de camareiro e guarda-roupa.</p> + +<p>Era Agostinho Pimenta um mocinho de idade igual á do infante a quem vinha +servir, saudoso da amenidade bucolica do seu Lima, onde elle, em companhia de +seu irmão Diogo Bernardes, versejára voltas e glosas em honra da naturesa.</p> + +<p>Foram-lhe lançando n'alma as saudosas paizagens<span class="pn">{19}</span> +do Minho, os germens d'umas tristesas suaves, que algum dia chegam a florecer +dolorosamente, e que ás vezes se desentranham em fructos de lagrimas, quando a +vida consegue demorar-se até á sazão do outomno.</p> + +<p>Nestas disposições de animo contemplativo entrou Agostinho Pimenta nas salas +duma princesa viuva, e dum infante cujo caracter melancholico todos os dias +mais se ia domando ao geito do eremitico apartamento que os religiosos da +Arrabida, certos frequentadores da casa, encareciam á mãe e ao filho, +principalmente Frei Jacome Peregrino, cuja conversão, como de leve tocamos, +dependeu d'uma simples visita á montanha.</p> + +<p>Intencionalmente deixamos em silencio os nomes das duas infantas filhas de +D. Izabel de Bragança, D. Maria e D. Catharina, duas timidas meninas que viviam +constrangidas nos soporiferos habitos do paço, e que de nenhum modo podem dar +relevo ao grupo da familia do infante D. Duarte.</p> + +<p>A primeira d'estas meninas veio a casar para Flandres com o principe +Alexandre Farneze; a segunda desposou seu primo co-irmão D. João, sexto duque +de Bragança, e figura como pretendente á coroa em 1580, epocha em que o seu +nome entra por assim dizer na historia de Portugal.</p> + +<p>Entre os fidalgos que concorriam habitualmente ás salas da infanta D. +Izabel, era dos mais assiduos o terceiro duque de Aveiro, D. Alvaro de +Lencastre, mui celebrado nos livros antigos pela sua particular affeição ao +mosteiro da Arrabida.<span class="pn">{20}</span></p> + +<p>Este fidalgo presava grandemente os talentos e qualidades do moço Agostinho +Pimenta, e não raro descaiam suas conversações nos assumptos religiosos, que +fluctuavam ao de cima de todas as preoccupações n'aquella nobre casa.</p> + +<p>Agostinho inflammava-se então nos arrebatamentos proprios da sua idade, e +umas vezes ardentemente encarecia na presença dos fidalgos o espirito +aventuroso dos mancebos portuguezes que, á similhança do poeta Luiz de Camões, +a esse tempo em Macau, iam militar no Oriente; outras, arrastado pela suave e +convincente palavra de Frei Jacome e demais arrabidos, parecia deixar entrever +vislumbres de propensão á vida ascetica do eremiterio.</p> + +<p>Acontecia sempre que o camareiro do infante D. Duarte, Pedro de Andrade +Caminha, affrontado com os gabos do moço Pimenta ao gentil ardimento de Luiz de +Camões, a quem profundamente odiava, sahia a ripostar-lhe com deslavados +epigrammas ao solitario da gruta de Macau, cujo officio era, no seu entender, +acutilar com a pena as authoridades de Goa, que o deportaram para a China, como +em Lisboa havia acutilado com a espada o pescoço de Gonçalo Borges, criado do +rei, o que lhe valeu ter que ir servir na India por grande clemencia real.</p> + +<p>Agostinho Pimenta tinha as opiniões contradictorias de quem ama pela +primeira vez, e receia as consequencias do primeiro amor, proclamando agora a +superioridade do coração humano sobre as pequenas contrariedades amorosas da +mocidade, e logo a poetica abnegação de quem sacrifica a vida inteira<span +class="pn">{21}</span> ao serviço de Deus, depois de mal succedido nos amores +terrenos.</p> + +<p>Batido no campo das tendencias aventurosas umas vezes por Pedro Caminha, +outras vezes pelos capuchos da Arrabida, Agostinho Pimenta via-se encurralado +no reducto do fanatismo religioso, e esta idéa, lentamente insinuada, acabou +por tomar no seu animo a consistencia d'uma estalactite formada gotta a gota no +tecto d'uma gruta.</p> + +<p>Frequentes vezes relembrava a infanta D. Izabel a brevidade da felicidade +terrena, como para resignação sua e dos religiosos que a escutavam. Recordava +com tranquilla tristeza a magnificencia dos seus desposorios com o filho de D. +Manuel, celebrados em Villa Viçosa em abril de 1537. Não exaggerava historiando +com piedoso desdem o apparato d'essa festa nupcial, que a dedicada amisade de +seu irmão D. Theodosio de Bragança quizera tornar esplendida. Uma phrase de +Damião de Goes corrobora as maguadas recordações da infanta: «O aparato d'estas +festas foi tamanho—diz o chronista manuelino—que com assaz trabalho o poderá +um Rei fazer com mór magnificencia.» D. João III, se não ordenára as festas, +assistiu a ellas, com os infantes seus irmãos, e a flôr da sua côrte. Fôra elle +que justára o casamento com D. Theodosio. Cabia-lhe, pois, a iniciativa d'esse +enlace que parecia prometter uma longa e venturosa duração, e que tão breve +foi. El-rei, que se achava no paço d'Evora a esse tempo, fôra esperado pelo +duque D. Theodosio a meia legua de Villa Viçosa. Seguiu-se o jantar nupcial, no +paço do duque,<span class="pn">{22}</span> em que D. Izabel teve logar ao lado +do rei, e o duque logo abaixo dos infantes. Sobre todas estas recordações do seu +noivado passava nos labios da infanta viuva um sorriso triste e resignado. Com +fidalga saudade, digamos assim, encarecia a gentil presença, bondade e piedade +do infante seu marido. Então acudia algum religioso de S. Domingos ou da +Arrabida a elogiar os dotes intellectuaes de D. Duarte, que praticava em latim +com o seu mestre André de Rezende, e recitava ao revez, de memoria, qualquer +capitulo de Cicero; e ditava quatro cartas ao mesmo tempo, e compunha musica e +poesia, e cantava, e jogava as armas, e era caçador eximio. Quando vinha a lume +esta prenda da caça, ainda a infanta se lastimava dos incommodos que, mesmo +depois de casado, se dava o infante quando sahia a montear, e era certa a +millessima edição do caso de lhe haver um seu privado exposto os perigos dos +excessos venatorios, e o infante respondido que bom era educarem-se os homens +em asperos exercicios para melhor poderem soffrer os trabalhos da guerra. Esta +longa resenha das virtudes e talentos de D. Duarte seguia quasi sempre a ordem +chronologica da sua biographia, e portanto força era relembrar a sua morte, por +elle predicta, e o cilicio com que mysteriosamente trazia cingidas as carnes, e +a pomba que ao passar a sua tumba, caminho de Belém, onde jaz, pelo hospital de +Todos os Santos, voara mansamente para o ceu.</p> + +<p>Fôra n'esta atmosphera fradesca e milagreira, onde continuamente se +apregoava o ephemero e fragil<span class="pn">{23}</span> das felicidades +terrenas, ainda mesmo das mais santamente conquistadas pelo amor e pela +virtude, que o moço Agostinho Pimenta respirou tristemente ao entrar na +sociedade para onde o mandaram desterrado do seu bucolico Minho.</p> + +<p>Mas eu já vi uma vez, navegando Douro acima, empinar-se sobre a margem +esquerda o mais arido, o mais calcinado, o mais duro fraguedo que póde +imaginar-se, e pendurado d'uma rocha, e como que nascido do seio d'ella, o mais +verde, o mais fresco, o mais curvo festão de verdura que se poderá descrever. +Era nos fins de julho, pelos grandes calores. Havia uma hora que navegavamos +por entre alcantis que se recortavam com os vagos contornos de gigantes de +pedra. Nas frontes tostadas dos marinheiros porejava o copioso suor do +trabalho. A corrente era pequena, e o barco subia vagarosamente a impulsos de +vara. Dariamos um thesoiro, se o tivessemos, por uma sombra de oasis. Mas o +deserto, que era de pedra, parecia infindo. Apertava comnosco o vago receio que +nos dá a solidão nas longas horas da charneca alemtejana, aggravado pelo sol +canicular que sobre nós cahia a prumo. De repente, ao dobrar uma volta do rio, +surge como por encantamento, desconhecido dos marinheiros, o largo e alto +festão, que promettia sombra deliciosa para o descanço de meia hora. Foi +assombrosa a nossa alegria. Como e quando nascera ali aquelle braço de verdura +que parecia estender-se amigavelmente ao viajante para lhe offerecer abrigo? +Ninguem o sabia; não o poderam dizer os marinheiros.<span +class="pn">{24}</span></p> + +<p>Assim tambem ninguem podéra dizer como desabrochara o coração de Agostinho +Pimenta no sombrio paço que fechára as portas ao Amor quando o cadaver do +infante D. Duarte sahira para Belem.</p> + +<p>Entre as damas que serviam a infanta D. Izabel uma havia, D. Branca de +Noronha, cuja formosura floria nas graças senhoris dos dezesete annos. Tambem +ella fazia lembrar o oasis no deserto. Esta gentil menina contrastava +singularmente com as melancholicas tendencias da familia e commensaes da +infanta viuva. D. Izabel era inalteravelmente a piedosa fundadora do convento +de Ribamar; seu filho, o infante D. Duarte, havia recebido para todo o sempre a +influencia d'uma educação intolerantemente religiosa; Pedro d'Andrade Caminha +conciliava como podia as suas malquerenças como homem com o seu fanatismo +religioso como camareiro do infante; os franciscanos da Arrabida traziam para +as salas do paço a melancholia inherente á solidão do eremiterio. Delimitando +os extremos d'esta sociedade espessamente taciturna e aborrida,—duas creanças +quasi de egual idade, posto que de genios differentes,—Branca de Noronha e +Agostinho Pimenta.</p> + +<p>Quem dera ás duas irmãs de D. Duarte o poderem espanejar-se, ainda que +tambem a medo, como a lepida aiasinha Branca!</p> + +<p>Ella era a inquieta encarnação da alegria, a onda limpida que, sem se +amedrontar com o aspecto sinistro das ribas solitarias, as cobre de instante a +instante com as suas abundantes rendas de espuma, e as suas pequenas perolas de +agua. Era o unico<span class="pn">{25}</span> riso que borboleteava ao de cima +da melancholia quasi conventual d'aquella casa, e, como o riso é por via de +regra a expressão da alegria, jámais se deixou contagiar da tristesa que +empallidecia os semblantes, e hybernava nos corações.</p> + +<p>Agostinho Pimenta, cujos habitos infantis foram os de um poeta que +desabrocha entre a pensativa bellesa das paizagens do campo, não teve força +bastante para se deixar ficar embellesado nas scintillações que de quando em +quando lhe relampagueava a mocidade, e assim foi que cedeu á pressão religiosa +da infanta viuva e dos monges arrabidos.</p> + +<p>Branca de Noronha sorria d'elle com uma graça capaz de abalar a seriedade de +Frei Jacome Peregrino, se ella poderá dizer-lhe com a mesma franquesa os +chistes com que de emboscada accomettia o moço Agostinho Pimenta.</p> + +<p>Não raro acontecia, á volta d'um corredor, encontrarem-se os dois, e +curvar-se ella em palaciana misura para dizer-lhe:</p> + +<p>—<em>Deo gratias</em>, Padre Frei Agostinho!</p> + +<p>E despedia n'uma graciosa corrida, atabafando com a mão delicada o seu +metallico rir senhoril.</p> + +<p>Tantas vezes se repetiu a amavel zombaria da formosa aiasinha da infanta, +que o moço Agostinho Pimenta resolveu aproveitar um d'estes frequentes +episodios para dizer-lhe:</p> + +<p>—Não graceje, Dona Branca, que póde vir a converter-se em realidade o que +nos seus labios é zombaria. Está na sua mão, direi antes no seu coração, o +atirar-me para a solidão conventual...<span class="pn">{26}</span></p> + +<p>—Vejo que tem aproveitado as lições de Frei Jacome Peregrino...</p> + +<p>—Ah! não continue a zombar, Dona Branca!</p> + +<p>—Quer então que eu chore a conquista de mais uma alma para o ceu? Não deve +ser. O sr. Agostinho Pimenta tem inclinação para a vida monastica. Eu não +tenho. Que se me dá que vista o habito? Vista, se quizer. Será mais um +religioso que frequentará as salas da sr.ª infanta...</p> + +<p>—É-lhe então absolutamente indifferente que eu professe?</p> + +<p>E D. Branca, sem responder a esta pergunta, a que o novel poeta das margens +do Lima dava uma importancia apaixonada, mesurou graciosamente e motejou:</p> + +<p>—Padre Frei Agostinho, queira Vossa Charidade recommendar-me aos seus +irmãos capuchos.</p> + +<p>E desappareceu com a ligeiresa d'uma arveloa. Agostinho Pimenta era, como +sabemos, o poeta educado pela naturesa, que tem o segredo de aconselhar +tristesas. Accrescia que respirava n'um meio onde o fanatismo religioso se +inoculava lentamente, durante a somnolencia dos serões fidalgos, como as +emanações da mancenilheira, durante o indiscreto somno do viandante. Fez-se +mais pensativo que nunca no decurso de tres dias, durante os quaes algumas +vezes lhe chegára aos ouvidos o leve rir descuidado da aiasinha. Ao cabo do +terceiro dia foi ao encontro do provincial Frei Jacome, que estava praticando +com a infanta e o infante n'uma das salas do paço, e, depois de solicitar venia +de D. Duarte e<span class="pn">{27}</span> sua mãe, pediu ao virtuoso monge que +lhe permittisse vestir o habito da sua Provincia.</p> + +<p>Jubilou Frei Jacome com a resolução do moço Pimenta, com que elle contava +havia quatro annos, attribuindo-a candidamente á efficacia dos seus conselhos, +similhantemente ao pomareiro que se vangloria de que a arvore fructifique mais +pelo seu trabalho do que por espontaneidade da naturesa.</p> + +<p>Correu o anno do noviciado ou da approvação de Agostinho Pimenta, como então +se dizia, no conventinho de Santa Cruz da Serra de Cintra, do qual elle ao +depois tomou o appellido na profissão, como deixou escripto:</p> + +<blockquote> + Nasci, e renasci na Casa em dia<br> + De Santa Cruz, da Cruz o nome tenho. </blockquote> + +<p>Durante o noviciado, que principiou em 1560, Agostinho Pimenta parecia por +vezes entrever nas suas visões monasticas a formosa imagem da aiasinha da +infanta, e então era o descer da serra de Cintra e vir em cata d'essa visão, +que o podia salvar antes que as portas do conventinho de Santa Cruz se +fechassem eternamente sobre elle. D'estas visitas ao paço do infante D. Duarte, +dá recatada e dissimulada conta o biographo José Caetano de Mesquita, quando +diz: «E ainda que conservou algumas correspondencias de pessoas instruidas, +julgando não desdizer da austeridade do seu instituto condescender com os seus +amigos, achando-se nas suas mezas, e comendo dos delicados pratos com<span +class="pn">{28}</span> que eram servidas; comtudo sempre se houve com religiosa +modestia, e o decoro devido á mesma reforma.» </p> + +<p>Uma d'estas visitas parece haver decidido definitivamente da sorte de +Agostinho Pimenta.</p> + +<p>Celebrava-se o decimo-nono anniversario natalicio do infante D. Duarte. As +duas meninas suas irmãs haviam instado com a infanta D. Izabel para que não +deixasse passar despercebido o dia, e, consultados os frades da Arrabida, +concordaram elles que era de justiça ser assim. A infanta viuva annuiu por +obediencia aos seus conselheiros, e permittiu se realisasse excepcionalmente a +festa commemorativa do anniversario de seu filho.</p> + +<p>Agostinho Pimenta viera de Cintra expressamente.</p> + +<p>Era em março. A primavera enflorava as alinhadas moitas do jardim, e as +rosas abriam alas festivas ás damas que divagavam por entre os canteiros. +Primava entre as damas de mais peregrinas graças a tréfega aiasinha Branca. Não +a perdia de vista Agostinho Pimenta quando glosava, com o sabor religioso que a +sua posição exigia, este mote que lhe dera a infanta D. Catharina:</p> + +<blockquote> + Antre as cousas mais formosas<br> + Busca a mais formosa d'ellas;<br> + Mais que o sol, lua, e estrellas,<br> + Mais que lirios, e que rosas. </blockquote> + +<p>Havia D. Antonio de Mello, fidalgo ao serviço do infante, cortado uma rosa, +ao passar por um dos canteiros.<span class="pn">{29}</span> Era alva de neve +raiada de laivos sanguineos. Decorrido tempo apparecera D. Antonio sem a flor, +e Agostinho Pimenta, encontrando Branca á beira do lago, sorriu-lhe com a doce +familiaridade que mezes antes os reunia no paço do infante. A travêssa +aiasinha, attentando no habito de Agostinho, respondeu com um sorriso +desdenhoso, e, ao curvar-se para mesurar o costumado <em>Deo gratias, Padre +Frei Agostinho</em>, a contracção do seio fez com que se despenhasse á agua do +lago a rosa branca radiada de filamentos purpurinos, que D. Antonio lhe dera, e +ella occultára no peito. </p> + +<p>Não se prendeu a aiasinha com a contrariedade. N'esse dia era-lhe permittido +vibrar livremente a sonoridade metallica da sua voz. Riu alegremente, e +desappareceu por entre os alegretes com o rapido deslisar das deusas do +paganismo. E as brancas nymphas de loiça, e os sarcasticos satyrosinhos de +marmore, que se alapavam entre a verdura do jardim, pareciam dizer á veloz +aiasinha n'uma longa resonancia:</p> + +<p>—Viva, Galathea!</p> + +<p>Agostinho Pimenta ficou chumbado á beira do lago, com os olhos postos na +rosa fluctuante, e como que lhe segredava no seu olhar melancholico: «Tambem eu +me despenhei como tu!»</p> + +<p>Doera-lhe no coração a magua de que a donzellinha se deixasse enliçar nos +aventurosos laços dos fidalgos que n'aquelle tempo viviam por côrtes, e desde +esse momento desejára antecipar, se possivel fôra, a hora solemne da profissão. +Esta descrença<span class="pn">{30}</span> na puresa feminina era-lhe em parte +aggravada pelas cartas despeitadas de seu irmão Diogo Bernardes, que se exulára +em Ponte de Lima, mal ferido d'um galanteio começado á beira do Tejo com uma +dama que preferira casar rica.</p> + +<p>Ah! mas Agostinho Pimenta enganava-se. A alegre aiasinha da infanta D. +Izabel tinha o genio mariposo que borboletea nas flores e se desvia dos +espinhaes. Era a graça com duas azas: tinha a desenvoltura que não rasteja.</p> + +<p>Ao outro dia partia para o solar de Bragança em Villa Viçosa a infanta +viuva, suas filhas e seu filho D. Duarte.</p> + +<p>As duas unicas recreações que habitualmente se permittia o infante D. +Duarte, a despeito de suas irmãs, tinham um caracter tradicional de familia: +eram a poesia e a caça.</p> + +<p>O principe seu pai, cuja fama de caçador a historia ainda hoje pregoa, fôra +trovador. Dá testimunho Souza na <em>Historia genealogica</em>: «Na poesia +vulgar compoz sentenciosamente, guardando as regras poeticas.»</p> + +<p>D. Duarte não versejava, mas gostava de ouvir trovar no seu paço. Monteador +era-o por herança, e famoso. Andava nos costumes da familia o de uma caçada +annual em Villa Viçosa.</p> + +<p>O infante era acompanhado pelos fidalgos de sua casa, D. Diogo de Lima, D. +Antonio da Gama, Jorge da Silva, D. Diogo, D. Antonio e D. Rodrigo de Mello, D. +Luiz e D. Francisco de Moura, Gaspar de Souza, João Mendes de Castello Branco, +Fancisco Leitão, Luiz do Amaral e Pedro d'Andrade Caminha.<span +class="pn">{31}</span></p> + +<p>O duque de Bragança, D. João, era seguido de luzida e numerosa comitiva.</p> + +<p>Á infanta viuva, a D. Maria e a D. Catharina faziam sequito mais de vinte +senhoras, entre as quaes não seria difficil distinguir D. Branca de Noronha. +</p> + +<p>A entrada em Villa Viçosa foi deslumbrante de magnificencia e digna d'um +principe de sangue, immediato á coroa.</p> + +<p>O infante D. Duarte ia vestido á flamenga em cavallo de brida, e a infanta +sua mãe em umas andas, ricamente guarnecidas, acompanhada por D. Catharina. D. +Maria cavalgava em mula com andilhas de preciosa chaparia de ouro.</p> + +<p>De vespera haviam chegado os pagens e monteiros com numerosas matilhas de +lebreos, sabujos e outros cães, e boas aves de presa.</p> + +<p>De manhã cedo já os nobres caçadores andavam no seu rude lidar, e não poucas +vezes lhes era servido o almoço á sombra d'uma alameda cuja simplicidade +bucolica notavelmente contrastava com as finas toalhas hollandezas, os gomis de +ouro lavrado, os picheis e taças de prata,—com a preciosa baixella da casa do +infante.</p> + +<p>Foi n'uma d'essas manhãs, e sob essa mesma alameda frondosa, que o infante +D. Duarte recebeu uma carta cuja direcção, era a seguinte:—<em>Para sua +excellencia o senhor infante D. Duarte.</em><a name="tex2html1" +href="#foot201"><sup>[1]</sup></a><span class="pn">{32}</span></p> + +<p>Para logo conheceu o infante a letra: era de Agostinho Pimenta.</p> + +<p>Houve curiosidade de saber o que diria a carta, por inesperada. O noviço do +conventinho da serra de Cintra sollicitava da infanta viuva e de seu filho +authorisação para professar. Jubilou com a noticia a côrte do infante: havia +conseguido uma victoria. Só D. Branca de Noronha tregeitou quasi +imperceptivelmente de desdem.</p> + +<p>Momentos depois, ao tempo em que Agostinho Pimenta dolorosamente suppunha a +louçã aiasinha requebrada nas galanterias de D. Antonio de Mello, esquivava-se +ella ao encontro d'este galanteador fidalgo, impellindo gentilmente o seu +palafrem ao longo da alameda.</p> + +<p>Ha uma desenvoltura mais casta do que o recato melindroso.</p> + +<p>Ha, mas tambem ha uma força maior do que a Verdade.</p> + +<p>É o Amor.</p> + +<p>Pintaram-n'o cego os antigos. Cego, porque tudo é despenhar-se em +insondaveis profundesas de virtude ou de crime, sem lançar mão á humilde esteva +que florece no cairel do abysmo, para que o sustenha na queda; cego, porque +tudo é querer arremetter com as difficuldades que lhe tomam o passo e ir por +deante na sua vertiginosa carreira quasi sempre vencedor e poucas vezes +vencido; cego, porque se não lembra de que a vida é pequena para elle e porque +aspira á eternidade quando se inflamma em peito de Jacob e de sete em sete +annos renova o longo<span class="pn">{33}</span> sonho da sua ventura almejada +com o pensamento fito em Rachel.</p> + +<p>Duello titanico do Amor com a Verdade: do Amor, que nada quer vêr, com a +Verdade, que nasceu para ser vista; do Amor, que é o Protheu de si mesmo, e que +se faz Othello, Romeu ou Antony, com a Verdade, que tem uma só forma, uma só +face, e um só destino.</p> + +<p>Postas rosto a rosto estas duas grandes forças, trava-se furiosa a briga, +arremettem-se, digladiam-se, confundem-se n'um vulto só como os corpos de dois +luctadores raivosamente abraçados n'um circo romano, e quasi sempre o Amor, +arremessando desdenhosamente para o largo esse gigante luminoso que se chama a +Verdade, passa ovante mas ferido em vertiginosa carreira como se fôra arrastado +pelo legendario cavallo de Mazeppa.</p> + +<p>Quem lhe vai pensar as feridas ao misero? conchegal-o ao seio quando pára +finalmente depois do torrentoso despenho? Então mirra-se as mais das vezes na +cruciante solidão d'uma existencia sem esperança.</p> + +<p>Antigamente fazia-se monge, como aconteceu com Agostinho Pimenta. +Amortalhava-se no habito, cingia-se de cilicios, vivia na cella ou na gruta, +ajoelhava deante da caveira ou da cruz. Depois que passaram os seculos em que o +coração era templo de vestaes, onde flammejava puro e vivido o fogo dos +affectos, o Amor, cego como na antiguidade, se bem que menos casto e soffrido, +atira-se voluptuosamente aos braços da morte, como Werther, ou ri +satanicamente<span class="pn">{34}</span> como Byron ao levantar com mão +nervosa os ondulosos cortinados dos leitos conjugaes.</p> + +<p>Dedicação que exigia o sacrificio d'uma vida inteira, ou febre impetuosa que +dura o tempo d'uma sezão, sempre cego o Amor, hontem e hoje, hoje e amanhã, +exagerando as suas dores, embalando-se nas fabulas creadas pela sua phantasia +exaltada, fechando os olhos á verdade que, embora vencida por elle, que é mais +forte, lhe sobrevive no seu throno de luz, assente em degraus de +granito,—eterna como Deus.</p> + +<p>Tambem no coração de Agostinho Pimenta estava travado a essa hora o duello +horrivel. Turvava-lhe a vista o Amor, suppondo Branca peccadora. A Verdade +quizera poder leval-o pela mão a debruçar-se n'uma das janellas do conventinho +de Cintra, mostrar-lhe as borboletas que doidejavam nas comas floridas, e +perguntar-lhe se alguma d'ellas valia menos por ter doidejado mais.</p> + +<p>Mas o Amor, o grande Amor d'esses tempos legendarios, que fazia do coração +uma lamina d'aço, mais sonora quanto mais martellada, mais flexivel quanto mais +comprimida, o Amor empunhara a sua lyra maguada e pelos arvoredos da serra fôra +soluçando tristes cantares, emquanto a eterna Verdade ia chorando pelo poeta, +que fugia do mundo, lagrimas de luz.</p> + +<p>Coincide com a carta dirigida ao infante D. Duarte o versejar das tristezas +que no livro de Frei Agostinho tomaram o titulo de—<em>A uma +ingratidão</em>—e que rematam com estas allusões clarissimas:<span +class="pn">{35}</span></p> + +<blockquote> + Se mal fundei a minha confiança,<br> + <em>Se tão mal empreguei amor tão puro,</em><br> + <em>Porque não tomarei de mim vingança</em>?<br> + Quanto mais cruel fôr, quanto mais duro<br> + Contra mim, tanto mais serei mais brando;<br> + Pois todo o mal em mim é mais seguro;<br> + Assi me irei de todo acostumando<br> + A ser tamanho imigo do meu gosto,<br> + Que me fique esta magua consolando.<br> + Dous rios correrão pelo meu rosto,<br> + Envoltos nos meus gritos, derramados<br> + Noite, dia, manhã, tarde, sol-posto.<br> + Os tristes versos meus dependurados<br> + Nos troncos deixarei das verdes plantas,<br> + Que das sêccas assaz estão queimados.<br> + N'elles escreverei além de quantas<br> + <em>Cousas já padeci, quantas padeço,</em><br> + Por julgarem tão mal muitas tão santas:<br> + Comtudo, meu Senhor, eu não esqueço<br> + Que rogastes na Cruz por <em>gente ingrata?</em><br> + <em>Eu por </em><em><small>ELLA</small></em><em>tambem perdão vos peço.</em> + <br> + Se vós, meu Deus, rogais por quem vos mata,<br> + Como não rogarei a vós, Senhor,<br> + <em>Que perdoeis a quem tão mal me trata?</em><br> + Bem claro vendo estou, quanto melhor<br> + <em>É ser injustamente perseguido</em><br> + <em>Que poder ser d'alguem perseguidor.</em><br> + A cousa de que mais estou sentido<br> + É vêr que nos meus olhos faltou vista,<br> + Para vêr de que côr era vestido<br> + Um coração devoto do Baptista. </blockquote> + +<p>Completo o anno do noviciado, o irmão de Diogo Bernardes tomou +effectivamente o nome de Agostinho da Cruz. Deixára ao mundo o nome que o mundo +lhe dera. Desde o dia da profissão, a sua vida foi<span class="pn">{36}</span> +quasi inteiramente de reclusão meditativa. Rareou as visitas á sociedade, +especialmente ao paço do infante D. Duarte, onde a completa mudança da sua +physionomia começou a infundir respeito nas pessoas que annos antes o +conheceram. </p> + +<p>Branca attentava no ainda moço Agostinho, e já não ousava disparar-lhe os +chistes proprios do seu genio. Se acertava encontral-o, fugia-o receiosa de +visinhar a tristesa do habito. Agostinho da Cruz tirava d'esta esquivança +indicios de culpabilidade, e recolhia taciturno ao seu convento, onde +aligeirava as horas da clausura compondo versos que dias depois lançava ao +fogo.</p> + +<p>Mais de quarenta annos deslisaram entre este repartir-se com Deus e com a +secreta inspiração que não deixava apagar na sua alma o fogo vestal da poesia. +N'este meio tempo, indo ao convento de Cintra D. Diogo Lopes de Lima, +perguntára a Frei Agostinho da Cruz se o habito lhe vedava o poetar. O monge +respondera sorrindo que os versos menos valiosos eram os que se davam ao papel, +e d'esses quasi todos os inutilisava. Outros havia que recitava áquellas penhas +ou confiava áquellas arvores. D. Diogo de Lima, relanceando os olhos ao tronco +a cuja sombra praticavam, viu repetidas vezes entalhada no cortex a letra B. +Preoccuparam-n'o pelo caminho as palavras do franciscano, e dias depois +relatava o succedido no paço do duque de Aveiro, em Azeitão.</p> + +<p>Facil lhes foi correr com a memoria as breves paginas da brevissima mocidade +de Agostinho Pimenta, e o associarem a gentil aiasinha da infanta<span +class="pn">{37}</span> D. Izabel á inicial entalhada nas arvores de Cintra. Uma +só pessoa podia aclarar a verdade. No convento de Jesus estava recolhida desde +a morte da infanta D. Izabel uma senhora que podia dar noticia da gentil +aiasinha dos dezesete annos. Esta senhora orçava pelos cincoenta e cinco. Era +D. Branca de Noronha.</p> + +<p>De Azeitão a Setubal breve é a jornada, e brevissima o foi para tão destro +cavalleiro como o duque.</p> + +<p>Consultada por D. Alvaro de Lencastre a reclusa do convento de Jesus, pôde +ella conciliar as suas recordações no sentido de presumir-se causa involuntaria +da conversão de Agostinho Pimenta.</p> + +<p>Desde esse momento D. Branca deixou de ser um segredo da alma do monge, que, +tendo a rogos do provincial Frei Antonio da Assumpção acceitado a guardiania do +convento de S. José de Ribamar, mais que nunca se afervorou no empenho de +retirar-se á serra da Arrabida, desde que percebeu as allusões do duque de +Aveiro e de D. Diogo de Lima aos poucos annos da sua mocidade vividos na casa +do infante.</p> + +<p>Obtida a licença, não sem grandes difficuldades, passou-se Agostinho da Cruz +á serra da Arrabida, onde não havia commodo para viver solitario.</p> + +<p>Implorou a amisade do duque para ter eremiterio, mas, recreado nas diversões +campestres do seu paço de Azeitão, esqueceu-se D. Alvaro de Lencastre de lh'o +mandar edificar. Frei Agostinho da Cruz não reclamou. Fez uma cubata de ramos +silvestres, e por sua propria mão tentou levantar casa<span +class="pn">{38}</span> mais de geito para resistir ás violencias da serra. +Feriu-se nas mãos, e desistiu do intento. N'esta conjunctura visitaram-n'o os +duques de Aveiro e de Torres Novas, o primeiro dos quaes era padroeiro da +Arrabida. Então tornou a lembrar a ermida. Tratou-se de escolher sitio. +Vacillaram na escolha, e o duque de Torres Novas, floreando a enxada, demarcou, +por cortar hesitações, a área da ermida.</p> + +<p>O paço d'Azeitão! O que hoje são paredes ruinosas e negras era n'aquelle +tempo um palacio que, segundo o phrasear de Frei Luiz de Souza, podia competir +com os melhores de Hespanha. Casas, jardins, pomares, bosques e pinhaes +magnificos! E como tudo isso foi docemente conquistado pelos descendentes do +mestre de S. Thiago aos frades de S. Domingos, seus visinhos! Pediram terreno +para fazer uma casa de campo. Os frades, orgulhosos da nobre visinhança, deram +o terreno, e o mais que lhes foram pedindo, até que appareceu o grandioso +palacio, de que restam as paredes!</p> + +<p>Mas fiquem em paz as ruinas.</p> + +<p>Respirava dilatada na profunda solidão da serra da Arrabida a alma de Frei +Agostinho da Cruz depois que o duque d'Aveiro lhe fizera mercê da ermida, que +ainda hoje se conserva em memoria do seu primeiro morador. Pequena era a +habitação do ermita, em verdade, mas a alma do poeta tinha maior espaço na +amplidão da montanha coroada pelo firmamento e defrontada pelo oceano. Frei +Agostinho amava profundamente a noite, porque era só então que a sua pallida +figura de solitario podia errar<span class="pn">{39}</span> livremente, nas +asperesas da serra, acobertada pelas sombrias azas do mysterio. Algumas vezes, +de dia, o molestavam até á mortificação a visita de pessoas amigas e a +reservada espionagem dos religiosos do mosteiro que, por quererem parecer mais +zelosos, não supportavam que Frei Agostinho vivesse fóra da clausura. Mas a +noite adormecia a vigilancia nos olhos dos espiões, e afugentava da asperesa da +serra as pessoas que lá o procuravam. Então, a sua alma podia voejar +desopprimida de receios, e subir em extasis para Deus ou roçar por ventura as +suas azas, purificadas no chrysol da fé, pelas austeras paredes do mosteiro de +Jesus, onde vivia a que fôra a gentil aiasinha de D. Izabel.</p> + +<p>Fossem quaes fossem as tribulações de Frei Agostinho durante os amigos +silencios da lua, como diz a expressão virgiliana, jámais deixou de fazer +oração antes de sair o sol, e de nas primeiras horas da manhã ir á ermida da +Senhora da Memoria ouvir a missa de Frei Diogo dos Innocentes, outro solitario +que depois lhe ajudava.</p> + +<p>Era, pois, durante a expressiva mudez da noite que por deante dos olhos do +solitario da Arrabida perpassavam os phantasmas do passado, as visões do +presente, e talvez as prophecias do futuro. Desenhava-se-lhe com sombrio relevo +o ephemero tempo da sua mocidade agora povoado de cadaveres. Em 1576 havia +fallecido em Villa Viçosa a infanta D. Izabel. O infante D. Duarte, que +acompanhára el-rei D. Sebastião na sua primeira jornada a Africa, voltára +enfermo ao reino e fallecera no mesmo anno que sua<span class="pn">{40}</span> +mãe, dois mezes depois. A infanta D. Maria, casada com o principe Farneze, dera +em longes terras a alma ao Creador, um anno depois de sua mãe e de seu irmão. O +nome da duqueza de Bragança, D. Catharina, entremostrava-se-lhe envolvido +n'esse labyrintho de graves acontecimentos politicos que succederam depois da +morte do cardeal. Seu irmão Diogo Bernardes, que estivera captivo em Africa, +por haver acompanhado D. Sebastião a Alcacerquibir, na qualidade de chronista, +e que lográra repatriar-se, recebendo no reino uma tença de Filippe II, +fallecera n'esse mesmo anno em que Frei Agostinho conseguira recolher-se á +Arrabida. Pedro d'Andrade Caminha tinha succumbido dezeseis annos antes. A +colera do Senhor havia passado sobre o ceu da patria como um gladio de fogo, e +a fome, a peste e a guerra haviam devastado a terra onde o cadaver de Camões, +amortalhado na bandeira gloriosa das quinas, dormia o somno da immortalidade. +</p> + +<p>Esse fôra o grande poeta que morrera com a patria.</p> + +<p>Todos os mais, aquelles de quem Frei Agostinho da Cruz se lembrava, taes +como seu irmão Diogo Bernardes e Pedro Caminha, haviam adorado todas as +realezas e todos os homens; atravessaram a côrte portugueza trovando e trovando +entráram na côrte hespanhola.</p> + +<p>Ah! elle não! Elle, o solitario da Arrabida, fizera do amor terreno a escada +de Jacob por onde subira ao amor divino.</p> + +<p>A gentil aiasinha da infanta D. Izabel envelhecera<span +class="pn">{41}</span> reclusa no convento de Setubal. Era como que um livro +que elle fechára ao vestir o habito, mas que o seu coração encadernára no +pergaminho da saudade, como que para durar sempre.</p> + +<p>O unico poema que lhe era dado lêr, quando d'essas encerradas memorias +desviava a vista, era o vasto firmamento arqueado, n'uma grande serenidade +azul, zebrada de lacteas ondulações, sobre o dorso austero da montanha.</p> + +<p>Umas vezes a lua, suspensa como enorme lampada circular, outras vezes as +palpitações luminosas do relampago lhe allumiavam estas horas nocturnas de +funda meditação.</p> + +<p>Certo dia, pouco depois da visita do duque d'Aveiro ao convento de Jezus, +procurou-o na serra o Padre Frei Fernando de Santa Maria, <em>por negocio +preciso</em>, diz piedosamente o biographo Mesquita. Estava alheiado em extasi +Frei Agostinho da Cruz, quando o Padre Fernando chegou. Foi mister dar-lhe +tempo de redescender á realidade terrena e, quando a alma do asceta voltou a +encarnar-se no homem, o Padre Fernando de Santa Maria entregou a Frei Agostinho +da Cruz uma carta que em Setubal lhe haviam confiado para o solitario da +Arrabida.</p> + +<p>—Quem se lembra ainda de mim no mundo? perguntou serenamente Frei +Agostinho.</p> + +<p>O Padre Fernando encolheu os hombros, inclinou-se e sahiu.</p> + +<p>Frei Agostinho lançou-se contra o solo aspero da ermida, e por longo tempo +permaneceu em oração.<span class="pn">{42}</span> Quando a vaga claridade do +luar nascente principiava a cobrir d'uma fina gaze branca a amplidão do mar, +Frei Agostinho desceu tranquillamente a montanha em demanda da lapa de Santa +Margarida, o seu retiro dilecto das noites luminosas.</p> + +<p>Ah! a gruta de Santa Margarida!</p> + +<p>Ide cortando as aguas com o rumo na serra da Arrabida. Quando ao sopé da +serra encontrardes o legendario penedo chamado do <em>Duque</em>, onde D. +Alvaro de Lencastre ia sentar-se a pescar, desembarcai. Então vos espera a +maior formosura que jámais vos foi dado vêr. Abre-se em dois arcos a rocha, um +que dá sobre o mar, outro que dá para as fragas. Entrai pelo do mar, até onde +vos poder levar o vosso barquinho, como fazem os pescadores do Cabo quando vão +ouvir missa ou levar offrenda á santa da Lapa. De repente arquea-se sobre vós a +grande gruta silenciosa, cheia duma frescura e d'uma suavidade inalteraveis, +sepultada num silencio religioso que o roçar das ondas parece não interromper. +Recorta-se irregularmente em caprichosas estalactites o concavo da lapa. Em +alguns pontos, foram subindo do solo as columnas vitreas a que os naturalistas +chamam estalagmites, e tanto cresceram que poderam fundir-se com as grandes +massas de carambina pendentes da abobada. Abraçaram-se, e fizeram columnas que +tres homens não poderão circullar com os braços: Ao fundo da gruta tremeluz a +alampada no singelo altarsinho de Santa Margarida, que o mar, quando nas marés +vivas entra em cachões pelas rusticas arcadas, parece respeitar, +desenrolando-lhe aos<span class="pn">{43}</span> pés um tapete de espuma: Quando isto não é, +encarregam-se as ondas de alastrar de plantas e despojos marinhos o chão da +lapa.</p> + +<p>Ahi, como aprazia á sua alma, descançou Frei Agostinho da Cruz.</p> + +<p>Houve um momento que pareceu de hesitação, durante o qual o solitario monge +acompanhou com a vista os caprichosos recortes da vaga á bocca da gruta. O luar +descrevia até meio da lapa uma zona clarissima. Frei Agostinho introduziu a mão +direita entre o habito e o peito, e tirou a carta que o Padre Fernando de Santa +Maria lhe havia entregado. Abriu serenamente e leu... Mas, lidas algumas +palavras, Frei Agostinho levantou-se de golpe, avançou alguns passos como para +conseguir que um raio da lua cahisse em cheio sobre o papel, tornou a ler, +ergueu de novo a fronte, e, saccudindo o papel na mão nervosa, apostrophou:</p> + +<p>—Bemdicto sejas tu, Senhor, que não te esqueceste de mim na minha solidão! +Agora posso morrer no teu seio, ó santo Deus dos affligidos e dos peccadores. +</p> + +<p>E ajoelhou, e levantou os olhos ao ceu, e assim esteve longo tempo com a +fronte cadaverica melancholicamente illuminada pelo luar.</p> + +<p>A chave do segredo, que esse papel continha, está nos versos de Frei +Agostinho, n'essa mesma noite escriptos na gruta de Santa Margarida. Dizem +assim:<span class="pn">{44}</span></p> + +<blockquote> + <span style="margin-left: 4em;"><strong>A D. BRANCA</strong></span><br> +<br> + Como queres que negue a teu esp'rito,<br> + Branca, serva da branca Virgem pura,<br> + Mostrar o que me pedes por escripto?<br> + Não sei eu por qual outra creatura<br> + Os tristes versos meus desenterrara<br> + Debaixo de tão alta sepultura.<br> + Mas pois de branca queres fazer clara,<br> + Aquella luz Divina te esclareça,<br> + Que nunca a bons desejos desampara.<br> + Não imagines cousa que te desça<br> + Do caminho do Ceu breve, e seguro,<br> + Por mais que trabalhoso te pareça.<br> + Com penas immortaes do reino escuro<br> + Não te quero espantar; pois seguir queres<br> + A Cruz do teu Senhor por amor puro.<br> + Que podes esperar, por mais que esperes,<br> + Do mundo, que te tem desenganada,<br> + Que te póde faltar, se a Deus te deres?<br> + Se vires que por tudo deixas nada,<br> + Por nada deixarás o que descança<br> + No curso d'esta vida tão cançada.<br> + A tanto subirás n'esta mudança,<br> + Que não haverá dôr, por mór que seja,<br> + Na qual não cresça mais tua esperança.<br> + Assi de culpas minhas eu me veja<br> + Tão longe, como perto ess'alma tua<br> + D'aquillo, que esta minha ver deseja.<br> + Que vás após de quem á custa sua<br> + Por nos levar ó Ceu, d'onde nos chama,<br> + Na terra padeceu morte tão crua.<br> + Um firme coração, que em vós se inflamma,<br> + Ardendo por se vêr de Vós amado,<br> + Por Vos amar, Senhor, tudo desama.<br> + Do tempo, que gastei tão mal gastado,<span class="pn">{45}</span><br> + Dera melhor razão, do que daria<br> + De vos seguir, Senhor Crucificado;<br> + Mas nunca a fraca voz me faltaria<br> + Para dizer do mundo a falsidade,<br> + Como quem n'elle andou cego sem guia.<br> + Levanta os olhos teus á saudade<br> + Do Summo Bem dos bens, e n'elle aprende<br> + Aquillo que mais fôr sua vontade.<br> + A Fenis, que do tempo se defende,<br> + Antes que lhe falleça força, e vida,<br> + No fogo se renova, em que se accende.<br> + Não se põe mais a Rola, carecida<br> + Do seu primeiro amor, em verde ramo;<br> + Foge da fonte clara aborrecida.<br> + Testimunha me seja por quem chamo,<br> + Da verdade que escrevo brevemente<br> + Nos versos que por seu amor derramo.<br> + Que não podes sem elle ser contente,<br> + Sem elle, que dilata seu castigo,<br> + Por não negar perdão ao penitente.<br> + Busca falsas razões o duro imigo<br> + Para nos impedir que de mais perto<br> + Possamos contemplar tamanho amigo.<br> + Ah braços estendidos, Lado aberto!<br> + Quanto se sentem mais as vossas dores<br> + N'esta quietação d'este desejo!<br> + Nascem n'esta asperesa brandas flores,<br> + E n'ella tão suave doce fruito,<br> + Como tu colherás, como lá fôres,<br> + Amando muito mais quem amas muito. </blockquote> + +<p>Estes versos chegaram ao convento de Jezus de Setubal tres dias depois e, +transcorrido um mez, dobrava austeramente o sino do convento annunciando a +profissão da que outr'ora havia sido a tréfega aiasinha da infanta D. +Izabel.<span class="pn">{46}</span> </p> + +<p>Frei Agostinho da Cruz subiu vagarosamente ao seu eremiterio quando as +estrellas começavam a empallidecer no ceu. Entrou em oração, e, horas volvidas, +foi á ermida da Senhora da Memoria ouvir e dizer missa. Depois recolheu-se ao +seu cubiculo, e ahi passou o dia no sagrado mysterio da solidão. Ao pardejar da +tarde, perdeu-se na montanha a continuar as suas meditativas noites de asceta, +a ultima das quaes foi a de 14 de março de 1619, em que, na enfermaria que a +Provincia tinha em Setubal, santamente rendeu a alma ao Creador.</p> + +<p>No convento de Jezus, áquella hora, ouvia-se tocar á agonia na egreja da +Annunciada, contigua ao hospital, e pouco depois o dobrar do sino attraia á +beira do cadaver de Frei Agostinho toda a população da villa de Setubal, que +lhe retalhava o habito para guardar uma reliquia.</p> + +<p>Ao outro dia vogava rio abaixo, nas aguas do Sado, uma falua, armada de +muitos ramos e de ricas tapeçarias da casa de Aveiro. Transportava para a serra +da Arrabida o cadaver de Frei Agostinho. Em torno do feretro agrupavam-se n'um +silencio religioso o duque de Torres Novas, o marquez de Porto Seguro, e alguns +religiosos arrabidos. O povo de Setubal alinhava-se na praia e, descoberto e +reverente, abençoava o S<small>ANTO</small>.</p> + +<p style="text-align:center;">——</p> + +<p>Vai, ó casto poeta do amor, repoisar no grande tumulo granitico da tua +montanha querida. Poeta e<span class="pn">{47}</span> monge, tens duplo direito +a essa ingente sepultura, onde os monges, tristes e sós, foram muita vez +genuflectir sobre a tua lage, e onde os poetas irão pelas idades a dentro pedir +ao luar que lhes empreste os contornos phantasticos do teu vulto pensativo para +te reporem sob a gruta de Santa Margarida meditando maguas secretas.</p> + +<p>Podeste finalmente dormir, onde quizeste viver.</p> + +<p>Se a tua musa jamais se librou magestosa nos epicos arrojos da lyra de +Camões, cantor do coração e poeta do Amor como elle, a morte vos irmanou na +grandeza da sepultura.</p> + +<p>Para elle foi sepulchro enorme a patria. Quem sabe onde jaz? Era pequena uma +cova para tamanho homem. Repoisa na patria, sepultura por dois lados orlada +pelo mar. É-lhe epitaphio um poema. É-lhe monumento a historia.</p> + +<p>Tu repoisas dentro da grande urna de pedra, cinzelada pela naturesa á beira +das aguas marinhas. É-te epitaphio a montanha. É-te monumento a Cruz, porque +ella recorda o teu nome, erguida sobre altar de rocha.</p> + +<p>Era pequena uma valla para tamanho soffrer.</p> + +<p>Assim foi que a morte igualou no somno derradeiro e glorioso o poeta +guerreiro e o poeta monge, dois leaes amantes antigos, dois finos corações +namorados, que pulsaram, um cingido na cota, o outro oppresso no habito, por +duas damas formosas, Nathercia e Branca, que por longo tempo hão de<span +class="pn">{48}</span> viver, não em o mundo phantastico dos poetas,<a +name="tex2html2" href="#foot203"><sup>[2]</sup></a> mas na extensa galeria das +grandes dedicações portuguesas.</p> + +<p>Aqui fica, n'este livrinho escripto com a sentida saudade que o teu destino +inspira, ó santo eremita da Arrabida, o que quer que seja da mysteriosa poesia +que as silenciosas noites da serra desabrochavam no teu coração.</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;">FIM.</p> + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot201" href="#tex2html1" id="foot201"><sup>[1]</sup></a> D. João +III era tão affeiçoado a este sobrinho, que lhe concedeu o tratamento de +<em>excellencia</em>, sendo que o filho natural d'el-rei, D. Duarte, apenas +tinha o de <em>senhoria</em>.</p> + +<p><a name="foot203" href="#tex2html2" id="foot203"><sup>[2]</sup></a> +«....Frei Agostinho da Cruz explicava as abstracções do amor divino, em versos +da eschola italiana, a uma certa senhora D. Branca, hoje desconhecida. Dona +Branca tambem seguia a vida religiosa, etc.»</p> + +<p style="text-align: right;"><em>Historia dos Quinhentistas</em>,—Theophilo Braga.</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="font-size: 0.8em;"> +<p style="text-align:center;">Obras publicadas pela Empreza Editora CARVALHO +& C.ª</p> + +<p style="text-align:center;">THEATRO</p> + +<p><b>Bibliotheca Theatral</b>, 3 vol. contendo 15 peças—cada vol. 600<br> + Os tres vol. 1$500</p> + +<p><b>A Familia</b>, drama em 5 actos, orig. de J. R. Cordeiro 300</p> + +<p><b>Os Sabichões</b>, com. em 4 actos, orig. de E. Biester 250</p> + +<p><b>O Fidalguinho</b>, com. em 3 actos, orig. de Ferreira de Mesquita 200</p> + +<p><b>Ao calçar das luvas</b>, com. em 1 acto, orig. de Rangel de Lima 100</p> + +<p><b>Abençoado progresso</b>, com. em 1 acto, orig. de R. de Lima 100</p> + +<p><b>Quem desdenha...</b>, com. em 1 acto, orig. de Pinheiro Chagas 100</p> + +<p><b>Um homem politico</b>, com. em 3 actos, imit. por A. Abranches 200</p> + +<p><b>As Tres rocas de chrystal</b>, magica em 3 actos e 17 quadros imit. por +A. Abranches 300</p> + +<p><b>A Mosca branca</b>, com. em 3 actos, imit. por Duarte Santos 200</p> + +<p><b>João o britador</b>, drama em 5 actos, trad. de Castilho e Mello 250</p> + +<p><b>A Cruz de prata</b>, drama em 5 actos, trad. de Castilho e Mello 300</p> + +<p><b>O afilhado de Pompignac</b>, comedia drama em 4 actos, trad. +de Castilho e Mello. 200</p> + +<p><b>As Campainhas</b>, com. em 1 acto, trad. de Pinheiro Chagas 100</p> + +<p><b>Caso de Consciencia</b>, com. em 1 acto, trad. de P. Chagas 100</p> + +<p><b>Luiz XI e o poeta</b>, com. em 1 acto, trad. de Fer. de Mesquita 160</p> + +<p>Collecção completa 1$700</p> + +<p style="text-align:center;">ROMANCES</p> + +<p style="text-align:center;">1.º anno</p> + +<p>1.º—<b>As duas flores de sangue</b>, orig. historico de Pinheiro Chagas (1 +vol.) 500</p> + +<p>2.º e 3.º—<b>As doze espadas do diabo</b>, Henri Kock (2 vol.) 800</p> + +<p>4.º—<b>Claudio</b>, orig. de Julio Cesar Machado (1 vol.) 500</p> + +<p>5.º—<b>Nas Cinzas</b>, Gontran Borys (1 vol.) 300</p> + +<p>6.º—<b>Uma noite em Florença</b>, Alexandre Dumas (1 vol.) 300</p> + +<p>7.º—<b>O Corsario portuguez</b>, orig. de Carlos Pinto d'Almeida (1 vol.) +400</p> + +<p>8.º—<b>Dragonne e Mignonne</b>, Ponson du Terrail (1 vol.) 400</p> + +<p>Collecção completa 2$500</p> + +<p style="text-align:center;">2.º ANNO</p> + +<p style="text-align:center;">J<small>ULHO DE 1876 A </small>J<small>UNHO DE +1877</small></p> + +<p style="text-align:center;">OITO BRINDES ANNUAES</p> + +<p style="text-align:center;">Anno, 2$250—Semestre, 1$200—Trimestre, +650—Mez, 240</p> + +<p style="text-align:center;">Volume, 15% d'abatimento no preço para a venda +avulso.</p> + +<p style="text-align:center;">OPUSCULOS ROMANTICOS</p> + +<p style="text-align:center;">narrativas por Alberto Pimentel</p> + +<p>1.º—<b>A ultima ceia do Dr. Fausto</b>, (edição portuense) 200</p> + +<p>2.º—<b>As noites do asceta</b> 200</p> + +<p>No prélo—<b>Idyllios dos reis</b>.</p> + +<p style="text-align:center;">OBRAS DIVERSAS</p> + +<p><b>Almanach burocratico</b> para 1875 400</p> + +<p><b>Almanach burocratico</b> para 1876 800</p> + +<p><b>Biograp. do marquez de Sá da Bandeira</b> (com o retrato) 400</p> + +<p>Á venda nas principaes livrarias, e remette-se franco de porte a quem enviar +a importancia ao escriptorio</p> + +<p style="text-align:center;">RUA LARGA DE S. ROQUE, 100, 1.º andar</p> +</div> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of As Noites do Asceta, by Alberto Pimentel + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS NOITES DO ASCETA *** + +***** This file should be named 29347-h.htm or 29347-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/9/3/4/29347/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> |
