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+ <title>As noites dos Asceta, por Alberto Pimentel</title>
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+The Project Gutenberg EBook of As Noites do Asceta, by Alberto Pimentel
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+Title: As Noites do Asceta
+
+Author: Alberto Pimentel
+
+Release Date: July 7, 2009 [EBook #29347]
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+Language: Portuguese
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+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS NOITES DO ASCETA ***
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+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
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+<div style="text-align:center; border: double 4px #000; padding: 1em;">
+<p>OPUSCULOS ROMANTICOS</p>
+
+<p>II</p>
+
+<hr style="border: 0; border-bottom: solid 2px #000; width: 80%;">
+
+<p style="font-size: 2.5em;">AS NOITES DO ASCETA</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">POR</p>
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+<p>ALBERTO PIMENTEL</p>
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+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<hr style="border: 0; border-bottom: solid 2px #000; width: 30%;">
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
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+<p style="font-size: 0.8em;">LISBOA<br>
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+
+<p>&nbsp;</p>
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+<p style="font-size: 2.5em;">AS NOITES DO ASCETA</p>
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+<p style="font-size: 0.8em;">POR</p>
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+<p><em>Alberto Pimentel</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<hr style="border: 0; border-bottom: solid 2px #000; width: 20%;">
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
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+<p style="font-size: 0.8em;">LISBOA<br>
+Empreza Editora, Carvalho &amp; C.ª<br>
+<small>RUA LARGA DE S. ROQUE, 100, 1.º</small><br>
+1876</p>
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+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;font-size: 0.8em;">Typ. de J. C. Almeida, Rua da Vinha,
+65&mdash;Lisboa.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center;">
+<p style="font-size: 1.5em;"><em>a</em></p>
+
+<p style="font-size: 1.5em;"><em>Jacintho Maria Rodrigues</em></p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="margin-left: 30%; font-size: 0.8em;">
+
+<blockquote>
+ Oh, que viesse o que não crê, comigo,<br>
+ Á vecejante Arrabida, de noite,<br>
+ E se assentasse aqui sobre estas fragas,<br>
+ Escutando o sussurro incerto e triste<br>
+ Das movediças ramas, que povoa<br>
+ De saudade e amor nocturna brisa;<br>
+ Que visse a lua, o espaço oppresso de astros,<br>
+ E ouvisse o mar soando:&mdash;Elle chorára<br>
+ Qual eu chorei......................... </blockquote>
+
+<blockquote style="margin-left: 20%;">
+Alexandre Herculano&mdash;<em>A Harpa do Crente.</em>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+</blockquote>
+
+<blockquote style="text-align: justify;">
+   «Ajuntava a esta abstinencia (Frei Agostinho da Cruz) as muitas vigilias,
+ ásperas disciplinas, em que se exercitava, e outras mortificações, que elle
+ depositou no archivo do silencio, e só nos deixou as inferencias, de que eram
+ muito esquisitas.» </blockquote>
+
+<blockquote style="text-align: justify; margin-left: 20%;">
+ Frei Antonio da Piedade&mdash;<em>Espelho de penitentes e chronica da Provincia
+ de Santa Maria da Arrabida.</em> Tomo I, part. I, liv. V. </blockquote>
+</div>
+
+<div id="corpo">
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><span class="pn">{7}</span>&nbsp;</p>
+
+<p>Eram aquelles os tempos do Amor.</p>
+
+<p>Por toda a parte o coração era a mais fecunda, a mais vivida, a mais
+completa manifestação da Vida. A humanidade entrára no idyllico periodo da sua
+primavera. As flores do sentimento brotavam candidas e perfumadas sob os pés da
+Mulher deificada pela adoração. Deus estava no ceu e a Mulher na terra. A mesma
+religião absorvia e confundia estas duas grandes individualidades mysteriosas,
+porque Deus fôra gerado no ventre da Mulher virgem. Pois que o amor divino se
+librava puro, austero, immaculado, o amor terreno procurava igualal-o pela
+candura das suas intenções. O seculo XIV, um dos mais famosos seculos do grande
+cyclo amoroso, vê um rei de Inglaterra curvar-se para levantar a fina liga de
+seda da condessa de Salisbury, e ouve a legendaria imprecação do rei aos
+maliciosos cortezãos cujo riso envenenava esse extremo de galanteria<span
+class="pn">{8}</span> palaciana. E é d'essa pequena fita, acolchetada por
+esmaltadas fivelas de oiro, que o rei namorado quer fazer o mais ambicionado, o
+mais nobre, o mais difficil galardão cavalheiresco:&mdash;a jarreteira azul. O mesmo
+seculo vê um rei portuguez realisar á beira do Mondego o mais ardente e
+lacrimoso idyllio da tradição amorosa nacional, e, para diluir as sombras com
+que os validos de Affonso IV quizeram ennegrecer o que n'esse grande amor havia
+de puresa, mandar rasgar-lhes o peito e lavar a crudelissima affronta no sangue
+d'elles. A loira Ignez apparece depois de morta menos princesa que martyr. Os
+seus funeraes são uma apotheose; a memoria que de si deixa completa a
+deificação. D. Pedro quer que desde Coimbra a Alcobaça passe o athaude por
+entre duas filas de cirios, duas fitas d'estrellas&mdash;como diz Sch&oelig;ffer&mdash;; no
+tumulo de Ignez avultam entre os phantasiosos ornatos as azas que denunciam os
+cherubins. O Amor faz de Ignez um anjo, e é ainda pelo anjo, que voou, que a
+pequena fonte da margem do Mondego chora lagrimas de casta saudade.</p>
+
+<p>Petrarcha não pôde esquecer n'este poetico seculo do Amor. Elle representa o
+mais puro, o mais santo, o mais ideial amor que é dado conceber-se: o amor sem
+esperança. Elle renega as tendencias voluptuosas da Roma classica, em que foi
+educado, e lança-se na solidão de Valchiusa, sem amaldiçoar Laura, quando o
+amor lhe dilacera o peito, como o açor póde dilacerar a pomba que empolgou.</p>
+
+<p>Illumina-se phantasiosamente o seculo decimo-quinto com o renascimento das
+artes e das letras.<span class="pn">{9}</span> É o seculo de Lourenço de
+Medicis&mdash;o Magnifico&mdash;, o grande seculo em que tudo traduz o Amor: o marmore, a
+tinta, a linha. Leonardo de Vinci lança na tela a encantadora figura da
+Gioconda, a esposa adorada; Raphael dá á Virgem a formosura da florista de
+Florença, a <em>fioraia</em>, divinisando a Mulher. E ainda a Religião a
+companheira dilecta do Amor. São os papas que protegem as artes. Roma, a
+capital do mundo catholico, tambem o é do mundo artistico. São religiosos os
+assumptos de todos os quadros, que se pedem do Meio-dia e do Occidente. Sómente
+a Renascença torna a alma menos pura e o corpo mais formoso. Desapparecem das
+telas as pallidas figuras asceticas, e relevam sobre o peito feminino as curvas
+voluptuosas das mulheres pagãs. Magdalena transforma-se em Venus. Ainda um
+prodigio do Amor! É que o artista amante quer perpetuar na tela a mulher amada.
+A madona deixa vêr a <em>fioraia</em>.</p>
+
+<p>O Bernardim das <em>Saudades</em> é a ponte amorosa lançada entre o seculo
+XV e o seculo XVI. Vós, cavalleiros gentis, para quem o Amor é uma tradição
+gloriosa, atravessai d'um seculo para outro por sobre o cadaver d'este pobre
+trovador, que deixou partido o bandolim sobre os tapetes da côrte.</p>
+
+<p>O seculo XVI é o seculo de Camões. Basta dizer isto. Na alma do poeta pulsam
+as tendencias do seculo. O Amor anda na epopea a par da Gloria. As luctas do
+coração dão maior relevo aos poetas d'essa idade. A gruta de Macau ouve os
+suspiros de Camões; Diogo Bernardes chora á beira do Lima a traição de Sylvia;
+Agostinho da Cruz foge do paço<span class="pn">{10}</span> do infante D. Duarte
+para o eremiterio da serra da Arrabida.</p>
+
+<p>Mas em Portugal as sinistras fogueiras dos autos de fé, mandadas accender
+por D. João III, haviam empallidecido nas telas as figuras pagãs da Renascença.
+Então, se o Amor pintasse na côrte portugueza, usaria as sombrias tintas da
+eschola de Ombria. Dir-se-hia que Fra Angelico resuscitára para succeder a
+Raphael.</p>
+
+<p>Frei Agostinho da Cruz é o Fra Angelico da poesia portugueza. Um ia cobrindo
+de melancolicos <em>frescos</em> os muros do seu convento de Fiesole; o outro,
+entalhava nas arvores da Arrabida os seus versos religiosamente tristes e
+amorosos. Em ambos um coração de artista amortalhado no habito. Ambos
+abençoados por Deus na hora do passamento.</p>
+
+<p>Assim, porém, como por sobre o cadaver de Bernardim, involto na sua capa de
+trovador, atravessa do seculo XV para o seculo XVI a tradição amorosa, assim
+tambem o cadaver de Frei Agostinho da Cruz, involto no seu habito de
+franciscano, é a ponte lançada entre o seculo XVI e o seculo XVII, entre as
+caladas grutas da Arrabida, onde Agostinho poetava, e a cella do convento da
+Conceição de Beja, onde Marianna Alcoforado recebia o sr. de Chamilly; entre o
+paço do infante D. Duarte, onde os monges arrabidos iam praticar sobre a
+conversão de Frei Jacome Peregrino, devida a uma simples visita que fizera á
+santa montanha barbarica, e a côrte de Luiz XIV, onde o Amor não havia perdido
+ainda a sua velha influencia de tres seculos, mas decotava<span
+class="pn">{11}</span> as suas impuresas com a mesma thesoira doirada com que a
+La Valliére, a Montespan, a Fontanges e a Maintenon decotavam os seus vestidos.
+</p>
+
+<p>Iam a desfolhar as ultimas florescencias da Primavera do coração, crestadas
+pelo bafo ardente da sensualidade palaciana. Começavam a amadurecer os pomos do
+Outomno.</p>
+
+<p>Á flor, na sociedade como na natureza, succedia o fructo. Após os seculos da
+Guerra, das correrias, das conquistas, das lanças e das cruzadas, tinham vindo
+os seculos do Amor, das ambições de gloria, das grandes proesas namoradas, dos
+altos feitos poeticos. Era chegado o momento de soar no eterno relogio das
+gerações a hora dos indeterminados seculos do trabalho e do pensamento, da
+força moral e da potencia intellectual, das conquistas pelo estudo e pela
+perseverança, do cyclo vencedor e forte, não da duresa do ferro, de que se
+fabricavam as velhas armaduras, mas da duresa do silex, de que brotam
+centelhas.</p>
+
+<p>Sim, meu solitario poeta da montanha da Arrabida, humillimo eremita d'esses
+fraguedos bemditos, o teu vulto melancolico e pensativo apparece ainda de pé,
+olhando para o mar sereno e curvo, ao limiar da tua ermida, como encostado á
+porta d'um templosinho invisivel onde se rendesse o derradeiro culto ao doce
+platonismo de Petrarcha, onde ao sopé da Cruz houvesse duas mulheres, ambas
+santas, ambas moças, ambas formosas, chorando uma de saudade, outra de
+arrependimento, mas ambas por Amor,&mdash;Maria e Magdalena. Sim, eu ahi te vejo a
+meditar<span class="pn">{12}</span> no que foi a tua breve mocidade, ó
+castissimo asceta, em quanto os passarinhos da serra te vinham poisar sobre os
+hombros descarnados, como diz a legenda, e as feras da matta vinham procurar-te
+á mão, como aos antigos padres do deserto, o teu duro e escasso alimento de
+solitario.</p>
+
+<p>Sim, eu entrevejo-te nas tuas longas noites silenciosas, na bem-aventurada
+velhice dos teus sessenta e cinco annos, nos primeiros tempos da tua religiosa
+solidão, antes que o duque de Aveiro te mandasse edificar a ermidinha que ainda
+hoje se conserva, escondido ao fundo da tua cabana, por ti mesmo entretecida de
+ramos, encostado ao breviario, e ao pé dos seccos feixes de matto, que te
+serviam de cama... Por unicas alfaias em toda a choça, as disciplinas e os
+cilicios. Fóra, a noite, a noite tepida e luminosa, esmaltada de estrellas
+dormentes; e em baixo, ao fundo, o grande mar, a ampla bahia, curva como um
+alfange, narcotisada pelos effluvios do luar.</p>
+
+<p>E tu, mudo e recolhido, deixando invadir-te a alma a placida doçura das
+estrellas e das aguas, escutando&mdash;porque não hei de dizel-o?&mdash;os eloquentes
+silencios da noite, que desciam á profundesa harmoniosa do teu peito, e
+mansamente o atravessavam, e de lá voltavam a derramar-se na amplidão luminosa
+do firmamento, já transformados n'estas e outras palavras puras e sonoras como
+o oiro:</p>
+
+<blockquote>
+ Alta Serra deserta, d'onde vejo<br>
+ As aguas do Oceano d'uma banda,<br>
+ E d'outra, já salgadas, as do Tejo:<br>
+ <em>Aquella saudade</em>, que me manda<span class="pn">{13}</span><br>
+ Lagrimas derramar em toda a parte,<br>
+ Que fará n'esta saudosa, e branda?<br>
+ D'aqui mais saudoso o sol se parte;<br>
+ D'aqui muito mais claro, mais dourado,<br>
+ Pelos montes, nascendo se reparte.<br>
+ Aqui sobe-lo mar dependurado<br>
+ Um penedo sobre outro me ameaça<br>
+ Das importunas ondas solapado.<br>
+ Duvido poder ser que se desfaça<br>
+ Com agua clara, e branda a pedra dura<br>
+ Com quem assi se beija, assi se abraça.<br>
+ Mas ouço queixar dentro a lapa escura,<br>
+ Roidas as entranhas apparecem<br>
+ D'aquella rouca voz, que lá murmura.<br>
+ Eis por cima da rocha aspera descem<br>
+ Os troncos meio sêccos encurvados,<br>
+ Eis sobem os que n'elles enverdecem.<br>
+ Os olhos meus d'ali dependurados;<br>
+ Pergunto ó mar, ás plantas, ós penedos<br>
+ Como, quando, por quem fôram creados?<br>
+ Respondem-me em segredo mil segredos,<br>
+ Cujas primeiras letras vou cortando<br>
+ Nos pés d'outros mais verdes arvoredos. </blockquote>
+
+<p>Esta musica ineffavel, que subia para Deus em ondulações maviosas, traziam
+da tua alma os silencios da noite: tal as abelhas do Hymetto, atravessando a
+florida espessura do açafrão cheiroso, traziam para o colmeal o alvo mel dos
+banquetes atticos. </p>
+
+<p>Outras vezes rugia sobre o mar a tormenta, rasgavam-se de instante a
+instante em listrões de fogo os fluctuantes crepes do ceu, o ribombar do trovão
+vinha rolando montanha abaixo em echos entrecortados, o gigante de pedra, em
+cujo dorso se entremostrou radiosa de nimbos mysteriosos, em remotos<span
+class="pn">{14}</span> tempos, a imagem de Nossa Senhora, ao mercador
+Haildebrant, cuja embarcação, contrastada dos ventos, dobrára o cabo de
+Espichel,&mdash;o gigante de pedra, minado pelo oceano, cingia contra o seu peito
+robusto a Cruz da Redempção, e com ella cobria as caladas ermidas dos
+solitarios arrabidos a essa hora prostrados em meditação piedosa...</p>
+
+<p>E tu eras entre todos o que melhor comprehendias a linguagem vaga da noite,
+quer a houvesses de interpretar no poema das estrellas, quer na epopea da
+procella, porque no teu claro espirito havia aquella fina sensibilidade que tem
+ouvidos para os mais subtis rumores, olhos para as mais fugazes visões, e voz
+para responder ás mais incoerciveis revelações...</p>
+
+<p>A noite! a noite!</p>
+
+<p>De noite avoejam errantes pela atmosphera pensamentos vagos e alados, que
+umas pessoas sabem traduzir, outras presentem sem comprehender. Tem a noite
+seus insectos e pensamentos peculiares, e uns e outros passam no ar com
+fremitos mysteriosos. Só o naturalista conhece os primeiros, atravez da
+negrura; só o poeta conhece os segundos. E quem não é uma nem outra coisa,
+philosopho ou poeta, fica amedrontado do rumor que passa adejando, e phantasia
+espiritos maleficos e creações sobrenaturaes no que são apenas manifestações
+subtis da grande vitalidade nocturna. E d'aqui nasce a visionaria cobardia que
+pelas horas do silencio e da quietação saltea o animo do commum das pessoas. E
+como tudo o que ha de mais incerto, escuro e insondavel<span
+class="pn">{15}</span> é a morte, esses ligeiros fremitos que passam
+remoinhando arrastam aereamente o grande, o triste, o fatal pensamento da
+morte. Quantas pessoas não ha ahi que vivem despercebidas da mortalidade do
+corpo os mais trabalhosos, os mais duros, os mais soffridos dias da sua vida?
+Expostas a perigos temerosos, durante as horas de sol, ellas os atravessam
+fortalecidas pela esperança de que os hão de vencer finalmente. Oh! mas se de
+noite acontece lembrar-lhes a materia que são mortaes, e que é incerto o
+momento da anniquilação corporal, ahi acodem de tropel os estremecimentos
+nervosos, os sustos imaginarios, os pavores phantasticos. A noite
+affigura-se-lhes uma sepultura enorme, cheia das concavas sombras das grandes
+cavidades, coberta pela bronca abobada das cryptas tenebrosas, e sentem-se
+despenhar, saccudidas por mão invisivel e herculea, ao vacuo d'essa profunda
+negrura, em cujo fundo está um mysterio terrivel e insondavel &mdash;a eternidade!
+</p>
+
+<p>Cuidam ouvir o baque do proprio corpo, e depois um como estrondoso ranger de
+enormes ferrolhos em anneis de ferro, como se se estivessem cerrando para todo
+o sempre as portas que separam o mundo das visualidades terrenas do mundo da
+eterna realidade.</p>
+
+<p>Portanto, que admiraveis são as almas que, á similhança da tua, ó pallido
+eremita! se concentram serenas e firmes deante dos horrores da noite,
+sondando-a, contemplando-a, lendo-a, adivinhando-a no que ella tem de mais
+fugitivo e aereo, por mais ermo<span class="pn">{16}</span> que seja o logar,
+por mais adeantada que seja a hora, por mais profunda que seja a meditação!</p>
+
+<p>Admirado sejas tu, que estendias os braços ciliciados para abarcares a nuvem
+collossal da escuridão e do silencio contra o seio desoffegado e placido, como
+se lhe quizesses dizer, a essa grande massa feita de trevas e de mysterios:
+«Tu, que és a eternidade, a morte, o repouso, ouve bem as compassadas
+palpitações do meu coração tranquillo. Eu estou resignado, e até ancioso de que
+a tua aza negra me arrebate.»</p>
+
+<p>Isto dizia por ventura elle, na vasta solidão alpestre da Arrabida, na hora
+em que, pelas mais populosas cidades, os outros homens, apesar de reunidos como
+em exercitos, para melhor baterem os phantasmas imaginarios da noite,
+levantavam barreiras de musica e de luz, dentro de suas casas, e reuniam em
+torno de si as seducções femininas, que possuem o segredo de aligeirar as
+horas, para fazerem rosto á invasão da treva e do silencio, á onda escura que
+se derrama pelo ar, pelas ruas, pelas praças, pela vastidão da terra e das
+aguas.</p>
+
+<p>Uma coisa ha grandiosa, imponente, por vezes terrivel e invencivel como a
+noite: é o Mar.</p>
+
+<p>Tem querido o homem explicar a noite e o mar, descer ás profundesas d'uma e
+d'outro, estudar as radiações nocturnas do firmamento e as brancas e rosadas
+ramificações dos jardins submarinos; desenvencilhar os rastros de luz que se
+cruzam sobre a saphira celeste e as enormes filigranas de animalculos e
+plantasinhas que se enredam no fundo das<span class="pn">{17}</span> aguas
+marinhas; explicar a vida que palpita sob a nuvem e a vida que palpita sob a
+onda.</p>
+
+<p>Oh! mas que de mysterios ainda! que de problemas a resolver! que de factos a
+demonstrar!</p>
+
+<p>Por isso a noite e o mar serão ainda por muito tempo, e talvez eternamente o
+sejam, companheiros inseparaveis de superstições tradicionaes e horrores
+irresistiveis.</p>
+
+<p>Mas tu, ó poeta do ermo, escondido na tua montanha, que sobrancea o mar, tu
+contemplavas, de dia ou de noite, com religiosa firmesa, esse magestoso visinho
+cheio de mysterios e de vozes, de força e de humildade, de sanha e de candura.
+</p>
+
+<p>Para ti a fragil embarcação que navegava dobrando o famoso cabo, onde os
+geographos antigos quizeram assignalar o <em>fim da terra</em>, não era a
+ousadia humana que passava, orgulhosa de domar as aguas, vaidosa das suas
+flammulas e das suas velas desfraldadas: a ti affigurava-se-te um enorme altar
+fluctuante, no qual se erguiam os mastros cortados pelas vergas em forma de
+cruz; e o cordame fazia-te lembrar o labyrintho phantasioso de estreitas
+cortinas e sanefas pendentes d'um templo que fosse vogando mar em fóra em
+louvor de Deus.</p>
+
+<p>E mais fundo se te arreigava no coração esta crença quando a maruja,
+passando em frente da santa montanha, saudava em brados festivos a <em>Estrella
+do mar</em>, não menos resplendente que no tempo de Haildebrant, a <em>Estrella
+do mar</em> engastada no seu vasto oratorio rustico, que de nordeste a sudueste
+corre na extensão de cinco leguas, dominando pelo<span class="pn">{18}</span>
+norte as aguas do Tejo e esse formoso archipelago de pequenas aldeas que se
+chama Azeitão; sobranceando pelo sul a larga corrente do Sado, e as ruinas da
+velha Troya; avistando no horisonte que se rasga pelo sudueste a orla alvacenta
+do Alemtejo e dos Algarves.</p>
+
+<p>Onde houve na terra mais dilatado, magestoso e perduravel altar! Assombroso
+era o templo de Diana em Epheso, e um dia os incendios atiçados por Erostrato
+devoraram-n'o. Mas pelas tuas columnas e os teus artesãos de pedra, ó santa
+montanha da Arrabida, pódem collear á vontade as chammas dos fachos
+iconoclastas, que os não hão de crestar nem abalar na sua immobilidade eterna.
+</p>
+
+<p>Estas e outras grandesas do formoso retiro monastico referiam os monges
+arrabidos em Lisboa nas salas piedosas da infanta D. Izabel fundadora do
+convento de Santa Catharina de Ribamar, e viuva do infante D. Duarte, irmão de
+D. João III. Quando este monarcha houve por bem dar casa a seu sobrinho D.
+Duarte, orphão d'aquelle infante de egual nome, o pae de Agostinho Pimenta
+conseguiu acommodar o filho no paço do imberbe neto de D. Manuel, onde Pedro
+d'Andrade Caminha tinha os cargos de camareiro e guarda-roupa.</p>
+
+<p>Era Agostinho Pimenta um mocinho de idade igual á do infante a quem vinha
+servir, saudoso da amenidade bucolica do seu Lima, onde elle, em companhia de
+seu irmão Diogo Bernardes, versejára voltas e glosas em honra da naturesa.</p>
+
+<p>Foram-lhe lançando n'alma as saudosas paizagens<span class="pn">{19}</span>
+do Minho, os germens d'umas tristesas suaves, que algum dia chegam a florecer
+dolorosamente, e que ás vezes se desentranham em fructos de lagrimas, quando a
+vida consegue demorar-se até á sazão do outomno.</p>
+
+<p>Nestas disposições de animo contemplativo entrou Agostinho Pimenta nas salas
+duma princesa viuva, e dum infante cujo caracter melancholico todos os dias
+mais se ia domando ao geito do eremitico apartamento que os religiosos da
+Arrabida, certos frequentadores da casa, encareciam á mãe e ao filho,
+principalmente Frei Jacome Peregrino, cuja conversão, como de leve tocamos,
+dependeu d'uma simples visita á montanha.</p>
+
+<p>Intencionalmente deixamos em silencio os nomes das duas infantas filhas de
+D. Izabel de Bragança, D. Maria e D. Catharina, duas timidas meninas que viviam
+constrangidas nos soporiferos habitos do paço, e que de nenhum modo podem dar
+relevo ao grupo da familia do infante D. Duarte.</p>
+
+<p>A primeira d'estas meninas veio a casar para Flandres com o principe
+Alexandre Farneze; a segunda desposou seu primo co-irmão D. João, sexto duque
+de Bragança, e figura como pretendente á coroa em 1580, epocha em que o seu
+nome entra por assim dizer na historia de Portugal.</p>
+
+<p>Entre os fidalgos que concorriam habitualmente ás salas da infanta D.
+Izabel, era dos mais assiduos o terceiro duque de Aveiro, D. Alvaro de
+Lencastre, mui celebrado nos livros antigos pela sua particular affeição ao
+mosteiro da Arrabida.<span class="pn">{20}</span></p>
+
+<p>Este fidalgo presava grandemente os talentos e qualidades do moço Agostinho
+Pimenta, e não raro descaiam suas conversações nos assumptos religiosos, que
+fluctuavam ao de cima de todas as preoccupações n'aquella nobre casa.</p>
+
+<p>Agostinho inflammava-se então nos arrebatamentos proprios da sua idade, e
+umas vezes ardentemente encarecia na presença dos fidalgos o espirito
+aventuroso dos mancebos portuguezes que, á similhança do poeta Luiz de Camões,
+a esse tempo em Macau, iam militar no Oriente; outras, arrastado pela suave e
+convincente palavra de Frei Jacome e demais arrabidos, parecia deixar entrever
+vislumbres de propensão á vida ascetica do eremiterio.</p>
+
+<p>Acontecia sempre que o camareiro do infante D. Duarte, Pedro de Andrade
+Caminha, affrontado com os gabos do moço Pimenta ao gentil ardimento de Luiz de
+Camões, a quem profundamente odiava, sahia a ripostar-lhe com deslavados
+epigrammas ao solitario da gruta de Macau, cujo officio era, no seu entender,
+acutilar com a pena as authoridades de Goa, que o deportaram para a China, como
+em Lisboa havia acutilado com a espada o pescoço de Gonçalo Borges, criado do
+rei, o que lhe valeu ter que ir servir na India por grande clemencia real.</p>
+
+<p>Agostinho Pimenta tinha as opiniões contradictorias de quem ama pela
+primeira vez, e receia as consequencias do primeiro amor, proclamando agora a
+superioridade do coração humano sobre as pequenas contrariedades amorosas da
+mocidade, e logo a poetica abnegação de quem sacrifica a vida inteira<span
+class="pn">{21}</span> ao serviço de Deus, depois de mal succedido nos amores
+terrenos.</p>
+
+<p>Batido no campo das tendencias aventurosas umas vezes por Pedro Caminha,
+outras vezes pelos capuchos da Arrabida, Agostinho Pimenta via-se encurralado
+no reducto do fanatismo religioso, e esta idéa, lentamente insinuada, acabou
+por tomar no seu animo a consistencia d'uma estalactite formada gotta a gota no
+tecto d'uma gruta.</p>
+
+<p>Frequentes vezes relembrava a infanta D. Izabel a brevidade da felicidade
+terrena, como para resignação sua e dos religiosos que a escutavam. Recordava
+com tranquilla tristeza a magnificencia dos seus desposorios com o filho de D.
+Manuel, celebrados em Villa Viçosa em abril de 1537. Não exaggerava historiando
+com piedoso desdem o apparato d'essa festa nupcial, que a dedicada amisade de
+seu irmão D. Theodosio de Bragança quizera tornar esplendida. Uma phrase de
+Damião de Goes corrobora as maguadas recordações da infanta: «O aparato d'estas
+festas foi tamanho&mdash;diz o chronista manuelino&mdash;que com assaz trabalho o poderá
+um Rei fazer com mór magnificencia.» D. João III, se não ordenára as festas,
+assistiu a ellas, com os infantes seus irmãos, e a flôr da sua côrte. Fôra elle
+que justára o casamento com D. Theodosio. Cabia-lhe, pois, a iniciativa d'esse
+enlace que parecia prometter uma longa e venturosa duração, e que tão breve
+foi. El-rei, que se achava no paço d'Evora a esse tempo, fôra esperado pelo
+duque D. Theodosio a meia legua de Villa Viçosa. Seguiu-se o jantar nupcial, no
+paço do duque,<span class="pn">{22}</span> em que D. Izabel teve logar ao lado
+do rei, e o duque logo abaixo dos infantes. Sobre todas estas recordações do seu
+noivado passava nos labios da infanta viuva um sorriso triste e resignado. Com
+fidalga saudade, digamos assim, encarecia a gentil presença, bondade e piedade
+do infante seu marido. Então acudia algum religioso de S. Domingos ou da
+Arrabida a elogiar os dotes intellectuaes de D. Duarte, que praticava em latim
+com o seu mestre André de Rezende, e recitava ao revez, de memoria, qualquer
+capitulo de Cicero; e ditava quatro cartas ao mesmo tempo, e compunha musica e
+poesia, e cantava, e jogava as armas, e era caçador eximio. Quando vinha a lume
+esta prenda da caça, ainda a infanta se lastimava dos incommodos que, mesmo
+depois de casado, se dava o infante quando sahia a montear, e era certa a
+millessima edição do caso de lhe haver um seu privado exposto os perigos dos
+excessos venatorios, e o infante respondido que bom era educarem-se os homens
+em asperos exercicios para melhor poderem soffrer os trabalhos da guerra. Esta
+longa resenha das virtudes e talentos de D. Duarte seguia quasi sempre a ordem
+chronologica da sua biographia, e portanto força era relembrar a sua morte, por
+elle predicta, e o cilicio com que mysteriosamente trazia cingidas as carnes, e
+a pomba que ao passar a sua tumba, caminho de Belém, onde jaz, pelo hospital de
+Todos os Santos, voara mansamente para o ceu.</p>
+
+<p>Fôra n'esta atmosphera fradesca e milagreira, onde continuamente se
+apregoava o ephemero e fragil<span class="pn">{23}</span> das felicidades
+terrenas, ainda mesmo das mais santamente conquistadas pelo amor e pela
+virtude, que o moço Agostinho Pimenta respirou tristemente ao entrar na
+sociedade para onde o mandaram desterrado do seu bucolico Minho.</p>
+
+<p>Mas eu já vi uma vez, navegando Douro acima, empinar-se sobre a margem
+esquerda o mais arido, o mais calcinado, o mais duro fraguedo que póde
+imaginar-se, e pendurado d'uma rocha, e como que nascido do seio d'ella, o mais
+verde, o mais fresco, o mais curvo festão de verdura que se poderá descrever.
+Era nos fins de julho, pelos grandes calores. Havia uma hora que navegavamos
+por entre alcantis que se recortavam com os vagos contornos de gigantes de
+pedra. Nas frontes tostadas dos marinheiros porejava o copioso suor do
+trabalho. A corrente era pequena, e o barco subia vagarosamente a impulsos de
+vara. Dariamos um thesoiro, se o tivessemos, por uma sombra de oasis. Mas o
+deserto, que era de pedra, parecia infindo. Apertava comnosco o vago receio que
+nos dá a solidão nas longas horas da charneca alemtejana, aggravado pelo sol
+canicular que sobre nós cahia a prumo. De repente, ao dobrar uma volta do rio,
+surge como por encantamento, desconhecido dos marinheiros, o largo e alto
+festão, que promettia sombra deliciosa para o descanço de meia hora. Foi
+assombrosa a nossa alegria. Como e quando nascera ali aquelle braço de verdura
+que parecia estender-se amigavelmente ao viajante para lhe offerecer abrigo?
+Ninguem o sabia; não o poderam dizer os marinheiros.<span
+class="pn">{24}</span></p>
+
+<p>Assim tambem ninguem podéra dizer como desabrochara o coração de Agostinho
+Pimenta no sombrio paço que fechára as portas ao Amor quando o cadaver do
+infante D. Duarte sahira para Belem.</p>
+
+<p>Entre as damas que serviam a infanta D. Izabel uma havia, D. Branca de
+Noronha, cuja formosura floria nas graças senhoris dos dezesete annos. Tambem
+ella fazia lembrar o oasis no deserto. Esta gentil menina contrastava
+singularmente com as melancholicas tendencias da familia e commensaes da
+infanta viuva. D. Izabel era inalteravelmente a piedosa fundadora do convento
+de Ribamar; seu filho, o infante D. Duarte, havia recebido para todo o sempre a
+influencia d'uma educação intolerantemente religiosa; Pedro d'Andrade Caminha
+conciliava como podia as suas malquerenças como homem com o seu fanatismo
+religioso como camareiro do infante; os franciscanos da Arrabida traziam para
+as salas do paço a melancholia inherente á solidão do eremiterio. Delimitando
+os extremos d'esta sociedade espessamente taciturna e aborrida,&mdash;duas creanças
+quasi de egual idade, posto que de genios differentes,&mdash;Branca de Noronha e
+Agostinho Pimenta.</p>
+
+<p>Quem dera ás duas irmãs de D. Duarte o poderem espanejar-se, ainda que
+tambem a medo, como a lepida aiasinha Branca!</p>
+
+<p>Ella era a inquieta encarnação da alegria, a onda limpida que, sem se
+amedrontar com o aspecto sinistro das ribas solitarias, as cobre de instante a
+instante com as suas abundantes rendas de espuma, e as suas pequenas perolas de
+agua. Era o unico<span class="pn">{25}</span> riso que borboleteava ao de cima
+da melancholia quasi conventual d'aquella casa, e, como o riso é por via de
+regra a expressão da alegria, jámais se deixou contagiar da tristesa que
+empallidecia os semblantes, e hybernava nos corações.</p>
+
+<p>Agostinho Pimenta, cujos habitos infantis foram os de um poeta que
+desabrocha entre a pensativa bellesa das paizagens do campo, não teve força
+bastante para se deixar ficar embellesado nas scintillações que de quando em
+quando lhe relampagueava a mocidade, e assim foi que cedeu á pressão religiosa
+da infanta viuva e dos monges arrabidos.</p>
+
+<p>Branca de Noronha sorria d'elle com uma graça capaz de abalar a seriedade de
+Frei Jacome Peregrino, se ella poderá dizer-lhe com a mesma franquesa os
+chistes com que de emboscada accomettia o moço Agostinho Pimenta.</p>
+
+<p>Não raro acontecia, á volta d'um corredor, encontrarem-se os dois, e
+curvar-se ella em palaciana misura para dizer-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;<em>Deo gratias</em>, Padre Frei Agostinho!</p>
+
+<p>E despedia n'uma graciosa corrida, atabafando com a mão delicada o seu
+metallico rir senhoril.</p>
+
+<p>Tantas vezes se repetiu a amavel zombaria da formosa aiasinha da infanta,
+que o moço Agostinho Pimenta resolveu aproveitar um d'estes frequentes
+episodios para dizer-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Não graceje, Dona Branca, que póde vir a converter-se em realidade o que
+nos seus labios é zombaria. Está na sua mão, direi antes no seu coração, o
+atirar-me para a solidão conventual...<span class="pn">{26}</span></p>
+
+<p>&mdash;Vejo que tem aproveitado as lições de Frei Jacome Peregrino...</p>
+
+<p>&mdash;Ah! não continue a zombar, Dona Branca!</p>
+
+<p>&mdash;Quer então que eu chore a conquista de mais uma alma para o ceu? Não deve
+ser. O sr. Agostinho Pimenta tem inclinação para a vida monastica. Eu não
+tenho. Que se me dá que vista o habito? Vista, se quizer. Será mais um
+religioso que frequentará as salas da sr.ª infanta...</p>
+
+<p>&mdash;É-lhe então absolutamente indifferente que eu professe?</p>
+
+<p>E D. Branca, sem responder a esta pergunta, a que o novel poeta das margens
+do Lima dava uma importancia apaixonada, mesurou graciosamente e motejou:</p>
+
+<p>&mdash;Padre Frei Agostinho, queira Vossa Charidade recommendar-me aos seus
+irmãos capuchos.</p>
+
+<p>E desappareceu com a ligeiresa d'uma arveloa. Agostinho Pimenta era, como
+sabemos, o poeta educado pela naturesa, que tem o segredo de aconselhar
+tristesas. Accrescia que respirava n'um meio onde o fanatismo religioso se
+inoculava lentamente, durante a somnolencia dos serões fidalgos, como as
+emanações da mancenilheira, durante o indiscreto somno do viandante. Fez-se
+mais pensativo que nunca no decurso de tres dias, durante os quaes algumas
+vezes lhe chegára aos ouvidos o leve rir descuidado da aiasinha. Ao cabo do
+terceiro dia foi ao encontro do provincial Frei Jacome, que estava praticando
+com a infanta e o infante n'uma das salas do paço, e, depois de solicitar venia
+de D. Duarte e<span class="pn">{27}</span> sua mãe, pediu ao virtuoso monge que
+lhe permittisse vestir o habito da sua Provincia.</p>
+
+<p>Jubilou Frei Jacome com a resolução do moço Pimenta, com que elle contava
+havia quatro annos, attribuindo-a candidamente á efficacia dos seus conselhos,
+similhantemente ao pomareiro que se vangloria de que a arvore fructifique mais
+pelo seu trabalho do que por espontaneidade da naturesa.</p>
+
+<p>Correu o anno do noviciado ou da approvação de Agostinho Pimenta, como então
+se dizia, no conventinho de Santa Cruz da Serra de Cintra, do qual elle ao
+depois tomou o appellido na profissão, como deixou escripto:</p>
+
+<blockquote>
+ Nasci, e renasci na Casa em dia<br>
+ De Santa Cruz, da Cruz o nome tenho. </blockquote>
+
+<p>Durante o noviciado, que principiou em 1560, Agostinho Pimenta parecia por
+vezes entrever nas suas visões monasticas a formosa imagem da aiasinha da
+infanta, e então era o descer da serra de Cintra e vir em cata d'essa visão,
+que o podia salvar antes que as portas do conventinho de Santa Cruz se
+fechassem eternamente sobre elle. D'estas visitas ao paço do infante D. Duarte,
+dá recatada e dissimulada conta o biographo José Caetano de Mesquita, quando
+diz: «E ainda que conservou algumas correspondencias de pessoas instruidas,
+julgando não desdizer da austeridade do seu instituto condescender com os seus
+amigos, achando-se nas suas mezas, e comendo dos delicados pratos com<span
+class="pn">{28}</span> que eram servidas; comtudo sempre se houve com religiosa
+modestia, e o decoro devido á mesma reforma.» </p>
+
+<p>Uma d'estas visitas parece haver decidido definitivamente da sorte de
+Agostinho Pimenta.</p>
+
+<p>Celebrava-se o decimo-nono anniversario natalicio do infante D. Duarte. As
+duas meninas suas irmãs haviam instado com a infanta D. Izabel para que não
+deixasse passar despercebido o dia, e, consultados os frades da Arrabida,
+concordaram elles que era de justiça ser assim. A infanta viuva annuiu por
+obediencia aos seus conselheiros, e permittiu se realisasse excepcionalmente a
+festa commemorativa do anniversario de seu filho.</p>
+
+<p>Agostinho Pimenta viera de Cintra expressamente.</p>
+
+<p>Era em março. A primavera enflorava as alinhadas moitas do jardim, e as
+rosas abriam alas festivas ás damas que divagavam por entre os canteiros.
+Primava entre as damas de mais peregrinas graças a tréfega aiasinha Branca. Não
+a perdia de vista Agostinho Pimenta quando glosava, com o sabor religioso que a
+sua posição exigia, este mote que lhe dera a infanta D. Catharina:</p>
+
+<blockquote>
+ Antre as cousas mais formosas<br>
+ Busca a mais formosa d'ellas;<br>
+ Mais que o sol, lua, e estrellas,<br>
+ Mais que lirios, e que rosas. </blockquote>
+
+<p>Havia D. Antonio de Mello, fidalgo ao serviço do infante, cortado uma rosa,
+ao passar por um dos canteiros.<span class="pn">{29}</span> Era alva de neve
+raiada de laivos sanguineos. Decorrido tempo apparecera D. Antonio sem a flor,
+e Agostinho Pimenta, encontrando Branca á beira do lago, sorriu-lhe com a doce
+familiaridade que mezes antes os reunia no paço do infante. A travêssa
+aiasinha, attentando no habito de Agostinho, respondeu com um sorriso
+desdenhoso, e, ao curvar-se para mesurar o costumado <em>Deo gratias, Padre
+Frei Agostinho</em>, a contracção do seio fez com que se despenhasse á agua do
+lago a rosa branca radiada de filamentos purpurinos, que D. Antonio lhe dera, e
+ella occultára no peito. </p>
+
+<p>Não se prendeu a aiasinha com a contrariedade. N'esse dia era-lhe permittido
+vibrar livremente a sonoridade metallica da sua voz. Riu alegremente, e
+desappareceu por entre os alegretes com o rapido deslisar das deusas do
+paganismo. E as brancas nymphas de loiça, e os sarcasticos satyrosinhos de
+marmore, que se alapavam entre a verdura do jardim, pareciam dizer á veloz
+aiasinha n'uma longa resonancia:</p>
+
+<p>&mdash;Viva, Galathea!</p>
+
+<p>Agostinho Pimenta ficou chumbado á beira do lago, com os olhos postos na
+rosa fluctuante, e como que lhe segredava no seu olhar melancholico: «Tambem eu
+me despenhei como tu!»</p>
+
+<p>Doera-lhe no coração a magua de que a donzellinha se deixasse enliçar nos
+aventurosos laços dos fidalgos que n'aquelle tempo viviam por côrtes, e desde
+esse momento desejára antecipar, se possivel fôra, a hora solemne da profissão.
+Esta descrença<span class="pn">{30}</span> na puresa feminina era-lhe em parte
+aggravada pelas cartas despeitadas de seu irmão Diogo Bernardes, que se exulára
+em Ponte de Lima, mal ferido d'um galanteio começado á beira do Tejo com uma
+dama que preferira casar rica.</p>
+
+<p>Ah! mas Agostinho Pimenta enganava-se. A alegre aiasinha da infanta D.
+Izabel tinha o genio mariposo que borboletea nas flores e se desvia dos
+espinhaes. Era a graça com duas azas: tinha a desenvoltura que não rasteja.</p>
+
+<p>Ao outro dia partia para o solar de Bragança em Villa Viçosa a infanta
+viuva, suas filhas e seu filho D. Duarte.</p>
+
+<p>As duas unicas recreações que habitualmente se permittia o infante D.
+Duarte, a despeito de suas irmãs, tinham um caracter tradicional de familia:
+eram a poesia e a caça.</p>
+
+<p>O principe seu pai, cuja fama de caçador a historia ainda hoje pregoa, fôra
+trovador. Dá testimunho Souza na <em>Historia genealogica</em>: «Na poesia
+vulgar compoz sentenciosamente, guardando as regras poeticas.»</p>
+
+<p>D. Duarte não versejava, mas gostava de ouvir trovar no seu paço. Monteador
+era-o por herança, e famoso. Andava nos costumes da familia o de uma caçada
+annual em Villa Viçosa.</p>
+
+<p>O infante era acompanhado pelos fidalgos de sua casa, D. Diogo de Lima, D.
+Antonio da Gama, Jorge da Silva, D. Diogo, D. Antonio e D. Rodrigo de Mello, D.
+Luiz e D. Francisco de Moura, Gaspar de Souza, João Mendes de Castello Branco,
+Fancisco Leitão, Luiz do Amaral e Pedro d'Andrade Caminha.<span
+class="pn">{31}</span></p>
+
+<p>O duque de Bragança, D. João, era seguido de luzida e numerosa comitiva.</p>
+
+<p>Á infanta viuva, a D. Maria e a D. Catharina faziam sequito mais de vinte
+senhoras, entre as quaes não seria difficil distinguir D. Branca de Noronha.
+</p>
+
+<p>A entrada em Villa Viçosa foi deslumbrante de magnificencia e digna d'um
+principe de sangue, immediato á coroa.</p>
+
+<p>O infante D. Duarte ia vestido á flamenga em cavallo de brida, e a infanta
+sua mãe em umas andas, ricamente guarnecidas, acompanhada por D. Catharina. D.
+Maria cavalgava em mula com andilhas de preciosa chaparia de ouro.</p>
+
+<p>De vespera haviam chegado os pagens e monteiros com numerosas matilhas de
+lebreos, sabujos e outros cães, e boas aves de presa.</p>
+
+<p>De manhã cedo já os nobres caçadores andavam no seu rude lidar, e não poucas
+vezes lhes era servido o almoço á sombra d'uma alameda cuja simplicidade
+bucolica notavelmente contrastava com as finas toalhas hollandezas, os gomis de
+ouro lavrado, os picheis e taças de prata,&mdash;com a preciosa baixella da casa do
+infante.</p>
+
+<p>Foi n'uma d'essas manhãs, e sob essa mesma alameda frondosa, que o infante
+D. Duarte recebeu uma carta cuja direcção, era a seguinte:&mdash;<em>Para sua
+excellencia o senhor infante D. Duarte.</em><a name="tex2html1"
+href="#foot201"><sup>[1]</sup></a><span class="pn">{32}</span></p>
+
+<p>Para logo conheceu o infante a letra: era de Agostinho Pimenta.</p>
+
+<p>Houve curiosidade de saber o que diria a carta, por inesperada. O noviço do
+conventinho da serra de Cintra sollicitava da infanta viuva e de seu filho
+authorisação para professar. Jubilou com a noticia a côrte do infante: havia
+conseguido uma victoria. Só D. Branca de Noronha tregeitou quasi
+imperceptivelmente de desdem.</p>
+
+<p>Momentos depois, ao tempo em que Agostinho Pimenta dolorosamente suppunha a
+louçã aiasinha requebrada nas galanterias de D. Antonio de Mello, esquivava-se
+ella ao encontro d'este galanteador fidalgo, impellindo gentilmente o seu
+palafrem ao longo da alameda.</p>
+
+<p>Ha uma desenvoltura mais casta do que o recato melindroso.</p>
+
+<p>Ha, mas tambem ha uma força maior do que a Verdade.</p>
+
+<p>É o Amor.</p>
+
+<p>Pintaram-n'o cego os antigos. Cego, porque tudo é despenhar-se em
+insondaveis profundesas de virtude ou de crime, sem lançar mão á humilde esteva
+que florece no cairel do abysmo, para que o sustenha na queda; cego, porque
+tudo é querer arremetter com as difficuldades que lhe tomam o passo e ir por
+deante na sua vertiginosa carreira quasi sempre vencedor e poucas vezes
+vencido; cego, porque se não lembra de que a vida é pequena para elle e porque
+aspira á eternidade quando se inflamma em peito de Jacob e de sete em sete
+annos renova o longo<span class="pn">{33}</span> sonho da sua ventura almejada
+com o pensamento fito em Rachel.</p>
+
+<p>Duello titanico do Amor com a Verdade: do Amor, que nada quer vêr, com a
+Verdade, que nasceu para ser vista; do Amor, que é o Protheu de si mesmo, e que
+se faz Othello, Romeu ou Antony, com a Verdade, que tem uma só forma, uma só
+face, e um só destino.</p>
+
+<p>Postas rosto a rosto estas duas grandes forças, trava-se furiosa a briga,
+arremettem-se, digladiam-se, confundem-se n'um vulto só como os corpos de dois
+luctadores raivosamente abraçados n'um circo romano, e quasi sempre o Amor,
+arremessando desdenhosamente para o largo esse gigante luminoso que se chama a
+Verdade, passa ovante mas ferido em vertiginosa carreira como se fôra arrastado
+pelo legendario cavallo de Mazeppa.</p>
+
+<p>Quem lhe vai pensar as feridas ao misero? conchegal-o ao seio quando pára
+finalmente depois do torrentoso despenho? Então mirra-se as mais das vezes na
+cruciante solidão d'uma existencia sem esperança.</p>
+
+<p>Antigamente fazia-se monge, como aconteceu com Agostinho Pimenta.
+Amortalhava-se no habito, cingia-se de cilicios, vivia na cella ou na gruta,
+ajoelhava deante da caveira ou da cruz. Depois que passaram os seculos em que o
+coração era templo de vestaes, onde flammejava puro e vivido o fogo dos
+affectos, o Amor, cego como na antiguidade, se bem que menos casto e soffrido,
+atira-se voluptuosamente aos braços da morte, como Werther, ou ri
+satanicamente<span class="pn">{34}</span> como Byron ao levantar com mão
+nervosa os ondulosos cortinados dos leitos conjugaes.</p>
+
+<p>Dedicação que exigia o sacrificio d'uma vida inteira, ou febre impetuosa que
+dura o tempo d'uma sezão, sempre cego o Amor, hontem e hoje, hoje e amanhã,
+exagerando as suas dores, embalando-se nas fabulas creadas pela sua phantasia
+exaltada, fechando os olhos á verdade que, embora vencida por elle, que é mais
+forte, lhe sobrevive no seu throno de luz, assente em degraus de
+granito,&mdash;eterna como Deus.</p>
+
+<p>Tambem no coração de Agostinho Pimenta estava travado a essa hora o duello
+horrivel. Turvava-lhe a vista o Amor, suppondo Branca peccadora. A Verdade
+quizera poder leval-o pela mão a debruçar-se n'uma das janellas do conventinho
+de Cintra, mostrar-lhe as borboletas que doidejavam nas comas floridas, e
+perguntar-lhe se alguma d'ellas valia menos por ter doidejado mais.</p>
+
+<p>Mas o Amor, o grande Amor d'esses tempos legendarios, que fazia do coração
+uma lamina d'aço, mais sonora quanto mais martellada, mais flexivel quanto mais
+comprimida, o Amor empunhara a sua lyra maguada e pelos arvoredos da serra fôra
+soluçando tristes cantares, emquanto a eterna Verdade ia chorando pelo poeta,
+que fugia do mundo, lagrimas de luz.</p>
+
+<p>Coincide com a carta dirigida ao infante D. Duarte o versejar das tristezas
+que no livro de Frei Agostinho tomaram o titulo de&mdash;<em>A uma
+ingratidão</em>&mdash;e que rematam com estas allusões clarissimas:<span
+class="pn">{35}</span></p>
+
+<blockquote>
+ Se mal fundei a minha confiança,<br>
+ <em>Se tão mal empreguei amor tão puro,</em><br>
+ <em>Porque não tomarei de mim vingança</em>?<br>
+ Quanto mais cruel fôr, quanto mais duro<br>
+ Contra mim, tanto mais serei mais brando;<br>
+ Pois todo o mal em mim é mais seguro;<br>
+ Assi me irei de todo acostumando<br>
+ A ser tamanho imigo do meu gosto,<br>
+ Que me fique esta magua consolando.<br>
+ Dous rios correrão pelo meu rosto,<br>
+ Envoltos nos meus gritos, derramados<br>
+ Noite, dia, manhã, tarde, sol-posto.<br>
+ Os tristes versos meus dependurados<br>
+ Nos troncos deixarei das verdes plantas,<br>
+ Que das sêccas assaz estão queimados.<br>
+ N'elles escreverei além de quantas<br>
+ <em>Cousas já padeci, quantas padeço,</em><br>
+ Por julgarem tão mal muitas tão santas:<br>
+ Comtudo, meu Senhor, eu não esqueço<br>
+ Que rogastes na Cruz por <em>gente ingrata?</em><br>
+ <em>Eu por </em><em><small>ELLA</small></em><em>tambem perdão vos peço.</em>
+ <br>
+ Se vós, meu Deus, rogais por quem vos mata,<br>
+ Como não rogarei a vós, Senhor,<br>
+ <em>Que perdoeis a quem tão mal me trata?</em><br>
+ Bem claro vendo estou, quanto melhor<br>
+ <em>É ser injustamente perseguido</em><br>
+ <em>Que poder ser d'alguem perseguidor.</em><br>
+ A cousa de que mais estou sentido<br>
+ É vêr que nos meus olhos faltou vista,<br>
+ Para vêr de que côr era vestido<br>
+ Um coração devoto do Baptista. </blockquote>
+
+<p>Completo o anno do noviciado, o irmão de Diogo Bernardes tomou
+effectivamente o nome de Agostinho da Cruz. Deixára ao mundo o nome que o mundo
+lhe dera. Desde o dia da profissão, a sua vida foi<span class="pn">{36}</span>
+quasi inteiramente de reclusão meditativa. Rareou as visitas á sociedade,
+especialmente ao paço do infante D. Duarte, onde a completa mudança da sua
+physionomia começou a infundir respeito nas pessoas que annos antes o
+conheceram. </p>
+
+<p>Branca attentava no ainda moço Agostinho, e já não ousava disparar-lhe os
+chistes proprios do seu genio. Se acertava encontral-o, fugia-o receiosa de
+visinhar a tristesa do habito. Agostinho da Cruz tirava d'esta esquivança
+indicios de culpabilidade, e recolhia taciturno ao seu convento, onde
+aligeirava as horas da clausura compondo versos que dias depois lançava ao
+fogo.</p>
+
+<p>Mais de quarenta annos deslisaram entre este repartir-se com Deus e com a
+secreta inspiração que não deixava apagar na sua alma o fogo vestal da poesia.
+N'este meio tempo, indo ao convento de Cintra D. Diogo Lopes de Lima,
+perguntára a Frei Agostinho da Cruz se o habito lhe vedava o poetar. O monge
+respondera sorrindo que os versos menos valiosos eram os que se davam ao papel,
+e d'esses quasi todos os inutilisava. Outros havia que recitava áquellas penhas
+ou confiava áquellas arvores. D. Diogo de Lima, relanceando os olhos ao tronco
+a cuja sombra praticavam, viu repetidas vezes entalhada no cortex a letra B.
+Preoccuparam-n'o pelo caminho as palavras do franciscano, e dias depois
+relatava o succedido no paço do duque de Aveiro, em Azeitão.</p>
+
+<p>Facil lhes foi correr com a memoria as breves paginas da brevissima mocidade
+de Agostinho Pimenta, e o associarem a gentil aiasinha da infanta<span
+class="pn">{37}</span> D. Izabel á inicial entalhada nas arvores de Cintra. Uma
+só pessoa podia aclarar a verdade. No convento de Jesus estava recolhida desde
+a morte da infanta D. Izabel uma senhora que podia dar noticia da gentil
+aiasinha dos dezesete annos. Esta senhora orçava pelos cincoenta e cinco. Era
+D. Branca de Noronha.</p>
+
+<p>De Azeitão a Setubal breve é a jornada, e brevissima o foi para tão destro
+cavalleiro como o duque.</p>
+
+<p>Consultada por D. Alvaro de Lencastre a reclusa do convento de Jesus, pôde
+ella conciliar as suas recordações no sentido de presumir-se causa involuntaria
+da conversão de Agostinho Pimenta.</p>
+
+<p>Desde esse momento D. Branca deixou de ser um segredo da alma do monge, que,
+tendo a rogos do provincial Frei Antonio da Assumpção acceitado a guardiania do
+convento de S. José de Ribamar, mais que nunca se afervorou no empenho de
+retirar-se á serra da Arrabida, desde que percebeu as allusões do duque de
+Aveiro e de D. Diogo de Lima aos poucos annos da sua mocidade vividos na casa
+do infante.</p>
+
+<p>Obtida a licença, não sem grandes difficuldades, passou-se Agostinho da Cruz
+á serra da Arrabida, onde não havia commodo para viver solitario.</p>
+
+<p>Implorou a amisade do duque para ter eremiterio, mas, recreado nas diversões
+campestres do seu paço de Azeitão, esqueceu-se D. Alvaro de Lencastre de lh'o
+mandar edificar. Frei Agostinho da Cruz não reclamou. Fez uma cubata de ramos
+silvestres, e por sua propria mão tentou levantar casa<span
+class="pn">{38}</span> mais de geito para resistir ás violencias da serra.
+Feriu-se nas mãos, e desistiu do intento. N'esta conjunctura visitaram-n'o os
+duques de Aveiro e de Torres Novas, o primeiro dos quaes era padroeiro da
+Arrabida. Então tornou a lembrar a ermida. Tratou-se de escolher sitio.
+Vacillaram na escolha, e o duque de Torres Novas, floreando a enxada, demarcou,
+por cortar hesitações, a área da ermida.</p>
+
+<p>O paço d'Azeitão! O que hoje são paredes ruinosas e negras era n'aquelle
+tempo um palacio que, segundo o phrasear de Frei Luiz de Souza, podia competir
+com os melhores de Hespanha. Casas, jardins, pomares, bosques e pinhaes
+magnificos! E como tudo isso foi docemente conquistado pelos descendentes do
+mestre de S. Thiago aos frades de S. Domingos, seus visinhos! Pediram terreno
+para fazer uma casa de campo. Os frades, orgulhosos da nobre visinhança, deram
+o terreno, e o mais que lhes foram pedindo, até que appareceu o grandioso
+palacio, de que restam as paredes!</p>
+
+<p>Mas fiquem em paz as ruinas.</p>
+
+<p>Respirava dilatada na profunda solidão da serra da Arrabida a alma de Frei
+Agostinho da Cruz depois que o duque d'Aveiro lhe fizera mercê da ermida, que
+ainda hoje se conserva em memoria do seu primeiro morador. Pequena era a
+habitação do ermita, em verdade, mas a alma do poeta tinha maior espaço na
+amplidão da montanha coroada pelo firmamento e defrontada pelo oceano. Frei
+Agostinho amava profundamente a noite, porque era só então que a sua pallida
+figura de solitario podia errar<span class="pn">{39}</span> livremente, nas
+asperesas da serra, acobertada pelas sombrias azas do mysterio. Algumas vezes,
+de dia, o molestavam até á mortificação a visita de pessoas amigas e a
+reservada espionagem dos religiosos do mosteiro que, por quererem parecer mais
+zelosos, não supportavam que Frei Agostinho vivesse fóra da clausura. Mas a
+noite adormecia a vigilancia nos olhos dos espiões, e afugentava da asperesa da
+serra as pessoas que lá o procuravam. Então, a sua alma podia voejar
+desopprimida de receios, e subir em extasis para Deus ou roçar por ventura as
+suas azas, purificadas no chrysol da fé, pelas austeras paredes do mosteiro de
+Jesus, onde vivia a que fôra a gentil aiasinha de D. Izabel.</p>
+
+<p>Fossem quaes fossem as tribulações de Frei Agostinho durante os amigos
+silencios da lua, como diz a expressão virgiliana, jámais deixou de fazer
+oração antes de sair o sol, e de nas primeiras horas da manhã ir á ermida da
+Senhora da Memoria ouvir a missa de Frei Diogo dos Innocentes, outro solitario
+que depois lhe ajudava.</p>
+
+<p>Era, pois, durante a expressiva mudez da noite que por deante dos olhos do
+solitario da Arrabida perpassavam os phantasmas do passado, as visões do
+presente, e talvez as prophecias do futuro. Desenhava-se-lhe com sombrio relevo
+o ephemero tempo da sua mocidade agora povoado de cadaveres. Em 1576 havia
+fallecido em Villa Viçosa a infanta D. Izabel. O infante D. Duarte, que
+acompanhára el-rei D. Sebastião na sua primeira jornada a Africa, voltára
+enfermo ao reino e fallecera no mesmo anno que sua<span class="pn">{40}</span>
+mãe, dois mezes depois. A infanta D. Maria, casada com o principe Farneze, dera
+em longes terras a alma ao Creador, um anno depois de sua mãe e de seu irmão. O
+nome da duqueza de Bragança, D. Catharina, entremostrava-se-lhe envolvido
+n'esse labyrintho de graves acontecimentos politicos que succederam depois da
+morte do cardeal. Seu irmão Diogo Bernardes, que estivera captivo em Africa,
+por haver acompanhado D. Sebastião a Alcacerquibir, na qualidade de chronista,
+e que lográra repatriar-se, recebendo no reino uma tença de Filippe II,
+fallecera n'esse mesmo anno em que Frei Agostinho conseguira recolher-se á
+Arrabida. Pedro d'Andrade Caminha tinha succumbido dezeseis annos antes. A
+colera do Senhor havia passado sobre o ceu da patria como um gladio de fogo, e
+a fome, a peste e a guerra haviam devastado a terra onde o cadaver de Camões,
+amortalhado na bandeira gloriosa das quinas, dormia o somno da immortalidade.
+</p>
+
+<p>Esse fôra o grande poeta que morrera com a patria.</p>
+
+<p>Todos os mais, aquelles de quem Frei Agostinho da Cruz se lembrava, taes
+como seu irmão Diogo Bernardes e Pedro Caminha, haviam adorado todas as
+realezas e todos os homens; atravessaram a côrte portugueza trovando e trovando
+entráram na côrte hespanhola.</p>
+
+<p>Ah! elle não! Elle, o solitario da Arrabida, fizera do amor terreno a escada
+de Jacob por onde subira ao amor divino.</p>
+
+<p>A gentil aiasinha da infanta D. Izabel envelhecera<span
+class="pn">{41}</span> reclusa no convento de Setubal. Era como que um livro
+que elle fechára ao vestir o habito, mas que o seu coração encadernára no
+pergaminho da saudade, como que para durar sempre.</p>
+
+<p>O unico poema que lhe era dado lêr, quando d'essas encerradas memorias
+desviava a vista, era o vasto firmamento arqueado, n'uma grande serenidade
+azul, zebrada de lacteas ondulações, sobre o dorso austero da montanha.</p>
+
+<p>Umas vezes a lua, suspensa como enorme lampada circular, outras vezes as
+palpitações luminosas do relampago lhe allumiavam estas horas nocturnas de
+funda meditação.</p>
+
+<p>Certo dia, pouco depois da visita do duque d'Aveiro ao convento de Jezus,
+procurou-o na serra o Padre Frei Fernando de Santa Maria, <em>por negocio
+preciso</em>, diz piedosamente o biographo Mesquita. Estava alheiado em extasi
+Frei Agostinho da Cruz, quando o Padre Fernando chegou. Foi mister dar-lhe
+tempo de redescender á realidade terrena e, quando a alma do asceta voltou a
+encarnar-se no homem, o Padre Fernando de Santa Maria entregou a Frei Agostinho
+da Cruz uma carta que em Setubal lhe haviam confiado para o solitario da
+Arrabida.</p>
+
+<p>&mdash;Quem se lembra ainda de mim no mundo? perguntou serenamente Frei
+Agostinho.</p>
+
+<p>O Padre Fernando encolheu os hombros, inclinou-se e sahiu.</p>
+
+<p>Frei Agostinho lançou-se contra o solo aspero da ermida, e por longo tempo
+permaneceu em oração.<span class="pn">{42}</span> Quando a vaga claridade do
+luar nascente principiava a cobrir d'uma fina gaze branca a amplidão do mar,
+Frei Agostinho desceu tranquillamente a montanha em demanda da lapa de Santa
+Margarida, o seu retiro dilecto das noites luminosas.</p>
+
+<p>Ah! a gruta de Santa Margarida!</p>
+
+<p>Ide cortando as aguas com o rumo na serra da Arrabida. Quando ao sopé da
+serra encontrardes o legendario penedo chamado do <em>Duque</em>, onde D.
+Alvaro de Lencastre ia sentar-se a pescar, desembarcai. Então vos espera a
+maior formosura que jámais vos foi dado vêr. Abre-se em dois arcos a rocha, um
+que dá sobre o mar, outro que dá para as fragas. Entrai pelo do mar, até onde
+vos poder levar o vosso barquinho, como fazem os pescadores do Cabo quando vão
+ouvir missa ou levar offrenda á santa da Lapa. De repente arquea-se sobre vós a
+grande gruta silenciosa, cheia duma frescura e d'uma suavidade inalteraveis,
+sepultada num silencio religioso que o roçar das ondas parece não interromper.
+Recorta-se irregularmente em caprichosas estalactites o concavo da lapa. Em
+alguns pontos, foram subindo do solo as columnas vitreas a que os naturalistas
+chamam estalagmites, e tanto cresceram que poderam fundir-se com as grandes
+massas de carambina pendentes da abobada. Abraçaram-se, e fizeram columnas que
+tres homens não poderão circullar com os braços: Ao fundo da gruta tremeluz a
+alampada no singelo altarsinho de Santa Margarida, que o mar, quando nas marés
+vivas entra em cachões pelas rusticas arcadas, parece respeitar,
+desenrolando-lhe aos<span class="pn">{43}</span> pés um tapete de espuma: Quando isto não é,
+encarregam-se as ondas de alastrar de plantas e despojos marinhos o chão da
+lapa.</p>
+
+<p>Ahi, como aprazia á sua alma, descançou Frei Agostinho da Cruz.</p>
+
+<p>Houve um momento que pareceu de hesitação, durante o qual o solitario monge
+acompanhou com a vista os caprichosos recortes da vaga á bocca da gruta. O luar
+descrevia até meio da lapa uma zona clarissima. Frei Agostinho introduziu a mão
+direita entre o habito e o peito, e tirou a carta que o Padre Fernando de Santa
+Maria lhe havia entregado. Abriu serenamente e leu... Mas, lidas algumas
+palavras, Frei Agostinho levantou-se de golpe, avançou alguns passos como para
+conseguir que um raio da lua cahisse em cheio sobre o papel, tornou a ler,
+ergueu de novo a fronte, e, saccudindo o papel na mão nervosa, apostrophou:</p>
+
+<p>&mdash;Bemdicto sejas tu, Senhor, que não te esqueceste de mim na minha solidão!
+Agora posso morrer no teu seio, ó santo Deus dos affligidos e dos peccadores.
+</p>
+
+<p>E ajoelhou, e levantou os olhos ao ceu, e assim esteve longo tempo com a
+fronte cadaverica melancholicamente illuminada pelo luar.</p>
+
+<p>A chave do segredo, que esse papel continha, está nos versos de Frei
+Agostinho, n'essa mesma noite escriptos na gruta de Santa Margarida. Dizem
+assim:<span class="pn">{44}</span></p>
+
+<blockquote>
+ <span style="margin-left: 4em;"><strong>A D. BRANCA</strong></span><br>
+<br>
+ Como queres que negue a teu esp'rito,<br>
+ Branca, serva da branca Virgem pura,<br>
+ Mostrar o que me pedes por escripto?<br>
+ Não sei eu por qual outra creatura<br>
+ Os tristes versos meus desenterrara<br>
+ Debaixo de tão alta sepultura.<br>
+ Mas pois de branca queres fazer clara,<br>
+ Aquella luz Divina te esclareça,<br>
+ Que nunca a bons desejos desampara.<br>
+ Não imagines cousa que te desça<br>
+ Do caminho do Ceu breve, e seguro,<br>
+ Por mais que trabalhoso te pareça.<br>
+ Com penas immortaes do reino escuro<br>
+ Não te quero espantar; pois seguir queres<br>
+ A Cruz do teu Senhor por amor puro.<br>
+ Que podes esperar, por mais que esperes,<br>
+ Do mundo, que te tem desenganada,<br>
+ Que te póde faltar, se a Deus te deres?<br>
+ Se vires que por tudo deixas nada,<br>
+ Por nada deixarás o que descança<br>
+ No curso d'esta vida tão cançada.<br>
+ A tanto subirás n'esta mudança,<br>
+ Que não haverá dôr, por mór que seja,<br>
+ Na qual não cresça mais tua esperança.<br>
+ Assi de culpas minhas eu me veja<br>
+ Tão longe, como perto ess'alma tua<br>
+ D'aquillo, que esta minha ver deseja.<br>
+ Que vás após de quem á custa sua<br>
+ Por nos levar ó Ceu, d'onde nos chama,<br>
+ Na terra padeceu morte tão crua.<br>
+ Um firme coração, que em vós se inflamma,<br>
+ Ardendo por se vêr de Vós amado,<br>
+ Por Vos amar, Senhor, tudo desama.<br>
+ Do tempo, que gastei tão mal gastado,<span class="pn">{45}</span><br>
+ Dera melhor razão, do que daria<br>
+ De vos seguir, Senhor Crucificado;<br>
+ Mas nunca a fraca voz me faltaria<br>
+ Para dizer do mundo a falsidade,<br>
+ Como quem n'elle andou cego sem guia.<br>
+ Levanta os olhos teus á saudade<br>
+ Do Summo Bem dos bens, e n'elle aprende<br>
+ Aquillo que mais fôr sua vontade.<br>
+ A Fenis, que do tempo se defende,<br>
+ Antes que lhe falleça força, e vida,<br>
+ No fogo se renova, em que se accende.<br>
+ Não se põe mais a Rola, carecida<br>
+ Do seu primeiro amor, em verde ramo;<br>
+ Foge da fonte clara aborrecida.<br>
+ Testimunha me seja por quem chamo,<br>
+ Da verdade que escrevo brevemente<br>
+ Nos versos que por seu amor derramo.<br>
+ Que não podes sem elle ser contente,<br>
+ Sem elle, que dilata seu castigo,<br>
+ Por não negar perdão ao penitente.<br>
+ Busca falsas razões o duro imigo<br>
+ Para nos impedir que de mais perto<br>
+ Possamos contemplar tamanho amigo.<br>
+ Ah braços estendidos, Lado aberto!<br>
+ Quanto se sentem mais as vossas dores<br>
+ N'esta quietação d'este desejo!<br>
+ Nascem n'esta asperesa brandas flores,<br>
+ E n'ella tão suave doce fruito,<br>
+ Como tu colherás, como lá fôres,<br>
+ Amando muito mais quem amas muito. </blockquote>
+
+<p>Estes versos chegaram ao convento de Jezus de Setubal tres dias depois e,
+transcorrido um mez, dobrava austeramente o sino do convento annunciando a
+profissão da que outr'ora havia sido a tréfega aiasinha da infanta D.
+Izabel.<span class="pn">{46}</span> </p>
+
+<p>Frei Agostinho da Cruz subiu vagarosamente ao seu eremiterio quando as
+estrellas começavam a empallidecer no ceu. Entrou em oração, e, horas volvidas,
+foi á ermida da Senhora da Memoria ouvir e dizer missa. Depois recolheu-se ao
+seu cubiculo, e ahi passou o dia no sagrado mysterio da solidão. Ao pardejar da
+tarde, perdeu-se na montanha a continuar as suas meditativas noites de asceta,
+a ultima das quaes foi a de 14 de março de 1619, em que, na enfermaria que a
+Provincia tinha em Setubal, santamente rendeu a alma ao Creador.</p>
+
+<p>No convento de Jezus, áquella hora, ouvia-se tocar á agonia na egreja da
+Annunciada, contigua ao hospital, e pouco depois o dobrar do sino attraia á
+beira do cadaver de Frei Agostinho toda a população da villa de Setubal, que
+lhe retalhava o habito para guardar uma reliquia.</p>
+
+<p>Ao outro dia vogava rio abaixo, nas aguas do Sado, uma falua, armada de
+muitos ramos e de ricas tapeçarias da casa de Aveiro. Transportava para a serra
+da Arrabida o cadaver de Frei Agostinho. Em torno do feretro agrupavam-se n'um
+silencio religioso o duque de Torres Novas, o marquez de Porto Seguro, e alguns
+religiosos arrabidos. O povo de Setubal alinhava-se na praia e, descoberto e
+reverente, abençoava o S<small>ANTO</small>.</p>
+
+<p style="text-align:center;">&mdash;&mdash;</p>
+
+<p>Vai, ó casto poeta do amor, repoisar no grande tumulo granitico da tua
+montanha querida. Poeta e<span class="pn">{47}</span> monge, tens duplo direito
+a essa ingente sepultura, onde os monges, tristes e sós, foram muita vez
+genuflectir sobre a tua lage, e onde os poetas irão pelas idades a dentro pedir
+ao luar que lhes empreste os contornos phantasticos do teu vulto pensativo para
+te reporem sob a gruta de Santa Margarida meditando maguas secretas.</p>
+
+<p>Podeste finalmente dormir, onde quizeste viver.</p>
+
+<p>Se a tua musa jamais se librou magestosa nos epicos arrojos da lyra de
+Camões, cantor do coração e poeta do Amor como elle, a morte vos irmanou na
+grandeza da sepultura.</p>
+
+<p>Para elle foi sepulchro enorme a patria. Quem sabe onde jaz? Era pequena uma
+cova para tamanho homem. Repoisa na patria, sepultura por dois lados orlada
+pelo mar. É-lhe epitaphio um poema. É-lhe monumento a historia.</p>
+
+<p>Tu repoisas dentro da grande urna de pedra, cinzelada pela naturesa á beira
+das aguas marinhas. É-te epitaphio a montanha. É-te monumento a Cruz, porque
+ella recorda o teu nome, erguida sobre altar de rocha.</p>
+
+<p>Era pequena uma valla para tamanho soffrer.</p>
+
+<p>Assim foi que a morte igualou no somno derradeiro e glorioso o poeta
+guerreiro e o poeta monge, dois leaes amantes antigos, dois finos corações
+namorados, que pulsaram, um cingido na cota, o outro oppresso no habito, por
+duas damas formosas, Nathercia e Branca, que por longo tempo hão de<span
+class="pn">{48}</span> viver, não em o mundo phantastico dos poetas,<a
+name="tex2html2" href="#foot203"><sup>[2]</sup></a> mas na extensa galeria das
+grandes dedicações portuguesas.</p>
+
+<p>Aqui fica, n'este livrinho escripto com a sentida saudade que o teu destino
+inspira, ó santo eremita da Arrabida, o que quer que seja da mysteriosa poesia
+que as silenciosas noites da serra desabrochavam no teu coração.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;">FIM.</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot201" href="#tex2html1" id="foot201"><sup>[1]</sup></a> D. João
+III era tão affeiçoado a este sobrinho, que lhe concedeu o tratamento de
+<em>excellencia</em>, sendo que o filho natural d'el-rei, D. Duarte, apenas
+tinha o de <em>senhoria</em>.</p>
+
+<p><a name="foot203" href="#tex2html2" id="foot203"><sup>[2]</sup></a>
+«....Frei Agostinho da Cruz explicava as abstracções do amor divino, em versos
+da eschola italiana, a uma certa senhora D. Branca, hoje desconhecida. Dona
+Branca tambem seguia a vida religiosa, etc.»</p>
+
+<p style="text-align: right;"><em>Historia dos Quinhentistas</em>,&mdash;Theophilo Braga.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="font-size: 0.8em;">
+<p style="text-align:center;">Obras publicadas pela Empreza Editora CARVALHO
+&amp; C.ª</p>
+
+<p style="text-align:center;">THEATRO</p>
+
+<p><b>Bibliotheca Theatral</b>, 3 vol. contendo 15 peças&mdash;cada vol. 600<br>
+ Os tres vol. 1$500</p>
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+<p><b>Ao calçar das luvas</b>, com. em 1 acto, orig. de Rangel de Lima 100</p>
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+<p><b>Abençoado progresso</b>, com. em 1 acto, orig. de R. de Lima 100</p>
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+<p><b>Quem desdenha...</b>, com. em 1 acto, orig. de Pinheiro Chagas 100</p>
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+<p><b>Um homem politico</b>, com. em 3 actos, imit. por A. Abranches 200</p>
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+<p><b>As Tres rocas de chrystal</b>, magica em 3 actos e 17 quadros imit. por
+A. Abranches 300</p>
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+<p><b>A Mosca branca</b>, com. em 3 actos, imit. por Duarte Santos 200</p>
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+<p><b>João o britador</b>, drama em 5 actos, trad. de Castilho e Mello 250</p>
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+<p><b>A Cruz de prata</b>, drama em 5 actos, trad. de Castilho e Mello 300</p>
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+<p><b>O afilhado de Pompignac</b>, comedia drama em 4 actos, trad.
+de Castilho e Mello. 200</p>
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+<p><b>As Campainhas</b>, com. em 1 acto, trad. de Pinheiro Chagas 100</p>
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+<p><b>Caso de Consciencia</b>, com. em 1 acto, trad. de P. Chagas 100</p>
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+<p><b>Luiz XI e o poeta</b>, com. em 1 acto, trad. de Fer. de Mesquita 160</p>
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+<p>Collecção completa 1$700</p>
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+<p style="text-align:center;">ROMANCES</p>
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+<p style="text-align:center;">1.º anno</p>
+
+<p>1.º&mdash;<b>As duas flores de sangue</b>, orig. historico de Pinheiro Chagas (1
+vol.) 500</p>
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+<p>2.º e 3.º&mdash;<b>As doze espadas do diabo</b>, Henri Kock (2 vol.) 800</p>
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+<p>4.º&mdash;<b>Claudio</b>, orig. de Julio Cesar Machado (1 vol.) 500</p>
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+<p>5.º&mdash;<b>Nas Cinzas</b>, Gontran Borys (1 vol.) 300</p>
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+<p>6.º&mdash;<b>Uma noite em Florença</b>, Alexandre Dumas (1 vol.) 300</p>
+
+<p>7.º&mdash;<b>O Corsario portuguez</b>, orig. de Carlos Pinto d'Almeida (1 vol.)
+400</p>
+
+<p>8.º&mdash;<b>Dragonne e Mignonne</b>, Ponson du Terrail (1 vol.) 400</p>
+
+<p>Collecção completa 2$500</p>
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+<p style="text-align:center;">2.º ANNO</p>
+
+<p style="text-align:center;">J<small>ULHO DE 1876 A </small>J<small>UNHO DE
+1877</small></p>
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+<p style="text-align:center;">OITO BRINDES ANNUAES</p>
+
+<p style="text-align:center;">Anno, 2$250&mdash;Semestre, 1$200&mdash;Trimestre,
+650&mdash;Mez, 240</p>
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+<p style="text-align:center;">Volume, 15% d'abatimento no preço para a venda
+avulso.</p>
+
+<p style="text-align:center;">OPUSCULOS ROMANTICOS</p>
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+<p style="text-align:center;">narrativas por Alberto Pimentel</p>
+
+<p>1.º&mdash;<b>A ultima ceia do Dr. Fausto</b>, (edição portuense) 200</p>
+
+<p>2.º&mdash;<b>As noites do asceta</b> 200</p>
+
+<p>No prélo&mdash;<b>Idyllios dos reis</b>.</p>
+
+<p style="text-align:center;">OBRAS DIVERSAS</p>
+
+<p><b>Almanach burocratico</b> para 1875 400</p>
+
+<p><b>Almanach burocratico</b> para 1876 800</p>
+
+<p><b>Biograp. do marquez de Sá da Bandeira</b> (com o retrato) 400</p>
+
+<p>Á venda nas principaes livrarias, e remette-se franco de porte a quem enviar
+a importancia ao escriptorio</p>
+
+<p style="text-align:center;">RUA LARGA DE S. ROQUE, 100, 1.º andar</p>
+</div>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of As Noites do Asceta, by Alberto Pimentel
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS NOITES DO ASCETA ***
+
+***** This file should be named 29347-h.htm or 29347-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
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+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
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+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
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+such as creation of derivative works, reports, performances and
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+
+
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+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
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+
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+
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+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
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