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+The Project Gutenberg EBook of O Conde de S. Luiz, by Tomaz de Melo
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+
+Title: O Conde de S. Luiz
+
+Author: Tomaz de Melo
+
+Release Date: May 22, 2009 [EBook #28928]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CONDE DE S. LUIZ ***
+
+
+
+
+Produced by Júlio Reis, Carlo Traverso, Leonor Silva and
+the Online Distributed Proofreading Team at
+https://www.pgdp.net
+
+
+
+
+
+
+Notas de transcrição:
+
+O uso do hífen nesta obra é bastante inconsistente; o mesmo se passa
+com a ortografia. Assim, ocorrem por exemplo "entregara" e "entregára";
+"ante-mão" e "antemão"; "dirigindo se" e "dirigindo-se". A grafia não
+foi harmonizada, por não ser possível determinar a intenção original do
+autor.
+
+Nesta edição em texto simples, o texto em negrito foi colocado entre = e
+o texto em itálico foi colocado entre _. O texto em superscrito está
+colocado dentro de ^{ }.
+
+
+
+
+[Ilustração: Capa]
+
+Biblioteca Portuguesa Ilustrada
+
+D. TOMAZ DE MELO
+
+O CONDE DE S. LUIZ
+
+LIVRARIA BARATEIRA
+
+34, Rua do Duque, 36--T. Trind 1264--LISBOA
+
+
+
+
+O CONDE DE S. LUIZ
+
+
+[Ilustração: Publicidade à "Bibliotheca Portugueza Illustrada"]
+
+EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL
+
+SOCIEDADE EDITORA
+
+LIVRARIA MODERNA: R. Augusta, 95 * TYPOGRAPHIA: R. Ivens, 45 e 47
+
+
+
+
+BIBLIOTHECA PORTUGUEZA ILLUSTRADA
+
+
+*Nova collecção economica a 200 réis o volume*
+
+Contendo 200 a 250 pag. com 5 illustrações originaes de pagina
+
+ * * * * *
+
+É esta bibliotheca exclusivamente constituida por livros nacionaes, dos
+nossos melhores escriptores, custando cada volume de cerca de 250
+paginas, em magnifico papel, com 5 illustrações originaes e
+expressamente feitas para esta publicação, apenas *200* réis, ou *300*
+réis, bellamente encadernado em capas especiaes a côres.
+
+
+ROMANCES PUBLICADOS
+
+*Os Fidalgos do Coração de Ouro* (Chronica do reinado de D. Sebastião)
+por M. Pereira Lobato. Dois vol., broc. 400 rs., enc. n'um só, em capas
+especiaes, 500 rs.
+
+*A Queda d'um Gigante*, (continuação do antecedente). Um vol., broc. 200
+rs., enc. 300 rs.
+
+*A Baroneza de la Puebla*, (romance do seculo XVI, continuação dos 2
+anteriores). Um vol., broc. 200 rs., enc. 300 rs.
+
+*Estandarte Real*, (conclusão dos romances anteriores). Um vol., broc.
+200 rs., enc. 300 rs.
+
+*Lição ao Mestre*, por Teixeira de Vasconcellos. Tres vol., broc. 600
+rs., enc. n'um só 700 rs.
+
+*A Mascara Vermelha*, (romance historico) por M. Pinheiro Chagas. Um
+vol, broc. 200 rs., enc. 300 rs.
+
+*Juramento da Duqueza*, (continuação do antecedente) por M. Pinheiro
+Chagas. Um vol., broc. 200 rs., enc. 300 rs.
+
+*Noites Perdidas*, livro de contos, de Betamio d'Almeida. Um vol., broc.
+200 rs., enc. 300 rs.
+
+*Esboços de apreciações litterarias*, de Camillo C. Branco. Um vol.,
+br., 200 rs., enc. 300 rs.
+
+*Conde de S. Luiz*, por D. Thomaz de Mello. Um vol. br., 200 rs., enc.
+300 rs.
+
+*A PUBLICAR:*
+
+*Duello nas sombras*, por A. F. Barata,--*Annel mysterioso*, de Alberto
+Pimentel, etc., etc.
+
+ASSIGNATURA PERMANENTE
+
+
+
+
+BIBLIOTHECA PORTUGUEZA ILLUSTRADA
+
+X
+
+D. THOMAZ DE MELLO
+
+O CONDE DE S. LUIZ
+
+ROMANCE ORIGINAL
+
+SEGUNDA EDIÇÃO
+
+[Ilustração: Logótipo da sociedade editora]
+
+ LISBOA
+ EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL
+ _Sociedade editora_
+
+ LIVRARIA MODERNA || TYPOGRAPHIA
+ _R. Augusta 95_ || _45, R. Ivens, 47_
+
+1903
+
+
+
+
+I
+
+
+Era no anno de 18*** N'um palacete proximo á Calçada de Santo André,
+vivia, em companhia de seu filho e de duas creadas, D. Marianna de
+Mendonça, filha bastarda de Manuel Pires de Athayde, que fôra em tempos
+de pouco saudosa memoria alcaide-mór da cidade de * * *
+
+Poucos mezes antes de morrer, Manuel Pires de Athayde, entregára a sua
+filha dezeseis mil cruzados em dinheiro, afóra joias e outros objectos
+de valor, pedindo-lhe ao mesmo tempo que acceitasse por esposo a Alvaro
+de Mendonça seu primo co-irmão, moço serio e de bom porte, e, além
+d'isso, possuidor de riquezas quasi eguaes ás que o alcaide-mór lhe
+legava.
+
+Recusando, a principio, o noivo que o pae lhe indicava, D. Marianna, por
+ultimo, não teve mais remedio senão acceder aos seus desejos.
+
+Tres mezes depois, com grande alegria de todos os parentes, recebeu se
+com Alvaro de Mendonça na freguezia dos Anjos.
+
+O pobre velho parecia apenas aguardar a realização d'este ultimo desejo
+para volver a alma ao Creador, entre as lagrimas da filha e dos amigos
+que o estremeciam. Ao cabo de oito dias de casada, D. Marianna ficava
+sem pae.
+
+Manuel Pires de Athayde não se havia enganado na escolha; Alvaro de
+Mendonça era o exemplo dos maridos. A sua proverbial honestidade
+tornava-o estimado em todos os logares onde apparecia, acompanhado quasi
+sempre pela esposa, digna e respeitada como elle.
+
+Ao fim d'um anno, a Providencia, prodiga em lhes proporcionar todas as
+venturas, concedeu-lhes a maior que póde dar aos que deveras se amam
+sobre a terra, e que medem o mundo todo, pelo curto espaço do seu
+domicilio: um filho.
+
+Manuel--tal foi o nome do recemnascido--de dia para dia se tornava mais
+robusto. Era um gosto vel os á tarde por sobre os canteiros do seu
+pequeno jardim, correndo com o Manuelito, e disputando entre si, qual
+dos dois alegraria mais a creancinha.
+
+Marianna, por esse tempo, teria uns dezoito a vinte annos, Alvaro trinta
+e quatro.
+
+Amor, saude, mocidade, riquezas e um filho! Que lhes faltava para serem
+felizes?
+
+Pelo espaço de doze annos, trabalhando mais do que as forças lh'o
+permittiam, afim de melhorar o futuro da creança, correu a vida de
+Alvaro de Mendonça, sem que uma só vez podesse D. Marianna deixar de
+levantar as mãos aos céus, para agradecer á Providencia o esposo que lhe
+havia concedido.
+
+Uma circumstancia apenas lhes toldava de vez em quando o iris da sua
+felicidade; eram os continuos receios que um velho primo lhes infundia,
+sobre a precoce intelligencia do estremecido fructo dos seus amores
+patriarchaes.
+
+«Não puchem pelo rapazola se o não querem ver no cemiterio, dizia-lhes
+elle muitas vezes. Um talento como este deve ser muito poupado. Se meu
+pae não me tem acudido a tempo, retirando-me do collegio, talvez lhes
+não estivesse agora dando este conselho. Eu fui o mesmo que o Manuelito;
+aprendi a grammatica portugueza de _fio a pavio_ em menos de um mez. Não
+percebia bem o que dizia, é verdade, mas sabia tudo de cór, que era até
+um gosto ouvirem-me. Sabem o que fez meu pae? Annuiu aos desejos do
+mestre, que era um doidinho por mim, e retirou-me do collegio para que
+não estudasse mais. É certo que estou hoje sem saber coisa alguma,
+porquanto a grammatica esquece muito, mas pelo menos tenho vida e saude,
+que é o principal.»
+
+A despeito d'estas e de outras judiciosas reflexões, Manuel continuou a
+frequentar a aula, onde era querido por todos os professores e
+condiscipulos. Estes, longe de lhes causar inveja o seu inquestionavel
+merecimento, todos á uma se ufanavam em lh'o proclamar.
+
+Aos quinze annos já tinha feito os exames de philosophia e latinidade.
+
+Quando mais venturosa sorria a existencia de Alvaro de Mendonça, coroada
+pelos louros de seu filho, a Providencia, como se já estivesse fatigada
+de lhe sorrir, fez com que o anjo da morte, descendo lentamente sobre o
+seu leito, lhe cerrasse para sempre os olhos.
+
+D. Marianna de Mendonça, ainda que dotada de intelligencia clara e
+reflexiva, faltava-lhe comtudo aquella experiencia do mundo impossivel
+de conseguir a qualquer senhora que, como ella, tivesse vivido apenas
+entregue aos cuidados de sua casa.
+
+Abatida pelo golpe que acabava de soffrer, muito fazia a infeliz viuva
+em administrar a sua casa de portas a dentro, e bem assim seguir a
+educação de Manuel, que de mez a mez fazia mais rapidos progressos,
+continuando a disfructar uma irreprehensivel saude, apezar de todos os
+prognosticos de seu primo, o ex-grammatico, que se não cançava de
+lembrar á viuva o absurdo da sua insistencia em que o pequeno
+continuasse no collegio.
+
+Entre as pessoas que ordinariamente frequentavam a casa da viuva,
+distinguia-se o commendador Felix Justino de Araujo, homem probo e
+honesto para todos que tinham a honra de lhe merecer a sua confiança, o
+que elle prodigamente espalhava afim de conquistar as geraes sympathias.
+
+Corriam varias edições ácerca da sua mysteriosa individualidade,
+chegando algumas pessoas a levar o seu arrojo a ponto de dizerem que o
+commendador não passava de um refinado velhaco, e que, mais dia menos
+dia, as suas gentilezas teriam de ser desmascaradas em praça publica;
+isto tudo, já se vê, proferido em voz baixa, depois de com elle terem
+gasto os joelhos das calças, nas respeitosas zumbaias que diariamente
+lhe dispensavam. É que já n'essa epocha, a raça de commendadores que
+hoje invade a capital começava a manifestar-se com toda a força do seu
+prejudicial desenvolvimento. Era muito de ver se como toda aquella gente
+o tractava no tocante a futeis banalidades. Riam-se uns dos outros, e
+todos em sua presença disputavam entre si, qual deveria ser o seu
+primeiro thuribulario.
+
+Uns diziam que era viuvo, outros que era casado com uma mulher de baixa
+esphera, de quem tinha duas filhas, porém que se não atrevia a
+apresental-a na sociedade, em virtude das suas maneiras pouco
+distinctas.
+
+A sua riqueza ninguem ao certo a poderia saber; porém o faustuoso luxo
+com que se tractava levava a suppôr que enormes rendimentos havia
+herdado da sua nobre ascendencia, cujos brazões nobiliarios fariam
+estremecer de inveja qualquer puritano.
+
+Uma noite em que D. Marianna de Mendonça se queixava amargamente de um
+certo procurador, lembrou-lhe uma das suas amigas que talvez lhe fosse
+conveniente entregar a administração da casa ao commendador, se elle
+porventura a isso estivesse resolvido, e que ella mesma lhe falaria a
+tal respeito.
+
+A viuva acceitou de bom grado o que a sua intima lhe propozera, e
+falando esta com o commendador, ao cabo de oito dias Felix Justino de
+Araujo tinha geral procuração para arrendar, subrogar, ou alienar
+qualquer propriedade, se por ventura assim o julgasse conveniente para o
+futuro do seu Manuel que, segundo o dizer do administrador, era tanto
+para elle como se fosse seu proprio filho.
+
+Não tardou muito tempo que o magnate fizesse uso de uma das condições da
+procuração. Uma fazenda que Alvaro de Mendonça herdára por morte de uma
+tia, tres ou quatro annos depois de estar casado com a filha de Manuel
+Pires de Athayde, foi-lhe vendida em hasta publica. A venda fôra de um
+excellente resultado para a viuva, segundo o commendador affirmava,
+porquanto o seu principal rendimento eram arvores de fructa, e essas
+mais anno menos anno cairiam todas ao pezo d'uma epidemia que, segundo
+as suas observações agronomicas, teria de grassar d'alli a tempo,
+assaltando todas as fazendas sem exceptuar uma unica.
+
+Em face d'esta cruel prophecia, quem se negaria a separar-se de qualquer
+terreno, por mais dolosa que fosse a venda?
+
+O commendador empregou esse dinheiro n'uma industria cujo dividendo
+deveria exceder dez por cento.
+
+Quasi todos deram os parabens á viuva pelo bom negocio que vinha de
+fazer, attendendo não só á grande differença do rendimento, como tambem
+a ter-se livrado d'esse terrivel cataclysmo, a que estava exposta
+conservando uma só arvore.
+
+Assim decorreram dezoito mezes sem que D. Marianna tivesse a mais
+pequena razão de se arrepender da plena confiança que tinha depositado
+no seu administrador.
+
+Por este tempo, Manuel, que havia saído do collegio, chegou se a sua
+mãe, dizendo-lhe que desejava partir para o Rio de Janeiro, afim de se
+dedicar á vida commercial, para que se sentia com decidida vocação.
+
+Recordando lhe ao principio a loucura do seu projecto, a pobre mãe
+ponderou-lhe a pouca necessidade de buscar em terra estranha o que já
+possuia na sua patria: a riqueza.
+
+Por essa epocha, os bens da casa montavam a uns trinta contos de réis,
+graças á herança que Alvaro de Mendonça havia recebido por morte de sua
+tia, e ás economias que a viuva fizera durante aquelle tempo.
+
+--Com o dinheiro que possuimos, dizia-lhe sua mãe, poderás dedicar-te ao
+commercio, mas aqui em Lisboa. É verdade que não tens um unico parente
+que te proteja, mas, graças a Deus, temos meios. Partires, e
+deixares-me, filho, acho que será uma grande loucura, ajuntou ella,
+arrazando-se-lhe os olhos de lagrimas. Em todo o caso, farás o que te
+aprouver. Não quero que um dia me lances em rosto que o muito amor que
+te consagro foi a causa de cortar a tua carreira.
+
+N'essa noite, quando appareceu o commendador, D. Marianna manifestou-lhe
+os desejos de Manuel.
+
+--Que vá, respondeu elle rapidamente. Seu filho é activo, audaz,
+intelligente e emprehendedor. Póde um dia, se Deus o ajudar, vir a ser
+um grande homem. Não tenho filhos, acrescentou, porém se um dia os
+tiver, nunca os hei de contrariar nas suas resoluções, se ellas forem
+justas como as de Manuel.
+
+--Mas que precisão tem elle de expôr a sua saude n'um clima tão
+perigoso? Trinta contos ou perto d'elles que possuimos não será o
+sufficiente para se viver em qualquer parte do mundo?
+
+-Porém se seu filho é ambicioso, e capricha em adquirir um capital pelo
+seu trabalho, é justo que sua mãe lhe impeça a sua determinação? Faça o
+que quizer, mas tome o meu conselho, deixe-o partir. Deus ha de guial-o,
+porque Manuel é bom, honesto, moral e, sobre todas estas coisas, muito
+trabalhador.
+
+--E que dinheiro se lhe deve entregar, sr. Felix? dez contos, quinze,
+vinte... que lhe parece?
+
+--Vossa excellencia está louca! acudiu apressadamente o commendador.
+Entregar contos de réis a um rapaz da edade de seu filho! Lançar Manuel
+n'um paiz como o Rio de Janeiro, proporcionando-lhe os meios de se
+perder! Nem por sombras! Quaes contos de réis! Com seis moedas
+desembarquei eu em S. Paulo, e ao cabo de doze annos possuia uma fortuna
+para cima de dez mil libras! Contos de réis! Só essa me faria rir! A
+passagem paga, meia duzia de moedas, e as cartas de recommendação que
+para ahi lhe entregarei, são mais do que o sufficiente.
+
+--Mas não me disse v. ex.ª que meu filho era um rapaz de juizo, honesto
+e moral? Que receio teremos em lhe entregar o que realmente lhe
+pertence? Não é elle o meu unico herdeiro?
+
+--Fará vossa excellencia o que entender, e se lhe quer entregar tudo
+quanto possue, faça-o; está no seu direito, e lavo d'ahi as minhas mãos.
+Se quer que lhe preste as minhas contas, estou muito prompto a fazel-o.
+Sabe que o unico interesse que tenho em tudo isto é apenas o seu bem
+estar, e o futuro de Manuel. Se quer estragar tudo quanto tenho feito em
+seu proveito, é senhora das suas acções, póde fazel-o, que desde este
+momento me considero desligado de todos os meus encargos.
+
+Esta linguagem, rude mas na apparencia sincera, produziu no animo debil
+de D. Marianna o resultado que o commendador desejava. Affeita a
+obedecer-lhe em tudo, havia-se deixado dominar completamente por aquelle
+homem que, segundo a opinião de todas as pessoas que frequentavam a sua
+casa, havia sido um anjo salvador.
+
+Dois annos depois da sua administração, os vinte contos de réis, que
+rendiam á viuva cem mil réis por mez, haviam subido a um rendimento de
+um conto e seiscentos por anno, graças á applicação que elle dera a
+esses capitaes. Quanto ao producto da propriedade, era um segredo, que
+mais dia menos dia seria revelado como surpreza agradavel. Que razão
+teria ella para o arguir de mau administrador?
+
+Estas e outras circumstancias faziam com que D. Marianna obedecesse
+cegamente a quanto elle lhe impunha.
+
+No dia immediato, Manuel chegou-se a sua mãe, afim de saber o que se
+havia passado entre ella e o commendador.
+
+--Sinto deveras que me queiras abandonar, porém se essa é a tua vontade,
+vae, e que as minhas orações, acompanhando-te sempre, te possam salvar
+de todos os perigos. Quanto a dinheiro ajuntou ella, esperançada em que
+o commendador se resolvesse a entregar-lhe maior quantia, dir me-has
+quanto necessitas.
+
+--Nunca pedi contas nem a minha mãe nem ao sr. commendador, mas
+supponho que não farão grande differença nos capitaes que devemos
+possuir quatro ou cinco contos de réis para me estabelecer, mas ainda
+assim, se minha mãe suppõe que essa quantia é muito avultada, contentar
+me-hei com menos, ou por ultimo, com aquillo que julgarem conveniente. É
+tudo quanto tenho a dizer-lhe, accrescentou elle, pregando os olhos no
+olhar turvo e entristecido de D. Marianna.
+
+No dia seguinte a viuva foi ao escriptorio do commendador e contou lhe o
+que passára com Manuel.
+
+Felix de Araujo, depois de a ter escutado, insistiu serenamente em que
+seria uma grande loucura entregar a seu filho uma quantia superior a
+essa de que tinham falado na vespera, repetindo porém, que estava no seu
+direito de fazer o que lhe aprouvesse.
+
+Todos os espiritos, por mais debeis que sejam, teem um momento na vida,
+em que uma circumstancia, ou um milagre providencial lhes dardeja um
+raio de valor.
+
+A maneira, o gesto, o olhar, com que a viuva fitou o commendador, foram
+sufficientes para que elle comprehendesse que todos os esforços seriam
+inuteis. D. Marianna estava resolvida a entregar a seu filho a quantia
+que elle lhe havia, senão pedido, pelo menos indicado.
+
+Não havia remedio! Era forçoso entregar esse dinheiro no momento em que
+lhe fosse exigido, para que se não realisassem certos boatos que lhe
+tinham chegado aos ouvidos, de que mais dia, menos dia, as suas
+gentilezas seriam desmascaradas!
+
+--Seja o que vossa excellencia quizer, disse elle, depois de alguns
+instantes de reflexão. Que quantia quer?
+
+--Quatro a cinco contos de réis. Como tudo o que possuo é em dinheiro,
+não haverá duvida em os receber por estes oito dias.
+
+--Oito dias! replicou o commendador, simulando grande tranquillidade de
+animo, hoje mesmo se vossa excellencia quizer; não tenho mais trabalho
+do que tiral-o d'aquelle cofre, ajuntou elle, apontando para um grande
+armario de ferro.
+
+--Posso portanto ficar tranquilla?
+
+--Póde, mas lembre-se, minha senhora, que vae fazer a desgraça de seu
+filho. Conheço o Rio de Janeiro, e sei o que póde succeder a um rapaz da
+edade de Manuel, achando-se possuidor de similhante quantia.
+
+--Será o que Deus quizer, respondeu a viuva despedindo se.
+
+Quem, momentos depois, commettesse a indiscrição de o espreitar, no
+pequeno gabinete do escriptorio, conheceria immediatamente pela sua
+perturbação, que os trinta contos de réis em que consistia a fortuna
+d'aquella familia não estavam tão seguros quanto ella os julgava.
+
+Oito dias depois, quando tudo estava preparado para a viagem de Manuel,
+sua mãe dirigiu-se a casa do commendador, afim de receber os cinco
+contos de réis, e encontrou-o sereno e bem disposto, mas insistindo
+ainda em que tão grande quantia seria prejudicial a um moço inexperiente
+como seu filho.
+
+--Já disse ao sr. commendador o que tinha a dizer-lhe, respondeu D.
+Marianna, sentando-se tranquilamente a seu lado.
+
+--Visto não haver meio algum de a convencer, queira vossa excellencia
+ter a bondade de me passar um recibo d'esse dinheiro. Levantando-se
+serena e fleugmaticamente, o commendador dirigiu se ao armario de ferro,
+tirou de dentro d'elle um pequeno cofre e collocou-o sobre a secretaria
+de que D. Marianna se tinha approximado para passar o recibo. O
+commendador, depois de contar os maços de notas de dez moedas, poz junto
+de D. Marianna os que prefaziam a quantia exigida.
+
+N'este momento a viuva acabava de assignar o recibo.
+
+--Se não fosse a profunda sympathia que vossa excellencia sempre tem
+sabido inspirar-me, creia que de hoje em deante, deixaria de lhe
+administrar os seus bens, e pedir-lhe-hia que mandasse buscar vinte e
+sete contos de réis que alli tenho n'aquelle cofre; digo que os mandasse
+buscar, porque grande parte d'esse dinheiro está em ouro e em prata, com
+que vossa excellencia não poderia. Não o faço, porque além de todas as
+outras circumstancias, affeiçoei-me ao Manuel, mais do que se elle fosse
+meu proprio filho, como já uma vez lh'o disse.
+
+Se algumas desconfianças começassem a agitar o espirito da viuva, todas
+se desvaneceriam em presença d'esta scena. Havia uma dupla intenção nas
+palavras do commendador: a primeira inspirar á viuva profunda confiança
+no deposito dos seus capitaes; a segunda, evitar ainda a entrega dos
+cinco contos de réis. A primeira saiu-lhe bem, a segunda não foi tão
+favoravel.
+
+--Então quando é a saida da galera? perguntou elle a D. Marianna.
+
+--Ámanhã, ás duas horas da tarde.
+
+--Não me comprometto a ir ao bota-fóra; ser-me-ia penoso acompanhal-o ao
+começo da estrada da sua infelicidade.
+
+--Será o que Deus quizer, respondeu tristemente a pobre mãe, pegando nos
+maços de notas e mettendo-os dentro do seu sacco de veludo.
+
+Cinco minutos depois, acompanhada pelo commendador, entrava D. Marianna
+para uma sege, e seguia caminho de casa.
+
+No dia seguinte, ás duas horas da tarde, desprendendo se dos braços de
+sua mãe, entrava Manuel de Mendonça na galera _Boa Ventura_, e ao cair
+da tarde perdia de vista o que ha de mais caro na vida: mãe e patria.
+
+«Acautele-se do commendador» foram as ultimas palavras que Manuel
+dissera a sua mãe.
+
+Ao cabo de tres mezes, a viuva recebeu uma carta de seu filho, em que
+lhe participava que tinha chegado depois de uma feliz viagem, e que
+esperava em pouco tempo estabelecer-se vantajosamente com uma casa
+commercial.
+
+ * * * * *
+
+Assim passaram mais oito mezes.
+
+As mezadas que D. Marianna recebia de Felix de Araujo continuavam a
+ser-lhe entregues com a mesma religiosa pontualidade, o que fazia com
+que todas as pessoas que chegaram a duvidar da honestidade do
+commendador começassem a proclamal-o homem de evidente credito.
+
+Durou isto perto de um anno. As cartas que Manuel escrevia a sua mãe
+eram cada vez mais consoladoras. N'algumas, mandava-lhe dizer que os
+seus maiores desejos seriam tel-a a seu lado.
+
+Um dia, finalmente, escreveu lhe seu filho, mandando-lhe pedir
+encarecidamente que retirasse quanto antes os capitaes que tinha na mão
+do commendador, porque lhe tinham dado as peiores informações a seu
+respeito, sendo a primeira não se chamar Felix Justino de Araujo, mas
+simplesmente Domingos de Andrade.
+
+Afflicta com esta carta, a infeliz senhora procurou um advogado, que
+fôra muito amigo de seu defunto marido, e communicou-lhe os seus
+receios.
+
+N'esse mesmo dia, o doutor acompanhou-a a casa do commendador. Este, ao
+vel-a, comprehendeu immediatamente do que se tractava.
+
+--Tencionando retirar-me para o Rio de Janeiro, venho prevenir vossa
+excellencia de que desejo levantar da sua mão os capitaes que
+honestamente me tem administrado. Se não fosse o desejo de ir ver meu
+filho, continuaria a aproveitar me da zelosa e desinteressada
+administração do sr. commendador.
+
+--E sabe vossa excellencia se n'este momento lhe poderei entregar esse
+dinheiro? Não m'o confiou para negociar, afim de que tivesse maiores
+lucros do que estando na sua mão? Na vespera de seu filho partir para o
+Brazil, quando dei a vossa excellencia os cinco contos de réis, que me
+exigiu, não me promptifiquei a entregar lhe quanto aqui tivesse? Vossa
+excellencia não comprehende a possibilidade de que esse dinheiro esteja
+empregado em qualquer negocio, e de que n'esse caso me seja difficil
+devolver-lh'o de um momento para o outro? Felizmente não succede assim,
+pelo que dou graças a Deus! Quanto o estimo! Vossa excellencia, por
+qualquer circumstancia, deseja retirar das minhas mãos os seus capitaes,
+e não tem o sufficiente valor de m'o dizer de cara a cara! Pois, minha
+senhora, continuou elle, simulando um gesto de profundo resentimento, e
+levantando um pouco a voz, eu, que tenho a coragem das minhas acções,
+escudado pelo meu nome e pela minha honestidade, declaro aqui, alto e
+bom som, que sou eu que exijo, que vossa excellencia retire d'aqui os
+seus fundos, e quanto antes.
+
+Havia tanta dignidade nas palavras do commendador, a sua voz era tão
+firme, tão altivo e tão seguro o seu olhar, que D. Marianna chegou a
+convencer-se de que era uma ingratidão o que vinha de fazer.
+
+--Ha perto de quatro annos, continuou o commendador dirigindo se ao
+advogado, que eu administro os bens d'esta senhora. O seu rendimento,
+que não chegava a um conto e duzentos por anno, subiu a um conto e
+seiscentos. Uma propriedade que lhe valia o muito quatro contos de réis,
+vendi-lh'a e appliquei o producto d'ella n'um negocio, que rende para
+cima de doze por cento. Que necessidade tenho eu d'isto tudo? Tenho
+empregado trabalho e tempo; e preciso eu por ventura de capitaes alheios
+para fazer as minhas transacções? Escusado será dizer que não. Para que
+o fiz? Para o seu bem! Boa paga, não haja duvida. Que esta lição me
+sirva! Pois, minha senhora, ajuntou elle, voltando-se para D. Marianna,
+rogo a vossa excellencia que ámanhã, sem falta, até ás onze horas da
+manhã, encarregue alguem de me tomar contas, e queira vossa excellencia
+vir tambem, afim de me passar recibo do dinheiro que tenho na minha mão.
+Hoje mesmo, se lhe fosse possivel, apezar de ser tarde, muito prazer me
+daria.
+
+--Ámanhã aqui estarei, visto assim o exigir, respondeu D. Marianna,
+olhando ao mesmo tempo para o advogado, como que esperando a sua
+opinião.
+
+--Sendo onze horas aqui viremos, disse o jurisconsulto, despedindo se do
+commendador.
+
+--Que lhe pareceu? perguntou a viuva ao chegarem á porta da rua.
+
+--Um homem honesto, ferido pela ingratidão que acaba de receber,
+respondeu fleugmaticamente o doutor. Em todo o caso, accrescentou elle,
+faça vossa excellencia o que quizer; sendo dez horas estarei em sua
+casa.
+
+No dia immediato, conforme haviam combinado, apresentou se o advogado em
+casa de D. Marianna de Mendonça.
+
+Ás onze horas metteram-se n'uma traquitana, e dirigiram-se ao
+escriptorio do commendador.
+
+Contra todos os usos da casa ainda estava fechado.
+
+--Que lhe parece isto? perguntou D. Marianna ao advogado, com mais
+receio do que na vespera ao perguntar-lhe como lhe havia parecido.
+
+--Que é um homem ferido pela ingratidão, e que anda a tratar de levantar
+dinheiro para a embolsar d'essa quantia, respondeu elle ingenuamente.
+
+Momentos depois começaram a apparecer varios individuos. O physionomista
+que de perto os observasse, veria em todos elles a mesma sombra de
+receio que se revelava no rosto pallido e transtornado de D. Marianna de
+Mendonça.
+
+D'alli a duas horas ainda Felix de Araujo não tinha apparecido.
+
+--Que lhe parece isto tudo doutor? dizia a viuva ás cinco horas da
+tarde, olhando para o advogado, que a contemplava com uma physionomia
+alvar.
+
+Que é um refinado ladrão que nos deixa a todos desgraçados! accudiu um
+individuo que ouvira a pergunta feita pela viuva.
+
+O commendador Felix Justino de Araujo havia fechado o escriptorio.
+Domingos de Andrade fugira, roubando dinheiro a todos aquelles que, como
+D. Marianna de Mendonça, o haviam depositado nas suas mãos.
+
+Cinco dias depois D. Marianna, com a razão perdida, entrava para a casa
+dos doidos no hospital de S. José.
+
+
+
+
+II
+
+
+Pelos fins do anno de 1858, vivia n'uma pequena casa da Rua do Meio,
+freguezia de Nossa Senhora da Lapa, Jeronymo de Almeida, honrado mestre
+de obras, em companhia de sua mulher e de uma filha de dezeseis annos,
+chamada Martha. A excentricidade de caracter do operario, fazia com que
+todos os visinhos o detestassem. Para elle, não havia domingos nem dias
+santificados que o obrigassem a distrair-se do seu trabalho. A sua
+janella encontrava-se sempre fechada.
+
+O cultivo do microscopico jardim era a unica distracção que n'esses dias
+se permittia. Alli entre sua mulher e sua filha, Jeronymo mondava o
+pequeno canteiro de hortaliça, que duas horas depois tinha de fazer as
+delicias da refeição domingueira. No armario da cozinha, esperava desde
+a vespera a garrafa do Cartaxo que figurava á sua meza, sobria sempre,
+porém honradamente disfructada com o suor do rosto.
+
+Emquanto Jeronymo trabalhava no pequeno horto, Balbina, a esposa,
+assentada na cadeira de costura, largava apenas a agulha para agradecer
+a Deus o marido que a Providencia lhe havia destinado.
+
+Martha, a preguiçosa Martha como Jeronymo n'esses dias lhe chamava,
+escondia os ferros de engommar, para seguir seu pae, sorrindo-se e
+gracejando a cada passo que elle dava pelo jardim.
+
+Toda a visinhança da rua do Meio se mordia de despeito ao contemplar a
+beatifica tranquillidade d'aquella pobre mas venturosa familia; até uma
+sobrinha do sr. regedor, que se finava de inveja ao contemplar os olhos
+verdes de Martha, chegou a dizer ao sr. padre prior que era impossivel
+que toda aquella gente não tivesse grande peccado na consciencia,
+attendendo á constante reclusão em que vivia. O sacerdote, que conhecia
+o invejoso caracter da menina Gertrudes, passou de leve sobre o caso, e
+contentou-se apenas em responder-lhe que era tal a confiança que
+depositava na virtude d'aquella familia, que não teria duvida alguma,
+embora se sacrificasse a pôr fóra de casa a velha ama, a admittir Martha
+a viver em sua companhia, entregando-lhe nas mãos as chaves da dispensa,
+e tudo quanto possuia de mais valor. Gertrudes desanimou na lucta,
+contentando se apenas em desacredital-a em voz baixa, quando por ventura
+alguma das amigas lhe falava a seu respeito.
+
+Defronte da casa de Jeronymo morava uma pobre velhinha, que se tornava
+um mysterio para toda a visinhança, passando apenas despercebida da
+familia do operario, pouco affeita a importar-se com as vidas alheias. A
+apparencia de sua casa, o seu trajar emfim, tudo revelava summa pobresa,
+porém nunca a sua mão se estendeu a pedir o obulo da caridade.
+
+A velha costumava sair todas as manhãs a fazer as compras. Um dia a
+porta conservou-se fechada, e a tia Marianna, segundo lhe chamavam, não
+apparecia. Ou por curiosidade, ou por interesse, não faltou quem lhe
+batesse ao postigo. Em resposta ouviram-se apenas uns gemidos. O regedor
+chamou dois cabos de policia e mandou immediatamente arrombar a porta.
+Encontraram-n'a exanime sobre o leito. A infeliz havia adoecido com a
+febre amarella; foi esse um dos primeiros casos que se dera na freguezia
+da Lapa. Atterrados, não houve quem quizesse approximar se da enferma.
+Não tardou muito que o facto transpirasse por toda a visinhança. No
+momento em que o regedor, dois metros affastado da porta, dava as suas
+ordens para que fossem buscar a maca afim de conduzirem a velha ao
+hospital da rua do Sol, Martha, a loira Martha, saiu de casa e
+atravessou a rua, dirigindo-se ao logar do sinistro.
+
+--Onde vae a menina? perguntou o sr. Venancio da Conceição.
+
+--Levar esta gotta de caldo á visinha, respondeu Martha ao previdente
+regedor.
+
+--Não consinto similhante loucura! disse elle; a velha foi atacada pela
+febre amarella, e vae immediatamente para o hospital.
+
+--O que vocemecê não me póde impedir, é que eu pratique uma obra de
+caridade; e demais, veja se está no seu direito de mandar para o
+hospital uma pessoa que se póde curar em sua casa.
+
+--Essa mulher não se póde tratar em sua casa, não tem familia.
+
+--E quem lhe disse ao sr. que não tem quem a trate? acudiu Martha,
+afastando o regedor e dirigindo se para o interior da casa da tia
+Marianna. Ora essa! ajuntou ella, e se eu a quizer tratar, ha de alguem
+oppôr-se?! Creio que não. Com sua licença, sr. regedor; e entrando
+animosamente, dirigiu-se a uma alcova, onde a desgraçada, extorcendo-se
+em dolorosas agonias, cravava os olhos n'um pequeno crucifixo, collocado
+sobre uma commoda.
+
+Os cabos, regedor, e todos quantos alli se encontravam, olhavam-se
+mutuamente sem proferir uma só palavra.
+
+--Assim o quer, assim o tenha, disse a auctoridade, depois de alguns
+instantes de reflexão. Se ella fosse minha filha ou coisa que me
+pertencesse, por certo que não havia de lá entrar. Eu cá é que não tomo
+nada, acrescentou elle olhando com receio para dentro da casa.
+
+Instantes depois, saía Martha de casa da velha.
+
+--Mandem chamar immediatamente um medico, disse ella voltando-se para o
+regedor. Póde ser que ainda lhe possamos acudir. Pelo facto de ser uma
+pobre mulher, bem vê que não a devemos deixar morrer ao desamparo. E
+dizendo estas palavras, tornou a entrar para dentro da casa da tia
+Marianna.
+
+--Vá á botica pedir soccorros, disse o regedor, voltando se para o cabo
+geral, e que venham immediatamente; porquanto, esta mulher pelo facto de
+ser pobre, não devemos deixar morrer ao desamparo, ajuntou elle,
+secundando as palavras de Martha, e repetindo-as como se fossem suas
+proprias.
+
+O cabo geral, sem mais hesitar, voltou as costas aos circumstantes, e
+resmungando subiu a rua do Meio, dirigindo-se aonde a auctoridade o
+havia mandado.
+
+Não tardou muito que á porta da tia Marianna se ajuntasse um circulo de
+curiosos. As visinhas a quem o terror da cruel epidemia havia infiltrado
+nos animos o mais terrivel desalento, debalde vociferavam contra a
+estulta caridade de Martha, e a pueril condescendencia do regedor, em
+annuir aos desejos da filha do mestre de obras. Revestindo-se emfim de
+todo o seu poder, o sr. Venancio da Conceição convenceu o auditorio,
+repetindo-lhe pela segunda vez, que, pelo facto da tia Marianna ser uma
+pobre, não a deviam deixar morrer ao desamparo.
+
+N'este comenos, appareceu o mestre Jeronymo.
+
+--A sua filha está doida de todo! diziam uns.
+
+-Já tres vezes que vamos avisar a sr.ª Balbina para que a retire
+d'aquella casa e ainda não houve meios, acudiu uma ajuntadeira de
+calçado, que nem por isso gozava de muitos bons creditos na visinhança.
+
+--Que loucura! que loucura! dizia a capellista.
+
+--Parece que está a zombar da cholera do Senhor! acudiu respeitosamente
+a tia Monica, beata que vivia de resas por conta das fidalgas de Buenos
+Ayres, quando os seus affazeres não lhe permitiam conversar com o Todo
+Poderoso por conta propria.
+
+--Se Deus a arrasta ao leito da moribunda, elle mesma a salvará,
+respondeu fleugmaticamente mestre Jeronymo, lendo-se-lhe, apezar de
+tudo, um certo receio pela vida da criança que estremecia.
+
+--Muito estimo que assim penses, acudiu Balbina, que saira n'este
+momento de casa. O mesmo pensei eu quando Martha me foi pedir uma gotta
+de caldo; entregando-lh'o, entreguei a a Deus.
+
+--Pois olhe, sr.ª Balbina, disse a capellista, fosse ella minha filha,
+não lh'o consentia.
+
+--Cada qual tem o seu modo de pensar, sr.ª Margarida, e Deus fez-me
+assim; mas deixemo nos de mais dize tu, direi eu, e vamos a ver o que se
+poderá fazer por aquella infeliz. E sem mais reflexionar, entrou n'esse
+recinto mortuario, por onde momentos antes sua filha havia
+desapparecido.
+
+--_Avé Maria, cheia de graça, o senhor é comvosco, benta sois vós_,
+dizia a beata. Forte impostora! accrescentou ella; aquillo não é senão
+para se fazer valer na visinhança.
+
+
+
+
+III
+
+
+Meia hora depois d'esta veridica scena, que acabamos de descrever,
+appareceu o medico.
+
+--É alli, disse-lhe o regedor, apontando para a porta da tia Marianna.
+
+--Siga me, disse o doutor, voltando-se para a autoridade.
+
+O lance era fatal, não havia que hesitar. Amaldiçoando n'esse momento a
+má estrella, que o conduzira áquella posição, com as faces lividas de
+susto e de terror, o sr. Venancio seguiu o medico.
+
+Junto ao leito de Marianna, fazendo lhe uma fricção nos joelhos, Martha,
+a filha do operario, debalde tentava chamar á vida essa que, n'um olhar
+turvo e desvairado, parecia contemplar lhe a angelica formosura.
+
+Balbina, com um pequeno frasco chegado ao labio superior da enferma
+tentava fazel a aspirar o conteùdo do vidro. De pé, contemplando este
+doloroso quadro, Jeronymo pedia a Deus se compadecesse de sua familia.
+
+Approximando-se da enferma, o medico tomou-lhe brandamente o pulso, e
+voltando-se em seguida para Martha, pediu-lhe uma véla, afim de melhor
+analysar a vista da moribunda.
+
+--Encontro-a muito debil, disse o esculapio em voz baixa; é de suppôr
+que não a possamos salvar; comtudo, far-se-ha a diligencia, ajuntou elle
+cravando os olhos no rosto pallido e abatido de Martha.
+
+Abrindo em seguida a caixa dos medicamentos, começou de applicar lhe os
+que o seu estado exigia.
+
+--Esta senhora pertence á sua familia? ajuntou o medico voltando se para
+Jeronymo.
+
+--Não, senhor; comtudo minha filha interessa se muito por esta
+desgraçada; e se não fosse Martha, talvez a tivessem mandado para o
+hospital.
+
+--Se a teem removido d'este leito, ao chegar lá seria um cadaver,
+retorquiu o doutor, palpando a fronte da enferma.
+
+--Parece lhe que poderemos ter esperanças? perguntou Martha,
+approximando se do leito.
+
+--Veremos á noite. Sendo sete horas, se poder, voltarei; e,
+despedindo-se dos circumstantes, saiu d'aquella casa, levando impressa
+na memoria a imagem candida e celeste da filha do operario.
+
+Os moveis da tia Marianna reduziam se ao pequeno leito de espinheiro
+onde jazia, uma enorme papelleira, um bahu, e quatro cadeiras de
+palhinha, completamente estragadas nos assentos.
+
+Roupas, se as havia, estavam fechadas; e nem ella lh'o podera responder,
+nem era dado a Balbina o perguntar-lh'o n'esse momento. Dirigindo se a
+casa, trouxe d'alli quanto necessario lhe pareceu afim de alliviar no
+que podesse os incommodos da enferma.
+
+--Sempre lhe gabo a pachorra, disse a sr.ª Margarida, ao ver os lençoes
+alvos como a neve, que a mulher do operario levava no braço. Estar
+estragando assim as suas roupas brancas com quem pouco póde viver! Não
+era eu, que Deus me livrasse! E demais, sr.ª Balbina, uma pobre de
+Christo como a tia Marianna, mais lhe valera o ir para o hospital.
+Supponha a senhora que fica para ahi entrevada, quem ha de sustental-a?
+
+--Deus nunca faltou a pessoa alguma, sr.ª Margarida; e demais, cada qual
+que se metta com a sua vida, que eu pela minha parte nunca me intrometto
+com as alheias, respondeu Balbina, cortando pelo fio as palavras da
+capellista, e dirigindo-se para casa da tia Marianna, onde a esperavam
+Martha e seu marido.
+
+A velha havia recobrado a razão, e sorria-se brandamente para a filha do
+operario, como se n'aquelle olhar significativo estivesse agradecendo a
+Deus o anjo que a Providencia lhe havia deparado n'esse momento de
+suprema angustia.
+
+Jeronymo e Balbina, assentados n'um bahu, olhavam para aquelle quadro
+enternecedor, pedindo ao mesmo tempo nas suas preces silenciosas que lhe
+livrassem sua pobre filha.
+
+Meia hora depois de arranjada a cama, a velha sentiu-se mais alliviada.
+As horriveis dôres por que passara, iam-lhe diminuindo a pouco e pouco,
+e á face, de pallidez mortal, subira-lhe de novo o calor e a vida.
+
+Nem uma só das visinhas, approximando se á sua porta, foram pelo menos
+indagar o estado da sua doença.
+
+Ás sete horas, como o havia promettido, voltou o doutor. A enferma
+estava livre de perigo.
+
+
+
+
+IV
+
+
+Oito dias depois, com grave assombro da visinhança, a tia Marianna,
+envolta n'um capotezinho azul, apparecia de novo á janela da sua casa.
+
+Os effeitos da febre amarella haviam-lhe passado desapercebidos pela sua
+organização de ferro. Ao vel-a, ninguem poderia acreditar que essa
+mulher, aos sessenta e seis annos, podesse haver resistido aos golpes
+d'uma doença, que tanta gente nova e robusta ceifára n'aquellas
+immediações.
+
+Todos viam na sua convalescença, começando pela beata, um favor da
+Providencia; e nem uma só bocca se abriu para dizer, quanto a dedicação
+da pobre Martha ajudára aquelle verdadeiro milagre.
+
+Almas vis e denegridas que não comprehendeis o bem, como poderieis
+soltar a voz para elogiardes a virtude, se nos vossos corações não
+existe mais do que a inveja e a podridão!
+
+Sem valor de praticardes o bem, fere-vos o goso que experimenta o
+coração, que se entrega aos deleites da caridade.
+
+A apotheose do proximista, echoando nos ouvidos do misanthropo, deve
+produzir-lhe um effeito atroador, como o som do ouro espalhado pela
+pobresa, no tympano do avarento.
+
+Ninguem da visinhança se atrevera a soccorrer a pobre doente, ninguem
+repartira o seu jantar com a infeliz; porém, quando a viram de pé,
+salva, proclamando por toda a parte o quanto era devedora á familia do
+operario, todas as visinhas, consumindo-se de inveja, lhe voltavam as
+costas para não ouvirem os elogios que a velha do coração lhe
+prodigalizava.
+
+Desde esse momento, a pouca affeição que todos consagravam á familia de
+Jeronymo, tornára-se em decidida aversão. Começando pelo sr. regedor, e
+acabando na sr.ª Margarida da Silva, ninguem podia supportar aquella
+pobre gente, que, fechada quasi sempre em sua casa, de mais coisa alguma
+se importava a não ser dos seus arranjos domesticos.
+
+Quanto mais a tia Marianna proclamava em alto e bom som as virtudes de
+Martha, maiores antipathias ia inspirando a filha do operario. Quando,
+acompanhada por sua mãe, saía aos domingos para ir á missa da Lapa, as
+visinhas zombavam sempre ao vel-a passar. Hoje, porque o seu lenço
+estava mal engommado, ámanhã porque o seu capote de panno azul já
+começava a mostrar o fio. A pobre victima fazia que nada percebia dos
+continuos gracejos que contra ella dirigiam. Chegou a pedir a sua mãe,
+por tudo quanto havia, que não a obrigasse a ir á missa das onze.
+
+--Que te importa o que diz toda essa gente? exclamava ás vezes o sr.
+Jeronymo. O que elles têem é inveja do teu comportamento. Não tardará
+muito, se Deus quizer, que tenha ahi uns _ganchosinhos_ que me devem
+render um par de moedas, verás então como lhes hei de fazer estalar a
+castanha na bocca, quando te virem o bom capote aos hombros, e o bom
+cordão de seis moedas ao pescoço.
+
+--Pouco me importa com o que elles dizem, respondia lhe Martha. Não
+tenham de abocanhar no meu credito, o mais, tanto se me dá como se me
+deu. O que eu queria era ajudar a pobre velhinha.
+
+--Pois tambem não tardará muito que lhe façamos algum bem, respondeu o
+mestre Jeronymo, como se um pensamento lhe acudisse ao espirito. Ámanhã
+tenciono ir a casa de tua madrinha, para que ella lhe possa obter alguma
+esmola da senhora Condessa. Que te parece, Martha? Continuou o mestre de
+obras, cravando os olhos no rosto candido de sua filha, e revelando no
+gesto o prazer que lhe ia n'alma, ao comparal-a com todas as raparigas
+suas visinhas.
+
+--Muito estimarei que isso não fique no rol dos esquecimentos, respondeu
+a criança sorrindo-se ternamente para seu pae. Salvamos a pobresinha da
+morte, é mister não a desampararmos, nem deixal a morrer de frio ou de
+fome.
+
+--De frio não morrerá ella por certo, acudiu Balbina, collocando o ferro
+de engommar sobre o descanço. Ainda esta manhã lhe dei o capote que
+punhamos no leito.
+
+--Quer dizer, interrompeu Jeronymo, que de hoje em deante... se tivermos
+frio...
+
+--Que nos havemos de contentar com os cobertores, respondeu a caridosa
+Balbina, tornando a pegar no ferro, e approximando-o da face para lhe
+calcular o calor.
+
+--Seja o que vossês quizerem, que eu, pela minha parte nunca as
+reprehenderei por qualquer acção boa que praticarem; e já que tivemos a
+felicidade de salvar a vida d'essa infeliz, é justo não a deixarmos
+agora morrer ao desamparo. Estou da opinião da Martha.
+
+--Ou eu me engano muito, ou a tia Marianna já teve melhores dias, disse
+Martha. Ha na sua vida algum mysterio que ella nos encobre, mas que,
+apezar de tudo, adivinhamos, respondeu Martha, com aquella intuição
+particular que tantas vezes se encontra no coração da mulher.
+
+--O mesmo penso eu, ajuntou mestre Jeronymo. Nunca fui homem que
+frequentasse estas casas, porém reconheço ás vezes um não sei quê nas
+maneiras da tia Marianna, que me levam a crer que os seus principios não
+foram como os nossos; e tenho cá na mente, que mais dia menos dia tudo
+se ha de descobrir. Quando vossês hontem foram levar aquellas camisas a
+casa da fregueza, e que fiquei aqui em sua companhia, ainda mais me
+convenci das minhas suspeitas. «Sr. Jeronymo, disse me a tia Marianna,
+quem sabe se um dia a Providencia, lembrando se de uma desgraçada que
+abandonou sobre a terra, a tomará de novo debaixo da sua protecção. Se
+tal acontecer, lembre-se do que lhe digo hoje, nunca serei ingrata para
+uma familia a quem tanto devo.» Ora, além d'estas palavras serem
+proferidas, sim... assim como o outro que diz, com uns certos modos
+finos e delicados, levam-me a pensar que a tia Marianna não é, nem nunca
+foi o que parece. Em todo o caso, seja ella quem fôr, tem precisão, é
+necessario soccorrel-a, e hoje mais do que nunca, quando a inveja a
+começa a perseguir. Vejam lá a capellista! Até essa mesma, que eu
+suppunha tão virtuosa, como se uniu a todas as visinhas para lhe
+cortarem na pelle, mais a ti, minha filha! Valha nos Deus, que mundo
+este! ajuntou o mestre de obras, dirigindo-se para a cosinha, em cuja
+chaminé Balbina lhe havia posto a ceia a aquecer.
+
+N'este momento bateram apressadamente ao postigo.
+
+--Que teremos? disse Balbina.
+
+Martha levantou-se, e ao reconhecer a voz que da rua lhe falava, abriu
+immediatamente a porta.
+
+Era a tia Monica.
+
+--Deus seja comvosco n'esta casa, e que o Senhor lançando sobre nós a
+sua divina benção, queira proteger a mais santa e a mais virtuosa de
+todas as familias, disse a beata. Acaba de ser atacada pela febre
+amarella a nossa visinha Margarida, ajuntou ella. No momento em que me
+estava vendendo um vintem de meio grosso, a colera de Deus desceu sobre
+a peccadora e alli jaz sem protecção nem abrigo, porquanto todas as
+visinhas receiam que tambem o Senhor as castigue pelos actos que teem
+praticado sobre a terra. Venho pedir a vossemecê, sr.ª Balbina, que se
+compadeça d'essa desgraçada, e que me empreste esse milagroso frasquinho
+com que tornou á vida a tia Marianna.
+
+--Não foi o remedio que lhe deu minha mulher que fez com que a tia
+Marianna melhorasse, acudiu o mestre Jeronymo, que da porta da cosinha
+ouvira as exclamações da beata. Façam o mesmo que fez minha filha. Vão
+chamar o sr. regedor e peçam-lhe que mande immediatamente buscar-lhe os
+soccorros, ajuntou o mestre de obras com modo aspero e descontente.
+Quanto ao frasco, continuou elle, voltando-se para sua mulher, podes
+emprestar-lh'o se é da tua vontade, porém servir-lhe de enfermeira,
+maletas me dêem se em tal consinto. Bem basta o que basta, sr.ª Monica.
+Para outra qualquer pessoa talvez que nem fosse preciso que me pedisse
+por duas vezes, mas para a sr.ª Margarida! Nem que me pezassem a ouro,
+ou que santo me fizesse o sr. padre prior. Estou farto e mais que farto
+da ingratidão, sr.ª Monica. Não foi a sr.ª Margarida a primeira a cortar
+na pelle de minha filha, por ella ter ido acudir á tia Marianna? E não
+foi só ella como tambem as outras visinhas! Pois agora que se aguentem
+como melhor lhes parecer. Que se ajudem umas ás outras, que eu pela
+minha parte, não consinto que lá ponham o pé, nem minha mulher nem minha
+filha.
+
+[Ilustração: N'este momento a viuva acabava de assignar... (_pag. 15_)]
+
+--Cruzes! Credo! Mãe Santissima! Que modos, sr. Jeronymo! E eu que
+julgando-o um Santo, me atrevi a vir a sua casa. Que a ira de Deus
+descendo sobre esta morada castigue o maior de todos os peccadores,
+resmungou a tia Monica á medida que se approximava da porta por onde
+momentos depois saía apressadamente, olhando ao mesmo tempo para
+Jeronymo, cujo olhar, incendiado pelo desespero que a praga lhe havia
+produzido, incutia certos receios no animo da corretora de orações.
+
+--Que lhes pareceu o traste? perguntou o mestre Jeronymo depois de
+alguns momentos de profunda reflexão.
+
+--Se meu pae me deixasse ao menos ver o estado em que se encontra essa
+pobre mulher?... perguntou ingenuamente a caridosa Martha.
+
+--Nem por sombras, respondeu o operario. Vamos pedir a Deus pela saude,
+e depois descançarmos o corpo para o trabalho de ámanhã.
+
+Momentos depois, ouvia-se apenas em casa do operario o ciciar d'esta
+curta, mas eloquente oração:
+
+ Bom Jesus, todo Poderoso,
+ Filho da Virgem Maria,
+ Soccorrei-nos esta noite
+ E ámanhã por todo o dia.
+
+ Se na terra não coubermos,
+ Levae-nos Senhor aos céos,
+ Rogae por nós peccadores,
+ Virgem Santa, Mãe de Deus.
+
+
+
+
+V
+
+
+Havia dias que tinha chegado a Lisboa, vindo do Rio Grande do Sul, um
+abastado capitalista por nome Tristão de Almeida, segundo rezava o seu
+passaporte. Acompanhavam-n'o sua mulher e duas filhas.
+
+Trazia apenas tres cartas de recommendação, uma para o visconde de
+Coruche, outra para o commendador Lopes de Miranda, e a terceira para a
+casa bancaria de Vaz Mendes e C.ª, extraordinariamente acreditada n'esta
+capital, não só pela notavel amabilidade dos seus gerentes, como pelo
+facto de já ter fallido tres vezes.
+
+O visconde, o commendador e o banqueiro abraçaram gostosamente o seu
+recommendado. Como bons farejadores reflectiram que a caça era rara de
+mais para se abandonar por essas mattas de Lisboa, onde o genero tanto
+escasseia.
+
+Disputada calorosamente entre todos tres a preza que promettia dar para
+succulenta refeição, transigiram, promettendo, como quaesquer jogadores
+da vermelhinha, que dividiriam entre todos os despojos da caçada.
+
+Deixando-se de vogar na torrente de eternas adulações, Tristão de
+Almeida olhava para as facecias dos seus aduladores com aquelle olhar de
+experimentada velhacaria com que todo o homem do mundo se deixa levar,
+quando, porventura, no amago das lisonjas que lhe disparam, antolha, ou
+pelo menos fareja o mais leve indicio de estremado calculo.
+
+Sem patentear a sua intelligencia ou, ainda mais, deixando-se passar por
+zote, Tristão ia cercando de lisongeiras esperanças o filão d'essa
+inexgotavel mina que os tres inseparaveis amigos julgavam descobrir na
+sua aurifera individualidade.
+
+Mulher e filhas ainda não haviam entrado em scena. Constava porém que
+uma das meninas era de formosura extrema, e d'uma superior
+intelligencia. Não tardou uma semana que esse homem, ou para melhor
+dizer esse mysterio fosse discutido em todos os circulos.
+
+Quem era? Qual o seu passado, ninguem o sabia; ao passo que elle
+conhecia a todos, e de todos sabia as chronicas. Se este, antes de ser
+visconde de tal era apenas Manuel Pinto com barracas de fressureiro, se
+aquelle, antes de barão, empregava a casca de polvo para tirar em baixo
+relevo a vera effigie de qualquer monarcha, ensaiando por esta forma a
+sua industria até conseguir a tiragem por meio do balancé; se
+aquell'outro, profundo amador do sexo fragil, tivera casa de alcouce no
+Brazil com o unico fim de matar o tempo.
+
+Tristão de Almeida sabia o passado de todos, e todos ignoravam o seu
+preterito.
+
+«É forçoso votar uma quantia para estes tres individuos, pensava elle,
+passeiando pela varanda do hotel e contemplando as aguas do Tejo que
+pareciam conhecel-o e sorrir-lhe. Se com vinte ou trinta contos de réis
+se contentam, satisfarei os seus desejos e poderei conseguir os meus
+fins. Graças a sir Francis Strolopp, tornei-me desconhecido.[1] Hoje
+pessoa alguma poderá descobrir que antes de ser Tristão de Almeida fui
+Felix Justino de Araujo como antes de ser Felix Justino de Araujo fôra
+Domingos de Andrade.
+
+«É forçoso que me arranjem um titulo pelo menos de visconde. Quero ver
+minha mulher viscondessa, tenho n'isso o maior de todos os meus
+caprichos. Não que me seja preciso, para casar minhas filhas é-lhes
+sufficiente o seu dote de duzentos contos de réis. Brevemente
+encontrarão algum fidalgo arruinado, que tenha por unicos restos de
+grandeza o seu titulo, e isso... é genero que abunda muito em Portugal.
+Está decidido, quero um titulo. Começarei por ser apresentado em casa de
+alguma senhora protectora d'essas escolas de caridade, e dar-lhe-hei uma
+avultada esmola, afim de a applicar aos seus protegidos. Mas agora me
+recordo, ajuntava elle, desencostando-se do parapeito da varanda; o
+ensejo é favoravel. A febre amarella, levando a desgraça a centenares de
+familias, enlucta-lhes as suas habitações. Vou fundar um hospital. Serei
+o anjo dos tristes! Beatifica-te, Domingos de Andrade. Eleva-te aos
+olhos de Deus, Felix de Araujo. Derrama esse ouro que tanto te custou a
+adquirir, Tristão de Almeida, e serás um dia aquillo que te aprouver.»
+
+N'este momento, bateram á porta da sala. Tristão mandou que abrissem, e
+entrou um criado annunciando o visconde de Coruche.
+
+--Que entre, disse lhe Tristão de Almeida retirando-se da varanda e
+dirigindo-se para o salão.
+
+O visconde era um homem de cincoenta annos, mas que parecia ter
+quarenta quando muito.
+
+Dotado d'uma inteligencia regular, já pelos dotes physicos de que Deus
+fôra prodigo para com ele, já pela riqueza de que por duas vezes havia
+disposto, era ainda, apezar da sua decadencia, o primeiro rapaz d'esta
+terra, onde se não envelhece antes dos setenta e seis a setenta e sete
+annos, graças á temperatura do seu clima.
+
+Quando entrava no Marrare de Polimento, toda a moderna geração se
+curvava deante d'aquelle que havia sido o chefe da velha guarda.
+
+Não havia rapaz que não escutasse avido de curiosidade as mil aventuras
+que se haviam dado n'aquella existencia tumultuosa. Havia sido o terror
+da banca portugueza no salão do theatro de S. Carlos, como na caixa do
+mesmo theatro fôra o invejado emulo de todos os seus contemporaneos, em
+resultado das innumeras conquistas que em cada epocha se permitia.
+Ninguem montava como o visconde! Os seus cavallos eram os primeiros de
+Lisboa. Tivera por sotas da sua magnifica sege o Feliciano e o Bem Bom!
+
+Aos vinte anos, casara-se com uma prima, a filha do conde de ***. Quinze
+dias depois, n'um camarote de primeira ordem da Rua dos Condes, estava a
+viscondessa e defronte dela, noutro camarote da mesma ordem, miss Ellen
+Barkshead, voltando de vez em quando o rosto para a rectaguarda para
+melhor falar com o marido da viscondessa.
+
+Como se vê, era um homem completo.
+
+Dois anos depois entregou a viscondessa a sua meia alma a Deus deixando
+sobre a terra a outra metade, para ser previamente repartida por uma
+multidão de mulheres que disputavam entre si o voluvel coração do
+visconde.
+
+Extravagante mais por indole do que por ostentação, o fidalgo
+deliciava-se nos encantos dos seus desvarios, saboreando as commoções
+que d'elles lhe resultavam, com o mesmo deleite com que o gastronomo
+delicia o palladar nos prazeres d'uma variada mastigação. Era o
+verdadeiro sybarita da estroinice.
+
+Senhor d'uma casa de vinte contos de renda, não tardou muito que a visse
+desbaratada em custosas viagens.
+
+Aos trinta annos estava pobre! Tinha por unico recurso a morte de um tio
+de quem era herdeiro forçado, porém a pertinaz saude do velho fazia com
+que o pobre visconde estivesse quasi a esmorecer no caminho da vida,
+onde se assentava desanimado, como o peregrino, a quem o desalento feriu
+no começo da sua jornada.
+
+Um dia, finalmente, o velho aristocrata, mais talvez para acceder aos
+ardentes desejos do seu arruinado sobrinho do que para descer aos
+abysmos do inferno, que por direito de conquista lhe pertencia, cerrou
+brandamente as palpebras, e partiu d'esta para peior, segundo a opinião
+das suas victimas, deixando por seu universal herdeiro o visconde de
+Coruche.
+
+As privações porque este passára foram completamente esquecidas desde
+que se encontrou novamente possuidor d'um vinculo cujo rendimento
+excedia seis contos de réis, e esquecidos tambem se julgaram os seus
+crédores, porquanto lhes foi necessario lançarem mão de meios pouco
+brandos para adquirirem, senão a totalidade do devido, pelo menos o
+capital confiado ao visconde, com juro modico e rasoavel. O fogo
+d'aquella eterna juventude, amortecido durante cinco annos de amargura,
+reanimou-se então com todo o esplendor do seu brilho! O visconde tornou
+a entregar-se a todos os prazeres, com o ardente desejo de quem apenas
+se recordava d'elles.
+
+A sua vida era um mysterio. Todos os dias se dizia que estava
+arruinado, porém tanto a casa como o trem conservavam-se como no tempo
+do apogeu da sua riqueza.
+
+D'onde lhe viria o dinheiro para tanto? Eis o misterio que a pessoa
+alguma era dado descortinar.
+
+Ao cabo de alguns annos, o vinculo que herdára teve o mesmo resultado
+que havia tido o que seus pais lhe deixaram, porém desta vez a situação
+era mais difficil, não tinha parente algum para quem apellar.
+
+Não podendo recorrer aos mortos, decidiu-se a explorar os vivos.
+Escudado pela prestigiosa fama que o acompanhava, fez do seu nome uma
+industria.
+
+Os rapazes que entravam na sociedade desejavam todos ser-lhe
+apresentados. O visconde conhecia isto, e, esquivando-se a principio,
+anuia finalmente, não sem mostrar quanta honra ele lhes dispensava
+colocando-os no rol de seus intimos.
+
+Todos á uma dariam metade do que possuiam para se tratarem por tu com o
+visconde, no que ele era assaz difficil; a sua intimidade era um genero
+de superior qualidade para que muitos se podessem ufanar de o possuir.
+
+Ainda que as suas gentilezas eram por todos conhecidas, todos ou quasi
+todos lhas desculpavam. Estimado nos principais circulos onde aparecia,
+nem uma só pessoa se atrevia a dar-lhe a mais pequena mostra de
+desconsideração.
+
+Foi pois o visconde um dos tres individuos a quem Domingos de Andrade,
+ou o commendador Felix de Araujo, ou Tristão de Almeida, para maior
+exactidão desta veridica historia, foi apresentado.
+
+--Quanto estranhei não o ter encontrado hontem no theatro, meu caro
+amigo, disse o visconde, reclinando-se commodamente n'uma poltrona. Ha
+muito tempo que não vejo S. Carlos tão brilhante. O tenor, como sempre,
+cantou admiravelmente. E no que diz respeito ás toilettes, não póde
+calcular, e impossivel seria descrever-lh'as. Felizmente não se tem
+espalhado muito o panico em Lisboa. O cholera de 1833, de que eu tenho
+uma vaga reminiscencia, aterrorizou muito mais os habitantes do que esta
+innocente epidemia. Ha um tempo a esta parte, tudo aqui em Lisboa é
+pobre e acanhado. Da febre amarella, diz-se: tem morrido muita gente; do
+cholera, dizia-se com espanto: assim mesmo tem escapado alguem. Isso é
+que foi uma epidemia, meu amigo.
+
+--Assim ouvi dizer. N'essa epocha estava eu em Buenos Ayres, respondeu o
+commendador, notando ao mesmo tempo a estudada desenvoltura com que o
+visconde o tentava seduzir. Pois eu hontem não fui a S. Carlos, ajuntou
+elle, por ter tido minha filha alguma coisa indisposta.
+
+--N'esse caso fez muito bem, sr. Tristão. O tempo não está para
+brincadeiras. Eu mesmo, que tenho uma saude de ferro, se n'este momento
+sentisse a mais leve indisposição, começava por me tractar como estando
+realmente ameaçado pela epidemia. Em primeiro logar está a nossa saude.
+Prefiro-a a tudo, até á riqueza.
+
+--Porêm quando se reunem essas duas venturas... acudiu Tristão de
+Almeida, simulando um gesto de pueril ingenuidade.
+
+--Então o mundo é um verdadeiro paraiso, pelo menos assim o julgo.
+Muitos rapazes que por ahi conheço possuem, como eu, saude e dinheiro.
+Encontro-os sempre curvados ao pezo de uma terrivel fatalidade. Nunca se
+consideram felizes! Fazem da melancolia a sua companheira inseparavel, e
+dando-se ares de Antonys, arranjam um farnel de desventuras, e vão com
+elle por essas ruas da capital armando á compaixão das suas Lesbias. Eu
+sou o contrario; a minha alegria é chronica. Se eu não tenho coisa
+alguma que me entristeça, para que demonio hei de dizer mal do mundo que
+tantos deleites me faz experimentar?
+
+--Sou da sua opinião, sr. visconde. O mundo é apenas mau para os tolos,
+ainda que ha muita gente que diz o contrario. Quem dispozer de boa saude
+e tiver alguns meios, deve pedir a Deus que o conserve largos annos
+sobre a terra. Mas voltando agora a outro assumpto, ajuntou Tristão de
+Almeida, que já começava a impacientar-se, como o leitor, do estirado
+dialogo do visconde; quanto estimo que me tenha dado a honra d'esta
+visitasinha, não só pelo prazer da sua companhia, como pela necessidade
+que tenho de lhe falar. Preciso um conselho seu.
+
+--Um conselho meu! exclamou o visconde profundamente admirado. É a
+primeira pessoa que m'o pede! Todos me chamam um rapaz extravagante,
+continuou elle, olhando ao mesmo tempo para um espelho que lhe ficava
+fronteiro; vossa excellencia quer guiar-se pela minha opinião?
+Provavelmente trata-se da compra d'algum palacio, e alguem houve que
+teve o mau senso de lhe dizer que eu era um homem de gosto.
+
+--Nada, não se trata d'isso.
+
+--Então, provavelmente, quer me consultar ácerca da mobilia, ou das
+carruagens, ou dos cavallos?
+
+--Tão pouco, respondeu serenamente Tristão de Almeida. Isso ficará
+para mais tarde. Por agora trata-se apenas de uma obra de
+misericordia;--fazer bem aos desgraçados.
+
+--Se tal fôr, acho muito justo, e desde já me offereço a ajudal-o em
+tudo quanto me seja possivel.
+
+--Sentemo nos, disse Tristão apontando lhe para o sophá. Minha esposa,
+que tem o habito de empregar na pobreza a mezada que lhe dou para os
+seus alfinetes, lembrou-se ha dias de gastar uns contos de réis n'um
+asylo de creanças desvalidas. Que lhe parece a idéa?
+
+--Não a póde haver melhor, respondeu o visconde, e se vossa excellencia
+m'o permitte, desde já me comprometto a fazer com que minha tia, a sr.ª
+condessa de Villa Velha, venha immediatamente procural-o afim de o
+iniciar n'essas associações. Recordo me d'ella, porquanto é uma das mais
+assiduas obreiras do grande monumento da caridade. Não ha asylo para que
+não seja consultada e é sempre a sua opinião a que prevalece sobre todas
+as outras. Se vossa excellencia quer, o meio é muito simples, e torno a
+repetir-lhe, hoje mesmo me encarrego de tudo.
+
+--Pois meu caro amigo, acudiu fleugmaticamente Tristão de Almeida, não
+me associo á opinião de minha mulher nem á sua. Tenho outra idéa, e
+creio que será muito mais razoavel.
+
+--Sim?...
+
+--É verdade. Lembrava-me de fundar um hospital para os enfermos atacados
+de febre amarella. Isso em primeiro logar; depois, quando este terrivel
+flagello tiver abandonado Lisboa, então sim, então adoptarei a idéa que
+teve minha mulher.
+
+--Approvo, e desde já devo confessar que tanto eu como sua
+excellentissima esposa ficamos completamente vencidos.
+
+--Approva?
+
+--Applaudo.
+
+--E dispensa-me a sua protecção n'esta pequena obra de caridade?
+
+--Conte commigo, respondeu o visconde puxando pela charuteira e
+offerecendo um magnifico havano ao seu interlocutor.
+
+--Poderemos hoje mesmo começar os nossos trabalhos? perguntou Tristão
+de Almeida, acceitando o charuto que lhe fôra offerecido.
+
+--Quando queira, respondeu o visconde de Coruche, tirando da algibeira
+do collete uma caixa de phosphoros magnificamente cinzelada.
+
+--Vamos então procurar o commendador e seguiremos d'alli para casa de
+Vaz Mendes. Tanto um como o outro é de suppôr que nos possam ajudar em
+muito.
+
+--Assim o creio, murmurou o visconde, accendendo o charuto e passando-o
+a Tristão de Almeida.
+
+ * * * * *
+
+Momentos depois entrava este para dentro do trem do visconde. Quando a
+carruagem saia o portão e voltava para a rua do Ferregial, espantou-se o
+cavallo da sella, e esbarrando no passeio, atropellou um individuo,
+deixando-o sem sentidos. Sairam ambos e levantaram o desgraçado.
+
+Pegando elles mesmos no corpo inerte da victima, transportaram n'a para
+o hotel de Bragança.
+
+Tristão de Almeida expediu logo dois creados em procura de medico. Por
+excepção, o doutor não tardou meia hora!... Das feridas que o
+atropellado recebera na cabeça nenhuma era de gravidade, comtudo não
+havia tornado a si.
+
+Tristão de Almeida, com a mão do enfermo entre as suas, parecia com
+profundo interesse procurar-lhe a vida nas pulsações. Seria calculo ou
+verdadeira caridade? Sabia o Deus!
+
+Terminado o curativo, o homem descerrou as palpebras, fitando o que
+havia em torno de si com olhar turvo e desvairado.
+
+É melhor deital-o immediatamente, não lhe sobrevenha alguma congestão,
+disse o doutor tomando o pulso do enfermo.
+
+Depois de ordenarem ao criado de mesa que arranjasse um quarto, Tristão
+de Almeida e o visconde levaram em braços o ferido e deitaram-n'o sobre
+um leito, pedindo ambos ao medico que voltasse antes da noite.
+
+--Começa hoje a espalhar as joias da sua caridade, disse-lhe o visconde
+com falsa ingenuidade.
+
+--Quizera antes ter perdido dez ou doze contos de réis do que ter sido
+causa de similhante desgraça, respondeu-lhe Tristão. Agora, sr.
+visconde, ajuntou elle, emquanto vamos tratar dos nossos negocios, será
+bom recommendar a minha mulher e a minhas filhas que venham para a
+cabeceira do ferido.
+
+--Será uma grande alma, pensava o visconde.
+
+--Foi um magnifico prologo, dizia comsigo Tristão.
+
+Meia hora depois dirigiam-se ambos para casa do commendador.
+
+[Nota de rodapé 1: Tristão de Almeida lera a preclarissima obra de sir
+Francis Strolopp, e procurando um celebre chimico allemão, conseguira
+que este lhe transformasse a physionomia a ponto de se tornar
+desconhecido de si mesmo.]
+
+
+
+
+VI
+
+
+--E já lá vão as cinco, as seis, e as sete, e Jeronymo sem chegar!
+Virgem Santissima que lhe terá acontecido?
+
+Isto dizia a infeliz Balbina, olhando ora para o relogio, ora para uma
+pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição, defronte da qual ardia a
+luz frouxa e melancholica de uma lamparina de azeite.
+
+--Ha dezoito annos que somos casados, continuou ella voltando se para a
+tia Marianna, e nunca tal me aconteceu! E sobretudo n'este tempo! Quem
+nos diz que elle foi atacado pela febre, e que o levaram; morto talvez;
+morto, o meu querido Jeronymo? Deus permitta que Martha se não demore.
+Ella já tinha tempo e mais do que tempo para voltar.
+
+--Não se apoquente, sr.ª Balbina. D'aqui á rua de S. Francisco não é
+tão perto como julga, e demais ainda não ha uma hora que foi.
+Coitadinha! Desacostumada como está de andar por essas ruas! Porque não
+havia de me ter deixado ir em sua companhia? Valha-nos Deus! Não ha
+senão desgostos para os que são bons como vossemecê.
+
+--Isso é coisa sabida, tia Marianna; parece que quanto mais a gente
+quer--como o outro que diz--estar nas graças de Deus, mais o demo que as
+tece está puxando pelo fio da felicidade! Eu estou como doida! Se Martha
+se demora mais algum quarto de hora, sou eu quem os vae procurar a
+_ambos e dois_. Vossemecê fica aqui para o que der e vier, ajuntou a
+pobre Balbina, passeiando desassocegadamente de um para o outro lado do
+quarto.
+
+--Ainda não tem razão para estar dizendo mal á sua vida. Quem sabe se
+ambos se encontraram?...
+
+--Tenho na mente que não, sr.ª Marianna; e demais, não sei o que me diz
+o coração. Parece que tudo se está preparando para que haja n'esta casa
+uma grande desgraça. Se a minha amiga visse a maneira por que hoje nos
+olhou a tia Monica! Não lhe bastou ter-nos rogado a praga que nos
+rogou...
+
+--Ora deixe-se d'isso, sr.ª Balbina! Não creia em bruxarias. Deus é bom
+de mais para conceder similhante poder aos mortaes.
+
+--Se ouvisse como hoje esteve a _ouviar_ a minha cadella! Diga-o ella!
+Por mais que pozesse as cadeiras de pernas para o ar, e que voltasse um
+sapato de solla para cima, não houve meios de fazer com que se calasse o
+pobre animal! Eu bem sei que tudo isto são coisas, como o outro que diz,
+que não vem nada ao caso, mas a gente cá tem os seus enguiços, e
+desgraçadamente a maior parte das vezes saem certos como dois e dois
+serem quatro.
+
+--Pois sim, pois sim, socegue a minha boa amiga, e verá que não tarda
+muito que os veja entrar por essa porta. É preciso que a gente não seja
+tão desanimada. De que nos serviria a religião se nos não desse
+conformidade? Estar agora duvidando da graça de Deus, porque seu marido
+se demora mais duas ou tres horas!
+
+--E como explica vossemecê o elle não ter vindo jantar?
+
+--Quem sabe lá se encontrou o seu ganchosinho com que podesse ganhar
+algum vintem? Ignora vossemecê o seu genio? Aquillo é uma formiga para a
+familia. Parece-me que se o dia tivesse quarenta e oito horas, quarenta
+e oito horas seria capaz de trabalhar por dia.
+
+N'este momento bateram á porta e a voz de Martha soou melancholicamente
+atravez das fendas do postigo.
+
+Balbina ergueu-se rapidamente para lhe abrir a porta.
+
+Martha vinha desfigurada.
+
+--O pae, disse ella entre soluços, saíu da obra ao meio dia para vir
+jantar a casa. Ninguem me pôde dar noticias d'elle. Pedi a um pedreiro
+para me ajudar a procural-o, mas o pobre sentia-se muito incommodado e
+esquivou-se a acompanhar-me. Outro que lá encontrei começou a sorrir-se
+para mim de tal forma que não tive valor de lhe dizer quanto soffria,
+ajuntou Martha tornando-se vermelha como o lenço que lhe occultava os
+seus magnificos cabellos.
+
+--Infame! exclamou Balbina approximando-se cada vez mais da filha.
+
+--Fugi desorientada, continuou Martha suffocada pelas lagrimas, e
+quando vinha pelo Chiado, encostei-me a uma esquina quasi sem saber de
+mim. Então senti que me tocavam brandamente no hombro. Despertei como de
+um sonho, e vi um senhor muito bem vestido, perguntando me o que tinha.
+Disse-lhe que ia em busca de meu pae, pois receiava que tivesse sido
+atacado pela febre. O tal individuo compadeceu-se da minha sorte.
+Aquelle sim; nem siquer reparou se eu era bonita ou se era feia. Teve
+apenas tempo de me ver as lagrimas e não a côr dos olhos. «Não me atrevo
+a dizer-lhe que entre commigo n'uma sege, disse-me elle; seria
+offendel-a; mas espere, que vou chamar dois trens.»
+
+Esperei, chegaram duas traquitanas.
+
+--Entre, disse-me elle pegando-me na mão esquerda. Do coração lhe
+affianço, que póde estar tão segura como se fosse ao lado de seu pae,
+que espero em Deus encontrará com vida, acrescentou o individuo
+mettendo-me no trem.
+
+Entrei sem saber como. Senti bater o guarda lama e os cavallos seguirem
+a trote.
+
+De repente, a sua traquitana tomou a deanteira á minha.
+
+Andámos, andámos até que chegou a um sitio onde havia um hospital. Os
+cavallos pararam. Elle então apeiou-se e perguntou-me os signaes do pae.
+Dei-lh'os. Entrou para dentro do edificio onde se demorou por alguns
+minutos, e voltou dizendo-me que não tinha entrado n'aquella casa.
+
+Os trens partiram a galope. Fomos a dois hospitaes; o mesmo resultado.
+
+Faltava apenas o da rua do Sol. Esse, já eu conhecia de nome quando a
+tia Marianna adoeceu. Ninguem alli tinha entrado desde as nove horas da
+manhã.
+
+--Vá tranquilla para sua casa, e diga-me onde mora.
+
+Dei-lhe o nome da rua e o numero da porta.
+
+Pagou ao bolieiro dizendo-lhe que me viesse pôr em casa, o que não
+acceitei por causa da visinhança.
+
+--E quem será esse individuo, para que lhe possamos beijar as mãos?
+exclamou Balbina, n'um transporte de profundo reconhecimento.
+
+--Deus sabe! Oh! mas elle não me mentiu! respondeu Martha. Tenho tanta
+fé nas suas palavras! Se a mãe visse como elle me disse: «vá para casa,
+que ainda hoje hei de descobrir onde está seu pae.»
+
+--E é muito novo esse homem? interrompeu Marianna.
+
+--Uns trinta annos.
+
+--Felizmente, ainda se pode dizer que a mocidade não está perdida de
+todo.
+
+N'este momento, Balbina approximava-se da porta, preparando-se para
+sair.
+
+--Mas onde vae? exclamou Martha. Pelo amor de Deus, minha mãe... Tenha
+prudencia! Onde pretende encontral-o? Na rua? Já vê que se lhe tivesse
+acontecido alguma desgraça, estaria infallivelmente em algum dos
+hospitaes, e graças a Deus, tal não succede.
+
+--Embora! hei de encontral o, respondeu a pobre mulher tentando dar
+volta á chave para sair.
+
+Marianna e Martha, ajoelhadas deante da pobre esposa, tentavam
+impedir-lhe a passagem.
+
+E ella então, comprehendendo a inutilidade da sua saida, caiu de joelhos
+deante da imagem de Nossa Senhora. Imitando-a, Martha e Marianna
+acompanharam-n'a na sua oração.
+
+E o relogio, seguindo n'um rumor compassado, continuava na sua material
+indifferença marcando os segundos e os minutos, ao som da chuva que,
+batendo de encontro aos vidros, ainda mais sombrio tornava aquelle
+quadro de amargura.
+
+
+
+
+VII
+
+
+Mudando de rumo, o visconde e Tristão de Almeida dirigiram-se
+primeiramente a casa de Vaz Mendes.
+
+Depois de os escutar, o banqueiro annuiu gostosamente aos desejos do seu
+recommendado, promettendo-lhe desde logo fazer tudo quanto estivesse ao
+seu alcance para animar uma idéa tão philantropica.
+
+D'alli partiram todos tres para casa do commendador Lopes de Miranda.
+
+Egual acolhimento, como era de esperar, acrescentando que a mesma idéa
+exposta por Tristão de Almeida havia sido formulada por elle tres dias
+antes.
+
+Tristão sorriu-se com a velhacaria que lhe era habitual, agradecendo á
+Providencia que os seus pensamentos se houvessem encontrado com os do
+excellentissimo commendador.
+
+Historiando o atropellamento e matizando a historia dos mais lisongeiros
+epithetos para Tristão, o visconde de Coruche contou ao commendador o
+que se havia passado com o operario.
+
+--Se vossa excellencia não deu a morte a esse desgraçado, estou
+certissimo que fará a sua felicidade, disse o commendador, piscando ao
+mesmo tempo o olho para o visconde.
+
+--Ha males que vem por bens, acudiu este fazendo uma careta para Lopes
+de Miranda.
+
+--Mysterios de Deus, respondeu Tristão em voz alta. Fortes nescios,
+ajuntou elle de si para comsigo. Mal sabem que lhes percebo os signaes.
+
+Momentos depois, entravam todos quatro no hotel de Bragança e
+dirigiam-se ao quarto do ferido.
+
+O operario encontrava-se no mesmo estado de anemia. Pessoa alguma havia
+podido arrancar-lhe uma só palavra.
+
+A sr.ª D. Maria Egypciaca, segundo o havia ordenado o seu philanthropico
+esposo, não tinha abandonado o leito do enfermo. Magdalena e Olympia, de
+vez em quando approximavam se do quarto.
+
+Depois de cumprimentarem a esposa de Tristão, os tres amigos chegaram-se
+ao enfermo.
+
+--Faz pena! disse o commendador, Deus sabe ajuntou elle, se este pobre
+homem terá alguma pessoa a quem esteja dando sérios cuidados. É uma
+lastima que se lhe não possa saber o nome. Se descobrissemos quem é a
+familia, mandar lhe-iamos dizer que estava sob a protecção de vossa
+excellencia. N'estas epochas de epidemia, a mais pequena demora faz com
+que todos estejam em cuidados.
+
+--Vejamos se é possivel fazel o falar, disse Vaz Mendes, debruçando se
+sobre o leito do operario.
+
+O enfermo continuava no mesmo lethargo.
+
+Eram perto de seis horas. Como não houvesse meios de lhe arrancar uma
+palavra, D. Maria Egypciaca lembrou que seria mais prudente irem jantar
+emquanto durasse aquelle estado morbido, e deixando o doente entregue a
+um creado, convidou as visitas a dirigirem-se á casa de jantar.
+
+Ao chegarem alli, já Olympia, a filha mais nova de Tristão de Almeida,
+aguardava que seus paes tivessem dado treguas á caridade para
+desfructarem o unico gozo da vida, o comer. Minutos depois, appareceu
+Magdalena, a irmã mais velha.
+
+O jantar correu animadissimo! Formosas eram ambas as filhas de Tristão
+de Almeida; juntando-se á formosura e juventude um dote de duzentos
+contos de reis, que lhes poderia faltar?
+
+Ventilado pela vigessima vez o caso do atropellamento, bem como o valor
+do visconde de Coruche, que fizera convencer Tristão de Almeida do risco
+que havia corrido a sua existencia em se ter approximado, do cavallo da
+sella, discutiu-se a fundação do hospital.
+
+D. Maria Egypciaca, que de antemão havia sido prevenida por seu esposo,
+falou eloquentemente sobre este assumpto, deixando assombrados os
+hospedes tanto pela sua verbosidade como pelas idéas philantropicas que
+defendia.
+
+Olympia contentava se de atacar com vigor extraordinario cada prato de
+cosinha que o servente lhe apresentava pelo lado do coração, viscera que
+apenas lhe estremecia consoante o apimentado dos molhos onde o guizado
+se mergulhava!
+
+Fitando o olhar na comida, Olympia manejava o talher com mais
+desembaraço do que qualquer malabar de feira, pegando depois n'um oitavo
+de pão de meio arratel para limpar o prato com o artistico intuito de
+admirar o bom gosto do estampador.
+
+Olympia tinha duas paixões: a cosinha e a ceramica. Se lhe dissessem
+que morrendo de uma indigestão de ninhos de andorinhas seria depositada
+n'um sarcophago de Sévres, a filha de Tristão de Almeida apanharia a
+indigestão de bom grado.
+
+Debalde o visconde de Coruche se desfazia em melifluas olhaduras, tudo
+era inutil; o estomago de Olympia concedía-lhe apenas que as suas vistas
+se dirigissem ora para o prato que limpava, ora para a porta por onde
+entrava o criado com o seguimento do _menu_.
+
+E, apezar de tudo, essa creatura que tão desenvoltamente usava e abusava
+dos orgãos da mastigação, perguntando ao criado durante o jantar o que
+tencionava guardar-lhe para a ceia, tinha o poetico nome de Olympia,
+como o leitor não ignora, e era formosa, formosa a fazer enraivar de
+inveja todas as do seu sexo, menos a amavel leitora que sobre estas
+paginas se debruça.
+
+Olympia era uma pomba. Dizia sua mãe que até aos dezoito annos, o unico
+desgosto que lhe havia dado fôra ter atirado com uma travessa ao rosto
+pallido de Magdalena, por esta lhe ter comido duas queijadas de
+Reinholas, resto de tres duzias que seu pae lhe havia trazido de Cintra.
+
+Magdalena era a sua antithese. Afôra aquelles dois pasteis, poder-se-ia
+julgar impolluta no que dizia respeito ao quinto peccado.
+
+De uma formosura menos provocadora do que sua irmã, Magdalena sabia
+insinuar-se no coração de todos os que tinham a felicidade de lhe
+merecer sympathia.
+
+Tinha na tristeza vaga e scismadora do seu olhar uns longes de
+melancolia que prendiam quem a contemplasse.
+
+Sobretudo, o que mais espantava em Magdalena era a harmonia da voz.
+Assombrava! Os anjos deviam aprendel-a, para espalharem nos seus
+canticos a musica da palavra.
+
+Falava pouco, porém a phrase era sempre correcta. Reservada mais por
+calculo do que por organização, a irmã de Olympia atravessava a
+sociedade com a consciencia segura e mathematica dos mil escolhos de que
+ella se compõe!
+
+Ferira-a a aza negra da tormenta? A ave da desgraça esvoaçára-lhe sobre
+os seus louros cabellos? Desfizera-se-lhe algum sonho luminoso? Sentira
+o seu coração immenso, golpeado pelo punhal do desengano?
+
+Todos o ignoravam, ou para melhor dizer, pessoa alguma se havia demorado
+a estudar aquella peregrina organização.
+
+Magdalena nunca havia amado, porém o seu coração tinha necessidade de
+amar como os pulmões do ar que respiram.
+
+Creando um dia na sua phantasiosa imaginação o typo que ambicionara,
+quiz-lhe dar vida, formas e animação. Quando mais tarde se lhe sumiu o
+vago, o impalpavel, o ideal que concebêra e que tombára na tristissima
+realidade, esmoreceu e curvou-se resignada para chorar a sós as suas
+lagrimas.
+
+Prophetisa da amargura, como veremos na continuação d'esta singela
+historia, Magdalena parecia adivinhar as supremas angustias que mais
+tarde lhe haviam de escruciar a pobre alma!
+
+Debalde, repetimos, se esforçava o visconde para merecer um olhar de
+Olympia.
+
+Era invulneravel!
+
+--Se o homem já terá dado accordo de si, disse o visconde para não estar
+calado.
+
+--Deus sabe! murmurou o amphitrião defendendo uma perna de perdiz da
+insaciavel voracidade da filha!
+
+--Daria tudo para que esse infeliz tornasse á vida, disse D. Maria
+Egypciaca dirigindo-se ao commendador. Como estará a sua pobre familia!
+ajuntou ella despejando um copo de vinho do Rheno.
+
+--Feliz d'elle, tartamudeou o visconde, se podesse abrir os olhos no
+momento em que vossa excellencia estivesse á cabeceira do seu leito.
+Pela minha parte, abençoaria fosse que circumstancia fosse que me
+trouxesse tal ventura, ajuntou elle, dirigindo-se a Olympia.
+
+--Passa me aquelle prato de carne de porco assada, disse Olympia tocando
+no hombro de sua irmã e sem se atrever a olhar para o visconde.
+
+--Não ouves o que te diz aquelle cavalheiro? perguntou D. Maria
+Egypciaca, voltando-se com modo agastado para sua filha.
+
+--Não repare, meu caro amigo, acudiu Tristão, Olympia é muito
+envergonhada, e demais está pouco acostumada á sociedade. Não ouves o
+que te diz o sr. visconde? acrescentou elle dirigindo-se á gastronoma.
+
+--Ouço, sim senhor, mas não sei o que hei de responder.
+
+Magdalena estremeceu de pejo ao ouvir a resposta de Olympia.
+
+N'este comenos, o criado que ficara junto do ferido entrou na casa de
+jantar para participar que elle havia tornado a si, dizendo poucos
+instantes depois o seu nome e a rua onde morava. Ajuntou em seguida o
+criado que um sujeito muito bem vestido pedira ao guarda portão para vir
+reconhecer o doente.
+
+--E esse individuo... ainda lá está? perguntou Tristão.
+
+--Não senhor. Saiu logo que lhe soube o nome. Disse que ia dar parte á
+familia que estava com muito cuidado julgando que tinha sido atacado
+pela febre.
+
+--E quem é o doente e como se chama? perguntou vivamente o visconde.
+
+--Chama-se Jeronymo e é mestre de obras.
+
+--E onde mora? interrompeu Vaz Mendes.
+
+--Na rua do Meio á Lapa, respondeu o criado.
+
+--Quanto estimo! quanto estimo! exclamou D. Maria Egypciaca.
+Provavelmente foram chamar-lhe a familia. Que venha, que venha. Pobre
+gente! Talvez ainda abençõem a fatalidade que lhes aconteceu! Pódes
+retirar-te, Manuel, ajuntou ella, dirigindo-se ao criado.
+
+--Agora, disse Vaz Mendes, já temos por onde começar a nossa obra de
+caridade. Principiaremos por esse pobre Jeronymo.
+
+--Apoiado! bradou o commendador despejando o decimo copo de vinho do
+Porto, e olhando de soslaio para Olympia, cujos olhos pardos se fitavam
+ardentemente n'uma torta de maçã.
+
+--Se m'o permittem, vou ver o meu protegido disse Tristão, levantando se
+ao mesmo tempo da cadeira.
+
+--E se tambem m'o permittem?... accrescentou o visconde, imitando o
+movimento do seu amigo.
+
+--Mas com o maior prazer, respondeu D. Maria Egypciaca. E não tardará
+muito que lá vamos, eu e minhas filhas.
+
+--Querem vel o? perguntou o visconde voltando-se para o banqueiro e para
+o commendador.
+
+--Da melhor vontade, responderam os dois a um tempo.
+
+Levantando se rapidamente seguiram o seu amphitrião.
+
+ * * * * *
+
+--Ora ahi tem a mamã porque eu não gosto de comer á mesa quando temos
+visitas. Levanto-me sempre com fome. Só eu á minha parte seria capaz de
+comer toda aquella carne assada, disse Olympia entristecidamente
+voltando se para sua mãe.
+
+--Pois é possivel que ainda tivesses mais vontade? perguntou Magdalena.
+
+--Abençoado estomago! disse D. Maria Egypciaca levantando-se da mesa.
+
+
+
+
+VIII
+
+
+Deixemos por algum tempo os preclaros bemfeitores do pobre Jeronymo; a
+inconsolavel esposa rezando á Virgem Santissima; D. Maria Egypciaca
+abençoando o fructo dos seus burocraticos amores, e volvamos a uma
+epocha vinte annos anterior a estes successos, quando, perdida a razão,
+a infeliz D. Marianna de Mendonça deu entrada no hospital de S. José.
+
+Como o leitor deve estar lembrado, a viuva não tinha um unico parente
+sobre a terra. As pessoas que frequentavam a sua casa havia muito que se
+tinham afastado, em virtude das intrigas urdidas pela sua amiga intima,
+que annos antes a aconselhára a depositar os capitaes nas mãos do
+commendador.
+
+Até o advogado que fôra acompanhal-a ao escriptorio no dia da fuga de
+Felix Justino de Araujo, até esse a havia abandonado, para com o seu
+conselho salvar as victimas do fugitivo.
+
+Maria Gertrudes, uma das creadas que lhe era mais affeiçoada, ao vel-a
+entrar n'aquella situação, dirigiu-se immediatamente a casa da amiga da
+sua ama participando-lhe o estado em que D. Marianna se encontrava,
+perguntando-lhe o que queriam dizer aquellas palavras que proferira o
+commendador--que lhe tinham roubado todos os seus bens.
+
+--Que a sua ama sempre propendeu para a loucura, ha muito que o
+suspeitava, mas que tivesse chegado a esse ponto, é que não podia crer.
+Vejo-lhe apenas um remedio: metterem-n'a no hospital dos doidos, e,
+quanto a isso, quem está nas melhores condições é o regedor. E sem mais
+tir'te nem guar'te, voltou as costas á fiel criada, mostrando-lhe que o
+sitio por onde tinha de sair era o mesmo por onde minutos antes havia
+entrado.
+
+Esperançada no restabelecimento de D. Maria, a pobre mulher voltou para
+casa.
+
+--Já não ha meios de a soffrer, disse-lhe uma sua companheira. Tem
+quebrado tudo quanto encontra á mão, e se assim continúa, não temos
+ámanhã um copo por onde beber. Pela minha parte, entendo que visto a
+senhora não ter amigos nem parentes, o melhor era dirigirmo-nos ao sr.
+regedor.
+
+--O mesmo disse a sr.ª D. Maria Clara. Porém, entregar a nossa ama á
+justiça, nós que lhe queremos tanto! Não seria mais razoavel supportal-a
+ainda alguns dias, como antes de hontem nos disse o medico? respondeu
+Maria Gertrudes.
+
+--Pois supporte-a vossemecê, que eu pela minha parte já estou farta. E
+demais, nós as criadas não temos obrigação de aturar doidas. Se a tal me
+quizesse sujeitar, ia para o hospital de S. José, onde tinha melhor
+ordenado do que n'esta casa. Vossemecê, que é mais antiga do que eu, se
+gosta, sopeteie, que quanto a mim, não tenho mais nada se não arranjar o
+bahu, pôr o capote e o lenço, e pés para que te quero.
+
+É que não sei; não sei o que hei de fazer á minha vida. Valha-me Deus,
+para que estava guardada.
+
+--Estivesse eu no seu caso; eu lh'o diria.
+
+--Então o que havia de fazer?
+
+--Chamar o regedor e ferrar com ella no hospital.
+
+--E esta casa? Quem ha de ficar n'esta casa?
+
+--Ora essa sr.ª Maria Gertrudes! Ficavamos nós emquanto o filho não
+viesse.
+
+--E sabemos por ventura aonde está o filho?
+
+--Onde está! Está no estrangeiro. Bem se vê que a sr.ª Maria Gertrudes
+não é mulher d'este tempo. Boa está. Olha que grande difficuldade! Pensa
+talvez que não sei como essas coisas se fazem. Para que servem os
+correios? Não tem mais nada senão pôr: ao sr. Manuel de tal, e em baixo:
+pelo correio do Estrangeiro, em letras muito grandes.
+
+--Isso lá é verdade; e quanto tempo pode levar isso tudo?
+
+--O tempo que leva uma carta ao estrangeiro. Olhe, sr.ª Maria Gertrudes,
+se vossemecê quer, não diga nada ao criado, que eu _mesmo_ me encarrego
+de a escrever. Por agora o que devemos fazer é ir a casa do sr. regedor.
+Já com este são cinco dias que estamos aturando aquella doida, e bem vê
+que isto não póde durar por muito tempo.
+
+--Lá n'isso tem muita razão.
+
+--Ora ainda bem; então mãos á obra.
+
+ * * * * *
+
+Maria Gertrudes resolveu-se a ir falar ao regedor.
+
+N'essa mesma tarde, a infeliz senhora, que cinco dias antes se
+considerava rica e cheia de ventura, entrava na enfermaria das alienadas
+como uma simples pedinte sem protecção e sem abrigo. Quando dois mezes
+depois, informado pelos visinhos, soube o regedor o que se estava
+passando em casa de D. Marianna de Mendonça e como os seus creados de
+dia para dia iam roubando os haveres, entendeu-se com o juiz eleito, e
+entrando em casa, viram com effeito que não eram mal fundadas as
+suspeitas da visinhança.
+
+A carta remettida para o estrangeiro ainda não tinha chegado ás mãos de
+Manuel de Mendonça, e a desgraçada continuava no hospital sem que nenhum
+dos creados fosse indagar o seu estado.
+
+No dia seguinte, o juiz mandou tomar posse de tudo quanto existia, e
+depois de competentemente inventariado, collocou no meio da rua aquelles
+dedicados servos que tão tranquillamente habitavam a casa de sua ama sem
+ao menos saberem se ainda existia ou não.
+
+Pelo espaço de sete annos, esteve D. Marianna nas enfermarias de S.
+José. Finalmente, recobrou a razão e deram-lhe alta.
+
+Antes da saida pediu para falar com o director. Depois de lhe confiar
+todos os pormenores da sua vida, perguntou-lhe se durante a sua
+enfermidade alguem tinha vindo informar-se da sua saude.
+
+Sympathizando com as maneiras da viuva e condoido pela sua desgraça, o
+director levou-a para casa da sua familia.
+
+Finalmente, graças ás relações do seu protector, D. Marianna tomou posse
+do que lhe restava. Entre louça, moveis e roupas brancas apurou dois
+contos e duzentos mil réis.
+
+Alugou uma casa proxima á dos seus protectores, entregou-lhes o resto
+para lh'o empregarem no que melhor lhes parecesse, até que o destino,
+cançado de a torturar, lhe proporcionasse a maior de todas as
+felicidades: devolver-lhe o filho querido da sua alma!
+
+Debalde se passaram annos e annos, e o destino sem se compadecer da sua
+desventura.
+
+Os dezeseis vintens que pouco mais ou menos lhe rendiam as inscripções,
+juntos aos ganhos que os seus bordados lhe produziam, eram mais do que
+sufficiente para o seu alimento. Infeliz de todo não se considerava D.
+Marianna, e ingrata seria para com Deus se da sua sorte se queixasse.
+Era já muito o amparo que lhe concedia a Providencia representada nas
+pessoas do director e de sua mulher; porém a desgraça que parecia ter-se
+aninhado no seu coração, não podia permittir-lhe que descesse á
+sepultura sem que primeiro a bafejasse uma vez ainda com o seu halito
+envenenador. Levou-lhe em menos d'um anno as duas unicas pessoas que
+tinha sobre a terra: o director e sua esposa!
+
+Aterrada com esse golpe, julgou de novo enlouquecer!
+
+Querendo mudar-se do bairro, que lhe recordava os seus protectores, á
+sombra de cuja amizade tanto tempo se abrigára, lembrou-se de ir viver
+para a Lapa.
+
+Uma tarde saiu, e dirigindo-se para aquelles sitios encontrou na rua do
+Meio a casa que lhe convinha. Dois dias depois, alugou e mudou para alli
+a sua pequena mobilia. Foi onde oito annos depois a encontramos atacada
+pela febre amarella.
+
+A pobre senhora, na doce esperança de ainda tornar a vêr seu filho,
+economizava, quanto cabia em suas forças, os poucos haveres que lhe
+restavam.
+
+«Este dinheiro, dizia ella ás vezes comsigo olhando para as inscripções,
+não me pertence, é de meu filho; cumpre-me fazer tudo quanto possivel me
+fôr para lh'o augmentar.»
+
+Explicado está portanto o seu modo de viver.
+
+
+
+
+IX
+
+
+A physionomia doce e melancholica de Martha impressionára de mais o
+desconhecido para que a sua promessa deixasse de ser cumprida.
+
+Quando ao apear-se no Largo das Duas Egrejas se demorou alguns segundos
+para pagar ao bolieiro, olhou instinctivamente para um grupo composto de
+quatro individuos que estavam discutindo.
+
+--Se fosse algum de nós que tivesse atropellado o homem, provavelmente
+estava preso, dizia um d'elles.
+
+--Mas como foi o sr. Tristão d'Almeida... acudiu outro.
+
+--E o visconde de Coruche, accrescentou terceiro.
+
+--Mas elle morreu ou não morreu?
+
+--Dizem que está melhor.
+
+--Veremos como se porta o brazileiro.
+
+--Até agora, não ha razão de queixa, segundo me disseram. Lá ficou n'um
+bello quarto do hotel, tendo por enfermeiras a mulher do magnata, e as
+duas filhas.
+
+--Tenho pena de não ter sido eu o atropellado, só para ter taes
+enfermeiras.
+
+--Vocês vão d'aqui para o Marrare de Polimento, ou ficam ainda a
+descobrir a mysteriosa individualidade do menino de ouro, como se diz na
+minha terra?
+
+--Vamos para o Marrare, responderam os outros tres, dirigindo-se pela
+rua do Chiado.
+
+Reflectindo em que o atropellado podia muito bem ser o pae de Martha, o
+mysterioso protector da infeliz criança seguiu os quatro individuos até
+á sua entrada no Marrare de Polimento.
+
+Entrou tambem.
+
+O que primeiro falára do acontecimento ficou á porta assobiando
+alegremente; os outros dirigiram-se para os bilhares.
+
+--Deve estranhar uma pergunta que lhe vou fazer, disse o desconhecido
+interrompendo o assobio do _dilettante_. Ha tres horas que procuro um
+individuo que desappareceu de sua casa. Quando me apeei de um trem no
+Largo das Duas Egrejas, percebi que falavam ácerca de uma pessoa que
+tinha sido atropellada, e confesso-lhe que commetti a indiscrição de os
+escutar. Póde ser que seja esse o mesmo individuo que procuro.
+
+--Talvez, respondeu amavelmente a pessoa a quem estas palavras foram
+dirigidas. O que sinto é não lhe poder dizer o seu nome. Sei apenas que
+está no Hotel de Bragança.
+
+Retribuindo n'um aperto de mão a amabilidade com que fôra recebido, o
+protector de Martha correu immediatamente para o sitio que lhe haviam
+indicado.
+
+Ao chegar perguntou ao guarda portão se ainda alli estava um sugeito que
+de manhã fôra pizado por um brazileiro.
+
+--E não só por um brazileiro como tambem por um visconde, respondeu o
+guarda portão, como se n'estas palavras quizesse tornar mais illustre o
+atropellamento, ou diminuir a culpabilidade dos animaes dividindo-a por
+todos quatro.
+
+--É possivel falar lhe?
+
+--É possivel vel-o; emquanto a falar-lhe isso fia mais fino, respondeu o
+guarda portão. Ainda não tornou a si.
+
+--Pois obsequiava-me muito se me podesse conduzir ao seu quarto.
+
+Minutos depois entrava no quarto do ferido.
+
+Jeronymo ainda se encontrava no mesmo estado lethargico. A dôr das
+feridas havia-lhe diminuído progressivamente, comtudo a perda de sangue
+tinha sido abundante, e ao pobre operario nem forças restavam para pedir
+que chamassem a sua familia, de quem n'esse instante tão amargamente se
+recordava. A imagem de Balbina e de sua filha passava-lhe por entre as
+visões da febre, como se as visse alli, pregadas á sua cabeceira.
+
+Sentia na fronte a mão fina e delicada de Martha, e pousando lhe sobre o
+coração, que fortemente lhe palpitava, a face de sua mulher incendida
+pelo terror.
+
+Jeronymo via tudo isto como atravez de um sonho.
+
+Junto ao leito o desconhecido olhava-o caridosamente, levando-lhe de vez
+em quando a mão á fronte.
+
+Momentos depois os olhos do operario, até alli brandamente cerrados,
+abriram-se como que para contemplar o desconhecido, que fitando-o
+parecia descobrir-lhe nas feições alguma similhança com as da pobre
+Martha. N'este comenos o enfermo fez um movimento como se tentasse
+falar.
+
+Manuel, o creado que lhe servia de enfermeiro, approximando-se
+suavemente, perguntou-lhe se desejava alguma cousa.
+
+--Falar... mas... não posso, murmurou o infeliz Jeronymo, deixando cair
+sobre o colchão o braço direito que tentára levantar.
+
+O desconhecido approximou-se ainda mais.
+
+--E ainda não houve meio de se saber quem é este homem?
+
+--Ouviu aquellas palavras que elle disse? Foram as primeiras! respondeu
+o creado.
+
+--Como se chama vossemecê, perguntou o desconhecido debruçando-se sobre
+o leito.
+
+--Jeronymo, balbuciou o pobre; e a minha familia mora na rua do Meio, á
+Lapa.
+
+--Basta! bradou rapidamente o desconhecido, e saindo do quarto sem que o
+criado tivesse tido tempo de lhe perguntar aonde se dirigia,
+encaminhou-se para o Loreto, afim de procurar uma sege.
+
+Martha havía-lhe dado o nome da rua e o numero da porta. Dizendo ambas
+as cousas ao bolieiro, ordenou-lhe que trouxesse Martha e sua mãe ao
+Hotel de Bragança o mais depressa que lhe fosse possivel.
+
+Foi n'este momento que Manuel desceu á casa do jantar para dizer a
+Tristão de Almeida que o ferido estava no uso das suas faculdades.
+
+Deixemos o mysterioso descobridor do pae de Martha esperando á porta do
+hotel a mulher e a filha de Jeronymo, e vejamos o que se está passando
+no quarto do ferido.
+
+
+
+
+X
+
+
+--Ora graças a Deus que está livre de perigo, exclamou Tristão de
+Almeida approximando-se do leito de Jeronymo. Não calcula o quanto me
+tem feito soffrer a sua prostração. Quero que nos perdôe todo o mal que
+involuntariamente lhe causamos, eu e o meu amigo visconde.
+
+--Mas agora, felizmente, sente-se melhor! perguntou o visconde
+approximando-se de Tristão.
+
+--Nem mesmo sei como me sinto, meus caros senhores, respondeu Jeronymo,
+como se ainda estivesse sendo victima de uma allucinação. De quanto se
+passou, continuou elle, com uma voz muito enfraquecida, lembro-me apenas
+que fui atropellado por um trem, e de nada mais me recordo. Sei que
+tenho tido umas dôres horríveis tanto na cabeça como em todo este lado
+direito, e nada mais posso responder a vossa senhoria. O que apenas me
+mortifica é lembrar-me os cuidados em que deve estar minha pobre mulher
+e filha, o resto será o que Deus quizer. Tratamento, graças aos
+senhores, vejo que me não tem faltado. O que eu tambem agora desejava
+pedir-lhe eram dois favores; o primeiro, que me dissessem onde estou, e
+o segundo, que mandassem immediatamente a minha casa participar a Martha
+e a minha mulher que estou aqui, vivo e bem tractado. As infelizes a
+esta hora cuidam que fui atacado pela febre amarella, e andam á minha
+procura por toda a parte.
+
+--Emquanto ao sitio aonde se encontra, respondeu Tristão, bastará
+dizer-lhe que está entre amigos, e que nada lhe faltará; emquanto a
+mandar chamar sua familia, queira dizer-me aonde mora.
+
+--Moramos na rua do Meio n.º 7, Lapa, respondeu Jeronymo, fazendo ao
+mesmo tempo uma dolorosa contracção.
+
+--Que é isso, meu amigo? acudiu rapidamente o commendador dirigindo-se
+ao mestre de obras.
+
+--É uma dôr muito grande que me toma a cabeça toda, respondeu elle,
+levando á fronte ambas as mãos.
+
+--Veja se póde socegar um momento, e tranquillize se porque vamos
+immediatamente chamar a sua familia.
+
+--Para que venham mais depressa vou mandar o meu trem, disse o visconde
+dirigindo-se para a porta.
+
+--Bom será, visconde, ajuntou o commendador, quanto mais depressa
+descançarmos aquella pobre gente tanto melhor para todos.
+
+--Se vossas senhorias fossem tão bons que tal fizessem, seria uma grande
+obra de caridade, disse Jeronymo, tentando sentar-se sobre o leito.
+
+--Não faça similhante loucura. Conserve-se como está, e tenha a certeza
+que d'aqui a meia hora terá a seu lado as pessoas que tanto deseja.
+
+N'este momento entrou a sr.ª D. Maria Egypciaca, acompanhada por suas
+duas filhas.
+
+--Já sabemos, graças a Deus, quem é o nosso doente, e onde mora, disse
+a D. Maria Egypciaca o visconde, que n'esse momento saía do quarto, com
+o fim de dar ordem ao cocheiro para trazer a familia do ferido.
+
+--Quanto estimo, meu Deus! respondeu D. Maria, erguendo para o tecto os
+seus grandes olhos azues.
+
+--Em que sustos estará a sua pobre familia! disse Magdalena olhando para
+Olympia.
+
+--Talvez que nem hoje tivessem que jantar.
+
+--Enfim! disse D. Maria Egypciaca depois de ter contemplado o ferido por
+alguns instantes, Deus tudo quanto faz é para melhor. É certo que teve
+esta pequena contrariedade, mas graças ao Senhor, está livre de perigo,
+e vae fazer a felicidade de sua familia. Não é verdade, Tristão? ajuntou
+ella dirigindo-se ao esposo.
+
+--Quantos desejariam ter egual sorte! disse o commendador
+intromettendo-se na conversação.
+
+--Magnifico achado para dirigir as obras do nosso hospital, disse o
+banqueiro voltando se para Lopes de Miranda.
+
+--Do hospital?! perguntou admirado o commendador.
+
+--Não ouviste dizer ha pouco que era mestre de obras?
+
+--Lembra bem, lembra bem, meu amigo, disse Tristão sentando se n'um
+pequeno sophá.
+
+N'este momento, ouviu se o rumor de muitos passos subindo apressadamente
+a escada que dava para o segundo andar. Segundos depois abriu se a porta
+e appareceram duas mulheres. Eram Balbina e Martha. O desconhecido
+seguia-as de perto.
+
+No momento em que Balbina e sua filha se precipitavam sobre o leito de
+Jeronymo, este fez um supremo esforço para se erguer, porém as dôres que
+lhe atacavam a cabeça e todo o lado direito tornaram a prostral-o
+completamente.
+
+Todos se compadeceram ao contemplar aquella scena de amargura, até a
+propria Olympia arrancou dos fundos penetraes do estomago, unica viscera
+onde a sensibilidade se lhe refugiára, um par de lagrimas que vinham em
+turvos crystaes, rescendendo mais a fricassé do que a natural piedade.
+
+O desconhecido, com os olhos fitos n'aquelle grupo, parecia contemplar a
+physionomia de Tristão, como se uma vaga reminiscencia lhe houvesse
+acudido á memoria.
+
+O mesmo se passava no espirito do magnata; aquelle individuo não lhe era
+estranho.
+
+Seguido da esposa, approximou-se do leito de Jeronymo e contou a sua
+familia tudo quanto tinha acontecido.
+
+O mesmo fez Balbina e sua filha.
+
+--É portanto a este cavalheiro que devemos tudo? disse Tristão. Quanto
+folgo que tenha concorrido para a felicidade d'esta familia, ajuntou
+elle extendendo a mão ao desconhecido.
+
+Este, retribuindo-lhe o aperto de mão, cumprimentou rapidamente a todas
+as pessoas e saiu d'aquelle gabinete.
+
+--Quem será este moço? perguntou Tristão voltando-se para o banqueiro.
+
+--Deus sabe; respondeu Vaz Mendes. Acho-o pouco delicado.
+
+--Quer tornar-se mysterioso, acudiu Lopes de Miranda.
+
+--Provavelmente é algum rapaz acanhado que não sabe estar entre gente
+fina, disse D. Maria Egypciaca.
+
+--Não sou d'essa opinião; pelo contrario, pareceu-me um moço de um
+trato finissimo, mas excessivamente modesto para se conservar n'este
+quarto. Receiava que o cobrissem de elogios. Não achas Magdalena?
+ajuntou Tristão dirigindo-se a sua filha.
+
+--N'isso mesmo pensava eu, meu pae, respondeu Magdalena. Quando o sr.
+Vaz Mendes o alcunhou de indelicado, de mysterioso o sr. Lopes de
+Miranda, e de pouco sociavel minha mãe, não concordei com opinião
+nenhuma d'essas. Julgo o como meu pae: modesto de mais para escutar os
+elogios de que é merecedor.
+
+--Que innocencia! gargalhou Vaz Mendes. Quem se esquiva a ser elogiado?
+
+--Muita gente, sr. Vaz Mendes, ainda que não seja senão por egoismo. O
+elogio frivolo e banal, inscripto no codigo da civilidade, é uma ironia
+pungente para o que tem a consciencia do seu merito. Ha o louvor que
+anima e a adulação que fere. O incenso nem sempre é agradavel; está
+muitas vezes pendente da mão que balança o thuribulo, e comtudo sempre é
+incenso.
+
+--Quer vossa excellencia dizer que os nossos encomios o poderiam
+offender? perguntou o visconde.
+
+--Nem por sombras, sr. visconde! Não era essa a minha intenção,
+respondeu Magdalena approximando se de sua irmã.
+
+--Não seria melhor deixarmos em paz esta pobre gente? disse Olympia em
+voz baixa para sua mãe. E demais, acrescentou ella, já se vão
+approximando as horas do chá, e se quer que lhe diga a verdade, estou
+sentindo uma fraqueza...
+
+--Bemdito Deus, respondeu D. Maria Egypciaca, sempre, sempre pensando em
+comer.
+
+--Em que quer a minha mãe que eu pense? tartamudeou Olympia, fazendo-se
+vermelha como a fita que lhe cingia o collo.
+
+No entretanto, o visconde, Vaz Mendes e Lopes de Miranda conversavam em
+voz baixa n'um dos angulos do quarto.
+
+--O que lhes peço, disse Tristão approximando-se de Balbina e de sua
+filha, é que estejam aqui tanto á sua vontade como em casa propria.
+Fiquem certas que coisa alguma lhes faltará. Se necessario fôr que seu
+homem aqui se demore, o que espero em Deus tal não permitta, não
+consinto que d'aqui se afastem. E emquanto a vossemecê, ajuntou Tristão
+dirigindo-se a Jeronymo, não se persuada que fica sem trabalho; apenas
+estiver melhor, ha de fazer-me o plano de uma obra que vamos
+immediatamente principiar e de que o meu amigo fica encarregado.
+
+Nos olhos do pobre Jeronymo deslizaram duas lagrimas de gratidão.
+
+Absortas na contemplação de Jeronymo, Balbina e sua filha ouviam as
+palavras de Tristão como se não as comprehendessem.
+
+--Agora que terminaram os cuidados, e que seu marido está livre de
+perigo, disse o visconde approximando-se do leito do operario, agradeçam
+á Providencia o ter lhes deparado a mão que os veiu arrancar da pobreza,
+ajuntou elle, voltando-se para Balbina que o contemplava como que
+assombrada.
+
+--Minha santinha, ás vezes, d'onde a gente menos o espera, é d'ahi que
+provém ou grande mal ou uma grande ventura, disse Lopes de Miranda
+approximando-se do visconde.
+
+--Será a ultima, acudiu rapidamente D. Maria Egypciaca, collocando
+protectoramente sobre os hombros de Balbina a sua mão direita, cujos
+dedos cravejados de brilhantes feriram os olhos verdes e entristecidos
+da pobre Martha.
+
+--Vamos dar ordem para que tragam alguma coisa de comer a esta gente,
+disse Olympia, puxando pela saia de sua mãe.
+
+--Safa, inimigo! Que esta rapariga não pensa n'outra coisa senão em
+comer, resmungava D. Maria Egypciaca á proporção que, seguida dos seus
+hospedes, saía do quarto de Jeronymo.
+
+ * * * * *
+
+--Que bem que alli cheira, dizia Olympia dirigindo-se para sua irmã e
+aspirando os aromas culinarios que rescendiam no corredor por onde
+atravessavam. Provavelmente foi algum hospede que mandou vir o jantar ao
+seu quarto. Quem me dera fazer o mesmo!
+
+
+
+
+XI
+
+
+Cada vez mais impressionado pela ingenua formosura da filha do operario,
+debalde tentava o desconhecido afastar para longe da memoria aquella
+imagem que o perseguia.
+
+«Mas, pensava elle, e se tudo isto não passar de uma illusão, d'um
+capricho de phantasia?
+
+«Casar-me hoje, para d'aqui a mezes aborrecer a companheira da minha
+vida? Continua solteiro Manuel de Mendonça, e se um dia te impressionar
+como agora algum rosto de mulher, estuda o teu coração e a tua
+intelligencia, apalpa, mede e analysa esse sentimento que experimentas,
+e se o considerares estavel, firme e immorredouro, pede então a mão da
+mulher que o tiver despertado, e torna-a a companheira inseparavel da
+tua existencia.
+
+«Ai, do homem só!» diz Salomão, e eu digo: ai, do homem casado, que
+sente ao lado da esposa a solidão. E comtudo, é esta a primeira vez que
+sinto palpitar o coração! Será o amor esta intranquillidade de espirito
+que ha horas me atormenta? Esta saudade que me traz a ausencia da sua
+imagem e o desejo ardente de a tornar a ver será ainda o amor? Veremos.
+
+«Só ámanhã poderei saber o tempo que me demoro em Lisboa. Se fôr pouco,
+bem vamos; no mar largo substituirei a sua imagem pela doce contemplação
+das estrellas, quando por noites caladas ouvir apenas o vogar da minha
+galera, e de longe em longe o canto rude, mas harmonioso dos
+marinheiros. Nada, continuava Manuel de Mendonça, se essa é a minha casa
+e elles a minha familia, para que abandonal-a, trocando a por outros que
+me são desconhecidos e que, se eu morresse, nem talvez uma lagrima de
+saudade fossem chorar sobre a minha sepultura.
+
+«Mas se eu me demorar, se a imagem de Martha me continua a perseguir?
+Não póde ser! Não ha de ser, não quero que seja! Estou ainda muito novo
+para me prender. E demais, affeito a uma vida isolada, como poderia eu
+cumprir todos os deveres de um bom chefe de familia? Desde os dezeseis
+annos que me afastei da unica pessoa que tinha n'este mundo: minha mãe.
+Só, em terra estranha, sem um amigo que me protegesse, alonguei a vista
+para os horizontes da patria, e extendendo-lhe os braços, debalde lhe
+pedi noticias d'ella. Desanimado ao principio, vi por ultimo que não
+tinha outro remedio senão revestir-me de valor, e luctei, e soube
+vencer.
+
+«Quando, possuidor de algum dinheiro, tentei voltar á Europa afim de ver
+minha mãe, disseram-me na Bahia, poucos dias antes de embarcar, que a
+pobre estava reduzida á miseria. Vim para Lisboa, e ao chegar descobri a
+terrivel verdade, que tinha morrido no hospital dos alienados!
+
+«Aterrado, saí immediatamente de Portugal, buscando nos transportes de
+uma vida arriscada esquecer a dôr que me feria. Como eu sorri á tormenta
+que parecia zombar da minha agonia! Com que desejo ardente de seguir
+minha mãe eu me lancei em tudo quanto havia de perigoso, e Deus sempre a
+proteger-me, como se me estivesse guardando para algum fim sobre a
+terra. E que poderei eu esperar? Que felicidade posso conceber
+lembrando-me que, emquanto dispendia contos e contos de réis, jazia a
+minha infeliz mãe nas palhas d'um hospital?
+
+«Nada, continuava Manuel de Mendonça, passeiando pelo seu quarto do
+hotel da Europa. Permitta Deus, ajuntava elle, que ámanhã termine o
+negocio que espero e que possa levantar ferro quanto antes.»
+
+N'este momento, baterem mansamente á porta do quarto.
+
+--Entre, disse Manuel, volvendo os olhos para a porta.
+
+Um individuo alto e excessivamente delgado levantou o ferrolho, e entrou
+no gabinete.
+
+O homem chamava-se Luiz, por alcunha o _Mascatudo_.
+
+A camaradagem que Mascatudo tivera por largos annos com os irlandezes, a
+bordo dos seus navios mercantes, introduziu lhe por tal forma o vicio de
+mascar tabaco, que o pobre Luiz, quando o não tinha, era capaz de mascar
+tudo quanto lhe apparecesse.
+
+Contava-se d'elle a seguinte anecdota, que prova a quanto aquelle vicio
+o arrastava:
+
+N'uma viagem a Macau, acabára-se-lhe o tabaco. Receiando a tripulação
+que se prolongasse a derrota, defenderam todos das maxillas do tio Luiz
+a preciosa planta que começava a escassear-lhes.
+
+Certos e mais do que certos se tornaram os seus receios, a viagem durou
+mais onze dias do que esperavam. Não havia tabaco a bordo!
+
+Dizendo mal á sua vida, a tripulação debalde vasculhava os mais
+reconditos escaninhos das algibeiras! Ninguem fumava! Um marujo apenas
+seguia no seu eterno ruminar. Era o tio Luiz.
+
+--Forte velhaco! diziam uns.
+
+--E eu que ainda o outro dia fui tão tolo que lhe dei dois charutos
+havanos!
+
+--E eu, acudiu outro, perto de meia quarta de rollo. Daria agora por
+elle um mez da minha soldada.
+
+--Um raio me parta se aquelle marau me apanha mais um cigarro em toda a
+sua vida, dizia com voz rouquenha o timoneiro.
+
+--Arrebentado morra eu da sobre gata se aquelle arenque de fumo me leva
+mais uma cachimbada, acrescentava um velho marinheiro.
+
+E gritando e vociferando, iam todos contra o tio Luiz, e elle sempre
+sereno, tranquillo, ruminando e salivando ao mesmo tempo.
+
+Finalmente chegaram a Macau.
+
+Á tarde, o commandante chamou o tio Luiz e ordenou-lhe que se vestisse
+afim de o acompanhar a terra.
+
+O marujo empallideceu, mas não teve mais remedio do que cumprir as
+ordens do commandante.
+
+Meia hora depois ouviu-se á ré um grande motim, e viu-se entre os apupos
+e os risos da tripulação o tio Luiz gravemente compromettido, com uma
+bota de cano no pé direito e no esquerdo uma especie de sapato de mulher
+completamente franjado.
+
+O tabaco que os seus companheiros injustamente lhe attribuiam, era o
+cano da bota esquerda, que o tio Luiz mascára durante os onze dias de
+atrazo. O marujo preparava-se para entrar pelo pé esquerdo se por
+ventura não deitam ferro defronte da grande cidade.
+
+Os creditos foram-lhe de novo restituidos, e desde esse dia o tio Luiz
+foi conhecido a bordo pela alcunha de Mascatudo.
+
+O tio Luiz tinha quarenta e dois annos. O seu valor e honradez faziam
+com que todos o estimassem.
+
+Quando Manuel de Mendonça comprou em Buenos-Ayres uma galera, Mascatudo
+foi-lhe o mais recommendado entre os tripulantes que lhe inculcaram.
+Desde esse dia até ao momento que o vemos entrar no hotel, Manuel de
+Mendonça nunca teve um momento de se arrepender da profunda confiança
+que n'elle tinha depositado. De todos os seus amigos, como chamava aos
+seus tripulantes, Mascatudo era o mais intimo, sem que nenhum dos outros
+jámais levantasse a voz para deprimir as nobres qualidades do seu
+companheiro de perigos.
+
+Mascatudo havia perdido sua mãe, unico parente que lhe restava, e que
+elle adorava com todo o ardor do seu coração, coração grande e ingenuo,
+como de todo o homem que passa a vida separado do resto da humanidade,
+entre a colera dos elementos e a mercê do Creador!
+
+Seria esta circumstancia que fazia com que essas duas almas se casassem?
+Era o! Nos espiritos irmãos pelo infortunio, vasa Deus o balsamo da
+sympathia para que possam juntos enlaçar os soffrimentos que os pungem.
+
+Era bello vel-os, quando á noite, ao lado um do outro, contemplavam em
+religioso silencio a solidão das aguas, olhando de vez em quando para o
+céo, como se alli procurassem algum vestigio d'aquellas que lhes haviam
+dado o ser. Outras vezes, sosinhos na sua camara, Mascatudo contava a
+Manuel as suas viagens, acabando quasi sempre por lhe ler as cartas que
+sua mãe lhe escrevia, e que aquelle já ha muito sabia de cór.
+
+Era portanto este o amigo a quem Manuel abria inteira a sua alma, e em
+cujo coração depositava todos os segredos da sua vida aventurosa.
+
+--Venho participar-lhe que não poderemos sair d'aqui em menos de
+cincoenta dias, o que deveras sinto, porquanto é um tempo precioso o que
+estamos perdendo, disse Mascatudo, encostando-se desembaraçadamente a
+uma commoda que estava no quarto de Manuel. Se imagino que tal
+acontecia, juro por Santa Barbara que não era eu que o tinha aconselhado
+a vir a Portugal.
+
+-Pois sinto-o deveras, respondeu Manuel de Mendonça, sobretudo n'esta
+occasião; e fazendo sentar Mascatudo a seu lado, contou-lhe em poucas
+palavras a aventura da vespera, não sem lhe mostrar os graves receios
+que atormentavam a sua alma.
+
+--Nunca se arrependa de que a sua presença tenha feito a felicidade de
+alguem. Dizia minha mãe, que Deus haja, que tudo quanto o Senhor fazia
+era para melhor. Ora quem nos diz a nós que atraz d'essa borrascasita
+que lhe arrebentou no coração, não está perto a bonança?
+
+--Parece-te portanto... que devo dar azas a isto, que nem eu mesmo sei
+como hei de chamar?
+
+--Olhe, sr. Manuel de Mendonça, dizia minha mãe, que Deus tenha, que
+o homem só n'este mundo é alvo da perdição. E eu digo o mesmo.
+Antigamente não pensava assim, porém hoje, que me sinto cançado de
+trabalhar, parece-me que, apezar das muitas saudades que me ficariam do
+mar, viveria talvez mais feliz ao lado de minha mulher, tendo a barca
+sempre em ordem e o porão cheio de mantimentos para sustentar os
+filhitos, vendo-os alegres a todos, e trepando por este velho mastro,
+açoitado dos vendavaes. Ha lá nada melhor n'este mundo, como dizia minha
+mãe, que Deus haja, do que ter a gente umas sopas para comer ao pé de
+sua familia! Basta a gente lembrar-se que tem quando morrer quem lhe
+feche os olhos, e lá de vez em quando, quem se recorde da nossa alma,
+resando-lhe uma oração sobre a sepultura do corpo. Emfim, faça o sr. o
+que quizer, que eu cá por mim deixo correr a embarcação.
+
+O prazer que Manuel de Mendonça experimentava ao ouvir falar do objecto
+amado, era mais uma prova do seu amor.
+
+Foi então que elle reconheceu de verdade o seu estado.
+
+--Esperemos, disse elle finalmente de si para comsigo, e vestindo-se
+saíu com Mascatudo, dirigindo-se a bordo.
+
+[Ilustração:--Como se acha? perguntou Martha levantando se da
+cadeira... (_pag. 85_)]
+
+
+
+
+XII
+
+
+No dia immediato aos acontecimentos que presenceamos no hotel de
+Bragança, a saude de Jeronymo melhorou consideravelmente. O medico que
+pela manhã o fôra visitar declarou as feridas de pouca importancia,
+aconselhando, a despeito de tudo, que seria muito mais prudente não
+removerem d'alli o ferido, attendendo ao estado anormal em que Lisboa se
+encontrava.
+
+Tanto o mestre de obras como a sua familia não se cançavam de agradecer
+á Providencia a felicidade que tinham achado no meio da sua desventura.
+
+Não houve delicadeza que lhe não fosse dispensada por aquella santa
+familia. A tal ponto foi levada a dedicação de D. Maria Egypciaca, que
+por tres vezes se levantou da cama afim de se informar do doente.
+
+Foram taes as promessas feitas por Tristão ao pobre Jeronymo, que este
+quasi que dava graças a Deus de ter sido atropellado pelos cavallos do
+visconde.
+
+Phantasiando trezentos planos de vida, o operario julgou ver realizado
+o seu sonho de vinte annos: um pequeno casal nas proximidades de Lisboa,
+onde tivesse uma ou duas vaccas, e um garrano que de vez em quando o
+trouxesse á cidade.
+
+Via Balbina com a quarta rasa de milho dirigindo-se á estrebaria para
+arraçoar a cavalgadura, Martha seguindo-a a poucos passos, em busca da
+creação, e elle, no centro da horta, ao lado dos seus trabalhadores, ora
+regando o milho, ora arrancando-lhe as bandeiras, e enfeixando as para
+as levar á vacca malhada, a sua favorita, essa a quem devia pôr o nome
+de Estrella, por ser o nome de uma vacca torina que seu pae lhe dera no
+dia em que Jeronymo fazia quinze annos.
+
+Embevecido no seu phantasioso sonho, com as palpebras semi-fechadas,
+extendia de vez em quando a mão para sua filha, a qual, beijando lh'a
+n'um transporte de amor filial, fazia ao mesmo tempo votos ao Todo
+Poderoso para que lhe melhorasse quanto antes o seu querido pae.
+Balbina, assentada no canapé, olhava ora para Jeronymo, ora para sua
+filha. Esta, sorrindo meigamente, apontava para o leito de seu pae, como
+se tentasse mostrar-lhe o socego em que elle repousava.
+
+De repente o ferido abriu os olhos, e, como se despertasse de um sonho,
+apertou brandamente as mãos da filha, fitando-a com toda a ternura do
+amor paternal.
+
+--Como se acha? perguntou Martha levantando-se da cadeira e
+debruçando-se-lhe sobre o leito.
+
+Balbina approximou se.
+
+--Tenho menos dôres, balbuciou o enfermo, e espero em Deus que não
+tardará muito que eu te possa extender estes braços que a muito custo
+levanto. Mas não me dirão quem é esta santa familia que com tanto amor
+nos tem tractado? acrescentou elle, dirigindo-se a sua esposa.
+
+--Ignoro, respondeu Balbina.
+
+--Foi alguem mandado por Deus para nos valer com a sua protecção,
+continuou elle, como se ainda o acompanhasse aquelle sonho.
+
+--Pois olhe, meu pae, acudiu Martha, apezar de tudo, preferia estar em
+nossa casa a vêl-o aqui entre estas cortinas.
+
+--Se d'isto resultar a tua felicidade, e a tua, ajuntou elle voltando-se
+para Balbina, terei de agradecer a Deus estas dôres que me atormentam.
+
+--Pois eu, Jeronymo, ainda que tudo quanto Deus faz é para melhor,
+desejava bem vêr-te fóra d'este quarto, disse a pobre Balbina olhando ao
+mesmo tempo para a porta.
+
+Esta abriu-se e entrou Tristão de Almeida.
+
+Depois de as cumprimentar approximou se do leito de Jeronymo.
+
+--Como se sente? perguntou Tristão pegando brandamente na mão do
+operario.
+
+--Melhor; muito melhor.
+
+--Quanto folgo! disse Tristão, puchando uma cadeira e abeirando-se do
+leito. É forçoso que se restabeleça quanto antes para tomar conta da sua
+obra: um hospital para as pessoas pobres atacadas da febre.
+
+--Pelo que vejo, disse Martha, vossa excellencia não se occupa senão da
+sorte dos desgraçados.
+
+--É essa a minha unica ambição, respondeu o magnata fitando o rosto
+ingenuo da filha do operario. Ámanhã por estas horas já devemos saber o
+logar designado para o hospital, e, como desde hontem o considero meu
+empregado, accrescentou dirigindo-se a Jeronymo, não pense que vossemecê
+e sua familia se estão aqui tornando pezados. Se alguma cousa tem que
+fazer em sua casa, sr.ª Balbina, disse Tristão voltando se para a mulher
+do operario, eu lhe mando chamar um trem para que a demora não seja
+muita.
+
+--Não tenho outro remedio senão ir a casa, respondeu Balbina, mesmo por
+causa da tia Marianna, ajuntou ella voltando-se para Martha.
+
+--Visto isso, vou dar ordem a um criado para que lhe chame um trem, e
+sem attender a Balbina, que pretendia dissuadil-o da sua determinação, o
+protector da familia de Jeronymo desceu ao primeiro andar.
+
+--Ainda não vi melhor coração, murmurou Jeronymo voltando-se para sua
+filha.
+
+--Tudo é muito verdade, meu pae, mas torno a dizer-lhe, preferia que
+nada d'isto tivesse succedido.
+
+Meia hora depois, com grandes esforços de Tristão de Almeida, Balbina
+dirigia-se n'um trem de bandeirinha para sua casa.
+
+
+
+
+XIII
+
+
+Emquanto se estão passando estas veridicas scenas, entremos em casa do
+visconde de Coruche.
+
+--Vê como pões esse pó de arroz, imbecil! Olha que me estás arranhando
+as costas! dizia o visconde voltando-se para o seu _groom_.
+
+--Não é da minha mão, sr. visconde, é uma borbulha que v. ex.ª aqui tem.
+
+--Uma borbulha! exclamou o visconde, eu nunca tive a mais pequena
+excrescencia na pelle. Dá-me d'alli aquelle espelho.
+
+Sem proferir uma palavra, o _groom_ dirigiu-se ao toucador, e tirando de
+dentro um espelho em fórma de ellipse, entregou-o ao visconde.
+
+--Vejamos, disse este, voltando as costas para um toucador. Com effeito
+tinhas razão.
+
+--D'isso tenho eu tido aos centos e não faço caso algum, ajuntou o
+criado.
+
+--Queres tu comparar a tua á minha pelle?
+
+--Eu tambem não digo a vossa excellencia que a minha pelle seja como a
+sua, digo só que d'isso tenho eu aos centos. Olhe, sr. visconde, se
+vossa excellencia quer, verá como lhe curo isso n'um momento. Tome o sr.
+visconde uma... que digo eu? meia pilula das Monicas, ou uma receita que
+tem as irmãs do padre Bernardo que moram em Jesus, e verá como fica bom
+no mesmo instante. Isto provavelmente são os humores que andam
+levantados.
+
+--Será o que tu quizeres, respondeu o visconde. Dá-me d'alli uma camisa.
+
+--Que camisa quer?
+
+--Das mais finas, e põe-lhe os botões de camafeu.
+
+--Ou é _serviço_ ou grande pantomimice, resmungou o criado em voz baixa,
+abrindo ao mesmo tempo a gaveta do guarda roupa e tirando de dentro uma
+finissima camisa de cambraia. Agora por isso, ajuntou elle
+approximando-se do visconde, veiu cá hontem e já voltou hoje um
+individuo que trouxe para vossa excellencia a conta da camisaria.
+
+--Dize-lhe que volte no fim do mez.
+
+--Recordo a vossa excellencia que estamos hoje no dia 30, e que ámanhã é
+o ultimo de outubro.
+
+--Pois sim; mas eu quando disse no fim do mez, quiz dizer que era para o
+mez que vem.
+
+--Cumprirei as ordens de vossa excellencia. Que fato quer? perguntou
+elle, dirigindo-se para uma commoda á Luiz XV, sobre a qual estava um
+cofre de tartaruga.
+
+--Um fraque e collete preto, com quaesquer calças de côr.
+
+--Agora por isso, sr. visconde, disse o criado pondo nos punhos da
+camisa dois magnificos camafeus de Italia, veiu cá hontem um individuo
+com uma conta do alfaiate, e como vossa excellencia não estivesse em
+casa, disse-lhe que viesse ámanhã, em sendo duas horas.
+
+--Fizeste muito mal, respondeu o visconde mergulhando uma pequena escova
+de dentes n'um liquido pardacento, e levando-a repetidas vezes ao
+bigode. Já te disse que nunca se mandam receber contas senão no fim dos
+mezes.
+
+--Pois foi exactamente por esse motivo que o mandei cá vir ámanhã, que é
+o ultimo de outubro.
+
+--Já te disse ha pouco que o meu fim do mez é sempre o de novembro,
+respondeu o visconde encolerizado, passando a escova por sobre o labio
+inferior, e deixando o côr de chocolate.
+
+--O mesmo disse eu ao sr. Alves, quando a semana passada o procurou por
+causa d'aquella letra de 600$000 réis que se vence no primeiro de
+novembro.
+
+--E elle insiste em não querer a reforma?
+
+--Creio que insiste. O alquilé a quem vossa excellencia comprou as eguas
+baias, foi dizer-lhe que o sr. visconde promettia pagar-lhe tudo no
+primeiro de novembro.
+
+--Veremos o que se ha de fazer, disse o visconde, esfregando com uma
+essencia a nodoa côr de castanha que lhe descompunha a phisionomia.
+Dá-me d'alli umas ceroulas de seda. É preciso que vás logo ao Baron que
+me mande uma duzia de camisolas.
+
+--Cumprirei com as ordens de vossa excellencia, respondeu o criado,
+abrindo a gaveta d'uma commoda, e tirando um par de ceroulas de malha de
+seda.
+
+--Se alguem me procurar ás tres horas da tarde, dize lhe que não volte
+antes do primeiro de novembro, caso não queira perder o tempo, disse o
+visconde, atirando para longe com umas lindas chinellas de velludo
+bordadas a oiro, e vestindo ao mesmo tempo as ceroulas.
+
+--Vossa excellencia sae a cavallo ou de trem?
+
+--O dia está tão bonito que me parece melhor saír a cavallo. Sim,
+continuou elle, depois de reflectir alguns segundos, dize ao Marçal que
+me apparelhe a egua lazã. É necessario montal-a; ha perto de oito dias
+que não sáe.
+
+Depois de collocar sobre uma ottomana o fato do visconde, o criado abriu
+a porta do toucador, e saíndo foi transmittir as ordens que seu patrão
+lhe dera.
+
+--Sim senhores! a coisa não vae feia, dizia o visconde de si para
+comsigo. Se não levanto o dinheiro do deposito estou arruinado. O
+credito escassea-me, os credores, longe de me sustentarem a posição que
+seria o unico recurso para se embolsarem do que lhes devo, começam a
+negar-se e até me atormentam. Fazem bem, o futuro lhes dará o pago e
+tambem Deus, que de vez em quando ainda se recorda de mim.
+
+«Não encontro meio algum de salvação! Se apeio os trens, se revelo,
+ainda que por sombras, o estado da minha casa, não tarda a ruina,
+seguindo-se a poucos passos a miseria, com toda a sua hediondez que me
+assusta.
+
+«Devo a todos, e aos que me devem não me atrevo a pedir-lhes contas;
+não, seria uma loucura para a situação em que me encontro. Exigindo-lhes
+essas miseraveis quantias, seria mostrar-lhes que as necessito, e eu não
+tenho mais remedio senão representar que estou rico. Quanto custa esta
+falsa posição! Á custa de quantas insomnias se adquire um nome que não
+dá honra no presente nem tão pouco no futuro! Que luctas inglorias! Quem
+me dera ter nascido filho de um lavrador, e gosar em branda paz os
+encantos d'uma vida tranquilla. E os homens julgam me feliz! quantos
+dariam metade dos seus haveres para terem o meu nome! Pobres nescios!
+Vêem os meus trens, os meus cavallos, os meus vestuarios, e mal pensam
+as horas que todo esse fausto me rouba ao somno.
+
+«Vi a meus pés as primeiras mulheres de Lisboa, por mais de uma vez, com
+as faces incendiadas pela colera do ciume, vi os maridos a
+contemplarem-me, e eu mudo, indifferente, com o sorriso nos labios,
+desprezando-as a ellas, e escarnecendo d'elles.
+
+«Quanto dera agora por ter amado uma unica vez, e ter consagrado a esse
+objecto do meu amor toda a exuberancia da minha vida, todo o ardor das
+minhas paixões.
+
+«Rico, saudavel, com uma intelligencia clara e algum tanto cultivada,
+porque não creei a melhor de todas as instituições: a familia?
+
+«Que futuro me espera? Poderei eu sustentar por muitos annos esta vida,
+sem dinheiro, alicerce indispensavel d'este edificio? Se ámanhã,
+completamente desanimados os meus credores, comprehenderem a nenhuma
+vantagem de me conservarem n'esta situação, que poderei fazer? Sair de
+Lisboa? e para onde?
+
+«Que sei eu fazer? Montar a cavallo ou guiar bem um tilbury. É isto o
+sufficiente? E demais, affeito a este luxo que me rodeia, teria eu
+bastante valor para lançar mão de qualquer modo de vida, que não
+estivesse em harmonia com o que hoje tenho?
+
+«Se eu podesse encontrar um homem que me emprestasse dez a doze contos
+de réis, talvez ainda conseguisse levantar-me. Por isso me liguei com o
+commendador e com o banqueiro, a fim de explorarmos o Tristão, mas ou eu
+me engano muito ou d'aquella moita não sae coelho.
+
+«Aquillo é homem para duzentas ou trezentas libras, que nada me podem
+remedeiar. Se eu me convencesse do contrario, ajuntava o visconde
+abotoando o collete, cujos magnificos botões de coral contrastavam com a
+pallidez morbida do seu aristocratico semblante, se aquelle Tristão de
+Almeida fosse homem para emprestar uma duzia de contos de réis,
+separava-me totalmente dos meus companheiros e recorria á sua bolsa. E
+quem sabe? Quem me diz que a minha salvação se aninha na sua algibeira!
+
+«Quem sabe, continuava elle, mirando-se ao espelho, se as suas idéas
+ácerca do hospital tem no amago o conseguir um titulo. Se assim fosse
+estava salvo. Tenho alguns amigos no ministerio, homens que até já
+dispozeram da minha bolsa, póde ser que elles me sirvam para isto. Se
+fosse dinheiro tinha eu a certeza que m'o negariam, porém um titulo...
+
+«Experimentemos, e se são esses os seus desejos, ficarei salvo. E se não
+forem? Embora, convencel o hei de que um homem na sua posição necessita
+um titulo, e que para o alcançar basta ter dinheiro».
+
+Quando no meio d'estas judiciosas reflexões se preparava o visconde de
+Coruche para, afastando-se de Lopes de Miranda e do banqueiro, se lançar
+aos fundos de Tristão de Almeida, entrou de novo o seu _groom_
+annunciando lhe o commendador.
+
+--Que teremos? disse o visconde comsigo mesmo, pondo ao mesmo tempo as
+esporas.
+
+--Disse lhe que vossa excellencia se estava vestindo, porém, foi tal a
+sua insistencia que não tive remedio senão fazel-o entrar para a sala.
+
+--Dize-lhe que vou immediatamente. Espera! accrescentou elle como
+mudando de pensamento. Entre rapazes não ha cerimonias. Que venha para
+aqui mesmo.
+
+O _groom_ retirou-se, e acompanhou d'alli a minutos o commendador.
+
+--Deve estranhar o tel o procurado tão cedo, exclamou o commendador,
+dando-se ares de janota, palavra que n'esse tempo principiava a estar em
+voga.
+
+--Por caso nenhum! Estou sempre ás suas ordens.
+
+--Podemos conversar á vontade?
+
+--Pois não, respondeu o visconde, visivelmente importunado pela presença
+do commendador, que viera interrompel-o nas suas profundas meditações.
+
+Ou por esquecimento, ou por pouca importancia concedida áquella
+entrevista, o visconde não havia mandado retirar o _groom_.
+
+Lopes de Miranda não tardou em fazer-lh'o notar.
+
+Córando ligeiramente, o visconde comprehendeu aquelle reparo e mandando
+retirar o criado, assentou-se n'um sophá, offerecendo um logar ao
+commendador.
+
+--Preciso fazer lhe uma pergunta. Que idéa fórma de Tristão de Almeida?
+
+--A melhor que se póde formar; que é uma excellente alma, e desambicioso
+de todas as grandezas do mundo.
+
+--Fala serio?
+
+--Quanto se póde falar.
+
+--Julga portanto?...
+
+--O quê?
+
+--Que o seu projecto a respeito do hospital seja movido, pura e
+simplesmente, pela idéa de pôr em pratica uma obra de caridade?
+
+--Assim o creio.
+
+--Outro tanto não penso eu, meu nobre amigo. Ha em tudo aquillo um
+_arrière pensée_, ajuntou Lopes de Miranda, querendo mostrar ao visconde
+os seus conhecimentos linguisticos. O homem deseja um titulo.
+
+Feliz em que o seu pensamento se tivesse encontrado com o do
+commendador, o visconde, como homem experimentado, calculou que o unico
+partido de que podia lançar mão, seria o dissuadil-o completamente das
+suas suspeitas.
+
+--Crê portanto o commendador que essa caridade que antes de hontem viu
+dispensar ao mestre de obras, era movida apenas por um calculo? Quanto
+se illude! Seria necessario ter avaliado todas as circumstancias que se
+deram, para formar o seu juizo. O mesmo suppunha eu, mas logo vi o
+contrario. Ha factos que se não podem fingir, sr. Lopes de Miranda.
+Seria necessario que Tristão fosse um grande actor, para tão
+desassombradamente poder jogar com todas as paixões, como fez antes de
+hontem quando atropellámos esse infeliz. Seria tambem um calculo o
+interesse com que sua esposa se approximou do leito do moribundo, e
+calculo foi tambem de suas filhas, quando com as lagrimas nos olhos
+pediram ao medico informações do doente? Não me considero de uma
+credulidade parva, sr. commendador, mas a Cezar o que é de Cezar. Se
+Tristão, tem ou não desejo de entrar na sociedade precedido por um
+titulo, não me atrevo a dizel-o, o que lhe affianço, é que, se realmente
+tem esse desejo, não é elle o movel da sua caridade. Homens tem havido
+muito caridosos que desejam possuir um titulo, e Tristão póde muito bem
+ser um d'esses individuos.
+
+--Pois eu é que não sou da sua opinião, e venho propôr-lhe o seguinte:
+Como sabe, tenho tido ha dois annos a esta parte consideraveis perdas em
+resultado da escassez do vinho, e o sr. visconde, creio que tambem
+n'esta occasião não abunda em dinheiro. Lembrava me por isso que
+propozessemos a Tristão, mediante um emprestimo de doze a quatorze
+contos de réis, o obter-lhe um titulo de visconde, ou mesmo de conde.
+Que lhe parece?
+
+--Em primeiro logar, sr. commendador, nem vossa excellencia nem pessoa
+alguma está auctorizada a saber se eu abundo ou não em dinheiro, e em
+segundo devo dizer-lhe que estranho sobremaneira que se atreva a
+propôr-me similhante indignidade! Creio que nunca, nem ao sr., nem a
+outra pessoa extendi a minha mão para pedir dinheiro, por maior ou menor
+que fosse a quantia; estou portanto habilitado a pedir-lhe o favor de
+mudar de assumpto.
+
+Comprehendendo a loucura que tinha practicado, o commendador mudou
+immediatamente de conversação.
+
+Pretextando em seguida varios negocios que tinha de tractar, Lopes de
+Miranda despediu-se do visconde, seguindo d'alli para casa de Vaz
+Mendes, esperançado de encontrar melhor acolhimento no banqueiro.
+
+Dez minutos depois, perfumado, burnido e penteado, o visconde de Coruche
+n'um irreprehensivel _pied fé_ fazia em branda flexão voltar o pescoço á
+_Andorinha_, a egua lazã que mandara apparelhar.
+
+Saindo do pateo em duas upas obrigadas, a _Andorinha_ levou o visconde,
+que formulando o seu plano, se dirigia ao hotel Bragança.
+
+
+
+
+XIV
+
+
+Quando Manuel de Mendonça e Mascatudo sairam do hotel d'Europa,
+encaminharam-se para bordo, como o leitor deve estar lembrado.
+
+A galera que fôra em Buenos-Ayres comprada por Manuel de Mendonça, era
+uma formosa barca de duzentas a trezentas toneladas.
+
+Era muito de vêr-se o aceio e a disciplina que reinavam a bordo da
+galera Esperança, habilmente commandada por Manuel de Mendonça, cujos
+conhecimentos nauticos fariam inveja ao mais experimentado maritimo.
+
+Com sobejos motivos chamava elle aos seus tripulantes os seus amigos e
+companheiros! A amizade e a confiança com que os tractava jámais
+concorreu para que lhe dessem o minimo desgosto de indisciplina.
+
+Durante a folga todos o tractavam como se elle fôra um amigo, no
+serviço todos o respeitavam como o seu commandante. Quando por qualquer
+circumstancia se agitava a mais pequena questão entre os marinheiros, e
+elle apparecia perguntando-lhes a causa, era bello de vêr como esses
+homens endurecidos pelas luctas dos elementos, se enterneciam ao ouvir
+as palavras do seu capitão chamando-os á ordem, e expondo-lhes em
+phrases insinuantes as terriveis consequencias da má camaradagem.
+
+Então, aquelles que momentos antes se haviam levantado exaltados pela
+colera, graças á eloquencia de Manuel, acabavam sempre por se abraçarem.
+
+A galera fundeada a pouca distancia da Rocha do conde de Obidos, parecia
+na sua eterna inquietação aguardar o que era dono e commandante.
+
+Quando um velho marinheiro divisou o escaler do capitão, e este sentado
+á prôa, o maritimo debruçou-se do navio como criada velha que espera á
+janella a criança que volve ao lar.
+
+Então começaram a apparecer os outros marinheiros, esperando
+anciosamente que o escaler abordasse á embarcação.
+
+E a galera agitando-se aos movimentos da corrente, parecia tambem
+esperal-o inquieta.
+
+Finalmente, o escaler atracou, e Manuel subindo por uma pequena escada
+de corda entrou a bordo seguido por Mascatudo.
+
+Quem de perto observasse o tractamento que elle dava aos marinheiros, e
+ignorasse o logar que occupava, tel-o-ia tomado por um simples
+navegante.
+
+Depois de falar a todos aquelles homens, desceu á camara, e alli, em
+companhia de Mascatudo, continuou a conversação que uma hora antes havia
+começado no hotel Europe.
+
+--Estamos aqui mais sós para podermos falar, dizia elle ao marinheiro.
+Ninguem poderá ouvir as nossas palavras a não ser o mar, e Deus que nos
+escuta.
+
+--O mesmo me acontece, respondia-lhe Mascatudo. Não sei o que sinto
+quando passo uma noite encarcerado entre as quatro paredes de uma
+hospedaria! Acordar pela noite velha sem ouvir o rumor da agua batendo
+de encontro á quilha da embarcação, e sem ver o lume de alguma estrella
+reflectindo-se de vez em quando como se estivesse a acompanhar o meu
+dormir, parece que é acordar n'um tumulo.
+
+--Quero pedir-te um favor, disse Manuel de Mendonça, depois de alguns
+instantes de profunda meditação. Como já t'o disse, sei apenas que
+ficaram no hotel de Bragança. Desejava saber quanto se tem passado, mas
+falta-me o valor para ir eu mesmo proceder a indagações. Terias duvida
+em ir procurar essa familia da minha parte?
+
+--Eu! exclamou o marinheiro. E porque motivo? Foi alguma acção má a que
+o sr. praticou? Ora essa! É para já. Não tem mais do que dizer-me o
+sitio onde tenho de me dirigir.
+
+--Aonde te disse, ao hotel de Bragança. Se ainda lá estiverem, pede ao
+guarda portão que te conduza ao quarto. Pergunta por sua mulher ou por
+Martha, e dize a qualquer das duas que vaes da minha parte saber da
+saude de Jeronymo.
+
+--É só isso o que deseja saber? Veja lá; lembre-se bem, ajuntou
+Mascatudo, sorrindo-se para o seu commandante.
+
+--É só isto.
+
+--E o sr. fica á minha espera, aonde?
+
+--A bordo.
+
+--Volto portanto aqui?
+
+--Já se vê.
+
+--Quer que vá já?
+
+--Quero.
+
+--Era melhor ter-me dito isso lá em terra, ponderou judiciosamente o
+marinheiro.
+
+--Quiz antes pedir-te isso sobre as aguas do mar.
+
+--Pois então, sr. Manuel de Mendonça, como bom maritimo que sou, irei
+sondar esses mares desconhecidos, e tenho fé em Deus, que em poucos dias
+poderemos navegar de vento em pôpa, sem que o mais leve indicio de
+temporal nos faça perder o rumo. O que eu não quero é vel-o assim
+entristecido, accrescentou o fiel marinheiro, fixando a vista na
+melancolica physionomia do seu commandante.
+
+--Pensas talvez que me sinto prezo a essa mulher? perguntou Manuel com
+aquella pueril ingenuidade de que se revestem os espiritos sujeitos ás
+mysteriosas influencias do amor!
+
+--Não sei, respondeu Mascatudo, mas apostava que sim. Ás vezes, tudo
+está no começar. O maior temporal principia a levantar-se por uma brisa
+serena.
+
+--Espero em Deus que essa aragem que tu adivinhas, nunca seja nuncia de
+nenhuma tormenta.
+
+--Que Santa Barbara e a Senhora da Bonança nos protejam, commandante,
+disse Mascatudo, levantando-se e preparando-se para cumprir as ordens do
+seu capitão.
+
+--Amen, respondeu Manuel, reclinando a fronte na mão direita.
+
+Mascatudo, sem esperar mais observações, saiu da camara, e, subindo ao
+convez mandou preparar o escaler. Manuel olhava-o em silencio.
+
+--Será este o anjo que Deus me mandou á terra, para me acompanhar nas
+longas noites da minha solidão? pensava elle espraiando os seus olhares
+entristecidos na direcção do soberbo edificio do hotel Bragança.
+
+
+
+
+XV
+
+
+Desembarcando no Terreiro do Paço, Mascatudo tomou o rumo do hotel.
+Desde que saira de bordo, o dedicado amigo em mais alguma coisa havia
+pensado senão em Martha.
+
+O seu caracter concentrado e ao mesmo tempo sensivel, levava o a
+acreditar na impossibilidade de ventura na terra, e, muito menos sobre
+as aguas do mar, sem se possuir um coração fiel e dedicado, qual a sua
+imaginação o phantasiava.
+
+A mulher, essa divina creação que Deus lançou ao mundo para inseparavel
+companheira do homem, que deante de nossos sorrisos levanta o rosto
+brilhante de felicidade, e que desmaia a fronte pallida e inquieta, ao
+enxugar-nos as lagrimas de desventura, concebia-a Mascatudo no seu
+coração selvatico com toda a força de um vigoroso sentimento.
+
+É que a esse espirito, agitado pelas luctas infrenes dos elementos,
+descêra um dia o anjo do amor, e pousando-lhe as brancas azas na fronte
+crestada pelos soes, imprimira-lhe o osculo indelevel do soffrimento.
+
+Amára uma vez na vida! Amára com toda a força da sua alma, alma joven e
+inexperiente, para quem o mundo era um jardim florido, e cada pomo um
+goso, e cada goso uma esperança, e cada esperança uma existencia de
+immorredouras felicidades!
+
+É que a sós entre o mar e o céu, o grito raivoso das paixões humanas,
+ferindo-lhe os ouvidos, jámais lhe havia interrompido os extasis, quando
+assentado ao leme da embarcação contemplava os astros que se reflectiam
+nas aguas prateadas do oceano, vagas como o seu pensamento,
+indecifraveis como as suas aspirações!
+
+Conhecia apenas a ira do mar, mas a colera do homem envenenado pela
+inveja ou pela traição, jámais a havia sonhado o seu instincto.
+
+Por isso vira na mulher o anjo, na sua convivencia a felicidade unica e
+possivel.
+
+Amou!
+
+E quão grande teria sido o affecto n'aquella grande alma?!
+
+Possuia algum dinheiro das suas economias, julgou-se em circumstancias
+de casar.
+
+Dois mezes depois, Mascatudo realizava no casamento todas as suas
+aspirações. Curta, porém, foi a sua ventura. A brisa da morte,
+agitando-se mysteriosamente sobre o tecto do seu ninho, devastou-lhe ao
+cabo de um anno flôres e fructo!
+
+O triste voltou á vida do mar; e quando por noites caladas o seu barco
+sulcava as aguas do oceano, via-se ás vezes o tio Luiz encostado á
+amurada da embarcação, contemplando o firmamento, como que perguntando a
+cada nuvem em que paragem se occultava aquella metade da sua alma.
+
+Desde então, Mascatudo viveu apenas para duas sepulturas: a da esposa e
+a da mãe!
+
+--Hei de saber tudo, dizia elle, ao chegar á porta do hotel. Se fôr como
+a pintam, serei o primeiro a aconselhal-o a que não perca esta occasião.
+
+Cumprindo á risca as instrucções que recebera, Mascatudo foi conduzido
+pelo guarda portão ao quarto de Jeronymo.
+
+Balbina já estava de volta de sua casa, aonde tinha ido mais com o
+intuito de tranquillisar a pobre Marianna do que para tractar dos
+arranjos domesticos.
+
+--Venho aqui da parte do meu commandante, para saber como está o sr.
+Jeronymo, disse Mascatudo, olhando desassombradamente para o operario e
+para a mulher e filha.
+
+O enfermo, que nada comprehendêra, ficou como abysmado olhando para
+Balbina.
+
+--Creio que me não expliquei bem, ajuntou o marinheiro; venho da parte
+do individuo que avisou a sua familia do sitio onde vossemecê estava.
+
+--Ah! já sei; vem da parte d'esse sujeito a quem somos tão obrigados,
+exclamou Martha, fazendo-se vermelha como o estofo do sophá onde estava
+assentada.
+
+--Até que perceberam, continuou Mascatudo, approximando-se do leito de
+Jeronymo. Foi esse mesmo o que me mandou saber da sua saude.
+
+--Quanto lhe estamos agradecidos, interrompeu Balbina, dirigindo-se ao
+marinheiro. Se não tivesse sido aquelle excellente senhor, talvez que
+ainda a estas horas estivessemos sem saber onde elle parava. Diga-lhe
+que graças a Deus, o Jeronymo está muito melhor, e que tanto elle como
+eu e minha filha desejamos saber onde o podemos encontrar para lhe
+darmos os nossos agradecimentos.
+
+--O sr. Manuel, respondeu o marinheiro, póde encontrar-se a bordo da
+sua galera, e quando alli não estiver, accrescentou, fixando
+ardentemente os olhos em Martha, que parecia escutal-o com interesse,
+está no hotel d'Europe, na rua Nova do Carmo. Mas lá por isso não seja a
+duvida; deixem estar, uma vez que elle se interessa tanto pelos seus, eu
+farei com que ámanhã ou depois, se por acaso ainda estiverem n'esta
+estalagem, elle os venha ver a vossemecês.
+
+--Quanto estimaria conhecel-o, interrompeu Jeronymo voltando-se para o
+maritimo.
+
+Martha empallideceu ligeiramente.
+
+--N'esse caso eu farei a diligencia de o trazer aqui, respondeu
+Mascatudo, satisfeito por comprehender o que se passava no coração de
+Martha.
+
+Despedindo se de todos, o marinheiro saiu do hotel.
+
+--É um anjo, ou eu sou um grande asno, dizia elle comsigo mesmo,
+emquanto se dirigia para bordo.
+
+
+
+
+XVI
+
+
+Deixemos Mascatudo participar a Manuel de Mendonça os resultados da sua
+entrevista, e encaminhemo-nos a um pequeno gabinete do hotel onde
+Tristão costuma receber as visitas de mais confiança.
+
+O visconde, como o leitor não ignora, tinha resolvido tirar o maior
+partido que podesse do seu novo amigo; com este fim se havia dirigido
+para o hotel.
+
+Tristão acabava de chegar de casa de um banqueiro, a quem fôra consultar
+ácerca de uma transferencia de fundos para o Banco de Portugal na
+importancia de 650:000$000, para lhe não succeder o mesmo que lhe
+acontecêra com quantia superior a essa, que tinha no banco de Havana,
+d'onde havia dois annos não recebia juro algum.
+
+Vê-se portanto quaes eram as riquezas d'aquelle homem!
+
+Ao ouvir estas palavras, ainda mais seguro ficou o visconde no bom
+exito da sua tentativa, e, ampliando apenas a cifra resolveu-se a
+preparar quanto antes o terreno que tinha a explorar.
+
+--Com que então, meu amigo, disse-lhe o visconde, já sei que os seus
+protegidos dormem em leito de rosas o doce somno da esperança,
+acalentados pelas azas brancas do anjo dos tristes.
+
+Por esta exuberancia de imagens, poderá o leitor formar a sua idéa
+psychologica ácerca do caracter do visconde de Coruche.
+
+--Assim o creio, respondeu Tristão, offerecendo-lhe um magnifico charuto
+havano.
+
+--E quando principiam os nossos trabalhos do hospital?
+
+--Pela minha parte hoje mesmo, se vossa excellencia quizer; porém, vejo
+que tem tantos negocios a tractar...
+
+--Por Deus, meu caro amigo! Para uma coisa d'essas deixaria tudo de
+parte. Hoje mesmo, se lhe apraz, iremos escolher o local.
+
+--Isso é que era ouro sobre azul! Não calcula a anciedade de minha
+esposa em vêr realizados os seus desejos. Quando se propôe qualquer
+coisa, não ha quem a dissuada, nem eu o intentaria n'este caso.
+
+--O mesmo sou eu. Veremos quem se lança denodadamente na arena da
+caridade. E como vossa excellencia vae lucrar n'esta obra! Como se
+conceituará na opinião publica? De que serve a riqueza, se não fôr
+applicada ao bem? Quantas ha em Lisboa que para nada servem, a não ser
+para satisfazer os olhares cubiçosos dos avarentos que as possuem!
+passam miseravelmente emquanto vivos, e, quando morrem teem por unico
+elogio dos seus herdeiros, o dizerem que sempre foi um homem muito amigo
+de olhar pela sua casa. É que esses entes, na minha opinião, esquecidos
+de Deus, atravessam a vida sem conhecerem a verdadeira felicidade que
+sente aquelle que, extendendo a mão á pobreza, leva o consolo ao ninho
+do desamparado. Muitos d'esses miseraveis, renegando o povo d'onde
+sairam, querem chegar-se á aristocracia, transpôr os humbraes do chefe
+do Estado, e nem ao menos se lembram de seguir o exemplo, abrindo como
+elle a sua bolsa aos desvalidos, e os seus pulmões á atmosphera
+corrompida pelos miasmas da epidemia. E ainda a semana passada o joven
+monarcha desceu ao leito de um moribundo e passou-lhe a regia mão pelo
+peito, como para sondar se o coração ainda batia. Já que pessoa alguma o
+segue no seu heroismo; já que a maior parte d'esses satrapas o
+abandonam, seja vossa excellencia o heroe que venha a empallidecer-lhes
+o rosto de vergonha, tomando o exemplo d'aquelle santo rei.
+
+Havia tanta verdade nas palavras do visconde; era tão singela a sua
+dicção, tão arrobadas de sentimento as phrases que acabava de proferir,
+que Tristão, apezar do seu profundo conhecimento do coração humano,
+hesitou por alguns instantes, sem poder avaliar se essas palavras seriam
+calculadas, ou se eram apenas dictadas por um coração votado á caridade.
+
+Tristão era homem de arrojado animo. Por mais de uma vez sorrira para a
+morte que se lhe approximava sem que os lábios houvessem mudado de côr
+ou o seu coração pulsado com maior violencia.
+
+Affeito a uma existencia aventurosa, ainda o fascinavam os perigos. A
+despeito de se considerar bastante avançado em annos, fiava se na sua
+robustissima compleição, e, sopesando as forças, distinguiu rapidamente
+o que ainda podia fazer, graças ao seu arrojo, intelligencia e capitaes.
+
+Então desenhou-se lhe um mundo inteiramente novo! Julgou-se cercado
+pela aureola do prestigio, e ouviu pronunciar o seu nome com todas as
+pompas de uma gloria merecida. Viu-se a edificar um hospital, e mais
+tarde, elle mesmo, sua mulher e suas proprias filhas, descendo como
+anjos á cabeceira dos enfermos. Viu os olhos do monarcha iriados de
+angelica expressão, volvendo-se agradecidos para elle e para sua
+familia. Fascinou-o a gloria de um renome, e, elevando se nas azas da
+caridade, creu subir ao ultimo céu das ledices sociaes!
+
+--Tem razão e muita razão, sr. visconde. Vamos hoje mesmo dar um grande
+impulso á nossa idéa. Jeronymo, a quem tenciono entregar a direcção das
+obras, segundo me consta, tem tanto de intelligente quanto de honrado. O
+pobre homem por estes dois ou tres dias não poderá sair de casa; vamos
+nós sem mais delongas escolher o sitio. Em que bairro lhe parece?
+
+--No de Santos. Por exemplo lá para as bandas da Pampulha.
+
+--Visto isso, vou mandar pôr o trem, e entretanto subo ao quarto de
+Jeronymo para lhe communicar as nossas intenções. E sem mais demora saiu
+do gabinete.
+
+--Esplendido, exclamou o visconde, contemplando ao mesmo tempo um
+album de retratos que estava sobre uma banca de jogo. O negocio corre ás
+mil maravilhas. Em todo o caso, é necessario espaçal-o por mais alguns
+dias, e em vez de dez ou doze contos, serão vinte ou trinta,
+hypothecando-lhe... hypothecando-lhe o quê? umas propriedades que eu
+desejava possuir no Algarve. O homem está sequioso de gloria. Cega-o a
+vaidade. É um zote que eu domino com a força da minha eloquencia.
+Bastam-me duas palavras para o conduzir aonde me aprouver.
+
+N'este comenos entrou o magnate, dizendo lhe que já estava o trem á
+porta.
+
+Desceram e entraram na carruagem. Tomando pela rua do Arsenal,
+dirigiram-se ao Corpo Santo. Proximo á egreja grande multidão
+contemplava um pobre velho, que, estorcendo-se em terriveis convulsões,
+denunciava ter sido atacado pela febre. Mandaram parar o trem, e
+Tristão, apeando-se primeiro, dirigiu-se para o grupo.
+
+O visconde seguia o sem dar uma palavra.
+
+--É um infeliz que foi atacado pela febre, disse um gallego a quem
+Tristão se havia dirigido.
+
+--E tambem pela fome, interrompeu uma vendedeira de hortaliça.
+
+--E ainda não appareceu ninguem que lhe fosse buscar soccorros?
+perguntou o visconde.
+
+--Saberá vossa excellencia que ainda não _senhora_, respondeu a
+vendedeira.
+
+--Pois se vossemecê se interessa por esse homem, peço-lhe que se
+encarregue de lhe chamar os soccorros, accudiu Tristão, approximando-se
+mais da mulher e entregando-lhe quatro libras. Se elle tem familia,
+diga-lhe que me procurem logo no hotel Bragança, e vá vossemecê com
+ella, para lhe dar tambem alguma coisa.
+
+O oiro assombrou a vendedeira, que esteve por alguns segundos sem poder
+soltar palavra.
+
+--É uma caridade, meu senhor, porque está cheiosinho de familia, disse
+finalmente a mulher com voz tremula e commovida. Mas agora outra coisa,
+meu senhor, ajuntou ella, por quem devo procurar.
+
+--Pelo excellentissimo sr. Tristão de Almeida disse vivamente o
+visconde.
+
+Mettendo-se outra vez na carruagem, abandonaram aquelle grupo, pasmado
+por tanta generosidade, e partiram pela rua da Boa Vista.
+
+--A sorte favorece-o, proporcionando-lhe todos os ensejos para pôr em
+pratica a sua grande obra, dizia-lhe o visconde, fitando-o com um olhar
+de lynce.
+
+--Assim o creio, respondia-lhe Tristão, olhando para todas as ruas por
+onde passava, com a curiosidade que todos experimentam, ao contemplarem
+pela primeira vez os logares que lhe são desconhecidos.
+
+--Agora me recordo, disse o visconde, parece-me que está uma casa para
+alugar na rua de S. Francisco de Paula. Se lhe parece vamos vel-a.
+
+--Deus permitta que esteja nas condições que precisamos.
+
+Finalmente chegaram á rua designada pelo visconde.
+
+A casa, segundo elle havia pensado, era magnifica para aquelle fim. O
+dono morava longe, porém a boa vontade tanto de um como de outro
+principiava a não admittir difficuldades, e seguiram immediatamente para
+casa do senhorio.
+
+No dia seguinte ás oito horas da manhã, na rua de S. Francisco de Paula,
+começavam todos os preparativos inherentes á fundação do hospital.
+
+O anjo da caridade, invocado por Tristão de Almeida, elevava as suas
+azas brancas sobre os telhados d'aquelle edificio!
+
+
+
+
+XVII
+
+
+--Acompanhas-me, Luiz? Tenho tanto desejo de ir visitar aquella gente...
+e comtudo não me sinto com valor.
+
+--Ora essa, meu capitão, da melhor vontade! Não sei o que li n'aquelles
+olhos verdes de Martha; ainda se me não poderam tirar da memoria! Póde
+ser que me engane, mas essa menina é um anjo! Ha na meiguice do seu
+olhar um não sei quê, que me prendeu!
+
+--Será isso uma illusão da tua parte?
+
+--Nem por sombras! Se a visse, quando eu prometti a sua mãe que faria
+com que o senhor lá fosse...
+
+--Então mostrou muitos desejos de me ver? perguntou Manuel com essa
+visivel curiosidade dos namorados, e como desejando prolongar a
+conversação de Mascatudo.
+
+--Se mostrou! Ao principio fez-se branca como a cal da parede, e em
+seguida tornou-se vermelha como uma romã. Havia tanto interesse no seu
+olhar, quando me falou a respeito do senhor, que logo comprehendi que
+alguma coisa se passava no seu coração.
+
+--Pois então, meu amigo, o que tem de ser, seja. É Deus que o determina:
+iremos hoje vel-os. Passava-se este dialogo a bordo da galera Esperança,
+no mesmo dia e á mesma hora em que o visconde de Coruche expunha a
+Tristão de Almeida, no gabinete do hotel Bragança, as graves
+conveniencias que lhe resultariam da sua philanthropica resolução.
+
+Subindo á tolda, Manuel mandou apromptar o escaler e veiu para terra em
+companhia de Mascatudo.
+
+Dirigiu se ao hotel.
+
+Ao subir a escada que conduzia aos quartos de Jeronymo, sentiu que um
+mundo novo e inteiramente estranho se desenrolava a seus olhos! Receioso
+pelo sentimento que lhe perturbava o espirito, o marinheiro quasi pedia
+á Providencia, que qualquer circumstancia fortuita lhe viesse impedir a
+realização dos seus desejos!
+
+Batendo mansamente á porta do quarto de Jeronymo, ouviu a voz doce e
+melancholica de Martha que de dentro lhe respondia. Faltou-lhe o valor;
+foi necessario que Mascatudo o animasse a entrar. Entraram ambos.
+
+Reclinado sobre uma poltrona, Jeronymo dir-se-ia um cadaver.
+
+A seus pés, assentada n'um tamborete, Balbina olhava-o com gesto de
+profundo desalento, fitando de vez em quando sua filha que de pé os
+contemplava!
+
+Martha ficou immovel!
+
+--Venho saber da saude de seu marido, disse Manuel para Balbina,
+extendendo ao mesmo tempo a mão ao mestre de obras.
+
+Este sorriu-se brandamente para o maritimo, apertando entre as suas
+aquella mão que se lhe offerecia.
+
+--E como se sente?
+
+--Melhor, felizmente, muito melhor! respondeu Jeronymo, olhando ao
+mesmo tempo para sua mulher, e indicando-lhe que approximasse uma
+cadeira.
+
+Manuel, pegando na cadeira que Balbina lhe offerecia, sentou-se ao lado
+do enfermo.
+
+Mascatudo contentava-se apenas em observar os olhos de Martha, buscando
+em cada movimento descobrir o que lhe passava n'alma.
+
+Balbina então relatou a Manuel quanto havia succedido, sem lhe omittir
+os rasgos de generosidade de que era devedora a Tristão e a toda a sua
+familia.
+
+--E quem é esse homem tão caridoso? perguntou Manuel, como se já n'esse
+instante se lhe começasse a perturbar o espirito com a idéa de que essa
+protecção fosse menos devida á caridade do que á formosura de Martha.
+
+--Quem é elle, não lh'o podemos dizer, respondeu Balbina. Sabemos apenas
+que é um senhor muito rico, e que todo o seu fim é fazer bem á pobreza.
+Agora vae elle estabelecer um hospital para as pessoas atacadas pela
+febre, hospital de que meu marido é o encarregado.
+
+--E não só elle, como sua mulher e filhas, se tem interessado o mais
+possivel por mim, ajuntou Jeronymo.
+
+--Nunca me ha de esquecer aquella noite, menina, tartamudeou Manuel
+dirigindo-se a Martha.
+
+--Quanto lhe devemos, meu caro senhor, acudiu o operario, olhando ora
+para Manuel, ora para a mulher e para a filha.
+
+--Como elle se portou com a nossa filha! Não temos modos de agradecer!
+disse Balbina visivelmente reconhecida.
+
+--É merecedora de tudo! Nada tem que me agradecer, respondeu Manuel
+olhando ao mesmo tempo para a interessante Martha.
+
+Quando a filha do operario, mais familiarizada com a presença do
+maritimo, se preparava para lhe dirigir a palavra, soaram uns passos no
+corredor e abriu-se em seguida a porta do quarto.
+
+Eram Tristão e o visconde.
+
+--Venho prevenil-os de que já temos casa para o hospital, e que ámanhã
+por estas horas--graças á actividade do sr. visconde--já devem começar
+os trabalhos, disse Tristão de Almeida, reparando ao mesmo tempo em
+Manuel de Mendonça e Mascatudo.
+
+Estes ultimos olhavam para os recemchegados, sem poderem occultar que as
+suas presenças se lhes não tinham tornado muito sympathicas.
+
+--Estes senhores pertencem á sua familia? perguntou o visconde
+dirigindo-se a Martha.
+
+--Não, senhor, respondeu Martha. E indicando Manuel de Mendonça,
+accrescentou: este senhor foi quem me encontrou na rua, e que mais tarde
+descobriu aonde estava meu pae.
+
+--Ah! foi este senhor! acudiu Tristão. Quanto folgo em ter o gosto de o
+conhecer. Se me não engano, n'aquella mesma noite tive o prazer de o
+encontrar; porém, quando ia para lhe extender a mão, já vossa senhoria
+tinha saido d'este quarto, ajuntou Tristão dirigindo-se a Manuel de
+Mendonça e extendendo-lhe brandamente a mão.
+
+Se n'aquella noite do atropellamento os olhos de Manuel de Mendonça se
+haviam cravado particularmente no rosto de Tristão, mais cuidadosamente
+o fixaram n'aquelle momento.
+
+O mesmo se passou com o magnate. Dir-se-ia que esses dois homens já se
+haviam encontrado alguma vez na vida! Onde? Sabia-o Deus, que n'esse
+instante os não illucidava!
+
+O physionomista que de perto observasse o rosto de Manuel, ter-lhe-ia
+notado um estremecimento de repulsão no momento em que, extendendo a
+mão, a sentiu em contacto com a de Tristão de Almeida.
+
+A Mascatudo não lhe passou desapercebido.
+
+--Queira Deus, pensava elle comsigo, que o sr. Manuel de Mendonça não
+comece já a imaginar que lhe querem estorvar a pesca. Se elle vê que lhe
+lançam a fisga, põe-se de ventas á enchente e vae tudo com trezentos mil
+diabos. Elle é bom, isso lá é que não ha duvida, mas, se lhe pegam fogo
+ao paiol da polvora, vae tudo pelos ares em mil estilhaços.
+
+Tristão e o visconde trocaram ainda algumas palavras entre si, e depois
+de alguns momentos de silencio, despediram-se de Jeronymo e de sua
+familia, e sairam do quarto cumprimentando affavelmente Manuel de
+Mendonça.
+
+--Conhece aquelle senhor? perguntou Martha a Manuel de Mendonça,
+referindo-se a Tristão de Almeida.
+
+--Não conheço, respondeu o maritimo, comtudo, parece-me já ter visto
+aquelle individuo, aonde não me recordo.
+
+--O mesmo me pareceu a mim, acudiu Mascatudo. E a elle, se me não
+engano, tambem o senhor não lhe era estranho.
+
+--O que elle me parece é um santo homem, disse Balbina, que não via em
+Tristão mais do que o protector de seu marido.
+
+--Assim o julgo, respondeu Manuel, levantando-se e despedindo-se de
+Jeronymo.
+
+--Já se retira? perguntou Martha, lendo-se-lhe nos olhos o que
+principiava a sentir no coração.
+
+--Tenho de ir para bordo, respondeu Manuel despedindo-se de Martha, e
+promettendo-lhe voltar no dia seguinte.
+
+ * * * * *
+
+--Então o que me diz, meu capitão? perguntava Mascatudo ao sairem o
+pateo do hotel.
+
+--Que gosto muito d'ella, respondeu Manuel de Mendonça olhando para as
+paredes do edificio como se buscasse a janella do quarto onde havia
+ficado a familia do operario.
+
+
+
+
+XVIII
+
+
+São dez horas da manhã. Deitado no seu leito de precioso ebano, e
+fazendo mil conjecturas ácerca de Tristão, a quem na vespera havia
+convidado para almoçar, o visconde de Coruche, como homem experimentado,
+palpa, estuda e analysa o terreno por onde tem de caminhar.
+
+Tudo estava prevenido para o almoço. Uma grande parte da baixella, que
+dias antes tinha sido substituida no _prégo_ por outros objectos cuja
+ausencia se não fazia notar, já estava sobre os aparadores. Entre os
+riquissimos trabalhos de prata destacava-se um pelo seu grande valor e
+merito artistico.
+
+Era um centro de mesa. Representava as tres graças sustentando uma
+enorme concha.
+
+Era esta, por assim dizer, a ultima reliquia que lhe restava do seu para
+sempre chorado tio!
+
+«Fiz mal, pensava elle, em não ter convidado o commendador e Vaz
+Mendes, para almoçarem commigo. Podem prever n'isto alguma insidia e
+intrigarem-me com o meu Cresus! É mais prudente escrever-lhes. E sem
+mais delonga, levantou-se e desceu ao escriptorio, formoso aposento ao
+rez do jardim, esplendida e custosamente mobilado.
+
+«E pensar que tudo isto é sol de pouca dura! accrescentava elle olhando
+para as estufas do jardim. Não terei valor para cair com a minha ruina?
+Hei de ver de pé firme e olhar sereno, sair d'esta casa para o poder dos
+agiotas, até á ultima, todas estas reliquias? Deus não póde permittir
+que um homem que tem vivido e gozado como eu, se encontre um dia a
+braços com a miseria! É forçoso tomar uma deliberação. Tenho ainda uns
+seis mezes para viver, é pouco; prolongue-se a existencia, custe o que
+custar. Homicidio é um crime, e deixar-me escorregar na pendente do meu
+infortunio é um suicidio. Não quero ser criminoso.
+
+«Arvores a cuja sombra me abriguei na minha infancia, nem vós já me
+pertenceis! continuava elle olhando para o vetusto arvoredo do jardim.
+
+«Tectos que vistes expirar meus paes, que impia mão de atroz capitalista
+te manchará o culto? Aqui nasceu meu avô, aqui morreram todos os que
+tiveram melhor senso do que este desgraçado! «Soberbo choupo para me
+enforcar com o cordão do meu chambre», dizia elle como se quizesse
+zombar de si mesmo e contemplando ao mesmo tempo a arvore, que parecia
+convidal-o ao passo mais acertado que podia dar em toda a sua vida.
+
+Abandonando estes lugubres pensamentos, o visconde sentou-se á carteira,
+e escreveu duas cartas, uma ao commendador, e outra a Vaz Mendes. Pedia
+em ambas a honra de virem almoçar em sua companhia.
+
+Tocou a campainha e entregando as cartas a um criado para que as
+levasse sem demora ao seu destino, o visconde deu ainda algumas voltas
+pelo jardim e dirigiu-se á casa de banho.
+
+Ao meio-dia em ponto entraram Vaz Mendes e o commendador Lopes de
+Miranda.
+
+--Quanto folgo me não tivessem faltado, disse-lhes o visconde
+conduzindo-os para a sala de visitas. Tristão, acrescentou elle, vem
+hoje almoçar commigo, era forçoso pedir que mais alguem lhe tornasse
+menos pezado o sacrificio. Vamos discutir largamente sobre o hospital.
+Sabem que já temos a casa arrendada?
+
+--Sabemos, responderam ambos.
+
+--Um magnifico palacio á Pampulha.
+
+--O local não podia ser mais bem escolhido, disse o commendador
+reclinando-se n'uma poltrona. E quando principiam os arranjos? perguntou
+Vaz Mendes.
+
+--Hoje mesmo; para esse fim os mandei chamar. Vamos comprar tudo o que
+fôr necessario para que principie a funccionar de hoje a oito dias.
+
+--Realmente é um homem de muita caridade este Tristão, interrompeu Vaz
+Mendes, olhando para uma soberba aguarella de Howell.
+
+--Basta o que elle tem feito pelo mestre de obras, ajuntou Lopes de
+Miranda.
+
+--E quem seria capaz, já não digo de mais, mas de tanto? acudiu o
+visconde. Isto é que é a verdadeira caridade, sem alarde nem ostentação.
+
+--Tambem, disse Vaz Mendes, quem tem uma fortuna superior a dois mil
+contos, o que deve fazer senão dividil-a com a pobreza?
+
+--E quantas pessoas conhece o meu amigo, que não são capazes de gastar
+um ceitil com os pobres? perguntou o visconde.
+
+--Concordo, respondeu o banqueiro, olhando de soslaio para um Salvator
+Rosa, unica pintura que restava da galeria do conde de ***.
+
+Ao ouvir-se o rodar de um trem, o visconde approximou-se da janella
+para se certificar se era a carruagem de Tristão que chegava.
+
+Não se enganára.
+
+Deixando os dois convidados, desceu ao pateo para o receber.
+
+Quando entraram na sala foi uma agradavel surpreza para Tristão de
+Almeida o encontro dos seus dois amigos.
+
+Á hora designada dirigiram-se todos para a sala de jantar, onde um
+variado e bem servido almoço os esperava.
+
+Ao contemplarem a magnificencia da baixella, Vaz Mendes e o commendador
+entreolhavam-se, assombrados por tanta riqueza.
+
+Tristão olhava para tudo com um gesto de profunda indifferença! Um
+objecto apenas se tornou o alvo da sua attenção: foi o centro de prata,
+de que já falamos ao leitor.
+
+Havia muito que elle desejava occultar a sua admiração; por ultimo não
+se conteve.
+
+--É de suppôr que saiba o que alli tem, disse Tristão voltando-se para o
+visconde, e apontando ao mesmo tempo para as tres graças.
+
+--Sei. É magnifico! Atribuem-n'o ao cinzel não sei de que artista
+notavel, cujo nome me não lembra, respondeu o visconde.
+
+--Vale um bom par de contos de réis, replicou Tristão dirigindo-se a Vaz
+Mendes.
+
+«Forte asno, murmurou o banqueiro para comsigo.
+
+«Está doido! pensou o commendador.
+
+«Achei! disse o visconde falando com o seu coração.
+
+«Fortes nescios! reflectiu Tristão, que pelos differentes jogos das suas
+physionomias, lhe adivinhára os pensamentos.»
+
+Ás quatro horas da tarde sairam todos tres, tendo previamente combinado
+com o visconde, para que os esperasse no hotel das seis para as sete
+horas da noite.
+
+«Estou salvo! dizia o visconde, á proporção que os via desapparecer. Por
+qualquer dos dois meios venço. Desfazendo me das tres graças, que já
+para mim não tem graça, posso vender-lh'as talvez por dez ou doze
+contos. Mas espera, accrescentou elle como se uma idéa lhe acudisse
+subitamente, é mais decente, mais elegante mesmo: presenteal-o com esse
+objecto. Ninguem chegou a mais de mil libras, e, para isso, foi
+necessario que encontrasse um inglez que as julgava Benevenuto! Mas
+quando viu que o não era, creio que me não daria nem mais dez libras do
+que o seu pezo. Se elle o attribue a cinzel, bem estamos; deve pelo
+menos avalial-o em vinte contos, portanto, em vinte contos avaliará o
+presente. Não ficarei habilitado a pedir-lhe vinte e cinco ou trinta? Ao
+centro, visconde, e chegarás ao teu fim! E, sem mais reflectir, chamou o
+_groom_ e mandou embrulhar as tres graças em finissima toalha de
+Flandres, ordenando-lhe que as collocasse dentro do _coupé_.
+
+Ao cair da tarde, acompanhadas pelo visconde, as tres filhas de
+Eurynome abandonavam a casa do fidalgo para entrarem de graça em casa de
+Tristão, que bem caro teria de pagar aquella graça.
+
+
+
+
+XIX
+
+
+O hospital da rua de S. Francisco de Paula, em virtude dos esforços do
+visconde de Coruche e da inexgotavel bolsa de Tristão, estava prompto de
+tudo. Sem lisonja, podia chamar-se-lhe um hospital modelo! A boa ordem
+reunida ao aceio e todas as outras condições hygienicas, tornavam
+aquella instituição a melhor do seu genero.
+
+Em Lisboa, Tristão d'Almeida era o assumpto de todas as conversações.
+Todos falavam na sua caridade; todos se assombravam das sommas fabulosas
+que dispendia.
+
+Além do custeamento do hospital, Tristão collocára cincoenta contos de
+réis em metal sonante na burra do seu escriptorio, para serem applicados
+ás familias dos doentes que por ventura alli morressem, deixando por
+unico legado a fome e a saudade.
+
+Além d'estas circumstancias, uma outra havia mais transcendente: era a
+maneira por que a sua familia se dispunha para receber e tractar os
+enfermos.
+
+D. Maria Egypciaca e suas duas filhas, todas tres com a mesma
+equipendencia de valor, eram as encarregadas das enfermarias das
+mulheres.
+
+Tristão e o commendador tomaram entregue das do sexo masculino.
+
+Oito pessoas entraram no dia da abertura. Por mais perigoso que fosse o
+estado de qualquer d'esses individuos, não houve um só que deixasse de
+sentir á cabeceira do leito a voz doce e animadora da mulher de Tristão
+de Almeida, e de suas duas filhas, sobre tudo de Magdalena.
+
+As principaes familias de Lisboa quasi todas desejavam relacionar-se com
+aquelles quatro anjos do bem que vinham de longes terras para descançar
+o seu vôo sobre a cidade agonizante!
+
+Ao encontrar se completamente restabelecido dos ferimentos, Jeronymo
+partira para o hospital afim de se encarregar da sua direcção.
+
+Ás vêzes, na janella do terceiro andar que olhava para o Tejo, via-se
+uma criança loura e formosa como os anjos: era Martha. Entristecida, ora
+parecia buscar n'aquelles horizontes algum objecto que lhe prendia a
+imaginação, ora descia aos salões do hospital, como se procurasse na
+morte a branda paz que a sua alma havia perdido sobre a terra!
+
+Avaliando a immensa distancia que a separava de Manuel de Mendonça,
+Martha havia depositado no mais intimo do coração todos os martyrios que
+a suffocavam! Vira-o pela ultima vez no dia em que seu pae saira do
+hotel.
+
+Manuel dissera-lhe que d'alli a poucos dias iria visitar sua mãe, isto a
+meia voz, sem que Balbina o notasse.
+
+Foi n'esse momento que ella começou a comprehender que lhe não era
+totalmente indifferente. Mas, d'isto tudo o que poderia resultar? Quem
+era Martha, para ser amada por um homem como Manuel de Mendonça, um
+commandante de navios, emquanto ella não era mais do que a filha de um
+operario!
+
+N'esses momentos subiam-lhe á mente mil idéas que a torturavam. Era um
+tumultuar de receios que nem a sua intelligencia tinha forças para
+comprehender, nem o seu coração para os supportar.
+
+Assim foram passando muitos dias, e Manuel sem cumprir a sua promessa.
+
+Tel-a-ia esquecido?
+
+Impossivel! Aquelles olhos não lhe haviam mentido! As ultimas palavras
+que proferira, revelavam bem todo o interesse que ella lhe tinha
+inspirado. Teria adoecido com a febre? Morrido? Não! Morrer tão novo,
+tão anciosamente adorado! Deus não consentiria que elle deixasse este
+mundo sem que Martha lhe houvesse assistido ao derradeiro sopro
+d'aquella vida, que era todo o seu querer, todo o seu pensar, toda a sua
+existencia! Manuel vivia, mas havia a esquecido por outra. Magdalena
+contemplára-o com interesse, n'uma tarde em que se encontraram na
+varanda do hotel! Ainda que Manuel não lhe respondeu ao seu olhar, podia
+tudo isso ter sido um calculo.
+
+«Quem sabe se eu fui um instrumento da sua vontade, fazendo-me suppôr
+que era a mim e só a mim a quem elle amava, emquanto o seu coração
+estava inclinado para a filha de Tristão? pensava Martha. Mas sendo
+assim, tudo poderei descobrir; e se fôr, buscarei a morte como ultimo
+recurso á minha desgraça.»
+
+Immersa n'estas terriveis conjecturas, Martha desceu ás salas do
+hospital.
+
+Já haviam entrado D. Maria Egypciaca e suas filhas.
+
+Notando a profunda pallidez da filha de Jeronymo, as fidalgas, segundo
+Martha lhe chamava, começaram a receiar pela sua saude.
+
+Magdalena foi a primeira a approximar-se-lhe, e beijando a meigamente na
+fronte, pediu lhe por tudo quanto havia que não arriscasse tanto a sua
+saude, perdendo as noites ao lado dos doentes.
+
+Durante todo esse dia, aonde mais intensos reinavam o perigo e a
+afflicção, alli se encontrava Martha!
+
+Quando ao anoitecer a familia de Tristão se preparava para sair do
+hospital, Magdalena insistiu com a filha do operario para que tambem se
+retirasse. Foram inuteis todos os seus esforços. Pretextando que tinha
+de ficar com seu pae, Martha acompanhou-as até á carruagem e voltando
+depois para o terceiro andar, tornou a encostar-se áquella janella onde
+a encontrámos no principio d'este capitulo.
+
+Deixemos a infeliz criança enchugando em silencio as suas primeiras
+lagrimas, e dirijamo-nos ao hotel Bragança.
+
+
+
+
+XX
+
+
+São nove horas da noite. D. Maria Egypciaca, de pé, encostada a um
+bufete, aguarda com palpitante anciedade a volta de seu marido.
+
+Olympia, agitando-se impacientemente pelo salão, contempla de vez em
+quando o mostrador de uma pendula, como implorando aos ponteiros que bem
+depressa lhe marquem a hora da ceia!
+
+Magdalena, reclinada ao parapeito da varanda, fita o astro da noite,
+que, reflectindo-se sobre as aguas do Tejo as cria de um brilho triste e
+melancholico.
+
+--Não te demores ahi á janella, disse D. Maria Egypciaca, voltando-se
+para sua filha. A noite, como vês, começa a arrefecer, e os tempos não
+estão para brincadeiras.
+
+--Não receíe, minha mãe, respondeu Magdalena. Sinto-me aqui tão bem.
+
+--Faze o que quizeres.
+
+--Em todo o caso, se minha mãe está com susto, eu retiro-me, disse
+Magdalena saindo da janella.
+
+--Sabes que já me vae dando algum cuidado esta demora de teu pae. São
+estas horas e elle sem apparecer.
+
+--E é verdade, acudiu rapidamente a filha mais nova. São perto de nove e
+meia. Provavelmente jantou em casa do visconde e não se lembra que o
+esperamos para ceiar.
+
+--Decididamente não pensas n'outra coisa senão em comer, murmurou
+Magdalena sorrindo-se para a irmã. Não sabes que a dieta é o melhor
+preservativo.
+
+--Pois continuem as senhoras com a sua dieta que eu, pela minha parte,
+irei comendo o que me aprouver, respondeu Olympia.
+
+Deram as nove e tres quartos e Tristão sem apparecer.
+
+--Se teu pae se demora mais dez minutos, vou ao hospital, disse D. Maria
+Egypciaca.
+
+--Se o criado se demora mais cinco minutos, vou ao hospital ver se me
+dão alguma coisa de comer, tartamudeou Olympia com visivel inquietação!
+
+Ao terminar estas palavras abriu-se a porta e entrou Tristão acompanhado
+pelo visconde.
+
+--Não me tornes a apparecer tão tarde, disse D. Maria Egypciaca
+voltando-se para o marido. Não sabes os cuidados em que temos estado,
+tanto, eu como as meninas, ajuntou ella, beijando a fronte de seu esposo
+e cumprimentando ao mesmo tempo o visconde.
+
+--Desde que sairam do hospital, não podem suppôr o trabalho que tivemos
+se não fôra Martha...
+
+--Parece uma santa rapariga, disse D. Maria Egypciaca voltando-se para o
+visconde.
+
+--Tal pae, tal filha, minha senhora, respondeu o visconde.
+
+Magdalena córou ligeiramente ao ouvir pronunciar o nome de Martha?
+
+As suspeitas da infeliz, não eram totalmente despidas de fundamento.
+Magdalena vira por duas vezes Manuel de Mendonça quando elle fôra
+visitar o operario. O olhar nobre e varonil do commandante, as suas
+maneiras altivas e ao mesmo tempo insinuantes, tudo concorreu para que
+se tornasse sympathico. Manuel não o havia notado ou, pelo menos fingiu
+ignoral-o.
+
+Orgulhosa em demasia, Magdalena jámais teria descido a declarar-se-lhe.
+Além d'isso, o seu espirito observador fizera-lhe notar que a filha do
+operario não era totalmente indifferente a Manuel de Mendonça. Quanto ao
+que se passava no coração de Martha, era um problema difficil de
+resolver.
+
+Uma tarde em que Magdalena deitava para o Tejo o seu magnifico
+telescopio, viu um escaler com quatro remadores, e um individuo sentado
+á prôa. Reconheceu n'esse homem o mysterioso personagem que lhe
+apparecêra no quarto de Jeronymo! O barco seguia Tejo abaixo. Assestando
+o oculo, seguiu o em todos os movimentos. Por ultimo, abordou a uma
+embarcação que estava fundeada em frente da rocha do Conde de Obidos.
+Manuel saía do escaler e subia para bordo.
+
+Desde essa tarde, Magdalena não perdia ensejo de olhar para aquella
+pequena embarcação, e quando por ventura sabia que Manuel de Mendonça
+estava no quarto do operario, buscava sempre esse momento para o ir ver.
+
+--É de suppôr que ainda não tenha ceiado, meu pae, disse Olympia. A ceia
+deve estar prompta, acho rasoavel que vamos comer alguma coisa.
+
+--Quem havia de ser a primeira a lembrar-se da ceia, respondeu Tristão,
+passando o braço pela cintura de sua filha, e convidando o visconde a
+sair da sala.
+
+Na mesa, esplendidamente adornada pela baixella que Tristão havia
+comprado, sobresaíam as tres netas de Apollo, com que o visconde havia
+presenteado o seu amigo.
+
+[Ilustração:--Vocemecê anda sobre as aguas do mar?... (_pag. 165_)]
+
+--Eis a alegria da meza, disse Tristão voltando-se para o visconde e
+apontando ao mesmo tempo para o magnifico centro.
+
+--O que lhe peço, replicou o visconde, é que me não esteja todos os dias
+envergonhando com esse objecto, que se algum valor teve para mim, foi o
+de agradar a vossa excellencia.
+
+--Não me cançarei de o gabar, continuou Tristão, offerecendo um logar ao
+visconde entre sua esposa e Magdalena.
+
+--Tenho vindo todo caminho a dizer a seu esposo, que deve acceitar o
+titulo que brevemente lhe vae ser offerecido, disse o visconde
+voltando-se para D. Maria Egypciaca. Já tres ou quatro pessoas me
+disseram que el-rei o senhor D. Pedro V, encantado pelos seus serviços,
+tenciona agracial o com um titulo condigno ao seu merito. Sabe o que me
+respondeu? que não queria acceitar coisa alguma; que para recompensa,
+bastava-lhe o prazer que experimentava em ser util á humanidade. Isto á
+luz da philosophia é uma grande verdade, mas para o mundo acho uma
+loucura!
+
+--Sou quasi da opinião de meu marido. Basta que se chame Tristão de
+Almeida. De seus paes herdou esse nome sem a mais pequena macula, é
+razoavel o seu desejo em o querer conservar até ao ultimo momento da
+vida.
+
+--São vossas excellencias da opinião de sua mãe? perguntou o visconde
+dirigindo-se ás filhas de Tristão.
+
+--Pela minha parte é-me totalmente indifferente, respondeu Magdalena.
+
+--E vossa excellencia... accrescentou o visconde voltando-se para
+Olympia.
+
+--Sou da opinião de todos, retrucou Olympia, mastigando o setimo
+croquette.
+
+--Se vossa excellencia resolvesse seu esposo a acceitar o titulo de
+conde, compromettia-me a fazer lavrar a carta regia em menos de um mez.
+
+Ao ouvir pronunciar o titulo de conde, os olhos de Tristão brilharam com
+uma alegria selvagem. Teria dado muito para ser visconde, mas o que elle
+nunca poderia suppôr, era que obtivesse o titulo de conde!
+
+O visconde comprehendeu-o immediatamente.
+
+«Temos homem! pensou elle. O ensejo é favoravel; ha de ser hoje mesmo!
+Está proximo o dia vinte. Se até esse praso não levanto dinheiro, a
+ruina é certa! Vão salvar-me as tres graças e o titulo de conde.»
+
+A ceia correu animadissima! D. Maria Egypciaca, julgando-se condessa,
+pensava de ante-mão na gloria que esse titulo lhe ia proporcionar.
+Desentranhando do amago do seu bestunto todos os nomes de terras mais
+harmoniosos que tinha ouvido, escolhia de entre esses o que mais
+euphonico lhe parecia.
+
+Tristão, apezar de toda a sua serenidade, olhava ora para a mulher ora
+para as filhas, como que desejando que a conversação continuasse sobre o
+mesmo assumpto.
+
+Olympia continuava a comer desafrontadamente, sem cuidar na gloria que
+se lhe preparava!
+
+Uma pessoa apenas parecia indifferente ao titulo e á ceia, era
+Magdalena.
+
+A pobre sonhava a felicidade entre o mar e o céu! A sua ventura estava
+n'aquella barca, para onde ella ao cair da tarde extendia seus olhares
+entristecidos pelo labutar de uma eterna recordação.
+
+ * * * * *
+
+Quem d'alli a duas horas tivesse entrado na sala occupada por Tristão,
+teria visto o seguinte: D. Maria Egypciaca em profunda meditação,
+folheando um livro que mandára comprar, cujo titulo era _Resenha das
+Familias de Portugal_.
+
+Olympia reclinada n'um sophá fazendo o chylo, e resonando profundamente.
+
+Magdalena encostada á janella contemplando as estrellas que se
+reflectiam sobre as aguas do Tejo.
+
+E quem, movido de imperdoavel curiosidade, tivesse seguido o visconde e
+Tristão de Almeida até ao patamar da escada, teria ouvido este ultimo
+dizer em voz baixa ao visconde:
+
+--Sendo tres horas da tarde, poderá ir receber os trinta contos de réis
+a casa de Vaz Mendes, e se por ventura se vir n'algum outro apuro, peço
+lhe encarecidamente que se lembre de mim.
+
+--Ha de ser com uma condição, respondia lhe o visconde.
+
+--Qual?
+
+--Acceitar o titulo de conde.
+
+--Acceito.
+
+
+
+
+XXI
+
+
+No dia seguinte áquelle em que praticâmos a indiscrição de fazer com que
+o leitor tambem escutasse as ultimas palavras trocadas entre Tristão de
+Almeida e o visconde de Coruche, achava se este, antes do meio dia,
+assentado á secretaria do seu escriptorio, chamando todos os criados, e
+ordenando a cada um que lhe apresentasse as suas contas.
+
+Os moços estavam como que assombrados! Nenhum podia acreditar que elle
+estivesse habilitado a falar d'aquelle modo. Todos sabiam o estado da
+sua casa, e a unica esperança que lhes restava, eram as promessas de um
+agiota a quem tencionavam vender as dividas.
+
+--Aquillo foi obra de jogo, dizia o cocheiro, refinado velhaco, a quem o
+visconde havia arrancado á miseria.
+
+--Ora, saude! acudiu o trintanario, quem caiu d'ahi abaixo! Quem lhe
+havia de dar dinheiro para fazer jogo? Ainda não ha muitos dias que elle
+perdeu cincoenta moedas, e, a respeito de pagal-as, _xó rôlla_.
+
+--Dê-me elle o que me deve, o mais tanto se me dá como se me deu! Venha
+o _baguinho_, e tanto m'importa que fosse ganho ao jogo, como achado,
+como roubado!
+
+--O mesmo digo eu, mestre Domingos, interrompeu o criado de quarto.
+Tomára eu sempre que elle estivesse muito endinheirado. Ha lá melhor
+patrão! Já o viram olhar para alguma conta? Mais ainda; quando lhe
+apresentavamos os roes, e que elle tinha dinheiro na gaveta da
+secretaria preta, quantas vezes me dizia: Põe lá a conta e tira o
+dinheiro. Patrões assim, agarral-os é que custa.
+
+--Pois sim, tudo isso é uma grande verdade, mas, o que é certo, é que
+está aqui está sem vintem, disse judiciosamente o cosinheiro.
+
+--Isso é lá com elle, mas quem te diz a ti que esse individuo a quem deu
+os bonecos de prata...
+
+--O quê?
+
+--Lhe tenha emprestado algum dinheiro.
+
+--Anda cá dinheiro, que te quero ver. Tambem tu vives de caretas? Lá que
+elle tenha querido encostar o homem, não me admira, mas que o brazileiro
+caisse ao tiro... essa é que não pega.
+
+--Que elle está muito contente, é que não ha duvida.
+
+--Já tem o _bago_ na mão, hein? Ora adeus? Se o tivesse, a estas horas
+ninguem o aturava.
+
+--Não sei falar n'essas coisas. Venham os soberanos e o mais tanto se me
+dá que a agua corra para baixo como para cima!
+
+--O que parece impossivel é que vossês estejam aqui n'este conluio,
+murmurando de um senhor que os trata como sua excellencia, disse um
+velho de perto de setenta annos que acabava de entrar. Aqui estou eu, a
+quem elle deve mais do que a vossês todos juntos, e ainda não abri bico
+contra elle.
+
+--E o que tem vossemecê com o que nós estavamos falando? disse o
+cocheiro approximando-se do ancião.
+
+--Se lhe parece, bata-me, tartamudeou o velho, encostando-se serenamente
+a um aparador. Se o sr. visconde souber o que se passou, podem ter a
+certeza que vae tudo para o meio da rua.
+
+--E quem lh'o _havera_ de dizer? acudiu um moço de cavallariça.
+
+--Eu! Não serei capaz de lhe contar tudo, _tim tim, por tim tim_?
+
+--Eu perca a minha liberdade, se vossemecê tornasse a comer mais pão.
+
+--Pensa talvez que me assusta com as suas fadistices? Meu amigo, tenho
+perto de setenta annos, mas, frangãos assim, para os depennar basta-me a
+mão esquerda.
+
+--Está bom, está bom! Leva de rumor! acudiu o cosinheiro. Quem quizer
+fazer _banzê_, vá para o meio do pateo, que não é este o logar para dize
+tu direi eu. E demais aquelle senhor tem toda a razão, ajuntou elle
+olhando para o velho. É o mordomo do sr. visconde, conheceu-o de criança
+e não gosta de ver o seu amo offendido. Nada mais natural do que tomar
+as palhinhas por elle.
+
+--Entre vossemecê tambem, se lhe parece, ajuntou o cocheiro, tomando o
+partido do moço da cavallariça.
+
+--Olhe, meu amigo, disse o cosinheiro, dirigindo-se ao cocheiro, commigo
+não faz vossê vasa. Cá por mim, não lhe digo quantos annos tenho, mas se
+me faz chegar a mostrada ao nariz, desabo-lhe d'aqui com esta mão de
+vacca que fica sem saber da cara por tres dias.
+
+N'este comenos ouviu-se a campainha do escriptorio. Era o visconde que
+mandava chamar o mordomo.
+
+--Vossa excellencia mandou-me chamar? disse o mordomo ao entrar no
+escriptorio.
+
+--Mandei, respondeu o visconde. Dei ordem a todos os criados para que
+apresentassem as suas contas. Toma-as a cada de um de per si; bem sabes
+que não me chama Deus para esses caminhos. É preciso tambem tomar conta
+dos credores mais teimosos para se lhes dar alguma coisa por conta.
+Comprehendes?
+
+--Perfeitamente.
+
+--Lembra-te de gratificares os criados, pobres diabos! Não te parece?
+
+--Eu dava lhes, mas era com um pau, sr. visconde. Não ha maior cafila do
+que são os criados d'este tempo.
+
+--Porque dizes tu isso?
+
+--Tenho os meus motivos. Isso fica para mais tarde. Não imagina o prazer
+que terei se vossa excellencia se pozer em dia com toda esta gente.
+
+--Bem, podes retirar-te.
+
+D'alli a uma hora, dirigia-se o visconde para o escriptorio de Vaz
+Mendes onde Tristão de Almeida havia mandado ordem pela manhã para que
+entregasse trinta contos de réis ao visconde de Coruche.
+
+ * * * * *
+
+ * * * * *
+
+--E para que é todo este dinheiro, sr. visconde? perguntou-lhe o
+banqueiro, lendo-se-lhe nos olhos a inveja e a cobiça. É para algum
+outro hospital aonde os meus serviços estão dispensados?
+
+--É para a infancia desvalida, respondeu o visconde, mettendo
+n'algibeira--sem os contar--os maços de notas que recebêra da mão de Vaz
+Mendes.
+
+--Repare vossa excellencia que não contou esse dinheiro, ponderou-lhe o
+usurario.
+
+--Nunca contei dinheiro; para esse fim lá tenho em casa um criado que
+não faz outra coisa, respondeu altivamente o visconde de Coruche.
+
+Pondo insolentemente o chapéu, o fidalgo cortejou o banqueiro e
+retirou-se para casa.
+
+--Salvo! exclamou o visconde, extendendo se commodamente n'um sophá.
+Falta agora o titulo, ajuntou elle olhando ao mesmo tempo para um
+magnifico charuto havano, cujo fumo subindo em espiral inundou os
+aposentos de um perfume doce e innebriante!
+
+
+
+
+XXII
+
+
+«Fortes nescios, que idéa formam de mim! O visconde imagina que sou
+algum minhoto, que foi d'aqui para o Rio de Janeiro varrer o escriptorio
+do patrão, e que por uma fórma ou outra, adquiri a riqueza que hoje
+possuo.
+
+«Se elle soubesse que fôra o commendador Felix Justino de Araujo quem
+lhe havia emprestado os trinta contos de réis.
+
+«Como a sorte me favoreceu em tudo! continuava elle, passeando ao mesmo
+tempo pelo seu gabinete. Emprestei-lhe trinta contos, e é possivel que
+nunca mais os torne a ver, mas, quanto vale aquelle magnifico centro de
+Benevenuto? Quarenta contos talvez. E dizem que um filho da Grã-Bretanha
+veiu expressamente a Lisboa para lh'o comprar, e se retirou deixando-o
+aqui. O archeologo tinha bebido muito n'esse dia!
+
+«Não lhe descobriria elle a assignatura? O visconde deve estar
+satisfeito de me ter logrado! Como elle dirá de si para si: presenteei-o
+com um objecto que vale mil libras, acenei-lhe com um titulo de conde e
+o tezo caiu no laço!
+
+«Eu poderia prescindir perfeitamente d'esse titulo. Para que quero eu um
+titulo? só se fôr, para satisfazer os caprichos da Maria. O que já me
+vae aborrecendo alguma coisa é o tal hospicio. Ainda que nunca houve
+molestia que sympathizasse com a minha pessoa, póde apparecer alguma, e
+ter o mau senso de me levar d'esta para melhor. Parece-me que vou dar
+parte de doente.
+
+«Agora me recordo, ajuntou elle. Quem demonio seria aquella mulher que
+veiu hoje procurar o Jeronymo! Pareceu-me reconhecer as feições. Se não
+tivesse a certeza que D. Marianna de Mendonça tinha morrido doida no
+hospital de S. José, havia de dizer que era essa velha. Que similhança,
+meu Deus! E se fosse ella? Se ainda vivesse? Ora adeus! Se eu fôr a
+devolver tudo quanto d'aqui levei... Nada... os tempos não estão para
+graças. Se Domingos de Andrade não houvesse tido juizo em Pernambuco,
+que teria sido do commendador Felix Justino de Araujo, que passou a ser
+Tristão de Almeida emquanto se não chamar o conde de... O conde de quê?
+do que elles quizerem ou do que minha mulher escolher.
+
+«Agora por isso, não tenho mais remedio senão comprar alguma propriedade
+de grande valor. Vou tractar d'isso para a semana que vem. Encarrego o
+visconde de me arranjar um palacio em Lisboa e uma quinta nos suburbios.
+Está decidido, sympathizei com aquelle estroina. Parece-me que o estou a
+ver na casa branca da rua do Arco de Bandeira! Era um verdadeiro
+demonio, aquelle visconde! Ainda não vi homem mais intrepido ao jogo!
+Agora por jogo, não tardará muito que principiem a fazer todas as
+diligencias para me _apanharem_. Vêem bem!
+
+N'este momento abriu se a porta, e entrou um criado annunciando o
+visconde de Coruche.
+
+--Que entre, que entre o meu caro visconde, disse Tristão.
+
+O fidalgo não se fez demorar.
+
+--Quanto folgo em tel-o encontrado, disse o visconde extendendo a mão
+para o seu amigo. Estive hontem no gremio, e durante a noite não se
+falou senão em vossa excellencia. O conselheiro Poderosa, que appareceu
+lá á saida do theatro, disse-me confidencialmente que seria o
+encarregado por sua magestade de lhe perguntar que nome escolhia para o
+titulo de conde, que brevemente lhe ia ser offerecido. Estive hontem
+mesmo para lh'o vir participar.
+
+--Dá-me sempre um grande prazer a sua companhia mas para um caso
+d'esses, seria desnecessario.
+
+--Vejo pela sua indifferença que ainda insiste, apezar da promessa, em
+não acceitar o titulo! Deixe-se d'isso, meu amigo, um titulo é sempre
+util; e muito util.
+
+--Façam os meus amigos tudo quanto lhes aprouver; sujeitar-me-hei ao que
+fôr do seu agrado.
+
+--Não vê o meu amigo, que esse titulo que lhe vae ser concedido, não é
+favor mas sim uma retribuição honorifica pelo muito do que este paiz lhe
+é devedor? Diga-me uma coisa, teria vossa excellencia valor de recusar
+um habito que o general lhe collocasse ao peito, se vossa excellencia se
+tivesse distinguido n'uma batalha? Creio que não. O mesmo se dá n'este
+caso. Não está vossa excellencia arriscando a sua vida e a de toda a sua
+familia? Parece-lhe immerecida essa recompensa? Pode alguem lançar-lhe
+em rosto a injustiça da mercê? Quem teria o descaro de lhe contestar
+esse direito? Ninguem, absolutamente ninguem!
+
+--Isso lá é verdade. Que eu tenho arriscado a minha vida e de toda a
+minha familia, não merece duvida alguma.
+
+--Então, meu amigo, attendendo a todas essas circumstancias, não falemos
+mais n'isso, e deixe correr o negocio.
+
+--Vá feito, vá feito! gargalhou Tristão de Almeida.
+
+--Tem hoje muito que fazer, sr. Tristão?
+
+--O que sabe: ir ao hospital.
+
+--E depois?
+
+--Depois mais nada.
+
+--Dá-me a honra de ir jantar a minha casa?
+
+--Com muito gosto a receberei.
+
+--Vão lá uns amigos a quem desejo apresental-o.
+
+--Fique certo.
+
+--Então ás cinco?
+
+--Conte commigo.
+
+--Peço-lhe encarecidamente que não falte, accrescentou o visconde n'um
+cerrado _shake-hands_, e saindo do gabinete.
+
+«Trata-se de me _apanharem_ ao jogo, pensou Tristão. Veremos quem fica
+logrado, accrescentou elle extendendo-se sobre um sophá.»
+
+
+
+
+XXIII
+
+
+Emquanto o visconde de Coruche ordena aos seus criados que lhe preparem
+um lauto jantar, dirijamo-nos á Rua do Meio, a casa de Jeronymo.
+
+São tres horas da tarde. O operario, á mesa do jantar, entre Marianna e
+sua mulher, olha de vez em quando para a vidraça, como para ver se ainda
+continúa a chuva.
+
+Na face pallida de Balbina, desenha-se-lhe o soffrimento. Marianna
+parece acompanhal a nas suas tristes meditações.
+
+--Vossês não me dirão o que têem? murmurou Jeronymo. Quando a nossa vida
+se apresenta debaixo dos melhores auspicios, é que principiam a
+entristecer? O mesmo notei em Martha. Antigamente, era sempre alegre e
+jovial, agora, custa os dias da vida, primeiro que se lhe arranque um ar
+de riso. Valha-nos Deus! Não ha felicidade completa.
+
+--Isso é uma desconfiança tua, respondeu Balbina.
+
+--A mim não me enganam vossês, replicou Jeronymo, levando aos labios um
+copo de vinho. Pela minha parte, ando cá como o outro que diz, meio
+desconfiado de uma coisa. Permitta Deus que me engane, ajuntou elle,
+voltando-se para a tia Marianna, que dirigira um olhar significativo á
+esposa do operario.
+
+--E de que estás desconfiado, Jeronymo? accudiu Balbina, voltando se
+para seu marido.
+
+--Se eu não desabafasse com vossês, que são a minha familia, com quem
+havia de fazel o? Creio que não era com a tia Monica ou outras
+quejandas! Lá vae. Ando desconfiado, como ha pouco lhes dizia que a
+nossa Martha está assim meia apaixonada pelo sr. Manuel. Isto foi uma
+pancada que me deu o coração; talvez que não passe de um máu juizo. Mas
+o que é certo, é que nunca mais lhe tenho visto brilhar os olhos de
+alegria, senão duas ou tres vezes que esteve defronte d'elle. Lá isso é
+que ninguem me póde negar.
+
+--Pois uma vez que foste tu o primeiro a falar sobre isso, pergunta
+agora á tia Marianna o que estavamos dizendo quando tu entraste,
+respondeu Balbina, olhando ao mesmo tempo para a sua amiga.
+
+--Ha mais de oito dias que andamos a pensar n'isso, disse a tia Marianna
+voltando se para o operario.
+
+--Valha nos Deus, Balbina! E como havemos de impedil-o?
+
+--Não sei, respondeu Balbina, profundamente entristecida. Sabes o que me
+disse a tia Marianna? accrescentou ella. Que o sr. Manuel era por força
+um homem muito de bem; bastava ver a maneira como elle se portou com a
+nossa filha.
+
+--Tudo isso é uma grande verdade, Balbina, mas, em qualquer dos casos é
+sempre uma infelicidade. O coração de Martha é... nem eu mesmo sei a que
+o compare. É uma especie d'estas fasquias que a mais pequena aragem as
+dobra, mas se lá vem um tufão... ficam logo quebradas pelo meio. Além
+d'isso, ella bem conhece a distancia que a separa do sr. Manuel, e é
+capaz como o outro que diz de afogar em si tudo quanto está soffrendo.
+
+--Sou da sua opinião, sr. Jeronymo; Martha é um anjo, e será capaz de
+morrer, confiando apenas a Deus o segredo que a assassina!
+
+--Eu só o que desejava saber era a maneira de nos encaminharmos em tudo
+isto, continuou Jeronymo levantando-se da mesa.
+
+--A sr.ª Marianna que nos aconselhe, que é mais velha e tem mais mundo
+do que qualquer de nós, acudiu Balbina dirigindo-se á sua amiga e
+companheira.
+
+--Que lhes poderei eu aconselhar, meus bons amigos? respondeu a tia
+Marianna. Se esse individuo é um homem de bem como eu supponho, e se
+Martha lhe não foi indifferente, é de crêr que mais dia menos dia o
+possamos tornar a ver, e, n'esse caso estarei muito prompta a falar-lhe.
+Não lhe vejo outro remedio, sr. Jeronymo. Prouvera a Deus que fosse hoje
+o dia. Quanto ao que vossemecê diz, que uma grande distancia os separa,
+não me parece. Não póde elle ser como Martha, um filho do povo? E sendo
+assim, não vejo desegualdade de pessoas.
+
+--E se o não fôr? perguntou Jeronymo. Se fôr um fidalgo, um ricasso...
+
+--Torno a repetir-lhe, respondeu Marianna, homem de bem é que eu tenho a
+certeza que elle é. E a prova foi não ter tornado a apparecer.
+
+--Isso lá é que é a pura da verdade, acudiu Balbina. Tinha trezentos
+meios para a ter visto.
+
+N'este momento, parou um trem á porta do operario. Eram as filhas de
+Tristão que vinham trazer a casa a sua amiga.
+
+--Forte delambida! dizia a tia Monica voltando-se para uma visinha,
+quando Martha se apeava do trem.
+
+--Deixe estar, respondia-lhe a visinha, mais dia menos dia, verá aonde
+aquillo vae parar.
+
+--Ainda bem que já lhe fiz a cama, quando o outro dia me vieram pedir
+informações a seu respeito.
+
+--Não sabia d'isso, visinha, não me tinha dito... Quem foi?
+
+--Era um homem que me pareceu assim do trato do mar.
+
+--Desde que se meteu com as fidalgas já não póde andar se não de trem.
+Saffa, demonio! E não tem medo das más linguas....
+
+--Nem da colera do Senhor, tia Monica, respondia-lhe a visinha,
+mettendo-se para dentro de casa como se os seus olhos invejosos não
+podessem resistir ao olhar candido e celeste de Martha, o anjo dos
+tristes.
+
+Despedindo-se das filhas de Tristão, Martha entrou em sua casa.
+
+Vinha excessivamente pallida. Uma breve mancha azulada, partindo das
+palpebras inferiores até ás proeminencias malares, tornavam-lhe mais
+scismadores os seus olhos esplendidamente bellos! Dir-se-hia que se
+tinha levantado de uma grande enfermidade. O busto, ligeiramente
+inclinado, dava-lhe aspecto de profunda melancolia.
+
+A Jeronymo arrasaram-se-lhe os olhos de lagrimas.
+
+--Que tem, meu pae? perguntou Martha, approximando-se e beijando-o
+ternamente na fronte.
+
+--Que tenho, filha?! Que hei de ter! Dia a dia te vejo mais triste, e
+ainda perguntas o que tenho? Saudades da tua alegria, dos teus olhos;
+onde estão as rosas d'essas faces, que eram a inveja das tuas
+companheiras de collegio? Onde estão emfim os teus sorrisos, que eram a
+minha ventura? Pensas que só eu tenho notado a tua tristeza, ha oito
+dias a esta parte? Enganas-te. Já tua mãe a percebeu e a tia Marianna, e
+todos, até o teu cão! para quem já não tens um só carinho. Dize-me o que
+sentes, filha, e se eu, ou tua mãe n'alguma coisa te podemos valer, sê
+franca, Martha. Quem melhor do que teus paes poderão saber os teus
+segredos? Martha, lembra-te que és a unica alegria que eu e tua pobre
+mãe temos n'esta vida. Se és boa, como te creio e como todos te
+consideram, abre-me o teu coração, não me occultes coisa alguma. Vem,
+filha; deposita no meu peito todos os segredos que te obrigam a olhar
+para a terra para onde eu não quero que te deixes ir.
+
+Pobre Jeronymo! A dôr tornara-o eloquente! Balbina e a tia Marianna
+tinham se afastado para occultarem as lagrimas.
+
+Apenas Martha se conservava serena como a estatua da resignação.
+
+--Que me respondes, Martha? continuava o operario.
+
+--Que lhe posso eu responder meu pae.
+
+--Senta-te aqui nos meus joelhos, accrescentou Jeronymo, apertando a
+cintura da filha e approximando-a para si. Vou contar te uma historia.
+
+«Um dia, um pobre operario, que tinha por unica familia sua mulher e sua
+filha, ao sair do trabalho foi atropellado por um trem. Levaram-n'o em
+seguida para uma grande hospedaria aonde foi caridosamente tratado, sem
+lhe faltar coisa alguma a não ser a sua familia que ignorava aonde elle
+estivesse. As horas passavam, passavam, e elle sem apparecer. Então a
+filha, pondo o capote aos hombros, saiu de casa, procurando o pae como
+uma louca.
+
+«Pessoa alguma lhe dava relação d'elle. A triste desanimára!
+
+«Finalmente encontrou um individuo moço, bello, virtuoso. Esse
+prometteu-lhe procurar seu pae! A infeliz respirou! D'ahi a duas horas o
+desconhecido dizia-lhe aonde elle estava.
+
+«Grata a esta primeira prova de dedicação, a filha do operario
+principiou a amal-o em silencio!
+
+--Não me fale n'isso, meu pae, interrompeu Martha, tentando
+desembaraçar-se dos braços de Jeronymo.
+
+«Depois, proseguiu o operario prendendo-a cada vez mais ao coração, essa
+criança cheia de ternura, continuou a amar esse homem, sem confiar a
+pessoa alguma o afecto que a consumia, e hoje, Martha, hoje... está como
+tu, pallida, triste, adoentada, e seu pae como um louco por a vêr
+assim.»
+
+--Ahi tens a historia, ajuntou elle largando a dos braços e fitando a
+com os olhos cheios de lagrimas.
+
+Martha não proferiu uma palavra.
+
+--Não me illudas, filha, esse homem é amado por ti.
+
+--Esse homem, balbuciou Martha, é amado pela filha do nosso protector!
+Hoje mesmo a encontrei olhando para a sua galera, ajuntou ella, caindo
+desanimada nos braços de seu pae.
+
+
+
+
+XXIV
+
+
+--Aposto a minha cabeça em como o visconde ha-de ser tão nescio que se
+não lembre de arranjar um montesinho antes da ceia.
+
+--Se o não fizer alguns motivos tem para isso. Por tolo, não é, decerto.
+
+--Tambem, se queres que te diga a verdade, não lhe encontro grande
+esperteza. Já lá vão duas heranças importantissimas, e ambas tiveram o
+mesmo fim. Se isto é ser esperto, está o mundo cheio de espertalhões!
+
+--Sabes o que eu chamo ser esperto, é saber lavar a sua roupa em
+familia, como diz o dictado. De quantas lagrimas não lhe tem sido
+testemunha o seu travesseiro? Vê tu, se já alguem deixou de lhe
+encontrar o mesmo sorriso? Dizem todos: o visconde está arruinado, é
+impossivel que possa aguentar por mais tempo aquella opulencia, em menos
+de um anno hão-de vel-o miseravel, porém desde que morreu o conde, não
+abandonou o seu palacio, ainda não despediu um criado, ainda não vendeu
+um cavallo, ainda não deixou de dar almoços, jantares e ceias! Está
+arruinado: tão arruinado que não ha muitos dias deu um presente, que
+valia mil libras. Quem dá um presente de mil libras não póde estar
+pobre.
+
+--Isso leva agua no bico!...
+
+--E que importa? O que não ha duvida, é que pessoa alguma seria capaz de
+fazer o que elle tem feito.
+
+--Eu tambem não lhe contesto o seu cavalheirismo.
+
+--E o que lhe tem custado as mulheres e o jogo? Tomára eu ter o dinheiro
+que lhe ganhei ha uns vinte annos, quando estive associado com um grande
+espertalhão que havia em Lisboa, chamado Felix de Araujo.
+
+--Felix de Araujo? Não me recordo.
+
+--Um vivo demonio, que fez tudo quanto lhe pareceu em Lisboa, acabando
+por ter uma casa commercial.
+
+--Ai, ai, agora me lembro. Por signal que roubou uma senhora, a casa de
+quem ia muitas vezes! A pobresinha foi acabar os seus dias no hospital
+de S. José. Já sei. Era um tratante de marca maior, que fez a desgraça
+de muita gente. Nunca mais se soube d'elle?
+
+--Disseram-me que tinha morrido envenenado na Costa d'Africa. Que a
+terra lhe seja leve, que eu, assim como assim, não tenho razão de queixa
+da sua pessoa; basta lembrar-me que o pouco que sei a elle lh'o devo.
+
+--O pouco que sabe! Se eu soubesse metade...
+
+--Aquillo é que eram mãos! Aquillo é que era dar um _salto_ com limpeza,
+sem que o baralho desse o mais pequeno estallido! E trabalhar com cinco
+dados! e _tirar_ ao pegote!
+
+--É verdade, é verdade! A ultima vez que joguei com elle foi em casa do
+barão. Por tal signal que me roubou quatorze notas de dez moedas á banca
+portugueza.
+
+--Se aquelle homem não tivesse morrido, com a audacia que possuia, ainda
+tinha voltado a Portugal...
+
+--O que estará fazendo o visconde?
+
+--Como não usa de cerimonia para comnosco, provavelmente dá as suas
+ordens para que tudo se faça segundo os seus desejos.
+
+Passava-se este dialogo entre Gil de Carvalho e Bernardo de Paiva.
+
+O primeiro, era um jogador de profissão e refinado velhaco, ao qual
+todas as portas se abriam por um d'esses desleixos imperdoaveis que é
+susceptivel em toda a sociedade de grandes capitaes.
+
+Relacionando-se com os individuos que frequentavam certa sociedade onde
+o jogo era permittido por distracção, Gil de Carvalho introduziu se nos
+principaes salões de Lisboa.
+
+Ninguem sabia a sua procedencia! As suas maneiras quasi sempre
+delicadas, resentiam-se comtudo da primitiva educação!
+
+Gil teria uns sessenta annos. A sua fortuna era um mytho. Uns diziam que
+estava pobre; outros, calculando pelo que havia roubado ao jogo,
+attribuiam lhe riquezas enormes.
+
+Bernardo de Paiva era um homem pouco mais ou menos da edade do seu
+interlocutor. Herdára de seus paes uns vinte ou trinta contos de réis e
+dissipára-os immediatamente em mil loucuras, sendo a principal o jogo,
+que ainda hoje o dominava com poder immenso!
+
+Bernardo descendia em linha recta de uma das mais distinctas familias de
+Olhão. Aparentado com muitos individuos de Lisboa, Bernardo com mais
+algum direito do que Gil de Carvalho, tinha entrada em todas as casas.
+Ao contrario de Gil, a sua physionomia era sympathica e insinuante.
+
+Jantar onde elle estivesse, corria sempre alegre e animado. Além do seu
+vivíssimo _esprit_, tinha outra qualidade que o tornava estimado em
+todos os circulos: não dizia mal de ninguem. A sua bocca era sagrada,
+como judiciosamente affirmava o mordomo do visconde de Coruche.
+
+Quando Gil e Bernardo de Paiva se dirigiram para uma saccada que olhava
+para o pateo, onde se ouviu o rodar de um trem, correu-se um dos
+reposteiros e appareceu o visconde.
+
+--Peço-lhes que me desculpem esta demora, mas não me foi possivel
+evital-a. Adoeceu de repente o meu mordomo, tenho de o substituir.
+
+--Pela minha parte estás desculpado, disse Bernardo de Paiva,
+sorrindo-se para o visconde.
+
+--Repito o mesmo, acudiu Gil.
+
+--Não adivinhas, de quem estamos falando? disse Bernardo dirigindo se ao
+visconde.
+
+--N'aquelle mariola de Felix Justino de Araujo, accrescentou Gil de
+Carvalho.
+
+--Não me recordo respondeu o visconde com modo distrahido.
+
+--Ora essa! exclamou Bernardo. O commendador Araujo que ia á _Casa
+Branca_, do Arco do Bandeira.
+
+--Ah! Já sei, respondeu o visconde.
+
+--Sabes quem eu acho muito parecido com elle, e só agora foi que me
+lembrou...
+
+--Quem?...
+
+--O teu amigo Tristão d'Almeida.
+
+--E é verdade, respondeu o visconde. Bem me parecia a mim que já tinha
+visto n'alguma parte uma physionomia que se lhe assimilhasse.
+
+--É um homem muito sympathico aquelle seu amigo, interrompeu Gil de
+Carvalho.
+
+--Aonde o viu? perguntou o visconde.
+
+--Ha dias, no gremio, aonde me foi apresentado. A proposito, sabe se
+elle joga?
+
+--Duvido, respondeu o visconde. Nem me convinha por modo algum que se
+jogasse em minha casa, accrescentou elle, que tudo havia planeado para
+esse fim.
+
+--E se elle pedisse? perguntou Gil, tentando ainda profundar-lhe o
+pensamento.
+
+--Isso então era differente. O meu dever é tornar-me sempre amavel para
+com as pessoas que me dão a honra da sua companhia.
+
+--Sou da tua opinião, disse Bernardo de Paiva, que lia no mais intimo da
+alma do visconde.
+
+N'este momento ouviram-se duas badaladas na sineta da loja, e d'alli a
+pouco entrou um criado de libré, annunciando Tristão d'Almeida.
+
+ * * * * *
+
+--Venho aqui pura e simplesmente para lhe provar o desejo que tenho de
+estar na sua companhia, disse Tristão, depois de falar ao visconde e aos
+seus amigos. Se não fôra isso teria ficado de cama.
+
+--Mas que teve, meu amigo? perguntou rapidamente o visconde.
+
+--Quanto póde imaginar de mais infernal! Todos os symptomas que
+apresenta a epidemia. Sabe o que fiz? tomei um _grog_ e fui para o
+hospital.
+
+--Que valor! interrompeu o visconde.
+
+--Quando alli cheguei, continuou Tristão, augmentaram-se-me os
+padecimentos. Querem saber os resultados? Vão admirar-se da força da
+minha vontade. Fui receber um doente, que pouco tempo depois me expirou
+nos braços. Aquella rapida transposição da vida para a morte, aquelle
+instante incalculavel que medeia entre o ser e o nada, entre a vontade e
+abstracção, longe de aterrar, robusteceu-me o espirito e, escudado pela
+confiança em um mundo melhor e mais perfeito, reanimou-me a ponto de me
+sentir completamente restabelecido.
+
+--É mais uma prova da sua religião, meu caro amigo, interrompeu Bernardo
+de Paiva. Os que se aterram em presença do moribundo e na observação do
+cadaver, é porque receiam o desconhecido! Os que se baseiam nos
+preconceitos do vulgo, apegando se á vida, e receiando a morte, que,
+segundo as suas crenças, os colloca em contacto com a Divindade, não são
+mais que uns miseraveis, uns vermes que vivem e rastejam para a sua e
+nossa deshonra! A morte, para todo o homem de intelligencia clara e
+illustrada, não é mais que o principio de uma vida infinita.
+
+Espiritos pobres e tacanhos que se lamentam a cada segundo, dizendo que
+lhes peza a vida, empallidecem quando a morte de longe lhes acena com as
+suas azas, brancas para elles que sopezam constantemente a desgraça nas
+suas longas noites de interminavel soffrimento.
+
+Receiam morrer! Elles que deviam tomar a existencia com um eterno
+castigo! Que melhor somno para o desgraçado do que o da morte, dormido
+sob a lousa! Preferem o bulicio da vida á paz do eterno repouso, o
+andrajo ao sudario, a fome á anniquilação!
+
+--Isso é uma grande verdade, mas a maior parte do mundo não pensa como
+vossa excelencia, respondeu Tristão. Duas ou tres vezes tenho visto a
+morte deante de mim, e nunca me atemorizou! Tenho a minha consciencia
+bastante socegada para me apresentar deante de Deus! Não receio o seu
+julgamento. Diziam-me em Buenos-Ayres que era um homem de um valor
+desmedido, emquanto eu não passava de um pobre diabo a quem os peccados
+não perseguiam na existencia, porque nunca os havia procurado. Digo
+procurado, porque o homem, a maior parte das vezes, pecca mais por
+vaidade do que por instincto. Tenho umas theorias, falsas talvez para o
+seculo em que vivemos, mas que apezar de tudo não desprezo. Deus que fez
+o homem á sua similhança, ao lançal-o ao mundo, revestiu-o de bons
+instinctos, porém, a sociedade envenenando-lhe o coração, insinuou-o no
+crime e apresentou-lh'o atravez de um prisma seductor. Então os seus
+olhos fascinaram-se, a vontade esmoreceu-lhe, e o coração propenso
+sempre a ser dominado ao primeiro impulso, extraviou-se da razão e
+lançou-se cego e inexperiente n'esse dedalo artificioso a que a
+humanidade nos arrasta! Satanaz ri-se, mas Deus, que tudo perdôa, espera
+o momento supremo para indultar o peccador e á humanidade que o
+perverteu! Esta é a minha opinião.
+
+--Sabem quem hontem ganhou trezentas e tantas moedas? interrompeu Gil de
+Carvalho voltando-se para o visconde. Aquillo é que foi sorte,
+accrescentou elle, sem notar o espanto que a sua interrupção havia
+produzido nos circumstantes. Fez um circo, depois outro, depois outro, e
+bumba, lambeu tudo quanto havia sobre a banca.
+
+--Mas a que proposito vem isso, sr. Gil de Carvalho? perguntou o
+visconde, emquanto Tristão de Almeida o contemplava com simulado
+espanto.
+
+--Isto veiu a proposito... d'aquillo em que eu estava pensando,
+respondeu Gil de Carvalho tornando a cahir no mesmo estado de profunda
+reflexão.
+
+--Excentricidade do nosso amigo Gil, acudiu Bernardo de Paiva, olhando
+intelligentemente para o visconde.
+
+O magnate conservava-se frio e sereno como um _yankee_, entre os quaes
+largos annos havia habitado.
+
+--Gosta de jogar? perguntou Gil de Carvalho voltando-se para Tristão.
+
+O visconde e Bernardo estremeceram de raiva.
+
+--É uma coisa que ás vezes me diverte, respondeu-lhe Tristão. Não
+admitto o jogo por vicio, mas, assim de vez emquando, depois de um
+jantar ou de uma ceia, encontro-lhe alguma distracção, ainda que as
+poucas vezes que tenho jogado tem sido quasi sempre com uma infelicidade
+extraordinaria! A ultima foi em França, aonde perdi n'uma só noite
+duzentos mil francos. O divertimento foi caro, é verdade, mas
+distrahi-me.
+
+Ao ouvir estas palavras, os olhos de Gil de Carvalho brilharam de
+visivel alegria. Tinha as suas esperanças realizadas!
+
+O visconde nem pestanejou!
+
+Assim estiveram conversando sobre varios assumptos até que appareceram
+todos os individuos que o visconde havia convidado.
+
+Ás seis horas foram para a sala de jantar, cuja mesa brilhantemente
+adornada, revelava a opulencia e bom gosto do dono d'aquella habitação
+maravilhosa. O jantar correu animadissimo! Bernardo de Paiva, como
+sempre, esteve esplendido de graça. Tristão de Almeida com grave
+assombro dos convivas que pela primeira vez o viam e sobre tudo do
+visconde, que o julgava um homem trivial, apresentou-se totalmente
+opposto ao que o suppunham.
+
+«Este homem é um mysterio», pensava o visconde, ao mesmo tempo que
+saudando-o em repetidas libações, fazia as maiores diligencias de o
+toldar.
+
+Inuteis foram porém todos os seus esforços; o convidado bebia por elles
+todos, sem que o mais leve indicio de incommodo lhe transtornasse a
+serenidade da sua imperturbavel physionomia.
+
+Ás nove horas, levantaram-se todos da mesa, e foram para outra sala,
+onde os esperava o café.
+
+Tristão de Almeida, como o leitor deve fazer ideia, conhecia todos os
+individuos que estavam presentes, e melhor do que a elles todos a Gil de
+Carvalho, com quem por mais de uma vez se havia associado.
+
+Ou por calculo ou porque lhe recordassem com saudade as sensações do
+jogo, Tristão propoz ao visconde que se fizesse monte.
+
+--Estão em sua casa, respondeu-lhes o visconde. Eu também não desgosto
+de vez em quando arriscar duas ou tres duzias de libras.
+
+Gil de Carvalho estremeceu de jubilo; Bernardo de Paiva exultou de
+contentamento. Encontrava um meio de adquirir uma ou duas duzias de
+moedas, jogando sempre na _alforreca_.
+
+--Quem ha de fazer o monte? eu não por certo, disse o visconde, foi
+coisa para que nunca tive geito.
+
+--Nem eu tão pouco, acudiu o commendador.
+
+--Visto vossa excellencia ser banqueiro, ajuntou Bernardo de Paiva,
+dirigindo se para Vaz Mendes, o banqueiro de Tristão de Almeida,
+pertence-lhe por direito.
+
+--Que o faça o sr. Gil de Carvalho que está mais acostumado a pegar em
+cartas.
+
+--Resta agora saber se ha cartas em casa. Mas isso pouco importa,
+mando-as alli buscar ao Club, disse o visconde.
+
+--Estranha coincidencia! exclamou Gil de Carvalho, mettendo as mãos no
+bolso do peito da casaca, minha mulher tinha-me pedido hoje que lhe
+levasse dois ou tres baralhos para fazer a paciencia, e ainda aqui
+estão. Podem servir estas.
+
+--Que favoravel acaso! disse Bernardo de Paiva, sorrindo-se
+intelligentemente para o visconde.
+
+«Está a mesma coisa», murmurou Tristão de Almeida, de si para comsigo.
+
+--Vamos fazer uma _vaca_? disse o visconde e em voz baixa olhando para
+o seu hospede, emquanto Gil de Carvalho se approximava d'uma banca para
+melhor contar os baralhos.
+
+--Jogaremos de sociedade, visconde, replicou Tristão de Almeida.
+
+--Seja.
+
+ * * * * *
+
+D'alli a dez minutos, as cem moedas que Gil de Carvalho fizera de monte,
+haviam passado para defronte de Tristão de Almeida, acompanhadas por
+mais do dobro que os outros peritos tinham perdido.
+
+Segundo, terceiro e quarto monte, e o mesmo resultado.
+
+Tristão jogava com uma sorte espantosa! Gil de Carvalho tinha perdido a
+força moral.
+
+--Tem dinheiro? perguntou elle ao visconde.
+
+--Sirva se, disse-lhe Tristão de Almeida empurrando-lhe um maço de
+notas.
+
+O banqueiro acceitou.
+
+Outro monte de cem moedas, e em tres cartadas, todo o dinheiro que
+estava na mão do intrepido jogador havia passado para o banqueiro.
+
+Os olhos de Gil de Carvalho brilharam como uma alegria feroz.
+
+Tristão de Almeida, acendeu tranquillamente um magnifico charuto, e
+sorriu-se para o visconde.
+
+--Era justo que se perdessem algumas paradas, murmurou elle, tirando da
+algibeira do peito uma carteira de chagrin.
+
+--Continua a sociedade, visconde? disse o magnate voltando-se para o seu
+amphitrião.
+
+--Continua, meu amigo.
+
+Gil de Carvalho baralhou as cartas e deu-as a partir a Tristão de
+Almeida.
+
+--Topo tudo no duque, disse este rapidamente, ao sair a segunda carta
+do algor debaixo. Gil voltou as cartas a tremer, e á segunda appareceu
+um duque.
+
+--Vou a casa buscar dinheiro, não tenho fé alguma em jogar com capitaes
+emprestados, disse Gil de Carvalho, collocando o baralho sobre a banca,
+e saindo sem quasi dar tempo a Tristão de Almeida e ao visconde de lhe
+fazerem os seus offerecimentos.
+
+Tristão havia ganho tres contos e seiscentos mil réis.
+
+--Que lhe parece? disse elle voltando-se para o visconde, damos hoje a
+desforra ao seu amigo Gil de Carvalho, ou guardamos isso para outro dia?
+
+--Ficará para outro dia. Convinha me muito ir ao segundo acto do
+Trovador.
+
+ * * * * *
+
+Ás onze horas os convidados retiravam se, e Tristão de Almeida na
+carruagem do visconde seguía com elle para o hotel.
+
+Mais tarde parava um trem á porta do visconde. Era Gil de Carvalho que
+fôra a casa buscar mais dinheiro, e uns certos baralhos em que as cartas
+se pegavam umas ás outras. Descendo rapidamente, entrou no patim.
+
+--Os senhores já lá vão para o theatro, disse-lhe o guarda-portão.
+
+Gil cuidou morrer de desespero!
+
+
+
+
+XXV
+
+
+Alguns esclarecimentos ácerca de Manuel de Mendonça, de quem vossa
+excellencia e a pallida Martha, ha tempos a esta parte, nada tem sabido.
+
+Quando verdadeiramente fascinado pela formosura da filha do operario,
+saiu do hotel Bragança--vespera da retirada de Jeronymo para sua casa--o
+maritimo havia-lhes promettido de brevemente os visitar; porém,
+reflectindo mais pausadamente sobre esse gravissimo assumpto, quiz ainda
+forcejar com o coração, abafando-lhe quanto podesse a chamma que o
+consumia!
+
+Tudo foi inutil! Ao cabo de dez dias, a pobre alma, cada vez mais preza
+á recordação de Martha, ia a tal ponto identificando-se com ella, que
+Manuel resolveu de si para si, ou sahir immediatamente de Portugal ou
+pedir a filha de Jeronymo.
+
+No dia seguinte ao romper da manhã já elle tinha procurado Mascatudo.
+Fechando-se ambos na camara, participára-lhe a sua resolução.
+
+O marinheiro, cujo unico desejo era a felicidade de Manuel, abraçou de
+boa mente a sua determinação: elle, que sobretudo não comprehendia a
+verdadeira ventura sem os verdadeiros regozijos da familia!
+
+--Hoje mesmo, disse-lhe Manuel de Mendonça, irás informar-te pela
+visinhança sobre a conducta de Martha, e se fôr como eu supponho, e
+espero em Deus que seja, ámanhã mesmo irei pedil-a a seu pae.
+
+«Que me importa que seja uma triste filha do povo, se o seu
+comportamento for virtuoso, pensava Manuel de Mendonça, encostando-se á
+amurada da sua galera. Quem sou eu? continuava elle, um homem sem
+familia, sem parentes! Que me importam os brazões dos meus antepassados!
+Em que concorreram elles para esta pequena posição que hoje tenho na
+sociedade? Quanto sou, devo-o a mim, e só a mim! Está decidido, em oito
+dias, Martha será minha mulher.»
+
+D'alli a meia hora, Mascatudo com o seu fato domingueiro, approximou-se
+de Mendonça.
+
+--Á ordem, meu commandante.
+
+--Estás prompto?
+
+--Prompto.
+
+--Sabes o serviço que me vaes fazer?
+
+--Ora essa!
+
+--Serás discreto, reservado?
+
+--Como uma carranca de prôa.
+
+--Bem estamos. Sabes aonde ella mora?
+
+--Rua do Meio, á Lapa.
+
+--Numero?
+
+--Cento e doze.
+
+--Tal e qual. Chegas assim como quem não quer a coisa, e pergunta alli
+pela visinhança, quem é pouco mais ou menos o Jeronymo; se a sua vida é
+moral e religiosa, se é um homem trabalhador, etc., etc.
+
+--Bem sei como essas coisas se fazem, meu commandante.
+
+--Em primeiro logar, para que se não desconfie, é falar só de Jeronymo;
+o resto, vem mesmo sem o perguntares. Entendes bem?
+
+--Se entendo... O commandante vem tambem p'ra terra?
+
+--Não, espero aqui a resposta.
+
+--Então ás ordens, e que a Senhora da Bonança vá em minha companhia.
+Descendo para o escaler sentou-se á prôa e mandou remar.
+
+Uma hora depois, Mascatudo entrou n'uma pequena tenda da rua da Lapa,
+que ficava quasi em frente da casa de Jeronymo.
+
+Approximou-se do balcão e pediu de comer.
+
+Á proporção que comia e bebia, o marujo ia adquirindo uma certa
+intimidade com o caixeiro, offerecendo-lhe de vez em quando do seu copo,
+em que elle pegava sem se fazer rogar.
+
+--Diga-me uma coisa, perguntou emfim Mascatudo. Dá-me noticias d'um
+mestre de obras, que d'antes aqui morava, chamado Jeronymo? Ha quantos
+annos o não vejo!
+
+--Olhe, respondeu o caixeiro, apontando ao mesmo tempo para a casa do
+pae de Martha, ainda alli mora n'aquella casinha.
+
+--É um bom homem!... E sua mulher ainda vive?
+
+--Ainda.
+
+--A filha é que deve estar uma senhora?
+
+--É toda _mystica_! disse o caixeiro; e enthusiasmando-se com a
+formosura de Martha, despejou, sem Mascatudo lh'o offerecer, o resto do
+vinho que estava no copo.
+
+--Conheci aquillo uma criancinha, accrescentou Mascatudo, olhando de
+soslaio para a meia canada que o moçoilo acabava de despejar.
+
+--Ha pouco tempo succedeu uma _disinfelicidade_ ao pobre Jeronymo,
+continuou o caixeiro, que lhe ia custando uma grande _felicia_.
+
+--Sim? perguntou Mascatudo.
+
+--É verdade.
+
+--Então como foi isso?
+
+--Eu lh'o conto. Foi atropellado por um fidalgo muito rico, que tem
+agora um hospital para a rua de S. Francisco de Paula, e como elle
+ficasse muito mal tractado, sabe o que o fidalgo fez? levou-o para a
+hospedaria onde estava, tractou d'elle sem lhe faltar nada, e por ultimo
+empregou o, dando-lhe quinze tostões por dia. Ora veja vossemecê como o
+diabo as tece! Ha males que vem por bem! Quem me dera a mim encontrar um
+fidalgo que me atropellasse com a condição de me dar, já não digo quinze
+porém cinco tostões por dia. Ha dois annos que estou n'esta maldita
+casa, e o miseravel do patrão ainda me não augmentou o ordenado. Aqui
+estou ganhando dois mil reis por mez, que como o outro que diz, não me
+chega nem para beber uma pinga aos domingos. Agora por isso, ajuntou
+elle, mudando de tom, creio que já despejou todo o vinho. Quer que torne
+a encher?...
+
+--Encha, respondeu Mascatudo, occultando a custa um sorriso.
+
+--E ainda ahi não fica, como ia dizendo. Em tal graça caiu a sua familia
+para com os fidalgos, que é raro o dia, em que as meninas não vém no seu
+proprio trem buscar a filha de Jeronymo.
+
+--E ella porta-se bem?
+
+--Diziam que sim, porém agora, já ha quem lhe rosne no credito. Ora
+aqui para nós tem razão! Uma rapariga tão bonita como a Martha, e pobre
+como é, andar no luxo em que anda!
+
+--Mas talvez que esse luxo lhe tenha sido dado pelas filhas do tal
+fidalgo, respondeu Mascatudo, sentindo um grande estremecimento no
+coração.
+
+--Tambem isso é verdade; póde muito bem ser, e n'esse caso então, não
+lhe deviam cortar na pelle.
+
+--E quem é que lhe corta na pelle?
+
+--Olhe, alli vem uma das visinhas que não lhe faz lá muito boas
+ausencias: a tia Monica.
+
+N'esse momento, a beata, de quem o leitor deve estar lembrado, involta
+na sua mantilha de merino preto, entrou na tenda.
+
+--Deus seja n'esta casa, disse ella, olhando ao mesmo tempo para
+Mascatudo.
+
+--Amen, respondeu este, cravando os olhos no rosto cadaverico da
+intrusa.
+
+--Então como vae isso hoje lá por baixo a respeito da febre, perguntou o
+caixeiro, que já sabia que era a hora em que ella vinha da baixa.
+
+--A colera de Deus continua a castigar os peccadores, respondeu a misera
+abaixando ao mesmo tempo a cabeça. Hontem, continuou ella, disseram-me
+que houve uma mortandade espantosa. E estes herejes do sitio sem fazerem
+uma procissão como tantas vezes lhes tenho pedido!
+
+--Porque não mette n'isso o mestre Jeronymo? perguntou o caixeiro á tia
+Monica, piscando ao mesmo tempo o olho para Mascatudo.
+
+--Cruzes! Credo! Virgem da Soledade! Pedir uma coisa d'essas a
+similhante creatura! De que Deus me livrasse, sr. André!
+
+--Pelo que vejo, não é muito amiga do nosso visinho!
+
+--E como queria o senhor que uma mulher como eu fosse amiga de
+similhante homem?
+
+--Pois olhe, basta o que elle fez pela tia Marianna, para mostrar que
+tem bom coração. Lá o que é verdade, deve-se dizer sempre! Ha de haver
+mez e meio, proseguiu o caixeiro voltando-se para Mascatudo, foi aqui
+atacada uma mulher pela febre amarella, e ninguem se atreveu a entrar em
+sua casa; a unica pessoa que o fez, foi Martha, a filha de Jeronymo. Com
+tanto amor a tractaram, que hoje está viva e sã.
+
+Mascatudo sorriu d'alegria ao ouvir a boa acção de Martha.
+
+--E porque fez elle isso tudo? resmungou a beata. Sô para que depois se
+dissesse pela visinhança que eram uns santinhos. Que santinhos de pau
+carunchoso!
+
+--Seja lá pelo que fôr, o grande caso é que salvaram aquella embarcação
+que ia dar á costa, acudiu Mascatudo.
+
+--Pelo que vejo respondeu Monica contemplando o marinheiro, vossemecê
+anda sobre as aguas do mar? Que o Senhor dos Navegantes, a quem mesmo
+agora acabo de rezar duas estações, o livre de todos os perigos, meu
+filho; e possa tambem a Senhora da Bonança andar sempre em sua
+companhia. Padre nosso que estaes nos céos... continuou ella.
+
+--Então o que se diz por ahi de Jeronymo, tia Monica, perguntou
+Mascatudo, começando a tratal-a com certa confiança.
+
+--Ora! O que se ha de dizer! O que se diz sempre d'um homem que
+consente que sua filha esteja fóra de casa, e que venha a altas horas da
+noite, muitas vezes acompanhada por um individuo, que vem sósinho com
+ella dentro d'um trem. Quem elle é ainda eu não pude descobrir, mas,
+agora que felizmente já consegui encaixar-me no hospital e fazer
+conhecimento com as meninas... vou descobrir quem é o melro.
+
+Mascatudo sentiu um estremecimento por todo o corpo. Elle que a julgava
+pura como um anjo, começava a duvidar da sua virtude. E não tinha mais
+remedio senão contar tudo que ouvira.
+
+--Agora que já tenho lá entrada como lhe ia dizendo, é que hei de saber
+qual dos amigos do fidalgo, é o que está acostumado a acompanhal-a. E a
+boa da tia Marianna, sempre por toda a parte a dizer d'ella mil
+maravilhas, e eu a saber como os meus dedos, a peça que é a creancinha!
+Dizem-me que anda sempre muito triste. Deus sabe como ella andará! Que
+Deus me perdoe de fazer maus juizos!... exclamou a beata curvando a
+cabeça.
+
+Outro que não fosse Mascatudo, teria regeitado as opiniões da execravel
+beata, porém ferido por aquella primeira impressão, o caracter fogoso e
+ao mesmo tempo selvagem do marinheiro, levou-o a acreditar em tudo
+quanto lhe haviam dito! Sem descer a mais indagações, e abandonando ao
+caixeiro a segunda meia canada que mandara encher, Mascatudo pagou o que
+devia, e sem quasi se despedir nem d'um nem d'outro, saiu apressadamente
+da loja. Seguindo pela rua da Lapa, desceu a rua de S. Domingos, e
+entrando nas Janellas Verdes, alcançou a rocha do Conde de Obidos, aonde
+embarcou para bordo da galera.
+
+Manuel de Mendonça, passeiando á prôa, aguardava com impaciencia o
+resultado da commissão do marinheiro.
+
+Os olhos de Mascatudo arrazados de lagrimas, seguiam os movimentos do
+seu commandante. O pobre homem receiava os instantes que o approximavam
+de Manuel de Mendonça, afim de lhe participar o que se havia passado.
+
+O escaler abordou finalmente á galera e Mascatudo subiu a escada.
+
+--Que soubeste? perguntou Manuel conduzindo-o á sua camara.
+
+Revestindo-se de valor Mascatudo contou-lhe quanto tinha ouvido.
+
+Manuel de Mendonça sorriu-se brandamente, e olhando para aquelles
+horisontes, toldados então por uma neblina espessa, fitou a vista no
+oceano, como que dizendo-lhe que o esperasse.
+
+N'essa mesma noite adoeceu com uma febre gravissima, de que lhe resultou
+estar quinze dias de cama.
+
+Foi durante esse tempo, emquanto ao infeliz, entre as visões da febre,
+se lhe desenhava a imagem da supposta peccadora, que Magdalena na
+varanda do hospital, assestava de vez em quando o telescopio para
+descobrir o rasto do commandante da galera.
+
+
+
+
+XXVI
+
+
+--Terá a bondade de dizer á sr.ª D. Magdalena que está aqui a sua
+pobresinha, dizia a tia Monica voltando-se para o guarda-portão do
+hospital.
+
+--A sr.ª D. Magdalena não póde agora recebel-a; acha-se á cabeceira de
+um doente que está por pouco... respondeu-lhe o guarda-portão.
+
+--Pois sim, pois sim, vá sempre dizer-lhe que é a tia Monica, a quem deu
+ordem para que viesse aqui hoje sem falta. Ande, avie-se; verá se me
+fala ou não.
+
+--Já lhe disse a vossemecê o que tinha a dizer-lhe. Escusa de me
+importunar mais.
+
+--Deixa estar que eu te direi, dizia a velha comsigo. Alcance eu o que
+desejo, e verás como te ponho no andar da rua, só pelo mal que me estás
+tratando. Estejas tu meu traste mais oito dias sem cá vir, e eu te
+direi, como te ponho tambem no meio da rua, minha Martasinha.
+
+--Então vossemecê, vae ou não vae! ajuntou a tia Monica em voz alta,
+voltando-se de novo para o porteiro.
+
+--E ella a dar-lhe, e a burra a fugir, disse o guarda-portão,
+voltando-lhe a cara para a banda, e continuando a varrer o patim. Se
+vossemecê continua a atormentar-me subo lá acima e digo ao mestre
+Jeronymo que lhe pegue por um braço e que a ponha fóra da porta. Forte
+impertinente! cruzes, canhoto!
+
+--Ora sempre haviamos de ver isso, se o tal mestre Jeronymo seria capaz
+de pôr no meio da rua uma pessoa mandada aqui vir por uma das filhas do
+dono da casa! Faça isso, sr. Antonio, até desejo que o faça. Ande,
+então...
+
+N'este momento, uma enfermeira que vinha de jantar, entrou
+apressadamente no hospital.
+
+--Tem a bondade de dizer á sr.ª D. Magdalena que está aqui a tia Monica,
+e que lhe vem trazer a resposta d'aquelle recado que lhe encarregou,
+disse a beata, perseguindo a mulher.
+
+--Farei entregue, respondeu a enfermeira, subindo apressadamente a
+escadaria.
+
+--Vossemecê não tem vergonha de estar assim com essa teima?
+
+--Pois veremos quem vence--se sou eu ou se é vossemecê; e sentando-se
+tranquillamente sobre um dos bancos da entrada, a tia Monica começou a
+olhar para o enraivecido porteiro, com um modo insolente e provocador.
+
+Cinco minutos depois, desceu a mesma enfermeira, dizendo lhe da parte da
+sr.ª D. Magdalena que fosse ter com ella ao terceiro andar.
+
+A velha, radiante de gloria e de regosijo, fixou o porteiro do alto da
+sua magestade, e despedindo-lhe um olhar de compaixão, subiu afoita as
+escadas, promettendo a si mesma vingar-se do pobre homem, logo que o
+ensejo lhe fosse favoravel.
+
+A principio, o porteiro rugiu de colera, porêm, vendo a inutilidade do
+seu mau genio, conformou-se com a sorte, e empunhando de novo a vassoura
+continuou na sua constante operação.
+
+Magdalena, ao ouvir as palavras da enfermeira, encarregou a sua irmã o
+moribundo, e subiu logo ao terceiro andar, aonde mandaram conduzir a
+velha.
+
+Quando ella entrou, Magdalena, encostada á varanda, contemplava o Tejo,
+no Tejo a galera, na galera Manuel de Mendonça, e n'esse a vida que para
+ella lhe fugia!
+
+--Bons dias, santinha! disse ella approximando-se da tia Monica.
+
+--Muitos bons dias, meu anjinho, replicou a asquerosa beata tentando
+beijar a mão que Magdalena lhe extendia. Já lhe disse que não quero ver
+esse rosto tão pallido, minha rosa desbotada. Anime-se, ande, ria-se
+para mim.
+
+--Soube alguma cousa? perguntou Magdalena.
+
+--Alguma coisa se soube. Ainda não é tudo quanto desejamos; mas de cá se
+vae a lá, como dizem os hespanhoes. Um amigo d'um sobrinho meu, que está
+na armada, foi a quem encarreguei. Hoje, seriam oito horas da manhã,
+quando eu vinha de ouvír as minhas missas, e de pedir a Deus pela minha
+querida menina, senti baterem-me á porta, abri, e era o Manuel, o tal
+rapazola. «Que temos?» perguntei-lhe eu. «Que havemos de ter? Já soube
+onde pára o tal individuo, e quem elle é» respondeu Manuel.
+
+--E quem é elle? perguntou avidamente a filha de Tristão de Almeida.
+
+--É o commandante da galera Esperança. Tem estado muito doente. Ha mais
+de quinze dias que não sae de bordo!
+
+--Meu Deus! disse Magdalena, eis o motivo porque nunca mais o pôde ver!
+
+--Quanto ao resto, accrescentou a beata, posso-lhe dizer quasi com toda
+a certeza, que alli anda cousa, e anda por isto:--Ha tempos estando eu
+na tenda do Melro, entrou um homem de tracto do mar e começou a
+perguntar informações de Martha. Esse individuo não tinha sido senão
+alguem mandado por elle, para saber se se portava bem ou mal.
+
+--E o que lhe respondeu, tia Monica?
+
+--Que queria a menina que lhe respondesse! Póde-se julgar mal d'uma
+pessoa que anda na companhia de dois anjos, como as minhas duas meninas?
+Embora eu soubesse quem esta familia é, a minha bocca nunca se me teria
+aberto para dizer similhante coisa!
+
+--Parece-lhe portanto que as minhas suspeitas eram bem fundadas?
+
+--Se me parece! E faça se bem! As meninas a protegerem aquelle traste, e
+ella pagando-lhes assim!
+
+--Isso não, tia Monica! Pobre rapariga, que culpa tem ella do que se
+passa no meu coração? O mal que me está causando é involuntario, e tão
+involuntario que ella propria o desconhece; e demais, se ha alguem
+culpado em tudo isto, sou eu, eu apenas.
+
+--E pensa a menina, que um rapaz como esse tal sr. Manuel de Mendonça,
+possa descer a olhar para uma mechanica? uma reles filha d'um operario,
+tendo a palpitar pela sua pessoa, um coração nobre e generoso como o da
+minha rica menina? Para que havia Manuel de Mendonça querer a filha d'um
+operario: só se fosse para ser sua criada.
+
+--Pois olhe, tia Monica, veja como eu sou, se tivesse a certeza de que
+Martha era de ha muito amada por Manuel de Mendonça, creia que embora eu
+morresse de paixão, seria capaz de me sacrificar, a ponto de ser eu a
+propria madrinha do seu casamento. Hontem estava pensando n'isso. Mas o
+que eu queria, era ter uma certeza. Se o que tem conservado Martha
+n'aquelle estado, é uma paixão, serei eu a propria, embora d'isso me
+resulte a morte, a fazer todas as diligencias de os reunir. Se elle fôr
+nobre, pedirei a meu pae, que tire de meu dote alguns contos de réis,
+para collocar aquella pobre criança n'uma posição que lhe não envergonhe
+os seus pergaminhos. Porém se esse amor que eu supponho existir no
+coração de Martha, não fôr mais do que uma desconfiança, então Monica,
+se lhe não fôr indifferente, rico ou desventurado, nobre ou plebeu,
+Manuel de Mendonça será o meu esposo, porque o amo muito, muito, tia
+Monica!
+
+E a pobre Magdalena, tremula e offegante, debalde tentava occultar as
+lagrimas que a suffocavam!
+
+Era muito de ver-se o contraste d'estas duas creaturas! Magdalena, o
+amor, a generosidade, a pureza de affectos! Monica, a mentira, a
+ambição, a crapula emfim de todos os sentimentos!
+
+Alma candida e inexperiente, não avaliava sequer a immensa distancia que
+as separava. A pomba approximava-se d'aquelle asqueroso reptil, sem
+comprehender com quantas voltas lhe poderia enrolar o seu pescoço de
+neve!
+
+Ao escutar aquellas palavras que tão claramente denunciavam a
+ingenuidade da sua alma, a tia Monica julgou perder a partida. Além dos
+lucros que esperava obter servindo de intermediaria n'aquelles amores,
+havia um outro sentimento que a dominava, mais forte talvez que o
+primeiro: o desejo de se vingar da familia de Jeronymo! Desejo
+infundado, sem motivo algum, explicado apenas por aquella profunda
+inveja que os bons mais ou menos inspiram aos que o não são nem o
+desejam ser!
+
+Envenenando-lhe o seio com o ervado punhal do ciume, a tia Monica
+poderia fazer com que retirassem a sua protecção ao mestre de obras.
+Poderia fazer com que Magdalena, odiando a pobre Martha, lhe roubasse a
+pessoa a quem ella amava, ficando apenas reduzida á miseria e ao
+descredito que por toda a parte lhe proclamava.
+
+Eram estas as suas idéas, idéas que principiavam a desvanecer se, á
+proporção que ia lendo na alma de Magdalena toda a grandeza d'aquelle
+coração, immenso como a agonia que o dilacerava!
+
+--Veja, continuava Magdalena, se por esse individuo, me póde saber,
+custe o que custar, se Manuel de Mendonça escreve a Martha, se a vê, ou
+se por ultimo se encontram.
+
+--E se por ventura se amarem? perguntou rapidamente a beata.
+
+--Abençoal-os-hei! respondeu Magdalena como se ao pronunciar estas
+palavras se lhe rasgasse o coração.
+
+--E se não se amam! insistiu a velha.
+
+--Será meu, disse Magdalena com uma voz debil e melancholica. Tirando
+depois algumas moedas de prata de dentro de um _porte-monnaie_,
+entregou-as á tia Monica.
+
+--Se elles não se amassem! pensava Magdalena ao despedir-se da velha.
+
+--Se Deus me ajudasse! repetia a tia Monica sahindo do gabinete.
+
+
+
+
+XXVII
+
+
+Ao cabo de quinze dias, graças á sua robusta compleição, Manuel de
+Mendonça pôde subir ao convez, esperando, dizia elle, conseguir com a
+brisa do mar completo restabelecimento.
+
+Mas não era esse apenas o motivo que alli o conduzia. Mascatudo
+havia-lhe dito na vespera, que da galera se via perfeitamente o edificio
+do hospital, e quasi todos os dias, depois da uma hora da tarde se
+divisava um vulto na varanda, assestando o oculo na direcção do barco.
+
+Achando se completamente restabelecido, Manuel de Mendonça pegou no seu
+magnifico telescopio e dirigiu-se á prôa do navio afim de descobrir quem
+tão assiduamente o espreitava.
+
+Ao vêr o edificio que Mascatudo lhe designára, já o seu olhar de lynce
+havia descoberto que alguem o estava observando.
+
+Manuel de Mendonça levantou o seu oculo, e descobriu o rosto pallido e
+insinuante de Magdalena.
+
+Não era esse o semblante que elle cuidava encontrar; comtudo, continuou
+por alguns segundos esperando ainda descobrir a imagem que durante a sua
+terrivel enfermidade o havia perseguido. Mas tal não succedeu. Magdalena
+continuando a olhar, parecia não perder um segundo da sua persistente
+observação.
+
+Desalentado, metteu o oculo debaixo do braço, e caminhou serenamente
+para a ré.
+
+Então um milhão de reminiscencias lhe acudiu á memoria. Lembrou-se
+d'aquelle dia em que Magdalena o contemplára tão demoradamente, quando
+fôra visitar Jeronymo.
+
+«Quem sabe, pensou elle, se esta mulher me ama, e se lançou mão d'alguma
+intriga para desconceituar a meus olhos a filha do operario? Se tal
+fosse! Veremos o que pensa Mascatudo. Não façamos juizos temerarios. Que
+importa que eu vá visitar seu pae? Não lh'o prometti eu?»
+
+Erguendo o seu telescopio, Manuel assestou-o pela segunda vez na
+direcção do hospital, onde Magdalena se conservava ainda no seu posto de
+observação. O maritimo, voltando as costas desceu á camara onde
+Mascatudo o aguardava.
+
+Quem n'esse momento tivesse entrado no hospital da rua de S. Francisco
+de Paula, e houvesse subido aquelle terceiro andar, onde Magdalena se
+achava, teria ouvido o som da queda de um corpo e uma voz entrecortada
+pelos soluços, soltando estas palavras:
+
+--Amam-se, não ha duvida!
+
+--Maldito caldo de gallinha, puff, está a escaldar! dizia uma outra
+voz. Era a de Olympia.
+
+
+
+
+XXVIII
+
+
+Graças aos rasgos de valor e profunda dedicação que o dono do hospital
+da rua de S. Francisco de Paula espalhava a cada a hora sobre a cidade
+de Lisboa, o seu nome tornou-se popular.
+
+Todos á uma desejavam encontrar esse homem, que, arriscando
+constantemente não só a sua preciosa existencia, como tambem a de sua
+mulher e duas filhas, se chegava hoje ao leito do moribundo com palavras
+consoladoras, ámanhã amortalhava o cadaver de outro por cuja existencia
+batalhára até a ultima. Era de justiça, mais do que justiça,
+indispensavel até conceder-se-lhe a mercê em que sua magestade dias
+antes havia falado com o ministro do reino, segundo este havia dito ao
+visconde de Coruche.
+
+Uma manhã em que o visconde, fazendo a sua demorada _toilette_, se
+preparava para ir ao hospital, foi procural-o o conselheiro Poderosa.
+
+--Sua magestade encarregou-me hontem de te procurar, fiado na amisade
+que existe entre ti e o Tristão da Almeida.
+
+--Estou ás ordens de sua magestade, respondeu o visconde.
+
+--El-rei deseja agraciar Tristão de Almeida com o titulo de conde, e
+mandou-me que te viesse procurar com o fim de lhe perguntares qual o
+nome que deseja juntar ao titulo.
+
+--Quanto agradeço a honra que el-rei me dispensa, fazendo-me
+intermediario para um acto de tanta justiça! Tencionava hoje passar o
+dia em casa, mas, em virtude das ordens de el-rei, corro immediatamente
+a casa do meu amigo, afim de lh'o participar, e juntamente pedir-lhe que
+me diga o nome que deseja juntar a esse titulo.
+
+--Nunca se fez um acto de maior justiça, disse o conselheiro.
+
+--Escuso de te repetir que sou da mesma opinião.
+
+--Realmente, tem-se portado como um heroe.
+
+--E suas filhas?! e sua mulher! parece impossivel como tenham escapado a
+tantos perigos, acudiu o visconde.
+
+--É um verdadeiro milagre da Providencia. Mas, aqui para nós, visconde,
+quem será esse Tristão de Almeida?
+
+--Ora essa! Tristão de Almeida, segundo elle o diz, e eu o creio,
+descende d'uma das principaes familias de Monforte. Seu pae, homem d'um
+caracter excentrico e ao mesmo tempo muito gastador, quando se encontrou
+completamente arruinado, mandou este rapaz e um outro irmão para
+Val-Paraiso, para casa d'um primo que alli estava estabelecido com uma
+riqueza enorme. Vasco, seu irmão mais velho, ficou empregado na casa
+gerindo os negocios de seu primo, de quem era o unico herdeiro, emquanto
+que Tristão dotado de um genio mais energico e emprehendedor, seguiu uma
+vida aventureira. Ao cabo de cinco annos, isto peço-te que não contes a
+pessoa alguma, que foi dito confidencialmente por Tristão, ao cabo de
+cinco annos repito, já elle tinha feito cinco viagens a salvo,
+introduzindo na Havana uma grande porção de Chins. Feliz em todos os
+negocios que emprehendia, Tristão d'alli a dez annos estava
+archi-millionario. Achando-se uma occasião em Buenos Ayres viu n'um
+jornal que havia fallecido o seu parente, tendo deixado por unicos
+herdeiros a elle e a seu irmão.
+
+--E seu pae? interrompeu o conselheiro.
+
+--Já tinha morrido a esse tempo.
+
+--Dias depois partiu para Val-Paraiso. A riqueza que seu primo deixara
+estava calculada em quatro mil contos. Ao cabo de um mez teve a desgraça
+de perder o irmão.
+
+--Que fatalidade! murmurou o conselheiro.
+
+--É verdade! vê tu que fatalidade! Tristão, continuou o visconde,
+reduziu toda a fortuna a dinheiro e partiu para a Europa, onde annos
+depois se casou com D. Maria Egypciaca, senhora do Minho, com quem
+fizera conhecimento uma das vezes que viera a Portugal.
+
+--É um romance a vida d'esse homem.
+
+--Tem coisas admiraveis! disse o visconde.
+
+--Com que então, acudio o conselheiro, a sua fortuna póde calcular-se
+em...
+
+--Cinco ou seis mil contos.
+
+--Já se póde passar com isso!
+
+--Agora, disse o visconde, é um homem d'uma generosidade incalculavel!
+Se tem cahido nas mãos dalguns individuos que nós conhecemos...
+
+--Haveriam tirado um grande partido da sua bolsa, emquanto que tu...
+
+--Como graças a Deus não preciso recorrer a ella; mas, se o fizesse,
+tenho toda a certeza que sempre a encontraria disposta a abrir-se-me.
+
+--Eu tambem não digo que tenhas precisão, mas um homem d'esses, pode-se
+aproveitar para qualquer empreza, grande já se vê, e de que outros
+tirassem bom partido, tirando o elle tambem.
+
+--Ainda não pensei n'isso.
+
+--E as filhas são bonitas?
+
+--Uma d'ellas, Magdalena, é um anjo de bondade e formosura.
+
+--E a outra?
+
+--Olympia? Também não é feia, mas é muito gorda. Essa representa o
+estomago, e a sua irmã o coração. Magdalena ama, suspira e desfaz-se em
+sentimento. Olympia come, dorme, e emquanto dorme sonha no que ha de
+comer ao despertar. Afóra isso, é uma creatura esplendida.
+
+--Eis a mulher que me convinha, disse o conselheiro. Confesso-te que já
+não tenho outra distracção senão a meza. Seria capaz de me casar não
+pelo coração mas sim pelo estomago! Que verdadeiro achado seria para mim
+essa Olympia! Uma mulher com bom paladar, que deve infallivelmente saber
+fazer muito bons doces. Que dorme muito e que come muito!
+
+--Mas tu d'antes não eras assim! disse o visconde accendendo um charuto.
+O teu typo era a mulher magra, vaporosa, sentimental. Gostavas das
+olheiras, das rosetas da febre, e sobretudo da pontinha de tosse, como
+regularmente se diz.
+
+--Isso foi antigamente, meu amigo, quando eu tinha vinte annos, e
+conservava intacta a riqueza que herdei de meus paes. Porém agora, não;
+prefiro a mulher sadia, forte, que possa ser uma boa ama de leite para
+me crear os garotos, se porventura Deus me quizer conceder os deleites
+da paternidade.
+
+--Como tu estás mudado, João!
+
+--Que queres? são as circumstancias que me fazem assim pensar.
+
+--Pois meu amigo, habilíta-te e terás em Olympia a mulher que te convém.
+Junta a todas essas qualidades, um dote de trezentos a quatrocentos
+contos de réis. Que tal, hein? Agora só te peço uma coisa: se á força da
+tua vontade, ajudada pelos meus esforços, conseguires realizar este
+sonho...
+
+--Dirás.
+
+--Has de fazer um novo fardamento ao teu guarda-portão.
+
+--Approvo e desde já t'o prometto! Se Olympia fôr minha, o meu
+guarda-portão terá outro fardamento. Mas agora serio, ajuntou o
+conselheiro, eu ainda não estou feio de todo, falam por ahi do meu
+talento, sou filho de gente fina, que mulher se poderá esquivar a
+conceder-me a sua mão, muito mais, estando eu nas disposições em que me
+encontro, que é viver pura e simplesmente para comer e dormir e depois
+accordar para tornar a comer, sem que minha mulher nem os criados de
+casa me ouçam levantar a voz, a não ser que os pequenos me venham
+interromper o somno, amotinando me os ouvidos com algum tambor de feira?
+
+--Estou d'accordo comtigo, e tanto, que se me falas serio, mas bem
+serio, entendes, farei com que Olympia te encontre alguma vez, e se te
+guiares pelos meus conselhos, vencerás a batalha. Se por ventura a fôres
+visitar ao hotel e falares com a tua futura, não te approximes da
+janella, erguendo olhares inspirados para o Tejo; não, longe d'isso, faz
+um gesto de profunda meditação, engatilhando ao mesmo tempo o ouvido em
+direcção ao corredor e aspirando o aroma das iguarias que se espalha na
+atmosphera. Não fales nem de flores nem de estrellas, discute-lhe as
+empadas do José Romão, e os pasteis de nata da rua da Rosa. Não lhe
+fales de Dumas nem de Eugenio Sue, conta-lhe a biographia de Vatel,
+promette-lhe a phisiologia de paladar de Brillat Savarin, e conta lhe
+isto, com os olhos radiantes de enthusiasmo, e as faces incendiadas pelo
+quinto peccado. Se assim fizeres, Olympia terá um conselheiro e o teu
+guarda-portão um fardamento novo!
+
+--Convem-me, respondeu o conselheiro, e tu, ajuntou elle, porque não
+aproveitas a poetica Magdalena? O teu espirito ainda ás vezes infantil e
+sonhador, casar-se-ia admiravelmente com a sua organização. Então é que
+era, visconde: nós os amigos de tantos annos, casados com duas irmãs,
+que representavam já oitocentos contos e que representariam seis mil
+para o futuro!
+
+--Se o quizesse fazer, não tinha senão dar o meu sim. Se tu soubesses o
+que tem ido por essa casa a meu respeito! Magdalena ama-me desde o
+primeiro dia que me viu. Orgulhosa de mais nunca se atreveu a declarar
+me o seu amor, mas de sobejo se lhe lê no olhar com que me contempla, na
+voz que lhe estremece quando por ventura me dirige a palavra, no gesto
+cuja melancolia me chega ás vezes a causar remorso. Eu tenho sempre
+feito que nada comprehendo, porém seu pae não o ignora nem a mãe. Falta
+só dizerem-me em voz clara, o sentimento que a minha presença inspirou á
+filha.
+
+--Pois acho que fazes uma grande asneira, disse o conselheiro.
+
+--Eu ás vezes também assim penso, mesmo porque talvez venha no futuro a
+sentir remorsos de ter concorrido para a morte d'aquella creança. Se tu
+soubesses quanto soffre. Aquelle ardente desespero com que Magdalena se
+lança a todos os perigos, penso eu ás vezes ser mais vontade que tem de
+morrer para não affrontar a minha indifferença, do que realmente
+caridade.
+
+--Mas porque motivo não lhe retribues tu com muito amor, o affecto que
+essa creança te consagra?
+
+--Porque a não amo, João. E como, graças a Deus, não estou na posição de
+me casar por necessidade, não quero sacrificar os longos annos que ainda
+me restam de vida, passando os ao lado de uma mulher, que nada tem a
+desejar, mas pela qual o meu coração não palpita de amor. O motivo é
+este, apenas este.
+
+--Tens-me falado com seriedade em tudo isto? acudiu o conselheiro depois
+de alguns instantes de profunda reflexão.
+
+--Dou-te a minha palavra de honra que tenho.
+
+O visconde não mentia. Fiado ainda na sua belleza proverbial, e afeito a
+que todas as mulheres o estremecessem, pensou que esse sentimento que a
+pobre Magdalena nutria em silencio por Manuel de Mendonça, era o
+resultado de uma paixão que elle lhe havia inspirado.
+
+Orgulhoso do seu nome, o visconde, apezar da inquestionavel vantagem que
+lhe poderia resultar d'esse enlace, não queria, diremos, baixar da sua
+dignidade entregando-se n'uma facil conquista, a essa mulher cujo
+coração o estremecia, a quem elle nunca poderia ter sido indifferente,
+attendendo á sua formosura e altas virtudes que a distinguiam.
+
+Viu n'um relancear de olhos o proveito que poderia tirar, arranjando o
+casamento do conselheiro com a irmã de Magdalena. Por essa fórma viveria
+mais em familia, e se um dia, exasperada de amor e incendiada de paixão,
+Magdalena se lançasse em seus braços, pedindo-o em casamento, elle então
+do alto do seu throno de vaidade, extenderia a mão para lhe dar um sim
+de protecção. Eram estas as suas idéas, as que elle estreitamente
+guardava no fundo da sua alma.
+
+Por isso não mentia, quando respondeu ao conselheiro que lhe estava
+falando a serio.
+
+--Pois então, disse João Poderosa, visto não me teres illudido, digo-te
+tambem, e muito de coração t'o peço, que me auxilies n'esta tentativa,
+cuja realização póde fazer a tua e a minha felicidade. Pensa nos meios
+que temos a empregar; dirige-me em tudo se te apraz; serei um automato
+se m'o exigires, mas colloca-me ao contacto d'essa mulher. Agora,
+accrescentou elle, como se um mundo novo se desenrolasse a seus olhos,
+vou contar a el-rei o que se passou comtigo, e logo, sendo sete horas,
+antes de ir para o theatro, aqui te venho buscar. Ficamos certos?
+
+--Pois não, respondeu o visconde, e á fé de quem sou te prometto, que em
+menos de um mez, Olympia será tua mulher.
+
+Despedindo-se do visconde, o conselheiro seguiu para o paço.
+
+ * * * * *
+
+ * * * * *
+
+«Vae tudo ás mil maravilhas, pensava elle. Com esta missiva official
+farei de Tristão quanto me aprouver! Tenho até a certeza que obteria a
+mão de Magdalena. E porque não hei de requisital-a? Requisital-a não,
+que ella m'a requisite. Se eu me curvava á filha de um Tristão de
+Almeida! Parece-me mais razoavel, accrescentou o visconde depois de
+alguns momentos de graves locubrações, fazer com que o Poderosa consiga
+a mão de Olympia; feito isso serei eu a entrar em scena. Por agora não,
+tratemos apenas do titulo. Quem tudo quer tudo perde!»
+
+Vestindo-se em seguida, montou n'um magnifico cavallo inglez, e partiu
+a trote largo, dirigindo se para o hospital.
+
+Proximo á calçada do marquez de Abrantes, viu que um homem o chamava de
+dentro de um trem. Estacando de repente o cavallo, approximou-se do
+postigo da sege.
+
+Era Gil de Carvalho.
+
+--Encontrei-o emfim, disse o jogador. Então onde se póde ver o seu amigo
+Tristão de Almeida?
+
+--Aonde se póde ver? por ahi, respondeu o visconde.
+
+--Não é isso o que eu queria dizer; perguntava aonde elle joga para lhe
+pagar as cem libras que sabe.
+
+--Ah! o meu amigo Tristão de Almeida? esse já não joga, respondeu o
+visconde, mas se lhe quer pagar as cem libras, entregue-m'as, que eu
+lh'as darei.
+
+--Peior é essa! exclamou Gil de Carvalho, suspendendo o movimento que
+fizera para tirar as notas da algibeira.
+
+--Então não quer que lh'as entregue? repetiu o visconde, que começava a
+desconfiar da velhacaria do jogador.
+
+--Suppuz que vinha prevenido, mas enganei-me, respondeu Gil de Carvalho.
+Ámanhã passarei por sua casa.
+
+--Pois então adeus, meu amigo, disse o visconde, batendo as pernas ao
+cavallo.
+
+Deixemos o visconde e Tristão de Almeida no jardim do hospital
+discutindo ácerca do nome que tencionam escolher para o titulo, e
+subindo pela rua do Conde, vamos a casa da pobre Martha, de quem não
+sabemos desde aquelle dia em que se prostrou sem sentidos ao ouvir a
+historia do mestre de obras.
+
+
+
+
+XXIX
+
+
+Magdalena, ao ver a cruel realidade das suas suspeitas, resolveu esmagar
+nos seios d'alma aquelle affecto que lhe era vida, e dirigindo-se a casa
+de Martha, exigir da sua amizade a revelação de todos os segredos.
+
+Havia dias que a pobre criança, cada vez mais enfraquecida, parecia
+levantar os olhos a Deus, como pedindo-lhe pela sua infinita
+misericordia que a recolhesse na paz divina de seus braços.
+
+Balbina e Jeronymo, sem se retirarem um só momento do lado de sua filha,
+erguiam de vez em quando os seus olhos supplices e inquietos para a
+Virgem da Conceição.
+
+Martha não falava, afóra algumas palavras á tia Marianna, com quem abria
+inteira a sua alma.
+
+Bem sabia Martha, que n'aquelle peito podia sem receio depositar todos
+os seus arcanos! A pobre velha havia-lhe jurado nunca revelar a pessoa
+alguma as confidencias que lhe depositasse no cofre do seu coração!
+
+ * * * * *
+
+ * * * * *
+
+São duas horas da tarde. Martha na vespera havia peiorado! A febre,
+augmentando-lhe consideravelmente, dera graves receios ao doutor
+Hermenegildo, distincto facultativo do hospital do magnate.
+
+Ouve-se o rodar de um trem, que pára á porta do operario, e, de dentro
+d'elle, envolta n'uma comprida capa de velludo preto, apeia-se uma
+mulher. É a filha de Tristão, Magdalena. Escusado seria dizel-o, que
+n'essa hora, Olympia, á mesa do _lunch_, saboreia em doce encantamento
+as altas locubrações d'um intelligente cozinheiro.
+
+Contra o seu habito, Magdalena vem completamente só. O olhár e a
+pallidez do rosto, denunciam-lhe um soffrimento profundo. No pisado das
+palpebras, adivinha-se-lhe o rasto produzido pelas lagrimas. A sua voz,
+ordinariamente firme e sonora, perturba-se á mais pequena palavra, como
+receiando que as lagrimas lh'a interrompam! O descuidado da _toilette_,
+o desalinho dos cabellos, tudo emfim lhe descobre a tempestade em que se
+agita o seu coração!
+
+Não era Magdalena, era apenas a sua sombra!
+
+Bate á porta de Jeronymo, e Balbina vem abrir.
+
+Ao vel-a n'esse estado, a mulher do operario não pode occultar o seu
+assombro.
+
+Jeronymo secunda sua esposa na admiração.
+
+--Mas que é isto! Valha-me Deus, minha querida menina, disse a mulher de
+Jeronymo voltando-se para Magdalena.
+
+--Preciso falar-lhe em particular, e depois, com sua filha. O que me
+traz aqui, é grave e muito grave sr.ª Balbina.
+
+Esta, fazendo toda a diligencia para que Martha se não apercebesse da
+presença de Magdalena, leva a para uma pequena alcova que deita para o
+quintal de Jeronymo, outr'ora tão cuidadosamente tratado, e triste ha
+uns tempos a esta parte, como o coração do seu cultivador.
+
+--Estamos sós? perguntou Magdalena para Balbina.
+
+--Tão sós que ninguem nos póde ouvir, respondeu Balbina sem comprehender
+o que se passava em torno de si.
+
+--Em primeiro logar, como está a pobre Martha?
+
+--Mal! bastante mal, minha boa menina, e tanto que, hoje o medico...
+
+--O quê?
+
+--Disse-me que me não illudisse, ajuntou Balbina agarrando se á amiga de
+sua filha.
+
+--Pobre anjo! exclamou Magdalena apertando-lhe fortemente as mãos. E o
+que diz elle a respeito da sua doença?
+
+--Que é toda moral, e portanto mais difficil de se lhe encontrar o
+curativo.
+
+--E a que attribue a senhora isso? perguntou Magdalena fitando a mulher
+do operario.
+
+--Eu sei! respondeu esta, tornando a resumir-se ao silencio.
+
+--Seja sincera commigo, sr.ª Balbina, e lembre-se que ninguem n'este
+mundo será capaz de ser mais amiga de sua filha do que eu sou.
+
+--Creio o bem, minha senhora.
+
+--Pois então porque não abre commigo a sua alma? Diga me não deposita em
+mim bastante confiança no meu caracter? Olhe, continuou Magdalena,
+descobrindo inteiramente o rosto. Diga-me se n'estas feições adivinha a
+menor sombra de hypocrisia?
+
+--Por Deus, minha senhora! acudiu rapidamente a mulher de Jeronymo.
+
+--Pois então, Balbina, se acredita na lealdade de minha alma, seja
+sincera commigo, e fale-me como se eu fosse uma outra sua filha. Não
+imagina o prazer que me vae dar. Como eu serei feliz podendo desabafar
+n'um coração de mãe, quanta dôr existe n'este meu pobre peito.
+
+--Já que tanto insiste, minha senhora, vou confiar-lhe um segredo, que
+nunca me teria atrevido a revelar, se não fosse conhecer a nobreza da
+sua alma! O que a minha filha tem, é uma paixão, paixão que a leva á
+sepultura.
+
+--E esse homem que lh'a inspirou, é?... perguntou Magdalena, como se
+ainda uma pequena esperança lhe restásse.
+
+--Esse homem é o commandante da galéra Esperança, o mesmo que descobriu
+aonde estava meu marido, na noite do dia em que foi atropellado por seu
+excellentissimo pae.
+
+--Manuel de Mendonça! exclamou Magdalena.
+
+--Elle mesmo!
+
+--E elle?
+
+--Nunca mais o tornou a ver.
+
+--E como soube tudo isso? perguntou Magdalena.
+
+Balbina então contou-lhe quanto se havia passado entre Jeronymo e a
+filha, não lhe omittindo a circumstancia d'estas terriveis palavras:
+«esse homem é amado pela filha do nosso protector.» Magdalena pensou
+morrer. A nobreza d'alma d'aquelle anjo, deixando se descer á sepultura,
+sem interromper o sentimento que dominava o coração de Magdalena, a sua
+generosidade, abandonando-lhe por assim dizer aquelle homem que ella
+amava, e de quem tinha a certeza de ser correspondida, tudo concorreu
+para que no seu coração immenso tambem como o de Martha, se formassem
+mil conjecturas tendentes todas á generosidade.
+
+«Morrerei, pensava ella, mas salvarei este anjo que tão nobremente se
+me sacrificou. E que m'importa a vida? De que me serve este eterno
+martyrio? Vivam! que vivam para serem muito felizes, e abençoarem a
+minha memoria se eu concorrer como espero para a sua ventura!»
+
+--Bem, ajuntou Magdalena voltando-se para Balbina, vá ao quarto de
+Martha, veja o estado do seu espirito e se ella estiver mais tranquilla,
+quero-lhe falar.
+
+A pobre Balbina sem comprehender o choque que este encontro poderia
+produzir na alma de sua filha, apressou-se em cumprir as ordens de
+Magdalena.
+
+«Parece que sobre a nossa familia peza uma grande desgraça, continuou a
+filha de Tristão de Almeida olhando para o pequeno horto. De que serve a
+enorme riqueza de meu pae! A sua alegria, é sempre aquella eterna
+mascara com que tenta encobrir as lagrimas que o devoram na eterna
+solidão de sua alma. Minha mãe, afeita a illudir, tem chegado a
+convencer-se que é muito feliz, não passando d'uma desgraçada! Eu, que
+tenho passado uma existencia de tristeza, no momento em que pela
+primeira vez na vida me poderia considerar venturosa, vem o destino, e
+corta-me rapidamente o fio da minha felicidade. Olympia, graças ao seu
+genio, é a unica fadada para a completa tranquillidade da alma! Vive e
+come, pobre irmã, que seria o mesmo que dizer-te: vive e sê feliz!
+
+«Falarei com Martha, e hoje mesmo lançar-me-hei aos pés de meu pae,
+pedindo-lhe que d'esse dote dos quatrocentos contos que tantas vezes me
+tem promettido me conceda apenas cincoenta para dar a Martha, e depois
+de os ver ambos casados, felizes, abençoando a minha mão que lhe
+estreitou a sua ventura, eu então, ou buscarei a morte, ou fechar-me-hei
+entre as grades d'um convento!»
+
+N'este comenos entrou Balbina. Martha havia accordado e esperava a
+visita de Magdalena.
+
+Esta sem mais hesitar, entrou no quarto da criança, e, occultando a
+custo as lagrimas que a suffocavam, lançou-se sobre o leito abraçando a
+pobre amiga.
+
+--Ha dias que desejo falar-lhe sobre um assumpto muito importante,
+porém, a sua eterna reserva para todas as pessoas que deveras a estimam,
+tem sido a causa de me não ter atrevido, disse-lhe Magdalena. Quem mais
+do que Martha possue corações verdadeiramente dedicados? accrescentou
+ella. Não vê que está offendendo a Deus que a protege? Porque pensa em
+morrer, minha amiga? Não vê que morrendo, mataria sua mãe, seu pae, e
+que fará soffrer a todos que se interessam pela sua vida? Por que motivo
+se tem occultado á sombra da sua agonia sem buscar um peito amigo com
+quem desabafe os seus desgostos? Não tinha minha irmã? Não me tinha a
+mim? á sua propria mãe? Quem melhor do que ella, podia ser a confidente
+dos seus segredos?
+
+--Segredos! Eu? murmurou Martha.
+
+--Sim, Martha; segredos e muito importantes. Não queira negar-me o que
+sei.
+
+--Não tenho coisa alguma a negar, minha boa menina, respondeu Martha,
+como se já não tivesse forças para sustentar aquelle dialogo.
+
+Insciente do mal que as suas palavras poderiam influir no espirito de
+Martha, Magdalena seguia apenas a que o seu coração lhe ordenava.
+
+--Nunca amou ninguem, Martha? Seja sincera commigo. Deposite as suas
+magoas n'este coração que lhe quer tanto como se fosse sua propria irmã.
+
+Os olhos da creança inundaram-se de lagrimas. A mentira jámais havia
+passado por seus labios! A infeliz não sabia que responder.
+
+--Responda, minha irmã. Até hoje homem algum lhe feriu esse coração?
+Jura-m'o?
+
+Haveria ainda algum vestigio de esperança no coração de Magdalena ao
+insistir n'aquellas perguntas? Sabia-o Deus e a sua alma!
+
+Martha sem responder agarrou-se ao pescoço de Magdalena e desatou n'uma
+torrente de lagrimas.
+
+--Perdôe-me, disse ella emfim, mas eu não sabia que o amava. Foi o
+primeiro homem que meus olhos viram. Havia tanta bondade, tanta nobreza
+no seu caracter! A quantas pessoas perguntei por meu pae, todas me
+responderam brutalmente que não sabiam quem elle era. Aterrada com a
+minha desgraça, encontrei-me só, completamente só. Então, appareceu o
+sr. Manuel de Mendonça; promptificou-se a procurar meu pae, e
+encontrou-o. Desde esse dia, a sua imagem ficou-me impressa na memoria.
+Quiz esquecêl-o, mas era-me completamente impossivel! Dias depois, vi-o.
+O que eu sentia na minha alma, foi crescendo, crescendo gradualmente,
+até que reconheci que o amava. Quando já era tarde foi então que
+comprehendi toda a loucura do meu sentimento, avaliando ao mesmo tempo a
+immensa distancia que nos separava. Um dia, descobri que esse homem era
+amado por quem melhor do que eu o merecia. A dôr quebrava-me a alma, mas
+a ninguem revelava a minha angustia! Desde então, minha boa amiga,
+entendi que o melhor era esperar resignada o momento em que Deus me
+chamasse á sua divina presença sem ter deixado no mundo um rastro de
+ingratidão! Ame-o, sr.ª Magdalena! Amem-se, que são dignos um do outro,
+e, se um dia se recordarem da pobre Martha, vão ambos, rezem-lhe uma
+oração sobre a sua sepultura, e lembrem-se da que está no reino dos
+tristes pedindo a Deus pela sua ventura e pela felicidade do sr. Manuel
+de Mendonça!
+
+--E quem te disse a ti, filha, que esse homem era amado por mim?
+
+--O meu coração, respondeu Martha, inclinando a cabeça no travesseiro.
+
+--Illudiu-te, e o tempo t'o provará, respondeu-lhe Magdalena. Eu nunca o
+amei! accrescentou ella, empregando n'estas ultimas palavras todo o
+valor da sua alma. Eu só quero a tua felicidade, Martha.
+
+--A minha felicidade está no céu, respondeu a infeliz, levantando os
+olhos para o tecto.
+
+--Enganas-te! exclamou Magdalena. A tua felicidade está nos braços
+d'esse homem como a sua ventura deve estar n'um coração nobre e generoso
+como o teu! Já a mim mesma o prometti, irei hoje preparar o teu bem
+estar. Agora, filha, accrescentou Magdalena, que esses teus olhos se
+enxuguem para sempre, e que as lagrimas desçam sobre os meus para jámais
+os abandonar. E abraçando estreitamente a pobre creança, Magdalena sahiu
+do quarto, e sem quasi se despedir de Balbina, deixou a casa do operario
+e partiu para o hotel Bragança!
+
+[Ilustração: É de joelhos que lh'o imploro! (_pag. 213_)]
+
+
+
+
+XXX
+
+
+Ao chegar ao hotel de Bragança, Magdalena encontrou sua mãe louca de
+alegria. Já tinha sabido por Tristão e pelo visconde de Coruche, a mercê
+que sua magestade acabava de lhe offerecer.
+
+--Um abraço minha filha! exclamou D. Maria Egypciaca. El-rei, attendendo
+aos serviços que temos prestado ao paiz durante a epidemia, acaba de
+encarregar o conselheiro Poderosa, de perguntar a teu pae que nome
+deseja dar ao titulo de conde que lhe vae ser concedido. Fique portanto
+sabendo, accrescentou ella, que d'aqui a pouco tempo será filha de uma
+condessa! Que te parece Olympia?
+
+--Parece-me que sua magestade acaba de nos dispensar uma grande honra,
+respondeu Olympia, para dizer qualquer coisa a sua mãe.
+
+--Mas que vejo, Magdalena! disse D. Maria Egypciaca, voltando-se para
+sua filha. Que tens tu? meu Deus! que terrivel pallidez!
+
+--É tão grande a alegria que nossa mãe experimenta só com a ideia do
+titulo, que nem sequer reparou para o estado em que te encontras! Doe te
+a cabeça, Magdalena?
+
+--Não, respondeu ella; comtudo, sinto-me alguma coisa indisposta.
+
+--Pois faz a diligencia de te animares! É de suppôr que venha cá hoje
+passar a noite o conselheiro Poderosa. Já pedi a tua irmã quasi de mãos
+postas que se fizesse mais amavel. Veremos como se porta.
+
+--Preciso falar-lhe, minha mãe, interrompeu Magdalena, dirigindo-se a D.
+Maria Egypciaca.
+
+--É negocio grave, pelo que vejo! Succedeu alguma novidade no hospital?
+
+--Não, por certo. É outro assumpto inteiramente diverso.
+
+--Não podemos falar aqui mesmo? perguntou a futura condessa.
+
+--Já disse a minha mãe que era uma coisa em particular.
+
+D. Maria Egypciaca, seguida por sua filha, entrou no gabinete de
+Tristão, aonde varias vezes temos conduzido o leitor.
+
+--Que queres pois? perguntou ella, reclinando-se commodamente sobre uma
+cadeira á voltaire.
+
+--Venho prevenir minha mãe que desejo entrar para um convento antes do
+prazo de um mez.
+
+--Estás doida, ou variada! exclamou ella como se não acreditasse nas
+palavras que escutava.
+
+--Nem doida, nem variada! respondeu Magdalena. É uma resolução de que
+ninguem será capaz de me afastar.
+
+--Mas que te impelle a similhante determinação? Explica-m'o. Quem melhor
+do que tua mãe poderá ser tua confidente.
+
+--Basta que o saiba Deus, em cujos braços me quero occultar,
+respondeu-lhe serenamente Magdalena.
+
+--Esta rapariga enlouqueceu! acudiu D. Maria.
+
+--Já respondi a minha mãe que não estava louca, nem tão pouco variada,
+accrescentou Magdalena sentando-se no sophá.
+
+--Agora que, escudadas por um titulo, vamos brilhar como ninguem na
+sociedade, é que te queres retirar a um convento?
+
+--Quero agradecer ao Senhor os beneficios que lhe devo, recolhendo-me
+sob os tectos da sua habitação.
+
+--Jámais t'o consentiria, e muito menos teu pae.
+
+--Torno a dizer a minha mãe, que pessoa alguma poderá impedir a minha
+resolução.
+
+--Mas que pretendes, filha? Amas alguem? Receias que teu pae se opponha
+á tua vontade? Fala, fala por Deus, mas não me atormentes! Eu que
+esperava anciosa a tua vinda para te participar a alegria em que
+estavamos! Que esperava, emfim, passar uma noite agradavelmente na
+companhia do visconde e do conselheiro Poderosa, o encarregado por sua
+magestade de nos offerecer o titulo.
+
+--Não queria falar em coisa alguma com meu pae, sem primeiro lhe dizer
+as minhas intenções, ajuntou Magdalena com um sangue frio imperturbavel.
+
+--Ah! exclamou D. Maria Egypciaca, levantando-se rapidamente da
+poltrona. Comprehendo agora que não eram infundadas as desconfianças de
+teu pae.
+
+--Que desconfianças? perguntou Magdalena.
+
+--Que amas...
+
+--Eu?
+
+--Tu, sim...
+
+--Quem? perguntou Magdalena tornando se cada vez mais pallida.
+
+--O visconde de Coruche!
+
+--Que testemunho! Já disse uma vez a minha mãe, que nunca amei, nem
+seria capaz de amar o visconde.
+
+--Assim me queres convencer...
+
+--Nunca tentei illudir pessoa alguma, e muito menos a meus paes.
+
+--Então outro homem?
+
+--Não posso amar! respondeu Magdalena cada vez mais perturbada.
+
+N'este momento abriu-se a porta do gabinete, e entrou Tristão de
+Almeida.
+
+Ao contemplar a physionomia de Magdalena, a sua filha predilecta, o
+pobre pae sentiu um estremecimento que lhe toldou a côr do rosto!
+Julgou-a atacada pela febre.
+
+--Saberás, disse D. Maria Egypciaca, que n'um dia, para nós de tanto
+regozijo, a tua filha...
+
+--O quê? perguntou Tristão, voltando-se para sua mulher.
+
+--Quer recolher-se a um convento?! respondeu D. Maria.
+
+--Recolher-se a um convento!? perguntou Tristão como se não acreditasse
+em similhantes palavras. Recolher-se a um convento! accrescentou elle,
+voltando-se para Magdalena. Tu, filha da minha alma? Abandonares-me? Tu
+que és a unica ventura da minha vida? Mata-me primeiro, e depois, faze o
+que te aprouver! Sabes o que significa essa palavra «deixares me!»
+Ignoras que só tu me tens sustido a existencia? Não conheces inteira a
+minha vida? Não te contei todos os sacrificios que tenho feito por tua
+causa? Desconheces o que fiz para te ganhar um patrimonio; para ti, só
+para ti, que és a vida da minha vida? Deixares-me! quando a existencia
+começa a sorrir-me... quando os meus cofres cheios de ouro se
+despejariam ao teu mais pequeno capricho? Deixares-me quando a gloria
+desce sobre a nossa familia, não digo por esse titulo que não passa de
+uma miseria, mas pelo que temos feito por esses desgraçados. Se amas
+alguem, bom ou mau, rico ou pobre, dize m'o, e farei tudo para me não
+separar do teu lado. Se fôr bom, abraçal-o-hei, se mau, tu o tornarás
+bom, Magdalena! Pobre, o meu ouro o fará enriquecer, e tu verás
+cumpridos os teus desejos. Mas deixar-te? Nunca, torno a repetir t'o!
+
+--A minha resolução é inabalavel; comtudo, antes d'isso, tenho um grande
+favor a pedir lhe:
+
+Tristão parecia attendel-a sem consciencia de vida.
+
+--Segundo meu pae muitas vezes m'o tem dito, o meu dote é de
+quatrocentos contos?...
+
+--O teu dote é tudo quanto eu tenho, Magdalena, respondeu-lhe Tristão, e
+se ainda mais quizeres, accrescentou elle, mais ainda serei capaz de te
+adquirir.
+
+--Peço-lhe portanto um favor, meu pae.
+
+--Dize.
+
+--É que d'esse dinheiro, disponha de cincoenta contos para eu poder
+dotar uma amiga que tenho, se porventura ella resistir á enfermidade que
+a anniquila.
+
+--Terás, não cincoenta contos de réis para essa amiga, mas cem, duzentos
+ou aquillo que te aprouver! Porém, abandonares me, nunca! Queres esse
+dinheiro? Ámanhã; hoje; agora mesmo! Se o desejas, não tenho mais do que
+ir buscal-o a casa do meu banqueiro...
+
+É que esse homem perverso por instincto, o unico sentimento grande que
+havia experimentado na vida era o amor por sua filha!
+
+--Juras me que não abandonas teu pae? accrescentou elle pegando nas mãos
+de Magdalena e levando-as junto ao coração.
+
+--Juro que não abandonarei meu pae, respondeu Magdalena apertando-o nos
+braços!
+
+--Parece impossivel! disse Olympia, abrindo ao mesmo tempo a porta do
+gabinete. Ha mais de dez minutos que está a sopa na mesa, accrescentou
+voltando-se para Magdalena.
+
+--Já vamos, respondeu esta.
+
+--Ah! temos lagrimas! ajuntou Olympia sahindo do gabinete.
+
+--E quem é essa pessoa que tu queres dotar, Magdalena? perguntou Tristão
+depois de alguns momentos de silencio.
+
+--É Martha, a filha de Jeronymo.
+
+--Conta com esse dinheiro, respondeu Tristão.
+
+--Obrigada, disse lhe Magdalena. Agora estou mais tranquilla, e, dando o
+braço a Tristão, sahiram do gabinete, seguidos por D. Maria Egypciaca, e
+dirigiram-se á casa do jantar.
+
+ * * * * *
+
+ * * * * *
+
+Apresentado pelo visconde, ás oito horas da noite, entrou o conselheiro
+Poderosa.
+
+O visconde ao notar a pallidez de Magdalena, olhou de soslaio para o
+conselheiro, como se lhe indicasse o soffrimento que se lhe notava no
+semblante.
+
+Poderosa sorriu se! Depois, ao vêr a obesidade da irmã de Magdalena, o
+rosado das suas faces, e toda aquella economia exhalando vida e saude,
+pensou de si comsigo que era essa a unica mulher que lhe convinha.
+
+Depois das apresentações do estylo, o conselheiro sentou-se junto do
+magnate para lhe falar ácerca da missão de que sua magestade o tinha
+encarregado.
+
+No entretanto, o visconde, proximo de D. Maria Egypciaca, entretinha-se
+com a futura titular, discutindo sobre o nome que devia juntar-se ao
+titulo.
+
+--Minha senhora, dizia-lhe o visconde, eu não tenho a mais leve
+desconfiança que seu marido lhe usurpe o direito da escolha. O que
+depende do bello pertence a vossa excellencia, queira vossa excellencia
+lembrar-se do nome que deve ter esse titulo, accrescentava elle olhando
+significativamente para Magdalena, nos momentos em que por acaso
+encontrava os olhos do conselheiro.
+
+N'este comenos, o conselheiro, que acabava de falar com Tristão,
+approximou-se de D. Maria Egypciaca e do visconde.
+
+A conversação correu animadissima até ás onze horas da noite.
+
+Seguindo as instrucções do visconde, o conselheiro portou-se
+bizarramente no tocante a dissertações culinarias, falando sempre com
+muito acerto sobre os diferentes generos de cosinha.
+
+O coração de Olympia, ou, para melhor dizer o estomago de Olympia,
+começou desde esse momento a palpitar pelo joven conselheiro, e a
+cabeça, que tanta relação tem com essa viscera, principiou tambem a
+comprehender que era o conselheiro o unico marido que lhe convinha.
+
+Ás onze horas, retiraram-se o conselheiro e o visconde, combinando ambos
+com Tristão de Almeida a hora para no dia seguinte se encontrarem, a fim
+de se decidir o nome que devia ser escolhido para o titulo.
+
+ * * * * *
+
+D'ali a duas horas, Olympia resonando profundamente, via em sonhos um
+lauto banquete, e, a seu lado, com a farda de conselheiro, aquelle que
+na sua vida lhe tinha proporcionado o ensejo de se convencer que no seu
+todo havia uma outra viscera sem ser o estomago.
+
+Magdalena, com o rosto encostado aos vidros da janella, contemplava os
+astros, adivinhando em cada um d'elles o rosto grave e melancholico de
+Manuel de Mendonça.
+
+
+
+
+XXXI
+
+
+No dia seguinte á entrevista do conselheiro, á mesma hora que este e o
+visconde se preparavam para ir falar com Tristão, Manuel de Mendonça
+resolvia procurar informações de Martha.
+
+--Se tudo quanto te disse aquella infame beata, não fosse mais do que
+uma calumnia... pensava Manuel ao mesmo tempo que o proferia a
+Mascatudo.
+
+--Póde muito bem ser que tal aconteça, respondia-lhe o marinheiro. Em
+todo o caso, se eu fosse ao sr. Manuel de Mendonça...
+
+--Que fazias? acudiu rapidamente o capitão.
+
+--Ia saber d'aquella pobre menina.
+
+--Tomarei o teu conselho. Vou. Não sei o que me adivinha o coração;
+porém, ou eu me illudo muito, ou Martha está innocente como os anjos.
+
+--Estou da sua opinião. No que o senhor fez mal, foi em acreditar nas
+primeiras palavras d'essa mulher. Se eu sei, tinha-lhe occultado tudo
+quanto a seu respeito ouvi dizer.
+
+--Não te arrependas, Mascatudo; nos teus casos, teria feito o mesmo.
+
+--E se essa mulher não passasse de uma infame mentirosa?
+
+--E se tudo quanto a tia Monica te disse fosse verdadeiro? Que remorsos
+não terias n'este momento, se me tivesses dito que a conducta de Martha
+era irreprehensivel?
+
+--Isso lá é que é verdade, sr. Manuel de Mendonça. Em todo o caso, tudo
+se poderá hoje descobrir. Se o senhor consentisse que eu fosse em sua
+companhia...
+
+--Da melhor vontade e até me fazes muito favor.
+
+ * * * * *
+
+ * * * * *
+
+Em menos de um quarto de hora, Manuel de Mendonça acompanhado por
+Mascatudo, desembarcava na rocha do conde de Obidos e, subindo a rampa,
+dirigia-se para a rua do Meio.
+
+--Se lhe parece, disse Mascatudo ao chegarem á rua das Praças, vamos á
+tenda em que lhe falei. O caixeiro, que já é meu conhecido, póde nos dar
+mais algumas informações.
+
+--Confesso-te que me vae custando esta espionagem, respondeu
+placidamente Manuel de Mendonça.
+
+Seria a delicadeza da sua alma, ou o receio de saber alguma
+circumstancia menos favoravel ácerca da vida intima de Martha, que fazia
+com que o maritimo fugisse a mais investigações?
+
+Deixaremos isto ao juizo da intelligente leitora, que para casos de tal
+monta não nos julgamos habilitados.
+
+Ao chegar defronte da casa onde habitava a filha do operario, Manuel de
+Mendonça estremeceu. Lembrou-se da noite em que pela primeira vez a
+encontrára, quando ella com as supplicas de piedade lhe pediu entre
+lagrimas que a ajudasse a procurar seu pae. Logo, recordou-se das duas
+ou tres vezes que a vira no hotel Bragança, quando ainda as boccas
+maliciosas não se haviam aberto para lhe cuspir o fel da maledicencia.
+Em toda a pureza angelica da sua castidade, Martha desenhava-se-lhe
+deante dos olhos, como muitas e muitas vezes a imagem grata de sua mãe
+lhe apparecia por entre as nevoas da tarde, quando a galera, sulcando as
+aguas do oceano, o conduzia a estranhos climas onde nem um só coração
+amigo se lhe approximava.
+
+Mascatudo comprehendeu-lhe o soffrimento.
+
+--Que devemos fazer? perguntou Manuel.
+
+--Sondar estes baixios, e se o rumo não fôr perigoso, seguiremos a nossa
+derrota, respondeu Mascatudo.
+
+N'este momento passava uma carruagem.
+
+Manuel olhou instinctivamente para dentro do trem.
+
+Ao mesmo tempo, o cocheiro como se já estivesse prevenido, estacou os
+cavallos.
+
+Era Magdalena que vinha dentro da carruagem!
+
+Collocando a cabeça fóra do postigo, a filha de Tristão fez um aceno a
+Manuel para que se approximasse.
+
+--Necessito falar-lhe quanto antes, acudiu ella rapidamente, dirigindo
+se ao maritimo, que a contemplava com um gesto de espanto impossivel de
+descrever. Provavelmente, accrescentou ella, tenciona ir ver a pobre
+Martha; não o faça sem primeiro me falar.
+
+--Estou ás ordens de vossa excellencia, respondeu Manuel de Mendonça,
+reconhecendo n'esse momento a filha de Tristão de Almeida.
+
+--Mas aqui é inteiramente impossivel por causa da visinhança,
+accrescentou ella, com uma voz tremula e assustada.
+
+--Dir-me-ha então?... perguntou Manuel.
+
+--Dirija-se ao passeio da Estrella. Espero-o na montanha; e antes que
+Manuel tivesse tido tempo de reflectir, Magdalena falou ao cocheiro, e
+os cavallos partiram n'um trote largo, caminho da rua dos Navegantes.
+
+Manuel ficou como assombrado! Não sabia que pensar! Aquella mulher, que
+na ante-vespera o estivera olhando por um telescopio, seria a confidente
+dos amores de Martha, ou seria ella mesma que o amava? Aquella insolita
+maneira de o avisinhar; a perturbação das suas palavras; a visivel
+pallidez do rosto, que augmentava á proporção que os seus olhos o
+contemplavam, tudo concorria para que o maritimo ficasse como abysmado.
+
+--Que foi isso? perguntou Mascatudo, ao notar a profunda perturbação de
+Manuel de Mendonça.
+
+Manuel contou-lhe o que se havia passado.
+
+--E que tenciona fazer? perguntou Mascatudo.
+
+--Ir immediatamente para o passeio da Estrella. Que te parece?
+
+--Que vá quanto antes, respondeu Mascatudo.
+
+Sem mais hesitação, Manuel de Mendonça entrou na rua da Bella Vista, e
+seguiu para o passeio da Estrella.
+
+--Espera-me aqui junto ao lago, disse elle a Mascatudo ao entrarem as
+portas do passeio.
+
+
+
+
+XXXII
+
+
+Espera-o, martyr! Unge-lhe o peito com o divino balsamo do teu nobre
+sacrificio! Lagrimas misericordiosas foram as tuas, derramadas sobre a
+face da pobre virgem! Vae, infeliz; fere, profunda, arranca uma por uma
+as fibras do coração, e que o sangue que d'ahi te gotejar, lavando as
+nodoas do futuro conde lhe purifique a alma para um dia entrar no reino
+dos justos com o passaporte de uma retribuição!
+
+ * * * * *
+
+ * * * * *
+
+Manuel subiu á montanha.
+
+Magdalena não faltára.
+
+--Venho cumprir com as ordens de vossa excellencia, disse Manuel de
+Mendonça, approximando-se.
+
+--Ah! respondeu ella, como se despertasse de um sonho. E accrescentou,
+visivelmente perturbada: realmente, deve estranhar o meu proceder,
+porém, uma circumstancia grave e muito grave me obrigou a procural-o
+hoje mesmo. Tracta-se de salvar uma pessoa cuja vida me interessa.
+
+--Estou ás ordens de vossa excellencia para tudo quanto me fôr possivel.
+
+--Sabe que tem estado á morte a filha de Jeronymo?
+
+--Não o sabia, minha senhora, respondeu Manuel começando tambem a
+perturbar-se.
+
+--Ha quinze dias que a infeliz, deitada sobre o leito da agonia, olha
+para o céu que lhe pertence. Hontem, que foi a ultima vez que lá estive,
+o medico sahiu completamente desanimado. A sua enfermidade é menos
+physica do que moral, e só á ultima hora lhe podemos descobrir a causa.
+
+--E essa causa é?... perguntou Manuel.
+
+--Amar um homem que a tem desprezado! Aquelle anjo, occultando a todos o
+sentimento que a devora, reclinou se sobre a sua sepultura, aguardando
+apenas que lh'a venham abrir para desprender a alma a Deus!
+
+Os olhos de Manuel humedeceram se de lagrimas. Havia tanto sentimento
+nas palavras de Magdalena, a sua voz, ainda ha pouco perturbada,
+tornára-se tão firme e tão segura, que elle não pôde ver em Magdalena
+mais do que uma amiga verdadeira e dedicada de Martha.
+
+--E onde existe esse homem que a póde salvar?
+
+--Onde existe?... accudiu Magdalena com uma expressão que principiava a
+denunciar-lhe o seu estado. Esse homem... accrescentou ella, é... o sr.
+Manuel de Mendonça!
+
+--Eu! exclamou o maritimo n'um transporte de indescriptivel alegria.
+
+--Sim, continuou Magdalena. O senhor, em cujo espirito adivinhou
+inteira a sua felicidade. O senhor a quem uma vez encontrou na
+existencia para nunca mais o esquecer! Mais tarde, o seu coração candido
+e inexperiente fez-lhe conhecer que o amava. O seu nascimento, a
+humildade de educação, a pobreza de seus paes, tudo emfim concorreu para
+que Martha não se atrevesse a declarar a pessoa alguma o amor que o
+senhor lhe tinha inspirado. Emquanto teve forças, lutou, mas um dia,
+exhausta, a pobre Martha cahiu como essas flores delicadas que não têem
+força bastante para supportarem a furia dos elementos. Hontem,
+finalmente, abriu-me inteira a sua alma, alma candida e serena como a
+dos anjos que hoje lhe tecem o seu diadema de martyr! Sem lhe
+descortinar as minhas ideias, resolvi commigo mesma de o procurar, e
+pedir-lhe que salve da morte a minha pobre amiga. Não sei quem v. s.ª é,
+porém, julgo-o um homem de bem e capaz de fazer a felicidade de qualquer
+mulher.
+
+Pallida, com as fontes palpitantes e os olhos afogueados por aquella
+immensa lucta em que a alma se lhe debatia, Magdalena parecia elevar-se
+nas azas de uma inspiração sublime! Levantando depois a voz que
+principiava a enfraquecer-lhe, Magdalena pediu a Manuel que lhe
+concedesse a sua mão para a filha do operario.
+
+Manuel não respondeu!
+
+E no emtanto as aves chilreando por entre as ramas dos arvoredos vinham
+como n'um concerto infernal soar aos ouvidos da pobre Magdalena!
+
+--Que me diz, sr. Manuel de Mendonça? Hesita? Não a ama? É possivel?
+Quem póde deixar de amar aquelle anjo?! exclamou Magdalena dando emfim
+livre curso ás suas lagrimas.
+
+--Mas porque chora? perguntou Manuel de Mendonça dirigindo-se meigamente
+para Magdalena.
+
+--Porque choro? Porque avalio a dôr de Martha! Porque a sinto tão viva
+e tão penetrante como ella que a soffre! Porque choro? Porque sei quanta
+agonia ha, n'esse amar em silencio, o homem que nunca póde ser nosso!
+
+--Pelo que vejo... ama alguem? perguntou Manuel com voz tremula.
+
+--Já amei alguem... sim... mas ha muito tempo. Hoje não, sr. Manuel de
+Mendonça! Hoje, toda a minha vida cifra-se apenas n'uma missão que tenho
+a cumprir.
+
+--E essa missão, é?..
+
+--Vel-o casado com Martha. Vão ambos ser muito felizes. Ella ama-o
+tanto, tanto como eu seria...
+
+Aqui a voz ficou-lhe embargada n'uma torrente de lagrimas.
+
+E as avesinhas chilreando por entre a moita dos junquilhos que
+emmolduravam a montanha, acordavam no espirito de Magdalena um como
+concerto infernal!
+
+Finalmente, Manuel de Mendonça prometteu-lhe que pediria a Jeronymo a
+mão de sua filha.
+
+Apertando-lhe fortemente a mão, Magdalena despediu-se do maritimo e saiu
+do passeio.
+
+Como aturdido por aquelles estranhos acontecimentos, Manuel dirigiu-se
+para o sitio onde Mascatudo o esperava, e, saindo tambem do passeio
+dirigiram-se pela rua da Boa Morte.
+
+--Para onde vae, sr. Manuel de Mendonça, perguntou Mascatudo vendo que o
+seu capitão seguia a direcção da estrada do cemiterio dos Prazeres.
+
+--Preciso de ar livre, respondeu-lhe Manuel. Escalda-me a febre. Para
+que haviamos de ter vindo a Lisboa?
+
+Era tal a agitação do seu espirito, que Mascatudo nem se atreveu a
+perguntar-lhe o resultado da entrevista que tivera com aquella senhora.
+
+O mais que entre ambos se passou foi um mysterio. Soube-o ella e Manuel
+de Mendonça. Agora, quando estas paginas escrevemos, Magdalena dorme o
+somno da morte. Manuel, discreto como a sepultura da pobre amiga, seria
+incapaz de o revelar.
+
+
+
+
+XXXIII
+
+
+Ao metter-se no trem, Magdalena dissera ao cocheiro que parasse na rua
+do Meio.
+
+Ao voltar para a esquerda da rua da Bella Vista, ouviu que a chamavam.
+Era Monica!
+
+Magdalena mandou parar o trem e a beata approximou-se.
+
+--Ora aqui a temos outra vez com os olhos arrasados de lagrimas!
+exclamou ella. São essas as promessas que me tem feito? Pois, minha
+querida menina, accrescentou a velha, quanto estimo tel-a encontrado!
+Fique vossa excellencia sabendo, que o amigo do meu sobrinho, com quem
+me vou encontrar, ficou de me dizer hoje tudo _tim tim por tim tim_!
+
+--Pois, sr.ª Monica, respondeu-lhe Magdalena, tirando duas libras do
+_porte-monnaie_, e entregando-as na mão da beata, escusa de se
+incommodar mais por minha causa.
+
+--Ora essa, minha senhora! accudiu rapidamente a velha, fechando ao
+mesmo tempo a mão onde as libras se occultavam. Dar-se ha o caso,
+continuou ella, que não esteja satisfeita com os meus serviços? Se tal
+succede, ralhe-me, ralhe-me muito mas não me tracte por essa forma.
+
+--Não é isso, tia Monica: é que já sei tudo quanto tinha que saber; e,
+fazendo um signal ao cocheiro, fez com que o trem seguisse a sua
+direcção, deixando a beata estupefacta pelo que vinha de lhe acontecer.
+
+Ter-lhe-ia Manuel de Mendonça contado a historia dos seus amores?
+Ter-lhe-ia narrado o que se dera entre Mascatudo e a beata? Ignoramol-o!
+
+O trem chegou á porta de Jeronymo. Ao apear-se, Magdalena foi recebida
+de braços abertos por Balbina e pela sua amiga.
+
+Como era de esperar, Martha n'aquella noite havia peiorado!
+
+--Venho prevenil-a, que ámanhã antes do meiodia, alguem virá pedir-lhe a
+mão de sua filha, disse Magdalena. Agora mesmo acabo de estar com essa
+pessoa. Quando prometto, cumpro, embora vá n'isso a existencia.
+
+A gratidão não tem phrases! Balbina e Marianna, abraçando-se a
+Magdalena, confundiam entre as suas, as lagrimas da pobre martyr!
+
+--Agora, murmurou Magdalena desembaraçando-se das suas protegidas,
+cumpre-me falar com Martha.
+
+--Mas, é possivel que um senhor d'aquella ordem deseje casar-se com a
+filha de um mestre de obras perguntou Balbina com as lagrimas nos olhos.
+
+--Almas como as de Manuel de Mendonça, olham apenas para a virtude e
+nunca para o nascimento, respondeu Magdalena.
+
+--Manuel de Mendonça?! exclamou Marianna com uma voz tremula e
+indecisa. E que edade tem esse homem? E quem são os seus paes? ajuntou a
+pobre mulher approximando-se cada vez mais da filha de Tristão de
+Almeida.
+
+--Infelizmente, não tem paes, respondeu Magdalena.
+
+--E sabe vossa excellencia quem elle é, perguntou Marianna.
+
+--Sei.
+
+--Oh! por piedade! diga m'o! Dar-se-ha o caso que seja...
+
+--Quem? perguntou Magdalena visivelmente perturbada.
+
+--O meu filho, que ha vinte e tres annos supponho morto!
+
+--Como se chama elle? perguntou Magdalena.
+
+--Manuel de Mendonça Athayde, respondeu a velha com uma voz
+enfraquecida.
+
+--E seu marido?... como se chamava? ajuntou Magdalena.
+
+-Alvaro de Mendonça...
+
+--Justiça de Deus! exclamou a filha de Tristão, caindo sobre o canapé, e
+occultando o rosto entre as mãos.
+
+--Oh! mas por Deus não me torture! bradou Marianna, lançando-se aos pés
+de Magdalena. Diga-me se é elle o meu querido filho! É; não ha duvida!
+Essa sua perturbação... Vive ainda o meu Manuel, o meu querido filho da
+minh'alma? Não a deixo, minha senhora, não a deixo emquanto me não
+contar tudo!
+
+--É o seu filho! respondeu Magdalena levantando-se com uma serenidade
+heroica. Deus que nunca desamparou os que são verdadeiramente bons,
+concedeu-lhe em mim o instrumento da sua justiça, e n'elle a consolação
+para a sua velhice. Agora sr.ª D. Marianna, ajuntou ella lançando-se aos
+pés da velha, sou eu quem lhe devolve o seu filho, que, em nome de Deus
+e em meu nome, lhe pedimos o perdão para um culpado! Concede-m'o?
+
+Marianna não sabia que responder!
+
+--É de joelhos que lh'o imploro! ajuntou ella, collocando-se deante da
+velha, e confundindo as suas vestes de setim negro, com os andrajos da
+infeliz!
+
+--Eu vos perdôo de todo o meu coração! exclamou D. Marianna de Mendonça
+cahindo sobre o chão. Mas a quem perdôo eu? accrescentou a infeliz
+senhora, que não pensava senão em ver seu filho!
+
+--Obrigada, disse Magdalena levantando D. Marianna, e levando-a de
+encontro ao coração! Agora que _lhe_ perdoou, vou buscar seu filho, e
+trazel o aqui mesmo.
+
+Com uma physionomia alvar, Balbina contemplava toda esta scena sem a
+comprehender.
+
+Magdalena fechou-se por alguns instantes no quarto de Martha. Afinal
+sahiu, e, abraçando de novo as suas amigas, entrou no trem, e seguiu
+para o hospital.
+
+No entretanto, Manuel de Mendonça descendo a calçada das Necessidades
+dirigia-se para bordo.
+
+
+
+
+XXXIV
+
+
+«Felizmente, pensava Magdalena, Manuel de Mendonça nem sequer desconfia
+que Tristão de Almeida foi Felix Justino de Araujo e muito menos
+Domingos de Andrade. Poderei conseguir tudo sem comprometter meu pae.
+Vejamos; seriam quarenta, cincoenta contos... Pedir-lhe-hei o meu dote,
+e será uma retribuição generosa! Ao principio oppôr se-ha ao meu pedido,
+mas por ultimo, não terá outro remedio senão acceder. Occultarei tudo de
+minha mãe. Permitta Deus que o possa encontrar no hospital. São estas as
+suas horas.»
+
+N'este momento, o trem chegava á rua de S. Francisco de Paula. Ao entrar
+o portão, a primeira pessoa que lhe appareceu, foi a criada de Olympia,
+dando lhe os parabens não só pelo titulo que haviam concedido a seu pae,
+como pelo lindo nome que elle tinha escolhido: o conde de S. Luiz.
+
+Sem lhe prestar attenção alguma, Magdalena perguntou-lhe apenas se alli
+estivera seu pae.
+
+--Ora essa! respondeu a criada de Olympia; acaba agora mesmo de ir para
+o paço, afim de agradecer a sua magestade.
+
+--E Olympia?
+
+--Sua irmã está lá em cima na casa de jantar a comer umas gallinholas,
+que até dá nauseas a quem vê similhante coisa! Mandou fazer umas
+torradas, e deitar sobre ellas o miolo das tripas. Já viram maior
+porcaria? E diz ella que é o melhor cozinheiro que tem tido, e que faz
+pena que esteja no hospital!
+
+Magdalena subiu á casa do jantar, onde encontrou sua irmã deliciando o
+paladar n'uma soberba torrada coberta dos despojos ornithologicos
+d'aquella innocente gallinhola.
+
+--Já sabes o titulo que o papá escolheu? perguntou Olympia.
+
+--Sei, respondeu Magdalena quasi sem lhe prestar attenção.
+
+--É muito bonito! não achas?
+
+--Muito bonito!
+
+--Estiveste em casa de Martha?
+
+--Estive.
+
+--Vae melhor?
+
+--Muito melhor.
+
+--Não te offereço d'esta gallinhola porque é de suppôr que não esteja ao
+teu gosto, disse Olympia dissecando a _carcassa_ da avesinha.
+
+--Agradeço, murmurou Magdalena deixando sua irmã, e dirigindo-se para o
+terceiro andar d'onde dias antes contemplava a galera de Manuel de
+Mendonça.
+
+Alli pôde emfim dar livre curso ás suas lagrimas!
+
+D'aquella janella por mais de uma vez, insciente da cruel realidade,
+contemplára o Tejo, no Tejo a barca, na barca o homem, no homem, tudo
+quanto havia de mais valioso para o seu coração!
+
+Fôra d'alli que vira o seu primeiro desengano, quando Manuel de
+Mendonça, afastando o oculo, lhe denunciava não ser ella a pessoa que
+tão anciosamente buscava!
+
+Só, entregue a uma multidão de pensamentos, Magdalena começou a planear
+o modo de seu pae restituir os quarenta contos de réis extorquidos a D.
+Marianna de Mendonça.
+
+Magdalena tinha sobejas provas de que a virtude nem sempre havia adejado
+sobre o proceder de Felix Justino de Araujo. Não ignorava que uma grande
+parte da sua riqueza tinha sido adquirida em commercios illicitos,
+porém, o que ella jamais suppozera, é que seu pae tivesse sido capaz de
+um roubo.
+
+Juntem-se a estas grandes agonias, o infeliz amor que lhe ia n'alma, e
+vossa excellencia que me lê, e, cujo coração é egual ao de Magdalena,
+diga me se dôres tamanhas podem caber em coração humano!
+
+Alli se demorou perto de meia hora. Depois, como se um pensamento lhe
+acudisse rapidamente á imaginação, a infeliz saiu d'aquelle quarto,
+lançando-lhe uma ultima e dolorosa despedida!
+
+Ao descer ao segundo pavimento encontrou Olympia.
+
+--Que tens? perguntou esta ao notar a pallidez de Magdalena.
+
+--Doe-me a cabeça.
+
+--Isso é fraqueza, respondeu Olympia. Assim estou eu.
+
+Magdalena desceu ás enfermarias e depois de dar as suas ordens, entrou
+no trem e mandou seguir para Alcantara.
+
+ * * * * *
+
+ * * * * *
+
+«Disse-me que ia para bordo. Já lá deve estar. Mas isto é uma loucura,
+pensava ella. Uma mulher da minha edade ir procurar um homem a bordo do
+seu navio? Embora! A minha consciencia está livre e tranquilla! Não foi
+Deus quem predispoz todas estas circumstancias, servindo-se de mim para
+sua intermediaria? Que poderei receiar?»
+
+Voltando-se para o cocheiro disse-lhe que parasse na rocha do Conde de
+Obidos.
+
+Ao chegar ao boqueirão, Magdalena apeou-se, e dirigindo-se aos
+catraeiros, pediu a um d'elles que a levassem a bordo da galera
+Esperança.
+
+Todos queriam ser o primeiro a conduzil-a.
+
+Escolhendo o mais edoso, desceu a rampa e entrou no bote.
+
+Que de poemas se agitavam em sua alma á medida que se approximava da
+galera! Como ella, escrava de um dever, ia para sempre abandonar a sua
+ventura!
+
+Restava-lhe apenas no meio dos seus infortunios, a grata lembrança de
+devolver aos braços d'aquelle homem a pobre mãe que elle tão anciosa e
+infructiferamente havia buscado!
+
+A pouca distancia viu Manuel de Mendonça, de pé, encostado á amurada.
+Com o rosto curvado sobre o peito, olhava para as aguas da corrente, que
+vinham no seu eterno movimento gemer de encontro á quilha da embarcação.
+
+Ao ver aquelle bote que se lhe dirigia por estibordo, reconheceu
+immediatamente a filha de Tristão de Almeida, e, descendo a escada de
+corda, veiu recebel-a no momento em que abordava á embarcação.
+
+--Preciso falar-lhe, disse Magdalena. E nem mesmo subo, ajuntou ella,
+olhando tristemente para a galera.
+
+Manuel entrou para o bote, e Magdalena mandou que remassem para o caes.
+
+Durante o curto espaço de tempo que levaram em chegar á rocha,
+Magdalena não lhe dirigiu uma palavra.
+
+Manuel não sabia que pensar.
+
+Os catraeiros olhando-se mutuamente, conjecturavam entre si, o que seria
+a causa d'aquelle mysterio.
+
+Chegaram finalmente á rocha.
+
+Ao subir as escadas, Magdalena voltou-se para Manuel de Mendonça, ergueu
+o véu que lhe occultava o rosto, e demorou-se fitando-o por alguns
+instantes.
+
+--Vim buscal-o tão apressadamente, porque lhe quero dar o maior prazer
+que tem experimentado na sua vida. A Providencia fez com que me
+encontrasse, para lhe depositar nos seus braços tudo quanto tem de mais
+precioso sobre a terra.
+
+Manuel contemplava-a sem comprehender uma palavra.
+
+--Não lhe offereço o meu trem; poder se-ia tornar reparado, accrescentou
+ella; mas, o que lhe peço, é que venha immediatamente a casa de Jeronymo
+para onde me dirijo. E saltando para dentro do trem, mandou ao cocheiro
+que seguisse para a rua do Meio.
+
+Metteu-se n'uma sege que passava n'aquelle instante Manuel de Mendonça e
+acompanhou a carruagem de Magdalena.
+
+Chegaram ao mesmo tempo á porta de Jeronymo.
+
+Magdalena foi a primeira a apear-se, e, entrando rapidamente em casa de
+Jeronymo, dirigiu-se ao quarto de D. Marianna de Mendonça.
+
+A pobre senhora lançou-se-lhe nos braços!
+
+--Venho cumprir a minha promessa, disse-lhe Magdalena. Vae ver seu
+filho! O que lhe peço, é que tenha valor para resistir a este lance! e,
+abrindo a porta que communicava com a saleta, chamou em voz alta por
+Manuel de Mendonça.
+
+ * * * * *
+
+ * * * * *
+
+Vêde a leôa a quem haviam roubado o filho, e que o torna a colher entre
+as suas garras, e podereis avaliar o que se passou n'aquella eternidade
+de sensações.
+
+ * * * * *
+
+ * * * * *
+
+Magdalena, de pé, com os olhos arrasados de lagrimas, contemplava esta
+scena ao lado da mulher de Jeronymo.
+
+Perto de cinco minutos esteve a pobre mãe agarrada ao pescoço de Manuel
+de Mendonça! Ainda lhe parecia impossivel aquella palpavel realidade!
+Desprendendo-se emfim do collo de seu filho, D. Marianna lançou-se aos
+pés de Magdalena, e, beijando-lh'os no transporte de uma alegria
+assustadora, ergueu-se de novo cingindo-a pela cintura e cobrindo-lhe a
+face de beijos e lagrimas de gratidão!
+
+--Agora, disse Magdalena desembaraçando se de D. Marianna, devemos
+attender ao estado de Martha. É necessario prevenirmos todas estas
+circumstancias. Ter-nos-ha ouvido?
+
+--Com certeza que não; e demais tem um somno muito pesado, respondeu
+Balbina enxugando as lagrimas que lhe rolavam pelo rosto.
+
+N'este momento, Martha chamava por sua mãe.
+
+Balbina e Magdalena dirigiram-se ao quarto da doente.
+
+--Que voz foi essa que ouvi na saleta, minha mãe? perguntou Martha sem
+notar a presença de Magdalena.
+
+--Era a minha voz, respondeu a filha de Tristão approximando-se do leito
+e beijando-a na face.
+
+--A sua! exclamou ella. Eu suppunha...
+
+--O quê?
+
+--Que era...
+
+--A voz de Manuel de Mendonça? Não se illudiu. É Manuel que vem hoje
+pedil-a a seu pae.
+
+Erguendo se n'um impeto de suprema vontade, Martha lançou-se ao pescoço
+de Magdalena.
+
+Que lagrimas não foram as d'essas duas mulheres! N'uma, o pranto
+consolador da alegria; na outra, lagrimas que vinham do coração,
+abrazando-lhe as palpebras n'um fogo do inferno!
+
+--Valor! disse Magdalena, soltando-se dos braços de Martha, é necessario
+que se restabeleça para em breve conceder a sua mão ao filho de D.
+Marianna de Athayde!
+
+--Ao filho de Marianna de Athayde! exclamou ella sem comprehender uma
+palavra do que acabava de ouvir!
+
+--Sim, ao filho da sua amiga Marianna.
+
+--Então Manuel de Mendonça é...
+
+--Seu filho. Agora, cumpre-me dar ainda alguns passos para resolver
+completamente a minha missão, e, abraçando a sua protegida, Magdalena
+sahiu do quarto e dirigiu-se á saleta aonde Manuel de Mendonça, ainda
+preso nos braços de sua mãe, agradecia á Providencia o ter-lhe devolvido
+tudo quanto elle tinha de mais caro n'este mundo.
+
+Ao vel-a, D. Marianna lançou-se-lhe de novo ao pescoço e cobriu-a de
+beijos!
+
+Manuel de Mendonça, que fixára o rosto entristecido de Magdalena, cravou
+os olhos no chão, como receiando que o trahisse o seu olhar.
+
+Teria elle comprehendido o que se passava no coração de Magdalena?
+
+--Agora, disse Magdalena, retiro-me. Ámanhã sendo meio dia, aqui
+estarei, por que tenho graves negocios a tractar com vossa excellencia e
+com seu filho. Extendendo a mão a este ultimo e a D. Marianna, Magdalena
+retirou-se, caminho do hospital.
+
+
+
+
+XXXV
+
+
+Havia quinze dias que sahira o decreto concedendo o titulo de «conde de
+S. Luiz» ao illustre e philanthropico varão, que, com tanto e tanto
+afan, continuava a espalhar as joias da sua caridade.
+
+A condessa, impando de orgulho e de vaidade, ora se pavoneava pelas ruas
+mais concorridas da capital, ora embocetada no palacio de S. Francisco
+de Paula, aguardava o sequito das fidalgas caridosas, que, esquecendo o
+amarellecido dos seus pergaminhos, iam, movidas pela virtude da moderna
+titular, fazer antecamara áquella que dias antes se chamava apenas D.
+Maria Egypciaca.
+
+Graças ás repetidas instancias do seu amigo o visconde de Coruche,
+Tristão de Almeida, ou, para falarmos com mais propriedade, o conde de
+S. Luiz, fizera um arrendamento a longo prazo de um magnifico palacio em
+Buenos-Ayres, outr'ora pertencente aos marquezes de...
+
+Encarregando-se por especial favor do que dizia respeito ás
+cavallariças, o visconde, como homem entendido na materia, fez
+acquisição de tudo quanto n'esse genero havia de melhor.
+
+Tornou-se notorio o luxo d'aquella irreprehensivel vivenda.
+
+Os fidalgos, que n'esse tempo--menos por necessidade, do que pelo prazer
+de manifestarem aos quatro ventos do céu o seu desamor pela
+archeologia--esbanjavam sem dó nem piedade, os mais preciosos objectos
+de arte, deparados nos empoeirados sotãos dos seus castellos feudaes,
+correram atropellando-se ao escriptorio do conde de S. Luiz, afim de ver
+qual seria o primeiro a depositar nas mãos do magnate as nobres
+reliquias dos seus preclarissimos antepassados. Não tardou que o palacio
+do conde de S. Luiz se tornasse n'um museu de antiguidades! Retratos
+houve de familia, que foram jazer empilhados na estrebaria por não lhes
+permittirem os salões o seu elevado porte.
+
+O conde, pagava tudo com prodiga generosidade, o que lhe deu o triste
+resultado de alguem lhe metter um collar de perolas falsas por barrocas,
+o que elle generosamente acceitou e pagou, attendendo que esse mesmo
+collar havia figurado no pescoço de um grande ministro de um excelso
+monarcha.
+
+Juntem se a estas nobres qualidades, uma mesa esplendida, e que o leitor
+avalie se a casa do conde de S. Luiz seria ou não frequentada.
+
+O conselheiro Poderosa, graças ás ausencias do visconde, de dia para dia
+se tornava mais sympathico para Olympia, para o conde e para a condessa.
+
+Olympia adivinhava no conselheiro, não só um marido exemplar, como um
+dedicado companheiro de mesa, prompto sempre a affrontar qualquer ataque
+apopletico por mais anormaes que fossem as epochas.
+
+O conselheiro comia e bebia por dez conselheiros, o que era
+extremamente agradavel para Olympia, porém, quando ella um dia notou que
+depois do jantar, os olhos do seu futuro se fitaram brandamente n'uma
+othomana que estava proxima, Olympia exultou de alegria, e viu n'esse
+homem, o unico individuo capaz de fazer a sua felicidade: comer e
+dormir, acordar e comer!
+
+Olympia esperava apenas que o conselheiro a pedisse a seu pae.
+
+A condessa sabia d'estes amores. Por mais de uma vez tinha dito a
+Olympia, que pela sua parte não encontraria a menor opposição.
+
+Exceptuando duas pessoas, todos alli viviam felizes: essas duas, eram
+Magdalena e o conde de S. Luiz! O que entre ambos se havia passado,
+sabia-o apenas Deus, que ajudára a primeira nos seus pedidos e escutara
+as promessas do segundo!
+
+Quanto á condessa de S. Luiz, ou porque a sua alegria não lhe tivesse
+dado tempo a reflectir na tristeza do conde e de sua filha ou porque
+inteiramente lhes não desse importancia, não cuidava senão em distrahir
+os seus convidados.
+
+Aos almoços, succediam-se os jantares, a estes os bailes, de forma que o
+palacio do conde de S. Luiz tornou se em poucos dias o centro da melhor
+sociedade de Lisboa.
+
+Debalde tentavam Magdalena e seu pae, encobrir a dôr que lhes roubava a
+felicidade. Este ultimo, vendo constantemente deante dos olhos a imagem
+grave e severa de D. Marianna de Mendonça, recordando lhe o seu passado;
+Magdalena lembrando-se do homem que teria feito a ventura da sua alma,
+mas a cujo sacrificio tinha prendido um juramento!
+
+ * * * * *
+
+Magdalena no dia immediato áquelle em que entregara Manuel de Mendonça
+nos braços de sua mãe, fechada com seu pae no escriptorio do hospital,
+communicára-lhe tudo quanto dizia respeito á familia de Athaide de
+Mendonça.
+
+O conde de S. Luiz, que não tinha segredos para sua filha, abrindo-lhe
+inteira a sua alma, desenhára-lhe em traços rapidos o quadro inteiro da
+sua vida, accrescentando-lhe, que por ella e só por ella havia incorrido
+em certas _coisas_ de que se arrependia profundamente.
+
+Magdalena exigiu-lhe uma restituição d'aquelle dinheiro extorquido á
+viuva, compromettendo-se a preparar tudo de forma que a opinião publica
+ainda mais se levantasse em favor de seu pae, vendo-o entregar cem ou
+duzentos contos de réis, á filha d'esse homem, para cuja morte
+involuntariamente havia concorrido.
+
+Concordando plenamente em tudo quanto Magdalena exigiu, pediu apenas a
+sua filha o maior segredo para com a condessa e Olympia, accrescentando
+a isto a maior brevidade possivel no casamento, o qual, auctorizando
+aquella restituição, lhe ia devolver a paz ao espirito.
+
+Abraçando seu pae, Magdalena assegurou-lhe que partiria immediatamente
+para casa de Martha, afim de se oferecer para madrinha do seu casamento.
+Com effeito, ás duas horas da tarde, e não ao meio dia como havia
+combinado com Manuel de Mendonça, Magdalena entrou em casa do operario.
+
+Martha havia passado a noite mais tranquilla. O doutor não se tinha
+illudido; a sua doença era menos physica do que moral.
+
+Desde as onze horas da manhã que Manuel de Mendonça estava ao lado de
+sua mãe. Já na vespera tinha visto Jeronymo, e já lhe havia pedido a mão
+de sua filha.
+
+Magdalena entrou no quarto de Martha, e, dando-lhe os parabens,
+offereceu-se para madrinha do casamento.
+
+Consummara-se o sacrificio!
+
+ * * * * *
+
+--Quando se realisará esse casamento? perguntava todos os dias o conde
+de S. Luiz.
+
+--Brevemente, respondia-lhe Magdalena!
+
+
+
+
+XXXVI
+
+
+Instigado pelos conselhos do visconde, e pela persistente côrte que D.
+Olympia lhe dirigia, o conselheiro resolveu se emfim a pedir aos condes
+a mão de sua filha.
+
+Eram duas horas da tarde. O conde tinha partido para o hospital, mas,
+para sua felicidade estava em casa a condessa de S. Luiz, e prompta como
+sempre, desde as dez horas da manhã, para receber todas as visitas que
+lhe mereciam a honra da sua amizade.
+
+O conselheiro foi introduzido para um pequeno gabinete «á renascença»,
+todo mobilado ao gosto do visconde de Coruche.
+
+A condessa não se fez demorar muito tempo. Já esperava que mais dia
+menos dia o conselheiro se resolvesse a pedir-lhe Olympia.
+
+--Quanto folgo vel-o n'esta casa, e a esta hora, disse a condessa, ao
+mesmo tempo que lhe extendia a mão. Adivinho pouco mais ou menos do que
+se tracta, ajuntou ella designando-lhe uma othomana, e puxando uma
+cadeira para si.
+
+A condessa queria ser a primeira, sempre, em resolver qualquer questão.
+
+--Provavelmente vem pedir a mão de Olympia?... ajuntou ella, sem
+admittir que o conselheiro lhe dirigisse uma só palavra. Quanto o
+estimo! e como o conde vae ficar alegre! Pela minha parte, concedo-lh'a
+da melhor vontade, e, desde já lh'o affianço, que o conde ha-de ser da
+minha opinião. Tenho toda a certeza que v. ex.ª ha de ser o mais feliz
+possivel com minha filha. Não parece uma rapariga d'este tempo. Para
+Olympia é-lhe tão indifferente ir aos bailes, como passar as noites em
+casa. Não dá importancia alguma ao luxo! O seu gosto é estar em casa e
+olhar pela dispensa. Nem é mesmo d'essas meninas que passam o dia a lêr
+livros, como Magdalena por exemplo, que está ás vezes até as duas horas
+da noite amarrada á sua Biblia, e outros romances quejandos. Olympia
+detesta os livros, tem-lhes um odio de morte! Lá quanto a isso,
+parece-se commigo. Foi coisa que nunca pude supportar! Olympia, o seu
+maior prazer é fazer pudins e fructas de compota.
+
+O conselheiro, olhando estupefacto para aquella Niagára de eloquencia,
+debalde esperava o ensejo favoravel para lhe dizer o fim que alli o
+havia trazido. A condessa não lh'o permittia!
+
+--Em Olympia não ha coisa alguma a desejar, formosura, riqueza, saude,
+tudo, tudo, accrescentou a condessa de S. Luiz, tirando o lenço da
+algibeira para limpar o suor que em bagas lhe escorria.
+
+--Pois, minha senhora, acudiu rapidamente o conselheiro, aproveitando o
+ensejo que lhe favorecia a limpeza d'aquella individualidade titular, o
+que me trouxe a casa dos condes de S. Luiz, foi o mesmo que v. ex.ª com
+esse instincto que lhe é natural, adivinhou! Escuso portanto de lh'o
+repetir.
+
+--Quanto o estimo, meu querido genro, respondeu a condessa,
+approximando-se do conselheiro e apertando-lhe ambas as mãos.
+
+--Vae fazer-me o mais feliz de todos os homens.
+
+--Sim?... respondeu a bojuda matrona, vae vêr: levantando-se, puchou o
+cordão da campainha.
+
+--E crê v. ex.ª que a sr.ª D. Olympia responde aos eccos do meu coração?
+
+--Não o comprehendo, sr. conselheiro.
+
+Este occultou a custo um sorriso.
+
+--Quero eu dizer, se o meu amor será retribuido por sua excelentissima
+filha?
+
+--Ora essa! respondeu a condessa tornando a sentar-se ao lado do
+conselheiro, se soubesse quanto ella o estima...
+
+N'este momento appareceu um criado.
+
+--Vá dizer a Maria que participe á Gertrudes que suba ao quarto da aia
+da menina Olympia, para lhe dizer que venha immediatamente falar com sua
+mãe.
+
+O conselheiro abysmou deante d'aquelle prodigio de memoria, que com
+tanta facilidade decorava tão grande porção de nomes!
+
+D'alli a momentos entrou a aia de Olympia, participando que a menina
+ainda teria alguma demora, porque se encontrava um pouco indisposta.
+
+--Provavelmente ceiou muito. É o seu unico defeito, sr. conselheiro. É
+muito gulosa esta minha filha.
+
+A criada retirou-se.
+
+--O mesmo sou eu, minha senhora, respondeu o conselheiro.
+
+--Sim?
+
+--É verdade. Tenho dias de jantar tres vezes.
+
+--Ai que ar! gargalhou a condessa de S. Luiz. Pois realmente, sinto que
+Olympia não esteja de pé. Em todo o caso, sempre vou lá acima. Talvez
+que seja apenas um leve incommodo; e, levantando-se saiu da sala,
+deixando o conselheiro na contemplação de umas gravuras em aço que
+adornavam as paredes do gabinete.
+
+«Isto corre ás mil maravilhas! pensava o conselheiro. Olympia pelo que
+me parece, consultando o estomago, decidiu de si para si que lhe não era
+antipathica a minha pessoa. Sua mãe, pelo que se vê, encontrou em mim o
+seu sonho dourado! Quanto ao conde de S. Luiz por certo que se conforma
+com tudo que sua mulher decidir! Emfim, será o que Deus quizer! Em todo
+o caso, foi um achado, um verdadeiro achado, este Tristão de Almeida. E
+eu que estive para desprezar a sua apresentação!... Desconfio que,
+apezar de todo o amor que Magdalena experimenta pelo visconde, o meu
+casamento ainda se ha de effectuar primeiramente do que o seu. Custa-me
+a acreditar que um caracter como o de Magdalena, possa experimentar pelo
+visconde, outro sentimento, a não ser o de repulsão. O que fôr
+verdadeiramente bom e digno, não póde amar senão o que é digno e bom! E
+demais, Magdalena deve conhecel-o. Tão pouco falado tem elle sido na
+sociedade de Lisboa.»
+
+N'este comenos entrou a condessa; Olympia seguia-a de perto.
+
+Se aos vinte annos a pallidez traduz em absoluto a poesia da alma; se o
+desbotado da face é synonimia dos sofrimentos intimos que lavram o
+coração, Olympia n'aquelle momento, a despeito da sua anafada
+estructura, dir-se-ia nutrida estatua da poesia affectada pelas
+terriveis consequencias de uma gastro enterite!
+
+Ao approximar-se do conselheiro, a filha do conde de S. Luiz debalde se
+esforçava para, n'uma graciosa mesura, cumprimentar aquelle a quem
+brevemente ia conceder a sua mão. O esophago não lhe permittia a mais
+leve inclinação do busto. Olympia conservava se firme como um sargento,
+deante d'esse que era de ha muito o commandante dos seus pensamentos!
+
+--Venho agora mesmo de saber por minha mãe a sr.ª condessa de S. Luiz
+que vossa excellencia deseja estreitar os laços matrimoniaes com a minha
+pessoa. Se a meu pae lhe não fôr desagradavel a união das nossas almas,
+estou muito prompta a acceder em tudo aos seus desejos.
+
+O conselheiro contentou-se apenas em lhe apertar a mão n'um transporte
+de reconhecida ventura.
+
+--Como já tive o gosto de dizer a vossa excellencia o conde de S. Luiz
+terá o maior desejo em que este casamento se effectue o mais depressa
+possivel, portanto, não tem vossa excellencia mais cousa alguma a fazer
+senão vir hoje mesmo pedir-lhe a mão de Olympia. Meu marido e eu mesma,
+accrescentou a condessa de S. Luiz, nos temos informado por todas as
+pessoas que frequentam o nosso palacio, quem vossa excellencia é; deve
+portanto suppor a honra que nos vae causar, entrando para o seio da
+nossa familia.
+
+--A honra sou eu que a recebo, senhora condessa de S. Luiz, e é tão
+profundo o meu desejo em ver realizadas as nossas esperanças, que, hoje
+mesmo, se vossa excellencia acha conveniente...
+
+--Se acho, meu genro! O conde de S. Luiz, sendo cinco horas, mais
+_migalha_ menos _migalha_ deve cá estar. Não falte pois, accrescentou
+ella extendendo a mão ao conselheiro, que foi recuando sem descravar os
+olhos de Olympia, até que se retirou.
+
+--Até que vês as tuas esperanças realizadas, disse a condessa de S. Luiz
+voltando-se para sua filha.
+
+--É verdade, minha mãe, suspirou Olympia! E agora, para ter forças de
+supportar todas estas commoções, vou ver se me dão um caldo de cabeça de
+vitella.
+
+
+
+
+XXXVII
+
+
+Segundo havia combinado com a condessa, o conselheiro ás cinco horas da
+tarde foi procurar o conde de S. Luiz.
+
+Este parecia ouvil-o sem lhe prestar attenção alguma; porém, graças á
+sua esposa, declarou por ultimo que não tinha duvida em conceder-lhe a
+mão de Olympia.
+
+João Poderosa exultou de alegria! Olympia sentia brincar-lhe o travesso
+amor nas cavidades estomacaes apontando-lhe ao mesmo tempo as flechas de
+ouro, ao orgão musculoso do corpo humano, a que vulgarmente se chama
+coração!
+
+Momentos depois começaram a entrar convidados para jantar; entre esses
+vinha o visconde de Coruche.
+
+Ao _toast_, a condessa de S. Luiz declarou que estava justo o casamento
+de sua filha D. Olympia com o conselheiro João Poderosa.
+
+Em seguimento aos brindes do estylo, não houve quem deixasse de notar
+que esta declaração não tivesse sido feita pelo conde. Mas que
+influencia tinha isso? Não fôra esplendido o jantar?!
+
+O que ninguem podia descortinar era o motivo da tristeza do conde de S.
+Luiz e de Magdalena!
+
+Attribuiam a esta ultima, que uma paixão em silencio pelo visconde de
+Coruche, era a causa da sua terrivel melancolia.
+
+Em vez de conversarem com as visitas, de _fazerem sala_, como
+vulgarmente se diz, Magdalena e seu pae passaram quasi toda a noite n'um
+pequeno gabinete contiguo a um dos salões.
+
+--Planeiam o modo de agarrar o visconde! dizia um individuo que por mais
+uma vez intentara fazer a côrte a Magdalena.
+
+--Como se isso fosse uma coisa muito difficil, respondia-lhe o outro.
+Não tem Magdalena um dote de quatrocentos contos?
+
+--Póde ser que a não ame, e n'esse caso...
+
+--Que innocencia! Quem despreza quatrocentos contos? E sobre tudo o
+visconde que está sem um vintem.
+
+--Tomáras tu assim estar.
+
+--Olha, quem foi esperto foi o João Poderosa... Quem o ha de agora
+aturar com quatrocentos contos?
+
+--Felizes dos jogadores!
+
+--Desconfio que não! Já tem comido do pão que o diabo amassou. Não é o
+conselheiro que torna a arruinar-se.
+
+--Não digas isso. A lei natural é esta: o homem rico, que se arruina e
+que depois por um bafejo da sorte torna a enriquecer, embriaga-se no
+fausto e na opulencia, e nunca mais se recorda das terriveis noites de
+miseria senão quando ellas principiam a despontar vagamente por entre o
+sol da sua felicidade.
+
+--A mim não me succederia outro tanto.
+
+--És uma excepção.
+
+--A excepção, é o que tu dizes.
+
+--Será o que te aprouver. O que eu não estou é para teimas. Já querias
+aproveitar esta minha opinião para me ferrares uma _estopada_. Adeus.
+Vou lá dentro ver se tomo um _grog_.
+
+ * * * * *
+
+Á meia noite, retiraram-se todos os convidados.
+
+--Como deves estar satisfeita, Olympia, dizia Magdalena voltando se para
+sua irmã.
+
+--Eu! respondeu Olympia. Ora essa! Pelo muito que jantei.
+
+
+
+
+XXXVIII
+
+
+O conselheiro saira da casa do conde de S. Luiz acompanhado pelo
+visconde.
+
+Ao despedirem se, este ficou de ir no dia seguinte almoçar com João
+Poderosa, para saber todos os promenores da sua entrevista com o conde
+de S. Luiz.
+
+São dez horas da manhã. Louco de alegria pelo negocio que viera de
+fazer, o conselheiro formúla mil planos para o seu dourado porvir!
+
+A geada de muitos invernos que lhe nevara no coração, ia desfazer-se aos
+raios do sol de melhores dias. Ia subir aos pinaculos da felicidade, e
+contemplar de uma grande altura os lodaçaes da pobreza, onde havia
+alguns annos se estorcia.
+
+N'este momento, entrou um criado annunciando o visconde de Coruche.
+
+--Que entre, disse o conselheiro.
+
+Minutos depois, entrou o visconde.
+
+O fidalgo vinha pallido como uma estatua.
+
+--Que temos! Meu Deus! Como vens perturbado! acudiu o conselheiro
+fitando o rosto do seu amigo.
+
+--Uma grande desgraça! Uma grande fatalidade! exclamou o visconde.
+
+--Uma grande desgraça?! Uma grande fatalidade?!
+
+--Venho agora mesmo de casa do conde de S. Luiz, e...
+
+--Morreu Olympia de alguma indigestão?...
+
+--Peior! tartamudeou o visconde, sentando-se n'uma othomana.
+
+--Peior do que isso?! Ora essa! O que poderia acontecer peior do que
+isso!
+
+--O conde de S. Luiz foi atacado pela febre, e porque forma, meu caro
+amigo! A sua morte é irremediavel, mas o peior, ainda não é isso, o
+peior foi o que me disse agora a condessa...
+
+--O que te disse a condessa? perguntou anciosamente o conselheiro.
+
+--Que Magdalena entrará para um convento no mesmo momento em que seu pae
+morrer.
+
+--Respiro! disse emfim o conselheiro.
+
+--Respiras?! perguntou o visconde profundamente admirado.
+
+--Sim, cuidei que fosse alguma coisa que me dissesse respeito.
+
+--Mas diz-me respeito a mim, louco! Não sabes que amava essa mulher? Que
+eu era amado por ella?
+
+--Pois se tu a amas, e és amado por ella, é collocares-te á porta d'esse
+convento e não a deixares entrar.
+
+--É que tu não comprehendes o seu caracter, João. Não sabes a especie de
+amor que essa mulher me consagra? Amor que a tem feito soffrer e que lhe
+vae abrir a sepultura!
+
+--Não comprehendo, murmurou o conselheiro.
+
+--Pois eu t'o explico. Magdalena dirigindo-se pela opinião geral,
+julga-me incapaz de ser um bom marido, por estes dez ou doze annos,
+emquanto tiver sangue na guelra, segundo a phrase de Olympia! Ora, meu
+amigo, Magdalena é ciumenta como uma leôa, que não admitte que se divida
+o coração, prefere morrer por mim, abraçada á cruz do seu amor, do que
+ser minha, sem ter fé na fidelidade da minha alma. Comprehendes?
+
+--Olha, se queres que te diga a verdade, não comprehendo bem essas
+cousas. Ahi tens tu porque eu gosto da minha Olympia. Quanto a essa,
+estou certo que me não ha de atormentar muito com ciumes, nem aturdir-me
+com aquelles estirados monologos de sentimento, em que Magdalena está
+constantemente delirando. Sempre te disse que não trocava a minha
+felicidade pela tua, se por ventura viesses a ser meu cunhado, o que
+jámais pude acreditar, e se queres que seja sincero comtigo, nunca me
+pude aperceber d'essa paixão, que tu dizias ter-lhe inspirado, apezar de
+m'a estares querendo metter pelos olhos. E que tencionas fazer? ajuntou
+elle mudando de tom.
+
+--Que tenciono fazer! Conformar-me com o meu destino, como ella...
+
+--Como ella quê? interrompeu o conselheiro, recolheres te tambem a um
+convento?
+
+--Não, mas esquecel-a em todas as loucuras da vida! No jogo, na
+embriaguez...
+
+--Mau systema, respondeu o conselheiro.
+
+--Sabes uma cousa, João? acudiu o visconde despeitado com a serenidade
+do conselheiro.
+
+--Dize, respondeu este fleugmaticamente.
+
+--Está-me revoltando essa tua serenidade! Devias interessar-te mais por
+mim, lembra-te...
+
+--Que te sou devedor da minha futura felicidade, mas que queres! Creio
+pouco na tua paixão. Tenho-te visto trinta vezes apaixonado, e no dia
+seguinte, curado d'esse sentimento com o coração prompto e limpo para
+receber outro que te appareça. Se fosses pobre como eu, se tivesses as
+minhas theorias sobre o dinheiro, então poderia acreditar que estavas
+penalizado pela entrada no convento, porém como se não dá isso,
+felizmente para ti, pouco tenho a compadecer-me. Ámanhã por estas horas,
+completamente esquecido de Magdalena, apaixonas-te por qualquer mulher
+que seduzes pelo teu ouro e pela tua intelligencia, e appareces-me
+d'aqui a dias curado d'essa paixão que te atormenta.
+
+O visconde mordeu os beiços de raiva. Havia tanto de ironia nas palavras
+do conselheiro, que não tardou muito que as intenções lhe fossem
+completamente denunciadas.
+
+--Que tencionas portanto fazer? perguntou elle a Poderosa, querendo
+dissimular a perturbação que lhe haviam produzido as suas palavras.
+
+--Que tenciono fazer? Ir immediatamente para Buenos-Ayres. E tu?
+
+--Tenho muitas voltas a dar, não poderei ir senão de tarde. E
+despedindo-se do conselheiro, o visconde saiu, deixando o entregue ás
+suas profundas reflexões.
+
+«Pobre visconde! Realmente, compadeço-te. Quanto melhor te fôra o teres
+sido sincero para commigo. Se tens sido esperto, apanhavas-me cincoenta
+ou sessenta contos por me teres conseguido este casamento. Assim, melhor
+foi, custar-me-ha apenas cincoenta ou sessenta libras!»
+
+Meia hora depois, o conselheiro mandou buscar um trem, e dirigiu-se
+para Buenos-Ayres.
+
+
+
+
+XXXIX
+
+
+São tres horas da tarde. O palacio dos condes de S. Luiz, que na vespera
+ainda brilhantemente illuminado, abria os seus magnificos salões á
+primeira sociedade de Lisboa, apresenta se agora entristecido como
+fachada de edificio legendario!
+
+É que a morte, estranha e indifferente a todas as grandezas humanas,
+assenta-se melancholicamente sobre os degraus d'aquellas escadas de
+marmore, e, erguendo-se de vez em quando, fixa o seu olhar invisivel,
+que atravessando as salas, vae pousar lugubremente no rosto pallido e
+cadaverico do conde de S. Luiz!
+
+Tristão sente-lhe as mãos frias e descarnadas pesando-lhe sobre o
+peito. Quer falar; a voz prende-se-lhe na garganta! De vez em quando,
+levanta um olhar de piedade para um Christo, que de braços abertos o
+contempla da sua cruz, como se o convidasse a recolher-se ao seu divino
+seio! Então o conde torna a abaixar os olhos como se aquella imagem o
+assustasse, e, levantando ao mesmo tempo uma das mãos, pede a Magdalena
+que se lhe approxime.
+
+Ha quatro horas que não fala! Para maior expiação, a sua intelligencia
+está clara e completamente serena!
+
+Magdalena, debruçada sobre o leito, pegando n'um lenço de cambraia,
+limpa-lhe de vez em quando o rosto banhado por um suor lento e copioso.
+O seu rosto, denota-lhe o martyrio e a resignação.
+
+A condessa, curvada n'uma poltrona, descança a fronte nas mãos,
+erguendo-se de minuto em minuto para contemplar o infeliz esposo. O seu
+olhar é triste, mas resignado como o de sua filha.
+
+Olympia ao fundo do quarto, sentada n'um sophá tapa os olhos com um
+lenço de assoar, mastigando occulta e prestidigiosamente, umas
+bolachinhas de agua e sal.
+
+O commendador Lopes de Miranda e o banqueiro Vaz Mendes, ora se
+approximam dos pés do leito, ora se dirigem aos outros gabinetes, onde
+uma multidão de individuos esperam com anciedade saber o estado do
+enfermo.
+
+N'este comenos entra o conselheiro Poderosa. Demora-se um minuto olhando
+para o conde, e, engatilhando um gesto de sofrimento dirige-se para a
+condessa.
+
+Esta extende-lhe silenciosamente a mão, occultando ao mesmo tempo o
+rosto com um lenço de cambraia.
+
+João Poderosa fica immovel por alguns segundos, e em seguimento
+retira-se para falar com Olympia.
+
+Ao approximar-se lhe, a noiva simula um estremecimento de surpreza, e,
+esquecendo o embrulho das bolachinhas que conservava no regaço,
+entorna-o, fazendo rebolar as bolachas sobre a alcatifa.
+
+O conselheiro curva o busto, e salva os despojos farinaceos que se
+preparavam para fazer as delicias da mastigação da sua futura esposa!
+
+No momento em que o conselheiro principiava o seu dialogo com Olympia,
+Magdalena, que havia chegado o rosto aos labios de seu pae, volta-se
+para a condessa.
+
+Esta pergunta lhe o que deseja.
+
+--Meu pae, necessita estar sosinho commigo e pede a todos que se
+retirem, responde Magdalena.
+
+A condessa levanta-se. Olympia e o conselheiro seguem-n'a. Este ultimo
+demora se no gabinete com sua futura sogra; Olympia aproveita a occasião
+de ir á copa tomar uma canja de gallinha.
+
+--Sinto que me foge a vida, filha, disse o conde extendendo a mão para
+Magdalena. Não quero morrer sem ter cumprido os meus e os teus desejos.
+Agora que me sinto mais tranquillo, vae tu, Magdalena, vae tu mesma
+buscar D. Marianna de Mendonça. Quero ouvir-lhe o perdão de seus
+proprios labios, e tambem do Manuel. Vae Magdalena, vae, minha filha,
+cumpre com este ultimo desejo de teu pae.
+
+--E minha mãe?... e toda a gente?...
+
+--E o que temos nós com toda esta gente, Magdalena? Trata-se agora da
+minha consciencia. Quero apresentar-me deante de Deus arrependido de
+todos os males que causei n'este mundo. Desde que confiei todos os
+peccados áquelle santo padre que me trouxeste, minha filha, já não
+receio o desconhecido. Sinto-me muito mais alliviado. Quando eu morrer,
+Magdalena, dentro da minha secretaria, encontrarás um pequeno cofre de
+platina; guarda-o, e a mais ninguem confies os segredos que elle
+encerra. Só tu serás digna d'isso. O meu testamento está na gaveta
+pequena d'aquella secretaria. Ha quatro dias que foi feito. Parecia
+adivinhar o que succedia! Foi Deus! Deixo quatrocentos contos a D.
+Marianna de Mendonça: ainda não é muito, para o que lhe fiz soffrer!
+Agora, que sabes o principal, vae filha, e possa o perdão d'essa mulher
+fazer com que a minha alma, voando aos pés de Deus, seja acolhida no seu
+divino regaço.
+
+Afastando-a brandamente, tornou a pedir-lhe que fosse buscar D. Marianna
+de Mendonça.
+
+--Se tua mãe te perguntar onde vaes, accrescentou elle, responde-lhe que
+é um segredo que juraste guardar a um moribundo.
+
+Magdalena, depois de beijar seu pae na fronte, saíu do quarto e
+atravessou pelo gabinete onde sua mãe conversava com o conselheiro.
+
+--Onde vaes? perguntou-lhe a condessa.
+
+--Vou saír.
+
+--Saír?
+
+--Buscar uma pessoa a quem meu pae deseja falar antes de morrer.
+
+--E essa pessoa... quem é?
+
+--É um mysterio e um segredo, e recommendando á condessa que fosse para
+junto de seu pae, Magdalena atravessou as salas, e subindo ao quarto,
+preparou-se para saír.
+
+Era tal o respeito e consideração que Magdalena inspirava a sua mãe;
+tinha tanta certeza da inutilidade de todos os seus esforços, para lhe
+quebrar qualquer dever, que a condessa resumiu-se ao silencio, e
+dirigiu-se sem mais reflexões ao quarto de seu marido.
+
+--Aonde foi Magdalena?
+
+--Buscar uma pessoa a quem desejo pedir perdão antes de morrer, e com
+quem pretendo ficar sósinho.
+
+A condessa, sem responder uma palavra, foi sentar se na mesma poltrona
+d'onde momentos antes se havia levantado.
+
+Amparado por aquelle desejo ardente, o conde de S. Luiz parecia de
+momento para momento ganhar mais tranquillidade.
+
+Um quarto de hora depois, Magdalena entrou de novo no quarto de seu
+pae, participando lhe a chegada de D. Marianna. O conde fez um gesto
+significativo a sua mulher, esta comprehendendo o em seguida com uma
+obediencia passiva, levantou-se e saíu do quarto. Pouco depois entrava
+D. Marianna de Mendonça e seu filho. Magdalena fechou a porta
+deixando-os a sós com o conde.
+
+Magdalena dissera-lhe apenas que seu pae os queria ver antes de expirar.
+
+O conde, ao vel-os parados no meio da sala, extranhos e alheios áquella
+situação, ergueu se n'um supremo esforço, e, chamando-os pelos nomes,
+convidou-os a approximarem-se do leito.
+
+D. Marianna, accedendo immediatamente aos seus desejos, acercou-se do
+enfermo.
+
+--Lembra-se D. Marianna de Mendonça, recorda-se Manuel, d'um banqueiro
+chamado Felix Justino de Araujo, que em 1835 a mandou ir um dia em
+companhia do seu advogado, levantar um deposito de perto de quarenta
+contos de réis?
+
+--Lembro-me, respondeu D. Marianna de Mendonça, fixando demoradamente o
+semblante do conde de S. Luiz.
+
+--Se esse homem, que fez a sua desgraça, que lhe roubou filho, haveres,
+e por ultimo a razão, debruçado sobre a sepultura, lhe extendesse a mão
+supplice e arrependida, implorando lhe o perdão para sua alma, que lhe
+faria?
+
+--Perdoar-lhe tudo, para que Deus tambem me perdôe os meus peccados,
+respondeu ainda D. Marianna.
+
+--Perdôa-me tambem, Manuel de Mendonça? disse o conde. Perdoa a este
+homem, que durante vinte e tres annos o separou de tudo quanto tinha de
+mais caro no mundo! Perdoa a este homem, accrescentou elle, que conduziu
+sua mãe á miseria e á loucura.
+
+--Perdoae-lhe, Senhor, como eu lh'o perdôo de todo o meu coração,
+respondeu Manuel de Mendonça, voltando-se para a cruz do Redemptor, juiz
+supremo d'esta tocante scena.
+
+--Morrerei tranquillo, disse então o moribundo, com a voz já
+enfraquecida.
+
+--Que Deus perdôe ao pae d'aquelle anjo, disse D. Marianna caindo de
+joelhos, e apontando para a porta por onde Magdalena havia saido.
+
+--Diz bem, D. Marianna; d'aquelle anjo, accrescentou o conde de S. Luiz.
+Foi aquella candida pomba a encarregada por Deus para me conduzir á sua
+divina presença! A ella devo o seu perdão, sr.ª D. Marianna!
+
+--E eu devo-lhe o meu filho, respondeu D. Marianna, arrastando-se de
+joelhos sobre a alcatifa, até se collocar deante do Christo. Pela vossa
+infinita misericordia, exclamou ella levantando as mãos para a cruz,
+perdoae-lhe Senhor, como eu de todo o coração lhe perdôo, e queira a
+vossa infinita vontade conservar-lhe largos annos de vida, para que este
+arrependido conheça a sinceridade das minhas palavras.
+
+--Chamem a minha filha que deve estar n'aquelle quarto, murmurou o
+conde, voltando-se para Manuel de Mendonça, e apontando para uma porta
+que separava os dois aposentos.
+
+Magdalena entrou immediatamente. Ainda que dotada de uma organização
+robustissima, a infeliz, já principiava a resentir-se de tantas
+commoções.
+
+D. Marianna, lançando-se-lhe nos braços, debalde tentava occultar as
+lagrimas.
+
+--Falta me aqui uma pessoa a quem desejava ver antes de morrer. Queria
+abraçar a Martha, a minha companheira do hospital.
+
+--Deus favorece-lhe os seus desejos, meu pae. Ha dois minutos que alli
+estão todos tres: e, abrindo a porta, deu passagem a Balbina, Jeronymo e
+sua filha.
+
+--Approximem-se, meus amigos, disse-lhes o conde de S. Luiz. E, emquanto
+fôr tempo, accrescentou elle, apertem esta mão, que sempre se lhes
+extendeu com amizade.
+
+As lagrimas embargaram-lhes as vozes. Uma pessoa apenas se conservava
+n'uma serenidade de martyr. Era Magdalena!
+
+--Infelizmente, accrescentou o conde voltando-se para Martha e Manuel de
+Mendonça, não lhes posso assistir ao casamento mas aqui lhes fica este
+anjo, continuou elle voltando-se para Magdalena.
+
+Esta ficou immovel!
+
+Alma temperada nas grandes agonias, a que realeza de martyrio foste
+arrancar esse diadema que te corôa?
+
+Momentos depois, retiraram se todos do quarto.
+
+O conde ficou em estado de profunda atonia.
+
+Não se ouvia um ruido. Apenas o estremecimento da prece passando pelos
+labios descorados de Magdalena.
+
+Como tudo isto estivesse em socego entraram no quarto a condessa,
+Olympia, o conselheiro e o visconde de Coruche. Seguiam n'os o
+commendador e o banqueiro.
+
+--Dorme tranquillo! disse o visconde olhando na direcção do leito.
+
+--Dorme acudiu a condessa, á medida que se approximava de seu esposo.
+
+Magdalena, n'esse momento, adeantou se mais, e debruçou-se a escutar a
+respiração.
+
+--Morto! exclamou a pobre filha, n'um arranco d'alma! Bemdito Deus, que
+me permittiste salvar meu pae! ajuntou ella caindo sobre o cadaver do
+conde, e aproveitando nos seus labios o derradeiro calor d'aquelle rosto
+extremecido.
+
+
+
+
+EPILOGO
+
+
+No mesmo dia foi aberto o testamento, tendo por testemunhas o visconde
+de Coruche, o commendador Lopes de Miranda e o conselheiro João
+Poderosa.
+
+Deixava por testamenteira a sua filha D. Magdalena. Entre varios legados
+a differentes hospitaes e asylos, avultava a quantia de quatrocentos
+contos a D. Marianna de Mendonça e Athayde, como um testemunho de eterna
+recordação pelos muitos favores de que lhe era devedor.
+
+A sua fortuna, espalhada por differentes bancos da Europa e da America,
+excedia a dois mil contos.
+
+Quinze dias depois da morte do conde de S. Luiz, ás seis horas da manhã,
+Manuel de Mendonça recebia-se na freguezia de Nossa Senhora da Lapa com
+a filha de Jeronymo, tendo por padrinhos dois honrados capitães de
+navio, e por madrinha D. Magdalena de Almeida.
+
+Ao cabo de dois mezes, Olympia concedeu a sua mão ao conselheiro, e o
+seu coração aos inqualificaveis gozos da cosinha.
+
+Gozando em branda paz as delicias do hymeneu, havia comtudo uma terrivel
+sombra que lhes perturbava a paz domestica: o conselheiro não era capaz
+de fazer nem um _beefsteak_! Toda a sciencia culinaria de que se
+vangloriara, era apenas um mytho que elle creára para conquistar o
+estomago de D. Olympia!
+
+Quando emfim sobre Lisboa deixaram de esvoaçar as azas negras do
+monstro, e que Magdalena fechou as portas áquelle hospital, d'onde não
+tinha saido desde a morte de seu pae, o visconde de Coruche, vivamente
+ferido pela grandeza d'alma de Magdalena, lançou se-lhe aos pés e
+pediu-a em casamento.
+
+--Vou casar-me com Deus, respondeu Magdalena, levantando os olhos para o
+céu!
+
+No dia seguinte, Magdalena entrava no convento de ***, onde morreu pouco
+depois, recebendo as bençãos da pobreza, com quem havia repartido os
+seus rendimentos.
+
+Lopes de Miranda, associado com Vaz Mendes n'uma casa de penhores, abre
+os seus armarios a todos os objectos de valor que o visconde de Coruche
+periodicamente lhe envia pelo seu mordomo. Este espera ainda ver seu amo
+n'um estado florescente, attendendo ao axioma de um dos nossos primeiros
+vultos litterarios: que um fidalgo arruinado sempre tem cem contos de
+réis!
+
+Quanto á condessa de S. Luiz, uns dizem que está beata, outros
+asseveram que se tornou capitalista de uma partida de _Roulette_ não sei
+em que parte da Europa, e de que são feitores Gil de Carvalho e Bernardo
+de Paiva, tendo-lhe o primeiro ganho a confiança pela paga espontanea
+das cem libras que devia a seu defuncto marido, e de que nem ella mesma
+era sabedora.
+
+E Martha, e Manuel de Mendonça, e sua mãe, e Balbina e Jeronymo, e
+Mascatudo?
+
+Apezar da tia Monica asseverar aos que á noite se reunem na tenda da rua
+da Lapa, que foram todos parar aos peixinhos, pessoa de credito affirmou
+a quem estas paginas escreve, que essa familia, venturosa na sua união,
+se foi estabelecer nos Estados-Unidos, gosando em doce calma os prazeres
+de uma existencia honesta, moral e religiosa.
+
+E ter-se-hão esquecido da memoria de Magdalena?
+
+Nunca! N'aquelles corações não cabia a ingratidão.
+
+ FIM
+
+
+
+
+COMPANHIA PORTUGUESA EDITORA, L.^{DA}
+
+PORTO
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+ broc. 5$000
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+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.