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+The Project Gutenberg EBook of O Conde de S. Luiz, by Tomaz de Melo
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: O Conde de S. Luiz
+
+Author: Tomaz de Melo
+
+Release Date: May 22, 2009 [EBook #28928]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CONDE DE S. LUIZ ***
+
+
+
+
+Produced by Júlio Reis, Carlo Traverso, Leonor Silva and
+the Online Distributed Proofreading Team at
+https://www.pgdp.net
+
+
+
+
+
+
+Notas de transcrição:
+
+O uso do hífen nesta obra é bastante inconsistente; o mesmo se passa
+com a ortografia. Assim, ocorrem por exemplo "entregara" e "entregára";
+"ante-mão" e "antemão"; "dirigindo se" e "dirigindo-se". A grafia não
+foi harmonizada, por não ser possível determinar a intenção original do
+autor.
+
+Nesta edição em texto simples, o texto em negrito foi colocado entre = e
+o texto em itálico foi colocado entre _. O texto em superscrito está
+colocado dentro de ^{ }.
+
+
+
+
+[Ilustração: Capa]
+
+Biblioteca Portuguesa Ilustrada
+
+D. TOMAZ DE MELO
+
+O CONDE DE S. LUIZ
+
+LIVRARIA BARATEIRA
+
+34, Rua do Duque, 36--T. Trind 1264--LISBOA
+
+
+
+
+O CONDE DE S. LUIZ
+
+
+[Ilustração: Publicidade à "Bibliotheca Portugueza Illustrada"]
+
+EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL
+
+SOCIEDADE EDITORA
+
+LIVRARIA MODERNA: R. Augusta, 95 * TYPOGRAPHIA: R. Ivens, 45 e 47
+
+
+
+
+BIBLIOTHECA PORTUGUEZA ILLUSTRADA
+
+
+*Nova collecção economica a 200 réis o volume*
+
+Contendo 200 a 250 pag. com 5 illustrações originaes de pagina
+
+ * * * * *
+
+É esta bibliotheca exclusivamente constituida por livros nacionaes, dos
+nossos melhores escriptores, custando cada volume de cerca de 250
+paginas, em magnifico papel, com 5 illustrações originaes e
+expressamente feitas para esta publicação, apenas *200* réis, ou *300*
+réis, bellamente encadernado em capas especiaes a côres.
+
+
+ROMANCES PUBLICADOS
+
+*Os Fidalgos do Coração de Ouro* (Chronica do reinado de D. Sebastião)
+por M. Pereira Lobato. Dois vol., broc. 400 rs., enc. n'um só, em capas
+especiaes, 500 rs.
+
+*A Queda d'um Gigante*, (continuação do antecedente). Um vol., broc. 200
+rs., enc. 300 rs.
+
+*A Baroneza de la Puebla*, (romance do seculo XVI, continuação dos 2
+anteriores). Um vol., broc. 200 rs., enc. 300 rs.
+
+*Estandarte Real*, (conclusão dos romances anteriores). Um vol., broc.
+200 rs., enc. 300 rs.
+
+*Lição ao Mestre*, por Teixeira de Vasconcellos. Tres vol., broc. 600
+rs., enc. n'um só 700 rs.
+
+*A Mascara Vermelha*, (romance historico) por M. Pinheiro Chagas. Um
+vol, broc. 200 rs., enc. 300 rs.
+
+*Juramento da Duqueza*, (continuação do antecedente) por M. Pinheiro
+Chagas. Um vol., broc. 200 rs., enc. 300 rs.
+
+*Noites Perdidas*, livro de contos, de Betamio d'Almeida. Um vol., broc.
+200 rs., enc. 300 rs.
+
+*Esboços de apreciações litterarias*, de Camillo C. Branco. Um vol.,
+br., 200 rs., enc. 300 rs.
+
+*Conde de S. Luiz*, por D. Thomaz de Mello. Um vol. br., 200 rs., enc.
+300 rs.
+
+*A PUBLICAR:*
+
+*Duello nas sombras*, por A. F. Barata,--*Annel mysterioso*, de Alberto
+Pimentel, etc., etc.
+
+ASSIGNATURA PERMANENTE
+
+
+
+
+BIBLIOTHECA PORTUGUEZA ILLUSTRADA
+
+X
+
+D. THOMAZ DE MELLO
+
+O CONDE DE S. LUIZ
+
+ROMANCE ORIGINAL
+
+SEGUNDA EDIÇÃO
+
+[Ilustração: Logótipo da sociedade editora]
+
+ LISBOA
+ EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL
+ _Sociedade editora_
+
+ LIVRARIA MODERNA || TYPOGRAPHIA
+ _R. Augusta 95_ || _45, R. Ivens, 47_
+
+1903
+
+
+
+
+I
+
+
+Era no anno de 18*** N'um palacete proximo á Calçada de Santo André,
+vivia, em companhia de seu filho e de duas creadas, D. Marianna de
+Mendonça, filha bastarda de Manuel Pires de Athayde, que fôra em tempos
+de pouco saudosa memoria alcaide-mór da cidade de * * *
+
+Poucos mezes antes de morrer, Manuel Pires de Athayde, entregára a sua
+filha dezeseis mil cruzados em dinheiro, afóra joias e outros objectos
+de valor, pedindo-lhe ao mesmo tempo que acceitasse por esposo a Alvaro
+de Mendonça seu primo co-irmão, moço serio e de bom porte, e, além
+d'isso, possuidor de riquezas quasi eguaes ás que o alcaide-mór lhe
+legava.
+
+Recusando, a principio, o noivo que o pae lhe indicava, D. Marianna, por
+ultimo, não teve mais remedio senão acceder aos seus desejos.
+
+Tres mezes depois, com grande alegria de todos os parentes, recebeu se
+com Alvaro de Mendonça na freguezia dos Anjos.
+
+O pobre velho parecia apenas aguardar a realização d'este ultimo desejo
+para volver a alma ao Creador, entre as lagrimas da filha e dos amigos
+que o estremeciam. Ao cabo de oito dias de casada, D. Marianna ficava
+sem pae.
+
+Manuel Pires de Athayde não se havia enganado na escolha; Alvaro de
+Mendonça era o exemplo dos maridos. A sua proverbial honestidade
+tornava-o estimado em todos os logares onde apparecia, acompanhado quasi
+sempre pela esposa, digna e respeitada como elle.
+
+Ao fim d'um anno, a Providencia, prodiga em lhes proporcionar todas as
+venturas, concedeu-lhes a maior que póde dar aos que deveras se amam
+sobre a terra, e que medem o mundo todo, pelo curto espaço do seu
+domicilio: um filho.
+
+Manuel--tal foi o nome do recemnascido--de dia para dia se tornava mais
+robusto. Era um gosto vel os á tarde por sobre os canteiros do seu
+pequeno jardim, correndo com o Manuelito, e disputando entre si, qual
+dos dois alegraria mais a creancinha.
+
+Marianna, por esse tempo, teria uns dezoito a vinte annos, Alvaro trinta
+e quatro.
+
+Amor, saude, mocidade, riquezas e um filho! Que lhes faltava para serem
+felizes?
+
+Pelo espaço de doze annos, trabalhando mais do que as forças lh'o
+permittiam, afim de melhorar o futuro da creança, correu a vida de
+Alvaro de Mendonça, sem que uma só vez podesse D. Marianna deixar de
+levantar as mãos aos céus, para agradecer á Providencia o esposo que lhe
+havia concedido.
+
+Uma circumstancia apenas lhes toldava de vez em quando o iris da sua
+felicidade; eram os continuos receios que um velho primo lhes infundia,
+sobre a precoce intelligencia do estremecido fructo dos seus amores
+patriarchaes.
+
+«Não puchem pelo rapazola se o não querem ver no cemiterio, dizia-lhes
+elle muitas vezes. Um talento como este deve ser muito poupado. Se meu
+pae não me tem acudido a tempo, retirando-me do collegio, talvez lhes
+não estivesse agora dando este conselho. Eu fui o mesmo que o Manuelito;
+aprendi a grammatica portugueza de _fio a pavio_ em menos de um mez. Não
+percebia bem o que dizia, é verdade, mas sabia tudo de cór, que era até
+um gosto ouvirem-me. Sabem o que fez meu pae? Annuiu aos desejos do
+mestre, que era um doidinho por mim, e retirou-me do collegio para que
+não estudasse mais. É certo que estou hoje sem saber coisa alguma,
+porquanto a grammatica esquece muito, mas pelo menos tenho vida e saude,
+que é o principal.»
+
+A despeito d'estas e de outras judiciosas reflexões, Manuel continuou a
+frequentar a aula, onde era querido por todos os professores e
+condiscipulos. Estes, longe de lhes causar inveja o seu inquestionavel
+merecimento, todos á uma se ufanavam em lh'o proclamar.
+
+Aos quinze annos já tinha feito os exames de philosophia e latinidade.
+
+Quando mais venturosa sorria a existencia de Alvaro de Mendonça, coroada
+pelos louros de seu filho, a Providencia, como se já estivesse fatigada
+de lhe sorrir, fez com que o anjo da morte, descendo lentamente sobre o
+seu leito, lhe cerrasse para sempre os olhos.
+
+D. Marianna de Mendonça, ainda que dotada de intelligencia clara e
+reflexiva, faltava-lhe comtudo aquella experiencia do mundo impossivel
+de conseguir a qualquer senhora que, como ella, tivesse vivido apenas
+entregue aos cuidados de sua casa.
+
+Abatida pelo golpe que acabava de soffrer, muito fazia a infeliz viuva
+em administrar a sua casa de portas a dentro, e bem assim seguir a
+educação de Manuel, que de mez a mez fazia mais rapidos progressos,
+continuando a disfructar uma irreprehensivel saude, apezar de todos os
+prognosticos de seu primo, o ex-grammatico, que se não cançava de
+lembrar á viuva o absurdo da sua insistencia em que o pequeno
+continuasse no collegio.
+
+Entre as pessoas que ordinariamente frequentavam a casa da viuva,
+distinguia-se o commendador Felix Justino de Araujo, homem probo e
+honesto para todos que tinham a honra de lhe merecer a sua confiança, o
+que elle prodigamente espalhava afim de conquistar as geraes sympathias.
+
+Corriam varias edições ácerca da sua mysteriosa individualidade,
+chegando algumas pessoas a levar o seu arrojo a ponto de dizerem que o
+commendador não passava de um refinado velhaco, e que, mais dia menos
+dia, as suas gentilezas teriam de ser desmascaradas em praça publica;
+isto tudo, já se vê, proferido em voz baixa, depois de com elle terem
+gasto os joelhos das calças, nas respeitosas zumbaias que diariamente
+lhe dispensavam. É que já n'essa epocha, a raça de commendadores que
+hoje invade a capital começava a manifestar-se com toda a força do seu
+prejudicial desenvolvimento. Era muito de ver se como toda aquella gente
+o tractava no tocante a futeis banalidades. Riam-se uns dos outros, e
+todos em sua presença disputavam entre si, qual deveria ser o seu
+primeiro thuribulario.
+
+Uns diziam que era viuvo, outros que era casado com uma mulher de baixa
+esphera, de quem tinha duas filhas, porém que se não atrevia a
+apresental-a na sociedade, em virtude das suas maneiras pouco
+distinctas.
+
+A sua riqueza ninguem ao certo a poderia saber; porém o faustuoso luxo
+com que se tractava levava a suppôr que enormes rendimentos havia
+herdado da sua nobre ascendencia, cujos brazões nobiliarios fariam
+estremecer de inveja qualquer puritano.
+
+Uma noite em que D. Marianna de Mendonça se queixava amargamente de um
+certo procurador, lembrou-lhe uma das suas amigas que talvez lhe fosse
+conveniente entregar a administração da casa ao commendador, se elle
+porventura a isso estivesse resolvido, e que ella mesma lhe falaria a
+tal respeito.
+
+A viuva acceitou de bom grado o que a sua intima lhe propozera, e
+falando esta com o commendador, ao cabo de oito dias Felix Justino de
+Araujo tinha geral procuração para arrendar, subrogar, ou alienar
+qualquer propriedade, se por ventura assim o julgasse conveniente para o
+futuro do seu Manuel que, segundo o dizer do administrador, era tanto
+para elle como se fosse seu proprio filho.
+
+Não tardou muito tempo que o magnate fizesse uso de uma das condições da
+procuração. Uma fazenda que Alvaro de Mendonça herdára por morte de uma
+tia, tres ou quatro annos depois de estar casado com a filha de Manuel
+Pires de Athayde, foi-lhe vendida em hasta publica. A venda fôra de um
+excellente resultado para a viuva, segundo o commendador affirmava,
+porquanto o seu principal rendimento eram arvores de fructa, e essas
+mais anno menos anno cairiam todas ao pezo d'uma epidemia que, segundo
+as suas observações agronomicas, teria de grassar d'alli a tempo,
+assaltando todas as fazendas sem exceptuar uma unica.
+
+Em face d'esta cruel prophecia, quem se negaria a separar-se de qualquer
+terreno, por mais dolosa que fosse a venda?
+
+O commendador empregou esse dinheiro n'uma industria cujo dividendo
+deveria exceder dez por cento.
+
+Quasi todos deram os parabens á viuva pelo bom negocio que vinha de
+fazer, attendendo não só á grande differença do rendimento, como tambem
+a ter-se livrado d'esse terrivel cataclysmo, a que estava exposta
+conservando uma só arvore.
+
+Assim decorreram dezoito mezes sem que D. Marianna tivesse a mais
+pequena razão de se arrepender da plena confiança que tinha depositado
+no seu administrador.
+
+Por este tempo, Manuel, que havia saído do collegio, chegou se a sua
+mãe, dizendo-lhe que desejava partir para o Rio de Janeiro, afim de se
+dedicar á vida commercial, para que se sentia com decidida vocação.
+
+Recordando lhe ao principio a loucura do seu projecto, a pobre mãe
+ponderou-lhe a pouca necessidade de buscar em terra estranha o que já
+possuia na sua patria: a riqueza.
+
+Por essa epocha, os bens da casa montavam a uns trinta contos de réis,
+graças á herança que Alvaro de Mendonça havia recebido por morte de sua
+tia, e ás economias que a viuva fizera durante aquelle tempo.
+
+--Com o dinheiro que possuimos, dizia-lhe sua mãe, poderás dedicar-te ao
+commercio, mas aqui em Lisboa. É verdade que não tens um unico parente
+que te proteja, mas, graças a Deus, temos meios. Partires, e
+deixares-me, filho, acho que será uma grande loucura, ajuntou ella,
+arrazando-se-lhe os olhos de lagrimas. Em todo o caso, farás o que te
+aprouver. Não quero que um dia me lances em rosto que o muito amor que
+te consagro foi a causa de cortar a tua carreira.
+
+N'essa noite, quando appareceu o commendador, D. Marianna manifestou-lhe
+os desejos de Manuel.
+
+--Que vá, respondeu elle rapidamente. Seu filho é activo, audaz,
+intelligente e emprehendedor. Póde um dia, se Deus o ajudar, vir a ser
+um grande homem. Não tenho filhos, acrescentou, porém se um dia os
+tiver, nunca os hei de contrariar nas suas resoluções, se ellas forem
+justas como as de Manuel.
+
+--Mas que precisão tem elle de expôr a sua saude n'um clima tão
+perigoso? Trinta contos ou perto d'elles que possuimos não será o
+sufficiente para se viver em qualquer parte do mundo?
+
+-Porém se seu filho é ambicioso, e capricha em adquirir um capital pelo
+seu trabalho, é justo que sua mãe lhe impeça a sua determinação? Faça o
+que quizer, mas tome o meu conselho, deixe-o partir. Deus ha de guial-o,
+porque Manuel é bom, honesto, moral e, sobre todas estas coisas, muito
+trabalhador.
+
+--E que dinheiro se lhe deve entregar, sr. Felix? dez contos, quinze,
+vinte... que lhe parece?
+
+--Vossa excellencia está louca! acudiu apressadamente o commendador.
+Entregar contos de réis a um rapaz da edade de seu filho! Lançar Manuel
+n'um paiz como o Rio de Janeiro, proporcionando-lhe os meios de se
+perder! Nem por sombras! Quaes contos de réis! Com seis moedas
+desembarquei eu em S. Paulo, e ao cabo de doze annos possuia uma fortuna
+para cima de dez mil libras! Contos de réis! Só essa me faria rir! A
+passagem paga, meia duzia de moedas, e as cartas de recommendação que
+para ahi lhe entregarei, são mais do que o sufficiente.
+
+--Mas não me disse v. ex.ª que meu filho era um rapaz de juizo, honesto
+e moral? Que receio teremos em lhe entregar o que realmente lhe
+pertence? Não é elle o meu unico herdeiro?
+
+--Fará vossa excellencia o que entender, e se lhe quer entregar tudo
+quanto possue, faça-o; está no seu direito, e lavo d'ahi as minhas mãos.
+Se quer que lhe preste as minhas contas, estou muito prompto a fazel-o.
+Sabe que o unico interesse que tenho em tudo isto é apenas o seu bem
+estar, e o futuro de Manuel. Se quer estragar tudo quanto tenho feito em
+seu proveito, é senhora das suas acções, póde fazel-o, que desde este
+momento me considero desligado de todos os meus encargos.
+
+Esta linguagem, rude mas na apparencia sincera, produziu no animo debil
+de D. Marianna o resultado que o commendador desejava. Affeita a
+obedecer-lhe em tudo, havia-se deixado dominar completamente por aquelle
+homem que, segundo a opinião de todas as pessoas que frequentavam a sua
+casa, havia sido um anjo salvador.
+
+Dois annos depois da sua administração, os vinte contos de réis, que
+rendiam á viuva cem mil réis por mez, haviam subido a um rendimento de
+um conto e seiscentos por anno, graças á applicação que elle dera a
+esses capitaes. Quanto ao producto da propriedade, era um segredo, que
+mais dia menos dia seria revelado como surpreza agradavel. Que razão
+teria ella para o arguir de mau administrador?
+
+Estas e outras circumstancias faziam com que D. Marianna obedecesse
+cegamente a quanto elle lhe impunha.
+
+No dia immediato, Manuel chegou-se a sua mãe, afim de saber o que se
+havia passado entre ella e o commendador.
+
+--Sinto deveras que me queiras abandonar, porém se essa é a tua vontade,
+vae, e que as minhas orações, acompanhando-te sempre, te possam salvar
+de todos os perigos. Quanto a dinheiro ajuntou ella, esperançada em que
+o commendador se resolvesse a entregar-lhe maior quantia, dir me-has
+quanto necessitas.
+
+--Nunca pedi contas nem a minha mãe nem ao sr. commendador, mas
+supponho que não farão grande differença nos capitaes que devemos
+possuir quatro ou cinco contos de réis para me estabelecer, mas ainda
+assim, se minha mãe suppõe que essa quantia é muito avultada, contentar
+me-hei com menos, ou por ultimo, com aquillo que julgarem conveniente. É
+tudo quanto tenho a dizer-lhe, accrescentou elle, pregando os olhos no
+olhar turvo e entristecido de D. Marianna.
+
+No dia seguinte a viuva foi ao escriptorio do commendador e contou lhe o
+que passára com Manuel.
+
+Felix de Araujo, depois de a ter escutado, insistiu serenamente em que
+seria uma grande loucura entregar a seu filho uma quantia superior a
+essa de que tinham falado na vespera, repetindo porém, que estava no seu
+direito de fazer o que lhe aprouvesse.
+
+Todos os espiritos, por mais debeis que sejam, teem um momento na vida,
+em que uma circumstancia, ou um milagre providencial lhes dardeja um
+raio de valor.
+
+A maneira, o gesto, o olhar, com que a viuva fitou o commendador, foram
+sufficientes para que elle comprehendesse que todos os esforços seriam
+inuteis. D. Marianna estava resolvida a entregar a seu filho a quantia
+que elle lhe havia, senão pedido, pelo menos indicado.
+
+Não havia remedio! Era forçoso entregar esse dinheiro no momento em que
+lhe fosse exigido, para que se não realisassem certos boatos que lhe
+tinham chegado aos ouvidos, de que mais dia, menos dia, as suas
+gentilezas seriam desmascaradas!
+
+--Seja o que vossa excellencia quizer, disse elle, depois de alguns
+instantes de reflexão. Que quantia quer?
+
+--Quatro a cinco contos de réis. Como tudo o que possuo é em dinheiro,
+não haverá duvida em os receber por estes oito dias.
+
+--Oito dias! replicou o commendador, simulando grande tranquillidade de
+animo, hoje mesmo se vossa excellencia quizer; não tenho mais trabalho
+do que tiral-o d'aquelle cofre, ajuntou elle, apontando para um grande
+armario de ferro.
+
+--Posso portanto ficar tranquilla?
+
+--Póde, mas lembre-se, minha senhora, que vae fazer a desgraça de seu
+filho. Conheço o Rio de Janeiro, e sei o que póde succeder a um rapaz da
+edade de Manuel, achando-se possuidor de similhante quantia.
+
+--Será o que Deus quizer, respondeu a viuva despedindo se.
+
+Quem, momentos depois, commettesse a indiscrição de o espreitar, no
+pequeno gabinete do escriptorio, conheceria immediatamente pela sua
+perturbação, que os trinta contos de réis em que consistia a fortuna
+d'aquella familia não estavam tão seguros quanto ella os julgava.
+
+Oito dias depois, quando tudo estava preparado para a viagem de Manuel,
+sua mãe dirigiu-se a casa do commendador, afim de receber os cinco
+contos de réis, e encontrou-o sereno e bem disposto, mas insistindo
+ainda em que tão grande quantia seria prejudicial a um moço inexperiente
+como seu filho.
+
+--Já disse ao sr. commendador o que tinha a dizer-lhe, respondeu D.
+Marianna, sentando-se tranquilamente a seu lado.
+
+--Visto não haver meio algum de a convencer, queira vossa excellencia
+ter a bondade de me passar um recibo d'esse dinheiro. Levantando-se
+serena e fleugmaticamente, o commendador dirigiu se ao armario de ferro,
+tirou de dentro d'elle um pequeno cofre e collocou-o sobre a secretaria
+de que D. Marianna se tinha approximado para passar o recibo. O
+commendador, depois de contar os maços de notas de dez moedas, poz junto
+de D. Marianna os que prefaziam a quantia exigida.
+
+N'este momento a viuva acabava de assignar o recibo.
+
+--Se não fosse a profunda sympathia que vossa excellencia sempre tem
+sabido inspirar-me, creia que de hoje em deante, deixaria de lhe
+administrar os seus bens, e pedir-lhe-hia que mandasse buscar vinte e
+sete contos de réis que alli tenho n'aquelle cofre; digo que os mandasse
+buscar, porque grande parte d'esse dinheiro está em ouro e em prata, com
+que vossa excellencia não poderia. Não o faço, porque além de todas as
+outras circumstancias, affeiçoei-me ao Manuel, mais do que se elle fosse
+meu proprio filho, como já uma vez lh'o disse.
+
+Se algumas desconfianças começassem a agitar o espirito da viuva, todas
+se desvaneceriam em presença d'esta scena. Havia uma dupla intenção nas
+palavras do commendador: a primeira inspirar á viuva profunda confiança
+no deposito dos seus capitaes; a segunda, evitar ainda a entrega dos
+cinco contos de réis. A primeira saiu-lhe bem, a segunda não foi tão
+favoravel.
+
+--Então quando é a saida da galera? perguntou elle a D. Marianna.
+
+--Ámanhã, ás duas horas da tarde.
+
+--Não me comprometto a ir ao bota-fóra; ser-me-ia penoso acompanhal-o ao
+começo da estrada da sua infelicidade.
+
+--Será o que Deus quizer, respondeu tristemente a pobre mãe, pegando nos
+maços de notas e mettendo-os dentro do seu sacco de veludo.
+
+Cinco minutos depois, acompanhada pelo commendador, entrava D. Marianna
+para uma sege, e seguia caminho de casa.
+
+No dia seguinte, ás duas horas da tarde, desprendendo se dos braços de
+sua mãe, entrava Manuel de Mendonça na galera _Boa Ventura_, e ao cair
+da tarde perdia de vista o que ha de mais caro na vida: mãe e patria.
+
+«Acautele-se do commendador» foram as ultimas palavras que Manuel
+dissera a sua mãe.
+
+Ao cabo de tres mezes, a viuva recebeu uma carta de seu filho, em que
+lhe participava que tinha chegado depois de uma feliz viagem, e que
+esperava em pouco tempo estabelecer-se vantajosamente com uma casa
+commercial.
+
+ * * * * *
+
+Assim passaram mais oito mezes.
+
+As mezadas que D. Marianna recebia de Felix de Araujo continuavam a
+ser-lhe entregues com a mesma religiosa pontualidade, o que fazia com
+que todas as pessoas que chegaram a duvidar da honestidade do
+commendador começassem a proclamal-o homem de evidente credito.
+
+Durou isto perto de um anno. As cartas que Manuel escrevia a sua mãe
+eram cada vez mais consoladoras. N'algumas, mandava-lhe dizer que os
+seus maiores desejos seriam tel-a a seu lado.
+
+Um dia, finalmente, escreveu lhe seu filho, mandando-lhe pedir
+encarecidamente que retirasse quanto antes os capitaes que tinha na mão
+do commendador, porque lhe tinham dado as peiores informações a seu
+respeito, sendo a primeira não se chamar Felix Justino de Araujo, mas
+simplesmente Domingos de Andrade.
+
+Afflicta com esta carta, a infeliz senhora procurou um advogado, que
+fôra muito amigo de seu defunto marido, e communicou-lhe os seus
+receios.
+
+N'esse mesmo dia, o doutor acompanhou-a a casa do commendador. Este, ao
+vel-a, comprehendeu immediatamente do que se tractava.
+
+--Tencionando retirar-me para o Rio de Janeiro, venho prevenir vossa
+excellencia de que desejo levantar da sua mão os capitaes que
+honestamente me tem administrado. Se não fosse o desejo de ir ver meu
+filho, continuaria a aproveitar me da zelosa e desinteressada
+administração do sr. commendador.
+
+--E sabe vossa excellencia se n'este momento lhe poderei entregar esse
+dinheiro? Não m'o confiou para negociar, afim de que tivesse maiores
+lucros do que estando na sua mão? Na vespera de seu filho partir para o
+Brazil, quando dei a vossa excellencia os cinco contos de réis, que me
+exigiu, não me promptifiquei a entregar lhe quanto aqui tivesse? Vossa
+excellencia não comprehende a possibilidade de que esse dinheiro esteja
+empregado em qualquer negocio, e de que n'esse caso me seja difficil
+devolver-lh'o de um momento para o outro? Felizmente não succede assim,
+pelo que dou graças a Deus! Quanto o estimo! Vossa excellencia, por
+qualquer circumstancia, deseja retirar das minhas mãos os seus capitaes,
+e não tem o sufficiente valor de m'o dizer de cara a cara! Pois, minha
+senhora, continuou elle, simulando um gesto de profundo resentimento, e
+levantando um pouco a voz, eu, que tenho a coragem das minhas acções,
+escudado pelo meu nome e pela minha honestidade, declaro aqui, alto e
+bom som, que sou eu que exijo, que vossa excellencia retire d'aqui os
+seus fundos, e quanto antes.
+
+Havia tanta dignidade nas palavras do commendador, a sua voz era tão
+firme, tão altivo e tão seguro o seu olhar, que D. Marianna chegou a
+convencer-se de que era uma ingratidão o que vinha de fazer.
+
+--Ha perto de quatro annos, continuou o commendador dirigindo se ao
+advogado, que eu administro os bens d'esta senhora. O seu rendimento,
+que não chegava a um conto e duzentos por anno, subiu a um conto e
+seiscentos. Uma propriedade que lhe valia o muito quatro contos de réis,
+vendi-lh'a e appliquei o producto d'ella n'um negocio, que rende para
+cima de doze por cento. Que necessidade tenho eu d'isto tudo? Tenho
+empregado trabalho e tempo; e preciso eu por ventura de capitaes alheios
+para fazer as minhas transacções? Escusado será dizer que não. Para que
+o fiz? Para o seu bem! Boa paga, não haja duvida. Que esta lição me
+sirva! Pois, minha senhora, ajuntou elle, voltando-se para D. Marianna,
+rogo a vossa excellencia que ámanhã, sem falta, até ás onze horas da
+manhã, encarregue alguem de me tomar contas, e queira vossa excellencia
+vir tambem, afim de me passar recibo do dinheiro que tenho na minha mão.
+Hoje mesmo, se lhe fosse possivel, apezar de ser tarde, muito prazer me
+daria.
+
+--Ámanhã aqui estarei, visto assim o exigir, respondeu D. Marianna,
+olhando ao mesmo tempo para o advogado, como que esperando a sua
+opinião.
+
+--Sendo onze horas aqui viremos, disse o jurisconsulto, despedindo se do
+commendador.
+
+--Que lhe pareceu? perguntou a viuva ao chegarem á porta da rua.
+
+--Um homem honesto, ferido pela ingratidão que acaba de receber,
+respondeu fleugmaticamente o doutor. Em todo o caso, accrescentou elle,
+faça vossa excellencia o que quizer; sendo dez horas estarei em sua
+casa.
+
+No dia immediato, conforme haviam combinado, apresentou se o advogado em
+casa de D. Marianna de Mendonça.
+
+Ás onze horas metteram-se n'uma traquitana, e dirigiram-se ao
+escriptorio do commendador.
+
+Contra todos os usos da casa ainda estava fechado.
+
+--Que lhe parece isto? perguntou D. Marianna ao advogado, com mais
+receio do que na vespera ao perguntar-lhe como lhe havia parecido.
+
+--Que é um homem ferido pela ingratidão, e que anda a tratar de levantar
+dinheiro para a embolsar d'essa quantia, respondeu elle ingenuamente.
+
+Momentos depois começaram a apparecer varios individuos. O physionomista
+que de perto os observasse, veria em todos elles a mesma sombra de
+receio que se revelava no rosto pallido e transtornado de D. Marianna de
+Mendonça.
+
+D'alli a duas horas ainda Felix de Araujo não tinha apparecido.
+
+--Que lhe parece isto tudo doutor? dizia a viuva ás cinco horas da
+tarde, olhando para o advogado, que a contemplava com uma physionomia
+alvar.
+
+Que é um refinado ladrão que nos deixa a todos desgraçados! accudiu um
+individuo que ouvira a pergunta feita pela viuva.
+
+O commendador Felix Justino de Araujo havia fechado o escriptorio.
+Domingos de Andrade fugira, roubando dinheiro a todos aquelles que, como
+D. Marianna de Mendonça, o haviam depositado nas suas mãos.
+
+Cinco dias depois D. Marianna, com a razão perdida, entrava para a casa
+dos doidos no hospital de S. José.
+
+
+
+
+II
+
+
+Pelos fins do anno de 1858, vivia n'uma pequena casa da Rua do Meio,
+freguezia de Nossa Senhora da Lapa, Jeronymo de Almeida, honrado mestre
+de obras, em companhia de sua mulher e de uma filha de dezeseis annos,
+chamada Martha. A excentricidade de caracter do operario, fazia com que
+todos os visinhos o detestassem. Para elle, não havia domingos nem dias
+santificados que o obrigassem a distrair-se do seu trabalho. A sua
+janella encontrava-se sempre fechada.
+
+O cultivo do microscopico jardim era a unica distracção que n'esses dias
+se permittia. Alli entre sua mulher e sua filha, Jeronymo mondava o
+pequeno canteiro de hortaliça, que duas horas depois tinha de fazer as
+delicias da refeição domingueira. No armario da cozinha, esperava desde
+a vespera a garrafa do Cartaxo que figurava á sua meza, sobria sempre,
+porém honradamente disfructada com o suor do rosto.
+
+Emquanto Jeronymo trabalhava no pequeno horto, Balbina, a esposa,
+assentada na cadeira de costura, largava apenas a agulha para agradecer
+a Deus o marido que a Providencia lhe havia destinado.
+
+Martha, a preguiçosa Martha como Jeronymo n'esses dias lhe chamava,
+escondia os ferros de engommar, para seguir seu pae, sorrindo-se e
+gracejando a cada passo que elle dava pelo jardim.
+
+Toda a visinhança da rua do Meio se mordia de despeito ao contemplar a
+beatifica tranquillidade d'aquella pobre mas venturosa familia; até uma
+sobrinha do sr. regedor, que se finava de inveja ao contemplar os olhos
+verdes de Martha, chegou a dizer ao sr. padre prior que era impossivel
+que toda aquella gente não tivesse grande peccado na consciencia,
+attendendo á constante reclusão em que vivia. O sacerdote, que conhecia
+o invejoso caracter da menina Gertrudes, passou de leve sobre o caso, e
+contentou-se apenas em responder-lhe que era tal a confiança que
+depositava na virtude d'aquella familia, que não teria duvida alguma,
+embora se sacrificasse a pôr fóra de casa a velha ama, a admittir Martha
+a viver em sua companhia, entregando-lhe nas mãos as chaves da dispensa,
+e tudo quanto possuia de mais valor. Gertrudes desanimou na lucta,
+contentando se apenas em desacredital-a em voz baixa, quando por ventura
+alguma das amigas lhe falava a seu respeito.
+
+Defronte da casa de Jeronymo morava uma pobre velhinha, que se tornava
+um mysterio para toda a visinhança, passando apenas despercebida da
+familia do operario, pouco affeita a importar-se com as vidas alheias. A
+apparencia de sua casa, o seu trajar emfim, tudo revelava summa pobresa,
+porém nunca a sua mão se estendeu a pedir o obulo da caridade.
+
+A velha costumava sair todas as manhãs a fazer as compras. Um dia a
+porta conservou-se fechada, e a tia Marianna, segundo lhe chamavam, não
+apparecia. Ou por curiosidade, ou por interesse, não faltou quem lhe
+batesse ao postigo. Em resposta ouviram-se apenas uns gemidos. O regedor
+chamou dois cabos de policia e mandou immediatamente arrombar a porta.
+Encontraram-n'a exanime sobre o leito. A infeliz havia adoecido com a
+febre amarella; foi esse um dos primeiros casos que se dera na freguezia
+da Lapa. Atterrados, não houve quem quizesse approximar se da enferma.
+Não tardou muito que o facto transpirasse por toda a visinhança. No
+momento em que o regedor, dois metros affastado da porta, dava as suas
+ordens para que fossem buscar a maca afim de conduzirem a velha ao
+hospital da rua do Sol, Martha, a loira Martha, saiu de casa e
+atravessou a rua, dirigindo-se ao logar do sinistro.
+
+--Onde vae a menina? perguntou o sr. Venancio da Conceição.
+
+--Levar esta gotta de caldo á visinha, respondeu Martha ao previdente
+regedor.
+
+--Não consinto similhante loucura! disse elle; a velha foi atacada pela
+febre amarella, e vae immediatamente para o hospital.
+
+--O que vocemecê não me póde impedir, é que eu pratique uma obra de
+caridade; e demais, veja se está no seu direito de mandar para o
+hospital uma pessoa que se póde curar em sua casa.
+
+--Essa mulher não se póde tratar em sua casa, não tem familia.
+
+--E quem lhe disse ao sr. que não tem quem a trate? acudiu Martha,
+afastando o regedor e dirigindo se para o interior da casa da tia
+Marianna. Ora essa! ajuntou ella, e se eu a quizer tratar, ha de alguem
+oppôr-se?! Creio que não. Com sua licença, sr. regedor; e entrando
+animosamente, dirigiu-se a uma alcova, onde a desgraçada, extorcendo-se
+em dolorosas agonias, cravava os olhos n'um pequeno crucifixo, collocado
+sobre uma commoda.
+
+Os cabos, regedor, e todos quantos alli se encontravam, olhavam-se
+mutuamente sem proferir uma só palavra.
+
+--Assim o quer, assim o tenha, disse a auctoridade, depois de alguns
+instantes de reflexão. Se ella fosse minha filha ou coisa que me
+pertencesse, por certo que não havia de lá entrar. Eu cá é que não tomo
+nada, acrescentou elle olhando com receio para dentro da casa.
+
+Instantes depois, saía Martha de casa da velha.
+
+--Mandem chamar immediatamente um medico, disse ella voltando-se para o
+regedor. Póde ser que ainda lhe possamos acudir. Pelo facto de ser uma
+pobre mulher, bem vê que não a devemos deixar morrer ao desamparo. E
+dizendo estas palavras, tornou a entrar para dentro da casa da tia
+Marianna.
+
+--Vá á botica pedir soccorros, disse o regedor, voltando se para o cabo
+geral, e que venham immediatamente; porquanto, esta mulher pelo facto de
+ser pobre, não devemos deixar morrer ao desamparo, ajuntou elle,
+secundando as palavras de Martha, e repetindo-as como se fossem suas
+proprias.
+
+O cabo geral, sem mais hesitar, voltou as costas aos circumstantes, e
+resmungando subiu a rua do Meio, dirigindo-se aonde a auctoridade o
+havia mandado.
+
+Não tardou muito que á porta da tia Marianna se ajuntasse um circulo de
+curiosos. As visinhas a quem o terror da cruel epidemia havia infiltrado
+nos animos o mais terrivel desalento, debalde vociferavam contra a
+estulta caridade de Martha, e a pueril condescendencia do regedor, em
+annuir aos desejos da filha do mestre de obras. Revestindo-se emfim de
+todo o seu poder, o sr. Venancio da Conceição convenceu o auditorio,
+repetindo-lhe pela segunda vez, que, pelo facto da tia Marianna ser uma
+pobre, não a deviam deixar morrer ao desamparo.
+
+N'este comenos, appareceu o mestre Jeronymo.
+
+--A sua filha está doida de todo! diziam uns.
+
+-Já tres vezes que vamos avisar a sr.ª Balbina para que a retire
+d'aquella casa e ainda não houve meios, acudiu uma ajuntadeira de
+calçado, que nem por isso gozava de muitos bons creditos na visinhança.
+
+--Que loucura! que loucura! dizia a capellista.
+
+--Parece que está a zombar da cholera do Senhor! acudiu respeitosamente
+a tia Monica, beata que vivia de resas por conta das fidalgas de Buenos
+Ayres, quando os seus affazeres não lhe permitiam conversar com o Todo
+Poderoso por conta propria.
+
+--Se Deus a arrasta ao leito da moribunda, elle mesma a salvará,
+respondeu fleugmaticamente mestre Jeronymo, lendo-se-lhe, apezar de
+tudo, um certo receio pela vida da criança que estremecia.
+
+--Muito estimo que assim penses, acudiu Balbina, que saira n'este
+momento de casa. O mesmo pensei eu quando Martha me foi pedir uma gotta
+de caldo; entregando-lh'o, entreguei a a Deus.
+
+--Pois olhe, sr.ª Balbina, disse a capellista, fosse ella minha filha,
+não lh'o consentia.
+
+--Cada qual tem o seu modo de pensar, sr.ª Margarida, e Deus fez-me
+assim; mas deixemo nos de mais dize tu, direi eu, e vamos a ver o que se
+poderá fazer por aquella infeliz. E sem mais reflexionar, entrou n'esse
+recinto mortuario, por onde momentos antes sua filha havia
+desapparecido.
+
+--_Avé Maria, cheia de graça, o senhor é comvosco, benta sois vós_,
+dizia a beata. Forte impostora! accrescentou ella; aquillo não é senão
+para se fazer valer na visinhança.
+
+
+
+
+III
+
+
+Meia hora depois d'esta veridica scena, que acabamos de descrever,
+appareceu o medico.
+
+--É alli, disse-lhe o regedor, apontando para a porta da tia Marianna.
+
+--Siga me, disse o doutor, voltando-se para a autoridade.
+
+O lance era fatal, não havia que hesitar. Amaldiçoando n'esse momento a
+má estrella, que o conduzira áquella posição, com as faces lividas de
+susto e de terror, o sr. Venancio seguiu o medico.
+
+Junto ao leito de Marianna, fazendo lhe uma fricção nos joelhos, Martha,
+a filha do operario, debalde tentava chamar á vida essa que, n'um olhar
+turvo e desvairado, parecia contemplar lhe a angelica formosura.
+
+Balbina, com um pequeno frasco chegado ao labio superior da enferma
+tentava fazel a aspirar o conteùdo do vidro. De pé, contemplando este
+doloroso quadro, Jeronymo pedia a Deus se compadecesse de sua familia.
+
+Approximando-se da enferma, o medico tomou-lhe brandamente o pulso, e
+voltando-se em seguida para Martha, pediu-lhe uma véla, afim de melhor
+analysar a vista da moribunda.
+
+--Encontro-a muito debil, disse o esculapio em voz baixa; é de suppôr
+que não a possamos salvar; comtudo, far-se-ha a diligencia, ajuntou elle
+cravando os olhos no rosto pallido e abatido de Martha.
+
+Abrindo em seguida a caixa dos medicamentos, começou de applicar lhe os
+que o seu estado exigia.
+
+--Esta senhora pertence á sua familia? ajuntou o medico voltando se para
+Jeronymo.
+
+--Não, senhor; comtudo minha filha interessa se muito por esta
+desgraçada; e se não fosse Martha, talvez a tivessem mandado para o
+hospital.
+
+--Se a teem removido d'este leito, ao chegar lá seria um cadaver,
+retorquiu o doutor, palpando a fronte da enferma.
+
+--Parece lhe que poderemos ter esperanças? perguntou Martha,
+approximando se do leito.
+
+--Veremos á noite. Sendo sete horas, se poder, voltarei; e,
+despedindo-se dos circumstantes, saiu d'aquella casa, levando impressa
+na memoria a imagem candida e celeste da filha do operario.
+
+Os moveis da tia Marianna reduziam se ao pequeno leito de espinheiro
+onde jazia, uma enorme papelleira, um bahu, e quatro cadeiras de
+palhinha, completamente estragadas nos assentos.
+
+Roupas, se as havia, estavam fechadas; e nem ella lh'o podera responder,
+nem era dado a Balbina o perguntar-lh'o n'esse momento. Dirigindo se a
+casa, trouxe d'alli quanto necessario lhe pareceu afim de alliviar no
+que podesse os incommodos da enferma.
+
+--Sempre lhe gabo a pachorra, disse a sr.ª Margarida, ao ver os lençoes
+alvos como a neve, que a mulher do operario levava no braço. Estar
+estragando assim as suas roupas brancas com quem pouco póde viver! Não
+era eu, que Deus me livrasse! E demais, sr.ª Balbina, uma pobre de
+Christo como a tia Marianna, mais lhe valera o ir para o hospital.
+Supponha a senhora que fica para ahi entrevada, quem ha de sustental-a?
+
+--Deus nunca faltou a pessoa alguma, sr.ª Margarida; e demais, cada qual
+que se metta com a sua vida, que eu pela minha parte nunca me intrometto
+com as alheias, respondeu Balbina, cortando pelo fio as palavras da
+capellista, e dirigindo-se para casa da tia Marianna, onde a esperavam
+Martha e seu marido.
+
+A velha havia recobrado a razão, e sorria-se brandamente para a filha do
+operario, como se n'aquelle olhar significativo estivesse agradecendo a
+Deus o anjo que a Providencia lhe havia deparado n'esse momento de
+suprema angustia.
+
+Jeronymo e Balbina, assentados n'um bahu, olhavam para aquelle quadro
+enternecedor, pedindo ao mesmo tempo nas suas preces silenciosas que lhe
+livrassem sua pobre filha.
+
+Meia hora depois de arranjada a cama, a velha sentiu-se mais alliviada.
+As horriveis dôres por que passara, iam-lhe diminuindo a pouco e pouco,
+e á face, de pallidez mortal, subira-lhe de novo o calor e a vida.
+
+Nem uma só das visinhas, approximando se á sua porta, foram pelo menos
+indagar o estado da sua doença.
+
+Ás sete horas, como o havia promettido, voltou o doutor. A enferma
+estava livre de perigo.
+
+
+
+
+IV
+
+
+Oito dias depois, com grave assombro da visinhança, a tia Marianna,
+envolta n'um capotezinho azul, apparecia de novo á janela da sua casa.
+
+Os effeitos da febre amarella haviam-lhe passado desapercebidos pela sua
+organização de ferro. Ao vel-a, ninguem poderia acreditar que essa
+mulher, aos sessenta e seis annos, podesse haver resistido aos golpes
+d'uma doença, que tanta gente nova e robusta ceifára n'aquellas
+immediações.
+
+Todos viam na sua convalescença, começando pela beata, um favor da
+Providencia; e nem uma só bocca se abriu para dizer, quanto a dedicação
+da pobre Martha ajudára aquelle verdadeiro milagre.
+
+Almas vis e denegridas que não comprehendeis o bem, como poderieis
+soltar a voz para elogiardes a virtude, se nos vossos corações não
+existe mais do que a inveja e a podridão!
+
+Sem valor de praticardes o bem, fere-vos o goso que experimenta o
+coração, que se entrega aos deleites da caridade.
+
+A apotheose do proximista, echoando nos ouvidos do misanthropo, deve
+produzir-lhe um effeito atroador, como o som do ouro espalhado pela
+pobresa, no tympano do avarento.
+
+Ninguem da visinhança se atrevera a soccorrer a pobre doente, ninguem
+repartira o seu jantar com a infeliz; porém, quando a viram de pé,
+salva, proclamando por toda a parte o quanto era devedora á familia do
+operario, todas as visinhas, consumindo-se de inveja, lhe voltavam as
+costas para não ouvirem os elogios que a velha do coração lhe
+prodigalizava.
+
+Desde esse momento, a pouca affeição que todos consagravam á familia de
+Jeronymo, tornára-se em decidida aversão. Começando pelo sr. regedor, e
+acabando na sr.ª Margarida da Silva, ninguem podia supportar aquella
+pobre gente, que, fechada quasi sempre em sua casa, de mais coisa alguma
+se importava a não ser dos seus arranjos domesticos.
+
+Quanto mais a tia Marianna proclamava em alto e bom som as virtudes de
+Martha, maiores antipathias ia inspirando a filha do operario. Quando,
+acompanhada por sua mãe, saía aos domingos para ir á missa da Lapa, as
+visinhas zombavam sempre ao vel-a passar. Hoje, porque o seu lenço
+estava mal engommado, ámanhã porque o seu capote de panno azul já
+começava a mostrar o fio. A pobre victima fazia que nada percebia dos
+continuos gracejos que contra ella dirigiam. Chegou a pedir a sua mãe,
+por tudo quanto havia, que não a obrigasse a ir á missa das onze.
+
+--Que te importa o que diz toda essa gente? exclamava ás vezes o sr.
+Jeronymo. O que elles têem é inveja do teu comportamento. Não tardará
+muito, se Deus quizer, que tenha ahi uns _ganchosinhos_ que me devem
+render um par de moedas, verás então como lhes hei de fazer estalar a
+castanha na bocca, quando te virem o bom capote aos hombros, e o bom
+cordão de seis moedas ao pescoço.
+
+--Pouco me importa com o que elles dizem, respondia lhe Martha. Não
+tenham de abocanhar no meu credito, o mais, tanto se me dá como se me
+deu. O que eu queria era ajudar a pobre velhinha.
+
+--Pois tambem não tardará muito que lhe façamos algum bem, respondeu o
+mestre Jeronymo, como se um pensamento lhe acudisse ao espirito. Ámanhã
+tenciono ir a casa de tua madrinha, para que ella lhe possa obter alguma
+esmola da senhora Condessa. Que te parece, Martha? Continuou o mestre de
+obras, cravando os olhos no rosto candido de sua filha, e revelando no
+gesto o prazer que lhe ia n'alma, ao comparal-a com todas as raparigas
+suas visinhas.
+
+--Muito estimarei que isso não fique no rol dos esquecimentos, respondeu
+a criança sorrindo-se ternamente para seu pae. Salvamos a pobresinha da
+morte, é mister não a desampararmos, nem deixal a morrer de frio ou de
+fome.
+
+--De frio não morrerá ella por certo, acudiu Balbina, collocando o ferro
+de engommar sobre o descanço. Ainda esta manhã lhe dei o capote que
+punhamos no leito.
+
+--Quer dizer, interrompeu Jeronymo, que de hoje em deante... se tivermos
+frio...
+
+--Que nos havemos de contentar com os cobertores, respondeu a caridosa
+Balbina, tornando a pegar no ferro, e approximando-o da face para lhe
+calcular o calor.
+
+--Seja o que vossês quizerem, que eu, pela minha parte nunca as
+reprehenderei por qualquer acção boa que praticarem; e já que tivemos a
+felicidade de salvar a vida d'essa infeliz, é justo não a deixarmos
+agora morrer ao desamparo. Estou da opinião da Martha.
+
+--Ou eu me engano muito, ou a tia Marianna já teve melhores dias, disse
+Martha. Ha na sua vida algum mysterio que ella nos encobre, mas que,
+apezar de tudo, adivinhamos, respondeu Martha, com aquella intuição
+particular que tantas vezes se encontra no coração da mulher.
+
+--O mesmo penso eu, ajuntou mestre Jeronymo. Nunca fui homem que
+frequentasse estas casas, porém reconheço ás vezes um não sei quê nas
+maneiras da tia Marianna, que me levam a crer que os seus principios não
+foram como os nossos; e tenho cá na mente, que mais dia menos dia tudo
+se ha de descobrir. Quando vossês hontem foram levar aquellas camisas a
+casa da fregueza, e que fiquei aqui em sua companhia, ainda mais me
+convenci das minhas suspeitas. «Sr. Jeronymo, disse me a tia Marianna,
+quem sabe se um dia a Providencia, lembrando se de uma desgraçada que
+abandonou sobre a terra, a tomará de novo debaixo da sua protecção. Se
+tal acontecer, lembre-se do que lhe digo hoje, nunca serei ingrata para
+uma familia a quem tanto devo.» Ora, além d'estas palavras serem
+proferidas, sim... assim como o outro que diz, com uns certos modos
+finos e delicados, levam-me a pensar que a tia Marianna não é, nem nunca
+foi o que parece. Em todo o caso, seja ella quem fôr, tem precisão, é
+necessario soccorrel-a, e hoje mais do que nunca, quando a inveja a
+começa a perseguir. Vejam lá a capellista! Até essa mesma, que eu
+suppunha tão virtuosa, como se uniu a todas as visinhas para lhe
+cortarem na pelle, mais a ti, minha filha! Valha nos Deus, que mundo
+este! ajuntou o mestre de obras, dirigindo-se para a cosinha, em cuja
+chaminé Balbina lhe havia posto a ceia a aquecer.
+
+N'este momento bateram apressadamente ao postigo.
+
+--Que teremos? disse Balbina.
+
+Martha levantou-se, e ao reconhecer a voz que da rua lhe falava, abriu
+immediatamente a porta.
+
+Era a tia Monica.
+
+--Deus seja comvosco n'esta casa, e que o Senhor lançando sobre nós a
+sua divina benção, queira proteger a mais santa e a mais virtuosa de
+todas as familias, disse a beata. Acaba de ser atacada pela febre
+amarella a nossa visinha Margarida, ajuntou ella. No momento em que me
+estava vendendo um vintem de meio grosso, a colera de Deus desceu sobre
+a peccadora e alli jaz sem protecção nem abrigo, porquanto todas as
+visinhas receiam que tambem o Senhor as castigue pelos actos que teem
+praticado sobre a terra. Venho pedir a vossemecê, sr.ª Balbina, que se
+compadeça d'essa desgraçada, e que me empreste esse milagroso frasquinho
+com que tornou á vida a tia Marianna.
+
+--Não foi o remedio que lhe deu minha mulher que fez com que a tia
+Marianna melhorasse, acudiu o mestre Jeronymo, que da porta da cosinha
+ouvira as exclamações da beata. Façam o mesmo que fez minha filha. Vão
+chamar o sr. regedor e peçam-lhe que mande immediatamente buscar-lhe os
+soccorros, ajuntou o mestre de obras com modo aspero e descontente.
+Quanto ao frasco, continuou elle, voltando-se para sua mulher, podes
+emprestar-lh'o se é da tua vontade, porém servir-lhe de enfermeira,
+maletas me dêem se em tal consinto. Bem basta o que basta, sr.ª Monica.
+Para outra qualquer pessoa talvez que nem fosse preciso que me pedisse
+por duas vezes, mas para a sr.ª Margarida! Nem que me pezassem a ouro,
+ou que santo me fizesse o sr. padre prior. Estou farto e mais que farto
+da ingratidão, sr.ª Monica. Não foi a sr.ª Margarida a primeira a cortar
+na pelle de minha filha, por ella ter ido acudir á tia Marianna? E não
+foi só ella como tambem as outras visinhas! Pois agora que se aguentem
+como melhor lhes parecer. Que se ajudem umas ás outras, que eu pela
+minha parte, não consinto que lá ponham o pé, nem minha mulher nem minha
+filha.
+
+[Ilustração: N'este momento a viuva acabava de assignar... (_pag. 15_)]
+
+--Cruzes! Credo! Mãe Santissima! Que modos, sr. Jeronymo! E eu que
+julgando-o um Santo, me atrevi a vir a sua casa. Que a ira de Deus
+descendo sobre esta morada castigue o maior de todos os peccadores,
+resmungou a tia Monica á medida que se approximava da porta por onde
+momentos depois saía apressadamente, olhando ao mesmo tempo para
+Jeronymo, cujo olhar, incendiado pelo desespero que a praga lhe havia
+produzido, incutia certos receios no animo da corretora de orações.
+
+--Que lhes pareceu o traste? perguntou o mestre Jeronymo depois de
+alguns momentos de profunda reflexão.
+
+--Se meu pae me deixasse ao menos ver o estado em que se encontra essa
+pobre mulher?... perguntou ingenuamente a caridosa Martha.
+
+--Nem por sombras, respondeu o operario. Vamos pedir a Deus pela saude,
+e depois descançarmos o corpo para o trabalho de ámanhã.
+
+Momentos depois, ouvia-se apenas em casa do operario o ciciar d'esta
+curta, mas eloquente oração:
+
+ Bom Jesus, todo Poderoso,
+ Filho da Virgem Maria,
+ Soccorrei-nos esta noite
+ E ámanhã por todo o dia.
+
+ Se na terra não coubermos,
+ Levae-nos Senhor aos céos,
+ Rogae por nós peccadores,
+ Virgem Santa, Mãe de Deus.
+
+
+
+
+V
+
+
+Havia dias que tinha chegado a Lisboa, vindo do Rio Grande do Sul, um
+abastado capitalista por nome Tristão de Almeida, segundo rezava o seu
+passaporte. Acompanhavam-n'o sua mulher e duas filhas.
+
+Trazia apenas tres cartas de recommendação, uma para o visconde de
+Coruche, outra para o commendador Lopes de Miranda, e a terceira para a
+casa bancaria de Vaz Mendes e C.ª, extraordinariamente acreditada n'esta
+capital, não só pela notavel amabilidade dos seus gerentes, como pelo
+facto de já ter fallido tres vezes.
+
+O visconde, o commendador e o banqueiro abraçaram gostosamente o seu
+recommendado. Como bons farejadores reflectiram que a caça era rara de
+mais para se abandonar por essas mattas de Lisboa, onde o genero tanto
+escasseia.
+
+Disputada calorosamente entre todos tres a preza que promettia dar para
+succulenta refeição, transigiram, promettendo, como quaesquer jogadores
+da vermelhinha, que dividiriam entre todos os despojos da caçada.
+
+Deixando-se de vogar na torrente de eternas adulações, Tristão de
+Almeida olhava para as facecias dos seus aduladores com aquelle olhar de
+experimentada velhacaria com que todo o homem do mundo se deixa levar,
+quando, porventura, no amago das lisonjas que lhe disparam, antolha, ou
+pelo menos fareja o mais leve indicio de estremado calculo.
+
+Sem patentear a sua intelligencia ou, ainda mais, deixando-se passar por
+zote, Tristão ia cercando de lisongeiras esperanças o filão d'essa
+inexgotavel mina que os tres inseparaveis amigos julgavam descobrir na
+sua aurifera individualidade.
+
+Mulher e filhas ainda não haviam entrado em scena. Constava porém que
+uma das meninas era de formosura extrema, e d'uma superior
+intelligencia. Não tardou uma semana que esse homem, ou para melhor
+dizer esse mysterio fosse discutido em todos os circulos.
+
+Quem era? Qual o seu passado, ninguem o sabia; ao passo que elle
+conhecia a todos, e de todos sabia as chronicas. Se este, antes de ser
+visconde de tal era apenas Manuel Pinto com barracas de fressureiro, se
+aquelle, antes de barão, empregava a casca de polvo para tirar em baixo
+relevo a vera effigie de qualquer monarcha, ensaiando por esta forma a
+sua industria até conseguir a tiragem por meio do balancé; se
+aquell'outro, profundo amador do sexo fragil, tivera casa de alcouce no
+Brazil com o unico fim de matar o tempo.
+
+Tristão de Almeida sabia o passado de todos, e todos ignoravam o seu
+preterito.
+
+«É forçoso votar uma quantia para estes tres individuos, pensava elle,
+passeiando pela varanda do hotel e contemplando as aguas do Tejo que
+pareciam conhecel-o e sorrir-lhe. Se com vinte ou trinta contos de réis
+se contentam, satisfarei os seus desejos e poderei conseguir os meus
+fins. Graças a sir Francis Strolopp, tornei-me desconhecido.[1] Hoje
+pessoa alguma poderá descobrir que antes de ser Tristão de Almeida fui
+Felix Justino de Araujo como antes de ser Felix Justino de Araujo fôra
+Domingos de Andrade.
+
+«É forçoso que me arranjem um titulo pelo menos de visconde. Quero ver
+minha mulher viscondessa, tenho n'isso o maior de todos os meus
+caprichos. Não que me seja preciso, para casar minhas filhas é-lhes
+sufficiente o seu dote de duzentos contos de réis. Brevemente
+encontrarão algum fidalgo arruinado, que tenha por unicos restos de
+grandeza o seu titulo, e isso... é genero que abunda muito em Portugal.
+Está decidido, quero um titulo. Começarei por ser apresentado em casa de
+alguma senhora protectora d'essas escolas de caridade, e dar-lhe-hei uma
+avultada esmola, afim de a applicar aos seus protegidos. Mas agora me
+recordo, ajuntava elle, desencostando-se do parapeito da varanda; o
+ensejo é favoravel. A febre amarella, levando a desgraça a centenares de
+familias, enlucta-lhes as suas habitações. Vou fundar um hospital. Serei
+o anjo dos tristes! Beatifica-te, Domingos de Andrade. Eleva-te aos
+olhos de Deus, Felix de Araujo. Derrama esse ouro que tanto te custou a
+adquirir, Tristão de Almeida, e serás um dia aquillo que te aprouver.»
+
+N'este momento, bateram á porta da sala. Tristão mandou que abrissem, e
+entrou um criado annunciando o visconde de Coruche.
+
+--Que entre, disse lhe Tristão de Almeida retirando-se da varanda e
+dirigindo-se para o salão.
+
+O visconde era um homem de cincoenta annos, mas que parecia ter
+quarenta quando muito.
+
+Dotado d'uma inteligencia regular, já pelos dotes physicos de que Deus
+fôra prodigo para com ele, já pela riqueza de que por duas vezes havia
+disposto, era ainda, apezar da sua decadencia, o primeiro rapaz d'esta
+terra, onde se não envelhece antes dos setenta e seis a setenta e sete
+annos, graças á temperatura do seu clima.
+
+Quando entrava no Marrare de Polimento, toda a moderna geração se
+curvava deante d'aquelle que havia sido o chefe da velha guarda.
+
+Não havia rapaz que não escutasse avido de curiosidade as mil aventuras
+que se haviam dado n'aquella existencia tumultuosa. Havia sido o terror
+da banca portugueza no salão do theatro de S. Carlos, como na caixa do
+mesmo theatro fôra o invejado emulo de todos os seus contemporaneos, em
+resultado das innumeras conquistas que em cada epocha se permitia.
+Ninguem montava como o visconde! Os seus cavallos eram os primeiros de
+Lisboa. Tivera por sotas da sua magnifica sege o Feliciano e o Bem Bom!
+
+Aos vinte anos, casara-se com uma prima, a filha do conde de ***. Quinze
+dias depois, n'um camarote de primeira ordem da Rua dos Condes, estava a
+viscondessa e defronte dela, noutro camarote da mesma ordem, miss Ellen
+Barkshead, voltando de vez em quando o rosto para a rectaguarda para
+melhor falar com o marido da viscondessa.
+
+Como se vê, era um homem completo.
+
+Dois anos depois entregou a viscondessa a sua meia alma a Deus deixando
+sobre a terra a outra metade, para ser previamente repartida por uma
+multidão de mulheres que disputavam entre si o voluvel coração do
+visconde.
+
+Extravagante mais por indole do que por ostentação, o fidalgo
+deliciava-se nos encantos dos seus desvarios, saboreando as commoções
+que d'elles lhe resultavam, com o mesmo deleite com que o gastronomo
+delicia o palladar nos prazeres d'uma variada mastigação. Era o
+verdadeiro sybarita da estroinice.
+
+Senhor d'uma casa de vinte contos de renda, não tardou muito que a visse
+desbaratada em custosas viagens.
+
+Aos trinta annos estava pobre! Tinha por unico recurso a morte de um tio
+de quem era herdeiro forçado, porém a pertinaz saude do velho fazia com
+que o pobre visconde estivesse quasi a esmorecer no caminho da vida,
+onde se assentava desanimado, como o peregrino, a quem o desalento feriu
+no começo da sua jornada.
+
+Um dia, finalmente, o velho aristocrata, mais talvez para acceder aos
+ardentes desejos do seu arruinado sobrinho do que para descer aos
+abysmos do inferno, que por direito de conquista lhe pertencia, cerrou
+brandamente as palpebras, e partiu d'esta para peior, segundo a opinião
+das suas victimas, deixando por seu universal herdeiro o visconde de
+Coruche.
+
+As privações porque este passára foram completamente esquecidas desde
+que se encontrou novamente possuidor d'um vinculo cujo rendimento
+excedia seis contos de réis, e esquecidos tambem se julgaram os seus
+crédores, porquanto lhes foi necessario lançarem mão de meios pouco
+brandos para adquirirem, senão a totalidade do devido, pelo menos o
+capital confiado ao visconde, com juro modico e rasoavel. O fogo
+d'aquella eterna juventude, amortecido durante cinco annos de amargura,
+reanimou-se então com todo o esplendor do seu brilho! O visconde tornou
+a entregar-se a todos os prazeres, com o ardente desejo de quem apenas
+se recordava d'elles.
+
+A sua vida era um mysterio. Todos os dias se dizia que estava
+arruinado, porém tanto a casa como o trem conservavam-se como no tempo
+do apogeu da sua riqueza.
+
+D'onde lhe viria o dinheiro para tanto? Eis o misterio que a pessoa
+alguma era dado descortinar.
+
+Ao cabo de alguns annos, o vinculo que herdára teve o mesmo resultado
+que havia tido o que seus pais lhe deixaram, porém desta vez a situação
+era mais difficil, não tinha parente algum para quem apellar.
+
+Não podendo recorrer aos mortos, decidiu-se a explorar os vivos.
+Escudado pela prestigiosa fama que o acompanhava, fez do seu nome uma
+industria.
+
+Os rapazes que entravam na sociedade desejavam todos ser-lhe
+apresentados. O visconde conhecia isto, e, esquivando-se a principio,
+anuia finalmente, não sem mostrar quanta honra ele lhes dispensava
+colocando-os no rol de seus intimos.
+
+Todos á uma dariam metade do que possuiam para se tratarem por tu com o
+visconde, no que ele era assaz difficil; a sua intimidade era um genero
+de superior qualidade para que muitos se podessem ufanar de o possuir.
+
+Ainda que as suas gentilezas eram por todos conhecidas, todos ou quasi
+todos lhas desculpavam. Estimado nos principais circulos onde aparecia,
+nem uma só pessoa se atrevia a dar-lhe a mais pequena mostra de
+desconsideração.
+
+Foi pois o visconde um dos tres individuos a quem Domingos de Andrade,
+ou o commendador Felix de Araujo, ou Tristão de Almeida, para maior
+exactidão desta veridica historia, foi apresentado.
+
+--Quanto estranhei não o ter encontrado hontem no theatro, meu caro
+amigo, disse o visconde, reclinando-se commodamente n'uma poltrona. Ha
+muito tempo que não vejo S. Carlos tão brilhante. O tenor, como sempre,
+cantou admiravelmente. E no que diz respeito ás toilettes, não póde
+calcular, e impossivel seria descrever-lh'as. Felizmente não se tem
+espalhado muito o panico em Lisboa. O cholera de 1833, de que eu tenho
+uma vaga reminiscencia, aterrorizou muito mais os habitantes do que esta
+innocente epidemia. Ha um tempo a esta parte, tudo aqui em Lisboa é
+pobre e acanhado. Da febre amarella, diz-se: tem morrido muita gente; do
+cholera, dizia-se com espanto: assim mesmo tem escapado alguem. Isso é
+que foi uma epidemia, meu amigo.
+
+--Assim ouvi dizer. N'essa epocha estava eu em Buenos Ayres, respondeu o
+commendador, notando ao mesmo tempo a estudada desenvoltura com que o
+visconde o tentava seduzir. Pois eu hontem não fui a S. Carlos, ajuntou
+elle, por ter tido minha filha alguma coisa indisposta.
+
+--N'esse caso fez muito bem, sr. Tristão. O tempo não está para
+brincadeiras. Eu mesmo, que tenho uma saude de ferro, se n'este momento
+sentisse a mais leve indisposição, começava por me tractar como estando
+realmente ameaçado pela epidemia. Em primeiro logar está a nossa saude.
+Prefiro-a a tudo, até á riqueza.
+
+--Porêm quando se reunem essas duas venturas... acudiu Tristão de
+Almeida, simulando um gesto de pueril ingenuidade.
+
+--Então o mundo é um verdadeiro paraiso, pelo menos assim o julgo.
+Muitos rapazes que por ahi conheço possuem, como eu, saude e dinheiro.
+Encontro-os sempre curvados ao pezo de uma terrivel fatalidade. Nunca se
+consideram felizes! Fazem da melancolia a sua companheira inseparavel, e
+dando-se ares de Antonys, arranjam um farnel de desventuras, e vão com
+elle por essas ruas da capital armando á compaixão das suas Lesbias. Eu
+sou o contrario; a minha alegria é chronica. Se eu não tenho coisa
+alguma que me entristeça, para que demonio hei de dizer mal do mundo que
+tantos deleites me faz experimentar?
+
+--Sou da sua opinião, sr. visconde. O mundo é apenas mau para os tolos,
+ainda que ha muita gente que diz o contrario. Quem dispozer de boa saude
+e tiver alguns meios, deve pedir a Deus que o conserve largos annos
+sobre a terra. Mas voltando agora a outro assumpto, ajuntou Tristão de
+Almeida, que já começava a impacientar-se, como o leitor, do estirado
+dialogo do visconde; quanto estimo que me tenha dado a honra d'esta
+visitasinha, não só pelo prazer da sua companhia, como pela necessidade
+que tenho de lhe falar. Preciso um conselho seu.
+
+--Um conselho meu! exclamou o visconde profundamente admirado. É a
+primeira pessoa que m'o pede! Todos me chamam um rapaz extravagante,
+continuou elle, olhando ao mesmo tempo para um espelho que lhe ficava
+fronteiro; vossa excellencia quer guiar-se pela minha opinião?
+Provavelmente trata-se da compra d'algum palacio, e alguem houve que
+teve o mau senso de lhe dizer que eu era um homem de gosto.
+
+--Nada, não se trata d'isso.
+
+--Então, provavelmente, quer me consultar ácerca da mobilia, ou das
+carruagens, ou dos cavallos?
+
+--Tão pouco, respondeu serenamente Tristão de Almeida. Isso ficará
+para mais tarde. Por agora trata-se apenas de uma obra de
+misericordia;--fazer bem aos desgraçados.
+
+--Se tal fôr, acho muito justo, e desde já me offereço a ajudal-o em
+tudo quanto me seja possivel.
+
+--Sentemo nos, disse Tristão apontando lhe para o sophá. Minha esposa,
+que tem o habito de empregar na pobreza a mezada que lhe dou para os
+seus alfinetes, lembrou-se ha dias de gastar uns contos de réis n'um
+asylo de creanças desvalidas. Que lhe parece a idéa?
+
+--Não a póde haver melhor, respondeu o visconde, e se vossa excellencia
+m'o permitte, desde já me comprometto a fazer com que minha tia, a sr.ª
+condessa de Villa Velha, venha immediatamente procural-o afim de o
+iniciar n'essas associações. Recordo me d'ella, porquanto é uma das mais
+assiduas obreiras do grande monumento da caridade. Não ha asylo para que
+não seja consultada e é sempre a sua opinião a que prevalece sobre todas
+as outras. Se vossa excellencia quer, o meio é muito simples, e torno a
+repetir-lhe, hoje mesmo me encarrego de tudo.
+
+--Pois meu caro amigo, acudiu fleugmaticamente Tristão de Almeida, não
+me associo á opinião de minha mulher nem á sua. Tenho outra idéa, e
+creio que será muito mais razoavel.
+
+--Sim?...
+
+--É verdade. Lembrava-me de fundar um hospital para os enfermos atacados
+de febre amarella. Isso em primeiro logar; depois, quando este terrivel
+flagello tiver abandonado Lisboa, então sim, então adoptarei a idéa que
+teve minha mulher.
+
+--Approvo, e desde já devo confessar que tanto eu como sua
+excellentissima esposa ficamos completamente vencidos.
+
+--Approva?
+
+--Applaudo.
+
+--E dispensa-me a sua protecção n'esta pequena obra de caridade?
+
+--Conte commigo, respondeu o visconde puxando pela charuteira e
+offerecendo um magnifico havano ao seu interlocutor.
+
+--Poderemos hoje mesmo começar os nossos trabalhos? perguntou Tristão
+de Almeida, acceitando o charuto que lhe fôra offerecido.
+
+--Quando queira, respondeu o visconde de Coruche, tirando da algibeira
+do collete uma caixa de phosphoros magnificamente cinzelada.
+
+--Vamos então procurar o commendador e seguiremos d'alli para casa de
+Vaz Mendes. Tanto um como o outro é de suppôr que nos possam ajudar em
+muito.
+
+--Assim o creio, murmurou o visconde, accendendo o charuto e passando-o
+a Tristão de Almeida.
+
+ * * * * *
+
+Momentos depois entrava este para dentro do trem do visconde. Quando a
+carruagem saia o portão e voltava para a rua do Ferregial, espantou-se o
+cavallo da sella, e esbarrando no passeio, atropellou um individuo,
+deixando-o sem sentidos. Sairam ambos e levantaram o desgraçado.
+
+Pegando elles mesmos no corpo inerte da victima, transportaram n'a para
+o hotel de Bragança.
+
+Tristão de Almeida expediu logo dois creados em procura de medico. Por
+excepção, o doutor não tardou meia hora!... Das feridas que o
+atropellado recebera na cabeça nenhuma era de gravidade, comtudo não
+havia tornado a si.
+
+Tristão de Almeida, com a mão do enfermo entre as suas, parecia com
+profundo interesse procurar-lhe a vida nas pulsações. Seria calculo ou
+verdadeira caridade? Sabia o Deus!
+
+Terminado o curativo, o homem descerrou as palpebras, fitando o que
+havia em torno de si com olhar turvo e desvairado.
+
+É melhor deital-o immediatamente, não lhe sobrevenha alguma congestão,
+disse o doutor tomando o pulso do enfermo.
+
+Depois de ordenarem ao criado de mesa que arranjasse um quarto, Tristão
+de Almeida e o visconde levaram em braços o ferido e deitaram-n'o sobre
+um leito, pedindo ambos ao medico que voltasse antes da noite.
+
+--Começa hoje a espalhar as joias da sua caridade, disse-lhe o visconde
+com falsa ingenuidade.
+
+--Quizera antes ter perdido dez ou doze contos de réis do que ter sido
+causa de similhante desgraça, respondeu-lhe Tristão. Agora, sr.
+visconde, ajuntou elle, emquanto vamos tratar dos nossos negocios, será
+bom recommendar a minha mulher e a minhas filhas que venham para a
+cabeceira do ferido.
+
+--Será uma grande alma, pensava o visconde.
+
+--Foi um magnifico prologo, dizia comsigo Tristão.
+
+Meia hora depois dirigiam-se ambos para casa do commendador.
+
+[Nota de rodapé 1: Tristão de Almeida lera a preclarissima obra de sir
+Francis Strolopp, e procurando um celebre chimico allemão, conseguira
+que este lhe transformasse a physionomia a ponto de se tornar
+desconhecido de si mesmo.]
+
+
+
+
+VI
+
+
+--E já lá vão as cinco, as seis, e as sete, e Jeronymo sem chegar!
+Virgem Santissima que lhe terá acontecido?
+
+Isto dizia a infeliz Balbina, olhando ora para o relogio, ora para uma
+pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição, defronte da qual ardia a
+luz frouxa e melancholica de uma lamparina de azeite.
+
+--Ha dezoito annos que somos casados, continuou ella voltando se para a
+tia Marianna, e nunca tal me aconteceu! E sobretudo n'este tempo! Quem
+nos diz que elle foi atacado pela febre, e que o levaram; morto talvez;
+morto, o meu querido Jeronymo? Deus permitta que Martha se não demore.
+Ella já tinha tempo e mais do que tempo para voltar.
+
+--Não se apoquente, sr.ª Balbina. D'aqui á rua de S. Francisco não é
+tão perto como julga, e demais ainda não ha uma hora que foi.
+Coitadinha! Desacostumada como está de andar por essas ruas! Porque não
+havia de me ter deixado ir em sua companhia? Valha-nos Deus! Não ha
+senão desgostos para os que são bons como vossemecê.
+
+--Isso é coisa sabida, tia Marianna; parece que quanto mais a gente
+quer--como o outro que diz--estar nas graças de Deus, mais o demo que as
+tece está puxando pelo fio da felicidade! Eu estou como doida! Se Martha
+se demora mais algum quarto de hora, sou eu quem os vae procurar a
+_ambos e dois_. Vossemecê fica aqui para o que der e vier, ajuntou a
+pobre Balbina, passeiando desassocegadamente de um para o outro lado do
+quarto.
+
+--Ainda não tem razão para estar dizendo mal á sua vida. Quem sabe se
+ambos se encontraram?...
+
+--Tenho na mente que não, sr.ª Marianna; e demais, não sei o que me diz
+o coração. Parece que tudo se está preparando para que haja n'esta casa
+uma grande desgraça. Se a minha amiga visse a maneira por que hoje nos
+olhou a tia Monica! Não lhe bastou ter-nos rogado a praga que nos
+rogou...
+
+--Ora deixe-se d'isso, sr.ª Balbina! Não creia em bruxarias. Deus é bom
+de mais para conceder similhante poder aos mortaes.
+
+--Se ouvisse como hoje esteve a _ouviar_ a minha cadella! Diga-o ella!
+Por mais que pozesse as cadeiras de pernas para o ar, e que voltasse um
+sapato de solla para cima, não houve meios de fazer com que se calasse o
+pobre animal! Eu bem sei que tudo isto são coisas, como o outro que diz,
+que não vem nada ao caso, mas a gente cá tem os seus enguiços, e
+desgraçadamente a maior parte das vezes saem certos como dois e dois
+serem quatro.
+
+--Pois sim, pois sim, socegue a minha boa amiga, e verá que não tarda
+muito que os veja entrar por essa porta. É preciso que a gente não seja
+tão desanimada. De que nos serviria a religião se nos não desse
+conformidade? Estar agora duvidando da graça de Deus, porque seu marido
+se demora mais duas ou tres horas!
+
+--E como explica vossemecê o elle não ter vindo jantar?
+
+--Quem sabe lá se encontrou o seu ganchosinho com que podesse ganhar
+algum vintem? Ignora vossemecê o seu genio? Aquillo é uma formiga para a
+familia. Parece-me que se o dia tivesse quarenta e oito horas, quarenta
+e oito horas seria capaz de trabalhar por dia.
+
+N'este momento bateram á porta e a voz de Martha soou melancholicamente
+atravez das fendas do postigo.
+
+Balbina ergueu-se rapidamente para lhe abrir a porta.
+
+Martha vinha desfigurada.
+
+--O pae, disse ella entre soluços, saíu da obra ao meio dia para vir
+jantar a casa. Ninguem me pôde dar noticias d'elle. Pedi a um pedreiro
+para me ajudar a procural-o, mas o pobre sentia-se muito incommodado e
+esquivou-se a acompanhar-me. Outro que lá encontrei começou a sorrir-se
+para mim de tal forma que não tive valor de lhe dizer quanto soffria,
+ajuntou Martha tornando-se vermelha como o lenço que lhe occultava os
+seus magnificos cabellos.
+
+--Infame! exclamou Balbina approximando-se cada vez mais da filha.
+
+--Fugi desorientada, continuou Martha suffocada pelas lagrimas, e
+quando vinha pelo Chiado, encostei-me a uma esquina quasi sem saber de
+mim. Então senti que me tocavam brandamente no hombro. Despertei como de
+um sonho, e vi um senhor muito bem vestido, perguntando me o que tinha.
+Disse-lhe que ia em busca de meu pae, pois receiava que tivesse sido
+atacado pela febre. O tal individuo compadeceu-se da minha sorte.
+Aquelle sim; nem siquer reparou se eu era bonita ou se era feia. Teve
+apenas tempo de me ver as lagrimas e não a côr dos olhos. «Não me atrevo
+a dizer-lhe que entre commigo n'uma sege, disse-me elle; seria
+offendel-a; mas espere, que vou chamar dois trens.»
+
+Esperei, chegaram duas traquitanas.
+
+--Entre, disse-me elle pegando-me na mão esquerda. Do coração lhe
+affianço, que póde estar tão segura como se fosse ao lado de seu pae,
+que espero em Deus encontrará com vida, acrescentou o individuo
+mettendo-me no trem.
+
+Entrei sem saber como. Senti bater o guarda lama e os cavallos seguirem
+a trote.
+
+De repente, a sua traquitana tomou a deanteira á minha.
+
+Andámos, andámos até que chegou a um sitio onde havia um hospital. Os
+cavallos pararam. Elle então apeiou-se e perguntou-me os signaes do pae.
+Dei-lh'os. Entrou para dentro do edificio onde se demorou por alguns
+minutos, e voltou dizendo-me que não tinha entrado n'aquella casa.
+
+Os trens partiram a galope. Fomos a dois hospitaes; o mesmo resultado.
+
+Faltava apenas o da rua do Sol. Esse, já eu conhecia de nome quando a
+tia Marianna adoeceu. Ninguem alli tinha entrado desde as nove horas da
+manhã.
+
+--Vá tranquilla para sua casa, e diga-me onde mora.
+
+Dei-lhe o nome da rua e o numero da porta.
+
+Pagou ao bolieiro dizendo-lhe que me viesse pôr em casa, o que não
+acceitei por causa da visinhança.
+
+--E quem será esse individuo, para que lhe possamos beijar as mãos?
+exclamou Balbina, n'um transporte de profundo reconhecimento.
+
+--Deus sabe! Oh! mas elle não me mentiu! respondeu Martha. Tenho tanta
+fé nas suas palavras! Se a mãe visse como elle me disse: «vá para casa,
+que ainda hoje hei de descobrir onde está seu pae.»
+
+--E é muito novo esse homem? interrompeu Marianna.
+
+--Uns trinta annos.
+
+--Felizmente, ainda se pode dizer que a mocidade não está perdida de
+todo.
+
+N'este momento, Balbina approximava-se da porta, preparando-se para
+sair.
+
+--Mas onde vae? exclamou Martha. Pelo amor de Deus, minha mãe... Tenha
+prudencia! Onde pretende encontral-o? Na rua? Já vê que se lhe tivesse
+acontecido alguma desgraça, estaria infallivelmente em algum dos
+hospitaes, e graças a Deus, tal não succede.
+
+--Embora! hei de encontral o, respondeu a pobre mulher tentando dar
+volta á chave para sair.
+
+Marianna e Martha, ajoelhadas deante da pobre esposa, tentavam
+impedir-lhe a passagem.
+
+E ella então, comprehendendo a inutilidade da sua saida, caiu de joelhos
+deante da imagem de Nossa Senhora. Imitando-a, Martha e Marianna
+acompanharam-n'a na sua oração.
+
+E o relogio, seguindo n'um rumor compassado, continuava na sua material
+indifferença marcando os segundos e os minutos, ao som da chuva que,
+batendo de encontro aos vidros, ainda mais sombrio tornava aquelle
+quadro de amargura.
+
+
+
+
+VII
+
+
+Mudando de rumo, o visconde e Tristão de Almeida dirigiram-se
+primeiramente a casa de Vaz Mendes.
+
+Depois de os escutar, o banqueiro annuiu gostosamente aos desejos do seu
+recommendado, promettendo-lhe desde logo fazer tudo quanto estivesse ao
+seu alcance para animar uma idéa tão philantropica.
+
+D'alli partiram todos tres para casa do commendador Lopes de Miranda.
+
+Egual acolhimento, como era de esperar, acrescentando que a mesma idéa
+exposta por Tristão de Almeida havia sido formulada por elle tres dias
+antes.
+
+Tristão sorriu-se com a velhacaria que lhe era habitual, agradecendo á
+Providencia que os seus pensamentos se houvessem encontrado com os do
+excellentissimo commendador.
+
+Historiando o atropellamento e matizando a historia dos mais lisongeiros
+epithetos para Tristão, o visconde de Coruche contou ao commendador o
+que se havia passado com o operario.
+
+--Se vossa excellencia não deu a morte a esse desgraçado, estou
+certissimo que fará a sua felicidade, disse o commendador, piscando ao
+mesmo tempo o olho para o visconde.
+
+--Ha males que vem por bens, acudiu este fazendo uma careta para Lopes
+de Miranda.
+
+--Mysterios de Deus, respondeu Tristão em voz alta. Fortes nescios,
+ajuntou elle de si para comsigo. Mal sabem que lhes percebo os signaes.
+
+Momentos depois, entravam todos quatro no hotel de Bragança e
+dirigiam-se ao quarto do ferido.
+
+O operario encontrava-se no mesmo estado de anemia. Pessoa alguma havia
+podido arrancar-lhe uma só palavra.
+
+A sr.ª D. Maria Egypciaca, segundo o havia ordenado o seu philanthropico
+esposo, não tinha abandonado o leito do enfermo. Magdalena e Olympia, de
+vez em quando approximavam se do quarto.
+
+Depois de cumprimentarem a esposa de Tristão, os tres amigos chegaram-se
+ao enfermo.
+
+--Faz pena! disse o commendador, Deus sabe ajuntou elle, se este pobre
+homem terá alguma pessoa a quem esteja dando sérios cuidados. É uma
+lastima que se lhe não possa saber o nome. Se descobrissemos quem é a
+familia, mandar lhe-iamos dizer que estava sob a protecção de vossa
+excellencia. N'estas epochas de epidemia, a mais pequena demora faz com
+que todos estejam em cuidados.
+
+--Vejamos se é possivel fazel o falar, disse Vaz Mendes, debruçando se
+sobre o leito do operario.
+
+O enfermo continuava no mesmo lethargo.
+
+Eram perto de seis horas. Como não houvesse meios de lhe arrancar uma
+palavra, D. Maria Egypciaca lembrou que seria mais prudente irem jantar
+emquanto durasse aquelle estado morbido, e deixando o doente entregue a
+um creado, convidou as visitas a dirigirem-se á casa de jantar.
+
+Ao chegarem alli, já Olympia, a filha mais nova de Tristão de Almeida,
+aguardava que seus paes tivessem dado treguas á caridade para
+desfructarem o unico gozo da vida, o comer. Minutos depois, appareceu
+Magdalena, a irmã mais velha.
+
+O jantar correu animadissimo! Formosas eram ambas as filhas de Tristão
+de Almeida; juntando-se á formosura e juventude um dote de duzentos
+contos de reis, que lhes poderia faltar?
+
+Ventilado pela vigessima vez o caso do atropellamento, bem como o valor
+do visconde de Coruche, que fizera convencer Tristão de Almeida do risco
+que havia corrido a sua existencia em se ter approximado, do cavallo da
+sella, discutiu-se a fundação do hospital.
+
+D. Maria Egypciaca, que de antemão havia sido prevenida por seu esposo,
+falou eloquentemente sobre este assumpto, deixando assombrados os
+hospedes tanto pela sua verbosidade como pelas idéas philantropicas que
+defendia.
+
+Olympia contentava se de atacar com vigor extraordinario cada prato de
+cosinha que o servente lhe apresentava pelo lado do coração, viscera que
+apenas lhe estremecia consoante o apimentado dos molhos onde o guizado
+se mergulhava!
+
+Fitando o olhar na comida, Olympia manejava o talher com mais
+desembaraço do que qualquer malabar de feira, pegando depois n'um oitavo
+de pão de meio arratel para limpar o prato com o artistico intuito de
+admirar o bom gosto do estampador.
+
+Olympia tinha duas paixões: a cosinha e a ceramica. Se lhe dissessem
+que morrendo de uma indigestão de ninhos de andorinhas seria depositada
+n'um sarcophago de Sévres, a filha de Tristão de Almeida apanharia a
+indigestão de bom grado.
+
+Debalde o visconde de Coruche se desfazia em melifluas olhaduras, tudo
+era inutil; o estomago de Olympia concedía-lhe apenas que as suas vistas
+se dirigissem ora para o prato que limpava, ora para a porta por onde
+entrava o criado com o seguimento do _menu_.
+
+E, apezar de tudo, essa creatura que tão desenvoltamente usava e abusava
+dos orgãos da mastigação, perguntando ao criado durante o jantar o que
+tencionava guardar-lhe para a ceia, tinha o poetico nome de Olympia,
+como o leitor não ignora, e era formosa, formosa a fazer enraivar de
+inveja todas as do seu sexo, menos a amavel leitora que sobre estas
+paginas se debruça.
+
+Olympia era uma pomba. Dizia sua mãe que até aos dezoito annos, o unico
+desgosto que lhe havia dado fôra ter atirado com uma travessa ao rosto
+pallido de Magdalena, por esta lhe ter comido duas queijadas de
+Reinholas, resto de tres duzias que seu pae lhe havia trazido de Cintra.
+
+Magdalena era a sua antithese. Afôra aquelles dois pasteis, poder-se-ia
+julgar impolluta no que dizia respeito ao quinto peccado.
+
+De uma formosura menos provocadora do que sua irmã, Magdalena sabia
+insinuar-se no coração de todos os que tinham a felicidade de lhe
+merecer sympathia.
+
+Tinha na tristeza vaga e scismadora do seu olhar uns longes de
+melancolia que prendiam quem a contemplasse.
+
+Sobretudo, o que mais espantava em Magdalena era a harmonia da voz.
+Assombrava! Os anjos deviam aprendel-a, para espalharem nos seus
+canticos a musica da palavra.
+
+Falava pouco, porém a phrase era sempre correcta. Reservada mais por
+calculo do que por organização, a irmã de Olympia atravessava a
+sociedade com a consciencia segura e mathematica dos mil escolhos de que
+ella se compõe!
+
+Ferira-a a aza negra da tormenta? A ave da desgraça esvoaçára-lhe sobre
+os seus louros cabellos? Desfizera-se-lhe algum sonho luminoso? Sentira
+o seu coração immenso, golpeado pelo punhal do desengano?
+
+Todos o ignoravam, ou para melhor dizer, pessoa alguma se havia demorado
+a estudar aquella peregrina organização.
+
+Magdalena nunca havia amado, porém o seu coração tinha necessidade de
+amar como os pulmões do ar que respiram.
+
+Creando um dia na sua phantasiosa imaginação o typo que ambicionara,
+quiz-lhe dar vida, formas e animação. Quando mais tarde se lhe sumiu o
+vago, o impalpavel, o ideal que concebêra e que tombára na tristissima
+realidade, esmoreceu e curvou-se resignada para chorar a sós as suas
+lagrimas.
+
+Prophetisa da amargura, como veremos na continuação d'esta singela
+historia, Magdalena parecia adivinhar as supremas angustias que mais
+tarde lhe haviam de escruciar a pobre alma!
+
+Debalde, repetimos, se esforçava o visconde para merecer um olhar de
+Olympia.
+
+Era invulneravel!
+
+--Se o homem já terá dado accordo de si, disse o visconde para não estar
+calado.
+
+--Deus sabe! murmurou o amphitrião defendendo uma perna de perdiz da
+insaciavel voracidade da filha!
+
+--Daria tudo para que esse infeliz tornasse á vida, disse D. Maria
+Egypciaca dirigindo-se ao commendador. Como estará a sua pobre familia!
+ajuntou ella despejando um copo de vinho do Rheno.
+
+--Feliz d'elle, tartamudeou o visconde, se podesse abrir os olhos no
+momento em que vossa excellencia estivesse á cabeceira do seu leito.
+Pela minha parte, abençoaria fosse que circumstancia fosse que me
+trouxesse tal ventura, ajuntou elle, dirigindo-se a Olympia.
+
+--Passa me aquelle prato de carne de porco assada, disse Olympia tocando
+no hombro de sua irmã e sem se atrever a olhar para o visconde.
+
+--Não ouves o que te diz aquelle cavalheiro? perguntou D. Maria
+Egypciaca, voltando-se com modo agastado para sua filha.
+
+--Não repare, meu caro amigo, acudiu Tristão, Olympia é muito
+envergonhada, e demais está pouco acostumada á sociedade. Não ouves o
+que te diz o sr. visconde? acrescentou elle dirigindo-se á gastronoma.
+
+--Ouço, sim senhor, mas não sei o que hei de responder.
+
+Magdalena estremeceu de pejo ao ouvir a resposta de Olympia.
+
+N'este comenos, o criado que ficara junto do ferido entrou na casa de
+jantar para participar que elle havia tornado a si, dizendo poucos
+instantes depois o seu nome e a rua onde morava. Ajuntou em seguida o
+criado que um sujeito muito bem vestido pedira ao guarda portão para vir
+reconhecer o doente.
+
+--E esse individuo... ainda lá está? perguntou Tristão.
+
+--Não senhor. Saiu logo que lhe soube o nome. Disse que ia dar parte á
+familia que estava com muito cuidado julgando que tinha sido atacado
+pela febre.
+
+--E quem é o doente e como se chama? perguntou vivamente o visconde.
+
+--Chama-se Jeronymo e é mestre de obras.
+
+--E onde mora? interrompeu Vaz Mendes.
+
+--Na rua do Meio á Lapa, respondeu o criado.
+
+--Quanto estimo! quanto estimo! exclamou D. Maria Egypciaca.
+Provavelmente foram chamar-lhe a familia. Que venha, que venha. Pobre
+gente! Talvez ainda abençõem a fatalidade que lhes aconteceu! Pódes
+retirar-te, Manuel, ajuntou ella, dirigindo-se ao criado.
+
+--Agora, disse Vaz Mendes, já temos por onde começar a nossa obra de
+caridade. Principiaremos por esse pobre Jeronymo.
+
+--Apoiado! bradou o commendador despejando o decimo copo de vinho do
+Porto, e olhando de soslaio para Olympia, cujos olhos pardos se fitavam
+ardentemente n'uma torta de maçã.
+
+--Se m'o permittem, vou ver o meu protegido disse Tristão, levantando se
+ao mesmo tempo da cadeira.
+
+--E se tambem m'o permittem?... accrescentou o visconde, imitando o
+movimento do seu amigo.
+
+--Mas com o maior prazer, respondeu D. Maria Egypciaca. E não tardará
+muito que lá vamos, eu e minhas filhas.
+
+--Querem vel o? perguntou o visconde voltando-se para o banqueiro e para
+o commendador.
+
+--Da melhor vontade, responderam os dois a um tempo.
+
+Levantando se rapidamente seguiram o seu amphitrião.
+
+ * * * * *
+
+--Ora ahi tem a mamã porque eu não gosto de comer á mesa quando temos
+visitas. Levanto-me sempre com fome. Só eu á minha parte seria capaz de
+comer toda aquella carne assada, disse Olympia entristecidamente
+voltando se para sua mãe.
+
+--Pois é possivel que ainda tivesses mais vontade? perguntou Magdalena.
+
+--Abençoado estomago! disse D. Maria Egypciaca levantando-se da mesa.
+
+
+
+
+VIII
+
+
+Deixemos por algum tempo os preclaros bemfeitores do pobre Jeronymo; a
+inconsolavel esposa rezando á Virgem Santissima; D. Maria Egypciaca
+abençoando o fructo dos seus burocraticos amores, e volvamos a uma
+epocha vinte annos anterior a estes successos, quando, perdida a razão,
+a infeliz D. Marianna de Mendonça deu entrada no hospital de S. José.
+
+Como o leitor deve estar lembrado, a viuva não tinha um unico parente
+sobre a terra. As pessoas que frequentavam a sua casa havia muito que se
+tinham afastado, em virtude das intrigas urdidas pela sua amiga intima,
+que annos antes a aconselhára a depositar os capitaes nas mãos do
+commendador.
+
+Até o advogado que fôra acompanhal-a ao escriptorio no dia da fuga de
+Felix Justino de Araujo, até esse a havia abandonado, para com o seu
+conselho salvar as victimas do fugitivo.
+
+Maria Gertrudes, uma das creadas que lhe era mais affeiçoada, ao vel-a
+entrar n'aquella situação, dirigiu-se immediatamente a casa da amiga da
+sua ama participando-lhe o estado em que D. Marianna se encontrava,
+perguntando-lhe o que queriam dizer aquellas palavras que proferira o
+commendador--que lhe tinham roubado todos os seus bens.
+
+--Que a sua ama sempre propendeu para a loucura, ha muito que o
+suspeitava, mas que tivesse chegado a esse ponto, é que não podia crer.
+Vejo-lhe apenas um remedio: metterem-n'a no hospital dos doidos, e,
+quanto a isso, quem está nas melhores condições é o regedor. E sem mais
+tir'te nem guar'te, voltou as costas á fiel criada, mostrando-lhe que o
+sitio por onde tinha de sair era o mesmo por onde minutos antes havia
+entrado.
+
+Esperançada no restabelecimento de D. Maria, a pobre mulher voltou para
+casa.
+
+--Já não ha meios de a soffrer, disse-lhe uma sua companheira. Tem
+quebrado tudo quanto encontra á mão, e se assim continúa, não temos
+ámanhã um copo por onde beber. Pela minha parte, entendo que visto a
+senhora não ter amigos nem parentes, o melhor era dirigirmo-nos ao sr.
+regedor.
+
+--O mesmo disse a sr.ª D. Maria Clara. Porém, entregar a nossa ama á
+justiça, nós que lhe queremos tanto! Não seria mais razoavel supportal-a
+ainda alguns dias, como antes de hontem nos disse o medico? respondeu
+Maria Gertrudes.
+
+--Pois supporte-a vossemecê, que eu pela minha parte já estou farta. E
+demais, nós as criadas não temos obrigação de aturar doidas. Se a tal me
+quizesse sujeitar, ia para o hospital de S. José, onde tinha melhor
+ordenado do que n'esta casa. Vossemecê, que é mais antiga do que eu, se
+gosta, sopeteie, que quanto a mim, não tenho mais nada se não arranjar o
+bahu, pôr o capote e o lenço, e pés para que te quero.
+
+É que não sei; não sei o que hei de fazer á minha vida. Valha-me Deus,
+para que estava guardada.
+
+--Estivesse eu no seu caso; eu lh'o diria.
+
+--Então o que havia de fazer?
+
+--Chamar o regedor e ferrar com ella no hospital.
+
+--E esta casa? Quem ha de ficar n'esta casa?
+
+--Ora essa sr.ª Maria Gertrudes! Ficavamos nós emquanto o filho não
+viesse.
+
+--E sabemos por ventura aonde está o filho?
+
+--Onde está! Está no estrangeiro. Bem se vê que a sr.ª Maria Gertrudes
+não é mulher d'este tempo. Boa está. Olha que grande difficuldade! Pensa
+talvez que não sei como essas coisas se fazem. Para que servem os
+correios? Não tem mais nada senão pôr: ao sr. Manuel de tal, e em baixo:
+pelo correio do Estrangeiro, em letras muito grandes.
+
+--Isso lá é verdade; e quanto tempo pode levar isso tudo?
+
+--O tempo que leva uma carta ao estrangeiro. Olhe, sr.ª Maria Gertrudes,
+se vossemecê quer, não diga nada ao criado, que eu _mesmo_ me encarrego
+de a escrever. Por agora o que devemos fazer é ir a casa do sr. regedor.
+Já com este são cinco dias que estamos aturando aquella doida, e bem vê
+que isto não póde durar por muito tempo.
+
+--Lá n'isso tem muita razão.
+
+--Ora ainda bem; então mãos á obra.
+
+ * * * * *
+
+Maria Gertrudes resolveu-se a ir falar ao regedor.
+
+N'essa mesma tarde, a infeliz senhora, que cinco dias antes se
+considerava rica e cheia de ventura, entrava na enfermaria das alienadas
+como uma simples pedinte sem protecção e sem abrigo. Quando dois mezes
+depois, informado pelos visinhos, soube o regedor o que se estava
+passando em casa de D. Marianna de Mendonça e como os seus creados de
+dia para dia iam roubando os haveres, entendeu-se com o juiz eleito, e
+entrando em casa, viram com effeito que não eram mal fundadas as
+suspeitas da visinhança.
+
+A carta remettida para o estrangeiro ainda não tinha chegado ás mãos de
+Manuel de Mendonça, e a desgraçada continuava no hospital sem que nenhum
+dos creados fosse indagar o seu estado.
+
+No dia seguinte, o juiz mandou tomar posse de tudo quanto existia, e
+depois de competentemente inventariado, collocou no meio da rua aquelles
+dedicados servos que tão tranquillamente habitavam a casa de sua ama sem
+ao menos saberem se ainda existia ou não.
+
+Pelo espaço de sete annos, esteve D. Marianna nas enfermarias de S.
+José. Finalmente, recobrou a razão e deram-lhe alta.
+
+Antes da saida pediu para falar com o director. Depois de lhe confiar
+todos os pormenores da sua vida, perguntou-lhe se durante a sua
+enfermidade alguem tinha vindo informar-se da sua saude.
+
+Sympathizando com as maneiras da viuva e condoido pela sua desgraça, o
+director levou-a para casa da sua familia.
+
+Finalmente, graças ás relações do seu protector, D. Marianna tomou posse
+do que lhe restava. Entre louça, moveis e roupas brancas apurou dois
+contos e duzentos mil réis.
+
+Alugou uma casa proxima á dos seus protectores, entregou-lhes o resto
+para lh'o empregarem no que melhor lhes parecesse, até que o destino,
+cançado de a torturar, lhe proporcionasse a maior de todas as
+felicidades: devolver-lhe o filho querido da sua alma!
+
+Debalde se passaram annos e annos, e o destino sem se compadecer da sua
+desventura.
+
+Os dezeseis vintens que pouco mais ou menos lhe rendiam as inscripções,
+juntos aos ganhos que os seus bordados lhe produziam, eram mais do que
+sufficiente para o seu alimento. Infeliz de todo não se considerava D.
+Marianna, e ingrata seria para com Deus se da sua sorte se queixasse.
+Era já muito o amparo que lhe concedia a Providencia representada nas
+pessoas do director e de sua mulher; porém a desgraça que parecia ter-se
+aninhado no seu coração, não podia permittir-lhe que descesse á
+sepultura sem que primeiro a bafejasse uma vez ainda com o seu halito
+envenenador. Levou-lhe em menos d'um anno as duas unicas pessoas que
+tinha sobre a terra: o director e sua esposa!
+
+Aterrada com esse golpe, julgou de novo enlouquecer!
+
+Querendo mudar-se do bairro, que lhe recordava os seus protectores, á
+sombra de cuja amizade tanto tempo se abrigára, lembrou-se de ir viver
+para a Lapa.
+
+Uma tarde saiu, e dirigindo-se para aquelles sitios encontrou na rua do
+Meio a casa que lhe convinha. Dois dias depois, alugou e mudou para alli
+a sua pequena mobilia. Foi onde oito annos depois a encontramos atacada
+pela febre amarella.
+
+A pobre senhora, na doce esperança de ainda tornar a vêr seu filho,
+economizava, quanto cabia em suas forças, os poucos haveres que lhe
+restavam.
+
+«Este dinheiro, dizia ella ás vezes comsigo olhando para as inscripções,
+não me pertence, é de meu filho; cumpre-me fazer tudo quanto possivel me
+fôr para lh'o augmentar.»
+
+Explicado está portanto o seu modo de viver.
+
+
+
+
+IX
+
+
+A physionomia doce e melancholica de Martha impressionára de mais o
+desconhecido para que a sua promessa deixasse de ser cumprida.
+
+Quando ao apear-se no Largo das Duas Egrejas se demorou alguns segundos
+para pagar ao bolieiro, olhou instinctivamente para um grupo composto de
+quatro individuos que estavam discutindo.
+
+--Se fosse algum de nós que tivesse atropellado o homem, provavelmente
+estava preso, dizia um d'elles.
+
+--Mas como foi o sr. Tristão d'Almeida... acudiu outro.
+
+--E o visconde de Coruche, accrescentou terceiro.
+
+--Mas elle morreu ou não morreu?
+
+--Dizem que está melhor.
+
+--Veremos como se porta o brazileiro.
+
+--Até agora, não ha razão de queixa, segundo me disseram. Lá ficou n'um
+bello quarto do hotel, tendo por enfermeiras a mulher do magnata, e as
+duas filhas.
+
+--Tenho pena de não ter sido eu o atropellado, só para ter taes
+enfermeiras.
+
+--Vocês vão d'aqui para o Marrare de Polimento, ou ficam ainda a
+descobrir a mysteriosa individualidade do menino de ouro, como se diz na
+minha terra?
+
+--Vamos para o Marrare, responderam os outros tres, dirigindo-se pela
+rua do Chiado.
+
+Reflectindo em que o atropellado podia muito bem ser o pae de Martha, o
+mysterioso protector da infeliz criança seguiu os quatro individuos até
+á sua entrada no Marrare de Polimento.
+
+Entrou tambem.
+
+O que primeiro falára do acontecimento ficou á porta assobiando
+alegremente; os outros dirigiram-se para os bilhares.
+
+--Deve estranhar uma pergunta que lhe vou fazer, disse o desconhecido
+interrompendo o assobio do _dilettante_. Ha tres horas que procuro um
+individuo que desappareceu de sua casa. Quando me apeei de um trem no
+Largo das Duas Egrejas, percebi que falavam ácerca de uma pessoa que
+tinha sido atropellada, e confesso-lhe que commetti a indiscrição de os
+escutar. Póde ser que seja esse o mesmo individuo que procuro.
+
+--Talvez, respondeu amavelmente a pessoa a quem estas palavras foram
+dirigidas. O que sinto é não lhe poder dizer o seu nome. Sei apenas que
+está no Hotel de Bragança.
+
+Retribuindo n'um aperto de mão a amabilidade com que fôra recebido, o
+protector de Martha correu immediatamente para o sitio que lhe haviam
+indicado.
+
+Ao chegar perguntou ao guarda portão se ainda alli estava um sugeito que
+de manhã fôra pizado por um brazileiro.
+
+--E não só por um brazileiro como tambem por um visconde, respondeu o
+guarda portão, como se n'estas palavras quizesse tornar mais illustre o
+atropellamento, ou diminuir a culpabilidade dos animaes dividindo-a por
+todos quatro.
+
+--É possivel falar lhe?
+
+--É possivel vel-o; emquanto a falar-lhe isso fia mais fino, respondeu o
+guarda portão. Ainda não tornou a si.
+
+--Pois obsequiava-me muito se me podesse conduzir ao seu quarto.
+
+Minutos depois entrava no quarto do ferido.
+
+Jeronymo ainda se encontrava no mesmo estado lethargico. A dôr das
+feridas havia-lhe diminuído progressivamente, comtudo a perda de sangue
+tinha sido abundante, e ao pobre operario nem forças restavam para pedir
+que chamassem a sua familia, de quem n'esse instante tão amargamente se
+recordava. A imagem de Balbina e de sua filha passava-lhe por entre as
+visões da febre, como se as visse alli, pregadas á sua cabeceira.
+
+Sentia na fronte a mão fina e delicada de Martha, e pousando lhe sobre o
+coração, que fortemente lhe palpitava, a face de sua mulher incendida
+pelo terror.
+
+Jeronymo via tudo isto como atravez de um sonho.
+
+Junto ao leito o desconhecido olhava-o caridosamente, levando-lhe de vez
+em quando a mão á fronte.
+
+Momentos depois os olhos do operario, até alli brandamente cerrados,
+abriram-se como que para contemplar o desconhecido, que fitando-o
+parecia descobrir-lhe nas feições alguma similhança com as da pobre
+Martha. N'este comenos o enfermo fez um movimento como se tentasse
+falar.
+
+Manuel, o creado que lhe servia de enfermeiro, approximando-se
+suavemente, perguntou-lhe se desejava alguma cousa.
+
+--Falar... mas... não posso, murmurou o infeliz Jeronymo, deixando cair
+sobre o colchão o braço direito que tentára levantar.
+
+O desconhecido approximou-se ainda mais.
+
+--E ainda não houve meio de se saber quem é este homem?
+
+--Ouviu aquellas palavras que elle disse? Foram as primeiras! respondeu
+o creado.
+
+--Como se chama vossemecê, perguntou o desconhecido debruçando-se sobre
+o leito.
+
+--Jeronymo, balbuciou o pobre; e a minha familia mora na rua do Meio, á
+Lapa.
+
+--Basta! bradou rapidamente o desconhecido, e saindo do quarto sem que o
+criado tivesse tido tempo de lhe perguntar aonde se dirigia,
+encaminhou-se para o Loreto, afim de procurar uma sege.
+
+Martha havía-lhe dado o nome da rua e o numero da porta. Dizendo ambas
+as cousas ao bolieiro, ordenou-lhe que trouxesse Martha e sua mãe ao
+Hotel de Bragança o mais depressa que lhe fosse possivel.
+
+Foi n'este momento que Manuel desceu á casa do jantar para dizer a
+Tristão de Almeida que o ferido estava no uso das suas faculdades.
+
+Deixemos o mysterioso descobridor do pae de Martha esperando á porta do
+hotel a mulher e a filha de Jeronymo, e vejamos o que se está passando
+no quarto do ferido.
+
+
+
+
+X
+
+
+--Ora graças a Deus que está livre de perigo, exclamou Tristão de
+Almeida approximando-se do leito de Jeronymo. Não calcula o quanto me
+tem feito soffrer a sua prostração. Quero que nos perdôe todo o mal que
+involuntariamente lhe causamos, eu e o meu amigo visconde.
+
+--Mas agora, felizmente, sente-se melhor! perguntou o visconde
+approximando-se de Tristão.
+
+--Nem mesmo sei como me sinto, meus caros senhores, respondeu Jeronymo,
+como se ainda estivesse sendo victima de uma allucinação. De quanto se
+passou, continuou elle, com uma voz muito enfraquecida, lembro-me apenas
+que fui atropellado por um trem, e de nada mais me recordo. Sei que
+tenho tido umas dôres horríveis tanto na cabeça como em todo este lado
+direito, e nada mais posso responder a vossa senhoria. O que apenas me
+mortifica é lembrar-me os cuidados em que deve estar minha pobre mulher
+e filha, o resto será o que Deus quizer. Tratamento, graças aos
+senhores, vejo que me não tem faltado. O que eu tambem agora desejava
+pedir-lhe eram dois favores; o primeiro, que me dissessem onde estou, e
+o segundo, que mandassem immediatamente a minha casa participar a Martha
+e a minha mulher que estou aqui, vivo e bem tractado. As infelizes a
+esta hora cuidam que fui atacado pela febre amarella, e andam á minha
+procura por toda a parte.
+
+--Emquanto ao sitio aonde se encontra, respondeu Tristão, bastará
+dizer-lhe que está entre amigos, e que nada lhe faltará; emquanto a
+mandar chamar sua familia, queira dizer-me aonde mora.
+
+--Moramos na rua do Meio n.º 7, Lapa, respondeu Jeronymo, fazendo ao
+mesmo tempo uma dolorosa contracção.
+
+--Que é isso, meu amigo? acudiu rapidamente o commendador dirigindo-se
+ao mestre de obras.
+
+--É uma dôr muito grande que me toma a cabeça toda, respondeu elle,
+levando á fronte ambas as mãos.
+
+--Veja se póde socegar um momento, e tranquillize se porque vamos
+immediatamente chamar a sua familia.
+
+--Para que venham mais depressa vou mandar o meu trem, disse o visconde
+dirigindo-se para a porta.
+
+--Bom será, visconde, ajuntou o commendador, quanto mais depressa
+descançarmos aquella pobre gente tanto melhor para todos.
+
+--Se vossas senhorias fossem tão bons que tal fizessem, seria uma grande
+obra de caridade, disse Jeronymo, tentando sentar-se sobre o leito.
+
+--Não faça similhante loucura. Conserve-se como está, e tenha a certeza
+que d'aqui a meia hora terá a seu lado as pessoas que tanto deseja.
+
+N'este momento entrou a sr.ª D. Maria Egypciaca, acompanhada por suas
+duas filhas.
+
+--Já sabemos, graças a Deus, quem é o nosso doente, e onde mora, disse
+a D. Maria Egypciaca o visconde, que n'esse momento saía do quarto, com
+o fim de dar ordem ao cocheiro para trazer a familia do ferido.
+
+--Quanto estimo, meu Deus! respondeu D. Maria, erguendo para o tecto os
+seus grandes olhos azues.
+
+--Em que sustos estará a sua pobre familia! disse Magdalena olhando para
+Olympia.
+
+--Talvez que nem hoje tivessem que jantar.
+
+--Enfim! disse D. Maria Egypciaca depois de ter contemplado o ferido por
+alguns instantes, Deus tudo quanto faz é para melhor. É certo que teve
+esta pequena contrariedade, mas graças ao Senhor, está livre de perigo,
+e vae fazer a felicidade de sua familia. Não é verdade, Tristão? ajuntou
+ella dirigindo-se ao esposo.
+
+--Quantos desejariam ter egual sorte! disse o commendador
+intromettendo-se na conversação.
+
+--Magnifico achado para dirigir as obras do nosso hospital, disse o
+banqueiro voltando se para Lopes de Miranda.
+
+--Do hospital?! perguntou admirado o commendador.
+
+--Não ouviste dizer ha pouco que era mestre de obras?
+
+--Lembra bem, lembra bem, meu amigo, disse Tristão sentando se n'um
+pequeno sophá.
+
+N'este momento, ouviu se o rumor de muitos passos subindo apressadamente
+a escada que dava para o segundo andar. Segundos depois abriu se a porta
+e appareceram duas mulheres. Eram Balbina e Martha. O desconhecido
+seguia-as de perto.
+
+No momento em que Balbina e sua filha se precipitavam sobre o leito de
+Jeronymo, este fez um supremo esforço para se erguer, porém as dôres que
+lhe atacavam a cabeça e todo o lado direito tornaram a prostral-o
+completamente.
+
+Todos se compadeceram ao contemplar aquella scena de amargura, até a
+propria Olympia arrancou dos fundos penetraes do estomago, unica viscera
+onde a sensibilidade se lhe refugiára, um par de lagrimas que vinham em
+turvos crystaes, rescendendo mais a fricassé do que a natural piedade.
+
+O desconhecido, com os olhos fitos n'aquelle grupo, parecia contemplar a
+physionomia de Tristão, como se uma vaga reminiscencia lhe houvesse
+acudido á memoria.
+
+O mesmo se passava no espirito do magnata; aquelle individuo não lhe era
+estranho.
+
+Seguido da esposa, approximou-se do leito de Jeronymo e contou a sua
+familia tudo quanto tinha acontecido.
+
+O mesmo fez Balbina e sua filha.
+
+--É portanto a este cavalheiro que devemos tudo? disse Tristão. Quanto
+folgo que tenha concorrido para a felicidade d'esta familia, ajuntou
+elle extendendo a mão ao desconhecido.
+
+Este, retribuindo-lhe o aperto de mão, cumprimentou rapidamente a todas
+as pessoas e saiu d'aquelle gabinete.
+
+--Quem será este moço? perguntou Tristão voltando-se para o banqueiro.
+
+--Deus sabe; respondeu Vaz Mendes. Acho-o pouco delicado.
+
+--Quer tornar-se mysterioso, acudiu Lopes de Miranda.
+
+--Provavelmente é algum rapaz acanhado que não sabe estar entre gente
+fina, disse D. Maria Egypciaca.
+
+--Não sou d'essa opinião; pelo contrario, pareceu-me um moço de um
+trato finissimo, mas excessivamente modesto para se conservar n'este
+quarto. Receiava que o cobrissem de elogios. Não achas Magdalena?
+ajuntou Tristão dirigindo-se a sua filha.
+
+--N'isso mesmo pensava eu, meu pae, respondeu Magdalena. Quando o sr.
+Vaz Mendes o alcunhou de indelicado, de mysterioso o sr. Lopes de
+Miranda, e de pouco sociavel minha mãe, não concordei com opinião
+nenhuma d'essas. Julgo o como meu pae: modesto de mais para escutar os
+elogios de que é merecedor.
+
+--Que innocencia! gargalhou Vaz Mendes. Quem se esquiva a ser elogiado?
+
+--Muita gente, sr. Vaz Mendes, ainda que não seja senão por egoismo. O
+elogio frivolo e banal, inscripto no codigo da civilidade, é uma ironia
+pungente para o que tem a consciencia do seu merito. Ha o louvor que
+anima e a adulação que fere. O incenso nem sempre é agradavel; está
+muitas vezes pendente da mão que balança o thuribulo, e comtudo sempre é
+incenso.
+
+--Quer vossa excellencia dizer que os nossos encomios o poderiam
+offender? perguntou o visconde.
+
+--Nem por sombras, sr. visconde! Não era essa a minha intenção,
+respondeu Magdalena approximando se de sua irmã.
+
+--Não seria melhor deixarmos em paz esta pobre gente? disse Olympia em
+voz baixa para sua mãe. E demais, acrescentou ella, já se vão
+approximando as horas do chá, e se quer que lhe diga a verdade, estou
+sentindo uma fraqueza...
+
+--Bemdito Deus, respondeu D. Maria Egypciaca, sempre, sempre pensando em
+comer.
+
+--Em que quer a minha mãe que eu pense? tartamudeou Olympia, fazendo-se
+vermelha como a fita que lhe cingia o collo.
+
+No entretanto, o visconde, Vaz Mendes e Lopes de Miranda conversavam em
+voz baixa n'um dos angulos do quarto.
+
+--O que lhes peço, disse Tristão approximando-se de Balbina e de sua
+filha, é que estejam aqui tanto á sua vontade como em casa propria.
+Fiquem certas que coisa alguma lhes faltará. Se necessario fôr que seu
+homem aqui se demore, o que espero em Deus tal não permitta, não
+consinto que d'aqui se afastem. E emquanto a vossemecê, ajuntou Tristão
+dirigindo-se a Jeronymo, não se persuada que fica sem trabalho; apenas
+estiver melhor, ha de fazer-me o plano de uma obra que vamos
+immediatamente principiar e de que o meu amigo fica encarregado.
+
+Nos olhos do pobre Jeronymo deslizaram duas lagrimas de gratidão.
+
+Absortas na contemplação de Jeronymo, Balbina e sua filha ouviam as
+palavras de Tristão como se não as comprehendessem.
+
+--Agora que terminaram os cuidados, e que seu marido está livre de
+perigo, disse o visconde approximando-se do leito do operario, agradeçam
+á Providencia o ter lhes deparado a mão que os veiu arrancar da pobreza,
+ajuntou elle, voltando-se para Balbina que o contemplava como que
+assombrada.
+
+--Minha santinha, ás vezes, d'onde a gente menos o espera, é d'ahi que
+provém ou grande mal ou uma grande ventura, disse Lopes de Miranda
+approximando-se do visconde.
+
+--Será a ultima, acudiu rapidamente D. Maria Egypciaca, collocando
+protectoramente sobre os hombros de Balbina a sua mão direita, cujos
+dedos cravejados de brilhantes feriram os olhos verdes e entristecidos
+da pobre Martha.
+
+--Vamos dar ordem para que tragam alguma coisa de comer a esta gente,
+disse Olympia, puxando pela saia de sua mãe.
+
+--Safa, inimigo! Que esta rapariga não pensa n'outra coisa senão em
+comer, resmungava D. Maria Egypciaca á proporção que, seguida dos seus
+hospedes, saía do quarto de Jeronymo.
+
+ * * * * *
+
+--Que bem que alli cheira, dizia Olympia dirigindo-se para sua irmã e
+aspirando os aromas culinarios que rescendiam no corredor por onde
+atravessavam. Provavelmente foi algum hospede que mandou vir o jantar ao
+seu quarto. Quem me dera fazer o mesmo!
+
+
+
+
+XI
+
+
+Cada vez mais impressionado pela ingenua formosura da filha do operario,
+debalde tentava o desconhecido afastar para longe da memoria aquella
+imagem que o perseguia.
+
+«Mas, pensava elle, e se tudo isto não passar de uma illusão, d'um
+capricho de phantasia?
+
+«Casar-me hoje, para d'aqui a mezes aborrecer a companheira da minha
+vida? Continua solteiro Manuel de Mendonça, e se um dia te impressionar
+como agora algum rosto de mulher, estuda o teu coração e a tua
+intelligencia, apalpa, mede e analysa esse sentimento que experimentas,
+e se o considerares estavel, firme e immorredouro, pede então a mão da
+mulher que o tiver despertado, e torna-a a companheira inseparavel da
+tua existencia.
+
+«Ai, do homem só!» diz Salomão, e eu digo: ai, do homem casado, que
+sente ao lado da esposa a solidão. E comtudo, é esta a primeira vez que
+sinto palpitar o coração! Será o amor esta intranquillidade de espirito
+que ha horas me atormenta? Esta saudade que me traz a ausencia da sua
+imagem e o desejo ardente de a tornar a ver será ainda o amor? Veremos.
+
+«Só ámanhã poderei saber o tempo que me demoro em Lisboa. Se fôr pouco,
+bem vamos; no mar largo substituirei a sua imagem pela doce contemplação
+das estrellas, quando por noites caladas ouvir apenas o vogar da minha
+galera, e de longe em longe o canto rude, mas harmonioso dos
+marinheiros. Nada, continuava Manuel de Mendonça, se essa é a minha casa
+e elles a minha familia, para que abandonal-a, trocando a por outros que
+me são desconhecidos e que, se eu morresse, nem talvez uma lagrima de
+saudade fossem chorar sobre a minha sepultura.
+
+«Mas se eu me demorar, se a imagem de Martha me continua a perseguir?
+Não póde ser! Não ha de ser, não quero que seja! Estou ainda muito novo
+para me prender. E demais, affeito a uma vida isolada, como poderia eu
+cumprir todos os deveres de um bom chefe de familia? Desde os dezeseis
+annos que me afastei da unica pessoa que tinha n'este mundo: minha mãe.
+Só, em terra estranha, sem um amigo que me protegesse, alonguei a vista
+para os horizontes da patria, e extendendo-lhe os braços, debalde lhe
+pedi noticias d'ella. Desanimado ao principio, vi por ultimo que não
+tinha outro remedio senão revestir-me de valor, e luctei, e soube
+vencer.
+
+«Quando, possuidor de algum dinheiro, tentei voltar á Europa afim de ver
+minha mãe, disseram-me na Bahia, poucos dias antes de embarcar, que a
+pobre estava reduzida á miseria. Vim para Lisboa, e ao chegar descobri a
+terrivel verdade, que tinha morrido no hospital dos alienados!
+
+«Aterrado, saí immediatamente de Portugal, buscando nos transportes de
+uma vida arriscada esquecer a dôr que me feria. Como eu sorri á tormenta
+que parecia zombar da minha agonia! Com que desejo ardente de seguir
+minha mãe eu me lancei em tudo quanto havia de perigoso, e Deus sempre a
+proteger-me, como se me estivesse guardando para algum fim sobre a
+terra. E que poderei eu esperar? Que felicidade posso conceber
+lembrando-me que, emquanto dispendia contos e contos de réis, jazia a
+minha infeliz mãe nas palhas d'um hospital?
+
+«Nada, continuava Manuel de Mendonça, passeiando pelo seu quarto do
+hotel da Europa. Permitta Deus, ajuntava elle, que ámanhã termine o
+negocio que espero e que possa levantar ferro quanto antes.»
+
+N'este momento, baterem mansamente á porta do quarto.
+
+--Entre, disse Manuel, volvendo os olhos para a porta.
+
+Um individuo alto e excessivamente delgado levantou o ferrolho, e entrou
+no gabinete.
+
+O homem chamava-se Luiz, por alcunha o _Mascatudo_.
+
+A camaradagem que Mascatudo tivera por largos annos com os irlandezes, a
+bordo dos seus navios mercantes, introduziu lhe por tal forma o vicio de
+mascar tabaco, que o pobre Luiz, quando o não tinha, era capaz de mascar
+tudo quanto lhe apparecesse.
+
+Contava-se d'elle a seguinte anecdota, que prova a quanto aquelle vicio
+o arrastava:
+
+N'uma viagem a Macau, acabára-se-lhe o tabaco. Receiando a tripulação
+que se prolongasse a derrota, defenderam todos das maxillas do tio Luiz
+a preciosa planta que começava a escassear-lhes.
+
+Certos e mais do que certos se tornaram os seus receios, a viagem durou
+mais onze dias do que esperavam. Não havia tabaco a bordo!
+
+Dizendo mal á sua vida, a tripulação debalde vasculhava os mais
+reconditos escaninhos das algibeiras! Ninguem fumava! Um marujo apenas
+seguia no seu eterno ruminar. Era o tio Luiz.
+
+--Forte velhaco! diziam uns.
+
+--E eu que ainda o outro dia fui tão tolo que lhe dei dois charutos
+havanos!
+
+--E eu, acudiu outro, perto de meia quarta de rollo. Daria agora por
+elle um mez da minha soldada.
+
+--Um raio me parta se aquelle marau me apanha mais um cigarro em toda a
+sua vida, dizia com voz rouquenha o timoneiro.
+
+--Arrebentado morra eu da sobre gata se aquelle arenque de fumo me leva
+mais uma cachimbada, acrescentava um velho marinheiro.
+
+E gritando e vociferando, iam todos contra o tio Luiz, e elle sempre
+sereno, tranquillo, ruminando e salivando ao mesmo tempo.
+
+Finalmente chegaram a Macau.
+
+Á tarde, o commandante chamou o tio Luiz e ordenou-lhe que se vestisse
+afim de o acompanhar a terra.
+
+O marujo empallideceu, mas não teve mais remedio do que cumprir as
+ordens do commandante.
+
+Meia hora depois ouviu-se á ré um grande motim, e viu-se entre os apupos
+e os risos da tripulação o tio Luiz gravemente compromettido, com uma
+bota de cano no pé direito e no esquerdo uma especie de sapato de mulher
+completamente franjado.
+
+O tabaco que os seus companheiros injustamente lhe attribuiam, era o
+cano da bota esquerda, que o tio Luiz mascára durante os onze dias de
+atrazo. O marujo preparava-se para entrar pelo pé esquerdo se por
+ventura não deitam ferro defronte da grande cidade.
+
+Os creditos foram-lhe de novo restituidos, e desde esse dia o tio Luiz
+foi conhecido a bordo pela alcunha de Mascatudo.
+
+O tio Luiz tinha quarenta e dois annos. O seu valor e honradez faziam
+com que todos o estimassem.
+
+Quando Manuel de Mendonça comprou em Buenos-Ayres uma galera, Mascatudo
+foi-lhe o mais recommendado entre os tripulantes que lhe inculcaram.
+Desde esse dia até ao momento que o vemos entrar no hotel, Manuel de
+Mendonça nunca teve um momento de se arrepender da profunda confiança
+que n'elle tinha depositado. De todos os seus amigos, como chamava aos
+seus tripulantes, Mascatudo era o mais intimo, sem que nenhum dos outros
+jámais levantasse a voz para deprimir as nobres qualidades do seu
+companheiro de perigos.
+
+Mascatudo havia perdido sua mãe, unico parente que lhe restava, e que
+elle adorava com todo o ardor do seu coração, coração grande e ingenuo,
+como de todo o homem que passa a vida separado do resto da humanidade,
+entre a colera dos elementos e a mercê do Creador!
+
+Seria esta circumstancia que fazia com que essas duas almas se casassem?
+Era o! Nos espiritos irmãos pelo infortunio, vasa Deus o balsamo da
+sympathia para que possam juntos enlaçar os soffrimentos que os pungem.
+
+Era bello vel-os, quando á noite, ao lado um do outro, contemplavam em
+religioso silencio a solidão das aguas, olhando de vez em quando para o
+céo, como se alli procurassem algum vestigio d'aquellas que lhes haviam
+dado o ser. Outras vezes, sosinhos na sua camara, Mascatudo contava a
+Manuel as suas viagens, acabando quasi sempre por lhe ler as cartas que
+sua mãe lhe escrevia, e que aquelle já ha muito sabia de cór.
+
+Era portanto este o amigo a quem Manuel abria inteira a sua alma, e em
+cujo coração depositava todos os segredos da sua vida aventurosa.
+
+--Venho participar-lhe que não poderemos sair d'aqui em menos de
+cincoenta dias, o que deveras sinto, porquanto é um tempo precioso o que
+estamos perdendo, disse Mascatudo, encostando-se desembaraçadamente a
+uma commoda que estava no quarto de Manuel. Se imagino que tal
+acontecia, juro por Santa Barbara que não era eu que o tinha aconselhado
+a vir a Portugal.
+
+-Pois sinto-o deveras, respondeu Manuel de Mendonça, sobretudo n'esta
+occasião; e fazendo sentar Mascatudo a seu lado, contou-lhe em poucas
+palavras a aventura da vespera, não sem lhe mostrar os graves receios
+que atormentavam a sua alma.
+
+--Nunca se arrependa de que a sua presença tenha feito a felicidade de
+alguem. Dizia minha mãe, que Deus haja, que tudo quanto o Senhor fazia
+era para melhor. Ora quem nos diz a nós que atraz d'essa borrascasita
+que lhe arrebentou no coração, não está perto a bonança?
+
+--Parece-te portanto... que devo dar azas a isto, que nem eu mesmo sei
+como hei de chamar?
+
+--Olhe, sr. Manuel de Mendonça, dizia minha mãe, que Deus tenha, que
+o homem só n'este mundo é alvo da perdição. E eu digo o mesmo.
+Antigamente não pensava assim, porém hoje, que me sinto cançado de
+trabalhar, parece-me que, apezar das muitas saudades que me ficariam do
+mar, viveria talvez mais feliz ao lado de minha mulher, tendo a barca
+sempre em ordem e o porão cheio de mantimentos para sustentar os
+filhitos, vendo-os alegres a todos, e trepando por este velho mastro,
+açoitado dos vendavaes. Ha lá nada melhor n'este mundo, como dizia minha
+mãe, que Deus haja, do que ter a gente umas sopas para comer ao pé de
+sua familia! Basta a gente lembrar-se que tem quando morrer quem lhe
+feche os olhos, e lá de vez em quando, quem se recorde da nossa alma,
+resando-lhe uma oração sobre a sepultura do corpo. Emfim, faça o sr. o
+que quizer, que eu cá por mim deixo correr a embarcação.
+
+O prazer que Manuel de Mendonça experimentava ao ouvir falar do objecto
+amado, era mais uma prova do seu amor.
+
+Foi então que elle reconheceu de verdade o seu estado.
+
+--Esperemos, disse elle finalmente de si para comsigo, e vestindo-se
+saíu com Mascatudo, dirigindo-se a bordo.
+
+[Ilustração:--Como se acha? perguntou Martha levantando se da
+cadeira... (_pag. 85_)]
+
+
+
+
+XII
+
+
+No dia immediato aos acontecimentos que presenceamos no hotel de
+Bragança, a saude de Jeronymo melhorou consideravelmente. O medico que
+pela manhã o fôra visitar declarou as feridas de pouca importancia,
+aconselhando, a despeito de tudo, que seria muito mais prudente não
+removerem d'alli o ferido, attendendo ao estado anormal em que Lisboa se
+encontrava.
+
+Tanto o mestre de obras como a sua familia não se cançavam de agradecer
+á Providencia a felicidade que tinham achado no meio da sua desventura.
+
+Não houve delicadeza que lhe não fosse dispensada por aquella santa
+familia. A tal ponto foi levada a dedicação de D. Maria Egypciaca, que
+por tres vezes se levantou da cama afim de se informar do doente.
+
+Foram taes as promessas feitas por Tristão ao pobre Jeronymo, que este
+quasi que dava graças a Deus de ter sido atropellado pelos cavallos do
+visconde.
+
+Phantasiando trezentos planos de vida, o operario julgou ver realizado
+o seu sonho de vinte annos: um pequeno casal nas proximidades de Lisboa,
+onde tivesse uma ou duas vaccas, e um garrano que de vez em quando o
+trouxesse á cidade.
+
+Via Balbina com a quarta rasa de milho dirigindo-se á estrebaria para
+arraçoar a cavalgadura, Martha seguindo-a a poucos passos, em busca da
+creação, e elle, no centro da horta, ao lado dos seus trabalhadores, ora
+regando o milho, ora arrancando-lhe as bandeiras, e enfeixando as para
+as levar á vacca malhada, a sua favorita, essa a quem devia pôr o nome
+de Estrella, por ser o nome de uma vacca torina que seu pae lhe dera no
+dia em que Jeronymo fazia quinze annos.
+
+Embevecido no seu phantasioso sonho, com as palpebras semi-fechadas,
+extendia de vez em quando a mão para sua filha, a qual, beijando lh'a
+n'um transporte de amor filial, fazia ao mesmo tempo votos ao Todo
+Poderoso para que lhe melhorasse quanto antes o seu querido pae.
+Balbina, assentada no canapé, olhava ora para Jeronymo, ora para sua
+filha. Esta, sorrindo meigamente, apontava para o leito de seu pae, como
+se tentasse mostrar-lhe o socego em que elle repousava.
+
+De repente o ferido abriu os olhos, e, como se despertasse de um sonho,
+apertou brandamente as mãos da filha, fitando-a com toda a ternura do
+amor paternal.
+
+--Como se acha? perguntou Martha levantando-se da cadeira e
+debruçando-se-lhe sobre o leito.
+
+Balbina approximou se.
+
+--Tenho menos dôres, balbuciou o enfermo, e espero em Deus que não
+tardará muito que eu te possa extender estes braços que a muito custo
+levanto. Mas não me dirão quem é esta santa familia que com tanto amor
+nos tem tractado? acrescentou elle, dirigindo-se a sua esposa.
+
+--Ignoro, respondeu Balbina.
+
+--Foi alguem mandado por Deus para nos valer com a sua protecção,
+continuou elle, como se ainda o acompanhasse aquelle sonho.
+
+--Pois olhe, meu pae, acudiu Martha, apezar de tudo, preferia estar em
+nossa casa a vêl-o aqui entre estas cortinas.
+
+--Se d'isto resultar a tua felicidade, e a tua, ajuntou elle voltando-se
+para Balbina, terei de agradecer a Deus estas dôres que me atormentam.
+
+--Pois eu, Jeronymo, ainda que tudo quanto Deus faz é para melhor,
+desejava bem vêr-te fóra d'este quarto, disse a pobre Balbina olhando ao
+mesmo tempo para a porta.
+
+Esta abriu-se e entrou Tristão de Almeida.
+
+Depois de as cumprimentar approximou se do leito de Jeronymo.
+
+--Como se sente? perguntou Tristão pegando brandamente na mão do
+operario.
+
+--Melhor; muito melhor.
+
+--Quanto folgo! disse Tristão, puchando uma cadeira e abeirando-se do
+leito. É forçoso que se restabeleça quanto antes para tomar conta da sua
+obra: um hospital para as pessoas pobres atacadas da febre.
+
+--Pelo que vejo, disse Martha, vossa excellencia não se occupa senão da
+sorte dos desgraçados.
+
+--É essa a minha unica ambição, respondeu o magnata fitando o rosto
+ingenuo da filha do operario. Ámanhã por estas horas já devemos saber o
+logar designado para o hospital, e, como desde hontem o considero meu
+empregado, accrescentou dirigindo-se a Jeronymo, não pense que vossemecê
+e sua familia se estão aqui tornando pezados. Se alguma cousa tem que
+fazer em sua casa, sr.ª Balbina, disse Tristão voltando se para a mulher
+do operario, eu lhe mando chamar um trem para que a demora não seja
+muita.
+
+--Não tenho outro remedio senão ir a casa, respondeu Balbina, mesmo por
+causa da tia Marianna, ajuntou ella voltando-se para Martha.
+
+--Visto isso, vou dar ordem a um criado para que lhe chame um trem, e
+sem attender a Balbina, que pretendia dissuadil-o da sua determinação, o
+protector da familia de Jeronymo desceu ao primeiro andar.
+
+--Ainda não vi melhor coração, murmurou Jeronymo voltando-se para sua
+filha.
+
+--Tudo é muito verdade, meu pae, mas torno a dizer-lhe, preferia que
+nada d'isto tivesse succedido.
+
+Meia hora depois, com grandes esforços de Tristão de Almeida, Balbina
+dirigia-se n'um trem de bandeirinha para sua casa.
+
+
+
+
+XIII
+
+
+Emquanto se estão passando estas veridicas scenas, entremos em casa do
+visconde de Coruche.
+
+--Vê como pões esse pó de arroz, imbecil! Olha que me estás arranhando
+as costas! dizia o visconde voltando-se para o seu _groom_.
+
+--Não é da minha mão, sr. visconde, é uma borbulha que v. ex.ª aqui tem.
+
+--Uma borbulha! exclamou o visconde, eu nunca tive a mais pequena
+excrescencia na pelle. Dá-me d'alli aquelle espelho.
+
+Sem proferir uma palavra, o _groom_ dirigiu-se ao toucador, e tirando de
+dentro um espelho em fórma de ellipse, entregou-o ao visconde.
+
+--Vejamos, disse este, voltando as costas para um toucador. Com effeito
+tinhas razão.
+
+--D'isso tenho eu tido aos centos e não faço caso algum, ajuntou o
+criado.
+
+--Queres tu comparar a tua á minha pelle?
+
+--Eu tambem não digo a vossa excellencia que a minha pelle seja como a
+sua, digo só que d'isso tenho eu aos centos. Olhe, sr. visconde, se
+vossa excellencia quer, verá como lhe curo isso n'um momento. Tome o sr.
+visconde uma... que digo eu? meia pilula das Monicas, ou uma receita que
+tem as irmãs do padre Bernardo que moram em Jesus, e verá como fica bom
+no mesmo instante. Isto provavelmente são os humores que andam
+levantados.
+
+--Será o que tu quizeres, respondeu o visconde. Dá-me d'alli uma camisa.
+
+--Que camisa quer?
+
+--Das mais finas, e põe-lhe os botões de camafeu.
+
+--Ou é _serviço_ ou grande pantomimice, resmungou o criado em voz baixa,
+abrindo ao mesmo tempo a gaveta do guarda roupa e tirando de dentro uma
+finissima camisa de cambraia. Agora por isso, ajuntou elle
+approximando-se do visconde, veiu cá hontem e já voltou hoje um
+individuo que trouxe para vossa excellencia a conta da camisaria.
+
+--Dize-lhe que volte no fim do mez.
+
+--Recordo a vossa excellencia que estamos hoje no dia 30, e que ámanhã é
+o ultimo de outubro.
+
+--Pois sim; mas eu quando disse no fim do mez, quiz dizer que era para o
+mez que vem.
+
+--Cumprirei as ordens de vossa excellencia. Que fato quer? perguntou
+elle, dirigindo-se para uma commoda á Luiz XV, sobre a qual estava um
+cofre de tartaruga.
+
+--Um fraque e collete preto, com quaesquer calças de côr.
+
+--Agora por isso, sr. visconde, disse o criado pondo nos punhos da
+camisa dois magnificos camafeus de Italia, veiu cá hontem um individuo
+com uma conta do alfaiate, e como vossa excellencia não estivesse em
+casa, disse-lhe que viesse ámanhã, em sendo duas horas.
+
+--Fizeste muito mal, respondeu o visconde mergulhando uma pequena escova
+de dentes n'um liquido pardacento, e levando-a repetidas vezes ao
+bigode. Já te disse que nunca se mandam receber contas senão no fim dos
+mezes.
+
+--Pois foi exactamente por esse motivo que o mandei cá vir ámanhã, que é
+o ultimo de outubro.
+
+--Já te disse ha pouco que o meu fim do mez é sempre o de novembro,
+respondeu o visconde encolerizado, passando a escova por sobre o labio
+inferior, e deixando o côr de chocolate.
+
+--O mesmo disse eu ao sr. Alves, quando a semana passada o procurou por
+causa d'aquella letra de 600$000 réis que se vence no primeiro de
+novembro.
+
+--E elle insiste em não querer a reforma?
+
+--Creio que insiste. O alquilé a quem vossa excellencia comprou as eguas
+baias, foi dizer-lhe que o sr. visconde promettia pagar-lhe tudo no
+primeiro de novembro.
+
+--Veremos o que se ha de fazer, disse o visconde, esfregando com uma
+essencia a nodoa côr de castanha que lhe descompunha a phisionomia.
+Dá-me d'alli umas ceroulas de seda. É preciso que vás logo ao Baron que
+me mande uma duzia de camisolas.
+
+--Cumprirei com as ordens de vossa excellencia, respondeu o criado,
+abrindo a gaveta d'uma commoda, e tirando um par de ceroulas de malha de
+seda.
+
+--Se alguem me procurar ás tres horas da tarde, dize lhe que não volte
+antes do primeiro de novembro, caso não queira perder o tempo, disse o
+visconde, atirando para longe com umas lindas chinellas de velludo
+bordadas a oiro, e vestindo ao mesmo tempo as ceroulas.
+
+--Vossa excellencia sae a cavallo ou de trem?
+
+--O dia está tão bonito que me parece melhor saír a cavallo. Sim,
+continuou elle, depois de reflectir alguns segundos, dize ao Marçal que
+me apparelhe a egua lazã. É necessario montal-a; ha perto de oito dias
+que não sáe.
+
+Depois de collocar sobre uma ottomana o fato do visconde, o criado abriu
+a porta do toucador, e saíndo foi transmittir as ordens que seu patrão
+lhe dera.
+
+--Sim senhores! a coisa não vae feia, dizia o visconde de si para
+comsigo. Se não levanto o dinheiro do deposito estou arruinado. O
+credito escassea-me, os credores, longe de me sustentarem a posição que
+seria o unico recurso para se embolsarem do que lhes devo, começam a
+negar-se e até me atormentam. Fazem bem, o futuro lhes dará o pago e
+tambem Deus, que de vez em quando ainda se recorda de mim.
+
+«Não encontro meio algum de salvação! Se apeio os trens, se revelo,
+ainda que por sombras, o estado da minha casa, não tarda a ruina,
+seguindo-se a poucos passos a miseria, com toda a sua hediondez que me
+assusta.
+
+«Devo a todos, e aos que me devem não me atrevo a pedir-lhes contas;
+não, seria uma loucura para a situação em que me encontro. Exigindo-lhes
+essas miseraveis quantias, seria mostrar-lhes que as necessito, e eu não
+tenho mais remedio senão representar que estou rico. Quanto custa esta
+falsa posição! Á custa de quantas insomnias se adquire um nome que não
+dá honra no presente nem tão pouco no futuro! Que luctas inglorias! Quem
+me dera ter nascido filho de um lavrador, e gosar em branda paz os
+encantos d'uma vida tranquilla. E os homens julgam me feliz! quantos
+dariam metade dos seus haveres para terem o meu nome! Pobres nescios!
+Vêem os meus trens, os meus cavallos, os meus vestuarios, e mal pensam
+as horas que todo esse fausto me rouba ao somno.
+
+«Vi a meus pés as primeiras mulheres de Lisboa, por mais de uma vez, com
+as faces incendiadas pela colera do ciume, vi os maridos a
+contemplarem-me, e eu mudo, indifferente, com o sorriso nos labios,
+desprezando-as a ellas, e escarnecendo d'elles.
+
+«Quanto dera agora por ter amado uma unica vez, e ter consagrado a esse
+objecto do meu amor toda a exuberancia da minha vida, todo o ardor das
+minhas paixões.
+
+«Rico, saudavel, com uma intelligencia clara e algum tanto cultivada,
+porque não creei a melhor de todas as instituições: a familia?
+
+«Que futuro me espera? Poderei eu sustentar por muitos annos esta vida,
+sem dinheiro, alicerce indispensavel d'este edificio? Se ámanhã,
+completamente desanimados os meus credores, comprehenderem a nenhuma
+vantagem de me conservarem n'esta situação, que poderei fazer? Sair de
+Lisboa? e para onde?
+
+«Que sei eu fazer? Montar a cavallo ou guiar bem um tilbury. É isto o
+sufficiente? E demais, affeito a este luxo que me rodeia, teria eu
+bastante valor para lançar mão de qualquer modo de vida, que não
+estivesse em harmonia com o que hoje tenho?
+
+«Se eu podesse encontrar um homem que me emprestasse dez a doze contos
+de réis, talvez ainda conseguisse levantar-me. Por isso me liguei com o
+commendador e com o banqueiro, a fim de explorarmos o Tristão, mas ou eu
+me engano muito ou d'aquella moita não sae coelho.
+
+«Aquillo é homem para duzentas ou trezentas libras, que nada me podem
+remedeiar. Se eu me convencesse do contrario, ajuntava o visconde
+abotoando o collete, cujos magnificos botões de coral contrastavam com a
+pallidez morbida do seu aristocratico semblante, se aquelle Tristão de
+Almeida fosse homem para emprestar uma duzia de contos de réis,
+separava-me totalmente dos meus companheiros e recorria á sua bolsa. E
+quem sabe? Quem me diz que a minha salvação se aninha na sua algibeira!
+
+«Quem sabe, continuava elle, mirando-se ao espelho, se as suas idéas
+ácerca do hospital tem no amago o conseguir um titulo. Se assim fosse
+estava salvo. Tenho alguns amigos no ministerio, homens que até já
+dispozeram da minha bolsa, póde ser que elles me sirvam para isto. Se
+fosse dinheiro tinha eu a certeza que m'o negariam, porém um titulo...
+
+«Experimentemos, e se são esses os seus desejos, ficarei salvo. E se não
+forem? Embora, convencel o hei de que um homem na sua posição necessita
+um titulo, e que para o alcançar basta ter dinheiro».
+
+Quando no meio d'estas judiciosas reflexões se preparava o visconde de
+Coruche para, afastando-se de Lopes de Miranda e do banqueiro, se lançar
+aos fundos de Tristão de Almeida, entrou de novo o seu _groom_
+annunciando lhe o commendador.
+
+--Que teremos? disse o visconde comsigo mesmo, pondo ao mesmo tempo as
+esporas.
+
+--Disse lhe que vossa excellencia se estava vestindo, porém, foi tal a
+sua insistencia que não tive remedio senão fazel-o entrar para a sala.
+
+--Dize-lhe que vou immediatamente. Espera! accrescentou elle como
+mudando de pensamento. Entre rapazes não ha cerimonias. Que venha para
+aqui mesmo.
+
+O _groom_ retirou-se, e acompanhou d'alli a minutos o commendador.
+
+--Deve estranhar o tel o procurado tão cedo, exclamou o commendador,
+dando-se ares de janota, palavra que n'esse tempo principiava a estar em
+voga.
+
+--Por caso nenhum! Estou sempre ás suas ordens.
+
+--Podemos conversar á vontade?
+
+--Pois não, respondeu o visconde, visivelmente importunado pela presença
+do commendador, que viera interrompel-o nas suas profundas meditações.
+
+Ou por esquecimento, ou por pouca importancia concedida áquella
+entrevista, o visconde não havia mandado retirar o _groom_.
+
+Lopes de Miranda não tardou em fazer-lh'o notar.
+
+Córando ligeiramente, o visconde comprehendeu aquelle reparo e mandando
+retirar o criado, assentou-se n'um sophá, offerecendo um logar ao
+commendador.
+
+--Preciso fazer lhe uma pergunta. Que idéa fórma de Tristão de Almeida?
+
+--A melhor que se póde formar; que é uma excellente alma, e desambicioso
+de todas as grandezas do mundo.
+
+--Fala serio?
+
+--Quanto se póde falar.
+
+--Julga portanto?...
+
+--O quê?
+
+--Que o seu projecto a respeito do hospital seja movido, pura e
+simplesmente, pela idéa de pôr em pratica uma obra de caridade?
+
+--Assim o creio.
+
+--Outro tanto não penso eu, meu nobre amigo. Ha em tudo aquillo um
+_arrière pensée_, ajuntou Lopes de Miranda, querendo mostrar ao visconde
+os seus conhecimentos linguisticos. O homem deseja um titulo.
+
+Feliz em que o seu pensamento se tivesse encontrado com o do
+commendador, o visconde, como homem experimentado, calculou que o unico
+partido de que podia lançar mão, seria o dissuadil-o completamente das
+suas suspeitas.
+
+--Crê portanto o commendador que essa caridade que antes de hontem viu
+dispensar ao mestre de obras, era movida apenas por um calculo? Quanto
+se illude! Seria necessario ter avaliado todas as circumstancias que se
+deram, para formar o seu juizo. O mesmo suppunha eu, mas logo vi o
+contrario. Ha factos que se não podem fingir, sr. Lopes de Miranda.
+Seria necessario que Tristão fosse um grande actor, para tão
+desassombradamente poder jogar com todas as paixões, como fez antes de
+hontem quando atropellámos esse infeliz. Seria tambem um calculo o
+interesse com que sua esposa se approximou do leito do moribundo, e
+calculo foi tambem de suas filhas, quando com as lagrimas nos olhos
+pediram ao medico informações do doente? Não me considero de uma
+credulidade parva, sr. commendador, mas a Cezar o que é de Cezar. Se
+Tristão, tem ou não desejo de entrar na sociedade precedido por um
+titulo, não me atrevo a dizel-o, o que lhe affianço, é que, se realmente
+tem esse desejo, não é elle o movel da sua caridade. Homens tem havido
+muito caridosos que desejam possuir um titulo, e Tristão póde muito bem
+ser um d'esses individuos.
+
+--Pois eu é que não sou da sua opinião, e venho propôr-lhe o seguinte:
+Como sabe, tenho tido ha dois annos a esta parte consideraveis perdas em
+resultado da escassez do vinho, e o sr. visconde, creio que tambem
+n'esta occasião não abunda em dinheiro. Lembrava me por isso que
+propozessemos a Tristão, mediante um emprestimo de doze a quatorze
+contos de réis, o obter-lhe um titulo de visconde, ou mesmo de conde.
+Que lhe parece?
+
+--Em primeiro logar, sr. commendador, nem vossa excellencia nem pessoa
+alguma está auctorizada a saber se eu abundo ou não em dinheiro, e em
+segundo devo dizer-lhe que estranho sobremaneira que se atreva a
+propôr-me similhante indignidade! Creio que nunca, nem ao sr., nem a
+outra pessoa extendi a minha mão para pedir dinheiro, por maior ou menor
+que fosse a quantia; estou portanto habilitado a pedir-lhe o favor de
+mudar de assumpto.
+
+Comprehendendo a loucura que tinha practicado, o commendador mudou
+immediatamente de conversação.
+
+Pretextando em seguida varios negocios que tinha de tractar, Lopes de
+Miranda despediu-se do visconde, seguindo d'alli para casa de Vaz
+Mendes, esperançado de encontrar melhor acolhimento no banqueiro.
+
+Dez minutos depois, perfumado, burnido e penteado, o visconde de Coruche
+n'um irreprehensivel _pied fé_ fazia em branda flexão voltar o pescoço á
+_Andorinha_, a egua lazã que mandara apparelhar.
+
+Saindo do pateo em duas upas obrigadas, a _Andorinha_ levou o visconde,
+que formulando o seu plano, se dirigia ao hotel Bragança.
+
+
+
+
+XIV
+
+
+Quando Manuel de Mendonça e Mascatudo sairam do hotel d'Europa,
+encaminharam-se para bordo, como o leitor deve estar lembrado.
+
+A galera que fôra em Buenos-Ayres comprada por Manuel de Mendonça, era
+uma formosa barca de duzentas a trezentas toneladas.
+
+Era muito de vêr-se o aceio e a disciplina que reinavam a bordo da
+galera Esperança, habilmente commandada por Manuel de Mendonça, cujos
+conhecimentos nauticos fariam inveja ao mais experimentado maritimo.
+
+Com sobejos motivos chamava elle aos seus tripulantes os seus amigos e
+companheiros! A amizade e a confiança com que os tractava jámais
+concorreu para que lhe dessem o minimo desgosto de indisciplina.
+
+Durante a folga todos o tractavam como se elle fôra um amigo, no
+serviço todos o respeitavam como o seu commandante. Quando por qualquer
+circumstancia se agitava a mais pequena questão entre os marinheiros, e
+elle apparecia perguntando-lhes a causa, era bello de vêr como esses
+homens endurecidos pelas luctas dos elementos, se enterneciam ao ouvir
+as palavras do seu capitão chamando-os á ordem, e expondo-lhes em
+phrases insinuantes as terriveis consequencias da má camaradagem.
+
+Então, aquelles que momentos antes se haviam levantado exaltados pela
+colera, graças á eloquencia de Manuel, acabavam sempre por se abraçarem.
+
+A galera fundeada a pouca distancia da Rocha do conde de Obidos, parecia
+na sua eterna inquietação aguardar o que era dono e commandante.
+
+Quando um velho marinheiro divisou o escaler do capitão, e este sentado
+á prôa, o maritimo debruçou-se do navio como criada velha que espera á
+janella a criança que volve ao lar.
+
+Então começaram a apparecer os outros marinheiros, esperando
+anciosamente que o escaler abordasse á embarcação.
+
+E a galera agitando-se aos movimentos da corrente, parecia tambem
+esperal-o inquieta.
+
+Finalmente, o escaler atracou, e Manuel subindo por uma pequena escada
+de corda entrou a bordo seguido por Mascatudo.
+
+Quem de perto observasse o tractamento que elle dava aos marinheiros, e
+ignorasse o logar que occupava, tel-o-ia tomado por um simples
+navegante.
+
+Depois de falar a todos aquelles homens, desceu á camara, e alli, em
+companhia de Mascatudo, continuou a conversação que uma hora antes havia
+começado no hotel Europe.
+
+--Estamos aqui mais sós para podermos falar, dizia elle ao marinheiro.
+Ninguem poderá ouvir as nossas palavras a não ser o mar, e Deus que nos
+escuta.
+
+--O mesmo me acontece, respondia-lhe Mascatudo. Não sei o que sinto
+quando passo uma noite encarcerado entre as quatro paredes de uma
+hospedaria! Acordar pela noite velha sem ouvir o rumor da agua batendo
+de encontro á quilha da embarcação, e sem ver o lume de alguma estrella
+reflectindo-se de vez em quando como se estivesse a acompanhar o meu
+dormir, parece que é acordar n'um tumulo.
+
+--Quero pedir-te um favor, disse Manuel de Mendonça, depois de alguns
+instantes de profunda meditação. Como já t'o disse, sei apenas que
+ficaram no hotel de Bragança. Desejava saber quanto se tem passado, mas
+falta-me o valor para ir eu mesmo proceder a indagações. Terias duvida
+em ir procurar essa familia da minha parte?
+
+--Eu! exclamou o marinheiro. E porque motivo? Foi alguma acção má a que
+o sr. praticou? Ora essa! É para já. Não tem mais do que dizer-me o
+sitio onde tenho de me dirigir.
+
+--Aonde te disse, ao hotel de Bragança. Se ainda lá estiverem, pede ao
+guarda portão que te conduza ao quarto. Pergunta por sua mulher ou por
+Martha, e dize a qualquer das duas que vaes da minha parte saber da
+saude de Jeronymo.
+
+--É só isso o que deseja saber? Veja lá; lembre-se bem, ajuntou
+Mascatudo, sorrindo-se para o seu commandante.
+
+--É só isto.
+
+--E o sr. fica á minha espera, aonde?
+
+--A bordo.
+
+--Volto portanto aqui?
+
+--Já se vê.
+
+--Quer que vá já?
+
+--Quero.
+
+--Era melhor ter-me dito isso lá em terra, ponderou judiciosamente o
+marinheiro.
+
+--Quiz antes pedir-te isso sobre as aguas do mar.
+
+--Pois então, sr. Manuel de Mendonça, como bom maritimo que sou, irei
+sondar esses mares desconhecidos, e tenho fé em Deus, que em poucos dias
+poderemos navegar de vento em pôpa, sem que o mais leve indicio de
+temporal nos faça perder o rumo. O que eu não quero é vel-o assim
+entristecido, accrescentou o fiel marinheiro, fixando a vista na
+melancolica physionomia do seu commandante.
+
+--Pensas talvez que me sinto prezo a essa mulher? perguntou Manuel com
+aquella pueril ingenuidade de que se revestem os espiritos sujeitos ás
+mysteriosas influencias do amor!
+
+--Não sei, respondeu Mascatudo, mas apostava que sim. Ás vezes, tudo
+está no começar. O maior temporal principia a levantar-se por uma brisa
+serena.
+
+--Espero em Deus que essa aragem que tu adivinhas, nunca seja nuncia de
+nenhuma tormenta.
+
+--Que Santa Barbara e a Senhora da Bonança nos protejam, commandante,
+disse Mascatudo, levantando-se e preparando-se para cumprir as ordens do
+seu capitão.
+
+--Amen, respondeu Manuel, reclinando a fronte na mão direita.
+
+Mascatudo, sem esperar mais observações, saiu da camara, e, subindo ao
+convez mandou preparar o escaler. Manuel olhava-o em silencio.
+
+--Será este o anjo que Deus me mandou á terra, para me acompanhar nas
+longas noites da minha solidão? pensava elle espraiando os seus olhares
+entristecidos na direcção do soberbo edificio do hotel Bragança.
+
+
+
+
+XV
+
+
+Desembarcando no Terreiro do Paço, Mascatudo tomou o rumo do hotel.
+Desde que saira de bordo, o dedicado amigo em mais alguma coisa havia
+pensado senão em Martha.
+
+O seu caracter concentrado e ao mesmo tempo sensivel, levava o a
+acreditar na impossibilidade de ventura na terra, e, muito menos sobre
+as aguas do mar, sem se possuir um coração fiel e dedicado, qual a sua
+imaginação o phantasiava.
+
+A mulher, essa divina creação que Deus lançou ao mundo para inseparavel
+companheira do homem, que deante de nossos sorrisos levanta o rosto
+brilhante de felicidade, e que desmaia a fronte pallida e inquieta, ao
+enxugar-nos as lagrimas de desventura, concebia-a Mascatudo no seu
+coração selvatico com toda a força de um vigoroso sentimento.
+
+É que a esse espirito, agitado pelas luctas infrenes dos elementos,
+descêra um dia o anjo do amor, e pousando-lhe as brancas azas na fronte
+crestada pelos soes, imprimira-lhe o osculo indelevel do soffrimento.
+
+Amára uma vez na vida! Amára com toda a força da sua alma, alma joven e
+inexperiente, para quem o mundo era um jardim florido, e cada pomo um
+goso, e cada goso uma esperança, e cada esperança uma existencia de
+immorredouras felicidades!
+
+É que a sós entre o mar e o céu, o grito raivoso das paixões humanas,
+ferindo-lhe os ouvidos, jámais lhe havia interrompido os extasis, quando
+assentado ao leme da embarcação contemplava os astros que se reflectiam
+nas aguas prateadas do oceano, vagas como o seu pensamento,
+indecifraveis como as suas aspirações!
+
+Conhecia apenas a ira do mar, mas a colera do homem envenenado pela
+inveja ou pela traição, jámais a havia sonhado o seu instincto.
+
+Por isso vira na mulher o anjo, na sua convivencia a felicidade unica e
+possivel.
+
+Amou!
+
+E quão grande teria sido o affecto n'aquella grande alma?!
+
+Possuia algum dinheiro das suas economias, julgou-se em circumstancias
+de casar.
+
+Dois mezes depois, Mascatudo realizava no casamento todas as suas
+aspirações. Curta, porém, foi a sua ventura. A brisa da morte,
+agitando-se mysteriosamente sobre o tecto do seu ninho, devastou-lhe ao
+cabo de um anno flôres e fructo!
+
+O triste voltou á vida do mar; e quando por noites caladas o seu barco
+sulcava as aguas do oceano, via-se ás vezes o tio Luiz encostado á
+amurada da embarcação, contemplando o firmamento, como que perguntando a
+cada nuvem em que paragem se occultava aquella metade da sua alma.
+
+Desde então, Mascatudo viveu apenas para duas sepulturas: a da esposa e
+a da mãe!
+
+--Hei de saber tudo, dizia elle, ao chegar á porta do hotel. Se fôr como
+a pintam, serei o primeiro a aconselhal-o a que não perca esta occasião.
+
+Cumprindo á risca as instrucções que recebera, Mascatudo foi conduzido
+pelo guarda portão ao quarto de Jeronymo.
+
+Balbina já estava de volta de sua casa, aonde tinha ido mais com o
+intuito de tranquillisar a pobre Marianna do que para tractar dos
+arranjos domesticos.
+
+--Venho aqui da parte do meu commandante, para saber como está o sr.
+Jeronymo, disse Mascatudo, olhando desassombradamente para o operario e
+para a mulher e filha.
+
+O enfermo, que nada comprehendêra, ficou como abysmado olhando para
+Balbina.
+
+--Creio que me não expliquei bem, ajuntou o marinheiro; venho da parte
+do individuo que avisou a sua familia do sitio onde vossemecê estava.
+
+--Ah! já sei; vem da parte d'esse sujeito a quem somos tão obrigados,
+exclamou Martha, fazendo-se vermelha como o estofo do sophá onde estava
+assentada.
+
+--Até que perceberam, continuou Mascatudo, approximando-se do leito de
+Jeronymo. Foi esse mesmo o que me mandou saber da sua saude.
+
+--Quanto lhe estamos agradecidos, interrompeu Balbina, dirigindo-se ao
+marinheiro. Se não tivesse sido aquelle excellente senhor, talvez que
+ainda a estas horas estivessemos sem saber onde elle parava. Diga-lhe
+que graças a Deus, o Jeronymo está muito melhor, e que tanto elle como
+eu e minha filha desejamos saber onde o podemos encontrar para lhe
+darmos os nossos agradecimentos.
+
+--O sr. Manuel, respondeu o marinheiro, póde encontrar-se a bordo da
+sua galera, e quando alli não estiver, accrescentou, fixando
+ardentemente os olhos em Martha, que parecia escutal-o com interesse,
+está no hotel d'Europe, na rua Nova do Carmo. Mas lá por isso não seja a
+duvida; deixem estar, uma vez que elle se interessa tanto pelos seus, eu
+farei com que ámanhã ou depois, se por acaso ainda estiverem n'esta
+estalagem, elle os venha ver a vossemecês.
+
+--Quanto estimaria conhecel-o, interrompeu Jeronymo voltando-se para o
+maritimo.
+
+Martha empallideceu ligeiramente.
+
+--N'esse caso eu farei a diligencia de o trazer aqui, respondeu
+Mascatudo, satisfeito por comprehender o que se passava no coração de
+Martha.
+
+Despedindo se de todos, o marinheiro saiu do hotel.
+
+--É um anjo, ou eu sou um grande asno, dizia elle comsigo mesmo,
+emquanto se dirigia para bordo.
+
+
+
+
+XVI
+
+
+Deixemos Mascatudo participar a Manuel de Mendonça os resultados da sua
+entrevista, e encaminhemo-nos a um pequeno gabinete do hotel onde
+Tristão costuma receber as visitas de mais confiança.
+
+O visconde, como o leitor não ignora, tinha resolvido tirar o maior
+partido que podesse do seu novo amigo; com este fim se havia dirigido
+para o hotel.
+
+Tristão acabava de chegar de casa de um banqueiro, a quem fôra consultar
+ácerca de uma transferencia de fundos para o Banco de Portugal na
+importancia de 650:000$000, para lhe não succeder o mesmo que lhe
+acontecêra com quantia superior a essa, que tinha no banco de Havana,
+d'onde havia dois annos não recebia juro algum.
+
+Vê-se portanto quaes eram as riquezas d'aquelle homem!
+
+Ao ouvir estas palavras, ainda mais seguro ficou o visconde no bom
+exito da sua tentativa, e, ampliando apenas a cifra resolveu-se a
+preparar quanto antes o terreno que tinha a explorar.
+
+--Com que então, meu amigo, disse-lhe o visconde, já sei que os seus
+protegidos dormem em leito de rosas o doce somno da esperança,
+acalentados pelas azas brancas do anjo dos tristes.
+
+Por esta exuberancia de imagens, poderá o leitor formar a sua idéa
+psychologica ácerca do caracter do visconde de Coruche.
+
+--Assim o creio, respondeu Tristão, offerecendo-lhe um magnifico charuto
+havano.
+
+--E quando principiam os nossos trabalhos do hospital?
+
+--Pela minha parte hoje mesmo, se vossa excellencia quizer; porém, vejo
+que tem tantos negocios a tractar...
+
+--Por Deus, meu caro amigo! Para uma coisa d'essas deixaria tudo de
+parte. Hoje mesmo, se lhe apraz, iremos escolher o local.
+
+--Isso é que era ouro sobre azul! Não calcula a anciedade de minha
+esposa em vêr realizados os seus desejos. Quando se propôe qualquer
+coisa, não ha quem a dissuada, nem eu o intentaria n'este caso.
+
+--O mesmo sou eu. Veremos quem se lança denodadamente na arena da
+caridade. E como vossa excellencia vae lucrar n'esta obra! Como se
+conceituará na opinião publica? De que serve a riqueza, se não fôr
+applicada ao bem? Quantas ha em Lisboa que para nada servem, a não ser
+para satisfazer os olhares cubiçosos dos avarentos que as possuem!
+passam miseravelmente emquanto vivos, e, quando morrem teem por unico
+elogio dos seus herdeiros, o dizerem que sempre foi um homem muito amigo
+de olhar pela sua casa. É que esses entes, na minha opinião, esquecidos
+de Deus, atravessam a vida sem conhecerem a verdadeira felicidade que
+sente aquelle que, extendendo a mão á pobreza, leva o consolo ao ninho
+do desamparado. Muitos d'esses miseraveis, renegando o povo d'onde
+sairam, querem chegar-se á aristocracia, transpôr os humbraes do chefe
+do Estado, e nem ao menos se lembram de seguir o exemplo, abrindo como
+elle a sua bolsa aos desvalidos, e os seus pulmões á atmosphera
+corrompida pelos miasmas da epidemia. E ainda a semana passada o joven
+monarcha desceu ao leito de um moribundo e passou-lhe a regia mão pelo
+peito, como para sondar se o coração ainda batia. Já que pessoa alguma o
+segue no seu heroismo; já que a maior parte d'esses satrapas o
+abandonam, seja vossa excellencia o heroe que venha a empallidecer-lhes
+o rosto de vergonha, tomando o exemplo d'aquelle santo rei.
+
+Havia tanta verdade nas palavras do visconde; era tão singela a sua
+dicção, tão arrobadas de sentimento as phrases que acabava de proferir,
+que Tristão, apezar do seu profundo conhecimento do coração humano,
+hesitou por alguns instantes, sem poder avaliar se essas palavras seriam
+calculadas, ou se eram apenas dictadas por um coração votado á caridade.
+
+Tristão era homem de arrojado animo. Por mais de uma vez sorrira para a
+morte que se lhe approximava sem que os lábios houvessem mudado de côr
+ou o seu coração pulsado com maior violencia.
+
+Affeito a uma existencia aventurosa, ainda o fascinavam os perigos. A
+despeito de se considerar bastante avançado em annos, fiava se na sua
+robustissima compleição, e, sopesando as forças, distinguiu rapidamente
+o que ainda podia fazer, graças ao seu arrojo, intelligencia e capitaes.
+
+Então desenhou-se lhe um mundo inteiramente novo! Julgou-se cercado
+pela aureola do prestigio, e ouviu pronunciar o seu nome com todas as
+pompas de uma gloria merecida. Viu-se a edificar um hospital, e mais
+tarde, elle mesmo, sua mulher e suas proprias filhas, descendo como
+anjos á cabeceira dos enfermos. Viu os olhos do monarcha iriados de
+angelica expressão, volvendo-se agradecidos para elle e para sua
+familia. Fascinou-o a gloria de um renome, e, elevando se nas azas da
+caridade, creu subir ao ultimo céu das ledices sociaes!
+
+--Tem razão e muita razão, sr. visconde. Vamos hoje mesmo dar um grande
+impulso á nossa idéa. Jeronymo, a quem tenciono entregar a direcção das
+obras, segundo me consta, tem tanto de intelligente quanto de honrado. O
+pobre homem por estes dois ou tres dias não poderá sair de casa; vamos
+nós sem mais delongas escolher o sitio. Em que bairro lhe parece?
+
+--No de Santos. Por exemplo lá para as bandas da Pampulha.
+
+--Visto isso, vou mandar pôr o trem, e entretanto subo ao quarto de
+Jeronymo para lhe communicar as nossas intenções. E sem mais demora saiu
+do gabinete.
+
+--Esplendido, exclamou o visconde, contemplando ao mesmo tempo um
+album de retratos que estava sobre uma banca de jogo. O negocio corre ás
+mil maravilhas. Em todo o caso, é necessario espaçal-o por mais alguns
+dias, e em vez de dez ou doze contos, serão vinte ou trinta,
+hypothecando-lhe... hypothecando-lhe o quê? umas propriedades que eu
+desejava possuir no Algarve. O homem está sequioso de gloria. Cega-o a
+vaidade. É um zote que eu domino com a força da minha eloquencia.
+Bastam-me duas palavras para o conduzir aonde me aprouver.
+
+N'este comenos entrou o magnate, dizendo lhe que já estava o trem á
+porta.
+
+Desceram e entraram na carruagem. Tomando pela rua do Arsenal,
+dirigiram-se ao Corpo Santo. Proximo á egreja grande multidão
+contemplava um pobre velho, que, estorcendo-se em terriveis convulsões,
+denunciava ter sido atacado pela febre. Mandaram parar o trem, e
+Tristão, apeando-se primeiro, dirigiu-se para o grupo.
+
+O visconde seguia o sem dar uma palavra.
+
+--É um infeliz que foi atacado pela febre, disse um gallego a quem
+Tristão se havia dirigido.
+
+--E tambem pela fome, interrompeu uma vendedeira de hortaliça.
+
+--E ainda não appareceu ninguem que lhe fosse buscar soccorros?
+perguntou o visconde.
+
+--Saberá vossa excellencia que ainda não _senhora_, respondeu a
+vendedeira.
+
+--Pois se vossemecê se interessa por esse homem, peço-lhe que se
+encarregue de lhe chamar os soccorros, accudiu Tristão, approximando-se
+mais da mulher e entregando-lhe quatro libras. Se elle tem familia,
+diga-lhe que me procurem logo no hotel Bragança, e vá vossemecê com
+ella, para lhe dar tambem alguma coisa.
+
+O oiro assombrou a vendedeira, que esteve por alguns segundos sem poder
+soltar palavra.
+
+--É uma caridade, meu senhor, porque está cheiosinho de familia, disse
+finalmente a mulher com voz tremula e commovida. Mas agora outra coisa,
+meu senhor, ajuntou ella, por quem devo procurar.
+
+--Pelo excellentissimo sr. Tristão de Almeida disse vivamente o
+visconde.
+
+Mettendo-se outra vez na carruagem, abandonaram aquelle grupo, pasmado
+por tanta generosidade, e partiram pela rua da Boa Vista.
+
+--A sorte favorece-o, proporcionando-lhe todos os ensejos para pôr em
+pratica a sua grande obra, dizia-lhe o visconde, fitando-o com um olhar
+de lynce.
+
+--Assim o creio, respondia-lhe Tristão, olhando para todas as ruas por
+onde passava, com a curiosidade que todos experimentam, ao contemplarem
+pela primeira vez os logares que lhe são desconhecidos.
+
+--Agora me recordo, disse o visconde, parece-me que está uma casa para
+alugar na rua de S. Francisco de Paula. Se lhe parece vamos vel-a.
+
+--Deus permitta que esteja nas condições que precisamos.
+
+Finalmente chegaram á rua designada pelo visconde.
+
+A casa, segundo elle havia pensado, era magnifica para aquelle fim. O
+dono morava longe, porém a boa vontade tanto de um como de outro
+principiava a não admittir difficuldades, e seguiram immediatamente para
+casa do senhorio.
+
+No dia seguinte ás oito horas da manhã, na rua de S. Francisco de Paula,
+começavam todos os preparativos inherentes á fundação do hospital.
+
+O anjo da caridade, invocado por Tristão de Almeida, elevava as suas
+azas brancas sobre os telhados d'aquelle edificio!
+
+
+
+
+XVII
+
+
+--Acompanhas-me, Luiz? Tenho tanto desejo de ir visitar aquella gente...
+e comtudo não me sinto com valor.
+
+--Ora essa, meu capitão, da melhor vontade! Não sei o que li n'aquelles
+olhos verdes de Martha; ainda se me não poderam tirar da memoria! Póde
+ser que me engane, mas essa menina é um anjo! Ha na meiguice do seu
+olhar um não sei quê, que me prendeu!
+
+--Será isso uma illusão da tua parte?
+
+--Nem por sombras! Se a visse, quando eu prometti a sua mãe que faria
+com que o senhor lá fosse...
+
+--Então mostrou muitos desejos de me ver? perguntou Manuel com essa
+visivel curiosidade dos namorados, e como desejando prolongar a
+conversação de Mascatudo.
+
+--Se mostrou! Ao principio fez-se branca como a cal da parede, e em
+seguida tornou-se vermelha como uma romã. Havia tanto interesse no seu
+olhar, quando me falou a respeito do senhor, que logo comprehendi que
+alguma coisa se passava no seu coração.
+
+--Pois então, meu amigo, o que tem de ser, seja. É Deus que o determina:
+iremos hoje vel-os. Passava-se este dialogo a bordo da galera Esperança,
+no mesmo dia e á mesma hora em que o visconde de Coruche expunha a
+Tristão de Almeida, no gabinete do hotel Bragança, as graves
+conveniencias que lhe resultariam da sua philanthropica resolução.
+
+Subindo á tolda, Manuel mandou apromptar o escaler e veiu para terra em
+companhia de Mascatudo.
+
+Dirigiu se ao hotel.
+
+Ao subir a escada que conduzia aos quartos de Jeronymo, sentiu que um
+mundo novo e inteiramente estranho se desenrolava a seus olhos! Receioso
+pelo sentimento que lhe perturbava o espirito, o marinheiro quasi pedia
+á Providencia, que qualquer circumstancia fortuita lhe viesse impedir a
+realização dos seus desejos!
+
+Batendo mansamente á porta do quarto de Jeronymo, ouviu a voz doce e
+melancholica de Martha que de dentro lhe respondia. Faltou-lhe o valor;
+foi necessario que Mascatudo o animasse a entrar. Entraram ambos.
+
+Reclinado sobre uma poltrona, Jeronymo dir-se-ia um cadaver.
+
+A seus pés, assentada n'um tamborete, Balbina olhava-o com gesto de
+profundo desalento, fitando de vez em quando sua filha que de pé os
+contemplava!
+
+Martha ficou immovel!
+
+--Venho saber da saude de seu marido, disse Manuel para Balbina,
+extendendo ao mesmo tempo a mão ao mestre de obras.
+
+Este sorriu-se brandamente para o maritimo, apertando entre as suas
+aquella mão que se lhe offerecia.
+
+--E como se sente?
+
+--Melhor, felizmente, muito melhor! respondeu Jeronymo, olhando ao
+mesmo tempo para sua mulher, e indicando-lhe que approximasse uma
+cadeira.
+
+Manuel, pegando na cadeira que Balbina lhe offerecia, sentou-se ao lado
+do enfermo.
+
+Mascatudo contentava-se apenas em observar os olhos de Martha, buscando
+em cada movimento descobrir o que lhe passava n'alma.
+
+Balbina então relatou a Manuel quanto havia succedido, sem lhe omittir
+os rasgos de generosidade de que era devedora a Tristão e a toda a sua
+familia.
+
+--E quem é esse homem tão caridoso? perguntou Manuel, como se já n'esse
+instante se lhe começasse a perturbar o espirito com a idéa de que essa
+protecção fosse menos devida á caridade do que á formosura de Martha.
+
+--Quem é elle, não lh'o podemos dizer, respondeu Balbina. Sabemos apenas
+que é um senhor muito rico, e que todo o seu fim é fazer bem á pobreza.
+Agora vae elle estabelecer um hospital para as pessoas atacadas pela
+febre, hospital de que meu marido é o encarregado.
+
+--E não só elle, como sua mulher e filhas, se tem interessado o mais
+possivel por mim, ajuntou Jeronymo.
+
+--Nunca me ha de esquecer aquella noite, menina, tartamudeou Manuel
+dirigindo-se a Martha.
+
+--Quanto lhe devemos, meu caro senhor, acudiu o operario, olhando ora
+para Manuel, ora para a mulher e para a filha.
+
+--Como elle se portou com a nossa filha! Não temos modos de agradecer!
+disse Balbina visivelmente reconhecida.
+
+--É merecedora de tudo! Nada tem que me agradecer, respondeu Manuel
+olhando ao mesmo tempo para a interessante Martha.
+
+Quando a filha do operario, mais familiarizada com a presença do
+maritimo, se preparava para lhe dirigir a palavra, soaram uns passos no
+corredor e abriu-se em seguida a porta do quarto.
+
+Eram Tristão e o visconde.
+
+--Venho prevenil-os de que já temos casa para o hospital, e que ámanhã
+por estas horas--graças á actividade do sr. visconde--já devem começar
+os trabalhos, disse Tristão de Almeida, reparando ao mesmo tempo em
+Manuel de Mendonça e Mascatudo.
+
+Estes ultimos olhavam para os recemchegados, sem poderem occultar que as
+suas presenças se lhes não tinham tornado muito sympathicas.
+
+--Estes senhores pertencem á sua familia? perguntou o visconde
+dirigindo-se a Martha.
+
+--Não, senhor, respondeu Martha. E indicando Manuel de Mendonça,
+accrescentou: este senhor foi quem me encontrou na rua, e que mais tarde
+descobriu aonde estava meu pae.
+
+--Ah! foi este senhor! acudiu Tristão. Quanto folgo em ter o gosto de o
+conhecer. Se me não engano, n'aquella mesma noite tive o prazer de o
+encontrar; porém, quando ia para lhe extender a mão, já vossa senhoria
+tinha saido d'este quarto, ajuntou Tristão dirigindo-se a Manuel de
+Mendonça e extendendo-lhe brandamente a mão.
+
+Se n'aquella noite do atropellamento os olhos de Manuel de Mendonça se
+haviam cravado particularmente no rosto de Tristão, mais cuidadosamente
+o fixaram n'aquelle momento.
+
+O mesmo se passou com o magnate. Dir-se-ia que esses dois homens já se
+haviam encontrado alguma vez na vida! Onde? Sabia-o Deus, que n'esse
+instante os não illucidava!
+
+O physionomista que de perto observasse o rosto de Manuel, ter-lhe-ia
+notado um estremecimento de repulsão no momento em que, extendendo a
+mão, a sentiu em contacto com a de Tristão de Almeida.
+
+A Mascatudo não lhe passou desapercebido.
+
+--Queira Deus, pensava elle comsigo, que o sr. Manuel de Mendonça não
+comece já a imaginar que lhe querem estorvar a pesca. Se elle vê que lhe
+lançam a fisga, põe-se de ventas á enchente e vae tudo com trezentos mil
+diabos. Elle é bom, isso lá é que não ha duvida, mas, se lhe pegam fogo
+ao paiol da polvora, vae tudo pelos ares em mil estilhaços.
+
+Tristão e o visconde trocaram ainda algumas palavras entre si, e depois
+de alguns momentos de silencio, despediram-se de Jeronymo e de sua
+familia, e sairam do quarto cumprimentando affavelmente Manuel de
+Mendonça.
+
+--Conhece aquelle senhor? perguntou Martha a Manuel de Mendonça,
+referindo-se a Tristão de Almeida.
+
+--Não conheço, respondeu o maritimo, comtudo, parece-me já ter visto
+aquelle individuo, aonde não me recordo.
+
+--O mesmo me pareceu a mim, acudiu Mascatudo. E a elle, se me não
+engano, tambem o senhor não lhe era estranho.
+
+--O que elle me parece é um santo homem, disse Balbina, que não via em
+Tristão mais do que o protector de seu marido.
+
+--Assim o julgo, respondeu Manuel, levantando-se e despedindo-se de
+Jeronymo.
+
+--Já se retira? perguntou Martha, lendo-se-lhe nos olhos o que
+principiava a sentir no coração.
+
+--Tenho de ir para bordo, respondeu Manuel despedindo-se de Martha, e
+promettendo-lhe voltar no dia seguinte.
+
+ * * * * *
+
+--Então o que me diz, meu capitão? perguntava Mascatudo ao sairem o
+pateo do hotel.
+
+--Que gosto muito d'ella, respondeu Manuel de Mendonça olhando para as
+paredes do edificio como se buscasse a janella do quarto onde havia
+ficado a familia do operario.
+
+
+
+
+XVIII
+
+
+São dez horas da manhã. Deitado no seu leito de precioso ebano, e
+fazendo mil conjecturas ácerca de Tristão, a quem na vespera havia
+convidado para almoçar, o visconde de Coruche, como homem experimentado,
+palpa, estuda e analysa o terreno por onde tem de caminhar.
+
+Tudo estava prevenido para o almoço. Uma grande parte da baixella, que
+dias antes tinha sido substituida no _prégo_ por outros objectos cuja
+ausencia se não fazia notar, já estava sobre os aparadores. Entre os
+riquissimos trabalhos de prata destacava-se um pelo seu grande valor e
+merito artistico.
+
+Era um centro de mesa. Representava as tres graças sustentando uma
+enorme concha.
+
+Era esta, por assim dizer, a ultima reliquia que lhe restava do seu para
+sempre chorado tio!
+
+«Fiz mal, pensava elle, em não ter convidado o commendador e Vaz
+Mendes, para almoçarem commigo. Podem prever n'isto alguma insidia e
+intrigarem-me com o meu Cresus! É mais prudente escrever-lhes. E sem
+mais delonga, levantou-se e desceu ao escriptorio, formoso aposento ao
+rez do jardim, esplendida e custosamente mobilado.
+
+«E pensar que tudo isto é sol de pouca dura! accrescentava elle olhando
+para as estufas do jardim. Não terei valor para cair com a minha ruina?
+Hei de ver de pé firme e olhar sereno, sair d'esta casa para o poder dos
+agiotas, até á ultima, todas estas reliquias? Deus não póde permittir
+que um homem que tem vivido e gozado como eu, se encontre um dia a
+braços com a miseria! É forçoso tomar uma deliberação. Tenho ainda uns
+seis mezes para viver, é pouco; prolongue-se a existencia, custe o que
+custar. Homicidio é um crime, e deixar-me escorregar na pendente do meu
+infortunio é um suicidio. Não quero ser criminoso.
+
+«Arvores a cuja sombra me abriguei na minha infancia, nem vós já me
+pertenceis! continuava elle olhando para o vetusto arvoredo do jardim.
+
+«Tectos que vistes expirar meus paes, que impia mão de atroz capitalista
+te manchará o culto? Aqui nasceu meu avô, aqui morreram todos os que
+tiveram melhor senso do que este desgraçado! «Soberbo choupo para me
+enforcar com o cordão do meu chambre», dizia elle como se quizesse
+zombar de si mesmo e contemplando ao mesmo tempo a arvore, que parecia
+convidal-o ao passo mais acertado que podia dar em toda a sua vida.
+
+Abandonando estes lugubres pensamentos, o visconde sentou-se á carteira,
+e escreveu duas cartas, uma ao commendador, e outra a Vaz Mendes. Pedia
+em ambas a honra de virem almoçar em sua companhia.
+
+Tocou a campainha e entregando as cartas a um criado para que as
+levasse sem demora ao seu destino, o visconde deu ainda algumas voltas
+pelo jardim e dirigiu-se á casa de banho.
+
+Ao meio-dia em ponto entraram Vaz Mendes e o commendador Lopes de
+Miranda.
+
+--Quanto folgo me não tivessem faltado, disse-lhes o visconde
+conduzindo-os para a sala de visitas. Tristão, acrescentou elle, vem
+hoje almoçar commigo, era forçoso pedir que mais alguem lhe tornasse
+menos pezado o sacrificio. Vamos discutir largamente sobre o hospital.
+Sabem que já temos a casa arrendada?
+
+--Sabemos, responderam ambos.
+
+--Um magnifico palacio á Pampulha.
+
+--O local não podia ser mais bem escolhido, disse o commendador
+reclinando-se n'uma poltrona. E quando principiam os arranjos? perguntou
+Vaz Mendes.
+
+--Hoje mesmo; para esse fim os mandei chamar. Vamos comprar tudo o que
+fôr necessario para que principie a funccionar de hoje a oito dias.
+
+--Realmente é um homem de muita caridade este Tristão, interrompeu Vaz
+Mendes, olhando para uma soberba aguarella de Howell.
+
+--Basta o que elle tem feito pelo mestre de obras, ajuntou Lopes de
+Miranda.
+
+--E quem seria capaz, já não digo de mais, mas de tanto? acudiu o
+visconde. Isto é que é a verdadeira caridade, sem alarde nem ostentação.
+
+--Tambem, disse Vaz Mendes, quem tem uma fortuna superior a dois mil
+contos, o que deve fazer senão dividil-a com a pobreza?
+
+--E quantas pessoas conhece o meu amigo, que não são capazes de gastar
+um ceitil com os pobres? perguntou o visconde.
+
+--Concordo, respondeu o banqueiro, olhando de soslaio para um Salvator
+Rosa, unica pintura que restava da galeria do conde de ***.
+
+Ao ouvir-se o rodar de um trem, o visconde approximou-se da janella
+para se certificar se era a carruagem de Tristão que chegava.
+
+Não se enganára.
+
+Deixando os dois convidados, desceu ao pateo para o receber.
+
+Quando entraram na sala foi uma agradavel surpreza para Tristão de
+Almeida o encontro dos seus dois amigos.
+
+Á hora designada dirigiram-se todos para a sala de jantar, onde um
+variado e bem servido almoço os esperava.
+
+Ao contemplarem a magnificencia da baixella, Vaz Mendes e o commendador
+entreolhavam-se, assombrados por tanta riqueza.
+
+Tristão olhava para tudo com um gesto de profunda indifferença! Um
+objecto apenas se tornou o alvo da sua attenção: foi o centro de prata,
+de que já falamos ao leitor.
+
+Havia muito que elle desejava occultar a sua admiração; por ultimo não
+se conteve.
+
+--É de suppôr que saiba o que alli tem, disse Tristão voltando-se para o
+visconde, e apontando ao mesmo tempo para as tres graças.
+
+--Sei. É magnifico! Atribuem-n'o ao cinzel não sei de que artista
+notavel, cujo nome me não lembra, respondeu o visconde.
+
+--Vale um bom par de contos de réis, replicou Tristão dirigindo-se a Vaz
+Mendes.
+
+«Forte asno, murmurou o banqueiro para comsigo.
+
+«Está doido! pensou o commendador.
+
+«Achei! disse o visconde falando com o seu coração.
+
+«Fortes nescios! reflectiu Tristão, que pelos differentes jogos das suas
+physionomias, lhe adivinhára os pensamentos.»
+
+Ás quatro horas da tarde sairam todos tres, tendo previamente combinado
+com o visconde, para que os esperasse no hotel das seis para as sete
+horas da noite.
+
+«Estou salvo! dizia o visconde, á proporção que os via desapparecer. Por
+qualquer dos dois meios venço. Desfazendo me das tres graças, que já
+para mim não tem graça, posso vender-lh'as talvez por dez ou doze
+contos. Mas espera, accrescentou elle como se uma idéa lhe acudisse
+subitamente, é mais decente, mais elegante mesmo: presenteal-o com esse
+objecto. Ninguem chegou a mais de mil libras, e, para isso, foi
+necessario que encontrasse um inglez que as julgava Benevenuto! Mas
+quando viu que o não era, creio que me não daria nem mais dez libras do
+que o seu pezo. Se elle o attribue a cinzel, bem estamos; deve pelo
+menos avalial-o em vinte contos, portanto, em vinte contos avaliará o
+presente. Não ficarei habilitado a pedir-lhe vinte e cinco ou trinta? Ao
+centro, visconde, e chegarás ao teu fim! E, sem mais reflectir, chamou o
+_groom_ e mandou embrulhar as tres graças em finissima toalha de
+Flandres, ordenando-lhe que as collocasse dentro do _coupé_.
+
+Ao cair da tarde, acompanhadas pelo visconde, as tres filhas de
+Eurynome abandonavam a casa do fidalgo para entrarem de graça em casa de
+Tristão, que bem caro teria de pagar aquella graça.
+
+
+
+
+XIX
+
+
+O hospital da rua de S. Francisco de Paula, em virtude dos esforços do
+visconde de Coruche e da inexgotavel bolsa de Tristão, estava prompto de
+tudo. Sem lisonja, podia chamar-se-lhe um hospital modelo! A boa ordem
+reunida ao aceio e todas as outras condições hygienicas, tornavam
+aquella instituição a melhor do seu genero.
+
+Em Lisboa, Tristão d'Almeida era o assumpto de todas as conversações.
+Todos falavam na sua caridade; todos se assombravam das sommas fabulosas
+que dispendia.
+
+Além do custeamento do hospital, Tristão collocára cincoenta contos de
+réis em metal sonante na burra do seu escriptorio, para serem applicados
+ás familias dos doentes que por ventura alli morressem, deixando por
+unico legado a fome e a saudade.
+
+Além d'estas circumstancias, uma outra havia mais transcendente: era a
+maneira por que a sua familia se dispunha para receber e tractar os
+enfermos.
+
+D. Maria Egypciaca e suas duas filhas, todas tres com a mesma
+equipendencia de valor, eram as encarregadas das enfermarias das
+mulheres.
+
+Tristão e o commendador tomaram entregue das do sexo masculino.
+
+Oito pessoas entraram no dia da abertura. Por mais perigoso que fosse o
+estado de qualquer d'esses individuos, não houve um só que deixasse de
+sentir á cabeceira do leito a voz doce e animadora da mulher de Tristão
+de Almeida, e de suas duas filhas, sobre tudo de Magdalena.
+
+As principaes familias de Lisboa quasi todas desejavam relacionar-se com
+aquelles quatro anjos do bem que vinham de longes terras para descançar
+o seu vôo sobre a cidade agonizante!
+
+Ao encontrar se completamente restabelecido dos ferimentos, Jeronymo
+partira para o hospital afim de se encarregar da sua direcção.
+
+Ás vêzes, na janella do terceiro andar que olhava para o Tejo, via-se
+uma criança loura e formosa como os anjos: era Martha. Entristecida, ora
+parecia buscar n'aquelles horizontes algum objecto que lhe prendia a
+imaginação, ora descia aos salões do hospital, como se procurasse na
+morte a branda paz que a sua alma havia perdido sobre a terra!
+
+Avaliando a immensa distancia que a separava de Manuel de Mendonça,
+Martha havia depositado no mais intimo do coração todos os martyrios que
+a suffocavam! Vira-o pela ultima vez no dia em que seu pae saira do
+hotel.
+
+Manuel dissera-lhe que d'alli a poucos dias iria visitar sua mãe, isto a
+meia voz, sem que Balbina o notasse.
+
+Foi n'esse momento que ella começou a comprehender que lhe não era
+totalmente indifferente. Mas, d'isto tudo o que poderia resultar? Quem
+era Martha, para ser amada por um homem como Manuel de Mendonça, um
+commandante de navios, emquanto ella não era mais do que a filha de um
+operario!
+
+N'esses momentos subiam-lhe á mente mil idéas que a torturavam. Era um
+tumultuar de receios que nem a sua intelligencia tinha forças para
+comprehender, nem o seu coração para os supportar.
+
+Assim foram passando muitos dias, e Manuel sem cumprir a sua promessa.
+
+Tel-a-ia esquecido?
+
+Impossivel! Aquelles olhos não lhe haviam mentido! As ultimas palavras
+que proferira, revelavam bem todo o interesse que ella lhe tinha
+inspirado. Teria adoecido com a febre? Morrido? Não! Morrer tão novo,
+tão anciosamente adorado! Deus não consentiria que elle deixasse este
+mundo sem que Martha lhe houvesse assistido ao derradeiro sopro
+d'aquella vida, que era todo o seu querer, todo o seu pensar, toda a sua
+existencia! Manuel vivia, mas havia a esquecido por outra. Magdalena
+contemplára-o com interesse, n'uma tarde em que se encontraram na
+varanda do hotel! Ainda que Manuel não lhe respondeu ao seu olhar, podia
+tudo isso ter sido um calculo.
+
+«Quem sabe se eu fui um instrumento da sua vontade, fazendo-me suppôr
+que era a mim e só a mim a quem elle amava, emquanto o seu coração
+estava inclinado para a filha de Tristão? pensava Martha. Mas sendo
+assim, tudo poderei descobrir; e se fôr, buscarei a morte como ultimo
+recurso á minha desgraça.»
+
+Immersa n'estas terriveis conjecturas, Martha desceu ás salas do
+hospital.
+
+Já haviam entrado D. Maria Egypciaca e suas filhas.
+
+Notando a profunda pallidez da filha de Jeronymo, as fidalgas, segundo
+Martha lhe chamava, começaram a receiar pela sua saude.
+
+Magdalena foi a primeira a approximar-se-lhe, e beijando a meigamente na
+fronte, pediu lhe por tudo quanto havia que não arriscasse tanto a sua
+saude, perdendo as noites ao lado dos doentes.
+
+Durante todo esse dia, aonde mais intensos reinavam o perigo e a
+afflicção, alli se encontrava Martha!
+
+Quando ao anoitecer a familia de Tristão se preparava para sair do
+hospital, Magdalena insistiu com a filha do operario para que tambem se
+retirasse. Foram inuteis todos os seus esforços. Pretextando que tinha
+de ficar com seu pae, Martha acompanhou-as até á carruagem e voltando
+depois para o terceiro andar, tornou a encostar-se áquella janella onde
+a encontrámos no principio d'este capitulo.
+
+Deixemos a infeliz criança enchugando em silencio as suas primeiras
+lagrimas, e dirijamo-nos ao hotel Bragança.
+
+
+
+
+XX
+
+
+São nove horas da noite. D. Maria Egypciaca, de pé, encostada a um
+bufete, aguarda com palpitante anciedade a volta de seu marido.
+
+Olympia, agitando-se impacientemente pelo salão, contempla de vez em
+quando o mostrador de uma pendula, como implorando aos ponteiros que bem
+depressa lhe marquem a hora da ceia!
+
+Magdalena, reclinada ao parapeito da varanda, fita o astro da noite,
+que, reflectindo-se sobre as aguas do Tejo as cria de um brilho triste e
+melancholico.
+
+--Não te demores ahi á janella, disse D. Maria Egypciaca, voltando-se
+para sua filha. A noite, como vês, começa a arrefecer, e os tempos não
+estão para brincadeiras.
+
+--Não receíe, minha mãe, respondeu Magdalena. Sinto-me aqui tão bem.
+
+--Faze o que quizeres.
+
+--Em todo o caso, se minha mãe está com susto, eu retiro-me, disse
+Magdalena saindo da janella.
+
+--Sabes que já me vae dando algum cuidado esta demora de teu pae. São
+estas horas e elle sem apparecer.
+
+--E é verdade, acudiu rapidamente a filha mais nova. São perto de nove e
+meia. Provavelmente jantou em casa do visconde e não se lembra que o
+esperamos para ceiar.
+
+--Decididamente não pensas n'outra coisa senão em comer, murmurou
+Magdalena sorrindo-se para a irmã. Não sabes que a dieta é o melhor
+preservativo.
+
+--Pois continuem as senhoras com a sua dieta que eu, pela minha parte,
+irei comendo o que me aprouver, respondeu Olympia.
+
+Deram as nove e tres quartos e Tristão sem apparecer.
+
+--Se teu pae se demora mais dez minutos, vou ao hospital, disse D. Maria
+Egypciaca.
+
+--Se o criado se demora mais cinco minutos, vou ao hospital ver se me
+dão alguma coisa de comer, tartamudeou Olympia com visivel inquietação!
+
+Ao terminar estas palavras abriu-se a porta e entrou Tristão acompanhado
+pelo visconde.
+
+--Não me tornes a apparecer tão tarde, disse D. Maria Egypciaca
+voltando-se para o marido. Não sabes os cuidados em que temos estado,
+tanto, eu como as meninas, ajuntou ella, beijando a fronte de seu esposo
+e cumprimentando ao mesmo tempo o visconde.
+
+--Desde que sairam do hospital, não podem suppôr o trabalho que tivemos
+se não fôra Martha...
+
+--Parece uma santa rapariga, disse D. Maria Egypciaca voltando-se para o
+visconde.
+
+--Tal pae, tal filha, minha senhora, respondeu o visconde.
+
+Magdalena córou ligeiramente ao ouvir pronunciar o nome de Martha?
+
+As suspeitas da infeliz, não eram totalmente despidas de fundamento.
+Magdalena vira por duas vezes Manuel de Mendonça quando elle fôra
+visitar o operario. O olhar nobre e varonil do commandante, as suas
+maneiras altivas e ao mesmo tempo insinuantes, tudo concorreu para que
+se tornasse sympathico. Manuel não o havia notado ou, pelo menos fingiu
+ignoral-o.
+
+Orgulhosa em demasia, Magdalena jámais teria descido a declarar-se-lhe.
+Além d'isso, o seu espirito observador fizera-lhe notar que a filha do
+operario não era totalmente indifferente a Manuel de Mendonça. Quanto ao
+que se passava no coração de Martha, era um problema difficil de
+resolver.
+
+Uma tarde em que Magdalena deitava para o Tejo o seu magnifico
+telescopio, viu um escaler com quatro remadores, e um individuo sentado
+á prôa. Reconheceu n'esse homem o mysterioso personagem que lhe
+apparecêra no quarto de Jeronymo! O barco seguia Tejo abaixo. Assestando
+o oculo, seguiu o em todos os movimentos. Por ultimo, abordou a uma
+embarcação que estava fundeada em frente da rocha do Conde de Obidos.
+Manuel saía do escaler e subia para bordo.
+
+Desde essa tarde, Magdalena não perdia ensejo de olhar para aquella
+pequena embarcação, e quando por ventura sabia que Manuel de Mendonça
+estava no quarto do operario, buscava sempre esse momento para o ir ver.
+
+--É de suppôr que ainda não tenha ceiado, meu pae, disse Olympia. A ceia
+deve estar prompta, acho rasoavel que vamos comer alguma coisa.
+
+--Quem havia de ser a primeira a lembrar-se da ceia, respondeu Tristão,
+passando o braço pela cintura de sua filha, e convidando o visconde a
+sair da sala.
+
+Na mesa, esplendidamente adornada pela baixella que Tristão havia
+comprado, sobresaíam as tres netas de Apollo, com que o visconde havia
+presenteado o seu amigo.
+
+[Ilustração:--Vocemecê anda sobre as aguas do mar?... (_pag. 165_)]
+
+--Eis a alegria da meza, disse Tristão voltando-se para o visconde e
+apontando ao mesmo tempo para o magnifico centro.
+
+--O que lhe peço, replicou o visconde, é que me não esteja todos os dias
+envergonhando com esse objecto, que se algum valor teve para mim, foi o
+de agradar a vossa excellencia.
+
+--Não me cançarei de o gabar, continuou Tristão, offerecendo um logar ao
+visconde entre sua esposa e Magdalena.
+
+--Tenho vindo todo caminho a dizer a seu esposo, que deve acceitar o
+titulo que brevemente lhe vae ser offerecido, disse o visconde
+voltando-se para D. Maria Egypciaca. Já tres ou quatro pessoas me
+disseram que el-rei o senhor D. Pedro V, encantado pelos seus serviços,
+tenciona agracial o com um titulo condigno ao seu merito. Sabe o que me
+respondeu? que não queria acceitar coisa alguma; que para recompensa,
+bastava-lhe o prazer que experimentava em ser util á humanidade. Isto á
+luz da philosophia é uma grande verdade, mas para o mundo acho uma
+loucura!
+
+--Sou quasi da opinião de meu marido. Basta que se chame Tristão de
+Almeida. De seus paes herdou esse nome sem a mais pequena macula, é
+razoavel o seu desejo em o querer conservar até ao ultimo momento da
+vida.
+
+--São vossas excellencias da opinião de sua mãe? perguntou o visconde
+dirigindo-se ás filhas de Tristão.
+
+--Pela minha parte é-me totalmente indifferente, respondeu Magdalena.
+
+--E vossa excellencia... accrescentou o visconde voltando-se para
+Olympia.
+
+--Sou da opinião de todos, retrucou Olympia, mastigando o setimo
+croquette.
+
+--Se vossa excellencia resolvesse seu esposo a acceitar o titulo de
+conde, compromettia-me a fazer lavrar a carta regia em menos de um mez.
+
+Ao ouvir pronunciar o titulo de conde, os olhos de Tristão brilharam com
+uma alegria selvagem. Teria dado muito para ser visconde, mas o que elle
+nunca poderia suppôr, era que obtivesse o titulo de conde!
+
+O visconde comprehendeu-o immediatamente.
+
+«Temos homem! pensou elle. O ensejo é favoravel; ha de ser hoje mesmo!
+Está proximo o dia vinte. Se até esse praso não levanto dinheiro, a
+ruina é certa! Vão salvar-me as tres graças e o titulo de conde.»
+
+A ceia correu animadissima! D. Maria Egypciaca, julgando-se condessa,
+pensava de ante-mão na gloria que esse titulo lhe ia proporcionar.
+Desentranhando do amago do seu bestunto todos os nomes de terras mais
+harmoniosos que tinha ouvido, escolhia de entre esses o que mais
+euphonico lhe parecia.
+
+Tristão, apezar de toda a sua serenidade, olhava ora para a mulher ora
+para as filhas, como que desejando que a conversação continuasse sobre o
+mesmo assumpto.
+
+Olympia continuava a comer desafrontadamente, sem cuidar na gloria que
+se lhe preparava!
+
+Uma pessoa apenas parecia indifferente ao titulo e á ceia, era
+Magdalena.
+
+A pobre sonhava a felicidade entre o mar e o céu! A sua ventura estava
+n'aquella barca, para onde ella ao cair da tarde extendia seus olhares
+entristecidos pelo labutar de uma eterna recordação.
+
+ * * * * *
+
+Quem d'alli a duas horas tivesse entrado na sala occupada por Tristão,
+teria visto o seguinte: D. Maria Egypciaca em profunda meditação,
+folheando um livro que mandára comprar, cujo titulo era _Resenha das
+Familias de Portugal_.
+
+Olympia reclinada n'um sophá fazendo o chylo, e resonando profundamente.
+
+Magdalena encostada á janella contemplando as estrellas que se
+reflectiam sobre as aguas do Tejo.
+
+E quem, movido de imperdoavel curiosidade, tivesse seguido o visconde e
+Tristão de Almeida até ao patamar da escada, teria ouvido este ultimo
+dizer em voz baixa ao visconde:
+
+--Sendo tres horas da tarde, poderá ir receber os trinta contos de réis
+a casa de Vaz Mendes, e se por ventura se vir n'algum outro apuro, peço
+lhe encarecidamente que se lembre de mim.
+
+--Ha de ser com uma condição, respondia lhe o visconde.
+
+--Qual?
+
+--Acceitar o titulo de conde.
+
+--Acceito.
+
+
+
+
+XXI
+
+
+No dia seguinte áquelle em que praticâmos a indiscrição de fazer com que
+o leitor tambem escutasse as ultimas palavras trocadas entre Tristão de
+Almeida e o visconde de Coruche, achava se este, antes do meio dia,
+assentado á secretaria do seu escriptorio, chamando todos os criados, e
+ordenando a cada um que lhe apresentasse as suas contas.
+
+Os moços estavam como que assombrados! Nenhum podia acreditar que elle
+estivesse habilitado a falar d'aquelle modo. Todos sabiam o estado da
+sua casa, e a unica esperança que lhes restava, eram as promessas de um
+agiota a quem tencionavam vender as dividas.
+
+--Aquillo foi obra de jogo, dizia o cocheiro, refinado velhaco, a quem o
+visconde havia arrancado á miseria.
+
+--Ora, saude! acudiu o trintanario, quem caiu d'ahi abaixo! Quem lhe
+havia de dar dinheiro para fazer jogo? Ainda não ha muitos dias que elle
+perdeu cincoenta moedas, e, a respeito de pagal-as, _xó rôlla_.
+
+--Dê-me elle o que me deve, o mais tanto se me dá como se me deu! Venha
+o _baguinho_, e tanto m'importa que fosse ganho ao jogo, como achado,
+como roubado!
+
+--O mesmo digo eu, mestre Domingos, interrompeu o criado de quarto.
+Tomára eu sempre que elle estivesse muito endinheirado. Ha lá melhor
+patrão! Já o viram olhar para alguma conta? Mais ainda; quando lhe
+apresentavamos os roes, e que elle tinha dinheiro na gaveta da
+secretaria preta, quantas vezes me dizia: Põe lá a conta e tira o
+dinheiro. Patrões assim, agarral-os é que custa.
+
+--Pois sim, tudo isso é uma grande verdade, mas, o que é certo, é que
+está aqui está sem vintem, disse judiciosamente o cosinheiro.
+
+--Isso é lá com elle, mas quem te diz a ti que esse individuo a quem deu
+os bonecos de prata...
+
+--O quê?
+
+--Lhe tenha emprestado algum dinheiro.
+
+--Anda cá dinheiro, que te quero ver. Tambem tu vives de caretas? Lá que
+elle tenha querido encostar o homem, não me admira, mas que o brazileiro
+caisse ao tiro... essa é que não pega.
+
+--Que elle está muito contente, é que não ha duvida.
+
+--Já tem o _bago_ na mão, hein? Ora adeus? Se o tivesse, a estas horas
+ninguem o aturava.
+
+--Não sei falar n'essas coisas. Venham os soberanos e o mais tanto se me
+dá que a agua corra para baixo como para cima!
+
+--O que parece impossivel é que vossês estejam aqui n'este conluio,
+murmurando de um senhor que os trata como sua excellencia, disse um
+velho de perto de setenta annos que acabava de entrar. Aqui estou eu, a
+quem elle deve mais do que a vossês todos juntos, e ainda não abri bico
+contra elle.
+
+--E o que tem vossemecê com o que nós estavamos falando? disse o
+cocheiro approximando-se do ancião.
+
+--Se lhe parece, bata-me, tartamudeou o velho, encostando-se serenamente
+a um aparador. Se o sr. visconde souber o que se passou, podem ter a
+certeza que vae tudo para o meio da rua.
+
+--E quem lh'o _havera_ de dizer? acudiu um moço de cavallariça.
+
+--Eu! Não serei capaz de lhe contar tudo, _tim tim, por tim tim_?
+
+--Eu perca a minha liberdade, se vossemecê tornasse a comer mais pão.
+
+--Pensa talvez que me assusta com as suas fadistices? Meu amigo, tenho
+perto de setenta annos, mas, frangãos assim, para os depennar basta-me a
+mão esquerda.
+
+--Está bom, está bom! Leva de rumor! acudiu o cosinheiro. Quem quizer
+fazer _banzê_, vá para o meio do pateo, que não é este o logar para dize
+tu direi eu. E demais aquelle senhor tem toda a razão, ajuntou elle
+olhando para o velho. É o mordomo do sr. visconde, conheceu-o de criança
+e não gosta de ver o seu amo offendido. Nada mais natural do que tomar
+as palhinhas por elle.
+
+--Entre vossemecê tambem, se lhe parece, ajuntou o cocheiro, tomando o
+partido do moço da cavallariça.
+
+--Olhe, meu amigo, disse o cosinheiro, dirigindo-se ao cocheiro, commigo
+não faz vossê vasa. Cá por mim, não lhe digo quantos annos tenho, mas se
+me faz chegar a mostrada ao nariz, desabo-lhe d'aqui com esta mão de
+vacca que fica sem saber da cara por tres dias.
+
+N'este comenos ouviu-se a campainha do escriptorio. Era o visconde que
+mandava chamar o mordomo.
+
+--Vossa excellencia mandou-me chamar? disse o mordomo ao entrar no
+escriptorio.
+
+--Mandei, respondeu o visconde. Dei ordem a todos os criados para que
+apresentassem as suas contas. Toma-as a cada de um de per si; bem sabes
+que não me chama Deus para esses caminhos. É preciso tambem tomar conta
+dos credores mais teimosos para se lhes dar alguma coisa por conta.
+Comprehendes?
+
+--Perfeitamente.
+
+--Lembra-te de gratificares os criados, pobres diabos! Não te parece?
+
+--Eu dava lhes, mas era com um pau, sr. visconde. Não ha maior cafila do
+que são os criados d'este tempo.
+
+--Porque dizes tu isso?
+
+--Tenho os meus motivos. Isso fica para mais tarde. Não imagina o prazer
+que terei se vossa excellencia se pozer em dia com toda esta gente.
+
+--Bem, podes retirar-te.
+
+D'alli a uma hora, dirigia-se o visconde para o escriptorio de Vaz
+Mendes onde Tristão de Almeida havia mandado ordem pela manhã para que
+entregasse trinta contos de réis ao visconde de Coruche.
+
+ * * * * *
+
+ * * * * *
+
+--E para que é todo este dinheiro, sr. visconde? perguntou-lhe o
+banqueiro, lendo-se-lhe nos olhos a inveja e a cobiça. É para algum
+outro hospital aonde os meus serviços estão dispensados?
+
+--É para a infancia desvalida, respondeu o visconde, mettendo
+n'algibeira--sem os contar--os maços de notas que recebêra da mão de Vaz
+Mendes.
+
+--Repare vossa excellencia que não contou esse dinheiro, ponderou-lhe o
+usurario.
+
+--Nunca contei dinheiro; para esse fim lá tenho em casa um criado que
+não faz outra coisa, respondeu altivamente o visconde de Coruche.
+
+Pondo insolentemente o chapéu, o fidalgo cortejou o banqueiro e
+retirou-se para casa.
+
+--Salvo! exclamou o visconde, extendendo se commodamente n'um sophá.
+Falta agora o titulo, ajuntou elle olhando ao mesmo tempo para um
+magnifico charuto havano, cujo fumo subindo em espiral inundou os
+aposentos de um perfume doce e innebriante!
+
+
+
+
+XXII
+
+
+«Fortes nescios, que idéa formam de mim! O visconde imagina que sou
+algum minhoto, que foi d'aqui para o Rio de Janeiro varrer o escriptorio
+do patrão, e que por uma fórma ou outra, adquiri a riqueza que hoje
+possuo.
+
+«Se elle soubesse que fôra o commendador Felix Justino de Araujo quem
+lhe havia emprestado os trinta contos de réis.
+
+«Como a sorte me favoreceu em tudo! continuava elle, passeando ao mesmo
+tempo pelo seu gabinete. Emprestei-lhe trinta contos, e é possivel que
+nunca mais os torne a ver, mas, quanto vale aquelle magnifico centro de
+Benevenuto? Quarenta contos talvez. E dizem que um filho da Grã-Bretanha
+veiu expressamente a Lisboa para lh'o comprar, e se retirou deixando-o
+aqui. O archeologo tinha bebido muito n'esse dia!
+
+«Não lhe descobriria elle a assignatura? O visconde deve estar
+satisfeito de me ter logrado! Como elle dirá de si para si: presenteei-o
+com um objecto que vale mil libras, acenei-lhe com um titulo de conde e
+o tezo caiu no laço!
+
+«Eu poderia prescindir perfeitamente d'esse titulo. Para que quero eu um
+titulo? só se fôr, para satisfazer os caprichos da Maria. O que já me
+vae aborrecendo alguma coisa é o tal hospicio. Ainda que nunca houve
+molestia que sympathizasse com a minha pessoa, póde apparecer alguma, e
+ter o mau senso de me levar d'esta para melhor. Parece-me que vou dar
+parte de doente.
+
+«Agora me recordo, ajuntou elle. Quem demonio seria aquella mulher que
+veiu hoje procurar o Jeronymo! Pareceu-me reconhecer as feições. Se não
+tivesse a certeza que D. Marianna de Mendonça tinha morrido doida no
+hospital de S. José, havia de dizer que era essa velha. Que similhança,
+meu Deus! E se fosse ella? Se ainda vivesse? Ora adeus! Se eu fôr a
+devolver tudo quanto d'aqui levei... Nada... os tempos não estão para
+graças. Se Domingos de Andrade não houvesse tido juizo em Pernambuco,
+que teria sido do commendador Felix Justino de Araujo, que passou a ser
+Tristão de Almeida emquanto se não chamar o conde de... O conde de quê?
+do que elles quizerem ou do que minha mulher escolher.
+
+«Agora por isso, não tenho mais remedio senão comprar alguma propriedade
+de grande valor. Vou tractar d'isso para a semana que vem. Encarrego o
+visconde de me arranjar um palacio em Lisboa e uma quinta nos suburbios.
+Está decidido, sympathizei com aquelle estroina. Parece-me que o estou a
+ver na casa branca da rua do Arco de Bandeira! Era um verdadeiro
+demonio, aquelle visconde! Ainda não vi homem mais intrepido ao jogo!
+Agora por jogo, não tardará muito que principiem a fazer todas as
+diligencias para me _apanharem_. Vêem bem!
+
+N'este momento abriu se a porta, e entrou um criado annunciando o
+visconde de Coruche.
+
+--Que entre, que entre o meu caro visconde, disse Tristão.
+
+O fidalgo não se fez demorar.
+
+--Quanto folgo em tel-o encontrado, disse o visconde extendendo a mão
+para o seu amigo. Estive hontem no gremio, e durante a noite não se
+falou senão em vossa excellencia. O conselheiro Poderosa, que appareceu
+lá á saida do theatro, disse-me confidencialmente que seria o
+encarregado por sua magestade de lhe perguntar que nome escolhia para o
+titulo de conde, que brevemente lhe ia ser offerecido. Estive hontem
+mesmo para lh'o vir participar.
+
+--Dá-me sempre um grande prazer a sua companhia mas para um caso
+d'esses, seria desnecessario.
+
+--Vejo pela sua indifferença que ainda insiste, apezar da promessa, em
+não acceitar o titulo! Deixe-se d'isso, meu amigo, um titulo é sempre
+util; e muito util.
+
+--Façam os meus amigos tudo quanto lhes aprouver; sujeitar-me-hei ao que
+fôr do seu agrado.
+
+--Não vê o meu amigo, que esse titulo que lhe vae ser concedido, não é
+favor mas sim uma retribuição honorifica pelo muito do que este paiz lhe
+é devedor? Diga-me uma coisa, teria vossa excellencia valor de recusar
+um habito que o general lhe collocasse ao peito, se vossa excellencia se
+tivesse distinguido n'uma batalha? Creio que não. O mesmo se dá n'este
+caso. Não está vossa excellencia arriscando a sua vida e a de toda a sua
+familia? Parece-lhe immerecida essa recompensa? Pode alguem lançar-lhe
+em rosto a injustiça da mercê? Quem teria o descaro de lhe contestar
+esse direito? Ninguem, absolutamente ninguem!
+
+--Isso lá é verdade. Que eu tenho arriscado a minha vida e de toda a
+minha familia, não merece duvida alguma.
+
+--Então, meu amigo, attendendo a todas essas circumstancias, não falemos
+mais n'isso, e deixe correr o negocio.
+
+--Vá feito, vá feito! gargalhou Tristão de Almeida.
+
+--Tem hoje muito que fazer, sr. Tristão?
+
+--O que sabe: ir ao hospital.
+
+--E depois?
+
+--Depois mais nada.
+
+--Dá-me a honra de ir jantar a minha casa?
+
+--Com muito gosto a receberei.
+
+--Vão lá uns amigos a quem desejo apresental-o.
+
+--Fique certo.
+
+--Então ás cinco?
+
+--Conte commigo.
+
+--Peço-lhe encarecidamente que não falte, accrescentou o visconde n'um
+cerrado _shake-hands_, e saindo do gabinete.
+
+«Trata-se de me _apanharem_ ao jogo, pensou Tristão. Veremos quem fica
+logrado, accrescentou elle extendendo-se sobre um sophá.»
+
+
+
+
+XXIII
+
+
+Emquanto o visconde de Coruche ordena aos seus criados que lhe preparem
+um lauto jantar, dirijamo-nos á Rua do Meio, a casa de Jeronymo.
+
+São tres horas da tarde. O operario, á mesa do jantar, entre Marianna e
+sua mulher, olha de vez em quando para a vidraça, como para ver se ainda
+continúa a chuva.
+
+Na face pallida de Balbina, desenha-se-lhe o soffrimento. Marianna
+parece acompanhal a nas suas tristes meditações.
+
+--Vossês não me dirão o que têem? murmurou Jeronymo. Quando a nossa vida
+se apresenta debaixo dos melhores auspicios, é que principiam a
+entristecer? O mesmo notei em Martha. Antigamente, era sempre alegre e
+jovial, agora, custa os dias da vida, primeiro que se lhe arranque um ar
+de riso. Valha-nos Deus! Não ha felicidade completa.
+
+--Isso é uma desconfiança tua, respondeu Balbina.
+
+--A mim não me enganam vossês, replicou Jeronymo, levando aos labios um
+copo de vinho. Pela minha parte, ando cá como o outro que diz, meio
+desconfiado de uma coisa. Permitta Deus que me engane, ajuntou elle,
+voltando-se para a tia Marianna, que dirigira um olhar significativo á
+esposa do operario.
+
+--E de que estás desconfiado, Jeronymo? accudiu Balbina, voltando se
+para seu marido.
+
+--Se eu não desabafasse com vossês, que são a minha familia, com quem
+havia de fazel o? Creio que não era com a tia Monica ou outras
+quejandas! Lá vae. Ando desconfiado, como ha pouco lhes dizia que a
+nossa Martha está assim meia apaixonada pelo sr. Manuel. Isto foi uma
+pancada que me deu o coração; talvez que não passe de um máu juizo. Mas
+o que é certo, é que nunca mais lhe tenho visto brilhar os olhos de
+alegria, senão duas ou tres vezes que esteve defronte d'elle. Lá isso é
+que ninguem me póde negar.
+
+--Pois uma vez que foste tu o primeiro a falar sobre isso, pergunta
+agora á tia Marianna o que estavamos dizendo quando tu entraste,
+respondeu Balbina, olhando ao mesmo tempo para a sua amiga.
+
+--Ha mais de oito dias que andamos a pensar n'isso, disse a tia Marianna
+voltando se para o operario.
+
+--Valha nos Deus, Balbina! E como havemos de impedil-o?
+
+--Não sei, respondeu Balbina, profundamente entristecida. Sabes o que me
+disse a tia Marianna? accrescentou ella. Que o sr. Manuel era por força
+um homem muito de bem; bastava ver a maneira como elle se portou com a
+nossa filha.
+
+--Tudo isso é uma grande verdade, Balbina, mas, em qualquer dos casos é
+sempre uma infelicidade. O coração de Martha é... nem eu mesmo sei a que
+o compare. É uma especie d'estas fasquias que a mais pequena aragem as
+dobra, mas se lá vem um tufão... ficam logo quebradas pelo meio. Além
+d'isso, ella bem conhece a distancia que a separa do sr. Manuel, e é
+capaz como o outro que diz de afogar em si tudo quanto está soffrendo.
+
+--Sou da sua opinião, sr. Jeronymo; Martha é um anjo, e será capaz de
+morrer, confiando apenas a Deus o segredo que a assassina!
+
+--Eu só o que desejava saber era a maneira de nos encaminharmos em tudo
+isto, continuou Jeronymo levantando-se da mesa.
+
+--A sr.ª Marianna que nos aconselhe, que é mais velha e tem mais mundo
+do que qualquer de nós, acudiu Balbina dirigindo-se á sua amiga e
+companheira.
+
+--Que lhes poderei eu aconselhar, meus bons amigos? respondeu a tia
+Marianna. Se esse individuo é um homem de bem como eu supponho, e se
+Martha lhe não foi indifferente, é de crêr que mais dia menos dia o
+possamos tornar a ver, e, n'esse caso estarei muito prompta a falar-lhe.
+Não lhe vejo outro remedio, sr. Jeronymo. Prouvera a Deus que fosse hoje
+o dia. Quanto ao que vossemecê diz, que uma grande distancia os separa,
+não me parece. Não póde elle ser como Martha, um filho do povo? E sendo
+assim, não vejo desegualdade de pessoas.
+
+--E se o não fôr? perguntou Jeronymo. Se fôr um fidalgo, um ricasso...
+
+--Torno a repetir-lhe, respondeu Marianna, homem de bem é que eu tenho a
+certeza que elle é. E a prova foi não ter tornado a apparecer.
+
+--Isso lá é que é a pura da verdade, acudiu Balbina. Tinha trezentos
+meios para a ter visto.
+
+N'este momento, parou um trem á porta do operario. Eram as filhas de
+Tristão que vinham trazer a casa a sua amiga.
+
+--Forte delambida! dizia a tia Monica voltando-se para uma visinha,
+quando Martha se apeava do trem.
+
+--Deixe estar, respondia-lhe a visinha, mais dia menos dia, verá aonde
+aquillo vae parar.
+
+--Ainda bem que já lhe fiz a cama, quando o outro dia me vieram pedir
+informações a seu respeito.
+
+--Não sabia d'isso, visinha, não me tinha dito... Quem foi?
+
+--Era um homem que me pareceu assim do trato do mar.
+
+--Desde que se meteu com as fidalgas já não póde andar se não de trem.
+Saffa, demonio! E não tem medo das más linguas....
+
+--Nem da colera do Senhor, tia Monica, respondia-lhe a visinha,
+mettendo-se para dentro de casa como se os seus olhos invejosos não
+podessem resistir ao olhar candido e celeste de Martha, o anjo dos
+tristes.
+
+Despedindo-se das filhas de Tristão, Martha entrou em sua casa.
+
+Vinha excessivamente pallida. Uma breve mancha azulada, partindo das
+palpebras inferiores até ás proeminencias malares, tornavam-lhe mais
+scismadores os seus olhos esplendidamente bellos! Dir-se-hia que se
+tinha levantado de uma grande enfermidade. O busto, ligeiramente
+inclinado, dava-lhe aspecto de profunda melancolia.
+
+A Jeronymo arrasaram-se-lhe os olhos de lagrimas.
+
+--Que tem, meu pae? perguntou Martha, approximando-se e beijando-o
+ternamente na fronte.
+
+--Que tenho, filha?! Que hei de ter! Dia a dia te vejo mais triste, e
+ainda perguntas o que tenho? Saudades da tua alegria, dos teus olhos;
+onde estão as rosas d'essas faces, que eram a inveja das tuas
+companheiras de collegio? Onde estão emfim os teus sorrisos, que eram a
+minha ventura? Pensas que só eu tenho notado a tua tristeza, ha oito
+dias a esta parte? Enganas-te. Já tua mãe a percebeu e a tia Marianna, e
+todos, até o teu cão! para quem já não tens um só carinho. Dize-me o que
+sentes, filha, e se eu, ou tua mãe n'alguma coisa te podemos valer, sê
+franca, Martha. Quem melhor do que teus paes poderão saber os teus
+segredos? Martha, lembra-te que és a unica alegria que eu e tua pobre
+mãe temos n'esta vida. Se és boa, como te creio e como todos te
+consideram, abre-me o teu coração, não me occultes coisa alguma. Vem,
+filha; deposita no meu peito todos os segredos que te obrigam a olhar
+para a terra para onde eu não quero que te deixes ir.
+
+Pobre Jeronymo! A dôr tornara-o eloquente! Balbina e a tia Marianna
+tinham se afastado para occultarem as lagrimas.
+
+Apenas Martha se conservava serena como a estatua da resignação.
+
+--Que me respondes, Martha? continuava o operario.
+
+--Que lhe posso eu responder meu pae.
+
+--Senta-te aqui nos meus joelhos, accrescentou Jeronymo, apertando a
+cintura da filha e approximando-a para si. Vou contar te uma historia.
+
+«Um dia, um pobre operario, que tinha por unica familia sua mulher e sua
+filha, ao sair do trabalho foi atropellado por um trem. Levaram-n'o em
+seguida para uma grande hospedaria aonde foi caridosamente tratado, sem
+lhe faltar coisa alguma a não ser a sua familia que ignorava aonde elle
+estivesse. As horas passavam, passavam, e elle sem apparecer. Então a
+filha, pondo o capote aos hombros, saiu de casa, procurando o pae como
+uma louca.
+
+«Pessoa alguma lhe dava relação d'elle. A triste desanimára!
+
+«Finalmente encontrou um individuo moço, bello, virtuoso. Esse
+prometteu-lhe procurar seu pae! A infeliz respirou! D'ahi a duas horas o
+desconhecido dizia-lhe aonde elle estava.
+
+«Grata a esta primeira prova de dedicação, a filha do operario
+principiou a amal-o em silencio!
+
+--Não me fale n'isso, meu pae, interrompeu Martha, tentando
+desembaraçar-se dos braços de Jeronymo.
+
+«Depois, proseguiu o operario prendendo-a cada vez mais ao coração, essa
+criança cheia de ternura, continuou a amar esse homem, sem confiar a
+pessoa alguma o afecto que a consumia, e hoje, Martha, hoje... está como
+tu, pallida, triste, adoentada, e seu pae como um louco por a vêr
+assim.»
+
+--Ahi tens a historia, ajuntou elle largando a dos braços e fitando a
+com os olhos cheios de lagrimas.
+
+Martha não proferiu uma palavra.
+
+--Não me illudas, filha, esse homem é amado por ti.
+
+--Esse homem, balbuciou Martha, é amado pela filha do nosso protector!
+Hoje mesmo a encontrei olhando para a sua galera, ajuntou ella, caindo
+desanimada nos braços de seu pae.
+
+
+
+
+XXIV
+
+
+--Aposto a minha cabeça em como o visconde ha-de ser tão nescio que se
+não lembre de arranjar um montesinho antes da ceia.
+
+--Se o não fizer alguns motivos tem para isso. Por tolo, não é, decerto.
+
+--Tambem, se queres que te diga a verdade, não lhe encontro grande
+esperteza. Já lá vão duas heranças importantissimas, e ambas tiveram o
+mesmo fim. Se isto é ser esperto, está o mundo cheio de espertalhões!
+
+--Sabes o que eu chamo ser esperto, é saber lavar a sua roupa em
+familia, como diz o dictado. De quantas lagrimas não lhe tem sido
+testemunha o seu travesseiro? Vê tu, se já alguem deixou de lhe
+encontrar o mesmo sorriso? Dizem todos: o visconde está arruinado, é
+impossivel que possa aguentar por mais tempo aquella opulencia, em menos
+de um anno hão-de vel-o miseravel, porém desde que morreu o conde, não
+abandonou o seu palacio, ainda não despediu um criado, ainda não vendeu
+um cavallo, ainda não deixou de dar almoços, jantares e ceias! Está
+arruinado: tão arruinado que não ha muitos dias deu um presente, que
+valia mil libras. Quem dá um presente de mil libras não póde estar
+pobre.
+
+--Isso leva agua no bico!...
+
+--E que importa? O que não ha duvida, é que pessoa alguma seria capaz de
+fazer o que elle tem feito.
+
+--Eu tambem não lhe contesto o seu cavalheirismo.
+
+--E o que lhe tem custado as mulheres e o jogo? Tomára eu ter o dinheiro
+que lhe ganhei ha uns vinte annos, quando estive associado com um grande
+espertalhão que havia em Lisboa, chamado Felix de Araujo.
+
+--Felix de Araujo? Não me recordo.
+
+--Um vivo demonio, que fez tudo quanto lhe pareceu em Lisboa, acabando
+por ter uma casa commercial.
+
+--Ai, ai, agora me lembro. Por signal que roubou uma senhora, a casa de
+quem ia muitas vezes! A pobresinha foi acabar os seus dias no hospital
+de S. José. Já sei. Era um tratante de marca maior, que fez a desgraça
+de muita gente. Nunca mais se soube d'elle?
+
+--Disseram-me que tinha morrido envenenado na Costa d'Africa. Que a
+terra lhe seja leve, que eu, assim como assim, não tenho razão de queixa
+da sua pessoa; basta lembrar-me que o pouco que sei a elle lh'o devo.
+
+--O pouco que sabe! Se eu soubesse metade...
+
+--Aquillo é que eram mãos! Aquillo é que era dar um _salto_ com limpeza,
+sem que o baralho desse o mais pequeno estallido! E trabalhar com cinco
+dados! e _tirar_ ao pegote!
+
+--É verdade, é verdade! A ultima vez que joguei com elle foi em casa do
+barão. Por tal signal que me roubou quatorze notas de dez moedas á banca
+portugueza.
+
+--Se aquelle homem não tivesse morrido, com a audacia que possuia, ainda
+tinha voltado a Portugal...
+
+--O que estará fazendo o visconde?
+
+--Como não usa de cerimonia para comnosco, provavelmente dá as suas
+ordens para que tudo se faça segundo os seus desejos.
+
+Passava-se este dialogo entre Gil de Carvalho e Bernardo de Paiva.
+
+O primeiro, era um jogador de profissão e refinado velhaco, ao qual
+todas as portas se abriam por um d'esses desleixos imperdoaveis que é
+susceptivel em toda a sociedade de grandes capitaes.
+
+Relacionando-se com os individuos que frequentavam certa sociedade onde
+o jogo era permittido por distracção, Gil de Carvalho introduziu se nos
+principaes salões de Lisboa.
+
+Ninguem sabia a sua procedencia! As suas maneiras quasi sempre
+delicadas, resentiam-se comtudo da primitiva educação!
+
+Gil teria uns sessenta annos. A sua fortuna era um mytho. Uns diziam que
+estava pobre; outros, calculando pelo que havia roubado ao jogo,
+attribuiam lhe riquezas enormes.
+
+Bernardo de Paiva era um homem pouco mais ou menos da edade do seu
+interlocutor. Herdára de seus paes uns vinte ou trinta contos de réis e
+dissipára-os immediatamente em mil loucuras, sendo a principal o jogo,
+que ainda hoje o dominava com poder immenso!
+
+Bernardo descendia em linha recta de uma das mais distinctas familias de
+Olhão. Aparentado com muitos individuos de Lisboa, Bernardo com mais
+algum direito do que Gil de Carvalho, tinha entrada em todas as casas.
+Ao contrario de Gil, a sua physionomia era sympathica e insinuante.
+
+Jantar onde elle estivesse, corria sempre alegre e animado. Além do seu
+vivíssimo _esprit_, tinha outra qualidade que o tornava estimado em
+todos os circulos: não dizia mal de ninguem. A sua bocca era sagrada,
+como judiciosamente affirmava o mordomo do visconde de Coruche.
+
+Quando Gil e Bernardo de Paiva se dirigiram para uma saccada que olhava
+para o pateo, onde se ouviu o rodar de um trem, correu-se um dos
+reposteiros e appareceu o visconde.
+
+--Peço-lhes que me desculpem esta demora, mas não me foi possivel
+evital-a. Adoeceu de repente o meu mordomo, tenho de o substituir.
+
+--Pela minha parte estás desculpado, disse Bernardo de Paiva,
+sorrindo-se para o visconde.
+
+--Repito o mesmo, acudiu Gil.
+
+--Não adivinhas, de quem estamos falando? disse Bernardo dirigindo se ao
+visconde.
+
+--N'aquelle mariola de Felix Justino de Araujo, accrescentou Gil de
+Carvalho.
+
+--Não me recordo respondeu o visconde com modo distrahido.
+
+--Ora essa! exclamou Bernardo. O commendador Araujo que ia á _Casa
+Branca_, do Arco do Bandeira.
+
+--Ah! Já sei, respondeu o visconde.
+
+--Sabes quem eu acho muito parecido com elle, e só agora foi que me
+lembrou...
+
+--Quem?...
+
+--O teu amigo Tristão d'Almeida.
+
+--E é verdade, respondeu o visconde. Bem me parecia a mim que já tinha
+visto n'alguma parte uma physionomia que se lhe assimilhasse.
+
+--É um homem muito sympathico aquelle seu amigo, interrompeu Gil de
+Carvalho.
+
+--Aonde o viu? perguntou o visconde.
+
+--Ha dias, no gremio, aonde me foi apresentado. A proposito, sabe se
+elle joga?
+
+--Duvido, respondeu o visconde. Nem me convinha por modo algum que se
+jogasse em minha casa, accrescentou elle, que tudo havia planeado para
+esse fim.
+
+--E se elle pedisse? perguntou Gil, tentando ainda profundar-lhe o
+pensamento.
+
+--Isso então era differente. O meu dever é tornar-me sempre amavel para
+com as pessoas que me dão a honra da sua companhia.
+
+--Sou da tua opinião, disse Bernardo de Paiva, que lia no mais intimo da
+alma do visconde.
+
+N'este momento ouviram-se duas badaladas na sineta da loja, e d'alli a
+pouco entrou um criado de libré, annunciando Tristão d'Almeida.
+
+ * * * * *
+
+--Venho aqui pura e simplesmente para lhe provar o desejo que tenho de
+estar na sua companhia, disse Tristão, depois de falar ao visconde e aos
+seus amigos. Se não fôra isso teria ficado de cama.
+
+--Mas que teve, meu amigo? perguntou rapidamente o visconde.
+
+--Quanto póde imaginar de mais infernal! Todos os symptomas que
+apresenta a epidemia. Sabe o que fiz? tomei um _grog_ e fui para o
+hospital.
+
+--Que valor! interrompeu o visconde.
+
+--Quando alli cheguei, continuou Tristão, augmentaram-se-me os
+padecimentos. Querem saber os resultados? Vão admirar-se da força da
+minha vontade. Fui receber um doente, que pouco tempo depois me expirou
+nos braços. Aquella rapida transposição da vida para a morte, aquelle
+instante incalculavel que medeia entre o ser e o nada, entre a vontade e
+abstracção, longe de aterrar, robusteceu-me o espirito e, escudado pela
+confiança em um mundo melhor e mais perfeito, reanimou-me a ponto de me
+sentir completamente restabelecido.
+
+--É mais uma prova da sua religião, meu caro amigo, interrompeu Bernardo
+de Paiva. Os que se aterram em presença do moribundo e na observação do
+cadaver, é porque receiam o desconhecido! Os que se baseiam nos
+preconceitos do vulgo, apegando se á vida, e receiando a morte, que,
+segundo as suas crenças, os colloca em contacto com a Divindade, não são
+mais que uns miseraveis, uns vermes que vivem e rastejam para a sua e
+nossa deshonra! A morte, para todo o homem de intelligencia clara e
+illustrada, não é mais que o principio de uma vida infinita.
+
+Espiritos pobres e tacanhos que se lamentam a cada segundo, dizendo que
+lhes peza a vida, empallidecem quando a morte de longe lhes acena com as
+suas azas, brancas para elles que sopezam constantemente a desgraça nas
+suas longas noites de interminavel soffrimento.
+
+Receiam morrer! Elles que deviam tomar a existencia com um eterno
+castigo! Que melhor somno para o desgraçado do que o da morte, dormido
+sob a lousa! Preferem o bulicio da vida á paz do eterno repouso, o
+andrajo ao sudario, a fome á anniquilação!
+
+--Isso é uma grande verdade, mas a maior parte do mundo não pensa como
+vossa excelencia, respondeu Tristão. Duas ou tres vezes tenho visto a
+morte deante de mim, e nunca me atemorizou! Tenho a minha consciencia
+bastante socegada para me apresentar deante de Deus! Não receio o seu
+julgamento. Diziam-me em Buenos-Ayres que era um homem de um valor
+desmedido, emquanto eu não passava de um pobre diabo a quem os peccados
+não perseguiam na existencia, porque nunca os havia procurado. Digo
+procurado, porque o homem, a maior parte das vezes, pecca mais por
+vaidade do que por instincto. Tenho umas theorias, falsas talvez para o
+seculo em que vivemos, mas que apezar de tudo não desprezo. Deus que fez
+o homem á sua similhança, ao lançal-o ao mundo, revestiu-o de bons
+instinctos, porém, a sociedade envenenando-lhe o coração, insinuou-o no
+crime e apresentou-lh'o atravez de um prisma seductor. Então os seus
+olhos fascinaram-se, a vontade esmoreceu-lhe, e o coração propenso
+sempre a ser dominado ao primeiro impulso, extraviou-se da razão e
+lançou-se cego e inexperiente n'esse dedalo artificioso a que a
+humanidade nos arrasta! Satanaz ri-se, mas Deus, que tudo perdôa, espera
+o momento supremo para indultar o peccador e á humanidade que o
+perverteu! Esta é a minha opinião.
+
+--Sabem quem hontem ganhou trezentas e tantas moedas? interrompeu Gil de
+Carvalho voltando-se para o visconde. Aquillo é que foi sorte,
+accrescentou elle, sem notar o espanto que a sua interrupção havia
+produzido nos circumstantes. Fez um circo, depois outro, depois outro, e
+bumba, lambeu tudo quanto havia sobre a banca.
+
+--Mas a que proposito vem isso, sr. Gil de Carvalho? perguntou o
+visconde, emquanto Tristão de Almeida o contemplava com simulado
+espanto.
+
+--Isto veiu a proposito... d'aquillo em que eu estava pensando,
+respondeu Gil de Carvalho tornando a cahir no mesmo estado de profunda
+reflexão.
+
+--Excentricidade do nosso amigo Gil, acudiu Bernardo de Paiva, olhando
+intelligentemente para o visconde.
+
+O magnate conservava-se frio e sereno como um _yankee_, entre os quaes
+largos annos havia habitado.
+
+--Gosta de jogar? perguntou Gil de Carvalho voltando-se para Tristão.
+
+O visconde e Bernardo estremeceram de raiva.
+
+--É uma coisa que ás vezes me diverte, respondeu-lhe Tristão. Não
+admitto o jogo por vicio, mas, assim de vez emquando, depois de um
+jantar ou de uma ceia, encontro-lhe alguma distracção, ainda que as
+poucas vezes que tenho jogado tem sido quasi sempre com uma infelicidade
+extraordinaria! A ultima foi em França, aonde perdi n'uma só noite
+duzentos mil francos. O divertimento foi caro, é verdade, mas
+distrahi-me.
+
+Ao ouvir estas palavras, os olhos de Gil de Carvalho brilharam de
+visivel alegria. Tinha as suas esperanças realizadas!
+
+O visconde nem pestanejou!
+
+Assim estiveram conversando sobre varios assumptos até que appareceram
+todos os individuos que o visconde havia convidado.
+
+Ás seis horas foram para a sala de jantar, cuja mesa brilhantemente
+adornada, revelava a opulencia e bom gosto do dono d'aquella habitação
+maravilhosa. O jantar correu animadissimo! Bernardo de Paiva, como
+sempre, esteve esplendido de graça. Tristão de Almeida com grave
+assombro dos convivas que pela primeira vez o viam e sobre tudo do
+visconde, que o julgava um homem trivial, apresentou-se totalmente
+opposto ao que o suppunham.
+
+«Este homem é um mysterio», pensava o visconde, ao mesmo tempo que
+saudando-o em repetidas libações, fazia as maiores diligencias de o
+toldar.
+
+Inuteis foram porém todos os seus esforços; o convidado bebia por elles
+todos, sem que o mais leve indicio de incommodo lhe transtornasse a
+serenidade da sua imperturbavel physionomia.
+
+Ás nove horas, levantaram-se todos da mesa, e foram para outra sala,
+onde os esperava o café.
+
+Tristão de Almeida, como o leitor deve fazer ideia, conhecia todos os
+individuos que estavam presentes, e melhor do que a elles todos a Gil de
+Carvalho, com quem por mais de uma vez se havia associado.
+
+Ou por calculo ou porque lhe recordassem com saudade as sensações do
+jogo, Tristão propoz ao visconde que se fizesse monte.
+
+--Estão em sua casa, respondeu-lhes o visconde. Eu também não desgosto
+de vez em quando arriscar duas ou tres duzias de libras.
+
+Gil de Carvalho estremeceu de jubilo; Bernardo de Paiva exultou de
+contentamento. Encontrava um meio de adquirir uma ou duas duzias de
+moedas, jogando sempre na _alforreca_.
+
+--Quem ha de fazer o monte? eu não por certo, disse o visconde, foi
+coisa para que nunca tive geito.
+
+--Nem eu tão pouco, acudiu o commendador.
+
+--Visto vossa excellencia ser banqueiro, ajuntou Bernardo de Paiva,
+dirigindo se para Vaz Mendes, o banqueiro de Tristão de Almeida,
+pertence-lhe por direito.
+
+--Que o faça o sr. Gil de Carvalho que está mais acostumado a pegar em
+cartas.
+
+--Resta agora saber se ha cartas em casa. Mas isso pouco importa,
+mando-as alli buscar ao Club, disse o visconde.
+
+--Estranha coincidencia! exclamou Gil de Carvalho, mettendo as mãos no
+bolso do peito da casaca, minha mulher tinha-me pedido hoje que lhe
+levasse dois ou tres baralhos para fazer a paciencia, e ainda aqui
+estão. Podem servir estas.
+
+--Que favoravel acaso! disse Bernardo de Paiva, sorrindo-se
+intelligentemente para o visconde.
+
+«Está a mesma coisa», murmurou Tristão de Almeida, de si para comsigo.
+
+--Vamos fazer uma _vaca_? disse o visconde e em voz baixa olhando para
+o seu hospede, emquanto Gil de Carvalho se approximava d'uma banca para
+melhor contar os baralhos.
+
+--Jogaremos de sociedade, visconde, replicou Tristão de Almeida.
+
+--Seja.
+
+ * * * * *
+
+D'alli a dez minutos, as cem moedas que Gil de Carvalho fizera de monte,
+haviam passado para defronte de Tristão de Almeida, acompanhadas por
+mais do dobro que os outros peritos tinham perdido.
+
+Segundo, terceiro e quarto monte, e o mesmo resultado.
+
+Tristão jogava com uma sorte espantosa! Gil de Carvalho tinha perdido a
+força moral.
+
+--Tem dinheiro? perguntou elle ao visconde.
+
+--Sirva se, disse-lhe Tristão de Almeida empurrando-lhe um maço de
+notas.
+
+O banqueiro acceitou.
+
+Outro monte de cem moedas, e em tres cartadas, todo o dinheiro que
+estava na mão do intrepido jogador havia passado para o banqueiro.
+
+Os olhos de Gil de Carvalho brilharam como uma alegria feroz.
+
+Tristão de Almeida, acendeu tranquillamente um magnifico charuto, e
+sorriu-se para o visconde.
+
+--Era justo que se perdessem algumas paradas, murmurou elle, tirando da
+algibeira do peito uma carteira de chagrin.
+
+--Continua a sociedade, visconde? disse o magnate voltando-se para o seu
+amphitrião.
+
+--Continua, meu amigo.
+
+Gil de Carvalho baralhou as cartas e deu-as a partir a Tristão de
+Almeida.
+
+--Topo tudo no duque, disse este rapidamente, ao sair a segunda carta
+do algor debaixo. Gil voltou as cartas a tremer, e á segunda appareceu
+um duque.
+
+--Vou a casa buscar dinheiro, não tenho fé alguma em jogar com capitaes
+emprestados, disse Gil de Carvalho, collocando o baralho sobre a banca,
+e saindo sem quasi dar tempo a Tristão de Almeida e ao visconde de lhe
+fazerem os seus offerecimentos.
+
+Tristão havia ganho tres contos e seiscentos mil réis.
+
+--Que lhe parece? disse elle voltando-se para o visconde, damos hoje a
+desforra ao seu amigo Gil de Carvalho, ou guardamos isso para outro dia?
+
+--Ficará para outro dia. Convinha me muito ir ao segundo acto do
+Trovador.
+
+ * * * * *
+
+Ás onze horas os convidados retiravam se, e Tristão de Almeida na
+carruagem do visconde seguía com elle para o hotel.
+
+Mais tarde parava um trem á porta do visconde. Era Gil de Carvalho que
+fôra a casa buscar mais dinheiro, e uns certos baralhos em que as cartas
+se pegavam umas ás outras. Descendo rapidamente, entrou no patim.
+
+--Os senhores já lá vão para o theatro, disse-lhe o guarda-portão.
+
+Gil cuidou morrer de desespero!
+
+
+
+
+XXV
+
+
+Alguns esclarecimentos ácerca de Manuel de Mendonça, de quem vossa
+excellencia e a pallida Martha, ha tempos a esta parte, nada tem sabido.
+
+Quando verdadeiramente fascinado pela formosura da filha do operario,
+saiu do hotel Bragança--vespera da retirada de Jeronymo para sua casa--o
+maritimo havia-lhes promettido de brevemente os visitar; porém,
+reflectindo mais pausadamente sobre esse gravissimo assumpto, quiz ainda
+forcejar com o coração, abafando-lhe quanto podesse a chamma que o
+consumia!
+
+Tudo foi inutil! Ao cabo de dez dias, a pobre alma, cada vez mais preza
+á recordação de Martha, ia a tal ponto identificando-se com ella, que
+Manuel resolveu de si para si, ou sahir immediatamente de Portugal ou
+pedir a filha de Jeronymo.
+
+No dia seguinte ao romper da manhã já elle tinha procurado Mascatudo.
+Fechando-se ambos na camara, participára-lhe a sua resolução.
+
+O marinheiro, cujo unico desejo era a felicidade de Manuel, abraçou de
+boa mente a sua determinação: elle, que sobretudo não comprehendia a
+verdadeira ventura sem os verdadeiros regozijos da familia!
+
+--Hoje mesmo, disse-lhe Manuel de Mendonça, irás informar-te pela
+visinhança sobre a conducta de Martha, e se fôr como eu supponho, e
+espero em Deus que seja, ámanhã mesmo irei pedil-a a seu pae.
+
+«Que me importa que seja uma triste filha do povo, se o seu
+comportamento for virtuoso, pensava Manuel de Mendonça, encostando-se á
+amurada da sua galera. Quem sou eu? continuava elle, um homem sem
+familia, sem parentes! Que me importam os brazões dos meus antepassados!
+Em que concorreram elles para esta pequena posição que hoje tenho na
+sociedade? Quanto sou, devo-o a mim, e só a mim! Está decidido, em oito
+dias, Martha será minha mulher.»
+
+D'alli a meia hora, Mascatudo com o seu fato domingueiro, approximou-se
+de Mendonça.
+
+--Á ordem, meu commandante.
+
+--Estás prompto?
+
+--Prompto.
+
+--Sabes o serviço que me vaes fazer?
+
+--Ora essa!
+
+--Serás discreto, reservado?
+
+--Como uma carranca de prôa.
+
+--Bem estamos. Sabes aonde ella mora?
+
+--Rua do Meio, á Lapa.
+
+--Numero?
+
+--Cento e doze.
+
+--Tal e qual. Chegas assim como quem não quer a coisa, e pergunta alli
+pela visinhança, quem é pouco mais ou menos o Jeronymo; se a sua vida é
+moral e religiosa, se é um homem trabalhador, etc., etc.
+
+--Bem sei como essas coisas se fazem, meu commandante.
+
+--Em primeiro logar, para que se não desconfie, é falar só de Jeronymo;
+o resto, vem mesmo sem o perguntares. Entendes bem?
+
+--Se entendo... O commandante vem tambem p'ra terra?
+
+--Não, espero aqui a resposta.
+
+--Então ás ordens, e que a Senhora da Bonança vá em minha companhia.
+Descendo para o escaler sentou-se á prôa e mandou remar.
+
+Uma hora depois, Mascatudo entrou n'uma pequena tenda da rua da Lapa,
+que ficava quasi em frente da casa de Jeronymo.
+
+Approximou-se do balcão e pediu de comer.
+
+Á proporção que comia e bebia, o marujo ia adquirindo uma certa
+intimidade com o caixeiro, offerecendo-lhe de vez em quando do seu copo,
+em que elle pegava sem se fazer rogar.
+
+--Diga-me uma coisa, perguntou emfim Mascatudo. Dá-me noticias d'um
+mestre de obras, que d'antes aqui morava, chamado Jeronymo? Ha quantos
+annos o não vejo!
+
+--Olhe, respondeu o caixeiro, apontando ao mesmo tempo para a casa do
+pae de Martha, ainda alli mora n'aquella casinha.
+
+--É um bom homem!... E sua mulher ainda vive?
+
+--Ainda.
+
+--A filha é que deve estar uma senhora?
+
+--É toda _mystica_! disse o caixeiro; e enthusiasmando-se com a
+formosura de Martha, despejou, sem Mascatudo lh'o offerecer, o resto do
+vinho que estava no copo.
+
+--Conheci aquillo uma criancinha, accrescentou Mascatudo, olhando de
+soslaio para a meia canada que o moçoilo acabava de despejar.
+
+--Ha pouco tempo succedeu uma _disinfelicidade_ ao pobre Jeronymo,
+continuou o caixeiro, que lhe ia custando uma grande _felicia_.
+
+--Sim? perguntou Mascatudo.
+
+--É verdade.
+
+--Então como foi isso?
+
+--Eu lh'o conto. Foi atropellado por um fidalgo muito rico, que tem
+agora um hospital para a rua de S. Francisco de Paula, e como elle
+ficasse muito mal tractado, sabe o que o fidalgo fez? levou-o para a
+hospedaria onde estava, tractou d'elle sem lhe faltar nada, e por ultimo
+empregou o, dando-lhe quinze tostões por dia. Ora veja vossemecê como o
+diabo as tece! Ha males que vem por bem! Quem me dera a mim encontrar um
+fidalgo que me atropellasse com a condição de me dar, já não digo quinze
+porém cinco tostões por dia. Ha dois annos que estou n'esta maldita
+casa, e o miseravel do patrão ainda me não augmentou o ordenado. Aqui
+estou ganhando dois mil reis por mez, que como o outro que diz, não me
+chega nem para beber uma pinga aos domingos. Agora por isso, ajuntou
+elle, mudando de tom, creio que já despejou todo o vinho. Quer que torne
+a encher?...
+
+--Encha, respondeu Mascatudo, occultando a custa um sorriso.
+
+--E ainda ahi não fica, como ia dizendo. Em tal graça caiu a sua familia
+para com os fidalgos, que é raro o dia, em que as meninas não vém no seu
+proprio trem buscar a filha de Jeronymo.
+
+--E ella porta-se bem?
+
+--Diziam que sim, porém agora, já ha quem lhe rosne no credito. Ora
+aqui para nós tem razão! Uma rapariga tão bonita como a Martha, e pobre
+como é, andar no luxo em que anda!
+
+--Mas talvez que esse luxo lhe tenha sido dado pelas filhas do tal
+fidalgo, respondeu Mascatudo, sentindo um grande estremecimento no
+coração.
+
+--Tambem isso é verdade; póde muito bem ser, e n'esse caso então, não
+lhe deviam cortar na pelle.
+
+--E quem é que lhe corta na pelle?
+
+--Olhe, alli vem uma das visinhas que não lhe faz lá muito boas
+ausencias: a tia Monica.
+
+N'esse momento, a beata, de quem o leitor deve estar lembrado, involta
+na sua mantilha de merino preto, entrou na tenda.
+
+--Deus seja n'esta casa, disse ella, olhando ao mesmo tempo para
+Mascatudo.
+
+--Amen, respondeu este, cravando os olhos no rosto cadaverico da
+intrusa.
+
+--Então como vae isso hoje lá por baixo a respeito da febre, perguntou o
+caixeiro, que já sabia que era a hora em que ella vinha da baixa.
+
+--A colera de Deus continua a castigar os peccadores, respondeu a misera
+abaixando ao mesmo tempo a cabeça. Hontem, continuou ella, disseram-me
+que houve uma mortandade espantosa. E estes herejes do sitio sem fazerem
+uma procissão como tantas vezes lhes tenho pedido!
+
+--Porque não mette n'isso o mestre Jeronymo? perguntou o caixeiro á tia
+Monica, piscando ao mesmo tempo o olho para Mascatudo.
+
+--Cruzes! Credo! Virgem da Soledade! Pedir uma coisa d'essas a
+similhante creatura! De que Deus me livrasse, sr. André!
+
+--Pelo que vejo, não é muito amiga do nosso visinho!
+
+--E como queria o senhor que uma mulher como eu fosse amiga de
+similhante homem?
+
+--Pois olhe, basta o que elle fez pela tia Marianna, para mostrar que
+tem bom coração. Lá o que é verdade, deve-se dizer sempre! Ha de haver
+mez e meio, proseguiu o caixeiro voltando-se para Mascatudo, foi aqui
+atacada uma mulher pela febre amarella, e ninguem se atreveu a entrar em
+sua casa; a unica pessoa que o fez, foi Martha, a filha de Jeronymo. Com
+tanto amor a tractaram, que hoje está viva e sã.
+
+Mascatudo sorriu d'alegria ao ouvir a boa acção de Martha.
+
+--E porque fez elle isso tudo? resmungou a beata. Sô para que depois se
+dissesse pela visinhança que eram uns santinhos. Que santinhos de pau
+carunchoso!
+
+--Seja lá pelo que fôr, o grande caso é que salvaram aquella embarcação
+que ia dar á costa, acudiu Mascatudo.
+
+--Pelo que vejo respondeu Monica contemplando o marinheiro, vossemecê
+anda sobre as aguas do mar? Que o Senhor dos Navegantes, a quem mesmo
+agora acabo de rezar duas estações, o livre de todos os perigos, meu
+filho; e possa tambem a Senhora da Bonança andar sempre em sua
+companhia. Padre nosso que estaes nos céos... continuou ella.
+
+--Então o que se diz por ahi de Jeronymo, tia Monica, perguntou
+Mascatudo, começando a tratal-a com certa confiança.
+
+--Ora! O que se ha de dizer! O que se diz sempre d'um homem que
+consente que sua filha esteja fóra de casa, e que venha a altas horas da
+noite, muitas vezes acompanhada por um individuo, que vem sósinho com
+ella dentro d'um trem. Quem elle é ainda eu não pude descobrir, mas,
+agora que felizmente já consegui encaixar-me no hospital e fazer
+conhecimento com as meninas... vou descobrir quem é o melro.
+
+Mascatudo sentiu um estremecimento por todo o corpo. Elle que a julgava
+pura como um anjo, começava a duvidar da sua virtude. E não tinha mais
+remedio senão contar tudo que ouvira.
+
+--Agora que já tenho lá entrada como lhe ia dizendo, é que hei de saber
+qual dos amigos do fidalgo, é o que está acostumado a acompanhal-a. E a
+boa da tia Marianna, sempre por toda a parte a dizer d'ella mil
+maravilhas, e eu a saber como os meus dedos, a peça que é a creancinha!
+Dizem-me que anda sempre muito triste. Deus sabe como ella andará! Que
+Deus me perdoe de fazer maus juizos!... exclamou a beata curvando a
+cabeça.
+
+Outro que não fosse Mascatudo, teria regeitado as opiniões da execravel
+beata, porém ferido por aquella primeira impressão, o caracter fogoso e
+ao mesmo tempo selvagem do marinheiro, levou-o a acreditar em tudo
+quanto lhe haviam dito! Sem descer a mais indagações, e abandonando ao
+caixeiro a segunda meia canada que mandara encher, Mascatudo pagou o que
+devia, e sem quasi se despedir nem d'um nem d'outro, saiu apressadamente
+da loja. Seguindo pela rua da Lapa, desceu a rua de S. Domingos, e
+entrando nas Janellas Verdes, alcançou a rocha do Conde de Obidos, aonde
+embarcou para bordo da galera.
+
+Manuel de Mendonça, passeiando á prôa, aguardava com impaciencia o
+resultado da commissão do marinheiro.
+
+Os olhos de Mascatudo arrazados de lagrimas, seguiam os movimentos do
+seu commandante. O pobre homem receiava os instantes que o approximavam
+de Manuel de Mendonça, afim de lhe participar o que se havia passado.
+
+O escaler abordou finalmente á galera e Mascatudo subiu a escada.
+
+--Que soubeste? perguntou Manuel conduzindo-o á sua camara.
+
+Revestindo-se de valor Mascatudo contou-lhe quanto tinha ouvido.
+
+Manuel de Mendonça sorriu-se brandamente, e olhando para aquelles
+horisontes, toldados então por uma neblina espessa, fitou a vista no
+oceano, como que dizendo-lhe que o esperasse.
+
+N'essa mesma noite adoeceu com uma febre gravissima, de que lhe resultou
+estar quinze dias de cama.
+
+Foi durante esse tempo, emquanto ao infeliz, entre as visões da febre,
+se lhe desenhava a imagem da supposta peccadora, que Magdalena na
+varanda do hospital, assestava de vez em quando o telescopio para
+descobrir o rasto do commandante da galera.
+
+
+
+
+XXVI
+
+
+--Terá a bondade de dizer á sr.ª D. Magdalena que está aqui a sua
+pobresinha, dizia a tia Monica voltando-se para o guarda-portão do
+hospital.
+
+--A sr.ª D. Magdalena não póde agora recebel-a; acha-se á cabeceira de
+um doente que está por pouco... respondeu-lhe o guarda-portão.
+
+--Pois sim, pois sim, vá sempre dizer-lhe que é a tia Monica, a quem deu
+ordem para que viesse aqui hoje sem falta. Ande, avie-se; verá se me
+fala ou não.
+
+--Já lhe disse a vossemecê o que tinha a dizer-lhe. Escusa de me
+importunar mais.
+
+--Deixa estar que eu te direi, dizia a velha comsigo. Alcance eu o que
+desejo, e verás como te ponho no andar da rua, só pelo mal que me estás
+tratando. Estejas tu meu traste mais oito dias sem cá vir, e eu te
+direi, como te ponho tambem no meio da rua, minha Martasinha.
+
+--Então vossemecê, vae ou não vae! ajuntou a tia Monica em voz alta,
+voltando-se de novo para o porteiro.
+
+--E ella a dar-lhe, e a burra a fugir, disse o guarda-portão,
+voltando-lhe a cara para a banda, e continuando a varrer o patim. Se
+vossemecê continua a atormentar-me subo lá acima e digo ao mestre
+Jeronymo que lhe pegue por um braço e que a ponha fóra da porta. Forte
+impertinente! cruzes, canhoto!
+
+--Ora sempre haviamos de ver isso, se o tal mestre Jeronymo seria capaz
+de pôr no meio da rua uma pessoa mandada aqui vir por uma das filhas do
+dono da casa! Faça isso, sr. Antonio, até desejo que o faça. Ande,
+então...
+
+N'este momento, uma enfermeira que vinha de jantar, entrou
+apressadamente no hospital.
+
+--Tem a bondade de dizer á sr.ª D. Magdalena que está aqui a tia Monica,
+e que lhe vem trazer a resposta d'aquelle recado que lhe encarregou,
+disse a beata, perseguindo a mulher.
+
+--Farei entregue, respondeu a enfermeira, subindo apressadamente a
+escadaria.
+
+--Vossemecê não tem vergonha de estar assim com essa teima?
+
+--Pois veremos quem vence--se sou eu ou se é vossemecê; e sentando-se
+tranquillamente sobre um dos bancos da entrada, a tia Monica começou a
+olhar para o enraivecido porteiro, com um modo insolente e provocador.
+
+Cinco minutos depois, desceu a mesma enfermeira, dizendo lhe da parte da
+sr.ª D. Magdalena que fosse ter com ella ao terceiro andar.
+
+A velha, radiante de gloria e de regosijo, fixou o porteiro do alto da
+sua magestade, e despedindo-lhe um olhar de compaixão, subiu afoita as
+escadas, promettendo a si mesma vingar-se do pobre homem, logo que o
+ensejo lhe fosse favoravel.
+
+A principio, o porteiro rugiu de colera, porêm, vendo a inutilidade do
+seu mau genio, conformou-se com a sorte, e empunhando de novo a vassoura
+continuou na sua constante operação.
+
+Magdalena, ao ouvir as palavras da enfermeira, encarregou a sua irmã o
+moribundo, e subiu logo ao terceiro andar, aonde mandaram conduzir a
+velha.
+
+Quando ella entrou, Magdalena, encostada á varanda, contemplava o Tejo,
+no Tejo a galera, na galera Manuel de Mendonça, e n'esse a vida que para
+ella lhe fugia!
+
+--Bons dias, santinha! disse ella approximando-se da tia Monica.
+
+--Muitos bons dias, meu anjinho, replicou a asquerosa beata tentando
+beijar a mão que Magdalena lhe extendia. Já lhe disse que não quero ver
+esse rosto tão pallido, minha rosa desbotada. Anime-se, ande, ria-se
+para mim.
+
+--Soube alguma cousa? perguntou Magdalena.
+
+--Alguma coisa se soube. Ainda não é tudo quanto desejamos; mas de cá se
+vae a lá, como dizem os hespanhoes. Um amigo d'um sobrinho meu, que está
+na armada, foi a quem encarreguei. Hoje, seriam oito horas da manhã,
+quando eu vinha de ouvír as minhas missas, e de pedir a Deus pela minha
+querida menina, senti baterem-me á porta, abri, e era o Manuel, o tal
+rapazola. «Que temos?» perguntei-lhe eu. «Que havemos de ter? Já soube
+onde pára o tal individuo, e quem elle é» respondeu Manuel.
+
+--E quem é elle? perguntou avidamente a filha de Tristão de Almeida.
+
+--É o commandante da galera Esperança. Tem estado muito doente. Ha mais
+de quinze dias que não sae de bordo!
+
+--Meu Deus! disse Magdalena, eis o motivo porque nunca mais o pôde ver!
+
+--Quanto ao resto, accrescentou a beata, posso-lhe dizer quasi com toda
+a certeza, que alli anda cousa, e anda por isto:--Ha tempos estando eu
+na tenda do Melro, entrou um homem de tracto do mar e começou a
+perguntar informações de Martha. Esse individuo não tinha sido senão
+alguem mandado por elle, para saber se se portava bem ou mal.
+
+--E o que lhe respondeu, tia Monica?
+
+--Que queria a menina que lhe respondesse! Póde-se julgar mal d'uma
+pessoa que anda na companhia de dois anjos, como as minhas duas meninas?
+Embora eu soubesse quem esta familia é, a minha bocca nunca se me teria
+aberto para dizer similhante coisa!
+
+--Parece-lhe portanto que as minhas suspeitas eram bem fundadas?
+
+--Se me parece! E faça se bem! As meninas a protegerem aquelle traste, e
+ella pagando-lhes assim!
+
+--Isso não, tia Monica! Pobre rapariga, que culpa tem ella do que se
+passa no meu coração? O mal que me está causando é involuntario, e tão
+involuntario que ella propria o desconhece; e demais, se ha alguem
+culpado em tudo isto, sou eu, eu apenas.
+
+--E pensa a menina, que um rapaz como esse tal sr. Manuel de Mendonça,
+possa descer a olhar para uma mechanica? uma reles filha d'um operario,
+tendo a palpitar pela sua pessoa, um coração nobre e generoso como o da
+minha rica menina? Para que havia Manuel de Mendonça querer a filha d'um
+operario: só se fosse para ser sua criada.
+
+--Pois olhe, tia Monica, veja como eu sou, se tivesse a certeza de que
+Martha era de ha muito amada por Manuel de Mendonça, creia que embora eu
+morresse de paixão, seria capaz de me sacrificar, a ponto de ser eu a
+propria madrinha do seu casamento. Hontem estava pensando n'isso. Mas o
+que eu queria, era ter uma certeza. Se o que tem conservado Martha
+n'aquelle estado, é uma paixão, serei eu a propria, embora d'isso me
+resulte a morte, a fazer todas as diligencias de os reunir. Se elle fôr
+nobre, pedirei a meu pae, que tire de meu dote alguns contos de réis,
+para collocar aquella pobre criança n'uma posição que lhe não envergonhe
+os seus pergaminhos. Porém se esse amor que eu supponho existir no
+coração de Martha, não fôr mais do que uma desconfiança, então Monica,
+se lhe não fôr indifferente, rico ou desventurado, nobre ou plebeu,
+Manuel de Mendonça será o meu esposo, porque o amo muito, muito, tia
+Monica!
+
+E a pobre Magdalena, tremula e offegante, debalde tentava occultar as
+lagrimas que a suffocavam!
+
+Era muito de ver-se o contraste d'estas duas creaturas! Magdalena, o
+amor, a generosidade, a pureza de affectos! Monica, a mentira, a
+ambição, a crapula emfim de todos os sentimentos!
+
+Alma candida e inexperiente, não avaliava sequer a immensa distancia que
+as separava. A pomba approximava-se d'aquelle asqueroso reptil, sem
+comprehender com quantas voltas lhe poderia enrolar o seu pescoço de
+neve!
+
+Ao escutar aquellas palavras que tão claramente denunciavam a
+ingenuidade da sua alma, a tia Monica julgou perder a partida. Além dos
+lucros que esperava obter servindo de intermediaria n'aquelles amores,
+havia um outro sentimento que a dominava, mais forte talvez que o
+primeiro: o desejo de se vingar da familia de Jeronymo! Desejo
+infundado, sem motivo algum, explicado apenas por aquella profunda
+inveja que os bons mais ou menos inspiram aos que o não são nem o
+desejam ser!
+
+Envenenando-lhe o seio com o ervado punhal do ciume, a tia Monica
+poderia fazer com que retirassem a sua protecção ao mestre de obras.
+Poderia fazer com que Magdalena, odiando a pobre Martha, lhe roubasse a
+pessoa a quem ella amava, ficando apenas reduzida á miseria e ao
+descredito que por toda a parte lhe proclamava.
+
+Eram estas as suas idéas, idéas que principiavam a desvanecer se, á
+proporção que ia lendo na alma de Magdalena toda a grandeza d'aquelle
+coração, immenso como a agonia que o dilacerava!
+
+--Veja, continuava Magdalena, se por esse individuo, me póde saber,
+custe o que custar, se Manuel de Mendonça escreve a Martha, se a vê, ou
+se por ultimo se encontram.
+
+--E se por ventura se amarem? perguntou rapidamente a beata.
+
+--Abençoal-os-hei! respondeu Magdalena como se ao pronunciar estas
+palavras se lhe rasgasse o coração.
+
+--E se não se amam! insistiu a velha.
+
+--Será meu, disse Magdalena com uma voz debil e melancholica. Tirando
+depois algumas moedas de prata de dentro de um _porte-monnaie_,
+entregou-as á tia Monica.
+
+--Se elles não se amassem! pensava Magdalena ao despedir-se da velha.
+
+--Se Deus me ajudasse! repetia a tia Monica sahindo do gabinete.
+
+
+
+
+XXVII
+
+
+Ao cabo de quinze dias, graças á sua robusta compleição, Manuel de
+Mendonça pôde subir ao convez, esperando, dizia elle, conseguir com a
+brisa do mar completo restabelecimento.
+
+Mas não era esse apenas o motivo que alli o conduzia. Mascatudo
+havia-lhe dito na vespera, que da galera se via perfeitamente o edificio
+do hospital, e quasi todos os dias, depois da uma hora da tarde se
+divisava um vulto na varanda, assestando o oculo na direcção do barco.
+
+Achando se completamente restabelecido, Manuel de Mendonça pegou no seu
+magnifico telescopio e dirigiu-se á prôa do navio afim de descobrir quem
+tão assiduamente o espreitava.
+
+Ao vêr o edificio que Mascatudo lhe designára, já o seu olhar de lynce
+havia descoberto que alguem o estava observando.
+
+Manuel de Mendonça levantou o seu oculo, e descobriu o rosto pallido e
+insinuante de Magdalena.
+
+Não era esse o semblante que elle cuidava encontrar; comtudo, continuou
+por alguns segundos esperando ainda descobrir a imagem que durante a sua
+terrivel enfermidade o havia perseguido. Mas tal não succedeu. Magdalena
+continuando a olhar, parecia não perder um segundo da sua persistente
+observação.
+
+Desalentado, metteu o oculo debaixo do braço, e caminhou serenamente
+para a ré.
+
+Então um milhão de reminiscencias lhe acudiu á memoria. Lembrou-se
+d'aquelle dia em que Magdalena o contemplára tão demoradamente, quando
+fôra visitar Jeronymo.
+
+«Quem sabe, pensou elle, se esta mulher me ama, e se lançou mão d'alguma
+intriga para desconceituar a meus olhos a filha do operario? Se tal
+fosse! Veremos o que pensa Mascatudo. Não façamos juizos temerarios. Que
+importa que eu vá visitar seu pae? Não lh'o prometti eu?»
+
+Erguendo o seu telescopio, Manuel assestou-o pela segunda vez na
+direcção do hospital, onde Magdalena se conservava ainda no seu posto de
+observação. O maritimo, voltando as costas desceu á camara onde
+Mascatudo o aguardava.
+
+Quem n'esse momento tivesse entrado no hospital da rua de S. Francisco
+de Paula, e houvesse subido aquelle terceiro andar, onde Magdalena se
+achava, teria ouvido o som da queda de um corpo e uma voz entrecortada
+pelos soluços, soltando estas palavras:
+
+--Amam-se, não ha duvida!
+
+--Maldito caldo de gallinha, puff, está a escaldar! dizia uma outra
+voz. Era a de Olympia.
+
+
+
+
+XXVIII
+
+
+Graças aos rasgos de valor e profunda dedicação que o dono do hospital
+da rua de S. Francisco de Paula espalhava a cada a hora sobre a cidade
+de Lisboa, o seu nome tornou-se popular.
+
+Todos á uma desejavam encontrar esse homem, que, arriscando
+constantemente não só a sua preciosa existencia, como tambem a de sua
+mulher e duas filhas, se chegava hoje ao leito do moribundo com palavras
+consoladoras, ámanhã amortalhava o cadaver de outro por cuja existencia
+batalhára até a ultima. Era de justiça, mais do que justiça,
+indispensavel até conceder-se-lhe a mercê em que sua magestade dias
+antes havia falado com o ministro do reino, segundo este havia dito ao
+visconde de Coruche.
+
+Uma manhã em que o visconde, fazendo a sua demorada _toilette_, se
+preparava para ir ao hospital, foi procural-o o conselheiro Poderosa.
+
+--Sua magestade encarregou-me hontem de te procurar, fiado na amisade
+que existe entre ti e o Tristão da Almeida.
+
+--Estou ás ordens de sua magestade, respondeu o visconde.
+
+--El-rei deseja agraciar Tristão de Almeida com o titulo de conde, e
+mandou-me que te viesse procurar com o fim de lhe perguntares qual o
+nome que deseja juntar ao titulo.
+
+--Quanto agradeço a honra que el-rei me dispensa, fazendo-me
+intermediario para um acto de tanta justiça! Tencionava hoje passar o
+dia em casa, mas, em virtude das ordens de el-rei, corro immediatamente
+a casa do meu amigo, afim de lh'o participar, e juntamente pedir-lhe que
+me diga o nome que deseja juntar a esse titulo.
+
+--Nunca se fez um acto de maior justiça, disse o conselheiro.
+
+--Escuso de te repetir que sou da mesma opinião.
+
+--Realmente, tem-se portado como um heroe.
+
+--E suas filhas?! e sua mulher! parece impossivel como tenham escapado a
+tantos perigos, acudiu o visconde.
+
+--É um verdadeiro milagre da Providencia. Mas, aqui para nós, visconde,
+quem será esse Tristão de Almeida?
+
+--Ora essa! Tristão de Almeida, segundo elle o diz, e eu o creio,
+descende d'uma das principaes familias de Monforte. Seu pae, homem d'um
+caracter excentrico e ao mesmo tempo muito gastador, quando se encontrou
+completamente arruinado, mandou este rapaz e um outro irmão para
+Val-Paraiso, para casa d'um primo que alli estava estabelecido com uma
+riqueza enorme. Vasco, seu irmão mais velho, ficou empregado na casa
+gerindo os negocios de seu primo, de quem era o unico herdeiro, emquanto
+que Tristão dotado de um genio mais energico e emprehendedor, seguiu uma
+vida aventureira. Ao cabo de cinco annos, isto peço-te que não contes a
+pessoa alguma, que foi dito confidencialmente por Tristão, ao cabo de
+cinco annos repito, já elle tinha feito cinco viagens a salvo,
+introduzindo na Havana uma grande porção de Chins. Feliz em todos os
+negocios que emprehendia, Tristão d'alli a dez annos estava
+archi-millionario. Achando-se uma occasião em Buenos Ayres viu n'um
+jornal que havia fallecido o seu parente, tendo deixado por unicos
+herdeiros a elle e a seu irmão.
+
+--E seu pae? interrompeu o conselheiro.
+
+--Já tinha morrido a esse tempo.
+
+--Dias depois partiu para Val-Paraiso. A riqueza que seu primo deixara
+estava calculada em quatro mil contos. Ao cabo de um mez teve a desgraça
+de perder o irmão.
+
+--Que fatalidade! murmurou o conselheiro.
+
+--É verdade! vê tu que fatalidade! Tristão, continuou o visconde,
+reduziu toda a fortuna a dinheiro e partiu para a Europa, onde annos
+depois se casou com D. Maria Egypciaca, senhora do Minho, com quem
+fizera conhecimento uma das vezes que viera a Portugal.
+
+--É um romance a vida d'esse homem.
+
+--Tem coisas admiraveis! disse o visconde.
+
+--Com que então, acudio o conselheiro, a sua fortuna póde calcular-se
+em...
+
+--Cinco ou seis mil contos.
+
+--Já se póde passar com isso!
+
+--Agora, disse o visconde, é um homem d'uma generosidade incalculavel!
+Se tem cahido nas mãos dalguns individuos que nós conhecemos...
+
+--Haveriam tirado um grande partido da sua bolsa, emquanto que tu...
+
+--Como graças a Deus não preciso recorrer a ella; mas, se o fizesse,
+tenho toda a certeza que sempre a encontraria disposta a abrir-se-me.
+
+--Eu tambem não digo que tenhas precisão, mas um homem d'esses, pode-se
+aproveitar para qualquer empreza, grande já se vê, e de que outros
+tirassem bom partido, tirando o elle tambem.
+
+--Ainda não pensei n'isso.
+
+--E as filhas são bonitas?
+
+--Uma d'ellas, Magdalena, é um anjo de bondade e formosura.
+
+--E a outra?
+
+--Olympia? Também não é feia, mas é muito gorda. Essa representa o
+estomago, e a sua irmã o coração. Magdalena ama, suspira e desfaz-se em
+sentimento. Olympia come, dorme, e emquanto dorme sonha no que ha de
+comer ao despertar. Afóra isso, é uma creatura esplendida.
+
+--Eis a mulher que me convinha, disse o conselheiro. Confesso-te que já
+não tenho outra distracção senão a meza. Seria capaz de me casar não
+pelo coração mas sim pelo estomago! Que verdadeiro achado seria para mim
+essa Olympia! Uma mulher com bom paladar, que deve infallivelmente saber
+fazer muito bons doces. Que dorme muito e que come muito!
+
+--Mas tu d'antes não eras assim! disse o visconde accendendo um charuto.
+O teu typo era a mulher magra, vaporosa, sentimental. Gostavas das
+olheiras, das rosetas da febre, e sobretudo da pontinha de tosse, como
+regularmente se diz.
+
+--Isso foi antigamente, meu amigo, quando eu tinha vinte annos, e
+conservava intacta a riqueza que herdei de meus paes. Porém agora, não;
+prefiro a mulher sadia, forte, que possa ser uma boa ama de leite para
+me crear os garotos, se porventura Deus me quizer conceder os deleites
+da paternidade.
+
+--Como tu estás mudado, João!
+
+--Que queres? são as circumstancias que me fazem assim pensar.
+
+--Pois meu amigo, habilíta-te e terás em Olympia a mulher que te convém.
+Junta a todas essas qualidades, um dote de trezentos a quatrocentos
+contos de réis. Que tal, hein? Agora só te peço uma coisa: se á força da
+tua vontade, ajudada pelos meus esforços, conseguires realizar este
+sonho...
+
+--Dirás.
+
+--Has de fazer um novo fardamento ao teu guarda-portão.
+
+--Approvo e desde já t'o prometto! Se Olympia fôr minha, o meu
+guarda-portão terá outro fardamento. Mas agora serio, ajuntou o
+conselheiro, eu ainda não estou feio de todo, falam por ahi do meu
+talento, sou filho de gente fina, que mulher se poderá esquivar a
+conceder-me a sua mão, muito mais, estando eu nas disposições em que me
+encontro, que é viver pura e simplesmente para comer e dormir e depois
+accordar para tornar a comer, sem que minha mulher nem os criados de
+casa me ouçam levantar a voz, a não ser que os pequenos me venham
+interromper o somno, amotinando me os ouvidos com algum tambor de feira?
+
+--Estou d'accordo comtigo, e tanto, que se me falas serio, mas bem
+serio, entendes, farei com que Olympia te encontre alguma vez, e se te
+guiares pelos meus conselhos, vencerás a batalha. Se por ventura a fôres
+visitar ao hotel e falares com a tua futura, não te approximes da
+janella, erguendo olhares inspirados para o Tejo; não, longe d'isso, faz
+um gesto de profunda meditação, engatilhando ao mesmo tempo o ouvido em
+direcção ao corredor e aspirando o aroma das iguarias que se espalha na
+atmosphera. Não fales nem de flores nem de estrellas, discute-lhe as
+empadas do José Romão, e os pasteis de nata da rua da Rosa. Não lhe
+fales de Dumas nem de Eugenio Sue, conta-lhe a biographia de Vatel,
+promette-lhe a phisiologia de paladar de Brillat Savarin, e conta lhe
+isto, com os olhos radiantes de enthusiasmo, e as faces incendiadas pelo
+quinto peccado. Se assim fizeres, Olympia terá um conselheiro e o teu
+guarda-portão um fardamento novo!
+
+--Convem-me, respondeu o conselheiro, e tu, ajuntou elle, porque não
+aproveitas a poetica Magdalena? O teu espirito ainda ás vezes infantil e
+sonhador, casar-se-ia admiravelmente com a sua organização. Então é que
+era, visconde: nós os amigos de tantos annos, casados com duas irmãs,
+que representavam já oitocentos contos e que representariam seis mil
+para o futuro!
+
+--Se o quizesse fazer, não tinha senão dar o meu sim. Se tu soubesses o
+que tem ido por essa casa a meu respeito! Magdalena ama-me desde o
+primeiro dia que me viu. Orgulhosa de mais nunca se atreveu a declarar
+me o seu amor, mas de sobejo se lhe lê no olhar com que me contempla, na
+voz que lhe estremece quando por ventura me dirige a palavra, no gesto
+cuja melancolia me chega ás vezes a causar remorso. Eu tenho sempre
+feito que nada comprehendo, porém seu pae não o ignora nem a mãe. Falta
+só dizerem-me em voz clara, o sentimento que a minha presença inspirou á
+filha.
+
+--Pois acho que fazes uma grande asneira, disse o conselheiro.
+
+--Eu ás vezes também assim penso, mesmo porque talvez venha no futuro a
+sentir remorsos de ter concorrido para a morte d'aquella creança. Se tu
+soubesses quanto soffre. Aquelle ardente desespero com que Magdalena se
+lança a todos os perigos, penso eu ás vezes ser mais vontade que tem de
+morrer para não affrontar a minha indifferença, do que realmente
+caridade.
+
+--Mas porque motivo não lhe retribues tu com muito amor, o affecto que
+essa creança te consagra?
+
+--Porque a não amo, João. E como, graças a Deus, não estou na posição de
+me casar por necessidade, não quero sacrificar os longos annos que ainda
+me restam de vida, passando os ao lado de uma mulher, que nada tem a
+desejar, mas pela qual o meu coração não palpita de amor. O motivo é
+este, apenas este.
+
+--Tens-me falado com seriedade em tudo isto? acudiu o conselheiro depois
+de alguns instantes de profunda reflexão.
+
+--Dou-te a minha palavra de honra que tenho.
+
+O visconde não mentia. Fiado ainda na sua belleza proverbial, e afeito a
+que todas as mulheres o estremecessem, pensou que esse sentimento que a
+pobre Magdalena nutria em silencio por Manuel de Mendonça, era o
+resultado de uma paixão que elle lhe havia inspirado.
+
+Orgulhoso do seu nome, o visconde, apezar da inquestionavel vantagem que
+lhe poderia resultar d'esse enlace, não queria, diremos, baixar da sua
+dignidade entregando-se n'uma facil conquista, a essa mulher cujo
+coração o estremecia, a quem elle nunca poderia ter sido indifferente,
+attendendo á sua formosura e altas virtudes que a distinguiam.
+
+Viu n'um relancear de olhos o proveito que poderia tirar, arranjando o
+casamento do conselheiro com a irmã de Magdalena. Por essa fórma viveria
+mais em familia, e se um dia, exasperada de amor e incendiada de paixão,
+Magdalena se lançasse em seus braços, pedindo-o em casamento, elle então
+do alto do seu throno de vaidade, extenderia a mão para lhe dar um sim
+de protecção. Eram estas as suas idéas, as que elle estreitamente
+guardava no fundo da sua alma.
+
+Por isso não mentia, quando respondeu ao conselheiro que lhe estava
+falando a serio.
+
+--Pois então, disse João Poderosa, visto não me teres illudido, digo-te
+tambem, e muito de coração t'o peço, que me auxilies n'esta tentativa,
+cuja realização póde fazer a tua e a minha felicidade. Pensa nos meios
+que temos a empregar; dirige-me em tudo se te apraz; serei um automato
+se m'o exigires, mas colloca-me ao contacto d'essa mulher. Agora,
+accrescentou elle, como se um mundo novo se desenrolasse a seus olhos,
+vou contar a el-rei o que se passou comtigo, e logo, sendo sete horas,
+antes de ir para o theatro, aqui te venho buscar. Ficamos certos?
+
+--Pois não, respondeu o visconde, e á fé de quem sou te prometto, que em
+menos de um mez, Olympia será tua mulher.
+
+Despedindo-se do visconde, o conselheiro seguiu para o paço.
+
+ * * * * *
+
+ * * * * *
+
+«Vae tudo ás mil maravilhas, pensava elle. Com esta missiva official
+farei de Tristão quanto me aprouver! Tenho até a certeza que obteria a
+mão de Magdalena. E porque não hei de requisital-a? Requisital-a não,
+que ella m'a requisite. Se eu me curvava á filha de um Tristão de
+Almeida! Parece-me mais razoavel, accrescentou o visconde depois de
+alguns momentos de graves locubrações, fazer com que o Poderosa consiga
+a mão de Olympia; feito isso serei eu a entrar em scena. Por agora não,
+tratemos apenas do titulo. Quem tudo quer tudo perde!»
+
+Vestindo-se em seguida, montou n'um magnifico cavallo inglez, e partiu
+a trote largo, dirigindo se para o hospital.
+
+Proximo á calçada do marquez de Abrantes, viu que um homem o chamava de
+dentro de um trem. Estacando de repente o cavallo, approximou-se do
+postigo da sege.
+
+Era Gil de Carvalho.
+
+--Encontrei-o emfim, disse o jogador. Então onde se póde ver o seu amigo
+Tristão de Almeida?
+
+--Aonde se póde ver? por ahi, respondeu o visconde.
+
+--Não é isso o que eu queria dizer; perguntava aonde elle joga para lhe
+pagar as cem libras que sabe.
+
+--Ah! o meu amigo Tristão de Almeida? esse já não joga, respondeu o
+visconde, mas se lhe quer pagar as cem libras, entregue-m'as, que eu
+lh'as darei.
+
+--Peior é essa! exclamou Gil de Carvalho, suspendendo o movimento que
+fizera para tirar as notas da algibeira.
+
+--Então não quer que lh'as entregue? repetiu o visconde, que começava a
+desconfiar da velhacaria do jogador.
+
+--Suppuz que vinha prevenido, mas enganei-me, respondeu Gil de Carvalho.
+Ámanhã passarei por sua casa.
+
+--Pois então adeus, meu amigo, disse o visconde, batendo as pernas ao
+cavallo.
+
+Deixemos o visconde e Tristão de Almeida no jardim do hospital
+discutindo ácerca do nome que tencionam escolher para o titulo, e
+subindo pela rua do Conde, vamos a casa da pobre Martha, de quem não
+sabemos desde aquelle dia em que se prostrou sem sentidos ao ouvir a
+historia do mestre de obras.
+
+
+
+
+XXIX
+
+
+Magdalena, ao ver a cruel realidade das suas suspeitas, resolveu esmagar
+nos seios d'alma aquelle affecto que lhe era vida, e dirigindo-se a casa
+de Martha, exigir da sua amizade a revelação de todos os segredos.
+
+Havia dias que a pobre criança, cada vez mais enfraquecida, parecia
+levantar os olhos a Deus, como pedindo-lhe pela sua infinita
+misericordia que a recolhesse na paz divina de seus braços.
+
+Balbina e Jeronymo, sem se retirarem um só momento do lado de sua filha,
+erguiam de vez em quando os seus olhos supplices e inquietos para a
+Virgem da Conceição.
+
+Martha não falava, afóra algumas palavras á tia Marianna, com quem abria
+inteira a sua alma.
+
+Bem sabia Martha, que n'aquelle peito podia sem receio depositar todos
+os seus arcanos! A pobre velha havia-lhe jurado nunca revelar a pessoa
+alguma as confidencias que lhe depositasse no cofre do seu coração!
+
+ * * * * *
+
+ * * * * *
+
+São duas horas da tarde. Martha na vespera havia peiorado! A febre,
+augmentando-lhe consideravelmente, dera graves receios ao doutor
+Hermenegildo, distincto facultativo do hospital do magnate.
+
+Ouve-se o rodar de um trem, que pára á porta do operario, e, de dentro
+d'elle, envolta n'uma comprida capa de velludo preto, apeia-se uma
+mulher. É a filha de Tristão, Magdalena. Escusado seria dizel-o, que
+n'essa hora, Olympia, á mesa do _lunch_, saboreia em doce encantamento
+as altas locubrações d'um intelligente cozinheiro.
+
+Contra o seu habito, Magdalena vem completamente só. O olhár e a
+pallidez do rosto, denunciam-lhe um soffrimento profundo. No pisado das
+palpebras, adivinha-se-lhe o rasto produzido pelas lagrimas. A sua voz,
+ordinariamente firme e sonora, perturba-se á mais pequena palavra, como
+receiando que as lagrimas lh'a interrompam! O descuidado da _toilette_,
+o desalinho dos cabellos, tudo emfim lhe descobre a tempestade em que se
+agita o seu coração!
+
+Não era Magdalena, era apenas a sua sombra!
+
+Bate á porta de Jeronymo, e Balbina vem abrir.
+
+Ao vel-a n'esse estado, a mulher do operario não pode occultar o seu
+assombro.
+
+Jeronymo secunda sua esposa na admiração.
+
+--Mas que é isto! Valha-me Deus, minha querida menina, disse a mulher de
+Jeronymo voltando-se para Magdalena.
+
+--Preciso falar-lhe em particular, e depois, com sua filha. O que me
+traz aqui, é grave e muito grave sr.ª Balbina.
+
+Esta, fazendo toda a diligencia para que Martha se não apercebesse da
+presença de Magdalena, leva a para uma pequena alcova que deita para o
+quintal de Jeronymo, outr'ora tão cuidadosamente tratado, e triste ha
+uns tempos a esta parte, como o coração do seu cultivador.
+
+--Estamos sós? perguntou Magdalena para Balbina.
+
+--Tão sós que ninguem nos póde ouvir, respondeu Balbina sem comprehender
+o que se passava em torno de si.
+
+--Em primeiro logar, como está a pobre Martha?
+
+--Mal! bastante mal, minha boa menina, e tanto que, hoje o medico...
+
+--O quê?
+
+--Disse-me que me não illudisse, ajuntou Balbina agarrando se á amiga de
+sua filha.
+
+--Pobre anjo! exclamou Magdalena apertando-lhe fortemente as mãos. E o
+que diz elle a respeito da sua doença?
+
+--Que é toda moral, e portanto mais difficil de se lhe encontrar o
+curativo.
+
+--E a que attribue a senhora isso? perguntou Magdalena fitando a mulher
+do operario.
+
+--Eu sei! respondeu esta, tornando a resumir-se ao silencio.
+
+--Seja sincera commigo, sr.ª Balbina, e lembre-se que ninguem n'este
+mundo será capaz de ser mais amiga de sua filha do que eu sou.
+
+--Creio o bem, minha senhora.
+
+--Pois então porque não abre commigo a sua alma? Diga me não deposita em
+mim bastante confiança no meu caracter? Olhe, continuou Magdalena,
+descobrindo inteiramente o rosto. Diga-me se n'estas feições adivinha a
+menor sombra de hypocrisia?
+
+--Por Deus, minha senhora! acudiu rapidamente a mulher de Jeronymo.
+
+--Pois então, Balbina, se acredita na lealdade de minha alma, seja
+sincera commigo, e fale-me como se eu fosse uma outra sua filha. Não
+imagina o prazer que me vae dar. Como eu serei feliz podendo desabafar
+n'um coração de mãe, quanta dôr existe n'este meu pobre peito.
+
+--Já que tanto insiste, minha senhora, vou confiar-lhe um segredo, que
+nunca me teria atrevido a revelar, se não fosse conhecer a nobreza da
+sua alma! O que a minha filha tem, é uma paixão, paixão que a leva á
+sepultura.
+
+--E esse homem que lh'a inspirou, é?... perguntou Magdalena, como se
+ainda uma pequena esperança lhe restásse.
+
+--Esse homem é o commandante da galéra Esperança, o mesmo que descobriu
+aonde estava meu marido, na noite do dia em que foi atropellado por seu
+excellentissimo pae.
+
+--Manuel de Mendonça! exclamou Magdalena.
+
+--Elle mesmo!
+
+--E elle?
+
+--Nunca mais o tornou a ver.
+
+--E como soube tudo isso? perguntou Magdalena.
+
+Balbina então contou-lhe quanto se havia passado entre Jeronymo e a
+filha, não lhe omittindo a circumstancia d'estas terriveis palavras:
+«esse homem é amado pela filha do nosso protector.» Magdalena pensou
+morrer. A nobreza d'alma d'aquelle anjo, deixando se descer á sepultura,
+sem interromper o sentimento que dominava o coração de Magdalena, a sua
+generosidade, abandonando-lhe por assim dizer aquelle homem que ella
+amava, e de quem tinha a certeza de ser correspondida, tudo concorreu
+para que no seu coração immenso tambem como o de Martha, se formassem
+mil conjecturas tendentes todas á generosidade.
+
+«Morrerei, pensava ella, mas salvarei este anjo que tão nobremente se
+me sacrificou. E que m'importa a vida? De que me serve este eterno
+martyrio? Vivam! que vivam para serem muito felizes, e abençoarem a
+minha memoria se eu concorrer como espero para a sua ventura!»
+
+--Bem, ajuntou Magdalena voltando-se para Balbina, vá ao quarto de
+Martha, veja o estado do seu espirito e se ella estiver mais tranquilla,
+quero-lhe falar.
+
+A pobre Balbina sem comprehender o choque que este encontro poderia
+produzir na alma de sua filha, apressou-se em cumprir as ordens de
+Magdalena.
+
+«Parece que sobre a nossa familia peza uma grande desgraça, continuou a
+filha de Tristão de Almeida olhando para o pequeno horto. De que serve a
+enorme riqueza de meu pae! A sua alegria, é sempre aquella eterna
+mascara com que tenta encobrir as lagrimas que o devoram na eterna
+solidão de sua alma. Minha mãe, afeita a illudir, tem chegado a
+convencer-se que é muito feliz, não passando d'uma desgraçada! Eu, que
+tenho passado uma existencia de tristeza, no momento em que pela
+primeira vez na vida me poderia considerar venturosa, vem o destino, e
+corta-me rapidamente o fio da minha felicidade. Olympia, graças ao seu
+genio, é a unica fadada para a completa tranquillidade da alma! Vive e
+come, pobre irmã, que seria o mesmo que dizer-te: vive e sê feliz!
+
+«Falarei com Martha, e hoje mesmo lançar-me-hei aos pés de meu pae,
+pedindo-lhe que d'esse dote dos quatrocentos contos que tantas vezes me
+tem promettido me conceda apenas cincoenta para dar a Martha, e depois
+de os ver ambos casados, felizes, abençoando a minha mão que lhe
+estreitou a sua ventura, eu então, ou buscarei a morte, ou fechar-me-hei
+entre as grades d'um convento!»
+
+N'este comenos entrou Balbina. Martha havia accordado e esperava a
+visita de Magdalena.
+
+Esta sem mais hesitar, entrou no quarto da criança, e, occultando a
+custo as lagrimas que a suffocavam, lançou-se sobre o leito abraçando a
+pobre amiga.
+
+--Ha dias que desejo falar-lhe sobre um assumpto muito importante,
+porém, a sua eterna reserva para todas as pessoas que deveras a estimam,
+tem sido a causa de me não ter atrevido, disse-lhe Magdalena. Quem mais
+do que Martha possue corações verdadeiramente dedicados? accrescentou
+ella. Não vê que está offendendo a Deus que a protege? Porque pensa em
+morrer, minha amiga? Não vê que morrendo, mataria sua mãe, seu pae, e
+que fará soffrer a todos que se interessam pela sua vida? Por que motivo
+se tem occultado á sombra da sua agonia sem buscar um peito amigo com
+quem desabafe os seus desgostos? Não tinha minha irmã? Não me tinha a
+mim? á sua propria mãe? Quem melhor do que ella, podia ser a confidente
+dos seus segredos?
+
+--Segredos! Eu? murmurou Martha.
+
+--Sim, Martha; segredos e muito importantes. Não queira negar-me o que
+sei.
+
+--Não tenho coisa alguma a negar, minha boa menina, respondeu Martha,
+como se já não tivesse forças para sustentar aquelle dialogo.
+
+Insciente do mal que as suas palavras poderiam influir no espirito de
+Martha, Magdalena seguia apenas a que o seu coração lhe ordenava.
+
+--Nunca amou ninguem, Martha? Seja sincera commigo. Deposite as suas
+magoas n'este coração que lhe quer tanto como se fosse sua propria irmã.
+
+Os olhos da creança inundaram-se de lagrimas. A mentira jámais havia
+passado por seus labios! A infeliz não sabia que responder.
+
+--Responda, minha irmã. Até hoje homem algum lhe feriu esse coração?
+Jura-m'o?
+
+Haveria ainda algum vestigio de esperança no coração de Magdalena ao
+insistir n'aquellas perguntas? Sabia-o Deus e a sua alma!
+
+Martha sem responder agarrou-se ao pescoço de Magdalena e desatou n'uma
+torrente de lagrimas.
+
+--Perdôe-me, disse ella emfim, mas eu não sabia que o amava. Foi o
+primeiro homem que meus olhos viram. Havia tanta bondade, tanta nobreza
+no seu caracter! A quantas pessoas perguntei por meu pae, todas me
+responderam brutalmente que não sabiam quem elle era. Aterrada com a
+minha desgraça, encontrei-me só, completamente só. Então, appareceu o
+sr. Manuel de Mendonça; promptificou-se a procurar meu pae, e
+encontrou-o. Desde esse dia, a sua imagem ficou-me impressa na memoria.
+Quiz esquecêl-o, mas era-me completamente impossivel! Dias depois, vi-o.
+O que eu sentia na minha alma, foi crescendo, crescendo gradualmente,
+até que reconheci que o amava. Quando já era tarde foi então que
+comprehendi toda a loucura do meu sentimento, avaliando ao mesmo tempo a
+immensa distancia que nos separava. Um dia, descobri que esse homem era
+amado por quem melhor do que eu o merecia. A dôr quebrava-me a alma, mas
+a ninguem revelava a minha angustia! Desde então, minha boa amiga,
+entendi que o melhor era esperar resignada o momento em que Deus me
+chamasse á sua divina presença sem ter deixado no mundo um rastro de
+ingratidão! Ame-o, sr.ª Magdalena! Amem-se, que são dignos um do outro,
+e, se um dia se recordarem da pobre Martha, vão ambos, rezem-lhe uma
+oração sobre a sua sepultura, e lembrem-se da que está no reino dos
+tristes pedindo a Deus pela sua ventura e pela felicidade do sr. Manuel
+de Mendonça!
+
+--E quem te disse a ti, filha, que esse homem era amado por mim?
+
+--O meu coração, respondeu Martha, inclinando a cabeça no travesseiro.
+
+--Illudiu-te, e o tempo t'o provará, respondeu-lhe Magdalena. Eu nunca o
+amei! accrescentou ella, empregando n'estas ultimas palavras todo o
+valor da sua alma. Eu só quero a tua felicidade, Martha.
+
+--A minha felicidade está no céu, respondeu a infeliz, levantando os
+olhos para o tecto.
+
+--Enganas-te! exclamou Magdalena. A tua felicidade está nos braços
+d'esse homem como a sua ventura deve estar n'um coração nobre e generoso
+como o teu! Já a mim mesma o prometti, irei hoje preparar o teu bem
+estar. Agora, filha, accrescentou Magdalena, que esses teus olhos se
+enxuguem para sempre, e que as lagrimas desçam sobre os meus para jámais
+os abandonar. E abraçando estreitamente a pobre creança, Magdalena sahiu
+do quarto, e sem quasi se despedir de Balbina, deixou a casa do operario
+e partiu para o hotel Bragança!
+
+[Ilustração: É de joelhos que lh'o imploro! (_pag. 213_)]
+
+
+
+
+XXX
+
+
+Ao chegar ao hotel de Bragança, Magdalena encontrou sua mãe louca de
+alegria. Já tinha sabido por Tristão e pelo visconde de Coruche, a mercê
+que sua magestade acabava de lhe offerecer.
+
+--Um abraço minha filha! exclamou D. Maria Egypciaca. El-rei, attendendo
+aos serviços que temos prestado ao paiz durante a epidemia, acaba de
+encarregar o conselheiro Poderosa, de perguntar a teu pae que nome
+deseja dar ao titulo de conde que lhe vae ser concedido. Fique portanto
+sabendo, accrescentou ella, que d'aqui a pouco tempo será filha de uma
+condessa! Que te parece Olympia?
+
+--Parece-me que sua magestade acaba de nos dispensar uma grande honra,
+respondeu Olympia, para dizer qualquer coisa a sua mãe.
+
+--Mas que vejo, Magdalena! disse D. Maria Egypciaca, voltando-se para
+sua filha. Que tens tu? meu Deus! que terrivel pallidez!
+
+--É tão grande a alegria que nossa mãe experimenta só com a ideia do
+titulo, que nem sequer reparou para o estado em que te encontras! Doe te
+a cabeça, Magdalena?
+
+--Não, respondeu ella; comtudo, sinto-me alguma coisa indisposta.
+
+--Pois faz a diligencia de te animares! É de suppôr que venha cá hoje
+passar a noite o conselheiro Poderosa. Já pedi a tua irmã quasi de mãos
+postas que se fizesse mais amavel. Veremos como se porta.
+
+--Preciso falar-lhe, minha mãe, interrompeu Magdalena, dirigindo-se a D.
+Maria Egypciaca.
+
+--É negocio grave, pelo que vejo! Succedeu alguma novidade no hospital?
+
+--Não, por certo. É outro assumpto inteiramente diverso.
+
+--Não podemos falar aqui mesmo? perguntou a futura condessa.
+
+--Já disse a minha mãe que era uma coisa em particular.
+
+D. Maria Egypciaca, seguida por sua filha, entrou no gabinete de
+Tristão, aonde varias vezes temos conduzido o leitor.
+
+--Que queres pois? perguntou ella, reclinando-se commodamente sobre uma
+cadeira á voltaire.
+
+--Venho prevenir minha mãe que desejo entrar para um convento antes do
+prazo de um mez.
+
+--Estás doida, ou variada! exclamou ella como se não acreditasse nas
+palavras que escutava.
+
+--Nem doida, nem variada! respondeu Magdalena. É uma resolução de que
+ninguem será capaz de me afastar.
+
+--Mas que te impelle a similhante determinação? Explica-m'o. Quem melhor
+do que tua mãe poderá ser tua confidente.
+
+--Basta que o saiba Deus, em cujos braços me quero occultar,
+respondeu-lhe serenamente Magdalena.
+
+--Esta rapariga enlouqueceu! acudiu D. Maria.
+
+--Já respondi a minha mãe que não estava louca, nem tão pouco variada,
+accrescentou Magdalena sentando-se no sophá.
+
+--Agora que, escudadas por um titulo, vamos brilhar como ninguem na
+sociedade, é que te queres retirar a um convento?
+
+--Quero agradecer ao Senhor os beneficios que lhe devo, recolhendo-me
+sob os tectos da sua habitação.
+
+--Jámais t'o consentiria, e muito menos teu pae.
+
+--Torno a dizer a minha mãe, que pessoa alguma poderá impedir a minha
+resolução.
+
+--Mas que pretendes, filha? Amas alguem? Receias que teu pae se opponha
+á tua vontade? Fala, fala por Deus, mas não me atormentes! Eu que
+esperava anciosa a tua vinda para te participar a alegria em que
+estavamos! Que esperava, emfim, passar uma noite agradavelmente na
+companhia do visconde e do conselheiro Poderosa, o encarregado por sua
+magestade de nos offerecer o titulo.
+
+--Não queria falar em coisa alguma com meu pae, sem primeiro lhe dizer
+as minhas intenções, ajuntou Magdalena com um sangue frio imperturbavel.
+
+--Ah! exclamou D. Maria Egypciaca, levantando-se rapidamente da
+poltrona. Comprehendo agora que não eram infundadas as desconfianças de
+teu pae.
+
+--Que desconfianças? perguntou Magdalena.
+
+--Que amas...
+
+--Eu?
+
+--Tu, sim...
+
+--Quem? perguntou Magdalena tornando se cada vez mais pallida.
+
+--O visconde de Coruche!
+
+--Que testemunho! Já disse uma vez a minha mãe, que nunca amei, nem
+seria capaz de amar o visconde.
+
+--Assim me queres convencer...
+
+--Nunca tentei illudir pessoa alguma, e muito menos a meus paes.
+
+--Então outro homem?
+
+--Não posso amar! respondeu Magdalena cada vez mais perturbada.
+
+N'este momento abriu-se a porta do gabinete, e entrou Tristão de
+Almeida.
+
+Ao contemplar a physionomia de Magdalena, a sua filha predilecta, o
+pobre pae sentiu um estremecimento que lhe toldou a côr do rosto!
+Julgou-a atacada pela febre.
+
+--Saberás, disse D. Maria Egypciaca, que n'um dia, para nós de tanto
+regozijo, a tua filha...
+
+--O quê? perguntou Tristão, voltando-se para sua mulher.
+
+--Quer recolher-se a um convento?! respondeu D. Maria.
+
+--Recolher-se a um convento!? perguntou Tristão como se não acreditasse
+em similhantes palavras. Recolher-se a um convento! accrescentou elle,
+voltando-se para Magdalena. Tu, filha da minha alma? Abandonares-me? Tu
+que és a unica ventura da minha vida? Mata-me primeiro, e depois, faze o
+que te aprouver! Sabes o que significa essa palavra «deixares me!»
+Ignoras que só tu me tens sustido a existencia? Não conheces inteira a
+minha vida? Não te contei todos os sacrificios que tenho feito por tua
+causa? Desconheces o que fiz para te ganhar um patrimonio; para ti, só
+para ti, que és a vida da minha vida? Deixares-me! quando a existencia
+começa a sorrir-me... quando os meus cofres cheios de ouro se
+despejariam ao teu mais pequeno capricho? Deixares-me quando a gloria
+desce sobre a nossa familia, não digo por esse titulo que não passa de
+uma miseria, mas pelo que temos feito por esses desgraçados. Se amas
+alguem, bom ou mau, rico ou pobre, dize m'o, e farei tudo para me não
+separar do teu lado. Se fôr bom, abraçal-o-hei, se mau, tu o tornarás
+bom, Magdalena! Pobre, o meu ouro o fará enriquecer, e tu verás
+cumpridos os teus desejos. Mas deixar-te? Nunca, torno a repetir t'o!
+
+--A minha resolução é inabalavel; comtudo, antes d'isso, tenho um grande
+favor a pedir lhe:
+
+Tristão parecia attendel-a sem consciencia de vida.
+
+--Segundo meu pae muitas vezes m'o tem dito, o meu dote é de
+quatrocentos contos?...
+
+--O teu dote é tudo quanto eu tenho, Magdalena, respondeu-lhe Tristão, e
+se ainda mais quizeres, accrescentou elle, mais ainda serei capaz de te
+adquirir.
+
+--Peço-lhe portanto um favor, meu pae.
+
+--Dize.
+
+--É que d'esse dinheiro, disponha de cincoenta contos para eu poder
+dotar uma amiga que tenho, se porventura ella resistir á enfermidade que
+a anniquila.
+
+--Terás, não cincoenta contos de réis para essa amiga, mas cem, duzentos
+ou aquillo que te aprouver! Porém, abandonares me, nunca! Queres esse
+dinheiro? Ámanhã; hoje; agora mesmo! Se o desejas, não tenho mais do que
+ir buscal-o a casa do meu banqueiro...
+
+É que esse homem perverso por instincto, o unico sentimento grande que
+havia experimentado na vida era o amor por sua filha!
+
+--Juras me que não abandonas teu pae? accrescentou elle pegando nas mãos
+de Magdalena e levando-as junto ao coração.
+
+--Juro que não abandonarei meu pae, respondeu Magdalena apertando-o nos
+braços!
+
+--Parece impossivel! disse Olympia, abrindo ao mesmo tempo a porta do
+gabinete. Ha mais de dez minutos que está a sopa na mesa, accrescentou
+voltando-se para Magdalena.
+
+--Já vamos, respondeu esta.
+
+--Ah! temos lagrimas! ajuntou Olympia sahindo do gabinete.
+
+--E quem é essa pessoa que tu queres dotar, Magdalena? perguntou Tristão
+depois de alguns momentos de silencio.
+
+--É Martha, a filha de Jeronymo.
+
+--Conta com esse dinheiro, respondeu Tristão.
+
+--Obrigada, disse lhe Magdalena. Agora estou mais tranquilla, e, dando o
+braço a Tristão, sahiram do gabinete, seguidos por D. Maria Egypciaca, e
+dirigiram-se á casa do jantar.
+
+ * * * * *
+
+ * * * * *
+
+Apresentado pelo visconde, ás oito horas da noite, entrou o conselheiro
+Poderosa.
+
+O visconde ao notar a pallidez de Magdalena, olhou de soslaio para o
+conselheiro, como se lhe indicasse o soffrimento que se lhe notava no
+semblante.
+
+Poderosa sorriu se! Depois, ao vêr a obesidade da irmã de Magdalena, o
+rosado das suas faces, e toda aquella economia exhalando vida e saude,
+pensou de si comsigo que era essa a unica mulher que lhe convinha.
+
+Depois das apresentações do estylo, o conselheiro sentou-se junto do
+magnate para lhe falar ácerca da missão de que sua magestade o tinha
+encarregado.
+
+No entretanto, o visconde, proximo de D. Maria Egypciaca, entretinha-se
+com a futura titular, discutindo sobre o nome que devia juntar-se ao
+titulo.
+
+--Minha senhora, dizia-lhe o visconde, eu não tenho a mais leve
+desconfiança que seu marido lhe usurpe o direito da escolha. O que
+depende do bello pertence a vossa excellencia, queira vossa excellencia
+lembrar-se do nome que deve ter esse titulo, accrescentava elle olhando
+significativamente para Magdalena, nos momentos em que por acaso
+encontrava os olhos do conselheiro.
+
+N'este comenos, o conselheiro, que acabava de falar com Tristão,
+approximou-se de D. Maria Egypciaca e do visconde.
+
+A conversação correu animadissima até ás onze horas da noite.
+
+Seguindo as instrucções do visconde, o conselheiro portou-se
+bizarramente no tocante a dissertações culinarias, falando sempre com
+muito acerto sobre os diferentes generos de cosinha.
+
+O coração de Olympia, ou, para melhor dizer o estomago de Olympia,
+começou desde esse momento a palpitar pelo joven conselheiro, e a
+cabeça, que tanta relação tem com essa viscera, principiou tambem a
+comprehender que era o conselheiro o unico marido que lhe convinha.
+
+Ás onze horas, retiraram-se o conselheiro e o visconde, combinando ambos
+com Tristão de Almeida a hora para no dia seguinte se encontrarem, a fim
+de se decidir o nome que devia ser escolhido para o titulo.
+
+ * * * * *
+
+D'ali a duas horas, Olympia resonando profundamente, via em sonhos um
+lauto banquete, e, a seu lado, com a farda de conselheiro, aquelle que
+na sua vida lhe tinha proporcionado o ensejo de se convencer que no seu
+todo havia uma outra viscera sem ser o estomago.
+
+Magdalena, com o rosto encostado aos vidros da janella, contemplava os
+astros, adivinhando em cada um d'elles o rosto grave e melancholico de
+Manuel de Mendonça.
+
+
+
+
+XXXI
+
+
+No dia seguinte á entrevista do conselheiro, á mesma hora que este e o
+visconde se preparavam para ir falar com Tristão, Manuel de Mendonça
+resolvia procurar informações de Martha.
+
+--Se tudo quanto te disse aquella infame beata, não fosse mais do que
+uma calumnia... pensava Manuel ao mesmo tempo que o proferia a
+Mascatudo.
+
+--Póde muito bem ser que tal aconteça, respondia-lhe o marinheiro. Em
+todo o caso, se eu fosse ao sr. Manuel de Mendonça...
+
+--Que fazias? acudiu rapidamente o capitão.
+
+--Ia saber d'aquella pobre menina.
+
+--Tomarei o teu conselho. Vou. Não sei o que me adivinha o coração;
+porém, ou eu me illudo muito, ou Martha está innocente como os anjos.
+
+--Estou da sua opinião. No que o senhor fez mal, foi em acreditar nas
+primeiras palavras d'essa mulher. Se eu sei, tinha-lhe occultado tudo
+quanto a seu respeito ouvi dizer.
+
+--Não te arrependas, Mascatudo; nos teus casos, teria feito o mesmo.
+
+--E se essa mulher não passasse de uma infame mentirosa?
+
+--E se tudo quanto a tia Monica te disse fosse verdadeiro? Que remorsos
+não terias n'este momento, se me tivesses dito que a conducta de Martha
+era irreprehensivel?
+
+--Isso lá é que é verdade, sr. Manuel de Mendonça. Em todo o caso, tudo
+se poderá hoje descobrir. Se o senhor consentisse que eu fosse em sua
+companhia...
+
+--Da melhor vontade e até me fazes muito favor.
+
+ * * * * *
+
+ * * * * *
+
+Em menos de um quarto de hora, Manuel de Mendonça acompanhado por
+Mascatudo, desembarcava na rocha do conde de Obidos e, subindo a rampa,
+dirigia-se para a rua do Meio.
+
+--Se lhe parece, disse Mascatudo ao chegarem á rua das Praças, vamos á
+tenda em que lhe falei. O caixeiro, que já é meu conhecido, póde nos dar
+mais algumas informações.
+
+--Confesso-te que me vae custando esta espionagem, respondeu
+placidamente Manuel de Mendonça.
+
+Seria a delicadeza da sua alma, ou o receio de saber alguma
+circumstancia menos favoravel ácerca da vida intima de Martha, que fazia
+com que o maritimo fugisse a mais investigações?
+
+Deixaremos isto ao juizo da intelligente leitora, que para casos de tal
+monta não nos julgamos habilitados.
+
+Ao chegar defronte da casa onde habitava a filha do operario, Manuel de
+Mendonça estremeceu. Lembrou-se da noite em que pela primeira vez a
+encontrára, quando ella com as supplicas de piedade lhe pediu entre
+lagrimas que a ajudasse a procurar seu pae. Logo, recordou-se das duas
+ou tres vezes que a vira no hotel Bragança, quando ainda as boccas
+maliciosas não se haviam aberto para lhe cuspir o fel da maledicencia.
+Em toda a pureza angelica da sua castidade, Martha desenhava-se-lhe
+deante dos olhos, como muitas e muitas vezes a imagem grata de sua mãe
+lhe apparecia por entre as nevoas da tarde, quando a galera, sulcando as
+aguas do oceano, o conduzia a estranhos climas onde nem um só coração
+amigo se lhe approximava.
+
+Mascatudo comprehendeu-lhe o soffrimento.
+
+--Que devemos fazer? perguntou Manuel.
+
+--Sondar estes baixios, e se o rumo não fôr perigoso, seguiremos a nossa
+derrota, respondeu Mascatudo.
+
+N'este momento passava uma carruagem.
+
+Manuel olhou instinctivamente para dentro do trem.
+
+Ao mesmo tempo, o cocheiro como se já estivesse prevenido, estacou os
+cavallos.
+
+Era Magdalena que vinha dentro da carruagem!
+
+Collocando a cabeça fóra do postigo, a filha de Tristão fez um aceno a
+Manuel para que se approximasse.
+
+--Necessito falar-lhe quanto antes, acudiu ella rapidamente, dirigindo
+se ao maritimo, que a contemplava com um gesto de espanto impossivel de
+descrever. Provavelmente, accrescentou ella, tenciona ir ver a pobre
+Martha; não o faça sem primeiro me falar.
+
+--Estou ás ordens de vossa excellencia, respondeu Manuel de Mendonça,
+reconhecendo n'esse momento a filha de Tristão de Almeida.
+
+--Mas aqui é inteiramente impossivel por causa da visinhança,
+accrescentou ella, com uma voz tremula e assustada.
+
+--Dir-me-ha então?... perguntou Manuel.
+
+--Dirija-se ao passeio da Estrella. Espero-o na montanha; e antes que
+Manuel tivesse tido tempo de reflectir, Magdalena falou ao cocheiro, e
+os cavallos partiram n'um trote largo, caminho da rua dos Navegantes.
+
+Manuel ficou como assombrado! Não sabia que pensar! Aquella mulher, que
+na ante-vespera o estivera olhando por um telescopio, seria a confidente
+dos amores de Martha, ou seria ella mesma que o amava? Aquella insolita
+maneira de o avisinhar; a perturbação das suas palavras; a visivel
+pallidez do rosto, que augmentava á proporção que os seus olhos o
+contemplavam, tudo concorria para que o maritimo ficasse como abysmado.
+
+--Que foi isso? perguntou Mascatudo, ao notar a profunda perturbação de
+Manuel de Mendonça.
+
+Manuel contou-lhe o que se havia passado.
+
+--E que tenciona fazer? perguntou Mascatudo.
+
+--Ir immediatamente para o passeio da Estrella. Que te parece?
+
+--Que vá quanto antes, respondeu Mascatudo.
+
+Sem mais hesitação, Manuel de Mendonça entrou na rua da Bella Vista, e
+seguiu para o passeio da Estrella.
+
+--Espera-me aqui junto ao lago, disse elle a Mascatudo ao entrarem as
+portas do passeio.
+
+
+
+
+XXXII
+
+
+Espera-o, martyr! Unge-lhe o peito com o divino balsamo do teu nobre
+sacrificio! Lagrimas misericordiosas foram as tuas, derramadas sobre a
+face da pobre virgem! Vae, infeliz; fere, profunda, arranca uma por uma
+as fibras do coração, e que o sangue que d'ahi te gotejar, lavando as
+nodoas do futuro conde lhe purifique a alma para um dia entrar no reino
+dos justos com o passaporte de uma retribuição!
+
+ * * * * *
+
+ * * * * *
+
+Manuel subiu á montanha.
+
+Magdalena não faltára.
+
+--Venho cumprir com as ordens de vossa excellencia, disse Manuel de
+Mendonça, approximando-se.
+
+--Ah! respondeu ella, como se despertasse de um sonho. E accrescentou,
+visivelmente perturbada: realmente, deve estranhar o meu proceder,
+porém, uma circumstancia grave e muito grave me obrigou a procural-o
+hoje mesmo. Tracta-se de salvar uma pessoa cuja vida me interessa.
+
+--Estou ás ordens de vossa excellencia para tudo quanto me fôr possivel.
+
+--Sabe que tem estado á morte a filha de Jeronymo?
+
+--Não o sabia, minha senhora, respondeu Manuel começando tambem a
+perturbar-se.
+
+--Ha quinze dias que a infeliz, deitada sobre o leito da agonia, olha
+para o céu que lhe pertence. Hontem, que foi a ultima vez que lá estive,
+o medico sahiu completamente desanimado. A sua enfermidade é menos
+physica do que moral, e só á ultima hora lhe podemos descobrir a causa.
+
+--E essa causa é?... perguntou Manuel.
+
+--Amar um homem que a tem desprezado! Aquelle anjo, occultando a todos o
+sentimento que a devora, reclinou se sobre a sua sepultura, aguardando
+apenas que lh'a venham abrir para desprender a alma a Deus!
+
+Os olhos de Manuel humedeceram se de lagrimas. Havia tanto sentimento
+nas palavras de Magdalena, a sua voz, ainda ha pouco perturbada,
+tornára-se tão firme e tão segura, que elle não pôde ver em Magdalena
+mais do que uma amiga verdadeira e dedicada de Martha.
+
+--E onde existe esse homem que a póde salvar?
+
+--Onde existe?... accudiu Magdalena com uma expressão que principiava a
+denunciar-lhe o seu estado. Esse homem... accrescentou ella, é... o sr.
+Manuel de Mendonça!
+
+--Eu! exclamou o maritimo n'um transporte de indescriptivel alegria.
+
+--Sim, continuou Magdalena. O senhor, em cujo espirito adivinhou
+inteira a sua felicidade. O senhor a quem uma vez encontrou na
+existencia para nunca mais o esquecer! Mais tarde, o seu coração candido
+e inexperiente fez-lhe conhecer que o amava. O seu nascimento, a
+humildade de educação, a pobreza de seus paes, tudo emfim concorreu para
+que Martha não se atrevesse a declarar a pessoa alguma o amor que o
+senhor lhe tinha inspirado. Emquanto teve forças, lutou, mas um dia,
+exhausta, a pobre Martha cahiu como essas flores delicadas que não têem
+força bastante para supportarem a furia dos elementos. Hontem,
+finalmente, abriu-me inteira a sua alma, alma candida e serena como a
+dos anjos que hoje lhe tecem o seu diadema de martyr! Sem lhe
+descortinar as minhas ideias, resolvi commigo mesma de o procurar, e
+pedir-lhe que salve da morte a minha pobre amiga. Não sei quem v. s.ª é,
+porém, julgo-o um homem de bem e capaz de fazer a felicidade de qualquer
+mulher.
+
+Pallida, com as fontes palpitantes e os olhos afogueados por aquella
+immensa lucta em que a alma se lhe debatia, Magdalena parecia elevar-se
+nas azas de uma inspiração sublime! Levantando depois a voz que
+principiava a enfraquecer-lhe, Magdalena pediu a Manuel que lhe
+concedesse a sua mão para a filha do operario.
+
+Manuel não respondeu!
+
+E no emtanto as aves chilreando por entre as ramas dos arvoredos vinham
+como n'um concerto infernal soar aos ouvidos da pobre Magdalena!
+
+--Que me diz, sr. Manuel de Mendonça? Hesita? Não a ama? É possivel?
+Quem póde deixar de amar aquelle anjo?! exclamou Magdalena dando emfim
+livre curso ás suas lagrimas.
+
+--Mas porque chora? perguntou Manuel de Mendonça dirigindo-se meigamente
+para Magdalena.
+
+--Porque choro? Porque avalio a dôr de Martha! Porque a sinto tão viva
+e tão penetrante como ella que a soffre! Porque choro? Porque sei quanta
+agonia ha, n'esse amar em silencio, o homem que nunca póde ser nosso!
+
+--Pelo que vejo... ama alguem? perguntou Manuel com voz tremula.
+
+--Já amei alguem... sim... mas ha muito tempo. Hoje não, sr. Manuel de
+Mendonça! Hoje, toda a minha vida cifra-se apenas n'uma missão que tenho
+a cumprir.
+
+--E essa missão, é?..
+
+--Vel-o casado com Martha. Vão ambos ser muito felizes. Ella ama-o
+tanto, tanto como eu seria...
+
+Aqui a voz ficou-lhe embargada n'uma torrente de lagrimas.
+
+E as avesinhas chilreando por entre a moita dos junquilhos que
+emmolduravam a montanha, acordavam no espirito de Magdalena um como
+concerto infernal!
+
+Finalmente, Manuel de Mendonça prometteu-lhe que pediria a Jeronymo a
+mão de sua filha.
+
+Apertando-lhe fortemente a mão, Magdalena despediu-se do maritimo e saiu
+do passeio.
+
+Como aturdido por aquelles estranhos acontecimentos, Manuel dirigiu-se
+para o sitio onde Mascatudo o esperava, e, saindo tambem do passeio
+dirigiram-se pela rua da Boa Morte.
+
+--Para onde vae, sr. Manuel de Mendonça, perguntou Mascatudo vendo que o
+seu capitão seguia a direcção da estrada do cemiterio dos Prazeres.
+
+--Preciso de ar livre, respondeu-lhe Manuel. Escalda-me a febre. Para
+que haviamos de ter vindo a Lisboa?
+
+Era tal a agitação do seu espirito, que Mascatudo nem se atreveu a
+perguntar-lhe o resultado da entrevista que tivera com aquella senhora.
+
+O mais que entre ambos se passou foi um mysterio. Soube-o ella e Manuel
+de Mendonça. Agora, quando estas paginas escrevemos, Magdalena dorme o
+somno da morte. Manuel, discreto como a sepultura da pobre amiga, seria
+incapaz de o revelar.
+
+
+
+
+XXXIII
+
+
+Ao metter-se no trem, Magdalena dissera ao cocheiro que parasse na rua
+do Meio.
+
+Ao voltar para a esquerda da rua da Bella Vista, ouviu que a chamavam.
+Era Monica!
+
+Magdalena mandou parar o trem e a beata approximou-se.
+
+--Ora aqui a temos outra vez com os olhos arrasados de lagrimas!
+exclamou ella. São essas as promessas que me tem feito? Pois, minha
+querida menina, accrescentou a velha, quanto estimo tel-a encontrado!
+Fique vossa excellencia sabendo, que o amigo do meu sobrinho, com quem
+me vou encontrar, ficou de me dizer hoje tudo _tim tim por tim tim_!
+
+--Pois, sr.ª Monica, respondeu-lhe Magdalena, tirando duas libras do
+_porte-monnaie_, e entregando-as na mão da beata, escusa de se
+incommodar mais por minha causa.
+
+--Ora essa, minha senhora! accudiu rapidamente a velha, fechando ao
+mesmo tempo a mão onde as libras se occultavam. Dar-se ha o caso,
+continuou ella, que não esteja satisfeita com os meus serviços? Se tal
+succede, ralhe-me, ralhe-me muito mas não me tracte por essa forma.
+
+--Não é isso, tia Monica: é que já sei tudo quanto tinha que saber; e,
+fazendo um signal ao cocheiro, fez com que o trem seguisse a sua
+direcção, deixando a beata estupefacta pelo que vinha de lhe acontecer.
+
+Ter-lhe-ia Manuel de Mendonça contado a historia dos seus amores?
+Ter-lhe-ia narrado o que se dera entre Mascatudo e a beata? Ignoramol-o!
+
+O trem chegou á porta de Jeronymo. Ao apear-se, Magdalena foi recebida
+de braços abertos por Balbina e pela sua amiga.
+
+Como era de esperar, Martha n'aquella noite havia peiorado!
+
+--Venho prevenil-a, que ámanhã antes do meiodia, alguem virá pedir-lhe a
+mão de sua filha, disse Magdalena. Agora mesmo acabo de estar com essa
+pessoa. Quando prometto, cumpro, embora vá n'isso a existencia.
+
+A gratidão não tem phrases! Balbina e Marianna, abraçando-se a
+Magdalena, confundiam entre as suas, as lagrimas da pobre martyr!
+
+--Agora, murmurou Magdalena desembaraçando-se das suas protegidas,
+cumpre-me falar com Martha.
+
+--Mas, é possivel que um senhor d'aquella ordem deseje casar-se com a
+filha de um mestre de obras perguntou Balbina com as lagrimas nos olhos.
+
+--Almas como as de Manuel de Mendonça, olham apenas para a virtude e
+nunca para o nascimento, respondeu Magdalena.
+
+--Manuel de Mendonça?! exclamou Marianna com uma voz tremula e
+indecisa. E que edade tem esse homem? E quem são os seus paes? ajuntou a
+pobre mulher approximando-se cada vez mais da filha de Tristão de
+Almeida.
+
+--Infelizmente, não tem paes, respondeu Magdalena.
+
+--E sabe vossa excellencia quem elle é, perguntou Marianna.
+
+--Sei.
+
+--Oh! por piedade! diga m'o! Dar-se-ha o caso que seja...
+
+--Quem? perguntou Magdalena visivelmente perturbada.
+
+--O meu filho, que ha vinte e tres annos supponho morto!
+
+--Como se chama elle? perguntou Magdalena.
+
+--Manuel de Mendonça Athayde, respondeu a velha com uma voz
+enfraquecida.
+
+--E seu marido?... como se chamava? ajuntou Magdalena.
+
+-Alvaro de Mendonça...
+
+--Justiça de Deus! exclamou a filha de Tristão, caindo sobre o canapé, e
+occultando o rosto entre as mãos.
+
+--Oh! mas por Deus não me torture! bradou Marianna, lançando-se aos pés
+de Magdalena. Diga-me se é elle o meu querido filho! É; não ha duvida!
+Essa sua perturbação... Vive ainda o meu Manuel, o meu querido filho da
+minh'alma? Não a deixo, minha senhora, não a deixo emquanto me não
+contar tudo!
+
+--É o seu filho! respondeu Magdalena levantando-se com uma serenidade
+heroica. Deus que nunca desamparou os que são verdadeiramente bons,
+concedeu-lhe em mim o instrumento da sua justiça, e n'elle a consolação
+para a sua velhice. Agora sr.ª D. Marianna, ajuntou ella lançando-se aos
+pés da velha, sou eu quem lhe devolve o seu filho, que, em nome de Deus
+e em meu nome, lhe pedimos o perdão para um culpado! Concede-m'o?
+
+Marianna não sabia que responder!
+
+--É de joelhos que lh'o imploro! ajuntou ella, collocando-se deante da
+velha, e confundindo as suas vestes de setim negro, com os andrajos da
+infeliz!
+
+--Eu vos perdôo de todo o meu coração! exclamou D. Marianna de Mendonça
+cahindo sobre o chão. Mas a quem perdôo eu? accrescentou a infeliz
+senhora, que não pensava senão em ver seu filho!
+
+--Obrigada, disse Magdalena levantando D. Marianna, e levando-a de
+encontro ao coração! Agora que _lhe_ perdoou, vou buscar seu filho, e
+trazel o aqui mesmo.
+
+Com uma physionomia alvar, Balbina contemplava toda esta scena sem a
+comprehender.
+
+Magdalena fechou-se por alguns instantes no quarto de Martha. Afinal
+sahiu, e, abraçando de novo as suas amigas, entrou no trem, e seguiu
+para o hospital.
+
+No entretanto, Manuel de Mendonça descendo a calçada das Necessidades
+dirigia-se para bordo.
+
+
+
+
+XXXIV
+
+
+«Felizmente, pensava Magdalena, Manuel de Mendonça nem sequer desconfia
+que Tristão de Almeida foi Felix Justino de Araujo e muito menos
+Domingos de Andrade. Poderei conseguir tudo sem comprometter meu pae.
+Vejamos; seriam quarenta, cincoenta contos... Pedir-lhe-hei o meu dote,
+e será uma retribuição generosa! Ao principio oppôr se-ha ao meu pedido,
+mas por ultimo, não terá outro remedio senão acceder. Occultarei tudo de
+minha mãe. Permitta Deus que o possa encontrar no hospital. São estas as
+suas horas.»
+
+N'este momento, o trem chegava á rua de S. Francisco de Paula. Ao entrar
+o portão, a primeira pessoa que lhe appareceu, foi a criada de Olympia,
+dando lhe os parabens não só pelo titulo que haviam concedido a seu pae,
+como pelo lindo nome que elle tinha escolhido: o conde de S. Luiz.
+
+Sem lhe prestar attenção alguma, Magdalena perguntou-lhe apenas se alli
+estivera seu pae.
+
+--Ora essa! respondeu a criada de Olympia; acaba agora mesmo de ir para
+o paço, afim de agradecer a sua magestade.
+
+--E Olympia?
+
+--Sua irmã está lá em cima na casa de jantar a comer umas gallinholas,
+que até dá nauseas a quem vê similhante coisa! Mandou fazer umas
+torradas, e deitar sobre ellas o miolo das tripas. Já viram maior
+porcaria? E diz ella que é o melhor cozinheiro que tem tido, e que faz
+pena que esteja no hospital!
+
+Magdalena subiu á casa do jantar, onde encontrou sua irmã deliciando o
+paladar n'uma soberba torrada coberta dos despojos ornithologicos
+d'aquella innocente gallinhola.
+
+--Já sabes o titulo que o papá escolheu? perguntou Olympia.
+
+--Sei, respondeu Magdalena quasi sem lhe prestar attenção.
+
+--É muito bonito! não achas?
+
+--Muito bonito!
+
+--Estiveste em casa de Martha?
+
+--Estive.
+
+--Vae melhor?
+
+--Muito melhor.
+
+--Não te offereço d'esta gallinhola porque é de suppôr que não esteja ao
+teu gosto, disse Olympia dissecando a _carcassa_ da avesinha.
+
+--Agradeço, murmurou Magdalena deixando sua irmã, e dirigindo-se para o
+terceiro andar d'onde dias antes contemplava a galera de Manuel de
+Mendonça.
+
+Alli pôde emfim dar livre curso ás suas lagrimas!
+
+D'aquella janella por mais de uma vez, insciente da cruel realidade,
+contemplára o Tejo, no Tejo a barca, na barca o homem, no homem, tudo
+quanto havia de mais valioso para o seu coração!
+
+Fôra d'alli que vira o seu primeiro desengano, quando Manuel de
+Mendonça, afastando o oculo, lhe denunciava não ser ella a pessoa que
+tão anciosamente buscava!
+
+Só, entregue a uma multidão de pensamentos, Magdalena começou a planear
+o modo de seu pae restituir os quarenta contos de réis extorquidos a D.
+Marianna de Mendonça.
+
+Magdalena tinha sobejas provas de que a virtude nem sempre havia adejado
+sobre o proceder de Felix Justino de Araujo. Não ignorava que uma grande
+parte da sua riqueza tinha sido adquirida em commercios illicitos,
+porém, o que ella jamais suppozera, é que seu pae tivesse sido capaz de
+um roubo.
+
+Juntem-se a estas grandes agonias, o infeliz amor que lhe ia n'alma, e
+vossa excellencia que me lê, e, cujo coração é egual ao de Magdalena,
+diga me se dôres tamanhas podem caber em coração humano!
+
+Alli se demorou perto de meia hora. Depois, como se um pensamento lhe
+acudisse rapidamente á imaginação, a infeliz saiu d'aquelle quarto,
+lançando-lhe uma ultima e dolorosa despedida!
+
+Ao descer ao segundo pavimento encontrou Olympia.
+
+--Que tens? perguntou esta ao notar a pallidez de Magdalena.
+
+--Doe-me a cabeça.
+
+--Isso é fraqueza, respondeu Olympia. Assim estou eu.
+
+Magdalena desceu ás enfermarias e depois de dar as suas ordens, entrou
+no trem e mandou seguir para Alcantara.
+
+ * * * * *
+
+ * * * * *
+
+«Disse-me que ia para bordo. Já lá deve estar. Mas isto é uma loucura,
+pensava ella. Uma mulher da minha edade ir procurar um homem a bordo do
+seu navio? Embora! A minha consciencia está livre e tranquilla! Não foi
+Deus quem predispoz todas estas circumstancias, servindo-se de mim para
+sua intermediaria? Que poderei receiar?»
+
+Voltando-se para o cocheiro disse-lhe que parasse na rocha do Conde de
+Obidos.
+
+Ao chegar ao boqueirão, Magdalena apeou-se, e dirigindo-se aos
+catraeiros, pediu a um d'elles que a levassem a bordo da galera
+Esperança.
+
+Todos queriam ser o primeiro a conduzil-a.
+
+Escolhendo o mais edoso, desceu a rampa e entrou no bote.
+
+Que de poemas se agitavam em sua alma á medida que se approximava da
+galera! Como ella, escrava de um dever, ia para sempre abandonar a sua
+ventura!
+
+Restava-lhe apenas no meio dos seus infortunios, a grata lembrança de
+devolver aos braços d'aquelle homem a pobre mãe que elle tão anciosa e
+infructiferamente havia buscado!
+
+A pouca distancia viu Manuel de Mendonça, de pé, encostado á amurada.
+Com o rosto curvado sobre o peito, olhava para as aguas da corrente, que
+vinham no seu eterno movimento gemer de encontro á quilha da embarcação.
+
+Ao ver aquelle bote que se lhe dirigia por estibordo, reconheceu
+immediatamente a filha de Tristão de Almeida, e, descendo a escada de
+corda, veiu recebel-a no momento em que abordava á embarcação.
+
+--Preciso falar-lhe, disse Magdalena. E nem mesmo subo, ajuntou ella,
+olhando tristemente para a galera.
+
+Manuel entrou para o bote, e Magdalena mandou que remassem para o caes.
+
+Durante o curto espaço de tempo que levaram em chegar á rocha,
+Magdalena não lhe dirigiu uma palavra.
+
+Manuel não sabia que pensar.
+
+Os catraeiros olhando-se mutuamente, conjecturavam entre si, o que seria
+a causa d'aquelle mysterio.
+
+Chegaram finalmente á rocha.
+
+Ao subir as escadas, Magdalena voltou-se para Manuel de Mendonça, ergueu
+o véu que lhe occultava o rosto, e demorou-se fitando-o por alguns
+instantes.
+
+--Vim buscal-o tão apressadamente, porque lhe quero dar o maior prazer
+que tem experimentado na sua vida. A Providencia fez com que me
+encontrasse, para lhe depositar nos seus braços tudo quanto tem de mais
+precioso sobre a terra.
+
+Manuel contemplava-a sem comprehender uma palavra.
+
+--Não lhe offereço o meu trem; poder se-ia tornar reparado, accrescentou
+ella; mas, o que lhe peço, é que venha immediatamente a casa de Jeronymo
+para onde me dirijo. E saltando para dentro do trem, mandou ao cocheiro
+que seguisse para a rua do Meio.
+
+Metteu-se n'uma sege que passava n'aquelle instante Manuel de Mendonça e
+acompanhou a carruagem de Magdalena.
+
+Chegaram ao mesmo tempo á porta de Jeronymo.
+
+Magdalena foi a primeira a apear-se, e, entrando rapidamente em casa de
+Jeronymo, dirigiu-se ao quarto de D. Marianna de Mendonça.
+
+A pobre senhora lançou-se-lhe nos braços!
+
+--Venho cumprir a minha promessa, disse-lhe Magdalena. Vae ver seu
+filho! O que lhe peço, é que tenha valor para resistir a este lance! e,
+abrindo a porta que communicava com a saleta, chamou em voz alta por
+Manuel de Mendonça.
+
+ * * * * *
+
+ * * * * *
+
+Vêde a leôa a quem haviam roubado o filho, e que o torna a colher entre
+as suas garras, e podereis avaliar o que se passou n'aquella eternidade
+de sensações.
+
+ * * * * *
+
+ * * * * *
+
+Magdalena, de pé, com os olhos arrasados de lagrimas, contemplava esta
+scena ao lado da mulher de Jeronymo.
+
+Perto de cinco minutos esteve a pobre mãe agarrada ao pescoço de Manuel
+de Mendonça! Ainda lhe parecia impossivel aquella palpavel realidade!
+Desprendendo-se emfim do collo de seu filho, D. Marianna lançou-se aos
+pés de Magdalena, e, beijando-lh'os no transporte de uma alegria
+assustadora, ergueu-se de novo cingindo-a pela cintura e cobrindo-lhe a
+face de beijos e lagrimas de gratidão!
+
+--Agora, disse Magdalena desembaraçando se de D. Marianna, devemos
+attender ao estado de Martha. É necessario prevenirmos todas estas
+circumstancias. Ter-nos-ha ouvido?
+
+--Com certeza que não; e demais tem um somno muito pesado, respondeu
+Balbina enxugando as lagrimas que lhe rolavam pelo rosto.
+
+N'este momento, Martha chamava por sua mãe.
+
+Balbina e Magdalena dirigiram-se ao quarto da doente.
+
+--Que voz foi essa que ouvi na saleta, minha mãe? perguntou Martha sem
+notar a presença de Magdalena.
+
+--Era a minha voz, respondeu a filha de Tristão approximando-se do leito
+e beijando-a na face.
+
+--A sua! exclamou ella. Eu suppunha...
+
+--O quê?
+
+--Que era...
+
+--A voz de Manuel de Mendonça? Não se illudiu. É Manuel que vem hoje
+pedil-a a seu pae.
+
+Erguendo se n'um impeto de suprema vontade, Martha lançou-se ao pescoço
+de Magdalena.
+
+Que lagrimas não foram as d'essas duas mulheres! N'uma, o pranto
+consolador da alegria; na outra, lagrimas que vinham do coração,
+abrazando-lhe as palpebras n'um fogo do inferno!
+
+--Valor! disse Magdalena, soltando-se dos braços de Martha, é necessario
+que se restabeleça para em breve conceder a sua mão ao filho de D.
+Marianna de Athayde!
+
+--Ao filho de Marianna de Athayde! exclamou ella sem comprehender uma
+palavra do que acabava de ouvir!
+
+--Sim, ao filho da sua amiga Marianna.
+
+--Então Manuel de Mendonça é...
+
+--Seu filho. Agora, cumpre-me dar ainda alguns passos para resolver
+completamente a minha missão, e, abraçando a sua protegida, Magdalena
+sahiu do quarto e dirigiu-se á saleta aonde Manuel de Mendonça, ainda
+preso nos braços de sua mãe, agradecia á Providencia o ter-lhe devolvido
+tudo quanto elle tinha de mais caro n'este mundo.
+
+Ao vel-a, D. Marianna lançou-se-lhe de novo ao pescoço e cobriu-a de
+beijos!
+
+Manuel de Mendonça, que fixára o rosto entristecido de Magdalena, cravou
+os olhos no chão, como receiando que o trahisse o seu olhar.
+
+Teria elle comprehendido o que se passava no coração de Magdalena?
+
+--Agora, disse Magdalena, retiro-me. Ámanhã sendo meio dia, aqui
+estarei, por que tenho graves negocios a tractar com vossa excellencia e
+com seu filho. Extendendo a mão a este ultimo e a D. Marianna, Magdalena
+retirou-se, caminho do hospital.
+
+
+
+
+XXXV
+
+
+Havia quinze dias que sahira o decreto concedendo o titulo de «conde de
+S. Luiz» ao illustre e philanthropico varão, que, com tanto e tanto
+afan, continuava a espalhar as joias da sua caridade.
+
+A condessa, impando de orgulho e de vaidade, ora se pavoneava pelas ruas
+mais concorridas da capital, ora embocetada no palacio de S. Francisco
+de Paula, aguardava o sequito das fidalgas caridosas, que, esquecendo o
+amarellecido dos seus pergaminhos, iam, movidas pela virtude da moderna
+titular, fazer antecamara áquella que dias antes se chamava apenas D.
+Maria Egypciaca.
+
+Graças ás repetidas instancias do seu amigo o visconde de Coruche,
+Tristão de Almeida, ou, para falarmos com mais propriedade, o conde de
+S. Luiz, fizera um arrendamento a longo prazo de um magnifico palacio em
+Buenos-Ayres, outr'ora pertencente aos marquezes de...
+
+Encarregando-se por especial favor do que dizia respeito ás
+cavallariças, o visconde, como homem entendido na materia, fez
+acquisição de tudo quanto n'esse genero havia de melhor.
+
+Tornou-se notorio o luxo d'aquella irreprehensivel vivenda.
+
+Os fidalgos, que n'esse tempo--menos por necessidade, do que pelo prazer
+de manifestarem aos quatro ventos do céu o seu desamor pela
+archeologia--esbanjavam sem dó nem piedade, os mais preciosos objectos
+de arte, deparados nos empoeirados sotãos dos seus castellos feudaes,
+correram atropellando-se ao escriptorio do conde de S. Luiz, afim de ver
+qual seria o primeiro a depositar nas mãos do magnate as nobres
+reliquias dos seus preclarissimos antepassados. Não tardou que o palacio
+do conde de S. Luiz se tornasse n'um museu de antiguidades! Retratos
+houve de familia, que foram jazer empilhados na estrebaria por não lhes
+permittirem os salões o seu elevado porte.
+
+O conde, pagava tudo com prodiga generosidade, o que lhe deu o triste
+resultado de alguem lhe metter um collar de perolas falsas por barrocas,
+o que elle generosamente acceitou e pagou, attendendo que esse mesmo
+collar havia figurado no pescoço de um grande ministro de um excelso
+monarcha.
+
+Juntem se a estas nobres qualidades, uma mesa esplendida, e que o leitor
+avalie se a casa do conde de S. Luiz seria ou não frequentada.
+
+O conselheiro Poderosa, graças ás ausencias do visconde, de dia para dia
+se tornava mais sympathico para Olympia, para o conde e para a condessa.
+
+Olympia adivinhava no conselheiro, não só um marido exemplar, como um
+dedicado companheiro de mesa, prompto sempre a affrontar qualquer ataque
+apopletico por mais anormaes que fossem as epochas.
+
+O conselheiro comia e bebia por dez conselheiros, o que era
+extremamente agradavel para Olympia, porém, quando ella um dia notou que
+depois do jantar, os olhos do seu futuro se fitaram brandamente n'uma
+othomana que estava proxima, Olympia exultou de alegria, e viu n'esse
+homem, o unico individuo capaz de fazer a sua felicidade: comer e
+dormir, acordar e comer!
+
+Olympia esperava apenas que o conselheiro a pedisse a seu pae.
+
+A condessa sabia d'estes amores. Por mais de uma vez tinha dito a
+Olympia, que pela sua parte não encontraria a menor opposição.
+
+Exceptuando duas pessoas, todos alli viviam felizes: essas duas, eram
+Magdalena e o conde de S. Luiz! O que entre ambos se havia passado,
+sabia-o apenas Deus, que ajudára a primeira nos seus pedidos e escutara
+as promessas do segundo!
+
+Quanto á condessa de S. Luiz, ou porque a sua alegria não lhe tivesse
+dado tempo a reflectir na tristeza do conde e de sua filha ou porque
+inteiramente lhes não desse importancia, não cuidava senão em distrahir
+os seus convidados.
+
+Aos almoços, succediam-se os jantares, a estes os bailes, de forma que o
+palacio do conde de S. Luiz tornou se em poucos dias o centro da melhor
+sociedade de Lisboa.
+
+Debalde tentavam Magdalena e seu pae, encobrir a dôr que lhes roubava a
+felicidade. Este ultimo, vendo constantemente deante dos olhos a imagem
+grave e severa de D. Marianna de Mendonça, recordando lhe o seu passado;
+Magdalena lembrando-se do homem que teria feito a ventura da sua alma,
+mas a cujo sacrificio tinha prendido um juramento!
+
+ * * * * *
+
+Magdalena no dia immediato áquelle em que entregara Manuel de Mendonça
+nos braços de sua mãe, fechada com seu pae no escriptorio do hospital,
+communicára-lhe tudo quanto dizia respeito á familia de Athaide de
+Mendonça.
+
+O conde de S. Luiz, que não tinha segredos para sua filha, abrindo-lhe
+inteira a sua alma, desenhára-lhe em traços rapidos o quadro inteiro da
+sua vida, accrescentando-lhe, que por ella e só por ella havia incorrido
+em certas _coisas_ de que se arrependia profundamente.
+
+Magdalena exigiu-lhe uma restituição d'aquelle dinheiro extorquido á
+viuva, compromettendo-se a preparar tudo de forma que a opinião publica
+ainda mais se levantasse em favor de seu pae, vendo-o entregar cem ou
+duzentos contos de réis, á filha d'esse homem, para cuja morte
+involuntariamente havia concorrido.
+
+Concordando plenamente em tudo quanto Magdalena exigiu, pediu apenas a
+sua filha o maior segredo para com a condessa e Olympia, accrescentando
+a isto a maior brevidade possivel no casamento, o qual, auctorizando
+aquella restituição, lhe ia devolver a paz ao espirito.
+
+Abraçando seu pae, Magdalena assegurou-lhe que partiria immediatamente
+para casa de Martha, afim de se oferecer para madrinha do seu casamento.
+Com effeito, ás duas horas da tarde, e não ao meio dia como havia
+combinado com Manuel de Mendonça, Magdalena entrou em casa do operario.
+
+Martha havia passado a noite mais tranquilla. O doutor não se tinha
+illudido; a sua doença era menos physica do que moral.
+
+Desde as onze horas da manhã que Manuel de Mendonça estava ao lado de
+sua mãe. Já na vespera tinha visto Jeronymo, e já lhe havia pedido a mão
+de sua filha.
+
+Magdalena entrou no quarto de Martha, e, dando-lhe os parabens,
+offereceu-se para madrinha do casamento.
+
+Consummara-se o sacrificio!
+
+ * * * * *
+
+--Quando se realisará esse casamento? perguntava todos os dias o conde
+de S. Luiz.
+
+--Brevemente, respondia-lhe Magdalena!
+
+
+
+
+XXXVI
+
+
+Instigado pelos conselhos do visconde, e pela persistente côrte que D.
+Olympia lhe dirigia, o conselheiro resolveu se emfim a pedir aos condes
+a mão de sua filha.
+
+Eram duas horas da tarde. O conde tinha partido para o hospital, mas,
+para sua felicidade estava em casa a condessa de S. Luiz, e prompta como
+sempre, desde as dez horas da manhã, para receber todas as visitas que
+lhe mereciam a honra da sua amizade.
+
+O conselheiro foi introduzido para um pequeno gabinete «á renascença»,
+todo mobilado ao gosto do visconde de Coruche.
+
+A condessa não se fez demorar muito tempo. Já esperava que mais dia
+menos dia o conselheiro se resolvesse a pedir-lhe Olympia.
+
+--Quanto folgo vel-o n'esta casa, e a esta hora, disse a condessa, ao
+mesmo tempo que lhe extendia a mão. Adivinho pouco mais ou menos do que
+se tracta, ajuntou ella designando-lhe uma othomana, e puxando uma
+cadeira para si.
+
+A condessa queria ser a primeira, sempre, em resolver qualquer questão.
+
+--Provavelmente vem pedir a mão de Olympia?... ajuntou ella, sem
+admittir que o conselheiro lhe dirigisse uma só palavra. Quanto o
+estimo! e como o conde vae ficar alegre! Pela minha parte, concedo-lh'a
+da melhor vontade, e, desde já lh'o affianço, que o conde ha-de ser da
+minha opinião. Tenho toda a certeza que v. ex.ª ha de ser o mais feliz
+possivel com minha filha. Não parece uma rapariga d'este tempo. Para
+Olympia é-lhe tão indifferente ir aos bailes, como passar as noites em
+casa. Não dá importancia alguma ao luxo! O seu gosto é estar em casa e
+olhar pela dispensa. Nem é mesmo d'essas meninas que passam o dia a lêr
+livros, como Magdalena por exemplo, que está ás vezes até as duas horas
+da noite amarrada á sua Biblia, e outros romances quejandos. Olympia
+detesta os livros, tem-lhes um odio de morte! Lá quanto a isso,
+parece-se commigo. Foi coisa que nunca pude supportar! Olympia, o seu
+maior prazer é fazer pudins e fructas de compota.
+
+O conselheiro, olhando estupefacto para aquella Niagára de eloquencia,
+debalde esperava o ensejo favoravel para lhe dizer o fim que alli o
+havia trazido. A condessa não lh'o permittia!
+
+--Em Olympia não ha coisa alguma a desejar, formosura, riqueza, saude,
+tudo, tudo, accrescentou a condessa de S. Luiz, tirando o lenço da
+algibeira para limpar o suor que em bagas lhe escorria.
+
+--Pois, minha senhora, acudiu rapidamente o conselheiro, aproveitando o
+ensejo que lhe favorecia a limpeza d'aquella individualidade titular, o
+que me trouxe a casa dos condes de S. Luiz, foi o mesmo que v. ex.ª com
+esse instincto que lhe é natural, adivinhou! Escuso portanto de lh'o
+repetir.
+
+--Quanto o estimo, meu querido genro, respondeu a condessa,
+approximando-se do conselheiro e apertando-lhe ambas as mãos.
+
+--Vae fazer-me o mais feliz de todos os homens.
+
+--Sim?... respondeu a bojuda matrona, vae vêr: levantando-se, puchou o
+cordão da campainha.
+
+--E crê v. ex.ª que a sr.ª D. Olympia responde aos eccos do meu coração?
+
+--Não o comprehendo, sr. conselheiro.
+
+Este occultou a custo um sorriso.
+
+--Quero eu dizer, se o meu amor será retribuido por sua excelentissima
+filha?
+
+--Ora essa! respondeu a condessa tornando a sentar-se ao lado do
+conselheiro, se soubesse quanto ella o estima...
+
+N'este momento appareceu um criado.
+
+--Vá dizer a Maria que participe á Gertrudes que suba ao quarto da aia
+da menina Olympia, para lhe dizer que venha immediatamente falar com sua
+mãe.
+
+O conselheiro abysmou deante d'aquelle prodigio de memoria, que com
+tanta facilidade decorava tão grande porção de nomes!
+
+D'alli a momentos entrou a aia de Olympia, participando que a menina
+ainda teria alguma demora, porque se encontrava um pouco indisposta.
+
+--Provavelmente ceiou muito. É o seu unico defeito, sr. conselheiro. É
+muito gulosa esta minha filha.
+
+A criada retirou-se.
+
+--O mesmo sou eu, minha senhora, respondeu o conselheiro.
+
+--Sim?
+
+--É verdade. Tenho dias de jantar tres vezes.
+
+--Ai que ar! gargalhou a condessa de S. Luiz. Pois realmente, sinto que
+Olympia não esteja de pé. Em todo o caso, sempre vou lá acima. Talvez
+que seja apenas um leve incommodo; e, levantando-se saiu da sala,
+deixando o conselheiro na contemplação de umas gravuras em aço que
+adornavam as paredes do gabinete.
+
+«Isto corre ás mil maravilhas! pensava o conselheiro. Olympia pelo que
+me parece, consultando o estomago, decidiu de si para si que lhe não era
+antipathica a minha pessoa. Sua mãe, pelo que se vê, encontrou em mim o
+seu sonho dourado! Quanto ao conde de S. Luiz por certo que se conforma
+com tudo que sua mulher decidir! Emfim, será o que Deus quizer! Em todo
+o caso, foi um achado, um verdadeiro achado, este Tristão de Almeida. E
+eu que estive para desprezar a sua apresentação!... Desconfio que,
+apezar de todo o amor que Magdalena experimenta pelo visconde, o meu
+casamento ainda se ha de effectuar primeiramente do que o seu. Custa-me
+a acreditar que um caracter como o de Magdalena, possa experimentar pelo
+visconde, outro sentimento, a não ser o de repulsão. O que fôr
+verdadeiramente bom e digno, não póde amar senão o que é digno e bom! E
+demais, Magdalena deve conhecel-o. Tão pouco falado tem elle sido na
+sociedade de Lisboa.»
+
+N'este comenos entrou a condessa; Olympia seguia-a de perto.
+
+Se aos vinte annos a pallidez traduz em absoluto a poesia da alma; se o
+desbotado da face é synonimia dos sofrimentos intimos que lavram o
+coração, Olympia n'aquelle momento, a despeito da sua anafada
+estructura, dir-se-ia nutrida estatua da poesia affectada pelas
+terriveis consequencias de uma gastro enterite!
+
+Ao approximar-se do conselheiro, a filha do conde de S. Luiz debalde se
+esforçava para, n'uma graciosa mesura, cumprimentar aquelle a quem
+brevemente ia conceder a sua mão. O esophago não lhe permittia a mais
+leve inclinação do busto. Olympia conservava se firme como um sargento,
+deante d'esse que era de ha muito o commandante dos seus pensamentos!
+
+--Venho agora mesmo de saber por minha mãe a sr.ª condessa de S. Luiz
+que vossa excellencia deseja estreitar os laços matrimoniaes com a minha
+pessoa. Se a meu pae lhe não fôr desagradavel a união das nossas almas,
+estou muito prompta a acceder em tudo aos seus desejos.
+
+O conselheiro contentou-se apenas em lhe apertar a mão n'um transporte
+de reconhecida ventura.
+
+--Como já tive o gosto de dizer a vossa excellencia o conde de S. Luiz
+terá o maior desejo em que este casamento se effectue o mais depressa
+possivel, portanto, não tem vossa excellencia mais cousa alguma a fazer
+senão vir hoje mesmo pedir-lhe a mão de Olympia. Meu marido e eu mesma,
+accrescentou a condessa de S. Luiz, nos temos informado por todas as
+pessoas que frequentam o nosso palacio, quem vossa excellencia é; deve
+portanto suppor a honra que nos vae causar, entrando para o seio da
+nossa familia.
+
+--A honra sou eu que a recebo, senhora condessa de S. Luiz, e é tão
+profundo o meu desejo em ver realizadas as nossas esperanças, que, hoje
+mesmo, se vossa excellencia acha conveniente...
+
+--Se acho, meu genro! O conde de S. Luiz, sendo cinco horas, mais
+_migalha_ menos _migalha_ deve cá estar. Não falte pois, accrescentou
+ella extendendo a mão ao conselheiro, que foi recuando sem descravar os
+olhos de Olympia, até que se retirou.
+
+--Até que vês as tuas esperanças realizadas, disse a condessa de S. Luiz
+voltando-se para sua filha.
+
+--É verdade, minha mãe, suspirou Olympia! E agora, para ter forças de
+supportar todas estas commoções, vou ver se me dão um caldo de cabeça de
+vitella.
+
+
+
+
+XXXVII
+
+
+Segundo havia combinado com a condessa, o conselheiro ás cinco horas da
+tarde foi procurar o conde de S. Luiz.
+
+Este parecia ouvil-o sem lhe prestar attenção alguma; porém, graças á
+sua esposa, declarou por ultimo que não tinha duvida em conceder-lhe a
+mão de Olympia.
+
+João Poderosa exultou de alegria! Olympia sentia brincar-lhe o travesso
+amor nas cavidades estomacaes apontando-lhe ao mesmo tempo as flechas de
+ouro, ao orgão musculoso do corpo humano, a que vulgarmente se chama
+coração!
+
+Momentos depois começaram a entrar convidados para jantar; entre esses
+vinha o visconde de Coruche.
+
+Ao _toast_, a condessa de S. Luiz declarou que estava justo o casamento
+de sua filha D. Olympia com o conselheiro João Poderosa.
+
+Em seguimento aos brindes do estylo, não houve quem deixasse de notar
+que esta declaração não tivesse sido feita pelo conde. Mas que
+influencia tinha isso? Não fôra esplendido o jantar?!
+
+O que ninguem podia descortinar era o motivo da tristeza do conde de S.
+Luiz e de Magdalena!
+
+Attribuiam a esta ultima, que uma paixão em silencio pelo visconde de
+Coruche, era a causa da sua terrivel melancolia.
+
+Em vez de conversarem com as visitas, de _fazerem sala_, como
+vulgarmente se diz, Magdalena e seu pae passaram quasi toda a noite n'um
+pequeno gabinete contiguo a um dos salões.
+
+--Planeiam o modo de agarrar o visconde! dizia um individuo que por mais
+uma vez intentara fazer a côrte a Magdalena.
+
+--Como se isso fosse uma coisa muito difficil, respondia-lhe o outro.
+Não tem Magdalena um dote de quatrocentos contos?
+
+--Póde ser que a não ame, e n'esse caso...
+
+--Que innocencia! Quem despreza quatrocentos contos? E sobre tudo o
+visconde que está sem um vintem.
+
+--Tomáras tu assim estar.
+
+--Olha, quem foi esperto foi o João Poderosa... Quem o ha de agora
+aturar com quatrocentos contos?
+
+--Felizes dos jogadores!
+
+--Desconfio que não! Já tem comido do pão que o diabo amassou. Não é o
+conselheiro que torna a arruinar-se.
+
+--Não digas isso. A lei natural é esta: o homem rico, que se arruina e
+que depois por um bafejo da sorte torna a enriquecer, embriaga-se no
+fausto e na opulencia, e nunca mais se recorda das terriveis noites de
+miseria senão quando ellas principiam a despontar vagamente por entre o
+sol da sua felicidade.
+
+--A mim não me succederia outro tanto.
+
+--És uma excepção.
+
+--A excepção, é o que tu dizes.
+
+--Será o que te aprouver. O que eu não estou é para teimas. Já querias
+aproveitar esta minha opinião para me ferrares uma _estopada_. Adeus.
+Vou lá dentro ver se tomo um _grog_.
+
+ * * * * *
+
+Á meia noite, retiraram-se todos os convidados.
+
+--Como deves estar satisfeita, Olympia, dizia Magdalena voltando se para
+sua irmã.
+
+--Eu! respondeu Olympia. Ora essa! Pelo muito que jantei.
+
+
+
+
+XXXVIII
+
+
+O conselheiro saira da casa do conde de S. Luiz acompanhado pelo
+visconde.
+
+Ao despedirem se, este ficou de ir no dia seguinte almoçar com João
+Poderosa, para saber todos os promenores da sua entrevista com o conde
+de S. Luiz.
+
+São dez horas da manhã. Louco de alegria pelo negocio que viera de
+fazer, o conselheiro formúla mil planos para o seu dourado porvir!
+
+A geada de muitos invernos que lhe nevara no coração, ia desfazer-se aos
+raios do sol de melhores dias. Ia subir aos pinaculos da felicidade, e
+contemplar de uma grande altura os lodaçaes da pobreza, onde havia
+alguns annos se estorcia.
+
+N'este momento, entrou um criado annunciando o visconde de Coruche.
+
+--Que entre, disse o conselheiro.
+
+Minutos depois, entrou o visconde.
+
+O fidalgo vinha pallido como uma estatua.
+
+--Que temos! Meu Deus! Como vens perturbado! acudiu o conselheiro
+fitando o rosto do seu amigo.
+
+--Uma grande desgraça! Uma grande fatalidade! exclamou o visconde.
+
+--Uma grande desgraça?! Uma grande fatalidade?!
+
+--Venho agora mesmo de casa do conde de S. Luiz, e...
+
+--Morreu Olympia de alguma indigestão?...
+
+--Peior! tartamudeou o visconde, sentando-se n'uma othomana.
+
+--Peior do que isso?! Ora essa! O que poderia acontecer peior do que
+isso!
+
+--O conde de S. Luiz foi atacado pela febre, e porque forma, meu caro
+amigo! A sua morte é irremediavel, mas o peior, ainda não é isso, o
+peior foi o que me disse agora a condessa...
+
+--O que te disse a condessa? perguntou anciosamente o conselheiro.
+
+--Que Magdalena entrará para um convento no mesmo momento em que seu pae
+morrer.
+
+--Respiro! disse emfim o conselheiro.
+
+--Respiras?! perguntou o visconde profundamente admirado.
+
+--Sim, cuidei que fosse alguma coisa que me dissesse respeito.
+
+--Mas diz-me respeito a mim, louco! Não sabes que amava essa mulher? Que
+eu era amado por ella?
+
+--Pois se tu a amas, e és amado por ella, é collocares-te á porta d'esse
+convento e não a deixares entrar.
+
+--É que tu não comprehendes o seu caracter, João. Não sabes a especie de
+amor que essa mulher me consagra? Amor que a tem feito soffrer e que lhe
+vae abrir a sepultura!
+
+--Não comprehendo, murmurou o conselheiro.
+
+--Pois eu t'o explico. Magdalena dirigindo-se pela opinião geral,
+julga-me incapaz de ser um bom marido, por estes dez ou doze annos,
+emquanto tiver sangue na guelra, segundo a phrase de Olympia! Ora, meu
+amigo, Magdalena é ciumenta como uma leôa, que não admitte que se divida
+o coração, prefere morrer por mim, abraçada á cruz do seu amor, do que
+ser minha, sem ter fé na fidelidade da minha alma. Comprehendes?
+
+--Olha, se queres que te diga a verdade, não comprehendo bem essas
+cousas. Ahi tens tu porque eu gosto da minha Olympia. Quanto a essa,
+estou certo que me não ha de atormentar muito com ciumes, nem aturdir-me
+com aquelles estirados monologos de sentimento, em que Magdalena está
+constantemente delirando. Sempre te disse que não trocava a minha
+felicidade pela tua, se por ventura viesses a ser meu cunhado, o que
+jámais pude acreditar, e se queres que seja sincero comtigo, nunca me
+pude aperceber d'essa paixão, que tu dizias ter-lhe inspirado, apezar de
+m'a estares querendo metter pelos olhos. E que tencionas fazer? ajuntou
+elle mudando de tom.
+
+--Que tenciono fazer! Conformar-me com o meu destino, como ella...
+
+--Como ella quê? interrompeu o conselheiro, recolheres te tambem a um
+convento?
+
+--Não, mas esquecel-a em todas as loucuras da vida! No jogo, na
+embriaguez...
+
+--Mau systema, respondeu o conselheiro.
+
+--Sabes uma cousa, João? acudiu o visconde despeitado com a serenidade
+do conselheiro.
+
+--Dize, respondeu este fleugmaticamente.
+
+--Está-me revoltando essa tua serenidade! Devias interessar-te mais por
+mim, lembra-te...
+
+--Que te sou devedor da minha futura felicidade, mas que queres! Creio
+pouco na tua paixão. Tenho-te visto trinta vezes apaixonado, e no dia
+seguinte, curado d'esse sentimento com o coração prompto e limpo para
+receber outro que te appareça. Se fosses pobre como eu, se tivesses as
+minhas theorias sobre o dinheiro, então poderia acreditar que estavas
+penalizado pela entrada no convento, porém como se não dá isso,
+felizmente para ti, pouco tenho a compadecer-me. Ámanhã por estas horas,
+completamente esquecido de Magdalena, apaixonas-te por qualquer mulher
+que seduzes pelo teu ouro e pela tua intelligencia, e appareces-me
+d'aqui a dias curado d'essa paixão que te atormenta.
+
+O visconde mordeu os beiços de raiva. Havia tanto de ironia nas palavras
+do conselheiro, que não tardou muito que as intenções lhe fossem
+completamente denunciadas.
+
+--Que tencionas portanto fazer? perguntou elle a Poderosa, querendo
+dissimular a perturbação que lhe haviam produzido as suas palavras.
+
+--Que tenciono fazer? Ir immediatamente para Buenos-Ayres. E tu?
+
+--Tenho muitas voltas a dar, não poderei ir senão de tarde. E
+despedindo-se do conselheiro, o visconde saiu, deixando o entregue ás
+suas profundas reflexões.
+
+«Pobre visconde! Realmente, compadeço-te. Quanto melhor te fôra o teres
+sido sincero para commigo. Se tens sido esperto, apanhavas-me cincoenta
+ou sessenta contos por me teres conseguido este casamento. Assim, melhor
+foi, custar-me-ha apenas cincoenta ou sessenta libras!»
+
+Meia hora depois, o conselheiro mandou buscar um trem, e dirigiu-se
+para Buenos-Ayres.
+
+
+
+
+XXXIX
+
+
+São tres horas da tarde. O palacio dos condes de S. Luiz, que na vespera
+ainda brilhantemente illuminado, abria os seus magnificos salões á
+primeira sociedade de Lisboa, apresenta se agora entristecido como
+fachada de edificio legendario!
+
+É que a morte, estranha e indifferente a todas as grandezas humanas,
+assenta-se melancholicamente sobre os degraus d'aquellas escadas de
+marmore, e, erguendo-se de vez em quando, fixa o seu olhar invisivel,
+que atravessando as salas, vae pousar lugubremente no rosto pallido e
+cadaverico do conde de S. Luiz!
+
+Tristão sente-lhe as mãos frias e descarnadas pesando-lhe sobre o
+peito. Quer falar; a voz prende-se-lhe na garganta! De vez em quando,
+levanta um olhar de piedade para um Christo, que de braços abertos o
+contempla da sua cruz, como se o convidasse a recolher-se ao seu divino
+seio! Então o conde torna a abaixar os olhos como se aquella imagem o
+assustasse, e, levantando ao mesmo tempo uma das mãos, pede a Magdalena
+que se lhe approxime.
+
+Ha quatro horas que não fala! Para maior expiação, a sua intelligencia
+está clara e completamente serena!
+
+Magdalena, debruçada sobre o leito, pegando n'um lenço de cambraia,
+limpa-lhe de vez em quando o rosto banhado por um suor lento e copioso.
+O seu rosto, denota-lhe o martyrio e a resignação.
+
+A condessa, curvada n'uma poltrona, descança a fronte nas mãos,
+erguendo-se de minuto em minuto para contemplar o infeliz esposo. O seu
+olhar é triste, mas resignado como o de sua filha.
+
+Olympia ao fundo do quarto, sentada n'um sophá tapa os olhos com um
+lenço de assoar, mastigando occulta e prestidigiosamente, umas
+bolachinhas de agua e sal.
+
+O commendador Lopes de Miranda e o banqueiro Vaz Mendes, ora se
+approximam dos pés do leito, ora se dirigem aos outros gabinetes, onde
+uma multidão de individuos esperam com anciedade saber o estado do
+enfermo.
+
+N'este comenos entra o conselheiro Poderosa. Demora-se um minuto olhando
+para o conde, e, engatilhando um gesto de sofrimento dirige-se para a
+condessa.
+
+Esta extende-lhe silenciosamente a mão, occultando ao mesmo tempo o
+rosto com um lenço de cambraia.
+
+João Poderosa fica immovel por alguns segundos, e em seguimento
+retira-se para falar com Olympia.
+
+Ao approximar-se lhe, a noiva simula um estremecimento de surpreza, e,
+esquecendo o embrulho das bolachinhas que conservava no regaço,
+entorna-o, fazendo rebolar as bolachas sobre a alcatifa.
+
+O conselheiro curva o busto, e salva os despojos farinaceos que se
+preparavam para fazer as delicias da mastigação da sua futura esposa!
+
+No momento em que o conselheiro principiava o seu dialogo com Olympia,
+Magdalena, que havia chegado o rosto aos labios de seu pae, volta-se
+para a condessa.
+
+Esta pergunta lhe o que deseja.
+
+--Meu pae, necessita estar sosinho commigo e pede a todos que se
+retirem, responde Magdalena.
+
+A condessa levanta-se. Olympia e o conselheiro seguem-n'a. Este ultimo
+demora se no gabinete com sua futura sogra; Olympia aproveita a occasião
+de ir á copa tomar uma canja de gallinha.
+
+--Sinto que me foge a vida, filha, disse o conde extendendo a mão para
+Magdalena. Não quero morrer sem ter cumprido os meus e os teus desejos.
+Agora que me sinto mais tranquillo, vae tu, Magdalena, vae tu mesma
+buscar D. Marianna de Mendonça. Quero ouvir-lhe o perdão de seus
+proprios labios, e tambem do Manuel. Vae Magdalena, vae, minha filha,
+cumpre com este ultimo desejo de teu pae.
+
+--E minha mãe?... e toda a gente?...
+
+--E o que temos nós com toda esta gente, Magdalena? Trata-se agora da
+minha consciencia. Quero apresentar-me deante de Deus arrependido de
+todos os males que causei n'este mundo. Desde que confiei todos os
+peccados áquelle santo padre que me trouxeste, minha filha, já não
+receio o desconhecido. Sinto-me muito mais alliviado. Quando eu morrer,
+Magdalena, dentro da minha secretaria, encontrarás um pequeno cofre de
+platina; guarda-o, e a mais ninguem confies os segredos que elle
+encerra. Só tu serás digna d'isso. O meu testamento está na gaveta
+pequena d'aquella secretaria. Ha quatro dias que foi feito. Parecia
+adivinhar o que succedia! Foi Deus! Deixo quatrocentos contos a D.
+Marianna de Mendonça: ainda não é muito, para o que lhe fiz soffrer!
+Agora, que sabes o principal, vae filha, e possa o perdão d'essa mulher
+fazer com que a minha alma, voando aos pés de Deus, seja acolhida no seu
+divino regaço.
+
+Afastando-a brandamente, tornou a pedir-lhe que fosse buscar D. Marianna
+de Mendonça.
+
+--Se tua mãe te perguntar onde vaes, accrescentou elle, responde-lhe que
+é um segredo que juraste guardar a um moribundo.
+
+Magdalena, depois de beijar seu pae na fronte, saíu do quarto e
+atravessou pelo gabinete onde sua mãe conversava com o conselheiro.
+
+--Onde vaes? perguntou-lhe a condessa.
+
+--Vou saír.
+
+--Saír?
+
+--Buscar uma pessoa a quem meu pae deseja falar antes de morrer.
+
+--E essa pessoa... quem é?
+
+--É um mysterio e um segredo, e recommendando á condessa que fosse para
+junto de seu pae, Magdalena atravessou as salas, e subindo ao quarto,
+preparou-se para saír.
+
+Era tal o respeito e consideração que Magdalena inspirava a sua mãe;
+tinha tanta certeza da inutilidade de todos os seus esforços, para lhe
+quebrar qualquer dever, que a condessa resumiu-se ao silencio, e
+dirigiu-se sem mais reflexões ao quarto de seu marido.
+
+--Aonde foi Magdalena?
+
+--Buscar uma pessoa a quem desejo pedir perdão antes de morrer, e com
+quem pretendo ficar sósinho.
+
+A condessa, sem responder uma palavra, foi sentar se na mesma poltrona
+d'onde momentos antes se havia levantado.
+
+Amparado por aquelle desejo ardente, o conde de S. Luiz parecia de
+momento para momento ganhar mais tranquillidade.
+
+Um quarto de hora depois, Magdalena entrou de novo no quarto de seu
+pae, participando lhe a chegada de D. Marianna. O conde fez um gesto
+significativo a sua mulher, esta comprehendendo o em seguida com uma
+obediencia passiva, levantou-se e saíu do quarto. Pouco depois entrava
+D. Marianna de Mendonça e seu filho. Magdalena fechou a porta
+deixando-os a sós com o conde.
+
+Magdalena dissera-lhe apenas que seu pae os queria ver antes de expirar.
+
+O conde, ao vel-os parados no meio da sala, extranhos e alheios áquella
+situação, ergueu se n'um supremo esforço, e, chamando-os pelos nomes,
+convidou-os a approximarem-se do leito.
+
+D. Marianna, accedendo immediatamente aos seus desejos, acercou-se do
+enfermo.
+
+--Lembra-se D. Marianna de Mendonça, recorda-se Manuel, d'um banqueiro
+chamado Felix Justino de Araujo, que em 1835 a mandou ir um dia em
+companhia do seu advogado, levantar um deposito de perto de quarenta
+contos de réis?
+
+--Lembro-me, respondeu D. Marianna de Mendonça, fixando demoradamente o
+semblante do conde de S. Luiz.
+
+--Se esse homem, que fez a sua desgraça, que lhe roubou filho, haveres,
+e por ultimo a razão, debruçado sobre a sepultura, lhe extendesse a mão
+supplice e arrependida, implorando lhe o perdão para sua alma, que lhe
+faria?
+
+--Perdoar-lhe tudo, para que Deus tambem me perdôe os meus peccados,
+respondeu ainda D. Marianna.
+
+--Perdôa-me tambem, Manuel de Mendonça? disse o conde. Perdoa a este
+homem, que durante vinte e tres annos o separou de tudo quanto tinha de
+mais caro no mundo! Perdoa a este homem, accrescentou elle, que conduziu
+sua mãe á miseria e á loucura.
+
+--Perdoae-lhe, Senhor, como eu lh'o perdôo de todo o meu coração,
+respondeu Manuel de Mendonça, voltando-se para a cruz do Redemptor, juiz
+supremo d'esta tocante scena.
+
+--Morrerei tranquillo, disse então o moribundo, com a voz já
+enfraquecida.
+
+--Que Deus perdôe ao pae d'aquelle anjo, disse D. Marianna caindo de
+joelhos, e apontando para a porta por onde Magdalena havia saido.
+
+--Diz bem, D. Marianna; d'aquelle anjo, accrescentou o conde de S. Luiz.
+Foi aquella candida pomba a encarregada por Deus para me conduzir á sua
+divina presença! A ella devo o seu perdão, sr.ª D. Marianna!
+
+--E eu devo-lhe o meu filho, respondeu D. Marianna, arrastando-se de
+joelhos sobre a alcatifa, até se collocar deante do Christo. Pela vossa
+infinita misericordia, exclamou ella levantando as mãos para a cruz,
+perdoae-lhe Senhor, como eu de todo o coração lhe perdôo, e queira a
+vossa infinita vontade conservar-lhe largos annos de vida, para que este
+arrependido conheça a sinceridade das minhas palavras.
+
+--Chamem a minha filha que deve estar n'aquelle quarto, murmurou o
+conde, voltando-se para Manuel de Mendonça, e apontando para uma porta
+que separava os dois aposentos.
+
+Magdalena entrou immediatamente. Ainda que dotada de uma organização
+robustissima, a infeliz, já principiava a resentir-se de tantas
+commoções.
+
+D. Marianna, lançando-se-lhe nos braços, debalde tentava occultar as
+lagrimas.
+
+--Falta me aqui uma pessoa a quem desejava ver antes de morrer. Queria
+abraçar a Martha, a minha companheira do hospital.
+
+--Deus favorece-lhe os seus desejos, meu pae. Ha dois minutos que alli
+estão todos tres: e, abrindo a porta, deu passagem a Balbina, Jeronymo e
+sua filha.
+
+--Approximem-se, meus amigos, disse-lhes o conde de S. Luiz. E, emquanto
+fôr tempo, accrescentou elle, apertem esta mão, que sempre se lhes
+extendeu com amizade.
+
+As lagrimas embargaram-lhes as vozes. Uma pessoa apenas se conservava
+n'uma serenidade de martyr. Era Magdalena!
+
+--Infelizmente, accrescentou o conde voltando-se para Martha e Manuel de
+Mendonça, não lhes posso assistir ao casamento mas aqui lhes fica este
+anjo, continuou elle voltando-se para Magdalena.
+
+Esta ficou immovel!
+
+Alma temperada nas grandes agonias, a que realeza de martyrio foste
+arrancar esse diadema que te corôa?
+
+Momentos depois, retiraram se todos do quarto.
+
+O conde ficou em estado de profunda atonia.
+
+Não se ouvia um ruido. Apenas o estremecimento da prece passando pelos
+labios descorados de Magdalena.
+
+Como tudo isto estivesse em socego entraram no quarto a condessa,
+Olympia, o conselheiro e o visconde de Coruche. Seguiam n'os o
+commendador e o banqueiro.
+
+--Dorme tranquillo! disse o visconde olhando na direcção do leito.
+
+--Dorme acudiu a condessa, á medida que se approximava de seu esposo.
+
+Magdalena, n'esse momento, adeantou se mais, e debruçou-se a escutar a
+respiração.
+
+--Morto! exclamou a pobre filha, n'um arranco d'alma! Bemdito Deus, que
+me permittiste salvar meu pae! ajuntou ella caindo sobre o cadaver do
+conde, e aproveitando nos seus labios o derradeiro calor d'aquelle rosto
+extremecido.
+
+
+
+
+EPILOGO
+
+
+No mesmo dia foi aberto o testamento, tendo por testemunhas o visconde
+de Coruche, o commendador Lopes de Miranda e o conselheiro João
+Poderosa.
+
+Deixava por testamenteira a sua filha D. Magdalena. Entre varios legados
+a differentes hospitaes e asylos, avultava a quantia de quatrocentos
+contos a D. Marianna de Mendonça e Athayde, como um testemunho de eterna
+recordação pelos muitos favores de que lhe era devedor.
+
+A sua fortuna, espalhada por differentes bancos da Europa e da America,
+excedia a dois mil contos.
+
+Quinze dias depois da morte do conde de S. Luiz, ás seis horas da manhã,
+Manuel de Mendonça recebia-se na freguezia de Nossa Senhora da Lapa com
+a filha de Jeronymo, tendo por padrinhos dois honrados capitães de
+navio, e por madrinha D. Magdalena de Almeida.
+
+Ao cabo de dois mezes, Olympia concedeu a sua mão ao conselheiro, e o
+seu coração aos inqualificaveis gozos da cosinha.
+
+Gozando em branda paz as delicias do hymeneu, havia comtudo uma terrivel
+sombra que lhes perturbava a paz domestica: o conselheiro não era capaz
+de fazer nem um _beefsteak_! Toda a sciencia culinaria de que se
+vangloriara, era apenas um mytho que elle creára para conquistar o
+estomago de D. Olympia!
+
+Quando emfim sobre Lisboa deixaram de esvoaçar as azas negras do
+monstro, e que Magdalena fechou as portas áquelle hospital, d'onde não
+tinha saido desde a morte de seu pae, o visconde de Coruche, vivamente
+ferido pela grandeza d'alma de Magdalena, lançou se-lhe aos pés e
+pediu-a em casamento.
+
+--Vou casar-me com Deus, respondeu Magdalena, levantando os olhos para o
+céu!
+
+No dia seguinte, Magdalena entrava no convento de ***, onde morreu pouco
+depois, recebendo as bençãos da pobreza, com quem havia repartido os
+seus rendimentos.
+
+Lopes de Miranda, associado com Vaz Mendes n'uma casa de penhores, abre
+os seus armarios a todos os objectos de valor que o visconde de Coruche
+periodicamente lhe envia pelo seu mordomo. Este espera ainda ver seu amo
+n'um estado florescente, attendendo ao axioma de um dos nossos primeiros
+vultos litterarios: que um fidalgo arruinado sempre tem cem contos de
+réis!
+
+Quanto á condessa de S. Luiz, uns dizem que está beata, outros
+asseveram que se tornou capitalista de uma partida de _Roulette_ não sei
+em que parte da Europa, e de que são feitores Gil de Carvalho e Bernardo
+de Paiva, tendo-lhe o primeiro ganho a confiança pela paga espontanea
+das cem libras que devia a seu defuncto marido, e de que nem ella mesma
+era sabedora.
+
+E Martha, e Manuel de Mendonça, e sua mãe, e Balbina e Jeronymo, e
+Mascatudo?
+
+Apezar da tia Monica asseverar aos que á noite se reunem na tenda da rua
+da Lapa, que foram todos parar aos peixinhos, pessoa de credito affirmou
+a quem estas paginas escreve, que essa familia, venturosa na sua união,
+se foi estabelecer nos Estados-Unidos, gosando em doce calma os prazeres
+de uma existencia honesta, moral e religiosa.
+
+E ter-se-hão esquecido da memoria de Magdalena?
+
+Nunca! N'aquelles corações não cabia a ingratidão.
+
+ FIM
+
+
+
+
+COMPANHIA PORTUGUESA EDITORA, L.^{DA}
+
+PORTO
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+ *O Martir do Golgota*, por Henrique Peres Escrich. 3 vol. 24$000
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+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
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+Foundation
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+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
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+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
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+
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+Literary Archive Foundation
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+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
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+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
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+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
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+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
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+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
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+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
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+works.
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+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
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+
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+<title>The Project Gutenberg eBook of O Conde de S. Luiz, by Tomaz de Melo.</title>
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+The Project Gutenberg EBook of O Conde de S. Luiz, by Tomaz de Melo
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
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+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+Title: O Conde de S. Luiz
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+Author: Tomaz de Melo
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+Release Date: May 22, 2009 [EBook #28928]
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CONDE DE S. LUIZ ***
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+
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+
+
+
+<!-- Autogenerated TOC. Modify or delete as required. -->
+<div class="mynote">
+<p><b>Nota de transcri&ccedil;&atilde;o:</b>
+O uso do h&iacute;fen nesta obra &eacute; bastante inconsistente;
+o mesmo se passa com a ortografia. Assim, ocorrem por exemplo "entregara"
+e "entreg&aacute;ra"; "ante-m&atilde;o" e "antem&atilde;o"; "dirigindo se"
+e "dirigindo-se". A grafia n&atilde;o foi harmonizada, por n&atilde;o ser
+poss&iacute;vel determinar a inten&ccedil;&atilde;o original do autor.</p>
+<p>&Iacute;ndice:</p>
+<ul>
+<li><a href="#O_CONDE_DE_S_LUIZ">Capa</a></li>
+<li><a href="#BIBLIOTHECA_PORTUGUEZA_ILLUSTRADA">Bibliotheca Portugueza Illustrada</a></li>
+<li><a href="#I">Cap&iacute;tulo I</a></li>
+<li><a href="#II">Cap&iacute;tulo II</a></li>
+<li><a href="#III">Cap&iacute;tulo III</a></li>
+<li><a href="#IV">Cap&iacute;tulo IV</a></li>
+<li><a href="#V">Cap&iacute;tulo V</a></li>
+<li><a href="#VI">Cap&iacute;tulo VI</a></li>
+<li><a href="#VII">Cap&iacute;tulo VII</a></li>
+<li><a href="#VIII">Cap&iacute;tulo VIII</a></li>
+<li><a href="#IX">Cap&iacute;tulo IX</a></li>
+<li><a href="#X">Cap&iacute;tulo X</a></li>
+<li><a href="#XI">Cap&iacute;tulo XI</a></li>
+<li><a href="#XII">Cap&iacute;tulo XII</a></li>
+<li><a href="#XIII">Cap&iacute;tulo XIII</a></li>
+<li><a href="#XIV">Cap&iacute;tulo XIV</a></li>
+<li><a href="#XV">Cap&iacute;tulo XV</a></li>
+<li><a href="#XVI">Cap&iacute;tulo XVI</a></li>
+<li><a href="#XVII">Cap&iacute;tulo XVII</a></li>
+<li><a href="#XVIII">Cap&iacute;tulo XVIII</a></li>
+<li><a href="#XIX">Cap&iacute;tulo XIX</a></li>
+<li><a href="#XX">Cap&iacute;tulo XX</a></li>
+<li><a href="#XXI">Cap&iacute;tulo XXI</a></li>
+<li><a href="#XXII">Cap&iacute;tulo XXII</a></li>
+<li><a href="#XXIII">Cap&iacute;tulo XXIII</a></li>
+<li><a href="#XXIV">Cap&iacute;tulo XXIV</a></li>
+<li><a href="#XXV">Cap&iacute;tulo XXV</a></li>
+<li><a href="#XXVI">Cap&iacute;tulo XXVI</a></li>
+<li><a href="#XXVII">Cap&iacute;tulo XXVII</a></li>
+<li><a href="#XXVIII">Cap&iacute;tulo XXVIII</a></li>
+<li><a href="#XXIX">Cap&iacute;tulo XXIX</a></li>
+<li><a href="#XXX">Cap&iacute;tulo XXX</a></li>
+<li><a href="#XXXI">Cap&iacute;tulo XXXI</a></li>
+<li><a href="#XXXII">Cap&iacute;tulo XXXII</a></li>
+<li><a href="#XXXIII">Cap&iacute;tulo XXXIII</a></li>
+<li><a href="#XXXIV">Cap&iacute;tulo XXXIV</a></li>
+<li><a href="#XXXV">Cap&iacute;tulo XXXV</a></li>
+<li><a href="#XXXVI">Cap&iacute;tulo XXXVI</a></li>
+<li><a href="#XXXVII">Cap&iacute;tulo XXXVII</a></li>
+<li><a href="#XXXVIII">Cap&iacute;tulo XXXVIII</a></li>
+<li><a href="#XXXIX">Cap&iacute;tulo XXXIX</a></li>
+<li><a href="#EPILOGO">Epilogo</a></li>
+<li><a href="#COMPANHIA_PORTUGUESA_EDITORA_L">Companhia Portuguesa Editora, L.<sup>da</sup></a></li>
+</ul>
+<p>Tabela de ilustra&ccedil;&otilde;es:</p>
+<ul>
+<li><a href="#image-001">Capa</a></li>
+<li><a href="#image-002">Bibliotheca Portugueza Illustrada</a></li>
+<li><a href="#image-033">N'este momento a viuva acabava de assignar...</a></li>
+<li><a href="#image-081">&mdash;Como se acha? perguntou Martha levantando se da cadeira...</a></li>
+<li><a href="#image-129">&mdash;Vocemec&ecirc; anda sobre as aguas do mar?...</a></li>
+<li><a href="#image-193">&Eacute; de joelhos que lh'o imploro!</a></li>
+</ul>
+<p>O &Iacute;ndice e a Tabela de ilustra&ccedil;&otilde;es n&atilde;o est&atilde;o
+presentes na edi&ccedil;&atilde;o original em papel.</p>
+</div>
+<!-- End Autogenerated TOC. -->
+
+<div class="bbox center">
+<h3>Biblioteca Portuguesa Ilustrada</h3>
+
+<div class="center">
+ <a id="image-001"></a>
+ <a href="images/image-001h.png" >
+ <img src="images/image-001.png"
+ alt="Capa: O Conde de S. Luiz"
+ title="Capa: O Conde de S. Luiz" />
+ </a>
+</div>
+
+<p style="font-weight:bolder"><b>D. TOMAZ DE MELO</b></p>
+
+<p style="font-family:sans-serif;font-size:300%;color:#C03;font-weight:bold">O CONDE DE S. LUIZ</p>
+
+<p style="letter-spacing:.5em"><b>LIVRARIA BARATEIRA</b></p>
+
+<p style="font-family:sans-serif;letter-spacing:0.2em">34, Rua do Duque, 36&mdash;T. Trind 1264&mdash;LISBOA</p>
+</div>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_1" id="Page_1">[Pg 1]</a></span></p>
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<h1><a name="O_CONDE_DE_S_LUIZ" id="O_CONDE_DE_S_LUIZ"></a>O CONDE DE S. LUIZ</h1>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_2" id="Page_2">[Pg 2]</a></span></p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<div class="center">
+ <a id="image-002"></a>
+ <a href="images/image-002h.png" >
+ <img src="images/image-002.png"
+ alt="Bibliotheca Portugueza Illustrada"
+ title="Bibliotheca Portugueza Illustrada" />
+ </a>
+</div>
+
+<div class="bbox">
+<div class="center">
+<p class="smcap" style="font-size:150%;font-weight:bold">
+<a name="BIBLIOTHECA_PORTUGUEZA_ILLUSTRADA" id="BIBLIOTHECA_PORTUGUEZA_ILLUSTRADA"></a>
+EMPREZA da HISTORIA de PORTUGAL</p>
+<p style="letter-spacing:.3em"><b>SOCIEDADE EDITORA</b></p>
+<p>LIVRARIA MODERNA: R. Augusta, 95 &Dagger; TYPOGRAPHIA: R. Ivens, 45 e 47</p>
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<p style="font-size:150%">BIBLIOTHECA PORTUGUEZA ILLUSTRADA</p>
+
+<p style="font-size:120%"><b>Nova collec&ccedil;&atilde;o economica a 200 r&eacute;is o volume</b></p>
+
+<p>Contendo 200 a 250 pag. com 5 illustra&ccedil;&otilde;es originaes de pagina</p>
+</div>
+<hr style="width: 65%;" />
+
+<p>&Eacute; esta bibliotheca exclusivamente constituida por
+livros nacionaes, dos nossos melhores escriptores, custando
+cada volume de cerca de 250 paginas, em magnifico
+papel, com 5 illustra&ccedil;&otilde;es originaes e expressamente
+feitas para esta publica&ccedil;&atilde;o, apenas <b>200</b> r&eacute;is, ou <b>300</b> r&eacute;is,
+bellamente encadernado em capas especiaes a c&ocirc;res.</p>
+
+<p class="center" style="font-size:125%"><b>ROMANCES PUBLICADOS</b></p>
+
+<p><b>Os Fidalgos do Cora&ccedil;&atilde;o de Ouro</b> (Chronica do reinado
+de D. Sebasti&atilde;o) por M. Pereira Lobato. Dois vol., broc.
+400 rs., enc. n'um s&oacute;, em capas especiaes, 500 rs.</p>
+
+<p><b>A Queda d'um Gigante</b>, (continua&ccedil;&atilde;o do antecedente).
+Um vol., broc. 200 rs., enc. 300 rs.</p>
+
+<p><b>A Baroneza de la Puebla</b>, (romance do seculo XVI, continua&ccedil;&atilde;o
+dos 2 anteriores). Um vol., broc. 200 rs., enc.
+300 rs.</p>
+
+<p><b>Estandarte Real</b>, (conclus&atilde;o dos romances anteriores).
+Um vol., broc. 200 rs., enc. 300 rs.</p>
+
+<p><b>Li&ccedil;&atilde;o ao Mestre</b>, por Teixeira de Vasconcellos. Tres
+vol., broc. 600 rs., enc. n'um s&oacute; 700 rs.</p>
+
+<p><b>A Mascara Vermelha</b>, (romance historico) por M. Pinheiro
+Chagas. Um vol, broc. 200 rs., enc. 300 rs.</p>
+
+<p><b>Juramento da Duqueza</b>, (continua&ccedil;&atilde;o do antecedente)
+por M. Pinheiro Chagas. Um vol., broc. 200 rs.,
+enc. 300 rs.</p>
+
+<p><b>Noites Perdidas</b>, livro de contos, de Betamio d'Almeida.
+Um vol., broc. 200 rs., enc. 300 rs.</p>
+
+<p><b>Esbo&ccedil;os de aprecia&ccedil;&otilde;es litterarias</b>, de Camillo
+C. Branco. Um vol., br., 200 rs., enc. 300 rs.</p>
+
+<p><b>Conde de S. Luiz</b>, por D. Thomaz de Mello. Um
+vol. br., 200 rs., enc. 300 rs.</p>
+
+<p><b>A PUBLICAR:</b></p>
+
+<p><b>Duello nas sombras</b>, por A. F. Barata,&mdash;<b>Annel
+mysterioso</b>, de Alberto Pimentel, etc., etc.</p>
+
+<p class="center" style="font-size:125%;letter-spacing:.2em"><b>ASSIGNATURA PERMANENTE</b></p>
+</div>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_3" id="Page_3">[Pg 3]</a></span></p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<div class="bbox center">
+<h1>BIBLIOTHECA PORTUGUEZA ILLUSTRADA</h1>
+
+<p style="padding:.5em .5em .5em .5em;font-size:105%;font-family:sans-serif">X</p>
+
+<p style="font-size:150%">D. THOMAZ DE MELLO</p>
+<hr style="width:10%" />
+
+<p style="font-size:300%">O CONDE DE S. LUIZ</p>
+
+<p style="letter-spacing:.1em">ROMANCE ORIGINAL</p>
+<hr style="width:5%" />
+
+<p style="letter-spacing:.3em"><b>SEGUNDA EDI&Ccedil;&Atilde;O</b></p>
+
+<p class="center" style="padding:4ex 0 4ex 0">
+<img src="images/image-003.png" title="Logotipo" alt="Logotipo"/>
+</p>
+
+<p>LISBOA</p>
+<p class="smcap">Empreza da Historia de Portugal</p>
+<p><i>Sociedade editora</i></p>
+
+<table summary="alinhamento de texto">
+<tr>
+<td style="width:50%;text-align:right;border-right:1px solid black;padding-right:1em">
+LIVRARIA MODERNA<br />
+<i>R. Augusta 95</i>
+</td>
+<td style="width:50%;text-align:left;border-left:1px solid black;padding-left:1em">
+TYPOGRAPHIA<br />
+<i>45, R. Ivens, 47</i>
+</td>
+</tr>
+</table>
+<p>1903</p>
+</div>
+<hr style="width: 65%;" />
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_5" id="Page_5">[Pg 5]</a></span></p>
+
+<h1><a name="I" id="I"></a>I</h1>
+
+
+<p>Era no anno de 18*** N'um palacete proximo &aacute;
+Cal&ccedil;ada de Santo Andr&eacute;, vivia, em companhia de seu
+filho e de duas creadas, D. Marianna de Mendon&ccedil;a,
+filha bastarda de Manuel Pires de Athayde, que f&ocirc;ra em
+tempos de pouco saudosa memoria alcaide-m&oacute;r da
+cidade de * * *</p>
+
+<p>Poucos mezes antes de morrer, Manuel Pires de
+Athayde, entreg&aacute;ra a sua filha dezeseis mil cruzados
+em dinheiro, af&oacute;ra joias e outros objectos de valor,
+pedindo-lhe ao mesmo tempo que acceitasse por esposo
+a Alvaro de Mendon&ccedil;a seu primo co-irm&atilde;o, mo&ccedil;o
+serio e de bom porte, e, al&eacute;m d'isso, possuidor de
+riquezas quasi eguaes &aacute;s que o alcaide-m&oacute;r lhe legava.</p>
+
+<p>Recusando, a principio, o noivo que o pae lhe indicava,
+D. Marianna, por ultimo, n&atilde;o teve mais remedio
+sen&atilde;o acceder aos seus desejos.</p>
+
+<p>Tres mezes depois, com grande alegria de todos os
+parentes, recebeu se com Alvaro de Mendon&ccedil;a na freguezia
+dos Anjos.</p>
+
+<p>O pobre velho parecia apenas aguardar a realiza&ccedil;&atilde;o<span class='pagenum'><a name="Page_6" id="Page_6">[Pg 6]</a></span>
+d'este ultimo desejo para volver a alma ao Creador,
+entre as lagrimas da filha e dos amigos que o estremeciam.
+Ao cabo de oito dias de casada, D. Marianna
+ficava sem pae.</p>
+
+<p>Manuel Pires de Athayde n&atilde;o se havia enganado na
+escolha; Alvaro de Mendon&ccedil;a era o exemplo dos maridos.
+A sua proverbial honestidade tornava-o estimado
+em todos os logares onde apparecia, acompanhado
+quasi sempre pela esposa, digna e respeitada como
+elle.</p>
+
+<p>Ao fim d'um anno, a Providencia, prodiga em lhes
+proporcionar todas as venturas, concedeu-lhes a maior
+que p&oacute;de dar aos que deveras se amam sobre a terra,
+e que medem o mundo todo, pelo curto espa&ccedil;o do
+seu domicilio: um filho.</p>
+
+<p>Manuel&mdash;tal foi o nome do recemnascido&mdash;de dia
+para dia se tornava mais robusto. Era um gosto vel os
+&aacute; tarde por sobre os canteiros do seu pequeno jardim,
+correndo com o Manuelito, e disputando entre si, qual
+dos dois alegraria mais a creancinha.</p>
+
+<p>Marianna, por esse tempo, teria uns dezoito a vinte
+annos, Alvaro trinta e quatro.</p>
+
+<p>Amor, saude, mocidade, riquezas e um filho! Que
+lhes faltava para serem felizes?</p>
+
+<p>Pelo espa&ccedil;o de doze annos, trabalhando mais do
+que as for&ccedil;as lh'o permittiam, afim de melhorar o futuro
+da crean&ccedil;a, correu a vida de Alvaro de Mendon&ccedil;a,
+sem que uma s&oacute; vez podesse D. Marianna deixar de
+levantar as m&atilde;os aos c&eacute;us, para agradecer &aacute; Providencia
+o esposo que lhe havia concedido.</p>
+
+<p>Uma circumstancia apenas lhes toldava de vez em
+quando o iris da sua felicidade; eram os continuos
+receios que um velho primo lhes infundia, sobre a
+precoce intelligencia do estremecido fructo dos seus
+amores patriarchaes.<span class='pagenum'><a name="Page_7" id="Page_7">[Pg 7]</a></span></p>
+
+<p>&laquo;N&atilde;o puchem pelo rapazola se o n&atilde;o querem ver
+no cemiterio, dizia-lhes elle muitas vezes. Um talento
+como este deve ser muito poupado. Se meu pae n&atilde;o
+me tem acudido a tempo, retirando-me do collegio,
+talvez lhes n&atilde;o estivesse agora dando este conselho.
+Eu fui o mesmo que o Manuelito; aprendi a grammatica
+portugueza de <i>fio a pavio</i> em menos de um mez.
+N&atilde;o percebia bem o que dizia, &eacute; verdade, mas sabia
+tudo de c&oacute;r, que era at&eacute; um gosto ouvirem-me. Sabem
+o que fez meu pae? Annuiu aos desejos do mestre,
+que era um doidinho por mim, e retirou-me do collegio
+para que n&atilde;o estudasse mais. &Eacute; certo que estou
+hoje sem saber coisa alguma, porquanto a grammatica
+esquece muito, mas pelo menos tenho vida e saude,
+que &eacute; o principal.&raquo;</p>
+
+<p>A despeito d'estas e de outras judiciosas reflex&otilde;es,
+Manuel continuou a frequentar a aula, onde era querido
+por todos os professores e condiscipulos. Estes, longe
+de lhes causar inveja o seu inquestionavel merecimento,
+todos &aacute; uma se ufanavam em lh'o proclamar.</p>
+
+<p>Aos quinze annos j&aacute; tinha feito os exames de philosophia
+e latinidade.</p>
+
+<p>Quando mais venturosa sorria a existencia de Alvaro
+de Mendon&ccedil;a, coroada pelos louros de seu filho, a
+Providencia, como se j&aacute; estivesse fatigada de lhe sorrir,
+fez com que o anjo da morte, descendo lentamente
+sobre o seu leito, lhe cerrasse para sempre os olhos.</p>
+
+<p>D. Marianna de Mendon&ccedil;a, ainda que dotada de intelligencia
+clara e reflexiva, faltava-lhe comtudo aquella
+experiencia do mundo impossivel de conseguir a qualquer
+senhora que, como ella, tivesse vivido apenas
+entregue aos cuidados de sua casa.</p>
+
+<p>Abatida pelo golpe que acabava de soffrer, muito
+fazia a infeliz viuva em administrar a sua casa de portas
+a dentro, e bem assim seguir a educa&ccedil;&atilde;o de Ma<span class='pagenum'><a name="Page_8" id="Page_8">[Pg 8]</a></span>nuel,
+que de mez a mez fazia mais rapidos progressos,
+continuando a disfructar uma irreprehensivel saude,
+apezar de todos os prognosticos de seu primo, o ex-grammatico,
+que se n&atilde;o can&ccedil;ava de lembrar &aacute; viuva
+o absurdo da sua insistencia em que o pequeno continuasse
+no collegio.</p>
+
+<p>Entre as pessoas que ordinariamente frequentavam
+a casa da viuva, distinguia-se o commendador Felix
+Justino de Araujo, homem probo e honesto para todos
+que tinham a honra de lhe merecer a sua confian&ccedil;a,
+o que elle prodigamente espalhava afim de conquistar
+as geraes sympathias.</p>
+
+<p>Corriam varias edi&ccedil;&otilde;es &aacute;cerca da sua mysteriosa individualidade,
+chegando algumas pessoas a levar o seu
+arrojo a ponto de dizerem que o commendador n&atilde;o
+passava de um refinado velhaco, e que, mais dia menos
+dia, as suas gentilezas teriam de ser desmascaradas
+em pra&ccedil;a publica; isto tudo, j&aacute; se v&ecirc;, proferido
+em voz baixa, depois de com elle terem gasto os joelhos
+das cal&ccedil;as, nas respeitosas zumbaias que diariamente
+lhe dispensavam. &Eacute; que j&aacute; n'essa epocha, a ra&ccedil;a
+de commendadores que hoje invade a capital come&ccedil;ava
+a manifestar-se com toda a for&ccedil;a do seu prejudicial
+desenvolvimento. Era muito de ver se como toda
+aquella gente o tractava no tocante a futeis banalidades.
+Riam-se uns dos outros, e todos em sua presen&ccedil;a
+disputavam entre si, qual deveria ser o seu primeiro
+thuribulario.</p>
+
+<p>Uns diziam que era viuvo, outros que era casado
+com uma mulher de baixa esphera, de quem tinha
+duas filhas, por&eacute;m que se n&atilde;o atrevia a apresental-a
+na sociedade, em virtude das suas maneiras pouco
+distinctas.</p>
+
+<p>A sua riqueza ninguem ao certo a poderia saber;
+por&eacute;m o faustuoso luxo com que se tractava levava a<span class='pagenum'><a name="Page_9" id="Page_9">[Pg 9]</a></span>
+supp&ocirc;r que enormes rendimentos havia herdado da
+sua nobre ascendencia, cujos braz&otilde;es nobiliarios fariam
+estremecer de inveja qualquer puritano.</p>
+
+<p>Uma noite em que D. Marianna de Mendon&ccedil;a se
+queixava amargamente de um certo procurador, lembrou-lhe
+uma das suas amigas que talvez lhe fosse
+conveniente entregar a administra&ccedil;&atilde;o da casa ao commendador,
+se elle porventura a isso estivesse resolvido,
+e que ella mesma lhe falaria a tal respeito.</p>
+
+<p>A viuva acceitou de bom grado o que a sua intima
+lhe propozera, e falando esta com o commendador, ao
+cabo de oito dias Felix Justino de Araujo tinha geral
+procura&ccedil;&atilde;o para arrendar, subrogar, ou alienar qualquer
+propriedade, se por ventura assim o julgasse
+conveniente para o futuro do seu Manuel que, segundo
+o dizer do administrador, era tanto para elle como
+se fosse seu proprio filho.</p>
+
+<p>N&atilde;o tardou muito tempo que o magnate fizesse uso
+de uma das condi&ccedil;&otilde;es da procura&ccedil;&atilde;o. Uma fazenda que
+Alvaro de Mendon&ccedil;a herd&aacute;ra por morte de uma tia,
+tres ou quatro annos depois de estar casado com a
+filha de Manuel Pires de Athayde, foi-lhe vendida em
+hasta publica. A venda f&ocirc;ra de um excellente resultado
+para a viuva, segundo o commendador affirmava,
+porquanto o seu principal rendimento eram arvores
+de fructa, e essas mais anno menos anno cairiam todas
+ao pezo d'uma epidemia que, segundo as suas
+observa&ccedil;&otilde;es agronomicas, teria de grassar d'alli a
+tempo, assaltando todas as fazendas sem exceptuar
+uma unica.</p>
+
+<p>Em face d'esta cruel prophecia, quem se negaria a
+separar-se de qualquer terreno, por mais dolosa que
+fosse a venda?</p>
+
+<p>O commendador empregou esse dinheiro n'uma industria
+cujo dividendo deveria exceder dez por cento.<span class='pagenum'><a name="Page_10" id="Page_10">[Pg 10]</a></span></p>
+
+<p>Quasi todos deram os parabens &aacute; viuva pelo bom
+negocio que vinha de fazer, attendendo n&atilde;o s&oacute; &aacute; grande
+differen&ccedil;a do rendimento, como tambem a ter-se
+livrado d'esse terrivel cataclysmo, a que estava exposta
+conservando uma s&oacute; arvore.</p>
+
+<p>Assim decorreram dezoito mezes sem que D. Marianna
+tivesse a mais pequena raz&atilde;o de se arrepender
+da plena confian&ccedil;a que tinha depositado no seu administrador.</p>
+
+<p>Por este tempo, Manuel, que havia sa&iacute;do do collegio,
+chegou se a sua m&atilde;e, dizendo-lhe que desejava partir
+para o Rio de Janeiro, afim de se dedicar &aacute; vida commercial,
+para que se sentia com decidida voca&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>Recordando lhe ao principio a loucura do seu projecto,
+a pobre m&atilde;e ponderou-lhe a pouca necessidade
+de buscar em terra estranha o que j&aacute; possuia na sua
+patria: a riqueza.</p>
+
+<p>Por essa epocha, os bens da casa montavam a uns
+trinta contos de r&eacute;is, gra&ccedil;as &aacute; heran&ccedil;a que Alvaro de
+Mendon&ccedil;a havia recebido por morte de sua tia, e &aacute;s
+economias que a viuva fizera durante aquelle tempo.</p>
+
+<p>&mdash;Com o dinheiro que possuimos, dizia-lhe sua m&atilde;e,
+poder&aacute;s dedicar-te ao commercio, mas aqui em Lisboa.
+&Eacute; verdade que n&atilde;o tens um unico parente que te proteja,
+mas, gra&ccedil;as a Deus, temos meios. Partires, e deixares-me,
+filho, acho que ser&aacute; uma grande loucura,
+ajuntou ella, arrazando-se-lhe os olhos de lagrimas.
+Em todo o caso, far&aacute;s o que te aprouver. N&atilde;o quero
+que um dia me lances em rosto que o muito amor
+que te consagro foi a causa de cortar a tua carreira.</p>
+
+<p>N'essa noite, quando appareceu o commendador,
+D. Marianna manifestou-lhe os desejos de Manuel.</p>
+
+<p>&mdash;Que v&aacute;, respondeu elle rapidamente. Seu filho &eacute;
+activo, audaz, intelligente e emprehendedor. P&oacute;de um
+dia, se Deus o ajudar, vir a ser um grande homem.<span class='pagenum'><a name="Page_11" id="Page_11">[Pg 11]</a></span>
+N&atilde;o tenho filhos, acrescentou, por&eacute;m se um dia os tiver,
+nunca os hei de contrariar nas suas resolu&ccedil;&otilde;es,
+se ellas forem justas como as de Manuel.</p>
+
+<p>&mdash;Mas que precis&atilde;o tem elle de exp&ocirc;r a sua saude
+n'um clima t&atilde;o perigoso? Trinta contos ou perto d'elles
+que possuimos n&atilde;o ser&aacute; o sufficiente para se viver em
+qualquer parte do mundo?</p>
+
+<p>-Por&eacute;m se seu filho &eacute; ambicioso, e capricha em
+adquirir um capital pelo seu trabalho, &eacute; justo que sua
+m&atilde;e lhe impe&ccedil;a a sua determina&ccedil;&atilde;o? Fa&ccedil;a o que quizer,
+mas tome o meu conselho, deixe-o partir. Deus
+ha de guial-o, porque Manuel &eacute; bom, honesto, moral
+e, sobre todas estas coisas, muito trabalhador.</p>
+
+<p>&mdash;E que dinheiro se lhe deve entregar, sr. Felix?
+dez contos, quinze, vinte... que lhe parece?</p>
+
+<p>&mdash;Vossa excellencia est&aacute; louca! acudiu apressadamente
+o commendador. Entregar contos de r&eacute;is a um
+rapaz da edade de seu filho! Lan&ccedil;ar Manuel n'um paiz
+como o Rio de Janeiro, proporcionando-lhe os meios
+de se perder! Nem por sombras! Quaes contos de
+r&eacute;is! Com seis moedas desembarquei eu em S. Paulo,
+e ao cabo de doze annos possuia uma fortuna para cima
+de dez mil libras! Contos de r&eacute;is! S&oacute; essa me faria
+rir! A passagem paga, meia duzia de moedas, e
+as cartas de recommenda&ccedil;&atilde;o que para ahi lhe entregarei,
+s&atilde;o mais do que o sufficiente.</p>
+
+<p>&mdash;Mas n&atilde;o me disse v. ex.&ordf; que meu filho era um
+rapaz de juizo, honesto e moral? Que receio teremos
+em lhe entregar o que realmente lhe pertence? N&atilde;o
+&eacute; elle o meu unico herdeiro?</p>
+
+<p>&mdash;Far&aacute; vossa excellencia o que entender, e se lhe
+quer entregar tudo quanto possue, fa&ccedil;a-o; est&aacute; no seu
+direito, e lavo d'ahi as minhas m&atilde;os. Se quer que lhe
+preste as minhas contas, estou muito prompto a fazel-o.
+Sabe que o unico interesse que tenho em tudo<span class='pagenum'><a name="Page_12" id="Page_12">[Pg 12]</a></span>
+isto &eacute; apenas o seu bem estar, e o futuro de Manuel.
+Se quer estragar tudo quanto tenho feito em seu proveito,
+&eacute; senhora das suas ac&ccedil;&otilde;es, p&oacute;de fazel-o, que
+desde este momento me considero desligado de todos
+os meus encargos.</p>
+
+<p>Esta linguagem, rude mas na apparencia sincera,
+produziu no animo debil de D. Marianna o resultado
+que o commendador desejava. Affeita a obedecer-lhe
+em tudo, havia-se deixado dominar completamente por
+aquelle homem que, segundo a opini&atilde;o de todas as
+pessoas que frequentavam a sua casa, havia sido um
+anjo salvador.</p>
+
+<p>Dois annos depois da sua administra&ccedil;&atilde;o, os vinte
+contos de r&eacute;is, que rendiam &aacute; viuva cem mil r&eacute;is por
+mez, haviam subido a um rendimento de um conto e
+seiscentos por anno, gra&ccedil;as &aacute; applica&ccedil;&atilde;o que elle dera
+a esses capitaes. Quanto ao producto da propriedade,
+era um segredo, que mais dia menos dia seria revelado
+como surpreza agradavel. Que raz&atilde;o teria ella para
+o arguir de mau administrador?</p>
+
+<p>Estas e outras circumstancias faziam com que D.
+Marianna obedecesse cegamente a quanto elle lhe impunha.</p>
+
+<p>No dia immediato, Manuel chegou-se a sua m&atilde;e, afim
+de saber o que se havia passado entre ella e o commendador.</p>
+
+<p>&mdash;Sinto deveras que me queiras abandonar, por&eacute;m
+se essa &eacute; a tua vontade, vae, e que as minhas ora&ccedil;&otilde;es,
+acompanhando-te sempre, te possam salvar de todos
+os perigos. Quanto a dinheiro ajuntou ella, esperan&ccedil;ada
+em que o commendador se resolvesse a entregar-lhe
+maior quantia, dir me-has quanto necessitas.</p>
+
+<p>&mdash;Nunca pedi contas nem a minha m&atilde;e nem ao sr.
+commendador, mas supponho que n&atilde;o far&atilde;o grande
+differen&ccedil;a nos capitaes que devemos possuir quatro<span class='pagenum'><a name="Page_13" id="Page_13">[Pg 13]</a></span>
+ou cinco contos de r&eacute;is para me estabelecer, mas ainda
+assim, se minha m&atilde;e supp&otilde;e que essa quantia &eacute;
+muito avultada, contentar me-hei com menos, ou por
+ultimo, com aquillo que julgarem conveniente. &Eacute; tudo
+quanto tenho a dizer-lhe, accrescentou elle, pregando
+os olhos no olhar turvo e entristecido de D. Marianna.</p>
+
+<p>No dia seguinte a viuva foi ao escriptorio do commendador
+e contou lhe o que pass&aacute;ra com Manuel.</p>
+
+<p>Felix de Araujo, depois de a ter escutado, insistiu
+serenamente em que seria uma grande loucura entregar
+a seu filho uma quantia superior a essa de que tinham
+falado na vespera, repetindo por&eacute;m, que estava
+no seu direito de fazer o que lhe aprouvesse.</p>
+
+<p>Todos os espiritos, por mais debeis que sejam, teem
+um momento na vida, em que uma circumstancia, ou
+um milagre providencial lhes dardeja um raio de valor.</p>
+
+<p>A maneira, o gesto, o olhar, com que a viuva fitou
+o commendador, foram sufficientes para que elle comprehendesse
+que todos os esfor&ccedil;os seriam inuteis. D.
+Marianna estava resolvida a entregar a seu filho a
+quantia que elle lhe havia, sen&atilde;o pedido, pelo menos
+indicado.</p>
+
+<p>N&atilde;o havia remedio! Era for&ccedil;oso entregar esse dinheiro
+no momento em que lhe fosse exigido, para
+que se n&atilde;o realisassem certos boatos que lhe tinham
+chegado aos ouvidos, de que mais dia, menos dia, as
+suas gentilezas seriam desmascaradas!</p>
+
+<p>&mdash;Seja o que vossa excellencia quizer, disse elle,
+depois de alguns instantes de reflex&atilde;o. Que quantia
+quer?</p>
+
+<p>&mdash;Quatro a cinco contos de r&eacute;is. Como tudo o que
+possuo &eacute; em dinheiro, n&atilde;o haver&aacute; duvida em os receber
+por estes oito dias.</p>
+
+<p>&mdash;Oito dias! replicou o commendador, simulando<span class='pagenum'><a name="Page_14" id="Page_14">[Pg 14]</a></span>
+grande tranquillidade de animo, hoje mesmo se vossa
+excellencia quizer; n&atilde;o tenho mais trabalho do que
+tiral-o d'aquelle cofre, ajuntou elle, apontando para
+um grande armario de ferro.</p>
+
+<p>&mdash;Posso portanto ficar tranquilla?</p>
+
+<p>&mdash;P&oacute;de, mas lembre-se, minha senhora, que vae
+fazer a desgra&ccedil;a de seu filho. Conhe&ccedil;o o Rio de Janeiro,
+e sei o que p&oacute;de succeder a um rapaz da edade
+de Manuel, achando-se possuidor de similhante quantia.</p>
+
+<p>&mdash;Ser&aacute; o que Deus quizer, respondeu a viuva despedindo
+se.</p>
+
+<p>Quem, momentos depois, commettesse a indiscri&ccedil;&atilde;o
+de o espreitar, no pequeno gabinete do escriptorio,
+conheceria immediatamente pela sua perturba&ccedil;&atilde;o, que
+os trinta contos de r&eacute;is em que consistia a fortuna
+d'aquella familia n&atilde;o estavam t&atilde;o seguros quanto ella
+os julgava.</p>
+
+<p>Oito dias depois, quando tudo estava preparado para
+a viagem de Manuel, sua m&atilde;e dirigiu-se a casa do
+commendador, afim de receber os cinco contos de r&eacute;is,
+e encontrou-o sereno e bem disposto, mas insistindo
+ainda em que t&atilde;o grande quantia seria prejudicial a
+um mo&ccedil;o inexperiente como seu filho.</p>
+
+<p>&mdash;J&aacute; disse ao sr. commendador o que tinha a dizer-lhe,
+respondeu D. Marianna, sentando-se tranquilamente
+a seu lado.</p>
+
+<p>&mdash;Visto n&atilde;o haver meio algum de a convencer,
+queira vossa excellencia ter a bondade de me passar
+um recibo d'esse dinheiro. Levantando-se serena e
+fleugmaticamente, o commendador dirigiu se ao armario
+de ferro, tirou de dentro d'elle um pequeno cofre
+e collocou-o sobre a secretaria de que D. Marianna se
+tinha approximado para passar o recibo. O commendador,
+depois de contar os ma&ccedil;os de notas de dez<span class='pagenum'><a name="Page_15" id="Page_15">[Pg 15]</a></span>
+moedas, poz junto de D. Marianna os que prefaziam a
+quantia exigida.</p>
+
+<p>N'este momento a viuva acabava de assignar o recibo.</p>
+
+<p>&mdash;Se n&atilde;o fosse a profunda sympathia que vossa excellencia
+sempre tem sabido inspirar-me, creia que de
+hoje em deante, deixaria de lhe administrar os seus
+bens, e pedir-lhe-hia que mandasse buscar vinte e sete
+contos de r&eacute;is que alli tenho n'aquelle cofre; digo
+que os mandasse buscar, porque grande parte d'esse
+dinheiro est&aacute; em ouro e em prata, com que vossa excellencia
+n&atilde;o poderia. N&atilde;o o fa&ccedil;o, porque al&eacute;m de todas
+as outras circumstancias, affei&ccedil;oei-me ao Manuel,
+mais do que se elle fosse meu proprio filho, como j&aacute;
+uma vez lh'o disse.</p>
+
+<p>Se algumas desconfian&ccedil;as come&ccedil;assem a agitar o
+espirito da viuva, todas se desvaneceriam em presen&ccedil;a
+d'esta scena. Havia uma dupla inten&ccedil;&atilde;o nas palavras
+do commendador: a primeira inspirar &aacute; viuva profunda
+confian&ccedil;a no deposito dos seus capitaes; a segunda,
+evitar ainda a entrega dos cinco contos de r&eacute;is. A primeira
+saiu-lhe bem, a segunda n&atilde;o foi t&atilde;o favoravel.</p>
+
+<p>&mdash;Ent&atilde;o quando &eacute; a saida da galera? perguntou elle
+a D. Marianna.</p>
+
+<p>&mdash;&Aacute;manh&atilde;, &aacute;s duas horas da tarde.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o me comprometto a ir ao bota-f&oacute;ra; ser-me-ia
+penoso acompanhal-o ao come&ccedil;o da estrada da sua infelicidade.</p>
+
+<p>&mdash;Ser&aacute; o que Deus quizer, respondeu tristemente a
+pobre m&atilde;e, pegando nos ma&ccedil;os de notas e mettendo-os
+dentro do seu sacco de veludo.</p>
+
+<p>Cinco minutos depois, acompanhada pelo commendador,
+entrava D. Marianna para uma sege, e seguia
+caminho de casa.</p>
+
+<p>No dia seguinte, &aacute;s duas horas da tarde, despren<span class='pagenum'><a name="Page_16" id="Page_16">[Pg 16]</a></span>dendo
+se dos bra&ccedil;os de sua m&atilde;e, entrava Manuel de
+Mendon&ccedil;a na galera <i>Boa Ventura</i>, e ao cair da tarde
+perdia de vista o que ha de mais caro na vida: m&atilde;e
+e patria.</p>
+
+<p>&laquo;Acautele-se do commendador&raquo; foram as ultimas
+palavras que Manuel dissera a sua m&atilde;e.</p>
+
+<p>Ao cabo de tres mezes, a viuva recebeu uma carta
+de seu filho, em que lhe participava que tinha chegado
+depois de uma feliz viagem, e que esperava em
+pouco tempo estabelecer-se vantajosamente com uma
+casa commercial.</p>
+
+<hr class="bookstyle"/>
+
+<p>Assim passaram mais oito mezes.</p>
+
+<p>As mezadas que D. Marianna recebia de Felix de
+Araujo continuavam a ser-lhe entregues com a mesma
+religiosa pontualidade, o que fazia com que todas as
+pessoas que chegaram a duvidar da honestidade do
+commendador come&ccedil;assem a proclamal-o homem de
+evidente credito.</p>
+
+<p>Durou isto perto de um anno. As cartas que Manuel
+escrevia a sua m&atilde;e eram cada vez mais consoladoras.
+N'algumas, mandava-lhe dizer que os seus maiores
+desejos seriam tel-a a seu lado.</p>
+
+<p>Um dia, finalmente, escreveu lhe seu filho, mandando-lhe
+pedir encarecidamente que retirasse quanto antes
+os capitaes que tinha na m&atilde;o do commendador,
+porque lhe tinham dado as peiores informa&ccedil;&otilde;es a seu
+respeito, sendo a primeira n&atilde;o se chamar Felix Justino
+de Araujo, mas simplesmente Domingos de Andrade.</p>
+
+<p>Afflicta com esta carta, a infeliz senhora procurou
+um advogado, que f&ocirc;ra muito amigo de seu defunto
+marido, e communicou-lhe os seus receios.</p>
+
+<p>N'esse mesmo dia, o doutor acompanhou-a a casa
+do commendador. Este, ao vel-a, comprehendeu immediatamente
+do que se tractava.<span class='pagenum'><a name="Page_17" id="Page_17">[Pg 17]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Tencionando retirar-me para o Rio de Janeiro,
+venho prevenir vossa excellencia de que desejo levantar
+da sua m&atilde;o os capitaes que honestamente me tem
+administrado. Se n&atilde;o fosse o desejo de ir ver meu filho,
+continuaria a aproveitar me da zelosa e desinteressada
+administra&ccedil;&atilde;o do sr. commendador.</p>
+
+<p>&mdash;E sabe vossa excellencia se n'este momento lhe
+poderei entregar esse dinheiro? N&atilde;o m'o confiou para
+negociar, afim de que tivesse maiores lucros do que
+estando na sua m&atilde;o? Na vespera de seu filho partir
+para o Brazil, quando dei a vossa excellencia os cinco
+contos de r&eacute;is, que me exigiu, n&atilde;o me promptifiquei
+a entregar lhe quanto aqui tivesse? Vossa excellencia
+n&atilde;o comprehende a possibilidade de que esse dinheiro
+esteja empregado em qualquer negocio, e de que
+n'esse caso me seja difficil devolver-lh'o de um momento
+para o outro? Felizmente n&atilde;o succede assim,
+pelo que dou gra&ccedil;as a Deus! Quanto o estimo! Vossa
+excellencia, por qualquer circumstancia, deseja retirar
+das minhas m&atilde;os os seus capitaes, e n&atilde;o tem o sufficiente
+valor de m'o dizer de cara a cara! Pois, minha
+senhora, continuou elle, simulando um gesto de profundo
+resentimento, e levantando um pouco a voz, eu,
+que tenho a coragem das minhas ac&ccedil;&otilde;es, escudado
+pelo meu nome e pela minha honestidade, declaro
+aqui, alto e bom som, que sou eu que exijo, que vossa
+excellencia retire d'aqui os seus fundos, e quanto
+antes.</p>
+
+<p>Havia tanta dignidade nas palavras do commendador,
+a sua voz era t&atilde;o firme, t&atilde;o altivo e t&atilde;o seguro
+o seu olhar, que D. Marianna chegou a convencer-se
+de que era uma ingratid&atilde;o o que vinha de fazer.</p>
+
+<p>&mdash;Ha perto de quatro annos, continuou o commendador
+dirigindo se ao advogado, que eu administro os
+bens d'esta senhora. O seu rendimento, que n&atilde;o che<span class='pagenum'><a name="Page_18" id="Page_18">[Pg 18]</a></span>gava
+a um conto e duzentos por anno, subiu a um
+conto e seiscentos. Uma propriedade que lhe valia o
+muito quatro contos de r&eacute;is, vendi-lh'a e appliquei o
+producto d'ella n'um negocio, que rende para cima de
+doze por cento. Que necessidade tenho eu d'isto tudo?
+Tenho empregado trabalho e tempo; e preciso eu por
+ventura de capitaes alheios para fazer as minhas transac&ccedil;&otilde;es?
+Escusado ser&aacute; dizer que n&atilde;o. Para que o fiz?
+Para o seu bem! Boa paga, n&atilde;o haja duvida. Que esta
+li&ccedil;&atilde;o me sirva! Pois, minha senhora, ajuntou elle, voltando-se
+para D. Marianna, rogo a vossa excellencia
+que &aacute;manh&atilde;, sem falta, at&eacute; &aacute;s onze horas da manh&atilde;,
+encarregue alguem de me tomar contas, e queira vossa
+excellencia vir tambem, afim de me passar recibo
+do dinheiro que tenho na minha m&atilde;o. Hoje mesmo, se
+lhe fosse possivel, apezar de ser tarde, muito prazer
+me daria.</p>
+
+<p>&mdash;&Aacute;manh&atilde; aqui estarei, visto assim o exigir, respondeu
+D. Marianna, olhando ao mesmo tempo para o
+advogado, como que esperando a sua opini&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Sendo onze horas aqui viremos, disse o jurisconsulto,
+despedindo se do commendador.</p>
+
+<p>&mdash;Que lhe pareceu? perguntou a viuva ao chegarem
+&aacute; porta da rua.</p>
+
+<p>&mdash;Um homem honesto, ferido pela ingratid&atilde;o que
+acaba de receber, respondeu fleugmaticamente o doutor.
+Em todo o caso, accrescentou elle, fa&ccedil;a vossa excellencia
+o que quizer; sendo dez horas estarei em sua casa.</p>
+
+<p>No dia immediato, conforme haviam combinado,
+apresentou se o advogado em casa de D. Marianna de
+Mendon&ccedil;a.</p>
+
+<p>&Aacute;s onze horas metteram-se n'uma traquitana, e dirigiram-se
+ao escriptorio do commendador.</p>
+
+<p>Contra todos os usos da casa ainda estava fechado.</p>
+
+<p>&mdash;Que lhe parece isto? perguntou D. Marianna ao<span class='pagenum'><a name="Page_19" id="Page_19">[Pg 19]</a></span>
+advogado, com mais receio do que na vespera ao perguntar-lhe
+como lhe havia parecido.</p>
+
+<p>&mdash;Que &eacute; um homem ferido pela ingratid&atilde;o, e que
+anda a tratar de levantar dinheiro para a embolsar d'essa
+quantia, respondeu elle ingenuamente.</p>
+
+<p>Momentos depois come&ccedil;aram a apparecer varios individuos.
+O physionomista que de perto os observasse,
+veria em todos elles a mesma sombra de receio que
+se revelava no rosto pallido e transtornado de D. Marianna
+de Mendon&ccedil;a.</p>
+
+<p>D'alli a duas horas ainda Felix de Araujo n&atilde;o tinha
+apparecido.</p>
+
+<p>&mdash;Que lhe parece isto tudo doutor? dizia a viuva &aacute;s
+cinco horas da tarde, olhando para o advogado, que a
+contemplava com uma physionomia alvar.</p>
+
+<p>Que &eacute; um refinado ladr&atilde;o que nos deixa a todos desgra&ccedil;ados!
+accudiu um individuo que ouvira a pergunta
+feita pela viuva.</p>
+
+<p>O commendador Felix Justino de Araujo havia fechado
+o escriptorio. Domingos de Andrade fugira, roubando
+dinheiro a todos aquelles que, como D. Marianna de
+Mendon&ccedil;a, o haviam depositado nas suas m&atilde;os.</p>
+
+<p>Cinco dias depois D. Marianna, com a raz&atilde;o perdida,
+entrava para a casa dos doidos no hospital de S. Jos&eacute;.<span class='pagenum'><a name="Page_20" id="Page_20">[Pg 20]</a></span></p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<h1><a name="II" id="II"></a>II</h1>
+
+
+<p>Pelos fins do anno de 1858, vivia n'uma pequena
+casa da Rua do Meio, freguezia de Nossa Senhora da
+Lapa, Jeronymo de Almeida, honrado mestre de obras,
+em companhia de sua mulher e de uma filha de dezeseis
+annos, chamada Martha. A excentricidade de caracter
+do operario, fazia com que todos os visinhos o
+detestassem. Para elle, n&atilde;o havia domingos nem dias
+santificados que o obrigassem a distrair-se do seu trabalho.
+A sua janella encontrava-se sempre fechada.</p>
+
+<p>O cultivo do microscopico jardim era a unica distrac&ccedil;&atilde;o
+que n'esses dias se permittia. Alli entre sua mulher e
+sua filha, Jeronymo mondava o pequeno canteiro de hortali&ccedil;a,
+que duas horas depois tinha de fazer as delicias
+da refei&ccedil;&atilde;o domingueira. No armario da cozinha, esperava
+desde a vespera a garrafa do Cartaxo que figurava
+&aacute; sua meza, sobria sempre, por&eacute;m honradamente disfructada
+com o suor do rosto.</p>
+
+<p>Emquanto Jeronymo trabalhava no pequeno horto,
+Balbina, a esposa, assentada na cadeira de costura, largava
+apenas a agulha para agradecer a Deus o marido
+que a Providencia lhe havia destinado.<span class='pagenum'><a name="Page_21" id="Page_21">[Pg 21]</a></span></p>
+
+<p>Martha, a pregui&ccedil;osa Martha como Jeronymo n'esses
+dias lhe chamava, escondia os ferros de engommar, para
+seguir seu pae, sorrindo-se e gracejando a cada passo
+que elle dava pelo jardim.</p>
+
+<p>Toda a visinhan&ccedil;a da rua do Meio se mordia de despeito
+ao contemplar a beatifica tranquillidade d'aquella
+pobre mas venturosa familia; at&eacute; uma sobrinha do sr.
+regedor, que se finava de inveja ao contemplar os olhos
+verdes de Martha, chegou a dizer ao sr. padre prior
+que era impossivel que toda aquella gente n&atilde;o tivesse
+grande peccado na consciencia, attendendo &aacute; constante
+reclus&atilde;o em que vivia. O sacerdote, que conhecia o invejoso
+caracter da menina Gertrudes, passou de leve
+sobre o caso, e contentou-se apenas em responder-lhe
+que era tal a confian&ccedil;a que depositava na virtude
+d'aquella familia, que n&atilde;o teria duvida alguma, embora
+se sacrificasse a p&ocirc;r f&oacute;ra de casa a velha ama, a admittir
+Martha a viver em sua companhia, entregando-lhe
+nas m&atilde;os as chaves da dispensa, e tudo quanto possuia
+de mais valor. Gertrudes desanimou na lucta, contentando
+se apenas em desacredital-a em voz baixa, quando
+por ventura alguma das amigas lhe falava a seu respeito.</p>
+
+<p>Defronte da casa de Jeronymo morava uma pobre
+velhinha, que se tornava um mysterio para toda a visinhan&ccedil;a,
+passando apenas despercebida da familia do
+operario, pouco affeita a importar-se com as vidas alheias.
+A apparencia de sua casa, o seu trajar emfim, tudo
+revelava summa pobresa, por&eacute;m nunca a sua m&atilde;o se
+estendeu a pedir o obulo da caridade.</p>
+
+<p>A velha costumava sair todas as manh&atilde;s a fazer as
+compras. Um dia a porta conservou-se fechada, e a tia
+Marianna, segundo lhe chamavam, n&atilde;o apparecia. Ou
+por curiosidade, ou por interesse, n&atilde;o faltou quem lhe
+batesse ao postigo. Em resposta ouviram-se apenas
+uns gemidos. O regedor chamou dois cabos de policia<span class='pagenum'><a name="Page_22" id="Page_22">[Pg 22]</a></span>
+e mandou immediatamente arrombar a porta. Encontraram-n'a
+exanime sobre o leito. A infeliz havia adoecido
+com a febre amarella; foi esse um dos primeiros casos
+que se dera na freguezia da Lapa. Atterrados, n&atilde;o houve
+quem quizesse approximar se da enferma. N&atilde;o tardou
+muito que o facto transpirasse por toda a visinhan&ccedil;a.
+No momento em que o regedor, dois metros affastado
+da porta, dava as suas ordens para que fossem buscar
+a maca afim de conduzirem a velha ao hospital da rua
+do Sol, Martha, a loira Martha, saiu de casa e atravessou
+a rua, dirigindo-se ao logar do sinistro.</p>
+
+<p>&mdash;Onde vae a menina? perguntou o sr. Venancio da
+Concei&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Levar esta gotta de caldo &aacute; visinha, respondeu
+Martha ao previdente regedor.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o consinto similhante loucura! disse elle; a velha
+foi atacada pela febre amarella, e vae immediatamente
+para o hospital.</p>
+
+<p>&mdash;O que vocemec&ecirc; n&atilde;o me p&oacute;de impedir, &eacute; que eu
+pratique uma obra de caridade; e demais, veja se est&aacute;
+no seu direito de mandar para o hospital uma pessoa
+que se p&oacute;de curar em sua casa.</p>
+
+<p>&mdash;Essa mulher n&atilde;o se p&oacute;de tratar em sua casa, n&atilde;o
+tem familia.</p>
+
+<p>&mdash;E quem lhe disse ao sr. que n&atilde;o tem quem a trate?
+acudiu Martha, afastando o regedor e dirigindo se
+para o interior da casa da tia Marianna. Ora essa! ajuntou
+ella, e se eu a quizer tratar, ha de alguem opp&ocirc;r-se?!
+Creio que n&atilde;o. Com sua licen&ccedil;a, sr. regedor; e entrando
+animosamente, dirigiu-se a uma alcova, onde a
+desgra&ccedil;ada, extorcendo-se em dolorosas agonias, cravava
+os olhos n'um pequeno crucifixo, collocado sobre
+uma commoda.</p>
+
+<p>Os cabos, regedor, e todos quantos alli se encontra<span class='pagenum'><a name="Page_23" id="Page_23">[Pg 23]</a></span>vam,
+olhavam-se mutuamente sem proferir uma s&oacute;
+palavra.</p>
+
+<p>&mdash;Assim o quer, assim o tenha, disse a auctoridade,
+depois de alguns instantes de reflex&atilde;o. Se ella fosse
+minha filha ou coisa que me pertencesse, por certo que
+n&atilde;o havia de l&aacute; entrar. Eu c&aacute; &eacute; que n&atilde;o tomo nada,
+acrescentou elle olhando com receio para dentro da casa.</p>
+
+<p>Instantes depois, sa&iacute;a Martha de casa da velha.</p>
+
+<p>&mdash;Mandem chamar immediatamente um medico, disse
+ella voltando-se para o regedor. P&oacute;de ser que ainda
+lhe possamos acudir. Pelo facto de ser uma pobre
+mulher, bem v&ecirc; que n&atilde;o a devemos deixar morrer ao
+desamparo. E dizendo estas palavras, tornou a entrar
+para dentro da casa da tia Marianna.</p>
+
+<p>&mdash;V&aacute; &aacute; botica pedir soccorros, disse o regedor, voltando
+se para o cabo geral, e que venham immediatamente;
+porquanto, esta mulher pelo facto de ser pobre,
+n&atilde;o devemos deixar morrer ao desamparo, ajuntou
+elle, secundando as palavras de Martha, e repetindo-as
+como se fossem suas proprias.</p>
+
+<p>O cabo geral, sem mais hesitar, voltou as costas aos
+circumstantes, e resmungando subiu a rua do Meio,
+dirigindo-se aonde a auctoridade o havia mandado.</p>
+
+<p>N&atilde;o tardou muito que &aacute; porta da tia Marianna se
+ajuntasse um circulo de curiosos. As visinhas a quem
+o terror da cruel epidemia havia infiltrado nos animos
+o mais terrivel desalento, debalde vociferavam contra a
+estulta caridade de Martha, e a pueril condescendencia
+do regedor, em annuir aos desejos da filha do mestre
+de obras. Revestindo-se emfim de todo o seu poder, o
+sr. Venancio da Concei&ccedil;&atilde;o convenceu o auditorio, repetindo-lhe
+pela segunda vez, que, pelo facto da tia Marianna
+ser uma pobre, n&atilde;o a deviam deixar morrer ao
+desamparo.<span class='pagenum'><a name="Page_24" id="Page_24">[Pg 24]</a></span></p>
+
+<p>N'este comenos, appareceu o mestre Jeronymo.</p>
+
+<p>&mdash;A sua filha est&aacute; doida de todo! diziam uns.</p>
+
+<p>-J&aacute; tres vezes que vamos avisar a sr.&ordf; Balbina para
+que a retire d'aquella casa e ainda n&atilde;o houve
+meios, acudiu uma ajuntadeira de cal&ccedil;ado, que nem por
+isso gozava de muitos bons creditos na visinhan&ccedil;a.</p>
+
+<p>&mdash;Que loucura! que loucura! dizia a capellista.</p>
+
+<p>&mdash;Parece que est&aacute; a zombar da cholera do Senhor!
+acudiu respeitosamente a tia Monica, beata que vivia
+de resas por conta das fidalgas de Buenos Ayres, quando
+os seus affazeres n&atilde;o lhe permitiam conversar com
+o Todo Poderoso por conta propria.</p>
+
+<p>&mdash;Se Deus a arrasta ao leito da moribunda, elle mesma
+a salvar&aacute;, respondeu fleugmaticamente mestre Jeronymo,
+lendo-se-lhe, apezar de tudo, um certo receio
+pela vida da crian&ccedil;a que estremecia.</p>
+
+<p>&mdash;Muito estimo que assim penses, acudiu Balbina,
+que saira n'este momento de casa. O mesmo pensei
+eu quando Martha me foi pedir uma gotta de caldo; entregando-lh'o,
+entreguei a a Deus.</p>
+
+<p>&mdash;Pois olhe, sr.&ordf; Balbina, disse a capellista, fosse ella
+minha filha, n&atilde;o lh'o consentia.</p>
+
+<p>&mdash;Cada qual tem o seu modo de pensar, sr.&ordf; Margarida,
+e Deus fez-me assim; mas deixemo nos de mais
+dize tu, direi eu, e vamos a ver o que se poder&aacute;
+fazer por aquella infeliz. E sem mais reflexionar, entrou
+n'esse recinto mortuario, por onde momentos antes sua
+filha havia desapparecido.</p>
+
+<p>&mdash;<i>Av&eacute; Maria, cheia de gra&ccedil;a, o senhor &eacute; comvosco,
+benta sois v&oacute;s</i>, dizia a beata. Forte impostora! accrescentou
+ella; aquillo n&atilde;o &eacute; sen&atilde;o para se fazer valer na
+visinhan&ccedil;a.<span class='pagenum'><a name="Page_25" id="Page_25">[Pg 25]</a></span></p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<h1><a name="III" id="III"></a>III</h1>
+
+
+<p>Meia hora depois d'esta veridica scena, que acabamos
+de descrever, appareceu o medico.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; alli, disse-lhe o regedor, apontando para a porta
+da tia Marianna.</p>
+
+<p>&mdash;Siga me, disse o doutor, voltando-se para a autoridade.</p>
+
+<p>O lance era fatal, n&atilde;o havia que hesitar. Amaldi&ccedil;oando
+n'esse momento a m&aacute; estrella, que o conduzira
+&aacute;quella posi&ccedil;&atilde;o, com as faces lividas de susto e de
+terror, o sr. Venancio seguiu o medico.</p>
+
+<p>Junto ao leito de Marianna, fazendo lhe uma fric&ccedil;&atilde;o
+nos joelhos, Martha, a filha do operario, debalde tentava
+chamar &aacute; vida essa que, n'um olhar turvo e desvairado,
+parecia contemplar lhe a angelica formosura.</p>
+
+<p>Balbina, com um pequeno frasco chegado ao labio
+superior da enferma tentava fazel a aspirar o conte&ugrave;do
+do vidro. De p&eacute;, contemplando este doloroso quadro,
+Jeronymo pedia a Deus se compadecesse de sua familia.</p>
+
+<p>Approximando-se da enferma, o medico tomou-lhe<span class='pagenum'><a name="Page_26" id="Page_26">[Pg 26]</a></span>
+brandamente o pulso, e voltando-se em seguida para
+Martha, pediu-lhe uma v&eacute;la, afim de melhor analysar
+a vista da moribunda.</p>
+
+<p>&mdash;Encontro-a muito debil, disse o esculapio em voz
+baixa; &eacute; de supp&ocirc;r que n&atilde;o a possamos salvar; comtudo,
+far-se-ha a diligencia, ajuntou elle cravando os
+olhos no rosto pallido e abatido de Martha.</p>
+
+<p>Abrindo em seguida a caixa dos medicamentos, come&ccedil;ou
+de applicar lhe os que o seu estado exigia.</p>
+
+<p>&mdash;Esta senhora pertence &aacute; sua familia? ajuntou o
+medico voltando se para Jeronymo.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o, senhor; comtudo minha filha interessa se
+muito por esta desgra&ccedil;ada; e se n&atilde;o fosse Martha, talvez
+a tivessem mandado para o hospital.</p>
+
+<p>&mdash;Se a teem removido d'este leito, ao chegar l&aacute; seria
+um cadaver, retorquiu o doutor, palpando a fronte da
+enferma.</p>
+
+<p>&mdash;Parece lhe que poderemos ter esperan&ccedil;as? perguntou
+Martha, approximando se do leito.</p>
+
+<p>&mdash;Veremos &aacute; noite. Sendo sete horas, se poder,
+voltarei; e, despedindo-se dos circumstantes, saiu
+d'aquella casa, levando impressa na memoria a imagem
+candida e celeste da filha do operario.</p>
+
+<p>Os moveis da tia Marianna reduziam se ao pequeno
+leito de espinheiro onde jazia, uma enorme papelleira,
+um bahu, e quatro cadeiras de palhinha, completamente
+estragadas nos assentos.</p>
+
+<p>Roupas, se as havia, estavam fechadas; e nem ella
+lh'o podera responder, nem era dado a Balbina o perguntar-lh'o
+n'esse momento. Dirigindo se a casa, trouxe
+d'alli quanto necessario lhe pareceu afim de alliviar
+no que podesse os incommodos da enferma.</p>
+
+<p>&mdash;Sempre lhe gabo a pachorra, disse a sr.&ordf; Margarida,
+ao ver os len&ccedil;oes alvos como a neve, que a mulher
+do operario levava no bra&ccedil;o. Estar estragando<span class='pagenum'><a name="Page_27" id="Page_27">[Pg 27]</a></span>
+assim as suas roupas brancas com quem pouco p&oacute;de
+viver! N&atilde;o era eu, que Deus me livrasse! E demais,
+sr.&ordf; Balbina, uma pobre de Christo como a tia Marianna,
+mais lhe valera o ir para o hospital. Supponha a
+senhora que fica para ahi entrevada, quem ha de sustental-a?</p>
+
+<p>&mdash;Deus nunca faltou a pessoa alguma, sr.&ordf; Margarida;
+e demais, cada qual que se metta com a sua vida,
+que eu pela minha parte nunca me intrometto com as
+alheias, respondeu Balbina, cortando pelo fio as palavras
+da capellista, e dirigindo-se para casa da tia Marianna,
+onde a esperavam Martha e seu marido.</p>
+
+<p>A velha havia recobrado a raz&atilde;o, e sorria-se brandamente
+para a filha do operario, como se n'aquelle
+olhar significativo estivesse agradecendo a Deus o anjo
+que a Providencia lhe havia deparado n'esse momento
+de suprema angustia.</p>
+
+<p>Jeronymo e Balbina, assentados n'um bahu, olhavam
+para aquelle quadro enternecedor, pedindo ao mesmo
+tempo nas suas preces silenciosas que lhe livrassem
+sua pobre filha.</p>
+
+<p>Meia hora depois de arranjada a cama, a velha sentiu-se
+mais alliviada. As horriveis d&ocirc;res por que passara,
+iam-lhe diminuindo a pouco e pouco, e &aacute; face,
+de pallidez mortal, subira-lhe de novo o calor e a vida.</p>
+
+<p>Nem uma s&oacute; das visinhas, approximando se &aacute; sua
+porta, foram pelo menos indagar o estado da sua doen&ccedil;a.</p>
+
+<p>&Aacute;s sete horas, como o havia promettido, voltou o
+doutor. A enferma estava livre de perigo.<span class='pagenum'><a name="Page_28" id="Page_28">[Pg 28]</a></span></p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<h1><a name="IV" id="IV"></a>IV</h1>
+
+
+<p>Oito dias depois, com grave assombro da visinhan&ccedil;a,
+a tia Marianna, envolta n'um capotezinho azul, apparecia
+de novo &aacute; janela da sua casa.</p>
+
+<p>Os effeitos da febre amarella haviam-lhe passado
+desapercebidos pela sua organiza&ccedil;&atilde;o de ferro. Ao vel-a,
+ninguem poderia acreditar que essa mulher, aos sessenta
+e seis annos, podesse haver resistido aos golpes
+d'uma doen&ccedil;a, que tanta gente nova e robusta ceif&aacute;ra
+n'aquellas immedia&ccedil;&otilde;es.</p>
+
+<p>Todos viam na sua convalescen&ccedil;a, come&ccedil;ando pela
+beata, um favor da Providencia; e nem uma s&oacute; bocca
+se abriu para dizer, quanto a dedica&ccedil;&atilde;o da pobre Martha
+ajud&aacute;ra aquelle verdadeiro milagre.</p>
+
+<p>Almas vis e denegridas que n&atilde;o comprehendeis o
+bem, como poderieis soltar a voz para elogiardes a
+virtude, se nos vossos cora&ccedil;&otilde;es n&atilde;o existe mais do
+que a inveja e a podrid&atilde;o!</p>
+
+<p>Sem valor de praticardes o bem, fere-vos o goso
+que experimenta o cora&ccedil;&atilde;o, que se entrega aos deleites
+da caridade.<span class='pagenum'><a name="Page_29" id="Page_29">[Pg 29]</a></span></p>
+
+<p>A apotheose do proximista, echoando nos ouvidos
+do misanthropo, deve produzir-lhe um effeito atroador,
+como o som do ouro espalhado pela pobresa, no tympano
+do avarento.</p>
+
+<p>Ninguem da visinhan&ccedil;a se atrevera a soccorrer a
+pobre doente, ninguem repartira o seu jantar com a
+infeliz; por&eacute;m, quando a viram de p&eacute;, salva, proclamando
+por toda a parte o quanto era devedora &aacute; familia
+do operario, todas as visinhas, consumindo-se de
+inveja, lhe voltavam as costas para n&atilde;o ouvirem os
+elogios que a velha do cora&ccedil;&atilde;o lhe prodigalizava.</p>
+
+<p>Desde esse momento, a pouca affei&ccedil;&atilde;o que todos
+consagravam &aacute; familia de Jeronymo, torn&aacute;ra-se em
+decidida avers&atilde;o. Come&ccedil;ando pelo sr. regedor, e acabando
+na sr.&ordf; Margarida da Silva, ninguem podia supportar
+aquella pobre gente, que, fechada quasi sempre
+em sua casa, de mais coisa alguma se importava
+a n&atilde;o ser dos seus arranjos domesticos.</p>
+
+<p>Quanto mais a tia Marianna proclamava em alto e
+bom som as virtudes de Martha, maiores antipathias ia
+inspirando a filha do operario. Quando, acompanhada
+por sua m&atilde;e, sa&iacute;a aos domingos para ir &aacute; missa da
+Lapa, as visinhas zombavam sempre ao vel-a passar.
+Hoje, porque o seu len&ccedil;o estava mal engommado, &aacute;manh&atilde;
+porque o seu capote de panno azul j&aacute; come&ccedil;ava
+a mostrar o fio. A pobre victima fazia que nada percebia
+dos continuos gracejos que contra ella dirigiam.
+Chegou a pedir a sua m&atilde;e, por tudo quanto havia, que
+n&atilde;o a obrigasse a ir &aacute; missa das onze.</p>
+
+<p>&mdash;Que te importa o que diz toda essa gente?
+exclamava &aacute;s vezes o sr. Jeronymo. O que elles t&ecirc;em
+&eacute; inveja do teu comportamento. N&atilde;o tardar&aacute; muito, se
+Deus quizer, que tenha ahi uns <i>ganchosinhos</i> que me
+devem render um par de moedas, ver&aacute;s ent&atilde;o como
+lhes hei de fazer estalar a castanha na bocca, quando<span class='pagenum'><a name="Page_30" id="Page_30">[Pg 30]</a></span>
+te virem o bom capote aos hombros, e o bom cord&atilde;o
+de seis moedas ao pesco&ccedil;o.</p>
+
+<p>&mdash;Pouco me importa com o que elles dizem, respondia
+lhe Martha. N&atilde;o tenham de abocanhar no meu
+credito, o mais, tanto se me d&aacute; como se me deu. O
+que eu queria era ajudar a pobre velhinha.</p>
+
+<p>&mdash;Pois tambem n&atilde;o tardar&aacute; muito que lhe fa&ccedil;amos
+algum bem, respondeu o mestre Jeronymo, como se
+um pensamento lhe acudisse ao espirito. &Aacute;manh&atilde; tenciono
+ir a casa de tua madrinha, para que ella lhe
+possa obter alguma esmola da senhora Condessa. Que
+te parece, Martha? Continuou o mestre de obras, cravando
+os olhos no rosto candido de sua filha, e revelando
+no gesto o prazer que lhe ia n'alma, ao comparal-a
+com todas as raparigas suas visinhas.</p>
+
+<p>&mdash;Muito estimarei que isso n&atilde;o fique no rol dos esquecimentos,
+respondeu a crian&ccedil;a sorrindo-se ternamente
+para seu pae. Salvamos a pobresinha da morte,
+&eacute; mister n&atilde;o a desampararmos, nem deixal a morrer
+de frio ou de fome.</p>
+
+<p>&mdash;De frio n&atilde;o morrer&aacute; ella por certo, acudiu Balbina,
+collocando o ferro de engommar sobre o descan&ccedil;o.
+Ainda esta manh&atilde; lhe dei o capote que punhamos no
+leito.</p>
+
+<p>&mdash;Quer dizer, interrompeu Jeronymo, que de hoje
+em deante... se tivermos frio...</p>
+
+<p>&mdash;Que nos havemos de contentar com os cobertores,
+respondeu a caridosa Balbina, tornando a pegar no
+ferro, e approximando-o da face para lhe calcular o
+calor.</p>
+
+<p>&mdash;Seja o que voss&ecirc;s quizerem, que eu, pela minha
+parte nunca as reprehenderei por qualquer ac&ccedil;&atilde;o boa
+que praticarem; e j&aacute; que tivemos a felicidade de salvar
+a vida d'essa infeliz, &eacute; justo n&atilde;o a deixarmos agora
+morrer ao desamparo. Estou da opini&atilde;o da Martha.<span class='pagenum'><a name="Page_31" id="Page_31">[Pg 31]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Ou eu me engano muito, ou a tia Marianna j&aacute; teve
+melhores dias, disse Martha. Ha na sua vida algum
+mysterio que ella nos encobre, mas que, apezar de
+tudo, adivinhamos, respondeu Martha, com aquella intui&ccedil;&atilde;o
+particular que tantas vezes se encontra no cora&ccedil;&atilde;o
+da mulher.</p>
+
+<p>&mdash;O mesmo penso eu, ajuntou mestre Jeronymo.
+Nunca fui homem que frequentasse estas casas, por&eacute;m
+reconhe&ccedil;o &aacute;s vezes um n&atilde;o sei qu&ecirc; nas maneiras
+da tia Marianna, que me levam a crer que os seus
+principios n&atilde;o foram como os nossos; e tenho c&aacute; na
+mente, que mais dia menos dia tudo se ha de descobrir.
+Quando voss&ecirc;s hontem foram levar aquellas camisas
+a casa da fregueza, e que fiquei aqui em sua
+companhia, ainda mais me convenci das minhas suspeitas.
+&laquo;Sr. Jeronymo, disse me a tia Marianna, quem
+sabe se um dia a Providencia, lembrando se de uma
+desgra&ccedil;ada que abandonou sobre a terra, a tomar&aacute; de
+novo debaixo da sua protec&ccedil;&atilde;o. Se tal acontecer, lembre-se
+do que lhe digo hoje, nunca serei ingrata para
+uma familia a quem tanto devo.&raquo; Ora, al&eacute;m d'estas
+palavras serem proferidas, sim... assim como o outro
+que diz, com uns certos modos finos e delicados,
+levam-me a pensar que a tia Marianna n&atilde;o &eacute;, nem
+nunca foi o que parece. Em todo o caso, seja ella
+quem f&ocirc;r, tem precis&atilde;o, &eacute; necessario soccorrel-a, e
+hoje mais do que nunca, quando a inveja a come&ccedil;a a
+perseguir. Vejam l&aacute; a capellista! At&eacute; essa mesma, que
+eu suppunha t&atilde;o virtuosa, como se uniu a todas as
+visinhas para lhe cortarem na pelle, mais a ti, minha
+filha! Valha nos Deus, que mundo este! ajuntou o
+mestre de obras, dirigindo-se para a cosinha, em
+cuja chamin&eacute; Balbina lhe havia posto a ceia a aquecer.</p>
+
+<p>N'este momento bateram apressadamente ao postigo.<span class='pagenum'><a name="Page_32" id="Page_32">[Pg 32]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Que teremos? disse Balbina.</p>
+
+<p>Martha levantou-se, e ao reconhecer a voz que da
+rua lhe falava, abriu immediatamente a porta.</p>
+
+<p>Era a tia Monica.</p>
+
+<p>&mdash;Deus seja comvosco n'esta casa, e que o Senhor
+lan&ccedil;ando sobre n&oacute;s a sua divina ben&ccedil;&atilde;o, queira proteger
+a mais santa e a mais virtuosa de todas as familias,
+disse a beata. Acaba de ser atacada pela febre
+amarella a nossa visinha Margarida, ajuntou ella. No
+momento em que me estava vendendo um vintem de
+meio grosso, a colera de Deus desceu sobre a peccadora
+e alli jaz sem protec&ccedil;&atilde;o nem abrigo, porquanto
+todas as visinhas receiam que tambem o Senhor as
+castigue pelos actos que teem praticado sobre a terra.
+Venho pedir a vossemec&ecirc;, sr.&ordf; Balbina, que se
+compade&ccedil;a d'essa desgra&ccedil;ada, e que me empreste esse
+milagroso frasquinho com que tornou &aacute; vida a tia
+Marianna.</p>
+
+<div class="center">
+<span class='pagenum'><a name="Page_33" id="Page_33">[Pg 33]</a></span>
+ <a id="image-033"></a>
+ <a href="images/image-033h.png" >
+ <img src="images/image-033.png"
+ alt="N'este momento a viuva acabava de assignar... (pag. 15)"
+ title="N'este momento a viuva acabava de assignar... (pag. 15)" />
+ </a>
+<div class="caption">N'este momento a viuva acabava de assignar... (<i><a href="#Page_15">pag. 15</a></i>)</div>
+</div>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o foi o remedio que lhe deu minha mulher que
+fez com que a tia Marianna melhorasse, acudiu o mestre
+Jeronymo, que da porta da cosinha ouvira as exclama&ccedil;&otilde;es
+da beata. Fa&ccedil;am o mesmo que fez minha filha.
+V&atilde;o chamar o sr. regedor e pe&ccedil;am-lhe que mande immediatamente
+buscar-lhe os soccorros, ajuntou o mestre
+de obras com modo aspero e descontente. Quanto
+ao frasco, continuou elle, voltando-se para sua mulher,
+podes emprestar-lh'o se &eacute; da tua vontade, por&eacute;m servir-lhe
+de enfermeira, maletas me d&ecirc;em se em tal consinto.
+Bem basta o que basta, sr.&ordf; Monica. Para outra
+qualquer pessoa talvez que nem fosse preciso que
+me pedisse por duas vezes, mas para a sr.&ordf; Margarida!
+Nem que me pezassem a ouro, ou que santo me
+fizesse o sr. padre prior. Estou farto e mais que farto
+da ingratid&atilde;o, sr.&ordf; Monica. N&atilde;o foi a sr.&ordf; Margarida a
+primeira a cortar na pelle de minha filha, por ella ter
+<span class='pagenum'><a name="Page_35" id="Page_35">[Pg 35]</a></span>ido acudir &aacute; tia Marianna? E n&atilde;o foi s&oacute; ella como tambem
+as outras visinhas! Pois agora que se aguentem
+como melhor lhes parecer. Que se ajudem umas &aacute;s outras,
+que eu pela minha parte, n&atilde;o consinto que l&aacute; ponham
+o p&eacute;, nem minha mulher nem minha filha.</p>
+
+<p>&mdash;Cruzes! Credo! M&atilde;e Santissima! Que modos, sr.
+Jeronymo! E eu que julgando-o um Santo, me atrevi
+a vir a sua casa. Que a ira de Deus descendo sobre
+esta morada castigue o maior de todos os peccadores,
+resmungou a tia Monica &aacute; medida que se approximava
+da porta por onde momentos depois sa&iacute;a apressadamente,
+olhando ao mesmo tempo para Jeronymo, cujo
+olhar, incendiado pelo desespero que a praga lhe havia
+produzido, incutia certos receios no animo da corretora
+de ora&ccedil;&otilde;es.</p>
+
+<p>&mdash;Que lhes pareceu o traste? perguntou o mestre
+Jeronymo depois de alguns momentos de profunda reflex&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Se meu pae me deixasse ao menos ver o estado
+em que se encontra essa pobre mulher?... perguntou
+ingenuamente a caridosa Martha.</p>
+
+<p>&mdash;Nem por sombras, respondeu o operario. Vamos
+pedir a Deus pela saude, e depois descan&ccedil;armos o
+corpo para o trabalho de &aacute;manh&atilde;.</p>
+
+<p>Momentos depois, ouvia-se apenas em casa do operario
+o ciciar d'esta curta, mas eloquente ora&ccedil;&atilde;o:</p>
+
+<p>
+Bom Jesus, todo Poderoso,<br />
+Filho da Virgem Maria,<br />
+Soccorrei-nos esta noite<br />
+E &aacute;manh&atilde; por todo o dia.<br />
+<br />
+Se na terra n&atilde;o coubermos,<br />
+Levae-nos Senhor aos c&eacute;os,<br />
+Rogae por n&oacute;s peccadores,<br />
+Virgem Santa, M&atilde;e de Deus.<br />
+<span class='pagenum'><a name="Page_36" id="Page_36">[Pg 36]</a></span></p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<h1><a name="V" id="V"></a>V</h1>
+
+
+<p>Havia dias que tinha chegado a Lisboa, vindo do Rio
+Grande do Sul, um abastado capitalista por nome Trist&atilde;o
+de Almeida, segundo rezava o seu passaporte.
+Acompanhavam-n'o sua mulher e duas filhas.</p>
+
+<p>Trazia apenas tres cartas de recommenda&ccedil;&atilde;o, uma
+para o visconde de Coruche, outra para o commendador
+Lopes de Miranda, e a terceira para a casa bancaria
+de Vaz Mendes e C.&ordf;, extraordinariamente acreditada
+n'esta capital, n&atilde;o s&oacute; pela notavel amabilidade dos
+seus gerentes, como pelo facto de j&aacute; ter fallido tres
+vezes.</p>
+
+<p>O visconde, o commendador e o banqueiro abra&ccedil;aram
+gostosamente o seu recommendado. Como bons
+farejadores reflectiram que a ca&ccedil;a era rara de mais
+para se abandonar por essas mattas de Lisboa, onde o
+genero tanto escasseia.</p>
+
+<p>Disputada calorosamente entre todos tres a preza
+que promettia dar para succulenta refei&ccedil;&atilde;o, transigiram,
+promettendo, como quaesquer jogadores da vermelhinha,
+que dividiriam entre todos os despojos da
+ca&ccedil;ada.<span class='pagenum'><a name="Page_37" id="Page_37">[Pg 37]</a></span></p>
+
+<p>Deixando-se de vogar na torrente de eternas adula&ccedil;&otilde;es,
+Trist&atilde;o de Almeida olhava para as facecias dos
+seus aduladores com aquelle olhar de experimentada
+velhacaria com que todo o homem do mundo se deixa
+levar, quando, porventura, no amago das lisonjas que
+lhe disparam, antolha, ou pelo menos fareja o mais leve
+indicio de estremado calculo.</p>
+
+<p>Sem patentear a sua intelligencia ou, ainda mais,
+deixando-se passar por zote, Trist&atilde;o ia cercando de lisongeiras
+esperan&ccedil;as o fil&atilde;o d'essa inexgotavel mina
+que os tres inseparaveis amigos julgavam descobrir na
+sua aurifera individualidade.</p>
+
+<p>Mulher e filhas ainda n&atilde;o haviam entrado em scena.
+Constava por&eacute;m que uma das meninas era de formosura
+extrema, e d'uma superior intelligencia. N&atilde;o tardou
+uma semana que esse homem, ou para melhor dizer
+esse mysterio fosse discutido em todos os circulos.</p>
+
+<p>Quem era? Qual o seu passado, ninguem o sabia;
+ao passo que elle conhecia a todos, e de todos sabia
+as chronicas. Se este, antes de ser visconde de tal era
+apenas Manuel Pinto com barracas de fressureiro, se
+aquelle, antes de bar&atilde;o, empregava a casca de polvo
+para tirar em baixo relevo a vera effigie de qualquer
+monarcha, ensaiando por esta forma a sua industria at&eacute;
+conseguir a tiragem por meio do balanc&eacute;; se aquell'outro,
+profundo amador do sexo fragil, tivera casa de
+alcouce no Brazil com o unico fim de matar o tempo.</p>
+
+<p>Trist&atilde;o de Almeida sabia o passado de todos, e todos
+ignoravam o seu preterito.</p>
+
+<p>&laquo;&Eacute; for&ccedil;oso votar uma quantia para estes tres individuos,
+pensava elle, passeiando pela varanda do hotel
+e contemplando as aguas do Tejo que pareciam conhecel-o
+e sorrir-lhe. Se com vinte ou trinta contos de
+r&eacute;is se contentam, satisfarei os seus desejos e poderei
+conseguir os meus fins. Gra&ccedil;as a sir Francis Strolopp,
+<span class='pagenum'><a name="Page_38" id="Page_38">[Pg 38]</a></span>tornei-me desconhecido.<a name="FNanchor_1_1" id="FNanchor_1_1"></a><a href="#Footnote_1_1" class="fnanchor">[1]</a> Hoje pessoa alguma poder&aacute;
+descobrir que antes de ser Trist&atilde;o de Almeida fui Felix
+Justino de Araujo como antes de ser Felix Justino
+de Araujo f&ocirc;ra Domingos de Andrade.</p>
+
+<p>&laquo;&Eacute; for&ccedil;oso que me arranjem um titulo pelo menos de
+visconde. Quero ver minha mulher viscondessa, tenho
+n'isso o maior de todos os meus caprichos. N&atilde;o que
+me seja preciso, para casar minhas filhas &eacute;-lhes sufficiente
+o seu dote de duzentos contos de r&eacute;is. Brevemente
+encontrar&atilde;o algum fidalgo arruinado, que tenha
+por unicos restos de grandeza o seu titulo, e isso...
+&eacute; genero que abunda muito em Portugal. Est&aacute; decidido,
+quero um titulo. Come&ccedil;arei por ser apresentado
+em casa de alguma senhora protectora d'essas escolas
+de caridade, e dar-lhe-hei uma avultada esmola, afim
+de a applicar aos seus protegidos. Mas agora me recordo,
+ajuntava elle, desencostando-se do parapeito da
+varanda; o ensejo &eacute; favoravel. A febre amarella, levando
+a desgra&ccedil;a a centenares de familias, enlucta-lhes
+as suas habita&ccedil;&otilde;es. Vou fundar um hospital. Serei o
+anjo dos tristes! Beatifica-te, Domingos de Andrade.
+Eleva-te aos olhos de Deus, Felix de Araujo. Derrama
+esse ouro que tanto te custou a adquirir, Trist&atilde;o de
+Almeida, e ser&aacute;s um dia aquillo que te aprouver.&raquo;</p>
+
+<p>N'este momento, bateram &aacute; porta da sala. Trist&atilde;o
+mandou que abrissem, e entrou um criado annunciando
+o visconde de Coruche.</p>
+
+<p>&mdash;Que entre, disse lhe Trist&atilde;o de Almeida retirando-se
+da varanda e dirigindo-se para o sal&atilde;o.</p>
+
+<p>O visconde era um homem de cincoenta annos, mas
+que parecia ter quarenta quando muito.<span class='pagenum'><a name="Page_39" id="Page_39">[Pg 39]</a></span></p>
+
+<p>Dotado d'uma inteligencia regular, j&aacute; pelos dotes
+physicos de que Deus f&ocirc;ra prodigo para com ele, j&aacute;
+pela riqueza de que por duas vezes havia disposto, era
+ainda, apezar da sua decadencia, o primeiro rapaz d'esta
+terra, onde se n&atilde;o envelhece antes dos setenta e
+seis a setenta e sete annos, gra&ccedil;as &aacute; temperatura do
+seu clima.</p>
+
+<p>Quando entrava no Marrare de Polimento, toda a moderna
+gera&ccedil;&atilde;o se curvava deante d'aquelle que havia
+sido o chefe da velha guarda.</p>
+
+<p>N&atilde;o havia rapaz que n&atilde;o escutasse avido de curiosidade
+as mil aventuras que se haviam dado n'aquella
+existencia tumultuosa. Havia sido o terror da banca
+portugueza no sal&atilde;o do theatro de S. Carlos, como na
+caixa do mesmo theatro f&ocirc;ra o invejado emulo de
+todos os seus contemporaneos, em resultado das innumeras
+conquistas que em cada epocha se permitia. Ninguem
+montava como o visconde! Os seus cavallos eram
+os primeiros de Lisboa. Tivera por sotas da sua magnifica
+sege o Feliciano e o Bem Bom!</p>
+
+<p>Aos vinte anos, casara-se com uma prima, a filha
+do conde de ***. Quinze dias depois, n'um camarote
+de primeira ordem da Rua dos Condes, estava a viscondessa
+e defronte dela, noutro camarote da mesma
+ordem, miss Ellen Barkshead, voltando de vez em
+quando o rosto para a rectaguarda para melhor falar
+com o marido da viscondessa.</p>
+
+<p>Como se v&ecirc;, era um homem completo.</p>
+
+<p>Dois anos depois entregou a viscondessa a sua meia
+alma a Deus deixando sobre a terra a outra metade,
+para ser previamente repartida por uma multid&atilde;o de
+mulheres que disputavam entre si o voluvel cora&ccedil;&atilde;o do
+visconde.</p>
+
+<p>Extravagante mais por indole do que por ostenta&ccedil;&atilde;o,
+o fidalgo deliciava-se nos encantos dos seus desvarios,<span class='pagenum'><a name="Page_40" id="Page_40">[Pg 40]</a></span>
+saboreando as commo&ccedil;&otilde;es que d'elles lhe resultavam,
+com o mesmo deleite com que o gastronomo delicia o
+palladar nos prazeres d'uma variada mastiga&ccedil;&atilde;o. Era
+o verdadeiro sybarita da estroinice.</p>
+
+<p>Senhor d'uma casa de vinte contos de renda, n&atilde;o
+tardou muito que a visse desbaratada em custosas viagens.</p>
+
+<p>Aos trinta annos estava pobre! Tinha por unico recurso
+a morte de um tio de quem era herdeiro for&ccedil;ado,
+por&eacute;m a pertinaz saude do velho fazia com que
+o pobre visconde estivesse quasi a esmorecer no caminho
+da vida, onde se assentava desanimado, como
+o peregrino, a quem o desalento feriu no come&ccedil;o da
+sua jornada.</p>
+
+<p>Um dia, finalmente, o velho aristocrata, mais talvez
+para acceder aos ardentes desejos do seu arruinado sobrinho
+do que para descer aos abysmos do inferno,
+que por direito de conquista lhe pertencia, cerrou brandamente
+as palpebras, e partiu d'esta para peior, segundo
+a opini&atilde;o das suas victimas, deixando por seu
+universal herdeiro o visconde de Coruche.</p>
+
+<p>As priva&ccedil;&otilde;es porque este pass&aacute;ra foram completamente
+esquecidas desde que se encontrou novamente
+possuidor d'um vinculo cujo rendimento excedia seis
+contos de r&eacute;is, e esquecidos tambem se julgaram os
+seus cr&eacute;dores, porquanto lhes foi necessario lan&ccedil;arem
+m&atilde;o de meios pouco brandos para adquirirem, sen&atilde;o a
+totalidade do devido, pelo menos o capital confiado ao
+visconde, com juro modico e rasoavel. O fogo d'aquella
+eterna juventude, amortecido durante cinco annos de
+amargura, reanimou-se ent&atilde;o com todo o esplendor do
+seu brilho! O visconde tornou a entregar-se a todos os
+prazeres, com o ardente desejo de quem apenas se recordava
+d'elles.</p>
+
+<p>A sua vida era um mysterio. Todos os dias se dizia<span class='pagenum'><a name="Page_41" id="Page_41">[Pg 41]</a></span>
+que estava arruinado, por&eacute;m tanto a casa como o trem
+conservavam-se como no tempo do apogeu da sua riqueza.</p>
+
+<p>D'onde lhe viria o dinheiro para tanto? Eis o misterio
+que a pessoa alguma era dado descortinar.</p>
+
+<p>Ao cabo de alguns annos, o vinculo que herd&aacute;ra teve
+o mesmo resultado que havia tido o que seus pais
+lhe deixaram, por&eacute;m desta vez a situa&ccedil;&atilde;o era mais
+difficil, n&atilde;o tinha parente algum para quem apellar.</p>
+
+<p>N&atilde;o podendo recorrer aos mortos, decidiu-se a explorar
+os vivos. Escudado pela prestigiosa fama que o
+acompanhava, fez do seu nome uma industria.</p>
+
+<p>Os rapazes que entravam na sociedade desejavam
+todos ser-lhe apresentados. O visconde conhecia isto,
+e, esquivando-se a principio, anuia finalmente, n&atilde;o
+sem mostrar quanta honra ele lhes dispensava colocando-os
+no rol de seus intimos.</p>
+
+<p>Todos &aacute; uma dariam metade do que possuiam para
+se tratarem por tu com o visconde, no que ele era
+assaz difficil; a sua intimidade era um genero de superior
+qualidade para que muitos se podessem ufanar
+de o possuir.</p>
+
+<p>Ainda que as suas gentilezas eram por todos conhecidas,
+todos ou quasi todos lhas desculpavam. Estimado
+nos principais circulos onde aparecia, nem uma s&oacute;
+pessoa se atrevia a dar-lhe a mais pequena mostra de
+desconsidera&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>Foi pois o visconde um dos tres individuos a quem
+Domingos de Andrade, ou o commendador Felix de
+Araujo, ou Trist&atilde;o de Almeida, para maior exactid&atilde;o
+desta veridica historia, foi apresentado.</p>
+
+<p>&mdash;Quanto estranhei n&atilde;o o ter encontrado hontem no
+theatro, meu caro amigo, disse o visconde, reclinando-se
+commodamente n'uma poltrona. Ha muito tempo
+que n&atilde;o vejo S. Carlos t&atilde;o brilhante. O tenor, como<span class='pagenum'><a name="Page_42" id="Page_42">[Pg 42]</a></span>
+sempre, cantou admiravelmente. E no que diz respeito
+&aacute;s toilettes, n&atilde;o p&oacute;de calcular, e impossivel seria
+descrever-lh'as. Felizmente n&atilde;o se tem espalhado muito
+o panico em Lisboa. O cholera de 1833, de que eu
+tenho uma vaga reminiscencia, aterrorizou muito mais
+os habitantes do que esta innocente epidemia. Ha um
+tempo a esta parte, tudo aqui em Lisboa &eacute; pobre e
+acanhado. Da febre amarella, diz-se: tem morrido muita
+gente; do cholera, dizia-se com espanto: assim mesmo
+tem escapado alguem. Isso &eacute; que foi uma epidemia,
+meu amigo.</p>
+
+<p>&mdash;Assim ouvi dizer. N'essa epocha estava eu em Buenos
+Ayres, respondeu o commendador, notando ao mesmo
+tempo a estudada desenvoltura com que o visconde
+o tentava seduzir. Pois eu hontem n&atilde;o fui a S. Carlos,
+ajuntou elle, por ter tido minha filha alguma coisa
+indisposta.</p>
+
+<p>&mdash;N'esse caso fez muito bem, sr. Trist&atilde;o. O tempo
+n&atilde;o est&aacute; para brincadeiras. Eu mesmo, que tenho uma
+saude de ferro, se n'este momento sentisse a mais leve
+indisposi&ccedil;&atilde;o, come&ccedil;ava por me tractar como estando
+realmente amea&ccedil;ado pela epidemia. Em primeiro
+logar est&aacute; a nossa saude. Prefiro-a a tudo, at&eacute; &aacute; riqueza.</p>
+
+<p>&mdash;Por&ecirc;m quando se reunem essas duas venturas...
+acudiu Trist&atilde;o de Almeida, simulando um gesto de pueril
+ingenuidade.</p>
+
+<p>&mdash;Ent&atilde;o o mundo &eacute; um verdadeiro paraiso, pelo
+menos assim o julgo. Muitos rapazes que por ahi conhe&ccedil;o
+possuem, como eu, saude e dinheiro. Encontro-os
+sempre curvados ao pezo de uma terrivel fatalidade.
+Nunca se consideram felizes! Fazem da melancolia
+a sua companheira inseparavel, e dando-se ares de Antonys,
+arranjam um farnel de desventuras, e v&atilde;o com
+elle por essas ruas da capital armando &aacute; compaix&atilde;o<span class='pagenum'><a name="Page_43" id="Page_43">[Pg 43]</a></span>
+das suas Lesbias. Eu sou o contrario; a minha alegria
+&eacute; chronica. Se eu n&atilde;o tenho coisa alguma que me entriste&ccedil;a,
+para que demonio hei de dizer mal do mundo
+que tantos deleites me faz experimentar?</p>
+
+<p>&mdash;Sou da sua opini&atilde;o, sr. visconde. O mundo &eacute; apenas
+mau para os tolos, ainda que ha muita gente que
+diz o contrario. Quem dispozer de boa saude e tiver
+alguns meios, deve pedir a Deus que o conserve largos
+annos sobre a terra. Mas voltando agora a outro
+assumpto, ajuntou Trist&atilde;o de Almeida, que j&aacute; come&ccedil;ava
+a impacientar-se, como o leitor, do estirado dialogo
+do visconde; quanto estimo que me tenha dado a honra
+d'esta visitasinha, n&atilde;o s&oacute; pelo prazer da sua companhia,
+como pela necessidade que tenho de lhe falar.
+Preciso um conselho seu.</p>
+
+<p>&mdash;Um conselho meu! exclamou o visconde profundamente
+admirado. &Eacute; a primeira pessoa que m'o pede!
+Todos me chamam um rapaz extravagante, continuou
+elle, olhando ao mesmo tempo para um espelho que
+lhe ficava fronteiro; vossa excellencia quer guiar-se
+pela minha opini&atilde;o? Provavelmente trata-se da compra
+d'algum palacio, e alguem houve que teve o mau senso
+de lhe dizer que eu era um homem de gosto.</p>
+
+<p>&mdash;Nada, n&atilde;o se trata d'isso.</p>
+
+<p>&mdash;Ent&atilde;o, provavelmente, quer me consultar &aacute;cerca
+da mobilia, ou das carruagens, ou dos cavallos?</p>
+
+<p>&mdash;T&atilde;o pouco, respondeu serenamente Trist&atilde;o de Almeida.
+Isso ficar&aacute; para mais tarde. Por agora trata-se
+apenas de uma obra de misericordia;&mdash;fazer bem aos
+desgra&ccedil;ados.</p>
+
+<p>&mdash;Se tal f&ocirc;r, acho muito justo, e desde j&aacute; me offere&ccedil;o
+a ajudal-o em tudo quanto me seja possivel.</p>
+
+<p>&mdash;Sentemo nos, disse Trist&atilde;o apontando lhe para o
+soph&aacute;. Minha esposa, que tem o habito de empregar
+na pobreza a mezada que lhe dou para os seus alfine<span class='pagenum'><a name="Page_44" id="Page_44">[Pg 44]</a></span>tes,
+lembrou-se ha dias de gastar uns contos de r&eacute;is
+n'um asylo de crean&ccedil;as desvalidas. Que lhe parece a
+id&eacute;a?</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o a p&oacute;de haver melhor, respondeu o visconde,
+e se vossa excellencia m'o permitte, desde j&aacute; me comprometto
+a fazer com que minha tia, a sr.&ordf; condessa de
+Villa Velha, venha immediatamente procural-o afim de
+o iniciar n'essas associa&ccedil;&otilde;es. Recordo me d'ella, porquanto
+&eacute; uma das mais assiduas obreiras do grande
+monumento da caridade. N&atilde;o ha asylo para que n&atilde;o
+seja consultada e &eacute; sempre a sua opini&atilde;o a que prevalece
+sobre todas as outras. Se vossa excellencia quer,
+o meio &eacute; muito simples, e torno a repetir-lhe, hoje
+mesmo me encarrego de tudo.</p>
+
+<p>&mdash;Pois meu caro amigo, acudiu fleugmaticamente
+Trist&atilde;o de Almeida, n&atilde;o me associo &aacute; opini&atilde;o de minha
+mulher nem &aacute; sua. Tenho outra id&eacute;a, e creio que
+ser&aacute; muito mais razoavel.</p>
+
+<p>&mdash;Sim?...</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; verdade. Lembrava-me de fundar um hospital
+para os enfermos atacados de febre amarella. Isso em
+primeiro logar; depois, quando este terrivel flagello tiver
+abandonado Lisboa, ent&atilde;o sim, ent&atilde;o adoptarei a
+id&eacute;a que teve minha mulher.</p>
+
+<p>&mdash;Approvo, e desde j&aacute; devo confessar que tanto eu
+como sua excellentissima esposa ficamos completamente
+vencidos.</p>
+
+<p>&mdash;Approva?</p>
+
+<p>&mdash;Applaudo.</p>
+
+<p>&mdash;E dispensa-me a sua protec&ccedil;&atilde;o n'esta pequena
+obra de caridade?</p>
+
+<p>&mdash;Conte commigo, respondeu o visconde puxando
+pela charuteira e offerecendo um magnifico havano ao
+seu interlocutor.</p>
+
+<p>&mdash;Poderemos hoje mesmo come&ccedil;ar os nossos traba<span class='pagenum'><a name="Page_45" id="Page_45">[Pg 45]</a></span>lhos?
+perguntou Trist&atilde;o de Almeida, acceitando o charuto
+que lhe f&ocirc;ra offerecido.</p>
+
+<p>&mdash;Quando queira, respondeu o visconde de Coruche,
+tirando da algibeira do collete uma caixa de phosphoros
+magnificamente cinzelada.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos ent&atilde;o procurar o commendador e seguiremos
+d'alli para casa de Vaz Mendes. Tanto um como o
+outro &eacute; de supp&ocirc;r que nos possam ajudar em muito.</p>
+
+<p>&mdash;Assim o creio, murmurou o visconde, accendendo
+o charuto e passando-o a Trist&atilde;o de Almeida.</p>
+
+<hr class="bookstyle"/>
+
+<p>Momentos depois entrava este para dentro do trem
+do visconde. Quando a carruagem saia o port&atilde;o e voltava
+para a rua do Ferregial, espantou-se o cavallo da
+sella, e esbarrando no passeio, atropellou um individuo,
+deixando-o sem sentidos. Sairam ambos e levantaram
+o desgra&ccedil;ado.</p>
+
+<p>Pegando elles mesmos no corpo inerte da victima,
+transportaram n'a para o hotel de Bragan&ccedil;a.</p>
+
+<p>Trist&atilde;o de Almeida expediu logo dois creados em
+procura de medico. Por excep&ccedil;&atilde;o, o doutor n&atilde;o tardou
+meia hora!... Das feridas que o atropellado recebera
+na cabe&ccedil;a nenhuma era de gravidade, comtudo n&atilde;o havia
+tornado a si.</p>
+
+<p>Trist&atilde;o de Almeida, com a m&atilde;o do enfermo entre as
+suas, parecia com profundo interesse procurar-lhe a
+vida nas pulsa&ccedil;&otilde;es. Seria calculo ou verdadeira caridade?
+Sabia o Deus!</p>
+
+<p>Terminado o curativo, o homem descerrou as palpebras,
+fitando o que havia em torno de si com olhar
+turvo e desvairado.</p>
+
+<p>&Eacute; melhor deital-o immediatamente, n&atilde;o lhe sobrevenha
+alguma congest&atilde;o, disse o doutor tomando o pulso
+do enfermo.</p>
+
+<p>Depois de ordenarem ao criado de mesa que arran<span class='pagenum'><a name="Page_46" id="Page_46">[Pg 46]</a></span>jasse
+um quarto, Trist&atilde;o de Almeida e o visconde levaram
+em bra&ccedil;os o ferido e deitaram-n'o sobre um leito,
+pedindo ambos ao medico que voltasse antes da
+noite.</p>
+
+<p>&mdash;Come&ccedil;a hoje a espalhar as joias da sua caridade,
+disse-lhe o visconde com falsa ingenuidade.</p>
+
+<p>&mdash;Quizera antes ter perdido dez ou doze contos de
+r&eacute;is do que ter sido causa de similhante desgra&ccedil;a, respondeu-lhe
+Trist&atilde;o. Agora, sr. visconde, ajuntou elle,
+emquanto vamos tratar dos nossos negocios, ser&aacute; bom
+recommendar a minha mulher e a minhas filhas que
+venham para a cabeceira do ferido.</p>
+
+<p>&mdash;Ser&aacute; uma grande alma, pensava o visconde.</p>
+
+<p>&mdash;Foi um magnifico prologo, dizia comsigo Trist&atilde;o.</p>
+
+<p>Meia hora depois dirigiam-se ambos para casa do
+commendador.<span class='pagenum'><a name="Page_47" id="Page_47">[Pg 47]</a></span></p>
+
+<div class="footnotes"><h3>FOOTNOTES:</h3>
+
+<div class="footnote"><p><a name="Footnote_1_1" id="Footnote_1_1"></a><a href="#FNanchor_1_1"><span class="label">[1]</span></a> Trist&atilde;o de Almeida lera a preclarissima obra de sir Francis
+Strolopp, e procurando um celebre chimico allem&atilde;o, conseguira
+que este lhe transformasse a physionomia a ponto de
+se tornar desconhecido de si mesmo.</p></div>
+</div>
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<h1><a name="VI" id="VI"></a>VI</h1>
+
+
+<p>&mdash;E j&aacute; l&aacute; v&atilde;o as cinco, as seis, e as sete, e Jeronymo
+sem chegar! Virgem Santissima que lhe ter&aacute; acontecido?</p>
+
+<p>Isto dizia a infeliz Balbina, olhando ora para o relogio,
+ora para uma pequena imagem de Nossa Senhora
+da Concei&ccedil;&atilde;o, defronte da qual ardia a luz frouxa e melancholica
+de uma lamparina de azeite.</p>
+
+<p>&mdash;Ha dezoito annos que somos casados, continuou
+ella voltando se para a tia Marianna, e nunca tal me
+aconteceu! E sobretudo n'este tempo! Quem nos diz
+que elle foi atacado pela febre, e que o levaram; morto
+talvez; morto, o meu querido Jeronymo? Deus permitta
+que Martha se n&atilde;o demore. Ella j&aacute; tinha tempo
+e mais do que tempo para voltar.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o se apoquente, sr.&ordf; Balbina. D'aqui &aacute; rua de
+S. Francisco n&atilde;o &eacute; t&atilde;o perto como julga, e demais ainda
+n&atilde;o ha uma hora que foi. Coitadinha! Desacostumada
+como est&aacute; de andar por essas ruas! Porque n&atilde;o havia
+de me ter deixado ir em sua companhia? Valha-nos
+Deus! N&atilde;o ha sen&atilde;o desgostos para os que s&atilde;o bons
+como vossemec&ecirc;.<span class='pagenum'><a name="Page_48" id="Page_48">[Pg 48]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Isso &eacute; coisa sabida, tia Marianna; parece que
+quanto mais a gente quer&mdash;como o outro que diz&mdash;estar
+nas gra&ccedil;as de Deus, mais o demo que as tece est&aacute;
+puxando pelo fio da felicidade! Eu estou como doida!
+Se Martha se demora mais algum quarto de hora,
+sou eu quem os vae procurar a <i>ambos e dois</i>. Vossemec&ecirc;
+fica aqui para o que der e vier, ajuntou a pobre
+Balbina, passeiando desassocegadamente de um para
+o outro lado do quarto.</p>
+
+<p>&mdash;Ainda n&atilde;o tem raz&atilde;o para estar dizendo mal &aacute;
+sua vida. Quem sabe se ambos se encontraram?...</p>
+
+<p>&mdash;Tenho na mente que n&atilde;o, sr.&ordf; Marianna; e demais,
+n&atilde;o sei o que me diz o cora&ccedil;&atilde;o. Parece que tudo se
+est&aacute; preparando para que haja n'esta casa uma grande
+desgra&ccedil;a. Se a minha amiga visse a maneira por que
+hoje nos olhou a tia Monica! N&atilde;o lhe bastou ter-nos rogado
+a praga que nos rogou...</p>
+
+<p>&mdash;Ora deixe-se d'isso, sr.&ordf; Balbina! N&atilde;o creia em
+bruxarias. Deus &eacute; bom de mais para conceder similhante
+poder aos mortaes.</p>
+
+<p>&mdash;Se ouvisse como hoje esteve a <i>ouviar</i> a minha cadella!
+Diga-o ella! Por mais que pozesse as cadeiras de
+pernas para o ar, e que voltasse um sapato de solla
+para cima, n&atilde;o houve meios de fazer com que se calasse
+o pobre animal! Eu bem sei que tudo isto s&atilde;o
+coisas, como o outro que diz, que n&atilde;o vem nada ao
+caso, mas a gente c&aacute; tem os seus engui&ccedil;os, e desgra&ccedil;adamente
+a maior parte das vezes saem certos como
+dois e dois serem quatro.</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim, pois sim, socegue a minha boa amiga,
+e ver&aacute; que n&atilde;o tarda muito que os veja entrar por essa
+porta. &Eacute; preciso que a gente n&atilde;o seja t&atilde;o desanimada.
+De que nos serviria a religi&atilde;o se nos n&atilde;o desse
+conformidade? Estar agora duvidando da gra&ccedil;a de Deus,
+porque seu marido se demora mais duas ou tres horas!<span class='pagenum'><a name="Page_49" id="Page_49">[Pg 49]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;E como explica vossemec&ecirc; o elle n&atilde;o ter vindo
+jantar?</p>
+
+<p>&mdash;Quem sabe l&aacute; se encontrou o seu ganchosinho
+com que podesse ganhar algum vintem? Ignora vossemec&ecirc;
+o seu genio? Aquillo &eacute; uma formiga para a familia.
+Parece-me que se o dia tivesse quarenta e oito
+horas, quarenta e oito horas seria capaz de trabalhar
+por dia.</p>
+
+<p>N'este momento bateram &aacute; porta e a voz de Martha
+soou melancholicamente atravez das fendas do postigo.</p>
+
+<p>Balbina ergueu-se rapidamente para lhe abrir a porta.</p>
+
+<p>Martha vinha desfigurada.</p>
+
+<p>&mdash;O pae, disse ella entre solu&ccedil;os, sa&iacute;u da obra ao
+meio dia para vir jantar a casa. Ninguem me p&ocirc;de dar
+noticias d'elle. Pedi a um pedreiro para me ajudar a
+procural-o, mas o pobre sentia-se muito incommodado
+e esquivou-se a acompanhar-me. Outro que l&aacute; encontrei
+come&ccedil;ou a sorrir-se para mim de tal forma que
+n&atilde;o tive valor de lhe dizer quanto soffria, ajuntou Martha
+tornando-se vermelha como o len&ccedil;o que lhe occultava
+os seus magnificos cabellos.</p>
+
+<p>&mdash;Infame! exclamou Balbina approximando-se cada
+vez mais da filha.</p>
+
+<p>&mdash;Fugi desorientada, continuou Martha suffocada pelas
+lagrimas, e quando vinha pelo Chiado, encostei-me
+a uma esquina quasi sem saber de mim. Ent&atilde;o senti
+que me tocavam brandamente no hombro. Despertei
+como de um sonho, e vi um senhor muito bem vestido,
+perguntando me o que tinha. Disse-lhe que ia em
+busca de meu pae, pois receiava que tivesse sido atacado
+pela febre. O tal individuo compadeceu-se da minha
+sorte. Aquelle sim; nem siquer reparou se eu era
+bonita ou se era feia. Teve apenas tempo de me ver
+as lagrimas e n&atilde;o a c&ocirc;r dos olhos. &laquo;N&atilde;o me atrevo a<span class='pagenum'><a name="Page_50" id="Page_50">[Pg 50]</a></span>
+dizer-lhe que entre commigo n'uma sege, disse-me elle;
+seria offendel-a; mas espere, que vou chamar dois
+trens.&raquo;</p>
+
+<p>Esperei, chegaram duas traquitanas.</p>
+
+<p>&mdash;Entre, disse-me elle pegando-me na m&atilde;o esquerda.
+Do cora&ccedil;&atilde;o lhe affian&ccedil;o, que p&oacute;de estar t&atilde;o segura
+como se fosse ao lado de seu pae, que espero em
+Deus encontrar&aacute; com vida, acrescentou o individuo
+mettendo-me no trem.</p>
+
+<p>Entrei sem saber como. Senti bater o guarda lama
+e os cavallos seguirem a trote.</p>
+
+<p>De repente, a sua traquitana tomou a deanteira &aacute;
+minha.</p>
+
+<p>And&aacute;mos, and&aacute;mos at&eacute; que chegou a um sitio onde
+havia um hospital. Os cavallos pararam. Elle ent&atilde;o apeiou-se
+e perguntou-me os signaes do pae. Dei-lh'os.
+Entrou para dentro do edificio onde se demorou por
+alguns minutos, e voltou dizendo-me que n&atilde;o tinha entrado
+n'aquella casa.</p>
+
+<p>Os trens partiram a galope. Fomos a dois hospitaes;
+o mesmo resultado.</p>
+
+<p>Faltava apenas o da rua do Sol. Esse, j&aacute; eu conhecia
+de nome quando a tia Marianna adoeceu. Ninguem
+alli tinha entrado desde as nove horas da manh&atilde;.</p>
+
+<p>&mdash;V&aacute; tranquilla para sua casa, e diga-me onde mora.</p>
+
+<p>Dei-lhe o nome da rua e o numero da porta.</p>
+
+<p>Pagou ao bolieiro dizendo-lhe que me viesse p&ocirc;r em
+casa, o que n&atilde;o acceitei por causa da visinhan&ccedil;a.</p>
+
+<p>&mdash;E quem ser&aacute; esse individuo, para que lhe possamos
+beijar as m&atilde;os? exclamou Balbina, n'um transporte
+de profundo reconhecimento.</p>
+
+<p>&mdash;Deus sabe! Oh! mas elle n&atilde;o me mentiu! respondeu
+Martha. Tenho tanta f&eacute; nas suas palavras! Se
+a m&atilde;e visse como elle me disse: &laquo;v&aacute; para casa, que
+ainda hoje hei de descobrir onde est&aacute; seu pae.&raquo;<span class='pagenum'><a name="Page_51" id="Page_51">[Pg 51]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;E &eacute; muito novo esse homem? interrompeu Marianna.</p>
+
+<p>&mdash;Uns trinta annos.</p>
+
+<p>&mdash;Felizmente, ainda se pode dizer que a mocidade
+n&atilde;o est&aacute; perdida de todo.</p>
+
+<p>N'este momento, Balbina approximava-se da porta,
+preparando-se para sair.</p>
+
+<p>&mdash;Mas onde vae? exclamou Martha. Pelo amor de
+Deus, minha m&atilde;e... Tenha prudencia! Onde pretende
+encontral-o? Na rua? J&aacute; v&ecirc; que se lhe tivesse acontecido
+alguma desgra&ccedil;a, estaria infallivelmente em algum
+dos hospitaes, e gra&ccedil;as a Deus, tal n&atilde;o succede.</p>
+
+<p>&mdash;Embora! hei de encontral o, respondeu a pobre
+mulher tentando dar volta &aacute; chave para sair.</p>
+
+<p>Marianna e Martha, ajoelhadas deante da pobre esposa,
+tentavam impedir-lhe a passagem.</p>
+
+<p>E ella ent&atilde;o, comprehendendo a inutilidade da sua
+saida, caiu de joelhos deante da imagem de Nossa Senhora.
+Imitando-a, Martha e Marianna acompanharam-n'a
+na sua ora&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>E o relogio, seguindo n'um rumor compassado, continuava
+na sua material indifferen&ccedil;a marcando os segundos
+e os minutos, ao som da chuva que, batendo
+de encontro aos vidros, ainda mais sombrio tornava
+aquelle quadro de amargura.<span class='pagenum'><a name="Page_52" id="Page_52">[Pg 52]</a></span></p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<h1><a name="VII" id="VII"></a>VII</h1>
+
+
+<p>Mudando de rumo, o visconde e Trist&atilde;o de Almeida
+dirigiram-se primeiramente a casa de Vaz Mendes.</p>
+
+<p>Depois de os escutar, o banqueiro annuiu gostosamente
+aos desejos do seu recommendado, promettendo-lhe
+desde logo fazer tudo quanto estivesse ao seu
+alcance para animar uma id&eacute;a t&atilde;o philantropica.</p>
+
+<p>D'alli partiram todos tres para casa do commendador Lopes
+de Miranda.</p>
+
+<p>Egual acolhimento, como era de esperar, acrescentando
+que a mesma id&eacute;a exposta por Trist&atilde;o de Almeida
+havia sido formulada por elle tres dias antes.</p>
+
+<p>Trist&atilde;o sorriu-se com a velhacaria que lhe era habitual,
+agradecendo &aacute; Providencia que os seus pensamentos
+se houvessem encontrado com os do excellentissimo
+commendador.</p>
+
+<p>Historiando o atropellamento e matizando a historia
+dos mais lisongeiros epithetos para Trist&atilde;o, o visconde
+de Coruche contou ao commendador o que se havia
+passado com o operario.</p>
+
+<p>&mdash;Se vossa excellencia n&atilde;o deu a morte a esse<span class='pagenum'><a name="Page_53" id="Page_53">[Pg 53]</a></span>
+desgra&ccedil;ado, estou certissimo que far&aacute; a sua felicidade,
+disse o commendador, piscando ao mesmo tempo o olho
+para o visconde.</p>
+
+<p>&mdash;Ha males que vem por bens, acudiu este fazendo
+uma careta para Lopes de Miranda.</p>
+
+<p>&mdash;Mysterios de Deus, respondeu Trist&atilde;o em voz alta.
+Fortes nescios, ajuntou elle de si para comsigo. Mal
+sabem que lhes percebo os signaes.</p>
+
+<p>Momentos depois, entravam todos quatro no hotel
+de Bragan&ccedil;a e dirigiam-se ao quarto do ferido.</p>
+
+<p>O operario encontrava-se no mesmo estado de anemia.
+Pessoa alguma havia podido arrancar-lhe uma s&oacute;
+palavra.</p>
+
+<p>A sr.&ordf; D. Maria Egypciaca, segundo o havia ordenado
+o seu philanthropico esposo, n&atilde;o tinha abandonado o
+leito do enfermo. Magdalena e Olympia, de vez em
+quando approximavam se do quarto.</p>
+
+<p>Depois de cumprimentarem a esposa de Trist&atilde;o, os
+tres amigos chegaram-se ao enfermo.</p>
+
+<p>&mdash;Faz pena! disse o commendador, Deus sabe ajuntou
+elle, se este pobre homem ter&aacute; alguma pessoa a
+quem esteja dando s&eacute;rios cuidados. &Eacute; uma lastima que
+se lhe n&atilde;o possa saber o nome. Se descobrissemos
+quem &eacute; a familia, mandar lhe-iamos dizer que estava
+sob a protec&ccedil;&atilde;o de vossa excellencia. N'estas epochas
+de epidemia, a mais pequena demora faz com que
+todos estejam em cuidados.</p>
+
+<p>&mdash;Vejamos se &eacute; possivel fazel o falar, disse Vaz
+Mendes, debru&ccedil;ando se sobre o leito do operario.</p>
+
+<p>O enfermo continuava no mesmo lethargo.</p>
+
+<p>Eram perto de seis horas. Como n&atilde;o houvesse meios
+de lhe arrancar uma palavra, D. Maria Egypciaca lembrou
+que seria mais prudente irem jantar emquanto
+durasse aquelle estado morbido, e deixando o doente<span class='pagenum'><a name="Page_54" id="Page_54">[Pg 54]</a></span>
+entregue a um creado, convidou as visitas a dirigirem-se
+&aacute; casa de jantar.</p>
+
+<p>Ao chegarem alli, j&aacute; Olympia, a filha mais nova de
+Trist&atilde;o de Almeida, aguardava que seus paes tivessem
+dado treguas &aacute; caridade para desfructarem o unico gozo
+da vida, o comer. Minutos depois, appareceu Magdalena,
+a irm&atilde; mais velha.</p>
+
+<p>O jantar correu animadissimo! Formosas eram ambas
+as filhas de Trist&atilde;o de Almeida; juntando-se &aacute; formosura
+e juventude um dote de duzentos contos de
+reis, que lhes poderia faltar?</p>
+
+<p>Ventilado pela vigessima vez o caso do atropellamento,
+bem como o valor do visconde de Coruche,
+que fizera convencer Trist&atilde;o de Almeida do risco que
+havia corrido a sua existencia em se ter approximado,
+do cavallo da sella, discutiu-se a funda&ccedil;&atilde;o do hospital.</p>
+
+<p>D. Maria Egypciaca, que de antem&atilde;o havia sido prevenida
+por seu esposo, falou eloquentemente sobre
+este assumpto, deixando assombrados os hospedes tanto
+pela sua verbosidade como pelas id&eacute;as philantropicas
+que defendia.</p>
+
+<p>Olympia contentava se de atacar com vigor extraordinario
+cada prato de cosinha que o servente lhe apresentava
+pelo lado do cora&ccedil;&atilde;o, viscera que apenas lhe
+estremecia consoante o apimentado dos molhos onde
+o guizado se mergulhava!</p>
+
+<p>Fitando o olhar na comida, Olympia manejava o talher
+com mais desembara&ccedil;o do que qualquer malabar
+de feira, pegando depois n'um oitavo de p&atilde;o de meio
+arratel para limpar o prato com o artistico intuito de
+admirar o bom gosto do estampador.</p>
+
+<p>Olympia tinha duas paix&otilde;es: a cosinha e a ceramica.
+Se lhe dissessem que morrendo de uma indigest&atilde;o de
+ninhos de andorinhas seria depositada n'um sarcopha<span class='pagenum'><a name="Page_55" id="Page_55">[Pg 55]</a></span>go
+de S&eacute;vres, a filha de Trist&atilde;o de Almeida apanharia
+a indigest&atilde;o de bom grado.</p>
+
+<p>Debalde o visconde de Coruche se desfazia em melifluas
+olhaduras, tudo era inutil; o estomago de Olympia
+conced&iacute;a-lhe apenas que as suas vistas se dirigissem
+ora para o prato que limpava, ora para a porta
+por onde entrava o criado com o seguimento do <i>menu</i>.</p>
+
+<p>E, apezar de tudo, essa creatura que t&atilde;o desenvoltamente
+usava e abusava dos org&atilde;os da mastiga&ccedil;&atilde;o, perguntando
+ao criado durante o jantar o que tencionava
+guardar-lhe para a ceia, tinha o poetico nome de Olympia,
+como o leitor n&atilde;o ignora, e era formosa, formosa
+a fazer enraivar de inveja todas as do seu sexo, menos
+a amavel leitora que sobre estas paginas se debru&ccedil;a.</p>
+
+<p>Olympia era uma pomba. Dizia sua m&atilde;e que at&eacute; aos
+dezoito annos, o unico desgosto que lhe havia dado f&ocirc;ra
+ter atirado com uma travessa ao rosto pallido de
+Magdalena, por esta lhe ter comido duas queijadas de
+Reinholas, resto de tres duzias que seu pae lhe havia
+trazido de Cintra.</p>
+
+<p>Magdalena era a sua antithese. Af&ocirc;ra aquelles dois
+pasteis, poder-se-ia julgar impolluta no que dizia respeito
+ao quinto peccado.</p>
+
+<p>De uma formosura menos provocadora do que sua
+irm&atilde;, Magdalena sabia insinuar-se no cora&ccedil;&atilde;o de todos
+os que tinham a felicidade de lhe merecer sympathia.</p>
+
+<p>Tinha na tristeza vaga e scismadora do seu olhar uns
+longes de melancolia que prendiam quem a contemplasse.</p>
+
+<p>Sobretudo, o que mais espantava em Magdalena era
+a harmonia da voz. Assombrava! Os anjos deviam aprendel-a,
+para espalharem nos seus canticos a musica da
+palavra.</p>
+
+<p>Falava pouco, por&eacute;m a phrase era sempre correcta.
+Reservada mais por calculo do que por organiza&ccedil;&atilde;o, a<span class='pagenum'><a name="Page_56" id="Page_56">[Pg 56]</a></span>
+irm&atilde; de Olympia atravessava a sociedade com a consciencia
+segura e mathematica dos mil escolhos de que
+ella se comp&otilde;e!</p>
+
+<p>Ferira-a a aza negra da tormenta? A ave da desgra&ccedil;a
+esvoa&ccedil;&aacute;ra-lhe sobre os seus louros cabellos? Desfizera-se-lhe
+algum sonho luminoso? Sentira o seu cora&ccedil;&atilde;o
+immenso, golpeado pelo punhal do desengano?</p>
+
+<p>Todos o ignoravam, ou para melhor dizer, pessoa alguma
+se havia demorado a estudar aquella peregrina
+organiza&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>Magdalena nunca havia amado, por&eacute;m o seu cora&ccedil;&atilde;o
+tinha necessidade de amar como os pulm&otilde;es do ar
+que respiram.</p>
+
+<p>Creando um dia na sua phantasiosa imagina&ccedil;&atilde;o o typo
+que ambicionara, quiz-lhe dar vida, formas e anima&ccedil;&atilde;o.
+Quando mais tarde se lhe sumiu o vago, o impalpavel,
+o ideal que conceb&ecirc;ra e que tomb&aacute;ra na tristissima
+realidade, esmoreceu e curvou-se resignada para
+chorar a s&oacute;s as suas lagrimas.</p>
+
+<p>Prophetisa da amargura, como veremos na continua&ccedil;&atilde;o
+d'esta singela historia, Magdalena parecia adivinhar
+as supremas angustias que mais tarde lhe haviam
+de escruciar a pobre alma!</p>
+
+<p>Debalde, repetimos, se esfor&ccedil;ava o visconde para
+merecer um olhar de Olympia.</p>
+
+<p>Era invulneravel!</p>
+
+<p>&mdash;Se o homem j&aacute; ter&aacute; dado accordo de si, disse o
+visconde para n&atilde;o estar calado.</p>
+
+<p>&mdash;Deus sabe! murmurou o amphitri&atilde;o defendendo
+uma perna de perdiz da insaciavel voracidade da filha!</p>
+
+<p>&mdash;Daria tudo para que esse infeliz tornasse &aacute; vida,
+disse D. Maria Egypciaca dirigindo-se ao commendador.
+Como estar&aacute; a sua pobre familia! ajuntou ella despejando
+um copo de vinho do Rheno.</p>
+
+<p>&mdash;Feliz d'elle, tartamudeou o visconde, se podesse<span class='pagenum'><a name="Page_57" id="Page_57">[Pg 57]</a></span>
+abrir os olhos no momento em que vossa excellencia
+estivesse &aacute; cabeceira do seu leito. Pela minha parte,
+aben&ccedil;oaria fosse que circumstancia fosse que me trouxesse
+tal ventura, ajuntou elle, dirigindo-se a Olympia.</p>
+
+<p>&mdash;Passa me aquelle prato de carne de porco assada,
+disse Olympia tocando no hombro de sua irm&atilde; e sem
+se atrever a olhar para o visconde.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o ouves o que te diz aquelle cavalheiro? perguntou
+D. Maria Egypciaca, voltando-se com modo agastado
+para sua filha.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o repare, meu caro amigo, acudiu Trist&atilde;o, Olympia
+&eacute; muito envergonhada, e demais est&aacute; pouco acostumada
+&aacute; sociedade. N&atilde;o ouves o que te diz o sr. visconde?
+acrescentou elle dirigindo-se &aacute; gastronoma.</p>
+
+<p>&mdash;Ou&ccedil;o, sim senhor, mas n&atilde;o sei o que hei de responder.</p>
+
+<p>Magdalena estremeceu de pejo ao ouvir a resposta
+de Olympia.</p>
+
+<p>N'este comenos, o criado que ficara junto do ferido
+entrou na casa de jantar para participar que elle havia
+tornado a si, dizendo poucos instantes depois o seu
+nome e a rua onde morava. Ajuntou em seguida o
+criado que um sujeito muito bem vestido pedira ao
+guarda port&atilde;o para vir reconhecer o doente.</p>
+
+<p>&mdash;E esse individuo... ainda l&aacute; est&aacute;? perguntou
+Trist&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o senhor. Saiu logo que lhe soube o nome. Disse
+que ia dar parte &aacute; familia que estava com muito
+cuidado julgando que tinha sido atacado pela febre.</p>
+
+<p>&mdash;E quem &eacute; o doente e como se chama? perguntou
+vivamente o visconde.</p>
+
+<p>&mdash;Chama-se Jeronymo e &eacute; mestre de obras.</p>
+
+<p>&mdash;E onde mora? interrompeu Vaz Mendes.</p>
+
+<p>&mdash;Na rua do Meio &aacute; Lapa, respondeu o criado.</p>
+
+<p>&mdash;Quanto estimo! quanto estimo! exclamou D. Maria<span class='pagenum'><a name="Page_58" id="Page_58">[Pg 58]</a></span>
+Egypciaca. Provavelmente foram chamar-lhe a familia.
+Que venha, que venha. Pobre gente! Talvez ainda aben&ccedil;&otilde;em
+a fatalidade que lhes aconteceu! P&oacute;des retirar-te,
+Manuel, ajuntou ella, dirigindo-se ao criado.</p>
+
+<p>&mdash;Agora, disse Vaz Mendes, j&aacute; temos por onde come&ccedil;ar
+a nossa obra de caridade. Principiaremos por
+esse pobre Jeronymo.</p>
+
+<p>&mdash;Apoiado! bradou o commendador despejando o
+decimo copo de vinho do Porto, e olhando de soslaio
+para Olympia, cujos olhos pardos se fitavam ardentemente
+n'uma torta de ma&ccedil;&atilde;.</p>
+
+<p>&mdash;Se m'o permittem, vou ver o meu protegido disse
+Trist&atilde;o, levantando se ao mesmo tempo da cadeira.</p>
+
+<p>&mdash;E se tambem m'o permittem?... accrescentou o
+visconde, imitando o movimento do seu amigo.</p>
+
+<p>&mdash;Mas com o maior prazer, respondeu D. Maria Egypciaca.
+E n&atilde;o tardar&aacute; muito que l&aacute; vamos, eu e minhas
+filhas.</p>
+
+<p>&mdash;Querem vel o? perguntou o visconde voltando-se
+para o banqueiro e para o commendador.</p>
+
+<p>&mdash;Da melhor vontade, responderam os dois a um
+tempo.</p>
+
+<p>Levantando se rapidamente seguiram o seu amphitri&atilde;o.</p>
+
+<hr class="bookstyle"/>
+
+<p>&mdash;Ora ahi tem a mam&atilde; porque eu n&atilde;o gosto de comer
+&aacute; mesa quando temos visitas. Levanto-me sempre
+com fome. S&oacute; eu &aacute; minha parte seria capaz de comer
+toda aquella carne assada, disse Olympia entristecidamente
+voltando se para sua m&atilde;e.</p>
+
+<p>&mdash;Pois &eacute; possivel que ainda tivesses mais vontade?
+perguntou Magdalena.</p>
+
+<p>&mdash;Aben&ccedil;oado estomago! disse D. Maria Egypciaca levantando-se
+da mesa.<span class='pagenum'><a name="Page_59" id="Page_59">[Pg 59]</a></span></p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<h1><a name="VIII" id="VIII"></a>VIII</h1>
+
+
+<p>Deixemos por algum tempo os preclaros bemfeitores
+do pobre Jeronymo; a inconsolavel esposa rezando
+&aacute; Virgem Santissima; D. Maria Egypciaca aben&ccedil;oando
+o fructo dos seus burocraticos amores, e volvamos a
+uma epocha vinte annos anterior a estes successos, quando,
+perdida a raz&atilde;o, a infeliz D. Marianna de Mendon&ccedil;a
+deu entrada no hospital de S. Jos&eacute;.</p>
+
+<p>Como o leitor deve estar lembrado, a viuva n&atilde;o tinha
+um unico parente sobre a terra. As pessoas que
+frequentavam a sua casa havia muito que se tinham
+afastado, em virtude das intrigas urdidas pela sua amiga
+intima, que annos antes a aconselh&aacute;ra a depositar
+os capitaes nas m&atilde;os do commendador.</p>
+
+<p>At&eacute; o advogado que f&ocirc;ra acompanhal-a ao escriptorio
+no dia da fuga de Felix Justino de Araujo, at&eacute; esse
+a havia abandonado, para com o seu conselho salvar
+as victimas do fugitivo.</p>
+
+<p>Maria Gertrudes, uma das creadas que lhe era mais
+affei&ccedil;oada, ao vel-a entrar n'aquella situa&ccedil;&atilde;o, dirigiu-se
+immediatamente a casa da amiga da sua ama partici<span class='pagenum'><a name="Page_60" id="Page_60">[Pg 60]</a></span>pando-lhe
+o estado em que D. Marianna se encontrava,
+perguntando-lhe o que queriam dizer aquellas palavras
+que proferira o commendador&mdash;que lhe tinham roubado
+todos os seus bens.</p>
+
+<p>&mdash;Que a sua ama sempre propendeu para a loucura,
+ha muito que o suspeitava, mas que tivesse chegado
+a esse ponto, &eacute; que n&atilde;o podia crer. Vejo-lhe apenas
+um remedio: metterem-n'a no hospital dos doidos, e,
+quanto a isso, quem est&aacute; nas melhores condi&ccedil;&otilde;es &eacute; o
+regedor. E sem mais tir'te nem guar'te, voltou as costas
+&aacute; fiel criada, mostrando-lhe que o sitio por onde tinha
+de sair era o mesmo por onde minutos antes havia
+entrado.</p>
+
+<p>Esperan&ccedil;ada no restabelecimento de D. Maria, a pobre
+mulher voltou para casa.</p>
+
+<p>&mdash;J&aacute; n&atilde;o ha meios de a soffrer, disse-lhe uma sua
+companheira. Tem quebrado tudo quanto encontra &aacute;
+m&atilde;o, e se assim contin&uacute;a, n&atilde;o temos &aacute;manh&atilde; um copo
+por onde beber. Pela minha parte, entendo que visto
+a senhora n&atilde;o ter amigos nem parentes, o melhor era
+dirigirmo-nos ao sr. regedor.</p>
+
+<p>&mdash;O mesmo disse a sr.&ordf; D. Maria Clara. Por&eacute;m, entregar
+a nossa ama &aacute; justi&ccedil;a, n&oacute;s que lhe queremos tanto!
+N&atilde;o seria mais razoavel supportal-a ainda alguns
+dias, como antes de hontem nos disse o medico? respondeu
+Maria Gertrudes.</p>
+
+<p>&mdash;Pois supporte-a vossemec&ecirc;, que eu pela minha
+parte j&aacute; estou farta. E demais, n&oacute;s as criadas n&atilde;o temos
+obriga&ccedil;&atilde;o de aturar doidas. Se a tal me quizesse
+sujeitar, ia para o hospital de S. Jos&eacute;, onde tinha melhor
+ordenado do que n'esta casa. Vossemec&ecirc;, que &eacute;
+mais antiga do que eu, se gosta, sopeteie, que quanto
+a mim, n&atilde;o tenho mais nada se n&atilde;o arranjar o bahu,
+p&ocirc;r o capote e o len&ccedil;o, e p&eacute;s para que te quero.<span class='pagenum'><a name="Page_61" id="Page_61">[Pg 61]</a></span></p>
+
+<p>&Eacute; que n&atilde;o sei; n&atilde;o sei o que hei de fazer &aacute; minha
+vida. Valha-me Deus, para que estava guardada.</p>
+
+<p>&mdash;Estivesse eu no seu caso; eu lh'o diria.</p>
+
+<p>&mdash;Ent&atilde;o o que havia de fazer?</p>
+
+<p>&mdash;Chamar o regedor e ferrar com ella no hospital.</p>
+
+<p>&mdash;E esta casa? Quem ha de ficar n'esta casa?</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa sr.&ordf; Maria Gertrudes! Ficavamos n&oacute;s
+emquanto o filho n&atilde;o viesse.</p>
+
+<p>&mdash;E sabemos por ventura aonde est&aacute; o filho?</p>
+
+<p>&mdash;Onde est&aacute;! Est&aacute; no estrangeiro. Bem se v&ecirc; que
+a sr.&ordf; Maria Gertrudes n&atilde;o &eacute; mulher d'este tempo. Boa
+est&aacute;. Olha que grande difficuldade! Pensa talvez que
+n&atilde;o sei como essas coisas se fazem. Para que servem
+os correios? N&atilde;o tem mais nada sen&atilde;o p&ocirc;r: ao sr.
+Manuel de tal, e em baixo: pelo correio do Estrangeiro,
+em letras muito grandes.</p>
+
+<p>&mdash;Isso l&aacute; &eacute; verdade; e quanto tempo pode levar
+isso tudo?</p>
+
+<p>&mdash;O tempo que leva uma carta ao estrangeiro. Olhe,
+sr.&ordf; Maria Gertrudes, se vossemec&ecirc; quer, n&atilde;o diga
+nada ao criado, que eu <i>mesmo</i> me encarrego de a escrever.
+Por agora o que devemos fazer &eacute; ir a casa do
+sr. regedor. J&aacute; com este s&atilde;o cinco dias que estamos
+aturando aquella doida, e bem v&ecirc; que isto n&atilde;o p&oacute;de
+durar por muito tempo.</p>
+
+<p>&mdash;L&aacute; n'isso tem muita raz&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Ora ainda bem; ent&atilde;o m&atilde;os &aacute; obra.</p>
+
+<hr class="bookstyle"/>
+
+<p>Maria Gertrudes resolveu-se a ir falar ao regedor.</p>
+
+<p>N'essa mesma tarde, a infeliz senhora, que cinco
+dias antes se considerava rica e cheia de ventura, entrava
+na enfermaria das alienadas como uma simples
+pedinte sem protec&ccedil;&atilde;o e sem abrigo. Quando dois mezes
+depois, informado pelos visinhos, soube o regedor
+o que se estava passando em casa de D. Marianna de<span class='pagenum'><a name="Page_62" id="Page_62">[Pg 62]</a></span>
+Mendon&ccedil;a e como os seus creados de dia para dia iam
+roubando os haveres, entendeu-se com o juiz eleito,
+e entrando em casa, viram com effeito que n&atilde;o eram
+mal fundadas as suspeitas da visinhan&ccedil;a.</p>
+
+<p>A carta remettida para o estrangeiro ainda n&atilde;o tinha
+chegado &aacute;s m&atilde;os de Manuel de Mendon&ccedil;a, e a
+desgra&ccedil;ada continuava no hospital sem que nenhum
+dos creados fosse indagar o seu estado.</p>
+
+<p>No dia seguinte, o juiz mandou tomar posse de tudo
+quanto existia, e depois de competentemente inventariado,
+collocou no meio da rua aquelles dedicados servos
+que t&atilde;o tranquillamente habitavam a casa de sua
+ama sem ao menos saberem se ainda existia ou n&atilde;o.</p>
+
+<p>Pelo espa&ccedil;o de sete annos, esteve D. Marianna nas
+enfermarias de S. Jos&eacute;. Finalmente, recobrou a raz&atilde;o
+e deram-lhe alta.</p>
+
+<p>Antes da saida pediu para falar com o director. Depois
+de lhe confiar todos os pormenores da sua vida,
+perguntou-lhe se durante a sua enfermidade alguem
+tinha vindo informar-se da sua saude.</p>
+
+<p>Sympathizando com as maneiras da viuva e condoido
+pela sua desgra&ccedil;a, o director levou-a para casa da
+sua familia.</p>
+
+<p>Finalmente, gra&ccedil;as &aacute;s rela&ccedil;&otilde;es do seu protector, D.
+Marianna tomou posse do que lhe restava. Entre lou&ccedil;a,
+moveis e roupas brancas apurou dois contos e duzentos
+mil r&eacute;is.</p>
+
+<p>Alugou uma casa proxima &aacute; dos seus protectores, entregou-lhes
+o resto para lh'o empregarem no que melhor
+lhes parecesse, at&eacute; que o destino, can&ccedil;ado de a
+torturar, lhe proporcionasse a maior de todas as felicidades:
+devolver-lhe o filho querido da sua alma!</p>
+
+<p>Debalde se passaram annos e annos, e o destino sem
+se compadecer da sua desventura.</p>
+
+<p>Os dezeseis vintens que pouco mais ou menos lhe<span class='pagenum'><a name="Page_63" id="Page_63">[Pg 63]</a></span>
+rendiam as inscrip&ccedil;&otilde;es, juntos aos ganhos que os seus
+bordados lhe produziam, eram mais do que sufficiente
+para o seu alimento. Infeliz de todo n&atilde;o se considerava
+D. Marianna, e ingrata seria para com Deus se da
+sua sorte se queixasse. Era j&aacute; muito o amparo que lhe
+concedia a Providencia representada nas pessoas do
+director e de sua mulher; por&eacute;m a desgra&ccedil;a que parecia
+ter-se aninhado no seu cora&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o podia permittir-lhe
+que descesse &aacute; sepultura sem que primeiro
+a bafejasse uma vez ainda com o seu halito envenenador.
+Levou-lhe em menos d'um anno as duas unicas
+pessoas que tinha sobre a terra: o director e sua esposa!</p>
+
+<p>Aterrada com esse golpe, julgou de novo enlouquecer!</p>
+
+<p>Querendo mudar-se do bairro, que lhe recordava os
+seus protectores, &aacute; sombra de cuja amizade tanto tempo
+se abrig&aacute;ra, lembrou-se de ir viver para a Lapa.</p>
+
+<p>Uma tarde saiu, e dirigindo-se para aquelles sitios
+encontrou na rua do Meio a casa que lhe convinha.
+Dois dias depois, alugou e mudou para alli a sua pequena
+mobilia. Foi onde oito annos depois a encontramos
+atacada pela febre amarella.</p>
+
+<p>A pobre senhora, na doce esperan&ccedil;a de ainda tornar
+a v&ecirc;r seu filho, economizava, quanto cabia em
+suas for&ccedil;as, os poucos haveres que lhe restavam.</p>
+
+<p>&laquo;Este dinheiro, dizia ella &aacute;s vezes comsigo olhando
+para as inscrip&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o me pertence, &eacute; de meu filho;
+cumpre-me fazer tudo quanto possivel me f&ocirc;r para lh'o
+augmentar.&raquo;</p>
+
+<p>Explicado est&aacute; portanto o seu modo de viver.<span class='pagenum'><a name="Page_64" id="Page_64">[Pg 64]</a></span></p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<h1><a name="IX" id="IX"></a>IX</h1>
+
+
+<p>A physionomia doce e melancholica de Martha impression&aacute;ra
+de mais o desconhecido para que a sua
+promessa deixasse de ser cumprida.</p>
+
+<p>Quando ao apear-se no Largo das Duas Egrejas se
+demorou alguns segundos para pagar ao bolieiro, olhou
+instinctivamente para um grupo composto de quatro
+individuos que estavam discutindo.</p>
+
+<p>&mdash;Se fosse algum de n&oacute;s que tivesse atropellado o
+homem, provavelmente estava preso, dizia um d'elles.</p>
+
+<p>&mdash;Mas como foi o sr. Trist&atilde;o d'Almeida... acudiu
+outro.</p>
+
+<p>&mdash;E o visconde de Coruche, accrescentou terceiro.</p>
+
+<p>&mdash;Mas elle morreu ou n&atilde;o morreu?</p>
+
+<p>&mdash;Dizem que est&aacute; melhor.</p>
+
+<p>&mdash;Veremos como se porta o brazileiro.</p>
+
+<p>&mdash;At&eacute; agora, n&atilde;o ha raz&atilde;o de queixa, segundo me
+disseram. L&aacute; ficou n'um bello quarto do hotel, tendo
+por enfermeiras a mulher do magnata, e as duas filhas.</p>
+
+<p>&mdash;Tenho pena de n&atilde;o ter sido eu o atropellado, s&oacute;
+para ter taes enfermeiras.<span class='pagenum'><a name="Page_65" id="Page_65">[Pg 65]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Voc&ecirc;s v&atilde;o d'aqui para o Marrare de Polimento,
+ou ficam ainda a descobrir a mysteriosa individualidade
+do menino de ouro, como se diz na minha terra?</p>
+
+<p>&mdash;Vamos para o Marrare, responderam os outros
+tres, dirigindo-se pela rua do Chiado.</p>
+
+<p>Reflectindo em que o atropellado podia muito bem
+ser o pae de Martha, o mysterioso protector da infeliz
+crian&ccedil;a seguiu os quatro individuos at&eacute; &aacute; sua entrada
+no Marrare de Polimento.</p>
+
+<p>Entrou tambem.</p>
+
+<p>O que primeiro fal&aacute;ra do acontecimento ficou &aacute; porta
+assobiando alegremente; os outros dirigiram-se para
+os bilhares.</p>
+
+<p>&mdash;Deve estranhar uma pergunta que lhe vou fazer,
+disse o desconhecido interrompendo o assobio do <i>dilettante</i>.
+Ha tres horas que procuro um individuo que
+desappareceu de sua casa. Quando me apeei de um trem
+no Largo das Duas Egrejas, percebi que falavam &aacute;cerca
+de uma pessoa que tinha sido atropellada, e confesso-lhe
+que commetti a indiscri&ccedil;&atilde;o de os escutar. P&oacute;de
+ser que seja esse o mesmo individuo que procuro.</p>
+
+<p>&mdash;Talvez, respondeu amavelmente a pessoa a quem
+estas palavras foram dirigidas. O que sinto &eacute; n&atilde;o lhe
+poder dizer o seu nome. Sei apenas que est&aacute; no Hotel
+de Bragan&ccedil;a.</p>
+
+<p>Retribuindo n'um aperto de m&atilde;o a amabilidade com
+que f&ocirc;ra recebido, o protector de Martha correu immediatamente
+para o sitio que lhe haviam indicado.</p>
+
+<p>Ao chegar perguntou ao guarda port&atilde;o se ainda alli
+estava um sugeito que de manh&atilde; f&ocirc;ra pizado por um
+brazileiro.</p>
+
+<p>&mdash;E n&atilde;o s&oacute; por um brazileiro como tambem por um
+visconde, respondeu o guarda port&atilde;o, como se n'estas
+palavras quizesse tornar mais illustre o atropellamen<span class='pagenum'><a name="Page_66" id="Page_66">[Pg 66]</a></span>to,
+ou diminuir a culpabilidade dos animaes dividindo-a
+por todos quatro.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; possivel falar lhe?</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; possivel vel-o; emquanto a falar-lhe isso fia
+mais fino, respondeu o guarda port&atilde;o. Ainda n&atilde;o tornou
+a si.</p>
+
+<p>&mdash;Pois obsequiava-me muito se me podesse conduzir
+ao seu quarto.</p>
+
+<p>Minutos depois entrava no quarto do ferido.</p>
+
+<p>Jeronymo ainda se encontrava no mesmo estado lethargico.
+A d&ocirc;r das feridas havia-lhe diminu&iacute;do progressivamente,
+comtudo a perda de sangue tinha sido
+abundante, e ao pobre operario nem for&ccedil;as restavam
+para pedir que chamassem a sua familia, de quem
+n'esse instante t&atilde;o amargamente se recordava. A imagem
+de Balbina e de sua filha passava-lhe por entre
+as vis&otilde;es da febre, como se as visse alli, pregadas &aacute;
+sua cabeceira.</p>
+
+<p>Sentia na fronte a m&atilde;o fina e delicada de Martha, e
+pousando lhe sobre o cora&ccedil;&atilde;o, que fortemente lhe palpitava,
+a face de sua mulher incendida pelo terror.</p>
+
+<p>Jeronymo via tudo isto como atravez de um sonho.</p>
+
+<p>Junto ao leito o desconhecido olhava-o caridosamente,
+levando-lhe de vez em quando a m&atilde;o &aacute; fronte.</p>
+
+<p>Momentos depois os olhos do operario, at&eacute; alli brandamente
+cerrados, abriram-se como que para contemplar
+o desconhecido, que fitando-o parecia descobrir-lhe
+nas fei&ccedil;&otilde;es alguma similhan&ccedil;a com as da pobre
+Martha. N'este comenos o enfermo fez um movimento
+como se tentasse falar.</p>
+
+<p>Manuel, o creado que lhe servia de enfermeiro, approximando-se
+suavemente, perguntou-lhe se desejava
+alguma cousa.</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_67" id="Page_67">[Pg 67]</a></span></p><p>&mdash;Falar... mas... n&atilde;o posso, murmurou o infeliz
+Jeronymo, deixando cair sobre o colch&atilde;o o bra&ccedil;o direito
+que tent&aacute;ra levantar.</p>
+
+<p>O desconhecido approximou-se ainda mais.</p>
+
+<p>&mdash;E ainda n&atilde;o houve meio de se saber quem &eacute; este
+homem?</p>
+
+<p>&mdash;Ouviu aquellas palavras que elle disse? Foram
+as primeiras! respondeu o creado.</p>
+
+<p>&mdash;Como se chama vossemec&ecirc;, perguntou o desconhecido
+debru&ccedil;ando-se sobre o leito.</p>
+
+<p>&mdash;Jeronymo, balbuciou o pobre; e a minha familia
+mora na rua do Meio, &aacute; Lapa.</p>
+
+<p>&mdash;Basta! bradou rapidamente o desconhecido, e
+saindo do quarto sem que o criado tivesse tido tempo
+de lhe perguntar aonde se dirigia, encaminhou-se para
+o Loreto, afim de procurar uma sege.</p>
+
+<p>Martha hav&iacute;a-lhe dado o nome da rua e o numero da
+porta. Dizendo ambas as cousas ao bolieiro, ordenou-lhe
+que trouxesse Martha e sua m&atilde;e ao Hotel de Bragan&ccedil;a
+o mais depressa que lhe fosse possivel.</p>
+
+<p>Foi n'este momento que Manuel desceu &aacute; casa do
+jantar para dizer a Trist&atilde;o de Almeida que o ferido estava
+no uso das suas faculdades.</p>
+
+<p>Deixemos o mysterioso descobridor do pae de Martha
+esperando &aacute; porta do hotel a mulher e a filha de
+Jeronymo, e vejamos o que se est&aacute; passando no quarto
+do ferido.<span class='pagenum'><a name="Page_68" id="Page_68">[Pg 68]</a></span></p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<h1><a name="X" id="X"></a>X</h1>
+
+
+<p>&mdash;Ora gra&ccedil;as a Deus que est&aacute; livre de perigo, exclamou
+Trist&atilde;o de Almeida approximando-se do leito de
+Jeronymo. N&atilde;o calcula o quanto me tem feito soffrer a
+sua prostra&ccedil;&atilde;o. Quero que nos perd&ocirc;e todo o mal que
+involuntariamente lhe causamos, eu e o meu amigo
+visconde.</p>
+
+<p>&mdash;Mas agora, felizmente, sente-se melhor! perguntou
+o visconde approximando-se de Trist&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Nem mesmo sei como me sinto, meus caros senhores,
+respondeu Jeronymo, como se ainda estivesse
+sendo victima de uma allucina&ccedil;&atilde;o. De quanto se passou,
+continuou elle, com uma voz muito enfraquecida,
+lembro-me apenas que fui atropellado por um trem, e
+de nada mais me recordo. Sei que tenho tido umas d&ocirc;res
+horr&iacute;veis tanto na cabe&ccedil;a como em todo este lado
+direito, e nada mais posso responder a vossa senhoria.
+O que apenas me mortifica &eacute; lembrar-me os cuidados
+em que deve estar minha pobre mulher e filha,
+o resto ser&aacute; o que Deus quizer. Tratamento, gra&ccedil;as aos
+senhores, vejo que me n&atilde;o tem faltado. O que eu tam<span class='pagenum'><a name="Page_69" id="Page_69">[Pg 69]</a></span>bem
+agora desejava pedir-lhe eram dois favores; o
+primeiro, que me dissessem onde estou, e o segundo,
+que mandassem immediatamente a minha casa participar
+a Martha e a minha mulher que estou aqui, vivo
+e bem tractado. As infelizes a esta hora cuidam que fui
+atacado pela febre amarella, e andam &aacute; minha procura
+por toda a parte.</p>
+
+<p>&mdash;Emquanto ao sitio aonde se encontra, respondeu
+Trist&atilde;o, bastar&aacute; dizer-lhe que est&aacute; entre amigos, e que
+nada lhe faltar&aacute;; emquanto a mandar chamar sua familia,
+queira dizer-me aonde mora.</p>
+
+<p>&mdash;Moramos na rua do Meio n.&ordm; 7, Lapa, respondeu
+Jeronymo, fazendo ao mesmo tempo uma dolorosa contrac&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Que &eacute; isso, meu amigo? acudiu rapidamente o
+commendador dirigindo-se ao mestre de obras.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; uma d&ocirc;r muito grande que me toma a cabe&ccedil;a
+toda, respondeu elle, levando &aacute; fronte ambas as m&atilde;os.</p>
+
+<p>&mdash;Veja se p&oacute;de socegar um momento, e tranquillize
+se porque vamos immediatamente chamar a sua familia.</p>
+
+<p>&mdash;Para que venham mais depressa vou mandar o
+meu trem, disse o visconde dirigindo-se para a porta.</p>
+
+<p>&mdash;Bom ser&aacute;, visconde, ajuntou o commendador,
+quanto mais depressa descan&ccedil;armos aquella pobre gente
+tanto melhor para todos.</p>
+
+<p>&mdash;Se vossas senhorias fossem t&atilde;o bons que tal fizessem,
+seria uma grande obra de caridade, disse Jeronymo,
+tentando sentar-se sobre o leito.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o fa&ccedil;a similhante loucura. Conserve-se como
+est&aacute;, e tenha a certeza que d'aqui a meia hora ter&aacute; a
+seu lado as pessoas que tanto deseja.</p>
+
+<p>N'este momento entrou a sr.&ordf; D. Maria Egypciaca,
+acompanhada por suas duas filhas.</p>
+
+<p>&mdash;J&aacute; sabemos, gra&ccedil;as a Deus, quem &eacute; o nosso doen<span class='pagenum'><a name="Page_70" id="Page_70">[Pg 70]</a></span>te,
+e onde mora, disse a D. Maria Egypciaca o visconde,
+que n'esse momento sa&iacute;a do quarto, com o fim de
+dar ordem ao cocheiro para trazer a familia do ferido.</p>
+
+<p>&mdash;Quanto estimo, meu Deus! respondeu D. Maria,
+erguendo para o tecto os seus grandes olhos azues.</p>
+
+<p>&mdash;Em que sustos estar&aacute; a sua pobre familia! disse
+Magdalena olhando para Olympia.</p>
+
+<p>&mdash;Talvez que nem hoje tivessem que jantar.</p>
+
+<p>&mdash;Enfim! disse D. Maria Egypciaca depois de ter
+contemplado o ferido por alguns instantes, Deus tudo
+quanto faz &eacute; para melhor. &Eacute; certo que teve esta pequena
+contrariedade, mas gra&ccedil;as ao Senhor, est&aacute; livre de
+perigo, e vae fazer a felicidade de sua familia. N&atilde;o &eacute;
+verdade, Trist&atilde;o? ajuntou ella dirigindo-se ao esposo.</p>
+
+<p>&mdash;Quantos desejariam ter egual sorte! disse o commendador
+intromettendo-se na conversa&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Magnifico achado para dirigir as obras do nosso
+hospital, disse o banqueiro voltando se para Lopes de
+Miranda.</p>
+
+<p>&mdash;Do hospital?! perguntou admirado o commendador.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o ouviste dizer ha pouco que era mestre de
+obras?</p>
+
+<p>&mdash;Lembra bem, lembra bem, meu amigo, disse Trist&atilde;o
+sentando se n'um pequeno soph&aacute;.</p>
+
+<p>N'este momento, ouviu se o rumor de muitos passos
+subindo apressadamente a escada que dava para o segundo
+andar. Segundos depois abriu se a porta e appareceram
+duas mulheres. Eram Balbina e Martha. O
+desconhecido seguia-as de perto.</p>
+
+<p>No momento em que Balbina e sua filha se precipitavam
+sobre o leito de Jeronymo, este fez um supremo
+esfor&ccedil;o para se erguer, por&eacute;m as d&ocirc;res que lhe
+atacavam a cabe&ccedil;a e todo o lado direito tornaram a
+prostral-o completamente.<span class='pagenum'><a name="Page_71" id="Page_71">[Pg 71]</a></span></p>
+
+<p>Todos se compadeceram ao contemplar aquella scena
+de amargura, at&eacute; a propria Olympia arrancou dos
+fundos penetraes do estomago, unica viscera onde a
+sensibilidade se lhe refugi&aacute;ra, um par de lagrimas que
+vinham em turvos crystaes, rescendendo mais a fricass&eacute;
+do que a natural piedade.</p>
+
+<p>O desconhecido, com os olhos fitos n'aquelle grupo,
+parecia contemplar a physionomia de Trist&atilde;o, como se
+uma vaga reminiscencia lhe houvesse acudido &aacute; memoria.</p>
+
+<p>O mesmo se passava no espirito do magnata; aquelle
+individuo n&atilde;o lhe era estranho.</p>
+
+<p>Seguido da esposa, approximou-se do leito de Jeronymo
+e contou a sua familia tudo quanto tinha acontecido.</p>
+
+<p>O mesmo fez Balbina e sua filha.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; portanto a este cavalheiro que devemos tudo?
+disse Trist&atilde;o. Quanto folgo que tenha concorrido para
+a felicidade d'esta familia, ajuntou elle extendendo a
+m&atilde;o ao desconhecido.</p>
+
+<p>Este, retribuindo-lhe o aperto de m&atilde;o, cumprimentou
+rapidamente a todas as pessoas e saiu d'aquelle
+gabinete.</p>
+
+<p>&mdash;Quem ser&aacute; este mo&ccedil;o? perguntou Trist&atilde;o voltando-se
+para o banqueiro.</p>
+
+<p>&mdash;Deus sabe; respondeu Vaz Mendes. Acho-o pouco
+delicado.</p>
+
+<p>&mdash;Quer tornar-se mysterioso, acudiu Lopes de Miranda.</p>
+
+<p>&mdash;Provavelmente &eacute; algum rapaz acanhado que n&atilde;o
+sabe estar entre gente fina, disse D. Maria Egypciaca.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o sou d'essa opini&atilde;o; pelo contrario, pareceu-me
+um mo&ccedil;o de um trato finissimo, mas excessivamente
+modesto para se conservar n'este quarto. Re<span class='pagenum'><a name="Page_72" id="Page_72">[Pg 72]</a></span>ceiava
+que o cobrissem de elogios. N&atilde;o achas Magdalena?
+ajuntou Trist&atilde;o dirigindo-se a sua filha.</p>
+
+<p>&mdash;N'isso mesmo pensava eu, meu pae, respondeu
+Magdalena. Quando o sr. Vaz Mendes o alcunhou de indelicado,
+de mysterioso o sr. Lopes de Miranda, e de
+pouco sociavel minha m&atilde;e, n&atilde;o concordei com opini&atilde;o
+nenhuma d'essas. Julgo o como meu pae: modesto de
+mais para escutar os elogios de que &eacute; merecedor.</p>
+
+<p>&mdash;Que innocencia! gargalhou Vaz Mendes. Quem se
+esquiva a ser elogiado?</p>
+
+<p>&mdash;Muita gente, sr. Vaz Mendes, ainda que n&atilde;o seja
+sen&atilde;o por egoismo. O elogio frivolo e banal, inscripto
+no codigo da civilidade, &eacute; uma ironia pungente para o
+que tem a consciencia do seu merito. Ha o louvor que
+anima e a adula&ccedil;&atilde;o que fere. O incenso nem sempre &eacute;
+agradavel; est&aacute; muitas vezes pendente da m&atilde;o que
+balan&ccedil;a o thuribulo, e comtudo sempre &eacute; incenso.</p>
+
+<p>&mdash;Quer vossa excellencia dizer que os nossos encomios
+o poderiam offender? perguntou o visconde.</p>
+
+<p>&mdash;Nem por sombras, sr. visconde! N&atilde;o era essa a
+minha inten&ccedil;&atilde;o, respondeu Magdalena approximando se
+de sua irm&atilde;.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o seria melhor deixarmos em paz esta pobre
+gente? disse Olympia em voz baixa para sua m&atilde;e. E
+demais, acrescentou ella, j&aacute; se v&atilde;o approximando as
+horas do ch&aacute;, e se quer que lhe diga a verdade, estou
+sentindo uma fraqueza...</p>
+
+<p>&mdash;Bemdito Deus, respondeu D. Maria Egypciaca, sempre,
+sempre pensando em comer.</p>
+
+<p>&mdash;Em que quer a minha m&atilde;e que eu pense? tartamudeou
+Olympia, fazendo-se vermelha como a fita que
+lhe cingia o collo.</p>
+
+<p>No entretanto, o visconde, Vaz Mendes e Lopes de
+Miranda conversavam em voz baixa n'um dos angulos
+do quarto.<span class='pagenum'><a name="Page_73" id="Page_73">[Pg 73]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;O que lhes pe&ccedil;o, disse Trist&atilde;o approximando-se
+de Balbina e de sua filha, &eacute; que estejam aqui tanto &aacute;
+sua vontade como em casa propria. Fiquem certas que
+coisa alguma lhes faltar&aacute;. Se necessario f&ocirc;r que seu homem
+aqui se demore, o que espero em Deus tal n&atilde;o
+permitta, n&atilde;o consinto que d'aqui se afastem. E emquanto
+a vossemec&ecirc;, ajuntou Trist&atilde;o dirigindo-se a Jeronymo,
+n&atilde;o se persuada que fica sem trabalho; apenas
+estiver melhor, ha de fazer-me o plano de uma
+obra que vamos immediatamente principiar e de que
+o meu amigo fica encarregado.</p>
+
+<p>Nos olhos do pobre Jeronymo deslizaram duas lagrimas
+de gratid&atilde;o.</p>
+
+<p>Absortas na contempla&ccedil;&atilde;o de Jeronymo, Balbina e
+sua filha ouviam as palavras de Trist&atilde;o como se n&atilde;o
+as comprehendessem.</p>
+
+<p>&mdash;Agora que terminaram os cuidados, e que seu
+marido est&aacute; livre de perigo, disse o visconde approximando-se
+do leito do operario, agrade&ccedil;am &aacute; Providencia
+o ter lhes deparado a m&atilde;o que os veiu arrancar da
+pobreza, ajuntou elle, voltando-se para Balbina que o
+contemplava como que assombrada.</p>
+
+<p>&mdash;Minha santinha, &aacute;s vezes, d'onde a gente menos
+o espera, &eacute; d'ahi que prov&eacute;m ou grande mal ou uma
+grande ventura, disse Lopes de Miranda approximando-se
+do visconde.</p>
+
+<p>&mdash;Ser&aacute; a ultima, acudiu rapidamente D. Maria Egypciaca,
+collocando protectoramente sobre os hombros
+de Balbina a sua m&atilde;o direita, cujos dedos cravejados
+de brilhantes feriram os olhos verdes e entristecidos
+da pobre Martha.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos dar ordem para que tragam alguma coisa
+de comer a esta gente, disse Olympia, puxando pela
+saia de sua m&atilde;e.</p>
+
+<p>&mdash;Safa, inimigo! Que esta rapariga n&atilde;o pensa n'outra<span class='pagenum'><a name="Page_74" id="Page_74">[Pg 74]</a></span>
+coisa sen&atilde;o em comer, resmungava D. Maria Egypciaca
+&aacute; propor&ccedil;&atilde;o que, seguida dos seus hospedes, sa&iacute;a do
+quarto de Jeronymo.</p>
+
+<hr class="bookstyle"/>
+
+<p>&mdash;Que bem que alli cheira, dizia Olympia dirigindo-se
+para sua irm&atilde; e aspirando os aromas culinarios que
+rescendiam no corredor por onde atravessavam. Provavelmente
+foi algum hospede que mandou vir o jantar
+ao seu quarto. Quem me dera fazer o mesmo!<span class='pagenum'><a name="Page_75" id="Page_75">[Pg 75]</a></span></p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<h1><a name="XI" id="XI"></a>XI</h1>
+
+
+<p>Cada vez mais impressionado pela ingenua formosura
+da filha do operario, debalde tentava o desconhecido
+afastar para longe da memoria aquella imagem que o
+perseguia.</p>
+
+<p>&laquo;Mas, pensava elle, e se tudo isto n&atilde;o passar de
+uma illus&atilde;o, d'um capricho de phantasia?</p>
+
+<p>&laquo;Casar-me hoje, para d'aqui a mezes aborrecer a
+companheira da minha vida? Continua solteiro Manuel
+de Mendon&ccedil;a, e se um dia te impressionar como agora
+algum rosto de mulher, estuda o teu cora&ccedil;&atilde;o e
+a tua intelligencia, apalpa, mede e analysa esse sentimento
+que experimentas, e se o considerares estavel,
+firme e immorredouro, pede ent&atilde;o a m&atilde;o da mulher
+que o tiver despertado, e torna-a a companheira inseparavel
+da tua existencia.</p>
+
+<p>&laquo;Ai, do homem s&oacute;!&raquo; diz Salom&atilde;o, e eu digo: ai, do
+homem casado, que sente ao lado da esposa a solid&atilde;o.
+E comtudo, &eacute; esta a primeira vez que sinto palpitar o
+cora&ccedil;&atilde;o! Ser&aacute; o amor esta intranquillidade de espirito
+que ha horas me atormenta? Esta saudade que me traz<span class='pagenum'><a name="Page_76" id="Page_76">[Pg 76]</a></span>
+a ausencia da sua imagem e o desejo ardente de a
+tornar a ver ser&aacute; ainda o amor? Veremos.</p>
+
+<p>&laquo;S&oacute; &aacute;manh&atilde; poderei saber o tempo que me demoro
+em Lisboa. Se f&ocirc;r pouco, bem vamos; no mar largo
+substituirei a sua imagem pela doce contempla&ccedil;&atilde;o das
+estrellas, quando por noites caladas ouvir apenas o vogar
+da minha galera, e de longe em longe o canto
+rude, mas harmonioso dos marinheiros. Nada, continuava
+Manuel de Mendon&ccedil;a, se essa &eacute; a minha casa e
+elles a minha familia, para que abandonal-a, trocando a
+por outros que me s&atilde;o desconhecidos e que, se eu
+morresse, nem talvez uma lagrima de saudade fossem
+chorar sobre a minha sepultura.</p>
+
+<p>&laquo;Mas se eu me demorar, se a imagem de Martha
+me continua a perseguir? N&atilde;o p&oacute;de ser! N&atilde;o ha de
+ser, n&atilde;o quero que seja! Estou ainda muito novo para
+me prender. E demais, affeito a uma vida isolada,
+como poderia eu cumprir todos os deveres de um bom
+chefe de familia? Desde os dezeseis annos que me
+afastei da unica pessoa que tinha n'este mundo: minha
+m&atilde;e. S&oacute;, em terra estranha, sem um amigo que
+me protegesse, alonguei a vista para os horizontes da
+patria, e extendendo-lhe os bra&ccedil;os, debalde lhe pedi
+noticias d'ella. Desanimado ao principio, vi por ultimo
+que n&atilde;o tinha outro remedio sen&atilde;o revestir-me de valor,
+e luctei, e soube vencer.</p>
+
+<p>&laquo;Quando, possuidor de algum dinheiro, tentei voltar
+&aacute; Europa afim de ver minha m&atilde;e, disseram-me na Bahia,
+poucos dias antes de embarcar, que a pobre estava
+reduzida &aacute; miseria. Vim para Lisboa, e ao chegar
+descobri a terrivel verdade, que tinha morrido no hospital
+dos alienados!</p>
+
+<p>&laquo;Aterrado, sa&iacute; immediatamente de Portugal, buscando
+nos transportes de uma vida arriscada esquecer a
+d&ocirc;r que me feria. Como eu sorri &aacute; tormenta que pa<span class='pagenum'><a name="Page_77" id="Page_77">[Pg 77]</a></span>recia
+zombar da minha agonia! Com que desejo ardente
+de seguir minha m&atilde;e eu me lancei em tudo quanto
+havia de perigoso, e Deus sempre a proteger-me, como
+se me estivesse guardando para algum fim sobre a
+terra. E que poderei eu esperar? Que felicidade posso
+conceber lembrando-me que, emquanto dispendia contos
+e contos de r&eacute;is, jazia a minha infeliz m&atilde;e nas
+palhas d'um hospital?</p>
+
+<p>&laquo;Nada, continuava Manuel de Mendon&ccedil;a, passeiando
+pelo seu quarto do hotel da Europa. Permitta Deus,
+ajuntava elle, que &aacute;manh&atilde; termine o negocio que espero
+e que possa levantar ferro quanto antes.&raquo;</p>
+
+<p>N'este momento, baterem mansamente &aacute; porta do
+quarto.</p>
+
+<p>&mdash;Entre, disse Manuel, volvendo os olhos para a
+porta.</p>
+
+<p>Um individuo alto e excessivamente delgado levantou
+o ferrolho, e entrou no gabinete.</p>
+
+<p>O homem chamava-se Luiz, por alcunha o <i>Mascatudo</i>.</p>
+
+<p>A camaradagem que Mascatudo tivera por largos
+annos com os irlandezes, a bordo dos seus navios mercantes,
+introduziu lhe por tal forma o vicio de mascar
+tabaco, que o pobre Luiz, quando o n&atilde;o tinha, era capaz
+de mascar tudo quanto lhe apparecesse.</p>
+
+<p>Contava-se d'elle a seguinte anecdota, que prova a
+quanto aquelle vicio o arrastava:</p>
+
+<p>N'uma viagem a Macau, acab&aacute;ra-se-lhe o tabaco.
+Receiando a tripula&ccedil;&atilde;o que se prolongasse a derrota,
+defenderam todos das maxillas do tio Luiz a preciosa
+planta que come&ccedil;ava a escassear-lhes.</p>
+
+<p>Certos e mais do que certos se tornaram os seus
+receios, a viagem durou mais onze dias do que esperavam.
+N&atilde;o havia tabaco a bordo!</p>
+
+<p>Dizendo mal &aacute; sua vida, a tripula&ccedil;&atilde;o debalde vasculhava
+os mais reconditos escaninhos das algibeiras!<span class='pagenum'><a name="Page_78" id="Page_78">[Pg 78]</a></span>
+Ninguem fumava! Um marujo apenas seguia no seu
+eterno ruminar. Era o tio Luiz.</p>
+
+<p>&mdash;Forte velhaco! diziam uns.</p>
+
+<p>&mdash;E eu que ainda o outro dia fui t&atilde;o tolo que lhe
+dei dois charutos havanos!</p>
+
+<p>&mdash;E eu, acudiu outro, perto de meia quarta de rollo.
+Daria agora por elle um mez da minha soldada.</p>
+
+<p>&mdash;Um raio me parta se aquelle marau me apanha
+mais um cigarro em toda a sua vida, dizia com voz
+rouquenha o timoneiro.</p>
+
+<p>&mdash;Arrebentado morra eu da sobre gata se aquelle
+arenque de fumo me leva mais uma cachimbada, acrescentava
+um velho marinheiro.</p>
+
+<p>E gritando e vociferando, iam todos contra o tio
+Luiz, e elle sempre sereno, tranquillo, ruminando e
+salivando ao mesmo tempo.</p>
+
+<p>Finalmente chegaram a Macau.</p>
+
+<p>&Aacute; tarde, o commandante chamou o tio Luiz e ordenou-lhe
+que se vestisse afim de o acompanhar a terra.</p>
+
+<p>O marujo empallideceu, mas n&atilde;o teve mais remedio
+do que cumprir as ordens do commandante.</p>
+
+<p>Meia hora depois ouviu-se &aacute; r&eacute; um grande motim,
+e viu-se entre os apupos e os risos da tripula&ccedil;&atilde;o o
+tio Luiz gravemente compromettido, com uma bota de
+cano no p&eacute; direito e no esquerdo uma especie de sapato
+de mulher completamente franjado.</p>
+
+<p>O tabaco que os seus companheiros injustamente lhe
+attribuiam, era o cano da bota esquerda, que o tio
+Luiz masc&aacute;ra durante os onze dias de atrazo. O marujo
+preparava-se para entrar pelo p&eacute; esquerdo se por
+ventura n&atilde;o deitam ferro defronte da grande cidade.</p>
+
+<p>Os creditos foram-lhe de novo restituidos, e desde
+esse dia o tio Luiz foi conhecido a bordo pela alcunha
+de Mascatudo.<span class='pagenum'><a name="Page_79" id="Page_79">[Pg 79]</a></span></p>
+
+<p>O tio Luiz tinha quarenta e dois annos. O seu valor
+e honradez faziam com que todos o estimassem.</p>
+
+<p>Quando Manuel de Mendon&ccedil;a comprou em Buenos-Ayres
+uma galera, Mascatudo foi-lhe o mais recommendado
+entre os tripulantes que lhe inculcaram. Desde
+esse dia at&eacute; ao momento que o vemos entrar no
+hotel, Manuel de Mendon&ccedil;a nunca teve um momento
+de se arrepender da profunda confian&ccedil;a que n'elle tinha
+depositado. De todos os seus amigos, como chamava
+aos seus tripulantes, Mascatudo era o mais intimo,
+sem que nenhum dos outros j&aacute;mais levantasse a
+voz para deprimir as nobres qualidades do seu companheiro
+de perigos.</p>
+
+<p>Mascatudo havia perdido sua m&atilde;e, unico parente
+que lhe restava, e que elle adorava com todo o ardor
+do seu cora&ccedil;&atilde;o, cora&ccedil;&atilde;o grande e ingenuo, como de
+todo o homem que passa a vida separado do resto da
+humanidade, entre a colera dos elementos e a merc&ecirc;
+do Creador!</p>
+
+<p>Seria esta circumstancia que fazia com que essas
+duas almas se casassem? Era o! Nos espiritos irm&atilde;os
+pelo infortunio, vasa Deus o balsamo da sympathia
+para que possam juntos enla&ccedil;ar os soffrimentos que os
+pungem.</p>
+
+<p>Era bello vel-os, quando &aacute; noite, ao lado um do outro,
+contemplavam em religioso silencio a solid&atilde;o das
+aguas, olhando de vez em quando para o c&eacute;o, como
+se alli procurassem algum vestigio d'aquellas que lhes
+haviam dado o ser. Outras vezes, sosinhos na sua camara,
+Mascatudo contava a Manuel as suas viagens,
+acabando quasi sempre por lhe ler as cartas que sua
+m&atilde;e lhe escrevia, e que aquelle j&aacute; ha muito sabia de
+c&oacute;r.</p>
+
+<p>Era portanto este o amigo a quem Manuel abria in<span class='pagenum'><a name="Page_80" id="Page_80">[Pg 80]</a></span>teira
+a sua alma, e em cujo cora&ccedil;&atilde;o depositava todos
+os segredos da sua vida aventurosa.</p>
+
+<p>&mdash;Venho participar-lhe que n&atilde;o poderemos sair
+d'aqui em menos de cincoenta dias, o que deveras
+sinto, porquanto &eacute; um tempo precioso o que estamos
+perdendo, disse Mascatudo, encostando-se desembara&ccedil;adamente
+a uma commoda que estava no quarto de
+Manuel. Se imagino que tal acontecia, juro por Santa
+Barbara que n&atilde;o era eu que o tinha aconselhado a vir
+a Portugal.</p>
+
+<p>-Pois sinto-o deveras, respondeu Manuel de Mendon&ccedil;a,
+sobretudo n'esta occasi&atilde;o; e fazendo sentar Mascatudo
+a seu lado, contou-lhe em poucas palavras a aventura
+da vespera, n&atilde;o sem lhe mostrar os graves receios
+que atormentavam a sua alma.</p>
+
+<p>&mdash;Nunca se arrependa de que a sua presen&ccedil;a tenha
+feito a felicidade de alguem. Dizia minha m&atilde;e, que
+Deus haja, que tudo quanto o Senhor fazia era para
+melhor. Ora quem nos diz a n&oacute;s que atraz d'essa borrascasita
+que lhe arrebentou no cora&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o est&aacute; perto
+a bonan&ccedil;a?</p>
+
+<p>&mdash;Parece-te portanto... que devo dar azas a isto,
+que nem eu mesmo sei como hei de chamar?</p>
+
+<div class="center">
+<span class='pagenum'><a name="Page_81" id="Page_81">[Pg 81]</a></span>
+ <a id="image-081"></a>
+ <a href="images/image-081h.png" >
+ <img src="images/image-081.png"
+ alt="&mdash;Como se acha? perguntou Martha levantando se da cadeira... (pag. 85)"
+ title="&mdash;Como se acha? perguntou Martha levantando se da cadeira... (pag. 85)" />
+ </a>
+<div class="caption">&mdash;Como se acha? perguntou Martha levantando se da cadeira... (<i><a href="#Page_85">pag. 85</a></i>)</div>
+</div>
+
+<p>&mdash;Olhe, sr. Manuel de Mendon&ccedil;a, dizia minha m&atilde;e,
+que Deus tenha, que o homem s&oacute; n'este mundo &eacute; alvo
+da perdi&ccedil;&atilde;o. E eu digo o mesmo. Antigamente n&atilde;o
+pensava assim, por&eacute;m hoje, que me sinto can&ccedil;ado de
+trabalhar, parece-me que, apezar das muitas saudades
+que me ficariam do mar, viveria talvez mais feliz ao
+lado de minha mulher, tendo a barca sempre em ordem
+e o por&atilde;o cheio de mantimentos para sustentar
+os filhitos, vendo-os alegres a todos, e trepando por
+este velho mastro, a&ccedil;oitado dos vendavaes. Ha l&aacute; nada
+melhor n'este mundo, como dizia minha m&atilde;e, que
+Deus haja, do que ter a gente umas sopas para comer
+<span class='pagenum'><a name="Page_83" id="Page_83">[Pg 83]</a></span>
+ao p&eacute; de sua familia! Basta a gente lembrar-se que
+tem quando morrer quem lhe feche os olhos, e l&aacute; de
+vez em quando, quem se recorde da nossa alma, resando-lhe
+uma ora&ccedil;&atilde;o sobre a sepultura do corpo. Emfim,
+fa&ccedil;a o sr. o que quizer, que eu c&aacute; por mim deixo
+correr a embarca&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>O prazer que Manuel de Mendon&ccedil;a experimentava
+ao ouvir falar do objecto amado, era mais uma prova
+do seu amor.</p>
+
+<p>Foi ent&atilde;o que elle reconheceu de verdade o seu estado.</p>
+
+<p>&mdash;Esperemos, disse elle finalmente de si para comsigo,
+e vestindo-se sa&iacute;u com Mascatudo, dirigindo-se a
+bordo.</p>
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_84" id="Page_84">[Pg 84]</a></span></p>
+<h1><a name="XII" id="XII"></a>XII</h1>
+
+
+<p>No dia immediato aos acontecimentos que presenceamos
+no hotel de Bragan&ccedil;a, a saude de Jeronymo
+melhorou consideravelmente. O medico que pela manh&atilde;
+o f&ocirc;ra visitar declarou as feridas de pouca importancia,
+aconselhando, a despeito de tudo, que seria
+muito mais prudente n&atilde;o removerem d'alli o ferido,
+attendendo ao estado anormal em que Lisboa se encontrava.</p>
+
+<p>Tanto o mestre de obras como a sua familia n&atilde;o se
+can&ccedil;avam de agradecer &aacute; Providencia a felicidade que
+tinham achado no meio da sua desventura.</p>
+
+<p>N&atilde;o houve delicadeza que lhe n&atilde;o fosse dispensada
+por aquella santa familia. A tal ponto foi levada a dedica&ccedil;&atilde;o
+de D. Maria Egypciaca, que por tres vezes se
+levantou da cama afim de se informar do doente.</p>
+
+<p>Foram taes as promessas feitas por Trist&atilde;o ao pobre
+Jeronymo, que este quasi que dava gra&ccedil;as a Deus
+de ter sido atropellado pelos cavallos do visconde.</p>
+
+<p>Phantasiando trezentos planos de vida, o operario
+julgou ver realizado o seu sonho de vinte annos: um<span class='pagenum'><a name="Page_85" id="Page_85">[Pg 85]</a></span>
+pequeno casal nas proximidades de Lisboa, onde tivesse
+uma ou duas vaccas, e um garrano que de vez em
+quando o trouxesse &aacute; cidade.</p>
+
+<p>Via Balbina com a quarta rasa de milho dirigindo-se
+&aacute; estrebaria para arra&ccedil;oar a cavalgadura, Martha seguindo-a
+a poucos passos, em busca da crea&ccedil;&atilde;o, e elle,
+no centro da horta, ao lado dos seus trabalhadores,
+ora regando o milho, ora arrancando-lhe as bandeiras,
+e enfeixando as para as levar &aacute; vacca malhada, a sua
+favorita, essa a quem devia p&ocirc;r o nome de Estrella,
+por ser o nome de uma vacca torina que seu pae lhe
+dera no dia em que Jeronymo fazia quinze annos.</p>
+
+<p>Embevecido no seu phantasioso sonho, com as palpebras
+semi-fechadas, extendia de vez em quando a m&atilde;o
+para sua filha, a qual, beijando lh'a n'um transporte
+de amor filial, fazia ao mesmo tempo votos ao Todo
+Poderoso para que lhe melhorasse quanto antes o seu
+querido pae. Balbina, assentada no canap&eacute;, olhava ora
+para Jeronymo, ora para sua filha. Esta, sorrindo meigamente,
+apontava para o leito de seu pae, como se
+tentasse mostrar-lhe o socego em que elle repousava.</p>
+
+<p>De repente o ferido abriu os olhos, e, como se despertasse
+de um sonho, apertou brandamente as m&atilde;os
+da filha, fitando-a com toda a ternura do amor paternal.</p>
+
+<p>&mdash;Como se acha? perguntou Martha levantando-se
+da cadeira e debru&ccedil;ando-se-lhe sobre o leito.</p>
+
+<p>Balbina approximou se.</p>
+
+<p>&mdash;Tenho menos d&ocirc;res, balbuciou o enfermo, e espero
+em Deus que n&atilde;o tardar&aacute; muito que eu te possa
+extender estes bra&ccedil;os que a muito custo levanto. Mas
+n&atilde;o me dir&atilde;o quem &eacute; esta santa familia que com tanto
+amor nos tem tractado? acrescentou elle, dirigindo-se
+a sua esposa.</p>
+
+<p>&mdash;Ignoro, respondeu Balbina.<span class='pagenum'><a name="Page_86" id="Page_86">[Pg 86]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Foi alguem mandado por Deus para nos valer com
+a sua protec&ccedil;&atilde;o, continuou elle, como se ainda o acompanhasse
+aquelle sonho.</p>
+
+<p>&mdash;Pois olhe, meu pae, acudiu Martha, apezar de tudo,
+preferia estar em nossa casa a v&ecirc;l-o aqui entre
+estas cortinas.</p>
+
+<p>&mdash;Se d'isto resultar a tua felicidade, e a tua, ajuntou
+elle voltando-se para Balbina, terei de agradecer
+a Deus estas d&ocirc;res que me atormentam.</p>
+
+<p>&mdash;Pois eu, Jeronymo, ainda que tudo quanto Deus
+faz &eacute; para melhor, desejava bem v&ecirc;r-te f&oacute;ra d'este
+quarto, disse a pobre Balbina olhando ao mesmo tempo
+para a porta.</p>
+
+<p>Esta abriu-se e entrou Trist&atilde;o de Almeida.</p>
+
+<p>Depois de as cumprimentar approximou se do leito
+de Jeronymo.</p>
+
+<p>&mdash;Como se sente? perguntou Trist&atilde;o pegando brandamente
+na m&atilde;o do operario.</p>
+
+<p>&mdash;Melhor; muito melhor.</p>
+
+<p>&mdash;Quanto folgo! disse Trist&atilde;o, puchando uma cadeira
+e abeirando-se do leito. &Eacute; for&ccedil;oso que se restabele&ccedil;a
+quanto antes para tomar conta da sua obra: um
+hospital para as pessoas pobres atacadas da febre.</p>
+
+<p>&mdash;Pelo que vejo, disse Martha, vossa excellencia
+n&atilde;o se occupa sen&atilde;o da sorte dos desgra&ccedil;ados.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; essa a minha unica ambi&ccedil;&atilde;o, respondeu o magnata
+fitando o rosto ingenuo da filha do operario. &Aacute;manh&atilde;
+por estas horas j&aacute; devemos saber o logar designado
+para o hospital, e, como desde hontem o considero
+meu empregado, accrescentou dirigindo-se a Jeronymo,
+n&atilde;o pense que vossemec&ecirc; e sua familia se
+est&atilde;o aqui tornando pezados. Se alguma cousa tem
+que fazer em sua casa, sr.&ordf; Balbina, disse Trist&atilde;o voltando se
+para a mulher do operario, eu lhe mando
+chamar um trem para que a demora n&atilde;o seja muita.<span class='pagenum'><a name="Page_87" id="Page_87">[Pg 87]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o tenho outro remedio sen&atilde;o ir a casa, respondeu
+Balbina, mesmo por causa da tia Marianna, ajuntou
+ella voltando-se para Martha.</p>
+
+<p>&mdash;Visto isso, vou dar ordem a um criado para que
+lhe chame um trem, e sem attender a Balbina, que
+pretendia dissuadil-o da sua determina&ccedil;&atilde;o, o protector
+da familia de Jeronymo desceu ao primeiro andar.</p>
+
+<p>&mdash;Ainda n&atilde;o vi melhor cora&ccedil;&atilde;o, murmurou Jeronymo
+voltando-se para sua filha.</p>
+
+<p>&mdash;Tudo &eacute; muito verdade, meu pae, mas torno a dizer-lhe,
+preferia que nada d'isto tivesse succedido.</p>
+
+<p>Meia hora depois, com grandes esfor&ccedil;os de Trist&atilde;o
+de Almeida, Balbina dirigia-se n'um trem de bandeirinha
+para sua casa.<span class='pagenum'><a name="Page_88" id="Page_88">[Pg 88]</a></span></p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<h1><a name="XIII" id="XIII"></a>XIII</h1>
+
+
+<p>Emquanto se est&atilde;o passando estas veridicas scenas,
+entremos em casa do visconde de Coruche.</p>
+
+<p>&mdash;V&ecirc; como p&otilde;es esse p&oacute; de arroz, imbecil! Olha
+que me est&aacute;s arranhando as costas! dizia o visconde
+voltando-se para o seu <i>groom</i>.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o &eacute; da minha m&atilde;o, sr. visconde, &eacute; uma borbulha
+que v. ex.&ordf; aqui tem.</p>
+
+<p>&mdash;Uma borbulha! exclamou o visconde, eu nunca
+tive a mais pequena excrescencia na pelle. D&aacute;-me d'alli
+aquelle espelho.</p>
+
+<p>Sem proferir uma palavra, o <i>groom</i> dirigiu-se ao
+toucador, e tirando de dentro um espelho em f&oacute;rma
+de ellipse, entregou-o ao visconde.</p>
+
+<p>&mdash;Vejamos, disse este, voltando as costas para um
+toucador. Com effeito tinhas raz&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;D'isso tenho eu tido aos centos e n&atilde;o fa&ccedil;o caso
+algum, ajuntou o criado.</p>
+
+<p>&mdash;Queres tu comparar a tua &aacute; minha pelle?</p>
+
+<p>&mdash;Eu tambem n&atilde;o digo a vossa excellencia que a minha
+pelle seja como a sua, digo s&oacute; que d'isso tenho<span class='pagenum'><a name="Page_89" id="Page_89">[Pg 89]</a></span>
+eu aos centos. Olhe, sr. visconde, se vossa excellencia
+quer, ver&aacute; como lhe curo isso n'um momento. Tome
+o sr. visconde uma... que digo eu? meia pilula
+das Monicas, ou uma receita que tem as irm&atilde;s do padre
+Bernardo que moram em Jesus, e ver&aacute; como fica
+bom no mesmo instante. Isto provavelmente s&atilde;o os
+humores que andam levantados.</p>
+
+<p>&mdash;Ser&aacute; o que tu quizeres, respondeu o visconde.
+D&aacute;-me d'alli uma camisa.</p>
+
+<p>&mdash;Que camisa quer?</p>
+
+<p>&mdash;Das mais finas, e p&otilde;e-lhe os bot&otilde;es de camafeu.</p>
+
+<p>&mdash;Ou &eacute; <i>servi&ccedil;o</i> ou grande pantomimice, resmungou
+o criado em voz baixa, abrindo ao mesmo tempo a gaveta do
+guarda roupa e tirando de dentro uma finissima camisa de
+cambraia. Agora por isso, ajuntou elle approximando-se
+do visconde, veiu c&aacute; hontem e j&aacute; voltou hoje um
+individuo que trouxe para vossa excellencia a conta
+da camisaria.</p>
+
+<p>&mdash;Dize-lhe que volte no fim do mez.</p>
+
+<p>&mdash;Recordo a vossa excellencia que estamos hoje no
+dia 30, e que &aacute;manh&atilde; &eacute; o ultimo de outubro.</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim; mas eu quando disse no fim do mez,
+quiz dizer que era para o mez que vem.</p>
+
+<p>&mdash;Cumprirei as ordens de vossa excellencia. Que
+fato quer? perguntou elle, dirigindo-se para uma commoda
+&aacute; Luiz XV, sobre a qual estava um cofre de tartaruga.</p>
+
+<p>&mdash;Um fraque e collete preto, com quaesquer cal&ccedil;as
+de c&ocirc;r.</p>
+
+<p>&mdash;Agora por isso, sr. visconde, disse o criado pondo
+nos punhos da camisa dois magnificos camafeus
+de Italia, veiu c&aacute; hontem um individuo com uma conta
+do alfaiate, e como vossa excellencia n&atilde;o estivesse
+em casa, disse-lhe que viesse &aacute;manh&atilde;, em sendo duas
+horas.<span class='pagenum'><a name="Page_90" id="Page_90">[Pg 90]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Fizeste muito mal, respondeu o visconde mergulhando
+uma pequena escova de dentes n'um liquido
+pardacento, e levando-a repetidas vezes ao bigode. J&aacute;
+te disse que nunca se mandam receber contas sen&atilde;o
+no fim dos mezes.</p>
+
+<p>&mdash;Pois foi exactamente por esse motivo que o mandei
+c&aacute; vir &aacute;manh&atilde;, que &eacute; o ultimo de outubro.</p>
+
+<p>&mdash;J&aacute; te disse ha pouco que o meu fim do mez &eacute;
+sempre o de novembro, respondeu o visconde encolerizado,
+passando a escova por sobre o labio inferior,
+e deixando o c&ocirc;r de chocolate.</p>
+
+<p>&mdash;O mesmo disse eu ao sr. Alves, quando a semana
+passada o procurou por causa d'aquella letra de
+600$000 r&eacute;is que se vence no primeiro de novembro.</p>
+
+<p>&mdash;E elle insiste em n&atilde;o querer a reforma?</p>
+
+<p>&mdash;Creio que insiste. O alquil&eacute; a quem vossa excellencia
+comprou as eguas baias, foi dizer-lhe que o sr.
+visconde promettia pagar-lhe tudo no primeiro de novembro.</p>
+
+<p>&mdash;Veremos o que se ha de fazer, disse o visconde,
+esfregando com uma essencia a nodoa c&ocirc;r de castanha
+que lhe descompunha a phisionomia. D&aacute;-me d'alli
+umas ceroulas de seda. &Eacute; preciso que v&aacute;s logo ao Baron
+que me mande uma duzia de camisolas.</p>
+
+<p>&mdash;Cumprirei com as ordens de vossa excellencia,
+respondeu o criado, abrindo a gaveta d'uma commoda,
+e tirando um par de ceroulas de malha de seda.</p>
+
+<p>&mdash;Se alguem me procurar &aacute;s tres horas da tarde,
+dize lhe que n&atilde;o volte antes do primeiro de novembro,
+caso n&atilde;o queira perder o tempo, disse o visconde,
+atirando para longe com umas lindas chinellas de
+velludo bordadas a oiro, e vestindo ao mesmo tempo
+as ceroulas.</p>
+
+<p>&mdash;Vossa excellencia sae a cavallo ou de trem?</p>
+
+<p>&mdash;O dia est&aacute; t&atilde;o bonito que me parece melhor sa&iacute;r<span class='pagenum'><a name="Page_91" id="Page_91">[Pg 91]</a></span>
+a cavallo. Sim, continuou elle, depois de reflectir alguns
+segundos, dize ao Mar&ccedil;al que me apparelhe a
+egua laz&atilde;. &Eacute; necessario montal-a; ha perto de oito dias
+que n&atilde;o s&aacute;e.</p>
+
+<p>Depois de collocar sobre uma ottomana o fato do visconde,
+o criado abriu a porta do toucador, e sa&iacute;ndo foi
+transmittir as ordens que seu patr&atilde;o lhe dera.</p>
+
+<p>&mdash;Sim senhores! a coisa n&atilde;o vae feia, dizia o visconde
+de si para comsigo. Se n&atilde;o levanto o dinheiro
+do deposito estou arruinado. O credito escassea-me, os
+credores, longe de me sustentarem a posi&ccedil;&atilde;o que seria
+o unico recurso para se embolsarem do que lhes
+devo, come&ccedil;am a negar-se e at&eacute; me atormentam. Fazem
+bem, o futuro lhes dar&aacute; o pago e tambem Deus,
+que de vez em quando ainda se recorda de mim.</p>
+
+<p>&laquo;N&atilde;o encontro meio algum de salva&ccedil;&atilde;o! Se apeio os
+trens, se revelo, ainda que por sombras, o estado da
+minha casa, n&atilde;o tarda a ruina, seguindo-se a poucos
+passos a miseria, com toda a sua hediondez que me
+assusta.</p>
+
+<p>&laquo;Devo a todos, e aos que me devem n&atilde;o me atrevo
+a pedir-lhes contas; n&atilde;o, seria uma loucura para a situa&ccedil;&atilde;o
+em que me encontro. Exigindo-lhes essas miseraveis
+quantias, seria mostrar-lhes que as necessito, e
+eu n&atilde;o tenho mais remedio sen&atilde;o representar que estou
+rico. Quanto custa esta falsa posi&ccedil;&atilde;o! &Aacute; custa de
+quantas insomnias se adquire um nome que n&atilde;o d&aacute;
+honra no presente nem t&atilde;o pouco no futuro! Que luctas
+inglorias! Quem me dera ter nascido filho de um
+lavrador, e gosar em branda paz os encantos d'uma vida
+tranquilla. E os homens julgam me feliz! quantos
+dariam metade dos seus haveres para terem o meu
+nome! Pobres nescios! V&ecirc;em os meus trens, os meus
+cavallos, os meus vestuarios, e mal pensam as horas
+que todo esse fausto me rouba ao somno.<span class='pagenum'><a name="Page_92" id="Page_92">[Pg 92]</a></span></p>
+
+<p>&laquo;Vi a meus p&eacute;s as primeiras mulheres de Lisboa, por
+mais de uma vez, com as faces incendiadas pela colera
+do ciume, vi os maridos a contemplarem-me, e eu
+mudo, indifferente, com o sorriso nos labios, desprezando-as
+a ellas, e escarnecendo d'elles.</p>
+
+<p>&laquo;Quanto dera agora por ter amado uma unica vez, e
+ter consagrado a esse objecto do meu amor toda a exuberancia
+da minha vida, todo o ardor das minhas paix&otilde;es.</p>
+
+<p>&laquo;Rico, saudavel, com uma intelligencia clara e algum
+tanto cultivada, porque n&atilde;o creei a melhor de todas as
+institui&ccedil;&otilde;es: a familia?</p>
+
+<p>&laquo;Que futuro me espera? Poderei eu sustentar por
+muitos annos esta vida, sem dinheiro, alicerce indispensavel
+d'este edificio? Se &aacute;manh&atilde;, completamente
+desanimados os meus credores, comprehenderem a nenhuma
+vantagem de me conservarem n'esta situa&ccedil;&atilde;o,
+que poderei fazer? Sair de Lisboa? e para onde?</p>
+
+<p>&laquo;Que sei eu fazer? Montar a cavallo ou guiar bem
+um tilbury. &Eacute; isto o sufficiente? E demais, affeito a este
+luxo que me rodeia, teria eu bastante valor para lan&ccedil;ar
+m&atilde;o de qualquer modo de vida, que n&atilde;o estivesse
+em harmonia com o que hoje tenho?</p>
+
+<p>&laquo;Se eu podesse encontrar um homem que me emprestasse
+dez a doze contos de r&eacute;is, talvez ainda conseguisse
+levantar-me. Por isso me liguei com o commendador
+e com o banqueiro, a fim de explorarmos o
+Trist&atilde;o, mas ou eu me engano muito ou d'aquella moita
+n&atilde;o sae coelho.</p>
+
+<p>&laquo;Aquillo &eacute; homem para duzentas ou trezentas libras,
+que nada me podem remedeiar. Se eu me convencesse
+do contrario, ajuntava o visconde abotoando o collete,
+cujos magnificos bot&otilde;es de coral contrastavam
+com a pallidez morbida do seu aristocratico semblante,
+se aquelle Trist&atilde;o de Almeida fosse homem para em<span class='pagenum'><a name="Page_93" id="Page_93">[Pg 93]</a></span>prestar
+uma duzia de contos de r&eacute;is, separava-me totalmente
+dos meus companheiros e recorria &aacute; sua bolsa.
+E quem sabe? Quem me diz que a minha salva&ccedil;&atilde;o
+se aninha na sua algibeira!</p>
+
+<p>&laquo;Quem sabe, continuava elle, mirando-se ao espelho,
+se as suas id&eacute;as &aacute;cerca do hospital tem no amago o
+conseguir um titulo. Se assim fosse estava salvo. Tenho
+alguns amigos no ministerio, homens que at&eacute; j&aacute;
+dispozeram da minha bolsa, p&oacute;de ser que elles me sirvam
+para isto. Se fosse dinheiro tinha eu a certeza
+que m'o negariam, por&eacute;m um titulo...</p>
+
+<p>&laquo;Experimentemos, e se s&atilde;o esses os seus desejos, ficarei
+salvo. E se n&atilde;o forem? Embora, convencel o hei
+de que um homem na sua posi&ccedil;&atilde;o necessita um titulo,
+e que para o alcan&ccedil;ar basta ter dinheiro&raquo;.</p>
+
+<p>Quando no meio d'estas judiciosas reflex&otilde;es se
+preparava o visconde de Coruche para, afastando-se de
+Lopes de Miranda e do banqueiro, se lan&ccedil;ar aos fundos
+de Trist&atilde;o de Almeida, entrou de novo o seu <i>groom</i>
+annunciando lhe o commendador.</p>
+
+<p>&mdash;Que teremos? disse o visconde comsigo mesmo,
+pondo ao mesmo tempo as esporas.</p>
+
+<p>&mdash;Disse lhe que vossa excellencia se estava vestindo,
+por&eacute;m, foi tal a sua insistencia que n&atilde;o tive remedio
+sen&atilde;o fazel-o entrar para a sala.</p>
+
+<p>&mdash;Dize-lhe que vou immediatamente. Espera! accrescentou
+elle como mudando de pensamento. Entre
+rapazes n&atilde;o ha cerimonias. Que venha para aqui mesmo.</p>
+
+<p>O <i>groom</i> retirou-se, e acompanhou d'alli a minutos o
+commendador.</p>
+
+<p>&mdash;Deve estranhar o tel o procurado t&atilde;o cedo, exclamou
+o commendador, dando-se ares de janota, palavra
+que n'esse tempo principiava a estar em voga.<span class='pagenum'><a name="Page_94" id="Page_94">[Pg 94]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Por caso nenhum! Estou sempre &aacute;s suas ordens.</p>
+
+<p>&mdash;Podemos conversar &aacute; vontade?</p>
+
+<p>&mdash;Pois n&atilde;o, respondeu o visconde, visivelmente importunado
+pela presen&ccedil;a do commendador, que viera
+interrompel-o nas suas profundas medita&ccedil;&otilde;es.</p>
+
+<p>Ou por esquecimento, ou por pouca importancia concedida
+&aacute;quella entrevista, o visconde n&atilde;o havia mandado
+retirar o <i>groom</i>.</p>
+
+<p>Lopes de Miranda n&atilde;o tardou em fazer-lh'o notar.</p>
+
+<p>C&oacute;rando ligeiramente, o visconde comprehendeu
+aquelle reparo e mandando retirar o criado, assentou-se
+n'um soph&aacute;, offerecendo um logar ao commendador.</p>
+
+<p>&mdash;Preciso fazer lhe uma pergunta. Que id&eacute;a f&oacute;rma
+de Trist&atilde;o de Almeida?</p>
+
+<p>&mdash;A melhor que se p&oacute;de formar; que &eacute; uma excellente
+alma, e desambicioso de todas as grandezas do
+mundo.</p>
+
+<p>&mdash;Fala serio?</p>
+
+<p>&mdash;Quanto se p&oacute;de falar.</p>
+
+<p>&mdash;Julga portanto?...</p>
+
+<p>&mdash;O qu&ecirc;?</p>
+
+<p>&mdash;Que o seu projecto a respeito do hospital seja
+movido, pura e simplesmente, pela id&eacute;a de p&ocirc;r em
+pratica uma obra de caridade?</p>
+
+<p>&mdash;Assim o creio.</p>
+
+<p>&mdash;Outro tanto n&atilde;o penso eu, meu nobre amigo. Ha
+em tudo aquillo um <i>arri&egrave;re pens&eacute;e</i>, ajuntou Lopes de
+Miranda, querendo mostrar ao visconde os seus conhecimentos
+linguisticos. O homem deseja um titulo.</p>
+
+<p>Feliz em que o seu pensamento se tivesse encontrado
+com o do commendador, o visconde, como homem
+experimentado, calculou que o unico partido de
+que podia lan&ccedil;ar m&atilde;o, seria o dissuadil-o completamente
+das suas suspeitas.</p>
+
+<p>&mdash;Cr&ecirc; portanto o commendador que essa caridade<span class='pagenum'><a name="Page_95" id="Page_95">[Pg 95]</a></span>
+que antes de hontem viu dispensar ao mestre de obras,
+era movida apenas por um calculo? Quanto se illude!
+Seria necessario ter avaliado todas as circumstancias
+que se deram, para formar o seu juizo. O mesmo suppunha
+eu, mas logo vi o contrario. Ha factos que se
+n&atilde;o podem fingir, sr. Lopes de Miranda. Seria necessario
+que Trist&atilde;o fosse um grande actor, para t&atilde;o desassombradamente
+poder jogar com todas as paix&otilde;es,
+como fez antes de hontem quando atropell&aacute;mos esse
+infeliz. Seria tambem um calculo o interesse com que
+sua esposa se approximou do leito do moribundo, e
+calculo foi tambem de suas filhas, quando com as lagrimas
+nos olhos pediram ao medico informa&ccedil;&otilde;es do
+doente? N&atilde;o me considero de uma credulidade parva,
+sr. commendador, mas a Cezar o que &eacute; de Cezar. Se
+Trist&atilde;o, tem ou n&atilde;o desejo de entrar na sociedade precedido
+por um titulo, n&atilde;o me atrevo a dizel-o, o que
+lhe affian&ccedil;o, &eacute; que, se realmente tem esse desejo, n&atilde;o
+&eacute; elle o movel da sua caridade. Homens tem havido
+muito caridosos que desejam possuir um titulo, e Trist&atilde;o
+p&oacute;de muito bem ser um d'esses individuos.</p>
+
+<p>&mdash;Pois eu &eacute; que n&atilde;o sou da sua opini&atilde;o, e venho
+prop&ocirc;r-lhe o seguinte: Como sabe, tenho tido ha dois
+annos a esta parte consideraveis perdas em resultado
+da escassez do vinho, e o sr. visconde, creio que
+tambem n'esta occasi&atilde;o n&atilde;o abunda em dinheiro. Lembrava
+me por isso que propozessemos a Trist&atilde;o, mediante
+um emprestimo de doze a quatorze contos de
+r&eacute;is, o obter-lhe um titulo de visconde, ou mesmo de
+conde. Que lhe parece?</p>
+
+<p>&mdash;Em primeiro logar, sr. commendador, nem vossa
+excellencia nem pessoa alguma est&aacute; auctorizada a saber
+se eu abundo ou n&atilde;o em dinheiro, e em segundo
+devo dizer-lhe que estranho sobremaneira que se atreva
+a prop&ocirc;r-me similhante indignidade! Creio que nun<span class='pagenum'><a name="Page_96" id="Page_96">[Pg 96]</a></span>ca,
+nem ao sr., nem a outra pessoa extendi a minha m&atilde;o
+para pedir dinheiro, por maior ou menor que fosse a
+quantia; estou portanto habilitado a pedir-lhe o favor
+de mudar de assumpto.</p>
+
+<p>Comprehendendo a loucura que tinha practicado, o
+commendador mudou immediatamente de conversa&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>Pretextando em seguida varios negocios que tinha
+de tractar, Lopes de Miranda despediu-se do visconde,
+seguindo d'alli para casa de Vaz Mendes, esperan&ccedil;ado
+de encontrar melhor acolhimento no banqueiro.</p>
+
+<p>Dez minutos depois, perfumado, burnido e penteado,
+o visconde de Coruche n'um irreprehensivel <i>pied f&eacute;</i>
+fazia em branda flex&atilde;o voltar o pesco&ccedil;o &aacute; <i>Andorinha</i>,
+a egua laz&atilde; que mandara apparelhar.</p>
+
+<p>Saindo do pateo em duas upas obrigadas, a <i>Andorinha</i>
+levou o visconde, que formulando o seu plano,
+se dirigia ao hotel Bragan&ccedil;a.<span class='pagenum'><a name="Page_97" id="Page_97">[Pg 97]</a></span></p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<h1><a name="XIV" id="XIV"></a>XIV</h1>
+
+
+<p>Quando Manuel de Mendon&ccedil;a e Mascatudo sairam do
+hotel d'Europa, encaminharam-se para bordo, como o
+leitor deve estar lembrado.</p>
+
+<p>A galera que f&ocirc;ra em Buenos-Ayres comprada por
+Manuel de Mendon&ccedil;a, era uma formosa barca de duzentas
+a trezentas toneladas.</p>
+
+<p>Era muito de v&ecirc;r-se o aceio e a disciplina que reinavam
+a bordo da galera Esperan&ccedil;a, habilmente commandada
+por Manuel de Mendon&ccedil;a, cujos conhecimentos
+nauticos fariam inveja ao mais experimentado maritimo.</p>
+
+<p>Com sobejos motivos chamava elle aos seus tripulantes
+os seus amigos e companheiros! A amizade e a
+confian&ccedil;a com que os tractava j&aacute;mais concorreu para
+que lhe dessem o minimo desgosto de indisciplina.</p>
+
+<p>Durante a folga todos o tractavam como se elle f&ocirc;ra
+um amigo, no servi&ccedil;o todos o respeitavam como o seu
+commandante. Quando por qualquer circumstancia se
+agitava a mais pequena quest&atilde;o entre os marinheiros,
+e elle apparecia perguntando-lhes a causa, era bello<span class='pagenum'><a name="Page_98" id="Page_98">[Pg 98]</a></span>
+de v&ecirc;r como esses homens endurecidos pelas luctas
+dos elementos, se enterneciam ao ouvir as palavras
+do seu capit&atilde;o chamando-os &aacute; ordem, e expondo-lhes
+em phrases insinuantes as terriveis consequencias da
+m&aacute; camaradagem.</p>
+
+<p>Ent&atilde;o, aquelles que momentos antes se haviam levantado
+exaltados pela colera, gra&ccedil;as &aacute; eloquencia de
+Manuel, acabavam sempre por se abra&ccedil;arem.</p>
+
+<p>A galera fundeada a pouca distancia da Rocha do
+conde de Obidos, parecia na sua eterna inquieta&ccedil;&atilde;o
+aguardar o que era dono e commandante.</p>
+
+<p>Quando um velho marinheiro divisou o escaler do
+capit&atilde;o, e este sentado &aacute; pr&ocirc;a, o maritimo debru&ccedil;ou-se
+do navio como criada velha que espera &aacute; janella a
+crian&ccedil;a que volve ao lar.</p>
+
+<p>Ent&atilde;o come&ccedil;aram a apparecer os outros marinheiros,
+esperando anciosamente que o escaler abordasse &aacute;
+embarca&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>E a galera agitando-se aos movimentos da corrente,
+parecia tambem esperal-o inquieta.</p>
+
+<p>Finalmente, o escaler atracou, e Manuel subindo por
+uma pequena escada de corda entrou a bordo seguido
+por Mascatudo.</p>
+
+<p>Quem de perto observasse o tractamento que elle
+dava aos marinheiros, e ignorasse o logar que occupava,
+tel-o-ia tomado por um simples navegante.</p>
+
+<p>Depois de falar a todos aquelles homens, desceu &aacute;
+camara, e alli, em companhia de Mascatudo, continuou
+a conversa&ccedil;&atilde;o que uma hora antes havia come&ccedil;ado no
+hotel Europe.</p>
+
+<p>&mdash;Estamos aqui mais s&oacute;s para podermos falar, dizia
+elle ao marinheiro. Ninguem poder&aacute; ouvir as nossas
+palavras a n&atilde;o ser o mar, e Deus que nos escuta.</p>
+
+<p>&mdash;O mesmo me acontece, respondia-lhe Mascatudo.
+N&atilde;o sei o que sinto quando passo uma noite encarce<span class='pagenum'><a name="Page_99" id="Page_99">[Pg 99]</a></span>rado
+entre as quatro paredes de uma hospedaria! Acordar
+pela noite velha sem ouvir o rumor da agua batendo
+de encontro &aacute; quilha da embarca&ccedil;&atilde;o, e sem ver
+o lume de alguma estrella reflectindo-se de vez em
+quando como se estivesse a acompanhar o meu dormir,
+parece que &eacute; acordar n'um tumulo.</p>
+
+<p>&mdash;Quero pedir-te um favor, disse Manuel de Mendon&ccedil;a,
+depois de alguns instantes de profunda medita&ccedil;&atilde;o.
+Como j&aacute; t'o disse, sei apenas que ficaram no hotel
+de Bragan&ccedil;a. Desejava saber quanto se tem passado,
+mas falta-me o valor para ir eu mesmo proceder
+a indaga&ccedil;&otilde;es. Terias duvida em ir procurar essa familia
+da minha parte?</p>
+
+<p>&mdash;Eu! exclamou o marinheiro. E porque motivo?
+Foi alguma ac&ccedil;&atilde;o m&aacute; a que o sr. praticou? Ora essa!
+&Eacute; para j&aacute;. N&atilde;o tem mais do que dizer-me o sitio onde
+tenho de me dirigir.</p>
+
+<p>&mdash;Aonde te disse, ao hotel de Bragan&ccedil;a. Se ainda l&aacute;
+estiverem, pede ao guarda port&atilde;o que te conduza ao
+quarto. Pergunta por sua mulher ou por Martha, e dize
+a qualquer das duas que vaes da minha parte saber
+da saude de Jeronymo.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; s&oacute; isso o que deseja saber? Veja l&aacute;; lembre-se
+bem, ajuntou Mascatudo, sorrindo-se para o seu commandante.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; s&oacute; isto.</p>
+
+<p>&mdash;E o sr. fica &aacute; minha espera, aonde?</p>
+
+<p>&mdash;A bordo.</p>
+
+<p>&mdash;Volto portanto aqui?</p>
+
+<p>&mdash;J&aacute; se v&ecirc;.</p>
+
+<p>&mdash;Quer que v&aacute; j&aacute;?</p>
+
+<p>&mdash;Quero.</p>
+
+<p>&mdash;Era melhor ter-me dito isso l&aacute; em terra, ponderou
+judiciosamente o marinheiro.</p>
+
+<p>&mdash;Quiz antes pedir-te isso sobre as aguas do mar.<span class='pagenum'><a name="Page_100" id="Page_100">[Pg 100]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Pois ent&atilde;o, sr. Manuel de Mendon&ccedil;a, como bom
+maritimo que sou, irei sondar esses mares desconhecidos,
+e tenho f&eacute; em Deus, que em poucos dias poderemos
+navegar de vento em p&ocirc;pa, sem que o mais leve
+indicio de temporal nos fa&ccedil;a perder o rumo. O que
+eu n&atilde;o quero &eacute; vel-o assim entristecido, accrescentou
+o fiel marinheiro, fixando a vista na melancolica physionomia
+do seu commandante.</p>
+
+<p>&mdash;Pensas talvez que me sinto prezo a essa mulher?
+perguntou Manuel com aquella pueril ingenuidade de
+que se revestem os espiritos sujeitos &aacute;s mysteriosas
+influencias do amor!</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o sei, respondeu Mascatudo, mas apostava que
+sim. &Aacute;s vezes, tudo est&aacute; no come&ccedil;ar. O maior temporal
+principia a levantar-se por uma brisa serena.</p>
+
+<p>&mdash;Espero em Deus que essa aragem que tu adivinhas,
+nunca seja nuncia de nenhuma tormenta.</p>
+
+<p>&mdash;Que Santa Barbara e a Senhora da Bonan&ccedil;a nos
+protejam, commandante, disse Mascatudo, levantando-se
+e preparando-se para cumprir as ordens do seu capit&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Amen, respondeu Manuel, reclinando a fronte na
+m&atilde;o direita.</p>
+
+<p>Mascatudo, sem esperar mais observa&ccedil;&otilde;es, saiu da
+camara, e, subindo ao convez mandou preparar o escaler.
+Manuel olhava-o em silencio.</p>
+
+<p>&mdash;Ser&aacute; este o anjo que Deus me mandou &aacute; terra,
+para me acompanhar nas longas noites da minha solid&atilde;o?
+pensava elle espraiando os seus olhares entristecidos
+na direc&ccedil;&atilde;o do soberbo edificio do hotel Bragan&ccedil;a.<span class='pagenum'><a name="Page_101" id="Page_101">[Pg 101]</a></span></p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<h1><a name="XV" id="XV"></a>XV</h1>
+
+
+<p>Desembarcando no Terreiro do Pa&ccedil;o, Mascatudo tomou
+o rumo do hotel. Desde que saira de bordo, o
+dedicado amigo em mais alguma coisa havia pensado
+sen&atilde;o em Martha.</p>
+
+<p>O seu caracter concentrado e ao mesmo tempo sensivel,
+levava o a acreditar na impossibilidade de ventura
+na terra, e, muito menos sobre as aguas do mar,
+sem se possuir um cora&ccedil;&atilde;o fiel e dedicado, qual a sua
+imagina&ccedil;&atilde;o o phantasiava.</p>
+
+<p>A mulher, essa divina crea&ccedil;&atilde;o que Deus lan&ccedil;ou ao
+mundo para inseparavel companheira do homem, que
+deante de nossos sorrisos levanta o rosto brilhante de
+felicidade, e que desmaia a fronte pallida e inquieta,
+ao enxugar-nos as lagrimas de desventura, concebia-a
+Mascatudo no seu cora&ccedil;&atilde;o selvatico com toda a for&ccedil;a
+de um vigoroso sentimento.</p>
+
+<p>&Eacute; que a esse espirito, agitado pelas luctas infrenes
+dos elementos, desc&ecirc;ra um dia o anjo do amor, e pousando-lhe
+as brancas azas na fronte crestada pelos soes,
+imprimira-lhe o osculo indelevel do soffrimento.<span class='pagenum'><a name="Page_102" id="Page_102">[Pg 102]</a></span></p>
+
+<p>Am&aacute;ra uma vez na vida! Am&aacute;ra com toda a for&ccedil;a
+da sua alma, alma joven e inexperiente, para quem o
+mundo era um jardim florido, e cada pomo um goso, e
+cada goso uma esperan&ccedil;a, e cada esperan&ccedil;a uma existencia
+de immorredouras felicidades!</p>
+
+<p>&Eacute; que a s&oacute;s entre o mar e o c&eacute;u, o grito raivoso das
+paix&otilde;es humanas, ferindo-lhe os ouvidos, j&aacute;mais lhe
+havia interrompido os extasis, quando assentado ao
+leme da embarca&ccedil;&atilde;o contemplava os astros que se reflectiam
+nas aguas prateadas do oceano, vagas como o
+seu pensamento, indecifraveis como as suas aspira&ccedil;&otilde;es!</p>
+
+<p>Conhecia apenas a ira do mar, mas a colera do homem
+envenenado pela inveja ou pela trai&ccedil;&atilde;o, j&aacute;mais a
+havia sonhado o seu instincto.</p>
+
+<p>Por isso vira na mulher o anjo, na sua convivencia
+a felicidade unica e possivel.</p>
+
+<p>Amou!</p>
+
+<p>E qu&atilde;o grande teria sido o affecto n'aquella grande
+alma?!</p>
+
+<p>Possuia algum dinheiro das suas economias, julgou-se
+em circumstancias de casar.</p>
+
+<p>Dois mezes depois, Mascatudo realizava no casamento
+todas as suas aspira&ccedil;&otilde;es. Curta, por&eacute;m, foi a sua
+ventura. A brisa da morte, agitando-se mysteriosamente
+sobre o tecto do seu ninho, devastou-lhe ao cabo de
+um anno fl&ocirc;res e fructo!</p>
+
+<p>O triste voltou &aacute; vida do mar; e quando por noites
+caladas o seu barco sulcava as aguas do oceano, via-se
+&aacute;s vezes o tio Luiz encostado &aacute; amurada da embarca&ccedil;&atilde;o,
+contemplando o firmamento, como que perguntando
+a cada nuvem em que paragem se occultava
+aquella metade da sua alma.</p>
+
+<p>Desde ent&atilde;o, Mascatudo viveu apenas para duas sepulturas:
+a da esposa e a da m&atilde;e!<span class='pagenum'><a name="Page_103" id="Page_103">[Pg 103]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Hei de saber tudo, dizia elle, ao chegar &aacute; porta
+do hotel. Se f&ocirc;r como a pintam, serei o primeiro a
+aconselhal-o a que n&atilde;o perca esta occasi&atilde;o.</p>
+
+<p>Cumprindo &aacute; risca as instruc&ccedil;&otilde;es que recebera, Mascatudo
+foi conduzido pelo guarda port&atilde;o ao quarto de
+Jeronymo.</p>
+
+<p>Balbina j&aacute; estava de volta de sua casa, aonde tinha
+ido mais com o intuito de tranquillisar a pobre Marianna
+do que para tractar dos arranjos domesticos.</p>
+
+<p>&mdash;Venho aqui da parte do meu commandante, para
+saber como est&aacute; o sr. Jeronymo, disse Mascatudo,
+olhando desassombradamente para o operario e para a
+mulher e filha.</p>
+
+<p>O enfermo, que nada comprehend&ecirc;ra, ficou como
+abysmado olhando para Balbina.</p>
+
+<p>&mdash;Creio que me n&atilde;o expliquei bem, ajuntou o marinheiro;
+venho da parte do individuo que avisou a sua
+familia do sitio onde vossemec&ecirc; estava.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! j&aacute; sei; vem da parte d'esse sujeito a quem
+somos t&atilde;o obrigados, exclamou Martha, fazendo-se vermelha
+como o estofo do soph&aacute; onde estava assentada.</p>
+
+<p>&mdash;At&eacute; que perceberam, continuou Mascatudo, approximando-se
+do leito de Jeronymo. Foi esse mesmo o
+que me mandou saber da sua saude.</p>
+
+<p>&mdash;Quanto lhe estamos agradecidos, interrompeu Balbina,
+dirigindo-se ao marinheiro. Se n&atilde;o tivesse sido
+aquelle excellente senhor, talvez que ainda a estas horas
+estivessemos sem saber onde elle parava. Diga-lhe
+que gra&ccedil;as a Deus, o Jeronymo est&aacute; muito melhor, e
+que tanto elle como eu e minha filha desejamos saber
+onde o podemos encontrar para lhe darmos os nossos
+agradecimentos.</p>
+
+<p>&mdash;O sr. Manuel, respondeu o marinheiro, p&oacute;de encontrar-se
+a bordo da sua galera, e quando alli n&atilde;o estiver,
+accrescentou, fixando ardentemente os olhos em<span class='pagenum'><a name="Page_104" id="Page_104">[Pg 104]</a></span>
+Martha, que parecia escutal-o com interesse, est&aacute; no hotel
+d'Europe, na rua Nova do Carmo. Mas l&aacute; por isso
+n&atilde;o seja a duvida; deixem estar, uma vez que elle se
+interessa tanto pelos seus, eu farei com que &aacute;manh&atilde;
+ou depois, se por acaso ainda estiverem n'esta estalagem,
+elle os venha ver a vossemec&ecirc;s.</p>
+
+<p>&mdash;Quanto estimaria conhecel-o, interrompeu Jeronymo
+voltando-se para o maritimo.</p>
+
+<p>Martha empallideceu ligeiramente.</p>
+
+<p>&mdash;N'esse caso eu farei a diligencia de o trazer aqui,
+respondeu Mascatudo, satisfeito por comprehender o
+que se passava no cora&ccedil;&atilde;o de Martha.</p>
+
+<p>Despedindo se de todos, o marinheiro saiu do hotel.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; um anjo, ou eu sou um grande asno, dizia elle
+comsigo mesmo, emquanto se dirigia para bordo.<span class='pagenum'><a name="Page_105" id="Page_105">[Pg 105]</a></span></p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<h1><a name="XVI" id="XVI"></a>XVI</h1>
+
+
+<p>Deixemos Mascatudo participar a Manuel de Mendon&ccedil;a
+os resultados da sua entrevista, e encaminhemo-nos
+a um pequeno gabinete do hotel onde Trist&atilde;o costuma
+receber as visitas de mais confian&ccedil;a.</p>
+
+<p>O visconde, como o leitor n&atilde;o ignora, tinha resolvido
+tirar o maior partido que podesse do seu novo amigo;
+com este fim se havia dirigido para o hotel.</p>
+
+<p>Trist&atilde;o acabava de chegar de casa de um banqueiro,
+a quem f&ocirc;ra consultar &aacute;cerca de uma transferencia de
+fundos para o Banco de Portugal na importancia de
+650:000$000, para lhe n&atilde;o succeder o mesmo que lhe
+acontec&ecirc;ra com quantia superior a essa, que tinha no
+banco de Havana, d'onde havia dois annos n&atilde;o recebia
+juro algum.</p>
+
+<p>V&ecirc;-se portanto quaes eram as riquezas d'aquelle homem!</p>
+
+<p>Ao ouvir estas palavras, ainda mais seguro ficou o
+visconde no bom exito da sua tentativa, e, ampliando
+apenas a cifra resolveu-se a preparar quanto antes o
+terreno que tinha a explorar.<span class='pagenum'><a name="Page_106" id="Page_106">[Pg 106]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Com que ent&atilde;o, meu amigo, disse-lhe o visconde, j&aacute;
+sei que os seus protegidos dormem em leito de rosas o
+doce somno da esperan&ccedil;a, acalentados pelas azas brancas
+do anjo dos tristes.</p>
+
+<p>Por esta exuberancia de imagens, poder&aacute; o leitor
+formar a sua id&eacute;a psychologica &aacute;cerca do caracter do
+visconde de Coruche.</p>
+
+<p>&mdash;Assim o creio, respondeu Trist&atilde;o, offerecendo-lhe
+um magnifico charuto havano.</p>
+
+<p>&mdash;E quando principiam os nossos trabalhos do hospital?</p>
+
+<p>&mdash;Pela minha parte hoje mesmo, se vossa excellencia
+quizer; por&eacute;m, vejo que tem tantos negocios a
+tractar...</p>
+
+<p>&mdash;Por Deus, meu caro amigo! Para uma coisa d'essas
+deixaria tudo de parte. Hoje mesmo, se lhe apraz,
+iremos escolher o local.</p>
+
+<p>&mdash;Isso &eacute; que era ouro sobre azul! N&atilde;o calcula a anciedade
+de minha esposa em v&ecirc;r realizados os seus
+desejos. Quando se prop&ocirc;e qualquer coisa, n&atilde;o ha
+quem a dissuada, nem eu o intentaria n'este caso.</p>
+
+<p>&mdash;O mesmo sou eu. Veremos quem se lan&ccedil;a denodadamente
+na arena da caridade. E como vossa excellencia
+vae lucrar n'esta obra! Como se conceituar&aacute;
+na opini&atilde;o publica? De que serve a riqueza, se n&atilde;o
+f&ocirc;r applicada ao bem? Quantas ha em Lisboa que
+para nada servem, a n&atilde;o ser para satisfazer os
+olhares cubi&ccedil;osos dos avarentos que as possuem!
+passam miseravelmente emquanto vivos, e, quando
+morrem teem por unico elogio dos seus herdeiros, o
+dizerem que sempre foi um homem muito amigo de
+olhar pela sua casa. &Eacute; que esses entes, na minha opini&atilde;o,
+esquecidos de Deus, atravessam a vida sem conhecerem
+a verdadeira felicidade que sente aquelle
+que, extendendo a m&atilde;o &aacute; pobreza, leva o consolo ao<span class='pagenum'><a name="Page_107" id="Page_107">[Pg 107]</a></span>
+ninho do desamparado. Muitos d'esses miseraveis, renegando
+o povo d'onde sairam, querem chegar-se &aacute;
+aristocracia, transp&ocirc;r os humbraes do chefe do Estado,
+e nem ao menos se lembram de seguir o exemplo,
+abrindo como elle a sua bolsa aos desvalidos, e os
+seus pulm&otilde;es &aacute; atmosphera corrompida pelos miasmas
+da epidemia. E ainda a semana passada o joven
+monarcha desceu ao leito de um moribundo e passou-lhe
+a regia m&atilde;o pelo peito, como para sondar se o
+cora&ccedil;&atilde;o ainda batia. J&aacute; que pessoa alguma o segue no
+seu heroismo; j&aacute; que a maior parte d'esses satrapas
+o abandonam, seja vossa excellencia o heroe que venha
+a empallidecer-lhes o rosto de vergonha, tomando
+o exemplo d'aquelle santo rei.</p>
+
+<p>Havia tanta verdade nas palavras do visconde; era
+t&atilde;o singela a sua dic&ccedil;&atilde;o, t&atilde;o arrobadas de sentimento
+as phrases que acabava de proferir, que Trist&atilde;o, apezar
+do seu profundo conhecimento do cora&ccedil;&atilde;o humano,
+hesitou por alguns instantes, sem poder avaliar se essas
+palavras seriam calculadas, ou se eram apenas dictadas
+por um cora&ccedil;&atilde;o votado &aacute; caridade.</p>
+
+<p>Trist&atilde;o era homem de arrojado animo. Por mais de
+uma vez sorrira para a morte que se lhe approximava
+sem que os l&aacute;bios houvessem mudado de c&ocirc;r ou o
+seu cora&ccedil;&atilde;o pulsado com maior violencia.</p>
+
+<p>Affeito a uma existencia aventurosa, ainda o fascinavam
+os perigos. A despeito de se considerar bastante
+avan&ccedil;ado em annos, fiava se na sua robustissima complei&ccedil;&atilde;o,
+e, sopesando as for&ccedil;as, distinguiu rapidamente
+o que ainda podia fazer, gra&ccedil;as ao seu arrojo, intelligencia
+e capitaes.</p>
+
+<p>Ent&atilde;o desenhou-se lhe um mundo inteiramente novo!
+Julgou-se cercado pela aureola do prestigio, e ouviu
+pronunciar o seu nome com todas as pompas de
+uma gloria merecida. Viu-se a edificar um hospital, e<span class='pagenum'><a name="Page_108" id="Page_108">[Pg 108]</a></span>
+mais tarde, elle mesmo, sua mulher e suas proprias
+filhas, descendo como anjos &aacute; cabeceira dos enfermos.
+Viu os olhos do monarcha iriados de angelica express&atilde;o,
+volvendo-se agradecidos para elle e para sua familia.
+Fascinou-o a gloria de um renome, e, elevando
+se nas azas da caridade, creu subir ao ultimo c&eacute;u
+das ledices sociaes!</p>
+
+<p>&mdash;Tem raz&atilde;o e muita raz&atilde;o, sr. visconde. Vamos
+hoje mesmo dar um grande impulso &aacute; nossa id&eacute;a. Jeronymo,
+a quem tenciono entregar a direc&ccedil;&atilde;o das obras,
+segundo me consta, tem tanto de intelligente quanto
+de honrado. O pobre homem por estes dois ou tres
+dias n&atilde;o poder&aacute; sair de casa; vamos n&oacute;s sem mais
+delongas escolher o sitio. Em que bairro lhe parece?</p>
+
+<p>&mdash;No de Santos. Por exemplo l&aacute; para as bandas da
+Pampulha.</p>
+
+<p>&mdash;Visto isso, vou mandar p&ocirc;r o trem, e entretanto
+subo ao quarto de Jeronymo para lhe communicar as
+nossas inten&ccedil;&otilde;es. E sem mais demora saiu do gabinete.</p>
+
+<p>&mdash;Esplendido, exclamou o visconde, contemplando
+ao mesmo tempo um album de retratos que estava
+sobre uma banca de jogo. O negocio corre &aacute;s mil maravilhas.
+Em todo o caso, &eacute; necessario espa&ccedil;al-o por
+mais alguns dias, e em vez de dez ou doze contos,
+ser&atilde;o vinte ou trinta, hypothecando-lhe... hypothecando-lhe
+o qu&ecirc;? umas propriedades que eu desejava
+possuir no Algarve. O homem est&aacute; sequioso de gloria.
+Cega-o a vaidade. &Eacute; um zote que eu domino com a
+for&ccedil;a da minha eloquencia. Bastam-me duas palavras
+para o conduzir aonde me aprouver.</p>
+
+<p>N'este comenos entrou o magnate, dizendo lhe que
+j&aacute; estava o trem &aacute; porta.</p>
+
+<p>Desceram e entraram na carruagem. Tomando pela
+rua do Arsenal, dirigiram-se ao Corpo Santo. Proximo<span class='pagenum'><a name="Page_109" id="Page_109">[Pg 109]</a></span>
+&aacute; egreja grande multid&atilde;o contemplava um pobre velho,
+que, estorcendo-se em terriveis convuls&otilde;es, denunciava
+ter sido atacado pela febre. Mandaram parar o trem,
+e Trist&atilde;o, apeando-se primeiro, dirigiu-se para o grupo.</p>
+
+<p>O visconde seguia o sem dar uma palavra.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; um infeliz que foi atacado pela febre, disse um
+gallego a quem Trist&atilde;o se havia dirigido.</p>
+
+<p>&mdash;E tambem pela fome, interrompeu uma vendedeira
+de hortali&ccedil;a.</p>
+
+<p>&mdash;E ainda n&atilde;o appareceu ninguem que lhe fosse
+buscar soccorros? perguntou o visconde.</p>
+
+<p>&mdash;Saber&aacute; vossa excellencia que ainda n&atilde;o <i>senhora</i>,
+respondeu a vendedeira.</p>
+
+<p>&mdash;Pois se vossemec&ecirc; se interessa por esse homem,
+pe&ccedil;o-lhe que se encarregue de lhe chamar os soccorros,
+accudiu Trist&atilde;o, approximando-se mais da mulher
+e entregando-lhe quatro libras. Se elle tem familia,
+diga-lhe que me procurem logo no hotel Bragan&ccedil;a,
+e v&aacute; vossemec&ecirc; com ella, para lhe dar tambem alguma
+coisa.</p>
+
+<p>O oiro assombrou a vendedeira, que esteve por alguns
+segundos sem poder soltar palavra.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; uma caridade, meu senhor, porque est&aacute; cheiosinho
+de familia, disse finalmente a mulher com voz
+tremula e commovida. Mas agora outra coisa, meu
+senhor, ajuntou ella, por quem devo procurar.</p>
+
+<p>&mdash;Pelo excellentissimo sr. Trist&atilde;o de Almeida disse
+vivamente o visconde.</p>
+
+<p>Mettendo-se outra vez na carruagem, abandonaram
+aquelle grupo, pasmado por tanta generosidade, e partiram
+pela rua da Boa Vista.</p>
+
+<p>&mdash;A sorte favorece-o, proporcionando-lhe todos os
+ensejos para p&ocirc;r em pratica a sua grande obra, dizia-lhe
+o visconde, fitando-o com um olhar de lynce.</p>
+
+<p>&mdash;Assim o creio, respondia-lhe Trist&atilde;o, olhando para<span class='pagenum'><a name="Page_110" id="Page_110">[Pg 110]</a></span>
+todas as ruas por onde passava, com a curiosidade
+que todos experimentam, ao contemplarem pela primeira
+vez os logares que lhe s&atilde;o desconhecidos.</p>
+
+<p>&mdash;Agora me recordo, disse o visconde, parece-me
+que est&aacute; uma casa para alugar na rua de S. Francisco
+de Paula. Se lhe parece vamos vel-a.</p>
+
+<p>&mdash;Deus permitta que esteja nas condi&ccedil;&otilde;es que precisamos.</p>
+
+<p>Finalmente chegaram &aacute; rua designada pelo visconde.</p>
+
+<p>A casa, segundo elle havia pensado, era magnifica
+para aquelle fim. O dono morava longe, por&eacute;m a boa
+vontade tanto de um como de outro principiava a n&atilde;o
+admittir difficuldades, e seguiram immediatamente
+para casa do senhorio.</p>
+
+<p>No dia seguinte &aacute;s oito horas da manh&atilde;, na rua
+de S. Francisco de Paula, come&ccedil;avam todos os preparativos
+inherentes &aacute; funda&ccedil;&atilde;o do hospital.</p>
+
+<p>O anjo da caridade, invocado por Trist&atilde;o de Almeida,
+elevava as suas azas brancas sobre os telhados
+d'aquelle edificio!<span class='pagenum'><a name="Page_111" id="Page_111">[Pg 111]</a></span></p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<h1><a name="XVII" id="XVII"></a>XVII</h1>
+
+
+<p>&mdash;Acompanhas-me, Luiz? Tenho tanto desejo de ir
+visitar aquella gente... e comtudo n&atilde;o me sinto com
+valor.</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa, meu capit&atilde;o, da melhor vontade! N&atilde;o
+sei o que li n'aquelles olhos verdes de Martha; ainda
+se me n&atilde;o poderam tirar da memoria! P&oacute;de ser que
+me engane, mas essa menina &eacute; um anjo! Ha na meiguice
+do seu olhar um n&atilde;o sei qu&ecirc;, que me prendeu!</p>
+
+<p>&mdash;Ser&aacute; isso uma illus&atilde;o da tua parte?</p>
+
+<p>&mdash;Nem por sombras! Se a visse, quando eu prometti
+a sua m&atilde;e que faria com que o senhor l&aacute; fosse...</p>
+
+<p>&mdash;Ent&atilde;o mostrou muitos desejos de me ver? perguntou
+Manuel com essa visivel curiosidade dos namorados,
+e como desejando prolongar a conversa&ccedil;&atilde;o de
+Mascatudo.</p>
+
+<p>&mdash;Se mostrou! Ao principio fez-se branca como a
+cal da parede, e em seguida tornou-se vermelha como
+uma rom&atilde;. Havia tanto interesse no seu olhar, quando
+me falou a respeito do senhor, que logo comprehendi
+que alguma coisa se passava no seu cora&ccedil;&atilde;o.<span class='pagenum'><a name="Page_112" id="Page_112">[Pg 112]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Pois ent&atilde;o, meu amigo, o que tem de ser, seja.
+&Eacute; Deus que o determina: iremos hoje vel-os. Passava-se
+este dialogo a bordo da galera Esperan&ccedil;a, no
+mesmo dia e &aacute; mesma hora em que o visconde de Coruche
+expunha a Trist&atilde;o de Almeida, no gabinete do
+hotel Bragan&ccedil;a, as graves conveniencias que lhe
+resultariam da sua philanthropica resolu&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>Subindo &aacute; tolda, Manuel mandou apromptar o escaler
+e veiu para terra em companhia de Mascatudo.</p>
+
+<p>Dirigiu se ao hotel.</p>
+
+<p>Ao subir a escada que conduzia aos quartos de Jeronymo,
+sentiu que um mundo novo e inteiramente
+estranho se desenrolava a seus olhos! Receioso pelo
+sentimento que lhe perturbava o espirito, o marinheiro
+quasi pedia &aacute; Providencia, que qualquer circumstancia
+fortuita lhe viesse impedir a realiza&ccedil;&atilde;o dos seus desejos!</p>
+
+<p>Batendo mansamente &aacute; porta do quarto de Jeronymo,
+ouviu a voz doce e melancholica de Martha que
+de dentro lhe respondia. Faltou-lhe o valor; foi necessario
+que Mascatudo o animasse a entrar. Entraram
+ambos.</p>
+
+<p>Reclinado sobre uma poltrona, Jeronymo dir-se-ia
+um cadaver.</p>
+
+<p>A seus p&eacute;s, assentada n'um tamborete, Balbina
+olhava-o com gesto de profundo desalento, fitando de
+vez em quando sua filha que de p&eacute; os contemplava!</p>
+
+<p>Martha ficou immovel!</p>
+
+<p>&mdash;Venho saber da saude de seu marido, disse Manuel
+para Balbina, extendendo ao mesmo tempo a m&atilde;o
+ao mestre de obras.</p>
+
+<p>Este sorriu-se brandamente para o maritimo, apertando
+entre as suas aquella m&atilde;o que se lhe offerecia.</p>
+
+<p>&mdash;E como se sente?</p>
+
+<p>&mdash;Melhor, felizmente, muito melhor! respondeu Je<span class='pagenum'><a name="Page_113" id="Page_113">[Pg 113]</a></span>ronymo,
+olhando ao mesmo tempo para sua mulher,
+e indicando-lhe que approximasse uma cadeira.</p>
+
+<p>Manuel, pegando na cadeira que Balbina lhe offerecia,
+sentou-se ao lado do enfermo.</p>
+
+<p>Mascatudo contentava-se apenas em observar os
+olhos de Martha, buscando em cada movimento descobrir
+o que lhe passava n'alma.</p>
+
+<p>Balbina ent&atilde;o relatou a Manuel quanto havia succedido,
+sem lhe omittir os rasgos de generosidade de
+que era devedora a Trist&atilde;o e a toda a sua familia.</p>
+
+<p>&mdash;E quem &eacute; esse homem t&atilde;o caridoso? perguntou
+Manuel, como se j&aacute; n'esse instante se lhe come&ccedil;asse
+a perturbar o espirito com a id&eacute;a de que essa protec&ccedil;&atilde;o
+fosse menos devida &aacute; caridade do que &aacute; formosura
+de Martha.</p>
+
+<p>&mdash;Quem &eacute; elle, n&atilde;o lh'o podemos dizer, respondeu
+Balbina. Sabemos apenas que &eacute; um senhor muito rico,
+e que todo o seu fim &eacute; fazer bem &aacute; pobreza. Agora
+vae elle estabelecer um hospital para as pessoas atacadas
+pela febre, hospital de que meu marido &eacute; o encarregado.</p>
+
+<p>&mdash;E n&atilde;o s&oacute; elle, como sua mulher e filhas, se tem
+interessado o mais possivel por mim, ajuntou Jeronymo.</p>
+
+<p>&mdash;Nunca me ha de esquecer aquella noite, menina,
+tartamudeou Manuel dirigindo-se a Martha.</p>
+
+<p>&mdash;Quanto lhe devemos, meu caro senhor, acudiu o
+operario, olhando ora para Manuel, ora para a mulher
+e para a filha.</p>
+
+<p>&mdash;Como elle se portou com a nossa filha! N&atilde;o temos
+modos de agradecer! disse Balbina visivelmente
+reconhecida.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; merecedora de tudo! Nada tem que me agradecer,
+respondeu Manuel olhando ao mesmo tempo
+para a interessante Martha.<span class='pagenum'><a name="Page_114" id="Page_114">[Pg 114]</a></span></p>
+
+<p>Quando a filha do operario, mais familiarizada com
+a presen&ccedil;a do maritimo, se preparava para lhe dirigir
+a palavra, soaram uns passos no corredor e abriu-se
+em seguida a porta do quarto.</p>
+
+<p>Eram Trist&atilde;o e o visconde.</p>
+
+<p>&mdash;Venho prevenil-os de que j&aacute; temos casa para o hospital,
+e que &aacute;manh&atilde; por estas horas&mdash;gra&ccedil;as &aacute; actividade
+do sr. visconde&mdash;j&aacute; devem come&ccedil;ar os trabalhos,
+disse Trist&atilde;o de Almeida, reparando ao mesmo
+tempo em Manuel de Mendon&ccedil;a e Mascatudo.</p>
+
+<p>Estes ultimos olhavam para os recemchegados, sem
+poderem occultar que as suas presen&ccedil;as se lhes n&atilde;o
+tinham tornado muito sympathicas.</p>
+
+<p>&mdash;Estes senhores pertencem &aacute; sua familia? perguntou
+o visconde dirigindo-se a Martha.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o, senhor, respondeu Martha. E indicando Manuel
+de Mendon&ccedil;a, accrescentou: este senhor foi quem
+me encontrou na rua, e que mais tarde descobriu
+aonde estava meu pae.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! foi este senhor! acudiu Trist&atilde;o. Quanto folgo
+em ter o gosto de o conhecer. Se me n&atilde;o engano,
+n'aquella mesma noite tive o prazer de o encontrar;
+por&eacute;m, quando ia para lhe extender a m&atilde;o, j&aacute; vossa
+senhoria tinha saido d'este quarto, ajuntou Trist&atilde;o dirigindo-se
+a Manuel de Mendon&ccedil;a e extendendo-lhe
+brandamente a m&atilde;o.</p>
+
+<p>Se n'aquella noite do atropellamento os olhos de Manuel
+de Mendon&ccedil;a se haviam cravado particularmente
+no rosto de Trist&atilde;o, mais cuidadosamente o fixaram
+n'aquelle momento.</p>
+
+<p>O mesmo se passou com o magnate. Dir-se-ia que
+esses dois homens j&aacute; se haviam encontrado alguma
+vez na vida! Onde? Sabia-o Deus, que n'esse instante
+os n&atilde;o illucidava!</p>
+
+<p>O physionomista que de perto observasse o rosto de<span class='pagenum'><a name="Page_115" id="Page_115">[Pg 115]</a></span>
+Manuel, ter-lhe-ia notado um estremecimento de repuls&atilde;o
+no momento em que, extendendo a m&atilde;o, a sentiu
+em contacto com a de Trist&atilde;o de Almeida.</p>
+
+<p>A Mascatudo n&atilde;o lhe passou desapercebido.</p>
+
+<p>&mdash;Queira Deus, pensava elle comsigo, que o sr. Manuel
+de Mendon&ccedil;a n&atilde;o comece j&aacute; a imaginar que lhe
+querem estorvar a pesca. Se elle v&ecirc; que lhe lan&ccedil;am
+a fisga, p&otilde;e-se de ventas &aacute; enchente e vae tudo com
+trezentos mil diabos. Elle &eacute; bom, isso l&aacute; &eacute; que n&atilde;o ha
+duvida, mas, se lhe pegam fogo ao paiol da polvora,
+vae tudo pelos ares em mil estilha&ccedil;os.</p>
+
+<p>Trist&atilde;o e o visconde trocaram ainda algumas palavras
+entre si, e depois de alguns momentos de silencio,
+despediram-se de Jeronymo e de sua familia, e
+sairam do quarto cumprimentando affavelmente Manuel
+de Mendon&ccedil;a.</p>
+
+<p>&mdash;Conhece aquelle senhor? perguntou Martha a Manuel
+de Mendon&ccedil;a, referindo-se a Trist&atilde;o de Almeida.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o conhe&ccedil;o, respondeu o maritimo, comtudo,
+parece-me j&aacute; ter visto aquelle individuo, aonde n&atilde;o
+me recordo.</p>
+
+<p>&mdash;O mesmo me pareceu a mim, acudiu Mascatudo.
+E a elle, se me n&atilde;o engano, tambem o senhor n&atilde;o lhe
+era estranho.</p>
+
+<p>&mdash;O que elle me parece &eacute; um santo homem, disse
+Balbina, que n&atilde;o via em Trist&atilde;o mais do que o protector
+de seu marido.</p>
+
+<p>&mdash;Assim o julgo, respondeu Manuel, levantando-se
+e despedindo-se de Jeronymo.</p>
+
+<p>&mdash;J&aacute; se retira? perguntou Martha, lendo-se-lhe nos
+olhos o que principiava a sentir no cora&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Tenho de ir para bordo, respondeu Manuel despedindo-se
+de Martha, e promettendo-lhe voltar no dia
+seguinte.<span class='pagenum'><a name="Page_116" id="Page_116">[Pg 116]</a></span></p>
+
+<hr class="bookstyle"/>
+
+<p>&mdash;Ent&atilde;o o que me diz, meu capit&atilde;o? perguntava
+Mascatudo ao sairem o pateo do hotel.</p>
+
+<p>&mdash;Que gosto muito d'ella, respondeu Manuel de Mendon&ccedil;a
+olhando para as paredes do edificio como se
+buscasse a janella do quarto onde havia ficado a familia
+do operario.<span class='pagenum'><a name="Page_117" id="Page_117">[Pg 117]</a></span></p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<h1><a name="XVIII" id="XVIII"></a>XVIII</h1>
+
+
+<p>S&atilde;o dez horas da manh&atilde;. Deitado no seu leito de
+precioso ebano, e fazendo mil conjecturas &aacute;cerca de
+Trist&atilde;o, a quem na vespera havia convidado para almo&ccedil;ar,
+o visconde de Coruche, como homem experimentado,
+palpa, estuda e analysa o terreno por onde
+tem de caminhar.</p>
+
+<p>Tudo estava prevenido para o almo&ccedil;o. Uma grande
+parte da baixella, que dias antes tinha sido substituida
+no <i>pr&eacute;go</i> por outros objectos cuja ausencia se n&atilde;o
+fazia notar, j&aacute; estava sobre os aparadores. Entre os
+riquissimos trabalhos de prata destacava-se um pelo
+seu grande valor e merito artistico.</p>
+
+<p>Era um centro de mesa. Representava as tres gra&ccedil;as
+sustentando uma enorme concha.</p>
+
+<p>Era esta, por assim dizer, a ultima reliquia que lhe
+restava do seu para sempre chorado tio!</p>
+
+<p>&laquo;Fiz mal, pensava elle, em n&atilde;o ter convidado o
+commendador e Vaz Mendes, para almo&ccedil;arem commigo.
+Podem prever n'isto alguma insidia e intrigarem-me
+com o meu Cresus! &Eacute; mais prudente escrever-lhes.<span class='pagenum'><a name="Page_118" id="Page_118">[Pg 118]</a></span>
+E sem mais delonga, levantou-se e desceu ao escriptorio,
+formoso aposento ao rez do jardim, esplendida e
+custosamente mobilado.</p>
+
+<p>&laquo;E pensar que tudo isto &eacute; sol de pouca dura! accrescentava
+elle olhando para as estufas do jardim.
+N&atilde;o terei valor para cair com a minha ruina? Hei de
+ver de p&eacute; firme e olhar sereno, sair d'esta casa para
+o poder dos agiotas, at&eacute; &aacute; ultima, todas estas reliquias?
+Deus n&atilde;o p&oacute;de permittir que um homem que tem vivido
+e gozado como eu, se encontre um dia a bra&ccedil;os
+com a miseria! &Eacute; for&ccedil;oso tomar uma delibera&ccedil;&atilde;o. Tenho
+ainda uns seis mezes para viver, &eacute; pouco; prolongue-se
+a existencia, custe o que custar. Homicidio &eacute;
+um crime, e deixar-me escorregar na pendente do meu
+infortunio &eacute; um suicidio. N&atilde;o quero ser criminoso.</p>
+
+<p>&laquo;Arvores a cuja sombra me abriguei na minha infancia,
+nem v&oacute;s j&aacute; me pertenceis! continuava elle
+olhando para o vetusto arvoredo do jardim.</p>
+
+<p>&laquo;Tectos que vistes expirar meus paes, que impia
+m&atilde;o de atroz capitalista te manchar&aacute; o culto? Aqui nasceu
+meu av&ocirc;, aqui morreram todos os que tiveram
+melhor senso do que este desgra&ccedil;ado! &laquo;Soberbo choupo
+para me enforcar com o cord&atilde;o do meu chambre&raquo;,
+dizia elle como se quizesse zombar de si mesmo e
+contemplando ao mesmo tempo a arvore, que parecia
+convidal-o ao passo mais acertado que podia dar em
+toda a sua vida.</p>
+
+<p>Abandonando estes lugubres pensamentos, o visconde
+sentou-se &aacute; carteira, e escreveu duas cartas, uma
+ao commendador, e outra a Vaz Mendes. Pedia em ambas
+a honra de virem almo&ccedil;ar em sua companhia.</p>
+
+<p>Tocou a campainha e entregando as cartas a um
+criado para que as levasse sem demora ao seu destino,
+o visconde deu ainda algumas voltas pelo jardim
+e dirigiu-se &aacute; casa de banho.<span class='pagenum'><a name="Page_119" id="Page_119">[Pg 119]</a></span></p>
+
+<p>Ao meio-dia em ponto entraram Vaz Mendes e o
+commendador Lopes de Miranda.</p>
+
+<p>&mdash;Quanto folgo me n&atilde;o tivessem faltado, disse-lhes
+o visconde conduzindo-os para a sala de visitas. Trist&atilde;o,
+acrescentou elle, vem hoje almo&ccedil;ar commigo, era
+for&ccedil;oso pedir que mais alguem lhe tornasse menos
+pezado o sacrificio. Vamos discutir largamente sobre o
+hospital. Sabem que j&aacute; temos a casa arrendada?</p>
+
+<p>&mdash;Sabemos, responderam ambos.</p>
+
+<p>&mdash;Um magnifico palacio &aacute; Pampulha.</p>
+
+<p>&mdash;O local n&atilde;o podia ser mais bem escolhido, disse
+o commendador reclinando-se n'uma poltrona. E quando
+principiam os arranjos? perguntou Vaz Mendes.</p>
+
+<p>&mdash;Hoje mesmo; para esse fim os mandei chamar.
+Vamos comprar tudo o que f&ocirc;r necessario para que
+principie a funccionar de hoje a oito dias.</p>
+
+<p>&mdash;Realmente &eacute; um homem de muita caridade este
+Trist&atilde;o, interrompeu Vaz Mendes, olhando para uma
+soberba aguarella de Howell.</p>
+
+<p>&mdash;Basta o que elle tem feito pelo mestre de obras,
+ajuntou Lopes de Miranda.</p>
+
+<p>&mdash;E quem seria capaz, j&aacute; n&atilde;o digo de mais, mas
+de tanto? acudiu o visconde. Isto &eacute; que &eacute; a verdadeira
+caridade, sem alarde nem ostenta&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Tambem, disse Vaz Mendes, quem tem uma fortuna
+superior a dois mil contos, o que deve fazer sen&atilde;o
+dividil-a com a pobreza?</p>
+
+<p>&mdash;E quantas pessoas conhece o meu amigo, que n&atilde;o
+s&atilde;o capazes de gastar um ceitil com os pobres? perguntou
+o visconde.</p>
+
+<p>&mdash;Concordo, respondeu o banqueiro, olhando de
+soslaio para um Salvator Rosa, unica pintura que restava
+da galeria do conde de ***.</p>
+
+<p>Ao ouvir-se o rodar de um trem, o visconde appro<span class='pagenum'><a name="Page_120" id="Page_120">[Pg 120]</a></span>ximou-se
+da janella para se certificar se era a carruagem
+de Trist&atilde;o que chegava.</p>
+
+<p>N&atilde;o se engan&aacute;ra.</p>
+
+<p>Deixando os dois convidados, desceu ao pateo para
+o receber.</p>
+
+<p>Quando entraram na sala foi uma agradavel surpreza
+para Trist&atilde;o de Almeida o encontro dos seus dois
+amigos.</p>
+
+<p>&Aacute; hora designada dirigiram-se todos para a sala de
+jantar, onde um variado e bem servido almo&ccedil;o os esperava.</p>
+
+<p>Ao contemplarem a magnificencia da baixella, Vaz
+Mendes e o commendador entreolhavam-se, assombrados
+por tanta riqueza.</p>
+
+<p>Trist&atilde;o olhava para tudo com um gesto de profunda
+indifferen&ccedil;a! Um objecto apenas se tornou o alvo da
+sua atten&ccedil;&atilde;o: foi o centro de prata, de que j&aacute; falamos
+ao leitor.</p>
+
+<p>Havia muito que elle desejava occultar a sua admira&ccedil;&atilde;o;
+por ultimo n&atilde;o se conteve.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; de supp&ocirc;r que saiba o que alli tem, disse Trist&atilde;o
+voltando-se para o visconde, e apontando ao mesmo
+tempo para as tres gra&ccedil;as.</p>
+
+<p>&mdash;Sei. &Eacute; magnifico! Atribuem-n'o ao cinzel n&atilde;o sei
+de que artista notavel, cujo nome me n&atilde;o lembra,
+respondeu o visconde.</p>
+
+<p>&mdash;Vale um bom par de contos de r&eacute;is, replicou
+Trist&atilde;o dirigindo-se a Vaz Mendes.</p>
+
+<p>&laquo;Forte asno, murmurou o banqueiro para comsigo.</p>
+
+<p>&laquo;Est&aacute; doido! pensou o commendador.</p>
+
+<p>&laquo;Achei! disse o visconde falando com o seu cora&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>&laquo;Fortes nescios! reflectiu Trist&atilde;o, que pelos differentes
+jogos das suas physionomias, lhe adivinh&aacute;ra os
+pensamentos.&raquo;</p>
+
+<p>&Aacute;s quatro horas da tarde sairam todos tres, tendo<span class='pagenum'><a name="Page_121" id="Page_121">[Pg 121]</a></span>
+previamente combinado com o visconde, para que os
+esperasse no hotel das seis para as sete horas da noite.</p>
+
+<p>&laquo;Estou salvo! dizia o visconde, &aacute; propor&ccedil;&atilde;o que os
+via desapparecer. Por qualquer dos dois meios ven&ccedil;o.
+Desfazendo me das tres gra&ccedil;as, que j&aacute; para mim n&atilde;o
+tem gra&ccedil;a, posso vender-lh'as talvez por dez ou doze
+contos. Mas espera, accrescentou elle como se uma id&eacute;a
+lhe acudisse subitamente, &eacute; mais decente, mais elegante
+mesmo: presenteal-o com esse objecto. Ninguem
+chegou a mais de mil libras, e, para isso, foi necessario
+que encontrasse um inglez que as julgava Benevenuto!
+Mas quando viu que o n&atilde;o era, creio que me n&atilde;o
+daria nem mais dez libras do que o seu pezo. Se elle
+o attribue a cinzel, bem estamos; deve pelo menos avalial-o
+em vinte contos, portanto, em vinte contos avaliar&aacute;
+o presente. N&atilde;o ficarei habilitado a pedir-lhe vinte
+e cinco ou trinta? Ao centro, visconde, e chegar&aacute;s
+ao teu fim! E, sem mais reflectir, chamou o <i>groom</i> e
+mandou embrulhar as tres gra&ccedil;as em finissima toalha
+de Flandres, ordenando-lhe que as collocasse dentro
+do <i>coup&eacute;</i>.</p>
+
+<p>Ao cair da tarde, acompanhadas pelo visconde, as
+tres filhas de Eurynome abandonavam a casa do fidalgo
+para entrarem de gra&ccedil;a em casa de Trist&atilde;o, que
+bem caro teria de pagar aquella gra&ccedil;a.<span class='pagenum'><a name="Page_122" id="Page_122">[Pg 122]</a></span></p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<h1><a name="XIX" id="XIX"></a>XIX</h1>
+
+
+<p>O hospital da rua de S. Francisco de Paula, em virtude
+dos esfor&ccedil;os do visconde de Coruche e da inexgotavel
+bolsa de Trist&atilde;o, estava prompto de tudo. Sem
+lisonja, podia chamar-se-lhe um hospital modelo! A boa
+ordem reunida ao aceio e todas as outras condi&ccedil;&otilde;es
+hygienicas, tornavam aquella institui&ccedil;&atilde;o a melhor do
+seu genero.</p>
+
+<p>Em Lisboa, Trist&atilde;o d'Almeida era o assumpto de
+todas as conversa&ccedil;&otilde;es. Todos falavam na sua caridade;
+todos se assombravam das sommas fabulosas que dispendia.</p>
+
+<p>Al&eacute;m do custeamento do hospital, Trist&atilde;o colloc&aacute;ra
+cincoenta contos de r&eacute;is em metal sonante na burra
+do seu escriptorio, para serem applicados &aacute;s familias
+dos doentes que por ventura alli morressem, deixando
+por unico legado a fome e a saudade.</p>
+
+<p>Al&eacute;m d'estas circumstancias, uma outra havia mais
+transcendente: era a maneira por que a sua familia se
+dispunha para receber e tractar os enfermos.</p>
+
+<p>D. Maria Egypciaca e suas duas filhas, todas tres<span class='pagenum'><a name="Page_123" id="Page_123">[Pg 123]</a></span>
+com a mesma equipendencia de valor, eram as encarregadas
+das enfermarias das mulheres.</p>
+
+<p>Trist&atilde;o e o commendador tomaram entregue das do
+sexo masculino.</p>
+
+<p>Oito pessoas entraram no dia da abertura. Por mais
+perigoso que fosse o estado de qualquer d'esses individuos,
+n&atilde;o houve um s&oacute; que deixasse de sentir &aacute; cabeceira
+do leito a voz doce e animadora da mulher de
+Trist&atilde;o de Almeida, e de suas duas filhas, sobre tudo
+de Magdalena.</p>
+
+<p>As principaes familias de Lisboa quasi todas desejavam
+relacionar-se com aquelles quatro anjos do bem
+que vinham de longes terras para descan&ccedil;ar o seu
+v&ocirc;o sobre a cidade agonizante!</p>
+
+<p>Ao encontrar se completamente restabelecido dos
+ferimentos, Jeronymo partira para o hospital afim de
+se encarregar da sua direc&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>&Aacute;s v&ecirc;zes, na janella do terceiro andar que olhava
+para o Tejo, via-se uma crian&ccedil;a loura e formosa como
+os anjos: era Martha. Entristecida, ora parecia buscar
+n'aquelles horizontes algum objecto que lhe prendia a
+imagina&ccedil;&atilde;o, ora descia aos sal&otilde;es do hospital, como
+se procurasse na morte a branda paz que a sua alma
+havia perdido sobre a terra!</p>
+
+<p>Avaliando a immensa distancia que a separava de
+Manuel de Mendon&ccedil;a, Martha havia depositado no mais
+intimo do cora&ccedil;&atilde;o todos os martyrios que a suffocavam!
+Vira-o pela ultima vez no dia em que seu pae saira
+do hotel.</p>
+
+<p>Manuel dissera-lhe que d'alli a poucos dias iria visitar
+sua m&atilde;e, isto a meia voz, sem que Balbina o notasse.</p>
+
+<p>Foi n'esse momento que ella come&ccedil;ou a comprehender
+que lhe n&atilde;o era totalmente indifferente. Mas, d'isto
+tudo o que poderia resultar? Quem era Martha, para<span class='pagenum'><a name="Page_124" id="Page_124">[Pg 124]</a></span>
+ser amada por um homem como Manuel de Mendon&ccedil;a,
+um commandante de navios, emquanto ella n&atilde;o era
+mais do que a filha de um operario!</p>
+
+<p>N'esses momentos subiam-lhe &aacute; mente mil id&eacute;as
+que a torturavam. Era um tumultuar de receios que
+nem a sua intelligencia tinha for&ccedil;as para comprehender,
+nem o seu cora&ccedil;&atilde;o para os supportar.</p>
+
+<p>Assim foram passando muitos dias, e Manuel sem
+cumprir a sua promessa.</p>
+
+<p>Tel-a-ia esquecido?</p>
+
+<p>Impossivel! Aquelles olhos n&atilde;o lhe haviam mentido!
+As ultimas palavras que proferira, revelavam bem
+todo o interesse que ella lhe tinha inspirado. Teria
+adoecido com a febre? Morrido? N&atilde;o! Morrer t&atilde;o novo,
+t&atilde;o anciosamente adorado! Deus n&atilde;o consentiria que
+elle deixasse este mundo sem que Martha lhe houvesse
+assistido ao derradeiro sopro d'aquella vida, que
+era todo o seu querer, todo o seu pensar, toda a sua
+existencia! Manuel vivia, mas havia a esquecido por
+outra. Magdalena contempl&aacute;ra-o com interesse, n'uma
+tarde em que se encontraram na varanda do hotel!
+Ainda que Manuel n&atilde;o lhe respondeu ao seu olhar, podia
+tudo isso ter sido um calculo.</p>
+
+<p>&laquo;Quem sabe se eu fui um instrumento da sua vontade,
+fazendo-me supp&ocirc;r que era a mim e s&oacute; a mim
+a quem elle amava, emquanto o seu cora&ccedil;&atilde;o estava
+inclinado para a filha de Trist&atilde;o? pensava Martha. Mas
+sendo assim, tudo poderei descobrir; e se f&ocirc;r, buscarei
+a morte como ultimo recurso &aacute; minha desgra&ccedil;a.&raquo;</p>
+
+<p>Immersa n'estas terriveis conjecturas, Martha desceu
+&aacute;s salas do hospital.</p>
+
+<p>J&aacute; haviam entrado D. Maria Egypciaca e suas filhas.</p>
+
+<p>Notando a profunda pallidez da filha de Jeronymo,
+as fidalgas, segundo Martha lhe chamava, come&ccedil;aram
+a receiar pela sua saude.<span class='pagenum'><a name="Page_125" id="Page_125">[Pg 125]</a></span></p>
+
+<p>Magdalena foi a primeira a approximar-se-lhe, e beijando a
+meigamente na fronte, pediu lhe por tudo quanto
+havia que n&atilde;o arriscasse tanto a sua saude, perdendo
+as noites ao lado dos doentes.</p>
+
+<p>Durante todo esse dia, aonde mais intensos reinavam
+o perigo e a afflic&ccedil;&atilde;o, alli se encontrava Martha!</p>
+
+<p>Quando ao anoitecer a familia de Trist&atilde;o se preparava
+para sair do hospital, Magdalena insistiu com a
+filha do operario para que tambem se retirasse. Foram
+inuteis todos os seus esfor&ccedil;os. Pretextando que tinha
+de ficar com seu pae, Martha acompanhou-as at&eacute; &aacute; carruagem
+e voltando depois para o terceiro andar, tornou
+a encostar-se &aacute;quella janella onde a encontr&aacute;mos
+no principio d'este capitulo.</p>
+
+<p>Deixemos a infeliz crian&ccedil;a enchugando em silencio
+as suas primeiras lagrimas, e dirijamo-nos ao hotel
+Bragan&ccedil;a.<span class='pagenum'><a name="Page_126" id="Page_126">[Pg 126]</a></span></p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<h1><a name="XX" id="XX"></a>XX</h1>
+
+
+<p>S&atilde;o nove horas da noite. D. Maria Egypciaca, de p&eacute;,
+encostada a um bufete, aguarda com palpitante anciedade
+a volta de seu marido.</p>
+
+<p>Olympia, agitando-se impacientemente pelo sal&atilde;o,
+contempla de vez em quando o mostrador de uma
+pendula, como implorando aos ponteiros que bem depressa
+lhe marquem a hora da ceia!</p>
+
+<p>Magdalena, reclinada ao parapeito da varanda, fita o
+astro da noite, que, reflectindo-se sobre as aguas do
+Tejo as cria de um brilho triste e melancholico.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o te demores ahi &aacute; janella, disse D. Maria Egypciaca,
+voltando-se para sua filha. A noite, como v&ecirc;s,
+come&ccedil;a a arrefecer, e os tempos n&atilde;o est&atilde;o para brincadeiras.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o rece&iacute;e, minha m&atilde;e, respondeu Magdalena.
+Sinto-me aqui t&atilde;o bem.</p>
+
+<p>&mdash;Faze o que quizeres.</p>
+
+<p>&mdash;Em todo o caso, se minha m&atilde;e est&aacute; com susto, eu
+retiro-me, disse Magdalena saindo da janella.<span class='pagenum'><a name="Page_127" id="Page_127">[Pg 127]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Sabes que j&aacute; me vae dando algum cuidado esta
+demora de teu pae. S&atilde;o estas horas e elle sem apparecer.</p>
+
+<p>&mdash;E &eacute; verdade, acudiu rapidamente a filha mais nova.
+S&atilde;o perto de nove e meia. Provavelmente jantou
+em casa do visconde e n&atilde;o se lembra que o esperamos
+para ceiar.</p>
+
+<p>&mdash;Decididamente n&atilde;o pensas n'outra coisa sen&atilde;o em
+comer, murmurou Magdalena sorrindo-se para a irm&atilde;.
+N&atilde;o sabes que a dieta &eacute; o melhor preservativo.</p>
+
+<p>&mdash;Pois continuem as senhoras com a sua dieta que
+eu, pela minha parte, irei comendo o que me aprouver,
+respondeu Olympia.</p>
+
+<p>Deram as nove e tres quartos e Trist&atilde;o sem apparecer.</p>
+
+<p>&mdash;Se teu pae se demora mais dez minutos, vou ao
+hospital, disse D. Maria Egypciaca.</p>
+
+<p>&mdash;Se o criado se demora mais cinco minutos, vou
+ao hospital ver se me d&atilde;o alguma coisa de comer, tartamudeou
+Olympia com visivel inquieta&ccedil;&atilde;o!</p>
+
+<p>Ao terminar estas palavras abriu-se a porta e entrou
+Trist&atilde;o acompanhado pelo visconde.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o me tornes a apparecer t&atilde;o tarde, disse D.
+Maria Egypciaca voltando-se para o marido. N&atilde;o sabes
+os cuidados em que temos estado, tanto, eu como as
+meninas, ajuntou ella, beijando a fronte de seu esposo
+e cumprimentando ao mesmo tempo o visconde.</p>
+
+<p>&mdash;Desde que sairam do hospital, n&atilde;o podem supp&ocirc;r
+o trabalho que tivemos se n&atilde;o f&ocirc;ra Martha...</p>
+
+<p>&mdash;Parece uma santa rapariga, disse D. Maria Egypciaca
+voltando-se para o visconde.</p>
+
+<p>&mdash;Tal pae, tal filha, minha senhora, respondeu o
+visconde.</p>
+
+<p>Magdalena c&oacute;rou ligeiramente ao ouvir pronunciar o
+nome de Martha?<span class='pagenum'><a name="Page_128" id="Page_128">[Pg 128]</a></span></p>
+
+<p>As suspeitas da infeliz, n&atilde;o eram totalmente despidas
+de fundamento. Magdalena vira por duas vezes
+Manuel de Mendon&ccedil;a quando elle f&ocirc;ra visitar o operario.
+O olhar nobre e varonil do commandante, as suas maneiras
+altivas e ao mesmo tempo insinuantes, tudo concorreu
+para que se tornasse sympathico. Manuel n&atilde;o o
+havia notado ou, pelo menos fingiu ignoral-o.</p>
+
+<p>Orgulhosa em demasia, Magdalena j&aacute;mais teria descido
+a declarar-se-lhe. Al&eacute;m d'isso, o seu espirito observador
+fizera-lhe notar que a filha do operario n&atilde;o era
+totalmente indifferente a Manuel de Mendon&ccedil;a. Quanto
+ao que se passava no cora&ccedil;&atilde;o de Martha, era um problema
+difficil de resolver.</p>
+
+<p>Uma tarde em que Magdalena deitava para o Tejo
+o seu magnifico telescopio, viu um escaler com quatro
+remadores, e um individuo sentado &aacute; pr&ocirc;a. Reconheceu
+n'esse homem o mysterioso personagem que lhe apparec&ecirc;ra
+no quarto de Jeronymo! O barco seguia Tejo
+abaixo. Assestando o oculo, seguiu o em todos os movimentos.
+Por ultimo, abordou a uma embarca&ccedil;&atilde;o que
+estava fundeada em frente da rocha do Conde de Obidos.
+Manuel sa&iacute;a do escaler e subia para bordo.</p>
+
+<p>Desde essa tarde, Magdalena n&atilde;o perdia ensejo de
+olhar para aquella pequena embarca&ccedil;&atilde;o, e quando por
+ventura sabia que Manuel de Mendon&ccedil;a estava no quarto
+do operario, buscava sempre esse momento para o
+ir ver.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; de supp&ocirc;r que ainda n&atilde;o tenha ceiado, meu pae,
+disse Olympia. A ceia deve estar prompta, acho rasoavel
+que vamos comer alguma coisa.</p>
+
+<p>&mdash;Quem havia de ser a primeira a lembrar-se da
+ceia, respondeu Trist&atilde;o, passando o bra&ccedil;o pela cintura
+de sua filha, e convidando o visconde a sair da sala.</p>
+
+<div class="center">
+<span class='pagenum'><a name="Page_129" id="Page_129">[Pg 129]</a></span>
+ <a id="image-129"></a>
+ <a href="images/image-129h.png" >
+ <img src="images/image-129.png"
+ alt="&mdash;Vocemec&ecirc; anda sobre as aguas do mar?... (pag. 165)"
+ title="&mdash;Vocemec&ecirc; anda sobre as aguas do mar?... (pag. 165)" />
+ </a>
+<div class="caption">&mdash;Vocemec&ecirc; anda sobre as aguas do mar?... (<i><a href="#Page_165">pag. 165</a></i>)</div>
+</div>
+
+<p>Na mesa, esplendidamente adornada pela baixella
+que Trist&atilde;o havia comprado, sobresa&iacute;am as tres netas
+<span class='pagenum'><a name="Page_131" id="Page_131">[Pg 131]</a></span>de Apollo, com que o visconde havia presenteado o seu
+amigo.</p>
+
+<p>&mdash;Eis a alegria da meza, disse Trist&atilde;o voltando-se
+para o visconde e apontando ao mesmo tempo para o
+magnifico centro.</p>
+
+<p>&mdash;O que lhe pe&ccedil;o, replicou o visconde, &eacute; que me
+n&atilde;o esteja todos os dias envergonhando com esse objecto,
+que se algum valor teve para mim, foi o de agradar
+a vossa excellencia.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o me can&ccedil;arei de o gabar, continuou Trist&atilde;o,
+offerecendo um logar ao visconde entre sua esposa e
+Magdalena.</p>
+
+<p>&mdash;Tenho vindo todo caminho a dizer a seu esposo,
+que deve acceitar o titulo que brevemente lhe vae ser
+offerecido, disse o visconde voltando-se para D. Maria
+Egypciaca. J&aacute; tres ou quatro pessoas me disseram
+que el-rei o senhor D. Pedro V, encantado pelos seus
+servi&ccedil;os, tenciona agracial o com um titulo condigno
+ao seu merito. Sabe o que me respondeu? que n&atilde;o
+queria acceitar coisa alguma; que para recompensa,
+bastava-lhe o prazer que experimentava em ser util &aacute;
+humanidade. Isto &aacute; luz da philosophia &eacute; uma grande
+verdade, mas para o mundo acho uma loucura!</p>
+
+<p>&mdash;Sou quasi da opini&atilde;o de meu marido. Basta que
+se chame Trist&atilde;o de Almeida. De seus paes herdou esse
+nome sem a mais pequena macula, &eacute; razoavel o seu
+desejo em o querer conservar at&eacute; ao ultimo momento
+da vida.</p>
+
+<p>&mdash;S&atilde;o vossas excellencias da opini&atilde;o de sua m&atilde;e?
+perguntou o visconde dirigindo-se &aacute;s filhas de Trist&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Pela minha parte &eacute;-me totalmente indifferente,
+respondeu Magdalena.</p>
+
+<p>&mdash;E vossa excellencia... accrescentou o visconde
+voltando-se para Olympia.<span class='pagenum'><a name="Page_132" id="Page_132">[Pg 132]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Sou da opini&atilde;o de todos, retrucou Olympia, mastigando
+o setimo croquette.</p>
+
+<p>&mdash;Se vossa excellencia resolvesse seu esposo a acceitar
+o titulo de conde, compromettia-me a fazer lavrar
+a carta regia em menos de um mez.</p>
+
+<p>Ao ouvir pronunciar o titulo de conde, os olhos de
+Trist&atilde;o brilharam com uma alegria selvagem. Teria
+dado muito para ser visconde, mas o que elle nunca
+poderia supp&ocirc;r, era que obtivesse o titulo de conde!</p>
+
+<p>O visconde comprehendeu-o immediatamente.</p>
+
+<p>&laquo;Temos homem! pensou elle. O ensejo &eacute; favoravel;
+ha de ser hoje mesmo! Est&aacute; proximo o dia vinte. Se
+at&eacute; esse praso n&atilde;o levanto dinheiro, a ruina &eacute; certa!
+V&atilde;o salvar-me as tres gra&ccedil;as e o titulo de conde.&raquo;</p>
+
+<p>A ceia correu animadissima! D. Maria Egypciaca,
+julgando-se condessa, pensava de ante-m&atilde;o na gloria
+que esse titulo lhe ia proporcionar. Desentranhando
+do amago do seu bestunto todos os nomes de terras
+mais harmoniosos que tinha ouvido, escolhia de entre
+esses o que mais euphonico lhe parecia.</p>
+
+<p>Trist&atilde;o, apezar de toda a sua serenidade, olhava ora
+para a mulher ora para as filhas, como que desejando
+que a conversa&ccedil;&atilde;o continuasse sobre o mesmo assumpto.</p>
+
+<p>Olympia continuava a comer desafrontadamente, sem
+cuidar na gloria que se lhe preparava!</p>
+
+<p>Uma pessoa apenas parecia indifferente ao titulo e
+&aacute; ceia, era Magdalena.</p>
+
+<p>A pobre sonhava a felicidade entre o mar e o c&eacute;u!
+A sua ventura estava n'aquella barca, para onde ella
+ao cair da tarde extendia seus olhares entristecidos
+pelo labutar de uma eterna recorda&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<hr class="bookstyle"/>
+
+<p>Quem d'alli a duas horas tivesse entrado na sala
+occupada por Trist&atilde;o, teria visto o seguinte: D. Maria<span class='pagenum'><a name="Page_133" id="Page_133">[Pg 133]</a></span>
+Egypciaca em profunda medita&ccedil;&atilde;o, folheando um livro
+que mand&aacute;ra comprar, cujo titulo era <i>Resenha das Familias
+de Portugal</i>.</p>
+
+<p>Olympia reclinada n'um soph&aacute; fazendo o chylo, e
+resonando profundamente.</p>
+
+<p>Magdalena encostada &aacute; janella contemplando as estrellas
+que se reflectiam sobre as aguas do Tejo.</p>
+
+<p>E quem, movido de imperdoavel curiosidade, tivesse
+seguido o visconde e Trist&atilde;o de Almeida at&eacute; ao patamar
+da escada, teria ouvido este ultimo dizer em
+voz baixa ao visconde:</p>
+
+<p>&mdash;Sendo tres horas da tarde, poder&aacute; ir receber os
+trinta contos de r&eacute;is a casa de Vaz Mendes, e se por
+ventura se vir n'algum outro apuro, pe&ccedil;o lhe encarecidamente
+que se lembre de mim.</p>
+
+<p>&mdash;Ha de ser com uma condi&ccedil;&atilde;o, respondia lhe o visconde.</p>
+
+<p>&mdash;Qual?</p>
+
+<p>&mdash;Acceitar o titulo de conde.</p>
+
+<p>&mdash;Acceito.<span class='pagenum'><a name="Page_134" id="Page_134">[Pg 134]</a></span></p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<h1><a name="XXI" id="XXI"></a>XXI</h1>
+
+
+<p>No dia seguinte &aacute;quelle em que pratic&acirc;mos a indiscri&ccedil;&atilde;o
+de fazer com que o leitor tambem escutasse as
+ultimas palavras trocadas entre Trist&atilde;o de Almeida e
+o visconde de Coruche, achava se este, antes do meio
+dia, assentado &aacute; secretaria do seu escriptorio, chamando
+todos os criados, e ordenando a cada um que lhe
+apresentasse as suas contas.</p>
+
+<p>Os mo&ccedil;os estavam como que assombrados! Nenhum
+podia acreditar que elle estivesse habilitado a falar
+d'aquelle modo. Todos sabiam o estado da sua casa,
+e a unica esperan&ccedil;a que lhes restava, eram as promessas
+de um agiota a quem tencionavam vender as
+dividas.</p>
+
+<p>&mdash;Aquillo foi obra de jogo, dizia o cocheiro, refinado
+velhaco, a quem o visconde havia arrancado &aacute; miseria.</p>
+
+<p>&mdash;Ora, saude! acudiu o trintanario, quem caiu d'ahi
+abaixo! Quem lhe havia de dar dinheiro para fazer jogo?
+Ainda n&atilde;o ha muitos dias que elle perdeu cincoenta
+moedas, e, a respeito de pagal-as, <i>x&oacute; r&ocirc;lla</i>.</p>
+
+<p>&mdash;D&ecirc;-me elle o que me deve, o mais tanto se me<span class='pagenum'><a name="Page_135" id="Page_135">[Pg 135]</a></span>
+d&aacute; como se me deu! Venha o <i>baguinho</i>, e tanto m'importa
+que fosse ganho ao jogo, como achado, como
+roubado!</p>
+
+<p>&mdash;O mesmo digo eu, mestre Domingos, interrompeu
+o criado de quarto. Tom&aacute;ra eu sempre que elle estivesse
+muito endinheirado. Ha l&aacute; melhor patr&atilde;o! J&aacute; o
+viram olhar para alguma conta? Mais ainda; quando
+lhe apresentavamos os roes, e que elle tinha dinheiro
+na gaveta da secretaria preta, quantas vezes me dizia:
+P&otilde;e l&aacute; a conta e tira o dinheiro. Patr&otilde;es assim, agarral-os
+&eacute; que custa.</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim, tudo isso &eacute; uma grande verdade, mas,
+o que &eacute; certo, &eacute; que est&aacute; aqui est&aacute; sem vintem, disse
+judiciosamente o cosinheiro.</p>
+
+<p>&mdash;Isso &eacute; l&aacute; com elle, mas quem te diz a ti que esse
+individuo a quem deu os bonecos de prata...</p>
+
+<p>&mdash;O qu&ecirc;?</p>
+
+<p>&mdash;Lhe tenha emprestado algum dinheiro.</p>
+
+<p>&mdash;Anda c&aacute; dinheiro, que te quero ver. Tambem tu
+vives de caretas? L&aacute; que elle tenha querido encostar
+o homem, n&atilde;o me admira, mas que o brazileiro caisse
+ao tiro... essa &eacute; que n&atilde;o pega.</p>
+
+<p>&mdash;Que elle est&aacute; muito contente, &eacute; que n&atilde;o ha duvida.</p>
+
+<p>&mdash;J&aacute; tem o <i>bago</i> na m&atilde;o, hein? Ora adeus? Se o
+tivesse, a estas horas ninguem o aturava.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o sei falar n'essas coisas. Venham os soberanos
+e o mais tanto se me d&aacute; que a agua corra para baixo
+como para cima!</p>
+
+<p>&mdash;O que parece impossivel &eacute; que voss&ecirc;s estejam
+aqui n'este conluio, murmurando de um senhor que os
+trata como sua excellencia, disse um velho de perto
+de setenta annos que acabava de entrar. Aqui estou
+eu, a quem elle deve mais do que a voss&ecirc;s todos juntos,
+e ainda n&atilde;o abri bico contra elle.<span class='pagenum'><a name="Page_136" id="Page_136">[Pg 136]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;E o que tem vossemec&ecirc; com o que n&oacute;s estavamos
+falando? disse o cocheiro approximando-se do anci&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Se lhe parece, bata-me, tartamudeou o velho,
+encostando-se serenamente a um aparador. Se o sr.
+visconde souber o que se passou, podem ter a certeza
+que vae tudo para o meio da rua.</p>
+
+<p>&mdash;E quem lh'o <i>havera</i> de dizer? acudiu um mo&ccedil;o
+de cavallari&ccedil;a.</p>
+
+<p>&mdash;Eu! N&atilde;o serei capaz de lhe contar tudo, <i>tim tim,
+por tim tim</i>?</p>
+
+<p>&mdash;Eu perca a minha liberdade, se vossemec&ecirc; tornasse
+a comer mais p&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Pensa talvez que me assusta com as suas fadistices?
+Meu amigo, tenho perto de setenta annos, mas,
+frang&atilde;os assim, para os depennar basta-me a m&atilde;o esquerda.</p>
+
+<p>&mdash;Est&aacute; bom, est&aacute; bom! Leva de rumor! acudiu o
+cosinheiro. Quem quizer fazer <i>banz&ecirc;</i>, v&aacute; para o meio
+do pateo, que n&atilde;o &eacute; este o logar para dize tu direi
+eu. E demais aquelle senhor tem toda a raz&atilde;o, ajuntou
+elle olhando para o velho. &Eacute; o mordomo do sr. visconde,
+conheceu-o de crian&ccedil;a e n&atilde;o gosta de ver o
+seu amo offendido. Nada mais natural do que tomar
+as palhinhas por elle.</p>
+
+<p>&mdash;Entre vossemec&ecirc; tambem, se lhe parece, ajuntou
+o cocheiro, tomando o partido do mo&ccedil;o da cavallari&ccedil;a.</p>
+
+<p>&mdash;Olhe, meu amigo, disse o cosinheiro, dirigindo-se
+ao cocheiro, commigo n&atilde;o faz voss&ecirc; vasa. C&aacute; por mim,
+n&atilde;o lhe digo quantos annos tenho, mas se me faz chegar
+a mostrada ao nariz, desabo-lhe d'aqui com esta
+m&atilde;o de vacca que fica sem saber da cara por tres
+dias.</p>
+
+<p>N'este comenos ouviu-se a campainha do escriptorio.
+Era o visconde que mandava chamar o mordomo.<span class='pagenum'><a name="Page_137" id="Page_137">[Pg 137]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Vossa excellencia mandou-me chamar? disse o
+mordomo ao entrar no escriptorio.</p>
+
+<p>&mdash;Mandei, respondeu o visconde. Dei ordem a todos
+os criados para que apresentassem as suas contas. Toma-as
+a cada de um de per si; bem sabes que n&atilde;o
+me chama Deus para esses caminhos. &Eacute; preciso tambem
+tomar conta dos credores mais teimosos para se lhes
+dar alguma coisa por conta. Comprehendes?</p>
+
+<p>&mdash;Perfeitamente.</p>
+
+<p>&mdash;Lembra-te de gratificares os criados, pobres diabos!
+N&atilde;o te parece?</p>
+
+<p>&mdash;Eu dava lhes, mas era com um pau, sr. visconde.
+N&atilde;o ha maior cafila do que s&atilde;o os criados d'este tempo.</p>
+
+<p>&mdash;Porque dizes tu isso?</p>
+
+<p>&mdash;Tenho os meus motivos. Isso fica para mais tarde.
+N&atilde;o imagina o prazer que terei se vossa excellencia
+se pozer em dia com toda esta gente.</p>
+
+<p>&mdash;Bem, podes retirar-te.</p>
+
+<p>D'alli a uma hora, dirigia-se o visconde para o escriptorio
+de Vaz Mendes onde Trist&atilde;o de Almeida havia
+mandado ordem pela manh&atilde; para que entregasse trinta
+contos de r&eacute;is ao visconde de Coruche.</p>
+
+<hr class="bookstyle"/>
+
+<hr class="bookstyle"/>
+
+<p>&mdash;E para que &eacute; todo este dinheiro, sr. visconde?
+perguntou-lhe o banqueiro, lendo-se-lhe nos olhos a
+inveja e a cobi&ccedil;a. &Eacute; para algum outro hospital aonde
+os meus servi&ccedil;os est&atilde;o dispensados?</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; para a infancia desvalida, respondeu o visconde,
+mettendo n'algibeira&mdash;sem os contar&mdash;os ma&ccedil;os
+de notas que receb&ecirc;ra da m&atilde;o de Vaz Mendes.</p>
+
+<p>&mdash;Repare vossa excellencia que n&atilde;o contou esse dinheiro,
+ponderou-lhe o usurario.</p>
+
+<p>&mdash;Nunca contei dinheiro; para esse fim l&aacute; tenho em<span class='pagenum'><a name="Page_138" id="Page_138">[Pg 138]</a></span>
+casa um criado que n&atilde;o faz outra coisa, respondeu altivamente
+o visconde de Coruche.</p>
+
+<p>Pondo insolentemente o chap&eacute;u, o fidalgo cortejou o
+banqueiro e retirou-se para casa.</p>
+
+<p>&mdash;Salvo! exclamou o visconde, extendendo se commodamente
+n'um soph&aacute;. Falta agora o titulo, ajuntou
+elle olhando ao mesmo tempo para um magnifico charuto
+havano, cujo fumo subindo em espiral inundou
+os aposentos de um perfume doce e innebriante!<span class='pagenum'><a name="Page_139" id="Page_139">[Pg 139]</a></span></p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<h1><a name="XXII" id="XXII"></a>XXII</h1>
+
+
+<p>&laquo;Fortes nescios, que id&eacute;a formam de mim! O visconde
+imagina que sou algum minhoto, que foi d'aqui
+para o Rio de Janeiro varrer o escriptorio do patr&atilde;o, e
+que por uma f&oacute;rma ou outra, adquiri a riqueza que
+hoje possuo.</p>
+
+<p>&laquo;Se elle soubesse que f&ocirc;ra o commendador Felix Justino
+de Araujo quem lhe havia emprestado os trinta contos
+de r&eacute;is.</p>
+
+<p>&laquo;Como a sorte me favoreceu em tudo! continuava
+elle, passeando ao mesmo tempo pelo seu gabinete.
+Emprestei-lhe trinta contos, e &eacute; possivel que nunca mais
+os torne a ver, mas, quanto vale aquelle magnifico
+centro de Benevenuto? Quarenta contos talvez. E dizem
+que um filho da Gr&atilde;-Bretanha veiu expressamente
+a Lisboa para lh'o comprar, e se retirou deixando-o
+aqui. O archeologo tinha bebido muito n'esse dia!</p>
+
+<p>&laquo;N&atilde;o lhe descobriria elle a assignatura? O visconde
+deve estar satisfeito de me ter logrado! Como elle dir&aacute;
+de si para si: presenteei-o com um objecto que vale
+mil libras, acenei-lhe com um titulo de conde e o
+tezo caiu no la&ccedil;o!<span class='pagenum'><a name="Page_140" id="Page_140">[Pg 140]</a></span></p>
+
+<p>&laquo;Eu poderia prescindir perfeitamente d'esse titulo.
+Para que quero eu um titulo? s&oacute; se f&ocirc;r, para satisfazer
+os caprichos da Maria. O que j&aacute; me vae aborrecendo
+alguma coisa &eacute; o tal hospicio. Ainda que nunca houve
+molestia que sympathizasse com a minha pessoa, p&oacute;de
+apparecer alguma, e ter o mau senso de me levar
+d'esta para melhor. Parece-me que vou dar parte de
+doente.</p>
+
+<p>&laquo;Agora me recordo, ajuntou elle. Quem demonio
+seria aquella mulher que veiu hoje procurar o Jeronymo!
+Pareceu-me reconhecer as fei&ccedil;&otilde;es. Se n&atilde;o tivesse a
+certeza que D. Marianna de Mendon&ccedil;a tinha morrido
+doida no hospital de S. Jos&eacute;, havia de dizer que era essa
+velha. Que similhan&ccedil;a, meu Deus! E se fosse ella?
+Se ainda vivesse? Ora adeus! Se eu f&ocirc;r a devolver tudo
+quanto d'aqui levei... Nada... os tempos n&atilde;o est&atilde;o
+para gra&ccedil;as. Se Domingos de Andrade n&atilde;o houvesse
+tido juizo em Pernambuco, que teria sido do commendador
+Felix Justino de Araujo, que passou a ser
+Trist&atilde;o de Almeida emquanto se n&atilde;o chamar o conde
+de... O conde de qu&ecirc;? do que elles quizerem ou do
+que minha mulher escolher.</p>
+
+<p>&laquo;Agora por isso, n&atilde;o tenho mais remedio sen&atilde;o comprar
+alguma propriedade de grande valor. Vou tractar
+d'isso para a semana que vem. Encarrego o visconde
+de me arranjar um palacio em Lisboa e uma quinta nos
+suburbios. Est&aacute; decidido, sympathizei com aquelle estroina.
+Parece-me que o estou a ver na casa branca
+da rua do Arco de Bandeira! Era um verdadeiro demonio,
+aquelle visconde! Ainda n&atilde;o vi homem mais intrepido
+ao jogo! Agora por jogo, n&atilde;o tardar&aacute; muito
+que principiem a fazer todas as diligencias para me
+<i>apanharem</i>. V&ecirc;em bem!</p>
+
+<p>N'este momento abriu se a porta, e entrou um criado
+annunciando o visconde de Coruche.<span class='pagenum'><a name="Page_141" id="Page_141">[Pg 141]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Que entre, que entre o meu caro visconde, disse
+Trist&atilde;o.</p>
+
+<p>O fidalgo n&atilde;o se fez demorar.</p>
+
+<p>&mdash;Quanto folgo em tel-o encontrado, disse o visconde
+extendendo a m&atilde;o para o seu amigo. Estive hontem
+no gremio, e durante a noite n&atilde;o se falou sen&atilde;o em
+vossa excellencia. O conselheiro Poderosa, que appareceu
+l&aacute; &aacute; saida do theatro, disse-me confidencialmente
+que seria o encarregado por sua magestade de lhe
+perguntar que nome escolhia para o titulo de conde,
+que brevemente lhe ia ser offerecido. Estive hontem
+mesmo para lh'o vir participar.</p>
+
+<p>&mdash;D&aacute;-me sempre um grande prazer a sua companhia
+mas para um caso d'esses, seria desnecessario.</p>
+
+<p>&mdash;Vejo pela sua indifferen&ccedil;a que ainda insiste, apezar
+da promessa, em n&atilde;o acceitar o titulo! Deixe-se
+d'isso, meu amigo, um titulo &eacute; sempre util; e muito
+util.</p>
+
+<p>&mdash;Fa&ccedil;am os meus amigos tudo quanto lhes aprouver;
+sujeitar-me-hei ao que f&ocirc;r do seu agrado.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o v&ecirc; o meu amigo, que esse titulo que lhe vae ser
+concedido, n&atilde;o &eacute; favor mas sim uma retribui&ccedil;&atilde;o honorifica
+pelo muito do que este paiz lhe &eacute; devedor? Diga-me
+uma coisa, teria vossa excellencia valor de recusar
+um habito que o general lhe collocasse ao peito, se vossa
+excellencia se tivesse distinguido n'uma batalha?
+Creio que n&atilde;o. O mesmo se d&aacute; n'este caso. N&atilde;o est&aacute;
+vossa excellencia arriscando a sua vida e a de toda a sua
+familia? Parece-lhe immerecida essa recompensa? Pode
+alguem lan&ccedil;ar-lhe em rosto a injusti&ccedil;a da merc&ecirc;?
+Quem teria o descaro de lhe contestar esse direito?
+Ninguem, absolutamente ninguem!</p>
+
+<p>&mdash;Isso l&aacute; &eacute; verdade. Que eu tenho arriscado a minha
+vida e de toda a minha familia, n&atilde;o merece duvida
+alguma.<span class='pagenum'><a name="Page_142" id="Page_142">[Pg 142]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Ent&atilde;o, meu amigo, attendendo a todas essas circumstancias,
+n&atilde;o falemos mais n'isso, e deixe correr o
+negocio.</p>
+
+<p>&mdash;V&aacute; feito, v&aacute; feito! gargalhou Trist&atilde;o de Almeida.</p>
+
+<p>&mdash;Tem hoje muito que fazer, sr. Trist&atilde;o?</p>
+
+<p>&mdash;O que sabe: ir ao hospital.</p>
+
+<p>&mdash;E depois?</p>
+
+<p>&mdash;Depois mais nada.</p>
+
+<p>&mdash;D&aacute;-me a honra de ir jantar a minha casa?</p>
+
+<p>&mdash;Com muito gosto a receberei.</p>
+
+<p>&mdash;V&atilde;o l&aacute; uns amigos a quem desejo apresental-o.</p>
+
+<p>&mdash;Fique certo.</p>
+
+<p>&mdash;Ent&atilde;o &aacute;s cinco?</p>
+
+<p>&mdash;Conte commigo.</p>
+
+<p>&mdash;Pe&ccedil;o-lhe encarecidamente que n&atilde;o falte, accrescentou
+o visconde n'um cerrado <i>shake-hands</i>, e saindo do
+gabinete.</p>
+
+<p>&laquo;Trata-se de me <i>apanharem</i> ao jogo, pensou Trist&atilde;o.
+Veremos quem fica logrado, accrescentou elle extendendo-se
+sobre um soph&aacute;.&raquo;<span class='pagenum'><a name="Page_143" id="Page_143">[Pg 143]</a></span></p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<h1><a name="XXIII" id="XXIII"></a>XXIII</h1>
+
+
+<p>Emquanto o visconde de Coruche ordena aos seus
+criados que lhe preparem um lauto jantar, dirijamo-nos
+&aacute; Rua do Meio, a casa de Jeronymo.</p>
+
+<p>S&atilde;o tres horas da tarde. O operario, &aacute; mesa do jantar,
+entre Marianna e sua mulher, olha de vez em
+quando para a vidra&ccedil;a, como para ver se ainda contin&uacute;a
+a chuva.</p>
+
+<p>Na face pallida de Balbina, desenha-se-lhe o soffrimento.
+Marianna parece acompanhal a nas suas tristes
+medita&ccedil;&otilde;es.</p>
+
+<p>&mdash;Voss&ecirc;s n&atilde;o me dir&atilde;o o que t&ecirc;em? murmurou Jeronymo.
+Quando a nossa vida se apresenta debaixo dos
+melhores auspicios, &eacute; que principiam a entristecer? O
+mesmo notei em Martha. Antigamente, era sempre
+alegre e jovial, agora, custa os dias da vida, primeiro
+que se lhe arranque um ar de riso. Valha-nos Deus!
+N&atilde;o ha felicidade completa.</p>
+
+<p>&mdash;Isso &eacute; uma desconfian&ccedil;a tua, respondeu Balbina.</p>
+
+<p>&mdash;A mim n&atilde;o me enganam voss&ecirc;s, replicou Jero<span class='pagenum'><a name="Page_144" id="Page_144">[Pg 144]</a></span>nymo,
+levando aos labios um copo de vinho. Pela minha
+parte, ando c&aacute; como o outro que diz, meio desconfiado
+de uma coisa. Permitta Deus que me engane,
+ajuntou elle, voltando-se para a tia Marianna, que dirigira
+um olhar significativo &aacute; esposa do operario.</p>
+
+<p>&mdash;E de que est&aacute;s desconfiado, Jeronymo? accudiu
+Balbina, voltando se para seu marido.</p>
+
+<p>&mdash;Se eu n&atilde;o desabafasse com voss&ecirc;s, que s&atilde;o a minha
+familia, com quem havia de fazel o? Creio que
+n&atilde;o era com a tia Monica ou outras quejandas! L&aacute; vae.
+Ando desconfiado, como ha pouco lhes dizia que a
+nossa Martha est&aacute; assim meia apaixonada pelo sr. Manuel.
+Isto foi uma pancada que me deu o cora&ccedil;&atilde;o; talvez
+que n&atilde;o passe de um m&aacute;u juizo. Mas o que &eacute; certo,
+&eacute; que nunca mais lhe tenho visto brilhar os olhos
+de alegria, sen&atilde;o duas ou tres vezes que esteve defronte
+d'elle. L&aacute; isso &eacute; que ninguem me p&oacute;de negar.</p>
+
+<p>&mdash;Pois uma vez que foste tu o primeiro a falar sobre
+isso, pergunta agora &aacute; tia Marianna o que estavamos
+dizendo quando tu entraste, respondeu Balbina,
+olhando ao mesmo tempo para a sua amiga.</p>
+
+<p>&mdash;Ha mais de oito dias que andamos a pensar n'isso,
+disse a tia Marianna voltando se para o operario.</p>
+
+<p>&mdash;Valha nos Deus, Balbina! E como havemos de impedil-o?</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o sei, respondeu Balbina, profundamente entristecida.
+Sabes o que me disse a tia Marianna? accrescentou
+ella. Que o sr. Manuel era por for&ccedil;a um homem
+muito de bem; bastava ver a maneira como elle se
+portou com a nossa filha.</p>
+
+<p>&mdash;Tudo isso &eacute; uma grande verdade, Balbina, mas,
+em qualquer dos casos &eacute; sempre uma infelicidade. O
+cora&ccedil;&atilde;o de Martha &eacute;... nem eu mesmo sei a que o
+compare. &Eacute; uma especie d'estas fasquias que a mais
+<span class='pagenum'><a name="Page_145" id="Page_145">[Pg 145]</a></span>pequena aragem as dobra, mas se l&aacute; vem um tuf&atilde;o...
+ficam logo quebradas pelo meio. Al&eacute;m d'isso, ella bem
+conhece a distancia que a separa do sr. Manuel, e &eacute;
+capaz como o outro que diz de afogar em si tudo quanto
+est&aacute; soffrendo.</p>
+
+<p>&mdash;Sou da sua opini&atilde;o, sr. Jeronymo; Martha &eacute; um
+anjo, e ser&aacute; capaz de morrer, confiando apenas a Deus
+o segredo que a assassina!</p>
+
+<p>&mdash;Eu s&oacute; o que desejava saber era a maneira de nos
+encaminharmos em tudo isto, continuou Jeronymo levantando-se
+da mesa.</p>
+
+<p>&mdash;A sr.&ordf; Marianna que nos aconselhe, que &eacute; mais
+velha e tem mais mundo do que qualquer de n&oacute;s,
+acudiu Balbina dirigindo-se &aacute; sua amiga e companheira.</p>
+
+<p>&mdash;Que lhes poderei eu aconselhar, meus bons amigos?
+respondeu a tia Marianna. Se esse individuo &eacute;
+um homem de bem como eu supponho, e se Martha
+lhe n&atilde;o foi indifferente, &eacute; de cr&ecirc;r que mais dia menos
+dia o possamos tornar a ver, e, n'esse caso estarei
+muito prompta a falar-lhe. N&atilde;o lhe vejo outro remedio,
+sr. Jeronymo. Prouvera a Deus que fosse hoje o dia.
+Quanto ao que vossemec&ecirc; diz, que uma grande distancia
+os separa, n&atilde;o me parece. N&atilde;o p&oacute;de elle ser como
+Martha, um filho do povo? E sendo assim, n&atilde;o vejo
+desegualdade de pessoas.</p>
+
+<p>&mdash;E se o n&atilde;o f&ocirc;r? perguntou Jeronymo. Se f&ocirc;r um
+fidalgo, um ricasso...</p>
+
+<p>&mdash;Torno a repetir-lhe, respondeu Marianna, homem
+de bem &eacute; que eu tenho a certeza que elle &eacute;. E a prova
+foi n&atilde;o ter tornado a apparecer.</p>
+
+<p>&mdash;Isso l&aacute; &eacute; que &eacute; a pura da verdade, acudiu Balbina.
+Tinha trezentos meios para a ter visto.</p>
+
+<p>N'este momento, parou um trem &aacute; porta do operario.
+Eram as filhas de Trist&atilde;o que vinham trazer a casa
+a sua amiga.</p>
+
+<p>&mdash;Forte delambida! dizia a tia Monica voltando-se<span class='pagenum'><a name="Page_146" id="Page_146">[Pg 146]</a></span>
+para uma visinha, quando Martha se apeava do trem.</p>
+
+<p>&mdash;Deixe estar, respondia-lhe a visinha, mais dia menos
+dia, ver&aacute; aonde aquillo vae parar.</p>
+
+<p>&mdash;Ainda bem que j&aacute; lhe fiz a cama, quando o outro
+dia me vieram pedir informa&ccedil;&otilde;es a seu respeito.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o sabia d'isso, visinha, n&atilde;o me tinha dito...
+Quem foi?</p>
+
+<p>&mdash;Era um homem que me pareceu assim do trato
+do mar.</p>
+
+<p>&mdash;Desde que se meteu com as fidalgas j&aacute; n&atilde;o p&oacute;de
+andar se n&atilde;o de trem. Saffa, demonio! E n&atilde;o tem medo
+das m&aacute;s linguas....</p>
+
+<p>&mdash;Nem da colera do Senhor, tia Monica, respondia-lhe
+a visinha, mettendo-se para dentro de casa como
+se os seus olhos invejosos n&atilde;o podessem resistir ao
+olhar candido e celeste de Martha, o anjo dos tristes.</p>
+
+<p>Despedindo-se das filhas de Trist&atilde;o, Martha entrou
+em sua casa.</p>
+
+<p>Vinha excessivamente pallida. Uma breve mancha
+azulada, partindo das palpebras inferiores at&eacute; &aacute;s proeminencias
+malares, tornavam-lhe mais scismadores os
+seus olhos esplendidamente bellos! Dir-se-hia que se
+tinha levantado de uma grande enfermidade. O busto,
+ligeiramente inclinado, dava-lhe aspecto de profunda
+melancolia.</p>
+
+<p>A Jeronymo arrasaram-se-lhe os olhos de lagrimas.</p>
+
+<p>&mdash;Que tem, meu pae? perguntou Martha, approximando-se
+e beijando-o ternamente na fronte.</p>
+
+<p>&mdash;Que tenho, filha?! Que hei de ter! Dia a dia te
+vejo mais triste, e ainda perguntas o que tenho? Saudades
+da tua alegria, dos teus olhos; onde est&atilde;o as
+rosas d'essas faces, que eram a inveja das tuas companheiras
+de collegio? Onde est&atilde;o emfim os teus sorrisos,
+que eram a minha ventura? Pensas que s&oacute; eu tenho
+notado a tua tristeza, ha oito dias a esta parte?<span class='pagenum'><a name="Page_147" id="Page_147">[Pg 147]</a></span>
+Enganas-te. J&aacute; tua m&atilde;e a percebeu e a tia Marianna, e
+todos, at&eacute; o teu c&atilde;o! para quem j&aacute; n&atilde;o tens um s&oacute; carinho.
+Dize-me o que sentes, filha, e se eu, ou tua m&atilde;e
+n'alguma coisa te podemos valer, s&ecirc; franca, Martha.
+Quem melhor do que teus paes poder&atilde;o saber os teus
+segredos? Martha, lembra-te que &eacute;s a unica alegria
+que eu e tua pobre m&atilde;e temos n'esta vida. Se &eacute;s boa,
+como te creio e como todos te consideram, abre-me
+o teu cora&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o me occultes coisa alguma. Vem, filha;
+deposita no meu peito todos os segredos que te
+obrigam a olhar para a terra para onde eu n&atilde;o quero
+que te deixes ir.</p>
+
+<p>Pobre Jeronymo! A d&ocirc;r tornara-o eloquente! Balbina
+e a tia Marianna tinham se afastado para occultarem
+as lagrimas.</p>
+
+<p>Apenas Martha se conservava serena como a estatua
+da resigna&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Que me respondes, Martha? continuava o operario.</p>
+
+<p>&mdash;Que lhe posso eu responder meu pae.</p>
+
+<p>&mdash;Senta-te aqui nos meus joelhos, accrescentou Jeronymo,
+apertando a cintura da filha e approximando-a
+para si. Vou contar te uma historia.</p>
+
+<p>&laquo;Um dia, um pobre operario, que tinha por unica
+familia sua mulher e sua filha, ao sair do trabalho foi
+atropellado por um trem. Levaram-n'o em seguida para
+uma grande hospedaria aonde foi caridosamente tratado,
+sem lhe faltar coisa alguma a n&atilde;o ser a sua familia
+que ignorava aonde elle estivesse. As horas passavam,
+passavam, e elle sem apparecer. Ent&atilde;o a filha,
+pondo o capote aos hombros, saiu de casa, procurando
+o pae como uma louca.</p>
+
+<p>&laquo;Pessoa alguma lhe dava rela&ccedil;&atilde;o d'elle. A triste
+desanim&aacute;ra!</p>
+
+<p>&laquo;Finalmente encontrou um individuo mo&ccedil;o, bello,<span class='pagenum'><a name="Page_148" id="Page_148">[Pg 148]</a></span>
+virtuoso. Esse prometteu-lhe procurar seu pae! A infeliz
+respirou! D'ahi a duas horas o desconhecido dizia-lhe
+aonde elle estava.</p>
+
+<p>&laquo;Grata a esta primeira prova de dedica&ccedil;&atilde;o, a filha
+do operario principiou a amal-o em silencio!</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o me fale n'isso, meu pae, interrompeu Martha,
+tentando desembara&ccedil;ar-se dos bra&ccedil;os de Jeronymo.</p>
+
+<p>&laquo;Depois, proseguiu o operario prendendo-a cada vez
+mais ao cora&ccedil;&atilde;o, essa crian&ccedil;a cheia de ternura, continuou
+a amar esse homem, sem confiar a pessoa alguma
+o afecto que a consumia, e hoje, Martha, hoje...
+est&aacute; como tu, pallida, triste, adoentada, e seu pae como
+um louco por a v&ecirc;r assim.&raquo;</p>
+
+<p>&mdash;Ahi tens a historia, ajuntou elle largando a dos
+bra&ccedil;os e fitando a com os olhos cheios de lagrimas.</p>
+
+<p>Martha n&atilde;o proferiu uma palavra.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o me illudas, filha, esse homem &eacute; amado por
+ti.</p>
+
+<p>&mdash;Esse homem, balbuciou Martha, &eacute; amado pela filha
+do nosso protector! Hoje mesmo a encontrei olhando
+para a sua galera, ajuntou ella, caindo desanimada
+nos bra&ccedil;os de seu pae.<span class='pagenum'><a name="Page_149" id="Page_149">[Pg 149]</a></span></p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<h1><a name="XXIV" id="XXIV"></a>XXIV</h1>
+
+
+<p>&mdash;Aposto a minha cabe&ccedil;a em como o visconde ha-de
+ser t&atilde;o nescio que se n&atilde;o lembre de arranjar um
+montesinho antes da ceia.</p>
+
+<p>&mdash;Se o n&atilde;o fizer alguns motivos tem para isso. Por
+tolo, n&atilde;o &eacute;, decerto.</p>
+
+<p>&mdash;Tambem, se queres que te diga a verdade, n&atilde;o
+lhe encontro grande esperteza. J&aacute; l&aacute; v&atilde;o duas heran&ccedil;as
+importantissimas, e ambas tiveram o mesmo fim.
+Se isto &eacute; ser esperto, est&aacute; o mundo cheio de espertalh&otilde;es!</p>
+
+<p>&mdash;Sabes o que eu chamo ser esperto, &eacute; saber lavar
+a sua roupa em familia, como diz o dictado. De quantas
+lagrimas n&atilde;o lhe tem sido testemunha o seu travesseiro?
+V&ecirc; tu, se j&aacute; alguem deixou de lhe encontrar
+o mesmo sorriso? Dizem todos: o visconde est&aacute; arruinado,
+&eacute; impossivel que possa aguentar por mais tempo
+aquella opulencia, em menos de um anno h&atilde;o-de vel-o
+miseravel, por&eacute;m desde que morreu o conde, n&atilde;o abandonou
+o seu palacio, ainda n&atilde;o despediu um criado,
+ainda n&atilde;o vendeu um cavallo, ainda n&atilde;o deixou de dar<span class='pagenum'><a name="Page_150" id="Page_150">[Pg 150]</a></span>
+almo&ccedil;os, jantares e ceias! Est&aacute; arruinado: t&atilde;o arruinado
+que n&atilde;o ha muitos dias deu um presente, que valia
+mil libras. Quem d&aacute; um presente de mil libras n&atilde;o p&oacute;de
+estar pobre.</p>
+
+<p>&mdash;Isso leva agua no bico!...</p>
+
+<p>&mdash;E que importa? O que n&atilde;o ha duvida, &eacute; que pessoa
+alguma seria capaz de fazer o que elle tem feito.</p>
+
+<p>&mdash;Eu tambem n&atilde;o lhe contesto o seu cavalheirismo.</p>
+
+<p>&mdash;E o que lhe tem custado as mulheres e o jogo? Tom&aacute;ra
+eu ter o dinheiro que lhe ganhei ha uns vinte
+annos, quando estive associado com um grande espertalh&atilde;o
+que havia em Lisboa, chamado Felix de Araujo.</p>
+
+<p>&mdash;Felix de Araujo? N&atilde;o me recordo.</p>
+
+<p>&mdash;Um vivo demonio, que fez tudo quanto lhe pareceu
+em Lisboa, acabando por ter uma casa commercial.</p>
+
+<p>&mdash;Ai, ai, agora me lembro. Por signal que roubou
+uma senhora, a casa de quem ia muitas vezes! A pobresinha
+foi acabar os seus dias no hospital de S. Jos&eacute;.
+J&aacute; sei. Era um tratante de marca maior, que fez a
+desgra&ccedil;a de muita gente. Nunca mais se soube d'elle?</p>
+
+<p>&mdash;Disseram-me que tinha morrido envenenado na
+Costa d'Africa. Que a terra lhe seja leve, que eu, assim
+como assim, n&atilde;o tenho raz&atilde;o de queixa da sua pessoa;
+basta lembrar-me que o pouco que sei a elle lh'o
+devo.</p>
+
+<p>&mdash;O pouco que sabe! Se eu soubesse metade...</p>
+
+<p>&mdash;Aquillo &eacute; que eram m&atilde;os! Aquillo &eacute; que era dar
+um <i>salto</i> com limpeza, sem que o baralho desse o mais
+pequeno estallido! E trabalhar com cinco dados! e <i>tirar</i>
+ao pegote!</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; verdade, &eacute; verdade! A ultima vez que joguei
+com elle foi em casa do bar&atilde;o. Por tal signal que me
+roubou quatorze notas de dez moedas &aacute; banca portugueza.<span class='pagenum'><a name="Page_151" id="Page_151">[Pg 151]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Se aquelle homem n&atilde;o tivesse morrido, com a audacia
+que possuia, ainda tinha voltado a Portugal...</p>
+
+<p>&mdash;O que estar&aacute; fazendo o visconde?</p>
+
+<p>&mdash;Como n&atilde;o usa de cerimonia para comnosco, provavelmente
+d&aacute; as suas ordens para que tudo se fa&ccedil;a
+segundo os seus desejos.</p>
+
+<p>Passava-se este dialogo entre Gil de Carvalho e Bernardo
+de Paiva.</p>
+
+<p>O primeiro, era um jogador de profiss&atilde;o e refinado
+velhaco, ao qual todas as portas se abriam por um
+d'esses desleixos imperdoaveis que &eacute; susceptivel em
+toda a sociedade de grandes capitaes.</p>
+
+<p>Relacionando-se com os individuos que frequentavam
+certa sociedade onde o jogo era permittido por
+distrac&ccedil;&atilde;o, Gil de Carvalho introduziu se nos principaes
+sal&otilde;es de Lisboa.</p>
+
+<p>Ninguem sabia a sua procedencia! As suas maneiras
+quasi sempre delicadas, resentiam-se comtudo da
+primitiva educa&ccedil;&atilde;o!</p>
+
+<p>Gil teria uns sessenta annos. A sua fortuna era um
+mytho. Uns diziam que estava pobre; outros, calculando
+pelo que havia roubado ao jogo, attribuiam lhe riquezas
+enormes.</p>
+
+<p>Bernardo de Paiva era um homem pouco mais ou menos
+da edade do seu interlocutor. Herd&aacute;ra de seus paes
+uns vinte ou trinta contos de r&eacute;is e dissip&aacute;ra-os immediatamente
+em mil loucuras, sendo a principal o jogo,
+que ainda hoje o dominava com poder immenso!</p>
+
+<p>Bernardo descendia em linha recta de uma das mais
+distinctas familias de Olh&atilde;o. Aparentado com muitos individuos
+de Lisboa, Bernardo com mais algum direito
+do que Gil de Carvalho, tinha entrada em todas as
+casas. Ao contrario de Gil, a sua physionomia era sympathica
+e insinuante.</p>
+
+<p>Jantar onde elle estivesse, corria sempre alegre e<span class='pagenum'><a name="Page_152" id="Page_152">[Pg 152]</a></span>
+animado. Al&eacute;m do seu viv&iacute;ssimo <i>esprit</i>, tinha outra qualidade
+que o tornava estimado em todos os circulos:
+n&atilde;o dizia mal de ninguem. A sua bocca era sagrada,
+como judiciosamente affirmava o mordomo do visconde
+de Coruche.</p>
+
+<p>Quando Gil e Bernardo de Paiva se dirigiram para
+uma saccada que olhava para o pateo, onde se ouviu
+o rodar de um trem, correu-se um dos reposteiros e
+appareceu o visconde.</p>
+
+<p>&mdash;Pe&ccedil;o-lhes que me desculpem esta demora, mas
+n&atilde;o me foi possivel evital-a. Adoeceu de repente o meu
+mordomo, tenho de o substituir.</p>
+
+<p>&mdash;Pela minha parte est&aacute;s desculpado, disse Bernardo
+de Paiva, sorrindo-se para o visconde.</p>
+
+<p>&mdash;Repito o mesmo, acudiu Gil.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o adivinhas, de quem estamos falando? disse
+Bernardo dirigindo se ao visconde.</p>
+
+<p>&mdash;N'aquelle mariola de Felix Justino de Araujo, accrescentou
+Gil de Carvalho.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o me recordo respondeu o visconde com modo
+distrahido.</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa! exclamou Bernardo. O commendador
+Araujo que ia &aacute; <i>Casa Branca</i>, do Arco do Bandeira.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! J&aacute; sei, respondeu o visconde.</p>
+
+<p>&mdash;Sabes quem eu acho muito parecido com elle, e
+s&oacute; agora foi que me lembrou...</p>
+
+<p>&mdash;Quem?...</p>
+
+<p>&mdash;O teu amigo Trist&atilde;o d'Almeida.</p>
+
+<p>&mdash;E &eacute; verdade, respondeu o visconde. Bem me parecia
+a mim que j&aacute; tinha visto n'alguma parte uma physionomia
+que se lhe assimilhasse.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; um homem muito sympathico aquelle seu amigo,
+interrompeu Gil de Carvalho.</p>
+
+<p>&mdash;Aonde o viu? perguntou o visconde.<span class='pagenum'><a name="Page_153" id="Page_153">[Pg 153]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Ha dias, no gremio, aonde me foi apresentado.
+A proposito, sabe se elle joga?</p>
+
+<p>&mdash;Duvido, respondeu o visconde. Nem me convinha
+por modo algum que se jogasse em minha casa, accrescentou
+elle, que tudo havia planeado para esse fim.</p>
+
+<p>&mdash;E se elle pedisse? perguntou Gil, tentando ainda
+profundar-lhe o pensamento.</p>
+
+<p>&mdash;Isso ent&atilde;o era differente. O meu dever &eacute; tornar-me
+sempre amavel para com as pessoas que me d&atilde;o
+a honra da sua companhia.</p>
+
+<p>&mdash;Sou da tua opini&atilde;o, disse Bernardo de Paiva, que
+lia no mais intimo da alma do visconde.</p>
+
+<p>N'este momento ouviram-se duas badaladas na sineta
+da loja, e d'alli a pouco entrou um criado de libr&eacute;, annunciando
+Trist&atilde;o d'Almeida.</p>
+
+<hr class="bookstyle"/>
+
+<p>&mdash;Venho aqui pura e simplesmente para lhe provar
+o desejo que tenho de estar na sua companhia, disse
+Trist&atilde;o, depois de falar ao visconde e aos seus amigos.
+Se n&atilde;o f&ocirc;ra isso teria ficado de cama.</p>
+
+<p>&mdash;Mas que teve, meu amigo? perguntou rapidamente
+o visconde.</p>
+
+<p>&mdash;Quanto p&oacute;de imaginar de mais infernal! Todos os
+symptomas que apresenta a epidemia. Sabe o que fiz?
+tomei um <i>grog</i> e fui para o hospital.</p>
+
+<p>&mdash;Que valor! interrompeu o visconde.</p>
+
+<p>&mdash;Quando alli cheguei, continuou Trist&atilde;o, augmentaram-se-me
+os padecimentos. Querem saber os resultados?
+V&atilde;o admirar-se da for&ccedil;a da minha vontade. Fui
+receber um doente, que pouco tempo depois me expirou
+nos bra&ccedil;os. Aquella rapida transposi&ccedil;&atilde;o da vida
+para a morte, aquelle instante incalculavel que medeia
+entre o ser e o nada, entre a vontade e abstrac&ccedil;&atilde;o,
+longe de aterrar, robusteceu-me o espirito e, escudado
+pela confian&ccedil;a em um mundo melhor e mais perfeito,<span class='pagenum'><a name="Page_154" id="Page_154">[Pg 154]</a></span>
+reanimou-me a ponto de me sentir completamente restabelecido.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; mais uma prova da sua religi&atilde;o, meu caro amigo,
+interrompeu Bernardo de Paiva. Os que se aterram
+em presen&ccedil;a do moribundo e na observa&ccedil;&atilde;o do cadaver,
+&eacute; porque receiam o desconhecido! Os que se baseiam
+nos preconceitos do vulgo, apegando se &aacute; vida,
+e receiando a morte, que, segundo as suas cren&ccedil;as, os
+colloca em contacto com a Divindade, n&atilde;o s&atilde;o mais que
+uns miseraveis, uns vermes que vivem e rastejam para
+a sua e nossa deshonra! A morte, para todo o homem
+de intelligencia clara e illustrada, n&atilde;o &eacute; mais que o
+principio de uma vida infinita.</p>
+
+<p>Espiritos pobres e tacanhos que se lamentam a cada
+segundo, dizendo que lhes peza a vida, empallidecem
+quando a morte de longe lhes acena com as suas azas,
+brancas para elles que sopezam constantemente a desgra&ccedil;a
+nas suas longas noites de interminavel soffrimento.</p>
+
+<p>Receiam morrer! Elles que deviam tomar a existencia
+com um eterno castigo! Que melhor somno para
+o desgra&ccedil;ado do que o da morte, dormido sob a
+lousa! Preferem o bulicio da vida &aacute; paz do eterno repouso,
+o andrajo ao sudario, a fome &aacute; anniquila&ccedil;&atilde;o!</p>
+
+<p>&mdash;Isso &eacute; uma grande verdade, mas a maior parte do
+mundo n&atilde;o pensa como vossa excelencia, respondeu
+Trist&atilde;o. Duas ou tres vezes tenho visto a morte deante
+de mim, e nunca me atemorizou! Tenho a minha consciencia
+bastante socegada para me apresentar deante
+de Deus! N&atilde;o receio o seu julgamento. Diziam-me em
+Buenos-Ayres que era um homem de um valor desmedido,
+emquanto eu n&atilde;o passava de um pobre diabo a
+quem os peccados n&atilde;o perseguiam na existencia, porque
+nunca os havia procurado. Digo procurado, porque
+o homem, a maior parte das vezes, pecca mais por<span class='pagenum'><a name="Page_155" id="Page_155">[Pg 155]</a></span>
+vaidade do que por instincto. Tenho umas theorias,
+falsas talvez para o seculo em que vivemos, mas que
+apezar de tudo n&atilde;o desprezo. Deus que fez o homem
+&aacute; sua similhan&ccedil;a, ao lan&ccedil;al-o ao mundo, revestiu-o de
+bons instinctos, por&eacute;m, a sociedade envenenando-lhe o
+cora&ccedil;&atilde;o, insinuou-o no crime e apresentou-lh'o atravez
+de um prisma seductor. Ent&atilde;o os seus olhos fascinaram-se,
+a vontade esmoreceu-lhe, e o cora&ccedil;&atilde;o propenso
+sempre a ser dominado ao primeiro impulso, extraviou-se
+da raz&atilde;o e lan&ccedil;ou-se cego e inexperiente n'esse
+dedalo artificioso a que a humanidade nos arrasta! Satanaz
+ri-se, mas Deus, que tudo perd&ocirc;a, espera o momento
+supremo para indultar o peccador e &aacute; humanidade
+que o perverteu! Esta &eacute; a minha opini&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Sabem quem hontem ganhou trezentas e tantas
+moedas? interrompeu Gil de Carvalho voltando-se para
+o visconde. Aquillo &eacute; que foi sorte, accrescentou elle,
+sem notar o espanto que a sua interrup&ccedil;&atilde;o havia produzido
+nos circumstantes. Fez um circo, depois outro,
+depois outro, e bumba, lambeu tudo quanto havia sobre
+a banca.</p>
+
+<p>&mdash;Mas a que proposito vem isso, sr. Gil de Carvalho?
+perguntou o visconde, emquanto Trist&atilde;o de Almeida
+o contemplava com simulado espanto.</p>
+
+<p>&mdash;Isto veiu a proposito... d'aquillo em que eu estava
+pensando, respondeu Gil de Carvalho tornando a
+cahir no mesmo estado de profunda reflex&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Excentricidade do nosso amigo Gil, acudiu Bernardo
+de Paiva, olhando intelligentemente para o visconde.</p>
+
+<p>O magnate conservava-se frio e sereno como um
+<i>yankee</i>, entre os quaes largos annos havia habitado.</p>
+
+<p>&mdash;Gosta de jogar? perguntou Gil de Carvalho voltando-se
+para Trist&atilde;o.</p>
+
+<p>O visconde e Bernardo estremeceram de raiva.<span class='pagenum'><a name="Page_156" id="Page_156">[Pg 156]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; uma coisa que &aacute;s vezes me diverte, respondeu-lhe
+Trist&atilde;o. N&atilde;o admitto o jogo por vicio, mas, assim
+de vez emquando, depois de um jantar ou de uma
+ceia, encontro-lhe alguma distrac&ccedil;&atilde;o, ainda que as poucas
+vezes que tenho jogado tem sido quasi sempre com
+uma infelicidade extraordinaria! A ultima foi em Fran&ccedil;a,
+aonde perdi n'uma s&oacute; noite duzentos mil francos.
+O divertimento foi caro, &eacute; verdade, mas distrahi-me.</p>
+
+<p>Ao ouvir estas palavras, os olhos de Gil de Carvalho
+brilharam de visivel alegria. Tinha as suas esperan&ccedil;as
+realizadas!</p>
+
+<p>O visconde nem pestanejou!</p>
+
+<p>Assim estiveram conversando sobre varios assumptos
+at&eacute; que appareceram todos os individuos que o visconde
+havia convidado.</p>
+
+<p>&Aacute;s seis horas foram para a sala de jantar, cuja mesa
+brilhantemente adornada, revelava a opulencia e
+bom gosto do dono d'aquella habita&ccedil;&atilde;o maravilhosa. O
+jantar correu animadissimo! Bernardo de Paiva, como
+sempre, esteve esplendido de gra&ccedil;a. Trist&atilde;o de Almeida
+com grave assombro dos convivas que pela primeira
+vez o viam e sobre tudo do visconde, que o julgava
+um homem trivial, apresentou-se totalmente opposto
+ao que o suppunham.</p>
+
+<p>&laquo;Este homem &eacute; um mysterio&raquo;, pensava o visconde,
+ao mesmo tempo que saudando-o em repetidas liba&ccedil;&otilde;es,
+fazia as maiores diligencias de o toldar.</p>
+
+<p>Inuteis foram por&eacute;m todos os seus esfor&ccedil;os; o convidado
+bebia por elles todos, sem que o mais leve indicio
+de incommodo lhe transtornasse a serenidade da
+sua imperturbavel physionomia.</p>
+
+<p>&Aacute;s nove horas, levantaram-se todos da mesa, e foram
+para outra sala, onde os esperava o caf&eacute;.</p>
+
+<p>Trist&atilde;o de Almeida, como o leitor deve fazer ideia,
+conhecia todos os individuos que estavam presentes, e<span class='pagenum'><a name="Page_157" id="Page_157">[Pg 157]</a></span>
+melhor do que a elles todos a Gil de Carvalho, com
+quem por mais de uma vez se havia associado.</p>
+
+<p>Ou por calculo ou porque lhe recordassem com saudade
+as sensa&ccedil;&otilde;es do jogo, Trist&atilde;o propoz ao visconde
+que se fizesse monte.</p>
+
+<p>&mdash;Est&atilde;o em sua casa, respondeu-lhes o visconde. Eu
+tamb&eacute;m n&atilde;o desgosto de vez em quando arriscar duas
+ou tres duzias de libras.</p>
+
+<p>Gil de Carvalho estremeceu de jubilo; Bernardo de
+Paiva exultou de contentamento. Encontrava um meio
+de adquirir uma ou duas duzias de moedas, jogando
+sempre na <i>alforreca</i>.</p>
+
+<p>&mdash;Quem ha de fazer o monte? eu n&atilde;o por certo,
+disse o visconde, foi coisa para que nunca tive geito.</p>
+
+<p>&mdash;Nem eu t&atilde;o pouco, acudiu o commendador.</p>
+
+<p>&mdash;Visto vossa excellencia ser banqueiro, ajuntou Bernardo
+de Paiva, dirigindo se para Vaz Mendes, o banqueiro
+de Trist&atilde;o de Almeida, pertence-lhe por direito.</p>
+
+<p>&mdash;Que o fa&ccedil;a o sr. Gil de Carvalho que est&aacute; mais
+acostumado a pegar em cartas.</p>
+
+<p>&mdash;Resta agora saber se ha cartas em casa. Mas isso
+pouco importa, mando-as alli buscar ao Club, disse o
+visconde.</p>
+
+<p>&mdash;Estranha coincidencia! exclamou Gil de Carvalho,
+mettendo as m&atilde;os no bolso do peito da casaca, minha
+mulher tinha-me pedido hoje que lhe levasse dois ou
+tres baralhos para fazer a paciencia, e ainda aqui est&atilde;o.
+Podem servir estas.</p>
+
+<p>&mdash;Que favoravel acaso! disse Bernardo de Paiva, sorrindo-se
+intelligentemente para o visconde.</p>
+
+<p>&laquo;Est&aacute; a mesma coisa&raquo;, murmurou Trist&atilde;o de Almeida,
+de si para comsigo.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos fazer uma <i>vaca</i>? disse o visconde e em voz
+baixa olhando para o seu hospede, emquanto Gil de<span class='pagenum'><a name="Page_158" id="Page_158">[Pg 158]</a></span>
+Carvalho se approximava d'uma banca para melhor contar
+os baralhos.</p>
+
+<p>&mdash;Jogaremos de sociedade, visconde, replicou Trist&atilde;o
+de Almeida.</p>
+
+<p>&mdash;Seja.</p>
+
+<hr class="bookstyle"/>
+
+<p>D'alli a dez minutos, as cem moedas que Gil de Carvalho
+fizera de monte, haviam passado para defronte
+de Trist&atilde;o de Almeida, acompanhadas por mais do dobro
+que os outros peritos tinham perdido.</p>
+
+<p>Segundo, terceiro e quarto monte, e o mesmo resultado.</p>
+
+<p>Trist&atilde;o jogava com uma sorte espantosa! Gil de Carvalho
+tinha perdido a for&ccedil;a moral.</p>
+
+<p>&mdash;Tem dinheiro? perguntou elle ao visconde.</p>
+
+<p>&mdash;Sirva se, disse-lhe Trist&atilde;o de Almeida empurrando-lhe
+um ma&ccedil;o de notas.</p>
+
+<p>O banqueiro acceitou.</p>
+
+<p>Outro monte de cem moedas, e em tres cartadas, todo
+o dinheiro que estava na m&atilde;o do intrepido jogador havia
+passado para o banqueiro.</p>
+
+<p>Os olhos de Gil de Carvalho brilharam como uma
+alegria feroz.</p>
+
+<p>Trist&atilde;o de Almeida, acendeu tranquillamente um magnifico
+charuto, e sorriu-se para o visconde.</p>
+
+<p>&mdash;Era justo que se perdessem algumas paradas, murmurou
+elle, tirando da algibeira do peito uma carteira
+de chagrin.</p>
+
+<p>&mdash;Continua a sociedade, visconde? disse o magnate
+voltando-se para o seu amphitri&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Continua, meu amigo.</p>
+
+<p>Gil de Carvalho baralhou as cartas e deu-as a partir
+a Trist&atilde;o de Almeida.</p>
+
+<p>&mdash;Topo tudo no duque, disse este rapidamente, ao<span class='pagenum'><a name="Page_159" id="Page_159">[Pg 159]</a></span>
+sair a segunda carta do algor debaixo. Gil voltou as
+cartas a tremer, e &aacute; segunda appareceu um duque.</p>
+
+<p>&mdash;Vou a casa buscar dinheiro, n&atilde;o tenho f&eacute; alguma
+em jogar com capitaes emprestados, disse Gil de
+Carvalho, collocando o baralho sobre a banca, e saindo
+sem quasi dar tempo a Trist&atilde;o de Almeida e ao visconde
+de lhe fazerem os seus offerecimentos.</p>
+
+<p>Trist&atilde;o havia ganho tres contos e seiscentos mil r&eacute;is.</p>
+
+<p>&mdash;Que lhe parece? disse elle voltando-se para o visconde,
+damos hoje a desforra ao seu amigo Gil de Carvalho,
+ou guardamos isso para outro dia?</p>
+
+<p>&mdash;Ficar&aacute; para outro dia. Convinha me muito ir ao
+segundo acto do Trovador.</p>
+
+<hr class="bookstyle"/>
+
+<p>&Aacute;s onze horas os convidados retiravam se, e Trist&atilde;o
+de Almeida na carruagem do visconde segu&iacute;a com elle
+para o hotel.</p>
+
+<p>Mais tarde parava um trem &aacute; porta do visconde. Era
+Gil de Carvalho que f&ocirc;ra a casa buscar mais dinheiro,
+e uns certos baralhos em que as cartas se pegavam
+umas &aacute;s outras. Descendo rapidamente, entrou no patim.</p>
+
+<p>&mdash;Os senhores j&aacute; l&aacute; v&atilde;o para o theatro, disse-lhe o
+guarda-port&atilde;o.</p>
+
+<p>Gil cuidou morrer de desespero!<span class='pagenum'><a name="Page_160" id="Page_160">[Pg 160]</a></span></p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<h1><a name="XXV" id="XXV"></a>XXV</h1>
+
+
+<p>Alguns esclarecimentos &aacute;cerca de Manuel de Mendon&ccedil;a,
+de quem vossa excellencia e a pallida Martha, ha
+tempos a esta parte, nada tem sabido.</p>
+
+<p>Quando verdadeiramente fascinado pela formosura
+da filha do operario, saiu do hotel Bragan&ccedil;a&mdash;vespera
+da retirada de Jeronymo para sua casa&mdash;o maritimo
+havia-lhes promettido de brevemente os visitar;
+por&eacute;m, reflectindo mais pausadamente sobre esse gravissimo
+assumpto, quiz ainda forcejar com o cora&ccedil;&atilde;o,
+abafando-lhe quanto podesse a chamma que o consumia!</p>
+
+<p>Tudo foi inutil! Ao cabo de dez dias, a pobre alma,
+cada vez mais preza &aacute; recorda&ccedil;&atilde;o de Martha, ia a tal
+ponto identificando-se com ella, que Manuel resolveu de
+si para si, ou sahir immediatamente de Portugal ou pedir
+a filha de Jeronymo.</p>
+
+<p>No dia seguinte ao romper da manh&atilde; j&aacute; elle tinha
+procurado Mascatudo. Fechando-se ambos na camara,
+particip&aacute;ra-lhe a sua resolu&ccedil;&atilde;o.<span class='pagenum'><a name="Page_161" id="Page_161">[Pg 161]</a></span></p>
+
+<p>O marinheiro, cujo unico desejo era a felicidade de
+Manuel, abra&ccedil;ou de boa mente a sua determina&ccedil;&atilde;o: elle,
+que sobretudo n&atilde;o comprehendia a verdadeira ventura
+sem os verdadeiros regozijos da familia!</p>
+
+<p>&mdash;Hoje mesmo, disse-lhe Manuel de Mendon&ccedil;a, ir&aacute;s
+informar-te pela visinhan&ccedil;a sobre a conducta de Martha,
+e se f&ocirc;r como eu supponho, e espero em Deus
+que seja, &aacute;manh&atilde; mesmo irei pedil-a a seu pae.</p>
+
+<p>&laquo;Que me importa que seja uma triste filha do povo,
+se o seu comportamento for virtuoso, pensava Manuel
+de Mendon&ccedil;a, encostando-se &aacute; amurada da sua galera.
+Quem sou eu? continuava elle, um homem sem familia,
+sem parentes! Que me importam os braz&otilde;es dos
+meus antepassados! Em que concorreram elles para
+esta pequena posi&ccedil;&atilde;o que hoje tenho na sociedade?
+Quanto sou, devo-o a mim, e s&oacute; a mim! Est&aacute; decidido,
+em oito dias, Martha ser&aacute; minha mulher.&raquo;</p>
+
+<p>D'alli a meia hora, Mascatudo com o seu fato domingueiro,
+approximou-se de Mendon&ccedil;a.</p>
+
+<p>&mdash;&Aacute; ordem, meu commandante.</p>
+
+<p>&mdash;Est&aacute;s prompto?</p>
+
+<p>&mdash;Prompto.</p>
+
+<p>&mdash;Sabes o servi&ccedil;o que me vaes fazer?</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa!</p>
+
+<p>&mdash;Ser&aacute;s discreto, reservado?</p>
+
+<p>&mdash;Como uma carranca de pr&ocirc;a.</p>
+
+<p>&mdash;Bem estamos. Sabes aonde ella mora?</p>
+
+<p>&mdash;Rua do Meio, &aacute; Lapa.</p>
+
+<p>&mdash;Numero?</p>
+
+<p>&mdash;Cento e doze.</p>
+
+<p>&mdash;Tal e qual. Chegas assim como quem n&atilde;o quer a
+coisa, e pergunta alli pela visinhan&ccedil;a, quem &eacute; pouco
+mais ou menos o Jeronymo; se a sua vida &eacute; moral e
+religiosa, se &eacute; um homem trabalhador, etc., etc.<span class='pagenum'><a name="Page_162" id="Page_162">[Pg 162]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Bem sei como essas coisas se fazem, meu commandante.</p>
+
+<p>&mdash;Em primeiro logar, para que se n&atilde;o desconfie, &eacute;
+falar s&oacute; de Jeronymo; o resto, vem mesmo sem o perguntares.
+Entendes bem?</p>
+
+<p>&mdash;Se entendo... O commandante vem tambem p'ra
+terra?</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o, espero aqui a resposta.</p>
+
+<p>&mdash;Ent&atilde;o &aacute;s ordens, e que a Senhora da Bonan&ccedil;a v&aacute;
+em minha companhia. Descendo para o escaler sentou-se
+&aacute; pr&ocirc;a e mandou remar.</p>
+
+<p>Uma hora depois, Mascatudo entrou n'uma pequena
+tenda da rua da Lapa, que ficava quasi em frente da
+casa de Jeronymo.</p>
+
+<p>Approximou-se do balc&atilde;o e pediu de comer.</p>
+
+<p>&Aacute; propor&ccedil;&atilde;o que comia e bebia, o marujo ia adquirindo
+uma certa intimidade com o caixeiro, offerecendo-lhe
+de vez em quando do seu copo, em que elle
+pegava sem se fazer rogar.</p>
+
+<p>&mdash;Diga-me uma coisa, perguntou emfim Mascatudo.
+D&aacute;-me noticias d'um mestre de obras, que d'antes aqui
+morava, chamado Jeronymo? Ha quantos annos o
+n&atilde;o vejo!</p>
+
+<p>&mdash;Olhe, respondeu o caixeiro, apontando ao mesmo
+tempo para a casa do pae de Martha, ainda alli mora
+n'aquella casinha.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; um bom homem!... E sua mulher ainda vive?</p>
+
+<p>&mdash;Ainda.</p>
+
+<p>&mdash;A filha &eacute; que deve estar uma senhora?</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; toda <i>mystica</i>! disse o caixeiro; e enthusiasmando-se
+com a formosura de Martha, despejou, sem Mascatudo
+lh'o offerecer, o resto do vinho que estava no
+copo.</p>
+
+<p>&mdash;Conheci aquillo uma criancinha, accrescentou Mas<span class='pagenum'><a name="Page_163" id="Page_163">[Pg 163]</a></span>catudo,
+olhando de soslaio para a meia canada que o
+mo&ccedil;oilo acabava de despejar.</p>
+
+<p>&mdash;Ha pouco tempo succedeu uma <i>disinfelicidade</i> ao
+pobre Jeronymo, continuou o caixeiro, que lhe ia custando
+uma grande <i>felicia</i>.</p>
+
+<p>&mdash;Sim? perguntou Mascatudo.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; verdade.</p>
+
+<p>&mdash;Ent&atilde;o como foi isso?</p>
+
+<p>&mdash;Eu lh'o conto. Foi atropellado por um fidalgo muito
+rico, que tem agora um hospital para a rua de S.
+Francisco de Paula, e como elle ficasse muito mal tractado,
+sabe o que o fidalgo fez? levou-o para a hospedaria
+onde estava, tractou d'elle sem lhe faltar nada,
+e por ultimo empregou o, dando-lhe quinze tost&otilde;es por
+dia. Ora veja vossemec&ecirc; como o diabo as tece! Ha
+males que vem por bem! Quem me dera a mim encontrar
+um fidalgo que me atropellasse com a condi&ccedil;&atilde;o
+de me dar, j&aacute; n&atilde;o digo quinze por&eacute;m cinco tost&otilde;es
+por dia. Ha dois annos que estou n'esta maldita casa,
+e o miseravel do patr&atilde;o ainda me n&atilde;o augmentou o
+ordenado. Aqui estou ganhando dois mil reis por mez,
+que como o outro que diz, n&atilde;o me chega nem para
+beber uma pinga aos domingos. Agora por isso, ajuntou
+elle, mudando de tom, creio que j&aacute; despejou todo
+o vinho. Quer que torne a encher?...</p>
+
+<p>&mdash;Encha, respondeu Mascatudo, occultando a custa
+um sorriso.</p>
+
+<p>&mdash;E ainda ahi n&atilde;o fica, como ia dizendo. Em tal
+gra&ccedil;a caiu a sua familia para com os fidalgos, que &eacute;
+raro o dia, em que as meninas n&atilde;o v&eacute;m no seu proprio
+trem buscar a filha de Jeronymo.</p>
+
+<p>&mdash;E ella porta-se bem?</p>
+
+<p>&mdash;Diziam que sim, por&eacute;m agora, j&aacute; ha quem lhe
+rosne no credito. Ora aqui para n&oacute;s tem raz&atilde;o! Uma<span class='pagenum'><a name="Page_164" id="Page_164">[Pg 164]</a></span>
+rapariga t&atilde;o bonita como a Martha, e pobre como &eacute;,
+andar no luxo em que anda!</p>
+
+<p>&mdash;Mas talvez que esse luxo lhe tenha sido dado
+pelas filhas do tal fidalgo, respondeu Mascatudo, sentindo
+um grande estremecimento no cora&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Tambem isso &eacute; verdade; p&oacute;de muito bem ser, e
+n'esse caso ent&atilde;o, n&atilde;o lhe deviam cortar na pelle.</p>
+
+<p>&mdash;E quem &eacute; que lhe corta na pelle?</p>
+
+<p>&mdash;Olhe, alli vem uma das visinhas que n&atilde;o lhe
+faz l&aacute; muito boas ausencias: a tia Monica.</p>
+
+<p>N'esse momento, a beata, de quem o leitor deve
+estar lembrado, involta na sua mantilha de merino
+preto, entrou na tenda.</p>
+
+<p>&mdash;Deus seja n'esta casa, disse ella, olhando ao mesmo
+tempo para Mascatudo.</p>
+
+<p>&mdash;Amen, respondeu este, cravando os olhos no rosto
+cadaverico da intrusa.</p>
+
+<p>&mdash;Ent&atilde;o como vae isso hoje l&aacute; por baixo a respeito
+da febre, perguntou o caixeiro, que j&aacute; sabia que era
+a hora em que ella vinha da baixa.</p>
+
+<p>&mdash;A colera de Deus continua a castigar os peccadores,
+respondeu a misera abaixando ao mesmo tempo
+a cabe&ccedil;a. Hontem, continuou ella, disseram-me que
+houve uma mortandade espantosa. E estes herejes do
+sitio sem fazerem uma prociss&atilde;o como tantas vezes
+lhes tenho pedido!</p>
+
+<p>&mdash;Porque n&atilde;o mette n'isso o mestre Jeronymo? perguntou
+o caixeiro &aacute; tia Monica, piscando ao mesmo
+tempo o olho para Mascatudo.</p>
+
+<p>&mdash;Cruzes! Credo! Virgem da Soledade! Pedir uma
+coisa d'essas a similhante creatura! De que Deus me
+livrasse, sr. Andr&eacute;!</p>
+
+<p>&mdash;Pelo que vejo, n&atilde;o &eacute; muito amiga do nosso visinho!<span class='pagenum'><a name="Page_165" id="Page_165">[Pg 165]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;E como queria o senhor que uma mulher como
+eu fosse amiga de similhante homem?</p>
+
+<p>&mdash;Pois olhe, basta o que elle fez pela tia Marianna,
+para mostrar que tem bom cora&ccedil;&atilde;o. L&aacute; o que &eacute; verdade,
+deve-se dizer sempre! Ha de haver mez e meio,
+proseguiu o caixeiro voltando-se para Mascatudo, foi
+aqui atacada uma mulher pela febre amarella, e ninguem
+se atreveu a entrar em sua casa; a unica pessoa
+que o fez, foi Martha, a filha de Jeronymo. Com
+tanto amor a tractaram, que hoje est&aacute; viva e s&atilde;.</p>
+
+<p>Mascatudo sorriu d'alegria ao ouvir a boa ac&ccedil;&atilde;o de
+Martha.</p>
+
+<p>&mdash;E porque fez elle isso tudo? resmungou a beata.
+S&ocirc; para que depois se dissesse pela visinhan&ccedil;a que
+eram uns santinhos. Que santinhos de pau carunchoso!</p>
+
+<p>&mdash;Seja l&aacute; pelo que f&ocirc;r, o grande caso &eacute; que salvaram
+aquella embarca&ccedil;&atilde;o que ia dar &aacute; costa, acudiu Mascatudo.</p>
+
+<p>&mdash;Pelo que vejo respondeu Monica contemplando o
+marinheiro, vossemec&ecirc; anda sobre as aguas do mar?
+Que o Senhor dos Navegantes, a quem mesmo agora
+acabo de rezar duas esta&ccedil;&otilde;es, o livre de todos os perigos,
+meu filho; e possa tambem a Senhora da Bonan&ccedil;a
+andar sempre em sua companhia. Padre nosso
+que estaes nos c&eacute;os... continuou ella.</p>
+
+<p>&mdash;Ent&atilde;o o que se diz por ahi de Jeronymo, tia Monica,
+perguntou Mascatudo, come&ccedil;ando a tratal-a com
+certa confian&ccedil;a.</p>
+
+<p>&mdash;Ora! O que se ha de dizer! O que se diz sempre
+d'um homem que consente que sua filha esteja f&oacute;ra de
+casa, e que venha a altas horas da noite, muitas vezes
+acompanhada por um individuo, que vem s&oacute;sinho
+com ella dentro d'um trem. Quem elle &eacute; ainda eu n&atilde;o
+pude descobrir, mas, agora que felizmente j&aacute; consegui<span class='pagenum'><a name="Page_166" id="Page_166">[Pg 166]</a></span>
+encaixar-me no hospital e fazer conhecimento com as
+meninas... vou descobrir quem &eacute; o melro.</p>
+
+<p>Mascatudo sentiu um estremecimento por todo o
+corpo. Elle que a julgava pura como um anjo, come&ccedil;ava
+a duvidar da sua virtude. E n&atilde;o tinha mais remedio
+sen&atilde;o contar tudo que ouvira.</p>
+
+<p>&mdash;Agora que j&aacute; tenho l&aacute; entrada como lhe ia dizendo,
+&eacute; que hei de saber qual dos amigos do fidalgo, &eacute; o
+que est&aacute; acostumado a acompanhal-a. E a boa da tia Marianna,
+sempre por toda a parte a dizer d'ella mil maravilhas,
+e eu a saber como os meus dedos, a pe&ccedil;a que
+&eacute; a creancinha! Dizem-me que anda sempre muito triste.
+Deus sabe como ella andar&aacute;! Que Deus me perdoe de
+fazer maus juizos!... exclamou a beata curvando a cabe&ccedil;a.</p>
+
+<p>Outro que n&atilde;o fosse Mascatudo, teria regeitado as
+opini&otilde;es da execravel beata, por&eacute;m ferido por aquella
+primeira impress&atilde;o, o caracter fogoso e ao mesmo tempo
+selvagem do marinheiro, levou-o a acreditar em tudo
+quanto lhe haviam dito! Sem descer a mais indaga&ccedil;&otilde;es,
+e abandonando ao caixeiro a segunda meia canada
+que mandara encher, Mascatudo pagou o que devia,
+e sem quasi se despedir nem d'um nem d'outro,
+saiu apressadamente da loja. Seguindo pela rua da Lapa,
+desceu a rua de S. Domingos, e entrando nas Janellas
+Verdes, alcan&ccedil;ou a rocha do Conde de Obidos,
+aonde embarcou para bordo da galera.</p>
+
+<p>Manuel de Mendon&ccedil;a, passeiando &aacute; pr&ocirc;a, aguardava
+com impaciencia o resultado da commiss&atilde;o do marinheiro.</p>
+
+<p>Os olhos de Mascatudo arrazados de lagrimas, seguiam
+os movimentos do seu commandante. O pobre
+homem receiava os instantes que o approximavam de
+Manuel de Mendon&ccedil;a, afim de lhe participar o que se havia
+passado.<span class='pagenum'><a name="Page_167" id="Page_167">[Pg 167]</a></span></p>
+
+<p>O escaler abordou finalmente &aacute; galera e Mascatudo
+subiu a escada.</p>
+
+<p>&mdash;Que soubeste? perguntou Manuel conduzindo-o &aacute;
+sua camara.</p>
+
+<p>Revestindo-se de valor Mascatudo contou-lhe quanto
+tinha ouvido.</p>
+
+<p>Manuel de Mendon&ccedil;a sorriu-se brandamente, e olhando
+para aquelles horisontes, toldados ent&atilde;o por uma
+neblina espessa, fitou a vista no oceano, como que dizendo-lhe
+que o esperasse.</p>
+
+<p>N'essa mesma noite adoeceu com uma febre gravissima,
+de que lhe resultou estar quinze dias de cama.</p>
+
+<p>Foi durante esse tempo, emquanto ao infeliz, entre
+as vis&otilde;es da febre, se lhe desenhava a imagem da supposta
+peccadora, que Magdalena na varanda do hospital,
+assestava de vez em quando o telescopio para descobrir
+o rasto do commandante da galera.<span class='pagenum'><a name="Page_168" id="Page_168">[Pg 168]</a></span></p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<h1><a name="XXVI" id="XXVI"></a>XXVI</h1>
+
+
+<p>&mdash;Ter&aacute; a bondade de dizer &aacute; sr.&ordf; D. Magdalena que
+est&aacute; aqui a sua pobresinha, dizia a tia Monica voltando-se
+para o guarda-port&atilde;o do hospital.</p>
+
+<p>&mdash;A sr.&ordf; D. Magdalena n&atilde;o p&oacute;de agora recebel-a;
+acha-se &aacute; cabeceira de um doente que est&aacute; por pouco...
+respondeu-lhe o guarda-port&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim, pois sim, v&aacute; sempre dizer-lhe que &eacute; a
+tia Monica, a quem deu ordem para que viesse aqui
+hoje sem falta. Ande, avie-se; ver&aacute; se me fala ou n&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;J&aacute; lhe disse a vossemec&ecirc; o que tinha a dizer-lhe.
+Escusa de me importunar mais.</p>
+
+<p>&mdash;Deixa estar que eu te direi, dizia a velha comsigo.
+Alcance eu o que desejo, e ver&aacute;s como te ponho
+no andar da rua, s&oacute; pelo mal que me est&aacute;s tratando.
+Estejas tu meu traste mais oito dias sem c&aacute; vir, e eu
+te direi, como te ponho tambem no meio da rua, minha
+Martasinha.</p>
+
+<p>&mdash;Ent&atilde;o vossemec&ecirc;, vae ou n&atilde;o vae! ajuntou a tia
+Monica em voz alta, voltando-se de novo para o porteiro.<span class='pagenum'><a name="Page_169" id="Page_169">[Pg 169]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;E ella a dar-lhe, e a burra a fugir, disse o guarda-port&atilde;o,
+voltando-lhe a cara para a banda, e continuando
+a varrer o patim. Se vossemec&ecirc; continua a atormentar-me
+subo l&aacute; acima e digo ao mestre Jeronymo
+que lhe pegue por um bra&ccedil;o e que a ponha f&oacute;ra da
+porta. Forte impertinente! cruzes, canhoto!</p>
+
+<p>&mdash;Ora sempre haviamos de ver isso, se o tal mestre
+Jeronymo seria capaz de p&ocirc;r no meio da rua uma
+pessoa mandada aqui vir por uma das filhas do dono
+da casa! Fa&ccedil;a isso, sr. Antonio, at&eacute; desejo que o fa&ccedil;a.
+Ande, ent&atilde;o...</p>
+
+<p>N'este momento, uma enfermeira que vinha de jantar,
+entrou apressadamente no hospital.</p>
+
+<p>&mdash;Tem a bondade de dizer &aacute; sr.&ordf; D. Magdalena que
+est&aacute; aqui a tia Monica, e que lhe vem trazer a resposta
+d'aquelle recado que lhe encarregou, disse a beata,
+perseguindo a mulher.</p>
+
+<p>&mdash;Farei entregue, respondeu a enfermeira, subindo
+apressadamente a escadaria.</p>
+
+<p>&mdash;Vossemec&ecirc; n&atilde;o tem vergonha de estar assim com
+essa teima?</p>
+
+<p>&mdash;Pois veremos quem vence&mdash;se sou eu ou se &eacute;
+vossemec&ecirc;; e sentando-se tranquillamente sobre um
+dos bancos da entrada, a tia Monica come&ccedil;ou a olhar
+para o enraivecido porteiro, com um modo insolente
+e provocador.</p>
+
+<p>Cinco minutos depois, desceu a mesma enfermeira,
+dizendo lhe da parte da sr.&ordf; D. Magdalena que fosse
+ter com ella ao terceiro andar.</p>
+
+<p>A velha, radiante de gloria e de regosijo, fixou o
+porteiro do alto da sua magestade, e despedindo-lhe
+um olhar de compaix&atilde;o, subiu afoita as escadas, promettendo
+a si mesma vingar-se do pobre homem, logo
+que o ensejo lhe fosse favoravel.</p>
+
+<p>A principio, o porteiro rugiu de colera, por&ecirc;m, ven<span class='pagenum'><a name="Page_170" id="Page_170">[Pg 170]</a></span>do
+a inutilidade do seu mau genio, conformou-se com
+a sorte, e empunhando de novo a vassoura continuou
+na sua constante opera&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>Magdalena, ao ouvir as palavras da enfermeira, encarregou
+a sua irm&atilde; o moribundo, e subiu logo ao
+terceiro andar, aonde mandaram conduzir a velha.</p>
+
+<p>Quando ella entrou, Magdalena, encostada &aacute; varanda,
+contemplava o Tejo, no Tejo a galera, na galera
+Manuel de Mendon&ccedil;a, e n'esse a vida que para ella lhe
+fugia!</p>
+
+<p>&mdash;Bons dias, santinha! disse ella approximando-se
+da tia Monica.</p>
+
+<p>&mdash;Muitos bons dias, meu anjinho, replicou a asquerosa
+beata tentando beijar a m&atilde;o que Magdalena lhe
+extendia. J&aacute; lhe disse que n&atilde;o quero ver esse rosto
+t&atilde;o pallido, minha rosa desbotada. Anime-se, ande, ria-se
+para mim.</p>
+
+<p>&mdash;Soube alguma cousa? perguntou Magdalena.</p>
+
+<p>&mdash;Alguma coisa se soube. Ainda n&atilde;o &eacute; tudo quanto
+desejamos; mas de c&aacute; se vae a l&aacute;, como dizem os hespanhoes.
+Um amigo d'um sobrinho meu, que est&aacute; na
+armada, foi a quem encarreguei. Hoje, seriam oito horas
+da manh&atilde;, quando eu vinha de ouv&iacute;r as minhas
+missas, e de pedir a Deus pela minha querida menina,
+senti baterem-me &aacute; porta, abri, e era o Manuel, o tal
+rapazola. &laquo;Que temos?&raquo; perguntei-lhe eu. &laquo;Que havemos
+de ter? J&aacute; soube onde p&aacute;ra o tal individuo, e
+quem elle &eacute;&raquo; respondeu Manuel.</p>
+
+<p>&mdash;E quem &eacute; elle? perguntou avidamente a filha de
+Trist&atilde;o de Almeida.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; o commandante da galera Esperan&ccedil;a. Tem estado
+muito doente. Ha mais de quinze dias que n&atilde;o
+sae de bordo!</p>
+
+<p>&mdash;Meu Deus! disse Magdalena, eis o motivo porque
+nunca mais o p&ocirc;de ver!<span class='pagenum'><a name="Page_171" id="Page_171">[Pg 171]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Quanto ao resto, accrescentou a beata, posso-lhe
+dizer quasi com toda a certeza, que alli anda cousa, e
+anda por isto:&mdash;Ha tempos estando eu na tenda do
+Melro, entrou um homem de tracto do mar e come&ccedil;ou
+a perguntar informa&ccedil;&otilde;es de Martha. Esse individuo
+n&atilde;o tinha sido sen&atilde;o alguem mandado por elle, para
+saber se se portava bem ou mal.</p>
+
+<p>&mdash;E o que lhe respondeu, tia Monica?</p>
+
+<p>&mdash;Que queria a menina que lhe respondesse! P&oacute;de-se
+julgar mal d'uma pessoa que anda na companhia
+de dois anjos, como as minhas duas meninas? Embora
+eu soubesse quem esta familia &eacute;, a minha bocca nunca
+se me teria aberto para dizer similhante coisa!</p>
+
+<p>&mdash;Parece-lhe portanto que as minhas suspeitas eram
+bem fundadas?</p>
+
+<p>&mdash;Se me parece! E fa&ccedil;a se bem! As meninas a protegerem
+aquelle traste, e ella pagando-lhes assim!</p>
+
+<p>&mdash;Isso n&atilde;o, tia Monica! Pobre rapariga, que culpa
+tem ella do que se passa no meu cora&ccedil;&atilde;o? O mal que
+me est&aacute; causando &eacute; involuntario, e t&atilde;o involuntario
+que ella propria o desconhece; e demais, se ha alguem
+culpado em tudo isto, sou eu, eu apenas.</p>
+
+<p>&mdash;E pensa a menina, que um rapaz como esse tal
+sr. Manuel de Mendon&ccedil;a, possa descer a olhar para
+uma mechanica? uma reles filha d'um operario, tendo
+a palpitar pela sua pessoa, um cora&ccedil;&atilde;o nobre e generoso
+como o da minha rica menina? Para que havia
+Manuel de Mendon&ccedil;a querer a filha d'um operario: s&oacute;
+se fosse para ser sua criada.</p>
+
+<p>&mdash;Pois olhe, tia Monica, veja como eu sou, se tivesse
+a certeza de que Martha era de ha muito amada
+por Manuel de Mendon&ccedil;a, creia que embora eu morresse
+de paix&atilde;o, seria capaz de me sacrificar, a ponto de
+ser eu a propria madrinha do seu casamento. Hontem
+estava pensando n'isso. Mas o que eu queria, era ter<span class='pagenum'><a name="Page_172" id="Page_172">[Pg 172]</a></span>
+uma certeza. Se o que tem conservado Martha n'aquelle
+estado, &eacute; uma paix&atilde;o, serei eu a propria, embora
+d'isso me resulte a morte, a fazer todas as diligencias
+de os reunir. Se elle f&ocirc;r nobre, pedirei a meu pae,
+que tire de meu dote alguns contos de r&eacute;is, para collocar
+aquella pobre crian&ccedil;a n'uma posi&ccedil;&atilde;o que lhe n&atilde;o
+envergonhe os seus pergaminhos. Por&eacute;m se esse amor
+que eu supponho existir no cora&ccedil;&atilde;o de Martha,
+n&atilde;o f&ocirc;r mais do que uma desconfian&ccedil;a, ent&atilde;o Monica,
+se lhe n&atilde;o f&ocirc;r indifferente, rico ou desventurado, nobre
+ou plebeu, Manuel de Mendon&ccedil;a ser&aacute; o meu esposo,
+porque o amo muito, muito, tia Monica!</p>
+
+<p>E a pobre Magdalena, tremula e offegante, debalde
+tentava occultar as lagrimas que a suffocavam!</p>
+
+<p>Era muito de ver-se o contraste d'estas duas creaturas!
+Magdalena, o amor, a generosidade, a pureza
+de affectos! Monica, a mentira, a ambi&ccedil;&atilde;o, a crapula
+emfim de todos os sentimentos!</p>
+
+<p>Alma candida e inexperiente, n&atilde;o avaliava sequer
+a immensa distancia que as separava. A pomba approximava-se
+d'aquelle asqueroso reptil, sem comprehender
+com quantas voltas lhe poderia enrolar o seu
+pesco&ccedil;o de neve!</p>
+
+<p>Ao escutar aquellas palavras que t&atilde;o claramente denunciavam
+a ingenuidade da sua alma, a tia Monica julgou
+perder a partida. Al&eacute;m dos lucros que esperava
+obter servindo de intermediaria n'aquelles amores, havia
+um outro sentimento que a dominava, mais forte
+talvez que o primeiro: o desejo de se vingar da familia
+de Jeronymo! Desejo infundado, sem motivo algum,
+explicado apenas por aquella profunda inveja que os
+bons mais ou menos inspiram aos que o n&atilde;o s&atilde;o nem
+o desejam ser!</p>
+
+<p>Envenenando-lhe o seio com o ervado punhal do ciume,
+a tia Monica poderia fazer com que retirassem a<span class='pagenum'><a name="Page_173" id="Page_173">[Pg 173]</a></span>
+sua protec&ccedil;&atilde;o ao mestre de obras. Poderia fazer com
+que Magdalena, odiando a pobre Martha, lhe roubasse
+a pessoa a quem ella amava, ficando apenas reduzida
+&aacute; miseria e ao descredito que por toda a parte lhe proclamava.</p>
+
+<p>Eram estas as suas id&eacute;as, id&eacute;as que principiavam a
+desvanecer se, &aacute; propor&ccedil;&atilde;o que ia lendo na alma de
+Magdalena toda a grandeza d'aquelle cora&ccedil;&atilde;o, immenso
+como a agonia que o dilacerava!</p>
+
+<p>&mdash;Veja, continuava Magdalena, se por esse individuo,
+me p&oacute;de saber, custe o que custar, se Manuel de
+Mendon&ccedil;a escreve a Martha, se a v&ecirc;, ou se por ultimo
+se encontram.</p>
+
+<p>&mdash;E se por ventura se amarem? perguntou rapidamente
+a beata.</p>
+
+<p>&mdash;Aben&ccedil;oal-os-hei! respondeu Magdalena como se ao
+pronunciar estas palavras se lhe rasgasse o cora&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;E se n&atilde;o se amam! insistiu a velha.</p>
+
+<p>&mdash;Ser&aacute; meu, disse Magdalena com uma voz debil e
+melancholica. Tirando depois algumas moedas de prata
+de dentro de um <i>porte-monnaie</i>, entregou-as &aacute; tia Monica.</p>
+
+<p>&mdash;Se elles n&atilde;o se amassem! pensava Magdalena ao
+despedir-se da velha.</p>
+
+<p>&mdash;Se Deus me ajudasse! repetia a tia Monica sahindo
+do gabinete.<span class='pagenum'><a name="Page_174" id="Page_174">[Pg 174]</a></span></p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<h1><a name="XXVII" id="XXVII"></a>XXVII</h1>
+
+
+<p>Ao cabo de quinze dias, gra&ccedil;as &aacute; sua robusta complei&ccedil;&atilde;o,
+Manuel de Mendon&ccedil;a p&ocirc;de subir ao convez, esperando,
+dizia elle, conseguir com a brisa do mar completo
+restabelecimento.</p>
+
+<p>Mas n&atilde;o era esse apenas o motivo que alli o conduzia.
+Mascatudo havia-lhe dito na vespera, que da galera
+se via perfeitamente o edificio do hospital, e quasi todos
+os dias, depois da uma hora da tarde se divisava
+um vulto na varanda, assestando o oculo na direc&ccedil;&atilde;o
+do barco.</p>
+
+<p>Achando se completamente restabelecido, Manuel de
+Mendon&ccedil;a pegou no seu magnifico telescopio e dirigiu-se
+&aacute; pr&ocirc;a do navio afim de descobrir quem t&atilde;o assiduamente
+o espreitava.</p>
+
+<p>Ao v&ecirc;r o edificio que Mascatudo lhe design&aacute;ra, j&aacute; o
+seu olhar de lynce havia descoberto que alguem o estava
+observando.</p>
+
+<p>Manuel de Mendon&ccedil;a levantou o seu oculo, e descobriu
+o rosto pallido e insinuante de Magdalena.</p>
+
+<p>N&atilde;o era esse o semblante que elle cuidava encon<span class='pagenum'><a name="Page_175" id="Page_175">[Pg 175]</a></span>trar;
+comtudo, continuou por alguns segundos esperando
+ainda descobrir a imagem que durante a sua terrivel
+enfermidade o havia perseguido. Mas tal n&atilde;o succedeu.
+Magdalena continuando a olhar, parecia n&atilde;o perder
+um segundo da sua persistente observa&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>Desalentado, metteu o oculo debaixo do bra&ccedil;o, e caminhou
+serenamente para a r&eacute;.</p>
+
+<p>Ent&atilde;o um milh&atilde;o de reminiscencias lhe acudiu &aacute; memoria.
+Lembrou-se d'aquelle dia em que Magdalena o
+contempl&aacute;ra t&atilde;o demoradamente, quando f&ocirc;ra visitar
+Jeronymo.</p>
+
+<p>&laquo;Quem sabe, pensou elle, se esta mulher me ama, e
+se lan&ccedil;ou m&atilde;o d'alguma intriga para desconceituar a
+meus olhos a filha do operario? Se tal fosse! Veremos
+o que pensa Mascatudo. N&atilde;o fa&ccedil;amos juizos temerarios.
+Que importa que eu v&aacute; visitar seu pae? N&atilde;o
+lh'o prometti eu?&raquo;</p>
+
+<p>Erguendo o seu telescopio, Manuel assestou-o pela
+segunda vez na direc&ccedil;&atilde;o do hospital, onde Magdalena
+se conservava ainda no seu posto de observa&ccedil;&atilde;o. O
+maritimo, voltando as costas desceu &aacute; camara onde
+Mascatudo o aguardava.</p>
+
+<p>Quem n'esse momento tivesse entrado no hospital
+da rua de S. Francisco de Paula, e houvesse subido
+aquelle terceiro andar, onde Magdalena se achava, teria
+ouvido o som da queda de um corpo e uma voz entrecortada
+pelos solu&ccedil;os, soltando estas palavras:</p>
+
+<p>&mdash;Amam-se, n&atilde;o ha duvida!</p>
+
+<p>&mdash;Maldito caldo de gallinha, puff, est&aacute; a escaldar!
+dizia uma outra voz. Era a de Olympia.<span class='pagenum'><a name="Page_176" id="Page_176">[Pg 176]</a></span></p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<h1><a name="XXVIII" id="XXVIII"></a>XXVIII</h1>
+
+
+<p>Gra&ccedil;as aos rasgos de valor e profunda dedica&ccedil;&atilde;o que
+o dono do hospital da rua de S. Francisco de Paula espalhava
+a cada a hora sobre a cidade de Lisboa, o seu
+nome tornou-se popular.</p>
+
+<p>Todos &aacute; uma desejavam encontrar esse homem, que,
+arriscando constantemente n&atilde;o s&oacute; a sua preciosa existencia,
+como tambem a de sua mulher e duas filhas, se
+chegava hoje ao leito do moribundo com palavras consoladoras,
+&aacute;manh&atilde; amortalhava o cadaver de outro por
+cuja existencia batalh&aacute;ra at&eacute; a ultima. Era de justi&ccedil;a,
+mais do que justi&ccedil;a, indispensavel at&eacute; conceder-se-lhe
+a merc&ecirc; em que sua magestade dias antes havia falado
+com o ministro do reino, segundo este havia dito ao
+visconde de Coruche.</p>
+
+<p>Uma manh&atilde; em que o visconde, fazendo a sua demorada
+<i>toilette</i>, se preparava para ir ao hospital, foi
+procural-o o conselheiro Poderosa.</p>
+
+<p>&mdash;Sua magestade encarregou-me hontem de te procurar,
+fiado na amisade que existe entre ti e o Trist&atilde;o
+da Almeida.<span class='pagenum'><a name="Page_177" id="Page_177">[Pg 177]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Estou &aacute;s ordens de sua magestade, respondeu o
+visconde.</p>
+
+<p>&mdash;El-rei deseja agraciar Trist&atilde;o de Almeida com o
+titulo de conde, e mandou-me que te viesse procurar
+com o fim de lhe perguntares qual o nome que deseja
+juntar ao titulo.</p>
+
+<p>&mdash;Quanto agrade&ccedil;o a honra que el-rei me dispensa,
+fazendo-me intermediario para um acto de tanta justi&ccedil;a!
+Tencionava hoje passar o dia em casa, mas, em
+virtude das ordens de el-rei, corro immediatamente a
+casa do meu amigo, afim de lh'o participar, e juntamente
+pedir-lhe que me diga o nome que deseja juntar
+a esse titulo.</p>
+
+<p>&mdash;Nunca se fez um acto de maior justi&ccedil;a, disse o
+conselheiro.</p>
+
+<p>&mdash;Escuso de te repetir que sou da mesma opini&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Realmente, tem-se portado como um heroe.</p>
+
+<p>&mdash;E suas filhas?! e sua mulher! parece impossivel
+como tenham escapado a tantos perigos, acudiu o visconde.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; um verdadeiro milagre da Providencia. Mas,
+aqui para n&oacute;s, visconde, quem ser&aacute; esse Trist&atilde;o de Almeida?</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa! Trist&atilde;o de Almeida, segundo elle o diz,
+e eu o creio, descende d'uma das principaes familias
+de Monforte. Seu pae, homem d'um caracter excentrico
+e ao mesmo tempo muito gastador, quando se encontrou
+completamente arruinado, mandou este rapaz e um
+outro irm&atilde;o para Val-Paraiso, para casa d'um primo que
+alli estava estabelecido com uma riqueza enorme. Vasco,
+seu irm&atilde;o mais velho, ficou empregado na casa gerindo
+os negocios de seu primo, de quem era o unico
+herdeiro, emquanto que Trist&atilde;o dotado de um genio
+mais energico e emprehendedor, seguiu uma vida aventureira.
+Ao cabo de cinco annos, isto pe&ccedil;o-te que n&atilde;o<span class='pagenum'><a name="Page_178" id="Page_178">[Pg 178]</a></span>
+contes a pessoa alguma, que foi dito confidencialmente
+por Trist&atilde;o, ao cabo de cinco annos repito, j&aacute; elle tinha
+feito cinco viagens a salvo, introduzindo na Havana
+uma grande por&ccedil;&atilde;o de Chins. Feliz em todos os negocios
+que emprehendia, Trist&atilde;o d'alli a dez annos estava
+archi-millionario. Achando-se uma occasi&atilde;o em Buenos
+Ayres viu n'um jornal que havia fallecido o seu
+parente, tendo deixado por unicos herdeiros a elle e a
+seu irm&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;E seu pae? interrompeu o conselheiro.</p>
+
+<p>&mdash;J&aacute; tinha morrido a esse tempo.</p>
+
+<p>&mdash;Dias depois partiu para Val-Paraiso. A riqueza que
+seu primo deixara estava calculada em quatro mil contos.
+Ao cabo de um mez teve a desgra&ccedil;a de perder o
+irm&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Que fatalidade! murmurou o conselheiro.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; verdade! v&ecirc; tu que fatalidade! Trist&atilde;o, continuou
+o visconde, reduziu toda a fortuna a dinheiro e
+partiu para a Europa, onde annos depois se casou com
+D. Maria Egypciaca, senhora do Minho, com quem fizera
+conhecimento uma das vezes que viera a Portugal.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; um romance a vida d'esse homem.</p>
+
+<p>&mdash;Tem coisas admiraveis! disse o visconde.</p>
+
+<p>&mdash;Com que ent&atilde;o, acudio o conselheiro, a sua fortuna
+p&oacute;de calcular-se em...</p>
+
+<p>&mdash;Cinco ou seis mil contos.</p>
+
+<p>&mdash;J&aacute; se p&oacute;de passar com isso!</p>
+
+<p>&mdash;Agora, disse o visconde, &eacute; um homem d'uma generosidade
+incalculavel! Se tem cahido nas m&atilde;os dalguns
+individuos que n&oacute;s conhecemos...</p>
+
+<p>&mdash;Haveriam tirado um grande partido da sua bolsa,
+emquanto que tu...</p>
+
+<p>&mdash;Como gra&ccedil;as a Deus n&atilde;o preciso recorrer a ella;
+mas, se o fizesse, tenho toda a certeza que sempre a
+encontraria disposta a abrir-se-me.<span class='pagenum'><a name="Page_179" id="Page_179">[Pg 179]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Eu tambem n&atilde;o digo que tenhas precis&atilde;o, mas
+um homem d'esses, pode-se aproveitar para qualquer
+empreza, grande j&aacute; se v&ecirc;, e de que outros tirassem
+bom partido, tirando o elle tambem.</p>
+
+<p>&mdash;Ainda n&atilde;o pensei n'isso.</p>
+
+<p>&mdash;E as filhas s&atilde;o bonitas?</p>
+
+<p>&mdash;Uma d'ellas, Magdalena, &eacute; um anjo de bondade e
+formosura.</p>
+
+<p>&mdash;E a outra?</p>
+
+<p>&mdash;Olympia? Tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute; feia, mas &eacute; muito gorda.
+Essa representa o estomago, e a sua irm&atilde; o cora&ccedil;&atilde;o.
+Magdalena ama, suspira e desfaz-se em sentimento.
+Olympia come, dorme, e emquanto dorme sonha no que
+ha de comer ao despertar. Af&oacute;ra isso, &eacute; uma creatura
+esplendida.</p>
+
+<p>&mdash;Eis a mulher que me convinha, disse o conselheiro.
+Confesso-te que j&aacute; n&atilde;o tenho outra distrac&ccedil;&atilde;o sen&atilde;o
+a meza. Seria capaz de me casar n&atilde;o pelo cora&ccedil;&atilde;o mas
+sim pelo estomago! Que verdadeiro achado seria para
+mim essa Olympia! Uma mulher com bom paladar, que
+deve infallivelmente saber fazer muito bons doces. Que
+dorme muito e que come muito!</p>
+
+<p>&mdash;Mas tu d'antes n&atilde;o eras assim! disse o visconde
+accendendo um charuto. O teu typo era a mulher magra,
+vaporosa, sentimental. Gostavas das olheiras, das
+rosetas da febre, e sobretudo da pontinha de tosse, como
+regularmente se diz.</p>
+
+<p>&mdash;Isso foi antigamente, meu amigo, quando eu tinha
+vinte annos, e conservava intacta a riqueza que herdei
+de meus paes. Por&eacute;m agora, n&atilde;o; prefiro a mulher
+sadia, forte, que possa ser uma boa ama de leite para
+me crear os garotos, se porventura Deus me quizer
+conceder os deleites da paternidade.</p>
+
+<p>&mdash;Como tu est&aacute;s mudado, Jo&atilde;o!<span class='pagenum'><a name="Page_180" id="Page_180">[Pg 180]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Que queres? s&atilde;o as circumstancias que me fazem
+assim pensar.</p>
+
+<p>&mdash;Pois meu amigo, habil&iacute;ta-te e ter&aacute;s em Olympia a
+mulher que te conv&eacute;m. Junta a todas essas qualidades,
+um dote de trezentos a quatrocentos contos de r&eacute;is. Que
+tal, hein? Agora s&oacute; te pe&ccedil;o uma coisa: se &aacute; for&ccedil;a da tua
+vontade, ajudada pelos meus esfor&ccedil;os, conseguires realizar
+este sonho...</p>
+
+<p>&mdash;Dir&aacute;s.</p>
+
+<p>&mdash;Has de fazer um novo fardamento ao teu guarda-port&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Approvo e desde j&aacute; t'o prometto! Se Olympia f&ocirc;r
+minha, o meu guarda-port&atilde;o ter&aacute; outro fardamento.
+Mas agora serio, ajuntou o conselheiro, eu ainda n&atilde;o
+estou feio de todo, falam por ahi do meu talento, sou
+filho de gente fina, que mulher se poder&aacute; esquivar a
+conceder-me a sua m&atilde;o, muito mais, estando eu nas
+disposi&ccedil;&otilde;es em que me encontro, que &eacute; viver pura e
+simplesmente para comer e dormir e depois accordar
+para tornar a comer, sem que minha mulher nem os
+criados de casa me ou&ccedil;am levantar a voz, a n&atilde;o ser
+que os pequenos me venham interromper o somno,
+amotinando me os ouvidos com algum tambor de feira?</p>
+
+<p>&mdash;Estou d'accordo comtigo, e tanto, que se me falas
+serio, mas bem serio, entendes, farei com que Olympia
+te encontre alguma vez, e se te guiares pelos meus
+conselhos, vencer&aacute;s a batalha. Se por ventura a f&ocirc;res
+visitar ao hotel e falares com a tua futura, n&atilde;o te approximes
+da janella, erguendo olhares inspirados para
+o Tejo; n&atilde;o, longe d'isso, faz um gesto de profunda medita&ccedil;&atilde;o,
+engatilhando ao mesmo tempo o ouvido em direc&ccedil;&atilde;o
+ao corredor e aspirando o aroma das iguarias
+que se espalha na atmosphera. N&atilde;o fales nem de flores
+nem de estrellas, discute-lhe as empadas do Jos&eacute;
+Rom&atilde;o, e os pasteis de nata da rua da Rosa. N&atilde;o lhe<span class='pagenum'><a name="Page_181" id="Page_181">[Pg 181]</a></span>
+fales de Dumas nem de Eugenio Sue, conta-lhe a biographia
+de Vatel, promette-lhe a phisiologia de paladar
+de Brillat Savarin, e conta lhe isto, com os olhos
+radiantes de enthusiasmo, e as faces incendiadas pelo
+quinto peccado. Se assim fizeres, Olympia ter&aacute; um conselheiro
+e o teu guarda-port&atilde;o um fardamento novo!</p>
+
+<p>&mdash;Convem-me, respondeu o conselheiro, e tu, ajuntou
+elle, porque n&atilde;o aproveitas a poetica Magdalena?
+O teu espirito ainda &aacute;s vezes infantil e sonhador, casar-se-ia
+admiravelmente com a sua organiza&ccedil;&atilde;o. Ent&atilde;o
+&eacute; que era, visconde: n&oacute;s os amigos de tantos annos,
+casados com duas irm&atilde;s, que representavam j&aacute;
+oitocentos contos e que representariam seis mil para o
+futuro!</p>
+
+<p>&mdash;Se o quizesse fazer, n&atilde;o tinha sen&atilde;o dar o meu
+sim. Se tu soubesses o que tem ido por essa casa a
+meu respeito! Magdalena ama-me desde o primeiro dia
+que me viu. Orgulhosa de mais nunca se atreveu a declarar
+me o seu amor, mas de sobejo se lhe l&ecirc; no
+olhar com que me contempla, na voz que lhe estremece
+quando por ventura me dirige a palavra, no gesto cuja
+melancolia me chega &aacute;s vezes a causar remorso. Eu
+tenho sempre feito que nada comprehendo, por&eacute;m seu
+pae n&atilde;o o ignora nem a m&atilde;e. Falta s&oacute; dizerem-me em
+voz clara, o sentimento que a minha presen&ccedil;a inspirou
+&aacute; filha.</p>
+
+<p>&mdash;Pois acho que fazes uma grande asneira, disse o
+conselheiro.</p>
+
+<p>&mdash;Eu &aacute;s vezes tamb&eacute;m assim penso, mesmo porque
+talvez venha no futuro a sentir remorsos de ter concorrido
+para a morte d'aquella crean&ccedil;a. Se tu soubesses
+quanto soffre. Aquelle ardente desespero com que
+Magdalena se lan&ccedil;a a todos os perigos, penso eu &aacute;s vezes
+ser mais vontade que tem de morrer para n&atilde;o af<span class='pagenum'><a name="Page_182" id="Page_182">[Pg 182]</a></span>frontar
+a minha indifferen&ccedil;a, do que realmente caridade.</p>
+
+<p>&mdash;Mas porque motivo n&atilde;o lhe retribues tu com
+muito amor, o affecto que essa crean&ccedil;a te consagra?</p>
+
+<p>&mdash;Porque a n&atilde;o amo, Jo&atilde;o. E como, gra&ccedil;as a Deus,
+n&atilde;o estou na posi&ccedil;&atilde;o de me casar por necessidade, n&atilde;o
+quero sacrificar os longos annos que ainda me restam
+de vida, passando os ao lado de uma mulher, que nada
+tem a desejar, mas pela qual o meu cora&ccedil;&atilde;o n&atilde;o
+palpita de amor. O motivo &eacute; este, apenas este.</p>
+
+<p>&mdash;Tens-me falado com seriedade em tudo isto? acudiu
+o conselheiro depois de alguns instantes de profunda
+reflex&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Dou-te a minha palavra de honra que tenho.</p>
+
+<p>O visconde n&atilde;o mentia. Fiado ainda na sua belleza
+proverbial, e afeito a que todas as mulheres o estremecessem,
+pensou que esse sentimento que a pobre
+Magdalena nutria em silencio por Manuel de Mendon&ccedil;a,
+era o resultado de uma paix&atilde;o que elle lhe havia inspirado.</p>
+
+<p>Orgulhoso do seu nome, o visconde, apezar da inquestionavel
+vantagem que lhe poderia resultar d'esse
+enlace, n&atilde;o queria, diremos, baixar da sua dignidade
+entregando-se n'uma facil conquista, a essa mulher cujo
+cora&ccedil;&atilde;o o estremecia, a quem elle nunca poderia ter
+sido indifferente, attendendo &aacute; sua formosura e altas
+virtudes que a distinguiam.</p>
+
+<p>Viu n'um relancear de olhos o proveito que poderia
+tirar, arranjando o casamento do conselheiro com a irm&atilde;
+de Magdalena. Por essa f&oacute;rma viveria mais em familia,
+e se um dia, exasperada de amor e incendiada
+de paix&atilde;o, Magdalena se lan&ccedil;asse em seus bra&ccedil;os, pedindo-o
+em casamento, elle ent&atilde;o do alto do seu throno
+de vaidade, extenderia a m&atilde;o para lhe dar um sim<span class='pagenum'><a name="Page_183" id="Page_183">[Pg 183]</a></span>
+de protec&ccedil;&atilde;o. Eram estas as suas id&eacute;as, as que elle estreitamente
+guardava no fundo da sua alma.</p>
+
+<p>Por isso n&atilde;o mentia, quando respondeu ao conselheiro
+que lhe estava falando a serio.</p>
+
+<p>&mdash;Pois ent&atilde;o, disse Jo&atilde;o Poderosa, visto n&atilde;o me teres
+illudido, digo-te tambem, e muito de cora&ccedil;&atilde;o t'o
+pe&ccedil;o, que me auxilies n'esta tentativa, cuja realiza&ccedil;&atilde;o
+p&oacute;de fazer a tua e a minha felicidade. Pensa nos meios
+que temos a empregar; dirige-me em tudo se te apraz;
+serei um automato se m'o exigires, mas colloca-me ao
+contacto d'essa mulher. Agora, accrescentou elle, como
+se um mundo novo se desenrolasse a seus olhos, vou
+contar a el-rei o que se passou comtigo, e logo, sendo
+sete horas, antes de ir para o theatro, aqui te venho
+buscar. Ficamos certos?</p>
+
+<p>&mdash;Pois n&atilde;o, respondeu o visconde, e &aacute; f&eacute; de quem
+sou te prometto, que em menos de um mez, Olympia
+ser&aacute; tua mulher.</p>
+
+<p>Despedindo-se do visconde, o conselheiro seguiu
+para o pa&ccedil;o.</p>
+
+<hr class="bookstyle"/>
+
+<hr class="bookstyle"/>
+
+<p>&laquo;Vae tudo &aacute;s mil maravilhas, pensava elle. Com esta
+missiva official farei de Trist&atilde;o quanto me aprouver!
+Tenho at&eacute; a certeza que obteria a m&atilde;o de Magdalena.
+E porque n&atilde;o hei de requisital-a? Requisital-a n&atilde;o, que
+ella m'a requisite. Se eu me curvava &aacute; filha de um
+Trist&atilde;o de Almeida! Parece-me mais razoavel, accrescentou
+o visconde depois de alguns momentos de graves
+locubra&ccedil;&otilde;es, fazer com que o Poderosa consiga a m&atilde;o
+de Olympia; feito isso serei eu a entrar em scena. Por
+agora n&atilde;o, tratemos apenas do titulo. Quem tudo quer
+tudo perde!&raquo;</p>
+
+<p>Vestindo-se em seguida, montou n'um magnifico ca<span class='pagenum'><a name="Page_184" id="Page_184">[Pg 184]</a></span>vallo
+inglez, e partiu a trote largo, dirigindo se para
+o hospital.</p>
+
+<p>Proximo &aacute; cal&ccedil;ada do marquez de Abrantes, viu que
+um homem o chamava de dentro de um trem. Estacando
+de repente o cavallo, approximou-se do postigo da
+sege.</p>
+
+<p>Era Gil de Carvalho.</p>
+
+<p>&mdash;Encontrei-o emfim, disse o jogador. Ent&atilde;o onde
+se p&oacute;de ver o seu amigo Trist&atilde;o de Almeida?</p>
+
+<p>&mdash;Aonde se p&oacute;de ver? por ahi, respondeu o visconde.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o &eacute; isso o que eu queria dizer; perguntava
+aonde elle joga para lhe pagar as cem libras que sabe.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! o meu amigo Trist&atilde;o de Almeida? esse j&aacute;
+n&atilde;o joga, respondeu o visconde, mas se lhe quer pagar
+as cem libras, entregue-m'as, que eu lh'as darei.</p>
+
+<p>&mdash;Peior &eacute; essa! exclamou Gil de Carvalho, suspendendo
+o movimento que fizera para tirar as notas da
+algibeira.</p>
+
+<p>&mdash;Ent&atilde;o n&atilde;o quer que lh'as entregue? repetiu o
+visconde, que come&ccedil;ava a desconfiar da velhacaria do
+jogador.</p>
+
+<p>&mdash;Suppuz que vinha prevenido, mas enganei-me,
+respondeu Gil de Carvalho. &Aacute;manh&atilde; passarei por sua
+casa.</p>
+
+<p>&mdash;Pois ent&atilde;o adeus, meu amigo, disse o visconde,
+batendo as pernas ao cavallo.</p>
+
+<p>Deixemos o visconde e Trist&atilde;o de Almeida no jardim
+do hospital discutindo &aacute;cerca do nome que tencionam
+escolher para o titulo, e subindo pela rua do
+Conde, vamos a casa da pobre Martha, de quem n&atilde;o
+sabemos desde aquelle dia em que se prostrou sem
+sentidos ao ouvir a historia do mestre de obras.<span class='pagenum'><a name="Page_185" id="Page_185">[Pg 185]</a></span></p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<h1><a name="XXIX" id="XXIX"></a>XXIX</h1>
+
+
+<p>Magdalena, ao ver a cruel realidade das suas suspeitas,
+resolveu esmagar nos seios d'alma aquelle affecto
+que lhe era vida, e dirigindo-se a casa de Martha, exigir
+da sua amizade a revela&ccedil;&atilde;o de todos os segredos.</p>
+
+<p>Havia dias que a pobre crian&ccedil;a, cada vez mais enfraquecida,
+parecia levantar os olhos a Deus, como
+pedindo-lhe pela sua infinita misericordia que a recolhesse
+na paz divina de seus bra&ccedil;os.</p>
+
+<p>Balbina e Jeronymo, sem se retirarem um s&oacute; momento
+do lado de sua filha, erguiam de vez em quando
+os seus olhos supplices e inquietos para a Virgem da
+Concei&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>Martha n&atilde;o falava, af&oacute;ra algumas palavras &aacute; tia Marianna,
+com quem abria inteira a sua alma.</p>
+
+<p>Bem sabia Martha, que n'aquelle peito podia sem
+receio depositar todos os seus arcanos! A pobre velha
+havia-lhe jurado nunca revelar a pessoa alguma as
+confidencias que lhe depositasse no cofre do seu cora&ccedil;&atilde;o!</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_186" id="Page_186">[Pg 186]</a></span></p><hr class="bookstyle"/>
+
+<hr class="bookstyle"/>
+
+<p>S&atilde;o duas horas da tarde. Martha na vespera havia
+peiorado! A febre, augmentando-lhe consideravelmente,
+dera graves receios ao doutor Hermenegildo, distincto
+facultativo do hospital do magnate.</p>
+
+<p>Ouve-se o rodar de um trem, que p&aacute;ra &aacute; porta do
+operario, e, de dentro d'elle, envolta n'uma comprida
+capa de velludo preto, apeia-se uma mulher. &Eacute; a filha
+de Trist&atilde;o, Magdalena. Escusado seria dizel-o, que n'essa
+hora, Olympia, &aacute; mesa do <i>lunch</i>, saboreia em doce encantamento
+as altas locubra&ccedil;&otilde;es d'um intelligente cozinheiro.</p>
+
+<p>Contra o seu habito, Magdalena vem completamente
+s&oacute;. O olh&aacute;r e a pallidez do rosto, denunciam-lhe um
+soffrimento profundo. No pisado das palpebras, adivinha-se-lhe
+o rasto produzido pelas lagrimas. A sua voz,
+ordinariamente firme e sonora, perturba-se &aacute; mais pequena
+palavra, como receiando que as lagrimas lh'a
+interrompam! O descuidado da <i>toilette</i>, o desalinho dos
+cabellos, tudo emfim lhe descobre a tempestade em
+que se agita o seu cora&ccedil;&atilde;o!</p>
+
+<p>N&atilde;o era Magdalena, era apenas a sua sombra!</p>
+
+<p>Bate &aacute; porta de Jeronymo, e Balbina vem abrir.</p>
+
+<p>Ao vel-a n'esse estado, a mulher do operario n&atilde;o
+pode occultar o seu assombro.</p>
+
+<p>Jeronymo secunda sua esposa na admira&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Mas que &eacute; isto! Valha-me Deus, minha querida
+menina, disse a mulher de Jeronymo voltando-se para
+Magdalena.</p>
+
+<p>&mdash;Preciso falar-lhe em particular, e depois, com sua
+filha. O que me traz aqui, &eacute; grave e muito grave sr.&ordf;
+Balbina.</p>
+
+<p>Esta, fazendo toda a diligencia para que Martha se
+n&atilde;o apercebesse da presen&ccedil;a de Magdalena, leva a para
+uma pequena alcova que deita para o quintal de Jero<span class='pagenum'><a name="Page_187" id="Page_187">[Pg 187]</a></span>nymo,
+outr'ora t&atilde;o cuidadosamente tratado, e triste ha
+uns tempos a esta parte, como o cora&ccedil;&atilde;o do seu cultivador.</p>
+
+<p>&mdash;Estamos s&oacute;s? perguntou Magdalena para Balbina.</p>
+
+<p>&mdash;T&atilde;o s&oacute;s que ninguem nos p&oacute;de ouvir, respondeu
+Balbina sem comprehender o que se passava em torno
+de si.</p>
+
+<p>&mdash;Em primeiro logar, como est&aacute; a pobre Martha?</p>
+
+<p>&mdash;Mal! bastante mal, minha boa menina, e tanto
+que, hoje o medico...</p>
+
+<p>&mdash;O qu&ecirc;?</p>
+
+<p>&mdash;Disse-me que me n&atilde;o illudisse, ajuntou Balbina
+agarrando se &aacute; amiga de sua filha.</p>
+
+<p>&mdash;Pobre anjo! exclamou Magdalena apertando-lhe
+fortemente as m&atilde;os. E o que diz elle a respeito da
+sua doen&ccedil;a?</p>
+
+<p>&mdash;Que &eacute; toda moral, e portanto mais difficil de se
+lhe encontrar o curativo.</p>
+
+<p>&mdash;E a que attribue a senhora isso? perguntou Magdalena
+fitando a mulher do operario.</p>
+
+<p>&mdash;Eu sei! respondeu esta, tornando a resumir-se
+ao silencio.</p>
+
+<p>&mdash;Seja sincera commigo, sr.&ordf; Balbina, e lembre-se
+que ninguem n'este mundo ser&aacute; capaz de ser mais
+amiga de sua filha do que eu sou.</p>
+
+<p>&mdash;Creio o bem, minha senhora.</p>
+
+<p>&mdash;Pois ent&atilde;o porque n&atilde;o abre commigo a sua alma?
+Diga me n&atilde;o deposita em mim bastante confian&ccedil;a no
+meu caracter? Olhe, continuou Magdalena, descobrindo
+inteiramente o rosto. Diga-me se n'estas fei&ccedil;&otilde;es
+adivinha a menor sombra de hypocrisia?</p>
+
+<p>&mdash;Por Deus, minha senhora! acudiu rapidamente a
+mulher de Jeronymo.</p>
+
+<p>&mdash;Pois ent&atilde;o, Balbina, se acredita na lealdade de
+minha alma, seja sincera commigo, e fale-me como<span class='pagenum'><a name="Page_188" id="Page_188">[Pg 188]</a></span>
+se eu fosse uma outra sua filha. N&atilde;o imagina o prazer
+que me vae dar. Como eu serei feliz podendo desabafar
+n'um cora&ccedil;&atilde;o de m&atilde;e, quanta d&ocirc;r existe n'este
+meu pobre peito.</p>
+
+<p>&mdash;J&aacute; que tanto insiste, minha senhora, vou confiar-lhe
+um segredo, que nunca me teria atrevido a revelar,
+se n&atilde;o fosse conhecer a nobreza da sua alma! O
+que a minha filha tem, &eacute; uma paix&atilde;o, paix&atilde;o que a
+leva &aacute; sepultura.</p>
+
+<p>&mdash;E esse homem que lh'a inspirou, &eacute;?... perguntou
+Magdalena, como se ainda uma pequena esperan&ccedil;a
+lhe rest&aacute;sse.</p>
+
+<p>&mdash;Esse homem &eacute; o commandante da gal&eacute;ra Esperan&ccedil;a,
+o mesmo que descobriu aonde estava meu marido,
+na noite do dia em que foi atropellado por seu
+excellentissimo pae.</p>
+
+<p>&mdash;Manuel de Mendon&ccedil;a! exclamou Magdalena.</p>
+
+<p>&mdash;Elle mesmo!</p>
+
+<p>&mdash;E elle?</p>
+
+<p>&mdash;Nunca mais o tornou a ver.</p>
+
+<p>&mdash;E como soube tudo isso? perguntou Magdalena.</p>
+
+<p>Balbina ent&atilde;o contou-lhe quanto se havia passado
+entre Jeronymo e a filha, n&atilde;o lhe omittindo a circumstancia
+d'estas terriveis palavras: &laquo;esse homem &eacute; amado
+pela filha do nosso protector.&raquo; Magdalena pensou
+morrer. A nobreza d'alma d'aquelle anjo, deixando
+se descer &aacute; sepultura, sem interromper o sentimento
+que dominava o cora&ccedil;&atilde;o de Magdalena, a sua generosidade,
+abandonando-lhe por assim dizer aquelle homem
+que ella amava, e de quem tinha a certeza de
+ser correspondida, tudo concorreu para que no seu
+cora&ccedil;&atilde;o immenso tambem como o de Martha, se formassem
+mil conjecturas tendentes todas &aacute; generosidade.</p>
+
+<p>&laquo;Morrerei, pensava ella, mas salvarei este anjo que<span class='pagenum'><a name="Page_189" id="Page_189">[Pg 189]</a></span>
+t&atilde;o nobremente se me sacrificou. E que m'importa a
+vida? De que me serve este eterno martyrio? Vivam!
+que vivam para serem muito felizes, e aben&ccedil;oarem a
+minha memoria se eu concorrer como espero para a
+sua ventura!&raquo;</p>
+
+<p>&mdash;Bem, ajuntou Magdalena voltando-se para Balbina,
+v&aacute; ao quarto de Martha, veja o estado do seu espirito
+e se ella estiver mais tranquilla, quero-lhe falar.</p>
+
+<p>A pobre Balbina sem comprehender o choque que
+este encontro poderia produzir na alma de sua filha,
+apressou-se em cumprir as ordens de Magdalena.</p>
+
+<p>&laquo;Parece que sobre a nossa familia peza uma grande
+desgra&ccedil;a, continuou a filha de Trist&atilde;o de Almeida
+olhando para o pequeno horto. De que serve a enorme
+riqueza de meu pae! A sua alegria, &eacute; sempre aquella
+eterna mascara com que tenta encobrir as lagrimas
+que o devoram na eterna solid&atilde;o de sua alma.
+Minha m&atilde;e, afeita a illudir, tem chegado a convencer-se
+que &eacute; muito feliz, n&atilde;o passando d'uma desgra&ccedil;ada!
+Eu, que tenho passado uma existencia de tristeza, no
+momento em que pela primeira vez na vida me poderia
+considerar venturosa, vem o destino, e corta-me
+rapidamente o fio da minha felicidade. Olympia, gra&ccedil;as
+ao seu genio, &eacute; a unica fadada para a completa
+tranquillidade da alma! Vive e come, pobre irm&atilde;, que
+seria o mesmo que dizer-te: vive e s&ecirc; feliz!</p>
+
+<p>&laquo;Falarei com Martha, e hoje mesmo lan&ccedil;ar-me-hei
+aos p&eacute;s de meu pae, pedindo-lhe que d'esse dote dos
+quatrocentos contos que tantas vezes me tem promettido
+me conceda apenas cincoenta para dar a Martha,
+e depois de os ver ambos casados, felizes, aben&ccedil;oando
+a minha m&atilde;o que lhe estreitou a sua ventura, eu
+ent&atilde;o, ou buscarei a morte, ou fechar-me-hei entre as
+grades d'um convento!&raquo;<span class='pagenum'><a name="Page_190" id="Page_190">[Pg 190]</a></span></p>
+
+<p>N'este comenos entrou Balbina. Martha havia accordado
+e esperava a visita de Magdalena.</p>
+
+<p>Esta sem mais hesitar, entrou no quarto da crian&ccedil;a,
+e, occultando a custo as lagrimas que a suffocavam,
+lan&ccedil;ou-se sobre o leito abra&ccedil;ando a pobre amiga.</p>
+
+<p>&mdash;Ha dias que desejo falar-lhe sobre um assumpto
+muito importante, por&eacute;m, a sua eterna reserva para
+todas as pessoas que deveras a estimam, tem sido a
+causa de me n&atilde;o ter atrevido, disse-lhe Magdalena.
+Quem mais do que Martha possue cora&ccedil;&otilde;es verdadeiramente
+dedicados? accrescentou ella. N&atilde;o v&ecirc; que est&aacute;
+offendendo a Deus que a protege? Porque pensa em
+morrer, minha amiga? N&atilde;o v&ecirc; que morrendo, mataria
+sua m&atilde;e, seu pae, e que far&aacute; soffrer a todos que se
+interessam pela sua vida? Por que motivo se tem occultado
+&aacute; sombra da sua agonia sem buscar um peito
+amigo com quem desabafe os seus desgostos? N&atilde;o tinha
+minha irm&atilde;? N&atilde;o me tinha a mim? &aacute; sua propria
+m&atilde;e? Quem melhor do que ella, podia ser a confidente
+dos seus segredos?</p>
+
+<p>&mdash;Segredos! Eu? murmurou Martha.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, Martha; segredos e muito importantes. N&atilde;o
+queira negar-me o que sei.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o tenho coisa alguma a negar, minha boa menina,
+respondeu Martha, como se j&aacute; n&atilde;o tivesse for&ccedil;as
+para sustentar aquelle dialogo.</p>
+
+<p>Insciente do mal que as suas palavras poderiam influir
+no espirito de Martha, Magdalena seguia apenas a
+que o seu cora&ccedil;&atilde;o lhe ordenava.</p>
+
+<p>&mdash;Nunca amou ninguem, Martha? Seja sincera commigo.
+Deposite as suas magoas n'este cora&ccedil;&atilde;o que lhe
+quer tanto como se fosse sua propria irm&atilde;.</p>
+
+<p>Os olhos da crean&ccedil;a inundaram-se de lagrimas. A
+mentira j&aacute;mais havia passado por seus labios! A infeliz
+n&atilde;o sabia que responder.<span class='pagenum'><a name="Page_191" id="Page_191">[Pg 191]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Responda, minha irm&atilde;. At&eacute; hoje homem algum
+lhe feriu esse cora&ccedil;&atilde;o? Jura-m'o?</p>
+
+<p>Haveria ainda algum vestigio de esperan&ccedil;a no cora&ccedil;&atilde;o
+de Magdalena ao insistir n'aquellas perguntas? Sabia-o
+Deus e a sua alma!</p>
+
+<p>Martha sem responder agarrou-se ao pesco&ccedil;o de Magdalena
+e desatou n'uma torrente de lagrimas.</p>
+
+<p>&mdash;Perd&ocirc;e-me, disse ella emfim, mas eu n&atilde;o sabia
+que o amava. Foi o primeiro homem que meus olhos
+viram. Havia tanta bondade, tanta nobreza no seu caracter!
+A quantas pessoas perguntei por meu pae, todas
+me responderam brutalmente que n&atilde;o sabiam quem
+elle era. Aterrada com a minha desgra&ccedil;a, encontrei-me
+s&oacute;, completamente s&oacute;. Ent&atilde;o, appareceu o sr. Manuel
+de Mendon&ccedil;a; promptificou-se a procurar meu pae,
+e encontrou-o. Desde esse dia, a sua imagem ficou-me
+impressa na memoria. Quiz esquec&ecirc;l-o, mas era-me
+completamente impossivel! Dias depois, vi-o. O que eu
+sentia na minha alma, foi crescendo, crescendo gradualmente,
+at&eacute; que reconheci que o amava. Quando
+j&aacute; era tarde foi ent&atilde;o que comprehendi toda a loucura
+do meu sentimento, avaliando ao mesmo tempo a immensa
+distancia que nos separava. Um dia, descobri
+que esse homem era amado por quem melhor do que
+eu o merecia. A d&ocirc;r quebrava-me a alma, mas a ninguem
+revelava a minha angustia! Desde ent&atilde;o, minha
+boa amiga, entendi que o melhor era esperar resignada
+o momento em que Deus me chamasse &aacute; sua divina
+presen&ccedil;a sem ter deixado no mundo um rastro de
+ingratid&atilde;o! Ame-o, sr.&ordf; Magdalena! Amem-se, que s&atilde;o
+dignos um do outro, e, se um dia se recordarem da
+pobre Martha, v&atilde;o ambos, rezem-lhe uma ora&ccedil;&atilde;o sobre
+a sua sepultura, e lembrem-se da que est&aacute; no reino
+dos tristes pedindo a Deus pela sua ventura e pela felicidade
+do sr. Manuel de Mendon&ccedil;a!<span class='pagenum'><a name="Page_192" id="Page_192">[Pg 192]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;E quem te disse a ti, filha, que esse homem era
+amado por mim?</p>
+
+<p>&mdash;O meu cora&ccedil;&atilde;o, respondeu Martha, inclinando a
+cabe&ccedil;a no travesseiro.</p>
+
+<p>&mdash;Illudiu-te, e o tempo t'o provar&aacute;, respondeu-lhe
+Magdalena. Eu nunca o amei! accrescentou ella, empregando
+n'estas ultimas palavras todo o valor da sua
+alma. Eu s&oacute; quero a tua felicidade, Martha.</p>
+
+<p>&mdash;A minha felicidade est&aacute; no c&eacute;u, respondeu a infeliz,
+levantando os olhos para o tecto.</p>
+
+<p>&mdash;Enganas-te! exclamou Magdalena. A tua felicidade
+est&aacute; nos bra&ccedil;os d'esse homem como a sua ventura
+deve estar n'um cora&ccedil;&atilde;o nobre e generoso como o teu!
+J&aacute; a mim mesma o prometti, irei hoje preparar o teu
+bem estar. Agora, filha, accrescentou Magdalena, que
+esses teus olhos se enxuguem para sempre, e que as
+lagrimas des&ccedil;am sobre os meus para j&aacute;mais os abandonar.
+E abra&ccedil;ando estreitamente a pobre crean&ccedil;a, Magdalena
+sahiu do quarto, e sem quasi se despedir de
+Balbina, deixou a casa do operario e partiu para o hotel
+Bragan&ccedil;a!</p>
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_193" id="Page_193">[Pg 193]</a></span></p>
+<div class="center">
+ <a id="image-193"></a>
+ <a href="images/image-193h.png" >
+ <img src="images/image-193.png"
+ alt="&Eacute; de joelhos que lh'o imploro! (pag. 213)"
+ title="&Eacute; de joelhos que lh'o imploro! (pag. 213)" />
+ </a>
+<div class="caption">&Eacute; de joelhos que lh'o imploro! (<i><a href="#Page_213">pag. 213</a></i>)</div>
+</div>
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_195" id="Page_195">[Pg 195]</a></span></p>
+
+<h1><a name="XXX" id="XXX"></a>XXX</h1>
+
+
+<p>Ao chegar ao hotel de Bragan&ccedil;a, Magdalena encontrou
+sua m&atilde;e louca de alegria. J&aacute; tinha sabido por Trist&atilde;o
+e pelo visconde de Coruche, a merc&ecirc; que sua magestade
+acabava de lhe offerecer.</p>
+
+<p>&mdash;Um abra&ccedil;o minha filha! exclamou D. Maria Egypciaca.
+El-rei, attendendo aos servi&ccedil;os que temos prestado
+ao paiz durante a epidemia, acaba de encarregar
+o conselheiro Poderosa, de perguntar a teu pae que
+nome deseja dar ao titulo de conde que lhe vae ser
+concedido. Fique portanto sabendo, accrescentou ella,
+que d'aqui a pouco tempo ser&aacute; filha de uma condessa!
+Que te parece Olympia?</p>
+
+<p>&mdash;Parece-me que sua magestade acaba de nos dispensar
+uma grande honra, respondeu Olympia, para
+dizer qualquer coisa a sua m&atilde;e.</p>
+
+<p>&mdash;Mas que vejo, Magdalena! disse D. Maria Egypciaca,
+voltando-se para sua filha. Que tens tu? meu
+Deus! que terrivel pallidez!</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; t&atilde;o grande a alegria que nossa m&atilde;e experimenta
+s&oacute; com a ideia do titulo, que nem sequer repa<span class='pagenum'><a name="Page_196" id="Page_196">[Pg 196]</a></span>rou
+para o estado em que te encontras! Doe te a cabe&ccedil;a,
+Magdalena?</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o, respondeu ella; comtudo, sinto-me alguma
+coisa indisposta.</p>
+
+<p>&mdash;Pois faz a diligencia de te animares! &Eacute; de supp&ocirc;r
+que venha c&aacute; hoje passar a noite o conselheiro Poderosa.
+J&aacute; pedi a tua irm&atilde; quasi de m&atilde;os postas que
+se fizesse mais amavel. Veremos como se porta.</p>
+
+<p>&mdash;Preciso falar-lhe, minha m&atilde;e, interrompeu Magdalena,
+dirigindo-se a D. Maria Egypciaca.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; negocio grave, pelo que vejo! Succedeu alguma
+novidade no hospital?</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o, por certo. &Eacute; outro assumpto inteiramente
+diverso.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o podemos falar aqui mesmo? perguntou a futura
+condessa.</p>
+
+<p>&mdash;J&aacute; disse a minha m&atilde;e que era uma coisa em particular.</p>
+
+<p>D. Maria Egypciaca, seguida por sua filha, entrou no
+gabinete de Trist&atilde;o, aonde varias vezes temos conduzido
+o leitor.</p>
+
+<p>&mdash;Que queres pois? perguntou ella, reclinando-se
+commodamente sobre uma cadeira &aacute; voltaire.</p>
+
+<p>&mdash;Venho prevenir minha m&atilde;e que desejo entrar para
+um convento antes do prazo de um mez.</p>
+
+<p>&mdash;Est&aacute;s doida, ou variada! exclamou ella como se
+n&atilde;o acreditasse nas palavras que escutava.</p>
+
+<p>&mdash;Nem doida, nem variada! respondeu Magdalena.
+&Eacute; uma resolu&ccedil;&atilde;o de que ninguem ser&aacute; capaz de me
+afastar.</p>
+
+<p>&mdash;Mas que te impelle a similhante determina&ccedil;&atilde;o?
+Explica-m'o. Quem melhor do que tua m&atilde;e poder&aacute; ser
+tua confidente.</p>
+
+<p>&mdash;Basta que o saiba Deus, em cujos bra&ccedil;os me quero
+occultar, respondeu-lhe serenamente Magdalena.<span class='pagenum'><a name="Page_197" id="Page_197">[Pg 197]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Esta rapariga enlouqueceu! acudiu D. Maria.</p>
+
+<p>&mdash;J&aacute; respondi a minha m&atilde;e que n&atilde;o estava louca,
+nem t&atilde;o pouco variada, accrescentou Magdalena sentando-se
+no soph&aacute;.</p>
+
+<p>&mdash;Agora que, escudadas por um titulo, vamos brilhar
+como ninguem na sociedade, &eacute; que te queres retirar
+a um convento?</p>
+
+<p>&mdash;Quero agradecer ao Senhor os beneficios que lhe
+devo, recolhendo-me sob os tectos da sua habita&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;J&aacute;mais t'o consentiria, e muito menos teu pae.</p>
+
+<p>&mdash;Torno a dizer a minha m&atilde;e, que pessoa alguma
+poder&aacute; impedir a minha resolu&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Mas que pretendes, filha? Amas alguem? Receias
+que teu pae se opponha &aacute; tua vontade? Fala, fala por
+Deus, mas n&atilde;o me atormentes! Eu que esperava anciosa
+a tua vinda para te participar a alegria em que
+estavamos! Que esperava, emfim, passar uma noite
+agradavelmente na companhia do visconde e do conselheiro
+Poderosa, o encarregado por sua magestade
+de nos offerecer o titulo.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o queria falar em coisa alguma com meu pae,
+sem primeiro lhe dizer as minhas inten&ccedil;&otilde;es, ajuntou
+Magdalena com um sangue frio imperturbavel.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! exclamou D. Maria Egypciaca, levantando-se
+rapidamente da poltrona. Comprehendo agora que n&atilde;o
+eram infundadas as desconfian&ccedil;as de teu pae.</p>
+
+<p>&mdash;Que desconfian&ccedil;as? perguntou Magdalena.</p>
+
+<p>&mdash;Que amas...</p>
+
+<p>&mdash;Eu?</p>
+
+<p>&mdash;Tu, sim...</p>
+
+<p>&mdash;Quem? perguntou Magdalena tornando se cada vez
+mais pallida.</p>
+
+<p>&mdash;O visconde de Coruche!</p>
+
+<p>&mdash;Que testemunho! J&aacute; disse uma vez a minha m&atilde;e,
+que nunca amei, nem seria capaz de amar o visconde.<span class='pagenum'><a name="Page_198" id="Page_198">[Pg 198]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Assim me queres convencer...</p>
+
+<p>&mdash;Nunca tentei illudir pessoa alguma, e muito menos
+a meus paes.</p>
+
+<p>&mdash;Ent&atilde;o outro homem?</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o posso amar! respondeu Magdalena cada vez
+mais perturbada.</p>
+
+<p>N'este momento abriu-se a porta do gabinete, e entrou
+Trist&atilde;o de Almeida.</p>
+
+<p>Ao contemplar a physionomia de Magdalena, a sua
+filha predilecta, o pobre pae sentiu um estremecimento
+que lhe toldou a c&ocirc;r do rosto! Julgou-a atacada pela
+febre.</p>
+
+<p>&mdash;Saber&aacute;s, disse D. Maria Egypciaca, que n'um dia,
+para n&oacute;s de tanto regozijo, a tua filha...</p>
+
+<p>&mdash;O qu&ecirc;? perguntou Trist&atilde;o, voltando-se para sua
+mulher.</p>
+
+<p>&mdash;Quer recolher-se a um convento?! respondeu
+D. Maria.</p>
+
+<p>&mdash;Recolher-se a um convento!? perguntou Trist&atilde;o
+como se n&atilde;o acreditasse em similhantes palavras. Recolher-se
+a um convento! accrescentou elle, voltando-se
+para Magdalena. Tu, filha da minha alma? Abandonares-me?
+Tu que &eacute;s a unica ventura da minha vida?
+Mata-me primeiro, e depois, faze o que te aprouver! Sabes
+o que significa essa palavra &laquo;deixares me!&raquo; Ignoras
+que s&oacute; tu me tens sustido a existencia? N&atilde;o conheces
+inteira a minha vida? N&atilde;o te contei todos os
+sacrificios que tenho feito por tua causa? Desconheces
+o que fiz para te ganhar um patrimonio; para ti, s&oacute;
+para ti, que &eacute;s a vida da minha vida? Deixares-me!
+quando a existencia come&ccedil;a a sorrir-me... quando os
+meus cofres cheios de ouro se despejariam ao teu mais
+pequeno capricho? Deixares-me quando a gloria desce
+sobre a nossa familia, n&atilde;o digo por esse titulo que n&atilde;o
+passa de uma miseria, mas pelo que temos feito por<span class='pagenum'><a name="Page_199" id="Page_199">[Pg 199]</a></span>
+esses desgra&ccedil;ados. Se amas alguem, bom ou mau, rico
+ou pobre, dize m'o, e farei tudo para me n&atilde;o separar
+do teu lado. Se f&ocirc;r bom, abra&ccedil;al-o-hei, se mau, tu o
+tornar&aacute;s bom, Magdalena! Pobre, o meu ouro o far&aacute;
+enriquecer, e tu ver&aacute;s cumpridos os teus desejos. Mas
+deixar-te? Nunca, torno a repetir t'o!</p>
+
+<p>&mdash;A minha resolu&ccedil;&atilde;o &eacute; inabalavel; comtudo, antes
+d'isso, tenho um grande favor a pedir lhe:</p>
+
+<p>Trist&atilde;o parecia attendel-a sem consciencia de vida.</p>
+
+<p>&mdash;Segundo meu pae muitas vezes m'o tem dito, o
+meu dote &eacute; de quatrocentos contos?...</p>
+
+<p>&mdash;O teu dote &eacute; tudo quanto eu tenho, Magdalena,
+respondeu-lhe Trist&atilde;o, e se ainda mais quizeres, accrescentou
+elle, mais ainda serei capaz de te adquirir.</p>
+
+<p>&mdash;Pe&ccedil;o-lhe portanto um favor, meu pae.</p>
+
+<p>&mdash;Dize.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; que d'esse dinheiro, disponha de cincoenta contos
+para eu poder dotar uma amiga que tenho, se porventura
+ella resistir &aacute; enfermidade que a anniquila.</p>
+
+<p>&mdash;Ter&aacute;s, n&atilde;o cincoenta contos de r&eacute;is para essa amiga,
+mas cem, duzentos ou aquillo que te aprouver! Por&eacute;m,
+abandonares me, nunca! Queres esse dinheiro?
+&Aacute;manh&atilde;; hoje; agora mesmo! Se o desejas, n&atilde;o tenho
+mais do que ir buscal-o a casa do meu banqueiro...</p>
+
+<p>&Eacute; que esse homem perverso por instincto, o unico
+sentimento grande que havia experimentado na vida
+era o amor por sua filha!</p>
+
+<p>&mdash;Juras me que n&atilde;o abandonas teu pae? accrescentou
+elle pegando nas m&atilde;os de Magdalena e levando-as
+junto ao cora&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Juro que n&atilde;o abandonarei meu pae, respondeu
+Magdalena apertando-o nos bra&ccedil;os!</p>
+
+<p>&mdash;Parece impossivel! disse Olympia, abrindo ao mesmo
+tempo a porta do gabinete. Ha mais de dez minu<span class='pagenum'><a name="Page_200" id="Page_200">[Pg 200]</a></span>tos
+que est&aacute; a sopa na mesa, accrescentou voltando-se
+para Magdalena.</p>
+
+<p>&mdash;J&aacute; vamos, respondeu esta.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! temos lagrimas! ajuntou Olympia sahindo do
+gabinete.</p>
+
+<p>&mdash;E quem &eacute; essa pessoa que tu queres dotar, Magdalena?
+perguntou Trist&atilde;o depois de alguns momentos de
+silencio.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; Martha, a filha de Jeronymo.</p>
+
+<p>&mdash;Conta com esse dinheiro, respondeu Trist&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Obrigada, disse lhe Magdalena. Agora estou mais
+tranquilla, e, dando o bra&ccedil;o a Trist&atilde;o, sahiram do gabinete,
+seguidos por D. Maria Egypciaca, e dirigiram-se
+&aacute; casa do jantar.</p>
+
+<hr class="bookstyle"/>
+
+<hr class="bookstyle"/>
+
+<p>Apresentado pelo visconde, &aacute;s oito horas da noite,
+entrou o conselheiro Poderosa.</p>
+
+<p>O visconde ao notar a pallidez de Magdalena, olhou
+de soslaio para o conselheiro, como se lhe indicasse o
+soffrimento que se lhe notava no semblante.</p>
+
+<p>Poderosa sorriu se! Depois, ao v&ecirc;r a obesidade da
+irm&atilde; de Magdalena, o rosado das suas faces, e toda
+aquella economia exhalando vida e saude, pensou de
+si comsigo que era essa a unica mulher que lhe convinha.</p>
+
+<p>Depois das apresenta&ccedil;&otilde;es do estylo, o conselheiro
+sentou-se junto do magnate para lhe falar &aacute;cerca da
+miss&atilde;o de que sua magestade o tinha encarregado.</p>
+
+<p>No entretanto, o visconde, proximo de D. Maria Egypciaca,
+entretinha-se com a futura titular, discutindo sobre
+o nome que devia juntar-se ao titulo.</p>
+
+<p>&mdash;Minha senhora, dizia-lhe o visconde, eu n&atilde;o tenho
+a mais leve desconfian&ccedil;a que seu marido lhe usurpe o
+direito da escolha. O que depende do bello pertence a<span class='pagenum'><a name="Page_201" id="Page_201">[Pg 201]</a></span>
+vossa excellencia, queira vossa excellencia lembrar-se
+do nome que deve ter esse titulo, accrescentava elle
+olhando significativamente para Magdalena, nos momentos
+em que por acaso encontrava os olhos do conselheiro.</p>
+
+<p>N'este comenos, o conselheiro, que acabava de falar
+com Trist&atilde;o, approximou-se de D. Maria Egypciaca e do
+visconde.</p>
+
+<p>A conversa&ccedil;&atilde;o correu animadissima at&eacute; &aacute;s onze horas
+da noite.</p>
+
+<p>Seguindo as instruc&ccedil;&otilde;es do visconde, o conselheiro
+portou-se bizarramente no tocante a disserta&ccedil;&otilde;es culinarias,
+falando sempre com muito acerto sobre os diferentes
+generos de cosinha.</p>
+
+<p>O cora&ccedil;&atilde;o de Olympia, ou, para melhor dizer o estomago
+de Olympia, come&ccedil;ou desde esse momento a palpitar
+pelo joven conselheiro, e a cabe&ccedil;a, que tanta rela&ccedil;&atilde;o
+tem com essa viscera, principiou tambem a comprehender
+que era o conselheiro o unico marido que
+lhe convinha.</p>
+
+<p>&Aacute;s onze horas, retiraram-se o conselheiro e o visconde,
+combinando ambos com Trist&atilde;o de Almeida a
+hora para no dia seguinte se encontrarem, a fim de se
+decidir o nome que devia ser escolhido para o titulo.</p>
+
+<hr class="bookstyle"/>
+
+<p>D'ali a duas horas, Olympia resonando profundamente,
+via em sonhos um lauto banquete, e, a seu lado,
+com a farda de conselheiro, aquelle que na sua vida
+lhe tinha proporcionado o ensejo de se convencer
+que no seu todo havia uma outra viscera sem ser o estomago.</p>
+
+<p>Magdalena, com o rosto encostado aos vidros da janella,
+contemplava os astros, adivinhando em cada um
+d'elles o rosto grave e melancholico de Manuel de Mendon&ccedil;a.<span class='pagenum'><a name="Page_202" id="Page_202">[Pg 202]</a></span></p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<h1><a name="XXXI" id="XXXI"></a>XXXI</h1>
+
+
+<p>No dia seguinte &aacute; entrevista do conselheiro, &aacute; mesma
+hora que este e o visconde se preparavam para ir
+falar com Trist&atilde;o, Manuel de Mendon&ccedil;a resolvia procurar
+informa&ccedil;&otilde;es de Martha.</p>
+
+<p>&mdash;Se tudo quanto te disse aquella infame beata, n&atilde;o
+fosse mais do que uma calumnia... pensava Manuel
+ao mesmo tempo que o proferia a Mascatudo.</p>
+
+<p>&mdash;P&oacute;de muito bem ser que tal aconte&ccedil;a, respondia-lhe
+o marinheiro. Em todo o caso, se eu fosse ao sr.
+Manuel de Mendon&ccedil;a...</p>
+
+<p>&mdash;Que fazias? acudiu rapidamente o capit&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Ia saber d'aquella pobre menina.</p>
+
+<p>&mdash;Tomarei o teu conselho. Vou. N&atilde;o sei o que me
+adivinha o cora&ccedil;&atilde;o; por&eacute;m, ou eu me illudo muito, ou
+Martha est&aacute; innocente como os anjos.</p>
+
+<p>&mdash;Estou da sua opini&atilde;o. No que o senhor fez mal, foi
+em acreditar nas primeiras palavras d'essa mulher. Se
+eu sei, tinha-lhe occultado tudo quanto a seu respeito
+ouvi dizer.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o te arrependas, Mascatudo; nos teus casos,
+teria feito o mesmo.<span class='pagenum'><a name="Page_203" id="Page_203">[Pg 203]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;E se essa mulher n&atilde;o passasse de uma infame
+mentirosa?</p>
+
+<p>&mdash;E se tudo quanto a tia Monica te disse fosse verdadeiro?
+Que remorsos n&atilde;o terias n'este momento, se
+me tivesses dito que a conducta de Martha era irreprehensivel?</p>
+
+<p>&mdash;Isso l&aacute; &eacute; que &eacute; verdade, sr. Manuel de Mendon&ccedil;a.
+Em todo o caso, tudo se poder&aacute; hoje descobrir. Se
+o senhor consentisse que eu fosse em sua companhia...</p>
+
+<p>&mdash;Da melhor vontade e at&eacute; me fazes muito favor.</p>
+
+<hr class="bookstyle"/>
+
+<hr class="bookstyle"/>
+
+<p>Em menos de um quarto de hora, Manuel de Mendon&ccedil;a
+acompanhado por Mascatudo, desembarcava na
+rocha do conde de Obidos e, subindo a rampa, dirigia-se
+para a rua do Meio.</p>
+
+<p>&mdash;Se lhe parece, disse Mascatudo ao chegarem &aacute;
+rua das Pra&ccedil;as, vamos &aacute; tenda em que lhe falei. O
+caixeiro, que j&aacute; &eacute; meu conhecido, p&oacute;de nos dar mais
+algumas informa&ccedil;&otilde;es.</p>
+
+<p>&mdash;Confesso-te que me vae custando esta espionagem,
+respondeu placidamente Manuel de Mendon&ccedil;a.</p>
+
+<p>Seria a delicadeza da sua alma, ou o receio de saber
+alguma circumstancia menos favoravel &aacute;cerca da
+vida intima de Martha, que fazia com que o maritimo
+fugisse a mais investiga&ccedil;&otilde;es?</p>
+
+<p>Deixaremos isto ao juizo da intelligente leitora, que
+para casos de tal monta n&atilde;o nos julgamos habilitados.</p>
+
+<p>Ao chegar defronte da casa onde habitava a filha do
+operario, Manuel de Mendon&ccedil;a estremeceu. Lembrou-se
+da noite em que pela primeira vez a encontr&aacute;ra,
+quando ella com as supplicas de piedade lhe pediu
+entre lagrimas que a ajudasse a procurar seu pae. Logo,
+recordou-se das duas ou tres vezes que a vira no<span class='pagenum'><a name="Page_204" id="Page_204">[Pg 204]</a></span>
+hotel Bragan&ccedil;a, quando ainda as boccas maliciosas
+n&atilde;o se haviam aberto para lhe cuspir o fel da
+maledicencia. Em toda a pureza angelica da sua castidade,
+Martha desenhava-se-lhe deante dos olhos,
+como muitas e muitas vezes a imagem grata de sua
+m&atilde;e lhe apparecia por entre as nevoas da tarde,
+quando a galera, sulcando as aguas do oceano, o conduzia
+a estranhos climas onde nem um s&oacute; cora&ccedil;&atilde;o amigo
+se lhe approximava.</p>
+
+<p>Mascatudo comprehendeu-lhe o soffrimento.</p>
+
+<p>&mdash;Que devemos fazer? perguntou Manuel.</p>
+
+<p>&mdash;Sondar estes baixios, e se o rumo n&atilde;o f&ocirc;r perigoso,
+seguiremos a nossa derrota, respondeu Mascatudo.</p>
+
+<p>N'este momento passava uma carruagem.</p>
+
+<p>Manuel olhou instinctivamente para dentro do trem.</p>
+
+<p>Ao mesmo tempo, o cocheiro como se j&aacute; estivesse
+prevenido, estacou os cavallos.</p>
+
+<p>Era Magdalena que vinha dentro da carruagem!</p>
+
+<p>Collocando a cabe&ccedil;a f&oacute;ra do postigo, a filha de Trist&atilde;o
+fez um aceno a Manuel para que se approximasse.</p>
+
+<p>&mdash;Necessito falar-lhe quanto antes, acudiu ella rapidamente,
+dirigindo se ao maritimo, que a contemplava
+com um gesto de espanto impossivel de descrever.
+Provavelmente, accrescentou ella, tenciona ir ver a
+pobre Martha; n&atilde;o o fa&ccedil;a sem primeiro me falar.</p>
+
+<p>&mdash;Estou &aacute;s ordens de vossa excellencia, respondeu
+Manuel de Mendon&ccedil;a, reconhecendo n'esse momento
+a filha de Trist&atilde;o de Almeida.</p>
+
+<p>&mdash;Mas aqui &eacute; inteiramente impossivel por causa da
+visinhan&ccedil;a, accrescentou ella, com uma voz tremula e
+assustada.</p>
+
+<p>&mdash;Dir-me-ha ent&atilde;o?... perguntou Manuel.</p>
+
+<p>&mdash;Dirija-se ao passeio da Estrella. Espero-o na mon<span class='pagenum'><a name="Page_205" id="Page_205">[Pg 205]</a></span>tanha;
+e antes que Manuel tivesse tido tempo de reflectir,
+Magdalena falou ao cocheiro, e os cavallos partiram
+n'um trote largo, caminho da rua dos Navegantes.</p>
+
+<p>Manuel ficou como assombrado! N&atilde;o sabia que pensar!
+Aquella mulher, que na ante-vespera o estivera
+olhando por um telescopio, seria a confidente dos amores
+de Martha, ou seria ella mesma que o amava?
+Aquella insolita maneira de o avisinhar; a perturba&ccedil;&atilde;o
+das suas palavras; a visivel pallidez do rosto, que
+augmentava &aacute; propor&ccedil;&atilde;o que os seus olhos o contemplavam,
+tudo concorria para que o maritimo ficasse
+como abysmado.</p>
+
+<p>&mdash;Que foi isso? perguntou Mascatudo, ao notar a
+profunda perturba&ccedil;&atilde;o de Manuel de Mendon&ccedil;a.</p>
+
+<p>Manuel contou-lhe o que se havia passado.</p>
+
+<p>&mdash;E que tenciona fazer? perguntou Mascatudo.</p>
+
+<p>&mdash;Ir immediatamente para o passeio da Estrella.
+Que te parece?</p>
+
+<p>&mdash;Que v&aacute; quanto antes, respondeu Mascatudo.</p>
+
+<p>Sem mais hesita&ccedil;&atilde;o, Manuel de Mendon&ccedil;a entrou na
+rua da Bella Vista, e seguiu para o passeio da Estrella.</p>
+
+<p>&mdash;Espera-me aqui junto ao lago, disse elle a Mascatudo
+ao entrarem as portas do passeio.<span class='pagenum'><a name="Page_206" id="Page_206">[Pg 206]</a></span></p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<h1><a name="XXXII" id="XXXII"></a>XXXII</h1>
+
+
+<p>Espera-o, martyr! Unge-lhe o peito com o divino balsamo
+do teu nobre sacrificio! Lagrimas misericordiosas
+foram as tuas, derramadas sobre a face da pobre
+virgem! Vae, infeliz; fere, profunda, arranca uma por
+uma as fibras do cora&ccedil;&atilde;o, e que o sangue que d'ahi te
+gotejar, lavando as nodoas do futuro conde lhe purifique
+a alma para um dia entrar no reino dos justos com
+o passaporte de uma retribui&ccedil;&atilde;o!</p>
+
+<hr class="bookstyle"/>
+
+<hr class="bookstyle"/>
+
+<p>Manuel subiu &aacute; montanha.</p>
+
+<p>Magdalena n&atilde;o falt&aacute;ra.</p>
+
+<p>&mdash;Venho cumprir com as ordens de vossa excellencia,
+disse Manuel de Mendon&ccedil;a, approximando-se.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! respondeu ella, como se despertasse de um
+sonho. E accrescentou, visivelmente perturbada: realmente,
+deve estranhar o meu proceder, por&eacute;m, uma
+circumstancia grave e muito grave me obrigou a procural-o
+hoje mesmo. Tracta-se de salvar uma pessoa
+cuja vida me interessa.<span class='pagenum'><a name="Page_207" id="Page_207">[Pg 207]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Estou &aacute;s ordens de vossa excellencia para tudo
+quanto me f&ocirc;r possivel.</p>
+
+<p>&mdash;Sabe que tem estado &aacute; morte a filha de Jeronymo?</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o o sabia, minha senhora, respondeu Manuel
+come&ccedil;ando tambem a perturbar-se.</p>
+
+<p>&mdash;Ha quinze dias que a infeliz, deitada sobre o leito
+da agonia, olha para o c&eacute;u que lhe pertence. Hontem,
+que foi a ultima vez que l&aacute; estive, o medico sahiu completamente
+desanimado. A sua enfermidade &eacute; menos
+physica do que moral, e s&oacute; &aacute; ultima hora lhe podemos
+descobrir a causa.</p>
+
+<p>&mdash;E essa causa &eacute;?... perguntou Manuel.</p>
+
+<p>&mdash;Amar um homem que a tem desprezado! Aquelle
+anjo, occultando a todos o sentimento que a devora,
+reclinou se sobre a sua sepultura, aguardando apenas
+que lh'a venham abrir para desprender a alma a Deus!</p>
+
+<p>Os olhos de Manuel humedeceram se de lagrimas.
+Havia tanto sentimento nas palavras de Magdalena, a
+sua voz, ainda ha pouco perturbada, torn&aacute;ra-se t&atilde;o firme
+e t&atilde;o segura, que elle n&atilde;o p&ocirc;de ver em Magdalena
+mais do que uma amiga verdadeira e dedicada de
+Martha.</p>
+
+<p>&mdash;E onde existe esse homem que a p&oacute;de salvar?</p>
+
+<p>&mdash;Onde existe?... accudiu Magdalena com uma express&atilde;o
+que principiava a denunciar-lhe o seu estado.
+Esse homem... accrescentou ella, &eacute;... o sr. Manuel
+de Mendon&ccedil;a!</p>
+
+<p>&mdash;Eu! exclamou o maritimo n'um transporte de indescriptivel
+alegria.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, continuou Magdalena. O senhor, em cujo espirito
+adivinhou inteira a sua felicidade. O senhor a
+quem uma vez encontrou na existencia para nunca
+mais o esquecer! Mais tarde, o seu cora&ccedil;&atilde;o candido e
+inexperiente fez-lhe conhecer que o amava. O seu nascimento,
+a humildade de educa&ccedil;&atilde;o, a pobreza de seus<span class='pagenum'><a name="Page_208" id="Page_208">[Pg 208]</a></span>
+paes, tudo emfim concorreu para que Martha n&atilde;o se
+atrevesse a declarar a pessoa alguma o amor que o senhor
+lhe tinha inspirado. Emquanto teve for&ccedil;as, lutou,
+mas um dia, exhausta, a pobre Martha cahiu como essas
+flores delicadas que n&atilde;o t&ecirc;em for&ccedil;a bastante para
+supportarem a furia dos elementos. Hontem, finalmente,
+abriu-me inteira a sua alma, alma candida e serena
+como a dos anjos que hoje lhe tecem o seu diadema
+de martyr! Sem lhe descortinar as minhas ideias,
+resolvi commigo mesma de o procurar, e pedir-lhe que
+salve da morte a minha pobre amiga. N&atilde;o sei quem
+v. s.&ordf; &eacute;, por&eacute;m, julgo-o um homem de bem e capaz
+de fazer a felicidade de qualquer mulher.</p>
+
+<p>Pallida, com as fontes palpitantes e os olhos afogueados
+por aquella immensa lucta em que a alma se lhe
+debatia, Magdalena parecia elevar-se nas azas de uma
+inspira&ccedil;&atilde;o sublime! Levantando depois a voz que principiava
+a enfraquecer-lhe, Magdalena pediu a Manuel
+que lhe concedesse a sua m&atilde;o para a filha do operario.</p>
+
+<p>Manuel n&atilde;o respondeu!</p>
+
+<p>E no emtanto as aves chilreando por entre as ramas
+dos arvoredos vinham como n'um concerto infernal
+soar aos ouvidos da pobre Magdalena!</p>
+
+<p>&mdash;Que me diz, sr. Manuel de Mendon&ccedil;a? Hesita?
+N&atilde;o a ama? &Eacute; possivel? Quem p&oacute;de deixar de amar
+aquelle anjo?! exclamou Magdalena dando emfim livre
+curso &aacute;s suas lagrimas.</p>
+
+<p>&mdash;Mas porque chora? perguntou Manuel de Mendon&ccedil;a
+dirigindo-se meigamente para Magdalena.</p>
+
+<p>&mdash;Porque choro? Porque avalio a d&ocirc;r de Martha!
+Porque a sinto t&atilde;o viva e t&atilde;o penetrante como ella que
+a soffre! Porque choro? Porque sei quanta agonia ha,
+n'esse amar em silencio, o homem que nunca p&oacute;de ser
+nosso!<span class='pagenum'><a name="Page_209" id="Page_209">[Pg 209]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Pelo que vejo... ama alguem? perguntou Manuel
+com voz tremula.</p>
+
+<p>&mdash;J&aacute; amei alguem... sim... mas ha muito tempo.
+Hoje n&atilde;o, sr. Manuel de Mendon&ccedil;a! Hoje, toda a minha
+vida cifra-se apenas n'uma miss&atilde;o que tenho a cumprir.</p>
+
+<p>&mdash;E essa miss&atilde;o, &eacute;?..</p>
+
+<p>&mdash;Vel-o casado com Martha. V&atilde;o ambos ser muito
+felizes. Ella ama-o tanto, tanto como eu seria...</p>
+
+<p>Aqui a voz ficou-lhe embargada n'uma torrente de
+lagrimas.</p>
+
+<p>E as avesinhas chilreando por entre a moita dos junquilhos
+que emmolduravam a montanha, acordavam no
+espirito de Magdalena um como concerto infernal!</p>
+
+<p>Finalmente, Manuel de Mendon&ccedil;a prometteu-lhe que
+pediria a Jeronymo a m&atilde;o de sua filha.</p>
+
+<p>Apertando-lhe fortemente a m&atilde;o, Magdalena despediu-se
+do maritimo e saiu do passeio.</p>
+
+<p>Como aturdido por aquelles estranhos acontecimentos,
+Manuel dirigiu-se para o sitio onde Mascatudo o
+esperava, e, saindo tambem do passeio dirigiram-se
+pela rua da Boa Morte.</p>
+
+<p>&mdash;Para onde vae, sr. Manuel de Mendon&ccedil;a, perguntou
+Mascatudo vendo que o seu capit&atilde;o seguia a direc&ccedil;&atilde;o
+da estrada do cemiterio dos Prazeres.</p>
+
+<p>&mdash;Preciso de ar livre, respondeu-lhe Manuel. Escalda-me
+a febre. Para que haviamos de ter vindo a Lisboa?</p>
+
+<p>Era tal a agita&ccedil;&atilde;o do seu espirito, que Mascatudo
+nem se atreveu a perguntar-lhe o resultado da entrevista
+que tivera com aquella senhora.</p>
+
+<p>O mais que entre ambos se passou foi um mysterio.
+Soube-o ella e Manuel de Mendon&ccedil;a. Agora, quando estas
+paginas escrevemos, Magdalena dorme o somno da
+morte. Manuel, discreto como a sepultura da pobre
+amiga, seria incapaz de o revelar.<span class='pagenum'><a name="Page_210" id="Page_210">[Pg 210]</a></span></p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<h1><a name="XXXIII" id="XXXIII"></a>XXXIII</h1>
+
+
+<p>Ao metter-se no trem, Magdalena dissera ao cocheiro
+que parasse na rua do Meio.</p>
+
+<p>Ao voltar para a esquerda da rua da Bella Vista,
+ouviu que a chamavam. Era Monica!</p>
+
+<p>Magdalena mandou parar o trem e a beata approximou-se.</p>
+
+<p>&mdash;Ora aqui a temos outra vez com os olhos arrasados
+de lagrimas! exclamou ella. S&atilde;o essas as promessas
+que me tem feito? Pois, minha querida menina,
+accrescentou a velha, quanto estimo tel-a encontrado!
+Fique vossa excellencia sabendo, que o amigo do meu
+sobrinho, com quem me vou encontrar, ficou de me
+dizer hoje tudo <i>tim tim por tim tim</i>!</p>
+
+<p>&mdash;Pois, sr.&ordf; Monica, respondeu-lhe Magdalena, tirando
+duas libras do <i>porte-monnaie</i>, e entregando-as
+na m&atilde;o da beata, escusa de se incommodar mais por
+minha causa.</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa, minha senhora! accudiu rapidamente a
+velha, fechando ao mesmo tempo a m&atilde;o onde as libras
+se occultavam. Dar-se ha o caso, continuou ella, que<span class='pagenum'><a name="Page_211" id="Page_211">[Pg 211]</a></span>
+n&atilde;o esteja satisfeita com os meus servi&ccedil;os? Se tal succede,
+ralhe-me, ralhe-me muito mas n&atilde;o me tracte por
+essa forma.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o &eacute; isso, tia Monica: &eacute; que j&aacute; sei tudo quanto
+tinha que saber; e, fazendo um signal ao cocheiro,
+fez com que o trem seguisse a sua direc&ccedil;&atilde;o, deixando
+a beata estupefacta pelo que vinha de lhe acontecer.</p>
+
+<p>Ter-lhe-ia Manuel de Mendon&ccedil;a contado a historia dos
+seus amores? Ter-lhe-ia narrado o que se dera entre
+Mascatudo e a beata? Ignoramol-o!</p>
+
+<p>O trem chegou &aacute; porta de Jeronymo. Ao apear-se,
+Magdalena foi recebida de bra&ccedil;os abertos por Balbina
+e pela sua amiga.</p>
+
+<p>Como era de esperar, Martha n'aquella noite havia
+peiorado!</p>
+
+<p>&mdash;Venho prevenil-a, que &aacute;manh&atilde; antes do meiodia,
+alguem vir&aacute; pedir-lhe a m&atilde;o de sua filha, disse Magdalena.
+Agora mesmo acabo de estar com essa pessoa.
+Quando prometto, cumpro, embora v&aacute; n'isso a
+existencia.</p>
+
+<p>A gratid&atilde;o n&atilde;o tem phrases! Balbina e Marianna,
+abra&ccedil;ando-se a Magdalena, confundiam entre as suas,
+as lagrimas da pobre martyr!</p>
+
+<p>&mdash;Agora, murmurou Magdalena desembara&ccedil;ando-se
+das suas protegidas, cumpre-me falar com Martha.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, &eacute; possivel que um senhor d'aquella ordem
+deseje casar-se com a filha de um mestre de obras
+perguntou Balbina com as lagrimas nos olhos.</p>
+
+<p>&mdash;Almas como as de Manuel de Mendon&ccedil;a, olham apenas
+para a virtude e nunca para o nascimento, respondeu
+Magdalena.</p>
+
+<p>&mdash;Manuel de Mendon&ccedil;a?! exclamou Marianna com
+uma voz tremula e indecisa. E que edade tem esse
+homem? E quem s&atilde;o os seus paes? ajuntou a pobre<span class='pagenum'><a name="Page_212" id="Page_212">[Pg 212]</a></span>
+mulher approximando-se cada vez mais da filha de
+Trist&atilde;o de Almeida.</p>
+
+<p>&mdash;Infelizmente, n&atilde;o tem paes, respondeu Magdalena.</p>
+
+<p>&mdash;E sabe vossa excellencia quem elle &eacute;, perguntou
+Marianna.</p>
+
+<p>&mdash;Sei.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! por piedade! diga m'o! Dar-se-ha o caso
+que seja...</p>
+
+<p>&mdash;Quem? perguntou Magdalena visivelmente perturbada.</p>
+
+<p>&mdash;O meu filho, que ha vinte e tres annos supponho
+morto!</p>
+
+<p>&mdash;Como se chama elle? perguntou Magdalena.</p>
+
+<p>&mdash;Manuel de Mendon&ccedil;a Athayde, respondeu a velha
+com uma voz enfraquecida.</p>
+
+<p>&mdash;E seu marido?... como se chamava? ajuntou
+Magdalena.</p>
+
+<p>-Alvaro de Mendon&ccedil;a...</p>
+
+<p>&mdash;Justi&ccedil;a de Deus! exclamou a filha de Trist&atilde;o,
+caindo sobre o canap&eacute;, e occultando o rosto entre as
+m&atilde;os.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! mas por Deus n&atilde;o me torture! bradou Marianna,
+lan&ccedil;ando-se aos p&eacute;s de Magdalena. Diga-me se
+&eacute; elle o meu querido filho! &Eacute;; n&atilde;o ha duvida! Essa
+sua perturba&ccedil;&atilde;o... Vive ainda o meu Manuel, o meu
+querido filho da minh'alma? N&atilde;o a deixo, minha senhora,
+n&atilde;o a deixo emquanto me n&atilde;o contar tudo!</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; o seu filho! respondeu Magdalena levantando-se
+com uma serenidade heroica. Deus que nunca desamparou
+os que s&atilde;o verdadeiramente bons, concedeu-lhe
+em mim o instrumento da sua justi&ccedil;a, e n'elle a
+consola&ccedil;&atilde;o para a sua velhice. Agora sr.&ordf; D. Marianna,
+ajuntou ella lan&ccedil;ando-se aos p&eacute;s da velha, sou eu
+quem lhe devolve o seu filho, que, em nome de Deus<span class='pagenum'><a name="Page_213" id="Page_213">[Pg 213]</a></span>
+e em meu nome, lhe pedimos o perd&atilde;o para um culpado!
+Concede-m'o?</p>
+
+<p>Marianna n&atilde;o sabia que responder!</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; de joelhos que lh'o imploro! ajuntou ella, collocando-se
+deante da velha, e confundindo as suas vestes
+de setim negro, com os andrajos da infeliz!</p>
+
+<p>&mdash;Eu vos perd&ocirc;o de todo o meu cora&ccedil;&atilde;o! exclamou
+D. Marianna de Mendon&ccedil;a cahindo sobre o ch&atilde;o. Mas a
+quem perd&ocirc;o eu? accrescentou a infeliz senhora, que
+n&atilde;o pensava sen&atilde;o em ver seu filho!</p>
+
+<p>&mdash;Obrigada, disse Magdalena levantando D. Marianna,
+e levando-a de encontro ao cora&ccedil;&atilde;o! Agora que <i>lhe</i>
+perdoou, vou buscar seu filho, e trazel o aqui mesmo.</p>
+
+<p>Com uma physionomia alvar, Balbina contemplava toda
+esta scena sem a comprehender.</p>
+
+<p>Magdalena fechou-se por alguns instantes no quarto de
+Martha. Afinal sahiu, e, abra&ccedil;ando de novo as suas amigas,
+entrou no trem, e seguiu para o hospital.</p>
+
+<p>No entretanto, Manuel de Mendon&ccedil;a descendo a cal&ccedil;ada
+das Necessidades dirigia-se para bordo.<span class='pagenum'><a name="Page_214" id="Page_214">[Pg 214]</a></span></p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<h1><a name="XXXIV" id="XXXIV"></a>XXXIV</h1>
+
+
+<p>&laquo;Felizmente, pensava Magdalena, Manuel de Mendon&ccedil;a
+nem sequer desconfia que Trist&atilde;o de Almeida foi Felix
+Justino de Araujo e muito menos Domingos de Andrade.
+Poderei conseguir tudo sem comprometter meu pae.
+Vejamos; seriam quarenta, cincoenta contos... Pedir-lhe-hei
+o meu dote, e ser&aacute; uma retribui&ccedil;&atilde;o generosa!
+Ao principio opp&ocirc;r se-ha ao meu pedido, mas por ultimo,
+n&atilde;o ter&aacute; outro remedio sen&atilde;o acceder. Occultarei
+tudo de minha m&atilde;e. Permitta Deus que o possa encontrar
+no hospital. S&atilde;o estas as suas horas.&raquo;</p>
+
+<p>N'este momento, o trem chegava &aacute; rua de S. Francisco
+de Paula. Ao entrar o port&atilde;o, a primeira pessoa
+que lhe appareceu, foi a criada de Olympia, dando lhe
+os parabens n&atilde;o s&oacute; pelo titulo que haviam concedido
+a seu pae, como pelo lindo nome que elle tinha escolhido:
+o conde de S. Luiz.</p>
+
+<p>Sem lhe prestar atten&ccedil;&atilde;o alguma, Magdalena perguntou-lhe
+apenas se alli estivera seu pae.</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa! respondeu a criada de Olympia; acaba
+agora mesmo de ir para o pa&ccedil;o, afim de agradecer a
+sua magestade.<span class='pagenum'><a name="Page_215" id="Page_215">[Pg 215]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;E Olympia?</p>
+
+<p>&mdash;Sua irm&atilde; est&aacute; l&aacute; em cima na casa de jantar a comer
+umas gallinholas, que at&eacute; d&aacute; nauseas a quem v&ecirc;
+similhante coisa! Mandou fazer umas torradas, e deitar
+sobre ellas o miolo das tripas. J&aacute; viram maior porcaria?
+E diz ella que &eacute; o melhor cozinheiro que tem
+tido, e que faz pena que esteja no hospital!</p>
+
+<p>Magdalena subiu &aacute; casa do jantar, onde encontrou
+sua irm&atilde; deliciando o paladar n'uma soberba torrada coberta
+dos despojos ornithologicos d'aquella innocente gallinhola.</p>
+
+<p>&mdash;J&aacute; sabes o titulo que o pap&aacute; escolheu? perguntou
+Olympia.</p>
+
+<p>&mdash;Sei, respondeu Magdalena quasi sem lhe prestar
+atten&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; muito bonito! n&atilde;o achas?</p>
+
+<p>&mdash;Muito bonito!</p>
+
+<p>&mdash;Estiveste em casa de Martha?</p>
+
+<p>&mdash;Estive.</p>
+
+<p>&mdash;Vae melhor?</p>
+
+<p>&mdash;Muito melhor.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o te offere&ccedil;o d'esta gallinhola porque &eacute; de supp&ocirc;r
+que n&atilde;o esteja ao teu gosto, disse Olympia dissecando
+a <i>carcassa</i> da avesinha.</p>
+
+<p>&mdash;Agrade&ccedil;o, murmurou Magdalena deixando sua irm&atilde;,
+e dirigindo-se para o terceiro andar d'onde dias
+antes contemplava a galera de Manuel de Mendon&ccedil;a.</p>
+
+<p>Alli p&ocirc;de emfim dar livre curso &aacute;s suas lagrimas!</p>
+
+<p>D'aquella janella por mais de uma vez, insciente da
+cruel realidade, contempl&aacute;ra o Tejo, no Tejo a barca,
+na barca o homem, no homem, tudo quanto havia de
+mais valioso para o seu cora&ccedil;&atilde;o!</p>
+
+<p>F&ocirc;ra d'alli que vira o seu primeiro desengano, quando
+Manuel de Mendon&ccedil;a, afastando o oculo, lhe denunciava
+n&atilde;o ser ella a pessoa que t&atilde;o anciosamente buscava!<span class='pagenum'><a name="Page_216" id="Page_216">[Pg 216]</a></span></p>
+
+<p>S&oacute;, entregue a uma multid&atilde;o de pensamentos, Magdalena
+come&ccedil;ou a planear o modo de seu pae restituir
+os quarenta contos de r&eacute;is extorquidos a D. Marianna
+de Mendon&ccedil;a.</p>
+
+<p>Magdalena tinha sobejas provas de que a virtude
+nem sempre havia adejado sobre o proceder de Felix
+Justino de Araujo. N&atilde;o ignorava que uma grande parte
+da sua riqueza tinha sido adquirida em commercios illicitos,
+por&eacute;m, o que ella jamais suppozera, &eacute; que seu
+pae tivesse sido capaz de um roubo.</p>
+
+<p>Juntem-se a estas grandes agonias, o infeliz amor
+que lhe ia n'alma, e vossa excellencia que me l&ecirc;, e,
+cujo cora&ccedil;&atilde;o &eacute; egual ao de Magdalena, diga me se d&ocirc;res
+tamanhas podem caber em cora&ccedil;&atilde;o humano!</p>
+
+<p>Alli se demorou perto de meia hora. Depois, como
+se um pensamento lhe acudisse rapidamente &aacute; imagina&ccedil;&atilde;o,
+a infeliz saiu d'aquelle quarto, lan&ccedil;ando-lhe uma
+ultima e dolorosa despedida!</p>
+
+<p>Ao descer ao segundo pavimento encontrou Olympia.</p>
+
+<p>&mdash;Que tens? perguntou esta ao notar a pallidez de
+Magdalena.</p>
+
+<p>&mdash;Doe-me a cabe&ccedil;a.</p>
+
+<p>&mdash;Isso &eacute; fraqueza, respondeu Olympia. Assim estou
+eu.</p>
+
+<p>Magdalena desceu &aacute;s enfermarias e depois de dar
+as suas ordens, entrou no trem e mandou seguir
+para Alcantara.</p>
+
+<hr class="bookstyle"/>
+
+<hr class="bookstyle"/>
+
+<p>&laquo;Disse-me que ia para bordo. J&aacute; l&aacute; deve estar. Mas
+isto &eacute; uma loucura, pensava ella. Uma mulher da minha
+edade ir procurar um homem a bordo do seu navio?
+Embora! A minha consciencia est&aacute; livre e tranquilla!
+N&atilde;o foi Deus quem predispoz todas estas circum<span class='pagenum'><a name="Page_217" id="Page_217">[Pg 217]</a></span>stancias,
+servindo-se de mim para sua intermediaria?
+Que poderei receiar?&raquo;</p>
+
+<p>Voltando-se para o cocheiro disse-lhe que parasse
+na rocha do Conde de Obidos.</p>
+
+<p>Ao chegar ao boqueir&atilde;o, Magdalena apeou-se, e dirigindo-se
+aos catraeiros, pediu a um d'elles que a levassem
+a bordo da galera Esperan&ccedil;a.</p>
+
+<p>Todos queriam ser o primeiro a conduzil-a.</p>
+
+<p>Escolhendo o mais edoso, desceu a rampa e entrou
+no bote.</p>
+
+<p>Que de poemas se agitavam em sua alma &aacute; medida
+que se approximava da galera! Como ella, escrava
+de um dever, ia para sempre abandonar a sua ventura!</p>
+
+<p>Restava-lhe apenas no meio dos seus infortunios, a
+grata lembran&ccedil;a de devolver aos bra&ccedil;os d'aquelle homem
+a pobre m&atilde;e que elle t&atilde;o anciosa e infructiferamente
+havia buscado!</p>
+
+<p>A pouca distancia viu Manuel de Mendon&ccedil;a, de p&eacute;,
+encostado &aacute; amurada. Com o rosto curvado sobre o
+peito, olhava para as aguas da corrente, que vinham
+no seu eterno movimento gemer de encontro &aacute; quilha
+da embarca&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>Ao ver aquelle bote que se lhe dirigia por estibordo,
+reconheceu immediatamente a filha de Trist&atilde;o de
+Almeida, e, descendo a escada de corda, veiu recebel-a
+no momento em que abordava &aacute; embarca&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Preciso falar-lhe, disse Magdalena. E nem mesmo
+subo, ajuntou ella, olhando tristemente para a galera.</p>
+
+<p>Manuel entrou para o bote, e Magdalena mandou que
+remassem para o caes.</p>
+
+<p>Durante o curto espa&ccedil;o de tempo que levaram em
+chegar &aacute; rocha, Magdalena n&atilde;o lhe dirigiu uma palavra.<span class='pagenum'><a name="Page_218" id="Page_218">[Pg 218]</a></span></p>
+
+<p>Manuel n&atilde;o sabia que pensar.</p>
+
+<p>Os catraeiros olhando-se mutuamente, conjecturavam
+entre si, o que seria a causa d'aquelle mysterio.</p>
+
+<p>Chegaram finalmente &aacute; rocha.</p>
+
+<p>Ao subir as escadas, Magdalena voltou-se para Manuel
+de Mendon&ccedil;a, ergueu o v&eacute;u que lhe occultava o
+rosto, e demorou-se fitando-o por alguns instantes.</p>
+
+<p>&mdash;Vim buscal-o t&atilde;o apressadamente, porque lhe quero
+dar o maior prazer que tem experimentado na sua
+vida. A Providencia fez com que me encontrasse, para
+lhe depositar nos seus bra&ccedil;os tudo quanto tem de mais
+precioso sobre a terra.</p>
+
+<p>Manuel contemplava-a sem comprehender uma palavra.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o lhe offere&ccedil;o o meu trem; poder se-ia tornar
+reparado, accrescentou ella; mas, o que lhe pe&ccedil;o, &eacute;
+que venha immediatamente a casa de Jeronymo para
+onde me dirijo. E saltando para dentro do trem, mandou
+ao cocheiro que seguisse para a rua do Meio.</p>
+
+<p>Metteu-se n'uma sege que passava n'aquelle instante
+Manuel de Mendon&ccedil;a e acompanhou a carruagem de
+Magdalena.</p>
+
+<p>Chegaram ao mesmo tempo &aacute; porta de Jeronymo.</p>
+
+<p>Magdalena foi a primeira a apear-se, e, entrando rapidamente
+em casa de Jeronymo, dirigiu-se ao quarto
+de D. Marianna de Mendon&ccedil;a.</p>
+
+<p>A pobre senhora lan&ccedil;ou-se-lhe nos bra&ccedil;os!</p>
+
+<p>&mdash;Venho cumprir a minha promessa, disse-lhe Magdalena.
+Vae ver seu filho! O que lhe pe&ccedil;o, &eacute; que tenha
+valor para resistir a este lance! e, abrindo a porta
+que communicava com a saleta, chamou em voz
+alta por Manuel de Mendon&ccedil;a.</p>
+
+<hr class="bookstyle"/>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_219" id="Page_219">[Pg 219]</a></span></p><hr class="bookstyle"/>
+
+<p>V&ecirc;de a le&ocirc;a a quem haviam roubado o filho, e que
+o torna a colher entre as suas garras, e podereis avaliar
+o que se passou n'aquella eternidade de sensa&ccedil;&otilde;es.</p>
+
+<hr class="bookstyle"/>
+
+<hr class="bookstyle"/>
+
+<p>Magdalena, de p&eacute;, com os olhos arrasados de lagrimas,
+contemplava esta scena ao lado da mulher de
+Jeronymo.</p>
+
+<p>Perto de cinco minutos esteve a pobre m&atilde;e agarrada
+ao pesco&ccedil;o de Manuel de Mendon&ccedil;a! Ainda lhe parecia
+impossivel aquella palpavel realidade! Desprendendo-se
+emfim do collo de seu filho, D. Marianna lan&ccedil;ou-se
+aos p&eacute;s de Magdalena, e, beijando-lh'os no transporte
+de uma alegria assustadora, ergueu-se de novo
+cingindo-a pela cintura e cobrindo-lhe a face de
+beijos e lagrimas de gratid&atilde;o!</p>
+
+<p>&mdash;Agora, disse Magdalena desembara&ccedil;ando se de D.
+Marianna, devemos attender ao estado de Martha. &Eacute;
+necessario prevenirmos todas estas circumstancias. Ter-nos-ha
+ouvido?</p>
+
+<p>&mdash;Com certeza que n&atilde;o; e demais tem um somno
+muito pesado, respondeu Balbina enxugando as lagrimas
+que lhe rolavam pelo rosto.</p>
+
+<p>N'este momento, Martha chamava por sua m&atilde;e.</p>
+
+<p>Balbina e Magdalena dirigiram-se ao quarto da
+doente.</p>
+
+<p>&mdash;Que voz foi essa que ouvi na saleta, minha m&atilde;e?
+perguntou Martha sem notar a presen&ccedil;a de Magdalena.</p>
+
+<p>&mdash;Era a minha voz, respondeu a filha de Trist&atilde;o approximando-se
+do leito e beijando-a na face.</p>
+
+<p>&mdash;A sua! exclamou ella. Eu suppunha...</p>
+
+<p>&mdash;O qu&ecirc;?</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_220" id="Page_220">[Pg 220]</a></span></p><p>&mdash;Que era...</p>
+
+<p>&mdash;A voz de Manuel de Mendon&ccedil;a? N&atilde;o se illudiu. &Eacute;
+Manuel que vem hoje pedil-a a seu pae.</p>
+
+<p>Erguendo se n'um impeto de suprema vontade, Martha
+lan&ccedil;ou-se ao pesco&ccedil;o de Magdalena.</p>
+
+<p>Que lagrimas n&atilde;o foram as d'essas duas mulheres!
+N'uma, o pranto consolador da alegria; na outra, lagrimas
+que vinham do cora&ccedil;&atilde;o, abrazando-lhe as palpebras
+n'um fogo do inferno!</p>
+
+<p>&mdash;Valor! disse Magdalena, soltando-se dos bra&ccedil;os de
+Martha, &eacute; necessario que se restabele&ccedil;a para em breve
+conceder a sua m&atilde;o ao filho de D. Marianna de Athayde!</p>
+
+<p>&mdash;Ao filho de Marianna de Athayde! exclamou ella
+sem comprehender uma palavra do que acabava de ouvir!</p>
+
+<p>&mdash;Sim, ao filho da sua amiga Marianna.</p>
+
+<p>&mdash;Ent&atilde;o Manuel de Mendon&ccedil;a &eacute;...</p>
+
+<p>&mdash;Seu filho. Agora, cumpre-me dar ainda alguns passos
+para resolver completamente a minha miss&atilde;o, e,
+abra&ccedil;ando a sua protegida, Magdalena sahiu do quarto
+e dirigiu-se &aacute; saleta aonde Manuel de Mendon&ccedil;a, ainda
+preso nos bra&ccedil;os de sua m&atilde;e, agradecia &aacute; Providencia
+o ter-lhe devolvido tudo quanto elle tinha de mais caro
+n'este mundo.</p>
+
+<p>Ao vel-a, D. Marianna lan&ccedil;ou-se-lhe de novo ao pesco&ccedil;o
+e cobriu-a de beijos!</p>
+
+<p>Manuel de Mendon&ccedil;a, que fix&aacute;ra o rosto entristecido
+de Magdalena, cravou os olhos no ch&atilde;o, como receiando
+que o trahisse o seu olhar.</p>
+
+<p>Teria elle comprehendido o que se passava no cora&ccedil;&atilde;o
+de Magdalena?</p>
+
+<p>&mdash;Agora, disse Magdalena, retiro-me. &Aacute;manh&atilde; sendo
+meio dia, aqui estarei, por que tenho graves negocios
+a tractar com vossa excellencia e com seu filho. Extendendo
+a m&atilde;o a este ultimo e a D. Marianna, Magdalena
+retirou-se, caminho do hospital.<span class='pagenum'><a name="Page_221" id="Page_221">[Pg 221]</a></span></p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<h1><a name="XXXV" id="XXXV"></a>XXXV</h1>
+
+
+<p>Havia quinze dias que sahira o decreto concedendo
+o titulo de &laquo;conde de S. Luiz&raquo; ao illustre e philanthropico
+var&atilde;o, que, com tanto e tanto afan, continuava a
+espalhar as joias da sua caridade.</p>
+
+<p>A condessa, impando de orgulho e de vaidade, ora
+se pavoneava pelas ruas mais concorridas da capital,
+ora embocetada no palacio de S. Francisco de Paula,
+aguardava o sequito das fidalgas caridosas, que, esquecendo
+o amarellecido dos seus pergaminhos, iam, movidas
+pela virtude da moderna titular, fazer antecamara
+&aacute;quella que dias antes se chamava apenas D. Maria
+Egypciaca.</p>
+
+<p>Gra&ccedil;as &aacute;s repetidas instancias do seu amigo o visconde
+de Coruche, Trist&atilde;o de Almeida, ou, para falarmos
+com mais propriedade, o conde de S. Luiz, fizera
+um arrendamento a longo prazo de um magnifico palacio
+em Buenos-Ayres, outr'ora pertencente aos marquezes
+de...</p>
+
+<p>Encarregando-se por especial favor do que dizia respeito
+&aacute;s cavallari&ccedil;as, o visconde, como homem enten<span class='pagenum'><a name="Page_222" id="Page_222">[Pg 222]</a></span>dido
+na materia, fez acquisi&ccedil;&atilde;o de tudo quanto n'esse
+genero havia de melhor.</p>
+
+<p>Tornou-se notorio o luxo d'aquella irreprehensivel
+vivenda.</p>
+
+<p>Os fidalgos, que n'esse tempo&mdash;menos por necessidade,
+do que pelo prazer de manifestarem aos quatro
+ventos do c&eacute;u o seu desamor pela archeologia&mdash;esbanjavam
+sem d&oacute; nem piedade, os mais preciosos objectos
+de arte, deparados nos empoeirados sot&atilde;os dos
+seus castellos feudaes, correram atropellando-se ao escriptorio
+do conde de S. Luiz, afim de ver qual seria o
+primeiro a depositar nas m&atilde;os do magnate as nobres
+reliquias dos seus preclarissimos antepassados. N&atilde;o
+tardou que o palacio do conde de S. Luiz se tornasse
+n'um museu de antiguidades! Retratos houve de familia,
+que foram jazer empilhados na estrebaria por n&atilde;o
+lhes permittirem os sal&otilde;es o seu elevado porte.</p>
+
+<p>O conde, pagava tudo com prodiga generosidade, o
+que lhe deu o triste resultado de alguem lhe metter um
+collar de perolas falsas por barrocas, o que elle generosamente
+acceitou e pagou, attendendo que esse mesmo
+collar havia figurado no pesco&ccedil;o de um grande ministro
+de um excelso monarcha.</p>
+
+<p>Juntem se a estas nobres qualidades, uma mesa esplendida,
+e que o leitor avalie se a casa do conde de
+S. Luiz seria ou n&atilde;o frequentada.</p>
+
+<p>O conselheiro Poderosa, gra&ccedil;as &aacute;s ausencias do visconde,
+de dia para dia se tornava mais sympathico para
+Olympia, para o conde e para a condessa.</p>
+
+<p>Olympia adivinhava no conselheiro, n&atilde;o s&oacute; um marido
+exemplar, como um dedicado companheiro de
+mesa, prompto sempre a affrontar qualquer ataque
+apopletico por mais anormaes que fossem as epochas.</p>
+
+<p>O conselheiro comia e bebia por dez conselheiros,
+o que era extremamente agradavel para Olympia, po<span class='pagenum'><a name="Page_223" id="Page_223">[Pg 223]</a></span>r&eacute;m,
+quando ella um dia notou que depois do jantar,
+os olhos do seu futuro se fitaram brandamente n'uma
+othomana que estava proxima, Olympia exultou de alegria,
+e viu n'esse homem, o unico individuo capaz de
+fazer a sua felicidade: comer e dormir, acordar e comer!</p>
+
+<p>Olympia esperava apenas que o conselheiro a pedisse
+a seu pae.</p>
+
+<p>A condessa sabia d'estes amores. Por mais de uma
+vez tinha dito a Olympia, que pela sua parte n&atilde;o encontraria
+a menor opposi&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>Exceptuando duas pessoas, todos alli viviam felizes:
+essas duas, eram Magdalena e o conde de S. Luiz! O
+que entre ambos se havia passado, sabia-o apenas
+Deus, que ajud&aacute;ra a primeira nos seus pedidos e escutara
+as promessas do segundo!</p>
+
+<p>Quanto &aacute; condessa de S. Luiz, ou porque a sua alegria
+n&atilde;o lhe tivesse dado tempo a reflectir na tristeza
+do conde e de sua filha ou porque inteiramente lhes
+n&atilde;o desse importancia, n&atilde;o cuidava sen&atilde;o em distrahir
+os seus convidados.</p>
+
+<p>Aos almo&ccedil;os, succediam-se os jantares, a estes os
+bailes, de forma que o palacio do conde de S. Luiz
+tornou se em poucos dias o centro da melhor sociedade
+de Lisboa.</p>
+
+<p>Debalde tentavam Magdalena e seu pae, encobrir a
+d&ocirc;r que lhes roubava a felicidade. Este ultimo, vendo
+constantemente deante dos olhos a imagem grave e severa
+de D. Marianna de Mendon&ccedil;a, recordando lhe o
+seu passado; Magdalena lembrando-se do homem que
+teria feito a ventura da sua alma, mas a cujo sacrificio
+tinha prendido um juramento!</p>
+
+<hr class="bookstyle"/>
+
+<p>Magdalena no dia immediato &aacute;quelle em que entregara
+Manuel de Mendon&ccedil;a nos bra&ccedil;os de sua m&atilde;e, fe<span class='pagenum'><a name="Page_224" id="Page_224">[Pg 224]</a></span>chada
+com seu pae no escriptorio do hospital, communic&aacute;ra-lhe
+tudo quanto dizia respeito &aacute; familia de Athaide
+de Mendon&ccedil;a.</p>
+
+<p>O conde de S. Luiz, que n&atilde;o tinha segredos para
+sua filha, abrindo-lhe inteira a sua alma, desenh&aacute;ra-lhe
+em tra&ccedil;os rapidos o quadro inteiro da sua vida,
+accrescentando-lhe, que por ella e s&oacute; por ella havia
+incorrido em certas <i>coisas</i> de que se arrependia profundamente.</p>
+
+<p>Magdalena exigiu-lhe uma restitui&ccedil;&atilde;o d'aquelle dinheiro
+extorquido &aacute; viuva, compromettendo-se a preparar
+tudo de forma que a opini&atilde;o publica ainda mais
+se levantasse em favor de seu pae, vendo-o entregar
+cem ou duzentos contos de r&eacute;is, &aacute; filha d'esse homem,
+para cuja morte involuntariamente havia concorrido.</p>
+
+<p>Concordando plenamente em tudo quanto Magdalena
+exigiu, pediu apenas a sua filha o maior segredo para
+com a condessa e Olympia, accrescentando a isto a
+maior brevidade possivel no casamento, o qual, auctorizando
+aquella restitui&ccedil;&atilde;o, lhe ia devolver a paz ao
+espirito.</p>
+
+<p>Abra&ccedil;ando seu pae, Magdalena assegurou-lhe que
+partiria immediatamente para casa de Martha, afim de
+se oferecer para madrinha do seu casamento. Com
+effeito, &aacute;s duas horas da tarde, e n&atilde;o ao meio dia como
+havia combinado com Manuel de Mendon&ccedil;a, Magdalena
+entrou em casa do operario.</p>
+
+<p>Martha havia passado a noite mais tranquilla. O doutor
+n&atilde;o se tinha illudido; a sua doen&ccedil;a era menos
+physica do que moral.</p>
+
+<p>Desde as onze horas da manh&atilde; que Manuel de Mendon&ccedil;a
+estava ao lado de sua m&atilde;e. J&aacute; na vespera tinha
+visto Jeronymo, e j&aacute; lhe havia pedido a m&atilde;o de sua
+filha.</p>
+
+<p>Magdalena entrou no quarto de Martha, e, dando-lhe<span class='pagenum'><a name="Page_225" id="Page_225">[Pg 225]</a></span>
+os parabens, offereceu-se para madrinha do casamento.</p>
+
+<p>Consummara-se o sacrificio!</p>
+
+<hr class="bookstyle"/>
+
+<p>&mdash;Quando se realisar&aacute; esse casamento? perguntava
+todos os dias o conde de S. Luiz.</p>
+
+<p>&mdash;Brevemente, respondia-lhe Magdalena!<span class='pagenum'><a name="Page_226" id="Page_226">[Pg 226]</a></span></p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<h1><a name="XXXVI" id="XXXVI"></a>XXXVI</h1>
+
+
+<p>Instigado pelos conselhos do visconde, e pela persistente
+c&ocirc;rte que D. Olympia lhe dirigia, o conselheiro
+resolveu se emfim a pedir aos condes a m&atilde;o de sua
+filha.</p>
+
+<p>Eram duas horas da tarde. O conde tinha partido
+para o hospital, mas, para sua felicidade estava em
+casa a condessa de S. Luiz, e prompta como sempre,
+desde as dez horas da manh&atilde;, para receber todas as
+visitas que lhe mereciam a honra da sua amizade.</p>
+
+<p>O conselheiro foi introduzido para um pequeno gabinete
+&laquo;&aacute; renascen&ccedil;a&raquo;, todo mobilado ao gosto do visconde
+de Coruche.</p>
+
+<p>A condessa n&atilde;o se fez demorar muito tempo. J&aacute; esperava
+que mais dia menos dia o conselheiro se resolvesse
+a pedir-lhe Olympia.</p>
+
+<p>&mdash;Quanto folgo vel-o n'esta casa, e a esta hora,
+disse a condessa, ao mesmo tempo que lhe extendia a
+m&atilde;o. Adivinho pouco mais ou menos do que se tracta,
+ajuntou ella designando-lhe uma othomana, e puxando
+uma cadeira para si.<span class='pagenum'><a name="Page_227" id="Page_227">[Pg 227]</a></span></p>
+
+<p>A condessa queria ser a primeira, sempre, em resolver
+qualquer quest&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Provavelmente vem pedir a m&atilde;o de Olympia?...
+ajuntou ella, sem admittir que o conselheiro lhe dirigisse
+uma s&oacute; palavra. Quanto o estimo! e como o conde
+vae ficar alegre! Pela minha parte, concedo-lh'a da
+melhor vontade, e, desde j&aacute; lh'o affian&ccedil;o, que o conde
+ha-de ser da minha opini&atilde;o. Tenho toda a certeza que
+v. ex.&ordf; ha de ser o mais feliz possivel com minha filha.
+N&atilde;o parece uma rapariga d'este tempo. Para Olympia
+&eacute;-lhe t&atilde;o indifferente ir aos bailes, como passar as noites
+em casa. N&atilde;o d&aacute; importancia alguma ao luxo! O
+seu gosto &eacute; estar em casa e olhar pela dispensa. Nem
+&eacute; mesmo d'essas meninas que passam o dia a l&ecirc;r livros,
+como Magdalena por exemplo, que est&aacute; &aacute;s vezes
+at&eacute; as duas horas da noite amarrada &aacute; sua Biblia, e outros
+romances quejandos. Olympia detesta os livros,
+tem-lhes um odio de morte! L&aacute; quanto a isso, parece-se
+commigo. Foi coisa que nunca pude supportar! Olympia,
+o seu maior prazer &eacute; fazer pudins e fructas de
+compota.</p>
+
+<p>O conselheiro, olhando estupefacto para aquella Niag&aacute;ra
+de eloquencia, debalde esperava o ensejo favoravel
+para lhe dizer o fim que alli o havia trazido. A condessa
+n&atilde;o lh'o permittia!</p>
+
+<p>&mdash;Em Olympia n&atilde;o ha coisa alguma a desejar, formosura,
+riqueza, saude, tudo, tudo, accrescentou a condessa
+de S. Luiz, tirando o len&ccedil;o da algibeira para limpar
+o suor que em bagas lhe escorria.</p>
+
+<p>&mdash;Pois, minha senhora, acudiu rapidamente o conselheiro,
+aproveitando o ensejo que lhe favorecia a limpeza
+d'aquella individualidade titular, o que me trouxe
+a casa dos condes de S. Luiz, foi o mesmo que v. ex.&ordf;
+com esse instincto que lhe &eacute; natural, adivinhou! Escuso
+portanto de lh'o repetir.<span class='pagenum'><a name="Page_228" id="Page_228">[Pg 228]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Quanto o estimo, meu querido genro, respondeu
+a condessa, approximando-se do conselheiro e apertando-lhe
+ambas as m&atilde;os.</p>
+
+<p>&mdash;Vae fazer-me o mais feliz de todos os homens.</p>
+
+<p>&mdash;Sim?... respondeu a bojuda matrona, vae v&ecirc;r:
+levantando-se, puchou o cord&atilde;o da campainha.</p>
+
+<p>&mdash;E cr&ecirc; v. ex.&ordf; que a sr.&ordf; D. Olympia responde aos
+eccos do meu cora&ccedil;&atilde;o?</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o o comprehendo, sr. conselheiro.</p>
+
+<p>Este occultou a custo um sorriso.</p>
+
+<p>&mdash;Quero eu dizer, se o meu amor ser&aacute; retribuido
+por sua excelentissima filha?</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa! respondeu a condessa tornando a sentar-se
+ao lado do conselheiro, se soubesse quanto ella
+o estima...</p>
+
+<p>N'este momento appareceu um criado.</p>
+
+<p>&mdash;V&aacute; dizer a Maria que participe &aacute; Gertrudes que
+suba ao quarto da aia da menina Olympia, para lhe dizer
+que venha immediatamente falar com sua m&atilde;e.</p>
+
+<p>O conselheiro abysmou deante d'aquelle prodigio
+de memoria, que com tanta facilidade decorava t&atilde;o
+grande por&ccedil;&atilde;o de nomes!</p>
+
+<p>D'alli a momentos entrou a aia de Olympia, participando
+que a menina ainda teria alguma demora, porque
+se encontrava um pouco indisposta.</p>
+
+<p>&mdash;Provavelmente ceiou muito. &Eacute; o seu unico defeito,
+sr. conselheiro. &Eacute; muito gulosa esta minha filha.</p>
+
+<p>A criada retirou-se.</p>
+
+<p>&mdash;O mesmo sou eu, minha senhora, respondeu o
+conselheiro.</p>
+
+<p>&mdash;Sim?</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; verdade. Tenho dias de jantar tres vezes.</p>
+
+<p>&mdash;Ai que ar! gargalhou a condessa de S. Luiz. Pois
+realmente, sinto que Olympia n&atilde;o esteja de p&eacute;. Em todo
+o caso, sempre vou l&aacute; acima. Talvez que seja ape<span class='pagenum'><a name="Page_229" id="Page_229">[Pg 229]</a></span>nas
+um leve incommodo; e, levantando-se saiu da sala,
+deixando o conselheiro na contempla&ccedil;&atilde;o de umas
+gravuras em a&ccedil;o que adornavam as paredes do gabinete.</p>
+
+<p>&laquo;Isto corre &aacute;s mil maravilhas! pensava o conselheiro.
+Olympia pelo que me parece, consultando o estomago,
+decidiu de si para si que lhe n&atilde;o era antipathica
+a minha pessoa. Sua m&atilde;e, pelo que se v&ecirc;, encontrou
+em mim o seu sonho dourado! Quanto ao conde
+de S. Luiz por certo que se conforma com tudo que
+sua mulher decidir! Emfim, ser&aacute; o que Deus quizer!
+Em todo o caso, foi um achado, um verdadeiro achado,
+este Trist&atilde;o de Almeida. E eu que estive para desprezar
+a sua apresenta&ccedil;&atilde;o!... Desconfio que, apezar
+de todo o amor que Magdalena experimenta pelo visconde,
+o meu casamento ainda se ha de effectuar primeiramente
+do que o seu. Custa-me a acreditar que
+um caracter como o de Magdalena, possa experimentar
+pelo visconde, outro sentimento, a n&atilde;o ser o de repuls&atilde;o.
+O que f&ocirc;r verdadeiramente bom e digno, n&atilde;o p&oacute;de
+amar sen&atilde;o o que &eacute; digno e bom! E demais, Magdalena
+deve conhecel-o. T&atilde;o pouco falado tem elle sido
+na sociedade de Lisboa.&raquo;</p>
+
+<p>N'este comenos entrou a condessa; Olympia seguia-a
+de perto.</p>
+
+<p>Se aos vinte annos a pallidez traduz em absoluto a
+poesia da alma; se o desbotado da face &eacute; synonimia
+dos sofrimentos intimos que lavram o cora&ccedil;&atilde;o, Olympia
+n'aquelle momento, a despeito da sua anafada estructura,
+dir-se-ia nutrida estatua da poesia affectada
+pelas terriveis consequencias de uma gastro enterite!</p>
+
+<p>Ao approximar-se do conselheiro, a filha do conde de
+S. Luiz debalde se esfor&ccedil;ava para, n'uma graciosa mesura,
+cumprimentar aquelle a quem brevemente ia conceder
+a sua m&atilde;o. O esophago n&atilde;o lhe permittia a mais<span class='pagenum'><a name="Page_230" id="Page_230">[Pg 230]</a></span>
+leve inclina&ccedil;&atilde;o do busto. Olympia conservava se firme
+como um sargento, deante d'esse que era de ha muito
+o commandante dos seus pensamentos!</p>
+
+<p>&mdash;Venho agora mesmo de saber por minha m&atilde;e a
+sr.&ordf; condessa de S. Luiz que vossa excellencia deseja estreitar
+os la&ccedil;os matrimoniaes com a minha pessoa. Se a
+meu pae lhe n&atilde;o f&ocirc;r desagradavel a uni&atilde;o das nossas
+almas, estou muito prompta a acceder em tudo aos seus
+desejos.</p>
+
+<p>O conselheiro contentou-se apenas em lhe apertar a
+m&atilde;o n'um transporte de reconhecida ventura.</p>
+
+<p>&mdash;Como j&aacute; tive o gosto de dizer a vossa excellencia
+o conde de S. Luiz ter&aacute; o maior desejo em que
+este casamento se effectue o mais depressa possivel,
+portanto, n&atilde;o tem vossa excellencia mais cousa alguma
+a fazer sen&atilde;o vir hoje mesmo pedir-lhe a m&atilde;o de
+Olympia. Meu marido e eu mesma, accrescentou a condessa
+de S. Luiz, nos temos informado por todas as
+pessoas que frequentam o nosso palacio, quem vossa
+excellencia &eacute;; deve portanto suppor a honra que nos
+vae causar, entrando para o seio da nossa familia.</p>
+
+<p>&mdash;A honra sou eu que a recebo, senhora condessa
+de S. Luiz, e &eacute; t&atilde;o profundo o meu desejo em ver realizadas
+as nossas esperan&ccedil;as, que, hoje mesmo, se vossa
+excellencia acha conveniente...</p>
+
+<p>&mdash;Se acho, meu genro! O conde de S. Luiz, sendo
+cinco horas, mais <i>migalha</i> menos <i>migalha</i> deve c&aacute; estar.
+N&atilde;o falte pois, accrescentou ella extendendo a m&atilde;o
+ao conselheiro, que foi recuando sem descravar os
+olhos de Olympia, at&eacute; que se retirou.</p>
+
+<p>&mdash;At&eacute; que v&ecirc;s as tuas esperan&ccedil;as realizadas, disse
+a condessa de S. Luiz voltando-se para sua filha.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; verdade, minha m&atilde;e, suspirou Olympia! E agora,
+para ter for&ccedil;as de supportar todas estas commo&ccedil;&otilde;es, vou ver
+se me d&atilde;o um caldo de cabe&ccedil;a de vitella.<span class='pagenum'><a name="Page_231" id="Page_231">[Pg 231]</a></span></p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<h1><a name="XXXVII" id="XXXVII"></a>XXXVII</h1>
+
+
+<p>Segundo havia combinado com a condessa, o conselheiro
+&aacute;s cinco horas da tarde foi procurar o conde
+de S. Luiz.</p>
+
+<p>Este parecia ouvil-o sem lhe prestar atten&ccedil;&atilde;o alguma;
+por&eacute;m, gra&ccedil;as &aacute; sua esposa, declarou por ultimo
+que n&atilde;o tinha duvida em conceder-lhe a m&atilde;o de Olympia.</p>
+
+<p>Jo&atilde;o Poderosa exultou de alegria! Olympia sentia
+brincar-lhe o travesso amor nas cavidades estomacaes
+apontando-lhe ao mesmo tempo as flechas de ouro, ao
+org&atilde;o musculoso do corpo humano, a que vulgarmente
+se chama cora&ccedil;&atilde;o!</p>
+
+<p>Momentos depois come&ccedil;aram a entrar convidados
+para jantar; entre esses vinha o visconde de Coruche.</p>
+
+<p>Ao <i>toast</i>, a condessa de S. Luiz declarou que estava
+justo o casamento de sua filha D. Olympia com o conselheiro
+Jo&atilde;o Poderosa.</p>
+
+<p>Em seguimento aos brindes do estylo, n&atilde;o houve
+quem deixasse de notar que esta declara&ccedil;&atilde;o n&atilde;o tivesse
+sido feita pelo conde. Mas que influencia tinha isso?
+N&atilde;o f&ocirc;ra esplendido o jantar?!<span class='pagenum'><a name="Page_232" id="Page_232">[Pg 232]</a></span></p>
+
+<p>O que ninguem podia descortinar era o motivo da
+tristeza do conde de S. Luiz e de Magdalena!</p>
+
+<p>Attribuiam a esta ultima, que uma paix&atilde;o em silencio
+pelo visconde de Coruche, era a causa da sua terrivel
+melancolia.</p>
+
+<p>Em vez de conversarem com as visitas, de <i>fazerem
+sala</i>, como vulgarmente se diz, Magdalena e seu pae
+passaram quasi toda a noite n'um pequeno gabinete
+contiguo a um dos sal&otilde;es.</p>
+
+<p>&mdash;Planeiam o modo de agarrar o visconde! dizia
+um individuo que por mais uma vez intentara fazer a
+c&ocirc;rte a Magdalena.</p>
+
+<p>&mdash;Como se isso fosse uma coisa muito difficil, respondia-lhe
+o outro. N&atilde;o tem Magdalena um dote de
+quatrocentos contos?</p>
+
+<p>&mdash;P&oacute;de ser que a n&atilde;o ame, e n'esse caso...</p>
+
+<p>&mdash;Que innocencia! Quem despreza quatrocentos contos?
+E sobre tudo o visconde que est&aacute; sem um vintem.</p>
+
+<p>&mdash;Tom&aacute;ras tu assim estar.</p>
+
+<p>&mdash;Olha, quem foi esperto foi o Jo&atilde;o Poderosa...
+Quem o ha de agora aturar com quatrocentos contos?</p>
+
+<p>&mdash;Felizes dos jogadores!</p>
+
+<p>&mdash;Desconfio que n&atilde;o! J&aacute; tem comido do p&atilde;o que o
+diabo amassou. N&atilde;o &eacute; o conselheiro que torna a arruinar-se.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o digas isso. A lei natural &eacute; esta: o homem
+rico, que se arruina e que depois por um bafejo da
+sorte torna a enriquecer, embriaga-se no fausto e na
+opulencia, e nunca mais se recorda das terriveis noites
+de miseria sen&atilde;o quando ellas principiam a despontar
+vagamente por entre o sol da sua felicidade.</p>
+
+<p>&mdash;A mim n&atilde;o me succederia outro tanto.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute;s uma excep&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;A excep&ccedil;&atilde;o, &eacute; o que tu dizes.</p>
+
+<p>&mdash;Ser&aacute; o que te aprouver. O que eu n&atilde;o estou &eacute;<span class='pagenum'><a name="Page_233" id="Page_233">[Pg 233]</a></span>
+para teimas. J&aacute; querias aproveitar esta minha opini&atilde;o
+para me ferrares uma <i>estopada</i>. Adeus. Vou l&aacute; dentro
+ver se tomo um <i>grog</i>.</p>
+
+<hr class="bookstyle"/>
+
+<p>&Aacute; meia noite, retiraram-se todos os convidados.</p>
+
+<p>&mdash;Como deves estar satisfeita, Olympia, dizia Magdalena
+voltando se para sua irm&atilde;.</p>
+
+<p>&mdash;Eu! respondeu Olympia. Ora essa! Pelo muito
+que jantei.<span class='pagenum'><a name="Page_234" id="Page_234">[Pg 234]</a></span></p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<h1><a name="XXXVIII" id="XXXVIII"></a>XXXVIII</h1>
+
+
+<p>O conselheiro saira da casa do conde de S. Luiz
+acompanhado pelo visconde.</p>
+
+<p>Ao despedirem se, este ficou de ir no dia seguinte
+almo&ccedil;ar com Jo&atilde;o Poderosa, para saber todos os promenores
+da sua entrevista com o conde de S. Luiz.</p>
+
+<p>S&atilde;o dez horas da manh&atilde;. Louco de alegria pelo negocio
+que viera de fazer, o conselheiro form&uacute;la mil
+planos para o seu dourado porvir!</p>
+
+<p>A geada de muitos invernos que lhe nevara no cora&ccedil;&atilde;o,
+ia desfazer-se aos raios do sol de melhores dias.
+Ia subir aos pinaculos da felicidade, e contemplar de
+uma grande altura os loda&ccedil;aes da pobreza, onde havia
+alguns annos se estorcia.</p>
+
+<p>N'este momento, entrou um criado annunciando o
+visconde de Coruche.</p>
+
+<p>&mdash;Que entre, disse o conselheiro.</p>
+
+<p>Minutos depois, entrou o visconde.</p>
+
+<p>O fidalgo vinha pallido como uma estatua.</p>
+
+<p>&mdash;Que temos! Meu Deus! Como vens perturbado!
+acudiu o conselheiro fitando o rosto do seu amigo.<span class='pagenum'><a name="Page_235" id="Page_235">[Pg 235]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Uma grande desgra&ccedil;a! Uma grande fatalidade!
+exclamou o visconde.</p>
+
+<p>&mdash;Uma grande desgra&ccedil;a?! Uma grande fatalidade?!</p>
+
+<p>&mdash;Venho agora mesmo de casa do conde de S.
+Luiz, e...</p>
+
+<p>&mdash;Morreu Olympia de alguma indigest&atilde;o?...</p>
+
+<p>&mdash;Peior! tartamudeou o visconde, sentando-se n'uma
+othomana.</p>
+
+<p>&mdash;Peior do que isso?! Ora essa! O que poderia
+acontecer peior do que isso!</p>
+
+<p>&mdash;O conde de S. Luiz foi atacado pela febre, e porque
+forma, meu caro amigo! A sua morte &eacute; irremediavel,
+mas o peior, ainda n&atilde;o &eacute; isso, o peior foi o que
+me disse agora a condessa...</p>
+
+<p>&mdash;O que te disse a condessa? perguntou anciosamente
+o conselheiro.</p>
+
+<p>&mdash;Que Magdalena entrar&aacute; para um convento no
+mesmo momento em que seu pae morrer.</p>
+
+<p>&mdash;Respiro! disse emfim o conselheiro.</p>
+
+<p>&mdash;Respiras?! perguntou o visconde profundamente
+admirado.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, cuidei que fosse alguma coisa que me dissesse
+respeito.</p>
+
+<p>&mdash;Mas diz-me respeito a mim, louco! N&atilde;o sabes
+que amava essa mulher? Que eu era amado por ella?</p>
+
+<p>&mdash;Pois se tu a amas, e &eacute;s amado por ella, &eacute; collocares-te
+&aacute; porta d'esse convento e n&atilde;o a deixares entrar.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; que tu n&atilde;o comprehendes o seu caracter, Jo&atilde;o.
+N&atilde;o sabes a especie de amor que essa mulher me consagra?
+Amor que a tem feito soffrer e que lhe vae abrir
+a sepultura!</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o comprehendo, murmurou o conselheiro.</p>
+
+<p>&mdash;Pois eu t'o explico. Magdalena dirigindo-se pela
+opini&atilde;o geral, julga-me incapaz de ser um bom mari<span class='pagenum'><a name="Page_236" id="Page_236">[Pg 236]</a></span>do,
+por estes dez ou doze annos, emquanto tiver sangue
+na guelra, segundo a phrase de Olympia! Ora,
+meu amigo, Magdalena &eacute; ciumenta como uma le&ocirc;a, que
+n&atilde;o admitte que se divida o cora&ccedil;&atilde;o, prefere morrer
+por mim, abra&ccedil;ada &aacute; cruz do seu amor, do que ser
+minha, sem ter f&eacute; na fidelidade da minha alma. Comprehendes?</p>
+
+<p>&mdash;Olha, se queres que te diga a verdade, n&atilde;o comprehendo
+bem essas cousas. Ahi tens tu porque eu
+gosto da minha Olympia. Quanto a essa, estou certo
+que me n&atilde;o ha de atormentar muito com ciumes, nem
+aturdir-me com aquelles estirados monologos de sentimento,
+em que Magdalena est&aacute; constantemente delirando.
+Sempre te disse que n&atilde;o trocava a minha felicidade
+pela tua, se por ventura viesses a ser meu cunhado,
+o que j&aacute;mais pude acreditar, e se queres que
+seja sincero comtigo, nunca me pude aperceber d'essa
+paix&atilde;o, que tu dizias ter-lhe inspirado, apezar de m'a
+estares querendo metter pelos olhos. E que tencionas
+fazer? ajuntou elle mudando de tom.</p>
+
+<p>&mdash;Que tenciono fazer! Conformar-me com o meu
+destino, como ella...</p>
+
+<p>&mdash;Como ella qu&ecirc;? interrompeu o conselheiro, recolheres
+te tambem a um convento?</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o, mas esquecel-a em todas as loucuras da vida!
+No jogo, na embriaguez...</p>
+
+<p>&mdash;Mau systema, respondeu o conselheiro.</p>
+
+<p>&mdash;Sabes uma cousa, Jo&atilde;o? acudiu o visconde despeitado
+com a serenidade do conselheiro.</p>
+
+<p>&mdash;Dize, respondeu este fleugmaticamente.</p>
+
+<p>&mdash;Est&aacute;-me revoltando essa tua serenidade! Devias
+interessar-te mais por mim, lembra-te...</p>
+
+<p>&mdash;Que te sou devedor da minha futura felicidade,
+mas que queres! Creio pouco na tua paix&atilde;o. Tenho-te
+visto trinta vezes apaixonado, e no dia seguinte, cura<span class='pagenum'><a name="Page_237" id="Page_237">[Pg 237]</a></span>do
+d'esse sentimento com o cora&ccedil;&atilde;o prompto e limpo
+para receber outro que te appare&ccedil;a. Se fosses pobre
+como eu, se tivesses as minhas theorias sobre o dinheiro,
+ent&atilde;o poderia acreditar que estavas penalizado
+pela entrada no convento, por&eacute;m como se n&atilde;o d&aacute;
+isso, felizmente para ti, pouco tenho a compadecer-me.
+&Aacute;manh&atilde; por estas horas, completamente esquecido
+de Magdalena, apaixonas-te por qualquer mulher
+que seduzes pelo teu ouro e pela tua intelligencia, e
+appareces-me d'aqui a dias curado d'essa paix&atilde;o que
+te atormenta.</p>
+
+<p>O visconde mordeu os bei&ccedil;os de raiva. Havia tanto
+de ironia nas palavras do conselheiro, que n&atilde;o tardou
+muito que as inten&ccedil;&otilde;es lhe fossem completamente
+denunciadas.</p>
+
+<p>&mdash;Que tencionas portanto fazer? perguntou elle a
+Poderosa, querendo dissimular a perturba&ccedil;&atilde;o que lhe
+haviam produzido as suas palavras.</p>
+
+<p>&mdash;Que tenciono fazer? Ir immediatamente para Buenos-Ayres.
+E tu?</p>
+
+<p>&mdash;Tenho muitas voltas a dar, n&atilde;o poderei ir sen&atilde;o
+de tarde. E despedindo-se do conselheiro, o visconde
+saiu, deixando o entregue &aacute;s suas profundas reflex&otilde;es.</p>
+
+<p>&laquo;Pobre visconde! Realmente, compade&ccedil;o-te. Quanto
+melhor te f&ocirc;ra o teres sido sincero para commigo.
+Se tens sido esperto, apanhavas-me cincoenta ou sessenta
+contos por me teres conseguido este casamento.
+Assim, melhor foi, custar-me-ha apenas cincoenta ou
+sessenta libras!&raquo;</p>
+
+<p>Meia hora depois, o conselheiro mandou buscar um
+trem, e dirigiu-se para Buenos-Ayres.<span class='pagenum'><a name="Page_238" id="Page_238">[Pg 238]</a></span></p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<h1><a name="XXXIX" id="XXXIX"></a>XXXIX</h1>
+
+
+<p>S&atilde;o tres horas da tarde. O palacio dos condes de S.
+Luiz, que na vespera ainda brilhantemente illuminado,
+abria os seus magnificos sal&otilde;es &aacute; primeira sociedade
+de Lisboa, apresenta se agora entristecido como fachada
+de edificio legendario!</p>
+
+<p>&Eacute; que a morte, estranha e indifferente a todas as
+grandezas humanas, assenta-se melancholicamente sobre
+os degraus d'aquellas escadas de marmore, e, erguendo-se
+de vez em quando, fixa o seu olhar invisivel,
+que atravessando as salas, vae pousar lugubremente
+no rosto pallido e cadaverico do conde de S. Luiz!</p>
+
+<p>Trist&atilde;o sente-lhe as m&atilde;os frias e descarnadas pesando-lhe
+sobre o peito. Quer falar; a voz prende-se-lhe
+na garganta! De vez em quando, levanta um olhar
+de piedade para um Christo, que de bra&ccedil;os abertos o
+contempla da sua cruz, como se o convidasse a recolher-se
+ao seu divino seio! Ent&atilde;o o conde torna a
+abaixar os olhos como se aquella imagem o assustasse,
+e, levantando ao mesmo tempo uma das m&atilde;os, pede
+a Magdalena que se lhe approxime.<span class='pagenum'><a name="Page_239" id="Page_239">[Pg 239]</a></span></p>
+
+<p>Ha quatro horas que n&atilde;o fala! Para maior expia&ccedil;&atilde;o,
+a sua intelligencia est&aacute; clara e completamente
+serena!</p>
+
+<p>Magdalena, debru&ccedil;ada sobre o leito, pegando n'um
+len&ccedil;o de cambraia, limpa-lhe de vez em quando o rosto
+banhado por um suor lento e copioso. O seu rosto, denota-lhe
+o martyrio e a resigna&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>A condessa, curvada n'uma poltrona, descan&ccedil;a a fronte
+nas m&atilde;os, erguendo-se de minuto em minuto para
+contemplar o infeliz esposo. O seu olhar &eacute; triste, mas
+resignado como o de sua filha.</p>
+
+<p>Olympia ao fundo do quarto, sentada n'um soph&aacute; tapa
+os olhos com um len&ccedil;o de assoar, mastigando occulta
+e prestidigiosamente, umas bolachinhas de agua
+e sal.</p>
+
+<p>O commendador Lopes de Miranda e o banqueiro
+Vaz Mendes, ora se approximam dos p&eacute;s do leito, ora
+se dirigem aos outros gabinetes, onde uma multid&atilde;o
+de individuos esperam com anciedade saber o estado
+do enfermo.</p>
+
+<p>N'este comenos entra o conselheiro Poderosa. Demora-se
+um minuto olhando para o conde, e, engatilhando
+um gesto de sofrimento dirige-se para a condessa.</p>
+
+<p>Esta extende-lhe silenciosamente a m&atilde;o, occultando
+ao mesmo tempo o rosto com um len&ccedil;o de cambraia.</p>
+
+<p>Jo&atilde;o Poderosa fica immovel por alguns segundos, e
+em seguimento retira-se para falar com Olympia.</p>
+
+<p>Ao approximar-se lhe, a noiva simula um estremecimento
+de surpreza, e, esquecendo o embrulho das
+bolachinhas que conservava no rega&ccedil;o, entorna-o, fazendo
+rebolar as bolachas sobre a alcatifa.</p>
+
+<p>O conselheiro curva o busto, e salva os despojos farinaceos
+que se preparavam para fazer as delicias da
+mastiga&ccedil;&atilde;o da sua futura esposa!</p>
+
+<p>No momento em que o conselheiro principiava o seu<span class='pagenum'><a name="Page_240" id="Page_240">[Pg 240]</a></span>
+dialogo com Olympia, Magdalena, que havia chegado o
+rosto aos labios de seu pae, volta-se para a condessa.</p>
+
+<p>Esta pergunta lhe o que deseja.</p>
+
+<p>&mdash;Meu pae, necessita estar sosinho commigo e pede
+a todos que se retirem, responde Magdalena.</p>
+
+<p>A condessa levanta-se. Olympia e o conselheiro seguem-n'a.
+Este ultimo demora se no gabinete com sua
+futura sogra; Olympia aproveita a occasi&atilde;o de ir &aacute; copa
+tomar uma canja de gallinha.</p>
+
+<p>&mdash;Sinto que me foge a vida, filha, disse o conde extendendo
+a m&atilde;o para Magdalena. N&atilde;o quero morrer sem
+ter cumprido os meus e os teus desejos. Agora que me
+sinto mais tranquillo, vae tu, Magdalena, vae tu mesma
+buscar D. Marianna de Mendon&ccedil;a. Quero ouvir-lhe
+o perd&atilde;o de seus proprios labios, e tambem do Manuel.
+Vae Magdalena, vae, minha filha, cumpre com este
+ultimo desejo de teu pae.</p>
+
+<p>&mdash;E minha m&atilde;e?... e toda a gente?...</p>
+
+<p>&mdash;E o que temos n&oacute;s com toda esta gente, Magdalena?
+Trata-se agora da minha consciencia. Quero apresentar-me
+deante de Deus arrependido de todos os males
+que causei n'este mundo. Desde que confiei todos os
+peccados &aacute;quelle santo padre que me trouxeste, minha
+filha, j&aacute; n&atilde;o receio o desconhecido. Sinto-me muito mais
+alliviado. Quando eu morrer, Magdalena, dentro da minha
+secretaria, encontrar&aacute;s um pequeno cofre de platina;
+guarda-o, e a mais ninguem confies os segredos
+que elle encerra. S&oacute; tu ser&aacute;s digna d'isso. O meu testamento
+est&aacute; na gaveta pequena d'aquella secretaria.
+Ha quatro dias que foi feito. Parecia adivinhar o que
+succedia! Foi Deus! Deixo quatrocentos contos a D. Marianna
+de Mendon&ccedil;a: ainda n&atilde;o &eacute; muito, para o que
+lhe fiz soffrer! Agora, que sabes o principal, vae filha,
+e possa o perd&atilde;o d'essa mulher fazer com que a mi<span class='pagenum'><a name="Page_241" id="Page_241">[Pg 241]</a></span>nha
+alma, voando aos p&eacute;s de Deus, seja acolhida no seu
+divino rega&ccedil;o.</p>
+
+<p>Afastando-a brandamente, tornou a pedir-lhe que fosse
+buscar D. Marianna de Mendon&ccedil;a.</p>
+
+<p>&mdash;Se tua m&atilde;e te perguntar onde vaes, accrescentou
+elle, responde-lhe que &eacute; um segredo que juraste guardar
+a um moribundo.</p>
+
+<p>Magdalena, depois de beijar seu pae na fronte, sa&iacute;u
+do quarto e atravessou pelo gabinete onde sua m&atilde;e
+conversava com o conselheiro.</p>
+
+<p>&mdash;Onde vaes? perguntou-lhe a condessa.</p>
+
+<p>&mdash;Vou sa&iacute;r.</p>
+
+<p>&mdash;Sa&iacute;r?</p>
+
+<p>&mdash;Buscar uma pessoa a quem meu pae deseja falar
+antes de morrer.</p>
+
+<p>&mdash;E essa pessoa... quem &eacute;?</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; um mysterio e um segredo, e recommendando
+&aacute; condessa que fosse para junto de seu pae, Magdalena
+atravessou as salas, e subindo ao quarto, preparou-se
+para sa&iacute;r.</p>
+
+<p>Era tal o respeito e considera&ccedil;&atilde;o que Magdalena inspirava
+a sua m&atilde;e; tinha tanta certeza da inutilidade de
+todos os seus esfor&ccedil;os, para lhe quebrar qualquer dever,
+que a condessa resumiu-se ao silencio, e dirigiu-se
+sem mais reflex&otilde;es ao quarto de seu marido.</p>
+
+<p>&mdash;Aonde foi Magdalena?</p>
+
+<p>&mdash;Buscar uma pessoa a quem desejo pedir perd&atilde;o
+antes de morrer, e com quem pretendo ficar s&oacute;sinho.</p>
+
+<p>A condessa, sem responder uma palavra, foi sentar
+se na mesma poltrona d'onde momentos antes se
+havia levantado.</p>
+
+<p>Amparado por aquelle desejo ardente, o conde de
+S. Luiz parecia de momento para momento ganhar mais
+tranquillidade.</p>
+
+<p>Um quarto de hora depois, Magdalena entrou de novo
+no quarto de seu pae, participando lhe a chegada<span class='pagenum'><a name="Page_242" id="Page_242">[Pg 242]</a></span>
+de D. Marianna. O conde fez um gesto significativo a
+sua mulher, esta comprehendendo o em seguida com
+uma obediencia passiva, levantou-se e sa&iacute;u do quarto.
+Pouco depois entrava D. Marianna de Mendon&ccedil;a e seu
+filho. Magdalena fechou a porta deixando-os a s&oacute;s com
+o conde.</p>
+
+<p>Magdalena dissera-lhe apenas que seu pae os queria
+ver antes de expirar.</p>
+
+<p>O conde, ao vel-os parados no meio da sala, extranhos
+e alheios &aacute;quella situa&ccedil;&atilde;o, ergueu se n'um supremo
+esfor&ccedil;o, e, chamando-os pelos nomes, convidou-os
+a approximarem-se do leito.</p>
+
+<p>D. Marianna, accedendo immediatamente aos seus
+desejos, acercou-se do enfermo.</p>
+
+<p>&mdash;Lembra-se D. Marianna de Mendon&ccedil;a, recorda-se
+Manuel, d'um banqueiro chamado Felix Justino de
+Araujo, que em 1835 a mandou ir um dia em companhia
+do seu advogado, levantar um deposito de perto
+de quarenta contos de r&eacute;is?</p>
+
+<p>&mdash;Lembro-me, respondeu D. Marianna de Mendon&ccedil;a,
+fixando demoradamente o semblante do conde de
+S. Luiz.</p>
+
+<p>&mdash;Se esse homem, que fez a sua desgra&ccedil;a, que lhe
+roubou filho, haveres, e por ultimo a raz&atilde;o, debru&ccedil;ado
+sobre a sepultura, lhe extendesse a m&atilde;o supplice
+e arrependida, implorando lhe o perd&atilde;o para sua alma,
+que lhe faria?</p>
+
+<p>&mdash;Perdoar-lhe tudo, para que Deus tambem me
+perd&ocirc;e os meus peccados, respondeu ainda D. Marianna.</p>
+
+<p>&mdash;Perd&ocirc;a-me tambem, Manuel de Mendon&ccedil;a? disse
+o conde. Perdoa a este homem, que durante vinte
+e tres annos o separou de tudo quanto tinha de mais
+caro no mundo! Perdoa a este homem, accrescentou
+elle, que conduziu sua m&atilde;e &aacute; miseria e &aacute; loucura.<span class='pagenum'><a name="Page_243" id="Page_243">[Pg 243]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Perdoae-lhe, Senhor, como eu lh'o perd&ocirc;o de todo
+o meu cora&ccedil;&atilde;o, respondeu Manuel de Mendon&ccedil;a,
+voltando-se para a cruz do Redemptor, juiz supremo
+d'esta tocante scena.</p>
+
+<p>&mdash;Morrerei tranquillo, disse ent&atilde;o o moribundo, com
+a voz j&aacute; enfraquecida.</p>
+
+<p>&mdash;Que Deus perd&ocirc;e ao pae d'aquelle anjo, disse D.
+Marianna caindo de joelhos, e apontando para a porta
+por onde Magdalena havia saido.</p>
+
+<p>&mdash;Diz bem, D. Marianna; d'aquelle anjo, accrescentou
+o conde de S. Luiz. Foi aquella candida pomba a
+encarregada por Deus para me conduzir &aacute; sua divina
+presen&ccedil;a! A ella devo o seu perd&atilde;o, sr.&ordf; D. Marianna!</p>
+
+<p>&mdash;E eu devo-lhe o meu filho, respondeu D. Marianna,
+arrastando-se de joelhos sobre a alcatifa, at&eacute; se
+collocar deante do Christo. Pela vossa infinita misericordia,
+exclamou ella levantando as m&atilde;os para a cruz,
+perdoae-lhe Senhor, como eu de todo o cora&ccedil;&atilde;o lhe
+perd&ocirc;o, e queira a vossa infinita vontade conservar-lhe
+largos annos de vida, para que este arrependido
+conhe&ccedil;a a sinceridade das minhas palavras.</p>
+
+<p>&mdash;Chamem a minha filha que deve estar n'aquelle
+quarto, murmurou o conde, voltando-se para Manuel
+de Mendon&ccedil;a, e apontando para uma porta que separava
+os dois aposentos.</p>
+
+<p>Magdalena entrou immediatamente. Ainda que dotada
+de uma organiza&ccedil;&atilde;o robustissima, a infeliz, j&aacute; principiava
+a resentir-se de tantas commo&ccedil;&otilde;es.</p>
+
+<p>D. Marianna, lan&ccedil;ando-se-lhe nos bra&ccedil;os, debalde
+tentava occultar as lagrimas.</p>
+
+<p>&mdash;Falta me aqui uma pessoa a quem desejava ver
+antes de morrer. Queria abra&ccedil;ar a Martha, a minha
+companheira do hospital.</p>
+
+<p>&mdash;Deus favorece-lhe os seus desejos, meu pae. Ha<span class='pagenum'><a name="Page_244" id="Page_244">[Pg 244]</a></span>
+dois minutos que alli est&atilde;o todos tres: e, abrindo a
+porta, deu passagem a Balbina, Jeronymo e sua filha.</p>
+
+<p>&mdash;Approximem-se, meus amigos, disse-lhes o conde
+de S. Luiz. E, emquanto f&ocirc;r tempo, accrescentou
+elle, apertem esta m&atilde;o, que sempre se lhes extendeu
+com amizade.</p>
+
+<p>As lagrimas embargaram-lhes as vozes. Uma pessoa
+apenas se conservava n'uma serenidade de martyr.
+Era Magdalena!</p>
+
+<p>&mdash;Infelizmente, accrescentou o conde voltando-se
+para Martha e Manuel de Mendon&ccedil;a, n&atilde;o lhes posso assistir
+ao casamento mas aqui lhes fica este anjo, continuou
+elle voltando-se para Magdalena.</p>
+
+<p>Esta ficou immovel!</p>
+
+<p>Alma temperada nas grandes agonias, a que realeza
+de martyrio foste arrancar esse diadema que te cor&ocirc;a?</p>
+
+<p>Momentos depois, retiraram se todos do quarto.</p>
+
+<p>O conde ficou em estado de profunda atonia.</p>
+
+<p>N&atilde;o se ouvia um ruido. Apenas o estremecimento
+da prece passando pelos labios descorados de Magdalena.</p>
+
+<p>Como tudo isto estivesse em socego entraram no
+quarto a condessa, Olympia, o conselheiro e o visconde
+de Coruche. Seguiam n'os o commendador e o banqueiro.</p>
+
+<p>&mdash;Dorme tranquillo! disse o visconde olhando na
+direc&ccedil;&atilde;o do leito.</p>
+
+<p>&mdash;Dorme acudiu a condessa, &aacute; medida que se approximava
+de seu esposo.</p>
+
+<p>Magdalena, n'esse momento, adeantou se mais, e debru&ccedil;ou-se
+a escutar a respira&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Morto! exclamou a pobre filha, n'um arranco
+d'alma! Bemdito Deus, que me permittiste salvar meu
+pae! ajuntou ella caindo sobre o cadaver do conde, e
+aproveitando nos seus labios o derradeiro calor d'aquelle
+rosto extremecido.<span class='pagenum'><a name="Page_245" id="Page_245">[Pg 245]</a></span></p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<h1><a name="EPILOGO" id="EPILOGO"></a>EPILOGO</h1>
+
+
+<p>No mesmo dia foi aberto o testamento, tendo por
+testemunhas o visconde de Coruche, o commendador
+Lopes de Miranda e o conselheiro Jo&atilde;o Poderosa.</p>
+
+<p>Deixava por testamenteira a sua filha D. Magdalena.
+Entre varios legados a differentes hospitaes e asylos,
+avultava a quantia de quatrocentos contos a D. Marianna
+de Mendon&ccedil;a e Athayde, como um testemunho de eterna
+recorda&ccedil;&atilde;o pelos muitos favores de que lhe era devedor.</p>
+
+<p>A sua fortuna, espalhada por differentes bancos da
+Europa e da America, excedia a dois mil contos.</p>
+
+<p>Quinze dias depois da morte do conde de S. Luiz,
+&aacute;s seis horas da manh&atilde;, Manuel de Mendon&ccedil;a recebia-se
+na freguezia de Nossa Senhora da Lapa com a
+filha de Jeronymo, tendo por padrinhos dois honrados
+capit&atilde;es de navio, e por madrinha D. Magdalena
+de Almeida.</p>
+
+<p>Ao cabo de dois mezes, Olympia concedeu a sua
+m&atilde;o ao conselheiro, e o seu cora&ccedil;&atilde;o aos inqualificaveis
+gozos da cosinha.<span class='pagenum'><a name="Page_246" id="Page_246">[Pg 246]</a></span></p>
+
+<p>Gozando em branda paz as delicias do hymeneu, havia
+comtudo uma terrivel sombra que lhes perturbava
+a paz domestica: o conselheiro n&atilde;o era capaz de fazer
+nem um <i>beefsteak</i>! Toda a sciencia culinaria de que
+se vangloriara, era apenas um mytho que elle cre&aacute;ra
+para conquistar o estomago de D. Olympia!</p>
+
+<p>Quando emfim sobre Lisboa deixaram de esvoa&ccedil;ar as
+azas negras do monstro, e que Magdalena fechou as
+portas &aacute;quelle hospital, d'onde n&atilde;o tinha saido desde a
+morte de seu pae, o visconde de Coruche, vivamente
+ferido pela grandeza d'alma de Magdalena, lan&ccedil;ou se-lhe
+aos p&eacute;s e pediu-a em casamento.</p>
+
+<p>&mdash;Vou casar-me com Deus, respondeu Magdalena,
+levantando os olhos para o c&eacute;u!</p>
+
+<p>No dia seguinte, Magdalena entrava no convento
+de ***, onde morreu pouco depois, recebendo as ben&ccedil;&atilde;os
+da pobreza, com quem havia repartido os seus
+rendimentos.</p>
+
+<p>Lopes de Miranda, associado com Vaz Mendes n'uma
+casa de penhores, abre os seus armarios a todos os
+objectos de valor que o visconde de Coruche periodicamente
+lhe envia pelo seu mordomo. Este espera
+ainda ver seu amo n'um estado florescente, attendendo
+ao axioma de um dos nossos primeiros vultos litterarios:
+que um fidalgo arruinado sempre tem cem contos
+de r&eacute;is!</p>
+
+<p>Quanto &aacute; condessa de S. Luiz, uns dizem que est&aacute;
+beata, outros asseveram que se tornou capitalista de
+uma partida de <i>Roulette</i> n&atilde;o sei em que parte da Europa,
+e de que s&atilde;o feitores Gil de Carvalho e Bernardo
+de Paiva, tendo-lhe o primeiro ganho a confian&ccedil;a pela
+paga espontanea das cem libras que devia a seu
+defuncto marido, e de que nem ella mesma era sabedora.<span class='pagenum'><a name="Page_247" id="Page_247">[Pg 247]</a></span></p>
+
+<p>E Martha, e Manuel de Mendon&ccedil;a, e sua m&atilde;e, e Balbina
+e Jeronymo, e Mascatudo?</p>
+
+<p>Apezar da tia Monica asseverar aos que &aacute; noite se
+reunem na tenda da rua da Lapa, que foram todos parar
+aos peixinhos, pessoa de credito affirmou a quem
+estas paginas escreve, que essa familia, venturosa na
+sua uni&atilde;o, se foi estabelecer nos Estados-Unidos, gosando
+em doce calma os prazeres de uma existencia
+honesta, moral e religiosa.</p>
+
+<p>E ter-se-h&atilde;o esquecido da memoria de Magdalena?</p>
+
+<p>Nunca! N'aquelles cora&ccedil;&otilde;es n&atilde;o cabia a ingratid&atilde;o.</p>
+
+<p class="smcap center">Fim</p>
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_249" id="Page_249">[Pg 249]</a></span></p>
+
+<h1><a name="COMPANHIA_PORTUGUESA_EDITORA_L" id="COMPANHIA_PORTUGUESA_EDITORA_L"></a>COMPANHIA PORTUGUESA EDITORA, L.<sup>DA</sup></h1>
+
+<h3>PORTO</h3>
+
+<h2>Ultimas Publica&ccedil;&otilde;es</h2>
+
+<table summary="alinhamento de texto"><tr><td>
+<b>A Morgadinha do Valongo</b>. Novela, por Manuel da C&acirc;mara, 1 vol. broc.</td><td class="bottom-align right">5$000
+</td></tr><tr><td>
+<b>A Verdade</b>, pe&ccedil;a em tr&ecirc;s actos, por Francisco Lage e Jo&atilde;o Correia d'Oliveira. 1 vol.</td><td class="bottom-align right">12$500
+</td></tr><tr><td>
+<b>A Regenera&ccedil;&atilde;o</b>,&mdash;Fontes Pereira de Mello, por Eduardo Noronha&mdash;1.&ordf; parte. 1 vol.</td><td class="bottom-align right">12$500
+</td></tr><tr><td>
+<b>Cari&aacute;tide</b>, pelo Visconde de Vila-Moura. 1 vol.</td><td class="bottom-align right">7$500
+</td></tr><tr><td>
+<b>Cartas a Luiza</b>, por D. Maria Amalia Vaz de Carvalho. (Nova edi&ccedil;&atilde;o) 1 vol.</td><td class="bottom-align right">10$000
+</td></tr><tr><td>
+<b>Cesar e Jo&atilde;o Fernandes</b>, comedia em 1 acto por Alberto de Morais e Mario Duarte.</td><td class="bottom-align right">2$500
+</td></tr><tr><td>
+<b>Dom Jo&atilde;o</b>, Poema por Silva Gayo. 1 vol.</td><td class="bottom-align right">7$500
+</td></tr><tr><td>
+<b>Duas Causas</b>, pe&ccedil;a em tr&ecirc;s actos por Alberto de Morais e Mario Duarte 1 vol.</td><td class="bottom-align right">8$000
+</td></tr><tr><td>
+<b>Fontes Pereira de Mello</b>, por Eduardo Noronha, 2.&ordf; parte 1 vol.</td><td class="bottom-align right">10$000
+</td></tr><tr><td>
+<b>Manh&atilde; de S. Jo&atilde;o</b>, por Severo Portela, pr&oacute;prio para prenda de anos. 1 vol.</td><td class="bottom-align right">7$500
+</td></tr><tr><td>
+<b>Maravilhas Celestes</b>, por Camilo Flammarion, vers&atilde;o de Alexandre da Concei&ccedil;&atilde;o. 1 vol.</td><td class="bottom-align right">12$500
+</td></tr><tr><td>
+<b>Mundo Novo</b>. Romance, por Ana de Castro Osorio. 1 vol.</td><td class="bottom-align right">12$500
+</td></tr><tr><td>
+<b>O Douro em Brasas...</b> Cr&oacute;nicas, por Kol d'Alvarenga. 1 vol. broc.</td><td class="bottom-align right">8$000
+</td></tr><tr><td>
+<b>O Fado</b>. Ensaios sobre um problema Etnogr&aacute;fico-Folcl&oacute;rico, por Jos&eacute; Maciel Ribeiro Fortes. 1 vol.</td><td class="bottom-align right">10$000
+</td></tr><tr><td>
+<b>O Livro da Educadora</b>, por Paulo Combres (Nova edi&ccedil;&atilde;o) 1 vol.</td><td class="bottom-align right">10$000
+</td></tr><tr><td>
+<b>O Martir do Golgota</b>, por Henrique Peres Escrich. 3 vol.</td><td class="bottom-align right">24$000
+</td></tr></table>
+
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+<pre>
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+End of the Project Gutenberg EBook of O Conde de S. Luiz, by Tomaz de Melo
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CONDE DE S. LUIZ ***
+
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+works. See paragraph 1.E below.
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+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
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+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
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+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
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+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
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