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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:44:42 -0700 |
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LUIZ *** + + + + +Produced by Júlio Reis, Carlo Traverso, Leonor Silva and +the Online Distributed Proofreading Team at +https://www.pgdp.net + + + + + + +Notas de transcrição: + +O uso do hífen nesta obra é bastante inconsistente; o mesmo se passa +com a ortografia. Assim, ocorrem por exemplo "entregara" e "entregára"; +"ante-mão" e "antemão"; "dirigindo se" e "dirigindo-se". A grafia não +foi harmonizada, por não ser possível determinar a intenção original do +autor. + +Nesta edição em texto simples, o texto em negrito foi colocado entre = e +o texto em itálico foi colocado entre _. O texto em superscrito está +colocado dentro de ^{ }. + + + + +[Ilustração: Capa] + +Biblioteca Portuguesa Ilustrada + +D. TOMAZ DE MELO + +O CONDE DE S. LUIZ + +LIVRARIA BARATEIRA + +34, Rua do Duque, 36--T. Trind 1264--LISBOA + + + + +O CONDE DE S. LUIZ + + +[Ilustração: Publicidade à "Bibliotheca Portugueza Illustrada"] + +EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL + +SOCIEDADE EDITORA + +LIVRARIA MODERNA: R. Augusta, 95 * TYPOGRAPHIA: R. Ivens, 45 e 47 + + + + +BIBLIOTHECA PORTUGUEZA ILLUSTRADA + + +*Nova collecção economica a 200 réis o volume* + +Contendo 200 a 250 pag. com 5 illustrações originaes de pagina + + * * * * * + +É esta bibliotheca exclusivamente constituida por livros nacionaes, dos +nossos melhores escriptores, custando cada volume de cerca de 250 +paginas, em magnifico papel, com 5 illustrações originaes e +expressamente feitas para esta publicação, apenas *200* réis, ou *300* +réis, bellamente encadernado em capas especiaes a côres. + + +ROMANCES PUBLICADOS + +*Os Fidalgos do Coração de Ouro* (Chronica do reinado de D. Sebastião) +por M. Pereira Lobato. Dois vol., broc. 400 rs., enc. n'um só, em capas +especiaes, 500 rs. + +*A Queda d'um Gigante*, (continuação do antecedente). Um vol., broc. 200 +rs., enc. 300 rs. + +*A Baroneza de la Puebla*, (romance do seculo XVI, continuação dos 2 +anteriores). Um vol., broc. 200 rs., enc. 300 rs. + +*Estandarte Real*, (conclusão dos romances anteriores). Um vol., broc. +200 rs., enc. 300 rs. + +*Lição ao Mestre*, por Teixeira de Vasconcellos. Tres vol., broc. 600 +rs., enc. n'um só 700 rs. + +*A Mascara Vermelha*, (romance historico) por M. Pinheiro Chagas. Um +vol, broc. 200 rs., enc. 300 rs. + +*Juramento da Duqueza*, (continuação do antecedente) por M. Pinheiro +Chagas. Um vol., broc. 200 rs., enc. 300 rs. + +*Noites Perdidas*, livro de contos, de Betamio d'Almeida. Um vol., broc. +200 rs., enc. 300 rs. + +*Esboços de apreciações litterarias*, de Camillo C. Branco. Um vol., +br., 200 rs., enc. 300 rs. + +*Conde de S. Luiz*, por D. Thomaz de Mello. Um vol. br., 200 rs., enc. +300 rs. + +*A PUBLICAR:* + +*Duello nas sombras*, por A. F. Barata,--*Annel mysterioso*, de Alberto +Pimentel, etc., etc. + +ASSIGNATURA PERMANENTE + + + + +BIBLIOTHECA PORTUGUEZA ILLUSTRADA + +X + +D. THOMAZ DE MELLO + +O CONDE DE S. LUIZ + +ROMANCE ORIGINAL + +SEGUNDA EDIÇÃO + +[Ilustração: Logótipo da sociedade editora] + + LISBOA + EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL + _Sociedade editora_ + + LIVRARIA MODERNA || TYPOGRAPHIA + _R. Augusta 95_ || _45, R. Ivens, 47_ + +1903 + + + + +I + + +Era no anno de 18*** N'um palacete proximo á Calçada de Santo André, +vivia, em companhia de seu filho e de duas creadas, D. Marianna de +Mendonça, filha bastarda de Manuel Pires de Athayde, que fôra em tempos +de pouco saudosa memoria alcaide-mór da cidade de * * * + +Poucos mezes antes de morrer, Manuel Pires de Athayde, entregára a sua +filha dezeseis mil cruzados em dinheiro, afóra joias e outros objectos +de valor, pedindo-lhe ao mesmo tempo que acceitasse por esposo a Alvaro +de Mendonça seu primo co-irmão, moço serio e de bom porte, e, além +d'isso, possuidor de riquezas quasi eguaes ás que o alcaide-mór lhe +legava. + +Recusando, a principio, o noivo que o pae lhe indicava, D. Marianna, por +ultimo, não teve mais remedio senão acceder aos seus desejos. + +Tres mezes depois, com grande alegria de todos os parentes, recebeu se +com Alvaro de Mendonça na freguezia dos Anjos. + +O pobre velho parecia apenas aguardar a realização d'este ultimo desejo +para volver a alma ao Creador, entre as lagrimas da filha e dos amigos +que o estremeciam. Ao cabo de oito dias de casada, D. Marianna ficava +sem pae. + +Manuel Pires de Athayde não se havia enganado na escolha; Alvaro de +Mendonça era o exemplo dos maridos. A sua proverbial honestidade +tornava-o estimado em todos os logares onde apparecia, acompanhado quasi +sempre pela esposa, digna e respeitada como elle. + +Ao fim d'um anno, a Providencia, prodiga em lhes proporcionar todas as +venturas, concedeu-lhes a maior que póde dar aos que deveras se amam +sobre a terra, e que medem o mundo todo, pelo curto espaço do seu +domicilio: um filho. + +Manuel--tal foi o nome do recemnascido--de dia para dia se tornava mais +robusto. Era um gosto vel os á tarde por sobre os canteiros do seu +pequeno jardim, correndo com o Manuelito, e disputando entre si, qual +dos dois alegraria mais a creancinha. + +Marianna, por esse tempo, teria uns dezoito a vinte annos, Alvaro trinta +e quatro. + +Amor, saude, mocidade, riquezas e um filho! Que lhes faltava para serem +felizes? + +Pelo espaço de doze annos, trabalhando mais do que as forças lh'o +permittiam, afim de melhorar o futuro da creança, correu a vida de +Alvaro de Mendonça, sem que uma só vez podesse D. Marianna deixar de +levantar as mãos aos céus, para agradecer á Providencia o esposo que lhe +havia concedido. + +Uma circumstancia apenas lhes toldava de vez em quando o iris da sua +felicidade; eram os continuos receios que um velho primo lhes infundia, +sobre a precoce intelligencia do estremecido fructo dos seus amores +patriarchaes. + +«Não puchem pelo rapazola se o não querem ver no cemiterio, dizia-lhes +elle muitas vezes. Um talento como este deve ser muito poupado. Se meu +pae não me tem acudido a tempo, retirando-me do collegio, talvez lhes +não estivesse agora dando este conselho. Eu fui o mesmo que o Manuelito; +aprendi a grammatica portugueza de _fio a pavio_ em menos de um mez. Não +percebia bem o que dizia, é verdade, mas sabia tudo de cór, que era até +um gosto ouvirem-me. Sabem o que fez meu pae? Annuiu aos desejos do +mestre, que era um doidinho por mim, e retirou-me do collegio para que +não estudasse mais. É certo que estou hoje sem saber coisa alguma, +porquanto a grammatica esquece muito, mas pelo menos tenho vida e saude, +que é o principal.» + +A despeito d'estas e de outras judiciosas reflexões, Manuel continuou a +frequentar a aula, onde era querido por todos os professores e +condiscipulos. Estes, longe de lhes causar inveja o seu inquestionavel +merecimento, todos á uma se ufanavam em lh'o proclamar. + +Aos quinze annos já tinha feito os exames de philosophia e latinidade. + +Quando mais venturosa sorria a existencia de Alvaro de Mendonça, coroada +pelos louros de seu filho, a Providencia, como se já estivesse fatigada +de lhe sorrir, fez com que o anjo da morte, descendo lentamente sobre o +seu leito, lhe cerrasse para sempre os olhos. + +D. Marianna de Mendonça, ainda que dotada de intelligencia clara e +reflexiva, faltava-lhe comtudo aquella experiencia do mundo impossivel +de conseguir a qualquer senhora que, como ella, tivesse vivido apenas +entregue aos cuidados de sua casa. + +Abatida pelo golpe que acabava de soffrer, muito fazia a infeliz viuva +em administrar a sua casa de portas a dentro, e bem assim seguir a +educação de Manuel, que de mez a mez fazia mais rapidos progressos, +continuando a disfructar uma irreprehensivel saude, apezar de todos os +prognosticos de seu primo, o ex-grammatico, que se não cançava de +lembrar á viuva o absurdo da sua insistencia em que o pequeno +continuasse no collegio. + +Entre as pessoas que ordinariamente frequentavam a casa da viuva, +distinguia-se o commendador Felix Justino de Araujo, homem probo e +honesto para todos que tinham a honra de lhe merecer a sua confiança, o +que elle prodigamente espalhava afim de conquistar as geraes sympathias. + +Corriam varias edições ácerca da sua mysteriosa individualidade, +chegando algumas pessoas a levar o seu arrojo a ponto de dizerem que o +commendador não passava de um refinado velhaco, e que, mais dia menos +dia, as suas gentilezas teriam de ser desmascaradas em praça publica; +isto tudo, já se vê, proferido em voz baixa, depois de com elle terem +gasto os joelhos das calças, nas respeitosas zumbaias que diariamente +lhe dispensavam. É que já n'essa epocha, a raça de commendadores que +hoje invade a capital começava a manifestar-se com toda a força do seu +prejudicial desenvolvimento. Era muito de ver se como toda aquella gente +o tractava no tocante a futeis banalidades. Riam-se uns dos outros, e +todos em sua presença disputavam entre si, qual deveria ser o seu +primeiro thuribulario. + +Uns diziam que era viuvo, outros que era casado com uma mulher de baixa +esphera, de quem tinha duas filhas, porém que se não atrevia a +apresental-a na sociedade, em virtude das suas maneiras pouco +distinctas. + +A sua riqueza ninguem ao certo a poderia saber; porém o faustuoso luxo +com que se tractava levava a suppôr que enormes rendimentos havia +herdado da sua nobre ascendencia, cujos brazões nobiliarios fariam +estremecer de inveja qualquer puritano. + +Uma noite em que D. Marianna de Mendonça se queixava amargamente de um +certo procurador, lembrou-lhe uma das suas amigas que talvez lhe fosse +conveniente entregar a administração da casa ao commendador, se elle +porventura a isso estivesse resolvido, e que ella mesma lhe falaria a +tal respeito. + +A viuva acceitou de bom grado o que a sua intima lhe propozera, e +falando esta com o commendador, ao cabo de oito dias Felix Justino de +Araujo tinha geral procuração para arrendar, subrogar, ou alienar +qualquer propriedade, se por ventura assim o julgasse conveniente para o +futuro do seu Manuel que, segundo o dizer do administrador, era tanto +para elle como se fosse seu proprio filho. + +Não tardou muito tempo que o magnate fizesse uso de uma das condições da +procuração. Uma fazenda que Alvaro de Mendonça herdára por morte de uma +tia, tres ou quatro annos depois de estar casado com a filha de Manuel +Pires de Athayde, foi-lhe vendida em hasta publica. A venda fôra de um +excellente resultado para a viuva, segundo o commendador affirmava, +porquanto o seu principal rendimento eram arvores de fructa, e essas +mais anno menos anno cairiam todas ao pezo d'uma epidemia que, segundo +as suas observações agronomicas, teria de grassar d'alli a tempo, +assaltando todas as fazendas sem exceptuar uma unica. + +Em face d'esta cruel prophecia, quem se negaria a separar-se de qualquer +terreno, por mais dolosa que fosse a venda? + +O commendador empregou esse dinheiro n'uma industria cujo dividendo +deveria exceder dez por cento. + +Quasi todos deram os parabens á viuva pelo bom negocio que vinha de +fazer, attendendo não só á grande differença do rendimento, como tambem +a ter-se livrado d'esse terrivel cataclysmo, a que estava exposta +conservando uma só arvore. + +Assim decorreram dezoito mezes sem que D. Marianna tivesse a mais +pequena razão de se arrepender da plena confiança que tinha depositado +no seu administrador. + +Por este tempo, Manuel, que havia saído do collegio, chegou se a sua +mãe, dizendo-lhe que desejava partir para o Rio de Janeiro, afim de se +dedicar á vida commercial, para que se sentia com decidida vocação. + +Recordando lhe ao principio a loucura do seu projecto, a pobre mãe +ponderou-lhe a pouca necessidade de buscar em terra estranha o que já +possuia na sua patria: a riqueza. + +Por essa epocha, os bens da casa montavam a uns trinta contos de réis, +graças á herança que Alvaro de Mendonça havia recebido por morte de sua +tia, e ás economias que a viuva fizera durante aquelle tempo. + +--Com o dinheiro que possuimos, dizia-lhe sua mãe, poderás dedicar-te ao +commercio, mas aqui em Lisboa. É verdade que não tens um unico parente +que te proteja, mas, graças a Deus, temos meios. Partires, e +deixares-me, filho, acho que será uma grande loucura, ajuntou ella, +arrazando-se-lhe os olhos de lagrimas. Em todo o caso, farás o que te +aprouver. Não quero que um dia me lances em rosto que o muito amor que +te consagro foi a causa de cortar a tua carreira. + +N'essa noite, quando appareceu o commendador, D. Marianna manifestou-lhe +os desejos de Manuel. + +--Que vá, respondeu elle rapidamente. Seu filho é activo, audaz, +intelligente e emprehendedor. Póde um dia, se Deus o ajudar, vir a ser +um grande homem. Não tenho filhos, acrescentou, porém se um dia os +tiver, nunca os hei de contrariar nas suas resoluções, se ellas forem +justas como as de Manuel. + +--Mas que precisão tem elle de expôr a sua saude n'um clima tão +perigoso? Trinta contos ou perto d'elles que possuimos não será o +sufficiente para se viver em qualquer parte do mundo? + +-Porém se seu filho é ambicioso, e capricha em adquirir um capital pelo +seu trabalho, é justo que sua mãe lhe impeça a sua determinação? Faça o +que quizer, mas tome o meu conselho, deixe-o partir. Deus ha de guial-o, +porque Manuel é bom, honesto, moral e, sobre todas estas coisas, muito +trabalhador. + +--E que dinheiro se lhe deve entregar, sr. Felix? dez contos, quinze, +vinte... que lhe parece? + +--Vossa excellencia está louca! acudiu apressadamente o commendador. +Entregar contos de réis a um rapaz da edade de seu filho! Lançar Manuel +n'um paiz como o Rio de Janeiro, proporcionando-lhe os meios de se +perder! Nem por sombras! Quaes contos de réis! Com seis moedas +desembarquei eu em S. Paulo, e ao cabo de doze annos possuia uma fortuna +para cima de dez mil libras! Contos de réis! Só essa me faria rir! A +passagem paga, meia duzia de moedas, e as cartas de recommendação que +para ahi lhe entregarei, são mais do que o sufficiente. + +--Mas não me disse v. ex.ª que meu filho era um rapaz de juizo, honesto +e moral? Que receio teremos em lhe entregar o que realmente lhe +pertence? Não é elle o meu unico herdeiro? + +--Fará vossa excellencia o que entender, e se lhe quer entregar tudo +quanto possue, faça-o; está no seu direito, e lavo d'ahi as minhas mãos. +Se quer que lhe preste as minhas contas, estou muito prompto a fazel-o. +Sabe que o unico interesse que tenho em tudo isto é apenas o seu bem +estar, e o futuro de Manuel. Se quer estragar tudo quanto tenho feito em +seu proveito, é senhora das suas acções, póde fazel-o, que desde este +momento me considero desligado de todos os meus encargos. + +Esta linguagem, rude mas na apparencia sincera, produziu no animo debil +de D. Marianna o resultado que o commendador desejava. Affeita a +obedecer-lhe em tudo, havia-se deixado dominar completamente por aquelle +homem que, segundo a opinião de todas as pessoas que frequentavam a sua +casa, havia sido um anjo salvador. + +Dois annos depois da sua administração, os vinte contos de réis, que +rendiam á viuva cem mil réis por mez, haviam subido a um rendimento de +um conto e seiscentos por anno, graças á applicação que elle dera a +esses capitaes. Quanto ao producto da propriedade, era um segredo, que +mais dia menos dia seria revelado como surpreza agradavel. Que razão +teria ella para o arguir de mau administrador? + +Estas e outras circumstancias faziam com que D. Marianna obedecesse +cegamente a quanto elle lhe impunha. + +No dia immediato, Manuel chegou-se a sua mãe, afim de saber o que se +havia passado entre ella e o commendador. + +--Sinto deveras que me queiras abandonar, porém se essa é a tua vontade, +vae, e que as minhas orações, acompanhando-te sempre, te possam salvar +de todos os perigos. Quanto a dinheiro ajuntou ella, esperançada em que +o commendador se resolvesse a entregar-lhe maior quantia, dir me-has +quanto necessitas. + +--Nunca pedi contas nem a minha mãe nem ao sr. commendador, mas +supponho que não farão grande differença nos capitaes que devemos +possuir quatro ou cinco contos de réis para me estabelecer, mas ainda +assim, se minha mãe suppõe que essa quantia é muito avultada, contentar +me-hei com menos, ou por ultimo, com aquillo que julgarem conveniente. É +tudo quanto tenho a dizer-lhe, accrescentou elle, pregando os olhos no +olhar turvo e entristecido de D. Marianna. + +No dia seguinte a viuva foi ao escriptorio do commendador e contou lhe o +que passára com Manuel. + +Felix de Araujo, depois de a ter escutado, insistiu serenamente em que +seria uma grande loucura entregar a seu filho uma quantia superior a +essa de que tinham falado na vespera, repetindo porém, que estava no seu +direito de fazer o que lhe aprouvesse. + +Todos os espiritos, por mais debeis que sejam, teem um momento na vida, +em que uma circumstancia, ou um milagre providencial lhes dardeja um +raio de valor. + +A maneira, o gesto, o olhar, com que a viuva fitou o commendador, foram +sufficientes para que elle comprehendesse que todos os esforços seriam +inuteis. D. Marianna estava resolvida a entregar a seu filho a quantia +que elle lhe havia, senão pedido, pelo menos indicado. + +Não havia remedio! Era forçoso entregar esse dinheiro no momento em que +lhe fosse exigido, para que se não realisassem certos boatos que lhe +tinham chegado aos ouvidos, de que mais dia, menos dia, as suas +gentilezas seriam desmascaradas! + +--Seja o que vossa excellencia quizer, disse elle, depois de alguns +instantes de reflexão. Que quantia quer? + +--Quatro a cinco contos de réis. Como tudo o que possuo é em dinheiro, +não haverá duvida em os receber por estes oito dias. + +--Oito dias! replicou o commendador, simulando grande tranquillidade de +animo, hoje mesmo se vossa excellencia quizer; não tenho mais trabalho +do que tiral-o d'aquelle cofre, ajuntou elle, apontando para um grande +armario de ferro. + +--Posso portanto ficar tranquilla? + +--Póde, mas lembre-se, minha senhora, que vae fazer a desgraça de seu +filho. Conheço o Rio de Janeiro, e sei o que póde succeder a um rapaz da +edade de Manuel, achando-se possuidor de similhante quantia. + +--Será o que Deus quizer, respondeu a viuva despedindo se. + +Quem, momentos depois, commettesse a indiscrição de o espreitar, no +pequeno gabinete do escriptorio, conheceria immediatamente pela sua +perturbação, que os trinta contos de réis em que consistia a fortuna +d'aquella familia não estavam tão seguros quanto ella os julgava. + +Oito dias depois, quando tudo estava preparado para a viagem de Manuel, +sua mãe dirigiu-se a casa do commendador, afim de receber os cinco +contos de réis, e encontrou-o sereno e bem disposto, mas insistindo +ainda em que tão grande quantia seria prejudicial a um moço inexperiente +como seu filho. + +--Já disse ao sr. commendador o que tinha a dizer-lhe, respondeu D. +Marianna, sentando-se tranquilamente a seu lado. + +--Visto não haver meio algum de a convencer, queira vossa excellencia +ter a bondade de me passar um recibo d'esse dinheiro. Levantando-se +serena e fleugmaticamente, o commendador dirigiu se ao armario de ferro, +tirou de dentro d'elle um pequeno cofre e collocou-o sobre a secretaria +de que D. Marianna se tinha approximado para passar o recibo. O +commendador, depois de contar os maços de notas de dez moedas, poz junto +de D. Marianna os que prefaziam a quantia exigida. + +N'este momento a viuva acabava de assignar o recibo. + +--Se não fosse a profunda sympathia que vossa excellencia sempre tem +sabido inspirar-me, creia que de hoje em deante, deixaria de lhe +administrar os seus bens, e pedir-lhe-hia que mandasse buscar vinte e +sete contos de réis que alli tenho n'aquelle cofre; digo que os mandasse +buscar, porque grande parte d'esse dinheiro está em ouro e em prata, com +que vossa excellencia não poderia. Não o faço, porque além de todas as +outras circumstancias, affeiçoei-me ao Manuel, mais do que se elle fosse +meu proprio filho, como já uma vez lh'o disse. + +Se algumas desconfianças começassem a agitar o espirito da viuva, todas +se desvaneceriam em presença d'esta scena. Havia uma dupla intenção nas +palavras do commendador: a primeira inspirar á viuva profunda confiança +no deposito dos seus capitaes; a segunda, evitar ainda a entrega dos +cinco contos de réis. A primeira saiu-lhe bem, a segunda não foi tão +favoravel. + +--Então quando é a saida da galera? perguntou elle a D. Marianna. + +--Ámanhã, ás duas horas da tarde. + +--Não me comprometto a ir ao bota-fóra; ser-me-ia penoso acompanhal-o ao +começo da estrada da sua infelicidade. + +--Será o que Deus quizer, respondeu tristemente a pobre mãe, pegando nos +maços de notas e mettendo-os dentro do seu sacco de veludo. + +Cinco minutos depois, acompanhada pelo commendador, entrava D. Marianna +para uma sege, e seguia caminho de casa. + +No dia seguinte, ás duas horas da tarde, desprendendo se dos braços de +sua mãe, entrava Manuel de Mendonça na galera _Boa Ventura_, e ao cair +da tarde perdia de vista o que ha de mais caro na vida: mãe e patria. + +«Acautele-se do commendador» foram as ultimas palavras que Manuel +dissera a sua mãe. + +Ao cabo de tres mezes, a viuva recebeu uma carta de seu filho, em que +lhe participava que tinha chegado depois de uma feliz viagem, e que +esperava em pouco tempo estabelecer-se vantajosamente com uma casa +commercial. + + * * * * * + +Assim passaram mais oito mezes. + +As mezadas que D. Marianna recebia de Felix de Araujo continuavam a +ser-lhe entregues com a mesma religiosa pontualidade, o que fazia com +que todas as pessoas que chegaram a duvidar da honestidade do +commendador começassem a proclamal-o homem de evidente credito. + +Durou isto perto de um anno. As cartas que Manuel escrevia a sua mãe +eram cada vez mais consoladoras. N'algumas, mandava-lhe dizer que os +seus maiores desejos seriam tel-a a seu lado. + +Um dia, finalmente, escreveu lhe seu filho, mandando-lhe pedir +encarecidamente que retirasse quanto antes os capitaes que tinha na mão +do commendador, porque lhe tinham dado as peiores informações a seu +respeito, sendo a primeira não se chamar Felix Justino de Araujo, mas +simplesmente Domingos de Andrade. + +Afflicta com esta carta, a infeliz senhora procurou um advogado, que +fôra muito amigo de seu defunto marido, e communicou-lhe os seus +receios. + +N'esse mesmo dia, o doutor acompanhou-a a casa do commendador. Este, ao +vel-a, comprehendeu immediatamente do que se tractava. + +--Tencionando retirar-me para o Rio de Janeiro, venho prevenir vossa +excellencia de que desejo levantar da sua mão os capitaes que +honestamente me tem administrado. Se não fosse o desejo de ir ver meu +filho, continuaria a aproveitar me da zelosa e desinteressada +administração do sr. commendador. + +--E sabe vossa excellencia se n'este momento lhe poderei entregar esse +dinheiro? Não m'o confiou para negociar, afim de que tivesse maiores +lucros do que estando na sua mão? Na vespera de seu filho partir para o +Brazil, quando dei a vossa excellencia os cinco contos de réis, que me +exigiu, não me promptifiquei a entregar lhe quanto aqui tivesse? Vossa +excellencia não comprehende a possibilidade de que esse dinheiro esteja +empregado em qualquer negocio, e de que n'esse caso me seja difficil +devolver-lh'o de um momento para o outro? Felizmente não succede assim, +pelo que dou graças a Deus! Quanto o estimo! Vossa excellencia, por +qualquer circumstancia, deseja retirar das minhas mãos os seus capitaes, +e não tem o sufficiente valor de m'o dizer de cara a cara! Pois, minha +senhora, continuou elle, simulando um gesto de profundo resentimento, e +levantando um pouco a voz, eu, que tenho a coragem das minhas acções, +escudado pelo meu nome e pela minha honestidade, declaro aqui, alto e +bom som, que sou eu que exijo, que vossa excellencia retire d'aqui os +seus fundos, e quanto antes. + +Havia tanta dignidade nas palavras do commendador, a sua voz era tão +firme, tão altivo e tão seguro o seu olhar, que D. Marianna chegou a +convencer-se de que era uma ingratidão o que vinha de fazer. + +--Ha perto de quatro annos, continuou o commendador dirigindo se ao +advogado, que eu administro os bens d'esta senhora. O seu rendimento, +que não chegava a um conto e duzentos por anno, subiu a um conto e +seiscentos. Uma propriedade que lhe valia o muito quatro contos de réis, +vendi-lh'a e appliquei o producto d'ella n'um negocio, que rende para +cima de doze por cento. Que necessidade tenho eu d'isto tudo? Tenho +empregado trabalho e tempo; e preciso eu por ventura de capitaes alheios +para fazer as minhas transacções? Escusado será dizer que não. Para que +o fiz? Para o seu bem! Boa paga, não haja duvida. Que esta lição me +sirva! Pois, minha senhora, ajuntou elle, voltando-se para D. Marianna, +rogo a vossa excellencia que ámanhã, sem falta, até ás onze horas da +manhã, encarregue alguem de me tomar contas, e queira vossa excellencia +vir tambem, afim de me passar recibo do dinheiro que tenho na minha mão. +Hoje mesmo, se lhe fosse possivel, apezar de ser tarde, muito prazer me +daria. + +--Ámanhã aqui estarei, visto assim o exigir, respondeu D. Marianna, +olhando ao mesmo tempo para o advogado, como que esperando a sua +opinião. + +--Sendo onze horas aqui viremos, disse o jurisconsulto, despedindo se do +commendador. + +--Que lhe pareceu? perguntou a viuva ao chegarem á porta da rua. + +--Um homem honesto, ferido pela ingratidão que acaba de receber, +respondeu fleugmaticamente o doutor. Em todo o caso, accrescentou elle, +faça vossa excellencia o que quizer; sendo dez horas estarei em sua +casa. + +No dia immediato, conforme haviam combinado, apresentou se o advogado em +casa de D. Marianna de Mendonça. + +Ás onze horas metteram-se n'uma traquitana, e dirigiram-se ao +escriptorio do commendador. + +Contra todos os usos da casa ainda estava fechado. + +--Que lhe parece isto? perguntou D. Marianna ao advogado, com mais +receio do que na vespera ao perguntar-lhe como lhe havia parecido. + +--Que é um homem ferido pela ingratidão, e que anda a tratar de levantar +dinheiro para a embolsar d'essa quantia, respondeu elle ingenuamente. + +Momentos depois começaram a apparecer varios individuos. O physionomista +que de perto os observasse, veria em todos elles a mesma sombra de +receio que se revelava no rosto pallido e transtornado de D. Marianna de +Mendonça. + +D'alli a duas horas ainda Felix de Araujo não tinha apparecido. + +--Que lhe parece isto tudo doutor? dizia a viuva ás cinco horas da +tarde, olhando para o advogado, que a contemplava com uma physionomia +alvar. + +Que é um refinado ladrão que nos deixa a todos desgraçados! accudiu um +individuo que ouvira a pergunta feita pela viuva. + +O commendador Felix Justino de Araujo havia fechado o escriptorio. +Domingos de Andrade fugira, roubando dinheiro a todos aquelles que, como +D. Marianna de Mendonça, o haviam depositado nas suas mãos. + +Cinco dias depois D. Marianna, com a razão perdida, entrava para a casa +dos doidos no hospital de S. José. + + + + +II + + +Pelos fins do anno de 1858, vivia n'uma pequena casa da Rua do Meio, +freguezia de Nossa Senhora da Lapa, Jeronymo de Almeida, honrado mestre +de obras, em companhia de sua mulher e de uma filha de dezeseis annos, +chamada Martha. A excentricidade de caracter do operario, fazia com que +todos os visinhos o detestassem. Para elle, não havia domingos nem dias +santificados que o obrigassem a distrair-se do seu trabalho. A sua +janella encontrava-se sempre fechada. + +O cultivo do microscopico jardim era a unica distracção que n'esses dias +se permittia. Alli entre sua mulher e sua filha, Jeronymo mondava o +pequeno canteiro de hortaliça, que duas horas depois tinha de fazer as +delicias da refeição domingueira. No armario da cozinha, esperava desde +a vespera a garrafa do Cartaxo que figurava á sua meza, sobria sempre, +porém honradamente disfructada com o suor do rosto. + +Emquanto Jeronymo trabalhava no pequeno horto, Balbina, a esposa, +assentada na cadeira de costura, largava apenas a agulha para agradecer +a Deus o marido que a Providencia lhe havia destinado. + +Martha, a preguiçosa Martha como Jeronymo n'esses dias lhe chamava, +escondia os ferros de engommar, para seguir seu pae, sorrindo-se e +gracejando a cada passo que elle dava pelo jardim. + +Toda a visinhança da rua do Meio se mordia de despeito ao contemplar a +beatifica tranquillidade d'aquella pobre mas venturosa familia; até uma +sobrinha do sr. regedor, que se finava de inveja ao contemplar os olhos +verdes de Martha, chegou a dizer ao sr. padre prior que era impossivel +que toda aquella gente não tivesse grande peccado na consciencia, +attendendo á constante reclusão em que vivia. O sacerdote, que conhecia +o invejoso caracter da menina Gertrudes, passou de leve sobre o caso, e +contentou-se apenas em responder-lhe que era tal a confiança que +depositava na virtude d'aquella familia, que não teria duvida alguma, +embora se sacrificasse a pôr fóra de casa a velha ama, a admittir Martha +a viver em sua companhia, entregando-lhe nas mãos as chaves da dispensa, +e tudo quanto possuia de mais valor. Gertrudes desanimou na lucta, +contentando se apenas em desacredital-a em voz baixa, quando por ventura +alguma das amigas lhe falava a seu respeito. + +Defronte da casa de Jeronymo morava uma pobre velhinha, que se tornava +um mysterio para toda a visinhança, passando apenas despercebida da +familia do operario, pouco affeita a importar-se com as vidas alheias. A +apparencia de sua casa, o seu trajar emfim, tudo revelava summa pobresa, +porém nunca a sua mão se estendeu a pedir o obulo da caridade. + +A velha costumava sair todas as manhãs a fazer as compras. Um dia a +porta conservou-se fechada, e a tia Marianna, segundo lhe chamavam, não +apparecia. Ou por curiosidade, ou por interesse, não faltou quem lhe +batesse ao postigo. Em resposta ouviram-se apenas uns gemidos. O regedor +chamou dois cabos de policia e mandou immediatamente arrombar a porta. +Encontraram-n'a exanime sobre o leito. A infeliz havia adoecido com a +febre amarella; foi esse um dos primeiros casos que se dera na freguezia +da Lapa. Atterrados, não houve quem quizesse approximar se da enferma. +Não tardou muito que o facto transpirasse por toda a visinhança. No +momento em que o regedor, dois metros affastado da porta, dava as suas +ordens para que fossem buscar a maca afim de conduzirem a velha ao +hospital da rua do Sol, Martha, a loira Martha, saiu de casa e +atravessou a rua, dirigindo-se ao logar do sinistro. + +--Onde vae a menina? perguntou o sr. Venancio da Conceição. + +--Levar esta gotta de caldo á visinha, respondeu Martha ao previdente +regedor. + +--Não consinto similhante loucura! disse elle; a velha foi atacada pela +febre amarella, e vae immediatamente para o hospital. + +--O que vocemecê não me póde impedir, é que eu pratique uma obra de +caridade; e demais, veja se está no seu direito de mandar para o +hospital uma pessoa que se póde curar em sua casa. + +--Essa mulher não se póde tratar em sua casa, não tem familia. + +--E quem lhe disse ao sr. que não tem quem a trate? acudiu Martha, +afastando o regedor e dirigindo se para o interior da casa da tia +Marianna. Ora essa! ajuntou ella, e se eu a quizer tratar, ha de alguem +oppôr-se?! Creio que não. Com sua licença, sr. regedor; e entrando +animosamente, dirigiu-se a uma alcova, onde a desgraçada, extorcendo-se +em dolorosas agonias, cravava os olhos n'um pequeno crucifixo, collocado +sobre uma commoda. + +Os cabos, regedor, e todos quantos alli se encontravam, olhavam-se +mutuamente sem proferir uma só palavra. + +--Assim o quer, assim o tenha, disse a auctoridade, depois de alguns +instantes de reflexão. Se ella fosse minha filha ou coisa que me +pertencesse, por certo que não havia de lá entrar. Eu cá é que não tomo +nada, acrescentou elle olhando com receio para dentro da casa. + +Instantes depois, saía Martha de casa da velha. + +--Mandem chamar immediatamente um medico, disse ella voltando-se para o +regedor. Póde ser que ainda lhe possamos acudir. Pelo facto de ser uma +pobre mulher, bem vê que não a devemos deixar morrer ao desamparo. E +dizendo estas palavras, tornou a entrar para dentro da casa da tia +Marianna. + +--Vá á botica pedir soccorros, disse o regedor, voltando se para o cabo +geral, e que venham immediatamente; porquanto, esta mulher pelo facto de +ser pobre, não devemos deixar morrer ao desamparo, ajuntou elle, +secundando as palavras de Martha, e repetindo-as como se fossem suas +proprias. + +O cabo geral, sem mais hesitar, voltou as costas aos circumstantes, e +resmungando subiu a rua do Meio, dirigindo-se aonde a auctoridade o +havia mandado. + +Não tardou muito que á porta da tia Marianna se ajuntasse um circulo de +curiosos. As visinhas a quem o terror da cruel epidemia havia infiltrado +nos animos o mais terrivel desalento, debalde vociferavam contra a +estulta caridade de Martha, e a pueril condescendencia do regedor, em +annuir aos desejos da filha do mestre de obras. Revestindo-se emfim de +todo o seu poder, o sr. Venancio da Conceição convenceu o auditorio, +repetindo-lhe pela segunda vez, que, pelo facto da tia Marianna ser uma +pobre, não a deviam deixar morrer ao desamparo. + +N'este comenos, appareceu o mestre Jeronymo. + +--A sua filha está doida de todo! diziam uns. + +-Já tres vezes que vamos avisar a sr.ª Balbina para que a retire +d'aquella casa e ainda não houve meios, acudiu uma ajuntadeira de +calçado, que nem por isso gozava de muitos bons creditos na visinhança. + +--Que loucura! que loucura! dizia a capellista. + +--Parece que está a zombar da cholera do Senhor! acudiu respeitosamente +a tia Monica, beata que vivia de resas por conta das fidalgas de Buenos +Ayres, quando os seus affazeres não lhe permitiam conversar com o Todo +Poderoso por conta propria. + +--Se Deus a arrasta ao leito da moribunda, elle mesma a salvará, +respondeu fleugmaticamente mestre Jeronymo, lendo-se-lhe, apezar de +tudo, um certo receio pela vida da criança que estremecia. + +--Muito estimo que assim penses, acudiu Balbina, que saira n'este +momento de casa. O mesmo pensei eu quando Martha me foi pedir uma gotta +de caldo; entregando-lh'o, entreguei a a Deus. + +--Pois olhe, sr.ª Balbina, disse a capellista, fosse ella minha filha, +não lh'o consentia. + +--Cada qual tem o seu modo de pensar, sr.ª Margarida, e Deus fez-me +assim; mas deixemo nos de mais dize tu, direi eu, e vamos a ver o que se +poderá fazer por aquella infeliz. E sem mais reflexionar, entrou n'esse +recinto mortuario, por onde momentos antes sua filha havia +desapparecido. + +--_Avé Maria, cheia de graça, o senhor é comvosco, benta sois vós_, +dizia a beata. Forte impostora! accrescentou ella; aquillo não é senão +para se fazer valer na visinhança. + + + + +III + + +Meia hora depois d'esta veridica scena, que acabamos de descrever, +appareceu o medico. + +--É alli, disse-lhe o regedor, apontando para a porta da tia Marianna. + +--Siga me, disse o doutor, voltando-se para a autoridade. + +O lance era fatal, não havia que hesitar. Amaldiçoando n'esse momento a +má estrella, que o conduzira áquella posição, com as faces lividas de +susto e de terror, o sr. Venancio seguiu o medico. + +Junto ao leito de Marianna, fazendo lhe uma fricção nos joelhos, Martha, +a filha do operario, debalde tentava chamar á vida essa que, n'um olhar +turvo e desvairado, parecia contemplar lhe a angelica formosura. + +Balbina, com um pequeno frasco chegado ao labio superior da enferma +tentava fazel a aspirar o conteùdo do vidro. De pé, contemplando este +doloroso quadro, Jeronymo pedia a Deus se compadecesse de sua familia. + +Approximando-se da enferma, o medico tomou-lhe brandamente o pulso, e +voltando-se em seguida para Martha, pediu-lhe uma véla, afim de melhor +analysar a vista da moribunda. + +--Encontro-a muito debil, disse o esculapio em voz baixa; é de suppôr +que não a possamos salvar; comtudo, far-se-ha a diligencia, ajuntou elle +cravando os olhos no rosto pallido e abatido de Martha. + +Abrindo em seguida a caixa dos medicamentos, começou de applicar lhe os +que o seu estado exigia. + +--Esta senhora pertence á sua familia? ajuntou o medico voltando se para +Jeronymo. + +--Não, senhor; comtudo minha filha interessa se muito por esta +desgraçada; e se não fosse Martha, talvez a tivessem mandado para o +hospital. + +--Se a teem removido d'este leito, ao chegar lá seria um cadaver, +retorquiu o doutor, palpando a fronte da enferma. + +--Parece lhe que poderemos ter esperanças? perguntou Martha, +approximando se do leito. + +--Veremos á noite. Sendo sete horas, se poder, voltarei; e, +despedindo-se dos circumstantes, saiu d'aquella casa, levando impressa +na memoria a imagem candida e celeste da filha do operario. + +Os moveis da tia Marianna reduziam se ao pequeno leito de espinheiro +onde jazia, uma enorme papelleira, um bahu, e quatro cadeiras de +palhinha, completamente estragadas nos assentos. + +Roupas, se as havia, estavam fechadas; e nem ella lh'o podera responder, +nem era dado a Balbina o perguntar-lh'o n'esse momento. Dirigindo se a +casa, trouxe d'alli quanto necessario lhe pareceu afim de alliviar no +que podesse os incommodos da enferma. + +--Sempre lhe gabo a pachorra, disse a sr.ª Margarida, ao ver os lençoes +alvos como a neve, que a mulher do operario levava no braço. Estar +estragando assim as suas roupas brancas com quem pouco póde viver! Não +era eu, que Deus me livrasse! E demais, sr.ª Balbina, uma pobre de +Christo como a tia Marianna, mais lhe valera o ir para o hospital. +Supponha a senhora que fica para ahi entrevada, quem ha de sustental-a? + +--Deus nunca faltou a pessoa alguma, sr.ª Margarida; e demais, cada qual +que se metta com a sua vida, que eu pela minha parte nunca me intrometto +com as alheias, respondeu Balbina, cortando pelo fio as palavras da +capellista, e dirigindo-se para casa da tia Marianna, onde a esperavam +Martha e seu marido. + +A velha havia recobrado a razão, e sorria-se brandamente para a filha do +operario, como se n'aquelle olhar significativo estivesse agradecendo a +Deus o anjo que a Providencia lhe havia deparado n'esse momento de +suprema angustia. + +Jeronymo e Balbina, assentados n'um bahu, olhavam para aquelle quadro +enternecedor, pedindo ao mesmo tempo nas suas preces silenciosas que lhe +livrassem sua pobre filha. + +Meia hora depois de arranjada a cama, a velha sentiu-se mais alliviada. +As horriveis dôres por que passara, iam-lhe diminuindo a pouco e pouco, +e á face, de pallidez mortal, subira-lhe de novo o calor e a vida. + +Nem uma só das visinhas, approximando se á sua porta, foram pelo menos +indagar o estado da sua doença. + +Ás sete horas, como o havia promettido, voltou o doutor. A enferma +estava livre de perigo. + + + + +IV + + +Oito dias depois, com grave assombro da visinhança, a tia Marianna, +envolta n'um capotezinho azul, apparecia de novo á janela da sua casa. + +Os effeitos da febre amarella haviam-lhe passado desapercebidos pela sua +organização de ferro. Ao vel-a, ninguem poderia acreditar que essa +mulher, aos sessenta e seis annos, podesse haver resistido aos golpes +d'uma doença, que tanta gente nova e robusta ceifára n'aquellas +immediações. + +Todos viam na sua convalescença, começando pela beata, um favor da +Providencia; e nem uma só bocca se abriu para dizer, quanto a dedicação +da pobre Martha ajudára aquelle verdadeiro milagre. + +Almas vis e denegridas que não comprehendeis o bem, como poderieis +soltar a voz para elogiardes a virtude, se nos vossos corações não +existe mais do que a inveja e a podridão! + +Sem valor de praticardes o bem, fere-vos o goso que experimenta o +coração, que se entrega aos deleites da caridade. + +A apotheose do proximista, echoando nos ouvidos do misanthropo, deve +produzir-lhe um effeito atroador, como o som do ouro espalhado pela +pobresa, no tympano do avarento. + +Ninguem da visinhança se atrevera a soccorrer a pobre doente, ninguem +repartira o seu jantar com a infeliz; porém, quando a viram de pé, +salva, proclamando por toda a parte o quanto era devedora á familia do +operario, todas as visinhas, consumindo-se de inveja, lhe voltavam as +costas para não ouvirem os elogios que a velha do coração lhe +prodigalizava. + +Desde esse momento, a pouca affeição que todos consagravam á familia de +Jeronymo, tornára-se em decidida aversão. Começando pelo sr. regedor, e +acabando na sr.ª Margarida da Silva, ninguem podia supportar aquella +pobre gente, que, fechada quasi sempre em sua casa, de mais coisa alguma +se importava a não ser dos seus arranjos domesticos. + +Quanto mais a tia Marianna proclamava em alto e bom som as virtudes de +Martha, maiores antipathias ia inspirando a filha do operario. Quando, +acompanhada por sua mãe, saía aos domingos para ir á missa da Lapa, as +visinhas zombavam sempre ao vel-a passar. Hoje, porque o seu lenço +estava mal engommado, ámanhã porque o seu capote de panno azul já +começava a mostrar o fio. A pobre victima fazia que nada percebia dos +continuos gracejos que contra ella dirigiam. Chegou a pedir a sua mãe, +por tudo quanto havia, que não a obrigasse a ir á missa das onze. + +--Que te importa o que diz toda essa gente? exclamava ás vezes o sr. +Jeronymo. O que elles têem é inveja do teu comportamento. Não tardará +muito, se Deus quizer, que tenha ahi uns _ganchosinhos_ que me devem +render um par de moedas, verás então como lhes hei de fazer estalar a +castanha na bocca, quando te virem o bom capote aos hombros, e o bom +cordão de seis moedas ao pescoço. + +--Pouco me importa com o que elles dizem, respondia lhe Martha. Não +tenham de abocanhar no meu credito, o mais, tanto se me dá como se me +deu. O que eu queria era ajudar a pobre velhinha. + +--Pois tambem não tardará muito que lhe façamos algum bem, respondeu o +mestre Jeronymo, como se um pensamento lhe acudisse ao espirito. Ámanhã +tenciono ir a casa de tua madrinha, para que ella lhe possa obter alguma +esmola da senhora Condessa. Que te parece, Martha? Continuou o mestre de +obras, cravando os olhos no rosto candido de sua filha, e revelando no +gesto o prazer que lhe ia n'alma, ao comparal-a com todas as raparigas +suas visinhas. + +--Muito estimarei que isso não fique no rol dos esquecimentos, respondeu +a criança sorrindo-se ternamente para seu pae. Salvamos a pobresinha da +morte, é mister não a desampararmos, nem deixal a morrer de frio ou de +fome. + +--De frio não morrerá ella por certo, acudiu Balbina, collocando o ferro +de engommar sobre o descanço. Ainda esta manhã lhe dei o capote que +punhamos no leito. + +--Quer dizer, interrompeu Jeronymo, que de hoje em deante... se tivermos +frio... + +--Que nos havemos de contentar com os cobertores, respondeu a caridosa +Balbina, tornando a pegar no ferro, e approximando-o da face para lhe +calcular o calor. + +--Seja o que vossês quizerem, que eu, pela minha parte nunca as +reprehenderei por qualquer acção boa que praticarem; e já que tivemos a +felicidade de salvar a vida d'essa infeliz, é justo não a deixarmos +agora morrer ao desamparo. Estou da opinião da Martha. + +--Ou eu me engano muito, ou a tia Marianna já teve melhores dias, disse +Martha. Ha na sua vida algum mysterio que ella nos encobre, mas que, +apezar de tudo, adivinhamos, respondeu Martha, com aquella intuição +particular que tantas vezes se encontra no coração da mulher. + +--O mesmo penso eu, ajuntou mestre Jeronymo. Nunca fui homem que +frequentasse estas casas, porém reconheço ás vezes um não sei quê nas +maneiras da tia Marianna, que me levam a crer que os seus principios não +foram como os nossos; e tenho cá na mente, que mais dia menos dia tudo +se ha de descobrir. Quando vossês hontem foram levar aquellas camisas a +casa da fregueza, e que fiquei aqui em sua companhia, ainda mais me +convenci das minhas suspeitas. «Sr. Jeronymo, disse me a tia Marianna, +quem sabe se um dia a Providencia, lembrando se de uma desgraçada que +abandonou sobre a terra, a tomará de novo debaixo da sua protecção. Se +tal acontecer, lembre-se do que lhe digo hoje, nunca serei ingrata para +uma familia a quem tanto devo.» Ora, além d'estas palavras serem +proferidas, sim... assim como o outro que diz, com uns certos modos +finos e delicados, levam-me a pensar que a tia Marianna não é, nem nunca +foi o que parece. Em todo o caso, seja ella quem fôr, tem precisão, é +necessario soccorrel-a, e hoje mais do que nunca, quando a inveja a +começa a perseguir. Vejam lá a capellista! Até essa mesma, que eu +suppunha tão virtuosa, como se uniu a todas as visinhas para lhe +cortarem na pelle, mais a ti, minha filha! Valha nos Deus, que mundo +este! ajuntou o mestre de obras, dirigindo-se para a cosinha, em cuja +chaminé Balbina lhe havia posto a ceia a aquecer. + +N'este momento bateram apressadamente ao postigo. + +--Que teremos? disse Balbina. + +Martha levantou-se, e ao reconhecer a voz que da rua lhe falava, abriu +immediatamente a porta. + +Era a tia Monica. + +--Deus seja comvosco n'esta casa, e que o Senhor lançando sobre nós a +sua divina benção, queira proteger a mais santa e a mais virtuosa de +todas as familias, disse a beata. Acaba de ser atacada pela febre +amarella a nossa visinha Margarida, ajuntou ella. No momento em que me +estava vendendo um vintem de meio grosso, a colera de Deus desceu sobre +a peccadora e alli jaz sem protecção nem abrigo, porquanto todas as +visinhas receiam que tambem o Senhor as castigue pelos actos que teem +praticado sobre a terra. Venho pedir a vossemecê, sr.ª Balbina, que se +compadeça d'essa desgraçada, e que me empreste esse milagroso frasquinho +com que tornou á vida a tia Marianna. + +--Não foi o remedio que lhe deu minha mulher que fez com que a tia +Marianna melhorasse, acudiu o mestre Jeronymo, que da porta da cosinha +ouvira as exclamações da beata. Façam o mesmo que fez minha filha. Vão +chamar o sr. regedor e peçam-lhe que mande immediatamente buscar-lhe os +soccorros, ajuntou o mestre de obras com modo aspero e descontente. +Quanto ao frasco, continuou elle, voltando-se para sua mulher, podes +emprestar-lh'o se é da tua vontade, porém servir-lhe de enfermeira, +maletas me dêem se em tal consinto. Bem basta o que basta, sr.ª Monica. +Para outra qualquer pessoa talvez que nem fosse preciso que me pedisse +por duas vezes, mas para a sr.ª Margarida! Nem que me pezassem a ouro, +ou que santo me fizesse o sr. padre prior. Estou farto e mais que farto +da ingratidão, sr.ª Monica. Não foi a sr.ª Margarida a primeira a cortar +na pelle de minha filha, por ella ter ido acudir á tia Marianna? E não +foi só ella como tambem as outras visinhas! Pois agora que se aguentem +como melhor lhes parecer. Que se ajudem umas ás outras, que eu pela +minha parte, não consinto que lá ponham o pé, nem minha mulher nem minha +filha. + +[Ilustração: N'este momento a viuva acabava de assignar... (_pag. 15_)] + +--Cruzes! Credo! Mãe Santissima! Que modos, sr. Jeronymo! E eu que +julgando-o um Santo, me atrevi a vir a sua casa. Que a ira de Deus +descendo sobre esta morada castigue o maior de todos os peccadores, +resmungou a tia Monica á medida que se approximava da porta por onde +momentos depois saía apressadamente, olhando ao mesmo tempo para +Jeronymo, cujo olhar, incendiado pelo desespero que a praga lhe havia +produzido, incutia certos receios no animo da corretora de orações. + +--Que lhes pareceu o traste? perguntou o mestre Jeronymo depois de +alguns momentos de profunda reflexão. + +--Se meu pae me deixasse ao menos ver o estado em que se encontra essa +pobre mulher?... perguntou ingenuamente a caridosa Martha. + +--Nem por sombras, respondeu o operario. Vamos pedir a Deus pela saude, +e depois descançarmos o corpo para o trabalho de ámanhã. + +Momentos depois, ouvia-se apenas em casa do operario o ciciar d'esta +curta, mas eloquente oração: + + Bom Jesus, todo Poderoso, + Filho da Virgem Maria, + Soccorrei-nos esta noite + E ámanhã por todo o dia. + + Se na terra não coubermos, + Levae-nos Senhor aos céos, + Rogae por nós peccadores, + Virgem Santa, Mãe de Deus. + + + + +V + + +Havia dias que tinha chegado a Lisboa, vindo do Rio Grande do Sul, um +abastado capitalista por nome Tristão de Almeida, segundo rezava o seu +passaporte. Acompanhavam-n'o sua mulher e duas filhas. + +Trazia apenas tres cartas de recommendação, uma para o visconde de +Coruche, outra para o commendador Lopes de Miranda, e a terceira para a +casa bancaria de Vaz Mendes e C.ª, extraordinariamente acreditada n'esta +capital, não só pela notavel amabilidade dos seus gerentes, como pelo +facto de já ter fallido tres vezes. + +O visconde, o commendador e o banqueiro abraçaram gostosamente o seu +recommendado. Como bons farejadores reflectiram que a caça era rara de +mais para se abandonar por essas mattas de Lisboa, onde o genero tanto +escasseia. + +Disputada calorosamente entre todos tres a preza que promettia dar para +succulenta refeição, transigiram, promettendo, como quaesquer jogadores +da vermelhinha, que dividiriam entre todos os despojos da caçada. + +Deixando-se de vogar na torrente de eternas adulações, Tristão de +Almeida olhava para as facecias dos seus aduladores com aquelle olhar de +experimentada velhacaria com que todo o homem do mundo se deixa levar, +quando, porventura, no amago das lisonjas que lhe disparam, antolha, ou +pelo menos fareja o mais leve indicio de estremado calculo. + +Sem patentear a sua intelligencia ou, ainda mais, deixando-se passar por +zote, Tristão ia cercando de lisongeiras esperanças o filão d'essa +inexgotavel mina que os tres inseparaveis amigos julgavam descobrir na +sua aurifera individualidade. + +Mulher e filhas ainda não haviam entrado em scena. Constava porém que +uma das meninas era de formosura extrema, e d'uma superior +intelligencia. Não tardou uma semana que esse homem, ou para melhor +dizer esse mysterio fosse discutido em todos os circulos. + +Quem era? Qual o seu passado, ninguem o sabia; ao passo que elle +conhecia a todos, e de todos sabia as chronicas. Se este, antes de ser +visconde de tal era apenas Manuel Pinto com barracas de fressureiro, se +aquelle, antes de barão, empregava a casca de polvo para tirar em baixo +relevo a vera effigie de qualquer monarcha, ensaiando por esta forma a +sua industria até conseguir a tiragem por meio do balancé; se +aquell'outro, profundo amador do sexo fragil, tivera casa de alcouce no +Brazil com o unico fim de matar o tempo. + +Tristão de Almeida sabia o passado de todos, e todos ignoravam o seu +preterito. + +«É forçoso votar uma quantia para estes tres individuos, pensava elle, +passeiando pela varanda do hotel e contemplando as aguas do Tejo que +pareciam conhecel-o e sorrir-lhe. Se com vinte ou trinta contos de réis +se contentam, satisfarei os seus desejos e poderei conseguir os meus +fins. Graças a sir Francis Strolopp, tornei-me desconhecido.[1] Hoje +pessoa alguma poderá descobrir que antes de ser Tristão de Almeida fui +Felix Justino de Araujo como antes de ser Felix Justino de Araujo fôra +Domingos de Andrade. + +«É forçoso que me arranjem um titulo pelo menos de visconde. Quero ver +minha mulher viscondessa, tenho n'isso o maior de todos os meus +caprichos. Não que me seja preciso, para casar minhas filhas é-lhes +sufficiente o seu dote de duzentos contos de réis. Brevemente +encontrarão algum fidalgo arruinado, que tenha por unicos restos de +grandeza o seu titulo, e isso... é genero que abunda muito em Portugal. +Está decidido, quero um titulo. Começarei por ser apresentado em casa de +alguma senhora protectora d'essas escolas de caridade, e dar-lhe-hei uma +avultada esmola, afim de a applicar aos seus protegidos. Mas agora me +recordo, ajuntava elle, desencostando-se do parapeito da varanda; o +ensejo é favoravel. A febre amarella, levando a desgraça a centenares de +familias, enlucta-lhes as suas habitações. Vou fundar um hospital. Serei +o anjo dos tristes! Beatifica-te, Domingos de Andrade. Eleva-te aos +olhos de Deus, Felix de Araujo. Derrama esse ouro que tanto te custou a +adquirir, Tristão de Almeida, e serás um dia aquillo que te aprouver.» + +N'este momento, bateram á porta da sala. Tristão mandou que abrissem, e +entrou um criado annunciando o visconde de Coruche. + +--Que entre, disse lhe Tristão de Almeida retirando-se da varanda e +dirigindo-se para o salão. + +O visconde era um homem de cincoenta annos, mas que parecia ter +quarenta quando muito. + +Dotado d'uma inteligencia regular, já pelos dotes physicos de que Deus +fôra prodigo para com ele, já pela riqueza de que por duas vezes havia +disposto, era ainda, apezar da sua decadencia, o primeiro rapaz d'esta +terra, onde se não envelhece antes dos setenta e seis a setenta e sete +annos, graças á temperatura do seu clima. + +Quando entrava no Marrare de Polimento, toda a moderna geração se +curvava deante d'aquelle que havia sido o chefe da velha guarda. + +Não havia rapaz que não escutasse avido de curiosidade as mil aventuras +que se haviam dado n'aquella existencia tumultuosa. Havia sido o terror +da banca portugueza no salão do theatro de S. Carlos, como na caixa do +mesmo theatro fôra o invejado emulo de todos os seus contemporaneos, em +resultado das innumeras conquistas que em cada epocha se permitia. +Ninguem montava como o visconde! Os seus cavallos eram os primeiros de +Lisboa. Tivera por sotas da sua magnifica sege o Feliciano e o Bem Bom! + +Aos vinte anos, casara-se com uma prima, a filha do conde de ***. Quinze +dias depois, n'um camarote de primeira ordem da Rua dos Condes, estava a +viscondessa e defronte dela, noutro camarote da mesma ordem, miss Ellen +Barkshead, voltando de vez em quando o rosto para a rectaguarda para +melhor falar com o marido da viscondessa. + +Como se vê, era um homem completo. + +Dois anos depois entregou a viscondessa a sua meia alma a Deus deixando +sobre a terra a outra metade, para ser previamente repartida por uma +multidão de mulheres que disputavam entre si o voluvel coração do +visconde. + +Extravagante mais por indole do que por ostentação, o fidalgo +deliciava-se nos encantos dos seus desvarios, saboreando as commoções +que d'elles lhe resultavam, com o mesmo deleite com que o gastronomo +delicia o palladar nos prazeres d'uma variada mastigação. Era o +verdadeiro sybarita da estroinice. + +Senhor d'uma casa de vinte contos de renda, não tardou muito que a visse +desbaratada em custosas viagens. + +Aos trinta annos estava pobre! Tinha por unico recurso a morte de um tio +de quem era herdeiro forçado, porém a pertinaz saude do velho fazia com +que o pobre visconde estivesse quasi a esmorecer no caminho da vida, +onde se assentava desanimado, como o peregrino, a quem o desalento feriu +no começo da sua jornada. + +Um dia, finalmente, o velho aristocrata, mais talvez para acceder aos +ardentes desejos do seu arruinado sobrinho do que para descer aos +abysmos do inferno, que por direito de conquista lhe pertencia, cerrou +brandamente as palpebras, e partiu d'esta para peior, segundo a opinião +das suas victimas, deixando por seu universal herdeiro o visconde de +Coruche. + +As privações porque este passára foram completamente esquecidas desde +que se encontrou novamente possuidor d'um vinculo cujo rendimento +excedia seis contos de réis, e esquecidos tambem se julgaram os seus +crédores, porquanto lhes foi necessario lançarem mão de meios pouco +brandos para adquirirem, senão a totalidade do devido, pelo menos o +capital confiado ao visconde, com juro modico e rasoavel. O fogo +d'aquella eterna juventude, amortecido durante cinco annos de amargura, +reanimou-se então com todo o esplendor do seu brilho! O visconde tornou +a entregar-se a todos os prazeres, com o ardente desejo de quem apenas +se recordava d'elles. + +A sua vida era um mysterio. Todos os dias se dizia que estava +arruinado, porém tanto a casa como o trem conservavam-se como no tempo +do apogeu da sua riqueza. + +D'onde lhe viria o dinheiro para tanto? Eis o misterio que a pessoa +alguma era dado descortinar. + +Ao cabo de alguns annos, o vinculo que herdára teve o mesmo resultado +que havia tido o que seus pais lhe deixaram, porém desta vez a situação +era mais difficil, não tinha parente algum para quem apellar. + +Não podendo recorrer aos mortos, decidiu-se a explorar os vivos. +Escudado pela prestigiosa fama que o acompanhava, fez do seu nome uma +industria. + +Os rapazes que entravam na sociedade desejavam todos ser-lhe +apresentados. O visconde conhecia isto, e, esquivando-se a principio, +anuia finalmente, não sem mostrar quanta honra ele lhes dispensava +colocando-os no rol de seus intimos. + +Todos á uma dariam metade do que possuiam para se tratarem por tu com o +visconde, no que ele era assaz difficil; a sua intimidade era um genero +de superior qualidade para que muitos se podessem ufanar de o possuir. + +Ainda que as suas gentilezas eram por todos conhecidas, todos ou quasi +todos lhas desculpavam. Estimado nos principais circulos onde aparecia, +nem uma só pessoa se atrevia a dar-lhe a mais pequena mostra de +desconsideração. + +Foi pois o visconde um dos tres individuos a quem Domingos de Andrade, +ou o commendador Felix de Araujo, ou Tristão de Almeida, para maior +exactidão desta veridica historia, foi apresentado. + +--Quanto estranhei não o ter encontrado hontem no theatro, meu caro +amigo, disse o visconde, reclinando-se commodamente n'uma poltrona. Ha +muito tempo que não vejo S. Carlos tão brilhante. O tenor, como sempre, +cantou admiravelmente. E no que diz respeito ás toilettes, não póde +calcular, e impossivel seria descrever-lh'as. Felizmente não se tem +espalhado muito o panico em Lisboa. O cholera de 1833, de que eu tenho +uma vaga reminiscencia, aterrorizou muito mais os habitantes do que esta +innocente epidemia. Ha um tempo a esta parte, tudo aqui em Lisboa é +pobre e acanhado. Da febre amarella, diz-se: tem morrido muita gente; do +cholera, dizia-se com espanto: assim mesmo tem escapado alguem. Isso é +que foi uma epidemia, meu amigo. + +--Assim ouvi dizer. N'essa epocha estava eu em Buenos Ayres, respondeu o +commendador, notando ao mesmo tempo a estudada desenvoltura com que o +visconde o tentava seduzir. Pois eu hontem não fui a S. Carlos, ajuntou +elle, por ter tido minha filha alguma coisa indisposta. + +--N'esse caso fez muito bem, sr. Tristão. O tempo não está para +brincadeiras. Eu mesmo, que tenho uma saude de ferro, se n'este momento +sentisse a mais leve indisposição, começava por me tractar como estando +realmente ameaçado pela epidemia. Em primeiro logar está a nossa saude. +Prefiro-a a tudo, até á riqueza. + +--Porêm quando se reunem essas duas venturas... acudiu Tristão de +Almeida, simulando um gesto de pueril ingenuidade. + +--Então o mundo é um verdadeiro paraiso, pelo menos assim o julgo. +Muitos rapazes que por ahi conheço possuem, como eu, saude e dinheiro. +Encontro-os sempre curvados ao pezo de uma terrivel fatalidade. Nunca se +consideram felizes! Fazem da melancolia a sua companheira inseparavel, e +dando-se ares de Antonys, arranjam um farnel de desventuras, e vão com +elle por essas ruas da capital armando á compaixão das suas Lesbias. Eu +sou o contrario; a minha alegria é chronica. Se eu não tenho coisa +alguma que me entristeça, para que demonio hei de dizer mal do mundo que +tantos deleites me faz experimentar? + +--Sou da sua opinião, sr. visconde. O mundo é apenas mau para os tolos, +ainda que ha muita gente que diz o contrario. Quem dispozer de boa saude +e tiver alguns meios, deve pedir a Deus que o conserve largos annos +sobre a terra. Mas voltando agora a outro assumpto, ajuntou Tristão de +Almeida, que já começava a impacientar-se, como o leitor, do estirado +dialogo do visconde; quanto estimo que me tenha dado a honra d'esta +visitasinha, não só pelo prazer da sua companhia, como pela necessidade +que tenho de lhe falar. Preciso um conselho seu. + +--Um conselho meu! exclamou o visconde profundamente admirado. É a +primeira pessoa que m'o pede! Todos me chamam um rapaz extravagante, +continuou elle, olhando ao mesmo tempo para um espelho que lhe ficava +fronteiro; vossa excellencia quer guiar-se pela minha opinião? +Provavelmente trata-se da compra d'algum palacio, e alguem houve que +teve o mau senso de lhe dizer que eu era um homem de gosto. + +--Nada, não se trata d'isso. + +--Então, provavelmente, quer me consultar ácerca da mobilia, ou das +carruagens, ou dos cavallos? + +--Tão pouco, respondeu serenamente Tristão de Almeida. Isso ficará +para mais tarde. Por agora trata-se apenas de uma obra de +misericordia;--fazer bem aos desgraçados. + +--Se tal fôr, acho muito justo, e desde já me offereço a ajudal-o em +tudo quanto me seja possivel. + +--Sentemo nos, disse Tristão apontando lhe para o sophá. Minha esposa, +que tem o habito de empregar na pobreza a mezada que lhe dou para os +seus alfinetes, lembrou-se ha dias de gastar uns contos de réis n'um +asylo de creanças desvalidas. Que lhe parece a idéa? + +--Não a póde haver melhor, respondeu o visconde, e se vossa excellencia +m'o permitte, desde já me comprometto a fazer com que minha tia, a sr.ª +condessa de Villa Velha, venha immediatamente procural-o afim de o +iniciar n'essas associações. Recordo me d'ella, porquanto é uma das mais +assiduas obreiras do grande monumento da caridade. Não ha asylo para que +não seja consultada e é sempre a sua opinião a que prevalece sobre todas +as outras. Se vossa excellencia quer, o meio é muito simples, e torno a +repetir-lhe, hoje mesmo me encarrego de tudo. + +--Pois meu caro amigo, acudiu fleugmaticamente Tristão de Almeida, não +me associo á opinião de minha mulher nem á sua. Tenho outra idéa, e +creio que será muito mais razoavel. + +--Sim?... + +--É verdade. Lembrava-me de fundar um hospital para os enfermos atacados +de febre amarella. Isso em primeiro logar; depois, quando este terrivel +flagello tiver abandonado Lisboa, então sim, então adoptarei a idéa que +teve minha mulher. + +--Approvo, e desde já devo confessar que tanto eu como sua +excellentissima esposa ficamos completamente vencidos. + +--Approva? + +--Applaudo. + +--E dispensa-me a sua protecção n'esta pequena obra de caridade? + +--Conte commigo, respondeu o visconde puxando pela charuteira e +offerecendo um magnifico havano ao seu interlocutor. + +--Poderemos hoje mesmo começar os nossos trabalhos? perguntou Tristão +de Almeida, acceitando o charuto que lhe fôra offerecido. + +--Quando queira, respondeu o visconde de Coruche, tirando da algibeira +do collete uma caixa de phosphoros magnificamente cinzelada. + +--Vamos então procurar o commendador e seguiremos d'alli para casa de +Vaz Mendes. Tanto um como o outro é de suppôr que nos possam ajudar em +muito. + +--Assim o creio, murmurou o visconde, accendendo o charuto e passando-o +a Tristão de Almeida. + + * * * * * + +Momentos depois entrava este para dentro do trem do visconde. Quando a +carruagem saia o portão e voltava para a rua do Ferregial, espantou-se o +cavallo da sella, e esbarrando no passeio, atropellou um individuo, +deixando-o sem sentidos. Sairam ambos e levantaram o desgraçado. + +Pegando elles mesmos no corpo inerte da victima, transportaram n'a para +o hotel de Bragança. + +Tristão de Almeida expediu logo dois creados em procura de medico. Por +excepção, o doutor não tardou meia hora!... Das feridas que o +atropellado recebera na cabeça nenhuma era de gravidade, comtudo não +havia tornado a si. + +Tristão de Almeida, com a mão do enfermo entre as suas, parecia com +profundo interesse procurar-lhe a vida nas pulsações. Seria calculo ou +verdadeira caridade? Sabia o Deus! + +Terminado o curativo, o homem descerrou as palpebras, fitando o que +havia em torno de si com olhar turvo e desvairado. + +É melhor deital-o immediatamente, não lhe sobrevenha alguma congestão, +disse o doutor tomando o pulso do enfermo. + +Depois de ordenarem ao criado de mesa que arranjasse um quarto, Tristão +de Almeida e o visconde levaram em braços o ferido e deitaram-n'o sobre +um leito, pedindo ambos ao medico que voltasse antes da noite. + +--Começa hoje a espalhar as joias da sua caridade, disse-lhe o visconde +com falsa ingenuidade. + +--Quizera antes ter perdido dez ou doze contos de réis do que ter sido +causa de similhante desgraça, respondeu-lhe Tristão. Agora, sr. +visconde, ajuntou elle, emquanto vamos tratar dos nossos negocios, será +bom recommendar a minha mulher e a minhas filhas que venham para a +cabeceira do ferido. + +--Será uma grande alma, pensava o visconde. + +--Foi um magnifico prologo, dizia comsigo Tristão. + +Meia hora depois dirigiam-se ambos para casa do commendador. + +[Nota de rodapé 1: Tristão de Almeida lera a preclarissima obra de sir +Francis Strolopp, e procurando um celebre chimico allemão, conseguira +que este lhe transformasse a physionomia a ponto de se tornar +desconhecido de si mesmo.] + + + + +VI + + +--E já lá vão as cinco, as seis, e as sete, e Jeronymo sem chegar! +Virgem Santissima que lhe terá acontecido? + +Isto dizia a infeliz Balbina, olhando ora para o relogio, ora para uma +pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição, defronte da qual ardia a +luz frouxa e melancholica de uma lamparina de azeite. + +--Ha dezoito annos que somos casados, continuou ella voltando se para a +tia Marianna, e nunca tal me aconteceu! E sobretudo n'este tempo! Quem +nos diz que elle foi atacado pela febre, e que o levaram; morto talvez; +morto, o meu querido Jeronymo? Deus permitta que Martha se não demore. +Ella já tinha tempo e mais do que tempo para voltar. + +--Não se apoquente, sr.ª Balbina. D'aqui á rua de S. Francisco não é +tão perto como julga, e demais ainda não ha uma hora que foi. +Coitadinha! Desacostumada como está de andar por essas ruas! Porque não +havia de me ter deixado ir em sua companhia? Valha-nos Deus! Não ha +senão desgostos para os que são bons como vossemecê. + +--Isso é coisa sabida, tia Marianna; parece que quanto mais a gente +quer--como o outro que diz--estar nas graças de Deus, mais o demo que as +tece está puxando pelo fio da felicidade! Eu estou como doida! Se Martha +se demora mais algum quarto de hora, sou eu quem os vae procurar a +_ambos e dois_. Vossemecê fica aqui para o que der e vier, ajuntou a +pobre Balbina, passeiando desassocegadamente de um para o outro lado do +quarto. + +--Ainda não tem razão para estar dizendo mal á sua vida. Quem sabe se +ambos se encontraram?... + +--Tenho na mente que não, sr.ª Marianna; e demais, não sei o que me diz +o coração. Parece que tudo se está preparando para que haja n'esta casa +uma grande desgraça. Se a minha amiga visse a maneira por que hoje nos +olhou a tia Monica! Não lhe bastou ter-nos rogado a praga que nos +rogou... + +--Ora deixe-se d'isso, sr.ª Balbina! Não creia em bruxarias. Deus é bom +de mais para conceder similhante poder aos mortaes. + +--Se ouvisse como hoje esteve a _ouviar_ a minha cadella! Diga-o ella! +Por mais que pozesse as cadeiras de pernas para o ar, e que voltasse um +sapato de solla para cima, não houve meios de fazer com que se calasse o +pobre animal! Eu bem sei que tudo isto são coisas, como o outro que diz, +que não vem nada ao caso, mas a gente cá tem os seus enguiços, e +desgraçadamente a maior parte das vezes saem certos como dois e dois +serem quatro. + +--Pois sim, pois sim, socegue a minha boa amiga, e verá que não tarda +muito que os veja entrar por essa porta. É preciso que a gente não seja +tão desanimada. De que nos serviria a religião se nos não desse +conformidade? Estar agora duvidando da graça de Deus, porque seu marido +se demora mais duas ou tres horas! + +--E como explica vossemecê o elle não ter vindo jantar? + +--Quem sabe lá se encontrou o seu ganchosinho com que podesse ganhar +algum vintem? Ignora vossemecê o seu genio? Aquillo é uma formiga para a +familia. Parece-me que se o dia tivesse quarenta e oito horas, quarenta +e oito horas seria capaz de trabalhar por dia. + +N'este momento bateram á porta e a voz de Martha soou melancholicamente +atravez das fendas do postigo. + +Balbina ergueu-se rapidamente para lhe abrir a porta. + +Martha vinha desfigurada. + +--O pae, disse ella entre soluços, saíu da obra ao meio dia para vir +jantar a casa. Ninguem me pôde dar noticias d'elle. Pedi a um pedreiro +para me ajudar a procural-o, mas o pobre sentia-se muito incommodado e +esquivou-se a acompanhar-me. Outro que lá encontrei começou a sorrir-se +para mim de tal forma que não tive valor de lhe dizer quanto soffria, +ajuntou Martha tornando-se vermelha como o lenço que lhe occultava os +seus magnificos cabellos. + +--Infame! exclamou Balbina approximando-se cada vez mais da filha. + +--Fugi desorientada, continuou Martha suffocada pelas lagrimas, e +quando vinha pelo Chiado, encostei-me a uma esquina quasi sem saber de +mim. Então senti que me tocavam brandamente no hombro. Despertei como de +um sonho, e vi um senhor muito bem vestido, perguntando me o que tinha. +Disse-lhe que ia em busca de meu pae, pois receiava que tivesse sido +atacado pela febre. O tal individuo compadeceu-se da minha sorte. +Aquelle sim; nem siquer reparou se eu era bonita ou se era feia. Teve +apenas tempo de me ver as lagrimas e não a côr dos olhos. «Não me atrevo +a dizer-lhe que entre commigo n'uma sege, disse-me elle; seria +offendel-a; mas espere, que vou chamar dois trens.» + +Esperei, chegaram duas traquitanas. + +--Entre, disse-me elle pegando-me na mão esquerda. Do coração lhe +affianço, que póde estar tão segura como se fosse ao lado de seu pae, +que espero em Deus encontrará com vida, acrescentou o individuo +mettendo-me no trem. + +Entrei sem saber como. Senti bater o guarda lama e os cavallos seguirem +a trote. + +De repente, a sua traquitana tomou a deanteira á minha. + +Andámos, andámos até que chegou a um sitio onde havia um hospital. Os +cavallos pararam. Elle então apeiou-se e perguntou-me os signaes do pae. +Dei-lh'os. Entrou para dentro do edificio onde se demorou por alguns +minutos, e voltou dizendo-me que não tinha entrado n'aquella casa. + +Os trens partiram a galope. Fomos a dois hospitaes; o mesmo resultado. + +Faltava apenas o da rua do Sol. Esse, já eu conhecia de nome quando a +tia Marianna adoeceu. Ninguem alli tinha entrado desde as nove horas da +manhã. + +--Vá tranquilla para sua casa, e diga-me onde mora. + +Dei-lhe o nome da rua e o numero da porta. + +Pagou ao bolieiro dizendo-lhe que me viesse pôr em casa, o que não +acceitei por causa da visinhança. + +--E quem será esse individuo, para que lhe possamos beijar as mãos? +exclamou Balbina, n'um transporte de profundo reconhecimento. + +--Deus sabe! Oh! mas elle não me mentiu! respondeu Martha. Tenho tanta +fé nas suas palavras! Se a mãe visse como elle me disse: «vá para casa, +que ainda hoje hei de descobrir onde está seu pae.» + +--E é muito novo esse homem? interrompeu Marianna. + +--Uns trinta annos. + +--Felizmente, ainda se pode dizer que a mocidade não está perdida de +todo. + +N'este momento, Balbina approximava-se da porta, preparando-se para +sair. + +--Mas onde vae? exclamou Martha. Pelo amor de Deus, minha mãe... Tenha +prudencia! Onde pretende encontral-o? Na rua? Já vê que se lhe tivesse +acontecido alguma desgraça, estaria infallivelmente em algum dos +hospitaes, e graças a Deus, tal não succede. + +--Embora! hei de encontral o, respondeu a pobre mulher tentando dar +volta á chave para sair. + +Marianna e Martha, ajoelhadas deante da pobre esposa, tentavam +impedir-lhe a passagem. + +E ella então, comprehendendo a inutilidade da sua saida, caiu de joelhos +deante da imagem de Nossa Senhora. Imitando-a, Martha e Marianna +acompanharam-n'a na sua oração. + +E o relogio, seguindo n'um rumor compassado, continuava na sua material +indifferença marcando os segundos e os minutos, ao som da chuva que, +batendo de encontro aos vidros, ainda mais sombrio tornava aquelle +quadro de amargura. + + + + +VII + + +Mudando de rumo, o visconde e Tristão de Almeida dirigiram-se +primeiramente a casa de Vaz Mendes. + +Depois de os escutar, o banqueiro annuiu gostosamente aos desejos do seu +recommendado, promettendo-lhe desde logo fazer tudo quanto estivesse ao +seu alcance para animar uma idéa tão philantropica. + +D'alli partiram todos tres para casa do commendador Lopes de Miranda. + +Egual acolhimento, como era de esperar, acrescentando que a mesma idéa +exposta por Tristão de Almeida havia sido formulada por elle tres dias +antes. + +Tristão sorriu-se com a velhacaria que lhe era habitual, agradecendo á +Providencia que os seus pensamentos se houvessem encontrado com os do +excellentissimo commendador. + +Historiando o atropellamento e matizando a historia dos mais lisongeiros +epithetos para Tristão, o visconde de Coruche contou ao commendador o +que se havia passado com o operario. + +--Se vossa excellencia não deu a morte a esse desgraçado, estou +certissimo que fará a sua felicidade, disse o commendador, piscando ao +mesmo tempo o olho para o visconde. + +--Ha males que vem por bens, acudiu este fazendo uma careta para Lopes +de Miranda. + +--Mysterios de Deus, respondeu Tristão em voz alta. Fortes nescios, +ajuntou elle de si para comsigo. Mal sabem que lhes percebo os signaes. + +Momentos depois, entravam todos quatro no hotel de Bragança e +dirigiam-se ao quarto do ferido. + +O operario encontrava-se no mesmo estado de anemia. Pessoa alguma havia +podido arrancar-lhe uma só palavra. + +A sr.ª D. Maria Egypciaca, segundo o havia ordenado o seu philanthropico +esposo, não tinha abandonado o leito do enfermo. Magdalena e Olympia, de +vez em quando approximavam se do quarto. + +Depois de cumprimentarem a esposa de Tristão, os tres amigos chegaram-se +ao enfermo. + +--Faz pena! disse o commendador, Deus sabe ajuntou elle, se este pobre +homem terá alguma pessoa a quem esteja dando sérios cuidados. É uma +lastima que se lhe não possa saber o nome. Se descobrissemos quem é a +familia, mandar lhe-iamos dizer que estava sob a protecção de vossa +excellencia. N'estas epochas de epidemia, a mais pequena demora faz com +que todos estejam em cuidados. + +--Vejamos se é possivel fazel o falar, disse Vaz Mendes, debruçando se +sobre o leito do operario. + +O enfermo continuava no mesmo lethargo. + +Eram perto de seis horas. Como não houvesse meios de lhe arrancar uma +palavra, D. Maria Egypciaca lembrou que seria mais prudente irem jantar +emquanto durasse aquelle estado morbido, e deixando o doente entregue a +um creado, convidou as visitas a dirigirem-se á casa de jantar. + +Ao chegarem alli, já Olympia, a filha mais nova de Tristão de Almeida, +aguardava que seus paes tivessem dado treguas á caridade para +desfructarem o unico gozo da vida, o comer. Minutos depois, appareceu +Magdalena, a irmã mais velha. + +O jantar correu animadissimo! Formosas eram ambas as filhas de Tristão +de Almeida; juntando-se á formosura e juventude um dote de duzentos +contos de reis, que lhes poderia faltar? + +Ventilado pela vigessima vez o caso do atropellamento, bem como o valor +do visconde de Coruche, que fizera convencer Tristão de Almeida do risco +que havia corrido a sua existencia em se ter approximado, do cavallo da +sella, discutiu-se a fundação do hospital. + +D. Maria Egypciaca, que de antemão havia sido prevenida por seu esposo, +falou eloquentemente sobre este assumpto, deixando assombrados os +hospedes tanto pela sua verbosidade como pelas idéas philantropicas que +defendia. + +Olympia contentava se de atacar com vigor extraordinario cada prato de +cosinha que o servente lhe apresentava pelo lado do coração, viscera que +apenas lhe estremecia consoante o apimentado dos molhos onde o guizado +se mergulhava! + +Fitando o olhar na comida, Olympia manejava o talher com mais +desembaraço do que qualquer malabar de feira, pegando depois n'um oitavo +de pão de meio arratel para limpar o prato com o artistico intuito de +admirar o bom gosto do estampador. + +Olympia tinha duas paixões: a cosinha e a ceramica. Se lhe dissessem +que morrendo de uma indigestão de ninhos de andorinhas seria depositada +n'um sarcophago de Sévres, a filha de Tristão de Almeida apanharia a +indigestão de bom grado. + +Debalde o visconde de Coruche se desfazia em melifluas olhaduras, tudo +era inutil; o estomago de Olympia concedía-lhe apenas que as suas vistas +se dirigissem ora para o prato que limpava, ora para a porta por onde +entrava o criado com o seguimento do _menu_. + +E, apezar de tudo, essa creatura que tão desenvoltamente usava e abusava +dos orgãos da mastigação, perguntando ao criado durante o jantar o que +tencionava guardar-lhe para a ceia, tinha o poetico nome de Olympia, +como o leitor não ignora, e era formosa, formosa a fazer enraivar de +inveja todas as do seu sexo, menos a amavel leitora que sobre estas +paginas se debruça. + +Olympia era uma pomba. Dizia sua mãe que até aos dezoito annos, o unico +desgosto que lhe havia dado fôra ter atirado com uma travessa ao rosto +pallido de Magdalena, por esta lhe ter comido duas queijadas de +Reinholas, resto de tres duzias que seu pae lhe havia trazido de Cintra. + +Magdalena era a sua antithese. Afôra aquelles dois pasteis, poder-se-ia +julgar impolluta no que dizia respeito ao quinto peccado. + +De uma formosura menos provocadora do que sua irmã, Magdalena sabia +insinuar-se no coração de todos os que tinham a felicidade de lhe +merecer sympathia. + +Tinha na tristeza vaga e scismadora do seu olhar uns longes de +melancolia que prendiam quem a contemplasse. + +Sobretudo, o que mais espantava em Magdalena era a harmonia da voz. +Assombrava! Os anjos deviam aprendel-a, para espalharem nos seus +canticos a musica da palavra. + +Falava pouco, porém a phrase era sempre correcta. Reservada mais por +calculo do que por organização, a irmã de Olympia atravessava a +sociedade com a consciencia segura e mathematica dos mil escolhos de que +ella se compõe! + +Ferira-a a aza negra da tormenta? A ave da desgraça esvoaçára-lhe sobre +os seus louros cabellos? Desfizera-se-lhe algum sonho luminoso? Sentira +o seu coração immenso, golpeado pelo punhal do desengano? + +Todos o ignoravam, ou para melhor dizer, pessoa alguma se havia demorado +a estudar aquella peregrina organização. + +Magdalena nunca havia amado, porém o seu coração tinha necessidade de +amar como os pulmões do ar que respiram. + +Creando um dia na sua phantasiosa imaginação o typo que ambicionara, +quiz-lhe dar vida, formas e animação. Quando mais tarde se lhe sumiu o +vago, o impalpavel, o ideal que concebêra e que tombára na tristissima +realidade, esmoreceu e curvou-se resignada para chorar a sós as suas +lagrimas. + +Prophetisa da amargura, como veremos na continuação d'esta singela +historia, Magdalena parecia adivinhar as supremas angustias que mais +tarde lhe haviam de escruciar a pobre alma! + +Debalde, repetimos, se esforçava o visconde para merecer um olhar de +Olympia. + +Era invulneravel! + +--Se o homem já terá dado accordo de si, disse o visconde para não estar +calado. + +--Deus sabe! murmurou o amphitrião defendendo uma perna de perdiz da +insaciavel voracidade da filha! + +--Daria tudo para que esse infeliz tornasse á vida, disse D. Maria +Egypciaca dirigindo-se ao commendador. Como estará a sua pobre familia! +ajuntou ella despejando um copo de vinho do Rheno. + +--Feliz d'elle, tartamudeou o visconde, se podesse abrir os olhos no +momento em que vossa excellencia estivesse á cabeceira do seu leito. +Pela minha parte, abençoaria fosse que circumstancia fosse que me +trouxesse tal ventura, ajuntou elle, dirigindo-se a Olympia. + +--Passa me aquelle prato de carne de porco assada, disse Olympia tocando +no hombro de sua irmã e sem se atrever a olhar para o visconde. + +--Não ouves o que te diz aquelle cavalheiro? perguntou D. Maria +Egypciaca, voltando-se com modo agastado para sua filha. + +--Não repare, meu caro amigo, acudiu Tristão, Olympia é muito +envergonhada, e demais está pouco acostumada á sociedade. Não ouves o +que te diz o sr. visconde? acrescentou elle dirigindo-se á gastronoma. + +--Ouço, sim senhor, mas não sei o que hei de responder. + +Magdalena estremeceu de pejo ao ouvir a resposta de Olympia. + +N'este comenos, o criado que ficara junto do ferido entrou na casa de +jantar para participar que elle havia tornado a si, dizendo poucos +instantes depois o seu nome e a rua onde morava. Ajuntou em seguida o +criado que um sujeito muito bem vestido pedira ao guarda portão para vir +reconhecer o doente. + +--E esse individuo... ainda lá está? perguntou Tristão. + +--Não senhor. Saiu logo que lhe soube o nome. Disse que ia dar parte á +familia que estava com muito cuidado julgando que tinha sido atacado +pela febre. + +--E quem é o doente e como se chama? perguntou vivamente o visconde. + +--Chama-se Jeronymo e é mestre de obras. + +--E onde mora? interrompeu Vaz Mendes. + +--Na rua do Meio á Lapa, respondeu o criado. + +--Quanto estimo! quanto estimo! exclamou D. Maria Egypciaca. +Provavelmente foram chamar-lhe a familia. Que venha, que venha. Pobre +gente! Talvez ainda abençõem a fatalidade que lhes aconteceu! Pódes +retirar-te, Manuel, ajuntou ella, dirigindo-se ao criado. + +--Agora, disse Vaz Mendes, já temos por onde começar a nossa obra de +caridade. Principiaremos por esse pobre Jeronymo. + +--Apoiado! bradou o commendador despejando o decimo copo de vinho do +Porto, e olhando de soslaio para Olympia, cujos olhos pardos se fitavam +ardentemente n'uma torta de maçã. + +--Se m'o permittem, vou ver o meu protegido disse Tristão, levantando se +ao mesmo tempo da cadeira. + +--E se tambem m'o permittem?... accrescentou o visconde, imitando o +movimento do seu amigo. + +--Mas com o maior prazer, respondeu D. Maria Egypciaca. E não tardará +muito que lá vamos, eu e minhas filhas. + +--Querem vel o? perguntou o visconde voltando-se para o banqueiro e para +o commendador. + +--Da melhor vontade, responderam os dois a um tempo. + +Levantando se rapidamente seguiram o seu amphitrião. + + * * * * * + +--Ora ahi tem a mamã porque eu não gosto de comer á mesa quando temos +visitas. Levanto-me sempre com fome. Só eu á minha parte seria capaz de +comer toda aquella carne assada, disse Olympia entristecidamente +voltando se para sua mãe. + +--Pois é possivel que ainda tivesses mais vontade? perguntou Magdalena. + +--Abençoado estomago! disse D. Maria Egypciaca levantando-se da mesa. + + + + +VIII + + +Deixemos por algum tempo os preclaros bemfeitores do pobre Jeronymo; a +inconsolavel esposa rezando á Virgem Santissima; D. Maria Egypciaca +abençoando o fructo dos seus burocraticos amores, e volvamos a uma +epocha vinte annos anterior a estes successos, quando, perdida a razão, +a infeliz D. Marianna de Mendonça deu entrada no hospital de S. José. + +Como o leitor deve estar lembrado, a viuva não tinha um unico parente +sobre a terra. As pessoas que frequentavam a sua casa havia muito que se +tinham afastado, em virtude das intrigas urdidas pela sua amiga intima, +que annos antes a aconselhára a depositar os capitaes nas mãos do +commendador. + +Até o advogado que fôra acompanhal-a ao escriptorio no dia da fuga de +Felix Justino de Araujo, até esse a havia abandonado, para com o seu +conselho salvar as victimas do fugitivo. + +Maria Gertrudes, uma das creadas que lhe era mais affeiçoada, ao vel-a +entrar n'aquella situação, dirigiu-se immediatamente a casa da amiga da +sua ama participando-lhe o estado em que D. Marianna se encontrava, +perguntando-lhe o que queriam dizer aquellas palavras que proferira o +commendador--que lhe tinham roubado todos os seus bens. + +--Que a sua ama sempre propendeu para a loucura, ha muito que o +suspeitava, mas que tivesse chegado a esse ponto, é que não podia crer. +Vejo-lhe apenas um remedio: metterem-n'a no hospital dos doidos, e, +quanto a isso, quem está nas melhores condições é o regedor. E sem mais +tir'te nem guar'te, voltou as costas á fiel criada, mostrando-lhe que o +sitio por onde tinha de sair era o mesmo por onde minutos antes havia +entrado. + +Esperançada no restabelecimento de D. Maria, a pobre mulher voltou para +casa. + +--Já não ha meios de a soffrer, disse-lhe uma sua companheira. Tem +quebrado tudo quanto encontra á mão, e se assim continúa, não temos +ámanhã um copo por onde beber. Pela minha parte, entendo que visto a +senhora não ter amigos nem parentes, o melhor era dirigirmo-nos ao sr. +regedor. + +--O mesmo disse a sr.ª D. Maria Clara. Porém, entregar a nossa ama á +justiça, nós que lhe queremos tanto! Não seria mais razoavel supportal-a +ainda alguns dias, como antes de hontem nos disse o medico? respondeu +Maria Gertrudes. + +--Pois supporte-a vossemecê, que eu pela minha parte já estou farta. E +demais, nós as criadas não temos obrigação de aturar doidas. Se a tal me +quizesse sujeitar, ia para o hospital de S. José, onde tinha melhor +ordenado do que n'esta casa. Vossemecê, que é mais antiga do que eu, se +gosta, sopeteie, que quanto a mim, não tenho mais nada se não arranjar o +bahu, pôr o capote e o lenço, e pés para que te quero. + +É que não sei; não sei o que hei de fazer á minha vida. Valha-me Deus, +para que estava guardada. + +--Estivesse eu no seu caso; eu lh'o diria. + +--Então o que havia de fazer? + +--Chamar o regedor e ferrar com ella no hospital. + +--E esta casa? Quem ha de ficar n'esta casa? + +--Ora essa sr.ª Maria Gertrudes! Ficavamos nós emquanto o filho não +viesse. + +--E sabemos por ventura aonde está o filho? + +--Onde está! Está no estrangeiro. Bem se vê que a sr.ª Maria Gertrudes +não é mulher d'este tempo. Boa está. Olha que grande difficuldade! Pensa +talvez que não sei como essas coisas se fazem. Para que servem os +correios? Não tem mais nada senão pôr: ao sr. Manuel de tal, e em baixo: +pelo correio do Estrangeiro, em letras muito grandes. + +--Isso lá é verdade; e quanto tempo pode levar isso tudo? + +--O tempo que leva uma carta ao estrangeiro. Olhe, sr.ª Maria Gertrudes, +se vossemecê quer, não diga nada ao criado, que eu _mesmo_ me encarrego +de a escrever. Por agora o que devemos fazer é ir a casa do sr. regedor. +Já com este são cinco dias que estamos aturando aquella doida, e bem vê +que isto não póde durar por muito tempo. + +--Lá n'isso tem muita razão. + +--Ora ainda bem; então mãos á obra. + + * * * * * + +Maria Gertrudes resolveu-se a ir falar ao regedor. + +N'essa mesma tarde, a infeliz senhora, que cinco dias antes se +considerava rica e cheia de ventura, entrava na enfermaria das alienadas +como uma simples pedinte sem protecção e sem abrigo. Quando dois mezes +depois, informado pelos visinhos, soube o regedor o que se estava +passando em casa de D. Marianna de Mendonça e como os seus creados de +dia para dia iam roubando os haveres, entendeu-se com o juiz eleito, e +entrando em casa, viram com effeito que não eram mal fundadas as +suspeitas da visinhança. + +A carta remettida para o estrangeiro ainda não tinha chegado ás mãos de +Manuel de Mendonça, e a desgraçada continuava no hospital sem que nenhum +dos creados fosse indagar o seu estado. + +No dia seguinte, o juiz mandou tomar posse de tudo quanto existia, e +depois de competentemente inventariado, collocou no meio da rua aquelles +dedicados servos que tão tranquillamente habitavam a casa de sua ama sem +ao menos saberem se ainda existia ou não. + +Pelo espaço de sete annos, esteve D. Marianna nas enfermarias de S. +José. Finalmente, recobrou a razão e deram-lhe alta. + +Antes da saida pediu para falar com o director. Depois de lhe confiar +todos os pormenores da sua vida, perguntou-lhe se durante a sua +enfermidade alguem tinha vindo informar-se da sua saude. + +Sympathizando com as maneiras da viuva e condoido pela sua desgraça, o +director levou-a para casa da sua familia. + +Finalmente, graças ás relações do seu protector, D. Marianna tomou posse +do que lhe restava. Entre louça, moveis e roupas brancas apurou dois +contos e duzentos mil réis. + +Alugou uma casa proxima á dos seus protectores, entregou-lhes o resto +para lh'o empregarem no que melhor lhes parecesse, até que o destino, +cançado de a torturar, lhe proporcionasse a maior de todas as +felicidades: devolver-lhe o filho querido da sua alma! + +Debalde se passaram annos e annos, e o destino sem se compadecer da sua +desventura. + +Os dezeseis vintens que pouco mais ou menos lhe rendiam as inscripções, +juntos aos ganhos que os seus bordados lhe produziam, eram mais do que +sufficiente para o seu alimento. Infeliz de todo não se considerava D. +Marianna, e ingrata seria para com Deus se da sua sorte se queixasse. +Era já muito o amparo que lhe concedia a Providencia representada nas +pessoas do director e de sua mulher; porém a desgraça que parecia ter-se +aninhado no seu coração, não podia permittir-lhe que descesse á +sepultura sem que primeiro a bafejasse uma vez ainda com o seu halito +envenenador. Levou-lhe em menos d'um anno as duas unicas pessoas que +tinha sobre a terra: o director e sua esposa! + +Aterrada com esse golpe, julgou de novo enlouquecer! + +Querendo mudar-se do bairro, que lhe recordava os seus protectores, á +sombra de cuja amizade tanto tempo se abrigára, lembrou-se de ir viver +para a Lapa. + +Uma tarde saiu, e dirigindo-se para aquelles sitios encontrou na rua do +Meio a casa que lhe convinha. Dois dias depois, alugou e mudou para alli +a sua pequena mobilia. Foi onde oito annos depois a encontramos atacada +pela febre amarella. + +A pobre senhora, na doce esperança de ainda tornar a vêr seu filho, +economizava, quanto cabia em suas forças, os poucos haveres que lhe +restavam. + +«Este dinheiro, dizia ella ás vezes comsigo olhando para as inscripções, +não me pertence, é de meu filho; cumpre-me fazer tudo quanto possivel me +fôr para lh'o augmentar.» + +Explicado está portanto o seu modo de viver. + + + + +IX + + +A physionomia doce e melancholica de Martha impressionára de mais o +desconhecido para que a sua promessa deixasse de ser cumprida. + +Quando ao apear-se no Largo das Duas Egrejas se demorou alguns segundos +para pagar ao bolieiro, olhou instinctivamente para um grupo composto de +quatro individuos que estavam discutindo. + +--Se fosse algum de nós que tivesse atropellado o homem, provavelmente +estava preso, dizia um d'elles. + +--Mas como foi o sr. Tristão d'Almeida... acudiu outro. + +--E o visconde de Coruche, accrescentou terceiro. + +--Mas elle morreu ou não morreu? + +--Dizem que está melhor. + +--Veremos como se porta o brazileiro. + +--Até agora, não ha razão de queixa, segundo me disseram. Lá ficou n'um +bello quarto do hotel, tendo por enfermeiras a mulher do magnata, e as +duas filhas. + +--Tenho pena de não ter sido eu o atropellado, só para ter taes +enfermeiras. + +--Vocês vão d'aqui para o Marrare de Polimento, ou ficam ainda a +descobrir a mysteriosa individualidade do menino de ouro, como se diz na +minha terra? + +--Vamos para o Marrare, responderam os outros tres, dirigindo-se pela +rua do Chiado. + +Reflectindo em que o atropellado podia muito bem ser o pae de Martha, o +mysterioso protector da infeliz criança seguiu os quatro individuos até +á sua entrada no Marrare de Polimento. + +Entrou tambem. + +O que primeiro falára do acontecimento ficou á porta assobiando +alegremente; os outros dirigiram-se para os bilhares. + +--Deve estranhar uma pergunta que lhe vou fazer, disse o desconhecido +interrompendo o assobio do _dilettante_. Ha tres horas que procuro um +individuo que desappareceu de sua casa. Quando me apeei de um trem no +Largo das Duas Egrejas, percebi que falavam ácerca de uma pessoa que +tinha sido atropellada, e confesso-lhe que commetti a indiscrição de os +escutar. Póde ser que seja esse o mesmo individuo que procuro. + +--Talvez, respondeu amavelmente a pessoa a quem estas palavras foram +dirigidas. O que sinto é não lhe poder dizer o seu nome. Sei apenas que +está no Hotel de Bragança. + +Retribuindo n'um aperto de mão a amabilidade com que fôra recebido, o +protector de Martha correu immediatamente para o sitio que lhe haviam +indicado. + +Ao chegar perguntou ao guarda portão se ainda alli estava um sugeito que +de manhã fôra pizado por um brazileiro. + +--E não só por um brazileiro como tambem por um visconde, respondeu o +guarda portão, como se n'estas palavras quizesse tornar mais illustre o +atropellamento, ou diminuir a culpabilidade dos animaes dividindo-a por +todos quatro. + +--É possivel falar lhe? + +--É possivel vel-o; emquanto a falar-lhe isso fia mais fino, respondeu o +guarda portão. Ainda não tornou a si. + +--Pois obsequiava-me muito se me podesse conduzir ao seu quarto. + +Minutos depois entrava no quarto do ferido. + +Jeronymo ainda se encontrava no mesmo estado lethargico. A dôr das +feridas havia-lhe diminuído progressivamente, comtudo a perda de sangue +tinha sido abundante, e ao pobre operario nem forças restavam para pedir +que chamassem a sua familia, de quem n'esse instante tão amargamente se +recordava. A imagem de Balbina e de sua filha passava-lhe por entre as +visões da febre, como se as visse alli, pregadas á sua cabeceira. + +Sentia na fronte a mão fina e delicada de Martha, e pousando lhe sobre o +coração, que fortemente lhe palpitava, a face de sua mulher incendida +pelo terror. + +Jeronymo via tudo isto como atravez de um sonho. + +Junto ao leito o desconhecido olhava-o caridosamente, levando-lhe de vez +em quando a mão á fronte. + +Momentos depois os olhos do operario, até alli brandamente cerrados, +abriram-se como que para contemplar o desconhecido, que fitando-o +parecia descobrir-lhe nas feições alguma similhança com as da pobre +Martha. N'este comenos o enfermo fez um movimento como se tentasse +falar. + +Manuel, o creado que lhe servia de enfermeiro, approximando-se +suavemente, perguntou-lhe se desejava alguma cousa. + +--Falar... mas... não posso, murmurou o infeliz Jeronymo, deixando cair +sobre o colchão o braço direito que tentára levantar. + +O desconhecido approximou-se ainda mais. + +--E ainda não houve meio de se saber quem é este homem? + +--Ouviu aquellas palavras que elle disse? Foram as primeiras! respondeu +o creado. + +--Como se chama vossemecê, perguntou o desconhecido debruçando-se sobre +o leito. + +--Jeronymo, balbuciou o pobre; e a minha familia mora na rua do Meio, á +Lapa. + +--Basta! bradou rapidamente o desconhecido, e saindo do quarto sem que o +criado tivesse tido tempo de lhe perguntar aonde se dirigia, +encaminhou-se para o Loreto, afim de procurar uma sege. + +Martha havía-lhe dado o nome da rua e o numero da porta. Dizendo ambas +as cousas ao bolieiro, ordenou-lhe que trouxesse Martha e sua mãe ao +Hotel de Bragança o mais depressa que lhe fosse possivel. + +Foi n'este momento que Manuel desceu á casa do jantar para dizer a +Tristão de Almeida que o ferido estava no uso das suas faculdades. + +Deixemos o mysterioso descobridor do pae de Martha esperando á porta do +hotel a mulher e a filha de Jeronymo, e vejamos o que se está passando +no quarto do ferido. + + + + +X + + +--Ora graças a Deus que está livre de perigo, exclamou Tristão de +Almeida approximando-se do leito de Jeronymo. Não calcula o quanto me +tem feito soffrer a sua prostração. Quero que nos perdôe todo o mal que +involuntariamente lhe causamos, eu e o meu amigo visconde. + +--Mas agora, felizmente, sente-se melhor! perguntou o visconde +approximando-se de Tristão. + +--Nem mesmo sei como me sinto, meus caros senhores, respondeu Jeronymo, +como se ainda estivesse sendo victima de uma allucinação. De quanto se +passou, continuou elle, com uma voz muito enfraquecida, lembro-me apenas +que fui atropellado por um trem, e de nada mais me recordo. Sei que +tenho tido umas dôres horríveis tanto na cabeça como em todo este lado +direito, e nada mais posso responder a vossa senhoria. O que apenas me +mortifica é lembrar-me os cuidados em que deve estar minha pobre mulher +e filha, o resto será o que Deus quizer. Tratamento, graças aos +senhores, vejo que me não tem faltado. O que eu tambem agora desejava +pedir-lhe eram dois favores; o primeiro, que me dissessem onde estou, e +o segundo, que mandassem immediatamente a minha casa participar a Martha +e a minha mulher que estou aqui, vivo e bem tractado. As infelizes a +esta hora cuidam que fui atacado pela febre amarella, e andam á minha +procura por toda a parte. + +--Emquanto ao sitio aonde se encontra, respondeu Tristão, bastará +dizer-lhe que está entre amigos, e que nada lhe faltará; emquanto a +mandar chamar sua familia, queira dizer-me aonde mora. + +--Moramos na rua do Meio n.º 7, Lapa, respondeu Jeronymo, fazendo ao +mesmo tempo uma dolorosa contracção. + +--Que é isso, meu amigo? acudiu rapidamente o commendador dirigindo-se +ao mestre de obras. + +--É uma dôr muito grande que me toma a cabeça toda, respondeu elle, +levando á fronte ambas as mãos. + +--Veja se póde socegar um momento, e tranquillize se porque vamos +immediatamente chamar a sua familia. + +--Para que venham mais depressa vou mandar o meu trem, disse o visconde +dirigindo-se para a porta. + +--Bom será, visconde, ajuntou o commendador, quanto mais depressa +descançarmos aquella pobre gente tanto melhor para todos. + +--Se vossas senhorias fossem tão bons que tal fizessem, seria uma grande +obra de caridade, disse Jeronymo, tentando sentar-se sobre o leito. + +--Não faça similhante loucura. Conserve-se como está, e tenha a certeza +que d'aqui a meia hora terá a seu lado as pessoas que tanto deseja. + +N'este momento entrou a sr.ª D. Maria Egypciaca, acompanhada por suas +duas filhas. + +--Já sabemos, graças a Deus, quem é o nosso doente, e onde mora, disse +a D. Maria Egypciaca o visconde, que n'esse momento saía do quarto, com +o fim de dar ordem ao cocheiro para trazer a familia do ferido. + +--Quanto estimo, meu Deus! respondeu D. Maria, erguendo para o tecto os +seus grandes olhos azues. + +--Em que sustos estará a sua pobre familia! disse Magdalena olhando para +Olympia. + +--Talvez que nem hoje tivessem que jantar. + +--Enfim! disse D. Maria Egypciaca depois de ter contemplado o ferido por +alguns instantes, Deus tudo quanto faz é para melhor. É certo que teve +esta pequena contrariedade, mas graças ao Senhor, está livre de perigo, +e vae fazer a felicidade de sua familia. Não é verdade, Tristão? ajuntou +ella dirigindo-se ao esposo. + +--Quantos desejariam ter egual sorte! disse o commendador +intromettendo-se na conversação. + +--Magnifico achado para dirigir as obras do nosso hospital, disse o +banqueiro voltando se para Lopes de Miranda. + +--Do hospital?! perguntou admirado o commendador. + +--Não ouviste dizer ha pouco que era mestre de obras? + +--Lembra bem, lembra bem, meu amigo, disse Tristão sentando se n'um +pequeno sophá. + +N'este momento, ouviu se o rumor de muitos passos subindo apressadamente +a escada que dava para o segundo andar. Segundos depois abriu se a porta +e appareceram duas mulheres. Eram Balbina e Martha. O desconhecido +seguia-as de perto. + +No momento em que Balbina e sua filha se precipitavam sobre o leito de +Jeronymo, este fez um supremo esforço para se erguer, porém as dôres que +lhe atacavam a cabeça e todo o lado direito tornaram a prostral-o +completamente. + +Todos se compadeceram ao contemplar aquella scena de amargura, até a +propria Olympia arrancou dos fundos penetraes do estomago, unica viscera +onde a sensibilidade se lhe refugiára, um par de lagrimas que vinham em +turvos crystaes, rescendendo mais a fricassé do que a natural piedade. + +O desconhecido, com os olhos fitos n'aquelle grupo, parecia contemplar a +physionomia de Tristão, como se uma vaga reminiscencia lhe houvesse +acudido á memoria. + +O mesmo se passava no espirito do magnata; aquelle individuo não lhe era +estranho. + +Seguido da esposa, approximou-se do leito de Jeronymo e contou a sua +familia tudo quanto tinha acontecido. + +O mesmo fez Balbina e sua filha. + +--É portanto a este cavalheiro que devemos tudo? disse Tristão. Quanto +folgo que tenha concorrido para a felicidade d'esta familia, ajuntou +elle extendendo a mão ao desconhecido. + +Este, retribuindo-lhe o aperto de mão, cumprimentou rapidamente a todas +as pessoas e saiu d'aquelle gabinete. + +--Quem será este moço? perguntou Tristão voltando-se para o banqueiro. + +--Deus sabe; respondeu Vaz Mendes. Acho-o pouco delicado. + +--Quer tornar-se mysterioso, acudiu Lopes de Miranda. + +--Provavelmente é algum rapaz acanhado que não sabe estar entre gente +fina, disse D. Maria Egypciaca. + +--Não sou d'essa opinião; pelo contrario, pareceu-me um moço de um +trato finissimo, mas excessivamente modesto para se conservar n'este +quarto. Receiava que o cobrissem de elogios. Não achas Magdalena? +ajuntou Tristão dirigindo-se a sua filha. + +--N'isso mesmo pensava eu, meu pae, respondeu Magdalena. Quando o sr. +Vaz Mendes o alcunhou de indelicado, de mysterioso o sr. Lopes de +Miranda, e de pouco sociavel minha mãe, não concordei com opinião +nenhuma d'essas. Julgo o como meu pae: modesto de mais para escutar os +elogios de que é merecedor. + +--Que innocencia! gargalhou Vaz Mendes. Quem se esquiva a ser elogiado? + +--Muita gente, sr. Vaz Mendes, ainda que não seja senão por egoismo. O +elogio frivolo e banal, inscripto no codigo da civilidade, é uma ironia +pungente para o que tem a consciencia do seu merito. Ha o louvor que +anima e a adulação que fere. O incenso nem sempre é agradavel; está +muitas vezes pendente da mão que balança o thuribulo, e comtudo sempre é +incenso. + +--Quer vossa excellencia dizer que os nossos encomios o poderiam +offender? perguntou o visconde. + +--Nem por sombras, sr. visconde! Não era essa a minha intenção, +respondeu Magdalena approximando se de sua irmã. + +--Não seria melhor deixarmos em paz esta pobre gente? disse Olympia em +voz baixa para sua mãe. E demais, acrescentou ella, já se vão +approximando as horas do chá, e se quer que lhe diga a verdade, estou +sentindo uma fraqueza... + +--Bemdito Deus, respondeu D. Maria Egypciaca, sempre, sempre pensando em +comer. + +--Em que quer a minha mãe que eu pense? tartamudeou Olympia, fazendo-se +vermelha como a fita que lhe cingia o collo. + +No entretanto, o visconde, Vaz Mendes e Lopes de Miranda conversavam em +voz baixa n'um dos angulos do quarto. + +--O que lhes peço, disse Tristão approximando-se de Balbina e de sua +filha, é que estejam aqui tanto á sua vontade como em casa propria. +Fiquem certas que coisa alguma lhes faltará. Se necessario fôr que seu +homem aqui se demore, o que espero em Deus tal não permitta, não +consinto que d'aqui se afastem. E emquanto a vossemecê, ajuntou Tristão +dirigindo-se a Jeronymo, não se persuada que fica sem trabalho; apenas +estiver melhor, ha de fazer-me o plano de uma obra que vamos +immediatamente principiar e de que o meu amigo fica encarregado. + +Nos olhos do pobre Jeronymo deslizaram duas lagrimas de gratidão. + +Absortas na contemplação de Jeronymo, Balbina e sua filha ouviam as +palavras de Tristão como se não as comprehendessem. + +--Agora que terminaram os cuidados, e que seu marido está livre de +perigo, disse o visconde approximando-se do leito do operario, agradeçam +á Providencia o ter lhes deparado a mão que os veiu arrancar da pobreza, +ajuntou elle, voltando-se para Balbina que o contemplava como que +assombrada. + +--Minha santinha, ás vezes, d'onde a gente menos o espera, é d'ahi que +provém ou grande mal ou uma grande ventura, disse Lopes de Miranda +approximando-se do visconde. + +--Será a ultima, acudiu rapidamente D. Maria Egypciaca, collocando +protectoramente sobre os hombros de Balbina a sua mão direita, cujos +dedos cravejados de brilhantes feriram os olhos verdes e entristecidos +da pobre Martha. + +--Vamos dar ordem para que tragam alguma coisa de comer a esta gente, +disse Olympia, puxando pela saia de sua mãe. + +--Safa, inimigo! Que esta rapariga não pensa n'outra coisa senão em +comer, resmungava D. Maria Egypciaca á proporção que, seguida dos seus +hospedes, saía do quarto de Jeronymo. + + * * * * * + +--Que bem que alli cheira, dizia Olympia dirigindo-se para sua irmã e +aspirando os aromas culinarios que rescendiam no corredor por onde +atravessavam. Provavelmente foi algum hospede que mandou vir o jantar ao +seu quarto. Quem me dera fazer o mesmo! + + + + +XI + + +Cada vez mais impressionado pela ingenua formosura da filha do operario, +debalde tentava o desconhecido afastar para longe da memoria aquella +imagem que o perseguia. + +«Mas, pensava elle, e se tudo isto não passar de uma illusão, d'um +capricho de phantasia? + +«Casar-me hoje, para d'aqui a mezes aborrecer a companheira da minha +vida? Continua solteiro Manuel de Mendonça, e se um dia te impressionar +como agora algum rosto de mulher, estuda o teu coração e a tua +intelligencia, apalpa, mede e analysa esse sentimento que experimentas, +e se o considerares estavel, firme e immorredouro, pede então a mão da +mulher que o tiver despertado, e torna-a a companheira inseparavel da +tua existencia. + +«Ai, do homem só!» diz Salomão, e eu digo: ai, do homem casado, que +sente ao lado da esposa a solidão. E comtudo, é esta a primeira vez que +sinto palpitar o coração! Será o amor esta intranquillidade de espirito +que ha horas me atormenta? Esta saudade que me traz a ausencia da sua +imagem e o desejo ardente de a tornar a ver será ainda o amor? Veremos. + +«Só ámanhã poderei saber o tempo que me demoro em Lisboa. Se fôr pouco, +bem vamos; no mar largo substituirei a sua imagem pela doce contemplação +das estrellas, quando por noites caladas ouvir apenas o vogar da minha +galera, e de longe em longe o canto rude, mas harmonioso dos +marinheiros. Nada, continuava Manuel de Mendonça, se essa é a minha casa +e elles a minha familia, para que abandonal-a, trocando a por outros que +me são desconhecidos e que, se eu morresse, nem talvez uma lagrima de +saudade fossem chorar sobre a minha sepultura. + +«Mas se eu me demorar, se a imagem de Martha me continua a perseguir? +Não póde ser! Não ha de ser, não quero que seja! Estou ainda muito novo +para me prender. E demais, affeito a uma vida isolada, como poderia eu +cumprir todos os deveres de um bom chefe de familia? Desde os dezeseis +annos que me afastei da unica pessoa que tinha n'este mundo: minha mãe. +Só, em terra estranha, sem um amigo que me protegesse, alonguei a vista +para os horizontes da patria, e extendendo-lhe os braços, debalde lhe +pedi noticias d'ella. Desanimado ao principio, vi por ultimo que não +tinha outro remedio senão revestir-me de valor, e luctei, e soube +vencer. + +«Quando, possuidor de algum dinheiro, tentei voltar á Europa afim de ver +minha mãe, disseram-me na Bahia, poucos dias antes de embarcar, que a +pobre estava reduzida á miseria. Vim para Lisboa, e ao chegar descobri a +terrivel verdade, que tinha morrido no hospital dos alienados! + +«Aterrado, saí immediatamente de Portugal, buscando nos transportes de +uma vida arriscada esquecer a dôr que me feria. Como eu sorri á tormenta +que parecia zombar da minha agonia! Com que desejo ardente de seguir +minha mãe eu me lancei em tudo quanto havia de perigoso, e Deus sempre a +proteger-me, como se me estivesse guardando para algum fim sobre a +terra. E que poderei eu esperar? Que felicidade posso conceber +lembrando-me que, emquanto dispendia contos e contos de réis, jazia a +minha infeliz mãe nas palhas d'um hospital? + +«Nada, continuava Manuel de Mendonça, passeiando pelo seu quarto do +hotel da Europa. Permitta Deus, ajuntava elle, que ámanhã termine o +negocio que espero e que possa levantar ferro quanto antes.» + +N'este momento, baterem mansamente á porta do quarto. + +--Entre, disse Manuel, volvendo os olhos para a porta. + +Um individuo alto e excessivamente delgado levantou o ferrolho, e entrou +no gabinete. + +O homem chamava-se Luiz, por alcunha o _Mascatudo_. + +A camaradagem que Mascatudo tivera por largos annos com os irlandezes, a +bordo dos seus navios mercantes, introduziu lhe por tal forma o vicio de +mascar tabaco, que o pobre Luiz, quando o não tinha, era capaz de mascar +tudo quanto lhe apparecesse. + +Contava-se d'elle a seguinte anecdota, que prova a quanto aquelle vicio +o arrastava: + +N'uma viagem a Macau, acabára-se-lhe o tabaco. Receiando a tripulação +que se prolongasse a derrota, defenderam todos das maxillas do tio Luiz +a preciosa planta que começava a escassear-lhes. + +Certos e mais do que certos se tornaram os seus receios, a viagem durou +mais onze dias do que esperavam. Não havia tabaco a bordo! + +Dizendo mal á sua vida, a tripulação debalde vasculhava os mais +reconditos escaninhos das algibeiras! Ninguem fumava! Um marujo apenas +seguia no seu eterno ruminar. Era o tio Luiz. + +--Forte velhaco! diziam uns. + +--E eu que ainda o outro dia fui tão tolo que lhe dei dois charutos +havanos! + +--E eu, acudiu outro, perto de meia quarta de rollo. Daria agora por +elle um mez da minha soldada. + +--Um raio me parta se aquelle marau me apanha mais um cigarro em toda a +sua vida, dizia com voz rouquenha o timoneiro. + +--Arrebentado morra eu da sobre gata se aquelle arenque de fumo me leva +mais uma cachimbada, acrescentava um velho marinheiro. + +E gritando e vociferando, iam todos contra o tio Luiz, e elle sempre +sereno, tranquillo, ruminando e salivando ao mesmo tempo. + +Finalmente chegaram a Macau. + +Á tarde, o commandante chamou o tio Luiz e ordenou-lhe que se vestisse +afim de o acompanhar a terra. + +O marujo empallideceu, mas não teve mais remedio do que cumprir as +ordens do commandante. + +Meia hora depois ouviu-se á ré um grande motim, e viu-se entre os apupos +e os risos da tripulação o tio Luiz gravemente compromettido, com uma +bota de cano no pé direito e no esquerdo uma especie de sapato de mulher +completamente franjado. + +O tabaco que os seus companheiros injustamente lhe attribuiam, era o +cano da bota esquerda, que o tio Luiz mascára durante os onze dias de +atrazo. O marujo preparava-se para entrar pelo pé esquerdo se por +ventura não deitam ferro defronte da grande cidade. + +Os creditos foram-lhe de novo restituidos, e desde esse dia o tio Luiz +foi conhecido a bordo pela alcunha de Mascatudo. + +O tio Luiz tinha quarenta e dois annos. O seu valor e honradez faziam +com que todos o estimassem. + +Quando Manuel de Mendonça comprou em Buenos-Ayres uma galera, Mascatudo +foi-lhe o mais recommendado entre os tripulantes que lhe inculcaram. +Desde esse dia até ao momento que o vemos entrar no hotel, Manuel de +Mendonça nunca teve um momento de se arrepender da profunda confiança +que n'elle tinha depositado. De todos os seus amigos, como chamava aos +seus tripulantes, Mascatudo era o mais intimo, sem que nenhum dos outros +jámais levantasse a voz para deprimir as nobres qualidades do seu +companheiro de perigos. + +Mascatudo havia perdido sua mãe, unico parente que lhe restava, e que +elle adorava com todo o ardor do seu coração, coração grande e ingenuo, +como de todo o homem que passa a vida separado do resto da humanidade, +entre a colera dos elementos e a mercê do Creador! + +Seria esta circumstancia que fazia com que essas duas almas se casassem? +Era o! Nos espiritos irmãos pelo infortunio, vasa Deus o balsamo da +sympathia para que possam juntos enlaçar os soffrimentos que os pungem. + +Era bello vel-os, quando á noite, ao lado um do outro, contemplavam em +religioso silencio a solidão das aguas, olhando de vez em quando para o +céo, como se alli procurassem algum vestigio d'aquellas que lhes haviam +dado o ser. Outras vezes, sosinhos na sua camara, Mascatudo contava a +Manuel as suas viagens, acabando quasi sempre por lhe ler as cartas que +sua mãe lhe escrevia, e que aquelle já ha muito sabia de cór. + +Era portanto este o amigo a quem Manuel abria inteira a sua alma, e em +cujo coração depositava todos os segredos da sua vida aventurosa. + +--Venho participar-lhe que não poderemos sair d'aqui em menos de +cincoenta dias, o que deveras sinto, porquanto é um tempo precioso o que +estamos perdendo, disse Mascatudo, encostando-se desembaraçadamente a +uma commoda que estava no quarto de Manuel. Se imagino que tal +acontecia, juro por Santa Barbara que não era eu que o tinha aconselhado +a vir a Portugal. + +-Pois sinto-o deveras, respondeu Manuel de Mendonça, sobretudo n'esta +occasião; e fazendo sentar Mascatudo a seu lado, contou-lhe em poucas +palavras a aventura da vespera, não sem lhe mostrar os graves receios +que atormentavam a sua alma. + +--Nunca se arrependa de que a sua presença tenha feito a felicidade de +alguem. Dizia minha mãe, que Deus haja, que tudo quanto o Senhor fazia +era para melhor. Ora quem nos diz a nós que atraz d'essa borrascasita +que lhe arrebentou no coração, não está perto a bonança? + +--Parece-te portanto... que devo dar azas a isto, que nem eu mesmo sei +como hei de chamar? + +--Olhe, sr. Manuel de Mendonça, dizia minha mãe, que Deus tenha, que +o homem só n'este mundo é alvo da perdição. E eu digo o mesmo. +Antigamente não pensava assim, porém hoje, que me sinto cançado de +trabalhar, parece-me que, apezar das muitas saudades que me ficariam do +mar, viveria talvez mais feliz ao lado de minha mulher, tendo a barca +sempre em ordem e o porão cheio de mantimentos para sustentar os +filhitos, vendo-os alegres a todos, e trepando por este velho mastro, +açoitado dos vendavaes. Ha lá nada melhor n'este mundo, como dizia minha +mãe, que Deus haja, do que ter a gente umas sopas para comer ao pé de +sua familia! Basta a gente lembrar-se que tem quando morrer quem lhe +feche os olhos, e lá de vez em quando, quem se recorde da nossa alma, +resando-lhe uma oração sobre a sepultura do corpo. Emfim, faça o sr. o +que quizer, que eu cá por mim deixo correr a embarcação. + +O prazer que Manuel de Mendonça experimentava ao ouvir falar do objecto +amado, era mais uma prova do seu amor. + +Foi então que elle reconheceu de verdade o seu estado. + +--Esperemos, disse elle finalmente de si para comsigo, e vestindo-se +saíu com Mascatudo, dirigindo-se a bordo. + +[Ilustração:--Como se acha? perguntou Martha levantando se da +cadeira... (_pag. 85_)] + + + + +XII + + +No dia immediato aos acontecimentos que presenceamos no hotel de +Bragança, a saude de Jeronymo melhorou consideravelmente. O medico que +pela manhã o fôra visitar declarou as feridas de pouca importancia, +aconselhando, a despeito de tudo, que seria muito mais prudente não +removerem d'alli o ferido, attendendo ao estado anormal em que Lisboa se +encontrava. + +Tanto o mestre de obras como a sua familia não se cançavam de agradecer +á Providencia a felicidade que tinham achado no meio da sua desventura. + +Não houve delicadeza que lhe não fosse dispensada por aquella santa +familia. A tal ponto foi levada a dedicação de D. Maria Egypciaca, que +por tres vezes se levantou da cama afim de se informar do doente. + +Foram taes as promessas feitas por Tristão ao pobre Jeronymo, que este +quasi que dava graças a Deus de ter sido atropellado pelos cavallos do +visconde. + +Phantasiando trezentos planos de vida, o operario julgou ver realizado +o seu sonho de vinte annos: um pequeno casal nas proximidades de Lisboa, +onde tivesse uma ou duas vaccas, e um garrano que de vez em quando o +trouxesse á cidade. + +Via Balbina com a quarta rasa de milho dirigindo-se á estrebaria para +arraçoar a cavalgadura, Martha seguindo-a a poucos passos, em busca da +creação, e elle, no centro da horta, ao lado dos seus trabalhadores, ora +regando o milho, ora arrancando-lhe as bandeiras, e enfeixando as para +as levar á vacca malhada, a sua favorita, essa a quem devia pôr o nome +de Estrella, por ser o nome de uma vacca torina que seu pae lhe dera no +dia em que Jeronymo fazia quinze annos. + +Embevecido no seu phantasioso sonho, com as palpebras semi-fechadas, +extendia de vez em quando a mão para sua filha, a qual, beijando lh'a +n'um transporte de amor filial, fazia ao mesmo tempo votos ao Todo +Poderoso para que lhe melhorasse quanto antes o seu querido pae. +Balbina, assentada no canapé, olhava ora para Jeronymo, ora para sua +filha. Esta, sorrindo meigamente, apontava para o leito de seu pae, como +se tentasse mostrar-lhe o socego em que elle repousava. + +De repente o ferido abriu os olhos, e, como se despertasse de um sonho, +apertou brandamente as mãos da filha, fitando-a com toda a ternura do +amor paternal. + +--Como se acha? perguntou Martha levantando-se da cadeira e +debruçando-se-lhe sobre o leito. + +Balbina approximou se. + +--Tenho menos dôres, balbuciou o enfermo, e espero em Deus que não +tardará muito que eu te possa extender estes braços que a muito custo +levanto. Mas não me dirão quem é esta santa familia que com tanto amor +nos tem tractado? acrescentou elle, dirigindo-se a sua esposa. + +--Ignoro, respondeu Balbina. + +--Foi alguem mandado por Deus para nos valer com a sua protecção, +continuou elle, como se ainda o acompanhasse aquelle sonho. + +--Pois olhe, meu pae, acudiu Martha, apezar de tudo, preferia estar em +nossa casa a vêl-o aqui entre estas cortinas. + +--Se d'isto resultar a tua felicidade, e a tua, ajuntou elle voltando-se +para Balbina, terei de agradecer a Deus estas dôres que me atormentam. + +--Pois eu, Jeronymo, ainda que tudo quanto Deus faz é para melhor, +desejava bem vêr-te fóra d'este quarto, disse a pobre Balbina olhando ao +mesmo tempo para a porta. + +Esta abriu-se e entrou Tristão de Almeida. + +Depois de as cumprimentar approximou se do leito de Jeronymo. + +--Como se sente? perguntou Tristão pegando brandamente na mão do +operario. + +--Melhor; muito melhor. + +--Quanto folgo! disse Tristão, puchando uma cadeira e abeirando-se do +leito. É forçoso que se restabeleça quanto antes para tomar conta da sua +obra: um hospital para as pessoas pobres atacadas da febre. + +--Pelo que vejo, disse Martha, vossa excellencia não se occupa senão da +sorte dos desgraçados. + +--É essa a minha unica ambição, respondeu o magnata fitando o rosto +ingenuo da filha do operario. Ámanhã por estas horas já devemos saber o +logar designado para o hospital, e, como desde hontem o considero meu +empregado, accrescentou dirigindo-se a Jeronymo, não pense que vossemecê +e sua familia se estão aqui tornando pezados. Se alguma cousa tem que +fazer em sua casa, sr.ª Balbina, disse Tristão voltando se para a mulher +do operario, eu lhe mando chamar um trem para que a demora não seja +muita. + +--Não tenho outro remedio senão ir a casa, respondeu Balbina, mesmo por +causa da tia Marianna, ajuntou ella voltando-se para Martha. + +--Visto isso, vou dar ordem a um criado para que lhe chame um trem, e +sem attender a Balbina, que pretendia dissuadil-o da sua determinação, o +protector da familia de Jeronymo desceu ao primeiro andar. + +--Ainda não vi melhor coração, murmurou Jeronymo voltando-se para sua +filha. + +--Tudo é muito verdade, meu pae, mas torno a dizer-lhe, preferia que +nada d'isto tivesse succedido. + +Meia hora depois, com grandes esforços de Tristão de Almeida, Balbina +dirigia-se n'um trem de bandeirinha para sua casa. + + + + +XIII + + +Emquanto se estão passando estas veridicas scenas, entremos em casa do +visconde de Coruche. + +--Vê como pões esse pó de arroz, imbecil! Olha que me estás arranhando +as costas! dizia o visconde voltando-se para o seu _groom_. + +--Não é da minha mão, sr. visconde, é uma borbulha que v. ex.ª aqui tem. + +--Uma borbulha! exclamou o visconde, eu nunca tive a mais pequena +excrescencia na pelle. Dá-me d'alli aquelle espelho. + +Sem proferir uma palavra, o _groom_ dirigiu-se ao toucador, e tirando de +dentro um espelho em fórma de ellipse, entregou-o ao visconde. + +--Vejamos, disse este, voltando as costas para um toucador. Com effeito +tinhas razão. + +--D'isso tenho eu tido aos centos e não faço caso algum, ajuntou o +criado. + +--Queres tu comparar a tua á minha pelle? + +--Eu tambem não digo a vossa excellencia que a minha pelle seja como a +sua, digo só que d'isso tenho eu aos centos. Olhe, sr. visconde, se +vossa excellencia quer, verá como lhe curo isso n'um momento. Tome o sr. +visconde uma... que digo eu? meia pilula das Monicas, ou uma receita que +tem as irmãs do padre Bernardo que moram em Jesus, e verá como fica bom +no mesmo instante. Isto provavelmente são os humores que andam +levantados. + +--Será o que tu quizeres, respondeu o visconde. Dá-me d'alli uma camisa. + +--Que camisa quer? + +--Das mais finas, e põe-lhe os botões de camafeu. + +--Ou é _serviço_ ou grande pantomimice, resmungou o criado em voz baixa, +abrindo ao mesmo tempo a gaveta do guarda roupa e tirando de dentro uma +finissima camisa de cambraia. Agora por isso, ajuntou elle +approximando-se do visconde, veiu cá hontem e já voltou hoje um +individuo que trouxe para vossa excellencia a conta da camisaria. + +--Dize-lhe que volte no fim do mez. + +--Recordo a vossa excellencia que estamos hoje no dia 30, e que ámanhã é +o ultimo de outubro. + +--Pois sim; mas eu quando disse no fim do mez, quiz dizer que era para o +mez que vem. + +--Cumprirei as ordens de vossa excellencia. Que fato quer? perguntou +elle, dirigindo-se para uma commoda á Luiz XV, sobre a qual estava um +cofre de tartaruga. + +--Um fraque e collete preto, com quaesquer calças de côr. + +--Agora por isso, sr. visconde, disse o criado pondo nos punhos da +camisa dois magnificos camafeus de Italia, veiu cá hontem um individuo +com uma conta do alfaiate, e como vossa excellencia não estivesse em +casa, disse-lhe que viesse ámanhã, em sendo duas horas. + +--Fizeste muito mal, respondeu o visconde mergulhando uma pequena escova +de dentes n'um liquido pardacento, e levando-a repetidas vezes ao +bigode. Já te disse que nunca se mandam receber contas senão no fim dos +mezes. + +--Pois foi exactamente por esse motivo que o mandei cá vir ámanhã, que é +o ultimo de outubro. + +--Já te disse ha pouco que o meu fim do mez é sempre o de novembro, +respondeu o visconde encolerizado, passando a escova por sobre o labio +inferior, e deixando o côr de chocolate. + +--O mesmo disse eu ao sr. Alves, quando a semana passada o procurou por +causa d'aquella letra de 600$000 réis que se vence no primeiro de +novembro. + +--E elle insiste em não querer a reforma? + +--Creio que insiste. O alquilé a quem vossa excellencia comprou as eguas +baias, foi dizer-lhe que o sr. visconde promettia pagar-lhe tudo no +primeiro de novembro. + +--Veremos o que se ha de fazer, disse o visconde, esfregando com uma +essencia a nodoa côr de castanha que lhe descompunha a phisionomia. +Dá-me d'alli umas ceroulas de seda. É preciso que vás logo ao Baron que +me mande uma duzia de camisolas. + +--Cumprirei com as ordens de vossa excellencia, respondeu o criado, +abrindo a gaveta d'uma commoda, e tirando um par de ceroulas de malha de +seda. + +--Se alguem me procurar ás tres horas da tarde, dize lhe que não volte +antes do primeiro de novembro, caso não queira perder o tempo, disse o +visconde, atirando para longe com umas lindas chinellas de velludo +bordadas a oiro, e vestindo ao mesmo tempo as ceroulas. + +--Vossa excellencia sae a cavallo ou de trem? + +--O dia está tão bonito que me parece melhor saír a cavallo. Sim, +continuou elle, depois de reflectir alguns segundos, dize ao Marçal que +me apparelhe a egua lazã. É necessario montal-a; ha perto de oito dias +que não sáe. + +Depois de collocar sobre uma ottomana o fato do visconde, o criado abriu +a porta do toucador, e saíndo foi transmittir as ordens que seu patrão +lhe dera. + +--Sim senhores! a coisa não vae feia, dizia o visconde de si para +comsigo. Se não levanto o dinheiro do deposito estou arruinado. O +credito escassea-me, os credores, longe de me sustentarem a posição que +seria o unico recurso para se embolsarem do que lhes devo, começam a +negar-se e até me atormentam. Fazem bem, o futuro lhes dará o pago e +tambem Deus, que de vez em quando ainda se recorda de mim. + +«Não encontro meio algum de salvação! Se apeio os trens, se revelo, +ainda que por sombras, o estado da minha casa, não tarda a ruina, +seguindo-se a poucos passos a miseria, com toda a sua hediondez que me +assusta. + +«Devo a todos, e aos que me devem não me atrevo a pedir-lhes contas; +não, seria uma loucura para a situação em que me encontro. Exigindo-lhes +essas miseraveis quantias, seria mostrar-lhes que as necessito, e eu não +tenho mais remedio senão representar que estou rico. Quanto custa esta +falsa posição! Á custa de quantas insomnias se adquire um nome que não +dá honra no presente nem tão pouco no futuro! Que luctas inglorias! Quem +me dera ter nascido filho de um lavrador, e gosar em branda paz os +encantos d'uma vida tranquilla. E os homens julgam me feliz! quantos +dariam metade dos seus haveres para terem o meu nome! Pobres nescios! +Vêem os meus trens, os meus cavallos, os meus vestuarios, e mal pensam +as horas que todo esse fausto me rouba ao somno. + +«Vi a meus pés as primeiras mulheres de Lisboa, por mais de uma vez, com +as faces incendiadas pela colera do ciume, vi os maridos a +contemplarem-me, e eu mudo, indifferente, com o sorriso nos labios, +desprezando-as a ellas, e escarnecendo d'elles. + +«Quanto dera agora por ter amado uma unica vez, e ter consagrado a esse +objecto do meu amor toda a exuberancia da minha vida, todo o ardor das +minhas paixões. + +«Rico, saudavel, com uma intelligencia clara e algum tanto cultivada, +porque não creei a melhor de todas as instituições: a familia? + +«Que futuro me espera? Poderei eu sustentar por muitos annos esta vida, +sem dinheiro, alicerce indispensavel d'este edificio? Se ámanhã, +completamente desanimados os meus credores, comprehenderem a nenhuma +vantagem de me conservarem n'esta situação, que poderei fazer? Sair de +Lisboa? e para onde? + +«Que sei eu fazer? Montar a cavallo ou guiar bem um tilbury. É isto o +sufficiente? E demais, affeito a este luxo que me rodeia, teria eu +bastante valor para lançar mão de qualquer modo de vida, que não +estivesse em harmonia com o que hoje tenho? + +«Se eu podesse encontrar um homem que me emprestasse dez a doze contos +de réis, talvez ainda conseguisse levantar-me. Por isso me liguei com o +commendador e com o banqueiro, a fim de explorarmos o Tristão, mas ou eu +me engano muito ou d'aquella moita não sae coelho. + +«Aquillo é homem para duzentas ou trezentas libras, que nada me podem +remedeiar. Se eu me convencesse do contrario, ajuntava o visconde +abotoando o collete, cujos magnificos botões de coral contrastavam com a +pallidez morbida do seu aristocratico semblante, se aquelle Tristão de +Almeida fosse homem para emprestar uma duzia de contos de réis, +separava-me totalmente dos meus companheiros e recorria á sua bolsa. E +quem sabe? Quem me diz que a minha salvação se aninha na sua algibeira! + +«Quem sabe, continuava elle, mirando-se ao espelho, se as suas idéas +ácerca do hospital tem no amago o conseguir um titulo. Se assim fosse +estava salvo. Tenho alguns amigos no ministerio, homens que até já +dispozeram da minha bolsa, póde ser que elles me sirvam para isto. Se +fosse dinheiro tinha eu a certeza que m'o negariam, porém um titulo... + +«Experimentemos, e se são esses os seus desejos, ficarei salvo. E se não +forem? Embora, convencel o hei de que um homem na sua posição necessita +um titulo, e que para o alcançar basta ter dinheiro». + +Quando no meio d'estas judiciosas reflexões se preparava o visconde de +Coruche para, afastando-se de Lopes de Miranda e do banqueiro, se lançar +aos fundos de Tristão de Almeida, entrou de novo o seu _groom_ +annunciando lhe o commendador. + +--Que teremos? disse o visconde comsigo mesmo, pondo ao mesmo tempo as +esporas. + +--Disse lhe que vossa excellencia se estava vestindo, porém, foi tal a +sua insistencia que não tive remedio senão fazel-o entrar para a sala. + +--Dize-lhe que vou immediatamente. Espera! accrescentou elle como +mudando de pensamento. Entre rapazes não ha cerimonias. Que venha para +aqui mesmo. + +O _groom_ retirou-se, e acompanhou d'alli a minutos o commendador. + +--Deve estranhar o tel o procurado tão cedo, exclamou o commendador, +dando-se ares de janota, palavra que n'esse tempo principiava a estar em +voga. + +--Por caso nenhum! Estou sempre ás suas ordens. + +--Podemos conversar á vontade? + +--Pois não, respondeu o visconde, visivelmente importunado pela presença +do commendador, que viera interrompel-o nas suas profundas meditações. + +Ou por esquecimento, ou por pouca importancia concedida áquella +entrevista, o visconde não havia mandado retirar o _groom_. + +Lopes de Miranda não tardou em fazer-lh'o notar. + +Córando ligeiramente, o visconde comprehendeu aquelle reparo e mandando +retirar o criado, assentou-se n'um sophá, offerecendo um logar ao +commendador. + +--Preciso fazer lhe uma pergunta. Que idéa fórma de Tristão de Almeida? + +--A melhor que se póde formar; que é uma excellente alma, e desambicioso +de todas as grandezas do mundo. + +--Fala serio? + +--Quanto se póde falar. + +--Julga portanto?... + +--O quê? + +--Que o seu projecto a respeito do hospital seja movido, pura e +simplesmente, pela idéa de pôr em pratica uma obra de caridade? + +--Assim o creio. + +--Outro tanto não penso eu, meu nobre amigo. Ha em tudo aquillo um +_arrière pensée_, ajuntou Lopes de Miranda, querendo mostrar ao visconde +os seus conhecimentos linguisticos. O homem deseja um titulo. + +Feliz em que o seu pensamento se tivesse encontrado com o do +commendador, o visconde, como homem experimentado, calculou que o unico +partido de que podia lançar mão, seria o dissuadil-o completamente das +suas suspeitas. + +--Crê portanto o commendador que essa caridade que antes de hontem viu +dispensar ao mestre de obras, era movida apenas por um calculo? Quanto +se illude! Seria necessario ter avaliado todas as circumstancias que se +deram, para formar o seu juizo. O mesmo suppunha eu, mas logo vi o +contrario. Ha factos que se não podem fingir, sr. Lopes de Miranda. +Seria necessario que Tristão fosse um grande actor, para tão +desassombradamente poder jogar com todas as paixões, como fez antes de +hontem quando atropellámos esse infeliz. Seria tambem um calculo o +interesse com que sua esposa se approximou do leito do moribundo, e +calculo foi tambem de suas filhas, quando com as lagrimas nos olhos +pediram ao medico informações do doente? Não me considero de uma +credulidade parva, sr. commendador, mas a Cezar o que é de Cezar. Se +Tristão, tem ou não desejo de entrar na sociedade precedido por um +titulo, não me atrevo a dizel-o, o que lhe affianço, é que, se realmente +tem esse desejo, não é elle o movel da sua caridade. Homens tem havido +muito caridosos que desejam possuir um titulo, e Tristão póde muito bem +ser um d'esses individuos. + +--Pois eu é que não sou da sua opinião, e venho propôr-lhe o seguinte: +Como sabe, tenho tido ha dois annos a esta parte consideraveis perdas em +resultado da escassez do vinho, e o sr. visconde, creio que tambem +n'esta occasião não abunda em dinheiro. Lembrava me por isso que +propozessemos a Tristão, mediante um emprestimo de doze a quatorze +contos de réis, o obter-lhe um titulo de visconde, ou mesmo de conde. +Que lhe parece? + +--Em primeiro logar, sr. commendador, nem vossa excellencia nem pessoa +alguma está auctorizada a saber se eu abundo ou não em dinheiro, e em +segundo devo dizer-lhe que estranho sobremaneira que se atreva a +propôr-me similhante indignidade! Creio que nunca, nem ao sr., nem a +outra pessoa extendi a minha mão para pedir dinheiro, por maior ou menor +que fosse a quantia; estou portanto habilitado a pedir-lhe o favor de +mudar de assumpto. + +Comprehendendo a loucura que tinha practicado, o commendador mudou +immediatamente de conversação. + +Pretextando em seguida varios negocios que tinha de tractar, Lopes de +Miranda despediu-se do visconde, seguindo d'alli para casa de Vaz +Mendes, esperançado de encontrar melhor acolhimento no banqueiro. + +Dez minutos depois, perfumado, burnido e penteado, o visconde de Coruche +n'um irreprehensivel _pied fé_ fazia em branda flexão voltar o pescoço á +_Andorinha_, a egua lazã que mandara apparelhar. + +Saindo do pateo em duas upas obrigadas, a _Andorinha_ levou o visconde, +que formulando o seu plano, se dirigia ao hotel Bragança. + + + + +XIV + + +Quando Manuel de Mendonça e Mascatudo sairam do hotel d'Europa, +encaminharam-se para bordo, como o leitor deve estar lembrado. + +A galera que fôra em Buenos-Ayres comprada por Manuel de Mendonça, era +uma formosa barca de duzentas a trezentas toneladas. + +Era muito de vêr-se o aceio e a disciplina que reinavam a bordo da +galera Esperança, habilmente commandada por Manuel de Mendonça, cujos +conhecimentos nauticos fariam inveja ao mais experimentado maritimo. + +Com sobejos motivos chamava elle aos seus tripulantes os seus amigos e +companheiros! A amizade e a confiança com que os tractava jámais +concorreu para que lhe dessem o minimo desgosto de indisciplina. + +Durante a folga todos o tractavam como se elle fôra um amigo, no +serviço todos o respeitavam como o seu commandante. Quando por qualquer +circumstancia se agitava a mais pequena questão entre os marinheiros, e +elle apparecia perguntando-lhes a causa, era bello de vêr como esses +homens endurecidos pelas luctas dos elementos, se enterneciam ao ouvir +as palavras do seu capitão chamando-os á ordem, e expondo-lhes em +phrases insinuantes as terriveis consequencias da má camaradagem. + +Então, aquelles que momentos antes se haviam levantado exaltados pela +colera, graças á eloquencia de Manuel, acabavam sempre por se abraçarem. + +A galera fundeada a pouca distancia da Rocha do conde de Obidos, parecia +na sua eterna inquietação aguardar o que era dono e commandante. + +Quando um velho marinheiro divisou o escaler do capitão, e este sentado +á prôa, o maritimo debruçou-se do navio como criada velha que espera á +janella a criança que volve ao lar. + +Então começaram a apparecer os outros marinheiros, esperando +anciosamente que o escaler abordasse á embarcação. + +E a galera agitando-se aos movimentos da corrente, parecia tambem +esperal-o inquieta. + +Finalmente, o escaler atracou, e Manuel subindo por uma pequena escada +de corda entrou a bordo seguido por Mascatudo. + +Quem de perto observasse o tractamento que elle dava aos marinheiros, e +ignorasse o logar que occupava, tel-o-ia tomado por um simples +navegante. + +Depois de falar a todos aquelles homens, desceu á camara, e alli, em +companhia de Mascatudo, continuou a conversação que uma hora antes havia +começado no hotel Europe. + +--Estamos aqui mais sós para podermos falar, dizia elle ao marinheiro. +Ninguem poderá ouvir as nossas palavras a não ser o mar, e Deus que nos +escuta. + +--O mesmo me acontece, respondia-lhe Mascatudo. Não sei o que sinto +quando passo uma noite encarcerado entre as quatro paredes de uma +hospedaria! Acordar pela noite velha sem ouvir o rumor da agua batendo +de encontro á quilha da embarcação, e sem ver o lume de alguma estrella +reflectindo-se de vez em quando como se estivesse a acompanhar o meu +dormir, parece que é acordar n'um tumulo. + +--Quero pedir-te um favor, disse Manuel de Mendonça, depois de alguns +instantes de profunda meditação. Como já t'o disse, sei apenas que +ficaram no hotel de Bragança. Desejava saber quanto se tem passado, mas +falta-me o valor para ir eu mesmo proceder a indagações. Terias duvida +em ir procurar essa familia da minha parte? + +--Eu! exclamou o marinheiro. E porque motivo? Foi alguma acção má a que +o sr. praticou? Ora essa! É para já. Não tem mais do que dizer-me o +sitio onde tenho de me dirigir. + +--Aonde te disse, ao hotel de Bragança. Se ainda lá estiverem, pede ao +guarda portão que te conduza ao quarto. Pergunta por sua mulher ou por +Martha, e dize a qualquer das duas que vaes da minha parte saber da +saude de Jeronymo. + +--É só isso o que deseja saber? Veja lá; lembre-se bem, ajuntou +Mascatudo, sorrindo-se para o seu commandante. + +--É só isto. + +--E o sr. fica á minha espera, aonde? + +--A bordo. + +--Volto portanto aqui? + +--Já se vê. + +--Quer que vá já? + +--Quero. + +--Era melhor ter-me dito isso lá em terra, ponderou judiciosamente o +marinheiro. + +--Quiz antes pedir-te isso sobre as aguas do mar. + +--Pois então, sr. Manuel de Mendonça, como bom maritimo que sou, irei +sondar esses mares desconhecidos, e tenho fé em Deus, que em poucos dias +poderemos navegar de vento em pôpa, sem que o mais leve indicio de +temporal nos faça perder o rumo. O que eu não quero é vel-o assim +entristecido, accrescentou o fiel marinheiro, fixando a vista na +melancolica physionomia do seu commandante. + +--Pensas talvez que me sinto prezo a essa mulher? perguntou Manuel com +aquella pueril ingenuidade de que se revestem os espiritos sujeitos ás +mysteriosas influencias do amor! + +--Não sei, respondeu Mascatudo, mas apostava que sim. Ás vezes, tudo +está no começar. O maior temporal principia a levantar-se por uma brisa +serena. + +--Espero em Deus que essa aragem que tu adivinhas, nunca seja nuncia de +nenhuma tormenta. + +--Que Santa Barbara e a Senhora da Bonança nos protejam, commandante, +disse Mascatudo, levantando-se e preparando-se para cumprir as ordens do +seu capitão. + +--Amen, respondeu Manuel, reclinando a fronte na mão direita. + +Mascatudo, sem esperar mais observações, saiu da camara, e, subindo ao +convez mandou preparar o escaler. Manuel olhava-o em silencio. + +--Será este o anjo que Deus me mandou á terra, para me acompanhar nas +longas noites da minha solidão? pensava elle espraiando os seus olhares +entristecidos na direcção do soberbo edificio do hotel Bragança. + + + + +XV + + +Desembarcando no Terreiro do Paço, Mascatudo tomou o rumo do hotel. +Desde que saira de bordo, o dedicado amigo em mais alguma coisa havia +pensado senão em Martha. + +O seu caracter concentrado e ao mesmo tempo sensivel, levava o a +acreditar na impossibilidade de ventura na terra, e, muito menos sobre +as aguas do mar, sem se possuir um coração fiel e dedicado, qual a sua +imaginação o phantasiava. + +A mulher, essa divina creação que Deus lançou ao mundo para inseparavel +companheira do homem, que deante de nossos sorrisos levanta o rosto +brilhante de felicidade, e que desmaia a fronte pallida e inquieta, ao +enxugar-nos as lagrimas de desventura, concebia-a Mascatudo no seu +coração selvatico com toda a força de um vigoroso sentimento. + +É que a esse espirito, agitado pelas luctas infrenes dos elementos, +descêra um dia o anjo do amor, e pousando-lhe as brancas azas na fronte +crestada pelos soes, imprimira-lhe o osculo indelevel do soffrimento. + +Amára uma vez na vida! Amára com toda a força da sua alma, alma joven e +inexperiente, para quem o mundo era um jardim florido, e cada pomo um +goso, e cada goso uma esperança, e cada esperança uma existencia de +immorredouras felicidades! + +É que a sós entre o mar e o céu, o grito raivoso das paixões humanas, +ferindo-lhe os ouvidos, jámais lhe havia interrompido os extasis, quando +assentado ao leme da embarcação contemplava os astros que se reflectiam +nas aguas prateadas do oceano, vagas como o seu pensamento, +indecifraveis como as suas aspirações! + +Conhecia apenas a ira do mar, mas a colera do homem envenenado pela +inveja ou pela traição, jámais a havia sonhado o seu instincto. + +Por isso vira na mulher o anjo, na sua convivencia a felicidade unica e +possivel. + +Amou! + +E quão grande teria sido o affecto n'aquella grande alma?! + +Possuia algum dinheiro das suas economias, julgou-se em circumstancias +de casar. + +Dois mezes depois, Mascatudo realizava no casamento todas as suas +aspirações. Curta, porém, foi a sua ventura. A brisa da morte, +agitando-se mysteriosamente sobre o tecto do seu ninho, devastou-lhe ao +cabo de um anno flôres e fructo! + +O triste voltou á vida do mar; e quando por noites caladas o seu barco +sulcava as aguas do oceano, via-se ás vezes o tio Luiz encostado á +amurada da embarcação, contemplando o firmamento, como que perguntando a +cada nuvem em que paragem se occultava aquella metade da sua alma. + +Desde então, Mascatudo viveu apenas para duas sepulturas: a da esposa e +a da mãe! + +--Hei de saber tudo, dizia elle, ao chegar á porta do hotel. Se fôr como +a pintam, serei o primeiro a aconselhal-o a que não perca esta occasião. + +Cumprindo á risca as instrucções que recebera, Mascatudo foi conduzido +pelo guarda portão ao quarto de Jeronymo. + +Balbina já estava de volta de sua casa, aonde tinha ido mais com o +intuito de tranquillisar a pobre Marianna do que para tractar dos +arranjos domesticos. + +--Venho aqui da parte do meu commandante, para saber como está o sr. +Jeronymo, disse Mascatudo, olhando desassombradamente para o operario e +para a mulher e filha. + +O enfermo, que nada comprehendêra, ficou como abysmado olhando para +Balbina. + +--Creio que me não expliquei bem, ajuntou o marinheiro; venho da parte +do individuo que avisou a sua familia do sitio onde vossemecê estava. + +--Ah! já sei; vem da parte d'esse sujeito a quem somos tão obrigados, +exclamou Martha, fazendo-se vermelha como o estofo do sophá onde estava +assentada. + +--Até que perceberam, continuou Mascatudo, approximando-se do leito de +Jeronymo. Foi esse mesmo o que me mandou saber da sua saude. + +--Quanto lhe estamos agradecidos, interrompeu Balbina, dirigindo-se ao +marinheiro. Se não tivesse sido aquelle excellente senhor, talvez que +ainda a estas horas estivessemos sem saber onde elle parava. Diga-lhe +que graças a Deus, o Jeronymo está muito melhor, e que tanto elle como +eu e minha filha desejamos saber onde o podemos encontrar para lhe +darmos os nossos agradecimentos. + +--O sr. Manuel, respondeu o marinheiro, póde encontrar-se a bordo da +sua galera, e quando alli não estiver, accrescentou, fixando +ardentemente os olhos em Martha, que parecia escutal-o com interesse, +está no hotel d'Europe, na rua Nova do Carmo. Mas lá por isso não seja a +duvida; deixem estar, uma vez que elle se interessa tanto pelos seus, eu +farei com que ámanhã ou depois, se por acaso ainda estiverem n'esta +estalagem, elle os venha ver a vossemecês. + +--Quanto estimaria conhecel-o, interrompeu Jeronymo voltando-se para o +maritimo. + +Martha empallideceu ligeiramente. + +--N'esse caso eu farei a diligencia de o trazer aqui, respondeu +Mascatudo, satisfeito por comprehender o que se passava no coração de +Martha. + +Despedindo se de todos, o marinheiro saiu do hotel. + +--É um anjo, ou eu sou um grande asno, dizia elle comsigo mesmo, +emquanto se dirigia para bordo. + + + + +XVI + + +Deixemos Mascatudo participar a Manuel de Mendonça os resultados da sua +entrevista, e encaminhemo-nos a um pequeno gabinete do hotel onde +Tristão costuma receber as visitas de mais confiança. + +O visconde, como o leitor não ignora, tinha resolvido tirar o maior +partido que podesse do seu novo amigo; com este fim se havia dirigido +para o hotel. + +Tristão acabava de chegar de casa de um banqueiro, a quem fôra consultar +ácerca de uma transferencia de fundos para o Banco de Portugal na +importancia de 650:000$000, para lhe não succeder o mesmo que lhe +acontecêra com quantia superior a essa, que tinha no banco de Havana, +d'onde havia dois annos não recebia juro algum. + +Vê-se portanto quaes eram as riquezas d'aquelle homem! + +Ao ouvir estas palavras, ainda mais seguro ficou o visconde no bom +exito da sua tentativa, e, ampliando apenas a cifra resolveu-se a +preparar quanto antes o terreno que tinha a explorar. + +--Com que então, meu amigo, disse-lhe o visconde, já sei que os seus +protegidos dormem em leito de rosas o doce somno da esperança, +acalentados pelas azas brancas do anjo dos tristes. + +Por esta exuberancia de imagens, poderá o leitor formar a sua idéa +psychologica ácerca do caracter do visconde de Coruche. + +--Assim o creio, respondeu Tristão, offerecendo-lhe um magnifico charuto +havano. + +--E quando principiam os nossos trabalhos do hospital? + +--Pela minha parte hoje mesmo, se vossa excellencia quizer; porém, vejo +que tem tantos negocios a tractar... + +--Por Deus, meu caro amigo! Para uma coisa d'essas deixaria tudo de +parte. Hoje mesmo, se lhe apraz, iremos escolher o local. + +--Isso é que era ouro sobre azul! Não calcula a anciedade de minha +esposa em vêr realizados os seus desejos. Quando se propôe qualquer +coisa, não ha quem a dissuada, nem eu o intentaria n'este caso. + +--O mesmo sou eu. Veremos quem se lança denodadamente na arena da +caridade. E como vossa excellencia vae lucrar n'esta obra! Como se +conceituará na opinião publica? De que serve a riqueza, se não fôr +applicada ao bem? Quantas ha em Lisboa que para nada servem, a não ser +para satisfazer os olhares cubiçosos dos avarentos que as possuem! +passam miseravelmente emquanto vivos, e, quando morrem teem por unico +elogio dos seus herdeiros, o dizerem que sempre foi um homem muito amigo +de olhar pela sua casa. É que esses entes, na minha opinião, esquecidos +de Deus, atravessam a vida sem conhecerem a verdadeira felicidade que +sente aquelle que, extendendo a mão á pobreza, leva o consolo ao ninho +do desamparado. Muitos d'esses miseraveis, renegando o povo d'onde +sairam, querem chegar-se á aristocracia, transpôr os humbraes do chefe +do Estado, e nem ao menos se lembram de seguir o exemplo, abrindo como +elle a sua bolsa aos desvalidos, e os seus pulmões á atmosphera +corrompida pelos miasmas da epidemia. E ainda a semana passada o joven +monarcha desceu ao leito de um moribundo e passou-lhe a regia mão pelo +peito, como para sondar se o coração ainda batia. Já que pessoa alguma o +segue no seu heroismo; já que a maior parte d'esses satrapas o +abandonam, seja vossa excellencia o heroe que venha a empallidecer-lhes +o rosto de vergonha, tomando o exemplo d'aquelle santo rei. + +Havia tanta verdade nas palavras do visconde; era tão singela a sua +dicção, tão arrobadas de sentimento as phrases que acabava de proferir, +que Tristão, apezar do seu profundo conhecimento do coração humano, +hesitou por alguns instantes, sem poder avaliar se essas palavras seriam +calculadas, ou se eram apenas dictadas por um coração votado á caridade. + +Tristão era homem de arrojado animo. Por mais de uma vez sorrira para a +morte que se lhe approximava sem que os lábios houvessem mudado de côr +ou o seu coração pulsado com maior violencia. + +Affeito a uma existencia aventurosa, ainda o fascinavam os perigos. A +despeito de se considerar bastante avançado em annos, fiava se na sua +robustissima compleição, e, sopesando as forças, distinguiu rapidamente +o que ainda podia fazer, graças ao seu arrojo, intelligencia e capitaes. + +Então desenhou-se lhe um mundo inteiramente novo! Julgou-se cercado +pela aureola do prestigio, e ouviu pronunciar o seu nome com todas as +pompas de uma gloria merecida. Viu-se a edificar um hospital, e mais +tarde, elle mesmo, sua mulher e suas proprias filhas, descendo como +anjos á cabeceira dos enfermos. Viu os olhos do monarcha iriados de +angelica expressão, volvendo-se agradecidos para elle e para sua +familia. Fascinou-o a gloria de um renome, e, elevando se nas azas da +caridade, creu subir ao ultimo céu das ledices sociaes! + +--Tem razão e muita razão, sr. visconde. Vamos hoje mesmo dar um grande +impulso á nossa idéa. Jeronymo, a quem tenciono entregar a direcção das +obras, segundo me consta, tem tanto de intelligente quanto de honrado. O +pobre homem por estes dois ou tres dias não poderá sair de casa; vamos +nós sem mais delongas escolher o sitio. Em que bairro lhe parece? + +--No de Santos. Por exemplo lá para as bandas da Pampulha. + +--Visto isso, vou mandar pôr o trem, e entretanto subo ao quarto de +Jeronymo para lhe communicar as nossas intenções. E sem mais demora saiu +do gabinete. + +--Esplendido, exclamou o visconde, contemplando ao mesmo tempo um +album de retratos que estava sobre uma banca de jogo. O negocio corre ás +mil maravilhas. Em todo o caso, é necessario espaçal-o por mais alguns +dias, e em vez de dez ou doze contos, serão vinte ou trinta, +hypothecando-lhe... hypothecando-lhe o quê? umas propriedades que eu +desejava possuir no Algarve. O homem está sequioso de gloria. Cega-o a +vaidade. É um zote que eu domino com a força da minha eloquencia. +Bastam-me duas palavras para o conduzir aonde me aprouver. + +N'este comenos entrou o magnate, dizendo lhe que já estava o trem á +porta. + +Desceram e entraram na carruagem. Tomando pela rua do Arsenal, +dirigiram-se ao Corpo Santo. Proximo á egreja grande multidão +contemplava um pobre velho, que, estorcendo-se em terriveis convulsões, +denunciava ter sido atacado pela febre. Mandaram parar o trem, e +Tristão, apeando-se primeiro, dirigiu-se para o grupo. + +O visconde seguia o sem dar uma palavra. + +--É um infeliz que foi atacado pela febre, disse um gallego a quem +Tristão se havia dirigido. + +--E tambem pela fome, interrompeu uma vendedeira de hortaliça. + +--E ainda não appareceu ninguem que lhe fosse buscar soccorros? +perguntou o visconde. + +--Saberá vossa excellencia que ainda não _senhora_, respondeu a +vendedeira. + +--Pois se vossemecê se interessa por esse homem, peço-lhe que se +encarregue de lhe chamar os soccorros, accudiu Tristão, approximando-se +mais da mulher e entregando-lhe quatro libras. Se elle tem familia, +diga-lhe que me procurem logo no hotel Bragança, e vá vossemecê com +ella, para lhe dar tambem alguma coisa. + +O oiro assombrou a vendedeira, que esteve por alguns segundos sem poder +soltar palavra. + +--É uma caridade, meu senhor, porque está cheiosinho de familia, disse +finalmente a mulher com voz tremula e commovida. Mas agora outra coisa, +meu senhor, ajuntou ella, por quem devo procurar. + +--Pelo excellentissimo sr. Tristão de Almeida disse vivamente o +visconde. + +Mettendo-se outra vez na carruagem, abandonaram aquelle grupo, pasmado +por tanta generosidade, e partiram pela rua da Boa Vista. + +--A sorte favorece-o, proporcionando-lhe todos os ensejos para pôr em +pratica a sua grande obra, dizia-lhe o visconde, fitando-o com um olhar +de lynce. + +--Assim o creio, respondia-lhe Tristão, olhando para todas as ruas por +onde passava, com a curiosidade que todos experimentam, ao contemplarem +pela primeira vez os logares que lhe são desconhecidos. + +--Agora me recordo, disse o visconde, parece-me que está uma casa para +alugar na rua de S. Francisco de Paula. Se lhe parece vamos vel-a. + +--Deus permitta que esteja nas condições que precisamos. + +Finalmente chegaram á rua designada pelo visconde. + +A casa, segundo elle havia pensado, era magnifica para aquelle fim. O +dono morava longe, porém a boa vontade tanto de um como de outro +principiava a não admittir difficuldades, e seguiram immediatamente para +casa do senhorio. + +No dia seguinte ás oito horas da manhã, na rua de S. Francisco de Paula, +começavam todos os preparativos inherentes á fundação do hospital. + +O anjo da caridade, invocado por Tristão de Almeida, elevava as suas +azas brancas sobre os telhados d'aquelle edificio! + + + + +XVII + + +--Acompanhas-me, Luiz? Tenho tanto desejo de ir visitar aquella gente... +e comtudo não me sinto com valor. + +--Ora essa, meu capitão, da melhor vontade! Não sei o que li n'aquelles +olhos verdes de Martha; ainda se me não poderam tirar da memoria! Póde +ser que me engane, mas essa menina é um anjo! Ha na meiguice do seu +olhar um não sei quê, que me prendeu! + +--Será isso uma illusão da tua parte? + +--Nem por sombras! Se a visse, quando eu prometti a sua mãe que faria +com que o senhor lá fosse... + +--Então mostrou muitos desejos de me ver? perguntou Manuel com essa +visivel curiosidade dos namorados, e como desejando prolongar a +conversação de Mascatudo. + +--Se mostrou! Ao principio fez-se branca como a cal da parede, e em +seguida tornou-se vermelha como uma romã. Havia tanto interesse no seu +olhar, quando me falou a respeito do senhor, que logo comprehendi que +alguma coisa se passava no seu coração. + +--Pois então, meu amigo, o que tem de ser, seja. É Deus que o determina: +iremos hoje vel-os. Passava-se este dialogo a bordo da galera Esperança, +no mesmo dia e á mesma hora em que o visconde de Coruche expunha a +Tristão de Almeida, no gabinete do hotel Bragança, as graves +conveniencias que lhe resultariam da sua philanthropica resolução. + +Subindo á tolda, Manuel mandou apromptar o escaler e veiu para terra em +companhia de Mascatudo. + +Dirigiu se ao hotel. + +Ao subir a escada que conduzia aos quartos de Jeronymo, sentiu que um +mundo novo e inteiramente estranho se desenrolava a seus olhos! Receioso +pelo sentimento que lhe perturbava o espirito, o marinheiro quasi pedia +á Providencia, que qualquer circumstancia fortuita lhe viesse impedir a +realização dos seus desejos! + +Batendo mansamente á porta do quarto de Jeronymo, ouviu a voz doce e +melancholica de Martha que de dentro lhe respondia. Faltou-lhe o valor; +foi necessario que Mascatudo o animasse a entrar. Entraram ambos. + +Reclinado sobre uma poltrona, Jeronymo dir-se-ia um cadaver. + +A seus pés, assentada n'um tamborete, Balbina olhava-o com gesto de +profundo desalento, fitando de vez em quando sua filha que de pé os +contemplava! + +Martha ficou immovel! + +--Venho saber da saude de seu marido, disse Manuel para Balbina, +extendendo ao mesmo tempo a mão ao mestre de obras. + +Este sorriu-se brandamente para o maritimo, apertando entre as suas +aquella mão que se lhe offerecia. + +--E como se sente? + +--Melhor, felizmente, muito melhor! respondeu Jeronymo, olhando ao +mesmo tempo para sua mulher, e indicando-lhe que approximasse uma +cadeira. + +Manuel, pegando na cadeira que Balbina lhe offerecia, sentou-se ao lado +do enfermo. + +Mascatudo contentava-se apenas em observar os olhos de Martha, buscando +em cada movimento descobrir o que lhe passava n'alma. + +Balbina então relatou a Manuel quanto havia succedido, sem lhe omittir +os rasgos de generosidade de que era devedora a Tristão e a toda a sua +familia. + +--E quem é esse homem tão caridoso? perguntou Manuel, como se já n'esse +instante se lhe começasse a perturbar o espirito com a idéa de que essa +protecção fosse menos devida á caridade do que á formosura de Martha. + +--Quem é elle, não lh'o podemos dizer, respondeu Balbina. Sabemos apenas +que é um senhor muito rico, e que todo o seu fim é fazer bem á pobreza. +Agora vae elle estabelecer um hospital para as pessoas atacadas pela +febre, hospital de que meu marido é o encarregado. + +--E não só elle, como sua mulher e filhas, se tem interessado o mais +possivel por mim, ajuntou Jeronymo. + +--Nunca me ha de esquecer aquella noite, menina, tartamudeou Manuel +dirigindo-se a Martha. + +--Quanto lhe devemos, meu caro senhor, acudiu o operario, olhando ora +para Manuel, ora para a mulher e para a filha. + +--Como elle se portou com a nossa filha! Não temos modos de agradecer! +disse Balbina visivelmente reconhecida. + +--É merecedora de tudo! Nada tem que me agradecer, respondeu Manuel +olhando ao mesmo tempo para a interessante Martha. + +Quando a filha do operario, mais familiarizada com a presença do +maritimo, se preparava para lhe dirigir a palavra, soaram uns passos no +corredor e abriu-se em seguida a porta do quarto. + +Eram Tristão e o visconde. + +--Venho prevenil-os de que já temos casa para o hospital, e que ámanhã +por estas horas--graças á actividade do sr. visconde--já devem começar +os trabalhos, disse Tristão de Almeida, reparando ao mesmo tempo em +Manuel de Mendonça e Mascatudo. + +Estes ultimos olhavam para os recemchegados, sem poderem occultar que as +suas presenças se lhes não tinham tornado muito sympathicas. + +--Estes senhores pertencem á sua familia? perguntou o visconde +dirigindo-se a Martha. + +--Não, senhor, respondeu Martha. E indicando Manuel de Mendonça, +accrescentou: este senhor foi quem me encontrou na rua, e que mais tarde +descobriu aonde estava meu pae. + +--Ah! foi este senhor! acudiu Tristão. Quanto folgo em ter o gosto de o +conhecer. Se me não engano, n'aquella mesma noite tive o prazer de o +encontrar; porém, quando ia para lhe extender a mão, já vossa senhoria +tinha saido d'este quarto, ajuntou Tristão dirigindo-se a Manuel de +Mendonça e extendendo-lhe brandamente a mão. + +Se n'aquella noite do atropellamento os olhos de Manuel de Mendonça se +haviam cravado particularmente no rosto de Tristão, mais cuidadosamente +o fixaram n'aquelle momento. + +O mesmo se passou com o magnate. Dir-se-ia que esses dois homens já se +haviam encontrado alguma vez na vida! Onde? Sabia-o Deus, que n'esse +instante os não illucidava! + +O physionomista que de perto observasse o rosto de Manuel, ter-lhe-ia +notado um estremecimento de repulsão no momento em que, extendendo a +mão, a sentiu em contacto com a de Tristão de Almeida. + +A Mascatudo não lhe passou desapercebido. + +--Queira Deus, pensava elle comsigo, que o sr. Manuel de Mendonça não +comece já a imaginar que lhe querem estorvar a pesca. Se elle vê que lhe +lançam a fisga, põe-se de ventas á enchente e vae tudo com trezentos mil +diabos. Elle é bom, isso lá é que não ha duvida, mas, se lhe pegam fogo +ao paiol da polvora, vae tudo pelos ares em mil estilhaços. + +Tristão e o visconde trocaram ainda algumas palavras entre si, e depois +de alguns momentos de silencio, despediram-se de Jeronymo e de sua +familia, e sairam do quarto cumprimentando affavelmente Manuel de +Mendonça. + +--Conhece aquelle senhor? perguntou Martha a Manuel de Mendonça, +referindo-se a Tristão de Almeida. + +--Não conheço, respondeu o maritimo, comtudo, parece-me já ter visto +aquelle individuo, aonde não me recordo. + +--O mesmo me pareceu a mim, acudiu Mascatudo. E a elle, se me não +engano, tambem o senhor não lhe era estranho. + +--O que elle me parece é um santo homem, disse Balbina, que não via em +Tristão mais do que o protector de seu marido. + +--Assim o julgo, respondeu Manuel, levantando-se e despedindo-se de +Jeronymo. + +--Já se retira? perguntou Martha, lendo-se-lhe nos olhos o que +principiava a sentir no coração. + +--Tenho de ir para bordo, respondeu Manuel despedindo-se de Martha, e +promettendo-lhe voltar no dia seguinte. + + * * * * * + +--Então o que me diz, meu capitão? perguntava Mascatudo ao sairem o +pateo do hotel. + +--Que gosto muito d'ella, respondeu Manuel de Mendonça olhando para as +paredes do edificio como se buscasse a janella do quarto onde havia +ficado a familia do operario. + + + + +XVIII + + +São dez horas da manhã. Deitado no seu leito de precioso ebano, e +fazendo mil conjecturas ácerca de Tristão, a quem na vespera havia +convidado para almoçar, o visconde de Coruche, como homem experimentado, +palpa, estuda e analysa o terreno por onde tem de caminhar. + +Tudo estava prevenido para o almoço. Uma grande parte da baixella, que +dias antes tinha sido substituida no _prégo_ por outros objectos cuja +ausencia se não fazia notar, já estava sobre os aparadores. Entre os +riquissimos trabalhos de prata destacava-se um pelo seu grande valor e +merito artistico. + +Era um centro de mesa. Representava as tres graças sustentando uma +enorme concha. + +Era esta, por assim dizer, a ultima reliquia que lhe restava do seu para +sempre chorado tio! + +«Fiz mal, pensava elle, em não ter convidado o commendador e Vaz +Mendes, para almoçarem commigo. Podem prever n'isto alguma insidia e +intrigarem-me com o meu Cresus! É mais prudente escrever-lhes. E sem +mais delonga, levantou-se e desceu ao escriptorio, formoso aposento ao +rez do jardim, esplendida e custosamente mobilado. + +«E pensar que tudo isto é sol de pouca dura! accrescentava elle olhando +para as estufas do jardim. Não terei valor para cair com a minha ruina? +Hei de ver de pé firme e olhar sereno, sair d'esta casa para o poder dos +agiotas, até á ultima, todas estas reliquias? Deus não póde permittir +que um homem que tem vivido e gozado como eu, se encontre um dia a +braços com a miseria! É forçoso tomar uma deliberação. Tenho ainda uns +seis mezes para viver, é pouco; prolongue-se a existencia, custe o que +custar. Homicidio é um crime, e deixar-me escorregar na pendente do meu +infortunio é um suicidio. Não quero ser criminoso. + +«Arvores a cuja sombra me abriguei na minha infancia, nem vós já me +pertenceis! continuava elle olhando para o vetusto arvoredo do jardim. + +«Tectos que vistes expirar meus paes, que impia mão de atroz capitalista +te manchará o culto? Aqui nasceu meu avô, aqui morreram todos os que +tiveram melhor senso do que este desgraçado! «Soberbo choupo para me +enforcar com o cordão do meu chambre», dizia elle como se quizesse +zombar de si mesmo e contemplando ao mesmo tempo a arvore, que parecia +convidal-o ao passo mais acertado que podia dar em toda a sua vida. + +Abandonando estes lugubres pensamentos, o visconde sentou-se á carteira, +e escreveu duas cartas, uma ao commendador, e outra a Vaz Mendes. Pedia +em ambas a honra de virem almoçar em sua companhia. + +Tocou a campainha e entregando as cartas a um criado para que as +levasse sem demora ao seu destino, o visconde deu ainda algumas voltas +pelo jardim e dirigiu-se á casa de banho. + +Ao meio-dia em ponto entraram Vaz Mendes e o commendador Lopes de +Miranda. + +--Quanto folgo me não tivessem faltado, disse-lhes o visconde +conduzindo-os para a sala de visitas. Tristão, acrescentou elle, vem +hoje almoçar commigo, era forçoso pedir que mais alguem lhe tornasse +menos pezado o sacrificio. Vamos discutir largamente sobre o hospital. +Sabem que já temos a casa arrendada? + +--Sabemos, responderam ambos. + +--Um magnifico palacio á Pampulha. + +--O local não podia ser mais bem escolhido, disse o commendador +reclinando-se n'uma poltrona. E quando principiam os arranjos? perguntou +Vaz Mendes. + +--Hoje mesmo; para esse fim os mandei chamar. Vamos comprar tudo o que +fôr necessario para que principie a funccionar de hoje a oito dias. + +--Realmente é um homem de muita caridade este Tristão, interrompeu Vaz +Mendes, olhando para uma soberba aguarella de Howell. + +--Basta o que elle tem feito pelo mestre de obras, ajuntou Lopes de +Miranda. + +--E quem seria capaz, já não digo de mais, mas de tanto? acudiu o +visconde. Isto é que é a verdadeira caridade, sem alarde nem ostentação. + +--Tambem, disse Vaz Mendes, quem tem uma fortuna superior a dois mil +contos, o que deve fazer senão dividil-a com a pobreza? + +--E quantas pessoas conhece o meu amigo, que não são capazes de gastar +um ceitil com os pobres? perguntou o visconde. + +--Concordo, respondeu o banqueiro, olhando de soslaio para um Salvator +Rosa, unica pintura que restava da galeria do conde de ***. + +Ao ouvir-se o rodar de um trem, o visconde approximou-se da janella +para se certificar se era a carruagem de Tristão que chegava. + +Não se enganára. + +Deixando os dois convidados, desceu ao pateo para o receber. + +Quando entraram na sala foi uma agradavel surpreza para Tristão de +Almeida o encontro dos seus dois amigos. + +Á hora designada dirigiram-se todos para a sala de jantar, onde um +variado e bem servido almoço os esperava. + +Ao contemplarem a magnificencia da baixella, Vaz Mendes e o commendador +entreolhavam-se, assombrados por tanta riqueza. + +Tristão olhava para tudo com um gesto de profunda indifferença! Um +objecto apenas se tornou o alvo da sua attenção: foi o centro de prata, +de que já falamos ao leitor. + +Havia muito que elle desejava occultar a sua admiração; por ultimo não +se conteve. + +--É de suppôr que saiba o que alli tem, disse Tristão voltando-se para o +visconde, e apontando ao mesmo tempo para as tres graças. + +--Sei. É magnifico! Atribuem-n'o ao cinzel não sei de que artista +notavel, cujo nome me não lembra, respondeu o visconde. + +--Vale um bom par de contos de réis, replicou Tristão dirigindo-se a Vaz +Mendes. + +«Forte asno, murmurou o banqueiro para comsigo. + +«Está doido! pensou o commendador. + +«Achei! disse o visconde falando com o seu coração. + +«Fortes nescios! reflectiu Tristão, que pelos differentes jogos das suas +physionomias, lhe adivinhára os pensamentos.» + +Ás quatro horas da tarde sairam todos tres, tendo previamente combinado +com o visconde, para que os esperasse no hotel das seis para as sete +horas da noite. + +«Estou salvo! dizia o visconde, á proporção que os via desapparecer. Por +qualquer dos dois meios venço. Desfazendo me das tres graças, que já +para mim não tem graça, posso vender-lh'as talvez por dez ou doze +contos. Mas espera, accrescentou elle como se uma idéa lhe acudisse +subitamente, é mais decente, mais elegante mesmo: presenteal-o com esse +objecto. Ninguem chegou a mais de mil libras, e, para isso, foi +necessario que encontrasse um inglez que as julgava Benevenuto! Mas +quando viu que o não era, creio que me não daria nem mais dez libras do +que o seu pezo. Se elle o attribue a cinzel, bem estamos; deve pelo +menos avalial-o em vinte contos, portanto, em vinte contos avaliará o +presente. Não ficarei habilitado a pedir-lhe vinte e cinco ou trinta? Ao +centro, visconde, e chegarás ao teu fim! E, sem mais reflectir, chamou o +_groom_ e mandou embrulhar as tres graças em finissima toalha de +Flandres, ordenando-lhe que as collocasse dentro do _coupé_. + +Ao cair da tarde, acompanhadas pelo visconde, as tres filhas de +Eurynome abandonavam a casa do fidalgo para entrarem de graça em casa de +Tristão, que bem caro teria de pagar aquella graça. + + + + +XIX + + +O hospital da rua de S. Francisco de Paula, em virtude dos esforços do +visconde de Coruche e da inexgotavel bolsa de Tristão, estava prompto de +tudo. Sem lisonja, podia chamar-se-lhe um hospital modelo! A boa ordem +reunida ao aceio e todas as outras condições hygienicas, tornavam +aquella instituição a melhor do seu genero. + +Em Lisboa, Tristão d'Almeida era o assumpto de todas as conversações. +Todos falavam na sua caridade; todos se assombravam das sommas fabulosas +que dispendia. + +Além do custeamento do hospital, Tristão collocára cincoenta contos de +réis em metal sonante na burra do seu escriptorio, para serem applicados +ás familias dos doentes que por ventura alli morressem, deixando por +unico legado a fome e a saudade. + +Além d'estas circumstancias, uma outra havia mais transcendente: era a +maneira por que a sua familia se dispunha para receber e tractar os +enfermos. + +D. Maria Egypciaca e suas duas filhas, todas tres com a mesma +equipendencia de valor, eram as encarregadas das enfermarias das +mulheres. + +Tristão e o commendador tomaram entregue das do sexo masculino. + +Oito pessoas entraram no dia da abertura. Por mais perigoso que fosse o +estado de qualquer d'esses individuos, não houve um só que deixasse de +sentir á cabeceira do leito a voz doce e animadora da mulher de Tristão +de Almeida, e de suas duas filhas, sobre tudo de Magdalena. + +As principaes familias de Lisboa quasi todas desejavam relacionar-se com +aquelles quatro anjos do bem que vinham de longes terras para descançar +o seu vôo sobre a cidade agonizante! + +Ao encontrar se completamente restabelecido dos ferimentos, Jeronymo +partira para o hospital afim de se encarregar da sua direcção. + +Ás vêzes, na janella do terceiro andar que olhava para o Tejo, via-se +uma criança loura e formosa como os anjos: era Martha. Entristecida, ora +parecia buscar n'aquelles horizontes algum objecto que lhe prendia a +imaginação, ora descia aos salões do hospital, como se procurasse na +morte a branda paz que a sua alma havia perdido sobre a terra! + +Avaliando a immensa distancia que a separava de Manuel de Mendonça, +Martha havia depositado no mais intimo do coração todos os martyrios que +a suffocavam! Vira-o pela ultima vez no dia em que seu pae saira do +hotel. + +Manuel dissera-lhe que d'alli a poucos dias iria visitar sua mãe, isto a +meia voz, sem que Balbina o notasse. + +Foi n'esse momento que ella começou a comprehender que lhe não era +totalmente indifferente. Mas, d'isto tudo o que poderia resultar? Quem +era Martha, para ser amada por um homem como Manuel de Mendonça, um +commandante de navios, emquanto ella não era mais do que a filha de um +operario! + +N'esses momentos subiam-lhe á mente mil idéas que a torturavam. Era um +tumultuar de receios que nem a sua intelligencia tinha forças para +comprehender, nem o seu coração para os supportar. + +Assim foram passando muitos dias, e Manuel sem cumprir a sua promessa. + +Tel-a-ia esquecido? + +Impossivel! Aquelles olhos não lhe haviam mentido! As ultimas palavras +que proferira, revelavam bem todo o interesse que ella lhe tinha +inspirado. Teria adoecido com a febre? Morrido? Não! Morrer tão novo, +tão anciosamente adorado! Deus não consentiria que elle deixasse este +mundo sem que Martha lhe houvesse assistido ao derradeiro sopro +d'aquella vida, que era todo o seu querer, todo o seu pensar, toda a sua +existencia! Manuel vivia, mas havia a esquecido por outra. Magdalena +contemplára-o com interesse, n'uma tarde em que se encontraram na +varanda do hotel! Ainda que Manuel não lhe respondeu ao seu olhar, podia +tudo isso ter sido um calculo. + +«Quem sabe se eu fui um instrumento da sua vontade, fazendo-me suppôr +que era a mim e só a mim a quem elle amava, emquanto o seu coração +estava inclinado para a filha de Tristão? pensava Martha. Mas sendo +assim, tudo poderei descobrir; e se fôr, buscarei a morte como ultimo +recurso á minha desgraça.» + +Immersa n'estas terriveis conjecturas, Martha desceu ás salas do +hospital. + +Já haviam entrado D. Maria Egypciaca e suas filhas. + +Notando a profunda pallidez da filha de Jeronymo, as fidalgas, segundo +Martha lhe chamava, começaram a receiar pela sua saude. + +Magdalena foi a primeira a approximar-se-lhe, e beijando a meigamente na +fronte, pediu lhe por tudo quanto havia que não arriscasse tanto a sua +saude, perdendo as noites ao lado dos doentes. + +Durante todo esse dia, aonde mais intensos reinavam o perigo e a +afflicção, alli se encontrava Martha! + +Quando ao anoitecer a familia de Tristão se preparava para sair do +hospital, Magdalena insistiu com a filha do operario para que tambem se +retirasse. Foram inuteis todos os seus esforços. Pretextando que tinha +de ficar com seu pae, Martha acompanhou-as até á carruagem e voltando +depois para o terceiro andar, tornou a encostar-se áquella janella onde +a encontrámos no principio d'este capitulo. + +Deixemos a infeliz criança enchugando em silencio as suas primeiras +lagrimas, e dirijamo-nos ao hotel Bragança. + + + + +XX + + +São nove horas da noite. D. Maria Egypciaca, de pé, encostada a um +bufete, aguarda com palpitante anciedade a volta de seu marido. + +Olympia, agitando-se impacientemente pelo salão, contempla de vez em +quando o mostrador de uma pendula, como implorando aos ponteiros que bem +depressa lhe marquem a hora da ceia! + +Magdalena, reclinada ao parapeito da varanda, fita o astro da noite, +que, reflectindo-se sobre as aguas do Tejo as cria de um brilho triste e +melancholico. + +--Não te demores ahi á janella, disse D. Maria Egypciaca, voltando-se +para sua filha. A noite, como vês, começa a arrefecer, e os tempos não +estão para brincadeiras. + +--Não receíe, minha mãe, respondeu Magdalena. Sinto-me aqui tão bem. + +--Faze o que quizeres. + +--Em todo o caso, se minha mãe está com susto, eu retiro-me, disse +Magdalena saindo da janella. + +--Sabes que já me vae dando algum cuidado esta demora de teu pae. São +estas horas e elle sem apparecer. + +--E é verdade, acudiu rapidamente a filha mais nova. São perto de nove e +meia. Provavelmente jantou em casa do visconde e não se lembra que o +esperamos para ceiar. + +--Decididamente não pensas n'outra coisa senão em comer, murmurou +Magdalena sorrindo-se para a irmã. Não sabes que a dieta é o melhor +preservativo. + +--Pois continuem as senhoras com a sua dieta que eu, pela minha parte, +irei comendo o que me aprouver, respondeu Olympia. + +Deram as nove e tres quartos e Tristão sem apparecer. + +--Se teu pae se demora mais dez minutos, vou ao hospital, disse D. Maria +Egypciaca. + +--Se o criado se demora mais cinco minutos, vou ao hospital ver se me +dão alguma coisa de comer, tartamudeou Olympia com visivel inquietação! + +Ao terminar estas palavras abriu-se a porta e entrou Tristão acompanhado +pelo visconde. + +--Não me tornes a apparecer tão tarde, disse D. Maria Egypciaca +voltando-se para o marido. Não sabes os cuidados em que temos estado, +tanto, eu como as meninas, ajuntou ella, beijando a fronte de seu esposo +e cumprimentando ao mesmo tempo o visconde. + +--Desde que sairam do hospital, não podem suppôr o trabalho que tivemos +se não fôra Martha... + +--Parece uma santa rapariga, disse D. Maria Egypciaca voltando-se para o +visconde. + +--Tal pae, tal filha, minha senhora, respondeu o visconde. + +Magdalena córou ligeiramente ao ouvir pronunciar o nome de Martha? + +As suspeitas da infeliz, não eram totalmente despidas de fundamento. +Magdalena vira por duas vezes Manuel de Mendonça quando elle fôra +visitar o operario. O olhar nobre e varonil do commandante, as suas +maneiras altivas e ao mesmo tempo insinuantes, tudo concorreu para que +se tornasse sympathico. Manuel não o havia notado ou, pelo menos fingiu +ignoral-o. + +Orgulhosa em demasia, Magdalena jámais teria descido a declarar-se-lhe. +Além d'isso, o seu espirito observador fizera-lhe notar que a filha do +operario não era totalmente indifferente a Manuel de Mendonça. Quanto ao +que se passava no coração de Martha, era um problema difficil de +resolver. + +Uma tarde em que Magdalena deitava para o Tejo o seu magnifico +telescopio, viu um escaler com quatro remadores, e um individuo sentado +á prôa. Reconheceu n'esse homem o mysterioso personagem que lhe +apparecêra no quarto de Jeronymo! O barco seguia Tejo abaixo. Assestando +o oculo, seguiu o em todos os movimentos. Por ultimo, abordou a uma +embarcação que estava fundeada em frente da rocha do Conde de Obidos. +Manuel saía do escaler e subia para bordo. + +Desde essa tarde, Magdalena não perdia ensejo de olhar para aquella +pequena embarcação, e quando por ventura sabia que Manuel de Mendonça +estava no quarto do operario, buscava sempre esse momento para o ir ver. + +--É de suppôr que ainda não tenha ceiado, meu pae, disse Olympia. A ceia +deve estar prompta, acho rasoavel que vamos comer alguma coisa. + +--Quem havia de ser a primeira a lembrar-se da ceia, respondeu Tristão, +passando o braço pela cintura de sua filha, e convidando o visconde a +sair da sala. + +Na mesa, esplendidamente adornada pela baixella que Tristão havia +comprado, sobresaíam as tres netas de Apollo, com que o visconde havia +presenteado o seu amigo. + +[Ilustração:--Vocemecê anda sobre as aguas do mar?... (_pag. 165_)] + +--Eis a alegria da meza, disse Tristão voltando-se para o visconde e +apontando ao mesmo tempo para o magnifico centro. + +--O que lhe peço, replicou o visconde, é que me não esteja todos os dias +envergonhando com esse objecto, que se algum valor teve para mim, foi o +de agradar a vossa excellencia. + +--Não me cançarei de o gabar, continuou Tristão, offerecendo um logar ao +visconde entre sua esposa e Magdalena. + +--Tenho vindo todo caminho a dizer a seu esposo, que deve acceitar o +titulo que brevemente lhe vae ser offerecido, disse o visconde +voltando-se para D. Maria Egypciaca. Já tres ou quatro pessoas me +disseram que el-rei o senhor D. Pedro V, encantado pelos seus serviços, +tenciona agracial o com um titulo condigno ao seu merito. Sabe o que me +respondeu? que não queria acceitar coisa alguma; que para recompensa, +bastava-lhe o prazer que experimentava em ser util á humanidade. Isto á +luz da philosophia é uma grande verdade, mas para o mundo acho uma +loucura! + +--Sou quasi da opinião de meu marido. Basta que se chame Tristão de +Almeida. De seus paes herdou esse nome sem a mais pequena macula, é +razoavel o seu desejo em o querer conservar até ao ultimo momento da +vida. + +--São vossas excellencias da opinião de sua mãe? perguntou o visconde +dirigindo-se ás filhas de Tristão. + +--Pela minha parte é-me totalmente indifferente, respondeu Magdalena. + +--E vossa excellencia... accrescentou o visconde voltando-se para +Olympia. + +--Sou da opinião de todos, retrucou Olympia, mastigando o setimo +croquette. + +--Se vossa excellencia resolvesse seu esposo a acceitar o titulo de +conde, compromettia-me a fazer lavrar a carta regia em menos de um mez. + +Ao ouvir pronunciar o titulo de conde, os olhos de Tristão brilharam com +uma alegria selvagem. Teria dado muito para ser visconde, mas o que elle +nunca poderia suppôr, era que obtivesse o titulo de conde! + +O visconde comprehendeu-o immediatamente. + +«Temos homem! pensou elle. O ensejo é favoravel; ha de ser hoje mesmo! +Está proximo o dia vinte. Se até esse praso não levanto dinheiro, a +ruina é certa! Vão salvar-me as tres graças e o titulo de conde.» + +A ceia correu animadissima! D. Maria Egypciaca, julgando-se condessa, +pensava de ante-mão na gloria que esse titulo lhe ia proporcionar. +Desentranhando do amago do seu bestunto todos os nomes de terras mais +harmoniosos que tinha ouvido, escolhia de entre esses o que mais +euphonico lhe parecia. + +Tristão, apezar de toda a sua serenidade, olhava ora para a mulher ora +para as filhas, como que desejando que a conversação continuasse sobre o +mesmo assumpto. + +Olympia continuava a comer desafrontadamente, sem cuidar na gloria que +se lhe preparava! + +Uma pessoa apenas parecia indifferente ao titulo e á ceia, era +Magdalena. + +A pobre sonhava a felicidade entre o mar e o céu! A sua ventura estava +n'aquella barca, para onde ella ao cair da tarde extendia seus olhares +entristecidos pelo labutar de uma eterna recordação. + + * * * * * + +Quem d'alli a duas horas tivesse entrado na sala occupada por Tristão, +teria visto o seguinte: D. Maria Egypciaca em profunda meditação, +folheando um livro que mandára comprar, cujo titulo era _Resenha das +Familias de Portugal_. + +Olympia reclinada n'um sophá fazendo o chylo, e resonando profundamente. + +Magdalena encostada á janella contemplando as estrellas que se +reflectiam sobre as aguas do Tejo. + +E quem, movido de imperdoavel curiosidade, tivesse seguido o visconde e +Tristão de Almeida até ao patamar da escada, teria ouvido este ultimo +dizer em voz baixa ao visconde: + +--Sendo tres horas da tarde, poderá ir receber os trinta contos de réis +a casa de Vaz Mendes, e se por ventura se vir n'algum outro apuro, peço +lhe encarecidamente que se lembre de mim. + +--Ha de ser com uma condição, respondia lhe o visconde. + +--Qual? + +--Acceitar o titulo de conde. + +--Acceito. + + + + +XXI + + +No dia seguinte áquelle em que praticâmos a indiscrição de fazer com que +o leitor tambem escutasse as ultimas palavras trocadas entre Tristão de +Almeida e o visconde de Coruche, achava se este, antes do meio dia, +assentado á secretaria do seu escriptorio, chamando todos os criados, e +ordenando a cada um que lhe apresentasse as suas contas. + +Os moços estavam como que assombrados! Nenhum podia acreditar que elle +estivesse habilitado a falar d'aquelle modo. Todos sabiam o estado da +sua casa, e a unica esperança que lhes restava, eram as promessas de um +agiota a quem tencionavam vender as dividas. + +--Aquillo foi obra de jogo, dizia o cocheiro, refinado velhaco, a quem o +visconde havia arrancado á miseria. + +--Ora, saude! acudiu o trintanario, quem caiu d'ahi abaixo! Quem lhe +havia de dar dinheiro para fazer jogo? Ainda não ha muitos dias que elle +perdeu cincoenta moedas, e, a respeito de pagal-as, _xó rôlla_. + +--Dê-me elle o que me deve, o mais tanto se me dá como se me deu! Venha +o _baguinho_, e tanto m'importa que fosse ganho ao jogo, como achado, +como roubado! + +--O mesmo digo eu, mestre Domingos, interrompeu o criado de quarto. +Tomára eu sempre que elle estivesse muito endinheirado. Ha lá melhor +patrão! Já o viram olhar para alguma conta? Mais ainda; quando lhe +apresentavamos os roes, e que elle tinha dinheiro na gaveta da +secretaria preta, quantas vezes me dizia: Põe lá a conta e tira o +dinheiro. Patrões assim, agarral-os é que custa. + +--Pois sim, tudo isso é uma grande verdade, mas, o que é certo, é que +está aqui está sem vintem, disse judiciosamente o cosinheiro. + +--Isso é lá com elle, mas quem te diz a ti que esse individuo a quem deu +os bonecos de prata... + +--O quê? + +--Lhe tenha emprestado algum dinheiro. + +--Anda cá dinheiro, que te quero ver. Tambem tu vives de caretas? Lá que +elle tenha querido encostar o homem, não me admira, mas que o brazileiro +caisse ao tiro... essa é que não pega. + +--Que elle está muito contente, é que não ha duvida. + +--Já tem o _bago_ na mão, hein? Ora adeus? Se o tivesse, a estas horas +ninguem o aturava. + +--Não sei falar n'essas coisas. Venham os soberanos e o mais tanto se me +dá que a agua corra para baixo como para cima! + +--O que parece impossivel é que vossês estejam aqui n'este conluio, +murmurando de um senhor que os trata como sua excellencia, disse um +velho de perto de setenta annos que acabava de entrar. Aqui estou eu, a +quem elle deve mais do que a vossês todos juntos, e ainda não abri bico +contra elle. + +--E o que tem vossemecê com o que nós estavamos falando? disse o +cocheiro approximando-se do ancião. + +--Se lhe parece, bata-me, tartamudeou o velho, encostando-se serenamente +a um aparador. Se o sr. visconde souber o que se passou, podem ter a +certeza que vae tudo para o meio da rua. + +--E quem lh'o _havera_ de dizer? acudiu um moço de cavallariça. + +--Eu! Não serei capaz de lhe contar tudo, _tim tim, por tim tim_? + +--Eu perca a minha liberdade, se vossemecê tornasse a comer mais pão. + +--Pensa talvez que me assusta com as suas fadistices? Meu amigo, tenho +perto de setenta annos, mas, frangãos assim, para os depennar basta-me a +mão esquerda. + +--Está bom, está bom! Leva de rumor! acudiu o cosinheiro. Quem quizer +fazer _banzê_, vá para o meio do pateo, que não é este o logar para dize +tu direi eu. E demais aquelle senhor tem toda a razão, ajuntou elle +olhando para o velho. É o mordomo do sr. visconde, conheceu-o de criança +e não gosta de ver o seu amo offendido. Nada mais natural do que tomar +as palhinhas por elle. + +--Entre vossemecê tambem, se lhe parece, ajuntou o cocheiro, tomando o +partido do moço da cavallariça. + +--Olhe, meu amigo, disse o cosinheiro, dirigindo-se ao cocheiro, commigo +não faz vossê vasa. Cá por mim, não lhe digo quantos annos tenho, mas se +me faz chegar a mostrada ao nariz, desabo-lhe d'aqui com esta mão de +vacca que fica sem saber da cara por tres dias. + +N'este comenos ouviu-se a campainha do escriptorio. Era o visconde que +mandava chamar o mordomo. + +--Vossa excellencia mandou-me chamar? disse o mordomo ao entrar no +escriptorio. + +--Mandei, respondeu o visconde. Dei ordem a todos os criados para que +apresentassem as suas contas. Toma-as a cada de um de per si; bem sabes +que não me chama Deus para esses caminhos. É preciso tambem tomar conta +dos credores mais teimosos para se lhes dar alguma coisa por conta. +Comprehendes? + +--Perfeitamente. + +--Lembra-te de gratificares os criados, pobres diabos! Não te parece? + +--Eu dava lhes, mas era com um pau, sr. visconde. Não ha maior cafila do +que são os criados d'este tempo. + +--Porque dizes tu isso? + +--Tenho os meus motivos. Isso fica para mais tarde. Não imagina o prazer +que terei se vossa excellencia se pozer em dia com toda esta gente. + +--Bem, podes retirar-te. + +D'alli a uma hora, dirigia-se o visconde para o escriptorio de Vaz +Mendes onde Tristão de Almeida havia mandado ordem pela manhã para que +entregasse trinta contos de réis ao visconde de Coruche. + + * * * * * + + * * * * * + +--E para que é todo este dinheiro, sr. visconde? perguntou-lhe o +banqueiro, lendo-se-lhe nos olhos a inveja e a cobiça. É para algum +outro hospital aonde os meus serviços estão dispensados? + +--É para a infancia desvalida, respondeu o visconde, mettendo +n'algibeira--sem os contar--os maços de notas que recebêra da mão de Vaz +Mendes. + +--Repare vossa excellencia que não contou esse dinheiro, ponderou-lhe o +usurario. + +--Nunca contei dinheiro; para esse fim lá tenho em casa um criado que +não faz outra coisa, respondeu altivamente o visconde de Coruche. + +Pondo insolentemente o chapéu, o fidalgo cortejou o banqueiro e +retirou-se para casa. + +--Salvo! exclamou o visconde, extendendo se commodamente n'um sophá. +Falta agora o titulo, ajuntou elle olhando ao mesmo tempo para um +magnifico charuto havano, cujo fumo subindo em espiral inundou os +aposentos de um perfume doce e innebriante! + + + + +XXII + + +«Fortes nescios, que idéa formam de mim! O visconde imagina que sou +algum minhoto, que foi d'aqui para o Rio de Janeiro varrer o escriptorio +do patrão, e que por uma fórma ou outra, adquiri a riqueza que hoje +possuo. + +«Se elle soubesse que fôra o commendador Felix Justino de Araujo quem +lhe havia emprestado os trinta contos de réis. + +«Como a sorte me favoreceu em tudo! continuava elle, passeando ao mesmo +tempo pelo seu gabinete. Emprestei-lhe trinta contos, e é possivel que +nunca mais os torne a ver, mas, quanto vale aquelle magnifico centro de +Benevenuto? Quarenta contos talvez. E dizem que um filho da Grã-Bretanha +veiu expressamente a Lisboa para lh'o comprar, e se retirou deixando-o +aqui. O archeologo tinha bebido muito n'esse dia! + +«Não lhe descobriria elle a assignatura? O visconde deve estar +satisfeito de me ter logrado! Como elle dirá de si para si: presenteei-o +com um objecto que vale mil libras, acenei-lhe com um titulo de conde e +o tezo caiu no laço! + +«Eu poderia prescindir perfeitamente d'esse titulo. Para que quero eu um +titulo? só se fôr, para satisfazer os caprichos da Maria. O que já me +vae aborrecendo alguma coisa é o tal hospicio. Ainda que nunca houve +molestia que sympathizasse com a minha pessoa, póde apparecer alguma, e +ter o mau senso de me levar d'esta para melhor. Parece-me que vou dar +parte de doente. + +«Agora me recordo, ajuntou elle. Quem demonio seria aquella mulher que +veiu hoje procurar o Jeronymo! Pareceu-me reconhecer as feições. Se não +tivesse a certeza que D. Marianna de Mendonça tinha morrido doida no +hospital de S. José, havia de dizer que era essa velha. Que similhança, +meu Deus! E se fosse ella? Se ainda vivesse? Ora adeus! Se eu fôr a +devolver tudo quanto d'aqui levei... Nada... os tempos não estão para +graças. Se Domingos de Andrade não houvesse tido juizo em Pernambuco, +que teria sido do commendador Felix Justino de Araujo, que passou a ser +Tristão de Almeida emquanto se não chamar o conde de... O conde de quê? +do que elles quizerem ou do que minha mulher escolher. + +«Agora por isso, não tenho mais remedio senão comprar alguma propriedade +de grande valor. Vou tractar d'isso para a semana que vem. Encarrego o +visconde de me arranjar um palacio em Lisboa e uma quinta nos suburbios. +Está decidido, sympathizei com aquelle estroina. Parece-me que o estou a +ver na casa branca da rua do Arco de Bandeira! Era um verdadeiro +demonio, aquelle visconde! Ainda não vi homem mais intrepido ao jogo! +Agora por jogo, não tardará muito que principiem a fazer todas as +diligencias para me _apanharem_. Vêem bem! + +N'este momento abriu se a porta, e entrou um criado annunciando o +visconde de Coruche. + +--Que entre, que entre o meu caro visconde, disse Tristão. + +O fidalgo não se fez demorar. + +--Quanto folgo em tel-o encontrado, disse o visconde extendendo a mão +para o seu amigo. Estive hontem no gremio, e durante a noite não se +falou senão em vossa excellencia. O conselheiro Poderosa, que appareceu +lá á saida do theatro, disse-me confidencialmente que seria o +encarregado por sua magestade de lhe perguntar que nome escolhia para o +titulo de conde, que brevemente lhe ia ser offerecido. Estive hontem +mesmo para lh'o vir participar. + +--Dá-me sempre um grande prazer a sua companhia mas para um caso +d'esses, seria desnecessario. + +--Vejo pela sua indifferença que ainda insiste, apezar da promessa, em +não acceitar o titulo! Deixe-se d'isso, meu amigo, um titulo é sempre +util; e muito util. + +--Façam os meus amigos tudo quanto lhes aprouver; sujeitar-me-hei ao que +fôr do seu agrado. + +--Não vê o meu amigo, que esse titulo que lhe vae ser concedido, não é +favor mas sim uma retribuição honorifica pelo muito do que este paiz lhe +é devedor? Diga-me uma coisa, teria vossa excellencia valor de recusar +um habito que o general lhe collocasse ao peito, se vossa excellencia se +tivesse distinguido n'uma batalha? Creio que não. O mesmo se dá n'este +caso. Não está vossa excellencia arriscando a sua vida e a de toda a sua +familia? Parece-lhe immerecida essa recompensa? Pode alguem lançar-lhe +em rosto a injustiça da mercê? Quem teria o descaro de lhe contestar +esse direito? Ninguem, absolutamente ninguem! + +--Isso lá é verdade. Que eu tenho arriscado a minha vida e de toda a +minha familia, não merece duvida alguma. + +--Então, meu amigo, attendendo a todas essas circumstancias, não falemos +mais n'isso, e deixe correr o negocio. + +--Vá feito, vá feito! gargalhou Tristão de Almeida. + +--Tem hoje muito que fazer, sr. Tristão? + +--O que sabe: ir ao hospital. + +--E depois? + +--Depois mais nada. + +--Dá-me a honra de ir jantar a minha casa? + +--Com muito gosto a receberei. + +--Vão lá uns amigos a quem desejo apresental-o. + +--Fique certo. + +--Então ás cinco? + +--Conte commigo. + +--Peço-lhe encarecidamente que não falte, accrescentou o visconde n'um +cerrado _shake-hands_, e saindo do gabinete. + +«Trata-se de me _apanharem_ ao jogo, pensou Tristão. Veremos quem fica +logrado, accrescentou elle extendendo-se sobre um sophá.» + + + + +XXIII + + +Emquanto o visconde de Coruche ordena aos seus criados que lhe preparem +um lauto jantar, dirijamo-nos á Rua do Meio, a casa de Jeronymo. + +São tres horas da tarde. O operario, á mesa do jantar, entre Marianna e +sua mulher, olha de vez em quando para a vidraça, como para ver se ainda +continúa a chuva. + +Na face pallida de Balbina, desenha-se-lhe o soffrimento. Marianna +parece acompanhal a nas suas tristes meditações. + +--Vossês não me dirão o que têem? murmurou Jeronymo. Quando a nossa vida +se apresenta debaixo dos melhores auspicios, é que principiam a +entristecer? O mesmo notei em Martha. Antigamente, era sempre alegre e +jovial, agora, custa os dias da vida, primeiro que se lhe arranque um ar +de riso. Valha-nos Deus! Não ha felicidade completa. + +--Isso é uma desconfiança tua, respondeu Balbina. + +--A mim não me enganam vossês, replicou Jeronymo, levando aos labios um +copo de vinho. Pela minha parte, ando cá como o outro que diz, meio +desconfiado de uma coisa. Permitta Deus que me engane, ajuntou elle, +voltando-se para a tia Marianna, que dirigira um olhar significativo á +esposa do operario. + +--E de que estás desconfiado, Jeronymo? accudiu Balbina, voltando se +para seu marido. + +--Se eu não desabafasse com vossês, que são a minha familia, com quem +havia de fazel o? Creio que não era com a tia Monica ou outras +quejandas! Lá vae. Ando desconfiado, como ha pouco lhes dizia que a +nossa Martha está assim meia apaixonada pelo sr. Manuel. Isto foi uma +pancada que me deu o coração; talvez que não passe de um máu juizo. Mas +o que é certo, é que nunca mais lhe tenho visto brilhar os olhos de +alegria, senão duas ou tres vezes que esteve defronte d'elle. Lá isso é +que ninguem me póde negar. + +--Pois uma vez que foste tu o primeiro a falar sobre isso, pergunta +agora á tia Marianna o que estavamos dizendo quando tu entraste, +respondeu Balbina, olhando ao mesmo tempo para a sua amiga. + +--Ha mais de oito dias que andamos a pensar n'isso, disse a tia Marianna +voltando se para o operario. + +--Valha nos Deus, Balbina! E como havemos de impedil-o? + +--Não sei, respondeu Balbina, profundamente entristecida. Sabes o que me +disse a tia Marianna? accrescentou ella. Que o sr. Manuel era por força +um homem muito de bem; bastava ver a maneira como elle se portou com a +nossa filha. + +--Tudo isso é uma grande verdade, Balbina, mas, em qualquer dos casos é +sempre uma infelicidade. O coração de Martha é... nem eu mesmo sei a que +o compare. É uma especie d'estas fasquias que a mais pequena aragem as +dobra, mas se lá vem um tufão... ficam logo quebradas pelo meio. Além +d'isso, ella bem conhece a distancia que a separa do sr. Manuel, e é +capaz como o outro que diz de afogar em si tudo quanto está soffrendo. + +--Sou da sua opinião, sr. Jeronymo; Martha é um anjo, e será capaz de +morrer, confiando apenas a Deus o segredo que a assassina! + +--Eu só o que desejava saber era a maneira de nos encaminharmos em tudo +isto, continuou Jeronymo levantando-se da mesa. + +--A sr.ª Marianna que nos aconselhe, que é mais velha e tem mais mundo +do que qualquer de nós, acudiu Balbina dirigindo-se á sua amiga e +companheira. + +--Que lhes poderei eu aconselhar, meus bons amigos? respondeu a tia +Marianna. Se esse individuo é um homem de bem como eu supponho, e se +Martha lhe não foi indifferente, é de crêr que mais dia menos dia o +possamos tornar a ver, e, n'esse caso estarei muito prompta a falar-lhe. +Não lhe vejo outro remedio, sr. Jeronymo. Prouvera a Deus que fosse hoje +o dia. Quanto ao que vossemecê diz, que uma grande distancia os separa, +não me parece. Não póde elle ser como Martha, um filho do povo? E sendo +assim, não vejo desegualdade de pessoas. + +--E se o não fôr? perguntou Jeronymo. Se fôr um fidalgo, um ricasso... + +--Torno a repetir-lhe, respondeu Marianna, homem de bem é que eu tenho a +certeza que elle é. E a prova foi não ter tornado a apparecer. + +--Isso lá é que é a pura da verdade, acudiu Balbina. Tinha trezentos +meios para a ter visto. + +N'este momento, parou um trem á porta do operario. Eram as filhas de +Tristão que vinham trazer a casa a sua amiga. + +--Forte delambida! dizia a tia Monica voltando-se para uma visinha, +quando Martha se apeava do trem. + +--Deixe estar, respondia-lhe a visinha, mais dia menos dia, verá aonde +aquillo vae parar. + +--Ainda bem que já lhe fiz a cama, quando o outro dia me vieram pedir +informações a seu respeito. + +--Não sabia d'isso, visinha, não me tinha dito... Quem foi? + +--Era um homem que me pareceu assim do trato do mar. + +--Desde que se meteu com as fidalgas já não póde andar se não de trem. +Saffa, demonio! E não tem medo das más linguas.... + +--Nem da colera do Senhor, tia Monica, respondia-lhe a visinha, +mettendo-se para dentro de casa como se os seus olhos invejosos não +podessem resistir ao olhar candido e celeste de Martha, o anjo dos +tristes. + +Despedindo-se das filhas de Tristão, Martha entrou em sua casa. + +Vinha excessivamente pallida. Uma breve mancha azulada, partindo das +palpebras inferiores até ás proeminencias malares, tornavam-lhe mais +scismadores os seus olhos esplendidamente bellos! Dir-se-hia que se +tinha levantado de uma grande enfermidade. O busto, ligeiramente +inclinado, dava-lhe aspecto de profunda melancolia. + +A Jeronymo arrasaram-se-lhe os olhos de lagrimas. + +--Que tem, meu pae? perguntou Martha, approximando-se e beijando-o +ternamente na fronte. + +--Que tenho, filha?! Que hei de ter! Dia a dia te vejo mais triste, e +ainda perguntas o que tenho? Saudades da tua alegria, dos teus olhos; +onde estão as rosas d'essas faces, que eram a inveja das tuas +companheiras de collegio? Onde estão emfim os teus sorrisos, que eram a +minha ventura? Pensas que só eu tenho notado a tua tristeza, ha oito +dias a esta parte? Enganas-te. Já tua mãe a percebeu e a tia Marianna, e +todos, até o teu cão! para quem já não tens um só carinho. Dize-me o que +sentes, filha, e se eu, ou tua mãe n'alguma coisa te podemos valer, sê +franca, Martha. Quem melhor do que teus paes poderão saber os teus +segredos? Martha, lembra-te que és a unica alegria que eu e tua pobre +mãe temos n'esta vida. Se és boa, como te creio e como todos te +consideram, abre-me o teu coração, não me occultes coisa alguma. Vem, +filha; deposita no meu peito todos os segredos que te obrigam a olhar +para a terra para onde eu não quero que te deixes ir. + +Pobre Jeronymo! A dôr tornara-o eloquente! Balbina e a tia Marianna +tinham se afastado para occultarem as lagrimas. + +Apenas Martha se conservava serena como a estatua da resignação. + +--Que me respondes, Martha? continuava o operario. + +--Que lhe posso eu responder meu pae. + +--Senta-te aqui nos meus joelhos, accrescentou Jeronymo, apertando a +cintura da filha e approximando-a para si. Vou contar te uma historia. + +«Um dia, um pobre operario, que tinha por unica familia sua mulher e sua +filha, ao sair do trabalho foi atropellado por um trem. Levaram-n'o em +seguida para uma grande hospedaria aonde foi caridosamente tratado, sem +lhe faltar coisa alguma a não ser a sua familia que ignorava aonde elle +estivesse. As horas passavam, passavam, e elle sem apparecer. Então a +filha, pondo o capote aos hombros, saiu de casa, procurando o pae como +uma louca. + +«Pessoa alguma lhe dava relação d'elle. A triste desanimára! + +«Finalmente encontrou um individuo moço, bello, virtuoso. Esse +prometteu-lhe procurar seu pae! A infeliz respirou! D'ahi a duas horas o +desconhecido dizia-lhe aonde elle estava. + +«Grata a esta primeira prova de dedicação, a filha do operario +principiou a amal-o em silencio! + +--Não me fale n'isso, meu pae, interrompeu Martha, tentando +desembaraçar-se dos braços de Jeronymo. + +«Depois, proseguiu o operario prendendo-a cada vez mais ao coração, essa +criança cheia de ternura, continuou a amar esse homem, sem confiar a +pessoa alguma o afecto que a consumia, e hoje, Martha, hoje... está como +tu, pallida, triste, adoentada, e seu pae como um louco por a vêr +assim.» + +--Ahi tens a historia, ajuntou elle largando a dos braços e fitando a +com os olhos cheios de lagrimas. + +Martha não proferiu uma palavra. + +--Não me illudas, filha, esse homem é amado por ti. + +--Esse homem, balbuciou Martha, é amado pela filha do nosso protector! +Hoje mesmo a encontrei olhando para a sua galera, ajuntou ella, caindo +desanimada nos braços de seu pae. + + + + +XXIV + + +--Aposto a minha cabeça em como o visconde ha-de ser tão nescio que se +não lembre de arranjar um montesinho antes da ceia. + +--Se o não fizer alguns motivos tem para isso. Por tolo, não é, decerto. + +--Tambem, se queres que te diga a verdade, não lhe encontro grande +esperteza. Já lá vão duas heranças importantissimas, e ambas tiveram o +mesmo fim. Se isto é ser esperto, está o mundo cheio de espertalhões! + +--Sabes o que eu chamo ser esperto, é saber lavar a sua roupa em +familia, como diz o dictado. De quantas lagrimas não lhe tem sido +testemunha o seu travesseiro? Vê tu, se já alguem deixou de lhe +encontrar o mesmo sorriso? Dizem todos: o visconde está arruinado, é +impossivel que possa aguentar por mais tempo aquella opulencia, em menos +de um anno hão-de vel-o miseravel, porém desde que morreu o conde, não +abandonou o seu palacio, ainda não despediu um criado, ainda não vendeu +um cavallo, ainda não deixou de dar almoços, jantares e ceias! Está +arruinado: tão arruinado que não ha muitos dias deu um presente, que +valia mil libras. Quem dá um presente de mil libras não póde estar +pobre. + +--Isso leva agua no bico!... + +--E que importa? O que não ha duvida, é que pessoa alguma seria capaz de +fazer o que elle tem feito. + +--Eu tambem não lhe contesto o seu cavalheirismo. + +--E o que lhe tem custado as mulheres e o jogo? Tomára eu ter o dinheiro +que lhe ganhei ha uns vinte annos, quando estive associado com um grande +espertalhão que havia em Lisboa, chamado Felix de Araujo. + +--Felix de Araujo? Não me recordo. + +--Um vivo demonio, que fez tudo quanto lhe pareceu em Lisboa, acabando +por ter uma casa commercial. + +--Ai, ai, agora me lembro. Por signal que roubou uma senhora, a casa de +quem ia muitas vezes! A pobresinha foi acabar os seus dias no hospital +de S. José. Já sei. Era um tratante de marca maior, que fez a desgraça +de muita gente. Nunca mais se soube d'elle? + +--Disseram-me que tinha morrido envenenado na Costa d'Africa. Que a +terra lhe seja leve, que eu, assim como assim, não tenho razão de queixa +da sua pessoa; basta lembrar-me que o pouco que sei a elle lh'o devo. + +--O pouco que sabe! Se eu soubesse metade... + +--Aquillo é que eram mãos! Aquillo é que era dar um _salto_ com limpeza, +sem que o baralho desse o mais pequeno estallido! E trabalhar com cinco +dados! e _tirar_ ao pegote! + +--É verdade, é verdade! A ultima vez que joguei com elle foi em casa do +barão. Por tal signal que me roubou quatorze notas de dez moedas á banca +portugueza. + +--Se aquelle homem não tivesse morrido, com a audacia que possuia, ainda +tinha voltado a Portugal... + +--O que estará fazendo o visconde? + +--Como não usa de cerimonia para comnosco, provavelmente dá as suas +ordens para que tudo se faça segundo os seus desejos. + +Passava-se este dialogo entre Gil de Carvalho e Bernardo de Paiva. + +O primeiro, era um jogador de profissão e refinado velhaco, ao qual +todas as portas se abriam por um d'esses desleixos imperdoaveis que é +susceptivel em toda a sociedade de grandes capitaes. + +Relacionando-se com os individuos que frequentavam certa sociedade onde +o jogo era permittido por distracção, Gil de Carvalho introduziu se nos +principaes salões de Lisboa. + +Ninguem sabia a sua procedencia! As suas maneiras quasi sempre +delicadas, resentiam-se comtudo da primitiva educação! + +Gil teria uns sessenta annos. A sua fortuna era um mytho. Uns diziam que +estava pobre; outros, calculando pelo que havia roubado ao jogo, +attribuiam lhe riquezas enormes. + +Bernardo de Paiva era um homem pouco mais ou menos da edade do seu +interlocutor. Herdára de seus paes uns vinte ou trinta contos de réis e +dissipára-os immediatamente em mil loucuras, sendo a principal o jogo, +que ainda hoje o dominava com poder immenso! + +Bernardo descendia em linha recta de uma das mais distinctas familias de +Olhão. Aparentado com muitos individuos de Lisboa, Bernardo com mais +algum direito do que Gil de Carvalho, tinha entrada em todas as casas. +Ao contrario de Gil, a sua physionomia era sympathica e insinuante. + +Jantar onde elle estivesse, corria sempre alegre e animado. Além do seu +vivíssimo _esprit_, tinha outra qualidade que o tornava estimado em +todos os circulos: não dizia mal de ninguem. A sua bocca era sagrada, +como judiciosamente affirmava o mordomo do visconde de Coruche. + +Quando Gil e Bernardo de Paiva se dirigiram para uma saccada que olhava +para o pateo, onde se ouviu o rodar de um trem, correu-se um dos +reposteiros e appareceu o visconde. + +--Peço-lhes que me desculpem esta demora, mas não me foi possivel +evital-a. Adoeceu de repente o meu mordomo, tenho de o substituir. + +--Pela minha parte estás desculpado, disse Bernardo de Paiva, +sorrindo-se para o visconde. + +--Repito o mesmo, acudiu Gil. + +--Não adivinhas, de quem estamos falando? disse Bernardo dirigindo se ao +visconde. + +--N'aquelle mariola de Felix Justino de Araujo, accrescentou Gil de +Carvalho. + +--Não me recordo respondeu o visconde com modo distrahido. + +--Ora essa! exclamou Bernardo. O commendador Araujo que ia á _Casa +Branca_, do Arco do Bandeira. + +--Ah! Já sei, respondeu o visconde. + +--Sabes quem eu acho muito parecido com elle, e só agora foi que me +lembrou... + +--Quem?... + +--O teu amigo Tristão d'Almeida. + +--E é verdade, respondeu o visconde. Bem me parecia a mim que já tinha +visto n'alguma parte uma physionomia que se lhe assimilhasse. + +--É um homem muito sympathico aquelle seu amigo, interrompeu Gil de +Carvalho. + +--Aonde o viu? perguntou o visconde. + +--Ha dias, no gremio, aonde me foi apresentado. A proposito, sabe se +elle joga? + +--Duvido, respondeu o visconde. Nem me convinha por modo algum que se +jogasse em minha casa, accrescentou elle, que tudo havia planeado para +esse fim. + +--E se elle pedisse? perguntou Gil, tentando ainda profundar-lhe o +pensamento. + +--Isso então era differente. O meu dever é tornar-me sempre amavel para +com as pessoas que me dão a honra da sua companhia. + +--Sou da tua opinião, disse Bernardo de Paiva, que lia no mais intimo da +alma do visconde. + +N'este momento ouviram-se duas badaladas na sineta da loja, e d'alli a +pouco entrou um criado de libré, annunciando Tristão d'Almeida. + + * * * * * + +--Venho aqui pura e simplesmente para lhe provar o desejo que tenho de +estar na sua companhia, disse Tristão, depois de falar ao visconde e aos +seus amigos. Se não fôra isso teria ficado de cama. + +--Mas que teve, meu amigo? perguntou rapidamente o visconde. + +--Quanto póde imaginar de mais infernal! Todos os symptomas que +apresenta a epidemia. Sabe o que fiz? tomei um _grog_ e fui para o +hospital. + +--Que valor! interrompeu o visconde. + +--Quando alli cheguei, continuou Tristão, augmentaram-se-me os +padecimentos. Querem saber os resultados? Vão admirar-se da força da +minha vontade. Fui receber um doente, que pouco tempo depois me expirou +nos braços. Aquella rapida transposição da vida para a morte, aquelle +instante incalculavel que medeia entre o ser e o nada, entre a vontade e +abstracção, longe de aterrar, robusteceu-me o espirito e, escudado pela +confiança em um mundo melhor e mais perfeito, reanimou-me a ponto de me +sentir completamente restabelecido. + +--É mais uma prova da sua religião, meu caro amigo, interrompeu Bernardo +de Paiva. Os que se aterram em presença do moribundo e na observação do +cadaver, é porque receiam o desconhecido! Os que se baseiam nos +preconceitos do vulgo, apegando se á vida, e receiando a morte, que, +segundo as suas crenças, os colloca em contacto com a Divindade, não são +mais que uns miseraveis, uns vermes que vivem e rastejam para a sua e +nossa deshonra! A morte, para todo o homem de intelligencia clara e +illustrada, não é mais que o principio de uma vida infinita. + +Espiritos pobres e tacanhos que se lamentam a cada segundo, dizendo que +lhes peza a vida, empallidecem quando a morte de longe lhes acena com as +suas azas, brancas para elles que sopezam constantemente a desgraça nas +suas longas noites de interminavel soffrimento. + +Receiam morrer! Elles que deviam tomar a existencia com um eterno +castigo! Que melhor somno para o desgraçado do que o da morte, dormido +sob a lousa! Preferem o bulicio da vida á paz do eterno repouso, o +andrajo ao sudario, a fome á anniquilação! + +--Isso é uma grande verdade, mas a maior parte do mundo não pensa como +vossa excelencia, respondeu Tristão. Duas ou tres vezes tenho visto a +morte deante de mim, e nunca me atemorizou! Tenho a minha consciencia +bastante socegada para me apresentar deante de Deus! Não receio o seu +julgamento. Diziam-me em Buenos-Ayres que era um homem de um valor +desmedido, emquanto eu não passava de um pobre diabo a quem os peccados +não perseguiam na existencia, porque nunca os havia procurado. Digo +procurado, porque o homem, a maior parte das vezes, pecca mais por +vaidade do que por instincto. Tenho umas theorias, falsas talvez para o +seculo em que vivemos, mas que apezar de tudo não desprezo. Deus que fez +o homem á sua similhança, ao lançal-o ao mundo, revestiu-o de bons +instinctos, porém, a sociedade envenenando-lhe o coração, insinuou-o no +crime e apresentou-lh'o atravez de um prisma seductor. Então os seus +olhos fascinaram-se, a vontade esmoreceu-lhe, e o coração propenso +sempre a ser dominado ao primeiro impulso, extraviou-se da razão e +lançou-se cego e inexperiente n'esse dedalo artificioso a que a +humanidade nos arrasta! Satanaz ri-se, mas Deus, que tudo perdôa, espera +o momento supremo para indultar o peccador e á humanidade que o +perverteu! Esta é a minha opinião. + +--Sabem quem hontem ganhou trezentas e tantas moedas? interrompeu Gil de +Carvalho voltando-se para o visconde. Aquillo é que foi sorte, +accrescentou elle, sem notar o espanto que a sua interrupção havia +produzido nos circumstantes. Fez um circo, depois outro, depois outro, e +bumba, lambeu tudo quanto havia sobre a banca. + +--Mas a que proposito vem isso, sr. Gil de Carvalho? perguntou o +visconde, emquanto Tristão de Almeida o contemplava com simulado +espanto. + +--Isto veiu a proposito... d'aquillo em que eu estava pensando, +respondeu Gil de Carvalho tornando a cahir no mesmo estado de profunda +reflexão. + +--Excentricidade do nosso amigo Gil, acudiu Bernardo de Paiva, olhando +intelligentemente para o visconde. + +O magnate conservava-se frio e sereno como um _yankee_, entre os quaes +largos annos havia habitado. + +--Gosta de jogar? perguntou Gil de Carvalho voltando-se para Tristão. + +O visconde e Bernardo estremeceram de raiva. + +--É uma coisa que ás vezes me diverte, respondeu-lhe Tristão. Não +admitto o jogo por vicio, mas, assim de vez emquando, depois de um +jantar ou de uma ceia, encontro-lhe alguma distracção, ainda que as +poucas vezes que tenho jogado tem sido quasi sempre com uma infelicidade +extraordinaria! A ultima foi em França, aonde perdi n'uma só noite +duzentos mil francos. O divertimento foi caro, é verdade, mas +distrahi-me. + +Ao ouvir estas palavras, os olhos de Gil de Carvalho brilharam de +visivel alegria. Tinha as suas esperanças realizadas! + +O visconde nem pestanejou! + +Assim estiveram conversando sobre varios assumptos até que appareceram +todos os individuos que o visconde havia convidado. + +Ás seis horas foram para a sala de jantar, cuja mesa brilhantemente +adornada, revelava a opulencia e bom gosto do dono d'aquella habitação +maravilhosa. O jantar correu animadissimo! Bernardo de Paiva, como +sempre, esteve esplendido de graça. Tristão de Almeida com grave +assombro dos convivas que pela primeira vez o viam e sobre tudo do +visconde, que o julgava um homem trivial, apresentou-se totalmente +opposto ao que o suppunham. + +«Este homem é um mysterio», pensava o visconde, ao mesmo tempo que +saudando-o em repetidas libações, fazia as maiores diligencias de o +toldar. + +Inuteis foram porém todos os seus esforços; o convidado bebia por elles +todos, sem que o mais leve indicio de incommodo lhe transtornasse a +serenidade da sua imperturbavel physionomia. + +Ás nove horas, levantaram-se todos da mesa, e foram para outra sala, +onde os esperava o café. + +Tristão de Almeida, como o leitor deve fazer ideia, conhecia todos os +individuos que estavam presentes, e melhor do que a elles todos a Gil de +Carvalho, com quem por mais de uma vez se havia associado. + +Ou por calculo ou porque lhe recordassem com saudade as sensações do +jogo, Tristão propoz ao visconde que se fizesse monte. + +--Estão em sua casa, respondeu-lhes o visconde. Eu também não desgosto +de vez em quando arriscar duas ou tres duzias de libras. + +Gil de Carvalho estremeceu de jubilo; Bernardo de Paiva exultou de +contentamento. Encontrava um meio de adquirir uma ou duas duzias de +moedas, jogando sempre na _alforreca_. + +--Quem ha de fazer o monte? eu não por certo, disse o visconde, foi +coisa para que nunca tive geito. + +--Nem eu tão pouco, acudiu o commendador. + +--Visto vossa excellencia ser banqueiro, ajuntou Bernardo de Paiva, +dirigindo se para Vaz Mendes, o banqueiro de Tristão de Almeida, +pertence-lhe por direito. + +--Que o faça o sr. Gil de Carvalho que está mais acostumado a pegar em +cartas. + +--Resta agora saber se ha cartas em casa. Mas isso pouco importa, +mando-as alli buscar ao Club, disse o visconde. + +--Estranha coincidencia! exclamou Gil de Carvalho, mettendo as mãos no +bolso do peito da casaca, minha mulher tinha-me pedido hoje que lhe +levasse dois ou tres baralhos para fazer a paciencia, e ainda aqui +estão. Podem servir estas. + +--Que favoravel acaso! disse Bernardo de Paiva, sorrindo-se +intelligentemente para o visconde. + +«Está a mesma coisa», murmurou Tristão de Almeida, de si para comsigo. + +--Vamos fazer uma _vaca_? disse o visconde e em voz baixa olhando para +o seu hospede, emquanto Gil de Carvalho se approximava d'uma banca para +melhor contar os baralhos. + +--Jogaremos de sociedade, visconde, replicou Tristão de Almeida. + +--Seja. + + * * * * * + +D'alli a dez minutos, as cem moedas que Gil de Carvalho fizera de monte, +haviam passado para defronte de Tristão de Almeida, acompanhadas por +mais do dobro que os outros peritos tinham perdido. + +Segundo, terceiro e quarto monte, e o mesmo resultado. + +Tristão jogava com uma sorte espantosa! Gil de Carvalho tinha perdido a +força moral. + +--Tem dinheiro? perguntou elle ao visconde. + +--Sirva se, disse-lhe Tristão de Almeida empurrando-lhe um maço de +notas. + +O banqueiro acceitou. + +Outro monte de cem moedas, e em tres cartadas, todo o dinheiro que +estava na mão do intrepido jogador havia passado para o banqueiro. + +Os olhos de Gil de Carvalho brilharam como uma alegria feroz. + +Tristão de Almeida, acendeu tranquillamente um magnifico charuto, e +sorriu-se para o visconde. + +--Era justo que se perdessem algumas paradas, murmurou elle, tirando da +algibeira do peito uma carteira de chagrin. + +--Continua a sociedade, visconde? disse o magnate voltando-se para o seu +amphitrião. + +--Continua, meu amigo. + +Gil de Carvalho baralhou as cartas e deu-as a partir a Tristão de +Almeida. + +--Topo tudo no duque, disse este rapidamente, ao sair a segunda carta +do algor debaixo. Gil voltou as cartas a tremer, e á segunda appareceu +um duque. + +--Vou a casa buscar dinheiro, não tenho fé alguma em jogar com capitaes +emprestados, disse Gil de Carvalho, collocando o baralho sobre a banca, +e saindo sem quasi dar tempo a Tristão de Almeida e ao visconde de lhe +fazerem os seus offerecimentos. + +Tristão havia ganho tres contos e seiscentos mil réis. + +--Que lhe parece? disse elle voltando-se para o visconde, damos hoje a +desforra ao seu amigo Gil de Carvalho, ou guardamos isso para outro dia? + +--Ficará para outro dia. Convinha me muito ir ao segundo acto do +Trovador. + + * * * * * + +Ás onze horas os convidados retiravam se, e Tristão de Almeida na +carruagem do visconde seguía com elle para o hotel. + +Mais tarde parava um trem á porta do visconde. Era Gil de Carvalho que +fôra a casa buscar mais dinheiro, e uns certos baralhos em que as cartas +se pegavam umas ás outras. Descendo rapidamente, entrou no patim. + +--Os senhores já lá vão para o theatro, disse-lhe o guarda-portão. + +Gil cuidou morrer de desespero! + + + + +XXV + + +Alguns esclarecimentos ácerca de Manuel de Mendonça, de quem vossa +excellencia e a pallida Martha, ha tempos a esta parte, nada tem sabido. + +Quando verdadeiramente fascinado pela formosura da filha do operario, +saiu do hotel Bragança--vespera da retirada de Jeronymo para sua casa--o +maritimo havia-lhes promettido de brevemente os visitar; porém, +reflectindo mais pausadamente sobre esse gravissimo assumpto, quiz ainda +forcejar com o coração, abafando-lhe quanto podesse a chamma que o +consumia! + +Tudo foi inutil! Ao cabo de dez dias, a pobre alma, cada vez mais preza +á recordação de Martha, ia a tal ponto identificando-se com ella, que +Manuel resolveu de si para si, ou sahir immediatamente de Portugal ou +pedir a filha de Jeronymo. + +No dia seguinte ao romper da manhã já elle tinha procurado Mascatudo. +Fechando-se ambos na camara, participára-lhe a sua resolução. + +O marinheiro, cujo unico desejo era a felicidade de Manuel, abraçou de +boa mente a sua determinação: elle, que sobretudo não comprehendia a +verdadeira ventura sem os verdadeiros regozijos da familia! + +--Hoje mesmo, disse-lhe Manuel de Mendonça, irás informar-te pela +visinhança sobre a conducta de Martha, e se fôr como eu supponho, e +espero em Deus que seja, ámanhã mesmo irei pedil-a a seu pae. + +«Que me importa que seja uma triste filha do povo, se o seu +comportamento for virtuoso, pensava Manuel de Mendonça, encostando-se á +amurada da sua galera. Quem sou eu? continuava elle, um homem sem +familia, sem parentes! Que me importam os brazões dos meus antepassados! +Em que concorreram elles para esta pequena posição que hoje tenho na +sociedade? Quanto sou, devo-o a mim, e só a mim! Está decidido, em oito +dias, Martha será minha mulher.» + +D'alli a meia hora, Mascatudo com o seu fato domingueiro, approximou-se +de Mendonça. + +--Á ordem, meu commandante. + +--Estás prompto? + +--Prompto. + +--Sabes o serviço que me vaes fazer? + +--Ora essa! + +--Serás discreto, reservado? + +--Como uma carranca de prôa. + +--Bem estamos. Sabes aonde ella mora? + +--Rua do Meio, á Lapa. + +--Numero? + +--Cento e doze. + +--Tal e qual. Chegas assim como quem não quer a coisa, e pergunta alli +pela visinhança, quem é pouco mais ou menos o Jeronymo; se a sua vida é +moral e religiosa, se é um homem trabalhador, etc., etc. + +--Bem sei como essas coisas se fazem, meu commandante. + +--Em primeiro logar, para que se não desconfie, é falar só de Jeronymo; +o resto, vem mesmo sem o perguntares. Entendes bem? + +--Se entendo... O commandante vem tambem p'ra terra? + +--Não, espero aqui a resposta. + +--Então ás ordens, e que a Senhora da Bonança vá em minha companhia. +Descendo para o escaler sentou-se á prôa e mandou remar. + +Uma hora depois, Mascatudo entrou n'uma pequena tenda da rua da Lapa, +que ficava quasi em frente da casa de Jeronymo. + +Approximou-se do balcão e pediu de comer. + +Á proporção que comia e bebia, o marujo ia adquirindo uma certa +intimidade com o caixeiro, offerecendo-lhe de vez em quando do seu copo, +em que elle pegava sem se fazer rogar. + +--Diga-me uma coisa, perguntou emfim Mascatudo. Dá-me noticias d'um +mestre de obras, que d'antes aqui morava, chamado Jeronymo? Ha quantos +annos o não vejo! + +--Olhe, respondeu o caixeiro, apontando ao mesmo tempo para a casa do +pae de Martha, ainda alli mora n'aquella casinha. + +--É um bom homem!... E sua mulher ainda vive? + +--Ainda. + +--A filha é que deve estar uma senhora? + +--É toda _mystica_! disse o caixeiro; e enthusiasmando-se com a +formosura de Martha, despejou, sem Mascatudo lh'o offerecer, o resto do +vinho que estava no copo. + +--Conheci aquillo uma criancinha, accrescentou Mascatudo, olhando de +soslaio para a meia canada que o moçoilo acabava de despejar. + +--Ha pouco tempo succedeu uma _disinfelicidade_ ao pobre Jeronymo, +continuou o caixeiro, que lhe ia custando uma grande _felicia_. + +--Sim? perguntou Mascatudo. + +--É verdade. + +--Então como foi isso? + +--Eu lh'o conto. Foi atropellado por um fidalgo muito rico, que tem +agora um hospital para a rua de S. Francisco de Paula, e como elle +ficasse muito mal tractado, sabe o que o fidalgo fez? levou-o para a +hospedaria onde estava, tractou d'elle sem lhe faltar nada, e por ultimo +empregou o, dando-lhe quinze tostões por dia. Ora veja vossemecê como o +diabo as tece! Ha males que vem por bem! Quem me dera a mim encontrar um +fidalgo que me atropellasse com a condição de me dar, já não digo quinze +porém cinco tostões por dia. Ha dois annos que estou n'esta maldita +casa, e o miseravel do patrão ainda me não augmentou o ordenado. Aqui +estou ganhando dois mil reis por mez, que como o outro que diz, não me +chega nem para beber uma pinga aos domingos. Agora por isso, ajuntou +elle, mudando de tom, creio que já despejou todo o vinho. Quer que torne +a encher?... + +--Encha, respondeu Mascatudo, occultando a custa um sorriso. + +--E ainda ahi não fica, como ia dizendo. Em tal graça caiu a sua familia +para com os fidalgos, que é raro o dia, em que as meninas não vém no seu +proprio trem buscar a filha de Jeronymo. + +--E ella porta-se bem? + +--Diziam que sim, porém agora, já ha quem lhe rosne no credito. Ora +aqui para nós tem razão! Uma rapariga tão bonita como a Martha, e pobre +como é, andar no luxo em que anda! + +--Mas talvez que esse luxo lhe tenha sido dado pelas filhas do tal +fidalgo, respondeu Mascatudo, sentindo um grande estremecimento no +coração. + +--Tambem isso é verdade; póde muito bem ser, e n'esse caso então, não +lhe deviam cortar na pelle. + +--E quem é que lhe corta na pelle? + +--Olhe, alli vem uma das visinhas que não lhe faz lá muito boas +ausencias: a tia Monica. + +N'esse momento, a beata, de quem o leitor deve estar lembrado, involta +na sua mantilha de merino preto, entrou na tenda. + +--Deus seja n'esta casa, disse ella, olhando ao mesmo tempo para +Mascatudo. + +--Amen, respondeu este, cravando os olhos no rosto cadaverico da +intrusa. + +--Então como vae isso hoje lá por baixo a respeito da febre, perguntou o +caixeiro, que já sabia que era a hora em que ella vinha da baixa. + +--A colera de Deus continua a castigar os peccadores, respondeu a misera +abaixando ao mesmo tempo a cabeça. Hontem, continuou ella, disseram-me +que houve uma mortandade espantosa. E estes herejes do sitio sem fazerem +uma procissão como tantas vezes lhes tenho pedido! + +--Porque não mette n'isso o mestre Jeronymo? perguntou o caixeiro á tia +Monica, piscando ao mesmo tempo o olho para Mascatudo. + +--Cruzes! Credo! Virgem da Soledade! Pedir uma coisa d'essas a +similhante creatura! De que Deus me livrasse, sr. André! + +--Pelo que vejo, não é muito amiga do nosso visinho! + +--E como queria o senhor que uma mulher como eu fosse amiga de +similhante homem? + +--Pois olhe, basta o que elle fez pela tia Marianna, para mostrar que +tem bom coração. Lá o que é verdade, deve-se dizer sempre! Ha de haver +mez e meio, proseguiu o caixeiro voltando-se para Mascatudo, foi aqui +atacada uma mulher pela febre amarella, e ninguem se atreveu a entrar em +sua casa; a unica pessoa que o fez, foi Martha, a filha de Jeronymo. Com +tanto amor a tractaram, que hoje está viva e sã. + +Mascatudo sorriu d'alegria ao ouvir a boa acção de Martha. + +--E porque fez elle isso tudo? resmungou a beata. Sô para que depois se +dissesse pela visinhança que eram uns santinhos. Que santinhos de pau +carunchoso! + +--Seja lá pelo que fôr, o grande caso é que salvaram aquella embarcação +que ia dar á costa, acudiu Mascatudo. + +--Pelo que vejo respondeu Monica contemplando o marinheiro, vossemecê +anda sobre as aguas do mar? Que o Senhor dos Navegantes, a quem mesmo +agora acabo de rezar duas estações, o livre de todos os perigos, meu +filho; e possa tambem a Senhora da Bonança andar sempre em sua +companhia. Padre nosso que estaes nos céos... continuou ella. + +--Então o que se diz por ahi de Jeronymo, tia Monica, perguntou +Mascatudo, começando a tratal-a com certa confiança. + +--Ora! O que se ha de dizer! O que se diz sempre d'um homem que +consente que sua filha esteja fóra de casa, e que venha a altas horas da +noite, muitas vezes acompanhada por um individuo, que vem sósinho com +ella dentro d'um trem. Quem elle é ainda eu não pude descobrir, mas, +agora que felizmente já consegui encaixar-me no hospital e fazer +conhecimento com as meninas... vou descobrir quem é o melro. + +Mascatudo sentiu um estremecimento por todo o corpo. Elle que a julgava +pura como um anjo, começava a duvidar da sua virtude. E não tinha mais +remedio senão contar tudo que ouvira. + +--Agora que já tenho lá entrada como lhe ia dizendo, é que hei de saber +qual dos amigos do fidalgo, é o que está acostumado a acompanhal-a. E a +boa da tia Marianna, sempre por toda a parte a dizer d'ella mil +maravilhas, e eu a saber como os meus dedos, a peça que é a creancinha! +Dizem-me que anda sempre muito triste. Deus sabe como ella andará! Que +Deus me perdoe de fazer maus juizos!... exclamou a beata curvando a +cabeça. + +Outro que não fosse Mascatudo, teria regeitado as opiniões da execravel +beata, porém ferido por aquella primeira impressão, o caracter fogoso e +ao mesmo tempo selvagem do marinheiro, levou-o a acreditar em tudo +quanto lhe haviam dito! Sem descer a mais indagações, e abandonando ao +caixeiro a segunda meia canada que mandara encher, Mascatudo pagou o que +devia, e sem quasi se despedir nem d'um nem d'outro, saiu apressadamente +da loja. Seguindo pela rua da Lapa, desceu a rua de S. Domingos, e +entrando nas Janellas Verdes, alcançou a rocha do Conde de Obidos, aonde +embarcou para bordo da galera. + +Manuel de Mendonça, passeiando á prôa, aguardava com impaciencia o +resultado da commissão do marinheiro. + +Os olhos de Mascatudo arrazados de lagrimas, seguiam os movimentos do +seu commandante. O pobre homem receiava os instantes que o approximavam +de Manuel de Mendonça, afim de lhe participar o que se havia passado. + +O escaler abordou finalmente á galera e Mascatudo subiu a escada. + +--Que soubeste? perguntou Manuel conduzindo-o á sua camara. + +Revestindo-se de valor Mascatudo contou-lhe quanto tinha ouvido. + +Manuel de Mendonça sorriu-se brandamente, e olhando para aquelles +horisontes, toldados então por uma neblina espessa, fitou a vista no +oceano, como que dizendo-lhe que o esperasse. + +N'essa mesma noite adoeceu com uma febre gravissima, de que lhe resultou +estar quinze dias de cama. + +Foi durante esse tempo, emquanto ao infeliz, entre as visões da febre, +se lhe desenhava a imagem da supposta peccadora, que Magdalena na +varanda do hospital, assestava de vez em quando o telescopio para +descobrir o rasto do commandante da galera. + + + + +XXVI + + +--Terá a bondade de dizer á sr.ª D. Magdalena que está aqui a sua +pobresinha, dizia a tia Monica voltando-se para o guarda-portão do +hospital. + +--A sr.ª D. Magdalena não póde agora recebel-a; acha-se á cabeceira de +um doente que está por pouco... respondeu-lhe o guarda-portão. + +--Pois sim, pois sim, vá sempre dizer-lhe que é a tia Monica, a quem deu +ordem para que viesse aqui hoje sem falta. Ande, avie-se; verá se me +fala ou não. + +--Já lhe disse a vossemecê o que tinha a dizer-lhe. Escusa de me +importunar mais. + +--Deixa estar que eu te direi, dizia a velha comsigo. Alcance eu o que +desejo, e verás como te ponho no andar da rua, só pelo mal que me estás +tratando. Estejas tu meu traste mais oito dias sem cá vir, e eu te +direi, como te ponho tambem no meio da rua, minha Martasinha. + +--Então vossemecê, vae ou não vae! ajuntou a tia Monica em voz alta, +voltando-se de novo para o porteiro. + +--E ella a dar-lhe, e a burra a fugir, disse o guarda-portão, +voltando-lhe a cara para a banda, e continuando a varrer o patim. Se +vossemecê continua a atormentar-me subo lá acima e digo ao mestre +Jeronymo que lhe pegue por um braço e que a ponha fóra da porta. Forte +impertinente! cruzes, canhoto! + +--Ora sempre haviamos de ver isso, se o tal mestre Jeronymo seria capaz +de pôr no meio da rua uma pessoa mandada aqui vir por uma das filhas do +dono da casa! Faça isso, sr. Antonio, até desejo que o faça. Ande, +então... + +N'este momento, uma enfermeira que vinha de jantar, entrou +apressadamente no hospital. + +--Tem a bondade de dizer á sr.ª D. Magdalena que está aqui a tia Monica, +e que lhe vem trazer a resposta d'aquelle recado que lhe encarregou, +disse a beata, perseguindo a mulher. + +--Farei entregue, respondeu a enfermeira, subindo apressadamente a +escadaria. + +--Vossemecê não tem vergonha de estar assim com essa teima? + +--Pois veremos quem vence--se sou eu ou se é vossemecê; e sentando-se +tranquillamente sobre um dos bancos da entrada, a tia Monica começou a +olhar para o enraivecido porteiro, com um modo insolente e provocador. + +Cinco minutos depois, desceu a mesma enfermeira, dizendo lhe da parte da +sr.ª D. Magdalena que fosse ter com ella ao terceiro andar. + +A velha, radiante de gloria e de regosijo, fixou o porteiro do alto da +sua magestade, e despedindo-lhe um olhar de compaixão, subiu afoita as +escadas, promettendo a si mesma vingar-se do pobre homem, logo que o +ensejo lhe fosse favoravel. + +A principio, o porteiro rugiu de colera, porêm, vendo a inutilidade do +seu mau genio, conformou-se com a sorte, e empunhando de novo a vassoura +continuou na sua constante operação. + +Magdalena, ao ouvir as palavras da enfermeira, encarregou a sua irmã o +moribundo, e subiu logo ao terceiro andar, aonde mandaram conduzir a +velha. + +Quando ella entrou, Magdalena, encostada á varanda, contemplava o Tejo, +no Tejo a galera, na galera Manuel de Mendonça, e n'esse a vida que para +ella lhe fugia! + +--Bons dias, santinha! disse ella approximando-se da tia Monica. + +--Muitos bons dias, meu anjinho, replicou a asquerosa beata tentando +beijar a mão que Magdalena lhe extendia. Já lhe disse que não quero ver +esse rosto tão pallido, minha rosa desbotada. Anime-se, ande, ria-se +para mim. + +--Soube alguma cousa? perguntou Magdalena. + +--Alguma coisa se soube. Ainda não é tudo quanto desejamos; mas de cá se +vae a lá, como dizem os hespanhoes. Um amigo d'um sobrinho meu, que está +na armada, foi a quem encarreguei. Hoje, seriam oito horas da manhã, +quando eu vinha de ouvír as minhas missas, e de pedir a Deus pela minha +querida menina, senti baterem-me á porta, abri, e era o Manuel, o tal +rapazola. «Que temos?» perguntei-lhe eu. «Que havemos de ter? Já soube +onde pára o tal individuo, e quem elle é» respondeu Manuel. + +--E quem é elle? perguntou avidamente a filha de Tristão de Almeida. + +--É o commandante da galera Esperança. Tem estado muito doente. Ha mais +de quinze dias que não sae de bordo! + +--Meu Deus! disse Magdalena, eis o motivo porque nunca mais o pôde ver! + +--Quanto ao resto, accrescentou a beata, posso-lhe dizer quasi com toda +a certeza, que alli anda cousa, e anda por isto:--Ha tempos estando eu +na tenda do Melro, entrou um homem de tracto do mar e começou a +perguntar informações de Martha. Esse individuo não tinha sido senão +alguem mandado por elle, para saber se se portava bem ou mal. + +--E o que lhe respondeu, tia Monica? + +--Que queria a menina que lhe respondesse! Póde-se julgar mal d'uma +pessoa que anda na companhia de dois anjos, como as minhas duas meninas? +Embora eu soubesse quem esta familia é, a minha bocca nunca se me teria +aberto para dizer similhante coisa! + +--Parece-lhe portanto que as minhas suspeitas eram bem fundadas? + +--Se me parece! E faça se bem! As meninas a protegerem aquelle traste, e +ella pagando-lhes assim! + +--Isso não, tia Monica! Pobre rapariga, que culpa tem ella do que se +passa no meu coração? O mal que me está causando é involuntario, e tão +involuntario que ella propria o desconhece; e demais, se ha alguem +culpado em tudo isto, sou eu, eu apenas. + +--E pensa a menina, que um rapaz como esse tal sr. Manuel de Mendonça, +possa descer a olhar para uma mechanica? uma reles filha d'um operario, +tendo a palpitar pela sua pessoa, um coração nobre e generoso como o da +minha rica menina? Para que havia Manuel de Mendonça querer a filha d'um +operario: só se fosse para ser sua criada. + +--Pois olhe, tia Monica, veja como eu sou, se tivesse a certeza de que +Martha era de ha muito amada por Manuel de Mendonça, creia que embora eu +morresse de paixão, seria capaz de me sacrificar, a ponto de ser eu a +propria madrinha do seu casamento. Hontem estava pensando n'isso. Mas o +que eu queria, era ter uma certeza. Se o que tem conservado Martha +n'aquelle estado, é uma paixão, serei eu a propria, embora d'isso me +resulte a morte, a fazer todas as diligencias de os reunir. Se elle fôr +nobre, pedirei a meu pae, que tire de meu dote alguns contos de réis, +para collocar aquella pobre criança n'uma posição que lhe não envergonhe +os seus pergaminhos. Porém se esse amor que eu supponho existir no +coração de Martha, não fôr mais do que uma desconfiança, então Monica, +se lhe não fôr indifferente, rico ou desventurado, nobre ou plebeu, +Manuel de Mendonça será o meu esposo, porque o amo muito, muito, tia +Monica! + +E a pobre Magdalena, tremula e offegante, debalde tentava occultar as +lagrimas que a suffocavam! + +Era muito de ver-se o contraste d'estas duas creaturas! Magdalena, o +amor, a generosidade, a pureza de affectos! Monica, a mentira, a +ambição, a crapula emfim de todos os sentimentos! + +Alma candida e inexperiente, não avaliava sequer a immensa distancia que +as separava. A pomba approximava-se d'aquelle asqueroso reptil, sem +comprehender com quantas voltas lhe poderia enrolar o seu pescoço de +neve! + +Ao escutar aquellas palavras que tão claramente denunciavam a +ingenuidade da sua alma, a tia Monica julgou perder a partida. Além dos +lucros que esperava obter servindo de intermediaria n'aquelles amores, +havia um outro sentimento que a dominava, mais forte talvez que o +primeiro: o desejo de se vingar da familia de Jeronymo! Desejo +infundado, sem motivo algum, explicado apenas por aquella profunda +inveja que os bons mais ou menos inspiram aos que o não são nem o +desejam ser! + +Envenenando-lhe o seio com o ervado punhal do ciume, a tia Monica +poderia fazer com que retirassem a sua protecção ao mestre de obras. +Poderia fazer com que Magdalena, odiando a pobre Martha, lhe roubasse a +pessoa a quem ella amava, ficando apenas reduzida á miseria e ao +descredito que por toda a parte lhe proclamava. + +Eram estas as suas idéas, idéas que principiavam a desvanecer se, á +proporção que ia lendo na alma de Magdalena toda a grandeza d'aquelle +coração, immenso como a agonia que o dilacerava! + +--Veja, continuava Magdalena, se por esse individuo, me póde saber, +custe o que custar, se Manuel de Mendonça escreve a Martha, se a vê, ou +se por ultimo se encontram. + +--E se por ventura se amarem? perguntou rapidamente a beata. + +--Abençoal-os-hei! respondeu Magdalena como se ao pronunciar estas +palavras se lhe rasgasse o coração. + +--E se não se amam! insistiu a velha. + +--Será meu, disse Magdalena com uma voz debil e melancholica. Tirando +depois algumas moedas de prata de dentro de um _porte-monnaie_, +entregou-as á tia Monica. + +--Se elles não se amassem! pensava Magdalena ao despedir-se da velha. + +--Se Deus me ajudasse! repetia a tia Monica sahindo do gabinete. + + + + +XXVII + + +Ao cabo de quinze dias, graças á sua robusta compleição, Manuel de +Mendonça pôde subir ao convez, esperando, dizia elle, conseguir com a +brisa do mar completo restabelecimento. + +Mas não era esse apenas o motivo que alli o conduzia. Mascatudo +havia-lhe dito na vespera, que da galera se via perfeitamente o edificio +do hospital, e quasi todos os dias, depois da uma hora da tarde se +divisava um vulto na varanda, assestando o oculo na direcção do barco. + +Achando se completamente restabelecido, Manuel de Mendonça pegou no seu +magnifico telescopio e dirigiu-se á prôa do navio afim de descobrir quem +tão assiduamente o espreitava. + +Ao vêr o edificio que Mascatudo lhe designára, já o seu olhar de lynce +havia descoberto que alguem o estava observando. + +Manuel de Mendonça levantou o seu oculo, e descobriu o rosto pallido e +insinuante de Magdalena. + +Não era esse o semblante que elle cuidava encontrar; comtudo, continuou +por alguns segundos esperando ainda descobrir a imagem que durante a sua +terrivel enfermidade o havia perseguido. Mas tal não succedeu. Magdalena +continuando a olhar, parecia não perder um segundo da sua persistente +observação. + +Desalentado, metteu o oculo debaixo do braço, e caminhou serenamente +para a ré. + +Então um milhão de reminiscencias lhe acudiu á memoria. Lembrou-se +d'aquelle dia em que Magdalena o contemplára tão demoradamente, quando +fôra visitar Jeronymo. + +«Quem sabe, pensou elle, se esta mulher me ama, e se lançou mão d'alguma +intriga para desconceituar a meus olhos a filha do operario? Se tal +fosse! Veremos o que pensa Mascatudo. Não façamos juizos temerarios. Que +importa que eu vá visitar seu pae? Não lh'o prometti eu?» + +Erguendo o seu telescopio, Manuel assestou-o pela segunda vez na +direcção do hospital, onde Magdalena se conservava ainda no seu posto de +observação. O maritimo, voltando as costas desceu á camara onde +Mascatudo o aguardava. + +Quem n'esse momento tivesse entrado no hospital da rua de S. Francisco +de Paula, e houvesse subido aquelle terceiro andar, onde Magdalena se +achava, teria ouvido o som da queda de um corpo e uma voz entrecortada +pelos soluços, soltando estas palavras: + +--Amam-se, não ha duvida! + +--Maldito caldo de gallinha, puff, está a escaldar! dizia uma outra +voz. Era a de Olympia. + + + + +XXVIII + + +Graças aos rasgos de valor e profunda dedicação que o dono do hospital +da rua de S. Francisco de Paula espalhava a cada a hora sobre a cidade +de Lisboa, o seu nome tornou-se popular. + +Todos á uma desejavam encontrar esse homem, que, arriscando +constantemente não só a sua preciosa existencia, como tambem a de sua +mulher e duas filhas, se chegava hoje ao leito do moribundo com palavras +consoladoras, ámanhã amortalhava o cadaver de outro por cuja existencia +batalhára até a ultima. Era de justiça, mais do que justiça, +indispensavel até conceder-se-lhe a mercê em que sua magestade dias +antes havia falado com o ministro do reino, segundo este havia dito ao +visconde de Coruche. + +Uma manhã em que o visconde, fazendo a sua demorada _toilette_, se +preparava para ir ao hospital, foi procural-o o conselheiro Poderosa. + +--Sua magestade encarregou-me hontem de te procurar, fiado na amisade +que existe entre ti e o Tristão da Almeida. + +--Estou ás ordens de sua magestade, respondeu o visconde. + +--El-rei deseja agraciar Tristão de Almeida com o titulo de conde, e +mandou-me que te viesse procurar com o fim de lhe perguntares qual o +nome que deseja juntar ao titulo. + +--Quanto agradeço a honra que el-rei me dispensa, fazendo-me +intermediario para um acto de tanta justiça! Tencionava hoje passar o +dia em casa, mas, em virtude das ordens de el-rei, corro immediatamente +a casa do meu amigo, afim de lh'o participar, e juntamente pedir-lhe que +me diga o nome que deseja juntar a esse titulo. + +--Nunca se fez um acto de maior justiça, disse o conselheiro. + +--Escuso de te repetir que sou da mesma opinião. + +--Realmente, tem-se portado como um heroe. + +--E suas filhas?! e sua mulher! parece impossivel como tenham escapado a +tantos perigos, acudiu o visconde. + +--É um verdadeiro milagre da Providencia. Mas, aqui para nós, visconde, +quem será esse Tristão de Almeida? + +--Ora essa! Tristão de Almeida, segundo elle o diz, e eu o creio, +descende d'uma das principaes familias de Monforte. Seu pae, homem d'um +caracter excentrico e ao mesmo tempo muito gastador, quando se encontrou +completamente arruinado, mandou este rapaz e um outro irmão para +Val-Paraiso, para casa d'um primo que alli estava estabelecido com uma +riqueza enorme. Vasco, seu irmão mais velho, ficou empregado na casa +gerindo os negocios de seu primo, de quem era o unico herdeiro, emquanto +que Tristão dotado de um genio mais energico e emprehendedor, seguiu uma +vida aventureira. Ao cabo de cinco annos, isto peço-te que não contes a +pessoa alguma, que foi dito confidencialmente por Tristão, ao cabo de +cinco annos repito, já elle tinha feito cinco viagens a salvo, +introduzindo na Havana uma grande porção de Chins. Feliz em todos os +negocios que emprehendia, Tristão d'alli a dez annos estava +archi-millionario. Achando-se uma occasião em Buenos Ayres viu n'um +jornal que havia fallecido o seu parente, tendo deixado por unicos +herdeiros a elle e a seu irmão. + +--E seu pae? interrompeu o conselheiro. + +--Já tinha morrido a esse tempo. + +--Dias depois partiu para Val-Paraiso. A riqueza que seu primo deixara +estava calculada em quatro mil contos. Ao cabo de um mez teve a desgraça +de perder o irmão. + +--Que fatalidade! murmurou o conselheiro. + +--É verdade! vê tu que fatalidade! Tristão, continuou o visconde, +reduziu toda a fortuna a dinheiro e partiu para a Europa, onde annos +depois se casou com D. Maria Egypciaca, senhora do Minho, com quem +fizera conhecimento uma das vezes que viera a Portugal. + +--É um romance a vida d'esse homem. + +--Tem coisas admiraveis! disse o visconde. + +--Com que então, acudio o conselheiro, a sua fortuna póde calcular-se +em... + +--Cinco ou seis mil contos. + +--Já se póde passar com isso! + +--Agora, disse o visconde, é um homem d'uma generosidade incalculavel! +Se tem cahido nas mãos dalguns individuos que nós conhecemos... + +--Haveriam tirado um grande partido da sua bolsa, emquanto que tu... + +--Como graças a Deus não preciso recorrer a ella; mas, se o fizesse, +tenho toda a certeza que sempre a encontraria disposta a abrir-se-me. + +--Eu tambem não digo que tenhas precisão, mas um homem d'esses, pode-se +aproveitar para qualquer empreza, grande já se vê, e de que outros +tirassem bom partido, tirando o elle tambem. + +--Ainda não pensei n'isso. + +--E as filhas são bonitas? + +--Uma d'ellas, Magdalena, é um anjo de bondade e formosura. + +--E a outra? + +--Olympia? Também não é feia, mas é muito gorda. Essa representa o +estomago, e a sua irmã o coração. Magdalena ama, suspira e desfaz-se em +sentimento. Olympia come, dorme, e emquanto dorme sonha no que ha de +comer ao despertar. Afóra isso, é uma creatura esplendida. + +--Eis a mulher que me convinha, disse o conselheiro. Confesso-te que já +não tenho outra distracção senão a meza. Seria capaz de me casar não +pelo coração mas sim pelo estomago! Que verdadeiro achado seria para mim +essa Olympia! Uma mulher com bom paladar, que deve infallivelmente saber +fazer muito bons doces. Que dorme muito e que come muito! + +--Mas tu d'antes não eras assim! disse o visconde accendendo um charuto. +O teu typo era a mulher magra, vaporosa, sentimental. Gostavas das +olheiras, das rosetas da febre, e sobretudo da pontinha de tosse, como +regularmente se diz. + +--Isso foi antigamente, meu amigo, quando eu tinha vinte annos, e +conservava intacta a riqueza que herdei de meus paes. Porém agora, não; +prefiro a mulher sadia, forte, que possa ser uma boa ama de leite para +me crear os garotos, se porventura Deus me quizer conceder os deleites +da paternidade. + +--Como tu estás mudado, João! + +--Que queres? são as circumstancias que me fazem assim pensar. + +--Pois meu amigo, habilíta-te e terás em Olympia a mulher que te convém. +Junta a todas essas qualidades, um dote de trezentos a quatrocentos +contos de réis. Que tal, hein? Agora só te peço uma coisa: se á força da +tua vontade, ajudada pelos meus esforços, conseguires realizar este +sonho... + +--Dirás. + +--Has de fazer um novo fardamento ao teu guarda-portão. + +--Approvo e desde já t'o prometto! Se Olympia fôr minha, o meu +guarda-portão terá outro fardamento. Mas agora serio, ajuntou o +conselheiro, eu ainda não estou feio de todo, falam por ahi do meu +talento, sou filho de gente fina, que mulher se poderá esquivar a +conceder-me a sua mão, muito mais, estando eu nas disposições em que me +encontro, que é viver pura e simplesmente para comer e dormir e depois +accordar para tornar a comer, sem que minha mulher nem os criados de +casa me ouçam levantar a voz, a não ser que os pequenos me venham +interromper o somno, amotinando me os ouvidos com algum tambor de feira? + +--Estou d'accordo comtigo, e tanto, que se me falas serio, mas bem +serio, entendes, farei com que Olympia te encontre alguma vez, e se te +guiares pelos meus conselhos, vencerás a batalha. Se por ventura a fôres +visitar ao hotel e falares com a tua futura, não te approximes da +janella, erguendo olhares inspirados para o Tejo; não, longe d'isso, faz +um gesto de profunda meditação, engatilhando ao mesmo tempo o ouvido em +direcção ao corredor e aspirando o aroma das iguarias que se espalha na +atmosphera. Não fales nem de flores nem de estrellas, discute-lhe as +empadas do José Romão, e os pasteis de nata da rua da Rosa. Não lhe +fales de Dumas nem de Eugenio Sue, conta-lhe a biographia de Vatel, +promette-lhe a phisiologia de paladar de Brillat Savarin, e conta lhe +isto, com os olhos radiantes de enthusiasmo, e as faces incendiadas pelo +quinto peccado. Se assim fizeres, Olympia terá um conselheiro e o teu +guarda-portão um fardamento novo! + +--Convem-me, respondeu o conselheiro, e tu, ajuntou elle, porque não +aproveitas a poetica Magdalena? O teu espirito ainda ás vezes infantil e +sonhador, casar-se-ia admiravelmente com a sua organização. Então é que +era, visconde: nós os amigos de tantos annos, casados com duas irmãs, +que representavam já oitocentos contos e que representariam seis mil +para o futuro! + +--Se o quizesse fazer, não tinha senão dar o meu sim. Se tu soubesses o +que tem ido por essa casa a meu respeito! Magdalena ama-me desde o +primeiro dia que me viu. Orgulhosa de mais nunca se atreveu a declarar +me o seu amor, mas de sobejo se lhe lê no olhar com que me contempla, na +voz que lhe estremece quando por ventura me dirige a palavra, no gesto +cuja melancolia me chega ás vezes a causar remorso. Eu tenho sempre +feito que nada comprehendo, porém seu pae não o ignora nem a mãe. Falta +só dizerem-me em voz clara, o sentimento que a minha presença inspirou á +filha. + +--Pois acho que fazes uma grande asneira, disse o conselheiro. + +--Eu ás vezes também assim penso, mesmo porque talvez venha no futuro a +sentir remorsos de ter concorrido para a morte d'aquella creança. Se tu +soubesses quanto soffre. Aquelle ardente desespero com que Magdalena se +lança a todos os perigos, penso eu ás vezes ser mais vontade que tem de +morrer para não affrontar a minha indifferença, do que realmente +caridade. + +--Mas porque motivo não lhe retribues tu com muito amor, o affecto que +essa creança te consagra? + +--Porque a não amo, João. E como, graças a Deus, não estou na posição de +me casar por necessidade, não quero sacrificar os longos annos que ainda +me restam de vida, passando os ao lado de uma mulher, que nada tem a +desejar, mas pela qual o meu coração não palpita de amor. O motivo é +este, apenas este. + +--Tens-me falado com seriedade em tudo isto? acudiu o conselheiro depois +de alguns instantes de profunda reflexão. + +--Dou-te a minha palavra de honra que tenho. + +O visconde não mentia. Fiado ainda na sua belleza proverbial, e afeito a +que todas as mulheres o estremecessem, pensou que esse sentimento que a +pobre Magdalena nutria em silencio por Manuel de Mendonça, era o +resultado de uma paixão que elle lhe havia inspirado. + +Orgulhoso do seu nome, o visconde, apezar da inquestionavel vantagem que +lhe poderia resultar d'esse enlace, não queria, diremos, baixar da sua +dignidade entregando-se n'uma facil conquista, a essa mulher cujo +coração o estremecia, a quem elle nunca poderia ter sido indifferente, +attendendo á sua formosura e altas virtudes que a distinguiam. + +Viu n'um relancear de olhos o proveito que poderia tirar, arranjando o +casamento do conselheiro com a irmã de Magdalena. Por essa fórma viveria +mais em familia, e se um dia, exasperada de amor e incendiada de paixão, +Magdalena se lançasse em seus braços, pedindo-o em casamento, elle então +do alto do seu throno de vaidade, extenderia a mão para lhe dar um sim +de protecção. Eram estas as suas idéas, as que elle estreitamente +guardava no fundo da sua alma. + +Por isso não mentia, quando respondeu ao conselheiro que lhe estava +falando a serio. + +--Pois então, disse João Poderosa, visto não me teres illudido, digo-te +tambem, e muito de coração t'o peço, que me auxilies n'esta tentativa, +cuja realização póde fazer a tua e a minha felicidade. Pensa nos meios +que temos a empregar; dirige-me em tudo se te apraz; serei um automato +se m'o exigires, mas colloca-me ao contacto d'essa mulher. Agora, +accrescentou elle, como se um mundo novo se desenrolasse a seus olhos, +vou contar a el-rei o que se passou comtigo, e logo, sendo sete horas, +antes de ir para o theatro, aqui te venho buscar. Ficamos certos? + +--Pois não, respondeu o visconde, e á fé de quem sou te prometto, que em +menos de um mez, Olympia será tua mulher. + +Despedindo-se do visconde, o conselheiro seguiu para o paço. + + * * * * * + + * * * * * + +«Vae tudo ás mil maravilhas, pensava elle. Com esta missiva official +farei de Tristão quanto me aprouver! Tenho até a certeza que obteria a +mão de Magdalena. E porque não hei de requisital-a? Requisital-a não, +que ella m'a requisite. Se eu me curvava á filha de um Tristão de +Almeida! Parece-me mais razoavel, accrescentou o visconde depois de +alguns momentos de graves locubrações, fazer com que o Poderosa consiga +a mão de Olympia; feito isso serei eu a entrar em scena. Por agora não, +tratemos apenas do titulo. Quem tudo quer tudo perde!» + +Vestindo-se em seguida, montou n'um magnifico cavallo inglez, e partiu +a trote largo, dirigindo se para o hospital. + +Proximo á calçada do marquez de Abrantes, viu que um homem o chamava de +dentro de um trem. Estacando de repente o cavallo, approximou-se do +postigo da sege. + +Era Gil de Carvalho. + +--Encontrei-o emfim, disse o jogador. Então onde se póde ver o seu amigo +Tristão de Almeida? + +--Aonde se póde ver? por ahi, respondeu o visconde. + +--Não é isso o que eu queria dizer; perguntava aonde elle joga para lhe +pagar as cem libras que sabe. + +--Ah! o meu amigo Tristão de Almeida? esse já não joga, respondeu o +visconde, mas se lhe quer pagar as cem libras, entregue-m'as, que eu +lh'as darei. + +--Peior é essa! exclamou Gil de Carvalho, suspendendo o movimento que +fizera para tirar as notas da algibeira. + +--Então não quer que lh'as entregue? repetiu o visconde, que começava a +desconfiar da velhacaria do jogador. + +--Suppuz que vinha prevenido, mas enganei-me, respondeu Gil de Carvalho. +Ámanhã passarei por sua casa. + +--Pois então adeus, meu amigo, disse o visconde, batendo as pernas ao +cavallo. + +Deixemos o visconde e Tristão de Almeida no jardim do hospital +discutindo ácerca do nome que tencionam escolher para o titulo, e +subindo pela rua do Conde, vamos a casa da pobre Martha, de quem não +sabemos desde aquelle dia em que se prostrou sem sentidos ao ouvir a +historia do mestre de obras. + + + + +XXIX + + +Magdalena, ao ver a cruel realidade das suas suspeitas, resolveu esmagar +nos seios d'alma aquelle affecto que lhe era vida, e dirigindo-se a casa +de Martha, exigir da sua amizade a revelação de todos os segredos. + +Havia dias que a pobre criança, cada vez mais enfraquecida, parecia +levantar os olhos a Deus, como pedindo-lhe pela sua infinita +misericordia que a recolhesse na paz divina de seus braços. + +Balbina e Jeronymo, sem se retirarem um só momento do lado de sua filha, +erguiam de vez em quando os seus olhos supplices e inquietos para a +Virgem da Conceição. + +Martha não falava, afóra algumas palavras á tia Marianna, com quem abria +inteira a sua alma. + +Bem sabia Martha, que n'aquelle peito podia sem receio depositar todos +os seus arcanos! A pobre velha havia-lhe jurado nunca revelar a pessoa +alguma as confidencias que lhe depositasse no cofre do seu coração! + + * * * * * + + * * * * * + +São duas horas da tarde. Martha na vespera havia peiorado! A febre, +augmentando-lhe consideravelmente, dera graves receios ao doutor +Hermenegildo, distincto facultativo do hospital do magnate. + +Ouve-se o rodar de um trem, que pára á porta do operario, e, de dentro +d'elle, envolta n'uma comprida capa de velludo preto, apeia-se uma +mulher. É a filha de Tristão, Magdalena. Escusado seria dizel-o, que +n'essa hora, Olympia, á mesa do _lunch_, saboreia em doce encantamento +as altas locubrações d'um intelligente cozinheiro. + +Contra o seu habito, Magdalena vem completamente só. O olhár e a +pallidez do rosto, denunciam-lhe um soffrimento profundo. No pisado das +palpebras, adivinha-se-lhe o rasto produzido pelas lagrimas. A sua voz, +ordinariamente firme e sonora, perturba-se á mais pequena palavra, como +receiando que as lagrimas lh'a interrompam! O descuidado da _toilette_, +o desalinho dos cabellos, tudo emfim lhe descobre a tempestade em que se +agita o seu coração! + +Não era Magdalena, era apenas a sua sombra! + +Bate á porta de Jeronymo, e Balbina vem abrir. + +Ao vel-a n'esse estado, a mulher do operario não pode occultar o seu +assombro. + +Jeronymo secunda sua esposa na admiração. + +--Mas que é isto! Valha-me Deus, minha querida menina, disse a mulher de +Jeronymo voltando-se para Magdalena. + +--Preciso falar-lhe em particular, e depois, com sua filha. O que me +traz aqui, é grave e muito grave sr.ª Balbina. + +Esta, fazendo toda a diligencia para que Martha se não apercebesse da +presença de Magdalena, leva a para uma pequena alcova que deita para o +quintal de Jeronymo, outr'ora tão cuidadosamente tratado, e triste ha +uns tempos a esta parte, como o coração do seu cultivador. + +--Estamos sós? perguntou Magdalena para Balbina. + +--Tão sós que ninguem nos póde ouvir, respondeu Balbina sem comprehender +o que se passava em torno de si. + +--Em primeiro logar, como está a pobre Martha? + +--Mal! bastante mal, minha boa menina, e tanto que, hoje o medico... + +--O quê? + +--Disse-me que me não illudisse, ajuntou Balbina agarrando se á amiga de +sua filha. + +--Pobre anjo! exclamou Magdalena apertando-lhe fortemente as mãos. E o +que diz elle a respeito da sua doença? + +--Que é toda moral, e portanto mais difficil de se lhe encontrar o +curativo. + +--E a que attribue a senhora isso? perguntou Magdalena fitando a mulher +do operario. + +--Eu sei! respondeu esta, tornando a resumir-se ao silencio. + +--Seja sincera commigo, sr.ª Balbina, e lembre-se que ninguem n'este +mundo será capaz de ser mais amiga de sua filha do que eu sou. + +--Creio o bem, minha senhora. + +--Pois então porque não abre commigo a sua alma? Diga me não deposita em +mim bastante confiança no meu caracter? Olhe, continuou Magdalena, +descobrindo inteiramente o rosto. Diga-me se n'estas feições adivinha a +menor sombra de hypocrisia? + +--Por Deus, minha senhora! acudiu rapidamente a mulher de Jeronymo. + +--Pois então, Balbina, se acredita na lealdade de minha alma, seja +sincera commigo, e fale-me como se eu fosse uma outra sua filha. Não +imagina o prazer que me vae dar. Como eu serei feliz podendo desabafar +n'um coração de mãe, quanta dôr existe n'este meu pobre peito. + +--Já que tanto insiste, minha senhora, vou confiar-lhe um segredo, que +nunca me teria atrevido a revelar, se não fosse conhecer a nobreza da +sua alma! O que a minha filha tem, é uma paixão, paixão que a leva á +sepultura. + +--E esse homem que lh'a inspirou, é?... perguntou Magdalena, como se +ainda uma pequena esperança lhe restásse. + +--Esse homem é o commandante da galéra Esperança, o mesmo que descobriu +aonde estava meu marido, na noite do dia em que foi atropellado por seu +excellentissimo pae. + +--Manuel de Mendonça! exclamou Magdalena. + +--Elle mesmo! + +--E elle? + +--Nunca mais o tornou a ver. + +--E como soube tudo isso? perguntou Magdalena. + +Balbina então contou-lhe quanto se havia passado entre Jeronymo e a +filha, não lhe omittindo a circumstancia d'estas terriveis palavras: +«esse homem é amado pela filha do nosso protector.» Magdalena pensou +morrer. A nobreza d'alma d'aquelle anjo, deixando se descer á sepultura, +sem interromper o sentimento que dominava o coração de Magdalena, a sua +generosidade, abandonando-lhe por assim dizer aquelle homem que ella +amava, e de quem tinha a certeza de ser correspondida, tudo concorreu +para que no seu coração immenso tambem como o de Martha, se formassem +mil conjecturas tendentes todas á generosidade. + +«Morrerei, pensava ella, mas salvarei este anjo que tão nobremente se +me sacrificou. E que m'importa a vida? De que me serve este eterno +martyrio? Vivam! que vivam para serem muito felizes, e abençoarem a +minha memoria se eu concorrer como espero para a sua ventura!» + +--Bem, ajuntou Magdalena voltando-se para Balbina, vá ao quarto de +Martha, veja o estado do seu espirito e se ella estiver mais tranquilla, +quero-lhe falar. + +A pobre Balbina sem comprehender o choque que este encontro poderia +produzir na alma de sua filha, apressou-se em cumprir as ordens de +Magdalena. + +«Parece que sobre a nossa familia peza uma grande desgraça, continuou a +filha de Tristão de Almeida olhando para o pequeno horto. De que serve a +enorme riqueza de meu pae! A sua alegria, é sempre aquella eterna +mascara com que tenta encobrir as lagrimas que o devoram na eterna +solidão de sua alma. Minha mãe, afeita a illudir, tem chegado a +convencer-se que é muito feliz, não passando d'uma desgraçada! Eu, que +tenho passado uma existencia de tristeza, no momento em que pela +primeira vez na vida me poderia considerar venturosa, vem o destino, e +corta-me rapidamente o fio da minha felicidade. Olympia, graças ao seu +genio, é a unica fadada para a completa tranquillidade da alma! Vive e +come, pobre irmã, que seria o mesmo que dizer-te: vive e sê feliz! + +«Falarei com Martha, e hoje mesmo lançar-me-hei aos pés de meu pae, +pedindo-lhe que d'esse dote dos quatrocentos contos que tantas vezes me +tem promettido me conceda apenas cincoenta para dar a Martha, e depois +de os ver ambos casados, felizes, abençoando a minha mão que lhe +estreitou a sua ventura, eu então, ou buscarei a morte, ou fechar-me-hei +entre as grades d'um convento!» + +N'este comenos entrou Balbina. Martha havia accordado e esperava a +visita de Magdalena. + +Esta sem mais hesitar, entrou no quarto da criança, e, occultando a +custo as lagrimas que a suffocavam, lançou-se sobre o leito abraçando a +pobre amiga. + +--Ha dias que desejo falar-lhe sobre um assumpto muito importante, +porém, a sua eterna reserva para todas as pessoas que deveras a estimam, +tem sido a causa de me não ter atrevido, disse-lhe Magdalena. Quem mais +do que Martha possue corações verdadeiramente dedicados? accrescentou +ella. Não vê que está offendendo a Deus que a protege? Porque pensa em +morrer, minha amiga? Não vê que morrendo, mataria sua mãe, seu pae, e +que fará soffrer a todos que se interessam pela sua vida? Por que motivo +se tem occultado á sombra da sua agonia sem buscar um peito amigo com +quem desabafe os seus desgostos? Não tinha minha irmã? Não me tinha a +mim? á sua propria mãe? Quem melhor do que ella, podia ser a confidente +dos seus segredos? + +--Segredos! Eu? murmurou Martha. + +--Sim, Martha; segredos e muito importantes. Não queira negar-me o que +sei. + +--Não tenho coisa alguma a negar, minha boa menina, respondeu Martha, +como se já não tivesse forças para sustentar aquelle dialogo. + +Insciente do mal que as suas palavras poderiam influir no espirito de +Martha, Magdalena seguia apenas a que o seu coração lhe ordenava. + +--Nunca amou ninguem, Martha? Seja sincera commigo. Deposite as suas +magoas n'este coração que lhe quer tanto como se fosse sua propria irmã. + +Os olhos da creança inundaram-se de lagrimas. A mentira jámais havia +passado por seus labios! A infeliz não sabia que responder. + +--Responda, minha irmã. Até hoje homem algum lhe feriu esse coração? +Jura-m'o? + +Haveria ainda algum vestigio de esperança no coração de Magdalena ao +insistir n'aquellas perguntas? Sabia-o Deus e a sua alma! + +Martha sem responder agarrou-se ao pescoço de Magdalena e desatou n'uma +torrente de lagrimas. + +--Perdôe-me, disse ella emfim, mas eu não sabia que o amava. Foi o +primeiro homem que meus olhos viram. Havia tanta bondade, tanta nobreza +no seu caracter! A quantas pessoas perguntei por meu pae, todas me +responderam brutalmente que não sabiam quem elle era. Aterrada com a +minha desgraça, encontrei-me só, completamente só. Então, appareceu o +sr. Manuel de Mendonça; promptificou-se a procurar meu pae, e +encontrou-o. Desde esse dia, a sua imagem ficou-me impressa na memoria. +Quiz esquecêl-o, mas era-me completamente impossivel! Dias depois, vi-o. +O que eu sentia na minha alma, foi crescendo, crescendo gradualmente, +até que reconheci que o amava. Quando já era tarde foi então que +comprehendi toda a loucura do meu sentimento, avaliando ao mesmo tempo a +immensa distancia que nos separava. Um dia, descobri que esse homem era +amado por quem melhor do que eu o merecia. A dôr quebrava-me a alma, mas +a ninguem revelava a minha angustia! Desde então, minha boa amiga, +entendi que o melhor era esperar resignada o momento em que Deus me +chamasse á sua divina presença sem ter deixado no mundo um rastro de +ingratidão! Ame-o, sr.ª Magdalena! Amem-se, que são dignos um do outro, +e, se um dia se recordarem da pobre Martha, vão ambos, rezem-lhe uma +oração sobre a sua sepultura, e lembrem-se da que está no reino dos +tristes pedindo a Deus pela sua ventura e pela felicidade do sr. Manuel +de Mendonça! + +--E quem te disse a ti, filha, que esse homem era amado por mim? + +--O meu coração, respondeu Martha, inclinando a cabeça no travesseiro. + +--Illudiu-te, e o tempo t'o provará, respondeu-lhe Magdalena. Eu nunca o +amei! accrescentou ella, empregando n'estas ultimas palavras todo o +valor da sua alma. Eu só quero a tua felicidade, Martha. + +--A minha felicidade está no céu, respondeu a infeliz, levantando os +olhos para o tecto. + +--Enganas-te! exclamou Magdalena. A tua felicidade está nos braços +d'esse homem como a sua ventura deve estar n'um coração nobre e generoso +como o teu! Já a mim mesma o prometti, irei hoje preparar o teu bem +estar. Agora, filha, accrescentou Magdalena, que esses teus olhos se +enxuguem para sempre, e que as lagrimas desçam sobre os meus para jámais +os abandonar. E abraçando estreitamente a pobre creança, Magdalena sahiu +do quarto, e sem quasi se despedir de Balbina, deixou a casa do operario +e partiu para o hotel Bragança! + +[Ilustração: É de joelhos que lh'o imploro! (_pag. 213_)] + + + + +XXX + + +Ao chegar ao hotel de Bragança, Magdalena encontrou sua mãe louca de +alegria. Já tinha sabido por Tristão e pelo visconde de Coruche, a mercê +que sua magestade acabava de lhe offerecer. + +--Um abraço minha filha! exclamou D. Maria Egypciaca. El-rei, attendendo +aos serviços que temos prestado ao paiz durante a epidemia, acaba de +encarregar o conselheiro Poderosa, de perguntar a teu pae que nome +deseja dar ao titulo de conde que lhe vae ser concedido. Fique portanto +sabendo, accrescentou ella, que d'aqui a pouco tempo será filha de uma +condessa! Que te parece Olympia? + +--Parece-me que sua magestade acaba de nos dispensar uma grande honra, +respondeu Olympia, para dizer qualquer coisa a sua mãe. + +--Mas que vejo, Magdalena! disse D. Maria Egypciaca, voltando-se para +sua filha. Que tens tu? meu Deus! que terrivel pallidez! + +--É tão grande a alegria que nossa mãe experimenta só com a ideia do +titulo, que nem sequer reparou para o estado em que te encontras! Doe te +a cabeça, Magdalena? + +--Não, respondeu ella; comtudo, sinto-me alguma coisa indisposta. + +--Pois faz a diligencia de te animares! É de suppôr que venha cá hoje +passar a noite o conselheiro Poderosa. Já pedi a tua irmã quasi de mãos +postas que se fizesse mais amavel. Veremos como se porta. + +--Preciso falar-lhe, minha mãe, interrompeu Magdalena, dirigindo-se a D. +Maria Egypciaca. + +--É negocio grave, pelo que vejo! Succedeu alguma novidade no hospital? + +--Não, por certo. É outro assumpto inteiramente diverso. + +--Não podemos falar aqui mesmo? perguntou a futura condessa. + +--Já disse a minha mãe que era uma coisa em particular. + +D. Maria Egypciaca, seguida por sua filha, entrou no gabinete de +Tristão, aonde varias vezes temos conduzido o leitor. + +--Que queres pois? perguntou ella, reclinando-se commodamente sobre uma +cadeira á voltaire. + +--Venho prevenir minha mãe que desejo entrar para um convento antes do +prazo de um mez. + +--Estás doida, ou variada! exclamou ella como se não acreditasse nas +palavras que escutava. + +--Nem doida, nem variada! respondeu Magdalena. É uma resolução de que +ninguem será capaz de me afastar. + +--Mas que te impelle a similhante determinação? Explica-m'o. Quem melhor +do que tua mãe poderá ser tua confidente. + +--Basta que o saiba Deus, em cujos braços me quero occultar, +respondeu-lhe serenamente Magdalena. + +--Esta rapariga enlouqueceu! acudiu D. Maria. + +--Já respondi a minha mãe que não estava louca, nem tão pouco variada, +accrescentou Magdalena sentando-se no sophá. + +--Agora que, escudadas por um titulo, vamos brilhar como ninguem na +sociedade, é que te queres retirar a um convento? + +--Quero agradecer ao Senhor os beneficios que lhe devo, recolhendo-me +sob os tectos da sua habitação. + +--Jámais t'o consentiria, e muito menos teu pae. + +--Torno a dizer a minha mãe, que pessoa alguma poderá impedir a minha +resolução. + +--Mas que pretendes, filha? Amas alguem? Receias que teu pae se opponha +á tua vontade? Fala, fala por Deus, mas não me atormentes! Eu que +esperava anciosa a tua vinda para te participar a alegria em que +estavamos! Que esperava, emfim, passar uma noite agradavelmente na +companhia do visconde e do conselheiro Poderosa, o encarregado por sua +magestade de nos offerecer o titulo. + +--Não queria falar em coisa alguma com meu pae, sem primeiro lhe dizer +as minhas intenções, ajuntou Magdalena com um sangue frio imperturbavel. + +--Ah! exclamou D. Maria Egypciaca, levantando-se rapidamente da +poltrona. Comprehendo agora que não eram infundadas as desconfianças de +teu pae. + +--Que desconfianças? perguntou Magdalena. + +--Que amas... + +--Eu? + +--Tu, sim... + +--Quem? perguntou Magdalena tornando se cada vez mais pallida. + +--O visconde de Coruche! + +--Que testemunho! Já disse uma vez a minha mãe, que nunca amei, nem +seria capaz de amar o visconde. + +--Assim me queres convencer... + +--Nunca tentei illudir pessoa alguma, e muito menos a meus paes. + +--Então outro homem? + +--Não posso amar! respondeu Magdalena cada vez mais perturbada. + +N'este momento abriu-se a porta do gabinete, e entrou Tristão de +Almeida. + +Ao contemplar a physionomia de Magdalena, a sua filha predilecta, o +pobre pae sentiu um estremecimento que lhe toldou a côr do rosto! +Julgou-a atacada pela febre. + +--Saberás, disse D. Maria Egypciaca, que n'um dia, para nós de tanto +regozijo, a tua filha... + +--O quê? perguntou Tristão, voltando-se para sua mulher. + +--Quer recolher-se a um convento?! respondeu D. Maria. + +--Recolher-se a um convento!? perguntou Tristão como se não acreditasse +em similhantes palavras. Recolher-se a um convento! accrescentou elle, +voltando-se para Magdalena. Tu, filha da minha alma? Abandonares-me? Tu +que és a unica ventura da minha vida? Mata-me primeiro, e depois, faze o +que te aprouver! Sabes o que significa essa palavra «deixares me!» +Ignoras que só tu me tens sustido a existencia? Não conheces inteira a +minha vida? Não te contei todos os sacrificios que tenho feito por tua +causa? Desconheces o que fiz para te ganhar um patrimonio; para ti, só +para ti, que és a vida da minha vida? Deixares-me! quando a existencia +começa a sorrir-me... quando os meus cofres cheios de ouro se +despejariam ao teu mais pequeno capricho? Deixares-me quando a gloria +desce sobre a nossa familia, não digo por esse titulo que não passa de +uma miseria, mas pelo que temos feito por esses desgraçados. Se amas +alguem, bom ou mau, rico ou pobre, dize m'o, e farei tudo para me não +separar do teu lado. Se fôr bom, abraçal-o-hei, se mau, tu o tornarás +bom, Magdalena! Pobre, o meu ouro o fará enriquecer, e tu verás +cumpridos os teus desejos. Mas deixar-te? Nunca, torno a repetir t'o! + +--A minha resolução é inabalavel; comtudo, antes d'isso, tenho um grande +favor a pedir lhe: + +Tristão parecia attendel-a sem consciencia de vida. + +--Segundo meu pae muitas vezes m'o tem dito, o meu dote é de +quatrocentos contos?... + +--O teu dote é tudo quanto eu tenho, Magdalena, respondeu-lhe Tristão, e +se ainda mais quizeres, accrescentou elle, mais ainda serei capaz de te +adquirir. + +--Peço-lhe portanto um favor, meu pae. + +--Dize. + +--É que d'esse dinheiro, disponha de cincoenta contos para eu poder +dotar uma amiga que tenho, se porventura ella resistir á enfermidade que +a anniquila. + +--Terás, não cincoenta contos de réis para essa amiga, mas cem, duzentos +ou aquillo que te aprouver! Porém, abandonares me, nunca! Queres esse +dinheiro? Ámanhã; hoje; agora mesmo! Se o desejas, não tenho mais do que +ir buscal-o a casa do meu banqueiro... + +É que esse homem perverso por instincto, o unico sentimento grande que +havia experimentado na vida era o amor por sua filha! + +--Juras me que não abandonas teu pae? accrescentou elle pegando nas mãos +de Magdalena e levando-as junto ao coração. + +--Juro que não abandonarei meu pae, respondeu Magdalena apertando-o nos +braços! + +--Parece impossivel! disse Olympia, abrindo ao mesmo tempo a porta do +gabinete. Ha mais de dez minutos que está a sopa na mesa, accrescentou +voltando-se para Magdalena. + +--Já vamos, respondeu esta. + +--Ah! temos lagrimas! ajuntou Olympia sahindo do gabinete. + +--E quem é essa pessoa que tu queres dotar, Magdalena? perguntou Tristão +depois de alguns momentos de silencio. + +--É Martha, a filha de Jeronymo. + +--Conta com esse dinheiro, respondeu Tristão. + +--Obrigada, disse lhe Magdalena. Agora estou mais tranquilla, e, dando o +braço a Tristão, sahiram do gabinete, seguidos por D. Maria Egypciaca, e +dirigiram-se á casa do jantar. + + * * * * * + + * * * * * + +Apresentado pelo visconde, ás oito horas da noite, entrou o conselheiro +Poderosa. + +O visconde ao notar a pallidez de Magdalena, olhou de soslaio para o +conselheiro, como se lhe indicasse o soffrimento que se lhe notava no +semblante. + +Poderosa sorriu se! Depois, ao vêr a obesidade da irmã de Magdalena, o +rosado das suas faces, e toda aquella economia exhalando vida e saude, +pensou de si comsigo que era essa a unica mulher que lhe convinha. + +Depois das apresentações do estylo, o conselheiro sentou-se junto do +magnate para lhe falar ácerca da missão de que sua magestade o tinha +encarregado. + +No entretanto, o visconde, proximo de D. Maria Egypciaca, entretinha-se +com a futura titular, discutindo sobre o nome que devia juntar-se ao +titulo. + +--Minha senhora, dizia-lhe o visconde, eu não tenho a mais leve +desconfiança que seu marido lhe usurpe o direito da escolha. O que +depende do bello pertence a vossa excellencia, queira vossa excellencia +lembrar-se do nome que deve ter esse titulo, accrescentava elle olhando +significativamente para Magdalena, nos momentos em que por acaso +encontrava os olhos do conselheiro. + +N'este comenos, o conselheiro, que acabava de falar com Tristão, +approximou-se de D. Maria Egypciaca e do visconde. + +A conversação correu animadissima até ás onze horas da noite. + +Seguindo as instrucções do visconde, o conselheiro portou-se +bizarramente no tocante a dissertações culinarias, falando sempre com +muito acerto sobre os diferentes generos de cosinha. + +O coração de Olympia, ou, para melhor dizer o estomago de Olympia, +começou desde esse momento a palpitar pelo joven conselheiro, e a +cabeça, que tanta relação tem com essa viscera, principiou tambem a +comprehender que era o conselheiro o unico marido que lhe convinha. + +Ás onze horas, retiraram-se o conselheiro e o visconde, combinando ambos +com Tristão de Almeida a hora para no dia seguinte se encontrarem, a fim +de se decidir o nome que devia ser escolhido para o titulo. + + * * * * * + +D'ali a duas horas, Olympia resonando profundamente, via em sonhos um +lauto banquete, e, a seu lado, com a farda de conselheiro, aquelle que +na sua vida lhe tinha proporcionado o ensejo de se convencer que no seu +todo havia uma outra viscera sem ser o estomago. + +Magdalena, com o rosto encostado aos vidros da janella, contemplava os +astros, adivinhando em cada um d'elles o rosto grave e melancholico de +Manuel de Mendonça. + + + + +XXXI + + +No dia seguinte á entrevista do conselheiro, á mesma hora que este e o +visconde se preparavam para ir falar com Tristão, Manuel de Mendonça +resolvia procurar informações de Martha. + +--Se tudo quanto te disse aquella infame beata, não fosse mais do que +uma calumnia... pensava Manuel ao mesmo tempo que o proferia a +Mascatudo. + +--Póde muito bem ser que tal aconteça, respondia-lhe o marinheiro. Em +todo o caso, se eu fosse ao sr. Manuel de Mendonça... + +--Que fazias? acudiu rapidamente o capitão. + +--Ia saber d'aquella pobre menina. + +--Tomarei o teu conselho. Vou. Não sei o que me adivinha o coração; +porém, ou eu me illudo muito, ou Martha está innocente como os anjos. + +--Estou da sua opinião. No que o senhor fez mal, foi em acreditar nas +primeiras palavras d'essa mulher. Se eu sei, tinha-lhe occultado tudo +quanto a seu respeito ouvi dizer. + +--Não te arrependas, Mascatudo; nos teus casos, teria feito o mesmo. + +--E se essa mulher não passasse de uma infame mentirosa? + +--E se tudo quanto a tia Monica te disse fosse verdadeiro? Que remorsos +não terias n'este momento, se me tivesses dito que a conducta de Martha +era irreprehensivel? + +--Isso lá é que é verdade, sr. Manuel de Mendonça. Em todo o caso, tudo +se poderá hoje descobrir. Se o senhor consentisse que eu fosse em sua +companhia... + +--Da melhor vontade e até me fazes muito favor. + + * * * * * + + * * * * * + +Em menos de um quarto de hora, Manuel de Mendonça acompanhado por +Mascatudo, desembarcava na rocha do conde de Obidos e, subindo a rampa, +dirigia-se para a rua do Meio. + +--Se lhe parece, disse Mascatudo ao chegarem á rua das Praças, vamos á +tenda em que lhe falei. O caixeiro, que já é meu conhecido, póde nos dar +mais algumas informações. + +--Confesso-te que me vae custando esta espionagem, respondeu +placidamente Manuel de Mendonça. + +Seria a delicadeza da sua alma, ou o receio de saber alguma +circumstancia menos favoravel ácerca da vida intima de Martha, que fazia +com que o maritimo fugisse a mais investigações? + +Deixaremos isto ao juizo da intelligente leitora, que para casos de tal +monta não nos julgamos habilitados. + +Ao chegar defronte da casa onde habitava a filha do operario, Manuel de +Mendonça estremeceu. Lembrou-se da noite em que pela primeira vez a +encontrára, quando ella com as supplicas de piedade lhe pediu entre +lagrimas que a ajudasse a procurar seu pae. Logo, recordou-se das duas +ou tres vezes que a vira no hotel Bragança, quando ainda as boccas +maliciosas não se haviam aberto para lhe cuspir o fel da maledicencia. +Em toda a pureza angelica da sua castidade, Martha desenhava-se-lhe +deante dos olhos, como muitas e muitas vezes a imagem grata de sua mãe +lhe apparecia por entre as nevoas da tarde, quando a galera, sulcando as +aguas do oceano, o conduzia a estranhos climas onde nem um só coração +amigo se lhe approximava. + +Mascatudo comprehendeu-lhe o soffrimento. + +--Que devemos fazer? perguntou Manuel. + +--Sondar estes baixios, e se o rumo não fôr perigoso, seguiremos a nossa +derrota, respondeu Mascatudo. + +N'este momento passava uma carruagem. + +Manuel olhou instinctivamente para dentro do trem. + +Ao mesmo tempo, o cocheiro como se já estivesse prevenido, estacou os +cavallos. + +Era Magdalena que vinha dentro da carruagem! + +Collocando a cabeça fóra do postigo, a filha de Tristão fez um aceno a +Manuel para que se approximasse. + +--Necessito falar-lhe quanto antes, acudiu ella rapidamente, dirigindo +se ao maritimo, que a contemplava com um gesto de espanto impossivel de +descrever. Provavelmente, accrescentou ella, tenciona ir ver a pobre +Martha; não o faça sem primeiro me falar. + +--Estou ás ordens de vossa excellencia, respondeu Manuel de Mendonça, +reconhecendo n'esse momento a filha de Tristão de Almeida. + +--Mas aqui é inteiramente impossivel por causa da visinhança, +accrescentou ella, com uma voz tremula e assustada. + +--Dir-me-ha então?... perguntou Manuel. + +--Dirija-se ao passeio da Estrella. Espero-o na montanha; e antes que +Manuel tivesse tido tempo de reflectir, Magdalena falou ao cocheiro, e +os cavallos partiram n'um trote largo, caminho da rua dos Navegantes. + +Manuel ficou como assombrado! Não sabia que pensar! Aquella mulher, que +na ante-vespera o estivera olhando por um telescopio, seria a confidente +dos amores de Martha, ou seria ella mesma que o amava? Aquella insolita +maneira de o avisinhar; a perturbação das suas palavras; a visivel +pallidez do rosto, que augmentava á proporção que os seus olhos o +contemplavam, tudo concorria para que o maritimo ficasse como abysmado. + +--Que foi isso? perguntou Mascatudo, ao notar a profunda perturbação de +Manuel de Mendonça. + +Manuel contou-lhe o que se havia passado. + +--E que tenciona fazer? perguntou Mascatudo. + +--Ir immediatamente para o passeio da Estrella. Que te parece? + +--Que vá quanto antes, respondeu Mascatudo. + +Sem mais hesitação, Manuel de Mendonça entrou na rua da Bella Vista, e +seguiu para o passeio da Estrella. + +--Espera-me aqui junto ao lago, disse elle a Mascatudo ao entrarem as +portas do passeio. + + + + +XXXII + + +Espera-o, martyr! Unge-lhe o peito com o divino balsamo do teu nobre +sacrificio! Lagrimas misericordiosas foram as tuas, derramadas sobre a +face da pobre virgem! Vae, infeliz; fere, profunda, arranca uma por uma +as fibras do coração, e que o sangue que d'ahi te gotejar, lavando as +nodoas do futuro conde lhe purifique a alma para um dia entrar no reino +dos justos com o passaporte de uma retribuição! + + * * * * * + + * * * * * + +Manuel subiu á montanha. + +Magdalena não faltára. + +--Venho cumprir com as ordens de vossa excellencia, disse Manuel de +Mendonça, approximando-se. + +--Ah! respondeu ella, como se despertasse de um sonho. E accrescentou, +visivelmente perturbada: realmente, deve estranhar o meu proceder, +porém, uma circumstancia grave e muito grave me obrigou a procural-o +hoje mesmo. Tracta-se de salvar uma pessoa cuja vida me interessa. + +--Estou ás ordens de vossa excellencia para tudo quanto me fôr possivel. + +--Sabe que tem estado á morte a filha de Jeronymo? + +--Não o sabia, minha senhora, respondeu Manuel começando tambem a +perturbar-se. + +--Ha quinze dias que a infeliz, deitada sobre o leito da agonia, olha +para o céu que lhe pertence. Hontem, que foi a ultima vez que lá estive, +o medico sahiu completamente desanimado. A sua enfermidade é menos +physica do que moral, e só á ultima hora lhe podemos descobrir a causa. + +--E essa causa é?... perguntou Manuel. + +--Amar um homem que a tem desprezado! Aquelle anjo, occultando a todos o +sentimento que a devora, reclinou se sobre a sua sepultura, aguardando +apenas que lh'a venham abrir para desprender a alma a Deus! + +Os olhos de Manuel humedeceram se de lagrimas. Havia tanto sentimento +nas palavras de Magdalena, a sua voz, ainda ha pouco perturbada, +tornára-se tão firme e tão segura, que elle não pôde ver em Magdalena +mais do que uma amiga verdadeira e dedicada de Martha. + +--E onde existe esse homem que a póde salvar? + +--Onde existe?... accudiu Magdalena com uma expressão que principiava a +denunciar-lhe o seu estado. Esse homem... accrescentou ella, é... o sr. +Manuel de Mendonça! + +--Eu! exclamou o maritimo n'um transporte de indescriptivel alegria. + +--Sim, continuou Magdalena. O senhor, em cujo espirito adivinhou +inteira a sua felicidade. O senhor a quem uma vez encontrou na +existencia para nunca mais o esquecer! Mais tarde, o seu coração candido +e inexperiente fez-lhe conhecer que o amava. O seu nascimento, a +humildade de educação, a pobreza de seus paes, tudo emfim concorreu para +que Martha não se atrevesse a declarar a pessoa alguma o amor que o +senhor lhe tinha inspirado. Emquanto teve forças, lutou, mas um dia, +exhausta, a pobre Martha cahiu como essas flores delicadas que não têem +força bastante para supportarem a furia dos elementos. Hontem, +finalmente, abriu-me inteira a sua alma, alma candida e serena como a +dos anjos que hoje lhe tecem o seu diadema de martyr! Sem lhe +descortinar as minhas ideias, resolvi commigo mesma de o procurar, e +pedir-lhe que salve da morte a minha pobre amiga. Não sei quem v. s.ª é, +porém, julgo-o um homem de bem e capaz de fazer a felicidade de qualquer +mulher. + +Pallida, com as fontes palpitantes e os olhos afogueados por aquella +immensa lucta em que a alma se lhe debatia, Magdalena parecia elevar-se +nas azas de uma inspiração sublime! Levantando depois a voz que +principiava a enfraquecer-lhe, Magdalena pediu a Manuel que lhe +concedesse a sua mão para a filha do operario. + +Manuel não respondeu! + +E no emtanto as aves chilreando por entre as ramas dos arvoredos vinham +como n'um concerto infernal soar aos ouvidos da pobre Magdalena! + +--Que me diz, sr. Manuel de Mendonça? Hesita? Não a ama? É possivel? +Quem póde deixar de amar aquelle anjo?! exclamou Magdalena dando emfim +livre curso ás suas lagrimas. + +--Mas porque chora? perguntou Manuel de Mendonça dirigindo-se meigamente +para Magdalena. + +--Porque choro? Porque avalio a dôr de Martha! Porque a sinto tão viva +e tão penetrante como ella que a soffre! Porque choro? Porque sei quanta +agonia ha, n'esse amar em silencio, o homem que nunca póde ser nosso! + +--Pelo que vejo... ama alguem? perguntou Manuel com voz tremula. + +--Já amei alguem... sim... mas ha muito tempo. Hoje não, sr. Manuel de +Mendonça! Hoje, toda a minha vida cifra-se apenas n'uma missão que tenho +a cumprir. + +--E essa missão, é?.. + +--Vel-o casado com Martha. Vão ambos ser muito felizes. Ella ama-o +tanto, tanto como eu seria... + +Aqui a voz ficou-lhe embargada n'uma torrente de lagrimas. + +E as avesinhas chilreando por entre a moita dos junquilhos que +emmolduravam a montanha, acordavam no espirito de Magdalena um como +concerto infernal! + +Finalmente, Manuel de Mendonça prometteu-lhe que pediria a Jeronymo a +mão de sua filha. + +Apertando-lhe fortemente a mão, Magdalena despediu-se do maritimo e saiu +do passeio. + +Como aturdido por aquelles estranhos acontecimentos, Manuel dirigiu-se +para o sitio onde Mascatudo o esperava, e, saindo tambem do passeio +dirigiram-se pela rua da Boa Morte. + +--Para onde vae, sr. Manuel de Mendonça, perguntou Mascatudo vendo que o +seu capitão seguia a direcção da estrada do cemiterio dos Prazeres. + +--Preciso de ar livre, respondeu-lhe Manuel. Escalda-me a febre. Para +que haviamos de ter vindo a Lisboa? + +Era tal a agitação do seu espirito, que Mascatudo nem se atreveu a +perguntar-lhe o resultado da entrevista que tivera com aquella senhora. + +O mais que entre ambos se passou foi um mysterio. Soube-o ella e Manuel +de Mendonça. Agora, quando estas paginas escrevemos, Magdalena dorme o +somno da morte. Manuel, discreto como a sepultura da pobre amiga, seria +incapaz de o revelar. + + + + +XXXIII + + +Ao metter-se no trem, Magdalena dissera ao cocheiro que parasse na rua +do Meio. + +Ao voltar para a esquerda da rua da Bella Vista, ouviu que a chamavam. +Era Monica! + +Magdalena mandou parar o trem e a beata approximou-se. + +--Ora aqui a temos outra vez com os olhos arrasados de lagrimas! +exclamou ella. São essas as promessas que me tem feito? Pois, minha +querida menina, accrescentou a velha, quanto estimo tel-a encontrado! +Fique vossa excellencia sabendo, que o amigo do meu sobrinho, com quem +me vou encontrar, ficou de me dizer hoje tudo _tim tim por tim tim_! + +--Pois, sr.ª Monica, respondeu-lhe Magdalena, tirando duas libras do +_porte-monnaie_, e entregando-as na mão da beata, escusa de se +incommodar mais por minha causa. + +--Ora essa, minha senhora! accudiu rapidamente a velha, fechando ao +mesmo tempo a mão onde as libras se occultavam. Dar-se ha o caso, +continuou ella, que não esteja satisfeita com os meus serviços? Se tal +succede, ralhe-me, ralhe-me muito mas não me tracte por essa forma. + +--Não é isso, tia Monica: é que já sei tudo quanto tinha que saber; e, +fazendo um signal ao cocheiro, fez com que o trem seguisse a sua +direcção, deixando a beata estupefacta pelo que vinha de lhe acontecer. + +Ter-lhe-ia Manuel de Mendonça contado a historia dos seus amores? +Ter-lhe-ia narrado o que se dera entre Mascatudo e a beata? Ignoramol-o! + +O trem chegou á porta de Jeronymo. Ao apear-se, Magdalena foi recebida +de braços abertos por Balbina e pela sua amiga. + +Como era de esperar, Martha n'aquella noite havia peiorado! + +--Venho prevenil-a, que ámanhã antes do meiodia, alguem virá pedir-lhe a +mão de sua filha, disse Magdalena. Agora mesmo acabo de estar com essa +pessoa. Quando prometto, cumpro, embora vá n'isso a existencia. + +A gratidão não tem phrases! Balbina e Marianna, abraçando-se a +Magdalena, confundiam entre as suas, as lagrimas da pobre martyr! + +--Agora, murmurou Magdalena desembaraçando-se das suas protegidas, +cumpre-me falar com Martha. + +--Mas, é possivel que um senhor d'aquella ordem deseje casar-se com a +filha de um mestre de obras perguntou Balbina com as lagrimas nos olhos. + +--Almas como as de Manuel de Mendonça, olham apenas para a virtude e +nunca para o nascimento, respondeu Magdalena. + +--Manuel de Mendonça?! exclamou Marianna com uma voz tremula e +indecisa. E que edade tem esse homem? E quem são os seus paes? ajuntou a +pobre mulher approximando-se cada vez mais da filha de Tristão de +Almeida. + +--Infelizmente, não tem paes, respondeu Magdalena. + +--E sabe vossa excellencia quem elle é, perguntou Marianna. + +--Sei. + +--Oh! por piedade! diga m'o! Dar-se-ha o caso que seja... + +--Quem? perguntou Magdalena visivelmente perturbada. + +--O meu filho, que ha vinte e tres annos supponho morto! + +--Como se chama elle? perguntou Magdalena. + +--Manuel de Mendonça Athayde, respondeu a velha com uma voz +enfraquecida. + +--E seu marido?... como se chamava? ajuntou Magdalena. + +-Alvaro de Mendonça... + +--Justiça de Deus! exclamou a filha de Tristão, caindo sobre o canapé, e +occultando o rosto entre as mãos. + +--Oh! mas por Deus não me torture! bradou Marianna, lançando-se aos pés +de Magdalena. Diga-me se é elle o meu querido filho! É; não ha duvida! +Essa sua perturbação... Vive ainda o meu Manuel, o meu querido filho da +minh'alma? Não a deixo, minha senhora, não a deixo emquanto me não +contar tudo! + +--É o seu filho! respondeu Magdalena levantando-se com uma serenidade +heroica. Deus que nunca desamparou os que são verdadeiramente bons, +concedeu-lhe em mim o instrumento da sua justiça, e n'elle a consolação +para a sua velhice. Agora sr.ª D. Marianna, ajuntou ella lançando-se aos +pés da velha, sou eu quem lhe devolve o seu filho, que, em nome de Deus +e em meu nome, lhe pedimos o perdão para um culpado! Concede-m'o? + +Marianna não sabia que responder! + +--É de joelhos que lh'o imploro! ajuntou ella, collocando-se deante da +velha, e confundindo as suas vestes de setim negro, com os andrajos da +infeliz! + +--Eu vos perdôo de todo o meu coração! exclamou D. Marianna de Mendonça +cahindo sobre o chão. Mas a quem perdôo eu? accrescentou a infeliz +senhora, que não pensava senão em ver seu filho! + +--Obrigada, disse Magdalena levantando D. Marianna, e levando-a de +encontro ao coração! Agora que _lhe_ perdoou, vou buscar seu filho, e +trazel o aqui mesmo. + +Com uma physionomia alvar, Balbina contemplava toda esta scena sem a +comprehender. + +Magdalena fechou-se por alguns instantes no quarto de Martha. Afinal +sahiu, e, abraçando de novo as suas amigas, entrou no trem, e seguiu +para o hospital. + +No entretanto, Manuel de Mendonça descendo a calçada das Necessidades +dirigia-se para bordo. + + + + +XXXIV + + +«Felizmente, pensava Magdalena, Manuel de Mendonça nem sequer desconfia +que Tristão de Almeida foi Felix Justino de Araujo e muito menos +Domingos de Andrade. Poderei conseguir tudo sem comprometter meu pae. +Vejamos; seriam quarenta, cincoenta contos... Pedir-lhe-hei o meu dote, +e será uma retribuição generosa! Ao principio oppôr se-ha ao meu pedido, +mas por ultimo, não terá outro remedio senão acceder. Occultarei tudo de +minha mãe. Permitta Deus que o possa encontrar no hospital. São estas as +suas horas.» + +N'este momento, o trem chegava á rua de S. Francisco de Paula. Ao entrar +o portão, a primeira pessoa que lhe appareceu, foi a criada de Olympia, +dando lhe os parabens não só pelo titulo que haviam concedido a seu pae, +como pelo lindo nome que elle tinha escolhido: o conde de S. Luiz. + +Sem lhe prestar attenção alguma, Magdalena perguntou-lhe apenas se alli +estivera seu pae. + +--Ora essa! respondeu a criada de Olympia; acaba agora mesmo de ir para +o paço, afim de agradecer a sua magestade. + +--E Olympia? + +--Sua irmã está lá em cima na casa de jantar a comer umas gallinholas, +que até dá nauseas a quem vê similhante coisa! Mandou fazer umas +torradas, e deitar sobre ellas o miolo das tripas. Já viram maior +porcaria? E diz ella que é o melhor cozinheiro que tem tido, e que faz +pena que esteja no hospital! + +Magdalena subiu á casa do jantar, onde encontrou sua irmã deliciando o +paladar n'uma soberba torrada coberta dos despojos ornithologicos +d'aquella innocente gallinhola. + +--Já sabes o titulo que o papá escolheu? perguntou Olympia. + +--Sei, respondeu Magdalena quasi sem lhe prestar attenção. + +--É muito bonito! não achas? + +--Muito bonito! + +--Estiveste em casa de Martha? + +--Estive. + +--Vae melhor? + +--Muito melhor. + +--Não te offereço d'esta gallinhola porque é de suppôr que não esteja ao +teu gosto, disse Olympia dissecando a _carcassa_ da avesinha. + +--Agradeço, murmurou Magdalena deixando sua irmã, e dirigindo-se para o +terceiro andar d'onde dias antes contemplava a galera de Manuel de +Mendonça. + +Alli pôde emfim dar livre curso ás suas lagrimas! + +D'aquella janella por mais de uma vez, insciente da cruel realidade, +contemplára o Tejo, no Tejo a barca, na barca o homem, no homem, tudo +quanto havia de mais valioso para o seu coração! + +Fôra d'alli que vira o seu primeiro desengano, quando Manuel de +Mendonça, afastando o oculo, lhe denunciava não ser ella a pessoa que +tão anciosamente buscava! + +Só, entregue a uma multidão de pensamentos, Magdalena começou a planear +o modo de seu pae restituir os quarenta contos de réis extorquidos a D. +Marianna de Mendonça. + +Magdalena tinha sobejas provas de que a virtude nem sempre havia adejado +sobre o proceder de Felix Justino de Araujo. Não ignorava que uma grande +parte da sua riqueza tinha sido adquirida em commercios illicitos, +porém, o que ella jamais suppozera, é que seu pae tivesse sido capaz de +um roubo. + +Juntem-se a estas grandes agonias, o infeliz amor que lhe ia n'alma, e +vossa excellencia que me lê, e, cujo coração é egual ao de Magdalena, +diga me se dôres tamanhas podem caber em coração humano! + +Alli se demorou perto de meia hora. Depois, como se um pensamento lhe +acudisse rapidamente á imaginação, a infeliz saiu d'aquelle quarto, +lançando-lhe uma ultima e dolorosa despedida! + +Ao descer ao segundo pavimento encontrou Olympia. + +--Que tens? perguntou esta ao notar a pallidez de Magdalena. + +--Doe-me a cabeça. + +--Isso é fraqueza, respondeu Olympia. Assim estou eu. + +Magdalena desceu ás enfermarias e depois de dar as suas ordens, entrou +no trem e mandou seguir para Alcantara. + + * * * * * + + * * * * * + +«Disse-me que ia para bordo. Já lá deve estar. Mas isto é uma loucura, +pensava ella. Uma mulher da minha edade ir procurar um homem a bordo do +seu navio? Embora! A minha consciencia está livre e tranquilla! Não foi +Deus quem predispoz todas estas circumstancias, servindo-se de mim para +sua intermediaria? Que poderei receiar?» + +Voltando-se para o cocheiro disse-lhe que parasse na rocha do Conde de +Obidos. + +Ao chegar ao boqueirão, Magdalena apeou-se, e dirigindo-se aos +catraeiros, pediu a um d'elles que a levassem a bordo da galera +Esperança. + +Todos queriam ser o primeiro a conduzil-a. + +Escolhendo o mais edoso, desceu a rampa e entrou no bote. + +Que de poemas se agitavam em sua alma á medida que se approximava da +galera! Como ella, escrava de um dever, ia para sempre abandonar a sua +ventura! + +Restava-lhe apenas no meio dos seus infortunios, a grata lembrança de +devolver aos braços d'aquelle homem a pobre mãe que elle tão anciosa e +infructiferamente havia buscado! + +A pouca distancia viu Manuel de Mendonça, de pé, encostado á amurada. +Com o rosto curvado sobre o peito, olhava para as aguas da corrente, que +vinham no seu eterno movimento gemer de encontro á quilha da embarcação. + +Ao ver aquelle bote que se lhe dirigia por estibordo, reconheceu +immediatamente a filha de Tristão de Almeida, e, descendo a escada de +corda, veiu recebel-a no momento em que abordava á embarcação. + +--Preciso falar-lhe, disse Magdalena. E nem mesmo subo, ajuntou ella, +olhando tristemente para a galera. + +Manuel entrou para o bote, e Magdalena mandou que remassem para o caes. + +Durante o curto espaço de tempo que levaram em chegar á rocha, +Magdalena não lhe dirigiu uma palavra. + +Manuel não sabia que pensar. + +Os catraeiros olhando-se mutuamente, conjecturavam entre si, o que seria +a causa d'aquelle mysterio. + +Chegaram finalmente á rocha. + +Ao subir as escadas, Magdalena voltou-se para Manuel de Mendonça, ergueu +o véu que lhe occultava o rosto, e demorou-se fitando-o por alguns +instantes. + +--Vim buscal-o tão apressadamente, porque lhe quero dar o maior prazer +que tem experimentado na sua vida. A Providencia fez com que me +encontrasse, para lhe depositar nos seus braços tudo quanto tem de mais +precioso sobre a terra. + +Manuel contemplava-a sem comprehender uma palavra. + +--Não lhe offereço o meu trem; poder se-ia tornar reparado, accrescentou +ella; mas, o que lhe peço, é que venha immediatamente a casa de Jeronymo +para onde me dirijo. E saltando para dentro do trem, mandou ao cocheiro +que seguisse para a rua do Meio. + +Metteu-se n'uma sege que passava n'aquelle instante Manuel de Mendonça e +acompanhou a carruagem de Magdalena. + +Chegaram ao mesmo tempo á porta de Jeronymo. + +Magdalena foi a primeira a apear-se, e, entrando rapidamente em casa de +Jeronymo, dirigiu-se ao quarto de D. Marianna de Mendonça. + +A pobre senhora lançou-se-lhe nos braços! + +--Venho cumprir a minha promessa, disse-lhe Magdalena. Vae ver seu +filho! O que lhe peço, é que tenha valor para resistir a este lance! e, +abrindo a porta que communicava com a saleta, chamou em voz alta por +Manuel de Mendonça. + + * * * * * + + * * * * * + +Vêde a leôa a quem haviam roubado o filho, e que o torna a colher entre +as suas garras, e podereis avaliar o que se passou n'aquella eternidade +de sensações. + + * * * * * + + * * * * * + +Magdalena, de pé, com os olhos arrasados de lagrimas, contemplava esta +scena ao lado da mulher de Jeronymo. + +Perto de cinco minutos esteve a pobre mãe agarrada ao pescoço de Manuel +de Mendonça! Ainda lhe parecia impossivel aquella palpavel realidade! +Desprendendo-se emfim do collo de seu filho, D. Marianna lançou-se aos +pés de Magdalena, e, beijando-lh'os no transporte de uma alegria +assustadora, ergueu-se de novo cingindo-a pela cintura e cobrindo-lhe a +face de beijos e lagrimas de gratidão! + +--Agora, disse Magdalena desembaraçando se de D. Marianna, devemos +attender ao estado de Martha. É necessario prevenirmos todas estas +circumstancias. Ter-nos-ha ouvido? + +--Com certeza que não; e demais tem um somno muito pesado, respondeu +Balbina enxugando as lagrimas que lhe rolavam pelo rosto. + +N'este momento, Martha chamava por sua mãe. + +Balbina e Magdalena dirigiram-se ao quarto da doente. + +--Que voz foi essa que ouvi na saleta, minha mãe? perguntou Martha sem +notar a presença de Magdalena. + +--Era a minha voz, respondeu a filha de Tristão approximando-se do leito +e beijando-a na face. + +--A sua! exclamou ella. Eu suppunha... + +--O quê? + +--Que era... + +--A voz de Manuel de Mendonça? Não se illudiu. É Manuel que vem hoje +pedil-a a seu pae. + +Erguendo se n'um impeto de suprema vontade, Martha lançou-se ao pescoço +de Magdalena. + +Que lagrimas não foram as d'essas duas mulheres! N'uma, o pranto +consolador da alegria; na outra, lagrimas que vinham do coração, +abrazando-lhe as palpebras n'um fogo do inferno! + +--Valor! disse Magdalena, soltando-se dos braços de Martha, é necessario +que se restabeleça para em breve conceder a sua mão ao filho de D. +Marianna de Athayde! + +--Ao filho de Marianna de Athayde! exclamou ella sem comprehender uma +palavra do que acabava de ouvir! + +--Sim, ao filho da sua amiga Marianna. + +--Então Manuel de Mendonça é... + +--Seu filho. Agora, cumpre-me dar ainda alguns passos para resolver +completamente a minha missão, e, abraçando a sua protegida, Magdalena +sahiu do quarto e dirigiu-se á saleta aonde Manuel de Mendonça, ainda +preso nos braços de sua mãe, agradecia á Providencia o ter-lhe devolvido +tudo quanto elle tinha de mais caro n'este mundo. + +Ao vel-a, D. Marianna lançou-se-lhe de novo ao pescoço e cobriu-a de +beijos! + +Manuel de Mendonça, que fixára o rosto entristecido de Magdalena, cravou +os olhos no chão, como receiando que o trahisse o seu olhar. + +Teria elle comprehendido o que se passava no coração de Magdalena? + +--Agora, disse Magdalena, retiro-me. Ámanhã sendo meio dia, aqui +estarei, por que tenho graves negocios a tractar com vossa excellencia e +com seu filho. Extendendo a mão a este ultimo e a D. Marianna, Magdalena +retirou-se, caminho do hospital. + + + + +XXXV + + +Havia quinze dias que sahira o decreto concedendo o titulo de «conde de +S. Luiz» ao illustre e philanthropico varão, que, com tanto e tanto +afan, continuava a espalhar as joias da sua caridade. + +A condessa, impando de orgulho e de vaidade, ora se pavoneava pelas ruas +mais concorridas da capital, ora embocetada no palacio de S. Francisco +de Paula, aguardava o sequito das fidalgas caridosas, que, esquecendo o +amarellecido dos seus pergaminhos, iam, movidas pela virtude da moderna +titular, fazer antecamara áquella que dias antes se chamava apenas D. +Maria Egypciaca. + +Graças ás repetidas instancias do seu amigo o visconde de Coruche, +Tristão de Almeida, ou, para falarmos com mais propriedade, o conde de +S. Luiz, fizera um arrendamento a longo prazo de um magnifico palacio em +Buenos-Ayres, outr'ora pertencente aos marquezes de... + +Encarregando-se por especial favor do que dizia respeito ás +cavallariças, o visconde, como homem entendido na materia, fez +acquisição de tudo quanto n'esse genero havia de melhor. + +Tornou-se notorio o luxo d'aquella irreprehensivel vivenda. + +Os fidalgos, que n'esse tempo--menos por necessidade, do que pelo prazer +de manifestarem aos quatro ventos do céu o seu desamor pela +archeologia--esbanjavam sem dó nem piedade, os mais preciosos objectos +de arte, deparados nos empoeirados sotãos dos seus castellos feudaes, +correram atropellando-se ao escriptorio do conde de S. Luiz, afim de ver +qual seria o primeiro a depositar nas mãos do magnate as nobres +reliquias dos seus preclarissimos antepassados. Não tardou que o palacio +do conde de S. Luiz se tornasse n'um museu de antiguidades! Retratos +houve de familia, que foram jazer empilhados na estrebaria por não lhes +permittirem os salões o seu elevado porte. + +O conde, pagava tudo com prodiga generosidade, o que lhe deu o triste +resultado de alguem lhe metter um collar de perolas falsas por barrocas, +o que elle generosamente acceitou e pagou, attendendo que esse mesmo +collar havia figurado no pescoço de um grande ministro de um excelso +monarcha. + +Juntem se a estas nobres qualidades, uma mesa esplendida, e que o leitor +avalie se a casa do conde de S. Luiz seria ou não frequentada. + +O conselheiro Poderosa, graças ás ausencias do visconde, de dia para dia +se tornava mais sympathico para Olympia, para o conde e para a condessa. + +Olympia adivinhava no conselheiro, não só um marido exemplar, como um +dedicado companheiro de mesa, prompto sempre a affrontar qualquer ataque +apopletico por mais anormaes que fossem as epochas. + +O conselheiro comia e bebia por dez conselheiros, o que era +extremamente agradavel para Olympia, porém, quando ella um dia notou que +depois do jantar, os olhos do seu futuro se fitaram brandamente n'uma +othomana que estava proxima, Olympia exultou de alegria, e viu n'esse +homem, o unico individuo capaz de fazer a sua felicidade: comer e +dormir, acordar e comer! + +Olympia esperava apenas que o conselheiro a pedisse a seu pae. + +A condessa sabia d'estes amores. Por mais de uma vez tinha dito a +Olympia, que pela sua parte não encontraria a menor opposição. + +Exceptuando duas pessoas, todos alli viviam felizes: essas duas, eram +Magdalena e o conde de S. Luiz! O que entre ambos se havia passado, +sabia-o apenas Deus, que ajudára a primeira nos seus pedidos e escutara +as promessas do segundo! + +Quanto á condessa de S. Luiz, ou porque a sua alegria não lhe tivesse +dado tempo a reflectir na tristeza do conde e de sua filha ou porque +inteiramente lhes não desse importancia, não cuidava senão em distrahir +os seus convidados. + +Aos almoços, succediam-se os jantares, a estes os bailes, de forma que o +palacio do conde de S. Luiz tornou se em poucos dias o centro da melhor +sociedade de Lisboa. + +Debalde tentavam Magdalena e seu pae, encobrir a dôr que lhes roubava a +felicidade. Este ultimo, vendo constantemente deante dos olhos a imagem +grave e severa de D. Marianna de Mendonça, recordando lhe o seu passado; +Magdalena lembrando-se do homem que teria feito a ventura da sua alma, +mas a cujo sacrificio tinha prendido um juramento! + + * * * * * + +Magdalena no dia immediato áquelle em que entregara Manuel de Mendonça +nos braços de sua mãe, fechada com seu pae no escriptorio do hospital, +communicára-lhe tudo quanto dizia respeito á familia de Athaide de +Mendonça. + +O conde de S. Luiz, que não tinha segredos para sua filha, abrindo-lhe +inteira a sua alma, desenhára-lhe em traços rapidos o quadro inteiro da +sua vida, accrescentando-lhe, que por ella e só por ella havia incorrido +em certas _coisas_ de que se arrependia profundamente. + +Magdalena exigiu-lhe uma restituição d'aquelle dinheiro extorquido á +viuva, compromettendo-se a preparar tudo de forma que a opinião publica +ainda mais se levantasse em favor de seu pae, vendo-o entregar cem ou +duzentos contos de réis, á filha d'esse homem, para cuja morte +involuntariamente havia concorrido. + +Concordando plenamente em tudo quanto Magdalena exigiu, pediu apenas a +sua filha o maior segredo para com a condessa e Olympia, accrescentando +a isto a maior brevidade possivel no casamento, o qual, auctorizando +aquella restituição, lhe ia devolver a paz ao espirito. + +Abraçando seu pae, Magdalena assegurou-lhe que partiria immediatamente +para casa de Martha, afim de se oferecer para madrinha do seu casamento. +Com effeito, ás duas horas da tarde, e não ao meio dia como havia +combinado com Manuel de Mendonça, Magdalena entrou em casa do operario. + +Martha havia passado a noite mais tranquilla. O doutor não se tinha +illudido; a sua doença era menos physica do que moral. + +Desde as onze horas da manhã que Manuel de Mendonça estava ao lado de +sua mãe. Já na vespera tinha visto Jeronymo, e já lhe havia pedido a mão +de sua filha. + +Magdalena entrou no quarto de Martha, e, dando-lhe os parabens, +offereceu-se para madrinha do casamento. + +Consummara-se o sacrificio! + + * * * * * + +--Quando se realisará esse casamento? perguntava todos os dias o conde +de S. Luiz. + +--Brevemente, respondia-lhe Magdalena! + + + + +XXXVI + + +Instigado pelos conselhos do visconde, e pela persistente côrte que D. +Olympia lhe dirigia, o conselheiro resolveu se emfim a pedir aos condes +a mão de sua filha. + +Eram duas horas da tarde. O conde tinha partido para o hospital, mas, +para sua felicidade estava em casa a condessa de S. Luiz, e prompta como +sempre, desde as dez horas da manhã, para receber todas as visitas que +lhe mereciam a honra da sua amizade. + +O conselheiro foi introduzido para um pequeno gabinete «á renascença», +todo mobilado ao gosto do visconde de Coruche. + +A condessa não se fez demorar muito tempo. Já esperava que mais dia +menos dia o conselheiro se resolvesse a pedir-lhe Olympia. + +--Quanto folgo vel-o n'esta casa, e a esta hora, disse a condessa, ao +mesmo tempo que lhe extendia a mão. Adivinho pouco mais ou menos do que +se tracta, ajuntou ella designando-lhe uma othomana, e puxando uma +cadeira para si. + +A condessa queria ser a primeira, sempre, em resolver qualquer questão. + +--Provavelmente vem pedir a mão de Olympia?... ajuntou ella, sem +admittir que o conselheiro lhe dirigisse uma só palavra. Quanto o +estimo! e como o conde vae ficar alegre! Pela minha parte, concedo-lh'a +da melhor vontade, e, desde já lh'o affianço, que o conde ha-de ser da +minha opinião. Tenho toda a certeza que v. ex.ª ha de ser o mais feliz +possivel com minha filha. Não parece uma rapariga d'este tempo. Para +Olympia é-lhe tão indifferente ir aos bailes, como passar as noites em +casa. Não dá importancia alguma ao luxo! O seu gosto é estar em casa e +olhar pela dispensa. Nem é mesmo d'essas meninas que passam o dia a lêr +livros, como Magdalena por exemplo, que está ás vezes até as duas horas +da noite amarrada á sua Biblia, e outros romances quejandos. Olympia +detesta os livros, tem-lhes um odio de morte! Lá quanto a isso, +parece-se commigo. Foi coisa que nunca pude supportar! Olympia, o seu +maior prazer é fazer pudins e fructas de compota. + +O conselheiro, olhando estupefacto para aquella Niagára de eloquencia, +debalde esperava o ensejo favoravel para lhe dizer o fim que alli o +havia trazido. A condessa não lh'o permittia! + +--Em Olympia não ha coisa alguma a desejar, formosura, riqueza, saude, +tudo, tudo, accrescentou a condessa de S. Luiz, tirando o lenço da +algibeira para limpar o suor que em bagas lhe escorria. + +--Pois, minha senhora, acudiu rapidamente o conselheiro, aproveitando o +ensejo que lhe favorecia a limpeza d'aquella individualidade titular, o +que me trouxe a casa dos condes de S. Luiz, foi o mesmo que v. ex.ª com +esse instincto que lhe é natural, adivinhou! Escuso portanto de lh'o +repetir. + +--Quanto o estimo, meu querido genro, respondeu a condessa, +approximando-se do conselheiro e apertando-lhe ambas as mãos. + +--Vae fazer-me o mais feliz de todos os homens. + +--Sim?... respondeu a bojuda matrona, vae vêr: levantando-se, puchou o +cordão da campainha. + +--E crê v. ex.ª que a sr.ª D. Olympia responde aos eccos do meu coração? + +--Não o comprehendo, sr. conselheiro. + +Este occultou a custo um sorriso. + +--Quero eu dizer, se o meu amor será retribuido por sua excelentissima +filha? + +--Ora essa! respondeu a condessa tornando a sentar-se ao lado do +conselheiro, se soubesse quanto ella o estima... + +N'este momento appareceu um criado. + +--Vá dizer a Maria que participe á Gertrudes que suba ao quarto da aia +da menina Olympia, para lhe dizer que venha immediatamente falar com sua +mãe. + +O conselheiro abysmou deante d'aquelle prodigio de memoria, que com +tanta facilidade decorava tão grande porção de nomes! + +D'alli a momentos entrou a aia de Olympia, participando que a menina +ainda teria alguma demora, porque se encontrava um pouco indisposta. + +--Provavelmente ceiou muito. É o seu unico defeito, sr. conselheiro. É +muito gulosa esta minha filha. + +A criada retirou-se. + +--O mesmo sou eu, minha senhora, respondeu o conselheiro. + +--Sim? + +--É verdade. Tenho dias de jantar tres vezes. + +--Ai que ar! gargalhou a condessa de S. Luiz. Pois realmente, sinto que +Olympia não esteja de pé. Em todo o caso, sempre vou lá acima. Talvez +que seja apenas um leve incommodo; e, levantando-se saiu da sala, +deixando o conselheiro na contemplação de umas gravuras em aço que +adornavam as paredes do gabinete. + +«Isto corre ás mil maravilhas! pensava o conselheiro. Olympia pelo que +me parece, consultando o estomago, decidiu de si para si que lhe não era +antipathica a minha pessoa. Sua mãe, pelo que se vê, encontrou em mim o +seu sonho dourado! Quanto ao conde de S. Luiz por certo que se conforma +com tudo que sua mulher decidir! Emfim, será o que Deus quizer! Em todo +o caso, foi um achado, um verdadeiro achado, este Tristão de Almeida. E +eu que estive para desprezar a sua apresentação!... Desconfio que, +apezar de todo o amor que Magdalena experimenta pelo visconde, o meu +casamento ainda se ha de effectuar primeiramente do que o seu. Custa-me +a acreditar que um caracter como o de Magdalena, possa experimentar pelo +visconde, outro sentimento, a não ser o de repulsão. O que fôr +verdadeiramente bom e digno, não póde amar senão o que é digno e bom! E +demais, Magdalena deve conhecel-o. Tão pouco falado tem elle sido na +sociedade de Lisboa.» + +N'este comenos entrou a condessa; Olympia seguia-a de perto. + +Se aos vinte annos a pallidez traduz em absoluto a poesia da alma; se o +desbotado da face é synonimia dos sofrimentos intimos que lavram o +coração, Olympia n'aquelle momento, a despeito da sua anafada +estructura, dir-se-ia nutrida estatua da poesia affectada pelas +terriveis consequencias de uma gastro enterite! + +Ao approximar-se do conselheiro, a filha do conde de S. Luiz debalde se +esforçava para, n'uma graciosa mesura, cumprimentar aquelle a quem +brevemente ia conceder a sua mão. O esophago não lhe permittia a mais +leve inclinação do busto. Olympia conservava se firme como um sargento, +deante d'esse que era de ha muito o commandante dos seus pensamentos! + +--Venho agora mesmo de saber por minha mãe a sr.ª condessa de S. Luiz +que vossa excellencia deseja estreitar os laços matrimoniaes com a minha +pessoa. Se a meu pae lhe não fôr desagradavel a união das nossas almas, +estou muito prompta a acceder em tudo aos seus desejos. + +O conselheiro contentou-se apenas em lhe apertar a mão n'um transporte +de reconhecida ventura. + +--Como já tive o gosto de dizer a vossa excellencia o conde de S. Luiz +terá o maior desejo em que este casamento se effectue o mais depressa +possivel, portanto, não tem vossa excellencia mais cousa alguma a fazer +senão vir hoje mesmo pedir-lhe a mão de Olympia. Meu marido e eu mesma, +accrescentou a condessa de S. Luiz, nos temos informado por todas as +pessoas que frequentam o nosso palacio, quem vossa excellencia é; deve +portanto suppor a honra que nos vae causar, entrando para o seio da +nossa familia. + +--A honra sou eu que a recebo, senhora condessa de S. Luiz, e é tão +profundo o meu desejo em ver realizadas as nossas esperanças, que, hoje +mesmo, se vossa excellencia acha conveniente... + +--Se acho, meu genro! O conde de S. Luiz, sendo cinco horas, mais +_migalha_ menos _migalha_ deve cá estar. Não falte pois, accrescentou +ella extendendo a mão ao conselheiro, que foi recuando sem descravar os +olhos de Olympia, até que se retirou. + +--Até que vês as tuas esperanças realizadas, disse a condessa de S. Luiz +voltando-se para sua filha. + +--É verdade, minha mãe, suspirou Olympia! E agora, para ter forças de +supportar todas estas commoções, vou ver se me dão um caldo de cabeça de +vitella. + + + + +XXXVII + + +Segundo havia combinado com a condessa, o conselheiro ás cinco horas da +tarde foi procurar o conde de S. Luiz. + +Este parecia ouvil-o sem lhe prestar attenção alguma; porém, graças á +sua esposa, declarou por ultimo que não tinha duvida em conceder-lhe a +mão de Olympia. + +João Poderosa exultou de alegria! Olympia sentia brincar-lhe o travesso +amor nas cavidades estomacaes apontando-lhe ao mesmo tempo as flechas de +ouro, ao orgão musculoso do corpo humano, a que vulgarmente se chama +coração! + +Momentos depois começaram a entrar convidados para jantar; entre esses +vinha o visconde de Coruche. + +Ao _toast_, a condessa de S. Luiz declarou que estava justo o casamento +de sua filha D. Olympia com o conselheiro João Poderosa. + +Em seguimento aos brindes do estylo, não houve quem deixasse de notar +que esta declaração não tivesse sido feita pelo conde. Mas que +influencia tinha isso? Não fôra esplendido o jantar?! + +O que ninguem podia descortinar era o motivo da tristeza do conde de S. +Luiz e de Magdalena! + +Attribuiam a esta ultima, que uma paixão em silencio pelo visconde de +Coruche, era a causa da sua terrivel melancolia. + +Em vez de conversarem com as visitas, de _fazerem sala_, como +vulgarmente se diz, Magdalena e seu pae passaram quasi toda a noite n'um +pequeno gabinete contiguo a um dos salões. + +--Planeiam o modo de agarrar o visconde! dizia um individuo que por mais +uma vez intentara fazer a côrte a Magdalena. + +--Como se isso fosse uma coisa muito difficil, respondia-lhe o outro. +Não tem Magdalena um dote de quatrocentos contos? + +--Póde ser que a não ame, e n'esse caso... + +--Que innocencia! Quem despreza quatrocentos contos? E sobre tudo o +visconde que está sem um vintem. + +--Tomáras tu assim estar. + +--Olha, quem foi esperto foi o João Poderosa... Quem o ha de agora +aturar com quatrocentos contos? + +--Felizes dos jogadores! + +--Desconfio que não! Já tem comido do pão que o diabo amassou. Não é o +conselheiro que torna a arruinar-se. + +--Não digas isso. A lei natural é esta: o homem rico, que se arruina e +que depois por um bafejo da sorte torna a enriquecer, embriaga-se no +fausto e na opulencia, e nunca mais se recorda das terriveis noites de +miseria senão quando ellas principiam a despontar vagamente por entre o +sol da sua felicidade. + +--A mim não me succederia outro tanto. + +--És uma excepção. + +--A excepção, é o que tu dizes. + +--Será o que te aprouver. O que eu não estou é para teimas. Já querias +aproveitar esta minha opinião para me ferrares uma _estopada_. Adeus. +Vou lá dentro ver se tomo um _grog_. + + * * * * * + +Á meia noite, retiraram-se todos os convidados. + +--Como deves estar satisfeita, Olympia, dizia Magdalena voltando se para +sua irmã. + +--Eu! respondeu Olympia. Ora essa! Pelo muito que jantei. + + + + +XXXVIII + + +O conselheiro saira da casa do conde de S. Luiz acompanhado pelo +visconde. + +Ao despedirem se, este ficou de ir no dia seguinte almoçar com João +Poderosa, para saber todos os promenores da sua entrevista com o conde +de S. Luiz. + +São dez horas da manhã. Louco de alegria pelo negocio que viera de +fazer, o conselheiro formúla mil planos para o seu dourado porvir! + +A geada de muitos invernos que lhe nevara no coração, ia desfazer-se aos +raios do sol de melhores dias. Ia subir aos pinaculos da felicidade, e +contemplar de uma grande altura os lodaçaes da pobreza, onde havia +alguns annos se estorcia. + +N'este momento, entrou um criado annunciando o visconde de Coruche. + +--Que entre, disse o conselheiro. + +Minutos depois, entrou o visconde. + +O fidalgo vinha pallido como uma estatua. + +--Que temos! Meu Deus! Como vens perturbado! acudiu o conselheiro +fitando o rosto do seu amigo. + +--Uma grande desgraça! Uma grande fatalidade! exclamou o visconde. + +--Uma grande desgraça?! Uma grande fatalidade?! + +--Venho agora mesmo de casa do conde de S. Luiz, e... + +--Morreu Olympia de alguma indigestão?... + +--Peior! tartamudeou o visconde, sentando-se n'uma othomana. + +--Peior do que isso?! Ora essa! O que poderia acontecer peior do que +isso! + +--O conde de S. Luiz foi atacado pela febre, e porque forma, meu caro +amigo! A sua morte é irremediavel, mas o peior, ainda não é isso, o +peior foi o que me disse agora a condessa... + +--O que te disse a condessa? perguntou anciosamente o conselheiro. + +--Que Magdalena entrará para um convento no mesmo momento em que seu pae +morrer. + +--Respiro! disse emfim o conselheiro. + +--Respiras?! perguntou o visconde profundamente admirado. + +--Sim, cuidei que fosse alguma coisa que me dissesse respeito. + +--Mas diz-me respeito a mim, louco! Não sabes que amava essa mulher? Que +eu era amado por ella? + +--Pois se tu a amas, e és amado por ella, é collocares-te á porta d'esse +convento e não a deixares entrar. + +--É que tu não comprehendes o seu caracter, João. Não sabes a especie de +amor que essa mulher me consagra? Amor que a tem feito soffrer e que lhe +vae abrir a sepultura! + +--Não comprehendo, murmurou o conselheiro. + +--Pois eu t'o explico. Magdalena dirigindo-se pela opinião geral, +julga-me incapaz de ser um bom marido, por estes dez ou doze annos, +emquanto tiver sangue na guelra, segundo a phrase de Olympia! Ora, meu +amigo, Magdalena é ciumenta como uma leôa, que não admitte que se divida +o coração, prefere morrer por mim, abraçada á cruz do seu amor, do que +ser minha, sem ter fé na fidelidade da minha alma. Comprehendes? + +--Olha, se queres que te diga a verdade, não comprehendo bem essas +cousas. Ahi tens tu porque eu gosto da minha Olympia. Quanto a essa, +estou certo que me não ha de atormentar muito com ciumes, nem aturdir-me +com aquelles estirados monologos de sentimento, em que Magdalena está +constantemente delirando. Sempre te disse que não trocava a minha +felicidade pela tua, se por ventura viesses a ser meu cunhado, o que +jámais pude acreditar, e se queres que seja sincero comtigo, nunca me +pude aperceber d'essa paixão, que tu dizias ter-lhe inspirado, apezar de +m'a estares querendo metter pelos olhos. E que tencionas fazer? ajuntou +elle mudando de tom. + +--Que tenciono fazer! Conformar-me com o meu destino, como ella... + +--Como ella quê? interrompeu o conselheiro, recolheres te tambem a um +convento? + +--Não, mas esquecel-a em todas as loucuras da vida! No jogo, na +embriaguez... + +--Mau systema, respondeu o conselheiro. + +--Sabes uma cousa, João? acudiu o visconde despeitado com a serenidade +do conselheiro. + +--Dize, respondeu este fleugmaticamente. + +--Está-me revoltando essa tua serenidade! Devias interessar-te mais por +mim, lembra-te... + +--Que te sou devedor da minha futura felicidade, mas que queres! Creio +pouco na tua paixão. Tenho-te visto trinta vezes apaixonado, e no dia +seguinte, curado d'esse sentimento com o coração prompto e limpo para +receber outro que te appareça. Se fosses pobre como eu, se tivesses as +minhas theorias sobre o dinheiro, então poderia acreditar que estavas +penalizado pela entrada no convento, porém como se não dá isso, +felizmente para ti, pouco tenho a compadecer-me. Ámanhã por estas horas, +completamente esquecido de Magdalena, apaixonas-te por qualquer mulher +que seduzes pelo teu ouro e pela tua intelligencia, e appareces-me +d'aqui a dias curado d'essa paixão que te atormenta. + +O visconde mordeu os beiços de raiva. Havia tanto de ironia nas palavras +do conselheiro, que não tardou muito que as intenções lhe fossem +completamente denunciadas. + +--Que tencionas portanto fazer? perguntou elle a Poderosa, querendo +dissimular a perturbação que lhe haviam produzido as suas palavras. + +--Que tenciono fazer? Ir immediatamente para Buenos-Ayres. E tu? + +--Tenho muitas voltas a dar, não poderei ir senão de tarde. E +despedindo-se do conselheiro, o visconde saiu, deixando o entregue ás +suas profundas reflexões. + +«Pobre visconde! Realmente, compadeço-te. Quanto melhor te fôra o teres +sido sincero para commigo. Se tens sido esperto, apanhavas-me cincoenta +ou sessenta contos por me teres conseguido este casamento. Assim, melhor +foi, custar-me-ha apenas cincoenta ou sessenta libras!» + +Meia hora depois, o conselheiro mandou buscar um trem, e dirigiu-se +para Buenos-Ayres. + + + + +XXXIX + + +São tres horas da tarde. O palacio dos condes de S. Luiz, que na vespera +ainda brilhantemente illuminado, abria os seus magnificos salões á +primeira sociedade de Lisboa, apresenta se agora entristecido como +fachada de edificio legendario! + +É que a morte, estranha e indifferente a todas as grandezas humanas, +assenta-se melancholicamente sobre os degraus d'aquellas escadas de +marmore, e, erguendo-se de vez em quando, fixa o seu olhar invisivel, +que atravessando as salas, vae pousar lugubremente no rosto pallido e +cadaverico do conde de S. Luiz! + +Tristão sente-lhe as mãos frias e descarnadas pesando-lhe sobre o +peito. Quer falar; a voz prende-se-lhe na garganta! De vez em quando, +levanta um olhar de piedade para um Christo, que de braços abertos o +contempla da sua cruz, como se o convidasse a recolher-se ao seu divino +seio! Então o conde torna a abaixar os olhos como se aquella imagem o +assustasse, e, levantando ao mesmo tempo uma das mãos, pede a Magdalena +que se lhe approxime. + +Ha quatro horas que não fala! Para maior expiação, a sua intelligencia +está clara e completamente serena! + +Magdalena, debruçada sobre o leito, pegando n'um lenço de cambraia, +limpa-lhe de vez em quando o rosto banhado por um suor lento e copioso. +O seu rosto, denota-lhe o martyrio e a resignação. + +A condessa, curvada n'uma poltrona, descança a fronte nas mãos, +erguendo-se de minuto em minuto para contemplar o infeliz esposo. O seu +olhar é triste, mas resignado como o de sua filha. + +Olympia ao fundo do quarto, sentada n'um sophá tapa os olhos com um +lenço de assoar, mastigando occulta e prestidigiosamente, umas +bolachinhas de agua e sal. + +O commendador Lopes de Miranda e o banqueiro Vaz Mendes, ora se +approximam dos pés do leito, ora se dirigem aos outros gabinetes, onde +uma multidão de individuos esperam com anciedade saber o estado do +enfermo. + +N'este comenos entra o conselheiro Poderosa. Demora-se um minuto olhando +para o conde, e, engatilhando um gesto de sofrimento dirige-se para a +condessa. + +Esta extende-lhe silenciosamente a mão, occultando ao mesmo tempo o +rosto com um lenço de cambraia. + +João Poderosa fica immovel por alguns segundos, e em seguimento +retira-se para falar com Olympia. + +Ao approximar-se lhe, a noiva simula um estremecimento de surpreza, e, +esquecendo o embrulho das bolachinhas que conservava no regaço, +entorna-o, fazendo rebolar as bolachas sobre a alcatifa. + +O conselheiro curva o busto, e salva os despojos farinaceos que se +preparavam para fazer as delicias da mastigação da sua futura esposa! + +No momento em que o conselheiro principiava o seu dialogo com Olympia, +Magdalena, que havia chegado o rosto aos labios de seu pae, volta-se +para a condessa. + +Esta pergunta lhe o que deseja. + +--Meu pae, necessita estar sosinho commigo e pede a todos que se +retirem, responde Magdalena. + +A condessa levanta-se. Olympia e o conselheiro seguem-n'a. Este ultimo +demora se no gabinete com sua futura sogra; Olympia aproveita a occasião +de ir á copa tomar uma canja de gallinha. + +--Sinto que me foge a vida, filha, disse o conde extendendo a mão para +Magdalena. Não quero morrer sem ter cumprido os meus e os teus desejos. +Agora que me sinto mais tranquillo, vae tu, Magdalena, vae tu mesma +buscar D. Marianna de Mendonça. Quero ouvir-lhe o perdão de seus +proprios labios, e tambem do Manuel. Vae Magdalena, vae, minha filha, +cumpre com este ultimo desejo de teu pae. + +--E minha mãe?... e toda a gente?... + +--E o que temos nós com toda esta gente, Magdalena? Trata-se agora da +minha consciencia. Quero apresentar-me deante de Deus arrependido de +todos os males que causei n'este mundo. Desde que confiei todos os +peccados áquelle santo padre que me trouxeste, minha filha, já não +receio o desconhecido. Sinto-me muito mais alliviado. Quando eu morrer, +Magdalena, dentro da minha secretaria, encontrarás um pequeno cofre de +platina; guarda-o, e a mais ninguem confies os segredos que elle +encerra. Só tu serás digna d'isso. O meu testamento está na gaveta +pequena d'aquella secretaria. Ha quatro dias que foi feito. Parecia +adivinhar o que succedia! Foi Deus! Deixo quatrocentos contos a D. +Marianna de Mendonça: ainda não é muito, para o que lhe fiz soffrer! +Agora, que sabes o principal, vae filha, e possa o perdão d'essa mulher +fazer com que a minha alma, voando aos pés de Deus, seja acolhida no seu +divino regaço. + +Afastando-a brandamente, tornou a pedir-lhe que fosse buscar D. Marianna +de Mendonça. + +--Se tua mãe te perguntar onde vaes, accrescentou elle, responde-lhe que +é um segredo que juraste guardar a um moribundo. + +Magdalena, depois de beijar seu pae na fronte, saíu do quarto e +atravessou pelo gabinete onde sua mãe conversava com o conselheiro. + +--Onde vaes? perguntou-lhe a condessa. + +--Vou saír. + +--Saír? + +--Buscar uma pessoa a quem meu pae deseja falar antes de morrer. + +--E essa pessoa... quem é? + +--É um mysterio e um segredo, e recommendando á condessa que fosse para +junto de seu pae, Magdalena atravessou as salas, e subindo ao quarto, +preparou-se para saír. + +Era tal o respeito e consideração que Magdalena inspirava a sua mãe; +tinha tanta certeza da inutilidade de todos os seus esforços, para lhe +quebrar qualquer dever, que a condessa resumiu-se ao silencio, e +dirigiu-se sem mais reflexões ao quarto de seu marido. + +--Aonde foi Magdalena? + +--Buscar uma pessoa a quem desejo pedir perdão antes de morrer, e com +quem pretendo ficar sósinho. + +A condessa, sem responder uma palavra, foi sentar se na mesma poltrona +d'onde momentos antes se havia levantado. + +Amparado por aquelle desejo ardente, o conde de S. Luiz parecia de +momento para momento ganhar mais tranquillidade. + +Um quarto de hora depois, Magdalena entrou de novo no quarto de seu +pae, participando lhe a chegada de D. Marianna. O conde fez um gesto +significativo a sua mulher, esta comprehendendo o em seguida com uma +obediencia passiva, levantou-se e saíu do quarto. Pouco depois entrava +D. Marianna de Mendonça e seu filho. Magdalena fechou a porta +deixando-os a sós com o conde. + +Magdalena dissera-lhe apenas que seu pae os queria ver antes de expirar. + +O conde, ao vel-os parados no meio da sala, extranhos e alheios áquella +situação, ergueu se n'um supremo esforço, e, chamando-os pelos nomes, +convidou-os a approximarem-se do leito. + +D. Marianna, accedendo immediatamente aos seus desejos, acercou-se do +enfermo. + +--Lembra-se D. Marianna de Mendonça, recorda-se Manuel, d'um banqueiro +chamado Felix Justino de Araujo, que em 1835 a mandou ir um dia em +companhia do seu advogado, levantar um deposito de perto de quarenta +contos de réis? + +--Lembro-me, respondeu D. Marianna de Mendonça, fixando demoradamente o +semblante do conde de S. Luiz. + +--Se esse homem, que fez a sua desgraça, que lhe roubou filho, haveres, +e por ultimo a razão, debruçado sobre a sepultura, lhe extendesse a mão +supplice e arrependida, implorando lhe o perdão para sua alma, que lhe +faria? + +--Perdoar-lhe tudo, para que Deus tambem me perdôe os meus peccados, +respondeu ainda D. Marianna. + +--Perdôa-me tambem, Manuel de Mendonça? disse o conde. Perdoa a este +homem, que durante vinte e tres annos o separou de tudo quanto tinha de +mais caro no mundo! Perdoa a este homem, accrescentou elle, que conduziu +sua mãe á miseria e á loucura. + +--Perdoae-lhe, Senhor, como eu lh'o perdôo de todo o meu coração, +respondeu Manuel de Mendonça, voltando-se para a cruz do Redemptor, juiz +supremo d'esta tocante scena. + +--Morrerei tranquillo, disse então o moribundo, com a voz já +enfraquecida. + +--Que Deus perdôe ao pae d'aquelle anjo, disse D. Marianna caindo de +joelhos, e apontando para a porta por onde Magdalena havia saido. + +--Diz bem, D. Marianna; d'aquelle anjo, accrescentou o conde de S. Luiz. +Foi aquella candida pomba a encarregada por Deus para me conduzir á sua +divina presença! A ella devo o seu perdão, sr.ª D. Marianna! + +--E eu devo-lhe o meu filho, respondeu D. Marianna, arrastando-se de +joelhos sobre a alcatifa, até se collocar deante do Christo. Pela vossa +infinita misericordia, exclamou ella levantando as mãos para a cruz, +perdoae-lhe Senhor, como eu de todo o coração lhe perdôo, e queira a +vossa infinita vontade conservar-lhe largos annos de vida, para que este +arrependido conheça a sinceridade das minhas palavras. + +--Chamem a minha filha que deve estar n'aquelle quarto, murmurou o +conde, voltando-se para Manuel de Mendonça, e apontando para uma porta +que separava os dois aposentos. + +Magdalena entrou immediatamente. Ainda que dotada de uma organização +robustissima, a infeliz, já principiava a resentir-se de tantas +commoções. + +D. Marianna, lançando-se-lhe nos braços, debalde tentava occultar as +lagrimas. + +--Falta me aqui uma pessoa a quem desejava ver antes de morrer. Queria +abraçar a Martha, a minha companheira do hospital. + +--Deus favorece-lhe os seus desejos, meu pae. Ha dois minutos que alli +estão todos tres: e, abrindo a porta, deu passagem a Balbina, Jeronymo e +sua filha. + +--Approximem-se, meus amigos, disse-lhes o conde de S. Luiz. E, emquanto +fôr tempo, accrescentou elle, apertem esta mão, que sempre se lhes +extendeu com amizade. + +As lagrimas embargaram-lhes as vozes. Uma pessoa apenas se conservava +n'uma serenidade de martyr. Era Magdalena! + +--Infelizmente, accrescentou o conde voltando-se para Martha e Manuel de +Mendonça, não lhes posso assistir ao casamento mas aqui lhes fica este +anjo, continuou elle voltando-se para Magdalena. + +Esta ficou immovel! + +Alma temperada nas grandes agonias, a que realeza de martyrio foste +arrancar esse diadema que te corôa? + +Momentos depois, retiraram se todos do quarto. + +O conde ficou em estado de profunda atonia. + +Não se ouvia um ruido. Apenas o estremecimento da prece passando pelos +labios descorados de Magdalena. + +Como tudo isto estivesse em socego entraram no quarto a condessa, +Olympia, o conselheiro e o visconde de Coruche. Seguiam n'os o +commendador e o banqueiro. + +--Dorme tranquillo! disse o visconde olhando na direcção do leito. + +--Dorme acudiu a condessa, á medida que se approximava de seu esposo. + +Magdalena, n'esse momento, adeantou se mais, e debruçou-se a escutar a +respiração. + +--Morto! exclamou a pobre filha, n'um arranco d'alma! Bemdito Deus, que +me permittiste salvar meu pae! ajuntou ella caindo sobre o cadaver do +conde, e aproveitando nos seus labios o derradeiro calor d'aquelle rosto +extremecido. + + + + +EPILOGO + + +No mesmo dia foi aberto o testamento, tendo por testemunhas o visconde +de Coruche, o commendador Lopes de Miranda e o conselheiro João +Poderosa. + +Deixava por testamenteira a sua filha D. Magdalena. Entre varios legados +a differentes hospitaes e asylos, avultava a quantia de quatrocentos +contos a D. Marianna de Mendonça e Athayde, como um testemunho de eterna +recordação pelos muitos favores de que lhe era devedor. + +A sua fortuna, espalhada por differentes bancos da Europa e da America, +excedia a dois mil contos. + +Quinze dias depois da morte do conde de S. Luiz, ás seis horas da manhã, +Manuel de Mendonça recebia-se na freguezia de Nossa Senhora da Lapa com +a filha de Jeronymo, tendo por padrinhos dois honrados capitães de +navio, e por madrinha D. Magdalena de Almeida. + +Ao cabo de dois mezes, Olympia concedeu a sua mão ao conselheiro, e o +seu coração aos inqualificaveis gozos da cosinha. + +Gozando em branda paz as delicias do hymeneu, havia comtudo uma terrivel +sombra que lhes perturbava a paz domestica: o conselheiro não era capaz +de fazer nem um _beefsteak_! Toda a sciencia culinaria de que se +vangloriara, era apenas um mytho que elle creára para conquistar o +estomago de D. Olympia! + +Quando emfim sobre Lisboa deixaram de esvoaçar as azas negras do +monstro, e que Magdalena fechou as portas áquelle hospital, d'onde não +tinha saido desde a morte de seu pae, o visconde de Coruche, vivamente +ferido pela grandeza d'alma de Magdalena, lançou se-lhe aos pés e +pediu-a em casamento. + +--Vou casar-me com Deus, respondeu Magdalena, levantando os olhos para o +céu! + +No dia seguinte, Magdalena entrava no convento de ***, onde morreu pouco +depois, recebendo as bençãos da pobreza, com quem havia repartido os +seus rendimentos. + +Lopes de Miranda, associado com Vaz Mendes n'uma casa de penhores, abre +os seus armarios a todos os objectos de valor que o visconde de Coruche +periodicamente lhe envia pelo seu mordomo. Este espera ainda ver seu amo +n'um estado florescente, attendendo ao axioma de um dos nossos primeiros +vultos litterarios: que um fidalgo arruinado sempre tem cem contos de +réis! + +Quanto á condessa de S. Luiz, uns dizem que está beata, outros +asseveram que se tornou capitalista de uma partida de _Roulette_ não sei +em que parte da Europa, e de que são feitores Gil de Carvalho e Bernardo +de Paiva, tendo-lhe o primeiro ganho a confiança pela paga espontanea +das cem libras que devia a seu defuncto marido, e de que nem ella mesma +era sabedora. + +E Martha, e Manuel de Mendonça, e sua mãe, e Balbina e Jeronymo, e +Mascatudo? + +Apezar da tia Monica asseverar aos que á noite se reunem na tenda da rua +da Lapa, que foram todos parar aos peixinhos, pessoa de credito affirmou +a quem estas paginas escreve, que essa familia, venturosa na sua união, +se foi estabelecer nos Estados-Unidos, gosando em doce calma os prazeres +de uma existencia honesta, moral e religiosa. + +E ter-se-hão esquecido da memoria de Magdalena? + +Nunca! N'aquelles corações não cabia a ingratidão. + + FIM + + + + +COMPANHIA PORTUGUESA EDITORA, L.^{DA} + +PORTO + + +Ultimas Publicações + + *A Morgadinha do Valongo*. Novela, por Manuel da Câmara, 1 vol. + broc. 5$000 + *A Verdade*, peça em três actos, por Francisco Lage e João + Correia d'Oliveira. 1 vol. 12$500 + *A Regeneração*,--Fontes Pereira de Mello, por Eduardo + Noronha--1.ª parte. 1 vol. 12$500 + *Cariátide*, pelo Visconde de Vila-Moura. 1 vol. 7$500 + *Cartas a Luiza*, por D. Maria Amalia Vaz de Carvalho. (Nova + edição) 1 vol. 10$000 + *Cesar e João Fernandes*, comedia em 1 acto por Alberto de Morais + e Mario Duarte. 2$500 + *Dom João*, Poema por Silva Gayo. 1 vol. 7$500 + *Duas Causas*, peça em três actos por Alberto de Morais e Mario + Duarte 1 vol. 8$000 + *Fontes Pereira de Mello*, por Eduardo Noronha, 2.ª parte 1 vol. 10$000 + *Manhã de S. João*, por Severo Portela, próprio para prenda de + anos. 1 vol. 7$500 + *Maravilhas Celestes*, por Camilo Flammarion, versão de Alexandre + da Conceição. 1 vol. 12$500 + *Mundo Novo*. Romance, por Ana de Castro Osorio. 1 vol. 12$500 + *O Douro em Brasas...* Crónicas, por Kol d'Alvarenga. 1 vol. + broc. 8$000 + *O Fado*. Ensaios sobre um problema Etnográfico-Folclórico, por + José Maciel Ribeiro Fortes. 1 vol. 10$000 + *O Livro da Educadora*, por Paulo Combres (Nova edição) 1 vol. 10$000 + *O Martir do Golgota*, por Henrique Peres Escrich. 3 vol. 24$000 + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of O Conde de S. Luiz, by Tomaz de Melo + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CONDE DE S. LUIZ *** + +***** This file should be named 28928-8.txt or 28928-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/8/9/2/28928/ + +Produced by Júlio Reis, Carlo Traverso, Leonor Silva and +the Online Distributed Proofreading Team at +https://www.pgdp.net + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. 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Luiz, by Tomaz de Melo + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O Conde de S. Luiz + +Author: Tomaz de Melo + +Release Date: May 22, 2009 [EBook #28928] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: UTF-8 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CONDE DE S. LUIZ *** + + + + +Produced by Júlio Reis, Carlo Traverso, Leonor Silva and +the Online Distributed Proofreading Team at +https://www.pgdp.net + + + + + + +</pre> + + + +<!-- Autogenerated TOC. Modify or delete as required. --> +<div class="mynote"> +<p><b>Nota de transcrição:</b> +O uso do hífen nesta obra é bastante inconsistente; +o mesmo se passa com a ortografia. Assim, ocorrem por exemplo "entregara" +e "entregára"; "ante-mão" e "antemão"; "dirigindo se" +e "dirigindo-se". A grafia não foi harmonizada, por não ser +possível determinar a intenção original do autor.</p> +<p>Índice:</p> +<ul> +<li><a href="#O_CONDE_DE_S_LUIZ">Capa</a></li> +<li><a href="#BIBLIOTHECA_PORTUGUEZA_ILLUSTRADA">Bibliotheca Portugueza Illustrada</a></li> +<li><a href="#I">Capítulo I</a></li> +<li><a href="#II">Capítulo II</a></li> +<li><a href="#III">Capítulo III</a></li> +<li><a href="#IV">Capítulo IV</a></li> +<li><a href="#V">Capítulo V</a></li> +<li><a href="#VI">Capítulo VI</a></li> +<li><a href="#VII">Capítulo VII</a></li> +<li><a href="#VIII">Capítulo VIII</a></li> +<li><a href="#IX">Capítulo IX</a></li> +<li><a href="#X">Capítulo X</a></li> +<li><a href="#XI">Capítulo XI</a></li> +<li><a href="#XII">Capítulo XII</a></li> +<li><a href="#XIII">Capítulo XIII</a></li> +<li><a href="#XIV">Capítulo XIV</a></li> +<li><a href="#XV">Capítulo XV</a></li> +<li><a href="#XVI">Capítulo XVI</a></li> +<li><a href="#XVII">Capítulo XVII</a></li> +<li><a href="#XVIII">Capítulo XVIII</a></li> +<li><a href="#XIX">Capítulo XIX</a></li> +<li><a href="#XX">Capítulo XX</a></li> +<li><a href="#XXI">Capítulo XXI</a></li> +<li><a href="#XXII">Capítulo XXII</a></li> +<li><a href="#XXIII">Capítulo XXIII</a></li> +<li><a href="#XXIV">Capítulo XXIV</a></li> +<li><a href="#XXV">Capítulo XXV</a></li> +<li><a href="#XXVI">Capítulo XXVI</a></li> +<li><a href="#XXVII">Capítulo XXVII</a></li> +<li><a href="#XXVIII">Capítulo XXVIII</a></li> +<li><a href="#XXIX">Capítulo XXIX</a></li> +<li><a href="#XXX">Capítulo XXX</a></li> +<li><a href="#XXXI">Capítulo XXXI</a></li> +<li><a href="#XXXII">Capítulo XXXII</a></li> +<li><a href="#XXXIII">Capítulo XXXIII</a></li> +<li><a href="#XXXIV">Capítulo XXXIV</a></li> +<li><a href="#XXXV">Capítulo XXXV</a></li> +<li><a href="#XXXVI">Capítulo XXXVI</a></li> +<li><a href="#XXXVII">Capítulo XXXVII</a></li> +<li><a href="#XXXVIII">Capítulo XXXVIII</a></li> +<li><a href="#XXXIX">Capítulo XXXIX</a></li> +<li><a href="#EPILOGO">Epilogo</a></li> +<li><a href="#COMPANHIA_PORTUGUESA_EDITORA_L">Companhia Portuguesa Editora, L.<sup>da</sup></a></li> +</ul> +<p>Tabela de ilustrações:</p> +<ul> +<li><a href="#image-001">Capa</a></li> +<li><a href="#image-002">Bibliotheca Portugueza Illustrada</a></li> +<li><a href="#image-033">N'este momento a viuva acabava de assignar...</a></li> +<li><a href="#image-081">—Como se acha? perguntou Martha levantando se da cadeira...</a></li> +<li><a href="#image-129">—Vocemecê anda sobre as aguas do mar?...</a></li> +<li><a href="#image-193">É de joelhos que lh'o imploro!</a></li> +</ul> +<p>O Índice e a Tabela de ilustrações não estão +presentes na edição original em papel.</p> +</div> +<!-- End Autogenerated TOC. --> + +<div class="bbox center"> +<h3>Biblioteca Portuguesa Ilustrada</h3> + +<div class="center"> + <a id="image-001"></a> + <a href="images/image-001h.png" > + <img src="images/image-001.png" + alt="Capa: O Conde de S. Luiz" + title="Capa: O Conde de S. Luiz" /> + </a> +</div> + +<p style="font-weight:bolder"><b>D. TOMAZ DE MELO</b></p> + +<p style="font-family:sans-serif;font-size:300%;color:#C03;font-weight:bold">O CONDE DE S. LUIZ</p> + +<p style="letter-spacing:.5em"><b>LIVRARIA BARATEIRA</b></p> + +<p style="font-family:sans-serif;letter-spacing:0.2em">34, Rua do Duque, 36—T. Trind 1264—LISBOA</p> +</div> + +<p><span class='pagenum'><a name="Page_1" id="Page_1">[Pg 1]</a></span></p> + +<hr style="width: 65%;" /> +<h1><a name="O_CONDE_DE_S_LUIZ" id="O_CONDE_DE_S_LUIZ"></a>O CONDE DE S. LUIZ</h1> + +<p><span class='pagenum'><a name="Page_2" id="Page_2">[Pg 2]</a></span></p> +<hr style="width: 65%;" /> +<div class="center"> + <a id="image-002"></a> + <a href="images/image-002h.png" > + <img src="images/image-002.png" + alt="Bibliotheca Portugueza Illustrada" + title="Bibliotheca Portugueza Illustrada" /> + </a> +</div> + +<div class="bbox"> +<div class="center"> +<p class="smcap" style="font-size:150%;font-weight:bold"> +<a name="BIBLIOTHECA_PORTUGUEZA_ILLUSTRADA" id="BIBLIOTHECA_PORTUGUEZA_ILLUSTRADA"></a> +EMPREZA da HISTORIA de PORTUGAL</p> +<p style="letter-spacing:.3em"><b>SOCIEDADE EDITORA</b></p> +<p>LIVRARIA MODERNA: R. Augusta, 95 ‡ TYPOGRAPHIA: R. Ivens, 45 e 47</p> + +<hr style="width: 65%;" /> +<p style="font-size:150%">BIBLIOTHECA PORTUGUEZA ILLUSTRADA</p> + +<p style="font-size:120%"><b>Nova collecção economica a 200 réis o volume</b></p> + +<p>Contendo 200 a 250 pag. com 5 illustrações originaes de pagina</p> +</div> +<hr style="width: 65%;" /> + +<p>É esta bibliotheca exclusivamente constituida por +livros nacionaes, dos nossos melhores escriptores, custando +cada volume de cerca de 250 paginas, em magnifico +papel, com 5 illustrações originaes e expressamente +feitas para esta publicação, apenas <b>200</b> réis, ou <b>300</b> réis, +bellamente encadernado em capas especiaes a côres.</p> + +<p class="center" style="font-size:125%"><b>ROMANCES PUBLICADOS</b></p> + +<p><b>Os Fidalgos do Coração de Ouro</b> (Chronica do reinado +de D. Sebastião) por M. Pereira Lobato. Dois vol., broc. +400 rs., enc. n'um só, em capas especiaes, 500 rs.</p> + +<p><b>A Queda d'um Gigante</b>, (continuação do antecedente). +Um vol., broc. 200 rs., enc. 300 rs.</p> + +<p><b>A Baroneza de la Puebla</b>, (romance do seculo XVI, continuação +dos 2 anteriores). Um vol., broc. 200 rs., enc. +300 rs.</p> + +<p><b>Estandarte Real</b>, (conclusão dos romances anteriores). +Um vol., broc. 200 rs., enc. 300 rs.</p> + +<p><b>Lição ao Mestre</b>, por Teixeira de Vasconcellos. Tres +vol., broc. 600 rs., enc. n'um só 700 rs.</p> + +<p><b>A Mascara Vermelha</b>, (romance historico) por M. Pinheiro +Chagas. Um vol, broc. 200 rs., enc. 300 rs.</p> + +<p><b>Juramento da Duqueza</b>, (continuação do antecedente) +por M. Pinheiro Chagas. Um vol., broc. 200 rs., +enc. 300 rs.</p> + +<p><b>Noites Perdidas</b>, livro de contos, de Betamio d'Almeida. +Um vol., broc. 200 rs., enc. 300 rs.</p> + +<p><b>Esboços de apreciações litterarias</b>, de Camillo +C. Branco. Um vol., br., 200 rs., enc. 300 rs.</p> + +<p><b>Conde de S. Luiz</b>, por D. Thomaz de Mello. Um +vol. br., 200 rs., enc. 300 rs.</p> + +<p><b>A PUBLICAR:</b></p> + +<p><b>Duello nas sombras</b>, por A. F. Barata,—<b>Annel +mysterioso</b>, de Alberto Pimentel, etc., etc.</p> + +<p class="center" style="font-size:125%;letter-spacing:.2em"><b>ASSIGNATURA PERMANENTE</b></p> +</div> + +<p><span class='pagenum'><a name="Page_3" id="Page_3">[Pg 3]</a></span></p> +<hr style="width: 65%;" /> +<div class="bbox center"> +<h1>BIBLIOTHECA PORTUGUEZA ILLUSTRADA</h1> + +<p style="padding:.5em .5em .5em .5em;font-size:105%;font-family:sans-serif">X</p> + +<p style="font-size:150%">D. THOMAZ DE MELLO</p> +<hr style="width:10%" /> + +<p style="font-size:300%">O CONDE DE S. LUIZ</p> + +<p style="letter-spacing:.1em">ROMANCE ORIGINAL</p> +<hr style="width:5%" /> + +<p style="letter-spacing:.3em"><b>SEGUNDA EDIÇÃO</b></p> + +<p class="center" style="padding:4ex 0 4ex 0"> +<img src="images/image-003.png" title="Logotipo" alt="Logotipo"/> +</p> + +<p>LISBOA</p> +<p class="smcap">Empreza da Historia de Portugal</p> +<p><i>Sociedade editora</i></p> + +<table summary="alinhamento de texto"> +<tr> +<td style="width:50%;text-align:right;border-right:1px solid black;padding-right:1em"> +LIVRARIA MODERNA<br /> +<i>R. Augusta 95</i> +</td> +<td style="width:50%;text-align:left;border-left:1px solid black;padding-left:1em"> +TYPOGRAPHIA<br /> +<i>45, R. Ivens, 47</i> +</td> +</tr> +</table> +<p>1903</p> +</div> +<hr style="width: 65%;" /> + +<p><span class='pagenum'><a name="Page_5" id="Page_5">[Pg 5]</a></span></p> + +<h1><a name="I" id="I"></a>I</h1> + + +<p>Era no anno de 18*** N'um palacete proximo á +Calçada de Santo André, vivia, em companhia de seu +filho e de duas creadas, D. Marianna de Mendonça, +filha bastarda de Manuel Pires de Athayde, que fôra em +tempos de pouco saudosa memoria alcaide-mór da +cidade de * * *</p> + +<p>Poucos mezes antes de morrer, Manuel Pires de +Athayde, entregára a sua filha dezeseis mil cruzados +em dinheiro, afóra joias e outros objectos de valor, +pedindo-lhe ao mesmo tempo que acceitasse por esposo +a Alvaro de Mendonça seu primo co-irmão, moço +serio e de bom porte, e, além d'isso, possuidor de +riquezas quasi eguaes ás que o alcaide-mór lhe legava.</p> + +<p>Recusando, a principio, o noivo que o pae lhe indicava, +D. Marianna, por ultimo, não teve mais remedio +senão acceder aos seus desejos.</p> + +<p>Tres mezes depois, com grande alegria de todos os +parentes, recebeu se com Alvaro de Mendonça na freguezia +dos Anjos.</p> + +<p>O pobre velho parecia apenas aguardar a realização<span class='pagenum'><a name="Page_6" id="Page_6">[Pg 6]</a></span> +d'este ultimo desejo para volver a alma ao Creador, +entre as lagrimas da filha e dos amigos que o estremeciam. +Ao cabo de oito dias de casada, D. Marianna +ficava sem pae.</p> + +<p>Manuel Pires de Athayde não se havia enganado na +escolha; Alvaro de Mendonça era o exemplo dos maridos. +A sua proverbial honestidade tornava-o estimado +em todos os logares onde apparecia, acompanhado +quasi sempre pela esposa, digna e respeitada como +elle.</p> + +<p>Ao fim d'um anno, a Providencia, prodiga em lhes +proporcionar todas as venturas, concedeu-lhes a maior +que póde dar aos que deveras se amam sobre a terra, +e que medem o mundo todo, pelo curto espaço do +seu domicilio: um filho.</p> + +<p>Manuel—tal foi o nome do recemnascido—de dia +para dia se tornava mais robusto. Era um gosto vel os +á tarde por sobre os canteiros do seu pequeno jardim, +correndo com o Manuelito, e disputando entre si, qual +dos dois alegraria mais a creancinha.</p> + +<p>Marianna, por esse tempo, teria uns dezoito a vinte +annos, Alvaro trinta e quatro.</p> + +<p>Amor, saude, mocidade, riquezas e um filho! Que +lhes faltava para serem felizes?</p> + +<p>Pelo espaço de doze annos, trabalhando mais do +que as forças lh'o permittiam, afim de melhorar o futuro +da creança, correu a vida de Alvaro de Mendonça, +sem que uma só vez podesse D. Marianna deixar de +levantar as mãos aos céus, para agradecer á Providencia +o esposo que lhe havia concedido.</p> + +<p>Uma circumstancia apenas lhes toldava de vez em +quando o iris da sua felicidade; eram os continuos +receios que um velho primo lhes infundia, sobre a +precoce intelligencia do estremecido fructo dos seus +amores patriarchaes.<span class='pagenum'><a name="Page_7" id="Page_7">[Pg 7]</a></span></p> + +<p>«Não puchem pelo rapazola se o não querem ver +no cemiterio, dizia-lhes elle muitas vezes. Um talento +como este deve ser muito poupado. Se meu pae não +me tem acudido a tempo, retirando-me do collegio, +talvez lhes não estivesse agora dando este conselho. +Eu fui o mesmo que o Manuelito; aprendi a grammatica +portugueza de <i>fio a pavio</i> em menos de um mez. +Não percebia bem o que dizia, é verdade, mas sabia +tudo de cór, que era até um gosto ouvirem-me. Sabem +o que fez meu pae? Annuiu aos desejos do mestre, +que era um doidinho por mim, e retirou-me do collegio +para que não estudasse mais. É certo que estou +hoje sem saber coisa alguma, porquanto a grammatica +esquece muito, mas pelo menos tenho vida e saude, +que é o principal.»</p> + +<p>A despeito d'estas e de outras judiciosas reflexões, +Manuel continuou a frequentar a aula, onde era querido +por todos os professores e condiscipulos. Estes, longe +de lhes causar inveja o seu inquestionavel merecimento, +todos á uma se ufanavam em lh'o proclamar.</p> + +<p>Aos quinze annos já tinha feito os exames de philosophia +e latinidade.</p> + +<p>Quando mais venturosa sorria a existencia de Alvaro +de Mendonça, coroada pelos louros de seu filho, a +Providencia, como se já estivesse fatigada de lhe sorrir, +fez com que o anjo da morte, descendo lentamente +sobre o seu leito, lhe cerrasse para sempre os olhos.</p> + +<p>D. Marianna de Mendonça, ainda que dotada de intelligencia +clara e reflexiva, faltava-lhe comtudo aquella +experiencia do mundo impossivel de conseguir a qualquer +senhora que, como ella, tivesse vivido apenas +entregue aos cuidados de sua casa.</p> + +<p>Abatida pelo golpe que acabava de soffrer, muito +fazia a infeliz viuva em administrar a sua casa de portas +a dentro, e bem assim seguir a educação de Ma<span class='pagenum'><a name="Page_8" id="Page_8">[Pg 8]</a></span>nuel, +que de mez a mez fazia mais rapidos progressos, +continuando a disfructar uma irreprehensivel saude, +apezar de todos os prognosticos de seu primo, o ex-grammatico, +que se não cançava de lembrar á viuva +o absurdo da sua insistencia em que o pequeno continuasse +no collegio.</p> + +<p>Entre as pessoas que ordinariamente frequentavam +a casa da viuva, distinguia-se o commendador Felix +Justino de Araujo, homem probo e honesto para todos +que tinham a honra de lhe merecer a sua confiança, +o que elle prodigamente espalhava afim de conquistar +as geraes sympathias.</p> + +<p>Corriam varias edições ácerca da sua mysteriosa individualidade, +chegando algumas pessoas a levar o seu +arrojo a ponto de dizerem que o commendador não +passava de um refinado velhaco, e que, mais dia menos +dia, as suas gentilezas teriam de ser desmascaradas +em praça publica; isto tudo, já se vê, proferido +em voz baixa, depois de com elle terem gasto os joelhos +das calças, nas respeitosas zumbaias que diariamente +lhe dispensavam. É que já n'essa epocha, a raça +de commendadores que hoje invade a capital começava +a manifestar-se com toda a força do seu prejudicial +desenvolvimento. Era muito de ver se como toda +aquella gente o tractava no tocante a futeis banalidades. +Riam-se uns dos outros, e todos em sua presença +disputavam entre si, qual deveria ser o seu primeiro +thuribulario.</p> + +<p>Uns diziam que era viuvo, outros que era casado +com uma mulher de baixa esphera, de quem tinha +duas filhas, porém que se não atrevia a apresental-a +na sociedade, em virtude das suas maneiras pouco +distinctas.</p> + +<p>A sua riqueza ninguem ao certo a poderia saber; +porém o faustuoso luxo com que se tractava levava a<span class='pagenum'><a name="Page_9" id="Page_9">[Pg 9]</a></span> +suppôr que enormes rendimentos havia herdado da +sua nobre ascendencia, cujos brazões nobiliarios fariam +estremecer de inveja qualquer puritano.</p> + +<p>Uma noite em que D. Marianna de Mendonça se +queixava amargamente de um certo procurador, lembrou-lhe +uma das suas amigas que talvez lhe fosse +conveniente entregar a administração da casa ao commendador, +se elle porventura a isso estivesse resolvido, +e que ella mesma lhe falaria a tal respeito.</p> + +<p>A viuva acceitou de bom grado o que a sua intima +lhe propozera, e falando esta com o commendador, ao +cabo de oito dias Felix Justino de Araujo tinha geral +procuração para arrendar, subrogar, ou alienar qualquer +propriedade, se por ventura assim o julgasse +conveniente para o futuro do seu Manuel que, segundo +o dizer do administrador, era tanto para elle como +se fosse seu proprio filho.</p> + +<p>Não tardou muito tempo que o magnate fizesse uso +de uma das condições da procuração. Uma fazenda que +Alvaro de Mendonça herdára por morte de uma tia, +tres ou quatro annos depois de estar casado com a +filha de Manuel Pires de Athayde, foi-lhe vendida em +hasta publica. A venda fôra de um excellente resultado +para a viuva, segundo o commendador affirmava, +porquanto o seu principal rendimento eram arvores +de fructa, e essas mais anno menos anno cairiam todas +ao pezo d'uma epidemia que, segundo as suas +observações agronomicas, teria de grassar d'alli a +tempo, assaltando todas as fazendas sem exceptuar +uma unica.</p> + +<p>Em face d'esta cruel prophecia, quem se negaria a +separar-se de qualquer terreno, por mais dolosa que +fosse a venda?</p> + +<p>O commendador empregou esse dinheiro n'uma industria +cujo dividendo deveria exceder dez por cento.<span class='pagenum'><a name="Page_10" id="Page_10">[Pg 10]</a></span></p> + +<p>Quasi todos deram os parabens á viuva pelo bom +negocio que vinha de fazer, attendendo não só á grande +differença do rendimento, como tambem a ter-se +livrado d'esse terrivel cataclysmo, a que estava exposta +conservando uma só arvore.</p> + +<p>Assim decorreram dezoito mezes sem que D. Marianna +tivesse a mais pequena razão de se arrepender +da plena confiança que tinha depositado no seu administrador.</p> + +<p>Por este tempo, Manuel, que havia saído do collegio, +chegou se a sua mãe, dizendo-lhe que desejava partir +para o Rio de Janeiro, afim de se dedicar á vida commercial, +para que se sentia com decidida vocação.</p> + +<p>Recordando lhe ao principio a loucura do seu projecto, +a pobre mãe ponderou-lhe a pouca necessidade +de buscar em terra estranha o que já possuia na sua +patria: a riqueza.</p> + +<p>Por essa epocha, os bens da casa montavam a uns +trinta contos de réis, graças á herança que Alvaro de +Mendonça havia recebido por morte de sua tia, e ás +economias que a viuva fizera durante aquelle tempo.</p> + +<p>—Com o dinheiro que possuimos, dizia-lhe sua mãe, +poderás dedicar-te ao commercio, mas aqui em Lisboa. +É verdade que não tens um unico parente que te proteja, +mas, graças a Deus, temos meios. Partires, e deixares-me, +filho, acho que será uma grande loucura, +ajuntou ella, arrazando-se-lhe os olhos de lagrimas. +Em todo o caso, farás o que te aprouver. Não quero +que um dia me lances em rosto que o muito amor +que te consagro foi a causa de cortar a tua carreira.</p> + +<p>N'essa noite, quando appareceu o commendador, +D. Marianna manifestou-lhe os desejos de Manuel.</p> + +<p>—Que vá, respondeu elle rapidamente. Seu filho é +activo, audaz, intelligente e emprehendedor. Póde um +dia, se Deus o ajudar, vir a ser um grande homem.<span class='pagenum'><a name="Page_11" id="Page_11">[Pg 11]</a></span> +Não tenho filhos, acrescentou, porém se um dia os tiver, +nunca os hei de contrariar nas suas resoluções, +se ellas forem justas como as de Manuel.</p> + +<p>—Mas que precisão tem elle de expôr a sua saude +n'um clima tão perigoso? Trinta contos ou perto d'elles +que possuimos não será o sufficiente para se viver em +qualquer parte do mundo?</p> + +<p>-Porém se seu filho é ambicioso, e capricha em +adquirir um capital pelo seu trabalho, é justo que sua +mãe lhe impeça a sua determinação? Faça o que quizer, +mas tome o meu conselho, deixe-o partir. Deus +ha de guial-o, porque Manuel é bom, honesto, moral +e, sobre todas estas coisas, muito trabalhador.</p> + +<p>—E que dinheiro se lhe deve entregar, sr. Felix? +dez contos, quinze, vinte... que lhe parece?</p> + +<p>—Vossa excellencia está louca! acudiu apressadamente +o commendador. Entregar contos de réis a um +rapaz da edade de seu filho! Lançar Manuel n'um paiz +como o Rio de Janeiro, proporcionando-lhe os meios +de se perder! Nem por sombras! Quaes contos de +réis! Com seis moedas desembarquei eu em S. Paulo, +e ao cabo de doze annos possuia uma fortuna para cima +de dez mil libras! Contos de réis! Só essa me faria +rir! A passagem paga, meia duzia de moedas, e +as cartas de recommendação que para ahi lhe entregarei, +são mais do que o sufficiente.</p> + +<p>—Mas não me disse v. ex.ª que meu filho era um +rapaz de juizo, honesto e moral? Que receio teremos +em lhe entregar o que realmente lhe pertence? Não +é elle o meu unico herdeiro?</p> + +<p>—Fará vossa excellencia o que entender, e se lhe +quer entregar tudo quanto possue, faça-o; está no seu +direito, e lavo d'ahi as minhas mãos. Se quer que lhe +preste as minhas contas, estou muito prompto a fazel-o. +Sabe que o unico interesse que tenho em tudo<span class='pagenum'><a name="Page_12" id="Page_12">[Pg 12]</a></span> +isto é apenas o seu bem estar, e o futuro de Manuel. +Se quer estragar tudo quanto tenho feito em seu proveito, +é senhora das suas acções, póde fazel-o, que +desde este momento me considero desligado de todos +os meus encargos.</p> + +<p>Esta linguagem, rude mas na apparencia sincera, +produziu no animo debil de D. Marianna o resultado +que o commendador desejava. Affeita a obedecer-lhe +em tudo, havia-se deixado dominar completamente por +aquelle homem que, segundo a opinião de todas as +pessoas que frequentavam a sua casa, havia sido um +anjo salvador.</p> + +<p>Dois annos depois da sua administração, os vinte +contos de réis, que rendiam á viuva cem mil réis por +mez, haviam subido a um rendimento de um conto e +seiscentos por anno, graças á applicação que elle dera +a esses capitaes. Quanto ao producto da propriedade, +era um segredo, que mais dia menos dia seria revelado +como surpreza agradavel. Que razão teria ella para +o arguir de mau administrador?</p> + +<p>Estas e outras circumstancias faziam com que D. +Marianna obedecesse cegamente a quanto elle lhe impunha.</p> + +<p>No dia immediato, Manuel chegou-se a sua mãe, afim +de saber o que se havia passado entre ella e o commendador.</p> + +<p>—Sinto deveras que me queiras abandonar, porém +se essa é a tua vontade, vae, e que as minhas orações, +acompanhando-te sempre, te possam salvar de todos +os perigos. Quanto a dinheiro ajuntou ella, esperançada +em que o commendador se resolvesse a entregar-lhe +maior quantia, dir me-has quanto necessitas.</p> + +<p>—Nunca pedi contas nem a minha mãe nem ao sr. +commendador, mas supponho que não farão grande +differença nos capitaes que devemos possuir quatro<span class='pagenum'><a name="Page_13" id="Page_13">[Pg 13]</a></span> +ou cinco contos de réis para me estabelecer, mas ainda +assim, se minha mãe suppõe que essa quantia é +muito avultada, contentar me-hei com menos, ou por +ultimo, com aquillo que julgarem conveniente. É tudo +quanto tenho a dizer-lhe, accrescentou elle, pregando +os olhos no olhar turvo e entristecido de D. Marianna.</p> + +<p>No dia seguinte a viuva foi ao escriptorio do commendador +e contou lhe o que passára com Manuel.</p> + +<p>Felix de Araujo, depois de a ter escutado, insistiu +serenamente em que seria uma grande loucura entregar +a seu filho uma quantia superior a essa de que tinham +falado na vespera, repetindo porém, que estava +no seu direito de fazer o que lhe aprouvesse.</p> + +<p>Todos os espiritos, por mais debeis que sejam, teem +um momento na vida, em que uma circumstancia, ou +um milagre providencial lhes dardeja um raio de valor.</p> + +<p>A maneira, o gesto, o olhar, com que a viuva fitou +o commendador, foram sufficientes para que elle comprehendesse +que todos os esforços seriam inuteis. D. +Marianna estava resolvida a entregar a seu filho a +quantia que elle lhe havia, senão pedido, pelo menos +indicado.</p> + +<p>Não havia remedio! Era forçoso entregar esse dinheiro +no momento em que lhe fosse exigido, para +que se não realisassem certos boatos que lhe tinham +chegado aos ouvidos, de que mais dia, menos dia, as +suas gentilezas seriam desmascaradas!</p> + +<p>—Seja o que vossa excellencia quizer, disse elle, +depois de alguns instantes de reflexão. Que quantia +quer?</p> + +<p>—Quatro a cinco contos de réis. Como tudo o que +possuo é em dinheiro, não haverá duvida em os receber +por estes oito dias.</p> + +<p>—Oito dias! replicou o commendador, simulando<span class='pagenum'><a name="Page_14" id="Page_14">[Pg 14]</a></span> +grande tranquillidade de animo, hoje mesmo se vossa +excellencia quizer; não tenho mais trabalho do que +tiral-o d'aquelle cofre, ajuntou elle, apontando para +um grande armario de ferro.</p> + +<p>—Posso portanto ficar tranquilla?</p> + +<p>—Póde, mas lembre-se, minha senhora, que vae +fazer a desgraça de seu filho. Conheço o Rio de Janeiro, +e sei o que póde succeder a um rapaz da edade +de Manuel, achando-se possuidor de similhante quantia.</p> + +<p>—Será o que Deus quizer, respondeu a viuva despedindo +se.</p> + +<p>Quem, momentos depois, commettesse a indiscrição +de o espreitar, no pequeno gabinete do escriptorio, +conheceria immediatamente pela sua perturbação, que +os trinta contos de réis em que consistia a fortuna +d'aquella familia não estavam tão seguros quanto ella +os julgava.</p> + +<p>Oito dias depois, quando tudo estava preparado para +a viagem de Manuel, sua mãe dirigiu-se a casa do +commendador, afim de receber os cinco contos de réis, +e encontrou-o sereno e bem disposto, mas insistindo +ainda em que tão grande quantia seria prejudicial a +um moço inexperiente como seu filho.</p> + +<p>—Já disse ao sr. commendador o que tinha a dizer-lhe, +respondeu D. Marianna, sentando-se tranquilamente +a seu lado.</p> + +<p>—Visto não haver meio algum de a convencer, +queira vossa excellencia ter a bondade de me passar +um recibo d'esse dinheiro. Levantando-se serena e +fleugmaticamente, o commendador dirigiu se ao armario +de ferro, tirou de dentro d'elle um pequeno cofre +e collocou-o sobre a secretaria de que D. Marianna se +tinha approximado para passar o recibo. O commendador, +depois de contar os maços de notas de dez<span class='pagenum'><a name="Page_15" id="Page_15">[Pg 15]</a></span> +moedas, poz junto de D. Marianna os que prefaziam a +quantia exigida.</p> + +<p>N'este momento a viuva acabava de assignar o recibo.</p> + +<p>—Se não fosse a profunda sympathia que vossa excellencia +sempre tem sabido inspirar-me, creia que de +hoje em deante, deixaria de lhe administrar os seus +bens, e pedir-lhe-hia que mandasse buscar vinte e sete +contos de réis que alli tenho n'aquelle cofre; digo +que os mandasse buscar, porque grande parte d'esse +dinheiro está em ouro e em prata, com que vossa excellencia +não poderia. Não o faço, porque além de todas +as outras circumstancias, affeiçoei-me ao Manuel, +mais do que se elle fosse meu proprio filho, como já +uma vez lh'o disse.</p> + +<p>Se algumas desconfianças começassem a agitar o +espirito da viuva, todas se desvaneceriam em presença +d'esta scena. Havia uma dupla intenção nas palavras +do commendador: a primeira inspirar á viuva profunda +confiança no deposito dos seus capitaes; a segunda, +evitar ainda a entrega dos cinco contos de réis. A primeira +saiu-lhe bem, a segunda não foi tão favoravel.</p> + +<p>—Então quando é a saida da galera? perguntou elle +a D. Marianna.</p> + +<p>—Ámanhã, ás duas horas da tarde.</p> + +<p>—Não me comprometto a ir ao bota-fóra; ser-me-ia +penoso acompanhal-o ao começo da estrada da sua infelicidade.</p> + +<p>—Será o que Deus quizer, respondeu tristemente a +pobre mãe, pegando nos maços de notas e mettendo-os +dentro do seu sacco de veludo.</p> + +<p>Cinco minutos depois, acompanhada pelo commendador, +entrava D. Marianna para uma sege, e seguia +caminho de casa.</p> + +<p>No dia seguinte, ás duas horas da tarde, despren<span class='pagenum'><a name="Page_16" id="Page_16">[Pg 16]</a></span>dendo +se dos braços de sua mãe, entrava Manuel de +Mendonça na galera <i>Boa Ventura</i>, e ao cair da tarde +perdia de vista o que ha de mais caro na vida: mãe +e patria.</p> + +<p>«Acautele-se do commendador» foram as ultimas +palavras que Manuel dissera a sua mãe.</p> + +<p>Ao cabo de tres mezes, a viuva recebeu uma carta +de seu filho, em que lhe participava que tinha chegado +depois de uma feliz viagem, e que esperava em +pouco tempo estabelecer-se vantajosamente com uma +casa commercial.</p> + +<hr class="bookstyle"/> + +<p>Assim passaram mais oito mezes.</p> + +<p>As mezadas que D. Marianna recebia de Felix de +Araujo continuavam a ser-lhe entregues com a mesma +religiosa pontualidade, o que fazia com que todas as +pessoas que chegaram a duvidar da honestidade do +commendador começassem a proclamal-o homem de +evidente credito.</p> + +<p>Durou isto perto de um anno. As cartas que Manuel +escrevia a sua mãe eram cada vez mais consoladoras. +N'algumas, mandava-lhe dizer que os seus maiores +desejos seriam tel-a a seu lado.</p> + +<p>Um dia, finalmente, escreveu lhe seu filho, mandando-lhe +pedir encarecidamente que retirasse quanto antes +os capitaes que tinha na mão do commendador, +porque lhe tinham dado as peiores informações a seu +respeito, sendo a primeira não se chamar Felix Justino +de Araujo, mas simplesmente Domingos de Andrade.</p> + +<p>Afflicta com esta carta, a infeliz senhora procurou +um advogado, que fôra muito amigo de seu defunto +marido, e communicou-lhe os seus receios.</p> + +<p>N'esse mesmo dia, o doutor acompanhou-a a casa +do commendador. Este, ao vel-a, comprehendeu immediatamente +do que se tractava.<span class='pagenum'><a name="Page_17" id="Page_17">[Pg 17]</a></span></p> + +<p>—Tencionando retirar-me para o Rio de Janeiro, +venho prevenir vossa excellencia de que desejo levantar +da sua mão os capitaes que honestamente me tem +administrado. Se não fosse o desejo de ir ver meu filho, +continuaria a aproveitar me da zelosa e desinteressada +administração do sr. commendador.</p> + +<p>—E sabe vossa excellencia se n'este momento lhe +poderei entregar esse dinheiro? Não m'o confiou para +negociar, afim de que tivesse maiores lucros do que +estando na sua mão? Na vespera de seu filho partir +para o Brazil, quando dei a vossa excellencia os cinco +contos de réis, que me exigiu, não me promptifiquei +a entregar lhe quanto aqui tivesse? Vossa excellencia +não comprehende a possibilidade de que esse dinheiro +esteja empregado em qualquer negocio, e de que +n'esse caso me seja difficil devolver-lh'o de um momento +para o outro? Felizmente não succede assim, +pelo que dou graças a Deus! Quanto o estimo! Vossa +excellencia, por qualquer circumstancia, deseja retirar +das minhas mãos os seus capitaes, e não tem o sufficiente +valor de m'o dizer de cara a cara! Pois, minha +senhora, continuou elle, simulando um gesto de profundo +resentimento, e levantando um pouco a voz, eu, +que tenho a coragem das minhas acções, escudado +pelo meu nome e pela minha honestidade, declaro +aqui, alto e bom som, que sou eu que exijo, que vossa +excellencia retire d'aqui os seus fundos, e quanto +antes.</p> + +<p>Havia tanta dignidade nas palavras do commendador, +a sua voz era tão firme, tão altivo e tão seguro +o seu olhar, que D. Marianna chegou a convencer-se +de que era uma ingratidão o que vinha de fazer.</p> + +<p>—Ha perto de quatro annos, continuou o commendador +dirigindo se ao advogado, que eu administro os +bens d'esta senhora. O seu rendimento, que não che<span class='pagenum'><a name="Page_18" id="Page_18">[Pg 18]</a></span>gava +a um conto e duzentos por anno, subiu a um +conto e seiscentos. Uma propriedade que lhe valia o +muito quatro contos de réis, vendi-lh'a e appliquei o +producto d'ella n'um negocio, que rende para cima de +doze por cento. Que necessidade tenho eu d'isto tudo? +Tenho empregado trabalho e tempo; e preciso eu por +ventura de capitaes alheios para fazer as minhas transacções? +Escusado será dizer que não. Para que o fiz? +Para o seu bem! Boa paga, não haja duvida. Que esta +lição me sirva! Pois, minha senhora, ajuntou elle, voltando-se +para D. Marianna, rogo a vossa excellencia +que ámanhã, sem falta, até ás onze horas da manhã, +encarregue alguem de me tomar contas, e queira vossa +excellencia vir tambem, afim de me passar recibo +do dinheiro que tenho na minha mão. Hoje mesmo, se +lhe fosse possivel, apezar de ser tarde, muito prazer +me daria.</p> + +<p>—Ámanhã aqui estarei, visto assim o exigir, respondeu +D. Marianna, olhando ao mesmo tempo para o +advogado, como que esperando a sua opinião.</p> + +<p>—Sendo onze horas aqui viremos, disse o jurisconsulto, +despedindo se do commendador.</p> + +<p>—Que lhe pareceu? perguntou a viuva ao chegarem +á porta da rua.</p> + +<p>—Um homem honesto, ferido pela ingratidão que +acaba de receber, respondeu fleugmaticamente o doutor. +Em todo o caso, accrescentou elle, faça vossa excellencia +o que quizer; sendo dez horas estarei em sua casa.</p> + +<p>No dia immediato, conforme haviam combinado, +apresentou se o advogado em casa de D. Marianna de +Mendonça.</p> + +<p>Ás onze horas metteram-se n'uma traquitana, e dirigiram-se +ao escriptorio do commendador.</p> + +<p>Contra todos os usos da casa ainda estava fechado.</p> + +<p>—Que lhe parece isto? perguntou D. Marianna ao<span class='pagenum'><a name="Page_19" id="Page_19">[Pg 19]</a></span> +advogado, com mais receio do que na vespera ao perguntar-lhe +como lhe havia parecido.</p> + +<p>—Que é um homem ferido pela ingratidão, e que +anda a tratar de levantar dinheiro para a embolsar d'essa +quantia, respondeu elle ingenuamente.</p> + +<p>Momentos depois começaram a apparecer varios individuos. +O physionomista que de perto os observasse, +veria em todos elles a mesma sombra de receio que +se revelava no rosto pallido e transtornado de D. Marianna +de Mendonça.</p> + +<p>D'alli a duas horas ainda Felix de Araujo não tinha +apparecido.</p> + +<p>—Que lhe parece isto tudo doutor? dizia a viuva ás +cinco horas da tarde, olhando para o advogado, que a +contemplava com uma physionomia alvar.</p> + +<p>Que é um refinado ladrão que nos deixa a todos desgraçados! +accudiu um individuo que ouvira a pergunta +feita pela viuva.</p> + +<p>O commendador Felix Justino de Araujo havia fechado +o escriptorio. Domingos de Andrade fugira, roubando +dinheiro a todos aquelles que, como D. Marianna de +Mendonça, o haviam depositado nas suas mãos.</p> + +<p>Cinco dias depois D. Marianna, com a razão perdida, +entrava para a casa dos doidos no hospital de S. José.<span class='pagenum'><a name="Page_20" id="Page_20">[Pg 20]</a></span></p> + + + +<hr style="width: 65%;" /> +<h1><a name="II" id="II"></a>II</h1> + + +<p>Pelos fins do anno de 1858, vivia n'uma pequena +casa da Rua do Meio, freguezia de Nossa Senhora da +Lapa, Jeronymo de Almeida, honrado mestre de obras, +em companhia de sua mulher e de uma filha de dezeseis +annos, chamada Martha. A excentricidade de caracter +do operario, fazia com que todos os visinhos o +detestassem. Para elle, não havia domingos nem dias +santificados que o obrigassem a distrair-se do seu trabalho. +A sua janella encontrava-se sempre fechada.</p> + +<p>O cultivo do microscopico jardim era a unica distracção +que n'esses dias se permittia. Alli entre sua mulher e +sua filha, Jeronymo mondava o pequeno canteiro de hortaliça, +que duas horas depois tinha de fazer as delicias +da refeição domingueira. No armario da cozinha, esperava +desde a vespera a garrafa do Cartaxo que figurava +á sua meza, sobria sempre, porém honradamente disfructada +com o suor do rosto.</p> + +<p>Emquanto Jeronymo trabalhava no pequeno horto, +Balbina, a esposa, assentada na cadeira de costura, largava +apenas a agulha para agradecer a Deus o marido +que a Providencia lhe havia destinado.<span class='pagenum'><a name="Page_21" id="Page_21">[Pg 21]</a></span></p> + +<p>Martha, a preguiçosa Martha como Jeronymo n'esses +dias lhe chamava, escondia os ferros de engommar, para +seguir seu pae, sorrindo-se e gracejando a cada passo +que elle dava pelo jardim.</p> + +<p>Toda a visinhança da rua do Meio se mordia de despeito +ao contemplar a beatifica tranquillidade d'aquella +pobre mas venturosa familia; até uma sobrinha do sr. +regedor, que se finava de inveja ao contemplar os olhos +verdes de Martha, chegou a dizer ao sr. padre prior +que era impossivel que toda aquella gente não tivesse +grande peccado na consciencia, attendendo á constante +reclusão em que vivia. O sacerdote, que conhecia o invejoso +caracter da menina Gertrudes, passou de leve +sobre o caso, e contentou-se apenas em responder-lhe +que era tal a confiança que depositava na virtude +d'aquella familia, que não teria duvida alguma, embora +se sacrificasse a pôr fóra de casa a velha ama, a admittir +Martha a viver em sua companhia, entregando-lhe +nas mãos as chaves da dispensa, e tudo quanto possuia +de mais valor. Gertrudes desanimou na lucta, contentando +se apenas em desacredital-a em voz baixa, quando +por ventura alguma das amigas lhe falava a seu respeito.</p> + +<p>Defronte da casa de Jeronymo morava uma pobre +velhinha, que se tornava um mysterio para toda a visinhança, +passando apenas despercebida da familia do +operario, pouco affeita a importar-se com as vidas alheias. +A apparencia de sua casa, o seu trajar emfim, tudo +revelava summa pobresa, porém nunca a sua mão se +estendeu a pedir o obulo da caridade.</p> + +<p>A velha costumava sair todas as manhãs a fazer as +compras. Um dia a porta conservou-se fechada, e a tia +Marianna, segundo lhe chamavam, não apparecia. Ou +por curiosidade, ou por interesse, não faltou quem lhe +batesse ao postigo. Em resposta ouviram-se apenas +uns gemidos. O regedor chamou dois cabos de policia<span class='pagenum'><a name="Page_22" id="Page_22">[Pg 22]</a></span> +e mandou immediatamente arrombar a porta. Encontraram-n'a +exanime sobre o leito. A infeliz havia adoecido +com a febre amarella; foi esse um dos primeiros casos +que se dera na freguezia da Lapa. Atterrados, não houve +quem quizesse approximar se da enferma. Não tardou +muito que o facto transpirasse por toda a visinhança. +No momento em que o regedor, dois metros affastado +da porta, dava as suas ordens para que fossem buscar +a maca afim de conduzirem a velha ao hospital da rua +do Sol, Martha, a loira Martha, saiu de casa e atravessou +a rua, dirigindo-se ao logar do sinistro.</p> + +<p>—Onde vae a menina? perguntou o sr. Venancio da +Conceição.</p> + +<p>—Levar esta gotta de caldo á visinha, respondeu +Martha ao previdente regedor.</p> + +<p>—Não consinto similhante loucura! disse elle; a velha +foi atacada pela febre amarella, e vae immediatamente +para o hospital.</p> + +<p>—O que vocemecê não me póde impedir, é que eu +pratique uma obra de caridade; e demais, veja se está +no seu direito de mandar para o hospital uma pessoa +que se póde curar em sua casa.</p> + +<p>—Essa mulher não se póde tratar em sua casa, não +tem familia.</p> + +<p>—E quem lhe disse ao sr. que não tem quem a trate? +acudiu Martha, afastando o regedor e dirigindo se +para o interior da casa da tia Marianna. Ora essa! ajuntou +ella, e se eu a quizer tratar, ha de alguem oppôr-se?! +Creio que não. Com sua licença, sr. regedor; e entrando +animosamente, dirigiu-se a uma alcova, onde a +desgraçada, extorcendo-se em dolorosas agonias, cravava +os olhos n'um pequeno crucifixo, collocado sobre +uma commoda.</p> + +<p>Os cabos, regedor, e todos quantos alli se encontra<span class='pagenum'><a name="Page_23" id="Page_23">[Pg 23]</a></span>vam, +olhavam-se mutuamente sem proferir uma só +palavra.</p> + +<p>—Assim o quer, assim o tenha, disse a auctoridade, +depois de alguns instantes de reflexão. Se ella fosse +minha filha ou coisa que me pertencesse, por certo que +não havia de lá entrar. Eu cá é que não tomo nada, +acrescentou elle olhando com receio para dentro da casa.</p> + +<p>Instantes depois, saía Martha de casa da velha.</p> + +<p>—Mandem chamar immediatamente um medico, disse +ella voltando-se para o regedor. Póde ser que ainda +lhe possamos acudir. Pelo facto de ser uma pobre +mulher, bem vê que não a devemos deixar morrer ao +desamparo. E dizendo estas palavras, tornou a entrar +para dentro da casa da tia Marianna.</p> + +<p>—Vá á botica pedir soccorros, disse o regedor, voltando +se para o cabo geral, e que venham immediatamente; +porquanto, esta mulher pelo facto de ser pobre, +não devemos deixar morrer ao desamparo, ajuntou +elle, secundando as palavras de Martha, e repetindo-as +como se fossem suas proprias.</p> + +<p>O cabo geral, sem mais hesitar, voltou as costas aos +circumstantes, e resmungando subiu a rua do Meio, +dirigindo-se aonde a auctoridade o havia mandado.</p> + +<p>Não tardou muito que á porta da tia Marianna se +ajuntasse um circulo de curiosos. As visinhas a quem +o terror da cruel epidemia havia infiltrado nos animos +o mais terrivel desalento, debalde vociferavam contra a +estulta caridade de Martha, e a pueril condescendencia +do regedor, em annuir aos desejos da filha do mestre +de obras. Revestindo-se emfim de todo o seu poder, o +sr. Venancio da Conceição convenceu o auditorio, repetindo-lhe +pela segunda vez, que, pelo facto da tia Marianna +ser uma pobre, não a deviam deixar morrer ao +desamparo.<span class='pagenum'><a name="Page_24" id="Page_24">[Pg 24]</a></span></p> + +<p>N'este comenos, appareceu o mestre Jeronymo.</p> + +<p>—A sua filha está doida de todo! diziam uns.</p> + +<p>-Já tres vezes que vamos avisar a sr.ª Balbina para +que a retire d'aquella casa e ainda não houve +meios, acudiu uma ajuntadeira de calçado, que nem por +isso gozava de muitos bons creditos na visinhança.</p> + +<p>—Que loucura! que loucura! dizia a capellista.</p> + +<p>—Parece que está a zombar da cholera do Senhor! +acudiu respeitosamente a tia Monica, beata que vivia +de resas por conta das fidalgas de Buenos Ayres, quando +os seus affazeres não lhe permitiam conversar com +o Todo Poderoso por conta propria.</p> + +<p>—Se Deus a arrasta ao leito da moribunda, elle mesma +a salvará, respondeu fleugmaticamente mestre Jeronymo, +lendo-se-lhe, apezar de tudo, um certo receio +pela vida da criança que estremecia.</p> + +<p>—Muito estimo que assim penses, acudiu Balbina, +que saira n'este momento de casa. O mesmo pensei +eu quando Martha me foi pedir uma gotta de caldo; entregando-lh'o, +entreguei a a Deus.</p> + +<p>—Pois olhe, sr.ª Balbina, disse a capellista, fosse ella +minha filha, não lh'o consentia.</p> + +<p>—Cada qual tem o seu modo de pensar, sr.ª Margarida, +e Deus fez-me assim; mas deixemo nos de mais +dize tu, direi eu, e vamos a ver o que se poderá +fazer por aquella infeliz. E sem mais reflexionar, entrou +n'esse recinto mortuario, por onde momentos antes sua +filha havia desapparecido.</p> + +<p>—<i>Avé Maria, cheia de graça, o senhor é comvosco, +benta sois vós</i>, dizia a beata. Forte impostora! accrescentou +ella; aquillo não é senão para se fazer valer na +visinhança.<span class='pagenum'><a name="Page_25" id="Page_25">[Pg 25]</a></span></p> + + + +<hr style="width: 65%;" /> +<h1><a name="III" id="III"></a>III</h1> + + +<p>Meia hora depois d'esta veridica scena, que acabamos +de descrever, appareceu o medico.</p> + +<p>—É alli, disse-lhe o regedor, apontando para a porta +da tia Marianna.</p> + +<p>—Siga me, disse o doutor, voltando-se para a autoridade.</p> + +<p>O lance era fatal, não havia que hesitar. Amaldiçoando +n'esse momento a má estrella, que o conduzira +áquella posição, com as faces lividas de susto e de +terror, o sr. Venancio seguiu o medico.</p> + +<p>Junto ao leito de Marianna, fazendo lhe uma fricção +nos joelhos, Martha, a filha do operario, debalde tentava +chamar á vida essa que, n'um olhar turvo e desvairado, +parecia contemplar lhe a angelica formosura.</p> + +<p>Balbina, com um pequeno frasco chegado ao labio +superior da enferma tentava fazel a aspirar o conteùdo +do vidro. De pé, contemplando este doloroso quadro, +Jeronymo pedia a Deus se compadecesse de sua familia.</p> + +<p>Approximando-se da enferma, o medico tomou-lhe<span class='pagenum'><a name="Page_26" id="Page_26">[Pg 26]</a></span> +brandamente o pulso, e voltando-se em seguida para +Martha, pediu-lhe uma véla, afim de melhor analysar +a vista da moribunda.</p> + +<p>—Encontro-a muito debil, disse o esculapio em voz +baixa; é de suppôr que não a possamos salvar; comtudo, +far-se-ha a diligencia, ajuntou elle cravando os +olhos no rosto pallido e abatido de Martha.</p> + +<p>Abrindo em seguida a caixa dos medicamentos, começou +de applicar lhe os que o seu estado exigia.</p> + +<p>—Esta senhora pertence á sua familia? ajuntou o +medico voltando se para Jeronymo.</p> + +<p>—Não, senhor; comtudo minha filha interessa se +muito por esta desgraçada; e se não fosse Martha, talvez +a tivessem mandado para o hospital.</p> + +<p>—Se a teem removido d'este leito, ao chegar lá seria +um cadaver, retorquiu o doutor, palpando a fronte da +enferma.</p> + +<p>—Parece lhe que poderemos ter esperanças? perguntou +Martha, approximando se do leito.</p> + +<p>—Veremos á noite. Sendo sete horas, se poder, +voltarei; e, despedindo-se dos circumstantes, saiu +d'aquella casa, levando impressa na memoria a imagem +candida e celeste da filha do operario.</p> + +<p>Os moveis da tia Marianna reduziam se ao pequeno +leito de espinheiro onde jazia, uma enorme papelleira, +um bahu, e quatro cadeiras de palhinha, completamente +estragadas nos assentos.</p> + +<p>Roupas, se as havia, estavam fechadas; e nem ella +lh'o podera responder, nem era dado a Balbina o perguntar-lh'o +n'esse momento. Dirigindo se a casa, trouxe +d'alli quanto necessario lhe pareceu afim de alliviar +no que podesse os incommodos da enferma.</p> + +<p>—Sempre lhe gabo a pachorra, disse a sr.ª Margarida, +ao ver os lençoes alvos como a neve, que a mulher +do operario levava no braço. Estar estragando<span class='pagenum'><a name="Page_27" id="Page_27">[Pg 27]</a></span> +assim as suas roupas brancas com quem pouco póde +viver! Não era eu, que Deus me livrasse! E demais, +sr.ª Balbina, uma pobre de Christo como a tia Marianna, +mais lhe valera o ir para o hospital. Supponha a +senhora que fica para ahi entrevada, quem ha de sustental-a?</p> + +<p>—Deus nunca faltou a pessoa alguma, sr.ª Margarida; +e demais, cada qual que se metta com a sua vida, +que eu pela minha parte nunca me intrometto com as +alheias, respondeu Balbina, cortando pelo fio as palavras +da capellista, e dirigindo-se para casa da tia Marianna, +onde a esperavam Martha e seu marido.</p> + +<p>A velha havia recobrado a razão, e sorria-se brandamente +para a filha do operario, como se n'aquelle +olhar significativo estivesse agradecendo a Deus o anjo +que a Providencia lhe havia deparado n'esse momento +de suprema angustia.</p> + +<p>Jeronymo e Balbina, assentados n'um bahu, olhavam +para aquelle quadro enternecedor, pedindo ao mesmo +tempo nas suas preces silenciosas que lhe livrassem +sua pobre filha.</p> + +<p>Meia hora depois de arranjada a cama, a velha sentiu-se +mais alliviada. As horriveis dôres por que passara, +iam-lhe diminuindo a pouco e pouco, e á face, +de pallidez mortal, subira-lhe de novo o calor e a vida.</p> + +<p>Nem uma só das visinhas, approximando se á sua +porta, foram pelo menos indagar o estado da sua doença.</p> + +<p>Ás sete horas, como o havia promettido, voltou o +doutor. A enferma estava livre de perigo.<span class='pagenum'><a name="Page_28" id="Page_28">[Pg 28]</a></span></p> + + + +<hr style="width: 65%;" /> +<h1><a name="IV" id="IV"></a>IV</h1> + + +<p>Oito dias depois, com grave assombro da visinhança, +a tia Marianna, envolta n'um capotezinho azul, apparecia +de novo á janela da sua casa.</p> + +<p>Os effeitos da febre amarella haviam-lhe passado +desapercebidos pela sua organização de ferro. Ao vel-a, +ninguem poderia acreditar que essa mulher, aos sessenta +e seis annos, podesse haver resistido aos golpes +d'uma doença, que tanta gente nova e robusta ceifára +n'aquellas immediações.</p> + +<p>Todos viam na sua convalescença, começando pela +beata, um favor da Providencia; e nem uma só bocca +se abriu para dizer, quanto a dedicação da pobre Martha +ajudára aquelle verdadeiro milagre.</p> + +<p>Almas vis e denegridas que não comprehendeis o +bem, como poderieis soltar a voz para elogiardes a +virtude, se nos vossos corações não existe mais do +que a inveja e a podridão!</p> + +<p>Sem valor de praticardes o bem, fere-vos o goso +que experimenta o coração, que se entrega aos deleites +da caridade.<span class='pagenum'><a name="Page_29" id="Page_29">[Pg 29]</a></span></p> + +<p>A apotheose do proximista, echoando nos ouvidos +do misanthropo, deve produzir-lhe um effeito atroador, +como o som do ouro espalhado pela pobresa, no tympano +do avarento.</p> + +<p>Ninguem da visinhança se atrevera a soccorrer a +pobre doente, ninguem repartira o seu jantar com a +infeliz; porém, quando a viram de pé, salva, proclamando +por toda a parte o quanto era devedora á familia +do operario, todas as visinhas, consumindo-se de +inveja, lhe voltavam as costas para não ouvirem os +elogios que a velha do coração lhe prodigalizava.</p> + +<p>Desde esse momento, a pouca affeição que todos +consagravam á familia de Jeronymo, tornára-se em +decidida aversão. Começando pelo sr. regedor, e acabando +na sr.ª Margarida da Silva, ninguem podia supportar +aquella pobre gente, que, fechada quasi sempre +em sua casa, de mais coisa alguma se importava +a não ser dos seus arranjos domesticos.</p> + +<p>Quanto mais a tia Marianna proclamava em alto e +bom som as virtudes de Martha, maiores antipathias ia +inspirando a filha do operario. Quando, acompanhada +por sua mãe, saía aos domingos para ir á missa da +Lapa, as visinhas zombavam sempre ao vel-a passar. +Hoje, porque o seu lenço estava mal engommado, ámanhã +porque o seu capote de panno azul já começava +a mostrar o fio. A pobre victima fazia que nada percebia +dos continuos gracejos que contra ella dirigiam. +Chegou a pedir a sua mãe, por tudo quanto havia, que +não a obrigasse a ir á missa das onze.</p> + +<p>—Que te importa o que diz toda essa gente? +exclamava ás vezes o sr. Jeronymo. O que elles têem +é inveja do teu comportamento. Não tardará muito, se +Deus quizer, que tenha ahi uns <i>ganchosinhos</i> que me +devem render um par de moedas, verás então como +lhes hei de fazer estalar a castanha na bocca, quando<span class='pagenum'><a name="Page_30" id="Page_30">[Pg 30]</a></span> +te virem o bom capote aos hombros, e o bom cordão +de seis moedas ao pescoço.</p> + +<p>—Pouco me importa com o que elles dizem, respondia +lhe Martha. Não tenham de abocanhar no meu +credito, o mais, tanto se me dá como se me deu. O +que eu queria era ajudar a pobre velhinha.</p> + +<p>—Pois tambem não tardará muito que lhe façamos +algum bem, respondeu o mestre Jeronymo, como se +um pensamento lhe acudisse ao espirito. Ámanhã tenciono +ir a casa de tua madrinha, para que ella lhe +possa obter alguma esmola da senhora Condessa. Que +te parece, Martha? Continuou o mestre de obras, cravando +os olhos no rosto candido de sua filha, e revelando +no gesto o prazer que lhe ia n'alma, ao comparal-a +com todas as raparigas suas visinhas.</p> + +<p>—Muito estimarei que isso não fique no rol dos esquecimentos, +respondeu a criança sorrindo-se ternamente +para seu pae. Salvamos a pobresinha da morte, +é mister não a desampararmos, nem deixal a morrer +de frio ou de fome.</p> + +<p>—De frio não morrerá ella por certo, acudiu Balbina, +collocando o ferro de engommar sobre o descanço. +Ainda esta manhã lhe dei o capote que punhamos no +leito.</p> + +<p>—Quer dizer, interrompeu Jeronymo, que de hoje +em deante... se tivermos frio...</p> + +<p>—Que nos havemos de contentar com os cobertores, +respondeu a caridosa Balbina, tornando a pegar no +ferro, e approximando-o da face para lhe calcular o +calor.</p> + +<p>—Seja o que vossês quizerem, que eu, pela minha +parte nunca as reprehenderei por qualquer acção boa +que praticarem; e já que tivemos a felicidade de salvar +a vida d'essa infeliz, é justo não a deixarmos agora +morrer ao desamparo. Estou da opinião da Martha.<span class='pagenum'><a name="Page_31" id="Page_31">[Pg 31]</a></span></p> + +<p>—Ou eu me engano muito, ou a tia Marianna já teve +melhores dias, disse Martha. Ha na sua vida algum +mysterio que ella nos encobre, mas que, apezar de +tudo, adivinhamos, respondeu Martha, com aquella intuição +particular que tantas vezes se encontra no coração +da mulher.</p> + +<p>—O mesmo penso eu, ajuntou mestre Jeronymo. +Nunca fui homem que frequentasse estas casas, porém +reconheço ás vezes um não sei quê nas maneiras +da tia Marianna, que me levam a crer que os seus +principios não foram como os nossos; e tenho cá na +mente, que mais dia menos dia tudo se ha de descobrir. +Quando vossês hontem foram levar aquellas camisas +a casa da fregueza, e que fiquei aqui em sua +companhia, ainda mais me convenci das minhas suspeitas. +«Sr. Jeronymo, disse me a tia Marianna, quem +sabe se um dia a Providencia, lembrando se de uma +desgraçada que abandonou sobre a terra, a tomará de +novo debaixo da sua protecção. Se tal acontecer, lembre-se +do que lhe digo hoje, nunca serei ingrata para +uma familia a quem tanto devo.» Ora, além d'estas +palavras serem proferidas, sim... assim como o outro +que diz, com uns certos modos finos e delicados, +levam-me a pensar que a tia Marianna não é, nem +nunca foi o que parece. Em todo o caso, seja ella +quem fôr, tem precisão, é necessario soccorrel-a, e +hoje mais do que nunca, quando a inveja a começa a +perseguir. Vejam lá a capellista! Até essa mesma, que +eu suppunha tão virtuosa, como se uniu a todas as +visinhas para lhe cortarem na pelle, mais a ti, minha +filha! Valha nos Deus, que mundo este! ajuntou o +mestre de obras, dirigindo-se para a cosinha, em +cuja chaminé Balbina lhe havia posto a ceia a aquecer.</p> + +<p>N'este momento bateram apressadamente ao postigo.<span class='pagenum'><a name="Page_32" id="Page_32">[Pg 32]</a></span></p> + +<p>—Que teremos? disse Balbina.</p> + +<p>Martha levantou-se, e ao reconhecer a voz que da +rua lhe falava, abriu immediatamente a porta.</p> + +<p>Era a tia Monica.</p> + +<p>—Deus seja comvosco n'esta casa, e que o Senhor +lançando sobre nós a sua divina benção, queira proteger +a mais santa e a mais virtuosa de todas as familias, +disse a beata. Acaba de ser atacada pela febre +amarella a nossa visinha Margarida, ajuntou ella. No +momento em que me estava vendendo um vintem de +meio grosso, a colera de Deus desceu sobre a peccadora +e alli jaz sem protecção nem abrigo, porquanto +todas as visinhas receiam que tambem o Senhor as +castigue pelos actos que teem praticado sobre a terra. +Venho pedir a vossemecê, sr.ª Balbina, que se +compadeça d'essa desgraçada, e que me empreste esse +milagroso frasquinho com que tornou á vida a tia +Marianna.</p> + +<div class="center"> +<span class='pagenum'><a name="Page_33" id="Page_33">[Pg 33]</a></span> + <a id="image-033"></a> + <a href="images/image-033h.png" > + <img src="images/image-033.png" + alt="N'este momento a viuva acabava de assignar... (pag. 15)" + title="N'este momento a viuva acabava de assignar... (pag. 15)" /> + </a> +<div class="caption">N'este momento a viuva acabava de assignar... (<i><a href="#Page_15">pag. 15</a></i>)</div> +</div> + +<p>—Não foi o remedio que lhe deu minha mulher que +fez com que a tia Marianna melhorasse, acudiu o mestre +Jeronymo, que da porta da cosinha ouvira as exclamações +da beata. Façam o mesmo que fez minha filha. +Vão chamar o sr. regedor e peçam-lhe que mande immediatamente +buscar-lhe os soccorros, ajuntou o mestre +de obras com modo aspero e descontente. Quanto +ao frasco, continuou elle, voltando-se para sua mulher, +podes emprestar-lh'o se é da tua vontade, porém servir-lhe +de enfermeira, maletas me dêem se em tal consinto. +Bem basta o que basta, sr.ª Monica. Para outra +qualquer pessoa talvez que nem fosse preciso que +me pedisse por duas vezes, mas para a sr.ª Margarida! +Nem que me pezassem a ouro, ou que santo me +fizesse o sr. padre prior. Estou farto e mais que farto +da ingratidão, sr.ª Monica. Não foi a sr.ª Margarida a +primeira a cortar na pelle de minha filha, por ella ter +<span class='pagenum'><a name="Page_35" id="Page_35">[Pg 35]</a></span>ido acudir á tia Marianna? E não foi só ella como tambem +as outras visinhas! Pois agora que se aguentem +como melhor lhes parecer. Que se ajudem umas ás outras, +que eu pela minha parte, não consinto que lá ponham +o pé, nem minha mulher nem minha filha.</p> + +<p>—Cruzes! Credo! Mãe Santissima! Que modos, sr. +Jeronymo! E eu que julgando-o um Santo, me atrevi +a vir a sua casa. Que a ira de Deus descendo sobre +esta morada castigue o maior de todos os peccadores, +resmungou a tia Monica á medida que se approximava +da porta por onde momentos depois saía apressadamente, +olhando ao mesmo tempo para Jeronymo, cujo +olhar, incendiado pelo desespero que a praga lhe havia +produzido, incutia certos receios no animo da corretora +de orações.</p> + +<p>—Que lhes pareceu o traste? perguntou o mestre +Jeronymo depois de alguns momentos de profunda reflexão.</p> + +<p>—Se meu pae me deixasse ao menos ver o estado +em que se encontra essa pobre mulher?... perguntou +ingenuamente a caridosa Martha.</p> + +<p>—Nem por sombras, respondeu o operario. Vamos +pedir a Deus pela saude, e depois descançarmos o +corpo para o trabalho de ámanhã.</p> + +<p>Momentos depois, ouvia-se apenas em casa do operario +o ciciar d'esta curta, mas eloquente oração:</p> + +<p> +Bom Jesus, todo Poderoso,<br /> +Filho da Virgem Maria,<br /> +Soccorrei-nos esta noite<br /> +E ámanhã por todo o dia.<br /> +<br /> +Se na terra não coubermos,<br /> +Levae-nos Senhor aos céos,<br /> +Rogae por nós peccadores,<br /> +Virgem Santa, Mãe de Deus.<br /> +<span class='pagenum'><a name="Page_36" id="Page_36">[Pg 36]</a></span></p> + + + +<hr style="width: 65%;" /> +<h1><a name="V" id="V"></a>V</h1> + + +<p>Havia dias que tinha chegado a Lisboa, vindo do Rio +Grande do Sul, um abastado capitalista por nome Tristão +de Almeida, segundo rezava o seu passaporte. +Acompanhavam-n'o sua mulher e duas filhas.</p> + +<p>Trazia apenas tres cartas de recommendação, uma +para o visconde de Coruche, outra para o commendador +Lopes de Miranda, e a terceira para a casa bancaria +de Vaz Mendes e C.ª, extraordinariamente acreditada +n'esta capital, não só pela notavel amabilidade dos +seus gerentes, como pelo facto de já ter fallido tres +vezes.</p> + +<p>O visconde, o commendador e o banqueiro abraçaram +gostosamente o seu recommendado. Como bons +farejadores reflectiram que a caça era rara de mais +para se abandonar por essas mattas de Lisboa, onde o +genero tanto escasseia.</p> + +<p>Disputada calorosamente entre todos tres a preza +que promettia dar para succulenta refeição, transigiram, +promettendo, como quaesquer jogadores da vermelhinha, +que dividiriam entre todos os despojos da +caçada.<span class='pagenum'><a name="Page_37" id="Page_37">[Pg 37]</a></span></p> + +<p>Deixando-se de vogar na torrente de eternas adulações, +Tristão de Almeida olhava para as facecias dos +seus aduladores com aquelle olhar de experimentada +velhacaria com que todo o homem do mundo se deixa +levar, quando, porventura, no amago das lisonjas que +lhe disparam, antolha, ou pelo menos fareja o mais leve +indicio de estremado calculo.</p> + +<p>Sem patentear a sua intelligencia ou, ainda mais, +deixando-se passar por zote, Tristão ia cercando de lisongeiras +esperanças o filão d'essa inexgotavel mina +que os tres inseparaveis amigos julgavam descobrir na +sua aurifera individualidade.</p> + +<p>Mulher e filhas ainda não haviam entrado em scena. +Constava porém que uma das meninas era de formosura +extrema, e d'uma superior intelligencia. Não tardou +uma semana que esse homem, ou para melhor dizer +esse mysterio fosse discutido em todos os circulos.</p> + +<p>Quem era? Qual o seu passado, ninguem o sabia; +ao passo que elle conhecia a todos, e de todos sabia +as chronicas. Se este, antes de ser visconde de tal era +apenas Manuel Pinto com barracas de fressureiro, se +aquelle, antes de barão, empregava a casca de polvo +para tirar em baixo relevo a vera effigie de qualquer +monarcha, ensaiando por esta forma a sua industria até +conseguir a tiragem por meio do balancé; se aquell'outro, +profundo amador do sexo fragil, tivera casa de +alcouce no Brazil com o unico fim de matar o tempo.</p> + +<p>Tristão de Almeida sabia o passado de todos, e todos +ignoravam o seu preterito.</p> + +<p>«É forçoso votar uma quantia para estes tres individuos, +pensava elle, passeiando pela varanda do hotel +e contemplando as aguas do Tejo que pareciam conhecel-o +e sorrir-lhe. Se com vinte ou trinta contos de +réis se contentam, satisfarei os seus desejos e poderei +conseguir os meus fins. Graças a sir Francis Strolopp, +<span class='pagenum'><a name="Page_38" id="Page_38">[Pg 38]</a></span>tornei-me desconhecido.<a name="FNanchor_1_1" id="FNanchor_1_1"></a><a href="#Footnote_1_1" class="fnanchor">[1]</a> Hoje pessoa alguma poderá +descobrir que antes de ser Tristão de Almeida fui Felix +Justino de Araujo como antes de ser Felix Justino +de Araujo fôra Domingos de Andrade.</p> + +<p>«É forçoso que me arranjem um titulo pelo menos de +visconde. Quero ver minha mulher viscondessa, tenho +n'isso o maior de todos os meus caprichos. Não que +me seja preciso, para casar minhas filhas é-lhes sufficiente +o seu dote de duzentos contos de réis. Brevemente +encontrarão algum fidalgo arruinado, que tenha +por unicos restos de grandeza o seu titulo, e isso... +é genero que abunda muito em Portugal. Está decidido, +quero um titulo. Começarei por ser apresentado +em casa de alguma senhora protectora d'essas escolas +de caridade, e dar-lhe-hei uma avultada esmola, afim +de a applicar aos seus protegidos. Mas agora me recordo, +ajuntava elle, desencostando-se do parapeito da +varanda; o ensejo é favoravel. A febre amarella, levando +a desgraça a centenares de familias, enlucta-lhes +as suas habitações. Vou fundar um hospital. Serei o +anjo dos tristes! Beatifica-te, Domingos de Andrade. +Eleva-te aos olhos de Deus, Felix de Araujo. Derrama +esse ouro que tanto te custou a adquirir, Tristão de +Almeida, e serás um dia aquillo que te aprouver.»</p> + +<p>N'este momento, bateram á porta da sala. Tristão +mandou que abrissem, e entrou um criado annunciando +o visconde de Coruche.</p> + +<p>—Que entre, disse lhe Tristão de Almeida retirando-se +da varanda e dirigindo-se para o salão.</p> + +<p>O visconde era um homem de cincoenta annos, mas +que parecia ter quarenta quando muito.<span class='pagenum'><a name="Page_39" id="Page_39">[Pg 39]</a></span></p> + +<p>Dotado d'uma inteligencia regular, já pelos dotes +physicos de que Deus fôra prodigo para com ele, já +pela riqueza de que por duas vezes havia disposto, era +ainda, apezar da sua decadencia, o primeiro rapaz d'esta +terra, onde se não envelhece antes dos setenta e +seis a setenta e sete annos, graças á temperatura do +seu clima.</p> + +<p>Quando entrava no Marrare de Polimento, toda a moderna +geração se curvava deante d'aquelle que havia +sido o chefe da velha guarda.</p> + +<p>Não havia rapaz que não escutasse avido de curiosidade +as mil aventuras que se haviam dado n'aquella +existencia tumultuosa. Havia sido o terror da banca +portugueza no salão do theatro de S. Carlos, como na +caixa do mesmo theatro fôra o invejado emulo de +todos os seus contemporaneos, em resultado das innumeras +conquistas que em cada epocha se permitia. Ninguem +montava como o visconde! Os seus cavallos eram +os primeiros de Lisboa. Tivera por sotas da sua magnifica +sege o Feliciano e o Bem Bom!</p> + +<p>Aos vinte anos, casara-se com uma prima, a filha +do conde de ***. Quinze dias depois, n'um camarote +de primeira ordem da Rua dos Condes, estava a viscondessa +e defronte dela, noutro camarote da mesma +ordem, miss Ellen Barkshead, voltando de vez em +quando o rosto para a rectaguarda para melhor falar +com o marido da viscondessa.</p> + +<p>Como se vê, era um homem completo.</p> + +<p>Dois anos depois entregou a viscondessa a sua meia +alma a Deus deixando sobre a terra a outra metade, +para ser previamente repartida por uma multidão de +mulheres que disputavam entre si o voluvel coração do +visconde.</p> + +<p>Extravagante mais por indole do que por ostentação, +o fidalgo deliciava-se nos encantos dos seus desvarios,<span class='pagenum'><a name="Page_40" id="Page_40">[Pg 40]</a></span> +saboreando as commoções que d'elles lhe resultavam, +com o mesmo deleite com que o gastronomo delicia o +palladar nos prazeres d'uma variada mastigação. Era +o verdadeiro sybarita da estroinice.</p> + +<p>Senhor d'uma casa de vinte contos de renda, não +tardou muito que a visse desbaratada em custosas viagens.</p> + +<p>Aos trinta annos estava pobre! Tinha por unico recurso +a morte de um tio de quem era herdeiro forçado, +porém a pertinaz saude do velho fazia com que +o pobre visconde estivesse quasi a esmorecer no caminho +da vida, onde se assentava desanimado, como +o peregrino, a quem o desalento feriu no começo da +sua jornada.</p> + +<p>Um dia, finalmente, o velho aristocrata, mais talvez +para acceder aos ardentes desejos do seu arruinado sobrinho +do que para descer aos abysmos do inferno, +que por direito de conquista lhe pertencia, cerrou brandamente +as palpebras, e partiu d'esta para peior, segundo +a opinião das suas victimas, deixando por seu +universal herdeiro o visconde de Coruche.</p> + +<p>As privações porque este passára foram completamente +esquecidas desde que se encontrou novamente +possuidor d'um vinculo cujo rendimento excedia seis +contos de réis, e esquecidos tambem se julgaram os +seus crédores, porquanto lhes foi necessario lançarem +mão de meios pouco brandos para adquirirem, senão a +totalidade do devido, pelo menos o capital confiado ao +visconde, com juro modico e rasoavel. O fogo d'aquella +eterna juventude, amortecido durante cinco annos de +amargura, reanimou-se então com todo o esplendor do +seu brilho! O visconde tornou a entregar-se a todos os +prazeres, com o ardente desejo de quem apenas se recordava +d'elles.</p> + +<p>A sua vida era um mysterio. Todos os dias se dizia<span class='pagenum'><a name="Page_41" id="Page_41">[Pg 41]</a></span> +que estava arruinado, porém tanto a casa como o trem +conservavam-se como no tempo do apogeu da sua riqueza.</p> + +<p>D'onde lhe viria o dinheiro para tanto? Eis o misterio +que a pessoa alguma era dado descortinar.</p> + +<p>Ao cabo de alguns annos, o vinculo que herdára teve +o mesmo resultado que havia tido o que seus pais +lhe deixaram, porém desta vez a situação era mais +difficil, não tinha parente algum para quem apellar.</p> + +<p>Não podendo recorrer aos mortos, decidiu-se a explorar +os vivos. Escudado pela prestigiosa fama que o +acompanhava, fez do seu nome uma industria.</p> + +<p>Os rapazes que entravam na sociedade desejavam +todos ser-lhe apresentados. O visconde conhecia isto, +e, esquivando-se a principio, anuia finalmente, não +sem mostrar quanta honra ele lhes dispensava colocando-os +no rol de seus intimos.</p> + +<p>Todos á uma dariam metade do que possuiam para +se tratarem por tu com o visconde, no que ele era +assaz difficil; a sua intimidade era um genero de superior +qualidade para que muitos se podessem ufanar +de o possuir.</p> + +<p>Ainda que as suas gentilezas eram por todos conhecidas, +todos ou quasi todos lhas desculpavam. Estimado +nos principais circulos onde aparecia, nem uma só +pessoa se atrevia a dar-lhe a mais pequena mostra de +desconsideração.</p> + +<p>Foi pois o visconde um dos tres individuos a quem +Domingos de Andrade, ou o commendador Felix de +Araujo, ou Tristão de Almeida, para maior exactidão +desta veridica historia, foi apresentado.</p> + +<p>—Quanto estranhei não o ter encontrado hontem no +theatro, meu caro amigo, disse o visconde, reclinando-se +commodamente n'uma poltrona. Ha muito tempo +que não vejo S. Carlos tão brilhante. O tenor, como<span class='pagenum'><a name="Page_42" id="Page_42">[Pg 42]</a></span> +sempre, cantou admiravelmente. E no que diz respeito +ás toilettes, não póde calcular, e impossivel seria +descrever-lh'as. Felizmente não se tem espalhado muito +o panico em Lisboa. O cholera de 1833, de que eu +tenho uma vaga reminiscencia, aterrorizou muito mais +os habitantes do que esta innocente epidemia. Ha um +tempo a esta parte, tudo aqui em Lisboa é pobre e +acanhado. Da febre amarella, diz-se: tem morrido muita +gente; do cholera, dizia-se com espanto: assim mesmo +tem escapado alguem. Isso é que foi uma epidemia, +meu amigo.</p> + +<p>—Assim ouvi dizer. N'essa epocha estava eu em Buenos +Ayres, respondeu o commendador, notando ao mesmo +tempo a estudada desenvoltura com que o visconde +o tentava seduzir. Pois eu hontem não fui a S. Carlos, +ajuntou elle, por ter tido minha filha alguma coisa +indisposta.</p> + +<p>—N'esse caso fez muito bem, sr. Tristão. O tempo +não está para brincadeiras. Eu mesmo, que tenho uma +saude de ferro, se n'este momento sentisse a mais leve +indisposição, começava por me tractar como estando +realmente ameaçado pela epidemia. Em primeiro +logar está a nossa saude. Prefiro-a a tudo, até á riqueza.</p> + +<p>—Porêm quando se reunem essas duas venturas... +acudiu Tristão de Almeida, simulando um gesto de pueril +ingenuidade.</p> + +<p>—Então o mundo é um verdadeiro paraiso, pelo +menos assim o julgo. Muitos rapazes que por ahi conheço +possuem, como eu, saude e dinheiro. Encontro-os +sempre curvados ao pezo de uma terrivel fatalidade. +Nunca se consideram felizes! Fazem da melancolia +a sua companheira inseparavel, e dando-se ares de Antonys, +arranjam um farnel de desventuras, e vão com +elle por essas ruas da capital armando á compaixão<span class='pagenum'><a name="Page_43" id="Page_43">[Pg 43]</a></span> +das suas Lesbias. Eu sou o contrario; a minha alegria +é chronica. Se eu não tenho coisa alguma que me entristeça, +para que demonio hei de dizer mal do mundo +que tantos deleites me faz experimentar?</p> + +<p>—Sou da sua opinião, sr. visconde. O mundo é apenas +mau para os tolos, ainda que ha muita gente que +diz o contrario. Quem dispozer de boa saude e tiver +alguns meios, deve pedir a Deus que o conserve largos +annos sobre a terra. Mas voltando agora a outro +assumpto, ajuntou Tristão de Almeida, que já começava +a impacientar-se, como o leitor, do estirado dialogo +do visconde; quanto estimo que me tenha dado a honra +d'esta visitasinha, não só pelo prazer da sua companhia, +como pela necessidade que tenho de lhe falar. +Preciso um conselho seu.</p> + +<p>—Um conselho meu! exclamou o visconde profundamente +admirado. É a primeira pessoa que m'o pede! +Todos me chamam um rapaz extravagante, continuou +elle, olhando ao mesmo tempo para um espelho que +lhe ficava fronteiro; vossa excellencia quer guiar-se +pela minha opinião? Provavelmente trata-se da compra +d'algum palacio, e alguem houve que teve o mau senso +de lhe dizer que eu era um homem de gosto.</p> + +<p>—Nada, não se trata d'isso.</p> + +<p>—Então, provavelmente, quer me consultar ácerca +da mobilia, ou das carruagens, ou dos cavallos?</p> + +<p>—Tão pouco, respondeu serenamente Tristão de Almeida. +Isso ficará para mais tarde. Por agora trata-se +apenas de uma obra de misericordia;—fazer bem aos +desgraçados.</p> + +<p>—Se tal fôr, acho muito justo, e desde já me offereço +a ajudal-o em tudo quanto me seja possivel.</p> + +<p>—Sentemo nos, disse Tristão apontando lhe para o +sophá. Minha esposa, que tem o habito de empregar +na pobreza a mezada que lhe dou para os seus alfine<span class='pagenum'><a name="Page_44" id="Page_44">[Pg 44]</a></span>tes, +lembrou-se ha dias de gastar uns contos de réis +n'um asylo de creanças desvalidas. Que lhe parece a +idéa?</p> + +<p>—Não a póde haver melhor, respondeu o visconde, +e se vossa excellencia m'o permitte, desde já me comprometto +a fazer com que minha tia, a sr.ª condessa de +Villa Velha, venha immediatamente procural-o afim de +o iniciar n'essas associações. Recordo me d'ella, porquanto +é uma das mais assiduas obreiras do grande +monumento da caridade. Não ha asylo para que não +seja consultada e é sempre a sua opinião a que prevalece +sobre todas as outras. Se vossa excellencia quer, +o meio é muito simples, e torno a repetir-lhe, hoje +mesmo me encarrego de tudo.</p> + +<p>—Pois meu caro amigo, acudiu fleugmaticamente +Tristão de Almeida, não me associo á opinião de minha +mulher nem á sua. Tenho outra idéa, e creio que +será muito mais razoavel.</p> + +<p>—Sim?...</p> + +<p>—É verdade. Lembrava-me de fundar um hospital +para os enfermos atacados de febre amarella. Isso em +primeiro logar; depois, quando este terrivel flagello tiver +abandonado Lisboa, então sim, então adoptarei a +idéa que teve minha mulher.</p> + +<p>—Approvo, e desde já devo confessar que tanto eu +como sua excellentissima esposa ficamos completamente +vencidos.</p> + +<p>—Approva?</p> + +<p>—Applaudo.</p> + +<p>—E dispensa-me a sua protecção n'esta pequena +obra de caridade?</p> + +<p>—Conte commigo, respondeu o visconde puxando +pela charuteira e offerecendo um magnifico havano ao +seu interlocutor.</p> + +<p>—Poderemos hoje mesmo começar os nossos traba<span class='pagenum'><a name="Page_45" id="Page_45">[Pg 45]</a></span>lhos? +perguntou Tristão de Almeida, acceitando o charuto +que lhe fôra offerecido.</p> + +<p>—Quando queira, respondeu o visconde de Coruche, +tirando da algibeira do collete uma caixa de phosphoros +magnificamente cinzelada.</p> + +<p>—Vamos então procurar o commendador e seguiremos +d'alli para casa de Vaz Mendes. Tanto um como o +outro é de suppôr que nos possam ajudar em muito.</p> + +<p>—Assim o creio, murmurou o visconde, accendendo +o charuto e passando-o a Tristão de Almeida.</p> + +<hr class="bookstyle"/> + +<p>Momentos depois entrava este para dentro do trem +do visconde. Quando a carruagem saia o portão e voltava +para a rua do Ferregial, espantou-se o cavallo da +sella, e esbarrando no passeio, atropellou um individuo, +deixando-o sem sentidos. Sairam ambos e levantaram +o desgraçado.</p> + +<p>Pegando elles mesmos no corpo inerte da victima, +transportaram n'a para o hotel de Bragança.</p> + +<p>Tristão de Almeida expediu logo dois creados em +procura de medico. Por excepção, o doutor não tardou +meia hora!... Das feridas que o atropellado recebera +na cabeça nenhuma era de gravidade, comtudo não havia +tornado a si.</p> + +<p>Tristão de Almeida, com a mão do enfermo entre as +suas, parecia com profundo interesse procurar-lhe a +vida nas pulsações. Seria calculo ou verdadeira caridade? +Sabia o Deus!</p> + +<p>Terminado o curativo, o homem descerrou as palpebras, +fitando o que havia em torno de si com olhar +turvo e desvairado.</p> + +<p>É melhor deital-o immediatamente, não lhe sobrevenha +alguma congestão, disse o doutor tomando o pulso +do enfermo.</p> + +<p>Depois de ordenarem ao criado de mesa que arran<span class='pagenum'><a name="Page_46" id="Page_46">[Pg 46]</a></span>jasse +um quarto, Tristão de Almeida e o visconde levaram +em braços o ferido e deitaram-n'o sobre um leito, +pedindo ambos ao medico que voltasse antes da +noite.</p> + +<p>—Começa hoje a espalhar as joias da sua caridade, +disse-lhe o visconde com falsa ingenuidade.</p> + +<p>—Quizera antes ter perdido dez ou doze contos de +réis do que ter sido causa de similhante desgraça, respondeu-lhe +Tristão. Agora, sr. visconde, ajuntou elle, +emquanto vamos tratar dos nossos negocios, será bom +recommendar a minha mulher e a minhas filhas que +venham para a cabeceira do ferido.</p> + +<p>—Será uma grande alma, pensava o visconde.</p> + +<p>—Foi um magnifico prologo, dizia comsigo Tristão.</p> + +<p>Meia hora depois dirigiam-se ambos para casa do +commendador.<span class='pagenum'><a name="Page_47" id="Page_47">[Pg 47]</a></span></p> + +<div class="footnotes"><h3>FOOTNOTES:</h3> + +<div class="footnote"><p><a name="Footnote_1_1" id="Footnote_1_1"></a><a href="#FNanchor_1_1"><span class="label">[1]</span></a> Tristão de Almeida lera a preclarissima obra de sir Francis +Strolopp, e procurando um celebre chimico allemão, conseguira +que este lhe transformasse a physionomia a ponto de +se tornar desconhecido de si mesmo.</p></div> +</div> + + +<hr style="width: 65%;" /> +<h1><a name="VI" id="VI"></a>VI</h1> + + +<p>—E já lá vão as cinco, as seis, e as sete, e Jeronymo +sem chegar! Virgem Santissima que lhe terá acontecido?</p> + +<p>Isto dizia a infeliz Balbina, olhando ora para o relogio, +ora para uma pequena imagem de Nossa Senhora +da Conceição, defronte da qual ardia a luz frouxa e melancholica +de uma lamparina de azeite.</p> + +<p>—Ha dezoito annos que somos casados, continuou +ella voltando se para a tia Marianna, e nunca tal me +aconteceu! E sobretudo n'este tempo! Quem nos diz +que elle foi atacado pela febre, e que o levaram; morto +talvez; morto, o meu querido Jeronymo? Deus permitta +que Martha se não demore. Ella já tinha tempo +e mais do que tempo para voltar.</p> + +<p>—Não se apoquente, sr.ª Balbina. D'aqui á rua de +S. Francisco não é tão perto como julga, e demais ainda +não ha uma hora que foi. Coitadinha! Desacostumada +como está de andar por essas ruas! Porque não havia +de me ter deixado ir em sua companhia? Valha-nos +Deus! Não ha senão desgostos para os que são bons +como vossemecê.<span class='pagenum'><a name="Page_48" id="Page_48">[Pg 48]</a></span></p> + +<p>—Isso é coisa sabida, tia Marianna; parece que +quanto mais a gente quer—como o outro que diz—estar +nas graças de Deus, mais o demo que as tece está +puxando pelo fio da felicidade! Eu estou como doida! +Se Martha se demora mais algum quarto de hora, +sou eu quem os vae procurar a <i>ambos e dois</i>. Vossemecê +fica aqui para o que der e vier, ajuntou a pobre +Balbina, passeiando desassocegadamente de um para +o outro lado do quarto.</p> + +<p>—Ainda não tem razão para estar dizendo mal á +sua vida. Quem sabe se ambos se encontraram?...</p> + +<p>—Tenho na mente que não, sr.ª Marianna; e demais, +não sei o que me diz o coração. Parece que tudo se +está preparando para que haja n'esta casa uma grande +desgraça. Se a minha amiga visse a maneira por que +hoje nos olhou a tia Monica! Não lhe bastou ter-nos rogado +a praga que nos rogou...</p> + +<p>—Ora deixe-se d'isso, sr.ª Balbina! Não creia em +bruxarias. Deus é bom de mais para conceder similhante +poder aos mortaes.</p> + +<p>—Se ouvisse como hoje esteve a <i>ouviar</i> a minha cadella! +Diga-o ella! Por mais que pozesse as cadeiras de +pernas para o ar, e que voltasse um sapato de solla +para cima, não houve meios de fazer com que se calasse +o pobre animal! Eu bem sei que tudo isto são +coisas, como o outro que diz, que não vem nada ao +caso, mas a gente cá tem os seus enguiços, e desgraçadamente +a maior parte das vezes saem certos como +dois e dois serem quatro.</p> + +<p>—Pois sim, pois sim, socegue a minha boa amiga, +e verá que não tarda muito que os veja entrar por essa +porta. É preciso que a gente não seja tão desanimada. +De que nos serviria a religião se nos não desse +conformidade? Estar agora duvidando da graça de Deus, +porque seu marido se demora mais duas ou tres horas!<span class='pagenum'><a name="Page_49" id="Page_49">[Pg 49]</a></span></p> + +<p>—E como explica vossemecê o elle não ter vindo +jantar?</p> + +<p>—Quem sabe lá se encontrou o seu ganchosinho +com que podesse ganhar algum vintem? Ignora vossemecê +o seu genio? Aquillo é uma formiga para a familia. +Parece-me que se o dia tivesse quarenta e oito +horas, quarenta e oito horas seria capaz de trabalhar +por dia.</p> + +<p>N'este momento bateram á porta e a voz de Martha +soou melancholicamente atravez das fendas do postigo.</p> + +<p>Balbina ergueu-se rapidamente para lhe abrir a porta.</p> + +<p>Martha vinha desfigurada.</p> + +<p>—O pae, disse ella entre soluços, saíu da obra ao +meio dia para vir jantar a casa. Ninguem me pôde dar +noticias d'elle. Pedi a um pedreiro para me ajudar a +procural-o, mas o pobre sentia-se muito incommodado +e esquivou-se a acompanhar-me. Outro que lá encontrei +começou a sorrir-se para mim de tal forma que +não tive valor de lhe dizer quanto soffria, ajuntou Martha +tornando-se vermelha como o lenço que lhe occultava +os seus magnificos cabellos.</p> + +<p>—Infame! exclamou Balbina approximando-se cada +vez mais da filha.</p> + +<p>—Fugi desorientada, continuou Martha suffocada pelas +lagrimas, e quando vinha pelo Chiado, encostei-me +a uma esquina quasi sem saber de mim. Então senti +que me tocavam brandamente no hombro. Despertei +como de um sonho, e vi um senhor muito bem vestido, +perguntando me o que tinha. Disse-lhe que ia em +busca de meu pae, pois receiava que tivesse sido atacado +pela febre. O tal individuo compadeceu-se da minha +sorte. Aquelle sim; nem siquer reparou se eu era +bonita ou se era feia. Teve apenas tempo de me ver +as lagrimas e não a côr dos olhos. «Não me atrevo a<span class='pagenum'><a name="Page_50" id="Page_50">[Pg 50]</a></span> +dizer-lhe que entre commigo n'uma sege, disse-me elle; +seria offendel-a; mas espere, que vou chamar dois +trens.»</p> + +<p>Esperei, chegaram duas traquitanas.</p> + +<p>—Entre, disse-me elle pegando-me na mão esquerda. +Do coração lhe affianço, que póde estar tão segura +como se fosse ao lado de seu pae, que espero em +Deus encontrará com vida, acrescentou o individuo +mettendo-me no trem.</p> + +<p>Entrei sem saber como. Senti bater o guarda lama +e os cavallos seguirem a trote.</p> + +<p>De repente, a sua traquitana tomou a deanteira á +minha.</p> + +<p>Andámos, andámos até que chegou a um sitio onde +havia um hospital. Os cavallos pararam. Elle então apeiou-se +e perguntou-me os signaes do pae. Dei-lh'os. +Entrou para dentro do edificio onde se demorou por +alguns minutos, e voltou dizendo-me que não tinha entrado +n'aquella casa.</p> + +<p>Os trens partiram a galope. Fomos a dois hospitaes; +o mesmo resultado.</p> + +<p>Faltava apenas o da rua do Sol. Esse, já eu conhecia +de nome quando a tia Marianna adoeceu. Ninguem +alli tinha entrado desde as nove horas da manhã.</p> + +<p>—Vá tranquilla para sua casa, e diga-me onde mora.</p> + +<p>Dei-lhe o nome da rua e o numero da porta.</p> + +<p>Pagou ao bolieiro dizendo-lhe que me viesse pôr em +casa, o que não acceitei por causa da visinhança.</p> + +<p>—E quem será esse individuo, para que lhe possamos +beijar as mãos? exclamou Balbina, n'um transporte +de profundo reconhecimento.</p> + +<p>—Deus sabe! Oh! mas elle não me mentiu! respondeu +Martha. Tenho tanta fé nas suas palavras! Se +a mãe visse como elle me disse: «vá para casa, que +ainda hoje hei de descobrir onde está seu pae.»<span class='pagenum'><a name="Page_51" id="Page_51">[Pg 51]</a></span></p> + +<p>—E é muito novo esse homem? interrompeu Marianna.</p> + +<p>—Uns trinta annos.</p> + +<p>—Felizmente, ainda se pode dizer que a mocidade +não está perdida de todo.</p> + +<p>N'este momento, Balbina approximava-se da porta, +preparando-se para sair.</p> + +<p>—Mas onde vae? exclamou Martha. Pelo amor de +Deus, minha mãe... Tenha prudencia! Onde pretende +encontral-o? Na rua? Já vê que se lhe tivesse acontecido +alguma desgraça, estaria infallivelmente em algum +dos hospitaes, e graças a Deus, tal não succede.</p> + +<p>—Embora! hei de encontral o, respondeu a pobre +mulher tentando dar volta á chave para sair.</p> + +<p>Marianna e Martha, ajoelhadas deante da pobre esposa, +tentavam impedir-lhe a passagem.</p> + +<p>E ella então, comprehendendo a inutilidade da sua +saida, caiu de joelhos deante da imagem de Nossa Senhora. +Imitando-a, Martha e Marianna acompanharam-n'a +na sua oração.</p> + +<p>E o relogio, seguindo n'um rumor compassado, continuava +na sua material indifferença marcando os segundos +e os minutos, ao som da chuva que, batendo +de encontro aos vidros, ainda mais sombrio tornava +aquelle quadro de amargura.<span class='pagenum'><a name="Page_52" id="Page_52">[Pg 52]</a></span></p> + + + +<hr style="width: 65%;" /> +<h1><a name="VII" id="VII"></a>VII</h1> + + +<p>Mudando de rumo, o visconde e Tristão de Almeida +dirigiram-se primeiramente a casa de Vaz Mendes.</p> + +<p>Depois de os escutar, o banqueiro annuiu gostosamente +aos desejos do seu recommendado, promettendo-lhe +desde logo fazer tudo quanto estivesse ao seu +alcance para animar uma idéa tão philantropica.</p> + +<p>D'alli partiram todos tres para casa do commendador Lopes +de Miranda.</p> + +<p>Egual acolhimento, como era de esperar, acrescentando +que a mesma idéa exposta por Tristão de Almeida +havia sido formulada por elle tres dias antes.</p> + +<p>Tristão sorriu-se com a velhacaria que lhe era habitual, +agradecendo á Providencia que os seus pensamentos +se houvessem encontrado com os do excellentissimo +commendador.</p> + +<p>Historiando o atropellamento e matizando a historia +dos mais lisongeiros epithetos para Tristão, o visconde +de Coruche contou ao commendador o que se havia +passado com o operario.</p> + +<p>—Se vossa excellencia não deu a morte a esse<span class='pagenum'><a name="Page_53" id="Page_53">[Pg 53]</a></span> +desgraçado, estou certissimo que fará a sua felicidade, +disse o commendador, piscando ao mesmo tempo o olho +para o visconde.</p> + +<p>—Ha males que vem por bens, acudiu este fazendo +uma careta para Lopes de Miranda.</p> + +<p>—Mysterios de Deus, respondeu Tristão em voz alta. +Fortes nescios, ajuntou elle de si para comsigo. Mal +sabem que lhes percebo os signaes.</p> + +<p>Momentos depois, entravam todos quatro no hotel +de Bragança e dirigiam-se ao quarto do ferido.</p> + +<p>O operario encontrava-se no mesmo estado de anemia. +Pessoa alguma havia podido arrancar-lhe uma só +palavra.</p> + +<p>A sr.ª D. Maria Egypciaca, segundo o havia ordenado +o seu philanthropico esposo, não tinha abandonado o +leito do enfermo. Magdalena e Olympia, de vez em +quando approximavam se do quarto.</p> + +<p>Depois de cumprimentarem a esposa de Tristão, os +tres amigos chegaram-se ao enfermo.</p> + +<p>—Faz pena! disse o commendador, Deus sabe ajuntou +elle, se este pobre homem terá alguma pessoa a +quem esteja dando sérios cuidados. É uma lastima que +se lhe não possa saber o nome. Se descobrissemos +quem é a familia, mandar lhe-iamos dizer que estava +sob a protecção de vossa excellencia. N'estas epochas +de epidemia, a mais pequena demora faz com que +todos estejam em cuidados.</p> + +<p>—Vejamos se é possivel fazel o falar, disse Vaz +Mendes, debruçando se sobre o leito do operario.</p> + +<p>O enfermo continuava no mesmo lethargo.</p> + +<p>Eram perto de seis horas. Como não houvesse meios +de lhe arrancar uma palavra, D. Maria Egypciaca lembrou +que seria mais prudente irem jantar emquanto +durasse aquelle estado morbido, e deixando o doente<span class='pagenum'><a name="Page_54" id="Page_54">[Pg 54]</a></span> +entregue a um creado, convidou as visitas a dirigirem-se +á casa de jantar.</p> + +<p>Ao chegarem alli, já Olympia, a filha mais nova de +Tristão de Almeida, aguardava que seus paes tivessem +dado treguas á caridade para desfructarem o unico gozo +da vida, o comer. Minutos depois, appareceu Magdalena, +a irmã mais velha.</p> + +<p>O jantar correu animadissimo! Formosas eram ambas +as filhas de Tristão de Almeida; juntando-se á formosura +e juventude um dote de duzentos contos de +reis, que lhes poderia faltar?</p> + +<p>Ventilado pela vigessima vez o caso do atropellamento, +bem como o valor do visconde de Coruche, +que fizera convencer Tristão de Almeida do risco que +havia corrido a sua existencia em se ter approximado, +do cavallo da sella, discutiu-se a fundação do hospital.</p> + +<p>D. Maria Egypciaca, que de antemão havia sido prevenida +por seu esposo, falou eloquentemente sobre +este assumpto, deixando assombrados os hospedes tanto +pela sua verbosidade como pelas idéas philantropicas +que defendia.</p> + +<p>Olympia contentava se de atacar com vigor extraordinario +cada prato de cosinha que o servente lhe apresentava +pelo lado do coração, viscera que apenas lhe +estremecia consoante o apimentado dos molhos onde +o guizado se mergulhava!</p> + +<p>Fitando o olhar na comida, Olympia manejava o talher +com mais desembaraço do que qualquer malabar +de feira, pegando depois n'um oitavo de pão de meio +arratel para limpar o prato com o artistico intuito de +admirar o bom gosto do estampador.</p> + +<p>Olympia tinha duas paixões: a cosinha e a ceramica. +Se lhe dissessem que morrendo de uma indigestão de +ninhos de andorinhas seria depositada n'um sarcopha<span class='pagenum'><a name="Page_55" id="Page_55">[Pg 55]</a></span>go +de Sévres, a filha de Tristão de Almeida apanharia +a indigestão de bom grado.</p> + +<p>Debalde o visconde de Coruche se desfazia em melifluas +olhaduras, tudo era inutil; o estomago de Olympia +concedía-lhe apenas que as suas vistas se dirigissem +ora para o prato que limpava, ora para a porta +por onde entrava o criado com o seguimento do <i>menu</i>.</p> + +<p>E, apezar de tudo, essa creatura que tão desenvoltamente +usava e abusava dos orgãos da mastigação, perguntando +ao criado durante o jantar o que tencionava +guardar-lhe para a ceia, tinha o poetico nome de Olympia, +como o leitor não ignora, e era formosa, formosa +a fazer enraivar de inveja todas as do seu sexo, menos +a amavel leitora que sobre estas paginas se debruça.</p> + +<p>Olympia era uma pomba. Dizia sua mãe que até aos +dezoito annos, o unico desgosto que lhe havia dado fôra +ter atirado com uma travessa ao rosto pallido de +Magdalena, por esta lhe ter comido duas queijadas de +Reinholas, resto de tres duzias que seu pae lhe havia +trazido de Cintra.</p> + +<p>Magdalena era a sua antithese. Afôra aquelles dois +pasteis, poder-se-ia julgar impolluta no que dizia respeito +ao quinto peccado.</p> + +<p>De uma formosura menos provocadora do que sua +irmã, Magdalena sabia insinuar-se no coração de todos +os que tinham a felicidade de lhe merecer sympathia.</p> + +<p>Tinha na tristeza vaga e scismadora do seu olhar uns +longes de melancolia que prendiam quem a contemplasse.</p> + +<p>Sobretudo, o que mais espantava em Magdalena era +a harmonia da voz. Assombrava! Os anjos deviam aprendel-a, +para espalharem nos seus canticos a musica da +palavra.</p> + +<p>Falava pouco, porém a phrase era sempre correcta. +Reservada mais por calculo do que por organização, a<span class='pagenum'><a name="Page_56" id="Page_56">[Pg 56]</a></span> +irmã de Olympia atravessava a sociedade com a consciencia +segura e mathematica dos mil escolhos de que +ella se compõe!</p> + +<p>Ferira-a a aza negra da tormenta? A ave da desgraça +esvoaçára-lhe sobre os seus louros cabellos? Desfizera-se-lhe +algum sonho luminoso? Sentira o seu coração +immenso, golpeado pelo punhal do desengano?</p> + +<p>Todos o ignoravam, ou para melhor dizer, pessoa alguma +se havia demorado a estudar aquella peregrina +organização.</p> + +<p>Magdalena nunca havia amado, porém o seu coração +tinha necessidade de amar como os pulmões do ar +que respiram.</p> + +<p>Creando um dia na sua phantasiosa imaginação o typo +que ambicionara, quiz-lhe dar vida, formas e animação. +Quando mais tarde se lhe sumiu o vago, o impalpavel, +o ideal que concebêra e que tombára na tristissima +realidade, esmoreceu e curvou-se resignada para +chorar a sós as suas lagrimas.</p> + +<p>Prophetisa da amargura, como veremos na continuação +d'esta singela historia, Magdalena parecia adivinhar +as supremas angustias que mais tarde lhe haviam +de escruciar a pobre alma!</p> + +<p>Debalde, repetimos, se esforçava o visconde para +merecer um olhar de Olympia.</p> + +<p>Era invulneravel!</p> + +<p>—Se o homem já terá dado accordo de si, disse o +visconde para não estar calado.</p> + +<p>—Deus sabe! murmurou o amphitrião defendendo +uma perna de perdiz da insaciavel voracidade da filha!</p> + +<p>—Daria tudo para que esse infeliz tornasse á vida, +disse D. Maria Egypciaca dirigindo-se ao commendador. +Como estará a sua pobre familia! ajuntou ella despejando +um copo de vinho do Rheno.</p> + +<p>—Feliz d'elle, tartamudeou o visconde, se podesse<span class='pagenum'><a name="Page_57" id="Page_57">[Pg 57]</a></span> +abrir os olhos no momento em que vossa excellencia +estivesse á cabeceira do seu leito. Pela minha parte, +abençoaria fosse que circumstancia fosse que me trouxesse +tal ventura, ajuntou elle, dirigindo-se a Olympia.</p> + +<p>—Passa me aquelle prato de carne de porco assada, +disse Olympia tocando no hombro de sua irmã e sem +se atrever a olhar para o visconde.</p> + +<p>—Não ouves o que te diz aquelle cavalheiro? perguntou +D. Maria Egypciaca, voltando-se com modo agastado +para sua filha.</p> + +<p>—Não repare, meu caro amigo, acudiu Tristão, Olympia +é muito envergonhada, e demais está pouco acostumada +á sociedade. Não ouves o que te diz o sr. visconde? +acrescentou elle dirigindo-se á gastronoma.</p> + +<p>—Ouço, sim senhor, mas não sei o que hei de responder.</p> + +<p>Magdalena estremeceu de pejo ao ouvir a resposta +de Olympia.</p> + +<p>N'este comenos, o criado que ficara junto do ferido +entrou na casa de jantar para participar que elle havia +tornado a si, dizendo poucos instantes depois o seu +nome e a rua onde morava. Ajuntou em seguida o +criado que um sujeito muito bem vestido pedira ao +guarda portão para vir reconhecer o doente.</p> + +<p>—E esse individuo... ainda lá está? perguntou +Tristão.</p> + +<p>—Não senhor. Saiu logo que lhe soube o nome. Disse +que ia dar parte á familia que estava com muito +cuidado julgando que tinha sido atacado pela febre.</p> + +<p>—E quem é o doente e como se chama? perguntou +vivamente o visconde.</p> + +<p>—Chama-se Jeronymo e é mestre de obras.</p> + +<p>—E onde mora? interrompeu Vaz Mendes.</p> + +<p>—Na rua do Meio á Lapa, respondeu o criado.</p> + +<p>—Quanto estimo! quanto estimo! exclamou D. Maria<span class='pagenum'><a name="Page_58" id="Page_58">[Pg 58]</a></span> +Egypciaca. Provavelmente foram chamar-lhe a familia. +Que venha, que venha. Pobre gente! Talvez ainda abençõem +a fatalidade que lhes aconteceu! Pódes retirar-te, +Manuel, ajuntou ella, dirigindo-se ao criado.</p> + +<p>—Agora, disse Vaz Mendes, já temos por onde começar +a nossa obra de caridade. Principiaremos por +esse pobre Jeronymo.</p> + +<p>—Apoiado! bradou o commendador despejando o +decimo copo de vinho do Porto, e olhando de soslaio +para Olympia, cujos olhos pardos se fitavam ardentemente +n'uma torta de maçã.</p> + +<p>—Se m'o permittem, vou ver o meu protegido disse +Tristão, levantando se ao mesmo tempo da cadeira.</p> + +<p>—E se tambem m'o permittem?... accrescentou o +visconde, imitando o movimento do seu amigo.</p> + +<p>—Mas com o maior prazer, respondeu D. Maria Egypciaca. +E não tardará muito que lá vamos, eu e minhas +filhas.</p> + +<p>—Querem vel o? perguntou o visconde voltando-se +para o banqueiro e para o commendador.</p> + +<p>—Da melhor vontade, responderam os dois a um +tempo.</p> + +<p>Levantando se rapidamente seguiram o seu amphitrião.</p> + +<hr class="bookstyle"/> + +<p>—Ora ahi tem a mamã porque eu não gosto de comer +á mesa quando temos visitas. Levanto-me sempre +com fome. Só eu á minha parte seria capaz de comer +toda aquella carne assada, disse Olympia entristecidamente +voltando se para sua mãe.</p> + +<p>—Pois é possivel que ainda tivesses mais vontade? +perguntou Magdalena.</p> + +<p>—Abençoado estomago! disse D. Maria Egypciaca levantando-se +da mesa.<span class='pagenum'><a name="Page_59" id="Page_59">[Pg 59]</a></span></p> + + + +<hr style="width: 65%;" /> +<h1><a name="VIII" id="VIII"></a>VIII</h1> + + +<p>Deixemos por algum tempo os preclaros bemfeitores +do pobre Jeronymo; a inconsolavel esposa rezando +á Virgem Santissima; D. Maria Egypciaca abençoando +o fructo dos seus burocraticos amores, e volvamos a +uma epocha vinte annos anterior a estes successos, quando, +perdida a razão, a infeliz D. Marianna de Mendonça +deu entrada no hospital de S. José.</p> + +<p>Como o leitor deve estar lembrado, a viuva não tinha +um unico parente sobre a terra. As pessoas que +frequentavam a sua casa havia muito que se tinham +afastado, em virtude das intrigas urdidas pela sua amiga +intima, que annos antes a aconselhára a depositar +os capitaes nas mãos do commendador.</p> + +<p>Até o advogado que fôra acompanhal-a ao escriptorio +no dia da fuga de Felix Justino de Araujo, até esse +a havia abandonado, para com o seu conselho salvar +as victimas do fugitivo.</p> + +<p>Maria Gertrudes, uma das creadas que lhe era mais +affeiçoada, ao vel-a entrar n'aquella situação, dirigiu-se +immediatamente a casa da amiga da sua ama partici<span class='pagenum'><a name="Page_60" id="Page_60">[Pg 60]</a></span>pando-lhe +o estado em que D. Marianna se encontrava, +perguntando-lhe o que queriam dizer aquellas palavras +que proferira o commendador—que lhe tinham roubado +todos os seus bens.</p> + +<p>—Que a sua ama sempre propendeu para a loucura, +ha muito que o suspeitava, mas que tivesse chegado +a esse ponto, é que não podia crer. Vejo-lhe apenas +um remedio: metterem-n'a no hospital dos doidos, e, +quanto a isso, quem está nas melhores condições é o +regedor. E sem mais tir'te nem guar'te, voltou as costas +á fiel criada, mostrando-lhe que o sitio por onde tinha +de sair era o mesmo por onde minutos antes havia +entrado.</p> + +<p>Esperançada no restabelecimento de D. Maria, a pobre +mulher voltou para casa.</p> + +<p>—Já não ha meios de a soffrer, disse-lhe uma sua +companheira. Tem quebrado tudo quanto encontra á +mão, e se assim continúa, não temos ámanhã um copo +por onde beber. Pela minha parte, entendo que visto +a senhora não ter amigos nem parentes, o melhor era +dirigirmo-nos ao sr. regedor.</p> + +<p>—O mesmo disse a sr.ª D. Maria Clara. Porém, entregar +a nossa ama á justiça, nós que lhe queremos tanto! +Não seria mais razoavel supportal-a ainda alguns +dias, como antes de hontem nos disse o medico? respondeu +Maria Gertrudes.</p> + +<p>—Pois supporte-a vossemecê, que eu pela minha +parte já estou farta. E demais, nós as criadas não temos +obrigação de aturar doidas. Se a tal me quizesse +sujeitar, ia para o hospital de S. José, onde tinha melhor +ordenado do que n'esta casa. Vossemecê, que é +mais antiga do que eu, se gosta, sopeteie, que quanto +a mim, não tenho mais nada se não arranjar o bahu, +pôr o capote e o lenço, e pés para que te quero.<span class='pagenum'><a name="Page_61" id="Page_61">[Pg 61]</a></span></p> + +<p>É que não sei; não sei o que hei de fazer á minha +vida. Valha-me Deus, para que estava guardada.</p> + +<p>—Estivesse eu no seu caso; eu lh'o diria.</p> + +<p>—Então o que havia de fazer?</p> + +<p>—Chamar o regedor e ferrar com ella no hospital.</p> + +<p>—E esta casa? Quem ha de ficar n'esta casa?</p> + +<p>—Ora essa sr.ª Maria Gertrudes! Ficavamos nós +emquanto o filho não viesse.</p> + +<p>—E sabemos por ventura aonde está o filho?</p> + +<p>—Onde está! Está no estrangeiro. Bem se vê que +a sr.ª Maria Gertrudes não é mulher d'este tempo. Boa +está. Olha que grande difficuldade! Pensa talvez que +não sei como essas coisas se fazem. Para que servem +os correios? Não tem mais nada senão pôr: ao sr. +Manuel de tal, e em baixo: pelo correio do Estrangeiro, +em letras muito grandes.</p> + +<p>—Isso lá é verdade; e quanto tempo pode levar +isso tudo?</p> + +<p>—O tempo que leva uma carta ao estrangeiro. Olhe, +sr.ª Maria Gertrudes, se vossemecê quer, não diga +nada ao criado, que eu <i>mesmo</i> me encarrego de a escrever. +Por agora o que devemos fazer é ir a casa do +sr. regedor. Já com este são cinco dias que estamos +aturando aquella doida, e bem vê que isto não póde +durar por muito tempo.</p> + +<p>—Lá n'isso tem muita razão.</p> + +<p>—Ora ainda bem; então mãos á obra.</p> + +<hr class="bookstyle"/> + +<p>Maria Gertrudes resolveu-se a ir falar ao regedor.</p> + +<p>N'essa mesma tarde, a infeliz senhora, que cinco +dias antes se considerava rica e cheia de ventura, entrava +na enfermaria das alienadas como uma simples +pedinte sem protecção e sem abrigo. Quando dois mezes +depois, informado pelos visinhos, soube o regedor +o que se estava passando em casa de D. Marianna de<span class='pagenum'><a name="Page_62" id="Page_62">[Pg 62]</a></span> +Mendonça e como os seus creados de dia para dia iam +roubando os haveres, entendeu-se com o juiz eleito, +e entrando em casa, viram com effeito que não eram +mal fundadas as suspeitas da visinhança.</p> + +<p>A carta remettida para o estrangeiro ainda não tinha +chegado ás mãos de Manuel de Mendonça, e a +desgraçada continuava no hospital sem que nenhum +dos creados fosse indagar o seu estado.</p> + +<p>No dia seguinte, o juiz mandou tomar posse de tudo +quanto existia, e depois de competentemente inventariado, +collocou no meio da rua aquelles dedicados servos +que tão tranquillamente habitavam a casa de sua +ama sem ao menos saberem se ainda existia ou não.</p> + +<p>Pelo espaço de sete annos, esteve D. Marianna nas +enfermarias de S. José. Finalmente, recobrou a razão +e deram-lhe alta.</p> + +<p>Antes da saida pediu para falar com o director. Depois +de lhe confiar todos os pormenores da sua vida, +perguntou-lhe se durante a sua enfermidade alguem +tinha vindo informar-se da sua saude.</p> + +<p>Sympathizando com as maneiras da viuva e condoido +pela sua desgraça, o director levou-a para casa da +sua familia.</p> + +<p>Finalmente, graças ás relações do seu protector, D. +Marianna tomou posse do que lhe restava. Entre louça, +moveis e roupas brancas apurou dois contos e duzentos +mil réis.</p> + +<p>Alugou uma casa proxima á dos seus protectores, entregou-lhes +o resto para lh'o empregarem no que melhor +lhes parecesse, até que o destino, cançado de a +torturar, lhe proporcionasse a maior de todas as felicidades: +devolver-lhe o filho querido da sua alma!</p> + +<p>Debalde se passaram annos e annos, e o destino sem +se compadecer da sua desventura.</p> + +<p>Os dezeseis vintens que pouco mais ou menos lhe<span class='pagenum'><a name="Page_63" id="Page_63">[Pg 63]</a></span> +rendiam as inscripções, juntos aos ganhos que os seus +bordados lhe produziam, eram mais do que sufficiente +para o seu alimento. Infeliz de todo não se considerava +D. Marianna, e ingrata seria para com Deus se da +sua sorte se queixasse. Era já muito o amparo que lhe +concedia a Providencia representada nas pessoas do +director e de sua mulher; porém a desgraça que parecia +ter-se aninhado no seu coração, não podia permittir-lhe +que descesse á sepultura sem que primeiro +a bafejasse uma vez ainda com o seu halito envenenador. +Levou-lhe em menos d'um anno as duas unicas +pessoas que tinha sobre a terra: o director e sua esposa!</p> + +<p>Aterrada com esse golpe, julgou de novo enlouquecer!</p> + +<p>Querendo mudar-se do bairro, que lhe recordava os +seus protectores, á sombra de cuja amizade tanto tempo +se abrigára, lembrou-se de ir viver para a Lapa.</p> + +<p>Uma tarde saiu, e dirigindo-se para aquelles sitios +encontrou na rua do Meio a casa que lhe convinha. +Dois dias depois, alugou e mudou para alli a sua pequena +mobilia. Foi onde oito annos depois a encontramos +atacada pela febre amarella.</p> + +<p>A pobre senhora, na doce esperança de ainda tornar +a vêr seu filho, economizava, quanto cabia em +suas forças, os poucos haveres que lhe restavam.</p> + +<p>«Este dinheiro, dizia ella ás vezes comsigo olhando +para as inscripções, não me pertence, é de meu filho; +cumpre-me fazer tudo quanto possivel me fôr para lh'o +augmentar.»</p> + +<p>Explicado está portanto o seu modo de viver.<span class='pagenum'><a name="Page_64" id="Page_64">[Pg 64]</a></span></p> + + + +<hr style="width: 65%;" /> +<h1><a name="IX" id="IX"></a>IX</h1> + + +<p>A physionomia doce e melancholica de Martha impressionára +de mais o desconhecido para que a sua +promessa deixasse de ser cumprida.</p> + +<p>Quando ao apear-se no Largo das Duas Egrejas se +demorou alguns segundos para pagar ao bolieiro, olhou +instinctivamente para um grupo composto de quatro +individuos que estavam discutindo.</p> + +<p>—Se fosse algum de nós que tivesse atropellado o +homem, provavelmente estava preso, dizia um d'elles.</p> + +<p>—Mas como foi o sr. Tristão d'Almeida... acudiu +outro.</p> + +<p>—E o visconde de Coruche, accrescentou terceiro.</p> + +<p>—Mas elle morreu ou não morreu?</p> + +<p>—Dizem que está melhor.</p> + +<p>—Veremos como se porta o brazileiro.</p> + +<p>—Até agora, não ha razão de queixa, segundo me +disseram. Lá ficou n'um bello quarto do hotel, tendo +por enfermeiras a mulher do magnata, e as duas filhas.</p> + +<p>—Tenho pena de não ter sido eu o atropellado, só +para ter taes enfermeiras.<span class='pagenum'><a name="Page_65" id="Page_65">[Pg 65]</a></span></p> + +<p>—Vocês vão d'aqui para o Marrare de Polimento, +ou ficam ainda a descobrir a mysteriosa individualidade +do menino de ouro, como se diz na minha terra?</p> + +<p>—Vamos para o Marrare, responderam os outros +tres, dirigindo-se pela rua do Chiado.</p> + +<p>Reflectindo em que o atropellado podia muito bem +ser o pae de Martha, o mysterioso protector da infeliz +criança seguiu os quatro individuos até á sua entrada +no Marrare de Polimento.</p> + +<p>Entrou tambem.</p> + +<p>O que primeiro falára do acontecimento ficou á porta +assobiando alegremente; os outros dirigiram-se para +os bilhares.</p> + +<p>—Deve estranhar uma pergunta que lhe vou fazer, +disse o desconhecido interrompendo o assobio do <i>dilettante</i>. +Ha tres horas que procuro um individuo que +desappareceu de sua casa. Quando me apeei de um trem +no Largo das Duas Egrejas, percebi que falavam ácerca +de uma pessoa que tinha sido atropellada, e confesso-lhe +que commetti a indiscrição de os escutar. Póde +ser que seja esse o mesmo individuo que procuro.</p> + +<p>—Talvez, respondeu amavelmente a pessoa a quem +estas palavras foram dirigidas. O que sinto é não lhe +poder dizer o seu nome. Sei apenas que está no Hotel +de Bragança.</p> + +<p>Retribuindo n'um aperto de mão a amabilidade com +que fôra recebido, o protector de Martha correu immediatamente +para o sitio que lhe haviam indicado.</p> + +<p>Ao chegar perguntou ao guarda portão se ainda alli +estava um sugeito que de manhã fôra pizado por um +brazileiro.</p> + +<p>—E não só por um brazileiro como tambem por um +visconde, respondeu o guarda portão, como se n'estas +palavras quizesse tornar mais illustre o atropellamen<span class='pagenum'><a name="Page_66" id="Page_66">[Pg 66]</a></span>to, +ou diminuir a culpabilidade dos animaes dividindo-a +por todos quatro.</p> + +<p>—É possivel falar lhe?</p> + +<p>—É possivel vel-o; emquanto a falar-lhe isso fia +mais fino, respondeu o guarda portão. Ainda não tornou +a si.</p> + +<p>—Pois obsequiava-me muito se me podesse conduzir +ao seu quarto.</p> + +<p>Minutos depois entrava no quarto do ferido.</p> + +<p>Jeronymo ainda se encontrava no mesmo estado lethargico. +A dôr das feridas havia-lhe diminuído progressivamente, +comtudo a perda de sangue tinha sido +abundante, e ao pobre operario nem forças restavam +para pedir que chamassem a sua familia, de quem +n'esse instante tão amargamente se recordava. A imagem +de Balbina e de sua filha passava-lhe por entre +as visões da febre, como se as visse alli, pregadas á +sua cabeceira.</p> + +<p>Sentia na fronte a mão fina e delicada de Martha, e +pousando lhe sobre o coração, que fortemente lhe palpitava, +a face de sua mulher incendida pelo terror.</p> + +<p>Jeronymo via tudo isto como atravez de um sonho.</p> + +<p>Junto ao leito o desconhecido olhava-o caridosamente, +levando-lhe de vez em quando a mão á fronte.</p> + +<p>Momentos depois os olhos do operario, até alli brandamente +cerrados, abriram-se como que para contemplar +o desconhecido, que fitando-o parecia descobrir-lhe +nas feições alguma similhança com as da pobre +Martha. N'este comenos o enfermo fez um movimento +como se tentasse falar.</p> + +<p>Manuel, o creado que lhe servia de enfermeiro, approximando-se +suavemente, perguntou-lhe se desejava +alguma cousa.</p> + +<p><span class='pagenum'><a name="Page_67" id="Page_67">[Pg 67]</a></span></p><p>—Falar... mas... não posso, murmurou o infeliz +Jeronymo, deixando cair sobre o colchão o braço direito +que tentára levantar.</p> + +<p>O desconhecido approximou-se ainda mais.</p> + +<p>—E ainda não houve meio de se saber quem é este +homem?</p> + +<p>—Ouviu aquellas palavras que elle disse? Foram +as primeiras! respondeu o creado.</p> + +<p>—Como se chama vossemecê, perguntou o desconhecido +debruçando-se sobre o leito.</p> + +<p>—Jeronymo, balbuciou o pobre; e a minha familia +mora na rua do Meio, á Lapa.</p> + +<p>—Basta! bradou rapidamente o desconhecido, e +saindo do quarto sem que o criado tivesse tido tempo +de lhe perguntar aonde se dirigia, encaminhou-se para +o Loreto, afim de procurar uma sege.</p> + +<p>Martha havía-lhe dado o nome da rua e o numero da +porta. Dizendo ambas as cousas ao bolieiro, ordenou-lhe +que trouxesse Martha e sua mãe ao Hotel de Bragança +o mais depressa que lhe fosse possivel.</p> + +<p>Foi n'este momento que Manuel desceu á casa do +jantar para dizer a Tristão de Almeida que o ferido estava +no uso das suas faculdades.</p> + +<p>Deixemos o mysterioso descobridor do pae de Martha +esperando á porta do hotel a mulher e a filha de +Jeronymo, e vejamos o que se está passando no quarto +do ferido.<span class='pagenum'><a name="Page_68" id="Page_68">[Pg 68]</a></span></p> + + + +<hr style="width: 65%;" /> +<h1><a name="X" id="X"></a>X</h1> + + +<p>—Ora graças a Deus que está livre de perigo, exclamou +Tristão de Almeida approximando-se do leito de +Jeronymo. Não calcula o quanto me tem feito soffrer a +sua prostração. Quero que nos perdôe todo o mal que +involuntariamente lhe causamos, eu e o meu amigo +visconde.</p> + +<p>—Mas agora, felizmente, sente-se melhor! perguntou +o visconde approximando-se de Tristão.</p> + +<p>—Nem mesmo sei como me sinto, meus caros senhores, +respondeu Jeronymo, como se ainda estivesse +sendo victima de uma allucinação. De quanto se passou, +continuou elle, com uma voz muito enfraquecida, +lembro-me apenas que fui atropellado por um trem, e +de nada mais me recordo. Sei que tenho tido umas dôres +horríveis tanto na cabeça como em todo este lado +direito, e nada mais posso responder a vossa senhoria. +O que apenas me mortifica é lembrar-me os cuidados +em que deve estar minha pobre mulher e filha, +o resto será o que Deus quizer. Tratamento, graças aos +senhores, vejo que me não tem faltado. O que eu tam<span class='pagenum'><a name="Page_69" id="Page_69">[Pg 69]</a></span>bem +agora desejava pedir-lhe eram dois favores; o +primeiro, que me dissessem onde estou, e o segundo, +que mandassem immediatamente a minha casa participar +a Martha e a minha mulher que estou aqui, vivo +e bem tractado. As infelizes a esta hora cuidam que fui +atacado pela febre amarella, e andam á minha procura +por toda a parte.</p> + +<p>—Emquanto ao sitio aonde se encontra, respondeu +Tristão, bastará dizer-lhe que está entre amigos, e que +nada lhe faltará; emquanto a mandar chamar sua familia, +queira dizer-me aonde mora.</p> + +<p>—Moramos na rua do Meio n.º 7, Lapa, respondeu +Jeronymo, fazendo ao mesmo tempo uma dolorosa contracção.</p> + +<p>—Que é isso, meu amigo? acudiu rapidamente o +commendador dirigindo-se ao mestre de obras.</p> + +<p>—É uma dôr muito grande que me toma a cabeça +toda, respondeu elle, levando á fronte ambas as mãos.</p> + +<p>—Veja se póde socegar um momento, e tranquillize +se porque vamos immediatamente chamar a sua familia.</p> + +<p>—Para que venham mais depressa vou mandar o +meu trem, disse o visconde dirigindo-se para a porta.</p> + +<p>—Bom será, visconde, ajuntou o commendador, +quanto mais depressa descançarmos aquella pobre gente +tanto melhor para todos.</p> + +<p>—Se vossas senhorias fossem tão bons que tal fizessem, +seria uma grande obra de caridade, disse Jeronymo, +tentando sentar-se sobre o leito.</p> + +<p>—Não faça similhante loucura. Conserve-se como +está, e tenha a certeza que d'aqui a meia hora terá a +seu lado as pessoas que tanto deseja.</p> + +<p>N'este momento entrou a sr.ª D. Maria Egypciaca, +acompanhada por suas duas filhas.</p> + +<p>—Já sabemos, graças a Deus, quem é o nosso doen<span class='pagenum'><a name="Page_70" id="Page_70">[Pg 70]</a></span>te, +e onde mora, disse a D. Maria Egypciaca o visconde, +que n'esse momento saía do quarto, com o fim de +dar ordem ao cocheiro para trazer a familia do ferido.</p> + +<p>—Quanto estimo, meu Deus! respondeu D. Maria, +erguendo para o tecto os seus grandes olhos azues.</p> + +<p>—Em que sustos estará a sua pobre familia! disse +Magdalena olhando para Olympia.</p> + +<p>—Talvez que nem hoje tivessem que jantar.</p> + +<p>—Enfim! disse D. Maria Egypciaca depois de ter +contemplado o ferido por alguns instantes, Deus tudo +quanto faz é para melhor. É certo que teve esta pequena +contrariedade, mas graças ao Senhor, está livre de +perigo, e vae fazer a felicidade de sua familia. Não é +verdade, Tristão? ajuntou ella dirigindo-se ao esposo.</p> + +<p>—Quantos desejariam ter egual sorte! disse o commendador +intromettendo-se na conversação.</p> + +<p>—Magnifico achado para dirigir as obras do nosso +hospital, disse o banqueiro voltando se para Lopes de +Miranda.</p> + +<p>—Do hospital?! perguntou admirado o commendador.</p> + +<p>—Não ouviste dizer ha pouco que era mestre de +obras?</p> + +<p>—Lembra bem, lembra bem, meu amigo, disse Tristão +sentando se n'um pequeno sophá.</p> + +<p>N'este momento, ouviu se o rumor de muitos passos +subindo apressadamente a escada que dava para o segundo +andar. Segundos depois abriu se a porta e appareceram +duas mulheres. Eram Balbina e Martha. O +desconhecido seguia-as de perto.</p> + +<p>No momento em que Balbina e sua filha se precipitavam +sobre o leito de Jeronymo, este fez um supremo +esforço para se erguer, porém as dôres que lhe +atacavam a cabeça e todo o lado direito tornaram a +prostral-o completamente.<span class='pagenum'><a name="Page_71" id="Page_71">[Pg 71]</a></span></p> + +<p>Todos se compadeceram ao contemplar aquella scena +de amargura, até a propria Olympia arrancou dos +fundos penetraes do estomago, unica viscera onde a +sensibilidade se lhe refugiára, um par de lagrimas que +vinham em turvos crystaes, rescendendo mais a fricassé +do que a natural piedade.</p> + +<p>O desconhecido, com os olhos fitos n'aquelle grupo, +parecia contemplar a physionomia de Tristão, como se +uma vaga reminiscencia lhe houvesse acudido á memoria.</p> + +<p>O mesmo se passava no espirito do magnata; aquelle +individuo não lhe era estranho.</p> + +<p>Seguido da esposa, approximou-se do leito de Jeronymo +e contou a sua familia tudo quanto tinha acontecido.</p> + +<p>O mesmo fez Balbina e sua filha.</p> + +<p>—É portanto a este cavalheiro que devemos tudo? +disse Tristão. Quanto folgo que tenha concorrido para +a felicidade d'esta familia, ajuntou elle extendendo a +mão ao desconhecido.</p> + +<p>Este, retribuindo-lhe o aperto de mão, cumprimentou +rapidamente a todas as pessoas e saiu d'aquelle +gabinete.</p> + +<p>—Quem será este moço? perguntou Tristão voltando-se +para o banqueiro.</p> + +<p>—Deus sabe; respondeu Vaz Mendes. Acho-o pouco +delicado.</p> + +<p>—Quer tornar-se mysterioso, acudiu Lopes de Miranda.</p> + +<p>—Provavelmente é algum rapaz acanhado que não +sabe estar entre gente fina, disse D. Maria Egypciaca.</p> + +<p>—Não sou d'essa opinião; pelo contrario, pareceu-me +um moço de um trato finissimo, mas excessivamente +modesto para se conservar n'este quarto. Re<span class='pagenum'><a name="Page_72" id="Page_72">[Pg 72]</a></span>ceiava +que o cobrissem de elogios. Não achas Magdalena? +ajuntou Tristão dirigindo-se a sua filha.</p> + +<p>—N'isso mesmo pensava eu, meu pae, respondeu +Magdalena. Quando o sr. Vaz Mendes o alcunhou de indelicado, +de mysterioso o sr. Lopes de Miranda, e de +pouco sociavel minha mãe, não concordei com opinião +nenhuma d'essas. Julgo o como meu pae: modesto de +mais para escutar os elogios de que é merecedor.</p> + +<p>—Que innocencia! gargalhou Vaz Mendes. Quem se +esquiva a ser elogiado?</p> + +<p>—Muita gente, sr. Vaz Mendes, ainda que não seja +senão por egoismo. O elogio frivolo e banal, inscripto +no codigo da civilidade, é uma ironia pungente para o +que tem a consciencia do seu merito. Ha o louvor que +anima e a adulação que fere. O incenso nem sempre é +agradavel; está muitas vezes pendente da mão que +balança o thuribulo, e comtudo sempre é incenso.</p> + +<p>—Quer vossa excellencia dizer que os nossos encomios +o poderiam offender? perguntou o visconde.</p> + +<p>—Nem por sombras, sr. visconde! Não era essa a +minha intenção, respondeu Magdalena approximando se +de sua irmã.</p> + +<p>—Não seria melhor deixarmos em paz esta pobre +gente? disse Olympia em voz baixa para sua mãe. E +demais, acrescentou ella, já se vão approximando as +horas do chá, e se quer que lhe diga a verdade, estou +sentindo uma fraqueza...</p> + +<p>—Bemdito Deus, respondeu D. Maria Egypciaca, sempre, +sempre pensando em comer.</p> + +<p>—Em que quer a minha mãe que eu pense? tartamudeou +Olympia, fazendo-se vermelha como a fita que +lhe cingia o collo.</p> + +<p>No entretanto, o visconde, Vaz Mendes e Lopes de +Miranda conversavam em voz baixa n'um dos angulos +do quarto.<span class='pagenum'><a name="Page_73" id="Page_73">[Pg 73]</a></span></p> + +<p>—O que lhes peço, disse Tristão approximando-se +de Balbina e de sua filha, é que estejam aqui tanto á +sua vontade como em casa propria. Fiquem certas que +coisa alguma lhes faltará. Se necessario fôr que seu homem +aqui se demore, o que espero em Deus tal não +permitta, não consinto que d'aqui se afastem. E emquanto +a vossemecê, ajuntou Tristão dirigindo-se a Jeronymo, +não se persuada que fica sem trabalho; apenas +estiver melhor, ha de fazer-me o plano de uma +obra que vamos immediatamente principiar e de que +o meu amigo fica encarregado.</p> + +<p>Nos olhos do pobre Jeronymo deslizaram duas lagrimas +de gratidão.</p> + +<p>Absortas na contemplação de Jeronymo, Balbina e +sua filha ouviam as palavras de Tristão como se não +as comprehendessem.</p> + +<p>—Agora que terminaram os cuidados, e que seu +marido está livre de perigo, disse o visconde approximando-se +do leito do operario, agradeçam á Providencia +o ter lhes deparado a mão que os veiu arrancar da +pobreza, ajuntou elle, voltando-se para Balbina que o +contemplava como que assombrada.</p> + +<p>—Minha santinha, ás vezes, d'onde a gente menos +o espera, é d'ahi que provém ou grande mal ou uma +grande ventura, disse Lopes de Miranda approximando-se +do visconde.</p> + +<p>—Será a ultima, acudiu rapidamente D. Maria Egypciaca, +collocando protectoramente sobre os hombros +de Balbina a sua mão direita, cujos dedos cravejados +de brilhantes feriram os olhos verdes e entristecidos +da pobre Martha.</p> + +<p>—Vamos dar ordem para que tragam alguma coisa +de comer a esta gente, disse Olympia, puxando pela +saia de sua mãe.</p> + +<p>—Safa, inimigo! Que esta rapariga não pensa n'outra<span class='pagenum'><a name="Page_74" id="Page_74">[Pg 74]</a></span> +coisa senão em comer, resmungava D. Maria Egypciaca +á proporção que, seguida dos seus hospedes, saía do +quarto de Jeronymo.</p> + +<hr class="bookstyle"/> + +<p>—Que bem que alli cheira, dizia Olympia dirigindo-se +para sua irmã e aspirando os aromas culinarios que +rescendiam no corredor por onde atravessavam. Provavelmente +foi algum hospede que mandou vir o jantar +ao seu quarto. Quem me dera fazer o mesmo!<span class='pagenum'><a name="Page_75" id="Page_75">[Pg 75]</a></span></p> + + + +<hr style="width: 65%;" /> +<h1><a name="XI" id="XI"></a>XI</h1> + + +<p>Cada vez mais impressionado pela ingenua formosura +da filha do operario, debalde tentava o desconhecido +afastar para longe da memoria aquella imagem que o +perseguia.</p> + +<p>«Mas, pensava elle, e se tudo isto não passar de +uma illusão, d'um capricho de phantasia?</p> + +<p>«Casar-me hoje, para d'aqui a mezes aborrecer a +companheira da minha vida? Continua solteiro Manuel +de Mendonça, e se um dia te impressionar como agora +algum rosto de mulher, estuda o teu coração e +a tua intelligencia, apalpa, mede e analysa esse sentimento +que experimentas, e se o considerares estavel, +firme e immorredouro, pede então a mão da mulher +que o tiver despertado, e torna-a a companheira inseparavel +da tua existencia.</p> + +<p>«Ai, do homem só!» diz Salomão, e eu digo: ai, do +homem casado, que sente ao lado da esposa a solidão. +E comtudo, é esta a primeira vez que sinto palpitar o +coração! Será o amor esta intranquillidade de espirito +que ha horas me atormenta? Esta saudade que me traz<span class='pagenum'><a name="Page_76" id="Page_76">[Pg 76]</a></span> +a ausencia da sua imagem e o desejo ardente de a +tornar a ver será ainda o amor? Veremos.</p> + +<p>«Só ámanhã poderei saber o tempo que me demoro +em Lisboa. Se fôr pouco, bem vamos; no mar largo +substituirei a sua imagem pela doce contemplação das +estrellas, quando por noites caladas ouvir apenas o vogar +da minha galera, e de longe em longe o canto +rude, mas harmonioso dos marinheiros. Nada, continuava +Manuel de Mendonça, se essa é a minha casa e +elles a minha familia, para que abandonal-a, trocando a +por outros que me são desconhecidos e que, se eu +morresse, nem talvez uma lagrima de saudade fossem +chorar sobre a minha sepultura.</p> + +<p>«Mas se eu me demorar, se a imagem de Martha +me continua a perseguir? Não póde ser! Não ha de +ser, não quero que seja! Estou ainda muito novo para +me prender. E demais, affeito a uma vida isolada, +como poderia eu cumprir todos os deveres de um bom +chefe de familia? Desde os dezeseis annos que me +afastei da unica pessoa que tinha n'este mundo: minha +mãe. Só, em terra estranha, sem um amigo que +me protegesse, alonguei a vista para os horizontes da +patria, e extendendo-lhe os braços, debalde lhe pedi +noticias d'ella. Desanimado ao principio, vi por ultimo +que não tinha outro remedio senão revestir-me de valor, +e luctei, e soube vencer.</p> + +<p>«Quando, possuidor de algum dinheiro, tentei voltar +á Europa afim de ver minha mãe, disseram-me na Bahia, +poucos dias antes de embarcar, que a pobre estava +reduzida á miseria. Vim para Lisboa, e ao chegar +descobri a terrivel verdade, que tinha morrido no hospital +dos alienados!</p> + +<p>«Aterrado, saí immediatamente de Portugal, buscando +nos transportes de uma vida arriscada esquecer a +dôr que me feria. Como eu sorri á tormenta que pa<span class='pagenum'><a name="Page_77" id="Page_77">[Pg 77]</a></span>recia +zombar da minha agonia! Com que desejo ardente +de seguir minha mãe eu me lancei em tudo quanto +havia de perigoso, e Deus sempre a proteger-me, como +se me estivesse guardando para algum fim sobre a +terra. E que poderei eu esperar? Que felicidade posso +conceber lembrando-me que, emquanto dispendia contos +e contos de réis, jazia a minha infeliz mãe nas +palhas d'um hospital?</p> + +<p>«Nada, continuava Manuel de Mendonça, passeiando +pelo seu quarto do hotel da Europa. Permitta Deus, +ajuntava elle, que ámanhã termine o negocio que espero +e que possa levantar ferro quanto antes.»</p> + +<p>N'este momento, baterem mansamente á porta do +quarto.</p> + +<p>—Entre, disse Manuel, volvendo os olhos para a +porta.</p> + +<p>Um individuo alto e excessivamente delgado levantou +o ferrolho, e entrou no gabinete.</p> + +<p>O homem chamava-se Luiz, por alcunha o <i>Mascatudo</i>.</p> + +<p>A camaradagem que Mascatudo tivera por largos +annos com os irlandezes, a bordo dos seus navios mercantes, +introduziu lhe por tal forma o vicio de mascar +tabaco, que o pobre Luiz, quando o não tinha, era capaz +de mascar tudo quanto lhe apparecesse.</p> + +<p>Contava-se d'elle a seguinte anecdota, que prova a +quanto aquelle vicio o arrastava:</p> + +<p>N'uma viagem a Macau, acabára-se-lhe o tabaco. +Receiando a tripulação que se prolongasse a derrota, +defenderam todos das maxillas do tio Luiz a preciosa +planta que começava a escassear-lhes.</p> + +<p>Certos e mais do que certos se tornaram os seus +receios, a viagem durou mais onze dias do que esperavam. +Não havia tabaco a bordo!</p> + +<p>Dizendo mal á sua vida, a tripulação debalde vasculhava +os mais reconditos escaninhos das algibeiras!<span class='pagenum'><a name="Page_78" id="Page_78">[Pg 78]</a></span> +Ninguem fumava! Um marujo apenas seguia no seu +eterno ruminar. Era o tio Luiz.</p> + +<p>—Forte velhaco! diziam uns.</p> + +<p>—E eu que ainda o outro dia fui tão tolo que lhe +dei dois charutos havanos!</p> + +<p>—E eu, acudiu outro, perto de meia quarta de rollo. +Daria agora por elle um mez da minha soldada.</p> + +<p>—Um raio me parta se aquelle marau me apanha +mais um cigarro em toda a sua vida, dizia com voz +rouquenha o timoneiro.</p> + +<p>—Arrebentado morra eu da sobre gata se aquelle +arenque de fumo me leva mais uma cachimbada, acrescentava +um velho marinheiro.</p> + +<p>E gritando e vociferando, iam todos contra o tio +Luiz, e elle sempre sereno, tranquillo, ruminando e +salivando ao mesmo tempo.</p> + +<p>Finalmente chegaram a Macau.</p> + +<p>Á tarde, o commandante chamou o tio Luiz e ordenou-lhe +que se vestisse afim de o acompanhar a terra.</p> + +<p>O marujo empallideceu, mas não teve mais remedio +do que cumprir as ordens do commandante.</p> + +<p>Meia hora depois ouviu-se á ré um grande motim, +e viu-se entre os apupos e os risos da tripulação o +tio Luiz gravemente compromettido, com uma bota de +cano no pé direito e no esquerdo uma especie de sapato +de mulher completamente franjado.</p> + +<p>O tabaco que os seus companheiros injustamente lhe +attribuiam, era o cano da bota esquerda, que o tio +Luiz mascára durante os onze dias de atrazo. O marujo +preparava-se para entrar pelo pé esquerdo se por +ventura não deitam ferro defronte da grande cidade.</p> + +<p>Os creditos foram-lhe de novo restituidos, e desde +esse dia o tio Luiz foi conhecido a bordo pela alcunha +de Mascatudo.<span class='pagenum'><a name="Page_79" id="Page_79">[Pg 79]</a></span></p> + +<p>O tio Luiz tinha quarenta e dois annos. O seu valor +e honradez faziam com que todos o estimassem.</p> + +<p>Quando Manuel de Mendonça comprou em Buenos-Ayres +uma galera, Mascatudo foi-lhe o mais recommendado +entre os tripulantes que lhe inculcaram. Desde +esse dia até ao momento que o vemos entrar no +hotel, Manuel de Mendonça nunca teve um momento +de se arrepender da profunda confiança que n'elle tinha +depositado. De todos os seus amigos, como chamava +aos seus tripulantes, Mascatudo era o mais intimo, +sem que nenhum dos outros jámais levantasse a +voz para deprimir as nobres qualidades do seu companheiro +de perigos.</p> + +<p>Mascatudo havia perdido sua mãe, unico parente +que lhe restava, e que elle adorava com todo o ardor +do seu coração, coração grande e ingenuo, como de +todo o homem que passa a vida separado do resto da +humanidade, entre a colera dos elementos e a mercê +do Creador!</p> + +<p>Seria esta circumstancia que fazia com que essas +duas almas se casassem? Era o! Nos espiritos irmãos +pelo infortunio, vasa Deus o balsamo da sympathia +para que possam juntos enlaçar os soffrimentos que os +pungem.</p> + +<p>Era bello vel-os, quando á noite, ao lado um do outro, +contemplavam em religioso silencio a solidão das +aguas, olhando de vez em quando para o céo, como +se alli procurassem algum vestigio d'aquellas que lhes +haviam dado o ser. Outras vezes, sosinhos na sua camara, +Mascatudo contava a Manuel as suas viagens, +acabando quasi sempre por lhe ler as cartas que sua +mãe lhe escrevia, e que aquelle já ha muito sabia de +cór.</p> + +<p>Era portanto este o amigo a quem Manuel abria in<span class='pagenum'><a name="Page_80" id="Page_80">[Pg 80]</a></span>teira +a sua alma, e em cujo coração depositava todos +os segredos da sua vida aventurosa.</p> + +<p>—Venho participar-lhe que não poderemos sair +d'aqui em menos de cincoenta dias, o que deveras +sinto, porquanto é um tempo precioso o que estamos +perdendo, disse Mascatudo, encostando-se desembaraçadamente +a uma commoda que estava no quarto de +Manuel. Se imagino que tal acontecia, juro por Santa +Barbara que não era eu que o tinha aconselhado a vir +a Portugal.</p> + +<p>-Pois sinto-o deveras, respondeu Manuel de Mendonça, +sobretudo n'esta occasião; e fazendo sentar Mascatudo +a seu lado, contou-lhe em poucas palavras a aventura +da vespera, não sem lhe mostrar os graves receios +que atormentavam a sua alma.</p> + +<p>—Nunca se arrependa de que a sua presença tenha +feito a felicidade de alguem. Dizia minha mãe, que +Deus haja, que tudo quanto o Senhor fazia era para +melhor. Ora quem nos diz a nós que atraz d'essa borrascasita +que lhe arrebentou no coração, não está perto +a bonança?</p> + +<p>—Parece-te portanto... que devo dar azas a isto, +que nem eu mesmo sei como hei de chamar?</p> + +<div class="center"> +<span class='pagenum'><a name="Page_81" id="Page_81">[Pg 81]</a></span> + <a id="image-081"></a> + <a href="images/image-081h.png" > + <img src="images/image-081.png" + alt="—Como se acha? perguntou Martha levantando se da cadeira... (pag. 85)" + title="—Como se acha? perguntou Martha levantando se da cadeira... (pag. 85)" /> + </a> +<div class="caption">—Como se acha? perguntou Martha levantando se da cadeira... (<i><a href="#Page_85">pag. 85</a></i>)</div> +</div> + +<p>—Olhe, sr. Manuel de Mendonça, dizia minha mãe, +que Deus tenha, que o homem só n'este mundo é alvo +da perdição. E eu digo o mesmo. Antigamente não +pensava assim, porém hoje, que me sinto cançado de +trabalhar, parece-me que, apezar das muitas saudades +que me ficariam do mar, viveria talvez mais feliz ao +lado de minha mulher, tendo a barca sempre em ordem +e o porão cheio de mantimentos para sustentar +os filhitos, vendo-os alegres a todos, e trepando por +este velho mastro, açoitado dos vendavaes. Ha lá nada +melhor n'este mundo, como dizia minha mãe, que +Deus haja, do que ter a gente umas sopas para comer +<span class='pagenum'><a name="Page_83" id="Page_83">[Pg 83]</a></span> +ao pé de sua familia! Basta a gente lembrar-se que +tem quando morrer quem lhe feche os olhos, e lá de +vez em quando, quem se recorde da nossa alma, resando-lhe +uma oração sobre a sepultura do corpo. Emfim, +faça o sr. o que quizer, que eu cá por mim deixo +correr a embarcação.</p> + +<p>O prazer que Manuel de Mendonça experimentava +ao ouvir falar do objecto amado, era mais uma prova +do seu amor.</p> + +<p>Foi então que elle reconheceu de verdade o seu estado.</p> + +<p>—Esperemos, disse elle finalmente de si para comsigo, +e vestindo-se saíu com Mascatudo, dirigindo-se a +bordo.</p> + +<hr style="width: 65%;" /> +<p><span class='pagenum'><a name="Page_84" id="Page_84">[Pg 84]</a></span></p> +<h1><a name="XII" id="XII"></a>XII</h1> + + +<p>No dia immediato aos acontecimentos que presenceamos +no hotel de Bragança, a saude de Jeronymo +melhorou consideravelmente. O medico que pela manhã +o fôra visitar declarou as feridas de pouca importancia, +aconselhando, a despeito de tudo, que seria +muito mais prudente não removerem d'alli o ferido, +attendendo ao estado anormal em que Lisboa se encontrava.</p> + +<p>Tanto o mestre de obras como a sua familia não se +cançavam de agradecer á Providencia a felicidade que +tinham achado no meio da sua desventura.</p> + +<p>Não houve delicadeza que lhe não fosse dispensada +por aquella santa familia. A tal ponto foi levada a dedicação +de D. Maria Egypciaca, que por tres vezes se +levantou da cama afim de se informar do doente.</p> + +<p>Foram taes as promessas feitas por Tristão ao pobre +Jeronymo, que este quasi que dava graças a Deus +de ter sido atropellado pelos cavallos do visconde.</p> + +<p>Phantasiando trezentos planos de vida, o operario +julgou ver realizado o seu sonho de vinte annos: um<span class='pagenum'><a name="Page_85" id="Page_85">[Pg 85]</a></span> +pequeno casal nas proximidades de Lisboa, onde tivesse +uma ou duas vaccas, e um garrano que de vez em +quando o trouxesse á cidade.</p> + +<p>Via Balbina com a quarta rasa de milho dirigindo-se +á estrebaria para arraçoar a cavalgadura, Martha seguindo-a +a poucos passos, em busca da creação, e elle, +no centro da horta, ao lado dos seus trabalhadores, +ora regando o milho, ora arrancando-lhe as bandeiras, +e enfeixando as para as levar á vacca malhada, a sua +favorita, essa a quem devia pôr o nome de Estrella, +por ser o nome de uma vacca torina que seu pae lhe +dera no dia em que Jeronymo fazia quinze annos.</p> + +<p>Embevecido no seu phantasioso sonho, com as palpebras +semi-fechadas, extendia de vez em quando a mão +para sua filha, a qual, beijando lh'a n'um transporte +de amor filial, fazia ao mesmo tempo votos ao Todo +Poderoso para que lhe melhorasse quanto antes o seu +querido pae. Balbina, assentada no canapé, olhava ora +para Jeronymo, ora para sua filha. Esta, sorrindo meigamente, +apontava para o leito de seu pae, como se +tentasse mostrar-lhe o socego em que elle repousava.</p> + +<p>De repente o ferido abriu os olhos, e, como se despertasse +de um sonho, apertou brandamente as mãos +da filha, fitando-a com toda a ternura do amor paternal.</p> + +<p>—Como se acha? perguntou Martha levantando-se +da cadeira e debruçando-se-lhe sobre o leito.</p> + +<p>Balbina approximou se.</p> + +<p>—Tenho menos dôres, balbuciou o enfermo, e espero +em Deus que não tardará muito que eu te possa +extender estes braços que a muito custo levanto. Mas +não me dirão quem é esta santa familia que com tanto +amor nos tem tractado? acrescentou elle, dirigindo-se +a sua esposa.</p> + +<p>—Ignoro, respondeu Balbina.<span class='pagenum'><a name="Page_86" id="Page_86">[Pg 86]</a></span></p> + +<p>—Foi alguem mandado por Deus para nos valer com +a sua protecção, continuou elle, como se ainda o acompanhasse +aquelle sonho.</p> + +<p>—Pois olhe, meu pae, acudiu Martha, apezar de tudo, +preferia estar em nossa casa a vêl-o aqui entre +estas cortinas.</p> + +<p>—Se d'isto resultar a tua felicidade, e a tua, ajuntou +elle voltando-se para Balbina, terei de agradecer +a Deus estas dôres que me atormentam.</p> + +<p>—Pois eu, Jeronymo, ainda que tudo quanto Deus +faz é para melhor, desejava bem vêr-te fóra d'este +quarto, disse a pobre Balbina olhando ao mesmo tempo +para a porta.</p> + +<p>Esta abriu-se e entrou Tristão de Almeida.</p> + +<p>Depois de as cumprimentar approximou se do leito +de Jeronymo.</p> + +<p>—Como se sente? perguntou Tristão pegando brandamente +na mão do operario.</p> + +<p>—Melhor; muito melhor.</p> + +<p>—Quanto folgo! disse Tristão, puchando uma cadeira +e abeirando-se do leito. É forçoso que se restabeleça +quanto antes para tomar conta da sua obra: um +hospital para as pessoas pobres atacadas da febre.</p> + +<p>—Pelo que vejo, disse Martha, vossa excellencia +não se occupa senão da sorte dos desgraçados.</p> + +<p>—É essa a minha unica ambição, respondeu o magnata +fitando o rosto ingenuo da filha do operario. Ámanhã +por estas horas já devemos saber o logar designado +para o hospital, e, como desde hontem o considero +meu empregado, accrescentou dirigindo-se a Jeronymo, +não pense que vossemecê e sua familia se +estão aqui tornando pezados. Se alguma cousa tem +que fazer em sua casa, sr.ª Balbina, disse Tristão voltando se +para a mulher do operario, eu lhe mando +chamar um trem para que a demora não seja muita.<span class='pagenum'><a name="Page_87" id="Page_87">[Pg 87]</a></span></p> + +<p>—Não tenho outro remedio senão ir a casa, respondeu +Balbina, mesmo por causa da tia Marianna, ajuntou +ella voltando-se para Martha.</p> + +<p>—Visto isso, vou dar ordem a um criado para que +lhe chame um trem, e sem attender a Balbina, que +pretendia dissuadil-o da sua determinação, o protector +da familia de Jeronymo desceu ao primeiro andar.</p> + +<p>—Ainda não vi melhor coração, murmurou Jeronymo +voltando-se para sua filha.</p> + +<p>—Tudo é muito verdade, meu pae, mas torno a dizer-lhe, +preferia que nada d'isto tivesse succedido.</p> + +<p>Meia hora depois, com grandes esforços de Tristão +de Almeida, Balbina dirigia-se n'um trem de bandeirinha +para sua casa.<span class='pagenum'><a name="Page_88" id="Page_88">[Pg 88]</a></span></p> + + + +<hr style="width: 65%;" /> +<h1><a name="XIII" id="XIII"></a>XIII</h1> + + +<p>Emquanto se estão passando estas veridicas scenas, +entremos em casa do visconde de Coruche.</p> + +<p>—Vê como pões esse pó de arroz, imbecil! Olha +que me estás arranhando as costas! dizia o visconde +voltando-se para o seu <i>groom</i>.</p> + +<p>—Não é da minha mão, sr. visconde, é uma borbulha +que v. ex.ª aqui tem.</p> + +<p>—Uma borbulha! exclamou o visconde, eu nunca +tive a mais pequena excrescencia na pelle. Dá-me d'alli +aquelle espelho.</p> + +<p>Sem proferir uma palavra, o <i>groom</i> dirigiu-se ao +toucador, e tirando de dentro um espelho em fórma +de ellipse, entregou-o ao visconde.</p> + +<p>—Vejamos, disse este, voltando as costas para um +toucador. Com effeito tinhas razão.</p> + +<p>—D'isso tenho eu tido aos centos e não faço caso +algum, ajuntou o criado.</p> + +<p>—Queres tu comparar a tua á minha pelle?</p> + +<p>—Eu tambem não digo a vossa excellencia que a minha +pelle seja como a sua, digo só que d'isso tenho<span class='pagenum'><a name="Page_89" id="Page_89">[Pg 89]</a></span> +eu aos centos. Olhe, sr. visconde, se vossa excellencia +quer, verá como lhe curo isso n'um momento. Tome +o sr. visconde uma... que digo eu? meia pilula +das Monicas, ou uma receita que tem as irmãs do padre +Bernardo que moram em Jesus, e verá como fica +bom no mesmo instante. Isto provavelmente são os +humores que andam levantados.</p> + +<p>—Será o que tu quizeres, respondeu o visconde. +Dá-me d'alli uma camisa.</p> + +<p>—Que camisa quer?</p> + +<p>—Das mais finas, e põe-lhe os botões de camafeu.</p> + +<p>—Ou é <i>serviço</i> ou grande pantomimice, resmungou +o criado em voz baixa, abrindo ao mesmo tempo a gaveta do +guarda roupa e tirando de dentro uma finissima camisa de +cambraia. Agora por isso, ajuntou elle approximando-se +do visconde, veiu cá hontem e já voltou hoje um +individuo que trouxe para vossa excellencia a conta +da camisaria.</p> + +<p>—Dize-lhe que volte no fim do mez.</p> + +<p>—Recordo a vossa excellencia que estamos hoje no +dia 30, e que ámanhã é o ultimo de outubro.</p> + +<p>—Pois sim; mas eu quando disse no fim do mez, +quiz dizer que era para o mez que vem.</p> + +<p>—Cumprirei as ordens de vossa excellencia. Que +fato quer? perguntou elle, dirigindo-se para uma commoda +á Luiz XV, sobre a qual estava um cofre de tartaruga.</p> + +<p>—Um fraque e collete preto, com quaesquer calças +de côr.</p> + +<p>—Agora por isso, sr. visconde, disse o criado pondo +nos punhos da camisa dois magnificos camafeus +de Italia, veiu cá hontem um individuo com uma conta +do alfaiate, e como vossa excellencia não estivesse +em casa, disse-lhe que viesse ámanhã, em sendo duas +horas.<span class='pagenum'><a name="Page_90" id="Page_90">[Pg 90]</a></span></p> + +<p>—Fizeste muito mal, respondeu o visconde mergulhando +uma pequena escova de dentes n'um liquido +pardacento, e levando-a repetidas vezes ao bigode. Já +te disse que nunca se mandam receber contas senão +no fim dos mezes.</p> + +<p>—Pois foi exactamente por esse motivo que o mandei +cá vir ámanhã, que é o ultimo de outubro.</p> + +<p>—Já te disse ha pouco que o meu fim do mez é +sempre o de novembro, respondeu o visconde encolerizado, +passando a escova por sobre o labio inferior, +e deixando o côr de chocolate.</p> + +<p>—O mesmo disse eu ao sr. Alves, quando a semana +passada o procurou por causa d'aquella letra de +600$000 réis que se vence no primeiro de novembro.</p> + +<p>—E elle insiste em não querer a reforma?</p> + +<p>—Creio que insiste. O alquilé a quem vossa excellencia +comprou as eguas baias, foi dizer-lhe que o sr. +visconde promettia pagar-lhe tudo no primeiro de novembro.</p> + +<p>—Veremos o que se ha de fazer, disse o visconde, +esfregando com uma essencia a nodoa côr de castanha +que lhe descompunha a phisionomia. Dá-me d'alli +umas ceroulas de seda. É preciso que vás logo ao Baron +que me mande uma duzia de camisolas.</p> + +<p>—Cumprirei com as ordens de vossa excellencia, +respondeu o criado, abrindo a gaveta d'uma commoda, +e tirando um par de ceroulas de malha de seda.</p> + +<p>—Se alguem me procurar ás tres horas da tarde, +dize lhe que não volte antes do primeiro de novembro, +caso não queira perder o tempo, disse o visconde, +atirando para longe com umas lindas chinellas de +velludo bordadas a oiro, e vestindo ao mesmo tempo +as ceroulas.</p> + +<p>—Vossa excellencia sae a cavallo ou de trem?</p> + +<p>—O dia está tão bonito que me parece melhor saír<span class='pagenum'><a name="Page_91" id="Page_91">[Pg 91]</a></span> +a cavallo. Sim, continuou elle, depois de reflectir alguns +segundos, dize ao Marçal que me apparelhe a +egua lazã. É necessario montal-a; ha perto de oito dias +que não sáe.</p> + +<p>Depois de collocar sobre uma ottomana o fato do visconde, +o criado abriu a porta do toucador, e saíndo foi +transmittir as ordens que seu patrão lhe dera.</p> + +<p>—Sim senhores! a coisa não vae feia, dizia o visconde +de si para comsigo. Se não levanto o dinheiro +do deposito estou arruinado. O credito escassea-me, os +credores, longe de me sustentarem a posição que seria +o unico recurso para se embolsarem do que lhes +devo, começam a negar-se e até me atormentam. Fazem +bem, o futuro lhes dará o pago e tambem Deus, +que de vez em quando ainda se recorda de mim.</p> + +<p>«Não encontro meio algum de salvação! Se apeio os +trens, se revelo, ainda que por sombras, o estado da +minha casa, não tarda a ruina, seguindo-se a poucos +passos a miseria, com toda a sua hediondez que me +assusta.</p> + +<p>«Devo a todos, e aos que me devem não me atrevo +a pedir-lhes contas; não, seria uma loucura para a situação +em que me encontro. Exigindo-lhes essas miseraveis +quantias, seria mostrar-lhes que as necessito, e +eu não tenho mais remedio senão representar que estou +rico. Quanto custa esta falsa posição! Á custa de +quantas insomnias se adquire um nome que não dá +honra no presente nem tão pouco no futuro! Que luctas +inglorias! Quem me dera ter nascido filho de um +lavrador, e gosar em branda paz os encantos d'uma vida +tranquilla. E os homens julgam me feliz! quantos +dariam metade dos seus haveres para terem o meu +nome! Pobres nescios! Vêem os meus trens, os meus +cavallos, os meus vestuarios, e mal pensam as horas +que todo esse fausto me rouba ao somno.<span class='pagenum'><a name="Page_92" id="Page_92">[Pg 92]</a></span></p> + +<p>«Vi a meus pés as primeiras mulheres de Lisboa, por +mais de uma vez, com as faces incendiadas pela colera +do ciume, vi os maridos a contemplarem-me, e eu +mudo, indifferente, com o sorriso nos labios, desprezando-as +a ellas, e escarnecendo d'elles.</p> + +<p>«Quanto dera agora por ter amado uma unica vez, e +ter consagrado a esse objecto do meu amor toda a exuberancia +da minha vida, todo o ardor das minhas paixões.</p> + +<p>«Rico, saudavel, com uma intelligencia clara e algum +tanto cultivada, porque não creei a melhor de todas as +instituições: a familia?</p> + +<p>«Que futuro me espera? Poderei eu sustentar por +muitos annos esta vida, sem dinheiro, alicerce indispensavel +d'este edificio? Se ámanhã, completamente +desanimados os meus credores, comprehenderem a nenhuma +vantagem de me conservarem n'esta situação, +que poderei fazer? Sair de Lisboa? e para onde?</p> + +<p>«Que sei eu fazer? Montar a cavallo ou guiar bem +um tilbury. É isto o sufficiente? E demais, affeito a este +luxo que me rodeia, teria eu bastante valor para lançar +mão de qualquer modo de vida, que não estivesse +em harmonia com o que hoje tenho?</p> + +<p>«Se eu podesse encontrar um homem que me emprestasse +dez a doze contos de réis, talvez ainda conseguisse +levantar-me. Por isso me liguei com o commendador +e com o banqueiro, a fim de explorarmos o +Tristão, mas ou eu me engano muito ou d'aquella moita +não sae coelho.</p> + +<p>«Aquillo é homem para duzentas ou trezentas libras, +que nada me podem remedeiar. Se eu me convencesse +do contrario, ajuntava o visconde abotoando o collete, +cujos magnificos botões de coral contrastavam +com a pallidez morbida do seu aristocratico semblante, +se aquelle Tristão de Almeida fosse homem para em<span class='pagenum'><a name="Page_93" id="Page_93">[Pg 93]</a></span>prestar +uma duzia de contos de réis, separava-me totalmente +dos meus companheiros e recorria á sua bolsa. +E quem sabe? Quem me diz que a minha salvação +se aninha na sua algibeira!</p> + +<p>«Quem sabe, continuava elle, mirando-se ao espelho, +se as suas idéas ácerca do hospital tem no amago o +conseguir um titulo. Se assim fosse estava salvo. Tenho +alguns amigos no ministerio, homens que até já +dispozeram da minha bolsa, póde ser que elles me sirvam +para isto. Se fosse dinheiro tinha eu a certeza +que m'o negariam, porém um titulo...</p> + +<p>«Experimentemos, e se são esses os seus desejos, ficarei +salvo. E se não forem? Embora, convencel o hei +de que um homem na sua posição necessita um titulo, +e que para o alcançar basta ter dinheiro».</p> + +<p>Quando no meio d'estas judiciosas reflexões se +preparava o visconde de Coruche para, afastando-se de +Lopes de Miranda e do banqueiro, se lançar aos fundos +de Tristão de Almeida, entrou de novo o seu <i>groom</i> +annunciando lhe o commendador.</p> + +<p>—Que teremos? disse o visconde comsigo mesmo, +pondo ao mesmo tempo as esporas.</p> + +<p>—Disse lhe que vossa excellencia se estava vestindo, +porém, foi tal a sua insistencia que não tive remedio +senão fazel-o entrar para a sala.</p> + +<p>—Dize-lhe que vou immediatamente. Espera! accrescentou +elle como mudando de pensamento. Entre +rapazes não ha cerimonias. Que venha para aqui mesmo.</p> + +<p>O <i>groom</i> retirou-se, e acompanhou d'alli a minutos o +commendador.</p> + +<p>—Deve estranhar o tel o procurado tão cedo, exclamou +o commendador, dando-se ares de janota, palavra +que n'esse tempo principiava a estar em voga.<span class='pagenum'><a name="Page_94" id="Page_94">[Pg 94]</a></span></p> + +<p>—Por caso nenhum! Estou sempre ás suas ordens.</p> + +<p>—Podemos conversar á vontade?</p> + +<p>—Pois não, respondeu o visconde, visivelmente importunado +pela presença do commendador, que viera +interrompel-o nas suas profundas meditações.</p> + +<p>Ou por esquecimento, ou por pouca importancia concedida +áquella entrevista, o visconde não havia mandado +retirar o <i>groom</i>.</p> + +<p>Lopes de Miranda não tardou em fazer-lh'o notar.</p> + +<p>Córando ligeiramente, o visconde comprehendeu +aquelle reparo e mandando retirar o criado, assentou-se +n'um sophá, offerecendo um logar ao commendador.</p> + +<p>—Preciso fazer lhe uma pergunta. Que idéa fórma +de Tristão de Almeida?</p> + +<p>—A melhor que se póde formar; que é uma excellente +alma, e desambicioso de todas as grandezas do +mundo.</p> + +<p>—Fala serio?</p> + +<p>—Quanto se póde falar.</p> + +<p>—Julga portanto?...</p> + +<p>—O quê?</p> + +<p>—Que o seu projecto a respeito do hospital seja +movido, pura e simplesmente, pela idéa de pôr em +pratica uma obra de caridade?</p> + +<p>—Assim o creio.</p> + +<p>—Outro tanto não penso eu, meu nobre amigo. Ha +em tudo aquillo um <i>arrière pensée</i>, ajuntou Lopes de +Miranda, querendo mostrar ao visconde os seus conhecimentos +linguisticos. O homem deseja um titulo.</p> + +<p>Feliz em que o seu pensamento se tivesse encontrado +com o do commendador, o visconde, como homem +experimentado, calculou que o unico partido de +que podia lançar mão, seria o dissuadil-o completamente +das suas suspeitas.</p> + +<p>—Crê portanto o commendador que essa caridade<span class='pagenum'><a name="Page_95" id="Page_95">[Pg 95]</a></span> +que antes de hontem viu dispensar ao mestre de obras, +era movida apenas por um calculo? Quanto se illude! +Seria necessario ter avaliado todas as circumstancias +que se deram, para formar o seu juizo. O mesmo suppunha +eu, mas logo vi o contrario. Ha factos que se +não podem fingir, sr. Lopes de Miranda. Seria necessario +que Tristão fosse um grande actor, para tão desassombradamente +poder jogar com todas as paixões, +como fez antes de hontem quando atropellámos esse +infeliz. Seria tambem um calculo o interesse com que +sua esposa se approximou do leito do moribundo, e +calculo foi tambem de suas filhas, quando com as lagrimas +nos olhos pediram ao medico informações do +doente? Não me considero de uma credulidade parva, +sr. commendador, mas a Cezar o que é de Cezar. Se +Tristão, tem ou não desejo de entrar na sociedade precedido +por um titulo, não me atrevo a dizel-o, o que +lhe affianço, é que, se realmente tem esse desejo, não +é elle o movel da sua caridade. Homens tem havido +muito caridosos que desejam possuir um titulo, e Tristão +póde muito bem ser um d'esses individuos.</p> + +<p>—Pois eu é que não sou da sua opinião, e venho +propôr-lhe o seguinte: Como sabe, tenho tido ha dois +annos a esta parte consideraveis perdas em resultado +da escassez do vinho, e o sr. visconde, creio que +tambem n'esta occasião não abunda em dinheiro. Lembrava +me por isso que propozessemos a Tristão, mediante +um emprestimo de doze a quatorze contos de +réis, o obter-lhe um titulo de visconde, ou mesmo de +conde. Que lhe parece?</p> + +<p>—Em primeiro logar, sr. commendador, nem vossa +excellencia nem pessoa alguma está auctorizada a saber +se eu abundo ou não em dinheiro, e em segundo +devo dizer-lhe que estranho sobremaneira que se atreva +a propôr-me similhante indignidade! Creio que nun<span class='pagenum'><a name="Page_96" id="Page_96">[Pg 96]</a></span>ca, +nem ao sr., nem a outra pessoa extendi a minha mão +para pedir dinheiro, por maior ou menor que fosse a +quantia; estou portanto habilitado a pedir-lhe o favor +de mudar de assumpto.</p> + +<p>Comprehendendo a loucura que tinha practicado, o +commendador mudou immediatamente de conversação.</p> + +<p>Pretextando em seguida varios negocios que tinha +de tractar, Lopes de Miranda despediu-se do visconde, +seguindo d'alli para casa de Vaz Mendes, esperançado +de encontrar melhor acolhimento no banqueiro.</p> + +<p>Dez minutos depois, perfumado, burnido e penteado, +o visconde de Coruche n'um irreprehensivel <i>pied fé</i> +fazia em branda flexão voltar o pescoço á <i>Andorinha</i>, +a egua lazã que mandara apparelhar.</p> + +<p>Saindo do pateo em duas upas obrigadas, a <i>Andorinha</i> +levou o visconde, que formulando o seu plano, +se dirigia ao hotel Bragança.<span class='pagenum'><a name="Page_97" id="Page_97">[Pg 97]</a></span></p> + + + +<hr style="width: 65%;" /> +<h1><a name="XIV" id="XIV"></a>XIV</h1> + + +<p>Quando Manuel de Mendonça e Mascatudo sairam do +hotel d'Europa, encaminharam-se para bordo, como o +leitor deve estar lembrado.</p> + +<p>A galera que fôra em Buenos-Ayres comprada por +Manuel de Mendonça, era uma formosa barca de duzentas +a trezentas toneladas.</p> + +<p>Era muito de vêr-se o aceio e a disciplina que reinavam +a bordo da galera Esperança, habilmente commandada +por Manuel de Mendonça, cujos conhecimentos +nauticos fariam inveja ao mais experimentado maritimo.</p> + +<p>Com sobejos motivos chamava elle aos seus tripulantes +os seus amigos e companheiros! A amizade e a +confiança com que os tractava jámais concorreu para +que lhe dessem o minimo desgosto de indisciplina.</p> + +<p>Durante a folga todos o tractavam como se elle fôra +um amigo, no serviço todos o respeitavam como o seu +commandante. Quando por qualquer circumstancia se +agitava a mais pequena questão entre os marinheiros, +e elle apparecia perguntando-lhes a causa, era bello<span class='pagenum'><a name="Page_98" id="Page_98">[Pg 98]</a></span> +de vêr como esses homens endurecidos pelas luctas +dos elementos, se enterneciam ao ouvir as palavras +do seu capitão chamando-os á ordem, e expondo-lhes +em phrases insinuantes as terriveis consequencias da +má camaradagem.</p> + +<p>Então, aquelles que momentos antes se haviam levantado +exaltados pela colera, graças á eloquencia de +Manuel, acabavam sempre por se abraçarem.</p> + +<p>A galera fundeada a pouca distancia da Rocha do +conde de Obidos, parecia na sua eterna inquietação +aguardar o que era dono e commandante.</p> + +<p>Quando um velho marinheiro divisou o escaler do +capitão, e este sentado á prôa, o maritimo debruçou-se +do navio como criada velha que espera á janella a +criança que volve ao lar.</p> + +<p>Então começaram a apparecer os outros marinheiros, +esperando anciosamente que o escaler abordasse á +embarcação.</p> + +<p>E a galera agitando-se aos movimentos da corrente, +parecia tambem esperal-o inquieta.</p> + +<p>Finalmente, o escaler atracou, e Manuel subindo por +uma pequena escada de corda entrou a bordo seguido +por Mascatudo.</p> + +<p>Quem de perto observasse o tractamento que elle +dava aos marinheiros, e ignorasse o logar que occupava, +tel-o-ia tomado por um simples navegante.</p> + +<p>Depois de falar a todos aquelles homens, desceu á +camara, e alli, em companhia de Mascatudo, continuou +a conversação que uma hora antes havia começado no +hotel Europe.</p> + +<p>—Estamos aqui mais sós para podermos falar, dizia +elle ao marinheiro. Ninguem poderá ouvir as nossas +palavras a não ser o mar, e Deus que nos escuta.</p> + +<p>—O mesmo me acontece, respondia-lhe Mascatudo. +Não sei o que sinto quando passo uma noite encarce<span class='pagenum'><a name="Page_99" id="Page_99">[Pg 99]</a></span>rado +entre as quatro paredes de uma hospedaria! Acordar +pela noite velha sem ouvir o rumor da agua batendo +de encontro á quilha da embarcação, e sem ver +o lume de alguma estrella reflectindo-se de vez em +quando como se estivesse a acompanhar o meu dormir, +parece que é acordar n'um tumulo.</p> + +<p>—Quero pedir-te um favor, disse Manuel de Mendonça, +depois de alguns instantes de profunda meditação. +Como já t'o disse, sei apenas que ficaram no hotel +de Bragança. Desejava saber quanto se tem passado, +mas falta-me o valor para ir eu mesmo proceder +a indagações. Terias duvida em ir procurar essa familia +da minha parte?</p> + +<p>—Eu! exclamou o marinheiro. E porque motivo? +Foi alguma acção má a que o sr. praticou? Ora essa! +É para já. Não tem mais do que dizer-me o sitio onde +tenho de me dirigir.</p> + +<p>—Aonde te disse, ao hotel de Bragança. Se ainda lá +estiverem, pede ao guarda portão que te conduza ao +quarto. Pergunta por sua mulher ou por Martha, e dize +a qualquer das duas que vaes da minha parte saber +da saude de Jeronymo.</p> + +<p>—É só isso o que deseja saber? Veja lá; lembre-se +bem, ajuntou Mascatudo, sorrindo-se para o seu commandante.</p> + +<p>—É só isto.</p> + +<p>—E o sr. fica á minha espera, aonde?</p> + +<p>—A bordo.</p> + +<p>—Volto portanto aqui?</p> + +<p>—Já se vê.</p> + +<p>—Quer que vá já?</p> + +<p>—Quero.</p> + +<p>—Era melhor ter-me dito isso lá em terra, ponderou +judiciosamente o marinheiro.</p> + +<p>—Quiz antes pedir-te isso sobre as aguas do mar.<span class='pagenum'><a name="Page_100" id="Page_100">[Pg 100]</a></span></p> + +<p>—Pois então, sr. Manuel de Mendonça, como bom +maritimo que sou, irei sondar esses mares desconhecidos, +e tenho fé em Deus, que em poucos dias poderemos +navegar de vento em pôpa, sem que o mais leve +indicio de temporal nos faça perder o rumo. O que +eu não quero é vel-o assim entristecido, accrescentou +o fiel marinheiro, fixando a vista na melancolica physionomia +do seu commandante.</p> + +<p>—Pensas talvez que me sinto prezo a essa mulher? +perguntou Manuel com aquella pueril ingenuidade de +que se revestem os espiritos sujeitos ás mysteriosas +influencias do amor!</p> + +<p>—Não sei, respondeu Mascatudo, mas apostava que +sim. Ás vezes, tudo está no começar. O maior temporal +principia a levantar-se por uma brisa serena.</p> + +<p>—Espero em Deus que essa aragem que tu adivinhas, +nunca seja nuncia de nenhuma tormenta.</p> + +<p>—Que Santa Barbara e a Senhora da Bonança nos +protejam, commandante, disse Mascatudo, levantando-se +e preparando-se para cumprir as ordens do seu capitão.</p> + +<p>—Amen, respondeu Manuel, reclinando a fronte na +mão direita.</p> + +<p>Mascatudo, sem esperar mais observações, saiu da +camara, e, subindo ao convez mandou preparar o escaler. +Manuel olhava-o em silencio.</p> + +<p>—Será este o anjo que Deus me mandou á terra, +para me acompanhar nas longas noites da minha solidão? +pensava elle espraiando os seus olhares entristecidos +na direcção do soberbo edificio do hotel Bragança.<span class='pagenum'><a name="Page_101" id="Page_101">[Pg 101]</a></span></p> + + + +<hr style="width: 65%;" /> +<h1><a name="XV" id="XV"></a>XV</h1> + + +<p>Desembarcando no Terreiro do Paço, Mascatudo tomou +o rumo do hotel. Desde que saira de bordo, o +dedicado amigo em mais alguma coisa havia pensado +senão em Martha.</p> + +<p>O seu caracter concentrado e ao mesmo tempo sensivel, +levava o a acreditar na impossibilidade de ventura +na terra, e, muito menos sobre as aguas do mar, +sem se possuir um coração fiel e dedicado, qual a sua +imaginação o phantasiava.</p> + +<p>A mulher, essa divina creação que Deus lançou ao +mundo para inseparavel companheira do homem, que +deante de nossos sorrisos levanta o rosto brilhante de +felicidade, e que desmaia a fronte pallida e inquieta, +ao enxugar-nos as lagrimas de desventura, concebia-a +Mascatudo no seu coração selvatico com toda a força +de um vigoroso sentimento.</p> + +<p>É que a esse espirito, agitado pelas luctas infrenes +dos elementos, descêra um dia o anjo do amor, e pousando-lhe +as brancas azas na fronte crestada pelos soes, +imprimira-lhe o osculo indelevel do soffrimento.<span class='pagenum'><a name="Page_102" id="Page_102">[Pg 102]</a></span></p> + +<p>Amára uma vez na vida! Amára com toda a força +da sua alma, alma joven e inexperiente, para quem o +mundo era um jardim florido, e cada pomo um goso, e +cada goso uma esperança, e cada esperança uma existencia +de immorredouras felicidades!</p> + +<p>É que a sós entre o mar e o céu, o grito raivoso das +paixões humanas, ferindo-lhe os ouvidos, jámais lhe +havia interrompido os extasis, quando assentado ao +leme da embarcação contemplava os astros que se reflectiam +nas aguas prateadas do oceano, vagas como o +seu pensamento, indecifraveis como as suas aspirações!</p> + +<p>Conhecia apenas a ira do mar, mas a colera do homem +envenenado pela inveja ou pela traição, jámais a +havia sonhado o seu instincto.</p> + +<p>Por isso vira na mulher o anjo, na sua convivencia +a felicidade unica e possivel.</p> + +<p>Amou!</p> + +<p>E quão grande teria sido o affecto n'aquella grande +alma?!</p> + +<p>Possuia algum dinheiro das suas economias, julgou-se +em circumstancias de casar.</p> + +<p>Dois mezes depois, Mascatudo realizava no casamento +todas as suas aspirações. Curta, porém, foi a sua +ventura. A brisa da morte, agitando-se mysteriosamente +sobre o tecto do seu ninho, devastou-lhe ao cabo de +um anno flôres e fructo!</p> + +<p>O triste voltou á vida do mar; e quando por noites +caladas o seu barco sulcava as aguas do oceano, via-se +ás vezes o tio Luiz encostado á amurada da embarcação, +contemplando o firmamento, como que perguntando +a cada nuvem em que paragem se occultava +aquella metade da sua alma.</p> + +<p>Desde então, Mascatudo viveu apenas para duas sepulturas: +a da esposa e a da mãe!<span class='pagenum'><a name="Page_103" id="Page_103">[Pg 103]</a></span></p> + +<p>—Hei de saber tudo, dizia elle, ao chegar á porta +do hotel. Se fôr como a pintam, serei o primeiro a +aconselhal-o a que não perca esta occasião.</p> + +<p>Cumprindo á risca as instrucções que recebera, Mascatudo +foi conduzido pelo guarda portão ao quarto de +Jeronymo.</p> + +<p>Balbina já estava de volta de sua casa, aonde tinha +ido mais com o intuito de tranquillisar a pobre Marianna +do que para tractar dos arranjos domesticos.</p> + +<p>—Venho aqui da parte do meu commandante, para +saber como está o sr. Jeronymo, disse Mascatudo, +olhando desassombradamente para o operario e para a +mulher e filha.</p> + +<p>O enfermo, que nada comprehendêra, ficou como +abysmado olhando para Balbina.</p> + +<p>—Creio que me não expliquei bem, ajuntou o marinheiro; +venho da parte do individuo que avisou a sua +familia do sitio onde vossemecê estava.</p> + +<p>—Ah! já sei; vem da parte d'esse sujeito a quem +somos tão obrigados, exclamou Martha, fazendo-se vermelha +como o estofo do sophá onde estava assentada.</p> + +<p>—Até que perceberam, continuou Mascatudo, approximando-se +do leito de Jeronymo. Foi esse mesmo o +que me mandou saber da sua saude.</p> + +<p>—Quanto lhe estamos agradecidos, interrompeu Balbina, +dirigindo-se ao marinheiro. Se não tivesse sido +aquelle excellente senhor, talvez que ainda a estas horas +estivessemos sem saber onde elle parava. Diga-lhe +que graças a Deus, o Jeronymo está muito melhor, e +que tanto elle como eu e minha filha desejamos saber +onde o podemos encontrar para lhe darmos os nossos +agradecimentos.</p> + +<p>—O sr. Manuel, respondeu o marinheiro, póde encontrar-se +a bordo da sua galera, e quando alli não estiver, +accrescentou, fixando ardentemente os olhos em<span class='pagenum'><a name="Page_104" id="Page_104">[Pg 104]</a></span> +Martha, que parecia escutal-o com interesse, está no hotel +d'Europe, na rua Nova do Carmo. Mas lá por isso +não seja a duvida; deixem estar, uma vez que elle se +interessa tanto pelos seus, eu farei com que ámanhã +ou depois, se por acaso ainda estiverem n'esta estalagem, +elle os venha ver a vossemecês.</p> + +<p>—Quanto estimaria conhecel-o, interrompeu Jeronymo +voltando-se para o maritimo.</p> + +<p>Martha empallideceu ligeiramente.</p> + +<p>—N'esse caso eu farei a diligencia de o trazer aqui, +respondeu Mascatudo, satisfeito por comprehender o +que se passava no coração de Martha.</p> + +<p>Despedindo se de todos, o marinheiro saiu do hotel.</p> + +<p>—É um anjo, ou eu sou um grande asno, dizia elle +comsigo mesmo, emquanto se dirigia para bordo.<span class='pagenum'><a name="Page_105" id="Page_105">[Pg 105]</a></span></p> + + + +<hr style="width: 65%;" /> +<h1><a name="XVI" id="XVI"></a>XVI</h1> + + +<p>Deixemos Mascatudo participar a Manuel de Mendonça +os resultados da sua entrevista, e encaminhemo-nos +a um pequeno gabinete do hotel onde Tristão costuma +receber as visitas de mais confiança.</p> + +<p>O visconde, como o leitor não ignora, tinha resolvido +tirar o maior partido que podesse do seu novo amigo; +com este fim se havia dirigido para o hotel.</p> + +<p>Tristão acabava de chegar de casa de um banqueiro, +a quem fôra consultar ácerca de uma transferencia de +fundos para o Banco de Portugal na importancia de +650:000$000, para lhe não succeder o mesmo que lhe +acontecêra com quantia superior a essa, que tinha no +banco de Havana, d'onde havia dois annos não recebia +juro algum.</p> + +<p>Vê-se portanto quaes eram as riquezas d'aquelle homem!</p> + +<p>Ao ouvir estas palavras, ainda mais seguro ficou o +visconde no bom exito da sua tentativa, e, ampliando +apenas a cifra resolveu-se a preparar quanto antes o +terreno que tinha a explorar.<span class='pagenum'><a name="Page_106" id="Page_106">[Pg 106]</a></span></p> + +<p>—Com que então, meu amigo, disse-lhe o visconde, já +sei que os seus protegidos dormem em leito de rosas o +doce somno da esperança, acalentados pelas azas brancas +do anjo dos tristes.</p> + +<p>Por esta exuberancia de imagens, poderá o leitor +formar a sua idéa psychologica ácerca do caracter do +visconde de Coruche.</p> + +<p>—Assim o creio, respondeu Tristão, offerecendo-lhe +um magnifico charuto havano.</p> + +<p>—E quando principiam os nossos trabalhos do hospital?</p> + +<p>—Pela minha parte hoje mesmo, se vossa excellencia +quizer; porém, vejo que tem tantos negocios a +tractar...</p> + +<p>—Por Deus, meu caro amigo! Para uma coisa d'essas +deixaria tudo de parte. Hoje mesmo, se lhe apraz, +iremos escolher o local.</p> + +<p>—Isso é que era ouro sobre azul! Não calcula a anciedade +de minha esposa em vêr realizados os seus +desejos. Quando se propôe qualquer coisa, não ha +quem a dissuada, nem eu o intentaria n'este caso.</p> + +<p>—O mesmo sou eu. Veremos quem se lança denodadamente +na arena da caridade. E como vossa excellencia +vae lucrar n'esta obra! Como se conceituará +na opinião publica? De que serve a riqueza, se não +fôr applicada ao bem? Quantas ha em Lisboa que +para nada servem, a não ser para satisfazer os +olhares cubiçosos dos avarentos que as possuem! +passam miseravelmente emquanto vivos, e, quando +morrem teem por unico elogio dos seus herdeiros, o +dizerem que sempre foi um homem muito amigo de +olhar pela sua casa. É que esses entes, na minha opinião, +esquecidos de Deus, atravessam a vida sem conhecerem +a verdadeira felicidade que sente aquelle +que, extendendo a mão á pobreza, leva o consolo ao<span class='pagenum'><a name="Page_107" id="Page_107">[Pg 107]</a></span> +ninho do desamparado. Muitos d'esses miseraveis, renegando +o povo d'onde sairam, querem chegar-se á +aristocracia, transpôr os humbraes do chefe do Estado, +e nem ao menos se lembram de seguir o exemplo, +abrindo como elle a sua bolsa aos desvalidos, e os +seus pulmões á atmosphera corrompida pelos miasmas +da epidemia. E ainda a semana passada o joven +monarcha desceu ao leito de um moribundo e passou-lhe +a regia mão pelo peito, como para sondar se o +coração ainda batia. Já que pessoa alguma o segue no +seu heroismo; já que a maior parte d'esses satrapas +o abandonam, seja vossa excellencia o heroe que venha +a empallidecer-lhes o rosto de vergonha, tomando +o exemplo d'aquelle santo rei.</p> + +<p>Havia tanta verdade nas palavras do visconde; era +tão singela a sua dicção, tão arrobadas de sentimento +as phrases que acabava de proferir, que Tristão, apezar +do seu profundo conhecimento do coração humano, +hesitou por alguns instantes, sem poder avaliar se essas +palavras seriam calculadas, ou se eram apenas dictadas +por um coração votado á caridade.</p> + +<p>Tristão era homem de arrojado animo. Por mais de +uma vez sorrira para a morte que se lhe approximava +sem que os lábios houvessem mudado de côr ou o +seu coração pulsado com maior violencia.</p> + +<p>Affeito a uma existencia aventurosa, ainda o fascinavam +os perigos. A despeito de se considerar bastante +avançado em annos, fiava se na sua robustissima compleição, +e, sopesando as forças, distinguiu rapidamente +o que ainda podia fazer, graças ao seu arrojo, intelligencia +e capitaes.</p> + +<p>Então desenhou-se lhe um mundo inteiramente novo! +Julgou-se cercado pela aureola do prestigio, e ouviu +pronunciar o seu nome com todas as pompas de +uma gloria merecida. Viu-se a edificar um hospital, e<span class='pagenum'><a name="Page_108" id="Page_108">[Pg 108]</a></span> +mais tarde, elle mesmo, sua mulher e suas proprias +filhas, descendo como anjos á cabeceira dos enfermos. +Viu os olhos do monarcha iriados de angelica expressão, +volvendo-se agradecidos para elle e para sua familia. +Fascinou-o a gloria de um renome, e, elevando +se nas azas da caridade, creu subir ao ultimo céu +das ledices sociaes!</p> + +<p>—Tem razão e muita razão, sr. visconde. Vamos +hoje mesmo dar um grande impulso á nossa idéa. Jeronymo, +a quem tenciono entregar a direcção das obras, +segundo me consta, tem tanto de intelligente quanto +de honrado. O pobre homem por estes dois ou tres +dias não poderá sair de casa; vamos nós sem mais +delongas escolher o sitio. Em que bairro lhe parece?</p> + +<p>—No de Santos. Por exemplo lá para as bandas da +Pampulha.</p> + +<p>—Visto isso, vou mandar pôr o trem, e entretanto +subo ao quarto de Jeronymo para lhe communicar as +nossas intenções. E sem mais demora saiu do gabinete.</p> + +<p>—Esplendido, exclamou o visconde, contemplando +ao mesmo tempo um album de retratos que estava +sobre uma banca de jogo. O negocio corre ás mil maravilhas. +Em todo o caso, é necessario espaçal-o por +mais alguns dias, e em vez de dez ou doze contos, +serão vinte ou trinta, hypothecando-lhe... hypothecando-lhe +o quê? umas propriedades que eu desejava +possuir no Algarve. O homem está sequioso de gloria. +Cega-o a vaidade. É um zote que eu domino com a +força da minha eloquencia. Bastam-me duas palavras +para o conduzir aonde me aprouver.</p> + +<p>N'este comenos entrou o magnate, dizendo lhe que +já estava o trem á porta.</p> + +<p>Desceram e entraram na carruagem. Tomando pela +rua do Arsenal, dirigiram-se ao Corpo Santo. Proximo<span class='pagenum'><a name="Page_109" id="Page_109">[Pg 109]</a></span> +á egreja grande multidão contemplava um pobre velho, +que, estorcendo-se em terriveis convulsões, denunciava +ter sido atacado pela febre. Mandaram parar o trem, +e Tristão, apeando-se primeiro, dirigiu-se para o grupo.</p> + +<p>O visconde seguia o sem dar uma palavra.</p> + +<p>—É um infeliz que foi atacado pela febre, disse um +gallego a quem Tristão se havia dirigido.</p> + +<p>—E tambem pela fome, interrompeu uma vendedeira +de hortaliça.</p> + +<p>—E ainda não appareceu ninguem que lhe fosse +buscar soccorros? perguntou o visconde.</p> + +<p>—Saberá vossa excellencia que ainda não <i>senhora</i>, +respondeu a vendedeira.</p> + +<p>—Pois se vossemecê se interessa por esse homem, +peço-lhe que se encarregue de lhe chamar os soccorros, +accudiu Tristão, approximando-se mais da mulher +e entregando-lhe quatro libras. Se elle tem familia, +diga-lhe que me procurem logo no hotel Bragança, +e vá vossemecê com ella, para lhe dar tambem alguma +coisa.</p> + +<p>O oiro assombrou a vendedeira, que esteve por alguns +segundos sem poder soltar palavra.</p> + +<p>—É uma caridade, meu senhor, porque está cheiosinho +de familia, disse finalmente a mulher com voz +tremula e commovida. Mas agora outra coisa, meu +senhor, ajuntou ella, por quem devo procurar.</p> + +<p>—Pelo excellentissimo sr. Tristão de Almeida disse +vivamente o visconde.</p> + +<p>Mettendo-se outra vez na carruagem, abandonaram +aquelle grupo, pasmado por tanta generosidade, e partiram +pela rua da Boa Vista.</p> + +<p>—A sorte favorece-o, proporcionando-lhe todos os +ensejos para pôr em pratica a sua grande obra, dizia-lhe +o visconde, fitando-o com um olhar de lynce.</p> + +<p>—Assim o creio, respondia-lhe Tristão, olhando para<span class='pagenum'><a name="Page_110" id="Page_110">[Pg 110]</a></span> +todas as ruas por onde passava, com a curiosidade +que todos experimentam, ao contemplarem pela primeira +vez os logares que lhe são desconhecidos.</p> + +<p>—Agora me recordo, disse o visconde, parece-me +que está uma casa para alugar na rua de S. Francisco +de Paula. Se lhe parece vamos vel-a.</p> + +<p>—Deus permitta que esteja nas condições que precisamos.</p> + +<p>Finalmente chegaram á rua designada pelo visconde.</p> + +<p>A casa, segundo elle havia pensado, era magnifica +para aquelle fim. O dono morava longe, porém a boa +vontade tanto de um como de outro principiava a não +admittir difficuldades, e seguiram immediatamente +para casa do senhorio.</p> + +<p>No dia seguinte ás oito horas da manhã, na rua +de S. Francisco de Paula, começavam todos os preparativos +inherentes á fundação do hospital.</p> + +<p>O anjo da caridade, invocado por Tristão de Almeida, +elevava as suas azas brancas sobre os telhados +d'aquelle edificio!<span class='pagenum'><a name="Page_111" id="Page_111">[Pg 111]</a></span></p> + + + +<hr style="width: 65%;" /> +<h1><a name="XVII" id="XVII"></a>XVII</h1> + + +<p>—Acompanhas-me, Luiz? Tenho tanto desejo de ir +visitar aquella gente... e comtudo não me sinto com +valor.</p> + +<p>—Ora essa, meu capitão, da melhor vontade! Não +sei o que li n'aquelles olhos verdes de Martha; ainda +se me não poderam tirar da memoria! Póde ser que +me engane, mas essa menina é um anjo! Ha na meiguice +do seu olhar um não sei quê, que me prendeu!</p> + +<p>—Será isso uma illusão da tua parte?</p> + +<p>—Nem por sombras! Se a visse, quando eu prometti +a sua mãe que faria com que o senhor lá fosse...</p> + +<p>—Então mostrou muitos desejos de me ver? perguntou +Manuel com essa visivel curiosidade dos namorados, +e como desejando prolongar a conversação de +Mascatudo.</p> + +<p>—Se mostrou! Ao principio fez-se branca como a +cal da parede, e em seguida tornou-se vermelha como +uma romã. Havia tanto interesse no seu olhar, quando +me falou a respeito do senhor, que logo comprehendi +que alguma coisa se passava no seu coração.<span class='pagenum'><a name="Page_112" id="Page_112">[Pg 112]</a></span></p> + +<p>—Pois então, meu amigo, o que tem de ser, seja. +É Deus que o determina: iremos hoje vel-os. Passava-se +este dialogo a bordo da galera Esperança, no +mesmo dia e á mesma hora em que o visconde de Coruche +expunha a Tristão de Almeida, no gabinete do +hotel Bragança, as graves conveniencias que lhe +resultariam da sua philanthropica resolução.</p> + +<p>Subindo á tolda, Manuel mandou apromptar o escaler +e veiu para terra em companhia de Mascatudo.</p> + +<p>Dirigiu se ao hotel.</p> + +<p>Ao subir a escada que conduzia aos quartos de Jeronymo, +sentiu que um mundo novo e inteiramente +estranho se desenrolava a seus olhos! Receioso pelo +sentimento que lhe perturbava o espirito, o marinheiro +quasi pedia á Providencia, que qualquer circumstancia +fortuita lhe viesse impedir a realização dos seus desejos!</p> + +<p>Batendo mansamente á porta do quarto de Jeronymo, +ouviu a voz doce e melancholica de Martha que +de dentro lhe respondia. Faltou-lhe o valor; foi necessario +que Mascatudo o animasse a entrar. Entraram +ambos.</p> + +<p>Reclinado sobre uma poltrona, Jeronymo dir-se-ia +um cadaver.</p> + +<p>A seus pés, assentada n'um tamborete, Balbina +olhava-o com gesto de profundo desalento, fitando de +vez em quando sua filha que de pé os contemplava!</p> + +<p>Martha ficou immovel!</p> + +<p>—Venho saber da saude de seu marido, disse Manuel +para Balbina, extendendo ao mesmo tempo a mão +ao mestre de obras.</p> + +<p>Este sorriu-se brandamente para o maritimo, apertando +entre as suas aquella mão que se lhe offerecia.</p> + +<p>—E como se sente?</p> + +<p>—Melhor, felizmente, muito melhor! respondeu Je<span class='pagenum'><a name="Page_113" id="Page_113">[Pg 113]</a></span>ronymo, +olhando ao mesmo tempo para sua mulher, +e indicando-lhe que approximasse uma cadeira.</p> + +<p>Manuel, pegando na cadeira que Balbina lhe offerecia, +sentou-se ao lado do enfermo.</p> + +<p>Mascatudo contentava-se apenas em observar os +olhos de Martha, buscando em cada movimento descobrir +o que lhe passava n'alma.</p> + +<p>Balbina então relatou a Manuel quanto havia succedido, +sem lhe omittir os rasgos de generosidade de +que era devedora a Tristão e a toda a sua familia.</p> + +<p>—E quem é esse homem tão caridoso? perguntou +Manuel, como se já n'esse instante se lhe começasse +a perturbar o espirito com a idéa de que essa protecção +fosse menos devida á caridade do que á formosura +de Martha.</p> + +<p>—Quem é elle, não lh'o podemos dizer, respondeu +Balbina. Sabemos apenas que é um senhor muito rico, +e que todo o seu fim é fazer bem á pobreza. Agora +vae elle estabelecer um hospital para as pessoas atacadas +pela febre, hospital de que meu marido é o encarregado.</p> + +<p>—E não só elle, como sua mulher e filhas, se tem +interessado o mais possivel por mim, ajuntou Jeronymo.</p> + +<p>—Nunca me ha de esquecer aquella noite, menina, +tartamudeou Manuel dirigindo-se a Martha.</p> + +<p>—Quanto lhe devemos, meu caro senhor, acudiu o +operario, olhando ora para Manuel, ora para a mulher +e para a filha.</p> + +<p>—Como elle se portou com a nossa filha! Não temos +modos de agradecer! disse Balbina visivelmente +reconhecida.</p> + +<p>—É merecedora de tudo! Nada tem que me agradecer, +respondeu Manuel olhando ao mesmo tempo +para a interessante Martha.<span class='pagenum'><a name="Page_114" id="Page_114">[Pg 114]</a></span></p> + +<p>Quando a filha do operario, mais familiarizada com +a presença do maritimo, se preparava para lhe dirigir +a palavra, soaram uns passos no corredor e abriu-se +em seguida a porta do quarto.</p> + +<p>Eram Tristão e o visconde.</p> + +<p>—Venho prevenil-os de que já temos casa para o hospital, +e que ámanhã por estas horas—graças á actividade +do sr. visconde—já devem começar os trabalhos, +disse Tristão de Almeida, reparando ao mesmo +tempo em Manuel de Mendonça e Mascatudo.</p> + +<p>Estes ultimos olhavam para os recemchegados, sem +poderem occultar que as suas presenças se lhes não +tinham tornado muito sympathicas.</p> + +<p>—Estes senhores pertencem á sua familia? perguntou +o visconde dirigindo-se a Martha.</p> + +<p>—Não, senhor, respondeu Martha. E indicando Manuel +de Mendonça, accrescentou: este senhor foi quem +me encontrou na rua, e que mais tarde descobriu +aonde estava meu pae.</p> + +<p>—Ah! foi este senhor! acudiu Tristão. Quanto folgo +em ter o gosto de o conhecer. Se me não engano, +n'aquella mesma noite tive o prazer de o encontrar; +porém, quando ia para lhe extender a mão, já vossa +senhoria tinha saido d'este quarto, ajuntou Tristão dirigindo-se +a Manuel de Mendonça e extendendo-lhe +brandamente a mão.</p> + +<p>Se n'aquella noite do atropellamento os olhos de Manuel +de Mendonça se haviam cravado particularmente +no rosto de Tristão, mais cuidadosamente o fixaram +n'aquelle momento.</p> + +<p>O mesmo se passou com o magnate. Dir-se-ia que +esses dois homens já se haviam encontrado alguma +vez na vida! Onde? Sabia-o Deus, que n'esse instante +os não illucidava!</p> + +<p>O physionomista que de perto observasse o rosto de<span class='pagenum'><a name="Page_115" id="Page_115">[Pg 115]</a></span> +Manuel, ter-lhe-ia notado um estremecimento de repulsão +no momento em que, extendendo a mão, a sentiu +em contacto com a de Tristão de Almeida.</p> + +<p>A Mascatudo não lhe passou desapercebido.</p> + +<p>—Queira Deus, pensava elle comsigo, que o sr. Manuel +de Mendonça não comece já a imaginar que lhe +querem estorvar a pesca. Se elle vê que lhe lançam +a fisga, põe-se de ventas á enchente e vae tudo com +trezentos mil diabos. Elle é bom, isso lá é que não ha +duvida, mas, se lhe pegam fogo ao paiol da polvora, +vae tudo pelos ares em mil estilhaços.</p> + +<p>Tristão e o visconde trocaram ainda algumas palavras +entre si, e depois de alguns momentos de silencio, +despediram-se de Jeronymo e de sua familia, e +sairam do quarto cumprimentando affavelmente Manuel +de Mendonça.</p> + +<p>—Conhece aquelle senhor? perguntou Martha a Manuel +de Mendonça, referindo-se a Tristão de Almeida.</p> + +<p>—Não conheço, respondeu o maritimo, comtudo, +parece-me já ter visto aquelle individuo, aonde não +me recordo.</p> + +<p>—O mesmo me pareceu a mim, acudiu Mascatudo. +E a elle, se me não engano, tambem o senhor não lhe +era estranho.</p> + +<p>—O que elle me parece é um santo homem, disse +Balbina, que não via em Tristão mais do que o protector +de seu marido.</p> + +<p>—Assim o julgo, respondeu Manuel, levantando-se +e despedindo-se de Jeronymo.</p> + +<p>—Já se retira? perguntou Martha, lendo-se-lhe nos +olhos o que principiava a sentir no coração.</p> + +<p>—Tenho de ir para bordo, respondeu Manuel despedindo-se +de Martha, e promettendo-lhe voltar no dia +seguinte.<span class='pagenum'><a name="Page_116" id="Page_116">[Pg 116]</a></span></p> + +<hr class="bookstyle"/> + +<p>—Então o que me diz, meu capitão? perguntava +Mascatudo ao sairem o pateo do hotel.</p> + +<p>—Que gosto muito d'ella, respondeu Manuel de Mendonça +olhando para as paredes do edificio como se +buscasse a janella do quarto onde havia ficado a familia +do operario.<span class='pagenum'><a name="Page_117" id="Page_117">[Pg 117]</a></span></p> + + + +<hr style="width: 65%;" /> +<h1><a name="XVIII" id="XVIII"></a>XVIII</h1> + + +<p>São dez horas da manhã. Deitado no seu leito de +precioso ebano, e fazendo mil conjecturas ácerca de +Tristão, a quem na vespera havia convidado para almoçar, +o visconde de Coruche, como homem experimentado, +palpa, estuda e analysa o terreno por onde +tem de caminhar.</p> + +<p>Tudo estava prevenido para o almoço. Uma grande +parte da baixella, que dias antes tinha sido substituida +no <i>prégo</i> por outros objectos cuja ausencia se não +fazia notar, já estava sobre os aparadores. Entre os +riquissimos trabalhos de prata destacava-se um pelo +seu grande valor e merito artistico.</p> + +<p>Era um centro de mesa. Representava as tres graças +sustentando uma enorme concha.</p> + +<p>Era esta, por assim dizer, a ultima reliquia que lhe +restava do seu para sempre chorado tio!</p> + +<p>«Fiz mal, pensava elle, em não ter convidado o +commendador e Vaz Mendes, para almoçarem commigo. +Podem prever n'isto alguma insidia e intrigarem-me +com o meu Cresus! É mais prudente escrever-lhes.<span class='pagenum'><a name="Page_118" id="Page_118">[Pg 118]</a></span> +E sem mais delonga, levantou-se e desceu ao escriptorio, +formoso aposento ao rez do jardim, esplendida e +custosamente mobilado.</p> + +<p>«E pensar que tudo isto é sol de pouca dura! accrescentava +elle olhando para as estufas do jardim. +Não terei valor para cair com a minha ruina? Hei de +ver de pé firme e olhar sereno, sair d'esta casa para +o poder dos agiotas, até á ultima, todas estas reliquias? +Deus não póde permittir que um homem que tem vivido +e gozado como eu, se encontre um dia a braços +com a miseria! É forçoso tomar uma deliberação. Tenho +ainda uns seis mezes para viver, é pouco; prolongue-se +a existencia, custe o que custar. Homicidio é +um crime, e deixar-me escorregar na pendente do meu +infortunio é um suicidio. Não quero ser criminoso.</p> + +<p>«Arvores a cuja sombra me abriguei na minha infancia, +nem vós já me pertenceis! continuava elle +olhando para o vetusto arvoredo do jardim.</p> + +<p>«Tectos que vistes expirar meus paes, que impia +mão de atroz capitalista te manchará o culto? Aqui nasceu +meu avô, aqui morreram todos os que tiveram +melhor senso do que este desgraçado! «Soberbo choupo +para me enforcar com o cordão do meu chambre», +dizia elle como se quizesse zombar de si mesmo e +contemplando ao mesmo tempo a arvore, que parecia +convidal-o ao passo mais acertado que podia dar em +toda a sua vida.</p> + +<p>Abandonando estes lugubres pensamentos, o visconde +sentou-se á carteira, e escreveu duas cartas, uma +ao commendador, e outra a Vaz Mendes. Pedia em ambas +a honra de virem almoçar em sua companhia.</p> + +<p>Tocou a campainha e entregando as cartas a um +criado para que as levasse sem demora ao seu destino, +o visconde deu ainda algumas voltas pelo jardim +e dirigiu-se á casa de banho.<span class='pagenum'><a name="Page_119" id="Page_119">[Pg 119]</a></span></p> + +<p>Ao meio-dia em ponto entraram Vaz Mendes e o +commendador Lopes de Miranda.</p> + +<p>—Quanto folgo me não tivessem faltado, disse-lhes +o visconde conduzindo-os para a sala de visitas. Tristão, +acrescentou elle, vem hoje almoçar commigo, era +forçoso pedir que mais alguem lhe tornasse menos +pezado o sacrificio. Vamos discutir largamente sobre o +hospital. Sabem que já temos a casa arrendada?</p> + +<p>—Sabemos, responderam ambos.</p> + +<p>—Um magnifico palacio á Pampulha.</p> + +<p>—O local não podia ser mais bem escolhido, disse +o commendador reclinando-se n'uma poltrona. E quando +principiam os arranjos? perguntou Vaz Mendes.</p> + +<p>—Hoje mesmo; para esse fim os mandei chamar. +Vamos comprar tudo o que fôr necessario para que +principie a funccionar de hoje a oito dias.</p> + +<p>—Realmente é um homem de muita caridade este +Tristão, interrompeu Vaz Mendes, olhando para uma +soberba aguarella de Howell.</p> + +<p>—Basta o que elle tem feito pelo mestre de obras, +ajuntou Lopes de Miranda.</p> + +<p>—E quem seria capaz, já não digo de mais, mas +de tanto? acudiu o visconde. Isto é que é a verdadeira +caridade, sem alarde nem ostentação.</p> + +<p>—Tambem, disse Vaz Mendes, quem tem uma fortuna +superior a dois mil contos, o que deve fazer senão +dividil-a com a pobreza?</p> + +<p>—E quantas pessoas conhece o meu amigo, que não +são capazes de gastar um ceitil com os pobres? perguntou +o visconde.</p> + +<p>—Concordo, respondeu o banqueiro, olhando de +soslaio para um Salvator Rosa, unica pintura que restava +da galeria do conde de ***.</p> + +<p>Ao ouvir-se o rodar de um trem, o visconde appro<span class='pagenum'><a name="Page_120" id="Page_120">[Pg 120]</a></span>ximou-se +da janella para se certificar se era a carruagem +de Tristão que chegava.</p> + +<p>Não se enganára.</p> + +<p>Deixando os dois convidados, desceu ao pateo para +o receber.</p> + +<p>Quando entraram na sala foi uma agradavel surpreza +para Tristão de Almeida o encontro dos seus dois +amigos.</p> + +<p>Á hora designada dirigiram-se todos para a sala de +jantar, onde um variado e bem servido almoço os esperava.</p> + +<p>Ao contemplarem a magnificencia da baixella, Vaz +Mendes e o commendador entreolhavam-se, assombrados +por tanta riqueza.</p> + +<p>Tristão olhava para tudo com um gesto de profunda +indifferença! Um objecto apenas se tornou o alvo da +sua attenção: foi o centro de prata, de que já falamos +ao leitor.</p> + +<p>Havia muito que elle desejava occultar a sua admiração; +por ultimo não se conteve.</p> + +<p>—É de suppôr que saiba o que alli tem, disse Tristão +voltando-se para o visconde, e apontando ao mesmo +tempo para as tres graças.</p> + +<p>—Sei. É magnifico! Atribuem-n'o ao cinzel não sei +de que artista notavel, cujo nome me não lembra, +respondeu o visconde.</p> + +<p>—Vale um bom par de contos de réis, replicou +Tristão dirigindo-se a Vaz Mendes.</p> + +<p>«Forte asno, murmurou o banqueiro para comsigo.</p> + +<p>«Está doido! pensou o commendador.</p> + +<p>«Achei! disse o visconde falando com o seu coração.</p> + +<p>«Fortes nescios! reflectiu Tristão, que pelos differentes +jogos das suas physionomias, lhe adivinhára os +pensamentos.»</p> + +<p>Ás quatro horas da tarde sairam todos tres, tendo<span class='pagenum'><a name="Page_121" id="Page_121">[Pg 121]</a></span> +previamente combinado com o visconde, para que os +esperasse no hotel das seis para as sete horas da noite.</p> + +<p>«Estou salvo! dizia o visconde, á proporção que os +via desapparecer. Por qualquer dos dois meios venço. +Desfazendo me das tres graças, que já para mim não +tem graça, posso vender-lh'as talvez por dez ou doze +contos. Mas espera, accrescentou elle como se uma idéa +lhe acudisse subitamente, é mais decente, mais elegante +mesmo: presenteal-o com esse objecto. Ninguem +chegou a mais de mil libras, e, para isso, foi necessario +que encontrasse um inglez que as julgava Benevenuto! +Mas quando viu que o não era, creio que me não +daria nem mais dez libras do que o seu pezo. Se elle +o attribue a cinzel, bem estamos; deve pelo menos avalial-o +em vinte contos, portanto, em vinte contos avaliará +o presente. Não ficarei habilitado a pedir-lhe vinte +e cinco ou trinta? Ao centro, visconde, e chegarás +ao teu fim! E, sem mais reflectir, chamou o <i>groom</i> e +mandou embrulhar as tres graças em finissima toalha +de Flandres, ordenando-lhe que as collocasse dentro +do <i>coupé</i>.</p> + +<p>Ao cair da tarde, acompanhadas pelo visconde, as +tres filhas de Eurynome abandonavam a casa do fidalgo +para entrarem de graça em casa de Tristão, que +bem caro teria de pagar aquella graça.<span class='pagenum'><a name="Page_122" id="Page_122">[Pg 122]</a></span></p> + + + +<hr style="width: 65%;" /> +<h1><a name="XIX" id="XIX"></a>XIX</h1> + + +<p>O hospital da rua de S. Francisco de Paula, em virtude +dos esforços do visconde de Coruche e da inexgotavel +bolsa de Tristão, estava prompto de tudo. Sem +lisonja, podia chamar-se-lhe um hospital modelo! A boa +ordem reunida ao aceio e todas as outras condições +hygienicas, tornavam aquella instituição a melhor do +seu genero.</p> + +<p>Em Lisboa, Tristão d'Almeida era o assumpto de +todas as conversações. Todos falavam na sua caridade; +todos se assombravam das sommas fabulosas que dispendia.</p> + +<p>Além do custeamento do hospital, Tristão collocára +cincoenta contos de réis em metal sonante na burra +do seu escriptorio, para serem applicados ás familias +dos doentes que por ventura alli morressem, deixando +por unico legado a fome e a saudade.</p> + +<p>Além d'estas circumstancias, uma outra havia mais +transcendente: era a maneira por que a sua familia se +dispunha para receber e tractar os enfermos.</p> + +<p>D. Maria Egypciaca e suas duas filhas, todas tres<span class='pagenum'><a name="Page_123" id="Page_123">[Pg 123]</a></span> +com a mesma equipendencia de valor, eram as encarregadas +das enfermarias das mulheres.</p> + +<p>Tristão e o commendador tomaram entregue das do +sexo masculino.</p> + +<p>Oito pessoas entraram no dia da abertura. Por mais +perigoso que fosse o estado de qualquer d'esses individuos, +não houve um só que deixasse de sentir á cabeceira +do leito a voz doce e animadora da mulher de +Tristão de Almeida, e de suas duas filhas, sobre tudo +de Magdalena.</p> + +<p>As principaes familias de Lisboa quasi todas desejavam +relacionar-se com aquelles quatro anjos do bem +que vinham de longes terras para descançar o seu +vôo sobre a cidade agonizante!</p> + +<p>Ao encontrar se completamente restabelecido dos +ferimentos, Jeronymo partira para o hospital afim de +se encarregar da sua direcção.</p> + +<p>Ás vêzes, na janella do terceiro andar que olhava +para o Tejo, via-se uma criança loura e formosa como +os anjos: era Martha. Entristecida, ora parecia buscar +n'aquelles horizontes algum objecto que lhe prendia a +imaginação, ora descia aos salões do hospital, como +se procurasse na morte a branda paz que a sua alma +havia perdido sobre a terra!</p> + +<p>Avaliando a immensa distancia que a separava de +Manuel de Mendonça, Martha havia depositado no mais +intimo do coração todos os martyrios que a suffocavam! +Vira-o pela ultima vez no dia em que seu pae saira +do hotel.</p> + +<p>Manuel dissera-lhe que d'alli a poucos dias iria visitar +sua mãe, isto a meia voz, sem que Balbina o notasse.</p> + +<p>Foi n'esse momento que ella começou a comprehender +que lhe não era totalmente indifferente. Mas, d'isto +tudo o que poderia resultar? Quem era Martha, para<span class='pagenum'><a name="Page_124" id="Page_124">[Pg 124]</a></span> +ser amada por um homem como Manuel de Mendonça, +um commandante de navios, emquanto ella não era +mais do que a filha de um operario!</p> + +<p>N'esses momentos subiam-lhe á mente mil idéas +que a torturavam. Era um tumultuar de receios que +nem a sua intelligencia tinha forças para comprehender, +nem o seu coração para os supportar.</p> + +<p>Assim foram passando muitos dias, e Manuel sem +cumprir a sua promessa.</p> + +<p>Tel-a-ia esquecido?</p> + +<p>Impossivel! Aquelles olhos não lhe haviam mentido! +As ultimas palavras que proferira, revelavam bem +todo o interesse que ella lhe tinha inspirado. Teria +adoecido com a febre? Morrido? Não! Morrer tão novo, +tão anciosamente adorado! Deus não consentiria que +elle deixasse este mundo sem que Martha lhe houvesse +assistido ao derradeiro sopro d'aquella vida, que +era todo o seu querer, todo o seu pensar, toda a sua +existencia! Manuel vivia, mas havia a esquecido por +outra. Magdalena contemplára-o com interesse, n'uma +tarde em que se encontraram na varanda do hotel! +Ainda que Manuel não lhe respondeu ao seu olhar, podia +tudo isso ter sido um calculo.</p> + +<p>«Quem sabe se eu fui um instrumento da sua vontade, +fazendo-me suppôr que era a mim e só a mim +a quem elle amava, emquanto o seu coração estava +inclinado para a filha de Tristão? pensava Martha. Mas +sendo assim, tudo poderei descobrir; e se fôr, buscarei +a morte como ultimo recurso á minha desgraça.»</p> + +<p>Immersa n'estas terriveis conjecturas, Martha desceu +ás salas do hospital.</p> + +<p>Já haviam entrado D. Maria Egypciaca e suas filhas.</p> + +<p>Notando a profunda pallidez da filha de Jeronymo, +as fidalgas, segundo Martha lhe chamava, começaram +a receiar pela sua saude.<span class='pagenum'><a name="Page_125" id="Page_125">[Pg 125]</a></span></p> + +<p>Magdalena foi a primeira a approximar-se-lhe, e beijando a +meigamente na fronte, pediu lhe por tudo quanto +havia que não arriscasse tanto a sua saude, perdendo +as noites ao lado dos doentes.</p> + +<p>Durante todo esse dia, aonde mais intensos reinavam +o perigo e a afflicção, alli se encontrava Martha!</p> + +<p>Quando ao anoitecer a familia de Tristão se preparava +para sair do hospital, Magdalena insistiu com a +filha do operario para que tambem se retirasse. Foram +inuteis todos os seus esforços. Pretextando que tinha +de ficar com seu pae, Martha acompanhou-as até á carruagem +e voltando depois para o terceiro andar, tornou +a encostar-se áquella janella onde a encontrámos +no principio d'este capitulo.</p> + +<p>Deixemos a infeliz criança enchugando em silencio +as suas primeiras lagrimas, e dirijamo-nos ao hotel +Bragança.<span class='pagenum'><a name="Page_126" id="Page_126">[Pg 126]</a></span></p> + + + +<hr style="width: 65%;" /> +<h1><a name="XX" id="XX"></a>XX</h1> + + +<p>São nove horas da noite. D. Maria Egypciaca, de pé, +encostada a um bufete, aguarda com palpitante anciedade +a volta de seu marido.</p> + +<p>Olympia, agitando-se impacientemente pelo salão, +contempla de vez em quando o mostrador de uma +pendula, como implorando aos ponteiros que bem depressa +lhe marquem a hora da ceia!</p> + +<p>Magdalena, reclinada ao parapeito da varanda, fita o +astro da noite, que, reflectindo-se sobre as aguas do +Tejo as cria de um brilho triste e melancholico.</p> + +<p>—Não te demores ahi á janella, disse D. Maria Egypciaca, +voltando-se para sua filha. A noite, como vês, +começa a arrefecer, e os tempos não estão para brincadeiras.</p> + +<p>—Não receíe, minha mãe, respondeu Magdalena. +Sinto-me aqui tão bem.</p> + +<p>—Faze o que quizeres.</p> + +<p>—Em todo o caso, se minha mãe está com susto, eu +retiro-me, disse Magdalena saindo da janella.<span class='pagenum'><a name="Page_127" id="Page_127">[Pg 127]</a></span></p> + +<p>—Sabes que já me vae dando algum cuidado esta +demora de teu pae. São estas horas e elle sem apparecer.</p> + +<p>—E é verdade, acudiu rapidamente a filha mais nova. +São perto de nove e meia. Provavelmente jantou +em casa do visconde e não se lembra que o esperamos +para ceiar.</p> + +<p>—Decididamente não pensas n'outra coisa senão em +comer, murmurou Magdalena sorrindo-se para a irmã. +Não sabes que a dieta é o melhor preservativo.</p> + +<p>—Pois continuem as senhoras com a sua dieta que +eu, pela minha parte, irei comendo o que me aprouver, +respondeu Olympia.</p> + +<p>Deram as nove e tres quartos e Tristão sem apparecer.</p> + +<p>—Se teu pae se demora mais dez minutos, vou ao +hospital, disse D. Maria Egypciaca.</p> + +<p>—Se o criado se demora mais cinco minutos, vou +ao hospital ver se me dão alguma coisa de comer, tartamudeou +Olympia com visivel inquietação!</p> + +<p>Ao terminar estas palavras abriu-se a porta e entrou +Tristão acompanhado pelo visconde.</p> + +<p>—Não me tornes a apparecer tão tarde, disse D. +Maria Egypciaca voltando-se para o marido. Não sabes +os cuidados em que temos estado, tanto, eu como as +meninas, ajuntou ella, beijando a fronte de seu esposo +e cumprimentando ao mesmo tempo o visconde.</p> + +<p>—Desde que sairam do hospital, não podem suppôr +o trabalho que tivemos se não fôra Martha...</p> + +<p>—Parece uma santa rapariga, disse D. Maria Egypciaca +voltando-se para o visconde.</p> + +<p>—Tal pae, tal filha, minha senhora, respondeu o +visconde.</p> + +<p>Magdalena córou ligeiramente ao ouvir pronunciar o +nome de Martha?<span class='pagenum'><a name="Page_128" id="Page_128">[Pg 128]</a></span></p> + +<p>As suspeitas da infeliz, não eram totalmente despidas +de fundamento. Magdalena vira por duas vezes +Manuel de Mendonça quando elle fôra visitar o operario. +O olhar nobre e varonil do commandante, as suas maneiras +altivas e ao mesmo tempo insinuantes, tudo concorreu +para que se tornasse sympathico. Manuel não o +havia notado ou, pelo menos fingiu ignoral-o.</p> + +<p>Orgulhosa em demasia, Magdalena jámais teria descido +a declarar-se-lhe. Além d'isso, o seu espirito observador +fizera-lhe notar que a filha do operario não era +totalmente indifferente a Manuel de Mendonça. Quanto +ao que se passava no coração de Martha, era um problema +difficil de resolver.</p> + +<p>Uma tarde em que Magdalena deitava para o Tejo +o seu magnifico telescopio, viu um escaler com quatro +remadores, e um individuo sentado á prôa. Reconheceu +n'esse homem o mysterioso personagem que lhe apparecêra +no quarto de Jeronymo! O barco seguia Tejo +abaixo. Assestando o oculo, seguiu o em todos os movimentos. +Por ultimo, abordou a uma embarcação que +estava fundeada em frente da rocha do Conde de Obidos. +Manuel saía do escaler e subia para bordo.</p> + +<p>Desde essa tarde, Magdalena não perdia ensejo de +olhar para aquella pequena embarcação, e quando por +ventura sabia que Manuel de Mendonça estava no quarto +do operario, buscava sempre esse momento para o +ir ver.</p> + +<p>—É de suppôr que ainda não tenha ceiado, meu pae, +disse Olympia. A ceia deve estar prompta, acho rasoavel +que vamos comer alguma coisa.</p> + +<p>—Quem havia de ser a primeira a lembrar-se da +ceia, respondeu Tristão, passando o braço pela cintura +de sua filha, e convidando o visconde a sair da sala.</p> + +<div class="center"> +<span class='pagenum'><a name="Page_129" id="Page_129">[Pg 129]</a></span> + <a id="image-129"></a> + <a href="images/image-129h.png" > + <img src="images/image-129.png" + alt="—Vocemecê anda sobre as aguas do mar?... (pag. 165)" + title="—Vocemecê anda sobre as aguas do mar?... (pag. 165)" /> + </a> +<div class="caption">—Vocemecê anda sobre as aguas do mar?... (<i><a href="#Page_165">pag. 165</a></i>)</div> +</div> + +<p>Na mesa, esplendidamente adornada pela baixella +que Tristão havia comprado, sobresaíam as tres netas +<span class='pagenum'><a name="Page_131" id="Page_131">[Pg 131]</a></span>de Apollo, com que o visconde havia presenteado o seu +amigo.</p> + +<p>—Eis a alegria da meza, disse Tristão voltando-se +para o visconde e apontando ao mesmo tempo para o +magnifico centro.</p> + +<p>—O que lhe peço, replicou o visconde, é que me +não esteja todos os dias envergonhando com esse objecto, +que se algum valor teve para mim, foi o de agradar +a vossa excellencia.</p> + +<p>—Não me cançarei de o gabar, continuou Tristão, +offerecendo um logar ao visconde entre sua esposa e +Magdalena.</p> + +<p>—Tenho vindo todo caminho a dizer a seu esposo, +que deve acceitar o titulo que brevemente lhe vae ser +offerecido, disse o visconde voltando-se para D. Maria +Egypciaca. Já tres ou quatro pessoas me disseram +que el-rei o senhor D. Pedro V, encantado pelos seus +serviços, tenciona agracial o com um titulo condigno +ao seu merito. Sabe o que me respondeu? que não +queria acceitar coisa alguma; que para recompensa, +bastava-lhe o prazer que experimentava em ser util á +humanidade. Isto á luz da philosophia é uma grande +verdade, mas para o mundo acho uma loucura!</p> + +<p>—Sou quasi da opinião de meu marido. Basta que +se chame Tristão de Almeida. De seus paes herdou esse +nome sem a mais pequena macula, é razoavel o seu +desejo em o querer conservar até ao ultimo momento +da vida.</p> + +<p>—São vossas excellencias da opinião de sua mãe? +perguntou o visconde dirigindo-se ás filhas de Tristão.</p> + +<p>—Pela minha parte é-me totalmente indifferente, +respondeu Magdalena.</p> + +<p>—E vossa excellencia... accrescentou o visconde +voltando-se para Olympia.<span class='pagenum'><a name="Page_132" id="Page_132">[Pg 132]</a></span></p> + +<p>—Sou da opinião de todos, retrucou Olympia, mastigando +o setimo croquette.</p> + +<p>—Se vossa excellencia resolvesse seu esposo a acceitar +o titulo de conde, compromettia-me a fazer lavrar +a carta regia em menos de um mez.</p> + +<p>Ao ouvir pronunciar o titulo de conde, os olhos de +Tristão brilharam com uma alegria selvagem. Teria +dado muito para ser visconde, mas o que elle nunca +poderia suppôr, era que obtivesse o titulo de conde!</p> + +<p>O visconde comprehendeu-o immediatamente.</p> + +<p>«Temos homem! pensou elle. O ensejo é favoravel; +ha de ser hoje mesmo! Está proximo o dia vinte. Se +até esse praso não levanto dinheiro, a ruina é certa! +Vão salvar-me as tres graças e o titulo de conde.»</p> + +<p>A ceia correu animadissima! D. Maria Egypciaca, +julgando-se condessa, pensava de ante-mão na gloria +que esse titulo lhe ia proporcionar. Desentranhando +do amago do seu bestunto todos os nomes de terras +mais harmoniosos que tinha ouvido, escolhia de entre +esses o que mais euphonico lhe parecia.</p> + +<p>Tristão, apezar de toda a sua serenidade, olhava ora +para a mulher ora para as filhas, como que desejando +que a conversação continuasse sobre o mesmo assumpto.</p> + +<p>Olympia continuava a comer desafrontadamente, sem +cuidar na gloria que se lhe preparava!</p> + +<p>Uma pessoa apenas parecia indifferente ao titulo e +á ceia, era Magdalena.</p> + +<p>A pobre sonhava a felicidade entre o mar e o céu! +A sua ventura estava n'aquella barca, para onde ella +ao cair da tarde extendia seus olhares entristecidos +pelo labutar de uma eterna recordação.</p> + +<hr class="bookstyle"/> + +<p>Quem d'alli a duas horas tivesse entrado na sala +occupada por Tristão, teria visto o seguinte: D. Maria<span class='pagenum'><a name="Page_133" id="Page_133">[Pg 133]</a></span> +Egypciaca em profunda meditação, folheando um livro +que mandára comprar, cujo titulo era <i>Resenha das Familias +de Portugal</i>.</p> + +<p>Olympia reclinada n'um sophá fazendo o chylo, e +resonando profundamente.</p> + +<p>Magdalena encostada á janella contemplando as estrellas +que se reflectiam sobre as aguas do Tejo.</p> + +<p>E quem, movido de imperdoavel curiosidade, tivesse +seguido o visconde e Tristão de Almeida até ao patamar +da escada, teria ouvido este ultimo dizer em +voz baixa ao visconde:</p> + +<p>—Sendo tres horas da tarde, poderá ir receber os +trinta contos de réis a casa de Vaz Mendes, e se por +ventura se vir n'algum outro apuro, peço lhe encarecidamente +que se lembre de mim.</p> + +<p>—Ha de ser com uma condição, respondia lhe o visconde.</p> + +<p>—Qual?</p> + +<p>—Acceitar o titulo de conde.</p> + +<p>—Acceito.<span class='pagenum'><a name="Page_134" id="Page_134">[Pg 134]</a></span></p> + + + +<hr style="width: 65%;" /> +<h1><a name="XXI" id="XXI"></a>XXI</h1> + + +<p>No dia seguinte áquelle em que praticâmos a indiscrição +de fazer com que o leitor tambem escutasse as +ultimas palavras trocadas entre Tristão de Almeida e +o visconde de Coruche, achava se este, antes do meio +dia, assentado á secretaria do seu escriptorio, chamando +todos os criados, e ordenando a cada um que lhe +apresentasse as suas contas.</p> + +<p>Os moços estavam como que assombrados! Nenhum +podia acreditar que elle estivesse habilitado a falar +d'aquelle modo. Todos sabiam o estado da sua casa, +e a unica esperança que lhes restava, eram as promessas +de um agiota a quem tencionavam vender as +dividas.</p> + +<p>—Aquillo foi obra de jogo, dizia o cocheiro, refinado +velhaco, a quem o visconde havia arrancado á miseria.</p> + +<p>—Ora, saude! acudiu o trintanario, quem caiu d'ahi +abaixo! Quem lhe havia de dar dinheiro para fazer jogo? +Ainda não ha muitos dias que elle perdeu cincoenta +moedas, e, a respeito de pagal-as, <i>xó rôlla</i>.</p> + +<p>—Dê-me elle o que me deve, o mais tanto se me<span class='pagenum'><a name="Page_135" id="Page_135">[Pg 135]</a></span> +dá como se me deu! Venha o <i>baguinho</i>, e tanto m'importa +que fosse ganho ao jogo, como achado, como +roubado!</p> + +<p>—O mesmo digo eu, mestre Domingos, interrompeu +o criado de quarto. Tomára eu sempre que elle estivesse +muito endinheirado. Ha lá melhor patrão! Já o +viram olhar para alguma conta? Mais ainda; quando +lhe apresentavamos os roes, e que elle tinha dinheiro +na gaveta da secretaria preta, quantas vezes me dizia: +Põe lá a conta e tira o dinheiro. Patrões assim, agarral-os +é que custa.</p> + +<p>—Pois sim, tudo isso é uma grande verdade, mas, +o que é certo, é que está aqui está sem vintem, disse +judiciosamente o cosinheiro.</p> + +<p>—Isso é lá com elle, mas quem te diz a ti que esse +individuo a quem deu os bonecos de prata...</p> + +<p>—O quê?</p> + +<p>—Lhe tenha emprestado algum dinheiro.</p> + +<p>—Anda cá dinheiro, que te quero ver. Tambem tu +vives de caretas? Lá que elle tenha querido encostar +o homem, não me admira, mas que o brazileiro caisse +ao tiro... essa é que não pega.</p> + +<p>—Que elle está muito contente, é que não ha duvida.</p> + +<p>—Já tem o <i>bago</i> na mão, hein? Ora adeus? Se o +tivesse, a estas horas ninguem o aturava.</p> + +<p>—Não sei falar n'essas coisas. Venham os soberanos +e o mais tanto se me dá que a agua corra para baixo +como para cima!</p> + +<p>—O que parece impossivel é que vossês estejam +aqui n'este conluio, murmurando de um senhor que os +trata como sua excellencia, disse um velho de perto +de setenta annos que acabava de entrar. Aqui estou +eu, a quem elle deve mais do que a vossês todos juntos, +e ainda não abri bico contra elle.<span class='pagenum'><a name="Page_136" id="Page_136">[Pg 136]</a></span></p> + +<p>—E o que tem vossemecê com o que nós estavamos +falando? disse o cocheiro approximando-se do ancião.</p> + +<p>—Se lhe parece, bata-me, tartamudeou o velho, +encostando-se serenamente a um aparador. Se o sr. +visconde souber o que se passou, podem ter a certeza +que vae tudo para o meio da rua.</p> + +<p>—E quem lh'o <i>havera</i> de dizer? acudiu um moço +de cavallariça.</p> + +<p>—Eu! Não serei capaz de lhe contar tudo, <i>tim tim, +por tim tim</i>?</p> + +<p>—Eu perca a minha liberdade, se vossemecê tornasse +a comer mais pão.</p> + +<p>—Pensa talvez que me assusta com as suas fadistices? +Meu amigo, tenho perto de setenta annos, mas, +frangãos assim, para os depennar basta-me a mão esquerda.</p> + +<p>—Está bom, está bom! Leva de rumor! acudiu o +cosinheiro. Quem quizer fazer <i>banzê</i>, vá para o meio +do pateo, que não é este o logar para dize tu direi +eu. E demais aquelle senhor tem toda a razão, ajuntou +elle olhando para o velho. É o mordomo do sr. visconde, +conheceu-o de criança e não gosta de ver o +seu amo offendido. Nada mais natural do que tomar +as palhinhas por elle.</p> + +<p>—Entre vossemecê tambem, se lhe parece, ajuntou +o cocheiro, tomando o partido do moço da cavallariça.</p> + +<p>—Olhe, meu amigo, disse o cosinheiro, dirigindo-se +ao cocheiro, commigo não faz vossê vasa. Cá por mim, +não lhe digo quantos annos tenho, mas se me faz chegar +a mostrada ao nariz, desabo-lhe d'aqui com esta +mão de vacca que fica sem saber da cara por tres +dias.</p> + +<p>N'este comenos ouviu-se a campainha do escriptorio. +Era o visconde que mandava chamar o mordomo.<span class='pagenum'><a name="Page_137" id="Page_137">[Pg 137]</a></span></p> + +<p>—Vossa excellencia mandou-me chamar? disse o +mordomo ao entrar no escriptorio.</p> + +<p>—Mandei, respondeu o visconde. Dei ordem a todos +os criados para que apresentassem as suas contas. Toma-as +a cada de um de per si; bem sabes que não +me chama Deus para esses caminhos. É preciso tambem +tomar conta dos credores mais teimosos para se lhes +dar alguma coisa por conta. Comprehendes?</p> + +<p>—Perfeitamente.</p> + +<p>—Lembra-te de gratificares os criados, pobres diabos! +Não te parece?</p> + +<p>—Eu dava lhes, mas era com um pau, sr. visconde. +Não ha maior cafila do que são os criados d'este tempo.</p> + +<p>—Porque dizes tu isso?</p> + +<p>—Tenho os meus motivos. Isso fica para mais tarde. +Não imagina o prazer que terei se vossa excellencia +se pozer em dia com toda esta gente.</p> + +<p>—Bem, podes retirar-te.</p> + +<p>D'alli a uma hora, dirigia-se o visconde para o escriptorio +de Vaz Mendes onde Tristão de Almeida havia +mandado ordem pela manhã para que entregasse trinta +contos de réis ao visconde de Coruche.</p> + +<hr class="bookstyle"/> + +<hr class="bookstyle"/> + +<p>—E para que é todo este dinheiro, sr. visconde? +perguntou-lhe o banqueiro, lendo-se-lhe nos olhos a +inveja e a cobiça. É para algum outro hospital aonde +os meus serviços estão dispensados?</p> + +<p>—É para a infancia desvalida, respondeu o visconde, +mettendo n'algibeira—sem os contar—os maços +de notas que recebêra da mão de Vaz Mendes.</p> + +<p>—Repare vossa excellencia que não contou esse dinheiro, +ponderou-lhe o usurario.</p> + +<p>—Nunca contei dinheiro; para esse fim lá tenho em<span class='pagenum'><a name="Page_138" id="Page_138">[Pg 138]</a></span> +casa um criado que não faz outra coisa, respondeu altivamente +o visconde de Coruche.</p> + +<p>Pondo insolentemente o chapéu, o fidalgo cortejou o +banqueiro e retirou-se para casa.</p> + +<p>—Salvo! exclamou o visconde, extendendo se commodamente +n'um sophá. Falta agora o titulo, ajuntou +elle olhando ao mesmo tempo para um magnifico charuto +havano, cujo fumo subindo em espiral inundou +os aposentos de um perfume doce e innebriante!<span class='pagenum'><a name="Page_139" id="Page_139">[Pg 139]</a></span></p> + + + +<hr style="width: 65%;" /> +<h1><a name="XXII" id="XXII"></a>XXII</h1> + + +<p>«Fortes nescios, que idéa formam de mim! O visconde +imagina que sou algum minhoto, que foi d'aqui +para o Rio de Janeiro varrer o escriptorio do patrão, e +que por uma fórma ou outra, adquiri a riqueza que +hoje possuo.</p> + +<p>«Se elle soubesse que fôra o commendador Felix Justino +de Araujo quem lhe havia emprestado os trinta contos +de réis.</p> + +<p>«Como a sorte me favoreceu em tudo! continuava +elle, passeando ao mesmo tempo pelo seu gabinete. +Emprestei-lhe trinta contos, e é possivel que nunca mais +os torne a ver, mas, quanto vale aquelle magnifico +centro de Benevenuto? Quarenta contos talvez. E dizem +que um filho da Grã-Bretanha veiu expressamente +a Lisboa para lh'o comprar, e se retirou deixando-o +aqui. O archeologo tinha bebido muito n'esse dia!</p> + +<p>«Não lhe descobriria elle a assignatura? O visconde +deve estar satisfeito de me ter logrado! Como elle dirá +de si para si: presenteei-o com um objecto que vale +mil libras, acenei-lhe com um titulo de conde e o +tezo caiu no laço!<span class='pagenum'><a name="Page_140" id="Page_140">[Pg 140]</a></span></p> + +<p>«Eu poderia prescindir perfeitamente d'esse titulo. +Para que quero eu um titulo? só se fôr, para satisfazer +os caprichos da Maria. O que já me vae aborrecendo +alguma coisa é o tal hospicio. Ainda que nunca houve +molestia que sympathizasse com a minha pessoa, póde +apparecer alguma, e ter o mau senso de me levar +d'esta para melhor. Parece-me que vou dar parte de +doente.</p> + +<p>«Agora me recordo, ajuntou elle. Quem demonio +seria aquella mulher que veiu hoje procurar o Jeronymo! +Pareceu-me reconhecer as feições. Se não tivesse a +certeza que D. Marianna de Mendonça tinha morrido +doida no hospital de S. José, havia de dizer que era essa +velha. Que similhança, meu Deus! E se fosse ella? +Se ainda vivesse? Ora adeus! Se eu fôr a devolver tudo +quanto d'aqui levei... Nada... os tempos não estão +para graças. Se Domingos de Andrade não houvesse +tido juizo em Pernambuco, que teria sido do commendador +Felix Justino de Araujo, que passou a ser +Tristão de Almeida emquanto se não chamar o conde +de... O conde de quê? do que elles quizerem ou do +que minha mulher escolher.</p> + +<p>«Agora por isso, não tenho mais remedio senão comprar +alguma propriedade de grande valor. Vou tractar +d'isso para a semana que vem. Encarrego o visconde +de me arranjar um palacio em Lisboa e uma quinta nos +suburbios. Está decidido, sympathizei com aquelle estroina. +Parece-me que o estou a ver na casa branca +da rua do Arco de Bandeira! Era um verdadeiro demonio, +aquelle visconde! Ainda não vi homem mais intrepido +ao jogo! Agora por jogo, não tardará muito +que principiem a fazer todas as diligencias para me +<i>apanharem</i>. Vêem bem!</p> + +<p>N'este momento abriu se a porta, e entrou um criado +annunciando o visconde de Coruche.<span class='pagenum'><a name="Page_141" id="Page_141">[Pg 141]</a></span></p> + +<p>—Que entre, que entre o meu caro visconde, disse +Tristão.</p> + +<p>O fidalgo não se fez demorar.</p> + +<p>—Quanto folgo em tel-o encontrado, disse o visconde +extendendo a mão para o seu amigo. Estive hontem +no gremio, e durante a noite não se falou senão em +vossa excellencia. O conselheiro Poderosa, que appareceu +lá á saida do theatro, disse-me confidencialmente +que seria o encarregado por sua magestade de lhe +perguntar que nome escolhia para o titulo de conde, +que brevemente lhe ia ser offerecido. Estive hontem +mesmo para lh'o vir participar.</p> + +<p>—Dá-me sempre um grande prazer a sua companhia +mas para um caso d'esses, seria desnecessario.</p> + +<p>—Vejo pela sua indifferença que ainda insiste, apezar +da promessa, em não acceitar o titulo! Deixe-se +d'isso, meu amigo, um titulo é sempre util; e muito +util.</p> + +<p>—Façam os meus amigos tudo quanto lhes aprouver; +sujeitar-me-hei ao que fôr do seu agrado.</p> + +<p>—Não vê o meu amigo, que esse titulo que lhe vae ser +concedido, não é favor mas sim uma retribuição honorifica +pelo muito do que este paiz lhe é devedor? Diga-me +uma coisa, teria vossa excellencia valor de recusar +um habito que o general lhe collocasse ao peito, se vossa +excellencia se tivesse distinguido n'uma batalha? +Creio que não. O mesmo se dá n'este caso. Não está +vossa excellencia arriscando a sua vida e a de toda a sua +familia? Parece-lhe immerecida essa recompensa? Pode +alguem lançar-lhe em rosto a injustiça da mercê? +Quem teria o descaro de lhe contestar esse direito? +Ninguem, absolutamente ninguem!</p> + +<p>—Isso lá é verdade. Que eu tenho arriscado a minha +vida e de toda a minha familia, não merece duvida +alguma.<span class='pagenum'><a name="Page_142" id="Page_142">[Pg 142]</a></span></p> + +<p>—Então, meu amigo, attendendo a todas essas circumstancias, +não falemos mais n'isso, e deixe correr o +negocio.</p> + +<p>—Vá feito, vá feito! gargalhou Tristão de Almeida.</p> + +<p>—Tem hoje muito que fazer, sr. Tristão?</p> + +<p>—O que sabe: ir ao hospital.</p> + +<p>—E depois?</p> + +<p>—Depois mais nada.</p> + +<p>—Dá-me a honra de ir jantar a minha casa?</p> + +<p>—Com muito gosto a receberei.</p> + +<p>—Vão lá uns amigos a quem desejo apresental-o.</p> + +<p>—Fique certo.</p> + +<p>—Então ás cinco?</p> + +<p>—Conte commigo.</p> + +<p>—Peço-lhe encarecidamente que não falte, accrescentou +o visconde n'um cerrado <i>shake-hands</i>, e saindo do +gabinete.</p> + +<p>«Trata-se de me <i>apanharem</i> ao jogo, pensou Tristão. +Veremos quem fica logrado, accrescentou elle extendendo-se +sobre um sophá.»<span class='pagenum'><a name="Page_143" id="Page_143">[Pg 143]</a></span></p> + + + +<hr style="width: 65%;" /> +<h1><a name="XXIII" id="XXIII"></a>XXIII</h1> + + +<p>Emquanto o visconde de Coruche ordena aos seus +criados que lhe preparem um lauto jantar, dirijamo-nos +á Rua do Meio, a casa de Jeronymo.</p> + +<p>São tres horas da tarde. O operario, á mesa do jantar, +entre Marianna e sua mulher, olha de vez em +quando para a vidraça, como para ver se ainda continúa +a chuva.</p> + +<p>Na face pallida de Balbina, desenha-se-lhe o soffrimento. +Marianna parece acompanhal a nas suas tristes +meditações.</p> + +<p>—Vossês não me dirão o que têem? murmurou Jeronymo. +Quando a nossa vida se apresenta debaixo dos +melhores auspicios, é que principiam a entristecer? O +mesmo notei em Martha. Antigamente, era sempre +alegre e jovial, agora, custa os dias da vida, primeiro +que se lhe arranque um ar de riso. Valha-nos Deus! +Não ha felicidade completa.</p> + +<p>—Isso é uma desconfiança tua, respondeu Balbina.</p> + +<p>—A mim não me enganam vossês, replicou Jero<span class='pagenum'><a name="Page_144" id="Page_144">[Pg 144]</a></span>nymo, +levando aos labios um copo de vinho. Pela minha +parte, ando cá como o outro que diz, meio desconfiado +de uma coisa. Permitta Deus que me engane, +ajuntou elle, voltando-se para a tia Marianna, que dirigira +um olhar significativo á esposa do operario.</p> + +<p>—E de que estás desconfiado, Jeronymo? accudiu +Balbina, voltando se para seu marido.</p> + +<p>—Se eu não desabafasse com vossês, que são a minha +familia, com quem havia de fazel o? Creio que +não era com a tia Monica ou outras quejandas! Lá vae. +Ando desconfiado, como ha pouco lhes dizia que a +nossa Martha está assim meia apaixonada pelo sr. Manuel. +Isto foi uma pancada que me deu o coração; talvez +que não passe de um máu juizo. Mas o que é certo, +é que nunca mais lhe tenho visto brilhar os olhos +de alegria, senão duas ou tres vezes que esteve defronte +d'elle. Lá isso é que ninguem me póde negar.</p> + +<p>—Pois uma vez que foste tu o primeiro a falar sobre +isso, pergunta agora á tia Marianna o que estavamos +dizendo quando tu entraste, respondeu Balbina, +olhando ao mesmo tempo para a sua amiga.</p> + +<p>—Ha mais de oito dias que andamos a pensar n'isso, +disse a tia Marianna voltando se para o operario.</p> + +<p>—Valha nos Deus, Balbina! E como havemos de impedil-o?</p> + +<p>—Não sei, respondeu Balbina, profundamente entristecida. +Sabes o que me disse a tia Marianna? accrescentou +ella. Que o sr. Manuel era por força um homem +muito de bem; bastava ver a maneira como elle se +portou com a nossa filha.</p> + +<p>—Tudo isso é uma grande verdade, Balbina, mas, +em qualquer dos casos é sempre uma infelicidade. O +coração de Martha é... nem eu mesmo sei a que o +compare. É uma especie d'estas fasquias que a mais +<span class='pagenum'><a name="Page_145" id="Page_145">[Pg 145]</a></span>pequena aragem as dobra, mas se lá vem um tufão... +ficam logo quebradas pelo meio. Além d'isso, ella bem +conhece a distancia que a separa do sr. Manuel, e é +capaz como o outro que diz de afogar em si tudo quanto +está soffrendo.</p> + +<p>—Sou da sua opinião, sr. Jeronymo; Martha é um +anjo, e será capaz de morrer, confiando apenas a Deus +o segredo que a assassina!</p> + +<p>—Eu só o que desejava saber era a maneira de nos +encaminharmos em tudo isto, continuou Jeronymo levantando-se +da mesa.</p> + +<p>—A sr.ª Marianna que nos aconselhe, que é mais +velha e tem mais mundo do que qualquer de nós, +acudiu Balbina dirigindo-se á sua amiga e companheira.</p> + +<p>—Que lhes poderei eu aconselhar, meus bons amigos? +respondeu a tia Marianna. Se esse individuo é +um homem de bem como eu supponho, e se Martha +lhe não foi indifferente, é de crêr que mais dia menos +dia o possamos tornar a ver, e, n'esse caso estarei +muito prompta a falar-lhe. Não lhe vejo outro remedio, +sr. Jeronymo. Prouvera a Deus que fosse hoje o dia. +Quanto ao que vossemecê diz, que uma grande distancia +os separa, não me parece. Não póde elle ser como +Martha, um filho do povo? E sendo assim, não vejo +desegualdade de pessoas.</p> + +<p>—E se o não fôr? perguntou Jeronymo. Se fôr um +fidalgo, um ricasso...</p> + +<p>—Torno a repetir-lhe, respondeu Marianna, homem +de bem é que eu tenho a certeza que elle é. E a prova +foi não ter tornado a apparecer.</p> + +<p>—Isso lá é que é a pura da verdade, acudiu Balbina. +Tinha trezentos meios para a ter visto.</p> + +<p>N'este momento, parou um trem á porta do operario. +Eram as filhas de Tristão que vinham trazer a casa +a sua amiga.</p> + +<p>—Forte delambida! dizia a tia Monica voltando-se<span class='pagenum'><a name="Page_146" id="Page_146">[Pg 146]</a></span> +para uma visinha, quando Martha se apeava do trem.</p> + +<p>—Deixe estar, respondia-lhe a visinha, mais dia menos +dia, verá aonde aquillo vae parar.</p> + +<p>—Ainda bem que já lhe fiz a cama, quando o outro +dia me vieram pedir informações a seu respeito.</p> + +<p>—Não sabia d'isso, visinha, não me tinha dito... +Quem foi?</p> + +<p>—Era um homem que me pareceu assim do trato +do mar.</p> + +<p>—Desde que se meteu com as fidalgas já não póde +andar se não de trem. Saffa, demonio! E não tem medo +das más linguas....</p> + +<p>—Nem da colera do Senhor, tia Monica, respondia-lhe +a visinha, mettendo-se para dentro de casa como +se os seus olhos invejosos não podessem resistir ao +olhar candido e celeste de Martha, o anjo dos tristes.</p> + +<p>Despedindo-se das filhas de Tristão, Martha entrou +em sua casa.</p> + +<p>Vinha excessivamente pallida. Uma breve mancha +azulada, partindo das palpebras inferiores até ás proeminencias +malares, tornavam-lhe mais scismadores os +seus olhos esplendidamente bellos! Dir-se-hia que se +tinha levantado de uma grande enfermidade. O busto, +ligeiramente inclinado, dava-lhe aspecto de profunda +melancolia.</p> + +<p>A Jeronymo arrasaram-se-lhe os olhos de lagrimas.</p> + +<p>—Que tem, meu pae? perguntou Martha, approximando-se +e beijando-o ternamente na fronte.</p> + +<p>—Que tenho, filha?! Que hei de ter! Dia a dia te +vejo mais triste, e ainda perguntas o que tenho? Saudades +da tua alegria, dos teus olhos; onde estão as +rosas d'essas faces, que eram a inveja das tuas companheiras +de collegio? Onde estão emfim os teus sorrisos, +que eram a minha ventura? Pensas que só eu tenho +notado a tua tristeza, ha oito dias a esta parte?<span class='pagenum'><a name="Page_147" id="Page_147">[Pg 147]</a></span> +Enganas-te. Já tua mãe a percebeu e a tia Marianna, e +todos, até o teu cão! para quem já não tens um só carinho. +Dize-me o que sentes, filha, e se eu, ou tua mãe +n'alguma coisa te podemos valer, sê franca, Martha. +Quem melhor do que teus paes poderão saber os teus +segredos? Martha, lembra-te que és a unica alegria +que eu e tua pobre mãe temos n'esta vida. Se és boa, +como te creio e como todos te consideram, abre-me +o teu coração, não me occultes coisa alguma. Vem, filha; +deposita no meu peito todos os segredos que te +obrigam a olhar para a terra para onde eu não quero +que te deixes ir.</p> + +<p>Pobre Jeronymo! A dôr tornara-o eloquente! Balbina +e a tia Marianna tinham se afastado para occultarem +as lagrimas.</p> + +<p>Apenas Martha se conservava serena como a estatua +da resignação.</p> + +<p>—Que me respondes, Martha? continuava o operario.</p> + +<p>—Que lhe posso eu responder meu pae.</p> + +<p>—Senta-te aqui nos meus joelhos, accrescentou Jeronymo, +apertando a cintura da filha e approximando-a +para si. Vou contar te uma historia.</p> + +<p>«Um dia, um pobre operario, que tinha por unica +familia sua mulher e sua filha, ao sair do trabalho foi +atropellado por um trem. Levaram-n'o em seguida para +uma grande hospedaria aonde foi caridosamente tratado, +sem lhe faltar coisa alguma a não ser a sua familia +que ignorava aonde elle estivesse. As horas passavam, +passavam, e elle sem apparecer. Então a filha, +pondo o capote aos hombros, saiu de casa, procurando +o pae como uma louca.</p> + +<p>«Pessoa alguma lhe dava relação d'elle. A triste +desanimára!</p> + +<p>«Finalmente encontrou um individuo moço, bello,<span class='pagenum'><a name="Page_148" id="Page_148">[Pg 148]</a></span> +virtuoso. Esse prometteu-lhe procurar seu pae! A infeliz +respirou! D'ahi a duas horas o desconhecido dizia-lhe +aonde elle estava.</p> + +<p>«Grata a esta primeira prova de dedicação, a filha +do operario principiou a amal-o em silencio!</p> + +<p>—Não me fale n'isso, meu pae, interrompeu Martha, +tentando desembaraçar-se dos braços de Jeronymo.</p> + +<p>«Depois, proseguiu o operario prendendo-a cada vez +mais ao coração, essa criança cheia de ternura, continuou +a amar esse homem, sem confiar a pessoa alguma +o afecto que a consumia, e hoje, Martha, hoje... +está como tu, pallida, triste, adoentada, e seu pae como +um louco por a vêr assim.»</p> + +<p>—Ahi tens a historia, ajuntou elle largando a dos +braços e fitando a com os olhos cheios de lagrimas.</p> + +<p>Martha não proferiu uma palavra.</p> + +<p>—Não me illudas, filha, esse homem é amado por +ti.</p> + +<p>—Esse homem, balbuciou Martha, é amado pela filha +do nosso protector! Hoje mesmo a encontrei olhando +para a sua galera, ajuntou ella, caindo desanimada +nos braços de seu pae.<span class='pagenum'><a name="Page_149" id="Page_149">[Pg 149]</a></span></p> + + + +<hr style="width: 65%;" /> +<h1><a name="XXIV" id="XXIV"></a>XXIV</h1> + + +<p>—Aposto a minha cabeça em como o visconde ha-de +ser tão nescio que se não lembre de arranjar um +montesinho antes da ceia.</p> + +<p>—Se o não fizer alguns motivos tem para isso. Por +tolo, não é, decerto.</p> + +<p>—Tambem, se queres que te diga a verdade, não +lhe encontro grande esperteza. Já lá vão duas heranças +importantissimas, e ambas tiveram o mesmo fim. +Se isto é ser esperto, está o mundo cheio de espertalhões!</p> + +<p>—Sabes o que eu chamo ser esperto, é saber lavar +a sua roupa em familia, como diz o dictado. De quantas +lagrimas não lhe tem sido testemunha o seu travesseiro? +Vê tu, se já alguem deixou de lhe encontrar +o mesmo sorriso? Dizem todos: o visconde está arruinado, +é impossivel que possa aguentar por mais tempo +aquella opulencia, em menos de um anno hão-de vel-o +miseravel, porém desde que morreu o conde, não abandonou +o seu palacio, ainda não despediu um criado, +ainda não vendeu um cavallo, ainda não deixou de dar<span class='pagenum'><a name="Page_150" id="Page_150">[Pg 150]</a></span> +almoços, jantares e ceias! Está arruinado: tão arruinado +que não ha muitos dias deu um presente, que valia +mil libras. Quem dá um presente de mil libras não póde +estar pobre.</p> + +<p>—Isso leva agua no bico!...</p> + +<p>—E que importa? O que não ha duvida, é que pessoa +alguma seria capaz de fazer o que elle tem feito.</p> + +<p>—Eu tambem não lhe contesto o seu cavalheirismo.</p> + +<p>—E o que lhe tem custado as mulheres e o jogo? Tomára +eu ter o dinheiro que lhe ganhei ha uns vinte +annos, quando estive associado com um grande espertalhão +que havia em Lisboa, chamado Felix de Araujo.</p> + +<p>—Felix de Araujo? Não me recordo.</p> + +<p>—Um vivo demonio, que fez tudo quanto lhe pareceu +em Lisboa, acabando por ter uma casa commercial.</p> + +<p>—Ai, ai, agora me lembro. Por signal que roubou +uma senhora, a casa de quem ia muitas vezes! A pobresinha +foi acabar os seus dias no hospital de S. José. +Já sei. Era um tratante de marca maior, que fez a +desgraça de muita gente. Nunca mais se soube d'elle?</p> + +<p>—Disseram-me que tinha morrido envenenado na +Costa d'Africa. Que a terra lhe seja leve, que eu, assim +como assim, não tenho razão de queixa da sua pessoa; +basta lembrar-me que o pouco que sei a elle lh'o +devo.</p> + +<p>—O pouco que sabe! Se eu soubesse metade...</p> + +<p>—Aquillo é que eram mãos! Aquillo é que era dar +um <i>salto</i> com limpeza, sem que o baralho desse o mais +pequeno estallido! E trabalhar com cinco dados! e <i>tirar</i> +ao pegote!</p> + +<p>—É verdade, é verdade! A ultima vez que joguei +com elle foi em casa do barão. Por tal signal que me +roubou quatorze notas de dez moedas á banca portugueza.<span class='pagenum'><a name="Page_151" id="Page_151">[Pg 151]</a></span></p> + +<p>—Se aquelle homem não tivesse morrido, com a audacia +que possuia, ainda tinha voltado a Portugal...</p> + +<p>—O que estará fazendo o visconde?</p> + +<p>—Como não usa de cerimonia para comnosco, provavelmente +dá as suas ordens para que tudo se faça +segundo os seus desejos.</p> + +<p>Passava-se este dialogo entre Gil de Carvalho e Bernardo +de Paiva.</p> + +<p>O primeiro, era um jogador de profissão e refinado +velhaco, ao qual todas as portas se abriam por um +d'esses desleixos imperdoaveis que é susceptivel em +toda a sociedade de grandes capitaes.</p> + +<p>Relacionando-se com os individuos que frequentavam +certa sociedade onde o jogo era permittido por +distracção, Gil de Carvalho introduziu se nos principaes +salões de Lisboa.</p> + +<p>Ninguem sabia a sua procedencia! As suas maneiras +quasi sempre delicadas, resentiam-se comtudo da +primitiva educação!</p> + +<p>Gil teria uns sessenta annos. A sua fortuna era um +mytho. Uns diziam que estava pobre; outros, calculando +pelo que havia roubado ao jogo, attribuiam lhe riquezas +enormes.</p> + +<p>Bernardo de Paiva era um homem pouco mais ou menos +da edade do seu interlocutor. Herdára de seus paes +uns vinte ou trinta contos de réis e dissipára-os immediatamente +em mil loucuras, sendo a principal o jogo, +que ainda hoje o dominava com poder immenso!</p> + +<p>Bernardo descendia em linha recta de uma das mais +distinctas familias de Olhão. Aparentado com muitos individuos +de Lisboa, Bernardo com mais algum direito +do que Gil de Carvalho, tinha entrada em todas as +casas. Ao contrario de Gil, a sua physionomia era sympathica +e insinuante.</p> + +<p>Jantar onde elle estivesse, corria sempre alegre e<span class='pagenum'><a name="Page_152" id="Page_152">[Pg 152]</a></span> +animado. Além do seu vivíssimo <i>esprit</i>, tinha outra qualidade +que o tornava estimado em todos os circulos: +não dizia mal de ninguem. A sua bocca era sagrada, +como judiciosamente affirmava o mordomo do visconde +de Coruche.</p> + +<p>Quando Gil e Bernardo de Paiva se dirigiram para +uma saccada que olhava para o pateo, onde se ouviu +o rodar de um trem, correu-se um dos reposteiros e +appareceu o visconde.</p> + +<p>—Peço-lhes que me desculpem esta demora, mas +não me foi possivel evital-a. Adoeceu de repente o meu +mordomo, tenho de o substituir.</p> + +<p>—Pela minha parte estás desculpado, disse Bernardo +de Paiva, sorrindo-se para o visconde.</p> + +<p>—Repito o mesmo, acudiu Gil.</p> + +<p>—Não adivinhas, de quem estamos falando? disse +Bernardo dirigindo se ao visconde.</p> + +<p>—N'aquelle mariola de Felix Justino de Araujo, accrescentou +Gil de Carvalho.</p> + +<p>—Não me recordo respondeu o visconde com modo +distrahido.</p> + +<p>—Ora essa! exclamou Bernardo. O commendador +Araujo que ia á <i>Casa Branca</i>, do Arco do Bandeira.</p> + +<p>—Ah! Já sei, respondeu o visconde.</p> + +<p>—Sabes quem eu acho muito parecido com elle, e +só agora foi que me lembrou...</p> + +<p>—Quem?...</p> + +<p>—O teu amigo Tristão d'Almeida.</p> + +<p>—E é verdade, respondeu o visconde. Bem me parecia +a mim que já tinha visto n'alguma parte uma physionomia +que se lhe assimilhasse.</p> + +<p>—É um homem muito sympathico aquelle seu amigo, +interrompeu Gil de Carvalho.</p> + +<p>—Aonde o viu? perguntou o visconde.<span class='pagenum'><a name="Page_153" id="Page_153">[Pg 153]</a></span></p> + +<p>—Ha dias, no gremio, aonde me foi apresentado. +A proposito, sabe se elle joga?</p> + +<p>—Duvido, respondeu o visconde. Nem me convinha +por modo algum que se jogasse em minha casa, accrescentou +elle, que tudo havia planeado para esse fim.</p> + +<p>—E se elle pedisse? perguntou Gil, tentando ainda +profundar-lhe o pensamento.</p> + +<p>—Isso então era differente. O meu dever é tornar-me +sempre amavel para com as pessoas que me dão +a honra da sua companhia.</p> + +<p>—Sou da tua opinião, disse Bernardo de Paiva, que +lia no mais intimo da alma do visconde.</p> + +<p>N'este momento ouviram-se duas badaladas na sineta +da loja, e d'alli a pouco entrou um criado de libré, annunciando +Tristão d'Almeida.</p> + +<hr class="bookstyle"/> + +<p>—Venho aqui pura e simplesmente para lhe provar +o desejo que tenho de estar na sua companhia, disse +Tristão, depois de falar ao visconde e aos seus amigos. +Se não fôra isso teria ficado de cama.</p> + +<p>—Mas que teve, meu amigo? perguntou rapidamente +o visconde.</p> + +<p>—Quanto póde imaginar de mais infernal! Todos os +symptomas que apresenta a epidemia. Sabe o que fiz? +tomei um <i>grog</i> e fui para o hospital.</p> + +<p>—Que valor! interrompeu o visconde.</p> + +<p>—Quando alli cheguei, continuou Tristão, augmentaram-se-me +os padecimentos. Querem saber os resultados? +Vão admirar-se da força da minha vontade. Fui +receber um doente, que pouco tempo depois me expirou +nos braços. Aquella rapida transposição da vida +para a morte, aquelle instante incalculavel que medeia +entre o ser e o nada, entre a vontade e abstracção, +longe de aterrar, robusteceu-me o espirito e, escudado +pela confiança em um mundo melhor e mais perfeito,<span class='pagenum'><a name="Page_154" id="Page_154">[Pg 154]</a></span> +reanimou-me a ponto de me sentir completamente restabelecido.</p> + +<p>—É mais uma prova da sua religião, meu caro amigo, +interrompeu Bernardo de Paiva. Os que se aterram +em presença do moribundo e na observação do cadaver, +é porque receiam o desconhecido! Os que se baseiam +nos preconceitos do vulgo, apegando se á vida, +e receiando a morte, que, segundo as suas crenças, os +colloca em contacto com a Divindade, não são mais que +uns miseraveis, uns vermes que vivem e rastejam para +a sua e nossa deshonra! A morte, para todo o homem +de intelligencia clara e illustrada, não é mais que o +principio de uma vida infinita.</p> + +<p>Espiritos pobres e tacanhos que se lamentam a cada +segundo, dizendo que lhes peza a vida, empallidecem +quando a morte de longe lhes acena com as suas azas, +brancas para elles que sopezam constantemente a desgraça +nas suas longas noites de interminavel soffrimento.</p> + +<p>Receiam morrer! Elles que deviam tomar a existencia +com um eterno castigo! Que melhor somno para +o desgraçado do que o da morte, dormido sob a +lousa! Preferem o bulicio da vida á paz do eterno repouso, +o andrajo ao sudario, a fome á anniquilação!</p> + +<p>—Isso é uma grande verdade, mas a maior parte do +mundo não pensa como vossa excelencia, respondeu +Tristão. Duas ou tres vezes tenho visto a morte deante +de mim, e nunca me atemorizou! Tenho a minha consciencia +bastante socegada para me apresentar deante +de Deus! Não receio o seu julgamento. Diziam-me em +Buenos-Ayres que era um homem de um valor desmedido, +emquanto eu não passava de um pobre diabo a +quem os peccados não perseguiam na existencia, porque +nunca os havia procurado. Digo procurado, porque +o homem, a maior parte das vezes, pecca mais por<span class='pagenum'><a name="Page_155" id="Page_155">[Pg 155]</a></span> +vaidade do que por instincto. Tenho umas theorias, +falsas talvez para o seculo em que vivemos, mas que +apezar de tudo não desprezo. Deus que fez o homem +á sua similhança, ao lançal-o ao mundo, revestiu-o de +bons instinctos, porém, a sociedade envenenando-lhe o +coração, insinuou-o no crime e apresentou-lh'o atravez +de um prisma seductor. Então os seus olhos fascinaram-se, +a vontade esmoreceu-lhe, e o coração propenso +sempre a ser dominado ao primeiro impulso, extraviou-se +da razão e lançou-se cego e inexperiente n'esse +dedalo artificioso a que a humanidade nos arrasta! Satanaz +ri-se, mas Deus, que tudo perdôa, espera o momento +supremo para indultar o peccador e á humanidade +que o perverteu! Esta é a minha opinião.</p> + +<p>—Sabem quem hontem ganhou trezentas e tantas +moedas? interrompeu Gil de Carvalho voltando-se para +o visconde. Aquillo é que foi sorte, accrescentou elle, +sem notar o espanto que a sua interrupção havia produzido +nos circumstantes. Fez um circo, depois outro, +depois outro, e bumba, lambeu tudo quanto havia sobre +a banca.</p> + +<p>—Mas a que proposito vem isso, sr. Gil de Carvalho? +perguntou o visconde, emquanto Tristão de Almeida +o contemplava com simulado espanto.</p> + +<p>—Isto veiu a proposito... d'aquillo em que eu estava +pensando, respondeu Gil de Carvalho tornando a +cahir no mesmo estado de profunda reflexão.</p> + +<p>—Excentricidade do nosso amigo Gil, acudiu Bernardo +de Paiva, olhando intelligentemente para o visconde.</p> + +<p>O magnate conservava-se frio e sereno como um +<i>yankee</i>, entre os quaes largos annos havia habitado.</p> + +<p>—Gosta de jogar? perguntou Gil de Carvalho voltando-se +para Tristão.</p> + +<p>O visconde e Bernardo estremeceram de raiva.<span class='pagenum'><a name="Page_156" id="Page_156">[Pg 156]</a></span></p> + +<p>—É uma coisa que ás vezes me diverte, respondeu-lhe +Tristão. Não admitto o jogo por vicio, mas, assim +de vez emquando, depois de um jantar ou de uma +ceia, encontro-lhe alguma distracção, ainda que as poucas +vezes que tenho jogado tem sido quasi sempre com +uma infelicidade extraordinaria! A ultima foi em França, +aonde perdi n'uma só noite duzentos mil francos. +O divertimento foi caro, é verdade, mas distrahi-me.</p> + +<p>Ao ouvir estas palavras, os olhos de Gil de Carvalho +brilharam de visivel alegria. Tinha as suas esperanças +realizadas!</p> + +<p>O visconde nem pestanejou!</p> + +<p>Assim estiveram conversando sobre varios assumptos +até que appareceram todos os individuos que o visconde +havia convidado.</p> + +<p>Ás seis horas foram para a sala de jantar, cuja mesa +brilhantemente adornada, revelava a opulencia e +bom gosto do dono d'aquella habitação maravilhosa. O +jantar correu animadissimo! Bernardo de Paiva, como +sempre, esteve esplendido de graça. Tristão de Almeida +com grave assombro dos convivas que pela primeira +vez o viam e sobre tudo do visconde, que o julgava +um homem trivial, apresentou-se totalmente opposto +ao que o suppunham.</p> + +<p>«Este homem é um mysterio», pensava o visconde, +ao mesmo tempo que saudando-o em repetidas libações, +fazia as maiores diligencias de o toldar.</p> + +<p>Inuteis foram porém todos os seus esforços; o convidado +bebia por elles todos, sem que o mais leve indicio +de incommodo lhe transtornasse a serenidade da +sua imperturbavel physionomia.</p> + +<p>Ás nove horas, levantaram-se todos da mesa, e foram +para outra sala, onde os esperava o café.</p> + +<p>Tristão de Almeida, como o leitor deve fazer ideia, +conhecia todos os individuos que estavam presentes, e<span class='pagenum'><a name="Page_157" id="Page_157">[Pg 157]</a></span> +melhor do que a elles todos a Gil de Carvalho, com +quem por mais de uma vez se havia associado.</p> + +<p>Ou por calculo ou porque lhe recordassem com saudade +as sensações do jogo, Tristão propoz ao visconde +que se fizesse monte.</p> + +<p>—Estão em sua casa, respondeu-lhes o visconde. Eu +também não desgosto de vez em quando arriscar duas +ou tres duzias de libras.</p> + +<p>Gil de Carvalho estremeceu de jubilo; Bernardo de +Paiva exultou de contentamento. Encontrava um meio +de adquirir uma ou duas duzias de moedas, jogando +sempre na <i>alforreca</i>.</p> + +<p>—Quem ha de fazer o monte? eu não por certo, +disse o visconde, foi coisa para que nunca tive geito.</p> + +<p>—Nem eu tão pouco, acudiu o commendador.</p> + +<p>—Visto vossa excellencia ser banqueiro, ajuntou Bernardo +de Paiva, dirigindo se para Vaz Mendes, o banqueiro +de Tristão de Almeida, pertence-lhe por direito.</p> + +<p>—Que o faça o sr. Gil de Carvalho que está mais +acostumado a pegar em cartas.</p> + +<p>—Resta agora saber se ha cartas em casa. Mas isso +pouco importa, mando-as alli buscar ao Club, disse o +visconde.</p> + +<p>—Estranha coincidencia! exclamou Gil de Carvalho, +mettendo as mãos no bolso do peito da casaca, minha +mulher tinha-me pedido hoje que lhe levasse dois ou +tres baralhos para fazer a paciencia, e ainda aqui estão. +Podem servir estas.</p> + +<p>—Que favoravel acaso! disse Bernardo de Paiva, sorrindo-se +intelligentemente para o visconde.</p> + +<p>«Está a mesma coisa», murmurou Tristão de Almeida, +de si para comsigo.</p> + +<p>—Vamos fazer uma <i>vaca</i>? disse o visconde e em voz +baixa olhando para o seu hospede, emquanto Gil de<span class='pagenum'><a name="Page_158" id="Page_158">[Pg 158]</a></span> +Carvalho se approximava d'uma banca para melhor contar +os baralhos.</p> + +<p>—Jogaremos de sociedade, visconde, replicou Tristão +de Almeida.</p> + +<p>—Seja.</p> + +<hr class="bookstyle"/> + +<p>D'alli a dez minutos, as cem moedas que Gil de Carvalho +fizera de monte, haviam passado para defronte +de Tristão de Almeida, acompanhadas por mais do dobro +que os outros peritos tinham perdido.</p> + +<p>Segundo, terceiro e quarto monte, e o mesmo resultado.</p> + +<p>Tristão jogava com uma sorte espantosa! Gil de Carvalho +tinha perdido a força moral.</p> + +<p>—Tem dinheiro? perguntou elle ao visconde.</p> + +<p>—Sirva se, disse-lhe Tristão de Almeida empurrando-lhe +um maço de notas.</p> + +<p>O banqueiro acceitou.</p> + +<p>Outro monte de cem moedas, e em tres cartadas, todo +o dinheiro que estava na mão do intrepido jogador havia +passado para o banqueiro.</p> + +<p>Os olhos de Gil de Carvalho brilharam como uma +alegria feroz.</p> + +<p>Tristão de Almeida, acendeu tranquillamente um magnifico +charuto, e sorriu-se para o visconde.</p> + +<p>—Era justo que se perdessem algumas paradas, murmurou +elle, tirando da algibeira do peito uma carteira +de chagrin.</p> + +<p>—Continua a sociedade, visconde? disse o magnate +voltando-se para o seu amphitrião.</p> + +<p>—Continua, meu amigo.</p> + +<p>Gil de Carvalho baralhou as cartas e deu-as a partir +a Tristão de Almeida.</p> + +<p>—Topo tudo no duque, disse este rapidamente, ao<span class='pagenum'><a name="Page_159" id="Page_159">[Pg 159]</a></span> +sair a segunda carta do algor debaixo. Gil voltou as +cartas a tremer, e á segunda appareceu um duque.</p> + +<p>—Vou a casa buscar dinheiro, não tenho fé alguma +em jogar com capitaes emprestados, disse Gil de +Carvalho, collocando o baralho sobre a banca, e saindo +sem quasi dar tempo a Tristão de Almeida e ao visconde +de lhe fazerem os seus offerecimentos.</p> + +<p>Tristão havia ganho tres contos e seiscentos mil réis.</p> + +<p>—Que lhe parece? disse elle voltando-se para o visconde, +damos hoje a desforra ao seu amigo Gil de Carvalho, +ou guardamos isso para outro dia?</p> + +<p>—Ficará para outro dia. Convinha me muito ir ao +segundo acto do Trovador.</p> + +<hr class="bookstyle"/> + +<p>Ás onze horas os convidados retiravam se, e Tristão +de Almeida na carruagem do visconde seguía com elle +para o hotel.</p> + +<p>Mais tarde parava um trem á porta do visconde. Era +Gil de Carvalho que fôra a casa buscar mais dinheiro, +e uns certos baralhos em que as cartas se pegavam +umas ás outras. Descendo rapidamente, entrou no patim.</p> + +<p>—Os senhores já lá vão para o theatro, disse-lhe o +guarda-portão.</p> + +<p>Gil cuidou morrer de desespero!<span class='pagenum'><a name="Page_160" id="Page_160">[Pg 160]</a></span></p> + + + +<hr style="width: 65%;" /> +<h1><a name="XXV" id="XXV"></a>XXV</h1> + + +<p>Alguns esclarecimentos ácerca de Manuel de Mendonça, +de quem vossa excellencia e a pallida Martha, ha +tempos a esta parte, nada tem sabido.</p> + +<p>Quando verdadeiramente fascinado pela formosura +da filha do operario, saiu do hotel Bragança—vespera +da retirada de Jeronymo para sua casa—o maritimo +havia-lhes promettido de brevemente os visitar; +porém, reflectindo mais pausadamente sobre esse gravissimo +assumpto, quiz ainda forcejar com o coração, +abafando-lhe quanto podesse a chamma que o consumia!</p> + +<p>Tudo foi inutil! Ao cabo de dez dias, a pobre alma, +cada vez mais preza á recordação de Martha, ia a tal +ponto identificando-se com ella, que Manuel resolveu de +si para si, ou sahir immediatamente de Portugal ou pedir +a filha de Jeronymo.</p> + +<p>No dia seguinte ao romper da manhã já elle tinha +procurado Mascatudo. Fechando-se ambos na camara, +participára-lhe a sua resolução.<span class='pagenum'><a name="Page_161" id="Page_161">[Pg 161]</a></span></p> + +<p>O marinheiro, cujo unico desejo era a felicidade de +Manuel, abraçou de boa mente a sua determinação: elle, +que sobretudo não comprehendia a verdadeira ventura +sem os verdadeiros regozijos da familia!</p> + +<p>—Hoje mesmo, disse-lhe Manuel de Mendonça, irás +informar-te pela visinhança sobre a conducta de Martha, +e se fôr como eu supponho, e espero em Deus +que seja, ámanhã mesmo irei pedil-a a seu pae.</p> + +<p>«Que me importa que seja uma triste filha do povo, +se o seu comportamento for virtuoso, pensava Manuel +de Mendonça, encostando-se á amurada da sua galera. +Quem sou eu? continuava elle, um homem sem familia, +sem parentes! Que me importam os brazões dos +meus antepassados! Em que concorreram elles para +esta pequena posição que hoje tenho na sociedade? +Quanto sou, devo-o a mim, e só a mim! Está decidido, +em oito dias, Martha será minha mulher.»</p> + +<p>D'alli a meia hora, Mascatudo com o seu fato domingueiro, +approximou-se de Mendonça.</p> + +<p>—Á ordem, meu commandante.</p> + +<p>—Estás prompto?</p> + +<p>—Prompto.</p> + +<p>—Sabes o serviço que me vaes fazer?</p> + +<p>—Ora essa!</p> + +<p>—Serás discreto, reservado?</p> + +<p>—Como uma carranca de prôa.</p> + +<p>—Bem estamos. Sabes aonde ella mora?</p> + +<p>—Rua do Meio, á Lapa.</p> + +<p>—Numero?</p> + +<p>—Cento e doze.</p> + +<p>—Tal e qual. Chegas assim como quem não quer a +coisa, e pergunta alli pela visinhança, quem é pouco +mais ou menos o Jeronymo; se a sua vida é moral e +religiosa, se é um homem trabalhador, etc., etc.<span class='pagenum'><a name="Page_162" id="Page_162">[Pg 162]</a></span></p> + +<p>—Bem sei como essas coisas se fazem, meu commandante.</p> + +<p>—Em primeiro logar, para que se não desconfie, é +falar só de Jeronymo; o resto, vem mesmo sem o perguntares. +Entendes bem?</p> + +<p>—Se entendo... O commandante vem tambem p'ra +terra?</p> + +<p>—Não, espero aqui a resposta.</p> + +<p>—Então ás ordens, e que a Senhora da Bonança vá +em minha companhia. Descendo para o escaler sentou-se +á prôa e mandou remar.</p> + +<p>Uma hora depois, Mascatudo entrou n'uma pequena +tenda da rua da Lapa, que ficava quasi em frente da +casa de Jeronymo.</p> + +<p>Approximou-se do balcão e pediu de comer.</p> + +<p>Á proporção que comia e bebia, o marujo ia adquirindo +uma certa intimidade com o caixeiro, offerecendo-lhe +de vez em quando do seu copo, em que elle +pegava sem se fazer rogar.</p> + +<p>—Diga-me uma coisa, perguntou emfim Mascatudo. +Dá-me noticias d'um mestre de obras, que d'antes aqui +morava, chamado Jeronymo? Ha quantos annos o +não vejo!</p> + +<p>—Olhe, respondeu o caixeiro, apontando ao mesmo +tempo para a casa do pae de Martha, ainda alli mora +n'aquella casinha.</p> + +<p>—É um bom homem!... E sua mulher ainda vive?</p> + +<p>—Ainda.</p> + +<p>—A filha é que deve estar uma senhora?</p> + +<p>—É toda <i>mystica</i>! disse o caixeiro; e enthusiasmando-se +com a formosura de Martha, despejou, sem Mascatudo +lh'o offerecer, o resto do vinho que estava no +copo.</p> + +<p>—Conheci aquillo uma criancinha, accrescentou Mas<span class='pagenum'><a name="Page_163" id="Page_163">[Pg 163]</a></span>catudo, +olhando de soslaio para a meia canada que o +moçoilo acabava de despejar.</p> + +<p>—Ha pouco tempo succedeu uma <i>disinfelicidade</i> ao +pobre Jeronymo, continuou o caixeiro, que lhe ia custando +uma grande <i>felicia</i>.</p> + +<p>—Sim? perguntou Mascatudo.</p> + +<p>—É verdade.</p> + +<p>—Então como foi isso?</p> + +<p>—Eu lh'o conto. Foi atropellado por um fidalgo muito +rico, que tem agora um hospital para a rua de S. +Francisco de Paula, e como elle ficasse muito mal tractado, +sabe o que o fidalgo fez? levou-o para a hospedaria +onde estava, tractou d'elle sem lhe faltar nada, +e por ultimo empregou o, dando-lhe quinze tostões por +dia. Ora veja vossemecê como o diabo as tece! Ha +males que vem por bem! Quem me dera a mim encontrar +um fidalgo que me atropellasse com a condição +de me dar, já não digo quinze porém cinco tostões +por dia. Ha dois annos que estou n'esta maldita casa, +e o miseravel do patrão ainda me não augmentou o +ordenado. Aqui estou ganhando dois mil reis por mez, +que como o outro que diz, não me chega nem para +beber uma pinga aos domingos. Agora por isso, ajuntou +elle, mudando de tom, creio que já despejou todo +o vinho. Quer que torne a encher?...</p> + +<p>—Encha, respondeu Mascatudo, occultando a custa +um sorriso.</p> + +<p>—E ainda ahi não fica, como ia dizendo. Em tal +graça caiu a sua familia para com os fidalgos, que é +raro o dia, em que as meninas não vém no seu proprio +trem buscar a filha de Jeronymo.</p> + +<p>—E ella porta-se bem?</p> + +<p>—Diziam que sim, porém agora, já ha quem lhe +rosne no credito. Ora aqui para nós tem razão! Uma<span class='pagenum'><a name="Page_164" id="Page_164">[Pg 164]</a></span> +rapariga tão bonita como a Martha, e pobre como é, +andar no luxo em que anda!</p> + +<p>—Mas talvez que esse luxo lhe tenha sido dado +pelas filhas do tal fidalgo, respondeu Mascatudo, sentindo +um grande estremecimento no coração.</p> + +<p>—Tambem isso é verdade; póde muito bem ser, e +n'esse caso então, não lhe deviam cortar na pelle.</p> + +<p>—E quem é que lhe corta na pelle?</p> + +<p>—Olhe, alli vem uma das visinhas que não lhe +faz lá muito boas ausencias: a tia Monica.</p> + +<p>N'esse momento, a beata, de quem o leitor deve +estar lembrado, involta na sua mantilha de merino +preto, entrou na tenda.</p> + +<p>—Deus seja n'esta casa, disse ella, olhando ao mesmo +tempo para Mascatudo.</p> + +<p>—Amen, respondeu este, cravando os olhos no rosto +cadaverico da intrusa.</p> + +<p>—Então como vae isso hoje lá por baixo a respeito +da febre, perguntou o caixeiro, que já sabia que era +a hora em que ella vinha da baixa.</p> + +<p>—A colera de Deus continua a castigar os peccadores, +respondeu a misera abaixando ao mesmo tempo +a cabeça. Hontem, continuou ella, disseram-me que +houve uma mortandade espantosa. E estes herejes do +sitio sem fazerem uma procissão como tantas vezes +lhes tenho pedido!</p> + +<p>—Porque não mette n'isso o mestre Jeronymo? perguntou +o caixeiro á tia Monica, piscando ao mesmo +tempo o olho para Mascatudo.</p> + +<p>—Cruzes! Credo! Virgem da Soledade! Pedir uma +coisa d'essas a similhante creatura! De que Deus me +livrasse, sr. André!</p> + +<p>—Pelo que vejo, não é muito amiga do nosso visinho!<span class='pagenum'><a name="Page_165" id="Page_165">[Pg 165]</a></span></p> + +<p>—E como queria o senhor que uma mulher como +eu fosse amiga de similhante homem?</p> + +<p>—Pois olhe, basta o que elle fez pela tia Marianna, +para mostrar que tem bom coração. Lá o que é verdade, +deve-se dizer sempre! Ha de haver mez e meio, +proseguiu o caixeiro voltando-se para Mascatudo, foi +aqui atacada uma mulher pela febre amarella, e ninguem +se atreveu a entrar em sua casa; a unica pessoa +que o fez, foi Martha, a filha de Jeronymo. Com +tanto amor a tractaram, que hoje está viva e sã.</p> + +<p>Mascatudo sorriu d'alegria ao ouvir a boa acção de +Martha.</p> + +<p>—E porque fez elle isso tudo? resmungou a beata. +Sô para que depois se dissesse pela visinhança que +eram uns santinhos. Que santinhos de pau carunchoso!</p> + +<p>—Seja lá pelo que fôr, o grande caso é que salvaram +aquella embarcação que ia dar á costa, acudiu Mascatudo.</p> + +<p>—Pelo que vejo respondeu Monica contemplando o +marinheiro, vossemecê anda sobre as aguas do mar? +Que o Senhor dos Navegantes, a quem mesmo agora +acabo de rezar duas estações, o livre de todos os perigos, +meu filho; e possa tambem a Senhora da Bonança +andar sempre em sua companhia. Padre nosso +que estaes nos céos... continuou ella.</p> + +<p>—Então o que se diz por ahi de Jeronymo, tia Monica, +perguntou Mascatudo, começando a tratal-a com +certa confiança.</p> + +<p>—Ora! O que se ha de dizer! O que se diz sempre +d'um homem que consente que sua filha esteja fóra de +casa, e que venha a altas horas da noite, muitas vezes +acompanhada por um individuo, que vem sósinho +com ella dentro d'um trem. Quem elle é ainda eu não +pude descobrir, mas, agora que felizmente já consegui<span class='pagenum'><a name="Page_166" id="Page_166">[Pg 166]</a></span> +encaixar-me no hospital e fazer conhecimento com as +meninas... vou descobrir quem é o melro.</p> + +<p>Mascatudo sentiu um estremecimento por todo o +corpo. Elle que a julgava pura como um anjo, começava +a duvidar da sua virtude. E não tinha mais remedio +senão contar tudo que ouvira.</p> + +<p>—Agora que já tenho lá entrada como lhe ia dizendo, +é que hei de saber qual dos amigos do fidalgo, é o +que está acostumado a acompanhal-a. E a boa da tia Marianna, +sempre por toda a parte a dizer d'ella mil maravilhas, +e eu a saber como os meus dedos, a peça que +é a creancinha! Dizem-me que anda sempre muito triste. +Deus sabe como ella andará! Que Deus me perdoe de +fazer maus juizos!... exclamou a beata curvando a cabeça.</p> + +<p>Outro que não fosse Mascatudo, teria regeitado as +opiniões da execravel beata, porém ferido por aquella +primeira impressão, o caracter fogoso e ao mesmo tempo +selvagem do marinheiro, levou-o a acreditar em tudo +quanto lhe haviam dito! Sem descer a mais indagações, +e abandonando ao caixeiro a segunda meia canada +que mandara encher, Mascatudo pagou o que devia, +e sem quasi se despedir nem d'um nem d'outro, +saiu apressadamente da loja. Seguindo pela rua da Lapa, +desceu a rua de S. Domingos, e entrando nas Janellas +Verdes, alcançou a rocha do Conde de Obidos, +aonde embarcou para bordo da galera.</p> + +<p>Manuel de Mendonça, passeiando á prôa, aguardava +com impaciencia o resultado da commissão do marinheiro.</p> + +<p>Os olhos de Mascatudo arrazados de lagrimas, seguiam +os movimentos do seu commandante. O pobre +homem receiava os instantes que o approximavam de +Manuel de Mendonça, afim de lhe participar o que se havia +passado.<span class='pagenum'><a name="Page_167" id="Page_167">[Pg 167]</a></span></p> + +<p>O escaler abordou finalmente á galera e Mascatudo +subiu a escada.</p> + +<p>—Que soubeste? perguntou Manuel conduzindo-o á +sua camara.</p> + +<p>Revestindo-se de valor Mascatudo contou-lhe quanto +tinha ouvido.</p> + +<p>Manuel de Mendonça sorriu-se brandamente, e olhando +para aquelles horisontes, toldados então por uma +neblina espessa, fitou a vista no oceano, como que dizendo-lhe +que o esperasse.</p> + +<p>N'essa mesma noite adoeceu com uma febre gravissima, +de que lhe resultou estar quinze dias de cama.</p> + +<p>Foi durante esse tempo, emquanto ao infeliz, entre +as visões da febre, se lhe desenhava a imagem da supposta +peccadora, que Magdalena na varanda do hospital, +assestava de vez em quando o telescopio para descobrir +o rasto do commandante da galera.<span class='pagenum'><a name="Page_168" id="Page_168">[Pg 168]</a></span></p> + + + +<hr style="width: 65%;" /> +<h1><a name="XXVI" id="XXVI"></a>XXVI</h1> + + +<p>—Terá a bondade de dizer á sr.ª D. Magdalena que +está aqui a sua pobresinha, dizia a tia Monica voltando-se +para o guarda-portão do hospital.</p> + +<p>—A sr.ª D. Magdalena não póde agora recebel-a; +acha-se á cabeceira de um doente que está por pouco... +respondeu-lhe o guarda-portão.</p> + +<p>—Pois sim, pois sim, vá sempre dizer-lhe que é a +tia Monica, a quem deu ordem para que viesse aqui +hoje sem falta. Ande, avie-se; verá se me fala ou não.</p> + +<p>—Já lhe disse a vossemecê o que tinha a dizer-lhe. +Escusa de me importunar mais.</p> + +<p>—Deixa estar que eu te direi, dizia a velha comsigo. +Alcance eu o que desejo, e verás como te ponho +no andar da rua, só pelo mal que me estás tratando. +Estejas tu meu traste mais oito dias sem cá vir, e eu +te direi, como te ponho tambem no meio da rua, minha +Martasinha.</p> + +<p>—Então vossemecê, vae ou não vae! ajuntou a tia +Monica em voz alta, voltando-se de novo para o porteiro.<span class='pagenum'><a name="Page_169" id="Page_169">[Pg 169]</a></span></p> + +<p>—E ella a dar-lhe, e a burra a fugir, disse o guarda-portão, +voltando-lhe a cara para a banda, e continuando +a varrer o patim. Se vossemecê continua a atormentar-me +subo lá acima e digo ao mestre Jeronymo +que lhe pegue por um braço e que a ponha fóra da +porta. Forte impertinente! cruzes, canhoto!</p> + +<p>—Ora sempre haviamos de ver isso, se o tal mestre +Jeronymo seria capaz de pôr no meio da rua uma +pessoa mandada aqui vir por uma das filhas do dono +da casa! Faça isso, sr. Antonio, até desejo que o faça. +Ande, então...</p> + +<p>N'este momento, uma enfermeira que vinha de jantar, +entrou apressadamente no hospital.</p> + +<p>—Tem a bondade de dizer á sr.ª D. Magdalena que +está aqui a tia Monica, e que lhe vem trazer a resposta +d'aquelle recado que lhe encarregou, disse a beata, +perseguindo a mulher.</p> + +<p>—Farei entregue, respondeu a enfermeira, subindo +apressadamente a escadaria.</p> + +<p>—Vossemecê não tem vergonha de estar assim com +essa teima?</p> + +<p>—Pois veremos quem vence—se sou eu ou se é +vossemecê; e sentando-se tranquillamente sobre um +dos bancos da entrada, a tia Monica começou a olhar +para o enraivecido porteiro, com um modo insolente +e provocador.</p> + +<p>Cinco minutos depois, desceu a mesma enfermeira, +dizendo lhe da parte da sr.ª D. Magdalena que fosse +ter com ella ao terceiro andar.</p> + +<p>A velha, radiante de gloria e de regosijo, fixou o +porteiro do alto da sua magestade, e despedindo-lhe +um olhar de compaixão, subiu afoita as escadas, promettendo +a si mesma vingar-se do pobre homem, logo +que o ensejo lhe fosse favoravel.</p> + +<p>A principio, o porteiro rugiu de colera, porêm, ven<span class='pagenum'><a name="Page_170" id="Page_170">[Pg 170]</a></span>do +a inutilidade do seu mau genio, conformou-se com +a sorte, e empunhando de novo a vassoura continuou +na sua constante operação.</p> + +<p>Magdalena, ao ouvir as palavras da enfermeira, encarregou +a sua irmã o moribundo, e subiu logo ao +terceiro andar, aonde mandaram conduzir a velha.</p> + +<p>Quando ella entrou, Magdalena, encostada á varanda, +contemplava o Tejo, no Tejo a galera, na galera +Manuel de Mendonça, e n'esse a vida que para ella lhe +fugia!</p> + +<p>—Bons dias, santinha! disse ella approximando-se +da tia Monica.</p> + +<p>—Muitos bons dias, meu anjinho, replicou a asquerosa +beata tentando beijar a mão que Magdalena lhe +extendia. Já lhe disse que não quero ver esse rosto +tão pallido, minha rosa desbotada. Anime-se, ande, ria-se +para mim.</p> + +<p>—Soube alguma cousa? perguntou Magdalena.</p> + +<p>—Alguma coisa se soube. Ainda não é tudo quanto +desejamos; mas de cá se vae a lá, como dizem os hespanhoes. +Um amigo d'um sobrinho meu, que está na +armada, foi a quem encarreguei. Hoje, seriam oito horas +da manhã, quando eu vinha de ouvír as minhas +missas, e de pedir a Deus pela minha querida menina, +senti baterem-me á porta, abri, e era o Manuel, o tal +rapazola. «Que temos?» perguntei-lhe eu. «Que havemos +de ter? Já soube onde pára o tal individuo, e +quem elle é» respondeu Manuel.</p> + +<p>—E quem é elle? perguntou avidamente a filha de +Tristão de Almeida.</p> + +<p>—É o commandante da galera Esperança. Tem estado +muito doente. Ha mais de quinze dias que não +sae de bordo!</p> + +<p>—Meu Deus! disse Magdalena, eis o motivo porque +nunca mais o pôde ver!<span class='pagenum'><a name="Page_171" id="Page_171">[Pg 171]</a></span></p> + +<p>—Quanto ao resto, accrescentou a beata, posso-lhe +dizer quasi com toda a certeza, que alli anda cousa, e +anda por isto:—Ha tempos estando eu na tenda do +Melro, entrou um homem de tracto do mar e começou +a perguntar informações de Martha. Esse individuo +não tinha sido senão alguem mandado por elle, para +saber se se portava bem ou mal.</p> + +<p>—E o que lhe respondeu, tia Monica?</p> + +<p>—Que queria a menina que lhe respondesse! Póde-se +julgar mal d'uma pessoa que anda na companhia +de dois anjos, como as minhas duas meninas? Embora +eu soubesse quem esta familia é, a minha bocca nunca +se me teria aberto para dizer similhante coisa!</p> + +<p>—Parece-lhe portanto que as minhas suspeitas eram +bem fundadas?</p> + +<p>—Se me parece! E faça se bem! As meninas a protegerem +aquelle traste, e ella pagando-lhes assim!</p> + +<p>—Isso não, tia Monica! Pobre rapariga, que culpa +tem ella do que se passa no meu coração? O mal que +me está causando é involuntario, e tão involuntario +que ella propria o desconhece; e demais, se ha alguem +culpado em tudo isto, sou eu, eu apenas.</p> + +<p>—E pensa a menina, que um rapaz como esse tal +sr. Manuel de Mendonça, possa descer a olhar para +uma mechanica? uma reles filha d'um operario, tendo +a palpitar pela sua pessoa, um coração nobre e generoso +como o da minha rica menina? Para que havia +Manuel de Mendonça querer a filha d'um operario: só +se fosse para ser sua criada.</p> + +<p>—Pois olhe, tia Monica, veja como eu sou, se tivesse +a certeza de que Martha era de ha muito amada +por Manuel de Mendonça, creia que embora eu morresse +de paixão, seria capaz de me sacrificar, a ponto de +ser eu a propria madrinha do seu casamento. Hontem +estava pensando n'isso. Mas o que eu queria, era ter<span class='pagenum'><a name="Page_172" id="Page_172">[Pg 172]</a></span> +uma certeza. Se o que tem conservado Martha n'aquelle +estado, é uma paixão, serei eu a propria, embora +d'isso me resulte a morte, a fazer todas as diligencias +de os reunir. Se elle fôr nobre, pedirei a meu pae, +que tire de meu dote alguns contos de réis, para collocar +aquella pobre criança n'uma posição que lhe não +envergonhe os seus pergaminhos. Porém se esse amor +que eu supponho existir no coração de Martha, +não fôr mais do que uma desconfiança, então Monica, +se lhe não fôr indifferente, rico ou desventurado, nobre +ou plebeu, Manuel de Mendonça será o meu esposo, +porque o amo muito, muito, tia Monica!</p> + +<p>E a pobre Magdalena, tremula e offegante, debalde +tentava occultar as lagrimas que a suffocavam!</p> + +<p>Era muito de ver-se o contraste d'estas duas creaturas! +Magdalena, o amor, a generosidade, a pureza +de affectos! Monica, a mentira, a ambição, a crapula +emfim de todos os sentimentos!</p> + +<p>Alma candida e inexperiente, não avaliava sequer +a immensa distancia que as separava. A pomba approximava-se +d'aquelle asqueroso reptil, sem comprehender +com quantas voltas lhe poderia enrolar o seu +pescoço de neve!</p> + +<p>Ao escutar aquellas palavras que tão claramente denunciavam +a ingenuidade da sua alma, a tia Monica julgou +perder a partida. Além dos lucros que esperava +obter servindo de intermediaria n'aquelles amores, havia +um outro sentimento que a dominava, mais forte +talvez que o primeiro: o desejo de se vingar da familia +de Jeronymo! Desejo infundado, sem motivo algum, +explicado apenas por aquella profunda inveja que os +bons mais ou menos inspiram aos que o não são nem +o desejam ser!</p> + +<p>Envenenando-lhe o seio com o ervado punhal do ciume, +a tia Monica poderia fazer com que retirassem a<span class='pagenum'><a name="Page_173" id="Page_173">[Pg 173]</a></span> +sua protecção ao mestre de obras. Poderia fazer com +que Magdalena, odiando a pobre Martha, lhe roubasse +a pessoa a quem ella amava, ficando apenas reduzida +á miseria e ao descredito que por toda a parte lhe proclamava.</p> + +<p>Eram estas as suas idéas, idéas que principiavam a +desvanecer se, á proporção que ia lendo na alma de +Magdalena toda a grandeza d'aquelle coração, immenso +como a agonia que o dilacerava!</p> + +<p>—Veja, continuava Magdalena, se por esse individuo, +me póde saber, custe o que custar, se Manuel de +Mendonça escreve a Martha, se a vê, ou se por ultimo +se encontram.</p> + +<p>—E se por ventura se amarem? perguntou rapidamente +a beata.</p> + +<p>—Abençoal-os-hei! respondeu Magdalena como se ao +pronunciar estas palavras se lhe rasgasse o coração.</p> + +<p>—E se não se amam! insistiu a velha.</p> + +<p>—Será meu, disse Magdalena com uma voz debil e +melancholica. Tirando depois algumas moedas de prata +de dentro de um <i>porte-monnaie</i>, entregou-as á tia Monica.</p> + +<p>—Se elles não se amassem! pensava Magdalena ao +despedir-se da velha.</p> + +<p>—Se Deus me ajudasse! repetia a tia Monica sahindo +do gabinete.<span class='pagenum'><a name="Page_174" id="Page_174">[Pg 174]</a></span></p> + + + +<hr style="width: 65%;" /> +<h1><a name="XXVII" id="XXVII"></a>XXVII</h1> + + +<p>Ao cabo de quinze dias, graças á sua robusta compleição, +Manuel de Mendonça pôde subir ao convez, esperando, +dizia elle, conseguir com a brisa do mar completo +restabelecimento.</p> + +<p>Mas não era esse apenas o motivo que alli o conduzia. +Mascatudo havia-lhe dito na vespera, que da galera +se via perfeitamente o edificio do hospital, e quasi todos +os dias, depois da uma hora da tarde se divisava +um vulto na varanda, assestando o oculo na direcção +do barco.</p> + +<p>Achando se completamente restabelecido, Manuel de +Mendonça pegou no seu magnifico telescopio e dirigiu-se +á prôa do navio afim de descobrir quem tão assiduamente +o espreitava.</p> + +<p>Ao vêr o edificio que Mascatudo lhe designára, já o +seu olhar de lynce havia descoberto que alguem o estava +observando.</p> + +<p>Manuel de Mendonça levantou o seu oculo, e descobriu +o rosto pallido e insinuante de Magdalena.</p> + +<p>Não era esse o semblante que elle cuidava encon<span class='pagenum'><a name="Page_175" id="Page_175">[Pg 175]</a></span>trar; +comtudo, continuou por alguns segundos esperando +ainda descobrir a imagem que durante a sua terrivel +enfermidade o havia perseguido. Mas tal não succedeu. +Magdalena continuando a olhar, parecia não perder +um segundo da sua persistente observação.</p> + +<p>Desalentado, metteu o oculo debaixo do braço, e caminhou +serenamente para a ré.</p> + +<p>Então um milhão de reminiscencias lhe acudiu á memoria. +Lembrou-se d'aquelle dia em que Magdalena o +contemplára tão demoradamente, quando fôra visitar +Jeronymo.</p> + +<p>«Quem sabe, pensou elle, se esta mulher me ama, e +se lançou mão d'alguma intriga para desconceituar a +meus olhos a filha do operario? Se tal fosse! Veremos +o que pensa Mascatudo. Não façamos juizos temerarios. +Que importa que eu vá visitar seu pae? Não +lh'o prometti eu?»</p> + +<p>Erguendo o seu telescopio, Manuel assestou-o pela +segunda vez na direcção do hospital, onde Magdalena +se conservava ainda no seu posto de observação. O +maritimo, voltando as costas desceu á camara onde +Mascatudo o aguardava.</p> + +<p>Quem n'esse momento tivesse entrado no hospital +da rua de S. Francisco de Paula, e houvesse subido +aquelle terceiro andar, onde Magdalena se achava, teria +ouvido o som da queda de um corpo e uma voz entrecortada +pelos soluços, soltando estas palavras:</p> + +<p>—Amam-se, não ha duvida!</p> + +<p>—Maldito caldo de gallinha, puff, está a escaldar! +dizia uma outra voz. Era a de Olympia.<span class='pagenum'><a name="Page_176" id="Page_176">[Pg 176]</a></span></p> + + + +<hr style="width: 65%;" /> +<h1><a name="XXVIII" id="XXVIII"></a>XXVIII</h1> + + +<p>Graças aos rasgos de valor e profunda dedicação que +o dono do hospital da rua de S. Francisco de Paula espalhava +a cada a hora sobre a cidade de Lisboa, o seu +nome tornou-se popular.</p> + +<p>Todos á uma desejavam encontrar esse homem, que, +arriscando constantemente não só a sua preciosa existencia, +como tambem a de sua mulher e duas filhas, se +chegava hoje ao leito do moribundo com palavras consoladoras, +ámanhã amortalhava o cadaver de outro por +cuja existencia batalhára até a ultima. Era de justiça, +mais do que justiça, indispensavel até conceder-se-lhe +a mercê em que sua magestade dias antes havia falado +com o ministro do reino, segundo este havia dito ao +visconde de Coruche.</p> + +<p>Uma manhã em que o visconde, fazendo a sua demorada +<i>toilette</i>, se preparava para ir ao hospital, foi +procural-o o conselheiro Poderosa.</p> + +<p>—Sua magestade encarregou-me hontem de te procurar, +fiado na amisade que existe entre ti e o Tristão +da Almeida.<span class='pagenum'><a name="Page_177" id="Page_177">[Pg 177]</a></span></p> + +<p>—Estou ás ordens de sua magestade, respondeu o +visconde.</p> + +<p>—El-rei deseja agraciar Tristão de Almeida com o +titulo de conde, e mandou-me que te viesse procurar +com o fim de lhe perguntares qual o nome que deseja +juntar ao titulo.</p> + +<p>—Quanto agradeço a honra que el-rei me dispensa, +fazendo-me intermediario para um acto de tanta justiça! +Tencionava hoje passar o dia em casa, mas, em +virtude das ordens de el-rei, corro immediatamente a +casa do meu amigo, afim de lh'o participar, e juntamente +pedir-lhe que me diga o nome que deseja juntar +a esse titulo.</p> + +<p>—Nunca se fez um acto de maior justiça, disse o +conselheiro.</p> + +<p>—Escuso de te repetir que sou da mesma opinião.</p> + +<p>—Realmente, tem-se portado como um heroe.</p> + +<p>—E suas filhas?! e sua mulher! parece impossivel +como tenham escapado a tantos perigos, acudiu o visconde.</p> + +<p>—É um verdadeiro milagre da Providencia. Mas, +aqui para nós, visconde, quem será esse Tristão de Almeida?</p> + +<p>—Ora essa! Tristão de Almeida, segundo elle o diz, +e eu o creio, descende d'uma das principaes familias +de Monforte. Seu pae, homem d'um caracter excentrico +e ao mesmo tempo muito gastador, quando se encontrou +completamente arruinado, mandou este rapaz e um +outro irmão para Val-Paraiso, para casa d'um primo que +alli estava estabelecido com uma riqueza enorme. Vasco, +seu irmão mais velho, ficou empregado na casa gerindo +os negocios de seu primo, de quem era o unico +herdeiro, emquanto que Tristão dotado de um genio +mais energico e emprehendedor, seguiu uma vida aventureira. +Ao cabo de cinco annos, isto peço-te que não<span class='pagenum'><a name="Page_178" id="Page_178">[Pg 178]</a></span> +contes a pessoa alguma, que foi dito confidencialmente +por Tristão, ao cabo de cinco annos repito, já elle tinha +feito cinco viagens a salvo, introduzindo na Havana +uma grande porção de Chins. Feliz em todos os negocios +que emprehendia, Tristão d'alli a dez annos estava +archi-millionario. Achando-se uma occasião em Buenos +Ayres viu n'um jornal que havia fallecido o seu +parente, tendo deixado por unicos herdeiros a elle e a +seu irmão.</p> + +<p>—E seu pae? interrompeu o conselheiro.</p> + +<p>—Já tinha morrido a esse tempo.</p> + +<p>—Dias depois partiu para Val-Paraiso. A riqueza que +seu primo deixara estava calculada em quatro mil contos. +Ao cabo de um mez teve a desgraça de perder o +irmão.</p> + +<p>—Que fatalidade! murmurou o conselheiro.</p> + +<p>—É verdade! vê tu que fatalidade! Tristão, continuou +o visconde, reduziu toda a fortuna a dinheiro e +partiu para a Europa, onde annos depois se casou com +D. Maria Egypciaca, senhora do Minho, com quem fizera +conhecimento uma das vezes que viera a Portugal.</p> + +<p>—É um romance a vida d'esse homem.</p> + +<p>—Tem coisas admiraveis! disse o visconde.</p> + +<p>—Com que então, acudio o conselheiro, a sua fortuna +póde calcular-se em...</p> + +<p>—Cinco ou seis mil contos.</p> + +<p>—Já se póde passar com isso!</p> + +<p>—Agora, disse o visconde, é um homem d'uma generosidade +incalculavel! Se tem cahido nas mãos dalguns +individuos que nós conhecemos...</p> + +<p>—Haveriam tirado um grande partido da sua bolsa, +emquanto que tu...</p> + +<p>—Como graças a Deus não preciso recorrer a ella; +mas, se o fizesse, tenho toda a certeza que sempre a +encontraria disposta a abrir-se-me.<span class='pagenum'><a name="Page_179" id="Page_179">[Pg 179]</a></span></p> + +<p>—Eu tambem não digo que tenhas precisão, mas +um homem d'esses, pode-se aproveitar para qualquer +empreza, grande já se vê, e de que outros tirassem +bom partido, tirando o elle tambem.</p> + +<p>—Ainda não pensei n'isso.</p> + +<p>—E as filhas são bonitas?</p> + +<p>—Uma d'ellas, Magdalena, é um anjo de bondade e +formosura.</p> + +<p>—E a outra?</p> + +<p>—Olympia? Também não é feia, mas é muito gorda. +Essa representa o estomago, e a sua irmã o coração. +Magdalena ama, suspira e desfaz-se em sentimento. +Olympia come, dorme, e emquanto dorme sonha no que +ha de comer ao despertar. Afóra isso, é uma creatura +esplendida.</p> + +<p>—Eis a mulher que me convinha, disse o conselheiro. +Confesso-te que já não tenho outra distracção senão +a meza. Seria capaz de me casar não pelo coração mas +sim pelo estomago! Que verdadeiro achado seria para +mim essa Olympia! Uma mulher com bom paladar, que +deve infallivelmente saber fazer muito bons doces. Que +dorme muito e que come muito!</p> + +<p>—Mas tu d'antes não eras assim! disse o visconde +accendendo um charuto. O teu typo era a mulher magra, +vaporosa, sentimental. Gostavas das olheiras, das +rosetas da febre, e sobretudo da pontinha de tosse, como +regularmente se diz.</p> + +<p>—Isso foi antigamente, meu amigo, quando eu tinha +vinte annos, e conservava intacta a riqueza que herdei +de meus paes. Porém agora, não; prefiro a mulher +sadia, forte, que possa ser uma boa ama de leite para +me crear os garotos, se porventura Deus me quizer +conceder os deleites da paternidade.</p> + +<p>—Como tu estás mudado, João!<span class='pagenum'><a name="Page_180" id="Page_180">[Pg 180]</a></span></p> + +<p>—Que queres? são as circumstancias que me fazem +assim pensar.</p> + +<p>—Pois meu amigo, habilíta-te e terás em Olympia a +mulher que te convém. Junta a todas essas qualidades, +um dote de trezentos a quatrocentos contos de réis. Que +tal, hein? Agora só te peço uma coisa: se á força da tua +vontade, ajudada pelos meus esforços, conseguires realizar +este sonho...</p> + +<p>—Dirás.</p> + +<p>—Has de fazer um novo fardamento ao teu guarda-portão.</p> + +<p>—Approvo e desde já t'o prometto! Se Olympia fôr +minha, o meu guarda-portão terá outro fardamento. +Mas agora serio, ajuntou o conselheiro, eu ainda não +estou feio de todo, falam por ahi do meu talento, sou +filho de gente fina, que mulher se poderá esquivar a +conceder-me a sua mão, muito mais, estando eu nas +disposições em que me encontro, que é viver pura e +simplesmente para comer e dormir e depois accordar +para tornar a comer, sem que minha mulher nem os +criados de casa me ouçam levantar a voz, a não ser +que os pequenos me venham interromper o somno, +amotinando me os ouvidos com algum tambor de feira?</p> + +<p>—Estou d'accordo comtigo, e tanto, que se me falas +serio, mas bem serio, entendes, farei com que Olympia +te encontre alguma vez, e se te guiares pelos meus +conselhos, vencerás a batalha. Se por ventura a fôres +visitar ao hotel e falares com a tua futura, não te approximes +da janella, erguendo olhares inspirados para +o Tejo; não, longe d'isso, faz um gesto de profunda meditação, +engatilhando ao mesmo tempo o ouvido em direcção +ao corredor e aspirando o aroma das iguarias +que se espalha na atmosphera. Não fales nem de flores +nem de estrellas, discute-lhe as empadas do José +Romão, e os pasteis de nata da rua da Rosa. Não lhe<span class='pagenum'><a name="Page_181" id="Page_181">[Pg 181]</a></span> +fales de Dumas nem de Eugenio Sue, conta-lhe a biographia +de Vatel, promette-lhe a phisiologia de paladar +de Brillat Savarin, e conta lhe isto, com os olhos +radiantes de enthusiasmo, e as faces incendiadas pelo +quinto peccado. Se assim fizeres, Olympia terá um conselheiro +e o teu guarda-portão um fardamento novo!</p> + +<p>—Convem-me, respondeu o conselheiro, e tu, ajuntou +elle, porque não aproveitas a poetica Magdalena? +O teu espirito ainda ás vezes infantil e sonhador, casar-se-ia +admiravelmente com a sua organização. Então +é que era, visconde: nós os amigos de tantos annos, +casados com duas irmãs, que representavam já +oitocentos contos e que representariam seis mil para o +futuro!</p> + +<p>—Se o quizesse fazer, não tinha senão dar o meu +sim. Se tu soubesses o que tem ido por essa casa a +meu respeito! Magdalena ama-me desde o primeiro dia +que me viu. Orgulhosa de mais nunca se atreveu a declarar +me o seu amor, mas de sobejo se lhe lê no +olhar com que me contempla, na voz que lhe estremece +quando por ventura me dirige a palavra, no gesto cuja +melancolia me chega ás vezes a causar remorso. Eu +tenho sempre feito que nada comprehendo, porém seu +pae não o ignora nem a mãe. Falta só dizerem-me em +voz clara, o sentimento que a minha presença inspirou +á filha.</p> + +<p>—Pois acho que fazes uma grande asneira, disse o +conselheiro.</p> + +<p>—Eu ás vezes também assim penso, mesmo porque +talvez venha no futuro a sentir remorsos de ter concorrido +para a morte d'aquella creança. Se tu soubesses +quanto soffre. Aquelle ardente desespero com que +Magdalena se lança a todos os perigos, penso eu ás vezes +ser mais vontade que tem de morrer para não af<span class='pagenum'><a name="Page_182" id="Page_182">[Pg 182]</a></span>frontar +a minha indifferença, do que realmente caridade.</p> + +<p>—Mas porque motivo não lhe retribues tu com +muito amor, o affecto que essa creança te consagra?</p> + +<p>—Porque a não amo, João. E como, graças a Deus, +não estou na posição de me casar por necessidade, não +quero sacrificar os longos annos que ainda me restam +de vida, passando os ao lado de uma mulher, que nada +tem a desejar, mas pela qual o meu coração não +palpita de amor. O motivo é este, apenas este.</p> + +<p>—Tens-me falado com seriedade em tudo isto? acudiu +o conselheiro depois de alguns instantes de profunda +reflexão.</p> + +<p>—Dou-te a minha palavra de honra que tenho.</p> + +<p>O visconde não mentia. Fiado ainda na sua belleza +proverbial, e afeito a que todas as mulheres o estremecessem, +pensou que esse sentimento que a pobre +Magdalena nutria em silencio por Manuel de Mendonça, +era o resultado de uma paixão que elle lhe havia inspirado.</p> + +<p>Orgulhoso do seu nome, o visconde, apezar da inquestionavel +vantagem que lhe poderia resultar d'esse +enlace, não queria, diremos, baixar da sua dignidade +entregando-se n'uma facil conquista, a essa mulher cujo +coração o estremecia, a quem elle nunca poderia ter +sido indifferente, attendendo á sua formosura e altas +virtudes que a distinguiam.</p> + +<p>Viu n'um relancear de olhos o proveito que poderia +tirar, arranjando o casamento do conselheiro com a irmã +de Magdalena. Por essa fórma viveria mais em familia, +e se um dia, exasperada de amor e incendiada +de paixão, Magdalena se lançasse em seus braços, pedindo-o +em casamento, elle então do alto do seu throno +de vaidade, extenderia a mão para lhe dar um sim<span class='pagenum'><a name="Page_183" id="Page_183">[Pg 183]</a></span> +de protecção. Eram estas as suas idéas, as que elle estreitamente +guardava no fundo da sua alma.</p> + +<p>Por isso não mentia, quando respondeu ao conselheiro +que lhe estava falando a serio.</p> + +<p>—Pois então, disse João Poderosa, visto não me teres +illudido, digo-te tambem, e muito de coração t'o +peço, que me auxilies n'esta tentativa, cuja realização +póde fazer a tua e a minha felicidade. Pensa nos meios +que temos a empregar; dirige-me em tudo se te apraz; +serei um automato se m'o exigires, mas colloca-me ao +contacto d'essa mulher. Agora, accrescentou elle, como +se um mundo novo se desenrolasse a seus olhos, vou +contar a el-rei o que se passou comtigo, e logo, sendo +sete horas, antes de ir para o theatro, aqui te venho +buscar. Ficamos certos?</p> + +<p>—Pois não, respondeu o visconde, e á fé de quem +sou te prometto, que em menos de um mez, Olympia +será tua mulher.</p> + +<p>Despedindo-se do visconde, o conselheiro seguiu +para o paço.</p> + +<hr class="bookstyle"/> + +<hr class="bookstyle"/> + +<p>«Vae tudo ás mil maravilhas, pensava elle. Com esta +missiva official farei de Tristão quanto me aprouver! +Tenho até a certeza que obteria a mão de Magdalena. +E porque não hei de requisital-a? Requisital-a não, que +ella m'a requisite. Se eu me curvava á filha de um +Tristão de Almeida! Parece-me mais razoavel, accrescentou +o visconde depois de alguns momentos de graves +locubrações, fazer com que o Poderosa consiga a mão +de Olympia; feito isso serei eu a entrar em scena. Por +agora não, tratemos apenas do titulo. Quem tudo quer +tudo perde!»</p> + +<p>Vestindo-se em seguida, montou n'um magnifico ca<span class='pagenum'><a name="Page_184" id="Page_184">[Pg 184]</a></span>vallo +inglez, e partiu a trote largo, dirigindo se para +o hospital.</p> + +<p>Proximo á calçada do marquez de Abrantes, viu que +um homem o chamava de dentro de um trem. Estacando +de repente o cavallo, approximou-se do postigo da +sege.</p> + +<p>Era Gil de Carvalho.</p> + +<p>—Encontrei-o emfim, disse o jogador. Então onde +se póde ver o seu amigo Tristão de Almeida?</p> + +<p>—Aonde se póde ver? por ahi, respondeu o visconde.</p> + +<p>—Não é isso o que eu queria dizer; perguntava +aonde elle joga para lhe pagar as cem libras que sabe.</p> + +<p>—Ah! o meu amigo Tristão de Almeida? esse já +não joga, respondeu o visconde, mas se lhe quer pagar +as cem libras, entregue-m'as, que eu lh'as darei.</p> + +<p>—Peior é essa! exclamou Gil de Carvalho, suspendendo +o movimento que fizera para tirar as notas da +algibeira.</p> + +<p>—Então não quer que lh'as entregue? repetiu o +visconde, que começava a desconfiar da velhacaria do +jogador.</p> + +<p>—Suppuz que vinha prevenido, mas enganei-me, +respondeu Gil de Carvalho. Ámanhã passarei por sua +casa.</p> + +<p>—Pois então adeus, meu amigo, disse o visconde, +batendo as pernas ao cavallo.</p> + +<p>Deixemos o visconde e Tristão de Almeida no jardim +do hospital discutindo ácerca do nome que tencionam +escolher para o titulo, e subindo pela rua do +Conde, vamos a casa da pobre Martha, de quem não +sabemos desde aquelle dia em que se prostrou sem +sentidos ao ouvir a historia do mestre de obras.<span class='pagenum'><a name="Page_185" id="Page_185">[Pg 185]</a></span></p> + + + +<hr style="width: 65%;" /> +<h1><a name="XXIX" id="XXIX"></a>XXIX</h1> + + +<p>Magdalena, ao ver a cruel realidade das suas suspeitas, +resolveu esmagar nos seios d'alma aquelle affecto +que lhe era vida, e dirigindo-se a casa de Martha, exigir +da sua amizade a revelação de todos os segredos.</p> + +<p>Havia dias que a pobre criança, cada vez mais enfraquecida, +parecia levantar os olhos a Deus, como +pedindo-lhe pela sua infinita misericordia que a recolhesse +na paz divina de seus braços.</p> + +<p>Balbina e Jeronymo, sem se retirarem um só momento +do lado de sua filha, erguiam de vez em quando +os seus olhos supplices e inquietos para a Virgem da +Conceição.</p> + +<p>Martha não falava, afóra algumas palavras á tia Marianna, +com quem abria inteira a sua alma.</p> + +<p>Bem sabia Martha, que n'aquelle peito podia sem +receio depositar todos os seus arcanos! A pobre velha +havia-lhe jurado nunca revelar a pessoa alguma as +confidencias que lhe depositasse no cofre do seu coração!</p> + +<p><span class='pagenum'><a name="Page_186" id="Page_186">[Pg 186]</a></span></p><hr class="bookstyle"/> + +<hr class="bookstyle"/> + +<p>São duas horas da tarde. Martha na vespera havia +peiorado! A febre, augmentando-lhe consideravelmente, +dera graves receios ao doutor Hermenegildo, distincto +facultativo do hospital do magnate.</p> + +<p>Ouve-se o rodar de um trem, que pára á porta do +operario, e, de dentro d'elle, envolta n'uma comprida +capa de velludo preto, apeia-se uma mulher. É a filha +de Tristão, Magdalena. Escusado seria dizel-o, que n'essa +hora, Olympia, á mesa do <i>lunch</i>, saboreia em doce encantamento +as altas locubrações d'um intelligente cozinheiro.</p> + +<p>Contra o seu habito, Magdalena vem completamente +só. O olhár e a pallidez do rosto, denunciam-lhe um +soffrimento profundo. No pisado das palpebras, adivinha-se-lhe +o rasto produzido pelas lagrimas. A sua voz, +ordinariamente firme e sonora, perturba-se á mais pequena +palavra, como receiando que as lagrimas lh'a +interrompam! O descuidado da <i>toilette</i>, o desalinho dos +cabellos, tudo emfim lhe descobre a tempestade em +que se agita o seu coração!</p> + +<p>Não era Magdalena, era apenas a sua sombra!</p> + +<p>Bate á porta de Jeronymo, e Balbina vem abrir.</p> + +<p>Ao vel-a n'esse estado, a mulher do operario não +pode occultar o seu assombro.</p> + +<p>Jeronymo secunda sua esposa na admiração.</p> + +<p>—Mas que é isto! Valha-me Deus, minha querida +menina, disse a mulher de Jeronymo voltando-se para +Magdalena.</p> + +<p>—Preciso falar-lhe em particular, e depois, com sua +filha. O que me traz aqui, é grave e muito grave sr.ª +Balbina.</p> + +<p>Esta, fazendo toda a diligencia para que Martha se +não apercebesse da presença de Magdalena, leva a para +uma pequena alcova que deita para o quintal de Jero<span class='pagenum'><a name="Page_187" id="Page_187">[Pg 187]</a></span>nymo, +outr'ora tão cuidadosamente tratado, e triste ha +uns tempos a esta parte, como o coração do seu cultivador.</p> + +<p>—Estamos sós? perguntou Magdalena para Balbina.</p> + +<p>—Tão sós que ninguem nos póde ouvir, respondeu +Balbina sem comprehender o que se passava em torno +de si.</p> + +<p>—Em primeiro logar, como está a pobre Martha?</p> + +<p>—Mal! bastante mal, minha boa menina, e tanto +que, hoje o medico...</p> + +<p>—O quê?</p> + +<p>—Disse-me que me não illudisse, ajuntou Balbina +agarrando se á amiga de sua filha.</p> + +<p>—Pobre anjo! exclamou Magdalena apertando-lhe +fortemente as mãos. E o que diz elle a respeito da +sua doença?</p> + +<p>—Que é toda moral, e portanto mais difficil de se +lhe encontrar o curativo.</p> + +<p>—E a que attribue a senhora isso? perguntou Magdalena +fitando a mulher do operario.</p> + +<p>—Eu sei! respondeu esta, tornando a resumir-se +ao silencio.</p> + +<p>—Seja sincera commigo, sr.ª Balbina, e lembre-se +que ninguem n'este mundo será capaz de ser mais +amiga de sua filha do que eu sou.</p> + +<p>—Creio o bem, minha senhora.</p> + +<p>—Pois então porque não abre commigo a sua alma? +Diga me não deposita em mim bastante confiança no +meu caracter? Olhe, continuou Magdalena, descobrindo +inteiramente o rosto. Diga-me se n'estas feições +adivinha a menor sombra de hypocrisia?</p> + +<p>—Por Deus, minha senhora! acudiu rapidamente a +mulher de Jeronymo.</p> + +<p>—Pois então, Balbina, se acredita na lealdade de +minha alma, seja sincera commigo, e fale-me como<span class='pagenum'><a name="Page_188" id="Page_188">[Pg 188]</a></span> +se eu fosse uma outra sua filha. Não imagina o prazer +que me vae dar. Como eu serei feliz podendo desabafar +n'um coração de mãe, quanta dôr existe n'este +meu pobre peito.</p> + +<p>—Já que tanto insiste, minha senhora, vou confiar-lhe +um segredo, que nunca me teria atrevido a revelar, +se não fosse conhecer a nobreza da sua alma! O +que a minha filha tem, é uma paixão, paixão que a +leva á sepultura.</p> + +<p>—E esse homem que lh'a inspirou, é?... perguntou +Magdalena, como se ainda uma pequena esperança +lhe restásse.</p> + +<p>—Esse homem é o commandante da galéra Esperança, +o mesmo que descobriu aonde estava meu marido, +na noite do dia em que foi atropellado por seu +excellentissimo pae.</p> + +<p>—Manuel de Mendonça! exclamou Magdalena.</p> + +<p>—Elle mesmo!</p> + +<p>—E elle?</p> + +<p>—Nunca mais o tornou a ver.</p> + +<p>—E como soube tudo isso? perguntou Magdalena.</p> + +<p>Balbina então contou-lhe quanto se havia passado +entre Jeronymo e a filha, não lhe omittindo a circumstancia +d'estas terriveis palavras: «esse homem é amado +pela filha do nosso protector.» Magdalena pensou +morrer. A nobreza d'alma d'aquelle anjo, deixando +se descer á sepultura, sem interromper o sentimento +que dominava o coração de Magdalena, a sua generosidade, +abandonando-lhe por assim dizer aquelle homem +que ella amava, e de quem tinha a certeza de +ser correspondida, tudo concorreu para que no seu +coração immenso tambem como o de Martha, se formassem +mil conjecturas tendentes todas á generosidade.</p> + +<p>«Morrerei, pensava ella, mas salvarei este anjo que<span class='pagenum'><a name="Page_189" id="Page_189">[Pg 189]</a></span> +tão nobremente se me sacrificou. E que m'importa a +vida? De que me serve este eterno martyrio? Vivam! +que vivam para serem muito felizes, e abençoarem a +minha memoria se eu concorrer como espero para a +sua ventura!»</p> + +<p>—Bem, ajuntou Magdalena voltando-se para Balbina, +vá ao quarto de Martha, veja o estado do seu espirito +e se ella estiver mais tranquilla, quero-lhe falar.</p> + +<p>A pobre Balbina sem comprehender o choque que +este encontro poderia produzir na alma de sua filha, +apressou-se em cumprir as ordens de Magdalena.</p> + +<p>«Parece que sobre a nossa familia peza uma grande +desgraça, continuou a filha de Tristão de Almeida +olhando para o pequeno horto. De que serve a enorme +riqueza de meu pae! A sua alegria, é sempre aquella +eterna mascara com que tenta encobrir as lagrimas +que o devoram na eterna solidão de sua alma. +Minha mãe, afeita a illudir, tem chegado a convencer-se +que é muito feliz, não passando d'uma desgraçada! +Eu, que tenho passado uma existencia de tristeza, no +momento em que pela primeira vez na vida me poderia +considerar venturosa, vem o destino, e corta-me +rapidamente o fio da minha felicidade. Olympia, graças +ao seu genio, é a unica fadada para a completa +tranquillidade da alma! Vive e come, pobre irmã, que +seria o mesmo que dizer-te: vive e sê feliz!</p> + +<p>«Falarei com Martha, e hoje mesmo lançar-me-hei +aos pés de meu pae, pedindo-lhe que d'esse dote dos +quatrocentos contos que tantas vezes me tem promettido +me conceda apenas cincoenta para dar a Martha, +e depois de os ver ambos casados, felizes, abençoando +a minha mão que lhe estreitou a sua ventura, eu +então, ou buscarei a morte, ou fechar-me-hei entre as +grades d'um convento!»<span class='pagenum'><a name="Page_190" id="Page_190">[Pg 190]</a></span></p> + +<p>N'este comenos entrou Balbina. Martha havia accordado +e esperava a visita de Magdalena.</p> + +<p>Esta sem mais hesitar, entrou no quarto da criança, +e, occultando a custo as lagrimas que a suffocavam, +lançou-se sobre o leito abraçando a pobre amiga.</p> + +<p>—Ha dias que desejo falar-lhe sobre um assumpto +muito importante, porém, a sua eterna reserva para +todas as pessoas que deveras a estimam, tem sido a +causa de me não ter atrevido, disse-lhe Magdalena. +Quem mais do que Martha possue corações verdadeiramente +dedicados? accrescentou ella. Não vê que está +offendendo a Deus que a protege? Porque pensa em +morrer, minha amiga? Não vê que morrendo, mataria +sua mãe, seu pae, e que fará soffrer a todos que se +interessam pela sua vida? Por que motivo se tem occultado +á sombra da sua agonia sem buscar um peito +amigo com quem desabafe os seus desgostos? Não tinha +minha irmã? Não me tinha a mim? á sua propria +mãe? Quem melhor do que ella, podia ser a confidente +dos seus segredos?</p> + +<p>—Segredos! Eu? murmurou Martha.</p> + +<p>—Sim, Martha; segredos e muito importantes. Não +queira negar-me o que sei.</p> + +<p>—Não tenho coisa alguma a negar, minha boa menina, +respondeu Martha, como se já não tivesse forças +para sustentar aquelle dialogo.</p> + +<p>Insciente do mal que as suas palavras poderiam influir +no espirito de Martha, Magdalena seguia apenas a +que o seu coração lhe ordenava.</p> + +<p>—Nunca amou ninguem, Martha? Seja sincera commigo. +Deposite as suas magoas n'este coração que lhe +quer tanto como se fosse sua propria irmã.</p> + +<p>Os olhos da creança inundaram-se de lagrimas. A +mentira jámais havia passado por seus labios! A infeliz +não sabia que responder.<span class='pagenum'><a name="Page_191" id="Page_191">[Pg 191]</a></span></p> + +<p>—Responda, minha irmã. Até hoje homem algum +lhe feriu esse coração? Jura-m'o?</p> + +<p>Haveria ainda algum vestigio de esperança no coração +de Magdalena ao insistir n'aquellas perguntas? Sabia-o +Deus e a sua alma!</p> + +<p>Martha sem responder agarrou-se ao pescoço de Magdalena +e desatou n'uma torrente de lagrimas.</p> + +<p>—Perdôe-me, disse ella emfim, mas eu não sabia +que o amava. Foi o primeiro homem que meus olhos +viram. Havia tanta bondade, tanta nobreza no seu caracter! +A quantas pessoas perguntei por meu pae, todas +me responderam brutalmente que não sabiam quem +elle era. Aterrada com a minha desgraça, encontrei-me +só, completamente só. Então, appareceu o sr. Manuel +de Mendonça; promptificou-se a procurar meu pae, +e encontrou-o. Desde esse dia, a sua imagem ficou-me +impressa na memoria. Quiz esquecêl-o, mas era-me +completamente impossivel! Dias depois, vi-o. O que eu +sentia na minha alma, foi crescendo, crescendo gradualmente, +até que reconheci que o amava. Quando +já era tarde foi então que comprehendi toda a loucura +do meu sentimento, avaliando ao mesmo tempo a immensa +distancia que nos separava. Um dia, descobri +que esse homem era amado por quem melhor do que +eu o merecia. A dôr quebrava-me a alma, mas a ninguem +revelava a minha angustia! Desde então, minha +boa amiga, entendi que o melhor era esperar resignada +o momento em que Deus me chamasse á sua divina +presença sem ter deixado no mundo um rastro de +ingratidão! Ame-o, sr.ª Magdalena! Amem-se, que são +dignos um do outro, e, se um dia se recordarem da +pobre Martha, vão ambos, rezem-lhe uma oração sobre +a sua sepultura, e lembrem-se da que está no reino +dos tristes pedindo a Deus pela sua ventura e pela felicidade +do sr. Manuel de Mendonça!<span class='pagenum'><a name="Page_192" id="Page_192">[Pg 192]</a></span></p> + +<p>—E quem te disse a ti, filha, que esse homem era +amado por mim?</p> + +<p>—O meu coração, respondeu Martha, inclinando a +cabeça no travesseiro.</p> + +<p>—Illudiu-te, e o tempo t'o provará, respondeu-lhe +Magdalena. Eu nunca o amei! accrescentou ella, empregando +n'estas ultimas palavras todo o valor da sua +alma. Eu só quero a tua felicidade, Martha.</p> + +<p>—A minha felicidade está no céu, respondeu a infeliz, +levantando os olhos para o tecto.</p> + +<p>—Enganas-te! exclamou Magdalena. A tua felicidade +está nos braços d'esse homem como a sua ventura +deve estar n'um coração nobre e generoso como o teu! +Já a mim mesma o prometti, irei hoje preparar o teu +bem estar. Agora, filha, accrescentou Magdalena, que +esses teus olhos se enxuguem para sempre, e que as +lagrimas desçam sobre os meus para jámais os abandonar. +E abraçando estreitamente a pobre creança, Magdalena +sahiu do quarto, e sem quasi se despedir de +Balbina, deixou a casa do operario e partiu para o hotel +Bragança!</p> +<p><span class='pagenum'><a name="Page_193" id="Page_193">[Pg 193]</a></span></p> +<div class="center"> + <a id="image-193"></a> + <a href="images/image-193h.png" > + <img src="images/image-193.png" + alt="É de joelhos que lh'o imploro! (pag. 213)" + title="É de joelhos que lh'o imploro! (pag. 213)" /> + </a> +<div class="caption">É de joelhos que lh'o imploro! (<i><a href="#Page_213">pag. 213</a></i>)</div> +</div> + + +<hr style="width: 65%;" /> +<p><span class='pagenum'><a name="Page_195" id="Page_195">[Pg 195]</a></span></p> + +<h1><a name="XXX" id="XXX"></a>XXX</h1> + + +<p>Ao chegar ao hotel de Bragança, Magdalena encontrou +sua mãe louca de alegria. Já tinha sabido por Tristão +e pelo visconde de Coruche, a mercê que sua magestade +acabava de lhe offerecer.</p> + +<p>—Um abraço minha filha! exclamou D. Maria Egypciaca. +El-rei, attendendo aos serviços que temos prestado +ao paiz durante a epidemia, acaba de encarregar +o conselheiro Poderosa, de perguntar a teu pae que +nome deseja dar ao titulo de conde que lhe vae ser +concedido. Fique portanto sabendo, accrescentou ella, +que d'aqui a pouco tempo será filha de uma condessa! +Que te parece Olympia?</p> + +<p>—Parece-me que sua magestade acaba de nos dispensar +uma grande honra, respondeu Olympia, para +dizer qualquer coisa a sua mãe.</p> + +<p>—Mas que vejo, Magdalena! disse D. Maria Egypciaca, +voltando-se para sua filha. Que tens tu? meu +Deus! que terrivel pallidez!</p> + +<p>—É tão grande a alegria que nossa mãe experimenta +só com a ideia do titulo, que nem sequer repa<span class='pagenum'><a name="Page_196" id="Page_196">[Pg 196]</a></span>rou +para o estado em que te encontras! Doe te a cabeça, +Magdalena?</p> + +<p>—Não, respondeu ella; comtudo, sinto-me alguma +coisa indisposta.</p> + +<p>—Pois faz a diligencia de te animares! É de suppôr +que venha cá hoje passar a noite o conselheiro Poderosa. +Já pedi a tua irmã quasi de mãos postas que +se fizesse mais amavel. Veremos como se porta.</p> + +<p>—Preciso falar-lhe, minha mãe, interrompeu Magdalena, +dirigindo-se a D. Maria Egypciaca.</p> + +<p>—É negocio grave, pelo que vejo! Succedeu alguma +novidade no hospital?</p> + +<p>—Não, por certo. É outro assumpto inteiramente +diverso.</p> + +<p>—Não podemos falar aqui mesmo? perguntou a futura +condessa.</p> + +<p>—Já disse a minha mãe que era uma coisa em particular.</p> + +<p>D. Maria Egypciaca, seguida por sua filha, entrou no +gabinete de Tristão, aonde varias vezes temos conduzido +o leitor.</p> + +<p>—Que queres pois? perguntou ella, reclinando-se +commodamente sobre uma cadeira á voltaire.</p> + +<p>—Venho prevenir minha mãe que desejo entrar para +um convento antes do prazo de um mez.</p> + +<p>—Estás doida, ou variada! exclamou ella como se +não acreditasse nas palavras que escutava.</p> + +<p>—Nem doida, nem variada! respondeu Magdalena. +É uma resolução de que ninguem será capaz de me +afastar.</p> + +<p>—Mas que te impelle a similhante determinação? +Explica-m'o. Quem melhor do que tua mãe poderá ser +tua confidente.</p> + +<p>—Basta que o saiba Deus, em cujos braços me quero +occultar, respondeu-lhe serenamente Magdalena.<span class='pagenum'><a name="Page_197" id="Page_197">[Pg 197]</a></span></p> + +<p>—Esta rapariga enlouqueceu! acudiu D. Maria.</p> + +<p>—Já respondi a minha mãe que não estava louca, +nem tão pouco variada, accrescentou Magdalena sentando-se +no sophá.</p> + +<p>—Agora que, escudadas por um titulo, vamos brilhar +como ninguem na sociedade, é que te queres retirar +a um convento?</p> + +<p>—Quero agradecer ao Senhor os beneficios que lhe +devo, recolhendo-me sob os tectos da sua habitação.</p> + +<p>—Jámais t'o consentiria, e muito menos teu pae.</p> + +<p>—Torno a dizer a minha mãe, que pessoa alguma +poderá impedir a minha resolução.</p> + +<p>—Mas que pretendes, filha? Amas alguem? Receias +que teu pae se opponha á tua vontade? Fala, fala por +Deus, mas não me atormentes! Eu que esperava anciosa +a tua vinda para te participar a alegria em que +estavamos! Que esperava, emfim, passar uma noite +agradavelmente na companhia do visconde e do conselheiro +Poderosa, o encarregado por sua magestade +de nos offerecer o titulo.</p> + +<p>—Não queria falar em coisa alguma com meu pae, +sem primeiro lhe dizer as minhas intenções, ajuntou +Magdalena com um sangue frio imperturbavel.</p> + +<p>—Ah! exclamou D. Maria Egypciaca, levantando-se +rapidamente da poltrona. Comprehendo agora que não +eram infundadas as desconfianças de teu pae.</p> + +<p>—Que desconfianças? perguntou Magdalena.</p> + +<p>—Que amas...</p> + +<p>—Eu?</p> + +<p>—Tu, sim...</p> + +<p>—Quem? perguntou Magdalena tornando se cada vez +mais pallida.</p> + +<p>—O visconde de Coruche!</p> + +<p>—Que testemunho! Já disse uma vez a minha mãe, +que nunca amei, nem seria capaz de amar o visconde.<span class='pagenum'><a name="Page_198" id="Page_198">[Pg 198]</a></span></p> + +<p>—Assim me queres convencer...</p> + +<p>—Nunca tentei illudir pessoa alguma, e muito menos +a meus paes.</p> + +<p>—Então outro homem?</p> + +<p>—Não posso amar! respondeu Magdalena cada vez +mais perturbada.</p> + +<p>N'este momento abriu-se a porta do gabinete, e entrou +Tristão de Almeida.</p> + +<p>Ao contemplar a physionomia de Magdalena, a sua +filha predilecta, o pobre pae sentiu um estremecimento +que lhe toldou a côr do rosto! Julgou-a atacada pela +febre.</p> + +<p>—Saberás, disse D. Maria Egypciaca, que n'um dia, +para nós de tanto regozijo, a tua filha...</p> + +<p>—O quê? perguntou Tristão, voltando-se para sua +mulher.</p> + +<p>—Quer recolher-se a um convento?! respondeu +D. Maria.</p> + +<p>—Recolher-se a um convento!? perguntou Tristão +como se não acreditasse em similhantes palavras. Recolher-se +a um convento! accrescentou elle, voltando-se +para Magdalena. Tu, filha da minha alma? Abandonares-me? +Tu que és a unica ventura da minha vida? +Mata-me primeiro, e depois, faze o que te aprouver! Sabes +o que significa essa palavra «deixares me!» Ignoras +que só tu me tens sustido a existencia? Não conheces +inteira a minha vida? Não te contei todos os +sacrificios que tenho feito por tua causa? Desconheces +o que fiz para te ganhar um patrimonio; para ti, só +para ti, que és a vida da minha vida? Deixares-me! +quando a existencia começa a sorrir-me... quando os +meus cofres cheios de ouro se despejariam ao teu mais +pequeno capricho? Deixares-me quando a gloria desce +sobre a nossa familia, não digo por esse titulo que não +passa de uma miseria, mas pelo que temos feito por<span class='pagenum'><a name="Page_199" id="Page_199">[Pg 199]</a></span> +esses desgraçados. Se amas alguem, bom ou mau, rico +ou pobre, dize m'o, e farei tudo para me não separar +do teu lado. Se fôr bom, abraçal-o-hei, se mau, tu o +tornarás bom, Magdalena! Pobre, o meu ouro o fará +enriquecer, e tu verás cumpridos os teus desejos. Mas +deixar-te? Nunca, torno a repetir t'o!</p> + +<p>—A minha resolução é inabalavel; comtudo, antes +d'isso, tenho um grande favor a pedir lhe:</p> + +<p>Tristão parecia attendel-a sem consciencia de vida.</p> + +<p>—Segundo meu pae muitas vezes m'o tem dito, o +meu dote é de quatrocentos contos?...</p> + +<p>—O teu dote é tudo quanto eu tenho, Magdalena, +respondeu-lhe Tristão, e se ainda mais quizeres, accrescentou +elle, mais ainda serei capaz de te adquirir.</p> + +<p>—Peço-lhe portanto um favor, meu pae.</p> + +<p>—Dize.</p> + +<p>—É que d'esse dinheiro, disponha de cincoenta contos +para eu poder dotar uma amiga que tenho, se porventura +ella resistir á enfermidade que a anniquila.</p> + +<p>—Terás, não cincoenta contos de réis para essa amiga, +mas cem, duzentos ou aquillo que te aprouver! Porém, +abandonares me, nunca! Queres esse dinheiro? +Ámanhã; hoje; agora mesmo! Se o desejas, não tenho +mais do que ir buscal-o a casa do meu banqueiro...</p> + +<p>É que esse homem perverso por instincto, o unico +sentimento grande que havia experimentado na vida +era o amor por sua filha!</p> + +<p>—Juras me que não abandonas teu pae? accrescentou +elle pegando nas mãos de Magdalena e levando-as +junto ao coração.</p> + +<p>—Juro que não abandonarei meu pae, respondeu +Magdalena apertando-o nos braços!</p> + +<p>—Parece impossivel! disse Olympia, abrindo ao mesmo +tempo a porta do gabinete. Ha mais de dez minu<span class='pagenum'><a name="Page_200" id="Page_200">[Pg 200]</a></span>tos +que está a sopa na mesa, accrescentou voltando-se +para Magdalena.</p> + +<p>—Já vamos, respondeu esta.</p> + +<p>—Ah! temos lagrimas! ajuntou Olympia sahindo do +gabinete.</p> + +<p>—E quem é essa pessoa que tu queres dotar, Magdalena? +perguntou Tristão depois de alguns momentos de +silencio.</p> + +<p>—É Martha, a filha de Jeronymo.</p> + +<p>—Conta com esse dinheiro, respondeu Tristão.</p> + +<p>—Obrigada, disse lhe Magdalena. Agora estou mais +tranquilla, e, dando o braço a Tristão, sahiram do gabinete, +seguidos por D. Maria Egypciaca, e dirigiram-se +á casa do jantar.</p> + +<hr class="bookstyle"/> + +<hr class="bookstyle"/> + +<p>Apresentado pelo visconde, ás oito horas da noite, +entrou o conselheiro Poderosa.</p> + +<p>O visconde ao notar a pallidez de Magdalena, olhou +de soslaio para o conselheiro, como se lhe indicasse o +soffrimento que se lhe notava no semblante.</p> + +<p>Poderosa sorriu se! Depois, ao vêr a obesidade da +irmã de Magdalena, o rosado das suas faces, e toda +aquella economia exhalando vida e saude, pensou de +si comsigo que era essa a unica mulher que lhe convinha.</p> + +<p>Depois das apresentações do estylo, o conselheiro +sentou-se junto do magnate para lhe falar ácerca da +missão de que sua magestade o tinha encarregado.</p> + +<p>No entretanto, o visconde, proximo de D. Maria Egypciaca, +entretinha-se com a futura titular, discutindo sobre +o nome que devia juntar-se ao titulo.</p> + +<p>—Minha senhora, dizia-lhe o visconde, eu não tenho +a mais leve desconfiança que seu marido lhe usurpe o +direito da escolha. O que depende do bello pertence a<span class='pagenum'><a name="Page_201" id="Page_201">[Pg 201]</a></span> +vossa excellencia, queira vossa excellencia lembrar-se +do nome que deve ter esse titulo, accrescentava elle +olhando significativamente para Magdalena, nos momentos +em que por acaso encontrava os olhos do conselheiro.</p> + +<p>N'este comenos, o conselheiro, que acabava de falar +com Tristão, approximou-se de D. Maria Egypciaca e do +visconde.</p> + +<p>A conversação correu animadissima até ás onze horas +da noite.</p> + +<p>Seguindo as instrucções do visconde, o conselheiro +portou-se bizarramente no tocante a dissertações culinarias, +falando sempre com muito acerto sobre os diferentes +generos de cosinha.</p> + +<p>O coração de Olympia, ou, para melhor dizer o estomago +de Olympia, começou desde esse momento a palpitar +pelo joven conselheiro, e a cabeça, que tanta relação +tem com essa viscera, principiou tambem a comprehender +que era o conselheiro o unico marido que +lhe convinha.</p> + +<p>Ás onze horas, retiraram-se o conselheiro e o visconde, +combinando ambos com Tristão de Almeida a +hora para no dia seguinte se encontrarem, a fim de se +decidir o nome que devia ser escolhido para o titulo.</p> + +<hr class="bookstyle"/> + +<p>D'ali a duas horas, Olympia resonando profundamente, +via em sonhos um lauto banquete, e, a seu lado, +com a farda de conselheiro, aquelle que na sua vida +lhe tinha proporcionado o ensejo de se convencer +que no seu todo havia uma outra viscera sem ser o estomago.</p> + +<p>Magdalena, com o rosto encostado aos vidros da janella, +contemplava os astros, adivinhando em cada um +d'elles o rosto grave e melancholico de Manuel de Mendonça.<span class='pagenum'><a name="Page_202" id="Page_202">[Pg 202]</a></span></p> + + + +<hr style="width: 65%;" /> +<h1><a name="XXXI" id="XXXI"></a>XXXI</h1> + + +<p>No dia seguinte á entrevista do conselheiro, á mesma +hora que este e o visconde se preparavam para ir +falar com Tristão, Manuel de Mendonça resolvia procurar +informações de Martha.</p> + +<p>—Se tudo quanto te disse aquella infame beata, não +fosse mais do que uma calumnia... pensava Manuel +ao mesmo tempo que o proferia a Mascatudo.</p> + +<p>—Póde muito bem ser que tal aconteça, respondia-lhe +o marinheiro. Em todo o caso, se eu fosse ao sr. +Manuel de Mendonça...</p> + +<p>—Que fazias? acudiu rapidamente o capitão.</p> + +<p>—Ia saber d'aquella pobre menina.</p> + +<p>—Tomarei o teu conselho. Vou. Não sei o que me +adivinha o coração; porém, ou eu me illudo muito, ou +Martha está innocente como os anjos.</p> + +<p>—Estou da sua opinião. No que o senhor fez mal, foi +em acreditar nas primeiras palavras d'essa mulher. Se +eu sei, tinha-lhe occultado tudo quanto a seu respeito +ouvi dizer.</p> + +<p>—Não te arrependas, Mascatudo; nos teus casos, +teria feito o mesmo.<span class='pagenum'><a name="Page_203" id="Page_203">[Pg 203]</a></span></p> + +<p>—E se essa mulher não passasse de uma infame +mentirosa?</p> + +<p>—E se tudo quanto a tia Monica te disse fosse verdadeiro? +Que remorsos não terias n'este momento, se +me tivesses dito que a conducta de Martha era irreprehensivel?</p> + +<p>—Isso lá é que é verdade, sr. Manuel de Mendonça. +Em todo o caso, tudo se poderá hoje descobrir. Se +o senhor consentisse que eu fosse em sua companhia...</p> + +<p>—Da melhor vontade e até me fazes muito favor.</p> + +<hr class="bookstyle"/> + +<hr class="bookstyle"/> + +<p>Em menos de um quarto de hora, Manuel de Mendonça +acompanhado por Mascatudo, desembarcava na +rocha do conde de Obidos e, subindo a rampa, dirigia-se +para a rua do Meio.</p> + +<p>—Se lhe parece, disse Mascatudo ao chegarem á +rua das Praças, vamos á tenda em que lhe falei. O +caixeiro, que já é meu conhecido, póde nos dar mais +algumas informações.</p> + +<p>—Confesso-te que me vae custando esta espionagem, +respondeu placidamente Manuel de Mendonça.</p> + +<p>Seria a delicadeza da sua alma, ou o receio de saber +alguma circumstancia menos favoravel ácerca da +vida intima de Martha, que fazia com que o maritimo +fugisse a mais investigações?</p> + +<p>Deixaremos isto ao juizo da intelligente leitora, que +para casos de tal monta não nos julgamos habilitados.</p> + +<p>Ao chegar defronte da casa onde habitava a filha do +operario, Manuel de Mendonça estremeceu. Lembrou-se +da noite em que pela primeira vez a encontrára, +quando ella com as supplicas de piedade lhe pediu +entre lagrimas que a ajudasse a procurar seu pae. Logo, +recordou-se das duas ou tres vezes que a vira no<span class='pagenum'><a name="Page_204" id="Page_204">[Pg 204]</a></span> +hotel Bragança, quando ainda as boccas maliciosas +não se haviam aberto para lhe cuspir o fel da +maledicencia. Em toda a pureza angelica da sua castidade, +Martha desenhava-se-lhe deante dos olhos, +como muitas e muitas vezes a imagem grata de sua +mãe lhe apparecia por entre as nevoas da tarde, +quando a galera, sulcando as aguas do oceano, o conduzia +a estranhos climas onde nem um só coração amigo +se lhe approximava.</p> + +<p>Mascatudo comprehendeu-lhe o soffrimento.</p> + +<p>—Que devemos fazer? perguntou Manuel.</p> + +<p>—Sondar estes baixios, e se o rumo não fôr perigoso, +seguiremos a nossa derrota, respondeu Mascatudo.</p> + +<p>N'este momento passava uma carruagem.</p> + +<p>Manuel olhou instinctivamente para dentro do trem.</p> + +<p>Ao mesmo tempo, o cocheiro como se já estivesse +prevenido, estacou os cavallos.</p> + +<p>Era Magdalena que vinha dentro da carruagem!</p> + +<p>Collocando a cabeça fóra do postigo, a filha de Tristão +fez um aceno a Manuel para que se approximasse.</p> + +<p>—Necessito falar-lhe quanto antes, acudiu ella rapidamente, +dirigindo se ao maritimo, que a contemplava +com um gesto de espanto impossivel de descrever. +Provavelmente, accrescentou ella, tenciona ir ver a +pobre Martha; não o faça sem primeiro me falar.</p> + +<p>—Estou ás ordens de vossa excellencia, respondeu +Manuel de Mendonça, reconhecendo n'esse momento +a filha de Tristão de Almeida.</p> + +<p>—Mas aqui é inteiramente impossivel por causa da +visinhança, accrescentou ella, com uma voz tremula e +assustada.</p> + +<p>—Dir-me-ha então?... perguntou Manuel.</p> + +<p>—Dirija-se ao passeio da Estrella. Espero-o na mon<span class='pagenum'><a name="Page_205" id="Page_205">[Pg 205]</a></span>tanha; +e antes que Manuel tivesse tido tempo de reflectir, +Magdalena falou ao cocheiro, e os cavallos partiram +n'um trote largo, caminho da rua dos Navegantes.</p> + +<p>Manuel ficou como assombrado! Não sabia que pensar! +Aquella mulher, que na ante-vespera o estivera +olhando por um telescopio, seria a confidente dos amores +de Martha, ou seria ella mesma que o amava? +Aquella insolita maneira de o avisinhar; a perturbação +das suas palavras; a visivel pallidez do rosto, que +augmentava á proporção que os seus olhos o contemplavam, +tudo concorria para que o maritimo ficasse +como abysmado.</p> + +<p>—Que foi isso? perguntou Mascatudo, ao notar a +profunda perturbação de Manuel de Mendonça.</p> + +<p>Manuel contou-lhe o que se havia passado.</p> + +<p>—E que tenciona fazer? perguntou Mascatudo.</p> + +<p>—Ir immediatamente para o passeio da Estrella. +Que te parece?</p> + +<p>—Que vá quanto antes, respondeu Mascatudo.</p> + +<p>Sem mais hesitação, Manuel de Mendonça entrou na +rua da Bella Vista, e seguiu para o passeio da Estrella.</p> + +<p>—Espera-me aqui junto ao lago, disse elle a Mascatudo +ao entrarem as portas do passeio.<span class='pagenum'><a name="Page_206" id="Page_206">[Pg 206]</a></span></p> + + + +<hr style="width: 65%;" /> +<h1><a name="XXXII" id="XXXII"></a>XXXII</h1> + + +<p>Espera-o, martyr! Unge-lhe o peito com o divino balsamo +do teu nobre sacrificio! Lagrimas misericordiosas +foram as tuas, derramadas sobre a face da pobre +virgem! Vae, infeliz; fere, profunda, arranca uma por +uma as fibras do coração, e que o sangue que d'ahi te +gotejar, lavando as nodoas do futuro conde lhe purifique +a alma para um dia entrar no reino dos justos com +o passaporte de uma retribuição!</p> + +<hr class="bookstyle"/> + +<hr class="bookstyle"/> + +<p>Manuel subiu á montanha.</p> + +<p>Magdalena não faltára.</p> + +<p>—Venho cumprir com as ordens de vossa excellencia, +disse Manuel de Mendonça, approximando-se.</p> + +<p>—Ah! respondeu ella, como se despertasse de um +sonho. E accrescentou, visivelmente perturbada: realmente, +deve estranhar o meu proceder, porém, uma +circumstancia grave e muito grave me obrigou a procural-o +hoje mesmo. Tracta-se de salvar uma pessoa +cuja vida me interessa.<span class='pagenum'><a name="Page_207" id="Page_207">[Pg 207]</a></span></p> + +<p>—Estou ás ordens de vossa excellencia para tudo +quanto me fôr possivel.</p> + +<p>—Sabe que tem estado á morte a filha de Jeronymo?</p> + +<p>—Não o sabia, minha senhora, respondeu Manuel +começando tambem a perturbar-se.</p> + +<p>—Ha quinze dias que a infeliz, deitada sobre o leito +da agonia, olha para o céu que lhe pertence. Hontem, +que foi a ultima vez que lá estive, o medico sahiu completamente +desanimado. A sua enfermidade é menos +physica do que moral, e só á ultima hora lhe podemos +descobrir a causa.</p> + +<p>—E essa causa é?... perguntou Manuel.</p> + +<p>—Amar um homem que a tem desprezado! Aquelle +anjo, occultando a todos o sentimento que a devora, +reclinou se sobre a sua sepultura, aguardando apenas +que lh'a venham abrir para desprender a alma a Deus!</p> + +<p>Os olhos de Manuel humedeceram se de lagrimas. +Havia tanto sentimento nas palavras de Magdalena, a +sua voz, ainda ha pouco perturbada, tornára-se tão firme +e tão segura, que elle não pôde ver em Magdalena +mais do que uma amiga verdadeira e dedicada de +Martha.</p> + +<p>—E onde existe esse homem que a póde salvar?</p> + +<p>—Onde existe?... accudiu Magdalena com uma expressão +que principiava a denunciar-lhe o seu estado. +Esse homem... accrescentou ella, é... o sr. Manuel +de Mendonça!</p> + +<p>—Eu! exclamou o maritimo n'um transporte de indescriptivel +alegria.</p> + +<p>—Sim, continuou Magdalena. O senhor, em cujo espirito +adivinhou inteira a sua felicidade. O senhor a +quem uma vez encontrou na existencia para nunca +mais o esquecer! Mais tarde, o seu coração candido e +inexperiente fez-lhe conhecer que o amava. O seu nascimento, +a humildade de educação, a pobreza de seus<span class='pagenum'><a name="Page_208" id="Page_208">[Pg 208]</a></span> +paes, tudo emfim concorreu para que Martha não se +atrevesse a declarar a pessoa alguma o amor que o senhor +lhe tinha inspirado. Emquanto teve forças, lutou, +mas um dia, exhausta, a pobre Martha cahiu como essas +flores delicadas que não têem força bastante para +supportarem a furia dos elementos. Hontem, finalmente, +abriu-me inteira a sua alma, alma candida e serena +como a dos anjos que hoje lhe tecem o seu diadema +de martyr! Sem lhe descortinar as minhas ideias, +resolvi commigo mesma de o procurar, e pedir-lhe que +salve da morte a minha pobre amiga. Não sei quem +v. s.ª é, porém, julgo-o um homem de bem e capaz +de fazer a felicidade de qualquer mulher.</p> + +<p>Pallida, com as fontes palpitantes e os olhos afogueados +por aquella immensa lucta em que a alma se lhe +debatia, Magdalena parecia elevar-se nas azas de uma +inspiração sublime! Levantando depois a voz que principiava +a enfraquecer-lhe, Magdalena pediu a Manuel +que lhe concedesse a sua mão para a filha do operario.</p> + +<p>Manuel não respondeu!</p> + +<p>E no emtanto as aves chilreando por entre as ramas +dos arvoredos vinham como n'um concerto infernal +soar aos ouvidos da pobre Magdalena!</p> + +<p>—Que me diz, sr. Manuel de Mendonça? Hesita? +Não a ama? É possivel? Quem póde deixar de amar +aquelle anjo?! exclamou Magdalena dando emfim livre +curso ás suas lagrimas.</p> + +<p>—Mas porque chora? perguntou Manuel de Mendonça +dirigindo-se meigamente para Magdalena.</p> + +<p>—Porque choro? Porque avalio a dôr de Martha! +Porque a sinto tão viva e tão penetrante como ella que +a soffre! Porque choro? Porque sei quanta agonia ha, +n'esse amar em silencio, o homem que nunca póde ser +nosso!<span class='pagenum'><a name="Page_209" id="Page_209">[Pg 209]</a></span></p> + +<p>—Pelo que vejo... ama alguem? perguntou Manuel +com voz tremula.</p> + +<p>—Já amei alguem... sim... mas ha muito tempo. +Hoje não, sr. Manuel de Mendonça! Hoje, toda a minha +vida cifra-se apenas n'uma missão que tenho a cumprir.</p> + +<p>—E essa missão, é?..</p> + +<p>—Vel-o casado com Martha. Vão ambos ser muito +felizes. Ella ama-o tanto, tanto como eu seria...</p> + +<p>Aqui a voz ficou-lhe embargada n'uma torrente de +lagrimas.</p> + +<p>E as avesinhas chilreando por entre a moita dos junquilhos +que emmolduravam a montanha, acordavam no +espirito de Magdalena um como concerto infernal!</p> + +<p>Finalmente, Manuel de Mendonça prometteu-lhe que +pediria a Jeronymo a mão de sua filha.</p> + +<p>Apertando-lhe fortemente a mão, Magdalena despediu-se +do maritimo e saiu do passeio.</p> + +<p>Como aturdido por aquelles estranhos acontecimentos, +Manuel dirigiu-se para o sitio onde Mascatudo o +esperava, e, saindo tambem do passeio dirigiram-se +pela rua da Boa Morte.</p> + +<p>—Para onde vae, sr. Manuel de Mendonça, perguntou +Mascatudo vendo que o seu capitão seguia a direcção +da estrada do cemiterio dos Prazeres.</p> + +<p>—Preciso de ar livre, respondeu-lhe Manuel. Escalda-me +a febre. Para que haviamos de ter vindo a Lisboa?</p> + +<p>Era tal a agitação do seu espirito, que Mascatudo +nem se atreveu a perguntar-lhe o resultado da entrevista +que tivera com aquella senhora.</p> + +<p>O mais que entre ambos se passou foi um mysterio. +Soube-o ella e Manuel de Mendonça. Agora, quando estas +paginas escrevemos, Magdalena dorme o somno da +morte. Manuel, discreto como a sepultura da pobre +amiga, seria incapaz de o revelar.<span class='pagenum'><a name="Page_210" id="Page_210">[Pg 210]</a></span></p> + + + +<hr style="width: 65%;" /> +<h1><a name="XXXIII" id="XXXIII"></a>XXXIII</h1> + + +<p>Ao metter-se no trem, Magdalena dissera ao cocheiro +que parasse na rua do Meio.</p> + +<p>Ao voltar para a esquerda da rua da Bella Vista, +ouviu que a chamavam. Era Monica!</p> + +<p>Magdalena mandou parar o trem e a beata approximou-se.</p> + +<p>—Ora aqui a temos outra vez com os olhos arrasados +de lagrimas! exclamou ella. São essas as promessas +que me tem feito? Pois, minha querida menina, +accrescentou a velha, quanto estimo tel-a encontrado! +Fique vossa excellencia sabendo, que o amigo do meu +sobrinho, com quem me vou encontrar, ficou de me +dizer hoje tudo <i>tim tim por tim tim</i>!</p> + +<p>—Pois, sr.ª Monica, respondeu-lhe Magdalena, tirando +duas libras do <i>porte-monnaie</i>, e entregando-as +na mão da beata, escusa de se incommodar mais por +minha causa.</p> + +<p>—Ora essa, minha senhora! accudiu rapidamente a +velha, fechando ao mesmo tempo a mão onde as libras +se occultavam. Dar-se ha o caso, continuou ella, que<span class='pagenum'><a name="Page_211" id="Page_211">[Pg 211]</a></span> +não esteja satisfeita com os meus serviços? Se tal succede, +ralhe-me, ralhe-me muito mas não me tracte por +essa forma.</p> + +<p>—Não é isso, tia Monica: é que já sei tudo quanto +tinha que saber; e, fazendo um signal ao cocheiro, +fez com que o trem seguisse a sua direcção, deixando +a beata estupefacta pelo que vinha de lhe acontecer.</p> + +<p>Ter-lhe-ia Manuel de Mendonça contado a historia dos +seus amores? Ter-lhe-ia narrado o que se dera entre +Mascatudo e a beata? Ignoramol-o!</p> + +<p>O trem chegou á porta de Jeronymo. Ao apear-se, +Magdalena foi recebida de braços abertos por Balbina +e pela sua amiga.</p> + +<p>Como era de esperar, Martha n'aquella noite havia +peiorado!</p> + +<p>—Venho prevenil-a, que ámanhã antes do meiodia, +alguem virá pedir-lhe a mão de sua filha, disse Magdalena. +Agora mesmo acabo de estar com essa pessoa. +Quando prometto, cumpro, embora vá n'isso a +existencia.</p> + +<p>A gratidão não tem phrases! Balbina e Marianna, +abraçando-se a Magdalena, confundiam entre as suas, +as lagrimas da pobre martyr!</p> + +<p>—Agora, murmurou Magdalena desembaraçando-se +das suas protegidas, cumpre-me falar com Martha.</p> + +<p>—Mas, é possivel que um senhor d'aquella ordem +deseje casar-se com a filha de um mestre de obras +perguntou Balbina com as lagrimas nos olhos.</p> + +<p>—Almas como as de Manuel de Mendonça, olham apenas +para a virtude e nunca para o nascimento, respondeu +Magdalena.</p> + +<p>—Manuel de Mendonça?! exclamou Marianna com +uma voz tremula e indecisa. E que edade tem esse +homem? E quem são os seus paes? ajuntou a pobre<span class='pagenum'><a name="Page_212" id="Page_212">[Pg 212]</a></span> +mulher approximando-se cada vez mais da filha de +Tristão de Almeida.</p> + +<p>—Infelizmente, não tem paes, respondeu Magdalena.</p> + +<p>—E sabe vossa excellencia quem elle é, perguntou +Marianna.</p> + +<p>—Sei.</p> + +<p>—Oh! por piedade! diga m'o! Dar-se-ha o caso +que seja...</p> + +<p>—Quem? perguntou Magdalena visivelmente perturbada.</p> + +<p>—O meu filho, que ha vinte e tres annos supponho +morto!</p> + +<p>—Como se chama elle? perguntou Magdalena.</p> + +<p>—Manuel de Mendonça Athayde, respondeu a velha +com uma voz enfraquecida.</p> + +<p>—E seu marido?... como se chamava? ajuntou +Magdalena.</p> + +<p>-Alvaro de Mendonça...</p> + +<p>—Justiça de Deus! exclamou a filha de Tristão, +caindo sobre o canapé, e occultando o rosto entre as +mãos.</p> + +<p>—Oh! mas por Deus não me torture! bradou Marianna, +lançando-se aos pés de Magdalena. Diga-me se +é elle o meu querido filho! É; não ha duvida! Essa +sua perturbação... Vive ainda o meu Manuel, o meu +querido filho da minh'alma? Não a deixo, minha senhora, +não a deixo emquanto me não contar tudo!</p> + +<p>—É o seu filho! respondeu Magdalena levantando-se +com uma serenidade heroica. Deus que nunca desamparou +os que são verdadeiramente bons, concedeu-lhe +em mim o instrumento da sua justiça, e n'elle a +consolação para a sua velhice. Agora sr.ª D. Marianna, +ajuntou ella lançando-se aos pés da velha, sou eu +quem lhe devolve o seu filho, que, em nome de Deus<span class='pagenum'><a name="Page_213" id="Page_213">[Pg 213]</a></span> +e em meu nome, lhe pedimos o perdão para um culpado! +Concede-m'o?</p> + +<p>Marianna não sabia que responder!</p> + +<p>—É de joelhos que lh'o imploro! ajuntou ella, collocando-se +deante da velha, e confundindo as suas vestes +de setim negro, com os andrajos da infeliz!</p> + +<p>—Eu vos perdôo de todo o meu coração! exclamou +D. Marianna de Mendonça cahindo sobre o chão. Mas a +quem perdôo eu? accrescentou a infeliz senhora, que +não pensava senão em ver seu filho!</p> + +<p>—Obrigada, disse Magdalena levantando D. Marianna, +e levando-a de encontro ao coração! Agora que <i>lhe</i> +perdoou, vou buscar seu filho, e trazel o aqui mesmo.</p> + +<p>Com uma physionomia alvar, Balbina contemplava toda +esta scena sem a comprehender.</p> + +<p>Magdalena fechou-se por alguns instantes no quarto de +Martha. Afinal sahiu, e, abraçando de novo as suas amigas, +entrou no trem, e seguiu para o hospital.</p> + +<p>No entretanto, Manuel de Mendonça descendo a calçada +das Necessidades dirigia-se para bordo.<span class='pagenum'><a name="Page_214" id="Page_214">[Pg 214]</a></span></p> + + + +<hr style="width: 65%;" /> +<h1><a name="XXXIV" id="XXXIV"></a>XXXIV</h1> + + +<p>«Felizmente, pensava Magdalena, Manuel de Mendonça +nem sequer desconfia que Tristão de Almeida foi Felix +Justino de Araujo e muito menos Domingos de Andrade. +Poderei conseguir tudo sem comprometter meu pae. +Vejamos; seriam quarenta, cincoenta contos... Pedir-lhe-hei +o meu dote, e será uma retribuição generosa! +Ao principio oppôr se-ha ao meu pedido, mas por ultimo, +não terá outro remedio senão acceder. Occultarei +tudo de minha mãe. Permitta Deus que o possa encontrar +no hospital. São estas as suas horas.»</p> + +<p>N'este momento, o trem chegava á rua de S. Francisco +de Paula. Ao entrar o portão, a primeira pessoa +que lhe appareceu, foi a criada de Olympia, dando lhe +os parabens não só pelo titulo que haviam concedido +a seu pae, como pelo lindo nome que elle tinha escolhido: +o conde de S. Luiz.</p> + +<p>Sem lhe prestar attenção alguma, Magdalena perguntou-lhe +apenas se alli estivera seu pae.</p> + +<p>—Ora essa! respondeu a criada de Olympia; acaba +agora mesmo de ir para o paço, afim de agradecer a +sua magestade.<span class='pagenum'><a name="Page_215" id="Page_215">[Pg 215]</a></span></p> + +<p>—E Olympia?</p> + +<p>—Sua irmã está lá em cima na casa de jantar a comer +umas gallinholas, que até dá nauseas a quem vê +similhante coisa! Mandou fazer umas torradas, e deitar +sobre ellas o miolo das tripas. Já viram maior porcaria? +E diz ella que é o melhor cozinheiro que tem +tido, e que faz pena que esteja no hospital!</p> + +<p>Magdalena subiu á casa do jantar, onde encontrou +sua irmã deliciando o paladar n'uma soberba torrada coberta +dos despojos ornithologicos d'aquella innocente gallinhola.</p> + +<p>—Já sabes o titulo que o papá escolheu? perguntou +Olympia.</p> + +<p>—Sei, respondeu Magdalena quasi sem lhe prestar +attenção.</p> + +<p>—É muito bonito! não achas?</p> + +<p>—Muito bonito!</p> + +<p>—Estiveste em casa de Martha?</p> + +<p>—Estive.</p> + +<p>—Vae melhor?</p> + +<p>—Muito melhor.</p> + +<p>—Não te offereço d'esta gallinhola porque é de suppôr +que não esteja ao teu gosto, disse Olympia dissecando +a <i>carcassa</i> da avesinha.</p> + +<p>—Agradeço, murmurou Magdalena deixando sua irmã, +e dirigindo-se para o terceiro andar d'onde dias +antes contemplava a galera de Manuel de Mendonça.</p> + +<p>Alli pôde emfim dar livre curso ás suas lagrimas!</p> + +<p>D'aquella janella por mais de uma vez, insciente da +cruel realidade, contemplára o Tejo, no Tejo a barca, +na barca o homem, no homem, tudo quanto havia de +mais valioso para o seu coração!</p> + +<p>Fôra d'alli que vira o seu primeiro desengano, quando +Manuel de Mendonça, afastando o oculo, lhe denunciava +não ser ella a pessoa que tão anciosamente buscava!<span class='pagenum'><a name="Page_216" id="Page_216">[Pg 216]</a></span></p> + +<p>Só, entregue a uma multidão de pensamentos, Magdalena +começou a planear o modo de seu pae restituir +os quarenta contos de réis extorquidos a D. Marianna +de Mendonça.</p> + +<p>Magdalena tinha sobejas provas de que a virtude +nem sempre havia adejado sobre o proceder de Felix +Justino de Araujo. Não ignorava que uma grande parte +da sua riqueza tinha sido adquirida em commercios illicitos, +porém, o que ella jamais suppozera, é que seu +pae tivesse sido capaz de um roubo.</p> + +<p>Juntem-se a estas grandes agonias, o infeliz amor +que lhe ia n'alma, e vossa excellencia que me lê, e, +cujo coração é egual ao de Magdalena, diga me se dôres +tamanhas podem caber em coração humano!</p> + +<p>Alli se demorou perto de meia hora. Depois, como +se um pensamento lhe acudisse rapidamente á imaginação, +a infeliz saiu d'aquelle quarto, lançando-lhe uma +ultima e dolorosa despedida!</p> + +<p>Ao descer ao segundo pavimento encontrou Olympia.</p> + +<p>—Que tens? perguntou esta ao notar a pallidez de +Magdalena.</p> + +<p>—Doe-me a cabeça.</p> + +<p>—Isso é fraqueza, respondeu Olympia. Assim estou +eu.</p> + +<p>Magdalena desceu ás enfermarias e depois de dar +as suas ordens, entrou no trem e mandou seguir +para Alcantara.</p> + +<hr class="bookstyle"/> + +<hr class="bookstyle"/> + +<p>«Disse-me que ia para bordo. Já lá deve estar. Mas +isto é uma loucura, pensava ella. Uma mulher da minha +edade ir procurar um homem a bordo do seu navio? +Embora! A minha consciencia está livre e tranquilla! +Não foi Deus quem predispoz todas estas circum<span class='pagenum'><a name="Page_217" id="Page_217">[Pg 217]</a></span>stancias, +servindo-se de mim para sua intermediaria? +Que poderei receiar?»</p> + +<p>Voltando-se para o cocheiro disse-lhe que parasse +na rocha do Conde de Obidos.</p> + +<p>Ao chegar ao boqueirão, Magdalena apeou-se, e dirigindo-se +aos catraeiros, pediu a um d'elles que a levassem +a bordo da galera Esperança.</p> + +<p>Todos queriam ser o primeiro a conduzil-a.</p> + +<p>Escolhendo o mais edoso, desceu a rampa e entrou +no bote.</p> + +<p>Que de poemas se agitavam em sua alma á medida +que se approximava da galera! Como ella, escrava +de um dever, ia para sempre abandonar a sua ventura!</p> + +<p>Restava-lhe apenas no meio dos seus infortunios, a +grata lembrança de devolver aos braços d'aquelle homem +a pobre mãe que elle tão anciosa e infructiferamente +havia buscado!</p> + +<p>A pouca distancia viu Manuel de Mendonça, de pé, +encostado á amurada. Com o rosto curvado sobre o +peito, olhava para as aguas da corrente, que vinham +no seu eterno movimento gemer de encontro á quilha +da embarcação.</p> + +<p>Ao ver aquelle bote que se lhe dirigia por estibordo, +reconheceu immediatamente a filha de Tristão de +Almeida, e, descendo a escada de corda, veiu recebel-a +no momento em que abordava á embarcação.</p> + +<p>—Preciso falar-lhe, disse Magdalena. E nem mesmo +subo, ajuntou ella, olhando tristemente para a galera.</p> + +<p>Manuel entrou para o bote, e Magdalena mandou que +remassem para o caes.</p> + +<p>Durante o curto espaço de tempo que levaram em +chegar á rocha, Magdalena não lhe dirigiu uma palavra.<span class='pagenum'><a name="Page_218" id="Page_218">[Pg 218]</a></span></p> + +<p>Manuel não sabia que pensar.</p> + +<p>Os catraeiros olhando-se mutuamente, conjecturavam +entre si, o que seria a causa d'aquelle mysterio.</p> + +<p>Chegaram finalmente á rocha.</p> + +<p>Ao subir as escadas, Magdalena voltou-se para Manuel +de Mendonça, ergueu o véu que lhe occultava o +rosto, e demorou-se fitando-o por alguns instantes.</p> + +<p>—Vim buscal-o tão apressadamente, porque lhe quero +dar o maior prazer que tem experimentado na sua +vida. A Providencia fez com que me encontrasse, para +lhe depositar nos seus braços tudo quanto tem de mais +precioso sobre a terra.</p> + +<p>Manuel contemplava-a sem comprehender uma palavra.</p> + +<p>—Não lhe offereço o meu trem; poder se-ia tornar +reparado, accrescentou ella; mas, o que lhe peço, é +que venha immediatamente a casa de Jeronymo para +onde me dirijo. E saltando para dentro do trem, mandou +ao cocheiro que seguisse para a rua do Meio.</p> + +<p>Metteu-se n'uma sege que passava n'aquelle instante +Manuel de Mendonça e acompanhou a carruagem de +Magdalena.</p> + +<p>Chegaram ao mesmo tempo á porta de Jeronymo.</p> + +<p>Magdalena foi a primeira a apear-se, e, entrando rapidamente +em casa de Jeronymo, dirigiu-se ao quarto +de D. Marianna de Mendonça.</p> + +<p>A pobre senhora lançou-se-lhe nos braços!</p> + +<p>—Venho cumprir a minha promessa, disse-lhe Magdalena. +Vae ver seu filho! O que lhe peço, é que tenha +valor para resistir a este lance! e, abrindo a porta +que communicava com a saleta, chamou em voz +alta por Manuel de Mendonça.</p> + +<hr class="bookstyle"/> + +<p><span class='pagenum'><a name="Page_219" id="Page_219">[Pg 219]</a></span></p><hr class="bookstyle"/> + +<p>Vêde a leôa a quem haviam roubado o filho, e que +o torna a colher entre as suas garras, e podereis avaliar +o que se passou n'aquella eternidade de sensações.</p> + +<hr class="bookstyle"/> + +<hr class="bookstyle"/> + +<p>Magdalena, de pé, com os olhos arrasados de lagrimas, +contemplava esta scena ao lado da mulher de +Jeronymo.</p> + +<p>Perto de cinco minutos esteve a pobre mãe agarrada +ao pescoço de Manuel de Mendonça! Ainda lhe parecia +impossivel aquella palpavel realidade! Desprendendo-se +emfim do collo de seu filho, D. Marianna lançou-se +aos pés de Magdalena, e, beijando-lh'os no transporte +de uma alegria assustadora, ergueu-se de novo +cingindo-a pela cintura e cobrindo-lhe a face de +beijos e lagrimas de gratidão!</p> + +<p>—Agora, disse Magdalena desembaraçando se de D. +Marianna, devemos attender ao estado de Martha. É +necessario prevenirmos todas estas circumstancias. Ter-nos-ha +ouvido?</p> + +<p>—Com certeza que não; e demais tem um somno +muito pesado, respondeu Balbina enxugando as lagrimas +que lhe rolavam pelo rosto.</p> + +<p>N'este momento, Martha chamava por sua mãe.</p> + +<p>Balbina e Magdalena dirigiram-se ao quarto da +doente.</p> + +<p>—Que voz foi essa que ouvi na saleta, minha mãe? +perguntou Martha sem notar a presença de Magdalena.</p> + +<p>—Era a minha voz, respondeu a filha de Tristão approximando-se +do leito e beijando-a na face.</p> + +<p>—A sua! exclamou ella. Eu suppunha...</p> + +<p>—O quê?</p> + +<p><span class='pagenum'><a name="Page_220" id="Page_220">[Pg 220]</a></span></p><p>—Que era...</p> + +<p>—A voz de Manuel de Mendonça? Não se illudiu. É +Manuel que vem hoje pedil-a a seu pae.</p> + +<p>Erguendo se n'um impeto de suprema vontade, Martha +lançou-se ao pescoço de Magdalena.</p> + +<p>Que lagrimas não foram as d'essas duas mulheres! +N'uma, o pranto consolador da alegria; na outra, lagrimas +que vinham do coração, abrazando-lhe as palpebras +n'um fogo do inferno!</p> + +<p>—Valor! disse Magdalena, soltando-se dos braços de +Martha, é necessario que se restabeleça para em breve +conceder a sua mão ao filho de D. Marianna de Athayde!</p> + +<p>—Ao filho de Marianna de Athayde! exclamou ella +sem comprehender uma palavra do que acabava de ouvir!</p> + +<p>—Sim, ao filho da sua amiga Marianna.</p> + +<p>—Então Manuel de Mendonça é...</p> + +<p>—Seu filho. Agora, cumpre-me dar ainda alguns passos +para resolver completamente a minha missão, e, +abraçando a sua protegida, Magdalena sahiu do quarto +e dirigiu-se á saleta aonde Manuel de Mendonça, ainda +preso nos braços de sua mãe, agradecia á Providencia +o ter-lhe devolvido tudo quanto elle tinha de mais caro +n'este mundo.</p> + +<p>Ao vel-a, D. Marianna lançou-se-lhe de novo ao pescoço +e cobriu-a de beijos!</p> + +<p>Manuel de Mendonça, que fixára o rosto entristecido +de Magdalena, cravou os olhos no chão, como receiando +que o trahisse o seu olhar.</p> + +<p>Teria elle comprehendido o que se passava no coração +de Magdalena?</p> + +<p>—Agora, disse Magdalena, retiro-me. Ámanhã sendo +meio dia, aqui estarei, por que tenho graves negocios +a tractar com vossa excellencia e com seu filho. Extendendo +a mão a este ultimo e a D. Marianna, Magdalena +retirou-se, caminho do hospital.<span class='pagenum'><a name="Page_221" id="Page_221">[Pg 221]</a></span></p> + + + +<hr style="width: 65%;" /> +<h1><a name="XXXV" id="XXXV"></a>XXXV</h1> + + +<p>Havia quinze dias que sahira o decreto concedendo +o titulo de «conde de S. Luiz» ao illustre e philanthropico +varão, que, com tanto e tanto afan, continuava a +espalhar as joias da sua caridade.</p> + +<p>A condessa, impando de orgulho e de vaidade, ora +se pavoneava pelas ruas mais concorridas da capital, +ora embocetada no palacio de S. Francisco de Paula, +aguardava o sequito das fidalgas caridosas, que, esquecendo +o amarellecido dos seus pergaminhos, iam, movidas +pela virtude da moderna titular, fazer antecamara +áquella que dias antes se chamava apenas D. Maria +Egypciaca.</p> + +<p>Graças ás repetidas instancias do seu amigo o visconde +de Coruche, Tristão de Almeida, ou, para falarmos +com mais propriedade, o conde de S. Luiz, fizera +um arrendamento a longo prazo de um magnifico palacio +em Buenos-Ayres, outr'ora pertencente aos marquezes +de...</p> + +<p>Encarregando-se por especial favor do que dizia respeito +ás cavallariças, o visconde, como homem enten<span class='pagenum'><a name="Page_222" id="Page_222">[Pg 222]</a></span>dido +na materia, fez acquisição de tudo quanto n'esse +genero havia de melhor.</p> + +<p>Tornou-se notorio o luxo d'aquella irreprehensivel +vivenda.</p> + +<p>Os fidalgos, que n'esse tempo—menos por necessidade, +do que pelo prazer de manifestarem aos quatro +ventos do céu o seu desamor pela archeologia—esbanjavam +sem dó nem piedade, os mais preciosos objectos +de arte, deparados nos empoeirados sotãos dos +seus castellos feudaes, correram atropellando-se ao escriptorio +do conde de S. Luiz, afim de ver qual seria o +primeiro a depositar nas mãos do magnate as nobres +reliquias dos seus preclarissimos antepassados. Não +tardou que o palacio do conde de S. Luiz se tornasse +n'um museu de antiguidades! Retratos houve de familia, +que foram jazer empilhados na estrebaria por não +lhes permittirem os salões o seu elevado porte.</p> + +<p>O conde, pagava tudo com prodiga generosidade, o +que lhe deu o triste resultado de alguem lhe metter um +collar de perolas falsas por barrocas, o que elle generosamente +acceitou e pagou, attendendo que esse mesmo +collar havia figurado no pescoço de um grande ministro +de um excelso monarcha.</p> + +<p>Juntem se a estas nobres qualidades, uma mesa esplendida, +e que o leitor avalie se a casa do conde de +S. Luiz seria ou não frequentada.</p> + +<p>O conselheiro Poderosa, graças ás ausencias do visconde, +de dia para dia se tornava mais sympathico para +Olympia, para o conde e para a condessa.</p> + +<p>Olympia adivinhava no conselheiro, não só um marido +exemplar, como um dedicado companheiro de +mesa, prompto sempre a affrontar qualquer ataque +apopletico por mais anormaes que fossem as epochas.</p> + +<p>O conselheiro comia e bebia por dez conselheiros, +o que era extremamente agradavel para Olympia, po<span class='pagenum'><a name="Page_223" id="Page_223">[Pg 223]</a></span>rém, +quando ella um dia notou que depois do jantar, +os olhos do seu futuro se fitaram brandamente n'uma +othomana que estava proxima, Olympia exultou de alegria, +e viu n'esse homem, o unico individuo capaz de +fazer a sua felicidade: comer e dormir, acordar e comer!</p> + +<p>Olympia esperava apenas que o conselheiro a pedisse +a seu pae.</p> + +<p>A condessa sabia d'estes amores. Por mais de uma +vez tinha dito a Olympia, que pela sua parte não encontraria +a menor opposição.</p> + +<p>Exceptuando duas pessoas, todos alli viviam felizes: +essas duas, eram Magdalena e o conde de S. Luiz! O +que entre ambos se havia passado, sabia-o apenas +Deus, que ajudára a primeira nos seus pedidos e escutara +as promessas do segundo!</p> + +<p>Quanto á condessa de S. Luiz, ou porque a sua alegria +não lhe tivesse dado tempo a reflectir na tristeza +do conde e de sua filha ou porque inteiramente lhes +não desse importancia, não cuidava senão em distrahir +os seus convidados.</p> + +<p>Aos almoços, succediam-se os jantares, a estes os +bailes, de forma que o palacio do conde de S. Luiz +tornou se em poucos dias o centro da melhor sociedade +de Lisboa.</p> + +<p>Debalde tentavam Magdalena e seu pae, encobrir a +dôr que lhes roubava a felicidade. Este ultimo, vendo +constantemente deante dos olhos a imagem grave e severa +de D. Marianna de Mendonça, recordando lhe o +seu passado; Magdalena lembrando-se do homem que +teria feito a ventura da sua alma, mas a cujo sacrificio +tinha prendido um juramento!</p> + +<hr class="bookstyle"/> + +<p>Magdalena no dia immediato áquelle em que entregara +Manuel de Mendonça nos braços de sua mãe, fe<span class='pagenum'><a name="Page_224" id="Page_224">[Pg 224]</a></span>chada +com seu pae no escriptorio do hospital, communicára-lhe +tudo quanto dizia respeito á familia de Athaide +de Mendonça.</p> + +<p>O conde de S. Luiz, que não tinha segredos para +sua filha, abrindo-lhe inteira a sua alma, desenhára-lhe +em traços rapidos o quadro inteiro da sua vida, +accrescentando-lhe, que por ella e só por ella havia +incorrido em certas <i>coisas</i> de que se arrependia profundamente.</p> + +<p>Magdalena exigiu-lhe uma restituição d'aquelle dinheiro +extorquido á viuva, compromettendo-se a preparar +tudo de forma que a opinião publica ainda mais +se levantasse em favor de seu pae, vendo-o entregar +cem ou duzentos contos de réis, á filha d'esse homem, +para cuja morte involuntariamente havia concorrido.</p> + +<p>Concordando plenamente em tudo quanto Magdalena +exigiu, pediu apenas a sua filha o maior segredo para +com a condessa e Olympia, accrescentando a isto a +maior brevidade possivel no casamento, o qual, auctorizando +aquella restituição, lhe ia devolver a paz ao +espirito.</p> + +<p>Abraçando seu pae, Magdalena assegurou-lhe que +partiria immediatamente para casa de Martha, afim de +se oferecer para madrinha do seu casamento. Com +effeito, ás duas horas da tarde, e não ao meio dia como +havia combinado com Manuel de Mendonça, Magdalena +entrou em casa do operario.</p> + +<p>Martha havia passado a noite mais tranquilla. O doutor +não se tinha illudido; a sua doença era menos +physica do que moral.</p> + +<p>Desde as onze horas da manhã que Manuel de Mendonça +estava ao lado de sua mãe. Já na vespera tinha +visto Jeronymo, e já lhe havia pedido a mão de sua +filha.</p> + +<p>Magdalena entrou no quarto de Martha, e, dando-lhe<span class='pagenum'><a name="Page_225" id="Page_225">[Pg 225]</a></span> +os parabens, offereceu-se para madrinha do casamento.</p> + +<p>Consummara-se o sacrificio!</p> + +<hr class="bookstyle"/> + +<p>—Quando se realisará esse casamento? perguntava +todos os dias o conde de S. Luiz.</p> + +<p>—Brevemente, respondia-lhe Magdalena!<span class='pagenum'><a name="Page_226" id="Page_226">[Pg 226]</a></span></p> + + + +<hr style="width: 65%;" /> +<h1><a name="XXXVI" id="XXXVI"></a>XXXVI</h1> + + +<p>Instigado pelos conselhos do visconde, e pela persistente +côrte que D. Olympia lhe dirigia, o conselheiro +resolveu se emfim a pedir aos condes a mão de sua +filha.</p> + +<p>Eram duas horas da tarde. O conde tinha partido +para o hospital, mas, para sua felicidade estava em +casa a condessa de S. Luiz, e prompta como sempre, +desde as dez horas da manhã, para receber todas as +visitas que lhe mereciam a honra da sua amizade.</p> + +<p>O conselheiro foi introduzido para um pequeno gabinete +«á renascença», todo mobilado ao gosto do visconde +de Coruche.</p> + +<p>A condessa não se fez demorar muito tempo. Já esperava +que mais dia menos dia o conselheiro se resolvesse +a pedir-lhe Olympia.</p> + +<p>—Quanto folgo vel-o n'esta casa, e a esta hora, +disse a condessa, ao mesmo tempo que lhe extendia a +mão. Adivinho pouco mais ou menos do que se tracta, +ajuntou ella designando-lhe uma othomana, e puxando +uma cadeira para si.<span class='pagenum'><a name="Page_227" id="Page_227">[Pg 227]</a></span></p> + +<p>A condessa queria ser a primeira, sempre, em resolver +qualquer questão.</p> + +<p>—Provavelmente vem pedir a mão de Olympia?... +ajuntou ella, sem admittir que o conselheiro lhe dirigisse +uma só palavra. Quanto o estimo! e como o conde +vae ficar alegre! Pela minha parte, concedo-lh'a da +melhor vontade, e, desde já lh'o affianço, que o conde +ha-de ser da minha opinião. Tenho toda a certeza que +v. ex.ª ha de ser o mais feliz possivel com minha filha. +Não parece uma rapariga d'este tempo. Para Olympia +é-lhe tão indifferente ir aos bailes, como passar as noites +em casa. Não dá importancia alguma ao luxo! O +seu gosto é estar em casa e olhar pela dispensa. Nem +é mesmo d'essas meninas que passam o dia a lêr livros, +como Magdalena por exemplo, que está ás vezes +até as duas horas da noite amarrada á sua Biblia, e outros +romances quejandos. Olympia detesta os livros, +tem-lhes um odio de morte! Lá quanto a isso, parece-se +commigo. Foi coisa que nunca pude supportar! Olympia, +o seu maior prazer é fazer pudins e fructas de +compota.</p> + +<p>O conselheiro, olhando estupefacto para aquella Niagára +de eloquencia, debalde esperava o ensejo favoravel +para lhe dizer o fim que alli o havia trazido. A condessa +não lh'o permittia!</p> + +<p>—Em Olympia não ha coisa alguma a desejar, formosura, +riqueza, saude, tudo, tudo, accrescentou a condessa +de S. Luiz, tirando o lenço da algibeira para limpar +o suor que em bagas lhe escorria.</p> + +<p>—Pois, minha senhora, acudiu rapidamente o conselheiro, +aproveitando o ensejo que lhe favorecia a limpeza +d'aquella individualidade titular, o que me trouxe +a casa dos condes de S. Luiz, foi o mesmo que v. ex.ª +com esse instincto que lhe é natural, adivinhou! Escuso +portanto de lh'o repetir.<span class='pagenum'><a name="Page_228" id="Page_228">[Pg 228]</a></span></p> + +<p>—Quanto o estimo, meu querido genro, respondeu +a condessa, approximando-se do conselheiro e apertando-lhe +ambas as mãos.</p> + +<p>—Vae fazer-me o mais feliz de todos os homens.</p> + +<p>—Sim?... respondeu a bojuda matrona, vae vêr: +levantando-se, puchou o cordão da campainha.</p> + +<p>—E crê v. ex.ª que a sr.ª D. Olympia responde aos +eccos do meu coração?</p> + +<p>—Não o comprehendo, sr. conselheiro.</p> + +<p>Este occultou a custo um sorriso.</p> + +<p>—Quero eu dizer, se o meu amor será retribuido +por sua excelentissima filha?</p> + +<p>—Ora essa! respondeu a condessa tornando a sentar-se +ao lado do conselheiro, se soubesse quanto ella +o estima...</p> + +<p>N'este momento appareceu um criado.</p> + +<p>—Vá dizer a Maria que participe á Gertrudes que +suba ao quarto da aia da menina Olympia, para lhe dizer +que venha immediatamente falar com sua mãe.</p> + +<p>O conselheiro abysmou deante d'aquelle prodigio +de memoria, que com tanta facilidade decorava tão +grande porção de nomes!</p> + +<p>D'alli a momentos entrou a aia de Olympia, participando +que a menina ainda teria alguma demora, porque +se encontrava um pouco indisposta.</p> + +<p>—Provavelmente ceiou muito. É o seu unico defeito, +sr. conselheiro. É muito gulosa esta minha filha.</p> + +<p>A criada retirou-se.</p> + +<p>—O mesmo sou eu, minha senhora, respondeu o +conselheiro.</p> + +<p>—Sim?</p> + +<p>—É verdade. Tenho dias de jantar tres vezes.</p> + +<p>—Ai que ar! gargalhou a condessa de S. Luiz. Pois +realmente, sinto que Olympia não esteja de pé. Em todo +o caso, sempre vou lá acima. Talvez que seja ape<span class='pagenum'><a name="Page_229" id="Page_229">[Pg 229]</a></span>nas +um leve incommodo; e, levantando-se saiu da sala, +deixando o conselheiro na contemplação de umas +gravuras em aço que adornavam as paredes do gabinete.</p> + +<p>«Isto corre ás mil maravilhas! pensava o conselheiro. +Olympia pelo que me parece, consultando o estomago, +decidiu de si para si que lhe não era antipathica +a minha pessoa. Sua mãe, pelo que se vê, encontrou +em mim o seu sonho dourado! Quanto ao conde +de S. Luiz por certo que se conforma com tudo que +sua mulher decidir! Emfim, será o que Deus quizer! +Em todo o caso, foi um achado, um verdadeiro achado, +este Tristão de Almeida. E eu que estive para desprezar +a sua apresentação!... Desconfio que, apezar +de todo o amor que Magdalena experimenta pelo visconde, +o meu casamento ainda se ha de effectuar primeiramente +do que o seu. Custa-me a acreditar que +um caracter como o de Magdalena, possa experimentar +pelo visconde, outro sentimento, a não ser o de repulsão. +O que fôr verdadeiramente bom e digno, não póde +amar senão o que é digno e bom! E demais, Magdalena +deve conhecel-o. Tão pouco falado tem elle sido +na sociedade de Lisboa.»</p> + +<p>N'este comenos entrou a condessa; Olympia seguia-a +de perto.</p> + +<p>Se aos vinte annos a pallidez traduz em absoluto a +poesia da alma; se o desbotado da face é synonimia +dos sofrimentos intimos que lavram o coração, Olympia +n'aquelle momento, a despeito da sua anafada estructura, +dir-se-ia nutrida estatua da poesia affectada +pelas terriveis consequencias de uma gastro enterite!</p> + +<p>Ao approximar-se do conselheiro, a filha do conde de +S. Luiz debalde se esforçava para, n'uma graciosa mesura, +cumprimentar aquelle a quem brevemente ia conceder +a sua mão. O esophago não lhe permittia a mais<span class='pagenum'><a name="Page_230" id="Page_230">[Pg 230]</a></span> +leve inclinação do busto. Olympia conservava se firme +como um sargento, deante d'esse que era de ha muito +o commandante dos seus pensamentos!</p> + +<p>—Venho agora mesmo de saber por minha mãe a +sr.ª condessa de S. Luiz que vossa excellencia deseja estreitar +os laços matrimoniaes com a minha pessoa. Se a +meu pae lhe não fôr desagradavel a união das nossas +almas, estou muito prompta a acceder em tudo aos seus +desejos.</p> + +<p>O conselheiro contentou-se apenas em lhe apertar a +mão n'um transporte de reconhecida ventura.</p> + +<p>—Como já tive o gosto de dizer a vossa excellencia +o conde de S. Luiz terá o maior desejo em que +este casamento se effectue o mais depressa possivel, +portanto, não tem vossa excellencia mais cousa alguma +a fazer senão vir hoje mesmo pedir-lhe a mão de +Olympia. Meu marido e eu mesma, accrescentou a condessa +de S. Luiz, nos temos informado por todas as +pessoas que frequentam o nosso palacio, quem vossa +excellencia é; deve portanto suppor a honra que nos +vae causar, entrando para o seio da nossa familia.</p> + +<p>—A honra sou eu que a recebo, senhora condessa +de S. Luiz, e é tão profundo o meu desejo em ver realizadas +as nossas esperanças, que, hoje mesmo, se vossa +excellencia acha conveniente...</p> + +<p>—Se acho, meu genro! O conde de S. Luiz, sendo +cinco horas, mais <i>migalha</i> menos <i>migalha</i> deve cá estar. +Não falte pois, accrescentou ella extendendo a mão +ao conselheiro, que foi recuando sem descravar os +olhos de Olympia, até que se retirou.</p> + +<p>—Até que vês as tuas esperanças realizadas, disse +a condessa de S. Luiz voltando-se para sua filha.</p> + +<p>—É verdade, minha mãe, suspirou Olympia! E agora, +para ter forças de supportar todas estas commoções, vou ver +se me dão um caldo de cabeça de vitella.<span class='pagenum'><a name="Page_231" id="Page_231">[Pg 231]</a></span></p> + + + +<hr style="width: 65%;" /> +<h1><a name="XXXVII" id="XXXVII"></a>XXXVII</h1> + + +<p>Segundo havia combinado com a condessa, o conselheiro +ás cinco horas da tarde foi procurar o conde +de S. Luiz.</p> + +<p>Este parecia ouvil-o sem lhe prestar attenção alguma; +porém, graças á sua esposa, declarou por ultimo +que não tinha duvida em conceder-lhe a mão de Olympia.</p> + +<p>João Poderosa exultou de alegria! Olympia sentia +brincar-lhe o travesso amor nas cavidades estomacaes +apontando-lhe ao mesmo tempo as flechas de ouro, ao +orgão musculoso do corpo humano, a que vulgarmente +se chama coração!</p> + +<p>Momentos depois começaram a entrar convidados +para jantar; entre esses vinha o visconde de Coruche.</p> + +<p>Ao <i>toast</i>, a condessa de S. Luiz declarou que estava +justo o casamento de sua filha D. Olympia com o conselheiro +João Poderosa.</p> + +<p>Em seguimento aos brindes do estylo, não houve +quem deixasse de notar que esta declaração não tivesse +sido feita pelo conde. Mas que influencia tinha isso? +Não fôra esplendido o jantar?!<span class='pagenum'><a name="Page_232" id="Page_232">[Pg 232]</a></span></p> + +<p>O que ninguem podia descortinar era o motivo da +tristeza do conde de S. Luiz e de Magdalena!</p> + +<p>Attribuiam a esta ultima, que uma paixão em silencio +pelo visconde de Coruche, era a causa da sua terrivel +melancolia.</p> + +<p>Em vez de conversarem com as visitas, de <i>fazerem +sala</i>, como vulgarmente se diz, Magdalena e seu pae +passaram quasi toda a noite n'um pequeno gabinete +contiguo a um dos salões.</p> + +<p>—Planeiam o modo de agarrar o visconde! dizia +um individuo que por mais uma vez intentara fazer a +côrte a Magdalena.</p> + +<p>—Como se isso fosse uma coisa muito difficil, respondia-lhe +o outro. Não tem Magdalena um dote de +quatrocentos contos?</p> + +<p>—Póde ser que a não ame, e n'esse caso...</p> + +<p>—Que innocencia! Quem despreza quatrocentos contos? +E sobre tudo o visconde que está sem um vintem.</p> + +<p>—Tomáras tu assim estar.</p> + +<p>—Olha, quem foi esperto foi o João Poderosa... +Quem o ha de agora aturar com quatrocentos contos?</p> + +<p>—Felizes dos jogadores!</p> + +<p>—Desconfio que não! Já tem comido do pão que o +diabo amassou. Não é o conselheiro que torna a arruinar-se.</p> + +<p>—Não digas isso. A lei natural é esta: o homem +rico, que se arruina e que depois por um bafejo da +sorte torna a enriquecer, embriaga-se no fausto e na +opulencia, e nunca mais se recorda das terriveis noites +de miseria senão quando ellas principiam a despontar +vagamente por entre o sol da sua felicidade.</p> + +<p>—A mim não me succederia outro tanto.</p> + +<p>—És uma excepção.</p> + +<p>—A excepção, é o que tu dizes.</p> + +<p>—Será o que te aprouver. O que eu não estou é<span class='pagenum'><a name="Page_233" id="Page_233">[Pg 233]</a></span> +para teimas. Já querias aproveitar esta minha opinião +para me ferrares uma <i>estopada</i>. Adeus. Vou lá dentro +ver se tomo um <i>grog</i>.</p> + +<hr class="bookstyle"/> + +<p>Á meia noite, retiraram-se todos os convidados.</p> + +<p>—Como deves estar satisfeita, Olympia, dizia Magdalena +voltando se para sua irmã.</p> + +<p>—Eu! respondeu Olympia. Ora essa! Pelo muito +que jantei.<span class='pagenum'><a name="Page_234" id="Page_234">[Pg 234]</a></span></p> + + + +<hr style="width: 65%;" /> +<h1><a name="XXXVIII" id="XXXVIII"></a>XXXVIII</h1> + + +<p>O conselheiro saira da casa do conde de S. Luiz +acompanhado pelo visconde.</p> + +<p>Ao despedirem se, este ficou de ir no dia seguinte +almoçar com João Poderosa, para saber todos os promenores +da sua entrevista com o conde de S. Luiz.</p> + +<p>São dez horas da manhã. Louco de alegria pelo negocio +que viera de fazer, o conselheiro formúla mil +planos para o seu dourado porvir!</p> + +<p>A geada de muitos invernos que lhe nevara no coração, +ia desfazer-se aos raios do sol de melhores dias. +Ia subir aos pinaculos da felicidade, e contemplar de +uma grande altura os lodaçaes da pobreza, onde havia +alguns annos se estorcia.</p> + +<p>N'este momento, entrou um criado annunciando o +visconde de Coruche.</p> + +<p>—Que entre, disse o conselheiro.</p> + +<p>Minutos depois, entrou o visconde.</p> + +<p>O fidalgo vinha pallido como uma estatua.</p> + +<p>—Que temos! Meu Deus! Como vens perturbado! +acudiu o conselheiro fitando o rosto do seu amigo.<span class='pagenum'><a name="Page_235" id="Page_235">[Pg 235]</a></span></p> + +<p>—Uma grande desgraça! Uma grande fatalidade! +exclamou o visconde.</p> + +<p>—Uma grande desgraça?! Uma grande fatalidade?!</p> + +<p>—Venho agora mesmo de casa do conde de S. +Luiz, e...</p> + +<p>—Morreu Olympia de alguma indigestão?...</p> + +<p>—Peior! tartamudeou o visconde, sentando-se n'uma +othomana.</p> + +<p>—Peior do que isso?! Ora essa! O que poderia +acontecer peior do que isso!</p> + +<p>—O conde de S. Luiz foi atacado pela febre, e porque +forma, meu caro amigo! A sua morte é irremediavel, +mas o peior, ainda não é isso, o peior foi o que +me disse agora a condessa...</p> + +<p>—O que te disse a condessa? perguntou anciosamente +o conselheiro.</p> + +<p>—Que Magdalena entrará para um convento no +mesmo momento em que seu pae morrer.</p> + +<p>—Respiro! disse emfim o conselheiro.</p> + +<p>—Respiras?! perguntou o visconde profundamente +admirado.</p> + +<p>—Sim, cuidei que fosse alguma coisa que me dissesse +respeito.</p> + +<p>—Mas diz-me respeito a mim, louco! Não sabes +que amava essa mulher? Que eu era amado por ella?</p> + +<p>—Pois se tu a amas, e és amado por ella, é collocares-te +á porta d'esse convento e não a deixares entrar.</p> + +<p>—É que tu não comprehendes o seu caracter, João. +Não sabes a especie de amor que essa mulher me consagra? +Amor que a tem feito soffrer e que lhe vae abrir +a sepultura!</p> + +<p>—Não comprehendo, murmurou o conselheiro.</p> + +<p>—Pois eu t'o explico. Magdalena dirigindo-se pela +opinião geral, julga-me incapaz de ser um bom mari<span class='pagenum'><a name="Page_236" id="Page_236">[Pg 236]</a></span>do, +por estes dez ou doze annos, emquanto tiver sangue +na guelra, segundo a phrase de Olympia! Ora, +meu amigo, Magdalena é ciumenta como uma leôa, que +não admitte que se divida o coração, prefere morrer +por mim, abraçada á cruz do seu amor, do que ser +minha, sem ter fé na fidelidade da minha alma. Comprehendes?</p> + +<p>—Olha, se queres que te diga a verdade, não comprehendo +bem essas cousas. Ahi tens tu porque eu +gosto da minha Olympia. Quanto a essa, estou certo +que me não ha de atormentar muito com ciumes, nem +aturdir-me com aquelles estirados monologos de sentimento, +em que Magdalena está constantemente delirando. +Sempre te disse que não trocava a minha felicidade +pela tua, se por ventura viesses a ser meu cunhado, +o que jámais pude acreditar, e se queres que +seja sincero comtigo, nunca me pude aperceber d'essa +paixão, que tu dizias ter-lhe inspirado, apezar de m'a +estares querendo metter pelos olhos. E que tencionas +fazer? ajuntou elle mudando de tom.</p> + +<p>—Que tenciono fazer! Conformar-me com o meu +destino, como ella...</p> + +<p>—Como ella quê? interrompeu o conselheiro, recolheres +te tambem a um convento?</p> + +<p>—Não, mas esquecel-a em todas as loucuras da vida! +No jogo, na embriaguez...</p> + +<p>—Mau systema, respondeu o conselheiro.</p> + +<p>—Sabes uma cousa, João? acudiu o visconde despeitado +com a serenidade do conselheiro.</p> + +<p>—Dize, respondeu este fleugmaticamente.</p> + +<p>—Está-me revoltando essa tua serenidade! Devias +interessar-te mais por mim, lembra-te...</p> + +<p>—Que te sou devedor da minha futura felicidade, +mas que queres! Creio pouco na tua paixão. Tenho-te +visto trinta vezes apaixonado, e no dia seguinte, cura<span class='pagenum'><a name="Page_237" id="Page_237">[Pg 237]</a></span>do +d'esse sentimento com o coração prompto e limpo +para receber outro que te appareça. Se fosses pobre +como eu, se tivesses as minhas theorias sobre o dinheiro, +então poderia acreditar que estavas penalizado +pela entrada no convento, porém como se não dá +isso, felizmente para ti, pouco tenho a compadecer-me. +Ámanhã por estas horas, completamente esquecido +de Magdalena, apaixonas-te por qualquer mulher +que seduzes pelo teu ouro e pela tua intelligencia, e +appareces-me d'aqui a dias curado d'essa paixão que +te atormenta.</p> + +<p>O visconde mordeu os beiços de raiva. Havia tanto +de ironia nas palavras do conselheiro, que não tardou +muito que as intenções lhe fossem completamente +denunciadas.</p> + +<p>—Que tencionas portanto fazer? perguntou elle a +Poderosa, querendo dissimular a perturbação que lhe +haviam produzido as suas palavras.</p> + +<p>—Que tenciono fazer? Ir immediatamente para Buenos-Ayres. +E tu?</p> + +<p>—Tenho muitas voltas a dar, não poderei ir senão +de tarde. E despedindo-se do conselheiro, o visconde +saiu, deixando o entregue ás suas profundas reflexões.</p> + +<p>«Pobre visconde! Realmente, compadeço-te. Quanto +melhor te fôra o teres sido sincero para commigo. +Se tens sido esperto, apanhavas-me cincoenta ou sessenta +contos por me teres conseguido este casamento. +Assim, melhor foi, custar-me-ha apenas cincoenta ou +sessenta libras!»</p> + +<p>Meia hora depois, o conselheiro mandou buscar um +trem, e dirigiu-se para Buenos-Ayres.<span class='pagenum'><a name="Page_238" id="Page_238">[Pg 238]</a></span></p> + + + +<hr style="width: 65%;" /> +<h1><a name="XXXIX" id="XXXIX"></a>XXXIX</h1> + + +<p>São tres horas da tarde. O palacio dos condes de S. +Luiz, que na vespera ainda brilhantemente illuminado, +abria os seus magnificos salões á primeira sociedade +de Lisboa, apresenta se agora entristecido como fachada +de edificio legendario!</p> + +<p>É que a morte, estranha e indifferente a todas as +grandezas humanas, assenta-se melancholicamente sobre +os degraus d'aquellas escadas de marmore, e, erguendo-se +de vez em quando, fixa o seu olhar invisivel, +que atravessando as salas, vae pousar lugubremente +no rosto pallido e cadaverico do conde de S. Luiz!</p> + +<p>Tristão sente-lhe as mãos frias e descarnadas pesando-lhe +sobre o peito. Quer falar; a voz prende-se-lhe +na garganta! De vez em quando, levanta um olhar +de piedade para um Christo, que de braços abertos o +contempla da sua cruz, como se o convidasse a recolher-se +ao seu divino seio! Então o conde torna a +abaixar os olhos como se aquella imagem o assustasse, +e, levantando ao mesmo tempo uma das mãos, pede +a Magdalena que se lhe approxime.<span class='pagenum'><a name="Page_239" id="Page_239">[Pg 239]</a></span></p> + +<p>Ha quatro horas que não fala! Para maior expiação, +a sua intelligencia está clara e completamente +serena!</p> + +<p>Magdalena, debruçada sobre o leito, pegando n'um +lenço de cambraia, limpa-lhe de vez em quando o rosto +banhado por um suor lento e copioso. O seu rosto, denota-lhe +o martyrio e a resignação.</p> + +<p>A condessa, curvada n'uma poltrona, descança a fronte +nas mãos, erguendo-se de minuto em minuto para +contemplar o infeliz esposo. O seu olhar é triste, mas +resignado como o de sua filha.</p> + +<p>Olympia ao fundo do quarto, sentada n'um sophá tapa +os olhos com um lenço de assoar, mastigando occulta +e prestidigiosamente, umas bolachinhas de agua +e sal.</p> + +<p>O commendador Lopes de Miranda e o banqueiro +Vaz Mendes, ora se approximam dos pés do leito, ora +se dirigem aos outros gabinetes, onde uma multidão +de individuos esperam com anciedade saber o estado +do enfermo.</p> + +<p>N'este comenos entra o conselheiro Poderosa. Demora-se +um minuto olhando para o conde, e, engatilhando +um gesto de sofrimento dirige-se para a condessa.</p> + +<p>Esta extende-lhe silenciosamente a mão, occultando +ao mesmo tempo o rosto com um lenço de cambraia.</p> + +<p>João Poderosa fica immovel por alguns segundos, e +em seguimento retira-se para falar com Olympia.</p> + +<p>Ao approximar-se lhe, a noiva simula um estremecimento +de surpreza, e, esquecendo o embrulho das +bolachinhas que conservava no regaço, entorna-o, fazendo +rebolar as bolachas sobre a alcatifa.</p> + +<p>O conselheiro curva o busto, e salva os despojos farinaceos +que se preparavam para fazer as delicias da +mastigação da sua futura esposa!</p> + +<p>No momento em que o conselheiro principiava o seu<span class='pagenum'><a name="Page_240" id="Page_240">[Pg 240]</a></span> +dialogo com Olympia, Magdalena, que havia chegado o +rosto aos labios de seu pae, volta-se para a condessa.</p> + +<p>Esta pergunta lhe o que deseja.</p> + +<p>—Meu pae, necessita estar sosinho commigo e pede +a todos que se retirem, responde Magdalena.</p> + +<p>A condessa levanta-se. Olympia e o conselheiro seguem-n'a. +Este ultimo demora se no gabinete com sua +futura sogra; Olympia aproveita a occasião de ir á copa +tomar uma canja de gallinha.</p> + +<p>—Sinto que me foge a vida, filha, disse o conde extendendo +a mão para Magdalena. Não quero morrer sem +ter cumprido os meus e os teus desejos. Agora que me +sinto mais tranquillo, vae tu, Magdalena, vae tu mesma +buscar D. Marianna de Mendonça. Quero ouvir-lhe +o perdão de seus proprios labios, e tambem do Manuel. +Vae Magdalena, vae, minha filha, cumpre com este +ultimo desejo de teu pae.</p> + +<p>—E minha mãe?... e toda a gente?...</p> + +<p>—E o que temos nós com toda esta gente, Magdalena? +Trata-se agora da minha consciencia. Quero apresentar-me +deante de Deus arrependido de todos os males +que causei n'este mundo. Desde que confiei todos os +peccados áquelle santo padre que me trouxeste, minha +filha, já não receio o desconhecido. Sinto-me muito mais +alliviado. Quando eu morrer, Magdalena, dentro da minha +secretaria, encontrarás um pequeno cofre de platina; +guarda-o, e a mais ninguem confies os segredos +que elle encerra. Só tu serás digna d'isso. O meu testamento +está na gaveta pequena d'aquella secretaria. +Ha quatro dias que foi feito. Parecia adivinhar o que +succedia! Foi Deus! Deixo quatrocentos contos a D. Marianna +de Mendonça: ainda não é muito, para o que +lhe fiz soffrer! Agora, que sabes o principal, vae filha, +e possa o perdão d'essa mulher fazer com que a mi<span class='pagenum'><a name="Page_241" id="Page_241">[Pg 241]</a></span>nha +alma, voando aos pés de Deus, seja acolhida no seu +divino regaço.</p> + +<p>Afastando-a brandamente, tornou a pedir-lhe que fosse +buscar D. Marianna de Mendonça.</p> + +<p>—Se tua mãe te perguntar onde vaes, accrescentou +elle, responde-lhe que é um segredo que juraste guardar +a um moribundo.</p> + +<p>Magdalena, depois de beijar seu pae na fronte, saíu +do quarto e atravessou pelo gabinete onde sua mãe +conversava com o conselheiro.</p> + +<p>—Onde vaes? perguntou-lhe a condessa.</p> + +<p>—Vou saír.</p> + +<p>—Saír?</p> + +<p>—Buscar uma pessoa a quem meu pae deseja falar +antes de morrer.</p> + +<p>—E essa pessoa... quem é?</p> + +<p>—É um mysterio e um segredo, e recommendando +á condessa que fosse para junto de seu pae, Magdalena +atravessou as salas, e subindo ao quarto, preparou-se +para saír.</p> + +<p>Era tal o respeito e consideração que Magdalena inspirava +a sua mãe; tinha tanta certeza da inutilidade de +todos os seus esforços, para lhe quebrar qualquer dever, +que a condessa resumiu-se ao silencio, e dirigiu-se +sem mais reflexões ao quarto de seu marido.</p> + +<p>—Aonde foi Magdalena?</p> + +<p>—Buscar uma pessoa a quem desejo pedir perdão +antes de morrer, e com quem pretendo ficar sósinho.</p> + +<p>A condessa, sem responder uma palavra, foi sentar +se na mesma poltrona d'onde momentos antes se +havia levantado.</p> + +<p>Amparado por aquelle desejo ardente, o conde de +S. Luiz parecia de momento para momento ganhar mais +tranquillidade.</p> + +<p>Um quarto de hora depois, Magdalena entrou de novo +no quarto de seu pae, participando lhe a chegada<span class='pagenum'><a name="Page_242" id="Page_242">[Pg 242]</a></span> +de D. Marianna. O conde fez um gesto significativo a +sua mulher, esta comprehendendo o em seguida com +uma obediencia passiva, levantou-se e saíu do quarto. +Pouco depois entrava D. Marianna de Mendonça e seu +filho. Magdalena fechou a porta deixando-os a sós com +o conde.</p> + +<p>Magdalena dissera-lhe apenas que seu pae os queria +ver antes de expirar.</p> + +<p>O conde, ao vel-os parados no meio da sala, extranhos +e alheios áquella situação, ergueu se n'um supremo +esforço, e, chamando-os pelos nomes, convidou-os +a approximarem-se do leito.</p> + +<p>D. Marianna, accedendo immediatamente aos seus +desejos, acercou-se do enfermo.</p> + +<p>—Lembra-se D. Marianna de Mendonça, recorda-se +Manuel, d'um banqueiro chamado Felix Justino de +Araujo, que em 1835 a mandou ir um dia em companhia +do seu advogado, levantar um deposito de perto +de quarenta contos de réis?</p> + +<p>—Lembro-me, respondeu D. Marianna de Mendonça, +fixando demoradamente o semblante do conde de +S. Luiz.</p> + +<p>—Se esse homem, que fez a sua desgraça, que lhe +roubou filho, haveres, e por ultimo a razão, debruçado +sobre a sepultura, lhe extendesse a mão supplice +e arrependida, implorando lhe o perdão para sua alma, +que lhe faria?</p> + +<p>—Perdoar-lhe tudo, para que Deus tambem me +perdôe os meus peccados, respondeu ainda D. Marianna.</p> + +<p>—Perdôa-me tambem, Manuel de Mendonça? disse +o conde. Perdoa a este homem, que durante vinte +e tres annos o separou de tudo quanto tinha de mais +caro no mundo! Perdoa a este homem, accrescentou +elle, que conduziu sua mãe á miseria e á loucura.<span class='pagenum'><a name="Page_243" id="Page_243">[Pg 243]</a></span></p> + +<p>—Perdoae-lhe, Senhor, como eu lh'o perdôo de todo +o meu coração, respondeu Manuel de Mendonça, +voltando-se para a cruz do Redemptor, juiz supremo +d'esta tocante scena.</p> + +<p>—Morrerei tranquillo, disse então o moribundo, com +a voz já enfraquecida.</p> + +<p>—Que Deus perdôe ao pae d'aquelle anjo, disse D. +Marianna caindo de joelhos, e apontando para a porta +por onde Magdalena havia saido.</p> + +<p>—Diz bem, D. Marianna; d'aquelle anjo, accrescentou +o conde de S. Luiz. Foi aquella candida pomba a +encarregada por Deus para me conduzir á sua divina +presença! A ella devo o seu perdão, sr.ª D. Marianna!</p> + +<p>—E eu devo-lhe o meu filho, respondeu D. Marianna, +arrastando-se de joelhos sobre a alcatifa, até se +collocar deante do Christo. Pela vossa infinita misericordia, +exclamou ella levantando as mãos para a cruz, +perdoae-lhe Senhor, como eu de todo o coração lhe +perdôo, e queira a vossa infinita vontade conservar-lhe +largos annos de vida, para que este arrependido +conheça a sinceridade das minhas palavras.</p> + +<p>—Chamem a minha filha que deve estar n'aquelle +quarto, murmurou o conde, voltando-se para Manuel +de Mendonça, e apontando para uma porta que separava +os dois aposentos.</p> + +<p>Magdalena entrou immediatamente. Ainda que dotada +de uma organização robustissima, a infeliz, já principiava +a resentir-se de tantas commoções.</p> + +<p>D. Marianna, lançando-se-lhe nos braços, debalde +tentava occultar as lagrimas.</p> + +<p>—Falta me aqui uma pessoa a quem desejava ver +antes de morrer. Queria abraçar a Martha, a minha +companheira do hospital.</p> + +<p>—Deus favorece-lhe os seus desejos, meu pae. Ha<span class='pagenum'><a name="Page_244" id="Page_244">[Pg 244]</a></span> +dois minutos que alli estão todos tres: e, abrindo a +porta, deu passagem a Balbina, Jeronymo e sua filha.</p> + +<p>—Approximem-se, meus amigos, disse-lhes o conde +de S. Luiz. E, emquanto fôr tempo, accrescentou +elle, apertem esta mão, que sempre se lhes extendeu +com amizade.</p> + +<p>As lagrimas embargaram-lhes as vozes. Uma pessoa +apenas se conservava n'uma serenidade de martyr. +Era Magdalena!</p> + +<p>—Infelizmente, accrescentou o conde voltando-se +para Martha e Manuel de Mendonça, não lhes posso assistir +ao casamento mas aqui lhes fica este anjo, continuou +elle voltando-se para Magdalena.</p> + +<p>Esta ficou immovel!</p> + +<p>Alma temperada nas grandes agonias, a que realeza +de martyrio foste arrancar esse diadema que te corôa?</p> + +<p>Momentos depois, retiraram se todos do quarto.</p> + +<p>O conde ficou em estado de profunda atonia.</p> + +<p>Não se ouvia um ruido. Apenas o estremecimento +da prece passando pelos labios descorados de Magdalena.</p> + +<p>Como tudo isto estivesse em socego entraram no +quarto a condessa, Olympia, o conselheiro e o visconde +de Coruche. Seguiam n'os o commendador e o banqueiro.</p> + +<p>—Dorme tranquillo! disse o visconde olhando na +direcção do leito.</p> + +<p>—Dorme acudiu a condessa, á medida que se approximava +de seu esposo.</p> + +<p>Magdalena, n'esse momento, adeantou se mais, e debruçou-se +a escutar a respiração.</p> + +<p>—Morto! exclamou a pobre filha, n'um arranco +d'alma! Bemdito Deus, que me permittiste salvar meu +pae! ajuntou ella caindo sobre o cadaver do conde, e +aproveitando nos seus labios o derradeiro calor d'aquelle +rosto extremecido.<span class='pagenum'><a name="Page_245" id="Page_245">[Pg 245]</a></span></p> + + + +<hr style="width: 65%;" /> +<h1><a name="EPILOGO" id="EPILOGO"></a>EPILOGO</h1> + + +<p>No mesmo dia foi aberto o testamento, tendo por +testemunhas o visconde de Coruche, o commendador +Lopes de Miranda e o conselheiro João Poderosa.</p> + +<p>Deixava por testamenteira a sua filha D. Magdalena. +Entre varios legados a differentes hospitaes e asylos, +avultava a quantia de quatrocentos contos a D. Marianna +de Mendonça e Athayde, como um testemunho de eterna +recordação pelos muitos favores de que lhe era devedor.</p> + +<p>A sua fortuna, espalhada por differentes bancos da +Europa e da America, excedia a dois mil contos.</p> + +<p>Quinze dias depois da morte do conde de S. Luiz, +ás seis horas da manhã, Manuel de Mendonça recebia-se +na freguezia de Nossa Senhora da Lapa com a +filha de Jeronymo, tendo por padrinhos dois honrados +capitães de navio, e por madrinha D. Magdalena +de Almeida.</p> + +<p>Ao cabo de dois mezes, Olympia concedeu a sua +mão ao conselheiro, e o seu coração aos inqualificaveis +gozos da cosinha.<span class='pagenum'><a name="Page_246" id="Page_246">[Pg 246]</a></span></p> + +<p>Gozando em branda paz as delicias do hymeneu, havia +comtudo uma terrivel sombra que lhes perturbava +a paz domestica: o conselheiro não era capaz de fazer +nem um <i>beefsteak</i>! Toda a sciencia culinaria de que +se vangloriara, era apenas um mytho que elle creára +para conquistar o estomago de D. Olympia!</p> + +<p>Quando emfim sobre Lisboa deixaram de esvoaçar as +azas negras do monstro, e que Magdalena fechou as +portas áquelle hospital, d'onde não tinha saido desde a +morte de seu pae, o visconde de Coruche, vivamente +ferido pela grandeza d'alma de Magdalena, lançou se-lhe +aos pés e pediu-a em casamento.</p> + +<p>—Vou casar-me com Deus, respondeu Magdalena, +levantando os olhos para o céu!</p> + +<p>No dia seguinte, Magdalena entrava no convento +de ***, onde morreu pouco depois, recebendo as bençãos +da pobreza, com quem havia repartido os seus +rendimentos.</p> + +<p>Lopes de Miranda, associado com Vaz Mendes n'uma +casa de penhores, abre os seus armarios a todos os +objectos de valor que o visconde de Coruche periodicamente +lhe envia pelo seu mordomo. Este espera +ainda ver seu amo n'um estado florescente, attendendo +ao axioma de um dos nossos primeiros vultos litterarios: +que um fidalgo arruinado sempre tem cem contos +de réis!</p> + +<p>Quanto á condessa de S. Luiz, uns dizem que está +beata, outros asseveram que se tornou capitalista de +uma partida de <i>Roulette</i> não sei em que parte da Europa, +e de que são feitores Gil de Carvalho e Bernardo +de Paiva, tendo-lhe o primeiro ganho a confiança pela +paga espontanea das cem libras que devia a seu +defuncto marido, e de que nem ella mesma era sabedora.<span class='pagenum'><a name="Page_247" id="Page_247">[Pg 247]</a></span></p> + +<p>E Martha, e Manuel de Mendonça, e sua mãe, e Balbina +e Jeronymo, e Mascatudo?</p> + +<p>Apezar da tia Monica asseverar aos que á noite se +reunem na tenda da rua da Lapa, que foram todos parar +aos peixinhos, pessoa de credito affirmou a quem +estas paginas escreve, que essa familia, venturosa na +sua união, se foi estabelecer nos Estados-Unidos, gosando +em doce calma os prazeres de uma existencia +honesta, moral e religiosa.</p> + +<p>E ter-se-hão esquecido da memoria de Magdalena?</p> + +<p>Nunca! N'aquelles corações não cabia a ingratidão.</p> + +<p class="smcap center">Fim</p> + +<hr style="width: 65%;" /> +<p><span class='pagenum'><a name="Page_249" id="Page_249">[Pg 249]</a></span></p> + +<h1><a name="COMPANHIA_PORTUGUESA_EDITORA_L" id="COMPANHIA_PORTUGUESA_EDITORA_L"></a>COMPANHIA PORTUGUESA EDITORA, L.<sup>DA</sup></h1> + +<h3>PORTO</h3> + +<h2>Ultimas Publicações</h2> + +<table summary="alinhamento de texto"><tr><td> +<b>A Morgadinha do Valongo</b>. Novela, por Manuel da Câmara, 1 vol. broc.</td><td class="bottom-align right">5$000 +</td></tr><tr><td> +<b>A Verdade</b>, peça em três actos, por Francisco Lage e João Correia d'Oliveira. 1 vol.</td><td class="bottom-align right">12$500 +</td></tr><tr><td> +<b>A Regeneração</b>,—Fontes Pereira de Mello, por Eduardo Noronha—1.ª parte. 1 vol.</td><td class="bottom-align right">12$500 +</td></tr><tr><td> +<b>Cariátide</b>, pelo Visconde de Vila-Moura. 1 vol.</td><td class="bottom-align right">7$500 +</td></tr><tr><td> +<b>Cartas a Luiza</b>, por D. Maria Amalia Vaz de Carvalho. (Nova edição) 1 vol.</td><td class="bottom-align right">10$000 +</td></tr><tr><td> +<b>Cesar e João Fernandes</b>, comedia em 1 acto por Alberto de Morais e Mario Duarte.</td><td class="bottom-align right">2$500 +</td></tr><tr><td> +<b>Dom João</b>, Poema por Silva Gayo. 1 vol.</td><td class="bottom-align right">7$500 +</td></tr><tr><td> +<b>Duas Causas</b>, peça em três actos por Alberto de Morais e Mario Duarte 1 vol.</td><td class="bottom-align right">8$000 +</td></tr><tr><td> +<b>Fontes Pereira de Mello</b>, por Eduardo Noronha, 2.ª parte 1 vol.</td><td class="bottom-align right">10$000 +</td></tr><tr><td> +<b>Manhã de S. João</b>, por Severo Portela, próprio para prenda de anos. 1 vol.</td><td class="bottom-align right">7$500 +</td></tr><tr><td> +<b>Maravilhas Celestes</b>, por Camilo Flammarion, versão de Alexandre da Conceição. 1 vol.</td><td class="bottom-align right">12$500 +</td></tr><tr><td> +<b>Mundo Novo</b>. Romance, por Ana de Castro Osorio. 1 vol.</td><td class="bottom-align right">12$500 +</td></tr><tr><td> +<b>O Douro em Brasas...</b> Crónicas, por Kol d'Alvarenga. 1 vol. broc.</td><td class="bottom-align right">8$000 +</td></tr><tr><td> +<b>O Fado</b>. Ensaios sobre um problema Etnográfico-Folclórico, por José Maciel Ribeiro Fortes. 1 vol.</td><td class="bottom-align right">10$000 +</td></tr><tr><td> +<b>O Livro da Educadora</b>, por Paulo Combres (Nova edição) 1 vol.</td><td class="bottom-align right">10$000 +</td></tr><tr><td> +<b>O Martir do Golgota</b>, por Henrique Peres Escrich. 3 vol.</td><td class="bottom-align right">24$000 +</td></tr></table> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of O Conde de S. Luiz, by Tomaz de Melo + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CONDE DE S. LUIZ *** + +***** This file should be named 28928-h.htm or 28928-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/8/9/2/28928/ + +Produced by Júlio Reis, Carlo Traverso, Leonor Silva and +the Online Distributed Proofreading Team at +https://www.pgdp.net + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/28928-h/images/image-001.png b/28928-h/images/image-001.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..599291e --- /dev/null +++ b/28928-h/images/image-001.png diff --git a/28928-h/images/image-001h.png b/28928-h/images/image-001h.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..efd699b --- /dev/null +++ b/28928-h/images/image-001h.png diff --git a/28928-h/images/image-002.png b/28928-h/images/image-002.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..a43c7bf --- /dev/null +++ b/28928-h/images/image-002.png diff --git a/28928-h/images/image-002h.png b/28928-h/images/image-002h.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..c04f8bc --- /dev/null +++ b/28928-h/images/image-002h.png diff --git a/28928-h/images/image-003.png b/28928-h/images/image-003.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..ce7a16d --- /dev/null +++ b/28928-h/images/image-003.png diff --git a/28928-h/images/image-033.png b/28928-h/images/image-033.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..eef8030 --- /dev/null +++ b/28928-h/images/image-033.png diff --git a/28928-h/images/image-033h.png b/28928-h/images/image-033h.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..d5e2d0f --- /dev/null +++ b/28928-h/images/image-033h.png diff --git a/28928-h/images/image-081.png b/28928-h/images/image-081.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..6537412 --- /dev/null +++ b/28928-h/images/image-081.png diff --git a/28928-h/images/image-081h.png b/28928-h/images/image-081h.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..d66748a --- /dev/null +++ b/28928-h/images/image-081h.png diff --git a/28928-h/images/image-129.png b/28928-h/images/image-129.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..3468829 --- /dev/null +++ b/28928-h/images/image-129.png diff --git a/28928-h/images/image-129h.png b/28928-h/images/image-129h.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..04d9950 --- /dev/null +++ b/28928-h/images/image-129h.png diff --git a/28928-h/images/image-193.png b/28928-h/images/image-193.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..e6c48c1 --- /dev/null +++ b/28928-h/images/image-193.png diff --git a/28928-h/images/image-193h.png b/28928-h/images/image-193h.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..0f2e513 --- /dev/null +++ b/28928-h/images/image-193h.png diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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