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+ <title>José Estevão, por Jaime de Magalhães Lima</title>
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+<pre>
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+The Project Gutenberg EBook of José Estevão, by Jaime de Magalhães Lima
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: José Estevão
+
+Author: Jaime de Magalhães Lima
+
+Release Date: May 21, 2009 [EBook #28902]
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+Language: Portuguese
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+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK JOSÉ ESTEVÃO ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano. A partir da digitalização
+disponibilizada pela bibRIA.
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+<p>&nbsp;</p>
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+<div style="text-align:center; border: double 5px #000;">
+<p style="font-size: 1.2em;">Jayme de Magalhães Lima</p>
+
+<p style="font-size: 3em;">José Estevão</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">França Amado, Editor.</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">Coimbra. 1909.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
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+<p style="text-align:center; font-size: 1.5em;">JOSÉ ESTEVÃO</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
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+<p>&nbsp;</p>
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+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: small;">Composto e impresso na
+Typographia França Amado,<br>
+rua de Ferreira Borges, 115--Coimbra.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center;">
+<p>JAYME DE MAGALHÃES LIMA</p>
+
+<p style="font-size: 3em;">JOSÉ ESTEVÃO</p>
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+<p>&nbsp;</p>
+
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+<p>&nbsp;</p>
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+<p>COIMBRA</p>
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+<p>F. FRANÇA AMADO, EDITOR</p>
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+<p><span class="pagenum"><a name="pag_VII" id="pag_VII">{VII}</a></span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Póde o racionalismo alinhar argumentos para annular o despotismo da
+auctoridade pessoal e nos persuadir de que os unicos poderes legitimos, na
+direcção individual ou collectiva dos homens, são a consciencia e a verdade,
+reveladas e illuminadas pelo pensamento, pela logica, por um exame intimo,
+completamente alheio á consideração e interferencia das qualidades e da
+attracção ou repulsão d'aquelles que nos cercam, presentes aos nossos
+sentimentos, em contacto immediato ou na imaginação e recordação historica.
+Póde mesmo no rigor da deducção levar-nos a confessar que assim deve ser,
+quando o espirito attingir uma maioridade authentica, uma independencia
+etherea. Mas a realidade das cousas, perseverante, na placida e indulgente
+ironia em que docemente escarnece da<span class="pagenum"><a name="pag_VIII"
+id="pag_VIII">{VIII}</a></span> firmeza dos conceitos e das presumpções da
+razão, continua a deixar-se levar mais pela seducção das pessoas do que pela
+exactidão e belleza dos systemas. Afasta do caminho abstracções, ainda as mais
+bem fundadas, não desiste de ordenar que os homens se guiem por influencias
+humanas e lhes obedeçam, preterindo por esse modo e sem cessar as determinações
+e instancias de syllogismos, que facilmente atraiçoamos a cada passo,
+convencidos todavia da perfeita bondade e rectidão do nosso proceder.</p>
+
+<p>Por certo, uma força occulta nos conduz; e, pela energia e tenacidade,
+deverá ser tão legitima como os mandados da razão. Dir-se-ia que, para se
+tornar efficaz, a doutrina, sobretudo a doutrina moral, carece de
+personificação consentanea e de exemplo. Porventura, nem<span
+class="pagenum"><a name="pag_IX" id="pag_IX">{IX}</a></span> a sublimidade
+christã teria conseguido triumphar se Jesus, pobre, flagellado, paciente, a não
+houvesse santificado, immolando-lhe o sangue perante as multidões e o vulgo,
+se, pelos actos mais do que pelas palavras, não houvesse dado testemunho, até
+ao martyrio e morte ignominiosa, da plena consubstanciação do corpo e do
+espirito arrebatados n'uma unica aspiração. Uma mysteriosa e vaga lei
+psychologica quererá talvez que a verdade só seja verdade quando se mostrou em
+fórma palpavel, e só possa dominar dominando-nos pela capacidade e fascinação
+dos homens nos quaes transitoriamente encarnar.</p>
+
+<p>D'essa tendencia á confiança e abdicação na auctoridade estranha não
+encontrei melhor exemplo, em toda a minha vida, do que a preponderancia de José
+Estevão em Aveiro entre<span class="pagenum"><a name="pag_X"
+id="pag_X">{X}</a></span> os homens da sua geração e entre aquelles que
+immediatamente lhe succederam.</p>
+
+<p>Quando comecei a sentir conscientemente o que em volta de mim se passava, já
+tinha morrido José Estevão. Mas que profundo e absoluto imperio não o vi
+exercer?!... Que largo e indisputado reinado! A sua vontade era a sentença
+ultima; o seu julgamento a suprema justiça. O que queria elle? O que desejava?
+Como apreciava os factos e as intenções?!... Em tudo, nas cousas pequeninas
+como nas grandes, não se podia ir alem, fossem quaes fossem os caprichos em
+jogo, sem averiguar primeiro do conselho e mandados de José Estevão,
+irrevogaveis. A tutela era perfeita. Esse homem, que se batera pela liberdade,
+deixára-nos escravos do seu proprio dominio; escravidão voluntaria, sem
+embargo,<span class="pagenum"><a name="pag_XI" id="pag_XI">{XI}</a></span> no
+fundo um despotismo. Nem sequer era prudente aventurar juizos sobre o caracter
+dos contemporaneos com quem elle tratára; estavam julgados, e seriam bons ou
+maus, conforme nos seus olhos se houvessem reflectido. «José Estevão dizia...»,
+«José Estevão queria...»; chegadas a esse ponto, as discussões rematavam. A
+lembrança das suas palavras, dos seus gestos e attitudes e do seu proceder
+dirimiam pleitos que a mais avisada ponderação não lograva solver. Os motivos
+d'auctoridade prevaleciam sobre toda e qualquer outra tentativa d'explicação. A
+amizade, que o rodeára de tão grandes dedicações emquanto andou no mundo,
+redobrava d'affecto depois que elle d'aqui partira; e constantemente o resurgia
+das cinzas para o interrogar e seguir. Belleza e bondade,<span
+class="pagenum"><a name="pag_XII" id="pag_XII">{XII}</a></span> rectidão e
+injustiça, até o aspecto comico das cousas, tudo elle havia apontado e regrado
+d'uma vez para sempre, pela imposição do seu pensamento, pelo calor de iras
+sagradas, e não raro pela rutilencia e agudeza dos gracejos. A voz baixava ao
+pronunciar-se-lhe o nome; se alguem invocava aquella sombra e ella voltava no
+seu esplendor d'eterna gloria, emudeciam, por uma insinuação profunda de
+respeito e carinho, quantos entreviram a apparição.</p>
+
+<p>Viveu-se assim em Aveiro durante prolongados annos, n'este temor e veneração
+ultra-tumular d'uma magestosa figura, sob a soberania d'uma alma nobre entre
+as mais nobres. N'esta sujeição se vive ainda. E oxalá em igual obediencia os
+vindouros possam viver no correr dos seculos!<span class="pagenum"><a
+name="pag_XIII" id="pag_XIII">{XIII}</a></span></p>
+
+<p>Que armas constituiram e constituem aquella força sobrenatural? Por que
+extraordinario conjuncto de faculdades e sentimentos, por que impulsos e
+indefectivel vehemencia d'elevação se divinisou aquelle homem?</p>
+
+<p>Eis o que n'estas paginas procuro analysar, antecipadamente certo de que
+nunca me será dado desfiar, fio a fio, as prisões que nos subjugaram. Por muito
+feliz me tenho se algumas tiver destrinçado; sem falsa modestia o confesso, e
+tambem sem corar da propria insufficiencia, tão ardua se me afigura a empreza.
+Ha invariavelmente no genio qualquer cousa essencial e irreductivel, d'uma
+integridade invulneravel, inaccessivel ao exame, e resultando em que, depois de
+percorrermos um largo circulo de observações, ao fim, fatigados da louca
+obsessão de aprehender<span class="pagenum"><a name="pag_XIV"
+id="pag_XIV">{XIV}</a></span> sempre illudida, temos de renunciar ao esforço
+improficuo e render-nos a um derradeiro poder, revelando-se-nos só para ser
+adorado e nunca perscrutado--o encanto.<span class="pagenum"><a name="pag_1"
+id="pag_1">{1}</a></span></p>
+
+<h1>I</h1>
+
+<h1>IDEIAS POLITICAS</h1>
+
+<h2>IDEIAS POLITICAS</h2>
+
+<h2>I</h2>
+
+<p>Por muito que a dependencia pése ao orgulho da especie, a grandeza dos
+homens tem de referir-se ás circumstancias do seu tempo. A vulgaridade do
+preceito e os vicios e erros da sua applicação infinitamente repetida não lhe
+prejudicaram a legitimidade e inteireza; não isentam da necessidade de o
+considerarmos e respeitarmos na apreciação de qualquer cuja physionomia
+tentamos analisar, heroe ou deus que elle houvesse sido. No mais vil como no
+mais nobre penetrou uma parcella, por vezes minima e em muitas outras capital,
+d'uma energia alheia e inconsciente, arrastando, involvendo e confundindo na
+sua vibração o caracter individual. Agora succumbe e logo resiste, hoje cede
+e<span class="pagenum"><a name="pag_2" id="pag_2">{2}</a></span> amanhã domina,
+ora lucta e se defende, ora se identifica e conforma, mas sempre terá de
+mover-se sob a influencia d'attracções exteriores, vagas, impetuosas, das quaes
+jámais conseguirá libertar-se absolutamente.</p>
+
+<p>De tal intimidade e tão persistente ficarão a todos, sem excepção, no
+aspecto, nas tendencias e inclinações, em todo o modo de ser physico e moral,
+traços que não são nossos, que não viéram de nós, que não creámos, que nos
+foram como impostos, gravados por actividades externas; e ao mesmo tempo, sob
+essas pressões, perdem-se elementos proprios da nossa personalidade ou, pelo
+menos, atenuam-se e afrouxam na expansão. O criminoso e o santo, o maior
+resplendor e a infima miseria, nenhum fugiu ás contingencias d'essa lei.
+Quantos se ergueram em fama e ventura e quantos rolaram no pó da ultima
+desgraça e da obscuridade, todos foram bafejados ou flagellados pelos
+turbilhões anonymos da sua epoca.</p>
+
+<p>Para bem comprehendermos José Estevão, teremos pois de começar por uma
+inquirição summaria das correntes de pensamento a cujos impulsos se viu
+sujeito. Politico e soldado, teria de as sentir profundamente. Talvez mesmo
+dissessemos melhor que foi politico e soldado porque, por uma rara agudeza
+de<span class="pagenum"><a name="pag_3" id="pag_3">{3}</a></span> intuição
+moral, as sentiu profundamente. Mas, seja como fôr, inspirado por ellas e
+reagindo ou sofrrendo-lhes apenas o impeto, a regra que nos manda ligar a
+mentalidade dos homens ás condições da sua epoca é de respeitar em toda a
+hypothese, obrigando de preferencia n'aquella em que o pensamento, traduzido
+immediatamente em acção, tem de contar com o correctivo do movimento simultaneo
+das actividades oppostas. Póde o poeta e o philosopho architectar um mundo a
+seu modo, abstraindo quasi por completo do tumulto que o cerca; o que os outros
+fazem pouco lhe perturbará o sonho. Não póde porém ser assim o luctador que
+desce á arena e, em vez de enlevar ou convencer, quer estabelecer novos moldes
+d'existencia terrena. Este encontrará, nas construcções já feitas e nas que
+outros procuram erguer, graves estorvos ao seu emprehendimento, limitando-lhe
+os planos, apertando o espaço livre para a sua orbita, e não raro coagindo-o a
+desistir e emigrar para região mais favoravel, ou, caso bem frequente, a
+contentar-se na realidade com uma parte modestissima de idealismos gigantescos.
+Accrescentarei mesmo, antecipando reflexões que ao deante desenvolvo, que por
+todas essas provações passou José Estevão perante as surprezas e
+contrariedades<span class="pagenum"><a name="pag_4" id="pag_4">{4}</a></span>
+das pressões do seu tempo. Tambem elle, apezar do vigor athletico do coração,
+sentiu e confessou tentações de desistir da peleja, d'emigrar dos arraiaes
+politicos para outros mais tranquillos e salutares, de se render, vencido, e
+deixar o campo a adversarios e a camaradas, muitos dos quaes se revelavam mais
+funestos á realisação das suas aspirações do que os inimigos declarados. E,
+quanto á redacção pratica da largueza dos seus sonhos, experimentou-a a cada
+passo, sabe Deus com que dôr.</p>
+
+<p>Uma cousa se não reduz nem amesquinha todavia com as circumstancias do
+tempo; é a estatura intellectual e moral dos homens. Essa salva-se sempre de
+toda a derrota. Aquillo que cada um recebe do ambiente não anulla afinal, nos
+verdadeiramente fortes, o caracter da personalidade; este sobrepõe-se-lhe e,
+sem perder o que possue de commum e geral, sobreleva-lhe, distinguindo-se com
+uma intensidade e realce que o apartam do vulgo. Não póde a grandeza d'alma
+crear sociedades á sua imagem e semelhança, veio encontral-as feitas, cortadas
+d'influxos differentes, uns impuros, outros claros, conduzindo uns a
+profundezas tenebrosas, levando outros a regiões illuminadas; mas o modo por
+que ella se houve em meio d'estes turbilhões, a<span class="pagenum"><a
+name="pag_5" id="pag_5">{5}</a></span> energia inspirada e a audacia que
+revelou, modificando-os e encaminhando-os, o vigor com que emergiu de caudaes
+revoltos e turvos para uma atmosphera crystallina, isso nos dará a medida da
+grandeza. Para que um organismo cresça e se desinvolva e para que a pujança
+d'um temperamento possa manifestar-se, é necessario, indispensavel, que seja de
+natureza identica á do ambiente, onde os acasos do destino o collocaram;
+opposta ou heterogenea, dar-lhe-á a morte subita ou lenta, n'um definhar
+ignorado e infecundo. Mas, parallelamente, se a actividade propria assume um
+alto grau d'intensidade, a reacção d'esse organismo sobre o ambiente será tão
+efficaz que em determinados momentos a preponderancia se inverte.</p>
+
+<p>Portanto, para julgar com exactidão dos resultados e suas causas, carecemos
+ter presentes á lembrança todas as forças que se conjugaram na creação e
+attitude d'aquelles vultos superiores que nos deslumbram pela estatura, pela
+magestade e pelos feitos. Só assim lhes prestaremos o culto que merecem, n'uma
+perfeita lucidez de consciencia; e só assim tambem os poderemos seguir sem
+errarmos a jornada pelo desvairamento de illusorias miragens.<span
+class="pagenum"><a name="pag_6" id="pag_6">{6}</a></span></p>
+
+<h2>II</h2>
+
+<p>José Estevão nasceu em 1809. Antes dos vinte annos tinha entrado na
+politica. Aos desoito batia-se com as armas na mão, e, vencido, emigrava.</p>
+
+<p>Nos combates a que, moço generoso, corria inflamado em esperanças de dias
+venturosos para a sua patria, encontrava-a sob o dominio espiritual da França.
+As nossas revoltas e aspirações eram reflexo do que se passava em França.
+Reflexo frouxo, alterado, produzindo frequentes distorções do modelo abstrusas
+até á caricatura, fazendo degenerar por vezes largos gestos divinos de gigantes
+em esgares de anões impotentes, mas reflexo authentico em todo o caso,
+constantemente derivado d'aquella mesma luz e, em maré de fortuna, valha a
+verdade, reproduzindo-a com um brilho igual ou superior ao do fóco d'origem,
+aliás deslumbrante.</p>
+
+<p>Tenhamos sempre este facto em lembrança. É capital.</p>
+
+<p>Reconheceu-o José Estevão, em 1840, claramente, quando, no primeiro discurso
+do<span class="pagenum"><a name="pag_7" id="pag_7">{7}</a></span> Porto Pireu,
+fallou da «França que sempre aqui se nos inculca por modelo»; e lembrava que «a
+esse grande arsenal da legislação franceza vão de continuo os nossos estadistas
+buscar os exemplos e as theorias governamentaes». E, poucos dias depois, no
+segundo discurso do Porto Pireu, respondendo a Almeida Garrett, insistia na
+influencia da França sobre o pensamento e proceder dos nossos homens publicos.
+«Estão no Pireu», disse, «os que no seculo XVIII mandam vir de França por
+atacado quintaes e quintaes de discursos do abbade Maury e d'outros e que,
+ensopando estas insossas comidas com molho de Guizot e Rover-Collard, expõem á
+venda como eguaria exquisita a chanfana da soberania da razão, da supremacia
+legal das capacidades, julgando que a grosseira cosinha doutrinaria, que com
+seus pasteis tanto tem arruinado a saúde dos povos e reis, ainda póde
+satisfazer o delicado paladar das nações, acostumadas aos apetitosos guisados
+da soberania popular, da igualdade e da justiça.»</p>
+
+<p>Julgou porém legitima essa influencia, embora na passagem citada
+precedentemente a indicasse mais para castigar a fraude, o commercio de
+mercadorias avariadas que a astucia nem sempre desinteressada dos
+contrabandistas ia buscar além dos Piryneus, do que para<span
+class="pagenum"><a name="pag_8" id="pag_8">{8}</a></span> ostentar o fulgor do
+ouro de lei que de lá importavamos. Em 1858,--desoito annos mais tarde,
+note-se, e a distancia entre as duas datas d'affirmações identicas póde
+esclarecer-nos sobre a persistencia do facto a que são allusivas, em 1858,
+discursando no parlamento sobre o triste incidente da barca franceza
+<em>Charles et George</em>, sob o pungir d'aggravos fundos e não poupando á
+França a accusação dos seus erros, observava, calma e nobremente, com aquelle
+espirito de justiça que jámais o desamparou, sem se perturbar pela agudeza da
+dôr, que «a França, se não foi a primeira iniciadora da liberdade na Europa,
+póde dizer-se que foi quem primeiro a ensinou em escola publica na mesma
+Europa, porque a pôz em linguagem vulgar, porque a sujeitou á apreciação de
+todos os povos, porque a adaptou a costumes com os quaes se assemelham os
+costumes da maior parte das nações europêas.»</p>
+
+<p>Eis as fontes em que bebiamos o pensamento da nossa politica, as boas e as
+más, as salutares e as maleficas. N'essas palavras d'apostolo e de soldado, bem
+medidas e ponderadas, encontraremos a revelação bastante da proveniencia das
+correntes em que fluctuavamos, da attracção da sua limpidez e tambem, miseria
+humana! da vasa que traziam suspensa e por momentos a escurecia.<span
+class="pagenum"><a name="pag_9" id="pag_9">{9}</a></span></p>
+
+<h2>III</h2>
+
+<p>A França do tempo de José Estevão vivia na anciedade de saldar o encargo
+formidavel que a sua audacia lhe impozéra,--a victoria e consolidação d'aquillo
+que na historia se designou pelo nome de principios da Revolução Franceza.
+Procurava, n'uma inquietação interminavel, cumprir as obrigações que as
+circumstancias politicas e a propaganda e promessa fascinante dos seus genios
+havia creado,--trazer aos povos de todo o mundo a redempção dos males e
+angustias passadas, provenientes do despotismo dos homens e das classes
+governantes, e dar-lhes em troca, por uma nova constituição social adequada, a
+felicidade perpetua. O seculo XVIII legára-lhe um amontoado informe de
+destroços e aspirações, que ora se mostrava tenebroso ora resplandecia, uma
+confusão indistrinçavel de cousas caducas, mortas e putridas, e de sementes a
+despontarem e a germinarem, tumidas de vigor e irradiando belleza; alternavam,
+n'uma extensão infinita, as ruinas irreparaveis e os fructos tentadores de
+fecundissimas<span class="pagenum"><a name="pag_10" id="pag_10">{10}</a></span>
+seáras. E era d'isto que o engenho e o esforço dos homens havia de tirar uma
+sociedade renascida em riqueza e justiça, em plenitude dos bens do corpo e da
+alma, em toda a sorte de formosura; d'esse tumulto haviam de surgir a paz, a
+alegria e toda a ventura, reinos de bemaventurança como o mundo jámais
+conhecêra. A miseria, a oppressão, quanto nos faz a vida sombria e triste, iam
+varrer-se da face da terra para os limbos infernaes da historia. Affirmavam-n'o
+apostolos exaltados que pela crença davam o sangue e o ultimo alento,
+sacrificando-os gloriosamente no patibulo e nos campos da batalha.</p>
+
+<p>«Se quizérmos dar uma ideia do grande movimento que foi a revolução
+franceza, diremos» nas palavras de quem a estudou e conhece
+profundamente<sup>[<a href="#fn1" name="mfn1">1</a>]</sup>, «que foi a
+destruição de tudo o que era meramente tradicional e o estabelecimento da
+existencia humana n'uma base de pura razão, por meio d'um rompimento directo
+com tudo o que era historico.» O despotismo dos reis e da nobreza feudal,
+prolongando na realidade a servidão<span class="pagenum"><a name="pag_11"
+id="pag_11">{11}</a></span> da gleba, quando já o espirito do tempo e as lições
+da experiencia a haviam condemnado como uma desgraça e monstruosa; privilegios
+e desigualdades calamitosas que redundavam em fome de milhares de boccas e na
+corrupção sordida d'alguns poucos privilegiados; um clero e uma egreja que pelo
+exemplo negavam a toda a hora a doutrina christã e a substituiam por formulas
+magicas, cujo monopolio lhes pertencia e cuja observancia dava a graça e a
+salvação eternas; a degradação da religião, por este modo convertida n'um culto
+de signaes e em devoções estupidas, apagando-lhe n'um ritualismo inane toda a
+elevação em espirito e toda a limpidez de consciencia, e isto ao mesmo tempo
+que os sacerdotes de Jesus davam o triste espectaculo da sensualidade e do luxo
+perante multidões de trabalhadores a morrer d'indigencia; uma demencia de
+vaidades, gozos e interesses sobrepondo-se á miseria geral dos povos; e, por
+outro lado, o anathema dos pensadores e philosophos, desvendando a lepra das
+sociedades e inflamando-as em visões de cura, de saúde e de força, posto que
+este ultimo elemento não fosse na opinião de bons espiritos o principal e
+influissem mais no assombroso movimento de revolta os factos e as cousas do que
+o estudo, a reflexão e a phantasia dos prophetas<span class="pagenum"><a
+name="pag_12" id="pag_12">{12}</a></span> d'uma era nova<sup>[<a href="#fn2"
+name="mfn2">2</a>]</sup>:--todo esse descredito do passado e do existente
+fermentou e explodiu n'uma onda de destruição e de sangue. A arvore carcomida,
+que exteriormente parecia robusta e magestosa mas no intimo estava apodrecida e
+desfeita, ruiu n'um momento com um estampido pavoroso. Ouviu-o com espanto a
+Europa inteira, e embriagou-se nos fumos que os destroços exalavam. Abalaram-se
+os fundamentos de toda a ordem constituida. Aquella vertigem, embora primeiro
+se revelasse em França com uma intensidade sem precedentes, era commum, em
+differentes gráus, a toda a Europa central e do occidente, exceptuando a
+Inglaterra que muito se antecipára já no caminho das reformas pedidas em
+tamanha violencia; e, se em França se manifestava primeiro, era porventura
+porque<span class="pagenum"><a name="pag_13" id="pag_13">{13}</a></span> alli
+haviam attingido maior extensão e mais duro imperio os males a que se pretendia
+pôr termo, e alli tambem haviam nascido, em mais larga escala e mais profundos,
+os devaneios generosos de redempção e a confiança n'uma instantanea e segura
+conversão da miseria em fortuna, medeante o triumpho de puros principios
+philosophicos. N'uma febre de reforma nunca vista, varreu-se o passado com
+todos os seus bens e com todos os seus males; na esperança de dias melhores
+caiu-se n'um delirio de mudar a ferro e a fogo as instituições e os homens, não
+raro pelo simples amor de mudar, de todo esquecida a razão de ser d'aquillo que
+se proclamava ruim e como tal se reduzia a pó.</p>
+
+<p>As injustiças com a antiga ordem social, perseguida e combatida por muito
+funesta, coincidiam porém a cada passo com a deficiencia e desastres das
+tentativas e concepções modernas para satisfação das aspirações que estavam
+destinadas a realisar immediata e completamente.</p>
+
+<p>Era certo, visivel e manifesto, que uma transformação da consciencia
+politica se havia operado e reclamava traducção consentanea nas leis e nos
+costumes. O congresso de Philadelphia, treze annos antes da revolução de 1789,
+em 1776, definira n'estes termos a<span class="pagenum"><a name="pag_14"
+id="pag_14">{14}</a></span> nova crença: «Consideramos como evidentes por si as
+verdades seguintes--Todos os homens são iguaes; possuem direitos inalienaveis.
+Entre estes direitos encontram-se a vida, a liberdade, o esforço pela
+felicidade. Os governos foram estabelecidos entre os homens para garantir estes
+direitos, e o seu justo poder baseia-se no assentimento quotidiano dos
+governados. Todas as vezes que uma forma de governo qualquer se torna
+destruidora dos fins para os quaes foi estabelecida, o povo tem o direito de a
+mudar e abolir».</p>
+
+<p>A legitimidade da revolução e o caracter sagrado dos principios em nome dos
+quaes se fazia, não se punham em duvida. As divergencias iriam encontrar-se nos
+processos d'execução, e sobretudo na forma e natureza da construcção politica
+que havia de substituir o antigo e decrepito edificio. Sobre esse ponto, o
+seculo XVIII legára á França, juntamente com indomaveis impulsos humanitarios
+de liberdade, igualdade e fraternidade, tres correntes politicas, tres
+attitudes differentes bem accentuadas na empreza herculea de firmar na terra o
+reinado da justiça:--a corrente que Voltaire personificou, corrente de puro
+exame e negação, apenas dissolvente, apontando com uma ironia mortal os
+erros,<span class="pagenum"><a name="pag_15" id="pag_15">{15}</a></span>
+iniquidades, crimes e insensatez do antigo regimen, porventura não se detendo a
+esboçar outro systema, porque acreditava na reparação completa dos vicios
+predominantes por um movimento moral interno, dispensando d'abandonar as
+formulas constituidas, e limitava a tarefa de saneamento a infundir-lhes novo
+espirito e novos costumes no exercicio dos seus poderes;--a corrente que
+encarnou em Rousseau, constructiva, corrente d'organisação, refundindo a
+sociedade em outras bases, num plano logico, absoluto, radical, que não
+admittia desvio ou alteração e ignorava diversidade ou dissemelhança entre os
+instinctos humanos, todos bons, segundo o philosopho conjecturava, no estado de
+natureza;--e por ultimo, corrente mais frouxa, menos nitidamente traçada, mas,
+sem embargo, com uma existencia tão real, persistente e efficaz como as demais
+tendencias em acção, a corrente que Montesquieu trouxe á luz, bem inspirado no
+profundo conhecimento da vida pratica em que os encargos profissionaes o
+fizeram penetrar, e que magistralmente esboçou no <em>Espirito das Leis</em>,
+condemnação do dogmatismo e prodromos adeantados do criterio evolucionista,
+estabelecendo, d'uma vez para sempre, com um rigor que as theorias scientificas
+modernas confirmaram e ampliaram, que as leis teem de<span class="pagenum"><a
+name="pag_16" id="pag_16">{16}</a></span> sêr fundadas em multiplas e complexas
+condições de raça, de temperamento e de tradições, e nunca, para serem estaveis
+e proficuas, poderão derivar de principios absolutos, inalteraveis, fixos.</p>
+
+<p>Prevaleceram no primeiro impeto da revolução franceza a negação voltairiana
+e o dogmatismo philosopliico, destituido d'elasticidade, d'uma rigidez
+deshumana, apertando, em excessos quasi prohibitivos, o espaço necessario á
+expansão da variabilidade das paixões e instinctos, que aliás lhe competia
+regular e libertar, como annunciára, captando por isso as sympathias dos
+ingenuos. Mas não se manteve nem podia manter-se. A seccura do racionalismo,
+além d'ignorar as necessidades psychologicas da imaginação e da phantasia,
+temperando de devaneio poetico as durezas da existencia, esqueceu tomar em
+conta as particularidades da raça e da historia de cada povo, com as suas
+concepções religiosas e as inclinações moraes correlativas, sentimentos a que
+correspondem necessidades de realisação pratica, que levaram seculos a crear e
+não se destroem n'um dia por um simples gesto de quem manda, ou seja imperador
+ou tribuno, victima da fé em uma uniformidade absurda, tomou por crime sujeito
+a sancção penal o que não estivesse d'accordo com a deducção de<span
+class="pagenum"><a name="pag_17" id="pag_17">{17}</a></span> principios
+abstractos, e assim preparou a reacção e a propria desgraça, congregando contra
+si todos os elementos violentamente excluidos do seu plano ou por qualquer
+causa contrariados. E quem assistisse aos acontecimentos e os visse com o olhar
+dos genios, poderia desde logo, como de facto succedeu, julgar o futuro pelo
+presente e pelo passado e fazer a historia antes que os tempos lhe ratificassem
+a assombrosa prophecia. «O seculo XVIII», escreveu então M.<sup>me</sup> de
+Stael, «proclamára os principios d'um modo excessivamente incondicional: é
+possivel que o seculo XIX explique os factos n'um espirito de excessiva
+resignação com elles».</p>
+
+<p>Veio a reacção, primeiro com o imperialismo napoleonico, depois com a
+restauração pura e simples da monarchia e seus velhos systemas. Não lhe
+faltavam elementos, muitos se haviam conservado fieis á antiga ordem politica,
+por egoismo, pelas saudades dos seus ocios e regalos, pelas honrarias e
+riquezas abolidas e offendidas, por simples passividade ou indifferença, pelo
+respeito do passado e seducção de sua magestade e esplendor, dos seus aspectos
+de opulencia e solidez, pelo poder do habito que fazia acceitar como boas as
+sujeições mais odiosas e como naturaes e legitimas soberanias absurdas,
+superioridades e<span class="pagenum"><a name="pag_18"
+id="pag_18">{18}</a></span> distincções de sangue e de classe que a mais leve
+reflexão devia dissipar instantaneamente. Demais, a gloria de batalhas vencidas
+por toda a Europa encaminhava o espirito popular para o pólo opposto a
+aspirações de liberdade, igualdade e fraternidade, cujo maior inimigo é e será
+sempre o militarismo, com a disciplina degenerando em annulação total da
+liberdade, e com a força preterindo constantemente o direito e negando sem
+cessar a fraternidade. Rolando as cousas politicas em esse novo pendor,
+inventaram-se concordatas com a egreja catholica, cuja auctoridade não houvéra
+meio d'esmagar. De concessão em concessão, talvez, ou pelo menos em parte, pelo
+cansaço das proprias guerras e luctas, e muito pelo desengano da felicidade que
+tardava e não se approximava só pelo effeito de derrubar o passado, succedeu á
+furia da justiça a ancia d'ordem, vaga negação da liberdade, declarada
+exigencia do restabelecimento da regra e da imposição, restaurando, com as
+penas correlativas, obrigações e deveres sociaes d'outros tempos que a
+revolução desprezára e contestára. A anarchia, propria de toda a epoca
+demolidora, gerou o despotismo que é soccorro obrigado de situações
+semelhantes; e d'esse incidente partiu a orientação para novo rumo. Aos
+principios de liberdade, tomando-a pela<span class="pagenum"><a name="pag_19"
+id="pag_19">{19}</a></span> dissolução de multiplos vinculos sociaes e invocada
+no interesse individual, veio oppôr-se o principio da auctoridade, coagindo a
+sujeições em nome do interesse da communidade. Até aquelle largo e generoso
+humanismo que, derrubando fronteiras, fazia do mundo uma familia e de todos os
+homens irmãos, começou a perder terreno, vencido pela ideia de patria; a
+reacção do principio do seculo XIX, chamando em seu auxilio as tradições
+nacionaes, logo por esse facto traçava limites, marcava divergencias entre os
+povos e combatia o enlevo humanista, de sua natureza universal, propenso a
+apagar radicalmente todo o vestigio de divisões de territorio, raça, costumes e
+instituições.</p>
+
+<p>Na logica instinctiva do seu impulso, a reacção em França, avançando e
+substituindo pelo absolutismo tradicionalista o absolutismo revolucionario,
+erro por erro, foi terminar na restauração pura e simples do passado, no rei,
+na côrte, no predominio da hierarchia ecclesiastica, nos privilegios,
+supremacias e dependencias, esquecida a breve trecho do que em tudo isso havia
+d'oppresivo e injusto, a tal ponto insupportavel que determinára as violencias
+destruidoras da revolução. Afferrando-se aos preconceitos e bastas vezes á
+obsessão de retaliações e vinganças e á simples<span class="pagenum"><a
+name="pag_20" id="pag_20">{20}</a></span> instigação de conveniencias
+temporaes, convertendo a restauração da ordem politica e religiosa historica na
+restituição de proventos, commodidades e gozos com a privação dos quaes nunca
+tinham podido conformar-se as aristocracias reinantes, cegas e indifferentes á
+miseria profunda dos povos que o feudalismo omnimodo e sem caridade importava,
+a reacção tradicionalista cantou victoria alegremente, de todo alheia ao facto
+de que a revolução, boa ou má segundo diverso criterio, era um acto consumado e
+consagrado, a registar tambem entre as tradições, tendo d'ora avante logar
+marcado entre os factores das sociedades, senão pelo que d'ella ficasse
+inabalavel, ao menos pelos vestigios das construcções que architectára, na
+verdade por um e por outro modo. Atravez de todos os impulsos e tentativas
+conservadoras, muitas sem duvida legitimas, uma dissolução formidavel da antiga
+ordem social se tinha operado, condemnada não só pelas desgraças a que
+conduzira, pela fome e miserias que gerára, mas ainda por falta de base
+sufficiente, abalados como se mostravam os seus fundamentos cosmogonicos e
+theologicos, pela analyse, pela observação scientifica, e por um lucido
+despertar da consciencia da dignidade humana. Não via a reacção que as
+sociedades são<span class="pagenum"><a name="pag_21"
+id="pag_21">{21}</a></span> mudaveis de condição, e hão-de mover-se e
+transformar-se emquanto viverem, d'aspiração em aspiração; tinha por definitivo
+o que era transitorio, e até o que se encontrava morto para sempre; em accessos
+d'egoismo desvairado reputava crime, para o qual pedia e applicava rigores
+extremos, todo o esforço pelo progresso na fundação d'um systema de relações
+sociaes mais de perto inspirado na justiça do que aquelle que até alli se havia
+mantido e se degradára em aviltada corrupção. Banira-se-lhe do espirito a noção
+do sentimento que equiparava entre si todos os homens e jámais poderia ceder
+das suas instancias; nem mesmo a percepção da fraternidade christã e seus
+deveres lhe restava, possuida, como andava, d'uma falsa comprehensão do
+principio d'auctoridade que, no seu conceito e na pratica do seu governo,
+resultava n'um principio de sujeição, a bem ou a mal, aos poderes constituidos,
+legitimados e sagrados pela religião, intervindo com a graça de Deus, apposta
+pelos sacerdotes, para sanccionar o direito de quem mandava e o dever de
+obediencia dos que eram mandados.</p>
+
+<p>Uma reacção d'essa natureza não podia vingar. Assim como a revolução fôra
+vencida por virtude do caracter abstracto, por não<span class="pagenum"><a
+name="pag_22" id="pag_22">{22}</a></span> conceder o seu logar a motivos de
+sentimento, de cuja satisfação a felicidade humana não prescinde, a reacção
+tinha de cair por excluir do seu campo as aspirações de liberdade e reforma que
+áquelle tempo já ninguem podia arrancar do coração dos povos. Nem mesmo muitos
+dos que apoiavam a reacção ignoravam que alguma cousa da revolução tinha de
+perpetuar-se e dilatar-se; se apparentemente o negavam, era por calculo, por
+hypocrisia, por adulação e lisonja dos vencedores, para irem aproveitando os
+favores do poder em quanto elle durasse, promptos a tributar igual respeito a
+quem quer que substituisse os governantes quando os ventos mudassem. A
+revolução tinha sido um despotismo invertido, usando de toda a violencia dos
+tempos anteriores á sua explosão, mas agora em beneficio dos principios
+revolucionarios e, quando Deus queria, das ambições proprias dos que eram
+designados para a representar na lei e no mando. Depois de quarenta annos de
+luctas, a França não tinha alcançado ainda a famosa liberdade pela qual andava
+suspirando e sangrando, e meditava novos meios de a conquistar, formas de
+governo que lh'a assegurassem, em paz e estabilidade.</p>
+
+<p>Ao tempo em que José Estevão entrava na politica, nos derradeiros annos da
+terceira<span class="pagenum"><a name="pag_23" id="pag_23">{23}</a></span>
+decada do seculo XIX, a França, sonhando pôr termo aos conflictos em que desde
+a revolução se vinha esgotando, chegava a esse compromisso que se intitulou a
+monarchia constitucional. Tudo lá havia de caber, o passado e a revolução, a
+liberdade e a auctoridade, a religião e o estado, os padres e os seculares, os
+apostolos e os mercantes, o idealismo e a cobiça. Na opposição de tendencias em
+todas as quaes havia uma parcella de verdade e bem entendida conveniencia e
+interesse social, a rectidão dos homens bons e sinceros hesitava; ora se
+inclinava a reformas, ora se convencia das vantagens de manter a constituição
+historica, abonada por seculos de grandeza. Aos que menos lucidamente
+distinguiam as razões fundamentaes e nobres d'essa incerteza de caracteres
+superiores, sómente e lealmente preoccupados com a ambição d'acertar, essa
+attitude afigurava-se contradictoria e dando facil presa a suspeições, que
+nunca faltam em conjuncturas identicas. Mas, atravez de mil aspectos e
+vicissitudes, era certo que, pela experiencia das revoluções e
+contra-revoluções succedendo-se durante um largo periodo, preponderava então
+nos homens publicos mais reflectidos e a todos os respeitos mais capazes o
+pensamento de que, se a revolução tinha muito de justo, o passado tinha tambem
+não<span class="pagenum"><a name="pag_24" id="pag_24">{24}</a></span> pouco de
+essencial á boa fortuna das comunidades humanas. E conjunctamente o povo, nada
+sensivel ao encanto de principios abstractos, cuja harmonia tanto captiva os
+poetas e os philosophos e tão facilmente os induz a afastar-se da realidade,
+expondo-os ás dôres da desillusão, o povo favorecia as inclinações dos chefes
+politicos. Sendo a victima mais flagellada das disputas revolucionarias,
+cansado de guerras interminaveis, inquietações permanentes e fomes prolongadas,
+queria a tranquillidade a todo o custo. O melhor governo, para elle, seria
+então, como hoje, aquelle que lhe deixasse os filhos para o trabalho e não
+lh'os pedisse para as chacinas dos exercitos, e que lhe permittisse comer em
+socego o pão amassado com o suor do rosto.<span class="pagenum"><a
+name="pag_25" id="pag_25">{25}</a></span></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup>[<a href="#mfn1" name="fn1">1</a>]</sup> G. Brandés, <em>Main Currents
+in Nineteenth Century Litterature</em>. Ed. ingleza. (W. Heinemann, 1906).</p>
+
+<p><sup>[<a href="#mfn2" name="fn2">2</a>]</sup> Barante considera infundada a
+asserção de que os auctores do seculo XVIII eram responsaveis pela revolução
+que nas suas duas ultimas decadas o assignalou. Julga a litteratura d'essa
+epoca apenas um symptoma da doença geral. A litteratura seria a expressão do
+estado social. Na sua opinião, a guerra dos sete annos teria feito mais para
+enfraquecer a auctoridade em França do que a Encyclopedia; e o caracter profano
+da côrte de Luiz XIV, emquanto perseguia protestantes e jansenistas, fez maior
+mal á reverencia pela religião do que os sarcasmos e os ataques dos
+philosophos.</p>
+</div>
+
+<h2>IV</h2>
+
+<p>Pelas proximidades de 1830, a França, na anciedade de descobrir formulas
+politicas que lhe dessem riqueza e paz, inclinára-se, consciente ou
+instinctivamente, ás doutrinas de Montesquieu; ia reconhecendo pela imposição
+dos factos que o clima, a raça, a situação geographica, e sobretudo as
+tradições historicas de cada nação são forças activas e invenciveis no modo de
+ser politico dos povos. Ás abstracções da revolução oppozera-se a ideia de
+patria e o sentimento nacional, differenciando e limitando, e dividindo o mappa
+do mundo em circumscripções diversas de caracter e d'interesses. Ai da
+fraternidade dos povos! Descobriram-se razões para justificar o egoismo das
+collectividades. Mas tambem, em meio da fortuna varia do liberalismo e da
+reacção, atravez de periodos longos de dictadura e absolutismo, firmára-se a
+confiança em moldes novos de constituição politica; acceitava-se em principio a
+igualdade dos homens e em larga escala se traduzia nas leis civis e politicas,
+assentes d'ora avante em<span class="pagenum"><a name="pag_26"
+id="pag_26">{26}</a></span> bases juridicas repassadas de philosophia do
+liberalismo humanitario. O compromisso entre o passado e o futuro, entre os
+factos e as aspirações, ia estabelecer-se por uma partilha de dominio, o mais
+das vezes arbitraria, que era uma tregua e não uma solução do conflicto.</p>
+
+<p>Em Portugal seguira-se caminho parallelo ao que em França conduzira n'essa
+epoca á monarchia constitucional,--bem entendido, n'aquella reducção e larga
+distancia que nos designava o grau da nossa civilisação comparada com a
+civilisação franceza. Tambem nós haviamos conhecido os esplendores e decadencia
+do regimen absoluto, a fome e miseria que a sua corrupção importára, egoismos
+sordidos e imbecis de padres e reis e aviltamento das plebes trabalhadoras na
+servidão e na lisonja, illusões breves do doutrinarismo liberal e a reacção
+immediata a poder de forca e enxovia, luctas civis, e finalmente a victoria dos
+partidos revolucionarios, desenganando do que o passado não podia subsistir tal
+qual fôra e estava irremediavelmente condemnado perante novas aspirações. Em
+1836, quando o exito de sacrificios prolongados e batalhas sangrentas assegurou
+o dominio dos liberaes, tudo nos conduzia a adoptar a forma do governo
+estabelecida em França, seguindo-a passo a passo, nós que de resto, então
+e<span class="pagenum"><a name="pag_27" id="pag_27">{27}</a></span> depois,
+nunca procurámos nem tivemos outro modelo e mestre, embora sempre lhe
+comprehendessemos mal as lições e não raro deixassemos cair a imitação em
+aleijões. Não temos de que nos surprehender quando em 1837 encontramos José
+Estevão, eleito deputado pela primeira vez, a fazer na camara a sua profissão
+de fé n'estes termos: «Eu amo os thronos, porque vejo n'elles um principio
+innocente na organisação social, julgo que todos os damnos que teem feito não
+vem d'elles, mas do modo de os constituir, do erro de os cercar de direitos
+terriveis que lhes são funestos».</p>
+
+<p>Este respeito da constituição historica, temperada pela insinuação dos novos
+principios philosophicos, acompanhal-o-á em toda a carreira politica,
+corrigindo com igual firmeza, invariavel, os impetos demolidores e as
+resistencias d'uma reacção obtusa e hirta, incapaz por natureza de sair das
+formas mortas em que se refugiava. Em 1839, definindo e justificando a sua
+attitude, dizia: «Eu sou um homem de principios; reputo em muito valor este meu
+brazão: n'elle se cifra todo o meu orgulho. Para os homens de principios ha uma
+grande vantagem, n'elles a ambição não é um vicio mas um pensamento, não é
+ambição pessoal, mas é desejo sensato de os vêr triumphar. Eu sou um homem
+de<span class="pagenum"><a name="pag_28" id="pag_28">{28}</a></span>
+principios, (repito) mas reconheço que todos os principios estão sujeitos ás
+conveniencias publicas, e que todo o homem que tem principios entende que é do
+interesse d'elles submetter-se prudentemente ás circumstancias sem deslumbre de
+sua posição». E em outra passagem esclarecia assim o conceito: «Qualquer
+doutrina, por mais justa que seja, sendo invariavelmente seguida nos negocios
+publicos, ha-de dar pessimos resultados e comprometter as suas proprias
+exigencias; ha-de assassinar a moral em nome da moral, e sacrificar a palavras
+a prosperidade publica; tal doutrina importaria uma oppressão tyranica sobre os
+factos, sobre os homens e sobre as cousas; seria finalmente um fatalismo
+politico, mil vezes mais pernicioso que o fatalismo philosophico». Onze annos
+depois, discutindo no parlamento o censo eleitoral, de novo reconhecia a
+impraticabilidade e utopia do radicalismo, ou reaccionario ou reformador: «O
+congresso sabe que eu sou partidario do voto universal; o voto universal é um
+grande principio, é uma grande esperança, é base de todo o futuro europeu, base
+em que vão parar todas as constituições, senão pelo seu estado politico, ao
+menos pelo seu estado economico: é impossivel recuar da tendencia que levam
+esses principios, pela connexão entre o estado economico<span
+class="pagenum"><a name="pag_29" id="pag_29">{29}</a></span> da Europa e o seu
+estado politico. Sr. presidente, nós somos fanaticos do presente e do futuro,
+somos por isso utopistas; e os que são fanaticos do passado são tão utopistas
+como nós, porque o são tanto os que pretendem a realisação d'uma lei que os
+tempos mesmo ainda tornam impossivel de realisar, como aquelles que esperam se
+torne a realisar uma que os tempos já condemnaram ao esquecimento».</p>
+
+<p>Esta concepção do equilibrio politico, radical n'uma base historica, e
+historico n'uma ideia de desenvolvimento progressivo, este pensamento de
+conservação e progresso em permanente conjugação das actividades e tendencias
+proprias dos elementos concorrentes, o criterio evolucionista, como hoje se
+diria, seguirá José Estevão em toda a conjunctura politica, desde a profissão
+de fé do moço vidente, exaltado em esperanças de dar a felicidade aos povos,
+até ao parlamentar desilludido pelo commercio dos homens e pelo espectaculo das
+suas fraquezas. Em 1857 renova as affirmações anteriores, julgando que «a
+regeneração foi uma correcção prestadia á politica desmasiadamente theorica de
+todas as administrações passadas». Nem sequer em momentos de suprema e divina
+elevação, como foi esse do discurso sobre o<span class="pagenum"><a
+name="pag_30" id="pag_30">{30}</a></span> apresamento da barca <em>Charles et
+George</em>, deixou de condemnar o absolutismo no governo, fosse qual fosse a
+forma que revestisse, tradicionalista inflexivel ou reformista intransigente.
+«Um governo que por honra de familia», dizia então, «por influxo de datas, em
+virtude de recomendações testamentarias, haja forçosamente de ter certas
+ideias, certos principios, certas aprehensões, certas tendencias, conservar os
+mesmos amigos, repellir os mesmos inimigos, e tudo isto sejam quaes forem as
+epocas, as conjuncturas, as necessidades publicas, não é governo, é um absurdo,
+um devaneio; uma especie de pyrrhonismo politico. Um governo d'estes não tem
+pensamento nem acção sua: é um verdadeiro automato; os seus actos são
+determinados por principios alheios á sua vontade, marcados, numerados e
+classificados: um governo d'estes não se abalança a andar, sem estar certo de
+que vae pela estrada por onde foram os seus augustos avós. Pára onde elles
+pararam, e treme d'ir mais longe do que elles foram. Ora um governo na epoca
+actual deve ser sobretudo maneavel, facil e prompto em movimentos e capaz de os
+executar em todos os sentidos e direcções».</p>
+
+<p>Ainda poucos mezes antes da sua morte, José Estevão sustentava a mesma regra
+de<span class="pagenum"><a name="pag_31" id="pag_31">{31}</a></span> governo,
+crendo e confessando que sómente seria efficaz a politica que procedesse
+attribuindo valor igual á tradição e ao progresso, á inteireza dos principios e
+ás condições do momento; considerava «que ha em todos os partidos um principio
+decisivo--são as opiniões fortes, formaes, sem transacção, sem composição, as
+opiniões absolutas, que não consideram o estado bem regido sem que ellas
+triumphem completamente. E a par d'este principio ha outro que avalia essas
+mesmas opiniões absolutas, que julga da sua applicação ás circunstancias dos
+tempos, que as qualifica de proprias ou improprias, e que modera a sua acção e
+as torna praticaveis». A experiencia das revoluções europeias, já longa n'esta
+epoca, acautelava José Estevão contra os perigos de toda a rigidez logica em
+materia politica, e sem duvida previa e temia no radicalismo «as consequencias
+que até agora, por desgraça, teem levado a democracia de irritação em
+irritação, de desconfiança em desconfiança, d'opção em opção, de ensaios em
+ensaios, a acabar desgraçadamente em dictaduras, umas vezes grandiosas, outras
+vezes desastrosas»<sup>[<a href="#fn3" name="mfn3">3</a>]</sup>.<span
+class="pagenum"><a name="pag_32" id="pag_32">{32}</a></span></p>
+
+<p>Foi em doutrina e na pratica um moderado, avêsso por caracter a excessos, e
+por ponderação d'espirito contrario a extremos, respeitando o passado e a ordem
+existente e tomando-o por valor essencial, sem prejuizo todavia da crença na
+belleza da nova ordem e nos principios revolucionarios, não perdendo
+opportunidade de os insinuar e applicar com zelo e paixão onde podessem ter
+logar efficazmente, em hora propria para uma applicação adequada, feliz e
+duradoura.</p>
+
+<p>A questão da admissão das irmãs da caridade, debatida no parlamento com
+ardor, mostrou-nos José Estevão confirmando em materia religiosa o seu modo de
+ser politico, porventura accentuando ahi mais claramente do que em qualquer
+outro campo a confiança nos principios tradicionaes da constituição social das
+nações da Europa occidental. Para elle, a historia e os seus incitamentos eram
+uma bussola cujas indicações não podiamos deixar de seguir sem grave risco,
+porque «assim como a religião é um elemento indispensavel de disciplina moral,
+a historia é um elemento indispensavel de disciplina politica». Indispensavel,
+note-se o termo. A negação do doutrinarismo abstracto não póde ser mais
+cathegorica.<span class="pagenum"><a name="pag_33"
+id="pag_33">{33}</a></span></p>
+
+<p>Não queria as irmãs de caridade, porque significavam «uma violação das leis
+do reino, d'aquellas que haviam levado ao throno a dynastia da senhora D. Maria
+II, que teve sempre um instincto finissimo, instincto feminino, dos principios
+sobre que repousava a sua dynastia; porque nunca capitulou, dentro da esphera
+do poder e das sympathias, com aquellas invasões surrateiras do poder
+ecclesiastico, que para ella eram suspeitas de ser contrarias ao governo
+representativo». «Respeitemos estas leis», dizia, «porque vivemos por ellas;
+são as nossas leis, são o nosso coração, são a nossa vida, são a nossa
+historia... Com essas leis no pensamento entramos sete mil perseguidos, sete
+mil expatriados, n'uma cidade que tinha mais do que nós essas leis no
+pensamento, porque tinha visto n'essas congregações religiosas os instigadores
+e conselheiros d'uma tyrannia nefanda; porque tinha visto sair d'essas casas ou
+corporações religiosas cohortes de testemunhas falsas, que tinham ido aos
+tribunaes levantar com os processos judiciaes os patibulos d'onde deviam cair
+as cabeças d'aquelles que ellas tinham marcado como nefastos ao seu
+predominio... É preciso que nos convençamos de que não podemos salvar os
+objectos que veneramos, se não reunirmos todas as nossas forças<span
+class="pagenum"><a name="pag_34" id="pag_34">{34}</a></span> constitucionaes e
+moraes para desfazermos e contrariarmos as intrigas e embustes, pelos quaes se
+quer repôr outra vêz no seu throno e predominio estas instituições, que nós
+combatemos, destruimos e desfizémos». Receiava que aquellas instituições,
+«pelas riquezas e influencias das familias, se tornassem nefastas aos poderes
+do estado e ao exercicio das liberdades publicas».</p>
+
+<p>Depois, além dos perigos do espirito catholico congreganista, adverso aos
+principios liberaes e por isso carecendo de ser vigiado de perto, porque as
+irmãs de caridade eram «uma emanação do espirito jesuitico, e em volta d'essa
+congregação se juntaram todas as ideias que ficaram desbaratadas e destruidas
+pela perseguição que se fez a essa instituição», vinham os inconvenientes da
+forma e apparencias da sua vida e missão, vinham problemas propriamente moraes
+e religiosos, sobrepondo-se ás relações politicas das communidades em
+discussão. «A religiosidade, no sentido que lhe dão os theologos, não dispensa
+o culto externo; e o culto externo das irmãs de caridade é pouco consentaneo
+com as formas, com os costumes e com as prevenções da auctoridade civil».</p>
+
+<p>Sem embargo, «as irmãs de caridade são uma boa instituição», julgava o
+tribuno.<span class="pagenum"><a name="pag_35" id="pag_35">{35}</a></span> Mas
+podiam «prejudicar o paiz... podiam influir no sentimento publico, podiam
+offender a caridade particular, podiam quebrar o nexo que liga as pessoas
+votadas a fazer o bem, podiam ser um vehiculo d'indisposições, podiam tolher a
+liberdade d'acção do governo do paiz, emfim podiam trazer mil inconvenientes
+que era mistér evitar». Por isso as combatia, sem quebra do respeito que lhes
+votava e tinha por merecido, dizendo: «Eu venero e respeito a instituição das
+irmãs de caridade, venero os preconceitos d'onde ella nasce, respeito as ideias
+erroneas que a sustentam». Sómente achava que era «exaggerada e desnecessaria»,
+pois, para realisar a missão d'aquelles institutos, «temos duas associações,
+uma religiosa e outra natural; temos a parochia e a familia. Para que havemos
+de entrar na questão escolastica da intelligencia dos velhos estatutos, nem pôr
+em comparação diversas escolas de caridade? Associemo-nos todos, cada um na sua
+parochia; o chefe de familia para vigiar, regular e acompanhar os actos de
+caridade dos differentes membros da sua familia, e o parocho para ser o nucleo
+religioso, o conselheiro, o orador, emfim o laço da caridade humana com a
+caridade divina». E parallelamente, quanto ao ensino, queria «um ensino publico
+e religioso que<span class="pagenum"><a name="pag_36"
+id="pag_36">{36}</a></span> fosse pago pelo estado e vigiado pela auctoridade
+civil», admittindo «o ensino livre emanado dos poderes civis, acompanhado da
+instrucção religiosa, mas da instrucção dada pelo clero portuguez».</p>
+
+<p>A taes compromissos o obrigava o espirito da epoca, todo de atenuações e
+concessões. Á monarchia constitucional, partilha de soberania entre o rei por
+direito de herança e o povo por direito natural, tinha de corresponder, na
+ordem religiosa, a religião do estado, systema de concordatas e beneplacitos
+entre soberanias de differente origem, com poderes civis dando attribuições
+ecclesiasticas e poderes ecclesiasticos sanccionando determinações dos poderes
+civis e intervindo nos seus actos. Mais uma vez vencia no espirito de José
+Estevão a força da tradição. Atravez de todas as considerações, queria salvar e
+salvava a qualidade de catholico, confessando-a e justificando-a com uma
+firmeza viril. «Snr. presidente», dizia na camara dos deputados, na sessão de 9
+de julho de 1861, «eu sou catholico e admitto que todos os theologos regulares
+ou irregulares, leigos ou não leigos, inquiram os quilates da minha religião, a
+sinceridade das minhas crenças; mas, se fizerem iguaes inquirições das suas,
+hão-de reconhecer que ha uma razão suprema que suppre a escolha<span
+class="pagenum"><a name="pag_37" id="pag_37">{37}</a></span> impossivel n'este
+assumpto de religião. Esta razão suprema que suppre a escolha da religião é a
+tradição da familia, porque o homem, quando vem ao mundo, segue sempre a
+religião de seus paes. Eu sou catholico, porque meus paes e minha familia eram
+catholicos; e isto bastava para eu preferir esta a todas as religiões, por mais
+santa, clara e justa que fosse a sua doutrina. Eu aconselharia sempre que não
+se dispensasse nunca na escolha da religião a tradição de familia, e que ao
+dogma religioso se juntasse sempre o dogma de nossos paes; da percepção das
+verdades supremas podemo-nos desviar ou pela fraqueza ou pelo orgulho, e no
+meio d'estes desvios a religião da familia é uma garantia, é um principio de fé
+humana. Se o religioso de bom-senso me perguntasse qual a minha religião,
+dir-lhe-ia que sou catholico; e qual a razão?--Porque meu pae o era. Respondo
+assim a todos os theologos, e a todos os esquadrinhadores da minha
+consciencia».</p>
+
+<p>Mas que não haja equivoco sobre a natureza do catholicismo que José Estevão
+professou, sobre a largueza com que o entendia; não se imagine que foi o
+servidor de privilegios ou supremacias ecclesiasticas, que quiz o catholicismo
+como instrumento de reinar ou por<span class="pagenum"><a name="pag_38"
+id="pag_38">{38}</a></span> qualquer outro motivo que não fosse simplesmente a
+expressão religiosa, o reconhecimento das relações do homem com a divindade e o
+culto que d'ahi deriva. Foi elle mesmo que se encarregou de definir o seu
+catholicismo, quando em 24 de maio de 1862, discorrendo sobre a liberdade do
+ensino, dizia no parlamento: «Eu sou religioso, catholico apostolico romano. O
+homem vivo da faculdade de pensar e de sentir. Não o estorvemos a cada passo,
+não o calumniemos, não o supponham tão indigno que não possa elevar-se nas azas
+do seu espirito, e librando-se na immensidade procurar por effluvios mysticos o
+inexplicaveis as relações que existem entre elle e a divindade... Eu sou
+catholico, repito, segundo os principios em que fui educado, creio em Deus, e
+elle me deixa crêr e esperar tambem que este seja o melhor de todos os cultos,
+porque satisfaz as minhas necessidades d'espirito, os desejos do meu coração, e
+não diz á minha razão nada que repugne ás minhas aspirações. Gosto do
+catholicismo puro, e não gosto d'este catholicismo philosophado, d'estes
+enxertos de philosophia; gosto da doutrina pura dos bons doutores, gosto da fé
+viva, da virtude sã, de muita moral e menos formas. Não quero portanto o
+catholicismo philosophado (sempre assim fui), nem o<span class="pagenum"><a
+name="pag_39" id="pag_39">{39}</a></span> catholicismo almiscarado; quero o
+catholicismo puro, purissimo em todas as suas manifestações, quero-o em toda a
+parte, fóra da egreja, como na egreja, sem distincção de logar. Em uma palavra,
+gosto do catholicismo que generalisa a ideia religiosa manifestada em todas as
+formas, quer doutrinaes quer moraes. Agora, não sei se sou impio. Para o
+illustre deputado, (<em>voltando-se para o Sr. Pinto Coelho</em>) parece-me que
+o sou. Mas emfim seja o que quizerem, impio ou não impio, isto é o que eu
+sou».</p>
+
+<p>Uma outra razão prendia José Estevão ao catholicismo. Não a confessa, talvez
+mesmo não a tivesse sentido clara e conscientemente; mas deixou-a bem
+transparecer e insinuar em todas as suas affirmações sobre esta materia. Era
+catholico, não podia deixar de o ser, porque, demagogo convicto e ardente, no
+sentido mais nobre da palavra, as suas tendencias religiosas, como as demais,
+eram as tendencias do povo que amava com tão exaltada dedicação. Sorriria a
+toda a sua ingenuidade na poesia e na crença, com aquelle mesmo affecto que o
+consagrára ao respeito da sua grandeza no trabalho e á defeza dos seus direitos
+na ordem social e politica. Por isso concebia o catholicismo e queria-lhe, como
+áquelles nos quaes em toda a singeleza o<span class="pagenum"><a name="pag_40"
+id="pag_40">{40}</a></span> encontrava; e sympathisava «mais com o catholicismo
+milagreiro do que com o catholicismo philosophico», e gostava mais «do nosso
+catholicismo peninsular, salvas as fogueiras, que as houve por muita parte, do
+que do catholicismo francez, que tem muitos louvores da philosophia mundana, e
+que lhe parecia mais uma escola philosophica rebocada de religião, do que um
+gremio verdadeiramente catholico»<sup>[<a href="#fn4"
+name="mfn4">4</a>]</sup>.</p>
+
+<p>O seu coração nunca se affastava do coração do povo, onde quer que elle
+batesse.</p>
+
+<p>Se sonhou opposição entre o espirito do catholicismo, dogmatico, de
+obediencia mortal, e a liberdade de pensamento, com as responsabilidades de
+consciencia respectivas, que iniciava tempos novos, tudo conciliou pelo
+predominio final da inspiração affectiva sobre a phantasia revolucionaria que
+promettia paraisos terrestres só pela negação de poderes sobre-humanos, pela
+abolição do culto, por incendio das imagens e pelo morticinio dos sacerdotes.
+Do orgulho que por certo o incitaria a decidir exclusivamente pelo proprio
+entendimento e a crêr na razão, abdicou, consciente<span class="pagenum"><a
+name="pag_41" id="pag_41">{41}</a></span> e reflectidamente, na experiencia e
+na fé dos que haviam vivido antes d'elle e lhe tinham dado o sêr, e na poesia
+candida da alma popular. A logica cedeu ao amor; e o amor, que sempre o movia,
+quebrava-lhe aqui quaesquer veleidades de destruição.<span class="pagenum"><a
+name="pag_42" id="pag_42">{42}</a></span></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup>[<a href="#mfn3" name="fn3">3</a>]</sup> Sessão de 30 d'abril de 1856,
+<em>Discurso acêrca do caminho de ferro.</em></p>
+
+<p><sup>[<a href="#mfn4" name="fn4">4</a>]</sup> <em>Discurso sobre as irmãs de
+caridade</em>, em 9 de julho de 1861.</p>
+</div>
+
+<h2>V</h2>
+
+<p>A revolução franceza, cujos evangelhos o liberalismo portuguez seguia, sem
+muito discriminar nem a sua conveniencia para a situação historica nacional nem
+mesmo as consequencias de diversa natureza que cedo começou a produzir nos
+paizes d'origem, importava, na multiplicidade dos seus aspectos e resultados,
+uma transformação economica formidavel, além de transformações religiosas,
+politicas e muitas outras. A fermentação economica do seculo XVIII em França
+coincidiu, se é que não a precedeu, com a fermentação politica; o exame das
+relações economicas do individuo e do estado e das diversas classes entre si
+mostrou não menos funda desgraça do que aquella que se atribuia ao absolutismo
+dos reis e da egreja. A revolução não podia limitar-se a capricho; tinha de
+renovar toda a organisação moral e juridica das sociedades e dos homens. Desde
+que no seculo XVI um grande movimento do espirito humano, lentamente elaborado
+em seculos de meditação e na prolongada atribulação dramatica das
+consciencias<span class="pagenum"><a name="pag_43" id="pag_43">{43}</a></span>
+sedentas de verdade, veio abalar a constituição intima e a manifestação externa
+do pensamento, legitimando a duvida e a discussão das relações do homem com
+Deus, ferindo crenças até então sagradas, intangiveis; desde que essa tendencia
+se revelou e cresceu em extensão e intensidade, chegaria um dia, evidentemente,
+em que igual liberdade tinha de conceder-se, por maioria de razão, para
+discutir as relações dos homens entre si em todos os modos e formas do
+commercio humano, e para averiguar, portanto, por que motivos e com que direito
+e auctoridade uns mandavam e outros obedeciam, uns eram ricos e viviam na
+opulencia e outros eram pobres e se arrastavam indigentes.</p>
+
+<p>Muito cedo, logo no principio do seculo XVIII, os systemas de liberdade
+economica nascidos na Inglaterra passaram ao continente e viéram encontrar em
+França apostolos eminentes. A pobreza das povoações ruraes, o peso oppressivo e
+desigual dos impostos, a ruina das finanças publicas, protestavam contra a
+organisação vigente e demandavam uma profunda reforma. Os escriptos de
+Boisguillebert, que votou ao estudo d'esses problemas um talento notavel,
+traduziram desejos de novo rumo e desvendaram o descredito irreparavel do
+systema existente. Condemnando toda a<span class="pagenum"><a name="pag_44"
+id="pag_44">{44}</a></span> regulamentação arbitraria do commercio interno e
+externo; insistindo em que a riqueza nacional não depende dos governos, cuja
+interferencia faz mais mal do que bem, em que as leis naturaes da ordem
+economica das cousas não pódem ser violadas ou desprezadas impunemente e os
+interesses das differentes classes da sociedade, n'um systema de liberdade, são
+conformes, e os interesses do individuo coincidem com os do estado; reclamando
+igual solidariedade para as differentes nações entre si, e crendo que d'este
+modo de considerar os homens e os povos resultaria a paz e a harmonia;
+dividindo os homens em duas classes, a dos que nada fazem e tudo gozam e a dos
+que trabalham desde manhã até á noite sem conseguir ganhar a simples
+subsistencia; inclinado a favorecer estes ultimos por todo o modo e procurando
+corrigir as desigualdades nefastas de que os impostos andavam
+eivados:--Boisguillebert não estava longe das doutrinas de liberdade economica
+que prevaleceram no segundo quartel do seculo XIX. Respirava-se já alli a
+atmosphera que, expandindo-se atravez de mil luctas, veio a embeber a politica
+economica da maioria das nações da Europa.</p>
+
+<p>A economia politica, tal qual os mestres a traçavam depois de 1820 e os
+politicos a confirmavam<span class="pagenum"><a name="pag_45"
+id="pag_45">{45}</a></span> com enthusiasmo, subordinando-lhe as leis do
+estado, seria cousa tão simples como fertil em beneficios. Libertassem o
+individuo das peias do antigo regimen, dos estorvos d'um systema complicado de
+direitos e obrigações, déssem-lhe liberdade até á pulverisação completa das
+massas sociaes, dispersas em atomos d'um movimento uniforme, e ia surgir um
+mundo todo de harmonia perfeita; porque, procurando cada um o seu interesse
+pessoal, no fim todos os interesses se sommavam e encontravam satisfeitos e,
+por conseguinte, a felicidade era plena. Do cáos sairia a ordem. Quanto mais
+liberdade, melhor; deixassem os proprietarios, os rendeiros, os operarios, os
+capitalistas e os commerciantes debater livremente os seus interesses, e cada
+um receberia a justa recompensa do seu trabalho, da sua capacidade e dos seus
+bens. Quanto mais viva e geral fosse a concorrencia, mais cedo se alcançaria o
+equilibrio. Eram d'esperar crises, perturbações, miserias, desastres e lamentos
+na fundação do novo regimen; mas, asseguravam-nol-o os economistas, tudo isso,
+mal transitorio resgatado por beneficios incalculaveis, havia de sanar-se para
+fortuna dos homens pelo simples jogo das forças em confronto. Quando se
+houvesse varrido o campo de todos os obstaculos legaes e moraes<span
+class="pagenum"><a name="pag_46" id="pag_46">{46}</a></span> da
+concorrencia,--regulamentos, prejuizos, sentimentos, ignorancia, sujeições de
+toda a casta,--a paz, a abundancia e a equidade viriam naturalmente dos atomos
+libertos, guiados sómente pelo interesse egoista.</p>
+
+<p>Assim se fez. Veio a liberdade; diversas nações a experimentaram, sobretudo
+a Inglaterra. E a miseria que de tal systema resultou ou, melhor, a miseria que
+uma tal ausencia de systema determinou, ficou memoravel nos annaes da
+humanidade.</p>
+
+<p>A nova ordem foi o triumpho completo da burguezia capitalista.
+Admiravelmente servida nos seus fins pela revolução mecanica da industria que,
+d'invenção em invenção, condemnava processos antiquados de producção, deixando
+a pedir esmola os que os usavam e d'ahi tiravam o pão de cada dia, e conferindo
+um poder sem limites a quem tivesse capital bastante para montar a fabrica
+moderna; favorecida pela lei, liberalissima, que lhe permittia explorar á sua
+vontade o trabalho, acceitando-o ou regeitando-o ou reduzindo-o a seu capricho,
+tratando o salario como materia prima insensivel e morta, com o mesmo calculo e
+frieza que empenhava na construcção da officina e na determinação da força
+motriz respectiva: a burguezia tirou um imperio crudelissimo da famosa
+liberdade que<span class="pagenum"><a name="pag_47" id="pag_47">{47}</a></span>
+os philosophos offereciam como o resgate das angustias d'outro tempo. Medrava o
+capitalismo, e ao lado da sua grandeza alastravam-se em proporção crescente as
+plebes famintas. O povo, na revolução, julgava ter vencido e haver-se
+emancipado; e descobria agora, com espanto e angustia, que apenas collaborára
+n'uma transferencia de dominio, na creação de novos despotas. Esforçando-se
+pela victoria da burguezia e applaudindo-a, preparára para si uma tyrannia mais
+desapiedada do que aquella em que o feudalismo, a aristocracia territorial e as
+dependencias corporativas o haviam tido por tantos annos. A burguezia,
+invocando a eminencia e beneficios da liberdade, apoiada no doutrinarismo
+utilitario, seu fiel companheiro e filho legitimo, arrogou-se o direito, que
+larga e funestamente exerceu, de explorar e escravisar o trabalho alheio,
+isentando-se ao mesmo tempo em absoluto da caridade e auxilio que no antigo
+regimen prendiam o servo da gleba e o seu senhor, e riscando das obrigações
+moraes o que já estava abolido nas relações juridicas, os laços de protecção e
+solidariedade, o nexo poderoso da consciencia do interesse commum que, emquanto
+exigia serviços, logo impunha, por necessidade indeclinavel, deveres de
+patronato.<span class="pagenum"><a name="pag_48" id="pag_48">{48}</a></span></p>
+
+<p>A revolta não tardou, aterradora, manifestando-se em tumultos de multidões
+ameaçadoras, e interpretada na esphera do pensamento especulativo por homens de
+genio, como foi Carlyle.</p>
+
+<p>Era certo que a abolição dos monopolios e privilegios déra liberdade ao
+capital para exercer, em seu proveito, summa pressão sobre o trabalho. Era
+certo que, em virtude d'isso, o capital em breve se mostrou o poder dominante
+da sociedade, regida por um utilitarismo brutal e governada por uma burguezia
+infinitamente mais nociva ás reivindicações democraticas do que as antigas
+aristocracias, com maior riqueza e maior força, incitada por cobiças ardentes,
+plebeias, soffregas, e pela energia de gerações robustas, violenta no arrojo e
+nos processos, por completo desprendida da sujeição moral d'outros tempos, que
+suavisava as relações entre servo e senhor, considerando-os unidos por vinculos
+de familia. Perante o triumpho capitalista de 1830, definia-se, porém, no
+proletariado, que elle creára, a consciencia da propria situação. Da exploração
+vieram miserias; das miserias a dôr e a revolta; e o instincto, que não erra,
+determinava a associação dos opprimidos, para melhor defeza. Assim se
+fortalecia um terceiro estado que, reconhecendo-se escravo e soffrendo as<span
+class="pagenum"><a name="pag_49" id="pag_49">{49}</a></span> amarguras da sua
+condição, amaldiçoava, de punhos cerrados e flamejando coleras, o systema que o
+trazia subjugado sob tão insensiveis tyrannias. Vagamente, começa a entrevêr-se
+a restauração, em novas bases, da ordem tradicional. Far-se-ia agora em
+beneficio dos trabalhadores o que algum dia se inventára em proveito do
+feudalismo. Havia de renovar-se, pois era essencial á nação inteira, á
+tranquillidade dos grandes e á prosperidade dos pequenos, a traducção efficaz
+da solidariedade das classes nas instituições politicas e sociaes, que se via
+arruinada e banida por um individualismo soberano e anarchico, sem repressão
+nem regra. A ostentação d'essa ferocidade barbara, substituindo a salutar
+concepção historica da communidade d'obrigações e deveres pelo ajuntamento
+desconnexo d'unidades cuja lei unica, exclusiva, era a expansão e imposição do
+proprio egoismo, sem outro limite além d'aquelle a que os egoismos alheios por
+seu turno o coagissem, avolumava de hora a hora um tremendo movimento de
+reacção. Dos proletarios communicava-se á pequena burguezia que, sentindo a
+pressão do capitalismo e por elle expropriada tambem, vinha encorporar-se nos
+bandos das victimas do monstro insaciavel. E ao clamor do povo juntava-se a
+reflexão dos pensadores, excitada<span class="pagenum"><a name="pag_50"
+id="pag_50">{50}</a></span> pela piedade, resultando em que a erupção
+individualista, assoladora, era temida e combatida ao mesmo tempo pelos
+indigentes que produzia, e pela razão e pela justiça a que repugnava.
+Significava a preterição de toda a vida moral e da caridade christã e uma
+perigosa incerteza politica; de continuo trazia abalada a estabilidade dos
+governos o da propria fortuna particular. Ninguem se encontrava tranquillo e
+satisfeito. Uns tinham fome; outros traziam turvada a consciencia. Nem talvez
+os proprios despotas que o liberalismo utilitario cevava e enthronisava,
+andariam de todo contentes; naturalmente, quereriam igual mantença de ambições
+e menos risco da pessoa e bens, ameaçados d'assassinio e incendio.</p>
+
+<p>Esta reacção era todavia vága, confusa, um perpetuo rugir de condemnados,
+gritos de desgraça e cantos mysteriosos d'esperanças, conflictos de crenças.
+Vinha longe aquella clareza de intuição e proposito em que o socialismo moderno
+se definiu. A democracia começara por ser negativa, antes de ser constructiva.
+Porventura Voltaire e Rousseau tinham resumido duas correntes que, embora
+contemporaneas na origem, haviam de ser successivas nos effeitos. A primeira
+involvia a negação religiosa; a segunda, tendo por<span class="pagenum"><a
+name="pag_51" id="pag_51">{51}</a></span> base a justiça, carecia de se apoiar
+em sentimentos idealistas. Uma destróe; a outra reedifica. Ora ainda a
+destruição não estava consumada, e já a necessidade de reconstruir se mostrava
+urgente. Entre a concepção do problema politico, como destruição, e a concepção
+do problema social, como organisação, medeiava apenas meio seculo que, apezar
+de revoluções incessantes, não lográra varrer o terreno do passado para o
+deixar amplo ás edificações futuras. D'ahi vinha que simultaneamente procuravam
+vingar duas ideias de progresso quasi antagonicas, uma que não conseguira
+vencer completamente, que ainda não derrubára tudo o que se havia proposto
+derrubar, e a outra que, ganhando entretanto consciencia da sua razão de ser,
+reclamava uma constituição social que por momentos era ou parecia a regressão
+ao passado. A confusão poderia ser de facil desenlace para os doutrinarios;
+para um politico era temerosa<sup>[<a href="#fn5"
+name="mfn5">5</a>]</sup>.<span class="pagenum"><a name="pag_52"
+id="pag_52">{52}</a></span></p>
+
+<p>Não que o systema fosse incompleto. O utilitarismo individualista tinha a
+liberdade e a concorrencia para darem riqueza, felicidade e harmonia; mas, onde
+por acaso houvesse deficiencia, onde as miserias tivessem escapado aos
+beneficios do desafogado embate dos interesses, lá estava a philantropia para
+acudir a desgraças. Simplesmente acontecia que a avidez dos interesses nunca
+faltava, calcando e esmagando quem lhe ficava no caminho, e a philantropia
+apparecia raro, e sempre mal provida, a soccorrer as victimas cujos gemidos
+formavam um côro a todos os respeitos sombrio e pungente. E começaram então os
+philosophos, os politicos, os pensadores e os crentes, todos aquelles que pelo
+espirito ou pelo coração sentiam a desordem e a crueldade, os que a temiam como
+um perigo para a prosperidade das nações e os que a choravam como um aggravo a
+eternas e impreteriveis leis moraes, começaram então<span class="pagenum"><a
+name="pag_53" id="pag_53">{53}</a></span> a procurar um outro systema de reger
+os povos, no qual a equidade e a justiça, em vez de serem devoção, passassem a
+ser obrigação e direito, efficazmente reconhecidas nas leis do estado e nas
+prescripções juridicas.</p>
+
+<p>José Estevão viu os tempos heroicos do socialismo, a aurora d'esse sonho
+admiravel no mundo activo, a derrota dos seus paladinos, passados todos, com
+sobranceria e desprezo, ao livro das inutilidades perigosas pela burguezia
+triumphante e pelos seus prophetas. Viu a cegueira e desastres dos tempos
+d'iniciação, e viu tambem que, mal succumbiam os vencidos, logo outros soldados
+surgiam a combater, cada vez mais numerosos; qualquer cousa de novo se
+affirmava irreductivel, com que a politica e a democracia tinham a contar. O
+periodo de 1830 a 1850 foi notavel para o adeantamento e definição da concepção
+socialista do estado. A evidencia dos factos obrigava a attender ao que ha
+muito vinha sendo apregoado por almas d'eleição e verdadeiros videntes, e fôra
+tido por phantasia de poetas. A estrella do puro liberalismo declinava entre
+maldições de trabalhadores famintos.</p>
+
+<p>Proudhon, o demolidor terrivel de tantos altares consagrados do liberalismo,
+nasceu poucos mezes antes e morreu dois annos depois de José Estevão. Pôde este
+assistir<span class="pagenum"><a name="pag_54" id="pag_54">{54}</a></span> ao
+exame do capitalismo, que aterrava e horrorisava os corypheus das escolas
+individualistas. <em>Da Justiça na Revolução e na Egreja</em>, o <em>Systema
+das Contradicções Economicas ou Philosophia da Miseria</em>, a affirmação de
+que «a propriedade é um roubo», esses anathemas d'um mundo d'oppressão, em que
+o rebelde precedia Karl Marx, na critica da propriedade e na analyse do
+capitalismo, e se anticipa a Bakounine no repudio da auctoridade e na exigencia
+d'uma liberdade perfeita, são do tempo de José Estevão, e por elle teriam sido
+ouvidos de perto, emigrado como esteve em França nos annos que immediatamente
+precederam a revolução de 1848. Pôde ver mais, pôde ver Proudhon absolvido,
+quando foi chamado aos tribunaes por causa do <em>Aviso aos Proprietarios</em>,
+porque, pretendia a sentença, «se encontrava numa esphera d'ideias inaccessivel
+ao vulgo»; e, embora mais tarde, pela <em>Justiça na Revolução e na Egreja</em>
+fosse condemnado a tres annos de prisão, sempre é certo que, por um rapido
+momento, os proprios magistrados da lei estatuida tributavam respeito á nova
+fé, apregoada com indomavel ardor pelo apostolo.</p>
+
+<p>Proudhon era porém apenas o demolidor eloquente e violento. Anteriormente e
+simultaneamente, outros esboçavam a cidade futura.<span class="pagenum"><a
+name="pag_55" id="pag_55">{55}</a></span> Roberto Owen<sup>[<a href="#fn6"
+name="mfn6">6</a>]</sup>, Saint Simon<sup>[<a href="#fn7"
+name="mfn7">7</a>]</sup> e Fourier<sup>[<a href="#fn8"
+name="mfn8">8</a>]</sup>. todos haviam já formado e apregoado com exaltação,
+partilhada por numerosos sectarios e martyres, systemas de relações sociaes
+muito differentes d'aquelles deshumanamente liberrimos sobre que a burguezia
+fundára uma tyrania sem precedentes.</p>
+
+<p>Roberto Owen defendêra e tentára uma organisação social baseiada na
+cooperação, oppondo-a á anarchia selvagem da concorrencia commercial
+desenfreiada do periodo primitivo do capitalismo, e propondo o seu plano de
+«aldeias d'unidade e cooperação», nas quaes os empregados se juntariam em
+communidades autonomas, onde mutuamente se sustentavam pelo producto dos seus
+diversos trabalhos. D'experiencia em experiencia, d'estudo em estudo,
+convencera-se de que os grandes males das sociedades eram na sua essencia de
+natureza economica e acabava pregando a pura doutrina socialista,--que o povo
+nunca será senhor dos seus direitos, emquanto não possuir as officinas e os
+campos, não em propriedade particular mas em propriedade collectiva,
+estabelecida em bem da<span class="pagenum"><a name="pag_56"
+id="pag_56">{56}</a></span> communidade. «Declaro perante o mundo», escreveu,
+«que, até hoje, o homem tem sido o escravo d'uma trindade monstruosa: a
+propriedade particular, os systemas religiosos irracionaes e infantis, e,
+finalmente, o casamento».</p>
+
+<p>Saint-Simon, representando uma vigorosa reacção contra os excessos
+doutrinarios do seculo XVIII, que lucidamente considerou um periodo de critica
+e dissolução, ao qual tinha de oppôr-se no seculo XIX uma epoca d'organisação,
+viu como seria insufficiente a destruição do passado, que aliás não amava, se
+ella se limitasse a mudanças da forma do governo, sem alterar as demais
+condições religiosas, moraes e economicas de que dependia a felicidade dos
+homens. E, comprehendendo a inanidade da revolução propriamente politica,
+desenganado pelos acontecimentos, de que em França era testemunha, inventava
+uma aristocracia de homens capazes para governar as nações, abolia o direito de
+successão na propriedade, estabelecia condições de iniciação na vida iguaes
+para todos, reclamando que «os instrumentos do trabalho, terra e capital,
+fossem possuidos pelos membros unidos da sociedade», e sonhava o estado
+perfeito, a communidade em que os mais aptos tivessem todo o poder e uma parte
+ampla do producto,<span class="pagenum"><a name="pag_57"
+id="pag_57">{57}</a></span> procedendo de modo a que o estado trabalhasse para
+melhorar a condição material e moral dos mais pobres.</p>
+
+<p>Seguia-o de perto Fourier, embora se imaginasse longe<sup>[<a href="#fn9"
+name="mfn9">9</a>]</sup>. Descobrindo no homem a paixão do <em>uniteismo</em>,
+que significava a tendencia natural dos homens a juntarem-se em grupos sociaes
+e trabalharem juntos pelo bem commum, em vez de combaterem entre si tomando
+para regra moral e lei um systema de disputa, tirava d'ahi a sua famosa
+«phalange» ou unidade social, de que muitos se riram mas que, apóz varia sorte
+e criticas de todo o genero, hoje se verifica ter proximo parentesco com a
+concepção moderna da municipalidade socialista. Esses planos, que pareceram
+phantasia d'um sonhador generoso, modificaram-se e completaram-se; e hoje não
+será desacerto tel-os como simples antecipação de formas de vida social, que
+em<span class="pagenum"><a name="pag_58" id="pag_58">{58}</a></span> muitos
+paizes se vão experimentando e propagando, com não pequena vantagem e efficacia
+na boa ordem das sociedades.</p>
+
+<p>Tudo isso, porém, que foi muito na evolução da democracia e na definição,
+inevitavelmente lenta, das suas necessidades e aspirações, foi muito pouco
+perante um facto de maior alcance, que José Estevão teria observado e
+ponderado, devendo encontral-o na edade de maior energia politica. Por certo
+não lhe escaparam nem a apreciação da sua essencia nem, muito menos, a previsão
+das consequencias larguissimas que virtualmente importava.</p>
+
+<p>1839 e os annos que se lhe seguiram até 1848, marcam na historia do
+socialismo uma epoca notabilissima, a passagem do socialismo utopista e
+negativo ás reclamações positivas e cathegoricas d'um programma de governo. Em
+1839 publicou Luiz Blanc a <em>Organisação do Trabalho</em>. D'ahi podemos
+datar uma era nova. Para os interesses das grandes massas trabalhadoras, estava
+julgada a esterilidade do reinado dos Bourbons, da convenção, da republica, da
+dictadura, do consulado, do imperio e depois ainda da restauração monarchica.
+Quasi meio seculo d'experiencias revolucionarias e reformadoras concluia, na
+meditação do pensador politico,<span class="pagenum"><a name="pag_59"
+id="pag_59">{59}</a></span> pela necessidade de inscrever entre os deveres
+primordiaes do estado a garantia de trabalho regular a todo o cidadão. Como
+consequencia directa, immediata, o trabalho tinha de ser organisado sob a
+direcção do estado--granjas para os lavradores, fabricas para os operarios e
+armazens para os commerciantes, convertidos em propriedade sua, do estado,
+todos os grandes instrumentos de riqueza, os canaes, as minas, as grandes
+industrias e os bancos. As associações cooperativas, que Fourier e Owen
+deixavam á iniciativa e bom senso particular, passava-as Luiz Blanc a encargo
+do estado. As «officinas sociaes» do grande reformador foram talvez uma das
+mais claras antecipações da constituição do estado socialista. «Pedimos a
+communidade dos trabalhadores», escrevia elle em 1840, resumindo as reclamações
+revolucionarias, «isto é, desejamos abolir o commercio dos homens no trabalho
+dos homens, e, em vez d'isso, estabelecer officinas nacionaes em que a riqueza
+produzida se reparta entre os trabalhadores e não haja mais servos nem
+senhores».</p>
+
+<p>Estava fundado o socialismo como elemento politico e força activa, com
+direitos exigiveis e exigidos na constituição social das nações, nos seus
+costumes, e sobretudo nas suas leis.<span class="pagenum"><a name="pag_60"
+id="pag_60">{60}</a></span> Fossem quaes fossem os desastres das primeiras
+tentativas, o socialismo passára, d'uma vez para sempre, das dissertações
+especulativas, em que a compaixão de suppostos visionarios o concebeu, para as
+assembleias dos legisladores em que as nações teriam de determinar as condições
+praticas da sua execução.<span class="pagenum"><a name="pag_61"
+id="pag_61">{61}</a></span></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup>[<a href="#mfn5" name="fn5">5</a>]</sup> Hoje tornou-se clara e
+corrente a interpretação d'estes factos. Mas, para mostrar que labyrintho
+representaria no tempo de José Estevão, bastará lembrar que, quando Oliveira
+Martins pela primeira vez a fez magistralmente no <em>Portugal
+Contemporaneo</em>, com relação á nossa historia politica, ainda então muito
+bons espiritos lhe desconheceram a exactidão. E a muitos pareceu um
+reaccionario, miguelista, porque não commungava na furia liberalista de deitar
+abaixo; a outros se afigurou blasphemo e sacrilego, a cuspir censuras, quando
+apenas apontava erros e fraquezas de glorias consagradas; e para outros não
+merecia confiança, ia para o rol dos utopistas e incomprehensiveis, porque não
+se emendára d'aquelle socialismo dos bons tempos que partilhou com Anthero de
+Quental.</p>
+
+<p><sup>[<a href="#mfn6" name="fn6">6</a>]</sup> 1771-1858.</p>
+
+<p><sup>[<a href="#mfn7" name="fn7">7</a>]</sup> 1760-1825.</p>
+
+<p><sup>[<a href="#mfn8" name="fn8">8</a>]</sup> 1772-1837.</p>
+
+<p><sup>[<a href="#mfn9" name="fn9">9</a>]</sup> Fourier, referindo-se a Owen e
+Saint-Simon, acautelava o leitor contra os «laços e charlatanismo das duas
+seitas», não considerando as affinidades manifestas da «cidade» de Owen e da
+aristocracia de Saint-Simon com as suas proprias aspirações, que consistiam na
+organisação da industria do modo mais conveniente aos interesses collectivos.
+Todos tres partiam d'um principio--a producção da riqueza em beneficio da
+communidade.</p>
+</div>
+
+<h2>VI</h2>
+
+<p>Não era dado ao politico ignorar um movimento de semelhante magnitude, nem o
+apostolo fervoroso da democracia poderia deixar de o ver com sympathia. E José
+Estevão sentiu-o profundamente.</p>
+
+<p>Outros aspectos da transformação politica do seu tempo lhe teriam offerecido
+ensejo de maior brilho para a eloquencia e de valoroso esforço para o seu
+braço. Nenhum todavia lhe despertou do peito palavras mais sublimadamente
+repassadas d'amor pelo povo e de fé na sua libertação.</p>
+
+<p>As victorias da burguezia em Portugal assumiam um caracter muito differente
+do que tinham na Inglaterra e na França, paizes que nos inspiravam e
+procuravamos imitar, fazendo-o por desgraça muito mal. Embora a diversidade de
+condições seja evidente, convém apontal-a n'este ponto e não a esquecer, para
+uma justa apreciação do pensamento de José Estevão, para avaliarmos até onde
+podia avançar sem exaggero ou erro, provenientes do desconhecimento das
+circumstancias proprias<span class="pagenum"><a name="pag_62"
+id="pag_62">{62}</a></span> do paiz. Não havia para nós questão das grandes
+industrias nem a sua cauda obrigada de proletarios; nem a pobreza da nação a
+consentia, nem tão pouco a sua iniciativa e inventiva em materia de
+transformação mecanica a provocava. Debalde procurariamos qualquer cousa que se
+assemelhasse á ruina dos teares manuaes e á conversão da officina domestica em
+grande fabrica, pondo d'um golpe milhares de familias na indigencia ou, pelo
+menos, na dependencia anonyma, sem dó nem piedade, de gigantes capitalistas
+terriveis e phantasticos, que se não viam e todavia tudo ordenavam; debalde
+esperariamos as multidões amotinadas que a desgraça recrutou e desvairou em
+odios e ameaças. A exiguidade de forças economicas livrar-nos-ia das tormentas
+que a abundancia levantava entre os poderosos do mundo industrial.</p>
+
+<p>Mas nem por isso deixavamos de sentir a repercussão do movimento,
+amesquinhado e aviltado pelo atrazo e miseria nacional; nem por isso, por
+sermos pobres e incultos, deixavamos de vêr a burguezia triumphante, a
+substituição de classes no governo politico, na posse dos bens e em toda a
+extensão do dominio social, o clero e a aristocracia, ha pouco senhores
+absolutos da nação, preteridos e excluidos por seus antigos dependentes e<span
+class="pagenum"><a name="pag_63" id="pag_63">{63}</a></span> por homens vindos
+de profissões até então alheias aos encargos e honras de mandar nas cousas
+publicas. Á falta de fabricas que explorassem o trabalho humano e o reduzissem
+a pura mercancia, tinhamos a usura a cevar-se na ruina dos que pela nova ordem
+iam decaindo; e, não havendo grande conquista a fazer nos despojos das classes
+expropriadas, contentavamos-nos com o assalto aos bens dos conventos e com uma
+cobiça selvagem de honrarias, julgando que, por transpôr a chaparia das fardas
+dos fidalgos para as rabonas dos plebeus, isso bastava para que as insignias
+trouxessem de prompto, a quem as usasse, nobreza e imperio. Tinhamos a questão
+da terra e dos modos de a possuir e usufruir, os morgados e os foros,
+libertações que degeneravam em oppressões, emphyteutas que passariam a
+rendeiros, sem estabilidade, á mercê da incerteza da hora presente, tirando das
+fadigas muito estrictamente o pão de cada dia, que o resto era para o
+proprietario ou para o prestamista, ávidos, ricaços de fresca data, destituidos
+d'aquelle desinteresse e largueza que a diuturnidade da posse dava a antigas
+linhagens, como um fastio em que andavam saciadas, insensiveis ou indifferentes
+ao gozo dos bens. Tinhamos uma aristocracia territorial a desfazer-se pelas
+proprias<span class="pagenum"><a name="pag_64" id="pag_64">{64}</a></span>
+dissipações e pelas guerras civis, offerecendo presas opimas ás astucias
+sordidas da avareza. Tinhamos o bandidismo de varia especie que invariavelmente
+segue as calamidades de toda a sorte, a fome, a peste, a guerra, o incendio e o
+naufragio. Tinhamos a desordem das finanças do estado, continuamente afflictas
+por soccorro, um erario faminto, exgotado pelas luctas civis e pela ausencia
+d'administração proveniente da instabilidade dos governos, facultando assim ao
+capitalismo estrangeiro e indigena um banquete facil e commodo, permittindo
+explorar em globo, pelo mecanismo dos impostos e pela coacção concomitante da
+força publica, o suor de toda a miseria nacional<sup>[<a href="#fn10"
+name="mfn10">10</a>]</sup>.<span class="pagenum"><a name="pag_65"
+id="pag_65">{65}</a></span> Tinhamos finalmente, como nas demais nações em
+conflagração, a questão da repartição e lançamento dos tributos, onde
+claramente se definiriam todas as tendencias, thermometro seguro, então, agora
+e em todos os tempos, das iniquidades na distribuição da riqueza entre as
+diversas classes e da justiça ou injustiça com que entre ellas são julgados os
+direitos e deveres de cada uma em face do producto do trabalho commum. Se nos
+faltava uma burguezia industrial opulenta, abundavam os sentimentos que em
+outros logares a caracterisavam; e aqui tambem, esgravatava-se, ás migalhas, em
+montes d'esterco, o que algures se apanhava, aos punhados, em montes d'ouro.</p>
+
+<p>Perante esse tumulto de vilanias, José Estevão não descreu todavia de fé
+individualista. Seguindo a estrella d'altissimos espiritos<span
+class="pagenum"><a name="pag_66" id="pag_66">{66}</a></span> do seu tempo,
+esperou tambem da generosidade do coração o termo de males que impensadas
+liberdades amplamente provocavam. Discutindo o incidente das irmãs de caridade,
+dizia: «Quantas terras, quantas povoações importantes, quantos centros de
+população não carecem de hospitaes precisos, não para acudir a epidemias,
+porque esse é o extraordinario das miserias humanas, mas para acudir ao
+movimento das doenças ordinarias? E isto emquanto que em outras povoações se
+accumulam instituições riquissimas, que gastam uma grande parte dos seus
+rendimentos em faustos, pompas e luxos religiosos, ou se consomem por abusos
+administrativos de confrarias, aonde não é possivel metter luz, emquanto que em
+outra parte os doentes agonisam, não faltos de remedios mas faltos d'agasalho!
+Acontece isto, quando em outra parte a velhice, extenuada pelo resultado do
+trabalho domestico, pede esmola, sem haver um estabelecimento que lhe abra as
+portas no ultimo quartel da vida; e quando em outras das nossas povoações vemos
+chusmas de creanças de ambos os sexos, pedindo a instrucção e o agasalho que se
+lhes não dá, havendo aliás n'essas povoações casas aparatosissimas, destinadas
+para tratar outras miserias estabelecidas com o maior luxo, e sem se fazer
+uma<span class="pagenum"><a name="pag_67" id="pag_67">{67}</a></span>
+distribuição equitativa da caridade por todas as miserias da vida humana». E em
+1839, quando discutia o orçamento do estado, «no seculo em que os agiotas são
+potentados, no seculo em que as fortunas publicas e dos estados lhes andam nas
+mãos», segundo a sua propria expressão, tão fiel e exacta pela verdade
+historica, revoltava-se contra essa preponderancia sordida e seus manejos,
+dizendo: «Se ellas (as leis da usura) estão revogadas pelos poderes da terra,
+ainda estão vigentes para as almas nobres, e eu hei-de ser sempre anachronico
+nos sentimentos de indignação que voto á classe que trafica com a miseria e com
+o suor dos seus semelhantes».</p>
+
+<p>Estas passagens são elucidativas; valem um largo compendio para a revelação
+do pensamento de José Estevão em pontos capitaes do mecanismo economico.
+Afiguravam-se-lhe attribuições das misericordias e institutos de beneficencia
+os deveres que hoje reputamos obrigações elementares do estado organisado n'uma
+base de justiça--«a velhice extenuada pelo trabalho domestico», «chusmas de
+creanças pedindo a instrucção e agasalho», «uma distribuição equitativa da
+caridade por todas as miserias da vida humana». Seria obra de corações bem
+formados o que agora<span class="pagenum"><a name="pag_68"
+id="pag_68">{68}</a></span> se reputa simples direito de todo o elemento
+organico da communidade. As leis da usura vigoravam sómente «para as almas
+nobres», e pareciam votadas a estes reinos sem esperarem, como hoje esperam
+onde não o conseguiram já, que as leis do estado as estabelecessem,
+determinando a distribuição e uso do capital. Dominava o individualismo; e o
+tribuno, embora o sentisse cruel, quereria moderal-o respeitando-o, corrigil-o
+por forças estranhas, sobretudo moraes, que não offendessem o principio
+essencial. De certo por amor á liberdade, fanatico das suas victorias, não
+ousava encarceral-a n'uma organisação juridica severa, para que ella não
+opprimisse os desgraçados e lhes deixasse no mundo o espaço que lhes competia,
+e lhes era indispensavel á saúde physica e moral.</p>
+
+<p>Mas não o cegava tão completamente a fascinação do liberalismo
+utilitario,--appressemos-nos a reconhecel-o, que o apostolo das mais puras
+aspirações não previsse com sympathia calorosa e lucida tempos novos,
+annunciando uma outra liberdade, quer na vida dos estados, quer na vida
+individual, unicamente legitima emquanto não offendesse a equidade e a justiça.
+Presentiu-os e desejou-os. Claramente o dizia aos discipulos, nas lições
+d'economia politica do seu curso: «Em vez do<span class="pagenum"><a
+name="pag_69" id="pag_69">{69}</a></span> congresso da paz socialista, houve
+batalhas sociaes. O periodo da sua realisação affasta-se, mas o seu
+apparecimento não é menos urgente: ha-de chegar um dia, e será aquelle em que
+raiar o verdadeiro progresso para o mundo e em que os principios christãos
+ascenderem á sua verdadeira altura. E de passagem diremos que não nos cumpre
+classificar d'utopia senão o estacionamento». A infiltração da crença
+socialista é manifesta; estava n'ella «o verdadeiro progresso», e
+identificava-a já, como de futuro se identificou, com os principios christãos.
+A agudeza d'espirito, exaltada pelo amor, descobria-lhe, n'um relance de
+illuminado, as fundações religiosas e moraes d'aquella grande aspiração
+politica. E, passando a definil-a e exemplifical-a em pontos de execução
+pratica, acrescentava: «A nossa população tem subido a quatro milhões de
+habitantes, e cresceria mais se se removessem os obstaculos que impedem o seu
+desenvolvimento. Se os morgados fossem abolidos; se o credito fosse assentado
+nas suas verdadeiras bases, ampliado, estendido e applicado á terra; se
+aclarassem os meios de posse territorial; se se reforçassem as hypothecas; se
+se desse á terra amparo contra as argucias forenses que se levantam para pôr em
+duvida posses sanccionadas pelo tempo e trabalho,<span class="pagenum"><a
+name="pag_70" id="pag_70">{70}</a></span> de certo que a nossa população
+cresceria rapidamente». A apreciação do valor da pequena propriedade advinha-se
+n'essas breves palavras; e quem tanto a amava, anceiando por lhe facultar
+caminhos novos e garantias solidas, e não ignorando o que ella representa na
+consolidação das sociedades democraticas, fazia por aquelle modo uma profissão
+de fé politica, não menos nobre nem cathegorica do que as demais que firmára
+nos feitos militares e nos impetos da eloquencia parlamentar.</p>
+
+<p>É, porém, na discussão do lançamento dos impostos que José Estevão mais
+particularmente accentua a sua comprehensão dos problemas economicos; é ahi que
+com mais vigor se insurge contra as iniquidades que, apezar de reformas
+politicas, da carta constitucional, do parlamento, do direito de voto e mais
+formulas e exterioridades liberaes, mantinham de pé, se é que não as
+aggravavam, oppressões e servidões, annulando de facto por completo os
+beneficios da mudança de regimen. «A minha reforma politica», declarava,
+«consiste na revisão de todos os tributos, não só antigos, mas dos ultimamente
+lançados, para de todos se formar um systema pelo qual se possa distribuir a
+contribuição com igualdade; e as contribuições novas que eu votei, e ás quaes
+reitero o meu<span class="pagenum"><a name="pag_71" id="pag_71">{71}</a></span>
+voto, não formam ainda um systema completo e perfeito, porque o resultado é que
+a contribuição não tem attingido, já não digo a igualdade possivel mas a
+igualdade toleravel, porque os pequenos martyrios que os homens desvalidos, os
+homens do povo soffrem, são muitos, são immensos, e é necessario procurar dar
+remedio a esses males». «Detesto», disse em outra occasião no parlamento, «acho
+repugnante, altamente injusto, radicalmente anti-democratico e desigual o
+imposto indirecto». E, entre as apostrophes eloquentes que o apresamento da
+<em>Charles et George</em> lhe inspirou, veremos irromper aquella condemnação
+do parasitismo, que sempre lhe vinha de prompto aos labios no fervor constante
+do desejo d'um mundo novo ungido de justiça: «Não ha nações morgadas, assim
+como não póde haver familias morgadas. A humanidade não cabe no mundo, nem com
+o seu numero nem com as suas aspirações. E esta verdade, que é hoje
+experimental, impossibilita a existencia da propriedade territorial, inculta e
+descuidada, seja nas mãos dos individuos ou na mão dos povos. O trabalho é o
+principio e complemento de todo o direito de possuir».</p>
+
+<p>Tal era a conclusão a que o levava o espectaculo de proprietarios ociosos na
+abundancia, guardando, improductivos, bens valiosissimos,<span
+class="pagenum"><a name="pag_72" id="pag_72">{72}</a></span> perante as plebes
+ruraes, indigentes á mingua d'um pedaço de terra do qual tirassem o pão.
+Convencido por este exemplo, por esta ordem de factos economicos, de que o
+trabalho era o principio de todo o direito de possuir, tanto lhe bastaria para
+que, pelos impulsos logicos do espirito e ainda mais pelas inspirações do seu
+coração, viesse a tirar d'esse principio as consequencias que contem,
+applicando-o a muitos outros e complexos phenomenos, encaminhando todos a
+resultados communs que a evolução politica dos estados civilisados vae
+gradualmente traduzindo. Na confusão das ideias do seu tempo n'esta materia e
+nas circunstancias do paiz em cuja administração era chamado a intervir,
+anarchico e pobre, alheio por isso aos tumultos proprios dos jorros abundantes
+da riqueza, que em nações adeantadas constituiam simultaneamente a extrema
+fortuna e angustias oppressivas, José Estevão não podia na realidade avançar
+mais do que avançou na aspiração socialista. Mas, sem embargo, a visão da nova
+era mostrou-se-lhe em todo o esplendor, e tinha-o rendido ás suas seducções.</p>
+
+<p>De resto, a tradição da vida particular de José Estevão confirma as
+confissões da vida publica sobre o modo por que concebia a sociedade
+democratica. A igualdade que reclamava<span class="pagenum"><a name="pag_73"
+id="pag_73">{73}</a></span> nas leis do estado, a illegitimidade de que
+accusava a propriedade inculta ou sequestrada em morgadio, o respeito do
+trabalho como principio unico da posse, a aversão a impostos indirectos que
+sacrificam os miseraveis e poupam os ricos, todo esse novo regimen juridico que
+no pensamento se lhe ia esboçando, ajustavam-se no trato ordinario a uma
+inclinação permanente a conviver e familiarisar-se com operarios e gente
+humilde. Em Aveiro essa tendencia ficou memoravel, e quasi constituiu uma
+escola de nivellamento social de todas as classes e condições, que ainda hoje
+dá um aspecto singular á vida quotidiana da cidade. Aquelle homem que era
+temido e querido entre os maiores da sua epoca, burguez de nascença, filho d'um
+medico e neto dum official publico, bem cedo fidalgo consagrado pelo talento,
+pelo caracter e por uma distincção irresistivel, acolhido na aristocracia da
+capital com affecto e summo respeito, como se lhe pertencesse pelo sangue, ou
+ainda mais, esse homem a que por tantos motivos poderia perdoar-se a vaidade e
+o orgulho, victorioso de tantos combates, apetecia o convivio dos mais
+pequeninos e n'elle se deliciava, dão direi sómente accessivel á gente do povo
+e á de toda a condição, mas procurando-a e amando-a, atraido por um<span
+class="pagenum"><a name="pag_74" id="pag_74">{74}</a></span> poder de sympathia
+intima e plena. Estou mesmo bem certo de que a razão principal da sua
+popularidade em Aveiro foi mais este reconhecimento instinctivo dos seus
+sentimentos intimos do que a admiração do seu genio, cuja grandeza escapava ao
+vulgo. Foi amado, porque amava.<span class="pagenum"><a name="pag_75"
+id="pag_75">{75}</a></span></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup>[<a href="#mfn10" name="fn10">10</a>]</sup> «A agiotagem tem invadido
+todas as repartições publicas, e procurando elaquear todos os poderes do
+estado, já se atreveu a entrar no palacio, e a atacar as prerogativas da corôa,
+pedindo a conservação de ministros!... Os publicistas dividem os poderes a seu
+bello prazer, e marcam a sua independencia, como se tivessem sobre elles
+senhorio absoluto; mas quantas vezes as nomenclaturas e as extremas, que se
+acham nos livros, se baralham e confundem no trato mundano. <em>Os
+poderes</em>, diz a constituição, "<em>são o judicial, o legislativo, o
+executivo, e todos elles são independentes em suas funcções</em>". A despeito
+porém d'esta determinação, os acontecimentos, ora roubam a efficacia a taes
+poderes, ora os reunem em uma só mão, ora os fraccionam e multiplicam, porque o
+poder é um facto, que subjuga e conquista a vontade da lei e a doutrina dos
+sabios. Ha entre nós um poder, em que a constituição não falla e para cuja
+independencia não providenceia; entretanto elle é o maior que conhecemos;
+refiro-me ao poder agiota. Tem-se elle ligado ao poder legislativo, e esta
+terrivel accumulação vae-nos sendo fatal. É preciso separal-os, quanto
+antes.»</p>
+
+<p>José Estevão, <em>Discurso sobre o orçamento do estado</em>, em sessão de 8
+de junho de 1839.</p>
+</div>
+
+<h2>VII</h2>
+
+<p>Monarchico e catholico, partidario e defensor de formas de constituição
+politica, religiosa e social que representam grave desigualdade e graus
+infinitos de hierarchia; por outro lado e ao mesmo tempo, empenhando-se, sempre
+apaixonado, em assegurar nas leis do estado os direitos populares, sobretudo
+aquelles que, conferindo ás classes trabalhadoras a independencia economica,
+mais solidamente lhe outorgam a unica base efficaz de soberania e
+igualdade--José Estevão parecerá, a quem quizér esboçar o systema das suas
+ideias, contradictorio ou fraco, sem coragem de levar ás ultimas consequencias
+os principios que professava, ou negando-os repetidas vezes pela acceitação de
+principios oppostos, em relações essenciaes da communidade politica.
+Contradicções e fraquezas d'esta natureza, se as tivesse, justifical-as-ia
+plenamente o seu tempo. Justificava-as uma epoca em que não era facil
+determinar o quinhão do passado e o das aspirações do futuro em toda a extensão
+da mentalidade humana. O passado não fôra<span class="pagenum"><a name="pag_76"
+id="pag_76">{76}</a></span> arrazado totalmente, e, pelo contrario, ao fim de
+diversas tentativas e experiencias, mostrava-se indestructivel e vantajoso em
+muitos dos seus elementos, o que perturbava as energias reformadoras; e o
+futuro não lograva apresentar-se tão isento de sombra e duvida que fosse
+possivel conceder-lhe sem hesitação ou exame, de coração leve, quanto elle
+pedia.</p>
+
+<p>Mas, para comprehendermos a attitude politica de José Estevão nos diversos
+aspectos que apresentou, não carecemos de recorrer á invocação do espirito de
+incerteza e fluctuação que a vitalidade e respeito das tradições, em conflicto
+com os impulsos revolucionarios, communicava á maioria das nações da Europa.
+Reflectindo, acharemos que a concepção politica de José Estevão era, na
+verdade, coordenada, sem atraiçoar a boa logica ou prejudicar o caracter, e
+muito menos sem os devaneios romanticos de radicalismos que a destituissem de
+efficacia e capacidade pratica. A historia encarregou-se de mostrar até que
+ponto a mais alta elevação do sentimento politico póde coexistir com um
+opportunismo attento e flexivel, mas no fundo incapaz de corromper-se, sejam
+quaes forem as transigencias a que o pendor e instancia do momento possa
+coagil-o. O desenvolvimento e victorias successivas<span class="pagenum"><a
+name="pag_77" id="pag_77">{77}</a></span> e progressivas do socialismo moderno
+nas monarchias da Belgica, da Allemanha, da Inglaterra e d'outros paizes,
+confrontado com movimentos parallelos nas republicas, quer da Europa, quer da
+America, tem-nos dado e continua a dar-nos abundantes e elucidativos exemplos
+da possibilidade de coexistencia da realisação de radicalissimas aspirações
+sociaes com instituições politicas e religiosas obsoletas, muitas condemnadas,
+e quasi todas n'um declinar de popularidade que as ameaça de morte. A
+observação dos factos, já longa e variada, inclina antes á demonstração de que
+a emancipação politica e religiosa dos povos, a transferencia plena da
+soberania para os elementos activos das nações e a libertação de todo o
+dogmatismo, para serem duradouras, estaveis e beneficas em toda a extensão,
+necessitam de ser precedidas de constituição social adequada. O primeiro passo
+na conquista das liberdades democraticas será a conquista do pão, como um
+direito e não como uma esmola. Sem isso, a oppressão e a tyrannia jámais se
+afundam; e medram, ou sob mantos d'arminhos ou nas casas fortes do capitalismo
+republicano, ou se chamem <em>trust</em> ou se intitulem czar. Quem sabe que
+desillusões não nos prepara a lucta terrivel do imperialismo e da democracia?!
+Quem póde<span class="pagenum"><a name="pag_78" id="pag_78">{78}</a></span>
+assegurar-nos que um novo cesarismo não vae avassalar o mundo?!... Não se
+estará gerando um novo dragão d'esse consorcio infernal do capitalismo e dos
+armamentos monstruosos? E, se elle vencer, que doçura e supremo bom senso não
+coroará a memoria d'aquelles, como José Estevão, que por vezes nos teriam
+parecido hesitantes e timidos, sómente porque uma agudissima sensibilidade,
+revelando-lhe a justiça intima das cousas, os livrou de cair em
+extremos?!...</p>
+
+<p>Paraphraseando o lema d'um agitador notavel da Inglaterra<sup>[<a
+href="#fn11" name="mfn11">11</a>]</sup>, que se insurgiu contra o egoismo
+industrial do seu paiz, talvez não nos affastassemos muito da verdade resumindo
+em tres palavras a concepção social e politica de José Estevão:--O altar, o
+throno e a choupana. Inspirado pelo deslumbramento da gloria do passado e pela
+sua força e opulencia, ao mesmo tempo exaltado por uma febre de justiça que não
+lhe deixava repouso emquanto não a visse triumphante, vibrando d'indignação
+perante toda a vilania, teria sonhado um estado de trabalhadores vigorosos, e
+sãos e dignos, na plenitude de bens do mundo e da consciencia, coroada a
+fortuna d'essas communidades<span class="pagenum"><a name="pag_79"
+id="pag_79">{79}</a></span> felizes por um governo e por um culto resplendentes
+de magestade e nobreza. Porventura quereria que á elevação do sentimento
+correspondesse a grandeza das suas manifestações exteriores e a symbolisasse,
+na sumptuosidade e nos ritos, nos palacios, nas magistraturas e nos templos,
+satisfazendo necessidades indeclinaveis do coração humano.</p>
+
+<p>De sua natureza mudaveis e sujeitas a infinitas contingencias, importam
+todavia muito pouco as concepções politicas, em face da sublimada inspiração
+moral que inflamou o genio de José Estevão e dominou todo o seu ser. «É mr.
+Lamartine,» disse elle, «um poeta que carpiu todas as miserias da humanidade,
+que exaltou todas as suas glorias, que excitou todos os seus melhores
+instinctos, que levantou a coragem dos povos, que acalmou as suas demasias, que
+suspendeu com a sua palavra todas as paixões revolucionarias da França; esse
+homem cuja composição moral e intellectual é no meu presentimento como o
+simulacro da fortuna politica e dos futuros governos da Europa...» Era assim
+que José Estevão, julgando pintar a physionomia alheia, traçava fielmente a
+propria imagem, e, honrando o nome estranho, entretecia a corôa de gloria que
+convém á sua propria fronte. Disse, felizmente, a sua eloquencia o que<span
+class="pagenum"><a name="pag_80" id="pag_80">{80}</a></span> a nossa adoração
+seria incapaz de traduzir. N'essas curtas palavras, legou-nos um retrato
+precioso.</p>
+
+<p>Procuremos agora observal-o com a pausa e carinho que um sentido culto
+exigem.<span class="pagenum"><a name="pag_81" id="pag_81">{81}</a></span></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup>[<a href="#mfn11" name="fn11">11</a>]</sup> Oaslter.</p>
+</div>
+
+<h1>II</h1>
+
+<h1>CARACTER E ARTE</h1>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_83" id="pag_83">{83}</a></span></p>
+
+<h2>CARACTER E ARTE</h2>
+
+<h2>I</h2>
+
+<p>Um dos signaes mais evidentes da robustez da compleição moral de José
+Estevão e da firmeza do seu caracter, foi a energia com que supportou os
+errores romanticos do seu tempo, e de todo se libertou da fluctuação e
+fraquezas proprias d'aquella epoca, perigosas para qualquer, e sobretudo para
+as organisações nimiamente sensiveis e promptas em responder ao incitamento
+estranho, como era a sua. Mas, por um fundo d'austeridade invencivel, sentiu-as
+para lhes resistir e não para se lhes render. N'uma crise em que o principio da
+liberdade, traduzido na pratica ordinaria e nos costumes em relaxação e
+despejo, emancipando de toda a tutela rigorosa da antiga constituição social,
+religiosa, politica, moral e litteraria, facilmente induzia a<span
+class="pagenum"><a name="pag_84" id="pag_84">{84}</a></span> uma indisciplina
+absoluta, obliterando por completo o sentimento do dever e legitimando paixões,
+crimes e aberrações, em que a phantasia e não raro a vaidade precipitava a
+gente moça, mal precavida de experiencia e reflexão, é maravilha o poder de
+sacrificio e o esforço constante d'um homem para fazer prevalecer na sua terra
+o imperio da justiça.</p>
+
+<p>A tentação era temerosa. Muitos, aliás de valor, lhe cederam, caindo em
+culpas e desgraças que uma atmosphera menos propicia ao desvairamento lhes
+teria poupado. A crença romantica encontrava boas razões para toda a sorte de
+desordem. Não triumphava a liberdade? Para que constrangimentos? Era necessario
+perseguir até á anniquilação todos os despotismos, os canones da moral como os
+da egreja, o absolutismo estreito dos usos e costumes como a auctoridade sem
+limites dos reis. Porque não poderia cada um abandonar-se sem peias nem
+reservas ás tendencias do seu temperamento, no conceito corrente talvez todas
+salutares e, pelo menos, sem duvida todas admissiveis? Não seria até um erro
+contrarial-as? Não seria uma violação das leis naturaes e um aggravo á
+felicidade humana? Não era do concurso de todas as liberdades que havia de
+resultar a harmonia dos homens e o progresso das sociedades?<span
+class="pagenum"><a name="pag_85" id="pag_85">{85}</a></span> No espirito de
+muitos dos seus hallucinados sectarios, a liberdade não significava a simples
+abolição de privilegios odiosos e instituições oppressivas, caducas e
+corrompidas, para as substituir por outras que conviessem a aspirações sociaes
+mais nobres e conformes com a dignidade humana; era o desregramento, a ausencia
+de preceito que interior e exteriormente regulasse e sanccionasse as acções, um
+absolutismo de nova especie, o absolutismo da incontinencia. Liberdade de
+pensamento, liberdade de cultos, liberdade dos vinculos matrimoniaes e da
+familia, liberdade d'acção e até de inacção, de indifferença e cynismo,
+exaltações mysticas, egoismos abjectos e cobiças sordidas, para tudo isso
+encontraram explicação bastante as philosophias liberaes d'astuciosa
+commodidade. Aviltamento e nobreza eram pólos da esphera moral que iam a
+apagar-se; já ninguem sabia ao certo marcal-os. Por uma estranha e nunca vista
+concessão, as paixões sairam como doidas das prisões em que as continham
+encarceradas os espectros de deveres inexoraveis, e vinham expandir-se á luz do
+sol, ora em bem, ora em mal, e sempre impetuosamente.</p>
+
+<p>A litteratura glorificava-as, com uma fecundidade e um esplendor d'arte
+deslumbrantes. A litteratura de que Byron foi o summo pontifice,<span
+class="pagenum"><a name="pag_86" id="pag_86">{86}</a></span> e portentoso,
+deixou-nos um testemunho inequivoco e, sem embargo, brilhante, d'esse estado
+d'espirito que, se para muitos foi exaltação merecida, se para a humanidade foi
+uma crise de renovação e renascimento necessaria e fertil em beneficios, foi
+tambem para outros fonte amarissima de desenganos, de tristeza e desgraça, que
+tantas vezes se refugiou na morte, e por todas as nações da Europa determinou,
+invariavelmente, conflictos graves e lances perigosos, rematados com fortuna
+varia para os destinos dos povos.</p>
+
+<p>Não ha melhor espelho dos factos e das tendencias d'uma epoca do que a
+litteratura; nenhum os reflecte tão claramente e, talvez por isso, porque os
+expõe na mais transparente lucidez, é ao mesmo tempo effeito das correntes
+estabelecidas e causa da sua propagação, moderando ou accelerando, pela
+revelação plena do que encerram d'atraente ou de repulsivo, as tendencias de
+que andar impregnada. Nem a estatistica, com a seccura, desligação,
+insufficiencia e abstracção dos seus dados, nem a propria historia com as
+longas narrativas, em que o espirito e inclinações do historiador facil e
+ingenuamente favorecem ou prejudicam a reproducção exacta dos acontecimentos,
+supprem a litteratura na arte de guardar integra e perfeita<span
+class="pagenum"><a name="pag_87" id="pag_87">{87}</a></span> a memoria do
+estado mental e tendencias sociaes de determinado momento, collocando-nos em
+contacto directo com os caracteres e os feitos, renovando-os aos nossos olhos
+em movimento e acção. Ora a litteratura romantica que José Estevão respirou nos
+melhores annos da vida, n'aquelles em que mais o podia seduzir e maior
+influencia podia exercer na disciplina ou indisciplina do seu coração, a
+litteratura romantica, na sua constituição moral, distinguiu-se pela adoração
+de duas divindades, que serviu com ardor e brilho incomparavel:--a felicidade
+do homem e a natureza. Dos tormentos e miserias geradas pelo absolutismo
+oppressivo de todas as actividades e impulsos que se afastassem dos seus
+mandados, veio-se, pela reacção natural dos organismos opprimidos e
+atrophiados, ao extremo opposto, passando-se do idealismo da uniformidade ao
+idealismo da liberdade sem limites, do abuso da regra á desinvoltura da
+dissolução; e, para que os homens se curassem de males e de futuro vivessem
+felizes, concluiu-se pela exigencia d'uma emancipação não menos absoluta do que
+a sujeição precedente. A natureza! A natureza!... Logar ao seu triumpho e
+imperio! Não constrangessem nenhuma das suas energias, e todas as mágoas e
+dôres se transformariam<span class="pagenum"><a name="pag_88"
+id="pag_88">{88}</a></span> em alegrias e riso e força! E viu-se então uma
+expansão do genio poetico maravilhosa, unica na historia, pela fecundidade,
+pela grandeza, pelo arrojo da ambição e pela extensão dos horisontes,
+inflamando e arrebatando os miseros mortaes na belleza de miragens celestes. O
+homem, feito anjo e liberto de mesquinhas ligações d'um mundo decrepito e
+abominavel, amava livremente, pelas florestas virgens, pelos ermos e pelas
+ruinas abandonadas, as mulheres divinisadas pela paixão e nos seus fachos
+gloriosamente consumidas; e os cavalleiros e os santos e os martyres surgiam,
+por milagre e em exercitos, das profundezas da terra, armados de coragem
+infatigavel e sedentos de sacrificio. Escutasse cada qual a voz intima do seu
+sangue e do seu peito, deixasse-a cantar como as aves cantam e obedecesse-lhe,
+não temendo convenções nefastas e condemnadas, repudiando todo o mandado e
+auctoridade que não fosse a sua propria inspiração; e entraria nas espheras da
+mais alta beatitude. Não era assim em toda a natureza? Não viviam d'esse modo
+os animaes bravios e as plantas?!... E havia porventura felicidade que não
+possuissem, harmonia que não realisassem?!...</p>
+
+<p>Uma antecipada promessa de perdão incitava ao desmando. A percepção da
+necessidade<span class="pagenum"><a name="pag_89" id="pag_89">{89}</a></span> e
+eternidade d'um principio religioso e moral, dominando as paixões e
+subordinando a natureza á consciencia, o que, na verdade, se manifestou desde o
+começo d'esse extraordinario movimento, era ainda frouxa e sobretudo vaga,
+incerta, ora tentando galvanisar concepções mortas e sentimentos corrompidos,
+ora modelando novos deuses sem consistencia, hoje nascidos e amanhã desfeitos
+em pó. E nas ondas incessantes d'esse tumulto perdiam-se sem norte e sem
+bussola almas nobremente e generosamente dotadas, resvalando em abysmos
+infernaes, com uma inconsciencia digna de melhor destino, facil preza da
+embriaguez e do vicio, endoidecidas na propria sinceridade e arrastando e
+prostituindo por logares infames a pureza d'altissimas aspirações. Deveriam ter
+sido legião as victimas obscuras, perdidas pelos caminhos errados e fataes que
+a liberdade romantica lhes abria e apontava, ella que, de facto, e
+involuntariamente o mais das vezes, nenhum prohibia como criminoso ou arriscado
+e indigno. E o perigo de tentação era tanto mais grave quanto era certo que, na
+atmosphera revolta do romantismo, o mundo mal acautelado contra a distincção de
+limites em que é licito moverem-se os mortaes communs e os sobre-humanos,
+prostrado d'assombro, semi-louco<span class="pagenum"><a name="pag_90"
+id="pag_90">{90}</a></span> e em delirio d'admiração e imitação, via
+erguerem-se a alturas ignoradas, n'uma aureola fascinante, os genios que, quem
+sabe? valeram talvez as centenas de victimas ignoradas que custaram, para dar á
+humanidade exemplo da sublimidade em que a nossa alma é capaz de exaltar-se.</p>
+
+<p>Foi do meio d'esta confusão terrivel que Portugal viu levantar-se,
+proeminente e firme, d'uma robustez moral inabalavel, um homem que sabia o que
+queria, que o queria porque o devia, e para o cumprir empenhava o coração, o
+pensamento e o braço, a vida inteira, consagrada ao dever e n'elle consumida,
+por sua honra e nosso orgulho.</p>
+
+<p>Como revelação do caracter de José Estevão, essa attitude, cuja soberania a
+nação reconheceu pela auctoridade que conferiu ás suas palavras e pelo respeito
+que lhe votou, é decisiva e, em certo modo, quasi milagrosa. A sensibilidade de
+José Estevão e a riqueza das suas faculdades, até uma sensualidade
+manifesta<sup>[<a href="#fn12" name="mfn12">12</a>]</sup>, deveriam determinar
+um extremo<span class="pagenum"><a name="pag_91" id="pag_91">{91}</a></span>
+pendor para a indisciplina romantica e fomentar por isso um enfraquecimento de
+vontade funesto á energia d'acção e tenacidade de proposito e emprehendimento.
+A pujança do temperamento explicaria e desculparia hesitações e tibiezas, o
+abandono a impressões passageiras, traições frequentes á fé jurada em espirito
+ou em palavras, desvios e tergiversações. A sua vida, porém, pela constancia
+inalteravel no combate e nas aspirações, demonstrou-nos a fixidez d'uma
+attitude radicalmente opposta a fluctuações e desmandos ou desfallecimentos.</p>
+
+<p>N'este ponto, José Estevão não foi do seu tempo. Foi mais longe do que o seu
+tempo; inscreveu-se no livro d'ouro dos prophetas. Attingiu toda a capacidade
+do idealismo militante<span class="pagenum"><a name="pag_92"
+id="pag_92">{92}</a></span> e praticamente efficaz que entre as ruinas do
+passado, o naufragio das crenças e a inundação d'um scepticismo, refinadamente
+epicurista e moralmente desdenhoso, apenas germinava e só de rarissimos eleitos
+era apreciado, sentido e querido. A grande maioria de homens cultos e dos
+talentos consagrados estava longe de suspeitar as affirmações vigorosas e
+triumphos resplendentes com que no final do seculo XIX a renascença idealista
+seria coroada pelo estudo paciente da historia, pela penetração da estructura
+psychologica das sociedades humanas e das suas condições fundamentaes, e pela
+consequente creação de artistas, philosophos, poetas, criticos e apostolos,
+deslumbrando e convencendo, graças á desusada formosura das suas obras, e
+convertendo á adoração de novos altares, cheios de luz e mansidão, pelo ardor
+communicativo do sentimento em que se enlevavam. N'essa resurreição de Lazaro,
+doente de descrença e perversão, das feridas de luctas e calamidades que
+irremediavelmente tinham d'acompanhar a revolução, José Estevão foi, na
+verdade, um precursor abençoado, alimentando-se na fonte em que as almas
+enfermas se curam e as sãas se fortalecem para superiores destinos.<span
+class="pagenum"><a name="pag_93" id="pag_93">{93}</a></span></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup>[<a href="#mfn12" name="fn12">12</a>]</sup> «Batido o exercito
+constitucional e dissolvida a Junta do Porto, o batalhão academico, como todas
+as demais forças fieis, seguiu o caminho da fronteira, vindo a entrar na Galiza
+no dia 6 de julho (1828). José Estevão fez toda a marcha quasi sem dinheiro,
+sem roupa e sem calçado. Em Lobios o seu amigo e patricio Mendes Leite deu-lhe
+uma das duas unicas camisas que levava. José Estevão levára comsigo um pequeno
+cordão de oiro, talvez uma recordação de familia; mas em Lobios desfez-se
+d'elle, não para occorrer a alguma das suas muitas necessidades de occasião,
+mas sim para satisfazer a sua gulodice (pois era e sempre foi muito guloso),
+para comprar <em>gemas</em>. Para se avaliar de quanto lhe custariam as taes
+<em>gemas</em>, basta dizer-se que, no acampamento de Lobios, se vendia então
+por 600 réis uma brôa de pão de milho que poderia valer 100 réis.» Snr. Marques
+Gomes, <em>José Estevão, Apontamentos para a sua biographia</em>. Porto;
+Typographia Occidental, 1889. Pag. 14.</p>
+</div>
+
+<h2>II</h2>
+
+<p>«Eu detesto os heroes todos», disse um dia José Estevão<sup>[<a href="#fn13"
+name="mfn13">13</a>]</sup>. «Os heroes são excepções monstruosas da nossa
+natureza; podemos vangloriar-nos de vermos os seres da nossa especie exceder as
+condições ordinarias da nossa existencia, mas essa vaidosa satisfação custa
+sempre cara. Os heroes são uns filhos prodigos da natureza e da sociedade, que
+dispõem, em proveito das suas paixões, do oiro, do sangue e da honra do mundo:
+que sacrificam aos seus caprichos quanto ha n'elle de mais santo, de mais nobre
+e de mais sympathico, e a Providencia, que castiga sempre, ainda que por
+diversos modos, os que se esquecem da humildade do berço commum, ou lhes
+esconde a lousa da sepultura para que os deslembre, ou lh'a deixa apontada á
+indignação publica para que os aborreçam.»</p>
+
+<p>O homem que fallava dos heroes n'estes termos, era a mais genuina encarnação
+do<span class="pagenum"><a name="pag_94" id="pag_94">{94}</a></span> espirito
+heroico. Simplesmente se illudia e errava quando, ao analysar o valor d'esses
+seres da nossa especie, «excepções da natureza», de que podemos orgulhar-nos,
+sem duvida, por «excederem as condições ordinarias da nossa existencia»,
+affirmava, peremptoriamente e sem reservas, que «essa vaidosa satisfação custa
+sempre cara, e «os heroes, filhos prodigos da natureza e da sociedade, dispõem,
+em proveito das suas paixões, do oiro, do sangue e da honra do mundo, e
+sacrificam aos seus caprichos quanto ha n'elle de mais santo e de mais nobre.»
+Porque a nós, portuguezes, nem nos custou caro o heroismo de José
+Estevão,--muito lhe deviamos e pagamos-lhe pouco e mal; nem jámais o vimos
+dispor, em proveito das suas paixões, do oiro, do sangue e da honra da nação,
+antes sempre o encontramos honrando-a pelo sacrificio do proprio sangue e pelo
+risco da vida em bem da sua nobreza o gloria. E muito menos soubemos que a
+providencia quizesse castigal-o, ella que instantemente nos aponta a sua
+sepultura, não para a aborrecermos mas para a adorarmos, ella que da sua
+memoria fez um culto salutar e purificador. O ingenuo, desconhecendo a que
+regiões o genio o erguia e em que mundos de claridade o trazia combatendo,
+condemnou o heroismo ao deparar-lhe<span class="pagenum"><a name="pag_95"
+id="pag_95">{95}</a></span> com a perversão e tomando-a pelo seu caracter unico
+e consequencia. Num desejo vehemente da punição dos seus crimes, esquecia as
+virtudes que o constituem na pureza da sua essencia e resgatam em homens
+d'eleição, por feitos immortaes, a fraqueza d'uma outra e vulgar humanidade
+transitoria, debil e corruptivel. E ignorava, porque a candidez d'alma o
+offuscava, que elle, heroe tambem e dos mais altos, passaria na terra agitada
+de paixões, sem que o heroismo o pervertesse, e sem que os seus triumphos, que
+foram magnificos, o cegassem, nem o seu poder, que foi largo e duradouro,
+constante, conseguisse degenerar em vaidade, capricho, mentira, insensatez e
+crueldade a energia e o fulgor que só pela justiça se inflamavam e a nenhuma
+sollicitação de baixeza jámais responderam.</p>
+
+<p>Para o homem consagrado por instigação da consciencia a uma missão
+sobre-humana, por ella sujeito á obediencia e imperio de forças sobrenaturaes
+divinas, cujos designios tem de cumprir e que no seu intimo habitam e o vigiam
+e regulam em todos os apetites e tendencias, ora condemnando, ora absolvendo,
+ora reprimindo, ora incitando, não ha senão tres soluções da crise moral, em
+que necessariamente tem de debater-se ao iniciar da vida<span
+class="pagenum"><a name="pag_96" id="pag_96">{96}</a></span> consciente e ao
+escolher caminho entre as aspirações e as tentações do mundo. Perante os
+conflictos eternos do bem e do mal, se os sentiu e quiz ter preferencias, e, se
+os sentiu, ai d'elle! tem d'escolher e preferir, que uma voz interior e sem
+repouso lh'o exige; perante essa interrogação temerosa, sómente tres estradas
+vê abertas:</p>
+
+<p>--a abdicação, estoica ou santa, o orgulho invencivel na insensibilidade
+premeditada e voluntaria, ou a humildade perfeita no desprendimento absoluto,
+resultando, segundo o modo a que se inclina, ou na simples contemplação,
+passiva e paciente, por effeito da identificação com a alegria do universo, ou
+na acceitação da dôr, como inexoravel, e procurando então a salvação em si,
+descrendo da possibilidade de modificar a fatalidade e se lhe oppôr;</p>
+
+<p>--o suicidio, terminando a melancolia desesperada, pela certeza de que só na
+dissolução do proprio sêr encontrará a paz; e</p>
+
+<p>--a acção, o voto heroico, derivado da confiança e fé na vontade e no
+esforço dos homens, a conversão immediata do sonho em motivos de proceder e
+tentativa de realisação, para resgatar d'angustias e produzir na terra a
+tranquillidade, a abundancia, a alegria, a felicidade emfim.<span
+class="pagenum"><a name="pag_97" id="pag_97">{97}</a></span></p>
+
+<p>Ora, entre estes tres modos de sêr, José Estevão, por temperamento, por
+educação e por circumstancias caracteristicas do ambiente que o involvia, foi
+dominado pelo arrebatamento heroico.</p>
+
+<p>Nada temeu como a inacção. Foi para elle a suprema desgraça. Em 1852,
+fallando de Saldanha e relembrando que havia sido perseguido durante o seu
+ministerio, disse n'uma expontanea confissão, e valiosa para a comprehensão do
+seu caracter: «Nenhum soffrimento da minha carreira politica me custou tanto
+como essa perseguição. Um homisio d'um anno, não estando bastante compromettido
+para me resignar aos martyrios d'uma emigração, não podendo exercitar
+livremente no paiz as faculdades mais nobres do espirito, nem cultivar as
+relações de parentesco e amizade, instigado pela minha innocencia legal a
+comparecer deante dos tribunaes, constrangido pelo pundonor a ser carcereiro de
+mim mesmo, vendo dos incertos paradeiros das minhas curtas e enfadonhas
+peregrinações cair num mar de sangue a estrella brilhante da revolução
+europeia, recebendo e abraçando no meu captiveiro os meus cumplices já
+absolvidos e restituidos á liberdade, de que por tal causa eu era o unico
+privado, tudo isto compozéra para mim n'aquelles tempos uma d'estas<span
+class="pagenum"><a name="pag_98" id="pag_98">{98}</a></span> situações
+equivocas, fastidiosas e mortificantes, que entristece mais do que as desgraças
+profundas e irremediaveis»<sup>[<a href="#fn14" name="mfn14">14</a>]</sup>.</p>
+
+<p>O heroe, exaltado na impaciencia d'acção, a tudo poderá sujeitar-se, toda a
+dôr e sacrificio poderá acceitar d'animo sereno, menos aquelle estado de
+sequestro do mundo e de intervenção nos seus feitos, que significa a annulação
+completa de todas as faculdades, a condemnação ao espectaculo da propria
+esterilidade, dia a dia sentida e verificada. E José Estevão, victima docil do
+seu temperamento e partilhando da sorte d'aquelles a quem por sua gloria coube
+igual dote no livro do destino, não pôde resignar-se com o terror d'esse
+apartamento violento, para elle peior do que a morte, porque era a immobilidade
+junta á constancia da aspiração, o tumulo sem a paz da inconsciencia. Chorou-o
+como o mais angustioso tormento. Desde que, moço quasi imberbe, se armou
+cavalleiro na batalha da Cruz dos Marouços, até que a morte o arrebatou,
+anciado e ainda quente das pugnas parlamentares, luctou com a rigidez d'uma
+tenacidade épica pela justiça e pela verdade, confiado na victoria do seu
+reino, que os corações<span class="pagenum"><a name="pag_99"
+id="pag_99">{99}</a></span> como o seu haviam de estabelecer na terra, por um
+trabalho gigantesco, antecipadamente certos de que o triumpho ou a derrota
+serão sempre objecto e resultado da capacidade humana e suas façanhas.</p>
+
+<p>O temperamento heroico não se inocula por artes pedagogicas, por
+contingencias do acaso ou por virtude de simples condições externas; ou uma
+scentelha inominada e intima o accendeu, ou influencia alguma, alheia a essa
+vibração, poderá creal-o. Se José Estevão o possuiu e d'elle foi luminoso
+reflexo, é que o trouxe quando viu a luz, ou que alguma fada lhe bafejou o
+berço. Esse espirito era seu, propriamente seu; e foi elle que derramou da sua
+robusta figura d'athleta a irradiação de claridade que a engrandeceu.</p>
+
+<p>Todavia, sem embargo, as condições transitorias, se não pódem gerar o
+heroismo, podem favorecel-o ou atrophial-o, deixando-o consumir esteril na
+inercia e na obscuridade; podem prohibir-lhe toda a expansão, contrariar-lhe os
+impetos ou negar-lhe ensejo de se alargarem. E José Estevão teve a fortuna de
+vir ao mundo n'uma epoca em que a educação classica e a exaltação do civismo,
+provocado pelo ardor das paixões politicas, se mostraram singularmente
+propicias a revelar-lhe e fortalecer-lhe o caracter.<span class="pagenum"><a
+name="pag_100" id="pag_100">{100}</a></span></p>
+
+<p>Primeiro, a educação. Nunca houve escola que valesse o humanismo latino para
+despertar o ardor heroico. Nem o estudo dos gregos, tão repassado de
+philosophia, serenidade e belleza, o poderia supprir para este fim. E, como
+todos os portuguezes cultos do seu tempo, José Estevão teve essa educação
+unicamente embebida de Virgilio, de Tito Livio, de Cicero e de Horacio, de
+feitos de guerra, glorias militares e grandeza civica.</p>
+
+<p>Sahia-se da escola a sonhar com o senado e as legiões romanas, suspirando
+pela hora de prostrarmos vencidos os inimigos da patria e receber entre os
+applausos das multidões freneticas os louros da victoria, com aquella
+intensidade de desejo e commoção que os mestres nos communicavam facilmente,
+n'um insensivel e involuntario contagio, porque em alto grau a sentiam tambem.
+Durante mezes e annos não se fallava d'outra cousa; nenhuma se encontrára
+superior, nenhuma nos merecera maior admiração, nenhuma constituia aspiração
+mais nobre. Mandar nos homens e governal-os para os conduzir á gloria era a
+suprema elevação e a mais incontestada dignidade. Ignorava-se, e nem se podia
+conceber sem desdouro e pejo, a frieza e scepticismo da educação
+requintadamente scientifica. Essa estava reservada para as ultimas decadas
+do<span class="pagenum"><a name="pag_101" id="pag_101">{101}</a></span> seculo
+XIX, embora tivesse origem em reflexões e estudos de longa data iniciados e
+adeantados, mas que até então eram qualquer cousa estranha e sobreposta á vida
+civica, sem influencia na sua base moral. A invenção de que o egoismo é uma lei
+tão real e merecedora de respeito como o desprendimento, e a cobardia tão
+natural como a coragem; a justificação de mil baixezas, outrora julgadas
+abominaveis e criminosas e hoje fundadas n'um arsenal de razões physiologicas e
+psychologicas, retintas todas de rigor scientifico e com pretensões a verdades
+essenciaes; este apuro de impudor e de ascenção da animalidade estupida e cruel
+á cathegoria d'um modo de ser normal, a negação do sentimento do dever pela
+acceitação plena da fatalidade, seja ella qual fôr, indistincta; o inteiro
+quebrantamento da vontade que d'ahi resulta; a reputação de enfermidade
+atribuida ao genio, ao heroismo, á santidade, ao simples escrupulo de bem
+fazer--isso é moderno. Na verdade, só agora se propagou com louvor e a contento
+dos sacerdotes da sciencia e dos profanos. A educação d'outros tempos, da
+renascença até ao meiado do seculo XIX, era nas suas consequencias moraes a
+admiração da magestade romana, offerecida como o mais alto exemplo aos moços
+que entravam na vida e<span class="pagenum"><a name="pag_102"
+id="pag_102">{102}</a></span> para ella se preparavam; a concepção pagã da
+robustez, da força, da ordem e da justiça, a devoção civica posta acima do
+preceito religioso, seriam regras supremas na conducta dos homens. O proprio
+christianismo que se lhe interpozéra e a abalára, formava capitulo áparte, já
+atenuado nos effeitos mysticos e caridosos pelas formas conciliadoras da egreja
+catholica, com tanto de Jesus como de Cesar. A santidade seria apenas para
+Deus, objecto d'ermitas, de conventos e d'almas piedosas; para o mundo, o
+heroismo era cousa mais de venerar e seguir. Scipião valeria, pelo menos, tanto
+como S. Paulo; o borburinho de togas e de lanças não era menos grato aos
+ouvidos do que o murmurio das orações e canticos dos templos, nem se cobiçava
+menos o capacete do guerreiro do que o resplendor seraphico; a expansão do
+idealismo judaico, com os seus martyres, nem de longe se comparava com o brilho
+das guerras punicas e dos seus soldados, dos que salvavam a cidade.</p>
+
+<p>Se do berço trouxera o temperamento heroico, José Estevão deveria sentil-o
+vivamente acalentado na escola. Os impulsos da sua natureza propria e o
+caracter da atmosphera que encontrava nos primeiros annos, confundiam-se e
+completavam-se na uniformidade de tendencias.<span class="pagenum"><a
+name="pag_103" id="pag_103">{103}</a></span></p>
+
+<p>Ao mesmo tempo, como que rematando a inclinação ingenita, favorecida e
+afagada no periodo de formação e desenvolvimento pelas lições dos
+experimentados, excitava-lhe o ardor e chamava-o com desusada instancia o
+clamor de luctas politicas. Desde creança o ouvia a aproximar-se, cada vez mais
+perto da sua terra. O ensejo era unico, magnifico. Se algum dia houve paixões
+politicas na historia de Portugal, foi então. A sêde de liberdade que inflamou
+o povo romano, renascia. Convinha que se renovassem os heroes e os tribunos,
+que a apregoavam e saciavam. Reabria-se o forum. Viessem os consules
+administrar justiça;</p>
+
+<p>Para tão alta empreza se aprestou candidamente o iniciado. Soldado ou
+magistrado, eil-o descendo ao campo, prompto ao sacrificio, para morrer ou
+coroar-se de louros pela fortuna dos homens e só por ella combater. E partiu ao
+encontro de toda a sorte de penas, das feridas de batalhas sangrentas, das
+amarguras do exilio, da incerteza do seu destino e do destino d'aquelles que
+mais amava, da perseguição, da indigencia e da fome, e, peior ainda, das
+mordeduras do odio e da inveja d'aquelles cujo talento e designios escurecia ou
+contrariava. E tudo soffreu nobremente, invencivel na inteireza e força<span
+class="pagenum"><a name="pag_104" id="pag_104">{104}</a></span> do seu coração,
+que jámais succumbiu ou esmoreceu. Um dia, n'uma hora solemne, vimol-o
+erguer-se no pedestal d'uma sublimada grandeza moral, cimentado por inumeraveis
+provações, para proferir estas palavras memoraveis, em que traduziu a isenção
+perfeita que de todo o ultrage o defendia, e a victoria ultima da consciencia e
+imperio do dever sobre os aggravos do egoismo e do orgulho:</p>
+
+<p>«Disseram-se injurias: jogaram-se apedreijos. E eu não ouvi as injurias; e
+as pedras nem os vestidos me tocaram. O tempo é do paiz: está adjudicado ao
+cumprimento das nossas obrigações. Mas é nosso o sangue que nos corre nas
+veias; e a sua primeira hypotheca é feita á nossa honra.»</p>
+
+<p>Como ouviria o rumor da infamia quem seguia sua estrada levado por uma
+estrella de justiça?!... A «paixão do bem publico», que havia de reinar dentro
+do parlamento<sup>[<a href="#fn15" name="mfn15">15</a>]</sup> enchia-lhe o
+peito, e d'elle expulsava todo o sentimento mesquinho. Absorvia-o. Todas as
+energias do seu braço e da sua alma lhe estavam consagradas, porque «os
+caracteres superiores e os superiores talentos»--e a esse divino bando
+pertencia, «são aquelles<span class="pagenum"><a name="pag_105"
+id="pag_105">{105}</a></span> que teem tanta perspicacia para conhecer a
+verdade como força para propugnar por ella»<sup>[<a href="#fn16"
+name="mfn16">16</a>]</sup>. E essa força jámais o abandonou.</p>
+
+<p>Nem a gloria militar,--e é certo que muito lhe quiz, o desviaria de servir
+os homens. A espada havia de ser purificada pelo amor, para que o seu brilho
+não se escurecesse em infamia. «Tinha asco á guilhotina e não tinha
+consideração pela espada, quando ella serve a violentar os povos, porque a
+guilhotina é sempre a ignominia das revoluções, e a espada muitas vezes o
+opprobrio dos governos»<sup>[<a href="#fn17" name="mfn17">17</a>]</sup>.</p>
+
+<p>«Ah! Como são valiosos, como são uma preciosidade moral, uma fonte de bens
+ineffaveis, um elemento de disciplina social, um paladio popular, os caracteres
+lisos, iguaes, nobres, experimentados em grandes provações, e superiores aos
+lances da fortuna! Que ha no mundo que os possa supprir? Que ha na sociedade
+que possa desempenhar a missão d'elles?</p>
+
+<p>«Pois José Estevão foi um caracter d'esta tempera, um homem d'estes
+quilates, um cidadão d'esta valia. Toda a sua vida foi uma<span
+class="pagenum"><a name="pag_106" id="pag_106">{106}</a></span> consequencia
+rigorosa da sua composição moral.</p>
+
+<p>«Frequentemente attribuimos á fortuna os feitos dos varões illustres. Esta
+explicação dos elogios alheios é suggerida pela inveja. Por tal expediente,
+poupamos o nosso amor proprio, e dessimulamos o pezar da nossa obscuridade. O
+malogro das nossas tentativas, o desconcerto dos nossos projectos, o desfavor
+dos nossos concidadãos, quasi sempre provém de nós mesmos, e o infortunio
+contra que nos tornamos, nasce das nossas proprias culpas.</p>
+
+<p>«José Estevão é uma prova irrefragavel d'esta grande verdade. Representa,
+por todos os factos da sua vida, o grande principio da responsabilidade moral
+do homem.</p>
+
+<p>«Foi o homem de grande merecimento, d'altas façanhas, de inapreciaveis
+serviços, e gosou mais do que ninguem da estima dos seus concidadãos. Quaes são
+as causas d'este seu bellissimo sestro? Essas causas estão todas n'elle; com
+elle nasceram, e com elle acabaram. Abraçou pela critica intima da sua
+intelligencia as ideias que se lhe offereceram como mais justas á sociedade do
+seu tempo, e logo se dedicou todo ao serviço d'ellas, sem mais pensar em vida,
+affeições e interesses, quando estas ideias requeriam o<span class="pagenum"><a
+name="pag_107" id="pag_107">{107}</a></span> seu auxilio e sacrificios. Era
+d'indole dulcissima, de coração affectuosissimo, bom sem limites, compassivo
+sem restricções, e este mesmo homem era bravo sem alarde, bravo sem
+intermitencias, bravo no meio de todos os perigos, bravo no campo, bravo em
+conselho, bravo no soffrimento,--quer dizer, sobranceiro nos grandes males da
+vida aos tremendos lances d'ella. Que significa isto? Que José Estevão era um
+homem de uma condição sublime, que a sua alma era forte, que o seu espirito era
+elevado, e a fortuna não dá, não póde dar, estes predicados moraes, estas
+supremas excellencias. Se as désse, podia mais do que Deus, mais do que as
+raças, mais do que o sangue, e n'esse caso antes o horror d'uma absoluta
+incredulidade do que o culto do acaso.</p>
+
+<p>«Mas José Estevão, pela rectidão do seu caracter, pela segurança do seu
+juizo, resolveu ainda problemas mais difficeis da politica e de moral. Foi um
+partidario dedicado e leal. Nunca faltou aos seus primeiros comprometimentos
+politicos. Como homem publico, era independente: como chegado ao rei, fiel.
+Trabalhou por vezes contra os seus adversarios politicos. Foi vencido. Os
+aggravos d'essas luctas esqueceu-os; conversava sobre estes acontecimentos com
+extrema magnanimidade.<span class="pagenum"><a name="pag_108"
+id="pag_108">{108}</a></span> Tendo de hombrear pelos seus encargos de homem
+publico com pessoas de variadissimas extracções e maneiras, tendo de descer da
+vida cerimoniatica e estudada das altas regiões da sociedade para a convivencia
+do mundo, livre e por vezes descomedido, conservava-se sem affectação, lhano e
+accessivel para todos. Batalhou com a espada, porque lhe batia o coração. Não
+emprestou o seu sangue nem a sua bravura. Era homem convicto e a sua convicção
+era o seu norte. Entendia a liberdade e queria-a. Confessava-se seu adepto e
+sujeitava-se aos seus preconceitos. Zelava a sua crença mais do que as honras
+postiças do mundo.</p>
+
+<p>«Pelejou batalhas fratricidas. Doia-lhe o coração de levantar o braço contra
+os seus irmãos, mas não o pungiu o remorso de haver feito mal á patria e á
+humanidade. Pelejavam de manhã e abraçavam-se á tarde. Pelejavam como soldados
+e abraçavam-se como homens.</p>
+
+<p>«Não lhe opprimia a alma recordar uma vindicta politica, um só assassinato
+juridico. Respondia por quanto fizéra. E apezar das contendas desnecessarias,
+das desavenças pessoaes, de perniciosas fatuidades, deixou a terra que o creou,
+regida por melhores leis que ella tinha quando lhe deu o sêr, e<span
+class="pagenum"><a name="pag_109" id="pag_109">{109}</a></span> gosando de
+maiores beneficios do que disfructara quando lhe foi dado conhecel-a»<sup>[<a
+href="#fn18" name="mfn18">18</a>]</sup>.</p>
+
+<p>São de José Estevão essas palavras. Escreveu-as apreciando o duque da
+Terceira, quando elle morreu, em 1860. Sómente substitui o nome do duque pelo
+do tribuno. Mas que admiravel exactidão na imagem!... Por fortuna nossa e dos
+vindouros, o caracter de José Estevão ficou ahi estampado a primor, e mais do
+que estampado, confessado com uma sinceridade plena. Se tão lucidamente o
+comprehendeu e definiu n'um estranho, foi porque no intimo o sentiu fundamente;
+e glorificando os irmãos no ardor civico, embora pequenos e pobres de recursos
+a seu lado, com a ingenuidade que é tambem condição do heroismo, porque a
+reflexão o enfraquece e lhe é fatal, mais uma vez colhia e entretecia os louros
+que lhe coroariam a fronte. Querendo apenas ser generoso, exaltado na admiração
+do valor alheio, fez justiça á sua propria vida.<span class="pagenum"><a
+name="pag_110" id="pag_110">{110}</a></span></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup>[<a href="#mfn13" name="fn13">13</a>]</sup> Discurso sobre o
+apresamento da <em>Charles et George</em>.</p>
+
+<p><sup>[<a href="#mfn14" name="fn14">14</a>]</sup> Sr. Marques Gomes. <em>L.
+c.</em>, pag. 115.</p>
+
+<p><sup>[<a href="#mfn15" name="fn15">15</a>]</sup> <em>Discursos</em>, pag.
+215.</p>
+
+<p><sup>[<a href="#mfn16" name="fn16">16</a>]</sup> <em>Discursos</em>, pag.
+421.</p>
+
+<p><sup>[<a href="#mfn17" name="fn17">17</a>]</sup> <em>Discursos</em>, pag.
+331.</p>
+
+<p><sup>[<a href="#mfn18" name="fn18">18</a>]</sup> Vid. Sr. Marques Gomes.
+<em>L. cit.</em>, pag. 146 e seg.</p>
+</div>
+
+<h2>III</h2>
+
+<p>Tenhamos em lembrança a affirmação do tribuno: «Os caracteres superiores e
+os superiores talentos são aquelles que teem tanta perspicacia para conhecer a
+verdade como força para propugnar por ella».</p>
+
+<p>O espirito heroico, o arrebatamento na acção e a capacidade, inumeraveis
+vezes demonstrada, de se lhe consagrar em corpo e alma, não podia perturbar em
+José Estevão a lucidez do politico; porque, «caracter superior e superior
+talento», lhe era tão prompta a penetração da verdade como impetuosa a energia
+de combater por ella. A concepção politica da organisação do estado e das
+obrigações dos governos, para o inteiro dominio da justiça e para o
+derramamento da felicidade entre os povos, formava-se e modificava-se no seu
+espirito parallelamente com a expansão do ardor civico; e, se este tinha de
+manter-se inalteravel, integro, porque de sua natureza era irreductivel, a
+ideia politica havia de transformar-se com a experiencia das cousas, porque é
+por essencia mudavel e progressiva.<span class="pagenum"><a name="pag_111"
+id="pag_111">{111}</a></span> Um mesmo sentimento guiava, porém, e conduzia as
+visões do apostolo e os planos e arte do homem d'estado áquella altura em que
+uns e outros deviam collocar-se para serem todos igualmente grandes. O heroismo
+não póde significar a insensatez e excluir o respeito de condições elementares
+de prudencia para se tornar efficaz no bom exito dos seus propositos.
+Comprehendendo as difficuldades e restricções impostas á realisação dos seus
+sonhos pelas paixões que redemoinhavam por todas as estradas da revolução,
+cauteloso por incitamento previdente da propria intensidade do desejo, para
+evitar os escolhos da jornada, mantendo o que estava ganho e preparando novas
+conquistas, avançando sem comprometter a posse do terreno adquirido, José
+Estevão seguiu em toda a conjunctura sua estrella heroica, transigindo sem
+abdicar, concedendo e conciliando o impulso da aspiração com as pressões do
+momento, sem jámais renegar, antes de continuo proclamando a sua fé. O
+opportunismo, quando as circumstancias lh'o impozeram, foi sómente uma pausa na
+febre das suas esperanças, retraidas para se renovarem com maior vigor em
+ensejo propicio á victoria; nunca significou fraqueza ou desanimo, e muito
+menos desprendimento ou apostasia por exigencias<span class="pagenum"><a
+name="pag_112" id="pag_112">{112}</a></span> d'um egoismo commodo. Onde o
+idealismo se mostrou chimera, absoluta ou transitoria, cedeu, salvando
+invariavelmente o que do naufragio podia salvar, com uma dedicação e coragem
+indefectiveis. A natural e rara ponderação do seu temperamento guardava-lhe o
+heroismo da degeneração em temerarias arremetidas estereis, e, em meio da
+exaltação, livrou-o dos perigos que M.<sup>me</sup> de Stael apontava como
+fataes ao renascimento das sociedades europeias turvadas e em desordem: e assim
+nem «proclamou os principios d'um modo excessivamente incondicional», nem,
+muito menos, «acceitou os factos n'um espirito d'excessiva resignação com
+elles».</p>
+
+<p>Só a absoluta ignorancia dos acontecimentos, estreiteza manifesta
+d'entendimento ou uma perversão morbida do caracter propenso a enxovalhar toda
+a grandeza d'alma e a aviltal-a para a tornar sua igual, só essa miseria humana
+poderá achar contradicção entre o revolucionario destemido, o setembrista
+valoroso e o soldado da opposição ao cabralismo, que foi José Estevão, e o
+deputado, homem positivo e pratico, chamado a intervir na solução de problemas
+de mera mas urgente importancia administrativa, que apoiou, em 1852, o
+movimento chamado regeneração,--prompto, de resto, a combatel-o<span
+class="pagenum"><a name="pag_113" id="pag_113">{113}</a></span> quando e onde
+se mostrou funesto, quando, pelo seu lado moral, se revelou o inicio entre nós
+da prevista «acceitação dos factos n'um espirito de excessiva resignação com
+elles», dando direito de cidade a fraquezas, medradas em volume e audacia no
+correr dos tempos até constituirem o deploravel imperio da corrupção, de que as
+gerações presentes agora colhem a ruina economica e a deshonra perante o mundo
+civilisado.</p>
+
+<p>Quem examinar com attenção, desprendida de preconceitos e suspeitas, as
+affirmações de José Estevão, no primeiro periodo da sua carreira politica, e as
+reclamações do parlamentar, no momento em que foi necessario olhar a serio para
+a restauração e progresso das forças economicas do paiz, não só immediatamente
+comprehenderá a diversidade de objecto que em duas epocas differentes
+sollicitou a discussão e a applicação das faculdades do tribuno, mas verá
+tambem, com uma evidencia perfeita, a unidade de caracter, superior e integro,
+que em toda a situação o manteve no mesmo logar.</p>
+
+<p>O que queria o setembrista?</p>
+
+<p>Queria «uma monarchia feita por nós, levantada nas nossas lanças, monarchia
+que tivesse suas raizes no coração do paiz e nos degraus de cujo throno se
+sentassem os officiaes da hierarchia social, e não as raças que a vaidade<span
+class="pagenum"><a name="pag_114" id="pag_114">{114}</a></span> distingue: uma
+monarchia bella, generosa e forte como a juventude, sensata, economica e
+prudente, como a edade provecta<sup>[<a href="#fn19"
+name="mfn19">19</a>]</sup>»: juiz só, a julgar só; um rei só, com ministros
+responsaveis, a executar só; um corpo legislativo só, a legislar só»<sup>[<a
+href="#fn20" name="mfn20">20</a>]</sup>; «a extincção de todas as aristocracias
+e a propagação da unidade social»<sup>[<a href="#fn21"
+name="mfn21">21</a>]</sup>; «uma constituição popular; um rei sem arbitrio; uma
+representação extensa; uma familia social; nacionalidade segura; administração
+sem opprimir; auctoridade com confiança; centralisação com fóros; justiça com
+independencia; fazenda regulada; despezas com economia; tratados com industria;
+reciprocidade sem perdição; ordem sem enthusiasmo; e liberdade sem
+sophisma»<sup>[<a href="#fn22" name="mfn22">22</a>]</sup>.</p>
+
+<p>Tudo isto elle queria, e por tudo isto soffreu nas fadigas o nos riscos dos
+campos de batalha e nas desoladas amarguras do exilio, perseguido e odiado por
+aquelles cujo despotismo nefasto combatia. E tudo isto elle julgou realisavel,
+sem muito contar com a multidão de terriveis fermentos moralmente morbidos, que
+sempre se insinuam em todo o<span class="pagenum"><a name="pag_115"
+id="pag_115">{115}</a></span> movimento politico e contrariam, desfazem e
+annulam a tarefa d'aquelles que se propozeram moldar as sociedades em formas de
+belleza estreme.</p>
+
+<p>O que encontrou foi a desillusão dos seus sonhos, ainda mesmo quando
+pareciam ter vencido e estarem prestes a dar ao paiz a fortuna por que elle
+anceiava. Imaginára uma perfeição moral e um equilibrio mental á sua imagem e
+semilhança, a mesma fé e isenção e coragem, ignorando o ser d'excepção que no
+seu peito habitava; e ficava prostrado de dôr, ao descobrir que esse paraiso
+terrestre se desvanecia, quando julgavamos abertas as suas portas, e que não
+havia modo de banir da nossa existencia em geral, e em particular da nossa
+politica, a quéda, o peccado, a baixeza explorando a generosidado e
+escarnecendo-a, a debilidade das resignações forçadas e os assaltos do
+desalento, um abysmo entre a aspiração e a realidade.</p>
+
+<p>Nem o seu proprio partido politico escapava ao contagio. Quando veio a
+julgal-o, verificou-lhe a impotencia e confessou que «sempre o achára leal,
+franco, valente e guerreiro, mas mais inquieto do que revolucionario, pouco
+substancioso, muito musical, com muitos hymnos e com muito pouca disposição de
+luctar arca a arca, peito a peito, com os<span class="pagenum"><a
+name="pag_116" id="pag_116">{116}</a></span> abusos que era do seu dever
+combater e destruir. Tinha vivido bastante no meio d'elle, e desgraçadamente
+via que o partido progressista, quando ia ao poder, não ia para pôr em execução
+as suas ideias, mas para mostrar que não tinha ideias»<sup>[<a href="#fn23"
+name="mfn23">23</a>]</sup>.</p>
+
+<p>A desillusão, no pungir do seu golpe, levou-o talvez bem proximo da
+injustiça. Porventura atribuiu a inanidade de companheiros inconsistentes e
+frouxos o que era apenas a imposição cruel e indeclinavel dos factos. E
+estranhou e lamentou, como infelicidade e máu sestro do seu gremio, o que era
+desgraça commum aos agrupamentos politicos e ás cousas humanas.</p>
+
+<p>Mas de todo o desastre cobrava animo. Não se quedava paralysado pelo extasi
+de triumphos ou desalentado pelo espectaculo d'infortunios. Porque ao fim de
+vinte annos de luctas politicas via reduzidas a proporções mesquinhas as
+conquistas do seu sonho, não cruzava os braços, abandonando o campo a inimigos,
+mais persistentes e activos na ruindade do que os bons nas obras de salvação. O
+abandono poderia ser solução para ambições ephemeras dos temperamentos
+vulgares; não o tolera, porém, o espirito heroico. Emquanto<span
+class="pagenum"><a name="pag_117" id="pag_117">{117}</a></span> houver a
+disputar um beneficio, uma esmola, um lenitivo a tormentos, haverá eternamente
+motivo de combater. Hoje bate-se por uma cidade, amanhã por um castello, depois
+por uma choupana; hoje desembainha a espada por Deus, amanhã por sua dama,
+depois pelo rei, e depois ainda pelo infimo servo: jámais se convence de que o
+seu braço possa jazer inerte, deante do si tem continuamente visões que lhe
+exigem o esforço.</p>
+
+<p>Em 1852 os tempos iam bem mudados do que haviam sido em 1838. As liberdades
+publicas e as garantias constitucionaes, embora claudicantes e mutiladas,
+tinham finda a jornada, acabando por alcançar nas leis do paiz os mediocres
+logares d'uma acanhada victoria. Mais não tinham podido conseguir, e o resto,
+aquillo a que debalde haviam aspirado, já não encontrava paladinos que
+partissem a disputal-o; de tanta vez tentado e tanta vez vencido, entrava para
+os mais timidos e menos credulos no rol das utopias. Comprehendia-o o tribuno,
+e com a sua sorte se resignava; porque elle tambem declarava bem alto, na
+presença dos representantes da nação, que «não estava disposto em nome de
+palavras, em nome de tradições, a applicar o seu fraco talento e a sua saúde a
+revoluções sem substancia, a ministerios sem principios e a<span
+class="pagenum"><a name="pag_118" id="pag_118">{118}</a></span> coalisões sem
+necessidade. Não estava para isso. Isso não era vida para um partido forte e
+robusto. Preferia antes reduzir-se á sua pobre e insignificante
+individualidade, do que andar naquellas estafadeiras politicas em que se
+estragam as faculdades e não se faz nada para a causa publica»<sup>[<a
+href="#fn24" name="mfn24">24</a>]</sup>.</p>
+
+<p>Do que agora se tratava, a exemplo do que se fazia nas outras nações da
+Europa mais adeantadas, era de procurar a paz e o pão para o malfadado povo
+portuguez, exausto de luctas vãs em que dissipava as forças e a fazenda; do que
+se tratava era de pôr em ordem e prospera a casa arruinada pelos devaneios de
+correrias politicas infecundas, restituindo-lhe muitos bens perdidos e
+acrescentando-lhes o valor por um cultivo mais esmerado. Pelo correr natural
+dos acontecimentos, a riqueza constituiu-se para nós, como para muitos outros
+povos, o primeiro elemento de fortuna e grandeza, e José Estevão, não
+desconhecendo a situação nem podendo ficar indifferente á atracção d'esse
+explendido crescer dos recursos economicos d'aquelle momento, persuadido de que
+era mister para a sua patria render-se ás condições e exigencias da nova phase
+do liberalismo, inclinou-se a coadjuvar aquelles nos<span class="pagenum"><a
+name="pag_119" id="pag_119">{119}</a></span> quaes reconheceu arte para
+edificar o quer que fosse d'uma utilidade manifesta, duravel e fecunda, entre o
+marulhar tremendo da corrupção dos homens e da contingencia das cousas. O
+soldado tornava-se obreiro, deixaria a espada pelo alvião; e trocava-se o manto
+de magistrado pela blusa do trabalhador. O guerreiro surgiu-nos transformado.
+Mas não mudou nem de logar nem de coração, que sob todo o vestido era o mesmo,
+inviolavel; não se turvou a limpidez da energia moral com que manejou ambos
+esses instrumentos da felicidade humana, em ambas as situações e attitudes foi
+identico a si mesmo. «Estava a desapparecer totalmente», disse, «a geração que
+inaugurára a liberdade na nossa terra. Para os feitos e para os homens d'esse
+tempo começára já a posteridade. Á pressa, no ultimo quartel da vida, procurava
+essa geração resgatar o tempo perdido em banalidades revolucionarias, deixando
+algumas obras que lhe abrandassem a severidade dos vindouros»<sup>[<a
+href="#fn25" name="mfn25">25</a>]</sup>. E elle vinha pagar o seu tributo á
+redempção com a mesma generosidade com que o pagára ás illusões. Tambem caíra
+em falta; justo era portanto que partilhasse tambem da penitencia.<span
+class="pagenum"><a name="pag_120" id="pag_120">{120}</a></span></p>
+
+<p>No mais vivo ardor das conquistas liberaes, em 1839, prosentira já que uma
+segunda tarefa nos esperava; tinha bem presente a magnitude do problema
+economico e afigurava-se-lhe que «viver d'industria era o grande pensamento
+d'aquelle seculo»<sup>[<a href="#fn26" name="mfn26">26</a>]</sup>. E dezoito
+annos mais tarde, em 1857, pretendia que «os homens de todos os paizes que por
+diversos modos estão empenhados na civilisação e no progresso, os industriaes
+mais activos e mais emprehendedores que querem vêr postas por obra as suas
+concepções... o que teem em conta são governos solicitos, que aproveitem os
+paizes que administram, que os fazem cultivar e produzir quanto cabe em suas
+naturaes faculdades»<sup>[<a href="#fn27" name="mfn27">27</a>]</sup>.</p>
+
+<p>Por isso applaudiu, quando despontaram, os actos governativos que
+inauguravam a nova era. Louvou a creação do ministerio das obras publicas e
+enthusiasmou-se pelos caminhos de ferro. «A creação do novo ministerio das
+obras publicas e industrias applica ao fomento do paiz os cuidados e o prestimo
+da auctoridade publica. Isto importa a medida do governo, pois quanto existia
+na administração publica para promover as industrias ou abrir communicações era
+por tal modo desmaselado,<span class="pagenum"><a name="pag_121"
+id="pag_121">{121}</a></span> rotineiro e burocratico, que quasi se podia dizer
+que aquelles interesses sociaes estavam eliminados da gestão governativa, e
+entregues á sua propria força, escassa as mais das vezes para lhes dar uma
+existencia mesquinha, e quando muito, bastante para as arrastar a esforços
+inuteis e desconcertos deploraveis. O caminho de ferro de Lisboa ao Porto é a
+maior medida que se podia tomar para imprimir nova vida a esta nação... é o
+primeiro manifesto de adhesão á moderna economia das nações»<sup>[<a
+href="#fn28" name="mfn28">28</a>]</sup>.</p>
+
+<p>Da bondade e legitimidade da obra a que José Estevão agora dedicava o
+talento, e na qual era um trabalhador de extraordinaria importancia, não tinha
+duvida. O passado e o presente não se contradiziam, completavam-se. Um
+incidente, um novo aspecto, e passageiro, da administração e da politica
+nacional,--não era outra cousa a regeneração; de modo algum prejudicaria a
+inteireza do sentimento de quem sem reservas e constantemente consagrára á sua
+patria todo o coração. A simplicidade da situação moral era perfeita. E, na
+carta que dirigiu aos eleitores e foi escripta em Aveiro<span
+class="pagenum"><a name="pag_122" id="pag_122">{122}</a></span> em fins
+d'outubro de 1852, reconheceu-a com uma lucidez e escrupulo que desvaneceriam
+toda a hesitação d'espiritos menos promptos em penetrar os motivos da ultima
+attitude do setembrista exaltado. «Senhores eleitores», dizia, «não busqueis
+por agora em mim o homem politico. Esse não sei se morreu em alguma das
+batalhas ultimamente pelejadas pela liberdade ou se come no exilio o pão
+estrangeiro. Quem se vos apresenta, é simplesmente um homem ingenuo e um
+cidadão, que julga ser util ao paiz, encaminhando os negocios do estado pela
+vereda que vos indicou, e que se paga de todos os trabalhos e desgostos da vida
+publica com a honra de merecer os vossos votos. E, para nada vos encobrir, esse
+mesmo homem, apezar das suas convicções profundamente democraticas, chega com
+as suas sympathias a um dos lados do throno. A ninguem peço venia para esta
+respeitosa affectuosidade, porque para todo o homem livre a religião das ideias
+e a dos sentimentos são dois cultos independentes e tolerantes»<sup>[<a
+href="#fn29" name="mfn29">29</a>]</sup>.</p>
+
+<p>Quando morreu a rainha D. Maria II, José Estevão, n'um dos seus muitos
+impetos d'eloquencia, que eram ao mesmo tempo a apreciação<span
+class="pagenum"><a name="pag_123" id="pag_123">{123}</a></span> das obras
+alheias e um exame de consciencia <em>coram populo</em>, a justificação do seu
+passado e a razão do presente, disse-nos como no seu espirito se lhe
+representava o desenrolar da historia politica nacional nos annos em que n'ella
+influira tão poderosamente; d'onde se partira, em que altura nos encontravamos
+e para onde convinha que nos dirigissemos. A passagem é de superior importancia
+para elucidação da sua vida:</p>
+
+<p>«Honrada familia de liberaes, d'esses liberaes iniciadores, homens crestados
+da polvora, macerados de fome, amarallecidos pelas masmorras, torturados pelo
+exilio, e que espalhados na terra que é duas vezes nossa, uma pelo direito do
+berço, outra pelo direito do resgate, conservastes sempre immaculado o dogma, a
+doutrina, por que tanto sangue e lagrimas se derramaram! Estaes, nobre familia,
+bem rareada, bem reduzida, bem proxima a sair inteiramente do livro dos vivos,
+e entregar á nossa gente o fructo das nossas fadigas, das nossas dores e das
+nossas gentilezas... Mas todas estas mortes são glorias, são
+triumphos,--glorias, triumphos para o que ha no mundo verdadeiramente grande,
+alto, sublime,--a sorte dos povos e os progressos da humanidade. Foi-se o
+legislador e o capitão da liberdade, e a liberdade não pereceu com elle.<span
+class="pagenum"><a name="pag_124" id="pag_124">{124}</a></span> Vae-se a rainha
+a cujo direito dynastico a liberdade se amparára, e a liberdade fica vivendo na
+sua propria vida. As instituições teem entre nós resistido por longo tempo á
+acção desregrada dos partidos, á ambição turbulenta dos estadistas, ao desleixo
+governativo, ás corrupções desaforadas, ao desequilibrio dos poderes, ás
+exaggerações populares, ás restricções governamentaes. As liberdades publicas,
+por vezes oppressas e cerceadas, quebraram afinal todas as prisões,
+restabeleceram todo o seu poderio, e nem mesmo nos dias de maior provação
+esconderam o seu direito, nem appareceu alguem que se atrevesse a negal-o
+despejadamente... Mas a morte da rainha é uma grande admoestação para os
+partidos. Façamos todos exame de consciencia, já que Deus nos avisou n'um dos
+poderes da terra. Os partidos tambem teem poder, tambem teem vida, e são
+chamados a contas. É no interior dos seus archivos, e não sobre a sepultura dos
+reis, que se faz o inventario das prosperidades dos povos. Acabou-se já um
+reinado depois do systema constitucional, e se foi pequeno para a vida da
+rainha defuncta, não o foi para o tempo que costumam passar no throno as testas
+coroadas. Que fizemos durante esta epoca? São desenove annos preciosissimos
+pelos acontecimentos que n'elles correram,<span class="pagenum"><a
+name="pag_125" id="pag_125">{125}</a></span> pelas descobertas que durante
+elles se fizeram, pelos beneficios sociaes que se inventaram, pelas uteis
+emprezas que se levaram ao cabo. Aproveitámos nós todas estas vantagens,
+imitámos todos estes exemplos? Comprehendemos o espirito do nosso seculo? Démos
+ao paiz todos os melhoramentos que lhe podiamos dar? Levantámos cada classe á
+altura a que ella podia subir? Honrámos a geração a que pertencemos, a nação
+que nos deu o nome? Responda cada um a si, responda á sua consciencia que é o
+mesmo que responder a Deus. E seja o que temos feito aviso para o que temos de
+fazer... Estamos em regencia... O regente sabe melhor do que ninguem o que nos
+falta... Um regente plantou n'esta terra as liberdades publicas, plante outro
+entre nós a civilisação sem a qual ellas não podem arreigar-se nem medrar. A
+obra é de todos e para todos. Empenhemo-nos portanto n'ella com animo leal e
+resoluto»<sup>[<a href="#fn30" name="mfn30">30</a>]</sup>.</p>
+
+<p>A estrada talvez se lhe afigurasse plana e facil, mas, ai d'aquelle em quem
+encarnou o idealismo, heroico ou sonhador! Cada esperança, cada amargura; em
+cada passo no<span class="pagenum"><a name="pag_126"
+id="pag_126">{126}</a></span> caminho da aspiração o assaltam e torturam
+desillusões. A candura de José Estevão representára-lhe na regeneração uma
+empreza, honesta e chã, de fomento da riqueza, e pelos meios que a epoca
+aconselhava e eram manifestamente convenientes. E, sem duvida, deshonesta não
+era na intenção e lisura com que concedia á miseria dos homens, á satisfação de
+muitas das suas fraquezas, aquelle quinhão indispensavel para que se
+mantivessem quietas e não fossem impedimento á realisação de mais altos
+destinos. Um dia viria, porém, em que, pelo crescer d'influencias perniciosas,
+os termos d'esta perigosa arte de governar haviam de inverter-se; e, depois de
+se haverem empregado as fraquezas dos homens em beneficio da nação, depois de
+se usar a corrupção para alcançar o bem publico, aconteceria que a nação seria
+explorada em beneficio das fraquezas e o bem publico sacrificado á
+corrupção.</p>
+
+<p>Portanto, errára? perguntaria ao tribuno a consciencia atribulada. E uma voz
+intima o tranquillisava:</p>
+
+<p>«Folheio os fastos parlamentares, ás vezes sem intuito, ás vezes com o
+intuito certo e determinado de procurar esclarecer-me n'uma questiuncula, de
+saber um ou outro facto; nunca me dou a estas buscas que não traga<span
+class="pagenum"><a name="pag_127" id="pag_127">{127}</a></span> de lá a mais
+intima, a maior satisfação que póde trazer um homem probo e um homem de
+consciencia; acho a minha coherencia, toco-a, encontro-a, sae-me a cada pagina
+de cada livro; e eu, tendo uma fraca memoria de todos os meus actos, respondo
+pela logica d'elles, porque confio no meu caracter e na minha
+consciencia»<sup>[<a href="#fn31" name="mfn31">31</a>]</sup>.</p>
+
+<p>«Antes da dissolução da camara era equivocamente regenerador. Mas, depois da
+dissolução, depois que achei no governo caracter politico, entidade politica,
+tenção politica, plano politico, coragem e decisão de iniciativa, decidi-me e
+fui regenerador até que a regeneração acabou, porque hoje essa denominação de
+regeneração e não de regeneradores, tudo isso até certo ponto póde servir para
+fins mas não diz nada»<sup>[<a href="#fn32" name="mfn32">32</a>]</sup>.</p>
+
+<p>Aproximava-se aquella terrivel «conformidade excessiva com os
+acontecimentos» que M.<sup>me</sup> de Stael promettera e fôra como uma pesada
+maldição. Imaginára José Estevão uma transformação politica sem perda do
+caracter, o cuidado e zelo dos interesses economicos sem preterição ou quebra
+da elevação moral, a riqueza aureolada de nobreza<span class="pagenum"><a
+name="pag_128" id="pag_128">{128}</a></span> e isenta de toda a mancha de
+degradação em sordidez; e o que a situação lhe offerecia era a dissolução do
+caracter em proveito de fatalissimas baixezas, que iam a tornar-se invasoras e
+absorventes.</p>
+
+<p>Não era isso que elle sonhára e esperára, porque muito nobremente
+considerava que «os partidos teem tanta difficuldade em viver como em
+envelhecer, mas o envelhecer é uma cousa que custa muito para se fazer com
+dignidade. Um partido tem de se sujeitar tambem a esta condição, mas envelheça
+com amor ás suas ideias, com amor ás suas tradições e aos seus
+principios»<sup>[<a href="#fn33" name="mfn33">33</a>]</sup>. Comprehenderia a
+necessidade da transformação que o correr dos annos importava, foi a isso de
+certo que elle chamou o envelhecer e declinar; repugnava-lhe porém a apostasia,
+e contra ella protestava.</p>
+
+<p>Naturalmente, porque em todos os agrupamentos politicos tinha sentido,
+juntando-se e atraiçoando-se, a perfidia e a sinceridade, a infidelidade á
+causa publica por cobiças deprimentes e a devoção generosa, isenta e nobre aos
+interesses da humanidade e do povo, desenganou-se por fim da virtude dos
+partidos e confiando ainda no civismo e na<span class="pagenum"><a
+name="pag_129" id="pag_129">{129}</a></span> rectidão onde quer que habitassem,
+afastado da vileza dos bandos mas crendo, incorregivel, na pureza de
+consciencias d'eleição, invocava a união e esforço dos homens de boa vontade
+para salvação da patria. E na <em>Carta aos eleitores</em>, de 15 d'abril de
+1861<sup>[<a href="#fn34" name="mfn34">34</a>]</sup>, deixou-nos esboçado este
+seu ultimo sonho.</p>
+
+<p>«Para o futuro», dizia, «pertencerei de certo ao partido, que começa a
+formar-se, que já está crescido, que vive entre nós sem termos dado por tal,
+que nos inspira sem nós o sentirmos, e que mesmo do berço dirige as coisas
+publicas e domina até os homens da mais forte vontade. Este partido será um
+producto de todos os partidos que ora existem; ainda com um nome politico mas
+sem substancia doutrinal, producto alcançado, não pelo concerto de
+individualidades, de coalisões ephemeras, de parcerias ambiciosas, mas pela
+trituração da opinião publica, pela acção da consciencia universal, pela
+solibilidade das pequenas paixões e das importancias artificiaes no grande e
+irresistivel sentimento nacional, que transforma tudo quanto lhe convém
+assemelhar, e destróe todas as heterogeneidades que lhe resistem, ou que lhe
+não servem.<span class="pagenum"><a name="pag_130"
+id="pag_130">{130}</a></span> Este partido não se parecerá em caracter com
+nenhum dos partidos existentes, nem se filiará nas glorias de nenhum d'elles,
+nem será um engenho politico incapaz d'acção propria e embargante da acção dos
+outros, em seu gremio ocioso e solipso, que affaste e maltrate como apostatas
+todos os que se não curvam ás suas idolatrias. Este partido será a ligação de
+todas as capacidades prestaveis para a governação publica, tendo por intuito a
+civilisação do paiz em todas as suas formas. Se este partido fosse obra dos
+homens ou a sua creação podésse ser contrariada por elles, talvez se não
+fizesse; mas esta ordem de cousas surge, rebenta da nossa situação.»</p>
+
+<p>De desengano em desengano, chegára á condemnação do partidarismo e á sua
+expropriação por utilidade publica. Outra cousa não era esse derradeiro sonho
+d'um partido totalmente expurgado das doenças que os caracterisam, a todos, e
+apenas sublimado nas virtudes que por vezes os nobilitam. A grandeza da
+aspiração obcecava-o; e afferrava-se a procurar no mundo o que sómente dentro
+do seu peito existia.</p>
+
+<p>Desoito mezes depois de conceber essa ultima chimera, surdo ao rumor
+crescente dos interesses mesquinhos e vis em que a visão liberal se dissolvia,
+tinha morrido.<span class="pagenum"><a name="pag_131"
+id="pag_131">{131}</a></span></p>
+
+<p>Se vivesse, assistiria, não «á ligação de todas as capacidades prestaveis
+para a governação publica, tendo por intuito a civilisação do paiz em todas as
+suas formas», mas á desagregação da grande maioria das capacidades, determinada
+pela satisfação da miseria politica em todos os seus modos. Como o grande
+capitão da India, «mal com o rei por amor dos homens, e mal com os homens por
+amor do rei», José Estevão, incapaz de abdicar dos principios e aspirações que
+o exaltavam no anceio d'uma era politica de bemaventurança, e simultaneamente
+comprehendendo a necessidade, por condição humana e imposição da realidade, de
+tolerar e conceder direito d'existencia de portas a dentro do forum a paixões
+que lhe repugnavam e o incendiavam em revoltas sagradas, choraria amargamente
+os novos desenganos que a politica lhe reservava; e, não podendo conciliar o
+que é de sua natureza irreconciliavel, mal com as illusões, rainhas do seu
+coração, por causa do mundo que ellas haviam de regenerar e não regeneravam, e
+mal com o mundo, por causa das illusões cujo imperio elle havia de respeitar e
+incessantemente desacatava, proseguiria na fé dos apostolos e na tristeza dos
+vencidos.</p>
+
+<p>Naufragio algum o curaria d'illusões. Haviam de renascer, e era justo que
+renascessem.<span class="pagenum"><a name="pag_132"
+id="pag_132">{132}</a></span> Embora não lhes assistisse aos ultimos triumphos,
+assegurava-lh'os a crença e a justiça. Das que o possuiram, nascidas n'um rubor
+d'aurora e desfeitas muitas n'uma amortecida pallidez de crepusculo, ficaria na
+terra um suavissimo rasto de luz. Foram ellas, essas illusões da epopeia
+liberal, que, embora se dissipassem quasi estereis para as garantias da
+liberdade individual e para o reconhecimento das liberdades publicas,
+conduziram ao cumprimento de tão altos deveres de humanidade, como a abolição
+da pena de morte, e ao fortalecimento de tão solidas bases democraticas, como a
+abolição dos morgados e o regimen da pequena propriedade, efficazmente
+protegido pelo systema de successão e partilha adoptado pelo codigo civil. Não
+foi baldado o heroismo dos que por ellas combateram.<span class="pagenum"><a
+name="pag_133" id="pag_133">{133}</a></span></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup>[<a href="#mfn19" name="fn19">19</a>]</sup> <em>Discursos</em>, pag.
+90.</p>
+
+<p><sup>[<a href="#mfn20" name="fn20">20</a>]</sup> <em>Discursos</em>, pag.
+27.</p>
+
+<p><sup>[<a href="#mfn21" name="fn21">21</a>]</sup> <em>Discursos</em>, pag.
+86.</p>
+
+<p><sup>[<a href="#mfn22" name="fn22">22</a>]</sup> Vid. Sr. Marques Gomes.
+<em>L. c.</em>, pag. 70 e seg.</p>
+
+<p><sup>[<a href="#mfn23" name="fn23">23</a>]</sup> <em>Discursos</em>, pag.
+278.</p>
+
+<p><sup>[<a href="#mfn24" name="fn24">24</a>]</sup> <em>Discursos</em>, pag.
+309.</p>
+
+<p><sup>[<a href="#mfn25" name="fn25">25</a>]</sup> Sr. Marques Gomes. <em>L.
+c.</em>, pag. 149.</p>
+
+<p><sup>[<a href="#mfn26" name="fn26">26</a>]</sup> <em>Discursos</em>, pag.
+43.</p>
+
+<p><sup>[<a href="#mfn27" name="fn27">27</a>]</sup> <em>Discursos</em>, pag.
+319.</p>
+
+<p><sup>[<a href="#mfn28" name="fn28">28</a>]</sup> Artigo publicado na
+<em>Revolução de Setembro</em> de 2 de setembro de 1852. Vid. Sr. Marques
+Gomes. <em>L. c.</em>, pag. 123.</p>
+
+<p><sup>[<a href="#mfn29" name="fn29">29</a>]</sup> Vid. Sr. Marques Gomes.
+<em>L. c.</em>, pag. 125.</p>
+
+<p><sup>[<a href="#mfn30" name="fn30">30</a>]</sup> Artigo publicado no
+<em>Campeão do Vouga</em> em 17 de novembro de 1853.</p>
+
+<p><sup>[<a href="#mfn31" name="fn31">31</a>]</sup> <em>Discursos</em>, pag.
+189.</p>
+
+<p><sup>[<a href="#mfn32" name="fn32">32</a>]</sup> <em>Discursos</em>, pag.
+274.</p>
+
+<p><sup>[<a href="#mfn33" name="fn33">33</a>]</sup> <em>Discursos</em>, pag.
+275.</p>
+
+<p><sup>[<a href="#mfn34" name="fn34">34</a>]</sup> Vid. Jacintho Augusto de
+Freitas Oliveira, <em>José Estevão</em>. Lisboa, 1863. Pag. 349.</p>
+
+<p><sup>[<a href="#mfn35" name="fn35">35</a>]</sup> <em>Discursos</em>, pag.
+88.</p>
+</div>
+
+<h2>IV</h2>
+
+<p>Em 1840, o oraculo mysterioso da ordem, invocado por José Estevão e
+interrogado sobre o numero de partidos que havia na camara dos deputados,
+respondeu: «No paiz ha dois partidos e duas facções, e n'esta camara um partido
+e uns poucos d'illudidos<sup>[<a href="#fn35" name="mfn35">35</a>]</sup>».</p>
+
+<p>Quem tão solemnemente lhe ouvia os segredos, estaria entre o numero dos
+illudidos, por decreto dos avisados e prudentes que combatia, senão até pelo
+reconhecimento intimo, esclarecido em repetidos desenganos. E, todavia, esse
+filho da illusão que como ella deveria ser innocente e ephemero, o cavalleiro
+phantasma que com suas correrias impetuosas surgia em meio de todas as pelejas
+e deveria confundir-se e afugentar-se facilmente na supposta inconsistencia do
+seu ser, voltava sempre, atraiçoando-a e negando-a de continuo, terrivel e
+audaz, renascido das tenues sombras em que o julgavamos dissipado, para<span
+class="pagenum"><a name="pag_134" id="pag_134">{134}</a></span> semeiar o
+terror entre os fortes e os grandes, verdadeiros potentados da terra. Tremiam
+dos seus vaticinios e anathemas os que mais seguros se reputavam; e os mais
+frios e incredulos erguiam-se da prostração e desanimo, despertando pela
+harmonia d'aquella voz divina. O illudido, que pela fatalidade da sua natureza
+viéra ao mundo condemnado á derrota, era a cada passo o vencedor, exaltado pelo
+clamor das multidões, derrubando na passagem muita grandeza falsa, desfazendo
+idolos e reduzindo a pó mentirosas virtudes que pretendiam cobrir-se com os
+trajos da dignidade.</p>
+
+<p>Singular poder! Sendo tamanho, profundamente temido dos que flagellava e
+ardentemente adorado dos que protegia, é na sua constituição d'uma tão
+homogenea espontaneidade, d'uma ingenuidade tão constante e perfeita, que quasi
+escapa á analyse e se torna impossivel decompol-o e observal-o nos seus
+elementos.</p>
+
+<p>Não póde sem impropriedade ou violencia applicar-se a palavra arte á
+eloquencia de José Estevão. Arte oratoria, esta disposição reflectida e
+determinada dos pensamentos e a escolha meticulosa de termos que os exprimam,
+tendo em attenção o effeito que hão-de produzir sobre o ouvinte e amoldando-se
+para<span class="pagenum"><a name="pag_135" id="pag_135">{135}</a></span> esse
+fim a caracteres e tendencias psychologicas, previamente estudados e
+astuciosamente explorados, o calculo da impressão,--essa arte não a teve José
+Estevão. De todo a desconheceu.</p>
+
+<p>A sua palavra corre como correm os rios, rebentando onde um impulso natural
+os fez rebentar, sem nada cuidarem dos obstaculos ou inclinações propicias que
+os esperam, escavando aqui e amontoando acolá, ora derrubando e destruindo, ora
+fertilisando e fazendo crescer, resultando de tudo afinal belleza e explendor,
+dos destroços e ruinas como das creações magnificas. Logica, gradação
+d'argumentos por sua progressiva intensidade, crescendos de força arranjados
+com sabedoria, o caminhar a uma méta que nunca se perde de vista e para a qual
+nós dirigimos os passos, regulando-os e guardando-lhes toda a viveza e
+celeridade para o derradeiro lanço decisivo, a famosa arte de persuadir, levada
+ao fastigio em remotas eras por talentos assignalados com justiça nos annaes da
+humanidade,--isso é cousa que em vão se procurará nos discursos de José
+Estevão. Muitos d'elles e dos mais celebres podiam baralhar-se, trocando o fim
+pelo principio e o meio pelos extremos, e ficariam igualmente bellos, sem
+perderem um atomo da energia d'acção sobre<span class="pagenum"><a
+name="pag_136" id="pag_136">{136}</a></span> o nosso espirito. Examinando-os,
+teremos talvez de concluir que esse homem que tantas vezes persuadia e sempre
+subjugava, não fallou para persuadir nem para subjugar, mas apenas para dizer a
+verdade e por amor d'ella, para a dizer tal qual no seu entendimento e
+sobretudo no seu coração se revelava, por uma necessidade indomavel e intima, e
+não para no impulso prender ou esmagar os estranhos. Por vezes, poderemos
+convencer-nos com boas razões de que quem tão duramente castigou e tão
+nobremente enalteceu, nunca pensava em castigar ou enaltecer o quer que fosse,
+e apenas buscava dar satisfação a surdas e indistinctas exigencias da
+consciencia, que não lhe permittiam ficar quieto e calado. Se esse modo de ser
+redundou em uma arte sublime, não foi por seu querer, não foi porque o
+procurasse; e tudo quanto a critica poderá descobrir na observação e meditação
+das suas obras, será, não a sua arte, que a não teve, mas os caracteres e
+fundamentos da sua eloquencia, o que é differente.</p>
+
+<p>Gabavam-lhe a imaginação. Era famosa. De facto, abundou no seu temperamento
+e sempre lhe assistia, nas cousas graves da vida e nas mais vulgares, no
+convivio quotidiano com os amigos e nos grandes lances da fortuna
+nacional.<span class="pagenum"><a name="pag_137"
+id="pag_137">{137}</a></span></p>
+
+<p>Fallando de D. Fernando I, no parlamento, ia dizendo:--«Este rei fraco e
+versatil tinha uma filha formosa...». Corrige-lhe o erro Almeida Garrett.--«Não
+era formosa», diz-lhe n'um aparte. «Não seria», replica de prompto José
+Estevão. «Julguei que fosse contra as prerogativas da corôa chamar feias ás
+princezas<sup>[<a href="#fn36" name="mfn36">36</a>]</sup>».</p>
+
+<p>O segundo discurso do Porto Pireu é uma torrente de imaginação, rebentando
+em borbotões, incessante, colorindo e animando toda a oração, e dando-lhe um
+relevo primoroso. A historia da <em>ordem</em> e a enumeração dos que José
+Estevão ia vendo no Pireu, incidentemente, em diversos momentos do discurso,
+marcam até hoje o apogeu do explendor do parlamento portuguez, e não é facil
+conceber como nem quando será excedido, porque soffrem sem deslustre a
+aproximação das mais bellas paginas d'esse genero legadas por qualquer epoca ou
+civilisação.</p>
+
+<p>«Passo á historia da <em>ordem</em>», disse o tribuno. «N'ella tudo é
+grandeza, doçura, prazer e maravilha. Assim a empreza fosse facil! Que lingua
+póde revelar os seus mysteriosos trabalhos, descrever com delicadeza a
+efficacia portentosa dos seus meios, e a pompa dos<span class="pagenum"><a
+name="pag_138" id="pag_138">{138}</a></span> seus resultados? Que engenho póde
+comprehender todos os phenomenos da ordem, e abranger a extensão dos seus
+dominios? Quem póde, arrombando os umbraes da eternidade, ver a ordem, luctando
+com o cáos, obrigar a natureza ás leis da harmonia?</p>
+
+<p>«A ordem, primeiro, encerra no centro d'esse cáos as materias vulcanicas,
+essas massas anarchicas da natureza, depois empola os montes, escava os valles,
+encana os rios, recolhe os mares, azula o céu, alumia a terra, suspende os
+passaros nas azas, equilibra os peixes no nado, levanta nos pés os outros
+animaes, tira do pó o rei gozador d'estas maravilhas, da costella d'esse rei a
+rainha sua companheira, e inspira a esse par ditoso o seu primeiro beijo, beijo
+creador e fecundo, de que a nossa vida é um presente. Ingratos! Devemos a vida
+á ordem, e negamos-lhe os respeitos que ella merece!</p>
+
+<p>«Por outro lado, quem forjou a espada organisadora de Nemrod? A ordem. Quem
+salvou das aguas do Tibre os infantes fundadores de Roma, e com elles os fados
+do Lacio? A ordem. Quem ensinou os caminhos, quem conduziu atravez de todas as
+difficuldades os barbaros do norte? A ordem. Quem fez dum almocreve arabe o
+chefe duma religião? A ordem. Quem deu a Carlos Magno<span class="pagenum"><a
+name="pag_139" id="pag_139">{139}</a></span> a sua poderosa espada? A ordem.
+Quem compoz o balsamo de Ferrabraz? A ordem. Quem fez as botas de Carlos 12.º o
+chapéu de Henrique 4.º e o casaco de Napoleão? A ordem. Quem finalmente
+inventou as bellas artes, a musica, a pintura e a esculptura, e a grande e
+nobre arte da gastronomia? A ordem. Ingratos! E devemos tudo á ordem, e não lhe
+damos a consideração de que ella é credora!</p>
+
+<p>«Quando a expedição restauradora, epilogo romantico de esperanças, de
+receios, de saudade e valor, quando essa expedição que em si encerrava maiores
+fados que a náu sagrada dos athenienses, atirou peça de leva nas lagoas dos
+Açores, quem se poz ao leme dos seus navios? A ordem. Quem abateu os mares,
+quem enfreou os ventos, quem fez singrar os escaleres, quem deu a mão ao
+soldado para saltar em terra, quem tangeu os clarins, quem rufou os tambores,
+quem limpou o fusil, quem fez rodar o canhão? A ordem... Está decidido; não ha
+outro poder na terra senão a ordem. Todo o mundo material e politico lhe
+pertence. Entelechias de Malebranche, turbilhões de Descartes, monadas de
+Leibnitz, gravitação de Newton, principio utilitario, escola sentimental, força
+de costumes, educações religiosas, genio de legisladores,<span
+class="pagenum"><a name="pag_140" id="pag_140">{140}</a></span> tudo isto é
+nada, e o mundo não lhe deve nem bem nem mal. Só a grammatica se póde
+apresentar como rival da ordem, e disputar-lhe o imperio do mundo; tambem ella
+tem pretenções anteriores, grandes e importantes, e já um seu predilecto as
+sustentou com gravissimas razões.»</p>
+
+<p>«Sabeis vós os que estão no Pireu? São aquelles que com uma carta de
+recommendação mercantil, assignada pela ordem, cujas letras no mercado politico
+estão agora valendo tanto como os titulos azues na nossa praça, julgam
+converter o paiz em uma feitoria sua de poder, alcançando que todos os
+ministerios lhes venham sempre consignados... São os que tendo feito alguns
+lucros de reputação, quando a praça tinha menos negociantes, julgam que podem
+esperdiçar o ganho, reputando que alguns papeis de credito, que ainda teem em
+suas carteiras, são effeitos de grande valor, e não vendo já sobre os seus
+escriptorios o sello da quebra, e a impossibilidade de apurar da massa fallida
+sommas que possam exceder ás quantias necessarias para o pagamento priviligiado
+de caixeiros, creados e outros que lhe ajudaram a grangear suas poucas riquezas
+scientificas.</p>
+
+<p>«Sabeis vós os que estão no Pireu? São aquelles que vem despachar ás
+alfandegas da<span class="pagenum"><a name="pag_141"
+id="pag_141">{141}</a></span> publicidade estes fardos avariados da historia,
+sem o sello da critica, e expôr á venda no bazar do parlamento, em vez dos
+panos finos da verdade, as baetas do sofisma.</p>
+
+<p>«Estão tambem no Pireu os que, vendo voltar dos bancos das eleições muita
+embarcação carregada de quartolas de confiança, de barris de votos, de dornas
+d'actas, e tendo muitas vezes emprehendido sem successo esta pesca d'alto com
+perda de barcos e apparelhos, agora julgam fazer-se senhores do ganho de toda
+esta especulação, fingindo-se caixeiros e guarda-livros da nação, e querendo
+comprar por sua conta todo o pescado, passando para tudo isto lettras em nome
+d'ella, com o mesmo direito com que uma vez tres alfaiates inglezes proclamaram
+em nome da Grã-Bretanha.</p>
+
+<p>«Estão no Pireu os que, considerando a corôa como uma mina, se associam a
+todas as campanhas nacionaes e estrangeiras para a explorar, meditando largar a
+empreza logo que a veia estiver pobre, e as galerias de mineração inundadas...
+Estão no Pireu os que, depois de terem feito suas genuflexões á estatua de
+ferro de usurpação, foram para a emigração adorar algumas estatuas de ouro que
+por lá se levantaram, e que depois se recolheram ao paiz para se associarem,
+não com aquelles que haviam sustentado o colosso<span class="pagenum"><a
+name="pag_142" id="pag_142">{142}</a></span> da tyrannia, julgando que
+combatiam pelo bem da nação e pelos direitos da realeza, mas com os que sem
+acreditarem causa alguma as seguem todas, que teem a chronologia das desgraças
+publicas marcada no peito com as insignias das mercês, e que havendo levantado
+o usurpador do pó do nada, depois que tiraram todo o partido dos seus
+maleficios, procuraram minar o seu poder para servirem outro senhor que melhor
+lhes pagasse.</p>
+
+<p>«Estão no Pireu os actores de todos os entremezes, comedias e tragedias
+ministeriaes, que vestem com a mesma facilidade a jaqueta de gatuno, o manto do
+rei tyranno, e o chambre d'aulico retirado, sem lhes importar os apupos da
+plateia e as censuras dos litteratos, procurando só que haja boas enchentes,
+que as escripturas da empreza sejam cumpridas, embora todos os dias mudem os
+emprezarios.</p>
+
+<p>«Estão no Pireu os que, deixando o licito commercio da virtude e da
+honestidade, se pozeram a traficar em galões, plumas e lantejoulas, e que,
+sollicitando um logar nos mercados das côrtes estrangeiras, para irem expor á
+venda suas fazendas, o não poderam alcançar.</p>
+
+<p>«Estão finalmente no Pireu os que vieram para a casa commercial Revolução
+&amp; Companhia,<span class="pagenum"><a name="pag_143"
+id="pag_143">{143}</a></span> como a mocidade do Minho vem para as lojas do
+Porto, e que, tendo feito alguma fortuna pela bondade dos patrões, agora os
+perseguem, desacreditam e procuram arruinar por todo o modo.</p>
+
+<p>«Mas quem é toda esta gente que se acha no Pireu? Que está ella lá fazendo?
+Foi um sonho! No Pireu só vejo uma companhia de trabalhos braçaes, que corre
+avidamente á praia, quando chega alguma carregação ministerial, e que carrega
+por todo o preço os fardos de que ella se compõe, qualquer que seja a firma
+commercial com que venham marcados<sup>[<a href="#fn37"
+name="mfn37">37</a>]</sup>.»</p>
+
+<p>Foram longas as citações, apparentemente abusivas. Mas quem as houver
+seguido, logo comprehenderá que constituem documentos essenciaes da nobreza de
+José Estevão, pergaminhos inseparaveis do seu nome, onde quer que elle
+appareça. A fulguração do seu genio deslumbra e entontece n'esses momentos.</p>
+
+<p>Quando, porém, se lhe tornou necessario passar da reproducção pitoresca do
+presente á resurreição da simples verdade historica, quando conveio e lhe
+aprouve trocar pela contemplação grave d'outros tempos a feira<span
+class="pagenum"><a name="pag_144" id="pag_144">{144}</a></span> de cobiças e
+vaidades, a que assistia e de que pintou tão completamente a diversidade de
+gentes e trajos, e a azafama e tumulto de mercar e ganhar, encerrou largos
+horisontes em curtissimos quadros, favorecido sempre por igual poder de
+imaginação. Em breves traços exprimiu e resumiu crises profundas, condensando
+n'um rapido lampejo uma situação moral, economica, politica e militar, sem
+preterição dum só dos seus caracteres e pondo-os todos manifestos com uma
+transparencia cristallina. A imaginação puramente descriptiva não ficava áquem
+da imaginação creadora. A renovação do acontecido e distante não foi menos
+perfeita do que a obra de phantasia, na qual traduziu a realidade presente,
+moldando-a, vestindo-a e compondo-a em formas desusadas e inesperadas.</p>
+
+<p>N'aquelle mesmo discurso do Porto Pireu, rememorando as circumstancias do
+paiz no principio do seculo XIX, dizia:</p>
+
+<p>«Depois d'estes successos, (a invasão franceza e factos correlativos),
+sabido é como a flôr da nossa juventude, o ouro dos nossos cofres, a paz dos
+nossos campos, a gala das nossas cidades, o sangue dos nossos soldados, a
+devoção dos nossos povos, se empenharam pela destruição do poder colossal do
+imperio. Sabido é como a Inglaterra considerou<span class="pagenum"><a
+name="pag_145" id="pag_145">{145}</a></span> pouco estes esforços, depreciou o
+valor d'estes sacrificios e calou a gentileza das nossas armas.»<sup>[<a
+href="#fn38" name="mfn38">38</a>]</sup>.</p>
+
+<p>Avalie-se por este mero exemplo, escolhido quasi ao acaso, a destreza e a
+robustez do gigante. Cada palavra vale uma pagina. Maravilhosa capacidade de
+condensação! Tudo o que um instante temeroso na historia dum povo póde trazer
+de inquietação, de ruina, de dedicação, de valor, de perfidias e ingratidões,
+todo o abalo e commoção dos lances de guerra, tudo alli resurge tirado da
+obscuridade por um singelo e sereno clarão.</p>
+
+<p>Não basta, todavia, a imaginação para base de tão extenso e duradouro poder
+sobre os homens como aquelle que José Estevão em sua vida exerceu. Não é
+sufficiente para transformar n'uma arma penetrante e inflexivel as simples
+considerações d'um orador. A imaginação poderá provocar a admiração e
+conquistar celebridade, mas não basta para constituir auctoridade; e o que José
+Estevão alcançou, unicamente pela virtude do seu verbo, foi uma força
+excepcional d'influencia sobre o espirito, consciencia e acções d'aquelles que
+de perto ou de longe o escutavam. A imaginação poderá captivar pelo
+capricho<span class="pagenum"><a name="pag_146" id="pag_146">{146}</a></span>
+dos seus vôos e revelações, por uma rapida atracção transitoria, mas não
+logrará conferir um imperio permanente e efficaz; isso demanda laços mais
+resistentes e susceptiveis de supportarem a acção do tempo sem afrouxarem; e o
+imperio de José Estevão prolongou-se por toda a sua existencia, até á morte. A
+imaginação, por isso mesmo que se expande em brilho, esváe-se no contacto de
+elementos d'energia menos fugaz, não resiste d'ordinario á tenacidade
+penetrante da reflexão, que nunca deixa de lhe seguir o rasto, para o embaciar
+e frequentemente para de todo o apagar. Por muito realce que á obra de José
+Estevão houvesse dado, não podia ser ella explicação basilar da sua inalteravel
+efficacia. Os fundamentos d'aquelle prestigio incomparavel teem d'assentar em
+terreno mais solido do que esse pulverulento e doirado em que a phantasia se
+dilata.</p>
+
+<p>Notemos desde já a feição mais accentuada da imaginação de José Estevão;
+attente-se no seu caracter e no objecto que preferia. Talvez isso nos inicie na
+comprehensão da sua força.</p>
+
+<p>Não se detem e espraia na embriaguez dolente de prolongadas cadencias
+musicaes, não se adelgaça em melodias languidas, nem se estende em cavas
+sonoridades retumbantes.<span class="pagenum"><a name="pag_147"
+id="pag_147">{147}</a></span> É viril e austera. Ruge como o estampido dum
+roble que se despedaça; não verga como o sibillar ondeante d'um canavial. É
+magestosa e grande; não se amesquinha a recortar frivolidades.</p>
+
+<p>Depois, que procura? Os traços comicos dos homens e das cousas, para os
+expor ás gargalhadas d'um publico ávido de folgança e avesso a tomar a vida a
+serio? Não. É evidente que de passagem os toca bastas vezes, accidentalmente;
+um espirito da sua pujança e uma sensibilidade tão aguda como a sua, que a
+nenhuma impressão ficam de todo estranhos, percorrem a escala inteira das
+emoções. Mas são incidentes, verdadeiros incidentes, notas passageiras, em que
+não insiste nem procura fazer insistir os que o ouvem.</p>
+
+<p>O que a imaginação de José Estevão procura constantemente, o objecto que
+mais lhe apraz e em que de preferencia se quêda e escava, é a pintura dos
+caracteres, a investigação dos mobis moraes que nas acções humanas se occultam
+e as dirigem. N'aquelles mesmos trechos do discurso do Porto Pireu que acabamos
+de repetir, no extenso ról dos mercadores que enxameiam na praia, cada um leva
+no rosto, taes quaes elle lh'os estampou, os signaes certos, a indicação segura
+do credito<span class="pagenum"><a name="pag_148" id="pag_148">{148}</a></span>
+que merece, das baixezas que praticou e dos contractos infames a que se presta
+e em que sonha. Com o resto prendeu-se pouco; não lhe importa a gentileza da
+figura ou a deformidade do corpo, que a graça ou a fealdade virão do intimo, e
+é a descobril-o que se applica com ardor. Os factos e os homens não são cousas
+que tenham vida sua, na essencia do conceito e arte de José Estevão; hão-de
+tiral-a do valor moral que possuirem; e é para o aquilatar que a sua imaginação
+se exalta a reconstituir factos e homens e lhes põe a nú e em relevo a
+estructura.</p>
+
+<p>Junte-se a esta uma outra circumstancia notavel, e estaremos porventura
+proximos a penetrar o segredo da magia d'aquella fascinação soberana:--o ataque
+é habitualmente directo. Ironia, astucias vulpinas, surprezas de flanco,
+disfarçadas, se por acaso surgem, aqui e além, logo as abandona e troca por
+armas mais a seu molde. O espirito heroico compadece-se mal com esses engenhos
+de malicia, invenção de timidos e defeza de cobardias que não se afoitam a
+entrar em campo raso. Combate peito a peito. Nem procura escudos para o seu,
+sempre a descoberto, nem tambem se deleita a arranhar o adversario e a cobril-o
+de sangue á flor da epiderme, sem lhe tocar as entranhas. Vibra<span
+class="pagenum"><a name="pag_149" id="pag_149">{149}</a></span> os golpes ao
+coração, e por isso que lh'os conheciam e sabiam que eram mortaes, por isso os
+temiam tanto. A ninguem poupava a exprobração d'erros e fraquezas, se se
+convencia de que tinham sido aggravo á causa publica. Toda a torpeza e mentira
+desmascarava, sem uma funesta piedade, sem attenuantes nem dissimulações que,
+no tremor duma consciencia persistentemente vigilante, se converteriam de
+prompto em suspeita de cumplicidade.</p>
+
+<p>Que ha pois afinal no fundo de todo esse movimento brilhante da eloquencia
+de José Estevão? Varrida a arena dos fumos do combate, que ficou de
+inexpugnavel no seu logar, que fortaleza prostrou tantos inimigos, e desbaratou
+e poz em fuga tão numerosas hostes e luzidas? Uma assombrosa intuição moral, a
+facilidade de lhe exprimir as revelações com uma concisão e uma exactidão
+maravilhosas, a coragem de as dizer alto na presença d'aquelles a quem mais
+feriam, a absoluta isenção com que só por amor da patria assim procedia,--eis o
+segredo do poder d'essa voz unica na historia da politica portugueza e grande
+entre as maiores da humanidade. Se toda a vida de José Estevão «foi uma
+consequencia rigorosa da sua composição moral», como já notamos, os recursos da
+sua<span class="pagenum"><a name="pag_150" id="pag_150">{150}</a></span> arte,
+mais ainda do que o esforço do seu braço, d'ahi tiraram todo o poder de encanto
+e victoria.</p>
+
+<p>Ouçamol-o ainda, em momentos de sereno julgamento. As horas de calma
+confirmarão a verdade de que nos deram testemunho os momentos de phantasia
+estimulada e abrasada pela presença dos adversarios, pelas suas provocações e
+pela viveza do combate:</p>
+
+<p>«Foram os ministros da carta que, depois da convenção d'Evora-Monte,
+consentiram que o punhal das facções andasse solto pela capital, vingando odios
+e malquerenças passadas, que os moribundos viessem arrastando-se a dar o ultimo
+arranco na sua presença, e não sei mesmo se com as rodas das suas berlindas
+pisaram algumas vezes os cadaveres dos infelizes que deixaram assassinar! Este
+punhal devastador passou da capital para as provincias, e das mãos dos
+fanaticos politicos para a dos salteadores faccinorosos. Penetrou as nossas
+mais pequenas povoações, infestou todas as nossas estradas, e semeiou por toda
+a parte os seus horrorosos estragos! Isto são factos, sr. presidente: o
+assassinato começou em Portugal por fanatismo politico, alentou-se por
+desleixo, continuou pelo exemplo, e generalisou-se por necessidade. Por
+necessidade, sim! sr. presidente. A lei mais imprudente, a<span
+class="pagenum"><a name="pag_151" id="pag_151">{151}</a></span> mais atroz e
+provocante, a lei das indemnisações, levantou esperanças enganosas, suscitou
+pretensões esquecidas, sanccionou exigencias indiscretas, e distraiu dos seus
+mestéres o laborioso artista, o pequeno commerciante, o proprietario de poucos
+teres, com a espectativa de promettidas delicias, com a mira dos prejuizos
+resarcidos. A illusão dissipou-se, e os homens illudidos, tendo perdido o
+habito do trabalho, entregaram-se ás violencias para haver aquillo que a lei
+lhes tinha promettido, e cuja recusa reputavam depois um roubo que lhes dava
+direito a outro roubo. A lei das indemnisações espalhou no paiz mais de tres
+mil punhaes, e perdeu muito cidadão util e honesto. Recaia pois a culpa d'esses
+assassinios sobre quem promulgou a lei<sup>[<a href="#fn39"
+name="mfn39">39</a>]</sup>!...»</p>
+
+<p>Passagens como esta, e contam-se por muitas dezenas, leem-se e repetem-se
+n'uma invariavel impressão de pasmo e confusão e applauso, em que não sabemos o
+que mais nos captiva e turva, se a nitidez do desenho e do quadro, tão
+firmemente traçado como ponderadamente illuminado, se a profundeza da analyse
+dos sentimentos conjugados para um mesmo crime, se a exposição dos desvarios,
+desordens e dissolução que d'elle resultaram,<span class="pagenum"><a
+name="pag_152" id="pag_152">{152}</a></span> se o peso da condemnação que pela
+simples palavra d'um só homem lhe castigou os fautores e instrumentos,
+deixando-os eternamente marcados de ignominia. Só «a supremacia moral, que, não
+nos enganemos, é o unico poder verdadeiro»<sup>[<a href="#fn40"
+name="mfn40">40</a>]</sup>, será capaz do impulso inicial para taes milagres.
+E, se por uma rara concessão do destino vem favorecel-a e traduzil-a a prompta
+justeza d'expressão, resultará n'um explendor soberanamente glorioso.</p>
+
+<p>O genio latino, que encarnou no heroe de tantas batalhas pelejadas pela
+liberdade, para o lançar no fragor temeroso das armas e para o fazer subir aos
+rostros do forum, infundindo-lhe no animo o mais depurado civismo, a plena
+imolação ao bem da patria, resurgiu n'elle tambem para a lucidez perfeita da
+concepção do pensamento e para a consequente sobriedade de o enunciar, para a
+renovação d'essa arte que até hoje ficou como qualquer cousa extrema,
+culminante, da capacidade da raça e suas tradições. Filho abençoado e dilecto
+d'esse genio, José Estevão fielmente o serviu.</p>
+
+<p>Se encontrava «um estado de miseria, de confusão e d'anarchia», logo via
+deante de si<span class="pagenum"><a name="pag_153"
+id="pag_153">{153}</a></span> os punhaes dos assassinos, a debilidade dos
+tumultos e o desleixo da indifferença»<sup>[<a href="#fn41"
+name="mfn41">41</a>]</sup>. Se procurava a ordem que convinha á estabilidade
+das nações e á prosperidade dos povos, essa ordem «teria toda a efficacia d'um
+principio sem ter os desvarios d'uma paixão; era um elemento governativo e não
+a bandeira dum partido; era um sedativo e não um cauterio para as paixões
+populares; confessava-se sem alarde e servia-se sem galardão»<sup>[<a
+href="#fn42" name="mfn42">42</a>]</sup>. Não admittia que «se suspendessem as
+garantias só pela possibilidade de revoluções, só pela possibilidade d'ataques
+á ordem publica»; porque, «se se enthronisa tal principio, a liberdade fica um
+receio constante, o despotismo uma prevenção permanente, o arbitrio o direito
+commum, a lei a excepção»<sup>[<a href="#fn43" name="mfn43">43</a>]</sup>. E
+sempre assim pensava e assim dizia, n'esta impetuosa penetração e comprehensão
+das situações moraes em toda a sua latitude, definindo-as immediatamente em
+todos os graus e aspectos, n'uma subita e clarissima enunciação, tão exacta e
+condensada como completa. Assim nos desvendava n'um relampago mundos
+extensissimos, em<span class="pagenum"><a name="pag_154"
+id="pag_154">{154}</a></span> que as paixões politicas se agitavam, e assim
+verberava, só por os apontar e expor á justiça, os vicios e erros que n'ellas
+se involviam e as corrompiam. Assim nos tinha atonitos e subjugados, por fim
+escravos da sua vontade, do seu querer e dos anceios sem macula do seu
+coração.</p>
+
+<p>Porventura, a prodigiosa destreza do genio na arte foi compensação das penas
+de muito desengano do apostolo e ergueu-o de muito desalento, para renovar suas
+cruzadas em pról da felicidade dos homens e da dignidade da patria. Este poder
+de definir, esta rara e superior capacidade de exprimir em formas de rematada
+belleza todas as emoções da alma, e particularmente as suas aspirações de
+rectidão e justiça, de continuo inflamadas e alvoroçadas pelo decorrer dos
+acontecimentos, cristallisavam em uma obra magnifica, honra e gloria de quem a
+edificou e da raça que a produziu, e ao mesmo tempo representando um propulsor
+energico da realisação dos sonhos que a inspiraram. E José Estevão, em meio das
+magoas e contrariedades que soffria na carreira politica, ferido de desillusões
+a cada passo e por ellas rendido á consciencia de successivos e interminaveis
+desastres, havia necessariamente de sentir, n'uma vaga aprehensão do proprio
+valor, que<span class="pagenum"><a name="pag_155" id="pag_155">{155}</a></span>
+deixar os erros dos homens e as desgraças da nação estampados com aquella
+radiante eloquencia, chorai-os com aquelle poder de vibração communicativo, era
+já só por si uma alta e nobilissima victoria, era precaver os incautos e os
+vindouros contra iguaes desvarios, corrigir severamente os culpados e incitar
+os bons ao resgate do mal e á conquista de melhores dias. Era, por conseguinte,
+trabalhar n'uma obra, duradoura e solida, de grandes beneficios, cujo encanto e
+premio intimo não lhe consentiam repouso e perenemente o traziam em sua
+obediencia, assegurando-lhe a proficuidade do combate. Se toda a sua arte foi
+consequencia da sua composição moral, e é indubitavel que o foi, não parece
+menos certo que a sua composição moral deveria singularmente ser auxiliada e
+mantida em toda a pureza por effeito da arte, que lhe permittia auscultal-a,
+vêl-a, tocal-a em formas d'um enlevo captivante e soberano, avivando d'este
+modo o seu bemfazejo dominio.</p>
+
+<p>Ao abrigo dos incitamentos e instancias parlamentares, fóra das distracções
+a que de bom ou máu grado tinha d'acudir por virtude do logar e da situação, no
+remanso que lhe permittia toda a pausa e reflexão, quando o orador pôde
+tornar-se escriptor, a divina<span class="pagenum"><a name="pag_156"
+id="pag_156">{156}</a></span> obsessão de considerar nos homens e nas acções o
+seu valor e significação moral attingiu em José Estevão a ultima e mais alta
+perfeição.</p>
+
+<p>O retrato que nos deixou do rei D. Pedro V vale a melhor esculptura dos
+mestres, se é que a arte de modelar e fazer reviver a substancia etherea do
+sentimento humano não é superior ao talento d'animar o marmore e lhe insinuar
+as palpitações da carne.</p>
+
+<p>«Como morreu o rei? Porque morreu o rei?», escrevia José Estevão. «A paixão
+publica é grande e as paixões são inventivas, imaginosas, despoticas,
+desarrasoadas, absurdas. O sentimento pelas vidas que nos são caras cae em
+desconhecer o poder dos factos e arroja-se até a negar as leis da natureza.</p>
+
+<p>«Não queriamos que o rei morresse. Não acreditamos que o rei tenha morrido.
+Louca pretensão! Vã incredulidade!</p>
+
+<p>«Os medicos dirão que nome scientifico poderam dar aos padecimentos
+corporaes que pozeram termo á existencia do rei; e que elementos haveria na sua
+compleição physica que apoucassem a resistencia ao mal que o acometteu.</p>
+
+<p>«Esta sentença deve aquietar todos os animos e persuadir o paiz á
+resignação.</p>
+
+<p>«Mas, se o sentimento publico quer descontinuar causas malevolas,
+machinações tenebrosas<span class="pagenum"><a name="pag_157"
+id="pag_157">{157}</a></span> na morte do rei,--se se quer desconsiderar os
+imprescrutaveis decretos da Providencia para substituir a pensamentos de
+humildade concepções peccaminosas,--se se obstina em não imputar este triste
+acontecimento ás suas causas naturaes, não nos será permittido investigar se os
+acontecimentos da vida do rei e a sua composição moral concorreram muito para
+apressar o fim dos seus dias?</p>
+
+<p>«A consciencia timida do rei, a exaggeração dos seus escrupulos, os seus
+desejos de completa perfeição na vida privada e na vida politica, as suas
+aturadas occupações, os seus infortunios domesticos tinham gasto as suas forças
+e acabrunhado o seu espirito.</p>
+
+<p>«Pouco expansivo no tracto, com um viver recolhido, com o espirito
+continuamente preso a ideias determinadas, sempre mal contente dos negocios
+publicos, impossibilitado pela sua lealdade constitucional de metter n'elles a
+mão mais profundamente, confiando talvez que o poderia fazer com utilidade
+publica, deixou-se consumir e ralar d'esta complicação d'embaraços,
+d'aspirações, impossibilidades e conveniencias.</p>
+
+<p>«A apprehensão continuada sobre as difficuldades do seu cargo politico,
+aggravada em cada occorrencia mais grave pelo receio de<span class="pagenum"><a
+name="pag_158" id="pag_158">{158}</a></span> não sair bem d'ella, tinha levado
+o seu espirito a considerar a arte de governar nos termos d'um problema
+scientifico, que o trazia sempre occupado. Os espinhos da sua situação não só o
+pungiam, mas eram o objecto das suas meditações, e todas as suas faculdades
+carregavam com o duplicado trabalho de resolver os negocios occorrentes e
+d'investigar por que modos e com que maximas um rei podia fazer a felicidade
+dos seus povos, sendo estimado dos contemporaneos e admirado dos vindouros.</p>
+
+<p>«O rei passava, só, largas horas no seu gabinete. Só, não dizemos bem, que o
+acompanhavam de continuo a consciencia e a historia. Sabresaltado por uma e
+estremecendo da outra, o seu espirito luctava no mar d'incerteza, e, depois de
+muito trabalhar, nem acabava satisfeito dos expedientes que se lhe antolhavam,
+nem das soluções doutrinaes que lhe vinham á mente.</p>
+
+<p>«Correndo pelo sentido os casos da sua curta e tormentosa vida não achava
+n'estas recordações com que robustecer o seu animo, nem onde repousar o
+espirito da sua agitação interior.</p>
+
+<p>«Rei muito antes da epocha em que o seu amor filial lhe consentia desejal-o,
+em que a sua sisudeza lhe permettia acceitar a corôa<span class="pagenum"><a
+name="pag_159" id="pag_159">{159}</a></span> com a confiança de bem preparado
+para os encargos d'ella; viuvo na edade em que a maior parte dos homens não tem
+ainda escolhido esposa, e no momento em que o seu coração começava a gostar os
+prazeres da vida conjugal; não havia bem que não viesse do mal, nem ventura que
+a fortuna lhe não roubasse.</p>
+
+<p>«Ferido nos seus affectos intimos, mortificado de desastres, as epidemias
+parece que esperavam a sua ascenção ao throno para assaltarem o povo.
+Perseguia-o a infelicidade como rei e como homem. Dir-se-ia que a morte estava
+apostada a trazer-lhe sempre deante dos olhos o seu horror, e este sestro havia
+de pesar-lhe ao coração como um presagio.</p>
+
+<p>«Infelizmente as qualidades do rei careciam d'aquelle equilibrio que
+contrapeza os bens com os males da vida. Nos raros gosos que a sua sorte
+mesquinha lhe consentiu, sentia sempre o amargo essencial que ha ainda nos
+affectos mais gratos da vida. Por outro lado o pezar para elle era extremo: não
+levava em si nenhum lenitivo. O seu espirito não comprehendia as atenuações
+naturaes de todo o infortunio, nem o seu coração era feito para conhecer a
+<em>alegria</em> da desgraça.<span class="pagenum"><a name="pag_160"
+id="pag_160">{160}</a></span></p>
+
+<p>«A expressão será temeraria ou infeliz; mas ha nas mais densas cerrações da
+alma uma luz, embora tenue, que rasga a escuridão e que nos deixa enxergar ao
+longe horisontes menos carregados, e ás vezes até risonhos. Para além d'estes
+horisontes estanceiam as consolações humanas, tão variadas e efficazes como são
+numerosos e terriveis os males da vida. Mas o rei não respirava as auras
+d'aquella região. Não sabia consolar-se, e falto d'este auxilio indispensavel
+nos tormentos do mundo decaiu na superstição do infortunio. Julgou-se votado a
+elle e curvou-se á sua sorte»<sup>[<a href="#fn44"
+name="mfn44">44</a>]</sup>.</p>
+
+<p>Foi este o monumento, do qual apenas destacámos um pedaço, que José Estevão
+ergueu sobre a sepultura de D. Pedro V, logo apóz a sua morte. Depois d'elle,
+outros vieram que pelo bronze e pela palavra tentaram consagrar a sua memoria.
+Nenhum, porém, jámais o excedeu, nem sequer o igualou, na resurreição da
+nobreza ingenita do rei e da magestade tragica da sua queda.</p>
+
+<p>Pelo labor expontaneo das suas energias, o genio de José Estevão
+constituiu-se n'um tribunal, esclarecido e augusto, com tanta<span
+class="pagenum"><a name="pag_161" id="pag_161">{161}</a></span> rectidão para
+condemnar a perversão criminosa e a combater, emquanto importasse estorvo ou
+aggravo á felicidade humana, como magnanimidade para sanar por indulgencia as
+feridas que por dever fosse coagido a rasgar.</p>
+
+<p>Quando deixou de pulsar o coração que o animava e movia na terra, foi um dia
+negro; espalhou-se em torno como uma onda de sombrio e desesperado terror. A
+profundeza da dôr confessou a magnitude da perda. Emudecera para a democracia,
+para os apostolos dos seus sonhos e para os opprimidos das escravidões que a
+suffocam, o eleito que lhes ouvia os gemidos e lhes interpretava a anciedade,
+quem lhes restituia os direitos e lhes fazia vingar as aspirações. Não era um
+homem que a morte arrebatava; era um templo sagrado que se submergia. Não era
+um tropheu dos escudos nacionaes que se esfarrapava, uma flamula das suas
+glorias que se desfazia; era um écco da justiça divina que para sempre se
+calava, precipitando em angustia os que consolava, defendia e amava.</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup>[<a href="#mfn36" name="fn36">36</a>]</sup> <em>Discursos</em>, pag.
+118.</p>
+
+<p><sup>[<a href="#mfn37" name="fn37">37</a>]</sup> <em>Discursos</em>, pag.
+91, 93, 95, 101 e seg.</p>
+
+<p><sup>[<a href="#mfn38" name="fn38">38</a>]</sup> <em>Discursos</em>, pag.
+132.</p>
+
+<p><sup>[<a href="#mfn39" name="fn39">39</a>]</sup> <em>Discursos</em>, pag.
+77.</p>
+
+<p><sup>[<a href="#mfn40" name="fn40">40</a>]</sup> <em>Discursos</em>, pag.
+322.</p>
+
+<p><sup>[<a href="#mfn41" name="fn41">41</a>]</sup> <em>Discursos</em>, pag.
+74.</p>
+
+<p><sup>[<a href="#mfn42" name="fn42">42</a>]</sup> <em>Discursos</em>, pag.
+96.</p>
+
+<p><sup>[<a href="#mfn43" name="fn43">43</a>]</sup> <em>Discursos</em>, pag.
+173</p>
+
+<p><sup>[<a href="#mfn44" name="fn44">44</a>]</sup> Artigo publicado no
+<em>Districto d'Aveiro</em>. Vid. Marques Gomes. <em>L. c.</em>, pag. 156.</p>
+</div>
+</div>
+
+<div id="bibliografia">
+<h2>BIBLIOGRAPHIA</h2>
+
+<p>Sómente de tres livros me servi para este pobre estudo:</p>
+
+<p><em>Discursos parlamentares de José Estevão Coelho de Magalhães</em>,
+colleccionados por Joaquim Simões Franco e editados por A. Augusto de Souza
+Maia, Aveiro: Imprensa Commercial, 1878.</p>
+
+<p><em>José Estevão, Apontamentos para a sua biographia</em>, por Marques
+Gomes, Porto: Typographia Commercial, 1889.</p>
+
+<p><em>José Estevão, Esboço historico</em>, por Jacintho Augusto de Freitas
+Oliveira, edição de François Lallement, Lisboa: Sociedade Typographica
+Franco-Portugueza, 1863.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Sobre a parte anedoctica da vida de José Estevão encontram-se notas
+interessantes nas obras do meu amigo e illustre escriptor Sr. Mello Freitas,
+particularmente no seu livro <em>Violetas</em> e nas conferencias que sobre
+este assumpto fez em Aveiro, em 30 d'abril de 1909 e 14 d'agosto do mesmo
+anno.</p>
+</div>
+
+<div id="indice">
+<h2>INDICE</h2>
+
+<table align="center" summary="Indice">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <td></td>
+ <td>Pag.</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>P<small>ODER D'ENCANTO</small></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_VII">VII</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>I. <em>Ideias politicas</em></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_1">1</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Os grandes homens e o seu tempo</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_1">1</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Fontes do liberalismo portuguez</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_6">6</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Phases e aspectos da Revolução Franceza</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_9">9</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>A França de 1830</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_25">25</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>José Estevão e a tradição politica</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_27">27</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>A sua concepção religiosa</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_32">32</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>O seu catholicismo</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_37">37</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>O movimento economico</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_42">42</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Victoria da burguezia</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_61">61</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Criterio economico de José Estevão</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_65">65</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>O caracter politico</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_75">75</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>II. <em>Caracter e Arte</em></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_83">83</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>José Estevão e o romantismo</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_83">83</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Espirito heroico</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_92">92</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Caracter moral</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_105">105</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Exigencias da evolução politica</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_110">110</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Ultimas aspirações</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_122">122</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Derradeira esperança</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_129">129</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>O orador</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_133">133</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>A imaginação</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_136">136</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Intuição moral</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_149">149</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>O genio latino</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_152">152</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>O escriptor</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_155">155</a></td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+</div>
+
+<div id="outrasobras">
+<h2>DO MESMO AUCTOR</h2>
+
+<p><em>Vozes do meu lar</em>, 1 vol.</p>
+
+<p><em>Na Paz do Senhor</em>, romance, 1 vol.</p>
+
+<p><em>Reino da Saudade</em>, romance, 1 vol.</p>
+
+<p><em>Via Redemptora</em>, 1 vol.</p>
+
+<p><em>Apostolos da Terra</em>, 1 vol.</p>
+
+<p><em>Sonho de Perfeição</em>, romance, 1 vol.</p>
+
+<p><em>S. Francisco d'Assis</em>, 1 vol.</p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of José Estevão, by Jaime de Magalhães Lima
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK JOSÉ ESTEVÃO ***
+
+***** This file should be named 28902-h.htm or 28902-h.zip *****
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+
+Produced by Pedro Saborano. A partir da digitalização
+disponibilizada pela bibRIA.
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
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+
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+
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+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
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+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
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+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
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+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
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+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
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+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
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+ and discontinue all use of and all access to other copies of
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+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
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+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
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+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
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+
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+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
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+
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+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
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+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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