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+The Project Gutenberg EBook of O Inferno, by Auguste Callet
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: O Inferno
+
+Author: Auguste Callet
+
+Translator: Camilo Castelo Branco
+
+Release Date: April 22, 2009 [EBook #28584]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O INFERNO ***
+
+
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+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from the Google Print project.)
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+
+ O INFERNO
+
+
+ AUGUSTO CALLET
+
+ O INFERNO
+
+ TRASLADADO PARA PORTUGUEZ E PRECEDIDO DE UMA ADVERTENCIA
+
+ POR
+
+ CAMILLO CASTELLO BRANCO
+
+
+
+
+ PORTO
+
+ TYPOGRAPHIA DA LIVRARIA NACIONAL
+ 2, Rua do Laranjal, 22
+
+ 1871
+
+
+
+
+ ADVERTENCIA DO TRADUCTOR
+
+
+N'este memoravel anno de 1871, o sacerdocio militante da christandade
+lusitana subiu aos baluartes mais desamparados, aos pulpitos de grande
+parte do reino, e desembestou certeiras fréchadas ao rosto da impiedade.
+
+No pulpito da egreja de S. Martinho de Cedofeita, d'esta cidade do
+Porto,--que não é a mais peccadora, porque é a menos ociosa,--discorreu
+apostolicamente um padre italiano, que eu não ouvi.
+
+Não fui ouvil-o, porque já tenho muitissimos annos e bastante leitura
+para conhecer que direitos tem Deus e o proximo ao meu amor.
+
+Não o fui ouvir pela mesma razão que evito alguns livros prohibidos,
+receoso de que elles estremeçam os alicerces da minha fé.
+
+Não fui ouvil-o, emfim, porque ha um sermão que eu sei de cór, e repito
+quando tenho sêde de fé, ancias de misericordia, tibiezas de
+esperança: é o sermão da montanha, prégado aos pobres por nosso Senhor
+Jesus Christo.
+
+Este sermão ainda meus filhos o não sabem; mas hão de aprendel-o quando
+as primeiras lagrimas lhes tiverem delido as manchas escuras do
+intendimento. É preciso ter chorado para comprehender a bem-aventurança
+dos que choram. Jesus Christo, se houvesse dito aquellas divinas
+palavras aos felizes, não seria intendido no apostolado, nem seguido na
+vida, nem chorado na morte, nem confessado no martyrio.
+
+Levantei, pois, o pequenino e fragil oratorio das minhas preces humildes
+sobre a confiança do divino Pae; e, se em minha alma sinto o desejo de
+não ter nascido para dôres deseguaes ao alento de cada homem, reconheço
+que o oratorio do peccador está tanto á vista de Deus que o anjo da
+paciencia abre as suas luzentissimas azas sobre os meus abysmos escuros.
+
+Ora eu sei de triste experiencia que os discursos do missionario em
+Portugal me desataviam o espirito das vestes graves com que costumo
+entrar nos templos.
+
+Na minha mocidade estudei grammatica, fui examinado em logica, decorei a
+inutilissima cousa chamada rhetorica, cursei muito pela rama algumas
+aulas de theologia; finalmente, poli quanto pude a razão para que se
+espelhassem n'ella os preceitos e conceitos dos oradores sagrados.
+
+Pois acontecia que todos aquelles predicados, desde a grammatica de
+Lobato até á theologia do bispo de Leão, cá no meu interior despiam a
+casaca e a dalmacia venerandas, para galhofarem d'uns certos padres que
+se imaginavam favorecidos da infusão scientifica, uma só vez
+milagrosamente concedida pelo Espirito Santo aos santissimos ignorantes
+do Cenaculo.
+
+Arguiam-me de indiscreto os bons amigos que me ouviam deplorar a
+decadencia da oratoria sacra, justificando o proposito pelos resultados,
+a uncção do prégador pelo soluçar do auditorio, a fertilidade da palavra
+pela emenda das culpas.
+
+O soluçar do auditorio era tão acceitavel e prestadio como as lagrimas
+no theatro, que denotam, quando muito, corações sensiveis; aquillo,
+porém, de emenda das culpas é que vinha desconceituar a argumentação dos
+meus amigos.
+
+As culpas! o desconcerto da vida, a irreverencia a Deus, o desamor ao
+proximo, as intranhas descaroadas do rico, a rebellião cubiçosa do
+pobre, a mão que se esquiva em levantar da lagem o orphão--estas e
+outras más fibras do coração humano poderá retemperal-as a consciencia
+illustrada; mas a consciencia espavorida pelo medo dos castigos eternos,
+essa não.
+
+E os missionarios, que ludibriavam a minha devoção ou curiosidade,
+demonstravam a precisão de sermos continentes, sobrios, humildes,
+caritativos, christãos emfim, para não sermos eternamente refervidos no
+lago de sulphur candente.
+
+Eu nunca ouvi dizer na casa da oração que a providencial justiça tem o
+seu tribunal em meio dos vivos; que o vicio deshonra, infama, e tolhe o
+goso dos bens d'esta vida; que a repulsão do delinquente é um castigo;
+que a sociedade pune primeiro que a lei; e que, se a justiça dos codigos
+algumas vezes erra, a justiça complexa da opinião publica mantém
+a disciplina do supplicio, invisivel mas exulcerante na consciencia do
+culpado.
+
+Nunca ouvi missionario que me parecesse mais illustrado que a maioria
+dos seus ouvintes, nem vi espectaculo onde reluzissem mais vivos e
+tristes reflexos da edade-media. Historias horrendas e ás vezes
+esqualidas de castigos infernaes; immersões em caldeiras rubidas das
+lavaredas; corpos espedaçados por dragões e logo recompostos para nova e
+eterna dilaceração; imborcações de peçonha na bôcca dos gulosos;
+amplexos de serpentes escamosas de brazas n'aquelles que lubricamente
+deleitaram os corpos n'este mundo: era isto, não era o penetrante pejo
+do vicio que chamava aos olhos do auditorio as lagrimas restauradoras.
+
+Mas, ao fechar da missão, o peito oppresso do peccador atterrado
+desafogava-se na esperança de illudir o diabo com uma confissão geral e
+um profundo pesar na hora da morte, visto que o missionario promettia o
+céo aos que, nos ultimos instantes, se sentissem vivamente magoados de
+terem sido perversos.
+
+O céo!
+
+E que promette o padre aos justos, aos que desde a juventude até á
+decrepidez apenas prevaricaram venialmente? o céo.
+
+E aos apostolos que vão á fogueira offerecendo ao divino martyr o
+tributo de suas agonias? o céo.
+
+O céo para o facinora contricto no ultimo momento, e o céo para o santo
+de toda a vida! O céo para o martyr e o céo para o algoz que houve
+remorso de o haver matado! Ó fé, revérbero de Deus, estarias apagada, se
+não fosses divina!
+
+Em compensação, porém, que profusa prodigalidade de infernos
+além-tumulo! Infernos legendarios, imitações do grego, do egypcio, do
+indostanico, todos os infernos, excepto o verdadeiro--o inferno d'esta
+vida, a corrente do remorso ao pelourinho da consciencia, e a desgraça
+implacavel ainda para os que não têm consciencia nem remorso.
+
+Pois esta doce e misericordiosa alliança de Jesus com os attribulados,
+com os frageis por compleição e por mal dirigidos na mocidade, comporta
+em si a hypothese de Satanaz, que nos espia o ensejo favoravel e nos faz
+cambapé ás suas voragens? Comprehendem acaso que Deus se não amerceie de
+homens fraquissimos, vencidos por um gigante que não coube no céo? Não
+vêm que Lucifer se atreveu com o Creador, e, depois de vencido, teve por
+homenagem o reinado de um mundo, e o generalato de legiões immensas,
+todas a manobrarem na terra para vencerem... a quem? um descendente de
+Adão, do logrado do Eden, Adão, que tinha em si a plenitude da força, da
+sciencia; a força do corpo ainda aquecido da mão de Deus; a força da
+alma iriada dos reflexos do seu Creador! E o homem, debilitado pelo
+attrito de seis mil annos, que querem que elle seja? Porque lhe decretam
+a elle--ao fraco--o inferno, se Deus apenas condemnou o forte a viver do
+suor do seu rosto?
+
+Estas e outras meditações, dignas de que Deus m'as perdôe, se a palavra
+não friza bem com a lisa intenção, me preoccupavam, quando li este livro
+de Callet, com certo medo de violar o meu salutar costume de não lêr
+livros prohibidos, tirante os uteis, os desenfastiados e principalmente
+os instructivos.
+
+O auctor, comquanto excommungado, usou a christã bem-querença de
+prevenir-me de que a sua obra estava condemnada. Decidi logo que o livro
+não seria de todo mau. E, depois que o li, reflexionei que os cardeaes
+seriam mais discretos esquivando-se a dar voga a escriptos que andariam
+menos procurados sem a chancella da prohibição.
+
+A mim me quer parecer que o _Inferno_ de Callet sahiria com fóros de
+orthodoxo da assemblêa dos primitivos christãos, quero dizer, dos
+seguidores de Jesus Christo anteriores áquella pestilencial sciencia
+chamada Theologia: tal é a pureza, luz, amor e christianissimo espirito
+que ungem as paginas d'este consolativo livro.
+
+Augmenta-lhe o valor o encontrar-se com os missionarios portuguezes,
+cada vez mais attidos á rhetorica ardente do inferno, como se elles e
+ouvintes não houvessem dado ainda um passo desde que é dia, desde que a
+razão fez pazes com a fé illustrada.
+
+É tão verdade que este systema de moralisar nada aproveita, quanto é
+certo que nas aldeias, onde mais trovejam as ameaças do missionario,
+encontrareis o demonio da corrupção fazendo tregeitos ao padre ás portas
+das cabanas, onde o vicio avulta mais esqualido com a hediondez dos seus
+farrapos.
+
+Não melhorareis a sociedade a prégar. E todavia, serodios apostolos, na
+vossa sinceridade, creio eu, por não ter grande confiança na vossa
+illustração, e me ser muito custoso suspeitar que sois hypocritas.
+
+Ora lêde este livro que se vos offerece em portuguez correntio, e dizei,
+se, apagado o inferno, não será possivel accender pharol mais humano e
+mais divino pelo qual se norteie a posteridade da peccadora Eva,
+esta immensa familia d'hoje, estygmatisada seis mil annos antes!
+
+
+Julho de 1871.
+
+ _Camillo Castello Branco._
+
+
+
+
+ PREFACIO
+
+ DA SEGUNDA EDIÇÃO
+
+
+Aos 20 de Junho de 1862 a sagrada congregação do Index condemnou em Roma
+este livro ácerca do inferno. Caridosamente advirto a leitoras e
+leitores que temos aqui fructo prohibido.
+
+Perguntam-me o que vem a ser a congregação do Index? Eis-aqui o pouco
+que sei d'isso: o papa Paulo III publicou em 1539 um catalogo de livros
+cuja leitura prohibiu aos fieis sob pena de excommunhão. Este catalogo,
+chamado Index, foi approvado pelo concilio de Trento, enriquecido de
+numerosos artigos, e por elle, antes de dissolver-se, recommendado a Pio
+IV. O papa Sixto V, que não tinha vagar para lêr, creou, mais tarde, uma
+commissão permanente de cardeaes encarregada de examinar e condemnar
+livros. Esta commissão de cardeaes é o que se chama a sagrada
+congregação do Index.
+
+Convém saber que Paulo III, velho amigo de Alexandre VI, e tanto, como
+elle, muito desacreditado por seus vicios, desmembrou dos
+dominios de S. Pedro as cidades e territorios de Parma e Placença que
+elle deu com plena soberania, e com titulo de ducado, a Pedro Luiz
+Farnezio, um dos seus filhos naturaes. Este tal fundou a inquisição,
+instituiu a ordem dos capuchinhos, exercitou a astrologia, fomentou e
+applaudiu a carnificina dos vandezes. Não discuto similhantes actos;
+recordo-os porque elles se ligam á mesma idêa que creou o Index.
+
+Pio IV, a rogo dos Jesuitas, acrescentou algumas contas ao rozario,
+augmentando-lhe as virtudes; fez estrangular o cardeal Caraffa, sobrinho
+do seu predecessor Paulo IV; fez decapitar o duque de Palliano, irmão
+d'aquelle cardeal, e outros muitos personagens cujas cabeças
+ensanguentadas, por sua ordem, foram expostas sobre a porta do castello
+de S. Angelo; abafou o processo instaurado em Espanha contra o clero
+accusado de libertinagem; mas em compensação accendeu por toda a parte a
+guerra contra os herejes. Accuzam-no de haver beneficiado mais a sua
+familia que ao povo romano. Eu por mim não lhe contesto as virtudes, e
+menos ainda a orthodoxia. Na famosa bulla de 24 de Abril de 1564
+declarou excommungados, _ipso facto_, quem quer que no futuro imprimisse,
+vendesse ou lesse algumas das obras inscriptas no Index pelo concilio ou
+por elle mesmo; e bem assim quem, não as tendo lido, as emprestasse ao
+visinho, ou, sem as ler ou communicar a alguem, as fechasse na sua
+bibliotheca ou n'algum esconderijo da sua casa. Urgia, pois, queimar os
+livros prohibidos quem quizesse evadir-se á excommunhão, e em seguida á
+condemnação eterna. Como não podesse queimar os auctores, Pio IV
+desforrava-se fazendo-lhes queimar as obras.
+
+A vida de Sixto V é bastantemente conhecida, não tem que vêr com a de S.
+Pedro; mas sobejavam-lhe intelligencia e indole sufficientes ao
+exercicio do poder absoluto. Era manhoso e cruel este grande papa, cujo
+systema de governar compendiou em duas palavras: pão e páo.
+
+Dispensam-se pois os povos de pensar, como coisa perigosa: é bastante
+que elles não morram de fome e que tremam sempre diante do algoz. Depois
+erijam-se obeliscos e edifiquem-se templos.
+
+Este papa mandava decapitar os padecentes debaixo das suas janellas,
+antes de sentar-se á meza, dizendo que isto lhe abria o appetite. As
+cabeças dos suppliciados, que elle expunha e deixava apodrecer aos olhos
+dos caminhantes, ameaçavam de peste a cidade. Apezar dos juizes, fez
+enforcar um mancebo de 16 annos por haver resistido aos quadrilheiros
+que o prenderam. Ordenou que cortassem as mãos e que traspassassem a
+lingua d'um auctor epigrammatico. Excommungou a rainha Isabel,
+desquitando a nação do juramento de fidelidade; excommungou o rei de
+Navarra, o principe de Condé e o rei de França, exaltando até ao delirio
+o fanatismo dos partidarios da Liga; e depois do assassinio do
+desgraçado Henrique III, elogiou em pleno consistorio Jacques Clement,
+comparando-o a Judith e Eleazar, debeis mas fieis instrumentos do Deus
+dos combates. E como signal sensibilissimo de sua terna solicitude pela
+salvação das almas, restabeleceu ao mesmo tempo o santo officio e
+cumulou de indulgencias a confraria do Santo Cordão. Era proprio d'este
+grande e devoto papa continuar a guerra declarada por seus predecessores
+á razão humana e á liberdade da consciencia, instituindo de par com o
+santo officio a congregação do Index.
+
+Não cuideis, porém, que os livros condemnados por esta congregação
+fossem lidos pelo papa ou sequer pelos cardeaes encarregados d'isso. Por
+via de regra os cardeaes nada lêem. Á laia de Sixto V, encarregavam
+outros d'esse officio. Á volta da congregação do Index formigavam monges
+e obscuros theologos de toda a parte, chamados consultores, a quem
+incumbia o encargo quasi sempre fastidioso de lêr obras novas. As
+formidaveis sentenças do Index, mediante as quaes uma familia inteira
+era excommungada e condemnada, promanavam do relatorio d'estes
+consultores: tal era a sorte de quem recusasse queimar um cartapacio
+jansenista, herança de avó piedosa, ou as _Maximas dos Santos_ de Fénelon,
+ou os _Pensamentos_ de Pascal, ou as _Reflexões moraes_ de Quesnel, embora
+approvadas pelo cardeal de Noailes, arcebispo de Pariz, ou a _Theologia_
+de padre Lequeux--primeira edição--ou a _Philosophia_ de Cousin. Pelo que
+me toca, julguei que o inferno é uma concepção immoral, profunda e
+forçosamente immoral pelas razões que adduzi. Tambem mostrei, a diversas
+luzes, o perigo de similhante crença para o genero humano. Por isso fui
+condemnado em Roma. Optimamente! Agora exijo que me respondam. Graves e
+leaes são as minhas objeções: o decreto do Index as deixou subsistir em
+todo o seu vigor.
+
+Quando a soberania temporal do papa, que não é dogma, deixar de absorver
+os esforços todos dos defensores da fé, espero que elles tenham vagar de
+cuidar no inferno, que é um dogma, e dogma tanto em perigo e tão
+vacillante--fiquem-no sabendo--como o throno de Paulo III, de Pio IV, e
+Pio V.
+
+
+
+
+ INTRODUCÇÃO
+
+ DOGMAS HEBRAICOS
+
+
+É crença anterior á prégação de Christo, quanto ao texto, mas diversa do
+espirito do Evangelho, a eternidade das penas. Prende esta crença com
+outros dogmas rabbinicos, tão obscuros quanto descaridosos, que a Egreja
+nascente adoptou e que ainda hoje formam o essencial da theologia
+christã. Podemos reduzir aquelles dogmas a cinco, consubstanciados todos
+no Inferno. Vem a ser: a Rebellião de Satan, o Castigo de Satan, o
+Paraiso terreal, a Maldição dos homens, o Povo de Deus.
+
+Não intento esquadrinhar o sentido philosophico de taes dogmas: tal
+canceira, superflua para leitores instruidos, seria insipida e
+inutil para os ignorantes. Que Satanaz, inferno, peccado original,
+etc., sejam ou não horrendos symbolos do antigo pantheismo
+asiatico,--expressão viva d'um systema de methaphysica mais terrivel que
+especioso, onde liberdade e mal se confundem, e o nada divinisado tem
+consciencia de si, e Deus quasi deixa de ser--questões são essas
+proprias de academias. Taes dogmas para mim são o que á letra
+significam; sei d'elles o que nos ensinam; vejo-os como nos mandam
+vêl-os, como a multidão os vê, coisas reaes, pessoas verdadeiras, e não
+chimeras. Considero-os pois sob a fórma com que elles, ha muitos
+seculos, influem no genero humano: e não ha mais seguro modo de lhes
+apreciar o valor moral.
+
+Entremos na exposição, clara quanta fôr possivel, d'estes dogmas
+mysteriosos.
+
+
+ I
+
+ Rebellião de Satanaz
+
+A historia de Satanaz não se encontra na Biblia nem no Evangelho. Passou
+tradicionalmente da synagoga á Egreja. No Thalmud e nos Padres é que vem
+escripta.
+
+Satanaz era um anjo--como quem diz um espirito incorporeo, um sôpro de
+Deus. Pureza, força e benção eram o principio e constituição de sua
+essencia. Estava elle no ceo resguardado de exemplos e conselhos
+maus. Creado para o bem alli vivia em condições em que não é possivel
+conjecturar-lhe intenções más, contemplando Deus rosto a rosto, actuando
+e reclinando-se em seu seio, testemunha intelligente d'aquella
+superlativa sabedoria, bondade e omnipotencia que transpõe espaço e
+tempo.
+
+Infelizmente Satanaz era livre e peccou. É obra sua o mal que antes
+d'elle não existia. Concebeu-o elle, e--caso estranho!--produziu-o alli
+mesmo no ceo, em meio dos resplendores increados, e eternas
+bem-aventuranças, e depois quiz-lhe como a seu, e propagou-o por entre
+os anjos.
+
+Este peccado, aliás inqualificavel, visto que lhe não conhecemos a
+especie, é, como vou demonstrar, o verdadeiro peccado original. É a
+primitiva e inexhaurivel fonte de dores do genero humano, posto que
+ainda não houvesse genero humano na desconhecida época em que elle
+perturbou o céo. Todos os transtornos do universo, mal physico e mal
+moral, é aquelle peccado que os explica.
+
+Saibamos como Satanaz foi castigado.
+
+
+ II
+
+ O Inferno
+
+Deus não quiz anniquilar Satanaz nem perdoar-lhe. Creou o inferno, e
+precipitou-o lá com os seus cumplices.
+
+Fogo, frio, esvahimentos de fome, tedios da saciedade, golpes de ferro,
+trances de agonia, inveja, remorsos, tudo isso não basta a dar-nos muito
+em sombra idêa dos tormentos d'aquelle abysmo. Corôa-lhe o horror não
+ser ahi conhecida a morte. Se a morte lá podesse entrar, a esperança
+iria com ella, deixando entrever o nada como acabamento de tão enormes
+penas.
+
+Se, porém, foi recusada a Satanaz esta miseravel consolação, goza-se de
+outra em desforra. Deus, que o reduziu á desesperação, deixou-lhe a
+faculdade de o molestar, atravessando-se-lhe nos intentos,
+contrariando-lhe as leis, multiplicando e perpetuando o mal por toda a
+parte, salvante o ceo.
+
+É o inferno o senhorio de Satanaz; mas não cabe lá. É-lhe toda a creação
+campo franco para a sua malfeitora actividade. Verdade é que leva
+comsigo, onde quer que vá, a sua immortal tristeza, e, pelo tanto, toda
+a parte lhe é inferno. Não obstante, é incomprehensivel que elle de lá
+sahisse, se lhe não fosse algum hediondo regalo n'isso de fazer tudo
+quanto quer, excepto o bem--poder singular que Deus lhe concedeu, e elle
+exercita incansavelmente, seu prazer unico, necessidade propria da sua
+desgraça, e que hade durar tanto como elle.
+
+Tal é o castigo de Satanaz. Crime e castigo são por egual espantosos e
+inintelligiveis.
+
+Agora, vejamos o que d'ahi resulta.
+
+
+ III
+
+ Paraiso terreal
+
+No segundo e terceiro capitulos do _Genesis_, refere Moysés a creação e
+queda do homem. Esta breve passagem foi diffusamente glossada por
+hebreus e padres da Egreja, e raro haverá quem a não haja ouvido
+explicar do pulpito, como eu brevissimamente a vou explicar,
+acrescentando-lhe reflexões minhas.
+
+Adão e sua companheira tinham recebido no Eden uma lei moral simplissima
+e muito clara: era-lhes licito saborear todos os fructos d'aquella
+mansão de delicias, tirante o fructo d'uma só arvore: feito isto, a sua
+felicidade seria perfeita. Conta-se que elles estavam alli mais
+innocentes que os recemnascidos e ao mesmo tempo mais instruidos que os
+anciãos d'hoje em dia. Obedecia-lhes a natureza e elles
+comprehendiam-lhe a voz. Cuidados nenhuns, nenhumas lagrimas, primavera
+eterna, e a mocidade immorredoira em todo o seu ser. Deus folgava
+descer-se do ceo para n'elles contemplar a sua viva imagem; e então lhes
+mostrava seu rosto e lhes fallava.
+
+Entretanto Satanaz foi esperal-os debaixo da arvore da Sciencia, cujo
+fructo lhes fez comer. Não se corromperam per si mesmos como Satanaz;
+mas eram livres e o tentador estava alli. Quem tinha seduzido os anjos
+como deixaria de seduzil-os a elles? Que considerações o reteriam?
+Não receia Deus por que Deus lhe não póde aggravar o supplicio, pois que
+esse supplicio é eterno, e o inexprimivel horror de tal castigo consiste
+na eternidade d'elle. Pelo que respeita á piedade, é sentimento que
+Satanaz não conhece, pois que Deus lh'a não mostrou a elle, o primeiro
+de todos os seres que a necessitára. Á semelhança das outras creaturas,
+tem sómente aquillo que recebe; e o que brilha em si não é o amor
+divino, é a divina colera que o conserva devorando-o.
+
+Quaes foram as consequencias da queda?
+
+
+ IV
+
+ A maldição
+
+Não aceitou Deus as desculpas de Adão e Eva. De tal modo o irritou a
+desobediencia, que, no auge da sua ira, amaldiçoou-os e com elles a
+terra que os continha: dupla maldição que abrange alma e corpo, espirito
+e materia, eternidade e tempo--o homem todo na intimidade de seu ser
+immortal e nas condições exteriores da sua existencia transitoria.
+
+De feito, foi Adão condemnado á morte. O corpo reverteu ao pó e a alma
+cahiu no inferno. Esperando, porém, este ultimo castigo, foi-lhe forçado
+soffrer outro n'este mundo. Cahiu sob o poder de Satan. Os miraculosos
+conhecimentos, que elle tinha, perdeu-os para sempre.
+
+Repulso do Eden, nada sabia do que tinha sabido n'aquelle lugar; e, como
+a terra tambem se havia transformado, caminhava elle inexperiente
+atravez dos estorvos d'uma vida nova. Precisões, lavor ingrato,
+enfermidades, padecimentos de toda a natureza, desconfianças, medos,
+saudades inuteis, desejos inquietos acompanhavam o vagabundo par.
+Satanaz seguia-os, julgando-os ainda bastante felizes sobre a terra
+maldita, onde, se elle não fosse, o soffrimento seria expiação, e a
+morte resgate.
+
+Penetremos mais dentro n'este mysterio, e consideremos com os theologos
+quaes foram e ainda são hoje as deploraveis consequencias d'aquelles
+successos.
+
+
+ V
+
+ Consequencias da maldição
+
+Os filhos de Adão que ainda não eram nascidos no momento da culpa, e os
+filhos de seus filhos até á derradeira geração foram condemnados com
+elle, como se tivessem peccado. Comprehende-se que elles não fossem
+melhores que seus pais: peiores é que elles se tornaram. O mais velho
+d'esses reprobos matou seu irmão, e a impiedade humana foi crescendo até
+ao diluvio para recomeçar, ao sahir da arca, durante o somno de Noé.
+
+Uma tal punição não podia gerar outros effeitos.
+
+Considerai que nascemos aviltados, pervertidos, embriagados do
+vinho que outros beberam, escravos d'um poder occulto e maligno, odiados
+de Deus, odiando a Deus, só bastantemente livres para praticar maldades
+e merecer por isso novos castigos; incapazes todavia de praticar o bem.
+Está Satanaz no manancial onde bebemos a vida; está nas fontes que a
+nutrem, no seio de nossa mãe e no seu leito; a si nos attráe,
+encorporando-se na luz, na agua, nos alimentos, no ar que respiramos, na
+voz que nos encanta o ouvido, na fragrancia que as auras nos trazem, no
+amigo que nos abre os braços. Comnosco se identifica e nos enche de seus
+cavilosos e insaciaveis appetites.
+
+De fóra chama-nos com uma doce voz, e com um interno aguilhão nos
+esporêa para onde nos chama. Então nos cerca, invade-nos, possue-nos, e
+isto não é ainda senão parte do nosso castigo. O inverno que nos
+engorgita os membros, a fome que nos prostra, a trovoada que arrebata as
+sementeiras, a febre paludosa que nos mata os filhos, as forças que se
+vão quando a experiencia chega, estes flagellos todos da natureza contra
+nós desenfreados, estas necessidades inexoraveis, amargas privações, e
+exulcerantes desenganos são tambem parte do nosso castigo. Mas ainda não
+é tudo: a nossa insanavel ignorancia, orgulho, fraqueza, toda a
+corrupção do nosso ser é parte integrante do mesmo castigo, não do
+peccado original, cumpre notar, mas do castigo, pois que a transmissão
+do peccado original é já de si um castigo. E não pára aqui a maldição;
+pelo contrario, quando ella se nos mostra mais terrivel é n'este
+estado a que nos reduziu, manietados pelas cadeias que nos forjou,
+porque as culpas que resultam d'esta corrupção natura e involuntaria que
+é um castigo, d'esta possessão diabolica que é um castigo, e de tantas
+dores accumuladas que são castigo--taes culpas chamam sobre nós outros
+castigos. Qualquer lapso é reprehensivel; o menor deslize é espiado e
+marcado; o minimo murmurio é uma offensa.
+
+Taes são, consoante a theologia dos hebreus, adoptada e assignada pelos
+padres, as relações do homem com Deus e de Deus com o homem.
+
+Detestam-se. Desde a sahida do Eden que se digladiam em duello sem fim,
+posto que desigual. Um primeiro crime gerou a colera divina; mas do
+primeiro acto da colera divina surtiram outros crimes, os quaes geraram
+novas coleras, e continuamente, em face um do outro, a colera e o crime
+se fecundam e reproduzem sem descanso. Os homens n'esta lucta são
+incansaveis como Deus, e, posto que trespassados e sanguinolentos e
+esmagados, ameaçam e conspiram ainda.
+
+De semelhante espectaculo não ha nome condigno! Está o odio por toda a
+parte, na terra, no inferno, no ceo, nas creaturas e no Creador.
+
+Accrescentemos que o que melhor se comprehende neste systema é a
+rebellião do homem, porquanto a nossa sorte é mais miseravel que a sorte
+de Adão, e cem vezes mais miseravel que a de Satanaz. Mas faz-se mister
+esclarecer este ponto, antes de passar além.
+
+
+ VI
+
+ Comparação da nossa sorte com a de Adão e de Satanaz
+
+Em verdade nenhuma similhança temos com os habitantes do paraiso
+terreal; não lhes herdamos o saber adquirido sem trabalho, nem a pureza,
+nem a liberdade, que se agitava a bel-prazer em um tão vasto circulo,
+tendo um só limite perfeitamente distincto; nem tão pouco lhes herdamos
+a tranquilla felicidade. Para nós é tudo trevas, servidão, limite,
+trabalho e dôr. Apezar do peccado, outra vantagem nos levavam. Puniu-os
+Deus d'uma maneira que nos espanta; mas puniu-os pelo mal que
+propriamente fizeram. Comnosco não é assim. Primeiramente, aquelles
+actos, que Deus tão severamente castigou n'elles, continuam-se em nós,
+que não temos conhecimento d'elles senão por este proseguimento
+vingativo; depois, sem attender á nossa infermidade nativa, nos faz elle
+expiar nossas proprias faltas com tamanho rigor como se as nós
+tivessemos commettido na liberdade, na sciencia, e nos jubilos do Eden.
+
+Se podeis, comparae agora a sorte do homem n'este mundo maldito á de
+Satanaz no ceo; e os peccados d'aquella creatura debil, ignorante,
+decahida, envolta em carne e sangue, cercada de precipicios e trevas,
+criminosa porque nasceu, e em perigo porque vive;--comparae isto,
+se podeis, ao inexplicavel peccado do anjo. Similhança não ha ahi
+nenhuma. Entre nós e aquelle espirito bemaventurado vae a differença de
+noite a dia, e entre a sua culpa e a nossa a distancia da terra ao ceo.
+Sem embargo disso, as penas são iguaes. Espera-nos o mesmo inferno. A
+unica desegualdade que se nota n'este logar de soffrimento é que o homem
+ahi será a eterna victima, e Satanaz o eterno algoz.
+
+É evidentissimo que é a mesma a pena applicada a seres que prevaricaram
+em tão oppostas condições de actividade. Esta pena infinita só tem
+relação com o poder infinito do juiz offendido; não tem alguma com as
+faculdades diversamente limitadas dos culpados, e augmenta de gravidade
+á medida que desce sobre peccadores d'uma natureza mais fragil, de
+Satanaz sobre Adão, de Adão sobre a sua posteridade.
+
+Quando procuramos n'isto a justiça, dizem-nos que ella ahi está, mas
+escondida. Oh! sim, meu Deus! Bem escondida, e a razão tambem, e a
+piedade tambem!
+
+
+ VII
+
+ O povo de Deus
+
+Entretanto parece que a piedade se manifesta na formação do povo de
+Deus, e em verdade ahi se denota, mas como excepção, privilegio e favor.
+
+Havia no Egypto uma raça de escravos; toma-os Deus pela mão, e atravez
+de mil obstaculos os leva ao paiz de Chanaan; dá-lhes leis,
+ministros e prophetas; illustra-os, defende-os, castiga-os, restaura-os,
+disputando a Satanaz, com successivos milagres, essa nesga de terra onde
+quer ser adorado. Não obstante, estas revelaçõens e sobrenatural
+assistencia não impedem que os judeus idolatrem, que se prostituam, que
+usurem e se precipitem numerosissimos em todas as voragens do mal. Por
+aqui se avalie a desgraça dos povos que occupavam o resto da terra e a
+quem faltavam taes soccorros. Pezava n'elles sem contrapezo o peccado
+original. Os que a maior grau de perfeição tinham levado artes e
+sciencias estavam tão remotos da verdade como o selvagem mais
+embrutecido. Não porque uns ou outros fossem atheus--pelo contrario, em
+seus soffrimentos, levantavam olhos ao ceo; mas como procuravam a
+divindade nas estrellas, nas altas montanhas, no concavo dos bosques, e
+nas mil imagens compostas de materia impura, debalde rogavam, e
+inutilmente sacrificavam. Salvante a de Moysés, todas as religiões eram
+engodo de Satanaz e conductoras d'almas ao inferno, similhantes ás
+lumieiras que as hordas assalteadoras accendem á beira das restingas,
+durante as noites tempestuosos, afim de que os navegantes se percam. E
+Deus abandonava os gentios á sua ignorancia; detestava-os em tanto
+extremo que prohibia o seu povo de os tratar, sobretudo de misturar ao
+d'elles o seu sangue, excepto nas batalhas. Occasionado o ensejo, era
+obra piedosa exterminal-os; mas attrahil-os ao seu coração, era,
+em todos os lances, um acto abominavel, por maneira que o leproso
+de Jerusalem recearia manchar-se, se recebesse na sua enxerga infecta a
+mais pura donzella de Sidon.
+
+Tal é substancialmente o ultimo dogma que nos convém estudar. É certo
+que elle nos revela a bondade de Deus; mas á similhança de pallida
+restea de luz em espessa treva. O que nos ella esclarece é um ponto
+imperceptivel do espaço. Está meio velada no ponto onde brilha, e tanto
+ahi, como no restante do mundo, razão e justiça de Deus jazem de todo em
+todo escurecidas. Sobre a terra foi Jacob o unico justo? Se houve mais,
+porque não fez Deus alliança com elles e seus descendentes? Por que
+adoptou sómente os judeus, por que liberalisou a estes luzes que negou
+aos outros? Se lhe aprazia dar á humanidade cabida e obcecada pelo
+peccado meios de salvação, porque abençoou o sangue e a carne de um só
+homem, amaldiçoando o sangue e a carne dos mais homens? Se isto é
+verdade, força nos é exclamar com os theologos:--Razão impenetravel!
+Impenetravel justiça!--Sendo que tudo isto essencialmente diverge das
+idêas que podemos formar da pura razão e da verdadeira justiça.
+
+A lei do genero humano, em toda esta historia, é a lei ditada pela
+colera, e, ainda quando a bondade ahi reluz, dá ares de um capricho.
+
+Os primeiros christãos, judeus de origem, não adoptaram menos estas
+idêas por mais avessas que fundamentalmente sejam, não só á
+revelação interior, ás luzes da consciencia, mas tambem a tudo que mais
+luminoso do ensino de seu divino mestre nos transmittiram. A Egreja,
+dilatando-se fóra de Jerusalem, conservou o sinete da sua educação
+rabbinica[1], permanecendo meio judaica. Não mudou um til aos dogmas
+sombrios e crueis da synagoga, mas transformou o dogma do povo de Deus;
+ampliou-o espiritualisando-o, sem tirar ainda assim á clemencia divina,
+como logo veremos, aquella mystica e excepcional indole que tinha entre
+os judeus. Admittiu os gentios ao beneficio das graças de que Moysés os
+excluira, e tornou judeus, mediante o baptismo, os que de sangue o não
+eram. Ao mesmo tempo, repulsou do seu gremio os que só por sangue eram
+judeus, e o não eram por baptismo, formando, com tal exclusão, outro
+povo de Deus, e ficando o antigo a representar a figura carnal do
+novo. Em summa, a Egreja moldurou quanto em si coube, o espirito
+christão nas fôrmas antigas, que ella sempre venerava e considerava
+expressamente feitas para o receber. Consoante a parabola, envasilhou o
+vinho novo no tonel velho, onde ferve até estalar as aduelas; cuidado,
+porém, que a velha vasilha póde fender-se; o vinho contheudo é o sangue
+de Christo; e o genero humano, em prol de quem tal sangue ha manado, não
+deixará que uma gotta se perca.
+
+Ha pouco disse eu que a egreja, adoptando as crenças da Judéa, não havia
+modificado a indole estranha e excepcional que taes crenças argúem á
+bondade de Deus. Por egual razão deixou ella condensarem-se as mesmas
+trevas sobre a sua justiça. É facil demonstral-o.
+
+ [1] No concilio feito pelos apostolos em Jerusalem, questionou-se
+ sobre se se devia circumcidar os judeus. Muitos pensaram que esta
+ operação fosse indispensavel á salvação, por isso que Moysés a
+ ordenára; Paulo e Bernabé não foram d'esta opinião; a duvida, porém,
+ era tamanha que sahiram deputados para Jerusalem, afim de combinarem
+ com os apostolos e os padres. O concilio discutiu longo tempo. Pedro
+ fallou de harmonia com Paulo; mas as duvidas subsistiram. Thiago
+ fallou por sua vez, não invocando a palavra de Christo, mas
+ repetindo algumas palavras dos antigos prophetas; o que fechou a
+ pendencia. Decidiram que a circumcisão era desnecessaria á salvação.
+ Todavia, logo adiante, Paulo, que contribuira para este accordo,
+ circumcidou Timotheo, «em razão de estarem judeus n'aquelle logar, e
+ saberem que seu pae era gentio.» Vid. _Actos dos Ap._, cap. XV e
+ XVI.
+
+
+ VIII
+
+ A egreja e o novo povo de Deus
+
+Hoje em dia faz-se mister nascer em paiz catholico para ainda se crêr na
+possibilidade de não ir infallivelmente ao inferno. Contra o espirito do
+mal inda lá se encontra aquella miraculosa assistencia que outr'ora
+protegia apenas o districto não grande do Oriente. Alargou-se o
+territorio da clemencia, mas ainda assim não mede a quarta parte do
+globo. Além d'isso entre os novos, do mesmo modo como entre os antigos
+judeus, perdem-se muitos, porque Satanaz está sempre comnosco, na
+carne de Adão, e a maldição sobranceia-nos sempre.
+
+Se o baptismo destróe esta maldição, não o faz completamente, salvo
+quando o baptisado morre ao sahir do baptisterio; senão, nem nos
+dispensa das penas eternas, nem nos arranca das prezas da necessidade
+das affeições, das tentações, dos enganos innumeros que são os effeitos
+temporaes da maldição.
+
+Cresce, pobre creança, e se podes, cerra os ouvidos ás alegres
+cantilenas da tua ama; foge ás caricias de tua mãe e a todas as
+seducções que já te rodeiam. Não toques no bello fructo que a tua fome
+anceia. Na tua edade, sem que o saibas, já Satanaz te falla; na bebida e
+na comida estão venenos d'elle; com o mal te familiarisas, e perdida
+está a innocencia baptismal. Feito o primeiro peccado, desluziu-se a
+graça; a maldição meia delida revive inteira; a Egreja vem ainda com
+outros mysteriosos meios em nosso auxilio; porém, como n'este mundo não
+ha destruir attracção e inclinação e a liberdade do mal, muitos dos seus
+filhos se perdem, apesar d'ella, e para, melhor o dizer, em seus braços.
+
+Attendendo aos perigos a que estão sujeitos ainda os filhos da luz
+n'esses paizes favorecidos, considere-se em que estado de desesperação
+vivem os filhos das trevas, isto é a maxima parte do genero humano. Em
+mil milhões de homens, pouco mais ou menos, que actualmente soffrem na
+terra, o mais que póde haver é duzentos milhões de catholicos. O
+remanescente vive sem confissão, e o maior numero sem baptismo, na
+ignorancia ou no odio da Egreja, e d'aqui vão como vieram sob o poder de
+Satanaz. Tem elles culpa? Nasceram no abysmo e longe de soccorros.
+Familia, tribu, cidade, patria, protectores naturaes, primeiros guias,
+ultimos amigos, lições, exemplos, leis e costumes, tudo os engana. Quem
+é que póde escolher o seu berço? Pois a nossa salvação póde depender de
+circumstancias e successos que não dependem de nós? A nossa rasão
+corrompida absolve-os; o velho Adão encontra sempre alguma desculpa ao
+peccado; mas a fé essa não. A fé decreta a reprovação final dos gentios,
+dos infieis, dos hereticos e até a reprovação final e eterna d'um
+grandissimo numero de catholicos; crê n'isto como no peccado original,
+como na hereditariedade do crime e do castigo, bem como na graça da
+salvação--coisas correlativas e de todo o ponto inseparaveis. Adora em
+silencio todas estas apparentes iniquidades, convicta de que ellas são
+sómente apparentes, e que um dia virá em que os proprios gentios hão de
+confessar que Deus fez bem amaldiçoando-os: tão profundamente justo,
+equitativo e rasoavel é na essencia aquillo que exteriormente tão pouco
+é.
+
+Não ha pois duvidar que milhões de milhões de creaturas humanas estão no
+inferno. As almas despenham-se ahi de todos os lados, densas e rapidas
+como a chuva, chuva que dura ha mais de seis mil annos, e não
+acabará nunca. Todos nós temos no inferno uma immensa familia: todos os
+nossos antepassados pagãos, durante quatro mil annos, e Deus sabe
+quantos avós christãos!
+
+Os parentes e amigos de quem nos apartamos a chorar, o que fazem é ir
+adiante de nós; os netos d'elles e os nossos, pela maior parte, lá vão
+ter comnosco, e para tão horrivel fim é que nós nos reproduzimos.
+
+
+ IX
+
+ Como se prova a verdade dos dogmas hebraicos, e com
+ especialidade a eternidade das penas
+
+Todos estes dogmas estão ligados; porém, quando surge uma duvida, não
+basta um para demonstrar o outro. Próvem-nos que Satanaz foi expulso do
+céo, e o homem do Eden; e, quando o tiverem provado, nem por isso lhes
+cabe o direito de concluir que Deus nunca perdoará a Satanaz nem aos
+homens. Um castigo que tira aos pacientes a esperança, e ao divino juiz
+a piedade, é mais incomprehensivel ainda que a fragilidade dos anjos:
+por consequencia, um tal castigo carece de ser justificado por pessoas
+eguaes, senão melhores. Estes antigos mysterios não derivam um do outro
+naturalmente; e, seja qual for o castigo que Deus reserve em sua justiça
+ás prevaricações das creaturas livres, é certo que nós o soffreriamos,
+ainda que Satanaz e Adão não tivessem peccado. A principal questão
+é saber se este castigo será eterno, e a tal respeito a corrupção
+original, a reversibilidade das culpas, o poder do tentador augmentam
+nossas duvidas em vez de diminuil-as.
+
+O que ahi ha para nós não são provas, são objecções. O inferno poderá
+ainda sem isso não satisfazer nossa razão; mas não a offenderá tanto. É
+urgente, pois, provar que elle existe.
+
+Prova-se pela revelação, isto é, pelas escripturas santas e pela
+auctoridade da Egreja, interprete infallivel d'ellas. Porém revelação
+biblica e infalibilidade de Egreja são já de si outros dogmas a favor
+dos quaes se escrevem todos os dias grossos volumes; e seria desviar-me
+grandemente do meu assumpto suscitando aqui similhante discussão. O
+pouco que a tal respeito hei de dizer vem no appendice que está no fim
+d'esta obra, sendo tanto para o leitor como para mim grande a pressa que
+temos de sahir d'este labyrintho de mysterios. Investigo provas d'outra
+ordem, mais especiaes, mais directas, mais apontadas ao bom senso, ao
+coração, á intelligencia, e que se prestam facilmente a ser entendidas e
+livremente discutidas. Se taes provas não existissem, não emprehenderia
+eu similhante trabalho; mas sustenta-se que existem, e em todas as
+apologias são invocadas como auxiliares das provas sobrenaturaes, e do
+ensinamento da Egreja, argumentos puramente philosophicos, dos quaes
+parece que a fé mesmamente está carecida. Dir-se-hia de vontade a
+respeito do inferno, o que Voltaire disse de Deus: que se elle não
+existisse, mister seria invental-o. Pois que podemos em verdade provar a
+existencia de Deus pela necessidade moral d'esta crença, pelo mesmo
+theor se intenta provar a existencia do inferno perpetuo: intenta-se
+fazer d'isto uma necessidade moral tão clara e evidente, quanto é
+evidente e clara a necessidade moral da crença em Deus, e é usual
+fundamentar tal raciocinio sobre o testemunho de todos os povos, que
+tanto importa a tradição chamada universal.
+
+A mim me basta a primeira prova; d'ella pende a meu vêr a questão
+capital. Se o inferno, ou sómente a idêa do inferno é moralmente util,
+existe o inferno, é necessario, e é divino. Porém, como quer que a
+evidencia d'esta utilidade não seja dogma, assiste-nos o direito de
+examinar com plena liberdade. Tal é a tarefa que me impuz. A tradição
+universal de que tratarei depois, é apenas a primeira face do
+problema.
+
+
+
+
+ O INFERNO
+
+
+ PARTE PRIMEIRA
+
+ O INFERNO CONSIDERADO ÁQUÉM DA CAMPA, OU O HOMEM
+ E A SOCIEDADE EM PRESENÇA DO INFERNO
+
+
+
+
+ CAPITULO PRIMEIRO
+
+ TRADIÇÕES
+
+
+ I
+
+ A tradição universal é a prova do inferno?
+
+Quando nos querem fazer comprehender a necessidade da revelação christã,
+esforçam-se em requintar phrases aviltantes, para bem caracterisar o
+estado do mundo sob os reinados de Augusto e Tiberio.
+
+Não peço que se suavisem as pinturas. Todavia, se se tracta de nos
+incutir algum antigo dogma hebraico tenebrosissimo, repellentissimo, tal
+como o peccado original, a malicia dos diabos, o eternal inferno, então
+é vêr como esse genero humano tão vilescido se transfigura subitamente
+em oraculo. Claro é que a moral se lhe varrêra de todo; mas a theologia
+ficou. Eil-os a cavar no lodaçal das superstições orientaes, as mais
+putridas de quantas ahi houve, e querem entrever n'ellas uns certos
+vestigios de lá se haver conhecido Adão e Noé. Se se trata
+simplesmente do inferno, isso então acha-se em toda a parte. Um paria
+vagabundo, um pagão abjecto, um negro, um hottentote tremente em face
+d'um fetiche, eis as testemunhas, os consultados, os doutores. É mais
+que certo que taes miseraveis haviam perdido as noções todas do bem;
+dormiam com as servas e até com as irmãs; vendiam na feira as filhas e
+ás vezes as mães; profanavam os hospedes; eram ladrões, eram
+antropophagos; adoravam pedras, serpentes, sapos, e, peor que tudo,
+homens, facinoras ensanguentados; mas criam no inferno. Clarão de
+consciencia não lampejava n'elles só um; não estremavam raia entre
+virtude e vicio; e, posto que taes distincções lhes houvessem sido
+reveladas, tinham-nas esquecido. Vêde, porém, o prodigio: quanto ahi
+havia incomprehensivel para nós e ainda mais para elles; tudo que
+transcende a alçada da experiencia; tudo quanto a simples razão não póde
+revelar--tudo, em fim, que, pelo conseguinte, mais facilmente se desluz
+da memoria, oh! tudo isso lhes ficou na lembrança!
+
+Que argumento a pró do inferno!
+
+Quem ousa impugnar verdade tão de fundamento provada? Cafres, Papus,
+Saabs, Bushmans creram no inferno! Patagões, Muskogis, Algonquinos,
+Chipperrais, Sioux creram no inferno! Hunos, Alanos, Ostrogodos,
+Gepidas, Vandalos creram no inferno! Tambem creram n'isso Cananeos,
+Philisteos, Ninivitas e Babylonios! Sodoma e Gomorra tambem!
+Sardanapalo, Balthazar, Herodiada, Cleopatra, Nero, Attila,
+Gengiskhão, Tamerlão creram tambem no inferno! Querem prova mais
+concludente?
+
+Eu não sei se semelhante demonstração do inferno é bem feita para
+edificar uma assemblêa de fieis; receio muito que os incredulos se riam.
+Quer-me parecer que, se tentassem insinuar-nos reverencia a tal dogma,
+deveriam contentar-se com dizer-nos que aquellas raças degeneradas,
+aquellas nações estupidas, aquellas hordas faccinoras, aquelles
+sacerdotes embaidores, aquelles reis devassos, em fim, todos esses
+selvagens e monstros, nem criam na eternidade das penas, nem d'isso
+tinham vislumbres. Tal argumento, se fundado fosse, figurar-se-hia
+melhor que nenhum. Presumir-se-hia que esses homens, se tivessem á mão e
+perante os olhos barreira tal, não se infamariam tanto. Mas, da laia que
+elles são, darem-no'l-os como crentes no inferno, é mandar-nos descrer.
+Horrorisa-nos a immortalidade d'elles. Vão lá trazer taes arbitros para
+uma questão de altissimo interesse moral! Dizeis que elles creram no
+inferno? Oh Deus meu! é por isso mesmo talvez que elles tão mal
+comprehendiam a justiça, e tal vida viveram!
+
+
+ II
+
+ Explicação natural das tradições pagãs ácerca do inferno
+
+Que monta recorrer a revelações miraculosas? É facilima coisa explicar
+naturalmente as tradições pagãs ácerca do inferno.
+
+Este social estado que conhecemos, no qual o direito de cada um é
+definido por lei, e protegido por força publica, não é o primitivo
+estado do genero humano. No principio, a unica sociedade foi a familia,
+e, por extensão, a tribu. Cada homem se protegia a si, e sahia em
+desaffronta propria; parentes e servos bandeavam-se na pendencia, e a
+menor tentativa contra o direito privado espadanava ondas de sangue.
+N'esses remotos tempos, vingança e justiça eram uma só cousa.
+
+Ora, é verdade que a vingança procede do sentimento de justiça, mas
+ultrapassa a justiça sempre, porque é egoista, cega, orgulhosa,
+colerica, não mede, não se compadece, dá mal por mal, e usurariamente o
+dá. A mais antiga das leis judaicas, a lei cruel de talião, foi lei
+misericordiosa; abalisou as retaliações; cabeça por cabeça, olho por
+olho, dente por dente, e mais nada. A vingança queria mais: arrancava os
+dois olhos, e não se saciava. Na Thracia, em Grecia e Roma, nas Gallias,
+na Germania, em toda a terra houve tempo em que os inimigos captivos
+eram sacrificados aos deoses, e estrangulados pelos sacerdotes do
+altar. Os que o ferro poupava eram ainda mais dignos de compaixão:
+condemnavam-os á escravidão com a sua posteridade--ao trabalhar sem
+proveito, e á miseria infinita. Entre as familias, tribus e raças ardiam
+odios hereditarios; pagava o innocente pelo culpado, porque era commum
+dever o assassinal-o.
+
+E tudo isto se figurava justo, e hoje ainda entre as nações christãs,
+aqui e alli, subsistem vestigios d'estes antigos costumes.
+
+Se insistem em que os pagãos conheciam o peccado original, a maldição do
+genero humano e as penas eternas, força é confessar que elles, segundo
+procediam, procuravam incitar a justiça divina. Que melhor modelo lhes
+sahiria a ponto?
+
+Para lhes condemnar o procedimento é mister conceder que elles de Deus e
+da sua justiça apenas tinham falsa idêa. Phantasiavam Deus á sua
+similhança, vingativo, descaroado. D'ahi, a idêa das raças malditas, dos
+crimes e castigos hereditarios. D'ahi os pavorosos sonhos do inferno sem
+fim, dos máos abrazados e espedaçados vivos, dos algozes enfurecidos
+sobre as suas prêas immortaes, o chorar incessante, o suspirar sem echo,
+e os engenhosos supplicios todos do Naraka, indostamio inferno que ainda
+flammeja, e do Amenthi, egypcio, e do Tartaro grego, antigos infernos já
+agora apagados e que ha tantos seculos não mettem medo a ninguem.
+
+
+ III
+
+ Como o sacerdocio perpetuou estas tradições
+
+A par e passo que a humanidade se illustra, vemos adoçarem-se por toda a
+parte as leis e os costumes; as religiões, porém, essas não: antes
+querem morrer que mudar; conservam como deposito precioso e inviolavel
+doutrinas antiquadas sem parentesco com as idêas e as necessidades das
+sociedades novas. Continuam a prégar aos povos policiados deoses
+ferozes. Faz-se mister um dia arrancar ao cutello sagrado as victimas
+humanas. Na Gallia foi forçoso derruir as áras e immolar os sacerdotes
+para acabar com os sacrificios abominaveis. Dá Moysés aos judeus a lei
+de talião, mas reserva a Jehovah a vingança, como os poetas gregos a
+reservavam a Jupiter. Querem homens bons e um Deus cruel, homens justos,
+e um Deus iniquo; e, sendo isto repugnante, fazem da justiça divina um
+mysterio, com a declaração de que o não podemos perceber. Préga Jesus
+exclusivamente a caridade, e morre em um madeiro perdoando a seus
+algozes. Tratam de conciliar a sua doutrina com os rabbinos, e logo nos
+figuram um Deus de duas faces: a doce face do Christo que contempla a
+terra, e no inverso d'esta face augusta e ungida de lagrimas, a face
+irritada de Jehovah, o Deus exterminador, o Deus inexoravel que persegue
+os filhos pelos crimes dos paes.
+
+
+ IV
+
+ Exemplo de um povo que permanece fiel a todas as suas
+ antigas tradições
+
+É a tradição a memoria do genero humano. Cumpre não menosprezal-a á
+conta das verdades que ella propaga; todavia não devemos escutal-a de
+joelhos, á feição de oraculo, por causa dos erros que a deturpam atravez
+de todas as edades e nações.
+
+Que nos faz a nós que os antigos crêssem nas penas eternas? Não será
+isso que as tornará eternas, se ellas o não são. Mais antiga que todas
+as opiniões dos homens é a bondade de Deus; e as verdades moraes bem
+como as physicas dispensam o nosso consentimento para subsistirem.
+
+Pois não girava a terra quando a julgavam immovel? Não era odiosa a
+escravidão quando a julgavam justa? Ha na profundeza do ceo estrellas
+que nossos paes não viram e nós vemos; e ha outras cuja luz não
+alcançamos e nossos netos verão brilhar.
+
+Cumpre ver o ceo com os nossos olhos, e não com a vista dos que já são
+mortos. Não seria blasphemia crêr n'um Deus vingador, quando em seu
+proprio coração o homem não tinha discriminado entre justiça e vingança,
+e por isso a Deus se concediam sentimentos e acções que n'este mundo
+eram honrosos. Attribuir-lhe, porém, acções que passariam por
+injustas, se commettidas fossem, seria arrogar-se o homem direitos
+de fazer-se melhor que Deus; e fôra verdadeira impiedade imaginar um
+Deus tal que envergonharia quem o imitasse. O passado lá vai. Os antigos
+deram suas contas; nós temos de dar as nossas. Quando um caminheiro cáe
+na estrada, quem se levanta côxo é elle e não seu pai. Qualquer crime
+que perpetreis servos-ha imputado a vós. Desquitar os homens, em nome
+das tradições, da responsabilidade da sua fé, seria remil-os da
+responsabilidade das suas obras. Ha quatro mil annos que os
+hindostanicos são escravos dos mesmos prejuizos, acorrentados nas mesmas
+castas, vinculados ás mesmas praticas, rojando e palpando no mesmo
+circulo d'erro e miserias, á similhança dos seus condemnados, no dedalo
+tenebroso e sem sahida do seu inferno. N'aquellas regiões morre o homem
+na condição em que nasceu: representa servilmente seu já morto pai,
+pensando e operando como elle. É, quanto menos póde ser, pessoa
+distincta e nova; é-lhe quasi inutil a razão; a memoria lhe basta; nem a
+consciencia vive em 'si; está fóra nas tradições oraes ou escriptas que
+reverenceia cegamente, porque antes de vir ao mundo já eram veneradas.
+Se ha verdade é o que essas tradições dizem; bem, é o que ellas ordenam;
+mal, é o que ellas prohibem.
+
+Investigar para que? Que mais quer elle? Bello reclinatorio para a
+preguiça! Excellente desculpa para vicios! Valente obstaculo para
+virtudes!
+
+Uma das glorias de Christo, um dos espinhos da sua corôa santa,
+foi contrapôr o direito da consciencia individual á tyrannia das
+opiniões, tradições e escripturas judaicas. Ensinou-nos elle a sobrepôr
+o juiz intimo sobranceiro a todos os juizes da terra, e responsabilisou
+perante Deus o homem por seus actos, ao mesmo passo que os
+responsabilisou por seus pensamentos e sua fé.
+
+
+ V
+
+ Effeito d'estas tradições na edade media
+
+As tradições judaicas e pagãs consubstanciavam-se profundamente na edade
+media, acerbando-lhes as suas leis penaes com supplicios e torturas. As
+prisões não tinham ar nem luz; o adorno das masmorras era palha podre,
+pão e agua. Havia prisões subterraneas, tumulos onde o homem entrava
+vivo e não sahia mais. Até os mosteiros as tinham. O furto era punido
+com a morte; a morte punia a transgressão da lei sobre a caça. Em cada
+encruzilhada uma forca. Para os hereges fogueiras. E frequentemente uma
+familia inteira era castigada pelo crime do chefe, bens confiscados,
+casa arrazada, o nome proscripto. Nada digo sobre a servidão, degradação
+hereditaria, especie de mancha original e quasi universal em cada paiz,
+horrenda reliquia da escravidão antiga, e das superstições do Oriente.
+
+Havia crença na efficacia d'aquelles horrendos castigos. E seriam
+por isso menos raros os crimes? O terror governava o mundo. E seria o
+mundo melhor governado? Ia n'isso a antiguidade das tradições. Dava-vos
+pena que ellas se abolissem? Quem ha ahi saudoso das torturas,
+masmorras, confiscações, fogueiras, escravidão? E quem ousaria pedir,
+por interesse da justiça e da moralidade, o restabelecimento das
+instituições da edade media?
+
+
+ VI
+
+ Como a sociedade christã se desvia progressivamente
+ d'aquellas antigas tradições
+
+Não ha muito que nós ainda tinhamos o nosso inferno: eram as galés onde
+as condições peioravam. Destruiram-nas, e crearam as colonias
+penitenciarias. Antes de nós, se deram bem com isso os inglezes.
+D'aquelle antigo inferno terreal, paraizo em comparação do outro,
+resta-nos como terrivel vestigio a perpetuidade do castigo para certos
+culpados. Quiz o homem copiar o antigo Deus das vinganças, e infligir
+aos seus similhantes penas infinitas, tendo elle apenas um dia de seu.
+Taes penas se acham nos nossos codigos. A sabedoria humana é tão
+limitada como o seu poder. Mas, apezar de limitadissima, é admiravel!
+Com que arte a sociedade concilia os mais oppostos deveres--a protecção
+aos justos, e até a protecção aos culpados que ella extrema dos justos!
+Não os esquece nas suas prisões, não renunciou ao direito de
+perdão; não desentranhou de si o sentimento da piedade. Sobre essa
+paragem de miserias está sempre fixo um olhar de dó, e attento um ouvido
+que escuta os gritos do arrependimento. E acaso se enfraquece por amor
+d'isso a lei penal? E se o perdão salva um d'esses prezos que a justiça
+ferira com perpetua pena, cuidaes que esse acto robusteça o mal, e dê
+nas prizões ou fóra d'ellas um exemplo funesto?
+
+Ainda mais: a sociedade amnistia algumas vezes propriamente o crime,
+derroga a sentença do juiz e restitue o criminoso em todos os direitos
+do innocente. Os crimes que ella amnistia quaes são? Os mais
+ultrajadores de sua authoridade, das suas leis, do seu repouso e
+existencia: amnistia os crimes de lesa-magestade, e contenta-se com
+perdoar os outros.
+
+Este é o espirito das legislações novas em toda a christandade, nas
+quaes a misericordia se abraça com a justiça.
+
+Inferno que nunca muda é só o theologico. É sempre o inferno da edade
+media, inferno de judeus e pagãos, os mesmos supplicios, os mesmos
+gritos, a mesma impiedade crescente, os mesmos horrores. Não querem que
+Deus tenha o direito de perdoar no outro mundo. Cá em baixo póde
+fazel-o, se lhe apraz, como qualquer rei da terra. Mas lá no seu reino
+não ha perdão nem amnistia! Colera infinita! Vingança perpetua!
+Inexoravel furor! Tal é, consoante o pintam, o Rei dos ceos.
+
+Ditosos os povos cujos principes se não modelam por elle!
+
+Quem quizer encontrar hoje imitadores do Deus terrivel dos antigos, ha
+de ir procural-os no novo mundo e entre as tribus negras da Africa, e
+nas hordas barbarescas da Asia. A sociedade christã, com maravilhoso
+instincto, sequestrou-se d'essas idêas de outra edade; e, com os olhos
+postos na cruz, prosegue e anhela realisar em suas instituições e leis
+um ideal menos imperfeito da soberana justiça.
+
+
+
+
+ CAPITULO SEGUNDO
+
+ A FÉ NOVA
+
+
+ I
+
+ Pater noster
+
+Chamamos a Deus nosso pae e nos consideramos seus filhos. Um pae
+condemnaria seus filhos a supplicios eternos? Que a questão seja de
+ingratos e desobedientes, de rebeldes e de máos, embora: Deus é Deus, e
+nós somos homens.
+
+O mais sabio ancião n'este mundo é perante o Pae celestial o que diante
+d'esse velho mortal, curvado ao pezo dos annos, é uma criancinha no
+berço. Perante o Pae do ceo somos todos crianças balbuciantes que apenas
+caminhamos com andadeiras. E a comparação é ainda muitissimo ambiciosa!
+Ha mais proporção entre o menino que balbucia e os maximos doutores
+theologos, do que entre os maximos doutores em theologia e o eterno Pai.
+Cobertos de seus circumspectos barretes, aquelles doutores
+tartamudêam, gaguejam, balbuciam freneticamente, não se entendem a si
+proprios, descambam a cada passo, e movem á compaixão, se os compararmos
+a Deus. Dado que elles ainda durassem e crescessem em saber, ao mesmo
+passo que envelhecessem, nem por isso deixariam de estar como em
+perpetua infancia confrontados com Aquelle que tudo sabe, porque é
+infinito em sabedoria, em poder e bondade. Mas, d'outra fórma, a
+criancinha hontem nascida podeis já affoitamente comparal-a áquelles
+graves doutores; é um doutor que se aleita e entra em dentição: alguns
+dias mais, e vêl-a-heis defender these e supplantar os professores.
+
+Comprehendeis, pois, que, se o velho doutor em theologia fosse pae,
+mettesse o filho em um carcere cheio de serpentes e ahi o deixasse para
+sempre? Qualquer que houvesse sido a culpa do menino, julgareis justo e
+discreto similhante castigo? Não vos pareceria o mestre mais louco do
+que o discipulo, e o pae peior que o filho? O vosso primeiro empenho não
+seria pôr o algoz no logar da victima? Não se levantaria toda a
+sociedade contra esse sabio sem coração? Nossas leis, nossos tribunaes
+consentil-o-hiam? Ah! castigos, sim, mas castigos que corrijam, e o
+perdão a final: eis o que é justiça de pae. Não entendemos outra. Ao
+chefe de familia não se consente poder arbitrario sobre os seus: a
+esposa tem direitos; tem-os o filho, o servo, protegidos pela sociedade,
+que para esse fim especialmente se constituiu. Se isto repugna ás
+antigas tradições, nem por isso é menos racional, equitativo e
+moral.
+
+Ainda assim, por mais que fizesse este doutor atroz, seria menos cruel
+que o Deus prégado por elle. Se a morte não viesse rapidamente
+arrancar-lhe a victima, o officio de algoz cançal-o-hia. É difficil de
+supportar, ainda mesmo a um mau pai, o aspecto das torturas que elle
+exercita na pobre creatura que gerou. No coração humano tudo é mudavel,
+tanto o amor, como, por feliz compensação, o odio. Um principe
+morovingiano, chamado Charmne, revoltou-se contra Clotario; Clotario fez
+queimar vivos seu filho, a nora e os netos; mas diz a historia que elle
+se arrependêra. Se tal supplicio durasse uma semana sómente, de certo
+elle os teria salvado. Que bom pai! Que excellente rei!
+
+Que amavel é este Clotario de par com o Deus que nos pintam! Este Deus
+quer que pensemos no inferno, mas não que se morra ahi; á imitação do
+algoz das prizões feudaes, deixa viver os pacientes torturando-os e
+disvela-se em lhes protrahir a agonia! Manda-os soffrer, ouve-os gemer
+durante a eternidade, e procede sua vingança, sem fechar olhos, sem
+tapar ouvidos, e por isso mesmo é que n'elle reconhecemos não um homem
+variavel, mas o que elle é, um Deus.
+
+Ó Deus dos antigos, Bel, Teutates, Plutão, Eolin, seja qual fôr teu
+nome, Deus das batalhas, Deus do gladio, Deus dos fortes, guerreiro
+feroz, senhor irascivel, juiz sem entranhas, Deus dos eternos
+rancores, tu não és o meu Deus! O Deus que adoro, o unico e
+verdadeiro Deus, é o melhor dos Paes; apezar das minhas culpas, não me
+trata como inimigo nem como escravo; conhece melhor a minha fraqueza do
+que eu a sua força; e, até quando me castiga, não esquece que foi elle
+quem me creou e que eu sou seu filho.
+
+
+ II
+
+ O purgatorio
+
+É o purgatorio o logar incognito em que os mortos esperam, soffrendo, o
+perdão das culpas commettidas na terra. Ha ahi o chorar e o padecer; mas
+não se amaldiçôa Deus: bemdiz-se. Os soffrimentos ahi supportados são
+salutares porque se comprehende a justiça d'elles; e corrigem porque a
+esperança não é anniquillada.
+
+Se tal logar existe, de que serve o inferno?
+
+Deixar dizer que a eternidade é que apavora e refrêa o peccador. O
+peccador não sabe o que seja a eternidade; porque é impossivel
+absolutamente formar-se uma clara idêa do que seja isso. Se recuamos
+perante nós um pouco que seja as balisas do tempo, a nossa imaginação e
+razão se perdem; e cahimos nas prezas das mesmas angustias que
+sentiriamos, se vissemos a verdadeira eternidade.
+
+Para que o homem se aterre lhe basta imaginar o soffrimento de que é
+capaz a sua natural sensibilidade, e qual o podem comprehender as
+faculdades do seu entendimento. Para que iremos mais longe? Não é
+bastante ameaçar os maus com castigos proporcionados ás suas faltas,
+durante um espaço de tempo desconhecido ou incalculavel n'este mundo? O
+que fôr mais do que isto é inintelligivel. Para lá d'estes limites, a
+ameaça nada importa; a alma está refarta de justiça, oppressa de terror,
+extenuada de padecer, dobra-se, cáe, aniquilla-se, adora, supplica
+perdão, não póde comprehender senão a piedade, está surda e insensivel a
+tudo o mais. O remate da justiça para nós é o perdão; e, se n'essas
+extremas alturas onde a imaginação póde chegar, e onde o peccado roja
+gemente, se em vez de perdão, nos mostraes o odio ainda flamejante, lá
+vai tudo: o terror tocou o apogeu; turva-se a razão, idêa de justiça e
+de bondade tudo se desfaz; a alma, que cahira crente, levanta-se
+atheista.
+
+Se o tal inferno existe, no outro mundo coisa comprehensivel ha uma só;
+é o blasfemar dos condemnados.
+
+Mas se tal inferno existe, de que serve o purgatorio? Pois os
+protestantes não o aboliram discretamente? Para os que podem crêr em tal
+inferno, que é cem mil annos de purgatorio? Este acaba e o inferno não;
+seculos e milhões de seculos de penitencia não se contam, esquecem-se.
+Em vista d'este sinistro inferno em que a misericordia é desconhecida,
+inutil o soffrimento, e a justiça um enigma, o purgatorio é um paraizo.
+Quem nos dera a certeza de lá ir! que os castigos ahi soffridos,
+por mais demorados e rigorosos que sejam, não ha temel-os: desejam-se.
+Por maneira que o mais terrivel castigo que imaginar se póde, o mais
+equitativo e rasoavel, deixa de impressionar as almas pervertidas pelo
+espectaculo d'uma punição sem siso nem justiça apparentes.
+
+As pobres almas aterradas, aturdidas, estupefactas são impellidas
+involuntariamente a offender a Deus de dois modos; primeiro temendo-lhe
+a vingança, segundo não lhe temendo a justiça. A idêa dos castigos
+inefficazes e dôres infructiferas, por muito monstruosa, odiosa e falsa
+que seja, se humanamente a consideramos, torna inutil a idêa dos
+castigos poderosos e dôres salutares, por muito bella, clara, natural e
+divina que ella seja.
+
+
+ III
+
+ Necessidade do purgatorio
+
+Quem quer que sejaes, senhor ou servo, rico ou pobre, esposo ou pai,
+viuva ou noiva, não negueis as expiações da vida futura. Não conheceis
+maus em prosperidade, cercados de respeitos, inaccessiveis á lei, e que
+se deitam e levantam sem remorsos? Não conheceis innocentes opprimidos,
+anciãos abandonados, orphãos desbalisados, pessoas honradas cuja vida é
+toda padecer e que nenhuma lei feita ou por fazer defenderia de homens
+ingratos e perversos? Se sois feliz hoje, sêl-o-heis amanhã?
+Convencei-vos de que negar a vida futura, seria o mesmo que negar a
+immortalidade da alma, e logo sua liberdade e responsabilidade; e, por
+consequencia, o mesmo seria negar virtude, direito, Providencia, e
+constituir este baixo mundo um verdadeiro inferno, um sonho, um
+pesadêlo, onde tudo seria horror e abominação, excepto o nada, tudo
+injusto, excepto o crime victorioso, tudo absurdo, excepto a inveja, o
+egoismo, a violencia, e a astucia que se roja. Ah! crêde na vida futura,
+com suas expiações e recompensas. E, se ha quem exclua do ceo a piedade,
+não vades vós, por uma irracional desforra, excluir tambem do ceo a
+justiça.
+
+
+ IV
+
+ Mysterios
+
+Não nos accusem os theologos de negarmos acintemente os mysterios.
+
+Os theologos referem o que vae no inferno como se tivessem por lá
+viajado. Pelo que elles dizem é paiz dos mais conhecidos: sabe-se o
+caminho, quaes são os seus productos, e qual o modo de viver dos seus
+moradores, bem como a origem, nomes e a gerarchia dos principes que lá
+reinam. Em outro capitulo estudaremos as edificantes descripções que
+fazem d'elle já physica, já moralmente.
+
+Ácerca do purgatorio tem havido mais prudencia quasi nada se sabe
+do que la se passa: é portanto mais mysterioso que o inferno. Todavia,
+sem impedimento de ser mysterioso, que differença! Quanto mais
+profundamos a eternidade penal, menos se acredita; ao invez, quanto mais
+pensamos no purgatorio, mais nos sentimos compellidos a crêl-o. É o
+inferno mysterioso como o diabo, como a noite, como a contradicção, a
+confusão e o chaos. É o purgatorio mysterioso como Deus, como a alma,
+como a consciencia, como a vida, como a luz que nos alumia, como a
+materia impenetravel, como toda a natureza, como a verdade, como tudo o
+que existe e de que nós apenas conhecemos em sombra a existencia e
+apenas percebemos atravez de um veo, mas o bastante para não poder
+duvidar. É elle tão certo como tudo o mais do mundo; assenta no intimo
+de nossa alma sobre as mesmas bases da moral, do direito, do dever, do
+respeito a outrem, piedade, liberdade, amor, e sentimento do infinito. É
+por tanto o purgatorio, quanto á razão, o verdadeiro mysterio da justiça
+divina, assim como a Incarnação e a Paixão, quanto á fé, são o mysterio
+do Amor divino;--mysterio de justiça que, de mais a mais, se concilia
+maravilhosamente com aquelles mysterios d'amor, dos quaes o inferno
+perpetuo seria a negação.
+
+Muitissimo nos espanta que os protestantes o não vissem. Quando tinham
+que escolher entre dous dogmas inconciliaveis, um velho e outro novo,
+sacrificaram, tanto em nome do Evangelho como da razão, um dos
+dois que mais se harmonisava com as leis da razão e a moral do
+Evangelho.
+
+
+ V
+
+ O paraiso
+
+Os protestantes não conhecem termo medio entre paraiso e inferno; os
+catholicos, porém, acreditam-no, e segundo elles é o purgatorio ceo
+nubloso e triste, inferno onde se ora e espera, e que deve acabar.
+Infelizmente os catholicos não enviam todos os mortos ao purgatorio,
+crendo que se póde transpor aquelle meio entre ceo e inferno, sem ainda
+lá pôr o pé. Á similhança dos protestantes, ensinam que muitas almas,
+apenas despidas do seu involucro mortal, são despenhadas para sempre no
+eterno abysmo, ao passo que outras almas, logo que despedem da terra,
+alam-se direitas ao paraiso. Ensinam tambem, uns e outros, que o mais
+abominavel patife, convertido á ultima hora, póde morrer contente: eil-o
+vai absolvido como o bom ladrão; não tem mais que fechar os olhos e
+acordar entre os anjinhos.
+
+É isto possivel? É isto verdadeiro? Que é pois o paraiso, e que idêa
+fazemos d'elle?
+
+Pois que! verei eu do seio da bemaventurança, e na inalteravel
+tranquillidade dos justos, verei sem remorso e sem afflicção,
+encadearem-se a meus pés, já na terra, já no inferno, as tristes
+consequencias das minhas iniquidades? Nas minhas noites de
+libertinagem, matei; durante o somno de homens que valiam mais do que
+eu, assassinei um aváro para o roubar, um amigo da minha infancia para
+entrar no seu leito, uma mulher que eu havia seduzido e que morreu
+beijando-me as mãos, pensando em mim, a louca, mais do que em Deus!
+D'entre elles os peores que eu feri eram innocentes comparados comigo, e
+eil-os mortos intempestivamente, sem terem tempo de se arrependerem;
+eil-os engolphados na gehenna, com o coração roido pelo verme que não
+morre, gementes, chorosos, amaldiçoando-me; e eu, seu assassino; eu,
+peccador envelhecido na impiedade e agraciado por um milagre, louvarei
+Deus eternamente, por me haver feito instrumento da condemnação
+d'aquellas pobres almas!
+
+Com as minhas delapidações, reduzi á miseria e a todas as tentações da
+miseria, e a todos os desvios da desesperação aquella familia que lá
+vejo em baixo: o irmão vende a irmã, a irmã vende a sobrinha, o pae
+vende os seus juramentos, os seus amigos, o seu paiz; a mãe arranca-se
+os cabellos; todos choram, todos soffrem, todos me accusam, e os seus
+gemidos chegam até mim; e eu hei de vêr imperturbavel, sem remorsos, sem
+dôr, aquelles fructos de meus crimes, aquellas ulceras, aquelles
+prantos, aquelles opprobrios, aquellas perfidias, aquelles escandalos em
+que eu tenho parte; e, pois que Deus se apiedou de mim, eu não terei
+piedade dos outros, e o que na terra me affligia, quando eu
+agonisava, não me ha de affligir depois da minha morte. Este deploravel
+espectaculo, bem visivel a meus olhos, não impedirá que eu me saboreie
+na felicidade dos escolhidos; convencer-me-hei que vae n'isso o influxo
+dos designios do Altissimo, e que o homem, faça o que fizer, não tem que
+vêr com o resultado das suas obras; e em vez de bater no peito a cada
+sobresalto dos meus proprios crimes, a cada repercussão das minhas
+proprias blasphemias, a cada reflorecer das venenosas sementes--vestigio
+unico que eu deixei da minha passagem na terra--vestirei a alva tunica,
+e beberei na taça dos anjos, das virgens, dos heroes, e dos martyres,
+como se eu fosse um d'elles.
+
+Na verdade é uma egregia doutrina esta da justificação do peccador, pelo
+reconhecimento e pezar de suas culpas; levada porém áquelle grau,
+similhante doutrina é tão incomprehensivel como a do inferno. De uma
+demasia nasceu outra: n'uma parte encareceram a justiça; na outra
+exaggeraram a piedade. Comtudo, entre o castigo infinito por um só
+peccado, e o immediato perdão apezar de mil peccados, havia o que quer
+que fosse que parece desconhecer-se: a justiça sem colera, a
+misericordia sem pusillanimidade.
+
+Salvam-nos como nos condemnam, com pouco custo ordinariamente, pois que
+se com facilidade nos abrem as portas do inferno, com a mesma nos abrem
+as do paraiso.
+
+Considerem entretanto o purgatorio, não como meio entre o paraiso e o
+inferno, mas entre a terra e o ceo, ponto que certas almas atravessam
+rapidamente e quasi sem soffrer, e onde outros são condemnados a
+padecimentos mais ou menos extensos e variadissimos, consoante a
+natureza de suas culpas, e disposição no ultimo momento. Este purgatorio
+com as suas penas indefinidas, proporcionaes, rigorosas, purificantes,
+e, cedo ou tarde, coroadas pelo perdão, não seria um freio moral mais
+rijo que o medo das penas eternas, temperado pela esperança da
+misericordia na ultima hora, e pela reforma de vida na ultima edade?
+Convenho que não haveria medo de ser condemnado sem remissão; assim é;
+mas tambem ninguem presumiria de fugir ao castigo com um momento de
+contricção, depois d'uma longa cadeia de crimes. D'esta arte, Deus
+mostraria melhor o que é, justo, mas não cruel; bom, em vez de
+tolerante. Que mal lhe viria d'ahi? Commiséravos o lastimavel ancião
+coberto do sangue das extorsões e o tyranno abjecto que sopesou e
+corrompeu milhares de homens; tendes d'elles piedade, quando morrem
+chorando? tendes razão; mas apiedae-vos tambem de suas victimas ainda
+palpitantes, d'essas creanças que elles definharam e ceifaram em flor, e
+que vós condemnaes. Piedade e justiça para todos. Não desespereis os que
+vagarosamente caminham sobre os abrolhos da penitencia, mas não lhes
+encurteis a escada para os subir ao ceo. Sabei que na outra vida se
+chora amargamente o mal feito ao proximo que n'este mundo nos sobrevive,
+as desordens que se motivaram, as existencias que se transtornaram, as
+quedas moraes que se occasionaram, e que o arrependimento na hora
+extrema, posto que grandemente salutar, é apenas o principio, e não o
+fim, das expiações d'uma vida culpada.
+
+É de crer que na Biblia e nos padres da Igreja isto se não encontre
+escripto; mas está escripto nas consciencias. Limpem os oculos e leiam.
+
+
+
+
+ CAPITULO TERCEIRO
+
+ OS FRUCTOS DO INFERNO
+
+
+ I
+
+ O bem
+
+ (BEM NEGATIVO, MONGES, ANACHORETAS, ETC.)
+
+Se a morte vos sobresaltêa antes da penitencia, diz-se que sois
+condemnado por erro de espirito, por fraqueza dos sentidos, por um lance
+d'olhos, por um desejo culposo, e condemnado, sem esperança, tanto como
+se houvesseis sido um ladrão calejado, um parricida, um atheu. Lá vos
+está esperando o Senhor da vida; e ahi ides enredado em vosso peccado
+como ave cahida no laço. E tudo se acabou; tudo, sem que os vossos
+longos serviços ao genero humano contrabalancem o peccado final!
+
+Se, no entanto, comparaes tudo que se ha mister fazer para ganhar o ceo
+ao pouco que basta para cahir no inferno, sereis forçado a reconhecer
+que as probabilidades são dissimilhantes, e que o mais certo,
+faça-se o que se fizer, é a condemnação.
+
+D'onde procede nas imaginações vivas a dominante preoccupação de evitar
+o inferno; e d'ahi, pelo conseguinte, e desde os primeiros seculos, uma
+especie de singulares virtudes, mais espantosas que bellas, mais
+extravagantes que insinuativas: virtudes falsas, sem utilidade do
+proximo, bem que os theologos no'l-as inculquem por ideal da perfeição
+christã. Tal é o retiro ao deserto, a renunciação propria, o morrer
+antecipado, o fugir combates da vida, o desquite de deveres da familia e
+da cidade, a ociosidade contemplativa e penitente, a maceração, o jejum,
+o perpetuo silencio, a insulação, o odio ao mundo, a oração entre quatro
+paredes. É, tambem, a santificação do celibato, como se a fecundidade
+dos sexos houvesse sido amaldiçoada, como se fosse culpa continuar a
+filiação de Adão, e virtude esterilisar em si os embriões da vida
+humana.
+
+E certo é que, admittido o inferno, e a queda original, e o ensinamento
+que lhe anda annexo, que outra conclusão se colhe? Multiplicar os
+homens, para que? para multiplicar os peccados? Se é tão duvidosa a
+salvação! Se a condemnação é tão facil! Para que nos enlaçaremos á orla
+d'um abysmo onde o esposo póde despenhar-se com a esposa e o pae com os
+filhos? Bastantissimos mentecaptos se casam, e povoam terra e inferno de
+desgraçados. Não seria melhor deixar acabar o mundo? Bemaventurados os
+celibatarios! Os sabios são os reclusos, os anachoretas, os
+eremitas. São como os viajantes que, em navio a pique, desamparam os
+companheiros, e salvam-se a nado. Cuidam só do seu salvamento; cada qual
+por si; soccorrer o irmão tem o risco de naufragio. Fazei como elles,
+navegantes; deixae no navio em sossôbro mercadorias, thesouros, e vossas
+mulheres, e mães, e vossos filhos, e fazei-vos ao largo: recresce a
+borrasca; rasga-se a vela; quem poder salve-se.
+
+Bemditos sejam pois esses foragidos do mundo, mortos ao mundo e seus
+modelos, Simeão sobre a columna, João no muladar, esses desvariados
+todos macillentos, sujos, comidos de insectos. Grande vantagem levam:
+não tem que vêr com a terra, e já estão meios mettidos no ceo: o diabo
+já mal os póde aprezar.
+
+Não é, todavia, a perfeição dos ascetas aquella que o Filho do homem nos
+exemplificou. Trinta e tres annos habitou Elle a terra, e quarenta dias
+sómente ermou no deserto, não para nos lá attrahir; mas, a meu vêr, para
+nos distancear, pois que foi no deserto, e ahi tam sómente, que o
+espirito das trevas o tentou. Anteriormente havia Elle vivido trinta
+annos com a sua familia; e viveu o restante entre peccadores. É para
+notar que nas suas modestas occupações, sob o colmado do carpinteiro, e
+mais tarde nos campos, nas cidades, nas tavernas, em meio do povo que
+ensinou, curou e nutriu, não ousou o diabo tental-o!
+
+Mal imita Christo quem foge o mundo que Elle procurava. O
+sepultar-se um homem nos antros, a jejuar e a rezar por longo tempo, o
+sequestro da sociedade, o silencio, corpos macerados mal enroupados em
+pelles, exorcismos furiosos, luctas no vacuo, intrepidez baldada, e
+tantissimos outros piedosos desatinos não recordam exemplos do Salvador,
+mas sim as aberrações dos sectarios do oriente. Não póde ser isto a
+perfeição que Jesus veio ensinar aos homens; que tal chamada perfeição
+muitissimos seculos antes d'Elle já era conhecida dos pagãos idolatras,
+que tinham seus corybantes e vestaes, e bem assim dos judeus, mormente
+dos Essenios que a tinham aprendido dos magos da Chaldêa. Tal perfeição
+praticavam-a na India fanaticos sem numero, cuja raça ainda subsiste.
+Importamo'l-a dos mesmos paizes que nos mandaram a doutrina dos anjos
+rebeldes e a da reprovação dos homens--doutrinas cujo natural fructo é
+tal casta perfeição. Se o ideal da perfeição humana fosse isto, inutil
+seria o christianismo; pois que já os brahmanes a tinham ensinado dous
+mil annos antes do presepio, e os bouddhistas a tinham realisado mil
+annos antes dos monges da Thebaida.
+
+É certissimo que os bouddhistas não visam exactamente ao mesmo scôpo que
+os monges catholicos: aquelles buscam em suas austeridades a morte
+absoluta, a destruição de sua personalidade, o serem absorvidos no ser
+universal, ao mesmo tempo que os monges, se renunciam ao seu _eu_ neste
+mundo, é para o retomarem n'outra vida. É, comtudo, egualmente
+certo que, sem embargo da diversidade dos fins, vigora em ambas as
+seitas um principio commum, sendo que por identicas vias e praticas
+procuram a eterna bemaventurança uns, e outros o perpetuo dormir, a
+eterna insensibilidade. Só de per si o desejo do ceo não bastaria a
+inspirar a uns o mesmo proceder que inspira aos outros o desejo da
+anniquilação: pelo que, não é o desejo, senão o medo que povôa os
+desertos. Os bouddhistas, por egual com os christãos transviados, temem
+os soffrimentos infindos, os males sempre a renascer, se n'este mundo
+não attingirem a vida perfeita; e tanto para elles como para os nossos
+monges, vida perfeita é o absterem-se da vida, é a virgindade, o jejum,
+a penitencia, a soledade, o extasis, o antecipar a morte, um complexo de
+estereis virtudes, não filhas do amor, senão do mêdo.
+
+Tal é, na sua mais elevada expressão, o bem que a crença do inferno
+produz n'esta vida. Causa espanto que os protestantes hajam conservado
+este dogma! É, porém, mais para espantar que elles, ao mesmo tempo que o
+conservam, destruam os mosteiros e inpugnem o celibato. Não ha ahi
+imaginar maior inconsequencia! A primitiva Igreja, que elles pretendem
+resurgir, cria sem duvida nas penas eternas, é isto mais que muito
+verdadeiro; mas pelo menos, operava em conformidade com sua fé.
+N'aquelle tempo, os esposos, ainda em vigorosa mocidade, guardavam
+continencia, sob pena de peccarem, durante o advento e quaresma, e nas
+festas e dias de jejum, pouco mais ou menos tres quartas partes do
+anno. D'elles alguns, para maior perfeição, não usavam nunca os direitos
+conjugaes, e envelheciam sob o tecto nupcial, em voluntario celibato,
+denegando-se as frias caricias que o irmão faz a sua irmã. Os ricos
+empobreciam-se, despojando-se espontaneamente de seus haveres, e os
+pobres lidavam para viver, mas descuidosos de amontoar, nem como
+previdencias para a velhice e infermidade, nem para legarem a filhos.
+Conta-se que desadoravam empregos publicos, e evitavam, como escolhos da
+alma, as emprezas lucrativas nomeadamente as commerciaes. Nunca
+espectaculos, nem jogos, nem dansas, nem folias. Sobriedade extrema,
+vestidos nem apontados nem de preço, jejuns em barda, orar dia e noite,
+lucta incessante e pertinaz contra a natureza. O seu distinctivo de
+christãos era aquelle. Uma leve falta, acareava-lhes a excommunhão; e,
+antes de absoltos, eram experimentados em seu arrependimento, por espaço
+de mezes e annos, quando o não eram até morrerem. Em quanto durava a
+penitencia, eram apontados, não só nos templos, durante os mysterios,
+senão tambem no exterior e nas relações da vida civil; e, por cima de
+ninguem os querer á sua meza, até as esmolas lhes regeitavam.
+
+Diz com rasão Fleury que a vida dos nossos monges regulares corre
+parêlhas com a do commum dos fieis da Igreja nascente, cuja continuação
+é[2]. E accrescenta[3] que já entre aquelles fieis havia ascetas
+d'ambos os sexos vivendo reclusos. Eram os mais perfeitos, e exemplares.
+Taes ascetas, verdadeiros ascendentes dos monges contemplativos,
+trappistas, cartuchos, carmelitas, claristas, etc., esforçavam-se por
+imitar a vida de João Baptista no deserto e a de Elias no Carmelo.
+
+Curavam elles pois, como já dissemos, uma perfeição diversa da de Jesus:
+anhelavam a perfeição negativa, qual os judeus e os orientaes a
+preconisavam; judaisavam sem darem d'isso tento, e os christãos seus
+imitadores continuavam inadvertidamente a tradição, não já de Jesus, mas
+de João Baptista e Elias, tradição congruentissima com o inferno. Já no
+tempo das perseguições era povoada a Thebaida; não tinha então a Igreja
+um tecto debaixo do ceo; e só depois que principiou a erguer templos é
+que edificou mosteiros, sua primeira obra depois que sahiu das
+catacumbas. É pois evidentissimo, em que peze aos protestantes, que o
+catholicismo não se apartou do espirito dos tempos apostolicos, nem das
+praticas de então, e que a vida monachal detestada por elles, é ainda
+hoje em dia o que outr'ora foi, a mais bella flor, e o mais mimoso
+fructo dos dogmas hebraicos, que elles tão piedosamente tem
+conservado.
+
+ [2] _Costumes dos israelitas e christãos_, tom. II, cap. 53.
+
+ [3] _Costumes dos israelitas e christãos_, cap. 26.--Citei esta
+ excellente obra por que ella é manuseada por todos, e facilima de
+ consultar. De mais a mais, depara-nos a indicação das fontes onde o
+ auctor bebeu, dispensando-nos assim de as indicarmos n'este livro.
+
+
+ II
+
+ A carmelita ou o ideal da perfeição theologica.
+
+Comvosco admiro as religiosas que, sob diversos nomes e com diversos
+habitos, assistem ao genero humano, tanto com suas orações, com o seu
+trabalho quotidiano, com toda a celeridade de seus pés, com toda a
+agilidade de suas mãos, como com todas as forças de seu ser. Credes que
+não é possivel seguir mais do que ellas os divinos vestigios do
+Salvador. Ah! quanto vos enganaes! Quanto são baixas e eivadas de
+heresia as vossas idêas! A perfeição não consiste na vida activa e
+benefica das irmãs da caridade; onde ella está, segundo o ensinamento
+dos theologos, é na vida contemplativa.
+
+Se procuraes, senhora, o modêlo para vós e vossos filhos,
+encontral-o-eis na carmelita, com preferencia á irmã da caridade.
+Aquella morreu para o mundo, jaz no seu cubiculo como em um tumulo. Vá
+quem quizer agasalhar orphãos, ensinar ignorantes, restaurar peccadores,
+curar doentes, ensinar officios a servos, dar voz a mudos. Affronte quem
+quizer o contagio de nossos vicios! Quem quizer que cure a nossa lepra!
+Esses cuidados vulgares não os quer a carmelita para si. Aos pés do
+altar, com os braços levantados ao Senhor, é o seu posto. Não se bulirá
+d'alli, ainda que todo o paiz arda ensanguentado. Não lhe digaes: vosso
+irmão está a morrer; vossos sobrinhos vos estão chamando. Não lhe
+digaes: arde a peste na cidade; á vossa porta está a maca. Ha muito que
+ella concebeu tedio do mundo; não lhes leveis novas d'elle, que
+perturbarieis o seu socego. Quanto menos ella se inquieta d'essas
+transitorias miserias, mais os theologos a admiram. N'isso
+mesmo,--crêl-o-eis?--é que está, segundo elles, a sua superioridade
+sobre a irmã da caridade, cujo coração virginal arfa como coração de mãe
+ao grito da criancinha[4].
+
+A carmelita não pensa, nem tem que pensar senão em sua propria salvação,
+e tal pensar é um manancial das commoções que unicamente lhe são
+permittidas. Bem que ella viva dez, vinte, cincoenta annos sob o
+veo, fará todos os dias, á mesma hora e da mesma maneira, a mesma coisa
+sem poder por seu arbitrio alterar-lhe o minimo. São-lhe pautados os
+movimentos, e contados os passos. Em todo o curso de sua vida não ha a
+menor surpreza, o minimo abalo, o imprevisto, a menor liberdade, ou
+elevação espontanea das faculdades moraes. Estão definidas e immutaveis
+as suas relações com todas as coisas animadas ou inanimadas que a
+cercam: não se afeiçoa, não escolhe, não se decide. É-lhe prohibido
+ganhar affecto a coisas e a pessoas. A abelha é mais livre do que ella
+em sua colmeia, e menos inflexivel que as regras monasticas é o
+instincto que a dirige. Uma communidade de freiras parece-se a um povo
+de automatos e não a um enxame de seres viventes. E essa é que é a
+condição pela qual a harmonia subsiste. N'estas sociedades contra
+natureza, é prudente que a natureza seja algemada; pois, se lhe dessem
+folga, ella se revoltaria; e por tanto é forçoso esmagar a liberdade
+como cautela para que a licença não vingue. É pois a carmelita em todos
+os seus actos mera machina. Tem alma para obedecer e trabalhar na sua
+interior perfeição, destruindo em si, cada vez mais, vontades, desejos,
+e individualidade até ás raizes. Onde está a lucta está a vida. N'esse
+immutavel centro, solitario e silencioso, onde se caminha sem mudar de
+piso, passa a adolescencia sem curiosidade, e a velhice sem experiencia
+nem memoria. Ahi nada se renova; o dia que chega nada promette; o dia
+que finda nada deixa; é a vida um livro, cujas paginas em vão se
+folhêam: sobre essas paginas brancas ha uma só phrase, do começo ao fim,
+sempre a mesma: «pensa em ti, pensa na eternidade.»
+
+Ahi vem agora com que espancar o tedio do mosteiro. Á mingoa de grandes
+e formidaveis combates do lar domestico e da sociedade, isto é, da vida
+real qual Deus a fez, a ociosa carmelita pugna heroicamente contra sua
+razão, contra seus sentidos, imaginação, e faculdades inactivas. Crê
+resistir ao diabo, resistindo á necessidade de operar, de amar, de
+saber, e ser util: estafa em puerilidades a sua virtude. Se durante o
+officio, uma mosca lhe pousa no nariz, é um caso, é uma provação. Se
+está distrahida, assalteam-na remorsos; se impaciente, vai confessar-se
+d'isso. Uma pulga é outro inimigo terrivel, outra occasião de grande
+queda ou de grande victoria! Um alfinete mal pregado, um vêo
+descomposto, uma lembrança, um gemido, um pensamento clandestino, o
+rastilho d'um rato atraz do armario, um _Ave_ esquecido, ó cathastrophe! ó
+remorso! ruina de Sião! prantos de Job! brados de Rachel! transportes de
+Jeremias! Qualquer bagatella a alvoroça como materia de peccado mortal;
+qualquer futilidade lhe avulta com proporções monstruosas; pesa grãos de
+areia, e mede os atomos.
+
+Pois se ella conseguiu esquecer sua familia, seu paiz e o mundo, não a
+cuideis completamente impassivel como se vos figura: o que ella fez foi
+concentrar em si e para si o amor e piedade que nega aos outros.
+Idolatra-se, não ao modo dos sybaritas, mas por um theor que, posto não
+seja sensual, não é menos egoista: absorve-se em contemplação de sua
+alma; no proprio coração preenche o vacuo de familia e de amigos, e de
+quantas creaturas de lá expulsou. Contempla-se sósinha, entre o inferno
+e o céo, a tremer perante um tal espectaculo, e sempre fluctuando entre
+estes abysmos, ora nas alturas, ora nas profundezas, passa de um delirio
+a outro, e das palpitações do terror ao extase dos seraphins.
+
+Eu por mim não sei se Deus sorri a taes futilidades, a tal vida que não
+é viver, e a tal morte que não é morrer; mas os theologos affirmam que é
+n'isto que a perfeição consiste.
+
+E forçoso é concordar que elles tem razão, se ha inferno. Se ha inferno,
+a irmã da caridade é imprudente, e nós, os admiradores d'ella, somos
+sandeus. O sequestro mais rigoroso é a consequencia legitima, natural,
+necessaria e fatal d'este dogma selvagem. O alicerce, a porta e o tecto
+do mosteiro é aquelle dogma, que desata as sociedades naturaes e
+viventes avinculadas pelo amor; é elle o occulto liame d'aquellas
+sociedades de automatos que não permaneceriam um dia, nem hora, nem
+momento, se tal dogma fosse proscripto. Sem inferno, a vida claustral
+não se percebe; com inferno, não ha imaginal-a mais a ponto, e é
+obrigatorio confessar que, de feito, a perfeição está n'ella, visto que
+a razão está com ella.
+
+Não obstante, filhos do seculo, não renuncieis afogadilho de
+seculo, que vol-o prohibem os theologos.
+
+Ficai entre peccadores, no foco das tentações, dos escandalos, dos
+erros, e das ciladas que vos tramam. Razoavel coisa seria fugir para o
+porto seguro que vos offerecem; mas não vades; continuae a navegar entre
+restingas, á mercê dos tufões, aos clarões dos relampagos. O convento
+não vos quadra; porque não foi feito para muitos.
+
+Entendo, direis, que o convento se abriu para os entes mais debeis, para
+os incapazes não só de ajudar a outrem, mas tambem da mesma mente se
+salvarem, sem se arriscarem ás tempestades. Faz-se mister ás almas
+frageis e justamente timidas o estreito cenobio do claustro, a protecção
+das gradarias, a escravidão, as regras, o véo sobre os olhos, a mordaça
+nos labios; sem o que se perderiam. Em quanto os valentes combatem, vão
+ellas esconder-se longe do inimigo.
+
+No seu caminho se arrastam gemebundos alguns fugitivos, fallidos de
+animo, cahidos por terra, feridos de suas proprias armas, e quem sabe se
+alguns heroes alanciados no coração! Entendo, direis, que o claustro é o
+refugio dos pusillanimes, o porto dos naufragados, o hospital dos
+infermos, e aqui se mostra a apparente razão porque nem toda a gente lá
+póde entrar.
+
+Está enganado o duro leitor, que nada percebe dos mysterios theologicos.
+Saiba pois que o claustro é o asylo dos fortes; e que só lá são
+recebidos os athletas a primor, mais puros e intrepidos, a flôr da
+juventude christã. Não soffre a menor duvida que é mil vezes mais de
+perigo a sociedade onde os soccorros são muito menos do que os retiros
+abençoados. Que nos faz isso! De logar abrigado e onde a graça
+superabunda é que os poucos são repulsos, com quanto, ao primeiro
+intuito, nos pareça creado para elles; ao mesmo tempo que do baluarte
+das luctas angustiosas se retiram os fortes, com quanto pareça tambem
+este o seu logar proprio.
+
+Os coxos, os cegos e os inermes são postos na liça sanguinosa; os mais
+aguerridos soldados enclaustram-se. Espantem-se e riam-se, que a coisa é
+assim; e, senão, perguntem-no á Sorbonna.
+
+E assim é preciso que seja, pois que a perfeita vida é a claustral, que,
+no entender dos theologos, vem a ser a mais avêssa ás inclinações de
+nossa natureza viciosa, e, por conseguinte, a de mais difficil
+observancia; mas, porque é impraticavel na sociedade, não se lhe
+dispensa de ser exemplo á sociedade; e, sem presumpções de lá chegar,
+devemos propender para ella continuamente, visto que estamos tanto mais
+á beira do inferno quanto longe d'aquella vida perfeita.
+
+Que se hade fazer, pois? Eis o problema. Cada qual tem no mosteiro um
+trilho feito, e o futuro certo, portanto está quite de cuidados que fóra
+d'ahi seguem a pobreza, o trabalho, e até a riqueza, além das
+responsabilidades que a toda a hora pendem dos actos de uma vontade
+livre, n'um viver sempre fluctuante.
+
+No mosteiro é tudo exemplos edificantes; e, posto que seja defezo ahi
+grangear um amigo, em compensação não se adquirem inimigos.
+
+Nem impeços, nem disputas, nem conflictos, males que a liberdade produz,
+sendo que a servidão lhes esmaga os embriões. No exterior é tudo
+recolhimento, paz, ordem, silencio, e esforço; perturbações, se as ha
+lá, vem do intimo e do recondito do nosso ser. O unico inimigo que ahi
+ha que recear é o diabo, tal invisivel e impalpavel adversario que todos
+trazem comsigo, fracos e fortes, mundanos e frades; porém tal inimigo
+perde no claustro boa parte das suas prerogativas; porque alli não está
+elle como em sua casa, e no seu reino: são-lhe menos os ministros, os
+vassallos, e os recursos. O recluso, afóra a pessoal energia de que é
+dotado e lhe assignala a vocação, topa ahi de todos os lados conselhos e
+amparos; e como quer que tenha em frente aquelle unico inimigo,
+soccorre-se de mil auxilios, que faltam ao homem do seculo, e, máo grado
+a sua fraqueza original, vence-os. Que fazemos pois n'este misero mundo
+em que a infermidade nos algema? Ha aqui o rir, o chorar, o renhir, o
+disputar, o abraçar-mo-nos, o odiarmo-nos, perseguirmo-nos, e o
+aniquillar-se o homem contra homem: é uma reluctancia sem fim, e sem
+regra, um retinir de espadas, um estrondear de martellos, de carros, de
+machinas, de cantares, de gemidos, um cháos, uma desordem, da qual a
+clausura não poderia dar-nos sombra de idêa. Aqui, são mil os objectos
+em que a alma anda repartida; as diminutas forças que temos
+dispersam-se. Acolá o inimigo identificado comnosco, traz escolta de
+auxiliares, e a lucta interna de que ninguem se izempta, complica-se com
+as luctas externas e inevitaveis. Cada homem tem de bater-se com uma
+legião. Quantos cuidados! Quantos deveres! Quantas incertezas e
+anciedades! Quantas encruzilhadas sem nome, sem pharol, sem sahida! Que
+poeiras, e que sombras!
+
+Considerae aquella mãe de familia a quem encareceis as virtudes da
+carmelita.
+
+É pobre, todos os seus parentes são pobres, os filhinhos rotos,
+famintos, quasi sempre doentes, o marido alquebrado do trabalho, ou que,
+desanimando, se envileceu e a espanca, um patrão, um proprietario,
+credores, mestres, amos, amigos, e que amigos! conselheiros, mas
+conselheiros de Job! Se tal mãe é rica, tem uma casa que reger, creados
+a dirigir, os quaes nem fizeram voto de pobreza, nem de obediencia;
+filhos a educar, sagrados interesses que defender, relações que receber,
+um marido a contentar, quer seja honrado ou não, quer seja piedoso ou
+impio. Com vontade ou sem ella está continuamente a braços com as
+paixões alheias, com caprichos, interesses, vontades e affectos
+contrarios; de continuo em face de circumstancias imprevistas, casos
+litigiosos e incertos, onde lhe é forçoso resolver-se quando qualquer
+resolução é perigosa, não o sendo menos os perigos, se se absteem. É
+preciso que ella, se quer salvar-se, seja a um tempo economica e
+caritativa; communicativa, mas discreta; umas vezes branda, e outras
+inflexivel; expedita, mas reflexiva; previdente, mas conformada a todos
+os sobresaltos da fortuna; que viva ao mesmo tempo em si, e nos outros,
+para si, e para todos: missão indefinivel, cheia de contrastes, de
+atravancos, de cruzes, mais ardua e mais difficil que a missão da
+freira.
+
+Digam embora que esta mãe de familia tem na sua miseria satisfações,
+tranquillidade e jubilos que não goza a carmelita: depende isso de saber
+se os jubilos de que fallam são comparaveis ás dôres que a freira
+ignora. De mais, esqueceis que esses prazeres são um engodo e que se
+prendem n'elle sem o conhecer, e se prendem tambem quando o conhecem. A
+saciedade, o desgosto, e o cansaço são as naturaes barreiras da
+voluptuosidade. Chegará até ahi a mulher christã? Não o permitta Deus.
+Até onde irá? É ponto mathematico que separa o peccado do prazer licito;
+e, quando o limite se procura, onde fica elle já? Raras vezes estamos a
+sós com a serpente como Eva no Eden, e a freira na cella. Á mesa e em
+toda a parte ha quem vos distraia, seduza e arraste; bebemos sem sêde;
+está a bocca repleta, mas os olhos famintos; o gozo que satisfaz a
+precisão aguilhôa o desejo. Quem houver de parar a tempo na ladeira onde
+o aventurarmo-nos é permittido, ha de ter mil vezes mais vigilancia,
+cuidado e poder sobre si, do que lhe seria preciso para lá não pôr o pé.
+Conceder alguma coisa á natureza é contiçar o fogo que quizeramos
+extinguir; é alimentar o leão que desejaramos estrangular. Das
+delicias menos carnaes, toucador, conversação, emprego de teres e do
+tempo, é ainda mais desconhecido o limite, maior a liberdade, e mais
+temivel a responsabilidade.
+
+Não me fallem de umas satisfações mentirosas que o terror empeçonha
+quando se pensa n'ellas, e que o inferno corôa, quando se não pensa no
+inferno. Por certo que é duro, mas o mais prudente é regeital-as. A
+abstenção é uma lei simples, clara, e breve: é bastante que haja coragem
+para a praticar sobretudo nos votos conventuaes. A freira, com o andar
+do tempo, afaz-se á lucta; curva-se ao jugo; os sentidos privados de
+excitações amortecem, até que, por fim, a coragem se torna tão inutil
+quanto lhe foi em todo o tempo inutil o espirito de proceder. Mas, se a
+lucta intima se prolongasse, a freira para evitar os desvios e as
+fugitivas rebeldias do corpo e da vontade, careceria de ter até ao seu
+derradeiro suspiro o inferno diante dos olhos, o cilicio na cintura, e o
+terror na alma. Assim é, mas que importa? Comparado aos soffrimentos de
+uma mãe, o que é o cilicio de uma virgem? Quem ousará comparar essas
+duas existencias? Comparar receios pessoaes com receios generosos?
+Combates sem testemunhas a combates exemplares? Trabalhos infructiferos
+a fecundos suores? E fallando sisudamente, e na melhor fé, se uma
+d'essas duas pessoas devesse copiar a outra, não é de certo a mãe que
+deveria servir de modelo? A irmã da caridade não é já de si mãe? E
+a esposa de José que trouxe em seu seio, e nutriu com seu leite o Filho
+do Homem, e ao pé da cruz lhe recebeu o ultimo alento, não foi ella, em
+sua amargura, a mãe adoptiva de João, o amigo d'Aquelle por quem
+chorava?
+
+Que jactancia é essa então d'um desprendimento de affectos e vontades?
+Para que querem insinuar em nossos lares taes inquietações, terrores e
+escrupulos, unicas occupações do claustro? E para que é, em nome do ceo,
+sobrecarregar de jejuns e abstinencias a jornaleira, a camponeza, a mãe,
+que já vacillam sob o fardo do padecer e trabalhar?
+
+Vê-se que theologia e bom siso são coisas infelizmente contradictorias.
+Vê-se que seria preciso abolir o inferno para que depois viesse a
+renuncia das macerações, terrores e falso ideal que um claro
+entendimento reprova.
+
+Mas porque não se apaga o inferno? Extincto elle, brilharia o purgatorio
+com luz mais viva e salutar. O inferno é que faz odiosa a liberdade,
+rebaixando-a e vilecendo-a; o purgatorio volve-a estimavel,
+realçando-lhe bellezas, dignidade e grandeza, sem lhe dissimular os
+perigos e as penas. Quem crê no castigo eterno, enterra o talento para
+que o Senhor lhe não toque. Quem melhor conhece o Senhor e sua justiça
+faz render cinco talentos em casa do banqueiro, arriscando-se a
+perdel-os. O purgatorio actualmente de que vos serve? Dizem que a pobre
+carmelita se abalança a lá arder milhares de annos, por causa de
+algum secreto estremecimento do seu corpo que ella tanto
+disciplinou; por causa do captivo espirito que tão enfreado trazia, ou,
+emfim, á conta do coração generoso, cujas pulsações tantas vezes
+abafára.
+
+O purgatorio deve aterrar principalmente a freira e os que vivem como
+ella; ora os mundanos não tem razão de se affligirem, antes devem
+consolar-se, pensando n'aquelle logar de supplicio. A nós, filhos do
+seculo, não nos é racionalmente permittido aspirar áquella dolorosa
+felicidade, que é castigo dos sanctos e o seu primeiro galardão ao mesmo
+tempo. Em vez, porém, de o desejar, e desejar em vão, como nós o
+temeriamos, se elle fosse a unica estancia em que se cumprisse a justiça
+de Deus! Que mudança se faria em tudo d'este mundo! A perfeição e a
+salvação não estaria na ociosidade em joelhos, no terror em oração, no
+fugir ao proximo, no entregarmo-nos a algumas privações e dôres
+corporaes, arbitrariamente substituidas ás dôres e sacrificios de uma
+vida proveitosa. Então se entenderia que ha dous modos de abusar de
+nossas faculdades, uma que está no desprezo d'ellas, com receio de as
+usar inconvenientemente; outra que consiste em nos servirmos d'ellas
+indiscretamente e ao avesso das intenções da Providencia que nol-as deu.
+
+A doutrina do Evangelho não é doutrina de abstenção; é doutrina de
+acção: causa porque o purgatorio lhe quadra melhor que o Evangelho.
+Carecemos menos de frades que de christãos. Se o inferno refreia o mal,
+tambem impede o bem. A ameaça seria salutar; mas ella faz mais que
+ameaçar, empedra como a cabeça de Meduza quem a encara a fito. Tende a
+supprir com uma especie de passibilidade estupida a livre e intelligente
+actividade da alma. Não derime o egoismo, exalta-o a mais não poder, e
+tal exaltação devidamente localisada no deserto, n'uma gruta, no
+claustro, é medonha de vêr-se no seio das familias.
+
+ [4] Elles comparam as irmãs da caridade áquella mulher de Bethania
+ chamada Martha, a qual, vendo entrar Jesus em sua casa, se deu
+ pressa em lhe servir a ceia; e comparam a carmelita á Magdalena que,
+ em vez de ajudar Martha nas suas diligencias, lavava e perfumava os
+ pés do divino hospede, enxugando-os com os seus cabellos. Diz porém
+ o Evangelho que Jesus estava á meza quando Magdalena lhe abraçou e
+ ungiu de lagrimas os pés. Não ha palavra na relação dos apostolos,
+ d'onde possamos colher que é melhor orar pelos famintos do que
+ alimental-os. O contrario é que lá se diz; e quando Jesus nos faz
+ assistir de antemão ao julgamento do dia final, exclama: tive fome,
+ e vós me alimentastes; tive frio, e me vestistes. A scena de
+ Bethania, e o louvor dado a Magdalena, não desluz o claro ensino do
+ Evangelho. Este episodio prova sómente que não basta alimentar os
+ pobres, mas que tambem é mister instruil-os como filhos de Deus, os
+ melhores amigos de Jesus, e sua visivel imagem na terra: o que
+ rigorosamente fazem as irmãs da caridade, e não fazem as
+ contemplativas.
+
+
+ III
+
+ Discurso de uma mulher de sociedade que havia tocado
+ a perfectibilidade theologica
+
+De que serve amar-se a gente n'este mundo? Acaso nascemos uns para os
+outros?
+
+Somos apenas companheiros de viagem que uma eventualidade ajuntou por
+momentos, mas que breve se hão de apartar, e talvez para sempre.
+Prestemo-nos de passagem alguns serviços, mas por amor de Deus, sem nos
+ligarmos reciprocamente. Por que ha de a gente amar-se? Vós que me
+ouvis, sabeis quem sou? E eu que vos fallo sei quem vós sois? Tendes um
+ar angelical, ó meu irmão, mas o interior de vossa alma não o vejo; o
+semblante do homem é enganador; a sua lingua é atraiçoada, as suas
+proprias virtudes são perfidas.
+
+N'este mundo é tudo armadilha e mentira. Que demencia o amar, quando,
+com certeza, ninguem póde fiar-se d'outrem! Que injustiça querer um que
+o amem, quando nem a si mesmo se conhece alguem, e a cada hora se
+altera o genio, e ninguem póde fiar mais da duração de seus sentimentos
+que da duração de sua vida! Viajamos mascarados, só conhecidos de Deus,
+mas tão occultos a nós mesmos quanto aos outros. A que propendemos? Mal
+o sabemos, tão fluctuante é a nossa razão. Se melhor nos conhecessemos,
+a maior parte de nós se mutuaria rancores; em vez, porém, de se odiarem,
+os homens se entre-buscam no seio das trevas, attrahidos pelo mysterio
+que os innubla, e que devêra, se elles fossem discretos, afugental-os
+uns dos outros.
+
+Ah! não nos amemos, não nos amemos! Ai d'aquelle que dá seus amores á
+creatura! Ai dos que se amam sobre a terra! É sombra que abraça a
+sombra, é o nada que se une ao nada. Amavel é só o bem: o restante é
+detestavel. Meu pai, honro-te e sirvo-te, por que vai n'isso um dever
+meu, e porque podes ser, sem que eu o saiba, um santo; amar-te, porém,
+não posso, porque, se n'este instante morresses, ninguem me certificaria
+de que Deus te perdoára. Eu devo amar em ti, sómente o bem occulto que
+ahi póde estar, e o amo em ti como nas outras creaturas, sem predilecção
+por alguma; porque esse bem occulto não provém d'ellas; e, se em ti
+existe--o que eu não sei, mas muito desejo--não procede de ti. Não te
+julgo, meu pai. Se eu escutasse o sangue, creio que te amaria até
+culpado, unicamente porque és meu pai, e eu me lembro de ter dormido em
+teus braços. Mas estes momentos da natureza corrompida já eu
+venci. Nada me és. Tracto da minha salvação servindo-te e
+honorificando-te; mas amar-te seria perder-me, por que amar o homem em
+si mesmo é amar o peccado. Na outra vida não ha maridos, nem esposas,
+nem paes, nem filhos, nem familia. Pais e filhos, mães e filhas, irmãos
+e irmãs serão separados no dia do juizo, desatados todos os vinculos.
+Não amemos ninguem, ninguem! Já póde ser que o inferno se esteja
+escancarando para aquelle que amarmos, e quem sabe se nós não cahiremos
+lá tambem empurrados pelo nosso amor? Nada de sentimentos cegos; nada de
+sentimentos corruptores. A ternura do homem é um disfarce de odio; e
+mais valera que elle nos odiasse francamente. Não amemos ninguem!
+ninguem! Póde ser que por ao pé de nós andem condemnados, cujos nomes
+ignoramos. Não amemos alguem, que nos não vá sahir algum reprobo.
+
+Sou tua serva, ó meu esposo; servir-te-hei, obedecer-te-hei; e para te
+agradar o dever me forçará a cumprir o que me pedires do coração, que
+não é teu.
+
+São doentes os nossos filhos? Por que te assustas? São hospedes que te
+foram confiados, e que tu deves esperar vêr irem-se ao primeiro aceno de
+quem t'os mandou. Eu que os trouxe no seio e os criei, vel-os-hei ir,
+sem lagrimas. Quem sabe onde irão quando nos deixarem? Cumpria que lhes
+vissemos o fundo d'alma para os amarmos. Praza a Deus que elles morram
+na sua divina graça! É o meu mais ardente voto; e, se mais além eu
+fosse, a minha ternura seria fraqueza. Se elles vão ao céo, hei de
+eu chorar-lhe tamanha dita! E se são condemnados.... Não amemos ninguem,
+ninguem, nem os nossos filhos sequer! Familia temos só uma: é Deus com
+os seus anjos, e confessores e santos. Tudo mais não merece uma lagrima
+nem um sorriso. Roguemos, por tanto, uns pelos outros, filhos do
+peccado, mas nada de nos amarmos.
+
+
+ IV
+
+ Discurso de um mundano, após bastos estudos ácerca
+ da perfeição theologica
+
+Em continuo pavor do inferno viveram os santos: orações, jejuns,
+cilicios, meditar nas escripturas, vigilias ao pé da cruz, bençãos de
+pobres soccorridos por elles, perpetua immolação, indigencia de cella,
+ninhos de palha, alimento a pão e agua, nem com tudo isto socegavam.
+Viviam como anjos, e temiam. Tremiam guerreiros, padres, doutores,
+pontifices--Mauricio á frente da sua legião; Gregorio, o Grande, sob a
+tiara; Agostinho, no pulpito; Jeronymo, em suas estudiosas viagens;
+Antonio e Pacomio no reconcavo das penedias. Noites alvoroçadas de pavor
+passava Thereza no claustro. Nem a innocencia da vida, nem a adoravel
+castidade das almas, nem a tunica immaculada, nem as mãos impollutas,
+nem o acerbo arrependimento dos penitentes, com o rosto sulcado de
+lagrimas, nada, nada lhes aquietava o medo da colera divina.
+Redobravam cada dia austeridades e sacrificios, persuadidos de que
+não mereciam a misericordia que tão precisa lhes era.
+
+Ah! se a alma só assim se salva, perdidos estamos todos, ó meus amigos!
+
+Bem ouço o theologo que nos diz: Não é assim; a salvação ganha-se com
+menores trabalhos. Deus não exige que todos os seus filhos sejam
+egualmente perfeitos. Mas ao theologo respondo: Estás perdido como nós,
+tu e tambem os teus mestres, e os teus discipulos, estaes perdidos
+todos. Os exemplos que nos cumpre seguir são os dos santos, não são os
+vossos. Mostrae-nos na Legenda um só santo que subisse ao céo pelo
+caminho commodo que descobristes. Debalde hei buscado, com fim de o
+imitar, um homem meio santo e meio peccador, servindo Deus e o mundo,
+temendo, como eu, a miseria, a dôr, as humilhações, condescendente
+comsigo proprio, almejando viver no coração de outra creatura, chorando
+sobre as illusões esmaecidas como Pedro sobre o seu peccado. Não
+encontrei tal homem. O mais que vi foi milagres de stoicismo, maridos
+que deixavam as mulheres, mulheres que deixavam os maridos, filhos que
+fugiam ao abrigo dos paes, ricos que todos seus haveres dispendiam,
+bispos que fallavam verdade aos reis da terra, á custa da vida até;
+ninguem que se contentasse de cumprir no rigor da palavra os preceitos
+de Deus e da Egreja; por toda a parte almas ardentes de zelo
+super-natural, tendo apenas de humanas os incançaveis escrupulos, os
+inquietos terrores; justos sem socego, penitentes sem repouso,
+virgens lagrimosas e anachoretas angustiados.
+
+Vós, porém, que vos quereis salvar e salvar-nos com menos custo; vós,
+que viveis regalados em quanto o Christo mendiga á vossa porta; vós que
+tendes riquezas ao sol e riquezas á sombra, quando na vossa parochia
+tantas familias laboriosas carecem do mais urgente; vós, que cubiçaes a
+estola, a murça ou mitra; e achaes nas Escripturas louvores para outrem,
+além de Deus, oh! quanto differentes sois d'aquelles heroes christãos
+cujas imagens campêam nos nossos altares! Sois o que somos: haveis mais
+pavor das praticas dos santos que do proprio inferno; espanta-vos e
+desespera-vos a perfeição d'elles; a pesar vosso, amaes o que elles
+aborreciam, e aborreceis o que elles amavam; as vossas virtudes são
+mesmamente humanas, taes quaes as nossas, que não vem do alto, que se
+enroscam nos nossos vicios e nos acorrentam ao demonio.
+
+Ai! que perdidos estamos, ó meus amigos! Que lucramos em fechar os
+olhos? Estamos todos condemnados! Que monta o desprezo proprio pregoado
+pelos labios, se no intimo do coração tendes a propria estima sempre
+desvelada? Que aproveitam as momentaneas conversões, seguidas de quedas
+mais desastrosas? Que vos fazem certas privações associadas a tanto
+regalos? Em verdade vos digo que estamos perdidos!
+
+Ora pois, se assim é, se o abysmo está aberto e o cahir é irremediavel,
+cerremos os olhos e não cogitemos mais em tal. Entre o céo inacessivel e
+o inferno d'onde não ha mais sahir, resta-nos um momento só: gozemol-o,
+ó meus amigos. Que é isto de estar a gente a empeçonhar, com terrores
+vãos, prazeres, tão raros quão fugitivos? Não pensemos no que será;
+pensar n'isso e desesperar é a mesma coisa: desesperar de entrar no céo,
+e desesperar de sahir do inferno. Saboreemos o presente. Vivamos
+terrenamente: aqui ha creaturas ridentes que nos alegram, fragrancias
+que nos deliciam, e licores que atrophiam a memoria.
+
+Quem é ahi o sandeu que falla em inferno? Não ha inferno, minha mãe!
+Conclue em paz os teus dias extremos. Não contristes com visões
+pavorosas essas creancinhas que te escutam, e que talvez falleçam antes
+de nós. Ride, ó meus filhinhos: a vida vos será breve e repleta de
+miserias, quando crescerdes.
+
+Eu desejo, senhora, que a minha casa seja mansão de jubilos e não de
+tedios: quero ser amado pelo que sou e não por caridade; quero ser
+obedecido amorosamente e não com submissão de escrava; aliás, buscarei
+quem me ame, e me corresponda. Engrinalda-te de rosas, minha bella! Não
+ha inferno, e o paraizo tem-l'o ahi á mão. Enche-me o copo, e dorme
+placidamente nos meus joelhos. Amar! amemo'-nos, até á morte; que da
+morte para além começa o odio!
+
+Ah! que bizarra invenção não foi esta do inferno! Um abysmo para onde
+naturalmente nos inclinamos, attrahidos, impellidos por quanto ha,
+cahidos em fim, e depois, o abysmo... fechado para sempre! Oh! primorosa
+perspectiva para que façamos da terra uma estancia de delicias
+peccaminosas!
+
+
+ V
+
+ O rebanho
+
+Se não fosse preciso crêr na eternidade do inferno, e no pequeno numero
+dos escolhidos, e na inevitavel condemnação da maior parte dos homens,
+eu odiaria como vós os prazeres da vida; o sermão de Jesus na montanha
+se me figuraria mais bello e intelligivel; eu entenderia a felicidade
+das lagrimas, as delicias da pobreza e a doçura de todos os sacrificios.
+
+Quando, porém, se me diz que não é bastante haver chorado e soffrido
+muito n'este mundo para ganhar o perdão divino; quando se me diz que
+nada vale affrontar a ira dos tyrannos, defendendo, a verdade que os
+fere, ou o direito que elles avexam; quando me dizem que nada monta
+morrer no patibulo pela liberdade da patria ou no campo da batalha pela
+sua independencia; quando me dizem não importa nada envelhecer na
+miseria por haver preferido a honra ás honras, o estudo á opulencia, o
+trabalho aos prazeres; quando me dizem que tudo isto é fumo, que estas
+dores, esta coragem, privações, heroica vida, heroica morte, não podem
+resgatar minha alma d'um peccado mortal, e aos olhos de Deus não
+valem o cilicio d'um frade, ou a confissão de um salteador agonisante;
+ah! confesso que, ao dizerem-me estas cousas em todos os pulpitos
+christãos, não entendo o sermão da montanha, e pelo contrario começo a
+comprehender os prazeres d'esta vida.
+
+Vêdes aquelles pescadores que em fragil barquinha vão arrostar as ondas
+do oceano, e vogar, por dias, semanas e mezes, longe da praia, á mercê
+das tempestades para ganharem, á custa de mil perigos, o pão de seus
+filhos?
+
+Vêdes aquelles telhadores na aresta do vigamento? aquelles mineiros
+sepultados nas entranhas da terra, longe dos raios beneficos do sol?
+Vêdes o lavrador curvado sobre o sulco? o pallido tecelão diante das
+machinas devoradoras? tanto operario sem nome avergado ao pezo de um
+trabalho ingrato e sem descanço? Pois a maior parte d'aquelles é
+condemnada, por modo que os seus soffrimentos n'esta vida são preludios
+dos que lá os esperam na outra. Aquella mãe que não póde vestir seus
+filhos, e que relança olhares invejosos ao palacio visinho, onde os
+cavallos medram mais fartos que os filhinhos d'ella;--aquelles mendigos
+que vagamundêam nos campos; os orphãos que se recolhem aos hospitaes; os
+soldados que marcham para as fronteiras; os proscriptos esquecidos no
+solo estrangeiro, condemnados, quasi todos condemnados, meu Deus! Um
+repleto conego, risonho e bochechudo, sem familia nem cuidados,
+repastando-se quatro vezes por dia, mas sem escandalisar ninguem,
+baixando a vista em presença das mulheres, pontual nos officios, está
+mais visinho do céo que todos aquelles desgraçados; e mais perto ainda
+do céo está um sancto anachoreta. Chorar, soffrer, trabalhar não é nada.
+Se choram, não choram as suas culpas, é a miseria dos filhos; se
+trabalham não é por penitencia, mas sim para grangear commodidades.
+Lagrimas de Babylonia, diz S. Agostinho. Avidos suores, vãs angustias!
+Muitos seculos ha que d'est'arte se lhes explica o sermão da montanha, e
+elles nem o comprehendem nem jámais o entenderão. É bem de ver que não
+vivem á maneira dos santos legendarios, nem dos conegos prebendados. Os
+que sabem lêr pouco lêem, á falta de tempo. Muitos não vão á egreja, e
+os que lá vão sahem como entraram. São profundamente ignorantes. A dura
+necessidade dobrou-lhes a cabeça sobre o torrão que regam com o seu
+suor; e a natureza, que lhes brada das entranhas da terra, diz-lhes
+cousas que elles percebem mais a preceito que os sermões. O estridor e o
+vapor das materias da sua obragem cega-os e ensurdece-os. Não sentem
+fome nem sêde da palavra divina, qual lh'a ensinavam algum dia.
+Digam-lhes que um eremita vae melhor do que elles, por que abandonou
+officio, casa e parentes, e todo se vagou á salvação da alma, e que ha
+vinte ou trinta annos resa, jejua e se disciplina, dizei-lhes isto que
+elles vos desfecharão uma gargalhada; mas, se ao mesmo tempo passar um
+soldado de bigodes brancos, ou algum recruta aleijado em Africa ou
+Italia, ou algum repatriado do desterro, em vesperas de para lá voltar,
+se a occasião o exigir, elles o saudarão respeitosamente. Que appareça
+um velho sem occupação, uma viuva com filhos maltrapidos, e elles se
+fintarão para soccorrêl-os. Contae-lhes casos de bemfazer e lanços de
+gratidão, vêl-os-heis commovidos. As virtudes d'esses infelizes são,
+para assim dizer, selvaticas, probidade orgulhosa, amizades humanas, mas
+apuradas até á abnegação, instinctos lucidos do que é grande e formoso,
+mas formoso e grande pela craveira das coisas d'este mundo. De par com
+isto ha falhas, e até crimes. Impacientam-se, praguejam, largam a redea
+aos desejos, porque, no seu modo de pensar, se não ganham, tambem não
+perdem. Vivem á beira das charruas, das córtes, das forjas, e nas
+abegoarias. Este viver influe-lhes na linguagem e nos costumes. Não têm
+alma que se ale longo tempo e ao alto sem que as azas lhe falleçam: é
+que pezam n'ella os cuidados terrestres. Ventilam problemas que não
+podem resolver. Desconsolados do seu destino, perguntam porque ha ricos
+e pobres, e porque, no outro mundo, serão condemnados, depois de tanto
+haverem trabalhado e gemido n'este?
+
+O inferno não os apavora muito mais que a morte. Affizeram-se desde a
+infancia á vaga idêa de que hão de ser condemnados, seguindo a trilha
+commum da vida; todavia, apezar do proposito feito, nem por isso um
+terrivel pezo deixa de lhes aggravar o fardo das dôres quotidianas. O
+sino que dobra, o sahimento que passa, o doente que vae para o hospital,
+o pedreiro que cae da parede, o obreiro apertado entre o encaixe de uma
+roda e triturado nos dentes d'ella, os terraplenadores sotterrados nas
+saibreiras aluidas, os marinheiros comidos pelas vagas, o typho que
+devasta um bairro inteiro de operarios, mulheres sem maridos, paes sem
+filhos, filhos sem mães, tudo isto por vezes lhes relembra o Deus
+rancoroso que lhes prégam, e as surprezas da morte, e os perigos de sua
+precaria existencia, e com as miserias que findam outras que principiam,
+para nunca mais acabarem. Este povo assim é como um rebanho que se leva
+ao matadouro, aguilhoado pelos pastores, lacerado pelos cães,
+atormentado pelas moscas, cançado, sanguento, sequioso, abatido,
+estupido.
+
+Compadecei-vos, pois, d'esses que nunca vos darão bons ermitões. Não ha,
+por ventura, um ideal mais aceitavel e ao mesmo tempo mais puro que lhe
+mostreis? Não ha senão esse a que aspira o ente sem familia, sem
+ligações e cuidados d'este mundo? Se, ao menos, podesseis annunciar-lhes
+a justiça de Deus sem os assombrar! Não são já de si que farte
+mysteriosas e raladoras as dôres d'esta vida? Não será de mais
+rematal-as com o terribilissimo mysterio do inferno? Pois se tendes a
+certeza que serão condemnados no trem de vida que levam, deixae-os
+respirar, e beber, e rir e dançar, em quanto o animo e tempo lhes não
+faltam; que a desesperação poderá leval-os a peores excessos.
+
+Ó pobre genero humano! Será preciso que o Christo desça segunda vez do
+céo para te instruir, e que outra vez seja vindo e crucificado para
+salvar-te?
+
+
+
+
+ CAPITULO QUARTO
+
+ OUTROS FRUCTOS DO INFERNO
+
+
+ O mal que produz o inferno.--Incredulidade, desalento, desesperação
+
+Esquadrinhando o bem que procede do inferno, já divisamos o mal que
+produz. Bem negativo e limitadissimo; mal positivo mas profundo,
+extensissimo, apenas por em quanto entre-vimos. Faz-se mister examinal-o
+mais pelo miudo. Não perderemos o tempo.
+
+É facto incontestavel que a maior parte dos homens se occupa menos de
+céo e inferno que das precisões, interesses, prazeres e dôres da terra.
+A Egreja o confessa admirada e lacrimosa. Por que se admira? Que remedio
+senão ser assim? Pois acaso póde toda a gente retirar-se ao deserto?
+Pois todo o encanto da vida se apagou? Os direitos da natureza foram
+abolidos?
+
+Na sociedade cuja moral se funda sobre o medo das penas eternas,
+todo movimento paralysaria, se instinctivamente, e por necessidade de
+viver, não viesse o esquecimento d'esse tremendo futuro. A esperança do
+ceo não bastaria a contrabalançar os effeitos de tal susto, mormente
+quando nos affiançam que a porta do ceo é estreita, e que o inferno tem
+milhares de portas sempre abertas. Á medida que esta crença se incutir
+nas turbas, assim ellas hão de lidar por esquecel-a, abafando-a no seio,
+sem querer sequer meditar n'isso. Quanto mais pura, exigente, austera e
+angelica fôr a vossa moral, tanto mais impraticavel vol-a hão de
+considerar; e, se a fundamentaes no inferno, fechar-se-hão os ouvidos ao
+vosso apostolado, e ninguem quererá sequer aproximar-se d'aquella
+perfeição immaculada, que sómente florece em estufas claustraes, que se
+desbota ao leve bafejo do homem, e só está ao alcance de ociosos.
+
+Se no inferno tão sómente fossem castigados certos crimes monstruosos e
+excepcionaes, mas claramente definidos, taes como o assassinio, o
+incesto, o estupro, poder-se-hia ainda examinar a justiça de tão
+exorbitante penalidade: ao menos cada qual sabia quando lhe era
+applicada a pena. Porém, se vão ás chammas eternas o aváro, o glotão, o
+preguiçoso, o prodigo, o orgulhoso, o invejoso, o impaciente, o
+maledico, o voluptuoso, o incontinente, o ambicioso, o calumniador, o
+usurario, o mentiroso, o hypocrita, o lisongeiro, o ingrato, o
+philosophante, o rebelde, etc., etc., etc., congela-se o sangue nas
+veias; ninguem ousa vender, comprar, emprestar, traficar, fallar,
+pensar, beber, comer, respirar; por quanto, quem sabe onde começa a
+avareza? o orgulho? e a lisonja, reverendissimos senhores, onde começa a
+lisonja? e a usura? e os limites da temperança quem os abalisou?
+Occasiões, tentações e perigos em tudo!
+
+A questão não é saber se ahi ha crimes hediondos e puniveis: ninguem
+nega que os haja;--o que se tracta é de saber se é racional e discreto,
+e se os bons costumes lucram, que nos ameacem com eternos castigos, por
+peccados que mal podem definir-se. Quem ha ahi isempto de seu tanto ou
+quê de orgulho? Quem se presume bastante sobrio, bastante comedido nos
+prazeres licitos, menos egoista em suas legitimas affeições, menos
+desinteressado em seus lavores e mercantilismo, bastante paciente nos
+revezes e resignado nas desgraças? Quem se crê assaz justo, caritativo e
+perfeito? Ao parecer dos theologos, uma tal presumpção seria peccado
+capital, até nos conventos, até para os anachoretas envelhecidos em
+abstinencias e orações. Ninguem sabe ao certo o momento, o ponto em que
+um acto licito descahe no illicito; que dóse de alimento quadra á sua
+saude, e onde no rico principia o superfluo, que é o necessario do
+pobre. Para que vem seis pratos á meza? Se um basta, para que são dois?
+A regra onde está?
+
+Cautela! esse copo que chegaes aos beiços risonhos, em vez de vos apagar
+a sêde, vae abrazar-vos em sêde eterna. Cautela! Theologo nenhum
+poderá dizer-vos exactamente o que vos cumpre dar, o que vos
+cumpre não dar; e o caso é que, se vos enganaes com tal incerteza, folga
+o diabo. Um padre da Egreja, um papa, um santo, Gregorio o Grande, não
+disse que Deus nos arguiria de peccados que antes de morrer não
+conhecemos?
+
+Estas e outras mais terriveis cousas podeis lêr no _Quotidiano do
+Christão_, livro approvado e recommendado por todos os bispos, e que anda
+em mãos de creancinhas. Portanto, verdadeiras ha só duas cousas: a
+condemnação, se nos enganamos, e a abstenção para nos não enganarmos.
+
+Mas a abstenção não é viver. Viver é a actividade inteira, incessante, e
+arriscada a peccar. É lei do genero humano viver e perpetuar-se. Não
+nega, mas esquece os dogmas oppressores que lhe pesam na alma, e a cada
+passo lhe apontam aberto um alçapão do inferno. Vivem os homens n'uma
+especie de indifferença religiosa que os avilta, movidos unicamente por
+suas paixões, e apenas enfreados pela justiça temporal. Fóra com isso do
+futuro! fóra com remorsos! Fechemos olhos a todos os clarões, e os
+ouvidos a todos os rumores do outro mundo, e concentremos n'este a nossa
+inteira vida, todos os desejos e pensamentos.
+
+É effeito imprevisto, porém real, d'esta medonha crença induzir ao
+materialismo, não theorico, mas pratico, a maior parte dos que não leva
+ao ascetismo: attasca na lama os que não transvia nas nuvens; faz que se
+rojem durante o dia breve da existencia, grandes e pequenos. Os
+philosophos accusados d'este miseravel estado das almas, estão
+innocentissimos: não ha em tudo isso faisca de philosophia; raciocinio é
+coisa que ahi não vislumbra. O instincto é que desde tempos esquecidos,
+e não de ha pouco, nos propendeu áquelle cego materialismo: é a
+necessidade de arrostarmos com uma crença mortifera; é a vida que
+resalta d'entre as mãos desvairadas que intentam comprimil-a, e d'este
+desbordar de toda a fórma surdem os excessos.
+
+Já não lhes abasta esquecerem o inferno. Quem o esquece são os fracos;
+os fortes vão mais além: escarnecem-no. Anda já por ahi o diabo cantado,
+e do mesmo feitio o inferno, e o céo com os seus moradores. E de taes
+canções vendem-se tantos exemplares como dos _Canticos de S. Sulpicio_:
+antiquissima impiedade, de que ha vestigios, não só na Grecia pagã, mas
+tambem nas fabulas da edade média, e até nas paredes das vetustas
+cathedraes onde os artistas zombeteiros esculpiram, ha mais de
+seiscentos annos, o _Inferno_ de Béranger. A ironia mascarava-se então com
+tregeitos beatificos; o impudor, porém, não se disfarçava nem se
+constrangia.
+
+Os lamuriantes da edade média talvez digam que, apezar das galhofas
+audazmente esculpidas nos portaes e córos das egrejas, esses antigos
+imaginarios criam no inferno, e que, no leito da morte, não foliavam,
+tremiam; que os fabulistas tambem tremiam, e que os castellãos e
+castellãs, plebe e burguezia, quantos se haviam regalado com as
+taes caricaturas, tremiam tambem. Sim, meu Deus, é verdade. Mas
+circumvagae a vista, e dizei-nos se, a tal respeito, a sociedade mudou.
+A mesma educação religiosa não produz continuamente identicos
+phenomenos? Acreditam no inferno os epicuristas, os trampolineiros, os
+usurarios, os prodigos e os ladrões, os famintos e os repletos, os
+invejosos e os ingratos, os indifferentes e os chasqueadores? No intimo
+da alma guardam elles as superstições das amas: que farte o denotam na
+vida, e principalmente na morte. Em quanto são moços, ageis, febris de
+saude e esperança, repulsam uma crença que lhes tornaria maldita a
+mocidade, a saude, a força, a razão de todas as dadivas do céo. Quando
+caducam, infermam e agonisam, espantam-se de haver ardido em desejos que
+já não tem, e haver motejado praticas que se lhes agora figuram
+facilimas. É chegada então a hora e situação conveniente para intender a
+moral do inferno, que é a privação em tudo e por tudo,--a morte na vida.
+
+Singular crença que não infrêa o maior numero de homens, quando o freio
+lhes é mais preciso; e quando o retêl-os é já inutil, e mais necessaria
+lhes seria a esperança, então, á entrada da sepultura, lhes sahe
+espantadora! Levado por ella vae o anachoreta ao suicidio, e o mundano
+ao embrutecimento. Esteril em verdadeiros dons, fertil em verdadeiros
+males, a crença no inferno bestialisa, desalenta, desespera, endurece.
+Melhor é esquecel-o á maneira das turbas, que pensar demasiado
+n'ella, que tanto monta sentir vertigens, sentir estontecida a cabeça á
+roda d'esse abysmo que vos attrahe e sorve. Mais algum prazer ou menos,
+defendido ou não, que faz? Lá no inferno não estaremos melhor nem
+peormente; a eternidade não terá hora menos ou hora mais.
+Constrangermo-nos para quê? Não ha termo medio entre o bem e o mal
+absolutos. Tudo que é humano é mau: é forçoso ser anjo ou demonio:
+seja-se diabo, que é mais comezinho. Vêde-me uns frades, padres,
+devotos, freiras, que a desanimação avassalou: não ha peores peccadores;
+rolam cada vez mais ao fundo, e vão-se consolando com as delicias que
+topam na sua queda. Um peccado de menos, que é na conta que hão de dar?
+Chegados a tal extremidade, qualquer boa acção lhes será vã. Como não
+podessem abster-se de tudo, os desgraçados já agora não se abstem de
+nada. Esta desesperada crença precipita-os abaixo do homem. D'ahi tem
+surdido mais libertinos que ermitões, mais blasphemos que santos, mais
+loucos que ajuizados; e, em verdade, é mister que o christianismo
+entranhe vivacissimos embriões, esplendorosissimas luzes, e
+poderosissimas verdades para resistir, como ha resistido, á influencia
+de taes doutrinas.
+
+Tirae-nos, por favor, esse inferno tão fatal aos que o recordam como aos
+que o esquecem. É verdade que teremos menos monges com o purgatorio; mas
+teremos mais christãos. No purgatorio será util pensar, comprehender-lhe
+a justiça, e sentir-se o homem melhor, ainda a pesar seu; se é
+facil sacudir o jugo de uma revelação sobrenatural e inintelligivel, por
+mais beneficente que ser possa, não é facil desprendermo-nos de idêas
+excellentes e razoaveis, por mais importunas que nos sejam.
+
+
+
+
+ CAPITULO QUINTO
+
+ OS CINCO GRUPOS
+
+
+ Divisão da sociedade em cinco grupos
+
+Examinemos as coisas mais á beira. A sociedade não é toda formada de uma
+peça. Divide-se naturalmente em differentes grupos no discutir de seus
+interesses em este e no outro mundo. Religiosa e moralmente observada,
+podêmos dividil-a em cinco grupos.
+
+1.º O grupo dos philosophos, ou livres-pensantes como hoje se
+chamam--sugeitos que systematicamente regeitam a revelação, e por
+consequencia o inferno sem fim; todavia, desinteresseiros, estudiosos,
+graves e tractaveis com honra e confiança.
+
+2.º Longe d'estes a infinita distancia, e sem sombra de liga com os
+philosophos, está o grupo dos biltres professos, individuos relaxados,
+bandidos convictos, corruptos, desesperados.
+
+3.º Entre aquelle grupo de espiritos selectos e o das almas depravadas,
+mas entre si equidistantes, está o grupo immenso e indecomponivel dos
+indifferentes, dos tibios, dos duvidosos, dos espiritos futeis, dos
+espiritos inertes, dos espiritos acanhados, dos fura-vidas, dos
+pachorrentos--turba sem piedade nem philosophia, sem prática de casta
+alguma, vivendo de seu trabalho, das suas rendas ou officios, mais ou
+menos descançados--guardas nacionaes, jurados, eleitores, conselheiros
+de districto, e o mais. Estes são uns christãos que só vão á egreja
+quando ha enterro, casamento ou baptisado, ou ainda em dias de _Te Deum_,
+quando a posição official os obriga.
+
+4.º Ao lado e um tanto superior a este, está o grupo menos numeroso dos
+devotos; não dos hypocritas, que se ha de classificar no dos patifes,
+mas dos esforçados em praticar e que praticam, assim, mas com
+desinteresse, os mandamentos de Deus e da egreja. Estes vão á missa nos
+domingos, confessam-se ás vezes, e dão do seu gremio as irmandades e as
+confrarias.
+
+5.º Finalmente, o admiravel grupo dos justos, dos perfeitos christãos,
+dos santos, dos continuadores e verdadeiros imitadores da vida de Jesus.
+
+Vejamos se o dogma das penas eternas aproveita ás pessoas que formam
+aquelles differentes grupos.
+
+
+ I
+
+ O grupo dos philosophos
+
+Os philosophos crêem em Deus, crêem na liberdade e immortalidade da
+alma, na justiça, em todas as noções moraes derivativas d'aquellas
+primaciaes verdades. Em revelações sobrehumanas é que não acreditam.
+
+Ora, ameaças de inferno converterão tal gente? De quantos mysterios
+regeitam, o inferno é o mais incrivel; e tanto que irrita a propria fé,
+que, só abdicando o uso da razão, se submette. Dos philosophos não ha
+que esperar similhante sacrificio.
+
+Se o dogma do purgatorio vos aproxima d'elles, o inferno, barreira que
+vos separa de tudo que raciocina, alonga-os de vós.
+
+
+ II
+
+ O grupo dos corruptos
+
+Que lucram as pessoas de bem que esses patifes creiam no inferno? Está
+com isso a sociedade mais segura? E tal crença de que lhes serve a
+elles? O que os incommoda não é o diabo, é a policia; inquieta-os mais o
+degredo que o inferno.
+
+Vá lá!--dizem elles--venha o inferno que não nos ha de faltar boa
+camaradagem! Quantas pessoas toparemos lá d'umas que n'este mundo se
+empavonavam todas, e não queriam rossar-se por nós! Havemos de vêl-os
+lá, mais apoquentados e castigados do que nós, esses patetas condemnados
+por pensamentos e palavras, por coisa nenhuma. Quanto á pessoa d'elles,
+tanto monta como a nossa, pois que hão de ser tão condemnados como nós.
+Não ha dois infernos, parceiros; ha um. Lá nos esbarraremos com
+capitalistas, com fidalgos, com duquezas, com comicas. Andaremos á
+ilharga dos juizes, dos quadrilheiros, dos escrivães, dos jurados e
+melhor ainda--viva a patuscada!--com deputados, com camaristas reaes,
+com bispos, com abbadessas, com principes e princezas, reis e rainhas.
+Venha o inferno! é tentador lá ir com tal sucia.
+
+Tal é o raciocinio dos desalmados e a influencia que tem sobre elles
+aquella extravagante justiça, que nenhuma proporção gradua entre
+delictos e crimes, condemnando para sempre quem peccou uma hora, e o
+scelerado de toda a vida.
+
+
+ III
+
+ O grupo dos indifferentes, etc.
+
+Estas pessoas cuidam em ser felizes com o auxilio da honestidade; pelo
+quê, se abstem do mal que o codigo define. Pelo que respeita aos sete
+peccados mortaes, não se preoccupam d'isso. Dizer que todos sejam
+invejosos, avarentos, luxuriosos, e o mais, seria mentir. N'esse
+innumeravel grupo abundam negociantes honrados, meninas castas, esposas
+fieis, pobres sem inveja, ignorantes modestos, ricos bemfazejos, e
+muitas abelhas para cada zangão; mas perfeito ahi não ha ninguem;
+ninguem ahi vive em graça; o melhor do rancho é aquelle a quem Deus, no
+dia do juizo, só accusar de ter violado sem escrupulo todos os
+mandamentos da Egreja. Mas, com esse só peccado na consciencia, o melhor
+do rancho será condemnado.
+
+Se o roubo e o homicidio são raros n'essa assemblêa, não procede isso do
+medo do inferno. Ahi é bastante motivo para condemnação uma folha de
+papel escripta, um «sim» apenas balbuciado e ouvido, um lance d'olhos,
+uma flor murcha, e essa, onde entra amor--amor no peccado, meu Deus!--é
+de todas as condemnações a que mais piedade desperta. Porém, n'esse
+immenso circulo, onde tudo pecca, cada qual se condemna á sua vontade:
+um por fastio; outro por vaidade, este por curioso, aquelle por
+pusillanime; condemna-se um por um casal, outro por uma venera,
+por um acepipe, por um prato de lentilhas, por um penacho, por uma
+fitinha, por um trapo, por trinta contos, por trinta reis. Condemna-se
+este a trabalhar, aquelle a passear, um a comer, outro a jejuar, a ler,
+a dansar, a palestrar, a meditar, a vestir, a despir, desde a aurora até
+ao escurecer, desde a noite até ao dia, todos se condemnam a bel-prazer.
+
+Distinguem-se lá os peccados que Deus pune indistinctamente.
+Permittem-se os que Deus castiga até com eternas penas, quando é elle só
+quem pune; recua-se, porém, dos que Deus castiga e a sociedade tambem.
+Não se diga pois que o inferno atalha os crimes dos indifferentes.
+Tambem ahi é manifestamente esteril similhante crença. O que se teme é o
+vigia, a patrulha, o commissario da policia, essas personificações
+vulgares, mas terriveis da opinião e da lei. Temem-se as algemas, o
+carcereiro, a masmorra, e ainda mais á mistura com os scelerados. Por
+muito dura e inevitavel que se figure, a pena material não os conterá
+sempre quando a paixão os esporêa. Do mesmo modo que affrontam o
+inferno, affrontariam a cadêa e até a forca, se a forca estivesse ás
+escuras; porém a vergonha, o estrondo da queda, é para o maior numero a
+pena intoleravel. Seriam capazes de desafiar carrascos e diabos; e não
+ousariam encarar o desprezo do amigo, do visinho, do estranho, do
+transeunte, do mendigo; não lhes faz grande mossa a ignominia diante de
+sua mãe ou de seus filhos, e tremem de se vêr baralhados com
+creaturas devassas que são máos sem repugnancia, e medram no mal como em
+seu nativo elemento.
+
+Ha d'elles, porém, que se forram ao mal, contidos por sentimento ainda
+mais nobre que o medo da opinião. Esquivam-se, não do peccado mortal,
+mas do maleficio que a sociedade civil pune ou reprova: afasta-os d'isso
+com asco um natural sentimento, sem esforço. Educação e habitos
+fortaleceram esses bons instinctos. Não são perfeitos, mas são probos,
+sinceros, generosos, capazes de grandes sacrificios occasionalmente. Com
+certos deveres nunca especulam. Denotam que a si se respeitam, que a
+propria estima se lhes faz precisa, ainda mais que a da sociedade, facil
+de transviar-se. E bem que não sejam philosophos nem devotos, sentem
+vivamente a dignidade de seu ser. É certo que este sentir lhes seria
+mais delicado e firme, se abrangessem as perspectivas da vida futura, em
+vez de concentrar-se cá; mas é forçoso aceitar os indifferentes quaes
+são; e tanto entre os peores como entre os melhores, a vida futura não é
+movel nem empêço: é uma coisa esquecida.
+
+
+ IV
+
+ O grupo dos devotos
+
+Será medo do inferno que impede os devotos de matar, de roubar, de se
+retoiçarem, como javardos, no lamaçal dos sentidos? Crer-se-ha que elles
+de per si sejam insensiveis á honra, ao opprobio, e aos mais
+freios moraes e nobres estimulos que regulam a ordem e andamento das
+sociedades temporaes? Ririam elles das galés e até da forca? Seriam
+elles, em verdade, infames da ultima ralé, se não receassem a
+condemnação?
+
+Se ha ahi tal raça de christãos, confesso que eu não confiaria d'elles
+nada, nem a minha bolsa, nem minha mulher, nem o meu segredo, nem eu
+mesmo adormeceria socegado entre elles. D'um scelerado a um devoto
+d'esta laia a distancia é tão curta que os meus pobres olhos não na
+enxergam. Dizem que ha uns pessimos soldados que, á vista do inimigo,
+olham para traz e só marcham para a frente com a bayoneta nos rins. E,
+se os não vigiaes, eil-os que desertam; e, até quando se batem, albergam
+a perfidia no coração. Pois bem: aquelles devotos são peores que os
+soldados tredos, por que destemem os homens e os juizos humanos, e os
+supplicios que os homens inventaram. O que elles sómente receiam é o
+fogo eterno, uma pena á qual se foge mediante a confissão. Ageitado o
+ensejo, roubam-vos, atraiçoam-vos, matam-vos, com a certeza de serem
+absolvidos occultamente, por uma _mêa culpâ_. Desgraçadamente é certo que
+a crença no inferno ha gerado monstros assim; a europa barbara tem
+milhares d'elles; ha bastantes para lá dos montes, e bem póde ser que
+mesmo cá; senão vejam aquelle devoto padre, cuja historia as gazetas
+contaram ha pouco: era um padre que matava todos os seus filhos no
+berço para se forrar ao incommodo de os crear; mas é provavel que os
+baptisasse, com o receio de que se perdessem. Eu de mim não quero chamar
+christãos, nem sequer homens, a taes feras. Deus nos livre de encontrar
+similhantes christãos em uma serra por noite de luar.
+
+A honestidade d'estes meus devotos custa-lhes pouco; são creaturinhas
+que podem ver a felicidade dos outros sem sentirem cocegas de lh'a
+empalmar; não roubam nem matam por que a forca os embaraça, e a opinião
+dos homens ainda mais; pessoas, em fim, que tem mais mêdo ao crime que
+aos castigos correspondentes. Taes são os meus devotos. Devotos denomino
+eu todos os leigos que não duvidam, nem são indifferentes, nem se
+esquecem de ir á missa, nem deixam de confessar-se _ao menos uma vez cada
+anno_. É verdade que eu não os incampo a ninguem como anginhos já
+cosinhados para a canonisação. Se elles não andassem por igrejas com
+tanta regularidade, não sei bem como estremal-os, quanto ao seu
+proceder, do bando dos indifferentes. Não são elles os derradeiros a
+informar-se d'onde sopra o vento, onde aquece o sol, e onde está o idolo
+do dia para o saudarem, nem tambem são os ultimos a apedrejar o idolo da
+vespera. Quantas villanias sobre-douradas e quantas villanias bem nuas e
+patentes lhes não attrahem as barretadas, e os cumprimenteiros sorrisos!
+Como elles se curvam deante do que desprezam! Que impio acatamento
+prestam á força, e até, com medo de se enganarem, ás apparencias
+da força! Que vulgares mexericos, que vulgares ambiçõezinhas, que
+exemplarissimas ingratidões!
+
+Não os accuseis de hypocritas, que elles são sinceros, não fazem
+momices, vão ás procissões com a melhor boa fé, assistem ás festas do
+Mez de Maria, tem rosario, agnus-Dei, e penduram no pescoço medalhinhas
+de cinco reis carregadas de indulgencias. E, assim mesmo apezar da sua
+boa fé em medalhas, é bonito vêl-os, em sua casa, evitar o escandalo com
+melhor exito, e mais vigilancia que o peccado. E nem assim o evitam. Se
+sois curiosos, apanhai-m'os no ultimo degráo da escada, ahi por perto do
+altar: vereis o conego ás más com o deão; o sineiro bate na mulher; o
+sacristão tem má lingua; um juiz de irmandade casa a filha violentada
+com um velho, e dá cabo d'ella; outro, á sobre-meza, faz-se truão de
+chalaças de ebrio; e é de natureza tal, que a mulher por certas razões
+não admitte em casa creadas que não tenham edade e figura bastante
+canonicas, capazes de edificarem um mosteiro de bernardos; lá está um
+que é rico, mas economico, e d'isso estão os pobres tristemente
+convencidos. Ora, a esses peccados habituaes ajuntem, se quizerem, os
+peccados de occasião, e digam-me como se distinguem, por suas obras, o
+commum dos indifferentes do commum dos devotos.
+
+Quereis subir ao primeiro degráo da escada? Luiz XI era devoto; Diana de
+Poitiers era devota; Brantôme devoto era; tambem era devota aquella
+regente de França que empregava as suas damas a seduzir, quero
+dizer, a converter os jovens huguenots e os velhos tambem. Todo o seculo
+XVII foi devoto, incluindo os cavalleiros farçolas, os bandidos, os
+abbades galans e os abbades demoniacos, os aváros e os glotões, os
+orgulhosos e os abjectos, as marquezas adulteras e os duques
+medianeiros, os magistrados venaes e as princezas aventureiras. Todos
+esses tinham bancada na egreja, iam aos sermões e discutiam ardentes
+sobre a materia da graça. Os amantes arrufavam-se na quaresma e faziam
+as pazes depois de Pascoa. Madame de Montespan, na côrte, cuidava em
+salvar-se, e ninguem quizesse obrigal-a a comer, á sexta feira, uma aza
+de borracho; o que ella então comia era salmão, lagostins, esperregado e
+pastelinhos de leite. Madame de Sévigné, uma das mais honestas e amaveis
+senhoras d'aquelle tempo, tambem devota, lia os _Contos de La Fontaine_, e
+ficava-se a rir com elles e mais a filha. O inferno era como se nada
+fosse n'essas coisas. Quem desgraçadamente pensava muito n'elle,
+enterrava-se no claustro, como Mr. de Rancé e M.elle de La Vallière;
+mas, pelo ordinario, havia pouco quem se debruçasse a espreitar o tal
+abysmo; e quem se desse a esses exames sahia impertinente, misanthropo e
+jansenista. Fallava-se do inferno; mas sem reflectir grande coisa;
+encaravam-no pela casca. O grande caso era rir, cortejar o rei, agradar
+a todos, inclusivè a Deus, dando-lhe a vêr com infinita habilidade,
+espectaculos de devoção, de jogo, de ambição e... do mais.
+
+O tempo e as revoluções que tantas mudanças tem feito, não mudaram o
+coração humano. Os devotos não são tantos como d'antes, mas são da mesma
+estôfa, e tanto montam estes como os outros, vistos a vulto. Relaxação
+extrema em fidalgos e populaça; sêde ardentissima de enriquecer;
+sordidissimos orgulhos; amores desatinados; paixões eriçadas de
+remordentes espiritos e blandiciadas de prazeres! Deus me defenda de
+calumniar peccadores a cheirarem ao incenso das igrejas! Bourdaloue, que
+os conhecia, e os demais prégadores assim antigos que modernos, disseram
+d'elles mais mal do que eu. O que sei é que o medo não faz bons aquelles
+que o bem, só de per si, não convida. O pejo do peccado poderá restaurar
+os cahidos; mas o medo, depois do peccado, é de todo o ponto inutil.
+
+Não esqueçamos, porém, que ha devotos quasi irreprehensiveis, os quaes,
+sem serem heroes nem se destinarem a tanto, cumprem, sem desfallecer, a
+modesta missão que lhes quadra sobre a terra. São bemfazejos em pequena
+escala; restringem-se a pouco mais de sua casa; quanto muito, chegam até
+á visinhança; e, se por vezes, a mão caridosa ultrapassa estes limites
+proveitosamente, de novo se retrahe ao seu limite, onde está a maior
+formosura e grandeza de sua missão. Estes devotos não se distinguem dos
+outros por grande assuidade nos templos; o que os differencêa é o serem
+esmoleres; e mais visivelmente se estremam por se absterem do mal. Não
+são rixosos nem maldizentes: tem ainda mais caridade na lingua do
+que nas mãos, por que ella os serve com inexhauriveis riquezas.
+D'aquelles peccados mortaes que a sociedade chama fraquezas, e em que
+diariamente as pessoas piedosas resvalam sem morrerem d'isso, fogem
+elles como d'um grande delicto. Amam a verdade, a ordem, a continencia,
+o pudor, a sobriedade, como vós amais a justiça. E, comquanto não
+descream do eterno fogo, a luz que os guia não esplende do inferno, vem
+de cima; no ceo é que elles a buscam em seu peregrinar; e assim vão
+alentados pela esperança e não pelo medo.
+
+
+ V
+
+ O grupo dos santos
+
+Chegados somos aos bemfeitores dos homens, verdadeiros imitadores de
+Jesus, entes mortaes mais proximos da perfeição, as irmãs da caridade,
+os padres virtuosos, quantos se consagram a servir pobres, infermos,
+ignorantes; quantos sacrificam, não esterilmente, mas ás nossas
+precisões, seus teres, belleza, juventude, affeições domesticas, vigor,
+saude, esperanças e quantas venturas terrenas ahi ha. Bem sei que todos
+esses crêem no inferno; mas não são regidos por tal crença; nada tem que
+vêr o seu proceder com ella; temem-se de offender Deus, não por que Deus
+é vingativo, mas antes por que Deus perdôa; e esta crença
+verdadeiramente salutar é uma das mais affectivas maneiras de
+amar.
+
+Se o temor leva ao deserto, o amor conduz aos homens; se o temor se
+fecha á chave para dentro de grades, o amor quer sempre abertas as
+portas. Quem envia ao martyrio os missionarios é o amor; quem dá mãe a
+orphãos, filhas aos anciãos, irmãs aos soldados feridos, mestres aos
+aldeãos, amigos aos penitentes, tutores aos innocentes, guias aos
+transviados, é o amor. Todo bem feito n'este mundo é o amor que o faz; e
+este amor, que transborda da alma dos santos, em si mesmo haure sua
+fecundidade e bemfazeja energia.
+
+Permittam-me uma hypothese.
+
+Dê-se que um Concilio ecumenico se ajunta ámanhã, e declara, depois de
+haver invocado o Espirito Santo, que o inferno não é perpetuo, e que a
+palavra «eternidade», applicada ao castigo dos peccadores, significa tão
+sómente pena de infinita duração. Que ha de seguir-se a similhante
+proclamação? Imaginam que a irmã da caridade se retira logo do grabato
+do infermo, e se engolpha nas suas delicias mundanaes? Pensam que o
+benedictino, sacudindo o pó dos livros, se precipita na Bolsa? Que o
+joven lazarista, repatriando-se de regiões remotas, venderia o cajado e
+o breviario para ir ao theatro? Imaginam de boa fé que as irmãs da
+caridade se acabariam para logo? Se pensam isto, que idêa formam dessas
+bonissimas almas que os anjos e os homens admiram?
+
+Consoante ao vosso modo de as julgar, a irmã da caridade diria: Ah! Deus
+não é implacavel? Então fui louca em amal-o. Deus não condemna
+irremissivelmente os peccadores? Louca fui em servil-o. Pois que!
+n'aquella bemaventurada eternidade, que eu tanto anhelava, não hei de
+ouvir os gritos da raiva e o estridor dos dentes dos condemnados? Que é
+d'então dos encantos do paraiso? Meninos, procurem quem os eduque;
+anciãos, procurem quem os alimente. Orphãosinhos desamparados, vós
+pensaveis que nós eramos vossas mães e irmãs; cuidaveis que vos amavamos
+por causa de vosso infortunio, e por vos termos em conta de membros
+soffredores de Jesus Christo, nosso modêlo e nosso Deus. Desenganai-vos!
+desenganai-vos! Não era por amor que vos amparavamos, era por medo que
+vos serviamos como lividas escravas, covardemente flexiveis a todos os
+caprichos de um senhor imperioso. Mas agora, visto dizerem-nos que o
+inferno acaba, buscai quem vos ame e sirva. Cada qual por si. Acabou-se
+o medo; nada de mais sacrificios. Abaixo, tunicas de burel; abaixo, veos
+que nos escondieis volupias da terra, mas não as dôres, abaixo! A pureza
+não é enlevo que nos contenha; gemidos de pobres não nos engodam;
+queremos ter vez na taça do peccado; bebamos, que a vida é curta e o
+inferno ha de acabar.
+
+Não ha conjunctura em que eu ousasse attribuir similhante linguagem ás
+irmãs da caridade. Nunca! ainda quando, em um nefasto dia, fosse abolido
+o dogma salutar da justiça divina; ainda quando pregoassem que
+tudo acaba no cemiterio, e que a sancção da moral está nos gosos e dôres
+deste mundo, as irmãs da caridade não fallariam assim. Se um concilio
+sahisse com aquellas decisões, regulal-o-hiam ellas.
+
+Como é que o dogma do purgatorio, com seus flagellos de duração
+ignorada, sempre consoantes á natureza e circumstancias do peccado, ás
+luzes e costumes do peccador,--como é que este dogma tão racional,
+certo, mysterioso e terrivel, poderia enfraquecer a virtude, e a virtude
+principalmente d'aquellas almas livres, viris e modestas, nas quaes o
+amor tem mais dominio que o medo?
+
+Crêde-me que é isso um demasiado aviltar a lama humana, que mostraes não
+conhecer; crêde-me. Se a Igreja ámanhã proclamasse a temporalidade das
+penas, nenhuma irmã da caridade deslisaria da sua fileira, nem um
+verdadeiro sacerdote abandonaria a sua grei, nem algum missionario
+acharia o Evangelho desataviado de excellencias que ensinar aos
+selvagens, nem a cruz radiaria menos, nem a palma dos martyres seria
+menos de invejar. Vêr-se-hia, ao invez e instantaneamente, encherem-se
+todas as igrejas, e justos e peccadores reunidos ao pé do altar, em um
+mesmo consenso de acção de graças, cantarem do fundo da alma:
+
+_Te-Deum, laudamus, in te, Domine, speravi; non confundebar in æternum._
+
+
+ FIM DA PRIMEIRA PARTE.
+
+
+
+
+ SEGUNDA PARTE
+
+ O INFERNO CONSIDERADO ÁLÉM-TUMULO, OS CONDEMNADOS NA PRESENÇA
+ DE DEUS, NA PRESENÇA DOS SANTOS, E NA PRESENÇA DOS HOMENS.
+
+
+
+
+ CAPITULO PRIMEIRO
+
+ O INFERNO DE PLATÃO
+
+
+Até agora consideramos o inferno sómente em relação aos resultados
+moraes que a crença de sua existencia tem produzido, produz e produzirá
+sempre n'este mundo. Já demonstramos que esta crença, fatal a quantos se
+compenetram d'ella, é inerte para os demais: é inutil aos verdadeiros
+virtuosos, por que não tem que ver com o bem que praticam, e tambem ao
+mal que não fazem; é inutil aos devotos e indifferentes, por que não os
+estorva de commetter basta dóse de peccados mortaes; e pelo que toca aos
+peccados que não commettem, tal abstenção explica-se em louvor d'elles,
+por motivos totalmente independentes das penas infernaes; é inutil para
+os philosophos, visto que estes a não acceitam; é, emfim, inutil aos
+scelerados, por que os não impede de ser scelerados; e, de mais a
+mais concorre, umas vezes, a precipital-os no crime, outras a
+empedernil-os na perversidade.
+
+Falta agora considerar o inferno, não em referencia á terra, mas pelo
+que elle é em si, qual os padres, doutores e mysticos o pintaram, isto
+é, nas suas relações com Deus, com os predestinados e com os reprobos.
+Mas, antes d'isso, cumpre-nos dizer alguma coisa das opiniões de Platão
+ácerca da justiça divina e do inferno. Será isto, a um tempo, entrar no
+assumpto, e responder aos theologos que, á mingua de razões, invocam de
+vontade, n'esta materia, a auctoridade de Ovidio, de Horacio, de
+Lucrecio, de Virgilio, de Hesiodo, de Orpheo, e d'outros escriptores de
+costumes sobre modo extravagantes que, a tal respeito, repetiram as
+idêas do antigo paganismo e nada mais.
+
+A opinião de Platão, que elles mais acintemente allegam, deriva da mesma
+fonte; mas, alumiada pela indole e pura vida d'aquelle philosopho,
+ostenta-se mais respeitavel e seductora.
+
+É mister, no dizer de Platão, que um castigo seja razoavel para ser
+justo; e para que seja razoavel, uma de duas clausulas é precisa: ou que
+o castigo aproveite ao castigado, ou ás testemunhas d'elle.
+
+Partindo d'este principio, Platão não prodigalisa, á feição dos nossos
+theologos, as penas eternas, por quanto, a seu parecer, falta n'ellas a
+grande virtude das penas temporarias. São estas, em verdade,
+dobradamente prestadias, pois que ao mesmo tempo corrigem o
+culpado e admoestam os espectadores; pelo contrario, as outras não
+corrigem o culpado e podem apenas admoestar os vivos que as conhecem:
+logo são menos prestantes e universaes e completas; falta-lhes aquella
+bemfazeja efficacia com que os deuses folgam de dulcificar as obras da
+sua justiça; digamol-o em pouco: são menos divinas.
+
+Eis-ahi porque Platão é aváro das penas eternas e perdoa ao maximo
+numero de peccadores, descontando-lhes os gemidos, lavando-os e
+purificando-os em suas proprias lagrimas, á excepção dos oppressores dos
+povos, de seus cumplices e louvaminheiros que expressamente exclue da
+lei commum. Para estes é elle durissimo; eternisa-lhes as dores;
+todavia, os deuses não podem ser accusados por isso de inutilmente
+rigorosos.
+
+De feito, se a tyrannia é o maior dos crimes, e o unico expiavel, é
+porque a liberdade, que ella anniquila, é o maior bem que os deuses nos
+doaram, unico impossivel de substituir; é porque, na sociedade
+escravisada, cessam os prazeres honestos, a verdadeira gloria, sabedoria
+e virtudes.
+
+Tal é o senso intimo do castigo excepcional que Platão applica aos
+tyrannos. Bastantemente está explicado a superioridade do terrivel
+castigo; mas o que não se explica é a razão da sua perpetuidade. Platão
+suppunha-o eterno porque não sabia, como nós, que a humanidade tem que
+percorrer no tempo um circulo limitado, e que este universo ha de
+acabar. Eternisava elle, por tanto, o supplicio dos tyrannos, por
+suppôr que o seu exemplo devia ser eternamente util na terra. Não ha
+outra maneira de lhe justificar o inferno no seu systema.
+
+Foi, porém, esta justificação do inferno destruida por Christo, o qual
+nos annunciou que todo o genero humano é, como cada homem, um passageiro
+na terra, e que um dia virá em que esta esphera que habitamos, e estes
+astros que nos alumiam, se sumirão no espaço como a poeira que o vento
+da noite espalha. Quem utilisaria com o supplicio dos condemnados,
+quando as testemunhas, em vez de fracos mortaes, fossem santos
+impeccaveis?
+
+O inferno dos theologos não é, pois, identico ao inferno de Platão: o de
+Platão devia ser util sempre; o dos theologos, por fructificar um dia,
+ficaria esteril para sempre. Essa esterilidade já lh'a nós presentimos.
+Indagamos a razão d'uns padecimentos improficuos á victima, ao juiz, a
+todos. O coração protesta contra tal crueldade sem intento e sem
+effeito. Córa a gente só de o crêr. Como que o homem se sente melhor do
+que essa divindade absurda, sedenta sempre de torturas, ebria sempre de
+ira, insensivel sempre, peior que o abutre do Prometheo, que ás vezes,
+ao menos, adormece sobre a preza. Só pensar n'isto gera o atheismo na
+alma.
+
+Erradamente, pois, se invoca, em pró de similhantes castigos, o
+testemunho de Platão, que se horrorisaria d'elles. Platão não condemnava
+o pobre pegureiro por algum roubo desconhecido ou tentativa
+malograda; mas bem póde ser que elle condemnasse inflexivelmente S.
+Clotario, S. Constantino e S. Carlos Magno. Além de que, elle tinha,
+para admittir um inferno sem fim, razões que não temos; e nós, para o
+rejeitarmos, temos razões que elle ignorava.
+
+
+
+
+ CAPITULO SEGUNDO
+
+
+ Opinião dos pagãos sobre a situação e vista interior do inferno
+
+Os antigos situavam o inferno no centro da terra que habitamos, e
+pretendiam ter a este respeito pormenores muito satisfatorios. Os gregos
+e os romanos possuiam um mappa minucioso d'estas regiões subterraneas, a
+ponto de lhes conhecerem os rios, taes como o lodoso Cocyto, o ardente
+Phlegeton, e o invadiavel Acheronte; sabiam até que havia lá fetidas
+lagôas, em uma das quaes estava Tantalo atascado até aos queixos sem
+poder apagar a sêde; sabiam d'uns bosques medonhos em que certas almas
+se lamuriavam, debalde anciando o alvor do dia; conheciam montanhas, que
+outros condemnados, perseguidos pelas furias, em vão se esfalfavam por
+galgar. Contavam a historia de alguns desgraçados assim, e as
+particularidades do seu supplicio. Comtudo, apezar da indole
+inteiramente physica d'aquelles diversos castigos, diziam que os
+pacientes não tinham corpo, que os mortos eram apenas sombras
+intangiveis, bem que animadas, e que o seu maximo tormento era não
+poderem jámais viver vida carnal á luz do nosso sol. Isto contavam-no
+elles com toda a certeza, fiados em pessoas que tinham descido ao
+Tartaro, e de lá tinham voltado. Era conhecida a estrada por onde essas
+pessoas tinham viajado; havia cavernas que os pastores conheciam, poços
+d'onde sahiam vapores lethiferos e por onde se descia ao inferno.
+
+Não eram menos instruidos os egypcios. Em assumpto de horrores visiveis,
+o Amenthi havia emprestado ao Tartaro pavorosos quadros. N'este Amenthi,
+que, segundo consta, quer dizer _paiz da noite_, estão o cão de sete
+cabeças e outros deuses de feitios monstruosos. Ahi se encontra o
+Acheronte e o seu batel, os marneis e as aridas gándaras, e todas as
+figurações do mundo devastado.
+
+Tem setenta e cinco circulos, e á entrada de cada circulo um genio
+armado. Giram as almas d'um circulo n'outro, algumas em fórma humana,
+outras com fórmas immundas, com cabeças de aves de rapina, pellagem de
+fera, e garras de reptil. O pavimento é sangue. Estrondeiam os gemidos.
+Pendem os condemnados dos ganchos á maneira de carneiros no açougue, ao
+passo que outros, ainda palpitantes, são mergulhados em caldeirões
+ferventes. Uns vão fugindo, com os braços estendidos, e a cabeça
+quasi separada do tronco, outros levam nas proprias mãos o coração que
+lhes arrancaram do peito que mostram lanhado.
+
+Conforme nos vamos aproximando das primitivas civilisações, e, por
+consequencia, do primitivo barbarismo, mais o genero humano parece
+deliciar-se no repasto espectaculoso de seus proprios soffrimentos, e o
+mundo invisivel é para elle um espelho de augmento das miserias e
+torturas do mundo visivel.
+
+Cada povo se espelha na imagem que nos deixou de seu inferno, com as
+suas idêas moraes, leis, necessidades, com seus costumes, temperamento e
+clima.
+
+Nas serranias do Thibet, onde rapidamente se passa do mais rigoroso frio
+ao mais suffocante calor, ensinam os lamas que o inferno, situado em
+determinado logar da Asia umas tantas legoas da superficie da terra, é
+formado de dezeseis circulos: oito onde se arde, oito onde se gela.
+
+Nas esplanadas da India, onde não ha inverno, e onde as populações,
+languidas de calor, corruptas pelas liberalidades da terra, apenas tem
+phantasia para inventar prazeres e supplicios, dizem os brahmanes que
+certos sitios do Naraka estão cheios de mosquitos, de serpentes
+venenosas, de escorpiões horriveis, de tigres, de abutres e de todos os
+flagellos proprios d'aquellas regiões ardentes; e que os outros circulos
+são o theatro das mais requintadas torturas que ainda póde conceber a
+malicia d'um rajah arrojado. Ahi os glotões são condemnados a
+comer calháos asperrimos de puas agudas; os luxuriosos são apertados nos
+braços de estatuas de ferro em braza.
+
+Contam pelo miudo todas as circumstancias d'estes infinitos martyrios, e
+taes narrativas fariam impallidecer Ixion sobre a sua roda, Sizipho
+debaixo do seu penedo. Sabem os hindostanicos pelos livros e pela
+tradição em que ponto da sua terra está situado o Naraka e a que
+profundeza se encontra. Mas não podem os mortos encerrados ahi achar os
+limites e as portas d'aquelle inferno.
+
+No inferno dos scandinavos, chamado Nifleim, não ha fogo. Essas antigas
+nações do norte gostam tanto de calor, que não poderam consideral-o um
+supplicio; pelo que o seu inferno é de neve, onde ha o tiritar, a fome,
+a febre, a velhice tremente, as torrentes glaciaes, as tempestades, o
+uivar dos lobos, o pavor que estaleja os dentes, e os cobardes, unicos
+condemnados que ahi vão.
+
+Concluamos esta historia, que daria assumpto para um livro. As reflexões
+moraes que ella suscita vão breve ser applicadas na descripção do nosso
+proprio inferno, que na essencia não se distingue dos infernos pagãos.
+Porém, sendo elle procedente do inferno judaico, paremos diante
+d'este.
+
+
+
+
+ CAPITULO TERCEIRO
+
+
+ Opinião dos judeus ácerca da vista interior do inferno.
+
+Sabido é que o Antigo Testamento é muito sobrio de revelações do
+inferno. Com muito custo se rebuscaram n'elle alguns versiculos
+tendentes a estabelecer aquella crença entre os hebreus, antes da
+destruição do primeiro templo. Os saduceos, que juravam sómente pela
+Biblia, negavam absolutamente a vida futura. Ora, bastantes sabios
+tinham os saduceos em conta de melhores interpretes da Biblia. Dizem
+elles que os judeus, durante as tristezas do captiveiro, souberam da
+bôcca dos magos a immortalidade da alma e a sciencia demonologica.
+Todavia, Abrahão era chaldeo; os filhos de Jacob haviam longo tempo
+estanciado no Egypto;--isto dá a crer que os seus descendentes deviam
+possuir, antes de exilados em Babylonia, parte dos conhecimentos
+que os escripturistas registavam. Não exerciam os prophetas um ensino
+mystico, e não conservava o povo tantas tradições grosseiras
+contemporaneas de Moysés e talvez anteriores? As passagens respigadas na
+escriptura e nomeadamente em Isaias, relativas ao inferno, seriam
+inexplicaveis, se não se lhe referissem; mas seriam egualmente
+inexplicaveis se o povo não tivesse, para intendel-as, mais luz da que
+lhe dão essas passagens. Estes trechos não encerram doutrina secreta dos
+prophetas, respeito á vida futura; contém mais referencias que
+revelações á crença vulgar e formalissima do inferno.
+
+O nome «Géhenna» que lá dão á paragem das expiações futuras, não era
+estrangeiro; era o nome de um vale ao poente de Jerusalem, onde, desde a
+origem de sua historia, iam os hebreus adorar Molock, e sacrificar-lhe
+no fogo victimas humanas, e, ás vezes, seus proprios filhos. N'este
+sitio, tambem denominado _Trophet_, ou «logar horrendo», eram lançados os
+cadaveres dos justiçados e os despojos dos animaes. Este valle maldito,
+sagrado pela superstição aos deuses sanguinarios, juncado de carnes
+putridas e ossadas alvejantes, assombrado de larvas sinistras, resonante
+de gemidos e rugidos, converteu-se para os moradores da cidade santa,
+não já em verdadeiro inferno, mas no symbolo exterior e synonymo de
+inferno. No inferno verdadeiro, ardiam Moloch e os seus idolatras na
+mesma fogueira; os máos eram roidos pelos vermes; e estes vermes eram
+immorredouros como as suas prêas:--idêas positivamente exprimidas
+por Isaias, cap. LXVI, ultimo verso.
+
+É egualmente certo que os rabbinos e tambem o povo, tão pouco iniciados
+até então andavam na mystica philosophia, que, se alguma vez discutiam,
+davam azo a que os prophetas se rissem ou indignassem; porém, depois que
+os rabbinos e o povo se recolheram do captiveiro, as suas noções eram
+mais amplas, e talvez as mesmas que se escondiam nas escólas do Carmelo
+e de Galgala.
+
+Vamos vêr quaes são as noções não contidas no Antigo Testamento, mas
+traçadas manifestamente no Novo, as quaes, quando S. Paulo, S. Mathias,
+S. João e outros apostolos escreviam, já se haviam derramado na Judea,
+quinhentos ou mais annos antes.
+
+Era dividido o Scheol, ou mundo futuro, em duas regiões, que
+comprehendiam o paraiso e a géhenna. A géhenna, objecto d'este estudo,
+era contada no numero das sete creações anteriores ao nosso universo. Á
+similhança do Amenthi egypcio e do Naraka indiatico, era formada de
+diversos circulos, mas só tinha sete, correspondendo aos sete dias do
+Genesis, e aos sete ceos ou sete circulos do paraiso. Havia géhenna
+superior e géhenna inferior. A superior abrangia os seis primeiros
+circulos: era uma especie de purgatorio onde baixavam, depois da morte,
+os peccadores dignos de perdão: uns ficavam no sexto, outros no quinto,
+outros no quarto circulo, outros no primeiro, conforme a gravidade ou
+leveza dos seus peccados. Trezentos e sessenta e cinco degráos,
+correspondentes aos trezentos e sessenta e cinco peccados assignalados
+pelos doutores, formavam escaleiras d'um circulo a outro, e em cada
+circulo era mister passar trezentos e sessenta e cinco dias. Porém, os
+grandes criminosos, abatidos sob o gravame de suas culpas, atravessavam,
+sem poder parar e com a rapidez de pedra arrojada por funda, os seis
+primeiros circulos da spiral, e cahiam no setimo, no fundo abysmo, na
+géhenna inferior, d'onde não ha mais sahir. Á frente de suas legiões ahi
+os recebia Samael, e então lhes começava o perpetuo supplicio, o insulto
+dos diabos, a saudade da vida, o fogo interno e externo, o tormento da
+sêde, e a miragem cruelissima que scintilla aos olhos dos peregrinos
+agonisantes no deserto[5].
+
+Taes eram, em resumo, as opiniões da synagoga ácerca do inferno.
+Entretanto os essenios, seita monastica celibataria que vivia em commum
+para espiritualmente se reproduzir, professavam outra. O inferno
+d'elles, coisa notavel, similhava ao dos monges thibetanos; os
+soffrimentos ahi eram calor e frio, e todas as intemperies das estações
+em climas deseguaes.
+
+Agora vejamos o inferno dos nossos theologos.
+
+ [5] O inferno mahometano é copia do judaico, mas copia singularmente
+ alterada. O anjo Trakek é quem lá governa. Ha lá chuva de peçonha.
+ Chama-se Géhenna e divide-se em sete circulos. Porém, exceptuado o
+ primeiro circulo, reservado exclusivamente para os musulmanos, e o
+ ultimo, destinado aos hypocritas, cada qual dos outros é pertencente
+ a cada uma das religiões diversas que precederam o islamismo. Estes
+ hereticos estão portanto em andares sobrepostos, quasi por ordem de
+ sua antiguidade: os christãos no segundo, os judeus no terceiro, os
+ sabeos no quarto, os guebros no quinto, os idolatras no sexto.
+ D'estes seis ultimos ninguem sahe: ahi é o verdadeiro inferno; mas o
+ primeiro, o circulo de honra dos crentes, é purgatorio, no dizer dos
+ doutores.
+
+
+
+
+ CAPITULO QUARTO
+
+ O INFERNO DOS THEOLOGOS
+
+ POR DUAS FACES VAMOS VER O NOSSO INFERNO;
+ PRIMEIRA A MATERIAL, DEPOIS A MORAL
+
+
+ I
+
+ O inferno material
+
+São puros espiritos os demonios, e tambem puros espiritos devem
+considerar-se os condemnados no inferno, por quanto só a alma d'elles lá
+desceu, e os ossos restituidos á terra se transformam continuamente em
+hervaçaes, plantas, fructos, mineraes, liquidos, desfigurando-se nas
+continuadas methamorphoses da materia.
+
+Tanto, porém, os condemnados como os santos hão-de resuscitar no dia
+final e reassumir para nunca mais o deixar um corpo carnal, o mesmo
+corpo com o qual passaram entre os vivos.
+
+A distincção d'uns a outros é que os eleitos hão de resurgir em corpos
+purificados e radiosos, e os condemnados em corpos poluidos e afeiados
+pela culpa. E de então ao diante não haverá sómente puros
+espiritos no inferno; mas sim homens como nós. É por consequencia o
+inferno uma localidade physica, geographica e material, visto que hão de
+povoal-o creaturas terrestres, dotadas de pés, mãos, bôcca, lingua,
+dentes, orelhas, olhos como os nossos, veias com sangue, e nervos
+sensiveis á dor.
+
+Onde está situado este inferno? Alguns doutores situam-no nas entranhas
+da terra; outros em certo planeta que eu não sei; mas a questão nenhum
+concilio ainda a resolveu. A este respeito é tudo conjecturas; o mais
+que se affirma é que o inferno, seja onde fôr, é um mundo composto de
+elementos materiaes, mas não tem sol, nem lua, nem estrellas, e é mais
+triste e inhospito, e mais ermo de todo o germen e apparencia de bem, do
+que todos os pontos inhabitaveis do mundo em que peccamos.
+
+Não se arriscam os discretos theologos a pintar, á similhança dos
+egypicos, indostanicos, e gregos, o immenso horror d'essa mansão;
+limitam-se a dar-nos como amostra o pouco que a escriptura denuncia, o
+lago de fogo, e o enxofre do Apocalypse, e mais os vermes de Isaias,
+aquelles vermes eternamente enxameando sobre as carcaças de Thophet, e
+os demonios atormentando os homens que perverteram, e os homens chorando
+e ringindo os dentes, segundo a expressão dos evangelistas.
+
+Santo Agostinho não concede que aquellas penas physicas sejam simples
+imagens das penas moraes; contempla em um verdadeiro lago de
+enxofre vermes e serpentes verdadeiras encarniçadas sobre todas as
+partes dos condemnados, exacerbando com as suas mordeduras as ulcerações
+do fogo. Quer, conforme um verso de S. Marcos, que este estranho fogo,
+posto que material como o nosso, e actuando sobre corpos materiaes, os
+conservará como o sal conserva a carne das victimas sempre sacrificadas
+e sempre viventes, sentirão a dôr d'aquelle fogo que queima sem
+destruir, e lhes filtra aos musculos, saturando-lhes os membros, desde a
+medulla dos ossos e as pupillas dos olhos até as mais occultas e
+sensiveis fibras do seu ser.
+
+Se elles podessem submergir-se na cratera d'um vulcão, sentir-se-hiam
+ahi refrigerados e consolados.
+
+D'esta arte fallam com toda a segurança os mais timidos, os mais
+discretos e reservados theologos; não negam, porém, que no inferno haja
+outros supplicios corporaes; sómente dizem que não tem d'elles um
+sufficiente conhecimento, ou pelo menos tão positivo como aquelle que
+receberam ácerca do horrivel supplicio do fogo, e do afflictivo
+supplicio dos vermes. Ha no entanto theologos mais audazes e illustrados
+que nos dão descripções mais miudas, variadas, e completas do inferno;
+e, bem que não saibam em que local do espaço tal inferno esteja,
+consta-lhes que alguns santos o viram.
+
+De certo que estes santos lá não foram com a lyra em punho, como Orpheo,
+ou com a espada na mão, á similhança de Ulysses: baixaram lá
+arrebatados em espirito. D'este numero é Santa Thereza.
+
+Quem lê a relação d'esta santa cuidará que no inferno ha cidades. Pelo
+menos lá viu ella uma especie de viella longa e estreita como ha tantas
+nas cidades antigas; entrou caminhando horrorisada sobre um terreno
+lamacento e fetido onde rastejavam reptis monstruosos; mas foi retida em
+seu transito por uma parede que atravancava a viella; e n'esta parede
+havia um nicho onde Santa Thereza se metteu sem saber como. Disse ella
+que este logar lhe estava destinado, se abusasse emquanto viva das
+graças que Deus difundia sobre a sua cella d'Avila. E, bem que ella se
+anichasse com maravilhosa facilidade n'aquella guarita de pedra, não
+podia nem assentar-se, nem deitar-se, nem estar de pé, nem safar-se; que
+estas horriveis paredes, apertando-a, envolviam-na, angustiavam-na, como
+se fossem animadas. Parecia-lhe que a abafavam, que a estrangulavam, e
+ao mesmo tempo a estripavam e a faziam pedaços.
+
+E sentia-se arder, e não havia genero de afflição que não
+experimentasse. Esperança de soccorro, nenhuma. Á volta d'ella tudo
+escuro; mas ainda assim, atravez d'essas trevas, entrevia, com grande
+espanto, a hedionda rua por onde tinha passado com toda a sua immunda
+visinhança: espectaculo que lhe era tão intoleravel como as intalladelas
+da prisão.
+
+Ora isto de certo era apenas um cantinho do inferno.
+
+Outros viajantes espirituaes foram mais obsequiados. Houve tal que viu
+no inferno grandes cidades a arder, Babylonia e Ninive, e até Roma, com
+os seus palacios e templos abrazados, e os habitantes acorrentados,
+mercadejando no balcão, padres misturados com meretrizes nas salas dos
+festins, hurrando nas suas poltronas d'onde não podiam arrancar-se, e
+levando aos beiços, para apagar a sede, copos que golphavam lavaredas;
+validos em joelhos sobre almadraques ardentes, com as mãos postas, e
+principes vertendo sobre elles devorante lava d'ouro fundido. Outros
+viram no inferno descampados sem limites, cavados e semeados por
+lavradores famelicos. E d'essas plantas fumegantes de suor, como nenhum
+fructo vingasse, os lavradores devoravam-se uns aos outros; e, depois,
+tantos quantos tinham sido, magros e famintos do mesmo modo,
+dispersavam-se em bandos pelos horisontes fóra em cata de terras mais
+ditosas, e eram logo substituidos por outras colonias errantes de
+condemnados.
+
+Houve quem visse no inferno serranias cavadas de abysmos, de florestas
+gementes, poços sem agua, fontes de lagrimas, regatos de sangue,
+turbilhões de neve em desertos de gelo, barcos desesperados vogando em
+mar sem praia. Em fim lá viram quanto os pagãos tinham visto, o reflexo
+lugubre da terra, uma sombra incommensuravelmente augmentada de suas
+miserias, os seus naturaes soffrimentos eternisados, entrando
+n'isto masmorras, forcas, e os instrumentos de tortura que as nossas
+proprias mãos forjaram.
+
+Ha com effeito lá n'essas profundezas demonios que se fazem corporeos,
+para mais a preceito atormentarem os homens em suas carnes. Uns tem azas
+de morcego, pontas, coiraças escamosas, griphos e agudissimos dentes.
+Temol-os visto pintados, armados de espadas, de forcados, de tenazes
+ardentes, de serras, de grelhas, de folles, de clavas, empregando tudo
+isto durante a eternidade n'uma especie de açougue e cosinha da carne
+humana. Ha outros transformados em leões, e viboras enormes, arrastando
+as prêas em solitarias cavernas.
+
+Alguns desfiguram-se em corvos para arrancar os olhos a certos
+padecentes, em quanto outros se transformam em dragões volateis, e vão
+carregados d'almas sanguentas e lastimosas atravez de tenebrosos
+espaços, e as precipitam no lago de enxofre. Além se vê nuvens de
+gafanhotos, e de agigantados escorpiões, cuja vista arripia, cujo cheiro
+enoja, cujo menor contacto convulsiona. Acolá estão os monstros
+polycephalos abrindo vorazes fauces, sacudindo as crinas formadas de
+aspides, triturando os condemnados entre os seus queixos sangrentos, e
+vomitando-os logo mastigados, mas ainda vivos, porque são immortaes.
+
+Estes demonios de fórma sensivel, recordando tão ao vivo os deoses do
+Amenthi e do Tartaro e os idolos que os phenicios, os moabitas e outros
+gentios visinhos da Judea adoravam, estes demonios não funccionam
+á toa; cada qual tem seu officio e sua tarefa: o mal que fazem no
+inferno corresponde ao mal que elles inspiraram e fizeram commetter
+n'este mundo. São os condemnados punidos em todos os sentidos e orgãos
+porque offenderam Deus por todos os orgãos e sentidos. Os comilões são
+punidos de certa maneira pelos demonios da intemperança, e d'outra
+maneira os calaceiros pelos demonios da preguiça, e ainda d'outra
+maneira os lascivos pelos demonios da sensualidade; em fim, são tantas
+as maneiras quantas as variedades de peccar. Dizem que elles até na
+fogueira terão frio, e no gelo se sentirão arder; estarão ávidos de
+descanso e irrequietos; sempre com fome, sempre com sede, e mil vezes
+mais cansados que o escravo no fim do dia, mais doentes que os
+moribundos, mais lacerados, mais escalavrados, mais lazaros que os
+martyres, e assim para todo o sempre.
+
+Nenhum demonio se desgosta nem desgostará jámais do seu terrivel
+officio; n'esta parte são elles disciplinados a ponto, e fidelissimos na
+execução das ordens vingativas que receberam. Se não fosse isso, que
+seria do inferno? Se os demonios tivessem rixas entre si ou se
+fatigassem, os pacientes descansariam. Mas nem uns descansam, nem os
+outros se desavêm; e posto que sejam máos e muitissimos, os demonios
+harmonisam-se d'um cabo a outro do abysmo, por tanta maneira que nunca
+na terra se viram nações mais submissas a seus principes, exercitos mais
+doceis a seus generaes, communidades fradescas mais obedientes a
+seus prelados. Nada se sabe da ralé dos demonios, d'essa canalha de
+espiritos villãos que formam legiões de vampiros, de sapos, de
+escorpiões, de corvos, de hydras, de salamandras e outra bicharia sem
+nome que constituem a zoologia das regiões infernaes; mas são conhecidos
+de nome muitos principes que commandam aquellas legiões, entre outros
+Belphegor, o demonio da luxuria, Abbaddon ou Apollyon, o demonio da
+carnificina, Beelzebuth, o demonio dos desejos impuros, ou o principe
+das moscas geradoras da podridão, e Mammou, o demonio da avareza, e
+Moloch, e Belial, e Baalgad, e Astaroth, e outros mais, e sobre todos o
+chefe universal, o sombrio archanjo que no céo se chamava Lucifer, e no
+inferno se chama Satan.
+
+Eis aqui, em summa, a idêa que se nos dá do inferno, observado em sua
+natureza physica, e nas penas corporaes que lá se padecem. Lêde os
+escriptos dos padres e antigos doutores, interrogae as piedosas
+legendas, examinae as esculpturas e paineis das nossas egrejas, attentae
+o ouvido no que se diz em nossos pulpitos e sabereis muitas outras
+coisas.
+
+
+ II
+
+ Reflexões sobre as penas materiaes dos condemnados
+
+De qualquer modo que as figuremos, e quando mesmo por piedade ou
+qualquer outra razão se reduzissem só á acção do fogo, estas penas
+materiaes não poderiam ser eternas, porque, se a alma é immortal e póde
+soffrer sempre, não succede o mesmo ao seu involtorio terrestre: corpos
+de carne, á feição dos nossos, são de seu natural incapazes de resistir
+a similhantes agentes de destruição.
+
+É um milagre a resurreição dos corpos; mas faz-se mister um segundo
+milagre para dar a estes corpos mortaes, já usados pelos transitorios
+attritos da vida, e de mais a mais aniquillados, a virtude de subsistir,
+sem se dissolverem, na fornalha onde metaes se evaporassem. Diga-se
+embora que a alma é algoz de si mesma, que Deus a não persegue, mas que
+a desampara pelo estado desgraçado que ella escolheu: isso ainda póde
+rigorosamente comprehender-se, posto que o desamparo eterno d'um ser
+desvairado e padecente pareça pouco conforme á bondade do Creador; porém
+o que se diz da alma e das penas espirituaes não póde por modo algum ser
+dito a respeito dos corpos e das penas corporaes; que para eternisar as
+penas corporaes não basta que Deus retire a sua mão; pelo
+contrario, é forçoso que elle a mostre, que intervenha, que opere, sem o
+que o corpo succumbiria.
+
+Conjecturaram, pois, os theologos que Deus effectivamente opera, em
+seguida á resurreição, o segundo milagre de que fallamos. Primeiro,
+exhuma do sepulchro os corpos de argila que lá se haviam desfeito;
+tira-os taes quaes lá tinham entrado com as suas nativas infermidades e
+as degradações successivas da idade, da doença e do vicio, decrepitos,
+infesados, gotosos, cheios de precisões, sensiveis á ferroada d'uma
+abelha, cobertos das macerações que lhes fizeram o rossar da vida e da
+morte: eis o primeiro milagre. Depois, a estes corpos alquebrados,
+prestes a reverter ao pó d'onde surgiram, inflige uma propriedade que
+não tinham: a immortalidade, o mesmo dom que n'um lance de colera, ou,
+se o quereis, n'um lance de misericordia, elle tinha subtrahido a Adão
+quando o expulsou do Eden: eis o segundo milagre. Quando Adão era
+immortal, era invulneravel; e, quando cessou de ser invulneravel,
+tornou-se mortal. Á dôr seguiu-se o morrer.
+
+A resurreição, portanto, nem nos repõe nas condições physicas do homem
+innocente, nem nas condições physicas do homem culpado; é uma
+resurreição das nossas miserias sómente; mas com sobrecarga de novas
+miserias, infinitamente mais horriveis; é, até certo ponto, uma
+verdadeira creação, e mais maliciosa que imaginação alguma ainda
+concebeu. Dir-se-ha que Deus reconsidera e varia, quando
+accrescenta aos tormentos espirituaes dos peccadores tormentos corporaes
+de duração infinda, e muda de repente as leis e as propriedades por elle
+prescriptas ás composições da materia desde a origem d'ella. Resuscita
+carnes doentes e corruptas, e, atando com indesatavel nó elementos que
+tendem a separar-se, mantém e perpetúa, contra a ordem natural, aquella
+podridão vivente, que é posta no fogo, não para se depurar, mas para ser
+conservada qual é, sensivel, padecente, ardente e immortal.
+
+Por amor d'este milagre é Deus arvorado em um dos algozes do inferno;
+por que, se os condemnados só a si podem imputar seus males espirituaes,
+tambem não tem a quem imputar os outros senão a Deus. Já não era pouco
+abandonal-os, depois de mortos, á tristeza, ao remorso e a quantas
+agonias sente a alma que perdeu o bem supremo; mas ha ahi peor: irá
+Deus, no dizer dos theologos, procural-os nas trevas do seu abysmo;
+chamal-os-ha por instantes á luz, não para allivial-os, mas sim para
+vestil-os d'um corpo horrido, chammejante, immorredouro, e n'este acto
+os abandonará definitivamente. Mas não será isso ainda abandono, pois
+que céo, terra e inferno não subsistem senão por um acto permanente da
+divina vontade sempre activa. É força, então, que Deus os tenha sempre
+de sua mão, para obstar que o fogo se apague e os corpos se consumam, a
+fim de que esses desgraçados immortaes contribuam, com a
+perennidade de seu supplicio, á edificação dos predestinados.
+
+Vem a ponto um episodio da historia da Egreja, que, máo grado nosso, nos
+veio á lembrança. Seja-me permittido recordarvo-lo.
+
+
+ III
+
+ Os martyres de Nero
+
+Foi Nero um poderoso imperador. Galardoava esplendidamente os escravos
+que o serviam; e, ao mesmo tempo, incutia-lhes medo salutar com o seu
+systema de tratar inimigos. Queimando Roma a fim de a reedificar mais
+formosa, assacou o crime aos christãos, gente indocil que o não
+bajulava, e cria em justiça mais amavel que a d'elle, e por esta e
+outras razões desagradava á plebe idólatra. O processo foi summario; a
+sentença de morte, e a execução espantosas, como vai vêr-se.
+Embrearam-os de resina, amarraram-os a postes de ferro, cravados
+distantes entre si nos bellos jardins de Sallustio, onde eram celebrados
+então os jogos nocturnos. Era já noite, quando as portas foram abertas á
+multidão. Eis que sôa o clangor das trombetas, e logo os verdugos
+infileirados chegaram lume ás tunicas dos christãos. Callam-se as
+trombetas; restrugem de todos os lados gritos estridentes. A subitas,
+arvores, flôres, estatuas, escadozes marmoreos, tanques, repuxos,
+tudo resplandeceu. Chega Cezar na sua carroça, escoltado de vistosa
+côrte, derramando, por sobre as turbas aterradas e jubilosas do seu
+sorriso, ouro e perolas. Servem-se banquetes. Dançam as filhas do
+oriente, em quanto os tocadores de alaude e cantores confundem a dôce
+melodia de seus concertos com os applausos do povo fiel e os derradeiros
+arrancos dos christãos que vasquejavam em suas tunicas ardentes.
+
+Pouco durou aquelle instructivo espectaculo. N'este mundo, as festas
+mais bisarras são curtas. Felizmente para os martyres, Nero não era
+Deus. Diz-se, porém: eil-os, os confessores de Christo apremiados, á
+volta de um Deus que dá ares de Nero, e como contemplando, á maneira do
+Cezar, em festa sem fim, milhares de creaturas humanas, estorcendo-se e
+clamando nas lavaredas, tochas ullulantes, fachos inextinguiveis,
+testemunho assás consolativo da superioridade do rei do céo sobre os
+regulos da terra.
+
+Haja paciencia, que ainda falta o mais essencial. Aquellas penas
+corporaes são quasi nada. Repugnantissimas que ellas se nos figurem, são
+essas, ainda assim, a menos repugnante cousa que o inferno
+encerra.
+
+
+ IV
+
+ O inferno espiritual
+
+Em que meditam esses pobres entes atormentados? Que sentimentos os
+dominam? Que fazem elles, durante as suas inexpremiveis torturas, n'esse
+tempo illimitado em que os segundos são seculos, e os seculos menos que
+segundos? Os theologos tem investigado estas cousas; e, presupposto
+perpetuo o inferno, não ha dous modos de resolver aquellas perguntas.
+Uma breve reflexão vos dará a resposta que os theologos tem dado
+perfeitamente conforme a todas as tradições.
+
+Imaginai um lupanar de embriagados, um hospital de loucos, um covil de
+assassinos, uma caverna de ladrões, um bordel immundo; soltai ao mesmo
+tempo todos os moradores d'esses abominaveis logares, e tereis uma
+optima pintura do inferno espiritual, isto é, o estado mental dos
+condemnados. Novos e velhos, homens e mulheres, embaralhados todos,
+apostrophando, jurando, blasphemando, eternamente ebrios, eternamente
+vorazes, eternamente lascivos, eternamente invejosos e crueis,
+eternamente impios, eternamente sandeus.
+
+Como as sombras do Tartaro, choram o nosso sol, as sombras, as frescas
+ribeiras, os pampanos dos nossos vinhedos, e todos os prazeres sensuaes
+de que ávidamente estão sequiosos e privados. Os demonios, que os
+castigam por seus passados prazeres, alimentam n'elles inuteis saudades,
+e insensatos desejos, dos quaes nada póde distrahil-os, nem sequer as
+dôres corporaes, e agudissimas de que são atormentados todos os seus
+membros. N'isto, de mais a mais, os demonios o que fazem é executar as
+sentenças do soberano juiz--sentença promulgada no céo, pela qual são os
+reprobos intellectualmente torturados; pois diz Santo Agostinho no seu
+_Commentario aos psalmos_: faz-se mister que tudo quanto deliciou os
+homens, quando peccaram, se converta em instrumento do Senhor quando
+castiga. O desejo saciado é, pois, punido com o desejo insaciavel.
+
+Não imaginem que no inferno haja uma só alma que deplore a sua
+innocencia baptismal, e o céo promettido que ella perdeu, e a companhia
+dos anjos, e a bemaventurança dos eleitos. Os precitos fogem de Deus,
+não o procuram; viram-no no dia do juizo, tem-no presente sempre nos
+tormentos que soffrem. De certo os angustia estar tão longe d'elle; mas
+é angustia de raiva que não tem nada que vêr com as saudades e anceios
+do amor.
+
+Não pensem que entre as alegrias cuja perda lá nos dilacera o coração,
+estejam os castos prazeres do lar, a pratica dos anciãos, as meiguices
+das creanças, a ternura dos irmãos, a dôce confiança dos amigos, as
+consolações do trabalho e as recompensas do estudo. Verdadeiras alegrias
+eram aquellas de certo para os peccadores; mas os condemnados nem
+as desejam, nem d'ellas se lembram; abasta-lhes a sciencia que tem; e,
+pelo que toca ás affeições terrestres, mortas são todas: resta-lhes o
+odio sómente. A mãe que está no inferno, se tem um filho no paraizo,
+abomina-o, e elle a ella; se o tem no inferno, abomina-o tambem e é
+correspondida por igual, e, se o tem vivo no mundo a choral-a, da mesma
+sorte o abomina. Filhos, pae, marido, irmãos e irmãs, amigos, tudo lhe é
+igualmente odioso.
+
+O que os condemnados mais ardentemente desejam é coisa que se beba e se
+coma, e além d'isso as delicias sensuaes e a bruteza do coito carnal.
+São de tal sorte as suas disposições em meio de tantos soffrimentos que,
+se um só d'esses condemnados podesse por um momento voltar á vida,
+escandalisaria um alcouce. Entretanto, confessam a justiça da
+condemnação que os fere; mas é para amaldiçoal-a; e, bem que não sejam
+atheus, por que tal não podem ser em similhante lugar, são mais
+scelerados, ignobeis, impudentes e perversos do que poderia sêl-o uma
+nação de atheus. Uma nação de atheus, não sendo composta de immortaes,
+temer-se-hia do nada como d'um objecto de medo ou esperança, e tiraria
+d'ahi certas regras de proceder que bastariam a tornal-a menos miseravel
+e brutal; mas no inferno não ha que temer nem que esperar. Ha ahi um
+retouçar-se na dôr, em horrendos sonhos, que exulceram os appetites sem
+os satisfazer. Ahi é tudo obscenidade, egoismo, opprobrio,
+hediondez, a humanidade disforme, depravadissima, impudentissima,
+sem piedade, sem consciencia.
+
+A blasphemia é a unica distincção que separa os condemnados das feras
+assanhadas, e que os levanta algum tanto acima dos porcos, dos lobos,
+dos macacos, dos toiros, dos bodes e dos reptis. É logo a blasphemia o
+unico symptoma de razão que se lhes deixa, a sua unica e ultima
+grandeza! Os irracionaes nem quando soffrem blasphemam: a blasphemia é
+um acto intellectual que n'este mundo degrada, e no inferno exalta. Um
+condemnado que louvasse a Deus seria um santo, cujo supplicio cedo ou
+tarde acabaria; mas, sendo interminavel o supplicio d'elle e impossiveis
+os santos n'este abysmo, o condemnado que não blasphemasse seria um
+bruto infecto.
+
+É portanto de justiça que os façam blasphemar; d'isso inferimos que
+elles tem alma; e d'esse modo a mostram na unica maneira que podem; e,
+se não podem satisfazer a vil concupiscencia que os devora, desforram-se
+saboreando a pleno peito o agro prazer de insultar o Deus que os pune
+por tão singular maneira.
+
+
+ V
+
+ Continuação do inferno espiritual
+
+Havendo só o inferno, já se vê que n'esta infame companhia os theologos
+misturam, como iguaes, qualquer homem honrado que morra na incredulidade
+dos mysterios. Isto lhe basta para ser condemnado. E com esse vae tambem
+a viuva pobre, que, em vez de ir á egreja no domingo, remenda os
+fatinhos das suas creanças: tambem não é preciso mais para ser
+condemnada.
+
+Tambem lá vão, á conta de não jejuarem, nossas mães e irmãs, mulheres e
+filhos: pois não é bastante razão para ir ao inferno quem come um bocado
+de pão com certo prazer?
+
+Este inferno, povoado de patifes incorrigiveis, é uma escóla: ninguem
+ahi se corrige, mas aprende cada qual a conhecer-se, e já não é pouco.
+Quem quer que ahi desce, logo que ahi está, é igual aos devassos, aos
+parricidas e aos traidores. Quem ahi se vê tão diverso do que se
+imaginava n'este mundo, aterra-se de si proprio. O bom que cada qual
+tinha em si quando vivia, com a vida se desvaneceu; e o mal que era
+apenas uma imperceptivel mancha, lavrou como a gangrena, de tal arte que
+alma e corpo é tudo uma chaga.
+
+Que o homem se perdesse por um pomo ou por um imperio, por um beijo ou
+por um homicidio, o resultado é o mesmo: ninguem é condemnado com
+attenuantes. Não procureis no inferno um companheiro menos corrompido do
+que os outros, que se respeite ou que seja respeitavel por qualquer
+motivo; é coisa que lá não ha; ninguem conserva ahi vislumbre das
+qualidades que na terra se respeitam. Ou vades para a direita ou para a
+esquerda, para cima ou para baixo, girai em todas as direcções d'esse
+abysmo, que não achareis germen, relampago, sombra de virtude. Aquelles
+sabios cujas vigilias opulentaram os homens, e não deixaram dinheiro com
+que os enterrassem; aquelles philosophos estoicos, legisladores,
+magistrados, guerreiros illustres, e soldados obscuros mortos nas
+fronteiras; aquelles rigidos protestantes que psalmodeavam nas
+lavaredas, aquellas esposas extremosas, e as noivas cuja sepultura é
+juncada de rosas brancas--todos esses que não morreram em graça--de
+qualquer modo que pensassem e procedessem n'este mundo, os seus costumes
+e pensamentos são forçosamente os do outro. Os que lhe sabem a historia,
+e os amaram e lamentam, não hão de reconhecel-os. Eil-os preza de todos
+os vicios, paixões, e desejos dos condemnados. Grandes homens, sabios
+heroes, martyres, mães veneradas, donzellas castas, artistas sobrios e
+modestos, eil-os em côro de impios, fallando como ebrios, cynicos e
+assassinos. Abandonou-os Deus todos a um tempo, a um tempo os pune
+todos; o mesmo ferro lhes abrasa os corpos e a mesma febre lhes
+alanceia as almas.
+
+Ahi está o inferno espiritual.
+
+
+ VI
+
+ Da immortalidade das penas espirituais do inferno.
+
+É pois o inferno um máo logar, trescalando ao vicio e ao crime. Os
+demonios, guardas d'este máo logar, e professos na corrupção, usam do
+imperio que sobre os hospedes lhes é permittido, corrompendo-os
+incessantemente e sem lucta nem obstaculo.
+
+É propriedade d'elles a alma dos condemnados. Deus, entregando-lh'a para
+que elles façam d'ella o que poderem, não lh'a disputa e bastantemente
+sabe o que elles farão.
+
+Se as adições espirituaes dos condemnados fossem sómente crueis, seria
+isso bastante para nos auctorisar a duvidar da eternidade d'ellas; mas,
+além de crueis, impuras, é um direito, é até um dever negal-as. É certo
+que a natureza algumas vezes inflige ao homem esses impuros
+soffrimentos; mas são transitorios: uns morrem, alguns curam-se, e
+outros endoidecem: é outro genero de morte. Mas no inferno os furores
+sensuaes, os appetites phreneticos não matam nem remedeiam, não são
+venenos nem balsamos, são penas sem fructo e sem fim.
+
+«Que condemnação, diz S. Bernardo, a da vontade amarrada á precisão de
+crêr o _mal_ e não crêr o _bem_; por tal modo que de qualquer maneira
+que se mova, é sempre _criminosa_ e miseravelmente! Não ha de gozar
+jámais os prazeres _culpaveis_ que deseja; e as _privações_ que ella não
+quer é as que ella ha de ter por toda a eternidade.»
+
+Crêr o mal e não crêr o bem, é logo o resultado d'aquella condemnação.
+Por sentença do juiz, e de que juiz! é que lá eternamente se anceiam
+impudicos prazeres, ao mesmo passo que o espirito soffre a privação dos
+sentidos. Montesquieu, que, a fallar verdade, não era padre da Igreja
+nem monge, formava outra idêa da natureza moral das penas destinadas a
+servir de sancção aos accordãos da justiça da terra propriamente. Lêde
+no _Espirito das leis_ certo capitulo intitulado: _Da violação do pudôr,
+no castigo dos crimes_. Assim começa o capitulo: «Ha regras de pudôr
+observadas em quasi todas as nações do mundo: absurdo seria violal-as no
+castigo dos crimes, o qual deve sempre ter em vista o restabelecimento
+da ordem.»
+
+Ainda que Montesquieu m'o não dissesse, a cousa é evidente por si.
+Satrapas em delirio, Cezares devassos, tyrannos corruptissimos, póde ser
+que alguma vez enviassem uma rapariga desobediente mas honesta a um
+bordel, e que, ajuntando calculadamente a indecencia ao castigo,
+convertessem a excitação dos sentidos em supplicio legal, deshonrando a
+lei para deshonrar o inimigo. Em todos os paizes civilisados
+castiga-se para restabelecer a ordem material e a moral quanto
+póde ser.
+
+Cuida-se em esquivar o culpado ás seducções que o perderam; impedem-no
+de ser nocivo a si e aos outros; privam-no de satisfazer as paixões, não
+com o intento de lh'as irritar, mas de enfraquecel-as; sequestram-no da
+companhia das pessoas de bem, não para que as odeie, mas para que as
+chore; deseja-se que a sua maior afllicção consista em havel-as
+offendido, e que o arrependimento o rehabilite para tornar ao seio
+d'ellas; protegem-no contra a injuria; enviam-lhe a visita de caridade
+que o instrue, consola e ás vezes restaura. Estas conversões são raras
+certamente; quasi todas as nossas prisões são infectas; ahi a soledade
+corrompe; e a promiscuidade é contagiosa. Sabem-no os legisladores, e os
+juizes tambem. Não se diz, porém, que assim o querem juizes e
+legisladores? E, na verdade, querem-no assim!? Que se nos depara ahi
+senão o stygma da imperfeição das nossas obras, e a pequenez de recursos
+em comparação dos desejos? Mas nem por isso nos sentimos descrer dos
+intimos anhelos que nos incitam a buscar nas penas meio de restaurar a
+ordem perturbada, onde quer que seja, e até na alma do criminoso. O que
+a mesma imperfeição nos aconselha é que prosigam sem descanso no
+intento, que será completamente realisado no mundo em que a justiça é
+perfeita, e o poder do principe igual á sua justiça.
+
+Não nos mostrem, pois, no inferno, uma galé immensa, repleta de
+impudentes scelerados, porque vos será perguntado se Deus não póde, mais
+que os homens, vencer corações rebeldes, ou se mais lhe praz exercitar
+sua omnipotencia a perpetuar um feio espectaculo que nós, philosophos e
+christãos, bem quizeramos que fosse banido.
+
+Esta concepção do inferno, tão ignobil quanto atroz, data visivelmente
+de tempos barbaros, em que a vida physica afogava a moral, e a justiça
+não transparecia aos olhos propriamente do sabio senão atravez da nuvem
+sanguinosa da vingança.
+
+Punir eternamente o vicio com o vicio, a immoralidade com a
+immoralidade! que projecto! e, na execução d'elle, que prodigio! Pois
+não basta justiçar o homem no corpo? Será preciso que o aváro, durante a
+tortura, arda de saudades dos thesouros que tantos cuidados lhe custaram
+e tantas dôres grangearam? Ha de o comilão, deitado sobre grelhas em
+brasa estar a pensar sempre na cosinha e na garrafeira? O voluptuoso,
+comido de chammas e de bichos, ha de estar sempre a lagrimar pelas
+parceiras? Acham isto possivel? Sendo assim, no inferno sabe-se melhor
+do que na terra o que valem riquezas, prazeres, divisas, veneras,
+medalhas, sceptro e arminhos. Ahi, ser-se-ha, de facto, blasphemo, e
+intencionalmente devasso, adultero, usurario, despota, valido, mas tudo
+isto sobre brasas? Havemos de confessar que o local não é dos melhores
+para taes desejos, e que só por milagre, em tal sitio e por muito tempo,
+possa haver similhantes delirios. Ora ahi vedes que se attribue a
+Deus o milagre de fixar a alma dos condemnados sobre impuras imagens,
+immobilisando-as em appetites que o offendem. É o peccado eternisado, e
+eternisado por Deus. Não cabe a responsabilidade d'isso aos condemnados.
+Não os accuseis; lamentai-os; que esses infelizes não são viciosos de
+vontade propria: é a lei que os obriga.
+
+
+ VII
+
+ Ultimas considerações ácerca do inferno theologico
+
+Affirmam os theologos que a liberdade é um mero accidente da nossa vida
+mortal, e que, além da campa, se perde, tomando-nol-a Deus que nol-a
+dera, e quebrando entre nossas mãos, no momento da morte, aquelle
+instrumento de nossas provações. Os justos são esbulhados d'ella para
+permanecerem justos, e os máos tambem para ficarem máos. Diz-se que
+Satan prevaricou por que era livre; e, depois da queda de Satan, no céo
+não houve mais creaturas livres, nem tão pouco no inferno, onde o
+proprio archanjo está acorrentado ao peccado.
+
+Não são, por isso, livres os condemnados. Pensam, amam, desejam; mas não
+lhes é concedido meditar, amar e querer senão maldades. Soffrem e sabem
+o porquê; mas não podem aproveitar-se do que sabem e do que soffrem.
+Conhecem os seus crimes; porém, não se arrependem, porque o
+arrependimento é um bem, e o bem não podem elles sentil-o. Se peccam
+sempre, é que a tanto são obrigados por sentença. Conservam razão e
+sentidos; mas consciencia não a tem, não discernem entre justo e
+injusto; não são senhores de seus actos; soffrem avassalados pelos
+sentidos, apezar da razão.
+
+Esta escravidão absoluta, irremediavel e eterna, explica
+superabundantemente a immoralidade e o odioso de suas penas. Pois se de
+todo em todo lhes é impossivel a conversão, inutil e deshumano é o
+castigo corporal que os tortura.
+
+Se não fosse a perpetuidade d'esta escravidão, seriam intelligiveis a
+fome, a sede, o lago de sulphur, a cama d'espinhos, o cavalete, a roda,
+os tractos a fogo e ferro. Vá d'exemplo: eis aqui um criminoso
+impenitente, que ha folgado com os soffrimentos alheios e calcado todas
+as leis da terra. Morre. Acabou-se tudo para elle? Não. Que vá, n'outro
+mundo, saber á sua custa o que é dôr, e que piedade merecem os que
+soffrem. Deus é bastante poderoso para o castigar a ponto de o fazer
+bradar por misericordia; é justo que o não poupe; exige-o a humanidade,
+com a condição de que esse peccador castigado seja ainda homem, isto é,
+um ser não só intelligente e sensivel, mas livre, e, por consequencia,
+susceptivel de emenda. Mas, se antes de o ferir, lhe tira o recurso do
+arrependimento; se, em vez do homem, o que temos á vista é um mero bruto
+sobrenatural, monstruoso, ignobil, a quem a dôr nada ensina, e a
+razão nada presta, máo por necessidade, torturado, sangrento, nojoso,
+gemente... ah! quem falla ahi de justiça? desfaçam por piedade esse
+monstro; basta de padecer; logo que lhe tirastes a liberdade, restituida
+lhe foi a innocencia.
+
+Quando uma creança brinca á beira de um poço, e cahe apezar dos avisos
+da mãe, a pobre mãe não respira em quanto a não salva; corre logo sem
+attender á desobediencia, porque a vê mais carecida do soccorro quanto
+maior é o perigo; para castigo lhe basta a quéda. Que diriam os
+theologos, se aquella mãe, em vez de tirar do poço o filho, lhe fosse
+quebrar braços e pernas, e cobril-o de pedras? O que elles theologos
+imaginam que Deus faz, é aquillo mesmo. Aviltam-no quanto podem.
+
+
+
+
+ CAPITULO QUINTO
+
+ SURSUM CORDA
+
+
+ I
+
+Fujamos d'este lamaçal. Lavemos pés, mãos, cabeça e vestidos.
+Cauterisemos os beiços com um carvão acceso. Demonios, chammas impuras,
+espiritos malfeitores, odios, vinganças, carnificinas, ferozes alegrias,
+estupidos terrores, sonhos do homem primitivo adormecido em antro á
+ourela de lagôas turbidas, com o estomago regorgitado de carnes
+sanguentas, com a mão sobre a clava, e a alma ainda fremente das paixões
+do dia; mystagogia antiga; sapiencia idolatra; delirios renovados dos
+barbaros orientaes e occidentaes; confuso acervo de subtilezas
+methaphysicas e torpes fabulas e aspirações, sublimes e baixos erros,
+inferno velho e inferno novo, palacios oscillantes edificados com
+ruinas, Naraka, Amenthi, Tartaro e Géhenna, sumi-vos! O tempo
+avança; é já dia; a calhandra já cantou, vamos á serra vêr o repontar do
+sol. Acima, ainda mais para o alto, subamos ás espigas da montanha, onde
+o ar é mais sadio e o horisonte mais amplo. Azas, azas! vamos admirar o
+sol que regenera a vida e a fecundidade da terra, e a todo o ser a sua
+vera fórma, e aos homens, que desperta do somno fundo, a consciencia de
+si mesmos e o sentimento das realidades que o rodeam. Mais ao alto! Mais
+ainda! azas, azas, ó minha alma! Voemos até á origem da luz, de que este
+pallido sol é apenas sombra!
+
+
+ II
+
+Deus é uno, com infinita variedade de attributos, cuja manifestação lhe
+não lesa a unidade. Conhecemol-o n'este mundo por fé unicamente, porque
+o não vemos qual é, e não temos d'elle, em nossos corações, senão uma
+imagem imperfeita, e, para assim dizer, mutilada. Por tanto, aquelle
+sagrado nome exprime o que sabemos realmente, mas tambem o que não
+sabemos, e o que saberemos de Deus, no dia derradeiro. Encerra Deus
+todas as perfeições, cujo complexo, de que apenas concebemos parte
+minima, é o mysterio que adoramos atravez d'um véo, que a morte
+levantará, assim para santos como para pecadores.
+
+Sem duvida que os mais obdurados peccadores hão de vêr Deus; e
+hão de vêr não sómente alguns attributos seus, mas todos; não hão de vêr
+sómente a sua eternidade, por quanto a eternidade está em Deus, mas a
+eternidade não é Deus; não hão de vêr sómente a sua justiça e infinita
+omnipotencia, por quanto a justiça infinita e omnipotencia são em Deus,
+mas não constituem toda a sua essencia; não hão de vêr sómente a sua
+justiça, por quanto a justiça está em Deus; mas só ou unida ao poder
+eterno a justiça não é Deus: senão seriam tantos os deuses quantos são
+os attributos e virtudes distinctas na unidade divina.
+
+Quando os peccadores virem Deus, então hão de vêr quanto ha em Deus, sua
+bondade, misericordia e justiça; vel-o-hão a toda a luz, d'um só lance
+de olhos, por que tudo o que a nossa lingua separa é inseparavel em
+Deus; e, se elle retrahisse dos peccadores um só resplendor de sua face,
+ficaria sendo o Deus abscondito que a nossa fé adora, e não o Deus
+visivel perante o qual toda a incredulidade se dissipa. Pelo que, ao
+mesmo tempo que sua justiça encher de medo as almas, a sua bondade as
+consolará mediante a confiança e arrependimento.
+
+
+ III
+
+Grandes e pequenos, doutos e ignorantes, todos os peccadores serão
+castigados, cada qual á medida de suas culpas. Nenhuma será esquecida;
+mas, por isso mesmo, todas as virtudes serão lembradas. Ao
+pessimo peccador que em sua vida teve um bom sentimento, um bom desejo
+sequer, isto lhe será como torcida ainda fumegante a qual o sopro de
+Deus accenderá em flamma. O pouquinho bem que praticou lhe será contado,
+até ao ceitil, até ao pucaro de agua dado ao caminheiro, até ao grão de
+painço dado á avezinha, até ao movimento do dedo mendinho em que a
+creança vacillante se amparou, até ao olhar compadecido pôsto na face do
+attribulado. Estas são as unicas acções que elle quereria recomeçar e
+multiplicar n'esta vida, se lhe fosse dado aqui voltar, por que é esse o
+sagrado laço que o une ainda, posto que de longe, á assemblêa dos
+justos; e o mal que fez, esse ainda subsiste, mas só na dôr que sente de
+havêl-o feito, e no arrependimento com que o recorda. Prazeres torpes,
+revezados de inquietações amargas não os cubiça. Deplora o ceo, e não a
+terra. Sómente saudades do ceo pódem enternecer a lagrimas entes
+racionaes, desempeçados das trevas d'este mundo.
+
+
+ IV
+
+Os mortos que Deus pune viram a Deus, e, a um tempo, se sentiram
+attrahidos para elle, e repulsos e como repuxados para longe pelo iman
+de seus peccados. Abriu-se o abysmo e cahiram, mas com a vista sempre
+fita n'aquella ineffavel luz que lhe foge, e os braços estendidos para o
+Deus misericordioso que os exila temporariamente por causa de
+suas offensas. Cahem levando comsigo a indelevel memoria d'aquella
+formosura e sabedoria infinitas que só instantaneamente viram, e ao
+baquearem-se, exclamam: «Havei piedade de mim!»
+
+Os mortos que Deus castiga viram Deus; e para logo o amaram, que é
+impossivel vêl-o sem o amar. Viram-o e esqueceram a terra; viram-o, e
+arderam em sede inextinguivel de tornar a vêl-o e possuil-o. Verdadeiro
+castigo! Expiação dolorosa, mas efficaz! Ardentes lagrimas, mas
+salutares, que o amor derrama, e o amor enxugará.
+
+
+ V
+
+Blasphemar que é? É negar Deus ou algum dos seus divinos attributos ou
+alguma das eternas e infinitas propriedades do seu ser.
+
+Negar-lhe a existencia é blasphemia; negar-lhe o poder é blasphemia;
+negar-lhe a immensidade, a eternidade ou a sabedoria é blasphemia.
+
+A blasphemia é somente praticavel n'estas regiões de duvida e mysterio
+em que Deus escassamente se deixa entrever atravez d'um veo. Mas o veo
+cahiu na presença dos mortos.
+
+Os cegos viram; os paralyticos andaram; os mudos fallaram. Confessam
+todos que Deus existe, que é eterno e poderoso e justo. Negar-lhe a
+justiça como poderiam elles, se sentem até ao amago de seu ser a
+claridade ardente e purificante? E, se não podem negal-a, como ousariam
+affrontal-a? Mas, se querem que elles blasphemem, digam-nos qual das
+perfeições divinas elles negarão?
+
+Ai! aos theologos aprouve que os condemnados negassem a que mais valiosa
+lhes seria. Os condemnados negarão a bondade de Deus; injuriando-o de
+máo, de cruel, de implacavel, de escarnecedor de suas agonias, de
+vingativo, de carrasco, e não juiz. Isto, com effeito, é que é
+blasphemar.
+
+Mas estes impios discursos não os vociferam os mortos castigados por
+Deus; sois vós, scribas e doutores, que lh'os inventastes; e o que a
+isso vos levou foi o imaginardes um inferno perpetuo, e, pelo tanto, o
+effeito que o castigo esteril devia produzir sobre soffredores
+immortaes. Entrai mentalmente n'essa catacumba infecta, tomai por
+instantes o logar das victimas, e ousai fallar em bondade de Deus. Não
+acreditareis em tal. Máo grado vosso, a blasphemia vos fugirá da bôcca.
+
+Os primeiros blasphemadores são, logo, os inventores d'aquelle
+imaginario supplicio. Á maneira dos idolatras, fraccionaram Deus,
+extremando entre justiça e bondade--attributos indistintos. De modo que
+essas presumidas blasphemias do inferno são sómente um ecco das que
+esbravejaram nas almas d'elles, ao contemplarem a sua obra.
+
+
+ VI
+
+Deus é justiça e misericordia conjuncta e indivisivelmente. Nos actos da
+sua justiça ha sempre um fundamento de misericordia; e, nos actos em que
+sómente a sua misericordia realça, ha um fundamento de justiça. É
+offendel-o dizer que é misericordioso sem justiça para uns, e justiceiro
+sem misericordia para outros. Isto é falso quanto ao tempo e quanto á
+eternidade. É justo Deus com os justos coroando-os, por que se a
+salvação d'estes fosse gratuita e mera complacencia particular, favor e
+não recompensa, o castigo dos peccadores seria iniquo. Na gloria, pois,
+dos bemaventurados reina tanta justiça quanta misericordia.
+
+Mas, se Deus, no outro mundo, é justo para os eleitos, por que não ha de
+ser misericordioso com os peccadores?
+
+Mostrais-me a sua misericordia no ceo; e eu tambem lá vejo a sua
+justiça.
+
+Mostrais-me a sua justiça no inferno, e eu tambem lá procuro a sua
+misericordia.
+
+
+ VII
+
+A condemnação do vosso inferno está na necessidade logica e invisivel
+que lá obriga a offender e amaldiçoar Deus. É isso possivel? Deus quer
+ser injuriado eternamente? Não quererá antes ser adorado e
+abençoado por todas as creaturas? Adoram-no os santos em jubilo, e os
+mortos, que pune, adoram-no em penas, por que sabem que ellas hão de ter
+fim.
+
+Seja-me testemunha o Evangelho.
+
+
+
+
+ CAPITULO SEXTO
+
+
+ A parabola do rico avarento
+
+ _Lux in tenebris._
+
+Lêde no Evangelho de S. Lucas, capitulo XVI, a parabola do rico
+avarento.
+
+Do fundo do inferno, o rico avarento levanta a voz para seu pae Abrahão:
+«Compadece-te de mim, e manda cá a Lazaro, para que molhe em agua a
+ponta do seu dedo, a fim de me refrescar a lingua.» Lazaro não se bole,
+em quanto o patriarcha lembra ao padecente a pena de talião; cabe agora
+ao opulento mendigar, e ao pobre fartar-se.
+
+O rico avarento baixou os olhos, e não pediu mais agua: resignou-se, não
+murmurou, não blasphemou, renunciou a gottinha d'agua como renunciára as
+vestes purpureas e as regalias da meza. Todavia, ainda outra vez se
+dirigiu ao pae Abrahão: «Eu te rogo que o mandes a casa de meu
+pae, pois que tenho cinco irmãos, para que lhes dê testemunho, não
+succeda virem tambem elles parar a este logar de tormento.» E Abrahão
+lhe disse: «Elles lá tem Moysés e os prophetas: ouçam-os.» Ainda assim,
+o padecente insiste: «Mas, se algum morto lá fôr, elles farão
+penitencia.»
+
+Ahi está mudada não só a fortuna do rico avarento, mas o coração tambem.
+Eil-o humilde, supplicante, submisso. Recebe as recusas sem irar-se; e,
+em meio de suas dôres, lembra-se enternecido de cinco irmãos que deixou
+na terra. Não lhes inveja os haveres; pelo contrario, quer incutir-lhes
+caridade, e só por amor d'elles importuna o seu ascendente Abrahão.
+Porém, Lazaro e Abrahão sahem-lhe tão rijos como elle tinha sido para
+com as dôres alheias. O tal Lazaro, cujas chagas os cães lambiam,
+tornou-se menos piedoso com o proximo do que haviam sido com elle os
+cães. Refocila-se nas delicias do ceo, como o rico avarento se
+refocilára nas da terra, e esqueceu o que era penar, e o que se deve a
+quem pede. No tocante ao patriarcha, esse, em vez de consolar o neto
+supplicante, desespera-o; e, a segunda vez que o desgraçado ousa
+pedir-lhe um milagre de bondade, não para si, mas para os irmãos, que
+lhe responde o outro? Responde seccamente que os irmãos lá tem as
+escripturas tão dignas de credito como os mortos, pelo menos.
+
+Admiravel, mas, para theologos, incomprehensivel parabola! Eis aqui o
+inferno converso, repêso, enternecido, o rico aváro deplorativo e
+caridoso, e por cima, um ceo de bronze, uns santos descaroados.
+Este não é o inferno judaico, é christão; mas o paraiso esse é que é
+judaico, e não christão.
+
+
+
+
+ CAPITULO SETIMO
+
+
+ Terra, inferno, ceo.
+
+ DESVIRTUAR O INFERNO É DESVIRTUAR A TERRA E O CEO.
+ NÃO É OUTRO O SENTIDO LATENTE DA PARABOLA DE LAZARO
+
+
+ I
+
+ TERRA
+
+As affeições d'esta vida continuam na outra. Mesmamente no ceo, a Virgem
+é Mãe de Christo. Todos esperam reconhecer, além-tumulo, as pessoas que
+na terra estremeceram. Reconhecer-se-hão os esposos, pois que hão de
+reconhecer os filhos. Esta esperança é a maior consolação d'esta vida, e
+uma das forças que nos attrahem para o ceo. Mas o perpetuo inferno nos
+escurece aquella esperança e nos esfria os mais santos affectos.
+
+Eis um pae de familia que morre subitamente ou de violenta morte, ou na
+sua cama, sem padre, sem sacramentos, ao cabo de uma vida devota.
+Imaginem a incerteza da viuva e dos orphãos quanto á salvação d'esse
+ente que os amou, educou, nutriu, instruiu e consolou. Se ha
+coisa verdadeira no ensino dos theologos, podemos apostar mil contra um
+que este homem cahiu no inferno para sempre.
+
+Que afflicção para acrescentar ás angustias d'aquella familia! Se elles
+tivessem a certeza de amar um peccador penitente, a quem rogos e boas
+obras podessem levar refrigerio, que supplicas, que piedosas obras não
+fariam! Mas amar um condemnado! suffragar um condemnado! amarrarem-se á
+memoria de um condemnado! guardar-lhe as reliquias, as cartas, o
+retrato! Choral-o, suspirar por ir vêl-o! De repente, morrer para
+odial-o! Saber, e pensar estas coisas! Seja embora uma duvida; é duvida
+que gela a oração no peito; quebra o animo para o bem-proceder; espanca
+a piedade do lar; e aconselha o estontecer-se e esquecer-se um
+homem--coisa tão natural ao mundano egoismo--; ou então, o outro egoismo
+feroz e sombrio do frade que immola á sua propria salvação todos os
+affectos humanos.
+
+
+ II
+
+ Ceo
+
+Haverá no ceo familias que se encontrem; mas tambem no ceo haverá
+orphãos eternos, e viuvas eternas, e mães eternamente sem filhos. Se
+isto é motivo para amarguras, ahi está o agro das doçuras do ceo; mas,
+se é motivo para alegrias, que horriveis alegrias!
+
+O rico avarento do Evangelho seria em verdade melhor do que os eleitos.
+Sem duvida, mais caridade haveria no inferno que no ceo.
+
+
+
+
+ CAPITULO OITAVO
+
+ HISTORIA DE UM SONHO
+
+
+ I
+
+Ganhou um medico, á cabeceira de um pobre, doença mortal. Chegou tão
+depressa a morte que não lhe deu tempo de chamar o padre. Chegou o
+padre, quando elle era já morto. Circumvagou os olhos pelos assistentes,
+disse que o chamaram tarde, e sahiu dando aos hombros.
+
+As poucas palavras e o gesto impressionaram vivamente a viuva, que se
+quedou a pensar n'aquillo todo dia.
+
+
+ II
+
+E eu velava á sombra do funebre leito. A viuva estava ali orando,
+soluçando, e sempre preoccupada, a pezar seu, com as palavras do
+padre. A intervallos, olhava ella para mim chorando, invocava-me como
+testemunha da virtude de seu marido, e dizia-me com anciedade: «Não se
+salvará elle?»--Não duvide, senhora--dizia-lhe eu; porém tristemente eu
+via que as minhas respostas a não socegavam.
+
+Ao cahir da tarde, como ella desde a vespera não comesse nem dormisse,
+fiz que seu filhinho lhe offerecesse algum alimento. Debalde se esforçou
+por engulir. Então pediu um livro de orações. Abriu ao acaso um que lhe
+deram, esperando achar ali algum alivio, que não achou; pelo contrario,
+com a leitura cresceu-lhe a inquietação. Vi-lhe então no rosto uns
+tregeitos involuntarios, e um crispar de mãos, e por fim um grito e logo
+cahiu desmaiada nos braços de quem a levou d'ali.
+
+
+ III
+
+Apanhei o livro cahido de suas mãos. Denominava-se _Quotidiano do
+christão_, e facilmente conheci nas paginas avincadas as passagens que
+ella tinha lido: eram os _Pensamentos christãos para todos os dias do
+mez_, pelo padre Bouhours, da companhia de Jesus. Tinha ella desmaiado
+quando lia no _quinto dia_ uma meditação ácerca do _Juizo final_. Acontece
+sempre que o ferido ao cahir bate sempre na chaga. Alguns trechos do
+capitulo, cujas margens estavam laceradas, diziam assim: «Quão terrivel
+é o dia da ira do Senhor! Os justos escassamente serão havidos
+como taes: que será dos peccadores? Que sentença póde esperar o peccador
+impenitente de um Deus inexoravel? Oh! que terribilissima sentença! _Ide,
+malditos, arder em fogo eterno!_ Ai! onde irão, Senhor, esses desgraçados
+que amaldiçoaes? Para que ponto do mundo quereis que se afastem,
+distanciando-se de vós? Onde é que está paragem tão funesta?
+
+
+ «SEXTO DIA
+
+ «O INFERNO
+
+«I. Que horror ganhariamos ao inferno, se podessemos ouvir os
+lamentaveis gritos dos condemnados! Suspiram, gemem, urram como
+bestas-feras em meio de lavaredas. Accusam-se de seus peccados,
+chorando-se, detestando-os; mas É TARDE. _O chorar não lhes faz senão
+augmentar o ardor do fogo que os queima sem consumil-os._ Penitencia dos
+condemnados! quanto és rigorosa, e _inutil_!
+
+«II. Não vêr Deus nunca, arder em fogo de que o nosso é apenas sombra;
+soffrer ao mesmo tempo quantos males ha ahi, _sem allivio, sem repouso;
+sempre com os olhos postos nos demonios, sempre com o coração raivoso e
+desesperado_, que vida!
+
+«III. Esses desgraçados _enfuriam-se_ por terem desprezado tantas
+occasiões de salvarem-se. _O recordarem os prazeres passados é-lhes um de
+seus mais penosos tormentos_; mas o tormento superior a todos é a
+lembrança de terem, por sua culpa, perdido Deus.»[6]
+
+Pobre mulher!--disse eu entre mim lendo aquelle capitulo--vêr seu
+marido, tão bom homem, alcunhado de besta-fera! E topar em livro de
+piedade, onde procurava consolar-se, esta cruel sentença que de manhã
+ouvira da bôcca d'um sacerdote: É MUITO TARDE!... Quiz fechar o livro;
+mas o titulo do _Dia_ seguinte, impresso em versaletes, susteve-me.
+
+
+ «SETIMO DIA
+
+ «DA ETERNIDADE DAS PENAS DO INFERNO
+
+«I. Poderá ir mais adiante a cólera de Deus _que castiga prazeres que tão
+pouco duram com supplicios sem fim_? Que desgraça não é isto! Não bastará
+que os males d'um condemnado sejam extremos? É forçoso que sejam
+eternos? Uma picada de alfinete é mal bem leve; todavia, se este mal
+durasse sempre, tornar-se-hia insupportavel. Ora, os tormentos do
+inferno que serão?
+
+«II. Ó eternidade! _Quando um condemnado podesse derramar lagrimas
+bastantes para fazerem quantos mares e rios tem o mundo, ainda que
+vertesse uma só lagrima em cada seculo, elle não estaria mais adiantado,
+depois de tantos milhões d'annos, como quando começou a penar._
+
+«_Ser-lhe-ha forçoso recomeçar como se não tivesse nada padecido; e,
+quando tiver recomeçado tantas vezes quantos são os grãos de areia nas
+praias, os atomos no ar e as folhas nos bosques, nada d'isso lhe será
+contado._
+
+«III. Não só por toda a eternidade os condemnados soffrerão; _mas, a cada
+instante, soffrem a eternidade inteira_. Está-lhes sempre á vista a
+eternidade; em todas as dôres se lhes côa a eternidade. _As penas
+infinitas continuamente lhes estão no espirito._ Cruel idêa! deploravel
+situação! _Arder por uma eternidade! chorar eternamente! Raivar sem fim!_»
+
+Esta meditação corresponde ao _Setimo dia_, que é aquelle em que o
+Senhor entrou em descanso para admirar suas obras.
+
+ [6] O padre Bouhours foi um solerte engenho, bastante mundanal, que
+ distillava a frio no seu gabinete aquella rhetorica medonha, cuja
+ leitura, se lhe dessem valor serio, seria capaz de fazer abortar uma
+ mulher gravida. Acintemente abastarda elle n'este livro a verdadeira
+ doutrina ácerca do inferno, doutrina em que se aprende que os
+ condemnados amam o peccado, pois que amar o peccado é odiar Deus;
+ conhecendo, porém, a desmoralisação de tal pena, o padre Bouhours
+ presume que os condemnados abominam o peccado, mas que os seus olhos
+ se abriram _já tarde_, por maneira que substitue á pena immoral, mas
+ apparentemente justa, uma pena de apparencia moral, mas para isso
+ mesmo horrivelmente iniqua, por que detestar o peccado é amar o que
+ ha mais avêsso ao peccado, isto é, a virtude, ou, mais ao claro,
+ Deus. Segue-se que Deus deixaria infernados os que o amam e se
+ arrependem de o haver offendido. N'outro capitulo da mesma obra o
+ mesmo padre é de parecer que os condemnados não podem amar Deus.
+ Mas, se elles não amam o bem nem o mal, nada amam; e então que vem a
+ ser as penas espirituaes? Que soffrem? por que soffrem? por que se
+ afflijem do perdimento d'um bem que não amam? e por que os afflige a
+ perda dos prazeres que abominam? Tudo isso dispára n'um apontoado de
+ sandices.
+
+
+ IV
+
+Acabava eu de lêr, agitado, aquella pagina, quando a viuva recuperou os
+sentidos; mas quasi mentecapta. Exclamava ella que tinha a certeza de
+seu marido ter sido condemnado, por que não acreditava em tudo que a
+egreja ensinava, e morrêra sem confissão; accrescentava que o marido era
+bom para ella e para todos; que, ainda mesmo que a houvesse offendido,
+lhe perdoava pelo muito que elle estava padecendo, e que desejava ir
+juntar-se-lhe e consolal-o no inferno. Fallava em matar-se para mais
+depressa o vêr; e, dizendo isto, aconchegava o filho do seio,
+sorria-lhe, beijava-o convulsivamente, em duvida se devia matal-o; por
+quanto, dizia ella, o menino iria ao paraizo, se morresse então; e não
+se veriam mais, desejando ella leval-o ao pae.
+
+Assim que ouvi os gritos, sahi do quarto mortuario para soccorrer, se
+fosse preciso, aquella afflicta gente, sobrecarregada com outra
+desgraça. Cercamos a joven viuva, vigiando angustiosamente os seus
+menores movimentos, por medo de que ella não praticasse algum acto de
+desesperação, de que dera mostras. Quizemos tirar-lhe o filho; mas ella
+dava ares de querer afogal-o antes que lh'o tirassem. Parecia já mais
+tranquilla que todos nós. Desfigurou-se-lhe cadavericamente o
+semblante; os olhos porém brilhavam, e o sorrir tinha um ar celestial.
+Fallava sem cessar do marido, e do prazer que ella teria em acompanhal-o
+no soffrimento. A mãe ajoelhou-se diante d'ella, que a levantou
+amorosamente, rogando-lhe que não pedisse a Deus pela sua alma.
+
+Conseguimos em fim separal-a do filho, e levamol-os um apoz outro, elle
+já adormecido, e ella luctando comnosco, desgrenhada e rota. Seguiram-na
+os parentes, e eu fiquei sósinho á beira do cadaver.
+
+
+ V
+
+Bem desejava eu tambem saír: carecia de distrahir-me. Piedade, cólera,
+fé, duvida, terror, mil contrarios sentimentos me agitavam, dos quaes eu
+não podia defender-me ao pé do esquife, e depois de similhante
+espectaculo! Encostei-me á banca onde estava deitado sobre uma alva
+coberta um crucifixo de marfim, e, contemplando aquella divina imagem,
+recolhi-me no mais intimo retrahimento d'alma. Perguntava eu a mim
+mesmo, com o coração apertado, o que devia crer-se da vida e morte de
+Christo, e se era certo que elle descesse do céo, como se dizia, para
+assombrar os justos, desesperar os peccadores, e conturbar a razão dos
+fracos. E a mim me quiz parecer que Jesus estava ali, e pensei vêl-o
+chorar, e que uma de suas lagrimas resvalou sobre o _Quotidiano do
+christão_, e tudo que eu havia lido n'aquelle livro subitamente se
+desfez.
+
+Estava ainda comtudo a minha alma perturbada. Interroguei o Christo. Não
+me respondeu. Então entrei em duvida se eu estava adormecido ou
+desperto. Vi--seria sonho?--um oceano de trevas alcantilar-se á volta de
+mim, e no seio d'essa escuridão immensa lampejava um frouxo raio de luz.
+E esta luz saia das fendas de um sepulchro, e Jesus estava deitado vivo
+n'esse sepulchro. Eu quiz levantar a pedra que o cobria, mas uns
+verdugos envoltos em trevas me deceparam as mãos; eu quiz balbuciar, e
+arrancaram-me a lingua; e assim mutilado, cego e mudo senti-me
+arrebatado e precipitado ás entranhas de um abysmo, e comprehendi que
+estava no inferno. O meu unico soffrimento ahi era a cegueira, e a
+espectativa anciadissima dos supplicios que me esperavam. E, como só
+tivesse ouvidos para entender, escutei, e comprehendi o seguinte.
+
+
+ VI
+
+Ao principio ouvi um rumorejar estranho, que rolava prolongando-se ao
+travez dos espaços infinitos, e depois decrescia até ao ciciar da
+folhagem que a brisa da tarde acaricia, e por fim augmentava em estridor
+até exceder o roncar das vagas cavadas pela borrasca. Estas
+comparações tiradas da terra não dão idêa da tristeza, do pungente e
+solemne d'aquelle immenso rugir de seres sem nome que eu não podia vêr e
+ouvir gemer. De toda a parte, suspiros, brados, soluços, gritos
+exhorativos, mas tudo distincto, conglobando-se sem confundir-se, e
+formando um brado unisono. Debaixo do sol não ha ahi espectaculo tão
+variado como o prantear d'aquellas almas, ressoando em choro universal
+quasi claro ainda, e mais afflictivo. Ao ouvir estes estrondos
+figurava-se-me que o sangue me escorria dos pulsos cortados, e o suor da
+fronte, e as lagrimas dos olhos, e tanto eu como tudo em redor
+soffriamos e supplicavamos.
+
+
+ VII
+
+E uma voz exclamava: Oh! quanto eu soffro, Deus meu! Isto não terá fim?
+Vós, Senhor, que me atirastes ignorante a um mundo escuro, não me
+julgaes, apoz tantos seculos, bastante castigado dos meus desvios d'um
+dia?
+
+E outra voz exclamava: Quando os meus peccados aqui me abysmaram, vossa
+mão, ó Deus, me amparava, e me ampara ainda; e, assim mesmo, em logar de
+diminuir, o meu supplicio augmenta. Soffro com quantos de longe
+molestei: tenho fome com os que eu poderia fartar; tenho frio com os que
+eu poderia vestir; peza sobre mim a cada hora e cada vez mais
+esmagadora a carga de males que fiz pezar sobre outros. Multiplicaram-se
+as minhas offensas como a herva sobre a minha campa esquecida, e as
+minhas feridas sangram sempre, e as minhas chagas lavram sem cessar.
+Isto é justo, meu Deus! Poderia eu ser feliz no céo, se visse o effeito
+de minhas obras? Em quanto fructifica a arvore fatal que plantei na
+terra, puni-me, Senhor! Mas não me tireis a esperança! O pouquinho bem
+que fiz na vida não germinará nem cobrirá, se o permittirdes, os
+vestigios das minhas iniquidades? Oh! quando nenhum ente vivo, n'algum
+logar do mundo, já não podér imputar-me seus soffrimentos, tende então
+piedade de mim, meu Deus!
+
+E todas as almas peccadoras, unindo-se em um brado de misericordia,
+repetiram juntas, lá das reconditas profundezas: Tende piedade de mim!
+Tende piedade de mim!
+
+Esta supplica em commum era a um tempo tão suave e dilacerante que eu
+imaginei que o ceo se abriria. Mas a noite que me envolvia espessou-se
+mais glacial; e o abysmo emmudeceu; e, apoz um instante de esperança,
+continuou a lamentar-se, correndo como o oceano nas fragarias da costa.
+
+Ai! ai!--conclamavam os gritos que se extinguiam soluçando--é surdo o
+céo! é surdo o céo!
+
+Nunca! nunca!--diziam outras vozes--Nunca! nunca! Meu Deus, que resposta
+á dôr! Nunca! nunca!
+
+Descançai, filhos!--bradou um condemnado, que se me figurou, no tom de
+voz, ser um dos patriarchas do abysmo--Não profirais essa palavra
+horrida. Ahi sôa em vossos pobres seios um ecco das maldições da terra,
+e não palavra descida do céo. Ha mais de mil annos que padeço, e oro, e
+escuto o céo, e não ouço a resposta. Oremos, oremos sempre!
+
+E o ancião entoou um cantico; e, ao primeiro versiculo, parou e
+debulhou-se em lagrimas.
+
+Ai!--ressoavam ao longe milhões de almas gementes--Ai! o céo é surdo! o
+céo é surdo!
+
+N'este lance, uma voz sobrelevou a todas, dizendo:--Ensinai-nos, ao
+menos, Senhor, a utilidade dos padecimentos. Se nos perdoasseis, acaso a
+vossa gloria padeceria com isso? A felicidade dos justos soffreria
+diminuição? Revoltar-se-hiam elles contra vós? Logo que as creaturas
+entraram á vossa presença, não se lhes acrisolaram os sentimentos de
+piedade? O padre que me estendia a mão quando era mortal e sujeito ao
+peccado, a esposa que eu amava, a mãe que me gerou, os amigos que me
+trahiram e aos quaes perdoei, os pobres que soccorri, e uma filha
+ingrata e amada a quem eu daria a comer o meu coração em ancias de fome,
+nem essa, ninguem vos intercede por mim? Hontem oravam elles quando eu
+me rejubilava nas culpas; pranteavam-me vivo e oravam por mim; e hoje
+esquecem-me, pendem para o crime, fogem da dôr; o amor a quem soffre e
+geme é sentimento ephemero, que vai mal para entes bemaventurados.
+
+E a voz que fallava assim ergueu-se ainda para amaldiçoar, mas
+falleceu-lhe a força, e á maneira do vagalhão que rossa a nuvem
+rugindo, subita recaiu e expirou em prolongado gemido.
+
+Mas logo um brado novo retumba mais estridente ainda, e, eu, ouvindo-o,
+não distinguia se era oração, se blasphemia.
+
+E bradava:--Creio na vossa justiça, meu Deus; mas deixai-me crêr na
+vossa misericordia. Não é ella tão infinita como a vossa justiça? Não é
+eterna? Se me perdoaveis quando eu estava na terra, porque não me
+perdoais aqui? Se eu sou o mesmo peccador, não sois vós o mesmo Deus? E,
+se a morte me mudou, pôde a morte d'um ente como eu mudar a vossa
+immutavel natureza? Cansou-se acaso a vossa bondade? Exhauriu-se? Sois
+vós susceptivel de cansaço? E, se alguma de vossas virtudes é
+transitoria, de circumstancia e occasional, é forçoso que seja a
+bondade, aquella ineffavel bondade que nós ignorantemente consideravamos
+lá em cima a mesma essencial e inalteravel virtude vossa! Se assim
+é--proseguiu a voz desesperada--anniquilai-me, Deus Omnipotente! Esta
+existencia é inutil; sou de mais no universo. Que lucraes com as minhas
+dôres? Tendes precisão d'ellas? Retomai esta vida de que sem duvida
+abusei, e esta intelligencia que perverti; apagai em mim esta luz, visto
+que principiam a rasgar-se os veos que a escurentavam.
+
+Tirai-me a lembrança do céo, a ancia de ser feliz, a necessidade d'amar,
+a necessidade de saber; tirai-me, sobre tudo, por piedade, o sentimento
+da justiça, porque eu não sou Deus, e a vossa justiça é um
+mysterio, e contra minha vontade, a blasphemarei. Deixai-me morrer, ó
+Deus! Deixai morrer quem soffre! Matai o peccado incuravel e a dôr
+esteril, a fim de que na creação não haja um só atomo que não palpite de
+reconhecimento e alegria, ao ouvir o vosso nome santissimo.
+
+E um clamor horrendo abafou a voz que fallava; e, d'um angulo a outro do
+abysmo, todas as almas em tortura escabujavam, rogando a Deus que as
+deixasse morrer. E pediam a morte como os famintos mendigam pão;
+chamavam-na com os gritos da mulher em angustias de parto do seu
+primogenito, com a dôr da victima na fogueira, com o rugido da leôa que
+perdeu os cachorros, com o balido do cordeirinho que procura a mãe. E eu
+tambem a chamava, e me pareceu vêl-a aproximar-se, e beijei-lhe a mão
+glacial; e, quando me sentia morrer, despertei.
+
+
+
+
+ CAPITULO NONO
+
+ JUDAS ISCARIOTE
+
+
+ I
+
+Eu escolheria d'entre os condemnados o mais desprezivel, se no inferno
+existisse um miseravel maior do que Judas.
+
+Este vivia na amisade de Jesus; ninguem lhe conhecia mais de perto a
+innocencia; e, como elle fosse o particular distribuidor das esmolas
+(_João_, c. 13, v. 29), ninguem lhe conhecia melhor a bondade. Não
+obstante, vendeu-o; e, depois de o atraiçoar, voltou, ceou com elle, e,
+ao escurecer, guiou os soldados que o prenderam; e, como os soldados o
+não conhecessem, deu-lhes signal, abraçando-o. Eis aqui o crime
+circumstanciado. Premeditação, cubiça, villeza, tem de tudo. Judas vende
+o mestre e o amigo, o sabio e o justo. Vende-o sem colera, sem paixão,
+por bom dinheiro de contado, como venderia na feira um jumento ou
+um boi. Sabe que desejam matal-o; não importa! vende-o. E que será
+depois da Mãe de Jesus? e dos doentes que elle curava? e dos ignorantes
+que ensinava? Ah! que tem Judas com as lagrimas de mãe e com a
+ignorancia e lastimas do povo? Negociou com todas essas dores como
+mercadejou com a amisade, com a sabedoria, com a innocencia, com tudo
+que ahi ha divinal n'este mundo. Embolsou o preço; e, a fallar verdade,
+nem os phariseus nem elle avaliaram cara a mercancia: trinta dinheiros!
+dez vezes menos que a libra dos perfumes de Magdalena.
+
+
+ II
+
+Um dos primeiros effeitos da perfidia de Judas foi a defecção dos
+apostolos. Em vez de seguirem o Mestre, falsamente accusado de sacrilego
+e seductor, dispersaram-se: Thiago, Simão, Thadeu, que elle chamava seus
+irmãos, João, o seu amigo dilecto, todos por egual covardes, não
+cuidaram senão em salvar-se. «Conheces este homem?» perguntaram a
+Pedro.--Não,--diz Pedro, o chefe, o mais corajoso de todos--não o
+conheço.--Renegou-o trez vezes; trez vezes mentiu; trez vezes
+testemunhou de falso em face dos accusadores: depois, chorou na
+escuridão, e calou-se. Todos deixaram injuriar, calumniar, chibatar e
+morrer Jesus, sem erguerem brado em sua defeza e duvidando que
+fosse Deus, duvidando-lhe da missão, das promessas; bem que, para grande
+opprobrio d'elles, certos de sua amisade, pureza de vida, e excellencia
+da moral. Para se reanimarem foi preciso o milagre que o pae Abrahão
+recusou ao rico avarento; nada menos que resuscitarem os mortos, e que
+propriamente Jesus saísse do sepulchro, e que elles o vissem, e
+conversassem e comessem em sua companhia, e que Thomé lhe tocasse as
+chagas. Desde então é que prégaram com inabalavel fé a divindade de
+Jesus.
+
+
+ III
+
+O peccado dos apostolos, n'esta lamentavel historia da Paixão, é, na
+essencia, egual ao de Judas, bem que não tanto odioso. Faltou-lhes a
+todos a fé; porém, sendo a fé um dom sobrenatural, não devemos arguil-os
+desabridamente porque não receberam o dom. O que do seu proceder nos
+irrita é deixarem ir até final, sem publico protesto, a obra de Judas; é
+que abandonassem o innocente amigo que os outros tinham vendido; é que
+não dissessem a Pilato ou Herodes: «Não! este homem não é sedicioso;
+quer que se dê a Cezar o que é de Cezar, e a Deus o que é de Deus; paz,
+desinteresse, e caridade são a sua doutrinação.» Isto bem o sabiam
+elles, e não o disseram, e deviam têl-o dito, sem medo, e não abafarem,
+como fizeram, o grito da consciencia. Este é que é o crime dos
+apostolos, crime natural, como o de Judas.
+
+Bem se deixa vêr que, se Judas vendeu o seu Deus, não pensava elle que
+vendia Deus: vendeu-o sem vêl-o, sem reconhecêl-o divino. O que elle a
+sabidas vendeu e quiz vender era um homem, pelo mesmo theor que os
+apostolos desampararam e quizeram desamparar um homem, mas o melhor e
+mais sabio homem, e o mais carinhoso amigo.
+
+Vender Deus! renegar Deus! É isso crivel quando se crê em Deus? Tal
+crime, á força de disparatado, ficaria impune, como acto de sandice!
+Judas foi ingrato, ladrão, egoista, traidor doble, fallacioso,
+assassino; tudo isso foi e mais ainda; mas o certo é que, no intimo de
+seu coração, Judas não se julgava deicida.
+
+
+ IV
+
+Por mais infame que haja sido, Judas não o era tanto que não
+comprehendesse a torpeza do seu acto. Tanto a comprehendeu que não se
+pôde afazer á sua villania; e, em quanto os apostolos se escondiam, foi
+elle--dolorosissimo acto!--confessar sua perfidia no templo, e restituir
+o dinheiro aos compradores, dizendo: «Vendi o sangue do innocente.» Mas
+ninguem se desata do seu remorso, como de um dinheiro que encrava
+espinhos na consciencia; e, na bôcca de um traidor, o testimunho a favor
+da innocencia perde muito de sua efficacia. Sentiu-o vivissimamente
+Judas quando, apoz confessar-se do crime, os phariseus lhe responderam:
+«Que se nos dá d'isso? Lá te avém.» Saíu então do templo, convicto de
+que não estava em sua mão sustar as consequencias do seu crime, corrido,
+desesperado, indo ao encontro da morte que merecêra, mas que ninguem lhe
+dava, para que a sua penitencia fosse maior n'este mundo.
+
+
+ V
+
+Vida de opprobrio e remorsos é expiação. Judas deveria viver. Porque se
+matou? Se elle cresse na divindade de Jesus, não se mataria, pois que,
+matando-se, ía entregar-se nas mãos d'Aquelle que atraiçoára. Por que
+se matou? O suicidio nada remedeia, e tira da contemplação dos homens o
+salutar espectaculo d'um criminoso contricto. Procurava elle
+anniquilar-se? A anniquilação ser-lhe-hia doce refugio: o nada não é
+pena. Ora é certo que ninguem disse que Judas fosse atheu. Se elle
+descrêsse de Deus e da vida futura, como explicar-lhe os remorsos? Que é
+crime, quando se crê que tudo acaba comnosco? Se não cresse em Deus,
+Judas guardaria os trinta dinheiros. Que temia elle? Como cumplices de
+seu crime tinha todo Israel, os padres que o corromperam, os senadores,
+Pilato, Caiphás, e a côrte de Herodes, e os proprios apostolos que
+negaram a victima. Então por que se matou?
+
+
+ VI
+
+No suicidio de Judas ha terrivel mysterio; mas tambem, n'este mysterio,
+ha relance luminoso, e vem a ser que Judas, depois de confessar a
+perfidia, na face dos tentadores, calcando o ouro recebido, vagando
+loucamente pelas ruas de Jerusalem, valia tanto pelo menos como o senado
+judaico que continuava deliberando friamente a morte do justo, como
+Pilato que lavava as mãos, como Herodes e sua côrte que riam de tudo, e
+como os covardes amigos cujo testemunho, n'aquella conjunctura, seria
+muito mais importante que o d'elle. Tal monstro revertido a homem, de si
+mesmo horrorisado, saiu da cidade, entrou aos campos por onde tantas
+vezes estancára com o affavel Mestre, viu-se indigno de apertar a mão
+d'um amigo, porque havia trahido o mais fiel de todos; viu-se indigno de
+piedade por que a não tivera; e, por fim, desejou acabar. Nunca tinha
+sentido como então, nem quando ouvia Christo, o nada das riquezas, a
+vaidade do mundo, o desgosto dos prazeres, o horror dos vicios que os
+seguem. Oh! se elle podesse retroceder, delir de sua vida aquella nodoa
+de sangue, sacudir o pezo que lhe abafava o coração, quão diverso do que
+fôra não seria! Como agora se lhe figurava formosa a innocencia! Como as
+tentações lhe pareciam boas de subjugar! Ah! se elle podesse quebrar as
+prisões de Jesus, e banhar-lhe os pés com suas lagrimas! Se
+podesse offerecer a vida a trôco da que o povo ía sacrificar! Com que
+prazer se deitaria na cruz, e ahi morreria em paz, se lhe fosse dado
+perdão de seu crime com tal condição!... Mas, ao longe, estrugia a grita
+da multidão enfuriada, bradando: «Crucifica-o!» Escutava o tropel dos
+cavallos, o retinir das armas, e a pancada do martello que cravava os
+pregos nas mãos bemfazejas do amigo que elle vendêra. Iriçaram-se-lhe os
+cabellos, reçumou-lhe suor glacial ao rosto, mal se tinha nas pernas
+como ebrio, sentia retrahir-se-lhe o chão debaixo dos pés. Oh! como
+Jesus padecia! Mas Judas padecia mais, porque soffria como criminoso, e
+não como justo. Os soffrimentos de Judas excedem todo o confronto. Não
+ha ahi agonia que lhes compareis. Em um dia, n'uma hora soffreu mais do
+que cem annos de penitencia no deserto, cem annos de vergonhas e
+supplicios entre os homens. A sua alma era uma fornalha em chammas. Os
+caminhos abrolhavam-lhe espinhos dilacerantes debaixo dos pés. Com os
+proprios dentes lacerava os beiços. O sangue estuára-lhe nas veias.
+Aquelle viver já não era vida de homem. Nem fome nem sede o espertavam
+do lethargo horrendo. Fulgurava-lhe um só sentimento: o horror do seu
+crime. O que elle levava pelos campos além era um cadaver já insensivel
+á dôr; e esse vil cadaver é o que elle estrangulou pendente da arvore.
+Fez mal. Melhor lhe fôra morrer ajoelhando, supplicando misericordia.
+Ah! acaso sabemos como elle morreu? Por ventura, a dôr refinada
+até aquelle extremo não será a mais eloquente supplica? Quem o sabe
+n'este mundo?
+
+
+ VII
+
+Seja, porém! Prosiga elle na outra vida o medonho supplicio que tentou
+abreviar! Que esse incomportavel castigo redobre de hora a hora, de anno
+a anno, de seculo a seculo. É justo. _Amen! amen!_
+
+Conte-se e publique-se em todas as linguas da terra que ha dezoito
+seculos Judas trahiu o Filho do homem, seu bemfeitor, seu amigo e
+mestre, e que o seu castigo dura ainda. Maldito seja elle e todos os
+seus similhantes! Maldito seja de pobres e ricos, dos filhos e das mães!
+Padres de Jesus Christo, levai esta nova a todas as choças e palacios;
+dizei-a a grandes e pequenos, aos que balanceam thuribulos, e aos que
+floream gladios, aos que julgam a terra e aos que são julgados! Ai dos
+hypocritas! ai dos ingratos! ai dos homens de duas linguas e duas caras!
+ai dos servos e dos irmãos tredos! ai dos que antepõem a amisade á
+justiça, e vendem sua alma ao sanhedrin, e contam as suas moedas em
+quanto o innocente é atormentado.
+
+Dizei isto a toda a terra, padres de Jesus Christo, que não haverá ahi
+palavra que vos impugne.
+
+Sim! Não ha ahi crueza de morte, e mormente voluntaria morte que expie
+tamanho crime. Judas soffre ha dois mil annos, e d'aqui a quatro
+mil soffrerá ainda, e em quanto o genero humano não terminar a sua
+peregrinação terrestre, viverá em supplicio recrescente de tormentos
+inauditos.
+
+
+ VIII
+
+Entretanto, meu Deus, este mundo de provações, segundo dissestes e tudo
+o confirma, ha de acabar. E, quando este mundo fôr destruido e renovado,
+quando já não houver sol, nem berços, nem sepulchros, nem gerações de
+peccadores, não perdoareis então a Judas? Quando elle apparecer á vossa
+presença no dia do juizo, depois de tantos seculos de indescriptiveis
+dôres, não vos lembrareis de que elle foi vosso amigo? Dar-se-ha caso
+que Pedro, esquecido da sua culpa e do perdão que a disfarçou, diga
+ainda outra vez: «Não conheço este homem?» João, Matheus, Thomé e
+Thiago, voltarão o rosto indignado, como se não houvessem tambem peccado
+e duvidado? Não vos dirá o côro inteiro dos apostolos: «Senhor,
+apiedai-vos d'elle. Sem a vossa graça, o que não teriamos feito nós?»
+
+Apiedai-vos d'elle, Senhor!--dirão todos os bemaventurados--que elle,
+sem o saber, foi o instrumento e a victima da salvação dos homens. Feliz
+culpa! dizia Santo Agostinho do peccado de Adão, feliz culpa que
+grangeou para o genero humano situação melhor que a do Eden. Feliz
+tambem, meu Deus, a culpa de Judas, pois era mister que, em
+cumprimento de vossos decretos, fosseis trahido por um dos vossos
+amigos. Horrendo, mas inevitavel crime, predicto muito antes pelos
+prophetas; crime salutar, introito mysterioso da paixão; crime que foi
+amaldiçoado e devia sêl-o, mas que hoje devemos perdoar e bemdizer, por
+quanto, sem tal crime, ó dôce Jesus, nem vós terieis morrido, nem o
+mundo estaria resgatado.
+
+Apiedai-vos, pois, de Judas! Commiserem-vos seus remorsos, tormentos e
+lagrimas! Compadeça-vos a cegueira d'elle! É bem de crêr que fechais os
+olhos da alma aos culpados e esta milagrosa cegueira com que os affligis
+é já per si um castigo. Mas tambem os castigareis por peccados e erros
+commettidos com vossa licença, no seio d'aquellas vingadoras trevas que
+derramastes no seu caminho? Não, não, meu Deus, vós o dissestes.
+Lembrai-vos de vossas derradeiras palavras na cruz redemptora, quando
+pedieis a vosso Pae perdão para os algozes, para os sacerdotes que vos
+haviam comprado, para o amigo desleal que vos tinha vendido, para o
+soldado cruel que vos cuspiu na face, para o povo desvairado que vos
+injuriava no supplicio: «Perdoai-lhes, pae, que elles não sabem o que
+fazem!»
+
+E vosso Pae, que tudo vos concede, perdoou-lhes o sacrilegio, a
+blasphemia, e tudo quanto em seu crime entendia com a vossa abscondita
+divindade; perdoou-lhes o que a justiça e caridade querem que se perdoe
+aos insensatos e aos cegos, e a quantos _não sabem o que fazem_. O que
+ficou sobre elles pezando é o peccado contra a humanidade, por
+que bem conheciam os peccadores a sua culpa no momento em que a
+commetteram. Meu Deus, perdoai-lhes! Pedevol-o o genero humano ensinado
+por vossas lições e exemplos, e resgatado por vosso sangue.
+
+
+
+
+ CAPITULO DECIMO
+
+
+ Conclusão em fórma de parabola
+
+O pae de familia dizia aos seus servos: Ide aos meus celleiros; tomai a
+flôr do grão que eu mesmo escolhi e ensaquei á parte em saco novo, e ide
+semear o meu campo. Não lhe mistureis o grão do saco velho; porque esse
+embriaga o homem e não o alimenta, e só para os cevados é bom.
+
+Cumpriram os servos as ordens do amo; deixaram, porém, por descuido,
+cahir no saco novo os grãos malfazejos que o amo havia separado, e, logo
+que se misturaram, não poderam extremal-os, e cegamente os atiraram á
+uma para os sulcos.
+
+Chegado o estio, um caminheiro que passava admirou a belleza das espigas
+que medravam na seara, mas reconheceu entre as espigas as plantas
+nocivas. Arrancava elle discretamente as que haviam germinado até
+á beira da estrada, quando os servos, armados de páos, correram a
+prohibir-lhe que tocasse na seara que era de seu amo. Perguntou-lhes o
+caminheiro onde estava o amo, e soube d'elles que era fallecido, mas
+lhes recommendára que vigiassem a messe preparada para seus filhos.
+
+O caminheiro, ouvida tal resposta, contristou-se, e lhes fez vêr a
+differença que havia entre o joio e o trigo. E disse-lhes: Acautelai-vos
+de os mandar juntos ao moinho, e não façais pão que não seja de puro
+fermento.
+
+Os servos, não obstante, persuadidos da sabedoria do amo e do
+cumprimento fiel ás ordens recebidas, desconfiaram do caminhante, e de
+seus proprios olhos até, quando lhes apontava a differença das duas
+plantas. Se isto é joio, diziam, não fômos nós que o fizemos rebentar.
+
+Certo é que não--disse o passageiro--não fostes vós quem fez germinar o
+trigo nem o joio, nem communicastes a cada um dos dois sua diversa
+virtude, nem tão pouco lh'as podereis tirar; mas, se não sois quem os
+fez crescer, fostes vós quem os semeou, depois de misturar os grãos que
+o pae de familia havia cuidadosamente separado. Se amais os filhos de
+vosso amo, fazei o que elle faria: não lhes deis a comer pão que
+empeçonha, porque d'elle adoecerão, e outros hão de morrer.
+
+Turbaram-se grandemente os servos com tal discurso. Um disse
+entre si: «Póde ser que o homem tenha razão: aqui ha plantas que não
+parecem eguaes; e é acertado não desprezar bons avisos, venham d'onde
+vierem, porque, um dia, quem sabe se nos serão pedidas contas?» Outros,
+no entanto, diziam: «Este homem póde ser um impostor. Quem sabe d'onde
+vem ou para onde vai? Quem lhe deu direito de nos ensinar? E porque não
+hemos de dar d'este pão aos filhos de nosso amo? Nós comeremos tambem
+d'elle.»
+
+Dizendo isto, abaixaram-se a apanhar pedras, e remessaram-as contra o
+caminheiro que se affastou.
+
+
+
+
+ APPENDICE
+
+
+
+
+ CAPITULO PRIMEIRO
+
+ PROVAS MYSTICAS DO INFERNO
+
+
+ I
+
+ Da auctoridade da Biblia
+
+Ninguem nega que a Biblia contém brilhantes verdades; mas essas
+brilhantes verdades não nos encantam por estarem na Biblia; em qualquer
+parte onde as vissemos, as amariamos por seu natural resplendor. Da
+natureza d'ellas, as encontrais nos escriptos dos antigos sabios. São
+taes verdades como a noiva dos Cantares: a sua belleza é toda sua, e não
+reflexa, e todo seu imperio lhes promana da formosura.
+
+Porém, a Biblia tambem encerra pensamentos que, pomposamente vestidos,
+nos tocam o espirito por inverso modo. Quanto mais os examinamos tanto
+mais os regeitamos. Afóra a visinhança, nada tem commum com as
+sympathicas verdades, entre as quaes se nos deparam. É-nos, todavia,
+prohibido de as distinguir, e confiar em uns com desconfiança
+d'outros; dizem-nos que tudo é verdadeiro, e verdadeiro com o mesmissimo
+titulo, não porque sejam umas cousas mais ou menos persuasivas que
+outras, mas porque se acham escriptas n'aquelle livro.
+
+Dispensam-nos de procurar na Biblia o cunho interior que Deus gravou na
+verdade para que a reconheçamos. Caracteres naturaes e distinctivos do
+erro podem guiar-nos em tudo; mas na Biblia não. N'outros livros é
+facultativo discernir o justo do injusto; para o quê temos regras
+certissimas, e instrumentos agudissimos; mas é peccado querer julgar a
+Biblia. Cumpre-nos, lendo-a, desconfiar do nosso coração, do nosso
+espirito, de tudo, salvo d'ella. Assiste-nos o direito de dizer, como
+Platão que Homero ultraja a divina magestade, quando mistura o Olympo
+com as paixões humanas; porém, quando a Biblia glorifica a perfidia de
+Jahel, e a cavillação de Judith, e o roubo e carnificina dos chananeos,
+e faz collaborar Deus em tantas traições e morticinios, não nos é
+permittido o duvidar. Se Isaias nos figura o Salvador de Israel calcando
+o povo como o vinhateiro esmaga a uva no lagar, foliando sobre elle e
+sacudindo com selvagem alegria os seus vestidos aspergidos de sangue,
+não seu, mas dos homens, devemos dizer: _Amen!_ eis aqui o bom pastor, o
+cordeiro de Deus, a mansa victima do Calvario, o Christo na sua gloria!
+E quando o psalmista comparar o Senhor a um homem embriagado do vinho
+que lhe redobra as forças e lhe faz expedir pavorosos gritos,
+devemos sem escrupulo responder: Assim seja! Claro é que nenhum de nós
+quereria similhar-se ao vindimador sanguinolento nem ao guerreiro ebrio;
+ninguem ousaria assim fallar de Atila recolhido á tenda, com receio de
+ser ouvido; mas similhantes confrontos que envileceriam Jupiter e
+offenderiam o rei dos hunos, prodigalisal-os-hemos ao nosso Deus, em seu
+templo, attendendo a que os prophetas sabiam melhor do que nós quaes são
+os elogios que lhe prazem. Taes sujeitos nada diziam do seu chefe: tudo
+que escreviam era o espirito santo que lh'o ditava, desde os successos
+até ás expressões significativas d'elles. Ora ahi está por que tudo é
+sagrado quanto a Biblia contém, e por que tal pensamento, que n'outro
+livro trescalaria a impiedade, é, na Biblia, uma adoravel coisa. Ha
+n'isso mysterio não menos profundo que o do inferno, se tentarmos
+esclarecel-o; e tal mysterio, com que se quer demonstrar outro, promove
+discussões que o catholicismo impugnou sempre, servindo-se d'isso como
+arma contra os protestantes.
+
+O catholicismo diz aos protestantes: Como sabeis que a Biblia é divina?
+Conhecestes Moysés? Quando Deus lhe fallou do cimo da montanha, estaveis
+presente? Passastes a pé enxuto o mar vermelho, ou bebestes agua da
+rocha de Horeb? Quem vos affirmou que aquelle homem era propheta? Que
+provas vedes na Biblia de que não é toda ella obra de homens? Milagres?
+Outros livros os contam, e vos fazem rir. Verdades? Outros livros as
+encerram sem que as imputeis ao Espirito Santo. Obscuridades?
+Coisa naturalissima, sendo tantas em todos os auctores, e nos vossos não
+menos. Quem sois vós, para que vos acreditemos, quando nos affirmaes
+inverosimilhanças? Não vos conhecemos. Que caução nos dais? Sois
+inspirados? Fazeis milagres? Vejamol-os. Não basta dizer: a Biblia é
+divina; é mister proval-o irrefutavelmente. O numero dos vossos
+partidarios não faz nada á questão. O livro dos Vedas, que se gosa do
+foro de divino na Asia, é tão antigo como a Biblia, e não tem menos
+sequazes. Se a Deus aprouvesse, communicar-se aos homens por meios
+naturaes, como dizeis, fal-o-hia por lances de bondade, com o fim de os
+unir, como filhos do mesmo pae, por que, a par e passo que melhor se
+conhece Deus, mais se conhecem a caridade e justiça. Como é pois que
+tantas nações, presumindo possuirem taes oraculos, em vez de viverem
+unidas, luctam discordes, erigindo altar contra altar, injuriando-se,
+perseguindo-se, e votando-se reciprocamente ás chammas eternas! O que as
+divide é as obscuridades da Biblia; não é as verdades naturaes que lá se
+vos deparam. Quem alumiará a escureza em que dizeis está Deus involto, e
+no seio da qual os homens se dilaceram, desprezando naturaes e
+luminosissimas verdades? Os judeus entendem as prophecias diversamente
+do vosso parecer; e, tão de boa fé as interpretam, que sustentam a sua
+opinião em desterros, carceres, fogueiras, durante seculos, fugindo, e
+deixando rasto de sangue por toda a parte do mundo. Qual seita
+protestante não arrancou da espada contra a sua irmã? Todas tem
+tido martyres e verdugos. Isso não nos parece prova da divindade da
+Biblia. Nem sequer lhe podereis provar a authenticidade. Os originaes
+d'esse livro miraculoso onde param? Perderam-se, comeu-os a traça, como
+succede por tempo a tudo que é obra de homens. Porção consideravel
+d'esse antigo monumento acabou ás mãos dos hebreus, depositarios d'elle.
+O que nos resta são reliquias. Se capitulos inteiros, de que apenas
+sabemos os titulos, já não existem, quem vos auctorisa a pensar que os
+capitulos subsistentes não foram alterados? Estariam elles a melhor
+resguardo? Por quem? Por que? E como? Quem os copiou? Quem os traduziu?
+Quem abona a fidelidade de tantos copistas, e a intelligencia e sciencia
+dos traductores? Por que signaes se conhece qual é a melhor entre as
+copias antigas, e entre as differentes copias antigas? Em qual traducção
+confiaremos entre tantas diversas? Reportar-nos-hemos ao livreiro, ao
+impressor, ou ao editor? A quem? A mortos desconhecidos, a vivos
+ignorantes, ou a sabios sem missão e cuja sciencia nos é ainda
+problematica? Pois que venha ahi quem quizer, e mostrando um papel
+rabiscado exclame: eis-aqui a palavra de Deus! E sem mais nem menos
+ponha-se a gente de joelhos! Á vista d'isso ninguem póde ser accusado de
+idolatria. Se não tendes á mão outras provas da authenticidade e
+divindade da Biblia, todo o homem cordato regeitará a Biblia, sem salvar
+o Novo Testamento. O christianismo foi prégado antes da redacção
+dos evangelhos, ás multidões que não sabiam ler. Quando essas prégações
+começaram a correr escriptas, os evangelhos eram aos cardumes;
+appareceram logo cincoenta attribuidos aos apostolos e aos discipulos de
+Jesus.
+
+Quem se entenderia n'este cháos? Quem poderia decidir que o evangelho de
+Thiago não era de Thiago, e que o evangelho de João era de João? Quem
+poderia discriminar entre o verdadeiro e o falso? Entre o de Deus e o
+dos homens? Quem poderia discernir e acreditar a boa copia entre as
+copias falsificadas de João? A coisa não era de si tão luminosa que
+podessemos aceital-a hoje em dia.
+
+No quarto seculo, bem perto dos tempos apostolicos, esta questão enleava
+gravissimos doutores, um dos quaes, testemunha de taes incertezas, Santo
+Agostinho, dizia que elle sem o testemunho da Egreja não prestaria fé ao
+verdadeiro evangelho. Não achava elle portanto nos escriptos de João, de
+Lucas, de Marcos, de Matheus e de Paulo a prova intrinseca da sua
+divindade; com mais forte razão não acharia a mesma prova intrinseca nos
+escriptos de Moysés, de Samuel, de Esdras e outros prophetas.
+
+Se eu não debilitei, resumindo-as, as razões com que os catholicos
+intentam reconduzir ao seu gremio as seitas dissidentes, expuz tudo o
+que tinha a expor sobre a primeira prova mystica do inferno, extrahida
+das Escripturas. Passemos á segunda prova que é o testemunho da
+Egreja.
+
+
+ II
+
+ Da auctoridade da Egreja
+
+Diz-nos a Egreja catholica que é preciso crêr o que ella nos ensina como
+se Deus nos fallasse. Quando nos annuncia que todos nós peccamos antes
+de nascer, e que a Virgem, mãe de Christo, nasceu sem peccado--o que se
+não acha no evangelho--devemos acredital-o como se o evangelho o
+dissesse. A Egreja supre o silencio das escripturas, interpreta os
+textos, umas vezes prende-se á letra, outras descobre um entendimento
+occulto que só ella vê, o unico verdadeiro. Como possue, com a Biblia, a
+tradição oral dos patriarchas, dos prophetas e dos apostolos, a nova
+synagoga continúa no tempo e no espaço a immortal cadêa, guardando, diz
+ella, o dom de prophecia e o dom dos milagres.
+
+A Egreja catholica é mais que a imagem de Jesus Christo: está
+consubstanciada n'elle como sua esposa. Testemunha do passado, luz do
+presente e do futuro, legislador infallivel, juiz sem appellação,
+devemos consideral-a sempre como viva incarnação do Verbo eterno. Seria
+a Biblia um livro duvidoso em seu texto, se ella não asseverasse a
+autenticidade d'elle, e duvidoso em seu espirito se não recebesse a
+missão de o explicar aos homens. De modo que toda a auctoridade
+n'este mundo, já a da razão, já a dos livros sagrados, sóme-se
+absorvida na soberana auctoridade d'ella.
+
+Esta segunda prova do inferno é de natureza analoga á primeira: é
+mysterio. Exponho-o sem o discutir. Mas os protestantes discutem-no;
+negam-o, reprovam-o em nome dos prophetas e dos apostolos, e milhares e
+centenas de milhares d'elles affrontariam a fome, o frio, a penuria, o
+exilio, os carceres, a tortura ordinaria e extraordinaria, o poder de
+Cezar e toda a casta de supplicios, com o denodo dos primitivos
+martyres, antes de vergar o joelho ante a Egreja--o que elles
+qualificariam de idolatria. Não posso abster-me de relatar algumas de
+suas objecções, as quaes, bem que sejam forçadas sobrenaturalmente com
+versiculos do Apocalypse ou das Visões de Isaias, nem por isso me
+parecem menos debeis.
+
+Temos, dizem, um facil meio de nos certificarmos da infallibilidade da
+Egreja. Perguntai-lhe o que deve fazer-se em frequentes circumstancias
+da vida, quando os mais doutos homens se bandeam em dous ou tres
+arraiaes, dizendo uns: deve fazer-se isto; não,--dizem outros--isso é
+pessimo--; e os terceiros sustentam que não se deve fazer nada, ainda
+que a inacção pareça aos outros criminosa. Pelo facto de nos prohibirem
+actos manifestamente culposos aos olhos da razão, já prohibidos por lei
+natural, pelo decalogo e pelos philosophos, isso não convence que
+possuam luzes milagrosas para regerem almas. O que queremos é que nos
+guiem no lance em que os outros conductores nos abandonam, nos
+pontos em que elles se desavém, em que se calam; emfim, na conjunctura
+em que os homens tem grande interesse em conhecer a verdade que se lhes
+occulta. Venha a Egreja n'um d'estes casos. Não affrontemos com os
+casuistas multidão de problemas onde o nosso partido seria grande;
+busquemos antes, nas relações da vida civil, um só d'esses factos
+duvidosos, sobre os quaes a sabedoria humana está indecisa. Vá de
+exemplo o emprestar a juro, e exponhamos primeiro a questão muito pelo
+alto.
+
+Deve emprestar um homem ao seu visinho, dinheiro ou qualquer outro
+valor, gratuitamente? É, pelo contrario, licito haver parte dos lucros
+da quantia cujo uso se permitte, por tempo marcado, ao visinho? Como
+principio, ninguem condemna o emprestimo gratuito, o qual, á maneira da
+esmola, é um acto de liberalidade muito para louvar-se, mas que seria
+nocivo, sendo praticado sem discernimento. Todavia, alguns philosophos,
+e modernamente alguns caudilhos das seitas communistas, defendem que o
+emprestimo gratuito é o unico bem consoante á equidade natural, e que a
+minima usura é roubo. Estes philosophos tem sido arregimentados na peor
+especie de utopistas. Toda a gente sisuda recusa considerar a gratuidade
+do emprestimo como obrigação moral. Tal preceito usurparia á mediania
+económica os meios de valer ao indigente laborioso; o pae de familias
+não arriscaria as migalhas penosamente poupadas, se o não
+acoroçoasse esperança d'um beneficio adequado ao serviço que
+presta e aos perigos que corre. Os que nada tem caíriam, por
+conseguinte, em mais apertada dependencia dos que tem tudo profusamente.
+Nas modernas sociedades, similhante preceito multiplicaria os invejosos,
+multiplicando os avarentos. Feriria de esterilidade o campo da viuva,
+estagnaria o movimento da industria e commercio, e, pelo tanto, o
+desenvolvimento da riqueza e vantagens moraes que ella proporciona. O
+emprestimo a juro é logo geralmente admittido como justo e fertil em
+toda a especie de prosperos resultados. Mas surdem para logo novos
+obstaculos. Deve-se limitar a taxa do juro que o devedor pede ao crédor?
+Como se hão de avaliar os prejuizos do devedor, e os lucros conjecturaes
+do crédor? Ha nada mais hypothetico e variavel! Que differença entre a
+qualidade e os productos de duas terras convisinhas, entre tal e tal
+mister, entre a capacidade d'este e a d'aquelle! O juro legal, ás vezes
+pequenissimo, casos haverá em que seja pezado; mas, como é legal, pezará
+com todo seu pezo sobre os que menos lh'o podem supportar. Será elle até
+motivo a encarecerem os generos, e redundará em incommodo e vexame. Tal
+é, quando menos, a opinião de celeberrimos philosophos.
+
+Mas deve-se, como elles querem, deixar livre plenamente a vontade dos
+contrahentes?
+
+Cuidar-se-ha que tudo isto é mera questão de economia politica: não é
+verdade. Aqui, mais que tudo, militam questões moraes complicadas
+e de alto melindre, de interesse quotidiano e universal, questões que
+enliçam elevadissimos espiritos, e sobre as quaes devemos, por isso,
+interrogar a Egreja.
+
+Se consultamos os canones dos concilios, e nomeadamente os de Nicea,
+d'Arles, de Carthago e de Elvira, achamos que a Egreja condemna, em
+theoria, o emprestimo a juro. Na pratica, porém, tolera-o. Não
+insistamos na contradicção. Se é permittido o emprestimo a juro, quaes
+são as condições? Tem alguem direito de fixar o beneficio do devedor?
+Quem é? O Estado? Se é o Estado que fixa a taxa do juro, é o Estado quem
+definitivamente decide do que Deus concede e do que Deus prohibe, do que
+é e do que não é peccado, e por tanto a lei divina varia com a phantasia
+da lei. Se não é o Estado, é o uso da terra? Ha nada mais injusto e
+irregular? Que principio cumpre adoptar? Onde está o direito? Onde o
+abuso? Que é da regra? Não ha nenhuma? Não ha. A tal respeito é tamanha
+a desordem entre os theologos como entre os estadistas, e philosophos, e
+economistas e jurisconsultos, e entre os confessores e penitentes. Varia
+em cada diocese a jurisprudencia: não vamos tão longe; varia em cada
+parochia. Mudai de confessor, e vereis que o mesmo facto, cercado das
+mesmas circumstancias, muda o nome: peccado mortal, injustiça,
+expoliação no confessionario á direita, acto licito no confessionario á
+esquerda, debaixo do mesmo campanario, em nossas opiniões, e o seu facho
+milagroso vasqueja ao pé do mesmo altar. Um parocho vos condemna
+e outro vos salva. Parece pois que a infallibilidade ecclesiastica é
+aleijada n'esta questão vital em que os ricos a invocam para
+tranquillisarem suas consciencias, e os pobres para satisfazerem as
+necessidade do corpo e as da alma, porque elles pedem de emprestimo para
+trabalhar, para nutrir os filhos, educal-os, casal-os, auxiliar os seus
+parentes velhos, e sepultal-os, e para isso é mister que achem quem lhes
+empreste.
+
+Quanto a materia politica, reinam as mesmas contradicções e incertezas
+dos negocios civis. Ha factos criminosos perante a razão, e todavia são
+absolvidos e até glorificados por uma parte do clero, sem excepção dos
+bispos, ao mesmo tempo que uma outra parte da cleresia os condemna a
+meia voz; mas de modo que a ouçam. A carnificina chamada de _Saint
+Barthélemy_ foi approvada em Roma e celebrada em quasi todos os
+pulpitos. A revocação do edito de Nantes foi approvada pelo Papa e pela
+maioria dos bispos. Sobejar-nos-hiam exemplos, se os quizessemos, sem ir
+tão longe. Por outro lado, ha factos legitimos, heroicos, louvaveis,
+perante a razão, e esses são malsinados e condemnados como crimes por
+parte do clero, sem excepção dos bispos, ao mesmo passo que outra parte
+do clero os approva, e ás vezes tem parte n'elles. E tambem do clero ha
+porção que se abstem de julgar taes actos. As ultimas insurreições da
+Polonia e Italia nos dão exemplo recente e ainda sanguinolento. Aquillo
+que um Papa censurou, e outro Papa stygmatisou, outros padres
+applaudiram, alentaram e abençoaram! Estas diversidades de opiniões
+sobre successos tão graves, e culpaveis, se o são, tão admiraveis pelo
+contrario, se não são culpaveis, manifestam-se no secreto do tribunal da
+penitencia como nos escriptos e actos publicos. O confessor de Carlos IX
+considerou d'Orther subdito rebelde porque recusou ser assassino.
+
+O bispo de Abranches talvez negasse a absolvição ao confessor de Carlos
+IX. Tal italiano, injuriado por um frade, seria festejado pelo seu cura.
+De maneira que á vista d'uma auctoridade moral infallivel, bastantes
+catholicos, testemunhas d'este espectaculo, vendo para onde Roma pende,
+perguntam amargamente se em verdade os povos tem direitos, e meios de
+fazerem respeitar os seus direitos; se a desobediencia ao rei é só
+permittida em materia de dogma; se a liberdade, o trabalho do
+pensamento, da escripta e da voz não merecem ser defendidos, comtanto
+que vos deixem a liberdade de rezar; se ha outra patria além da Egreja;
+se o servilismo, já cégo, já illustrado, não é a principal virtude
+civica; se, emfim, n'este mundo o belprazer dos poderosos não é a
+suprema justiça. Estas e muitas outras perguntas tem sido
+contradictoriamente respondidas pela Egreja, que não sabe melhor que nós
+onde estão bem e mal, virtude e crime, em conjecturas solemnes e
+frequentes, nas quaes bem e mal, virtude e crime avultam a proporções
+enormes. A Egreja hesita comnosco, duvida comnosco, bandeia-se e
+apaga-se quando entra nas veredas obscuras em que o genero humano é
+forçado a entrar, as quaes inevitavelmente conduzem ao céo ou ao
+inferno. A Egreja sabe que a Virgem foi concebida sem peccado; conhece a
+gerarchia dos anjos; dogmatisa onde a incerteza seria talvez prudente, e
+a ignorancia saudavel; porém, se procuramos regras de proceder, esteio e
+guia nos tempos difficeis em que parece que a infallibilidade vai
+resplandecer, activar-se e resolver a questão, a Egreja perturba-se,
+balbucia, contradiz-se e desampara-nos á discrição.
+
+Como é então que ella prova a sua infallibilidade? Prohibe-nos de
+esquadrinhar na Biblia as regras da nossa fé, allegando que a Biblia é
+livro inintelligivel para nós. E, se lhe pedimos a razão d'isto, abre o
+livro que incessantemente lemos, esse mesmo livro cuja authenticidade e
+sentido só ella garante e explica. É ahi que ella pretende mostrar-nos a
+prova que lhe pedimos; mas nós sustentamos que ahi não ha tal prova.
+Além d'isso, se é mister crêr primeiro na Egreja quem houver de crêr nas
+Escripturas e entendel-as, que argumento é esse? Póde qualquer, em um
+processo, invocar contra o seu adversario um documento de que elle só se
+constitue interprete e juiz? Contente-se pois a Egreja em affirmar que é
+infallivel, mas abstenha-se de o provar.
+
+Eu por mim não creio. A infallibilidade é um attributo incommunicavel de
+Deus como a eternidade e a omnipotencia. Se o Papa e os bispos fossem
+infalliveis, não bastaria respeital-os, seria mister adoral-os.
+Disso nos defenda Deus! São homens como nós. E, quando o Espirito Santo
+nos illustra, somos como similhantes aos candelabros do templo, e, sem o
+querer, confundimos a nossa sombra com a luz que dardejamos em redor.
+
+Assim fallam os protestantes. Não digo que taes discursos sejam
+concludentes: não me compete a mim julgal-os; mas d'este capitulo e do
+anterior inferimos uma conclusão cuja justiça creio que ninguem
+contesta.
+
+
+ III
+
+ Conclusão do que fica dito
+
+A conclusão que eu desejaria tirar do que fica dito é que a Biblia e a
+Egreja, estas duas auctoridades que se invocam em favor das penas
+eternas, não tem o mesmo valor no conceito de toda a gente. Um
+protestante renegaria o inferno, apezar dos anathemas dos Concilios, se
+a Escriptura lh'o não annunciasse; mas um catholico renegaria o inferno,
+apezar da lucidez dos textos biblicos, se aprouvesse á Egreja attribuir
+áquelles textos, segundo o parecer de Origenes, um sentido visivelmente
+conforme á justiça e bondade de Deus.
+
+Tanto em Genebra como em Roma crê-se no inferno; mas por diversas
+razões; e o que parece argumento decisivo para metade dos christãos, não
+têm a mesma efficacia para a outra metade. Conformam-se sobre a
+verdade d'um prodigio, recusando de ambas as partes uma das duas
+testemunhas que o affirmam; os de Genebra considerando a Egreja um
+professorado do erro; os de Roma sustentando que a Biblia desencaminha
+aquelles que exclusivamente se fiam n'ella.
+
+
+
+
+ CAPITULO SEGUNDO
+
+ Resposta a uma objecção
+
+
+Fallei da multidão dos condemnados, e tirei d'esse facto, contra a
+eternidade das penas, inferencia que me parece valiosa. É certo que a
+maioria dos homens seja condemnada? Os fieis, que estudaram este
+assumpto em livros modernamente escriptos, crêem que não, e vos dizem
+que os philosophos maliciosamente assacaram aquella opinião aos seus
+adversarios para os tornar odiosos. Não duvidam que ha inferno; não os
+inquieta a natureza do supplicio, mas sim a quantidade dos suppliciados.
+Mil, cem mil, um milhão d'almas a padecerem eternamente parece-lhes
+coisa muito de crêr-se, moralissima, certissima. Não póde suppôr-se que
+o inferno esteja vasio; aliás melhor seria supprimil-o. Um milhão ou
+alguns milhões d'almas, se Deus as abandona, tambem ellas
+abandonam a Deus; é bastante para exemplo, é bastante para justiça;
+porém metade do genero humano e mais de metade, é excesso, é monstruoso:
+não se crê. Não é isso, quer-nos parecer, a boa nova que celebraram ha
+mil e oito centos annos os magos e os pastores nos caminhos de Bethelem.
+Mas os velhos dogmas de Israel por tal arte andam baralhados com as
+verdades christãs, e tanto a primitiva Egreja com elles se identificou
+formando um corpo doutrinal, que um homem instruido não póde hoje, sem
+risco de heresia, tentar separal-as.
+
+Sem embargo, opera-se no seio do christianismo um singular trabalho, de
+que o clero não dá tento, bem que a iniciativa de ha muito proceda
+d'elle mesmo. Este trabalho de que as obras de Sanchez, de Escobar, do
+padre Annat, do padre Lémoine, e d'outros casuistas, tão agramente
+invectivados por Pascal, eram apenas indicios, tende a neutralisar cada
+vez mais a acção n'outro tempo tão vigorosa dos elementos hebraicos do
+christianimo. Sentimentos, que debalde quereriamos suffocar, rompem á
+luz; o coração reclama, bem que timidamente, seus direitos; a
+consciencia, constrangida debaixo do pezo de abafadoras tradições, não
+repulsa, mas a tremer levanta do peito o fardo, como para respirar.
+Verdade é que ainda nos pregam os velhos mysterios da synagoga; mas, ao
+mesmo tempo, cuidam em dissimular-lhes as consesequencias logicas
+relativas á vida futura, e--notabilissimo caso!--não insistem nas
+consequencias praticas, no tocante á vida presente. Este ultimo
+facto, muito significativo, provém dos casuistas. Foram elles quem
+primeiro quiz achanar aos homens a estrada do céo. Como não soubessem
+conciliar as necessidades da vida terrestre com as da fé, e não ousassem
+embarrar pelo inferno, com medo de torriscar os dedos, derruiram
+audazmente a moral. Graças lhes sejam dadas, que isto de peccados
+mortaes está por um fio! O assassino, mal lavou as mãos, e o perjuro mal
+lavou a lingua, são admittidos ao sagrado banquete, O pulpito continua a
+fuzilar trovoadas minacissimas; é ainda Isaias e S. Paulo a bradarem;
+mas, no tribunal da penitencia, os coriscos apagam-se; quem confessa é o
+tolerante padre Lémoine, que perfeitamente percebe que uma duqueza, uma
+capitalista, uma burgueza opulenta não podem viver de favas, nem trajar
+de serguilha, nem dormir no taboado, nem imitar sequer de longe a
+perfeição negativa das santas reclusas, cujas virtudes andam celebradas
+nos pulpitos. Descobrir, porém, no complexo dos actos dos homens, o
+limite exacto do dever, isso é desvario: ou prohibir, ou permittir tudo
+quando se renuncia e dirigir verdadeiramente as peccadoras mundanas para
+o antigo ideal da abstinencia ascetica. O theatro, o baile, os hombros
+nús, a maledicencia, as prodigalidades do luxo, a parcimonia das
+esmolas, a lisonja, a ambição, a cupidez, a ingratidão, as desavenças,
+tudo passa, tudo é venial, nada impede da desobriga. Nem o juiz nem o
+penitente conhecem regra. O mais virtuoso e austero padre póde
+ser integerrimo no pulpito; mas, no confessionario, treme, receia
+afugentar a alma que o procura; lembra-lhe o Bom Pastor, o céo
+promettido ao ladrão que se accusa, o perdão da adultera, e
+involuntariamente contribue a facilitar as quedas, e as reincidencias,
+facilitando a expiação. Pois os primitivos christãos não tinham ouvido
+fallar do bom ladrão, e da mulher adultera, e da parabola do Bom Pastor?
+Comparem com a disciplina de hoje a de então que eu já referi. Se o
+padre Lémoine lesse nas catacumbas um capitulo da _Devoção commoda_, o
+congresso de fieis e martyres surgiria em pezo contra tal innovador, e o
+bispo excommungal-o-hia. Tenho minhas duvidas que o proprio S. Francisco
+de Salles o tractasse bem. É que os primitivos christãos nunca perdiam
+d'olho Satanaz, peccado original, inferno, e conformavam o seu
+procedimento, não a tal artigo de fé ageitada a dar alentos á esperança,
+mas ao complexo tremendo da doutrina que aprendiam.
+
+A harmonia que primordialmente se deu entre a disciplina da Egreja e as
+crenças da Egreja, está por tanto desde muito desacorde. Port-Royal
+tentou afinal-a. Foi esse o segredo da sua lucta com os casuistas mas os
+casuistas venceram. A contenda acabou.
+
+Meditemos agora nas consequencias logicas dos nossos dogmas, relativos á
+outra vida, dos esforços que debalde se envidam para lhes amaciar as
+asperezas e edulcorar-lhes o travor, com medo de que lhes não atirem
+fóra copo e remedio.
+
+Em louvor dos theologos modernos, declaro que poucos ha que possam
+encarar impassiveis a multidão de pagãos e hereges que regorgita do
+inferno--multidão que sem intercadencia augmenta com muitos milhares
+d'almas cada dia, muitos milhares cada anno. Elles, pois, escondem as
+vinganças divinas, em vez de nol-as mostrarem, no seu trilho aterrador á
+maneira dos antigos. Quando cuidam em nos animar, tambem elles se animam
+em seus proprios quebrantamentos, sentindo que a piedade desborda e
+arrasta a fé; e não só a piedade, mas tambem a justiça.
+
+S. Thomaz de Aquino, incapaz de ceder unicamente á piedade, estacou
+diante d'esse problema de justiça, e diligenciou, a seu modo,
+resolvêl-o, por feição que podesse, sem offensa da fé, contemporisar com
+a sua razão.
+
+Imaginou um justo fóra da Egreja, ignorando as verdades salvadoras, e
+predestinado ao inferno por culpa de sua ignorancia. Ora um anjo
+celestial, quando este justo agonisava, desceu a revelar-lhe a verdade,
+dando-lhe assim entrada na Egreja por uma porta falsa, e mantendo por
+este theor milagrosamente a inteireza dos dogmas. Pouco importava a S.
+Thomaz, tão grande e inflexivel logico, salvar as regras explicitamente
+formuladas pelos concilios; e, se taes regras podiam ferir a justiça, lá
+estavam os anjos para concilial-as. O que elle queria era salvar os
+gentios.
+
+Mas, hoje em dia, os theologos avantajam-se a S. Thomaz. Já não ha
+recorrer a milagre. Dizem que, se entre infieis, e até entre os
+hereticos, ha pessoas honestas, Deus bem as vê: essas pertencem á
+Egreja, não corporal, mas espiritualmente; creem implicitamente as
+verdades que ignoram, e basta isso: são catholicos lá do seu feitio. É
+pois prohibido condemnar a esmo gentios e hereges, cegos innocentes,
+virtuosos transviados, erros invenciveis[7]. Já se diz que ninguem é
+condemnado, tirante os máos, qualquer que seja a religião que professem.
+
+Bella é a linguagem, mas tambem é evidentemente illusoria; por onde
+vamos vêr que tal piedade, bem que sincera, não póde aproveitar a
+alguem. Vós não condemnais todos os gentios nem todos os hereges; é
+verdade. Os dogmas que nos ensinais é que os condemnam. Ora, se, acaso,
+os cinco dogmas tirados do judaismo fossem falsos, bem sabemos que não
+estava em vossa alçada condemnar, ainda que o quizesseis, um só
+idolatra, por peor que houvesse sido; mas, ao invez, se taes dogmas são
+verdadeiros, tambem sabemos que não cabe em vossa alçada salvar um só
+gentio nem um só herege, ainda que o quizesseis. Mais: em virtude de
+taes dogmas, é de fé que o homem nasce máo, e que o crime que lhe mancha
+o berço, explica, mas não lhe justifica os erros da vida.
+Irroga-se culpa a quem se liga á religião de sua familia e patria,
+quando tal religião não é a genuina. Se assim não fosse, vêde bem que
+melhor seria ter nascido sarraceno que catholico; que um turco
+salvar-se-hia procurando de boa fé, como os patriarchas, prazeres que a
+nós nos perdem para sempre; e o maximo das bençãos seria nascer e morrer
+selvagem, n'alguma ilha incognita, longe dos formidaveis clarões que nos
+privam de desculpar com a ignorancia os nossos peccados. Fossem embora
+salvas alguns milhares de creaturas apenas entre os billiões d'ellas que
+morrem em peccado original, uma duzia só que fosse, seria que farte para
+argumentar que ha salvação fóra da Egreja, e sem algum dos soccorros
+extraordinarios de que ella dispõe. Estes theologos tolerantes não
+reparam que inutilisam a revelação, que despojam a Egreja das chaves do
+céo, ou, pelo menos, indiciam que ha chaves em duplicado para lá entrar,
+e que judeu, musulmano, lutherano, philosopho, todo homem honrado tem
+uma chave. A opinião assim pelo claro não ousariam elles exhibil-a, e, a
+bem dizer, tudo aquillo não é opinião sua; é, melhor ainda, expansão de
+alma que aspira á verdade e justiça; é protesto da humanidade christã
+contra o judaismo, protesto mais revelante por não ser voluntario, nem
+saber-se a si mesmo comprehender. O raciocinio não é o essencial do
+protesto, como em S. Thomaz d'Aquino; quasi que não é parte em taes
+discursos, pois que os discursadores não concluem como deviam, se
+raciocinam; e não podem fundamentar a sua argumentação sobre ensino
+authentico da egreja[8]. É mister, por desgraça, renunciar á orthodoxia
+ou condemnar despiedosamente mais de tres quartos do genero humano. O
+justo, estranho á Egreja, a quem nos prohibem de offerecer a mão, não
+existe aos olhos da fé: é um phantasma que avulta á vossa piedade. Se ha
+ignorancia involuntaria e invencivel, não é a do idiota? Ora ahi está! o
+idiota, o cretino, o aborto sem olhos nem ouvidos peccaram no ventre
+materno, peccaram mortalmente, e só pelo baptismo conseguirão
+justificar-se. Como é então que ha de subtrahir-se ás tentações e ás
+sincadilhas de que tanto a custo se escapam os filhos da Egreja, um ente
+egualmente viciado em sua natureza, mas mais livre, se envelheceu sem
+revelação e sacramentos? Onde ganhará elle amor ao bem e vigor para
+pratical-o? Tal hypothese é heresia por atacado; só poderemos aceital-a
+como excepção milagrosa; e, n'essa qualidade, não vingaria
+dulcificar o sentir que esperta em nossa alma o perpetuo inferno, onde,
+ha seis mil annos, se vão acamando as gerações humanas.
+
+ [7] Veja entre outras obras os _Estudos a respeito do Christianismo_
+ por Nicolas, tom. III, c. 14. Este livro foi approvado, louvado e
+ recommendado pela auctoridade ecclesiastica, e nomeadamente por
+ Mons. Cardeal Donnet, Arceb. de Bordeaux. O padre Lacordaire
+ protegeu-o assignaladamente, considerando-o a mais completa e melhor
+ apologia da fé catholica.
+
+ [8] Este ensino multiplicou-se com diversos aspectos: peccado
+ original; necessidade do baptismo; ha uma só fé e um só baptismo;
+ fóra da egreja não ha salvação; necessidade dos sacramentos da
+ penitencia, de confirmação, etc., como auxiliares de nossas
+ enfermidades, depois do baptismo, necessidade e conjunctamente
+ insufficiencia da prégação e da leitura; inefficacia das boas obras
+ sem os sacramentos; manhas e poderio de Satan; impossibilidade de
+ viver e morrer em estado de graça fóra da Egreja que é a dispenseira
+ das graças, etc., etc. Encheriam um volume os decretos, promulgados
+ áquelle intento, e os anathemas fulminados contra quem houvesse dito
+ ou viesse a dizer o contrario d'esses decretos.
+
+
+
+
+ CAPITULO TERCEIRO
+
+ DA DESCIDA DE CHRISTO AOS INFERNOS
+
+
+ Descendit _ad Inferos_; tertià die
+ resurrexit à mortuis; ascendit ad
+ coelos, sedet ad dexteram Patris,
+ indè venturus est judicare vivos
+ et mortuos.
+
+ Credo in Spiritum sanctum, in sanctam
+ Ecclesiam catholicam et apostolicam,
+ in communionem sanctorum, in
+ remissionem peccatorum, carnis
+ ressurrectionem et vitam æternam. Amen.
+
+ (_Symb. apostolorum_).
+
+
+ I
+
+O Filho do homem, expedindo sobre a cruz sua vida mortal, desceu aos
+infernos. Não é o Evangelho que o refere; é um documento não menos
+venerado, o qual, com o _Pater_ e _Ave_, é parte das orações que a Egreja
+ensina aos seus filhos: documento, ao que parece, anterior á redacção
+dos Evangelhos e resumo da fé apostolica: é o _Credo_.[9]
+
+Jesus morto vai annunciar aos mortos a boa nova: Satanaz vencido,
+os peccadores resgatados, o céo aberto aos que oram, aos que choram, aos
+que soffrem. Para estes exclusivamente é que seu sangue aspergiu o chão
+do calvario. Jesus não dispensa da penitencia os que morreram culpados;
+mas dá-lhes a esperança que as antigas crenças deixavam luzir na terra
+sómente, e apagavam no tumulo.
+
+Sei de sobra que os theologos querem que o inferno, visitado por
+Christo, não seja o verdadeiro inferno; mas sim o limbo, o purgatorio,
+os seis primeiros circulos da Géhenna, e não o ultimo. Esta distincção,
+porém, não está no _Credo_. O inferno ahi diz-se com todas as letras, e,
+mais pelo claro, _os infernos_, como quem indistinctamente diz todos os
+logares de soffrimento onde podem penar os mortos.
+
+«Desceu aos infernos, diz o _Credo_, e ao terceiro dia resurgiu dos
+mortos.»
+
+Quem eram esses mortos com quem Jesus passou trez dias? A interpretação
+natural é--todos os homens que, desde o principio do mundo, haviam
+desparecido de sobre a terra; não só patriarchas e prophetas, senão
+todos os judeus; não só todos os judeus, mas todos os gentios. Eis aqui,
+entendidas ao natural, o que dizem as palavras: «Desceu aos infernos, e
+habitou trez dias com os _mortos_.» Quereis dar áquellas palavras
+uma accepção espiritual? Temos ainda mais. luz na questão. Os mortos
+espirituaes são os condemnados, os que eram considerados em perpetua
+privação dos resplendores eternos. Não são os prophetas, os patriarchas,
+os eleitos, os santos, nem ainda alguns d'esses que por peccados haviam
+merecido as penas temporarias, por que não estavam espiritualmente mas
+só carnalmente mortos, crendo, esperando, amando, vivendo. Seja qual for
+a interpretação adoptada, leva-nos a concluir o inverso do que os
+theologos affirmam. Do citado trecho do _Credo_ colhe-se que Jesus desceu,
+não só ao limbo, mas tambem ao inferno, não só aos patriarchas que
+esperavam sua vinda,--explicação acanhada e violenta dos hebreus
+conversos e dos christãos judaisantes--mas aos mortos de todos os tempos
+e paizes, aos peccadores que a lei antiga e antigas crenças haviam
+ferido de morte espiritual, eterna, incuravel, da verdadeira morte. O
+Redemptor, o Crucificado, o Messias visitou-os, mostrou-se-lhes, e elles
+rejubilaram ao verem-no e choraram lagrimas d'amor d'aquelles olhos
+aridos. Jesus não destruiu o inferno; converteu-o em purgatorio. Do
+inferno judaico e gentilico fez o inferno christão, inferno que corrige,
+inferno onde ha o chorar sem blasphemar, onde ha o soffrer sem
+desesperança nem rancores.
+
+Outras luzes póde dar o symbolo dos apostolos ás almas piedosas. Mais
+abaixo, diz: «Creio na vida eterna» mas não diz: «Creio na morte
+eterna.» Este horrivel dogma não se lê no credo apostolico. Se ahi
+se falla em infernos é para nos ensinar que Jesus Christo lá foi,
+e de lá sahiu, mas como devia sahir, vivo, glorioso, triumphante e
+bemdito.
+
+Diz finalmente o _Credo_ que Christo subiu ao céo, onde está sentado á
+dextra do Padre, d'onde virá a julgar _vivos e mortos_.
+
+Quaes vivos? os justos? Quaes mortos? os peccadores, os ultimos
+povoadores da terra e os antigos habitantes d'aquellas tenebrosas
+mansões onde a esperança radiou com o Christo quando tudo foi consummado
+na Cruz? Não é possivel que uma só palavra tenha dois sentidos com tão
+breve intervallo. Quereis que os mortos d'entre os quaes resurgiu ao fim
+do terceiro dia sejam os antigos reprobos? Tambem eu quero. Quereis
+antes inferir de taes palavras que os nossos avós judeus e os pagãos,
+quantos então eram mortos, viveriam, n'outra parte, jubilosos ou
+suppliciados? Tambem eu quero. Adoptai um sentido, ou outro, ou ambos
+juntamente, que a mim não se me dá d'isso. O que ha de sempre
+forçosamente reconhecer-se é que a phrase representa a mesma idêa
+significada uma ou duas linhas abaixo. Será, conseguintemente, preciso
+confessar que os mortos visitados por Christo são os mesmos que elle
+virá julgar quando julgar os vivos. Direi pois logo que na descida aos
+infernos, Jesus morou trez dias não entre os justos esperançados, mas
+entre os condemnados á desesperação para os ungir de seu sangue,
+consolal-os e salval-os. E, senão, para que os visitou?
+
+Faz-se mister prescindir de entender qualquer palavra divina ou humana,
+se do _Credo_ se colhe o dogma das penas eternas. Não está lá: o contrario
+é que está. O veneravel texto é mil vezes mais luminoso que todas as
+glosas dos doutores.
+
+ [9] Conta-se que os apostolos, antes de se apartarem para levar aos
+ gentios a boa nova, trez annos pouco mais ou menos depois da morte
+ do divino Mestre, se reuniram e compozeram o _Credo_, elenco das
+ verdades cujo ensino lhes fôra confiado. O Evangelho ainda não
+ corria escripto. Só depois da separação, é que foi composto o de S.
+ Matheus, que antecede a todos. O symbolo da fé apostolica tambem não
+ andava escripto; mas ensinava-se de cór aos fieis, e por isso longo
+ tempo se conservou na Egreja, bem como a tradição egualmente oral da
+ sua origem.
+
+
+ II
+
+Viveu Origenes quasi coevo dos tempos apostolicos. Toda a gente ouviu
+fallar da santidade de seu viver, pureza de costumes, alento nas
+perseguições, vasta sabedoria e raro engenho. Pois ainda assim, aquelle
+insigne doutor, e illustre confessor de Christo, negava as penas
+eternas. Acaso receberia elle a verdadeira tradição dos apostolos, ou, á
+força de reflectir, atinára com a genuina accepção do Evangelho? Não
+sei. Todavia confesso envergonhadamente que ainda não li as poucas obras
+restantes que tão assignalado sujeito escreveu sobre tal materia. O que
+mais sei é que foi condemnado, muito tempo depois que morreu, por um
+edito do imperador Justiniano, e anathematisado, com a porção da obra
+relativa ás penas eternas, por o concilio ecumenico de Constantinopla,
+anno 553.[10] Não se deram os bispos á canceira de provar que
+elle era ruim logico; declararam-o herege, que era mais summario, e por
+contagem de votos.
+
+É muito para notar que o primeiro concilio ecumenico de Nicea, anno 325,
+e o segundo de Constantinopla, anno 381, se abstivessem de decidir sobre
+a doutrina de Origenes, ainda nova e florecentissima, e á conta d'isso
+mais funesta, se por ventura escondesse perigo. Divergiam sobre o
+assumpto as opiniões dos padres d'aquelle tempo? Recusariam não se
+conciliarem? A questão confundil-os-hia? Inclino-me a crer que sim. O
+mais notavel documento que os dois concilios nos deixaram, denota
+indecisão de natureza a um tempo estranha e evidentissima: é uma
+profissão de fé muito particularisada, a mesma que hoje se entôa aos
+domingos na missa cantada nas egrejas do oriente e occidente.
+
+O concilio de Nicea, ao redigir o symbolo da sua fé, desenvolveu em
+certos pontos o symbolo dos apostolos; mas, quanto ao mais, abreviou
+aquelle antigo symbolo, e o que mais espanta é a suppressão completa do
+descendimento aos infernos.
+
+O concilio de Constantinopla, adoptando o symbolo de Nicea,
+aperfeiçoou-o, e additou-lhe alguns artigos, mas não lhe repoz a descida
+aos infernos.
+
+Que quer dizer esta eliminação? Desceu ou não desceu Christo aos
+infernos? Se desceu, por que o não dizem? Acham que é insignificante o
+caso? Não merecerá a pena relembral-o?
+
+Felizmente o symbolo dos apostolos subsiste, e os de Nicea e
+Constantinopla não vingarão desluzil-o.
+
+ [10] No anno 321, Origenes foi denunciado ao Concilio de Alexandria,
+ e interdicto do sacerdocio. S. Jeronymo attribue esta condemnação a
+ ciumes e invejas que inspirava a eloquencia de Origenes aos Padres
+ reunidos n'aquelle Concilio.
+
+
+
+
+ CAPITULO QUARTO
+
+ ADVERTENCIA FINAL
+
+
+ I
+
+As idêas que empreguei no discurso d'esta obra andam por tantos livros
+disseminadas, e prégadas de tantos pulpitos, e tão notorias e populares,
+que me não temo de que m'as neguem. Diligenciei exprimir claramente os
+dogmas, preceitos, maximas, opiniões sempre admittidas nas faculdades de
+theologia, nos seminarios e conventos: era acto de boa fé e tambem de
+prudencia; que toda minha argumentação claudicaria, se eu attribuisse
+aos propugnadores do inferno linguagem que não fosse a d'elles.
+
+Fui eu quem inventou a queda de Satan, o poder e maleficios da corte
+infernal, o peccado do Eden, e a maldição dos homens? Fui eu quem
+encerrou no claustro o ideal da perfeição christã? Fui o auctor
+das sentenças desesperadoras fulminadas contra o mundo e contra os
+affectos e luzes naturaes, contra o bom siso e contra a vida? Inventei
+eu as devotas reflexões, azadas para mirrar os corações das mães e dos
+filhos, e uns pensamentos afogueados que calcinam o cerebro como o
+alcool, embrutecendo uns, e desvairando outros em devaneios
+melancolicos? É culpa minha se o inferno parece coisa atroz? Não
+suavisei eu em vez de encarecer as pinturas conhecidas? Se é immoral,
+estava a meu cargo mudar-lhe a condição? Attribui eu ao padre Bohours
+palavras alheias, ou a S. Bernardo coisa que elle não dissesse?
+
+É verdade que eu muitas vezes poderia auctorisar-me com textos, e dizer
+em grego ou latim, ou italiano ou allemão, em nome d'outrem, o que expuz
+a meu modo. Mas que tinha eu a ganhar com esse systema? Nenhuma das
+idêas que discuti pertence nominalmente a este ou áquelle theologo;
+junta ou separadamente todas lhes pertencem: é dominio commum. Seria
+apoucar e abater a questão conferir a uma crença tradicional visos de
+opinião particular. Acato a virtude, admiro o engenho, onde quer que os
+encontro, até nos mesmos que me ameaçam com as penas eternas; não
+mal-quero por tanto a S. Gregorio, nem a S. Jeronymo, nem ao padre
+Nicole, nem a algum theologo morto ou vivo. Não me estive a quebrar
+lanças com personagens mais ou menos eminentes: que são apenas eccos de
+doutrinas que vogaram muito antes d'elles. Se eu tivesse em cada pagina
+citado um doutor, julgar-se-hia que os outros doutores, não
+mencionados, depunham contra mim. Não aconteceu isso a Pascal? Nomeia
+elle as suas testemunhas, transcreve-lhes litteralmente as proposições,
+e vos remette ao volume e pagina d'onde as trasladou; pois
+responderam-lhe que se as proposições que elle combate estão nos livros
+d'onde as copiou, a culpa é dos auctores, e não da companhia que os
+instruiu. Claro está que eu tenho por mim auctoridades muito mais
+embaraçosas que os padres Petau, Penterau, Hurtado, Bille, Sanchez,
+Suarez, Escobard, Bauny, Molina, Reginaldo, Tannero, Filicitius e Azor.
+Tenho-as numerosissimas, a ponto de a mim mesmo me embaraçarem. Qual hei
+de escolher entre tantas? Que mais vale uma do que outra? Um capuchinho
+canonizado vale ou não vale um papa não canonizado, mas fallando
+_ex-cathedrâ_? E de mais um só auctor, por extremo que fosse o gráo de sua
+respeitabilidade, bastaria a tapar a bôcca aos altercadores? Quantos
+textos seria preciso adduzir para authenticar certas phrases alcunhadas
+de perigosas, levianas, absurdas e escandalosas? Quantos padres, papas,
+bispos e doutores teria eu de dispôr em batalha a meu favor? Confesso
+que não sei. Fui, pois, sobrio em citações, não por mingua do assumpto,
+mas antes por excesso. Convençam-se de que não ha linha n'este livro á
+qual eu não podesse cerzir, se me aprouvesse, paginas inteiras, senão
+volumes de annotações justificativas, hauridas nas fontes mais puras,
+mais frequentadas e veneradas.
+
+Similhante lavor, porém, ainda que eu o compendiasse á essencia do
+debate, cansaria a paciencia dos leitores, que se dispensam de tão
+barbaro apparato para saberem ao que devem atter-se do que lhe ensinaram
+desde o berço. Mas as provas de memoria as sabem; sobejam-lhes nas suas
+livrarias; não carecem de folhear concilios, obras de santos padres,
+bullarios, constituições de bispados, revelações de Santa Catharina,
+Santa Thereza, e outras bem-aventuradas; não se lhes faz preciso
+consultar Bossuet, Bourdaloue, Massillon, nem outros illustrissimos
+oraculos que nem sempre nos estão á mão. Mais boas de encontrar são as
+minhas provas: acham-se nos labios e nos ouvidos das creanças que
+estudam o cathecismo; acham-se em mãos de nossas irmãs, esposas, e mães,
+na sua _Imitação_, no _Quotidiano christão_, no _Combate espiritual_, na
+_Vida dos Santos_, no _Livro d'ouro_, no _Pensai-o-bem_, e em milhares
+de livrinhos d'este jaez, approvados pelos bispos e universalmente
+manuseados.
+
+Os paladinos do inferno, se os houvesse, não ousariam, talvez, atacar as
+passagens d'este livro, de antemão atalaiadas d'uma guarnição formidavel
+de batinas, de chapeos vermelhos e de barretes; mas quem sabe se
+atacariam como abastardados, alterados, e erroneos os trechos que eu
+desprecavidamente não defendesse? Em tal caso, nada me valeria amontoar
+notas. Se m'as pedirem, eu lh'as darei em quantidade que lhes pareça de
+mais. Convenho, se quizerem, em incommodar com ellas os adversarios; mas
+tão sómente os adversarios; quanto ao publico, a minha intenção não é
+adormecêl-o; antes eu quizera acordal-o, esclarecêl-o e agradar-lhe. Mal
+andaria eu se, a proposito de taes polemicas, sacudia aos olhos dos
+leitores a poeira dos meus livros traçados!
+
+
+ II
+
+Se não podem accusar-me de má fé na exposição dos principios que tentei
+impugnar, não faltará quem me accuse de máo juiz em tudo o mais. Estejam
+certos que não ficará aqui. O inferno tem seus devotos que não
+sacrificam ás Graças, mas ás Eumenides. Bem os ouço gritar: impio!
+incredulo! ignorante! detestavel pensador! monstro! scelerado! por que o
+não prendem, e mandam ás galés! Ousar descrer das penas eternas! Que faz
+o ministerio publico? Onde está o carrasco? Em França já não há lenha
+para uma fogueira? Votamos pelo inferno, queremos que os nossos paes e
+os nossos filhos sejam condemnados. Ao fogo com os selvagens, idolatras
+musulmanos, judeus, indianos, herejes! Ao fogo com os peccadores
+recalcitrantes! fogo eterno com os philosophos impenitentes! Não nos
+esbulhem d'esta amavel crença. Que havia de ser da moral? Queremos
+inferno e diabo, a maldição e o mal. Se muita gente se condemna, peior é
+isso, mas a culpa é d'ella. Que ardam para sempre! É vontade de Deus. O
+teu debil sopro, ruim pensador, não apagará as chammas salutares
+que não corrigem os mortos, que pouco emendam os vivos, mas fazem tremer
+as freiras nas suas cellas e alegrar os santos no paraiso. Viva o
+inferno! Se se elle apagasse, haviamos de accendêl-o com os teus livros.
+Queremos o inferno e seus supplicios, embora lá vamos cahir com as
+nossas mães e com as creancinhas que riem no collo d'ellas. Sem inferno
+não ha fé, nem Egreja, nem religião, nem lei, nem familia, nem
+moralidade, não ha nada. Conservemos o inferno! É absurdo? mais um
+motivo. _Crédo quia absurdum._ Parece-te isto injusto, incredulo, impio,
+perverso que não queres acreditar que Deus creasse tantos entes fracos
+para perdel-os sem missão! Imprudente! que ousas escutar a tua
+consciencia, quando a tradição falla! Malvado! coração de pedra que não
+dás dinheiro ao Papa para lhe redourar a thiara e vais dal-o a pobres e
+proscriptos, e estás ahi a lastimar os billiões de creaturas que povoam
+o abysmo. Ó sandeu! Ó miseravel! Algum proveito colhes atacando verdades
+tão uteis. És como os malfeitores que quebram os lampeões. Se assim
+vais, arrasarás os carceres. É bem de vêr, lá tens as tuas razões para
+querer destruir o inferno; se fosses de melhor casta havias de crêr
+n'elle.
+
+
+ III
+
+Advogados do inferno, que sabeis a tal respeito? Sereis acaso mais
+innocentes do que eu? É verdade que sou peccador. Se todavia as minhas
+acções e as vossas fossem pezadas, talvez eu podesse estar a respeito do
+futuro tão tranquillo como vós. Mas Deus não me ha de comparar comvosco
+para absolver-me ou condemnar-me: será com o modêlo de perfeição que eu
+tenho no espirito, e que eu devêra ter copiado no decurso de minha vida.
+Não pratiquei--de mais o sei--todo o bem que podia; condescendi com
+fraquezas que vós, por ventura, não conhecestes; mas talvez que eu, sem
+que o soubesseis, me esforçasse e vencesse nos conflictos em que
+succumbistes. Eu não vos julgo, ó crentes no inferno, que encaraes sem
+impallidecer; eu, porém, que não creio no vosso inferno, não posso sem
+pavor meditar no julgamento divino. Não desespero na bondade de Deus,
+mas creio em sua justiça, e nutro viventissimo sentimento da perfeição
+evangelica, e por isso mesmo sinto grandissimo pezar de minhas culpas, e
+não me considero isento de expiação.
+
+Oxalá que eu podesse dar de mim melhor testemunho! Podesse eu chegar
+mais confiadamente ao tribunal do soberano juiz! Tivesse eu tão socegado
+o espirito como inculcais o vosso, ou tão puro como vós imaginais
+que o tendes! Quem me dera ser santo, não aos meus proprios olhos, como
+dir-se-ha que sois aos vossos, mas aos olhos das pessoas de bem e das
+multidões. Então impugnaria eu a eternidade das penas, não já com
+melhores razões, nem com argumentos de mais justiça, mas com a
+auctoridade que uma vida santa e reconhecida como tal imprime na palavra
+humana. Ha ahi quem se não renda ao vigor de um discurso, e se docilise
+á virtude ou ao renome de quem discorre.
+
+Não discutamos, pois, a minha vida, que eu não tenho que entender com a
+vossa. Em meu soccorro valho-me unicamente do raciocinio; desadoro outro
+prestigio, e não me dobro a outro poder. Refutai-me, se podeis, com
+razões tão claras como as minhas; mas deixemo-nos de insinuações
+calumniosas; nada de injurias. Isso que prova? Quando fosse verdade que
+todos sois pessoas virtuosas que vão direitas ao paraizo, e que eu sou
+máo, e o peor dos homens, sêde francos, seria isso prova de que eu
+argumento mal, e vós argumentais bem? Inferirieis d'ahi o que quer que
+seja contra a infinita misericordia de Deus? A isto é que é preciso
+responder, senhores. Eu por mim digo que a dôr, n'este e no outro mundo,
+é meio de expiação; digo que a dôr, n'este e no outro mundo, acarêa a
+piedade; digo que o castigo mais justo deve ter fim, e que o perdão é o
+fim, a corôa, a perfeição e explendor das obras da justiça; que um
+castigo infindo seria um castigo desarrasoado, sem escopo, sem
+moralidade, inutil ao culpado, ás testemunhas e ao juiz;--um acto de
+colera, de odio e furor--um feito sombrio e sinistro como transportes de
+demencia incuravel. Digo que tal crença é mal cimentada, e assim funesta
+em este mundo, como odiosa no outro; que nem o mal nem o castigo são
+eternos; que eterno é só o bem, a omnipotencia, a bondade, a justiça e
+misericordia de Deus, e que estas coisas, que separais, são inseparaveis
+em Deus. Digo, conforme a S. Paulo, que ceo e terra hão de passar; que a
+fé ha de passar tambem, e tambem ha de passar a Esperança, e que tudo ha
+de acabar, salvante a Caridade.
+
+Que vos parece isto? que redarguís? Ser-vos-ha mister mudar a
+propriedade das palavras, crear linguagem nova, dirimir as leis da
+razão, e cuidar em extinguir tanto em vós como nos outros as vivas luzes
+da consciencia, se quereis impugnar estas proposições.
+
+
+ IV
+
+Mas ninguem póde desluzir de seu espirito o reflexo que ahi lampeja a
+verdadeira luz, se uma vez a entre-viu. Quando houverdes lido este
+livro, ser-vos-ha aprasivel fechar os olhos, e injuriar-me; não
+obstante, sentir-vos-heis alumiados, crentes na verdade a vosso pezar;
+e, embora o negueis, é a vós mesmos que mentis. Negal-o-heis com a
+bôcca; mas não com a consciencia.
+
+
+ V
+
+Espero resignadamente as insolencias. Se m'as não disserem alto,
+dil-as-hão baixinho. Este livro irá ao _Index_, e tal, que o não tiver
+lido, se julgará abundantemente auctorisado a prohibil-o aos outros,
+como livro pernicioso. Vedar-se-ha ao peccador inveterado, contentissimo
+de sua recente conversão, de buscar aqui motivos para ser mais humilde;
+vedar-se-ha á viuva lagrimosa de procurar consolar-se n'esta leitura.
+Divulgar-se-ha que este livro é _tição do inferno_, que queima os dedos
+que lhe tocam. E ha de haver muito quem o diga na melhor boa fé.
+
+A Egreja não alenta curiosidades de espirito. Porquê? De que se teme?
+Profunde-se cada vez mais a moral de Christo; que ella nos irradiará
+cada vez mais formosa, mais salutar e verdadeira. Por si mesma se
+justifica; dispensa pregões; nos labios d'um menino inflora-se tão bella
+como nos discursos d'um sabio.
+
+As leis moraes não são arbitrarias; não são caprichos divinos nem
+tenebrosos decretos cuja sabedoria se esconde á nossa intelligencia. São
+perfeitamente adequadas á nossa natureza e necessidades. Não ha uma só,
+cuja inobservancia não surta graves desordens; uma só que não proteja a
+dignidade humana, a liberdade, o direito, o debil contra o forte, o
+innocente contra o cavilloso. São freio de paixões, luz e regras
+das acções publicas ou clandestinas, particulares ou collectivas,
+condição que influe no desenvolvimento de nossas faculdades, caução de
+nosso repouso, e complexamente de todos os nossos actos.
+
+A Egreja, n'este ponto, desconhece a sua força, se a discussão a
+intimida; mas, por outro lado, cumpre confessar que ella desconheceria
+sua fraqueza, se tolerasse discussão de certos dogmas, e em particular
+do dogma das penas eternas. Se quer que haja crença no inferno com fé
+egual á crença da redempção; se quer a mesma fé para a colera sem fim e
+para o amor illimitado, imponha silencio a respeito de tudo, que é
+prudente. Mas d'essa imposição de silencio o resultado é este:
+
+
+ VI
+
+Resulta que os fieis creiam cegamente coisas profundamente
+contradictorias--a verdade radiosa e o erro inintelligivel, Deus e
+inferno. Tambem resulta que as multidões sempre a multiplicarem-se
+rejeitem cegamente o inferno, e com o inferno os mais idoneos dictames
+da moral, indiscretamente sumidos n'esse abysmo. Imaginam uns que a
+mesma voz que ensina uma injustiça não póde ensinar uma verdade;
+imaginam outros que a mesma voz que ensina consoladoras verdades, não
+póde ensinar erros. A má educação, que, no rodar de muitos seculos, lhes
+deram, torna-os a todos egualmente incapazes de discernir o que é
+falso do que é verdadeiro, na mesma idêa: encaram-na a vulto, qual lh'a
+offerecem, e ou a guardam ou rejeitam á tôa, verdade e mentira de
+mistura, porque ambas as idêas estão identificadas em uma no espirito
+d'elles.
+
+Todavia todos os partidos são máos, e nenhum póde, relativamente á
+questão presente, socegar a alma. Ainda não encontrei fiel que se me
+confessasse impassivel ao horror das penas eternas, quando pensava
+n'isso. E tambem não encontrareis incredulo que não haja confusamente
+sentido a precisão de sobreviver a si proprio, e não haja suspirado pela
+justiça do céo, vendo as iniquidades da terra. A verdade falla assim ao
+coração de todo homem, alvoroçando-o até que elle a comprehenda.
+
+O fiel diz de si para comsigo: «Deus é cruel»; mas, reportando-se á
+Egreja, cuida que as inspirações de sua consciencia são suggestões
+diabolicas, e vai aterrado rezar diante da cruz um acto de fé em um Deus
+sem misericordia. Pelo contrario, o incredulo diz entre si: «Deus
+existe; os máos serão castigados»; e, se em seguida se aturde e apaga no
+intimo aquelle presentimento lucido da justiça divina, é porque lhe
+estão sempre figurando o brazido inextinguivel e as atrocidades sem fim
+que enterneceriam tigres e fariam chorar as pedras sobre o destino dos
+condemnados.
+
+
+ VII
+
+Tal é hoje em dia o estado das almas relativamente a um dos mais
+importantes dogmas da religião. Fé cega, incredulidade cega, fé que
+acceita um Deus vingativo e exclue do céo a piedade, incredulidade que
+busca um Deus compadecido, e, por que não acha piedade no céo, exclue de
+lá a justiça. E entre estes dois bandos de almas atormentadas, está uma
+corporação docente, que se inculca infallivel, mas que, no intento de
+proteger sua infalibilidade, anathematisa a razão humana e excommunga a
+consciencia.
+
+
+ VIII
+
+Eu tenho tido parte nas angustias da fé que, até de olhos fechados,
+conhece que a transviam; e, se, mais tarde, abre os olhos afeitos á
+escuridão, como os de Saul deslumbrado, nada vê, e caminha ás
+apalpadellas. São passados esses dias de turvação; mas talvez n'este
+livro negrejem vestigios d'elles.
+
+Não achareis n'esta obra um tratado methodico cujas partes se encadeiam
+e deduzem logicamente, desde a primeira até á ultima pagina. Em questão,
+a um tempo, tão complexa e excitante, ser-me-hia custoso sujeitar-me aos
+vagares do methodo. A tal qual ordem que trava as peças d'este
+escripto, vem como compendiada no assentamento das reflexões e
+meditações que a formam. Ninguem melhor do que eu sabe quanta
+deficiencia desvalia o escripto. Não importa. Eu, por mim, rodeei o
+alcaçar de Satan; e, se lhe não puz cerco segundo as regras da arte, não
+lhe deixei parede nem pedra que não soffresse algum abalo. Não se faz
+mister tempestade para lh'o baquear: um leve sôpro o fará cahir.
+
+
+ FIM
+
+
+
+
+ INDICE
+
+
+ _Pag._
+
+Advertencia do traductor V
+
+Prefacio da segunda edição XIII
+
+ INTRODUCÇÃO
+
+Dogmas hebraicos 1
+ I--Rebellião de Satanaz 2
+ II--O inferno 3
+ III--Paraizo terreal 5
+ IV--A maldição 6
+ V--Consequencias da maldição 7
+ VI--Comparação da nossa sorte com a de Adão e de Satanaz 10
+ VII--O povo de Deus 11
+ VIII--A egreja e o novo povo de Deus 15
+ IX--Como se prova a verdade dos dogmas hebraicos,
+ e com especialidade a eternidade das penas 18
+
+ PARTE PRIMEIRA
+
+ _Tradições_
+
+Capit. I--A tradição universal é a prova do inferno? 21
+ II--Explicação natural das tradições pagãs ácerca do inferno 24
+ III--Como o sacerdocio perpetuou estas tradições 26
+ IV--Exemplo de um povo que permaneceu fiel a
+ todas as suas antigas tradições 27
+ V--Effeito d'estas tradições na edade media 29
+ VI--Como a sociedade christã se desvia progressivamente
+ d'aquellas antigas tradições 30
+
+Capit. II--A fé nova 33
+ I--Pater noster 33
+ II--O purgatorio 36
+ III--Necessidade do purgatorio 38
+ IV--Mysterios 39
+ V--O paraizo 41
+
+Capit. III--Os fructos do inferno 46
+ I--O bem 46
+ II--A carmelita ou o ideal da perfeição theologica 53
+ III--Discurso d'uma mulher de sociedade que havia
+ tocado a perfectibilidade theologica 66
+ IV--Discurso d'um mundano, apoz bastos estudos
+ ácerca da perfeição theologica 69
+ V--O rebanho 73
+
+Capit. IV--Outros fructos do inferno 79
+ I--O mal 79
+
+Capit. V--Os cinco grupos 87
+ I--O grupo dos philosophos 89
+ II--O grupo dos corruptos 89
+ III--O grupo dos indifferentes 91
+ IV--O grupo dos devotos 93
+ V--O grupo dos santos 99
+
+ SEGUNDA PARTE
+
+ _O inferno considerado além-tumulo, os condemnados na presença
+ de Deus, na presença dos santos, e na presença dos homens_
+
+Capit. I--O inferno de Platão 103
+
+Capit. II--Opinião dos pagãos sobre a situação e vista interior
+ do inferno 108
+
+Capit. III--Opinião dos judeus ácerca da vista interior do
+ inferno 112
+
+Capit. IV--O inferno dos theologos 117
+ I--O inferno material 117
+ II--Reflexões sobre as penas materiaes dos condemnados 125
+ III--Os martyres de Nero 128
+ IV--O inferno espiritual 130
+ V--Continuação 134
+ VI--Da immortalidade das penas espirituaes do inferno 136
+ VII--Ultimas considerações ácerca do inferno theologico 140
+
+Capit. V--Sursum corda 143
+
+Capit. VI--A parabola do rico avarento 151
+
+Capit. VII--Terra, inferno, céo 154
+ I--Terra 154
+ II--Ceo 155
+
+Capit. VIII--Historia d'um sonho 157
+
+Capit. IX--Judas Iscariote 170
+
+Capit. X--Conclusão em fórma de parabola 181
+
+
+ APPENDICE
+
+Capit. I--Provas mysticas do inferno 185
+ I--Da auctoridade da Biblia 185
+ II--Da auctoridade da Egreja 191
+ III--Conclusão do que fica dito 199
+
+Capit. II--Resposta a uma objecção 201
+
+Capit. III--Descida de Christo aos infernos 210
+
+Capit. IV--Advertencia final 216
+
+
+N.º 423--Porto: Typographia da livraria Nacional, Laranjal, 2 a 22--1871
+
+
+
+
+Erros corrigidos
+
+
+ Pág. no original correcção
+ 12 divindidade divindade
+ 12 todas as religões eram todas as religiões eram
+ 199 Espirto Santo Espirito Santo
+ 215 particuralisada particularisada
+ 217 pupulares populares
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of O Inferno, by Auguste Callet
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O INFERNO ***
+
+***** This file should be named 28584-8.txt or 28584-8.zip *****
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+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from the Google Print project.)
+
+
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+will be renamed.
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+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
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+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
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+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
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+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
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+
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+
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+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
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+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
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+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
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