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diff --git a/28526-h/28526-h.htm b/28526-h/28526-h.htm new file mode 100644 index 0000000..8ea4a48 --- /dev/null +++ b/28526-h/28526-h.htm @@ -0,0 +1,3162 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN"> +<html lang="pt"> +<head> + <title>Othello, por G. Dubarry</title> + <meta name="Author" content="G. Dubarry"> + <meta name="Publisher" content="F. A. de Miranda e Sousa"> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pagenum { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1em;} + blockquote {margin-left: 20%; font-size: 0.9em;} + h1, h2 {text-align: center;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Othello, by Gustave Dubarry + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Othello + +Author: Gustave Dubarry + +Translator: D. Alda de Sousa + +Release Date: April 7, 2009 [EBook #28526] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OTHELLO *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + +</pre> + +<p> </p> +<p style="text-align:center; font-size: 3em;"><img src="images/capa.jpg" width="80%" alt="Capa do livro"></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center; font-size: 3em;">OTHELLO</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:justify; margin-left: 30%; font-size: 0.8em;">Editor e +proprietario, F. A. de Miranda e Sousa. Comp. e imp. na typ. da Empreza +Lusitana Editora, pertencente ao editor C. do Ferregial, 23—LISBOA.<span +class="pagenum"><a name="pag_2">[2]</a></span></p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_3">[3]</a></span></p> + +<div style="text-align:center;"> +<p>G. DUBARRY</p> + +<p style=" font-size: 3em;">OTHELLO</p> + +<p><em>Trad. de D. Alda de Sousa</em></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>LISBOA<br> +EMPREZA LUSITANA EDITORA<br> +<small>Calçada do Ferregial, 83</small></p> + +<p><small>DEPOSITARIO NO RIO DE JANEIRO</small><br> +LIVRARIA EDITORA JACINTO SILVA<br> +<small>Rua Rodrigo Silva, 7</small><span class="pagenum"><a +name="pag_4">[4]</a></span></p> +</div> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_5">[5]</a></span></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div id="corpo"> +<h1>I</h1> + +<h1>O rapto</h1> + +<p>Era a epoca mais feliz e florescente da aristocratica Republica de Veneza. +As esquadras disputavam vantajosamente aos turcos a supremacia no Mediterraneo, +e nas costas gregas, Rhodes e Chypre unidas ao feliz povo da poderosa Senhoria, +diziam eloquentemente ao ottomano que não era nada facil arrancar a presa ao +leão de S. Marcos, quando este a colhera nos seus afilados dentes.</p> + +<p>Vivia-se por então no tempo em que a espada não podia enferrujar dentro da +bainha, pois nos breves intervallos durante os quaes os exercitos não luctavam +de povoado em povoado, de nação em nação, os individuos, sem distincções de +cathegorias nem de classes, inventavam mil pretextos para guerrearem entre si, +receosos talvez de olvidarem no repouso o manejo das armas.</p> + +<p>Por causa d'isto e tambem com receio dos innumeraveis<span +class="pagenum"><a name="pag_6">[6]</a></span> «<em>briganti</em>» e roubadores +de bolsas que, durante a noute, vagueavam pela poetica cidade dos canaes, nem +todos se atreviam a transitar por ella fóra de horas, pois estavam certos de +que nada bom encontrariam nas suas escuras e mysteriosas ruas.</p> + +<p>Eis porque causava certa extranheza ver a tranquilidade com que dois +cavalleiros, jovens e de elegante porte, se bem que tal elegancia fosse mais +notavel no que aparentava menos edade, conversavam passeando pela solitaria +praça de S. Marcos á uma hora da madrugada d'uma noute de inverno.</p> + +<p>Devemos ponderar que a tranquilidade, a que acabamos de alludir, referia-se +sómente ao facto dos cavalleiros não recearem dos perigos nocturnos que os +ameaçavam em tal sitio e a horas tão mortas da noute; por outro lado, os dois +homens pareciam dominados por viva agitação, a julgar pela vehemencia dos +gestos e pela animação com que sustentavam o seguinte dialogo:</p> + +<p>—Digo-te, meu caro Yago, que semelhante coisa é impossivel, dizia o +mais novo e de melhor apparencia dos dois interlocutores, tão impossivel como o +Adriatico poder devolver a sua Senhoria o Doge o annel que este lhe deu no dia +das suas nupcias.<sup><a name="L418" id="L418" href="#L420">[1]</a></sup><span +class="pagenum"><a name="pag_7">[7]</a></span></p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a name="L420" id="L420" href="#L418">[1]</a></sup> Allude á cerimonia +que celebravam os Doges no dia do seu advento, e no qual simulavam casar com o +Adriatico arrojando para o mar uma preciosa joia, que era o annel de +nupcias.</p> +</div> + +<p>—Pois eu asseguro-te, nobre Rodrigo, replicou o mais velho dos +cavalleiros, que trajava á militar e ostentava a divisa de alferes, que vi com +os meus poprios olhos tua prima Desdemona, ha pouco mais de uma hora, fugir de +casa do pae, o senador Brabancio, e saltar para uma gondola, onde a esperava +esse maldito africano, que Deus confunda.</p> + +<p>—Pois bem, os teus olhos trahiram-te, apresentando á tua fantasia como +real o que não era mais do que um sonho. Ah! as garrafas de vinho de Chypre que +bebeste esta noute, tiveram mais força do que a tua resistencia de bebedor +habituado ás libações, e puzeram-te completamente borracho, respondeu de mau +humor aquelle a quem o seu companheiro dava o nome de Rodrigo.</p> + +<p>—Dizem, e com razão, que de namorado a tonto não vae mais do que um +passo! exclamou o alferes Yago em tom desdenhoso.</p> + +<p>—Porque dizes isso? porguntou com altivez Rodrigo. Tratas acaso, de +insultar-me?</p> + +<p>—Deus me livre de tal coisa, respondeu Yago. Queres dizer-me o que +ganharia com isso?</p> + +<p>—Seja pelo que fôr, o facto é que me chamaste tonto.</p> + +<p>—Não, disse que estavas enamorado, e desafio a que o negues.</p> + +<p>—Seria inutil, pois sabei-o tão bem como eu, confessou Rodrigo. Mas +deixemo-nos de discussões inuteis e vamos ao que importa. Se o que me acabas de +dizer não é uma infame mentira ou estupida fantasia de bebado; se a minha prima +Desdemona<span class="pagenum"><a name="pag_8">[8]</a></span> esqueceu a honra +de sua familia, o respeito e as cans de seu pae, toda a sua juventude de pudor +e recato que a tornavam a donzella mais pura de Veneza; se esqueceu tudo isto, +repito, para lançar-se nos braços d'esse mouro de rude linguagem e de rosto +enegrecido, como qualquer infame Messalina, preciso será crer de hoje para +sempre que a mulher, desde que nasce, é materia affeiçoada para o vicio e o ser +mais ignobil que existe sobre a terra.</p> + +<p>—Enganas-te, nobre Rodrigo, e a tua paixão e ciumes fazem-te ver as +cousas, augmentadas até á exageração ridicula, replicou tranquilamente Yago. A +mulher, na realidade, não é boa nem má, pura ou impura, mas simplesmente mulher +e, como tal, joguete das circumstancias. A culpa do que succede não a tem ella, +mas sim o velho tonto do pae que, depois de a ter encerrada como monja durante +dezessete annos, deixou entrar em casa Othello com a mais ampla liberdade, +consentiu que visitasse tua prima, conversasse com ella no mais absoluto +isolamento, e, emfim, cruzou tranquilamente os braços, emtanto que o lobo +rondava incessantemente em redor da ovelha.</p> + +<p>—Mas, replicou Rodrigo irritado, quem poderia suppôr que uma joven tão +innocente e virginal como Desdemona, podesse chegar a enamorar-se de um homem +negro e feio como esse maldito mouro?</p> + +<p>—Outro qualquer que não tivesse sido um velho imbecil como teu tio +Brabancio, ou um namorado cego como tu, teria suspeitado que esse mouro,<span +class="pagenum"><a name="pag_9">[9]</a></span> precisamente pelo que tem de +extraordinario, poderia chegar a deslumbrar e a seduzir a donzella, como +realmente succedeu. Ignoras por ventura, continuou Yago animando-se emquanto +fallava, que ninguem conhece Othello melhor do que eu, e que é este exactamente +o motivo do odio mortal que lhe tenho? Esse homem é feio, concordo; de rude +linguagem e desabridas maneiras, mas nasceu como o leão para dominar e vencer, +onde quer que se encontre; a alma d'elle é grande como o espaço e profunda como +o abysmo; o coração é de gigante, e n'elle os sentimentos humanos, com tudo +quanto ha de leal e de nobre, desenvolvem-se até assumirem proporções do sobre +natural; junta a isto uma vida romantica, cheia de peripecias emocionantes e +curiosissimas, sustentada á custa de uma lucta constante com os homens, com as +feras e até com os elementos; emfim, um homem de sangue real, realeza moura, +mas que vale tanto como outra qualquer, um homem de sangue real, repito, que +perde seus paes, é vendido como escravo, foge atravez do deserto e, sem outras +armas do que a coragem pessoal, a força d'um hercules, se assenhoreia das +selvas virgens, das quaes desaloja os tigres e os leopardos: que depois se +apresenta entre os homens e pratica com elles o mesmo que com os temiveis +moradores dos bosques; que chega a Veneza quando a Republica está a ponto de +tornar-se provincia de Constantinopla, e, com o seu valor lendario e o seu +talento de general a salva, destroe os inimigos e devolve todo o brilhante +esplendor á vacilante<span class="pagenum"><a name="pag_10">[10]</a></span> +Magestade. Pensa em tudo isto, repito, apresenta tal homem prodigioso a uma +rapariga de desessete annos, enamorada, como todas, do maravilhoso poetico, do +extraordinario, e á fé de cavalleiro te juro, que a fealdade e a rudeza +materiaes d'um mouro desapparecerão ante os olhos da virgem innocente, para não +lhe deixar ver mais do que o lado poetico da varonil e sobrehumana figura do +heroe, ante a qual surgem empequenecidos até ao ridiculo, os peralvilhos loiros +e affemininados que tenha visto pisar até então as alcatifas dos seus +salões.</p> + +<p>—A julgar pela discripção que acabas de fazer de Othelo, não parece +senão que estás tão enamorado d'elle como minha propria prima Desdemona, +ponderou sarcasticamente Rodrigo.</p> + +<p>—Porquê? replicou Yago com maior sarcasmo. Porque o conheço e conservo +o senso commum necessario para poder apreciar no seu justo valor as qualidades +d'esse homem e dar conta exacta da influencia que taes qualidades podem exercer +no coração d'uma joven? Que disparate suppôr que eu amo Othello! Pelo +contrario, odeio-o com todas as forças da minha alma e de boa vontade +inventaria qualquer novo tormento para vel-o morrer na mais horrorosa das +agonias. Preferiu-me a esse florentino, Miguel Cassio, a quem nomeou seu +tenente, deixando que eu, com o estupido pretexto de que ignoro a estrategia +militar, continue sempre alferes, o que é peor ainda. Fallando francamente, não +tenho base firme para fundar as minhas suspeitas, mas chegou-me a parecer que +o<span class="pagenum"><a name="pag_11">[11]</a></span> maldito mouro e minha +mulher, Emilia, dormiram mais de uma vez no mesmo leito que paguei para +celebrar as bodas. Só esta suspeita faz com que sinta todos os martyrios do +inferno nas entranhas e deseje vingar-me de Othello, de maneira que cause +horror ao proprio Deus das vinganças. Por isso te procurei esta noute, +accrescentou o alferes fixando em Rodrigo os olhos chammejantes. Estás +apaixonado por tua prima Desdemona, e o homem que eu odeio roubou-ta; pois bem, +se me promettes fazer tudo quanto te disser cegamente e sem discutir as minhas +indicações, garanto-te que Othello pagará o seu crime e Desdemona acabará por +arrojar-se nos teus braços sincera e profundamente arrependida do que fez.</p> + +<p>—Devéras? Não me enganas? esclamou Rodrigo louco de alegria.</p> + +<p>Juro-o! respondeu Yago com um gesto de convicção; se me obedeceres em tudo, +antes de um mez Desdemona será tua.</p> + +<p>—Que tenho a fazer para tanto? perguntou Rodrigo disposto aos maiores +sacrificios para conseguir o amôr da prima.</p> + +<p>—Primeiro, disse Yago, que nunca perdia a presença de espirito, ganhar +o tempo que temos perdido discutindo aqui como dois tontos, ou como dois homens +despreoccupados, que não teem nada a fazer, quando cada minuto que se perde é +um seculo, difficil de recuperar.</p> + +<p>E no relogio de S. Marcos soaram n'esse momento duas horas.</p> + +<p>—Já duas horas! esclamou Yago, arrastando<span class="pagenum"><a +name="pag_12">[12]</a></span> comsigo o amigo, emquanto fallava. É bastante +tarde e ainda precisamos de correr muito!</p> + +<p>—Onde me conduzes? perguntou Rodrigo desconfiado, mas seguindo +docilmente o alferes.</p> + +<p>—Ao palacio de teu tio, para communicar ao pobre velho a sua deshonra +e a fuga da filha, se é que elle ainda não deu por tal, como é provavel, pois +deve dormir a estas horas, ajuntou Yago.</p> + +<p>—Mas vamos provocar um escandalo! replicou o primo de Desdemona, a +quem, como cavalleiro que era repugnava semelhante especie de delação.</p> + +<p>—É isso precisamente o que nós necessitamos: um escandalo, disse Yago, +sem deixar de arrastar o amigo. Um escandalo que fira o orgulho e a vaidade de +um dos senhores mais poderosos de Veneza, e que obrigue o Doge a castigar o +culpado com todo o rigor que exigem a gravidade da falta e as duras leis da +Republica. Basta-me tanto para vêr satisfeito o meu odio, continuou o miseravel +com feroz sorriso, depois Othello será destituido do seu posto de general e de +todas as honras, como auctor de um delicto que attentou contra a dignidade de +um dos membros do Senado, sem contar as penas corporaes que cahirão sobre elle +e que serão verdadeiramente terriveis, pois conheço bem a justiça veneziana e +sei que é inexoravel n'este ponto.</p> + +<p>E, ao proferir taes palavras, Yago ria com um riso sedento de sangue.</p> + +<p>Entretanto chegaram ao magnifico palacio do<span class="pagenum"><a +name="pag_13">[13]</a></span> senador Branbancio e, depois de baterem +ruidosamente á grande porta de entrada, obrigaram a criada a despertar o amo, +que deixou o leito e recebeu os nocturnos visitantes com a vontade que pode +suppor-se.</p> + +<p>Mas esta má vontade não tardou em converter-se em estupefacção levada até á +atonia, que por sua vez se transformou n'uma indignação que esteve a pontos de +o enlouquecer, quando o sobrinho o informou da fuga da joven e virginal +Desdemona, rapto que se negou obtinadamente a acreditar, a começo, mas que em +breve poude ver comprovado, depois de pessoalmente percorrer todos os cantos do +palacio com a mesma minuciosidade que empregaria se, em vez de procurar uma +mulher, se tratasse de um objecto menos que imperceptivel.</p> + +<p>Era que o infeliz velho tinha ante os olhos a realidade e recusava +admittil-a, ditoso ainda com a illusão de que tudo aquillo não era mais do que +um pesadelo horrivel, do qual não tardaria a despertar.</p> + +<p>Assim, quando lhe foi impossivel duvidar e que teve de se render fatalmente +á evidencia, a sua dôr não conheceu limites e, no cumulo da desesperação, +amaldiçoou a filha e todas as mulheres chamando-lhes encarnação viva de Lusbel, +da qual tinham até a infernal formosura; renegou o ceu e a terra e não deixou +de lastimar-se e blasfemar até que, vencido pelo peso da propria afflicção, +sómente lhe ficaram energias para lamentar com soluços convulsivos a immensa +desgraça que acabava de cahir-lhe na encanecida cabeça.<span class="pagenum"><a +name="pag_14">[14]</a></span></p> + +<p>Passada a angustiosa crise, reanimou-se um pouco, e com as forças voltou-lhe +o orgulho e a altivez de patricio venesiano; a partir d'este momento só pensou +em vingar o ultrage recebido, para o que era preciso, antes de mais nada, +apoderar-se do autor da sua deshonra, do infame que lhe roubara a filha.</p> + +<p>Por conseguinte e sabendo por Yago que Othello se encontrava áquellas horas +nas margens do Adriatico, e não longe do porto, onde estava ancorada a galera +destinada a transportal-o nas suas expedições guerreiras, reuniu a toda a +pressa alguns soldados, e pondo-se animosamente á frente da pequena escolta, +ordenou a seu sobrinho e a Yago que o guiassem até o sitio onde poderia +encontrar o raptor de Desdemona.</p> + +<p>Rodrigo prestou-se de bom grado a acompanhal-o; mas o alferes, que tinha +razões sufficientes para recear que o mouro o visse em companhia dos que iam +perseguil-o, allegou tão plausiveis e logicos motivos, que o vingativo e +furioso pae consentiu em que marchasse deante de elles, precedendo-os a boa +distancia, para que quando a ameaçadora comitiva chegasse onde estava Othello, +elle se encontrasse já ao lado do chefe, ao qual teria entretanto explicado +satisfatoriamente a sua ausencia.</p> + +<p>Assim fizeram, com effeito, adeantando-se Yago a passo largo, pelo caminho +mais curto e seguindo-o lentamente, Brabancio, Rodrigo e os homens de armas que +os acompanhavam.</p> + +<p>Precisamente no momento em que Yago se<span class="pagenum"><a +name="pag_15">[15]</a></span> apresentava ao general, recebia este uma +embaixada do Doge, que, apesar do adiantado da hora, estava presidindo ao +Conselho dos Dez convocado a toda a pressa para assumpto de vital interesse da +Republica e que exigia a presença immediata do general ante o Conselho.</p> + +<p>—Está bem, respondeu gravemente Othello aos emissarios do Doge que +acabavam de dar-lhe esta ordem. Já os sigo; para fallar verdade, preferia +aguardar o dia de amanhã para tratar negocios graves; pois asseguro-lhes, +senhores, que esta noute tenho mais coração do que cabeça. Mas o Estado está +acima de tudo e obedeço o sua senhoria. Partamos.</p> + +<p>—Alto ahi, perro traidor, ladrão de honras, corruptor de donzellas! +gritou uma voz colerica e cheia de ira, no momento em que o mouro e os +commissionados do Doge se punham a caminho.—Pára ou mato-te como o +miseravel que és! Que fizeste de minha filha? Vamos, responde, infame +Restitue-me Desdemona!</p> + +<p>Ao encontrar-se cara a cara com Brabancio, que, como já terão advinhado os +leitores, era quem o increpava tão asperamente, o mouro ficou preplexo por um +instante e sem saber, realmente, que partido tomar, pois era a primeira vez na +sua vida que ouvia um homem insultal-o de tal modo. Mas recuperando acto +continuo o sangue frio, dominou a situação com um simples esforço da poderosa +vontade e respondeu brandamente ao velho:</p> + +<p>—Senhor, reprimi a vossa colera, que não tem razão de ser, pois nem eu +sou ladrão de honras, e<span class="pagenum"><a name="pag_16">[16]</a></span> +menos ainda corruptor de donzellas. Vossa filha seguiu-me esta noute +voluntariamente, como está disposta a confessál-o, e, apesar de ha tres horas +ser minha mulher, permanece todavia tão pura como os anjos do céu. Juro-o pela +minha espada!</p> + +<p>—Mentes como um cão! gritou fóra de si o velho. Minha filha não te +seguiria de boa vontade e ainda menos se prestaria a ser esposa de um infame +hereje como tu! Recorres a tão estupida desculpa para te livrares de cahir nas +minhas mãos. Mas enganas-te, miseravel! continuou irritado Brabancio, avançando +um passo mais para Othello, enganaste, se julgas ser-te facil escapar á justiça +e á minha vingança. Vês estes homens que me acompanham? accrescentou +voltando-se e apontando com o braço hirto para os companheiros; pois bastará um +signal meu para te arrancarem com os seus punhaes a alma do corpo, se vacilas +um só momento em me seguires.</p> + +<p>O africano contemplou fixamente, durante um segundo, o encolorizado pae de +Desdemona, e no bronzeado rosto deixou transluzir uma expressão terna e +compassiva; depois ergueu a poderosa cabeça com um gesto de leão e lançou um +olhar de supremo desprezo aos homens que acompanhavam Brabancio.</p> + +<p>Em seguida respondeu com voz meiga e socegada:</p> +—São poucos, senhor, para obrigar Othello a que faça o que não quer, +emquanto estas duas mãos possam manejar uma espada ou estrangular um homem, e +ao pronunciar estas palavras, o mouro<span class="pagenum"><a +name="pag_17">[17]</a></span> estendeu os atleticos braços n'um tal gesto, que +todos, até o proprio velho, retrocederam um passo e soffreram uma especie de +calafrio que lhes chegou até aos ossos; são poucos, repito; seriam necessarios +mais homens e, sobre tudo, homens de tempera, differente d'esses que vos +acompanham. Mas ha outras razões mais poderosas, continuou o formidavel +africano com a mesma brandura até ali mantida, que vos impedirão agora de pôr +mão sobre mim. + +<p>—Quaes? rugiu o velho cego pela ira. Julgas por ventura que te vaes +livrar com as tuas valentias?</p> + +<p>—Não, respondeu friamente Othello; livro-me pelo menos agora, porque +assim é a vontade do Doge, que acaba de chamar-me para que compareça sem a +menor demora ante o Conselho dos Dez, o qual, presidido por elle, se acha +reunido n'este momento para tratar de assumpto de gravissimo interesse para o +Estado, e a respeito do qual, segundo parece, necessitam conhecer a minha +opinião. Agora bem; proseguiu dizendo o mouro deliberadamente, ousarieis +oppôr-vos á vontade do Doge e do conselho, e tolher que se executassem as suas +ordens, que, como sabeis, são sagradas na Republica, expondo-vos, talvez a pôr +em perigo a segurança do Estado?</p> + +<p>—Ceus! Fallarás verdade? exclamou Brabancio desesperado ao ver que a +presa estava prestes a escapar-lhe.</p> + +<p>—Estes cavalleiros podem responder-te, affirmou o mouro, indicando os +commissionados do Doge,<span class="pagenum"><a name="pag_18">[18]</a></span> +que permaneciam a poucos passos de distancia, testemunhas mudas da acalorada +scena.</p> + +<p>—Assim é, nobre Brabancio, affirmou o que parecia ser o chefe do +grupo. Quanto acaba de dizer o general é absolutamente verdade.</p> + +<p>O velho senador pareceu ficar um momento atordoado com o peso da noticia.</p> + +<p>Mas, de prompto, ergueu a cabeça, os olhos faiscaram-lhe com a viva +satisfação da vingança satisfeita, e perguntou ao chefe dos commissionados:</p> + +<p>—Disseste que o Doge está n'este momento presidindo ao Conselho dos +Dez?</p> + +<p>—Assim o disse e assim é, nobre Brabancio; respondeu o interpelado.</p> + +<p>—Pois bem, n'esse caso, continuou o pae de Desdemona, que melhor +accasião do que esta para exorál-o a que faça justiça? Por muito grave que seja +o assumpto que presentemente o occupa, não poderá sel-o tanto que o impeça de +ouvir a queixa de um senador da Republica, sobre tudo de um senador da minha +ascendencia, contra um bandido que o Estado abrigou incautamente, no seu seio. +Ides á presença do Doge, não é assim? Pois bem, eu vou tambem e assim ganharei +tempo, em vez de o perder, como suppuz. Já vês, concluiu o raivoso velho +dirigindo-se a Othello, que não ha poder humano que te livre da minha vingança! +Vamos ter com o Doge e pedir-lhe justiça!</p> + +<p>E todos formando um grupo compacto abandonaram as margens do Adriatico e +perderam-se lentamente nos solitários e tenebrosos labyrintos da poetica cidade +dos canaes.<span class="pagenum"><a name="pag_19">[19]</a></span></p> + +<h1>II</h1> + +<h1>Othello</h1> + +<p>Apezar da gravidadade das circumstancias, o Doge não poude conter uma +exclamação de surpreza ao ver entrar Brabancio na sala onde se celebrava o +conselho, acompanhando Othello, sem que para isso trouxesse ordem sua. Lançou +pois, um olhar colerico ao velho senador e perguntou severamente:</p> + +<p>—Quem se atreve a desobedecer d'este modo á minha vontade e ás leis da +Republica, que prohibem a entrada na sala do Conselho a todo aquelle que não +tenha ordem expressa de comparecer ante mim?</p> + +<p>—Eu, Senhoria—respondeu em tom firme, e attitude respeitosa o +pae de Desdemona.—Eu, que venho pedir-vos justiça para o irreparavel +ultraje que lançaram nas minhas cans e no meu nome de patriota.</p> + +<p>—Tão urgente é o caso e tão imperioso e vehemente<span +class="pagenum"><a name="pag_20">[20]</a></span> o teu desejo de ver reparado o +agravo que recebeste, para olvidando toda e qualquer consideração, entrares +n'este recinto sagrado para todos os cidadãos da Republica?—replicou o +Doge com enfado.</p> + +<p>—A Vossa prudente e sabia rasão julgará por si mesma—disse +Brabancio sem se deixar intimidar pela attitude severa do Doge, attitude que se +reflectia nos dez membros do Conselho. E, acto continuo, indicando a Othello +que permanecia de pé a seu lado.—Este homem, que a Republica acolheu em +hora aziaga para todos, acabou de roubar-me a filha, deshonrando-a, +deshonrando-me tambem e lançando uma mancha indelevel sobre toda a nobreza +veneziana, sobre o nobre nome que me orgulho de usar. Justiça, Senhoria, contra +tamanho criminoso! justiça, se não quereis que eu renegue a propria terra em +que nasci!</p> + +<p>—Tranquillisa-te, bom Brabancio—respondeu o Doge com +benevolencia—se é certa a accusação que acabas de fazer contra esse +homem, contra esse habil e heróico general que mais de uma vez tem dado provas +da generosidade do seu coração, salvando a Republica, eu te prometto, como +cavalleiro veneziano e como magistrado supremo do Estado, que justiça te será +feita! Bem disseste affirmando que o ultraje que recebeste recae sobre todos os +teus compatriotas. Mas sabes, prudente velho, que os momentos actuaes são em +extremo solemnes e as circumstancias gravissimas? Os turcos dirigem-se contra +ilha de Chypre, com uma poderosa esquadra, e d'ella se apoderárão, facilmente +se<span class="pagenum"><a name="pag_21">[21]</a></span> não realizarmos um +verdadeiro milagre de vontade e de força. Agora bem—proseguiu o Doge, com +convicção.—Sabes o que significa para Veneza a perda da ilha de Chypre? +Significa ver-se reduzida a Rodas no Archipelago; é a ruina do seu commercio +com a Grecia e com toda a parte oriental da Europa; é o principio da decadencia +do seu poder no Mediterraneo, e quando Genova, Florença e o Pontificado saibam +isto, cahirão sobre a orgulhosa soberana do Adriatico como um bando de abutres +sobre uma aguia ferida e enferma, para repartir os seus restos e insultar a sua +passada grandeza. Immensa e justa é a tua dor, pobre velho, mas ante as +calamidades que ameaçam a Republica, tu, varão sabio e prudente, responde: que +significa a desgraça de um individuo, de uma familia, de uma dôr pessoal por +grande que seja, comparada com o soffrimento de um povo?</p> + +<p>—Perdoe-me a Vossa Senhoria e o sabio Conselho, respondeu humildemente +o velho; ignorava as terriveis noticias que me acabaes de communicar e cega-me +a dôr e a soberba. Soffra eu e os meus mil vezes, dado que se salve a +Republica! Se a pessoa que a póde salvar é esse homem, terminou indicando +Othello, desde este momento retiro a minha accusação e esperarei pacientemente, +para lavar a mancha cahida sobre o meu nome, que venham melhores tempos! Veneza +e a Republica acima de tudo!</p> + +<p>E, ao dizer estas palavras, o nobre velho pareceu verdadeiramente +transfigurado pelo generoso enthusiasmo que lhe trasbordava do coração, +enthusiasmo<span class="pagenum"><a name="pag_22">[22]</a></span> que se +communicou instantaneamente a todos os circumstantes, exceptuando Othello, que +permaneceu sereno e frio como estatua de bronze. Mas apenas acabou de fallar o +pae de Desdemona, e antes que o Doge tivesse tempo de responder-lhe, +agradecendo a nobreza da sua conducta, como pensava fazel-o, o mouro estendeu o +braço direito, como dando a entender que queria pedir a palavra, e ao ver que +os membros do Conselho inclinavam a cabeça, com um gesto de approvação, começou +com voz grave e pausada:</p> + +<p>—O sabio e prudente Conselho, assim como a Senhoria que o preside, vão +perdoar-me expôr a minha opinião a respeito de tudo quanto succede, sem que +previamente me tenham auctorizado para tanto.</p> + +<p>—Era o que pensava agora fazer, pois não foste chamado para outra +cousa, heroico Othello, disse o Doge com benevolencia; falla pois, com +liberdade absoluta.</p> + +<p>—Primeiro que tudo, proseguiu o general, occupar-me-hei, como é de +justiça, do mais importante; quer dizer do que diz respeito ao Estado; depois +tratarei da accusação que este velho acaba de lançar contra mim. Nada receiem! +Serei breve, muito breve, porque pouco, na realidade, tenho de dizer com +respeito aos dois assumptos. Por outro lado não é este o momento opportuno para +dispensarmos palavras, mas sim de praticarmos actos; além d'isto a minha +linguagem é rude e desataviada de galas.</p> + +<p>«A Senhoria de Veneza e o sabio Conselho ignoram<span class="pagenum"><a +name="pag_23">[23]</a></span> decerto que a unica eloquencia de que posso +orgulhar-me é a das acções.</p> + +<p>—Precisamente aquella de que hoje necessita a Republica, observou o +Doge gravemente.</p> + +<p>—Pois tel-a-ha, respondeu Othello com convicção absoluta. O que tenho +a dizer com relação aos turcos que buscam apoderar-se da ilha de Chypre, +reduz-se a isto: Montano, a quem deixei como governador na ilha, com plenos +poderes para que me substituisse durante curta ausencia, é um militar valente +como ha poucos e experimentado como nenhum; adora Chypre como um filho adora a +mãe, apesar de não ter nascido lá; dispõe de bons elementos de combate e, por +muito vigoroso que seja o ataque dos turcos, saberá resistir durante alguns +dias, os sufficientes para que, sahindo eu esta mesma noute ou, para melhor +dizer, esta manhã, de Veneza, tenha tempo de surprehender os otomanos antes de +que logrem pôr nas torres da ilha o estandarte da meia lua.</p> + +<p>—E crês, general, perguntou anciosamente o Doge, que dispões de +bastantes recursos para dominar e vencer o grande contingente de homens de +guerra e armamento naval com que, segundo noticias fidelissimas recebidas, os +turcos se aprestam para a lucta?</p> + +<p>—Essas noticias exageram, ou mentem, replicou friamente Othello. O +sultão está gravemente empenhado nas guerras com Castella e com Papa, e não +pode dispor de grandes elementos de combate. Que Montano resista sómente oito +dias, que me sejam favoraveis os ventos, e respondo pela<span +class="pagenum"><a name="pag_24">[24]</a></span> minha cabeça, que a Republica +conservará em seu poder Chypre e dará uma nova e forte lição ao seu constante e +teimoso inimigo, que o manterá na reserva durante muito tempo. Othello, que +nunca mentiu, jura-o pela sua lealdade ao Estado.</p> + +<p>E o altivo africano contemplou com tão fria serenidade os individuos do +Conselho, que estes sentiram que a confiança, uma confiança absoluta, voltava a +renascer-lhes nos corações.</p> + +<p>—Assim pois, perguntou o Doge ao mouro, partirás hoje mesmo para +Chypre?</p> + +<p>—Apenas o sol doire com os seus raios o extremo do mastro real do meu +navio, a quilha d'este rasgará as ondas orgulhosas do Adriatico em direcção á +ilha, respondeu Othello. Mas antes, Senhoria, ordena-me o coração e a lealdade +responder ás accusações d'este velho e deixar terminado este assumpto. Peço-vos +que não me negueis o favor de me ouvirdes e de fallar agora mesmo na causa que +vou submetter ao vosso recto juizo, Senhoria; porque, apesar de tudo, poderia +morrer na nova empreza que vou emprehender e por cousa nenhuma do mundo +quereria que pezasse sobre o meu nome a affronta que Brabancio acaba de lançar +sobre elle com as suas palavras, ante o Conselho...</p> + +<p>—Falla pois, Othello—disse o Doge, com deferencia;—mas, +como ha pouco disseste, procura ser breve, o mais breve que te seja possivel, +porque não ignoras que o tempo urge e os momentos perdidos são preciosos.<span +class="pagenum"><a name="pag_25">[25]</a></span></p> + +<p>—A brevidade convem a todos—disse o africano;—porém mais a +mim do que a ninguem, porque d'ella depende o exito do meu plano de batalha e +da sorte da minha existencia. Não receieis pois, Senhoria, e escutem, ouçam-me +todos, com os corações de homens e toda a consciencia de magistrados, porque é +a minha honra, a minha vida e a minha felicidade que jogo n'este momento.</p> + +<p>Calou-se o mouro e, durante alguns instantes, pareceu como abstrahido em +meditação dolorosa; depois, erguendo a altiva e bronzeada fronte com o gesto +leonino que lhe era peculiar, olhou cara a cara para o Doge e para os +individuos do Conselho com olhos nos quaes se reflectia toda a lealdade do seu +grande caracter, e começou em voz grave e pausada, que condizia perfeitamente +com a soberba majestade da attitude:</p> + +<p>Barbancio accusou-me ante vós, Senhoria, de que esta noute lhe raptei a +filha para deshonral-a e deshonral-o a elle e a toda a nobreza da Republica.</p> + +<p>—E assim é; atreve-te a negál-o! gritou fóra de si o velho senador, a +quem a recordação do rapto da filha despertara toda a colera que, durante +momentos, havia parecido abandonál-o.</p> + +<p>—Nego-o, porque não é verdade—respondeu friamente +Othello—Desdemona deixou esta noute a casa de seu pae para seguir-me, +para acompanhar seu esposo, porque meia hora depois de ter pisado o tapete da +minha gondola, enlaçava-se com o meu o seu destino ante os altares.</p> + +<p>—É mentira, uma infame mentira!—rugiu o<span class="pagenum"><a +name="pag_26">[26]</a></span> velho—A minha filha não póde ser a esposa +de um cão hereje como tu!</p> + +<p>—Tanto póde, que o é—affirmou categoricamente o mouro, sem +perder nem por um momento o sangue frio.—Além d'isso, não casou com um +hereje, pois creio no Deus dos christãos, porque é o Deus da mulher que +adoro.</p> + +<p>—Então é porque a enlouqueceste, porque a embruxaste com feiticerias e +artes magicas!—exclamou Brabancio no paroxismo da ira. D'outro modo, é +admissivel que uma donzella tão pura, tão formosa e delicada como Desdemona, se +enamorasse de um horrivel negro como tu?</p> + +<p>D'esta vez as palavras do colerico velho feriram por certo alguma fibra +sensivel e devéras intima do coração de Othello, porque a côr bronzeada do +mouro branqueou durante um segundo, e o general, erguendo mais ainda o alto e +poderoso busto, murmurou com voz moderada, mas na qual, apesar de tudo, se +sentia vibrar um furacão de sentimentos ignorados.</p> + +<p>—Sempre a mesma phrase! Um horrivel negro! Como se ha-de enamorar uma +virgem, bella e pura como Desdemona, de um horrivel monstro como Othello! +Ignoro, senhor—continuou o africano dirigindo-se d'esta vez ao +senador,—se as mulheres veem mais longe e mais profundo do que os homens, +mas para dita nossa e honra sua é preciso acreditar que sim, e que a vossa +filha viu a minha alma. A minha alma, ouvem, senhores? que é a de um homem como +vós, como a vossa, velho implacavel, como a de todos os homens brancos<span +class="pagenum"><a name="pag_27">[27]</a></span> emfim, e que ainda talvez +valha mais do que a de muitos d'esses, porque está firmemente temperada na +desventura e na lucta pela existencia.! Uma lucta horrivel, espantosa capaz de +aniquillar, o melhor coração de toda a nobreza veneziana á qual—continuou +com gesto de leão,—egualo, se não supero em raça, porque se ella nasceu +em berço doirado, o brilho de uma corôa real illuminou meu nascimento. Sim, +orgulhoso nobre; sou, quando menos, teu egual, porque descendo de reis, e sou +teu superior em valor moral, porque estou purificado pela desgraça. Vencidos +meus paes por um inimigo, não tão poderoso, porem mais astuto e mais cobarde do +que elles, fui vendido com meus escravos, como um egual de taes miseraveis. +Sim, o leão foi comprado revolto e mettido entre uma jaula de cães; mas a +escravatura não se fez para os leões e eu fugi da minha jaula matando os +guardas e correndo para o deserto, que era o meu ambiente natural. Ali lutei +com as féras para disputar-lhes o alimento, e digo-te sinceramente que ellas +são mais leaes e mais nobres na luta do que a maioria dos homens com quem tenho +deparado antes e depois de vencel-as. Mais tarde, farto da solidão, fui de povo +em povo, de nação em nação, e desde o estreito de Gibraltar até ao dos +Dardanelos, reguei o caminho com sangue de cobardes e lagrimas de corações +agradecidos. Quando, por ultimo, o Destino me trouxe para entre os vossos, a +Republica tremia como presa prestes a ser devorada pelo turco, pelo genovez, +pelo florentino, pelo romano, por todos os<span class="pagenum"><a +name="pag_28">[28]</a></span> seus inimigos, emfim. E eu firmei-a; derrotei +aquelles que queriam a sua queda para a fazerem em pedaços, dei estabilidade á +Republica vacilante, e a minha mão acostumada a apertar sem tremer a garganta +dos tigres, cravou no ponto, mais alto da Europa a bandeira de Veneza.</p> + +<p>«Que sangue haverá, pois, na cidade de S. Marcos que possa envergonhar-se de +se misturar com o meu?</p> + +<p>Calou-se o mouro por um momento, e por toda a salla pareceu vibrar a sua +potente voz. Othello continuou, sempre dirigindo-se a Brabancio:</p> + +<p>—Tua filha sabia tudo isto, sim, sabia-o, porque eu proprio lh'o havia +contado; conhece a minha historia, leu em meus olhos e bebeu nas minhas +palavras a formidavel e sangrenta epopeia da minha vida; viu-me tal qual sou, e +não como me veem os outros, como tu me vês, cego pela ira, e, em vez de achar +em mim o monstro a que te referes, viu apenas o homem de coração, que sabe +triumphar do Destino e dos homens, e começou por admirar-me, como um ser que +valia mais do que todos os fatuos inuteis e vadios que a rodeavam; para +concluir, amou-me com o mesmo amor profundo e infinito com que eu a amo. Este é +todo o nosso crime, e por elle peço que nos julguem—terminou dizendo, +dirigindo-se ao Doge e aos membros do Conselho.</p> + +<p>—Tudo quanto disseste nada é mais do que palavras e só +palavras!—gritou Brabancio desesperado, pois temia que o prestigio que +rodeava Othello inclinasse em seu favor os que tinham de o +julgar.—«Os<span class="pagenum"><a name="pag_29">[29]</a></span> factos +fallarão mais alto do que tudo quanto possas dizer em teu abono! Minha filha! +Confessa onde occultaste Desdemona! Minha filha que compareça ante vós, +senhores, e ella desmentirá essa ridicula novella que acaba de contar-vos este +homem, para disfarçar o indigno recurso de que se valeu para desvairar o +cerebro e annular a vontade de uma virgem pura e innocente como a propria +innocencia!</p> + +<p>—É justo—assentiu o Doge, dirigindo-se a Othello.—a tua +causa está bem apresentada e melhor defendida por ti mesmo; mas para tratarmos +d'ella equitativamente, é necessario ouvir as duas partes. Diz, pois, onde se +encontra Desdemona, e nós a faremos comparecer sem perda de tempo para deixar +ultimado este assumpto. Porque urge aclarál-o até ao fim; se és realmente, como +julgamos, digno da confiança que em ti deposita a Republica, ao enviar-te hoje +de novo a defendel-a contra os seus inimigos, ou se terá razão o senador em te +accusar com a aspereza com que acaba de fazel-o; em tal caso, as leis do +estado, que podem alcançar a minha propria senhoria, haviam de alcançar-te +tambem, fatal e necessariamente. Responde, general, onde está Desdemona?</p> + +<p>—A dois passos d'aqui, e nada mais facil, para vós, de que mandal-a +comparecer aqui e ouvirdes de seus labios as palavras que hão-de perder-me ou +salvar-me, visto que daes mais valor ao testemunho de uma mulher do que ao +juramento de um homem—respondeu Othello n'um tom de sentida +amargura.<span class="pagenum"><a name="pag_30">[30]</a></span></p> + +<p>—Como!—exclamou o Doge tão surprehendido como todos os +circumstantes, e sem prestar attenção na maneira como o mouro pronunciára as +ultimas palavras.—Dizes que está aqui Desdemona?</p> + +<p>—Sim—respondeu o general—disse.</p> + +<p>—Suponho—replicou gravemente o Doge,—que não ignoras que o +sitio em que te encontras é o menos a proposito para gracejos?</p> + +<p>—Não gracejo nunca—respondeu com certo desdém +Othello—Quando me dispuz a seguir os individuos que me enviaste, e depois +de ter ouvido Brabancio insultar-me e ameaçar-me com pedir-vos justiça contra +mim este mesma noute, considerei, como era logico, que necessitaria apresentar +a melhor e a unica testemunha de confiança que póde fallar em meu favor. Por +conseguinte, pedi ao meu tenente Cassio que fosse onde estava Desdemona e lhe +rogasse em meu nome que o acompanhasse aqui, dizendo-lhe do que se tratava. Ora +bem; como estou convencido de que Cassio terá cumprido as minhas ordens, pois é +fiel e amigo até á morte, e jámais desobedeceu a quem serve, respondo como já +disse, que bastará que que mandeis chamar Desdemona para que esta compareça +ante o Conselho.</p> + +<p>Com effeito, apenas o Doge deu a um porteiro ordem de que mandasse entrar na +sala a filha do senador Brabancio, esta apareceu vestida de branco, com o traje +de noiva que talvez não tivesse tido tempo ainda de tirar. Surgiu bellissima na +sua pallidez, e serena e firme como estatua de Diana.<span class="pagenum"><a +name="pag_31">[31]</a></span></p> + +<p>Brabancio e todos os circumstantes, exceptuando Othello, soltaram uma +exclamação de surpreza e assombro, ao vel-a apparecer como visão celestial, e o +Doge disse-lhe com voz affectuosa:</p> + +<p>—Approxima-te, preciosa Desdemona, e nada receis, porque a lei e o +cavalheirismo te protegem!</p> + +<p>A joven aproximou-se com passo certo e firme da mesa do Conselho, sem +parecer fixar a attenção em Othello nem no proprio pae, e parando a respeitosa +distancia dos juizes, perguntou:</p> + +<p>—Que deseja sua Senhoria de mim?</p> + +<p>—Que respondas, sob juramento, ás perguntas que vou fazer-te, sem que +o medo ou o pezo, nem nenhuma outra consideração humana, te façam occultar a +verdade. Comprehendeste?</p> + +<p>—Perfeitamente—respondeu com sangue frio Desdemona—Devo +advertir-vos, Senhoria, de que não tenho de que recear, e menos de que me +envergonhar, e que os meus labios jámais se mancharam com a mentira.</p> + +<p>—Acredito e applaudo-te com toda a minha alma—disse o Doge com +benevolencia—Agora, responde: conheces esse homem que está a tua +direita?—e apontou, indicando Othello.</p> + +<p>—Sim, Senhoria, conhece-o e amo-o, porque é meu esposo ante Deus e +ante os homens, ha tres horas; juro-o por Christo crucificado, assim como juro +que esta noute, por minha propria vontade e sem que ninguem me compellisse nem +sequer aconselhasse, abandonei a casa de meu pae para o seguir.</p> + +<p>—Mentira! gritou o velho senador desvairado<span class="pagenum"><a +name="pag_32">[32]</a></span> pela colera—Essa mulher está louca, +completamente louca! Se assim não fosse, nunca se atreveria a dizer, deante de +mim, seu pae, semelhantes vergonhas.</p> + +<p>—Não são vergonhas, pae e senhor meu—replicou respeitosa mas +firmemente a joven;—mas simples verdades: deixei a casa paterna para +seguir meu marido, como, ha muitos annos, tu abandonaste aquella que era tua +para seguir tua mulher.</p> + +<p>—Maldita, maldita sejas, filha desalmada e sem coração! Aborreço-te e +amaldiçoo-te, e nunca mais tornarás a vêr teu pae! Juro-o pelos santos +Evangelhos e pela fidalguia da minha raça. Adeus para sempre, e que a minha +maldição te persiga por toda a parte!</p> + +<p>E completamente transtornado pela desesperação e pela ira que o suffocava, o +implacavel velho abandonou, tremendo e cambaleando, a sala do conselho.</p> + +<p>—Não chores, preciosa Desdemona, disse o Doge affectuosamente á joven, +ao vel-a enxugar as lagrimas que lhe inundavam as faces nacaradas.—A +colera de teu pae, ainda que injusta até certo ponto, é no entanto +explicavel.</p> + +<p>«Mas espero que tão depressa recobre a tranquilidade e o sangue frio, +reflectirá e conquistarás de novo todo o seu carinho. No entanto, continuou +dirigindo-se a Othello, devolvo-te a estima e a confiança que sempre tive no +teu valor e na tua bem provada lealdade. Damos, pois, por terminado este +enfadonho assumpto, e dispoe-te a emprehender viagem sem perda de tempo.<span +class="pagenum"><a name="pag_33">[33]</a></span></p> + +<p>—Viagem! exclamou Desdemona estupefacta. Como, Senhoria! Ides affastar +assim de mim, tão de repente, o meu esposo, deixando-me na solidão e no +abandono mais desconsoladores?</p> + +<p>—Assim é necessario, linda Desdemona! respondeu o Doge n'um tom +compassivo. Crê que o lamento com toda a minha alma, mas exige-o a salvação e a +honra da Republica.</p> + +<p>—E onde o mandaes? perguntou a triste desposada com a maior +amargura.</p> + +<p>—A Chypre, que está ameaçada pelos turcos, e onde faz falta a presença +do general mais habil e valente que tem o estado, disse o Doge.</p> + +<p>—Pois bem, respondeu a joven n'um tom de resolução +inquebrantavel—irei tambem com elle a Chypre. Não diz o Apostolo que a +mulher deve seguir o marido? Pois eu opponho-me com toda a minha alma a +separar-me d'aquelle que a Providencia collocou no meu caminho.</p> + +<p>—Mas, e os perigos a que te vaes expor, indo na sua companhia? +observou o Doge.</p> + +<p>—Não me importam. Seguil-o-hia, embora soubesse que caminhava para a +morte, respondeu a corajosa joven.</p> + +<p>O Doge consultou Othello com o olhar, e este sentindo-se tacitamente apoiado +pela poderosa Senhoria, atreveu-se a dizer:</p> + +<p>—Realmente, não vejo inconveniente em que minha esposa me siga, visto +não receiar os perigos que vamos correr juntos. Por outro lado, a mulher de um +guerreiro deve ser animosa, e além d'isto a sua presença, longe de diminuir ou +quebrantar<span class="pagenum"><a name="pag_34">[34]</a></span> o meu valor ou +os meus talentos militares, multipolical-os-ha até o infinito. Por +consequencia, se sua Senhoria e o sabio e prudente Conselho não se oppõem a tal +resolução, levarei minha esposa comigo á ilha de Chypre, para onde partirei +d'aqui a uma hora. Mas, proseguiu, olhando para Desdemona, para poupar os +riscos da viagem, peço ao Conselho que me auctorize a levar comigo todos os +officiaes que me são dedicados e que estão acostumados a combater sob as minhas +ordens. De este modo, se morrer em qualquer recontro com os turcos durante a +expedição, sei que o meu tenente Cassio e o meu alferes Iago, que são meus +irmãos de armas, velarão por minha mulher, como faria sua propria mãe.</p> + +<p>Assim ficou combinado e, passada uma hora, Othello e Desdemona, com os +officiaes favoritos do general, embarcaram em direcção á ilha de Chypre.</p> + +<p>O que todos ignoravam a bordo, exceptuando o alferes Iago, que nem o +confessou á propria mulher, Emilia, aia de Desdemona, era que, no mesmo navio +que albergava os dois felizes esposos, ia tambem o nobre Rodrigo, sobrinho de +Brabancio e primo de Desdemona, da qual estava loucamente apaixonado, e a cuja +posse não renunciava, apezar de Iago lhe haver dado a noticia de que n'aquella +madrugada se realisára o matrimonio da joven.</p> + +<p>Mas o alferes de Othello, dotado do maior cynismo, constando que o seu nobre +amigo se desesperava, renunciando para sempre ao objecto da<span +class="pagenum"><a name="pag_35">[35]</a></span> sua paixão ao comtemplal-o nos +braços de outro, riu-se d'elle e quasi o obrigou a que o acompanhasse a Chypre, +disfarçado de marinheiro, promettendo-lhe que, se, como havia dito antes, não +lhe desobedecesse em coisa alguma, e muito menos lhe negasse o ouro que +corrompe todas as consciencias, arranjaria tudo de fórma a n'um prazo curto, +que nunca excederia um mez, a candida e innocente prima cahiria, louca de amor, +nos braços do apaixonado primo.</p> + +<p>Mas, o que pretendia o mizeravel com tudo isto, era, sómente, enriquecer á +custa das joias e do dinheiro de que havia obrigado a prover o ingenuo Rodrigo, +e ter este como uma corda mais no arco, para quando chegasse o momento de +disparar a envenenada flecha destinada a despedaçar o coração do homem generoso +que o acolhera sob a sua protecção e lhe déra a sua amizade e o seu carinho, +bem longe de suppôr que abrigava no seio a vibora, que depois havia de +causar-lhe a morte com a mordedura venenosa.</p> + +<p>Mas não nos adeantemos aos acontecimentos, e sigamos passo a passo o curso +da terrivel tragedia que chegou a immortalizar a perfidia de um invejoso e os +ciumes de um amante, cujo unico crime consistiu em ser propenso ás paixões, e +dispôr de tempera superior áquella em que está forjada a vulgaridade dos +homens.<span class="pagenum"><a name="pag_36">[36]</a></span></p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_37">[37]</a></span></p> + +<h1>III</h1> + +<h1>Em Chypre</h1> + +<p>Duas outras galeras com um bom numero de soldados e infinidade de apetrechos +de guerra, acompanhavam a capitanea que levava a insignia de Othello, e na qual +este ia com Desdemona, os officiaes e o sobrinho de Brabancio, disfarçado de +marujo.</p> + +<p>Com estes tres barcos, sómente, contava o general africano defrontar a +poderosa esquadra turca, no caso de dar-se um recontro mais do que provavel, +visto que os ottomanos, a avaliar pelas ultimas noticias recebidas no momento +do embarque, deviam já navegar nas aguas de Chypre.</p> + +<p>Mas o heroismo e o talento militar de Othello suppriam tudo, e as +tripulações dos tres navios confiavam tão cegamente no chefe, que quasi +desejavam esse recontro em vez de o recear.</p> + +<p>Não obstante, a situação aggravou-se ao terceiro dia de viagem, até +tornar-se desesperada, pois que furiosa tempestade fez sossobrar as duas<span +class="pagenum"><a name="pag_38">[38]</a></span> galeras que acompanhavam a +capitanea, e taes destroços causou n'esta, que, deixando-a raza como um pontão +e pouco menos do que sem governo, pois o leme soffreu tambem graves avarias e +as obras mortas ficaram feitas em pedaços, converteu-a em débil joguete das +encrespadas e gigantescas ondas, que a faziam dançar sobre as espumosas cristas +como fragil casca de nós.</p> + +<p>Ninguem, no emtanto, perdeu a coragem durante aquelle calamitoso transe, +apezar de todos estarem firmemente convencidos de que soára para elles a ultima +hora. Era que o exemplo de coragem e sangue frio de Othello e sobretudo de +Desdemona, que não se apartou do esposo um só momento durante o perigo, +seguindo-o por toda a parte com o sorriso nos labios e resolvida a morrer com +elle, communicára-se a todos, e ninguem, ainda que a sentisse, queria dar +provas de fraqueza, alli onde uma mulher era a primeira a fazer galla do mais +extraordinario heroismo.</p> + +<p>Mas, por ultimo, no dia seguinte, e depois da noite verdadeiramente +horrorosa aquietaram-se os elementos, o furacão diminuiu a furia e foi pouco a +pouco acalmando até converter-se em brisa suave e acariciadora. O mar, que +durante vinte horas mortaes parecera um Leviathan furioso, transformou-se, por +fim, em Iago tranquillo.</p> + +<p>Os afortunados viajantes, salvos por verdadeiro milagre, não tardaram em +encontrar, junto da desmantelada embarcação, terriveis e numerosos indicios dos +destroços que havia causado em taes paragens a formidavel tormenta.<span +class="pagenum"><a name="pag_39">[39]</a></span></p> + +<p>Uma coisa, não obstante, feriu a viva imaginação de Othello. Extranhou ver a +excessiva abundancia de cadaveres, restos de navios feitos em pedaços e +destroços de toda a especie que fluctuavam sobre as ondas.</p> + +<p>Chegou um momento em que a ideia d'esses despojos o atormentára de tal modo, +que teve necessidade de communical-a a alguem, pois queria a todo o transe +ouvir, a tal respeito, outra opinião.</p> + +<p>Chamou por isto o tenente Cassio e o alferes Iago, e sentando-se com elles +na tolda do navio, disse-lhes, mostrando o mar, que cada vez apparecia mais +juncado de cadaveres:</p> + +<p>—Que me dizeis d'isto? Certo deve ter succedido grande catastrophe, +pois de outro modo não se explica que haja tantas victimas e tantos restos de +navios destroçados. Que opinião é a vossa?</p> + +<p>—Se fosse a esquadra turca?—atreveu-se a insinuar o tenente +Cassio olhando para o chefe, em cujos olhos surprehendeu um relampago de +alegria, ao ver que encontrava alguem, e nada menos do que um homem ponderado, +que pensava como elle.</p> + +<p>—Neptuno foi tão propicio durante a vossa viagem, general, disse por +sua vez Iago com servil adulação, que não admiraria nada que levasse a +protecção que vos dispensou até ao extremo de livrar-vos sem combate dos vossos +inimigos.</p> + +<p>—De qualquer maneira, respondeu Othello, sorrindo affavelmente ao +alferes, seja ou não a Providencia que nos auxiliou, é indubitavel que não +podemos queixar-nos da sorte, e que esta corôaria<span class="pagenum"><a +name="pag_40">[40]</a></span> dignamente a sua obra e, ao chegar a Chypre, +encontrassemos comprovada a opinião do tenente Cassio que, seja dito com +franqueza, foi tambem a minha.</p> + +<p>Não tiveram de esperar pela chegada a Chypre para saberem da destruição da +esquadra turca, de modo innegavel.</p> + +<p>N'aquelle mesmo dia encontraram uma lancha tripulada por seis naufragos, +todos soldados otomanos, os quaes, depois de serem recolhidos no navio e +tratados com todos os cuidados e attenções que a sua lamentavel situação +exigia, agradecidos á generosidade que Othello usava para com elles, lhe +contaram minuciosamente todos os detalhes da espantosa catastrophe, na qual +desapparecera toda a esquadra, exceptuando duas embarcações que, partidas e sem +léme, acabaram por perder-se no horizonte á vista dos naufragos, sem que +pudessem dizer o que fôra d'ellas; mas a julgar pelo deploravel estado em que +as havia posto a tempestade, era mais do que provavel que houvessem acabado por +ser tambem tragadas pelo Oceano.</p> + +<p>Julgue-se, pois, a impressão que tão faustas noticias fariam nos ditosos +viajantes, que viam desapparecer n'um minuto os perigos que ameaçavam a +Republica de Veneza, para elles mil vezes mais temiveis e angustiosos, pois +lhes tinham ameaçado até então a popria vida.</p> + +<p>Quando por fim a desarvorada galera capitanea fez a sua entrada triumphal no +bellissimo porto da ilha de Chypre, onde já era tambem conhecida<span +class="pagenum"><a name="pag_41">[41]</a></span> a destruição da esquadra +turca, o regosijo e a alegria não tiveram limites; Othello e Desdemona foram +recebidos com o fervente enthusiasmo que só se tributa aos heroes, e toda a +população distincta da ilha, com o governador Montano á frente, correu a +visital-os ao palacio em que se haviam installado, para tributar-lhes sincera e +franca homenagem de admiração e de estima.</p> + +<p>Othello, pela sua parte, ao assumir, n'aquella mesma tarde, o comando +supremo de Chypre, decretou em nome da Republica veneziana festas geraes +durante todo o resto do dia e até á meia noute, para que o povo celebrasse, +cada qual consoante a sua vontade e gosto, o ter-se livrado, tão feliz como +inopinadamente, do terrivel e feroz inimigo que pretendera apoderar-se da +ilha.</p> + +<p>Em seguida, e apenas anoiteceu, retirou-se para o Palacio em companhia de +Desdemona, pedindo a Montano para ainda fazer as suas vezes durante a noute, +pois alem de estar fatigado, devido á accidentada viagem, era essa tambem a +primeira noite em que, desde que se unira a Desdemona, podia encontrar-se a sós +e tranquillo com a formosa e virginal esposa.</p> + +<p>Montano, como póde suppor-se, accedeu promptamente ao desejo do general +governador de Chypre, offerecendo-lhe cumprir o seu encargo de vigiar +cuidadosamente os guardas durante a noute, tanto para acudir ás desordens e +escandalos resultantes de todas as festas populares, como para não abandonar a +vigilancia do porto que, não obstante o desastre casual soffrido pelos +turcos,<span class="pagenum"><a name="pag_42">[42]</a></span> era presa +demasiado cubiçada por elles para se descurar, um momento que fosse, observando +com semelhante prevenção o famoso e prudente proverbio latino <em>si vis pacem, +para bellum</em>, que deve ser sempre a divisa de todo o bom militar.</p> + +<p>Caiu a noute sobre Chypre com os melhores auspicios e em meio da alegria de +todos os seus habitantes que, já livres das tristes preoccupações que os haviam +atormentado até ali se entregaram inteiramente ao gozo das festas que haviam +organizado.</p> + +<p>Ao dizermos todos os habitantes, devemos descontar dois muito nossos +conhecidos, que já não participavam do regosijo commum, e recolhidos n'um +angulo do edificio que servia de quartel á guarda encarregada da vigilancia do +porto, conversavam animadamente e em voz baixa de assumpto que, a julgar pelo +aspecto e gestos de ambos os interlocutores, devia ser de grande interesse para +elles.</p> + +<p>Estes dois personagens eram Iago, o alferes de Othello e o seu nobre +companheiro Rodrigo, sobrinho de Barbancio e desprezado amante de Desdemona, o +qual não deixára ainda o disfarce de marinheiro, por assim o ter aconselhado o +amigo, como medida de prudencia.</p> + +<p>O dialogo que segue porá os nossos leitores ao corrente do assumpto que +tratavam, e que, como já terão advinhado, não era outro senão o dos desditosos +amores da ingenua victima do alferes.</p> + +<p>—A avaliar por quanto pude ver desde que sahi de Veneza, dizia Rodrigo +ao companheiro, asseguro-te<span class="pagenum"><a +name="pag_43">[43]</a></span> que, se não fôres o proprio diabo em pessoa, te +será difficil que eu consiga o amor da minha bella prima, que dia a dia me +parece mais enamorada do horroroso marido.</p> + +<p>—Trouxeste comtigo todas as joias e quanto dinheiro podeste reunir, +segundo prometteste? perguntou tranquillamente Yago, sem dar a menor attenção +ás palavras do amigo.</p> + +<p>—Nas minhas malas tenho todas as alfaias de familia, que valem para +cima de dez mil escudos de ouro, e quasi outro tanto em moedas novas venezianas +e genovezas, respondeu Rodrigo.</p> + +<p>—Com menos de metade se comprava, seduzia e conquistava uma rainha, +ainda que abrigasse no seio um coração mais duro que as afiadas garras do leão +de S. Marcos, disse o alferes em cujos olhos brilhou um clarão de cobiça, ao +ouvir as palavras do companheiro.</p> + +<p>—Não proponho comprar Desdemona, replicou este, por duas razões: a +primeira porque a conheço bem e estou certo que não é mulher que se venda; e a +segunda porque receberia um amor que se daria por dinheiro e não por natural +correspondencia á paixão que inspira a mulher amada.</p> + +<p>—Ta! ta! ta! cantarolou cynicamente Yago, tudo isso são cantatas, +bôas, quando muito, para servir de assumpto a rimances cantados por trovadores, +depois de opipara ceia em noute de festa. A tua bella prima é como todas as +mulheres, e todas as mulheres são como as andorinhas. Namoram-se de tudo quanto +brilha; por isso<span class="pagenum"><a name="pag_44">[44]</a></span> tua +prima se enamorou de Othello, porque a seus olhos brilhou mais do que todos os +nobres venezianos, devido ao inegavel esplendor das suas maravilhosas +proezas.</p> + +<p>—Que devo então fazer? perguntou Rodrigo, contemplando Yago com +irritação não isenta de espanto. Não me asseguraste que Desdemona está +enamorada do marido?</p> + +<p>—Nem mais, nem menos, respondeu fleugmaticamente Yago. Mas, por +dizer-te que está enamorada, não significa semelhante affirmação que o esteja +sempre. O amor de tua prima, nobre Rodrigo, crê piamente no que digo, pois sou +homem de experiencia, não é amor verdadeiro, mas ficticio; o que poderiamos +chamar amôr de imaginação.</p> + +<p>—Como! exclamou, cada vez mais surprehendido, o joven veneziano.</p> + +<p>—O que acabo de proferir, continuou o alferes, é precisamente a phrase +approximada e perdoa que me gabe ao dizer-te que muito feliz fui em a ter +encontrado: um amor de imaginação. O brilho que vê em Othello, e que a +deslumbrou, não é outra coisa senão o que se vê nos heroes dos romances, que é +precisamente como se apresenta o marido aos olhos de Desdemona. Ella vê o +heroe, sempre o heroe. Pergunta-lhe pelo homem, e não saberá responder-te.</p> + +<p>—Porquê? perguntou Rodrigo, verdadeiramente interessado.</p> + +<p>—Simplesmente porque o homem não existe para ella nem, felizmente para +o que respeita a<span class="pagenum"><a name="pag_45">[45]</a></span> Othello, +se preoccupa de procural-o; no dia em que tal faça, o marido está perdido e o +mesmo será no dia em que o encontre.</p> + +<p>—Não te comprehendo, interrompeu o joven veneziano, que, como todos os +seus eguaes d'essa epocha, estava pouco habituado a torturar o cerebro, sentia +enorme confusão perante semelhante embroglio para elle inintelligivel.</p> + +<p>—Porque não queres comprehender-me, replicou Yago com a mesma +tranquilidade do gato que brinca cem o rato. E se não, continuou dizendo, +ouve-me attentamente e verás como te explico tudo, em quatro palavras, verás +como entendes: tua prima é mulher, não é verdade?</p> + +<p>—Essa é de cabo de esquadra! exclamou irritado Rodrigo. Pois que outra +coisa poderia ser?</p> + +<p>—Não te abespinhes, homem, não te abespinhes! De vagar se vae ao longe +e nao tardarei em chegar onde quero, disse o alferes que, semelhante n'isto a +todos os miseraveis, se comprazia em atormentar a victima. Responde: é mulher +ou não?</p> + +<p>—Quem duvida?</p> + +<p>—Ninguem, por certo. Ora como mulher, necessitará de um homem que lhe +satisfaça as exigencias do organismo; um homem que ame fisicamente, entendes-me +agora, alma de cantaro? <em>fisicamente</em>, porque o amor <em>fisico</em> é o +unico que póde convir á vida de uma mulher, quando as paixões imaginativas e +novelescas, como a agora experimentada por ella, se evaporam e fogem ante a +fortaleza brutal dos gritos da carne.<span class="pagenum"><a +name="pag_46">[46]</a></span></p> + +<p>—Bem, de accordo, respondeu Rodrigo que ia começando a comprehender o +companheiro.—Mas aonde queres tu ir parar com todas essas +philosophias?</p> + +<p>—Simplesmente a uma conclusão que não admitte duvidas: tua prima está +hoje satisfeita e enamorada porque não vê mais do que o lado poetico do marido, +e ainda não se fixou na cara, linguagem, gestos, e no mais que n'elle existe de +tosco, de selvagem e de brutal. Mas como o seu amor não póde alimentar-se de +sonhos, e um beijo dado por uns labios humidos e vermelhos vale mais para uma +mulher do que toda a poesia do mundo, no dia em que esse tigre africano +despertar torpemente a carne da mulher, o que n'este momento está fazendo, +asseguro-te que, ou não ha senso commum sobre a terra, ou apenas Desdemona se +inteire do que então ignorava, quer dizer, de que tem sexo, o negro estará +perdido para ella, completa e irremediavelmente perdido. Talvez, nas suas horas +de tédio, o recorde e até careça d'elle, como se recorda e se carece, em +determinados momentos, de uma historia interessante ou de um fragmento de +poema; mas, durante os parentesis da realidade, que são os maiores da vida, +precisamos todos, e ella tambem, coisa mais substanciosa e mais pratica: o +gastrónomo, carne fresca e appetitosa que desfaça nos dentes; e o amante, carne +mais fresca e mais appetitosa que lhe palpite nos braços! Já vês que n'este +pobre mundo tudo é questão de carne, meu caro amigo! Ah! ah! ah!<span +class="pagenum"><a name="pag_47">[47]</a></span></p> + +<p>E, ao dizer estas palavras o miseravel soltou uma gargalhada cynica e +estrepitosa, gozando em desfolhar, uma a uma, as poucas flôres da illusão que +ainda vicejavam no coração de Rodrigo.</p> + +<p>—Assim, pois, continuou dizendo quando acabou de rir, confia em mim e +não tortures a cabeça com supplicios inuteis.</p> + +<p>«A noiva de Othello será tua, porque assim jurei e não falto nunca aos meus +juramentos, disse com um sorriso de escarneo quasi imperceptivel. E proseguiu +acto continuo:</p> + +<p>«Apenas terás de me ir entregando joias e dinheiro, á medida que eu vá +pedindo, para captivar com ellas o coração de minha mulher, que é o anjo da +guarda do Paraiso, e seduzir tambem a coração de Desdemona. Já vês que sou +imparcial na minha opinião com respeito a mulheres, terminou o mizeravel, pois +que não sendo a minha das peores, não lhe dou mais valor do que positivamente +tem.</p> + +<p>—E julgas, realmente, que Desdemona se deixará captivar por fim, com +dadivas e presentes? perguntou o infeliz apaixonado, cuja certeza a respeito da +virtude da prima começava a fraquejar, combatida simultaneamente pelos proprios +desejos e pelas perfidas theorias do ruim amigo.</p> + +<p>—Dá tempo ao tempo e depois te convencerás do que digo, proseguiu Iago +com a firmeza de quem tem certo o triumpho.</p> + +<p>«Dá-me tudo o que te pedir e deixa o resto por minha conta. Não te +preoccupes mais com tal assumpto e presta attenção, e ao dizer estas palavras +baixou a voz e adoptou uma attitude mysteriosa;<span class="pagenum"><a +name="pag_48">[48]</a></span> ha outra coisa e outra pessoa que constituem um +grande perigo para os teus amores.</p> + +<p>—Que queres dizer?—perguntou Rodrigo sobresaltado.</p> + +<p>«Explica-te mais claramente porque os teus enigmas apenas servem para me +atormentar.</p> +—Não tens reparado na assiduidade com que o tenente Cassio segue para +toda a parte Desdemona, e na singular preferencia que esta lhe dispensa +constantemente, mesmo na presença do esposo? + +<p>—É certo! exclamou Rodrigo empallidecendo; até agora ainda não tinha +dado importancia a semelhantes detalhes; mas acabas de abrir-me os olhos, e não +ha duvida que tens razão de sobra para assim fallares. Que infame! acabará, +talvez, por entender-se com Cassio, procurando n'elle o homem a que ha pouco te +referias? Se assim fôr, posso perder as ultimas esperanças, pois o meu amor não +se verá jámais correspondido!</p> + +<p>—Enganas-te, porque estou eu aqui para o evitar respondeu Iago, +fingindo carinho affectuoso.—Tenho o meu plano. Esta noute preciso que me +ajudes, para varrer esse empecilho, de fórma que não torne a molestar-nos em +vida.</p> + +<p>—Como?—perguntou Rodrigo.</p> + +<p>—É muito simples; primeiro que tudo, é perciso fazer que Cassio, perca +a estima de que desfructa junto de Othello, e que este o demitta do seu posto +de tenente, para dar-m'o. D'este modo, affastado para sempre do general, não +terá pretexto para approximar-se de Desdemona e todas<span class="pagenum"><a +name="pag_49">[49]</a></span> as suas seducções e artificios resultarão +completamente inuteis. Entretanto eu, investido nas funcções do meu novo cargo, +poderei converter-me em sombra do mouro e, por conseguinte, de tua prima, e não +me parece necessario encarecer as vantagens que poderás tirar d'isto para os +teus amores.</p> + +<p>—É certo!—exclamou o moço veneziano, contemplando com admiração +e gratidão o amigo—Mas como te vais arranjar para levar a cabo o teu +plano e em que poderei auxiliar-te?</p> + +<p>—Da maneira seguinte: d'aqui a uma hora, pouco mais ou menos, vou cear +em companhia de Montano e de Cassio no quartel que existe n'este mesmo +edificio. O tenente é tão mau bebedor que não póde resistir a um só copo do +riquissimo vinho d'esta ilha. Ora bem; hei de fazer o possivel para que beba +dois ou tres, o que bastará para o embriagar como a qualquer mendigo e, em +seguida, busca sahir-lhe ao caminho e, sem o provocar, farás que te dirija +algum insulto, cousa que não será difficil, porque quando está bebedo, é +aggressivo. Replicar-lhe-has acto continuo e continuarás discutindo até +conseguires que te bata. Como farás tudo isto, procurando não te affastares do +quartel, onde se effectuará a ceia, gritarás de modo que Montano e eu possamos +ouvir-te. Então acudiremos ambos, eu occupar-me-hei de ti, e deixaremos que os +dois se entendam, na certeza de que Cassio, homem sereno e senhor de si quando +está no estado normal, é indiabradamente provocador e insultante quando se +embriaga, o que lhe<span class="pagenum"><a name="pag_50">[50]</a></span> +succede poucas vezes na vida, e não deixará de puchar pela espada para +responder com ella ás amigaveis indicações que lhe dirija Montano; fará sangue, +certamente, e então entrarei eu em scena para armar tal escandalo, que Othello +terá de inteirar-se necessariamente do caso. Ora bem; como não transigiria nem +com o proprio filho em pontos de disciplina, surprehenderá Cassio em falta +grave, precisamente no momento de guarda, e affirmo-te que o teu provavel rival +não tornará a pôr no peito a divisa de tenente, que passará a ser minha, e que, +a partir d'esta noute, poderás viver completamente tranquillo.</p> + +<p>—E estás bem seguro do teu plano?—perguntou Rodrigo ao alferes, +quando este acabou de narrar o infame projecto, que o joven veneziano escutára +com profunda attenção.</p> + +<p>—Certissimo—respondeu Iago—Só preciso que prestes o +serviço que te peço.</p> + +<p>—Conta comigo—prometteu o sobrinho de Brabancio, decidido a tudo +para conseguir o amor de Desdemona.</p> + +<p>—Então, mãos á obra—respondeu o alferes levantando-se e +apertando a mão do companheiro.—N'este mesmo sitio estás perfeitamente +para fazeres quanto te indiquei, porque Cassio sahirá por aquella +porta—apontou, indicando uma que havia a poucos metros de +distancia.—Espera-o aqui, executa fielmente as minhas instruções, e não +duvides de que o triumpho será nosso.</p> + +<p>E, acto continuo, o miseravel despediu-se do ingenuo Rodrigo e correu a pôr +em pratica o diabolico<span class="pagenum"><a name="pag_51">[51]</a></span> +plano que concebera, não para ajudar o companheiro nos seus amores, como +promettera, mas para perder um innocente a quem invejava, e supplantal-o no +posto e no affecto de Othello.</p> + +<p style="text-indent: 0; text-align: center;">*<br> +* *</p> + +<p>Duas horas depois, o sino de alarme tocava desabaladamente no quartel +situado junto da doca do porto, pondo em alvoroço toda a ilha, que começava a +entregar-se ao somno passada a agitação da festa, e obrigando a saltar do +leito, em sobresalto, o proprio Othello, que repousava docemente entre os +bellissimos braços de Desdemona.<span class="pagenum"><a +name="pag_52">[52]</a></span></p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_53">[53]</a></span></p> + +<h1>CAPITULO IV</h1> + +<h2>O traidor</h2> + +<p>A minuciosa exposição que Yago fizéra a Rodrigo do plano que tinha in-mente, +bastaria para que os nossos leitores tivessem noticia exacta de quanto havia +succedido durante as duas horas que passaram desde a separação dos dois amigos +até o momento em que o inesperado toque do sino de alarme levou a inquietação e +o desassocego a todos os habitantes de Chypre, incluindo n'este numero o +proprio Othello.</p> + +<p>Mas, se, para maior clareza da narração é imprescindivel por um lado +conhecer a descripção pormenorisada do succedido e assim chegar ao desenlace +d'esta tragica historia sem uma solução de continuidade que prejudicaria +notavelmente a comprehensão dos factos; pelo outro, seria impossivel, omittindo +tal narração, seguir passo a passo as interessantes e accidentadas peripecias +do complicado drama cuja base principal assenta na ambição<span +class="pagenum"><a name="pag_54">[54]</a></span> e na inveja de uma alma +perversa, nascida para a infamia e para o crime.</p> + +<p>Assim, sigamos Iago no momento em que, ao separar-se do primo de Desdemona, +entrou no quartel onde, á entrada, o estavam esperando para a ceia o tenente +Cassio e o nobre Montano, governador da ilha de Chypre e representante da +Republica Veneziana, na ausencia de Othello.</p> + +<p>—Boa noite, prudente Cassio; saude e prosperidade, illustre Montano, +cumprimentou o alferes ao entrar, dirigindo-se aos companheiros e +superiores.</p> + +<p>—Graças a Deus que vieste; julgavamos que tivesses esquecido que te +esperavamos! exclamou Cassio ao vêr entrar o amigo.</p> + +<p>—Pelo que prevejo, interrompeu Montano esboçando um sorriso malicioso, +este bom Iago, apezar de ter uma esposa deveras formosa, não faz má cara ás +mulheres do proximo, especialmente quando são jovens lindas; e como abundam em +Chypre as que reunem estas duas qualidades, graças sejam dadas ao Amôr e a +Venus, certamente se atrazou, dando uma volta pelas ruas da ilha, com o +perverso proposito de render alguns corações mais do seu gosto.</p> + +<p>—Acertaria no alvo o vosso gracejo, se visasseis o nosso tenente, que +tem, na verdade, fama de irresistivel com as bellas, replicou Iago esboçando um +sorriso intencionado, de que só elle percebeu a transcendencia. Quanto a mim +detesto as saias, por instincto de conservação, e não trocaria uma só garrafa +de bom vinho de Chypre por todas<span class="pagenum"><a +name="pag_55">[55]</a></span> as mulheres casadas, viuvas ou solteiras, que +vivem na ilha.</p> + +<p>—Parece-me, Iago, observou Cassio affectuosamente, que acabas de fazer +duas affirmações duplamente exaggeradas: uma, aquella em que alludes á minha +boa estrella junto das bellas, que seja dito de passagem, só existe na tua +imaginação, pois confesso-te que, até agora, não tenho na minha folha de +serviços uma só conquista que valha referencia.</p> + +<p>—Nunca é tarde quando a sorte nos sorri, replicou astutamente Iago.</p> + +<p>«Ha quem assegure que estás a caminho de entrar por assalto n'uma praça que +mais de um nobre veneziano, teu compatriota, invejaria.</p> + +<p>—Não te comprehendo, respondeu Cassio com estupefacção tão profunda +como sincera retratada no semblante.</p> + +<p>—Saibamos, saibamos que praça é essa e veremos se é digna de +disputal-a o bello Cassio! exclamou alegremente Montano.</p> + +<p>—Se elle guarda segredo, não sou eu que tenho o direito de +desvendal-o, disse hypocritamente o alferes.</p> + +<p>—Guardo segredo porque não sei a que aventura te referes, respondeu +Cassio de boa fé. Explica-te, peço, porque conseguiste intrigar-me.</p> + +<p>—Modestia, pura modestia, discreção levada até á mudez! disse rindo o +alferes. Cassio, felicito-te porque és um cavalleiro digno de ter vivido nos +bons tempos do rei Arthur. Mas, continuou, dando deliberadamente outro rumo á +intencional<span class="pagenum"><a name="pag_56">[56]</a></span> charada, cada +vez me convenço mais de que o mundo está cheio de paradoxos e nós proprios o +somos.</p> + +<p>—Porquê? perguntou Montano com estranheza.</p> + +<p>—Nada mais simples, respondeu Iago. Vocês esperavam-me com +impaciencia, o que evidentemente accusa um apetite devorador; por minha parte +tambem declaro que não vinha menos resolvido a entender-me com uma boa ceia. +Pois bem, em vez de aproveitarmos o tempo predispondo o estomago com meia duzia +d'essas veneraveis garrafas que nos escutam, para entrarmos depois heroicamente +pelos manjares, estamol'o perdendo lastimosamente, fallando de mulheres, isto +é, do assumpto menos substancial e mais perigoso que pode tratar-se entre +cavalleiros.</p> + +<p>—Indubitavelmente esta noute estás pouco amavel e galanteador para as +damas, valente Iago, respondeu Montano rindo.</p> + +<p>—Nem mais nem menos do que n'outras occasiões e nem menos nem mais do +que o merecem, disse Iago.</p> + +<p>E passando em revista meticulosa as garrafas poeirentas que se viam sobre a +mesa artisticamente posta, pegou n'uma de respeitavel antiguidade, a julgar +pelo aspecto e pela marca que ostentava na rolha, abriu-a e encheu de +riquissimo e perfumado vinho os copos dos companheiros e o d'elle. Seguidamente +e sem dizer palavra, bebeu-o de um trago e fez estalar a lingua com a placida +expressão de um bebedor satisfeito.<span class="pagenum"><a +name="pag_57">[57]</a></span></p> + +<p>Montano fez com o copo o mesmo que Iago fizera com o d'elle; mas o tenente +Cassio contentou-se com leval-o aos labios e humedecel-os ligeiramente com o +dourado nectar.</p> + +<p>—Como! exclamou Iago apparentando indignação e assombro ao ver que o +seu amigo voltava a por sobre a mesa o copo tão cheio como o levantára. Não +bebes comnosco, ou não aprecias este vinho, herdeiro directo da sagrada +ambrosia com que Jupiter obsequiava de vez em quando os seus amigos do Olympo? +ignoras, por ventura, desgraçado, que o vinho de Chypre foi consagrado pela +historia, atravez dos seculos, até que vencendo o seu rival Falerno, teve a +honra de toldar com frequencia o cerebro de Alexandre, de produzir as gloriosas +alegrias de Alcibiades, de servir de vehiculo para o veneno que matou Britanico +e de inspirar os versos de Nero e os pontapés que o imperial artista dava em +Popêa para a expulsar dos festins, quando o estorvava nos seus desabafos +amorosos com os mancebos romanos? Ignoravas isto, infeliz? Pois bem, é um +peccado de lesa ignorancia, indesculpavel n'um homem ponderado como tu; mas, +apesar de tudo, Montano e eu perdoamos-te com a melhor vontade do mundo, dado +que honres o historico vinho como nós o honramos.</p> + +<p>—Nunca bebo! respondeu gravemente Cassio.</p> + +<p>—Porquê? perguntou com curiosidade Montano. É talvez algum +juramento?</p> + +<p>—Não, respondeu o tenente; a minha repugnancia em beber obedece +sómente a que o vinho<span class="pagenum"><a name="pag_58">[58]</a></span> me +ataca de tal modo a cabeça, que basta um copo para transtornar-me por completo +e fazer de mim um homem absolutamente diverso de que sou no estado normal.</p> + +<p>—Mas ceando, aventurou Iago, é outra coisa, e affirmo que não te +succederá mal algum. Além d'isso, proseguiu alegremente para animar o +companheiro, estás entre amigos e, se a bebedeira te der para dormir, +mandar-te-hemos deitar n'um fôfo e confortavel leito, ou então rir-nos-hemos se +te der para nos insultar.</p> + +<p>—Um homem embriagado é um ente desprezivel, e por cousa alguma d'este +mundo consentiria em chegar a semelhante e lastimoso estado.</p> + +<p>—Pois bem, disse deliberadamente Iago; ceêmos; de qualquer forma, +affirmo que saberei obrigar-te a brindar comnosco, dado o caso que o nosso +exemplo não te leve por motu proprio a provar o historico nectar.</p> + +<p>Acto continuo serviram-se os primeiros pratos, e durante minutos apenas se +ouviu o ruido produzido pelos dentes ao triturarem os tenros ossos das presas +que devoraram.</p> + +<p>Inesperadamente Iago levantou-se e enchendo os dois copos que ainda estavam +vasios, pegou no d'elle e brindou:</p> + +<p>—Pelo feliz matrimonio do nosso general e para que nunca veja +perturbado com a mais ligeira nuvem o céu de seus amores com a bella +Desdemona.</p> + +<p>E dirigindo-se a Cassio, accrescentou:</p> + +<p>—Atreve-te a recusar este brinde, e asseguro-te<span +class="pagenum"><a name="pag_59">[59]</a></span> que Othello nunca te perdoará +a descortezia, se um dia vier a sabel'a.</p> + +<p>Cassio vacillou um segundo; mas, instado por Montano, que juntou os seus +rogos aos do alferes, pegou no copo e bebeu-o de um trago dizendo:</p> + +<p>—Á saude do general, e pela eterna felicidade do seu matrimonio!</p> + +<p>E em seguida cahiu na cadeira, sombrio e taciturno, como arrependido de ter +quebrado tão facilmente a resolução de permanecer sobrio.</p> + +<p>Continuou a ceia, animada pela pittoresca conversação do alferes e pela +alegria natural e espontanea de Montano, e, passado algum tempo, o primeiro +voltou a erguer-se, encheu novamente os trez copos, e disse levantando o +seu:</p> + +<p>—Brindemos pela gloria e prosperidade de Veneza e pelo triumpho das +suas armas sobre todos os inimigos!</p> + +<p>Montano e elle emborcaram os copos d'um só trago; mas o tenente, sem +despejar o seu, disse em tom resoluto:</p> + +<p>—D'esta vez não beberei, já lhes fiz a vontade, apezar de contrariado, +e por isso espero que não insistam mais.</p> + +<p>—Prevês o que se dirá, replicou Iago, sem dar importancia ás palavras +do amigo, quando se souber, e saber-se-ha comcerteza, porque as paredes teem +ouvidos, que não quizeste brindar pela gloria de Veneza, depois de ter brindado +pela felicidade do homem que te protege? Pois toda a gente affirmará, +continuou, sem parecer notar o<span class="pagenum"><a +name="pag_60">[60]</a></span> olhar colérico que lhe dirigia o companheiro, que +não passas d'um adulador egoista, que pretende afagar os poderosos, para medrar +á sombra d'elles, e que, como florentino afinal, te importa pouco que a +Republica triumphe ou seja derrotada pelos seus inimigos.</p> + +<p>Cassio cravou no miseravel um olhar ameaçador e apertando convulsivamente os +queixos um contra o outro, como para conter as palavras que estavam prestes a +escapar-lhe dos labios, pegou no copo e bebeu nervosamente até á ultima +gôtta.</p> + +<p>Outra vez proseguiu a scena, e foi então Montano quem, excitado já pelas +libações, ainda que bastante senhor de si, encheu os tres copos e disse +apresentando o seu:</p> + +<p>—Pela total ruina do poderio turco, e para que o leão de S. Marcos +destroce, definitivamente, nas suas garras, a orgulhosa meia lua!</p> + +<p>O tenente Cassio, sem que em tal momento tivesse ninguem que o provocasse, +foi o primeiro a tocar no copo do nobre anfitrião.</p> + +<p>Mas, apenas bebeu o vinho que continha, soltou uma blasphemia, e cravando no +alferes os olhos esgazeados, cuspiu-lhe á cara este insulto:</p> + +<p>—Iago, és um miseravel!</p> + +<p>Immediatamente arremessou o copo contra o solo e sahiu, cambaleando.</p> + +<p>—É melhor seguil-o, pois vae em mau estado e pode praticar qualquer +disparate! observou prudentemente Montano.</p> + +<p>—Não te preoccupes com elle, illustre amigo,<span class="pagenum"><a +name="pag_61">[61]</a></span> replicou Iago com indifferença, Já desabafou +commigo e agora irá direitinho deitar-se e curtir a bebedeira.</p> + +<p>«Conheço-o perfeitamente, pois ha muito tempo que o acompanho e sei que isto +lhe succede com frequencia.</p> + +<p>—Como! exclamou Montano admirado. Pois não nos affirmou que nunca +bebe?</p> + +<p>—Ora! respondeu o miseravel. Isso dizem por causa do general todos os +bebedos que resistem pouco e teem, além de medo, mau vinho!</p> + +<p>«Aposto dez escudos de ouro em como terás encontrado em tua vida muitos +homens, que, como Cassio, teem, poderiamos assim chamar-lhe, o pudor da +bebedeira, porque, quando recobram a razão, se envergonham da conducta que +tiveram durante o estado de embriaguez.</p> + +<p>«Isto, porem, rematou Iago, com malevola intenção, não os impede de tornar a +beber, fazendo-se algo rogados para cobrir as apparencias e desculpar o +juramento que costumam fazer a miudo, e de que se arrependessem nas occasiões +opportunas.</p> + +<p>—É certo! disse Montano convencido. Confesso, porém, ter chegado a +acreditar ser Cassio um homem de caracter, incapaz das ridiculas pechas dos +espiritos fracos. Desprezo os homens que não teem o valor da convicção das suas +qualidades e dos seus vicios, e nunca pensei que o tenente de Othello +pertencesse a semelhante classe de individuos.</p> + +<p>—Porque não o conheces, volveu perfidamente<span class="pagenum"><a +name="pag_62">[62]</a></span> Iago. Quanto a mim, estou habituado a estas +scenas, e, como sempre que bebe, me insulta, ouço os ultrages como quem escuta +a chuva. Isto te foi dado observar ha pouco.</p> + +<p>—Sem duvida, disse Montano n'um tom affectuoso. Bem pode dizer esse +bebedo que tem em ti um verdadeiro amigo.</p> + +<p>—Sim, estimo-o, respondeu Iago, e prefiro, por isso, que desabafe +comigo, a que o faça com outro qualquer; pois o insulto poderia acarretar-lhe +desgosto sério, como já por vezes tem estado a ponto de succeder-lhe, quando +não me encontro junto d'elle.</p> + +<p>—Mas, pôe-se de tal modo quando bebe? Perguntou Montano.</p> + +<p>—É verdadeiramente insupportavel; para qualquer outro que não tenha a +minha paciencia, torna-se aggressivo e turbulento, e não ha meio de +reprimir-lhe as insolencias senão castigando-o severamente.</p> + +<p>—N'esse caso, observou Montano em tom de pezar, repito que fizemos mal +em o deixar sair d'aqui... Quem sabe, se...</p> + +<p>Não poude terminar a phrase, porque n'aquelle momento faziam-se ouvir, não +longe d'ambos, os gritos espantosos de um homen que pedia auxilio +desesperadamente, e antes que tivessem tempo de se refazerem da surpreza, +entrou na sala, com flecha, um individuo vestido de marinheiro, que vinha +seguido de perto pelo tenente Cassio. Este proferia a tropel blasphemias e +maldições agitando a espada que empunhava.<span class="pagenum"><a +name="pag_63">[63]</a></span></p> + +<p>—Hei de espetar-te como um frango, meu grande tratante! gritou o +tenente ao entrar em casa, apóz o marinheiro, o qual, como já terão adivinhado +não era outro senão Rodrigo, que havia seguido fielmente as instrucções dadas +por Iago para a execução do plano.</p> + +<p>—Socorro, socorro, que me mata! gritou Rodrigo com voz que reboou por +todo o edificio, despertando os homens de armas.</p> + +<p>—Alto ahi, amigo Cassio! exclamou Montano severamente. O que fazes não +é proprio de cavalleiro!</p> + +<p>—Se ha aqui alguem que não seja cavalleiro, esse és tu, covarde +defensor de malandrins, respondeu gritando Cassio, emquanto ameaçava de tal +modo Montano com a ponta da espada, que o defensor de Chypre teve de dar um +salto para traz e arrancar da que trazia para defender-se, pois corria o risco +de ter o peito atravessado pela lamina do adversario.</p> + +<p>Limitou-se, porém, a aparar os ataques furiosos que lhe dirigia o tenente, +completamente fóra de si, emquanto Rodrigo, Iago e os soldados que haviam +acudido, armavam tal barulho com as exclamações e gritos, que o escandalo não +tardou em propagar-se desde o porto até ás primeiras ruas da ilha cujos +pacificos habitantes perguntavam assustados o que se passava, julgando-se +ameaçados por qualquer invasão de turcos.</p> + +<p>Entretanto seguia Montano defendendo-se dos ataques do tenente. Mas, num +movimento que fez, ao aparar terceira estocada, teve a desgraça de<span +class="pagenum"><a name="pag_64">[64]</a></span> ferir-se, ficando a +descoberto, e recebendo em pleno peito a ponta da espada do adversario, que se +lhe enterrou duas pollegadss na carne.</p> + +<p>Cahiu no solo o nobre patriota, emtanto que os soldados conseguiam desarmar +Cassio, que ficára como attonito ao ver Montano por terra. Entretanto Iago +escapou-se sem ser visto e logrou assim chegar até o sitio onde estava a sineta +de alarme, pela qual puxou furiosamente por bom espaço de tempo.</p> + +<p>Os repetidos e violentos toques acabaram de pôr em alvoroço toda a ilha, +cujos moradores saltavam apressados dos leitos, tomados do maior panico.</p> + +<p>Armou-se uma confusão indescriptivel, e um dos primeiros a abandonar o +repouso e armar-se foi Othello, que, depois de acalmar quanto possivel a +inquietação de Desdemona, sahiu do palacio, seguido de alguns officiaes, para +inquirir as causas de semelhante escandalo nocturno.</p> + +<p>Não tardou em averiguar que a origem do reboliço partira do corpo da guarda +situado no porto; e quando, ao apresentar-se alli, encontrou Montano ferido, +Cassio desarmado e preso de um atordoamento indiscriptivel, que lhe impedia dar +qualquer explicação, e Iago lamentando-se tragicamente do occorrido, ficou +profundamente admirado; não tardou, porém, em succeder ao assombro uma cólera +tal, que fez estremecer de terror quantos conheciam os terriveis arrebatamentos +de tal homem, exceptuando o alferes que, longe de atemorizar-se ao ver o +general dementado pela<span class="pagenum"><a name="pag_65">[65]</a></span> +colera, sentiu o maior jubilo, enforçando-se todavia para não o dar a conhecer, +porque, por muito, que devesse regosijar-se ao ver o exito alcançado pelo seu +infame plano, a manifestação mais ligeira de tal regosijo teria sido uma +imprudencia que lhe podia custar cara.</p> + +<p>Conseguintemente, em vez de se mostrar satisfeito, accentuou mais ainda a +tristeza da attitude e o tom das lamentações, e quando Othello lhe ordenou +severamente que o informasse de todo o occorrido, o miseravel fez um relato +permenorisado, tratando de desculpar apparentemente o amigo, mas, na realidade, +aggravando de tal modo a sua conducta e as consequencias possiveis do escandalo +a que havia dado logar em taes circumstancias, empregando phrases tão +campciosas como intencionadas, lamentando com tão bem simulada sinceridade que +por uma ligeira imprudencia, segundo elle dizia, se tivesse chegado até ao +extremo de tocar o sino de alarme e interrompido o somno do seu general; fez +resaltar, em seguida, com, tão perfida astucia, o desastroso effeito que a +grave ferida do nobre compatriota podia causar nos habitantes da ilha, ainda +que, segundo accrescentou, Cassio nunca fizera tal cousa a não ser sob o +imperio da embriaguez; apresentou n'uma palavra, tão avultados os factos, +fingindo diminuil-os, que, quando acabou a narração, condimentada com protestos +de lealdade para com Othello e de sincero affecto para Cassio, o general +completamente enganado pelas palavras do traidor, e muito mais irritado contra +o tenente do que<span class="pagenum"><a name="pag_66">[66]</a></span> antes de +ter ouvido Iago, estendeu-lhe afectuosamente a mão, e disse:</p> + +<p>—Vejo que te conduzes para comigo com a mesma prudencia e fidelidade +de sempre, emquanto este homem, e indicou Cassio que permanecia a alguma +distancia, aguardando ordens e já completamente sereno, abusa da minha +confiança pelo modo indigno como procedeu esta noute.</p> + +<p>«Pois bem: saberei dar a cada um o que em justiça lhe corresponde. Tu, meu +bom e fiel Iago, não continuarás muito tempo sendo alferes, prometto; e quanto +ao que diz respeito, accrescentou levantando a voz e dirigindo-se a Cassio, a +partir d'este momento ficas exonerado do teu cargo de tenente e privado da +minha amizade, de que tão indigno te mostraste.</p> + +<p>—Mas general, tratou de intervir hipocritamente Iago, emquanto lhe +brilhava nos olhos um fugitivo relampago de infernal alegria, vêde que o +castigo é excessivo para a falta!</p> + +<p>—Se é, ou não só me compéte julgal-o, replicou Othello. Silencio e +acompanha-me ao Palacio.</p> + +<p>E, levando após si o traidor e o jubiloso alferes, Othello abandonou o corpo +da guarda, deixando Cassio, entregue á desesperação que lhe causava o +ignominioso castigo que acabava de soffrer e ver-se privado do affecto e estima +de um homem a quem realmente amava como a irmão.<span class="pagenum"><a +name="pag_67">[67]</a></span></p> + +<h1>V</h1> + +<h2>O lenço</h2> + +<p>Montano, cujo ferimento não era tão grave como todos haviam imaginado, +principalmente como Iago havia feito suppôr a Othello, foi o primeiro em +interceder a favor de Cassio para que se não attentasse contra a liberdade do +tenente deposto; e esta intercessão, unida aos costumes da epocha, +infinitamente mais tolerantes de que os actuaes especialmente com os que diziam +respeito ás questões sangrentas derimidas entre cavalleiros, foi o sufficiente +para que ninguem se preoccupasse com o desditoso official e o deixassem viver +tranquillo. </p> + +<p>Mas, como se comprehenderá, esta tranquilidade só podia referir-se ao que +representava a segurança pessoal de Cassio; o que pouco lhe importava, +preoccupado como estava, até á desesperação, pelo castigo que lhe haviam +imposto: o mais doloroso que poderia ter soffrido, especialmente se<span +class="pagenum"><a name="pag_68">[68]</a></span> levarmos em conta que a esse +castigo ia unida, como dissemos no capitulo presente, a privação da amizade e +da estima do chefe. </p> + +<p>Cassio, pois, não parecia o mesmo desde a amaldiçoada noute em que se +desenrolaram os lamentaveis factos que narrámos; concentrando-se constantemente +no desconsolo e na tristeza mais profunda, permanecia sempre só, fugindo do +convivio e da vista das pessoas e, mais do que de ninguem, do infame Iago; pois +que uma especie de presentimento o fazia advinhar, ainda que muito vagamente, a +parte activa que o miseravel tomára em todos os acontecimentos. </p> + +<p>Não obstante, um dia em que segundo o costume que havia adoptado desde a +noute fatal, se entregava aos seus solitarios passeios á beira mar, viu +approximar-se o alferes de Othello, o qual se lhe dirigia com o sorriso nos +labios. </p> + +<p>Em tal sitio, onde não havia nenhuma casa, era impossivel a Cassio +occultar-se, escapulir-se, ou responder com despreso ao cumprimento que lhe +dirigiu o alferes; tal procedimento constituiria imprudencia perigosa, tanto +mais que carecia de base solida em que apoiar as vehementes suspeitas que +contra elle abrigava. </p> + +<p>Por conseguinte fez das tripas coração, como se diz vulgarmente, e, ainda +que com instintiva e invencivel repugnancia, correspondeu ao amigavel sorriso +de Iago e apertou a mão que este lhe estendia, e que de boa vontade esmagaria +entre os dedos. </p> + +<p>Em breve a repulsão e antipathia começaram<span class="pagenum"><a +name="pag_69">[69]</a></span> a dissipar-se lentamente, para dar logar á +surpresa e ao assombro, quando ouviu fallar o alferes, que se expressava d'este +modo: </p> + +<p>—Acredita, caro Cassio, que lamento o succedido, ainda mais +profundamente que tu; pois não ha duvida de que, em rigor, eu sou o unico +causador de tudo o que deu motivo a tão lamentavel occorrencia, com a minha +insistente imprudencia, obrigando-te a que bebesses. Conhecendo-te como te +conheço e sabendo o inimigo que és do vinho, e que não resistes a um só copo, o +meu dever era evitar a todo o transe a tentação de brindar, em vez de +induzir-te estupidamente a tal. Foi o que fiz, em má hora para todos. +Perdoa-me, pois, como me perdoou Montano, de cujo ferimento sou o verdadeiro +culpado, ainda que indirectamente, e ao qual já dei as explicações que devia +para justificar-te a seus olhos como mereces; perdoa-me, repito, e acredita +que, se á custa do meu sangue pudesse evitar por completo o occorrido e fazer +desapparecer as suas consequencias, fal-o-hia de boa vontade. </p> + +<p>Cassio deixou fallar Iago sem o interromper, e embora as palavras do alferes +causassem n'elle á medida que o traidor as proferia, a extranha impressão que +dissemos anteriormente, limitou-se a responder com visivel frialdade: </p> + +<p>—Bem! Quem se lembra já de semelhante cousa? O que está feito, está +feito, e o melhor que podemos fazer é esquecer. </p> + +<p>—Não, por Deus, querido Cassio! </p> + +<p>«Eu, pelo menos, longe de esquecer, devo recordar<span class="pagenum"><a +name="pag_70">[70]</a></span> constantemente, para que, servindo-me de exemplo +esta rematada asneira, me impeça de para o futuro praticar outra egual. Depois, +proseguiu alegremente, isso de o facto não ter remedio parece mais conforme com +o fatalismo do nosso general, do que com a grandeza de criterio de um sabio +florentino como é o tenente Cassio. </p> + +<p>—Já não sou tenente de Othello, replicou Cassio com tristeza. Estavas +presente quando me depoz e me negou a sua amizade. </p> + +<p>—Se o não és, não tardarás em sel-o de novo, affirmou intencionalmente +Iago. </p> + +<p>—Que queres dizer?—perguntou Cassio, cada vez mais surprehendido +e começando a arrepender-se finalmente de ter suspeitado da amisade do alferes. +</p> + +<p>—Quero dizer—respondeu este dando-se ares de protecção carinhosa +para com o antigo camarada,—que conheces mal os homens e que és demasiado +leviano para te entregar á desesperação. </p> + +<p>—Que conheço mal os homens?—exclamou Cassio corando, pois que +adivinhava a quem a phrase intencional do amigo visava. </p> + +<p>—Sim, conhecel-os mal—insistiu Iago—e desconfiaste de mim. +Vamos, confessa—accrescentou batendo affectuosas palmadas no hombro do +amigo. </p> + +<p>—Juro-te...—replicou Cassio. </p> + +<p>—Não jures—interrompeu-o o alferes—porque mentirias, e +isso é indigno de ti. Mas para vingar-me como devo da maneira como pensaste +a<span class="pagenum"><a name="pag_71">[71]</a></span> meu respeito, vou +castigar-te dizendo que, á força de atormentar o cerebro procurando a maneira +de remediar efficazmente todo o occorrido, estou seguro de ter dado com um meio +que, não só te devolverá o posto, mas que te ganhará tambem de novo a amisade e +a estima de Othello. </p> + +<p>—Como! exclamou Cassio, admirado, estreitando agradecido a mão do +alferes. </p> + +<p>—Muito simplesmente—respondeu este—por meio de Desdemona. +</p> + +<p>—De Desdemona? Não te comprehendo—disse Cassio. </p> + +<p>—Pois a coisa não pode ser mais clara—replicou Iago com +convicção absoluta.—Vejamos: não foste tu, durante muito tempo, o unico +confidente dos amores de Othello e da bella filha de Brabancio? </p> + +<p>—Certamente—respondeu Cassio, mas ignoro como podeste saber +isso, que é segredo para toda a gente. </p> + +<p>—Menos para minha mulher Emilia—rectificou Iago—pois +Desdemona não tem segredos para ella. Mas, adiante; fallemos do que importa. +Assim pois, a esposa do nosso general deve estar, e está, profundamente +agradecida, pois deve-te primeiro que tudo, a felicidade de que disfructa e o +amor de Othello. Além d'isto, consta-me que tem em grande estima o teu +cavalheirismo e o teu talento, e que te aprecia tanto quanto póde apreciar +outro homem uma mulher apaixonada do marido. </p> + +<p>—É certo—concordou ingenua e modestamente Cassio—que +Desdemona me distinguia entre os outros<span class="pagenum"><a +name="pag_72">[72]</a></span> officiaes do seu esposo. Mas d'esta distincção á +sympathia que dizes dispensar-me, ha muita distancia, e creio que a tua grande +estima por mim, te faz exagerar e não pouco. </p> + +<p>—As mulheres não sabem equivocar-se, nem exagerar n'este +sentido—replicou perfidamente Iago—e a minha assegurou-me o que te +acabo de dizer, por tel-o ouvido dos proprios labios de Desdemona. </p> + +<p>«Que dizes agora a isto? </p> + +<p>—Digo—respondeu Cassio, córando, pois sem saber porquê sentia a +vaidade ferida com as palavras do bandido—que mesmo que assim fosse, qual +a vantagem que me advirio? </p> + +<p>—Ainda o perguntas?—inquiriu Iago, simulando a mais perfeita +admiração. Perdoa dizer-te que és o mais innocente dos mortaes, pois só uma +candidez como a tua póde ignorar que, quem como tu, tem pela sua parte a +mulher, conta tambem sem duvida, com o marido. </p> + +<p>—De que forma?—perguntou Cassio, sem comprehender onde queria +chegar Iago, que não fazia mais do que seguir a linha que traçára ao infame +plano para envenenar o coração de Othello e anniquillar-lhe a existencia, +destruindo a felicidade que elle encontrava no amor da esposa. </p> + +<p>—Assombra-me a tua innocencia, ingenuo Cassio! exclamou +Iago.—Perguntas-me de que modo has de arranjar-te para chegares até +Othello tendo por mediadôra Desdemona? </p> + +<p>—Sim, pergunto—confirmou, porque não vejo meio de me approximar +da esposa do general, estando-me<span class="pagenum"><a +name="pag_73">[73]</a></span> prohibida, ainda que tacitamente, a entrada no +palacio. </p> + +<p>—Indubitavelmente, se não tivesses quem te ajudasse—respondeu o +miseravel—não te seria muito facil, não. Mas quem conta, como tu, com +amigos resolvidos a tudo para te ajudar, consegue o que quer, se tem a coragem +precisa para ganhar a partida. </p> + +<p>—Como!—exclamou Cassio reconhecidissimo—Acaso tu?... </p> + +<p>—Eu, precisamente não,—interrompeu-o o alferes; mas sim minha +mulher, que, compadecida de ti e convencida pelas minhas supplicas, cedeu, a +proporcionar-te uma entrevista com Desdemona, que sabe o que se passou e pende +para o teu lado. </p> + +<p>—E accedeu a receber-me?—perguntou anciosamente o tenente. </p> + +<p>—Ás primeiras palavras que Emilia lhe disse intercedendo por +ti—respondeu Iago,—e accrescentou que te receberia com muito gosto +e que, com maior ainda, intercederia por ti junto do esposo, convencida +d'antemão que alcançará o perdão da tua falta, fazendo que sejas reintregrado +no posto de tenente. </p> + +<p>—E quando julgas que lhe poderei fallar?—interrogou Cassio, com +justificada impaciencia. </p> + +<p>—Quando te agradar; agora mesmo, se quizeres—disse Iago. </p> + +<p>—Agora mesmo?—exclamou Cassio surprehendido.—Está então +prevenida da minha provavel entrada no Palacio? </p> + +<p>—Desde esta manha, segundo me informou minha<span class="pagenum"><a +name="pag_74">[74]</a></span> mulher. Apenas chegues, Emila conduzir-te-ha á +sua presença. </p> + +<p>O leal e ingenuo Cassio estreitou carinhosamente entre os braços o ignobil +amigo, e disse-lhe com a voz tremula de commoção: </p> + +<p>—Perdoa-me, caro Iago, pois tinhas razão quando disseste que chegára a +duvidar de ti! Perdoa-me, repito, pois se soubesses que só e desgraçado me +encontrava!... </p> + +<p>—Não fallemos mais em tal!—interrompeu Iago dando-se ares +protectores. Eu teria pensado o mesmo, e talvez não tivesse tido a nobreza de o +confessar, como acabas de fazer. Esqueçamos, pois, essas criancices, +occupemo-nos sómente da tua completa rehabilitação junto de Othello. Estás +decidido a fallar com Desdemona esta noite? </p> + +<p>—Quando quizeres—respondeu Cassio, que se sentia tornar á vida +desde que, com as palavras do falso amigo, lhe havia dado entrada no coração a +esperança. </p> + +<p>—Pois vamos, e não percamos tempo—disse Iago tomando o braço do +camarada e encaminhando-o para o Palacio.—Consta-me que Othello não se +encontra agora no Palacio e, por conseguinte, não póde haver occasião tão +opportuna como esta para encontrar Desdemona só e poderes fallar da tua causa +com o maior enthusiasmo; ainda que, como já te informei, pouco terás a dizer, +porque a esposa do general é em teu favor e defenderá a questão até conseguir +ganhal-a, sem duvida alguma. </p> + +<p>—Tenho um escrupulo—observou Cassio, parando,<span +class="pagenum"><a name="pag_75">[75]</a></span> em seguida, e obrigando Iago a +deter-se. </p> + +<p>—Qual?—perguntou este, franzindo ligeiramente as sobrancelhas, +porque se Cassio não se prestasse a seguil-o, cahiria pela base todo o edificio +do infame projecto que tramára para acabar de perder quantos lhe eram odiosos. +</p> + +<p>—Se Othello—respondeu Cassio,—sabe que visitei o palacio e +fallei com a esposa a occultas, isto longe de predispol-o em meu favor, +irrital-o-ha mais ainda contra mim do que já está. Perderemos então terreno, em +logar de o ganhar. </p> + +<p>—Em primeiro logar—ponderou astutamente Iago,—Desdemona se +encarregará de lhe explicar satisfactoriamente tudo, com o que ficará bastante +justificada a tua conducta; depois, este passo acabará de o convencer de que +estás decidido a tudo para recuperar a sua estima e affecto. </p> + +<p>«Além de que—terminou—o mais provavel, poderemos dizer o quasi +certo, é que não chegue a saber da tua visita ao castello, pois entrarás por +uma porta occulta e minha mulher estará esperando, para levar-te á presença de +Dedemona, sem que possa surprehender-te nenhum corioso indiscreto. Já vês, que +tudo está bem preparado e que não tens nada a recear. </p> + +<p>Para fallarmos a verdade, tal mysterio, tal jogo de palavras e de precauções +para afinal penetrar clandestinamente e como um ladrão na moradia do seu antigo +general, nada menos que para fallar a Desdemona sem consentimento do esposo, +não acabaram de convencer o leal e honrado official de Othello; mas como, +apesar de tudo, não tinha<span class="pagenum"><a name="pag_76">[76]</a></span> +por onde escolher e queria a todo o custo recuperar o cargo perdido e a +affeição do chefe, deixou-se levar docilmente pelo infame amigo até ao palacio +do governador, no qual entrou, como havia dito Iago, por uma porta occulta, +junto da qual o deixou o alferes, affirmando-lhe que o viria buscar mais tarde +para que o puzesse ao corrente do resultado da entrevista, ainda que este não +podia ser senão completamente satisfatorio. </p> + +<p>Conforme disséra Iago, Emilia esperava Cassio por detraz da tal porta, e +apenas o tenente entrou, conduziu-o, atravez de corredores e galerias +estreitas, até aos aposentos de Desdemona, sem que ninguem suspeitasse da sua +mysteriosa visita ao Palacio. </p> + +<p>A pura e formosissima esposa de Othello, que realmente apreciava Cassio, +cujas excellentes qualidades conhecia e estimava, bem como a cega dedicação do +official pelo mouro, recebeu-o affectuosamente, ouviu-o com a attenção e +benevolencia de uma irmã e prometteu alcançar o perdão de Othello, ao qual +fallaria em seu favor n'aquella propria noute, explicando-lhe a verdadeira +causa do succedido, e apresentando o cavalheiroso e leal Cassio tal como este +realmente era, e não como o havia feito apparecer aos olhos de todos e, +principalmente aos do general, um conjuncto de circumstancias desgraçadas. </p> + +<p>Cassio, derramando lagrimas de gratidão, ajoelhou ao despedir-se, para +beijar a mão da sua protectora, vendo, louco de alegria, que voltava a brilhar +para elle o sol da esperança.<span class="pagenum"><a +name="pag_77">[77]</a></span> </p> + +<p>Desgraçadamente, no momento em que pousava os labios na nivea mão de +Desdemona appareceu Othello ao fundo do largo corredor que dava accesso ao +salão em que se encontravam a esposa e o tenente. </p> + +<p>O general, que vinha acompanhado de Iago, estremeceu violentamente ao ver +Cassio de joelhos ante a esposa e beijando-lhe a mão. </p> + +<p>A colera que experimentou só póde comparar-se ao indescriptivel assombro que +lhe tomou os sentidos durante alguns momentos, deixando-o cravado no mesmo +sitio e sem poder pronunciar uma só palavra. Quando tornou a si e seguiu +avançando até onde se encontrava sua esposa, Cassio já tinha desaparecido, pois +que a inesperada presença do general desconcertou-o de tal modo, que, sem +prever as consequencias da sua fuga, nem atender a outra cousa do que ao receio +de se encontrar frente a frente com Othello depois do imprudente passo que +acabava de dar, abandonou o salão precipitadamente, sem dar attenção ás +observações de Desdemona, que o aconselhava a ficar. </p> + +<p>—Desde quando é permittido a esse bebedo e mal educado cavalheiro +entrar em minha casa sem eu saber e atrever-se nada menos do que a beijar de +joelhos a mão de minha esposa? perguntou Othello á jóven, em tom irado. </p> + +<p>—Cassio não é nenhum bebedo e tão pouco mau homem respondeu docemente +Desdemona. Pelo contrario, é o amigo mais fiel e mais leal que tens, e ha muito +tempo que o provou, ajuntou ella olhando para Othello intencionadamente e +alludindo<span class="pagenum"><a name="pag_78">[78]</a></span> aos valiosos +serviços que o official havia prestado a ambos durante o periodo dos seus +amores em Veneza e ás occultas do senador Brabancio, seu pae. </p> + +<p>—Sei perfeitamente o que devo a respeito da lealdade d'esse e de todos +os meus amigos, replicou brutalmente o mouro, sem necessidade de que ninguem mo +recorde. </p> + +<p>«De hoje em diante prohibo-te terminantemente que recebas nos teus aposentos +qualquer homem sem o meu consentimento e, muito menos, individuos que, com a +sua desprezivel e escandalosa conducta, se tornaram culpados do meu justo +despreso. </p> + +<p>—De boa vontade te obedecerei n'isto como em tudo, e não receberei +jamais nenhum homem sem que tu me auctorises a tanto, respondeu com doçura +angelical a bella esposa do ciumento e apaixonado mouro. Mas, por esta vez, te +rogo, meu querido amigo, que perdoes a Cassio e lhe devolvas a estima e o +affecto que d'antes lhe dedicavas e que tanto merece. </p> + +<p>—Não quero, entendes? não quero tornar a ouvir pronunciar em minha +casa, e muito menos aos teus labios, o nome de tal homem. Ouves? Pois bem, +aconselho-te que não o esqueças, pois não gosto de repetir as ordens que dou, +rugiu Othello. </p> + +<p>—Não esquecerei, esposo meu, disse Desdemona, sem perder nem um +instante a inalteravel doçura. Mas asseguro-te que, tu, tão prudente e generoso +sempre, és injusto n'esta occasião com o pobre Cassio.<span class="pagenum"><a +name="pag_79">[79]</a></span> </p> + +<p>—Outra vez? gritou o mouro fóra de si. E sentindo que a cólera que o +dominava o arrastava a uma brutalidade, da qual teria de arrepender-se, +abandonou precipitadamente o quarto, dizendo com voz agitada para o alferes: +Segue-me, Iago! </p> + +<p>O infame não fez repetir a ordem, e sahiu na esteira do general, não sem +fazer um profundo e servil cumprimento a Desdemona. </p> + +<p>Quando se encontrou no corredor só com Othello, começou a murmurar em voz +baixa: </p> + +<p>—Que imprudentes! Quem o tivera advinhado! Chama-se a isto jogar com a +propria vida! </p> + +<p>Othello, que apezar da ira que o dementava, ouvira perfeitamente as +insidiosas palavras do alferes, que com tal proposito as havia dito, embora +apparentando fallar para si, agarrou violentamente Iago pelo pescoço, de tal +modo que esteve a ponto de o estrangular e perguntou-lhe: </p> + +<p>—Que dizes, mizeravel? quem são os imprudentes e os que jogam com a +vida? </p> + +<p>«Atrever-te-hias a suspeitar, infame, de minha esposa, da minha Desdemona?! +</p> + +<p>«Falla, cão, ou morrerás ás minhas mãos, aqui mesmo! </p> + +<p>Iago não respondeu, pela simples rasão de que não podia fallar, apertado +como estava entre os ferreos dedos do furioso africano. </p> + +<p>Mas, levando a mão ao bolso, tirou d'elle um lenço de seda, bordado nos +quatro cantos, e estendeu-o a Othello, emquanto fitava eloquentemente o marido +de Desdemona. </p> + +<p>Este retrocedeu alguns passos, como horrorisado,<span class="pagenum"><a +name="pag_80">[80]</a></span> e fixando no lenço um olhar de louco, murmurou +com phrases entrecortadas, a voz cheia de angustia: </p> + +<p>—Como! O meu lenço! </p> + +<p>«O lenço que era uma reliquia de minha mãe e de que fiz presente a Desdemona +como a joia mais preciosa que possuia! A melhor prenda dos nossos amores em +mãos extranhas!... </p> + +<p>«D'onde o roubaste, traidor?—gritou a Iago, prompto a lançar-se de +novo a elle. </p> + +<p>—Cassio! Cassio é que o tinha e tirei-lh'o! apressou-se a responder o +alferes, receando realmente pela sua vida, ao vêr a espantosa attitude de +Othello. </p> + +<p>—Tinha-o Cassio?—rugiu o mouro. </p> + +<p>«Ira de Deus! Mas isso é impossivel! Impossivel! </p> + +<p>«Mentes, traidor, infame! Diz-me que mentes ou te arranco as entranhas! </p> + +<p>—Não o posso dizer, general, porque sou demasiado fiel para vos +enganar. </p> + +<p>«Esse lenço, que nunca vos mostraria, a não ser n'um caso especial como o de +hoje, para salvar a minha vida, tirei-o a Cassio, repito, e a elle o havia +entregado Desdemona alguns dias depois do vosso casamento. Eu proprio, que +estava occulto, a alguma distancia, pois suspeitava d'ambos, lh'o vi dar! </p> + +<p>«Juro-vos que daria a vida para não despedaçar o vosso coração como o faço +n'este momento; mas ordenais-me que falle e não tenho outro remedio senão +obedecer.<span class="pagenum"><a name="pag_81">[81]</a></span> </p> + +<p>Othello, cuja bronzeada pelle se havia posto repentinamente côr de cinza, +quiz pronunciar algumas palavras, mas não poude; arrancou a gola do gibão que o +apertava, soltou uma especie de suspiro rouco, como o estertor da agonia, e o +seu athletico corpo de gigante cahiu sobre o tapete, debil, apesar das +herculeas forças, para resistir ao furioso furacão das selvagens paixões que a +intriga do infame Iago lhe desencadeára na alma. </p> + +<p>O miseravel, ao ver cahir o desditoso esposo de Desdemona, esboçou um +sorriso horrivel e murmurou entre dentes: </p> + +<p>Isto vae ás mil maravilhas, e já falta pouco para o fim. </p> + +<p>«Que bruto, hein? Se não venho preparado com o lenço, matava-me com certeza! +Verdade seja que isto adeantou os successos, que nada perdi com passo! </p> + +<p>«Agora vamos chamar soccorro, pois não quero que morra antes de que tenha +despachado os outros e eu arredondado a minha fortuna, para o que tenho á mão +esse imbecil de Rodrigo e o cargo de tenente que deixou vago esse outro imbecil +de Cassio. </p> + +<p>E, ditas estas palavras com sangue frio e cynismo espantosos, junto do +inanimado corpo de Othello, o traidor revestiu uma apparencia de dôr e de +lastima que teria invejado o mais habil farçante do tempo, e foi correndo em +busca de soccorros para a sua infeliz e crédula victima.<span +class="pagenum"><a name="pag_82">[82]</a></span> </p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_83">[83]</a></span> </p> + +<h1>CAPITULO VI</h1> + +<h2>Os embaixadores</h2> + +<p>A terrivel crise soffrida por Othello, em consequencia das infames calumnias +urdidas por Iago e que apresentavam a pura e innocente Desdemona como vil +adultera, determinou no arrebatado mouro uma congestão cerebral, que durante +alguns dias o teve prostrado no leito, entre a vida e a morte. </p> + +<p>Restabelecido, por fim, graças á rigorosa organisação e, mais do que tudo, +aos assiduos e ternos cuidados que lhe prodigalisou Desdemona, que o não +abandonou um só instante, nem mesmo para entregar-se ao imprescindivel +descanso, poude deixar o leito e, n'esse mesmo dia em que se levantou, mandou +chamar aos seus aposentos Emilia, mulher de Iago, e por meio de supplicas e de +ameaças tratou de arrancar a confissão da culpabilidade de Desdemona julgando +acertadamente que, se esta tinha, em verdade, algum segredo<span +class="pagenum"><a name="pag_84">[84]</a></span> punivel, o conheceria, sem +duvida, a esposa do alféres, que mais do que uma simples creada da filha de +Brabancio, havia sido sempre a sua mais intima companheira e fiel amiga, +dispondo, como tal, da absoluta confiança da joven. </p> + +<p>Mas, por mais que fizesse para obrigar a Emilia a fallar contra a supposta +adultera, como a confidente d'esta nada tinha que dizer contra ella, nada +disse, e, pelo contrario, mostrou-se profundamente surprehendida a começo, +chegando até a indignar-se, quando se convenceu de que Othello duvidava, mais +ainda, estava convencido da traição de Desdemona. </p> + +<p>Em vão se esforçou o mouro por fazer com que a nobre mulher proferisse uma +só palavra, que désse vulto e alimento e fortificasse os crueis ciumes que lhe +mordiam as entranhas; em vão lhe fallou de Cassio e das suppostas intimidades +d'este com a esposa. Emilia negou redondamente, pela salvação da sua alma, que +existissem taes intimidades, chegando no grande affecto que devotava a +Desdemona a increpar Othello por offender a sua ama e amiga com tão miseraveis +suspeitas. </p> + +<p>Isto fez chegar ao cumulo a irritação e cólera do apaixonado e ciumento +africano, o qual, julgando que a serva encobria Desdemona e que, por tanto, +fazia causa commum contra elle para atraiçoar o seu amor e lançar inextinguivel +mancha no seu nome, acabou por insultar furiosamente Emilia, expulsando-a do +aposento com terriveis ameaças e promettendo-lhe que não tardariam em se<span +class="pagenum"><a name="pag_85">[85]</a></span> arrepender do que elle chamava +infame conducta de alcoviteira e encobridora. </p> + +<p>A fiel e leal criada foi-se chorando com verdadeiro desgosto, e, sem perder +um minuto, dirigiu-se ao encontro da ama, á qual referiu o que acabava de +succeder-lhe e o que lhe dissera Othello. </p> + +<p>Estavam assim conversando, ouvindo Desdemona a Emilia com o doloroso espanto +que pode calcular-se facilmente, quando, de repente, as duas mulheres ficaram +estupefactas, ao vêr entrar o mouro no aposento. </p> + +<p>—Como supponho, disse com rapidez Othello, dirigindo-se a Desdemona, +que já haveis fallado mais do que é necessario, e sobre tudo, mais ainda do que +para minha honra e para minha tranquilidade convem, creio que essa mulher +poderá retirar-se, pois tenho necessidade de fallar a sós comtigo. </p> + +<p>—Retira-te Emilia, disse a joven com doçura para a sua creada de +quarto. Se precisar de ti chamarei. </p> + +<p>A dama de companhia sahiu immediatamente dirigindo um cumprimento carinhoso +a Desdemona e quasi sem olhar para Othello, ao qual semelhante attitude irritou +mais do que estava. </p> + +<p>—Já vejo, começou dizendo com mal reprimida colera, que não te +preoccupas a ensinar aos criados o respeito que devem a teu esposo. </p> + +<p>—Perdoa a Emilia, respondeu carinhosamente Desdemona; respeita-te e +estima-te, como te respeitam e estimam aqui todos, começando por mim e acabando +no ultimo dos teus servidores. Mas<span class="pagenum"><a +name="pag_86">[86]</a></span> hoje está nervosa e muito contrariada, como eu +propria estou, devido á entrevista que teve comtigo e que me contou, +pormenorisadamente. </p> + +<p>—Felicito-te por teres servos tão leaes, respondeu sarcasticamente +Othello. Já não posso dizer outro tanto. </p> + +<p>—Queixas-te injustamente, observou a joven, porque, repito: ninguem +aqui faz distincção alguma, senão em teu favor, pois seria eu a primeira a não +a consentir. </p> + +<p>—Mil graças! respondeu Othello com o mesmo sarcasmo com que +anteriormente se havia expressado. Já vejo que não tenho razão de me queixar, e +que sou o mais injusto dos homens e o mais contradictorio dos maridos. </p> + +<p>—Não quiz dar-te a entender semelhante cousa; mas se assim o fiz mesmo +contra minha vontade, perdoa-me, disse humildemente Desdemona. </p> + +<p>—Estás perdoada, respondeu o mouro seccamente; e logo accrescentou +mudando o tom da voz que tentou tornar o mais indifferente possivel: Ha poucos +dias, ao cahir sem sentidos no pavimento, molestei um pouco a mão direita; a +começo não me doia nada e por isso nada tambem disse até hoje; agora doe-me +bastante e agradecer-te-hia que atasses em redor d'ella qualquer coisa, um +lenço... aquelle de seda de que te fiz presente em Veneza, dizendo-te que o +guardasses como reliquia, porque era de minha mãe. </p> + +<p>Desdemona poz-se pallida como morta ao ouvir o esposo expressar-se de tal +maneira. O lenço em questão havia-se extraviado dias antes, e receando<span +class="pagenum"><a name="pag_87">[87]</a></span> os arrebatamentos do caracter +de Othello, occultára-lhe tamanha perda, pois não ignorava que o marido sentia +por essa recordação de sua mãe, unica que possuia, verdadeira veneração. +Calcule-se pois o terror que experimentaria em tal momento, sabedora por +Emilia, e pelo que pessoalmente observava no esposo, da má predisposição que +elle tinha contra ella, devida a furiosos e injustificados ciumes. Dizer-lhe +n'aquelle instante que perdera o lenço, era dispor-se a desencadear contra ella +todas as terriveis tempestades d'aquelle temperamento arrebatado até á +ferocidade; por outro lado mentir, inventar qualquer fábula que justificasse a +falta do lenço, seria tão inutil como indigno da nobreza e da lealdade do seu +caracter. Por conseguinte só poude responder, com voz balbuciante, e sentindo +que um suor gelado lhe banhava todo o corpo: </p> + +<p>—O lenço de seda!... O lenço de tua mãe!... Olha... tenho-o tão bem +guardado, que perderia demasiado tempo em dar com elle!... Outro qualquer te +servira de egual modo!... Não te parece?... </p> + +<p>E a infeliz tremia, olhando o esposo com olhos aterrorizados, e sentindo que +ia desmaiar se a espantosa situação se prolongasse demasiado tempo. </p> + +<p>—Quero o lenço de seda! Quero-o agora mesmo! respondeu Othello com +implacavel aspereza. </p> + +<p>—Mas, atreveu-se todavia a accrescentar a infeliz Desdemona, não te +disse?... </p> + +<p>—O lenço! rugia o terrivel mouro arrebatado<span class="pagenum"><a +name="pag_88">[88]</a></span> já pela selvagem explosão dos ciumes. A +desventurada tremeu até ao intimo d'alma; começou o pranto a banhar-lhe as +nacaradas faces e, tapando o bellissimo rosto com as mãos, cahiu de joelhos aos +pés do cruel marido, balbuciando entre convulsivos soluços: </p> + +<p>—Perdão! Perdão! meu querido Othello!... Perdi-o!... não sei que foi +feito d'elle!... </p> + +<p>—Oh! infame!... confessas, finalmente! accrescentou rugindo +furiosamente o terrivel ciumento, acaba de vez a tua confissão, miseravel +adultera, vil prostituta!... Dize que o não perdeste; que, pelo contrario o +déste ao teu amante, ao traidor que enganava a minha amizade, roubando-me a +honra; ao cobarde por quem tinhas, ainda ha poucos dias, a desvergonha e o +cynismo de interceder, chegando o teu impudor a defender-lhe as crapulosas e +indignas bebedeiras!... </p> + +<p>«Confessa, infame, confessa ou te afogo entre as minhas mãos de ferro, +feitas para estrangular féras como tu, que tens coração de tigre! ouves, +miseravel?! Confessa ou te mato!... </p> + +<p>E o formidavel africano, convertido já n'um d'esses irracionaes a que vinha +de referir-se, apertou entre as herculeas mãos o gracil e delicado corpo da +esposa, a qual, apovorada, abateu a delicada e branquissima garganta sobre o +peito, cerrou os meigos e bellos olhos e, soltando debil suspiro, ficou inerte +nos braços do temivel esposo. </p> + +<p>Ao ligeiro grito desprendido dos labios da joven ao perder o conhecimento, +succedeu acto continuo a repentina entrada de Emilia no aposento.<span +class="pagenum"><a name="pag_89">[89]</a></span> Conhecedora do vehemente +caracter de Othello, previra, ainda que apenas em parte, as consequencias da +conversação do mouro com a innocente esposa, e não se affastára muito do +quarto. </p> + +<p>Sem embargo, a mulher do traidor alferes nunca previra até onde chegaria a +selvagem paixão do africano, e ao ver nas terriveis mãos de Othello o corpo +inanimado da querida ama, julgou que elle a tinha matado e, começou a gritar +desesperadamente, rompendo em violentos soluços e increpando o ciumento marido +com os mais horriveis improperios: </p> + +<p>Othello, cujos olhos se injectaram de sangue, e cujo bronzeado rosto +instantaneamente se pôz quasi branco, sentiu desejos irresistiveis de +arrojar-se sobre Emilia e estrangulal-a; mas, dominando os impulsos ferinos com +supremo esforço da vontade, conseguiu vencer-se e, abandonando o desmaiado e +precioso corpo que ainda conservava entre as mãos, lançou á criada um olhar de +ameaça feroz e sahiu precipitadamente do aposento, como se temesse não ser +senhor de si, caso n'elle permanecesse mais algum tempo. </p> + +<p>Emilia ficou, pois, só com Desdemona, a qual levantou do chão com o delicado +esmero de mãe, e, depois de a deitar no leito, prodigalisou-lhe todos os +cuidados que considerou necessarios para a fazer recuperar os sentidos. </p> + +<p>Quando a infeliz voltou a si do deliquio, rompeu em amargo e copioso pranto, +o que lhe desafogou um tanto o angustiado coração. Depois, em vez de se mostrar +indignada contra o implacavel<span class="pagenum"><a +name="pag_90">[90]</a></span> esposo, começou a desculpal-o aos olhos de +Emilia, que continuava dirigindo-lhe os insultos mais violentos. </p> + +<p>—Meu pobre Othello—terminou dizendo a pura e nobre Desdemona. +</p> + +<p>«Soffre mais ainda do que eu, porque me ama apaixonadamente, e julga-me +culpada, devido a um erro fatal, que é preciso aclarar a todo o custo. </p> + +<p>Ditas estas palavras, que lhe punham em relevo toda a angelical formosura da +alma, fechou os olhos e, o seu delicado organismo, rendido por fim, por tantas +e tão violentas emoções, cahiu n'um profundo somno, que era o melhor lenitivo +que podia achar n'esse instante a desventurada para acalmar a dôr que lhe +atormentava a alma... </p> + +<p>Entretanto Othello dirigia-se para os seus aposentos particulares, com o +proposito de encerrar-se n'elle e poder desafogar melhor, no isolamento a raiva +e os ciumes que lhe mordiam cruelmente o coração. </p> + +<p>Mas, apenas penetrou no salão que lhe servia de gabinete, encontrou-se, +cheio de admiração, na presença completamente inesperada em tão dolorosos +momentos de quatro cavalleiros venezianos, que acabavam de chegar á ilha de +Chypre e o estavam esperando. </p> + +<p>De novo conseguiu o mouro dominar as violentas agitações e as crueis +torturas da alma, e, depois de trocados os primeiros cumprimentos, perguntou ao +mais velho dos quarto, e que parecia ser o chefe, o motivo de tão inesperada +como grata visita.<span class="pagenum"><a name="pag_91">[91]</a></span> </p> + +<p>Este, que era o senador Graciano, irmão de Brabancio e tio por conseguinte +de Desdemona, começou por abraçar affectuosamente Othello e depois, em voz +grave e repousada, expressou-se d'esta forma: </p> + +<p>—O Doge, em nome do illustre e sabio Conselho dos Dez, nos manda aqui, +valente general, como encarregados de exprimir o agradecimento de sua +agradecida Magestade e de toda a Republica pelos valiosos serviços que, n'este +momento, como sempre, prestaste a Veneza, no exercicio do teu governo de +Chypre. </p> + +<p>«Em seguida proseguiu mais gravemente ainda Graciano, ordena-nos que te +façamos saber que o Conselho e sua Senhoria necessitam de ti com grande +urgencia, para encarregar-te de nova expedição de vital interesse para o +Estado. </p> + +<p>«Não devemos demorar muito tempo a nossa partida, e por isso, apenas +tenhamos descançado das fadigas da viagem, que foi penosa e accidentada em +extremo, sahiremos da ilha para Veneza, onde terás a gentileza de +acompanhar-nos. Isto tardará tres ou quatro dias, o maximo, tempo sufficiente +para que possas tomar as disposições que consideres opportunas para o melhor +governo de Chypre, do qual, por ordem expressa do Conselho, encarregarás o +tenente Cassio, que de ti tem sempre merecido os melhores elogios quando se te +offerece occasião de fazer-lh'os. Eis quanto tinhamos a dizer-te em nome do +Doge e do illustre Conselho dos Dez, valente Othello. Está pois cumprido o +objecto da nossa embaixada, e<span class="pagenum"><a +name="pag_92">[92]</a></span> agora, rogamos-te encarecidamente ordenes o que +necessario for para que possamos desfructar a tua generosa hospitalidade e +entregarmo-nos ao repouso de que tanto carecemos. </p> + +<p>Um raio que tivesse cahido aos pés de Othello não lhe produziria maior +espanto do que o que lhe causou o breve discurso proferido pelo emissario da +Magestade. A principio ficou como que aturdido; mas não tardou em readquirir o +sangue frio, e respondendo como poude ao senador Graciano, prometteu obedecer, +como sempre, ás ordens do Doge e do illustre Conselho. </p> + +<p>Seguidamente deu as instrucções necessarias para que installassem os +embaixadores nos seus respectivos aposentos. </p> + +<p>Depois, quando conseguiu ficar só, sorriso extranho, cheio de ironia e de +odio, entreabriu-lhe os grossos labios; mandou chamar immediatamente Yago, e +apenas este chegou, disse-lhe sem mais preambulos: </p> + +<p>—Ouve-me com todas as tuas faculdades, e sem te admirares de cousa +alguma, nem perder o tempo em exclamações inuteis. Fixa bem na memoria o que te +vou dizer e obedece á risca. </p> + +<p>—Já sabeis, illustre general—respondeu servilmente +Yago—que sou para vós um cão fiel, e que daria de boa vontade a vida se +fosse necessario, para servir-vos. </p> + +<p>—Sei, e como chegou agora o momento de pôr á prova a tua amisade por +mim, por isso te chamei. </p> + +<p>O alferes tremeu, pois ignorava onde queria<span class="pagenum"><a +name="pag_93">[93]</a></span> chegar o terrivel Othello; mas fazendo das +fraquezas forças respondeu com voz firme: </p> + +<p>—Mandai e obedecerei. </p> + +<p>—Acabo de receber uma embaixada de Veneza, que me ordena, em nome da +Senhoria, que saia de Chipre, sem demora, para a cidade de S. Marcos. </p> + +<p>—Como!—exclamou Yago profundamente surprehendido, apesar da +ordem que havia recebido de Othello, de que o não interrompesse. </p> + +<p>—Ainda não é tudo—respondeu o mouro com sarcastica amargura, sem +fazer caso da exclamação do alferes—O Doge ordena-me tambem que deixe o +tenente Cassio encarregado do governo de Chypre. </p> + +<p>O infame Yago pôz-se livido de inveja, e tão violenta foi a impressão que +n'elle causaram as palavras de Othello que se atreveu a perguntar-lhe: </p> + +<p>—E que tenciona fazer, general? Obedecer á Senhoria? </p> + +<p>—Não poderei obedecer, ainda que quizesse—respondeu Othello +sorrindo ferozmente,—porque os embaixadores partirão dentro em tres ou +quatro dias, e esta mesma noite morrerá Cassio de uma punhalada que tu mesmo te +encarregarás de dar-lhe. </p> + +<p>Brilharam de infernal alegria os olhos do alferes, que se limitou a +responder: </p> + +<p>—Sou vosso em corpo e alma. Cassio morrerá esta noite.... </p> + +<p>Mas accrescentou vacillando, porem resolvido<span class="pagenum"><a +name="pag_94">[94]</a></span> a todo o custo a saber o que ganharia de +semelhante missão: </p> + +<p>—Que pensaes fazer, no que vos diz respeito? </p> + +<p>—A seu tempo o saberás—respondeu seccamente o +mouro.—Agora, vae-te, pois já disse o que tinha a dizer e esta mesma +noite, seja a que horas fôr, te espero para que me dês conta da morte do infame +ladrão da minha felicidade e da minha honra. </p> + +<p>Pronunciadas estas ultimas palavras, Othello despediu Yago com um gesto, e +acto continuo abandonou o quarto. </p> + +<p>Apenas se viu só, Yago sorriu com expressão de odio e de ambição satisfeita, +e murmurou entre dentes: </p> + +<p>—Amanhã, a estas horas, serei tenente e talvez governador da ilha, +pois saberei obrigar Othello a que me pague bem a morte de Cassio; quanto a +este não serei eu que o hei de matar, mas sim esse imbecil de Rodrigo, ao qual +offerecerei a posse immediata de Desdemona se a livrar do official que sempre a +está importunando com as suas instantes e vergonhosas declarações; +assegurar-lhe-hei que isto me disse ella propria, e que se ainda se não +entregou, foi porque teme que Cassio venha a sabel-o e, para vingar-se, conte +tudo ao marido. Que o diabo me leve se o estupido Rodrigo não acredita na +fabula e não mata o rival! Para tanto facilitar-lhe-hei occasião oportuna, +marcando a Cassio uma entrevista na praia ás 11 horas da noite de hoje. Rodrigo +matal-o-ha com uma punhalada á traição e eu, que ficarei presenciando<span +class="pagenum"><a name="pag_95">[95]</a></span> a scena, denuncial-o-hei á +justiça...—Não, interrompeu o miseravel.—Isto é perigoso, porque o +imbecil poderia fallar, e não me convém, pois toda a gente saberia então que o +illudi para apoderar-me de todas as suas joias e dinheiro. O melhor, é depois +de matar Cassio, matal-o a elle tambem, o que me será facil, porque é muito +menos perigoso do que o outro. Assim está bem—terminou dizendo com +expressão satisfeita.—Está resolvido: de tal guisa livro-me d'esse parvo +que já começa a incommodar-me, e já não tenho nada a temer de Cassio, podendo +em troca cobrar o preço da sua morte, sem o menor risco para a minha pessoa... +</p> + +<p>E Yago dispoz-se a ir procurar Rodrigo sem perda de tempo, para começar a +pôr em execução o seu infame plano; mas, antes de abandonar o palacio do +governador, enviou a Cassio um soldado encarregado de lhe dizer que o esperasse +ás onze horas da noite na praia, pois tinha que communicar-lhe uma noticia de +grande interesse para elle. </p> + +<p>—Aposto a cabeça em como não faltará—disse o +miseravel—regosijando-se antecipadamente com o resultado que ia obter da +nova e dupla infamia acabada de planear.<span class="pagenum"><a +name="pag_96">[96]</a></span> </p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_97">[97]</a></span> </p> + +<h1>CAPITULO VII</h1> + +<h2>Crime e Castigo</h2> + +<p>Avança a noite e os relogios de Chypre dão pausada e gravemente as dez +badaladas.</p> + +<p>Na alcova de Desdemona, a joven e bella esposa do governador da ilha +dispunha-se a deitar-se ajudada carinhosamente pela mulher de Yago, tão fiel e +leal servidora, como falso e traidor era para o general africano o infame +marido.</p> + +<p>—Emilia, disse com voz de infinita doçura a filha de Brabancio; +enfeita-me muito e põe-me bonita para dormir. Tenho um presentimento estranho, +tão extranho como doloroso, que não me abandona desde esta tarde, e que me +annuncia que este vae ser o meu ultimo somno.</p> + +<p>—Que loucura! exclamou a criada, tratando de se mostrar alegre aos +olhos da ama. Desprezai, senhora, esses tristes e lugubres presentimentos e +pensai sómente, pelo contrario, em que vos esperam dias cheios de aventura, +pois sois<span class="pagenum"><a name="pag_98">[98]</a></span> ainda muito +nova e a vida começa agora para vós.</p> + +<p>—Sim, respondeu melancolicamente Desdemona, mas has de concordar que +começa de maneira bem dolorosa! Que será de mim sem o amor de meu esposo?</p> + +<p>—Vosso esposo, disse Emilia com gesto de convicção;—não tardará +em arrancar pelas proprias mãos a negra venda que hoje lhe tapa os olhos, e que +o impede de ver todo o thesouro de virtudes e de felicidades que em vós possue! +Então voltará ainda mais enamorado do que nunca, e depois vereis, minha querida +ama, como esses maus pensamentos que hoje vos atormentam, não tardarão a +converter-se em sonhos côr de rosa.</p> + +<p>—Queira Deus que não te enganes! respondeu Desdemona, soltando um +profundo suspiro, que pareceu aliviar-lhe um tanto o coração opprimido pela +angustia.</p> + +<p>—Não me engano, tenho a certeza,—insistiu Emilia +alegremente.—Vereis como esta mesma noite o vosso esposo virá ver-vos e +implorar o vosso perdão, e ao contemplar-vos tão formosa como os anjos de céu, +cahirá de joelhos ante vós arrependido da sua conducta. Como estaes linda, +minha senhora!—continuou olhando para a joven com sincera admiração, +depois de dar-lhe uns ultimos toques no toucado.—Agora, dormi e sonhai +com dias melhores, porque os bons sonhos trazem comsigo a ventura, segundo +affirmam.</p> + +<p>Dizendo estas palavras, Emilia ajudou a joven a deitar-se; apanhou em +seguida as roupas que<span class="pagenum"><a name="pag_99">[99]</a></span> +estavam cahidas, pelo aposento, e olhando cuidadosamente em torno de si, para +convencer-se que tudo ficava em ordem, deu as boas noites e abandonou em +silencio o quarto, que apenas ficou illuminado pela vaga e febril luz de uma +lampada de azeite.</p> + +<p>Haviam transcorrido dez minutos, e já os preciosos olhos da joven começavam +a cerrar-se, vencidos pelo somno, quando a mesma porta por onde sahira Emilia +se entreabriu suave e lentamente, e na hombreira appareceu a alta e soberba +figura de Othello.</p> + +<p>O mouro avançou com lentidão até ao leito onde repousava a esposa que, ao +advinhar, melhor do que via, a sua presença, deu um debil grito de alegria e +estendeu os nús e marmoreos braços ao marido, exclamando amorosamente:</p> + +<p>—Tu aqui! meu querido Othello! Vens dar-me o teu perdão pela +desgraçada perda do lenço?</p> + +<p>—Rezaste esta noite, Desdemona? perguntou o general com gravidade +meiga e triste, que tinha algo de tragica.</p> + +<p>—Sim, esposo meu, respondeu a innocente Desdemona; esta noite, como +todas, fiz as minhas orações do costume. Mas, porque me fazes tal +pergunta?—interrogou a infeliz começando a sentir-se presa de vago +terror, ao ver a sombria e implacavel expressão retratada no semblante do +marido.</p> + +<p>—Porque vaes morrer depois de findarem os cinco minutos que te concedo +para encommendares a Deus a tua alma!—respondeu Othello inexoravel.<span +class="pagenum"><a name="pag_100">[100]</a></span></p> + +<p>—Deus! Que dizes? exclamou a joven, sentando-se no leito, como +surprehendida pelo espanto e julgando ter ouvido mal.</p> + +<p>—Digo que vaes morrer e que aproveites o tempo que te dou para +encommendar a tua alma a Deus, repetiu o mouro com frialdade que fazia tanto +damno como o de uma folha de aço. E accrescentou logo: Se o proprio Deus +houvesse baixado á terra para me annunciar que morrerias ás minhas mãos, teria +duvidado de Deus; já vês se tinha ou não fé no teu carinho! Mas tu atraiçoaste +essa fé, e por isso mereces a morte. Sim—continuou implacavelmente o +terrivel mouro, exaltando-se á medida que fallava, e sem fazer caso do tremor e +da mortal lividez que se viam na desventurada e innocente Desdemona;—sim, +mereces e vaes justamente morrer. Mas, por que ainda te amo, apezar de tudo, e +vim sem armas, porque não quero derramar o teu sangue, que sempre será precioso +para mim, morrerás estrangulada ás minhas mãos, entre estas mãos que com tão +ardente amôr te acariciaram nos dias felizes para mim. Vês como te amo, +Desdemona? Sim, amo-te, e ainda te perdoaria, se tanto fosse possivel! Mas não +é! Não, não é, porque atraiçoaste o meu amôr com um amigo desleal e infame, e +porque, não contente com tal crime, para o qual não existe misericordia +possivel, urdiste, de cumplicidade certamente com o miseravel, uma indigna +traição no intuito de que me chamassem a Veneza e vos deixasse aqui a ambos em +completa liberdade para gosarem a infamia praticada.<span class="pagenum"><a +name="pag_101">[101]</a></span></p> + +<p>«Ah! ah! ah! gargalhou o formidavel africano, rindo como um louco.</p> + +<p>«Já vês que, apezar da nobre ingenuidade do meu caracter, que me entregou de +corpo e alma nas tuas mãos, não é tão facil enganar-me, e que immediatamente +advinhei tudo. Sim, proseguiu, recobrando a terrivel expressão de implacavel +dureza, advinhei, mas o vosso plano não dará o exito appetecido. +Ouves?—perguntou, interrompendo-se para escutar as badaladas dos relogios +que marcavam a hora. São onze horas e n'este momento cae o teu amante sob o +punhal de um fiel servidor meu! E como passaram os cinco minutos que te concedi +para que encommendasses tua alma, chegou tambem para ti a hora da morte!</p> + +<p>A infeliz Desdemona quiz fallar, pedir, supplicar misericordia ao terrivel +esposo, fazer protestos da sua innocencia, salvar a vida, emfim, porque a morte +horrorizava-a e a tal ponto que a fazia tremer e bater os dentes como se +tivesse febre; mas tudo foi inutil, porque só teve tempo de lançar um grito +desesperado, estridente, horrivel e que havia de se ouvir em todos os aposentos +do immenso palacio, alterando com a infinita angustia das suas dolorosas +vibrações o profundo silencio da noite.</p> + +<p>Os férreos dedos do mouro apertavam ferozmente a delicada e branquissima +garganta da innocente vitima, quebrou-se a columna vertebral com um estalido +horrivel e o precioso corpo, abandonado instantaneamente a si proprio, sob +o<span class="pagenum"><a name="pag_102">[102]</a></span> impulso do invencivel +horror que ao ouvir o espantoso estalido acommetteu immediatamente o verdugo, +cahiu pesadamente sobre o leito flexivel e desarticulado, como pesada massa.</p> + +<p>Aterrado da propria obra, com os cabellos erriçados e os olhos horrivelmente +dilatados pelo espanto, Othello retrocedeu ante o cadaver da infeliz esposa, +tratando, talvez, de fugir para apagar da vista o tremendo espectaculo. Mas, +n'esse instante abriu-se com violencia a porta do aposento e appareceu Emilia +que, desolada e quasi nua, correu para o leito de Desdemona, gritando;</p> + +<p>—Senhora! Que vos aconteceu? Respondei, por Deus, respondei!</p> + +<p>—Para traz, miseravel encobridora! rugiu Othello, recobrando toda a +sua selvagem crueldade, á vista da mulher que julgava cumplice no supposto +adulterio da victima. E continuou, agarrando por um braço Emilia: Sim, morreu, +e morreu ás pressões de minhas mãos vingadoras, como tu agora vaes morrer, +infame, para que não fique no mundo nenhuma testemunha, da minha deshonra!</p> + +<p>E o vingativo africano dispunha-se a sacrificar tambem ao terrivel odio +aquella nova victima que o destino lhe deparava. Mas, por fortuna para a fiel +criada de Desdemona, n'aquelle momento e attrahidos, primeiro por o grito que +lançou ao morrer a innocente esposa de Othello, e depois pelos que havia +soltado a mulher de Iago, penetraram no quarto Graciano e os tres companheiros +da embaixada, o traidor alferes, causa de toda essa espantosa tragedia, e, por +ultimo, entraram<span class="pagenum"><a name="pag_103">[103]</a></span> varios +soldados amparando nos braços Cassio, ferido e que havia exigido que o levassem +a todo o transe á presença de Othello sem perda de um minuto, pois em breve +morreria e queria fallar com o general antes de exhalar o ultimo suspiro.</p> + +<p>Ao vêr entrar tanta gente no aposento, e especialmente ao encontrar-se em +presença do veneravel Graciano, tio de Desdemona, Othello retrocedeu +instintivamente alguns passos e deixou em liberdade Emilia.</p> + +<p>Esta correu, como louca, para os recem-chegados, e gritou, rompendo em +soluços:</p> + +<p>—Matou a minha ama, senhores, o infame matou-a!</p> + +<p>—Sim, confessou sombria e altivamente Othello, dirigindo um olhar de +desafio a todos os presentes, matei-a, porque sou o unico juiz da minha honra e +eu proprio sentenciei a culpada!</p> + +<p>—Mentira! gritou de novo Emilia. Senhores, não acrediteis! A infeliz +Desdemona era tão pura e innocente como os anjos do céu, e levava a +incomparavel bondade de sua alma até ao extremo de amar com todas as energias +do seu coração o seu proprio verdugo!</p> + +<p>—Tu é que estás mentindo, infame impostora! rugiu Othello, que tremeu +até ao mais intimo d'alma ao entrever a possibilidade da innocencia da esposa +pela maneira convicta com que fallára a dama. E accrescentou tirando do bolso o +lenço de seda, que guardava como prova accusadora: Atrever-te-has a negar que +conheces esta prova do criminoso adulterio? Este lenço deu-o minha<span +class="pagenum"><a name="pag_104">[104]</a></span> esposa ao amante, a esse +infame Cassio, que o proprio inferno repelliu, pois que ainda o vejo aqui com +vida!</p> + +<p>Ao ver o lenço, Emilia ficou convertida em estatua; pôz-se livida como um +cadaver, as pupilas pareceram querer-lhe saltar das orbitas, e exclamou +horrorisada:</p> + +<p>—O lenço de seda! O lenço que roubei a Desdemona!</p> + +<p>—Que roubaste?—exclamou Othello enlouquecido e julgando ter +ouvido mal.—É mentira! Foi minha esposa que o deu a Cassio como prenda +dos seus criminosos amores!</p> + +<p>—Proximo a entregar a alma a Deus interveio com debil e apagada voz o +antigo official de Othello—Juro pela minha salvação que nunca vi +semelhante lenço nas minhas mãos e que Desdemona te era tão fiel como póde ser +a mulher mais pura do mundo!</p> + +<p>«Juro tambem, continuou fallando com grande custo,—que morro victima +de um erro teu, general, e assassinado por ordem d'esse infame, que não se +atrevendo a atacar-me, enviou um instrumento seu, o qual logrou enganar por +meio de outra calumnia, e que, depois de ferir-me, acaba de morrer ás minhas +mãos, confessando tudo! Juro, por ultimo, accrescentou Cassio, cada vez com voz +mais debil,—que sempre te amei como a um pae, como ao morrer te quero +ainda, e que Desdemona, tão innocente e pura como um anjo, não foi outra cousa +para mim do que foi para toda<span class="pagenum"><a +name="pag_105">[105]</a></span> a gente; um coração cheio de bondade e de +doçura! Juro-o por tudo quanto existe de sagrado!...</p> + +<p>E o antigo tenente de Othello cahiu sem sentidos nos braços dos soldados que +o amparavam.</p> + +<p>—E eu juro—exclamou por sua vez Emilia, encarando Othello, que +permanecia atonito, como se tivesse recebido um profundo golpe; juro que esse +homem disse a verdade, que minha ama era pura como um raio de sol e innocente +como uma criança; que Cassio nunca teve em suas mãos esse lenço, e que fui eu +que o roubei a Desdemona, obrigada a tal acto por meu marido e fazendo-o jurar +que com elle não prejudicaria ninguem! Juro-o pela memoria de meus paes!</p> + +<p>Succedeu então uma cousa verdadeiramente horrivel.</p> + +<p>Iago, ao vêr o caminho que tomavam para elle as coisas, fôra approximando-se +lentamente da porta para se escapulir sem ser visto. Mas, no momento em que +Emilia se calou, Othello saltou sobre elle com a agilidade e a força de um +leopardo, e arrancando-lhe a propria espada, enterrou-lh'a nas entranhas até +aos copos. Em seguida, voltando-se para onde estava Graciano, e tirando o +punhal que o velho senador trazia pendente do cinto cravou-o no proprio peito +até ao cabo e cahiu sobre o leito em que jazia o cadaver de Desdemona, á qual +deu a alma n'um beijo com o ultimo suspiro.<span class="pagenum"><a +name="pag_106">[106]</a></span></p> + +<p>A dupla acção do formidavel e ciumento mouro havia sido tão rapida, que +quando os circumstantes, refeitos do assombro, quizeram intervir, já estava +consumada a tragedia.</p> + +<p style="text-align:center;">FIM</p> +</div> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_107" id="pag_107">[107]</a></span></p> + +<h2>INDICE</h2> + +<table width="80%" align="center" summary="Indice"> + <tbody> + <tr> + <td>Cap.</td> + <td>Pag.</td> + </tr> + <tr> + <td>I—O rapto</td> + <td><a href="#pag_5">5</a></td> + </tr> + <tr> + <td>II—Othello</td> + <td><a href="#pag_19">19</a></td> + </tr> + <tr> + <td>III—Em Chypre</td> + <td><a href="#pag_37">37</a></td> + </tr> + <tr> + <td>IV—O traidor</td> + <td><a href="#pag_53">53</a></td> + </tr> + <tr> + <td>V—O lenço</td> + <td><a href="#pag_67">67</a></td> + </tr> + <tr> + <td>VI—Os embaixadores</td> + <td><a href="#pag_83">83</a></td> + </tr> + <tr> + <td>VII—Crime e castigo</td> + <td><a href="#pag_97">97</a></td> + </tr> + </tbody> +</table> + +<div style="text-align:center;font-size: 1.1em;"> +<p> </p> + +<p style="font-size: 2.5em;">COLLECÇÃO<br> +SELECTA</p> +<hr style="width: 30%;"> + +<p><em>Obras primas da litteratura mundial</em></p> + +<p>Volumes de 250 a 350 paginas</p> +<hr style="width: 30%;"> + +<p>Formato commodo.<br> +Impressão cuidada, em bom papel<br> +Illustrações pelo processo<br> +de<br> +TRICHROMIA.</p> + +<p>Encadernações elegantes.</p> +<hr style="width: 30%;"> + +<p>1 volume por mez</p> + +<p> </p> + +<p>Preço 300 réis</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center;"> +<p style="font-size: 1.5em;">Empresa LUSITANA EDITORA</p> + +<p>Calçada do ferregial, 23, Lisboa</p> + +<p> </p> + +<p>TRABALHOS typographicos<br> +em todos os generos<br> +Especialidade em impressão<br> +a cores pelo processo da<br> +TRICHROMIA<br> +Jornaes, Revistas illustradas<br> +Minutas, Catalogos, etc. etc.<br> +ENCADERNAÇÔES em todos<br> +os generos</p> + +<p> </p> + +<p>Preços modicos</p> + +<p> </p> + +<p>Telephone n.º 1:302 </p> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Othello, by Gustave Dubarry + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OTHELLO *** + +***** This file should be named 28526-h.htm or 28526-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/8/5/2/28526/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. 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