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+ <title>Theatro de João D'Andrade Corvo - Tomo I</title>
+ <meta name="author" content="João de Andrade Corvo">
+ <meta name="date" content="1859">
+ <meta name="publisher" content="Typographia Universal">
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+<pre>
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+The Project Gutenberg EBook of Theatro de João d'Andrade Corvo - I, by
+João de Andrade Corvo
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Theatro de João d'Andrade Corvo - I
+ O Alliciador - O Astrologo
+
+Author: João de Andrade Corvo
+
+Release Date: March 26, 2009 [EBook #28414]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK THEATRO DE JOAO D'ANDRADE CORVO - I ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;">EDIÇÕES</p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: small;">DO</p>
+
+<p style="text-align:center;">ARCHIVO UNIVERSAL</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="capa" style="text-align:center; border: solid 1px #000;">
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><span style="font-size: 1.2em;">THEATRO</span></p>
+
+<p style="font-size: small;">DE</p>
+
+<p style="font-size: 2em;">JOÃO D'ANDRADE CORVO</p>
+
+<p>I</p>
+
+<p>O ALLICIADOR&mdash;O ASTROLOGO</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: small;">LISBOA<br>
+TYPOGRAPHIA UNIVERSAL<br>
+rua dos Calafates, 113<br>
+1859</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><span class="pagenum">{D1. Pg. 1}</span> </p>
+
+<div class="ficha_tecnica">
+<h1>O ALLICIADOR</h1>
+
+<h3>DRAMA EM 3 ACTOS, REPRESENTADO NO THEATRO DE D. MARIA II</h3>
+</div>
+
+<h3>PERSONAGENS</h3>
+
+<table border="0" style="width: 100%" summary="lista de personagens">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <td>José Velhaco</td>
+ <td>30 annos</td>
+ <td>O sr. Theodorico</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Luiz do Campanario</td>
+ <td>20 »</td>
+ <td>» Tasso</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Antonio Prudente</td>
+ <td>50 »</td>
+ <td>» Epifanio</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>O Vigario</td>
+ <td>50 »</td>
+ <td>» Domingos</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Joaquim</td>
+ <td>40 »</td>
+ <td>» J. Antonio</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Joanninha</td>
+ <td>18 » </td>
+ <td>A sr.ª Soller</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Maria das Dores</td>
+ <td>60 »</td>
+ <td>» C. Talassi</td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+
+<p>A scena passa-se na Madeira em 185...</p>
+
+<h2>ACTO PRIMEIRO</h2>
+
+<p style="text-align:center;"><em>Um campo de vinha. Á direita uma choupana
+aceiada e grande, cercada de hortencias, bannaneiras, e moitas de
+flores.</em></p>
+
+<h3>SCENA I</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>Luiz do Campanario e Antonio Prudente</em></p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>(<em>Sahindo da choupana.</em>) Boas tardes Luiz. Por aqui já a esta hora,
+rapaz? Julgava que só á noite voltarias da cidade.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Agora mesmo cheguei de lá. Eu, só á noite é que contava voltar; mas a
+pescaria depressa se vendeu. Os americanos compraram tudo para a <span
+class="pagenum">{D1. Pg. 2}</span> esquadra, que hontem chegou ao Funchal.
+Quando era pela volta do meio-dia estavamos livres.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Abençoados americanos! Navios e esmolas, tudo nos mandam, para nos ajudar a
+viver. Que isto hoje nesta terra, Luiz, só se vive do que nos dão por
+caridade.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Vocemecê tem razão, sr. Antonio Prudente. Vivemos de caridade... da dos
+estrangeiros, que os lá de Portugal esqueceram-se de nós.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Não se esqueceram, talvez. São pobres como nós, e ahi está. Eu, por mim, não
+quero pensar mal do que sempre me ensinaram a respeitar. Olha, o melhor é não
+fallar em coisas dessas: tenho medo de perder o respeito ao senhor governo, o
+que seria contra os meus costumes antigos. Já estou velho para novidades; e
+como, Deus louvado, tenho para ir passando, esta casa, e esta fazenda, que eu
+fiz por minhas mãos, não quero entristecer-me já agora. Tristezas acabam com a
+gente mais cedo.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>É verdade; lá isso é, sr. Antonio.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Tu tens coisa que te dê pena?</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Não, não tenho. Não é nada.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Tens. Disseste isso como quem sente um pezo sobre o coração.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Tenho a minha mãe velha e doente e eu pobre, e...<span class="pagenum">{D1.
+Pg. 3}</span></p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>E o que?</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Esta pobreza tira-me até as forças para trabalhar, queria ter mais...</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Tens ambição, rapaz? ah! ah! Teu pae era bom homem! Teu pae trabalhou toda a
+vida ali na Lombada, como caseiro do morgado Bittencourt: não ganhou nunca
+senão para cada dia comer uma raiz de-ynhame, ou uma espiga de milho, e eu não
+lhe ouvi fazer dessas queixas contra a pobreza.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Meu pae tinha mais animo do que eu. E depois, a fallar a verdade, tinha
+coizas que o consolassem: tinha em minha mãe uma santa companheira, que o
+ajudava no trabalho; em minha irmã uma boa filha. O morgado velho não lhe
+queria mal, e ajudava-o. A terra então dava vinho; não era como hoje, em que
+tudo parece amaldiçoado aqui na Madeira, em que até se mirraram as uvas...</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>La nisso tens rasão. Foi praga que cahio sobre nós. Mas para tudo, hade Deus
+dar remedio. Tu tens meio de ganhar a vida, Luiz: não desanimes, rapaz.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>O que eu tenho é minha mãe abatida e triste, que faz chorar. E de meu, tenho
+a metade das bemfeitorias que meu pae fez, em 20 annos de trabalho, ali na
+fazendinha do morgado Bittencourt; a outra metade pertence a minha irmã, que
+está casada, e cheia de filhos&mdash;pobre mulher!&mdash;E<span class="pagenum">{D1. Pg.
+4}</span> as taes bemfeitorias são coisa tão pouca, que de nada me servem, nem
+acho quem m'as compre. O que me vale é ter ahi logar entre a companha de um
+barco de pesca, senão morriamos de fome, eu e minha mãe.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Coitado do Luiz! Tens rasão, filho, tens. Eu é que, por ter esta fazenda de
+meu&mdash;porque esta é minha, de véras; terra e bemfeitorias&mdash;por ter esta fazenda,
+e uma filha que é a alegria e a benção desta casa, pensei que todo o mundo era
+feliz. Deus me não castigue, Deus não faça cair sobre Joanninha o castigo desta
+minha cegueira.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Deus a ampare, á nossa Joanninha.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Bem o merece. Boa, e bem creada. Pode ser mulher ahi de qualquer morgado, a
+minha filha, não lhe falta nada. Sabe ler, escrever, e até bordar. Heide
+cazal-a com um homem que tenha de seu, para que ella não saiba nunca o que é
+pobreza.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>(<em>Com dor.</em>) Faz... faz bem, sr. Antonio Prudente. Sua filha deve...
+ser feliz com um homem que tenha de seu, que a traga como as meninas lá da
+cidade... que a faça feliz. Mas... mas ainda não está escolhido noivo para
+Joanninha? Vocemece ainda se não decidiu a cazal-a? É cedo... Joanninha é muito
+moça.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Tem 17 annos feitos. Mas pensar no casamento ainda não pensei. Custa-me a
+separar della.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>(<em>Com alegria.</em>) Então por ora não se casará.<span
+class="pagenum">{D1. Pg. 5}</span></p>
+
+<h3>SCENA II</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>Os mesmos e Joanninha</em></p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>(<em>Correndo para Antonio.</em>) Não se casará por ora, nem casará em
+quanto não tiver noivo do seu gosto.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Joanninha!</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Estavas ahi, filha?</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Estive a dar de comer aos meus pombos, coitadinhos, e agora vinha para o
+acompanhar, pae, lá abaixo á Fajã; para o ajudar no que for necessario.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Ora aqui teem o que se chama uma boa rapariga.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Sou muito sua amiga, pae; e por isso me não quero casar, nem ir para longe
+desta freguezia, onde nasci e me criei (<em>Olhando para Luiz.</em>) Tenho aqui
+todos, e tudo de que eu gosto.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Esses amores hão de te passar. Outros os farão esquecer.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Não se diga que me heide esquecer do amor que tenho a meu pae... e áquelles
+com quem vivi sempre. Não heide perdoar a quem o disser. (<em>Com
+tristesa.</em>) Se os outros se esquecerem, hei de lembrar-me eu.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Ninguem tem coração para se esquecer de ti, Joanninha.<span
+class="pagenum">{D1. Pg. 6}</span></p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Assim será. Mas meu pae diz, que pelos amores novos se esquecem os
+Antigos.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>A mim parece-me que antes perderia a vida, antes poria a minha alma em
+peccado mortal, do que perder da lembrança os dias em que brincámos ahi, á
+sombra dos castanheiros.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>(<em>Com inquietação.</em>) Está bom, está bom. Lá estão vocês a dizerem-se
+finezas, que me parecem dois senhores da cidade.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Então a verdade porque se não hade dizer, pae? Elle pensa aquillo que diz,
+faz bem em o dizer. Fomos creados um com o outro, e a sr.ª Maria das Dores, a
+mãe do Luiz, serviu-me de mãe a mim. É como se fossemos irmãos.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Irmãos!... irmãos sim. (<em>Commovido.</em>) E o que mais me custa, é
+separar-me de ti...</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>(<em>Assustada.</em>) Que separação é essa? Vaes deixar-nos?</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Talvez... Parece-me que irei ahi, a bordo de um navio, fazer uma viagem...
+Fallaram-me em ir marinheiro n'um navio que sae...</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Para onde?</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Para longe. Ainda não sei.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Não vás.<span class="pagenum">{D1. Pg. 7}</span></p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Então porque não hade ir? É tentar fortuna. Uma viagem ao Brasil, talvez. Ir
+e voltar. Faz muito bem o nosso Luiz.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>E a tia Maria das Dores, a mãe de Luiz, coitada?... E todos nós?</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Se eu me for... minha mãe fica em casa de minha irmã.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>(<em>Com as lagrima nos olhos.</em>) Não pode ser. Assim não vae isto bem.
+Tua mãe está velha... e sem ti estalla de pena.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Esta vida de barqueiro, de pescador, é vida miseravel, e sem esperança.
+Lutar com o mar, arriscar a vida nos temporaes, andando por entre essas rochas
+quando o tempo está de lavadia, e não passar nunca de ser um pobre, vivendo de
+mizeria; um desgraçado a quem os ricos fazem esmola, quando lhe pagam o seu
+trabalho; passar a vida inteira neste penar, isso é que o coração cá dentro não
+me soffre.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>E queres?</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Quero ir por esse mar fóra, por esse mundo de Christo a tentar fortuna.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>E se morreres?...</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Sempre hade haver agua no mar para de uma vez me mergulharem; ou uma pouca
+de terra para me deitarem por cima.<span class="pagenum">{D1. Pg. 8}</span></p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Jesus! Misericordia! Que cousas dizes! Chego a tomar-te raiva quando te ouço
+fallar assim, (<em>Chorando.</em>) Não vês que me fazes pena quando dizes
+dessas doidices?!</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Não é para te fazer pena...</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>É verdade. Elle faz o que deve. O homem pode morrer no mar ou em terra, e em
+morrendo acabou-se. Tambem eu heide...</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Se continua, pae, a fallar nessas cousas, vou-me, fujo, caso-me...</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Não se torna mais a fallar em tristezas. Se for, heide voltar. Assim como
+aqui o sr. Antonio fez, pelo seu trabalho, desta terra, que era um mato
+maninho, uma fazenda que faz gosto aos olhos verem-n'a, tambem, eu heide da
+minha barca fazer um navio bonito, como o «Galgo.» Que isto da gente ter
+vontade, cá de dentro, de fazer uma cousa, é meio caminho andado para a
+conseguir. E, se não, vejam o que succedeu ao José Velhaco. Ha menos de um anno
+pobre como eu, e agora com grilhões de oiro, e relogio, e dinheiro, que é um
+pasmar. Foi a Demerara, e voltou rico. Fortunas!</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>O José Velhaco foi a Demerara, e voltou rico. Fortunas, dizes bem. Outros lá
+vão, e por lá ficam.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Morre-se por lá como por cá. Mas aquillo é terra para fazer fortuna. Não foi
+só o José Velhaco<span class="pagenum">{D1. Pg. 9}</span> que voltou rico. Ahi
+estão na Madeira mais de meia duzia, a quem succedeu o mesmo.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Não te deixes enganar com as apparencias. O sr. Vigario ainda outro dia me
+disse, que esses que veem ricos de Demerara são isca para apanhar os
+passaros.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Talvez. O que for soará.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Toma os conselhos, que são de quem tem já cabellos brancos. Não te deixes
+enganar com as apparencias.&mdash;Vamos, Joanninha, vamos até á Fajã, antes que se
+faça mais tarde. (Sae.)</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Adeus Luiz.</p>
+
+<h3>SCENA III</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>Luiz e Joanninha.</em></p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>(<em>Detendo-a.</em>) Uma palavra, Joanninha.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Que me queres?</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Tenho que te dizer.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Mas agora! Meu pae espera-me...</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Diz-lhe que já vais ter com elle. Eu preciso fallar-te.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Virgem Maria! que susto me estás mettendo! (<em>Aos bastidores.</em>) Ahi
+vou já, pae, esqueceu-me uma coisa em casa: já vou lá ter, n'um instante.<span
+class="pagenum">{D1. Pg. 10}</span></p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>(<em>De dentro.</em>) Pois eu cá vou andando.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>(<em>A Luiz.</em>) Diz agora o que queres de mim.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Ouve, Joanninha. Tu lembras-te que sempre vivemos juntos; que de pequenos
+andámos sempre um com o outro por essas serras; que se não passou até hoje uma
+semana em que nos não vissemos?</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Lembro-me.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Não te esqueceu ainda aquella manhã, em que fomos juntos ao Paul da serra, e
+levados, não sei por que alegria que vinha cá de dentro, apanhando flores de
+urze, e brincando, chegámos até ao Rabaçal?</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Não me esqueci dessa alegre manhã. No Rabaçal a agua saltava do alto da
+serra, e depois espalhava-se em gotas de chuva, que brilhavam ao sol como
+estrellas, e vinham cair até onde nós estavamos sentados: de baixo daquelle
+grande til que nasce da rocha. Eu senti nesse dia o que não tinha sentido
+nunca: não sei se alegria se tristeza... O coração batia-me como eu nunca o
+senti bater.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Tinhas então 15 annos, e eu 20. Foi ha 2 annos. Desde esse dia, nunca mais
+andámos sós, um com o outro pela serra.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Mas, desde esse dia, quasi que se não tem passado um só sem nos vermos.<span
+class="pagenum">{D1. Pg. 11}</span></p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Joanninha, de tudo te lembras. Agora já te posso fallar com menos susto.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Para que me lembras-te essas coisas todas? O que tem isso com a pergunta que
+me querias fazer?</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Olha, Joanninha, não é facil a gente dizer tudo quanto quer; porque, emfim,
+o sentir não depende da vontade, e as palavras não chegam para dizer tudo.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Mas... o que querias dizer-me?</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Não te pões mal commigo, não é verdade?</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Porque?</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Talvez seja esta a ultima vez que te vejo. Esse tempo, em que nos podiamos
+ver todos os dias, passou.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Então partes breve?</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Hoje mesmo.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Deus me acuda! Hoje!</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Hoje me vou.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Não pode ser. Não disseste nada a meu pae.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Nem lh'o digas tu. É segredo a minha partida, não quero que minha mãe saiba.
+A ti<span class="pagenum">{D1. Pg. 12}</span> tambem não queria dizer nada, mas
+faltou-me o animo...</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Ah! Luiz, em tu me faltando... ficam sem luz os meus olhos, e sem alegria o
+coração.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Eu tambem me vou e bem triste, Joanninha. Mas que queres? Quem é pobre,
+nasceu para padecer. É preciso fazer esta viagem para depois poder... se tu me
+não disseres que não, Joanninha&mdash;para poder...</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>O que?</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Pedir a teu pae, que sejas minha mulher. Se não disseres que não.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Não digo, não te digo que não.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>E promettes esperar que eu volte... tendo bastante de meu, para que teu pae
+consinta no casamento?</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Se agora mesmo lhe pedisses, meu pae consentiria.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Não. Teu pae criou-te para seres rica, deu-te uma criação como a das
+senhoras da cidade; e não quer que te cases com um pobre, como eu sou. Ainda ha
+pouco elle m'o disse, aqui mesmo.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Só comtigo, Luiz, só comtigo me heide casar.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Já vou mais consolado: com mais animo para trabalhar, para me arriscar aos
+perigos.<span class="pagenum">{D1. Pg. 13}</span></p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Não te arrisques. Lembra-te de tua mãe... de mim, que morro se tu
+morreres.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Não chores, minha querida Joanninha. A Senhora do Monte hade proteger-me, e
+eu heide voltar.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Prometto uma novena á Senhora do Monte, e muitas flores no dia da sua festa,
+se tu voltares cedo.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Agora... Joanninha... adeus... adeus!</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Não te demores muito, Luiz. Volta, porque me deixas em cuidados... ralada de
+saudades.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Um abraço de despedida. (<em>Caem nos braços um do outro.</em>)</p>
+
+<h4>AMBOS</h4>
+
+<p>Adeus! Adeus! (<em>Joanninha sae.</em>)</p>
+
+<h3>SCENA IV</h3>
+
+<h4>LUIZ <em>só</em>.</h4>
+
+<p>Joanninha! Não sei como tive animo para a deixar ir... como tenho alma para
+sair da minha terra, onde ella vive... onde me fica amando.&mdash;E voltarei?...
+tantos lá teem ficado! Se uns morrem outros voltam ricos; e eu, pobre como sou,
+nunca heide casar-me com Joanninha.&mdash;As orações daquella santa rapariga ha de
+Deus ouvil-as, e basta.&mdash;Quem se não arriscou não perdeu nem ganhou.<span
+class="pagenum">{D1. Pg. 14}</span></p>
+
+<h3>SCENA V</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>Luiz e Jozé Velhaco</em></p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Santa palavra, Luiz, santa palavra que nem todos intendem, e que é preciosa
+para os que a sabem. Eu, se não soubesse esse rifão de côr e salteado, estava a
+esta hora com um sacho na mão a sachar milho na fazenda d'um morgado, que, no
+fim de contas, me ficaria com metade do producto da minha labutação. O morgado
+que nasceu rico&mdash;isto é um modo de dizer&mdash;que nasceu dono de terras, e nem sabe
+nem tem prestimo para as cultivar... Ah! ah! o morgado guardaria metade do meu
+milho, para dar aos cavallos... e eu, com a minha metade, nem teria para
+enganar a fome. Santa palavra, rapaz, santa palavra!</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Os pobres cazeiros trabalham muito, e padecem muito, Jozé Velhaco. Nisso
+tens tu rasão.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Tenho, e não me heide cançar de prégar estas verdades. Os cazeiros, nós, os
+villões, trabalhamos, e os morgados comem os nossos fructos e bebem o nosso
+vinho. Estão sempre aqui a fallar em que nós, os que vamos a Demerara procurar
+fortuna, largamos a nossa terra para irmos ser escravos dos inglezes, para
+sermos escravos brancos! E aqui, nesta terra dos morgados, o que somos nós
+senão escravos? Ao menos, lá por essas terras dos inglezes, um homem activo,
+tendo cá fogo de dentro como eu, e como tu, meu Luiz, faz fortuna, faz-se
+rico<span class="pagenum">{D1. Pg. 15}</span> como um morgado... mais do que um
+morgado, porque não deve nada a ninguem. Ah! ah! santa palavra!</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Isso são sortes. Uns enriquecem, e outros por lá ficam, mortos ou
+escravos.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Qual historia! Pois um homem vae d'aqui, e recebe logo trinta patacas...
+como tu recebeste hontem. Em! Trinta patacas é uma boa conta.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>É, é. Vinte ahi ficam para minha mãe; e as outras dez gastam-se na viagem.
+</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Que importa? Chegas lá, trabalhas um... um tempo para pagar a divida, e a
+comida que te dão cada dia... e depois principias a ganhar por tua conta.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Mas esse tempo quanto dura?</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Conforme... sim, é conforme. Para uns dura mais, para outros menos. É
+segundo as forças de cada um. Mas tu bem vês: aqui é que se não faz nada.
+Trabalha-se a vida inteira, a arrancar mato da serra, e levantar muros, a
+plantar arvores e vinha, a formar uma fazenda, e no fim fica a gente sem ter
+nada; porque a terra é dos morgados, e as bemfeitorias ficam agarradas á terra,
+donde se não podem arrancar.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Que de coisas tu sabes agora!</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>É porque vivi lá por Demerara com muita gente de tino, e aprendi muito.
+Aquillo é que<span class="pagenum">{D1. Pg. 16}</span> é terra, homem! Campos
+que é um gosto vel-os. Como estes aqui da Madeira, mas maiores. E na cidade?
+Ganha-se dinheiro que é um louvar a Deus!</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Mas as febres?</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Quaes febres! Ha por lá umas doencitas, que levam a gente ás vezes, mas não
+é coisa que se veja: nada, nem se dá por tal. E, depois, se por lá se morre de
+febre, por cá morre-se de mizeria, que ainda é peior. Tu tens medo de
+morrer?</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Eu!...</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Bem sei que não tens medo. Vaes á pesca em dias de temporal, quando os
+outros pescadores se metem em caza. Em a gente sendo animoso nem as doenças lhe
+chegam. Santa palavra! Olha para mim. Tu bem sabes que eu sou animoso,
+valente...</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Serás; talvez o sejas. Ganhaste isso em Demerara?</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Pois eu não sou?... Não fui sempre?..</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Um armazem de pancadas, quando eras mais novo. Todos te davam; e tu não
+fizeste nunca senão levar e calar.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Hum! Bem vês que eu era... que tinha bom coração, e não queria fazer mal ao
+proximo. E a prova é, que já me esqueci de tudo que os<span
+class="pagenum">{D1. Pg. 17}</span> rapazes aqui da freguezia me fizeram, e que
+tenho mandado um pár delles para Demerara... a buscar fortuna. Pagar o mál com
+o bem, é de um homem como se quer. Tu mesmo, Luiz, agora me lembro, tu mesmo
+deitaste-me um dia na Ribeira Brava, dentro d'agua; porque eu te tinha tirado
+um pedaço de ynhame cozido... e eu tinha fome. Agora vou-te fazer rico, para
+teres fato fino, como este meu, relogio, cordão de oiro, e muito dinheiro...
+para te tinirem as algibeiras, como a mim. Hem!</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Serás, serás bom rapaz, agora, mas animoso... Deixemos isso, e vamos ao que
+importa. Joze, eu vou para Demerara; foste quem me resolveu a ir. Minha mãe,
+pobre velhinha, cá fica sem ter mais ninguem senão minha irmã que é pobre, e
+pouco lhe pode valer. Acode-lhe tu, Joze. Que minha mãe ao menos tenha um
+pedaço de pão para matar a fome.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Conta comigo.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Outra coisa te queria eu pedir; mas essa...</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Dize, que eu sou um bom amigo.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Creio que és, sim. Mas tens sido sempre tão fallador, homem...</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Injustiça no cazo. Eu guardo um segredo como ninguem</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Vé lá o que fazes: o que vou dizer é segredo. Gosto muito de
+Joanninha...<span class="pagenum">{D1. Pg. 18}</span></p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Ah! ah! Eu já desconfiava disso. Tens bom gosto, que a pequena é bonita...
+e, de mais a mais, vem a ter de seu, em o pae morrendo.&mdash;Maganão!</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Pobre a queria eu, para me poder já cazar com a minha Joanninha. Emfim, se a
+sorte me ajudar, hei de tambem um dia ter alguma coisa de meu, e então a
+pedirei ao pae.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Bem pensado&mdash;Mas vamos ao cazo; o que me queres tu?</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Quero que procures no correio as minhas cartas, e que as entregues a
+Joanninha, em muito segredo, sem que o pae o saiba.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Fia-te em mim. Um amigo vê-se nas occaziões. Santa palavra!</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Obrigado, obrigado, Joze. Nunca te poderei pagar o muito que te devo. Agora
+mais um favor.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Venha lá mais esse...</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>É o ultimo, tem paciencia. Esta noite... d'aqui a uma hora talvez, vou para
+bordo, e de lá já não volto, já não torno a fallar com minha mãe. Aqui tens
+vinte patacas, que lhe deixo: tu mesmo lh'as entregarás em mão propria.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Ahi vem ella. D'ali, da banda da Igreja.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>(<em>Dando-lhe dinheiro.</em>) Pois vou-me, antes que<span
+class="pagenum">{D1. Pg. 19}</span> ella chegue; não tenho cá dentro força,
+para lhe fallar agora. Dize-lhe que fui no bote fazer um frete até ao Funchal.
+Amanhã lhe contarás a verdade. Adeus, Joze. Não te esqueças do promettido.
+(<em>Estendendo os braços para o lado donde, vem Maria das Dores.</em>) Mãe,
+mãe! A tua benção, mãe; para que Nossa Senhora me não desampare!
+(<em>Sae.</em>)</p>
+
+<h3>SCENA VI</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>José Velhaco, só.</em></p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Os diabos te levem, para que não voltes mais. Ah! Ah! e deixou-me vinte
+patacas das trinta que recebeu! És tolo, meu Luiz do Campanario. Vinte patacas
+que estão aqui na minha algibeira, com trinta que hei de receber ámanhã do bom
+homem Carlos Bad, honrado negociante de carne branca, fazem cincoenta
+patacas&mdash;É barato. Estou roubado. Um escravo preto custa muito mais agora,
+depois que os inglezes se declararam protectores dos pretos; e o Luiz vale bem
+dois negros de Angola&mdash;Viva... viva...&mdash;como lhe chamam elles, os
+inglezes?&mdash;Viva a philan... a philantropia que em vez de escravos negros, vae
+fazendo os brancos escravos. A cor pouco faz ao caso; mas escravos ha de
+havel-os, em quanto houver homens com fome, em quanto houver miseria no mundo.
+Santa palavra! O dinheiro é que é a liberdade! Viva o dinheiro!... viva o rei
+dinheiro!... Irei ficando com as vinte patacas do Luiz, em vez de as dar á velha
+que ahi vem. Só para o enterro é que ella precisa de dinheiro, agora.<span
+class="pagenum">{D1. Pg. 20}</span></p>
+
+<h3>SCENA VII</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>José Velhaco e Maria das Dores</em></p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Ora salve Deus a sr.ª Maria das Dores.</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Deus lhe dê muito boas tardes, sr. Joze. Não estava agora aqui o meu
+Luiz?&mdash;Pareceu-me vel-o.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Estava aqui, mas foi-se, sr.ª Maria. O rapaz anda com a cabeça desarranjada,
+não lhe parece?</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>O rapaz anda triste, porque lhe custa a levar a miseria. Eu bem lhe tenho
+prégado, que é vontade de Deus que assim seja, e que elle se deve ir
+conformando com a vontade de quem tudo póde. Bem velha estou eu, e nunca tive
+na minha vida uma hora talvez, de que se possa diser «bensa-te Deus:» pois
+olhe, assim mesmo com paciencia cá tenho ido andando. Se Deus me conservar o
+meu Luiz, á hora da morte hei de louvar a Deus, por me ter mandado a este valle
+de lagrimas.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Aquella falta de humildade, com que o Luiz leva a sua cruz, é peccado, diz
+bem sr.ª Maria.</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Eu não disse que o meu filho tinha peccado. Nem o disse, nem o penso.&mdash;Hoje
+em dia, não sei porque, todos os rapazes querem ser mais do que foram seus
+paes, e por isso tem ido acabando aquelle respeito que n'outro tempo havia aos
+srs. morgados. Em tudo isto anda o dedo<span class="pagenum">{D1. Pg.
+21}</span> de Deus. Ou o mundo está para acabar, ou, senão, vae levar tudo uma
+grande volta.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Está muito intendida em politicas, sr.ª Maria das Dores! Tambem lê os
+periodicos?</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Não leio, não me ensinaram a ler.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Dizem por ahi que é bruxa; saberá isso por artes...</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Calle-se, Joze. Vae-te t'arrenego, hoje é sabbado. De quando em quando oiço
+contar as coisas que se passam por esse mundo ao nosso vigario, e fazem-me
+scismar. Acho rasão ao meu Luiz quando se queixa da sorte, mas nunca lh'o digo.
+Quem trabalha deve ter, ao menos, tanto como quem não trabalha mas nasceu
+morgado. Em quanto não for assim não vae o mundo ás direitas.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Pois as impaciencias do nosso Luiz hão de lhe dar na cabeça. Agora, quando a
+viu, sr.ª Maria, fugiu; e talvez um dia fuja de todo.</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Jesus, Santo nome de Jesus! Se elle me deixasse morria. Olhe Joze, tem-me
+morrido todos os meus, pae, mãe, irmãos, e o meu pobre marido, e eu fui
+ficando&mdash;Deus sabe para que.&mdash;Mas agora, se me faltasse o meu Luiz, a isso não
+resistia.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Deve estar preparada para tudo.</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Porque?<span class="pagenum">{D1. Pg. 22}</span></p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Eu não sei nada... ao certo: mas o Luiz tem uma alma independente como a
+minha, senhora Maria&mdash;e pode ser que elle um dia faça como eu fiz, que vá por
+esse mundo fóra em busca de fortuna. Ora como nem todos são egualmente
+felizes...</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Talvez elle por lá fique! Nada, o meu Luiz não se vae, não me deixa.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>O desejo de ser rico, de se ver bem tratado por esses senhores morgados, que
+lhe chamam agora o <em>villão</em>; o desejo de deixar de ser <em>um
+villão</em> para ser o sr. Luiz do Campanario, estimado por ter dinheiro,
+comprimentado pelos morgados por lhes poder emprestar algumas patacas; este
+desejo de abater os outros e de se exaltar a si póde muito. O dinheiro, sr.ª
+Maria, levanta os humildes, faz fidalgos os vilões. Ah! ah! Santa palavra!</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Isso são maus sentimentos, que o meu Luiz não tem. Se lhe custa o ser pobre
+é por me não poder fazer feliz a mim, e a todos os seus. O meu Luiz é bom, foi
+sempre bom desde creança. Esses sentimentos de que falla, Joze, só os pode ter
+um mau homem, um homem sem honra e sem vergonha.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>É... será verdade. Um homem sem vergonha... Eu cá sim, eu nunca tive
+sentimentos taes... porque sou...</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Joze, Joze, sempre teve&mdash;desde pequeno que<span class="pagenum">{D1. Pg.
+23}</span> o conheço&mdash;propensão para o mal. Preguiçoso, e mau, foi-o sempre.
+Nunca pensei que pelo trabalho honrado se fizesse rico; mas em fim assim
+aconteceu, e como aconteceu, Deus o sabe. Sou velha, e hei de diser a verdade.
+Anda sempre desde que veio de Demerara, a metter na cabeça a todos os rapazes,
+e ás raparigas até, que emigrem da Madeira: e quando desapparecem seis ou sete
+apparece o sr. Joze a comprar uma casa ou uma fazenda, ou com mais um cordão de
+oiro ao pescoço. Murmura-se por ahi de tudo isto...</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Invejosos!</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Pode ser, talvez. Mas se o meu Luiz se for, é a você que eu ponho as
+culpas.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Porque? Pois não podem outros persuadil-o a que emigre?</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Podem. Mas eu tanto me hei de queixar, que se saberá a verdade. A voz da
+velha Maria das Dores ha de ouvir-se por toda a Madeira, e chegar até aos
+ouvidos de quem governa. Mas não... o meu filho não me deixa.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Talvez que não. Adeus sr.ª Maria das Dores, veja se descança, faz-lhe mal
+zangar-se&mdash;Ah! ah! ah! Está velha para se zangar assim.</p>
+
+<h3>SCENA VIII</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>Maria das Dores</em></p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>O meu Luiz não me deixa, não me desampara, eu morria se me visse sem elle...
+Nossa<span class="pagenum">{D1. Pg. 24}</span> Senhora me livre desta ultima
+dôr; esta era a ultima, porque eu morria. Se tem de acontecer essa desgraça,
+Deus, me leve antes para si (<em>Vae sentar-se sobre um pedaço de muro, de modo
+que fica quasi escondida por detraz de uma moita</em>). Ave Maria cheia de
+graça, o senhor é comvosco... (<em>Continua a murmurar orações.</em>)</p>
+
+<h3>SCENA IX</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>A mesma&mdash;Antonio Prudente&mdash;O
+Vigario&mdash;Joanninha</em></p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Tenho gosto em ver os bons resultados da sua labotação, sr. Antonio.
+Fazendas bem amanhadas, as suas fructas excellentes; muita cana de assucar, já
+para substituir o vinho que nos falta, e flores por toda a parte para alindar
+tudo... As flores são aqui da nossa Joanninha, que as sabe escolher bonitas
+como ella.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Ora! sr. Vigario.</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Não se envergonhe a menina Joanninha por ser bonita, e gostar de flores. Se
+eu tivesse uma sobrinha, com estas duas qualidades a queria. Mas aquelle
+desmasellado de meu irmão não me quiz dar senão dois sobrinhos, paciencia!
+Elles são ambos bons rapazes; mas o segundo, o Fernando, o mais novo, é mesmo
+uma joia, e eu quero-lhe devéras.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>E merece-o o menino, porque muito bom é.<span class="pagenum">{D1. Pg.
+25}</span></p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Merece muito, mas, como fez o crime de vir ao mundo mais tarde do que o
+outro, ha de ser pobre toda a vida, e o irmão morgado e rico. Esta instituição
+dos morgados foi feita por quem não tinha entranhas de pae, nem consciencia de
+bom christão; e aqui na Madeira, sobre tudo, foi estabelecida por quem não
+entendia nada de agricultura, e não tinha nem amor á terra que dá os fructos,
+nem aos homens que a cultivam. Meu irmão, o morgado Bittencourt, não quer
+escutar estas verdades: mas eu só lhes recomendo, a elle, e aos outros
+morgados, que comparem as fazendas livres com as que estão opprimidas pelos
+vinculos, e que digam, depois de verem nas fazendas livres tudo alegre, verde,
+bem cultivado; e nas vinculadas tudo miseravel e coberto de colonos famintos;
+que digam que isto dos morgados não é um absurdo funesto, sustentado apenas por
+vaidades fofas e impios preconceitos.&mdash;Este flagello dos vinculos ha de acabar,
+e com elle o outro flagello tambem, a emigração dos madeirenses.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>E quando acabará ella sr. Vigario!?</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Quando a terra fôr de quem trabalha, e não de quem vive na ociosidade e na
+ignorancia: quando uma organisação iniqua da propriedade não affastar da
+inteira posse da terra os caseiros em nome dos vinculos, e os morgados em nome
+das bemfeitorias; quando a justiça fôr a base das leis; quando nesta ilha, que
+a natureza fez um paraizo, acabarem esses restos de escravidão, que ainda hoje
+existem pezando sobre<span class="pagenum">{D1. Pg. 26}</span> o homem do povo
+e unidos ao nome de <em>villão</em>. Os grandes padecimentos do povo hão de
+acabar, quando a instrucção esclarecer o espirito de todos; quando no mundo
+civilisado&mdash;porque o mal não existe só aqui na ilha&mdash;se não soffismar a
+verdade, e se não confundir a justiça com o interesse; quando a religião, a
+virtude, a liberdade, estiverem acima de tudo.&mdash;Mas esse tempo, se é que tem de
+chegar, ainda vem longe. Finje-se hoje querer acabar com a escravidão no mundo;
+assignam-se tratados para abolir o trafico dos negros barbaros; e deixa-se que
+a seducção e a miseria arraste os brancos a captiveiro mais cruel.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>V. s.ª tem rasão de certo no que diz. Eu não percebo talvez todo o sentido
+das suas palavras, sr. vigario, mas a consciencia diz-me que são verdadeiras.
+</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>O lidar com a natureza esclarece a rasão; e não ha nada que mais luz dê ao
+espirito, do que a probidade e a honradez Antonio Prudente, eu bem sei que
+entende o que lhe disse.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>A verdade é para todos.</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Bravo! fallou bem a nossa Joanninha, a minha afilhada Joanninha. Fui eu que
+lhe ensinei a ler, a doutrina e tudo, e não perdi o meu tempo.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>O sr. Vigario sempre foi bom para todos, mas para a minha filha... deve-lhe
+tudo...<span class="pagenum">{D1. Pg. 27}</span></p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Tomára eu tempo para poder ensinar a ler todas as creanças da freguezia. Eu
+entendo que um dos mais santos deveres do padre é instruir e educar as
+creanças. Como lhe ia dizendo ha pouco, Antonio, os males são muitos, e a todos
+é preciso dar remedio prompto. Devéras, em quanto os homens de bem cá das
+aldeias não ajudarem esses senhores politicos de Lisboa a fazer as leis, nunca
+as ha de haver que prestem.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>É o que eu tenho pensado muitas vezes; salvo o respeito devido a quem
+manda.</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Sobre estas emigrações algumas medidas se teem tomado. Expedientes, meros
+expedientes! Prohibe-se aos pobres colonos o embarcarem sem passaporte, põe-se
+um navio de guerra a guardar a ilha, ameaçam-se os alliciadores, e no fim de
+tudo embarca quem quer sem passaporte, o navio não guarda nem pode guardar
+nada, e os aliciadores vivem alegres e enriquecem. Não é prohibindo, é
+concedendo, que se ha de acabar com a emigração; não é fechando o povo dentro
+da ilha, como n'um carcere, é dando a liberdade aos homens e á terra, que se ha
+de combater a febre que agita neste momento a ilha. Os que fazem leis só pensam
+em castigar e prohibir. Não basta. É preciso aconselhar e ajudar os pobres a
+viver; é preciso que todos na ilha da Madeira saibam o que padecem os
+desgraçados, que a esperança arrasta a essas terras dos inglezes, em que os
+aguarda a escravidão, onde as febres lhes minam a saude, e a cubiça de vis<span
+class="pagenum">{D1. Pg. 28}</span> especuladores lhes arranca das mãos o pão,
+com que elles procuram enganar a fome.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>(<em>Com susto.</em>) Pois tanto soffrem os que vão a Demerara?</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Muito mais do que se pensa.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>É preciso desenganar o povo; porque todos os dias desapparece d'entre nós
+algum rapaz dos melhores, dos mais trabalhadores e dos mais queridos.</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Ás vezes são familias inteiras; outras, um chefe de familia deixa mulher e
+filhos; e até ha filhos que desamparam seus paes, e isto quando estão com os
+pés na sepultura.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Agora mesmo tenho eu medo, que um dos bons rapazes da nossa freguezia fuja
+para Demerara, deixando a mãe velha e pobre quasi ao desamparo.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>E quem é, pae?</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>O Luiz do Campanario.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Isso não póde ser.</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>(<em>Levantando-se e vindo á frente da scena.</em>) Não pode ser. O meu Luiz
+não me deixa aqui só: não me pode abandonar agora... quasi á hora da
+morte.<span class="pagenum">{D1. Pg. 29}</span></p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>É uma desconfiança que tenho, e nada mais. Eu não sei...</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Amanhã... esta noite mesmo lhe fallarei; e se elle tem idéas de emigrar,
+tirar-lhas-hei da cabeça.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Deos o abençoe, sr. Vigario, pelo amor que tem aos pobres. Deos lh'o pagará,
+meu senhor Vigario.</p>
+
+<h3>SCENA X</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>Os mesmos e Joze Velhaco</em></p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Sr.ª Maria das Dores... Ah! (<em>tirando o chapeo.</em>) Boas tardes, sr.
+Vigario. Estou ao seu dispor.</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>(<em>Com mau modo.</em>) Bons tardes, sr. Joze.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>V. S.ª está zangado, ao que parece.</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Talvez.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>É que eu... eu trazia uma noticia aqui á tia Maria das Dores...</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Pois dê-lhe a noticia.</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Diga, homem.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Não tenha pressa de saber.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Falle, sr. Joze.<span class="pagenum">{D1. Pg. 30}</span></p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>O Luiz, o seu Luiz, foi-se.</p>
+
+<h4>AMBOS</h4>
+
+<p>Para onde?</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Para Demerara.</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>É mentira.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Jezus!</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Não viram hoje um navio a bordejar ao largo? Pois para elle foi, e nelle
+estará a esta hora o nosso Luiz.</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Como soube...</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Disseram-mo agora mesmo uns barqueiros, que o viram partir para bordo.</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>E não se tratará de acabar por uma vez com esta emigração, que faz horror?
+</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Ah! ah! O sr. governo está dormindo ha trinta annos. Quando accordar ha de
+dar remedio a todos os males.</p>
+
+<p style="text-align:center;"><em>Cahe o panno.</em></p>
+
+<p style="text-align:center;"><strong>Fim do 1.º acto</strong><span
+class="pagenum">{D1. Pg. 31}</span></p>
+
+<h2>ACTO SEGUNDO</h2>
+
+<p style="text-align:center;"><em>A casa de Antonio Prudente. Porta no fundo,
+outra porta á esquerda. Á direita uma janella.</em></p>
+
+<h3>SCENA I</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>Antonio Prudente e Joze Velhaco</em></p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Veja vmc. se a resolve, sr. Antonio. Eu tenho hoje bastantes terras, umas
+casas na cidade, e andam-me emprestados e a vencer bons juros uns poucos de
+centos de patacas. Para sua filha não me parece que eu seja um mau casamento.
+Ainda sou moço... e com dinheiro, é o mais que uma rapariga póde desejar.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Não sei o que a Joanninha tem contra você, Joze, mas é certo que ella fica
+mal comigo,&mdash;olhe que é verdade,&mdash;fica mal comigo em eu lhe fallando neste
+casamento. A mim agrada-me, Você é um homem que sabe fazer fortuna. Hontem por
+assim dizer pobre, e hoje rico.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Pois ha um anno que ando a pertender este casamento, e elle sem se fazer.
+Agora é tempo de acabar com isto. Está-me parecendo que Joanninha não faz já
+tanta resistencia. Lembre-se que é pae, sr. Antonio, e que pode mandar em vez
+de pedir. É para bem da sua Joanninha. Porque eu conheço-me, e vmc. tambem me
+conhece, ein? conheço-me e sei que poucos são capazes, como eu, de fazer feliz
+uma mulher. Santa palavra!<span class="pagenum">{D1. Pg. 32}</span></p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Eu não duvido dos seus bons sentimentos, de que venha a ser menos mau pae de
+familia. É certo... é certo&mdash;deixe-me dizer o que penso&mdash;que todos na freguezia
+o vêem com maus olhos, desde que o Luiz do Campanario foi para Demerara; e
+quando algum rapaz desapparece daqui, dizem uns&mdash;foi o Joze Velhaco quem o
+enganou, o Joze Velhaco vendeu-se aos inglezes&mdash;outros dizem&mdash;o Joze Velhaco é
+bom homem, dá dinheiro aos pobres, empresta dinheiro aos morgados, e faz muitas
+festas a Nossa Senhora...</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>E vmc. o que diz?</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Eu acredito nos que dizem bem; mas minha filha so dá credito aos que dizem
+mal.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>É a velha, a bruxa da Maria das Dores, quem lhe mette essas creancices na
+cabeça. É preciso, sr. Antonio, pôr a excommungada da velha da sua casa para
+fora.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Isso não faço eu. Pôr fora da minha caza uma pobre velha, que é tão
+desgraçada, uma mulher que serviu de mãe á minha Joanninha! Oh! sr. Joze, que
+eu lhe não ouça dizer outra vez coisas dessas; que, sobre tudo, o não saiba a
+minha filha. Estava desmanchado o casamento, se Joanninha tal soubesse!</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Eu queria... sim, como sei que Joanninha é muito amiga da velha Maria das
+Dores, queria ver... experimentar se vmc. era capaz de ir contra os desejos da
+sua filha. Vmc. bem percebe?<span class="pagenum">{D1. Pg. 33}</span> Eu não
+sou muito amigo da Maria das Dores; a velha anda por ahi a desacreditar-me; diz
+que fui eu que lhe seduzi o filho, que sou isto, que sou aquillo. Coisas que
+nem eu sei. E quando a gente está innocente, ressente-se destes falsos
+testemunhos.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Quando se está innocente.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Como eu, é verdade, ressente-se a gente. Não fallemos mais nisso, que é uma
+coisa que me faz doer o coração. O que é preciso é que este casamento se faça;
+porque a Joanninha é mesmo uma mulher propria para mim: sabe ler, escrever, e é
+bem creada. Aqui em toda a freguezia não ha uma rapariga, que se lhe possa
+comparar.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>A Joanninha é mesmo uma flor! Ah! ah!</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Mas, emfim, se vmc. não tem força para governar a sua casa, para fazer com
+que sua filha lhe obedeça, irei a outra parte buscar mulher, com quem me case.
+Não faltará quem me queira. No Funchal talvez ache até algum morgado que me dê
+uma filha. Com dinheiro, nestes tempos, tudo se pode alcançar: e eu, em sendo
+commendador, posso casar com quem eu quizer, e ser até deputado, representante
+da Madeira. Ah! Ah! Ah!</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>(<em>Rindo muito.</em>) Que coisas que não hade dizer o sr. deputado Joze
+Velhaco!</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>(<em>Em tom de discurso.</em>) É preciso acabar com este odio á chamada
+escravatura branca: este odio é uma<span class="pagenum">{D1. Pg. 34}</span>
+vergonha para a Madeira, uma deshonra para a Madeira, uma deshonra para os
+portuguezes. Esta escravatura não é mais do que a liberdade, que todos devem
+ter de ir procurar fortuna a qualquer parte do mundo. Eu mesmo fui
+enriquecer-me a Demerara. E quando os calumniadores me accuzarem, de querer que
+dure a emigração, para ganhar dinheiro com ella, heide gritar com furor. A
+minha vida todos a conhecem, é simples e pura. Todos sabem que ganhei
+honradamente o que tenho, e só almas damnadas me podem levantar falsos
+testemunhos; porque... porque, a innocencia é a innocencia, e os homens
+politicos sabem, melhor do que ninguem, o que é ser innocente, e o que é fingir
+innocencia; porque a moralidade dos politicos...</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Viva! É eloquente, o meu genro, o sr. deputado. E da sua innocencia falla
+muito, e falla bem.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Então, decide-se o casamento?</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Está decidido, e hade ser já.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Falle a Joanninha.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Logo, em ella voltando para casa, hade decidir-se o negocio.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>E ella é quem o hade decidir?</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Não, heide ser eu. Está decidido, e eu logo não faço senão mandar. (<em>Com
+violencia.</em>)</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Mandar, sem soffrer observações.<span class="pagenum">{D1. Pg. 35}</span></p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Como um pai a uma filha desobediente.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Bom, bom! Logo venho pelo resultado. (<em>Sae.</em>)</p>
+
+<h3>SCENA II</h3>
+
+<h4>ANTONIO PRUDENTE <em>só</em></h4>
+
+<p>É preciso ser severo. Acabou-se; o que custa são as primeiras palavras,
+depois as outras vêem por si. É para bem da minha Joanninha; que hade, quando
+for velha, gostar de ser dona de uma boa propriedade, com terras de pão, vinha
+e pomar. O Joze Velhaco é um rapaz de cabeça, como se quer. Hade fazer-se
+commendador, e tudo mais que elle diz. Fallam por ahi mal do Joze; mas não teem
+razão: elle tem-me provado que de tudo está innocente. O padre Vigario tambem
+não é amigo delle... mas não tem razão, não tem. Querem pôr ao pobre do meu
+genro as culpas, do que succede nesta terra. (<em>Ouve-se a voz de Joanninha
+cantando</em>). Ahi vem ella, a minha filha. Animo, Antonio Prudente. Vamos;
+deves-te fazer respeitar e obedecer por tua filha.</p>
+
+<h3>SCENA III</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>O mesmo e Joanninha</em></p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Vens muito alegre, Joanninha.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Eu, pae!<span class="pagenum">{D1. Pg. 36}</span></p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Vinhas a trovar, como se estivesses na festa do Monte.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Á Senhora do Monte vinha trovando. Mas é a tristeza e não a alegria que me
+faz cantar.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>(<em>Perdendo um pouco a severidade.</em>) E diziam as trovas...</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<blockquote>
+Senhora do Monte<br>
+Trazei-me o meu bem,<br>
+Com tristezas destas<br>
+Não pode ninguem.<br>
+<br>
+Senhora do Monte<br>
+Trazei-mo depressa,<br>
+Fazei que o meu noivo<br>
+De mim não se esqueça.<br>
+<br>
+Sem elle, alegria<br>
+E paz eu perdi,<br>
+Senhora do Monte<br>
+Trazei-m'o aqui.<br>
+</blockquote>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Pois fez-te a vontade a Senhora do Monte. Perto tens o teu noivo.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>(<em>Com alegria.</em>) Elle! Pois chegou?</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Ha muito que chegou, e ha muito que te deseja para mulher.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Ai! Pae, ainda me torna a fallar nesse Joze, que é a praga desta
+freguezia?<span class="pagenum">{D1. Pg. 37}</span></p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>(<em>Colerico.</em>) Torno a fallar-te no Joze, mas é pela ultima vez. Quero
+que cases com elle; e não consinto que me digas que não. Hasde obedecer a teu
+pae.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>N'isso, não.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Joanna, eu não quero ouvir dizer que não, quando eu mando.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Esse homem anda enganando gente, para a vender aos inglezes. Assim diz o sr.
+padre Vigario, e todos...</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>É mentira o que dizem delle. Em sendo teu marido, todos se callam logo. O
+meu nome, o nome de Antonio Prudente, é um nome honrado; e ninguem é capaz de
+pensar mal do homem, que fôr marido de minha filha.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Meu querido pae, escute-me. Nunca deixou de me fazer a vontade em tudo, e
+agora...</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Muito mal fiz, e muito me arrependo. O mimo é que te perdeu.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Se eu tivesse mãe, a ella me havia de queixar...</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Tua mãe, Deos a tenha em gloria, nunca me desobedeceu. Sabia melhor o que
+uma mulher deve a seu marido, do que tu sabes o que uma filha deve a seu
+pae.<span class="pagenum">{D1. Pg. 38}</span></p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Antes morrer, antes deitar-me ahi ao mar, do que eu casar-me com tal
+homem.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Joanna, não me obrigues a tratar-te como mereces. Eu bem sei quem te anda
+mettendo essas doidices na cabeça, é a velha Maria das Dores. É como me paga os
+beneficios que lhe tenho feito. Mas á velha ponho-a na rua, e a ti levo-te á
+igreja por força para te casares. É demais, é demais isto, Joanna.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Pae, pelo amor de Deos não me perca.... (<em>Cae de joelhos.</em>)</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>As raparigas não sabem o que querem. Eu para ti ganhei toda essa terra, que
+ahi está ao pé da nossa casa; quero juntar-lhe tudo o que vai d'aqui até ao
+paçal do Vigario. Isto só se póde conseguir casando tu com o Joze Velhaco.
+Fica, um morgado, mesmo! Quero-te rica, Joanna; quando tiveres filhos hasde
+abençoar-me por te ter obrigado a fazer este casamento. Choras agora; depois
+hasde rir.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Pae, não me desgrace.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>O casamento hade fazer-se. Já dei a minha palavra, e basta. É callar e
+obedecer. (<em>Sae commovido, e escondendo as lagrimas.</em>)</p>
+
+<h3>SCENA IV</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>Joanninha, depois Maria das Dores</em></p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Pae!... pae!... Elle não me dá ouvidos, e eu<span class="pagenum">{D1. Pg.
+39}</span> morro aqui de pura dor... que me trespassa o coração... Santo nome de
+Jesus, valei-me.</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>(<em>Entrando.</em>) Joanninha, teu pae saiu agora mesmo daqui zangado,
+perdido de cabeça. Nem sequer me viu! Que tem elle? Que succedeu, que te vejo
+toda chorosa?</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Estou perdida, tia Maria das Dores... Meu pae já me não parece o mesmo,
+Aquelle Joze Velhaco embruxou-o.</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Tornou-te a fallar no casamento?</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Quer meu pae, que o casamento se faça já, sem mais tardar. E nem as minhas
+lagrimas lhe fizeram abalo. Ralhou comigo, e disse-me que elle mandava e não
+queria ser desobedecido.</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Se não fosse com o Joze, dizia-te Joanninha que o remedio era callar, e
+obedecer. És boa filha, e o Antonio é teu pae. Mas com semelhante homem, com um
+homem mau, infame, não te podes casar.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Mas que se hade fazer?</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Não sei, não sei, mas irei fallar ao sr. Vigario... Elle desconfia do Joze
+Velhaco, fallará a teu pai, e talvez o convença. Só o Antonio é quem na
+freguezia anda illudido com tal homem: Deus lhe perdoe o mal que me tem feito,
+e as lagrimas que me fez chorar. Ai, o meu Luiz, o meu Luiz... se ainda será
+vivo?<span class="pagenum">{D1. Pg. 40}</span></p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>E sem noticias delle!... ha um anno que se foi!</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Nem carta, nem noticias! Se morreria o meu querido filho? Tenho ido umas
+poucas de vezes ao correio do Funchal, e dizem-me sempre que não ha cartas,
+isto quer dizer muito. Devemos estar preparadas para uma grande dor, minha
+Joanninha.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Ai, não diga tal.</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Porque o não heide dizer, se o sinto, se o coração m'o diz... se parece que
+me diz que elle morreu.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Se o Luiz morreu, que hei de eu fazer? Elle era o meu noivo; por elle
+prometti esperar. Se elle não voltar, fico toda a vida solteira.</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Solteira... não pode ser, seria dar um grande desgosto a teu pae, e
+condemnares-te a ti a uma triste solidão. Uma mulher sem filhos anda como
+desamparada neste mundo, é como uma arvore sem fructos nem flores. Nós as
+mulheres viemos a este mundo para cuidar das criancinhas, para depois, quando
+somos velhas, como eu sou, sermos cuidadas e queridas pelos filhos que criámos.
+E eu já não tenho filho! Morreu o meu Luiz. E Deos ainda me não chamou para
+si!</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Agora, que nem me atrevo já a ter esperança de o tornar a ver, sinto que
+mais lhe quero do que nunca. Para chorar por elle posso viver; mas para mulher
+de outro não.<span class="pagenum">{D1. Pg. 41}</span></p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Joanninha, escuta. Ninguem quer mais do que eu ao meu Luiz; sei que elle te
+amava, e que em seres sua esposa estava toda a sua esperança, mas... se morreu,
+de que serve desobedeceres a teu pae... Basta que eu soffra... e tu, filha. Que
+não seja desassocegado no fim da vida o bom Antonio Prudente, do qual não houve
+nunca rasão de queixa.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Então quer que eu case com o Joze Velhaco!</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Com esse não. Mas com outro...</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>E se Luiz não morreu?</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Que esperança podemos ter? Ha um anno que se foi.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Casar-me eu, tia Maria das Dores, e vel-o depois desembarcar ahi! Com que
+cara lhe havia de apparecer?... e que olhos havia de pôr em meu marido! E
+depois, com o Joze Velhaco me quer meu pae casar; e com elle só morta me
+levarão á igreja.</p>
+
+<h3>SCENA V</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>As mesmas e Joze Velhaco.</em></p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>É essa a sua ultima resolução, menina Joanninha?&mdash;(<em>As duas mulheres dão
+um grito de terror.</em>) Não se assustem, não tenham medo, não sou nenhum
+diabo.</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Bem o parece!<span class="pagenum">{D1. Pg. 42}</span></p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Foi vmc. Maria das Dores, quem ensinou ésta rapariga a desobedecer a seu
+pai? Um dia a justiça hade castigar as bruxas velhas, que andam nesta ilha a
+perder as raparigas honestas.</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Cal-te... Deos me perdoe! Cal-te!..</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Pelos seus peccados a castigou Deos. O filho que tinha deixou-a, e lá morreu
+por Demerara, sem se lembrar de sua mãe.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Morreu...</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Sei que morreu; mas pouco importa. Não se perdeu coisa boa.</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Dizer assim mal do meu Luiz... que elle matou! Se Deos me desse forças!...
+</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Matava-me!? Ah! ah! que santa alma a desta velha! E anda semelhante mulher
+sempre a resmungar orações, de pela manhã até á noite! São pragas que ella nos
+roga, a bruxa!</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Sr. Joze o que se atreve a dizer? Não sabe que a tia Maria das Dores é a
+minha segunda mãe?... que todos cá na freguezia a respeitam?</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Sei que, por causa das calumnias, e dos falsos testemunhos que me levantou,
+não me quer a menina Joanninha por marido, e paga com ingratidões o grande amor
+que lhe eu tenho.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Amor que mette medo! É homem de ruim<span class="pagenum">{D1. Pg.
+43}</span> alma sr. Joze... de ruim alma, e má consciencia!</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Joanninha! (<em>Querendo pegar-lhe na mão.</em>) Não se deixe enganar pelas
+mentiras que dizem por ahi de mim... Sempre fui bom rapaz... todos o sabem. Se
+a minha riqueza mette inveja aos outros, que culpa tenho eu?</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Não faz inveja, faz horror, essa riqueza ganha a vender aos inglezes os
+pobres da Madeira.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Calle-se, mulher; senão!..</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Ameaças agora!</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Joanninha, não demos ouvidos a esta doida. Fallemos serio do que nos
+importa. Seu pae, Joanninha, quer o nosso casamento; e tem por calumnias quanto
+por ahi se diz de mim. Elle sabe que sou capaz de a fazer feliz.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Só atada de mãos e pés irei á igreja, mas lá heide dizer que não... quando
+me deem por marido um homem que aborreço.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Joanna, veja o que diz! Seu pae pode obrigal-a...</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Matar-me é que elle pode.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Prende-a uma promessa, bem sei, Joanninha. (<em>Brandamente.</em>) Fica-lhe
+bem a firmeza: comigo tambem a terá. Mas de que serve teimar nesse amor a um
+homem, que já morreu?<span class="pagenum">{D1. Pg. 44}</span></p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Não, não morreu. Não vé que me afflige... que trespassa aquella pobre mãe,
+dizendo isso?</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Não accredito no que elle diz, é mau homem... mente!</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Hade ter castigo tanto atrevimento! Insultar com injurias, desacreditar com
+aleives, um cidadão honrado, que tem de seu, que vive com os morgados maiores
+da Madeira!</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Todos te despresam!</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>(<em>Levantando a mão com colera.</em>) É de mais. Se te não callas...</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Que faz Joze? Que se atreve a fazer?</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Nada... por agora.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>(<em>Pegando nas mãos de Maria das Dores.</em>) Venha, Maria das Dores,
+venha minha boa, minha santa mãe!... Vamo-nos desta casa, que não pode ser, que
+não é a nossa, em quanto semelhante homem aqui estiver.</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Fizeste-me perder o meu filho; foste que m'o tiraste dos braços para o
+mandar como escravo a Demerara! O meu Luiz morreu... perdi o meu filho, e eu
+d'aqui a dias irei ter com elle. É de lá da cova, escuta bem Joze! é da cova,
+que ambos te amaldiçoamos, para que a tua alma não tenha socego, nem o teu
+corpo descanço, em quanto vivo fores; para que, depois<span
+class="pagenum">{D1. Pg. 45}</span> da morte, a justiça de Deos te lance nos
+infernos. (<em>Sáem as duas.</em>)</p>
+
+<h3>SCENA VI</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>Joze, só</em></p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Está doida, doida varrida a velha. E eu que ia perdendo a cabeça; como se um
+homem de juizo, e conhecedor do mundo, podesse perder a cabeça nestas alturas!
+Santa palavra! Um homem sempre é um homem, e não faz caso de rabugices de
+bruxas tontas. O que necessito, e vou fazer, é gastar umas poucas de patacas, e
+mettel-a no hospital por doida. Logo vi que da mão de Maria das Dores não vinha
+cousa boa! Tenho de gastar o dinheiro que o filho me rendeu, para agora alojar
+a mãe no hospital, ou na cadeia. Vamos fazer calar esta matraca, que me anda
+sempre a matinar os ouvidos. O que importa, em tudo isto, é que a Joanninha
+consinta no casamento. Gosto della, e gosto muito, e nunca pensei que tal
+podesse acontecer-me!. (<em>Rindo.</em>) Ah! ah! a não ser o bom pedaço de
+terra, que tem o pae, não eras tu meu Joze Velhaco capaz de intender o
+desasocego, em que anda o teu coração! A idéa de tirar do correio todas as
+cartas, que o Luiz escreveu á mãe e á Joanninha, foi famosa! Estão crentes, que
+elle morreu, e a esta hora talvez não estejam enganadas! Graças a Deus morre-se
+depressa em Demerara, quando se trabalha no campo, ao sól, e com o estomago
+vazio; e o Luiz não o havia de traser cheio. Ésta minha cabeça é uma<span
+class="pagenum">{D1. Pg. 46}</span> grande cabeça, e eu ainda heide de ser
+coiza grande no mundo! Meu pae mandou-me aprender a lêr e a escrever;
+aproveitarei a boa lembrança de quem já lá está na terra da verdade. Joanninha
+hade ser minha, ou não heide chamar-me Joze... Velhaco. Santa palavra!</p>
+
+<h3>SCENA VII.</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>Joze Velhaco e Joaquim.</em></p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>(<em>Batendo á porta.</em>) Ólá, menina Joanninha!</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Não está cá a menina, saiu.</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Ah! está ahi vmc. sr. Joze? Eu vinha procurar a Maria das Dores. Tambem não
+está aqui?</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Esteve, mas foi-se. E que lhe queria você á Maria das Dores?</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Trazia-lhe um recado de meu amo.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Do sr. Vigario?</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Sim senhor, lá do sr. Vigario é que o recado é: o sr. Vigario quer fallar á
+velha.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Para que?</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Isso não sei eu. Para coiza grande é, porque me disse meu amo que viesse
+correndo.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>(<em>Á parte.</em>) Que será? O Vigario em tudo se mette.<span
+class="pagenum">{D1. Pg. 47}</span></p>
+
+<p>(<em>Alto.</em>) Então não sabe o que o nosso Vigario quer á Maria das
+Dores? Em! Joaquim?</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Olhe vmc.; eu, verdade, verdade, não sei o que elle tem que lhe dizer; mas
+parece-me...</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>O que?</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>A velha foi outro dia fallar com o sr. Vigario, e esteve mais de uma hora só
+com elle.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>O que disseram?</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Não sei. Pois se elles estiveram sós, como havia de saber o que disseram?
+Minha mulher, que é curiosa deveras, lá descobrio que ella quer entrar para o
+azylo dos pobres, no Funchal; e por isso meu amo lhe fallou o outro dia á
+triste da velha, e agora lhe quer fallar outra vez.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Hade ser, hade ser isso. (<em>Á parte.</em>) Fico mais alliviado; já não
+precizo gastar o dinheiro em metter a Maria das Dores no hospital, por doida.
+(<em>Alto.</em>) Ora, Sr. Joaquim, ja pensou n'aquelle negocio, em que outro
+dia lhe fallei? Está disposto a ir fazer fortuna?</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Estou velho para tentar fortuna, sr. Joze. Tenho 40 annos feitos.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Parece um rapaz de 20, o nosso Joaquim! E depois tem um filho que d'aqui a
+dois dias está um homemzinho, que o póde ajudar.<span class="pagenum">{D1. Pg.
+48}</span></p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>O rapaz não levo eu para Demerara. A mim posso-me arriscar, mas a elle...
+</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Olhe sr. Joaquim, que não ha perigo. Tenho vontade de o fazer feliz... tenho
+confiança em você.... conheceu-me de pequeno, e tenho-lhe amizade. Não sei se é
+homem de segredo, sr. Joaquim.</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Pode fiar-se. Segredo, que oiço, é como se caisse ao mar, ninguem o sabe.
+Para amigos sou um homem como se quer. Sim: lá nisso é fallarem-me, e prompto;
+aqui está o Joaquim ás ordens.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Se apparecesse agora um homem, que quizesse fazer-se rico em pouco tempo,
+sem trabalho, havia occasião.</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Eu quero; oh! se quero.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Pois toque, Joaquim; mas jure guardar segredo sobre o que vou dizer.</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Está promettido.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>O que vou dizer-lhe é de amigo. Preciza-se de um homem.... você é de
+segredo? Em?</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Oh! homem, não me conhece ainda?</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Veja la. Se este segredo se souber, só você o pode ter contado; e ha gente
+de muitas posses, que o quer bem guardado. (<em>Com um gesto de<span
+class="pagenum">{D1. Pg. 49}</span> ameaça.</em>) Sempre se póde fazer callar
+um homem.</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Bem o intendo. Póde fallar sr. Joze. Não é o medo que me tapa a bocca.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>(<em>Assustado.</em>) Então?...</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>(<em>Rindo.</em>) É... é a amizade, que lhe tenho...</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Como ia dizendo: preciza-se de uma pessoa que vá a Demerara, homem de bom
+nome, e de influencia por estas freguezias. Você está no caso. Caseiro do sr.
+Vigario, e bem quisto por elle.... é quanto basta.</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>O meu nome, o nome do Joaquim do Vigario, é bem conhecido, ninguem tem que
+lhe dizer.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Pois ahi está; é isso mesmo.</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Então querem que vá a Demerara?</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Justo. Ir; estar lá um anno a comer e a beber á regalada, e voltar rico.</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>(<em>Rindo.</em>) Ah! ah! ah! Rico! E como?</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Comendo, já lho disse. Comendo, dormindo e engordando.</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Eh! eh! eh! Não me parece feia a historia! Está a mangar commigo sr. Joze?
+Em!<span class="pagenum">{D1. Pg. 50}</span></p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Mangar, com o meu amigo Joaquim?! Isso é que não.</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Eu cá intendo que se dê de comer a um porco, para depois o matar, mas a um
+homem.... Em Demerara comem gente?</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>(<em>Rindo.</em>) Está doido... Sr. Joaquim. Aquillo é a melhor terra deste
+mundo.</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Que querem elles então?</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Que volte para a Madeira, com dinheiro e saude, e diga depois, como eu, que
+Demerara é um céo aberto; que lá se enriquece á grande, e que um homem váe, e
+volta rico sem lhe custar nada.</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>E isso é assim para todos?</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Não homem; para os felizes como nós. Pois este mundo fez-se para os felizes?
+Santa palavra!</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>(<em>Rindo muito.</em>) Agora... agora percebo&mdash;Ah! ah!... É boa! É como quem
+diz um chamariz; querem fazer de mim um chamariz?</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Ainda bem que nos intendemos. Vai então para Demerara?</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Para quando a partida?</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>No primeiro navio.<span class="pagenum">{D1. Pg. 51}</span></p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Pois amanhã lhe dou a resposta.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Mas o segredo?...</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Está dito.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Quer dormir sobre o cazo para depois se decidir?</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>É como diz. Este costume ficou-me de pequeno, dormir sobre todos os cazos, e
+em todos os cazos. Agora vou ao recado do sr. meu amo, vou procurar a tia Maria
+das Dores.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Vá, vá. E se poder saber o que o sr. vigario lhe quer, venha-mo contar.</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Pois sim. Adeus, amigo Joze Velhaco.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Adeus. (<em>Joaquim sáe.</em>)</p>
+
+<h3>SCENA VIII</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>Joze, depois Antonio Prudente</em></p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Este é dos nossos. Meu de certo é; porque me hade render bom par de patacas.
+E digam que sou mau! Acabo de fazer a fortuna deste excellente pai de
+familia!&mdash;Ahi vem Antonio Prudente. Vamos resolvel-o por uma vez a governar a
+sua casa! (<em>A Antonio que entra.</em>) Ora já sei, sr. Antonio, que a sua
+Joanninha lhe não quer obedecer.<span class="pagenum">{D1. Pg. 52}</span></p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Hade obedecer, que lho digo eu. Por tal vergonha não hade passar Antonio
+Prudente.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Encontrei-a com a velha, aqui. Disseram-me injurias, insultaram-me. A Maria
+das Dores repetiu-me uma duzia de vezes&mdash;ouvi-lho com estes
+ouvidos&mdash;repetiu-me, que Joanninha não casaria commigo; que o pae de Joanninha
+era um tolo&mdash;perdão sr. Antonio, eu não faço senão repetir&mdash;que era um tolo, um
+baboso, e que havia de fazer o que ellas quizessem.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Pois a velha disse isso?... diante de minha filha? Bem razão tinha, Joze, em
+me aconselhar que a puzesse na rua, á excommungada bruxa! Onde está a Maria das
+Dores, onde está minha filha?</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Sairam ambas, depois de me carregarem de injurias.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Um tolo, um baboso, eu! Ou a Joanninha deixa de ser minha filha, ou o
+casamento hade fazer-se já. E para a rua a velha, que nem mais uma vez me porá
+os pés em casa.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Nada de violencias, sr. Antonio. Com geito é que as coisas se levam. Com sua
+filha rigor, mas violencia, não. E com a velha nada de injurias... o Vigario
+protege-a.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>E que me importa a mim o Vigario? Não preciso de ninguem.<span
+class="pagenum">{D1. Pg. 53}</span></p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Isso faz-lhe honra, sr. Antonio, mas sempre é bom ser <em>prudente.</em></p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Hade fallar-se de mim na freguezia. Os paes hão de aprender a castigar as
+filhas desobedientes.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Ahi vem ellas, sua filha e a Maria das Dores. Vou-me; porque, se aqui me
+veem, não entram.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Deixe-as commigo.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Tenha moderação... paciencia!</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Deixe-as commigo, já lho disse. (<em>Joze sae.</em>)</p>
+
+<h3>SCENA IX</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>Antonio Prudente, Maria das Dores e
+Joanninha</em></p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Tolo e baboso! chamaram-me assim, minha filha, e a Maria das Dores, que me
+deve tanto! Agora veremos se eu sou homem com quem se brinque. (<em>Ás duas que
+entram.</em>) Venham ambas que temos que fallar.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>(<em>Assustada.</em>) Que quer, pae?</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>A ti? já o sabes. Domingo casas, sem falta.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Pae... antes morrer.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Ou casas, ou ponho-te fóra, para nunca mais<span class="pagenum">{D1. Pg.
+54}</span> saber de ti. Disseste mal de mim, chamaste nomes injuriosos a teu
+pai!... És má filha, e só te perdôo se me obedeceres.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Eu! nunca lhe faltei ao respeito, pai!</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>E não chama ella faltar ao respeito desobedecer-me e chamar-me... tolo.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Eu... É falso, é uma falsidade infame.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Calla-te.</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Não trate assim sua filha, Antonio. A pobre rapariga, se tem culpa, é de
+chorar.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Ainda se atreve, Maria das Dores, a entrar nesta casa, e a fallar-me de
+Joanninha! Se ella é desobediente, e má filha, se diz mal de seu pae, quem a
+ensinou foi você, mulher.</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Que diz, Antonio?</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Foi quem ensinou Joanninha a faltar aos seus deveres; porque dantes era boa
+e docil. Mas isto hade acabar, e já. Nunca mais volte a minha casa, nunca mais
+falle com minha filha...</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Põe-me fóra da sua casa? A mim, que lhe criei sua filha?..</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>É indigna de vir aqui. Anda perdendo as raparigas com maus conselhos.<span
+class="pagenum">{D1. Pg. 55}</span></p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>(<em>Chorando.</em>) Perdôo-lhe essas injurias, porque sei quem lhas
+ensinou.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Pois julga que Antonio Prudente?...</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Penso que é bom e justo, e que a preversidade de um malvado, que o enganou,
+o traz assim mudado.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Não quero que em minha casa se diga mal de quem hade ser meu genro. Ponha-se
+fora mulher. Na rua já!</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Vou-me embora. Nossa Senhora guarde a pobre Joanninha, e abra os olhos a
+este homem. (<em>Maria das Dores vai para sair, quando apparece á porta de
+fundo o Vigario.</em>)</p>
+
+<h3>SCENA X</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>Os mesmos e o Vigario</em></p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>(<em>Detendo Maria das Dores.</em>) Antonio Prudente, que palavras são
+essas; porque o vejo com tanta colera? Porque põe fóra de casa Maria das
+Dores?</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Anda desinquietando minha filha.</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Desinquietando sua filha!..</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Foi ella que desvairou Joanninha, que de pequena foi sempre temente a Deos e
+obediente a seu<span class="pagenum">{D1. Pg. 56}</span> pae, e lhe ensinou o
+atrevimento, e a desobediencia!</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Isso é engano, de certo. Anda um crime nisto. Antonio, o seu nome foi sempre
+respeitado; todos até hoje o têem estimado; porque é homem de bem, caridozo e
+justo. Mas, em se sabendo que pôz fóra de casa a mulher que criou sua filha, em
+se sabendo que maltractou uma triste viuva, uma desgraçada, velha, doente,
+quebrada pela dor, e opprimida pela mizeria, todos hão de pensar que era falso
+o conceito, que formavam a seu respeito.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Sr. Vigario, essas palavras são injurias.</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Não faço injurias, digo verdades.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Mas não sabe...</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Sei que Maria das Dores sempre foi verdadeira, e que tem soffrido a desgraça
+com a paciencia de uma santa. Maria das Dores, diga-nos a verdade, em
+consciencia fez a este homem a offensa de que elle se queixa?</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>(<em>Suffocada pelas lagrimas.</em>) Não. Pela vida de meu filho, se elle
+vive... pela sua alma, se Deos o chamou, juro que não.</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Ouvio, Antonio? Um homem, a quem os annos fizeram brancos os cabellos, a
+quem os trabalhos da vida ennobreceram o coração, acaba de se deshonrar,
+pizando aos pés o que ha de mais sagrado no mundo: uma mãe desventurada.<span
+class="pagenum">{D1. Pg. 57}</span></p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Sr. eu... pensei... acreditei...</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Acreditou uma calumnia. Neste mundo não basta ser passivamente honrado,
+Antonio; a virtude era facil assim. É preciso resistir tambem ás seducções dos
+maus, ter força para fazer justiça a todos, e não obedecer ás paixões, que
+sempre, em todas as idades, se levantam no coração, e cegam o espirito.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Mas minha filha recusa obedecer-me.</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Porque offendeste teu pae, Joanninha?</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Eu em tudo estou prompta a obedecer a meu pae; mas...</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Mas o que?</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Casar-me com o Joze Velhaco, isso não. Antes morrer.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Bem vê, sr. Vigario...</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Vejo que Joanninha é boa filha, e que quer salvar seu pae da deshonra...
+Recuza casar-se, porque o casamento é impossivel. Uma santa rapariga não póde
+unir-se a um homem depravado: n'uma familia honesta, como a de Antonio
+Prudente, não póde entrar um mizeravel que todos desprezam.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>O que diz?<span class="pagenum">{D1. Pg. 58}</span></p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>O que o coração lhe teria dito, se o desejo louco de juntar ás suas fazendas
+mais um pedaço de terra o não cegasse!</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Nossa Senhora o abençoe pelas verdades que está dizendo!</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>(<em>Com hesitação.</em>) Prometti minha filha ao Joze Velhaco, e a palavra
+de Antonio Prudente é sagrada.</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Deve ser sagrada quando a der a um homem de bem, e quando cumpril-a não for
+sacrificar sua filha.</p>
+
+<p>Antonio, escute-me. Ha no Funchal um pobre pescador, com duas filhas que
+sustenta, e são a sua alegria, a sua força, a benção da sua caza. Esse homem
+saiu uma destas noites passadas, para ir pescar; e quando voltou de madrugada
+achou as portas abertas, e tudo deserto.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>O que aconteceu?</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Suas filhas tinham sido furtadas. Imagine, Antonio Prudente, a dôr d'aquelle
+pae!</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>(<em>Como arrastado por uma força invizivel.</em>) Ai, se a mim me roubassem
+a minha filha!... acabava de magoa: mas depois de matar com estas mãos quem m'a
+tivesse roubado.</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>É pae, Antonio, ainda é pae! Bem se vê.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>O que fez o pescador?<span class="pagenum">{D1. Pg. 59}</span></p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Lembrou-se de que se negocia na Madeira em escravatura branca; lembrou-se,
+foi Deos que o inspirou! de que ha na terra homens infames que enganam seus
+irmãos. Como o pescador sabia, que mais de uma vez os que tem ido a bordo dos
+navios de emigrados, despedir-se dos parentes, ficaram lá contra vontade, e
+foram para Demerara, occorreu-lhe que miseraveis, que praticam horrores
+d'estes, eram tambem capazes de usar de violencia, e de augmentarem assim o
+numero das suas victimas. Lembrou-se de tudo isto, e foi ter com um desses
+homens.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>E matou-o?</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Não. Disse-lhe estas palavras. «Ou minhas filhas hãode hoje mesmo voltar
+para casa, ou amanhã apparecerás assassinado.»</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>E então?</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Horas depois o pobre pae apertava ao coração as duas filhas.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>E quem foi que as roubou?</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Dinheiro, espalhado com mãos largas pelos ricos traficantes de escravos
+brancos, esconde o nome desse homem, mas falla-se...</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>De quem?</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Do Joze Velhaco.<span class="pagenum">{D1. Pg. 60}</span></p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Elle!</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Todos fallam. Já vê, Antonio Prudente, que não póde querer para marido de
+sua filha um homem perdido de reputação.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Não... sem elle se justificar.</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Sei que é o desejo de fazer sua filha rica e feliz o que o allucina; mas,
+ainda assim, desconheço-o. N'outro tempo, a sua probidade não lhe consentia
+pensar mais um instante em tal casamento, depois de saber o que se diz por ahi
+do Joze Velhaco. Escute o seu coração, e a sua consciencia, Antonio, e verá,
+como eu vejo, que o casamento é impossivel.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Sr. Vigario... talvez tenha razão: mas, com perdão de v. s.ª sou pae, e um
+pae sabe melhor do que ninguem o que convem a sua filha. Não posso faltar á
+minha palavra, sem saber se o que se diz é mentira ou verdade.</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Nem mais um conselho lhe dou, Antonio, de hoje em diante. Faça o que quizer.
+Sacrifique sua filha, e deshonre-se. (<em>Vae para sair.</em>)</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Pae, escute o sr. Vigario.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>(<em>Commovido.</em>) Não me faça a offensa, sr. Vigario, de me tirar a sua
+amizade. Era um desdoiro para a minha vida, uma dôr d'alma, e uma deshonra para
+estes cabellos brancos. Pelo amor de Deos, perdoe-me!<span class="pagenum">{D1.
+Pg. 61}</span></p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Não quero senão o seu bem; e peza-me que me não escute.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Se permitte, não me dou ainda por desligado. Vou ter com o Joze Velhaco, e
+se não se justificar, se não provar que está innocente, ficará o dito por não
+dito, e não torna a entrar n'esta casa. Mas antes de o condemnar é preciso
+ouvil-o.</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Mas tambem se devem escutar as queixas, e os prantos de uma filha, antes de
+a condemnar por toda a vida. Emfim, Antonio, confio tudo da sua probidade, e do
+muito amor que tem á nossa Joanninha. (<em>Com brandura.</em>) Bem sabe que a
+vi crescer, que lhe ensinei a ler e a escrever, que lhe dei uma educação como
+no Funchal não se dá ás filhas dos morgados; custava-me vel-a casada com um
+homem, incapaz de a fazer feliz.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Vou já ter com elle, se o sr. Vigario dá licença.</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Vá depressa.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>V. S.ª perdoa-me alguma má palavra?...</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Não tenho que perdoar, e já esqueci tudo; excepto que Antonio Prudente é
+homem honrado, e hade mostrar-se bom pae.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>(<em>Beijando a mão do Vigario.</em>) Agradecido, agradecido.
+(<em>Sae.</em>)<span class="pagenum">{D1. Pg. 62}</span></p>
+
+<h3>SCENA XI</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>Os mesmos, menos Antonio Prudente</em></p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Joanninha, parece-me que pódes socegar. Este casamento não se faz.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Não me atrevo a ter esperança. Meu pae anda infeitiçado. E depois, nem já
+sei senão chorar noite e dia, chorar até morrer.</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Deixa estar, Joanninha: as lagrimas dos innocentes quasi sempre a mão de um
+amigo as enchuga. (<em>Brincando.</em>) Eu sei, minha menina chorosa, que essa
+mão benefica não hade tardar muito aqui.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Ninguem pode consolar-me.</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Ahi está Maria das Dores, que bem velha é, e que ainda assim não hade ter
+sempre os olhos arrazados de lagrimas, como agora.</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Não, sr. Vigario, porque debaixo do chão não se chora.</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Nem tambem cá por cima, quando se é feliz.</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Feliz, eu?! Sem o meu filho?!</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Quem lhe disse isso, Maria das Dores?</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Quem? Joze Velhaco, o proprio malvado que o matou, o meu Luiz.<span
+class="pagenum">{D1. Pg. 63}</span></p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Esse infame... Maria das Dores, tenha animo para ouvir o que vou dizer.</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Tenho animo... Bem vê que resisti quando me disseram... que era morto o meu
+Luiz.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Ah! diga!</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Joze Velhaco mentio.</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>(<em>Desfallecendo.</em>) Nossa Senhora me leve nesta hora... para acabar na
+alegria!</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>(<em>Pulando.</em>) Vivo!... vivo... o Luiz! Onde está!</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Maria das Dores, o que é isso? A alegria custa menos a supportar do que a
+dôr.</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Deixe-me perceber... Estas mudanças custam... o coração lucta com a duvida.
+Elle não morreu?</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Não.</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Mas está ainda longe?</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Em Demerara?</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Teve noticia?</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Quando chega!</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Talvez a esta hora já não viva!</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>É preciso mandal-o buscar.<span class="pagenum">{D1. Pg. 64}</span></p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>(<em>Enternecido.</em>) Soceguem. Já está em caminho.</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Ha quantos dias?</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Virá d'aqui a tres?</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Amanhã?</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Mais breve.</p>
+
+<h3>AMBAS</h3>
+
+<p>Hoje!?</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Chegou. (<em>As duas mulheres abraçam-se.</em>)</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Que alegria, filha!</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Jesus!</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>Eu... morro, porque não posso...</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Onde está?</p>
+
+<h4>MARIA</h4>
+
+<p>O meu filho? (<em>Luiz entra precepitadamente.</em>)</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Está aqui.</p>
+
+<h3>AMBAS</h3>
+
+<p>Luiz!</p>
+
+<p style="text-align:center;"><em>Cae o panno.</em></p>
+
+<p style="text-align:center;"><strong>FIM DO 2.º ACTO</strong><span
+class="pagenum">{D1. Pg. 65}</span></p>
+
+<h2>ACTO TERCEIRO</h2>
+
+<p style="text-align:center;"><em>A caza de Antonio Prudente, como no segundo
+acto. É noite; um candieiro de tres bicos alumia bem a caza</em></p>
+
+<h3>SCENA I</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>Joze Velhaco e Joaquim</em></p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>É negocio concluido. (<em>Mostrando um papel que tem na mão.</em>) Esta
+obrigação que você assignou... é o principio da sua fortuna.</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Deos queira! Sr. Joze, vm. não sabe como lhe heide pagar a boa vontade! Esse
+papel é uma obrigação que lhe faço; por ella me sujeito a servil-o, ou a quem
+vm. mandar, aqui ou em Demerara, até pagar a divida de quarenta patacas, que
+recebi...</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>A obrigação está em regra, e é justo. Trabalho em troca de dinheiro; assim
+se faz em toda a parte.</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Isso é o que vm. diz, sr. Joze, mas quem sabe o que será? E a fallar a
+verdade, trabalhar por trabalhar, antes na terra, que eu conheço, do que em
+outra que nem de portuguezes é.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Pois eu falto ao que prometto, homem?</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Bem sei que vm. é... um amigo como se quer. (<em>Rindo-se.</em>)</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Ri-se, Joaquim?<span class="pagenum">{D1. Pg. 66}</span></p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Estava-me lembrando do Luiz do Campanario, e dos outros que o sr. Joze foi
+mandando para Demerara, e que ficaram por lá. Ah! ah! ah!</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>(<em>Á parte.</em>) O maldito Luiz não ficou! (<em>Alto.</em>) Com esses não
+ajustei senão, que haviam de achar trabalho em Demerara... e não lhe tem
+faltado. Assegurei-lhe que lá se ganha dinheiro, o que é verdade, quando se
+ganha.</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>(<em>Rindo muito.</em>) Ora o sr. Joze tem graça! Mas de mim, de mim é que
+eu não quero que ninguem se ria. Palavras leva-as o vento.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Então o que quer, Joaquim?</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>O preto no branco, e nada mais. Uma obrigação, como a que lhe fiz, em que
+vmc. se obrigue a dar me o officio... o officio de... ah! ah! ah!</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>De <em>aliciador</em>! Diga homem, não se engasgue com palavras, que
+escorregam bem.</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Pois como fôr da vontade de vmc. A obrigação escripta pela sua mão é que eu
+quero; e sem ella não vou da Madeira!</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Forte parvoice! A minha palavra vale-lhe de mais, em Demerara, do que um
+papel escripto.</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Cá a palavra do sr. Joze vale de muito; mas por isso é que eu a quero no
+papel... para durar mais. Sem a obrigação não embarco!<span
+class="pagenum">{D1. Pg. 67}</span></p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Isso agora não esperava eu. Então porque não me disse logo tudo? O ajuste
+era outro.</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Quero o papel porque, depois que esta manhã o larguei, peguei a scismar que
+a gente não deve dar papel em troca de palavras; que ha viver e morrer, e que o
+sr. Joze póde morrer...</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Mas se eu morrer de que serve o papel?</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Os seus amigos não hão de deixar mal a sua palavra honrada.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Mas...</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Vmc. quer ou não quer? O dito, dito.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>(<em>Indo a uma mesa e escrevendo.</em>) Pois vá lá. Escrevo a obrigação.
+</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Assim é que é fallar.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Alto! Espere! Faço-lhe isto, que não estava nos nossos ajustes, porque sei
+que é meu amigo, Joaquim.</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Pois não sou?</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>E aos amigos velhos, faz-se-lhes as vontades.</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>E a obrigação?...</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Já vae; mas fallemos antes d'outro negocio...<span class="pagenum">{D1. Pg.
+68}</span></p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>O que é?</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Já tenho dado provas de que me fio de vm. Joaquim; e quero que se capacite
+ainda mais. Conto com o segredo, e com a sua amizade... sim, com a nossa
+amizade antiga... com o dezejo de sermos uteis um ao outro.</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Então o que quer?</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Você sabe que eu estou para casar com a Joanninha... Boa rapariga, e que
+mostra por mim sua simpathia!... Mas até agora... tem estado... tem posto
+duvida...não deu ainda o <em>sim</em>... O pae dezeja muito o casamento, e com
+brevidade...</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Então se o pae quer, e a rapariga tem... isso que vm. diz...
+<em>sapathia</em>, que mais dezeja o sr. Joze? Case! (<em>Com
+escarneo.</em>)</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>A Joanninha põe suas duvidas. Parece que esteve namorada, em outro tempo de
+um rapaz, e fez-lhe promessa de fidelidade. Agora, apesar do coração a puxar
+para mim, não quer que lhe chamem inconstante.</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>E que remedio posso eu dar a isso?</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>E simples... mas só de um amigo se confia. Esta noite resolvi empregar uma
+violencia... apparente, ja se vê. Antonio Prudente está por tudo. Resolvi
+acabar com as duvidas de Joanninha. Você, Joaquim, se me quizer fazer esse
+favor...<span class="pagenum">{D1. Pg. 69}</span> póde ajudar-me... e eu
+ajuntarei, da minha algibeira, umas vinte patacas, para acudir á sua viagem...
+Se quizer, póde servir-me de muito.</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Mas como?</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Vindo esta noite comigo, quando tudo dormir nesta caza, e mais dois
+marinheiros, gente fiel lá do navio em que hade partir para Demerara, furtar...
+levar d'aqui a Joanninha.</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Ora essa! Pois a gente hade tirar a filha ao sr. Antonio Prudente?</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Não se lhe tira a filha, apressa-se o casamento, como elle dezeja.</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>E se a pequena gritar?</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>A janella costuma ficar cerrada de noite, e a porta do quarto de Joanninha é
+aquella defronte. Entra-se devagarinho; tapa-se-lhe a boca, quando estiver a
+dormir, e depois faz-se tudo como se quer. Ella depois não tem remedio senão
+casar; Antonio Prudente faz o seu gosto, e eu o meu.</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Vm. lá o lê, lá o intende.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Então está prompto?</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Estou, mas venha o papel.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Você faz de mim quanto quer. (<em>Dá-lhe o papel.</em>)<span
+class="pagenum">{D1. Pg. 70}</span> Vá abaixo ao Calháo, e espere por mim. Os
+dois marinheiros lá hãode estar.</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Lá vou. Para servir o sr. Joze Velhaco está um homem sempre disposto.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Bom rapaz. E caluda! As vinte patacas ficam a tinir.</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>O sr Joze sempre é uma grande cabeça. Até logo. (<em>Sae.)</em></p>
+
+<h3>SCENA II</h3>
+
+<h4>JOZE, <em>só</em></h4>
+
+<p>Sou uma grande cabeça, isso sou! Tudo vae ás mil maravilhas, e n'um pulo
+estou mais alto do que esses morgados rabugentos e impertigados da Madeira.
+Viva o sr. Joze Velhaco, que hade ser ainda deputado, commendador... barão... e
+quem sabe o que mais? Com esta cabeça, e com este coração, heide chegar... até
+onde chegam os que são do meu feitio.</p>
+
+<h3>SCENA III</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>Joze Velhaco e Antonio Prudente</em></p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Então meu rico Antonio Prudente o que mais soube contra mim?</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Nada. Fui a caza dos dois negociantes, que me indicou, e ambos fizeram da
+sua pessoa muito boas ausencias. O Carlos Bad, sobretudo, que<span
+class="pagenum">{D1. Pg. 71}</span> passa por homem serio, disse-me que melhor
+do que sr. Joze Velhaco não conhecia ninguem... a não ser elle proprio. E o
+velho riu-se tanto com aquella cara de bom homem!...</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>(<em>Á parte.</em>) Que maroto! (<em>Alto.</em>) Bom homem de certo,
+devo-lhe bastantes obrigações. Aquellas desconfianças, que lhe metteu o padre
+Vigario a meu respeito, já lhe vão passando, sr. Antonio? hein?</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Já. Mas o Vigario quer-lhe pouco bem, Joze.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Desgraças! Quem póde evital-as?</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Vim agora por caza delle, para lhe contar o que me disse o pae das duas
+crianças que tinham sido roubadas, e os elogios que fizeram de vm. os dois
+negociantes... Quero que todos o reputem, Joze, por homem honrado antes de lhe
+dar a minha filha.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>(<em>Com admiração.</em>) Então já se não faz o casamento immediatamente? Os
+contos do Vigario sempre pegaram!</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Eu desejo que se faça; mas é melhor que você se justifique primeiro. É
+facil, e não leva muito tempo.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>A minha melhor justificação é ser seu genro, genro do honrado Antonio
+Prudente.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Isso depois: por em quanto esperaremos.<span class="pagenum">{D1. Pg.
+72}</span> </p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>(<em>Á parte.</em>) Eu te direi logo se espero! (<em>Alto.</em>) O que o fez
+mudar, sr Antonio Prudente?</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>(<em>Com embaraço.</em>) Respeito muito a opinião do nosso Vigario; e em
+quanto elle não estiver convencido, como eu, da sua innocencia, é melhor...
+demorarmos o casamento.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Assim se deita a perder o credito de um homem. É até onde póde chegar!</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>A verdade anda sempre ao de cima d'agua, não lhe dê cuidado. Sabe que mais,
+Joze Velhaco, admirou-me a generosidade com que deu dez tostões ao pescador, a
+quem roubaram as filhas, e que tanto o defendeu na minha presença. O pobre
+homem não cabia na pelle, e sempre lhe deu um abraço... cuidei que o
+arrebentasse!</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Se não posso ver ninguem pobre, em o podendo remediar! Eu cá sou assim!
+Enterneci-me; e o ardor com que elle me defendeu... fez-me ver, que nesta gente
+é que ainda se encontram exemplos de virtude. Olhe sr. Antonio Prudente, a
+virtude é o meu fraco! Santa palavra!</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>(<em>Apertando-lhe a mão.</em>) Gosto de o ouvir, Joze. Porque lhe terá o
+Vigario tão má vontade?</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Promette não se zangar, se eu lhe disser a razão?<span class="pagenum">{D1.
+Pg. 73}</span></p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Não me diga...</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Ouça, e não torve de repente. Sua filha está namorada do Luiz do
+Campanario...</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Já sei, e não desgostei por isso que o rapaz fosse a Demerara... a ver se
+ella o esquecia...</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Qual! Cada vez se lembra mais. O Vigario é quem os protege.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Faz mal!... porque eu... Mas no fim de contas o que protege o Vigario?... Um
+homem que morreu.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Engana-se redondamente, sr. Antonio Prudente. O Luiz vive, e o Vigario sabe
+que elle está...</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Aonde?</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Na Madeira. Chegou hontem, e já aqui esteve com Joanninha.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Aqui?</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Trouxe-o o Vigario. Verá que elle casa a Joanninha com o Luiz, e leva a sua
+por deante.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Menos isso! Antonio Prudente não se mette assim debaixo dos pes. Pois se o
+Luiz aqui esteve, e fallou a minha filha, o remedio é casal-a já com o sr.
+Joze.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Governe, sr. Antonio, governe o que é seu, e<span class="pagenum">{D1. Pg.
+74}</span> não se arrependa. O Vigario é de familia de Morgados, dos fidalgos
+da ilha: sabe que tenho meus vintens, e não gosta de que eu hombreie com os
+seus... Dá licença que eu use de todos os meios para conseguir que sua filha
+case comigo?</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Dou, permitto! (<em>Battendo o pé no chão.</em>) Hade fazer-se o casamento.
+(<em>Depois de pensar um pouco.</em>) Mas quero levar o negocio de vagar, e com
+prudencia. Amanhã, quando estiver mais socegado, fallaremos. Agora deixe-me com
+a Joanninha; quero desabafar. Depois pensarei com mais descanço.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Pois fique-se com Deos.&mdash;Taes coisas farei, que ámanhã acabarão as suas
+duvidas. Fie-se no que lhe digo. (<em>Indo para sair.</em>) É preciso que um
+homem saiba governar a sua caza, porque um homem é um homem. (<em>Sáe.</em>)
+</p>
+
+<h3>SCENA IV</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>Antonio Prudente e Joanninha</em></p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Ninguem hade governar aqui mais do que eu! (<em>Chamando.)
+Joanninha!</em></p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Meu pae!</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Anda cá. Responde-me... e não mintas.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Eu nunca lhe menti, pae.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Mas escondes-me a verdade, que é o mesmo. Não queres casar com o Joze
+Velhaco?<span class="pagenum">{D1. Pg. 75}</span></p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Já lhe disse, pae, que não.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Nem com elle, nem com outro?</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Dezejo ficar na sua companhia.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>(<em>Colerico.</em>) Mentes.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Eu? sou muito sua amiga!..</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Se o fosses não me desobedecias. Sei tudo. Não te queres casar, porque te
+namoraste de um desgraçado sem dinheiro.&mdash;Prometteste casar com o Luiz do
+Campanario... e a mãe, a Maria das Dores, tem tido o cuidado de não t'o deixar
+esquecer. Invencioneira!</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Não seja injusto! Confesso que não posso gostar senão do Luiz do Campanario.
+Com elle fui creada, e só com elle posso viver!..</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Contra minha vontade!</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>O coração póde mais.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Creancices, filha! Isso hade passar!</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Em eu morrendo!</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>É a ultima vez que to digo, Joanna. (<em>Severo.</em>) Has de casar com quem
+eu mando! E nem lagrimas tuas, nem lamentos de Maria das Dores, nem palavras do
+Vigario, me torcem desta resolução!<span class="pagenum">{D1. Pg. 76}</span></p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>(<em>Chorando e com muita dôr.</em>) Eu... não choro nem lhe desobedeço.
+Deixo-me morrer.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Historias! (<em>Olhando para a filha com muita dôr.</em>) As raparigas não
+morrem por tão pouco... não morrem... E tu... tu não me hasde morrer, filha...
+(<em>Agarrando-a com muito amor.</em>) Minha rica filha!</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Meu pae! (<em>Deitando-se-lhe nos braços, e escondendo a cara.</em>) Se eu
+não posso viver sem elle...</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Viste-o hoje? Sei que chegou.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Vi-o; e ouvi os seus padecimentos. Tive tanto dó delle!</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Invenções... para te seduzir.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Não diga isso:..&mdash;Esteve em Demerara quazi como escravo: teve as febres, e
+foi levado para um hospital, onde não havia nem quem o tratasse. Pobre Luiz!
+Com elle fui creada, vivemos juntos... e... esta desgraça, causou-me tal dó...
+fez-me crescer tanto a... amizade, que já lhe tinha...</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>E eu a escutar-te... a chorar quasi! (<em>Limpando os olhos.</em>)</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Não se envergonhe pae. Só os maus é que não choram.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>(<em>Repellindo-a sem violencia.</em>) Gosto muito de<span
+class="pagenum">{D1. Pg. 77}</span> ti, filha; mas as lagrimas e as festas não
+me fazem mudar. É para teu bem! Essas calumnias que dizem do Joze Velhaco...
+que não é capaz...</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Elle é capaz de tudo.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Joanna, que eu não torne a ouvir-te dizer mal do homem que está para
+ser...</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>A minha desgraça. Pae se soubesse...</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>(<em>Com muita colera.</em>) Joanna!</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Oiça; que é verdade. Escute!</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Diz... é mais uma calumnia, de que elle se defenderá.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Quando o Luiz foi para Demerara&mdash;enganado por elle, e levado pelo amor que
+me tinha&mdash;entregou ao Joze Velhaco vinte patacas, para Maria das Dores...</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>E então?</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Joze Velhaco roubou o pão da mizeria.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>É falso!</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>O Luiz e Maria das Dores não mentem.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Se fosse assim, Joze Velhaco era um infame. Mas, dize me, Joanninha, se
+provar que tudo são mentiras promettes casar com elle!<span
+class="pagenum">{D1. Pg. 78}</span></p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>(<em>Com firmeza.</em>) Prometto. Se elle provar que está innocente façam de
+mim o que quizerem.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Verás! Mas fica descançada. Não sou capaz de te casar com um homem
+deshonrado.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>(<em>Abraçando-o.</em>) Meu querido pae!</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Bem! Não precisas lembrar-me de que sou teu pae! Amanhã fica tudo destinado.
+Agora descançar, que são horas... O dia tem sido hoje inquieto para ambos nós.
+(<em>Dando-lhe um beijo.</em>) Adeos filha. Não queiras mal a teu pae.
+(<em>Sae.</em>)</p>
+
+<h3>SCENA V</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>Joanninha, depois Luiz do Campanario</em></p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Como lhe heide querer mal, se elle me estima tanto, o meu querido pae?
+(<em>Caindo de joelhos deante de uma imagem da Virgem, que está pendurada na
+parede.</em>) Senhora da Conceição, Protectora dos afflictos, ouvi-me. Peço
+descanço para a minha alma, Virgem Santissima, peço-vos, que longe de mim vá
+aquelle homem preverso! Soccorrei-o a elle... ao meu Luiz. (<em>Durante esta
+oração Luiz entra pela janella, que estava cerrada e vem ajoelhar junto de
+Joanninha.</em>)</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Soccorrei-o, Senhora, e á innocente que vos pede!</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>(<em>Levantando-se.</em>) Luiz!...! Aqui?<span class="pagenum">{D1. Pg.
+79}</span> </p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Não me querias ver? Separados ha um anno... depois de tantas saudades?</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>E saudades taes! O susto de te perder, o temor de meu pae, e o horror
+d'aquelle malvado, tudo que era contra nós, quebrava-me as forças. E as
+lagrimas da tua triste mãe? Tudo... tudo me amofinava nesses dias amargurados.
+Mas agora que estás aqui, e voltaste do desterro, agora, parece que já me sinto
+outra.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Mas teu pae não consente!</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Por ora. Já sabe do roubo, das vinte patacas furtadas a tua mãe. Ficou em
+duvida... e disse que me não casava sem Joze Velhaco mostrar a sua
+innocencia.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Não póde mostrar!</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Meu pae hade deixar-se vencer das minhas lagrimas, e dos conselhos do sr.
+Vigario!</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Agora mesmo o larguei, e prometteu-me, o santo homem, que hoje mesmo...
+havia de ficar tudo decidido. O Joze Velhaco perdido de todo, e nós felizes.
+</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Luiz, bem sabes se eu te amo, e se ha alegria e vida para mim longe de ti;
+mas agora, assim de noite... não gosto de te ver... nesta casa. Podia alguem
+descobrir-te quando entraste, póde meu pae estar acordado, e sentir-te...<span
+class="pagenum">{D1. Pg. 80}</span></p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Tudo isso me occorreu... mas, o desejo de te ver... foi mais forte. O
+Vigario mandou-me chamar ha pouco, e disse-me, «Luiz, esta noite fica tudo
+deslindado; hoje acaba a tua desgraça... foi assim mesmo que me disse! É
+preciso que passes a noite nas visinhanças da casa de Joanninha.»</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Porque?</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Foi o que perguntei... «Depois o saberás» me respondeu elle. Obedeci.
+Estando perto, escondido, vi luz, olhei pela janella, e achando-te só, e
+ouvindo-te resar, não pude resistir, e entrei para pedir, comtigo, a Nossa
+Senhora que nos soccorra.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>E que Deos nos ouça! Meu pae hade ceder por fim. Depois, que alegria! Quando
+formos ambos á festa do Monte, e todos disserem: aquella é a Joanninha, a filha
+de Antonio Prudente, que vai com seu marido.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Que é o mais feliz da Ilha, hão de acrescentar. Mulher como a delle não ha
+outra na Madeira! Bonita, séria, galante!...</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Luiz.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Joanninha!</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>E quando será?<span class="pagenum">{D1. Pg. 81}</span></p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Cedo, bem cedo! (<em>Esta scena deve ser representada com muita
+rapidez.</em>)</p>
+
+<h3>SCENA VI</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>Os mesmos Joze, Joaquim, e dois
+marinheiros</em></p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>(<em>Apparecendo á janella, com uma pistola na mão.</em>) Veremos.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Ah!</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Joze! (<em>Correndo alguns passos para elle.</em>) Agóra pagarás tudo...
+malvado!...</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>(<em>Apontando a pistolla para Joanninha, e em voz pouco elevada.</em>) Nem
+mais um passo!... nem mais um grito. Não acordemos o sr. Antonio Prudente.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>(<em>Detendo-se.</em>) O que fazes?</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>(<em>Entrando.</em>) Mato-a, se te moves... se dás um grito! (<em>Aos dois
+marinheiros que entram cautelosamente atraz delle seguidos de Joaquim.</em>)
+Rapazes, segurem-me este heroe!</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Maldito!</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Nada de resistencias, e de palavradas, senão temos desgosto na festa!</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Jezus, acudi-me!<span class="pagenum">{D1. Pg. 82}</span></p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>(<em>Aos marinheiros.</em>) Segurem-o!... e para bordo... Que vá para
+Demerara, donde fugiu... o escravo!</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>(<em>Rezistindo apenas.</em>) Este homem sahio do inferno... Marinheiros!...
+Condoão-se de mim... e daquella desgraçada...</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>(<em>Aproximando-se de Joaninha.</em>) Joanninha, tudo isto faço pelo muito
+amor, que te tenho!</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>E consente Deos isto?</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Vem commigo!</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Não consintas, Joanninha!</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Antes morrer.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>(<em>Colerico.</em>) Não morrerás, e serás minha.</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Só tua, Luiz!</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Ajuda-me, Joaquim!</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>(<em>Gritando.</em>) Deixe-me, deixe-me.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Se gritas... se dizes uma palavra. (<em>Aponta a pistolla a Luiz.</em>)</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Grita... brada... pede soccorro...</p>
+
+<h4>JOANNINHA</h4>
+
+<p>Soccorro!<span class="pagenum">{D1. Pg. 83}</span></p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>(<em>Cego de furia.</em>) Morre, para não gritares! (<em>Dispara a pistolla
+sobre Luiz, mas no momento de partir o tiro, Joaquim desvia-lhe o braço.</em>)
+Errei! (<em>A Joaquim</em>) Que fizeste?...</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>(<em>Tirando-lhe a pistolla, e segurando-o.</em>) Chegou tambem a tua vez,
+Joze! Pagarás tudo agora. (<em>Neste momento saltam pela janella, e entram
+arrombando a porta alguns homens do povo, guiados pelo Vigario.</em>)</p>
+
+<h3>SCENA VII</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>Os mesmos, o Vigario, homens do povo, logo
+depois Antonio</em></p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Segura-o, Joaquim.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>(<em>Armado com a faca de um dos marinheiros.</em>) Tem firme, esse malvado:
+vou-lhe arrancar o coração!</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>(<em>Detendo-o.</em>) Luiz! Luiz... diante de mim!..</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>É um preverso!</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>A justiça o castigará.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>(<em>Entrando espavorido.</em>) Que é isto... em minha caza?</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Querem-me assassinar. Acuda-me!<span class="pagenum">{D1. Pg. 84}</span></p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Calla-te...</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>Vi entrar pela janella, na sua caza, o Luiz do Campanario. Vinha seduzir sua
+filha...</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Seduzir minha filha?...</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>E para salvar a honra de Joanninha, da minha noiva... entrei atraz, com
+risco de vida... Quando ia para o castigar...</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Quando ias para roubar a donzella a seu pai, e estavas para mandar
+violentamente para Demerara esse homem, pela segunda vez, appareci eu, e
+frustei os teus planos.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>É falso, é falso!...</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Escute, Antonio, e veja o marido, que ia dar a sua filha... Este homem não
+te roubou o dinheiro, que deixaste para tua mãe?</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>Roubou.</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Não te convidou a ti, Joaquim, para aliciador de escravos brancos?</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>É assim sr. Vigario, e aqui está um papel asignado por elle... (<em>Da-o a
+Antonio.</em>)</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Para servir de prova.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>A obrigação que me pediste?!... Traidor!<span class="pagenum">{D1. Pg.
+85}</span> </p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Não vinha elle aqui esta noite para furtar a filha do sr. Antonio
+Prudente!</p>
+
+<h4>JOAQUIM</h4>
+
+<p>Tal e qual; por signal, quiz que eu o acompanhasse.</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>(<em>A um homem.</em>) Não foi o Joze Velhaco quem roubou as tuas filhas?
+</p>
+
+<h4>O HOMEM</h4>
+
+<p>Foi, sr. Vigario!</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Não são testemunhas todos, de que tentou agora matar o Luiz do Campanario.
+</p>
+
+<h4>TODOS</h4>
+
+<p>Somos.</p>
+
+<h4>JOZE</h4>
+
+<p>É mentira.</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Levem-o d'aqui. Amanhã será entregue á justiça, no Funchal. (<em>Alguns
+homens levam Joze, que vai gritando: É mentira! é mentira!</em>)</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Senhor Vigario salvou a minha honra... salvou... Perdoas-me filha?... salvou
+a minha querida Joanninha. (<em>Abraça-a.</em>)</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Pude salval-a... Mas fazel-a feliz, não depende de mim.</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>O sr. Vigario manda nesta caza.</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Então mando que não haja ninguem triste. (<em>Pondo a mão de Joanninha na
+mão de Luiz.</em>)<span class="pagenum">{D1. Pg. 86}</span></p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Mas, sr. Vigario...</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>O Luiz, o marido que dou a tua filha, é o feitor de meu irmão, o morgado
+Bittencourt.</p>
+
+<h4>LUIZ</h4>
+
+<p>(<em>Com fogo</em>) Viva o nosso Vigario!</p>
+
+<h4>TODOS</h4>
+
+<p>Viva!</p>
+
+<h4>ANTONIO</h4>
+
+<p>Deos proteja o nosso Vigario.</p>
+
+<h4>VIGARIO</h4>
+
+<p>Deus proteja a Ilha da Madeira.</p>
+
+<p style="text-align:center;"><em>Cae o panno.</em></p>
+
+<p style="text-align:center;"><strong>Fim do 3.º acto e do drama.</strong></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1>O ASTROLOGO</h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h4>DRAMA EM 5 ACTOS</h4>
+
+<h4>PERSONAGENS</h4>
+
+<table border="0" align="center" summary="lista de personagens">
+ <col>
+ <col>
+ <tbody>
+ <tr>
+ <td>Fr. Bermudo.</td>
+ <td>D. Gonçalo de Sousa.</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>D. Mendo Paes.</td>
+ <td>D. Soeiro Viegas.</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>O Infante D. Affonso.</td>
+ <td>João Sirita, Ermitão.</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>D. Pedro Framariz.</td>
+ <td>D. Bibas, bobo.</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>O Bispo D. João Peculiar.</td>
+ <td>D. Bonamiz, bobo</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>D. Tello, Prior de Santa Cruz.</td>
+ <td>Um Judeu.</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>D. Gonçalo Mendes.</td>
+ <td>Um Templario.</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>D. Egas Moniz.</td>
+ <td>D. Gontrade.</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>D. Lourenço Viegas.</td>
+ <td>D. Violante.</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>D. Guilherme Ricardo.</td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td colspan="2">Ricos homens, templarios, cavalleiros, damas, homens de
+ armas, frecheiros e besteiros.</td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+
+<h2>ACTO PRIMEIRO</h2>
+
+<p style="text-align:center;"><em>Um campo junto á pousada de D. Pedro
+Framariz, no Burgo de Guimarães.</em></p>
+
+<h3>SCENA I</h3>
+
+<p class="dcena"><em>Entram Besteiros, e Homens d'armas de D. Pedro Framariz,
+trazendo um Judeu prezo com uma corda</em></p>
+
+<h4>1.º BESTEIRO</h4>
+
+<p>Anda perro judeu... anda; vamos, e depressa,<span class="pagenum">{D2. Pg.
+2}</span> que o teu sangue, e a tua pelle hão de tornar-se hoje em bons e finos
+maravedis.</p>
+
+<h4>2.º BESTEIRO</h4>
+
+<p>Olá!&mdash;O nosso amo bem sabe os meios de lh'os fazer sahir do corpo.&mdash;Bons
+meios, e que nunca falham. Uma tenaz de ferro em braza, uma boa corda de
+esparto, e ás vezes um cajado de zambujeiro, bastam para fazer de um judeu um
+sacco de oiro.</p>
+
+<h4>1.º BESTEIRO</h4>
+
+<p>E agora sobre tudo, que os maravedis são tão necessarios, o sr. D. Pedro ha
+de empregar os bons meios para tirar prata e oiro do corpo deste judeu. D'aqui
+a uma hora partimos, para andarmos por lá, Deus sabe quanto tempo.</p>
+
+<h4>2.º BESTEIRO</h4>
+
+<p>Não nos ha de faltar nada. Nos recontros com os mouros sempre se ganha
+alguma coisa. Uma fossada pelo Al-Gharb ha de dar para senhores e vassallos.
+Até nós, pobres besteiros, havemos de apanhar algumas migalhas do que der a
+conquista.</p>
+
+<h4>1.º BESTEIRO</h4>
+
+<p>E nesta correria então!... Dizem que são tão ricas essas terras d'Além do
+Téjo!</p>
+
+<h4>2.º BESTEIRO</h4>
+
+<p>E que o não fossem! Para nós homens de armas de D. Pedro Framariz sempre ha
+que apanhar.</p>
+
+<h4>1.º HOMEM D'ARMAS</h4>
+
+<p>Hei de trazer este meu lorigão forrado de oiro.</p>
+
+<h4>2.º BESTEIRO</h4>
+
+<p>E a alma de indulgencias.</p>
+
+<h4>1.º HOMEM D'ARMAS</h4>
+
+<p>Tambem, e porque não? Lá váe o nosso Infante para as ganhar...<span
+class="pagenum">{D2. Pg. 3}</span></p>
+
+<h4>1.º BESTEIRO</h4>
+
+<p>E tem razão.&mdash;E elle dês que a mãe lhe morreu anda triste, e a scismar
+sempre. A mãe, a sr.ª D. Thereza, era uma brava mulher. Vi-a muita vez, nas
+guerras com os leonezes, ao lado do conde Fernando Perez, caminhar para o
+inimigo como um homem.</p>
+
+<h4>1.º HOMEM D'ARMAS</h4>
+
+<p>(<em>Em voz baixa.</em>) Foi o Infante D. Affonso Henriques quem a
+matou.&mdash;Aquella prizão... e depois aquelle desterro...</p>
+
+<h4>2.º BESTEIRO</h4>
+
+<p>O sr. Infante não a matou. Cá a mim parece-me que elle fez o que devia.
+Portugal ía-se pela agua abaixo se fica mais tempo nas mãos de uma mulher.</p>
+
+<h4>1.º BESTEIRO</h4>
+
+<p>Palavras inuteis... e perigosas!&mdash;Vamos levando este maldicto judeu para a
+pousada do Burgo, e deixemos o resto que nos não importa.</p>
+
+<h4>1.º HOMEM D'ARMAS</h4>
+
+<p>Não tem pressa. Nosso amo está ainda com o Infante e outros cavalleiros a
+ouvir a missa no mosteiro de Mumadona.</p>
+
+<h4>1.º BESTEIRO</h4>
+
+<p>Qual?! Está já de volta, de certo. D'aqui a pouco partimos.</p>
+
+<h4>2.º BESTEIRO</h4>
+
+<p>(<em>Puxando pelo judeu</em>) Vamos, vamos. (<em>Ao 1.º homem d'armas.</em>)
+Garcia, faz andar este excommungado. Para que te servem esses braços, senão é
+para dar nos judeus e nos cães da moirama?</p>
+
+<h4>1.º HOMEM D'ARMAS</h4>
+
+<p>(<em>Dando no judeu.</em>) Tem os ossos de ferro estes judeus, não quebram
+nem pelo diabo!<span class="pagenum">{D2. Pg. 4}</span></p>
+
+<h4>JUDEU</h4>
+
+<p>Deixae-me... deixae-me. Tende dó de mim, srs. besteiros.</p>
+
+<h4>1.º HOMEM D'ARMAS</h4>
+
+<p>Dá-nos um pouco de teu oiro, judeu.</p>
+
+<h4>JUDEU</h4>
+
+<p>Sou pobre... um miseravel... não tenho nada.</p>
+
+<h4>1.º BESTEIRO</h4>
+
+<p>Vae dizer isso a D. Pedro, elle te fará mudar de opinião. Mette-te n'um
+forno, vivo, para vêr se de lá sáes mudado em barra de oiro.</p>
+
+<h4>JUDEU</h4>
+
+<p>Deixae-me... que elle mata-me; mata-me de certo.</p>
+
+<h4>ALGUNS BESTEIROS</h4>
+
+<p>Uh! uh! maldito judeu.</p>
+
+<h4>1.º HOMEM D'ARMAS</h4>
+
+<p>Has de ser assado vivo.</p>
+
+<h4>JUDEU</h4>
+
+<p>Deus de Jacob, salvae-me!</p>
+
+<h4>1.º HOMEM D'ARMAS</h4>
+
+<p>Vamos, que alli vem fr. Bermudo.</p>
+
+<h4>1.º BESTEIRO</h4>
+
+<p>O feiticeiro... o magico.</p>
+
+<h4>JUDEU</h4>
+
+<p>(<em>A fr. Bermudo.</em>) Salvae-me... salvae-me!</p>
+
+<h3>SCENA II</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>Os mesmos, e Fr. Bermudo</em></p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Esperae... onde ides? Onde levaes esse miseravel judeu?<span
+class="pagenum">{D2. Pg. 5}</span></p>
+
+<h4>1.º HOMEM D'ARMAS</h4>
+
+<p>Foi nosso amo, D. Pedro Framariz, que nos mandou que o levassemos...</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO (<em>Colerico.</em>)</h4>
+
+<p>Para o roubar, para o atormentar.&mdash;Deixae-o...</p>
+
+<h4>2.º BESTEIRO</h4>
+
+<p>Um judeu...</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Um judeu tambem é homem.&mdash;Deixae-o.</p>
+
+<h4>1.º HOMEM D'ARMAS</h4>
+
+<p>Mas D. Pedro ha de querer saber porque nós lhe não obedecemos.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Dizei-lhe que fui eu.</p>
+
+<h4>1.º HOMEM D'ARMAS (<em>Com hesitação</em>)</h4>
+
+<p>Mas...</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>(<em>Com colera.</em>) Já disse.</p>
+
+<h4>1.º BESTEIRO</h4>
+
+<p>(<em>Baixo aos outros.</em>) O magico dá-nos máo olhado, se lhe resistirmos,
+e ficamos perdidos... O melhor é deixar o judeu.</p>
+
+<h4>TODOS</h4>
+
+<p>Deixemol-o. (<em>Deixam o judeu.</em>)</p>
+
+<h4>1.º HOMEM D'ARMAS</h4>
+
+<p>Vamo-nos... depressa.</p>
+
+<h4>1.º BESTEIRO</h4>
+
+<p>Deus tenha dó de nós. O que dirá D. Pedro Framariz?</p>
+
+<h4>2.º BESTEIRO</h4>
+
+<p>É hoje, talvez, o fim da nossa vida. (<em>Sáem.</em>)<span
+class="pagenum">{D2. Pg. 6}</span></p>
+
+<h3>SCENA III</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>O judeu e Fr. Bermudo</em></p>
+
+<h4>JUDEU</h4>
+
+<p>(<em>Cahindo de joelhos.</em>) Quero agradecer-vos de joelhos.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Vae-te... salva-te.&mdash;Não pônhas em mim essas mãos.</p>
+
+<h4>JUDEU</h4>
+
+<p>Consenti que vos beije os pés, que me prostre diante de quem póde e sabe
+escrever o destino dos homens...</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Foje... vae-te, se não queres outra vez cair nas mãos d'aquelles homens
+d'armas.</p>
+
+<h4>JUDEU</h4>
+
+<p>Sois o maior homem da terra! (<em>Sáe.</em>)</p>
+
+<h3>SCENA IV</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>Fr. Bermudo (só)</em></p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>(<em>Rindo.</em>) O maior homem!... Sou o maior homem, sou, porque padeço
+mais que os outros. A dôr moral é que distingue o homem da fera.
+(<em>Pauza.</em>) Lêr o futuro nos astros, lêr as paixões no coração; ter
+segredos que dão vida, e segredos que matam...&mdash;Que tem?! O futuro é um
+martyrio que me assusta; as paixões que escondo neste coração são crueis e
+negras. Se esta vida durasse uma eternidade, sería uma vida maldicta... E
+depois da vida a morte!... Morrer sem<span class="pagenum">{D2. Pg. 7}</span>
+ter sido amado, sem ter recebido um affago... sem ter a esperança de ouvir,
+mesmo quando já envolvido nas profundas trevas do sepulchro, um grito de
+saudade que me acorde!... De que serve a sciencia?... E o que é ella, essa
+sciencia que não póde vencer o destino, nem sequer descobrir as leis eternas
+que o regem? De que me serve o saber?... Tenho mais dores que os outros homens,
+e menos fé...&mdash;Mendo... O meu Mendo, o meu amigo, o meu filho,&mdash;porque lhe
+quero como se elle fôra meu filho,&mdash;como o hei de salvar?... E Violante, esse
+anjo, que eu... cujo nome me faz alegria e terror...&mdash;como os hei de separar,
+esses corações que o amor e a mocidade atraem um para o outro, e que o destino
+separa por um abismo! (<em>Pausa&mdash;apontando para os astros.</em>) Está
+escripto... está tudo escripto nos astros...&mdash;É fatal! (<em>Crusa os braços e
+fica meditando.</em>)</p>
+
+<h3>SCENA V</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>D. Mendo e Fr. Bermudo</em></p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>(<em>Vendo Fr. Bermudo.</em>) Aqui, fr. Bermudo!</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Esperava por ti, D. Mendo.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Por mim?... Neste sitio? Agora?</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>É aqui que te deves despedir da filha de D. Pedro Framariz.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>De Violante... Quem te disse?</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Soube que vinhas, e vim. Não foste hontem pedir-me<span class="pagenum">{D2.
+Pg. 8}</span> que consultasse as estrellas, a conjuncção dos astros para saber
+o teu futuro? Passei a noite a estudar o céo, e é o que n'elle li que eu te
+venho dizer agora.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Que te disseram os astros?... Hade ser minha?... Hade-me ter sempre muito
+amôr?... Seremos felizes?..</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>A tua estrella tocou o zenith, quando o Feretro se alevantou sobre o
+horisonte, acompanhado das tres Carpideiras; ao mesmo tempo que a irradiação de
+Neyman se extinguia, a de Sehedir tornou-se mais brilhante...</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>O que quer dizer tudo isso?</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Não o queiras saber; deixa os astros guardarem os seus segredos tenebrosos.
+Mas foge destes logares; vae buscar a gloria nos campos da batalha... foge,
+foge do teu negro destino... se ao homem é possivel fugir ao destino.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Falla. Diz-me a verdade. Tenho animo para tudo. O que quer dizer essa
+disposição dos astros?</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Quer dizer que a vida ha de ser uma vida de padecimento; que a morte ha de
+separar-te da que amas; que depois terás a gloria...</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Calla-te...&mdash;Sem ella... que m'importa o resto?</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Abumachar Giafar não se enganou nunca ao lêr no livro do céo... e eu leio
+pelo seu livro.<span class="pagenum">{D2. Pg. 9}</span></p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Não póde ser... não. Se Violante morrer, morrerei com ella.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>A tua estrella não se apagou.&mdash;Serás grande e forte.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>O destino não se póde oppôr a que eu busque a morte no meio das fallanges
+serracenas.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Tudo póde o destino!</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Salva-me... Calla-te... Muda isso tudo...</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>O que os astros escrevem no seu mudo caminhar pelo céo, não o podem os
+homens apagar.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Fr. Bermudo, algum demonio falla pela tua bocca.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>O teu sangue de pagem está ainda muito ardente.&mdash;Mendo, sou teu amigo, sou,
+e deveras. Talvez o não devesse ser... mas sou-o... Mendo&mdash;Entre ti e Violante
+ha um abysmo.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Hei de transpôl-o.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Não, porque é vasto, immenso; porque no fundo ferve e ruge um pélago de
+sangue.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Enganou-te a sciencia... Não é, não póde ser verdade o que dizes.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Nem a mão de Deus, póde apagar o passado.<span class="pagenum">{D2. Pg.
+10}</span></p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Padre, conheces um tremendo segredo... É meu esse segredo; quero sabêl-o.
+</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Sei... coisas que não posso dizer... tenho medo de as pensar... que me
+accusam, que me condemnam.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Mas...&mdash;Fr. Bermudo quero o meu segredo.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Deixa,... esquece esse amor. Não queiras, saber um segredo, que te manchará
+o viço da alma; que te fará envelhecer o coração, caírem mortas a esperança e a
+fé, mal elle tocar o teu pensamento, que desconhece ainda até onde póde chegar
+a perfidia dos homens.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Esquecer este amor?&mdash;Este amor é...&mdash;Não t'o posso dizer, não me
+intenderias, padre.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Quem sabe!... Os mysterios do coração são de Deus?!... Póde ser que vão com
+o corpo á cova, para lá ficarem fechados; por que Deus na sua infinita
+misericordia talvez os queira extinguir, com tudo quanto ha de impuro no homem.
+</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Ai! que dôr, que dôr esta minha!... Sou o maior desventurado da terra!</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Quem póde dizer que o é?&mdash;Tu, Mendo, na tua vida tão curta, já escutaste o
+palpitar de um coração que batia por ti.&mdash;Tens uma esperança... Amanhã serás
+cavalleiro, depois serás senhor de honras e castellos, depois terás um nome,
+uma gloria. Tens um futuro, Mendo... e n'esse futuro?..<span
+class="pagenum">{D2. Pg. 11}</span> Deus ha de compadecer-se de ti que és bom e
+puro.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>(<em>Cobrindo o rosto.</em>) Sem Violante!... Jesus, meu Deus!</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Ha homens a quem a fatalidade acompanha desde o berço, e em cuja alma sempre
+em trevas, não caíu uma esperança... nem mesmo já nasce um desejo.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Fr. Bermudo, não tens nem piedade, nem comiseração n'essa tua alma... Nunca
+te fiz mal, para que assim me lances na desesperação.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Querias saber o futuro, li nos astros, e disse-t'o.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Não te creio...&mdash;Mentem os astros...&mdash;Violante!... não a perderei, não...
+nem este amor tambem, que é do céo; que nasceu entre os anjos!... Ella não póde
+tardar.&mdash;Deixa-me... Quero ter esperança; estar alegre.&mdash;Vae-te. Vae-te, que te
+não veja ella, feiticeiro agoirento e máo.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Deus tenha dó de nós... de todos nós! (<em>Sáe.</em>)</p>
+
+<h3>SCENA VI</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>D. Mendo e depois D. Violante</em></p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Virgem Maria, tirae-me d'alma estes dolorosos pensamentos, ponde-me o
+sorrizo na bocca e a<span class="pagenum">{D2. Pg. 12}</span> esperança no
+coração, para que um dos vossos anjos não soffra.</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>(<em>Entrando agitada.</em>) Mendo, que tendes? O que é isso que vos
+afflige. D. Mendo?</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Minha sr.ª D. Violante!... Não quizestes deixar-me partir sem vir lançar-me a
+força no coração.</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Estaes agitado, sobre-saltado! Que vos dizia aquelle frade, Fr. Bermudo?</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Nada... não me dizia nada. Viestes, D. Violante, e na presença de um anjo as
+palavras de um louco devem esquecer-se. Ai! Violante, quanto vos agradeço o que
+fizestes por mim! Se partisse para a guerra, sem vos ter fallado do meu amor, e
+sem ter ouvido dessa bocca uma palavra de esperança, parece-me que me deixava
+morrer por lá. Este amor é a minha vida!</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>(<em>Com embaraço.</em>) Saí da pousada, saí... nem eu sei... que importa?
+(<em>Com ternura.</em>) Procurava o perfume das flôres, e vim para este lado...
+parecia-me que tinha nascido aqui uma flôr, que eu só devia colhêr...</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>A flôr da esperança?</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>(<em>Cobrindo a cára.</em>) A do amor... Enganei-me, meu pagem?..</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+Não. (<em>Apontando para o peito.</em>) Essa vive aqui,<span
+class="pagenum">{D2. Pg. 13}</span> sempre bella, sempre doce, e perfumada. E é
+da minha querida Violante.
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>(<em>Seria.</em>) Vinha para aqui, e vi Fr. Bermudo fallar comvosco... que
+vos dizia elle?</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Loucuras, sonhos de uma cabeça cheia de illusões!</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Leu nos astros o futuro dos nossos amores? Que lhe disseram os astros?</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>O que nos importa a nós isso tudo? (<em>Levando-a para um assento de
+pedra</em>) Vinde assentar-vos aqui; e eu vou pôr-me de joelhos, para vos
+adorar como a um anjo, como a uma santa que sois... Amo... amo-te... ía dizer
+uma blasfemia, Violante, ía fallar-te como só a Deus se deve fallar; mas é
+porque no mundo não ha com que se compare este amor!</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>(<em>Brincando, mas com muita ternura.</em>) Mas se esse amor mudar?... O
+coração dos pagens é como as borboletas, foge sempre de flôr em flôr.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Mas este meu!... Que thesouro possue elle agora! Vós bem sabeis que este meu
+amor não mudará... não póde mudar.&mdash;E depois tudo em roda de nós está alegre,
+tudo parece fallar-nos de felicidade.</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Amanhã, d'aqui a horas, já não estaremos juntos. E os perigos da guerra...
+</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Vou deixar-vos, mas para voltar cavalleiro,<span class="pagenum">{D2. Pg.
+14}</span> para ter uma espada, para ter um nome, que seja mais digno de vós,
+do que o do obscuro pagem.</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Mendo!</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Ó Violante, D. Violante não esqueçaes nunca esta hora de immensa felicidade!
+</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Nunca.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Sereis minha? sempre minha?</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Serei.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Amaes-me?</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Mais que tudo!</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>(<em>Ficando triste.</em>) Este amor será para nós uma benção do céo...
+será.&mdash;É de certo.</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Estaes outra vez triste. Lembram-vos as predicções de Fr. Bermudo? Que disse
+elle?</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Que importa o que elle disse? O nosso amor vem de Deus, só Deus o póde
+destruir.</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Dizei a verdade Mendo... Não tenho medo, como vêdes... Dizei; que o coração
+já advinhou tudo.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Para que quereis?...</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Dizei.<span class="pagenum">{D2. Pg. 15}</span></p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Disse... que não seriamos nunca um do outro... Que o destino nos separava
+para sempre.</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>(<em>Deixando-se cahir de joelhos ao lado de D. Mendo.</em>) Virgem Nossa
+Senhora, vallei-nos!</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Separar-nos!... Agora, que a tristeza nos cobriu de trevas, e que
+começavamos a sentir os amargores da saudade... Separarmo-nos agora!</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Deixar-te...</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Não chores... Minha Violante!</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Esta guerra!... Esta auzencia!...</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>O amor... O amor unirá as nossas almas, quando eu estiver longe, lá por
+esses certões do Al-Gharb.</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Cada noite procurarei na luz das estrellas um desses teus olhares de amor,
+que são mais suaves para mim do que os clarões mais puros de um céo sereno e
+bello.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Cada tarde escutarei no silencio dos bosques o brando gorgear das aves, para
+vêr se na voz de alguma dellas distingo um dos teus castos suspiros.</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Ai! Se te eu perdesse...</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Quando voltar, seremos um do outro, para sempre!<span class="pagenum">{D2.
+Pg. 16}</span></p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Sinto gente! Adeus</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Violante!... (<em>Cáem nos braços um do outro.</em>)</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Sou tua!... Adeus.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Adeus. (<em>D. Violante sáe.</em>)</p>
+
+<h3>SCENA VII</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>D. Mendo, D. Bibas e Bonamiz.</em></p>
+
+<h4>D. BIBAS</h4>
+
+<p>(<em>Cantando o que se segue.</em>)</p>
+
+<blockquote>
+ Porque choras<br>
+ Pagem terno?<br>
+ Teu inferno<br>
+ Não melhoras.<br>
+ Trá&mdash;lira.</blockquote>
+
+<p>(<em>Cantando e rindo.</em>) Ah! Ah! Ah!</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Tu aqui?... aqui D. Bibas... Quem te trouxe aqui, bôbo?</p>
+
+<h4>D. BIBAS</h4>
+
+<p>(<em>Apontando para Bonamiz.</em>) Foi elle.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>(<em>A Bonamiz.</em>) Tu?</p>
+
+<h4>BONAMIZ</h4>
+
+<p>(<em>Apontando para D. Bibas.</em>) Foi elle.</p>
+
+<h4>D. BIBAS</h4>
+
+<p>(<em>Cantando.</em>) Uma bruxa nos guiou.</p>
+
+<h4>BONAMIZ</h4>
+
+<p>(<em>Cantando.</em>) Um diabo nos mandou.<span class="pagenum">{D2. Pg.
+17}</span></p>
+
+<h4>AMBOS</h4>
+
+<p>(<em>Cantando.</em>)</p>
+
+<blockquote>
+ Segredos do coração<br>
+ Mui grandes segredos são.</blockquote>
+
+<h4>BONAMIZ</h4>
+
+<p>Am!</p>
+
+<h4>D. BIBAS</h4>
+
+<p>Am!</p>
+
+<h4>BONAMIZ</h4>
+
+<p>Am!</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Que viste, D. Bibas?&mdash;Que ouviste Bonamiz?</p>
+
+<h4>D. BIBAS</h4>
+
+<p>Vi-te dar um abraço... e tive inveja.</p>
+
+<h4>BONAMIZ</h4>
+
+<p>Ouvi dizer á mais linda dama das Hespanhas, que te amava... e desejei
+estar-te na pelle.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Nada mais...</p>
+
+<h4>D. BIBAS</h4>
+
+<p>Ah!&mdash;Ouvi dizer, que os astros te tinham declarado a guerra; que a
+morte...&mdash;Que importa isso, a quem ama?</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Que importa?...</p>
+
+<h4>D. BIBAS</h4>
+
+<p>O amor é sempre assim. Nunca viste as crianças brigarem por uma borboleta,
+que morre e se desfaz apenas o vencedor lhe toca?</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Mas...</p>
+
+<h4>D. BIBAS</h4>
+
+<p>Pois as felicidades são como as borboletas; e os homens como as
+crianças.&mdash;Mas de todas as felicidades, as do amor são as que menos duram,<span
+class="pagenum">{D2. Pg. 18}</span> e de todos os homens os mais ridiculos...
+são os amantes.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Deixa agora essas chocarrices.&mdash;Escutae, ambos.&mdash;Se disserdes a alguem o que
+acabaes de vêr e de ouvir, arrancar-vos-hei olhos e lingoa... a ambos.</p>
+
+<h4>D. BIBAS</h4>
+
+<p>Com a espada de cavalleiro, que ainda has-de ganhar?</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Juro...</p>
+
+<h4>D. BIBAS</h4>
+
+<p>Não jures, que não é precizo para nada. (<em>Serio.</em>) Pagem namorado,
+somos vossos amigos, e não podemos deixar, com a nossa magnanimidade real, de
+vos dizer um segredo... que segredo!</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>O que é?</p>
+
+<h4>D. BIBAS</h4>
+
+<p>Pois deveras quereis saber.</p>
+
+<h4>D. BIBAS</h4>
+
+<p>(<em>Cantando.</em>)</p>
+
+<blockquote>
+ Não has-de cazar<br>
+ Não cazarás, não.<br>
+ Has-de Dom Bulrão,<br>
+ Solteiro ficar. </blockquote>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Maldicto!</p>
+
+<h4>D. BIBAS</h4>
+
+<p>(<em>Cantando.</em>) <em>De profundis clamavi ad te...</em></p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Bobo, bobo!<span class="pagenum">{D2. Pg. 19}</span></p>
+
+<h4>BONAMIZ</h4>
+
+<p>Assim cantam os padres, quando morre alguma cousa, que para nada
+presta.&mdash;Não te encolerizes; cantamos sobre as tuas defuntas esperanças.
+(<em>Cantando.</em>) <em>De profundis clamavi...</em></p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>(<em>Ameaçando-os.</em>) Excomungados bobos!..</p>
+
+<h4>D. BIBAS</h4>
+
+<p>(<em>Rindo.</em>) Ahi vem nosso tio, o infante.</p>
+
+<h4>AMBOS OS BOBOS</h4>
+
+<p>(<em>Fugindo.</em>) Adeus! adeus!</p>
+
+<h3>SCENA VIII</h3>
+
+<h4>D. MENDO, <em>só</em></h4>
+
+<p>Tudo para mim é um agouro!... agouro máo! As palavras da meditação, as
+gargalhadas do escarneo... tudo! Que segredo tenebroso será este, que me
+envolve e me aterra? Minha mãe tambem sabe este segredo; é essa a causa
+d'aquella tristeza, d'aquella dôr sem consolação, d'aquelle lucto em que sempre
+vive. Tenho ouvido por vezes fallar em meu pae morto... nas trevas de uma noite
+horrenda; n'uma vingança infame que veio um dia manchar de sangue e de vergonha
+a nossa casa. Mas que historia pavoroza é esta de que eu ainda não pude
+penetrar o mysterio? Quem foi o assassino de meu pae? Qual é a família contra a
+qual a honra me ordena de exercer uma implacavel vingança? Não sei, nada sei,
+porque minha mãe só quando eu fôr cavalleiro me julga digno de saber este
+funebre segredo. Fr. Bermudo, o frade solitario, o astrologo que vive na
+isolação, tambem conhece os segredos<span class="pagenum">{D2. Pg. 20}</span>
+da minha familia, que eu ignoro ainda, e não m'os quer dizer.</p>
+
+<h3>SCENA IX</h3>
+
+<p class="dcena"><em>O mesmo, o Infante, D. Gontrade, D. João Peculiar, D.
+Tello, D. Gonçalo Mendes, D. Egas Moniz, D. Lourenço Viegas, D. Guilherme
+Ricardo, D. Gonçalo de Sousa, Cavalleiros, Ricos Homens, Homens d'Armas,
+Frecheiros, Besteiros etc. depois D. Pedro Framariz.</em></p>
+
+<h4>INFANTE</h4>
+
+<p>(<em>A D. Mendo.</em>) Tu aqui, Mendo?</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Esperava por vós, meu sr. Infante...</p>
+
+<h4>INFANTE</h4>
+
+<p>Não vieste ouvir missa comnosco ao mosteiro de Mumadona? (<em>Mostrando D.
+Gontrade.</em>) Tua mãe foi tambem... para te vêr.</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>E para pedir a Deus pela boa sorte das armas do reino de Portugal.</p>
+
+<h4>INFANTE</h4>
+
+<p>Que vosso marido D. Payo Ramires ajudou a criar, e fortaleceu com a sua
+espada gloriosa.</p>
+
+<h4>D. BIBAS</h4>
+
+<p>Pois o filho, o nosso pagem D. Mendo estava agora a afiar a sua futura
+espada de cavalleiro.</p>
+
+<h4>BONAMIZ</h4>
+
+<p>E a fazer brilhantes projectos sobre a maneira de usar della.</p>
+
+<h4>D. LOURENÇO VIEGAS</h4>
+
+<p>Callai-vos ahi, bobos.<span class="pagenum">{D2. Pg. 21}</span></p>
+
+<h4>D. BIBAS</h4>
+
+<p>(<em>Ao Infante.</em>) Queremos e podemos fallar aqui, não é assim, tio?</p>
+
+<h4>INFANTE</h4>
+
+<p>(<em>Aos pagens.</em>) Fazei callar esses bobos. (<em>Os pagens levam os
+bobos.</em>)</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+(<em>Beijando a mão de sua mãe.</em>) Sr.ª mãe, minha senhora...
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>Meu filho, não foste despedir-te de mim, vim eu.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Não julguei que partiriamos tão depressa... (<em>Abraçando-a.</em>) Minha
+mãe, minha querida mãe perdoae.</p>
+
+<h4>INFANTE</h4>
+
+<p>De certo te perdoará... D. Gontrade ha de perdoar ao valente pagem, que vae
+ganhar nas batalhas a sua espada de cavalleiro, e ajudar-nos a accrescentar á
+terra, que seu pae defendeu e fez independente, novas provincias, com as quaes
+o nome de Portugal se tornará temido em toda a Hespanha.</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>Meu filho! (<em>Ficam abraçados.</em>)</p>
+
+<h4>INFANTE</h4>
+
+<p>(<em>Aos cavalleiros.</em>) Só nos falta D. Pedro Framariz, para termos em
+roda de nós todos os bons cavalleiros, que estão em Guimarães. Esperaremos por
+elle aqui; depois partiremos para Coimbra onde está o restante de nossos ricos
+homens... Estas lides, que vamos lidar, senhores, hão de ser rijas; carecemos
+para ellas de<span class="pagenum">{D2. Pg. 22}</span> toda a nossa força. É
+esta uma correria, que ha de ficar de memoria aos moiros.</p>
+
+<h4>D. EGAS MONIZ</h4>
+
+<p>Nossa Senhora que sempre desde pequeno vos protegeu, e que vos prometteu
+tantas victorias, não vos ha de desamparar nunca, meu sr. Infante.</p>
+
+<h4>INFANTE</h4>
+
+<p>Assim seja, meu leal Egas Moniz. Companheiro das victorias ganhas por o
+conde D. Henrique, ensinar-me-has a ganhar batalhas como meu pae as ganhava.
+</p>
+
+<h4>D. JOÃO PECULIAR</h4>
+
+<p>O ceu proteje as armas dos portuguezes.</p>
+
+<h4>D. GONÇALO MENDES</h4>
+
+<p>Conservae-nos pois essa protecção com as vossas orações, sr. D. João
+Peculiar; que nós, Ricos-homens e cavalleiros, aproveitar-nos-hemos d'ella para
+derribar com as nossas espadas o poder dos infieis&mdash;A vossa força, srs. bispos
+e prelados, está toda no céu; a nossa está na terra, appoia-se na fé, e nas
+armas.</p>
+
+<h4>INFANTE</h4>
+
+<p>Sois avisado, meu lidador. (<em>Aos prelados.</em>) Vós, srs. oraé por nós.
+D. Tello, dizei aos vossos monges de Santa Cruz que façam noite e dia preces,
+para que o Senhor nos tenha da sua mão. (<em>Aos cavalleiros.</em>) E vós,
+cavalleiros, desenrollae os vossos balsões, reuni nas vossas hostes todos os
+homens que tendes nas Honras, Prestamos e Senhorios que ganhastes; cingi as
+vossas espadas mais duras, tende confiança na cruz que é a nossa divisa, e
+atravessaremos, então, essas terras de Alem do Téjo, e lançaremos sobre ellas o
+nosso dominio.<span class="pagenum">{D2. Pg. 23}</span></p>
+
+<h4>TODOS</h4>
+
+<p>Aos infieis! aos infieis!</p>
+
+<h4>D. EGAS MONIZ</h4>
+
+<p>(<em>Pegando na mão do Infante e beijando-a.</em>) Meu senhor meu amo,
+deixae-me beijar-vos as mãos, deixai o vosso aio Egas admirar-vos... Sois um
+grande principe... Haveis de ser um grande rei!</p>
+
+<h4>TODOS</h4>
+
+<p>Viva D. Affonso! Viva o nosso príncipe!</p>
+
+<h4>ALGUNS</h4>
+
+<p>Viva o nosso rei!</p>
+
+<h4>D. GUILHERME</h4>
+
+<p>A minha espada, e a de todos os templarios é vossa. Infante de Portugal, a
+guerra contra os infieis, aqui na nossa terra, é tão santa aos olhos de Deus
+como a feita n'essas longes terras da Palestina.</p>
+
+<h4>D. LOURENÇO VIEGAS</h4>
+
+<p>A minha espada é tua, Infante de Portugal.</p>
+
+<h4>MUITOS CAVALLEIROS</h4>
+
+<p>E a nossa.</p>
+
+<h4>INFANTE</h4>
+
+<p>(<em>Alevantando os braços ao céu.</em>) Senhor, a nossa fé é immensa!
+Senhor, não enganeis a nossa confiança!</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>(<em>Caíndo aos pés do Infante.</em>) Dae-me uma espada, sr. Infante...
+Quero combatter comvosco... Quero morrer, ou ser digno da minha patria! Digno
+do nome que meu pae me legou!</p>
+
+<h4>INFANTE</h4>
+
+<p>Ganha a espada no campo da lide, que a has de amar ainda mais.</p>
+
+<p>(<em>D. Pedro Framariz entra com os seus acostados, e pára ao
+fundo.</em>)<span class="pagenum">{D2. Pg. 24}</span></p>
+
+<h4>ALGUNS CAVALLEIROS</h4>
+
+<p>D. Pedro Framariz!</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>(<em>Pondo as mãos sobre a cabeça de seu filho.</em>) Ganha a tua espada, e
+então te confiarei o segredo da nossa familia, é uma terrível vingança.</p>
+
+<h4>D. PEDRO FRAMARIZ</h4>
+
+<p>Perdoae, sr.ª, que Deus tambem perdoa!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;"><strong>FIM DO 1.º ACTO</strong><span
+class="pagenum">{D2. Pg. 25}</span></p>
+
+<h2>ACTO SEGUNDO</h2>
+
+<h3>SCENA I</h3>
+
+<p class="dcena"><em>O infante, em pé encostado á espada, D. Egas Moniz, o
+Lidador, D. Mendo, D. João Peculiar e cavalleiros D. Gonçalo de Sousa, D.
+Tello</em></p>
+
+<h4>D. JOÃO PECULIAR</h4>
+
+<p>É tentar a Deus, só por milagre poderiamos vencer tão grande multidão de
+inimigos. Ismael tem em roda de si cinco wallis, e um poderoso exercito.</p>
+
+<h4>D. GONÇALO DE SOUZA</h4>
+
+<p>As hostes de cinco wallis! Mais de cem mouros para cada um de nós. Eu tenho
+feito muitas correrias, tallado por muitas vezes os campos dos infieis; mas
+esta batalha que se prepara, tenho-a por uma temeridade, por uma loucura. Se
+perdermos a batalha, e com ella o nosso infante de Portugal, quem ha de
+defender a nossa independencia?</p>
+
+<h4>D. TELLO</h4>
+
+<p>Os campos estão cobertos de soldados sarracenos, é um mar de lanças que nos
+hade quebrar nas suas ondas.</p>
+
+<h4>D. GUILHERME</h4>
+
+<p>Morremos pela cruz.</p>
+
+<h4>JOÃO SIRITA</h4>
+
+<p>Sr. infante nasci no povo e padeci; fui homem d'armas e combatti, vivi na
+solidão, orando a Deus, e mais de cem vezes lutei com as fera. O Senhor fez por
+mim grandes milagres, e a minha<span class="pagenum">{D2. Pg. 26}</span> fé é
+immensa como o deserto:&mdash;morreria feliz se morresse por ella!&mdash;Porém agora o
+combatter seria matar este reino, n'uma só lide, o que o conde D. Henrique
+ganhou em tantas, e tão rijas pelejas.</p>
+
+<h4>JOÃO PECULIAR</h4>
+
+<p>João Sirita, o escolhido do céu, tem razão; combattemos pela cruz, para lhe
+exaltar a gloria, e não para deixar a victoria aos seus inimigos. (<em>Com
+solemnidade.</em>) Eu D. João Peculiar, humilde servo de Deus, e bispo por sua
+Divina Graça, em nome da religião te requeiro que não combattas em lide tão
+desigual, porque n'ella nos perderias a todos.</p>
+
+<h4>GONÇALO DE SOUSA</h4>
+
+<p>Tratae tregoas com Ismael...</p>
+
+<h4>LIDADOR</h4>
+
+<p>Tregoas com Ismael... Seria accrescentar ao perigo a cobardia; o rei mouro
+não guardaria a sua fé.</p>
+
+<h4>ALGUNS CAVALLEIROS</h4>
+
+<p>Não, não peleijemos.</p>
+
+<h4>D. TELLO</h4>
+
+<p>Salvae a cruz.</p>
+
+<h4>UM PRELADO</h4>
+
+<p>Salvae a cruz sr. infante.</p>
+
+<h4>INFANTE</h4>
+
+<p>Agradeço-vos, sr. o vosso amor por mim, e o desejo que tendes de que estes
+condados se conservem livres e gloriosos.&mdash;Estamos cercados de perigos, e só um
+conselho avisado nos póde salvar. Deixae-me meditar, e resolver o que devemos
+fazer n'esta conjunctura difficil e grave. Ide-vos: e que Deus vos tenha em sua
+santa guarda.</p>
+
+<p>(<em>Saem todos excepto o lidador, D. Egas Moniz, D. Tello e D.
+Mendo.</em>)<span class="pagenum">{D2. Pg. 27}</span></p>
+
+<h3>SCENA II</h3>
+
+<p class="dcena" style="text-align:center;"><em>(O infante, D. Tello, Egas
+Moniz, o Lidador, D. Mendo).</em></p>
+
+<h4>D. EGAS</h4>
+
+<p>Que quereis fazer Sr.? É, como dizeis, grave e difficil a situação em que
+nos achamos. Eu fio tudo da vossa prudencia, que é muito já em tão verdes
+annos; do vosso animo; e do amôr que tendes a Portugal. Deus vos inspirará o
+melhor conselho.</p>
+
+<h4>LIDADOR</h4>
+
+<p>Que resolveis, sr. infante?</p>
+
+<h4>INFANTE</h4>
+
+<p>Combatter e vencer.</p>
+
+<h4>D. TELLO</h4>
+
+<p>O numero dos inimigos é sem conto.&mdash;Vencêr é impossivel.</p>
+
+<h4>INFANTE</h4>
+
+<p>Morreremos então, pela fé, pela religião de Christo, e pela patria. Mas não
+morreremos, que m'o advinha o coração. Deus tem protegido até hoje este pequeno
+canto das Hespanhas que de meu pae herdei. Quando todos os reinos das hespanhas
+veneravam como sr. Affonso VII, combatiamos nós entre Galliza contra o poderoso
+imperador, e ganhavamos em Cerneja uma bella victoria. Se hoje a nossa
+independencia se acha compromettida, pelo tractado que assignámos em Tuy: se
+estamos quasi como vassallos de Affonso VII, esse estado acabará logo que
+ganharmos uma batalha sobre os sarracenos. Chegou o momento de ganharmos essa
+batalha. Ámanhã; pôr-nos-hemos independentes do imperador, e talvez
+accrescentaremos<span class="pagenum">{D2. Pg. 28}</span> mais uma provincia a
+Portugal.</p>
+
+<h4>D. TELLO</h4>
+
+<p>Cinco chefes inimigos...</p>
+
+<h4>INFANTE</h4>
+
+<p>Tantos quantas foram as chagas de Christo Senhor Nosso. N'esses
+blasphemadores vingaremos a fé.</p>
+
+<h4>LIDADOR</h4>
+
+<p>Apressemos a hora do combate. Lidemos rijamente, que havemos de vencer.</p>
+
+<h4>INFANTE</h4>
+
+<p>Vae, meu lidador: manda reunir o exercito; que quero fallar a todos,
+enchel-os de fé, accender-lhes nos corações uma sancta coragem. (<em>O Lidador
+sáe.</em>) (<em>A D. Mendo.</em>) Meu pagem, dá-me o escudo e a lança: (<em>D.
+Mendo dá-lh'os.</em>) Manda-me ajaezar o meu cavallo de batalha. (<em>D. Mendo
+sáe.</em>) Deus seja comigo nesta hora, e me falle ao pensamento.</p>
+
+<h4>EGAS MONIZ</h4>
+
+<p>N'esta sangrenta batalha, achar-me-hei ao vosso lado, como sempre, meu
+principe, para receber por vós os golpes do inimigo.</p>
+
+<h4>INFANTE</h4>
+
+<p>Meu Egas... meu amigo... Não tenho ninguem com quem possa desabaffar os
+amargores d'esta existencia senão tu.</p>
+
+<h4>EGAS MONIZ</h4>
+
+<p>Tendes-nos a todos... Uma família immensa que vos ama.</p>
+
+<h4>INFANTE</h4>
+
+<p>(<em>Com exaltação.</em>) Salvemol'a. Salvemos essa família com a nossa
+espada, e a nossa fé.<span class="pagenum">{D2. Pg. 29}</span></p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>(<em>Entrando.</em>) Está tudo prompto.&mdash;Esperam o sr. infante todos os
+cavalleiros reunidos...</p>
+
+<h4>INFANTE</h4>
+
+<p>Ámanhã estarás entre elles; terás uma espada ganha por ti, Mendo.&mdash;Vamos,
+senhores. (<em>Sáe com Egas Moniz, e D. Tello.</em>)</p>
+
+<h3>SCENA III</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>D. Mendo só</em></p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Serei cavalleiro!... terei uma espada, e com ella a minha Violante... a
+gloria!... um nome egual ao de meu pae!&mdash;Ser admirado por ella; ter um nome
+entre os nomes illustres... Combater por D. Affonso, pelo meu infante... que
+gloria, que felicidade! Ai! Violante, Violante!&mdash;(<em>Triste.</em>) Violante...
+longe de ti! Violante não esqueças o amor, que é a vida d'este coração. Quando
+penso na ventura de viver com ella, de lhe chamar esposa, sinto subitamente o
+terror esfriar-me todo. Aquellas palavras sinistras do Astrologo, de fr.
+Bermudo, e aquella vingança de que minha mãe me fallou levantam-se diante de
+mim como espectros medonhos, que me querem roubar a minha Violante! Qu'importam
+as palavras desvairadas de um bobo... os vaticinios dos astros? Que importa
+isso tudo? Deus não póde querer a desgraça de quem nunca commetteu um grande
+crime, de quem nunca o offendeu! (<em>Pausa.</em>) Ai! perdel-a!... (<em>Fica
+pensando.</em>) Morrer!... antes morrer!<span class="pagenum">{D2. Pg.
+30}</span></p>
+
+<h3>SCENA IV</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>D. Mendo, e fr. Bermudo</em></p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Ainda não. É ainda cedo para morreres.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+Bermudo!
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Não quero que morras, não quero que percas o animo, por isso vim.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Que pódes tu sobre a morte? Como pódes tu impedir que eu a vá buscar nas
+lanças dos inimigos? Se eu accreditasse nas tuas prophecias sinistras
+deixava-me matar na batalha de ámanhã.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Não irás buscar a morte porque amas a vida.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Amo sim, porque amo Violante.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Não amas Violante só.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Pois...</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Amas a gloria.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Para lh'a dar a ella.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>E para ti, tambem queres a gloria, e tens razão Mendo. (<em>Compaixão.</em>)
+Para que o amor fosse a tua unica paixão, o teu unico pensamento, a vida, o
+alento da tua alma; para que o amasses e vivesses só por elle, era preciso que
+o teu coração<span class="pagenum">{D2. Pg. 31}</span> houvesse padecido desde
+o berço dôr e tormentos, tivesse sempre ficado nas trevas e na solidão e que,
+quando tu o sentisses já quasi a morrer. Deus te mostrasse um anjo, uma luz,
+uma esperança.&mdash;Para comprehender a luz é preciso ter estado na escuridão; para
+apreciar a felicidade é preciso ter padecido. Os anjos não podem intender as
+alegrias do céu, porque nunca supportaram os tormentos do
+inferno...&mdash;(<em>Pausa.</em>) Os corações novos, que nunca foram provados pelo
+martyrio não podem amar como... como esses que se escondem n'um claustro, ou
+n'um sepulchro, para que ninguem os veja, para que ninguem saiba delles.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Que querem dizer essas palavras?</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Querem dizer que tenho penado mais, muito mais do que tu, e que não quero,
+nem posso ainda morrer.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>A sciencia prende-te á vida.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>A sciencia!... Antes de ser monge, fui homem: antes de dar todas as horas a
+um estudo inutil, tive outros desejos e outras esperanças... A flôr morreu em
+botão... acabou tudo, antes de eu saber se a felicidade é mais do que uma
+palavra de escarneo, a alegria mais do que uma illusão miseravel... E quero a
+vida, mesmo assim.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Queres a vida?</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Quero-a Mendo, esta alma é um abysmo, tão<span class="pagenum">{D2. Pg.
+32}</span> tenebroso, que nem eu me atrevo a olhar para elle... tenho medo.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Tens sofrido muito? Tens padecido?</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Escuta e verás. Tinha um unico irmão, que amava muito; ficámos orphãos ambos
+ainda infantes. Eu nunca tinha tido outro sentimento no coração, senão essa
+amizade profunda, extrema que lhe consagrava a elle; tinha-lhe salvo a vida nas
+batalhas á custa do meu sangue... Tudo que via de bello no mundo desejáva-o
+para lh'o dar. Se havia a affrontar um perigo ia eu por elle, se havia gloria a
+ganhar, deixava-o ir, e ficava eu. A minha vida era d'elle só.&mdash;Um dia, voltava
+de uma correria contra os mouros, não achei senão o seu cadaver! Meu irmão fôra
+assassinado.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Vingaste a sua morte?</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Procurei o assassino, para vingar a morte de meu irmão; tinha ido para essas
+longes terras da Palestina. Fui tambem. Busquei-o por toda a parte; atravessei
+o deserto soffocado pelos ardores do sol, devorado pela sede, consummido pela
+fome. O meu cavallo morreu, e prosegui na minha peregrinação a pé encostado ao
+bordão de peregrino. Padeci martyrios crueis, mas não encontrei nunca esse
+homem que buscava. Disseram-me que tinha morrido... Voltei para a patria.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>E então?</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Não tinha nada que me prendesse á vida, não<span class="pagenum">{D2. Pg.
+33}</span> tinha nenhuma esperança, nenhuma consolação. Fiz-me monge, e dei-me
+ao estudo, para vêr se a cabeça matava as saudades do coração.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>E conseguiste?</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Esse homem não tinha morrido, voltou.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Matastel-o?</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Não.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Perdoaste?</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Também não (<em>Pausa.</em>) O amor matou-me o odio. Fui fraco, covarde.
+Tive medo da minha vingança; trahí meu irmão, deixei passar junto de mim o seu
+assassino, e não tive força para levantar sobre elle o meu braço vingador.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Porque? O que te deteve o braço?</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Amei a filha desse homem...</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Tu?</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Eu?!... Não.&mdash;Sou monge, não posso ter amor. Um voto matou-me o coração.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Desgraçado!...</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Que importa o que passou... o que morreu! Todos julgaram que eu havia
+morrido... E ha dez annos que enterrado n'um mosteiro estudo a alchimia; tenho
+descoberto segredos, que poderiam<span class="pagenum">{D2. Pg. 34}</span>
+fazer os homens felizes, segredos que poderiam talvez tornar o mundo todo um
+paraizo. A natureza é omnipotente em crear, omnipotente em destruir: ao lado de
+cada força que géra ha uma força que mata... São tudo combates. O homem, grão
+de pó no universo, segue a lei geral. A vida é um combate entre o sêr, e o não
+sêr. O pensamento é uma lucta entre o bem e o mal. (<em>Pausa.</em>) Aqui tens,
+Mendo, uma essencia subtil. Esta essencia é a vida para ti se fores ferido na
+lide.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>(<em>Repellindo o frasco.</em>) Padre, tu fizeste-me perder o animo:
+mataste-me as esperanças. Tenho agora medo de tudo, menos da morte: tudo para
+mim é fatal. Essa peleja perder-se-ha. A vida servir-me-ha só para ser escravo,
+e penar. (<em>Ouvem-se gritos do exercito ao longe.</em>)</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Ouves?... Esses homens, ha pouco tão sem animo, tão atemorisados, estão
+agora incendiados pelo fogo do enthusiasmo... Oh! o enthusiasmo é um poder
+sublime! Os seus effeitos são similhantes aos que a força omnipotente de Deus
+produziria se baixasse á alma do homem... Uma palavra de D. Affonso bastou para
+pôr em duvida a victoria... talvez para a assegurar.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Pois julgas...</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Pela fé, e pelo enthusiasmo o homem multiplica-se, torna-se grande, e
+vence... Desgraçado de mim, que já não sinto esse divino fogo animar-me o
+coração. (<em>Dando o frasco a D. Mendo.</em>) Mendo, toma essa essencia, é a
+vida..&mdash;Ámanhã,<span class="pagenum">{D2. Pg. 35}</span> no meio dos gritos da
+victoria, dar-te-hão uma espada de cavalleiro, e saudar-te-hão entre os heroes.
+Vive para a gloria. Vive para Portugal. (<em>Em voz baixa.</em>) Vive para
+vingar teu pae, se tens n'alma força para tanto.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Acceito.</p>
+
+<h3>SCENA V</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>Os mesmos, D. Bibas e Bonamiz</em></p>
+
+<h4>D. BIBAS</h4>
+
+<blockquote>
+ Quero a vida. </blockquote>
+
+<h4>BONAMIZ</h4>
+
+<blockquote>
+ Não a quero.</blockquote>
+
+<h4>D. BIBAS</h4>
+
+<blockquote>
+ Pela morte.</blockquote>
+
+<h4>BONAMIZ</h4>
+
+<blockquote>
+ Só espero.<br>
+ Sem a minha doce amante,<br>
+ Viver não quero um instante.</blockquote>
+
+<h4>D. BIBAS</h4>
+
+<blockquote>
+ Mas a gloria? </blockquote>
+
+<h4>BONAMIZ</h4>
+
+<blockquote>
+ E os amores? </blockquote>
+
+<h4>D. BIBAS</h4>
+
+<blockquote>
+ Mas os cardos? </blockquote>
+
+<h4>BONAMIZ</h4>
+
+<blockquote>
+ Mas as flores? </blockquote>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>(<em>Colerico.</em>) Outra vez a escutar os meus segredos?</p>
+
+<h4>D. BIBAS</h4>
+
+<blockquote>
+ Vingativos frades;<span class="pagenum">{D2. Pg. 36}</span> </blockquote>
+
+<h4>BONAMIZ</h4>
+
+<blockquote>
+ E pagens contrictos, </blockquote>
+
+<h4>D. BIBAS</h4>
+
+<blockquote>
+ Monges aguerridos, </blockquote>
+
+<h4>BONAMIZ</h4>
+
+<blockquote>
+ Amantes afflictos </blockquote>
+
+<h4>D. BIBAS</h4>
+
+<blockquote>
+ Só nos fazem rir. </blockquote>
+
+<h4>BONAMIZ</h4>
+
+<blockquote>
+ Ai! fazem-nos rir... </blockquote>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>(<em>Colerico.</em>) Que ouvistes?</p>
+
+<h4>D. BIBAS</h4>
+
+<p>Coisas muito para rir!&mdash;Dizem que ha grandes sabedores, homens que valem
+mais do que os outros, que são mais avisados. (<em>Dando uma gargalhada.</em>)
+Loucura!... Os homens são todos bobos: bobos que fazem rir, bobos que fazem
+chorar, bobos que amam, bobos que odeiam, bobos que leem até dos astros, bobos
+que não sabem ler nem mesmo um pergaminho... mas todos bobos, todos jograes e
+chocarreiros.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Tens razão D. Bibas.</p>
+
+<h4>D. BIBAS</h4>
+
+<p>Vós que sois admirado pelo muito que sabeis, fallaes de vinganças como o
+mais estupido homem d'armas... Matar... matar um homem!... O que importa isso?
+Pois elle não ha de morrer, sem que o matem?&mdash;Matal-o é affastal-o de todos os
+tormentos deste mundo, é dar-lhe o descanço eterno... Estou hoje um bobo serio,
+não é assim? Um bobo serio é como um vestido de dó num casamento, excita a
+compaixão e o desprezo.<span class="pagenum">{D2. Pg. 37}</span></p>
+
+<h4>BONAMIZ</h4>
+
+<p>Mestre, estás hoje insipido.</p>
+
+<h4>D. BIBAS</h4>
+
+<p>Que queres? Deante destes dois mochos a piarem sons de agouro, até o genio
+de um jogral fica vencido.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Não digaes nada do que ouvistes, bobos.</p>
+
+<h4>D. BIBAS</h4>
+
+<p>Tambem tu, fr. feiticeiro, julgas que os bobos são como o resto dos homens?
+Ficae descançados; nós queremos saber para rir, e não para ir contar aos
+outros. (<em>Dando uma gargalhada.</em>) Vingativos frades.</p>
+
+<h4>BONAMIZ</h4>
+
+<p>E pagens contrictos...</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Calae-vos ahi, bobos do inferno. (<em>A fr. Bermudo.</em>) Acceito, fr.
+Bermudo. Não quero a morte ainda.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Vive...</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Cumprir-se-ha minha sina?</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Cumprir-se-ha. (<em>O rumor do exercito aproxima-se</em>)</p>
+
+<h4>BONAMIZ</h4>
+
+<p>Ahi vem o nosso infante, o nosso tio infante.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Adeus. D. Mendo&mdash;Quando me quizeres, estarei ao pé de ti. (<em>Sáe.</em>)</p>
+
+<p>(<em>A noite tem-se cerrado pouco a pouco.</em>)<span class="pagenum">{D2.
+Pg. 38}</span></p>
+
+<h3>SCENA VI</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>O Infante, Egas Moniz, o Lidador, D. Mendo, e
+Cavalleiros</em></p>
+
+<h4>TODOS</h4>
+
+<p>Viva o nosso infante! viva!</p>
+
+<h4>ALGUNS</h4>
+
+<p>Viva El-Rei!</p>
+
+<h4>INFANTE</h4>
+
+<p>Havemos de vencer; protege-nos o braço do Senhor.</p>
+
+<h4>ALGUNS</h4>
+
+<p>Viva D. Affonso!</p>
+
+<h4>INFANTE</h4>
+
+<p>Ide purificar-vos pela oração para que Deus proteja as nossas armas.</p>
+
+<p>(<em>Saem todos gritando&mdash;Viva D. Affonso, fica só o infante e D.
+Mendo.</em>)</p>
+
+<h3>SCENA VII</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>O Infante e D. Mendo</em></p>
+
+<h4>INFANTE</h4>
+
+<p>Mendo, amanhã é o mais bello dia da tua vida... Sentirás pela primeira vez o
+furor dos combates correr-te nas veias. No meio do turbilhão dos inimigos
+sentirás essa força estranha, superior e independente da vontade, que dirige o
+braço dos que pelejam pela sua fé, e pela sua patria; essa força que faz os
+heroes e os martyres; que é a inspiração dos homens de guerra. Não estejas
+assim triste agora; que depois da peleja terás de chorar os nossos que
+morrerem... e então... Que importa? Resta-me o amor. Tu<span
+class="pagenum">{D2. Pg. 39}</span> és moço, nobre; serás em pouco um dos
+melhores lidadores de Portugal. (<em>Sentando-se.</em>) Ajuda-me a tirar este
+capêllo. És feliz, Mendo; sobre ti não pezam nem remorsos do passado, nem
+terror do futuro...</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Sr. infante!</p>
+
+<h4>INFANTE</h4>
+
+<p>Meu amigo!... Diz-me o que desejas; quero fazer-te feliz, a ti.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>(<em>Com excitação.</em>) Meu senhor!</p>
+
+<h4>INFANTE</h4>
+
+<p>Falla-me com sinceridade.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Amo.</p>
+
+<h4>INFANTE</h4>
+
+<p>Amas D. Violante, já o sabia. Amas a filha de D. Pedro Framariz, e és amado
+por ella. Sereis unidos.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Unidos... Eu, e Violante...</p>
+
+<h4>INFANTE</h4>
+
+<p>Sou eu que t'o prometto.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Meu Deus, meu Deus! que feliz é o meu destino!</p>
+
+<h4>INFANTE</h4>
+
+<p>Vae agradecel-o a Deus... vae pedir-lhe por nós todos. Anda Mendo, vae pedir
+ao Senhor, que tenha misericordia dos que desejam glorificar seu santo nome.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Vou...</p>
+
+<h4>INFANTE</h4>
+
+<p>Deixa-me só. (<em>Mendo sáe.</em>)<span class="pagenum">{D2. Pg.
+40}</span></p>
+
+<h3>SCENA VIII</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>O Infante. (Só.)</em></p>
+
+<h4>INFANTE</h4>
+
+<p>(<em>Depois de uma pauza em que escuta os gritos do exercito ao longe.</em>)
+Aníma-os a todos a esperança da victoria. Esqueceram tudo, para se lembrarem só
+do triumpho. Uns combaterão por que têem fé, e querem, combatendo, ganhar o
+ceu; outros porque têem ambição, e querem accrescentar as suas terras e
+augmentar o seu poder. Agora é tudo enthusiasmo, tudo esperança ahi... depois,
+mais tarde, quando cada um desses guerreiros estiver a sós com a sua alma, virá
+a meditação; depois as recordações, e as saudades; depois a oração fervorosa...
+e depois... depois talvez o medo da morte... Morrer pela fé é ganhar a corôa
+celeste dos martyres; e todos os meus companheiros d'armas creem como eu na
+misericordia de Jesus Christo! (<em>Cravando no chão a espada e pondo-se de
+joelhos.</em>) Cruz de redempção, sobre que primeiro se escreveu a palavra
+sacrosanta de perdão para os homens, symbolo de eterna victoria, ajudae-nos...
+Que vos cerque uma luz de gloria: que se passe um milagre diante de mim, e a
+minha confiança será infinita! Gedeão era humilde e fraco como eu, os seus eram
+poucos contra muitos, como são agora esses meus, e o altar de Baal foi
+derrubado, e em seu logar se levantou o templo de Jéhovah. É por que a sua fé
+era viva, é por que a sua offerta tinha sido consumida pelo fogo do ceu no
+altar do sacrifício, é por que a mão<span class="pagenum">{D2. Pg. 41}</span>
+de Deus o protegia, é por que na sua alma havia uma inspiração sagrada...
+Inspirae-me, meu Deus: dae-me a victoria Senhor... e o vosso nome será adorado
+por toda a parte onde chegar o meu poder. Onde eu poder fazer ouvir a vossa
+palavra divina, grandes e pequenos, nobres e humildes a escutarão com amor e
+contricção. Dae-me a victoria, meu Deus!</p>
+
+<h3>SCENA IX</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>O Infante e Fr. Bermudo</em></p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>(<em>Á entrada do Real.</em>) A victoria será tua.</p>
+
+<h4>INFANTE</h4>
+
+<p>(<em>Levantando-se.</em>) Quem és? Que queres aqui? Foi Deus que te
+mandou?</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>A sua benção caiu sobre ti, e os teus.</p>
+
+<h4>INFANTE</h4>
+
+<p>A victoria!... Será nossa a victoria?</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>(<em>Abrindo as cortinas do fundo do Real, deixando vêr o campo, que se
+estende por uma encosta, e em que brilham algumas fogueiras; apontando para o
+Oriente.</em>) Ao romper d'alva verás no Oriente o braço do Senhor estender-se
+sobre o teu exercito.</p>
+
+<h4>INFANTE</h4>
+
+<p>A victoria, a victoria! Uma palavra tua, meu Deus!... (<em>Abraçando de
+joelhos a cruz da espada.</em>) Gloria ao teu nome Senhor!</p>
+
+<p style="text-align:center;"><strong>FIM DO 2.º ACTO</strong><span
+class="pagenum">{D2. Pg. 42}</span></p>
+
+<h2>ACTO TERCEIRO</h2>
+
+<p class="dcena"><em>Uma salla do castello de Guimarães, portas lateraes e ao
+fundo. É noite, brandões seguros por braços de ferro lançam uma luz brilhante.
+Ouve-se musica, ha differentes bailados, durante a primeira scena.</em></p>
+
+<h3>SCENA I</h3>
+
+<p class="dcena"><em>D. Gonçalo de Sousa, D. Lourenço Viegas, D. Soeiro Viegas,
+Cavalleiros, Prelados, Damas, D. Mendo, D. Violante, D. Bibas e Bonamiz. Os
+Cavalleiros e Damas passeiam e dançam.</em></p>
+
+<h4>D. GONÇALO DE SOUSA</h4>
+
+<p>(<em>A uma dama que traz pelo braço.</em>) Foi bello, magnifico este nosso
+jogo do tavolado.&mdash;Nunca damas mais formosas fizeram nascer dezejos de gloria
+em corações de mais ardentes e destros cavalleiros.</p>
+
+<h4>DAMA</h4>
+
+<p>Lembraram-vos hoje essas batalhas verdadeiras, onde sois sempre o primeiro,
+sr. D. Gonçalo de Sousa?</p>
+
+<h4>D. LOURENÇO VIEGAS</h4>
+
+<p>(<em>Aproximando-se.</em>) Feliz o cavalleiro que ganhou hoje uma coroa para
+vos offerecer, linda Branca.</p>
+
+<h4>DAMA</h4>
+
+<p>Não sejaes invejoso, D. Lourenço Viegas, que é feia a inveja em quem vale
+tanto: vossos feitos de armas já vos mereceram o nobre titulo de
+<em>espadeiro</em>.</p>
+
+<h4>BONAMIZ</h4>
+
+<p>Mas nem por isso lhe tem valido grandes<span class="pagenum">{D2. Pg.
+43}</span> triumphos em amor. É por que o amor não se leva á espada, como se
+levam os infieis sarracenos. As mulheres são infieis, que se conquistam pela
+brandura, e que se conservam pelo galanteio. O braço forte não serve para
+conquista destas, D. Lourenço.</p>
+
+<h4>DAMA</h4>
+
+<p>(<em>Rindo.</em>) Que tem isso?&mdash;Não se póde ser grande em tudo. (<em>Vão
+para o fundo da scena.</em>) É melhor cubrir-se um cavalleiro de gloria nas
+batalhas do que nos amores.</p>
+
+<h4>D. SOEIRO VIEGAS</h4>
+
+<p>(<em>Vindo á frente da scena com uma dama.</em>) D. Sancha, sois a formosa
+de todas as lindas damas de Portugal. Um mouro chamar-vos-hia uma huri, eu
+adoro-vos como a um anjo.</p>
+
+<h4>DAMA</h4>
+
+<p>É nos campos da lide que se aprende a lisonja?</p>
+
+<h4>D. SOEIRO VIEGAS</h4>
+
+<p>Aprende-se a ser franco, e leal...</p>
+
+<h4>D. BIBAS</h4>
+
+<p>(<em>Rindo.</em>) Como todos os da vossa raça, dom namorado...</p>
+
+<h4>D. SOEIRO VIEGAS</h4>
+
+<p>Excommungado bobo!</p>
+
+<h4>D. BIBAS</h4>
+
+<p>Não ha nada que esfrie uma paixão como uma gargalhada a tempo. O bobo é o
+avesso de Cupido. Ri-se das coisas serias, o bobo; e Cupido e todos os seus
+escravos tomam a serio até os ridiculos galanteios do amor.</p>
+
+<p style="text-align:center;">(<em>Um cavalleiro e uma dama vêem á frente da
+scena.</em>)<span class="pagenum">{D2. Pg. 44}</span></p>
+
+<h4>1.º CAVALLEIRO</h4>
+
+<p>Está sempre triste, e cuberta de lucto, a infeliz D. Gontrade.</p>
+
+<h4>DAMA</h4>
+
+<p>Vistel-a hoje aqui? Em quanto o filho, D. Mendo...</p>
+
+<h4>1.º CAVALLEIRO</h4>
+
+<p>O namorado D. Mendo. Vede com que olhos elle admira a filha de D. Pedro
+Framariz. Feliz Mendo!</p>
+
+<h4>DAMA</h4>
+
+<p>Em quanto o pagem d'El-Rei...</p>
+
+<h4>1.º CAVALLEIRO</h4>
+
+<p>Agora cavalleiro. Ganhou a espada na batalha de Ourique. Foi o sr. D.
+Affonso Henriques, quem o armou com a sua propria mão.</p>
+
+<h4>DAMA</h4>
+
+<p>Em quanto D. Mendo andou pela guerra, a mãe, D. Gontrade, passou os dias e
+as noites fechada, a rezar sempre. Aquella mulher tem dôr ou remorso que lhe
+dilacera o coração.</p>
+
+<h4>1.º CAVALLEIRO</h4>
+
+<p>Estava ali na capella esta manhã: parecia ainda mais triste que de
+costume.</p>
+
+<h4>DAMA</h4>
+
+<p>Pobre D. Gontrade! Dizem que lhe mataram o marido! É uma historia tenebrosa,
+que ficou sempre em mysterio, e de que pouco se sabe.</p>
+
+<h4>1.º CAVALLEIRO</h4>
+
+<p>Seu filho Mendo vae casar....</p>
+
+<h4>DAMA</h4>
+
+<p>Assim se diz. Mas a fallar verdade, eu duvido.</p>
+
+<p style="text-align:center;">(<em>Um grupo de cavalleiros vem á frente da
+scena.)</em></p>
+
+<h4>1.º CAVALLEIRO</h4>
+
+<p>Foi uma rija arrancada aquella de Ourique.<span class="pagenum">{D2. Pg.
+45}</span> El-Rei D. Affonso derrubou de um golpe dois daquelles perros
+infieis.</p>
+
+<h4>2.º CAVALLEIRO</h4>
+
+<p>Ismael pouco resistiu.</p>
+
+<h4>3.º CAVALLEIRO</h4>
+
+<p>Nunca, por vida minha, nunca vi uma tão grande róta.</p>
+
+<h4>1.º CAVALLEIRO</h4>
+
+<p>Parecia que o braço de Deus pelejava por nós.</p>
+
+<h4>2.º CAVALLEIRO</h4>
+
+<p>E que alegria a do exercito quando depois da batalha, levantámos por nosso
+rei a D. Affonso Henriques.</p>
+
+<h4>3.º CAVALLEIRO</h4>
+
+<p>Agora já temos rei independente.</p>
+
+<h4>2.º CAVALLEIRO</h4>
+
+<p>Temos ainda que combater muito pela independencia de Portugal.</p>
+
+<p style="text-align:center;">(<em>Outro grupo de cavalleiros vem á frente da
+scena.</em>)</p>
+
+<h4>1.º CAVALLEIRO</h4>
+
+<p>É um leal cavalleiro D. Pedro Framariz.</p>
+
+<h4>2.º CAVALLEIRO</h4>
+
+<p>Honrado como Egas Moniz.</p>
+
+<h4>3.º CAVALLEIRO</h4>
+
+<p>Não tanto. Elle não se hia de certo entregar nas mãos dos inimigos para não
+faltar á palavra dada, á lealdade jurada.</p>
+
+<h4>2.º CAVALLEIRO</h4>
+
+<p>Lá isso é verdade; D. Pedro Framariz não era capaz de tal.</p>
+
+<h4>BONAMIZ</h4>
+
+<p>(<em>Rindo.</em>) Tem mais amor á pelle, e menos amor à honra. (<em>Vae-se
+cantando.</em>)</p>
+
+<h4>3.º CAVALLEIRO</h4>
+
+<p>Estes bobos!...<span class="pagenum">{D2. Pg. 46}</span></p>
+
+<h4>2.º CAVALLEIRO</h4>
+
+<p>Dizem que a filha caza com D. Mendo, o antigo pagem d'el-rei. É um cazamento
+muito honroso para D. Mendo.</p>
+
+<h4>3.º CAVALLEIRO</h4>
+
+<p>Estão namorados, mas cazarem... Não cazarão talvez.</p>
+
+<h4>2.º CAVALLEIRO</h4>
+
+<p>É a vontade d'el-rei, que se cazem.</p>
+
+<h4>4.º CAVALLEIRO</h4>
+
+<p>Entre as duas familias houve n'outro tempo alguma coisa.</p>
+
+<h4>3.º CAVALLEIRO</h4>
+
+<p>Um homizío... dizem.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>(<em>Aproximam-se de Violante que está assentada.</em>) Violante, ficae;
+deixae sahir todos.</p>
+
+<h4>VIOLANTE</h4>
+
+<p>Fico. (<em>D. Mendo affasta-se.</em>)</p>
+
+<p style="text-align:center;"><em>Um grupo de velhos cavalleiros e de prelados,
+vem á frente da scena</em></p>
+
+<h4>1.º PRELADO</h4>
+
+<p>Vae-se demorando o banquete.</p>
+
+<h4>2.º CAVALLEIRO</h4>
+
+<p>Muito mais do que se demoram os nossos golpes quando pelejamos contra os
+excommungados da Moirama...</p>
+
+<h4>2.º PRELADO</h4>
+
+<p>As nossas orações no côro tambem se não demoram tanto tempo como esta
+ceia.</p>
+
+<h4>3.º CAVALLEIRO</h4>
+
+<p>Não tarda. Ainda bem que se demora porque podemos conversar.</p>
+
+<h4>UM OVENÇAL</h4>
+
+<p>(<em>Na salla d'armas, á porta.</em>) Nobres, ricos-homens,<span
+class="pagenum">{D2. Pg. 47}</span> infanções, cavalleiros, srs. de prestamos e
+alcadarias, el-rei de Portugal vos convida a vir tomar parte no banquete.</p>
+
+<h4>2.º CAVALLEIRO</h4>
+
+<p>Em fim!</p>
+
+<h4>PRELADO</h4>
+
+<p>Vamos, vamos.</p>
+
+<p style="text-align:center;">(<em>Sahem todos, todos excepto D. Mendo e D.
+Violante. D. Bibas esconde-se detraz de um pilar.</em>)</p>
+
+<h3>SCENA II</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>D. Mendo e D. Violante, D. Bibas
+(escondido.)</em></p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Violante!... minha Violante!</p>
+
+<h4>VIOLANTE</h4>
+
+<p>Mendo?!</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Uma palavra... uma palavra, por minha alma.</p>
+
+<h4>VIOLANTE</h4>
+
+<p>Mendo, nem um instante passei sem pensarem vós: e eu tambem estava esperando
+com ancia este momento para vos ouvir dizer-me uma palavra de amor.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>E não teve, Violante, não teve essa bocca um sorriso para mim, nem esses
+olhos tiveram um olhar terno para me dar até agora?</p>
+
+<h4>VIOLANTE</h4>
+
+<p>Ai! que nem eu sei dizer-vos o que sinto, dizer-vos o que me deteve diante
+de toda essa gente! Ha uma coisa occulta, Mendo, que me prende a palavra e o
+gesto quando quero mostrar-vos tudo o que sinto em mim. Faltam-me forças,
+faltam-me faculdades para tanto.<span class="pagenum">{D2. Pg. 48}</span></p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Falta-vos o amor... talvez.</p>
+
+<h4>VIOLANTE</h4>
+
+<p>(<em>Sorrindo com muito amor.</em>) É desleal essa palavra, cavalleiro. Eu
+conheci um pagem que só dizia o que pensava, com verdade, e sinceramente.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>O pagem, minha Violante, seria verdadeiro e sincero, seria: mas não valia
+mais do que o cavalleiro, que d'elle herdou o maior amor, que do mundo tem
+havido.</p>
+
+<h4>VIOLANTE</h4>
+
+<p>Que sustos tive, em quanto durou a guerra! Parecia-me que não vos tornaria a
+vêr, e essa ideia fazia-me chorar horas esquecidas, fechada no meu oratorio.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Eu não podia morrer, porque vós me estaveis esperando.</p>
+
+<h4>VIOLANTE</h4>
+
+<p>Não vos lembrou a triste Violante, quando, o primeiro entre todos, vos
+lançastes por meio das lanças dos inimigos?</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Lembrou, lembrou. Ia lá buscar esta espada... Não era eu que ia, não; era a
+esperança de vir aqui ajoelhar-vos aos pés e dizer-vos: «Violante, tenho um
+nome de cavalleiro, tenho um logar entre os ricos-homens de Portugal, tenho
+esta mão que é leal e que está pura... offereço-vos, tudo minha Violante!»</p>
+
+<h4>VIOLANTE</h4>
+
+<p>(<em>Apertando a mão de D. Mendo.</em>) Acceito.<span class="pagenum">{D2.
+Pg. 49}</span></p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>A fr. Bermudo devo a ventura de ouvir a minha Violante dizer-me esta divina
+palavra.</p>
+
+<h4>VIOLANTE</h4>
+
+<p>(<em>Com susto.</em>) A fr. Bermudo! Como? Que tem esse astrologo agourento
+com a nossa felicidade?</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Não quero ser eu só a bem dizer esse homem inexplicavel; por isso, aqui
+mesmo no meio da nossa alegria, quero contar o que elle fez para me salvar.</p>
+
+<h4>VIOLANTE</h4>
+
+<p>Para vos salvar?</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Estava quasi ganha a batalha; na ala esquerda porém, ainda uma das hostes
+dos almoravides resistia como um muro de ferro aos ataques impetuosos dos
+cavalleiros christãos. Tive vergonha de vêr os nossos recuarem deante dos
+inimigos, entre os quaes combatiam mais de trezentas mulheres; e, com uma
+espada na mão precipitei-me sobre a phalange sarracena; rompi a primeira e
+segunda linha, e quando me voltei para vêr se os cavalleiros portugueses me
+haviam seguido, achei-me de todos os lados cercado pelos infieis. A minha morte
+era certa: o braço já ía cançando: e se não fôra a vossa imagem, que estava
+sempre presente ao meu espirito, ter-me-hia deixado morrer. Subitamente, porém,
+quando já, fechando os olhos, e pronunciando o vosso nome, me arremedava ás
+cegas sobre os inimigos, ouvi por detraz de mim um pavoroso clamor, e vi logo
+depois um soldado que derrubava tudo com o seu braço de Hercules. N'um
+instante, vi abrir-se uma<span class="pagenum">{D2. Pg. 50}</span> larga
+estrada juncada de cadaveres; e foi assim que me salvei da morte.</p>
+
+<h4>VIOLANTE</h4>
+
+<p>E o soldado?</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Era fr. Bermudo. Violante, a fr. Bermudo devo esta felicidade, tão grande,
+que nem eu a posso comprehender, nem a posso sentir toda, que não tenho coração
+para tanto. É uma felicidade que mata!</p>
+
+<h4>VIOLANTE</h4>
+
+<p>Tem-me consumido a vida, mas amo-a.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Oh! Que nunca julguei que tão cedo nos chegasse tamanha ventura!
+(<em>Beija-lhe a mão&mdash;D. Bibas dá uma gargalhada aguda e estridente.</em>)</p>
+
+<h4>VIOLANTE</h4>
+
+<p>Jesus!</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>(<em>Levando a mão á espada.</em>) Quem ousaria?!</p>
+
+<h4>D. BIBAS</h4>
+
+<p>(<em>Vae-se cantando com, voz lugubre.</em>)</p>
+
+<blockquote style="font-size: small;">
+ «Vivem loucos namorados<br>
+ Vendo futuro formoso<br>
+ Onde não ha mais que a dôr<br>
+ De um mysterio tenebroso.»</blockquote>
+
+<h4>VIOLANTE</h4>
+
+<p>Bobo.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>D. Bibas que anda fazendo pelo castello a sua ronda de escarneo.&mdash;Louco!</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>(<em>Entrando.</em>) D. Mendo, os loucos sabem mais ás vezes que os
+avisados&mdash;Sr.ª D. Violante ide-vos, vosso pai procura por vós.<span
+class="pagenum">{D2. Pg. 51}</span></p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Tudo nos separa...</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Em breve nada nos poderá separar um do outro. Adeus, Mendo, adeus!
+(<em>Sae.</em>)</p>
+
+<h3>SCENA III</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>D. Mendo e Frei Bermudo.</em></p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Para que vieste separar-nos, quando estavamos a matar as saudades d'esta
+longa ausencia? Fr. Bermudo, és tu sempre quem separa Violante de mim.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Não sou eu; é o teu destino fatal.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Mão me repitas outra vez os teus agoiros. Não queiras que eu te maldíga; não
+queiras que eu tome odio a ti, e á vida...</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Depois d'esse teu penar, virá a gloria. Assim o dizem os astros.
+(<em>Sáe.</em>)</p>
+
+<h3>SCENA IV</h3>
+
+<h4>D. MENDO <em>só</em></h4>
+
+<p>Este homem, este frade é incomprehensivel. As suas palavras pezam sobre mim;
+quando o vejo, não sei se a sympathia, ou o odio me fazem pular o coração no
+peito. Devo-lhe a vida a este homem; e, comtudo, parece-me que lhe não posso
+ser grato.&mdash;Sou cavalleiro já, e agora saberei o segredo tremendo, que desde a
+infancia me involve, sem que o possa conhecer. Minha mãe&mdash;quando<span
+class="pagenum">{D2. Pg. 52}</span> ao chegar da guerra a fui vêr&mdash;recebeu-me
+com assustadora solemnidade; deu-me apenas um beijo que me fez frio. Está mais
+pallida agora; e ha nos seus olhos um clarão sinistro que me faz medo. Sinto
+caminhar para mim o terrivel segredo, e tenho vontade de fugir para o não
+ouvir. É covardia... é fraqueza, isto!</p>
+
+<h3>SCENA V</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>D. Mendo e D. Gontrade</em></p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>(<em>Entrando.</em>) Meu filho...</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>(<em>Estremecendo.</em>) Minha mãe...</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>Estás aqui, Mendo, longe das festas, triste e só? Tens razão, filho; porque
+não pódes, não deves ter nem alegria nem descanço, em quanto não tirares
+vingança do assassino de teu pai.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Que dizeis, minha mãe? meu pai morreu assassinado, já vol-o ouvi dizer; mas
+quem o matou é o que eu não sei ainda.</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>Mendo, até ao dia em que ganhaste&mdash;gloriosamente, bem o sei&mdash;essa nobre
+espada, não eras mais do que um pagem, uma criança. Esse tempo passou: tens já
+um nome de cavalleiro que teu pai tornou illustre, e que tu deves conservar
+puro e sem mancha. Mendo Paes, o teu nome está deshonrado. A mão de um homem
+desleal manchou-lhe a pureza, deslustrou-lhe a nobreza. D. Paio Ramires teu
+pai, foi assassinado, covardemente<span class="pagenum">{D2. Pg. 53}</span>
+assassinado; e o seu assassino vive ainda!... Ficas assim calado?!... Não se te
+revolvem lá dentro os desejos da vingança? Meu filho, enganar-me-hia a
+esperança? Não serás tu digno de teu pai?</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>(<em>Com terror.</em>) Quero-vos muito, minha mãe. Esta vingança, porém,
+faz-me susto. Não sei que pressentimento me diz que esta vingança me hade matar
+a mim tambem.</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>Susto! tens susto de vingar a morte de teu pai!? Não te creio, meu filho,
+porque respeito, em ti, o chefe da nossa familia. É hoje o dia da vingança,
+Mendo, uma vingança cruel, tremenda, publica para que todos a saibam. A
+vingança é um acto horrendo e criminoso; mas a honra exige que esse acto se
+cumpra.&mdash;Foi a ultima vontade de teu pai. É no meio do banquete, entre os risos
+e os gritos do triumpho, que te espera a victima. (<em>Tirando um punhal.</em>)
+Foi esta a arma traidora que serviu ao crime; sobre ella ha ainda o sangue de
+teu pai ennegrecido pelo tempo, mas não limpo ainda da deshonra. Guardei-o
+sempre como uma reliquia sagrada, para t'a confiar na hora do castigo...</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>O punhal é arma de traidôr; minha mãe, tenho esta espada...</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>E se morresses?... se esse homem te matasse tambem?</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Morria como cavalleiro.<span class="pagenum">{D2. Pg. 54}</span></p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>Quem vingaria teu pai?&mdash;Não, Mendo; é com este ferro que o infame deve ser
+punido... O assassino de teu pai é...</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Callai-vos... callai-vos...</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>Que tens?</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Tenho medo!</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>Medo?!...</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Se esse bomem fosse?...</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>Quem?</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>O pai da mulher que amo..</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>Morreria... da tua mão receberia a morte.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Minha mãi!</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>É a hora da vingança, meu filho. Quando uma familia nobre, como a nossa, se
+acha deshonrada, e offendida pela mão de um traidor, não deve n'ella haver
+descanço, nem alegria, em quanto a offensa não fôr castigada, e a sua honra
+purificada da nodoa de sangue que lhe apagou o brilho.&mdash;O homem que matou teu
+pai, Mendo, vive junto de nós, é um dos ricos-homens de D. Affonso Henriques, é
+D. Pedro Framariz.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>D. Pedro! Jesus, meu Deus!...&mdash;Elle!... não minha mãi, isso não póde
+ser.<span class="pagenum">{D2. Pg. 55}</span></p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>Hesitas?</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>O pai de Violante? É um nobre cavalleiro, que tem um logar distincto entre
+os cavalleiros mais leaes á patria, entre os mais ardentes defensores da fé.</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>O sangue de teu pai pede sangue, meu filho. D. Pedro matou covardemente D.
+Payo Ramires; e tu não podes, não tens direito de trazer essa espada, em quanto
+em Portugal poderem dizer de ti: «Aquelle homem desconhece os principios da
+honra, porque não vingou ainda a morte de seu pai.»</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Mais tarde; ainda não...</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>Hoje... agora.&mdash;Ha dez annos, a esta mesma hora vi eu cravar este punhal no
+coração de teu pai... de meu marido.&mdash;Foi uma noite horrivel... uma noite de
+sangue e infamia!</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Assassino!... eu!...&mdash;Minha mãe, a vingança é um crime covarde e miseravel.
+Uma lança que se cruza com outra lança em repto leal, á luz do dia, diante de
+todos, merece a sympathia de todos; um punhal que nas trevas escorrega
+cautelosamente, e se crava frio e silencioso nas carnes de um homem desarmado,
+só merece desprezo.</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>A vingança não é crime, quando a exerce um filho sobre o assassino de seu
+pai.<span class="pagenum">{D2. Pg. 56}</span></p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>E Violante?...</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>Entre ti e ella ha um cadaver.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Perdoai, minha mãi. Sou fraco de coração. Fallece-me o animo.</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>Mendo, teu pai deixou a sua maldição em herança ao filho, se elle o não
+vingasse; e a minha maldição juntar-se-ha á d'elle...</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Que Violante não veja... que não o saiba!</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>Covarde! vês este punhal tincto ainda de sangue, e hezitas, e tremes...</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Não posso... Aquelle anjo!&mdash;Pois eu hei de ser odiado por Violante! (<em>Com
+muita desesperação.</em>)</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>A honra do nosso nome, e a memoria de teu pai pedem vingança! (<em>Dando o
+punhal a D. Mendo, que o recebe com terror</em>) Vinga a morte de teu pai, ou
+sê maldicto! (<em>Sáe.</em>)</p>
+
+<h3>SCENA VI</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>D. Mendo, só</em></p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Meu pai, meu pai, levantae-vos do sepulchro e perdoai... que me salvaes,
+que salvaes vosso filho! (<em>Olhando para o punhal.</em>) Este sangue ha de
+ser lavado com outro sangue?! Assim o exige<span class="pagenum">{D2. Pg.
+57}</span> a honra de uma familia nobre!... Meu pai, se vos basta o sangue de
+um homem, dar-vos-hei todo o meu! (<em>Chorando.</em>) Se as lagrimas de um
+filho podem lavar a nodoa tremenda d'este ferro, derramarei o meu pranto sobre
+elle em quanto viver!... A vingança dura pois mais do que a vida?! O espirito
+depois de separado da terra, não perdôa, não esquece tudo?! Pois n'esse mundo
+mysterioso e todo espiritual, para aonde as almas vão depois da morte, tambem
+ha estas ruins paixões, que teem feito da humanidade um bando de feras? Essas
+paixões duram a eternidade? Onde está o descanço, aonde está a paz? Onde existe
+o ceu?&mdash;Ai! Quem me livra deste martyrio? Quem salva a minha honra? Quem dá
+força á minha alma, para que se não perca... para que não renegue a Deus?!</p>
+
+<h3>SCENA VII</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>D. Mendo e Fr. Bermudo</em></p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Tira da fé a tua força, e não renegarás a Deus. A desgraça é difficil de
+supportar; e quando pela primeira vez ella nos entra no coração, parece-nos
+impossivel que o coração a possa conter, que o coração não estale.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Salva-me, salva-me... Fr. Bermudo, sei tudo. Violante é filha do assassino
+de meu pai. Minha mãi confiou-me uma vingança... que eu não tenho animo de
+executar.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Péza-te essa vingança? Dá-ma... que t'a acceito.&mdash;É<span
+class="pagenum">{D2. Pg. 58}</span> o ultimo sacrificio que faço ás malditas
+paixões humanas: faço-o com horror, mas não quero que tu sejas odiado pela
+candida Violante. Esse odio matal-a-hia a ella!</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Como te hei de confiar uma vingança que é só minha?</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Eu tambem tenho direito de a tomar para mim.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Porque?!</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Não queiras penetrar o enigma da minha vida. Juro-te que não é deshonra para
+ti ceder-me essa vingança.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>E Violante? Já não podemos ser um do outro. É impossível esta união.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Não te disse que Violante não podia ser tua?</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Que hei-de fazer?</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Esquecel-a... se fôr possivel.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Não, não... não posso... não é possivel.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Pobre de ti, que a amas tambem!</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>E ella?... Se morrer, meu Deus!</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>A sua alma é pura... é um anjo, os anjos a esperam...&mdash;Que morra ao menos
+com o seu amor: que morra, amando-te. Odiar-me-ha a mim... mas que importa?
+Esse odio fará mais<span class="pagenum">{D2. Pg. 59}</span> miseravel ainda
+quem do mundo só conheceu os amargores. Que importa?</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>(<em>Chorando.</em>) Que padecimento!... Que martyrio!... Maldita a vida, em
+que ha tanta dor, e tanta miseria!...&mdash;Oh! A minha felicidade, as minhas
+esperanças eram um escarneo cruento!... A maldição de meu pai caiu sobre mim, e
+tornou arido, e deserto o meu coração!... Deus criou o homem por escarneo...</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>(<em>Pondo-lhe a mão na boca.</em>) Calla-te, não blasfemes.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>(<em>Abatido.</em>) Não... não devo blasfemar porque vou morrer.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Não percas assim o animo, homem.&mdash;A alma é infinita nas suas forças,
+inexgotavel nas suas consolações: quando parece já extincta de todo, acorda,
+toma alento, levanta-se, e fica forte como d'antes.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>A minha morreu de todo!</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Ha homens que teem padecido tanto... muito mais do que tu, e que soffrem
+ainda estes tormentos da existencia. Em quanto a alma póde ter amor ou odio,
+vive. É a extinção das paixões, que é a morte. O nada é que o espirito não póde
+suportar. O homem crê na sua propria immortalidade, porque quando o corpo está
+a ponto de destruir-se, a alma ainda conserva o pensamento, e as paixões. Tens
+a gloria ainda, Mendo. Tens a fé...<span class="pagenum">{D2. Pg. 60}</span></p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Essa!... Não sei... (<em>Pauza.</em>) Tenho fé, tenho.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Tens um allivio, uma esperança&mdash;então bemdicta seja ella.&mdash;Deixa-me para mim
+essa tua vingança, Mendo. Violante odiar-te-hia, e morreria na desesperação, se
+tu lhe assassinasses seu pae.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>(<em>Dando-lhe o punhal.</em>)Ahi tens esse punhal... É um presente
+maldicto, esse que te dou.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>(<em>Beijando o punhal.</em>) Este sangue, este sangue!... Oh! Chegou a hora
+que já foi tão desejada, e que tão temida é agora! (<em>Á parte.</em>) Terei eu
+n'este solemne momento o poder que até hoje me tem falecido?&mdash;Irmão, meu
+irmão... É por teu filho este sacrificio! Pede a Deus que me dê forças, meu
+irmão!</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Que tens?</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>(<em>Tranquillo.</em>) Ámanhã teu pai estará vingado.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Violante!... Violante orphã, só, e desgraçada...&mdash;Desgraçado de mim!</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>E eu, maldicto por ella! Vou pedir a Deus que me perdoe, e que me inspire...
+Sou fraco, sou um um fraco (<em>Entra para a capella do fundo, e vae ajoelhar
+deante do altar</em>).<span class="pagenum">{D2. Pg. 61}</span></p>
+
+<h3>SCENA VIII</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>D. Mendo, e depois D. Affonso, D. Violante,
+D. Pedro Framariz, Damas, e Cavalleiros da Côrte</em></p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>E eu tambem, já nem tenho alento para viver!&mdash;Ó minha fé, minha fé,
+accende-te nesta alma, para que eu possa supportar este lanço terrivel.</p>
+
+<h4>D. AFFONSO</h4>
+
+<p>(<em>Entrando.</em>) D. Mendo Paes, venho cumprir o que vos prometti, no dia
+da victoria. (<em>Aos cavalleiros.</em>) Pedimos agora, e obtivemos de D. Pedro
+Framariz rico-homem, e filho d'algo do nosso reino, a mão da sua filha D.
+Violante, para o muito nobre cavalleiro D. Mendo Paes.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Não posso acceital-a... não posso!... (<em>Cahindo de joelhos.</em>)
+Violante!... Perdão!...</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>(<em>Desmaiando.</em>) Mendo!</p>
+
+<h4>D. AFFONSO</h4>
+
+<p>O que se oppõe a este casamento, Mendo? O que se oppõe á tua felicidade
+agora?</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>(<em>Á porta da capella apontando para o altar.</em>) A vontade do céu.</p>
+
+<p style="text-align:center;"><strong>FIM DO 3.º ACTO.</strong><span
+class="pagenum">{D2. Pg. 62}</span></p>
+
+<h2>ACTO QUARTO</h2>
+
+<p class="dcena"><em>A cella de Fr. Bermudo no mosteiro de Mumadona. Alguns
+instrumentos de alchimia, livros e pergaminhos etc. Uma porta do lado direito;
+outra ao fundo deitando para um pequeno oratorio, em que se vê uma cruz com
+toalha; uma janella do lado esquerdo. É noite, uma lampada alumia a
+scena.</em></p>
+
+<h3>SCENA I</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>Frei Bermudo (Só.)</em></p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>(<em>Olhando para o céu pela janella aberta. Ouve-se do interior do theatro
+uma harmonia solemne ao longe, fazendo apenas um murmurio brando.</em>) Os
+espiritos superiores caminham invisiveis por entre os astros. Accompanham-os
+essas harmonias infinitas das constellações, que os sentidos imperfeitos dos
+habitantes da terra não podem ouvir, mas que a rasão atrevida ousa advinhar e
+comprehender. Caminham pelo céu os espiritos invisiveis, e no seu rapido vôo
+vão escrevendo com as estrellas os destinos dos homens. Quem póde lêr
+claramente essas phrazes, que duram um instante apenas, que são ephemeras como
+a existencia do homem, essas phrazes escriptas n'uma lingua de que os
+astrologos conhecem apenas algumas palavras soltas? Quem póde duvidar de que no
+ceu se escreve a historia do futuro de cada homem? Quem póde duvidar?... Eu, eu
+mesmo duvido. O orgulho talvez seja o creador da astrologia. Pois o homem
+merece que<span class="pagenum">{D2. Pg. 63}</span> os espiritos superiores
+escrevam o seu destino? O que sabemos nós todos? Sabemos até onde chega a nossa
+ignorancia e nada mais.&mdash;O homem, em vigilias longas e virtiginosas, gasta a
+vida, séca a intelligencia, destróe a fé e a pureza de espirito, mas não
+penetra o segredo d'essas palavras, lançadas no céu pelos poderes da natureza.
+(<em>Pauza.</em>) Caminha, ó minha pallida estrella, caminha... caminha astro
+de funebre agouro; que em breve marcarás a hora mais fatal da minha
+existencia.&mdash;(<em>Longa pausa; calla-se a orquestra</em>). Hoje maldicto...
+hoje serei amaldiçoado por Violante.&mdash;Tomei para mim esta tremenda vingança...
+heide ser eu o assassino de D. Pedro, do pai de Violante.&mdash;Se ao menos esta
+vingança podesse apagar da memoria de todos o crime de D. Pedro Framariz,
+depois o meu querido Mendo, e a pura Violante podessem ser felizes!&mdash;Ai! Que
+dôr será a desses desventurados agora que sabem já o tremendo poder que os
+separa!... Que vida, que existencia esta minha!... Um abismo... é um abismo a
+minha alma! Um abismo onde não houve nunca senão tres paixões... a amizade, a
+vingança, o amor. Uma amizade sancta, profunda, unica, exclusiva. Um desejo de
+vingança frio, lento, sem enthusiasmo, como se houvera nascido no coração de um
+cadaver. Um amor... um amor que pode fazer esquecer a vingança... que pode
+esquecer-se a si proprio para só desejar a felicidade d'aquella a quem se
+consagra.&mdash;Ó Violante... quero-te tanto, que vou buscar o teu odio, para que tu
+não odeies o homem que te captivou o coração. (<em>Silencio; ouve-se de novo a
+orquestra muito longiquamente até ao fim do monologo.</em>) Se nesses livros,
+onde homens orgulhosos escreveram<span class="pagenum">{D2. Pg. 64}</span> o
+que elles chamavam a sua sciencia, eu podesse descobrir o segredo de Deus!...
+Se eu podesse criar um talisman que subjugasse o destino!... Se eu tivesse pelo
+poder do pensamento, e pela grandeza da vontade, força para desfazer o passado!
+Ambição!... orgulho!... loucura! O passado não pertence já a nenhum poder, nem
+mesmo ao poder infinito de Deus! Quizera ao menos ver um desses espiritos
+superiores, para lhe fallar, para saber delle os mysterios do material e do
+immaterial... (<em>Com abatimento.</em>) para saber quando ha de acabar este
+padecer, esta minha vida.</p>
+
+<h3>SCENA II</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>Fr. Bermudo e D. Violante</em></p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>(<em>Entrando toda vestida de branco.</em>) Fr. Bermudo.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Um espirito... um anjo... falla... falla...</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Fr. Bermudo, escutae-me.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Violante! aqui!</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Vim para vos pedir a paz... o repouzo, o que só me póde salvar, o que vós só
+me podeis dar.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>(<em>Baixo.</em>) Que sinto, meu Deus?... Que dor, e que alegria me
+dilaceram aqui o peito?... (<em>Alto.</em>) Dizei, sr.ª D. Violante, que
+quereis de mim?<span class="pagenum">{D2. Pg. 65}</span></p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Venho pedir-vos...&mdash;Escutai-me. Já sei tudo, conheço o que para sempre me
+separa de Mendo. Sei que esse que para mim era a alegria e a vida perdi-o para
+sempre... e talvez que nem por elle seja amada já; eu a filha do homem
+que...&mdash;Horrenda idéa!&mdash;Perder uma felicidade tão grande, assim de repente, é
+uma dor com que não pode este coração&mdash;Fr. Bermudo, sois forte, tendes uma alma
+superior a estas fraquezas do mundo... A minha alma não é assim. Uma pobre
+mulher, como eu, tem um espirito fraco, e que não pode resistir á dor
+extrema...</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Que quereis... que quereis de mim, D. Violante?</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Quero o que não me dareis talvez. Mas estou resolvida... Nada me pode fazer
+mudar de resolução, porque não é a vontade que me impelle, é o desalento; não é
+a força, é um abatimento desanimador; não é a desesperação é a esperança de
+acabar com um martyrio com que não posso.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Assustam-me essas palavras!</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>A vida é impossivel assim.&mdash;Fr. Bermudo, estou decidida a morrer.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Violante... Que dizeis?</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Mendo acabou, morreu para mim..&mdash;E sem luz, e sem alivio, que vida seria
+esta minha!?&mdash;Uma existencia nas trevas, sem esperança nem consolação.<span
+class="pagenum">{D2. Pg. 66}</span></p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Como tem sido sempre esta minha... Perdão, D. Violante.&mdash;Que vos importam a
+vós os meus padecimentos?</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>(<em>Com alegria.</em> ) Sabeis o que é uma dôr, dessas que matam? Julgava
+encontrar em vós um ente superior aos homens, e tinha medo. Mas agora... posso
+fallar-vos da minha dôr, pedir-vos... a morte, que desejo, que espero; porque é
+a paz para o coração.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Tende animo, paciencia, resignação; se o mundo se fechou para vós,
+ficavam-vos abertas as portas da igreja, onde ha consolações para todos.</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>A oração é consoladora; a fé póde dar allivío ás grandes magoas; mas para
+orar é preciso pensar em Deus, para ter fé, é preciso força na alma e eu só
+penso em Mendo, e na minha alma não ha senão desalento.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Mendo tambem vos amava muito; e daqui a horas fará voto, na ordem dos
+Templarios, de consagrar a vida ao serviço de Jesus-Christo.</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Mendo é homem, tem força no coração. A dôr&mdash;bemdicto seja Deus!&mdash;não lhe
+matou a alma, como a mim.&mdash;Olhae, fr. Bermudo, eu já não posso viver, e a morte
+não me faz horror, antes a amo, e a desejo. Mas o que me assusta é a dôr; é a
+idéa de me sentir rasgar o coração com um ferro, ou ficar dilacerada ao
+deitar-me n'um precipicio, que me repugna.&mdash;São isto sentimentos<span
+class="pagenum">{D2. Pg. 67}</span> que um homem como vós, de coração forte,
+não póde comprehender talvez!</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Eu comprehendo, e respeito esses sentimentos.&mdash;As obras de Deus, a belleza e
+a graça, só a mão sacrilega de um barbaro as póde destruir sem horror.</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Não seria possível alcançar, por um desses venenos que a sciencia tem
+descoberto, uma morte, sem dôr, e sem agonia?</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Ha... talvez.</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Fr. Bermudo, é um desses venenos, que eu venho pedir-vos.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Eu... pois eu hei-de dar-vos a morte?</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Não é a morte, é a paz; é o termo desta dor infinita, que me dilacera. Por
+piedade dae-me esse veneno... senão, irei buscar a morte n'um precipicio, ou
+n'um punhal.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>(<em>Meditando.</em>) Tem rasão... Tendes rasão, Violante. E hei de ser quem
+lhe dê a morte... Eu que a amo!</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>(<em>Com horror.</em>) Que dizeis?... Vós!... (<em>Querendo fugir.</em>)
+Virgem Maria!</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>(<em>Detendo-a.</em>) Ficae, Violante, ficae.&mdash;Este amor é como a vaga
+esperança, o suave pressentimento, a doce attração que a alma tem para as
+bellezas do ceu.<span class="pagenum">{D2. Pg. 68}</span></p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Não sou eu só a padecer no mundo, meu Deus!&mdash;Se esse amor é, como dizeis,
+triste, e sem esperança, como é agora a minha existencia, deveis intender, fr.
+Bermudo, o padecer, a angustia da minha alma; e não podeis, não deveis
+recusar-me o que vos pedi.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>O suicidio é um crime, Violante.</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Antes o suicidio do que renegar a Deus... E esta dor far-me-ha duvidar da
+misericordia divina.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Um crime, que Deus, não perdôa, talvez.</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Deus tudo póde perdoar, porque a sua bondade é superior a todos os crimes
+dos homens.&mdash;Não me deixeis mais tempo neste martyrio! Fr. Bermudo, pela minha
+alma, por esse amor, por esse vosso amor, que é tão puro e tão sublime, vos
+peço a paz. Quero morrer, sem uma longa, sem uma dolorosa agonia.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>(<em>Dando-lhe um dos frascos que tem sobre a meza.</em>) Aqui tendes um
+penhor do amor... do amor, que morreu já.&mdash;Agora acabou tudo para nós... acabou
+tudo para mim!</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>(<em>Pegando no frasco.</em>) É a paz que me daes... Irei esperar por elle no
+ceu!... Deus hade perdoar-me este crime Padre, não reveleis este segredo a
+ninguem.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Não.&mdash;É meu. (<em>D. Violante vae para sahir.</em>)<span
+class="pagenum">{D2. Pg. 69}</span></p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>(<em>Com anciedade.</em>) Violante, não me direis ao menos uma palavra?!</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Deus vos dê o descanço da morte. (<em>Sáe.</em>)</p>
+
+<h3>SCENA III</h3>
+
+<h4>FR. BERMUDO <em>(só)</em></h4>
+
+<p>O descanço da morte...&mdash;Porque não tenho eu ousado buscal-o já, para pôr
+termo a esta agonia do espirito, em que ando ha dez annos?&mdash;Não sei que poder
+me prende á vida. É medo... é medo do segredo, que se esconde além do
+sepulchro.</p>
+
+<h3>SCENA IV</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>D. Mendo e Frei Bermudo</em></p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Aqui estou, Fr. Bermudo. Venho já para ficar no convento, até me haver
+separado do mundo, professando na ordem dos templarios.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Mendo!... Encontraste?...</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Ninguem. Vim pela porta do campo, para não ser visto. Na igreja está tudo
+preparado para a minha profissão, não é verdade? Estou com desejo de professar,
+para sentir quebrados todos os laços que me prendem ao mundo. (<em>Pausa</em>)
+Ella como ficou? Vistel-a?&mdash;Eu fugi porque não podia...<span
+class="pagenum">{D2. Pg. 70}</span></p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Está mais socegada já.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Pobre Violante!&mdash;El-Rei?</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Mandou elle proprio preparar tudo aqui no mosteiro para a tua profissão.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Disseste-me que Violante estava mais socegada, que já não padecia tanto?
+Bemdicto seja Deus. (<em>Pauza.</em>) Ai! quem sabe se ella se esquecerá de
+mim!?</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Esquecer-se de ti?!... talvez; se o pensamento tambem morre.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>E se ella me esquecesse, e se amasse outro, que desesperação não seria a
+minha!</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>E é assim que este homem paga tanto amor! Duvidando della!</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Que dizes?</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Digo, que não comprehendes o amor, que póde conter um coração de homem; que
+não sabes o que é uma paixão, que destroe, que devora a existencia, que está
+sempre no fundo da alma, inabalavel e tremenda, dominando o pensamento, matando
+o desejo, e seccando a esperança, digo... que não comprehendes esse amor.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Frade, tu amas Violante? Tu...</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Amo-a, sim; mas não receies deste amor, que<span class="pagenum">{D2. Pg.
+71}</span> nasceu n'um templo, e irá esconder-se debaixo da terra. Amo-a e
+ouso... e sinto alegria em fallar deste amor, porque chegou a hora do
+soffrimento, o instante do martyrio.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Fr. Bermudo, amas Violante? Não repitas essas palavras desvairadas...</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Nenhum de nós tem já direito de amar, porque para ti, e para mim este amor é
+um crime. (<em>Pausa.</em>) Este meu não, que me salvou a alma... que eu sentia
+perder pelo descrer. Quando ao atravessar o deserto, para ir ao Santo Sepulchro
+do Redemptor, cahi sobre as areias ardentes, quasi morto pela sede... um anjo
+me appareceu e me salvou... Em Violante, encontrei depois a imagem do meu Anjo
+Redemptor: é a mesma fronte pallida do anjo é o mesmo sorriso meigo e triste, o
+mesmo olhar celeste e candido... a mesma voz... Oh! mas a alma dessa mulher é
+mais pura do que os espiritos do ceu Amei-a! Amei Violante.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>(<em>Chorando.</em>) Meu Deus, tende piedade de mim! acabae com esta dôr!...
+matae-me!</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Quando a voz da fatalidade, troando nos espaços, pronuncia a sentença, que
+nos condemna, devemos escutal-a, e ter resignação.</p>
+
+<h4>UM MONGE</h4>
+
+<p>(<em>Apparecendo á porta da esquerda.</em>) Fr. Bermudo, está á porta do
+mosteiro uma penitente, que vos deseja fallar.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Conduzi-a aqui, irmão. (<em>O monge sae.</em>) Mendo, vae orar por nós ao
+Senhor.<span class="pagenum">{D2. Pg. 72}</span></p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Ficarei ali a fazer penitencia, até que me venham buscar, para ir fazer
+profissão na igreja. É tarde já; d'aqui a poucas horas é manhã.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>(<em>Levando-o ao oratorio do fundo.</em>) Espera aqui, em quanto vou saber
+o que me quer essa mulher. (<em>D. Mendo entra no Oratorio. Frei Bermudo fecha
+a porta.</em>)</p>
+
+<h3>SCENA V</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>Fr. Bermudo e D. Gontrade</em></p>
+
+<h4>D. GONTRADE <em>(Coberta com um véo negro.)</em></h4>
+
+<p>Padre, estás disposto a ouvir a ultima confissão de uma grande peccadora?</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Aquelles que, como eu, se votaram ao serviço de Deus, não negam nunca as
+suas consolações aos que padecem. Mas aqui?</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>Se as consolações da religião podem fazer esquecer os remorsos profundos, e
+as infinitas saudades, eu preciso dellas já.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Porque me não mandastes chamar, senhora; iria eu, como é do meu dever, ter
+comvosco.</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>Saberieis então quem eu sou; e o que vou confessar-vos interessa a honra de
+uma familia nobre. Posso dizer-vos o meu crime, mas devo esconder-vos o meu
+nome, para que não recaia sobre outros a deshonra, com que esse crime manchou
+um nome illustre.&mdash;Padre, remorsos ha que não podem ter fim... nem talvez com a
+morte...<span class="pagenum">{D2. Pg. 73}</span></p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Com o arrependimento e a fé podem apagar-se da alma muitos pensamentos
+tenebrosos; muitos martyrios podem ter fim.</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>Mas Deus perdoará sempre á peccadora, que se arrepende?</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Talvez; que a sua misericordia é infinita.</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>Escutae-me então, padre, e pedi a Deus que seja misericordioso comigo;
+porque me sinto morrer, e vou ser julgada no tribunal supremo.</p>
+
+<h4>FR. BRMUDO</h4>
+
+<p>(<em>Áparte.</em>) Esta voz!... Esta voz é de D. Gontrade; Que vou eu ouvir,
+meu Deus! (<em>Assentando-se.</em>) Dizei.</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>(<em>Ajoelhando.</em>) Dae-me forças Senhor! (<em>Pausa.</em>) Padre, eu era
+feliz, quando um nobre cavalleiro de Portugal me offereceu a sua mão, e o seu
+nome.&mdash;Não se póde amar com mais amor, não se póde querer mais da alma,
+sacrificar mais por uma mulher, do que esse homem o fez por mim!! Ouvi como eu
+lhe paguei tanto amor! As guerras do Conde D. Henrique com os moiros
+chamaram-no para longe de mim: fiquei só em quanto elle peleijava por essas
+terras distantes. Passaram mezes, sem que eu houvesse novas de meu marido. Um
+dia, estava eu assentada no eirado de minha casa, lancei os olhos ao campo, e
+vi vir ao longe um cavalleiro, seguido de muitos homens d'armas, julguei que
+fosse elle, e corri a recebel-o. Foi a ultima alegria que tive. Quando o
+cavalleiro se aproximou... conheci que não era<span class="pagenum">{D2. Pg.
+74}</span> quem eu desejava. Perguntei-lhe, se pelas guerras em que andára vira
+meu marido... respondeu-me, que expirára n'um recontro com os moiros,
+peleijando como um heroe; assegurou-me que todo o exercito, e elle mais que
+todos havia chorado muitos prantos sobre a sua sepultura. Mais de um mez chorei
+a morte de meu marido, com uma dôr amarga e sincera. Mas a minha alma era
+fraca; não sabia soffrer. Depois do pranto vieram as saudades; depois as
+consolações; e depois o amor por esse mesmo homem, que me havia trazido a fatal
+nova.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>(<em>Com muita anciedade.</em>) E vosso marido!?</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>(<em>Continuando.</em>) Passei alguns dias no delirio do crime, sem
+remorsos, sem arrependimento; por que amava de coração, e julgava ser amada.
+Esses dias foram para mim como um sonho, hoje apparecem-me como um espectro.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>E o acordar desse sonho?...</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>N'uma noite, estava eu com esse homem, entregue a esse enlevo d'alma em que
+se escondia um crime tremendo, quando ouvi um ruido estranho por toda a casa,
+senti, por um pressentimento subito o frio da morte correr-me pelas veias. Era
+meu marido que voltava da guerra.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>E então?...</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>Então vi apparecer diante de mim, que havia quasi perdido a razão, um homem
+ameaçador, e tremendo, o rosto pallido, os olhos ardentes, a<span
+class="pagenum">{D2. Pg. 75}</span> mão armada. Apoderou-se de mim a
+vertigem... Ouvi um grito de agonia, que me gelou... e depois, o baque de um
+corpo em terra.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+E esse que morreu, era...
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>Meu marido&mdash;Nessa hora consumou-se o meu crime, nessa hora começou o
+castigo! O homem, que me enganou, abandonou-me naquella dôr.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>(<em>Levantando-se com horror.</em>) Oh! maldicta de Deus!... estás
+maldicta, mulher!...</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>(<em>Levantando-se e deixando cair o veu que lhe esconde o rosto.</em>) Não
+é verdade que sou uma mulher miseravel?... Não é verdade que sou maldicta de
+Deus? Que a misericordia do Senhor não é bastante para tão negro peccado?...</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Queres alcançar perdão para esse crime?</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>Deus de misericordia!</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Pede primeiro perdão áquelles que offendeste, e que estão nesta hora
+padecendo por tua causa. (<em>Abrindo a porta do fundo a que apparece D.
+Mendo.</em>) Irmão, perdoas áquella mulher a morte de teu pae?</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Minha mãe...</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>(<em>Caindo por terra.</em>) Meu filho!... perdoa-me.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Perdôo.<span class="pagenum">{D2. Pg. 76}</span></p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Mendo perdoou-te a morte de seu pae; e eu, D. Gontrade, perdôo-te a morte de
+meu irmão!</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>Meu filho!... O irmão de meu marido!... (<em>Caindo com a fronte por
+terra.</em>) Justiça eterna!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;"><strong>FIM DO 4.º ACTO.</strong><span
+class="pagenum">{D2. Pg. 77}</span></p>
+
+<h2>ACTO QUINTO</h2>
+
+<p><span class="dcena"><em>Uma casa vasta, de abobada de volta abatida,
+apparencia triste e arruinada. Ao fundo porta em arco, por onde se vê uma parte
+de um clausto. Á direita uma porta, á esquerda um grande crucifixo, sobre um
+altar de pedra tosca, objectos proprios para uso da igreja. A luz dos primeiros
+raios do sol entra já por uma pequena fresta alta, e pelo fundo, mas a scena
+está ainda alumiada por dois brandões, seguros por braços de ferro, defronte do
+altar.</em></span></p>
+
+<h3>SCENA I</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>D. Mendo (coberto de armadura, ajoelhado.) Um
+templario.</em></p>
+
+<h4>O TEMPLARIO</h4>
+
+<p>Daqui a uma hora estará tudo prompto.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>D. Guilherme virá tambem?</p>
+
+<h4>O TEMPLARIO</h4>
+
+<p>O grão-mestre dos templarios vem assistir á vossa profissão, D. Mendo.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>E el-rei?</p>
+
+<h4>O TEMPLARIO</h4>
+
+<p>El-rei tambem. D. Affonso quer-vos muito; tem mostrado grande interesse por
+vós.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Meu bom, meu excellente principe! E fr. Bermudo, esse não póde demorar-se.
+Já me vae tardando.</p>
+
+<h4>O TEMPLARIO</h4>
+
+<p>Vou á igreja saber em que estado estão os preparativos para logo.<span
+class="pagenum">{D2. Pg. 78}</span></p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Pois ide irmão; que eu aqui fico só, a pedir a Deus que me não abandone.</p>
+
+<h4>O TEMPLARIO</h4>
+
+<p>Quereis alguma cousa mais?</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Nada. (<em>O Templario sáe.</em>)</p>
+
+<h3>SCENA II</h3>
+
+<p style="text-align:center;">D. MENDO (<em>SÓ.</em>) </p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>É manha já, e Fr. Bermudo sem voltar! Sem me trazer uma palavra della para
+me dar força! Elle que me prometteu voltar cedo, logo que lhe fallasse! Ama-a,
+Fr. Bermudo tambem a ama! Quem sabe se nesta hora mesmo de suprema dor, elle
+ainda tem ciume dos seus prantos, e m'os quer roubar?!&mdash;O sangue delle é o meu
+sangue; é o irmão de meu pae; não póde ser traidor.&mdash;Para que quero eu mais
+ouvir fallar della? Que pode agora haver de commum entre nós ambos? A dor, a
+dor que é o mais intimo laço que póde existir entre dois corações que se amam.
+Fr. Bermudo não chega, meu Deus; e nem uma palavra consoladora de Violante me
+vem dar alento nesta tristeza, nesta solidão do espirito. Fr. Bermudo!...
+Violante... oh! estes dois nomes encontram-se ás vezes nesta lide maldita do
+meu pensamento, e esse encontro faz-me gelar toda a fé, mata-me toda a força...
+Se em mim ha força ainda: que não ha... não ha de certo. Eu já não vivo, que me
+senti morrer corpo e alma, quando de todo me vi separado della. Até aquella
+agitação<span class="pagenum">{D2. Pg. 79}</span> convulsiva da desesperação
+acabou em mim... Já não tenho odio... e nem sei mesmo se ainda tenho amor!
+(<em>Pausa.</em>) Morri de todo e para sempre.</p>
+
+<h3>SCENA III</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>D. Mendo, e fr. Bermudo</em></p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Não percas assim o animo, Mendo.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Bermudo!... E ella?!</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Sempre a mesma.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Tem padecido muito?...</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Tem... muito.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>E tem fallado de mim? Tem-se lembrado... do que já acabou.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>É um anjo, que não sabe senão amar; que não póde esquecer o seu amor.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Olha... diz-me a verdade... que quer ella fazer!</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Não t'o posso dizer... Sei só, que nunca baixou á terra alma, que mais
+soubesse sentir, alma capaz de maiores sacrificios!</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Conta-me o que se passou. Vistel-a? Que te disse?</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Quando ha uma hora sai daqui fui logo direito<span class="pagenum">{D2. Pg.
+80}</span> á pousada de D. Pedro Framariz. Procurei a aia de Violante, que me
+levou ao oratorio, onde esta se fechára... para pedir, o que a todos nós vae
+faltando... forças para padecer.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>E Violante estava...</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>De joelhos, pallida, immobil, com os olhos erguidos ao ceu, o corpo dobrado
+pelo peso da dor, a boca semi-aberta como se a oração ao sair já fria e sem
+alento n'um ultimo suspiro, se lhe houvera petrificado nos labios.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Morta?...</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Morta, não. Violante estava viva ainda; sem dar quasi outro signal de vida,
+a não ser o lento baixar dos olhos sobre mim, e o murmurar baixinho das
+palavras; n'uma voz suave e angustiosa, Violante perguntou-me o que eu ia alli
+fazer? Se eu, se alguem ainda se lembrava della?</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Se me lembrava della?</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Fallei-lhe só de ti, porque só assim me quereria ouvir. Que dor a da pobre
+Violante! E não ha, não ha remedio, para dores, como aquellas... Oh! os homens
+que teem descoberto tanto segredo da materia, não poderam comprehender ainda
+nem um dos mysterios do espirito, não poderam ainda curar nenhuma dessas
+enfermidades agudas, a que chamam paixões.&mdash;São tudo sonhos, são tudo illusões
+na terra; mas sonhos, mas illusões, que matam.<span class="pagenum">{D2. Pg.
+81}</span></p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>A desgraça é uma realidade!</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>(<em>Tranquillo</em>). Escuta.&mdash;A desgraça é uma provação da alma, que a
+deve robustecer; que lhe deve dar essa grandeza, signal da sua immortalidade. É
+tempo de voltar para o ceu esses teus pensamentos, que ainda não soubeste
+desprender das cousas mundanas.&mdash;Daqui a uma hora professarás. É necessário,
+filho, que o novo cavalleiro do templo seja digno do seu elevado ministerio,
+esteja pela fé á altura destes tempos de dura provação, de lucta permanente
+porque a igreja de Christo está passando neste seculo.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Não posso, Fr. Bermudo, parece-me que não posso pensar senão em Violante.
+Mas vou ver se pela oração comsigo elevar a minha alma até essas alturas
+sublimes, donde se perdem de vista as miserias do mundo. (<em>Vae lentamente
+ajoelhar diante do altar.</em>)</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>E se elle conhecesse, como eu, toda a grandeza, da nossa desventura! Se elle
+estivesse nesta duvida tremenda, em que o meu espirito vacilla agonisante; ora
+persuadido de que cumpria um dever, ora aterrado pelo mais cruel remorso, que
+homens tem sentido!&mdash;Violante ainda vive, mas daqui a uma hora...&mdash;Eu devo ir
+arrancar-lhe das mãos aquelle veneno; para que ella não morra! Mas que
+importa?... Ella quer morrer, e bem sei que vontades poderosas, resoluções
+firmes como a sua não as vence nem a persuasão, nem a força!&mdash;Ainda ha pouco
+lhe fallei, lhe pedi pelas cousas mais sagradas da terra, e do ceu, pelo amor e
+pela<span class="pagenum">{D2. Pg. 82}</span> religião, que não cedesse á
+triste tentação que a arrasta, á fascinação que a cega... respondeu-me só que
+amava e queria morrer pelo seu amor. (<em>Neste instante entra Violante pela
+direita, e aproxima-se de Fr. Bermudo, sem que D. Mendo a veja.</em>)</p>
+
+<h3>SCENA IV</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>Os mesmos, D. Violante.</em></p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Fr. Bermudo.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Violante!</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Eu não podia morrer sem o ver uma vez ainda... por isso vim. É um instante;
+o tempo de lhe dizer que ainda o amo.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Mas agora, se viessem os templarios, os cavalleiros, Violante...</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Em elles vindo, vou-me eu. Não me verão. Ide, Fr. Bermudo, deixae-me um
+instante só com Mendo.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>É tornar ainda mais angustiosa esta horrivel separação...</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Eu tenho forças; sinto em mim uma força sobrenatural. Ide&mdash;Deixae-nos.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>(<em>Áparte.</em>) Ainda mais esta dor, meu Deus!<span class="pagenum">{D2.
+Pg. 83}</span></p>
+
+<h3>SCENA V</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>D. Violante, D. Mendo&mdash;no fim Fr.
+Bermudo</em></p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>(<em>Com muita doçura.</em>) Mendo, Mendo... não me sentes aqui, Mendo?</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>(<em>Que escutou um instante a voz de Violante, e depois se voltou
+subitamente, e a viu&mdash;indo para ella.</em>) Violante! Minha Violante!&mdash;Então
+esta dor, esta separação, era tudo um engano.&mdash;Estás aqui, minha
+Violante!!..</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Estou aqui para te dizer adeus para sempre; para te pedir que perdoes...</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Perdoar... o que, o que hei de eu perdoar?</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Fui eu que te fiz infeliz com o meu amor.&mdash;Mas não sabia, Mendo, eu não
+conhecia essa tenebrosa historia&mdash;Perdoa-me... perdoa a meu pae tambem. Eu não
+quero, não posso ficar com um remorso destes na consciencia.&mdash;Quero morrer em
+paz.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Morrer?</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Sim, quando eu morrer, quando for a vontade de Deus que esta minha vida
+tenha fim, não quero que venha um pensamento funebre, a idéa de um crime não
+perdoado perturbar a minha ultima oração.&mdash;Quem sabe se Deus me perdoará?<span
+class="pagenum">{D2. Pg. 84}</span></p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Quem te não ha de perdoar? O que ha que perdoar a um anjo tão puro como tu?
+</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Mendo, eu bem sei que a honra da tua familia foi offendida: e que ha
+offensas que um cavalheiro da tua linhagem não deve deixar sem vingança... É
+assim que pensam os homens; mas Deus condemnou a vingança como um crime
+abominavel: e tu, Mendo, daqui a pouco vaes professar n'uma ordem, instituida
+para servir a Deus.&mdash;Mendo, pela religião... e pelo nosso amor que foi deixa-me
+fallar-te ainda uma vez desta felicidade que já passou&mdash;pelo nosso amor tão
+suave para mim, e para ti tambem, Mendo, peço-te por esse amor que perdoes, que
+esqueças, que te não vingues do pae da tua Violante.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Violante, eu... sabes como te amei, sabes como te quero ainda; que esta
+separação não é angustia só, é a morte para mim!&mdash;Escuta, minha Violante.&mdash;Não
+sei se meu pae me amaldiçoará da sepultura; mas faz-me horror a idéa de odiar
+teu pae; e vingar-me delle por minhas mãos, não o hei-de fazer nunca.</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>E perdoas-lhe?</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>(<em>Depois de uma pauza.</em>) Perdôo.</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Bemdicto seja Deus, que me dá esta consolação n'uma tão grande dor?</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Minha mãe é que lhe não perdoa.<span class="pagenum">{D2. Pg. 85}</span></p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Era o teu perdão, que eu desejava, Mendo. Não podia supportar a idéa que,
+entre ti e meu pae, se levantasse esse livido e sangrento espectro da
+vingança.&mdash;E a mim tambem me perdoas? Se ainda, por minha causa, padeceres uma
+grande dor, perdoas-me?</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Não te perdôo só, amo-te... hei de amar-te sempre, hei-de de morrer
+amando-te.</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Deus não ha de ser menos misericordioso do que tu.&mdash;Mendo, ainda havemos de
+ser felizes!</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Ai, não póde, isso não póde ser. Felizes, nunca.</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>N'outro tempo, n'outro logar; longe deste tenebroso mundo, muito longe
+destas paixões da terra, havemos de ser felizes.&mdash;Eu vi, Mendo, esta noute
+antevi a nossa felicidade futura.&mdash;Era um paraiso. (<em>Ouve-se uma musica de
+orgão e um coro, muito ao longe até ao fim da scena.</em>) Um campo todo de
+flores maravilhosas, com um perfume inebriante; um lago coberto de diamantes,
+de uma serenidade e formosura sem igual no mundo; sobre o lago nuvens, em que o
+ouro e a purpura se misturavam com a luz rosada da mais bella aurora; e do ceu
+resplandecente, scintilante, baixavam, fluctuando brandamente, anjos que vinham
+pousar sobre as graciosas nuvens. Depois, vozes sobrenaturais as vozes dos
+anjos em divino coro, pediam a Deus pela nossa felicidade; e o meu e o teu
+nome, Mendo, subiam assim até ao throno do Eterno.<span class="pagenum">{D2.
+Pg. 86}</span></p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Foi um sonho, e o sonho até se póde realisar.</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Não foi sonho, Mendo, foi uma visão celeste, uma divina promessa. Naquella
+hora tudo eram puras alegrias diante de mim; e no meu coração tudo eram orações
+fervorosas, e ardentes esperanças.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Que esperanças podemos nós ter ainda?</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Deus quer a nossa união, apesar dos agoiros, das negras paixões, dos crimes,
+das vinganças dos homens.&mdash;Na terra não podemos ser unidos, sel-o-hemos no ceu!
+</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>E quando, quando, minha Violante, terão fim estas angustias do existir?
+Violante, amo-te; nesta hora amo-te mais do que nunca te amei. E é agora, que
+nos vamos separar para sempre! Esta deve ser a unica vez, que nos vejamos;
+estas devem ser as nossas ultimas palavras de amor. Amo-te, amo-te, Violante.
+</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>O amor mata, aqui na terra; mas no ceu é a eterna alegria.&mdash;Mendo, deixa-me
+repetir tambem essas palavras, em que se resume a minha vida toda!&mdash;Amo-te,
+amo-te.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>(<em>Aparecendo á porta do fundo.</em>) Os cavalleiros do templo já estão
+reunidos na igreja.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Violante!</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>Mendo, adeus!&mdash;Adeus para sempre!<span class="pagenum">{D2. Pg. 87}</span>
+(<em>Cae nos braços de D. Mendo beija-o, e sae correndo pela porta da
+direita.</em>) (<em>Ouve-se depois a voz de Violante, já fóra de scena
+repetindo, « Adeus!.... adeus!»</em>)&mdash;(<em>A musica do orgão acaba logo
+depois.</em>)</p>
+
+<h3>SCENA VI</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>D. Mendo e Fr. Bermudo</em></p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>(<em>Detendo D. Mendo.</em>) Deixa-a ir só.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Quero vel-a... Não me posso separar della ainda.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>De que te serve prolongar por mais tempo esta angustia? O momento mais
+doloroso passou para ella, já agora: e daqui a um instante vir-te-hão buscar os
+templarios.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Mas deixal-a assim!&mdash;Bermudo, aquelle adeus foi um como grito de extrema
+dôr, que me aterrou. Naquelle sonho de felicidade, naquellas esperanças de
+alegria de Violante, havia não sei o quê de sinistro, como a morte. Naquelle
+espirito angelico ha um pensamento de crime, ha naquella alma a presciencia do
+remorso.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Deixa-a morrer com o seu sonho do ceu.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Morrer!</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>A morte é o termo do padecer.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Que dizes?<span class="pagenum">{D2. Pg. 88}</span></p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>A alma de Violante é já de um outro mundo, o seu corpo em breve será dos
+elementos.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Meu Deus! Que quer isso dizer? Não posso comprehender.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Uma paixão destruiu nella a vida do espirito; e a morte porá em breve termo
+à vida corporal.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Pois ella, Violante ousará attentar contra a propria vida?</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>A infeliz não tem força, não tem animo para supportar o seu martyrio. Ella
+vê na morte só a paz, e a passagem para um mundo melhor; por que na sua alma
+pura, nada lhe faz receiar o eterno julgamento.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Violante morrer!&mdash;E como hade ella morrer?</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Hontem, Mendo, a desventurada Violante veio aqui ao convento, e pediu-me,
+pelo que para mim existe de mais sagrado, que lhe desse um veneno, para ella
+não padecer longas dores na hora do passamento.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>E tu déste-lhe o veneno?</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Dei!.,.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Tu!&mdash;a vingança levou-te a um tal crime.&mdash;Vingaste-te sobre uma
+innocente...<span class="pagenum">{D2. Pg. 89}</span></p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>A vingança... esqueci-a por ella. Tu bem o sabes, Mendo.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>O ciume...</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Um amor como este meu, é como á immensidade do deserto; as tempestades
+atravessam-no rugindo medonhas e ferozes, os vulcões ardentes passam revolvendo
+as areias, cavando abysmos, cobrindo com montanhas os restos de antigas
+cidades; mas toda essa desordem tremenda perde-se, torna-se pequena n'aquelles
+espaços infinitos; e depois fica tudo arido, morto, immobil como d'antes.&mdash;Oh!
+o ciume foi como a tormenta do deserto, passou atravez da immensidade d'este
+amor, revolvendo-me o mais intimo do coração, sem que eu mesmo possa ver já as
+ruínas que deixou após si. Não foi o ciume, foi a piedade, foi uma grande dor
+de coração, um puro e sancto dó d'esse padecer, que a consumia.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Dó! Piedade! E matas-te-la! Corre a salva-la, se ainda é tempo.&mdash;Não vás...
+vou eu.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>(<em>Detendo-o.</em>) Não, não vás. É uma crueldade. E, de mais, é tarde:
+agora já ella terá tomado o inexoravel veneno.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>E se ella está envenenada não haverá meio de a salvar?</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Quando a morte penetra o sanctuario da vida,<span class="pagenum">{D2. Pg.
+90}</span> quando estende o poder até sobre a luz do espirito, só um milagre
+pode vencer o seu poder.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Palavras... palavras! És um louco, Bermudo, sem coração nem consciencia.
+Váe, váe já, e salva-a. Essas palavras insensatas que dizes, não te podem
+justificar. És um assassino, Bermudo, se a não salvas. (<em>A D. Gontrade, que
+apparece á porta, pallida e cadaverica.</em>)&mdash;Oh! Vinde... vinde, minha mãi...
+vinde tambem pedir por ella, a este homem, Violante morrerá se elle a não
+salva. </p>
+
+<h3>SCENA VII</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>Os mesmos e D. Gontrade</em></p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>Salva-a!... e a elle tambem! salva-os a ambos fr. Bermudo. É preciso perdoar
+tudo, perdoar a todos, para que Deus nos perdoe tambem.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Vós perdoaes, senhora, como eu perdoei já; e não deveis pedir a vida de
+Violante, porque a morte é para ella o descanço; a eterna paz.</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>Deixal-a morrer!... Pois que tem ella?! Quem a quer matar?!</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Foi elle, esse homem cruel, esse homem sem coração... foi elle que lhe deu o
+veneno... e que a não quer salvar agora.</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>Ide, meu irm... ide, homem; salvae Violante, se ainda é tempo.&mdash;Sou eu que
+vol-o peço n'esta minha ultima hora (<em>Caindo de joelhos.</em>)
+Salvae-a,<span class="pagenum">{D2. Pg. 91}</span> e uni-os um ao outro, estes
+dois innocentes, que se amam... Que seja tudo esquecido, porque elle, lá do
+tumulo, já perdoou. Vou morrer... Fazei Mendo e Violante felizes. Salva-os pela
+minha alma! Salvae-os para que Deus, me perdoe.</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>É tarde. A esta hora talvez, Violante não exista já...&mdash;Disseram-no os
+astros, e os astros não mentem... (<em>Sáe.</em>)</p>
+
+<h3>SCENA VIII</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>D. Mendo, e D. Gontrade</em></p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>Meu Deus, piedade!... Salvae-a, senhor!</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Salvae-a!... (<em>Vae para sair.</em>) Oh! Quero vêl-a... Não quero que morra
+sem que eu morra tambem com ella!</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>(<em>Levantando-se.</em>) Meu filho, ouvi... escuta-me, meu querido Mendo,
+não me deixes agora... não me deixes aqui só: Sinto que vou morrer, e tenho
+necessidade de ti... quero beijar-te ainda como quando tu me julgavas
+innocente.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>(<em>Segurando-a nos braços'</em>) Que tendes, minha pobre mãi?! Como estaes
+palida!... Que martyrio é este meu, Senhor.</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>Não é nada... é a morte... é o descanço se Deus me perdoar. Meu filho, meu
+filho, eu cometti um grande crime, mas se tu m'o perdoares,<span
+class="pagenum">{D2. Pg. 92}</span> Deus perdoar-me-ha tambem. Perdoa, filho,
+perdoa a tua mãi, que vai morrer!</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Vós tambem minha mãi, ides deixar-me! Todos me abandonam!... fico só, só com
+esta dor no mundo!</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>Ai, Mendo, se eu visse cumprido antes de expirar o sonho do meu delirio! Que
+sonho tão bello, meu Deus! Que vizão consoladora!... Vi-o, a elle, a teu pai,
+cercado das glorias infinitas do céo... Não ameaçava já, abençoava... não me
+olhava com colera, sorria-se com brandura e piedade! Senti uma alegria infinita
+derramar-se no meu espirito... Accompanhava-o um anjo; e disse-me estas
+palavras divinas: «Perdoa, como eu te perdôo... Este anjo, é o anjo da guarda
+do nosso filho... faz feliz o nosso amado filho, o nosso querido Mendo.» </p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>E o anjo...</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>O anjo era Violante. Violante á o teu anjo da guarda!</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>E o meu anjo deixou-me... para sempre me abandonou o meu anjo da guarda!</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>Na terra, talvez; no céu, não te abandonará de certo.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Vou... Deixai-me-ir, minha mãi. Vou procurar Violante.</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>E deixas-me aqui morrer só!?<span class="pagenum">{D2. Pg. 93}</span></p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Vamos rezar por ella, ao menos&mdash;pedir ao céu que nol-a salva. (<em>Cáem
+ambos de joelhos.</em>)</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>(<em>Levantando as mãos ao céu.</em>) É esta a minha ultima oração... que ao
+menos esta seja ouvida por vós, Senhor!</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Virgem Maria, explendor de eterna gloria, luz que faz desaparecer todas as
+trevas do coração, dá azas a minha alma para subir ao teu throno, a pedir-te
+vida, vida para ella... Salvae-a, Senhora Nossa! (<em>Ouve-se um coro religioso
+entoando o</em> Dies irae) Oh! São os canticos da morte, que respondem a esta
+nossa oração, minha mãi!</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>São tremendas aquellas palavras; são palavras que gelam de pavor a quem vai
+morrer.</p>
+
+<h3>SCENA IX</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><em>Os mesmos, os templarios e depois D.
+Violante, e Fr. Bermudo</em></p>
+
+<h4>UM TEMPLARIO</h4>
+
+<p>É a hora, cavalleiro D. Mendo Paes de vos unirdes á Santa Ordem do Templo,
+para nos ajudar a defender, e a fazer adorar por toda a terra a Cruz do
+Redemptor.&mdash;O mestre dos templarios espera por vós.</p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Esperae; esperae!... ainda não!., ainda não!</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>(<em>Fóra.</em>) Mendo! Mendo!<span class="pagenum">{D2. Pg. 94}</span></p>
+
+<h4>D. MENDO</h4>
+
+<p>Violante!... viva! ainda viva!</p>
+
+<h4>D. VIOLANTE</h4>
+
+<p>(<em>Caindo nos braços de D. Mendo.</em>) Mendo, aqui estou... sou tua... já
+sei tudo! Mendo... estou viva para te amar! (<em>Mostrando fr. Bermudo.</em>)
+Salvou-me elle.</p>
+
+<h4>D. GONTRADE</h4>
+
+<p>Agora já posso morrer.&mdash;Filho... filhos, adeus.</p>
+
+<p style="text-align:center;">(<em>Cáe por terra Mendo e Violante correm a D.
+Gontrade.&mdash;Os templarios aproximam-se.</em>)</p>
+
+<h4>FR. BERMUDO</h4>
+
+<p>Serão felizes, elles... Só para mim os astros não mentiram.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;"><strong>Fim do 5.º acto e do drama.</strong><span
+class="pagenum">{D2. Pg. 95}</span></p>
+<hr>
+
+<p style="text-align:center;">EDIÇÕES DO ARCHIVO UNIVERSAL</p>
+
+<p><span class="small-caps">Compendio elementar do sistema metrico</span> e
+suas applicações ao commercio, approvado pelo Conselho Superior de Instrucção
+Publica, por Carlos José Barreiros&mdash;3.ª edição.</p>
+
+<p>Preço 300 réis.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><span class="small-caps">Estudos sobre Higiene, Administração e Legislação
+Naval</span>, por J. A. Maia, cirurgião de 1.ª classe da armada,1 vol. de 200
+paginas em 18.º fr. (formato Charpentier) com um plano annexo do brigue
+<em>Mondego</em>.&mdash; Preço 100 rs.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;">ESTÁ NO PRELO</p>
+
+<p><span class="small-caps">Amor de Poeta</span>, drama em verso por J. G.
+Lobato Pires.</p>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Theatro de João d'Andrade Corvo - I, by
+João de Andrade Corvo
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK THEATRO DE JOAO D'ANDRADE CORVO - I ***
+
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+works. See paragraph 1.E below.
+
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+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
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+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
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+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
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+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
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