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diff --git a/28414-h/28414-h.htm b/28414-h/28414-h.htm new file mode 100644 index 0000000..4f40f2d --- /dev/null +++ b/28414-h/28414-h.htm @@ -0,0 +1,8375 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN"> +<html> +<head> + <title>Theatro de João D'Andrade Corvo - Tomo I</title> + <meta name="author" content="João de Andrade Corvo"> + <meta name="date" content="1859"> + <meta name="publisher" content="Typographia Universal"> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + @media print { + .pagenum { visibility: hidden;} + } + @media handheld { + .pagenum { visibility: hidden;} + } + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pagenum { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + .small-caps {font-variant: small-caps;} + p {text-align: justify; text-indent: 1em;} + #capa p {text-align: center; text-indent: 0;} + h1 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom:2em;} + h2 {text-align: center; margin-top: 2em; margin-bottom:1em;} + h3 {text-align: center; margin-top: 2em; margin-bottom:1em;} + h4 {text-align: center;} + p.dcena{text-indent: -2em; margin-left: 2em;} + blockquote {margin-left: 20%;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Theatro de João d'Andrade Corvo - I, by +João de Andrade Corvo + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Theatro de João d'Andrade Corvo - I + O Alliciador - O Astrologo + +Author: João de Andrade Corvo + +Release Date: March 26, 2009 [EBook #28414] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK THEATRO DE JOAO D'ANDRADE CORVO - I *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +</pre> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;">EDIÇÕES</p> + +<p style="text-align:center; font-size: small;">DO</p> + +<p style="text-align:center;">ARCHIVO UNIVERSAL</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div id="capa" style="text-align:center; border: solid 1px #000;"> +<p> </p> + +<p><span style="font-size: 1.2em;">THEATRO</span></p> + +<p style="font-size: small;">DE</p> + +<p style="font-size: 2em;">JOÃO D'ANDRADE CORVO</p> + +<p>I</p> + +<p>O ALLICIADOR—O ASTROLOGO</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: small;">LISBOA<br> +TYPOGRAPHIA UNIVERSAL<br> +rua dos Calafates, 113<br> +1859</p> +</div> + +<p> </p> + +<p><span class="pagenum">{D1. Pg. 1}</span> </p> + +<div class="ficha_tecnica"> +<h1>O ALLICIADOR</h1> + +<h3>DRAMA EM 3 ACTOS, REPRESENTADO NO THEATRO DE D. MARIA II</h3> +</div> + +<h3>PERSONAGENS</h3> + +<table border="0" style="width: 100%" summary="lista de personagens"> + <tbody> + <tr> + <td>José Velhaco</td> + <td>30 annos</td> + <td>O sr. Theodorico</td> + </tr> + <tr> + <td>Luiz do Campanario</td> + <td>20 »</td> + <td>» Tasso</td> + </tr> + <tr> + <td>Antonio Prudente</td> + <td>50 »</td> + <td>» Epifanio</td> + </tr> + <tr> + <td>O Vigario</td> + <td>50 »</td> + <td>» Domingos</td> + </tr> + <tr> + <td>Joaquim</td> + <td>40 »</td> + <td>» J. Antonio</td> + </tr> + <tr> + <td>Joanninha</td> + <td>18 » </td> + <td>A sr.ª Soller</td> + </tr> + <tr> + <td>Maria das Dores</td> + <td>60 »</td> + <td>» C. Talassi</td> + </tr> + </tbody> +</table> + +<p>A scena passa-se na Madeira em 185...</p> + +<h2>ACTO PRIMEIRO</h2> + +<p style="text-align:center;"><em>Um campo de vinha. Á direita uma choupana +aceiada e grande, cercada de hortencias, bannaneiras, e moitas de +flores.</em></p> + +<h3>SCENA I</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>Luiz do Campanario e Antonio Prudente</em></p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>(<em>Sahindo da choupana.</em>) Boas tardes Luiz. Por aqui já a esta hora, +rapaz? Julgava que só á noite voltarias da cidade.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Agora mesmo cheguei de lá. Eu, só á noite é que contava voltar; mas a +pescaria depressa se vendeu. Os americanos compraram tudo para a <span +class="pagenum">{D1. Pg. 2}</span> esquadra, que hontem chegou ao Funchal. +Quando era pela volta do meio-dia estavamos livres.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Abençoados americanos! Navios e esmolas, tudo nos mandam, para nos ajudar a +viver. Que isto hoje nesta terra, Luiz, só se vive do que nos dão por +caridade.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Vocemecê tem razão, sr. Antonio Prudente. Vivemos de caridade... da dos +estrangeiros, que os lá de Portugal esqueceram-se de nós.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Não se esqueceram, talvez. São pobres como nós, e ahi está. Eu, por mim, não +quero pensar mal do que sempre me ensinaram a respeitar. Olha, o melhor é não +fallar em coisas dessas: tenho medo de perder o respeito ao senhor governo, o +que seria contra os meus costumes antigos. Já estou velho para novidades; e +como, Deus louvado, tenho para ir passando, esta casa, e esta fazenda, que eu +fiz por minhas mãos, não quero entristecer-me já agora. Tristezas acabam com a +gente mais cedo.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>É verdade; lá isso é, sr. Antonio.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Tu tens coisa que te dê pena?</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Não, não tenho. Não é nada.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Tens. Disseste isso como quem sente um pezo sobre o coração.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Tenho a minha mãe velha e doente e eu pobre, e...<span class="pagenum">{D1. +Pg. 3}</span></p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>E o que?</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Esta pobreza tira-me até as forças para trabalhar, queria ter mais...</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Tens ambição, rapaz? ah! ah! Teu pae era bom homem! Teu pae trabalhou toda a +vida ali na Lombada, como caseiro do morgado Bittencourt: não ganhou nunca +senão para cada dia comer uma raiz de-ynhame, ou uma espiga de milho, e eu não +lhe ouvi fazer dessas queixas contra a pobreza.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Meu pae tinha mais animo do que eu. E depois, a fallar a verdade, tinha +coizas que o consolassem: tinha em minha mãe uma santa companheira, que o +ajudava no trabalho; em minha irmã uma boa filha. O morgado velho não lhe +queria mal, e ajudava-o. A terra então dava vinho; não era como hoje, em que +tudo parece amaldiçoado aqui na Madeira, em que até se mirraram as uvas...</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>La nisso tens rasão. Foi praga que cahio sobre nós. Mas para tudo, hade Deus +dar remedio. Tu tens meio de ganhar a vida, Luiz: não desanimes, rapaz.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>O que eu tenho é minha mãe abatida e triste, que faz chorar. E de meu, tenho +a metade das bemfeitorias que meu pae fez, em 20 annos de trabalho, ali na +fazendinha do morgado Bittencourt; a outra metade pertence a minha irmã, que +está casada, e cheia de filhos—pobre mulher!—E<span class="pagenum">{D1. Pg. +4}</span> as taes bemfeitorias são coisa tão pouca, que de nada me servem, nem +acho quem m'as compre. O que me vale é ter ahi logar entre a companha de um +barco de pesca, senão morriamos de fome, eu e minha mãe.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Coitado do Luiz! Tens rasão, filho, tens. Eu é que, por ter esta fazenda de +meu—porque esta é minha, de véras; terra e bemfeitorias—por ter esta fazenda, +e uma filha que é a alegria e a benção desta casa, pensei que todo o mundo era +feliz. Deus me não castigue, Deus não faça cair sobre Joanninha o castigo desta +minha cegueira.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Deus a ampare, á nossa Joanninha.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Bem o merece. Boa, e bem creada. Pode ser mulher ahi de qualquer morgado, a +minha filha, não lhe falta nada. Sabe ler, escrever, e até bordar. Heide +cazal-a com um homem que tenha de seu, para que ella não saiba nunca o que é +pobreza.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>(<em>Com dor.</em>) Faz... faz bem, sr. Antonio Prudente. Sua filha deve... +ser feliz com um homem que tenha de seu, que a traga como as meninas lá da +cidade... que a faça feliz. Mas... mas ainda não está escolhido noivo para +Joanninha? Vocemece ainda se não decidiu a cazal-a? É cedo... Joanninha é muito +moça.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Tem 17 annos feitos. Mas pensar no casamento ainda não pensei. Custa-me a +separar della.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>(<em>Com alegria.</em>) Então por ora não se casará.<span +class="pagenum">{D1. Pg. 5}</span></p> + +<h3>SCENA II</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>Os mesmos e Joanninha</em></p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>(<em>Correndo para Antonio.</em>) Não se casará por ora, nem casará em +quanto não tiver noivo do seu gosto.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Joanninha!</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Estavas ahi, filha?</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Estive a dar de comer aos meus pombos, coitadinhos, e agora vinha para o +acompanhar, pae, lá abaixo á Fajã; para o ajudar no que for necessario.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Ora aqui teem o que se chama uma boa rapariga.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Sou muito sua amiga, pae; e por isso me não quero casar, nem ir para longe +desta freguezia, onde nasci e me criei (<em>Olhando para Luiz.</em>) Tenho aqui +todos, e tudo de que eu gosto.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Esses amores hão de te passar. Outros os farão esquecer.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Não se diga que me heide esquecer do amor que tenho a meu pae... e áquelles +com quem vivi sempre. Não heide perdoar a quem o disser. (<em>Com +tristesa.</em>) Se os outros se esquecerem, hei de lembrar-me eu.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Ninguem tem coração para se esquecer de ti, Joanninha.<span +class="pagenum">{D1. Pg. 6}</span></p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Assim será. Mas meu pae diz, que pelos amores novos se esquecem os +Antigos.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>A mim parece-me que antes perderia a vida, antes poria a minha alma em +peccado mortal, do que perder da lembrança os dias em que brincámos ahi, á +sombra dos castanheiros.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>(<em>Com inquietação.</em>) Está bom, está bom. Lá estão vocês a dizerem-se +finezas, que me parecem dois senhores da cidade.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Então a verdade porque se não hade dizer, pae? Elle pensa aquillo que diz, +faz bem em o dizer. Fomos creados um com o outro, e a sr.ª Maria das Dores, a +mãe do Luiz, serviu-me de mãe a mim. É como se fossemos irmãos.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Irmãos!... irmãos sim. (<em>Commovido.</em>) E o que mais me custa, é +separar-me de ti...</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>(<em>Assustada.</em>) Que separação é essa? Vaes deixar-nos?</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Talvez... Parece-me que irei ahi, a bordo de um navio, fazer uma viagem... +Fallaram-me em ir marinheiro n'um navio que sae...</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Para onde?</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Para longe. Ainda não sei.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Não vás.<span class="pagenum">{D1. Pg. 7}</span></p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Então porque não hade ir? É tentar fortuna. Uma viagem ao Brasil, talvez. Ir +e voltar. Faz muito bem o nosso Luiz.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>E a tia Maria das Dores, a mãe de Luiz, coitada?... E todos nós?</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Se eu me for... minha mãe fica em casa de minha irmã.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>(<em>Com as lagrima nos olhos.</em>) Não pode ser. Assim não vae isto bem. +Tua mãe está velha... e sem ti estalla de pena.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Esta vida de barqueiro, de pescador, é vida miseravel, e sem esperança. +Lutar com o mar, arriscar a vida nos temporaes, andando por entre essas rochas +quando o tempo está de lavadia, e não passar nunca de ser um pobre, vivendo de +mizeria; um desgraçado a quem os ricos fazem esmola, quando lhe pagam o seu +trabalho; passar a vida inteira neste penar, isso é que o coração cá dentro não +me soffre.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>E queres?</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Quero ir por esse mar fóra, por esse mundo de Christo a tentar fortuna.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>E se morreres?...</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Sempre hade haver agua no mar para de uma vez me mergulharem; ou uma pouca +de terra para me deitarem por cima.<span class="pagenum">{D1. Pg. 8}</span></p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Jesus! Misericordia! Que cousas dizes! Chego a tomar-te raiva quando te ouço +fallar assim, (<em>Chorando.</em>) Não vês que me fazes pena quando dizes +dessas doidices?!</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Não é para te fazer pena...</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>É verdade. Elle faz o que deve. O homem pode morrer no mar ou em terra, e em +morrendo acabou-se. Tambem eu heide...</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Se continua, pae, a fallar nessas cousas, vou-me, fujo, caso-me...</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Não se torna mais a fallar em tristezas. Se for, heide voltar. Assim como +aqui o sr. Antonio fez, pelo seu trabalho, desta terra, que era um mato +maninho, uma fazenda que faz gosto aos olhos verem-n'a, tambem, eu heide da +minha barca fazer um navio bonito, como o «Galgo.» Que isto da gente ter +vontade, cá de dentro, de fazer uma cousa, é meio caminho andado para a +conseguir. E, se não, vejam o que succedeu ao José Velhaco. Ha menos de um anno +pobre como eu, e agora com grilhões de oiro, e relogio, e dinheiro, que é um +pasmar. Foi a Demerara, e voltou rico. Fortunas!</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>O José Velhaco foi a Demerara, e voltou rico. Fortunas, dizes bem. Outros lá +vão, e por lá ficam.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Morre-se por lá como por cá. Mas aquillo é terra para fazer fortuna. Não foi +só o José Velhaco<span class="pagenum">{D1. Pg. 9}</span> que voltou rico. Ahi +estão na Madeira mais de meia duzia, a quem succedeu o mesmo.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Não te deixes enganar com as apparencias. O sr. Vigario ainda outro dia me +disse, que esses que veem ricos de Demerara são isca para apanhar os +passaros.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Talvez. O que for soará.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Toma os conselhos, que são de quem tem já cabellos brancos. Não te deixes +enganar com as apparencias.—Vamos, Joanninha, vamos até á Fajã, antes que se +faça mais tarde. (Sae.)</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Adeus Luiz.</p> + +<h3>SCENA III</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>Luiz e Joanninha.</em></p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>(<em>Detendo-a.</em>) Uma palavra, Joanninha.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Que me queres?</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Tenho que te dizer.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Mas agora! Meu pae espera-me...</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Diz-lhe que já vais ter com elle. Eu preciso fallar-te.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Virgem Maria! que susto me estás mettendo! (<em>Aos bastidores.</em>) Ahi +vou já, pae, esqueceu-me uma coisa em casa: já vou lá ter, n'um instante.<span +class="pagenum">{D1. Pg. 10}</span></p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>(<em>De dentro.</em>) Pois eu cá vou andando.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>(<em>A Luiz.</em>) Diz agora o que queres de mim.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Ouve, Joanninha. Tu lembras-te que sempre vivemos juntos; que de pequenos +andámos sempre um com o outro por essas serras; que se não passou até hoje uma +semana em que nos não vissemos?</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Lembro-me.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Não te esqueceu ainda aquella manhã, em que fomos juntos ao Paul da serra, e +levados, não sei por que alegria que vinha cá de dentro, apanhando flores de +urze, e brincando, chegámos até ao Rabaçal?</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Não me esqueci dessa alegre manhã. No Rabaçal a agua saltava do alto da +serra, e depois espalhava-se em gotas de chuva, que brilhavam ao sol como +estrellas, e vinham cair até onde nós estavamos sentados: de baixo daquelle +grande til que nasce da rocha. Eu senti nesse dia o que não tinha sentido +nunca: não sei se alegria se tristeza... O coração batia-me como eu nunca o +senti bater.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Tinhas então 15 annos, e eu 20. Foi ha 2 annos. Desde esse dia, nunca mais +andámos sós, um com o outro pela serra.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Mas, desde esse dia, quasi que se não tem passado um só sem nos vermos.<span +class="pagenum">{D1. Pg. 11}</span></p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Joanninha, de tudo te lembras. Agora já te posso fallar com menos susto.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Para que me lembras-te essas coisas todas? O que tem isso com a pergunta que +me querias fazer?</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Olha, Joanninha, não é facil a gente dizer tudo quanto quer; porque, emfim, +o sentir não depende da vontade, e as palavras não chegam para dizer tudo.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Mas... o que querias dizer-me?</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Não te pões mal commigo, não é verdade?</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Porque?</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Talvez seja esta a ultima vez que te vejo. Esse tempo, em que nos podiamos +ver todos os dias, passou.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Então partes breve?</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Hoje mesmo.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Deus me acuda! Hoje!</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Hoje me vou.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Não pode ser. Não disseste nada a meu pae.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Nem lh'o digas tu. É segredo a minha partida, não quero que minha mãe saiba. +A ti<span class="pagenum">{D1. Pg. 12}</span> tambem não queria dizer nada, mas +faltou-me o animo...</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Ah! Luiz, em tu me faltando... ficam sem luz os meus olhos, e sem alegria o +coração.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Eu tambem me vou e bem triste, Joanninha. Mas que queres? Quem é pobre, +nasceu para padecer. É preciso fazer esta viagem para depois poder... se tu me +não disseres que não, Joanninha—para poder...</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>O que?</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Pedir a teu pae, que sejas minha mulher. Se não disseres que não.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Não digo, não te digo que não.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>E promettes esperar que eu volte... tendo bastante de meu, para que teu pae +consinta no casamento?</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Se agora mesmo lhe pedisses, meu pae consentiria.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Não. Teu pae criou-te para seres rica, deu-te uma criação como a das +senhoras da cidade; e não quer que te cases com um pobre, como eu sou. Ainda ha +pouco elle m'o disse, aqui mesmo.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Só comtigo, Luiz, só comtigo me heide casar.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Já vou mais consolado: com mais animo para trabalhar, para me arriscar aos +perigos.<span class="pagenum">{D1. Pg. 13}</span></p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Não te arrisques. Lembra-te de tua mãe... de mim, que morro se tu +morreres.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Não chores, minha querida Joanninha. A Senhora do Monte hade proteger-me, e +eu heide voltar.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Prometto uma novena á Senhora do Monte, e muitas flores no dia da sua festa, +se tu voltares cedo.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Agora... Joanninha... adeus... adeus!</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Não te demores muito, Luiz. Volta, porque me deixas em cuidados... ralada de +saudades.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Um abraço de despedida. (<em>Caem nos braços um do outro.</em>)</p> + +<h4>AMBOS</h4> + +<p>Adeus! Adeus! (<em>Joanninha sae.</em>)</p> + +<h3>SCENA IV</h3> + +<h4>LUIZ <em>só</em>.</h4> + +<p>Joanninha! Não sei como tive animo para a deixar ir... como tenho alma para +sair da minha terra, onde ella vive... onde me fica amando.—E voltarei?... +tantos lá teem ficado! Se uns morrem outros voltam ricos; e eu, pobre como sou, +nunca heide casar-me com Joanninha.—As orações daquella santa rapariga ha de +Deus ouvil-as, e basta.—Quem se não arriscou não perdeu nem ganhou.<span +class="pagenum">{D1. Pg. 14}</span></p> + +<h3>SCENA V</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>Luiz e Jozé Velhaco</em></p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Santa palavra, Luiz, santa palavra que nem todos intendem, e que é preciosa +para os que a sabem. Eu, se não soubesse esse rifão de côr e salteado, estava a +esta hora com um sacho na mão a sachar milho na fazenda d'um morgado, que, no +fim de contas, me ficaria com metade do producto da minha labutação. O morgado +que nasceu rico—isto é um modo de dizer—que nasceu dono de terras, e nem sabe +nem tem prestimo para as cultivar... Ah! ah! o morgado guardaria metade do meu +milho, para dar aos cavallos... e eu, com a minha metade, nem teria para +enganar a fome. Santa palavra, rapaz, santa palavra!</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Os pobres cazeiros trabalham muito, e padecem muito, Jozé Velhaco. Nisso +tens tu rasão.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Tenho, e não me heide cançar de prégar estas verdades. Os cazeiros, nós, os +villões, trabalhamos, e os morgados comem os nossos fructos e bebem o nosso +vinho. Estão sempre aqui a fallar em que nós, os que vamos a Demerara procurar +fortuna, largamos a nossa terra para irmos ser escravos dos inglezes, para +sermos escravos brancos! E aqui, nesta terra dos morgados, o que somos nós +senão escravos? Ao menos, lá por essas terras dos inglezes, um homem activo, +tendo cá fogo de dentro como eu, e como tu, meu Luiz, faz fortuna, faz-se +rico<span class="pagenum">{D1. Pg. 15}</span> como um morgado... mais do que um +morgado, porque não deve nada a ninguem. Ah! ah! santa palavra!</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Isso são sortes. Uns enriquecem, e outros por lá ficam, mortos ou +escravos.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Qual historia! Pois um homem vae d'aqui, e recebe logo trinta patacas... +como tu recebeste hontem. Em! Trinta patacas é uma boa conta.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>É, é. Vinte ahi ficam para minha mãe; e as outras dez gastam-se na viagem. +</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Que importa? Chegas lá, trabalhas um... um tempo para pagar a divida, e a +comida que te dão cada dia... e depois principias a ganhar por tua conta.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Mas esse tempo quanto dura?</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Conforme... sim, é conforme. Para uns dura mais, para outros menos. É +segundo as forças de cada um. Mas tu bem vês: aqui é que se não faz nada. +Trabalha-se a vida inteira, a arrancar mato da serra, e levantar muros, a +plantar arvores e vinha, a formar uma fazenda, e no fim fica a gente sem ter +nada; porque a terra é dos morgados, e as bemfeitorias ficam agarradas á terra, +donde se não podem arrancar.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Que de coisas tu sabes agora!</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>É porque vivi lá por Demerara com muita gente de tino, e aprendi muito. +Aquillo é que<span class="pagenum">{D1. Pg. 16}</span> é terra, homem! Campos +que é um gosto vel-os. Como estes aqui da Madeira, mas maiores. E na cidade? +Ganha-se dinheiro que é um louvar a Deus!</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Mas as febres?</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Quaes febres! Ha por lá umas doencitas, que levam a gente ás vezes, mas não +é coisa que se veja: nada, nem se dá por tal. E, depois, se por lá se morre de +febre, por cá morre-se de mizeria, que ainda é peior. Tu tens medo de +morrer?</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Eu!...</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Bem sei que não tens medo. Vaes á pesca em dias de temporal, quando os +outros pescadores se metem em caza. Em a gente sendo animoso nem as doenças lhe +chegam. Santa palavra! Olha para mim. Tu bem sabes que eu sou animoso, +valente...</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Serás; talvez o sejas. Ganhaste isso em Demerara?</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Pois eu não sou?... Não fui sempre?..</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Um armazem de pancadas, quando eras mais novo. Todos te davam; e tu não +fizeste nunca senão levar e calar.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Hum! Bem vês que eu era... que tinha bom coração, e não queria fazer mal ao +proximo. E a prova é, que já me esqueci de tudo que os<span +class="pagenum">{D1. Pg. 17}</span> rapazes aqui da freguezia me fizeram, e que +tenho mandado um pár delles para Demerara... a buscar fortuna. Pagar o mál com +o bem, é de um homem como se quer. Tu mesmo, Luiz, agora me lembro, tu mesmo +deitaste-me um dia na Ribeira Brava, dentro d'agua; porque eu te tinha tirado +um pedaço de ynhame cozido... e eu tinha fome. Agora vou-te fazer rico, para +teres fato fino, como este meu, relogio, cordão de oiro, e muito dinheiro... +para te tinirem as algibeiras, como a mim. Hem!</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Serás, serás bom rapaz, agora, mas animoso... Deixemos isso, e vamos ao que +importa. Joze, eu vou para Demerara; foste quem me resolveu a ir. Minha mãe, +pobre velhinha, cá fica sem ter mais ninguem senão minha irmã que é pobre, e +pouco lhe pode valer. Acode-lhe tu, Joze. Que minha mãe ao menos tenha um +pedaço de pão para matar a fome.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Conta comigo.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Outra coisa te queria eu pedir; mas essa...</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Dize, que eu sou um bom amigo.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Creio que és, sim. Mas tens sido sempre tão fallador, homem...</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Injustiça no cazo. Eu guardo um segredo como ninguem</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Vé lá o que fazes: o que vou dizer é segredo. Gosto muito de +Joanninha...<span class="pagenum">{D1. Pg. 18}</span></p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Ah! ah! Eu já desconfiava disso. Tens bom gosto, que a pequena é bonita... +e, de mais a mais, vem a ter de seu, em o pae morrendo.—Maganão!</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Pobre a queria eu, para me poder já cazar com a minha Joanninha. Emfim, se a +sorte me ajudar, hei de tambem um dia ter alguma coisa de meu, e então a +pedirei ao pae.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Bem pensado—Mas vamos ao cazo; o que me queres tu?</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Quero que procures no correio as minhas cartas, e que as entregues a +Joanninha, em muito segredo, sem que o pae o saiba.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Fia-te em mim. Um amigo vê-se nas occaziões. Santa palavra!</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Obrigado, obrigado, Joze. Nunca te poderei pagar o muito que te devo. Agora +mais um favor.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Venha lá mais esse...</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>É o ultimo, tem paciencia. Esta noite... d'aqui a uma hora talvez, vou para +bordo, e de lá já não volto, já não torno a fallar com minha mãe. Aqui tens +vinte patacas, que lhe deixo: tu mesmo lh'as entregarás em mão propria.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Ahi vem ella. D'ali, da banda da Igreja.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>(<em>Dando-lhe dinheiro.</em>) Pois vou-me, antes que<span +class="pagenum">{D1. Pg. 19}</span> ella chegue; não tenho cá dentro força, +para lhe fallar agora. Dize-lhe que fui no bote fazer um frete até ao Funchal. +Amanhã lhe contarás a verdade. Adeus, Joze. Não te esqueças do promettido. +(<em>Estendendo os braços para o lado donde, vem Maria das Dores.</em>) Mãe, +mãe! A tua benção, mãe; para que Nossa Senhora me não desampare! +(<em>Sae.</em>)</p> + +<h3>SCENA VI</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>José Velhaco, só.</em></p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Os diabos te levem, para que não voltes mais. Ah! Ah! e deixou-me vinte +patacas das trinta que recebeu! És tolo, meu Luiz do Campanario. Vinte patacas +que estão aqui na minha algibeira, com trinta que hei de receber ámanhã do bom +homem Carlos Bad, honrado negociante de carne branca, fazem cincoenta +patacas—É barato. Estou roubado. Um escravo preto custa muito mais agora, +depois que os inglezes se declararam protectores dos pretos; e o Luiz vale bem +dois negros de Angola—Viva... viva...—como lhe chamam elles, os +inglezes?—Viva a philan... a philantropia que em vez de escravos negros, vae +fazendo os brancos escravos. A cor pouco faz ao caso; mas escravos ha de +havel-os, em quanto houver homens com fome, em quanto houver miseria no mundo. +Santa palavra! O dinheiro é que é a liberdade! Viva o dinheiro!... viva o rei +dinheiro!... Irei ficando com as vinte patacas do Luiz, em vez de as dar á velha +que ahi vem. Só para o enterro é que ella precisa de dinheiro, agora.<span +class="pagenum">{D1. Pg. 20}</span></p> + +<h3>SCENA VII</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>José Velhaco e Maria das Dores</em></p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Ora salve Deus a sr.ª Maria das Dores.</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Deus lhe dê muito boas tardes, sr. Joze. Não estava agora aqui o meu +Luiz?—Pareceu-me vel-o.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Estava aqui, mas foi-se, sr.ª Maria. O rapaz anda com a cabeça desarranjada, +não lhe parece?</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>O rapaz anda triste, porque lhe custa a levar a miseria. Eu bem lhe tenho +prégado, que é vontade de Deus que assim seja, e que elle se deve ir +conformando com a vontade de quem tudo póde. Bem velha estou eu, e nunca tive +na minha vida uma hora talvez, de que se possa diser «bensa-te Deus:» pois +olhe, assim mesmo com paciencia cá tenho ido andando. Se Deus me conservar o +meu Luiz, á hora da morte hei de louvar a Deus, por me ter mandado a este valle +de lagrimas.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Aquella falta de humildade, com que o Luiz leva a sua cruz, é peccado, diz +bem sr.ª Maria.</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Eu não disse que o meu filho tinha peccado. Nem o disse, nem o penso.—Hoje +em dia, não sei porque, todos os rapazes querem ser mais do que foram seus +paes, e por isso tem ido acabando aquelle respeito que n'outro tempo havia aos +srs. morgados. Em tudo isto anda o dedo<span class="pagenum">{D1. Pg. +21}</span> de Deus. Ou o mundo está para acabar, ou, senão, vae levar tudo uma +grande volta.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Está muito intendida em politicas, sr.ª Maria das Dores! Tambem lê os +periodicos?</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Não leio, não me ensinaram a ler.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Dizem por ahi que é bruxa; saberá isso por artes...</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Calle-se, Joze. Vae-te t'arrenego, hoje é sabbado. De quando em quando oiço +contar as coisas que se passam por esse mundo ao nosso vigario, e fazem-me +scismar. Acho rasão ao meu Luiz quando se queixa da sorte, mas nunca lh'o digo. +Quem trabalha deve ter, ao menos, tanto como quem não trabalha mas nasceu +morgado. Em quanto não for assim não vae o mundo ás direitas.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Pois as impaciencias do nosso Luiz hão de lhe dar na cabeça. Agora, quando a +viu, sr.ª Maria, fugiu; e talvez um dia fuja de todo.</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Jesus, Santo nome de Jesus! Se elle me deixasse morria. Olhe Joze, tem-me +morrido todos os meus, pae, mãe, irmãos, e o meu pobre marido, e eu fui +ficando—Deus sabe para que.—Mas agora, se me faltasse o meu Luiz, a isso não +resistia.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Deve estar preparada para tudo.</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Porque?<span class="pagenum">{D1. Pg. 22}</span></p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Eu não sei nada... ao certo: mas o Luiz tem uma alma independente como a +minha, senhora Maria—e pode ser que elle um dia faça como eu fiz, que vá por +esse mundo fóra em busca de fortuna. Ora como nem todos são egualmente +felizes...</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Talvez elle por lá fique! Nada, o meu Luiz não se vae, não me deixa.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>O desejo de ser rico, de se ver bem tratado por esses senhores morgados, que +lhe chamam agora o <em>villão</em>; o desejo de deixar de ser <em>um +villão</em> para ser o sr. Luiz do Campanario, estimado por ter dinheiro, +comprimentado pelos morgados por lhes poder emprestar algumas patacas; este +desejo de abater os outros e de se exaltar a si póde muito. O dinheiro, sr.ª +Maria, levanta os humildes, faz fidalgos os vilões. Ah! ah! Santa palavra!</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Isso são maus sentimentos, que o meu Luiz não tem. Se lhe custa o ser pobre +é por me não poder fazer feliz a mim, e a todos os seus. O meu Luiz é bom, foi +sempre bom desde creança. Esses sentimentos de que falla, Joze, só os pode ter +um mau homem, um homem sem honra e sem vergonha.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>É... será verdade. Um homem sem vergonha... Eu cá sim, eu nunca tive +sentimentos taes... porque sou...</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Joze, Joze, sempre teve—desde pequeno que<span class="pagenum">{D1. Pg. +23}</span> o conheço—propensão para o mal. Preguiçoso, e mau, foi-o sempre. +Nunca pensei que pelo trabalho honrado se fizesse rico; mas em fim assim +aconteceu, e como aconteceu, Deus o sabe. Sou velha, e hei de diser a verdade. +Anda sempre desde que veio de Demerara, a metter na cabeça a todos os rapazes, +e ás raparigas até, que emigrem da Madeira: e quando desapparecem seis ou sete +apparece o sr. Joze a comprar uma casa ou uma fazenda, ou com mais um cordão de +oiro ao pescoço. Murmura-se por ahi de tudo isto...</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Invejosos!</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Pode ser, talvez. Mas se o meu Luiz se for, é a você que eu ponho as +culpas.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Porque? Pois não podem outros persuadil-o a que emigre?</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Podem. Mas eu tanto me hei de queixar, que se saberá a verdade. A voz da +velha Maria das Dores ha de ouvir-se por toda a Madeira, e chegar até aos +ouvidos de quem governa. Mas não... o meu filho não me deixa.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Talvez que não. Adeus sr.ª Maria das Dores, veja se descança, faz-lhe mal +zangar-se—Ah! ah! ah! Está velha para se zangar assim.</p> + +<h3>SCENA VIII</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>Maria das Dores</em></p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>O meu Luiz não me deixa, não me desampara, eu morria se me visse sem elle... +Nossa<span class="pagenum">{D1. Pg. 24}</span> Senhora me livre desta ultima +dôr; esta era a ultima, porque eu morria. Se tem de acontecer essa desgraça, +Deus, me leve antes para si (<em>Vae sentar-se sobre um pedaço de muro, de modo +que fica quasi escondida por detraz de uma moita</em>). Ave Maria cheia de +graça, o senhor é comvosco... (<em>Continua a murmurar orações.</em>)</p> + +<h3>SCENA IX</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>A mesma—Antonio Prudente—O +Vigario—Joanninha</em></p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Tenho gosto em ver os bons resultados da sua labotação, sr. Antonio. +Fazendas bem amanhadas, as suas fructas excellentes; muita cana de assucar, já +para substituir o vinho que nos falta, e flores por toda a parte para alindar +tudo... As flores são aqui da nossa Joanninha, que as sabe escolher bonitas +como ella.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Ora! sr. Vigario.</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Não se envergonhe a menina Joanninha por ser bonita, e gostar de flores. Se +eu tivesse uma sobrinha, com estas duas qualidades a queria. Mas aquelle +desmasellado de meu irmão não me quiz dar senão dois sobrinhos, paciencia! +Elles são ambos bons rapazes; mas o segundo, o Fernando, o mais novo, é mesmo +uma joia, e eu quero-lhe devéras.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>E merece-o o menino, porque muito bom é.<span class="pagenum">{D1. Pg. +25}</span></p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Merece muito, mas, como fez o crime de vir ao mundo mais tarde do que o +outro, ha de ser pobre toda a vida, e o irmão morgado e rico. Esta instituição +dos morgados foi feita por quem não tinha entranhas de pae, nem consciencia de +bom christão; e aqui na Madeira, sobre tudo, foi estabelecida por quem não +entendia nada de agricultura, e não tinha nem amor á terra que dá os fructos, +nem aos homens que a cultivam. Meu irmão, o morgado Bittencourt, não quer +escutar estas verdades: mas eu só lhes recomendo, a elle, e aos outros +morgados, que comparem as fazendas livres com as que estão opprimidas pelos +vinculos, e que digam, depois de verem nas fazendas livres tudo alegre, verde, +bem cultivado; e nas vinculadas tudo miseravel e coberto de colonos famintos; +que digam que isto dos morgados não é um absurdo funesto, sustentado apenas por +vaidades fofas e impios preconceitos.—Este flagello dos vinculos ha de acabar, +e com elle o outro flagello tambem, a emigração dos madeirenses.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>E quando acabará ella sr. Vigario!?</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Quando a terra fôr de quem trabalha, e não de quem vive na ociosidade e na +ignorancia: quando uma organisação iniqua da propriedade não affastar da +inteira posse da terra os caseiros em nome dos vinculos, e os morgados em nome +das bemfeitorias; quando a justiça fôr a base das leis; quando nesta ilha, que +a natureza fez um paraizo, acabarem esses restos de escravidão, que ainda hoje +existem pezando sobre<span class="pagenum">{D1. Pg. 26}</span> o homem do povo +e unidos ao nome de <em>villão</em>. Os grandes padecimentos do povo hão de +acabar, quando a instrucção esclarecer o espirito de todos; quando no mundo +civilisado—porque o mal não existe só aqui na ilha—se não soffismar a +verdade, e se não confundir a justiça com o interesse; quando a religião, a +virtude, a liberdade, estiverem acima de tudo.—Mas esse tempo, se é que tem de +chegar, ainda vem longe. Finje-se hoje querer acabar com a escravidão no mundo; +assignam-se tratados para abolir o trafico dos negros barbaros; e deixa-se que +a seducção e a miseria arraste os brancos a captiveiro mais cruel.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>V. s.ª tem rasão de certo no que diz. Eu não percebo talvez todo o sentido +das suas palavras, sr. vigario, mas a consciencia diz-me que são verdadeiras. +</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>O lidar com a natureza esclarece a rasão; e não ha nada que mais luz dê ao +espirito, do que a probidade e a honradez Antonio Prudente, eu bem sei que +entende o que lhe disse.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>A verdade é para todos.</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Bravo! fallou bem a nossa Joanninha, a minha afilhada Joanninha. Fui eu que +lhe ensinei a ler, a doutrina e tudo, e não perdi o meu tempo.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>O sr. Vigario sempre foi bom para todos, mas para a minha filha... deve-lhe +tudo...<span class="pagenum">{D1. Pg. 27}</span></p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Tomára eu tempo para poder ensinar a ler todas as creanças da freguezia. Eu +entendo que um dos mais santos deveres do padre é instruir e educar as +creanças. Como lhe ia dizendo ha pouco, Antonio, os males são muitos, e a todos +é preciso dar remedio prompto. Devéras, em quanto os homens de bem cá das +aldeias não ajudarem esses senhores politicos de Lisboa a fazer as leis, nunca +as ha de haver que prestem.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>É o que eu tenho pensado muitas vezes; salvo o respeito devido a quem +manda.</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Sobre estas emigrações algumas medidas se teem tomado. Expedientes, meros +expedientes! Prohibe-se aos pobres colonos o embarcarem sem passaporte, põe-se +um navio de guerra a guardar a ilha, ameaçam-se os alliciadores, e no fim de +tudo embarca quem quer sem passaporte, o navio não guarda nem pode guardar +nada, e os aliciadores vivem alegres e enriquecem. Não é prohibindo, é +concedendo, que se ha de acabar com a emigração; não é fechando o povo dentro +da ilha, como n'um carcere, é dando a liberdade aos homens e á terra, que se ha +de combater a febre que agita neste momento a ilha. Os que fazem leis só pensam +em castigar e prohibir. Não basta. É preciso aconselhar e ajudar os pobres a +viver; é preciso que todos na ilha da Madeira saibam o que padecem os +desgraçados, que a esperança arrasta a essas terras dos inglezes, em que os +aguarda a escravidão, onde as febres lhes minam a saude, e a cubiça de vis<span +class="pagenum">{D1. Pg. 28}</span> especuladores lhes arranca das mãos o pão, +com que elles procuram enganar a fome.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>(<em>Com susto.</em>) Pois tanto soffrem os que vão a Demerara?</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Muito mais do que se pensa.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>É preciso desenganar o povo; porque todos os dias desapparece d'entre nós +algum rapaz dos melhores, dos mais trabalhadores e dos mais queridos.</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Ás vezes são familias inteiras; outras, um chefe de familia deixa mulher e +filhos; e até ha filhos que desamparam seus paes, e isto quando estão com os +pés na sepultura.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Agora mesmo tenho eu medo, que um dos bons rapazes da nossa freguezia fuja +para Demerara, deixando a mãe velha e pobre quasi ao desamparo.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>E quem é, pae?</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>O Luiz do Campanario.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Isso não póde ser.</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>(<em>Levantando-se e vindo á frente da scena.</em>) Não pode ser. O meu Luiz +não me deixa aqui só: não me pode abandonar agora... quasi á hora da +morte.<span class="pagenum">{D1. Pg. 29}</span></p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>É uma desconfiança que tenho, e nada mais. Eu não sei...</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Amanhã... esta noite mesmo lhe fallarei; e se elle tem idéas de emigrar, +tirar-lhas-hei da cabeça.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Deos o abençoe, sr. Vigario, pelo amor que tem aos pobres. Deos lh'o pagará, +meu senhor Vigario.</p> + +<h3>SCENA X</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>Os mesmos e Joze Velhaco</em></p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Sr.ª Maria das Dores... Ah! (<em>tirando o chapeo.</em>) Boas tardes, sr. +Vigario. Estou ao seu dispor.</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>(<em>Com mau modo.</em>) Bons tardes, sr. Joze.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>V. S.ª está zangado, ao que parece.</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Talvez.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>É que eu... eu trazia uma noticia aqui á tia Maria das Dores...</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Pois dê-lhe a noticia.</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Diga, homem.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Não tenha pressa de saber.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Falle, sr. Joze.<span class="pagenum">{D1. Pg. 30}</span></p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>O Luiz, o seu Luiz, foi-se.</p> + +<h4>AMBOS</h4> + +<p>Para onde?</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Para Demerara.</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>É mentira.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Jezus!</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Não viram hoje um navio a bordejar ao largo? Pois para elle foi, e nelle +estará a esta hora o nosso Luiz.</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Como soube...</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Disseram-mo agora mesmo uns barqueiros, que o viram partir para bordo.</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>E não se tratará de acabar por uma vez com esta emigração, que faz horror? +</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Ah! ah! O sr. governo está dormindo ha trinta annos. Quando accordar ha de +dar remedio a todos os males.</p> + +<p style="text-align:center;"><em>Cahe o panno.</em></p> + +<p style="text-align:center;"><strong>Fim do 1.º acto</strong><span +class="pagenum">{D1. Pg. 31}</span></p> + +<h2>ACTO SEGUNDO</h2> + +<p style="text-align:center;"><em>A casa de Antonio Prudente. Porta no fundo, +outra porta á esquerda. Á direita uma janella.</em></p> + +<h3>SCENA I</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>Antonio Prudente e Joze Velhaco</em></p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Veja vmc. se a resolve, sr. Antonio. Eu tenho hoje bastantes terras, umas +casas na cidade, e andam-me emprestados e a vencer bons juros uns poucos de +centos de patacas. Para sua filha não me parece que eu seja um mau casamento. +Ainda sou moço... e com dinheiro, é o mais que uma rapariga póde desejar.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Não sei o que a Joanninha tem contra você, Joze, mas é certo que ella fica +mal comigo,—olhe que é verdade,—fica mal comigo em eu lhe fallando neste +casamento. A mim agrada-me, Você é um homem que sabe fazer fortuna. Hontem por +assim dizer pobre, e hoje rico.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Pois ha um anno que ando a pertender este casamento, e elle sem se fazer. +Agora é tempo de acabar com isto. Está-me parecendo que Joanninha não faz já +tanta resistencia. Lembre-se que é pae, sr. Antonio, e que pode mandar em vez +de pedir. É para bem da sua Joanninha. Porque eu conheço-me, e vmc. tambem me +conhece, ein? conheço-me e sei que poucos são capazes, como eu, de fazer feliz +uma mulher. Santa palavra!<span class="pagenum">{D1. Pg. 32}</span></p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Eu não duvido dos seus bons sentimentos, de que venha a ser menos mau pae de +familia. É certo... é certo—deixe-me dizer o que penso—que todos na freguezia +o vêem com maus olhos, desde que o Luiz do Campanario foi para Demerara; e +quando algum rapaz desapparece daqui, dizem uns—foi o Joze Velhaco quem o +enganou, o Joze Velhaco vendeu-se aos inglezes—outros dizem—o Joze Velhaco é +bom homem, dá dinheiro aos pobres, empresta dinheiro aos morgados, e faz muitas +festas a Nossa Senhora...</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>E vmc. o que diz?</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Eu acredito nos que dizem bem; mas minha filha so dá credito aos que dizem +mal.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>É a velha, a bruxa da Maria das Dores, quem lhe mette essas creancices na +cabeça. É preciso, sr. Antonio, pôr a excommungada da velha da sua casa para +fora.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Isso não faço eu. Pôr fora da minha caza uma pobre velha, que é tão +desgraçada, uma mulher que serviu de mãe á minha Joanninha! Oh! sr. Joze, que +eu lhe não ouça dizer outra vez coisas dessas; que, sobre tudo, o não saiba a +minha filha. Estava desmanchado o casamento, se Joanninha tal soubesse!</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Eu queria... sim, como sei que Joanninha é muito amiga da velha Maria das +Dores, queria ver... experimentar se vmc. era capaz de ir contra os desejos da +sua filha. Vmc. bem percebe?<span class="pagenum">{D1. Pg. 33}</span> Eu não +sou muito amigo da Maria das Dores; a velha anda por ahi a desacreditar-me; diz +que fui eu que lhe seduzi o filho, que sou isto, que sou aquillo. Coisas que +nem eu sei. E quando a gente está innocente, ressente-se destes falsos +testemunhos.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Quando se está innocente.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Como eu, é verdade, ressente-se a gente. Não fallemos mais nisso, que é uma +coisa que me faz doer o coração. O que é preciso é que este casamento se faça; +porque a Joanninha é mesmo uma mulher propria para mim: sabe ler, escrever, e é +bem creada. Aqui em toda a freguezia não ha uma rapariga, que se lhe possa +comparar.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>A Joanninha é mesmo uma flor! Ah! ah!</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Mas, emfim, se vmc. não tem força para governar a sua casa, para fazer com +que sua filha lhe obedeça, irei a outra parte buscar mulher, com quem me case. +Não faltará quem me queira. No Funchal talvez ache até algum morgado que me dê +uma filha. Com dinheiro, nestes tempos, tudo se pode alcançar: e eu, em sendo +commendador, posso casar com quem eu quizer, e ser até deputado, representante +da Madeira. Ah! Ah! Ah!</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>(<em>Rindo muito.</em>) Que coisas que não hade dizer o sr. deputado Joze +Velhaco!</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>(<em>Em tom de discurso.</em>) É preciso acabar com este odio á chamada +escravatura branca: este odio é uma<span class="pagenum">{D1. Pg. 34}</span> +vergonha para a Madeira, uma deshonra para a Madeira, uma deshonra para os +portuguezes. Esta escravatura não é mais do que a liberdade, que todos devem +ter de ir procurar fortuna a qualquer parte do mundo. Eu mesmo fui +enriquecer-me a Demerara. E quando os calumniadores me accuzarem, de querer que +dure a emigração, para ganhar dinheiro com ella, heide gritar com furor. A +minha vida todos a conhecem, é simples e pura. Todos sabem que ganhei +honradamente o que tenho, e só almas damnadas me podem levantar falsos +testemunhos; porque... porque, a innocencia é a innocencia, e os homens +politicos sabem, melhor do que ninguem, o que é ser innocente, e o que é fingir +innocencia; porque a moralidade dos politicos...</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Viva! É eloquente, o meu genro, o sr. deputado. E da sua innocencia falla +muito, e falla bem.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Então, decide-se o casamento?</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Está decidido, e hade ser já.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Falle a Joanninha.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Logo, em ella voltando para casa, hade decidir-se o negocio.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>E ella é quem o hade decidir?</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Não, heide ser eu. Está decidido, e eu logo não faço senão mandar. (<em>Com +violencia.</em>)</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Mandar, sem soffrer observações.<span class="pagenum">{D1. Pg. 35}</span></p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Como um pai a uma filha desobediente.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Bom, bom! Logo venho pelo resultado. (<em>Sae.</em>)</p> + +<h3>SCENA II</h3> + +<h4>ANTONIO PRUDENTE <em>só</em></h4> + +<p>É preciso ser severo. Acabou-se; o que custa são as primeiras palavras, +depois as outras vêem por si. É para bem da minha Joanninha; que hade, quando +for velha, gostar de ser dona de uma boa propriedade, com terras de pão, vinha +e pomar. O Joze Velhaco é um rapaz de cabeça, como se quer. Hade fazer-se +commendador, e tudo mais que elle diz. Fallam por ahi mal do Joze; mas não teem +razão: elle tem-me provado que de tudo está innocente. O padre Vigario tambem +não é amigo delle... mas não tem razão, não tem. Querem pôr ao pobre do meu +genro as culpas, do que succede nesta terra. (<em>Ouve-se a voz de Joanninha +cantando</em>). Ahi vem ella, a minha filha. Animo, Antonio Prudente. Vamos; +deves-te fazer respeitar e obedecer por tua filha.</p> + +<h3>SCENA III</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>O mesmo e Joanninha</em></p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Vens muito alegre, Joanninha.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Eu, pae!<span class="pagenum">{D1. Pg. 36}</span></p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Vinhas a trovar, como se estivesses na festa do Monte.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Á Senhora do Monte vinha trovando. Mas é a tristeza e não a alegria que me +faz cantar.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>(<em>Perdendo um pouco a severidade.</em>) E diziam as trovas...</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<blockquote> +Senhora do Monte<br> +Trazei-me o meu bem,<br> +Com tristezas destas<br> +Não pode ninguem.<br> +<br> +Senhora do Monte<br> +Trazei-mo depressa,<br> +Fazei que o meu noivo<br> +De mim não se esqueça.<br> +<br> +Sem elle, alegria<br> +E paz eu perdi,<br> +Senhora do Monte<br> +Trazei-m'o aqui.<br> +</blockquote> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Pois fez-te a vontade a Senhora do Monte. Perto tens o teu noivo.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>(<em>Com alegria.</em>) Elle! Pois chegou?</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Ha muito que chegou, e ha muito que te deseja para mulher.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Ai! Pae, ainda me torna a fallar nesse Joze, que é a praga desta +freguezia?<span class="pagenum">{D1. Pg. 37}</span></p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>(<em>Colerico.</em>) Torno a fallar-te no Joze, mas é pela ultima vez. Quero +que cases com elle; e não consinto que me digas que não. Hasde obedecer a teu +pae.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>N'isso, não.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Joanna, eu não quero ouvir dizer que não, quando eu mando.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Esse homem anda enganando gente, para a vender aos inglezes. Assim diz o sr. +padre Vigario, e todos...</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>É mentira o que dizem delle. Em sendo teu marido, todos se callam logo. O +meu nome, o nome de Antonio Prudente, é um nome honrado; e ninguem é capaz de +pensar mal do homem, que fôr marido de minha filha.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Meu querido pae, escute-me. Nunca deixou de me fazer a vontade em tudo, e +agora...</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Muito mal fiz, e muito me arrependo. O mimo é que te perdeu.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Se eu tivesse mãe, a ella me havia de queixar...</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Tua mãe, Deos a tenha em gloria, nunca me desobedeceu. Sabia melhor o que +uma mulher deve a seu marido, do que tu sabes o que uma filha deve a seu +pae.<span class="pagenum">{D1. Pg. 38}</span></p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Antes morrer, antes deitar-me ahi ao mar, do que eu casar-me com tal +homem.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Joanna, não me obrigues a tratar-te como mereces. Eu bem sei quem te anda +mettendo essas doidices na cabeça, é a velha Maria das Dores. É como me paga os +beneficios que lhe tenho feito. Mas á velha ponho-a na rua, e a ti levo-te á +igreja por força para te casares. É demais, é demais isto, Joanna.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Pae, pelo amor de Deos não me perca.... (<em>Cae de joelhos.</em>)</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>As raparigas não sabem o que querem. Eu para ti ganhei toda essa terra, que +ahi está ao pé da nossa casa; quero juntar-lhe tudo o que vai d'aqui até ao +paçal do Vigario. Isto só se póde conseguir casando tu com o Joze Velhaco. +Fica, um morgado, mesmo! Quero-te rica, Joanna; quando tiveres filhos hasde +abençoar-me por te ter obrigado a fazer este casamento. Choras agora; depois +hasde rir.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Pae, não me desgrace.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>O casamento hade fazer-se. Já dei a minha palavra, e basta. É callar e +obedecer. (<em>Sae commovido, e escondendo as lagrimas.</em>)</p> + +<h3>SCENA IV</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>Joanninha, depois Maria das Dores</em></p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Pae!... pae!... Elle não me dá ouvidos, e eu<span class="pagenum">{D1. Pg. +39}</span> morro aqui de pura dor... que me trespassa o coração... Santo nome de +Jesus, valei-me.</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>(<em>Entrando.</em>) Joanninha, teu pae saiu agora mesmo daqui zangado, +perdido de cabeça. Nem sequer me viu! Que tem elle? Que succedeu, que te vejo +toda chorosa?</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Estou perdida, tia Maria das Dores... Meu pae já me não parece o mesmo, +Aquelle Joze Velhaco embruxou-o.</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Tornou-te a fallar no casamento?</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Quer meu pae, que o casamento se faça já, sem mais tardar. E nem as minhas +lagrimas lhe fizeram abalo. Ralhou comigo, e disse-me que elle mandava e não +queria ser desobedecido.</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Se não fosse com o Joze, dizia-te Joanninha que o remedio era callar, e +obedecer. És boa filha, e o Antonio é teu pae. Mas com semelhante homem, com um +homem mau, infame, não te podes casar.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Mas que se hade fazer?</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Não sei, não sei, mas irei fallar ao sr. Vigario... Elle desconfia do Joze +Velhaco, fallará a teu pai, e talvez o convença. Só o Antonio é quem na +freguezia anda illudido com tal homem: Deus lhe perdoe o mal que me tem feito, +e as lagrimas que me fez chorar. Ai, o meu Luiz, o meu Luiz... se ainda será +vivo?<span class="pagenum">{D1. Pg. 40}</span></p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>E sem noticias delle!... ha um anno que se foi!</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Nem carta, nem noticias! Se morreria o meu querido filho? Tenho ido umas +poucas de vezes ao correio do Funchal, e dizem-me sempre que não ha cartas, +isto quer dizer muito. Devemos estar preparadas para uma grande dor, minha +Joanninha.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Ai, não diga tal.</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Porque o não heide dizer, se o sinto, se o coração m'o diz... se parece que +me diz que elle morreu.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Se o Luiz morreu, que hei de eu fazer? Elle era o meu noivo; por elle +prometti esperar. Se elle não voltar, fico toda a vida solteira.</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Solteira... não pode ser, seria dar um grande desgosto a teu pae, e +condemnares-te a ti a uma triste solidão. Uma mulher sem filhos anda como +desamparada neste mundo, é como uma arvore sem fructos nem flores. Nós as +mulheres viemos a este mundo para cuidar das criancinhas, para depois, quando +somos velhas, como eu sou, sermos cuidadas e queridas pelos filhos que criámos. +E eu já não tenho filho! Morreu o meu Luiz. E Deos ainda me não chamou para +si!</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Agora, que nem me atrevo já a ter esperança de o tornar a ver, sinto que +mais lhe quero do que nunca. Para chorar por elle posso viver; mas para mulher +de outro não.<span class="pagenum">{D1. Pg. 41}</span></p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Joanninha, escuta. Ninguem quer mais do que eu ao meu Luiz; sei que elle te +amava, e que em seres sua esposa estava toda a sua esperança, mas... se morreu, +de que serve desobedeceres a teu pae... Basta que eu soffra... e tu, filha. Que +não seja desassocegado no fim da vida o bom Antonio Prudente, do qual não houve +nunca rasão de queixa.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Então quer que eu case com o Joze Velhaco!</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Com esse não. Mas com outro...</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>E se Luiz não morreu?</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Que esperança podemos ter? Ha um anno que se foi.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Casar-me eu, tia Maria das Dores, e vel-o depois desembarcar ahi! Com que +cara lhe havia de apparecer?... e que olhos havia de pôr em meu marido! E +depois, com o Joze Velhaco me quer meu pae casar; e com elle só morta me +levarão á igreja.</p> + +<h3>SCENA V</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>As mesmas e Joze Velhaco.</em></p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>É essa a sua ultima resolução, menina Joanninha?—(<em>As duas mulheres dão +um grito de terror.</em>) Não se assustem, não tenham medo, não sou nenhum +diabo.</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Bem o parece!<span class="pagenum">{D1. Pg. 42}</span></p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Foi vmc. Maria das Dores, quem ensinou ésta rapariga a desobedecer a seu +pai? Um dia a justiça hade castigar as bruxas velhas, que andam nesta ilha a +perder as raparigas honestas.</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Cal-te... Deos me perdoe! Cal-te!..</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Pelos seus peccados a castigou Deos. O filho que tinha deixou-a, e lá morreu +por Demerara, sem se lembrar de sua mãe.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Morreu...</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Sei que morreu; mas pouco importa. Não se perdeu coisa boa.</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Dizer assim mal do meu Luiz... que elle matou! Se Deos me desse forças!... +</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Matava-me!? Ah! ah! que santa alma a desta velha! E anda semelhante mulher +sempre a resmungar orações, de pela manhã até á noite! São pragas que ella nos +roga, a bruxa!</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Sr. Joze o que se atreve a dizer? Não sabe que a tia Maria das Dores é a +minha segunda mãe?... que todos cá na freguezia a respeitam?</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Sei que, por causa das calumnias, e dos falsos testemunhos que me levantou, +não me quer a menina Joanninha por marido, e paga com ingratidões o grande amor +que lhe eu tenho.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Amor que mette medo! É homem de ruim<span class="pagenum">{D1. Pg. +43}</span> alma sr. Joze... de ruim alma, e má consciencia!</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Joanninha! (<em>Querendo pegar-lhe na mão.</em>) Não se deixe enganar pelas +mentiras que dizem por ahi de mim... Sempre fui bom rapaz... todos o sabem. Se +a minha riqueza mette inveja aos outros, que culpa tenho eu?</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Não faz inveja, faz horror, essa riqueza ganha a vender aos inglezes os +pobres da Madeira.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Calle-se, mulher; senão!..</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Ameaças agora!</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Joanninha, não demos ouvidos a esta doida. Fallemos serio do que nos +importa. Seu pae, Joanninha, quer o nosso casamento; e tem por calumnias quanto +por ahi se diz de mim. Elle sabe que sou capaz de a fazer feliz.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Só atada de mãos e pés irei á igreja, mas lá heide dizer que não... quando +me deem por marido um homem que aborreço.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Joanna, veja o que diz! Seu pae pode obrigal-a...</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Matar-me é que elle pode.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Prende-a uma promessa, bem sei, Joanninha. (<em>Brandamente.</em>) Fica-lhe +bem a firmeza: comigo tambem a terá. Mas de que serve teimar nesse amor a um +homem, que já morreu?<span class="pagenum">{D1. Pg. 44}</span></p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Não, não morreu. Não vé que me afflige... que trespassa aquella pobre mãe, +dizendo isso?</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Não accredito no que elle diz, é mau homem... mente!</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Hade ter castigo tanto atrevimento! Insultar com injurias, desacreditar com +aleives, um cidadão honrado, que tem de seu, que vive com os morgados maiores +da Madeira!</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Todos te despresam!</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>(<em>Levantando a mão com colera.</em>) É de mais. Se te não callas...</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Que faz Joze? Que se atreve a fazer?</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Nada... por agora.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>(<em>Pegando nas mãos de Maria das Dores.</em>) Venha, Maria das Dores, +venha minha boa, minha santa mãe!... Vamo-nos desta casa, que não pode ser, que +não é a nossa, em quanto semelhante homem aqui estiver.</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Fizeste-me perder o meu filho; foste que m'o tiraste dos braços para o +mandar como escravo a Demerara! O meu Luiz morreu... perdi o meu filho, e eu +d'aqui a dias irei ter com elle. É de lá da cova, escuta bem Joze! é da cova, +que ambos te amaldiçoamos, para que a tua alma não tenha socego, nem o teu +corpo descanço, em quanto vivo fores; para que, depois<span +class="pagenum">{D1. Pg. 45}</span> da morte, a justiça de Deos te lance nos +infernos. (<em>Sáem as duas.</em>)</p> + +<h3>SCENA VI</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>Joze, só</em></p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Está doida, doida varrida a velha. E eu que ia perdendo a cabeça; como se um +homem de juizo, e conhecedor do mundo, podesse perder a cabeça nestas alturas! +Santa palavra! Um homem sempre é um homem, e não faz caso de rabugices de +bruxas tontas. O que necessito, e vou fazer, é gastar umas poucas de patacas, e +mettel-a no hospital por doida. Logo vi que da mão de Maria das Dores não vinha +cousa boa! Tenho de gastar o dinheiro que o filho me rendeu, para agora alojar +a mãe no hospital, ou na cadeia. Vamos fazer calar esta matraca, que me anda +sempre a matinar os ouvidos. O que importa, em tudo isto, é que a Joanninha +consinta no casamento. Gosto della, e gosto muito, e nunca pensei que tal +podesse acontecer-me!. (<em>Rindo.</em>) Ah! ah! a não ser o bom pedaço de +terra, que tem o pae, não eras tu meu Joze Velhaco capaz de intender o +desasocego, em que anda o teu coração! A idéa de tirar do correio todas as +cartas, que o Luiz escreveu á mãe e á Joanninha, foi famosa! Estão crentes, que +elle morreu, e a esta hora talvez não estejam enganadas! Graças a Deus morre-se +depressa em Demerara, quando se trabalha no campo, ao sól, e com o estomago +vazio; e o Luiz não o havia de traser cheio. Ésta minha cabeça é uma<span +class="pagenum">{D1. Pg. 46}</span> grande cabeça, e eu ainda heide de ser +coiza grande no mundo! Meu pae mandou-me aprender a lêr e a escrever; +aproveitarei a boa lembrança de quem já lá está na terra da verdade. Joanninha +hade ser minha, ou não heide chamar-me Joze... Velhaco. Santa palavra!</p> + +<h3>SCENA VII.</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>Joze Velhaco e Joaquim.</em></p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>(<em>Batendo á porta.</em>) Ólá, menina Joanninha!</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Não está cá a menina, saiu.</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Ah! está ahi vmc. sr. Joze? Eu vinha procurar a Maria das Dores. Tambem não +está aqui?</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Esteve, mas foi-se. E que lhe queria você á Maria das Dores?</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Trazia-lhe um recado de meu amo.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Do sr. Vigario?</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Sim senhor, lá do sr. Vigario é que o recado é: o sr. Vigario quer fallar á +velha.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Para que?</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Isso não sei eu. Para coiza grande é, porque me disse meu amo que viesse +correndo.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>(<em>Á parte.</em>) Que será? O Vigario em tudo se mette.<span +class="pagenum">{D1. Pg. 47}</span></p> + +<p>(<em>Alto.</em>) Então não sabe o que o nosso Vigario quer á Maria das +Dores? Em! Joaquim?</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Olhe vmc.; eu, verdade, verdade, não sei o que elle tem que lhe dizer; mas +parece-me...</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>O que?</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>A velha foi outro dia fallar com o sr. Vigario, e esteve mais de uma hora só +com elle.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>O que disseram?</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Não sei. Pois se elles estiveram sós, como havia de saber o que disseram? +Minha mulher, que é curiosa deveras, lá descobrio que ella quer entrar para o +azylo dos pobres, no Funchal; e por isso meu amo lhe fallou o outro dia á +triste da velha, e agora lhe quer fallar outra vez.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Hade ser, hade ser isso. (<em>Á parte.</em>) Fico mais alliviado; já não +precizo gastar o dinheiro em metter a Maria das Dores no hospital, por doida. +(<em>Alto.</em>) Ora, Sr. Joaquim, ja pensou n'aquelle negocio, em que outro +dia lhe fallei? Está disposto a ir fazer fortuna?</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Estou velho para tentar fortuna, sr. Joze. Tenho 40 annos feitos.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Parece um rapaz de 20, o nosso Joaquim! E depois tem um filho que d'aqui a +dois dias está um homemzinho, que o póde ajudar.<span class="pagenum">{D1. Pg. +48}</span></p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>O rapaz não levo eu para Demerara. A mim posso-me arriscar, mas a elle... +</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Olhe sr. Joaquim, que não ha perigo. Tenho vontade de o fazer feliz... tenho +confiança em você.... conheceu-me de pequeno, e tenho-lhe amizade. Não sei se é +homem de segredo, sr. Joaquim.</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Pode fiar-se. Segredo, que oiço, é como se caisse ao mar, ninguem o sabe. +Para amigos sou um homem como se quer. Sim: lá nisso é fallarem-me, e prompto; +aqui está o Joaquim ás ordens.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Se apparecesse agora um homem, que quizesse fazer-se rico em pouco tempo, +sem trabalho, havia occasião.</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Eu quero; oh! se quero.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Pois toque, Joaquim; mas jure guardar segredo sobre o que vou dizer.</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Está promettido.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>O que vou dizer-lhe é de amigo. Preciza-se de um homem.... você é de +segredo? Em?</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Oh! homem, não me conhece ainda?</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Veja la. Se este segredo se souber, só você o pode ter contado; e ha gente +de muitas posses, que o quer bem guardado. (<em>Com um gesto de<span +class="pagenum">{D1. Pg. 49}</span> ameaça.</em>) Sempre se póde fazer callar +um homem.</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Bem o intendo. Póde fallar sr. Joze. Não é o medo que me tapa a bocca.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>(<em>Assustado.</em>) Então?...</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>(<em>Rindo.</em>) É... é a amizade, que lhe tenho...</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Como ia dizendo: preciza-se de uma pessoa que vá a Demerara, homem de bom +nome, e de influencia por estas freguezias. Você está no caso. Caseiro do sr. +Vigario, e bem quisto por elle.... é quanto basta.</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>O meu nome, o nome do Joaquim do Vigario, é bem conhecido, ninguem tem que +lhe dizer.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Pois ahi está; é isso mesmo.</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Então querem que vá a Demerara?</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Justo. Ir; estar lá um anno a comer e a beber á regalada, e voltar rico.</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>(<em>Rindo.</em>) Ah! ah! ah! Rico! E como?</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Comendo, já lho disse. Comendo, dormindo e engordando.</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Eh! eh! eh! Não me parece feia a historia! Está a mangar commigo sr. Joze? +Em!<span class="pagenum">{D1. Pg. 50}</span></p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Mangar, com o meu amigo Joaquim?! Isso é que não.</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Eu cá intendo que se dê de comer a um porco, para depois o matar, mas a um +homem.... Em Demerara comem gente?</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>(<em>Rindo.</em>) Está doido... Sr. Joaquim. Aquillo é a melhor terra deste +mundo.</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Que querem elles então?</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Que volte para a Madeira, com dinheiro e saude, e diga depois, como eu, que +Demerara é um céo aberto; que lá se enriquece á grande, e que um homem váe, e +volta rico sem lhe custar nada.</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>E isso é assim para todos?</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Não homem; para os felizes como nós. Pois este mundo fez-se para os felizes? +Santa palavra!</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>(<em>Rindo muito.</em>) Agora... agora percebo—Ah! ah!... É boa! É como quem +diz um chamariz; querem fazer de mim um chamariz?</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Ainda bem que nos intendemos. Vai então para Demerara?</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Para quando a partida?</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>No primeiro navio.<span class="pagenum">{D1. Pg. 51}</span></p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Pois amanhã lhe dou a resposta.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Mas o segredo?...</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Está dito.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Quer dormir sobre o cazo para depois se decidir?</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>É como diz. Este costume ficou-me de pequeno, dormir sobre todos os cazos, e +em todos os cazos. Agora vou ao recado do sr. meu amo, vou procurar a tia Maria +das Dores.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Vá, vá. E se poder saber o que o sr. vigario lhe quer, venha-mo contar.</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Pois sim. Adeus, amigo Joze Velhaco.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Adeus. (<em>Joaquim sáe.</em>)</p> + +<h3>SCENA VIII</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>Joze, depois Antonio Prudente</em></p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Este é dos nossos. Meu de certo é; porque me hade render bom par de patacas. +E digam que sou mau! Acabo de fazer a fortuna deste excellente pai de +familia!—Ahi vem Antonio Prudente. Vamos resolvel-o por uma vez a governar a +sua casa! (<em>A Antonio que entra.</em>) Ora já sei, sr. Antonio, que a sua +Joanninha lhe não quer obedecer.<span class="pagenum">{D1. Pg. 52}</span></p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Hade obedecer, que lho digo eu. Por tal vergonha não hade passar Antonio +Prudente.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Encontrei-a com a velha, aqui. Disseram-me injurias, insultaram-me. A Maria +das Dores repetiu-me uma duzia de vezes—ouvi-lho com estes +ouvidos—repetiu-me, que Joanninha não casaria commigo; que o pae de Joanninha +era um tolo—perdão sr. Antonio, eu não faço senão repetir—que era um tolo, um +baboso, e que havia de fazer o que ellas quizessem.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Pois a velha disse isso?... diante de minha filha? Bem razão tinha, Joze, em +me aconselhar que a puzesse na rua, á excommungada bruxa! Onde está a Maria das +Dores, onde está minha filha?</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Sairam ambas, depois de me carregarem de injurias.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Um tolo, um baboso, eu! Ou a Joanninha deixa de ser minha filha, ou o +casamento hade fazer-se já. E para a rua a velha, que nem mais uma vez me porá +os pés em casa.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Nada de violencias, sr. Antonio. Com geito é que as coisas se levam. Com sua +filha rigor, mas violencia, não. E com a velha nada de injurias... o Vigario +protege-a.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>E que me importa a mim o Vigario? Não preciso de ninguem.<span +class="pagenum">{D1. Pg. 53}</span></p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Isso faz-lhe honra, sr. Antonio, mas sempre é bom ser <em>prudente.</em></p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Hade fallar-se de mim na freguezia. Os paes hão de aprender a castigar as +filhas desobedientes.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Ahi vem ellas, sua filha e a Maria das Dores. Vou-me; porque, se aqui me +veem, não entram.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Deixe-as commigo.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Tenha moderação... paciencia!</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Deixe-as commigo, já lho disse. (<em>Joze sae.</em>)</p> + +<h3>SCENA IX</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>Antonio Prudente, Maria das Dores e +Joanninha</em></p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Tolo e baboso! chamaram-me assim, minha filha, e a Maria das Dores, que me +deve tanto! Agora veremos se eu sou homem com quem se brinque. (<em>Ás duas que +entram.</em>) Venham ambas que temos que fallar.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>(<em>Assustada.</em>) Que quer, pae?</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>A ti? já o sabes. Domingo casas, sem falta.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Pae... antes morrer.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Ou casas, ou ponho-te fóra, para nunca mais<span class="pagenum">{D1. Pg. +54}</span> saber de ti. Disseste mal de mim, chamaste nomes injuriosos a teu +pai!... És má filha, e só te perdôo se me obedeceres.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Eu! nunca lhe faltei ao respeito, pai!</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>E não chama ella faltar ao respeito desobedecer-me e chamar-me... tolo.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Eu... É falso, é uma falsidade infame.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Calla-te.</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Não trate assim sua filha, Antonio. A pobre rapariga, se tem culpa, é de +chorar.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Ainda se atreve, Maria das Dores, a entrar nesta casa, e a fallar-me de +Joanninha! Se ella é desobediente, e má filha, se diz mal de seu pae, quem a +ensinou foi você, mulher.</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Que diz, Antonio?</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Foi quem ensinou Joanninha a faltar aos seus deveres; porque dantes era boa +e docil. Mas isto hade acabar, e já. Nunca mais volte a minha casa, nunca mais +falle com minha filha...</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Põe-me fóra da sua casa? A mim, que lhe criei sua filha?..</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>É indigna de vir aqui. Anda perdendo as raparigas com maus conselhos.<span +class="pagenum">{D1. Pg. 55}</span></p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>(<em>Chorando.</em>) Perdôo-lhe essas injurias, porque sei quem lhas +ensinou.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Pois julga que Antonio Prudente?...</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Penso que é bom e justo, e que a preversidade de um malvado, que o enganou, +o traz assim mudado.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Não quero que em minha casa se diga mal de quem hade ser meu genro. Ponha-se +fora mulher. Na rua já!</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Vou-me embora. Nossa Senhora guarde a pobre Joanninha, e abra os olhos a +este homem. (<em>Maria das Dores vai para sair, quando apparece á porta de +fundo o Vigario.</em>)</p> + +<h3>SCENA X</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>Os mesmos e o Vigario</em></p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>(<em>Detendo Maria das Dores.</em>) Antonio Prudente, que palavras são +essas; porque o vejo com tanta colera? Porque põe fóra de casa Maria das +Dores?</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Anda desinquietando minha filha.</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Desinquietando sua filha!..</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Foi ella que desvairou Joanninha, que de pequena foi sempre temente a Deos e +obediente a seu<span class="pagenum">{D1. Pg. 56}</span> pae, e lhe ensinou o +atrevimento, e a desobediencia!</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Isso é engano, de certo. Anda um crime nisto. Antonio, o seu nome foi sempre +respeitado; todos até hoje o têem estimado; porque é homem de bem, caridozo e +justo. Mas, em se sabendo que pôz fóra de casa a mulher que criou sua filha, em +se sabendo que maltractou uma triste viuva, uma desgraçada, velha, doente, +quebrada pela dor, e opprimida pela mizeria, todos hão de pensar que era falso +o conceito, que formavam a seu respeito.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Sr. Vigario, essas palavras são injurias.</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Não faço injurias, digo verdades.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Mas não sabe...</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Sei que Maria das Dores sempre foi verdadeira, e que tem soffrido a desgraça +com a paciencia de uma santa. Maria das Dores, diga-nos a verdade, em +consciencia fez a este homem a offensa de que elle se queixa?</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>(<em>Suffocada pelas lagrimas.</em>) Não. Pela vida de meu filho, se elle +vive... pela sua alma, se Deos o chamou, juro que não.</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Ouvio, Antonio? Um homem, a quem os annos fizeram brancos os cabellos, a +quem os trabalhos da vida ennobreceram o coração, acaba de se deshonrar, +pizando aos pés o que ha de mais sagrado no mundo: uma mãe desventurada.<span +class="pagenum">{D1. Pg. 57}</span></p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Sr. eu... pensei... acreditei...</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Acreditou uma calumnia. Neste mundo não basta ser passivamente honrado, +Antonio; a virtude era facil assim. É preciso resistir tambem ás seducções dos +maus, ter força para fazer justiça a todos, e não obedecer ás paixões, que +sempre, em todas as idades, se levantam no coração, e cegam o espirito.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Mas minha filha recusa obedecer-me.</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Porque offendeste teu pae, Joanninha?</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Eu em tudo estou prompta a obedecer a meu pae; mas...</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Mas o que?</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Casar-me com o Joze Velhaco, isso não. Antes morrer.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Bem vê, sr. Vigario...</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Vejo que Joanninha é boa filha, e que quer salvar seu pae da deshonra... +Recuza casar-se, porque o casamento é impossivel. Uma santa rapariga não póde +unir-se a um homem depravado: n'uma familia honesta, como a de Antonio +Prudente, não póde entrar um mizeravel que todos desprezam.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>O que diz?<span class="pagenum">{D1. Pg. 58}</span></p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>O que o coração lhe teria dito, se o desejo louco de juntar ás suas fazendas +mais um pedaço de terra o não cegasse!</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Nossa Senhora o abençoe pelas verdades que está dizendo!</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>(<em>Com hesitação.</em>) Prometti minha filha ao Joze Velhaco, e a palavra +de Antonio Prudente é sagrada.</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Deve ser sagrada quando a der a um homem de bem, e quando cumpril-a não for +sacrificar sua filha.</p> + +<p>Antonio, escute-me. Ha no Funchal um pobre pescador, com duas filhas que +sustenta, e são a sua alegria, a sua força, a benção da sua caza. Esse homem +saiu uma destas noites passadas, para ir pescar; e quando voltou de madrugada +achou as portas abertas, e tudo deserto.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>O que aconteceu?</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Suas filhas tinham sido furtadas. Imagine, Antonio Prudente, a dôr d'aquelle +pae!</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>(<em>Como arrastado por uma força invizivel.</em>) Ai, se a mim me roubassem +a minha filha!... acabava de magoa: mas depois de matar com estas mãos quem m'a +tivesse roubado.</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>É pae, Antonio, ainda é pae! Bem se vê.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>O que fez o pescador?<span class="pagenum">{D1. Pg. 59}</span></p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Lembrou-se de que se negocia na Madeira em escravatura branca; lembrou-se, +foi Deos que o inspirou! de que ha na terra homens infames que enganam seus +irmãos. Como o pescador sabia, que mais de uma vez os que tem ido a bordo dos +navios de emigrados, despedir-se dos parentes, ficaram lá contra vontade, e +foram para Demerara, occorreu-lhe que miseraveis, que praticam horrores +d'estes, eram tambem capazes de usar de violencia, e de augmentarem assim o +numero das suas victimas. Lembrou-se de tudo isto, e foi ter com um desses +homens.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>E matou-o?</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Não. Disse-lhe estas palavras. «Ou minhas filhas hãode hoje mesmo voltar +para casa, ou amanhã apparecerás assassinado.»</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>E então?</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Horas depois o pobre pae apertava ao coração as duas filhas.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>E quem foi que as roubou?</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Dinheiro, espalhado com mãos largas pelos ricos traficantes de escravos +brancos, esconde o nome desse homem, mas falla-se...</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>De quem?</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Do Joze Velhaco.<span class="pagenum">{D1. Pg. 60}</span></p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Elle!</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Todos fallam. Já vê, Antonio Prudente, que não póde querer para marido de +sua filha um homem perdido de reputação.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Não... sem elle se justificar.</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Sei que é o desejo de fazer sua filha rica e feliz o que o allucina; mas, +ainda assim, desconheço-o. N'outro tempo, a sua probidade não lhe consentia +pensar mais um instante em tal casamento, depois de saber o que se diz por ahi +do Joze Velhaco. Escute o seu coração, e a sua consciencia, Antonio, e verá, +como eu vejo, que o casamento é impossivel.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Sr. Vigario... talvez tenha razão: mas, com perdão de v. s.ª sou pae, e um +pae sabe melhor do que ninguem o que convem a sua filha. Não posso faltar á +minha palavra, sem saber se o que se diz é mentira ou verdade.</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Nem mais um conselho lhe dou, Antonio, de hoje em diante. Faça o que quizer. +Sacrifique sua filha, e deshonre-se. (<em>Vae para sair.</em>)</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Pae, escute o sr. Vigario.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>(<em>Commovido.</em>) Não me faça a offensa, sr. Vigario, de me tirar a sua +amizade. Era um desdoiro para a minha vida, uma dôr d'alma, e uma deshonra para +estes cabellos brancos. Pelo amor de Deos, perdoe-me!<span class="pagenum">{D1. +Pg. 61}</span></p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Não quero senão o seu bem; e peza-me que me não escute.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Se permitte, não me dou ainda por desligado. Vou ter com o Joze Velhaco, e +se não se justificar, se não provar que está innocente, ficará o dito por não +dito, e não torna a entrar n'esta casa. Mas antes de o condemnar é preciso +ouvil-o.</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Mas tambem se devem escutar as queixas, e os prantos de uma filha, antes de +a condemnar por toda a vida. Emfim, Antonio, confio tudo da sua probidade, e do +muito amor que tem á nossa Joanninha. (<em>Com brandura.</em>) Bem sabe que a +vi crescer, que lhe ensinei a ler e a escrever, que lhe dei uma educação como +no Funchal não se dá ás filhas dos morgados; custava-me vel-a casada com um +homem, incapaz de a fazer feliz.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Vou já ter com elle, se o sr. Vigario dá licença.</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Vá depressa.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>V. S.ª perdoa-me alguma má palavra?...</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Não tenho que perdoar, e já esqueci tudo; excepto que Antonio Prudente é +homem honrado, e hade mostrar-se bom pae.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>(<em>Beijando a mão do Vigario.</em>) Agradecido, agradecido. +(<em>Sae.</em>)<span class="pagenum">{D1. Pg. 62}</span></p> + +<h3>SCENA XI</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>Os mesmos, menos Antonio Prudente</em></p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Joanninha, parece-me que pódes socegar. Este casamento não se faz.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Não me atrevo a ter esperança. Meu pae anda infeitiçado. E depois, nem já +sei senão chorar noite e dia, chorar até morrer.</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Deixa estar, Joanninha: as lagrimas dos innocentes quasi sempre a mão de um +amigo as enchuga. (<em>Brincando.</em>) Eu sei, minha menina chorosa, que essa +mão benefica não hade tardar muito aqui.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Ninguem pode consolar-me.</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Ahi está Maria das Dores, que bem velha é, e que ainda assim não hade ter +sempre os olhos arrazados de lagrimas, como agora.</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Não, sr. Vigario, porque debaixo do chão não se chora.</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Nem tambem cá por cima, quando se é feliz.</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Feliz, eu?! Sem o meu filho?!</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Quem lhe disse isso, Maria das Dores?</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Quem? Joze Velhaco, o proprio malvado que o matou, o meu Luiz.<span +class="pagenum">{D1. Pg. 63}</span></p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Esse infame... Maria das Dores, tenha animo para ouvir o que vou dizer.</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Tenho animo... Bem vê que resisti quando me disseram... que era morto o meu +Luiz.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Ah! diga!</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Joze Velhaco mentio.</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>(<em>Desfallecendo.</em>) Nossa Senhora me leve nesta hora... para acabar na +alegria!</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>(<em>Pulando.</em>) Vivo!... vivo... o Luiz! Onde está!</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Maria das Dores, o que é isso? A alegria custa menos a supportar do que a +dôr.</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Deixe-me perceber... Estas mudanças custam... o coração lucta com a duvida. +Elle não morreu?</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Não.</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Mas está ainda longe?</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Em Demerara?</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Teve noticia?</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Quando chega!</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Talvez a esta hora já não viva!</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>É preciso mandal-o buscar.<span class="pagenum">{D1. Pg. 64}</span></p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>(<em>Enternecido.</em>) Soceguem. Já está em caminho.</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Ha quantos dias?</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Virá d'aqui a tres?</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Amanhã?</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Mais breve.</p> + +<h3>AMBAS</h3> + +<p>Hoje!?</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Chegou. (<em>As duas mulheres abraçam-se.</em>)</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Que alegria, filha!</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Jesus!</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>Eu... morro, porque não posso...</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Onde está?</p> + +<h4>MARIA</h4> + +<p>O meu filho? (<em>Luiz entra precepitadamente.</em>)</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Está aqui.</p> + +<h3>AMBAS</h3> + +<p>Luiz!</p> + +<p style="text-align:center;"><em>Cae o panno.</em></p> + +<p style="text-align:center;"><strong>FIM DO 2.º ACTO</strong><span +class="pagenum">{D1. Pg. 65}</span></p> + +<h2>ACTO TERCEIRO</h2> + +<p style="text-align:center;"><em>A caza de Antonio Prudente, como no segundo +acto. É noite; um candieiro de tres bicos alumia bem a caza</em></p> + +<h3>SCENA I</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>Joze Velhaco e Joaquim</em></p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>É negocio concluido. (<em>Mostrando um papel que tem na mão.</em>) Esta +obrigação que você assignou... é o principio da sua fortuna.</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Deos queira! Sr. Joze, vm. não sabe como lhe heide pagar a boa vontade! Esse +papel é uma obrigação que lhe faço; por ella me sujeito a servil-o, ou a quem +vm. mandar, aqui ou em Demerara, até pagar a divida de quarenta patacas, que +recebi...</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>A obrigação está em regra, e é justo. Trabalho em troca de dinheiro; assim +se faz em toda a parte.</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Isso é o que vm. diz, sr. Joze, mas quem sabe o que será? E a fallar a +verdade, trabalhar por trabalhar, antes na terra, que eu conheço, do que em +outra que nem de portuguezes é.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Pois eu falto ao que prometto, homem?</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Bem sei que vm. é... um amigo como se quer. (<em>Rindo-se.</em>)</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Ri-se, Joaquim?<span class="pagenum">{D1. Pg. 66}</span></p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Estava-me lembrando do Luiz do Campanario, e dos outros que o sr. Joze foi +mandando para Demerara, e que ficaram por lá. Ah! ah! ah!</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>(<em>Á parte.</em>) O maldito Luiz não ficou! (<em>Alto.</em>) Com esses não +ajustei senão, que haviam de achar trabalho em Demerara... e não lhe tem +faltado. Assegurei-lhe que lá se ganha dinheiro, o que é verdade, quando se +ganha.</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>(<em>Rindo muito.</em>) Ora o sr. Joze tem graça! Mas de mim, de mim é que +eu não quero que ninguem se ria. Palavras leva-as o vento.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Então o que quer, Joaquim?</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>O preto no branco, e nada mais. Uma obrigação, como a que lhe fiz, em que +vmc. se obrigue a dar me o officio... o officio de... ah! ah! ah!</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>De <em>aliciador</em>! Diga homem, não se engasgue com palavras, que +escorregam bem.</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Pois como fôr da vontade de vmc. A obrigação escripta pela sua mão é que eu +quero; e sem ella não vou da Madeira!</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Forte parvoice! A minha palavra vale-lhe de mais, em Demerara, do que um +papel escripto.</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Cá a palavra do sr. Joze vale de muito; mas por isso é que eu a quero no +papel... para durar mais. Sem a obrigação não embarco!<span +class="pagenum">{D1. Pg. 67}</span></p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Isso agora não esperava eu. Então porque não me disse logo tudo? O ajuste +era outro.</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Quero o papel porque, depois que esta manhã o larguei, peguei a scismar que +a gente não deve dar papel em troca de palavras; que ha viver e morrer, e que o +sr. Joze póde morrer...</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Mas se eu morrer de que serve o papel?</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Os seus amigos não hão de deixar mal a sua palavra honrada.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Mas...</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Vmc. quer ou não quer? O dito, dito.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>(<em>Indo a uma mesa e escrevendo.</em>) Pois vá lá. Escrevo a obrigação. +</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Assim é que é fallar.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Alto! Espere! Faço-lhe isto, que não estava nos nossos ajustes, porque sei +que é meu amigo, Joaquim.</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Pois não sou?</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>E aos amigos velhos, faz-se-lhes as vontades.</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>E a obrigação?...</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Já vae; mas fallemos antes d'outro negocio...<span class="pagenum">{D1. Pg. +68}</span></p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>O que é?</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Já tenho dado provas de que me fio de vm. Joaquim; e quero que se capacite +ainda mais. Conto com o segredo, e com a sua amizade... sim, com a nossa +amizade antiga... com o dezejo de sermos uteis um ao outro.</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Então o que quer?</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Você sabe que eu estou para casar com a Joanninha... Boa rapariga, e que +mostra por mim sua simpathia!... Mas até agora... tem estado... tem posto +duvida...não deu ainda o <em>sim</em>... O pae dezeja muito o casamento, e com +brevidade...</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Então se o pae quer, e a rapariga tem... isso que vm. diz... +<em>sapathia</em>, que mais dezeja o sr. Joze? Case! (<em>Com +escarneo.</em>)</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>A Joanninha põe suas duvidas. Parece que esteve namorada, em outro tempo de +um rapaz, e fez-lhe promessa de fidelidade. Agora, apesar do coração a puxar +para mim, não quer que lhe chamem inconstante.</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>E que remedio posso eu dar a isso?</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>E simples... mas só de um amigo se confia. Esta noite resolvi empregar uma +violencia... apparente, ja se vê. Antonio Prudente está por tudo. Resolvi +acabar com as duvidas de Joanninha. Você, Joaquim, se me quizer fazer esse +favor...<span class="pagenum">{D1. Pg. 69}</span> póde ajudar-me... e eu +ajuntarei, da minha algibeira, umas vinte patacas, para acudir á sua viagem... +Se quizer, póde servir-me de muito.</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Mas como?</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Vindo esta noite comigo, quando tudo dormir nesta caza, e mais dois +marinheiros, gente fiel lá do navio em que hade partir para Demerara, furtar... +levar d'aqui a Joanninha.</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Ora essa! Pois a gente hade tirar a filha ao sr. Antonio Prudente?</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Não se lhe tira a filha, apressa-se o casamento, como elle dezeja.</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>E se a pequena gritar?</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>A janella costuma ficar cerrada de noite, e a porta do quarto de Joanninha é +aquella defronte. Entra-se devagarinho; tapa-se-lhe a boca, quando estiver a +dormir, e depois faz-se tudo como se quer. Ella depois não tem remedio senão +casar; Antonio Prudente faz o seu gosto, e eu o meu.</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Vm. lá o lê, lá o intende.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Então está prompto?</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Estou, mas venha o papel.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Você faz de mim quanto quer. (<em>Dá-lhe o papel.</em>)<span +class="pagenum">{D1. Pg. 70}</span> Vá abaixo ao Calháo, e espere por mim. Os +dois marinheiros lá hãode estar.</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Lá vou. Para servir o sr. Joze Velhaco está um homem sempre disposto.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Bom rapaz. E caluda! As vinte patacas ficam a tinir.</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>O sr Joze sempre é uma grande cabeça. Até logo. (<em>Sae.)</em></p> + +<h3>SCENA II</h3> + +<h4>JOZE, <em>só</em></h4> + +<p>Sou uma grande cabeça, isso sou! Tudo vae ás mil maravilhas, e n'um pulo +estou mais alto do que esses morgados rabugentos e impertigados da Madeira. +Viva o sr. Joze Velhaco, que hade ser ainda deputado, commendador... barão... e +quem sabe o que mais? Com esta cabeça, e com este coração, heide chegar... até +onde chegam os que são do meu feitio.</p> + +<h3>SCENA III</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>Joze Velhaco e Antonio Prudente</em></p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Então meu rico Antonio Prudente o que mais soube contra mim?</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Nada. Fui a caza dos dois negociantes, que me indicou, e ambos fizeram da +sua pessoa muito boas ausencias. O Carlos Bad, sobretudo, que<span +class="pagenum">{D1. Pg. 71}</span> passa por homem serio, disse-me que melhor +do que sr. Joze Velhaco não conhecia ninguem... a não ser elle proprio. E o +velho riu-se tanto com aquella cara de bom homem!...</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>(<em>Á parte.</em>) Que maroto! (<em>Alto.</em>) Bom homem de certo, +devo-lhe bastantes obrigações. Aquellas desconfianças, que lhe metteu o padre +Vigario a meu respeito, já lhe vão passando, sr. Antonio? hein?</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Já. Mas o Vigario quer-lhe pouco bem, Joze.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Desgraças! Quem póde evital-as?</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Vim agora por caza delle, para lhe contar o que me disse o pae das duas +crianças que tinham sido roubadas, e os elogios que fizeram de vm. os dois +negociantes... Quero que todos o reputem, Joze, por homem honrado antes de lhe +dar a minha filha.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>(<em>Com admiração.</em>) Então já se não faz o casamento immediatamente? Os +contos do Vigario sempre pegaram!</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Eu desejo que se faça; mas é melhor que você se justifique primeiro. É +facil, e não leva muito tempo.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>A minha melhor justificação é ser seu genro, genro do honrado Antonio +Prudente.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Isso depois: por em quanto esperaremos.<span class="pagenum">{D1. Pg. +72}</span> </p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>(<em>Á parte.</em>) Eu te direi logo se espero! (<em>Alto.</em>) O que o fez +mudar, sr Antonio Prudente?</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>(<em>Com embaraço.</em>) Respeito muito a opinião do nosso Vigario; e em +quanto elle não estiver convencido, como eu, da sua innocencia, é melhor... +demorarmos o casamento.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Assim se deita a perder o credito de um homem. É até onde póde chegar!</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>A verdade anda sempre ao de cima d'agua, não lhe dê cuidado. Sabe que mais, +Joze Velhaco, admirou-me a generosidade com que deu dez tostões ao pescador, a +quem roubaram as filhas, e que tanto o defendeu na minha presença. O pobre +homem não cabia na pelle, e sempre lhe deu um abraço... cuidei que o +arrebentasse!</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Se não posso ver ninguem pobre, em o podendo remediar! Eu cá sou assim! +Enterneci-me; e o ardor com que elle me defendeu... fez-me ver, que nesta gente +é que ainda se encontram exemplos de virtude. Olhe sr. Antonio Prudente, a +virtude é o meu fraco! Santa palavra!</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>(<em>Apertando-lhe a mão.</em>) Gosto de o ouvir, Joze. Porque lhe terá o +Vigario tão má vontade?</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Promette não se zangar, se eu lhe disser a razão?<span class="pagenum">{D1. +Pg. 73}</span></p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Não me diga...</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Ouça, e não torve de repente. Sua filha está namorada do Luiz do +Campanario...</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Já sei, e não desgostei por isso que o rapaz fosse a Demerara... a ver se +ella o esquecia...</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Qual! Cada vez se lembra mais. O Vigario é quem os protege.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Faz mal!... porque eu... Mas no fim de contas o que protege o Vigario?... Um +homem que morreu.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Engana-se redondamente, sr. Antonio Prudente. O Luiz vive, e o Vigario sabe +que elle está...</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Aonde?</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Na Madeira. Chegou hontem, e já aqui esteve com Joanninha.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Aqui?</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Trouxe-o o Vigario. Verá que elle casa a Joanninha com o Luiz, e leva a sua +por deante.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Menos isso! Antonio Prudente não se mette assim debaixo dos pes. Pois se o +Luiz aqui esteve, e fallou a minha filha, o remedio é casal-a já com o sr. +Joze.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Governe, sr. Antonio, governe o que é seu, e<span class="pagenum">{D1. Pg. +74}</span> não se arrependa. O Vigario é de familia de Morgados, dos fidalgos +da ilha: sabe que tenho meus vintens, e não gosta de que eu hombreie com os +seus... Dá licença que eu use de todos os meios para conseguir que sua filha +case comigo?</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Dou, permitto! (<em>Battendo o pé no chão.</em>) Hade fazer-se o casamento. +(<em>Depois de pensar um pouco.</em>) Mas quero levar o negocio de vagar, e com +prudencia. Amanhã, quando estiver mais socegado, fallaremos. Agora deixe-me com +a Joanninha; quero desabafar. Depois pensarei com mais descanço.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Pois fique-se com Deos.—Taes coisas farei, que ámanhã acabarão as suas +duvidas. Fie-se no que lhe digo. (<em>Indo para sair.</em>) É preciso que um +homem saiba governar a sua caza, porque um homem é um homem. (<em>Sáe.</em>) +</p> + +<h3>SCENA IV</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>Antonio Prudente e Joanninha</em></p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Ninguem hade governar aqui mais do que eu! (<em>Chamando.) +Joanninha!</em></p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Meu pae!</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Anda cá. Responde-me... e não mintas.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Eu nunca lhe menti, pae.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Mas escondes-me a verdade, que é o mesmo. Não queres casar com o Joze +Velhaco?<span class="pagenum">{D1. Pg. 75}</span></p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Já lhe disse, pae, que não.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Nem com elle, nem com outro?</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Dezejo ficar na sua companhia.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>(<em>Colerico.</em>) Mentes.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Eu? sou muito sua amiga!..</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Se o fosses não me desobedecias. Sei tudo. Não te queres casar, porque te +namoraste de um desgraçado sem dinheiro.—Prometteste casar com o Luiz do +Campanario... e a mãe, a Maria das Dores, tem tido o cuidado de não t'o deixar +esquecer. Invencioneira!</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Não seja injusto! Confesso que não posso gostar senão do Luiz do Campanario. +Com elle fui creada, e só com elle posso viver!..</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Contra minha vontade!</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>O coração póde mais.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Creancices, filha! Isso hade passar!</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Em eu morrendo!</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>É a ultima vez que to digo, Joanna. (<em>Severo.</em>) Has de casar com quem +eu mando! E nem lagrimas tuas, nem lamentos de Maria das Dores, nem palavras do +Vigario, me torcem desta resolução!<span class="pagenum">{D1. Pg. 76}</span></p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>(<em>Chorando e com muita dôr.</em>) Eu... não choro nem lhe desobedeço. +Deixo-me morrer.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Historias! (<em>Olhando para a filha com muita dôr.</em>) As raparigas não +morrem por tão pouco... não morrem... E tu... tu não me hasde morrer, filha... +(<em>Agarrando-a com muito amor.</em>) Minha rica filha!</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Meu pae! (<em>Deitando-se-lhe nos braços, e escondendo a cara.</em>) Se eu +não posso viver sem elle...</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Viste-o hoje? Sei que chegou.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Vi-o; e ouvi os seus padecimentos. Tive tanto dó delle!</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Invenções... para te seduzir.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Não diga isso:..—Esteve em Demerara quazi como escravo: teve as febres, e +foi levado para um hospital, onde não havia nem quem o tratasse. Pobre Luiz! +Com elle fui creada, vivemos juntos... e... esta desgraça, causou-me tal dó... +fez-me crescer tanto a... amizade, que já lhe tinha...</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>E eu a escutar-te... a chorar quasi! (<em>Limpando os olhos.</em>)</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Não se envergonhe pae. Só os maus é que não choram.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>(<em>Repellindo-a sem violencia.</em>) Gosto muito de<span +class="pagenum">{D1. Pg. 77}</span> ti, filha; mas as lagrimas e as festas não +me fazem mudar. É para teu bem! Essas calumnias que dizem do Joze Velhaco... +que não é capaz...</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Elle é capaz de tudo.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Joanna, que eu não torne a ouvir-te dizer mal do homem que está para +ser...</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>A minha desgraça. Pae se soubesse...</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>(<em>Com muita colera.</em>) Joanna!</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Oiça; que é verdade. Escute!</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Diz... é mais uma calumnia, de que elle se defenderá.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Quando o Luiz foi para Demerara—enganado por elle, e levado pelo amor que +me tinha—entregou ao Joze Velhaco vinte patacas, para Maria das Dores...</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>E então?</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Joze Velhaco roubou o pão da mizeria.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>É falso!</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>O Luiz e Maria das Dores não mentem.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Se fosse assim, Joze Velhaco era um infame. Mas, dize me, Joanninha, se +provar que tudo são mentiras promettes casar com elle!<span +class="pagenum">{D1. Pg. 78}</span></p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>(<em>Com firmeza.</em>) Prometto. Se elle provar que está innocente façam de +mim o que quizerem.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Verás! Mas fica descançada. Não sou capaz de te casar com um homem +deshonrado.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>(<em>Abraçando-o.</em>) Meu querido pae!</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Bem! Não precisas lembrar-me de que sou teu pae! Amanhã fica tudo destinado. +Agora descançar, que são horas... O dia tem sido hoje inquieto para ambos nós. +(<em>Dando-lhe um beijo.</em>) Adeos filha. Não queiras mal a teu pae. +(<em>Sae.</em>)</p> + +<h3>SCENA V</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>Joanninha, depois Luiz do Campanario</em></p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Como lhe heide querer mal, se elle me estima tanto, o meu querido pae? +(<em>Caindo de joelhos deante de uma imagem da Virgem, que está pendurada na +parede.</em>) Senhora da Conceição, Protectora dos afflictos, ouvi-me. Peço +descanço para a minha alma, Virgem Santissima, peço-vos, que longe de mim vá +aquelle homem preverso! Soccorrei-o a elle... ao meu Luiz. (<em>Durante esta +oração Luiz entra pela janella, que estava cerrada e vem ajoelhar junto de +Joanninha.</em>)</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Soccorrei-o, Senhora, e á innocente que vos pede!</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>(<em>Levantando-se.</em>) Luiz!...! Aqui?<span class="pagenum">{D1. Pg. +79}</span> </p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Não me querias ver? Separados ha um anno... depois de tantas saudades?</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>E saudades taes! O susto de te perder, o temor de meu pae, e o horror +d'aquelle malvado, tudo que era contra nós, quebrava-me as forças. E as +lagrimas da tua triste mãe? Tudo... tudo me amofinava nesses dias amargurados. +Mas agora que estás aqui, e voltaste do desterro, agora, parece que já me sinto +outra.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Mas teu pae não consente!</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Por ora. Já sabe do roubo, das vinte patacas furtadas a tua mãe. Ficou em +duvida... e disse que me não casava sem Joze Velhaco mostrar a sua +innocencia.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Não póde mostrar!</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Meu pae hade deixar-se vencer das minhas lagrimas, e dos conselhos do sr. +Vigario!</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Agora mesmo o larguei, e prometteu-me, o santo homem, que hoje mesmo... +havia de ficar tudo decidido. O Joze Velhaco perdido de todo, e nós felizes. +</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Luiz, bem sabes se eu te amo, e se ha alegria e vida para mim longe de ti; +mas agora, assim de noite... não gosto de te ver... nesta casa. Podia alguem +descobrir-te quando entraste, póde meu pae estar acordado, e sentir-te...<span +class="pagenum">{D1. Pg. 80}</span></p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Tudo isso me occorreu... mas, o desejo de te ver... foi mais forte. O +Vigario mandou-me chamar ha pouco, e disse-me, «Luiz, esta noite fica tudo +deslindado; hoje acaba a tua desgraça... foi assim mesmo que me disse! É +preciso que passes a noite nas visinhanças da casa de Joanninha.»</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Porque?</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Foi o que perguntei... «Depois o saberás» me respondeu elle. Obedeci. +Estando perto, escondido, vi luz, olhei pela janella, e achando-te só, e +ouvindo-te resar, não pude resistir, e entrei para pedir, comtigo, a Nossa +Senhora que nos soccorra.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>E que Deos nos ouça! Meu pae hade ceder por fim. Depois, que alegria! Quando +formos ambos á festa do Monte, e todos disserem: aquella é a Joanninha, a filha +de Antonio Prudente, que vai com seu marido.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Que é o mais feliz da Ilha, hão de acrescentar. Mulher como a delle não ha +outra na Madeira! Bonita, séria, galante!...</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Luiz.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Joanninha!</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>E quando será?<span class="pagenum">{D1. Pg. 81}</span></p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Cedo, bem cedo! (<em>Esta scena deve ser representada com muita +rapidez.</em>)</p> + +<h3>SCENA VI</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>Os mesmos Joze, Joaquim, e dois +marinheiros</em></p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>(<em>Apparecendo á janella, com uma pistola na mão.</em>) Veremos.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Ah!</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Joze! (<em>Correndo alguns passos para elle.</em>) Agóra pagarás tudo... +malvado!...</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>(<em>Apontando a pistolla para Joanninha, e em voz pouco elevada.</em>) Nem +mais um passo!... nem mais um grito. Não acordemos o sr. Antonio Prudente.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>(<em>Detendo-se.</em>) O que fazes?</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>(<em>Entrando.</em>) Mato-a, se te moves... se dás um grito! (<em>Aos dois +marinheiros que entram cautelosamente atraz delle seguidos de Joaquim.</em>) +Rapazes, segurem-me este heroe!</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Maldito!</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Nada de resistencias, e de palavradas, senão temos desgosto na festa!</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Jezus, acudi-me!<span class="pagenum">{D1. Pg. 82}</span></p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>(<em>Aos marinheiros.</em>) Segurem-o!... e para bordo... Que vá para +Demerara, donde fugiu... o escravo!</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>(<em>Rezistindo apenas.</em>) Este homem sahio do inferno... Marinheiros!... +Condoão-se de mim... e daquella desgraçada...</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>(<em>Aproximando-se de Joaninha.</em>) Joanninha, tudo isto faço pelo muito +amor, que te tenho!</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>E consente Deos isto?</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Vem commigo!</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Não consintas, Joanninha!</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Antes morrer.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>(<em>Colerico.</em>) Não morrerás, e serás minha.</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Só tua, Luiz!</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Ajuda-me, Joaquim!</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>(<em>Gritando.</em>) Deixe-me, deixe-me.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Se gritas... se dizes uma palavra. (<em>Aponta a pistolla a Luiz.</em>)</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Grita... brada... pede soccorro...</p> + +<h4>JOANNINHA</h4> + +<p>Soccorro!<span class="pagenum">{D1. Pg. 83}</span></p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>(<em>Cego de furia.</em>) Morre, para não gritares! (<em>Dispara a pistolla +sobre Luiz, mas no momento de partir o tiro, Joaquim desvia-lhe o braço.</em>) +Errei! (<em>A Joaquim</em>) Que fizeste?...</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>(<em>Tirando-lhe a pistolla, e segurando-o.</em>) Chegou tambem a tua vez, +Joze! Pagarás tudo agora. (<em>Neste momento saltam pela janella, e entram +arrombando a porta alguns homens do povo, guiados pelo Vigario.</em>)</p> + +<h3>SCENA VII</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>Os mesmos, o Vigario, homens do povo, logo +depois Antonio</em></p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Segura-o, Joaquim.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>(<em>Armado com a faca de um dos marinheiros.</em>) Tem firme, esse malvado: +vou-lhe arrancar o coração!</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>(<em>Detendo-o.</em>) Luiz! Luiz... diante de mim!..</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>É um preverso!</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>A justiça o castigará.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>(<em>Entrando espavorido.</em>) Que é isto... em minha caza?</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Querem-me assassinar. Acuda-me!<span class="pagenum">{D1. Pg. 84}</span></p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Calla-te...</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>Vi entrar pela janella, na sua caza, o Luiz do Campanario. Vinha seduzir sua +filha...</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Seduzir minha filha?...</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>E para salvar a honra de Joanninha, da minha noiva... entrei atraz, com +risco de vida... Quando ia para o castigar...</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Quando ias para roubar a donzella a seu pai, e estavas para mandar +violentamente para Demerara esse homem, pela segunda vez, appareci eu, e +frustei os teus planos.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>É falso, é falso!...</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Escute, Antonio, e veja o marido, que ia dar a sua filha... Este homem não +te roubou o dinheiro, que deixaste para tua mãe?</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>Roubou.</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Não te convidou a ti, Joaquim, para aliciador de escravos brancos?</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>É assim sr. Vigario, e aqui está um papel asignado por elle... (<em>Da-o a +Antonio.</em>)</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Para servir de prova.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>A obrigação que me pediste?!... Traidor!<span class="pagenum">{D1. Pg. +85}</span> </p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Não vinha elle aqui esta noite para furtar a filha do sr. Antonio +Prudente!</p> + +<h4>JOAQUIM</h4> + +<p>Tal e qual; por signal, quiz que eu o acompanhasse.</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>(<em>A um homem.</em>) Não foi o Joze Velhaco quem roubou as tuas filhas? +</p> + +<h4>O HOMEM</h4> + +<p>Foi, sr. Vigario!</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Não são testemunhas todos, de que tentou agora matar o Luiz do Campanario. +</p> + +<h4>TODOS</h4> + +<p>Somos.</p> + +<h4>JOZE</h4> + +<p>É mentira.</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Levem-o d'aqui. Amanhã será entregue á justiça, no Funchal. (<em>Alguns +homens levam Joze, que vai gritando: É mentira! é mentira!</em>)</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Senhor Vigario salvou a minha honra... salvou... Perdoas-me filha?... salvou +a minha querida Joanninha. (<em>Abraça-a.</em>)</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Pude salval-a... Mas fazel-a feliz, não depende de mim.</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>O sr. Vigario manda nesta caza.</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Então mando que não haja ninguem triste. (<em>Pondo a mão de Joanninha na +mão de Luiz.</em>)<span class="pagenum">{D1. Pg. 86}</span></p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Mas, sr. Vigario...</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>O Luiz, o marido que dou a tua filha, é o feitor de meu irmão, o morgado +Bittencourt.</p> + +<h4>LUIZ</h4> + +<p>(<em>Com fogo</em>) Viva o nosso Vigario!</p> + +<h4>TODOS</h4> + +<p>Viva!</p> + +<h4>ANTONIO</h4> + +<p>Deos proteja o nosso Vigario.</p> + +<h4>VIGARIO</h4> + +<p>Deus proteja a Ilha da Madeira.</p> + +<p style="text-align:center;"><em>Cae o panno.</em></p> + +<p style="text-align:center;"><strong>Fim do 3.º acto e do drama.</strong></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<h1>O ASTROLOGO</h1> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<h4>DRAMA EM 5 ACTOS</h4> + +<h4>PERSONAGENS</h4> + +<table border="0" align="center" summary="lista de personagens"> + <col> + <col> + <tbody> + <tr> + <td>Fr. Bermudo.</td> + <td>D. Gonçalo de Sousa.</td> + </tr> + <tr> + <td>D. Mendo Paes.</td> + <td>D. Soeiro Viegas.</td> + </tr> + <tr> + <td>O Infante D. Affonso.</td> + <td>João Sirita, Ermitão.</td> + </tr> + <tr> + <td>D. Pedro Framariz.</td> + <td>D. Bibas, bobo.</td> + </tr> + <tr> + <td>O Bispo D. João Peculiar.</td> + <td>D. Bonamiz, bobo</td> + </tr> + <tr> + <td>D. Tello, Prior de Santa Cruz.</td> + <td>Um Judeu.</td> + </tr> + <tr> + <td>D. Gonçalo Mendes.</td> + <td>Um Templario.</td> + </tr> + <tr> + <td>D. Egas Moniz.</td> + <td>D. Gontrade.</td> + </tr> + <tr> + <td>D. Lourenço Viegas.</td> + <td>D. Violante.</td> + </tr> + <tr> + <td>D. Guilherme Ricardo.</td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td colspan="2">Ricos homens, templarios, cavalleiros, damas, homens de + armas, frecheiros e besteiros.</td> + </tr> + </tbody> +</table> + +<h2>ACTO PRIMEIRO</h2> + +<p style="text-align:center;"><em>Um campo junto á pousada de D. Pedro +Framariz, no Burgo de Guimarães.</em></p> + +<h3>SCENA I</h3> + +<p class="dcena"><em>Entram Besteiros, e Homens d'armas de D. Pedro Framariz, +trazendo um Judeu prezo com uma corda</em></p> + +<h4>1.º BESTEIRO</h4> + +<p>Anda perro judeu... anda; vamos, e depressa,<span class="pagenum">{D2. Pg. +2}</span> que o teu sangue, e a tua pelle hão de tornar-se hoje em bons e finos +maravedis.</p> + +<h4>2.º BESTEIRO</h4> + +<p>Olá!—O nosso amo bem sabe os meios de lh'os fazer sahir do corpo.—Bons +meios, e que nunca falham. Uma tenaz de ferro em braza, uma boa corda de +esparto, e ás vezes um cajado de zambujeiro, bastam para fazer de um judeu um +sacco de oiro.</p> + +<h4>1.º BESTEIRO</h4> + +<p>E agora sobre tudo, que os maravedis são tão necessarios, o sr. D. Pedro ha +de empregar os bons meios para tirar prata e oiro do corpo deste judeu. D'aqui +a uma hora partimos, para andarmos por lá, Deus sabe quanto tempo.</p> + +<h4>2.º BESTEIRO</h4> + +<p>Não nos ha de faltar nada. Nos recontros com os mouros sempre se ganha +alguma coisa. Uma fossada pelo Al-Gharb ha de dar para senhores e vassallos. +Até nós, pobres besteiros, havemos de apanhar algumas migalhas do que der a +conquista.</p> + +<h4>1.º BESTEIRO</h4> + +<p>E nesta correria então!... Dizem que são tão ricas essas terras d'Além do +Téjo!</p> + +<h4>2.º BESTEIRO</h4> + +<p>E que o não fossem! Para nós homens de armas de D. Pedro Framariz sempre ha +que apanhar.</p> + +<h4>1.º HOMEM D'ARMAS</h4> + +<p>Hei de trazer este meu lorigão forrado de oiro.</p> + +<h4>2.º BESTEIRO</h4> + +<p>E a alma de indulgencias.</p> + +<h4>1.º HOMEM D'ARMAS</h4> + +<p>Tambem, e porque não? Lá váe o nosso Infante para as ganhar...<span +class="pagenum">{D2. Pg. 3}</span></p> + +<h4>1.º BESTEIRO</h4> + +<p>E tem razão.—E elle dês que a mãe lhe morreu anda triste, e a scismar +sempre. A mãe, a sr.ª D. Thereza, era uma brava mulher. Vi-a muita vez, nas +guerras com os leonezes, ao lado do conde Fernando Perez, caminhar para o +inimigo como um homem.</p> + +<h4>1.º HOMEM D'ARMAS</h4> + +<p>(<em>Em voz baixa.</em>) Foi o Infante D. Affonso Henriques quem a +matou.—Aquella prizão... e depois aquelle desterro...</p> + +<h4>2.º BESTEIRO</h4> + +<p>O sr. Infante não a matou. Cá a mim parece-me que elle fez o que devia. +Portugal ía-se pela agua abaixo se fica mais tempo nas mãos de uma mulher.</p> + +<h4>1.º BESTEIRO</h4> + +<p>Palavras inuteis... e perigosas!—Vamos levando este maldicto judeu para a +pousada do Burgo, e deixemos o resto que nos não importa.</p> + +<h4>1.º HOMEM D'ARMAS</h4> + +<p>Não tem pressa. Nosso amo está ainda com o Infante e outros cavalleiros a +ouvir a missa no mosteiro de Mumadona.</p> + +<h4>1.º BESTEIRO</h4> + +<p>Qual?! Está já de volta, de certo. D'aqui a pouco partimos.</p> + +<h4>2.º BESTEIRO</h4> + +<p>(<em>Puxando pelo judeu</em>) Vamos, vamos. (<em>Ao 1.º homem d'armas.</em>) +Garcia, faz andar este excommungado. Para que te servem esses braços, senão é +para dar nos judeus e nos cães da moirama?</p> + +<h4>1.º HOMEM D'ARMAS</h4> + +<p>(<em>Dando no judeu.</em>) Tem os ossos de ferro estes judeus, não quebram +nem pelo diabo!<span class="pagenum">{D2. Pg. 4}</span></p> + +<h4>JUDEU</h4> + +<p>Deixae-me... deixae-me. Tende dó de mim, srs. besteiros.</p> + +<h4>1.º HOMEM D'ARMAS</h4> + +<p>Dá-nos um pouco de teu oiro, judeu.</p> + +<h4>JUDEU</h4> + +<p>Sou pobre... um miseravel... não tenho nada.</p> + +<h4>1.º BESTEIRO</h4> + +<p>Vae dizer isso a D. Pedro, elle te fará mudar de opinião. Mette-te n'um +forno, vivo, para vêr se de lá sáes mudado em barra de oiro.</p> + +<h4>JUDEU</h4> + +<p>Deixae-me... que elle mata-me; mata-me de certo.</p> + +<h4>ALGUNS BESTEIROS</h4> + +<p>Uh! uh! maldito judeu.</p> + +<h4>1.º HOMEM D'ARMAS</h4> + +<p>Has de ser assado vivo.</p> + +<h4>JUDEU</h4> + +<p>Deus de Jacob, salvae-me!</p> + +<h4>1.º HOMEM D'ARMAS</h4> + +<p>Vamos, que alli vem fr. Bermudo.</p> + +<h4>1.º BESTEIRO</h4> + +<p>O feiticeiro... o magico.</p> + +<h4>JUDEU</h4> + +<p>(<em>A fr. Bermudo.</em>) Salvae-me... salvae-me!</p> + +<h3>SCENA II</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>Os mesmos, e Fr. Bermudo</em></p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Esperae... onde ides? Onde levaes esse miseravel judeu?<span +class="pagenum">{D2. Pg. 5}</span></p> + +<h4>1.º HOMEM D'ARMAS</h4> + +<p>Foi nosso amo, D. Pedro Framariz, que nos mandou que o levassemos...</p> + +<h4>FR. BERMUDO (<em>Colerico.</em>)</h4> + +<p>Para o roubar, para o atormentar.—Deixae-o...</p> + +<h4>2.º BESTEIRO</h4> + +<p>Um judeu...</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Um judeu tambem é homem.—Deixae-o.</p> + +<h4>1.º HOMEM D'ARMAS</h4> + +<p>Mas D. Pedro ha de querer saber porque nós lhe não obedecemos.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Dizei-lhe que fui eu.</p> + +<h4>1.º HOMEM D'ARMAS (<em>Com hesitação</em>)</h4> + +<p>Mas...</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>(<em>Com colera.</em>) Já disse.</p> + +<h4>1.º BESTEIRO</h4> + +<p>(<em>Baixo aos outros.</em>) O magico dá-nos máo olhado, se lhe resistirmos, +e ficamos perdidos... O melhor é deixar o judeu.</p> + +<h4>TODOS</h4> + +<p>Deixemol-o. (<em>Deixam o judeu.</em>)</p> + +<h4>1.º HOMEM D'ARMAS</h4> + +<p>Vamo-nos... depressa.</p> + +<h4>1.º BESTEIRO</h4> + +<p>Deus tenha dó de nós. O que dirá D. Pedro Framariz?</p> + +<h4>2.º BESTEIRO</h4> + +<p>É hoje, talvez, o fim da nossa vida. (<em>Sáem.</em>)<span +class="pagenum">{D2. Pg. 6}</span></p> + +<h3>SCENA III</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>O judeu e Fr. Bermudo</em></p> + +<h4>JUDEU</h4> + +<p>(<em>Cahindo de joelhos.</em>) Quero agradecer-vos de joelhos.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Vae-te... salva-te.—Não pônhas em mim essas mãos.</p> + +<h4>JUDEU</h4> + +<p>Consenti que vos beije os pés, que me prostre diante de quem póde e sabe +escrever o destino dos homens...</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Foje... vae-te, se não queres outra vez cair nas mãos d'aquelles homens +d'armas.</p> + +<h4>JUDEU</h4> + +<p>Sois o maior homem da terra! (<em>Sáe.</em>)</p> + +<h3>SCENA IV</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>Fr. Bermudo (só)</em></p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>(<em>Rindo.</em>) O maior homem!... Sou o maior homem, sou, porque padeço +mais que os outros. A dôr moral é que distingue o homem da fera. +(<em>Pauza.</em>) Lêr o futuro nos astros, lêr as paixões no coração; ter +segredos que dão vida, e segredos que matam...—Que tem?! O futuro é um +martyrio que me assusta; as paixões que escondo neste coração são crueis e +negras. Se esta vida durasse uma eternidade, sería uma vida maldicta... E +depois da vida a morte!... Morrer sem<span class="pagenum">{D2. Pg. 7}</span> +ter sido amado, sem ter recebido um affago... sem ter a esperança de ouvir, +mesmo quando já envolvido nas profundas trevas do sepulchro, um grito de +saudade que me acorde!... De que serve a sciencia?... E o que é ella, essa +sciencia que não póde vencer o destino, nem sequer descobrir as leis eternas +que o regem? De que me serve o saber?... Tenho mais dores que os outros homens, +e menos fé...—Mendo... O meu Mendo, o meu amigo, o meu filho,—porque lhe +quero como se elle fôra meu filho,—como o hei de salvar?... E Violante, esse +anjo, que eu... cujo nome me faz alegria e terror...—como os hei de separar, +esses corações que o amor e a mocidade atraem um para o outro, e que o destino +separa por um abismo! (<em>Pausa—apontando para os astros.</em>) Está +escripto... está tudo escripto nos astros...—É fatal! (<em>Crusa os braços e +fica meditando.</em>)</p> + +<h3>SCENA V</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>D. Mendo e Fr. Bermudo</em></p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>(<em>Vendo Fr. Bermudo.</em>) Aqui, fr. Bermudo!</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Esperava por ti, D. Mendo.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Por mim?... Neste sitio? Agora?</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>É aqui que te deves despedir da filha de D. Pedro Framariz.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>De Violante... Quem te disse?</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Soube que vinhas, e vim. Não foste hontem pedir-me<span class="pagenum">{D2. +Pg. 8}</span> que consultasse as estrellas, a conjuncção dos astros para saber +o teu futuro? Passei a noite a estudar o céo, e é o que n'elle li que eu te +venho dizer agora.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Que te disseram os astros?... Hade ser minha?... Hade-me ter sempre muito +amôr?... Seremos felizes?..</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>A tua estrella tocou o zenith, quando o Feretro se alevantou sobre o +horisonte, acompanhado das tres Carpideiras; ao mesmo tempo que a irradiação de +Neyman se extinguia, a de Sehedir tornou-se mais brilhante...</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>O que quer dizer tudo isso?</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Não o queiras saber; deixa os astros guardarem os seus segredos tenebrosos. +Mas foge destes logares; vae buscar a gloria nos campos da batalha... foge, +foge do teu negro destino... se ao homem é possivel fugir ao destino.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Falla. Diz-me a verdade. Tenho animo para tudo. O que quer dizer essa +disposição dos astros?</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Quer dizer que a vida ha de ser uma vida de padecimento; que a morte ha de +separar-te da que amas; que depois terás a gloria...</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Calla-te...—Sem ella... que m'importa o resto?</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Abumachar Giafar não se enganou nunca ao lêr no livro do céo... e eu leio +pelo seu livro.<span class="pagenum">{D2. Pg. 9}</span></p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Não póde ser... não. Se Violante morrer, morrerei com ella.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>A tua estrella não se apagou.—Serás grande e forte.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>O destino não se póde oppôr a que eu busque a morte no meio das fallanges +serracenas.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Tudo póde o destino!</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Salva-me... Calla-te... Muda isso tudo...</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>O que os astros escrevem no seu mudo caminhar pelo céo, não o podem os +homens apagar.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Fr. Bermudo, algum demonio falla pela tua bocca.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>O teu sangue de pagem está ainda muito ardente.—Mendo, sou teu amigo, sou, +e deveras. Talvez o não devesse ser... mas sou-o... Mendo—Entre ti e Violante +ha um abysmo.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Hei de transpôl-o.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Não, porque é vasto, immenso; porque no fundo ferve e ruge um pélago de +sangue.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Enganou-te a sciencia... Não é, não póde ser verdade o que dizes.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Nem a mão de Deus, póde apagar o passado.<span class="pagenum">{D2. Pg. +10}</span></p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Padre, conheces um tremendo segredo... É meu esse segredo; quero sabêl-o. +</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Sei... coisas que não posso dizer... tenho medo de as pensar... que me +accusam, que me condemnam.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Mas...—Fr. Bermudo quero o meu segredo.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Deixa,... esquece esse amor. Não queiras, saber um segredo, que te manchará +o viço da alma; que te fará envelhecer o coração, caírem mortas a esperança e a +fé, mal elle tocar o teu pensamento, que desconhece ainda até onde póde chegar +a perfidia dos homens.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Esquecer este amor?—Este amor é...—Não t'o posso dizer, não me +intenderias, padre.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Quem sabe!... Os mysterios do coração são de Deus?!... Póde ser que vão com +o corpo á cova, para lá ficarem fechados; por que Deus na sua infinita +misericordia talvez os queira extinguir, com tudo quanto ha de impuro no homem. +</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Ai! que dôr, que dôr esta minha!... Sou o maior desventurado da terra!</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Quem póde dizer que o é?—Tu, Mendo, na tua vida tão curta, já escutaste o +palpitar de um coração que batia por ti.—Tens uma esperança... Amanhã serás +cavalleiro, depois serás senhor de honras e castellos, depois terás um nome, +uma gloria. Tens um futuro, Mendo... e n'esse futuro?..<span +class="pagenum">{D2. Pg. 11}</span> Deus ha de compadecer-se de ti que és bom e +puro.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>(<em>Cobrindo o rosto.</em>) Sem Violante!... Jesus, meu Deus!</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Ha homens a quem a fatalidade acompanha desde o berço, e em cuja alma sempre +em trevas, não caíu uma esperança... nem mesmo já nasce um desejo.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Fr. Bermudo, não tens nem piedade, nem comiseração n'essa tua alma... Nunca +te fiz mal, para que assim me lances na desesperação.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Querias saber o futuro, li nos astros, e disse-t'o.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Não te creio...—Mentem os astros...—Violante!... não a perderei, não... +nem este amor tambem, que é do céo; que nasceu entre os anjos!... Ella não póde +tardar.—Deixa-me... Quero ter esperança; estar alegre.—Vae-te. Vae-te, que te +não veja ella, feiticeiro agoirento e máo.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Deus tenha dó de nós... de todos nós! (<em>Sáe.</em>)</p> + +<h3>SCENA VI</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>D. Mendo e depois D. Violante</em></p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Virgem Maria, tirae-me d'alma estes dolorosos pensamentos, ponde-me o +sorrizo na bocca e a<span class="pagenum">{D2. Pg. 12}</span> esperança no +coração, para que um dos vossos anjos não soffra.</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>(<em>Entrando agitada.</em>) Mendo, que tendes? O que é isso que vos +afflige. D. Mendo?</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Minha sr.ª D. Violante!... Não quizestes deixar-me partir sem vir lançar-me a +força no coração.</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Estaes agitado, sobre-saltado! Que vos dizia aquelle frade, Fr. Bermudo?</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Nada... não me dizia nada. Viestes, D. Violante, e na presença de um anjo as +palavras de um louco devem esquecer-se. Ai! Violante, quanto vos agradeço o que +fizestes por mim! Se partisse para a guerra, sem vos ter fallado do meu amor, e +sem ter ouvido dessa bocca uma palavra de esperança, parece-me que me deixava +morrer por lá. Este amor é a minha vida!</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>(<em>Com embaraço.</em>) Saí da pousada, saí... nem eu sei... que importa? +(<em>Com ternura.</em>) Procurava o perfume das flôres, e vim para este lado... +parecia-me que tinha nascido aqui uma flôr, que eu só devia colhêr...</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>A flôr da esperança?</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>(<em>Cobrindo a cára.</em>) A do amor... Enganei-me, meu pagem?..</p> + +<h4>D. MENDO</h4> +Não. (<em>Apontando para o peito.</em>) Essa vive aqui,<span +class="pagenum">{D2. Pg. 13}</span> sempre bella, sempre doce, e perfumada. E é +da minha querida Violante. + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>(<em>Seria.</em>) Vinha para aqui, e vi Fr. Bermudo fallar comvosco... que +vos dizia elle?</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Loucuras, sonhos de uma cabeça cheia de illusões!</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Leu nos astros o futuro dos nossos amores? Que lhe disseram os astros?</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>O que nos importa a nós isso tudo? (<em>Levando-a para um assento de +pedra</em>) Vinde assentar-vos aqui; e eu vou pôr-me de joelhos, para vos +adorar como a um anjo, como a uma santa que sois... Amo... amo-te... ía dizer +uma blasfemia, Violante, ía fallar-te como só a Deus se deve fallar; mas é +porque no mundo não ha com que se compare este amor!</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>(<em>Brincando, mas com muita ternura.</em>) Mas se esse amor mudar?... O +coração dos pagens é como as borboletas, foge sempre de flôr em flôr.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Mas este meu!... Que thesouro possue elle agora! Vós bem sabeis que este meu +amor não mudará... não póde mudar.—E depois tudo em roda de nós está alegre, +tudo parece fallar-nos de felicidade.</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Amanhã, d'aqui a horas, já não estaremos juntos. E os perigos da guerra... +</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Vou deixar-vos, mas para voltar cavalleiro,<span class="pagenum">{D2. Pg. +14}</span> para ter uma espada, para ter um nome, que seja mais digno de vós, +do que o do obscuro pagem.</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Mendo!</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Ó Violante, D. Violante não esqueçaes nunca esta hora de immensa felicidade! +</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Nunca.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Sereis minha? sempre minha?</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Serei.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Amaes-me?</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Mais que tudo!</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>(<em>Ficando triste.</em>) Este amor será para nós uma benção do céo... +será.—É de certo.</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Estaes outra vez triste. Lembram-vos as predicções de Fr. Bermudo? Que disse +elle?</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Que importa o que elle disse? O nosso amor vem de Deus, só Deus o póde +destruir.</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Dizei a verdade Mendo... Não tenho medo, como vêdes... Dizei; que o coração +já advinhou tudo.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Para que quereis?...</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Dizei.<span class="pagenum">{D2. Pg. 15}</span></p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Disse... que não seriamos nunca um do outro... Que o destino nos separava +para sempre.</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>(<em>Deixando-se cahir de joelhos ao lado de D. Mendo.</em>) Virgem Nossa +Senhora, vallei-nos!</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Separar-nos!... Agora, que a tristeza nos cobriu de trevas, e que +começavamos a sentir os amargores da saudade... Separarmo-nos agora!</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Deixar-te...</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Não chores... Minha Violante!</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Esta guerra!... Esta auzencia!...</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>O amor... O amor unirá as nossas almas, quando eu estiver longe, lá por +esses certões do Al-Gharb.</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Cada noite procurarei na luz das estrellas um desses teus olhares de amor, +que são mais suaves para mim do que os clarões mais puros de um céo sereno e +bello.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Cada tarde escutarei no silencio dos bosques o brando gorgear das aves, para +vêr se na voz de alguma dellas distingo um dos teus castos suspiros.</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Ai! Se te eu perdesse...</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Quando voltar, seremos um do outro, para sempre!<span class="pagenum">{D2. +Pg. 16}</span></p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Sinto gente! Adeus</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Violante!... (<em>Cáem nos braços um do outro.</em>)</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Sou tua!... Adeus.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Adeus. (<em>D. Violante sáe.</em>)</p> + +<h3>SCENA VII</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>D. Mendo, D. Bibas e Bonamiz.</em></p> + +<h4>D. BIBAS</h4> + +<p>(<em>Cantando o que se segue.</em>)</p> + +<blockquote> + Porque choras<br> + Pagem terno?<br> + Teu inferno<br> + Não melhoras.<br> + Trá—lira.</blockquote> + +<p>(<em>Cantando e rindo.</em>) Ah! Ah! Ah!</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Tu aqui?... aqui D. Bibas... Quem te trouxe aqui, bôbo?</p> + +<h4>D. BIBAS</h4> + +<p>(<em>Apontando para Bonamiz.</em>) Foi elle.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>(<em>A Bonamiz.</em>) Tu?</p> + +<h4>BONAMIZ</h4> + +<p>(<em>Apontando para D. Bibas.</em>) Foi elle.</p> + +<h4>D. BIBAS</h4> + +<p>(<em>Cantando.</em>) Uma bruxa nos guiou.</p> + +<h4>BONAMIZ</h4> + +<p>(<em>Cantando.</em>) Um diabo nos mandou.<span class="pagenum">{D2. Pg. +17}</span></p> + +<h4>AMBOS</h4> + +<p>(<em>Cantando.</em>)</p> + +<blockquote> + Segredos do coração<br> + Mui grandes segredos são.</blockquote> + +<h4>BONAMIZ</h4> + +<p>Am!</p> + +<h4>D. BIBAS</h4> + +<p>Am!</p> + +<h4>BONAMIZ</h4> + +<p>Am!</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Que viste, D. Bibas?—Que ouviste Bonamiz?</p> + +<h4>D. BIBAS</h4> + +<p>Vi-te dar um abraço... e tive inveja.</p> + +<h4>BONAMIZ</h4> + +<p>Ouvi dizer á mais linda dama das Hespanhas, que te amava... e desejei +estar-te na pelle.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Nada mais...</p> + +<h4>D. BIBAS</h4> + +<p>Ah!—Ouvi dizer, que os astros te tinham declarado a guerra; que a +morte...—Que importa isso, a quem ama?</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Que importa?...</p> + +<h4>D. BIBAS</h4> + +<p>O amor é sempre assim. Nunca viste as crianças brigarem por uma borboleta, +que morre e se desfaz apenas o vencedor lhe toca?</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Mas...</p> + +<h4>D. BIBAS</h4> + +<p>Pois as felicidades são como as borboletas; e os homens como as +crianças.—Mas de todas as felicidades, as do amor são as que menos duram,<span +class="pagenum">{D2. Pg. 18}</span> e de todos os homens os mais ridiculos... +são os amantes.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Deixa agora essas chocarrices.—Escutae, ambos.—Se disserdes a alguem o que +acabaes de vêr e de ouvir, arrancar-vos-hei olhos e lingoa... a ambos.</p> + +<h4>D. BIBAS</h4> + +<p>Com a espada de cavalleiro, que ainda has-de ganhar?</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Juro...</p> + +<h4>D. BIBAS</h4> + +<p>Não jures, que não é precizo para nada. (<em>Serio.</em>) Pagem namorado, +somos vossos amigos, e não podemos deixar, com a nossa magnanimidade real, de +vos dizer um segredo... que segredo!</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>O que é?</p> + +<h4>D. BIBAS</h4> + +<p>Pois deveras quereis saber.</p> + +<h4>D. BIBAS</h4> + +<p>(<em>Cantando.</em>)</p> + +<blockquote> + Não has-de cazar<br> + Não cazarás, não.<br> + Has-de Dom Bulrão,<br> + Solteiro ficar. </blockquote> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Maldicto!</p> + +<h4>D. BIBAS</h4> + +<p>(<em>Cantando.</em>) <em>De profundis clamavi ad te...</em></p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Bobo, bobo!<span class="pagenum">{D2. Pg. 19}</span></p> + +<h4>BONAMIZ</h4> + +<p>Assim cantam os padres, quando morre alguma cousa, que para nada +presta.—Não te encolerizes; cantamos sobre as tuas defuntas esperanças. +(<em>Cantando.</em>) <em>De profundis clamavi...</em></p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>(<em>Ameaçando-os.</em>) Excomungados bobos!..</p> + +<h4>D. BIBAS</h4> + +<p>(<em>Rindo.</em>) Ahi vem nosso tio, o infante.</p> + +<h4>AMBOS OS BOBOS</h4> + +<p>(<em>Fugindo.</em>) Adeus! adeus!</p> + +<h3>SCENA VIII</h3> + +<h4>D. MENDO, <em>só</em></h4> + +<p>Tudo para mim é um agouro!... agouro máo! As palavras da meditação, as +gargalhadas do escarneo... tudo! Que segredo tenebroso será este, que me +envolve e me aterra? Minha mãe tambem sabe este segredo; é essa a causa +d'aquella tristeza, d'aquella dôr sem consolação, d'aquelle lucto em que sempre +vive. Tenho ouvido por vezes fallar em meu pae morto... nas trevas de uma noite +horrenda; n'uma vingança infame que veio um dia manchar de sangue e de vergonha +a nossa casa. Mas que historia pavoroza é esta de que eu ainda não pude +penetrar o mysterio? Quem foi o assassino de meu pae? Qual é a família contra a +qual a honra me ordena de exercer uma implacavel vingança? Não sei, nada sei, +porque minha mãe só quando eu fôr cavalleiro me julga digno de saber este +funebre segredo. Fr. Bermudo, o frade solitario, o astrologo que vive na +isolação, tambem conhece os segredos<span class="pagenum">{D2. Pg. 20}</span> +da minha familia, que eu ignoro ainda, e não m'os quer dizer.</p> + +<h3>SCENA IX</h3> + +<p class="dcena"><em>O mesmo, o Infante, D. Gontrade, D. João Peculiar, D. +Tello, D. Gonçalo Mendes, D. Egas Moniz, D. Lourenço Viegas, D. Guilherme +Ricardo, D. Gonçalo de Sousa, Cavalleiros, Ricos Homens, Homens d'Armas, +Frecheiros, Besteiros etc. depois D. Pedro Framariz.</em></p> + +<h4>INFANTE</h4> + +<p>(<em>A D. Mendo.</em>) Tu aqui, Mendo?</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Esperava por vós, meu sr. Infante...</p> + +<h4>INFANTE</h4> + +<p>Não vieste ouvir missa comnosco ao mosteiro de Mumadona? (<em>Mostrando D. +Gontrade.</em>) Tua mãe foi tambem... para te vêr.</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>E para pedir a Deus pela boa sorte das armas do reino de Portugal.</p> + +<h4>INFANTE</h4> + +<p>Que vosso marido D. Payo Ramires ajudou a criar, e fortaleceu com a sua +espada gloriosa.</p> + +<h4>D. BIBAS</h4> + +<p>Pois o filho, o nosso pagem D. Mendo estava agora a afiar a sua futura +espada de cavalleiro.</p> + +<h4>BONAMIZ</h4> + +<p>E a fazer brilhantes projectos sobre a maneira de usar della.</p> + +<h4>D. LOURENÇO VIEGAS</h4> + +<p>Callai-vos ahi, bobos.<span class="pagenum">{D2. Pg. 21}</span></p> + +<h4>D. BIBAS</h4> + +<p>(<em>Ao Infante.</em>) Queremos e podemos fallar aqui, não é assim, tio?</p> + +<h4>INFANTE</h4> + +<p>(<em>Aos pagens.</em>) Fazei callar esses bobos. (<em>Os pagens levam os +bobos.</em>)</p> + +<h4>D. MENDO</h4> +(<em>Beijando a mão de sua mãe.</em>) Sr.ª mãe, minha senhora... + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>Meu filho, não foste despedir-te de mim, vim eu.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Não julguei que partiriamos tão depressa... (<em>Abraçando-a.</em>) Minha +mãe, minha querida mãe perdoae.</p> + +<h4>INFANTE</h4> + +<p>De certo te perdoará... D. Gontrade ha de perdoar ao valente pagem, que vae +ganhar nas batalhas a sua espada de cavalleiro, e ajudar-nos a accrescentar á +terra, que seu pae defendeu e fez independente, novas provincias, com as quaes +o nome de Portugal se tornará temido em toda a Hespanha.</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>Meu filho! (<em>Ficam abraçados.</em>)</p> + +<h4>INFANTE</h4> + +<p>(<em>Aos cavalleiros.</em>) Só nos falta D. Pedro Framariz, para termos em +roda de nós todos os bons cavalleiros, que estão em Guimarães. Esperaremos por +elle aqui; depois partiremos para Coimbra onde está o restante de nossos ricos +homens... Estas lides, que vamos lidar, senhores, hão de ser rijas; carecemos +para ellas de<span class="pagenum">{D2. Pg. 22}</span> toda a nossa força. É +esta uma correria, que ha de ficar de memoria aos moiros.</p> + +<h4>D. EGAS MONIZ</h4> + +<p>Nossa Senhora que sempre desde pequeno vos protegeu, e que vos prometteu +tantas victorias, não vos ha de desamparar nunca, meu sr. Infante.</p> + +<h4>INFANTE</h4> + +<p>Assim seja, meu leal Egas Moniz. Companheiro das victorias ganhas por o +conde D. Henrique, ensinar-me-has a ganhar batalhas como meu pae as ganhava. +</p> + +<h4>D. JOÃO PECULIAR</h4> + +<p>O ceu proteje as armas dos portuguezes.</p> + +<h4>D. GONÇALO MENDES</h4> + +<p>Conservae-nos pois essa protecção com as vossas orações, sr. D. João +Peculiar; que nós, Ricos-homens e cavalleiros, aproveitar-nos-hemos d'ella para +derribar com as nossas espadas o poder dos infieis—A vossa força, srs. bispos +e prelados, está toda no céu; a nossa está na terra, appoia-se na fé, e nas +armas.</p> + +<h4>INFANTE</h4> + +<p>Sois avisado, meu lidador. (<em>Aos prelados.</em>) Vós, srs. oraé por nós. +D. Tello, dizei aos vossos monges de Santa Cruz que façam noite e dia preces, +para que o Senhor nos tenha da sua mão. (<em>Aos cavalleiros.</em>) E vós, +cavalleiros, desenrollae os vossos balsões, reuni nas vossas hostes todos os +homens que tendes nas Honras, Prestamos e Senhorios que ganhastes; cingi as +vossas espadas mais duras, tende confiança na cruz que é a nossa divisa, e +atravessaremos, então, essas terras de Alem do Téjo, e lançaremos sobre ellas o +nosso dominio.<span class="pagenum">{D2. Pg. 23}</span></p> + +<h4>TODOS</h4> + +<p>Aos infieis! aos infieis!</p> + +<h4>D. EGAS MONIZ</h4> + +<p>(<em>Pegando na mão do Infante e beijando-a.</em>) Meu senhor meu amo, +deixae-me beijar-vos as mãos, deixai o vosso aio Egas admirar-vos... Sois um +grande principe... Haveis de ser um grande rei!</p> + +<h4>TODOS</h4> + +<p>Viva D. Affonso! Viva o nosso príncipe!</p> + +<h4>ALGUNS</h4> + +<p>Viva o nosso rei!</p> + +<h4>D. GUILHERME</h4> + +<p>A minha espada, e a de todos os templarios é vossa. Infante de Portugal, a +guerra contra os infieis, aqui na nossa terra, é tão santa aos olhos de Deus +como a feita n'essas longes terras da Palestina.</p> + +<h4>D. LOURENÇO VIEGAS</h4> + +<p>A minha espada é tua, Infante de Portugal.</p> + +<h4>MUITOS CAVALLEIROS</h4> + +<p>E a nossa.</p> + +<h4>INFANTE</h4> + +<p>(<em>Alevantando os braços ao céu.</em>) Senhor, a nossa fé é immensa! +Senhor, não enganeis a nossa confiança!</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>(<em>Caíndo aos pés do Infante.</em>) Dae-me uma espada, sr. Infante... +Quero combatter comvosco... Quero morrer, ou ser digno da minha patria! Digno +do nome que meu pae me legou!</p> + +<h4>INFANTE</h4> + +<p>Ganha a espada no campo da lide, que a has de amar ainda mais.</p> + +<p>(<em>D. Pedro Framariz entra com os seus acostados, e pára ao +fundo.</em>)<span class="pagenum">{D2. Pg. 24}</span></p> + +<h4>ALGUNS CAVALLEIROS</h4> + +<p>D. Pedro Framariz!</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>(<em>Pondo as mãos sobre a cabeça de seu filho.</em>) Ganha a tua espada, e +então te confiarei o segredo da nossa familia, é uma terrível vingança.</p> + +<h4>D. PEDRO FRAMARIZ</h4> + +<p>Perdoae, sr.ª, que Deus tambem perdoa!</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;"><strong>FIM DO 1.º ACTO</strong><span +class="pagenum">{D2. Pg. 25}</span></p> + +<h2>ACTO SEGUNDO</h2> + +<h3>SCENA I</h3> + +<p class="dcena"><em>O infante, em pé encostado á espada, D. Egas Moniz, o +Lidador, D. Mendo, D. João Peculiar e cavalleiros D. Gonçalo de Sousa, D. +Tello</em></p> + +<h4>D. JOÃO PECULIAR</h4> + +<p>É tentar a Deus, só por milagre poderiamos vencer tão grande multidão de +inimigos. Ismael tem em roda de si cinco wallis, e um poderoso exercito.</p> + +<h4>D. GONÇALO DE SOUZA</h4> + +<p>As hostes de cinco wallis! Mais de cem mouros para cada um de nós. Eu tenho +feito muitas correrias, tallado por muitas vezes os campos dos infieis; mas +esta batalha que se prepara, tenho-a por uma temeridade, por uma loucura. Se +perdermos a batalha, e com ella o nosso infante de Portugal, quem ha de +defender a nossa independencia?</p> + +<h4>D. TELLO</h4> + +<p>Os campos estão cobertos de soldados sarracenos, é um mar de lanças que nos +hade quebrar nas suas ondas.</p> + +<h4>D. GUILHERME</h4> + +<p>Morremos pela cruz.</p> + +<h4>JOÃO SIRITA</h4> + +<p>Sr. infante nasci no povo e padeci; fui homem d'armas e combatti, vivi na +solidão, orando a Deus, e mais de cem vezes lutei com as fera. O Senhor fez por +mim grandes milagres, e a minha<span class="pagenum">{D2. Pg. 26}</span> fé é +immensa como o deserto:—morreria feliz se morresse por ella!—Porém agora o +combatter seria matar este reino, n'uma só lide, o que o conde D. Henrique +ganhou em tantas, e tão rijas pelejas.</p> + +<h4>JOÃO PECULIAR</h4> + +<p>João Sirita, o escolhido do céu, tem razão; combattemos pela cruz, para lhe +exaltar a gloria, e não para deixar a victoria aos seus inimigos. (<em>Com +solemnidade.</em>) Eu D. João Peculiar, humilde servo de Deus, e bispo por sua +Divina Graça, em nome da religião te requeiro que não combattas em lide tão +desigual, porque n'ella nos perderias a todos.</p> + +<h4>GONÇALO DE SOUSA</h4> + +<p>Tratae tregoas com Ismael...</p> + +<h4>LIDADOR</h4> + +<p>Tregoas com Ismael... Seria accrescentar ao perigo a cobardia; o rei mouro +não guardaria a sua fé.</p> + +<h4>ALGUNS CAVALLEIROS</h4> + +<p>Não, não peleijemos.</p> + +<h4>D. TELLO</h4> + +<p>Salvae a cruz.</p> + +<h4>UM PRELADO</h4> + +<p>Salvae a cruz sr. infante.</p> + +<h4>INFANTE</h4> + +<p>Agradeço-vos, sr. o vosso amor por mim, e o desejo que tendes de que estes +condados se conservem livres e gloriosos.—Estamos cercados de perigos, e só um +conselho avisado nos póde salvar. Deixae-me meditar, e resolver o que devemos +fazer n'esta conjunctura difficil e grave. Ide-vos: e que Deus vos tenha em sua +santa guarda.</p> + +<p>(<em>Saem todos excepto o lidador, D. Egas Moniz, D. Tello e D. +Mendo.</em>)<span class="pagenum">{D2. Pg. 27}</span></p> + +<h3>SCENA II</h3> + +<p class="dcena" style="text-align:center;"><em>(O infante, D. Tello, Egas +Moniz, o Lidador, D. Mendo).</em></p> + +<h4>D. EGAS</h4> + +<p>Que quereis fazer Sr.? É, como dizeis, grave e difficil a situação em que +nos achamos. Eu fio tudo da vossa prudencia, que é muito já em tão verdes +annos; do vosso animo; e do amôr que tendes a Portugal. Deus vos inspirará o +melhor conselho.</p> + +<h4>LIDADOR</h4> + +<p>Que resolveis, sr. infante?</p> + +<h4>INFANTE</h4> + +<p>Combatter e vencer.</p> + +<h4>D. TELLO</h4> + +<p>O numero dos inimigos é sem conto.—Vencêr é impossivel.</p> + +<h4>INFANTE</h4> + +<p>Morreremos então, pela fé, pela religião de Christo, e pela patria. Mas não +morreremos, que m'o advinha o coração. Deus tem protegido até hoje este pequeno +canto das Hespanhas que de meu pae herdei. Quando todos os reinos das hespanhas +veneravam como sr. Affonso VII, combatiamos nós entre Galliza contra o poderoso +imperador, e ganhavamos em Cerneja uma bella victoria. Se hoje a nossa +independencia se acha compromettida, pelo tractado que assignámos em Tuy: se +estamos quasi como vassallos de Affonso VII, esse estado acabará logo que +ganharmos uma batalha sobre os sarracenos. Chegou o momento de ganharmos essa +batalha. Ámanhã; pôr-nos-hemos independentes do imperador, e talvez +accrescentaremos<span class="pagenum">{D2. Pg. 28}</span> mais uma provincia a +Portugal.</p> + +<h4>D. TELLO</h4> + +<p>Cinco chefes inimigos...</p> + +<h4>INFANTE</h4> + +<p>Tantos quantas foram as chagas de Christo Senhor Nosso. N'esses +blasphemadores vingaremos a fé.</p> + +<h4>LIDADOR</h4> + +<p>Apressemos a hora do combate. Lidemos rijamente, que havemos de vencer.</p> + +<h4>INFANTE</h4> + +<p>Vae, meu lidador: manda reunir o exercito; que quero fallar a todos, +enchel-os de fé, accender-lhes nos corações uma sancta coragem. (<em>O Lidador +sáe.</em>) (<em>A D. Mendo.</em>) Meu pagem, dá-me o escudo e a lança: (<em>D. +Mendo dá-lh'os.</em>) Manda-me ajaezar o meu cavallo de batalha. (<em>D. Mendo +sáe.</em>) Deus seja comigo nesta hora, e me falle ao pensamento.</p> + +<h4>EGAS MONIZ</h4> + +<p>N'esta sangrenta batalha, achar-me-hei ao vosso lado, como sempre, meu +principe, para receber por vós os golpes do inimigo.</p> + +<h4>INFANTE</h4> + +<p>Meu Egas... meu amigo... Não tenho ninguem com quem possa desabaffar os +amargores d'esta existencia senão tu.</p> + +<h4>EGAS MONIZ</h4> + +<p>Tendes-nos a todos... Uma família immensa que vos ama.</p> + +<h4>INFANTE</h4> + +<p>(<em>Com exaltação.</em>) Salvemol'a. Salvemos essa família com a nossa +espada, e a nossa fé.<span class="pagenum">{D2. Pg. 29}</span></p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>(<em>Entrando.</em>) Está tudo prompto.—Esperam o sr. infante todos os +cavalleiros reunidos...</p> + +<h4>INFANTE</h4> + +<p>Ámanhã estarás entre elles; terás uma espada ganha por ti, Mendo.—Vamos, +senhores. (<em>Sáe com Egas Moniz, e D. Tello.</em>)</p> + +<h3>SCENA III</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>D. Mendo só</em></p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Serei cavalleiro!... terei uma espada, e com ella a minha Violante... a +gloria!... um nome egual ao de meu pae!—Ser admirado por ella; ter um nome +entre os nomes illustres... Combater por D. Affonso, pelo meu infante... que +gloria, que felicidade! Ai! Violante, Violante!—(<em>Triste.</em>) Violante... +longe de ti! Violante não esqueças o amor, que é a vida d'este coração. Quando +penso na ventura de viver com ella, de lhe chamar esposa, sinto subitamente o +terror esfriar-me todo. Aquellas palavras sinistras do Astrologo, de fr. +Bermudo, e aquella vingança de que minha mãe me fallou levantam-se diante de +mim como espectros medonhos, que me querem roubar a minha Violante! Qu'importam +as palavras desvairadas de um bobo... os vaticinios dos astros? Que importa +isso tudo? Deus não póde querer a desgraça de quem nunca commetteu um grande +crime, de quem nunca o offendeu! (<em>Pausa.</em>) Ai! perdel-a!... (<em>Fica +pensando.</em>) Morrer!... antes morrer!<span class="pagenum">{D2. Pg. +30}</span></p> + +<h3>SCENA IV</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>D. Mendo, e fr. Bermudo</em></p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Ainda não. É ainda cedo para morreres.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> +Bermudo! + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Não quero que morras, não quero que percas o animo, por isso vim.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Que pódes tu sobre a morte? Como pódes tu impedir que eu a vá buscar nas +lanças dos inimigos? Se eu accreditasse nas tuas prophecias sinistras +deixava-me matar na batalha de ámanhã.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Não irás buscar a morte porque amas a vida.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Amo sim, porque amo Violante.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Não amas Violante só.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Pois...</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Amas a gloria.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Para lh'a dar a ella.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>E para ti, tambem queres a gloria, e tens razão Mendo. (<em>Compaixão.</em>) +Para que o amor fosse a tua unica paixão, o teu unico pensamento, a vida, o +alento da tua alma; para que o amasses e vivesses só por elle, era preciso que +o teu coração<span class="pagenum">{D2. Pg. 31}</span> houvesse padecido desde +o berço dôr e tormentos, tivesse sempre ficado nas trevas e na solidão e que, +quando tu o sentisses já quasi a morrer. Deus te mostrasse um anjo, uma luz, +uma esperança.—Para comprehender a luz é preciso ter estado na escuridão; para +apreciar a felicidade é preciso ter padecido. Os anjos não podem intender as +alegrias do céu, porque nunca supportaram os tormentos do +inferno...—(<em>Pausa.</em>) Os corações novos, que nunca foram provados pelo +martyrio não podem amar como... como esses que se escondem n'um claustro, ou +n'um sepulchro, para que ninguem os veja, para que ninguem saiba delles.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Que querem dizer essas palavras?</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Querem dizer que tenho penado mais, muito mais do que tu, e que não quero, +nem posso ainda morrer.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>A sciencia prende-te á vida.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>A sciencia!... Antes de ser monge, fui homem: antes de dar todas as horas a +um estudo inutil, tive outros desejos e outras esperanças... A flôr morreu em +botão... acabou tudo, antes de eu saber se a felicidade é mais do que uma +palavra de escarneo, a alegria mais do que uma illusão miseravel... E quero a +vida, mesmo assim.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Queres a vida?</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Quero-a Mendo, esta alma é um abysmo, tão<span class="pagenum">{D2. Pg. +32}</span> tenebroso, que nem eu me atrevo a olhar para elle... tenho medo.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Tens sofrido muito? Tens padecido?</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Escuta e verás. Tinha um unico irmão, que amava muito; ficámos orphãos ambos +ainda infantes. Eu nunca tinha tido outro sentimento no coração, senão essa +amizade profunda, extrema que lhe consagrava a elle; tinha-lhe salvo a vida nas +batalhas á custa do meu sangue... Tudo que via de bello no mundo desejáva-o +para lh'o dar. Se havia a affrontar um perigo ia eu por elle, se havia gloria a +ganhar, deixava-o ir, e ficava eu. A minha vida era d'elle só.—Um dia, voltava +de uma correria contra os mouros, não achei senão o seu cadaver! Meu irmão fôra +assassinado.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Vingaste a sua morte?</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Procurei o assassino, para vingar a morte de meu irmão; tinha ido para essas +longes terras da Palestina. Fui tambem. Busquei-o por toda a parte; atravessei +o deserto soffocado pelos ardores do sol, devorado pela sede, consummido pela +fome. O meu cavallo morreu, e prosegui na minha peregrinação a pé encostado ao +bordão de peregrino. Padeci martyrios crueis, mas não encontrei nunca esse +homem que buscava. Disseram-me que tinha morrido... Voltei para a patria.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>E então?</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Não tinha nada que me prendesse á vida, não<span class="pagenum">{D2. Pg. +33}</span> tinha nenhuma esperança, nenhuma consolação. Fiz-me monge, e dei-me +ao estudo, para vêr se a cabeça matava as saudades do coração.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>E conseguiste?</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Esse homem não tinha morrido, voltou.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Matastel-o?</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Não.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Perdoaste?</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Também não (<em>Pausa.</em>) O amor matou-me o odio. Fui fraco, covarde. +Tive medo da minha vingança; trahí meu irmão, deixei passar junto de mim o seu +assassino, e não tive força para levantar sobre elle o meu braço vingador.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Porque? O que te deteve o braço?</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Amei a filha desse homem...</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Tu?</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Eu?!... Não.—Sou monge, não posso ter amor. Um voto matou-me o coração.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Desgraçado!...</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Que importa o que passou... o que morreu! Todos julgaram que eu havia +morrido... E ha dez annos que enterrado n'um mosteiro estudo a alchimia; tenho +descoberto segredos, que poderiam<span class="pagenum">{D2. Pg. 34}</span> +fazer os homens felizes, segredos que poderiam talvez tornar o mundo todo um +paraizo. A natureza é omnipotente em crear, omnipotente em destruir: ao lado de +cada força que géra ha uma força que mata... São tudo combates. O homem, grão +de pó no universo, segue a lei geral. A vida é um combate entre o sêr, e o não +sêr. O pensamento é uma lucta entre o bem e o mal. (<em>Pausa.</em>) Aqui tens, +Mendo, uma essencia subtil. Esta essencia é a vida para ti se fores ferido na +lide.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>(<em>Repellindo o frasco.</em>) Padre, tu fizeste-me perder o animo: +mataste-me as esperanças. Tenho agora medo de tudo, menos da morte: tudo para +mim é fatal. Essa peleja perder-se-ha. A vida servir-me-ha só para ser escravo, +e penar. (<em>Ouvem-se gritos do exercito ao longe.</em>)</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Ouves?... Esses homens, ha pouco tão sem animo, tão atemorisados, estão +agora incendiados pelo fogo do enthusiasmo... Oh! o enthusiasmo é um poder +sublime! Os seus effeitos são similhantes aos que a força omnipotente de Deus +produziria se baixasse á alma do homem... Uma palavra de D. Affonso bastou para +pôr em duvida a victoria... talvez para a assegurar.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Pois julgas...</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Pela fé, e pelo enthusiasmo o homem multiplica-se, torna-se grande, e +vence... Desgraçado de mim, que já não sinto esse divino fogo animar-me o +coração. (<em>Dando o frasco a D. Mendo.</em>) Mendo, toma essa essencia, é a +vida..—Ámanhã,<span class="pagenum">{D2. Pg. 35}</span> no meio dos gritos da +victoria, dar-te-hão uma espada de cavalleiro, e saudar-te-hão entre os heroes. +Vive para a gloria. Vive para Portugal. (<em>Em voz baixa.</em>) Vive para +vingar teu pae, se tens n'alma força para tanto.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Acceito.</p> + +<h3>SCENA V</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>Os mesmos, D. Bibas e Bonamiz</em></p> + +<h4>D. BIBAS</h4> + +<blockquote> + Quero a vida. </blockquote> + +<h4>BONAMIZ</h4> + +<blockquote> + Não a quero.</blockquote> + +<h4>D. BIBAS</h4> + +<blockquote> + Pela morte.</blockquote> + +<h4>BONAMIZ</h4> + +<blockquote> + Só espero.<br> + Sem a minha doce amante,<br> + Viver não quero um instante.</blockquote> + +<h4>D. BIBAS</h4> + +<blockquote> + Mas a gloria? </blockquote> + +<h4>BONAMIZ</h4> + +<blockquote> + E os amores? </blockquote> + +<h4>D. BIBAS</h4> + +<blockquote> + Mas os cardos? </blockquote> + +<h4>BONAMIZ</h4> + +<blockquote> + Mas as flores? </blockquote> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>(<em>Colerico.</em>) Outra vez a escutar os meus segredos?</p> + +<h4>D. BIBAS</h4> + +<blockquote> + Vingativos frades;<span class="pagenum">{D2. Pg. 36}</span> </blockquote> + +<h4>BONAMIZ</h4> + +<blockquote> + E pagens contrictos, </blockquote> + +<h4>D. BIBAS</h4> + +<blockquote> + Monges aguerridos, </blockquote> + +<h4>BONAMIZ</h4> + +<blockquote> + Amantes afflictos </blockquote> + +<h4>D. BIBAS</h4> + +<blockquote> + Só nos fazem rir. </blockquote> + +<h4>BONAMIZ</h4> + +<blockquote> + Ai! fazem-nos rir... </blockquote> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>(<em>Colerico.</em>) Que ouvistes?</p> + +<h4>D. BIBAS</h4> + +<p>Coisas muito para rir!—Dizem que ha grandes sabedores, homens que valem +mais do que os outros, que são mais avisados. (<em>Dando uma gargalhada.</em>) +Loucura!... Os homens são todos bobos: bobos que fazem rir, bobos que fazem +chorar, bobos que amam, bobos que odeiam, bobos que leem até dos astros, bobos +que não sabem ler nem mesmo um pergaminho... mas todos bobos, todos jograes e +chocarreiros.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Tens razão D. Bibas.</p> + +<h4>D. BIBAS</h4> + +<p>Vós que sois admirado pelo muito que sabeis, fallaes de vinganças como o +mais estupido homem d'armas... Matar... matar um homem!... O que importa isso? +Pois elle não ha de morrer, sem que o matem?—Matal-o é affastal-o de todos os +tormentos deste mundo, é dar-lhe o descanço eterno... Estou hoje um bobo serio, +não é assim? Um bobo serio é como um vestido de dó num casamento, excita a +compaixão e o desprezo.<span class="pagenum">{D2. Pg. 37}</span></p> + +<h4>BONAMIZ</h4> + +<p>Mestre, estás hoje insipido.</p> + +<h4>D. BIBAS</h4> + +<p>Que queres? Deante destes dois mochos a piarem sons de agouro, até o genio +de um jogral fica vencido.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Não digaes nada do que ouvistes, bobos.</p> + +<h4>D. BIBAS</h4> + +<p>Tambem tu, fr. feiticeiro, julgas que os bobos são como o resto dos homens? +Ficae descançados; nós queremos saber para rir, e não para ir contar aos +outros. (<em>Dando uma gargalhada.</em>) Vingativos frades.</p> + +<h4>BONAMIZ</h4> + +<p>E pagens contrictos...</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Calae-vos ahi, bobos do inferno. (<em>A fr. Bermudo.</em>) Acceito, fr. +Bermudo. Não quero a morte ainda.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Vive...</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Cumprir-se-ha minha sina?</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Cumprir-se-ha. (<em>O rumor do exercito aproxima-se</em>)</p> + +<h4>BONAMIZ</h4> + +<p>Ahi vem o nosso infante, o nosso tio infante.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Adeus. D. Mendo—Quando me quizeres, estarei ao pé de ti. (<em>Sáe.</em>)</p> + +<p>(<em>A noite tem-se cerrado pouco a pouco.</em>)<span class="pagenum">{D2. +Pg. 38}</span></p> + +<h3>SCENA VI</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>O Infante, Egas Moniz, o Lidador, D. Mendo, e +Cavalleiros</em></p> + +<h4>TODOS</h4> + +<p>Viva o nosso infante! viva!</p> + +<h4>ALGUNS</h4> + +<p>Viva El-Rei!</p> + +<h4>INFANTE</h4> + +<p>Havemos de vencer; protege-nos o braço do Senhor.</p> + +<h4>ALGUNS</h4> + +<p>Viva D. Affonso!</p> + +<h4>INFANTE</h4> + +<p>Ide purificar-vos pela oração para que Deus proteja as nossas armas.</p> + +<p>(<em>Saem todos gritando—Viva D. Affonso, fica só o infante e D. +Mendo.</em>)</p> + +<h3>SCENA VII</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>O Infante e D. Mendo</em></p> + +<h4>INFANTE</h4> + +<p>Mendo, amanhã é o mais bello dia da tua vida... Sentirás pela primeira vez o +furor dos combates correr-te nas veias. No meio do turbilhão dos inimigos +sentirás essa força estranha, superior e independente da vontade, que dirige o +braço dos que pelejam pela sua fé, e pela sua patria; essa força que faz os +heroes e os martyres; que é a inspiração dos homens de guerra. Não estejas +assim triste agora; que depois da peleja terás de chorar os nossos que +morrerem... e então... Que importa? Resta-me o amor. Tu<span +class="pagenum">{D2. Pg. 39}</span> és moço, nobre; serás em pouco um dos +melhores lidadores de Portugal. (<em>Sentando-se.</em>) Ajuda-me a tirar este +capêllo. És feliz, Mendo; sobre ti não pezam nem remorsos do passado, nem +terror do futuro...</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Sr. infante!</p> + +<h4>INFANTE</h4> + +<p>Meu amigo!... Diz-me o que desejas; quero fazer-te feliz, a ti.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>(<em>Com excitação.</em>) Meu senhor!</p> + +<h4>INFANTE</h4> + +<p>Falla-me com sinceridade.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Amo.</p> + +<h4>INFANTE</h4> + +<p>Amas D. Violante, já o sabia. Amas a filha de D. Pedro Framariz, e és amado +por ella. Sereis unidos.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Unidos... Eu, e Violante...</p> + +<h4>INFANTE</h4> + +<p>Sou eu que t'o prometto.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Meu Deus, meu Deus! que feliz é o meu destino!</p> + +<h4>INFANTE</h4> + +<p>Vae agradecel-o a Deus... vae pedir-lhe por nós todos. Anda Mendo, vae pedir +ao Senhor, que tenha misericordia dos que desejam glorificar seu santo nome.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Vou...</p> + +<h4>INFANTE</h4> + +<p>Deixa-me só. (<em>Mendo sáe.</em>)<span class="pagenum">{D2. Pg. +40}</span></p> + +<h3>SCENA VIII</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>O Infante. (Só.)</em></p> + +<h4>INFANTE</h4> + +<p>(<em>Depois de uma pauza em que escuta os gritos do exercito ao longe.</em>) +Aníma-os a todos a esperança da victoria. Esqueceram tudo, para se lembrarem só +do triumpho. Uns combaterão por que têem fé, e querem, combatendo, ganhar o +ceu; outros porque têem ambição, e querem accrescentar as suas terras e +augmentar o seu poder. Agora é tudo enthusiasmo, tudo esperança ahi... depois, +mais tarde, quando cada um desses guerreiros estiver a sós com a sua alma, virá +a meditação; depois as recordações, e as saudades; depois a oração fervorosa... +e depois... depois talvez o medo da morte... Morrer pela fé é ganhar a corôa +celeste dos martyres; e todos os meus companheiros d'armas creem como eu na +misericordia de Jesus Christo! (<em>Cravando no chão a espada e pondo-se de +joelhos.</em>) Cruz de redempção, sobre que primeiro se escreveu a palavra +sacrosanta de perdão para os homens, symbolo de eterna victoria, ajudae-nos... +Que vos cerque uma luz de gloria: que se passe um milagre diante de mim, e a +minha confiança será infinita! Gedeão era humilde e fraco como eu, os seus eram +poucos contra muitos, como são agora esses meus, e o altar de Baal foi +derrubado, e em seu logar se levantou o templo de Jéhovah. É por que a sua fé +era viva, é por que a sua offerta tinha sido consumida pelo fogo do ceu no +altar do sacrifício, é por que a mão<span class="pagenum">{D2. Pg. 41}</span> +de Deus o protegia, é por que na sua alma havia uma inspiração sagrada... +Inspirae-me, meu Deus: dae-me a victoria Senhor... e o vosso nome será adorado +por toda a parte onde chegar o meu poder. Onde eu poder fazer ouvir a vossa +palavra divina, grandes e pequenos, nobres e humildes a escutarão com amor e +contricção. Dae-me a victoria, meu Deus!</p> + +<h3>SCENA IX</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>O Infante e Fr. Bermudo</em></p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>(<em>Á entrada do Real.</em>) A victoria será tua.</p> + +<h4>INFANTE</h4> + +<p>(<em>Levantando-se.</em>) Quem és? Que queres aqui? Foi Deus que te +mandou?</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>A sua benção caiu sobre ti, e os teus.</p> + +<h4>INFANTE</h4> + +<p>A victoria!... Será nossa a victoria?</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>(<em>Abrindo as cortinas do fundo do Real, deixando vêr o campo, que se +estende por uma encosta, e em que brilham algumas fogueiras; apontando para o +Oriente.</em>) Ao romper d'alva verás no Oriente o braço do Senhor estender-se +sobre o teu exercito.</p> + +<h4>INFANTE</h4> + +<p>A victoria, a victoria! Uma palavra tua, meu Deus!... (<em>Abraçando de +joelhos a cruz da espada.</em>) Gloria ao teu nome Senhor!</p> + +<p style="text-align:center;"><strong>FIM DO 2.º ACTO</strong><span +class="pagenum">{D2. Pg. 42}</span></p> + +<h2>ACTO TERCEIRO</h2> + +<p class="dcena"><em>Uma salla do castello de Guimarães, portas lateraes e ao +fundo. É noite, brandões seguros por braços de ferro lançam uma luz brilhante. +Ouve-se musica, ha differentes bailados, durante a primeira scena.</em></p> + +<h3>SCENA I</h3> + +<p class="dcena"><em>D. Gonçalo de Sousa, D. Lourenço Viegas, D. Soeiro Viegas, +Cavalleiros, Prelados, Damas, D. Mendo, D. Violante, D. Bibas e Bonamiz. Os +Cavalleiros e Damas passeiam e dançam.</em></p> + +<h4>D. GONÇALO DE SOUSA</h4> + +<p>(<em>A uma dama que traz pelo braço.</em>) Foi bello, magnifico este nosso +jogo do tavolado.—Nunca damas mais formosas fizeram nascer dezejos de gloria +em corações de mais ardentes e destros cavalleiros.</p> + +<h4>DAMA</h4> + +<p>Lembraram-vos hoje essas batalhas verdadeiras, onde sois sempre o primeiro, +sr. D. Gonçalo de Sousa?</p> + +<h4>D. LOURENÇO VIEGAS</h4> + +<p>(<em>Aproximando-se.</em>) Feliz o cavalleiro que ganhou hoje uma coroa para +vos offerecer, linda Branca.</p> + +<h4>DAMA</h4> + +<p>Não sejaes invejoso, D. Lourenço Viegas, que é feia a inveja em quem vale +tanto: vossos feitos de armas já vos mereceram o nobre titulo de +<em>espadeiro</em>.</p> + +<h4>BONAMIZ</h4> + +<p>Mas nem por isso lhe tem valido grandes<span class="pagenum">{D2. Pg. +43}</span> triumphos em amor. É por que o amor não se leva á espada, como se +levam os infieis sarracenos. As mulheres são infieis, que se conquistam pela +brandura, e que se conservam pelo galanteio. O braço forte não serve para +conquista destas, D. Lourenço.</p> + +<h4>DAMA</h4> + +<p>(<em>Rindo.</em>) Que tem isso?—Não se póde ser grande em tudo. (<em>Vão +para o fundo da scena.</em>) É melhor cubrir-se um cavalleiro de gloria nas +batalhas do que nos amores.</p> + +<h4>D. SOEIRO VIEGAS</h4> + +<p>(<em>Vindo á frente da scena com uma dama.</em>) D. Sancha, sois a formosa +de todas as lindas damas de Portugal. Um mouro chamar-vos-hia uma huri, eu +adoro-vos como a um anjo.</p> + +<h4>DAMA</h4> + +<p>É nos campos da lide que se aprende a lisonja?</p> + +<h4>D. SOEIRO VIEGAS</h4> + +<p>Aprende-se a ser franco, e leal...</p> + +<h4>D. BIBAS</h4> + +<p>(<em>Rindo.</em>) Como todos os da vossa raça, dom namorado...</p> + +<h4>D. SOEIRO VIEGAS</h4> + +<p>Excommungado bobo!</p> + +<h4>D. BIBAS</h4> + +<p>Não ha nada que esfrie uma paixão como uma gargalhada a tempo. O bobo é o +avesso de Cupido. Ri-se das coisas serias, o bobo; e Cupido e todos os seus +escravos tomam a serio até os ridiculos galanteios do amor.</p> + +<p style="text-align:center;">(<em>Um cavalleiro e uma dama vêem á frente da +scena.</em>)<span class="pagenum">{D2. Pg. 44}</span></p> + +<h4>1.º CAVALLEIRO</h4> + +<p>Está sempre triste, e cuberta de lucto, a infeliz D. Gontrade.</p> + +<h4>DAMA</h4> + +<p>Vistel-a hoje aqui? Em quanto o filho, D. Mendo...</p> + +<h4>1.º CAVALLEIRO</h4> + +<p>O namorado D. Mendo. Vede com que olhos elle admira a filha de D. Pedro +Framariz. Feliz Mendo!</p> + +<h4>DAMA</h4> + +<p>Em quanto o pagem d'El-Rei...</p> + +<h4>1.º CAVALLEIRO</h4> + +<p>Agora cavalleiro. Ganhou a espada na batalha de Ourique. Foi o sr. D. +Affonso Henriques, quem o armou com a sua propria mão.</p> + +<h4>DAMA</h4> + +<p>Em quanto D. Mendo andou pela guerra, a mãe, D. Gontrade, passou os dias e +as noites fechada, a rezar sempre. Aquella mulher tem dôr ou remorso que lhe +dilacera o coração.</p> + +<h4>1.º CAVALLEIRO</h4> + +<p>Estava ali na capella esta manhã: parecia ainda mais triste que de +costume.</p> + +<h4>DAMA</h4> + +<p>Pobre D. Gontrade! Dizem que lhe mataram o marido! É uma historia tenebrosa, +que ficou sempre em mysterio, e de que pouco se sabe.</p> + +<h4>1.º CAVALLEIRO</h4> + +<p>Seu filho Mendo vae casar....</p> + +<h4>DAMA</h4> + +<p>Assim se diz. Mas a fallar verdade, eu duvido.</p> + +<p style="text-align:center;">(<em>Um grupo de cavalleiros vem á frente da +scena.)</em></p> + +<h4>1.º CAVALLEIRO</h4> + +<p>Foi uma rija arrancada aquella de Ourique.<span class="pagenum">{D2. Pg. +45}</span> El-Rei D. Affonso derrubou de um golpe dois daquelles perros +infieis.</p> + +<h4>2.º CAVALLEIRO</h4> + +<p>Ismael pouco resistiu.</p> + +<h4>3.º CAVALLEIRO</h4> + +<p>Nunca, por vida minha, nunca vi uma tão grande róta.</p> + +<h4>1.º CAVALLEIRO</h4> + +<p>Parecia que o braço de Deus pelejava por nós.</p> + +<h4>2.º CAVALLEIRO</h4> + +<p>E que alegria a do exercito quando depois da batalha, levantámos por nosso +rei a D. Affonso Henriques.</p> + +<h4>3.º CAVALLEIRO</h4> + +<p>Agora já temos rei independente.</p> + +<h4>2.º CAVALLEIRO</h4> + +<p>Temos ainda que combater muito pela independencia de Portugal.</p> + +<p style="text-align:center;">(<em>Outro grupo de cavalleiros vem á frente da +scena.</em>)</p> + +<h4>1.º CAVALLEIRO</h4> + +<p>É um leal cavalleiro D. Pedro Framariz.</p> + +<h4>2.º CAVALLEIRO</h4> + +<p>Honrado como Egas Moniz.</p> + +<h4>3.º CAVALLEIRO</h4> + +<p>Não tanto. Elle não se hia de certo entregar nas mãos dos inimigos para não +faltar á palavra dada, á lealdade jurada.</p> + +<h4>2.º CAVALLEIRO</h4> + +<p>Lá isso é verdade; D. Pedro Framariz não era capaz de tal.</p> + +<h4>BONAMIZ</h4> + +<p>(<em>Rindo.</em>) Tem mais amor á pelle, e menos amor à honra. (<em>Vae-se +cantando.</em>)</p> + +<h4>3.º CAVALLEIRO</h4> + +<p>Estes bobos!...<span class="pagenum">{D2. Pg. 46}</span></p> + +<h4>2.º CAVALLEIRO</h4> + +<p>Dizem que a filha caza com D. Mendo, o antigo pagem d'el-rei. É um cazamento +muito honroso para D. Mendo.</p> + +<h4>3.º CAVALLEIRO</h4> + +<p>Estão namorados, mas cazarem... Não cazarão talvez.</p> + +<h4>2.º CAVALLEIRO</h4> + +<p>É a vontade d'el-rei, que se cazem.</p> + +<h4>4.º CAVALLEIRO</h4> + +<p>Entre as duas familias houve n'outro tempo alguma coisa.</p> + +<h4>3.º CAVALLEIRO</h4> + +<p>Um homizío... dizem.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>(<em>Aproximam-se de Violante que está assentada.</em>) Violante, ficae; +deixae sahir todos.</p> + +<h4>VIOLANTE</h4> + +<p>Fico. (<em>D. Mendo affasta-se.</em>)</p> + +<p style="text-align:center;"><em>Um grupo de velhos cavalleiros e de prelados, +vem á frente da scena</em></p> + +<h4>1.º PRELADO</h4> + +<p>Vae-se demorando o banquete.</p> + +<h4>2.º CAVALLEIRO</h4> + +<p>Muito mais do que se demoram os nossos golpes quando pelejamos contra os +excommungados da Moirama...</p> + +<h4>2.º PRELADO</h4> + +<p>As nossas orações no côro tambem se não demoram tanto tempo como esta +ceia.</p> + +<h4>3.º CAVALLEIRO</h4> + +<p>Não tarda. Ainda bem que se demora porque podemos conversar.</p> + +<h4>UM OVENÇAL</h4> + +<p>(<em>Na salla d'armas, á porta.</em>) Nobres, ricos-homens,<span +class="pagenum">{D2. Pg. 47}</span> infanções, cavalleiros, srs. de prestamos e +alcadarias, el-rei de Portugal vos convida a vir tomar parte no banquete.</p> + +<h4>2.º CAVALLEIRO</h4> + +<p>Em fim!</p> + +<h4>PRELADO</h4> + +<p>Vamos, vamos.</p> + +<p style="text-align:center;">(<em>Sahem todos, todos excepto D. Mendo e D. +Violante. D. Bibas esconde-se detraz de um pilar.</em>)</p> + +<h3>SCENA II</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>D. Mendo e D. Violante, D. Bibas +(escondido.)</em></p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Violante!... minha Violante!</p> + +<h4>VIOLANTE</h4> + +<p>Mendo?!</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Uma palavra... uma palavra, por minha alma.</p> + +<h4>VIOLANTE</h4> + +<p>Mendo, nem um instante passei sem pensarem vós: e eu tambem estava esperando +com ancia este momento para vos ouvir dizer-me uma palavra de amor.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>E não teve, Violante, não teve essa bocca um sorriso para mim, nem esses +olhos tiveram um olhar terno para me dar até agora?</p> + +<h4>VIOLANTE</h4> + +<p>Ai! que nem eu sei dizer-vos o que sinto, dizer-vos o que me deteve diante +de toda essa gente! Ha uma coisa occulta, Mendo, que me prende a palavra e o +gesto quando quero mostrar-vos tudo o que sinto em mim. Faltam-me forças, +faltam-me faculdades para tanto.<span class="pagenum">{D2. Pg. 48}</span></p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Falta-vos o amor... talvez.</p> + +<h4>VIOLANTE</h4> + +<p>(<em>Sorrindo com muito amor.</em>) É desleal essa palavra, cavalleiro. Eu +conheci um pagem que só dizia o que pensava, com verdade, e sinceramente.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>O pagem, minha Violante, seria verdadeiro e sincero, seria: mas não valia +mais do que o cavalleiro, que d'elle herdou o maior amor, que do mundo tem +havido.</p> + +<h4>VIOLANTE</h4> + +<p>Que sustos tive, em quanto durou a guerra! Parecia-me que não vos tornaria a +vêr, e essa ideia fazia-me chorar horas esquecidas, fechada no meu oratorio.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Eu não podia morrer, porque vós me estaveis esperando.</p> + +<h4>VIOLANTE</h4> + +<p>Não vos lembrou a triste Violante, quando, o primeiro entre todos, vos +lançastes por meio das lanças dos inimigos?</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Lembrou, lembrou. Ia lá buscar esta espada... Não era eu que ia, não; era a +esperança de vir aqui ajoelhar-vos aos pés e dizer-vos: «Violante, tenho um +nome de cavalleiro, tenho um logar entre os ricos-homens de Portugal, tenho +esta mão que é leal e que está pura... offereço-vos, tudo minha Violante!»</p> + +<h4>VIOLANTE</h4> + +<p>(<em>Apertando a mão de D. Mendo.</em>) Acceito.<span class="pagenum">{D2. +Pg. 49}</span></p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>A fr. Bermudo devo a ventura de ouvir a minha Violante dizer-me esta divina +palavra.</p> + +<h4>VIOLANTE</h4> + +<p>(<em>Com susto.</em>) A fr. Bermudo! Como? Que tem esse astrologo agourento +com a nossa felicidade?</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Não quero ser eu só a bem dizer esse homem inexplicavel; por isso, aqui +mesmo no meio da nossa alegria, quero contar o que elle fez para me salvar.</p> + +<h4>VIOLANTE</h4> + +<p>Para vos salvar?</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Estava quasi ganha a batalha; na ala esquerda porém, ainda uma das hostes +dos almoravides resistia como um muro de ferro aos ataques impetuosos dos +cavalleiros christãos. Tive vergonha de vêr os nossos recuarem deante dos +inimigos, entre os quaes combatiam mais de trezentas mulheres; e, com uma +espada na mão precipitei-me sobre a phalange sarracena; rompi a primeira e +segunda linha, e quando me voltei para vêr se os cavalleiros portugueses me +haviam seguido, achei-me de todos os lados cercado pelos infieis. A minha morte +era certa: o braço já ía cançando: e se não fôra a vossa imagem, que estava +sempre presente ao meu espirito, ter-me-hia deixado morrer. Subitamente, porém, +quando já, fechando os olhos, e pronunciando o vosso nome, me arremedava ás +cegas sobre os inimigos, ouvi por detraz de mim um pavoroso clamor, e vi logo +depois um soldado que derrubava tudo com o seu braço de Hercules. N'um +instante, vi abrir-se uma<span class="pagenum">{D2. Pg. 50}</span> larga +estrada juncada de cadaveres; e foi assim que me salvei da morte.</p> + +<h4>VIOLANTE</h4> + +<p>E o soldado?</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Era fr. Bermudo. Violante, a fr. Bermudo devo esta felicidade, tão grande, +que nem eu a posso comprehender, nem a posso sentir toda, que não tenho coração +para tanto. É uma felicidade que mata!</p> + +<h4>VIOLANTE</h4> + +<p>Tem-me consumido a vida, mas amo-a.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Oh! Que nunca julguei que tão cedo nos chegasse tamanha ventura! +(<em>Beija-lhe a mão—D. Bibas dá uma gargalhada aguda e estridente.</em>)</p> + +<h4>VIOLANTE</h4> + +<p>Jesus!</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>(<em>Levando a mão á espada.</em>) Quem ousaria?!</p> + +<h4>D. BIBAS</h4> + +<p>(<em>Vae-se cantando com, voz lugubre.</em>)</p> + +<blockquote style="font-size: small;"> + «Vivem loucos namorados<br> + Vendo futuro formoso<br> + Onde não ha mais que a dôr<br> + De um mysterio tenebroso.»</blockquote> + +<h4>VIOLANTE</h4> + +<p>Bobo.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>D. Bibas que anda fazendo pelo castello a sua ronda de escarneo.—Louco!</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>(<em>Entrando.</em>) D. Mendo, os loucos sabem mais ás vezes que os +avisados—Sr.ª D. Violante ide-vos, vosso pai procura por vós.<span +class="pagenum">{D2. Pg. 51}</span></p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Tudo nos separa...</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Em breve nada nos poderá separar um do outro. Adeus, Mendo, adeus! +(<em>Sae.</em>)</p> + +<h3>SCENA III</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>D. Mendo e Frei Bermudo.</em></p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Para que vieste separar-nos, quando estavamos a matar as saudades d'esta +longa ausencia? Fr. Bermudo, és tu sempre quem separa Violante de mim.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Não sou eu; é o teu destino fatal.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Mão me repitas outra vez os teus agoiros. Não queiras que eu te maldíga; não +queiras que eu tome odio a ti, e á vida...</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Depois d'esse teu penar, virá a gloria. Assim o dizem os astros. +(<em>Sáe.</em>)</p> + +<h3>SCENA IV</h3> + +<h4>D. MENDO <em>só</em></h4> + +<p>Este homem, este frade é incomprehensivel. As suas palavras pezam sobre mim; +quando o vejo, não sei se a sympathia, ou o odio me fazem pular o coração no +peito. Devo-lhe a vida a este homem; e, comtudo, parece-me que lhe não posso +ser grato.—Sou cavalleiro já, e agora saberei o segredo tremendo, que desde a +infancia me involve, sem que o possa conhecer. Minha mãe—quando<span +class="pagenum">{D2. Pg. 52}</span> ao chegar da guerra a fui vêr—recebeu-me +com assustadora solemnidade; deu-me apenas um beijo que me fez frio. Está mais +pallida agora; e ha nos seus olhos um clarão sinistro que me faz medo. Sinto +caminhar para mim o terrivel segredo, e tenho vontade de fugir para o não +ouvir. É covardia... é fraqueza, isto!</p> + +<h3>SCENA V</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>D. Mendo e D. Gontrade</em></p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>(<em>Entrando.</em>) Meu filho...</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>(<em>Estremecendo.</em>) Minha mãe...</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>Estás aqui, Mendo, longe das festas, triste e só? Tens razão, filho; porque +não pódes, não deves ter nem alegria nem descanço, em quanto não tirares +vingança do assassino de teu pai.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Que dizeis, minha mãe? meu pai morreu assassinado, já vol-o ouvi dizer; mas +quem o matou é o que eu não sei ainda.</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>Mendo, até ao dia em que ganhaste—gloriosamente, bem o sei—essa nobre +espada, não eras mais do que um pagem, uma criança. Esse tempo passou: tens já +um nome de cavalleiro que teu pai tornou illustre, e que tu deves conservar +puro e sem mancha. Mendo Paes, o teu nome está deshonrado. A mão de um homem +desleal manchou-lhe a pureza, deslustrou-lhe a nobreza. D. Paio Ramires teu +pai, foi assassinado, covardemente<span class="pagenum">{D2. Pg. 53}</span> +assassinado; e o seu assassino vive ainda!... Ficas assim calado?!... Não se te +revolvem lá dentro os desejos da vingança? Meu filho, enganar-me-hia a +esperança? Não serás tu digno de teu pai?</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>(<em>Com terror.</em>) Quero-vos muito, minha mãe. Esta vingança, porém, +faz-me susto. Não sei que pressentimento me diz que esta vingança me hade matar +a mim tambem.</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>Susto! tens susto de vingar a morte de teu pai!? Não te creio, meu filho, +porque respeito, em ti, o chefe da nossa familia. É hoje o dia da vingança, +Mendo, uma vingança cruel, tremenda, publica para que todos a saibam. A +vingança é um acto horrendo e criminoso; mas a honra exige que esse acto se +cumpra.—Foi a ultima vontade de teu pai. É no meio do banquete, entre os risos +e os gritos do triumpho, que te espera a victima. (<em>Tirando um punhal.</em>) +Foi esta a arma traidora que serviu ao crime; sobre ella ha ainda o sangue de +teu pai ennegrecido pelo tempo, mas não limpo ainda da deshonra. Guardei-o +sempre como uma reliquia sagrada, para t'a confiar na hora do castigo...</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>O punhal é arma de traidôr; minha mãe, tenho esta espada...</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>E se morresses?... se esse homem te matasse tambem?</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Morria como cavalleiro.<span class="pagenum">{D2. Pg. 54}</span></p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>Quem vingaria teu pai?—Não, Mendo; é com este ferro que o infame deve ser +punido... O assassino de teu pai é...</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Callai-vos... callai-vos...</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>Que tens?</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Tenho medo!</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>Medo?!...</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Se esse bomem fosse?...</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>Quem?</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>O pai da mulher que amo..</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>Morreria... da tua mão receberia a morte.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Minha mãi!</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>É a hora da vingança, meu filho. Quando uma familia nobre, como a nossa, se +acha deshonrada, e offendida pela mão de um traidor, não deve n'ella haver +descanço, nem alegria, em quanto a offensa não fôr castigada, e a sua honra +purificada da nodoa de sangue que lhe apagou o brilho.—O homem que matou teu +pai, Mendo, vive junto de nós, é um dos ricos-homens de D. Affonso Henriques, é +D. Pedro Framariz.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>D. Pedro! Jesus, meu Deus!...—Elle!... não minha mãi, isso não póde +ser.<span class="pagenum">{D2. Pg. 55}</span></p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>Hesitas?</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>O pai de Violante? É um nobre cavalleiro, que tem um logar distincto entre +os cavalleiros mais leaes á patria, entre os mais ardentes defensores da fé.</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>O sangue de teu pai pede sangue, meu filho. D. Pedro matou covardemente D. +Payo Ramires; e tu não podes, não tens direito de trazer essa espada, em quanto +em Portugal poderem dizer de ti: «Aquelle homem desconhece os principios da +honra, porque não vingou ainda a morte de seu pai.»</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Mais tarde; ainda não...</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>Hoje... agora.—Ha dez annos, a esta mesma hora vi eu cravar este punhal no +coração de teu pai... de meu marido.—Foi uma noite horrivel... uma noite de +sangue e infamia!</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Assassino!... eu!...—Minha mãe, a vingança é um crime covarde e miseravel. +Uma lança que se cruza com outra lança em repto leal, á luz do dia, diante de +todos, merece a sympathia de todos; um punhal que nas trevas escorrega +cautelosamente, e se crava frio e silencioso nas carnes de um homem desarmado, +só merece desprezo.</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>A vingança não é crime, quando a exerce um filho sobre o assassino de seu +pai.<span class="pagenum">{D2. Pg. 56}</span></p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>E Violante?...</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>Entre ti e ella ha um cadaver.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Perdoai, minha mãi. Sou fraco de coração. Fallece-me o animo.</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>Mendo, teu pai deixou a sua maldição em herança ao filho, se elle o não +vingasse; e a minha maldição juntar-se-ha á d'elle...</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Que Violante não veja... que não o saiba!</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>Covarde! vês este punhal tincto ainda de sangue, e hezitas, e tremes...</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Não posso... Aquelle anjo!—Pois eu hei de ser odiado por Violante! (<em>Com +muita desesperação.</em>)</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>A honra do nosso nome, e a memoria de teu pai pedem vingança! (<em>Dando o +punhal a D. Mendo, que o recebe com terror</em>) Vinga a morte de teu pai, ou +sê maldicto! (<em>Sáe.</em>)</p> + +<h3>SCENA VI</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>D. Mendo, só</em></p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Meu pai, meu pai, levantae-vos do sepulchro e perdoai... que me salvaes, +que salvaes vosso filho! (<em>Olhando para o punhal.</em>) Este sangue ha de +ser lavado com outro sangue?! Assim o exige<span class="pagenum">{D2. Pg. +57}</span> a honra de uma familia nobre!... Meu pai, se vos basta o sangue de +um homem, dar-vos-hei todo o meu! (<em>Chorando.</em>) Se as lagrimas de um +filho podem lavar a nodoa tremenda d'este ferro, derramarei o meu pranto sobre +elle em quanto viver!... A vingança dura pois mais do que a vida?! O espirito +depois de separado da terra, não perdôa, não esquece tudo?! Pois n'esse mundo +mysterioso e todo espiritual, para aonde as almas vão depois da morte, tambem +ha estas ruins paixões, que teem feito da humanidade um bando de feras? Essas +paixões duram a eternidade? Onde está o descanço, aonde está a paz? Onde existe +o ceu?—Ai! Quem me livra deste martyrio? Quem salva a minha honra? Quem dá +força á minha alma, para que se não perca... para que não renegue a Deus?!</p> + +<h3>SCENA VII</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>D. Mendo e Fr. Bermudo</em></p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Tira da fé a tua força, e não renegarás a Deus. A desgraça é difficil de +supportar; e quando pela primeira vez ella nos entra no coração, parece-nos +impossivel que o coração a possa conter, que o coração não estale.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Salva-me, salva-me... Fr. Bermudo, sei tudo. Violante é filha do assassino +de meu pai. Minha mãi confiou-me uma vingança... que eu não tenho animo de +executar.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Péza-te essa vingança? Dá-ma... que t'a acceito.—É<span +class="pagenum">{D2. Pg. 58}</span> o ultimo sacrificio que faço ás malditas +paixões humanas: faço-o com horror, mas não quero que tu sejas odiado pela +candida Violante. Esse odio matal-a-hia a ella!</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Como te hei de confiar uma vingança que é só minha?</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Eu tambem tenho direito de a tomar para mim.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Porque?!</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Não queiras penetrar o enigma da minha vida. Juro-te que não é deshonra para +ti ceder-me essa vingança.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>E Violante? Já não podemos ser um do outro. É impossível esta união.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Não te disse que Violante não podia ser tua?</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Que hei-de fazer?</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Esquecel-a... se fôr possivel.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Não, não... não posso... não é possivel.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Pobre de ti, que a amas tambem!</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>E ella?... Se morrer, meu Deus!</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>A sua alma é pura... é um anjo, os anjos a esperam...—Que morra ao menos +com o seu amor: que morra, amando-te. Odiar-me-ha a mim... mas que importa? +Esse odio fará mais<span class="pagenum">{D2. Pg. 59}</span> miseravel ainda +quem do mundo só conheceu os amargores. Que importa?</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>(<em>Chorando.</em>) Que padecimento!... Que martyrio!... Maldita a vida, em +que ha tanta dor, e tanta miseria!...—Oh! A minha felicidade, as minhas +esperanças eram um escarneo cruento!... A maldição de meu pai caiu sobre mim, e +tornou arido, e deserto o meu coração!... Deus criou o homem por escarneo...</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>(<em>Pondo-lhe a mão na boca.</em>) Calla-te, não blasfemes.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>(<em>Abatido.</em>) Não... não devo blasfemar porque vou morrer.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Não percas assim o animo, homem.—A alma é infinita nas suas forças, +inexgotavel nas suas consolações: quando parece já extincta de todo, acorda, +toma alento, levanta-se, e fica forte como d'antes.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>A minha morreu de todo!</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Ha homens que teem padecido tanto... muito mais do que tu, e que soffrem +ainda estes tormentos da existencia. Em quanto a alma póde ter amor ou odio, +vive. É a extinção das paixões, que é a morte. O nada é que o espirito não póde +suportar. O homem crê na sua propria immortalidade, porque quando o corpo está +a ponto de destruir-se, a alma ainda conserva o pensamento, e as paixões. Tens +a gloria ainda, Mendo. Tens a fé...<span class="pagenum">{D2. Pg. 60}</span></p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Essa!... Não sei... (<em>Pauza.</em>) Tenho fé, tenho.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Tens um allivio, uma esperança—então bemdicta seja ella.—Deixa-me para mim +essa tua vingança, Mendo. Violante odiar-te-hia, e morreria na desesperação, se +tu lhe assassinasses seu pae.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>(<em>Dando-lhe o punhal.</em>)Ahi tens esse punhal... É um presente +maldicto, esse que te dou.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>(<em>Beijando o punhal.</em>) Este sangue, este sangue!... Oh! Chegou a hora +que já foi tão desejada, e que tão temida é agora! (<em>Á parte.</em>) Terei eu +n'este solemne momento o poder que até hoje me tem falecido?—Irmão, meu +irmão... É por teu filho este sacrificio! Pede a Deus que me dê forças, meu +irmão!</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Que tens?</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>(<em>Tranquillo.</em>) Ámanhã teu pai estará vingado.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Violante!... Violante orphã, só, e desgraçada...—Desgraçado de mim!</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>E eu, maldicto por ella! Vou pedir a Deus que me perdoe, e que me inspire... +Sou fraco, sou um um fraco (<em>Entra para a capella do fundo, e vae ajoelhar +deante do altar</em>).<span class="pagenum">{D2. Pg. 61}</span></p> + +<h3>SCENA VIII</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>D. Mendo, e depois D. Affonso, D. Violante, +D. Pedro Framariz, Damas, e Cavalleiros da Côrte</em></p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>E eu tambem, já nem tenho alento para viver!—Ó minha fé, minha fé, +accende-te nesta alma, para que eu possa supportar este lanço terrivel.</p> + +<h4>D. AFFONSO</h4> + +<p>(<em>Entrando.</em>) D. Mendo Paes, venho cumprir o que vos prometti, no dia +da victoria. (<em>Aos cavalleiros.</em>) Pedimos agora, e obtivemos de D. Pedro +Framariz rico-homem, e filho d'algo do nosso reino, a mão da sua filha D. +Violante, para o muito nobre cavalleiro D. Mendo Paes.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Não posso acceital-a... não posso!... (<em>Cahindo de joelhos.</em>) +Violante!... Perdão!...</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>(<em>Desmaiando.</em>) Mendo!</p> + +<h4>D. AFFONSO</h4> + +<p>O que se oppõe a este casamento, Mendo? O que se oppõe á tua felicidade +agora?</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>(<em>Á porta da capella apontando para o altar.</em>) A vontade do céu.</p> + +<p style="text-align:center;"><strong>FIM DO 3.º ACTO.</strong><span +class="pagenum">{D2. Pg. 62}</span></p> + +<h2>ACTO QUARTO</h2> + +<p class="dcena"><em>A cella de Fr. Bermudo no mosteiro de Mumadona. Alguns +instrumentos de alchimia, livros e pergaminhos etc. Uma porta do lado direito; +outra ao fundo deitando para um pequeno oratorio, em que se vê uma cruz com +toalha; uma janella do lado esquerdo. É noite, uma lampada alumia a +scena.</em></p> + +<h3>SCENA I</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>Frei Bermudo (Só.)</em></p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>(<em>Olhando para o céu pela janella aberta. Ouve-se do interior do theatro +uma harmonia solemne ao longe, fazendo apenas um murmurio brando.</em>) Os +espiritos superiores caminham invisiveis por entre os astros. Accompanham-os +essas harmonias infinitas das constellações, que os sentidos imperfeitos dos +habitantes da terra não podem ouvir, mas que a rasão atrevida ousa advinhar e +comprehender. Caminham pelo céu os espiritos invisiveis, e no seu rapido vôo +vão escrevendo com as estrellas os destinos dos homens. Quem póde lêr +claramente essas phrazes, que duram um instante apenas, que são ephemeras como +a existencia do homem, essas phrazes escriptas n'uma lingua de que os +astrologos conhecem apenas algumas palavras soltas? Quem póde duvidar de que no +ceu se escreve a historia do futuro de cada homem? Quem póde duvidar?... Eu, eu +mesmo duvido. O orgulho talvez seja o creador da astrologia. Pois o homem +merece que<span class="pagenum">{D2. Pg. 63}</span> os espiritos superiores +escrevam o seu destino? O que sabemos nós todos? Sabemos até onde chega a nossa +ignorancia e nada mais.—O homem, em vigilias longas e virtiginosas, gasta a +vida, séca a intelligencia, destróe a fé e a pureza de espirito, mas não +penetra o segredo d'essas palavras, lançadas no céu pelos poderes da natureza. +(<em>Pauza.</em>) Caminha, ó minha pallida estrella, caminha... caminha astro +de funebre agouro; que em breve marcarás a hora mais fatal da minha +existencia.—(<em>Longa pausa; calla-se a orquestra</em>). Hoje maldicto... +hoje serei amaldiçoado por Violante.—Tomei para mim esta tremenda vingança... +heide ser eu o assassino de D. Pedro, do pai de Violante.—Se ao menos esta +vingança podesse apagar da memoria de todos o crime de D. Pedro Framariz, +depois o meu querido Mendo, e a pura Violante podessem ser felizes!—Ai! Que +dôr será a desses desventurados agora que sabem já o tremendo poder que os +separa!... Que vida, que existencia esta minha!... Um abismo... é um abismo a +minha alma! Um abismo onde não houve nunca senão tres paixões... a amizade, a +vingança, o amor. Uma amizade sancta, profunda, unica, exclusiva. Um desejo de +vingança frio, lento, sem enthusiasmo, como se houvera nascido no coração de um +cadaver. Um amor... um amor que pode fazer esquecer a vingança... que pode +esquecer-se a si proprio para só desejar a felicidade d'aquella a quem se +consagra.—Ó Violante... quero-te tanto, que vou buscar o teu odio, para que tu +não odeies o homem que te captivou o coração. (<em>Silencio; ouve-se de novo a +orquestra muito longiquamente até ao fim do monologo.</em>) Se nesses livros, +onde homens orgulhosos escreveram<span class="pagenum">{D2. Pg. 64}</span> o +que elles chamavam a sua sciencia, eu podesse descobrir o segredo de Deus!... +Se eu podesse criar um talisman que subjugasse o destino!... Se eu tivesse pelo +poder do pensamento, e pela grandeza da vontade, força para desfazer o passado! +Ambição!... orgulho!... loucura! O passado não pertence já a nenhum poder, nem +mesmo ao poder infinito de Deus! Quizera ao menos ver um desses espiritos +superiores, para lhe fallar, para saber delle os mysterios do material e do +immaterial... (<em>Com abatimento.</em>) para saber quando ha de acabar este +padecer, esta minha vida.</p> + +<h3>SCENA II</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>Fr. Bermudo e D. Violante</em></p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>(<em>Entrando toda vestida de branco.</em>) Fr. Bermudo.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Um espirito... um anjo... falla... falla...</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Fr. Bermudo, escutae-me.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Violante! aqui!</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Vim para vos pedir a paz... o repouzo, o que só me póde salvar, o que vós só +me podeis dar.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>(<em>Baixo.</em>) Que sinto, meu Deus?... Que dor, e que alegria me +dilaceram aqui o peito?... (<em>Alto.</em>) Dizei, sr.ª D. Violante, que +quereis de mim?<span class="pagenum">{D2. Pg. 65}</span></p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Venho pedir-vos...—Escutai-me. Já sei tudo, conheço o que para sempre me +separa de Mendo. Sei que esse que para mim era a alegria e a vida perdi-o para +sempre... e talvez que nem por elle seja amada já; eu a filha do homem +que...—Horrenda idéa!—Perder uma felicidade tão grande, assim de repente, é +uma dor com que não pode este coração—Fr. Bermudo, sois forte, tendes uma alma +superior a estas fraquezas do mundo... A minha alma não é assim. Uma pobre +mulher, como eu, tem um espirito fraco, e que não pode resistir á dor +extrema...</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Que quereis... que quereis de mim, D. Violante?</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Quero o que não me dareis talvez. Mas estou resolvida... Nada me pode fazer +mudar de resolução, porque não é a vontade que me impelle, é o desalento; não é +a força, é um abatimento desanimador; não é a desesperação é a esperança de +acabar com um martyrio com que não posso.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Assustam-me essas palavras!</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>A vida é impossivel assim.—Fr. Bermudo, estou decidida a morrer.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Violante... Que dizeis?</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Mendo acabou, morreu para mim..—E sem luz, e sem alivio, que vida seria +esta minha!?—Uma existencia nas trevas, sem esperança nem consolação.<span +class="pagenum">{D2. Pg. 66}</span></p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Como tem sido sempre esta minha... Perdão, D. Violante.—Que vos importam a +vós os meus padecimentos?</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>(<em>Com alegria.</em> ) Sabeis o que é uma dôr, dessas que matam? Julgava +encontrar em vós um ente superior aos homens, e tinha medo. Mas agora... posso +fallar-vos da minha dôr, pedir-vos... a morte, que desejo, que espero; porque é +a paz para o coração.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Tende animo, paciencia, resignação; se o mundo se fechou para vós, +ficavam-vos abertas as portas da igreja, onde ha consolações para todos.</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>A oração é consoladora; a fé póde dar allivío ás grandes magoas; mas para +orar é preciso pensar em Deus, para ter fé, é preciso força na alma e eu só +penso em Mendo, e na minha alma não ha senão desalento.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Mendo tambem vos amava muito; e daqui a horas fará voto, na ordem dos +Templarios, de consagrar a vida ao serviço de Jesus-Christo.</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Mendo é homem, tem força no coração. A dôr—bemdicto seja Deus!—não lhe +matou a alma, como a mim.—Olhae, fr. Bermudo, eu já não posso viver, e a morte +não me faz horror, antes a amo, e a desejo. Mas o que me assusta é a dôr; é a +idéa de me sentir rasgar o coração com um ferro, ou ficar dilacerada ao +deitar-me n'um precipicio, que me repugna.—São isto sentimentos<span +class="pagenum">{D2. Pg. 67}</span> que um homem como vós, de coração forte, +não póde comprehender talvez!</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Eu comprehendo, e respeito esses sentimentos.—As obras de Deus, a belleza e +a graça, só a mão sacrilega de um barbaro as póde destruir sem horror.</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Não seria possível alcançar, por um desses venenos que a sciencia tem +descoberto, uma morte, sem dôr, e sem agonia?</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Ha... talvez.</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Fr. Bermudo, é um desses venenos, que eu venho pedir-vos.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Eu... pois eu hei-de dar-vos a morte?</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Não é a morte, é a paz; é o termo desta dor infinita, que me dilacera. Por +piedade dae-me esse veneno... senão, irei buscar a morte n'um precipicio, ou +n'um punhal.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>(<em>Meditando.</em>) Tem rasão... Tendes rasão, Violante. E hei de ser quem +lhe dê a morte... Eu que a amo!</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>(<em>Com horror.</em>) Que dizeis?... Vós!... (<em>Querendo fugir.</em>) +Virgem Maria!</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>(<em>Detendo-a.</em>) Ficae, Violante, ficae.—Este amor é como a vaga +esperança, o suave pressentimento, a doce attração que a alma tem para as +bellezas do ceu.<span class="pagenum">{D2. Pg. 68}</span></p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Não sou eu só a padecer no mundo, meu Deus!—Se esse amor é, como dizeis, +triste, e sem esperança, como é agora a minha existencia, deveis intender, fr. +Bermudo, o padecer, a angustia da minha alma; e não podeis, não deveis +recusar-me o que vos pedi.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>O suicidio é um crime, Violante.</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Antes o suicidio do que renegar a Deus... E esta dor far-me-ha duvidar da +misericordia divina.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Um crime, que Deus, não perdôa, talvez.</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Deus tudo póde perdoar, porque a sua bondade é superior a todos os crimes +dos homens.—Não me deixeis mais tempo neste martyrio! Fr. Bermudo, pela minha +alma, por esse amor, por esse vosso amor, que é tão puro e tão sublime, vos +peço a paz. Quero morrer, sem uma longa, sem uma dolorosa agonia.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>(<em>Dando-lhe um dos frascos que tem sobre a meza.</em>) Aqui tendes um +penhor do amor... do amor, que morreu já.—Agora acabou tudo para nós... acabou +tudo para mim!</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>(<em>Pegando no frasco.</em>) É a paz que me daes... Irei esperar por elle no +ceu!... Deus hade perdoar-me este crime Padre, não reveleis este segredo a +ninguem.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Não.—É meu. (<em>D. Violante vae para sahir.</em>)<span +class="pagenum">{D2. Pg. 69}</span></p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>(<em>Com anciedade.</em>) Violante, não me direis ao menos uma palavra?!</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Deus vos dê o descanço da morte. (<em>Sáe.</em>)</p> + +<h3>SCENA III</h3> + +<h4>FR. BERMUDO <em>(só)</em></h4> + +<p>O descanço da morte...—Porque não tenho eu ousado buscal-o já, para pôr +termo a esta agonia do espirito, em que ando ha dez annos?—Não sei que poder +me prende á vida. É medo... é medo do segredo, que se esconde além do +sepulchro.</p> + +<h3>SCENA IV</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>D. Mendo e Frei Bermudo</em></p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Aqui estou, Fr. Bermudo. Venho já para ficar no convento, até me haver +separado do mundo, professando na ordem dos templarios.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Mendo!... Encontraste?...</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Ninguem. Vim pela porta do campo, para não ser visto. Na igreja está tudo +preparado para a minha profissão, não é verdade? Estou com desejo de professar, +para sentir quebrados todos os laços que me prendem ao mundo. (<em>Pausa</em>) +Ella como ficou? Vistel-a?—Eu fugi porque não podia...<span +class="pagenum">{D2. Pg. 70}</span></p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Está mais socegada já.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Pobre Violante!—El-Rei?</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Mandou elle proprio preparar tudo aqui no mosteiro para a tua profissão.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Disseste-me que Violante estava mais socegada, que já não padecia tanto? +Bemdicto seja Deus. (<em>Pauza.</em>) Ai! quem sabe se ella se esquecerá de +mim!?</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Esquecer-se de ti?!... talvez; se o pensamento tambem morre.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>E se ella me esquecesse, e se amasse outro, que desesperação não seria a +minha!</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>E é assim que este homem paga tanto amor! Duvidando della!</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Que dizes?</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Digo, que não comprehendes o amor, que póde conter um coração de homem; que +não sabes o que é uma paixão, que destroe, que devora a existencia, que está +sempre no fundo da alma, inabalavel e tremenda, dominando o pensamento, matando +o desejo, e seccando a esperança, digo... que não comprehendes esse amor.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Frade, tu amas Violante? Tu...</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Amo-a, sim; mas não receies deste amor, que<span class="pagenum">{D2. Pg. +71}</span> nasceu n'um templo, e irá esconder-se debaixo da terra. Amo-a e +ouso... e sinto alegria em fallar deste amor, porque chegou a hora do +soffrimento, o instante do martyrio.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Fr. Bermudo, amas Violante? Não repitas essas palavras desvairadas...</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Nenhum de nós tem já direito de amar, porque para ti, e para mim este amor é +um crime. (<em>Pausa.</em>) Este meu não, que me salvou a alma... que eu sentia +perder pelo descrer. Quando ao atravessar o deserto, para ir ao Santo Sepulchro +do Redemptor, cahi sobre as areias ardentes, quasi morto pela sede... um anjo +me appareceu e me salvou... Em Violante, encontrei depois a imagem do meu Anjo +Redemptor: é a mesma fronte pallida do anjo é o mesmo sorriso meigo e triste, o +mesmo olhar celeste e candido... a mesma voz... Oh! mas a alma dessa mulher é +mais pura do que os espiritos do ceu Amei-a! Amei Violante.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>(<em>Chorando.</em>) Meu Deus, tende piedade de mim! acabae com esta dôr!... +matae-me!</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Quando a voz da fatalidade, troando nos espaços, pronuncia a sentença, que +nos condemna, devemos escutal-a, e ter resignação.</p> + +<h4>UM MONGE</h4> + +<p>(<em>Apparecendo á porta da esquerda.</em>) Fr. Bermudo, está á porta do +mosteiro uma penitente, que vos deseja fallar.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Conduzi-a aqui, irmão. (<em>O monge sae.</em>) Mendo, vae orar por nós ao +Senhor.<span class="pagenum">{D2. Pg. 72}</span></p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Ficarei ali a fazer penitencia, até que me venham buscar, para ir fazer +profissão na igreja. É tarde já; d'aqui a poucas horas é manhã.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>(<em>Levando-o ao oratorio do fundo.</em>) Espera aqui, em quanto vou saber +o que me quer essa mulher. (<em>D. Mendo entra no Oratorio. Frei Bermudo fecha +a porta.</em>)</p> + +<h3>SCENA V</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>Fr. Bermudo e D. Gontrade</em></p> + +<h4>D. GONTRADE <em>(Coberta com um véo negro.)</em></h4> + +<p>Padre, estás disposto a ouvir a ultima confissão de uma grande peccadora?</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Aquelles que, como eu, se votaram ao serviço de Deus, não negam nunca as +suas consolações aos que padecem. Mas aqui?</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>Se as consolações da religião podem fazer esquecer os remorsos profundos, e +as infinitas saudades, eu preciso dellas já.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Porque me não mandastes chamar, senhora; iria eu, como é do meu dever, ter +comvosco.</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>Saberieis então quem eu sou; e o que vou confessar-vos interessa a honra de +uma familia nobre. Posso dizer-vos o meu crime, mas devo esconder-vos o meu +nome, para que não recaia sobre outros a deshonra, com que esse crime manchou +um nome illustre.—Padre, remorsos ha que não podem ter fim... nem talvez com a +morte...<span class="pagenum">{D2. Pg. 73}</span></p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Com o arrependimento e a fé podem apagar-se da alma muitos pensamentos +tenebrosos; muitos martyrios podem ter fim.</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>Mas Deus perdoará sempre á peccadora, que se arrepende?</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Talvez; que a sua misericordia é infinita.</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>Escutae-me então, padre, e pedi a Deus que seja misericordioso comigo; +porque me sinto morrer, e vou ser julgada no tribunal supremo.</p> + +<h4>FR. BRMUDO</h4> + +<p>(<em>Áparte.</em>) Esta voz!... Esta voz é de D. Gontrade; Que vou eu ouvir, +meu Deus! (<em>Assentando-se.</em>) Dizei.</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>(<em>Ajoelhando.</em>) Dae-me forças Senhor! (<em>Pausa.</em>) Padre, eu era +feliz, quando um nobre cavalleiro de Portugal me offereceu a sua mão, e o seu +nome.—Não se póde amar com mais amor, não se póde querer mais da alma, +sacrificar mais por uma mulher, do que esse homem o fez por mim!! Ouvi como eu +lhe paguei tanto amor! As guerras do Conde D. Henrique com os moiros +chamaram-no para longe de mim: fiquei só em quanto elle peleijava por essas +terras distantes. Passaram mezes, sem que eu houvesse novas de meu marido. Um +dia, estava eu assentada no eirado de minha casa, lancei os olhos ao campo, e +vi vir ao longe um cavalleiro, seguido de muitos homens d'armas, julguei que +fosse elle, e corri a recebel-o. Foi a ultima alegria que tive. Quando o +cavalleiro se aproximou... conheci que não era<span class="pagenum">{D2. Pg. +74}</span> quem eu desejava. Perguntei-lhe, se pelas guerras em que andára vira +meu marido... respondeu-me, que expirára n'um recontro com os moiros, +peleijando como um heroe; assegurou-me que todo o exercito, e elle mais que +todos havia chorado muitos prantos sobre a sua sepultura. Mais de um mez chorei +a morte de meu marido, com uma dôr amarga e sincera. Mas a minha alma era +fraca; não sabia soffrer. Depois do pranto vieram as saudades; depois as +consolações; e depois o amor por esse mesmo homem, que me havia trazido a fatal +nova.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>(<em>Com muita anciedade.</em>) E vosso marido!?</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>(<em>Continuando.</em>) Passei alguns dias no delirio do crime, sem +remorsos, sem arrependimento; por que amava de coração, e julgava ser amada. +Esses dias foram para mim como um sonho, hoje apparecem-me como um espectro.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>E o acordar desse sonho?...</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>N'uma noite, estava eu com esse homem, entregue a esse enlevo d'alma em que +se escondia um crime tremendo, quando ouvi um ruido estranho por toda a casa, +senti, por um pressentimento subito o frio da morte correr-me pelas veias. Era +meu marido que voltava da guerra.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>E então?...</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>Então vi apparecer diante de mim, que havia quasi perdido a razão, um homem +ameaçador, e tremendo, o rosto pallido, os olhos ardentes, a<span +class="pagenum">{D2. Pg. 75}</span> mão armada. Apoderou-se de mim a +vertigem... Ouvi um grito de agonia, que me gelou... e depois, o baque de um +corpo em terra.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> +E esse que morreu, era... + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>Meu marido—Nessa hora consumou-se o meu crime, nessa hora começou o +castigo! O homem, que me enganou, abandonou-me naquella dôr.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>(<em>Levantando-se com horror.</em>) Oh! maldicta de Deus!... estás +maldicta, mulher!...</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>(<em>Levantando-se e deixando cair o veu que lhe esconde o rosto.</em>) Não +é verdade que sou uma mulher miseravel?... Não é verdade que sou maldicta de +Deus? Que a misericordia do Senhor não é bastante para tão negro peccado?...</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Queres alcançar perdão para esse crime?</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>Deus de misericordia!</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Pede primeiro perdão áquelles que offendeste, e que estão nesta hora +padecendo por tua causa. (<em>Abrindo a porta do fundo a que apparece D. +Mendo.</em>) Irmão, perdoas áquella mulher a morte de teu pae?</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Minha mãe...</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>(<em>Caindo por terra.</em>) Meu filho!... perdoa-me.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Perdôo.<span class="pagenum">{D2. Pg. 76}</span></p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Mendo perdoou-te a morte de seu pae; e eu, D. Gontrade, perdôo-te a morte de +meu irmão!</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>Meu filho!... O irmão de meu marido!... (<em>Caindo com a fronte por +terra.</em>) Justiça eterna!</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;"><strong>FIM DO 4.º ACTO.</strong><span +class="pagenum">{D2. Pg. 77}</span></p> + +<h2>ACTO QUINTO</h2> + +<p><span class="dcena"><em>Uma casa vasta, de abobada de volta abatida, +apparencia triste e arruinada. Ao fundo porta em arco, por onde se vê uma parte +de um clausto. Á direita uma porta, á esquerda um grande crucifixo, sobre um +altar de pedra tosca, objectos proprios para uso da igreja. A luz dos primeiros +raios do sol entra já por uma pequena fresta alta, e pelo fundo, mas a scena +está ainda alumiada por dois brandões, seguros por braços de ferro, defronte do +altar.</em></span></p> + +<h3>SCENA I</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>D. Mendo (coberto de armadura, ajoelhado.) Um +templario.</em></p> + +<h4>O TEMPLARIO</h4> + +<p>Daqui a uma hora estará tudo prompto.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>D. Guilherme virá tambem?</p> + +<h4>O TEMPLARIO</h4> + +<p>O grão-mestre dos templarios vem assistir á vossa profissão, D. Mendo.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>E el-rei?</p> + +<h4>O TEMPLARIO</h4> + +<p>El-rei tambem. D. Affonso quer-vos muito; tem mostrado grande interesse por +vós.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Meu bom, meu excellente principe! E fr. Bermudo, esse não póde demorar-se. +Já me vae tardando.</p> + +<h4>O TEMPLARIO</h4> + +<p>Vou á igreja saber em que estado estão os preparativos para logo.<span +class="pagenum">{D2. Pg. 78}</span></p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Pois ide irmão; que eu aqui fico só, a pedir a Deus que me não abandone.</p> + +<h4>O TEMPLARIO</h4> + +<p>Quereis alguma cousa mais?</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Nada. (<em>O Templario sáe.</em>)</p> + +<h3>SCENA II</h3> + +<p style="text-align:center;">D. MENDO (<em>SÓ.</em>) </p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>É manha já, e Fr. Bermudo sem voltar! Sem me trazer uma palavra della para +me dar força! Elle que me prometteu voltar cedo, logo que lhe fallasse! Ama-a, +Fr. Bermudo tambem a ama! Quem sabe se nesta hora mesmo de suprema dor, elle +ainda tem ciume dos seus prantos, e m'os quer roubar?!—O sangue delle é o meu +sangue; é o irmão de meu pae; não póde ser traidor.—Para que quero eu mais +ouvir fallar della? Que pode agora haver de commum entre nós ambos? A dor, a +dor que é o mais intimo laço que póde existir entre dois corações que se amam. +Fr. Bermudo não chega, meu Deus; e nem uma palavra consoladora de Violante me +vem dar alento nesta tristeza, nesta solidão do espirito. Fr. Bermudo!... +Violante... oh! estes dois nomes encontram-se ás vezes nesta lide maldita do +meu pensamento, e esse encontro faz-me gelar toda a fé, mata-me toda a força... +Se em mim ha força ainda: que não ha... não ha de certo. Eu já não vivo, que me +senti morrer corpo e alma, quando de todo me vi separado della. Até aquella +agitação<span class="pagenum">{D2. Pg. 79}</span> convulsiva da desesperação +acabou em mim... Já não tenho odio... e nem sei mesmo se ainda tenho amor! +(<em>Pausa.</em>) Morri de todo e para sempre.</p> + +<h3>SCENA III</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>D. Mendo, e fr. Bermudo</em></p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Não percas assim o animo, Mendo.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Bermudo!... E ella?!</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Sempre a mesma.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Tem padecido muito?...</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Tem... muito.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>E tem fallado de mim? Tem-se lembrado... do que já acabou.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>É um anjo, que não sabe senão amar; que não póde esquecer o seu amor.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Olha... diz-me a verdade... que quer ella fazer!</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Não t'o posso dizer... Sei só, que nunca baixou á terra alma, que mais +soubesse sentir, alma capaz de maiores sacrificios!</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Conta-me o que se passou. Vistel-a? Que te disse?</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Quando ha uma hora sai daqui fui logo direito<span class="pagenum">{D2. Pg. +80}</span> á pousada de D. Pedro Framariz. Procurei a aia de Violante, que me +levou ao oratorio, onde esta se fechára... para pedir, o que a todos nós vae +faltando... forças para padecer.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>E Violante estava...</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>De joelhos, pallida, immobil, com os olhos erguidos ao ceu, o corpo dobrado +pelo peso da dor, a boca semi-aberta como se a oração ao sair já fria e sem +alento n'um ultimo suspiro, se lhe houvera petrificado nos labios.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Morta?...</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Morta, não. Violante estava viva ainda; sem dar quasi outro signal de vida, +a não ser o lento baixar dos olhos sobre mim, e o murmurar baixinho das +palavras; n'uma voz suave e angustiosa, Violante perguntou-me o que eu ia alli +fazer? Se eu, se alguem ainda se lembrava della?</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Se me lembrava della?</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Fallei-lhe só de ti, porque só assim me quereria ouvir. Que dor a da pobre +Violante! E não ha, não ha remedio, para dores, como aquellas... Oh! os homens +que teem descoberto tanto segredo da materia, não poderam comprehender ainda +nem um dos mysterios do espirito, não poderam ainda curar nenhuma dessas +enfermidades agudas, a que chamam paixões.—São tudo sonhos, são tudo illusões +na terra; mas sonhos, mas illusões, que matam.<span class="pagenum">{D2. Pg. +81}</span></p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>A desgraça é uma realidade!</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>(<em>Tranquillo</em>). Escuta.—A desgraça é uma provação da alma, que a +deve robustecer; que lhe deve dar essa grandeza, signal da sua immortalidade. É +tempo de voltar para o ceu esses teus pensamentos, que ainda não soubeste +desprender das cousas mundanas.—Daqui a uma hora professarás. É necessário, +filho, que o novo cavalleiro do templo seja digno do seu elevado ministerio, +esteja pela fé á altura destes tempos de dura provação, de lucta permanente +porque a igreja de Christo está passando neste seculo.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Não posso, Fr. Bermudo, parece-me que não posso pensar senão em Violante. +Mas vou ver se pela oração comsigo elevar a minha alma até essas alturas +sublimes, donde se perdem de vista as miserias do mundo. (<em>Vae lentamente +ajoelhar diante do altar.</em>)</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>E se elle conhecesse, como eu, toda a grandeza, da nossa desventura! Se elle +estivesse nesta duvida tremenda, em que o meu espirito vacilla agonisante; ora +persuadido de que cumpria um dever, ora aterrado pelo mais cruel remorso, que +homens tem sentido!—Violante ainda vive, mas daqui a uma hora...—Eu devo ir +arrancar-lhe das mãos aquelle veneno; para que ella não morra! Mas que +importa?... Ella quer morrer, e bem sei que vontades poderosas, resoluções +firmes como a sua não as vence nem a persuasão, nem a força!—Ainda ha pouco +lhe fallei, lhe pedi pelas cousas mais sagradas da terra, e do ceu, pelo amor e +pela<span class="pagenum">{D2. Pg. 82}</span> religião, que não cedesse á +triste tentação que a arrasta, á fascinação que a cega... respondeu-me só que +amava e queria morrer pelo seu amor. (<em>Neste instante entra Violante pela +direita, e aproxima-se de Fr. Bermudo, sem que D. Mendo a veja.</em>)</p> + +<h3>SCENA IV</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>Os mesmos, D. Violante.</em></p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Fr. Bermudo.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Violante!</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Eu não podia morrer sem o ver uma vez ainda... por isso vim. É um instante; +o tempo de lhe dizer que ainda o amo.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Mas agora, se viessem os templarios, os cavalleiros, Violante...</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Em elles vindo, vou-me eu. Não me verão. Ide, Fr. Bermudo, deixae-me um +instante só com Mendo.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>É tornar ainda mais angustiosa esta horrivel separação...</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Eu tenho forças; sinto em mim uma força sobrenatural. Ide—Deixae-nos.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>(<em>Áparte.</em>) Ainda mais esta dor, meu Deus!<span class="pagenum">{D2. +Pg. 83}</span></p> + +<h3>SCENA V</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>D. Violante, D. Mendo—no fim Fr. +Bermudo</em></p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>(<em>Com muita doçura.</em>) Mendo, Mendo... não me sentes aqui, Mendo?</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>(<em>Que escutou um instante a voz de Violante, e depois se voltou +subitamente, e a viu—indo para ella.</em>) Violante! Minha Violante!—Então +esta dor, esta separação, era tudo um engano.—Estás aqui, minha +Violante!!..</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Estou aqui para te dizer adeus para sempre; para te pedir que perdoes...</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Perdoar... o que, o que hei de eu perdoar?</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Fui eu que te fiz infeliz com o meu amor.—Mas não sabia, Mendo, eu não +conhecia essa tenebrosa historia—Perdoa-me... perdoa a meu pae tambem. Eu não +quero, não posso ficar com um remorso destes na consciencia.—Quero morrer em +paz.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Morrer?</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Sim, quando eu morrer, quando for a vontade de Deus que esta minha vida +tenha fim, não quero que venha um pensamento funebre, a idéa de um crime não +perdoado perturbar a minha ultima oração.—Quem sabe se Deus me perdoará?<span +class="pagenum">{D2. Pg. 84}</span></p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Quem te não ha de perdoar? O que ha que perdoar a um anjo tão puro como tu? +</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Mendo, eu bem sei que a honra da tua familia foi offendida: e que ha +offensas que um cavalheiro da tua linhagem não deve deixar sem vingança... É +assim que pensam os homens; mas Deus condemnou a vingança como um crime +abominavel: e tu, Mendo, daqui a pouco vaes professar n'uma ordem, instituida +para servir a Deus.—Mendo, pela religião... e pelo nosso amor que foi deixa-me +fallar-te ainda uma vez desta felicidade que já passou—pelo nosso amor tão +suave para mim, e para ti tambem, Mendo, peço-te por esse amor que perdoes, que +esqueças, que te não vingues do pae da tua Violante.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Violante, eu... sabes como te amei, sabes como te quero ainda; que esta +separação não é angustia só, é a morte para mim!—Escuta, minha Violante.—Não +sei se meu pae me amaldiçoará da sepultura; mas faz-me horror a idéa de odiar +teu pae; e vingar-me delle por minhas mãos, não o hei-de fazer nunca.</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>E perdoas-lhe?</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>(<em>Depois de uma pauza.</em>) Perdôo.</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Bemdicto seja Deus, que me dá esta consolação n'uma tão grande dor?</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Minha mãe é que lhe não perdoa.<span class="pagenum">{D2. Pg. 85}</span></p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Era o teu perdão, que eu desejava, Mendo. Não podia supportar a idéa que, +entre ti e meu pae, se levantasse esse livido e sangrento espectro da +vingança.—E a mim tambem me perdoas? Se ainda, por minha causa, padeceres uma +grande dor, perdoas-me?</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Não te perdôo só, amo-te... hei de amar-te sempre, hei-de de morrer +amando-te.</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Deus não ha de ser menos misericordioso do que tu.—Mendo, ainda havemos de +ser felizes!</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Ai, não póde, isso não póde ser. Felizes, nunca.</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>N'outro tempo, n'outro logar; longe deste tenebroso mundo, muito longe +destas paixões da terra, havemos de ser felizes.—Eu vi, Mendo, esta noute +antevi a nossa felicidade futura.—Era um paraiso. (<em>Ouve-se uma musica de +orgão e um coro, muito ao longe até ao fim da scena.</em>) Um campo todo de +flores maravilhosas, com um perfume inebriante; um lago coberto de diamantes, +de uma serenidade e formosura sem igual no mundo; sobre o lago nuvens, em que o +ouro e a purpura se misturavam com a luz rosada da mais bella aurora; e do ceu +resplandecente, scintilante, baixavam, fluctuando brandamente, anjos que vinham +pousar sobre as graciosas nuvens. Depois, vozes sobrenaturais as vozes dos +anjos em divino coro, pediam a Deus pela nossa felicidade; e o meu e o teu +nome, Mendo, subiam assim até ao throno do Eterno.<span class="pagenum">{D2. +Pg. 86}</span></p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Foi um sonho, e o sonho até se póde realisar.</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Não foi sonho, Mendo, foi uma visão celeste, uma divina promessa. Naquella +hora tudo eram puras alegrias diante de mim; e no meu coração tudo eram orações +fervorosas, e ardentes esperanças.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Que esperanças podemos nós ter ainda?</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Deus quer a nossa união, apesar dos agoiros, das negras paixões, dos crimes, +das vinganças dos homens.—Na terra não podemos ser unidos, sel-o-hemos no ceu! +</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>E quando, quando, minha Violante, terão fim estas angustias do existir? +Violante, amo-te; nesta hora amo-te mais do que nunca te amei. E é agora, que +nos vamos separar para sempre! Esta deve ser a unica vez, que nos vejamos; +estas devem ser as nossas ultimas palavras de amor. Amo-te, amo-te, Violante. +</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>O amor mata, aqui na terra; mas no ceu é a eterna alegria.—Mendo, deixa-me +repetir tambem essas palavras, em que se resume a minha vida toda!—Amo-te, +amo-te.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>(<em>Aparecendo á porta do fundo.</em>) Os cavalleiros do templo já estão +reunidos na igreja.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Violante!</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>Mendo, adeus!—Adeus para sempre!<span class="pagenum">{D2. Pg. 87}</span> +(<em>Cae nos braços de D. Mendo beija-o, e sae correndo pela porta da +direita.</em>) (<em>Ouve-se depois a voz de Violante, já fóra de scena +repetindo, « Adeus!.... adeus!»</em>)—(<em>A musica do orgão acaba logo +depois.</em>)</p> + +<h3>SCENA VI</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>D. Mendo e Fr. Bermudo</em></p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>(<em>Detendo D. Mendo.</em>) Deixa-a ir só.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Quero vel-a... Não me posso separar della ainda.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>De que te serve prolongar por mais tempo esta angustia? O momento mais +doloroso passou para ella, já agora: e daqui a um instante vir-te-hão buscar os +templarios.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Mas deixal-a assim!—Bermudo, aquelle adeus foi um como grito de extrema +dôr, que me aterrou. Naquelle sonho de felicidade, naquellas esperanças de +alegria de Violante, havia não sei o quê de sinistro, como a morte. Naquelle +espirito angelico ha um pensamento de crime, ha naquella alma a presciencia do +remorso.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Deixa-a morrer com o seu sonho do ceu.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Morrer!</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>A morte é o termo do padecer.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Que dizes?<span class="pagenum">{D2. Pg. 88}</span></p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>A alma de Violante é já de um outro mundo, o seu corpo em breve será dos +elementos.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Meu Deus! Que quer isso dizer? Não posso comprehender.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Uma paixão destruiu nella a vida do espirito; e a morte porá em breve termo +à vida corporal.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Pois ella, Violante ousará attentar contra a propria vida?</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>A infeliz não tem força, não tem animo para supportar o seu martyrio. Ella +vê na morte só a paz, e a passagem para um mundo melhor; por que na sua alma +pura, nada lhe faz receiar o eterno julgamento.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Violante morrer!—E como hade ella morrer?</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Hontem, Mendo, a desventurada Violante veio aqui ao convento, e pediu-me, +pelo que para mim existe de mais sagrado, que lhe desse um veneno, para ella +não padecer longas dores na hora do passamento.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>E tu déste-lhe o veneno?</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Dei!.,.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Tu!—a vingança levou-te a um tal crime.—Vingaste-te sobre uma +innocente...<span class="pagenum">{D2. Pg. 89}</span></p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>A vingança... esqueci-a por ella. Tu bem o sabes, Mendo.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>O ciume...</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Um amor como este meu, é como á immensidade do deserto; as tempestades +atravessam-no rugindo medonhas e ferozes, os vulcões ardentes passam revolvendo +as areias, cavando abysmos, cobrindo com montanhas os restos de antigas +cidades; mas toda essa desordem tremenda perde-se, torna-se pequena n'aquelles +espaços infinitos; e depois fica tudo arido, morto, immobil como d'antes.—Oh! +o ciume foi como a tormenta do deserto, passou atravez da immensidade d'este +amor, revolvendo-me o mais intimo do coração, sem que eu mesmo possa ver já as +ruínas que deixou após si. Não foi o ciume, foi a piedade, foi uma grande dor +de coração, um puro e sancto dó d'esse padecer, que a consumia.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Dó! Piedade! E matas-te-la! Corre a salva-la, se ainda é tempo.—Não vás... +vou eu.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>(<em>Detendo-o.</em>) Não, não vás. É uma crueldade. E, de mais, é tarde: +agora já ella terá tomado o inexoravel veneno.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>E se ella está envenenada não haverá meio de a salvar?</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Quando a morte penetra o sanctuario da vida,<span class="pagenum">{D2. Pg. +90}</span> quando estende o poder até sobre a luz do espirito, só um milagre +pode vencer o seu poder.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Palavras... palavras! És um louco, Bermudo, sem coração nem consciencia. +Váe, váe já, e salva-a. Essas palavras insensatas que dizes, não te podem +justificar. És um assassino, Bermudo, se a não salvas. (<em>A D. Gontrade, que +apparece á porta, pallida e cadaverica.</em>)—Oh! Vinde... vinde, minha mãi... +vinde tambem pedir por ella, a este homem, Violante morrerá se elle a não +salva. </p> + +<h3>SCENA VII</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>Os mesmos e D. Gontrade</em></p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>Salva-a!... e a elle tambem! salva-os a ambos fr. Bermudo. É preciso perdoar +tudo, perdoar a todos, para que Deus nos perdoe tambem.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Vós perdoaes, senhora, como eu perdoei já; e não deveis pedir a vida de +Violante, porque a morte é para ella o descanço; a eterna paz.</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>Deixal-a morrer!... Pois que tem ella?! Quem a quer matar?!</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Foi elle, esse homem cruel, esse homem sem coração... foi elle que lhe deu o +veneno... e que a não quer salvar agora.</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>Ide, meu irm... ide, homem; salvae Violante, se ainda é tempo.—Sou eu que +vol-o peço n'esta minha ultima hora (<em>Caindo de joelhos.</em>) +Salvae-a,<span class="pagenum">{D2. Pg. 91}</span> e uni-os um ao outro, estes +dois innocentes, que se amam... Que seja tudo esquecido, porque elle, lá do +tumulo, já perdoou. Vou morrer... Fazei Mendo e Violante felizes. Salva-os pela +minha alma! Salvae-os para que Deus, me perdoe.</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>É tarde. A esta hora talvez, Violante não exista já...—Disseram-no os +astros, e os astros não mentem... (<em>Sáe.</em>)</p> + +<h3>SCENA VIII</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>D. Mendo, e D. Gontrade</em></p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>Meu Deus, piedade!... Salvae-a, senhor!</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Salvae-a!... (<em>Vae para sair.</em>) Oh! Quero vêl-a... Não quero que morra +sem que eu morra tambem com ella!</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>(<em>Levantando-se.</em>) Meu filho, ouvi... escuta-me, meu querido Mendo, +não me deixes agora... não me deixes aqui só: Sinto que vou morrer, e tenho +necessidade de ti... quero beijar-te ainda como quando tu me julgavas +innocente.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>(<em>Segurando-a nos braços'</em>) Que tendes, minha pobre mãi?! Como estaes +palida!... Que martyrio é este meu, Senhor.</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>Não é nada... é a morte... é o descanço se Deus me perdoar. Meu filho, meu +filho, eu cometti um grande crime, mas se tu m'o perdoares,<span +class="pagenum">{D2. Pg. 92}</span> Deus perdoar-me-ha tambem. Perdoa, filho, +perdoa a tua mãi, que vai morrer!</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Vós tambem minha mãi, ides deixar-me! Todos me abandonam!... fico só, só com +esta dor no mundo!</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>Ai, Mendo, se eu visse cumprido antes de expirar o sonho do meu delirio! Que +sonho tão bello, meu Deus! Que vizão consoladora!... Vi-o, a elle, a teu pai, +cercado das glorias infinitas do céo... Não ameaçava já, abençoava... não me +olhava com colera, sorria-se com brandura e piedade! Senti uma alegria infinita +derramar-se no meu espirito... Accompanhava-o um anjo; e disse-me estas +palavras divinas: «Perdoa, como eu te perdôo... Este anjo, é o anjo da guarda +do nosso filho... faz feliz o nosso amado filho, o nosso querido Mendo.» </p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>E o anjo...</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>O anjo era Violante. Violante á o teu anjo da guarda!</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>E o meu anjo deixou-me... para sempre me abandonou o meu anjo da guarda!</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>Na terra, talvez; no céu, não te abandonará de certo.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Vou... Deixai-me-ir, minha mãi. Vou procurar Violante.</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>E deixas-me aqui morrer só!?<span class="pagenum">{D2. Pg. 93}</span></p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Vamos rezar por ella, ao menos—pedir ao céu que nol-a salva. (<em>Cáem +ambos de joelhos.</em>)</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>(<em>Levantando as mãos ao céu.</em>) É esta a minha ultima oração... que ao +menos esta seja ouvida por vós, Senhor!</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Virgem Maria, explendor de eterna gloria, luz que faz desaparecer todas as +trevas do coração, dá azas a minha alma para subir ao teu throno, a pedir-te +vida, vida para ella... Salvae-a, Senhora Nossa! (<em>Ouve-se um coro religioso +entoando o</em> Dies irae) Oh! São os canticos da morte, que respondem a esta +nossa oração, minha mãi!</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>São tremendas aquellas palavras; são palavras que gelam de pavor a quem vai +morrer.</p> + +<h3>SCENA IX</h3> + +<p style="text-align:center;"><em>Os mesmos, os templarios e depois D. +Violante, e Fr. Bermudo</em></p> + +<h4>UM TEMPLARIO</h4> + +<p>É a hora, cavalleiro D. Mendo Paes de vos unirdes á Santa Ordem do Templo, +para nos ajudar a defender, e a fazer adorar por toda a terra a Cruz do +Redemptor.—O mestre dos templarios espera por vós.</p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Esperae; esperae!... ainda não!., ainda não!</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>(<em>Fóra.</em>) Mendo! Mendo!<span class="pagenum">{D2. Pg. 94}</span></p> + +<h4>D. MENDO</h4> + +<p>Violante!... viva! ainda viva!</p> + +<h4>D. VIOLANTE</h4> + +<p>(<em>Caindo nos braços de D. Mendo.</em>) Mendo, aqui estou... sou tua... já +sei tudo! Mendo... estou viva para te amar! (<em>Mostrando fr. Bermudo.</em>) +Salvou-me elle.</p> + +<h4>D. GONTRADE</h4> + +<p>Agora já posso morrer.—Filho... filhos, adeus.</p> + +<p style="text-align:center;">(<em>Cáe por terra Mendo e Violante correm a D. +Gontrade.—Os templarios aproximam-se.</em>)</p> + +<h4>FR. BERMUDO</h4> + +<p>Serão felizes, elles... Só para mim os astros não mentiram.</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;"><strong>Fim do 5.º acto e do drama.</strong><span +class="pagenum">{D2. Pg. 95}</span></p> +<hr> + +<p style="text-align:center;">EDIÇÕES DO ARCHIVO UNIVERSAL</p> + +<p><span class="small-caps">Compendio elementar do sistema metrico</span> e +suas applicações ao commercio, approvado pelo Conselho Superior de Instrucção +Publica, por Carlos José Barreiros—3.ª edição.</p> + +<p>Preço 300 réis.</p> + +<p> </p> + +<p><span class="small-caps">Estudos sobre Higiene, Administração e Legislação +Naval</span>, por J. A. Maia, cirurgião de 1.ª classe da armada,1 vol. de 200 +paginas em 18.º fr. (formato Charpentier) com um plano annexo do brigue +<em>Mondego</em>.— Preço 100 rs.</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;">ESTÁ NO PRELO</p> + +<p><span class="small-caps">Amor de Poeta</span>, drama em verso por J. G. +Lobato Pires.</p> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Theatro de João d'Andrade Corvo - I, by +João de Andrade Corvo + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK THEATRO DE JOAO D'ANDRADE CORVO - I *** + +***** This file should be named 28414-h.htm or 28414-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/8/4/1/28414/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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