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+The Project Gutenberg EBook of Theatro de João d'Andrade Corvo - I, by
+João de Andrade Corvo
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Theatro de João d'Andrade Corvo - I
+ O Alliciador - O Astrologo
+
+Author: João de Andrade Corvo
+
+Release Date: March 26, 2009 [EBook #28414]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK THEATRO DE JOAO D'ANDRADE CORVO - I ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
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+
+
+
+
+ EDIÇÕES
+
+ DO
+
+ ARCHIVO UNIVERSAL
+
+
+
+
+ THEATRO
+
+ DE
+
+ JOÃO D'ANDRADE CORVO
+
+ I
+
+ O ALLICIADOR--O ASTROLOGO
+
+
+
+
+ LISBOA
+ TYPOGRAPHIA UNIVERSAL
+ rua dos Calafates, 113
+ 1859
+
+
+
+
+O ALLICIADOR
+
+DRAMA EM 3 ACTOS, REPRESENTADO NO THEATRO DE D. MARIA II
+
+
+PERSONAGENS
+
+ José Velhaco 30 annos O sr. Theodorico
+ Luiz do Campanario 20 » » Tasso
+ Antonio Prudente 50 » » Epifanio
+ O Vigario 50 » » Domingos
+ Joaquim 40 » » J. Antonio
+ Joanninha 18 » A sr.ª Soller
+ Maria das Dores 60 » » C. Talassi
+
+ A scena passa-se na Madeira em 185...
+
+
+
+
+ACTO PRIMEIRO
+
+_Um campo de vinha. Á direita uma choupana aceiada e grande, cercada de
+hortencias, bannaneiras, e moitas de flores._
+
+
+SCENA I
+
+_Luiz do Campanario e Antonio Prudente_
+
+ANTONIO
+
+(_Sahindo da choupana._) Boas tardes Luiz. Por aqui já a esta hora,
+rapaz? Julgava que só á noite voltarias da cidade.
+
+LUIZ
+
+Agora mesmo cheguei de lá. Eu, só á noite é que contava voltar; mas a
+pescaria depressa se vendeu. Os americanos compraram tudo para a
+esquadra, que hontem chegou ao Funchal. Quando era pela volta do
+meio-dia estavamos livres.
+
+ANTONIO
+
+Abençoados americanos! Navios e esmolas, tudo nos mandam, para nos
+ajudar a viver. Que isto hoje nesta terra, Luiz, só se vive do que nos
+dão por caridade.
+
+LUIZ
+
+Vocemecê tem razão, sr. Antonio Prudente. Vivemos de caridade... da dos
+estrangeiros, que os lá de Portugal esqueceram-se de nós.
+
+ANTONIO
+
+Não se esqueceram, talvez. São pobres como nós, e ahi está. Eu, por mim,
+não quero pensar mal do que sempre me ensinaram a respeitar. Olha, o
+melhor é não fallar em coisas dessas: tenho medo de perder o respeito ao
+senhor governo, o que seria contra os meus costumes antigos. Já estou
+velho para novidades; e como, Deus louvado, tenho para ir passando, esta
+casa, e esta fazenda, que eu fiz por minhas mãos, não quero
+entristecer-me já agora. Tristezas acabam com a gente mais cedo.
+
+LUIZ
+
+É verdade; lá isso é, sr. Antonio.
+
+ANTONIO
+
+Tu tens coisa que te dê pena?
+
+LUIZ
+
+Não, não tenho. Não é nada.
+
+ANTONIO
+
+Tens. Disseste isso como quem sente um pezo sobre o coração.
+
+LUIZ
+
+Tenho a minha mãe velha e doente e eu pobre, e...
+
+ANTONIO
+
+E o que?
+
+LUIZ
+
+Esta pobreza tira-me até as forças para trabalhar, queria ter mais...
+
+ANTONIO
+
+Tens ambição, rapaz? ah! ah! Teu pae era bom homem! Teu pae trabalhou
+toda a vida ali na Lombada, como caseiro do morgado Bittencourt: não
+ganhou nunca senão para cada dia comer uma raiz de-ynhame, ou uma espiga
+de milho, e eu não lhe ouvi fazer dessas queixas contra a pobreza.
+
+LUIZ
+
+Meu pae tinha mais animo do que eu. E depois, a fallar a verdade, tinha
+coizas que o consolassem: tinha em minha mãe uma santa companheira, que
+o ajudava no trabalho; em minha irmã uma boa filha. O morgado velho não
+lhe queria mal, e ajudava-o. A terra então dava vinho; não era como
+hoje, em que tudo parece amaldiçoado aqui na Madeira, em que até se
+mirraram as uvas...
+
+ANTONIO
+
+La nisso tens rasão. Foi praga que cahio sobre nós. Mas para tudo, hade
+Deus dar remedio. Tu tens meio de ganhar a vida, Luiz: não desanimes,
+rapaz.
+
+LUIZ
+
+O que eu tenho é minha mãe abatida e triste, que faz chorar. E de meu,
+tenho a metade das bemfeitorias que meu pae fez, em 20 annos de
+trabalho, ali na fazendinha do morgado Bittencourt; a outra metade
+pertence a minha irmã, que está casada, e cheia de filhos--pobre
+mulher!--E as taes bemfeitorias são coisa tão pouca, que de nada me
+servem, nem acho quem m'as compre. O que me vale é ter ahi logar entre a
+companha de um barco de pesca, senão morriamos de fome, eu e minha mãe.
+
+ANTONIO
+
+Coitado do Luiz! Tens rasão, filho, tens. Eu é que, por ter esta fazenda
+de meu--porque esta é minha, de véras; terra e bemfeitorias--por ter
+esta fazenda, e uma filha que é a alegria e a benção desta casa, pensei
+que todo o mundo era feliz. Deus me não castigue, Deus não faça cair
+sobre Joanninha o castigo desta minha cegueira.
+
+LUIZ
+
+Deus a ampare, á nossa Joanninha.
+
+ANTONIO
+
+Bem o merece. Boa, e bem creada. Pode ser mulher ahi de qualquer
+morgado, a minha filha, não lhe falta nada. Sabe ler, escrever, e até
+bordar. Heide cazal-a com um homem que tenha de seu, para que ella não
+saiba nunca o que é pobreza.
+
+LUIZ
+
+(_Com dor._) Faz... faz bem, sr. Antonio Prudente. Sua filha deve... ser
+feliz com um homem que tenha de seu, que a traga como as meninas lá da
+cidade... que a faça feliz. Mas... mas ainda não está escolhido noivo
+para Joanninha? Vocemece ainda se não decidiu a cazal-a? É cedo...
+Joanninha é muito moça.
+
+ANTONIO
+
+Tem 17 annos feitos. Mas pensar no casamento ainda não pensei. Custa-me
+a separar della.
+
+LUIZ
+
+(_Com alegria._) Então por ora não se casará.
+
+
+SCENA II
+
+_Os mesmos e Joanninha_
+
+JOANNINHA
+
+(_Correndo para Antonio._) Não se casará por ora, nem casará em quanto
+não tiver noivo do seu gosto.
+
+LUIZ
+
+Joanninha!
+
+ANTONIO
+
+Estavas ahi, filha?
+
+JOANNINHA
+
+Estive a dar de comer aos meus pombos, coitadinhos, e agora vinha para o
+acompanhar, pae, lá abaixo á Fajã; para o ajudar no que for necessario.
+
+ANTONIO
+
+Ora aqui teem o que se chama uma boa rapariga.
+
+JOANNINHA
+
+Sou muito sua amiga, pae; e por isso me não quero casar, nem ir para
+longe desta freguezia, onde nasci e me criei (_Olhando para Luiz._)
+Tenho aqui todos, e tudo de que eu gosto.
+
+ANTONIO
+
+Esses amores hão de te passar. Outros os farão esquecer.
+
+JOANNINHA
+
+Não se diga que me heide esquecer do amor que tenho a meu pae... e
+áquelles com quem vivi sempre. Não heide perdoar a quem o disser. (_Com
+tristesa._) Se os outros se esquecerem, hei de lembrar-me eu.
+
+LUIZ
+
+Ninguem tem coração para se esquecer de ti, Joanninha.
+
+JOANNINHA
+
+Assim será. Mas meu pae diz, que pelos amores novos se esquecem os Antigos.
+
+LUIZ
+
+A mim parece-me que antes perderia a vida, antes poria a minha alma em
+peccado mortal, do que perder da lembrança os dias em que brincámos ahi,
+á sombra dos castanheiros.
+
+ANTONIO
+
+(_Com inquietação._) Está bom, está bom. Lá estão vocês a dizerem-se
+finezas, que me parecem dois senhores da cidade.
+
+JOANNINHA
+
+Então a verdade porque se não hade dizer, pae? Elle pensa aquillo que
+diz, faz bem em o dizer. Fomos creados um com o outro, e a sr.ª Maria
+das Dores, a mãe do Luiz, serviu-me de mãe a mim. É como se fossemos
+irmãos.
+
+LUIZ
+
+Irmãos!... irmãos sim. (_Commovido._) E o que mais me custa, é
+separar-me de ti...
+
+JOANNINHA
+
+(_Assustada._) Que separação é essa? Vaes deixar-nos?
+
+LUIZ
+
+Talvez... Parece-me que irei ahi, a bordo de um navio, fazer uma
+viagem... Fallaram-me em ir marinheiro n'um navio que sae...
+
+JOANNINHA
+
+Para onde?
+
+LUIZ
+
+Para longe. Ainda não sei.
+
+JOANNINHA
+
+Não vás.
+
+ANTONIO
+
+Então porque não hade ir? É tentar fortuna. Uma viagem ao Brasil,
+talvez. Ir e voltar. Faz muito bem o nosso Luiz.
+
+JOANNINHA
+
+E a tia Maria das Dores, a mãe de Luiz, coitada?... E todos nós?
+
+LUIZ
+
+Se eu me for... minha mãe fica em casa de minha irmã.
+
+JOANNINHA
+
+(_Com as lagrima nos olhos._) Não pode ser. Assim não vae isto bem. Tua
+mãe está velha... e sem ti estalla de pena.
+
+LUIZ
+
+Esta vida de barqueiro, de pescador, é vida miseravel, e sem esperança.
+Lutar com o mar, arriscar a vida nos temporaes, andando por entre essas
+rochas quando o tempo está de lavadia, e não passar nunca de ser um
+pobre, vivendo de mizeria; um desgraçado a quem os ricos fazem esmola,
+quando lhe pagam o seu trabalho; passar a vida inteira neste penar, isso
+é que o coração cá dentro não me soffre.
+
+JOANNINHA
+
+E queres?
+
+LUIZ
+
+Quero ir por esse mar fóra, por esse mundo de Christo a tentar fortuna.
+
+JOANNINHA
+
+E se morreres?...
+
+LUIZ
+
+Sempre hade haver agua no mar para de uma vez me mergulharem; ou uma
+pouca de terra para me deitarem por cima.
+
+JOANNINHA
+
+Jesus! Misericordia! Que cousas dizes! Chego a tomar-te raiva quando te
+ouço fallar assim, (_Chorando._) Não vês que me fazes pena quando dizes
+dessas doidices?!
+
+LUIZ
+
+Não é para te fazer pena...
+
+ANTONIO
+
+É verdade. Elle faz o que deve. O homem pode morrer no mar ou em terra,
+e em morrendo acabou-se. Tambem eu heide...
+
+JOANNINHA
+
+Se continua, pae, a fallar nessas cousas, vou-me, fujo, caso-me...
+
+LUIZ
+
+Não se torna mais a fallar em tristezas. Se for, heide voltar. Assim
+como aqui o sr. Antonio fez, pelo seu trabalho, desta terra, que era um
+mato maninho, uma fazenda que faz gosto aos olhos verem-n'a, tambem, eu
+heide da minha barca fazer um navio bonito, como o «Galgo.» Que isto da
+gente ter vontade, cá de dentro, de fazer uma cousa, é meio caminho
+andado para a conseguir. E, se não, vejam o que succedeu ao José
+Velhaco. Ha menos de um anno pobre como eu, e agora com grilhões de
+oiro, e relogio, e dinheiro, que é um pasmar. Foi a Demerara, e voltou
+rico. Fortunas!
+
+ANTONIO
+
+O José Velhaco foi a Demerara, e voltou rico. Fortunas, dizes bem.
+Outros lá vão, e por lá ficam.
+
+LUIZ
+
+Morre-se por lá como por cá. Mas aquillo é terra para fazer fortuna. Não
+foi só o José Velhaco que voltou rico. Ahi estão na Madeira
+mais de meia duzia, a quem succedeu o mesmo.
+
+ANTONIO
+
+Não te deixes enganar com as apparencias. O sr. Vigario ainda outro dia
+me disse, que esses que veem ricos de Demerara são isca para apanhar os
+passaros.
+
+LUIZ
+
+Talvez. O que for soará.
+
+ANTONIO
+
+Toma os conselhos, que são de quem tem já cabellos brancos. Não te
+deixes enganar com as apparencias.--Vamos, Joanninha, vamos até á Fajã,
+antes que se faça mais tarde. (Sae.)
+
+JOANNINHA
+
+Adeus Luiz.
+
+
+SCENA III
+
+_Luiz e Joanninha._
+
+LUIZ
+
+(_Detendo-a._) Uma palavra, Joanninha.
+
+JOANNINHA
+
+Que me queres?
+
+LUIZ
+
+Tenho que te dizer.
+
+JOANNINHA
+
+Mas agora! Meu pae espera-me...
+
+LUIZ
+
+Diz-lhe que já vais ter com elle. Eu preciso fallar-te.
+
+JOANNINHA
+
+Virgem Maria! que susto me estás mettendo! (_Aos bastidores._) Ahi vou
+já, pae, esqueceu-me uma coisa em casa: já vou lá ter, n'um
+instante.
+
+LUIZ
+
+(_De dentro._) Pois eu cá vou andando.
+
+JOANNINHA
+
+(_A Luiz._) Diz agora o que queres de mim.
+
+LUIZ
+
+Ouve, Joanninha. Tu lembras-te que sempre vivemos juntos; que de
+pequenos andámos sempre um com o outro por essas serras; que se não
+passou até hoje uma semana em que nos não vissemos?
+
+JOANNINHA
+
+Lembro-me.
+
+LUIZ
+
+Não te esqueceu ainda aquella manhã, em que fomos juntos ao Paul da
+serra, e levados, não sei por que alegria que vinha cá de dentro,
+apanhando flores de urze, e brincando, chegámos até ao Rabaçal?
+
+JOANNINHA
+
+Não me esqueci dessa alegre manhã. No Rabaçal a agua saltava do alto da
+serra, e depois espalhava-se em gotas de chuva, que brilhavam ao sol
+como estrellas, e vinham cair até onde nós estavamos sentados: de baixo
+daquelle grande til que nasce da rocha. Eu senti nesse dia o que não
+tinha sentido nunca: não sei se alegria se tristeza.. O coração batia-me
+como eu nunca o senti bater.
+
+LUIZ
+
+Tinhas então 15 annos, e eu 20. Foi ha 2 annos. Desde esse dia, nunca
+mais andámos sós, um com o outro pela serra.
+
+JOANNINHA
+
+Mas, desde esse dia, quasi que se não tem passado um só sem nos
+vermos.
+
+LUIZ
+
+Joanninha, de tudo te lembras. Agora já te posso fallar com menos susto.
+
+JOANNINHA
+
+Para que me lembras-te essas coisas todas? O que tem isso com a pergunta
+que me querias fazer?
+
+LUIZ
+
+Olha, Joanninha, não é facil a gente dizer tudo quanto quer; porque,
+emfim, o sentir não depende da vontade, e as palavras não chegam para
+dizer tudo.
+
+JOANNINHA
+
+Mas... o que querias dizer-me?
+
+LUIZ
+
+Não te pões mal commigo, não é verdade?
+
+JOANNINHA
+
+Porque?
+
+LUIZ
+
+Talvez seja esta a ultima vez que te vejo. Esse tempo, em que nos
+podiamos ver todos os dias, passou.
+
+JOANNINHA
+
+Então partes breve?
+
+LUIZ
+
+Hoje mesmo.
+
+JOANNINHA
+
+Deus me acuda! Hoje!
+
+LUIZ
+
+Hoje me vou.
+
+JOANNINHA
+
+Não pode ser. Não disseste nada a meu pae.
+
+LUIZ
+
+Nem lh'o digas tu. É segredo a minha partida, não quero que minha mãe
+saiba. A ti tambem não queria dizer nada, mas faltou-me o
+animo...
+
+JOANNINHA
+
+Ah! Luiz, em tu me faltando... ficam sem luz os meus olhos, e sem
+alegria o coração.
+
+LUIZ
+
+Eu tambem me vou e bem triste, Joanninha. Mas que queres? Quem é pobre,
+nasceu para padecer. É preciso fazer esta viagem para depois poder... se
+tu me não disseres que não, Joanninha--para poder...
+
+JOANNINHA
+
+O que?
+
+LUIZ
+
+Pedir a teu pae, que sejas minha mulher. Se não disseres que não.
+
+JOANNINHA
+
+Não digo, não te digo que não.
+
+LUIZ
+
+E promettes esperar que eu volte... tendo bastante de meu, para que teu
+pae consinta no casamento?
+
+JOANNINHA
+
+Se agora mesmo lhe pedisses, meu pae consentiria.
+
+LUIZ
+
+Não. Teu pae criou-te para seres rica, deu-te uma criação como a das
+senhoras da cidade; e não quer que te cases com um pobre, como eu sou.
+Ainda ha pouco elle m'o disse, aqui mesmo.
+
+JOANNINHA
+
+Só comtigo, Luiz, só comtigo me heide casar.
+
+LUIZ
+
+Já vou mais consolado: com mais animo para trabalhar, para me arriscar
+aos perigos.
+
+JOANNINHA
+
+Não te arrisques. Lembra-te de tua mãe... de mim, que morro se tu morreres.
+
+LUIZ
+
+Não chores, minha querida Joanninha. A Senhora do Monte hade
+proteger-me, e eu heide voltar.
+
+JOANNINHA
+
+Prometto uma novena á Senhora do Monte, e muitas flores no dia da sua
+festa, se tu voltares cedo.
+
+LUIZ
+
+Agora... Joanninha... adeus... adeus!
+
+JOANNINHA
+
+Não te demores muito, Luiz. Volta, porque me deixas em cuidados...
+ralada de saudades.
+
+LUIZ
+
+Um abraço de despedida. (_Caem nos braços um do outro._)
+
+AMBOS
+
+Adeus! Adeus! (_Joanninha sae._)
+
+
+SCENA IV
+
+LUIZ _só_.
+
+Joanninha! Não sei como tive animo para a deixar ir... como tenho alma
+para sair da minha terra, onde ella vive... onde me fica amando.--E
+voltarei?... tantos lá teem ficado! Se uns morrem outros voltam ricos; e
+eu, pobre como sou, nunca heide casar-me com Joanninha.--As orações
+daquella santa rapariga ha de Deus ouvil-as, e basta.--Quem se não
+arriscou não perdeu nem ganhou.
+
+
+SCENA V
+
+_Luiz e Jozé Velhaco_
+
+JOZE
+
+Santa palavra, Luiz, santa palavra que nem todos intendem, e que é
+preciosa para os que a sabem. Eu, se não soubesse esse rifão de côr e
+salteado, estava a esta hora com um sacho na mão a sachar milho na
+fazenda d'um morgado, que, no fim de contas, me ficaria com metade do
+producto da minha labutação. O morgado que nasceu rico--isto é um modo
+de dizer--que nasceu dono de terras, e nem sabe nem tem prestimo para as
+cultivar... Ah! ah! o morgado guardaria metade do meu milho, para dar
+aos cavallos... e eu, com a minha metade, nem teria para enganar a fome.
+Santa palavra, rapaz, santa palavra!
+
+LUIZ
+
+Os pobres cazeiros trabalham muito, e padecem muito, Jozé Velhaco. Nisso
+tens tu rasão.
+
+JOZE
+
+Tenho, e não me heide cançar de prégar estas verdades. Os cazeiros, nós,
+os villões, trabalhamos, e os morgados comem os nossos fructos e bebem o
+nosso vinho. Estão sempre aqui a fallar em que nós, os que vamos a
+Demerara procurar fortuna, largamos a nossa terra para irmos ser
+escravos dos inglezes, para sermos escravos brancos! E aqui, nesta terra
+dos morgados, o que somos nós senão escravos? Ao menos, lá por essas
+terras dos inglezes, um homem activo, tendo cá fogo de dentro como eu, e
+como tu, meu Luiz, faz fortuna, faz-se rico como um morgado... mais do
+que um morgado, porque não deve nada a ninguem. Ah! ah! santa palavra!
+
+LUIZ
+
+Isso são sortes. Uns enriquecem, e outros por lá ficam, mortos ou escravos.
+
+JOZE
+
+Qual historia! Pois um homem vae d'aqui, e recebe logo trinta patacas...
+como tu recebeste hontem. Em! Trinta patacas é uma boa conta.
+
+LUIZ
+
+É, é. Vinte ahi ficam para minha mãe; e as outras dez gastam-se na viagem.
+
+JOZE
+
+Que importa? Chegas lá, trabalhas um... um tempo para pagar a divida, e
+a comida que te dão cada dia... e depois principias a ganhar por tua conta.
+
+LUIZ
+
+Mas esse tempo quanto dura?
+
+JOZE
+
+Conforme... sim, é conforme. Para uns dura mais, para outros menos. É
+segundo as forças de cada um. Mas tu bem vês: aqui é que se não faz
+nada. Trabalha-se a vida inteira, a arrancar mato da serra, e levantar
+muros, a plantar arvores e vinha, a formar uma fazenda, e no fim fica a
+gente sem ter nada; porque a terra é dos morgados, e as bemfeitorias
+ficam agarradas á terra, donde se não podem arrancar.
+
+LUIZ
+
+Que de coisas tu sabes agora!
+
+JOZE
+
+É porque vivi lá por Demerara com muita gente de tino, e aprendi muito.
+Aquillo é que é terra, homem! Campos que é um gosto vel-os.
+Como estes aqui da Madeira, mas maiores. E na cidade? Ganha-se dinheiro
+que é um louvar a Deus!
+
+LUIZ
+
+Mas as febres?
+
+JOZE
+
+Quaes febres! Ha por lá umas doencitas, que levam a gente ás vezes, mas
+não é coisa que se veja: nada, nem se dá por tal. E, depois, se por lá
+se morre de febre, por cá morre-se de mizeria, que ainda é peior. Tu
+tens medo de morrer?
+
+LUIZ
+
+Eu!...
+
+JOZE
+
+Bem sei que não tens medo. Vaes á pesca em dias de temporal, quando os
+outros pescadores se metem em caza. Em a gente sendo animoso nem as
+doenças lhe chegam. Santa palavra! Olha para mim. Tu bem sabes que eu
+sou animoso, valente...
+
+LUIZ
+
+Serás; talvez o sejas. Ganhaste isso em Demerara?
+
+JOZE
+
+Pois eu não sou?... Não fui sempre?...
+
+LUIZ
+
+Um armazem de pancadas, quando eras mais novo. Todos te davam; e tu não
+fizeste nunca senão levar e calar.
+
+JOZE
+
+Hum! Bem vês que eu era... que tinha bom coração, e não queria fazer mal
+ao proximo. E a prova é, que já me esqueci de tudo que os
+rapazes aqui da freguezia me fizeram, e que tenho mandado um pár delles
+para Demerara... a buscar fortuna. Pagar o mál com o bem, é de um homem
+como se quer. Tu mesmo, Luiz, agora me lembro, tu mesmo deitaste-me um
+dia na Ribeira Brava, dentro d'agua; porque eu te tinha tirado um pedaço
+de ynhame cozido... e eu tinha fome. Agora vou-te fazer rico, para teres
+fato fino, como este meu, relogio, cordão de oiro, e muito dinheiro...
+para te tinirem as algibeiras, como a mim. Hem!
+
+LUIZ
+
+Serás, serás bom rapaz, agora, mas animoso... Deixemos isso, e vamos ao
+que importa. Joze, eu vou para Demerara; foste quem me resolveu a ir.
+Minha mãe, pobre velhinha, cá fica sem ter mais ninguem senão minha irmã
+que é pobre, e pouco lhe pode valer. Acode-lhe tu, Joze. Que minha mãe
+ao menos tenha um pedaço de pão para matar a fome.
+
+JOZE
+
+Conta comigo.
+
+LUIZ
+
+Outra coisa te queria eu pedir; mas essa...
+
+JOZE
+
+Dize, que eu sou um bom amigo.
+
+LUIZ
+
+Creio que és, sim. Mas tens sido sempre tão fallador, homem...
+
+JOZE
+
+Injustiça no cazo. Eu guardo um segredo como ninguem
+
+LUIZ
+
+Vé lá o que fazes: o que vou dizer é segredo. Gosto muito de
+Joanninha...
+
+JOZE
+
+Ah! ah! Eu já desconfiava disso. Tens bom gosto, que a pequena é
+bonita... e, de mais a mais, vem a ter de seu, em o pae morrendo.--Maganão!
+
+LUIZ
+
+Pobre a queria eu, para me poder já cazar com a minha Joanninha. Emfim,
+se a sorte me ajudar, hei de tambem um dia ter alguma coisa de meu, e
+então a pedirei ao pae.
+
+JOZE
+
+Bem pensado--Mas vamos ao cazo; o que me queres tu?
+
+LUIZ
+
+Quero que procures no correio as minhas cartas, e que as entregues a
+Joanninha, em muito segredo, sem que o pae o saiba.
+
+JOZE
+
+Fia-te em mim. Um amigo vê-se nas occaziões. Santa palavra!
+
+LUIZ
+
+Obrigado, obrigado, Joze. Nunca te poderei pagar o muito que te devo.
+Agora mais um favor.
+
+JOZE
+
+Venha lá mais esse...
+
+LUIZ
+
+É o ultimo, tem paciencia. Esta noite... d'aqui a uma hora talvez, vou
+para bordo, e de lá já não volto, já não torno a fallar com minha mãe.
+Aqui tens vinte patacas, que lhe deixo: tu mesmo lh'as entregarás em mão
+propria.
+
+JOZE
+
+Ahi vem ella. D'ali, da banda da Igreja.
+
+LUIZ
+
+(_Dando-lhe dinheiro._) Pois vou-me, antes que ella chegue;
+não tenho cá dentro força, para lhe fallar agora. Dize-lhe que fui no
+bote fazer um frete até ao Funchal. Amanhã lhe contarás a verdade.
+Adeus, Joze. Não te esqueças do promettido. (_Estendendo os braços para
+o lado donde, vem Maria das Dores._) Mãe, mãe! A tua benção, mãe; para
+que Nossa Senhora me não desampare! (_Sae._)
+
+
+SCENA VI
+
+_José Velhaco, só._
+
+JOZE
+
+Os diabos te levem, para que não voltes mais. Ah! Ah! e deixou-me vinte
+patacas das trinta que recebeu! És tolo, meu Luiz do Campanario. Vinte
+patacas que estão aqui na minha algibeira, com trinta que hei de receber
+ámanhã do bom homem Carlos Bad, honrado negociante de carne branca,
+fazem cincoenta patacas--É barato. Estou roubado. Um escravo preto custa
+muito mais agora, depois que os inglezes se declararam protectores dos
+pretos; e o Luiz vale bem dois negros de Angola--Viva... viva...--como
+lhe chamam elles, os inglezes?--Viva a philan... a philantropia que em
+vez de escravos negros, vae fazendo os brancos escravos. A cor pouco faz
+ao caso; mas escravos ha de havel-os, em quanto houver homens com fome,
+em quanto houver miseria no mundo. Santa palavra! O dinheiro é que é a
+liberdade! Viva o dinheiro!... viva o rei dinheiro!... Irei ficando com
+as vinte patacas do Luiz, em vez de as dar á velha que ahi vem. Só para
+o enterro é que ella precisa de dinheiro, agora.
+
+
+SCENA VII
+
+_José Velhaco e Maria das Dores_
+
+JOZE
+
+Ora salve Deus a sr.ª Maria das Dores.
+
+MARIA
+
+Deus lhe dê muito boas tardes, sr. Joze. Não estava agora aqui o meu
+Luiz?--Pareceu-me vel-o.
+
+JOZE
+
+Estava aqui, mas foi-se, sr.ª Maria. O rapaz anda com a cabeça
+desarranjada, não lhe parece?
+
+MARIA
+
+O rapaz anda triste, porque lhe custa a levar a miseria. Eu bem lhe
+tenho prégado, que é vontade de Deus que assim seja, e que elle se deve
+ir conformando com a vontade de quem tudo póde. Bem velha estou eu, e
+nunca tive na minha vida uma hora talvez, de que se possa diser
+«bensa-te Deus:» pois olhe, assim mesmo com paciencia cá tenho ido
+andando. Se Deus me conservar o meu Luiz, á hora da morte hei de louvar
+a Deus, por me ter mandado a este valle de lagrimas.
+
+JOZE
+
+Aquella falta de humildade, com que o Luiz leva a sua cruz, é peccado,
+diz bem sr.ª Maria.
+
+MARIA
+
+Eu não disse que o meu filho tinha peccado. Nem o disse, nem o
+penso.--Hoje em dia, não sei porque, todos os rapazes querem ser mais do
+que foram seus paes, e por isso tem ido acabando aquelle respeito que
+n'outro tempo havia aos srs. morgados. Em tudo isto anda o dedo de Deus.
+Ou o mundo está para acabar, ou, senão, vae levar tudo uma grande volta.
+
+JOZE
+
+Está muito intendida em politicas, sr.ª Maria das Dores! Tambem lê os
+periodicos?
+
+MARIA
+
+Não leio, não me ensinaram a ler.
+
+JOZE
+
+Dizem por ahi que é bruxa; saberá isso por artes...
+
+MARIA
+
+Calle-se, Joze. Vae-te t'arrenego, hoje é sabbado. De quando em quando
+oiço contar as coisas que se passam por esse mundo ao nosso vigario, e
+fazem-me scismar. Acho rasão ao meu Luiz quando se queixa da sorte, mas
+nunca lh'o digo. Quem trabalha deve ter, ao menos, tanto como quem não
+trabalha mas nasceu morgado. Em quanto não for assim não vae o mundo ás
+direitas.
+
+JOZE
+
+Pois as impaciencias do nosso Luiz hão de lhe dar na cabeça. Agora,
+quando a viu, sr.ª Maria, fugiu; e talvez um dia fuja de todo.
+
+MARIA
+
+Jesus, Santo nome de Jesus! Se elle me deixasse morria. Olhe Joze,
+tem-me morrido todos os meus, pae, mãe, irmãos, e o meu pobre marido, e
+eu fui ficando--Deus sabe para que.--Mas agora, se me faltasse o meu
+Luiz, a isso não resistia.
+
+JOZE
+
+Deve estar preparada para tudo.
+
+MARIA
+
+Porque?
+
+JOZE
+
+Eu não sei nada... ao certo: mas o Luiz tem uma alma independente como a
+minha, senhora Maria--e pode ser que elle um dia faça como eu fiz, que
+vá por esse mundo fóra em busca de fortuna. Ora como nem todos são
+egualmente felizes...
+
+MARIA
+
+Talvez elle por lá fique! Nada, o meu Luiz não se vae, não me deixa.
+
+JOZE
+
+O desejo de ser rico, de se ver bem tratado por esses senhores morgados,
+que lhe chamam agora o _villão_; o desejo de deixar de ser _um villão_
+para ser o sr. Luiz do Campanario, estimado por ter dinheiro,
+comprimentado pelos morgados por lhes poder emprestar algumas patacas;
+este desejo de abater os outros e de se exaltar a si póde muito. O
+dinheiro, sr.ª Maria, levanta os humildes, faz fidalgos os vilões. Ah!
+ah! Santa palavra!
+
+MARIA
+
+Isso são maus sentimentos, que o meu Luiz não tem. Se lhe custa o ser
+pobre é por me não poder fazer feliz a mim, e a todos os seus. O meu
+Luiz é bom, foi sempre bom desde creança. Esses sentimentos de que
+falla, Joze, só os pode ter um mau homem, um homem sem honra e sem
+vergonha.
+
+JOZE
+
+É... será verdade. Um homem sem vergonha... Eu cá sim, eu nunca tive
+sentimentos taes... porque sou...
+
+MARIA
+
+Joze, Joze, sempre teve--desde pequeno que o conheço--propensão para o
+mal. Preguiçoso, e mau, foi-o sempre. Nunca pensei que pelo trabalho
+honrado se fizesse rico; mas em fim assim aconteceu, e como aconteceu,
+Deus o sabe. Sou velha, e hei de diser a verdade. Anda sempre desde que
+veio de Demerara, a metter na cabeça a todos os rapazes, e ás raparigas
+até, que emigrem da Madeira: e quando desapparecem seis ou sete apparece
+o sr. Joze a comprar uma casa ou uma fazenda, ou com mais um cordão de
+oiro ao pescoço. Murmura-se por ahi de tudo isto...
+
+JOZE
+
+Invejosos!
+
+MARIA
+
+Pode ser, talvez. Mas se o meu Luiz se for, é a você que eu ponho as
+culpas.
+
+JOZE
+
+Porque? Pois não podem outros persuadil-o a que emigre?
+
+MARIA
+
+Podem. Mas eu tanto me hei de queixar, que se saberá a verdade. A voz da
+velha Maria das Dores ha de ouvir-se por toda a Madeira, e chegar até
+aos ouvidos de quem governa. Mas não... o meu filho não me deixa.
+
+JOZE
+
+Talvez que não. Adeus sr.ª Maria das Dores, veja se descança, faz-lhe
+mal zangar-se--Ah! ah! ah! Está velha para se zangar assim.
+
+
+SCENA VIII
+
+_Maria das Dores_
+
+MARIA
+
+O meu Luiz não me deixa, não me desampara, eu morria se me visse sem
+elle... Nossa Senhora me livre desta ultima dôr; esta era a ultima,
+porque eu morria. Se tem de acontecer essa desgraça, Deus, me leve antes
+para si (_Vae sentar-se sobre um pedaço de muro, de modo que fica quasi
+escondida por detraz de uma moita_). Ave Maria cheia de graça, o senhor
+é comvosco... (_Continua a murmurar orações._)
+
+
+SCENA IX
+
+_A mesma--Antonio Prudente--O Vigario--Joanninha_
+
+VIGARIO
+
+Tenho gosto em ver os bons resultados da sua labotação, sr. Antonio.
+Fazendas bem amanhadas, as suas fructas excellentes; muita cana de
+assucar, já para substituir o vinho que nos falta, e flores por toda a
+parte para alindar tudo... As flores são aqui da nossa Joanninha, que as
+sabe escolher bonitas como ella.
+
+JOANNINHA
+
+Ora! sr. Vigario.
+
+VIGARIO
+
+Não se envergonhe a menina Joanninha por ser bonita, e gostar de flores.
+Se eu tivesse uma sobrinha, com estas duas qualidades a queria. Mas
+aquelle desmasellado de meu irmão não me quiz dar senão dois sobrinhos,
+paciencia! Elles são ambos bons rapazes; mas o segundo, o Fernando, o
+mais novo, é mesmo uma joia, e eu quero-lhe devéras.
+
+ANTONIO
+
+E merece-o o menino, porque muito bom é.
+
+VIGARIO
+
+Merece muito, mas, como fez o crime de vir ao mundo mais tarde do que o
+outro, ha de ser pobre toda a vida, e o irmão morgado e rico. Esta
+instituição dos morgados foi feita por quem não tinha entranhas de pae,
+nem consciencia de bom christão; e aqui na Madeira, sobre tudo, foi
+estabelecida por quem não entendia nada de agricultura, e não tinha nem
+amor á terra que dá os fructos, nem aos homens que a cultivam. Meu
+irmão, o morgado Bittencourt, não quer escutar estas verdades: mas eu só
+lhes recomendo, a elle, e aos outros morgados, que comparem as fazendas
+livres com as que estão opprimidas pelos vinculos, e que digam, depois
+de verem nas fazendas livres tudo alegre, verde, bem cultivado; e nas
+vinculadas tudo miseravel e coberto de colonos famintos; que digam que
+isto dos morgados não é um absurdo funesto, sustentado apenas por
+vaidades fofas e impios preconceitos.--Este flagello dos vinculos ha de
+acabar, e com elle o outro flagello tambem, a emigração dos madeirenses.
+
+ANTONIO
+
+E quando acabará ella sr. Vigario!?
+
+VIGARIO
+
+Quando a terra fôr de quem trabalha, e não de quem vive na ociosidade e
+na ignorancia: quando uma organisação iniqua da propriedade não affastar
+da inteira posse da terra os caseiros em nome dos vinculos, e os
+morgados em nome das bemfeitorias; quando a justiça fôr a base das leis;
+quando nesta ilha, que a natureza fez um paraizo, acabarem esses restos
+de escravidão, que ainda hoje existem pezando sobre o homem
+do povo e unidos ao nome de _villão_. Os grandes padecimentos do povo
+hão de acabar, quando a instrucção esclarecer o espirito de todos;
+quando no mundo civilisado--porque o mal não existe só aqui na ilha--se
+não soffismar a verdade, e se não confundir a justiça com o interesse;
+quando a religião, a virtude, a liberdade, estiverem acima de tudo.--Mas
+esse tempo, se é que tem de chegar, ainda vem longe. Finje-se hoje
+querer acabar com a escravidão no mundo; assignam-se tratados para
+abolir o trafico dos negros barbaros; e deixa-se que a seducção e a
+miseria arraste os brancos a captiveiro mais cruel.
+
+ANTONIO
+
+V. s.ª tem rasão de certo no que diz. Eu não percebo talvez todo o
+sentido das suas palavras, sr. vigario, mas a consciencia diz-me que são
+verdadeiras.
+
+VIGARIO
+
+O lidar com a natureza esclarece a rasão; e não ha nada que mais luz dê
+ao espirito, do que a probidade e a honradez Antonio Prudente, eu bem
+sei que entende o que lhe disse.
+
+JOANNINHA
+
+A verdade é para todos.
+
+VIGARIO
+
+Bravo! fallou bem a nossa Joanninha, a minha afilhada Joanninha. Fui eu
+que lhe ensinei a ler, a doutrina e tudo, e não perdi o meu tempo.
+
+ANTONIO
+
+O sr. Vigario sempre foi bom para todos, mas para a minha filha...
+deve-lhe tudo...
+
+VIGARIO
+
+Tomára eu tempo para poder ensinar a ler todas as creanças da freguezia.
+Eu entendo que um dos mais santos deveres do padre é instruir e educar
+as creanças. Como lhe ia dizendo ha pouco, Antonio, os males são muitos,
+e a todos é preciso dar remedio prompto. Devéras, em quanto os homens de
+bem cá das aldeias não ajudarem esses senhores politicos de Lisboa a
+fazer as leis, nunca as ha de haver que prestem.
+
+ANTONIO
+
+É o que eu tenho pensado muitas vezes; salvo o respeito devido a quem
+manda.
+
+VIGARIO
+
+Sobre estas emigrações algumas medidas se teem tomado. Expedientes,
+meros expedientes! Prohibe-se aos pobres colonos o embarcarem sem
+passaporte, põe-se um navio de guerra a guardar a ilha, ameaçam-se os
+alliciadores, e no fim de tudo embarca quem quer sem passaporte, o navio
+não guarda nem pode guardar nada, e os aliciadores vivem alegres e
+enriquecem. Não é prohibindo, é concedendo, que se ha de acabar com a
+emigração; não é fechando o povo dentro da ilha, como n'um carcere, é
+dando a liberdade aos homens e á terra, que se ha de combater a febre
+que agita neste momento a ilha. Os que fazem leis só pensam em castigar
+e prohibir. Não basta. É preciso aconselhar e ajudar os pobres a viver;
+é preciso que todos na ilha da Madeira saibam o que padecem os
+desgraçados, que a esperança arrasta a essas terras dos inglezes, em que
+os aguarda a escravidão, onde as febres lhes minam a saude, e a cubiça
+de vis especuladores lhes arranca das mãos o pão, com que
+elles procuram enganar a fome.
+
+JOANNINHA
+
+(_Com susto._) Pois tanto soffrem os que vão a Demerara?
+
+VIGARIO
+
+Muito mais do que se pensa.
+
+ANTONIO
+
+É preciso desenganar o povo; porque todos os dias desapparece d'entre
+nós algum rapaz dos melhores, dos mais trabalhadores e dos mais queridos.
+
+VIGARIO
+
+Ás vezes são familias inteiras; outras, um chefe de familia deixa mulher
+e filhos; e até ha filhos que desamparam seus paes, e isto quando estão
+com os pés na sepultura.
+
+ANTONIO
+
+Agora mesmo tenho eu medo, que um dos bons rapazes da nossa freguezia
+fuja para Demerara, deixando a mãe velha e pobre quasi ao desamparo.
+
+JOANNINHA
+
+E quem é, pae?
+
+ANTONIO
+
+O Luiz do Campanario.
+
+JOANNINHA
+
+Isso não póde ser.
+
+MARIA
+
+(_Levantando-se e vindo á frente da scena._) Não pode ser. O meu Luiz
+não me deixa aqui só: não me pode abandonar agora... quasi á hora da
+morte.
+
+ANTONIO
+
+É uma desconfiança que tenho, e nada mais. Eu não sei...
+
+VIGARIO
+
+Amanhã... esta noite mesmo lhe fallarei; e se elle tem idéas de emigrar,
+tirar-lhas-hei da cabeça.
+
+ANTONIO
+
+Deos o abençoe, sr. Vigario, pelo amor que tem aos pobres. Deos lh'o
+pagará, meu senhor Vigario.
+
+
+SCENA X
+
+_Os mesmos e Joze Velhaco_
+
+JOZE
+
+Sr.ª Maria das Dores... Ah! (_tirando o chapeo._) Boas tardes, sr.
+Vigario. Estou ao seu dispor.
+
+VIGARIO
+
+(_Com mau modo._) Bons tardes, sr. Joze.
+
+JOZE
+
+V. S.ª está zangado, ao que parece.
+
+VIGARIO
+
+Talvez.
+
+JOZE
+
+É que eu... eu trazia uma noticia aqui á tia Maria das Dores...
+
+VIGARIO
+
+Pois dê-lhe a noticia.
+
+MARIA
+
+Diga, homem.
+
+JOZE
+
+Não tenha pressa de saber.
+
+JOANNINHA
+
+Falle, sr. Joze.
+
+JOZE
+
+O Luiz, o seu Luiz, foi-se.
+
+AMBOS
+
+Para onde?
+
+JOZE
+
+Para Demerara.
+
+MARIA
+
+É mentira.
+
+JOANNINHA
+
+Jezus!
+
+JOZE
+
+Não viram hoje um navio a bordejar ao largo? Pois para elle foi, e nelle
+estará a esta hora o nosso Luiz.
+
+MARIA
+
+Como soube...
+
+JOZE
+
+Disseram-mo agora mesmo uns barqueiros, que o viram partir para bordo.
+
+VIGARIO
+
+E não se tratará de acabar por uma vez com esta emigração, que faz horror?
+
+JOZE
+
+Ah! ah! O sr. governo está dormindo ha trinta annos. Quando accordar ha
+de dar remedio a todos os males.
+
+_Cahe o panno._
+
+
+Fim do 1.º acto
+
+
+
+
+ACTO SEGUNDO
+
+_A casa de Antonio Prudente. Porta no fundo, outra porta á esquerda. Á
+direita uma janella._
+
+
+SCENA I
+
+_Antonio Prudente e Joze Velhaco_
+
+JOZE
+
+Veja vmc. se a resolve, sr. Antonio. Eu tenho hoje bastantes terras,
+umas casas na cidade, e andam-me emprestados e a vencer bons juros uns
+poucos de centos de patacas. Para sua filha não me parece que eu seja um
+mau casamento. Ainda sou moço... e com dinheiro, é o mais que uma
+rapariga póde desejar.
+
+ANTONIO
+
+Não sei o que a Joanninha tem contra você, Joze, mas é certo que ella
+fica mal comigo,--olhe que é verdade,--fica mal comigo em eu lhe
+fallando neste casamento. A mim agrada-me, Você é um homem que sabe
+fazer fortuna. Hontem por assim dizer pobre, e hoje rico.
+
+JOZE
+
+Pois ha um anno que ando a pertender este casamento, e elle sem se
+fazer. Agora é tempo de acabar com isto. Está-me parecendo que Joanninha
+não faz já tanta resistencia. Lembre-se que é pae, sr. Antonio, e que
+pode mandar em vez de pedir. É para bem da sua Joanninha. Porque eu
+conheço-me, e vmc. tambem me conhece, ein? conheço-me e sei que poucos
+são capazes, como eu, de fazer feliz uma mulher. Santa palavra!
+
+ANTONIO
+
+Eu não duvido dos seus bons sentimentos, de que venha a ser menos mau
+pae de familia. É certo... é certo--deixe-me dizer o que penso--que
+todos na freguezia o vêem com maus olhos, desde que o Luiz do Campanario
+foi para Demerara; e quando algum rapaz desapparece daqui, dizem
+uns--foi o Joze Velhaco quem o enganou, o Joze Velhaco vendeu-se aos
+inglezes--outros dizem--o Joze Velhaco é bom homem, dá dinheiro aos
+pobres, empresta dinheiro aos morgados, e faz muitas festas a Nossa
+Senhora...
+
+JOZE
+
+E vmc. o que diz?
+
+ANTONIO
+
+Eu acredito nos que dizem bem; mas minha filha so dá credito aos que
+dizem mal.
+
+JOZE
+
+É a velha, a bruxa da Maria das Dores, quem lhe mette essas creancices
+na cabeça. É preciso, sr. Antonio, pôr a excommungada da velha da sua
+casa para fora.
+
+ANTONIO
+
+Isso não faço eu. Pôr fora da minha caza uma pobre velha, que é tão
+desgraçada, uma mulher que serviu de mãe á minha Joanninha! Oh! sr.
+Joze, que eu lhe não ouça dizer outra vez coisas dessas; que, sobre
+tudo, o não saiba a minha filha. Estava desmanchado o casamento, se
+Joanninha tal soubesse!
+
+JOZE
+
+Eu queria... sim, como sei que Joanninha é muito amiga da velha Maria
+das Dores, queria ver... experimentar se vmc. era capaz de ir contra os
+desejos da sua filha. Vmc. bem percebe? Eu não sou muito
+amigo da Maria das Dores; a velha anda por ahi a desacreditar-me; diz
+que fui eu que lhe seduzi o filho, que sou isto, que sou aquillo. Coisas
+que nem eu sei. E quando a gente está innocente, ressente-se destes
+falsos testemunhos.
+
+ANTONIO
+
+Quando se está innocente.
+
+JOZE
+
+Como eu, é verdade, ressente-se a gente. Não fallemos mais nisso, que é
+uma coisa que me faz doer o coração. O que é preciso é que este
+casamento se faça; porque a Joanninha é mesmo uma mulher propria para
+mim: sabe ler, escrever, e é bem creada. Aqui em toda a freguezia não ha
+uma rapariga, que se lhe possa comparar.
+
+ANTONIO
+
+A Joanninha é mesmo uma flor! Ah! ah!
+
+JOZE
+
+Mas, emfim, se vmc. não tem força para governar a sua casa, para fazer
+com que sua filha lhe obedeça, irei a outra parte buscar mulher, com
+quem me case. Não faltará quem me queira. No Funchal talvez ache até
+algum morgado que me dê uma filha. Com dinheiro, nestes tempos, tudo se
+pode alcançar: e eu, em sendo commendador, posso casar com quem eu
+quizer, e ser até deputado, representante da Madeira. Ah! Ah! Ah!
+
+ANTONIO
+
+(_Rindo muito._) Que coisas que não hade dizer o sr. deputado Joze Velhaco!
+
+JOZE
+
+(_Em tom de discurso._) É preciso acabar com este odio á chamada
+escravatura branca: este odio é uma vergonha para a Madeira,
+uma deshonra para a Madeira, uma deshonra para os portuguezes. Esta
+escravatura não é mais do que a liberdade, que todos devem ter de ir
+procurar fortuna a qualquer parte do mundo. Eu mesmo fui enriquecer-me a
+Demerara. E quando os calumniadores me accuzarem, de querer que dure a
+emigração, para ganhar dinheiro com ella, heide gritar com furor. A
+minha vida todos a conhecem, é simples e pura. Todos sabem que ganhei
+honradamente o que tenho, e só almas damnadas me podem levantar falsos
+testemunhos; porque... porque, a innocencia é a innocencia, e os homens
+politicos sabem, melhor do que ninguem, o que é ser innocente, e o que é
+fingir innocencia; porque a moralidade dos politicos...
+
+ANTONIO
+
+Viva! É eloquente, o meu genro, o sr. deputado. E da sua innocencia
+falla muito, e falla bem.
+
+JOZE
+
+Então, decide-se o casamento?
+
+ANTONIO
+
+Está decidido, e hade ser já.
+
+JOZE
+
+Falle a Joanninha.
+
+ANTONIO
+
+Logo, em ella voltando para casa, hade decidir-se o negocio.
+
+JOZE
+
+E ella é quem o hade decidir?
+
+ANTONIO
+
+Não, heide ser eu. Está decidido, e eu logo não faço senão mandar. (_Com
+violencia._)
+
+JOZE
+
+Mandar, sem soffrer observações.
+
+ANTONIO
+
+Como um pai a uma filha desobediente.
+
+JOZE
+
+Bom, bom! Logo venho pelo resultado. (_Sae._)
+
+
+SCENA II
+
+ANTONIO PRUDENTE _só_
+
+É preciso ser severo. Acabou-se; o que custa são as primeiras palavras,
+depois as outras vêem por si. É para bem da minha Joanninha; que hade,
+quando for velha, gostar de ser dona de uma boa propriedade, com terras
+de pão, vinha e pomar. O Joze Velhaco é um rapaz de cabeça, como se
+quer. Hade fazer-se commendador, e tudo mais que elle diz. Fallam por
+ahi mal do Joze; mas não teem razão: elle tem-me provado que de tudo
+está innocente. O padre Vigario tambem não é amigo delle... mas não tem
+razão, não tem. Querem pôr ao pobre do meu genro as culpas, do que
+succede nesta terra. (_Ouve-se a voz de Joanninha cantando_). Ahi vem
+ella, a minha filha. Animo, Antonio Prudente. Vamos; deves-te fazer
+respeitar e obedecer por tua filha.
+
+
+SCENA III
+
+_O mesmo e Joanninha_
+
+ANTONIO
+
+Vens muito alegre, Joanninha.
+
+JOANNINHA
+
+Eu, pae!
+
+ANTONIO
+
+Vinhas a trovar, como se estivesses na festa do Monte.
+
+JOANNINHA
+
+Á Senhora do Monte vinha trovando. Mas é a tristeza e não a alegria que
+me faz cantar.
+
+ANTONIO
+
+(_Perdendo um pouco a severidade._) E diziam as trovas...
+
+JOANNINHA
+
+ Senhora do Monte
+ Trazei-me o meu bem,
+ Com tristezas destas
+ Não pode ninguem.
+
+ Senhora do Monte
+ Trazei-mo depressa,
+ Fazei que o meu noivo
+ De mim não se esqueça.
+
+ Sem elle, alegria
+ E paz eu perdi,
+ Senhora do Monte
+ Trazei-m'o aqui.
+
+ANTONIO
+
+Pois fez-te a vontade a Senhora do Monte. Perto tens o teu noivo.
+
+JOANNINHA
+
+(_Com alegria._) Elle! Pois chegou?
+
+ANTONIO
+
+Ha muito que chegou, e ha muito que te deseja para mulher.
+
+JOANNINHA
+
+Ai! Pae, ainda me torna a fallar nesse Joze, que é a praga desta
+freguezia?
+
+ANTONIO
+
+(_Colerico._) Torno a fallar-te no Joze, mas é pela ultima vez. Quero
+que cases com elle; e não consinto que me digas que não. Hasde obedecer
+a teu pae.
+
+JOANNINHA
+
+N'isso, não.
+
+ANTONIO
+
+Joanna, eu não quero ouvir dizer que não, quando eu mando.
+
+JOANNINHA
+
+Esse homem anda enganando gente, para a vender aos inglezes. Assim diz o
+sr. padre Vigario, e todos...
+
+ANTONIO
+
+É mentira o que dizem delle. Em sendo teu marido, todos se callam logo.
+O meu nome, o nome de Antonio Prudente, é um nome honrado; e ninguem é
+capaz de pensar mal do homem, que fôr marido de minha filha.
+
+JOANNINHA
+
+Meu querido pae, escute-me. Nunca deixou de me fazer a vontade em tudo,
+e agora...
+
+ANTONIO
+
+Muito mal fiz, e muito me arrependo. O mimo é que te perdeu.
+
+JOANNINHA
+
+Se eu tivesse mãe, a ella me havia de queixar...
+
+ANTONIO
+
+Tua mãe, Deos a tenha em gloria, nunca me desobedeceu. Sabia melhor o
+que uma mulher deve a seu marido, do que tu sabes o que uma filha deve a
+seu pae.
+
+JOANNINHA
+
+Antes morrer, antes deitar-me ahi ao mar, do que eu casar-me com tal homem.
+
+ANTONIO
+
+Joanna, não me obrigues a tratar-te como mereces. Eu bem sei quem te
+anda mettendo essas doidices na cabeça, é a velha Maria das Dores. É
+como me paga os beneficios que lhe tenho feito. Mas á velha ponho-a na
+rua, e a ti levo-te á igreja por força para te casares. É demais, é
+demais isto, Joanna.
+
+JOANNINHA
+
+Pae, pelo amor de Deos não me perca.... (_Cae de joelhos._)
+
+ANTONIO
+
+As raparigas não sabem o que querem. Eu para ti ganhei toda essa terra,
+que ahi está ao pé da nossa casa; quero juntar-lhe tudo o que vai d'aqui
+até ao paçal do Vigario. Isto só se póde conseguir casando tu com o Joze
+Velhaco. Fica, um morgado, mesmo! Quero-te rica, Joanna; quando tiveres
+filhos hasde abençoar-me por te ter obrigado a fazer este casamento.
+Choras agora; depois hasde rir.
+
+JOANNINHA
+
+Pae, não me desgrace.
+
+ANTONIO
+
+O casamento hade fazer-se. Já dei a minha palavra, e basta. É callar e
+obedecer. (_Sae commovido, e escondendo as lagrimas._)
+
+
+SCENA IV
+
+_Joanninha, depois Maria das Dores_
+
+JOANNINHA
+
+Pae!.. pae!.. Elle não me dá ouvidos, e eu morro aqui de
+pura dor... que me trespassa o coração.. Santo nome de Jesus, valei-me.
+
+MARIA
+
+(_Entrando._) Joanninha, teu pae saiu agora mesmo daqui zangado, perdido
+de cabeça. Nem sequer me viu! Que tem elle? Que succedeu, que te vejo
+toda chorosa?
+
+JOANNINHA
+
+Estou perdida, tia Maria das Dores... Meu pae já me não parece o mesmo,
+Aquelle Joze Velhaco embruxou-o.
+
+MARIA
+
+Tornou-te a fallar no casamento?
+
+JOANNINHA
+
+Quer meu pae, que o casamento se faça já, sem mais tardar. E nem as
+minhas lagrimas lhe fizeram abalo. Ralhou comigo, e disse-me que elle
+mandava e não queria ser desobedecido.
+
+MARIA
+
+Se não fosse com o Joze, dizia-te Joanninha que o remedio era callar, e
+obedecer. És boa filha, e o Antonio é teu pae. Mas com semelhante homem,
+com um homem mau, infame, não te podes casar.
+
+JOANNINHA
+
+Mas que se hade fazer?
+
+MARIA
+
+Não sei, não sei, mas irei fallar ao sr. Vigario... Elle desconfia do
+Joze Velhaco, fallará a teu pai, e talvez o convença. Só o Antonio é
+quem na freguezia anda illudido com tal homem: Deus lhe perdoe o mal que
+me tem feito, e as lagrimas que me fez chorar. Ai, o meu Luiz, o meu
+Luiz... se ainda será vivo?
+
+JOANNINHA
+
+E sem noticias delle!.. ha um anno que se foi!
+
+MARIA
+
+Nem carta, nem noticias! Se morreria o meu querido filho? Tenho ido umas
+poucas de vezes ao correio do Funchal, e dizem-me sempre que não ha
+cartas, isto quer dizer muito. Devemos estar preparadas para uma grande
+dor, minha Joanninha.
+
+JOANNINHA
+
+Ai, não diga tal.
+
+MARIA
+
+Porque o não heide dizer, se o sinto, se o coração m'o diz... se parece
+que me diz que elle morreu.
+
+JOANNINHA
+
+Se o Luiz morreu, que hei de eu fazer? Elle era o meu noivo; por elle
+prometti esperar. Se elle não voltar, fico toda a vida solteira.
+
+MARIA
+
+Solteira... não pode ser, seria dar um grande desgosto a teu pae, e
+condemnares-te a ti a uma triste solidão. Uma mulher sem filhos anda
+como desamparada neste mundo, é como uma arvore sem fructos nem flores.
+Nós as mulheres viemos a este mundo para cuidar das criancinhas, para
+depois, quando somos velhas, como eu sou, sermos cuidadas e queridas
+pelos filhos que criámos. E eu já não tenho filho! Morreu o meu Luiz. E
+Deos ainda me não chamou para si!
+
+JOANNINHA
+
+Agora, que nem me atrevo já a ter esperança de o tornar a ver, sinto que
+mais lhe quero do que nunca. Para chorar por elle posso viver; mas para
+mulher de outro não.
+
+MARIA
+
+Joanninha, escuta. Ninguem quer mais do que eu ao meu Luiz; sei que elle
+te amava, e que em seres sua esposa estava toda a sua esperança, mas...
+se morreu, de que serve desobedeceres a teu pae... Basta que eu
+soffra... e tu, filha. Que não seja desassocegado no fim da vida o bom
+Antonio Prudente, do qual não houve nunca rasão de queixa.
+
+JOANNINHA
+
+Então quer que eu case com o Joze Velhaco!
+
+MARIA
+
+Com esse não. Mas com outro...
+
+JOANNINHA
+
+E se Luiz não morreu?
+
+MARIA
+
+Que esperança podemos ter? Ha um anno que se foi.
+
+JOANNINHA
+
+Casar-me eu, tia Maria das Dores, e vel-o depois desembarcar ahi! Com
+que cara lhe havia de apparecer?.. e que olhos havia de pôr em meu
+marido! E depois, com o Joze Velhaco me quer meu pae casar; e com elle
+só morta me levarão á igreja.
+
+
+SCENA V
+
+_As mesmas e Joze Velhaco._
+
+JOZE
+
+É essa a sua ultima resolução, menina Joanninha?--(_As duas mulheres dão
+um grito de terror._) Não se assustem, não tenham medo, não sou nenhum
+diabo.
+
+MARIA
+
+Bem o parece!
+
+JOZE
+
+Foi vmc. Maria das Dores, quem ensinou ésta rapariga a desobedecer a seu
+pai? Um dia a justiça hade castigar as bruxas velhas, que andam nesta
+ilha a perder as raparigas honestas.
+
+MARIA
+
+Cal-te... Deos me perdoe! Cal-te!..
+
+JOZE
+
+Pelos seus peccados a castigou Deos. O filho que tinha deixou-a, e lá
+morreu por Demerara, sem se lembrar de sua mãe.
+
+JOANNINHA
+
+Morreu...
+
+JOZE
+
+Sei que morreu; mas pouco importa. Não se perdeu coisa boa.
+
+MARIA
+
+Dizer assim mal do meu Luiz... que elle matou! Se Deos me desse forças!...
+
+JOZE
+
+Matava-me!? Ah! ah! que santa alma a desta velha! E anda semelhante
+mulher sempre a resmungar orações, de pela manhã até á noite! São pragas
+que ella nos roga, a bruxa!
+
+JOANNINHA
+
+Sr. Joze o que se atreve a dizer? Não sabe que a tia Maria das Dores é a
+minha segunda mãe?.. que todos cá na freguezia a respeitam?
+
+JOZE
+
+Sei que, por causa das calumnias, e dos falsos testemunhos que me
+levantou, não me quer a menina Joanninha por marido, e paga com
+ingratidões o grande amor que lhe eu tenho.
+
+JOANNINHA
+
+Amor que mette medo! É homem de ruim alma sr. Joze... de
+ruim alma, e má consciencia!
+
+JOZE
+
+Joanninha! (_Querendo pegar-lhe na mão._) Não se deixe enganar pelas
+mentiras que dizem por ahi de mim... Sempre fui bom rapaz... todos o
+sabem. Se a minha riqueza mette inveja aos outros, que culpa tenho eu?
+
+MARIA
+
+Não faz inveja, faz horror, essa riqueza ganha a vender aos inglezes os
+pobres da Madeira.
+
+JOZE
+
+Calle-se, mulher; senão!..
+
+MARIA
+
+Ameaças agora!
+
+JOZE
+
+Joanninha, não demos ouvidos a esta doida. Fallemos serio do que nos
+importa. Seu pae, Joanninha, quer o nosso casamento; e tem por calumnias
+quanto por ahi se diz de mim. Elle sabe que sou capaz de a fazer feliz.
+
+JOANNINHA
+
+Só atada de mãos e pés irei á igreja, mas lá heide dizer que não...
+quando me deem por marido um homem que aborreço.
+
+JOZE
+
+Joanna, veja o que diz! Seu pae pode obrigal-a...
+
+JOANNINHA
+
+Matar-me é que elle pode.
+
+JOZE
+
+Prende-a uma promessa, bem sei, Joanninha. (_Brandamente._) Fica-lhe bem
+a firmeza: comigo tambem a terá. Mas de que serve teimar nesse amor a um
+homem, que já morreu?
+
+JOANNINHA
+
+Não, não morreu. Não vé que me afflige... que trespassa aquella pobre
+mãe, dizendo isso?
+
+MARIA
+
+Não accredito no que elle diz, é mau homem... mente!
+
+JOZE
+
+Hade ter castigo tanto atrevimento! Insultar com injurias, desacreditar
+com aleives, um cidadão honrado, que tem de seu, que vive com os
+morgados maiores da Madeira!
+
+MARIA
+
+Todos te despresam!
+
+JOZE
+
+(_Levantando a mão com colera._) É de mais. Se te não callas...
+
+JOANNINHA
+
+Que faz Joze? Que se atreve a fazer?
+
+JOZE
+
+Nada... por agora.
+
+JOANNINHA
+
+(_Pegando nas mãos de Maria das Dores._) Venha, Maria das Dores, venha
+minha boa, minha santa mãe!.. Vamo-nos desta casa, que não pode ser, que
+não é a nossa, em quanto semelhante homem aqui estiver.
+
+MARIA
+
+Fizeste-me perder o meu filho; foste que m'o tiraste dos braços para o
+mandar como escravo a Demerara! O meu Luiz morreu... perdi o meu filho,
+e eu d'aqui a dias irei ter com elle. É de lá da cova, escuta bem Joze!
+é da cova, que ambos te amaldiçoamos, para que a tua alma não tenha
+socego, nem o teu corpo descanço, em quanto vivo fores; para que,
+depois da morte, a justiça de Deos te lance nos infernos.
+(_Sáem as duas._)
+
+
+SCENA VI
+
+_Joze, só_
+
+JOZE
+
+Está doida, doida varrida a velha. E eu que ia perdendo a cabeça; como
+se um homem de juizo, e conhecedor do mundo, podesse perder a cabeça
+nestas alturas! Santa palavra! Um homem sempre é um homem, e não faz
+caso de rabugices de bruxas tontas. O que necessito, e vou fazer, é
+gastar umas poucas de patacas, e mettel-a no hospital por doida. Logo vi
+que da mão de Maria das Dores não vinha cousa boa! Tenho de gastar o
+dinheiro que o filho me rendeu, para agora alojar a mãe no hospital, ou
+na cadeia. Vamos fazer calar esta matraca, que me anda sempre a matinar
+os ouvidos. O que importa, em tudo isto, é que a Joanninha consinta no
+casamento. Gosto della, e gosto muito, e nunca pensei que tal podesse
+acontecer-me!. (_Rindo._) Ah! ah! a não ser o bom pedaço de terra, que
+tem o pae, não eras tu meu Joze Velhaco capaz de intender o desasocego,
+em que anda o teu coração! A idéa de tirar do correio todas as cartas,
+que o Luiz escreveu á mãe e á Joanninha, foi famosa! Estão crentes, que
+elle morreu, e a esta hora talvez não estejam enganadas! Graças a Deus
+morre-se depressa em Demerara, quando se trabalha no campo, ao sól, e
+com o estomago vazio; e o Luiz não o havia de traser cheio. Ésta minha
+cabeça é uma grande cabeça, e eu ainda heide de ser coiza
+grande no mundo! Meu pae mandou-me aprender a lêr e a escrever;
+aproveitarei a boa lembrança de quem já lá está na terra da verdade.
+Joanninha hade ser minha, ou não heide chamar-me Joze... Velhaco. Santa
+palavra!
+
+
+SCENA VII.
+
+_Joze Velhaco e Joaquim._
+
+JOAQUIM
+
+(_Batendo á porta._) Ólá, menina Joanninha!
+
+JOZE
+
+Não está cá a menina, saiu.
+
+JOAQUIM
+
+Ah! está ahi vmc. sr. Joze? Eu vinha procurar a Maria das Dores. Tambem
+não está aqui?
+
+JOZE
+
+Esteve, mas foi-se. E que lhe queria você á Maria das Dores?
+
+JOAQUIM
+
+Trazia-lhe um recado de meu amo.
+
+JOZE
+
+Do sr. Vigario?
+
+JOAQUIM
+
+Sim senhor, lá do sr. Vigario é que o recado é: o sr. Vigario quer
+fallar á velha.
+
+JOZE
+
+Para que?
+
+JOAQUIM
+
+Isso não sei eu. Para coiza grande é, porque me disse meu amo que viesse
+correndo.
+
+JOZE
+
+(_Á parte._) Que será? O Vigario em tudo se mette.
+
+(_Alto._) Então não sabe o que o nosso Vigario quer á Maria das Dores?
+Em! Joaquim?
+
+JOAQUIM
+
+Olhe vmc.; eu, verdade, verdade, não sei o que elle tem que lhe dizer;
+mas parece-me...
+
+JOZE
+
+O que?
+
+JOAQUIM
+
+A velha foi outro dia fallar com o sr. Vigario, e esteve mais de uma
+hora só com elle.
+
+JOZE
+
+O que disseram?
+
+JOAQUIM
+
+Não sei. Pois se elles estiveram sós, como havia de saber o que
+disseram? Minha mulher, que é curiosa deveras, lá descobrio que ella
+quer entrar para o azylo dos pobres, no Funchal; e por isso meu amo lhe
+fallou o outro dia á triste da velha, e agora lhe quer fallar outra vez.
+
+JOZE
+
+Hade ser, hade ser isso. (_Á parte._) Fico mais alliviado; já não
+precizo gastar o dinheiro em metter a Maria das Dores no hospital, por
+doida. (_Alto._) Ora, Sr. Joaquim, ja pensou n'aquelle negocio, em que
+outro dia lhe fallei? Está disposto a ir fazer fortuna?
+
+JOAQUIM
+
+Estou velho para tentar fortuna, sr. Joze. Tenho 40 annos feitos.
+
+JOZE
+
+Parece um rapaz de 20, o nosso Joaquim! E depois tem um filho que d'aqui
+a dois dias está um homemzinho, que o póde ajudar.
+
+JOAQUIM
+
+O rapaz não levo eu para Demerara. A mim posso-me arriscar, mas a elle...
+
+JOZE
+
+Olhe sr. Joaquim, que não ha perigo. Tenho vontade de o fazer feliz...
+tenho confiança em você.... conheceu-me de pequeno, e tenho-lhe amizade.
+Não sei se é homem de segredo, sr. Joaquim.
+
+JOAQUIM
+
+Pode fiar-se. Segredo, que oiço, é como se caisse ao mar, ninguem o
+sabe. Para amigos sou um homem como se quer. Sim: lá nisso é
+fallarem-me, e prompto; aqui está o Joaquim ás ordens.
+
+JOZE
+
+Se apparecesse agora um homem, que quizesse fazer-se rico em pouco
+tempo, sem trabalho, havia occasião.
+
+JOAQUIM
+
+Eu quero; oh! se quero.
+
+JOZE
+
+Pois toque, Joaquim; mas jure guardar segredo sobre o que vou dizer.
+
+JOAQUIM
+
+Está promettido.
+
+JOZE
+
+O que vou dizer-lhe é de amigo. Preciza-se de um homem.... você é de
+segredo? Em?
+
+JOAQUIM
+
+Oh! homem, não me conhece ainda?
+
+JOZE
+
+Veja la. Se este segredo se souber, só você o pode ter contado; e ha
+gente de muitas posses, que o quer bem guardado. (_Com um gesto de
+ameaça._) Sempre se póde fazer callar um homem.
+
+JOAQUIM
+
+Bem o intendo. Póde fallar sr. Joze. Não é o medo que me tapa a bocca.
+
+JOZE
+
+(_Assustado._) Então?...
+
+JOAQUIM
+
+(_Rindo._) É... é a amizade, que lhe tenho...
+
+JOZE
+
+Como ia dizendo: preciza-se de uma pessoa que vá a Demerara, homem de
+bom nome, e de influencia por estas freguezias. Você está no caso.
+Caseiro do sr. Vigario, e bem quisto por elle.... é quanto basta.
+
+JOAQUIM
+
+O meu nome, o nome do Joaquim do Vigario, é bem conhecido, ninguem tem
+que lhe dizer.
+
+JOZE
+
+Pois ahi está; é isso mesmo.
+
+JOAQUIM
+
+Então querem que vá a Demerara?
+
+JOZE
+
+Justo. Ir; estar lá um anno a comer e a beber á regalada, e voltar rico.
+
+JOAQUIM
+
+(_Rindo._) Ah! ah! ah! Rico! E como?
+
+JOZE
+
+Comendo, já lho disse. Comendo, dormindo e engordando.
+
+JOAQUIM
+
+Eh! eh! eh! Não me parece feia a historia! Está a mangar commigo sr.
+Joze? Em!
+
+JOZE
+
+Mangar, com o meu amigo Joaquim?! Isso é que não.
+
+JOAQUIM
+
+Eu cá intendo que se dê de comer a um porco, para depois o matar, mas a
+um homem.... Em Demerara comem gente?
+
+JOZE
+
+(_Rindo._) Está doido... Sr. Joaquim. Aquillo é a melhor terra deste mundo.
+
+JOAQUIM
+
+Que querem elles então?
+
+JOZE
+
+Que volte para a Madeira, com dinheiro e saude, e diga depois, como eu,
+que Demerara é um céo aberto; que lá se enriquece á grande, e que um
+homem váe, e volta rico sem lhe custar nada.
+
+JOAQUIM
+
+E isso é assim para todos?
+
+JOZE
+
+Não homem; para os felizes como nós. Pois este mundo fez-se para os
+felizes? Santa palavra!
+
+JOAQUIM
+
+(_Rindo muito._) Agora... agora percebo--Ah! ah!.. É boa! É como quem
+diz um chamariz; querem fazer de mim um chamariz?
+
+JOZE
+
+Ainda bem que nos intendemos. Vai então para Demerara?
+
+JOAQUIM
+
+Para quando a partida?
+
+JOZE
+
+No primeiro navio.
+
+JOAQUIM
+
+Pois amanhã lhe dou a resposta.
+
+JOZE
+
+Mas o segredo?...
+
+JOAQUIM
+
+Está dito.
+
+JOZE
+
+Quer dormir sobre o cazo para depois se decidir?
+
+JOAQUIM
+
+É como diz. Este costume ficou-me de pequeno, dormir sobre todos os
+cazos, e em todos os cazos. Agora vou ao recado do sr. meu amo, vou
+procurar a tia Maria das Dores.
+
+JOZE
+
+Vá, vá. E se poder saber o que o sr. vigario lhe quer, venha-mo contar.
+
+JOAQUIM
+
+Pois sim. Adeus, amigo Joze Velhaco.
+
+JOZE
+
+Adeus. (_Joaquim sáe._)
+
+
+SCENA VIII
+
+_Joze, depois Antonio Prudente_
+
+JOZE
+
+Este é dos nossos. Meu de certo é; porque me hade render bom par de
+patacas. E digam que sou mau! Acabo de fazer a fortuna deste excellente
+pai de familia!--Ahi vem Antonio Prudente. Vamos resolvel-o por uma vez
+a governar a sua casa! (_A Antonio que entra._) Ora já sei, sr. Antonio,
+que a sua Joanninha lhe não quer obedecer.
+
+ANTONIO
+
+Hade obedecer, que lho digo eu. Por tal vergonha não hade passar Antonio
+Prudente.
+
+JOZE
+
+Encontrei-a com a velha, aqui. Disseram-me injurias, insultaram-me. A
+Maria das Dores repetiu-me uma duzia de vezes--ouvi-lho com estes
+ouvidos--repetiu-me, que Joanninha não casaria commigo; que o pae de
+Joanninha era um tolo--perdão sr. Antonio, eu não faço senão
+repetir--que era um tolo, um baboso, e que havia de fazer o que ellas
+quizessem.
+
+ANTONIO
+
+Pois a velha disse isso?.. diante de minha filha? Bem razão tinha, Joze,
+em me aconselhar que a puzesse na rua, á excommungada bruxa! Onde está a
+Maria das Dores, onde está minha filha?
+
+JOZE
+
+Sairam ambas, depois de me carregarem de injurias.
+
+ANTONIO
+
+Um tolo, um baboso, eu! Ou a Joanninha deixa de ser minha filha, ou o
+casamento hade fazer-se já. E para a rua a velha, que nem mais uma vez
+me porá os pés em casa.
+
+JOZE
+
+Nada de violencias, sr. Antonio. Com geito é que as coisas se levam. Com
+sua filha rigor, mas violencia, não. E com a velha nada de injurias... o
+Vigario protege-a.
+
+ANTONIO
+
+E que me importa a mim o Vigario? Não preciso de ninguem.
+
+JOZE
+
+Isso faz-lhe honra, sr. Antonio, mas sempre é bom ser _prudente._
+
+ANTONIO
+
+Hade fallar-se de mim na freguezia. Os paes hão de aprender a castigar
+as filhas desobedientes.
+
+JOZE
+
+Ahi vem ellas, sua filha e a Maria das Dores. Vou-me; porque, se aqui me
+veem, não entram.
+
+ANTONIO
+
+Deixe-as commigo.
+
+JOZE
+
+Tenha moderação... paciencia!
+
+ANTONIO
+
+Deixe-as commigo, já lho disse. (_Joze sae._)
+
+
+SCENA IX
+
+_Antonio Prudente, Maria das Dores e Joanninha_
+
+ANTONIO
+
+Tolo e baboso! chamaram-me assim, minha filha, e a Maria das Dores, que
+me deve tanto! Agora veremos se eu sou homem com quem se brinque. (_Ás
+duas que entram._) Venham ambas que temos que fallar.
+
+JOANNINHA
+
+(_Assustada._) Que quer, pae?
+
+ANTONIO
+
+A ti? já o sabes. Domingo casas, sem falta.
+
+JOANNINHA
+
+Pae... antes morrer.
+
+ANTONIO
+
+Ou casas, ou ponho-te fóra, para nunca mais saber de ti.
+Disseste mal de mim, chamaste nomes injuriosos a teu pai!.. És má filha,
+e só te perdôo se me obedeceres.
+
+JOANNINHA
+
+Eu! nunca lhe faltei ao respeito, pai!
+
+ANTONIO
+
+E não chama ella faltar ao respeito desobedecer-me e chamar-me... tolo.
+
+JOANNINHA
+
+Eu... É falso, é uma falsidade infame.
+
+ANTONIO
+
+Calla-te.
+
+MARIA
+
+Não trate assim sua filha, Antonio. A pobre rapariga, se tem culpa, é de
+chorar.
+
+ANTONIO
+
+Ainda se atreve, Maria das Dores, a entrar nesta casa, e a fallar-me de
+Joanninha! Se ella é desobediente, e má filha, se diz mal de seu pae,
+quem a ensinou foi você, mulher.
+
+MARIA
+
+Que diz, Antonio?
+
+ANTONIO
+
+Foi quem ensinou Joanninha a faltar aos seus deveres; porque dantes era
+boa e docil. Mas isto hade acabar, e já. Nunca mais volte a minha casa,
+nunca mais falle com minha filha...
+
+MARIA
+
+Põe-me fóra da sua casa? A mim, que lhe criei sua filha?..
+
+ANTONIO
+
+É indigna de vir aqui. Anda perdendo as raparigas com maus
+conselhos.
+
+MARIA
+
+(_Chorando._) Perdôo-lhe essas injurias, porque sei quem lhas ensinou.
+
+ANTONIO
+
+Pois julga que Antonio Prudente?...
+
+MARIA
+
+Penso que é bom e justo, e que a preversidade de um malvado, que o
+enganou, o traz assim mudado.
+
+ANTONIO
+
+Não quero que em minha casa se diga mal de quem hade ser meu genro.
+Ponha-se fora mulher. Na rua já!
+
+MARIA
+
+Vou-me embora. Nossa Senhora guarde a pobre Joanninha, e abra os olhos a
+este homem. (_Maria das Dores vai para sair, quando apparece á porta de
+fundo o Vigario._)
+
+
+SCENA X
+
+_Os mesmos e o Vigario_
+
+VIGARIO
+
+(_Detendo Maria das Dores._) Antonio Prudente, que palavras são essas;
+porque o vejo com tanta colera? Porque põe fóra de casa Maria das Dores?
+
+ANTONIO
+
+Anda desinquietando minha filha.
+
+VIGARIO
+
+Desinquietando sua filha!..
+
+ANTONIO
+
+Foi ella que desvairou Joanninha, que de pequena foi sempre temente a
+Deos e obediente a seu pae, e lhe ensinou o atrevimento, e a
+desobediencia!
+
+VIGARIO
+
+Isso é engano, de certo. Anda um crime nisto. Antonio, o seu nome foi
+sempre respeitado; todos até hoje o têem estimado; porque é homem de
+bem, caridozo e justo. Mas, em se sabendo que pôz fóra de casa a mulher
+que criou sua filha, em se sabendo que maltractou uma triste viuva, uma
+desgraçada, velha, doente, quebrada pela dor, e opprimida pela mizeria,
+todos hão de pensar que era falso o conceito, que formavam a seu respeito.
+
+ANTONIO
+
+Sr. Vigario, essas palavras são injurias.
+
+VIGARIO
+
+Não faço injurias, digo verdades.
+
+ANTONIO
+
+Mas não sabe...
+
+VIGARIO
+
+Sei que Maria das Dores sempre foi verdadeira, e que tem soffrido a
+desgraça com a paciencia de uma santa. Maria das Dores, diga-nos a
+verdade, em consciencia fez a este homem a offensa de que elle se queixa?
+
+MARIA
+
+(_Suffocada pelas lagrimas._) Não. Pela vida de meu filho, se elle
+vive... pela sua alma, se Deos o chamou, juro que não.
+
+VIGARIO
+
+Ouvio, Antonio? Um homem, a quem os annos fizeram brancos os cabellos, a
+quem os trabalhos da vida ennobreceram o coração, acaba de se deshonrar,
+pizando aos pés o que ha de mais sagrado no mundo: uma mãe
+desventurada.
+
+ANTONIO
+
+Sr. eu... pensei... acreditei...
+
+VIGARIO
+
+Acreditou uma calumnia. Neste mundo não basta ser passivamente honrado,
+Antonio; a virtude era facil assim. É preciso resistir tambem ás
+seducções dos maus, ter força para fazer justiça a todos, e não obedecer
+ás paixões, que sempre, em todas as idades, se levantam no coração, e
+cegam o espirito.
+
+ANTONIO
+
+Mas minha filha recusa obedecer-me.
+
+VIGARIO
+
+Porque offendeste teu pae, Joanninha?
+
+JOANNINHA
+
+Eu em tudo estou prompta a obedecer a meu pae; mas...
+
+VIGARIO
+
+Mas o que?
+
+JOANNINHA
+
+Casar-me com o Joze Velhaco, isso não. Antes morrer.
+
+ANTONIO
+
+Bem vê, sr. Vigario...
+
+VIGARIO
+
+Vejo que Joanninha é boa filha, e que quer salvar seu pae da
+deshonra.... Recuza casar-se, porque o casamento é impossivel. Uma santa
+rapariga não póde unir-se a um homem depravado: n'uma familia honesta,
+como a de Antonio Prudente, não póde entrar um mizeravel que todos
+desprezam.
+
+ANTONIO
+
+O que diz?
+
+VIGARIO
+
+O que o coração lhe teria dito, se o desejo louco de juntar ás suas
+fazendas mais um pedaço de terra o não cegasse!
+
+JOANNINHA
+
+Nossa Senhora o abençoe pelas verdades que está dizendo!
+
+ANTONIO
+
+(_Com hesitação._) Prometti minha filha ao Joze Velhaco, e a palavra de
+Antonio Prudente é sagrada.
+
+VIGARIO
+
+Deve ser sagrada quando a der a um homem de bem, e quando cumpril-a não
+for sacrificar sua filha.
+
+Antonio, escute-me. Ha no Funchal um pobre pescador, com duas filhas que
+sustenta, e são a sua alegria, a sua força, a benção da sua caza. Esse
+homem saiu uma destas noites passadas, para ir pescar; e quando voltou
+de madrugada achou as portas abertas, e tudo deserto.
+
+JOANNINHA
+
+O que aconteceu?
+
+VIGARIO
+
+Suas filhas tinham sido furtadas. Imagine, Antonio Prudente, a dôr
+d'aquelle pae!
+
+ANTONIO
+
+(_Como arrastado por uma força invizivel._) Ai, se a mim me roubassem a
+minha filha!... acabava de magoa: mas depois de matar com estas mãos
+quem m'a tivesse roubado.
+
+VIGARIO
+
+É pae, Antonio, ainda é pae! Bem se vê.
+
+ANTONIO
+
+O que fez o pescador?
+
+VIGARIO
+
+Lembrou-se de que se negocia na Madeira em escravatura branca;
+lembrou-se, foi Deos que o inspirou! de que ha na terra homens infames
+que enganam seus irmãos. Como o pescador sabia, que mais de uma vez os
+que tem ido a bordo dos navios de emigrados, despedir-se dos parentes,
+ficaram lá contra vontade, e foram para Demerara, occorreu-lhe que
+miseraveis, que praticam horrores d'estes, eram tambem capazes de usar
+de violencia, e de augmentarem assim o numero das suas victimas.
+Lembrou-se de tudo isto, e foi ter com um desses homens.
+
+ANTONIO
+
+E matou-o?
+
+VIGARIO
+
+Não. Disse-lhe estas palavras. «Ou minhas filhas hãode hoje mesmo voltar
+para casa, ou amanhã apparecerás assassinado.»
+
+ANTONIO
+
+E então?
+
+VIGARIO
+
+Horas depois o pobre pae apertava ao coração as duas filhas.
+
+ANTONIO
+
+E quem foi que as roubou?
+
+VIGARIO
+
+Dinheiro, espalhado com mãos largas pelos ricos traficantes de escravos
+brancos, esconde o nome desse homem, mas falla-se...
+
+ANTONIO
+
+De quem?
+
+VIGARIO
+
+Do Joze Velhaco.
+
+ANTONIO
+
+Elle!
+
+VIGARIO
+
+Todos fallam. Já vê, Antonio Prudente, que não póde querer para marido
+de sua filha um homem perdido de reputação.
+
+ANTONIO
+
+Não... sem elle se justificar.
+
+VIGARIO
+
+Sei que é o desejo de fazer sua filha rica e feliz o que o allucina;
+mas, ainda assim, desconheço-o. N'outro tempo, a sua probidade não lhe
+consentia pensar mais um instante em tal casamento, depois de saber o
+que se diz por ahi do Joze Velhaco. Escute o seu coração, e a sua
+consciencia, Antonio, e verá, como eu vejo, que o casamento é impossivel.
+
+ANTONIO
+
+Sr. Vigario... talvez tenha razão: mas, com perdão de v. s.ª sou pae, e
+um pae sabe melhor do que ninguem o que convem a sua filha. Não posso
+faltar á minha palavra, sem saber se o que se diz é mentira ou verdade.
+
+VIGARIO
+
+Nem mais um conselho lhe dou, Antonio, de hoje em diante. Faça o que
+quizer. Sacrifique sua filha, e deshonre-se. (_Vae para sair._)
+
+JOANNINHA
+
+Pae, escute o sr. Vigario.
+
+ANTONIO
+
+(_Commovido._) Não me faça a offensa, sr. Vigario, de me tirar a sua
+amizade. Era um desdoiro para a minha vida, uma dôr d'alma, e uma
+deshonra para estes cabellos brancos. Pelo amor de Deos, perdoe-me!
+
+VIGARIO
+
+Não quero senão o seu bem; e peza-me que me não escute.
+
+ANTONIO
+
+Se permitte, não me dou ainda por desligado. Vou ter com o Joze Velhaco,
+e se não se justificar, se não provar que está innocente, ficará o dito
+por não dito, e não torna a entrar n'esta casa. Mas antes de o condemnar
+é preciso ouvil-o.
+
+VIGARIO
+
+Mas tambem se devem escutar as queixas, e os prantos de uma filha, antes
+de a condemnar por toda a vida. Emfim, Antonio, confio tudo da sua
+probidade, e do muito amor que tem á nossa Joanninha. (_Com brandura._)
+Bem sabe que a vi crescer, que lhe ensinei a ler e a escrever, que lhe
+dei uma educação como no Funchal não se dá ás filhas dos morgados;
+custava-me vel-a casada com um homem, incapaz de a fazer feliz.
+
+ANTONIO
+
+Vou já ter com elle, se o sr. Vigario dá licença.
+
+VIGARIO
+
+Vá depressa.
+
+ANTONIO
+
+V. S.ª perdoa-me alguma má palavra?...
+
+VIGARIO
+
+Não tenho que perdoar, e já esqueci tudo; excepto que Antonio Prudente é
+homem honrado, e hade mostrar-se bom pae.
+
+ANTONIO
+
+(_Beijando a mão do Vigario._) Agradecido, agradecido. (_Sae._)
+
+
+SCENA XI
+
+_Os mesmos, menos Antonio Prudente_
+
+VIGARIO
+
+Joanninha, parece-me que pódes socegar. Este casamento não se faz.
+
+JOANNINHA
+
+Não me atrevo a ter esperança. Meu pae anda infeitiçado. E depois, nem
+já sei senão chorar noite e dia, chorar até morrer.
+
+VIGARIO
+
+Deixa estar, Joanninha: as lagrimas dos innocentes quasi sempre a mão de
+um amigo as enchuga. (_Brincando._) Eu sei, minha menina chorosa, que
+essa mão benefica não hade tardar muito aqui.
+
+JOANNINHA
+
+Ninguem pode consolar-me.
+
+VIGARIO
+
+Ahi está Maria das Dores, que bem velha é, e que ainda assim não hade
+ter sempre os olhos arrazados de lagrimas, como agora.
+
+MARIA
+
+Não, sr. Vigario, porque debaixo do chão não se chora.
+
+VIGARIO
+
+Nem tambem cá por cima, quando se é feliz.
+
+MARIA
+
+Feliz, eu?! Sem o meu filho?!
+
+VIGARIO
+
+Quem lhe disse isso, Maria das Dores?
+
+MARIA
+
+Quem? Joze Velhaco, o proprio malvado que o matou, o meu Luiz.
+
+VIGARIO
+
+Esse infame... Maria das Dores, tenha animo para ouvir o que vou dizer.
+
+MARIA
+
+Tenho animo... Bem vê que resisti quando me disseram... que era morto o
+meu Luiz.
+
+JOANNINHA
+
+Ah! diga!
+
+VIGARIO
+
+Joze Velhaco mentio.
+
+MARIA
+
+(_Desfallecendo._) Nossa Senhora me leve nesta hora... para acabar na
+alegria!
+
+JOANNINHA
+
+(_Pulando._) Vivo!... vivo... o Luiz! Onde está!
+
+VIGARIO
+
+Maria das Dores, o que é isso? A alegria custa menos a supportar do que
+a dôr.
+
+MARIA
+
+Deixe-me perceber... Estas mudanças custam... o coração lucta com a
+duvida. Elle não morreu?
+
+VIGARIO
+
+Não.
+
+MARIA
+
+Mas está ainda longe?
+
+JOANNINHA
+
+Em Demerara?
+
+MARIA
+
+Teve noticia?
+
+JOANNINHA
+
+Quando chega!
+
+MARIA
+
+Talvez a esta hora já não viva!
+
+JOANNINHA
+
+É preciso mandal-o buscar.
+
+VIGARIO
+
+(_Enternecido._) Soceguem. Já está em caminho.
+
+MARIA
+
+Ha quantos dias?
+
+JOANNINHA
+
+Virá d'aqui a tres?
+
+MARIA
+
+Amanhã?
+
+VIGARIO
+
+Mais breve.
+
+
+ AMBAS
+
+Hoje!?
+
+VIGARIO
+
+Chegou. (_As duas mulheres abraçam-se._)
+
+MARIA
+
+Que alegria, filha!
+
+JOANNINHA
+
+Jesus!
+
+MARIA
+
+Eu... morro, porque não posso...
+
+JOANNINHA
+
+Onde está?
+
+MARIA
+
+O meu filho? (_Luiz entra precepitadamente._)
+
+VIGARIO
+
+Está aqui.
+
+
+ AMBAS
+
+Luiz!
+
+_Cae o panno._
+
+
+FIM DO 2.º ACTO
+
+
+
+
+ACTO TERCEIRO
+
+_A caza de Antonio Prudente, como no segundo acto. É noite; um candieiro
+de tres bicos alumia bem a caza_
+
+
+SCENA I
+
+_Joze Velhaco e Joaquim_
+
+JOZE
+
+É negocio concluido. (_Mostrando um papel que tem na mão._) Esta
+obrigação que você assignou... é o principio da sua fortuna.
+
+JOAQUIM
+
+Deos queira! Sr. Joze, vm. não sabe como lhe heide pagar a boa vontade!
+Esse papel é uma obrigação que lhe faço; por ella me sujeito a servil-o,
+ou a quem vm. mandar, aqui ou em Demerara, até pagar a divida de
+quarenta patacas, que recebi...
+
+JOZE
+
+A obrigação está em regra, e é justo. Trabalho em troca de dinheiro;
+assim se faz em toda a parte.
+
+JOAQUIM
+
+Isso é o que vm. diz, sr. Joze, mas quem sabe o que será? E a fallar a
+verdade, trabalhar por trabalhar, antes na terra, que eu conheço, do que
+em outra que nem de portuguezes é.
+
+JOZE
+
+Pois eu falto ao que prometto, homem?
+
+JOAQUIM
+
+Bem sei que vm. é... um amigo como se quer. (_Rindo-se._)
+
+JOZE
+
+Ri-se, Joaquim?
+
+JOAQUIM
+
+Estava-me lembrando do Luiz do Campanario, e dos outros que o sr. Joze
+foi mandando para Demerara, e que ficaram por lá. Ah! ah! ah!
+
+JOZE
+
+(_Á parte._) O maldito Luiz não ficou! (_Alto._) Com esses não ajustei
+senão, que haviam de achar trabalho em Demerara... e não lhe tem
+faltado. Assegurei-lhe que lá se ganha dinheiro, o que é verdade, quando
+se ganha.
+
+JOAQUIM
+
+(_Rindo muito._) Ora o sr. Joze tem graça! Mas de mim, de mim é que eu
+não quero que ninguem se ria. Palavras leva-as o vento.
+
+JOZE
+
+Então o que quer, Joaquim?
+
+JOAQUIM
+
+O preto no branco, e nada mais. Uma obrigação, como a que lhe fiz, em
+que vmc. se obrigue a dar me o officio... o officio de... ah! ah! ah!
+
+JOZE
+
+De _aliciador_! Diga homem, não se engasgue com palavras, que escorregam
+bem.
+
+JOAQUIM
+
+Pois como fôr da vontade de vmc. A obrigação escripta pela sua mão é que
+eu quero; e sem ella não vou da Madeira!
+
+JOZE
+
+Forte parvoice! A minha palavra vale-lhe de mais, em Demerara, do que um
+papel escripto.
+
+JOAQUIM
+
+Cá a palavra do sr. Joze vale de muito; mas por isso é que eu a quero no
+papel... para durar mais. Sem a obrigação não embarco!
+
+JOZE
+
+Isso agora não esperava eu. Então porque não me disse logo tudo? O
+ajuste era outro.
+
+JOAQUIM
+
+Quero o papel porque, depois que esta manhã o larguei, peguei a scismar
+que a gente não deve dar papel em troca de palavras; que ha viver e
+morrer, e que o sr. Joze póde morrer...
+
+JOZE
+
+Mas se eu morrer de que serve o papel?
+
+JOAQUIM
+
+Os seus amigos não hão de deixar mal a sua palavra honrada.
+
+JOZE
+
+Mas...
+
+JOAQUIM
+
+Vmc. quer ou não quer? O dito, dito.
+
+JOZE
+
+(_Indo a uma mesa e escrevendo._) Pois vá lá. Escrevo a obrigação.
+
+JOAQUIM
+
+Assim é que é fallar.
+
+JOZE
+
+Alto! Espere! Faço-lhe isto, que não estava nos nossos ajustes, porque
+sei que é meu amigo, Joaquim.
+
+JOAQUIM
+
+Pois não sou?
+
+JOZE
+
+E aos amigos velhos, faz-se-lhes as vontades.
+
+JOAQUIM
+
+E a obrigação?...
+
+JOZE
+
+Já vae; mas fallemos antes d'outro negocio...
+
+JOAQUIM
+
+O que é?
+
+JOZE
+
+Já tenho dado provas de que me fio de vm. Joaquim; e quero que se
+capacite ainda mais. Conto com o segredo, e com a sua amizade... sim,
+com a nossa amizade antiga... com o dezejo de sermos uteis um ao outro.
+
+JOAQUIM
+
+Então o que quer?
+
+JOZE
+
+Você sabe que eu estou para casar com a Joanninha... Boa rapariga, e que
+mostra por mim sua simpathia!... Mas até agora... tem estado... tem
+posto duvida...não deu ainda o _sim_... O pae dezeja muito o casamento,
+e com brevidade...
+
+JOAQUIM
+
+Então se o pae quer, e a rapariga tem... isso que vm. diz... _sapathia_,
+que mais dezeja o sr. Joze? Case! (_Com escarneo._)
+
+JOZE
+
+A Joanninha põe suas duvidas. Parece que esteve namorada, em outro tempo
+de um rapaz, e fez-lhe promessa de fidelidade. Agora, apesar do coração
+a puxar para mim, não quer que lhe chamem inconstante.
+
+JOAQUIM
+
+E que remedio posso eu dar a isso?
+
+JOZE
+
+E simples... mas só de um amigo se confia. Esta noite resolvi empregar
+uma violencia... apparente, ja se vê. Antonio Prudente está por tudo.
+Resolvi acabar com as duvidas de Joanninha. Você, Joaquim, se me quizer
+fazer esse favor... póde ajudar-me... e eu ajuntarei, da
+minha algibeira, umas vinte patacas, para acudir á sua viagem... Se
+quizer, póde servir-me de muito.
+
+JOAQUIM
+
+Mas como?
+
+JOZE
+
+Vindo esta noite comigo, quando tudo dormir nesta caza, e mais dois
+marinheiros, gente fiel lá do navio em que hade partir para Demerara,
+furtar... levar d'aqui a Joanninha.
+
+JOAQUIM
+
+Ora essa! Pois a gente hade tirar a filha ao sr. Antonio Prudente?
+
+JOZE
+
+Não se lhe tira a filha, apressa-se o casamento, como elle dezeja.
+
+JOAQUIM
+
+E se a pequena gritar?
+
+JOZE
+
+A janella costuma ficar cerrada de noite, e a porta do quarto de
+Joanninha é aquella defronte. Entra-se devagarinho; tapa-se-lhe a boca,
+quando estiver a dormir, e depois faz-se tudo como se quer. Ella depois
+não tem remedio senão casar; Antonio Prudente faz o seu gosto, e eu o meu.
+
+JOAQUIM
+
+Vm. lá o lê, lá o intende.
+
+JOZE
+
+Então está prompto?
+
+JOAQUIM
+
+Estou, mas venha o papel.
+
+JOZE
+
+Você faz de mim quanto quer. (_Dá-lhe o papel._) Vá abaixo
+ao Calháo, e espere por mim. Os dois marinheiros lá hãode estar.
+
+JOAQUIM
+
+Lá vou. Para servir o sr. Joze Velhaco está um homem sempre disposto.
+
+JOZE
+
+Bom rapaz. E caluda! As vinte patacas ficam a tinir.
+
+JOAQUIM
+
+O sr Joze sempre é uma grande cabeça. Até logo. (_Sae.)_
+
+
+SCENA II
+
+JOZE, _só_
+
+Sou uma grande cabeça, isso sou! Tudo vae ás mil maravilhas, e n'um pulo
+estou mais alto do que esses morgados rabugentos e impertigados da
+Madeira. Viva o sr. Joze Velhaco, que hade ser ainda deputado,
+commendador... barão... e quem sabe o que mais? Com esta cabeça, e com
+este coração, heide chegar... até onde chegam os que são do meu feitio.
+
+
+SCENA III
+
+_Joze Velhaco e Antonio Prudente_
+
+JOZE
+
+Então meu rico Antonio Prudente o que mais soube contra mim?
+
+ANTONIO
+
+Nada. Fui a caza dos dois negociantes, que me indicou, e ambos fizeram
+da sua pessoa muito boas ausencias. O Carlos Bad, sobretudo, que
+passa por homem serio, disse-me que melhor do que sr. Joze Velhaco
+não conhecia ninguem... a não ser elle proprio. E o velho riu-se tanto
+com aquella cara de bom homem!...
+
+JOZE
+
+(_Á parte._) Que maroto! (_Alto._) Bom homem de certo, devo-lhe
+bastantes obrigações. Aquellas desconfianças, que lhe metteu o padre
+Vigario a meu respeito, já lhe vão passando, sr. Antonio? hein?
+
+ANTONIO
+
+Já. Mas o Vigario quer-lhe pouco bem, Joze.
+
+JOZE
+
+Desgraças! Quem póde evital-as?
+
+ANTONIO
+
+Vim agora por caza delle, para lhe contar o que me disse o pae das duas
+crianças que tinham sido roubadas, e os elogios que fizeram de vm. os
+dois negociantes... Quero que todos o reputem, Joze, por homem honrado
+antes de lhe dar a minha filha.
+
+JOZE
+
+(_Com admiração._) Então já se não faz o casamento immediatamente? Os
+contos do Vigario sempre pegaram!
+
+ANTONIO
+
+Eu desejo que se faça; mas é melhor que você se justifique primeiro. É
+facil, e não leva muito tempo.
+
+JOZE
+
+A minha melhor justificação é ser seu genro, genro do honrado Antonio
+Prudente.
+
+ANTONIO
+
+Isso depois: por em quanto esperaremos.
+
+JOZE
+
+(_Á parte._) Eu te direi logo se espero! (_Alto._) O que o fez mudar, sr
+Antonio Prudente?
+
+ANTONIO
+
+(_Com embaraço._) Respeito muito a opinião do nosso Vigario; e em quanto
+elle não estiver convencido, como eu, da sua innocencia, é melhor...
+demorarmos o casamento.
+
+JOZE
+
+Assim se deita a perder o credito de um homem. É até onde póde chegar!
+
+ANTONIO
+
+A verdade anda sempre ao de cima d'agua, não lhe dê cuidado. Sabe que
+mais, Joze Velhaco, admirou-me a generosidade com que deu dez tostões ao
+pescador, a quem roubaram as filhas, e que tanto o defendeu na minha
+presença. O pobre homem não cabia na pelle, e sempre lhe deu um
+abraço... cuidei que o arrebentasse!
+
+JOZE
+
+Se não posso ver ninguem pobre, em o podendo remediar! Eu cá sou assim!
+Enterneci-me; e o ardor com que elle me defendeu... fez-me ver, que
+nesta gente é que ainda se encontram exemplos de virtude. Olhe sr.
+Antonio Prudente, a virtude é o meu fraco! Santa palavra!
+
+ANTONIO
+
+(_Apertando-lhe a mão._) Gosto de o ouvir, Joze. Porque lhe terá o
+Vigario tão má vontade?
+
+JOZE
+
+Promette não se zangar, se eu lhe disser a razão?
+
+ANTONIO
+
+Não me diga...
+
+JOZE
+
+Ouça, e não torve de repente. Sua filha está namorada do Luiz do
+Campanario...
+
+ANTONIO
+
+Já sei, e não desgostei por isso que o rapaz fosse a Demerara... a ver
+se ella o esquecia...
+
+JOZE
+
+Qual! Cada vez se lembra mais. O Vigario é quem os protege.
+
+ANTONIO
+
+Faz mal!... porque eu... Mas no fim de contas o que protege o
+Vigario?... Um homem que morreu.
+
+JOZE
+
+Engana-se redondamente, sr. Antonio Prudente. O Luiz vive, e o Vigario
+sabe que elle está...
+
+ANTONIO
+
+Aonde?
+
+JOZE
+
+Na Madeira. Chegou hontem, e já aqui esteve com Joanninha.
+
+ANTONIO
+
+Aqui?
+
+JOZE
+
+Trouxe-o o Vigario. Verá que elle casa a Joanninha com o Luiz, e leva a
+sua por deante.
+
+ANTONIO
+
+Menos isso! Antonio Prudente não se mette assim debaixo dos pes. Pois se
+o Luiz aqui esteve, e fallou a minha filha, o remedio é casal-a já com o
+sr. Joze.
+
+JOZE
+
+Governe, sr. Antonio, governe o que é seu, e não se
+arrependa. O Vigario é de familia de Morgados, dos fidalgos da ilha:
+sabe que tenho meus vintens, e não gosta de que eu hombreie com os
+seus... Dá licença que eu use de todos os meios para conseguir que sua
+filha case comigo?
+
+ANTONIO
+
+Dou, permitto! (_Battendo o pé no chão._) Hade fazer-se o casamento.
+(_Depois de pensar um pouco._) Mas quero levar o negocio de vagar, e com
+prudencia. Amanhã, quando estiver mais socegado, fallaremos. Agora
+deixe-me com a Joanninha; quero desabafar. Depois pensarei com mais
+descanço.
+
+JOZE
+
+Pois fique-se com Deos.--Taes coisas farei, que ámanhã acabarão as suas
+duvidas. Fie-se no que lhe digo. (_Indo para sair._) É preciso que um
+homem saiba governar a sua caza, porque um homem é um homem. (_Sáe._)
+
+
+SCENA IV
+
+_Antonio Prudente e Joanninha_
+
+ANTONIO
+
+Ninguem hade governar aqui mais do que eu! (_Chamando.) Joanninha!_
+
+JOANNINHA
+
+Meu pae!
+
+ANTONIO
+
+Anda cá. Responde-me... e não mintas.
+
+JOANNINHA
+
+Eu nunca lhe menti, pae.
+
+ANTONIO
+
+Mas escondes-me a verdade, que é o mesmo. Não queres casar com o Joze
+Velhaco?
+
+JOANNINHA
+
+Já lhe disse, pae, que não.
+
+ANTONIO
+
+Nem com elle, nem com outro?
+
+JOANNINHA
+
+Dezejo ficar na sua companhia.
+
+ANTONIO
+
+(_Colerico._) Mentes.
+
+JOANNINHA
+
+Eu? sou muito sua amiga!..
+
+ANTONIO
+
+Se o fosses não me desobedecias. Sei tudo. Não te queres casar, porque
+te namoraste de um desgraçado sem dinheiro.--Prometteste casar com o
+Luiz do Campanario... e a mãe, a Maria das Dores, tem tido o cuidado de
+não t'o deixar esquecer. Invencioneira!
+
+JOANNINHA
+
+Não seja injusto! Confesso que não posso gostar senão do Luiz do
+Campanario. Com elle fui creada, e só com elle posso viver!..
+
+ANTONIO
+
+Contra minha vontade!
+
+JOANNINHA
+
+O coração póde mais.
+
+ANTONIO
+
+Creancices, filha! Isso hade passar!
+
+JOANNINHA
+
+Em eu morrendo!
+
+ANTONIO
+
+É a ultima vez que to digo, Joanna. (_Severo._) Has de casar com quem eu
+mando! E nem lagrimas tuas, nem lamentos de Maria das Dores, nem
+palavras do Vigario, me torcem desta resolução!
+
+JOANNINHA
+
+(_Chorando e com muita dôr._) Eu... não choro nem lhe desobedeço.
+Deixo-me morrer.
+
+ANTONIO
+
+Historias! (_Olhando para a filha com muita dôr._) As raparigas não
+morrem por tão pouco... não morrem... E tu... tu não me hasde morrer,
+filha... (_Agarrando-a com muito amor._) Minha rica filha!
+
+JOANNINHA
+
+Meu pae! (_Deitando-se-lhe nos braços, e escondendo a cara._) Se eu não
+posso viver sem elle...
+
+ANTONIO
+
+Viste-o hoje? Sei que chegou.
+
+JOANNINHA
+
+Vi-o; e ouvi os seus padecimentos. Tive tanto dó delle!
+
+ANTONIO
+
+Invenções... para te seduzir.
+
+JOANNINHA
+
+Não diga isso:..--Esteve em Demerara quazi como escravo: teve as febres,
+e foi levado para um hospital, onde não havia nem quem o tratasse. Pobre
+Luiz! Com elle fui creada, vivemos juntos... e... esta desgraça,
+causou-me tal dó... fez-me crescer tanto a... amizade, que já lhe tinha...
+
+ANTONIO
+
+E eu a escutar-te... a chorar quasi! (_Limpando os olhos._)
+
+JOANNINHA
+
+Não se envergonhe pae. Só os maus é que não choram.
+
+ANTONIO
+
+(_Repellindo-a sem violencia._) Gosto muito de ti, filha;
+mas as lagrimas e as festas não me fazem mudar. É para teu bem! Essas
+calumnias que dizem do Joze Velhaco... que não é capaz...
+
+JOANNINHA
+
+Elle é capaz de tudo.
+
+ANTONIO
+
+Joanna, que eu não torne a ouvir-te dizer mal do homem que está para ser...
+
+JOANNINHA
+
+A minha desgraça. Pae se soubesse...
+
+ANTONIO
+
+(_Com muita colera._) Joanna!
+
+JOANNINHA
+
+Oiça; que é verdade. Escute!
+
+ANTONIO
+
+Diz... é mais uma calumnia, de que elle se defenderá.
+
+JOANNINHA
+
+Quando o Luiz foi para Demerara--enganado por elle, e levado pelo amor
+que me tinha--entregou ao Joze Velhaco vinte patacas, para Maria das
+Dores....
+
+ANTONIO
+
+E então?
+
+JOANNINHA
+
+Joze Velhaco roubou o pão da mizeria.
+
+ANTONIO
+
+É falso!
+
+JOANNINHA
+
+O Luiz e Maria das Dores não mentem.
+
+ANTONIO
+
+Se fosse assim, Joze Velhaco era um infame. Mas, dize me, Joanninha, se
+provar que tudo são mentiras promettes casar com elle!
+
+JOANNINHA
+
+(_Com firmeza._) Prometto. Se elle provar que está innocente façam de
+mim o que quizerem.
+
+ANTONIO
+
+Verás! Mas fica descançada. Não sou capaz de te casar com um homem
+deshonrado.
+
+JOANNINHA
+
+(_Abraçando-o._) Meu querido pae!
+
+ANTONIO
+
+Bem! Não precisas lembrar-me de que sou teu pae! Amanhã fica tudo
+destinado. Agora descançar, que são horas... O dia tem sido hoje
+inquieto para ambos nós. (_Dando-lhe um beijo._) Adeos filha. Não
+queiras mal a teu pae. (_Sae._)
+
+
+SCENA V
+
+_Joanninha, depois Luiz do Campanario_
+
+JOANNINHA
+
+Como lhe heide querer mal, se elle me estima tanto, o meu querido pae?
+(_Caindo de joelhos deante de uma imagem da Virgem, que está pendurada
+na parede._) Senhora da Conceição, Protectora dos afflictos, ouvi-me.
+Peço descanço para a minha alma, Virgem Santissima, peço-vos, que longe
+de mim vá aquelle homem preverso! Soccorrei-o a elle... ao meu Luiz.
+(_Durante esta oração Luiz entra pela janella, que estava cerrada e vem
+ajoelhar junto de Joanninha._)
+
+LUIZ
+
+Soccorrei-o, Senhora, e á innocente que vos pede!
+
+JOANNINHA
+
+(_Levantando-se._) Luiz!...! Aqui?
+
+LUIZ
+
+Não me querias ver? Separados ha um anno... depois de tantas saudades?
+
+JOANNINHA
+
+E saudades taes! O susto de te perder, o temor de meu pae, e o horror
+d'aquelle malvado, tudo que era contra nós, quebrava-me as forças. E as
+lagrimas da tua triste mãe? Tudo... tudo me amofinava nesses dias
+amargurados. Mas agora que estás aqui, e voltaste do desterro, agora,
+parece que já me sinto outra.
+
+LUIZ
+
+Mas teu pae não consente!
+
+JOANNINHA
+
+Por ora. Já sabe do roubo, das vinte patacas furtadas a tua mãe. Ficou
+em duvida... e disse que me não casava sem Joze Velhaco mostrar a sua
+innocencia.
+
+LUIZ
+
+Não póde mostrar!
+
+JOANNINHA
+
+Meu pae hade deixar-se vencer das minhas lagrimas, e dos conselhos do
+sr. Vigario!
+
+LUIZ
+
+Agora mesmo o larguei, e prometteu-me, o santo homem, que hoje mesmo...
+havia de ficar tudo decidido. O Joze Velhaco perdido de todo, e nós
+felizes.
+
+JOANNINHA
+
+Luiz, bem sabes se eu te amo, e se ha alegria e vida para mim longe de
+ti; mas agora, assim de noite... não gosto de te ver... nesta casa.
+Podia alguem descobrir-te quando entraste, póde meu pae estar acordado,
+e sentir-te...
+
+LUIZ
+
+Tudo isso me occorreu... mas, o desejo de te ver... foi mais forte. O
+Vigario mandou-me chamar ha pouco, e disse-me, «Luiz, esta noite fica
+tudo deslindado; hoje acaba a tua desgraça... foi assim mesmo que me
+disse! É preciso que passes a noite nas visinhanças da casa de Joanninha.»
+
+JOANNINHA
+
+Porque?
+
+LUIZ
+
+Foi o que perguntei... «Depois o saberás» me respondeu elle. Obedeci.
+Estando perto, escondido, vi luz, olhei pela janella, e achando-te só, e
+ouvindo-te resar, não pude resistir, e entrei para pedir, comtigo, a
+Nossa Senhora que nos soccorra.
+
+JOANNINHA
+
+E que Deos nos ouça! Meu pae hade ceder por fim. Depois, que alegria!
+Quando formos ambos á festa do Monte, e todos disserem: aquella é a
+Joanninha, a filha de Antonio Prudente, que vai com seu marido.
+
+LUIZ
+
+Que é o mais feliz da Ilha, hão de acrescentar. Mulher como a delle não
+ha outra na Madeira! Bonita, séria, galante!...
+
+JOANNINHA
+
+Luiz.
+
+LUIZ
+
+Joanninha!
+
+JOANNINHA
+
+E quando será?
+
+LUIZ
+
+Cedo, bem cedo! (_Esta scena deve ser representada com muita rapidez._)
+
+
+SCENA VI
+
+_Os mesmos Joze, Joaquim, e dois marinheiros_
+
+JOZE
+
+(_Apparecendo á janella, com uma pistola na mão._) Veremos.
+
+JOANNINHA
+
+Ah!
+
+LUIZ
+
+Joze! (_Correndo alguns passos para elle._) Agóra pagarás tudo...
+malvado!...
+
+JOZE
+
+(_Apontando a pistolla para Joanninha, e em voz pouco elevada._) Nem
+mais um passo!... nem mais um grito. Não acordemos o sr. Antonio Prudente.
+
+LUIZ
+
+(_Detendo-se._) O que fazes?
+
+JOZE
+
+(_Entrando._) Mato-a, se te moves... se dás um grito! (_Aos dois
+marinheiros que entram cautelosamente atraz delle seguidos de Joaquim._)
+Rapazes, segurem-me este heroe!
+
+LUIZ
+
+Maldito!
+
+JOZE
+
+Nada de resistencias, e de palavradas, senão temos desgosto na festa!
+
+JOANNINHA
+
+Jezus, acudi-me!
+
+JOZE
+
+(_Aos marinheiros._) Segurem-o!... e para bordo... Que vá para Demerara,
+donde fugiu... o escravo!
+
+LUIZ
+
+(_Rezistindo apenas._) Este homem sahio do inferno... Marinheiros!...
+Condoão-se de mim... e daquella desgraçada...
+
+JOZE
+
+(_Aproximando-se de Joaninha._) Joanninha, tudo isto faço pelo muito
+amor, que te tenho!
+
+JOANNINHA
+
+E consente Deos isto?
+
+JOZE
+
+Vem commigo!
+
+LUIZ
+
+Não consintas, Joanninha!
+
+JOANNINHA
+
+Antes morrer.
+
+JOZE
+
+(_Colerico._) Não morrerás, e serás minha.
+
+JOANNINHA
+
+Só tua, Luiz!
+
+JOZE
+
+Ajuda-me, Joaquim!
+
+JOANNINHA
+
+(_Gritando._) Deixe-me, deixe-me.
+
+JOZE
+
+Se gritas... se dizes uma palavra. (_Aponta a pistolla a Luiz._)
+
+LUIZ
+
+Grita... brada... pede soccorro...
+
+JOANNINHA
+
+Soccorro!
+
+JOZE
+
+(_Cego de furia._) Morre, para não gritares! (_Dispara a pistolla sobre
+Luiz, mas no momento de partir o tiro, Joaquim desvia-lhe o braço._)
+Errei! (_A Joaquim_) Que fizeste?...
+
+JOAQUIM
+
+(_Tirando-lhe a pistolla, e segurando-o._) Chegou tambem a tua vez,
+Joze! Pagarás tudo agora. (_Neste momento saltam pela janella, e entram
+arrombando a porta alguns homens do povo, guiados pelo Vigario._)
+
+
+SCENA VII
+
+_Os mesmos, o Vigario, homens do povo, logo depois Antonio_
+
+VIGARIO
+
+Segura-o, Joaquim.
+
+LUIZ
+
+(_Armado com a faca de um dos marinheiros._) Tem firme, esse malvado:
+vou-lhe arrancar o coração!
+
+VIGARIO
+
+(_Detendo-o._) Luiz! Luiz... diante de mim!..
+
+LUIZ
+
+É um preverso!
+
+VIGARIO
+
+A justiça o castigará.
+
+ANTONIO
+
+(_Entrando espavorido._) Que é isto... em minha caza?
+
+JOZE
+
+Querem-me assassinar. Acuda-me!
+
+VIGARIO
+
+Calla-te...
+
+JOZE
+
+Vi entrar pela janella, na sua caza, o Luiz do Campanario. Vinha seduzir
+sua filha...
+
+ANTONIO
+
+Seduzir minha filha?...
+
+JOZE
+
+E para salvar a honra de Joanninha, da minha noiva... entrei atraz, com
+risco de vida... Quando ia para o castigar...
+
+VIGARIO
+
+Quando ias para roubar a donzella a seu pai, e estavas para mandar
+violentamente para Demerara esse homem, pela segunda vez, appareci eu, e
+frustei os teus planos.
+
+JOZE
+
+É falso, é falso!...
+
+VIGARIO
+
+Escute, Antonio, e veja o marido, que ia dar a sua filha... Este homem
+não te roubou o dinheiro, que deixaste para tua mãe?
+
+LUIZ
+
+Roubou.
+
+VIGARIO
+
+Não te convidou a ti, Joaquim, para aliciador de escravos brancos?
+
+JOAQUIM
+
+É assim sr. Vigario, e aqui está um papel asignado por elle... (_Da-o a
+Antonio._)
+
+VIGARIO
+
+Para servir de prova.
+
+JOZE
+
+A obrigação que me pediste?!... Traidor!
+
+VIGARIO
+
+Não vinha elle aqui esta noite para furtar a filha do sr. Antonio Prudente!
+
+JOAQUIM
+
+Tal e qual; por signal, quiz que eu o acompanhasse.
+
+VIGARIO
+
+(_A um homem._) Não foi o Joze Velhaco quem roubou as tuas filhas?
+
+O HOMEM
+
+Foi, sr. Vigario!
+
+VIGARIO
+
+Não são testemunhas todos, de que tentou agora matar o Luiz do Campanario.
+
+TODOS
+
+Somos.
+
+JOZE
+
+É mentira.
+
+VIGARIO
+
+Levem-o d'aqui. Amanhã será entregue á justiça, no Funchal. (_Alguns
+homens levam Joze, que vai gritando: É mentira! é mentira!_)
+
+ANTONIO
+
+Senhor Vigario salvou a minha honra... salvou... Perdoas-me filha?..
+salvou a minha querida Joanninha. (_Abraça-a._)
+
+VIGARIO
+
+Pude salval-a... Mas fazel-a feliz, não depende de mim.
+
+ANTONIO
+
+O sr. Vigario manda nesta caza.
+
+VIGARIO
+
+Então mando que não haja ninguem triste. (_Pondo a mão de Joanninha na
+mão de Luiz._)
+
+ANTONIO
+
+Mas, sr. Vigario...
+
+VIGARIO
+
+O Luiz, o marido que dou a tua filha, é o feitor de meu irmão, o morgado
+Bittencourt.
+
+LUIZ
+
+(_Com fogo_) Viva o nosso Vigario!
+
+TODOS
+
+Viva!
+
+ANTONIO
+
+Deos proteja o nosso Vigario.
+
+VIGARIO
+
+Deus proteja a Ilha da Madeira.
+
+_Cae o panno._
+
+
+Fim do 3.º acto e do drama.
+
+
+
+
+O ASTROLOGO
+
+DRAMA EM 5 ACTOS
+
+
+PERSONAGENS
+
+ Fr. Bermudo. D. Gonçalo de Sousa.
+ D. Mendo Paes. D. Soeiro Viegas.
+ O Infante D. Affonso. João Sirita, Ermitão.
+ D. Pedro Framariz. D. Bibas, bobo.
+ O Bispo D. João Peculiar. D. Bonamiz, bobo
+ D. Tello, Prior de Santa Cruz. Um Judeu.
+ D. Gonçalo Mendes. Um Templario.
+ D. Egas Moniz. D. Gontrade.
+ D. Lourenço Viegas. D. Violante.
+ D. Guilherme Ricardo
+
+ Ricos homens, templarios, cavalleiros, damas, homens de armas,
+ frecheiros e besteiros.
+
+
+
+
+ACTO PRIMEIRO
+
+_Um campo junto á pousada de D. Pedro Framariz, no Burgo de Guimarães._
+
+
+SCENA I
+
+_Entram Besteiros, e Homens d'armas de D. Pedro Framariz, trazendo um
+Judeu prezo com uma corda_
+
+1.º BESTEIRO
+
+Anda perro judeu... anda; vamos, e depressa, que o teu
+sangue, e a tua pelle hão de tornar-se hoje em bons e finos maravedis.
+
+2.º BESTEIRO
+
+Olá!--O nosso amo bem sabe os meios de lh'os fazer sahir do corpo.--Bons
+meios, e que nunca falham. Uma tenaz de ferro em braza, uma boa corda de
+esparto, e ás vezes um cajado de zambujeiro, bastam para fazer de um
+judeu um sacco de oiro.
+
+1.º BESTEIRO
+
+E agora sobre tudo, que os maravedis são tão necessarios, o sr. D. Pedro
+ha de empregar os bons meios para tirar prata e oiro do corpo deste
+judeu. D'aqui a uma hora partimos, para andarmos por lá, Deus sabe
+quanto tempo.
+
+2.º BESTEIRO
+
+Não nos ha de faltar nada. Nos recontros com os mouros sempre se ganha
+alguma coisa. Uma fossada pelo Al-Gharb ha de dar para senhores e
+vassallos. Até nós, pobres besteiros, havemos de apanhar algumas
+migalhas do que der a conquista.
+
+1.º BESTEIRO
+
+E nesta correria então!... Dizem que são tão ricas essas terras d'Além
+do Téjo!
+
+2.º BESTEIRO
+
+E que o não fossem! Para nós homens de armas de D. Pedro Framariz sempre
+ha que apanhar.
+
+1.º HOMEM D'ARMAS
+
+Hei de trazer este meu lorigão forrado de oiro.
+
+2.º BESTEIRO
+
+E a alma de indulgencias.
+
+1.º HOMEM D'ARMAS
+
+Tambem, e porque não? Lá váe o nosso Infante para as ganhar...
+
+1.º BESTEIRO
+
+E tem razão.--E elle dês que a mãe lhe morreu anda triste, e a scismar
+sempre. A mãe, a sr.ª D. Thereza, era uma brava mulher. Vi-a muita vez,
+nas guerras com os leonezes, ao lado do conde Fernando Perez, caminhar
+para o inimigo como um homem.
+
+1.º HOMEM D'ARMAS
+
+(_Em voz baixa._) Foi o Infante D. Affonso Henriques quem a
+matou.--Aquella prizão... e depois aquelle desterro...
+
+2.º BESTEIRO
+
+O sr. Infante não a matou. Cá a mim parece-me que elle fez o que devia.
+Portugal ía-se pela agua abaixo se fica mais tempo nas mãos de uma mulher.
+
+1.º BESTEIRO
+
+Palavras inuteis... e perigosas!--Vamos levando este maldicto judeu para
+a pousada do Burgo, e deixemos o resto que nos não importa.
+
+1.º HOMEM D'ARMAS
+
+Não tem pressa. Nosso amo está ainda com o Infante e outros cavalleiros
+a ouvir a missa no mosteiro de Mumadona.
+
+1.º BESTEIRO
+
+Qual?! Está já de volta, de certo. D'aqui a pouco partimos.
+
+2.º BESTEIRO
+
+(_Puxando pelo judeu_) Vamos, vamos. (_Ao 1.º homem d'armas._) Garcia,
+faz andar este excommungado. Para que te servem esses braços, senão é
+para dar nos judeus e nos cães da moirama?
+
+1.º HOMEM D'ARMAS
+
+(_Dando no judeu._) Tem os ossos de ferro estes judeus, não quebram nem
+pelo diabo!
+
+JUDEU
+
+Deixae-me... deixae-me. Tende dó de mim, srs. besteiros.
+
+1.º HOMEM D'ARMAS
+
+Dá-nos um pouco de teu oiro, judeu.
+
+JUDEU
+
+Sou pobre... um miseravel... não tenho nada.
+
+1.º BESTEIRO
+
+Vae dizer isso a D. Pedro, elle te fará mudar de opinião. Mette-te n'um
+forno, vivo, para vêr se de lá sáes mudado em barra de oiro.
+
+JUDEU
+
+Deixae-me... que elle mata-me; mata-me de certo.
+
+ALGUNS BESTEIROS
+
+Uh! uh! maldito judeu.
+
+1.º HOMEM D'ARMAS
+
+Has de ser assado vivo.
+
+JUDEU
+
+Deus de Jacob, salvae-me!
+
+1.º HOMEM D'ARMAS
+
+Vamos, que alli vem fr. Bermudo.
+
+1.º BESTEIRO
+
+O feiticeiro... o magico.
+
+JUDEU
+
+(_A fr. Bermudo._) Salvae-me... salvae-me!
+
+
+SCENA II
+
+_Os mesmos, e Fr. Bermudo_
+
+FR. BERMUDO
+
+Esperae... onde ides? Onde levaes esse miseravel judeu?
+
+1.º HOMEM D'ARMAS
+
+Foi nosso amo, D. Pedro Framariz, que nos mandou que o levassemos...
+
+FR. BERMUDO (_Colerico._)
+
+Para o roubar, para o atormentar.--Deixae-o...
+
+2.º BESTEIRO
+
+Um judeu...
+
+FR. BERMUDO
+
+Um judeu tambem é homem.--Deixae-o.
+
+1.º HOMEM D'ARMAS
+
+Mas D. Pedro ha de querer saber porque nós lhe não obedecemos.
+
+FR. BERMUDO
+
+Dizei-lhe que fui eu.
+
+1.º HOMEM D'ARMAS (_Com hesitação_)
+
+Mas...
+
+FR. BERMUDO
+
+(_Com colera._) Já disse.
+
+1.º BESTEIRO
+
+(_Baixo aos outros._) O magico dá-nos máo olhado, se lhe resistirmos, e
+ficamos perdidos... O melhor é deixar o judeu.
+
+TODOS
+
+Deixemol-o. (_Deixam o judeu._)
+
+1.º HOMEM D'ARMAS
+
+Vamo-nos... depressa.
+
+1.º BESTEIRO
+
+Deus tenha dó de nós. O que dirá D. Pedro Framariz?
+
+2.º BESTEIRO
+
+É hoje, talvez, o fim da nossa vida. (_Sáem._)
+
+
+SCENA III
+
+_O judeu e Fr. Bermudo_
+
+JUDEU
+
+(_Cahindo de joelhos._) Quero agradecer-vos de joelhos.
+
+FR. BERMUDO
+
+Vae-te... salva-te.--Não pônhas em mim essas mãos.
+
+JUDEU
+
+Consenti que vos beije os pés, que me prostre diante de quem póde e sabe
+escrever o destino dos homens...
+
+FR. BERMUDO
+
+Foje... vae-te, se não queres outra vez cair nas mãos d'aquelles homens
+d'armas.
+
+JUDEU
+
+Sois o maior homem da terra! (_Sáe._)
+
+
+SCENA IV
+
+_Fr. Bermudo (só)_
+
+FR. BERMUDO
+
+(_Rindo._) O maior homem!... Sou o maior homem, sou, porque padeço mais
+que os outros. A dôr moral é que distingue o homem da fera. (_Pauza._)
+Lêr o futuro nos astros, lêr as paixões no coração; ter segredos que dão
+vida, e segredos que matam...--Que tem?! O futuro é um martyrio que me
+assusta; as paixões que escondo neste coração são crueis e negras. Se
+esta vida durasse uma eternidade, sería uma vida maldicta... E depois da
+vida a morte!... Morrer sem ter sido amado, sem ter recebido
+um affago... sem ter a esperança de ouvir, mesmo quando já envolvido nas
+profundas trevas do sepulchro, um grito de saudade que me acorde!.. De
+que serve a sciencia?.. E o que é ella, essa sciencia que não póde
+vencer o destino, nem sequer descobrir as leis eternas que o regem? De
+que me serve o saber?... Tenho mais dores que os outros homens, e menos
+fé...--Mendo... O meu Mendo, o meu amigo, o meu filho,--porque lhe quero
+como se elle fôra meu filho,--como o hei de salvar?... E Violante, esse
+anjo, que eu... cujo nome me faz alegria e terror...--como os hei de
+separar, esses corações que o amor e a mocidade atraem um para o outro,
+e que o destino separa por um abismo! (_Pausa--apontando para os
+astros._) Está escripto... está tudo escripto nos astros...--É fatal!
+(_Crusa os braços e fica meditando._)
+
+
+SCENA V
+
+_D. Mendo e Fr. Bermudo_
+
+D. MENDO
+
+(_Vendo Fr. Bermudo._) Aqui, fr. Bermudo!
+
+FR. BERMUDO
+
+Esperava por ti, D. Mendo.
+
+D. MENDO
+
+Por mim?... Neste sitio? Agora?
+
+FR. BERMUDO
+
+É aqui que te deves despedir da filha de D. Pedro Framariz.
+
+D. MENDO
+
+De Violante... Quem te disse?
+
+FR. BERMUDO
+
+Soube que vinhas, e vim. Não foste hontem pedir-me que
+consultasse as estrellas, a conjuncção dos astros para saber o teu
+futuro? Passei a noite a estudar o céo, e é o que n'elle li que eu te
+venho dizer agora.
+
+D. MENDO
+
+Que te disseram os astros?... Hade ser minha?... Hade-me ter sempre
+muito amôr?... Seremos felizes?..
+
+FR. BERMUDO
+
+A tua estrella tocou o zenith, quando o Feretro se alevantou sobre o
+horisonte, acompanhado das tres Carpideiras; ao mesmo tempo que a
+irradiação de Neyman se extinguia, a de Sehedir tornou-se mais brilhante...
+
+D. MENDO
+
+O que quer dizer tudo isso?
+
+FR. BERMUDO
+
+Não o queiras saber; deixa os astros guardarem os seus segredos
+tenebrosos. Mas foge destes logares; vae buscar a gloria nos campos da
+batalha... foge, foge do teu negro destino... se ao homem é possivel
+fugir ao destino.
+
+D. MENDO
+
+Falla. Diz-me a verdade. Tenho animo para tudo. O que quer dizer essa
+disposição dos astros?
+
+FR. BERMUDO
+
+Quer dizer que a vida ha de ser uma vida de padecimento; que a morte ha
+de separar-te da que amas; que depois terás a gloria...
+
+D. MENDO
+
+Calla-te...--Sem ella... que m'importa o resto?
+
+FR. BERMUDO
+
+Abumachar Giafar não se enganou nunca ao lêr no livro do céo... e eu
+leio pelo seu livro.
+
+D. MENDO
+
+Não póde ser... não. Se Violante morrer, morrerei com ella.
+
+FR. BERMUDO
+
+A tua estrella não se apagou.--Serás grande e forte.
+
+D. MENDO
+
+O destino não se póde oppôr a que eu busque a morte no meio das
+fallanges serracenas.
+
+FR. BERMUDO
+
+Tudo póde o destino!
+
+D. MENDO
+
+Salva-me... Calla-te... Muda isso tudo...
+
+FR. BERMUDO
+
+O que os astros escrevem no seu mudo caminhar pelo céo, não o podem os
+homens apagar.
+
+D. MENDO
+
+Fr. Bermudo, algum demonio falla pela tua bocca.
+
+FR. BERMUDO
+
+O teu sangue de pagem está ainda muito ardente.--Mendo, sou teu amigo,
+sou, e deveras. Talvez o não devesse ser... mas sou-o... Mendo--Entre ti
+e Violante ha um abysmo.
+
+D. MENDO
+
+Hei de transpôl-o.
+
+FR. BERMUDO
+
+Não, porque é vasto, immenso; porque no fundo ferve e ruge um pélago de
+sangue.
+
+D. MENDO
+
+Enganou-te a sciencia... Não é, não póde ser verdade o que dizes.
+
+FR. BERMUDO
+
+Nem a mão de Deus, póde apagar o passado.
+
+D. MENDO
+
+Padre, conheces um tremendo segredo... É meu esse segredo; quero sabêl-o.
+
+FR. BERMUDO
+
+Sei... coisas que não posso dizer... tenho medo de as pensar... que me
+accusam, que me condemnam.
+
+D. MENDO
+
+Mas...--Fr. Bermudo quero o meu segredo.
+
+FR. BERMUDO
+
+Deixa,... esquece esse amor. Não queiras, saber um segredo, que te
+manchará o viço da alma; que te fará envelhecer o coração, caírem mortas
+a esperança e a fé, mal elle tocar o teu pensamento, que desconhece
+ainda até onde póde chegar a perfidia dos homens.
+
+D. MENDO
+
+Esquecer este amor?--Este amor é...--Não t'o posso dizer, não me
+intenderias, padre.
+
+FR. BERMUDO
+
+Quem sabe!... Os mysterios do coração são de Deus?!... Póde ser que vão
+com o corpo á cova, para lá ficarem fechados; por que Deus na sua
+infinita misericordia talvez os queira extinguir, com tudo quanto ha de
+impuro no homem.
+
+D. MENDO
+
+Ai! que dôr, que dôr esta minha!.. Sou o maior desventurado da terra!
+
+FR. BERMUDO
+
+Quem póde dizer que o é?--Tu, Mendo, na tua vida tão curta, já escutaste
+o palpitar de um coração que batia por ti.--Tens uma esperança... Amanhã
+serás cavalleiro, depois serás senhor de honras e castellos, depois
+terás um nome, uma gloria. Tens um futuro, Mendo... e n'esse
+futuro?.. Deus ha de compadecer-se de ti que és bom e puro.
+
+D. MENDO
+
+(_Cobrindo o rosto._) Sem Violante!... Jesus, meu Deus!
+
+FR. BERMUDO
+
+Ha homens a quem a fatalidade acompanha desde o berço, e em cuja alma
+sempre em trevas, não caíu uma esperança... nem mesmo já nasce um desejo.
+
+D. MENDO
+
+Fr. Bermudo, não tens nem piedade, nem comiseração n'essa tua alma...
+Nunca te fiz mal, para que assim me lances na desesperação.
+
+FR. BERMUDO
+
+Querias saber o futuro, li nos astros, e disse-t'o.
+
+D. MENDO
+
+Não te creio...--Mentem os astros...--Violante!... não a perderei,
+não... nem este amor tambem, que é do céo; que nasceu entre os anjos!..
+Ella não póde tardar.--Deixa-me... Quero ter esperança; estar
+alegre.--Vae-te. Vae-te, que te não veja ella, feiticeiro agoirento e máo.
+
+FR. BERMUDO
+
+Deus tenha dó de nós... de todos nós! (_Sáe._)
+
+
+SCENA VI
+
+_D. Mendo e depois D. Violante_
+
+D. MENDO
+
+Virgem Maria, tirae-me d'alma estes dolorosos pensamentos, ponde-me o
+sorrizo na bocca e a esperança no coração, para que um dos
+vossos anjos não soffra.
+
+D. VIOLANTE
+
+(_Entrando agitada._) Mendo, que tendes? O que é isso que vos afflige.
+D. Mendo?
+
+D. MENDO
+
+Minha sr.ª D. Violante!.. Não quizestes deixar-me partir sem vir
+lançar-me a força no coração.
+
+D. VIOLANTE
+
+Estaes agitado, sobre-saltado! Que vos dizia aquelle frade, Fr. Bermudo?
+
+D. MENDO
+
+Nada... não me dizia nada. Viestes, D. Violante, e na presença de um
+anjo as palavras de um louco devem esquecer-se. Ai! Violante, quanto vos
+agradeço o que fizestes por mim! Se partisse para a guerra, sem vos ter
+fallado do meu amor, e sem ter ouvido dessa bocca uma palavra de
+esperança, parece-me que me deixava morrer por lá. Este amor é a minha
+vida!
+
+D. VIOLANTE
+
+(_Com embaraço._) Saí da pousada, saí... nem eu sei... que importa?
+(_Com ternura._) Procurava o perfume das flôres, e vim para este lado...
+parecia-me que tinha nascido aqui uma flôr, que eu só devia colhêr...
+
+D. MENDO
+
+A flôr da esperança?
+
+D. VIOLANTE
+
+(_Cobrindo a cára._) A do amor... Enganei-me, meu pagem?..
+
+D. MENDO
+
+Não. (_Apontando para o peito._) Essa vive aqui, sempre
+bella, sempre doce, e perfumada. E é da minha querida Violante.
+
+D. VIOLANTE
+
+(_Seria._) Vinha para aqui, e vi Fr. Bermudo fallar comvosco... que vos
+dizia elle?
+
+D. MENDO
+
+Loucuras, sonhos de uma cabeça cheia de illusões!
+
+D. VIOLANTE
+
+Leu nos astros o futuro dos nossos amores? Que lhe disseram os astros?
+
+D. MENDO
+
+O que nos importa a nós isso tudo? (_Levando-a para um assento de
+pedra_) Vinde assentar-vos aqui; e eu vou pôr-me de joelhos, para vos
+adorar como a um anjo, como a uma santa que sois... Amo... amo-te... ía
+dizer uma blasfemia, Violante, ía fallar-te como só a Deus se deve
+fallar; mas é porque no mundo não ha com que se compare este amor!
+
+D. VIOLANTE
+
+(_Brincando, mas com muita ternura._) Mas se esse amor mudar?... O
+coração dos pagens é como as borboletas, foge sempre de flôr em flôr.
+
+D. MENDO
+
+Mas este meu!... Que thesouro possue elle agora! Vós bem sabeis que este
+meu amor não mudará... não póde mudar.--E depois tudo em roda de nós
+está alegre, tudo parece fallar-nos de felicidade.
+
+D. VIOLANTE
+
+Amanhã, d'aqui a horas, já não estaremos juntos. E os perigos da guerra...
+
+D. MENDO
+
+Vou deixar-vos, mas para voltar cavalleiro, para ter uma
+espada, para ter um nome, que seja mais digno de vós, do que o do
+obscuro pagem.
+
+D. VIOLANTE
+
+Mendo!
+
+D. MENDO
+
+Ó Violante, D. Violante não esqueçaes nunca esta hora de immensa
+felicidade!
+
+D. VIOLANTE
+
+Nunca.
+
+D. MENDO
+
+Sereis minha? sempre minha?
+
+D. VIOLANTE
+
+Serei.
+
+D. MENDO
+
+Amaes-me?
+
+D. VIOLANTE
+
+Mais que tudo!
+
+D. MENDO
+
+(_Ficando triste._) Este amor será para nós uma benção do céo...
+será.--É de certo.
+
+D. VIOLANTE
+
+Estaes outra vez triste. Lembram-vos as predicções de Fr. Bermudo? Que
+disse elle?
+
+D. MENDO
+
+Que importa o que elle disse? O nosso amor vem de Deus, só Deus o póde
+destruir.
+
+D. VIOLANTE
+
+Dizei a verdade Mendo... Não tenho medo, como vêdes... Dizei; que o
+coração já advinhou tudo.
+
+D. MENDO
+
+Para que quereis?...
+
+D. VIOLANTE
+
+Dizei.
+
+D. MENDO
+
+Disse... que não seriamos nunca um do outro... Que o destino nos
+separava para sempre.
+
+D. VIOLANTE
+
+(_Deixando-se cahir de joelhos ao lado de D. Mendo._) Virgem Nossa
+Senhora, vallei-nos!
+
+D. MENDO
+
+Separar-nos!... Agora, que a tristeza nos cobriu de trevas, e que
+começavamos a sentir os amargores da saudade... Separarmo-nos agora!
+
+D. VIOLANTE
+
+Deixar-te...
+
+D. MENDO
+
+Não chores... Minha Violante!
+
+D. VIOLANTE
+
+Esta guerra!... Esta auzencia!...
+
+D. MENDO
+
+O amor... O amor unirá as nossas almas, quando eu estiver longe, lá por
+esses certões do Al-Gharb.
+
+D. VIOLANTE
+
+Cada noite procurarei na luz das estrellas um desses teus olhares de
+amor, que são mais suaves para mim do que os clarões mais puros de um
+céo sereno e bello.
+
+D. MENDO
+
+Cada tarde escutarei no silencio dos bosques o brando gorgear das aves,
+para vêr se na voz de alguma dellas distingo um dos teus castos suspiros.
+
+D. VIOLANTE
+
+Ai! Se te eu perdesse...
+
+D. MENDO
+
+Quando voltar, seremos um do outro, para sempre!
+
+D. VIOLANTE
+
+Sinto gente! Adeus
+
+D. MENDO
+
+Violante!.. (_Cáem nos braços um do outro._)
+
+D. VIOLANTE
+
+Sou tua!.. Adeus.
+
+D. MENDO
+
+Adeus. (_D. Violante sáe._)
+
+
+SCENA VII
+
+_D. Mendo, D. Bibas e Bonamiz._
+
+D. BIBAS
+
+(_Cantando o que se segue._)
+
+ Porque choras
+ Pagem terno?
+ Teu inferno
+ Não melhoras.
+ Trá--lira.
+
+(_Cantando e rindo._) Ah! Ah! Ah!
+
+D. MENDO
+
+Tu aqui?... aqui D. Bibas... Quem te trouxe aqui, bôbo?
+
+D. BIBAS
+
+(_Apontando para Bonamiz._) Foi elle.
+
+D. MENDO
+
+(_A Bonamiz._) Tu?
+
+BONAMIZ
+
+(_Apontando para D. Bibas._) Foi elle.
+
+D. BIBAS
+
+(_Cantando._) Uma bruxa nos guiou.
+
+BONAMIZ
+
+(_Cantando._) Um diabo nos mandou.
+
+AMBOS
+
+(_Cantando._)
+
+ Segredos do coração
+ Mui grandes segredos são.
+
+BONAMIZ
+
+Am!
+
+D. BIBAS
+
+Am!
+
+BONAMIZ
+
+Am!
+
+D. MENDO
+
+Que viste, D. Bibas?--Que ouviste Bonamiz?
+
+D. BIBAS
+
+Vi-te dar um abraço... e tive inveja.
+
+BONAMIZ
+
+Ouvi dizer á mais linda dama das Hespanhas, que te amava... e desejei
+estar-te na pelle.
+
+D. MENDO
+
+Nada mais...
+
+D. BIBAS
+
+Ah!--Ouvi dizer, que os astros te tinham declarado a guerra; que a
+morte...--Que importa isso, a quem ama?
+
+D. MENDO
+
+Que importa?...
+
+D. BIBAS
+
+O amor é sempre assim. Nunca viste as crianças brigarem por uma
+borboleta, que morre e se desfaz apenas o vencedor lhe toca?
+
+D. MENDO
+
+Mas...
+
+D. BIBAS
+
+Pois as felicidades são como as borboletas; e os homens como as
+crianças.--Mas de todas as felicidades, as do amor são as que menos
+duram, e de todos os homens os mais ridiculos... são os amantes.
+
+D. MENDO
+
+Deixa agora essas chocarrices.--Escutae, ambos.--Se disserdes a alguem o
+que acabaes de vêr e de ouvir, arrancar-vos-hei olhos e lingoa... a ambos.
+
+D. BIBAS
+
+Com a espada de cavalleiro, que ainda has-de ganhar?
+
+D. MENDO
+
+Juro...
+
+D. BIBAS
+
+Não jures, que não é precizo para nada. (_Serio._) Pagem namorado, somos
+vossos amigos, e não podemos deixar, com a nossa magnanimidade real, de
+vos dizer um segredo... que segredo!
+
+D. MENDO
+
+O que é?
+
+D. BIBAS
+
+Pois deveras quereis saber.
+
+D. BIBAS
+
+(_Cantando._)
+
+ Não has-de cazar
+ Não cazarás, não.
+ Has-de Dom Bulrão,
+ Solteiro ficar.
+
+D. MENDO
+
+Maldicto!
+
+D. BIBAS
+
+(_Cantando._) _De profundis clamavi ad te..._
+
+D. MENDO
+
+Bobo, bobo!
+
+BONAMIZ
+
+Assim cantam os padres, quando morre alguma cousa, que para nada
+presta.--Não te encolerizes; cantamos sobre as tuas defuntas esperanças.
+(_Cantando._) _De profundis clamavi..._
+
+D. MENDO
+
+(_Ameaçando-os._) Excomungados bobos!..
+
+D. BIBAS
+
+(_Rindo._) Ahi vem nosso tio, o infante.
+
+AMBOS OS BOBOS
+
+(_Fugindo._) Adeus! adeus!
+
+
+SCENA VIII
+
+D. MENDO, _só_
+
+Tudo para mim é um agouro!... agouro máo! As palavras da meditação, as
+gargalhadas do escarneo... tudo! Que segredo tenebroso será este, que me
+envolve e me aterra? Minha mãe tambem sabe este segredo; é essa a causa
+d'aquella tristeza, d'aquella dôr sem consolação, d'aquelle lucto em que
+sempre vive. Tenho ouvido por vezes fallar em meu pae morto... nas
+trevas de uma noite horrenda; n'uma vingança infame que veio um dia
+manchar de sangue e de vergonha a nossa casa. Mas que historia pavoroza
+é esta de que eu ainda não pude penetrar o mysterio? Quem foi o
+assassino de meu pae? Qual é a família contra a qual a honra me ordena
+de exercer uma implacavel vingança? Não sei, nada sei, porque minha mãe
+só quando eu fôr cavalleiro me julga digno de saber este funebre
+segredo. Fr. Bermudo, o frade solitario, o astrologo que vive na
+isolação, tambem conhece os segredos da minha familia, que
+eu ignoro ainda, e não m'os quer dizer.
+
+
+SCENA IX
+
+_O mesmo, o Infante, D. Gontrade, D. João Peculiar, D. Tello, D. Gonçalo
+Mendes, D. Egas Moniz, D. Lourenço Viegas, D. Guilherme Ricardo, D.
+Gonçalo de Sousa, Cavalleiros, Ricos Homens, Homens d'Armas, Frecheiros,
+Besteiros etc. depois D. Pedro Framariz._
+
+INFANTE
+
+(_A D. Mendo._) Tu aqui, Mendo?
+
+D. MENDO
+
+Esperava por vós, meu sr. Infante...
+
+INFANTE
+
+Não vieste ouvir missa comnosco ao mosteiro de Mumadona? (_Mostrando D.
+Gontrade._) Tua mãe foi tambem... para te vêr.
+
+D. GONTRADE
+
+E para pedir a Deus pela boa sorte das armas do reino de Portugal.
+
+INFANTE
+
+Que vosso marido D. Payo Ramires ajudou a criar, e fortaleceu com a sua
+espada gloriosa.
+
+D. BIBAS
+
+Pois o filho, o nosso pagem D. Mendo estava agora a afiar a sua futura
+espada de cavalleiro.
+
+BONAMIZ
+
+E a fazer brilhantes projectos sobre a maneira de usar della.
+
+D. LOURENÇO VIEGAS
+
+Callai-vos ahi, bobos.
+
+D. BIBAS
+
+(_Ao Infante._) Queremos e podemos fallar aqui, não é assim, tio?
+
+INFANTE
+
+(_Aos pagens._) Fazei callar esses bobos. (_Os pagens levam os bobos._)
+
+D. MENDO
+
+(_Beijando a mão de sua mãe._) Sr.ª mãe, minha senhora...
+
+D. GONTRADE
+
+Meu filho, não foste despedir-te de mim, vim eu.
+
+D. MENDO
+
+Não julguei que partiriamos tão depressa... (_Abraçando-a._) Minha mãe,
+minha querida mãe perdoae.
+
+INFANTE
+
+De certo te perdoará... D. Gontrade ha de perdoar ao valente pagem, que
+vae ganhar nas batalhas a sua espada de cavalleiro, e ajudar-nos a
+accrescentar á terra, que seu pae defendeu e fez independente, novas
+provincias, com as quaes o nome de Portugal se tornará temido em toda a
+Hespanha.
+
+D. GONTRADE
+
+Meu filho! (_Ficam abraçados._)
+
+INFANTE
+
+(_Aos cavalleiros._) Só nos falta D. Pedro Framariz, para termos em roda
+de nós todos os bons cavalleiros, que estão em Guimarães. Esperaremos
+por elle aqui; depois partiremos para Coimbra onde está o restante de
+nossos ricos homens... Estas lides, que vamos lidar, senhores, hão de
+ser rijas; carecemos para ellas de toda a nossa força. É
+esta uma correria, que ha de ficar de memoria aos moiros.
+
+D. EGAS MONIZ
+
+Nossa Senhora que sempre desde pequeno vos protegeu, e que vos prometteu
+tantas victorias, não vos ha de desamparar nunca, meu sr. Infante.
+
+INFANTE
+
+Assim seja, meu leal Egas Moniz. Companheiro das victorias ganhas por o
+conde D. Henrique, ensinar-me-has a ganhar batalhas como meu pae as
+ganhava.
+
+D. JOÃO PECULIAR
+
+O ceu proteje as armas dos portuguezes.
+
+D. GONÇALO MENDES
+
+Conservae-nos pois essa protecção com as vossas orações, sr. D. João
+Peculiar; que nós, Ricos-homens e cavalleiros, aproveitar-nos-hemos
+d'ella para derribar com as nossas espadas o poder dos infieis--A vossa
+força, srs. bispos e prelados, está toda no céu; a nossa está na terra,
+appoia-se na fé, e nas armas.
+
+INFANTE
+
+Sois avisado, meu lidador. (_Aos prelados._) Vós, srs. oraé por nós. D.
+Tello, dizei aos vossos monges de Santa Cruz que façam noite e dia
+preces, para que o Senhor nos tenha da sua mão. (_Aos cavalleiros._) E
+vós, cavalleiros, desenrollae os vossos balsões, reuni nas vossas hostes
+todos os homens que tendes nas Honras, Prestamos e Senhorios que
+ganhastes; cingi as vossas espadas mais duras, tende confiança na cruz
+que é a nossa divisa, e atravessaremos, então, essas terras de Alem do
+Téjo, e lançaremos sobre ellas o nosso dominio.
+
+TODOS
+
+Aos infieis! aos infieis!
+
+D. EGAS MONIZ
+
+(_Pegando na mão do Infante e beijando-a._) Meu senhor meu amo,
+deixae-me beijar-vos as mãos, deixai o vosso aio Egas admirar-vos...
+Sois um grande principe... Haveis de ser um grande rei!
+
+TODOS
+
+Viva D. Affonso! Viva o nosso príncipe!
+
+ALGUNS
+
+Viva o nosso rei!
+
+D. GUILHERME
+
+A minha espada, e a de todos os templarios é vossa. Infante de Portugal,
+a guerra contra os infieis, aqui na nossa terra, é tão santa aos olhos
+de Deus como a feita n'essas longes terras da Palestina.
+
+D. LOURENÇO VIEGAS
+
+A minha espada é tua, Infante de Portugal.
+
+MUITOS CAVALLEIROS
+
+E a nossa.
+
+INFANTE
+
+(_Alevantando os braços ao céu._) Senhor, a nossa fé é immensa! Senhor,
+não enganeis a nossa confiança!
+
+D. MENDO
+
+(_Caíndo aos pés do Infante._) Dae-me uma espada, sr. Infante... Quero
+combatter comvosco... Quero morrer, ou ser digno da minha patria! Digno
+do nome que meu pae me legou!
+
+INFANTE
+
+Ganha a espada no campo da lide, que a has de amar ainda mais.
+
+(_D. Pedro Framariz entra com os seus acostados, e pára ao fundo._)
+
+ALGUNS CAVALLEIROS
+
+D. Pedro Framariz!
+
+D. GONTRADE
+
+(_Pondo as mãos sobre a cabeça de seu filho._) Ganha a tua espada, e
+então te confiarei o segredo da nossa familia, é uma terrível vingança.
+
+D. PEDRO FRAMARIZ
+
+Perdoae, sr.ª, que Deus tambem perdoa!
+
+
+FIM DO 1.º ACTO
+
+
+
+
+ACTO SEGUNDO
+
+
+SCENA I
+
+_O infante, em pé encostado á espada, D. Egas Moniz, o Lidador, D.
+Mendo, D. João Peculiar e cavalleiros D. Gonçalo de Sousa, D. Tello_
+
+D. JOÃO PECULIAR
+
+É tentar a Deus, só por milagre poderiamos vencer tão grande multidão de
+inimigos. Ismael tem em roda de si cinco wallis, e um poderoso exercito.
+
+D. GONÇALO DE SOUZA
+
+As hostes de cinco wallis! Mais de cem mouros para cada um de nós. Eu
+tenho feito muitas correrias, tallado por muitas vezes os campos dos
+infieis; mas esta batalha que se prepara, tenho-a por uma temeridade,
+por uma loucura. Se perdermos a batalha, e com ella o nosso infante de
+Portugal, quem ha de defender a nossa independencia?
+
+D. TELLO
+
+Os campos estão cobertos de soldados sarracenos, é um mar de lanças que
+nos hade quebrar nas suas ondas.
+
+D. GUILHERME
+
+Morremos pela cruz.
+
+JOÃO SIRITA
+
+Sr. infante nasci no povo e padeci; fui homem d'armas e combatti, vivi
+na solidão, orando a Deus, e mais de cem vezes lutei com as fera. O
+Senhor fez por mim grandes milagres, e a minha fé é immensa
+como o deserto:--morreria feliz se morresse por ella!--Porém agora o
+combatter seria matar este reino, n'uma só lide, o que o conde D.
+Henrique ganhou em tantas, e tão rijas pelejas.
+
+JOÃO PECULIAR
+
+João Sirita, o escolhido do céu, tem razão; combattemos pela cruz, para
+lhe exaltar a gloria, e não para deixar a victoria aos seus inimigos.
+(_Com solemnidade._) Eu D. João Peculiar, humilde servo de Deus, e bispo
+por sua Divina Graça, em nome da religião te requeiro que não combattas
+em lide tão desigual, porque n'ella nos perderias a todos.
+
+GONÇALO DE SOUSA
+
+Tratae tregoas com Ismael...
+
+LIDADOR
+
+Tregoas com Ismael... Seria accrescentar ao perigo a cobardia; o rei
+mouro não guardaria a sua fé.
+
+ALGUNS CAVALLEIROS
+
+Não, não peleijemos.
+
+D. TELLO
+
+Salvae a cruz.
+
+UM PRELADO
+
+Salvae a cruz sr. infante.
+
+INFANTE
+
+Agradeço-vos, sr. o vosso amor por mim, e o desejo que tendes de que
+estes condados se conservem livres e gloriosos.--Estamos cercados de
+perigos, e só um conselho avisado nos póde salvar. Deixae-me meditar, e
+resolver o que devemos fazer n'esta conjunctura difficil e grave.
+Ide-vos: e que Deus vos tenha em sua santa guarda.
+
+(_Saem todos excepto o lidador, D. Egas Moniz, D. Tello e D.
+Mendo._)
+
+
+SCENA II
+
+_(O infante, D. Tello, Egas Moniz, o Lidador, D. Mendo)._
+
+D. EGAS
+
+Que quereis fazer Sr.? É, como dizeis, grave e difficil a situação em
+que nos achamos. Eu fio tudo da vossa prudencia, que é muito já em tão
+verdes annos; do vosso animo; e do amôr que tendes a Portugal. Deus vos
+inspirará o melhor conselho.
+
+LIDADOR
+
+Que resolveis, sr. infante?
+
+INFANTE
+
+Combatter e vencer.
+
+D. TELLO
+
+O numero dos inimigos é sem conto.--Vencêr é impossivel.
+
+INFANTE
+
+Morreremos então, pela fé, pela religião de Christo, e pela patria. Mas
+não morreremos, que m'o advinha o coração. Deus tem protegido até hoje
+este pequeno canto das Hespanhas que de meu pae herdei. Quando todos os
+reinos das hespanhas veneravam como sr. Affonso VII, combatiamos nós
+entre Galliza contra o poderoso imperador, e ganhavamos em Cerneja uma
+bella victoria. Se hoje a nossa independencia se acha compromettida,
+pelo tractado que assignámos em Tuy: se estamos quasi como vassallos de
+Affonso VII, esse estado acabará logo que ganharmos uma batalha sobre os
+sarracenos. Chegou o momento de ganharmos essa batalha. Ámanhã;
+pôr-nos-hemos independentes do imperador, e talvez accrescentaremos
+mais uma provincia a Portugal.
+
+D. TELLO
+
+Cinco chefes inimigos...
+
+INFANTE
+
+Tantos quantas foram as chagas de Christo Senhor Nosso. N'esses
+blasphemadores vingaremos a fé.
+
+LIDADOR
+
+Apressemos a hora do combate. Lidemos rijamente, que havemos de vencer.
+
+INFANTE
+
+Vae, meu lidador: manda reunir o exercito; que quero fallar a todos,
+enchel-os de fé, accender-lhes nos corações uma sancta coragem. (_O
+Lidador sáe._) (_A D. Mendo._) Meu pagem, dá-me o escudo e a lança: (_D.
+Mendo dá-lh'os._) Manda-me ajaezar o meu cavallo de batalha. (_D. Mendo
+sáe._) Deus seja comigo nesta hora, e me falle ao pensamento.
+
+EGAS MONIZ
+
+N'esta sangrenta batalha, achar-me-hei ao vosso lado, como sempre, meu
+principe, para receber por vós os golpes do inimigo.
+
+INFANTE
+
+Meu Egas... meu amigo... Não tenho ninguem com quem possa desabaffar os
+amargores d'esta existencia senão tu.
+
+EGAS MONIZ
+
+Tendes-nos a todos... Uma família immensa que vos ama.
+
+INFANTE
+
+(_Com exaltação._) Salvemol'a. Salvemos essa família com a nossa espada,
+e a nossa fé.
+
+D. MENDO
+
+(_Entrando._) Está tudo prompto.--Esperam o sr. infante todos os
+cavalleiros reunidos...
+
+INFANTE
+
+Ámanhã estarás entre elles; terás uma espada ganha por ti,
+Mendo.--Vamos, senhores. (_Sáe com Egas Moniz, e D. Tello._)
+
+
+SCENA III
+
+_D. Mendo só_
+
+D. MENDO
+
+Serei cavalleiro!... terei uma espada, e com ella a minha Violante...
+a gloria!... um nome egual ao de meu pae!--Ser admirado por ella;
+ter um nome entre os nomes illustres... Combater por D. Affonso,
+pelo meu infante... que gloria, que felicidade! Ai! Violante,
+Violante!--(_Triste._) Violante... longe de ti! Violante não esqueças o
+amor, que é a vida d'este coração. Quando penso na ventura de viver com
+ella, de lhe chamar esposa, sinto subitamente o terror esfriar-me todo.
+Aquellas palavras sinistras do Astrologo, de fr. Bermudo, e aquella
+vingança de que minha mãe me fallou levantam-se diante de mim como
+espectros medonhos, que me querem roubar a minha Violante! Qu'importam
+as palavras desvairadas de um bobo... os vaticinios dos astros? Que
+importa isso tudo? Deus não póde querer a desgraça de quem nunca
+commetteu um grande crime, de quem nunca o offendeu! (_Pausa._) Ai!
+perdel-a!... (_Fica pensando._) Morrer!... antes morrer!
+
+
+SCENA IV
+
+_D. Mendo, e fr. Bermudo_
+
+FR. BERMUDO
+
+Ainda não. É ainda cedo para morreres.
+
+D. MENDO
+
+Bermudo!
+
+FR. BERMUDO
+
+Não quero que morras, não quero que percas o animo, por isso vim.
+
+D. MENDO
+
+Que pódes tu sobre a morte? Como pódes tu impedir que eu a vá buscar nas
+lanças dos inimigos? Se eu accreditasse nas tuas prophecias sinistras
+deixava-me matar na batalha de ámanhã.
+
+FR. BERMUDO
+
+Não irás buscar a morte porque amas a vida.
+
+D. MENDO
+
+Amo sim, porque amo Violante.
+
+FR. BERMUDO
+
+Não amas Violante só.
+
+D. MENDO
+
+Pois...
+
+FR. BERMUDO
+
+Amas a gloria.
+
+D. MENDO
+
+Para lh'a dar a ella.
+
+FR. BERMUDO
+
+E para ti, tambem queres a gloria, e tens razão Mendo. (_Compaixão._)
+Para que o amor fosse a tua unica paixão, o teu unico pensamento, a
+vida, o alento da tua alma; para que o amasses e vivesses só por elle,
+era preciso que o teu coração houvesse padecido desde o
+berço dôr e tormentos, tivesse sempre ficado nas trevas e na solidão e
+que, quando tu o sentisses já quasi a morrer. Deus te mostrasse um anjo,
+uma luz, uma esperança.--Para comprehender a luz é preciso ter estado na
+escuridão; para apreciar a felicidade é preciso ter padecido. Os anjos
+não podem intender as alegrias do céu, porque nunca supportaram os
+tormentos do inferno...--(_Pausa._) Os corações novos, que nunca foram
+provados pelo martyrio não podem amar como... como esses que se escondem
+n'um claustro, ou n'um sepulchro, para que ninguem os veja, para que
+ninguem saiba delles.
+
+D. MENDO
+
+Que querem dizer essas palavras?
+
+FR. BERMUDO
+
+Querem dizer que tenho penado mais, muito mais do que tu, e que não
+quero, nem posso ainda morrer.
+
+D. MENDO
+
+A sciencia prende-te á vida.
+
+FR. BERMUDO
+
+A sciencia!... Antes de ser monge, fui homem: antes de dar todas as
+horas a um estudo inutil, tive outros desejos e outras esperanças... A
+flôr morreu em botão... acabou tudo, antes de eu saber se a felicidade é
+mais do que uma palavra de escarneo, a alegria mais do que uma illusão
+miseravel... E quero a vida, mesmo assim.
+
+D. MENDO
+
+Queres a vida?
+
+FR. BERMUDO
+
+Quero-a Mendo, esta alma é um abysmo, tão tenebroso, que nem
+eu me atrevo a olhar para elle... tenho medo.
+
+D. MENDO
+
+Tens sofrido muito? Tens padecido?
+
+FR. BERMUDO
+
+Escuta e verás. Tinha um unico irmão, que amava muito; ficámos orphãos
+ambos ainda infantes. Eu nunca tinha tido outro sentimento no coração,
+senão essa amizade profunda, extrema que lhe consagrava a elle;
+tinha-lhe salvo a vida nas batalhas á custa do meu sangue... Tudo que
+via de bello no mundo desejáva-o para lh'o dar. Se havia a affrontar um
+perigo ia eu por elle, se havia gloria a ganhar, deixava-o ir, e ficava
+eu. A minha vida era d'elle só.--Um dia, voltava de uma correria contra
+os mouros, não achei senão o seu cadaver! Meu irmão fôra assassinado.
+
+D. MENDO
+
+Vingaste a sua morte?
+
+FR. BERMUDO
+
+Procurei o assassino, para vingar a morte de meu irmão; tinha ido para
+essas longes terras da Palestina. Fui tambem. Busquei-o por toda a
+parte; atravessei o deserto soffocado pelos ardores do sol, devorado
+pela sede, consummido pela fome. O meu cavallo morreu, e prosegui na
+minha peregrinação a pé encostado ao bordão de peregrino. Padeci
+martyrios crueis, mas não encontrei nunca esse homem que buscava.
+Disseram-me que tinha morrido... Voltei para a patria.
+
+D. MENDO
+
+E então?
+
+FR. BERMUDO
+
+Não tinha nada que me prendesse á vida, não tinha nenhuma
+esperança, nenhuma consolação. Fiz-me monge, e dei-me ao estudo, para
+vêr se a cabeça matava as saudades do coração.
+
+D. MENDO
+
+E conseguiste?
+
+FR. BERMUDO
+
+Esse homem não tinha morrido, voltou.
+
+D. MENDO
+
+Matastel-o?
+
+FR. BERMUDO
+
+Não.
+
+D. MENDO
+
+Perdoaste?
+
+FR. BERMUDO
+
+Também não (_Pausa._) O amor matou-me o odio. Fui fraco, covarde. Tive
+medo da minha vingança; trahí meu irmão, deixei passar junto de mim o
+seu assassino, e não tive força para levantar sobre elle o meu braço
+vingador.
+
+D. MENDO
+
+Porque? O que te deteve o braço?
+
+FR. BERMUDO
+
+Amei a filha desse homem...
+
+D. MENDO
+
+Tu?
+
+FR. BERMUDO
+
+Eu?!... Não.--Sou monge, não posso ter amor. Um voto matou-me o coração.
+
+D. MENDO
+
+Desgraçado!...
+
+FR. BERMUDO
+
+Que importa o que passou... o que morreu! Todos julgaram que eu havia
+morrido... E ha dez annos que enterrado n'um mosteiro estudo a alchimia;
+tenho descoberto segredos, que poderiam fazer os homens
+felizes, segredos que poderiam talvez tornar o mundo todo um paraizo. A
+natureza é omnipotente em crear, omnipotente em destruir: ao lado de
+cada força que géra ha uma força que mata... São tudo combates. O homem,
+grão de pó no universo, segue a lei geral. A vida é um combate entre o
+sêr, e o não sêr. O pensamento é uma lucta entre o bem e o mal.
+(_Pausa._) Aqui tens, Mendo, uma essencia subtil. Esta essencia é a vida
+para ti se fores ferido na lide.
+
+D. MENDO
+
+(_Repellindo o frasco._) Padre, tu fizeste-me perder o animo: mataste-me
+as esperanças. Tenho agora medo de tudo, menos da morte: tudo para mim é
+fatal. Essa peleja perder-se-ha. A vida servir-me-ha só para ser
+escravo, e penar. (_Ouvem-se gritos do exercito ao longe._)
+
+FR. BERMUDO
+
+Ouves?... Esses homens, ha pouco tão sem animo, tão atemorisados, estão
+agora incendiados pelo fogo do enthusiasmo... Oh! o enthusiasmo é um
+poder sublime! Os seus effeitos são similhantes aos que a força
+omnipotente de Deus produziria se baixasse á alma do homem... Uma
+palavra de D. Affonso bastou para pôr em duvida a victoria... talvez
+para a assegurar.
+
+D. MENDO
+
+Pois julgas...
+
+FR. BERMUDO
+
+Pela fé, e pelo enthusiasmo o homem multiplica-se, torna-se grande, e
+vence... Desgraçado de mim, que já não sinto esse divino fogo animar-me
+o coração. (_Dando o frasco a D. Mendo._) Mendo, toma essa essencia, é a
+vida..--Ámanhã, no meio dos gritos da victoria, dar-te-hão
+uma espada de cavalleiro, e saudar-te-hão entre os heroes. Vive para a
+gloria. Vive para Portugal. (_Em voz baixa._) Vive para vingar teu pae,
+se tens n'alma força para tanto.
+
+D. MENDO
+
+Acceito.
+
+
+SCENA V
+
+_Os mesmos, D. Bibas e Bonamiz_
+
+D. BIBAS
+
+ Quero a vida.
+
+BONAMIZ
+
+ Não a quero.
+
+D. BIBAS
+
+ Pela morte.
+
+BONAMIZ
+
+ Só espero.
+ Sem a minha doce amante,
+ Viver não quero um instante.
+
+D. BIBAS
+
+ Mas a gloria?
+
+BONAMIZ
+
+ E os amores?
+
+D. BIBAS
+
+ Mas os cardos?
+
+BONAMIZ
+
+ Mas as flores?
+
+D. MENDO
+
+(_Colerico._) Outra vez a escutar os meus segredos?
+
+D. BIBAS
+
+ Vingativos frades;
+
+BONAMIZ
+
+ E pagens contrictos,
+
+D. BIBAS
+
+ Monges aguerridos,
+
+BONAMIZ
+
+ Amantes afflictos
+
+D. BIBAS
+
+ Só nos fazem rir.
+
+BONAMIZ
+
+ Ai! fazem-nos rir...
+
+FR. BERMUDO
+
+(_Colerico._) Que ouvistes?
+
+D. BIBAS
+
+Coisas muito para rir!--Dizem que ha grandes sabedores, homens que valem
+mais do que os outros, que são mais avisados. (_Dando uma gargalhada._)
+Loucura!... Os homens são todos bobos: bobos que fazem rir, bobos que
+fazem chorar, bobos que amam, bobos que odeiam, bobos que leem até dos
+astros, bobos que não sabem ler nem mesmo um pergaminho... mas todos
+bobos, todos jograes e chocarreiros.
+
+FR. BERMUDO
+
+Tens razão D. Bibas.
+
+D. BIBAS
+
+Vós que sois admirado pelo muito que sabeis, fallaes de vinganças como o
+mais estupido homem d'armas... Matar... matar um homem!... O que importa
+isso? Pois elle não ha de morrer, sem que o matem?--Matal-o é affastal-o
+de todos os tormentos deste mundo, é dar-lhe o descanço eterno... Estou
+hoje um bobo serio, não é assim? Um bobo serio é como um vestido de dó
+num casamento, excita a compaixão e o desprezo.
+
+BONAMIZ
+
+Mestre, estás hoje insipido.
+
+D. BIBAS
+
+Que queres? Deante destes dois mochos a piarem sons de agouro, até o
+genio de um jogral fica vencido.
+
+FR. BERMUDO
+
+Não digaes nada do que ouvistes, bobos.
+
+D. BIBAS
+
+Tambem tu, fr. feiticeiro, julgas que os bobos são como o resto dos
+homens? Ficae descançados; nós queremos saber para rir, e não para ir
+contar aos outros. (_Dando uma gargalhada._) Vingativos frades.
+
+BONAMIZ
+
+E pagens contrictos...
+
+D. MENDO
+
+Calae-vos ahi, bobos do inferno. (_A fr. Bermudo._) Acceito, fr.
+Bermudo. Não quero a morte ainda.
+
+FR. BERMUDO
+
+Vive...
+
+D. MENDO
+
+Cumprir-se-ha minha sina?
+
+FR. BERMUDO
+
+Cumprir-se-ha. (_O rumor do exercito aproxima-se_)
+
+BONAMIZ
+
+Ahi vem o nosso infante, o nosso tio infante.
+
+FR. BERMUDO
+
+Adeus. D. Mendo--Quando me quizeres, estarei ao pé de ti. (_Sáe._)
+
+(_A noite tem-se cerrado pouco a pouco._)
+
+
+SCENA VI
+
+_O Infante, Egas Moniz, o Lidador, D. Mendo, e Cavalleiros_
+
+TODOS
+
+Viva o nosso infante! viva!
+
+ALGUNS
+
+Viva El-Rei!
+
+INFANTE
+
+Havemos de vencer; protege-nos o braço do Senhor.
+
+ALGUNS
+
+Viva D. Affonso!
+
+INFANTE
+
+Ide purificar-vos pela oração para que Deus proteja as nossas armas.
+
+(_Saem todos gritando--Viva D. Affonso, fica só o infante e D. Mendo._)
+
+
+SCENA VII
+
+_O Infante e D. Mendo_
+
+INFANTE
+
+Mendo, amanhã é o mais bello dia da tua vida... Sentirás pela primeira
+vez o furor dos combates correr-te nas veias. No meio do turbilhão dos
+inimigos sentirás essa força estranha, superior e independente da
+vontade, que dirige o braço dos que pelejam pela sua fé, e pela sua
+patria; essa força que faz os heroes e os martyres; que é a inspiração
+dos homens de guerra. Não estejas assim triste agora; que depois da
+peleja terás de chorar os nossos que morrerem... e então... Que importa?
+Resta-me o amor. Tu és moço, nobre; serás em pouco um dos
+melhores lidadores de Portugal. (_Sentando-se._) Ajuda-me a tirar este
+capêllo. És feliz, Mendo; sobre ti não pezam nem remorsos do passado,
+nem terror do futuro...
+
+D. MENDO
+
+Sr. infante!
+
+INFANTE
+
+Meu amigo!... Diz-me o que desejas; quero fazer-te feliz, a ti.
+
+D. MENDO
+
+(_Com excitação._) Meu senhor!
+
+INFANTE
+
+Falla-me com sinceridade.
+
+D. MENDO
+
+Amo.
+
+INFANTE
+
+Amas D. Violante, já o sabia. Amas a filha de D. Pedro Framariz, e és
+amado por ella. Sereis unidos.
+
+D. MENDO
+
+Unidos... Eu, e Violante...
+
+INFANTE
+
+Sou eu que t'o prometto.
+
+D. MENDO
+
+Meu Deus, meu Deus! que feliz é o meu destino!
+
+INFANTE
+
+Vae agradecel-o a Deus... vae pedir-lhe por nós todos. Anda Mendo, vae
+pedir ao Senhor, que tenha misericordia dos que desejam glorificar seu
+santo nome.
+
+D. MENDO
+
+Vou...
+
+INFANTE
+
+Deixa-me só. (_Mendo sáe._)
+
+
+SCENA VIII
+
+_O Infante. (Só.)_
+
+INFANTE
+
+(_Depois de uma pauza em que escuta os gritos do exercito ao longe._)
+Aníma-os a todos a esperança da victoria. Esqueceram tudo, para se
+lembrarem só do triumpho. Uns combaterão por que têem fé, e querem,
+combatendo, ganhar o ceu; outros porque têem ambição, e querem
+accrescentar as suas terras e augmentar o seu poder. Agora é tudo
+enthusiasmo, tudo esperança ahi... depois, mais tarde, quando cada um
+desses guerreiros estiver a sós com a sua alma, virá a meditação; depois
+as recordações, e as saudades; depois a oração fervorosa... e depois...
+depois talvez o medo da morte... Morrer pela fé é ganhar a corôa celeste
+dos martyres; e todos os meus companheiros d'armas creem como eu na
+misericordia de Jesus Christo! (_Cravando no chão a espada e pondo-se de
+joelhos._) Cruz de redempção, sobre que primeiro se escreveu a palavra
+sacrosanta de perdão para os homens, symbolo de eterna victoria,
+ajudae-nos... Que vos cerque uma luz de gloria: que se passe um milagre
+diante de mim, e a minha confiança será infinita! Gedeão era humilde e
+fraco como eu, os seus eram poucos contra muitos, como são agora esses
+meus, e o altar de Baal foi derrubado, e em seu logar se levantou o
+templo de Jéhovah. É por que a sua fé era viva, é por que a sua offerta
+tinha sido consumida pelo fogo do ceu no altar do sacrifício, é por que
+a mão de Deus o protegia, é por que na sua alma havia uma
+inspiração sagrada... Inspirae-me, meu Deus: dae-me a victoria Senhor...
+e o vosso nome será adorado por toda a parte onde chegar o meu poder.
+Onde eu poder fazer ouvir a vossa palavra divina, grandes e pequenos,
+nobres e humildes a escutarão com amor e contricção. Dae-me a victoria,
+meu Deus!
+
+
+SCENA IX
+
+_O Infante e Fr. Bermudo_
+
+FR. BERMUDO
+
+(_Á entrada do Real._) A victoria será tua.
+
+INFANTE
+
+(_Levantando-se._) Quem és? Que queres aqui? Foi Deus que te mandou?
+
+FR. BERMUDO
+
+A sua benção caiu sobre ti, e os teus.
+
+INFANTE
+
+A victoria!... Será nossa a victoria?
+
+FR. BERMUDO
+
+(_Abrindo as cortinas do fundo do Real, deixando vêr o campo, que se
+estende por uma encosta, e em que brilham algumas fogueiras; apontando
+para o Oriente._) Ao romper d'alva verás no Oriente o braço do Senhor
+estender-se sobre o teu exercito.
+
+INFANTE
+
+A victoria, a victoria! Uma palavra tua, meu Deus!... (_Abraçando de
+joelhos a cruz da espada._) Gloria ao teu nome Senhor!
+
+
+FIM DO 2.º ACTO
+
+
+
+
+ACTO TERCEIRO
+
+_Uma salla do castello de Guimarães, portas lateraes e ao fundo. É
+noite, brandões seguros por braços de ferro lançam uma luz brilhante.
+Ouve-se musica, ha differentes bailados, durante a primeira scena._
+
+
+SCENA I
+
+_D. Gonçalo de Sousa, D. Lourenço Viegas, D. Soeiro Viegas, Cavalleiros,
+Prelados, Damas, D. Mendo, D. Violante, D. Bibas e Bonamiz. Os
+Cavalleiros e Damas passeiam e dançam._
+
+D. GONÇALO DE SOUSA
+
+(_A uma dama que traz pelo braço._) Foi bello, magnifico este nosso jogo
+do tavolado.--Nunca damas mais formosas fizeram nascer dezejos de gloria
+em corações de mais ardentes e destros cavalleiros.
+
+DAMA
+
+Lembraram-vos hoje essas batalhas verdadeiras, onde sois sempre o
+primeiro, sr. D. Gonçalo de Sousa?
+
+D. LOURENÇO VIEGAS
+
+(_Aproximando-se._) Feliz o cavalleiro que ganhou hoje uma coroa para
+vos offerecer, linda Branca.
+
+DAMA
+
+Não sejaes invejoso, D. Lourenço Viegas, que é feia a inveja em quem
+vale tanto: vossos feitos de armas já vos mereceram o nobre titulo de
+_espadeiro_.
+
+BONAMIZ
+
+Mas nem por isso lhe tem valido grandes triumphos em amor. É
+por que o amor não se leva á espada, como se levam os infieis
+sarracenos. As mulheres são infieis, que se conquistam pela brandura, e
+que se conservam pelo galanteio. O braço forte não serve para conquista
+destas, D. Lourenço.
+
+DAMA
+
+(_Rindo._) Que tem isso?--Não se póde ser grande em tudo. (_Vão para o
+fundo da scena._) É melhor cubrir-se um cavalleiro de gloria nas
+batalhas do que nos amores.
+
+D. SOEIRO VIEGAS
+
+(_Vindo á frente da scena com uma dama._) D. Sancha, sois a formosa de
+todas as lindas damas de Portugal. Um mouro chamar-vos-hia uma huri, eu
+adoro-vos como a um anjo.
+
+DAMA
+
+É nos campos da lide que se aprende a lisonja?
+
+D. SOEIRO VIEGAS
+
+Aprende-se a ser franco, e leal...
+
+D. BIBAS
+
+(_Rindo._) Como todos os da vossa raça, dom namorado...
+
+D. SOEIRO VIEGAS
+
+Excommungado bobo!
+
+D. BIBAS
+
+Não ha nada que esfrie uma paixão como uma gargalhada a tempo. O bobo é
+o avesso de Cupido. Ri-se das coisas serias, o bobo; e Cupido e todos os
+seus escravos tomam a serio até os ridiculos galanteios do amor.
+
+(_Um cavalleiro e uma dama vêem á frente da scena._)
+
+1.º CAVALLEIRO
+
+Está sempre triste, e cuberta de lucto, a infeliz D. Gontrade.
+
+DAMA
+
+Vistel-a hoje aqui? Em quanto o filho, D. Mendo...
+
+1.º CAVALLEIRO
+
+O namorado D. Mendo. Vede com que olhos elle admira a filha de D. Pedro
+Framariz. Feliz Mendo!
+
+DAMA
+
+Em quanto o pagem d'El-Rei...
+
+1.º CAVALLEIRO
+
+Agora cavalleiro. Ganhou a espada na batalha de Ourique. Foi o sr. D.
+Affonso Henriques, quem o armou com a sua propria mão.
+
+DAMA
+
+Em quanto D. Mendo andou pela guerra, a mãe, D. Gontrade, passou os dias
+e as noites fechada, a rezar sempre. Aquella mulher tem dôr ou remorso
+que lhe dilacera o coração.
+
+1.º CAVALLEIRO
+
+Estava ali na capella esta manhã: parecia ainda mais triste que de costume.
+
+DAMA
+
+Pobre D. Gontrade! Dizem que lhe mataram o marido! É uma historia
+tenebrosa, que ficou sempre em mysterio, e de que pouco se sabe.
+
+1.º CAVALLEIRO
+
+Seu filho Mendo vae casar.....
+
+DAMA
+
+Assim se diz. Mas a fallar verdade, eu duvido.
+
+(_Um grupo de cavalleiros vem á frente da scena.)_
+
+1.º CAVALLEIRO
+
+Foi uma rija arrancada aquella de Ourique. El-Rei D. Affonso
+derrubou de um golpe dois daquelles perros infieis.
+
+2.º CAVALLEIRO
+
+Ismael pouco resistiu.
+
+3.º CAVALLEIRO
+
+Nunca, por vida minha, nunca vi uma tão grande róta.
+
+1.º CAVALLEIRO
+
+Parecia que o braço de Deus pelejava por nós.
+
+2.º CAVALLEIRO
+
+E que alegria a do exercito quando depois da batalha, levantámos por
+nosso rei a D. Affonso Henriques.
+
+3.º CAVALLEIRO
+
+Agora já temos rei independente.
+
+2.º CAVALLEIRO
+
+Temos ainda que combater muito pela independencia de Portugal.
+
+(_Outro grupo de cavalleiros vem á frente da scena._)
+
+1.º CAVALLEIRO
+
+É um leal cavalleiro D. Pedro Framariz.
+
+2.º CAVALLEIRO
+
+Honrado como Egas Moniz.
+
+3.º CAVALLEIRO
+
+Não tanto. Elle não se hia de certo entregar nas mãos dos inimigos para
+não faltar á palavra dada, á lealdade jurada.
+
+2.º CAVALLEIRO
+
+Lá isso é verdade; D. Pedro Framariz não era capaz de tal.
+
+BONAMIZ
+
+(_Rindo._) Tem mais amor á pelle, e menos amor à honra. (_Vae-se
+cantando._)
+
+3.º CAVALLEIRO
+
+Estes bobos!...
+
+2.º CAVALLEIRO
+
+Dizem que a filha caza com D. Mendo, o antigo pagem d'el-rei. É um
+cazamento muito honroso para D. Mendo.
+
+3.º CAVALLEIRO
+
+Estão namorados, mas cazarem... Não cazarão talvez.
+
+2.º CAVALLEIRO
+
+É a vontade d'el-rei, que se cazem.
+
+4.º CAVALLEIRO
+
+Entre as duas familias houve n'outro tempo alguma coisa.
+
+3.º CAVALLEIRO
+
+Um homizío... dizem.
+
+D. MENDO
+
+(_Aproximam-se de Violante que está assentada._) Violante, ficae; deixae
+sahir todos.
+
+VIOLANTE
+
+Fico. (_D. Mendo affasta-se._)
+
+_Um grupo de velhos cavalleiros e de prelados, vem á frente da scena_
+
+1.º PRELADO
+
+Vae-se demorando o banquete.
+
+2.º CAVALLEIRO
+
+Muito mais do que se demoram os nossos golpes quando pelejamos contra os
+excommungados da Moirama...
+
+2.º PRELADO
+
+As nossas orações no côro tambem se não demoram tanto tempo como esta ceia.
+
+3.º CAVALLEIRO
+
+Não tarda. Ainda bem que se demora porque podemos conversar.
+
+UM OVENÇAL
+
+(_Na salla d'armas, á porta._) Nobres, ricos-homens,
+infanções, cavalleiros, srs. de prestamos e alcadarias, el-rei de
+Portugal vos convida a vir tomar parte no banquete.
+
+2.º CAVALLEIRO
+
+Em fim!
+
+PRELADO
+
+Vamos, vamos.
+
+(_Sahem todos, todos excepto D. Mendo e D. Violante. D. Bibas esconde-se
+detraz de um pilar._)
+
+
+SCENA II
+
+_D. Mendo e D. Violante, D. Bibas (escondido.)_
+
+D. MENDO
+
+Violante!... minha Violante!
+
+VIOLANTE
+
+Mendo?!
+
+D. MENDO
+
+Uma palavra... uma palavra, por minha alma.
+
+VIOLANTE
+
+Mendo, nem um instante passei sem pensarem vós: e eu tambem estava
+esperando com ancia este momento para vos ouvir dizer-me uma palavra de
+amor.
+
+D. MENDO
+
+E não teve, Violante, não teve essa bocca um sorriso para mim, nem esses
+olhos tiveram um olhar terno para me dar até agora?
+
+VIOLANTE
+
+Ai! que nem eu sei dizer-vos o que sinto, dizer-vos o que me deteve
+diante de toda essa gente! Ha uma coisa occulta, Mendo, que me prende a
+palavra e o gesto quando quero mostrar-vos tudo o que sinto em mim.
+Faltam-me forças, faltam-me faculdades para tanto.
+
+D. MENDO
+
+Falta-vos o amor... talvez.
+
+VIOLANTE
+
+(_Sorrindo com muito amor._) É desleal essa palavra, cavalleiro. Eu
+conheci um pagem que só dizia o que pensava, com verdade, e sinceramente.
+
+D. MENDO
+
+O pagem, minha Violante, seria verdadeiro e sincero, seria: mas não
+valia mais do que o cavalleiro, que d'elle herdou o maior amor, que do
+mundo tem havido.
+
+VIOLANTE
+
+Que sustos tive, em quanto durou a guerra! Parecia-me que não vos
+tornaria a vêr, e essa ideia fazia-me chorar horas esquecidas, fechada
+no meu oratorio.
+
+D. MENDO
+
+Eu não podia morrer, porque vós me estaveis esperando.
+
+VIOLANTE
+
+Não vos lembrou a triste Violante, quando, o primeiro entre todos, vos
+lançastes por meio das lanças dos inimigos?
+
+D. MENDO
+
+Lembrou, lembrou. Ia lá buscar esta espada... Não era eu que ia, não;
+era a esperança de vir aqui ajoelhar-vos aos pés e dizer-vos: «Violante,
+tenho um nome de cavalleiro, tenho um logar entre os ricos-homens de
+Portugal, tenho esta mão que é leal e que está pura... offereço-vos,
+tudo minha Violante!»
+
+VIOLANTE
+
+(_Apertando a mão de D. Mendo._) Acceito.
+
+D. MENDO
+
+A fr. Bermudo devo a ventura de ouvir a minha Violante dizer-me esta
+divina palavra.
+
+VIOLANTE
+
+(_Com susto._) A fr. Bermudo! Como? Que tem esse astrologo agourento com
+a nossa felicidade?
+
+D. MENDO
+
+Não quero ser eu só a bem dizer esse homem inexplicavel; por isso, aqui
+mesmo no meio da nossa alegria, quero contar o que elle fez para me salvar.
+
+VIOLANTE
+
+Para vos salvar?
+
+D. MENDO
+
+Estava quasi ganha a batalha; na ala esquerda porém, ainda uma das
+hostes dos almoravides resistia como um muro de ferro aos ataques
+impetuosos dos cavalleiros christãos. Tive vergonha de vêr os nossos
+recuarem deante dos inimigos, entre os quaes combatiam mais de trezentas
+mulheres; e, com uma espada na mão precipitei-me sobre a phalange
+sarracena; rompi a primeira e segunda linha, e quando me voltei para vêr
+se os cavalleiros portugueses me haviam seguido, achei-me de todos os
+lados cercado pelos infieis. A minha morte era certa: o braço já ía
+cançando: e se não fôra a vossa imagem, que estava sempre presente ao
+meu espirito, ter-me-hia deixado morrer. Subitamente, porém, quando já,
+fechando os olhos, e pronunciando o vosso nome, me arremedava ás cegas
+sobre os inimigos, ouvi por detraz de mim um pavoroso clamor, e vi logo
+depois um soldado que derrubava tudo com o seu braço de Hercules. N'um
+instante, vi abrir-se uma larga estrada juncada de cadaveres; e foi
+assim que me salvei da morte.
+
+VIOLANTE
+
+E o soldado?
+
+D. MENDO
+
+Era fr. Bermudo. Violante, a fr. Bermudo devo esta felicidade, tão
+grande, que nem eu a posso comprehender, nem a posso sentir toda, que
+não tenho coração para tanto. É uma felicidade que mata!
+
+VIOLANTE
+
+Tem-me consumido a vida, mas amo-a.
+
+D. MENDO
+
+Oh! Que nunca julguei que tão cedo nos chegasse tamanha ventura!
+(_Beija-lhe a mão--D. Bibas dá uma gargalhada aguda e estridente._)
+
+VIOLANTE
+
+Jesus!
+
+D. MENDO
+
+(_Levando a mão á espada._) Quem ousaria?!
+
+D. BIBAS
+
+(_Vae-se cantando com, voz lugubre._)
+
+ «Vivem loucos namorados
+ Vendo futuro formoso
+ Onde não ha mais que a dôr
+ De um mysterio tenebroso.»
+
+VIOLANTE
+
+Bobo.
+
+D. MENDO
+
+D. Bibas que anda fazendo pelo castello a sua ronda de escarneo.--Louco!
+
+FR. BERMUDO
+
+(_Entrando._) D. Mendo, os loucos sabem mais ás vezes que os
+avisados--Sr.ª D. Violante ide-vos, vosso pai procura por vós.
+
+D. MENDO
+
+Tudo nos separa...
+
+D. VIOLANTE
+
+Em breve nada nos poderá separar um do outro. Adeus, Mendo, adeus! (_Sae._)
+
+
+SCENA III
+
+_D. Mendo e Frei Bermudo._
+
+D. MENDO
+
+Para que vieste separar-nos, quando estavamos a matar as saudades d'esta
+longa ausencia? Fr. Bermudo, és tu sempre quem separa Violante de mim.
+
+FR. BERMUDO
+
+Não sou eu; é o teu destino fatal.
+
+D. MENDO
+
+Mão me repitas outra vez os teus agoiros. Não queiras que eu te maldíga;
+não queiras que eu tome odio a ti, e á vida...
+
+FR. BERMUDO
+
+Depois d'esse teu penar, virá a gloria. Assim o dizem os astros. (_Sáe._)
+
+
+SCENA IV
+
+D. MENDO _só_
+
+Este homem, este frade é incomprehensivel. As suas palavras pezam sobre
+mim; quando o vejo, não sei se a sympathia, ou o odio me fazem pular o
+coração no peito. Devo-lhe a vida a este homem; e, comtudo, parece-me
+que lhe não posso ser grato.--Sou cavalleiro já, e agora saberei o
+segredo tremendo, que desde a infancia me involve, sem que o possa
+conhecer. Minha mãe--quando ao chegar da guerra a fui vêr--recebeu-me
+com assustadora solemnidade; deu-me apenas um beijo que me fez frio.
+Está mais pallida agora; e ha nos seus olhos um clarão sinistro que me
+faz medo. Sinto caminhar para mim o terrivel segredo, e tenho vontade de
+fugir para o não ouvir. É covardia... é fraqueza, isto!
+
+
+SCENA V
+
+_D. Mendo e D. Gontrade_
+
+D. GONTRADE
+
+(_Entrando._) Meu filho...
+
+D. MENDO
+
+(_Estremecendo._) Minha mãe...
+
+D. GONTRADE
+
+Estás aqui, Mendo, longe das festas, triste e só? Tens razão, filho;
+porque não pódes, não deves ter nem alegria nem descanço, em quanto não
+tirares vingança do assassino de teu pai.
+
+D. MENDO
+
+Que dizeis, minha mãe? meu pai morreu assassinado, já vol-o ouvi dizer;
+mas quem o matou é o que eu não sei ainda.
+
+D. GONTRADE
+
+Mendo, até ao dia em que ganhaste--gloriosamente, bem o sei--essa nobre
+espada, não eras mais do que um pagem, uma criança. Esse tempo passou:
+tens já um nome de cavalleiro que teu pai tornou illustre, e que tu
+deves conservar puro e sem mancha. Mendo Paes, o teu nome está
+deshonrado. A mão de um homem desleal manchou-lhe a pureza,
+deslustrou-lhe a nobreza. D. Paio Ramires teu pai, foi assassinado,
+covardemente assassinado; e o seu assassino vive ainda!..
+Ficas assim calado?!... Não se te revolvem lá dentro os desejos da
+vingança? Meu filho, enganar-me-hia a esperança? Não serás tu digno de
+teu pai?
+
+D. MENDO
+
+(_Com terror._) Quero-vos muito, minha mãe. Esta vingança, porém, faz-me
+susto. Não sei que pressentimento me diz que esta vingança me hade matar
+a mim tambem.
+
+D. GONTRADE
+
+Susto! tens susto de vingar a morte de teu pai!? Não te creio, meu
+filho, porque respeito, em ti, o chefe da nossa familia. É hoje o dia da
+vingança, Mendo, uma vingança cruel, tremenda, publica para que todos a
+saibam. A vingança é um acto horrendo e criminoso; mas a honra exige que
+esse acto se cumpra.--Foi a ultima vontade de teu pai. É no meio do
+banquete, entre os risos e os gritos do triumpho, que te espera a
+victima. (_Tirando um punhal._) Foi esta a arma traidora que serviu ao
+crime; sobre ella ha ainda o sangue de teu pai ennegrecido pelo tempo,
+mas não limpo ainda da deshonra. Guardei-o sempre como uma reliquia
+sagrada, para t'a confiar na hora do castigo...
+
+D. MENDO
+
+O punhal é arma de traidôr; minha mãe, tenho esta espada...
+
+D. GONTRADE
+
+E se morresses?... se esse homem te matasse tambem?
+
+D. MENDO
+
+Morria como cavalleiro.
+
+D. GONTRADE
+
+Quem vingaria teu pai?--Não, Mendo; é com este ferro que o infame deve
+ser punido... O assassino de teu pai é...
+
+D. MENDO
+
+Callai-vos... callai-vos...
+
+D. GONTRADE
+
+Que tens?
+
+D. MENDO
+
+Tenho medo!
+
+D. GONTRADE
+
+Medo?!...
+
+D. MENDO
+
+Se esse bomem fosse?...
+
+D. GONTRADE
+
+Quem?
+
+D. MENDO
+
+O pai da mulher que amo..
+
+D. GONTRADE
+
+Morreria... da tua mão receberia a morte.
+
+D. MENDO
+
+Minha mãi!
+
+D. GONTRADE
+
+É a hora da vingança, meu filho. Quando uma familia nobre, como a nossa,
+se acha deshonrada, e offendida pela mão de um traidor, não deve n'ella
+haver descanço, nem alegria, em quanto a offensa não fôr castigada, e a
+sua honra purificada da nodoa de sangue que lhe apagou o brilho.--O
+homem que matou teu pai, Mendo, vive junto de nós, é um dos ricos-homens
+de D. Affonso Henriques, é D. Pedro Framariz.
+
+D. MENDO
+
+D. Pedro! Jesus, meu Deus!...--Elle!.. não minha mãi, isso não póde
+ser.
+
+D. GONTRADE
+
+Hesitas?
+
+D. MENDO
+
+O pai de Violante? É um nobre cavalleiro, que tem um logar distincto
+entre os cavalleiros mais leaes á patria, entre os mais ardentes
+defensores da fé.
+
+D. GONTRADE
+
+O sangue de teu pai pede sangue, meu filho. D. Pedro matou covardemente
+D. Payo Ramires; e tu não podes, não tens direito de trazer essa espada,
+em quanto em Portugal poderem dizer de ti: «Aquelle homem desconhece os
+principios da honra, porque não vingou ainda a morte de seu pai.»
+
+D. MENDO
+
+Mais tarde; ainda não...
+
+D. GONTRADE
+
+Hoje... agora.--Ha dez annos, a esta mesma hora vi eu cravar este punhal
+no coração de teu pai... de meu marido.--Foi uma noite horrivel... uma
+noite de sangue e infamia!
+
+D. MENDO
+
+Assassino!... eu!...--Minha mãe, a vingança é um crime covarde e
+miseravel. Uma lança que se cruza com outra lança em repto leal, á luz
+do dia, diante de todos, merece a sympathia de todos; um punhal que nas
+trevas escorrega cautelosamente, e se crava frio e silencioso nas carnes
+de um homem desarmado, só merece desprezo.
+
+D. GONTRADE
+
+A vingança não é crime, quando a exerce um filho sobre o assassino de
+seu pai.
+
+D. MENDO
+
+E Violante?...
+
+D. GONTRADE
+
+Entre ti e ella ha um cadaver.
+
+D. MENDO
+
+Perdoai, minha mãi. Sou fraco de coração. Fallece-me o animo.
+
+D. GONTRADE
+
+Mendo, teu pai deixou a sua maldição em herança ao filho, se elle o não
+vingasse; e a minha maldição juntar-se-ha á d'elle...
+
+D. MENDO
+
+Que Violante não veja... que não o saiba!
+
+D. GONTRADE
+
+Covarde! vês este punhal tincto ainda de sangue, e hezitas, e tremes...
+
+D. MENDO
+
+Não posso... Aquelle anjo!--Pois eu hei de ser odiado por Violante!
+(_Com muita desesperação._)
+
+D. GONTRADE
+
+A honra do nosso nome, e a memoria de teu pai pedem vingança! (_Dando o
+punhal a D. Mendo, que o recebe com terror_) Vinga a morte de teu pai,
+ou sê maldicto! (_Sáe._)
+
+
+SCENA VI
+
+_D. Mendo, só_
+
+D. MENDO
+
+Meu pai, meu pai, levantae-vos do sepulchro e perdoai... que me
+salvaes, que salvaes vosso filho! (_Olhando para o punhal._) Este sangue
+ha de ser lavado com outro sangue?! Assim o exige a honra de
+uma familia nobre!... Meu pai, se vos basta o sangue de um homem,
+dar-vos-hei todo o meu! (_Chorando._) Se as lagrimas de um filho podem
+lavar a nodoa tremenda d'este ferro, derramarei o meu pranto sobre elle
+em quanto viver!... A vingança dura pois mais do que a vida?! O espirito
+depois de separado da terra, não perdôa, não esquece tudo?! Pois n'esse
+mundo mysterioso e todo espiritual, para aonde as almas vão depois da
+morte, tambem ha estas ruins paixões, que teem feito da humanidade um
+bando de feras? Essas paixões duram a eternidade? Onde está o descanço,
+aonde está a paz? Onde existe o ceu?--Ai! Quem me livra deste martyrio?
+Quem salva a minha honra? Quem dá força á minha alma, para que se não
+perca... para que não renegue a Deus?!
+
+
+SCENA VII
+
+_D. Mendo e Fr. Bermudo_
+
+FR. BERMUDO
+
+Tira da fé a tua força, e não renegarás a Deus. A desgraça é difficil de
+supportar; e quando pela primeira vez ella nos entra no coração,
+parece-nos impossivel que o coração a possa conter, que o coração não
+estale.
+
+D. MENDO
+
+Salva-me, salva-me... Fr. Bermudo, sei tudo. Violante é filha do
+assassino de meu pai. Minha mãi confiou-me uma vingança... que eu não
+tenho animo de executar.
+
+FR. BERMUDO
+
+Péza-te essa vingança? Dá-ma... que t'a acceito.--É o ultimo
+sacrificio que faço ás malditas paixões humanas: faço-o com horror, mas
+não quero que tu sejas odiado pela candida Violante. Esse odio
+matal-a-hia a ella!
+
+D. MENDO
+
+Como te hei de confiar uma vingança que é só minha?
+
+FR. BERMUDO
+
+Eu tambem tenho direito de a tomar para mim.
+
+D. MENDO
+
+Porque?!
+
+FR. BERMUDO
+
+Não queiras penetrar o enigma da minha vida. Juro-te que não é deshonra
+para ti ceder-me essa vingança.
+
+D. MENDO
+
+E Violante? Já não podemos ser um do outro. É impossível esta união.
+
+FR. BERMUDO
+
+Não te disse que Violante não podia ser tua?
+
+D. MENDO
+
+Que hei-de fazer?
+
+FR. BERMUDO
+
+Esquecel-a... se fôr possivel.
+
+D. MENDO
+
+Não, não... não posso... não é possivel.
+
+FR. BERMUDO
+
+Pobre de ti, que a amas tambem!
+
+D. MENDO
+
+E ella?... Se morrer, meu Deus!
+
+FR. BERMUDO
+
+A sua alma é pura... é um anjo, os anjos a esperam...--Que morra ao
+menos com o seu amor: que morra, amando-te. Odiar-me-ha a mim... mas que
+importa? Esse odio fará mais miseravel ainda quem do mundo
+só conheceu os amargores. Que importa?
+
+D. MENDO
+
+(_Chorando._) Que padecimento!... Que martyrio!... Maldita a vida, em
+que ha tanta dor, e tanta miseria!....--Oh! A minha felicidade, as
+minhas esperanças eram um escarneo cruento!... A maldição de meu pai
+caiu sobre mim, e tornou arido, e deserto o meu coração!... Deus criou o
+homem por escarneo...
+
+FR. BERMUDO
+
+(_Pondo-lhe a mão na boca._) Calla-te, não blasfemes.
+
+D. MENDO
+
+(_Abatido._) Não... não devo blasfemar porque vou morrer.
+
+FR. BERMUDO
+
+Não percas assim o animo, homem.--A alma é infinita nas suas forças,
+inexgotavel nas suas consolações: quando parece já extincta de todo,
+acorda, toma alento, levanta-se, e fica forte como d'antes.
+
+D. MENDO
+
+A minha morreu de todo!
+
+FR. BERMUDO
+
+Ha homens que teem padecido tanto... muito mais do que tu, e que soffrem
+ainda estes tormentos da existencia. Em quanto a alma póde ter amor ou
+odio, vive. É a extinção das paixões, que é a morte. O nada é que o
+espirito não póde suportar. O homem crê na sua propria immortalidade,
+porque quando o corpo está a ponto de destruir-se, a alma ainda conserva
+o pensamento, e as paixões. Tens a gloria ainda, Mendo. Tens a fé...
+
+D. MENDO
+
+Essa!... Não sei... (_Pauza._) Tenho fé, tenho.
+
+FR. BERMUDO
+
+Tens um allivio, uma esperança--então bemdicta seja ella.--Deixa-me para
+mim essa tua vingança, Mendo. Violante odiar-te-hia, e morreria na
+desesperação, se tu lhe assassinasses seu pae.
+
+D. MENDO
+
+(_Dando-lhe o punhal._)Ahi tens esse punhal... É um presente maldicto,
+esse que te dou.
+
+FR. BERMUDO
+
+(_Beijando o punhal._) Este sangue, este sangue!... Oh! Chegou a hora
+que já foi tão desejada, e que tão temida é agora! (_Á parte._) Terei eu
+n'este solemne momento o poder que até hoje me tem falecido?--Irmão, meu
+irmão... É por teu filho este sacrificio! Pede a Deus que me dê forças,
+meu irmão!
+
+D. MENDO
+
+Que tens?
+
+FR. BERMUDO
+
+(_Tranquillo._) Ámanhã teu pai estará vingado.
+
+D. MENDO
+
+Violante!... Violante orphã, só, e desgraçada...--Desgraçado de mim!
+
+FR. BERMUDO
+
+E eu, maldicto por ella! Vou pedir a Deus que me perdoe, e que me
+inspire... Sou fraco, sou um um fraco (_Entra para a capella do fundo, e
+vae ajoelhar deante do altar_).
+
+
+SCENA VIII
+
+_D. Mendo, e depois D. Affonso, D. Violante, D. Pedro Framariz, Damas, e
+Cavalleiros da Côrte_
+
+D. MENDO
+
+E eu tambem, já nem tenho alento para viver!--Ó minha fé, minha fé,
+accende-te nesta alma, para que eu possa supportar este lanço terrivel.
+
+D. AFFONSO
+
+(_Entrando._) D. Mendo Paes, venho cumprir o que vos prometti, no dia da
+victoria. (_Aos cavalleiros._) Pedimos agora, e obtivemos de D. Pedro
+Framariz rico-homem, e filho d'algo do nosso reino, a mão da sua filha
+D. Violante, para o muito nobre cavalleiro D. Mendo Paes.
+
+D. MENDO
+
+Não posso acceital-a... não posso!... (_Cahindo de joelhos._)
+Violante!... Perdão!...
+
+D. VIOLANTE
+
+(_Desmaiando._) Mendo!
+
+D. AFFONSO
+
+O que se oppõe a este casamento, Mendo? O que se oppõe á tua felicidade
+agora?
+
+FR. BERMUDO
+
+(_Á porta da capella apontando para o altar._) A vontade do céu.
+
+
+FIM DO 3.º ACTO.
+
+
+
+
+ACTO QUARTO
+
+_A cella de Fr. Bermudo no mosteiro de Mumadona. Alguns instrumentos de
+alchimia, livros e pergaminhos etc. Uma porta do lado direito; outra ao
+fundo deitando para um pequeno oratorio, em que se vê uma cruz com
+toalha; uma janella do lado esquerdo. É noite, uma lampada alumia a scena._
+
+
+SCENA I
+
+_Frei Bermudo (Só.)_
+
+FR. BERMUDO
+
+(_Olhando para o céu pela janella aberta. Ouve-se do interior do theatro
+uma harmonia solemne ao longe, fazendo apenas um murmurio brando._) Os
+espiritos superiores caminham invisiveis por entre os astros.
+Accompanham-os essas harmonias infinitas das constellações, que os
+sentidos imperfeitos dos habitantes da terra não podem ouvir, mas que a
+rasão atrevida ousa advinhar e comprehender. Caminham pelo céu os
+espiritos invisiveis, e no seu rapido vôo vão escrevendo com as
+estrellas os destinos dos homens. Quem póde lêr claramente essas
+phrazes, que duram um instante apenas, que são ephemeras como a
+existencia do homem, essas phrazes escriptas n'uma lingua de que os
+astrologos conhecem apenas algumas palavras soltas? Quem póde duvidar de
+que no ceu se escreve a historia do futuro de cada homem? Quem póde
+duvidar?... Eu, eu mesmo duvido. O orgulho talvez seja o creador da
+astrologia. Pois o homem merece que os espiritos superiores
+escrevam o seu destino? O que sabemos nós todos? Sabemos até onde chega
+a nossa ignorancia e nada mais.--O homem, em vigilias longas e
+virtiginosas, gasta a vida, séca a intelligencia, destróe a fé e a
+pureza de espirito, mas não penetra o segredo d'essas palavras, lançadas
+no céu pelos poderes da natureza. (_Pauza._) Caminha, ó minha pallida
+estrella, caminha... caminha astro de funebre agouro; que em breve
+marcarás a hora mais fatal da minha existencia.--(_Longa pausa; calla-se
+a orquestra_). Hoje maldicto... hoje serei amaldiçoado por
+Violante.--Tomei para mim esta tremenda vingança... heide ser eu o
+assassino de D. Pedro, do pai de Violante.--Se ao menos esta vingança
+podesse apagar da memoria de todos o crime de D. Pedro Framariz, depois
+o meu querido Mendo, e a pura Violante podessem ser felizes!--Ai! Que
+dôr será a desses desventurados agora que sabem já o tremendo poder que
+os separa!... Que vida, que existencia esta minha!... Um abismo... é um
+abismo a minha alma! Um abismo onde não houve nunca senão tres paixões..
+a amizade, a vingança, o amor. Uma amizade sancta, profunda, unica,
+exclusiva. Um desejo de vingança frio, lento, sem enthusiasmo, como se
+houvera nascido no coração de um cadaver. Um amor... um amor que pode
+fazer esquecer a vingança... que pode esquecer-se a si proprio para só
+desejar a felicidade d'aquella a quem se consagra.--Ó Violante...
+quero-te tanto, que vou buscar o teu odio, para que tu não odeies o
+homem que te captivou o coração. (_Silencio; ouve-se de novo a orquestra
+muito longiquamente até ao fim do monologo._) Se nesses livros, onde
+homens orgulhosos escreveram o que elles chamavam a sua
+sciencia, eu podesse descobrir o segredo de Deus!... Se eu podesse criar
+um talisman que subjugasse o destino!... Se eu tivesse pelo poder do
+pensamento, e pela grandeza da vontade, força para desfazer o passado!
+Ambição!... orgulho!... loucura! O passado não pertence já a nenhum
+poder, nem mesmo ao poder infinito de Deus! Quizera ao menos ver um
+desses espiritos superiores, para lhe fallar, para saber delle os
+mysterios do material e do immaterial... (_Com abatimento._) para saber
+quando ha de acabar este padecer, esta minha vida.
+
+
+SCENA II
+
+_Fr. Bermudo e D. Violante_
+
+D. VIOLANTE
+
+(_Entrando toda vestida de branco._) Fr. Bermudo.
+
+FR. BERMUDO
+
+Um espirito... um anjo... falla... falla...
+
+D. VIOLANTE
+
+Fr. Bermudo, escutae-me.
+
+FR. BERMUDO
+
+Violante! aqui!
+
+D. VIOLANTE
+
+Vim para vos pedir a paz... o repouzo, o que só me póde salvar, o que
+vós só me podeis dar.
+
+FR. BERMUDO
+
+(_Baixo._) Que sinto, meu Deus?... Que dor, e que alegria me dilaceram
+aqui o peito?... (_Alto._) Dizei, sr.ª D. Violante, que quereis de
+mim?
+
+D. VIOLANTE
+
+Venho pedir-vos...--Escutai-me. Já sei tudo, conheço o que para sempre
+me separa de Mendo. Sei que esse que para mim era a alegria e a vida
+perdi-o para sempre... e talvez que nem por elle seja amada já; eu a
+filha do homem que...--Horrenda idéa!--Perder uma felicidade tão grande,
+assim de repente, é uma dor com que não pode este coração--Fr. Bermudo,
+sois forte, tendes uma alma superior a estas fraquezas do mundo... A
+minha alma não é assim. Uma pobre mulher, como eu, tem um espirito
+fraco, e que não pode resistir á dor extrema...
+
+FR. BERMUDO
+
+Que quereis... que quereis de mim, D. Violante?
+
+D. VIOLANTE
+
+Quero o que não me dareis talvez. Mas estou resolvida... Nada me pode
+fazer mudar de resolução, porque não é a vontade que me impelle, é o
+desalento; não é a força, é um abatimento desanimador; não é a
+desesperação é a esperança de acabar com um martyrio com que não posso.
+
+FR. BERMUDO
+
+Assustam-me essas palavras!
+
+D. VIOLANTE
+
+A vida é impossivel assim.--Fr. Bermudo, estou decidida a morrer.
+
+FR. BERMUDO
+
+Violante... Que dizeis?
+
+D. VIOLANTE
+
+Mendo acabou, morreu para mim..--E sem luz, e sem alivio, que vida seria
+esta minha!?--Uma existencia nas trevas, sem esperança nem
+consolação.
+
+FR. BERMUDO
+
+Como tem sido sempre esta minha... Perdão, D. Violante.--Que vos
+importam a vós os meus padecimentos?
+
+D. VIOLANTE
+
+(_Com alegria._ ) Sabeis o que é uma dôr, dessas que matam? Julgava
+encontrar em vós um ente superior aos homens, e tinha medo. Mas agora...
+posso fallar-vos da minha dôr, pedir-vos... a morte, que desejo, que
+espero; porque é a paz para o coração.
+
+FR. BERMUDO
+
+Tende animo, paciencia, resignação; se o mundo se fechou para vós,
+ficavam-vos abertas as portas da igreja, onde ha consolações para todos.
+
+D. VIOLANTE
+
+A oração é consoladora; a fé póde dar allivío ás grandes magoas; mas
+para orar é preciso pensar em Deus, para ter fé, é preciso força na alma
+e eu só penso em Mendo, e na minha alma não ha senão desalento.
+
+FR. BERMUDO
+
+Mendo tambem vos amava muito; e daqui a horas fará voto, na ordem dos
+Templarios, de consagrar a vida ao serviço de Jesus-Christo.
+
+D. VIOLANTE
+
+Mendo é homem, tem força no coração. A dôr--bemdicto seja Deus!--não lhe
+matou a alma, como a mim.--Olhae, fr. Bermudo, eu já não posso viver, e
+a morte não me faz horror, antes a amo, e a desejo. Mas o que me assusta
+é a dôr; é a idéa de me sentir rasgar o coração com um ferro, ou ficar
+dilacerada ao deitar-me n'um precipicio, que me repugna.--São isto
+sentimentos que um homem como vós, de coração forte, não
+póde comprehender talvez!
+
+FR. BERMUDO
+
+Eu comprehendo, e respeito esses sentimentos.--As obras de Deus, a
+belleza e a graça, só a mão sacrilega de um barbaro as póde destruir sem
+horror.
+
+D. VIOLANTE
+
+Não seria possível alcançar, por um desses venenos que a sciencia tem
+descoberto, uma morte, sem dôr, e sem agonia?
+
+FR. BERMUDO
+
+Ha... talvez.
+
+D. VIOLANTE
+
+Fr. Bermudo, é um desses venenos, que eu venho pedir-vos.
+
+FR. BERMUDO
+
+Eu... pois eu hei-de dar-vos a morte?
+
+D. VIOLANTE
+
+Não é a morte, é a paz; é o termo desta dor infinita, que me dilacera.
+Por piedade dae-me esse veneno... senão, irei buscar a morte n'um
+precipicio, ou n'um punhal.
+
+FR. BERMUDO
+
+(_Meditando._) Tem rasão... Tendes rasão, Violante. E hei de ser quem
+lhe dê a morte... Eu que a amo!
+
+D. VIOLANTE
+
+(_Com horror._) Que dizeis?... Vós!... (_Querendo fugir._) Virgem Maria!
+
+FR. BERMUDO
+
+(_Detendo-a._) Ficae, Violante, ficae.--Este amor é como a vaga
+esperança, o suave pressentimento, a doce attração que a alma tem para
+as bellezas do ceu.
+
+D. VIOLANTE
+
+Não sou eu só a padecer no mundo, meu Deus!--Se esse amor é, como
+dizeis, triste, e sem esperança, como é agora a minha existencia, deveis
+intender, fr. Bermudo, o padecer, a angustia da minha alma; e não
+podeis, não deveis recusar-me o que vos pedi.
+
+FR. BERMUDO
+
+O suicidio é um crime, Violante.
+
+D. VIOLANTE
+
+Antes o suicidio do que renegar a Deus... E esta dor far-me-ha duvidar
+da misericordia divina.
+
+FR. BERMUDO
+
+Um crime, que Deus, não perdôa, talvez.
+
+D. VIOLANTE
+
+Deus tudo póde perdoar, porque a sua bondade é superior a todos os
+crimes dos homens.--Não me deixeis mais tempo neste martyrio! Fr.
+Bermudo, pela minha alma, por esse amor, por esse vosso amor, que é tão
+puro e tão sublime, vos peço a paz. Quero morrer, sem uma longa, sem uma
+dolorosa agonia.
+
+FR. BERMUDO
+
+(_Dando-lhe um dos frascos que tem sobre a meza._) Aqui tendes um penhor
+do amor... do amor, que morreu já.--Agora acabou tudo para nós... acabou
+tudo para mim!
+
+D. VIOLANTE
+
+(_Pegando no frasco._) É a paz que me daes.. Irei esperar por elle no
+ceu!... Deus hade perdoar-me este crime Padre, não reveleis este segredo
+a ninguem.
+
+FR. BERMUDO
+
+Não.--É meu. (_D. Violante vae para sahir._)
+
+FR. BERMUDO
+
+(_Com anciedade._) Violante, não me direis ao menos uma palavra?!
+
+D. VIOLANTE
+
+Deus vos dê o descanço da morte. (_Sáe._)
+
+
+SCENA III
+
+FR. BERMUDO _(só)_
+
+O descanço da morte...--Porque não tenho eu ousado buscal-o já, para pôr
+termo a esta agonia do espirito, em que ando ha dez annos?--Não sei que
+poder me prende á vida. É medo... é medo do segredo, que se esconde além
+do sepulchro.
+
+
+SCENA IV
+
+_D. Mendo e Frei Bermudo_
+
+D. MENDO
+
+Aqui estou, Fr. Bermudo. Venho já para ficar no convento, até me haver
+separado do mundo, professando na ordem dos templarios.
+
+FR. BERMUDO
+
+Mendo!... Encontraste?...
+
+D. MENDO
+
+Ninguem. Vim pela porta do campo, para não ser visto. Na igreja está
+tudo preparado para a minha profissão, não é verdade? Estou com desejo
+de professar, para sentir quebrados todos os laços que me prendem ao
+mundo. (_Pausa_) Ella como ficou? Vistel-a?--Eu fugi porque não
+podia...
+
+FR. BERMUDO
+
+Está mais socegada já.
+
+D. MENDO
+
+Pobre Violante!--El-Rei?
+
+FR. BERMUDO
+
+Mandou elle proprio preparar tudo aqui no mosteiro para a tua profissão.
+
+D. MENDO
+
+Disseste-me que Violante estava mais socegada, que já não padecia tanto?
+Bemdicto seja Deus. (_Pauza._) Ai! quem sabe se ella se esquecerá de mim!?
+
+FR. BERMUDO
+
+Esquecer-se de ti?!... talvez; se o pensamento tambem morre.
+
+D. MENDO
+
+E se ella me esquecesse, e se amasse outro, que desesperação não seria a
+minha!
+
+FR. BERMUDO
+
+E é assim que este homem paga tanto amor! Duvidando della!
+
+D. MENDO
+
+Que dizes?
+
+FR. BERMUDO
+
+Digo, que não comprehendes o amor, que póde conter um coração de homem;
+que não sabes o que é uma paixão, que destroe, que devora a existencia,
+que está sempre no fundo da alma, inabalavel e tremenda, dominando o
+pensamento, matando o desejo, e seccando a esperança, digo... que não
+comprehendes esse amor.
+
+D. MENDO
+
+Frade, tu amas Violante? Tu...
+
+FR. BERMUDO
+
+Amo-a, sim; mas não receies deste amor, que nasceu n'um
+templo, e irá esconder-se debaixo da terra. Amo-a e ouso... e sinto
+alegria em fallar deste amor, porque chegou a hora do soffrimento, o
+instante do martyrio.
+
+D. MENDO
+
+Fr. Bermudo, amas Violante? Não repitas essas palavras desvairadas...
+
+FR. BERMUDO
+
+Nenhum de nós tem já direito de amar, porque para ti, e para mim este
+amor é um crime. (_Pausa._) Este meu não, que me salvou a alma... que eu
+sentia perder pelo descrer. Quando ao atravessar o deserto, para ir ao
+Santo Sepulchro do Redemptor, cahi sobre as areias ardentes, quasi morto
+pela sede... um anjo me appareceu e me salvou... Em Violante, encontrei
+depois a imagem do meu Anjo Redemptor: é a mesma fronte pallida do anjo
+é o mesmo sorriso meigo e triste, o mesmo olhar celeste e candido... a
+mesma voz... Oh! mas a alma dessa mulher é mais pura do que os espiritos
+do ceu Amei-a! Amei Violante.
+
+D. MENDO
+
+(_Chorando._) Meu Deus, tende piedade de mim! acabae com esta dôr!...
+matae-me!
+
+FR. BERMUDO
+
+Quando a voz da fatalidade, troando nos espaços, pronuncia a sentença,
+que nos condemna, devemos escutal-a, e ter resignação.
+
+UM MONGE
+
+(_Apparecendo á porta da esquerda._) Fr. Bermudo, está á porta do
+mosteiro uma penitente, que vos deseja fallar.
+
+FR. BERMUDO
+
+Conduzi-a aqui, irmão. (_O monge sae._) Mendo, vae orar por nós ao
+Senhor.
+
+D. MENDO
+
+Ficarei ali a fazer penitencia, até que me venham buscar, para ir fazer
+profissão na igreja. É tarde já; d'aqui a poucas horas é manhã.
+
+FR. BERMUDO
+
+(_Levando-o ao oratorio do fundo._) Espera aqui, em quanto vou saber o
+que me quer essa mulher. (_D. Mendo entra no Oratorio. Frei Bermudo
+fecha a porta._)
+
+
+SCENA V
+
+_Fr. Bermudo e D. Gontrade_
+
+D. GONTRADE _(Coberta com um véo negro.)_
+
+Padre, estás disposto a ouvir a ultima confissão de uma grande peccadora?
+
+FR. BERMUDO
+
+Aquelles que, como eu, se votaram ao serviço de Deus, não negam nunca as
+suas consolações aos que padecem. Mas aqui?
+
+D. GONTRADE
+
+Se as consolações da religião podem fazer esquecer os remorsos
+profundos, e as infinitas saudades, eu preciso dellas já.
+
+FR. BERMUDO
+
+Porque me não mandastes chamar, senhora; iria eu, como é do meu dever,
+ter comvosco.
+
+D. GONTRADE
+
+Saberieis então quem eu sou; e o que vou confessar-vos interessa a honra
+de uma familia nobre. Posso dizer-vos o meu crime, mas devo esconder-vos
+o meu nome, para que não recaia sobre outros a deshonra, com que esse
+crime manchou um nome illustre.--Padre, remorsos ha que não podem ter
+fim... nem talvez com a morte...
+
+FR. BERMUDO
+
+Com o arrependimento e a fé podem apagar-se da alma muitos pensamentos
+tenebrosos; muitos martyrios podem ter fim.
+
+D. GONTRADE
+
+Mas Deus perdoará sempre á peccadora, que se arrepende?
+
+FR. BERMUDO
+
+Talvez; que a sua misericordia é infinita.
+
+D. GONTRADE
+
+Escutae-me então, padre, e pedi a Deus que seja misericordioso comigo;
+porque me sinto morrer, e vou ser julgada no tribunal supremo.
+
+FR. BRMUDO
+
+(_Áparte._) Esta voz!... Esta voz é de D. Gontrade; Que vou eu ouvir,
+meu Deus! (_Assentando-se._) Dizei.
+
+D. GONTRADE
+
+(_Ajoelhando._) Dae-me forças Senhor! (_Pausa._) Padre, eu era feliz,
+quando um nobre cavalleiro de Portugal me offereceu a sua mão, e o seu
+nome.--Não se póde amar com mais amor, não se póde querer mais da alma,
+sacrificar mais por uma mulher, do que esse homem o fez por mim!! Ouvi
+como eu lhe paguei tanto amor! As guerras do Conde D. Henrique com os
+moiros chamaram-no para longe de mim: fiquei só em quanto elle peleijava
+por essas terras distantes. Passaram mezes, sem que eu houvesse novas de
+meu marido. Um dia, estava eu assentada no eirado de minha casa, lancei
+os olhos ao campo, e vi vir ao longe um cavalleiro, seguido de muitos
+homens d'armas, julguei que fosse elle, e corri a recebel-o. Foi a
+ultima alegria que tive. Quando o cavalleiro se aproximou... conheci que
+não era quem eu desejava. Perguntei-lhe, se pelas guerras em
+que andára vira meu marido... respondeu-me, que expirára n'um recontro
+com os moiros, peleijando como um heroe; assegurou-me que todo o
+exercito, e elle mais que todos havia chorado muitos prantos sobre a sua
+sepultura. Mais de um mez chorei a morte de meu marido, com uma dôr
+amarga e sincera. Mas a minha alma era fraca; não sabia soffrer. Depois
+do pranto vieram as saudades; depois as consolações; e depois o amor por
+esse mesmo homem, que me havia trazido a fatal nova.
+
+FR. BERMUDO
+
+(_Com muita anciedade._) E vosso marido!?
+
+D. GONTRADE
+
+(_Continuando._) Passei alguns dias no delirio do crime, sem remorsos,
+sem arrependimento; por que amava de coração, e julgava ser amada. Esses
+dias foram para mim como um sonho, hoje apparecem-me como um espectro.
+
+FR. BERMUDO
+
+E o acordar desse sonho?...
+
+D. GONTRADE
+
+N'uma noite, estava eu com esse homem, entregue a esse enlevo d'alma em
+que se escondia um crime tremendo, quando ouvi um ruido estranho por
+toda a casa, senti, por um pressentimento subito o frio da morte
+correr-me pelas veias. Era meu marido que voltava da guerra.
+
+FR. BERMUDO
+
+E então?...
+
+D. GONTRADE
+
+Então vi apparecer diante de mim, que havia quasi perdido a razão, um
+homem ameaçador, e tremendo, o rosto pallido, os olhos ardentes, a mão
+armada. Apoderou-se de mim a vertigem... Ouvi um grito de agonia, que me
+gelou... e depois, o baque de um corpo em terra.
+
+FR. BERMUDO
+
+E esse que morreu, era...
+
+D. GONTRADE
+
+Meu marido--Nessa hora consumou-se o meu crime, nessa hora começou o
+castigo! O homem, que me enganou, abandonou-me naquella dôr.
+
+FR. BERMUDO
+
+(_Levantando-se com horror._) Oh! maldicta de Deus!... estás maldicta,
+mulher!...
+
+D. GONTRADE
+
+(_Levantando-se e deixando cair o veu que lhe esconde o rosto._) Não é
+verdade que sou uma mulher miseravel?... Não é verdade que sou maldicta
+de Deus? Que a misericordia do Senhor não é bastante para tão negro
+peccado?...
+
+FR. BERMUDO
+
+Queres alcançar perdão para esse crime?
+
+D. GONTRADE
+
+Deus de misericordia!
+
+FR. BERMUDO
+
+Pede primeiro perdão áquelles que offendeste, e que estão nesta hora
+padecendo por tua causa. (_Abrindo a porta do fundo a que apparece D.
+Mendo._) Irmão, perdoas áquella mulher a morte de teu pae?
+
+D. MENDO
+
+Minha mãe...
+
+D. GONTRADE
+
+(_Caindo por terra._) Meu filho!... perdoa-me.
+
+D. MENDO
+
+Perdôo.
+
+FR. BERMUDO
+
+Mendo perdoou-te a morte de seu pae; e eu, D. Gontrade, perdôo-te a
+morte de meu irmão!
+
+D. GONTRADE
+
+Meu filho!.. O irmão de meu marido!... (_Caindo com a fronte por
+terra._) Justiça eterna!
+
+
+FIM DO 4.º ACTO.
+
+
+
+
+ACTO QUINTO
+
+_Uma casa vasta, de abobada de volta abatida, apparencia triste e
+arruinada. Ao fundo porta em arco, por onde se vê uma parte de um
+clausto. Á direita uma porta, á esquerda um grande crucifixo, sobre um
+altar de pedra tosca, objectos proprios para uso da igreja. A luz dos
+primeiros raios do sol entra já por uma pequena fresta alta, e pelo
+fundo, mas a scena está ainda alumiada por dois brandões, seguros por
+braços de ferro, defronte do altar._
+
+
+SCENA I
+
+_D. Mendo (coberto de armadura, ajoelhado.) Um templario._
+
+O TEMPLARIO
+
+Daqui a uma hora estará tudo prompto.
+
+D. MENDO
+
+D. Guilherme virá tambem?
+
+O TEMPLARIO
+
+O grão-mestre dos templarios vem assistir á vossa profissão, D. Mendo.
+
+D. MENDO
+
+E el-rei?
+
+O TEMPLARIO
+
+El-rei tambem. D. Affonso quer-vos muito; tem mostrado grande interesse
+por vós.
+
+D. MENDO
+
+Meu bom, meu excellente principe! E fr. Bermudo, esse não póde
+demorar-se. Já me vae tardando.
+
+O TEMPLARIO
+
+Vou á igreja saber em que estado estão os preparativos para logo.
+
+D. MENDO
+
+Pois ide irmão; que eu aqui fico só, a pedir a Deus que me não abandone.
+
+O TEMPLARIO
+
+Quereis alguma cousa mais?
+
+D. MENDO
+
+Nada. (_O Templario sáe._)
+
+
+SCENA II
+
+D. MENDO (_SÓ._)
+
+D. MENDO
+
+É manha já, e Fr. Bermudo sem voltar! Sem me trazer uma palavra della
+para me dar força! Elle que me prometteu voltar cedo, logo que lhe
+fallasse! Ama-a, Fr. Bermudo tambem a ama! Quem sabe se nesta hora mesmo
+de suprema dor, elle ainda tem ciume dos seus prantos, e m'os quer
+roubar?!--O sangue delle é o meu sangue; é o irmão de meu pae; não póde
+ser traidor.--Para que quero eu mais ouvir fallar della? Que pode agora
+haver de commum entre nós ambos? A dor, a dor que é o mais intimo laço
+que póde existir entre dois corações que se amam. Fr. Bermudo não chega,
+meu Deus; e nem uma palavra consoladora de Violante me vem dar alento
+nesta tristeza, nesta solidão do espirito. Fr. Bermudo!... Violante...
+oh! estes dois nomes encontram-se ás vezes nesta lide maldita do meu
+pensamento, e esse encontro faz-me gelar toda a fé, mata-me toda a
+força... Se em mim ha força ainda: que não ha... não ha de certo. Eu já
+não vivo, que me senti morrer corpo e alma, quando de todo me vi
+separado della. Até aquella agitação convulsiva da desesperação acabou
+em mim... Já não tenho odio... e nem sei mesmo se ainda tenho amor!
+(_Pausa._) Morri de todo e para sempre.
+
+
+SCENA III
+
+_D. Mendo, e fr. Bermudo_
+
+FR. BERMUDO
+
+Não percas assim o animo, Mendo.
+
+D. MENDO
+
+Bermudo!... E ella?!
+
+FR. BERMUDO
+
+Sempre a mesma.
+
+D. MENDO
+
+Tem padecido muito?...
+
+FR. BERMUDO
+
+Tem... muito.
+
+D. MENDO
+
+E tem fallado de mim? Tem-se lembrado... do que já acabou.
+
+FR. BERMUDO
+
+É um anjo, que não sabe senão amar; que não póde esquecer o seu amor.
+
+D. MENDO
+
+Olha... diz-me a verdade... que quer ella fazer!
+
+FR. BERMUDO
+
+Não t'o posso dizer... Sei só, que nunca baixou á terra alma, que mais
+soubesse sentir, alma capaz de maiores sacrificios!
+
+D. MENDO
+
+Conta-me o que se passou. Vistel-a? Que te disse?
+
+FR. BERMUDO
+
+Quando ha uma hora sai daqui fui logo direito á pousada de
+D. Pedro Framariz. Procurei a aia de Violante, que me levou ao oratorio,
+onde esta se fechára... para pedir, o que a todos nós vae faltando...
+forças para padecer.
+
+D. MENDO
+
+E Violante estava...
+
+FR. BERMUDO
+
+De joelhos, pallida, immobil, com os olhos erguidos ao ceu, o corpo
+dobrado pelo peso da dor, a boca semi-aberta como se a oração ao sair já
+fria e sem alento n'um ultimo suspiro, se lhe houvera petrificado nos
+labios.
+
+D. MENDO
+
+Morta?...
+
+FR. BERMUDO
+
+Morta, não. Violante estava viva ainda; sem dar quasi outro signal de
+vida, a não ser o lento baixar dos olhos sobre mim, e o murmurar
+baixinho das palavras; n'uma voz suave e angustiosa, Violante
+perguntou-me o que eu ia alli fazer? Se eu, se alguem ainda se lembrava
+della?
+
+D. MENDO
+
+Se me lembrava della?
+
+FR. BERMUDO
+
+Fallei-lhe só de ti, porque só assim me quereria ouvir. Que dor a da
+pobre Violante! E não ha, não ha remedio, para dores, como aquellas...
+Oh! os homens que teem descoberto tanto segredo da materia, não poderam
+comprehender ainda nem um dos mysterios do espirito, não poderam ainda
+curar nenhuma dessas enfermidades agudas, a que chamam paixões.--São
+tudo sonhos, são tudo illusões na terra; mas sonhos, mas illusões, que
+matam.
+
+D. MENDO
+
+A desgraça é uma realidade!
+
+FR. BERMUDO
+
+(_Tranquillo_). Escuta.--A desgraça é uma provação da alma, que a deve
+robustecer; que lhe deve dar essa grandeza, signal da sua immortalidade.
+É tempo de voltar para o ceu esses teus pensamentos, que ainda não
+soubeste desprender das cousas mundanas.--Daqui a uma hora professarás.
+É necessário, filho, que o novo cavalleiro do templo seja digno do seu
+elevado ministerio, esteja pela fé á altura destes tempos de dura
+provação, de lucta permanente porque a igreja de Christo está passando
+neste seculo.
+
+D. MENDO
+
+Não posso, Fr. Bermudo, parece-me que não posso pensar senão em
+Violante. Mas vou ver se pela oração comsigo elevar a minha alma até
+essas alturas sublimes, donde se perdem de vista as miserias do mundo.
+(_Vae lentamente ajoelhar diante do altar._)
+
+FR. BERMUDO
+
+E se elle conhecesse, como eu, toda a grandeza, da nossa desventura! Se
+elle estivesse nesta duvida tremenda, em que o meu espirito vacilla
+agonisante; ora persuadido de que cumpria um dever, ora aterrado pelo
+mais cruel remorso, que homens tem sentido!--Violante ainda vive, mas
+daqui a uma hora...--Eu devo ir arrancar-lhe das mãos aquelle veneno;
+para que ella não morra! Mas que importa?... Ella quer morrer, e bem sei
+que vontades poderosas, resoluções firmes como a sua não as vence nem a
+persuasão, nem a força!--Ainda ha pouco lhe fallei, lhe pedi pelas
+cousas mais sagradas da terra, e do ceu, pelo amor e pela
+religião, que não cedesse á triste tentação que a arrasta, á fascinação
+que a cega... respondeu-me só que amava e queria morrer pelo seu amor.
+(_Neste instante entra Violante pela direita, e aproxima-se de Fr.
+Bermudo, sem que D. Mendo a veja._)
+
+
+SCENA IV
+
+_Os mesmos, D. Violante._
+
+D. VIOLANTE
+
+Fr. Bermudo.
+
+FR. BERMUDO
+
+Violante!
+
+D. VIOLANTE
+
+Eu não podia morrer sem o ver uma vez ainda... por isso vim. É um
+instante; o tempo de lhe dizer que ainda o amo.
+
+FR. BERMUDO
+
+Mas agora, se viessem os templarios, os cavalleiros, Violante...
+
+D. VIOLANTE
+
+Em elles vindo, vou-me eu. Não me verão. Ide, Fr. Bermudo, deixae-me um
+instante só com Mendo.
+
+FR. BERMUDO
+
+É tornar ainda mais angustiosa esta horrivel separação...
+
+D. VIOLANTE
+
+Eu tenho forças; sinto em mim uma força sobrenatural. Ide--Deixae-nos.
+
+FR. BERMUDO
+
+(_Áparte._) Ainda mais esta dor, meu Deus!
+
+
+SCENA V
+
+_D. Violante, D. Mendo--no fim Fr. Bermudo_
+
+D. VIOLANTE
+
+(_Com muita doçura._) Mendo, Mendo... não me sentes aqui, Mendo?
+
+D. MENDO
+
+(_Que escutou um instante a voz de Violante, e depois se voltou
+subitamente, e a viu--indo para ella._) Violante! Minha Violante!--Então
+esta dor, esta separação, era tudo um engano.--Estás aqui, minha
+Violante!!..
+
+D. VIOLANTE
+
+Estou aqui para te dizer adeus para sempre; para te pedir que perdoes...
+
+D. MENDO
+
+Perdoar... o que, o que hei de eu perdoar?
+
+D. VIOLANTE
+
+Fui eu que te fiz infeliz com o meu amor.--Mas não sabia, Mendo,
+eu não conhecia essa tenebrosa historia--Perdoa-me... perdoa a
+meu pae tambem. Eu não quero, não posso ficar com um remorso destes
+na consciencia.--Quero morrer em paz.
+
+D. MENDO
+
+Morrer?
+
+D. VIOLANTE
+
+Sim, quando eu morrer, quando for a vontade de Deus que esta minha vida
+tenha fim, não quero que venha um pensamento funebre, a idéa de um crime
+não perdoado perturbar a minha ultima oração.--Quem sabe se Deus me
+perdoará?
+
+D. MENDO
+
+Quem te não ha de perdoar? O que ha que perdoar a um anjo tão puro como tu?
+
+D. VIOLANTE
+
+Mendo, eu bem sei que a honra da tua familia foi offendida: e que ha
+offensas que um cavalheiro da tua linhagem não deve deixar sem
+vingança... É assim que pensam os homens; mas Deus condemnou a vingança
+como um crime abominavel: e tu, Mendo, daqui a pouco vaes professar
+n'uma ordem, instituida para servir a Deus.--Mendo, pela religião... e
+pelo nosso amor que foi deixa-me fallar-te ainda uma vez desta
+felicidade que já passou--pelo nosso amor tão suave para mim, e para ti
+tambem, Mendo, peço-te por esse amor que perdoes, que esqueças, que te
+não vingues do pae da tua Violante.
+
+D. MENDO
+
+Violante, eu... sabes como te amei, sabes como te quero ainda; que esta
+separação não é angustia só, é a morte para mim!--Escuta, minha
+Violante.--Não sei se meu pae me amaldiçoará da sepultura; mas faz-me
+horror a idéa de odiar teu pae; e vingar-me delle por minhas mãos, não o
+hei-de fazer nunca.
+
+D. VIOLANTE
+
+E perdoas-lhe?
+
+D. MENDO
+
+(_Depois de uma pauza._) Perdôo.
+
+D. VIOLANTE
+
+Bemdicto seja Deus, que me dá esta consolação n'uma tão grande dor?
+
+D. MENDO
+
+Minha mãe é que lhe não perdoa.
+
+D. VIOLANTE
+
+Era o teu perdão, que eu desejava, Mendo. Não podia supportar a idéa
+que, entre ti e meu pae, se levantasse esse livido e sangrento espectro
+da vingança.--E a mim tambem me perdoas? Se ainda, por minha causa,
+padeceres uma grande dor, perdoas-me?
+
+D. MENDO
+
+Não te perdôo só, amo-te... hei de amar-te sempre, hei-de de morrer
+amando-te.
+
+D. VIOLANTE
+
+Deus não ha de ser menos misericordioso do que tu.--Mendo, ainda havemos
+de ser felizes!
+
+D. MENDO
+
+Ai, não póde, isso não póde ser. Felizes, nunca.
+
+D. VIOLANTE
+
+N'outro tempo, n'outro logar; longe deste tenebroso mundo, muito longe
+destas paixões da terra, havemos de ser felizes.--Eu vi, Mendo, esta
+noute antevi a nossa felicidade futura.--Era um paraiso. (_Ouve-se uma
+musica de orgão e um coro, muito ao longe até ao fim da scena._) Um
+campo todo de flores maravilhosas, com um perfume inebriante; um lago
+coberto de diamantes, de uma serenidade e formosura sem igual no mundo;
+sobre o lago nuvens, em que o ouro e a purpura se misturavam com a luz
+rosada da mais bella aurora; e do ceu resplandecente, scintilante,
+baixavam, fluctuando brandamente, anjos que vinham pousar sobre as
+graciosas nuvens. Depois, vozes sobrenaturais as vozes dos anjos em
+divino coro, pediam a Deus pela nossa felicidade; e o meu e o teu nome,
+Mendo, subiam assim até ao throno do Eterno.
+
+D. MENDO
+
+Foi um sonho, e o sonho até se póde realisar.
+
+D. VIOLANTE
+
+Não foi sonho, Mendo, foi uma visão celeste, uma divina promessa.
+Naquella hora tudo eram puras alegrias diante de mim; e no meu coração
+tudo eram orações fervorosas, e ardentes esperanças.
+
+D. MENDO
+
+Que esperanças podemos nós ter ainda?
+
+D. VIOLANTE
+
+Deus quer a nossa união, apesar dos agoiros, das negras paixões, dos
+crimes, das vinganças dos homens.--Na terra não podemos ser unidos,
+sel-o-hemos no ceu!
+
+D. MENDO
+
+E quando, quando, minha Violante, terão fim estas angustias do existir?
+Violante, amo-te; nesta hora amo-te mais do que nunca te amei. E é
+agora, que nos vamos separar para sempre! Esta deve ser a unica vez, que
+nos vejamos; estas devem ser as nossas ultimas palavras de amor. Amo-te,
+amo-te, Violante.
+
+D. VIOLANTE
+
+O amor mata, aqui na terra; mas no ceu é a eterna alegria.--Mendo,
+deixa-me repetir tambem essas palavras, em que se resume a minha vida
+toda!--Amo-te, amo-te.
+
+FR. BERMUDO
+
+(_Aparecendo á porta do fundo._) Os cavalleiros do templo já estão
+reunidos na igreja.
+
+D. MENDO
+
+Violante!
+
+D. VIOLANTE
+
+Mendo, adeus!--Adeus para sempre! (_Cae nos braços de D.
+Mendo beija-o, e sae correndo pela porta da direita._) (_Ouve-se depois
+a voz de Violante, já fóra de scena repetindo, « Adeus!....
+adeus!»_)--(_A musica do orgão acaba logo depois._)
+
+
+SCENA VI
+
+_D. Mendo e Fr. Bermudo_
+
+FR. BERMUDO
+
+(_Detendo D. Mendo._) Deixa-a ir só.
+
+D. MENDO
+
+Quero vel-a... Não me posso separar della ainda.
+
+FR. BERMUDO
+
+De que te serve prolongar por mais tempo esta angustia? O momento mais
+doloroso passou para ella, já agora: e daqui a um instante vir-te-hão
+buscar os templarios.
+
+D. MENDO
+
+Mas deixal-a assim!--Bermudo, aquelle adeus foi um como grito de extrema
+dôr, que me aterrou. Naquelle sonho de felicidade, naquellas esperanças
+de alegria de Violante, havia não sei o quê de sinistro, como a morte.
+Naquelle espirito angelico ha um pensamento de crime, ha naquella alma a
+presciencia do remorso.
+
+FR. BERMUDO
+
+Deixa-a morrer com o seu sonho do ceu.
+
+D. MENDO
+
+Morrer!
+
+FR. BERMUDO
+
+A morte é o termo do padecer.
+
+D. MENDO
+
+Que dizes?
+
+FR. BERMUDO
+
+A alma de Violante é já de um outro mundo, o seu corpo em breve será dos
+elementos.
+
+D. MENDO
+
+Meu Deus! Que quer isso dizer? Não posso comprehender.
+
+FR. BERMUDO
+
+Uma paixão destruiu nella a vida do espirito; e a morte porá em breve
+termo à vida corporal.
+
+D. MENDO
+
+Pois ella, Violante ousará attentar contra a propria vida?
+
+FR. BERMUDO
+
+A infeliz não tem força, não tem animo para supportar o seu martyrio.
+Ella vê na morte só a paz, e a passagem para um mundo melhor; por que na
+sua alma pura, nada lhe faz receiar o eterno julgamento.
+
+D. MENDO
+
+Violante morrer!--E como hade ella morrer?
+
+FR. BERMUDO
+
+Hontem, Mendo, a desventurada Violante veio aqui ao convento, e
+pediu-me, pelo que para mim existe de mais sagrado, que lhe desse um
+veneno, para ella não padecer longas dores na hora do passamento.
+
+D. MENDO
+
+E tu déste-lhe o veneno?
+
+FR. BERMUDO
+
+Dei!.,.
+
+D. MENDO
+
+Tu!--a vingança levou-te a um tal crime.--Vingaste-te sobre uma
+innocente...
+
+FR. BERMUDO
+
+A vingança... esqueci-a por ella. Tu bem o sabes, Mendo.
+
+D. MENDO
+
+O ciume...
+
+FR. BERMUDO
+
+Um amor como este meu, é como á immensidade do deserto; as tempestades
+atravessam-no rugindo medonhas e ferozes, os vulcões ardentes passam
+revolvendo as areias, cavando abysmos, cobrindo com montanhas os restos
+de antigas cidades; mas toda essa desordem tremenda perde-se, torna-se
+pequena n'aquelles espaços infinitos; e depois fica tudo arido, morto,
+immobil como d'antes.--Oh! o ciume foi como a tormenta do deserto,
+passou atravez da immensidade d'este amor, revolvendo-me o mais intimo
+do coração, sem que eu mesmo possa ver já as ruínas que deixou após si.
+Não foi o ciume, foi a piedade, foi uma grande dor de coração, um puro e
+sancto dó d'esse padecer, que a consumia.
+
+D. MENDO
+
+Dó! Piedade! E matas-te-la! Corre a salva-la, se ainda é tempo.--Não
+vás... vou eu.
+
+FR. BERMUDO
+
+(_Detendo-o._) Não, não vás. É uma crueldade. E, de mais, é tarde: agora
+já ella terá tomado o inexoravel veneno.
+
+D. MENDO
+
+E se ella está envenenada não haverá meio de a salvar?
+
+FR. BERMUDO
+
+Quando a morte penetra o sanctuario da vida, quando estende
+o poder até sobre a luz do espirito, só um milagre pode vencer o seu poder.
+
+D. MENDO
+
+Palavras... palavras! És um louco, Bermudo, sem coração nem consciencia.
+Váe, váe já, e salva-a. Essas palavras insensatas que dizes, não te
+podem justificar. És um assassino, Bermudo, se a não salvas. (_A D.
+Gontrade, que apparece á porta, pallida e cadaverica._)--Oh! Vinde...
+vinde, minha mãi... vinde tambem pedir por ella, a este homem, Violante
+morrerá se elle a não salva.
+
+
+SCENA VII
+
+_Os mesmos e D. Gontrade_
+
+D. GONTRADE
+
+Salva-a!.. e a elle tambem! salva-os a ambos fr. Bermudo. É preciso
+perdoar tudo, perdoar a todos, para que Deus nos perdoe tambem.
+
+FR. BERMUDO
+
+Vós perdoaes, senhora, como eu perdoei já; e não deveis pedir a vida de
+Violante, porque a morte é para ella o descanço; a eterna paz.
+
+D. GONTRADE
+
+Deixal-a morrer!.. Pois que tem ella?! Quem a quer matar?!
+
+D. MENDO
+
+Foi elle, esse homem cruel, esse homem sem coração... foi elle que lhe
+deu o veneno... e que a não quer salvar agora.
+
+D. GONTRADE
+
+Ide, meu irm... ide, homem; salvae Violante, se ainda é tempo.--Sou eu
+que vol-o peço n'esta minha ultima hora (_Caindo de joelhos._)
+Salvae-a, e uni-os um ao outro, estes dois innocentes, que
+se amam... Que seja tudo esquecido, porque elle, lá do tumulo, já
+perdoou. Vou morrer... Fazei Mendo e Violante felizes. Salva-os pela
+minha alma! Salvae-os para que Deus, me perdoe.
+
+FR. BERMUDO
+
+É tarde. A esta hora talvez, Violante não exista já...--Disseram-no os
+astros, e os astros não mentem... (_Sáe._)
+
+
+SCENA VIII
+
+_D. Mendo, e D. Gontrade_
+
+D. GONTRADE
+
+Meu Deus, piedade!.. Salvae-a, senhor!
+
+D. MENDO
+
+Salvae-a!.. (_Vae para sair._) Oh! Quero vêl-a... Não quero que morra
+sem que eu morra tambem com ella!
+
+D. GONTRADE
+
+(_Levantando-se._) Meu filho, ouvi... escuta-me, meu querido Mendo, não
+me deixes agora... não me deixes aqui só: Sinto que vou morrer, e tenho
+necessidade de ti... quero beijar-te ainda como quando tu me julgavas
+innocente.
+
+D. MENDO
+
+(_Segurando-a nos braços'_) Que tendes, minha pobre mãi?! Como estaes
+palida!... Que martyrio é este meu, Senhor.
+
+D. GONTRADE
+
+Não é nada... é a morte... é o descanço se Deus me perdoar. Meu filho,
+meu filho, eu cometti um grande crime, mas se tu m'o perdoares,
+Deus perdoar-me-ha tambem. Perdoa, filho, perdoa a tua mãi, que vai
+morrer!
+
+D. MENDO
+
+Vós tambem minha mãi, ides deixar-me! Todos me abandonam!... fico só, só
+com esta dor no mundo!
+
+D. GONTRADE
+
+Ai, Mendo, se eu visse cumprido antes de expirar o sonho do meu delirio!
+Que sonho tão bello, meu Deus! Que vizão consoladora!.. Vi-o, a elle, a
+teu pai, cercado das glorias infinitas do céo... Não ameaçava já,
+abençoava... não me olhava com colera, sorria-se com brandura e piedade!
+Senti uma alegria infinita derramar-se no meu espirito... Accompanhava-o
+um anjo; e disse-me estas palavras divinas: «Perdoa, como eu te
+perdôo... Este anjo, é o anjo da guarda do nosso filho... faz feliz o
+nosso amado filho, o nosso querido Mendo.»
+
+D. MENDO
+
+E o anjo...
+
+D. GONTRADE
+
+O anjo era Violante. Violante á o teu anjo da guarda!
+
+D. MENDO
+
+E o meu anjo deixou-me... para sempre me abandonou o meu anjo da guarda!
+
+D. GONTRADE
+
+Na terra, talvez; no céu, não te abandonará de certo.
+
+D. MENDO
+
+Vou... Deixai-me-ir, minha mãi. Vou procurar Violante.
+
+D. GONTRADE
+
+E deixas-me aqui morrer só!?
+
+D. MENDO
+
+Vamos rezar por ella, ao menos--pedir ao céu que nol-a salva. (_Cáem
+ambos de joelhos._)
+
+D. GONTRADE
+
+(_Levantando as mãos ao céu._) É esta a minha ultima oração... que ao
+menos esta seja ouvida por vós, Senhor!
+
+D. MENDO
+
+Virgem Maria, explendor de eterna gloria, luz que faz desaparecer todas
+as trevas do coração, dá azas a minha alma para subir ao teu throno, a
+pedir-te vida, vida para ella... Salvae-a, Senhora Nossa! (_Ouve-se um
+coro religioso entoando o_ Dies irae) Oh! São os canticos da morte, que
+respondem a esta nossa oração, minha mãi!
+
+D. GONTRADE
+
+São tremendas aquellas palavras; são palavras que gelam de pavor a quem
+vai morrer.
+
+
+SCENA IX
+
+_Os mesmos, os templarios e depois D. Violante, e Fr. Bermudo_
+
+UM TEMPLARIO
+
+É a hora, cavalleiro D. Mendo Paes de vos unirdes á Santa Ordem do
+Templo, para nos ajudar a defender, e a fazer adorar por toda a terra a
+Cruz do Redemptor.--O mestre dos templarios espera por vós.
+
+D. MENDO
+
+Esperae; esperae!.. ainda não!., ainda não!
+
+D. VIOLANTE
+
+(_Fóra._) Mendo! Mendo!
+
+D. MENDO
+
+Violante!... viva! ainda viva!
+
+D. VIOLANTE
+
+(_Caindo nos braços de D. Mendo._) Mendo, aqui estou... sou tua... já
+sei tudo! Mendo... estou viva para te amar! (_Mostrando fr. Bermudo._)
+Salvou-me elle.
+
+D. GONTRADE
+
+Agora já posso morrer.--Filho... filhos, adeus.
+
+(_Cáe por terra Mendo e Violante correm a D. Gontrade.--Os templarios
+aproximam-se._)
+
+FR. BERMUDO
+
+Serão felizes, elles... Só para mim os astros não mentiram.
+
+
+Fim do 5.º acto e do drama.
+
+
+
+
+EDIÇÕES DO ARCHIVO UNIVERSAL
+
+
+Compendio elementar do sistema metrico e suas applicações ao commercio,
+approvado pelo Conselho Superior de Instrucção Publica, por Carlos José
+Barreiros--3.ª edição. Preço 300 réis.
+
+Estudos sobre Higiene, Administração e Legislação Naval, por J. A. Maia,
+cirurgião de 1.ª classe da armada,1 vol. de 200 paginas em 18.º fr.
+(formato Charpentier) com um plano annexo do brigue _Mondego_.--Preço
+100 rs.
+
+
+ESTÁ NO PRELO
+
+Amor de Poeta, drama em verso por J. G. Lobato Pires.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Theatro de João d'Andrade Corvo - I, by
+João de Andrade Corvo
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK THEATRO DE JOAO D'ANDRADE CORVO - I ***
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+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
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+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
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+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.