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diff --git a/28414-8.txt b/28414-8.txt new file mode 100644 index 0000000..7df3be2 --- /dev/null +++ b/28414-8.txt @@ -0,0 +1,8260 @@ +The Project Gutenberg EBook of Theatro de João d'Andrade Corvo - I, by +João de Andrade Corvo + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Theatro de João d'Andrade Corvo - I + O Alliciador - O Astrologo + +Author: João de Andrade Corvo + +Release Date: March 26, 2009 [EBook #28414] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK THEATRO DE JOAO D'ANDRADE CORVO - I *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + + + EDIÇÕES + + DO + + ARCHIVO UNIVERSAL + + + + + THEATRO + + DE + + JOÃO D'ANDRADE CORVO + + I + + O ALLICIADOR--O ASTROLOGO + + + + + LISBOA + TYPOGRAPHIA UNIVERSAL + rua dos Calafates, 113 + 1859 + + + + +O ALLICIADOR + +DRAMA EM 3 ACTOS, REPRESENTADO NO THEATRO DE D. MARIA II + + +PERSONAGENS + + José Velhaco 30 annos O sr. Theodorico + Luiz do Campanario 20 » » Tasso + Antonio Prudente 50 » » Epifanio + O Vigario 50 » » Domingos + Joaquim 40 » » J. Antonio + Joanninha 18 » A sr.ª Soller + Maria das Dores 60 » » C. Talassi + + A scena passa-se na Madeira em 185... + + + + +ACTO PRIMEIRO + +_Um campo de vinha. Á direita uma choupana aceiada e grande, cercada de +hortencias, bannaneiras, e moitas de flores._ + + +SCENA I + +_Luiz do Campanario e Antonio Prudente_ + +ANTONIO + +(_Sahindo da choupana._) Boas tardes Luiz. Por aqui já a esta hora, +rapaz? Julgava que só á noite voltarias da cidade. + +LUIZ + +Agora mesmo cheguei de lá. Eu, só á noite é que contava voltar; mas a +pescaria depressa se vendeu. Os americanos compraram tudo para a +esquadra, que hontem chegou ao Funchal. Quando era pela volta do +meio-dia estavamos livres. + +ANTONIO + +Abençoados americanos! Navios e esmolas, tudo nos mandam, para nos +ajudar a viver. Que isto hoje nesta terra, Luiz, só se vive do que nos +dão por caridade. + +LUIZ + +Vocemecê tem razão, sr. Antonio Prudente. Vivemos de caridade... da dos +estrangeiros, que os lá de Portugal esqueceram-se de nós. + +ANTONIO + +Não se esqueceram, talvez. São pobres como nós, e ahi está. Eu, por mim, +não quero pensar mal do que sempre me ensinaram a respeitar. Olha, o +melhor é não fallar em coisas dessas: tenho medo de perder o respeito ao +senhor governo, o que seria contra os meus costumes antigos. Já estou +velho para novidades; e como, Deus louvado, tenho para ir passando, esta +casa, e esta fazenda, que eu fiz por minhas mãos, não quero +entristecer-me já agora. Tristezas acabam com a gente mais cedo. + +LUIZ + +É verdade; lá isso é, sr. Antonio. + +ANTONIO + +Tu tens coisa que te dê pena? + +LUIZ + +Não, não tenho. Não é nada. + +ANTONIO + +Tens. Disseste isso como quem sente um pezo sobre o coração. + +LUIZ + +Tenho a minha mãe velha e doente e eu pobre, e... + +ANTONIO + +E o que? + +LUIZ + +Esta pobreza tira-me até as forças para trabalhar, queria ter mais... + +ANTONIO + +Tens ambição, rapaz? ah! ah! Teu pae era bom homem! Teu pae trabalhou +toda a vida ali na Lombada, como caseiro do morgado Bittencourt: não +ganhou nunca senão para cada dia comer uma raiz de-ynhame, ou uma espiga +de milho, e eu não lhe ouvi fazer dessas queixas contra a pobreza. + +LUIZ + +Meu pae tinha mais animo do que eu. E depois, a fallar a verdade, tinha +coizas que o consolassem: tinha em minha mãe uma santa companheira, que +o ajudava no trabalho; em minha irmã uma boa filha. O morgado velho não +lhe queria mal, e ajudava-o. A terra então dava vinho; não era como +hoje, em que tudo parece amaldiçoado aqui na Madeira, em que até se +mirraram as uvas... + +ANTONIO + +La nisso tens rasão. Foi praga que cahio sobre nós. Mas para tudo, hade +Deus dar remedio. Tu tens meio de ganhar a vida, Luiz: não desanimes, +rapaz. + +LUIZ + +O que eu tenho é minha mãe abatida e triste, que faz chorar. E de meu, +tenho a metade das bemfeitorias que meu pae fez, em 20 annos de +trabalho, ali na fazendinha do morgado Bittencourt; a outra metade +pertence a minha irmã, que está casada, e cheia de filhos--pobre +mulher!--E as taes bemfeitorias são coisa tão pouca, que de nada me +servem, nem acho quem m'as compre. O que me vale é ter ahi logar entre a +companha de um barco de pesca, senão morriamos de fome, eu e minha mãe. + +ANTONIO + +Coitado do Luiz! Tens rasão, filho, tens. Eu é que, por ter esta fazenda +de meu--porque esta é minha, de véras; terra e bemfeitorias--por ter +esta fazenda, e uma filha que é a alegria e a benção desta casa, pensei +que todo o mundo era feliz. Deus me não castigue, Deus não faça cair +sobre Joanninha o castigo desta minha cegueira. + +LUIZ + +Deus a ampare, á nossa Joanninha. + +ANTONIO + +Bem o merece. Boa, e bem creada. Pode ser mulher ahi de qualquer +morgado, a minha filha, não lhe falta nada. Sabe ler, escrever, e até +bordar. Heide cazal-a com um homem que tenha de seu, para que ella não +saiba nunca o que é pobreza. + +LUIZ + +(_Com dor._) Faz... faz bem, sr. Antonio Prudente. Sua filha deve... ser +feliz com um homem que tenha de seu, que a traga como as meninas lá da +cidade... que a faça feliz. Mas... mas ainda não está escolhido noivo +para Joanninha? Vocemece ainda se não decidiu a cazal-a? É cedo... +Joanninha é muito moça. + +ANTONIO + +Tem 17 annos feitos. Mas pensar no casamento ainda não pensei. Custa-me +a separar della. + +LUIZ + +(_Com alegria._) Então por ora não se casará. + + +SCENA II + +_Os mesmos e Joanninha_ + +JOANNINHA + +(_Correndo para Antonio._) Não se casará por ora, nem casará em quanto +não tiver noivo do seu gosto. + +LUIZ + +Joanninha! + +ANTONIO + +Estavas ahi, filha? + +JOANNINHA + +Estive a dar de comer aos meus pombos, coitadinhos, e agora vinha para o +acompanhar, pae, lá abaixo á Fajã; para o ajudar no que for necessario. + +ANTONIO + +Ora aqui teem o que se chama uma boa rapariga. + +JOANNINHA + +Sou muito sua amiga, pae; e por isso me não quero casar, nem ir para +longe desta freguezia, onde nasci e me criei (_Olhando para Luiz._) +Tenho aqui todos, e tudo de que eu gosto. + +ANTONIO + +Esses amores hão de te passar. Outros os farão esquecer. + +JOANNINHA + +Não se diga que me heide esquecer do amor que tenho a meu pae... e +áquelles com quem vivi sempre. Não heide perdoar a quem o disser. (_Com +tristesa._) Se os outros se esquecerem, hei de lembrar-me eu. + +LUIZ + +Ninguem tem coração para se esquecer de ti, Joanninha. + +JOANNINHA + +Assim será. Mas meu pae diz, que pelos amores novos se esquecem os Antigos. + +LUIZ + +A mim parece-me que antes perderia a vida, antes poria a minha alma em +peccado mortal, do que perder da lembrança os dias em que brincámos ahi, +á sombra dos castanheiros. + +ANTONIO + +(_Com inquietação._) Está bom, está bom. Lá estão vocês a dizerem-se +finezas, que me parecem dois senhores da cidade. + +JOANNINHA + +Então a verdade porque se não hade dizer, pae? Elle pensa aquillo que +diz, faz bem em o dizer. Fomos creados um com o outro, e a sr.ª Maria +das Dores, a mãe do Luiz, serviu-me de mãe a mim. É como se fossemos +irmãos. + +LUIZ + +Irmãos!... irmãos sim. (_Commovido._) E o que mais me custa, é +separar-me de ti... + +JOANNINHA + +(_Assustada._) Que separação é essa? Vaes deixar-nos? + +LUIZ + +Talvez... Parece-me que irei ahi, a bordo de um navio, fazer uma +viagem... Fallaram-me em ir marinheiro n'um navio que sae... + +JOANNINHA + +Para onde? + +LUIZ + +Para longe. Ainda não sei. + +JOANNINHA + +Não vás. + +ANTONIO + +Então porque não hade ir? É tentar fortuna. Uma viagem ao Brasil, +talvez. Ir e voltar. Faz muito bem o nosso Luiz. + +JOANNINHA + +E a tia Maria das Dores, a mãe de Luiz, coitada?... E todos nós? + +LUIZ + +Se eu me for... minha mãe fica em casa de minha irmã. + +JOANNINHA + +(_Com as lagrima nos olhos._) Não pode ser. Assim não vae isto bem. Tua +mãe está velha... e sem ti estalla de pena. + +LUIZ + +Esta vida de barqueiro, de pescador, é vida miseravel, e sem esperança. +Lutar com o mar, arriscar a vida nos temporaes, andando por entre essas +rochas quando o tempo está de lavadia, e não passar nunca de ser um +pobre, vivendo de mizeria; um desgraçado a quem os ricos fazem esmola, +quando lhe pagam o seu trabalho; passar a vida inteira neste penar, isso +é que o coração cá dentro não me soffre. + +JOANNINHA + +E queres? + +LUIZ + +Quero ir por esse mar fóra, por esse mundo de Christo a tentar fortuna. + +JOANNINHA + +E se morreres?... + +LUIZ + +Sempre hade haver agua no mar para de uma vez me mergulharem; ou uma +pouca de terra para me deitarem por cima. + +JOANNINHA + +Jesus! Misericordia! Que cousas dizes! Chego a tomar-te raiva quando te +ouço fallar assim, (_Chorando._) Não vês que me fazes pena quando dizes +dessas doidices?! + +LUIZ + +Não é para te fazer pena... + +ANTONIO + +É verdade. Elle faz o que deve. O homem pode morrer no mar ou em terra, +e em morrendo acabou-se. Tambem eu heide... + +JOANNINHA + +Se continua, pae, a fallar nessas cousas, vou-me, fujo, caso-me... + +LUIZ + +Não se torna mais a fallar em tristezas. Se for, heide voltar. Assim +como aqui o sr. Antonio fez, pelo seu trabalho, desta terra, que era um +mato maninho, uma fazenda que faz gosto aos olhos verem-n'a, tambem, eu +heide da minha barca fazer um navio bonito, como o «Galgo.» Que isto da +gente ter vontade, cá de dentro, de fazer uma cousa, é meio caminho +andado para a conseguir. E, se não, vejam o que succedeu ao José +Velhaco. Ha menos de um anno pobre como eu, e agora com grilhões de +oiro, e relogio, e dinheiro, que é um pasmar. Foi a Demerara, e voltou +rico. Fortunas! + +ANTONIO + +O José Velhaco foi a Demerara, e voltou rico. Fortunas, dizes bem. +Outros lá vão, e por lá ficam. + +LUIZ + +Morre-se por lá como por cá. Mas aquillo é terra para fazer fortuna. Não +foi só o José Velhaco que voltou rico. Ahi estão na Madeira +mais de meia duzia, a quem succedeu o mesmo. + +ANTONIO + +Não te deixes enganar com as apparencias. O sr. Vigario ainda outro dia +me disse, que esses que veem ricos de Demerara são isca para apanhar os +passaros. + +LUIZ + +Talvez. O que for soará. + +ANTONIO + +Toma os conselhos, que são de quem tem já cabellos brancos. Não te +deixes enganar com as apparencias.--Vamos, Joanninha, vamos até á Fajã, +antes que se faça mais tarde. (Sae.) + +JOANNINHA + +Adeus Luiz. + + +SCENA III + +_Luiz e Joanninha._ + +LUIZ + +(_Detendo-a._) Uma palavra, Joanninha. + +JOANNINHA + +Que me queres? + +LUIZ + +Tenho que te dizer. + +JOANNINHA + +Mas agora! Meu pae espera-me... + +LUIZ + +Diz-lhe que já vais ter com elle. Eu preciso fallar-te. + +JOANNINHA + +Virgem Maria! que susto me estás mettendo! (_Aos bastidores._) Ahi vou +já, pae, esqueceu-me uma coisa em casa: já vou lá ter, n'um +instante. + +LUIZ + +(_De dentro._) Pois eu cá vou andando. + +JOANNINHA + +(_A Luiz._) Diz agora o que queres de mim. + +LUIZ + +Ouve, Joanninha. Tu lembras-te que sempre vivemos juntos; que de +pequenos andámos sempre um com o outro por essas serras; que se não +passou até hoje uma semana em que nos não vissemos? + +JOANNINHA + +Lembro-me. + +LUIZ + +Não te esqueceu ainda aquella manhã, em que fomos juntos ao Paul da +serra, e levados, não sei por que alegria que vinha cá de dentro, +apanhando flores de urze, e brincando, chegámos até ao Rabaçal? + +JOANNINHA + +Não me esqueci dessa alegre manhã. No Rabaçal a agua saltava do alto da +serra, e depois espalhava-se em gotas de chuva, que brilhavam ao sol +como estrellas, e vinham cair até onde nós estavamos sentados: de baixo +daquelle grande til que nasce da rocha. Eu senti nesse dia o que não +tinha sentido nunca: não sei se alegria se tristeza.. O coração batia-me +como eu nunca o senti bater. + +LUIZ + +Tinhas então 15 annos, e eu 20. Foi ha 2 annos. Desde esse dia, nunca +mais andámos sós, um com o outro pela serra. + +JOANNINHA + +Mas, desde esse dia, quasi que se não tem passado um só sem nos +vermos. + +LUIZ + +Joanninha, de tudo te lembras. Agora já te posso fallar com menos susto. + +JOANNINHA + +Para que me lembras-te essas coisas todas? O que tem isso com a pergunta +que me querias fazer? + +LUIZ + +Olha, Joanninha, não é facil a gente dizer tudo quanto quer; porque, +emfim, o sentir não depende da vontade, e as palavras não chegam para +dizer tudo. + +JOANNINHA + +Mas... o que querias dizer-me? + +LUIZ + +Não te pões mal commigo, não é verdade? + +JOANNINHA + +Porque? + +LUIZ + +Talvez seja esta a ultima vez que te vejo. Esse tempo, em que nos +podiamos ver todos os dias, passou. + +JOANNINHA + +Então partes breve? + +LUIZ + +Hoje mesmo. + +JOANNINHA + +Deus me acuda! Hoje! + +LUIZ + +Hoje me vou. + +JOANNINHA + +Não pode ser. Não disseste nada a meu pae. + +LUIZ + +Nem lh'o digas tu. É segredo a minha partida, não quero que minha mãe +saiba. A ti tambem não queria dizer nada, mas faltou-me o +animo... + +JOANNINHA + +Ah! Luiz, em tu me faltando... ficam sem luz os meus olhos, e sem +alegria o coração. + +LUIZ + +Eu tambem me vou e bem triste, Joanninha. Mas que queres? Quem é pobre, +nasceu para padecer. É preciso fazer esta viagem para depois poder... se +tu me não disseres que não, Joanninha--para poder... + +JOANNINHA + +O que? + +LUIZ + +Pedir a teu pae, que sejas minha mulher. Se não disseres que não. + +JOANNINHA + +Não digo, não te digo que não. + +LUIZ + +E promettes esperar que eu volte... tendo bastante de meu, para que teu +pae consinta no casamento? + +JOANNINHA + +Se agora mesmo lhe pedisses, meu pae consentiria. + +LUIZ + +Não. Teu pae criou-te para seres rica, deu-te uma criação como a das +senhoras da cidade; e não quer que te cases com um pobre, como eu sou. +Ainda ha pouco elle m'o disse, aqui mesmo. + +JOANNINHA + +Só comtigo, Luiz, só comtigo me heide casar. + +LUIZ + +Já vou mais consolado: com mais animo para trabalhar, para me arriscar +aos perigos. + +JOANNINHA + +Não te arrisques. Lembra-te de tua mãe... de mim, que morro se tu morreres. + +LUIZ + +Não chores, minha querida Joanninha. A Senhora do Monte hade +proteger-me, e eu heide voltar. + +JOANNINHA + +Prometto uma novena á Senhora do Monte, e muitas flores no dia da sua +festa, se tu voltares cedo. + +LUIZ + +Agora... Joanninha... adeus... adeus! + +JOANNINHA + +Não te demores muito, Luiz. Volta, porque me deixas em cuidados... +ralada de saudades. + +LUIZ + +Um abraço de despedida. (_Caem nos braços um do outro._) + +AMBOS + +Adeus! Adeus! (_Joanninha sae._) + + +SCENA IV + +LUIZ _só_. + +Joanninha! Não sei como tive animo para a deixar ir... como tenho alma +para sair da minha terra, onde ella vive... onde me fica amando.--E +voltarei?... tantos lá teem ficado! Se uns morrem outros voltam ricos; e +eu, pobre como sou, nunca heide casar-me com Joanninha.--As orações +daquella santa rapariga ha de Deus ouvil-as, e basta.--Quem se não +arriscou não perdeu nem ganhou. + + +SCENA V + +_Luiz e Jozé Velhaco_ + +JOZE + +Santa palavra, Luiz, santa palavra que nem todos intendem, e que é +preciosa para os que a sabem. Eu, se não soubesse esse rifão de côr e +salteado, estava a esta hora com um sacho na mão a sachar milho na +fazenda d'um morgado, que, no fim de contas, me ficaria com metade do +producto da minha labutação. O morgado que nasceu rico--isto é um modo +de dizer--que nasceu dono de terras, e nem sabe nem tem prestimo para as +cultivar... Ah! ah! o morgado guardaria metade do meu milho, para dar +aos cavallos... e eu, com a minha metade, nem teria para enganar a fome. +Santa palavra, rapaz, santa palavra! + +LUIZ + +Os pobres cazeiros trabalham muito, e padecem muito, Jozé Velhaco. Nisso +tens tu rasão. + +JOZE + +Tenho, e não me heide cançar de prégar estas verdades. Os cazeiros, nós, +os villões, trabalhamos, e os morgados comem os nossos fructos e bebem o +nosso vinho. Estão sempre aqui a fallar em que nós, os que vamos a +Demerara procurar fortuna, largamos a nossa terra para irmos ser +escravos dos inglezes, para sermos escravos brancos! E aqui, nesta terra +dos morgados, o que somos nós senão escravos? Ao menos, lá por essas +terras dos inglezes, um homem activo, tendo cá fogo de dentro como eu, e +como tu, meu Luiz, faz fortuna, faz-se rico como um morgado... mais do +que um morgado, porque não deve nada a ninguem. Ah! ah! santa palavra! + +LUIZ + +Isso são sortes. Uns enriquecem, e outros por lá ficam, mortos ou escravos. + +JOZE + +Qual historia! Pois um homem vae d'aqui, e recebe logo trinta patacas... +como tu recebeste hontem. Em! Trinta patacas é uma boa conta. + +LUIZ + +É, é. Vinte ahi ficam para minha mãe; e as outras dez gastam-se na viagem. + +JOZE + +Que importa? Chegas lá, trabalhas um... um tempo para pagar a divida, e +a comida que te dão cada dia... e depois principias a ganhar por tua conta. + +LUIZ + +Mas esse tempo quanto dura? + +JOZE + +Conforme... sim, é conforme. Para uns dura mais, para outros menos. É +segundo as forças de cada um. Mas tu bem vês: aqui é que se não faz +nada. Trabalha-se a vida inteira, a arrancar mato da serra, e levantar +muros, a plantar arvores e vinha, a formar uma fazenda, e no fim fica a +gente sem ter nada; porque a terra é dos morgados, e as bemfeitorias +ficam agarradas á terra, donde se não podem arrancar. + +LUIZ + +Que de coisas tu sabes agora! + +JOZE + +É porque vivi lá por Demerara com muita gente de tino, e aprendi muito. +Aquillo é que é terra, homem! Campos que é um gosto vel-os. +Como estes aqui da Madeira, mas maiores. E na cidade? Ganha-se dinheiro +que é um louvar a Deus! + +LUIZ + +Mas as febres? + +JOZE + +Quaes febres! Ha por lá umas doencitas, que levam a gente ás vezes, mas +não é coisa que se veja: nada, nem se dá por tal. E, depois, se por lá +se morre de febre, por cá morre-se de mizeria, que ainda é peior. Tu +tens medo de morrer? + +LUIZ + +Eu!... + +JOZE + +Bem sei que não tens medo. Vaes á pesca em dias de temporal, quando os +outros pescadores se metem em caza. Em a gente sendo animoso nem as +doenças lhe chegam. Santa palavra! Olha para mim. Tu bem sabes que eu +sou animoso, valente... + +LUIZ + +Serás; talvez o sejas. Ganhaste isso em Demerara? + +JOZE + +Pois eu não sou?... Não fui sempre?... + +LUIZ + +Um armazem de pancadas, quando eras mais novo. Todos te davam; e tu não +fizeste nunca senão levar e calar. + +JOZE + +Hum! Bem vês que eu era... que tinha bom coração, e não queria fazer mal +ao proximo. E a prova é, que já me esqueci de tudo que os +rapazes aqui da freguezia me fizeram, e que tenho mandado um pár delles +para Demerara... a buscar fortuna. Pagar o mál com o bem, é de um homem +como se quer. Tu mesmo, Luiz, agora me lembro, tu mesmo deitaste-me um +dia na Ribeira Brava, dentro d'agua; porque eu te tinha tirado um pedaço +de ynhame cozido... e eu tinha fome. Agora vou-te fazer rico, para teres +fato fino, como este meu, relogio, cordão de oiro, e muito dinheiro... +para te tinirem as algibeiras, como a mim. Hem! + +LUIZ + +Serás, serás bom rapaz, agora, mas animoso... Deixemos isso, e vamos ao +que importa. Joze, eu vou para Demerara; foste quem me resolveu a ir. +Minha mãe, pobre velhinha, cá fica sem ter mais ninguem senão minha irmã +que é pobre, e pouco lhe pode valer. Acode-lhe tu, Joze. Que minha mãe +ao menos tenha um pedaço de pão para matar a fome. + +JOZE + +Conta comigo. + +LUIZ + +Outra coisa te queria eu pedir; mas essa... + +JOZE + +Dize, que eu sou um bom amigo. + +LUIZ + +Creio que és, sim. Mas tens sido sempre tão fallador, homem... + +JOZE + +Injustiça no cazo. Eu guardo um segredo como ninguem + +LUIZ + +Vé lá o que fazes: o que vou dizer é segredo. Gosto muito de +Joanninha... + +JOZE + +Ah! ah! Eu já desconfiava disso. Tens bom gosto, que a pequena é +bonita... e, de mais a mais, vem a ter de seu, em o pae morrendo.--Maganão! + +LUIZ + +Pobre a queria eu, para me poder já cazar com a minha Joanninha. Emfim, +se a sorte me ajudar, hei de tambem um dia ter alguma coisa de meu, e +então a pedirei ao pae. + +JOZE + +Bem pensado--Mas vamos ao cazo; o que me queres tu? + +LUIZ + +Quero que procures no correio as minhas cartas, e que as entregues a +Joanninha, em muito segredo, sem que o pae o saiba. + +JOZE + +Fia-te em mim. Um amigo vê-se nas occaziões. Santa palavra! + +LUIZ + +Obrigado, obrigado, Joze. Nunca te poderei pagar o muito que te devo. +Agora mais um favor. + +JOZE + +Venha lá mais esse... + +LUIZ + +É o ultimo, tem paciencia. Esta noite... d'aqui a uma hora talvez, vou +para bordo, e de lá já não volto, já não torno a fallar com minha mãe. +Aqui tens vinte patacas, que lhe deixo: tu mesmo lh'as entregarás em mão +propria. + +JOZE + +Ahi vem ella. D'ali, da banda da Igreja. + +LUIZ + +(_Dando-lhe dinheiro._) Pois vou-me, antes que ella chegue; +não tenho cá dentro força, para lhe fallar agora. Dize-lhe que fui no +bote fazer um frete até ao Funchal. Amanhã lhe contarás a verdade. +Adeus, Joze. Não te esqueças do promettido. (_Estendendo os braços para +o lado donde, vem Maria das Dores._) Mãe, mãe! A tua benção, mãe; para +que Nossa Senhora me não desampare! (_Sae._) + + +SCENA VI + +_José Velhaco, só._ + +JOZE + +Os diabos te levem, para que não voltes mais. Ah! Ah! e deixou-me vinte +patacas das trinta que recebeu! És tolo, meu Luiz do Campanario. Vinte +patacas que estão aqui na minha algibeira, com trinta que hei de receber +ámanhã do bom homem Carlos Bad, honrado negociante de carne branca, +fazem cincoenta patacas--É barato. Estou roubado. Um escravo preto custa +muito mais agora, depois que os inglezes se declararam protectores dos +pretos; e o Luiz vale bem dois negros de Angola--Viva... viva...--como +lhe chamam elles, os inglezes?--Viva a philan... a philantropia que em +vez de escravos negros, vae fazendo os brancos escravos. A cor pouco faz +ao caso; mas escravos ha de havel-os, em quanto houver homens com fome, +em quanto houver miseria no mundo. Santa palavra! O dinheiro é que é a +liberdade! Viva o dinheiro!... viva o rei dinheiro!... Irei ficando com +as vinte patacas do Luiz, em vez de as dar á velha que ahi vem. Só para +o enterro é que ella precisa de dinheiro, agora. + + +SCENA VII + +_José Velhaco e Maria das Dores_ + +JOZE + +Ora salve Deus a sr.ª Maria das Dores. + +MARIA + +Deus lhe dê muito boas tardes, sr. Joze. Não estava agora aqui o meu +Luiz?--Pareceu-me vel-o. + +JOZE + +Estava aqui, mas foi-se, sr.ª Maria. O rapaz anda com a cabeça +desarranjada, não lhe parece? + +MARIA + +O rapaz anda triste, porque lhe custa a levar a miseria. Eu bem lhe +tenho prégado, que é vontade de Deus que assim seja, e que elle se deve +ir conformando com a vontade de quem tudo póde. Bem velha estou eu, e +nunca tive na minha vida uma hora talvez, de que se possa diser +«bensa-te Deus:» pois olhe, assim mesmo com paciencia cá tenho ido +andando. Se Deus me conservar o meu Luiz, á hora da morte hei de louvar +a Deus, por me ter mandado a este valle de lagrimas. + +JOZE + +Aquella falta de humildade, com que o Luiz leva a sua cruz, é peccado, +diz bem sr.ª Maria. + +MARIA + +Eu não disse que o meu filho tinha peccado. Nem o disse, nem o +penso.--Hoje em dia, não sei porque, todos os rapazes querem ser mais do +que foram seus paes, e por isso tem ido acabando aquelle respeito que +n'outro tempo havia aos srs. morgados. Em tudo isto anda o dedo de Deus. +Ou o mundo está para acabar, ou, senão, vae levar tudo uma grande volta. + +JOZE + +Está muito intendida em politicas, sr.ª Maria das Dores! Tambem lê os +periodicos? + +MARIA + +Não leio, não me ensinaram a ler. + +JOZE + +Dizem por ahi que é bruxa; saberá isso por artes... + +MARIA + +Calle-se, Joze. Vae-te t'arrenego, hoje é sabbado. De quando em quando +oiço contar as coisas que se passam por esse mundo ao nosso vigario, e +fazem-me scismar. Acho rasão ao meu Luiz quando se queixa da sorte, mas +nunca lh'o digo. Quem trabalha deve ter, ao menos, tanto como quem não +trabalha mas nasceu morgado. Em quanto não for assim não vae o mundo ás +direitas. + +JOZE + +Pois as impaciencias do nosso Luiz hão de lhe dar na cabeça. Agora, +quando a viu, sr.ª Maria, fugiu; e talvez um dia fuja de todo. + +MARIA + +Jesus, Santo nome de Jesus! Se elle me deixasse morria. Olhe Joze, +tem-me morrido todos os meus, pae, mãe, irmãos, e o meu pobre marido, e +eu fui ficando--Deus sabe para que.--Mas agora, se me faltasse o meu +Luiz, a isso não resistia. + +JOZE + +Deve estar preparada para tudo. + +MARIA + +Porque? + +JOZE + +Eu não sei nada... ao certo: mas o Luiz tem uma alma independente como a +minha, senhora Maria--e pode ser que elle um dia faça como eu fiz, que +vá por esse mundo fóra em busca de fortuna. Ora como nem todos são +egualmente felizes... + +MARIA + +Talvez elle por lá fique! Nada, o meu Luiz não se vae, não me deixa. + +JOZE + +O desejo de ser rico, de se ver bem tratado por esses senhores morgados, +que lhe chamam agora o _villão_; o desejo de deixar de ser _um villão_ +para ser o sr. Luiz do Campanario, estimado por ter dinheiro, +comprimentado pelos morgados por lhes poder emprestar algumas patacas; +este desejo de abater os outros e de se exaltar a si póde muito. O +dinheiro, sr.ª Maria, levanta os humildes, faz fidalgos os vilões. Ah! +ah! Santa palavra! + +MARIA + +Isso são maus sentimentos, que o meu Luiz não tem. Se lhe custa o ser +pobre é por me não poder fazer feliz a mim, e a todos os seus. O meu +Luiz é bom, foi sempre bom desde creança. Esses sentimentos de que +falla, Joze, só os pode ter um mau homem, um homem sem honra e sem +vergonha. + +JOZE + +É... será verdade. Um homem sem vergonha... Eu cá sim, eu nunca tive +sentimentos taes... porque sou... + +MARIA + +Joze, Joze, sempre teve--desde pequeno que o conheço--propensão para o +mal. Preguiçoso, e mau, foi-o sempre. Nunca pensei que pelo trabalho +honrado se fizesse rico; mas em fim assim aconteceu, e como aconteceu, +Deus o sabe. Sou velha, e hei de diser a verdade. Anda sempre desde que +veio de Demerara, a metter na cabeça a todos os rapazes, e ás raparigas +até, que emigrem da Madeira: e quando desapparecem seis ou sete apparece +o sr. Joze a comprar uma casa ou uma fazenda, ou com mais um cordão de +oiro ao pescoço. Murmura-se por ahi de tudo isto... + +JOZE + +Invejosos! + +MARIA + +Pode ser, talvez. Mas se o meu Luiz se for, é a você que eu ponho as +culpas. + +JOZE + +Porque? Pois não podem outros persuadil-o a que emigre? + +MARIA + +Podem. Mas eu tanto me hei de queixar, que se saberá a verdade. A voz da +velha Maria das Dores ha de ouvir-se por toda a Madeira, e chegar até +aos ouvidos de quem governa. Mas não... o meu filho não me deixa. + +JOZE + +Talvez que não. Adeus sr.ª Maria das Dores, veja se descança, faz-lhe +mal zangar-se--Ah! ah! ah! Está velha para se zangar assim. + + +SCENA VIII + +_Maria das Dores_ + +MARIA + +O meu Luiz não me deixa, não me desampara, eu morria se me visse sem +elle... Nossa Senhora me livre desta ultima dôr; esta era a ultima, +porque eu morria. Se tem de acontecer essa desgraça, Deus, me leve antes +para si (_Vae sentar-se sobre um pedaço de muro, de modo que fica quasi +escondida por detraz de uma moita_). Ave Maria cheia de graça, o senhor +é comvosco... (_Continua a murmurar orações._) + + +SCENA IX + +_A mesma--Antonio Prudente--O Vigario--Joanninha_ + +VIGARIO + +Tenho gosto em ver os bons resultados da sua labotação, sr. Antonio. +Fazendas bem amanhadas, as suas fructas excellentes; muita cana de +assucar, já para substituir o vinho que nos falta, e flores por toda a +parte para alindar tudo... As flores são aqui da nossa Joanninha, que as +sabe escolher bonitas como ella. + +JOANNINHA + +Ora! sr. Vigario. + +VIGARIO + +Não se envergonhe a menina Joanninha por ser bonita, e gostar de flores. +Se eu tivesse uma sobrinha, com estas duas qualidades a queria. Mas +aquelle desmasellado de meu irmão não me quiz dar senão dois sobrinhos, +paciencia! Elles são ambos bons rapazes; mas o segundo, o Fernando, o +mais novo, é mesmo uma joia, e eu quero-lhe devéras. + +ANTONIO + +E merece-o o menino, porque muito bom é. + +VIGARIO + +Merece muito, mas, como fez o crime de vir ao mundo mais tarde do que o +outro, ha de ser pobre toda a vida, e o irmão morgado e rico. Esta +instituição dos morgados foi feita por quem não tinha entranhas de pae, +nem consciencia de bom christão; e aqui na Madeira, sobre tudo, foi +estabelecida por quem não entendia nada de agricultura, e não tinha nem +amor á terra que dá os fructos, nem aos homens que a cultivam. Meu +irmão, o morgado Bittencourt, não quer escutar estas verdades: mas eu só +lhes recomendo, a elle, e aos outros morgados, que comparem as fazendas +livres com as que estão opprimidas pelos vinculos, e que digam, depois +de verem nas fazendas livres tudo alegre, verde, bem cultivado; e nas +vinculadas tudo miseravel e coberto de colonos famintos; que digam que +isto dos morgados não é um absurdo funesto, sustentado apenas por +vaidades fofas e impios preconceitos.--Este flagello dos vinculos ha de +acabar, e com elle o outro flagello tambem, a emigração dos madeirenses. + +ANTONIO + +E quando acabará ella sr. Vigario!? + +VIGARIO + +Quando a terra fôr de quem trabalha, e não de quem vive na ociosidade e +na ignorancia: quando uma organisação iniqua da propriedade não affastar +da inteira posse da terra os caseiros em nome dos vinculos, e os +morgados em nome das bemfeitorias; quando a justiça fôr a base das leis; +quando nesta ilha, que a natureza fez um paraizo, acabarem esses restos +de escravidão, que ainda hoje existem pezando sobre o homem +do povo e unidos ao nome de _villão_. Os grandes padecimentos do povo +hão de acabar, quando a instrucção esclarecer o espirito de todos; +quando no mundo civilisado--porque o mal não existe só aqui na ilha--se +não soffismar a verdade, e se não confundir a justiça com o interesse; +quando a religião, a virtude, a liberdade, estiverem acima de tudo.--Mas +esse tempo, se é que tem de chegar, ainda vem longe. Finje-se hoje +querer acabar com a escravidão no mundo; assignam-se tratados para +abolir o trafico dos negros barbaros; e deixa-se que a seducção e a +miseria arraste os brancos a captiveiro mais cruel. + +ANTONIO + +V. s.ª tem rasão de certo no que diz. Eu não percebo talvez todo o +sentido das suas palavras, sr. vigario, mas a consciencia diz-me que são +verdadeiras. + +VIGARIO + +O lidar com a natureza esclarece a rasão; e não ha nada que mais luz dê +ao espirito, do que a probidade e a honradez Antonio Prudente, eu bem +sei que entende o que lhe disse. + +JOANNINHA + +A verdade é para todos. + +VIGARIO + +Bravo! fallou bem a nossa Joanninha, a minha afilhada Joanninha. Fui eu +que lhe ensinei a ler, a doutrina e tudo, e não perdi o meu tempo. + +ANTONIO + +O sr. Vigario sempre foi bom para todos, mas para a minha filha... +deve-lhe tudo... + +VIGARIO + +Tomára eu tempo para poder ensinar a ler todas as creanças da freguezia. +Eu entendo que um dos mais santos deveres do padre é instruir e educar +as creanças. Como lhe ia dizendo ha pouco, Antonio, os males são muitos, +e a todos é preciso dar remedio prompto. Devéras, em quanto os homens de +bem cá das aldeias não ajudarem esses senhores politicos de Lisboa a +fazer as leis, nunca as ha de haver que prestem. + +ANTONIO + +É o que eu tenho pensado muitas vezes; salvo o respeito devido a quem +manda. + +VIGARIO + +Sobre estas emigrações algumas medidas se teem tomado. Expedientes, +meros expedientes! Prohibe-se aos pobres colonos o embarcarem sem +passaporte, põe-se um navio de guerra a guardar a ilha, ameaçam-se os +alliciadores, e no fim de tudo embarca quem quer sem passaporte, o navio +não guarda nem pode guardar nada, e os aliciadores vivem alegres e +enriquecem. Não é prohibindo, é concedendo, que se ha de acabar com a +emigração; não é fechando o povo dentro da ilha, como n'um carcere, é +dando a liberdade aos homens e á terra, que se ha de combater a febre +que agita neste momento a ilha. Os que fazem leis só pensam em castigar +e prohibir. Não basta. É preciso aconselhar e ajudar os pobres a viver; +é preciso que todos na ilha da Madeira saibam o que padecem os +desgraçados, que a esperança arrasta a essas terras dos inglezes, em que +os aguarda a escravidão, onde as febres lhes minam a saude, e a cubiça +de vis especuladores lhes arranca das mãos o pão, com que +elles procuram enganar a fome. + +JOANNINHA + +(_Com susto._) Pois tanto soffrem os que vão a Demerara? + +VIGARIO + +Muito mais do que se pensa. + +ANTONIO + +É preciso desenganar o povo; porque todos os dias desapparece d'entre +nós algum rapaz dos melhores, dos mais trabalhadores e dos mais queridos. + +VIGARIO + +Ás vezes são familias inteiras; outras, um chefe de familia deixa mulher +e filhos; e até ha filhos que desamparam seus paes, e isto quando estão +com os pés na sepultura. + +ANTONIO + +Agora mesmo tenho eu medo, que um dos bons rapazes da nossa freguezia +fuja para Demerara, deixando a mãe velha e pobre quasi ao desamparo. + +JOANNINHA + +E quem é, pae? + +ANTONIO + +O Luiz do Campanario. + +JOANNINHA + +Isso não póde ser. + +MARIA + +(_Levantando-se e vindo á frente da scena._) Não pode ser. O meu Luiz +não me deixa aqui só: não me pode abandonar agora... quasi á hora da +morte. + +ANTONIO + +É uma desconfiança que tenho, e nada mais. Eu não sei... + +VIGARIO + +Amanhã... esta noite mesmo lhe fallarei; e se elle tem idéas de emigrar, +tirar-lhas-hei da cabeça. + +ANTONIO + +Deos o abençoe, sr. Vigario, pelo amor que tem aos pobres. Deos lh'o +pagará, meu senhor Vigario. + + +SCENA X + +_Os mesmos e Joze Velhaco_ + +JOZE + +Sr.ª Maria das Dores... Ah! (_tirando o chapeo._) Boas tardes, sr. +Vigario. Estou ao seu dispor. + +VIGARIO + +(_Com mau modo._) Bons tardes, sr. Joze. + +JOZE + +V. S.ª está zangado, ao que parece. + +VIGARIO + +Talvez. + +JOZE + +É que eu... eu trazia uma noticia aqui á tia Maria das Dores... + +VIGARIO + +Pois dê-lhe a noticia. + +MARIA + +Diga, homem. + +JOZE + +Não tenha pressa de saber. + +JOANNINHA + +Falle, sr. Joze. + +JOZE + +O Luiz, o seu Luiz, foi-se. + +AMBOS + +Para onde? + +JOZE + +Para Demerara. + +MARIA + +É mentira. + +JOANNINHA + +Jezus! + +JOZE + +Não viram hoje um navio a bordejar ao largo? Pois para elle foi, e nelle +estará a esta hora o nosso Luiz. + +MARIA + +Como soube... + +JOZE + +Disseram-mo agora mesmo uns barqueiros, que o viram partir para bordo. + +VIGARIO + +E não se tratará de acabar por uma vez com esta emigração, que faz horror? + +JOZE + +Ah! ah! O sr. governo está dormindo ha trinta annos. Quando accordar ha +de dar remedio a todos os males. + +_Cahe o panno._ + + +Fim do 1.º acto + + + + +ACTO SEGUNDO + +_A casa de Antonio Prudente. Porta no fundo, outra porta á esquerda. Á +direita uma janella._ + + +SCENA I + +_Antonio Prudente e Joze Velhaco_ + +JOZE + +Veja vmc. se a resolve, sr. Antonio. Eu tenho hoje bastantes terras, +umas casas na cidade, e andam-me emprestados e a vencer bons juros uns +poucos de centos de patacas. Para sua filha não me parece que eu seja um +mau casamento. Ainda sou moço... e com dinheiro, é o mais que uma +rapariga póde desejar. + +ANTONIO + +Não sei o que a Joanninha tem contra você, Joze, mas é certo que ella +fica mal comigo,--olhe que é verdade,--fica mal comigo em eu lhe +fallando neste casamento. A mim agrada-me, Você é um homem que sabe +fazer fortuna. Hontem por assim dizer pobre, e hoje rico. + +JOZE + +Pois ha um anno que ando a pertender este casamento, e elle sem se +fazer. Agora é tempo de acabar com isto. Está-me parecendo que Joanninha +não faz já tanta resistencia. Lembre-se que é pae, sr. Antonio, e que +pode mandar em vez de pedir. É para bem da sua Joanninha. Porque eu +conheço-me, e vmc. tambem me conhece, ein? conheço-me e sei que poucos +são capazes, como eu, de fazer feliz uma mulher. Santa palavra! + +ANTONIO + +Eu não duvido dos seus bons sentimentos, de que venha a ser menos mau +pae de familia. É certo... é certo--deixe-me dizer o que penso--que +todos na freguezia o vêem com maus olhos, desde que o Luiz do Campanario +foi para Demerara; e quando algum rapaz desapparece daqui, dizem +uns--foi o Joze Velhaco quem o enganou, o Joze Velhaco vendeu-se aos +inglezes--outros dizem--o Joze Velhaco é bom homem, dá dinheiro aos +pobres, empresta dinheiro aos morgados, e faz muitas festas a Nossa +Senhora... + +JOZE + +E vmc. o que diz? + +ANTONIO + +Eu acredito nos que dizem bem; mas minha filha so dá credito aos que +dizem mal. + +JOZE + +É a velha, a bruxa da Maria das Dores, quem lhe mette essas creancices +na cabeça. É preciso, sr. Antonio, pôr a excommungada da velha da sua +casa para fora. + +ANTONIO + +Isso não faço eu. Pôr fora da minha caza uma pobre velha, que é tão +desgraçada, uma mulher que serviu de mãe á minha Joanninha! Oh! sr. +Joze, que eu lhe não ouça dizer outra vez coisas dessas; que, sobre +tudo, o não saiba a minha filha. Estava desmanchado o casamento, se +Joanninha tal soubesse! + +JOZE + +Eu queria... sim, como sei que Joanninha é muito amiga da velha Maria +das Dores, queria ver... experimentar se vmc. era capaz de ir contra os +desejos da sua filha. Vmc. bem percebe? Eu não sou muito +amigo da Maria das Dores; a velha anda por ahi a desacreditar-me; diz +que fui eu que lhe seduzi o filho, que sou isto, que sou aquillo. Coisas +que nem eu sei. E quando a gente está innocente, ressente-se destes +falsos testemunhos. + +ANTONIO + +Quando se está innocente. + +JOZE + +Como eu, é verdade, ressente-se a gente. Não fallemos mais nisso, que é +uma coisa que me faz doer o coração. O que é preciso é que este +casamento se faça; porque a Joanninha é mesmo uma mulher propria para +mim: sabe ler, escrever, e é bem creada. Aqui em toda a freguezia não ha +uma rapariga, que se lhe possa comparar. + +ANTONIO + +A Joanninha é mesmo uma flor! Ah! ah! + +JOZE + +Mas, emfim, se vmc. não tem força para governar a sua casa, para fazer +com que sua filha lhe obedeça, irei a outra parte buscar mulher, com +quem me case. Não faltará quem me queira. No Funchal talvez ache até +algum morgado que me dê uma filha. Com dinheiro, nestes tempos, tudo se +pode alcançar: e eu, em sendo commendador, posso casar com quem eu +quizer, e ser até deputado, representante da Madeira. Ah! Ah! Ah! + +ANTONIO + +(_Rindo muito._) Que coisas que não hade dizer o sr. deputado Joze Velhaco! + +JOZE + +(_Em tom de discurso._) É preciso acabar com este odio á chamada +escravatura branca: este odio é uma vergonha para a Madeira, +uma deshonra para a Madeira, uma deshonra para os portuguezes. Esta +escravatura não é mais do que a liberdade, que todos devem ter de ir +procurar fortuna a qualquer parte do mundo. Eu mesmo fui enriquecer-me a +Demerara. E quando os calumniadores me accuzarem, de querer que dure a +emigração, para ganhar dinheiro com ella, heide gritar com furor. A +minha vida todos a conhecem, é simples e pura. Todos sabem que ganhei +honradamente o que tenho, e só almas damnadas me podem levantar falsos +testemunhos; porque... porque, a innocencia é a innocencia, e os homens +politicos sabem, melhor do que ninguem, o que é ser innocente, e o que é +fingir innocencia; porque a moralidade dos politicos... + +ANTONIO + +Viva! É eloquente, o meu genro, o sr. deputado. E da sua innocencia +falla muito, e falla bem. + +JOZE + +Então, decide-se o casamento? + +ANTONIO + +Está decidido, e hade ser já. + +JOZE + +Falle a Joanninha. + +ANTONIO + +Logo, em ella voltando para casa, hade decidir-se o negocio. + +JOZE + +E ella é quem o hade decidir? + +ANTONIO + +Não, heide ser eu. Está decidido, e eu logo não faço senão mandar. (_Com +violencia._) + +JOZE + +Mandar, sem soffrer observações. + +ANTONIO + +Como um pai a uma filha desobediente. + +JOZE + +Bom, bom! Logo venho pelo resultado. (_Sae._) + + +SCENA II + +ANTONIO PRUDENTE _só_ + +É preciso ser severo. Acabou-se; o que custa são as primeiras palavras, +depois as outras vêem por si. É para bem da minha Joanninha; que hade, +quando for velha, gostar de ser dona de uma boa propriedade, com terras +de pão, vinha e pomar. O Joze Velhaco é um rapaz de cabeça, como se +quer. Hade fazer-se commendador, e tudo mais que elle diz. Fallam por +ahi mal do Joze; mas não teem razão: elle tem-me provado que de tudo +está innocente. O padre Vigario tambem não é amigo delle... mas não tem +razão, não tem. Querem pôr ao pobre do meu genro as culpas, do que +succede nesta terra. (_Ouve-se a voz de Joanninha cantando_). Ahi vem +ella, a minha filha. Animo, Antonio Prudente. Vamos; deves-te fazer +respeitar e obedecer por tua filha. + + +SCENA III + +_O mesmo e Joanninha_ + +ANTONIO + +Vens muito alegre, Joanninha. + +JOANNINHA + +Eu, pae! + +ANTONIO + +Vinhas a trovar, como se estivesses na festa do Monte. + +JOANNINHA + +Á Senhora do Monte vinha trovando. Mas é a tristeza e não a alegria que +me faz cantar. + +ANTONIO + +(_Perdendo um pouco a severidade._) E diziam as trovas... + +JOANNINHA + + Senhora do Monte + Trazei-me o meu bem, + Com tristezas destas + Não pode ninguem. + + Senhora do Monte + Trazei-mo depressa, + Fazei que o meu noivo + De mim não se esqueça. + + Sem elle, alegria + E paz eu perdi, + Senhora do Monte + Trazei-m'o aqui. + +ANTONIO + +Pois fez-te a vontade a Senhora do Monte. Perto tens o teu noivo. + +JOANNINHA + +(_Com alegria._) Elle! Pois chegou? + +ANTONIO + +Ha muito que chegou, e ha muito que te deseja para mulher. + +JOANNINHA + +Ai! Pae, ainda me torna a fallar nesse Joze, que é a praga desta +freguezia? + +ANTONIO + +(_Colerico._) Torno a fallar-te no Joze, mas é pela ultima vez. Quero +que cases com elle; e não consinto que me digas que não. Hasde obedecer +a teu pae. + +JOANNINHA + +N'isso, não. + +ANTONIO + +Joanna, eu não quero ouvir dizer que não, quando eu mando. + +JOANNINHA + +Esse homem anda enganando gente, para a vender aos inglezes. Assim diz o +sr. padre Vigario, e todos... + +ANTONIO + +É mentira o que dizem delle. Em sendo teu marido, todos se callam logo. +O meu nome, o nome de Antonio Prudente, é um nome honrado; e ninguem é +capaz de pensar mal do homem, que fôr marido de minha filha. + +JOANNINHA + +Meu querido pae, escute-me. Nunca deixou de me fazer a vontade em tudo, +e agora... + +ANTONIO + +Muito mal fiz, e muito me arrependo. O mimo é que te perdeu. + +JOANNINHA + +Se eu tivesse mãe, a ella me havia de queixar... + +ANTONIO + +Tua mãe, Deos a tenha em gloria, nunca me desobedeceu. Sabia melhor o +que uma mulher deve a seu marido, do que tu sabes o que uma filha deve a +seu pae. + +JOANNINHA + +Antes morrer, antes deitar-me ahi ao mar, do que eu casar-me com tal homem. + +ANTONIO + +Joanna, não me obrigues a tratar-te como mereces. Eu bem sei quem te +anda mettendo essas doidices na cabeça, é a velha Maria das Dores. É +como me paga os beneficios que lhe tenho feito. Mas á velha ponho-a na +rua, e a ti levo-te á igreja por força para te casares. É demais, é +demais isto, Joanna. + +JOANNINHA + +Pae, pelo amor de Deos não me perca.... (_Cae de joelhos._) + +ANTONIO + +As raparigas não sabem o que querem. Eu para ti ganhei toda essa terra, +que ahi está ao pé da nossa casa; quero juntar-lhe tudo o que vai d'aqui +até ao paçal do Vigario. Isto só se póde conseguir casando tu com o Joze +Velhaco. Fica, um morgado, mesmo! Quero-te rica, Joanna; quando tiveres +filhos hasde abençoar-me por te ter obrigado a fazer este casamento. +Choras agora; depois hasde rir. + +JOANNINHA + +Pae, não me desgrace. + +ANTONIO + +O casamento hade fazer-se. Já dei a minha palavra, e basta. É callar e +obedecer. (_Sae commovido, e escondendo as lagrimas._) + + +SCENA IV + +_Joanninha, depois Maria das Dores_ + +JOANNINHA + +Pae!.. pae!.. Elle não me dá ouvidos, e eu morro aqui de +pura dor... que me trespassa o coração.. Santo nome de Jesus, valei-me. + +MARIA + +(_Entrando._) Joanninha, teu pae saiu agora mesmo daqui zangado, perdido +de cabeça. Nem sequer me viu! Que tem elle? Que succedeu, que te vejo +toda chorosa? + +JOANNINHA + +Estou perdida, tia Maria das Dores... Meu pae já me não parece o mesmo, +Aquelle Joze Velhaco embruxou-o. + +MARIA + +Tornou-te a fallar no casamento? + +JOANNINHA + +Quer meu pae, que o casamento se faça já, sem mais tardar. E nem as +minhas lagrimas lhe fizeram abalo. Ralhou comigo, e disse-me que elle +mandava e não queria ser desobedecido. + +MARIA + +Se não fosse com o Joze, dizia-te Joanninha que o remedio era callar, e +obedecer. És boa filha, e o Antonio é teu pae. Mas com semelhante homem, +com um homem mau, infame, não te podes casar. + +JOANNINHA + +Mas que se hade fazer? + +MARIA + +Não sei, não sei, mas irei fallar ao sr. Vigario... Elle desconfia do +Joze Velhaco, fallará a teu pai, e talvez o convença. Só o Antonio é +quem na freguezia anda illudido com tal homem: Deus lhe perdoe o mal que +me tem feito, e as lagrimas que me fez chorar. Ai, o meu Luiz, o meu +Luiz... se ainda será vivo? + +JOANNINHA + +E sem noticias delle!.. ha um anno que se foi! + +MARIA + +Nem carta, nem noticias! Se morreria o meu querido filho? Tenho ido umas +poucas de vezes ao correio do Funchal, e dizem-me sempre que não ha +cartas, isto quer dizer muito. Devemos estar preparadas para uma grande +dor, minha Joanninha. + +JOANNINHA + +Ai, não diga tal. + +MARIA + +Porque o não heide dizer, se o sinto, se o coração m'o diz... se parece +que me diz que elle morreu. + +JOANNINHA + +Se o Luiz morreu, que hei de eu fazer? Elle era o meu noivo; por elle +prometti esperar. Se elle não voltar, fico toda a vida solteira. + +MARIA + +Solteira... não pode ser, seria dar um grande desgosto a teu pae, e +condemnares-te a ti a uma triste solidão. Uma mulher sem filhos anda +como desamparada neste mundo, é como uma arvore sem fructos nem flores. +Nós as mulheres viemos a este mundo para cuidar das criancinhas, para +depois, quando somos velhas, como eu sou, sermos cuidadas e queridas +pelos filhos que criámos. E eu já não tenho filho! Morreu o meu Luiz. E +Deos ainda me não chamou para si! + +JOANNINHA + +Agora, que nem me atrevo já a ter esperança de o tornar a ver, sinto que +mais lhe quero do que nunca. Para chorar por elle posso viver; mas para +mulher de outro não. + +MARIA + +Joanninha, escuta. Ninguem quer mais do que eu ao meu Luiz; sei que elle +te amava, e que em seres sua esposa estava toda a sua esperança, mas... +se morreu, de que serve desobedeceres a teu pae... Basta que eu +soffra... e tu, filha. Que não seja desassocegado no fim da vida o bom +Antonio Prudente, do qual não houve nunca rasão de queixa. + +JOANNINHA + +Então quer que eu case com o Joze Velhaco! + +MARIA + +Com esse não. Mas com outro... + +JOANNINHA + +E se Luiz não morreu? + +MARIA + +Que esperança podemos ter? Ha um anno que se foi. + +JOANNINHA + +Casar-me eu, tia Maria das Dores, e vel-o depois desembarcar ahi! Com +que cara lhe havia de apparecer?.. e que olhos havia de pôr em meu +marido! E depois, com o Joze Velhaco me quer meu pae casar; e com elle +só morta me levarão á igreja. + + +SCENA V + +_As mesmas e Joze Velhaco._ + +JOZE + +É essa a sua ultima resolução, menina Joanninha?--(_As duas mulheres dão +um grito de terror._) Não se assustem, não tenham medo, não sou nenhum +diabo. + +MARIA + +Bem o parece! + +JOZE + +Foi vmc. Maria das Dores, quem ensinou ésta rapariga a desobedecer a seu +pai? Um dia a justiça hade castigar as bruxas velhas, que andam nesta +ilha a perder as raparigas honestas. + +MARIA + +Cal-te... Deos me perdoe! Cal-te!.. + +JOZE + +Pelos seus peccados a castigou Deos. O filho que tinha deixou-a, e lá +morreu por Demerara, sem se lembrar de sua mãe. + +JOANNINHA + +Morreu... + +JOZE + +Sei que morreu; mas pouco importa. Não se perdeu coisa boa. + +MARIA + +Dizer assim mal do meu Luiz... que elle matou! Se Deos me desse forças!... + +JOZE + +Matava-me!? Ah! ah! que santa alma a desta velha! E anda semelhante +mulher sempre a resmungar orações, de pela manhã até á noite! São pragas +que ella nos roga, a bruxa! + +JOANNINHA + +Sr. Joze o que se atreve a dizer? Não sabe que a tia Maria das Dores é a +minha segunda mãe?.. que todos cá na freguezia a respeitam? + +JOZE + +Sei que, por causa das calumnias, e dos falsos testemunhos que me +levantou, não me quer a menina Joanninha por marido, e paga com +ingratidões o grande amor que lhe eu tenho. + +JOANNINHA + +Amor que mette medo! É homem de ruim alma sr. Joze... de +ruim alma, e má consciencia! + +JOZE + +Joanninha! (_Querendo pegar-lhe na mão._) Não se deixe enganar pelas +mentiras que dizem por ahi de mim... Sempre fui bom rapaz... todos o +sabem. Se a minha riqueza mette inveja aos outros, que culpa tenho eu? + +MARIA + +Não faz inveja, faz horror, essa riqueza ganha a vender aos inglezes os +pobres da Madeira. + +JOZE + +Calle-se, mulher; senão!.. + +MARIA + +Ameaças agora! + +JOZE + +Joanninha, não demos ouvidos a esta doida. Fallemos serio do que nos +importa. Seu pae, Joanninha, quer o nosso casamento; e tem por calumnias +quanto por ahi se diz de mim. Elle sabe que sou capaz de a fazer feliz. + +JOANNINHA + +Só atada de mãos e pés irei á igreja, mas lá heide dizer que não... +quando me deem por marido um homem que aborreço. + +JOZE + +Joanna, veja o que diz! Seu pae pode obrigal-a... + +JOANNINHA + +Matar-me é que elle pode. + +JOZE + +Prende-a uma promessa, bem sei, Joanninha. (_Brandamente._) Fica-lhe bem +a firmeza: comigo tambem a terá. Mas de que serve teimar nesse amor a um +homem, que já morreu? + +JOANNINHA + +Não, não morreu. Não vé que me afflige... que trespassa aquella pobre +mãe, dizendo isso? + +MARIA + +Não accredito no que elle diz, é mau homem... mente! + +JOZE + +Hade ter castigo tanto atrevimento! Insultar com injurias, desacreditar +com aleives, um cidadão honrado, que tem de seu, que vive com os +morgados maiores da Madeira! + +MARIA + +Todos te despresam! + +JOZE + +(_Levantando a mão com colera._) É de mais. Se te não callas... + +JOANNINHA + +Que faz Joze? Que se atreve a fazer? + +JOZE + +Nada... por agora. + +JOANNINHA + +(_Pegando nas mãos de Maria das Dores._) Venha, Maria das Dores, venha +minha boa, minha santa mãe!.. Vamo-nos desta casa, que não pode ser, que +não é a nossa, em quanto semelhante homem aqui estiver. + +MARIA + +Fizeste-me perder o meu filho; foste que m'o tiraste dos braços para o +mandar como escravo a Demerara! O meu Luiz morreu... perdi o meu filho, +e eu d'aqui a dias irei ter com elle. É de lá da cova, escuta bem Joze! +é da cova, que ambos te amaldiçoamos, para que a tua alma não tenha +socego, nem o teu corpo descanço, em quanto vivo fores; para que, +depois da morte, a justiça de Deos te lance nos infernos. +(_Sáem as duas._) + + +SCENA VI + +_Joze, só_ + +JOZE + +Está doida, doida varrida a velha. E eu que ia perdendo a cabeça; como +se um homem de juizo, e conhecedor do mundo, podesse perder a cabeça +nestas alturas! Santa palavra! Um homem sempre é um homem, e não faz +caso de rabugices de bruxas tontas. O que necessito, e vou fazer, é +gastar umas poucas de patacas, e mettel-a no hospital por doida. Logo vi +que da mão de Maria das Dores não vinha cousa boa! Tenho de gastar o +dinheiro que o filho me rendeu, para agora alojar a mãe no hospital, ou +na cadeia. Vamos fazer calar esta matraca, que me anda sempre a matinar +os ouvidos. O que importa, em tudo isto, é que a Joanninha consinta no +casamento. Gosto della, e gosto muito, e nunca pensei que tal podesse +acontecer-me!. (_Rindo._) Ah! ah! a não ser o bom pedaço de terra, que +tem o pae, não eras tu meu Joze Velhaco capaz de intender o desasocego, +em que anda o teu coração! A idéa de tirar do correio todas as cartas, +que o Luiz escreveu á mãe e á Joanninha, foi famosa! Estão crentes, que +elle morreu, e a esta hora talvez não estejam enganadas! Graças a Deus +morre-se depressa em Demerara, quando se trabalha no campo, ao sól, e +com o estomago vazio; e o Luiz não o havia de traser cheio. Ésta minha +cabeça é uma grande cabeça, e eu ainda heide de ser coiza +grande no mundo! Meu pae mandou-me aprender a lêr e a escrever; +aproveitarei a boa lembrança de quem já lá está na terra da verdade. +Joanninha hade ser minha, ou não heide chamar-me Joze... Velhaco. Santa +palavra! + + +SCENA VII. + +_Joze Velhaco e Joaquim._ + +JOAQUIM + +(_Batendo á porta._) Ólá, menina Joanninha! + +JOZE + +Não está cá a menina, saiu. + +JOAQUIM + +Ah! está ahi vmc. sr. Joze? Eu vinha procurar a Maria das Dores. Tambem +não está aqui? + +JOZE + +Esteve, mas foi-se. E que lhe queria você á Maria das Dores? + +JOAQUIM + +Trazia-lhe um recado de meu amo. + +JOZE + +Do sr. Vigario? + +JOAQUIM + +Sim senhor, lá do sr. Vigario é que o recado é: o sr. Vigario quer +fallar á velha. + +JOZE + +Para que? + +JOAQUIM + +Isso não sei eu. Para coiza grande é, porque me disse meu amo que viesse +correndo. + +JOZE + +(_Á parte._) Que será? O Vigario em tudo se mette. + +(_Alto._) Então não sabe o que o nosso Vigario quer á Maria das Dores? +Em! Joaquim? + +JOAQUIM + +Olhe vmc.; eu, verdade, verdade, não sei o que elle tem que lhe dizer; +mas parece-me... + +JOZE + +O que? + +JOAQUIM + +A velha foi outro dia fallar com o sr. Vigario, e esteve mais de uma +hora só com elle. + +JOZE + +O que disseram? + +JOAQUIM + +Não sei. Pois se elles estiveram sós, como havia de saber o que +disseram? Minha mulher, que é curiosa deveras, lá descobrio que ella +quer entrar para o azylo dos pobres, no Funchal; e por isso meu amo lhe +fallou o outro dia á triste da velha, e agora lhe quer fallar outra vez. + +JOZE + +Hade ser, hade ser isso. (_Á parte._) Fico mais alliviado; já não +precizo gastar o dinheiro em metter a Maria das Dores no hospital, por +doida. (_Alto._) Ora, Sr. Joaquim, ja pensou n'aquelle negocio, em que +outro dia lhe fallei? Está disposto a ir fazer fortuna? + +JOAQUIM + +Estou velho para tentar fortuna, sr. Joze. Tenho 40 annos feitos. + +JOZE + +Parece um rapaz de 20, o nosso Joaquim! E depois tem um filho que d'aqui +a dois dias está um homemzinho, que o póde ajudar. + +JOAQUIM + +O rapaz não levo eu para Demerara. A mim posso-me arriscar, mas a elle... + +JOZE + +Olhe sr. Joaquim, que não ha perigo. Tenho vontade de o fazer feliz... +tenho confiança em você.... conheceu-me de pequeno, e tenho-lhe amizade. +Não sei se é homem de segredo, sr. Joaquim. + +JOAQUIM + +Pode fiar-se. Segredo, que oiço, é como se caisse ao mar, ninguem o +sabe. Para amigos sou um homem como se quer. Sim: lá nisso é +fallarem-me, e prompto; aqui está o Joaquim ás ordens. + +JOZE + +Se apparecesse agora um homem, que quizesse fazer-se rico em pouco +tempo, sem trabalho, havia occasião. + +JOAQUIM + +Eu quero; oh! se quero. + +JOZE + +Pois toque, Joaquim; mas jure guardar segredo sobre o que vou dizer. + +JOAQUIM + +Está promettido. + +JOZE + +O que vou dizer-lhe é de amigo. Preciza-se de um homem.... você é de +segredo? Em? + +JOAQUIM + +Oh! homem, não me conhece ainda? + +JOZE + +Veja la. Se este segredo se souber, só você o pode ter contado; e ha +gente de muitas posses, que o quer bem guardado. (_Com um gesto de +ameaça._) Sempre se póde fazer callar um homem. + +JOAQUIM + +Bem o intendo. Póde fallar sr. Joze. Não é o medo que me tapa a bocca. + +JOZE + +(_Assustado._) Então?... + +JOAQUIM + +(_Rindo._) É... é a amizade, que lhe tenho... + +JOZE + +Como ia dizendo: preciza-se de uma pessoa que vá a Demerara, homem de +bom nome, e de influencia por estas freguezias. Você está no caso. +Caseiro do sr. Vigario, e bem quisto por elle.... é quanto basta. + +JOAQUIM + +O meu nome, o nome do Joaquim do Vigario, é bem conhecido, ninguem tem +que lhe dizer. + +JOZE + +Pois ahi está; é isso mesmo. + +JOAQUIM + +Então querem que vá a Demerara? + +JOZE + +Justo. Ir; estar lá um anno a comer e a beber á regalada, e voltar rico. + +JOAQUIM + +(_Rindo._) Ah! ah! ah! Rico! E como? + +JOZE + +Comendo, já lho disse. Comendo, dormindo e engordando. + +JOAQUIM + +Eh! eh! eh! Não me parece feia a historia! Está a mangar commigo sr. +Joze? Em! + +JOZE + +Mangar, com o meu amigo Joaquim?! Isso é que não. + +JOAQUIM + +Eu cá intendo que se dê de comer a um porco, para depois o matar, mas a +um homem.... Em Demerara comem gente? + +JOZE + +(_Rindo._) Está doido... Sr. Joaquim. Aquillo é a melhor terra deste mundo. + +JOAQUIM + +Que querem elles então? + +JOZE + +Que volte para a Madeira, com dinheiro e saude, e diga depois, como eu, +que Demerara é um céo aberto; que lá se enriquece á grande, e que um +homem váe, e volta rico sem lhe custar nada. + +JOAQUIM + +E isso é assim para todos? + +JOZE + +Não homem; para os felizes como nós. Pois este mundo fez-se para os +felizes? Santa palavra! + +JOAQUIM + +(_Rindo muito._) Agora... agora percebo--Ah! ah!.. É boa! É como quem +diz um chamariz; querem fazer de mim um chamariz? + +JOZE + +Ainda bem que nos intendemos. Vai então para Demerara? + +JOAQUIM + +Para quando a partida? + +JOZE + +No primeiro navio. + +JOAQUIM + +Pois amanhã lhe dou a resposta. + +JOZE + +Mas o segredo?... + +JOAQUIM + +Está dito. + +JOZE + +Quer dormir sobre o cazo para depois se decidir? + +JOAQUIM + +É como diz. Este costume ficou-me de pequeno, dormir sobre todos os +cazos, e em todos os cazos. Agora vou ao recado do sr. meu amo, vou +procurar a tia Maria das Dores. + +JOZE + +Vá, vá. E se poder saber o que o sr. vigario lhe quer, venha-mo contar. + +JOAQUIM + +Pois sim. Adeus, amigo Joze Velhaco. + +JOZE + +Adeus. (_Joaquim sáe._) + + +SCENA VIII + +_Joze, depois Antonio Prudente_ + +JOZE + +Este é dos nossos. Meu de certo é; porque me hade render bom par de +patacas. E digam que sou mau! Acabo de fazer a fortuna deste excellente +pai de familia!--Ahi vem Antonio Prudente. Vamos resolvel-o por uma vez +a governar a sua casa! (_A Antonio que entra._) Ora já sei, sr. Antonio, +que a sua Joanninha lhe não quer obedecer. + +ANTONIO + +Hade obedecer, que lho digo eu. Por tal vergonha não hade passar Antonio +Prudente. + +JOZE + +Encontrei-a com a velha, aqui. Disseram-me injurias, insultaram-me. A +Maria das Dores repetiu-me uma duzia de vezes--ouvi-lho com estes +ouvidos--repetiu-me, que Joanninha não casaria commigo; que o pae de +Joanninha era um tolo--perdão sr. Antonio, eu não faço senão +repetir--que era um tolo, um baboso, e que havia de fazer o que ellas +quizessem. + +ANTONIO + +Pois a velha disse isso?.. diante de minha filha? Bem razão tinha, Joze, +em me aconselhar que a puzesse na rua, á excommungada bruxa! Onde está a +Maria das Dores, onde está minha filha? + +JOZE + +Sairam ambas, depois de me carregarem de injurias. + +ANTONIO + +Um tolo, um baboso, eu! Ou a Joanninha deixa de ser minha filha, ou o +casamento hade fazer-se já. E para a rua a velha, que nem mais uma vez +me porá os pés em casa. + +JOZE + +Nada de violencias, sr. Antonio. Com geito é que as coisas se levam. Com +sua filha rigor, mas violencia, não. E com a velha nada de injurias... o +Vigario protege-a. + +ANTONIO + +E que me importa a mim o Vigario? Não preciso de ninguem. + +JOZE + +Isso faz-lhe honra, sr. Antonio, mas sempre é bom ser _prudente._ + +ANTONIO + +Hade fallar-se de mim na freguezia. Os paes hão de aprender a castigar +as filhas desobedientes. + +JOZE + +Ahi vem ellas, sua filha e a Maria das Dores. Vou-me; porque, se aqui me +veem, não entram. + +ANTONIO + +Deixe-as commigo. + +JOZE + +Tenha moderação... paciencia! + +ANTONIO + +Deixe-as commigo, já lho disse. (_Joze sae._) + + +SCENA IX + +_Antonio Prudente, Maria das Dores e Joanninha_ + +ANTONIO + +Tolo e baboso! chamaram-me assim, minha filha, e a Maria das Dores, que +me deve tanto! Agora veremos se eu sou homem com quem se brinque. (_Ás +duas que entram._) Venham ambas que temos que fallar. + +JOANNINHA + +(_Assustada._) Que quer, pae? + +ANTONIO + +A ti? já o sabes. Domingo casas, sem falta. + +JOANNINHA + +Pae... antes morrer. + +ANTONIO + +Ou casas, ou ponho-te fóra, para nunca mais saber de ti. +Disseste mal de mim, chamaste nomes injuriosos a teu pai!.. És má filha, +e só te perdôo se me obedeceres. + +JOANNINHA + +Eu! nunca lhe faltei ao respeito, pai! + +ANTONIO + +E não chama ella faltar ao respeito desobedecer-me e chamar-me... tolo. + +JOANNINHA + +Eu... É falso, é uma falsidade infame. + +ANTONIO + +Calla-te. + +MARIA + +Não trate assim sua filha, Antonio. A pobre rapariga, se tem culpa, é de +chorar. + +ANTONIO + +Ainda se atreve, Maria das Dores, a entrar nesta casa, e a fallar-me de +Joanninha! Se ella é desobediente, e má filha, se diz mal de seu pae, +quem a ensinou foi você, mulher. + +MARIA + +Que diz, Antonio? + +ANTONIO + +Foi quem ensinou Joanninha a faltar aos seus deveres; porque dantes era +boa e docil. Mas isto hade acabar, e já. Nunca mais volte a minha casa, +nunca mais falle com minha filha... + +MARIA + +Põe-me fóra da sua casa? A mim, que lhe criei sua filha?.. + +ANTONIO + +É indigna de vir aqui. Anda perdendo as raparigas com maus +conselhos. + +MARIA + +(_Chorando._) Perdôo-lhe essas injurias, porque sei quem lhas ensinou. + +ANTONIO + +Pois julga que Antonio Prudente?... + +MARIA + +Penso que é bom e justo, e que a preversidade de um malvado, que o +enganou, o traz assim mudado. + +ANTONIO + +Não quero que em minha casa se diga mal de quem hade ser meu genro. +Ponha-se fora mulher. Na rua já! + +MARIA + +Vou-me embora. Nossa Senhora guarde a pobre Joanninha, e abra os olhos a +este homem. (_Maria das Dores vai para sair, quando apparece á porta de +fundo o Vigario._) + + +SCENA X + +_Os mesmos e o Vigario_ + +VIGARIO + +(_Detendo Maria das Dores._) Antonio Prudente, que palavras são essas; +porque o vejo com tanta colera? Porque põe fóra de casa Maria das Dores? + +ANTONIO + +Anda desinquietando minha filha. + +VIGARIO + +Desinquietando sua filha!.. + +ANTONIO + +Foi ella que desvairou Joanninha, que de pequena foi sempre temente a +Deos e obediente a seu pae, e lhe ensinou o atrevimento, e a +desobediencia! + +VIGARIO + +Isso é engano, de certo. Anda um crime nisto. Antonio, o seu nome foi +sempre respeitado; todos até hoje o têem estimado; porque é homem de +bem, caridozo e justo. Mas, em se sabendo que pôz fóra de casa a mulher +que criou sua filha, em se sabendo que maltractou uma triste viuva, uma +desgraçada, velha, doente, quebrada pela dor, e opprimida pela mizeria, +todos hão de pensar que era falso o conceito, que formavam a seu respeito. + +ANTONIO + +Sr. Vigario, essas palavras são injurias. + +VIGARIO + +Não faço injurias, digo verdades. + +ANTONIO + +Mas não sabe... + +VIGARIO + +Sei que Maria das Dores sempre foi verdadeira, e que tem soffrido a +desgraça com a paciencia de uma santa. Maria das Dores, diga-nos a +verdade, em consciencia fez a este homem a offensa de que elle se queixa? + +MARIA + +(_Suffocada pelas lagrimas._) Não. Pela vida de meu filho, se elle +vive... pela sua alma, se Deos o chamou, juro que não. + +VIGARIO + +Ouvio, Antonio? Um homem, a quem os annos fizeram brancos os cabellos, a +quem os trabalhos da vida ennobreceram o coração, acaba de se deshonrar, +pizando aos pés o que ha de mais sagrado no mundo: uma mãe +desventurada. + +ANTONIO + +Sr. eu... pensei... acreditei... + +VIGARIO + +Acreditou uma calumnia. Neste mundo não basta ser passivamente honrado, +Antonio; a virtude era facil assim. É preciso resistir tambem ás +seducções dos maus, ter força para fazer justiça a todos, e não obedecer +ás paixões, que sempre, em todas as idades, se levantam no coração, e +cegam o espirito. + +ANTONIO + +Mas minha filha recusa obedecer-me. + +VIGARIO + +Porque offendeste teu pae, Joanninha? + +JOANNINHA + +Eu em tudo estou prompta a obedecer a meu pae; mas... + +VIGARIO + +Mas o que? + +JOANNINHA + +Casar-me com o Joze Velhaco, isso não. Antes morrer. + +ANTONIO + +Bem vê, sr. Vigario... + +VIGARIO + +Vejo que Joanninha é boa filha, e que quer salvar seu pae da +deshonra.... Recuza casar-se, porque o casamento é impossivel. Uma santa +rapariga não póde unir-se a um homem depravado: n'uma familia honesta, +como a de Antonio Prudente, não póde entrar um mizeravel que todos +desprezam. + +ANTONIO + +O que diz? + +VIGARIO + +O que o coração lhe teria dito, se o desejo louco de juntar ás suas +fazendas mais um pedaço de terra o não cegasse! + +JOANNINHA + +Nossa Senhora o abençoe pelas verdades que está dizendo! + +ANTONIO + +(_Com hesitação._) Prometti minha filha ao Joze Velhaco, e a palavra de +Antonio Prudente é sagrada. + +VIGARIO + +Deve ser sagrada quando a der a um homem de bem, e quando cumpril-a não +for sacrificar sua filha. + +Antonio, escute-me. Ha no Funchal um pobre pescador, com duas filhas que +sustenta, e são a sua alegria, a sua força, a benção da sua caza. Esse +homem saiu uma destas noites passadas, para ir pescar; e quando voltou +de madrugada achou as portas abertas, e tudo deserto. + +JOANNINHA + +O que aconteceu? + +VIGARIO + +Suas filhas tinham sido furtadas. Imagine, Antonio Prudente, a dôr +d'aquelle pae! + +ANTONIO + +(_Como arrastado por uma força invizivel._) Ai, se a mim me roubassem a +minha filha!... acabava de magoa: mas depois de matar com estas mãos +quem m'a tivesse roubado. + +VIGARIO + +É pae, Antonio, ainda é pae! Bem se vê. + +ANTONIO + +O que fez o pescador? + +VIGARIO + +Lembrou-se de que se negocia na Madeira em escravatura branca; +lembrou-se, foi Deos que o inspirou! de que ha na terra homens infames +que enganam seus irmãos. Como o pescador sabia, que mais de uma vez os +que tem ido a bordo dos navios de emigrados, despedir-se dos parentes, +ficaram lá contra vontade, e foram para Demerara, occorreu-lhe que +miseraveis, que praticam horrores d'estes, eram tambem capazes de usar +de violencia, e de augmentarem assim o numero das suas victimas. +Lembrou-se de tudo isto, e foi ter com um desses homens. + +ANTONIO + +E matou-o? + +VIGARIO + +Não. Disse-lhe estas palavras. «Ou minhas filhas hãode hoje mesmo voltar +para casa, ou amanhã apparecerás assassinado.» + +ANTONIO + +E então? + +VIGARIO + +Horas depois o pobre pae apertava ao coração as duas filhas. + +ANTONIO + +E quem foi que as roubou? + +VIGARIO + +Dinheiro, espalhado com mãos largas pelos ricos traficantes de escravos +brancos, esconde o nome desse homem, mas falla-se... + +ANTONIO + +De quem? + +VIGARIO + +Do Joze Velhaco. + +ANTONIO + +Elle! + +VIGARIO + +Todos fallam. Já vê, Antonio Prudente, que não póde querer para marido +de sua filha um homem perdido de reputação. + +ANTONIO + +Não... sem elle se justificar. + +VIGARIO + +Sei que é o desejo de fazer sua filha rica e feliz o que o allucina; +mas, ainda assim, desconheço-o. N'outro tempo, a sua probidade não lhe +consentia pensar mais um instante em tal casamento, depois de saber o +que se diz por ahi do Joze Velhaco. Escute o seu coração, e a sua +consciencia, Antonio, e verá, como eu vejo, que o casamento é impossivel. + +ANTONIO + +Sr. Vigario... talvez tenha razão: mas, com perdão de v. s.ª sou pae, e +um pae sabe melhor do que ninguem o que convem a sua filha. Não posso +faltar á minha palavra, sem saber se o que se diz é mentira ou verdade. + +VIGARIO + +Nem mais um conselho lhe dou, Antonio, de hoje em diante. Faça o que +quizer. Sacrifique sua filha, e deshonre-se. (_Vae para sair._) + +JOANNINHA + +Pae, escute o sr. Vigario. + +ANTONIO + +(_Commovido._) Não me faça a offensa, sr. Vigario, de me tirar a sua +amizade. Era um desdoiro para a minha vida, uma dôr d'alma, e uma +deshonra para estes cabellos brancos. Pelo amor de Deos, perdoe-me! + +VIGARIO + +Não quero senão o seu bem; e peza-me que me não escute. + +ANTONIO + +Se permitte, não me dou ainda por desligado. Vou ter com o Joze Velhaco, +e se não se justificar, se não provar que está innocente, ficará o dito +por não dito, e não torna a entrar n'esta casa. Mas antes de o condemnar +é preciso ouvil-o. + +VIGARIO + +Mas tambem se devem escutar as queixas, e os prantos de uma filha, antes +de a condemnar por toda a vida. Emfim, Antonio, confio tudo da sua +probidade, e do muito amor que tem á nossa Joanninha. (_Com brandura._) +Bem sabe que a vi crescer, que lhe ensinei a ler e a escrever, que lhe +dei uma educação como no Funchal não se dá ás filhas dos morgados; +custava-me vel-a casada com um homem, incapaz de a fazer feliz. + +ANTONIO + +Vou já ter com elle, se o sr. Vigario dá licença. + +VIGARIO + +Vá depressa. + +ANTONIO + +V. S.ª perdoa-me alguma má palavra?... + +VIGARIO + +Não tenho que perdoar, e já esqueci tudo; excepto que Antonio Prudente é +homem honrado, e hade mostrar-se bom pae. + +ANTONIO + +(_Beijando a mão do Vigario._) Agradecido, agradecido. (_Sae._) + + +SCENA XI + +_Os mesmos, menos Antonio Prudente_ + +VIGARIO + +Joanninha, parece-me que pódes socegar. Este casamento não se faz. + +JOANNINHA + +Não me atrevo a ter esperança. Meu pae anda infeitiçado. E depois, nem +já sei senão chorar noite e dia, chorar até morrer. + +VIGARIO + +Deixa estar, Joanninha: as lagrimas dos innocentes quasi sempre a mão de +um amigo as enchuga. (_Brincando._) Eu sei, minha menina chorosa, que +essa mão benefica não hade tardar muito aqui. + +JOANNINHA + +Ninguem pode consolar-me. + +VIGARIO + +Ahi está Maria das Dores, que bem velha é, e que ainda assim não hade +ter sempre os olhos arrazados de lagrimas, como agora. + +MARIA + +Não, sr. Vigario, porque debaixo do chão não se chora. + +VIGARIO + +Nem tambem cá por cima, quando se é feliz. + +MARIA + +Feliz, eu?! Sem o meu filho?! + +VIGARIO + +Quem lhe disse isso, Maria das Dores? + +MARIA + +Quem? Joze Velhaco, o proprio malvado que o matou, o meu Luiz. + +VIGARIO + +Esse infame... Maria das Dores, tenha animo para ouvir o que vou dizer. + +MARIA + +Tenho animo... Bem vê que resisti quando me disseram... que era morto o +meu Luiz. + +JOANNINHA + +Ah! diga! + +VIGARIO + +Joze Velhaco mentio. + +MARIA + +(_Desfallecendo._) Nossa Senhora me leve nesta hora... para acabar na +alegria! + +JOANNINHA + +(_Pulando._) Vivo!... vivo... o Luiz! Onde está! + +VIGARIO + +Maria das Dores, o que é isso? A alegria custa menos a supportar do que +a dôr. + +MARIA + +Deixe-me perceber... Estas mudanças custam... o coração lucta com a +duvida. Elle não morreu? + +VIGARIO + +Não. + +MARIA + +Mas está ainda longe? + +JOANNINHA + +Em Demerara? + +MARIA + +Teve noticia? + +JOANNINHA + +Quando chega! + +MARIA + +Talvez a esta hora já não viva! + +JOANNINHA + +É preciso mandal-o buscar. + +VIGARIO + +(_Enternecido._) Soceguem. Já está em caminho. + +MARIA + +Ha quantos dias? + +JOANNINHA + +Virá d'aqui a tres? + +MARIA + +Amanhã? + +VIGARIO + +Mais breve. + + + AMBAS + +Hoje!? + +VIGARIO + +Chegou. (_As duas mulheres abraçam-se._) + +MARIA + +Que alegria, filha! + +JOANNINHA + +Jesus! + +MARIA + +Eu... morro, porque não posso... + +JOANNINHA + +Onde está? + +MARIA + +O meu filho? (_Luiz entra precepitadamente._) + +VIGARIO + +Está aqui. + + + AMBAS + +Luiz! + +_Cae o panno._ + + +FIM DO 2.º ACTO + + + + +ACTO TERCEIRO + +_A caza de Antonio Prudente, como no segundo acto. É noite; um candieiro +de tres bicos alumia bem a caza_ + + +SCENA I + +_Joze Velhaco e Joaquim_ + +JOZE + +É negocio concluido. (_Mostrando um papel que tem na mão._) Esta +obrigação que você assignou... é o principio da sua fortuna. + +JOAQUIM + +Deos queira! Sr. Joze, vm. não sabe como lhe heide pagar a boa vontade! +Esse papel é uma obrigação que lhe faço; por ella me sujeito a servil-o, +ou a quem vm. mandar, aqui ou em Demerara, até pagar a divida de +quarenta patacas, que recebi... + +JOZE + +A obrigação está em regra, e é justo. Trabalho em troca de dinheiro; +assim se faz em toda a parte. + +JOAQUIM + +Isso é o que vm. diz, sr. Joze, mas quem sabe o que será? E a fallar a +verdade, trabalhar por trabalhar, antes na terra, que eu conheço, do que +em outra que nem de portuguezes é. + +JOZE + +Pois eu falto ao que prometto, homem? + +JOAQUIM + +Bem sei que vm. é... um amigo como se quer. (_Rindo-se._) + +JOZE + +Ri-se, Joaquim? + +JOAQUIM + +Estava-me lembrando do Luiz do Campanario, e dos outros que o sr. Joze +foi mandando para Demerara, e que ficaram por lá. Ah! ah! ah! + +JOZE + +(_Á parte._) O maldito Luiz não ficou! (_Alto._) Com esses não ajustei +senão, que haviam de achar trabalho em Demerara... e não lhe tem +faltado. Assegurei-lhe que lá se ganha dinheiro, o que é verdade, quando +se ganha. + +JOAQUIM + +(_Rindo muito._) Ora o sr. Joze tem graça! Mas de mim, de mim é que eu +não quero que ninguem se ria. Palavras leva-as o vento. + +JOZE + +Então o que quer, Joaquim? + +JOAQUIM + +O preto no branco, e nada mais. Uma obrigação, como a que lhe fiz, em +que vmc. se obrigue a dar me o officio... o officio de... ah! ah! ah! + +JOZE + +De _aliciador_! Diga homem, não se engasgue com palavras, que escorregam +bem. + +JOAQUIM + +Pois como fôr da vontade de vmc. A obrigação escripta pela sua mão é que +eu quero; e sem ella não vou da Madeira! + +JOZE + +Forte parvoice! A minha palavra vale-lhe de mais, em Demerara, do que um +papel escripto. + +JOAQUIM + +Cá a palavra do sr. Joze vale de muito; mas por isso é que eu a quero no +papel... para durar mais. Sem a obrigação não embarco! + +JOZE + +Isso agora não esperava eu. Então porque não me disse logo tudo? O +ajuste era outro. + +JOAQUIM + +Quero o papel porque, depois que esta manhã o larguei, peguei a scismar +que a gente não deve dar papel em troca de palavras; que ha viver e +morrer, e que o sr. Joze póde morrer... + +JOZE + +Mas se eu morrer de que serve o papel? + +JOAQUIM + +Os seus amigos não hão de deixar mal a sua palavra honrada. + +JOZE + +Mas... + +JOAQUIM + +Vmc. quer ou não quer? O dito, dito. + +JOZE + +(_Indo a uma mesa e escrevendo._) Pois vá lá. Escrevo a obrigação. + +JOAQUIM + +Assim é que é fallar. + +JOZE + +Alto! Espere! Faço-lhe isto, que não estava nos nossos ajustes, porque +sei que é meu amigo, Joaquim. + +JOAQUIM + +Pois não sou? + +JOZE + +E aos amigos velhos, faz-se-lhes as vontades. + +JOAQUIM + +E a obrigação?... + +JOZE + +Já vae; mas fallemos antes d'outro negocio... + +JOAQUIM + +O que é? + +JOZE + +Já tenho dado provas de que me fio de vm. Joaquim; e quero que se +capacite ainda mais. Conto com o segredo, e com a sua amizade... sim, +com a nossa amizade antiga... com o dezejo de sermos uteis um ao outro. + +JOAQUIM + +Então o que quer? + +JOZE + +Você sabe que eu estou para casar com a Joanninha... Boa rapariga, e que +mostra por mim sua simpathia!... Mas até agora... tem estado... tem +posto duvida...não deu ainda o _sim_... O pae dezeja muito o casamento, +e com brevidade... + +JOAQUIM + +Então se o pae quer, e a rapariga tem... isso que vm. diz... _sapathia_, +que mais dezeja o sr. Joze? Case! (_Com escarneo._) + +JOZE + +A Joanninha põe suas duvidas. Parece que esteve namorada, em outro tempo +de um rapaz, e fez-lhe promessa de fidelidade. Agora, apesar do coração +a puxar para mim, não quer que lhe chamem inconstante. + +JOAQUIM + +E que remedio posso eu dar a isso? + +JOZE + +E simples... mas só de um amigo se confia. Esta noite resolvi empregar +uma violencia... apparente, ja se vê. Antonio Prudente está por tudo. +Resolvi acabar com as duvidas de Joanninha. Você, Joaquim, se me quizer +fazer esse favor... póde ajudar-me... e eu ajuntarei, da +minha algibeira, umas vinte patacas, para acudir á sua viagem... Se +quizer, póde servir-me de muito. + +JOAQUIM + +Mas como? + +JOZE + +Vindo esta noite comigo, quando tudo dormir nesta caza, e mais dois +marinheiros, gente fiel lá do navio em que hade partir para Demerara, +furtar... levar d'aqui a Joanninha. + +JOAQUIM + +Ora essa! Pois a gente hade tirar a filha ao sr. Antonio Prudente? + +JOZE + +Não se lhe tira a filha, apressa-se o casamento, como elle dezeja. + +JOAQUIM + +E se a pequena gritar? + +JOZE + +A janella costuma ficar cerrada de noite, e a porta do quarto de +Joanninha é aquella defronte. Entra-se devagarinho; tapa-se-lhe a boca, +quando estiver a dormir, e depois faz-se tudo como se quer. Ella depois +não tem remedio senão casar; Antonio Prudente faz o seu gosto, e eu o meu. + +JOAQUIM + +Vm. lá o lê, lá o intende. + +JOZE + +Então está prompto? + +JOAQUIM + +Estou, mas venha o papel. + +JOZE + +Você faz de mim quanto quer. (_Dá-lhe o papel._) Vá abaixo +ao Calháo, e espere por mim. Os dois marinheiros lá hãode estar. + +JOAQUIM + +Lá vou. Para servir o sr. Joze Velhaco está um homem sempre disposto. + +JOZE + +Bom rapaz. E caluda! As vinte patacas ficam a tinir. + +JOAQUIM + +O sr Joze sempre é uma grande cabeça. Até logo. (_Sae.)_ + + +SCENA II + +JOZE, _só_ + +Sou uma grande cabeça, isso sou! Tudo vae ás mil maravilhas, e n'um pulo +estou mais alto do que esses morgados rabugentos e impertigados da +Madeira. Viva o sr. Joze Velhaco, que hade ser ainda deputado, +commendador... barão... e quem sabe o que mais? Com esta cabeça, e com +este coração, heide chegar... até onde chegam os que são do meu feitio. + + +SCENA III + +_Joze Velhaco e Antonio Prudente_ + +JOZE + +Então meu rico Antonio Prudente o que mais soube contra mim? + +ANTONIO + +Nada. Fui a caza dos dois negociantes, que me indicou, e ambos fizeram +da sua pessoa muito boas ausencias. O Carlos Bad, sobretudo, que +passa por homem serio, disse-me que melhor do que sr. Joze Velhaco +não conhecia ninguem... a não ser elle proprio. E o velho riu-se tanto +com aquella cara de bom homem!... + +JOZE + +(_Á parte._) Que maroto! (_Alto._) Bom homem de certo, devo-lhe +bastantes obrigações. Aquellas desconfianças, que lhe metteu o padre +Vigario a meu respeito, já lhe vão passando, sr. Antonio? hein? + +ANTONIO + +Já. Mas o Vigario quer-lhe pouco bem, Joze. + +JOZE + +Desgraças! Quem póde evital-as? + +ANTONIO + +Vim agora por caza delle, para lhe contar o que me disse o pae das duas +crianças que tinham sido roubadas, e os elogios que fizeram de vm. os +dois negociantes... Quero que todos o reputem, Joze, por homem honrado +antes de lhe dar a minha filha. + +JOZE + +(_Com admiração._) Então já se não faz o casamento immediatamente? Os +contos do Vigario sempre pegaram! + +ANTONIO + +Eu desejo que se faça; mas é melhor que você se justifique primeiro. É +facil, e não leva muito tempo. + +JOZE + +A minha melhor justificação é ser seu genro, genro do honrado Antonio +Prudente. + +ANTONIO + +Isso depois: por em quanto esperaremos. + +JOZE + +(_Á parte._) Eu te direi logo se espero! (_Alto._) O que o fez mudar, sr +Antonio Prudente? + +ANTONIO + +(_Com embaraço._) Respeito muito a opinião do nosso Vigario; e em quanto +elle não estiver convencido, como eu, da sua innocencia, é melhor... +demorarmos o casamento. + +JOZE + +Assim se deita a perder o credito de um homem. É até onde póde chegar! + +ANTONIO + +A verdade anda sempre ao de cima d'agua, não lhe dê cuidado. Sabe que +mais, Joze Velhaco, admirou-me a generosidade com que deu dez tostões ao +pescador, a quem roubaram as filhas, e que tanto o defendeu na minha +presença. O pobre homem não cabia na pelle, e sempre lhe deu um +abraço... cuidei que o arrebentasse! + +JOZE + +Se não posso ver ninguem pobre, em o podendo remediar! Eu cá sou assim! +Enterneci-me; e o ardor com que elle me defendeu... fez-me ver, que +nesta gente é que ainda se encontram exemplos de virtude. Olhe sr. +Antonio Prudente, a virtude é o meu fraco! Santa palavra! + +ANTONIO + +(_Apertando-lhe a mão._) Gosto de o ouvir, Joze. Porque lhe terá o +Vigario tão má vontade? + +JOZE + +Promette não se zangar, se eu lhe disser a razão? + +ANTONIO + +Não me diga... + +JOZE + +Ouça, e não torve de repente. Sua filha está namorada do Luiz do +Campanario... + +ANTONIO + +Já sei, e não desgostei por isso que o rapaz fosse a Demerara... a ver +se ella o esquecia... + +JOZE + +Qual! Cada vez se lembra mais. O Vigario é quem os protege. + +ANTONIO + +Faz mal!... porque eu... Mas no fim de contas o que protege o +Vigario?... Um homem que morreu. + +JOZE + +Engana-se redondamente, sr. Antonio Prudente. O Luiz vive, e o Vigario +sabe que elle está... + +ANTONIO + +Aonde? + +JOZE + +Na Madeira. Chegou hontem, e já aqui esteve com Joanninha. + +ANTONIO + +Aqui? + +JOZE + +Trouxe-o o Vigario. Verá que elle casa a Joanninha com o Luiz, e leva a +sua por deante. + +ANTONIO + +Menos isso! Antonio Prudente não se mette assim debaixo dos pes. Pois se +o Luiz aqui esteve, e fallou a minha filha, o remedio é casal-a já com o +sr. Joze. + +JOZE + +Governe, sr. Antonio, governe o que é seu, e não se +arrependa. O Vigario é de familia de Morgados, dos fidalgos da ilha: +sabe que tenho meus vintens, e não gosta de que eu hombreie com os +seus... Dá licença que eu use de todos os meios para conseguir que sua +filha case comigo? + +ANTONIO + +Dou, permitto! (_Battendo o pé no chão._) Hade fazer-se o casamento. +(_Depois de pensar um pouco._) Mas quero levar o negocio de vagar, e com +prudencia. Amanhã, quando estiver mais socegado, fallaremos. Agora +deixe-me com a Joanninha; quero desabafar. Depois pensarei com mais +descanço. + +JOZE + +Pois fique-se com Deos.--Taes coisas farei, que ámanhã acabarão as suas +duvidas. Fie-se no que lhe digo. (_Indo para sair._) É preciso que um +homem saiba governar a sua caza, porque um homem é um homem. (_Sáe._) + + +SCENA IV + +_Antonio Prudente e Joanninha_ + +ANTONIO + +Ninguem hade governar aqui mais do que eu! (_Chamando.) Joanninha!_ + +JOANNINHA + +Meu pae! + +ANTONIO + +Anda cá. Responde-me... e não mintas. + +JOANNINHA + +Eu nunca lhe menti, pae. + +ANTONIO + +Mas escondes-me a verdade, que é o mesmo. Não queres casar com o Joze +Velhaco? + +JOANNINHA + +Já lhe disse, pae, que não. + +ANTONIO + +Nem com elle, nem com outro? + +JOANNINHA + +Dezejo ficar na sua companhia. + +ANTONIO + +(_Colerico._) Mentes. + +JOANNINHA + +Eu? sou muito sua amiga!.. + +ANTONIO + +Se o fosses não me desobedecias. Sei tudo. Não te queres casar, porque +te namoraste de um desgraçado sem dinheiro.--Prometteste casar com o +Luiz do Campanario... e a mãe, a Maria das Dores, tem tido o cuidado de +não t'o deixar esquecer. Invencioneira! + +JOANNINHA + +Não seja injusto! Confesso que não posso gostar senão do Luiz do +Campanario. Com elle fui creada, e só com elle posso viver!.. + +ANTONIO + +Contra minha vontade! + +JOANNINHA + +O coração póde mais. + +ANTONIO + +Creancices, filha! Isso hade passar! + +JOANNINHA + +Em eu morrendo! + +ANTONIO + +É a ultima vez que to digo, Joanna. (_Severo._) Has de casar com quem eu +mando! E nem lagrimas tuas, nem lamentos de Maria das Dores, nem +palavras do Vigario, me torcem desta resolução! + +JOANNINHA + +(_Chorando e com muita dôr._) Eu... não choro nem lhe desobedeço. +Deixo-me morrer. + +ANTONIO + +Historias! (_Olhando para a filha com muita dôr._) As raparigas não +morrem por tão pouco... não morrem... E tu... tu não me hasde morrer, +filha... (_Agarrando-a com muito amor._) Minha rica filha! + +JOANNINHA + +Meu pae! (_Deitando-se-lhe nos braços, e escondendo a cara._) Se eu não +posso viver sem elle... + +ANTONIO + +Viste-o hoje? Sei que chegou. + +JOANNINHA + +Vi-o; e ouvi os seus padecimentos. Tive tanto dó delle! + +ANTONIO + +Invenções... para te seduzir. + +JOANNINHA + +Não diga isso:..--Esteve em Demerara quazi como escravo: teve as febres, +e foi levado para um hospital, onde não havia nem quem o tratasse. Pobre +Luiz! Com elle fui creada, vivemos juntos... e... esta desgraça, +causou-me tal dó... fez-me crescer tanto a... amizade, que já lhe tinha... + +ANTONIO + +E eu a escutar-te... a chorar quasi! (_Limpando os olhos._) + +JOANNINHA + +Não se envergonhe pae. Só os maus é que não choram. + +ANTONIO + +(_Repellindo-a sem violencia._) Gosto muito de ti, filha; +mas as lagrimas e as festas não me fazem mudar. É para teu bem! Essas +calumnias que dizem do Joze Velhaco... que não é capaz... + +JOANNINHA + +Elle é capaz de tudo. + +ANTONIO + +Joanna, que eu não torne a ouvir-te dizer mal do homem que está para ser... + +JOANNINHA + +A minha desgraça. Pae se soubesse... + +ANTONIO + +(_Com muita colera._) Joanna! + +JOANNINHA + +Oiça; que é verdade. Escute! + +ANTONIO + +Diz... é mais uma calumnia, de que elle se defenderá. + +JOANNINHA + +Quando o Luiz foi para Demerara--enganado por elle, e levado pelo amor +que me tinha--entregou ao Joze Velhaco vinte patacas, para Maria das +Dores.... + +ANTONIO + +E então? + +JOANNINHA + +Joze Velhaco roubou o pão da mizeria. + +ANTONIO + +É falso! + +JOANNINHA + +O Luiz e Maria das Dores não mentem. + +ANTONIO + +Se fosse assim, Joze Velhaco era um infame. Mas, dize me, Joanninha, se +provar que tudo são mentiras promettes casar com elle! + +JOANNINHA + +(_Com firmeza._) Prometto. Se elle provar que está innocente façam de +mim o que quizerem. + +ANTONIO + +Verás! Mas fica descançada. Não sou capaz de te casar com um homem +deshonrado. + +JOANNINHA + +(_Abraçando-o._) Meu querido pae! + +ANTONIO + +Bem! Não precisas lembrar-me de que sou teu pae! Amanhã fica tudo +destinado. Agora descançar, que são horas... O dia tem sido hoje +inquieto para ambos nós. (_Dando-lhe um beijo._) Adeos filha. Não +queiras mal a teu pae. (_Sae._) + + +SCENA V + +_Joanninha, depois Luiz do Campanario_ + +JOANNINHA + +Como lhe heide querer mal, se elle me estima tanto, o meu querido pae? +(_Caindo de joelhos deante de uma imagem da Virgem, que está pendurada +na parede._) Senhora da Conceição, Protectora dos afflictos, ouvi-me. +Peço descanço para a minha alma, Virgem Santissima, peço-vos, que longe +de mim vá aquelle homem preverso! Soccorrei-o a elle... ao meu Luiz. +(_Durante esta oração Luiz entra pela janella, que estava cerrada e vem +ajoelhar junto de Joanninha._) + +LUIZ + +Soccorrei-o, Senhora, e á innocente que vos pede! + +JOANNINHA + +(_Levantando-se._) Luiz!...! Aqui? + +LUIZ + +Não me querias ver? Separados ha um anno... depois de tantas saudades? + +JOANNINHA + +E saudades taes! O susto de te perder, o temor de meu pae, e o horror +d'aquelle malvado, tudo que era contra nós, quebrava-me as forças. E as +lagrimas da tua triste mãe? Tudo... tudo me amofinava nesses dias +amargurados. Mas agora que estás aqui, e voltaste do desterro, agora, +parece que já me sinto outra. + +LUIZ + +Mas teu pae não consente! + +JOANNINHA + +Por ora. Já sabe do roubo, das vinte patacas furtadas a tua mãe. Ficou +em duvida... e disse que me não casava sem Joze Velhaco mostrar a sua +innocencia. + +LUIZ + +Não póde mostrar! + +JOANNINHA + +Meu pae hade deixar-se vencer das minhas lagrimas, e dos conselhos do +sr. Vigario! + +LUIZ + +Agora mesmo o larguei, e prometteu-me, o santo homem, que hoje mesmo... +havia de ficar tudo decidido. O Joze Velhaco perdido de todo, e nós +felizes. + +JOANNINHA + +Luiz, bem sabes se eu te amo, e se ha alegria e vida para mim longe de +ti; mas agora, assim de noite... não gosto de te ver... nesta casa. +Podia alguem descobrir-te quando entraste, póde meu pae estar acordado, +e sentir-te... + +LUIZ + +Tudo isso me occorreu... mas, o desejo de te ver... foi mais forte. O +Vigario mandou-me chamar ha pouco, e disse-me, «Luiz, esta noite fica +tudo deslindado; hoje acaba a tua desgraça... foi assim mesmo que me +disse! É preciso que passes a noite nas visinhanças da casa de Joanninha.» + +JOANNINHA + +Porque? + +LUIZ + +Foi o que perguntei... «Depois o saberás» me respondeu elle. Obedeci. +Estando perto, escondido, vi luz, olhei pela janella, e achando-te só, e +ouvindo-te resar, não pude resistir, e entrei para pedir, comtigo, a +Nossa Senhora que nos soccorra. + +JOANNINHA + +E que Deos nos ouça! Meu pae hade ceder por fim. Depois, que alegria! +Quando formos ambos á festa do Monte, e todos disserem: aquella é a +Joanninha, a filha de Antonio Prudente, que vai com seu marido. + +LUIZ + +Que é o mais feliz da Ilha, hão de acrescentar. Mulher como a delle não +ha outra na Madeira! Bonita, séria, galante!... + +JOANNINHA + +Luiz. + +LUIZ + +Joanninha! + +JOANNINHA + +E quando será? + +LUIZ + +Cedo, bem cedo! (_Esta scena deve ser representada com muita rapidez._) + + +SCENA VI + +_Os mesmos Joze, Joaquim, e dois marinheiros_ + +JOZE + +(_Apparecendo á janella, com uma pistola na mão._) Veremos. + +JOANNINHA + +Ah! + +LUIZ + +Joze! (_Correndo alguns passos para elle._) Agóra pagarás tudo... +malvado!... + +JOZE + +(_Apontando a pistolla para Joanninha, e em voz pouco elevada._) Nem +mais um passo!... nem mais um grito. Não acordemos o sr. Antonio Prudente. + +LUIZ + +(_Detendo-se._) O que fazes? + +JOZE + +(_Entrando._) Mato-a, se te moves... se dás um grito! (_Aos dois +marinheiros que entram cautelosamente atraz delle seguidos de Joaquim._) +Rapazes, segurem-me este heroe! + +LUIZ + +Maldito! + +JOZE + +Nada de resistencias, e de palavradas, senão temos desgosto na festa! + +JOANNINHA + +Jezus, acudi-me! + +JOZE + +(_Aos marinheiros._) Segurem-o!... e para bordo... Que vá para Demerara, +donde fugiu... o escravo! + +LUIZ + +(_Rezistindo apenas._) Este homem sahio do inferno... Marinheiros!... +Condoão-se de mim... e daquella desgraçada... + +JOZE + +(_Aproximando-se de Joaninha._) Joanninha, tudo isto faço pelo muito +amor, que te tenho! + +JOANNINHA + +E consente Deos isto? + +JOZE + +Vem commigo! + +LUIZ + +Não consintas, Joanninha! + +JOANNINHA + +Antes morrer. + +JOZE + +(_Colerico._) Não morrerás, e serás minha. + +JOANNINHA + +Só tua, Luiz! + +JOZE + +Ajuda-me, Joaquim! + +JOANNINHA + +(_Gritando._) Deixe-me, deixe-me. + +JOZE + +Se gritas... se dizes uma palavra. (_Aponta a pistolla a Luiz._) + +LUIZ + +Grita... brada... pede soccorro... + +JOANNINHA + +Soccorro! + +JOZE + +(_Cego de furia._) Morre, para não gritares! (_Dispara a pistolla sobre +Luiz, mas no momento de partir o tiro, Joaquim desvia-lhe o braço._) +Errei! (_A Joaquim_) Que fizeste?... + +JOAQUIM + +(_Tirando-lhe a pistolla, e segurando-o._) Chegou tambem a tua vez, +Joze! Pagarás tudo agora. (_Neste momento saltam pela janella, e entram +arrombando a porta alguns homens do povo, guiados pelo Vigario._) + + +SCENA VII + +_Os mesmos, o Vigario, homens do povo, logo depois Antonio_ + +VIGARIO + +Segura-o, Joaquim. + +LUIZ + +(_Armado com a faca de um dos marinheiros._) Tem firme, esse malvado: +vou-lhe arrancar o coração! + +VIGARIO + +(_Detendo-o._) Luiz! Luiz... diante de mim!.. + +LUIZ + +É um preverso! + +VIGARIO + +A justiça o castigará. + +ANTONIO + +(_Entrando espavorido._) Que é isto... em minha caza? + +JOZE + +Querem-me assassinar. Acuda-me! + +VIGARIO + +Calla-te... + +JOZE + +Vi entrar pela janella, na sua caza, o Luiz do Campanario. Vinha seduzir +sua filha... + +ANTONIO + +Seduzir minha filha?... + +JOZE + +E para salvar a honra de Joanninha, da minha noiva... entrei atraz, com +risco de vida... Quando ia para o castigar... + +VIGARIO + +Quando ias para roubar a donzella a seu pai, e estavas para mandar +violentamente para Demerara esse homem, pela segunda vez, appareci eu, e +frustei os teus planos. + +JOZE + +É falso, é falso!... + +VIGARIO + +Escute, Antonio, e veja o marido, que ia dar a sua filha... Este homem +não te roubou o dinheiro, que deixaste para tua mãe? + +LUIZ + +Roubou. + +VIGARIO + +Não te convidou a ti, Joaquim, para aliciador de escravos brancos? + +JOAQUIM + +É assim sr. Vigario, e aqui está um papel asignado por elle... (_Da-o a +Antonio._) + +VIGARIO + +Para servir de prova. + +JOZE + +A obrigação que me pediste?!... Traidor! + +VIGARIO + +Não vinha elle aqui esta noite para furtar a filha do sr. Antonio Prudente! + +JOAQUIM + +Tal e qual; por signal, quiz que eu o acompanhasse. + +VIGARIO + +(_A um homem._) Não foi o Joze Velhaco quem roubou as tuas filhas? + +O HOMEM + +Foi, sr. Vigario! + +VIGARIO + +Não são testemunhas todos, de que tentou agora matar o Luiz do Campanario. + +TODOS + +Somos. + +JOZE + +É mentira. + +VIGARIO + +Levem-o d'aqui. Amanhã será entregue á justiça, no Funchal. (_Alguns +homens levam Joze, que vai gritando: É mentira! é mentira!_) + +ANTONIO + +Senhor Vigario salvou a minha honra... salvou... Perdoas-me filha?.. +salvou a minha querida Joanninha. (_Abraça-a._) + +VIGARIO + +Pude salval-a... Mas fazel-a feliz, não depende de mim. + +ANTONIO + +O sr. Vigario manda nesta caza. + +VIGARIO + +Então mando que não haja ninguem triste. (_Pondo a mão de Joanninha na +mão de Luiz._) + +ANTONIO + +Mas, sr. Vigario... + +VIGARIO + +O Luiz, o marido que dou a tua filha, é o feitor de meu irmão, o morgado +Bittencourt. + +LUIZ + +(_Com fogo_) Viva o nosso Vigario! + +TODOS + +Viva! + +ANTONIO + +Deos proteja o nosso Vigario. + +VIGARIO + +Deus proteja a Ilha da Madeira. + +_Cae o panno._ + + +Fim do 3.º acto e do drama. + + + + +O ASTROLOGO + +DRAMA EM 5 ACTOS + + +PERSONAGENS + + Fr. Bermudo. D. Gonçalo de Sousa. + D. Mendo Paes. D. Soeiro Viegas. + O Infante D. Affonso. João Sirita, Ermitão. + D. Pedro Framariz. D. Bibas, bobo. + O Bispo D. João Peculiar. D. Bonamiz, bobo + D. Tello, Prior de Santa Cruz. Um Judeu. + D. Gonçalo Mendes. Um Templario. + D. Egas Moniz. D. Gontrade. + D. Lourenço Viegas. D. Violante. + D. Guilherme Ricardo + + Ricos homens, templarios, cavalleiros, damas, homens de armas, + frecheiros e besteiros. + + + + +ACTO PRIMEIRO + +_Um campo junto á pousada de D. Pedro Framariz, no Burgo de Guimarães._ + + +SCENA I + +_Entram Besteiros, e Homens d'armas de D. Pedro Framariz, trazendo um +Judeu prezo com uma corda_ + +1.º BESTEIRO + +Anda perro judeu... anda; vamos, e depressa, que o teu +sangue, e a tua pelle hão de tornar-se hoje em bons e finos maravedis. + +2.º BESTEIRO + +Olá!--O nosso amo bem sabe os meios de lh'os fazer sahir do corpo.--Bons +meios, e que nunca falham. Uma tenaz de ferro em braza, uma boa corda de +esparto, e ás vezes um cajado de zambujeiro, bastam para fazer de um +judeu um sacco de oiro. + +1.º BESTEIRO + +E agora sobre tudo, que os maravedis são tão necessarios, o sr. D. Pedro +ha de empregar os bons meios para tirar prata e oiro do corpo deste +judeu. D'aqui a uma hora partimos, para andarmos por lá, Deus sabe +quanto tempo. + +2.º BESTEIRO + +Não nos ha de faltar nada. Nos recontros com os mouros sempre se ganha +alguma coisa. Uma fossada pelo Al-Gharb ha de dar para senhores e +vassallos. Até nós, pobres besteiros, havemos de apanhar algumas +migalhas do que der a conquista. + +1.º BESTEIRO + +E nesta correria então!... Dizem que são tão ricas essas terras d'Além +do Téjo! + +2.º BESTEIRO + +E que o não fossem! Para nós homens de armas de D. Pedro Framariz sempre +ha que apanhar. + +1.º HOMEM D'ARMAS + +Hei de trazer este meu lorigão forrado de oiro. + +2.º BESTEIRO + +E a alma de indulgencias. + +1.º HOMEM D'ARMAS + +Tambem, e porque não? Lá váe o nosso Infante para as ganhar... + +1.º BESTEIRO + +E tem razão.--E elle dês que a mãe lhe morreu anda triste, e a scismar +sempre. A mãe, a sr.ª D. Thereza, era uma brava mulher. Vi-a muita vez, +nas guerras com os leonezes, ao lado do conde Fernando Perez, caminhar +para o inimigo como um homem. + +1.º HOMEM D'ARMAS + +(_Em voz baixa._) Foi o Infante D. Affonso Henriques quem a +matou.--Aquella prizão... e depois aquelle desterro... + +2.º BESTEIRO + +O sr. Infante não a matou. Cá a mim parece-me que elle fez o que devia. +Portugal ía-se pela agua abaixo se fica mais tempo nas mãos de uma mulher. + +1.º BESTEIRO + +Palavras inuteis... e perigosas!--Vamos levando este maldicto judeu para +a pousada do Burgo, e deixemos o resto que nos não importa. + +1.º HOMEM D'ARMAS + +Não tem pressa. Nosso amo está ainda com o Infante e outros cavalleiros +a ouvir a missa no mosteiro de Mumadona. + +1.º BESTEIRO + +Qual?! Está já de volta, de certo. D'aqui a pouco partimos. + +2.º BESTEIRO + +(_Puxando pelo judeu_) Vamos, vamos. (_Ao 1.º homem d'armas._) Garcia, +faz andar este excommungado. Para que te servem esses braços, senão é +para dar nos judeus e nos cães da moirama? + +1.º HOMEM D'ARMAS + +(_Dando no judeu._) Tem os ossos de ferro estes judeus, não quebram nem +pelo diabo! + +JUDEU + +Deixae-me... deixae-me. Tende dó de mim, srs. besteiros. + +1.º HOMEM D'ARMAS + +Dá-nos um pouco de teu oiro, judeu. + +JUDEU + +Sou pobre... um miseravel... não tenho nada. + +1.º BESTEIRO + +Vae dizer isso a D. Pedro, elle te fará mudar de opinião. Mette-te n'um +forno, vivo, para vêr se de lá sáes mudado em barra de oiro. + +JUDEU + +Deixae-me... que elle mata-me; mata-me de certo. + +ALGUNS BESTEIROS + +Uh! uh! maldito judeu. + +1.º HOMEM D'ARMAS + +Has de ser assado vivo. + +JUDEU + +Deus de Jacob, salvae-me! + +1.º HOMEM D'ARMAS + +Vamos, que alli vem fr. Bermudo. + +1.º BESTEIRO + +O feiticeiro... o magico. + +JUDEU + +(_A fr. Bermudo._) Salvae-me... salvae-me! + + +SCENA II + +_Os mesmos, e Fr. Bermudo_ + +FR. BERMUDO + +Esperae... onde ides? Onde levaes esse miseravel judeu? + +1.º HOMEM D'ARMAS + +Foi nosso amo, D. Pedro Framariz, que nos mandou que o levassemos... + +FR. BERMUDO (_Colerico._) + +Para o roubar, para o atormentar.--Deixae-o... + +2.º BESTEIRO + +Um judeu... + +FR. BERMUDO + +Um judeu tambem é homem.--Deixae-o. + +1.º HOMEM D'ARMAS + +Mas D. Pedro ha de querer saber porque nós lhe não obedecemos. + +FR. BERMUDO + +Dizei-lhe que fui eu. + +1.º HOMEM D'ARMAS (_Com hesitação_) + +Mas... + +FR. BERMUDO + +(_Com colera._) Já disse. + +1.º BESTEIRO + +(_Baixo aos outros._) O magico dá-nos máo olhado, se lhe resistirmos, e +ficamos perdidos... O melhor é deixar o judeu. + +TODOS + +Deixemol-o. (_Deixam o judeu._) + +1.º HOMEM D'ARMAS + +Vamo-nos... depressa. + +1.º BESTEIRO + +Deus tenha dó de nós. O que dirá D. Pedro Framariz? + +2.º BESTEIRO + +É hoje, talvez, o fim da nossa vida. (_Sáem._) + + +SCENA III + +_O judeu e Fr. Bermudo_ + +JUDEU + +(_Cahindo de joelhos._) Quero agradecer-vos de joelhos. + +FR. BERMUDO + +Vae-te... salva-te.--Não pônhas em mim essas mãos. + +JUDEU + +Consenti que vos beije os pés, que me prostre diante de quem póde e sabe +escrever o destino dos homens... + +FR. BERMUDO + +Foje... vae-te, se não queres outra vez cair nas mãos d'aquelles homens +d'armas. + +JUDEU + +Sois o maior homem da terra! (_Sáe._) + + +SCENA IV + +_Fr. Bermudo (só)_ + +FR. BERMUDO + +(_Rindo._) O maior homem!... Sou o maior homem, sou, porque padeço mais +que os outros. A dôr moral é que distingue o homem da fera. (_Pauza._) +Lêr o futuro nos astros, lêr as paixões no coração; ter segredos que dão +vida, e segredos que matam...--Que tem?! O futuro é um martyrio que me +assusta; as paixões que escondo neste coração são crueis e negras. Se +esta vida durasse uma eternidade, sería uma vida maldicta... E depois da +vida a morte!... Morrer sem ter sido amado, sem ter recebido +um affago... sem ter a esperança de ouvir, mesmo quando já envolvido nas +profundas trevas do sepulchro, um grito de saudade que me acorde!.. De +que serve a sciencia?.. E o que é ella, essa sciencia que não póde +vencer o destino, nem sequer descobrir as leis eternas que o regem? De +que me serve o saber?... Tenho mais dores que os outros homens, e menos +fé...--Mendo... O meu Mendo, o meu amigo, o meu filho,--porque lhe quero +como se elle fôra meu filho,--como o hei de salvar?... E Violante, esse +anjo, que eu... cujo nome me faz alegria e terror...--como os hei de +separar, esses corações que o amor e a mocidade atraem um para o outro, +e que o destino separa por um abismo! (_Pausa--apontando para os +astros._) Está escripto... está tudo escripto nos astros...--É fatal! +(_Crusa os braços e fica meditando._) + + +SCENA V + +_D. Mendo e Fr. Bermudo_ + +D. MENDO + +(_Vendo Fr. Bermudo._) Aqui, fr. Bermudo! + +FR. BERMUDO + +Esperava por ti, D. Mendo. + +D. MENDO + +Por mim?... Neste sitio? Agora? + +FR. BERMUDO + +É aqui que te deves despedir da filha de D. Pedro Framariz. + +D. MENDO + +De Violante... Quem te disse? + +FR. BERMUDO + +Soube que vinhas, e vim. Não foste hontem pedir-me que +consultasse as estrellas, a conjuncção dos astros para saber o teu +futuro? Passei a noite a estudar o céo, e é o que n'elle li que eu te +venho dizer agora. + +D. MENDO + +Que te disseram os astros?... Hade ser minha?... Hade-me ter sempre +muito amôr?... Seremos felizes?.. + +FR. BERMUDO + +A tua estrella tocou o zenith, quando o Feretro se alevantou sobre o +horisonte, acompanhado das tres Carpideiras; ao mesmo tempo que a +irradiação de Neyman se extinguia, a de Sehedir tornou-se mais brilhante... + +D. MENDO + +O que quer dizer tudo isso? + +FR. BERMUDO + +Não o queiras saber; deixa os astros guardarem os seus segredos +tenebrosos. Mas foge destes logares; vae buscar a gloria nos campos da +batalha... foge, foge do teu negro destino... se ao homem é possivel +fugir ao destino. + +D. MENDO + +Falla. Diz-me a verdade. Tenho animo para tudo. O que quer dizer essa +disposição dos astros? + +FR. BERMUDO + +Quer dizer que a vida ha de ser uma vida de padecimento; que a morte ha +de separar-te da que amas; que depois terás a gloria... + +D. MENDO + +Calla-te...--Sem ella... que m'importa o resto? + +FR. BERMUDO + +Abumachar Giafar não se enganou nunca ao lêr no livro do céo... e eu +leio pelo seu livro. + +D. MENDO + +Não póde ser... não. Se Violante morrer, morrerei com ella. + +FR. BERMUDO + +A tua estrella não se apagou.--Serás grande e forte. + +D. MENDO + +O destino não se póde oppôr a que eu busque a morte no meio das +fallanges serracenas. + +FR. BERMUDO + +Tudo póde o destino! + +D. MENDO + +Salva-me... Calla-te... Muda isso tudo... + +FR. BERMUDO + +O que os astros escrevem no seu mudo caminhar pelo céo, não o podem os +homens apagar. + +D. MENDO + +Fr. Bermudo, algum demonio falla pela tua bocca. + +FR. BERMUDO + +O teu sangue de pagem está ainda muito ardente.--Mendo, sou teu amigo, +sou, e deveras. Talvez o não devesse ser... mas sou-o... Mendo--Entre ti +e Violante ha um abysmo. + +D. MENDO + +Hei de transpôl-o. + +FR. BERMUDO + +Não, porque é vasto, immenso; porque no fundo ferve e ruge um pélago de +sangue. + +D. MENDO + +Enganou-te a sciencia... Não é, não póde ser verdade o que dizes. + +FR. BERMUDO + +Nem a mão de Deus, póde apagar o passado. + +D. MENDO + +Padre, conheces um tremendo segredo... É meu esse segredo; quero sabêl-o. + +FR. BERMUDO + +Sei... coisas que não posso dizer... tenho medo de as pensar... que me +accusam, que me condemnam. + +D. MENDO + +Mas...--Fr. Bermudo quero o meu segredo. + +FR. BERMUDO + +Deixa,... esquece esse amor. Não queiras, saber um segredo, que te +manchará o viço da alma; que te fará envelhecer o coração, caírem mortas +a esperança e a fé, mal elle tocar o teu pensamento, que desconhece +ainda até onde póde chegar a perfidia dos homens. + +D. MENDO + +Esquecer este amor?--Este amor é...--Não t'o posso dizer, não me +intenderias, padre. + +FR. BERMUDO + +Quem sabe!... Os mysterios do coração são de Deus?!... Póde ser que vão +com o corpo á cova, para lá ficarem fechados; por que Deus na sua +infinita misericordia talvez os queira extinguir, com tudo quanto ha de +impuro no homem. + +D. MENDO + +Ai! que dôr, que dôr esta minha!.. Sou o maior desventurado da terra! + +FR. BERMUDO + +Quem póde dizer que o é?--Tu, Mendo, na tua vida tão curta, já escutaste +o palpitar de um coração que batia por ti.--Tens uma esperança... Amanhã +serás cavalleiro, depois serás senhor de honras e castellos, depois +terás um nome, uma gloria. Tens um futuro, Mendo... e n'esse +futuro?.. Deus ha de compadecer-se de ti que és bom e puro. + +D. MENDO + +(_Cobrindo o rosto._) Sem Violante!... Jesus, meu Deus! + +FR. BERMUDO + +Ha homens a quem a fatalidade acompanha desde o berço, e em cuja alma +sempre em trevas, não caíu uma esperança... nem mesmo já nasce um desejo. + +D. MENDO + +Fr. Bermudo, não tens nem piedade, nem comiseração n'essa tua alma... +Nunca te fiz mal, para que assim me lances na desesperação. + +FR. BERMUDO + +Querias saber o futuro, li nos astros, e disse-t'o. + +D. MENDO + +Não te creio...--Mentem os astros...--Violante!... não a perderei, +não... nem este amor tambem, que é do céo; que nasceu entre os anjos!.. +Ella não póde tardar.--Deixa-me... Quero ter esperança; estar +alegre.--Vae-te. Vae-te, que te não veja ella, feiticeiro agoirento e máo. + +FR. BERMUDO + +Deus tenha dó de nós... de todos nós! (_Sáe._) + + +SCENA VI + +_D. Mendo e depois D. Violante_ + +D. MENDO + +Virgem Maria, tirae-me d'alma estes dolorosos pensamentos, ponde-me o +sorrizo na bocca e a esperança no coração, para que um dos +vossos anjos não soffra. + +D. VIOLANTE + +(_Entrando agitada._) Mendo, que tendes? O que é isso que vos afflige. +D. Mendo? + +D. MENDO + +Minha sr.ª D. Violante!.. Não quizestes deixar-me partir sem vir +lançar-me a força no coração. + +D. VIOLANTE + +Estaes agitado, sobre-saltado! Que vos dizia aquelle frade, Fr. Bermudo? + +D. MENDO + +Nada... não me dizia nada. Viestes, D. Violante, e na presença de um +anjo as palavras de um louco devem esquecer-se. Ai! Violante, quanto vos +agradeço o que fizestes por mim! Se partisse para a guerra, sem vos ter +fallado do meu amor, e sem ter ouvido dessa bocca uma palavra de +esperança, parece-me que me deixava morrer por lá. Este amor é a minha +vida! + +D. VIOLANTE + +(_Com embaraço._) Saí da pousada, saí... nem eu sei... que importa? +(_Com ternura._) Procurava o perfume das flôres, e vim para este lado... +parecia-me que tinha nascido aqui uma flôr, que eu só devia colhêr... + +D. MENDO + +A flôr da esperança? + +D. VIOLANTE + +(_Cobrindo a cára._) A do amor... Enganei-me, meu pagem?.. + +D. MENDO + +Não. (_Apontando para o peito._) Essa vive aqui, sempre +bella, sempre doce, e perfumada. E é da minha querida Violante. + +D. VIOLANTE + +(_Seria._) Vinha para aqui, e vi Fr. Bermudo fallar comvosco... que vos +dizia elle? + +D. MENDO + +Loucuras, sonhos de uma cabeça cheia de illusões! + +D. VIOLANTE + +Leu nos astros o futuro dos nossos amores? Que lhe disseram os astros? + +D. MENDO + +O que nos importa a nós isso tudo? (_Levando-a para um assento de +pedra_) Vinde assentar-vos aqui; e eu vou pôr-me de joelhos, para vos +adorar como a um anjo, como a uma santa que sois... Amo... amo-te... ía +dizer uma blasfemia, Violante, ía fallar-te como só a Deus se deve +fallar; mas é porque no mundo não ha com que se compare este amor! + +D. VIOLANTE + +(_Brincando, mas com muita ternura._) Mas se esse amor mudar?... O +coração dos pagens é como as borboletas, foge sempre de flôr em flôr. + +D. MENDO + +Mas este meu!... Que thesouro possue elle agora! Vós bem sabeis que este +meu amor não mudará... não póde mudar.--E depois tudo em roda de nós +está alegre, tudo parece fallar-nos de felicidade. + +D. VIOLANTE + +Amanhã, d'aqui a horas, já não estaremos juntos. E os perigos da guerra... + +D. MENDO + +Vou deixar-vos, mas para voltar cavalleiro, para ter uma +espada, para ter um nome, que seja mais digno de vós, do que o do +obscuro pagem. + +D. VIOLANTE + +Mendo! + +D. MENDO + +Ó Violante, D. Violante não esqueçaes nunca esta hora de immensa +felicidade! + +D. VIOLANTE + +Nunca. + +D. MENDO + +Sereis minha? sempre minha? + +D. VIOLANTE + +Serei. + +D. MENDO + +Amaes-me? + +D. VIOLANTE + +Mais que tudo! + +D. MENDO + +(_Ficando triste._) Este amor será para nós uma benção do céo... +será.--É de certo. + +D. VIOLANTE + +Estaes outra vez triste. Lembram-vos as predicções de Fr. Bermudo? Que +disse elle? + +D. MENDO + +Que importa o que elle disse? O nosso amor vem de Deus, só Deus o póde +destruir. + +D. VIOLANTE + +Dizei a verdade Mendo... Não tenho medo, como vêdes... Dizei; que o +coração já advinhou tudo. + +D. MENDO + +Para que quereis?... + +D. VIOLANTE + +Dizei. + +D. MENDO + +Disse... que não seriamos nunca um do outro... Que o destino nos +separava para sempre. + +D. VIOLANTE + +(_Deixando-se cahir de joelhos ao lado de D. Mendo._) Virgem Nossa +Senhora, vallei-nos! + +D. MENDO + +Separar-nos!... Agora, que a tristeza nos cobriu de trevas, e que +começavamos a sentir os amargores da saudade... Separarmo-nos agora! + +D. VIOLANTE + +Deixar-te... + +D. MENDO + +Não chores... Minha Violante! + +D. VIOLANTE + +Esta guerra!... Esta auzencia!... + +D. MENDO + +O amor... O amor unirá as nossas almas, quando eu estiver longe, lá por +esses certões do Al-Gharb. + +D. VIOLANTE + +Cada noite procurarei na luz das estrellas um desses teus olhares de +amor, que são mais suaves para mim do que os clarões mais puros de um +céo sereno e bello. + +D. MENDO + +Cada tarde escutarei no silencio dos bosques o brando gorgear das aves, +para vêr se na voz de alguma dellas distingo um dos teus castos suspiros. + +D. VIOLANTE + +Ai! Se te eu perdesse... + +D. MENDO + +Quando voltar, seremos um do outro, para sempre! + +D. VIOLANTE + +Sinto gente! Adeus + +D. MENDO + +Violante!.. (_Cáem nos braços um do outro._) + +D. VIOLANTE + +Sou tua!.. Adeus. + +D. MENDO + +Adeus. (_D. Violante sáe._) + + +SCENA VII + +_D. Mendo, D. Bibas e Bonamiz._ + +D. BIBAS + +(_Cantando o que se segue._) + + Porque choras + Pagem terno? + Teu inferno + Não melhoras. + Trá--lira. + +(_Cantando e rindo._) Ah! Ah! Ah! + +D. MENDO + +Tu aqui?... aqui D. Bibas... Quem te trouxe aqui, bôbo? + +D. BIBAS + +(_Apontando para Bonamiz._) Foi elle. + +D. MENDO + +(_A Bonamiz._) Tu? + +BONAMIZ + +(_Apontando para D. Bibas._) Foi elle. + +D. BIBAS + +(_Cantando._) Uma bruxa nos guiou. + +BONAMIZ + +(_Cantando._) Um diabo nos mandou. + +AMBOS + +(_Cantando._) + + Segredos do coração + Mui grandes segredos são. + +BONAMIZ + +Am! + +D. BIBAS + +Am! + +BONAMIZ + +Am! + +D. MENDO + +Que viste, D. Bibas?--Que ouviste Bonamiz? + +D. BIBAS + +Vi-te dar um abraço... e tive inveja. + +BONAMIZ + +Ouvi dizer á mais linda dama das Hespanhas, que te amava... e desejei +estar-te na pelle. + +D. MENDO + +Nada mais... + +D. BIBAS + +Ah!--Ouvi dizer, que os astros te tinham declarado a guerra; que a +morte...--Que importa isso, a quem ama? + +D. MENDO + +Que importa?... + +D. BIBAS + +O amor é sempre assim. Nunca viste as crianças brigarem por uma +borboleta, que morre e se desfaz apenas o vencedor lhe toca? + +D. MENDO + +Mas... + +D. BIBAS + +Pois as felicidades são como as borboletas; e os homens como as +crianças.--Mas de todas as felicidades, as do amor são as que menos +duram, e de todos os homens os mais ridiculos... são os amantes. + +D. MENDO + +Deixa agora essas chocarrices.--Escutae, ambos.--Se disserdes a alguem o +que acabaes de vêr e de ouvir, arrancar-vos-hei olhos e lingoa... a ambos. + +D. BIBAS + +Com a espada de cavalleiro, que ainda has-de ganhar? + +D. MENDO + +Juro... + +D. BIBAS + +Não jures, que não é precizo para nada. (_Serio._) Pagem namorado, somos +vossos amigos, e não podemos deixar, com a nossa magnanimidade real, de +vos dizer um segredo... que segredo! + +D. MENDO + +O que é? + +D. BIBAS + +Pois deveras quereis saber. + +D. BIBAS + +(_Cantando._) + + Não has-de cazar + Não cazarás, não. + Has-de Dom Bulrão, + Solteiro ficar. + +D. MENDO + +Maldicto! + +D. BIBAS + +(_Cantando._) _De profundis clamavi ad te..._ + +D. MENDO + +Bobo, bobo! + +BONAMIZ + +Assim cantam os padres, quando morre alguma cousa, que para nada +presta.--Não te encolerizes; cantamos sobre as tuas defuntas esperanças. +(_Cantando._) _De profundis clamavi..._ + +D. MENDO + +(_Ameaçando-os._) Excomungados bobos!.. + +D. BIBAS + +(_Rindo._) Ahi vem nosso tio, o infante. + +AMBOS OS BOBOS + +(_Fugindo._) Adeus! adeus! + + +SCENA VIII + +D. MENDO, _só_ + +Tudo para mim é um agouro!... agouro máo! As palavras da meditação, as +gargalhadas do escarneo... tudo! Que segredo tenebroso será este, que me +envolve e me aterra? Minha mãe tambem sabe este segredo; é essa a causa +d'aquella tristeza, d'aquella dôr sem consolação, d'aquelle lucto em que +sempre vive. Tenho ouvido por vezes fallar em meu pae morto... nas +trevas de uma noite horrenda; n'uma vingança infame que veio um dia +manchar de sangue e de vergonha a nossa casa. Mas que historia pavoroza +é esta de que eu ainda não pude penetrar o mysterio? Quem foi o +assassino de meu pae? Qual é a família contra a qual a honra me ordena +de exercer uma implacavel vingança? Não sei, nada sei, porque minha mãe +só quando eu fôr cavalleiro me julga digno de saber este funebre +segredo. Fr. Bermudo, o frade solitario, o astrologo que vive na +isolação, tambem conhece os segredos da minha familia, que +eu ignoro ainda, e não m'os quer dizer. + + +SCENA IX + +_O mesmo, o Infante, D. Gontrade, D. João Peculiar, D. Tello, D. Gonçalo +Mendes, D. Egas Moniz, D. Lourenço Viegas, D. Guilherme Ricardo, D. +Gonçalo de Sousa, Cavalleiros, Ricos Homens, Homens d'Armas, Frecheiros, +Besteiros etc. depois D. Pedro Framariz._ + +INFANTE + +(_A D. Mendo._) Tu aqui, Mendo? + +D. MENDO + +Esperava por vós, meu sr. Infante... + +INFANTE + +Não vieste ouvir missa comnosco ao mosteiro de Mumadona? (_Mostrando D. +Gontrade._) Tua mãe foi tambem... para te vêr. + +D. GONTRADE + +E para pedir a Deus pela boa sorte das armas do reino de Portugal. + +INFANTE + +Que vosso marido D. Payo Ramires ajudou a criar, e fortaleceu com a sua +espada gloriosa. + +D. BIBAS + +Pois o filho, o nosso pagem D. Mendo estava agora a afiar a sua futura +espada de cavalleiro. + +BONAMIZ + +E a fazer brilhantes projectos sobre a maneira de usar della. + +D. LOURENÇO VIEGAS + +Callai-vos ahi, bobos. + +D. BIBAS + +(_Ao Infante._) Queremos e podemos fallar aqui, não é assim, tio? + +INFANTE + +(_Aos pagens._) Fazei callar esses bobos. (_Os pagens levam os bobos._) + +D. MENDO + +(_Beijando a mão de sua mãe._) Sr.ª mãe, minha senhora... + +D. GONTRADE + +Meu filho, não foste despedir-te de mim, vim eu. + +D. MENDO + +Não julguei que partiriamos tão depressa... (_Abraçando-a._) Minha mãe, +minha querida mãe perdoae. + +INFANTE + +De certo te perdoará... D. Gontrade ha de perdoar ao valente pagem, que +vae ganhar nas batalhas a sua espada de cavalleiro, e ajudar-nos a +accrescentar á terra, que seu pae defendeu e fez independente, novas +provincias, com as quaes o nome de Portugal se tornará temido em toda a +Hespanha. + +D. GONTRADE + +Meu filho! (_Ficam abraçados._) + +INFANTE + +(_Aos cavalleiros._) Só nos falta D. Pedro Framariz, para termos em roda +de nós todos os bons cavalleiros, que estão em Guimarães. Esperaremos +por elle aqui; depois partiremos para Coimbra onde está o restante de +nossos ricos homens... Estas lides, que vamos lidar, senhores, hão de +ser rijas; carecemos para ellas de toda a nossa força. É +esta uma correria, que ha de ficar de memoria aos moiros. + +D. EGAS MONIZ + +Nossa Senhora que sempre desde pequeno vos protegeu, e que vos prometteu +tantas victorias, não vos ha de desamparar nunca, meu sr. Infante. + +INFANTE + +Assim seja, meu leal Egas Moniz. Companheiro das victorias ganhas por o +conde D. Henrique, ensinar-me-has a ganhar batalhas como meu pae as +ganhava. + +D. JOÃO PECULIAR + +O ceu proteje as armas dos portuguezes. + +D. GONÇALO MENDES + +Conservae-nos pois essa protecção com as vossas orações, sr. D. João +Peculiar; que nós, Ricos-homens e cavalleiros, aproveitar-nos-hemos +d'ella para derribar com as nossas espadas o poder dos infieis--A vossa +força, srs. bispos e prelados, está toda no céu; a nossa está na terra, +appoia-se na fé, e nas armas. + +INFANTE + +Sois avisado, meu lidador. (_Aos prelados._) Vós, srs. oraé por nós. D. +Tello, dizei aos vossos monges de Santa Cruz que façam noite e dia +preces, para que o Senhor nos tenha da sua mão. (_Aos cavalleiros._) E +vós, cavalleiros, desenrollae os vossos balsões, reuni nas vossas hostes +todos os homens que tendes nas Honras, Prestamos e Senhorios que +ganhastes; cingi as vossas espadas mais duras, tende confiança na cruz +que é a nossa divisa, e atravessaremos, então, essas terras de Alem do +Téjo, e lançaremos sobre ellas o nosso dominio. + +TODOS + +Aos infieis! aos infieis! + +D. EGAS MONIZ + +(_Pegando na mão do Infante e beijando-a._) Meu senhor meu amo, +deixae-me beijar-vos as mãos, deixai o vosso aio Egas admirar-vos... +Sois um grande principe... Haveis de ser um grande rei! + +TODOS + +Viva D. Affonso! Viva o nosso príncipe! + +ALGUNS + +Viva o nosso rei! + +D. GUILHERME + +A minha espada, e a de todos os templarios é vossa. Infante de Portugal, +a guerra contra os infieis, aqui na nossa terra, é tão santa aos olhos +de Deus como a feita n'essas longes terras da Palestina. + +D. LOURENÇO VIEGAS + +A minha espada é tua, Infante de Portugal. + +MUITOS CAVALLEIROS + +E a nossa. + +INFANTE + +(_Alevantando os braços ao céu._) Senhor, a nossa fé é immensa! Senhor, +não enganeis a nossa confiança! + +D. MENDO + +(_Caíndo aos pés do Infante._) Dae-me uma espada, sr. Infante... Quero +combatter comvosco... Quero morrer, ou ser digno da minha patria! Digno +do nome que meu pae me legou! + +INFANTE + +Ganha a espada no campo da lide, que a has de amar ainda mais. + +(_D. Pedro Framariz entra com os seus acostados, e pára ao fundo._) + +ALGUNS CAVALLEIROS + +D. Pedro Framariz! + +D. GONTRADE + +(_Pondo as mãos sobre a cabeça de seu filho._) Ganha a tua espada, e +então te confiarei o segredo da nossa familia, é uma terrível vingança. + +D. PEDRO FRAMARIZ + +Perdoae, sr.ª, que Deus tambem perdoa! + + +FIM DO 1.º ACTO + + + + +ACTO SEGUNDO + + +SCENA I + +_O infante, em pé encostado á espada, D. Egas Moniz, o Lidador, D. +Mendo, D. João Peculiar e cavalleiros D. Gonçalo de Sousa, D. Tello_ + +D. JOÃO PECULIAR + +É tentar a Deus, só por milagre poderiamos vencer tão grande multidão de +inimigos. Ismael tem em roda de si cinco wallis, e um poderoso exercito. + +D. GONÇALO DE SOUZA + +As hostes de cinco wallis! Mais de cem mouros para cada um de nós. Eu +tenho feito muitas correrias, tallado por muitas vezes os campos dos +infieis; mas esta batalha que se prepara, tenho-a por uma temeridade, +por uma loucura. Se perdermos a batalha, e com ella o nosso infante de +Portugal, quem ha de defender a nossa independencia? + +D. TELLO + +Os campos estão cobertos de soldados sarracenos, é um mar de lanças que +nos hade quebrar nas suas ondas. + +D. GUILHERME + +Morremos pela cruz. + +JOÃO SIRITA + +Sr. infante nasci no povo e padeci; fui homem d'armas e combatti, vivi +na solidão, orando a Deus, e mais de cem vezes lutei com as fera. O +Senhor fez por mim grandes milagres, e a minha fé é immensa +como o deserto:--morreria feliz se morresse por ella!--Porém agora o +combatter seria matar este reino, n'uma só lide, o que o conde D. +Henrique ganhou em tantas, e tão rijas pelejas. + +JOÃO PECULIAR + +João Sirita, o escolhido do céu, tem razão; combattemos pela cruz, para +lhe exaltar a gloria, e não para deixar a victoria aos seus inimigos. +(_Com solemnidade._) Eu D. João Peculiar, humilde servo de Deus, e bispo +por sua Divina Graça, em nome da religião te requeiro que não combattas +em lide tão desigual, porque n'ella nos perderias a todos. + +GONÇALO DE SOUSA + +Tratae tregoas com Ismael... + +LIDADOR + +Tregoas com Ismael... Seria accrescentar ao perigo a cobardia; o rei +mouro não guardaria a sua fé. + +ALGUNS CAVALLEIROS + +Não, não peleijemos. + +D. TELLO + +Salvae a cruz. + +UM PRELADO + +Salvae a cruz sr. infante. + +INFANTE + +Agradeço-vos, sr. o vosso amor por mim, e o desejo que tendes de que +estes condados se conservem livres e gloriosos.--Estamos cercados de +perigos, e só um conselho avisado nos póde salvar. Deixae-me meditar, e +resolver o que devemos fazer n'esta conjunctura difficil e grave. +Ide-vos: e que Deus vos tenha em sua santa guarda. + +(_Saem todos excepto o lidador, D. Egas Moniz, D. Tello e D. +Mendo._) + + +SCENA II + +_(O infante, D. Tello, Egas Moniz, o Lidador, D. Mendo)._ + +D. EGAS + +Que quereis fazer Sr.? É, como dizeis, grave e difficil a situação em +que nos achamos. Eu fio tudo da vossa prudencia, que é muito já em tão +verdes annos; do vosso animo; e do amôr que tendes a Portugal. Deus vos +inspirará o melhor conselho. + +LIDADOR + +Que resolveis, sr. infante? + +INFANTE + +Combatter e vencer. + +D. TELLO + +O numero dos inimigos é sem conto.--Vencêr é impossivel. + +INFANTE + +Morreremos então, pela fé, pela religião de Christo, e pela patria. Mas +não morreremos, que m'o advinha o coração. Deus tem protegido até hoje +este pequeno canto das Hespanhas que de meu pae herdei. Quando todos os +reinos das hespanhas veneravam como sr. Affonso VII, combatiamos nós +entre Galliza contra o poderoso imperador, e ganhavamos em Cerneja uma +bella victoria. Se hoje a nossa independencia se acha compromettida, +pelo tractado que assignámos em Tuy: se estamos quasi como vassallos de +Affonso VII, esse estado acabará logo que ganharmos uma batalha sobre os +sarracenos. Chegou o momento de ganharmos essa batalha. Ámanhã; +pôr-nos-hemos independentes do imperador, e talvez accrescentaremos +mais uma provincia a Portugal. + +D. TELLO + +Cinco chefes inimigos... + +INFANTE + +Tantos quantas foram as chagas de Christo Senhor Nosso. N'esses +blasphemadores vingaremos a fé. + +LIDADOR + +Apressemos a hora do combate. Lidemos rijamente, que havemos de vencer. + +INFANTE + +Vae, meu lidador: manda reunir o exercito; que quero fallar a todos, +enchel-os de fé, accender-lhes nos corações uma sancta coragem. (_O +Lidador sáe._) (_A D. Mendo._) Meu pagem, dá-me o escudo e a lança: (_D. +Mendo dá-lh'os._) Manda-me ajaezar o meu cavallo de batalha. (_D. Mendo +sáe._) Deus seja comigo nesta hora, e me falle ao pensamento. + +EGAS MONIZ + +N'esta sangrenta batalha, achar-me-hei ao vosso lado, como sempre, meu +principe, para receber por vós os golpes do inimigo. + +INFANTE + +Meu Egas... meu amigo... Não tenho ninguem com quem possa desabaffar os +amargores d'esta existencia senão tu. + +EGAS MONIZ + +Tendes-nos a todos... Uma família immensa que vos ama. + +INFANTE + +(_Com exaltação._) Salvemol'a. Salvemos essa família com a nossa espada, +e a nossa fé. + +D. MENDO + +(_Entrando._) Está tudo prompto.--Esperam o sr. infante todos os +cavalleiros reunidos... + +INFANTE + +Ámanhã estarás entre elles; terás uma espada ganha por ti, +Mendo.--Vamos, senhores. (_Sáe com Egas Moniz, e D. Tello._) + + +SCENA III + +_D. Mendo só_ + +D. MENDO + +Serei cavalleiro!... terei uma espada, e com ella a minha Violante... +a gloria!... um nome egual ao de meu pae!--Ser admirado por ella; +ter um nome entre os nomes illustres... Combater por D. Affonso, +pelo meu infante... que gloria, que felicidade! Ai! Violante, +Violante!--(_Triste._) Violante... longe de ti! Violante não esqueças o +amor, que é a vida d'este coração. Quando penso na ventura de viver com +ella, de lhe chamar esposa, sinto subitamente o terror esfriar-me todo. +Aquellas palavras sinistras do Astrologo, de fr. Bermudo, e aquella +vingança de que minha mãe me fallou levantam-se diante de mim como +espectros medonhos, que me querem roubar a minha Violante! Qu'importam +as palavras desvairadas de um bobo... os vaticinios dos astros? Que +importa isso tudo? Deus não póde querer a desgraça de quem nunca +commetteu um grande crime, de quem nunca o offendeu! (_Pausa._) Ai! +perdel-a!... (_Fica pensando._) Morrer!... antes morrer! + + +SCENA IV + +_D. Mendo, e fr. Bermudo_ + +FR. BERMUDO + +Ainda não. É ainda cedo para morreres. + +D. MENDO + +Bermudo! + +FR. BERMUDO + +Não quero que morras, não quero que percas o animo, por isso vim. + +D. MENDO + +Que pódes tu sobre a morte? Como pódes tu impedir que eu a vá buscar nas +lanças dos inimigos? Se eu accreditasse nas tuas prophecias sinistras +deixava-me matar na batalha de ámanhã. + +FR. BERMUDO + +Não irás buscar a morte porque amas a vida. + +D. MENDO + +Amo sim, porque amo Violante. + +FR. BERMUDO + +Não amas Violante só. + +D. MENDO + +Pois... + +FR. BERMUDO + +Amas a gloria. + +D. MENDO + +Para lh'a dar a ella. + +FR. BERMUDO + +E para ti, tambem queres a gloria, e tens razão Mendo. (_Compaixão._) +Para que o amor fosse a tua unica paixão, o teu unico pensamento, a +vida, o alento da tua alma; para que o amasses e vivesses só por elle, +era preciso que o teu coração houvesse padecido desde o +berço dôr e tormentos, tivesse sempre ficado nas trevas e na solidão e +que, quando tu o sentisses já quasi a morrer. Deus te mostrasse um anjo, +uma luz, uma esperança.--Para comprehender a luz é preciso ter estado na +escuridão; para apreciar a felicidade é preciso ter padecido. Os anjos +não podem intender as alegrias do céu, porque nunca supportaram os +tormentos do inferno...--(_Pausa._) Os corações novos, que nunca foram +provados pelo martyrio não podem amar como... como esses que se escondem +n'um claustro, ou n'um sepulchro, para que ninguem os veja, para que +ninguem saiba delles. + +D. MENDO + +Que querem dizer essas palavras? + +FR. BERMUDO + +Querem dizer que tenho penado mais, muito mais do que tu, e que não +quero, nem posso ainda morrer. + +D. MENDO + +A sciencia prende-te á vida. + +FR. BERMUDO + +A sciencia!... Antes de ser monge, fui homem: antes de dar todas as +horas a um estudo inutil, tive outros desejos e outras esperanças... A +flôr morreu em botão... acabou tudo, antes de eu saber se a felicidade é +mais do que uma palavra de escarneo, a alegria mais do que uma illusão +miseravel... E quero a vida, mesmo assim. + +D. MENDO + +Queres a vida? + +FR. BERMUDO + +Quero-a Mendo, esta alma é um abysmo, tão tenebroso, que nem +eu me atrevo a olhar para elle... tenho medo. + +D. MENDO + +Tens sofrido muito? Tens padecido? + +FR. BERMUDO + +Escuta e verás. Tinha um unico irmão, que amava muito; ficámos orphãos +ambos ainda infantes. Eu nunca tinha tido outro sentimento no coração, +senão essa amizade profunda, extrema que lhe consagrava a elle; +tinha-lhe salvo a vida nas batalhas á custa do meu sangue... Tudo que +via de bello no mundo desejáva-o para lh'o dar. Se havia a affrontar um +perigo ia eu por elle, se havia gloria a ganhar, deixava-o ir, e ficava +eu. A minha vida era d'elle só.--Um dia, voltava de uma correria contra +os mouros, não achei senão o seu cadaver! Meu irmão fôra assassinado. + +D. MENDO + +Vingaste a sua morte? + +FR. BERMUDO + +Procurei o assassino, para vingar a morte de meu irmão; tinha ido para +essas longes terras da Palestina. Fui tambem. Busquei-o por toda a +parte; atravessei o deserto soffocado pelos ardores do sol, devorado +pela sede, consummido pela fome. O meu cavallo morreu, e prosegui na +minha peregrinação a pé encostado ao bordão de peregrino. Padeci +martyrios crueis, mas não encontrei nunca esse homem que buscava. +Disseram-me que tinha morrido... Voltei para a patria. + +D. MENDO + +E então? + +FR. BERMUDO + +Não tinha nada que me prendesse á vida, não tinha nenhuma +esperança, nenhuma consolação. Fiz-me monge, e dei-me ao estudo, para +vêr se a cabeça matava as saudades do coração. + +D. MENDO + +E conseguiste? + +FR. BERMUDO + +Esse homem não tinha morrido, voltou. + +D. MENDO + +Matastel-o? + +FR. BERMUDO + +Não. + +D. MENDO + +Perdoaste? + +FR. BERMUDO + +Também não (_Pausa._) O amor matou-me o odio. Fui fraco, covarde. Tive +medo da minha vingança; trahí meu irmão, deixei passar junto de mim o +seu assassino, e não tive força para levantar sobre elle o meu braço +vingador. + +D. MENDO + +Porque? O que te deteve o braço? + +FR. BERMUDO + +Amei a filha desse homem... + +D. MENDO + +Tu? + +FR. BERMUDO + +Eu?!... Não.--Sou monge, não posso ter amor. Um voto matou-me o coração. + +D. MENDO + +Desgraçado!... + +FR. BERMUDO + +Que importa o que passou... o que morreu! Todos julgaram que eu havia +morrido... E ha dez annos que enterrado n'um mosteiro estudo a alchimia; +tenho descoberto segredos, que poderiam fazer os homens +felizes, segredos que poderiam talvez tornar o mundo todo um paraizo. A +natureza é omnipotente em crear, omnipotente em destruir: ao lado de +cada força que géra ha uma força que mata... São tudo combates. O homem, +grão de pó no universo, segue a lei geral. A vida é um combate entre o +sêr, e o não sêr. O pensamento é uma lucta entre o bem e o mal. +(_Pausa._) Aqui tens, Mendo, uma essencia subtil. Esta essencia é a vida +para ti se fores ferido na lide. + +D. MENDO + +(_Repellindo o frasco._) Padre, tu fizeste-me perder o animo: mataste-me +as esperanças. Tenho agora medo de tudo, menos da morte: tudo para mim é +fatal. Essa peleja perder-se-ha. A vida servir-me-ha só para ser +escravo, e penar. (_Ouvem-se gritos do exercito ao longe._) + +FR. BERMUDO + +Ouves?... Esses homens, ha pouco tão sem animo, tão atemorisados, estão +agora incendiados pelo fogo do enthusiasmo... Oh! o enthusiasmo é um +poder sublime! Os seus effeitos são similhantes aos que a força +omnipotente de Deus produziria se baixasse á alma do homem... Uma +palavra de D. Affonso bastou para pôr em duvida a victoria... talvez +para a assegurar. + +D. MENDO + +Pois julgas... + +FR. BERMUDO + +Pela fé, e pelo enthusiasmo o homem multiplica-se, torna-se grande, e +vence... Desgraçado de mim, que já não sinto esse divino fogo animar-me +o coração. (_Dando o frasco a D. Mendo._) Mendo, toma essa essencia, é a +vida..--Ámanhã, no meio dos gritos da victoria, dar-te-hão +uma espada de cavalleiro, e saudar-te-hão entre os heroes. Vive para a +gloria. Vive para Portugal. (_Em voz baixa._) Vive para vingar teu pae, +se tens n'alma força para tanto. + +D. MENDO + +Acceito. + + +SCENA V + +_Os mesmos, D. Bibas e Bonamiz_ + +D. BIBAS + + Quero a vida. + +BONAMIZ + + Não a quero. + +D. BIBAS + + Pela morte. + +BONAMIZ + + Só espero. + Sem a minha doce amante, + Viver não quero um instante. + +D. BIBAS + + Mas a gloria? + +BONAMIZ + + E os amores? + +D. BIBAS + + Mas os cardos? + +BONAMIZ + + Mas as flores? + +D. MENDO + +(_Colerico._) Outra vez a escutar os meus segredos? + +D. BIBAS + + Vingativos frades; + +BONAMIZ + + E pagens contrictos, + +D. BIBAS + + Monges aguerridos, + +BONAMIZ + + Amantes afflictos + +D. BIBAS + + Só nos fazem rir. + +BONAMIZ + + Ai! fazem-nos rir... + +FR. BERMUDO + +(_Colerico._) Que ouvistes? + +D. BIBAS + +Coisas muito para rir!--Dizem que ha grandes sabedores, homens que valem +mais do que os outros, que são mais avisados. (_Dando uma gargalhada._) +Loucura!... Os homens são todos bobos: bobos que fazem rir, bobos que +fazem chorar, bobos que amam, bobos que odeiam, bobos que leem até dos +astros, bobos que não sabem ler nem mesmo um pergaminho... mas todos +bobos, todos jograes e chocarreiros. + +FR. BERMUDO + +Tens razão D. Bibas. + +D. BIBAS + +Vós que sois admirado pelo muito que sabeis, fallaes de vinganças como o +mais estupido homem d'armas... Matar... matar um homem!... O que importa +isso? Pois elle não ha de morrer, sem que o matem?--Matal-o é affastal-o +de todos os tormentos deste mundo, é dar-lhe o descanço eterno... Estou +hoje um bobo serio, não é assim? Um bobo serio é como um vestido de dó +num casamento, excita a compaixão e o desprezo. + +BONAMIZ + +Mestre, estás hoje insipido. + +D. BIBAS + +Que queres? Deante destes dois mochos a piarem sons de agouro, até o +genio de um jogral fica vencido. + +FR. BERMUDO + +Não digaes nada do que ouvistes, bobos. + +D. BIBAS + +Tambem tu, fr. feiticeiro, julgas que os bobos são como o resto dos +homens? Ficae descançados; nós queremos saber para rir, e não para ir +contar aos outros. (_Dando uma gargalhada._) Vingativos frades. + +BONAMIZ + +E pagens contrictos... + +D. MENDO + +Calae-vos ahi, bobos do inferno. (_A fr. Bermudo._) Acceito, fr. +Bermudo. Não quero a morte ainda. + +FR. BERMUDO + +Vive... + +D. MENDO + +Cumprir-se-ha minha sina? + +FR. BERMUDO + +Cumprir-se-ha. (_O rumor do exercito aproxima-se_) + +BONAMIZ + +Ahi vem o nosso infante, o nosso tio infante. + +FR. BERMUDO + +Adeus. D. Mendo--Quando me quizeres, estarei ao pé de ti. (_Sáe._) + +(_A noite tem-se cerrado pouco a pouco._) + + +SCENA VI + +_O Infante, Egas Moniz, o Lidador, D. Mendo, e Cavalleiros_ + +TODOS + +Viva o nosso infante! viva! + +ALGUNS + +Viva El-Rei! + +INFANTE + +Havemos de vencer; protege-nos o braço do Senhor. + +ALGUNS + +Viva D. Affonso! + +INFANTE + +Ide purificar-vos pela oração para que Deus proteja as nossas armas. + +(_Saem todos gritando--Viva D. Affonso, fica só o infante e D. Mendo._) + + +SCENA VII + +_O Infante e D. Mendo_ + +INFANTE + +Mendo, amanhã é o mais bello dia da tua vida... Sentirás pela primeira +vez o furor dos combates correr-te nas veias. No meio do turbilhão dos +inimigos sentirás essa força estranha, superior e independente da +vontade, que dirige o braço dos que pelejam pela sua fé, e pela sua +patria; essa força que faz os heroes e os martyres; que é a inspiração +dos homens de guerra. Não estejas assim triste agora; que depois da +peleja terás de chorar os nossos que morrerem... e então... Que importa? +Resta-me o amor. Tu és moço, nobre; serás em pouco um dos +melhores lidadores de Portugal. (_Sentando-se._) Ajuda-me a tirar este +capêllo. És feliz, Mendo; sobre ti não pezam nem remorsos do passado, +nem terror do futuro... + +D. MENDO + +Sr. infante! + +INFANTE + +Meu amigo!... Diz-me o que desejas; quero fazer-te feliz, a ti. + +D. MENDO + +(_Com excitação._) Meu senhor! + +INFANTE + +Falla-me com sinceridade. + +D. MENDO + +Amo. + +INFANTE + +Amas D. Violante, já o sabia. Amas a filha de D. Pedro Framariz, e és +amado por ella. Sereis unidos. + +D. MENDO + +Unidos... Eu, e Violante... + +INFANTE + +Sou eu que t'o prometto. + +D. MENDO + +Meu Deus, meu Deus! que feliz é o meu destino! + +INFANTE + +Vae agradecel-o a Deus... vae pedir-lhe por nós todos. Anda Mendo, vae +pedir ao Senhor, que tenha misericordia dos que desejam glorificar seu +santo nome. + +D. MENDO + +Vou... + +INFANTE + +Deixa-me só. (_Mendo sáe._) + + +SCENA VIII + +_O Infante. (Só.)_ + +INFANTE + +(_Depois de uma pauza em que escuta os gritos do exercito ao longe._) +Aníma-os a todos a esperança da victoria. Esqueceram tudo, para se +lembrarem só do triumpho. Uns combaterão por que têem fé, e querem, +combatendo, ganhar o ceu; outros porque têem ambição, e querem +accrescentar as suas terras e augmentar o seu poder. Agora é tudo +enthusiasmo, tudo esperança ahi... depois, mais tarde, quando cada um +desses guerreiros estiver a sós com a sua alma, virá a meditação; depois +as recordações, e as saudades; depois a oração fervorosa... e depois... +depois talvez o medo da morte... Morrer pela fé é ganhar a corôa celeste +dos martyres; e todos os meus companheiros d'armas creem como eu na +misericordia de Jesus Christo! (_Cravando no chão a espada e pondo-se de +joelhos._) Cruz de redempção, sobre que primeiro se escreveu a palavra +sacrosanta de perdão para os homens, symbolo de eterna victoria, +ajudae-nos... Que vos cerque uma luz de gloria: que se passe um milagre +diante de mim, e a minha confiança será infinita! Gedeão era humilde e +fraco como eu, os seus eram poucos contra muitos, como são agora esses +meus, e o altar de Baal foi derrubado, e em seu logar se levantou o +templo de Jéhovah. É por que a sua fé era viva, é por que a sua offerta +tinha sido consumida pelo fogo do ceu no altar do sacrifício, é por que +a mão de Deus o protegia, é por que na sua alma havia uma +inspiração sagrada... Inspirae-me, meu Deus: dae-me a victoria Senhor... +e o vosso nome será adorado por toda a parte onde chegar o meu poder. +Onde eu poder fazer ouvir a vossa palavra divina, grandes e pequenos, +nobres e humildes a escutarão com amor e contricção. Dae-me a victoria, +meu Deus! + + +SCENA IX + +_O Infante e Fr. Bermudo_ + +FR. BERMUDO + +(_Á entrada do Real._) A victoria será tua. + +INFANTE + +(_Levantando-se._) Quem és? Que queres aqui? Foi Deus que te mandou? + +FR. BERMUDO + +A sua benção caiu sobre ti, e os teus. + +INFANTE + +A victoria!... Será nossa a victoria? + +FR. BERMUDO + +(_Abrindo as cortinas do fundo do Real, deixando vêr o campo, que se +estende por uma encosta, e em que brilham algumas fogueiras; apontando +para o Oriente._) Ao romper d'alva verás no Oriente o braço do Senhor +estender-se sobre o teu exercito. + +INFANTE + +A victoria, a victoria! Uma palavra tua, meu Deus!... (_Abraçando de +joelhos a cruz da espada._) Gloria ao teu nome Senhor! + + +FIM DO 2.º ACTO + + + + +ACTO TERCEIRO + +_Uma salla do castello de Guimarães, portas lateraes e ao fundo. É +noite, brandões seguros por braços de ferro lançam uma luz brilhante. +Ouve-se musica, ha differentes bailados, durante a primeira scena._ + + +SCENA I + +_D. Gonçalo de Sousa, D. Lourenço Viegas, D. Soeiro Viegas, Cavalleiros, +Prelados, Damas, D. Mendo, D. Violante, D. Bibas e Bonamiz. Os +Cavalleiros e Damas passeiam e dançam._ + +D. GONÇALO DE SOUSA + +(_A uma dama que traz pelo braço._) Foi bello, magnifico este nosso jogo +do tavolado.--Nunca damas mais formosas fizeram nascer dezejos de gloria +em corações de mais ardentes e destros cavalleiros. + +DAMA + +Lembraram-vos hoje essas batalhas verdadeiras, onde sois sempre o +primeiro, sr. D. Gonçalo de Sousa? + +D. LOURENÇO VIEGAS + +(_Aproximando-se._) Feliz o cavalleiro que ganhou hoje uma coroa para +vos offerecer, linda Branca. + +DAMA + +Não sejaes invejoso, D. Lourenço Viegas, que é feia a inveja em quem +vale tanto: vossos feitos de armas já vos mereceram o nobre titulo de +_espadeiro_. + +BONAMIZ + +Mas nem por isso lhe tem valido grandes triumphos em amor. É +por que o amor não se leva á espada, como se levam os infieis +sarracenos. As mulheres são infieis, que se conquistam pela brandura, e +que se conservam pelo galanteio. O braço forte não serve para conquista +destas, D. Lourenço. + +DAMA + +(_Rindo._) Que tem isso?--Não se póde ser grande em tudo. (_Vão para o +fundo da scena._) É melhor cubrir-se um cavalleiro de gloria nas +batalhas do que nos amores. + +D. SOEIRO VIEGAS + +(_Vindo á frente da scena com uma dama._) D. Sancha, sois a formosa de +todas as lindas damas de Portugal. Um mouro chamar-vos-hia uma huri, eu +adoro-vos como a um anjo. + +DAMA + +É nos campos da lide que se aprende a lisonja? + +D. SOEIRO VIEGAS + +Aprende-se a ser franco, e leal... + +D. BIBAS + +(_Rindo._) Como todos os da vossa raça, dom namorado... + +D. SOEIRO VIEGAS + +Excommungado bobo! + +D. BIBAS + +Não ha nada que esfrie uma paixão como uma gargalhada a tempo. O bobo é +o avesso de Cupido. Ri-se das coisas serias, o bobo; e Cupido e todos os +seus escravos tomam a serio até os ridiculos galanteios do amor. + +(_Um cavalleiro e uma dama vêem á frente da scena._) + +1.º CAVALLEIRO + +Está sempre triste, e cuberta de lucto, a infeliz D. Gontrade. + +DAMA + +Vistel-a hoje aqui? Em quanto o filho, D. Mendo... + +1.º CAVALLEIRO + +O namorado D. Mendo. Vede com que olhos elle admira a filha de D. Pedro +Framariz. Feliz Mendo! + +DAMA + +Em quanto o pagem d'El-Rei... + +1.º CAVALLEIRO + +Agora cavalleiro. Ganhou a espada na batalha de Ourique. Foi o sr. D. +Affonso Henriques, quem o armou com a sua propria mão. + +DAMA + +Em quanto D. Mendo andou pela guerra, a mãe, D. Gontrade, passou os dias +e as noites fechada, a rezar sempre. Aquella mulher tem dôr ou remorso +que lhe dilacera o coração. + +1.º CAVALLEIRO + +Estava ali na capella esta manhã: parecia ainda mais triste que de costume. + +DAMA + +Pobre D. Gontrade! Dizem que lhe mataram o marido! É uma historia +tenebrosa, que ficou sempre em mysterio, e de que pouco se sabe. + +1.º CAVALLEIRO + +Seu filho Mendo vae casar..... + +DAMA + +Assim se diz. Mas a fallar verdade, eu duvido. + +(_Um grupo de cavalleiros vem á frente da scena.)_ + +1.º CAVALLEIRO + +Foi uma rija arrancada aquella de Ourique. El-Rei D. Affonso +derrubou de um golpe dois daquelles perros infieis. + +2.º CAVALLEIRO + +Ismael pouco resistiu. + +3.º CAVALLEIRO + +Nunca, por vida minha, nunca vi uma tão grande róta. + +1.º CAVALLEIRO + +Parecia que o braço de Deus pelejava por nós. + +2.º CAVALLEIRO + +E que alegria a do exercito quando depois da batalha, levantámos por +nosso rei a D. Affonso Henriques. + +3.º CAVALLEIRO + +Agora já temos rei independente. + +2.º CAVALLEIRO + +Temos ainda que combater muito pela independencia de Portugal. + +(_Outro grupo de cavalleiros vem á frente da scena._) + +1.º CAVALLEIRO + +É um leal cavalleiro D. Pedro Framariz. + +2.º CAVALLEIRO + +Honrado como Egas Moniz. + +3.º CAVALLEIRO + +Não tanto. Elle não se hia de certo entregar nas mãos dos inimigos para +não faltar á palavra dada, á lealdade jurada. + +2.º CAVALLEIRO + +Lá isso é verdade; D. Pedro Framariz não era capaz de tal. + +BONAMIZ + +(_Rindo._) Tem mais amor á pelle, e menos amor à honra. (_Vae-se +cantando._) + +3.º CAVALLEIRO + +Estes bobos!... + +2.º CAVALLEIRO + +Dizem que a filha caza com D. Mendo, o antigo pagem d'el-rei. É um +cazamento muito honroso para D. Mendo. + +3.º CAVALLEIRO + +Estão namorados, mas cazarem... Não cazarão talvez. + +2.º CAVALLEIRO + +É a vontade d'el-rei, que se cazem. + +4.º CAVALLEIRO + +Entre as duas familias houve n'outro tempo alguma coisa. + +3.º CAVALLEIRO + +Um homizío... dizem. + +D. MENDO + +(_Aproximam-se de Violante que está assentada._) Violante, ficae; deixae +sahir todos. + +VIOLANTE + +Fico. (_D. Mendo affasta-se._) + +_Um grupo de velhos cavalleiros e de prelados, vem á frente da scena_ + +1.º PRELADO + +Vae-se demorando o banquete. + +2.º CAVALLEIRO + +Muito mais do que se demoram os nossos golpes quando pelejamos contra os +excommungados da Moirama... + +2.º PRELADO + +As nossas orações no côro tambem se não demoram tanto tempo como esta ceia. + +3.º CAVALLEIRO + +Não tarda. Ainda bem que se demora porque podemos conversar. + +UM OVENÇAL + +(_Na salla d'armas, á porta._) Nobres, ricos-homens, +infanções, cavalleiros, srs. de prestamos e alcadarias, el-rei de +Portugal vos convida a vir tomar parte no banquete. + +2.º CAVALLEIRO + +Em fim! + +PRELADO + +Vamos, vamos. + +(_Sahem todos, todos excepto D. Mendo e D. Violante. D. Bibas esconde-se +detraz de um pilar._) + + +SCENA II + +_D. Mendo e D. Violante, D. Bibas (escondido.)_ + +D. MENDO + +Violante!... minha Violante! + +VIOLANTE + +Mendo?! + +D. MENDO + +Uma palavra... uma palavra, por minha alma. + +VIOLANTE + +Mendo, nem um instante passei sem pensarem vós: e eu tambem estava +esperando com ancia este momento para vos ouvir dizer-me uma palavra de +amor. + +D. MENDO + +E não teve, Violante, não teve essa bocca um sorriso para mim, nem esses +olhos tiveram um olhar terno para me dar até agora? + +VIOLANTE + +Ai! que nem eu sei dizer-vos o que sinto, dizer-vos o que me deteve +diante de toda essa gente! Ha uma coisa occulta, Mendo, que me prende a +palavra e o gesto quando quero mostrar-vos tudo o que sinto em mim. +Faltam-me forças, faltam-me faculdades para tanto. + +D. MENDO + +Falta-vos o amor... talvez. + +VIOLANTE + +(_Sorrindo com muito amor._) É desleal essa palavra, cavalleiro. Eu +conheci um pagem que só dizia o que pensava, com verdade, e sinceramente. + +D. MENDO + +O pagem, minha Violante, seria verdadeiro e sincero, seria: mas não +valia mais do que o cavalleiro, que d'elle herdou o maior amor, que do +mundo tem havido. + +VIOLANTE + +Que sustos tive, em quanto durou a guerra! Parecia-me que não vos +tornaria a vêr, e essa ideia fazia-me chorar horas esquecidas, fechada +no meu oratorio. + +D. MENDO + +Eu não podia morrer, porque vós me estaveis esperando. + +VIOLANTE + +Não vos lembrou a triste Violante, quando, o primeiro entre todos, vos +lançastes por meio das lanças dos inimigos? + +D. MENDO + +Lembrou, lembrou. Ia lá buscar esta espada... Não era eu que ia, não; +era a esperança de vir aqui ajoelhar-vos aos pés e dizer-vos: «Violante, +tenho um nome de cavalleiro, tenho um logar entre os ricos-homens de +Portugal, tenho esta mão que é leal e que está pura... offereço-vos, +tudo minha Violante!» + +VIOLANTE + +(_Apertando a mão de D. Mendo._) Acceito. + +D. MENDO + +A fr. Bermudo devo a ventura de ouvir a minha Violante dizer-me esta +divina palavra. + +VIOLANTE + +(_Com susto._) A fr. Bermudo! Como? Que tem esse astrologo agourento com +a nossa felicidade? + +D. MENDO + +Não quero ser eu só a bem dizer esse homem inexplicavel; por isso, aqui +mesmo no meio da nossa alegria, quero contar o que elle fez para me salvar. + +VIOLANTE + +Para vos salvar? + +D. MENDO + +Estava quasi ganha a batalha; na ala esquerda porém, ainda uma das +hostes dos almoravides resistia como um muro de ferro aos ataques +impetuosos dos cavalleiros christãos. Tive vergonha de vêr os nossos +recuarem deante dos inimigos, entre os quaes combatiam mais de trezentas +mulheres; e, com uma espada na mão precipitei-me sobre a phalange +sarracena; rompi a primeira e segunda linha, e quando me voltei para vêr +se os cavalleiros portugueses me haviam seguido, achei-me de todos os +lados cercado pelos infieis. A minha morte era certa: o braço já ía +cançando: e se não fôra a vossa imagem, que estava sempre presente ao +meu espirito, ter-me-hia deixado morrer. Subitamente, porém, quando já, +fechando os olhos, e pronunciando o vosso nome, me arremedava ás cegas +sobre os inimigos, ouvi por detraz de mim um pavoroso clamor, e vi logo +depois um soldado que derrubava tudo com o seu braço de Hercules. N'um +instante, vi abrir-se uma larga estrada juncada de cadaveres; e foi +assim que me salvei da morte. + +VIOLANTE + +E o soldado? + +D. MENDO + +Era fr. Bermudo. Violante, a fr. Bermudo devo esta felicidade, tão +grande, que nem eu a posso comprehender, nem a posso sentir toda, que +não tenho coração para tanto. É uma felicidade que mata! + +VIOLANTE + +Tem-me consumido a vida, mas amo-a. + +D. MENDO + +Oh! Que nunca julguei que tão cedo nos chegasse tamanha ventura! +(_Beija-lhe a mão--D. Bibas dá uma gargalhada aguda e estridente._) + +VIOLANTE + +Jesus! + +D. MENDO + +(_Levando a mão á espada._) Quem ousaria?! + +D. BIBAS + +(_Vae-se cantando com, voz lugubre._) + + «Vivem loucos namorados + Vendo futuro formoso + Onde não ha mais que a dôr + De um mysterio tenebroso.» + +VIOLANTE + +Bobo. + +D. MENDO + +D. Bibas que anda fazendo pelo castello a sua ronda de escarneo.--Louco! + +FR. BERMUDO + +(_Entrando._) D. Mendo, os loucos sabem mais ás vezes que os +avisados--Sr.ª D. Violante ide-vos, vosso pai procura por vós. + +D. MENDO + +Tudo nos separa... + +D. VIOLANTE + +Em breve nada nos poderá separar um do outro. Adeus, Mendo, adeus! (_Sae._) + + +SCENA III + +_D. Mendo e Frei Bermudo._ + +D. MENDO + +Para que vieste separar-nos, quando estavamos a matar as saudades d'esta +longa ausencia? Fr. Bermudo, és tu sempre quem separa Violante de mim. + +FR. BERMUDO + +Não sou eu; é o teu destino fatal. + +D. MENDO + +Mão me repitas outra vez os teus agoiros. Não queiras que eu te maldíga; +não queiras que eu tome odio a ti, e á vida... + +FR. BERMUDO + +Depois d'esse teu penar, virá a gloria. Assim o dizem os astros. (_Sáe._) + + +SCENA IV + +D. MENDO _só_ + +Este homem, este frade é incomprehensivel. As suas palavras pezam sobre +mim; quando o vejo, não sei se a sympathia, ou o odio me fazem pular o +coração no peito. Devo-lhe a vida a este homem; e, comtudo, parece-me +que lhe não posso ser grato.--Sou cavalleiro já, e agora saberei o +segredo tremendo, que desde a infancia me involve, sem que o possa +conhecer. Minha mãe--quando ao chegar da guerra a fui vêr--recebeu-me +com assustadora solemnidade; deu-me apenas um beijo que me fez frio. +Está mais pallida agora; e ha nos seus olhos um clarão sinistro que me +faz medo. Sinto caminhar para mim o terrivel segredo, e tenho vontade de +fugir para o não ouvir. É covardia... é fraqueza, isto! + + +SCENA V + +_D. Mendo e D. Gontrade_ + +D. GONTRADE + +(_Entrando._) Meu filho... + +D. MENDO + +(_Estremecendo._) Minha mãe... + +D. GONTRADE + +Estás aqui, Mendo, longe das festas, triste e só? Tens razão, filho; +porque não pódes, não deves ter nem alegria nem descanço, em quanto não +tirares vingança do assassino de teu pai. + +D. MENDO + +Que dizeis, minha mãe? meu pai morreu assassinado, já vol-o ouvi dizer; +mas quem o matou é o que eu não sei ainda. + +D. GONTRADE + +Mendo, até ao dia em que ganhaste--gloriosamente, bem o sei--essa nobre +espada, não eras mais do que um pagem, uma criança. Esse tempo passou: +tens já um nome de cavalleiro que teu pai tornou illustre, e que tu +deves conservar puro e sem mancha. Mendo Paes, o teu nome está +deshonrado. A mão de um homem desleal manchou-lhe a pureza, +deslustrou-lhe a nobreza. D. Paio Ramires teu pai, foi assassinado, +covardemente assassinado; e o seu assassino vive ainda!.. +Ficas assim calado?!... Não se te revolvem lá dentro os desejos da +vingança? Meu filho, enganar-me-hia a esperança? Não serás tu digno de +teu pai? + +D. MENDO + +(_Com terror._) Quero-vos muito, minha mãe. Esta vingança, porém, faz-me +susto. Não sei que pressentimento me diz que esta vingança me hade matar +a mim tambem. + +D. GONTRADE + +Susto! tens susto de vingar a morte de teu pai!? Não te creio, meu +filho, porque respeito, em ti, o chefe da nossa familia. É hoje o dia da +vingança, Mendo, uma vingança cruel, tremenda, publica para que todos a +saibam. A vingança é um acto horrendo e criminoso; mas a honra exige que +esse acto se cumpra.--Foi a ultima vontade de teu pai. É no meio do +banquete, entre os risos e os gritos do triumpho, que te espera a +victima. (_Tirando um punhal._) Foi esta a arma traidora que serviu ao +crime; sobre ella ha ainda o sangue de teu pai ennegrecido pelo tempo, +mas não limpo ainda da deshonra. Guardei-o sempre como uma reliquia +sagrada, para t'a confiar na hora do castigo... + +D. MENDO + +O punhal é arma de traidôr; minha mãe, tenho esta espada... + +D. GONTRADE + +E se morresses?... se esse homem te matasse tambem? + +D. MENDO + +Morria como cavalleiro. + +D. GONTRADE + +Quem vingaria teu pai?--Não, Mendo; é com este ferro que o infame deve +ser punido... O assassino de teu pai é... + +D. MENDO + +Callai-vos... callai-vos... + +D. GONTRADE + +Que tens? + +D. MENDO + +Tenho medo! + +D. GONTRADE + +Medo?!... + +D. MENDO + +Se esse bomem fosse?... + +D. GONTRADE + +Quem? + +D. MENDO + +O pai da mulher que amo.. + +D. GONTRADE + +Morreria... da tua mão receberia a morte. + +D. MENDO + +Minha mãi! + +D. GONTRADE + +É a hora da vingança, meu filho. Quando uma familia nobre, como a nossa, +se acha deshonrada, e offendida pela mão de um traidor, não deve n'ella +haver descanço, nem alegria, em quanto a offensa não fôr castigada, e a +sua honra purificada da nodoa de sangue que lhe apagou o brilho.--O +homem que matou teu pai, Mendo, vive junto de nós, é um dos ricos-homens +de D. Affonso Henriques, é D. Pedro Framariz. + +D. MENDO + +D. Pedro! Jesus, meu Deus!...--Elle!.. não minha mãi, isso não póde +ser. + +D. GONTRADE + +Hesitas? + +D. MENDO + +O pai de Violante? É um nobre cavalleiro, que tem um logar distincto +entre os cavalleiros mais leaes á patria, entre os mais ardentes +defensores da fé. + +D. GONTRADE + +O sangue de teu pai pede sangue, meu filho. D. Pedro matou covardemente +D. Payo Ramires; e tu não podes, não tens direito de trazer essa espada, +em quanto em Portugal poderem dizer de ti: «Aquelle homem desconhece os +principios da honra, porque não vingou ainda a morte de seu pai.» + +D. MENDO + +Mais tarde; ainda não... + +D. GONTRADE + +Hoje... agora.--Ha dez annos, a esta mesma hora vi eu cravar este punhal +no coração de teu pai... de meu marido.--Foi uma noite horrivel... uma +noite de sangue e infamia! + +D. MENDO + +Assassino!... eu!...--Minha mãe, a vingança é um crime covarde e +miseravel. Uma lança que se cruza com outra lança em repto leal, á luz +do dia, diante de todos, merece a sympathia de todos; um punhal que nas +trevas escorrega cautelosamente, e se crava frio e silencioso nas carnes +de um homem desarmado, só merece desprezo. + +D. GONTRADE + +A vingança não é crime, quando a exerce um filho sobre o assassino de +seu pai. + +D. MENDO + +E Violante?... + +D. GONTRADE + +Entre ti e ella ha um cadaver. + +D. MENDO + +Perdoai, minha mãi. Sou fraco de coração. Fallece-me o animo. + +D. GONTRADE + +Mendo, teu pai deixou a sua maldição em herança ao filho, se elle o não +vingasse; e a minha maldição juntar-se-ha á d'elle... + +D. MENDO + +Que Violante não veja... que não o saiba! + +D. GONTRADE + +Covarde! vês este punhal tincto ainda de sangue, e hezitas, e tremes... + +D. MENDO + +Não posso... Aquelle anjo!--Pois eu hei de ser odiado por Violante! +(_Com muita desesperação._) + +D. GONTRADE + +A honra do nosso nome, e a memoria de teu pai pedem vingança! (_Dando o +punhal a D. Mendo, que o recebe com terror_) Vinga a morte de teu pai, +ou sê maldicto! (_Sáe._) + + +SCENA VI + +_D. Mendo, só_ + +D. MENDO + +Meu pai, meu pai, levantae-vos do sepulchro e perdoai... que me +salvaes, que salvaes vosso filho! (_Olhando para o punhal._) Este sangue +ha de ser lavado com outro sangue?! Assim o exige a honra de +uma familia nobre!... Meu pai, se vos basta o sangue de um homem, +dar-vos-hei todo o meu! (_Chorando._) Se as lagrimas de um filho podem +lavar a nodoa tremenda d'este ferro, derramarei o meu pranto sobre elle +em quanto viver!... A vingança dura pois mais do que a vida?! O espirito +depois de separado da terra, não perdôa, não esquece tudo?! Pois n'esse +mundo mysterioso e todo espiritual, para aonde as almas vão depois da +morte, tambem ha estas ruins paixões, que teem feito da humanidade um +bando de feras? Essas paixões duram a eternidade? Onde está o descanço, +aonde está a paz? Onde existe o ceu?--Ai! Quem me livra deste martyrio? +Quem salva a minha honra? Quem dá força á minha alma, para que se não +perca... para que não renegue a Deus?! + + +SCENA VII + +_D. Mendo e Fr. Bermudo_ + +FR. BERMUDO + +Tira da fé a tua força, e não renegarás a Deus. A desgraça é difficil de +supportar; e quando pela primeira vez ella nos entra no coração, +parece-nos impossivel que o coração a possa conter, que o coração não +estale. + +D. MENDO + +Salva-me, salva-me... Fr. Bermudo, sei tudo. Violante é filha do +assassino de meu pai. Minha mãi confiou-me uma vingança... que eu não +tenho animo de executar. + +FR. BERMUDO + +Péza-te essa vingança? Dá-ma... que t'a acceito.--É o ultimo +sacrificio que faço ás malditas paixões humanas: faço-o com horror, mas +não quero que tu sejas odiado pela candida Violante. Esse odio +matal-a-hia a ella! + +D. MENDO + +Como te hei de confiar uma vingança que é só minha? + +FR. BERMUDO + +Eu tambem tenho direito de a tomar para mim. + +D. MENDO + +Porque?! + +FR. BERMUDO + +Não queiras penetrar o enigma da minha vida. Juro-te que não é deshonra +para ti ceder-me essa vingança. + +D. MENDO + +E Violante? Já não podemos ser um do outro. É impossível esta união. + +FR. BERMUDO + +Não te disse que Violante não podia ser tua? + +D. MENDO + +Que hei-de fazer? + +FR. BERMUDO + +Esquecel-a... se fôr possivel. + +D. MENDO + +Não, não... não posso... não é possivel. + +FR. BERMUDO + +Pobre de ti, que a amas tambem! + +D. MENDO + +E ella?... Se morrer, meu Deus! + +FR. BERMUDO + +A sua alma é pura... é um anjo, os anjos a esperam...--Que morra ao +menos com o seu amor: que morra, amando-te. Odiar-me-ha a mim... mas que +importa? Esse odio fará mais miseravel ainda quem do mundo +só conheceu os amargores. Que importa? + +D. MENDO + +(_Chorando._) Que padecimento!... Que martyrio!... Maldita a vida, em +que ha tanta dor, e tanta miseria!....--Oh! A minha felicidade, as +minhas esperanças eram um escarneo cruento!... A maldição de meu pai +caiu sobre mim, e tornou arido, e deserto o meu coração!... Deus criou o +homem por escarneo... + +FR. BERMUDO + +(_Pondo-lhe a mão na boca._) Calla-te, não blasfemes. + +D. MENDO + +(_Abatido._) Não... não devo blasfemar porque vou morrer. + +FR. BERMUDO + +Não percas assim o animo, homem.--A alma é infinita nas suas forças, +inexgotavel nas suas consolações: quando parece já extincta de todo, +acorda, toma alento, levanta-se, e fica forte como d'antes. + +D. MENDO + +A minha morreu de todo! + +FR. BERMUDO + +Ha homens que teem padecido tanto... muito mais do que tu, e que soffrem +ainda estes tormentos da existencia. Em quanto a alma póde ter amor ou +odio, vive. É a extinção das paixões, que é a morte. O nada é que o +espirito não póde suportar. O homem crê na sua propria immortalidade, +porque quando o corpo está a ponto de destruir-se, a alma ainda conserva +o pensamento, e as paixões. Tens a gloria ainda, Mendo. Tens a fé... + +D. MENDO + +Essa!... Não sei... (_Pauza._) Tenho fé, tenho. + +FR. BERMUDO + +Tens um allivio, uma esperança--então bemdicta seja ella.--Deixa-me para +mim essa tua vingança, Mendo. Violante odiar-te-hia, e morreria na +desesperação, se tu lhe assassinasses seu pae. + +D. MENDO + +(_Dando-lhe o punhal._)Ahi tens esse punhal... É um presente maldicto, +esse que te dou. + +FR. BERMUDO + +(_Beijando o punhal._) Este sangue, este sangue!... Oh! Chegou a hora +que já foi tão desejada, e que tão temida é agora! (_Á parte._) Terei eu +n'este solemne momento o poder que até hoje me tem falecido?--Irmão, meu +irmão... É por teu filho este sacrificio! Pede a Deus que me dê forças, +meu irmão! + +D. MENDO + +Que tens? + +FR. BERMUDO + +(_Tranquillo._) Ámanhã teu pai estará vingado. + +D. MENDO + +Violante!... Violante orphã, só, e desgraçada...--Desgraçado de mim! + +FR. BERMUDO + +E eu, maldicto por ella! Vou pedir a Deus que me perdoe, e que me +inspire... Sou fraco, sou um um fraco (_Entra para a capella do fundo, e +vae ajoelhar deante do altar_). + + +SCENA VIII + +_D. Mendo, e depois D. Affonso, D. Violante, D. Pedro Framariz, Damas, e +Cavalleiros da Côrte_ + +D. MENDO + +E eu tambem, já nem tenho alento para viver!--Ó minha fé, minha fé, +accende-te nesta alma, para que eu possa supportar este lanço terrivel. + +D. AFFONSO + +(_Entrando._) D. Mendo Paes, venho cumprir o que vos prometti, no dia da +victoria. (_Aos cavalleiros._) Pedimos agora, e obtivemos de D. Pedro +Framariz rico-homem, e filho d'algo do nosso reino, a mão da sua filha +D. Violante, para o muito nobre cavalleiro D. Mendo Paes. + +D. MENDO + +Não posso acceital-a... não posso!... (_Cahindo de joelhos._) +Violante!... Perdão!... + +D. VIOLANTE + +(_Desmaiando._) Mendo! + +D. AFFONSO + +O que se oppõe a este casamento, Mendo? O que se oppõe á tua felicidade +agora? + +FR. BERMUDO + +(_Á porta da capella apontando para o altar._) A vontade do céu. + + +FIM DO 3.º ACTO. + + + + +ACTO QUARTO + +_A cella de Fr. Bermudo no mosteiro de Mumadona. Alguns instrumentos de +alchimia, livros e pergaminhos etc. Uma porta do lado direito; outra ao +fundo deitando para um pequeno oratorio, em que se vê uma cruz com +toalha; uma janella do lado esquerdo. É noite, uma lampada alumia a scena._ + + +SCENA I + +_Frei Bermudo (Só.)_ + +FR. BERMUDO + +(_Olhando para o céu pela janella aberta. Ouve-se do interior do theatro +uma harmonia solemne ao longe, fazendo apenas um murmurio brando._) Os +espiritos superiores caminham invisiveis por entre os astros. +Accompanham-os essas harmonias infinitas das constellações, que os +sentidos imperfeitos dos habitantes da terra não podem ouvir, mas que a +rasão atrevida ousa advinhar e comprehender. Caminham pelo céu os +espiritos invisiveis, e no seu rapido vôo vão escrevendo com as +estrellas os destinos dos homens. Quem póde lêr claramente essas +phrazes, que duram um instante apenas, que são ephemeras como a +existencia do homem, essas phrazes escriptas n'uma lingua de que os +astrologos conhecem apenas algumas palavras soltas? Quem póde duvidar de +que no ceu se escreve a historia do futuro de cada homem? Quem póde +duvidar?... Eu, eu mesmo duvido. O orgulho talvez seja o creador da +astrologia. Pois o homem merece que os espiritos superiores +escrevam o seu destino? O que sabemos nós todos? Sabemos até onde chega +a nossa ignorancia e nada mais.--O homem, em vigilias longas e +virtiginosas, gasta a vida, séca a intelligencia, destróe a fé e a +pureza de espirito, mas não penetra o segredo d'essas palavras, lançadas +no céu pelos poderes da natureza. (_Pauza._) Caminha, ó minha pallida +estrella, caminha... caminha astro de funebre agouro; que em breve +marcarás a hora mais fatal da minha existencia.--(_Longa pausa; calla-se +a orquestra_). Hoje maldicto... hoje serei amaldiçoado por +Violante.--Tomei para mim esta tremenda vingança... heide ser eu o +assassino de D. Pedro, do pai de Violante.--Se ao menos esta vingança +podesse apagar da memoria de todos o crime de D. Pedro Framariz, depois +o meu querido Mendo, e a pura Violante podessem ser felizes!--Ai! Que +dôr será a desses desventurados agora que sabem já o tremendo poder que +os separa!... Que vida, que existencia esta minha!... Um abismo... é um +abismo a minha alma! Um abismo onde não houve nunca senão tres paixões.. +a amizade, a vingança, o amor. Uma amizade sancta, profunda, unica, +exclusiva. Um desejo de vingança frio, lento, sem enthusiasmo, como se +houvera nascido no coração de um cadaver. Um amor... um amor que pode +fazer esquecer a vingança... que pode esquecer-se a si proprio para só +desejar a felicidade d'aquella a quem se consagra.--Ó Violante... +quero-te tanto, que vou buscar o teu odio, para que tu não odeies o +homem que te captivou o coração. (_Silencio; ouve-se de novo a orquestra +muito longiquamente até ao fim do monologo._) Se nesses livros, onde +homens orgulhosos escreveram o que elles chamavam a sua +sciencia, eu podesse descobrir o segredo de Deus!... Se eu podesse criar +um talisman que subjugasse o destino!... Se eu tivesse pelo poder do +pensamento, e pela grandeza da vontade, força para desfazer o passado! +Ambição!... orgulho!... loucura! O passado não pertence já a nenhum +poder, nem mesmo ao poder infinito de Deus! Quizera ao menos ver um +desses espiritos superiores, para lhe fallar, para saber delle os +mysterios do material e do immaterial... (_Com abatimento._) para saber +quando ha de acabar este padecer, esta minha vida. + + +SCENA II + +_Fr. Bermudo e D. Violante_ + +D. VIOLANTE + +(_Entrando toda vestida de branco._) Fr. Bermudo. + +FR. BERMUDO + +Um espirito... um anjo... falla... falla... + +D. VIOLANTE + +Fr. Bermudo, escutae-me. + +FR. BERMUDO + +Violante! aqui! + +D. VIOLANTE + +Vim para vos pedir a paz... o repouzo, o que só me póde salvar, o que +vós só me podeis dar. + +FR. BERMUDO + +(_Baixo._) Que sinto, meu Deus?... Que dor, e que alegria me dilaceram +aqui o peito?... (_Alto._) Dizei, sr.ª D. Violante, que quereis de +mim? + +D. VIOLANTE + +Venho pedir-vos...--Escutai-me. Já sei tudo, conheço o que para sempre +me separa de Mendo. Sei que esse que para mim era a alegria e a vida +perdi-o para sempre... e talvez que nem por elle seja amada já; eu a +filha do homem que...--Horrenda idéa!--Perder uma felicidade tão grande, +assim de repente, é uma dor com que não pode este coração--Fr. Bermudo, +sois forte, tendes uma alma superior a estas fraquezas do mundo... A +minha alma não é assim. Uma pobre mulher, como eu, tem um espirito +fraco, e que não pode resistir á dor extrema... + +FR. BERMUDO + +Que quereis... que quereis de mim, D. Violante? + +D. VIOLANTE + +Quero o que não me dareis talvez. Mas estou resolvida... Nada me pode +fazer mudar de resolução, porque não é a vontade que me impelle, é o +desalento; não é a força, é um abatimento desanimador; não é a +desesperação é a esperança de acabar com um martyrio com que não posso. + +FR. BERMUDO + +Assustam-me essas palavras! + +D. VIOLANTE + +A vida é impossivel assim.--Fr. Bermudo, estou decidida a morrer. + +FR. BERMUDO + +Violante... Que dizeis? + +D. VIOLANTE + +Mendo acabou, morreu para mim..--E sem luz, e sem alivio, que vida seria +esta minha!?--Uma existencia nas trevas, sem esperança nem +consolação. + +FR. BERMUDO + +Como tem sido sempre esta minha... Perdão, D. Violante.--Que vos +importam a vós os meus padecimentos? + +D. VIOLANTE + +(_Com alegria._ ) Sabeis o que é uma dôr, dessas que matam? Julgava +encontrar em vós um ente superior aos homens, e tinha medo. Mas agora... +posso fallar-vos da minha dôr, pedir-vos... a morte, que desejo, que +espero; porque é a paz para o coração. + +FR. BERMUDO + +Tende animo, paciencia, resignação; se o mundo se fechou para vós, +ficavam-vos abertas as portas da igreja, onde ha consolações para todos. + +D. VIOLANTE + +A oração é consoladora; a fé póde dar allivío ás grandes magoas; mas +para orar é preciso pensar em Deus, para ter fé, é preciso força na alma +e eu só penso em Mendo, e na minha alma não ha senão desalento. + +FR. BERMUDO + +Mendo tambem vos amava muito; e daqui a horas fará voto, na ordem dos +Templarios, de consagrar a vida ao serviço de Jesus-Christo. + +D. VIOLANTE + +Mendo é homem, tem força no coração. A dôr--bemdicto seja Deus!--não lhe +matou a alma, como a mim.--Olhae, fr. Bermudo, eu já não posso viver, e +a morte não me faz horror, antes a amo, e a desejo. Mas o que me assusta +é a dôr; é a idéa de me sentir rasgar o coração com um ferro, ou ficar +dilacerada ao deitar-me n'um precipicio, que me repugna.--São isto +sentimentos que um homem como vós, de coração forte, não +póde comprehender talvez! + +FR. BERMUDO + +Eu comprehendo, e respeito esses sentimentos.--As obras de Deus, a +belleza e a graça, só a mão sacrilega de um barbaro as póde destruir sem +horror. + +D. VIOLANTE + +Não seria possível alcançar, por um desses venenos que a sciencia tem +descoberto, uma morte, sem dôr, e sem agonia? + +FR. BERMUDO + +Ha... talvez. + +D. VIOLANTE + +Fr. Bermudo, é um desses venenos, que eu venho pedir-vos. + +FR. BERMUDO + +Eu... pois eu hei-de dar-vos a morte? + +D. VIOLANTE + +Não é a morte, é a paz; é o termo desta dor infinita, que me dilacera. +Por piedade dae-me esse veneno... senão, irei buscar a morte n'um +precipicio, ou n'um punhal. + +FR. BERMUDO + +(_Meditando._) Tem rasão... Tendes rasão, Violante. E hei de ser quem +lhe dê a morte... Eu que a amo! + +D. VIOLANTE + +(_Com horror._) Que dizeis?... Vós!... (_Querendo fugir._) Virgem Maria! + +FR. BERMUDO + +(_Detendo-a._) Ficae, Violante, ficae.--Este amor é como a vaga +esperança, o suave pressentimento, a doce attração que a alma tem para +as bellezas do ceu. + +D. VIOLANTE + +Não sou eu só a padecer no mundo, meu Deus!--Se esse amor é, como +dizeis, triste, e sem esperança, como é agora a minha existencia, deveis +intender, fr. Bermudo, o padecer, a angustia da minha alma; e não +podeis, não deveis recusar-me o que vos pedi. + +FR. BERMUDO + +O suicidio é um crime, Violante. + +D. VIOLANTE + +Antes o suicidio do que renegar a Deus... E esta dor far-me-ha duvidar +da misericordia divina. + +FR. BERMUDO + +Um crime, que Deus, não perdôa, talvez. + +D. VIOLANTE + +Deus tudo póde perdoar, porque a sua bondade é superior a todos os +crimes dos homens.--Não me deixeis mais tempo neste martyrio! Fr. +Bermudo, pela minha alma, por esse amor, por esse vosso amor, que é tão +puro e tão sublime, vos peço a paz. Quero morrer, sem uma longa, sem uma +dolorosa agonia. + +FR. BERMUDO + +(_Dando-lhe um dos frascos que tem sobre a meza._) Aqui tendes um penhor +do amor... do amor, que morreu já.--Agora acabou tudo para nós... acabou +tudo para mim! + +D. VIOLANTE + +(_Pegando no frasco._) É a paz que me daes.. Irei esperar por elle no +ceu!... Deus hade perdoar-me este crime Padre, não reveleis este segredo +a ninguem. + +FR. BERMUDO + +Não.--É meu. (_D. Violante vae para sahir._) + +FR. BERMUDO + +(_Com anciedade._) Violante, não me direis ao menos uma palavra?! + +D. VIOLANTE + +Deus vos dê o descanço da morte. (_Sáe._) + + +SCENA III + +FR. BERMUDO _(só)_ + +O descanço da morte...--Porque não tenho eu ousado buscal-o já, para pôr +termo a esta agonia do espirito, em que ando ha dez annos?--Não sei que +poder me prende á vida. É medo... é medo do segredo, que se esconde além +do sepulchro. + + +SCENA IV + +_D. Mendo e Frei Bermudo_ + +D. MENDO + +Aqui estou, Fr. Bermudo. Venho já para ficar no convento, até me haver +separado do mundo, professando na ordem dos templarios. + +FR. BERMUDO + +Mendo!... Encontraste?... + +D. MENDO + +Ninguem. Vim pela porta do campo, para não ser visto. Na igreja está +tudo preparado para a minha profissão, não é verdade? Estou com desejo +de professar, para sentir quebrados todos os laços que me prendem ao +mundo. (_Pausa_) Ella como ficou? Vistel-a?--Eu fugi porque não +podia... + +FR. BERMUDO + +Está mais socegada já. + +D. MENDO + +Pobre Violante!--El-Rei? + +FR. BERMUDO + +Mandou elle proprio preparar tudo aqui no mosteiro para a tua profissão. + +D. MENDO + +Disseste-me que Violante estava mais socegada, que já não padecia tanto? +Bemdicto seja Deus. (_Pauza._) Ai! quem sabe se ella se esquecerá de mim!? + +FR. BERMUDO + +Esquecer-se de ti?!... talvez; se o pensamento tambem morre. + +D. MENDO + +E se ella me esquecesse, e se amasse outro, que desesperação não seria a +minha! + +FR. BERMUDO + +E é assim que este homem paga tanto amor! Duvidando della! + +D. MENDO + +Que dizes? + +FR. BERMUDO + +Digo, que não comprehendes o amor, que póde conter um coração de homem; +que não sabes o que é uma paixão, que destroe, que devora a existencia, +que está sempre no fundo da alma, inabalavel e tremenda, dominando o +pensamento, matando o desejo, e seccando a esperança, digo... que não +comprehendes esse amor. + +D. MENDO + +Frade, tu amas Violante? Tu... + +FR. BERMUDO + +Amo-a, sim; mas não receies deste amor, que nasceu n'um +templo, e irá esconder-se debaixo da terra. Amo-a e ouso... e sinto +alegria em fallar deste amor, porque chegou a hora do soffrimento, o +instante do martyrio. + +D. MENDO + +Fr. Bermudo, amas Violante? Não repitas essas palavras desvairadas... + +FR. BERMUDO + +Nenhum de nós tem já direito de amar, porque para ti, e para mim este +amor é um crime. (_Pausa._) Este meu não, que me salvou a alma... que eu +sentia perder pelo descrer. Quando ao atravessar o deserto, para ir ao +Santo Sepulchro do Redemptor, cahi sobre as areias ardentes, quasi morto +pela sede... um anjo me appareceu e me salvou... Em Violante, encontrei +depois a imagem do meu Anjo Redemptor: é a mesma fronte pallida do anjo +é o mesmo sorriso meigo e triste, o mesmo olhar celeste e candido... a +mesma voz... Oh! mas a alma dessa mulher é mais pura do que os espiritos +do ceu Amei-a! Amei Violante. + +D. MENDO + +(_Chorando._) Meu Deus, tende piedade de mim! acabae com esta dôr!... +matae-me! + +FR. BERMUDO + +Quando a voz da fatalidade, troando nos espaços, pronuncia a sentença, +que nos condemna, devemos escutal-a, e ter resignação. + +UM MONGE + +(_Apparecendo á porta da esquerda._) Fr. Bermudo, está á porta do +mosteiro uma penitente, que vos deseja fallar. + +FR. BERMUDO + +Conduzi-a aqui, irmão. (_O monge sae._) Mendo, vae orar por nós ao +Senhor. + +D. MENDO + +Ficarei ali a fazer penitencia, até que me venham buscar, para ir fazer +profissão na igreja. É tarde já; d'aqui a poucas horas é manhã. + +FR. BERMUDO + +(_Levando-o ao oratorio do fundo._) Espera aqui, em quanto vou saber o +que me quer essa mulher. (_D. Mendo entra no Oratorio. Frei Bermudo +fecha a porta._) + + +SCENA V + +_Fr. Bermudo e D. Gontrade_ + +D. GONTRADE _(Coberta com um véo negro.)_ + +Padre, estás disposto a ouvir a ultima confissão de uma grande peccadora? + +FR. BERMUDO + +Aquelles que, como eu, se votaram ao serviço de Deus, não negam nunca as +suas consolações aos que padecem. Mas aqui? + +D. GONTRADE + +Se as consolações da religião podem fazer esquecer os remorsos +profundos, e as infinitas saudades, eu preciso dellas já. + +FR. BERMUDO + +Porque me não mandastes chamar, senhora; iria eu, como é do meu dever, +ter comvosco. + +D. GONTRADE + +Saberieis então quem eu sou; e o que vou confessar-vos interessa a honra +de uma familia nobre. Posso dizer-vos o meu crime, mas devo esconder-vos +o meu nome, para que não recaia sobre outros a deshonra, com que esse +crime manchou um nome illustre.--Padre, remorsos ha que não podem ter +fim... nem talvez com a morte... + +FR. BERMUDO + +Com o arrependimento e a fé podem apagar-se da alma muitos pensamentos +tenebrosos; muitos martyrios podem ter fim. + +D. GONTRADE + +Mas Deus perdoará sempre á peccadora, que se arrepende? + +FR. BERMUDO + +Talvez; que a sua misericordia é infinita. + +D. GONTRADE + +Escutae-me então, padre, e pedi a Deus que seja misericordioso comigo; +porque me sinto morrer, e vou ser julgada no tribunal supremo. + +FR. BRMUDO + +(_Áparte._) Esta voz!... Esta voz é de D. Gontrade; Que vou eu ouvir, +meu Deus! (_Assentando-se._) Dizei. + +D. GONTRADE + +(_Ajoelhando._) Dae-me forças Senhor! (_Pausa._) Padre, eu era feliz, +quando um nobre cavalleiro de Portugal me offereceu a sua mão, e o seu +nome.--Não se póde amar com mais amor, não se póde querer mais da alma, +sacrificar mais por uma mulher, do que esse homem o fez por mim!! Ouvi +como eu lhe paguei tanto amor! As guerras do Conde D. Henrique com os +moiros chamaram-no para longe de mim: fiquei só em quanto elle peleijava +por essas terras distantes. Passaram mezes, sem que eu houvesse novas de +meu marido. Um dia, estava eu assentada no eirado de minha casa, lancei +os olhos ao campo, e vi vir ao longe um cavalleiro, seguido de muitos +homens d'armas, julguei que fosse elle, e corri a recebel-o. Foi a +ultima alegria que tive. Quando o cavalleiro se aproximou... conheci que +não era quem eu desejava. Perguntei-lhe, se pelas guerras em +que andára vira meu marido... respondeu-me, que expirára n'um recontro +com os moiros, peleijando como um heroe; assegurou-me que todo o +exercito, e elle mais que todos havia chorado muitos prantos sobre a sua +sepultura. Mais de um mez chorei a morte de meu marido, com uma dôr +amarga e sincera. Mas a minha alma era fraca; não sabia soffrer. Depois +do pranto vieram as saudades; depois as consolações; e depois o amor por +esse mesmo homem, que me havia trazido a fatal nova. + +FR. BERMUDO + +(_Com muita anciedade._) E vosso marido!? + +D. GONTRADE + +(_Continuando._) Passei alguns dias no delirio do crime, sem remorsos, +sem arrependimento; por que amava de coração, e julgava ser amada. Esses +dias foram para mim como um sonho, hoje apparecem-me como um espectro. + +FR. BERMUDO + +E o acordar desse sonho?... + +D. GONTRADE + +N'uma noite, estava eu com esse homem, entregue a esse enlevo d'alma em +que se escondia um crime tremendo, quando ouvi um ruido estranho por +toda a casa, senti, por um pressentimento subito o frio da morte +correr-me pelas veias. Era meu marido que voltava da guerra. + +FR. BERMUDO + +E então?... + +D. GONTRADE + +Então vi apparecer diante de mim, que havia quasi perdido a razão, um +homem ameaçador, e tremendo, o rosto pallido, os olhos ardentes, a mão +armada. Apoderou-se de mim a vertigem... Ouvi um grito de agonia, que me +gelou... e depois, o baque de um corpo em terra. + +FR. BERMUDO + +E esse que morreu, era... + +D. GONTRADE + +Meu marido--Nessa hora consumou-se o meu crime, nessa hora começou o +castigo! O homem, que me enganou, abandonou-me naquella dôr. + +FR. BERMUDO + +(_Levantando-se com horror._) Oh! maldicta de Deus!... estás maldicta, +mulher!... + +D. GONTRADE + +(_Levantando-se e deixando cair o veu que lhe esconde o rosto._) Não é +verdade que sou uma mulher miseravel?... Não é verdade que sou maldicta +de Deus? Que a misericordia do Senhor não é bastante para tão negro +peccado?... + +FR. BERMUDO + +Queres alcançar perdão para esse crime? + +D. GONTRADE + +Deus de misericordia! + +FR. BERMUDO + +Pede primeiro perdão áquelles que offendeste, e que estão nesta hora +padecendo por tua causa. (_Abrindo a porta do fundo a que apparece D. +Mendo._) Irmão, perdoas áquella mulher a morte de teu pae? + +D. MENDO + +Minha mãe... + +D. GONTRADE + +(_Caindo por terra._) Meu filho!... perdoa-me. + +D. MENDO + +Perdôo. + +FR. BERMUDO + +Mendo perdoou-te a morte de seu pae; e eu, D. Gontrade, perdôo-te a +morte de meu irmão! + +D. GONTRADE + +Meu filho!.. O irmão de meu marido!... (_Caindo com a fronte por +terra._) Justiça eterna! + + +FIM DO 4.º ACTO. + + + + +ACTO QUINTO + +_Uma casa vasta, de abobada de volta abatida, apparencia triste e +arruinada. Ao fundo porta em arco, por onde se vê uma parte de um +clausto. Á direita uma porta, á esquerda um grande crucifixo, sobre um +altar de pedra tosca, objectos proprios para uso da igreja. A luz dos +primeiros raios do sol entra já por uma pequena fresta alta, e pelo +fundo, mas a scena está ainda alumiada por dois brandões, seguros por +braços de ferro, defronte do altar._ + + +SCENA I + +_D. Mendo (coberto de armadura, ajoelhado.) Um templario._ + +O TEMPLARIO + +Daqui a uma hora estará tudo prompto. + +D. MENDO + +D. Guilherme virá tambem? + +O TEMPLARIO + +O grão-mestre dos templarios vem assistir á vossa profissão, D. Mendo. + +D. MENDO + +E el-rei? + +O TEMPLARIO + +El-rei tambem. D. Affonso quer-vos muito; tem mostrado grande interesse +por vós. + +D. MENDO + +Meu bom, meu excellente principe! E fr. Bermudo, esse não póde +demorar-se. Já me vae tardando. + +O TEMPLARIO + +Vou á igreja saber em que estado estão os preparativos para logo. + +D. MENDO + +Pois ide irmão; que eu aqui fico só, a pedir a Deus que me não abandone. + +O TEMPLARIO + +Quereis alguma cousa mais? + +D. MENDO + +Nada. (_O Templario sáe._) + + +SCENA II + +D. MENDO (_SÓ._) + +D. MENDO + +É manha já, e Fr. Bermudo sem voltar! Sem me trazer uma palavra della +para me dar força! Elle que me prometteu voltar cedo, logo que lhe +fallasse! Ama-a, Fr. Bermudo tambem a ama! Quem sabe se nesta hora mesmo +de suprema dor, elle ainda tem ciume dos seus prantos, e m'os quer +roubar?!--O sangue delle é o meu sangue; é o irmão de meu pae; não póde +ser traidor.--Para que quero eu mais ouvir fallar della? Que pode agora +haver de commum entre nós ambos? A dor, a dor que é o mais intimo laço +que póde existir entre dois corações que se amam. Fr. Bermudo não chega, +meu Deus; e nem uma palavra consoladora de Violante me vem dar alento +nesta tristeza, nesta solidão do espirito. Fr. Bermudo!... Violante... +oh! estes dois nomes encontram-se ás vezes nesta lide maldita do meu +pensamento, e esse encontro faz-me gelar toda a fé, mata-me toda a +força... Se em mim ha força ainda: que não ha... não ha de certo. Eu já +não vivo, que me senti morrer corpo e alma, quando de todo me vi +separado della. Até aquella agitação convulsiva da desesperação acabou +em mim... Já não tenho odio... e nem sei mesmo se ainda tenho amor! +(_Pausa._) Morri de todo e para sempre. + + +SCENA III + +_D. Mendo, e fr. Bermudo_ + +FR. BERMUDO + +Não percas assim o animo, Mendo. + +D. MENDO + +Bermudo!... E ella?! + +FR. BERMUDO + +Sempre a mesma. + +D. MENDO + +Tem padecido muito?... + +FR. BERMUDO + +Tem... muito. + +D. MENDO + +E tem fallado de mim? Tem-se lembrado... do que já acabou. + +FR. BERMUDO + +É um anjo, que não sabe senão amar; que não póde esquecer o seu amor. + +D. MENDO + +Olha... diz-me a verdade... que quer ella fazer! + +FR. BERMUDO + +Não t'o posso dizer... Sei só, que nunca baixou á terra alma, que mais +soubesse sentir, alma capaz de maiores sacrificios! + +D. MENDO + +Conta-me o que se passou. Vistel-a? Que te disse? + +FR. BERMUDO + +Quando ha uma hora sai daqui fui logo direito á pousada de +D. Pedro Framariz. Procurei a aia de Violante, que me levou ao oratorio, +onde esta se fechára... para pedir, o que a todos nós vae faltando... +forças para padecer. + +D. MENDO + +E Violante estava... + +FR. BERMUDO + +De joelhos, pallida, immobil, com os olhos erguidos ao ceu, o corpo +dobrado pelo peso da dor, a boca semi-aberta como se a oração ao sair já +fria e sem alento n'um ultimo suspiro, se lhe houvera petrificado nos +labios. + +D. MENDO + +Morta?... + +FR. BERMUDO + +Morta, não. Violante estava viva ainda; sem dar quasi outro signal de +vida, a não ser o lento baixar dos olhos sobre mim, e o murmurar +baixinho das palavras; n'uma voz suave e angustiosa, Violante +perguntou-me o que eu ia alli fazer? Se eu, se alguem ainda se lembrava +della? + +D. MENDO + +Se me lembrava della? + +FR. BERMUDO + +Fallei-lhe só de ti, porque só assim me quereria ouvir. Que dor a da +pobre Violante! E não ha, não ha remedio, para dores, como aquellas... +Oh! os homens que teem descoberto tanto segredo da materia, não poderam +comprehender ainda nem um dos mysterios do espirito, não poderam ainda +curar nenhuma dessas enfermidades agudas, a que chamam paixões.--São +tudo sonhos, são tudo illusões na terra; mas sonhos, mas illusões, que +matam. + +D. MENDO + +A desgraça é uma realidade! + +FR. BERMUDO + +(_Tranquillo_). Escuta.--A desgraça é uma provação da alma, que a deve +robustecer; que lhe deve dar essa grandeza, signal da sua immortalidade. +É tempo de voltar para o ceu esses teus pensamentos, que ainda não +soubeste desprender das cousas mundanas.--Daqui a uma hora professarás. +É necessário, filho, que o novo cavalleiro do templo seja digno do seu +elevado ministerio, esteja pela fé á altura destes tempos de dura +provação, de lucta permanente porque a igreja de Christo está passando +neste seculo. + +D. MENDO + +Não posso, Fr. Bermudo, parece-me que não posso pensar senão em +Violante. Mas vou ver se pela oração comsigo elevar a minha alma até +essas alturas sublimes, donde se perdem de vista as miserias do mundo. +(_Vae lentamente ajoelhar diante do altar._) + +FR. BERMUDO + +E se elle conhecesse, como eu, toda a grandeza, da nossa desventura! Se +elle estivesse nesta duvida tremenda, em que o meu espirito vacilla +agonisante; ora persuadido de que cumpria um dever, ora aterrado pelo +mais cruel remorso, que homens tem sentido!--Violante ainda vive, mas +daqui a uma hora...--Eu devo ir arrancar-lhe das mãos aquelle veneno; +para que ella não morra! Mas que importa?... Ella quer morrer, e bem sei +que vontades poderosas, resoluções firmes como a sua não as vence nem a +persuasão, nem a força!--Ainda ha pouco lhe fallei, lhe pedi pelas +cousas mais sagradas da terra, e do ceu, pelo amor e pela +religião, que não cedesse á triste tentação que a arrasta, á fascinação +que a cega... respondeu-me só que amava e queria morrer pelo seu amor. +(_Neste instante entra Violante pela direita, e aproxima-se de Fr. +Bermudo, sem que D. Mendo a veja._) + + +SCENA IV + +_Os mesmos, D. Violante._ + +D. VIOLANTE + +Fr. Bermudo. + +FR. BERMUDO + +Violante! + +D. VIOLANTE + +Eu não podia morrer sem o ver uma vez ainda... por isso vim. É um +instante; o tempo de lhe dizer que ainda o amo. + +FR. BERMUDO + +Mas agora, se viessem os templarios, os cavalleiros, Violante... + +D. VIOLANTE + +Em elles vindo, vou-me eu. Não me verão. Ide, Fr. Bermudo, deixae-me um +instante só com Mendo. + +FR. BERMUDO + +É tornar ainda mais angustiosa esta horrivel separação... + +D. VIOLANTE + +Eu tenho forças; sinto em mim uma força sobrenatural. Ide--Deixae-nos. + +FR. BERMUDO + +(_Áparte._) Ainda mais esta dor, meu Deus! + + +SCENA V + +_D. Violante, D. Mendo--no fim Fr. Bermudo_ + +D. VIOLANTE + +(_Com muita doçura._) Mendo, Mendo... não me sentes aqui, Mendo? + +D. MENDO + +(_Que escutou um instante a voz de Violante, e depois se voltou +subitamente, e a viu--indo para ella._) Violante! Minha Violante!--Então +esta dor, esta separação, era tudo um engano.--Estás aqui, minha +Violante!!.. + +D. VIOLANTE + +Estou aqui para te dizer adeus para sempre; para te pedir que perdoes... + +D. MENDO + +Perdoar... o que, o que hei de eu perdoar? + +D. VIOLANTE + +Fui eu que te fiz infeliz com o meu amor.--Mas não sabia, Mendo, +eu não conhecia essa tenebrosa historia--Perdoa-me... perdoa a +meu pae tambem. Eu não quero, não posso ficar com um remorso destes +na consciencia.--Quero morrer em paz. + +D. MENDO + +Morrer? + +D. VIOLANTE + +Sim, quando eu morrer, quando for a vontade de Deus que esta minha vida +tenha fim, não quero que venha um pensamento funebre, a idéa de um crime +não perdoado perturbar a minha ultima oração.--Quem sabe se Deus me +perdoará? + +D. MENDO + +Quem te não ha de perdoar? O que ha que perdoar a um anjo tão puro como tu? + +D. VIOLANTE + +Mendo, eu bem sei que a honra da tua familia foi offendida: e que ha +offensas que um cavalheiro da tua linhagem não deve deixar sem +vingança... É assim que pensam os homens; mas Deus condemnou a vingança +como um crime abominavel: e tu, Mendo, daqui a pouco vaes professar +n'uma ordem, instituida para servir a Deus.--Mendo, pela religião... e +pelo nosso amor que foi deixa-me fallar-te ainda uma vez desta +felicidade que já passou--pelo nosso amor tão suave para mim, e para ti +tambem, Mendo, peço-te por esse amor que perdoes, que esqueças, que te +não vingues do pae da tua Violante. + +D. MENDO + +Violante, eu... sabes como te amei, sabes como te quero ainda; que esta +separação não é angustia só, é a morte para mim!--Escuta, minha +Violante.--Não sei se meu pae me amaldiçoará da sepultura; mas faz-me +horror a idéa de odiar teu pae; e vingar-me delle por minhas mãos, não o +hei-de fazer nunca. + +D. VIOLANTE + +E perdoas-lhe? + +D. MENDO + +(_Depois de uma pauza._) Perdôo. + +D. VIOLANTE + +Bemdicto seja Deus, que me dá esta consolação n'uma tão grande dor? + +D. MENDO + +Minha mãe é que lhe não perdoa. + +D. VIOLANTE + +Era o teu perdão, que eu desejava, Mendo. Não podia supportar a idéa +que, entre ti e meu pae, se levantasse esse livido e sangrento espectro +da vingança.--E a mim tambem me perdoas? Se ainda, por minha causa, +padeceres uma grande dor, perdoas-me? + +D. MENDO + +Não te perdôo só, amo-te... hei de amar-te sempre, hei-de de morrer +amando-te. + +D. VIOLANTE + +Deus não ha de ser menos misericordioso do que tu.--Mendo, ainda havemos +de ser felizes! + +D. MENDO + +Ai, não póde, isso não póde ser. Felizes, nunca. + +D. VIOLANTE + +N'outro tempo, n'outro logar; longe deste tenebroso mundo, muito longe +destas paixões da terra, havemos de ser felizes.--Eu vi, Mendo, esta +noute antevi a nossa felicidade futura.--Era um paraiso. (_Ouve-se uma +musica de orgão e um coro, muito ao longe até ao fim da scena._) Um +campo todo de flores maravilhosas, com um perfume inebriante; um lago +coberto de diamantes, de uma serenidade e formosura sem igual no mundo; +sobre o lago nuvens, em que o ouro e a purpura se misturavam com a luz +rosada da mais bella aurora; e do ceu resplandecente, scintilante, +baixavam, fluctuando brandamente, anjos que vinham pousar sobre as +graciosas nuvens. Depois, vozes sobrenaturais as vozes dos anjos em +divino coro, pediam a Deus pela nossa felicidade; e o meu e o teu nome, +Mendo, subiam assim até ao throno do Eterno. + +D. MENDO + +Foi um sonho, e o sonho até se póde realisar. + +D. VIOLANTE + +Não foi sonho, Mendo, foi uma visão celeste, uma divina promessa. +Naquella hora tudo eram puras alegrias diante de mim; e no meu coração +tudo eram orações fervorosas, e ardentes esperanças. + +D. MENDO + +Que esperanças podemos nós ter ainda? + +D. VIOLANTE + +Deus quer a nossa união, apesar dos agoiros, das negras paixões, dos +crimes, das vinganças dos homens.--Na terra não podemos ser unidos, +sel-o-hemos no ceu! + +D. MENDO + +E quando, quando, minha Violante, terão fim estas angustias do existir? +Violante, amo-te; nesta hora amo-te mais do que nunca te amei. E é +agora, que nos vamos separar para sempre! Esta deve ser a unica vez, que +nos vejamos; estas devem ser as nossas ultimas palavras de amor. Amo-te, +amo-te, Violante. + +D. VIOLANTE + +O amor mata, aqui na terra; mas no ceu é a eterna alegria.--Mendo, +deixa-me repetir tambem essas palavras, em que se resume a minha vida +toda!--Amo-te, amo-te. + +FR. BERMUDO + +(_Aparecendo á porta do fundo._) Os cavalleiros do templo já estão +reunidos na igreja. + +D. MENDO + +Violante! + +D. VIOLANTE + +Mendo, adeus!--Adeus para sempre! (_Cae nos braços de D. +Mendo beija-o, e sae correndo pela porta da direita._) (_Ouve-se depois +a voz de Violante, já fóra de scena repetindo, « Adeus!.... +adeus!»_)--(_A musica do orgão acaba logo depois._) + + +SCENA VI + +_D. Mendo e Fr. Bermudo_ + +FR. BERMUDO + +(_Detendo D. Mendo._) Deixa-a ir só. + +D. MENDO + +Quero vel-a... Não me posso separar della ainda. + +FR. BERMUDO + +De que te serve prolongar por mais tempo esta angustia? O momento mais +doloroso passou para ella, já agora: e daqui a um instante vir-te-hão +buscar os templarios. + +D. MENDO + +Mas deixal-a assim!--Bermudo, aquelle adeus foi um como grito de extrema +dôr, que me aterrou. Naquelle sonho de felicidade, naquellas esperanças +de alegria de Violante, havia não sei o quê de sinistro, como a morte. +Naquelle espirito angelico ha um pensamento de crime, ha naquella alma a +presciencia do remorso. + +FR. BERMUDO + +Deixa-a morrer com o seu sonho do ceu. + +D. MENDO + +Morrer! + +FR. BERMUDO + +A morte é o termo do padecer. + +D. MENDO + +Que dizes? + +FR. BERMUDO + +A alma de Violante é já de um outro mundo, o seu corpo em breve será dos +elementos. + +D. MENDO + +Meu Deus! Que quer isso dizer? Não posso comprehender. + +FR. BERMUDO + +Uma paixão destruiu nella a vida do espirito; e a morte porá em breve +termo à vida corporal. + +D. MENDO + +Pois ella, Violante ousará attentar contra a propria vida? + +FR. BERMUDO + +A infeliz não tem força, não tem animo para supportar o seu martyrio. +Ella vê na morte só a paz, e a passagem para um mundo melhor; por que na +sua alma pura, nada lhe faz receiar o eterno julgamento. + +D. MENDO + +Violante morrer!--E como hade ella morrer? + +FR. BERMUDO + +Hontem, Mendo, a desventurada Violante veio aqui ao convento, e +pediu-me, pelo que para mim existe de mais sagrado, que lhe desse um +veneno, para ella não padecer longas dores na hora do passamento. + +D. MENDO + +E tu déste-lhe o veneno? + +FR. BERMUDO + +Dei!.,. + +D. MENDO + +Tu!--a vingança levou-te a um tal crime.--Vingaste-te sobre uma +innocente... + +FR. BERMUDO + +A vingança... esqueci-a por ella. Tu bem o sabes, Mendo. + +D. MENDO + +O ciume... + +FR. BERMUDO + +Um amor como este meu, é como á immensidade do deserto; as tempestades +atravessam-no rugindo medonhas e ferozes, os vulcões ardentes passam +revolvendo as areias, cavando abysmos, cobrindo com montanhas os restos +de antigas cidades; mas toda essa desordem tremenda perde-se, torna-se +pequena n'aquelles espaços infinitos; e depois fica tudo arido, morto, +immobil como d'antes.--Oh! o ciume foi como a tormenta do deserto, +passou atravez da immensidade d'este amor, revolvendo-me o mais intimo +do coração, sem que eu mesmo possa ver já as ruínas que deixou após si. +Não foi o ciume, foi a piedade, foi uma grande dor de coração, um puro e +sancto dó d'esse padecer, que a consumia. + +D. MENDO + +Dó! Piedade! E matas-te-la! Corre a salva-la, se ainda é tempo.--Não +vás... vou eu. + +FR. BERMUDO + +(_Detendo-o._) Não, não vás. É uma crueldade. E, de mais, é tarde: agora +já ella terá tomado o inexoravel veneno. + +D. MENDO + +E se ella está envenenada não haverá meio de a salvar? + +FR. BERMUDO + +Quando a morte penetra o sanctuario da vida, quando estende +o poder até sobre a luz do espirito, só um milagre pode vencer o seu poder. + +D. MENDO + +Palavras... palavras! És um louco, Bermudo, sem coração nem consciencia. +Váe, váe já, e salva-a. Essas palavras insensatas que dizes, não te +podem justificar. És um assassino, Bermudo, se a não salvas. (_A D. +Gontrade, que apparece á porta, pallida e cadaverica._)--Oh! Vinde... +vinde, minha mãi... vinde tambem pedir por ella, a este homem, Violante +morrerá se elle a não salva. + + +SCENA VII + +_Os mesmos e D. Gontrade_ + +D. GONTRADE + +Salva-a!.. e a elle tambem! salva-os a ambos fr. Bermudo. É preciso +perdoar tudo, perdoar a todos, para que Deus nos perdoe tambem. + +FR. BERMUDO + +Vós perdoaes, senhora, como eu perdoei já; e não deveis pedir a vida de +Violante, porque a morte é para ella o descanço; a eterna paz. + +D. GONTRADE + +Deixal-a morrer!.. Pois que tem ella?! Quem a quer matar?! + +D. MENDO + +Foi elle, esse homem cruel, esse homem sem coração... foi elle que lhe +deu o veneno... e que a não quer salvar agora. + +D. GONTRADE + +Ide, meu irm... ide, homem; salvae Violante, se ainda é tempo.--Sou eu +que vol-o peço n'esta minha ultima hora (_Caindo de joelhos._) +Salvae-a, e uni-os um ao outro, estes dois innocentes, que +se amam... Que seja tudo esquecido, porque elle, lá do tumulo, já +perdoou. Vou morrer... Fazei Mendo e Violante felizes. Salva-os pela +minha alma! Salvae-os para que Deus, me perdoe. + +FR. BERMUDO + +É tarde. A esta hora talvez, Violante não exista já...--Disseram-no os +astros, e os astros não mentem... (_Sáe._) + + +SCENA VIII + +_D. Mendo, e D. Gontrade_ + +D. GONTRADE + +Meu Deus, piedade!.. Salvae-a, senhor! + +D. MENDO + +Salvae-a!.. (_Vae para sair._) Oh! Quero vêl-a... Não quero que morra +sem que eu morra tambem com ella! + +D. GONTRADE + +(_Levantando-se._) Meu filho, ouvi... escuta-me, meu querido Mendo, não +me deixes agora... não me deixes aqui só: Sinto que vou morrer, e tenho +necessidade de ti... quero beijar-te ainda como quando tu me julgavas +innocente. + +D. MENDO + +(_Segurando-a nos braços'_) Que tendes, minha pobre mãi?! Como estaes +palida!... Que martyrio é este meu, Senhor. + +D. GONTRADE + +Não é nada... é a morte... é o descanço se Deus me perdoar. Meu filho, +meu filho, eu cometti um grande crime, mas se tu m'o perdoares, +Deus perdoar-me-ha tambem. Perdoa, filho, perdoa a tua mãi, que vai +morrer! + +D. MENDO + +Vós tambem minha mãi, ides deixar-me! Todos me abandonam!... fico só, só +com esta dor no mundo! + +D. GONTRADE + +Ai, Mendo, se eu visse cumprido antes de expirar o sonho do meu delirio! +Que sonho tão bello, meu Deus! Que vizão consoladora!.. Vi-o, a elle, a +teu pai, cercado das glorias infinitas do céo... Não ameaçava já, +abençoava... não me olhava com colera, sorria-se com brandura e piedade! +Senti uma alegria infinita derramar-se no meu espirito... Accompanhava-o +um anjo; e disse-me estas palavras divinas: «Perdoa, como eu te +perdôo... Este anjo, é o anjo da guarda do nosso filho... faz feliz o +nosso amado filho, o nosso querido Mendo.» + +D. MENDO + +E o anjo... + +D. GONTRADE + +O anjo era Violante. Violante á o teu anjo da guarda! + +D. MENDO + +E o meu anjo deixou-me... para sempre me abandonou o meu anjo da guarda! + +D. GONTRADE + +Na terra, talvez; no céu, não te abandonará de certo. + +D. MENDO + +Vou... Deixai-me-ir, minha mãi. Vou procurar Violante. + +D. GONTRADE + +E deixas-me aqui morrer só!? + +D. MENDO + +Vamos rezar por ella, ao menos--pedir ao céu que nol-a salva. (_Cáem +ambos de joelhos._) + +D. GONTRADE + +(_Levantando as mãos ao céu._) É esta a minha ultima oração... que ao +menos esta seja ouvida por vós, Senhor! + +D. MENDO + +Virgem Maria, explendor de eterna gloria, luz que faz desaparecer todas +as trevas do coração, dá azas a minha alma para subir ao teu throno, a +pedir-te vida, vida para ella... Salvae-a, Senhora Nossa! (_Ouve-se um +coro religioso entoando o_ Dies irae) Oh! São os canticos da morte, que +respondem a esta nossa oração, minha mãi! + +D. GONTRADE + +São tremendas aquellas palavras; são palavras que gelam de pavor a quem +vai morrer. + + +SCENA IX + +_Os mesmos, os templarios e depois D. Violante, e Fr. Bermudo_ + +UM TEMPLARIO + +É a hora, cavalleiro D. Mendo Paes de vos unirdes á Santa Ordem do +Templo, para nos ajudar a defender, e a fazer adorar por toda a terra a +Cruz do Redemptor.--O mestre dos templarios espera por vós. + +D. MENDO + +Esperae; esperae!.. ainda não!., ainda não! + +D. VIOLANTE + +(_Fóra._) Mendo! Mendo! + +D. MENDO + +Violante!... viva! ainda viva! + +D. VIOLANTE + +(_Caindo nos braços de D. Mendo._) Mendo, aqui estou... sou tua... já +sei tudo! Mendo... estou viva para te amar! (_Mostrando fr. Bermudo._) +Salvou-me elle. + +D. GONTRADE + +Agora já posso morrer.--Filho... filhos, adeus. + +(_Cáe por terra Mendo e Violante correm a D. Gontrade.--Os templarios +aproximam-se._) + +FR. BERMUDO + +Serão felizes, elles... Só para mim os astros não mentiram. + + +Fim do 5.º acto e do drama. + + + + +EDIÇÕES DO ARCHIVO UNIVERSAL + + +Compendio elementar do sistema metrico e suas applicações ao commercio, +approvado pelo Conselho Superior de Instrucção Publica, por Carlos José +Barreiros--3.ª edição. Preço 300 réis. + +Estudos sobre Higiene, Administração e Legislação Naval, por J. A. Maia, +cirurgião de 1.ª classe da armada,1 vol. de 200 paginas em 18.º fr. +(formato Charpentier) com um plano annexo do brigue _Mondego_.--Preço +100 rs. + + +ESTÁ NO PRELO + +Amor de Poeta, drama em verso por J. G. Lobato Pires. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Theatro de João d'Andrade Corvo - I, by +João de Andrade Corvo + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK THEATRO DE JOAO D'ANDRADE CORVO - I *** + +***** This file should be named 28414-8.txt or 28414-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/8/4/1/28414/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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