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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:38:04 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Scenas da Foz + +Author: Camilo Castelo Branco + +Release Date: March 11, 2009 [EBook #28310] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SCENAS DA FOZ *** + + + + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + + + + + +</pre> + + +<p> </p> +<p> </p> +<div style="text-align:center;"> +<p style="font-size: 3em;">SCENAS DA FOZ</p> + +<p>POR</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">CAMILLO CASTELLO BRANCO.</p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> + +<p><span class="pn">{2}</span></p> + +<p><span class="pn">{3}</span></p> + +<div style="text-align:center; border: solid 2px #000000; padding: 1px;"> +<p style="font-size: 3em;">SOLEMNIA VERBA.</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">ULTIMA PALAVRA DA SCIENCIA.</p> + +<p style="font-size: 1.3em;">O X DE TODOS OS PROBLEMAS DO CORAÇÃO.</p> + +<p style="font-size: 0.9em;">OBRA IMPORTANTISSIMA PARA TODOS OS SEXOS, MASCULINO, FEMININO, E NEUTRO, E +ESPECIALMENTE PARA AS COZINHEIRAS.</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">EM DOZE VOLUMES; SENDO O PRIMEIRO:</p> + +<p style="font-size: 3em;">SCENAS DA FOZ</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">POR</p> + +<p style="font-size: 1.5em;"><b>JOÃO JUNIOR.</b></p> + +<p style="font-size: 0.8em;">SOCIO DA PHILARMONICA, E IRMÃO DA ORDEM TERCEIRA DE S. FRANCISCO.</p> + +<p> </p> + +<p>2.ª EDIÇÃO.</p> + +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="font-size: 0.8em;">PORTO:<br> +EM CASA DE CRUZ COUTINHO—EDITOR,<br> +Rua dos Caldeireiros, n.<sup>os</sup> 18 e 20.</p> + +<p>1860.<span class="pn">{4}</span></p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="font-size: 0.8em; text-align:center;">PORTO—TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA +TEIXEIRA, <br> +Largo do Laranjal n.º 4.<span class="pn">{5}</span></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div id="corpo"> +<h1>JUIZO CRITICO.</h1> + +<p style="text-align:center;">(DA PRIMEIRA EDIÇÃO.)</p> + +<p>Li, como editor, e reli, como critico, as S<small>CENAS DA</small> +F<small>OZ</small> do snr. <em>João Junior</em>. Declaro que encontrei uma +serie de scenas, que tanto podiam ser de S. João da Foz como de +Freixo-de-Espada-á-Cinta. Entretanto, os quadros comicos são desenhados com um +pouco mais sal que um artigo de fundo. Os episodios funebres estão escriptos em +estylo de cavallo de carruagem, como dizia <em>Voltaire</em>.</p> + +<p>Outro sim declaro, que não vi neste livro doutrina, palavra, phrase, ou +virgula, que destoe dos maus costumes da época em que é escripta. Como cousa +offerecida á humanidade, a offerenda é digna da deusa e do sacerdote.</p> + +<p> </p> + +<p>Porto 2 de Junho de 1857.</p> + +<p class="direita"><small>O EDITOR</small>,</p> + +<p class="direita"><em>Camillo Castello Branco.</em><span +class="pn">{6}</span></p> + +<p><span class="pn">{7}</span></p> + +<h1>DEDICATORIA.</h1> + +<p> </p> + +<h2>Á ESPECIE HUMANA INCLUSIVE OS BARÕES.</h2> + +<p>Senhora! O sacerdocio da imprensa, cuja invenção se deve a um agiota do +seculo XIV,<sup><a href="#fn1" name="mfn1">[1]</a></sup> é a mais augusta das +funcções, depois da «Arte de cozinha». Ocioso seria provar esta atrevida +proposição, quando os exemplos saltam como camarões em terra secca. A +rotundidade dos abdomens, e a estupidez prodigiosa dos proprietarios dos ditos, +senhora, é a mais persuasiva prova de que a culinaria tem sobre a imprensa a +primasia disputada por alguns sandeus que se deixaram morrer de fome, +embebecidos, no paradoxo da sciencia.<span class="pn">{8}</span></p> + +<p>Sem embargo, porém, desta verdade, que palpita como um aneurysma, eu não +posso deixar de reconhecer as grandes vantagens que podem provir a v. exc.ª da +mirifica invenção dos typos.</p> + +<p>Senhora! eu sou um desses poucos bipedes que reagem, por instincto, contra +os quadrupedes que gratuitamente se dizem meus irmãos. Saturado de estudos +longos e substanciosos sobre a alveitaria, tenho querido organisar um +<em>Manual de pharmacia</em>, dedicado ao utilissimo curativo de alguns desses +meus irmãos, que me ameaçam as tibias, quando a dôr do alifafe moral os faz +pinotear desencabrestadamente.</p> + +<p>Neste intuito, cuja extensão eu deixo á penetração de v. exc.ª, confeiçoei +algumas receitas, que puz em systema pathologico, subordinadas a bases +symptomatologicas, palavra grande que v. exc.ª soletrará de seu vagar.</p> + +<p>Senhora! A hygiene moral, depois de Broussais, tem feito progressos que +demandam um compendio novo, e uma diversa iniciativa no systema de applical-os +com aproveitamento.</p> + +<p>O romance, senhora, é a mais proficua das pharmacias, porque neste +laboratorio douram-se as pilulas com maravilhosa limpesa. O romance, caldeado +na forja onde Voltaire assacalou as armas com que feriu no coração o «ridiculo» +de<span class="pn">{9}</span> v. exc.ª, n'aquella época, será, se me não engana +o muito amor da humanidade, um sodorifero por meio do qual faremos transpirar +as muitas fezes que v. exc.ª traz no sangue, e das quaes se originam muitos +miasmas de febre da pouca vergonha, para a qual não ha quarentena possivel, nem +conselho de saude, por ventura o mais necessitado, na presente conjunctura, de +ser esfregado com as baêtas da zombaria.</p> + +<p>Pelo que: considerando maduramente quão proveitosa devia ser a v. exc.ª a +divulgação de trabalhos que o zelo da minha especie me impoz, ouso recorrer á +egide da sua protecção, offertando-lhe o primeiro da serie de livros que vou +atirar á humanidade.</p> + +<p>Senhora! Fiquemos aqui, se lhe parece.<span class="pn">{10}</span></p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#mfn1" name="fn1">[1]</a></sup> Preparo uma dissertação a este +respeito.</p> +</div> + +<p><span class="pn">{11}</span></p> + +<h1>SCENAS DA FOZ.</h1> + +<h3>LIVRO PRIMEIRO.</h3> + +<p> </p> + +<h2>A SORTE EM PRETO.</h2> + +<p> </p> + +<h2>I.</h2> + +<p>Em 1825, morava na travessa do Caramujo, em S. João da Foz, uma familia de +Amarante, que viera a banhos, e constava dos seguintes membros:</p> + +<p>Pantaleão de Cernache Tello Aboim de Lencastre Maldonado e Sousa Pinto de +Penha e Almeida. Sua mulher, D. Amalia Victoria Rui da Nobrega Andrade +Vasconcellos Tinoco dos Amaraes. Sua filha, Hermenigilda Clara, com todos os +appellidos paternos, e cinco de sua mãi. Duas criadas graves. Uma cozinheira, +casada com o lacaio. Um escudeiro preto. Um gallego adjuncto á cavallariça. +Dous cães de lobo; e, finalmente, uma cadellinha atravessada de cão d'agua e +galga.</p> + +<p>Eu, João Junior; que estas cousas ponho em escriptura para memoria eterna, +morava na rua de Cima de Villa, e da minha janella vi muitas vezes na sua o +snr. Pantaleão, homem côr de lagosta cozida, com cabelleira azulada pela acção +do tempo, olhos refegados com debrum escarlate, papeira ampla como a dos +<em>cretins</em> nos Alpes, e nariz poliédro como uma castanha do +Maranhão.<span class="pn">{12}</span></p> + +<p>A snr.ª D. Amalia, se bem me recordo, era uma serpente. Orelhas, nariz, +queixo, e todos os districtos da cara (nesse tempo eram comarcas) era tudo +aguçado e verrugoso, como uma mólhada de nabos velhos, em que as fitas +amarellas da touca representassem a rama das nabiças.</p> + +<p>A menina Hermenigilda tinha cara de seraphim de côro d'aldeia: gorda e +vermelha, cheia de vida estupida, olhos grandes como bogalhos, dentes +anarchicos mas brancos como o seu nedio pescoço, braço rico de tecidos +cellulares, rendilhado de tumidas veias vermelhas, onde borbulhava o sangue +cruorico de felicissimas digestões de cabeça de porco com feijão branco.</p> + +<p>Os servos não me lembra bem como tinham a cara, excepto uma das criadas +graves, que diziam ser filha bastarda d'um frade bernardo, irmão do snr. +Pantaleão. Eu fiz tres dias descabellado namoro a esta rapariga, que tinha +setenta e seis pollegadas. Ao quarto, vi-lhe um calcanhar aberto como ouriço +velho, e desanimei.</p> + +<p>De quem me recordo muito é do escudeiro preto, que tinha a cara mais velhaca +da raça de Ismael. Assobiava com perfeição a <em>Marìa Caxuxa</em>, e jogava a +marrada magistralmente com o gallego, supplementar aos machos da liteira, +deixando-o quasi sempre estatellado no chão em fórma de meia-lua. E muitas +vezes vi eu com estes olhos invejosos a menina Hermenigilda a brincar com o +preto na sala, onde eu podia devassar estes innocentes brinquedos. O gosto +d'ella era puxar-lhe a carapinha, e o gosto d'elle era, ao que parece, dar-lhe +surras, que terminavam sempre quando a mãi, ou o pai, ou alguma das criadas +appareciam no limiar da porta da sala.</p> + +<p>Um meu amigo visitava esta familia, e d'ella soube eu que o snr. Pantaleão +era senhor de casa vinculada, e a snr.ª D. Amalia tambem era morgada, e a snr.ª +D Hermenigilda, por consequencia, uma opulenta herdeira. Soube mais que o snr. +Pantaleão remontava a sua fidalguia a uma<span class="pn">{13}</span> +personagem importante na dynastia goda, e não me recordo bem se era Athanaulfo, +ou Roderico.</p> + +<p>A genealogia da mulher diziam lá em casa que era a mais antiga da velha +Lusitania, e contavam maravilhas de seus avós na India, e na Amarante. A +herdeira, por segunda e inevitavel consequencia, tinha nas veias doze canadas +bem medidas de sangue gothico, e por isso, a architectura externa fazia lembrar +Orense ou S. Thiago de Compostella.</p> + +<p>Entre os rapazes meus conhecidos da provincia, o meu inseparavel companheiro +dos passeios a Carreiros era um mancebo de trinta annos, que tem hoje os seus +sessenta e um, e está litteralmente escangalhado, como eu que o digo. Então era +elle esbelto, e galhardo, amigo de mulheres novas e vinho velho, como Byron, +que elle vira no theatro de S. Carlos em 1813, e affirmava que bebeu com elle +uma garrafa de aguardente de canna no <em>Nicóla</em>, botiquineiro do Rocio. +Parece-me pêta, porque Byron, se emborcasse uma botelha de aguardente em +Portugal, não nos chamava <em>barbaros</em>. Paiz onde um inglez se embebedar, +será sempre um paiz civilisado.</p> + +<p>Como quer que seja, o meu amigo provinciano era homem do <em>grande +mundo</em>. Chamava-se Bento de Castro da Gama, e não sei que mais. Era natural +de Cabeceiras de Basto, filho segundo da casa denominada do <em>Olho-vivo</em>, +não sei porque derivação.</p> + +<p>Seus pais mandaram-no estudar latim e logica no seminario de Braga. Bento +corrompia o porteiro, e sahia de noite, a provar que a logica, sendo a arte de +bem pensar, não exime um fraco mortal de pensar o peor que é possivel. D'essas +envestidas nocturnas á moral, resultou um escandalo em casa d'um chapelleiro da +<em>Senhora á branca</em>, e o seductor teve de fugir do seminario, onde estava +debaixo de olho, pendurando-se para a rua nos lençoes.</p> + +<p>Contava elle que o pai lhe abanara as orelhas, em quanto a mãi lhe preparava +algumas tigellinhas de gelêa<span class="pn">{14}</span> de mão de vacca, para +o indemnisar das succulentas bochechas que deixara no seminario, emmagrecidas +sobre o Novo Methodo do Pereira; e o desabrido Genuense.</p> + +<p>A casa paterna era estreito horisonte para o nosso amigo. Uma bella manhã +fugiu de casa, veio ao Porto, e assentou praça em infanteria. O pai, sabendo-o, +mandou-lhe os documentos para se habilitar a cadete, e estabeleceu-lhe avultada +pensão para se habilitar a exercer todas as travessuras e maroteiras de que o +seu caracter era susceptivel. Em seis mezes de praça estivera tres na cadeia, +por causa de varios sôcos com que mimoseou os sargentos do corpo. Pediu a +baixa, deram-lh'a promptamente, e recolheu a casa, onde não encontrou já vivo o +pai.</p> + +<p>Pouco depois, morreu a mãi. Bento de Castro pediu por conta da sua boa +legitima alguns mil cruzados, foi gastal-os em Lisboa o melhor que pôde, e +tornou para casa, onde o irmão morgado o recebeu de braços abertos.</p> + +<p>N'esse tempo é que eu o conheci na Foz, onde viera pela primeira vez a +banhos, em 1825. Relacionei-me com elle na caça das gaivotas, e convivemos +alguns mezes na sua casa de Cabeceiras de Basto. Passavamos ahi excellentes +tardes no convento de Refojos, onde elle tinha tres tios, que eram santos +varões, doutos, e alegres. Ahi conhecemos José Pacheco d'Andrade, morgado de +uma casa illustre, que nos ensinou a jogar o pau, como bom mestre que era! Na +feira do Arco vimol-o nós uma vez varrer a feira com admiravel limpeza! Saltava +como um gamo, e apanhava pela cernelha com uma bordoada o mais lesto jogador de +Barroso! Fui amigo d'este homem e vi-o morrer vinte annos depois n'um palheiro +onde mendigando, pedira gasalhado. O que o levou a este extremo é uma historia +muito longa, e que já vi fugitivamente esboçada nos versos de não sei que +livro.</p> + +<p>Pergunta o leitor o que tem isto com as Scenas da Foz?<span +class="pn">{15}</span></p> + +<p>Se me começam com perguntas, estamos mal aviados! Um homem na minha idade, +com a reputação feita, escreve as cousas como ellas lhe escorregam dos bicos da +penna. Nem acizelo o estylo, nem torneio o pensamento, nem traço plano. Não me +apoquentem. Lá vamos á Foz.<span class="pn">{16}</span></p> + +<h2>II.</h2> + +<p>O meu amigo Bento de Castro veio, uma noite, de Mathosinhos, de casa do +Brito, onde perdera, á banca portugueza, vinte moedas, um cavallo, um relogio, +dous anneis com brilhante, e ficára a dever outro tanto. Ás 2 horas, bateu-me á +porta, sentou-se na minha cama, e começou assim um pathetico discurso:</p> + +<p>«Tenho dado cabo de mais de ametade da minha legitima. Não tardará o dia em +que meu irmão me dê de comer como se dá uma esmola. O jogo tem sido o meu +abysmo. Perco o dinheiro e perco a vergonha, quando o azar me é contrario. +Hoje, vendi cavallo, relogio, anneis, e tudo: cheguei a pedir dinheiro ao moço +de farda da casa onde joguei. Quando vinha para cá, alli no castello do Queijo, +tive vontade de atirar ao mar com esta vida diabolica!... Se o não fiz, outra +vez será. É no que ha-de parar este negro fado que me traz a pontapés da +desgraça... Não me dirás tu que hei-de eu fazer para ser o que tu és?</p> + +<p>—E que achas tu que eu sou?—perguntei eu, porque não sabia ainda então o +que era.<span class="pn">{17}</span> «És homem de juizo. Tens ha dez annos um +cavallo velho e magro, uma casinhola na provincia que te rende doze carros de +pão e quinze pipas de vinho verde, uma sobrecasaca preta com os cotovellos +rapados, e vives feliz.</p> + +<p>—Muito feliz.</p> + +<p>«Pois ahi está! E eu, com quarenta mil reis mensaes de rendimento, tenho +gasto metade do capital, e desconfio que devo a outra metade.</p> + +<p>—Pois se queres ser homem de juizo, deixa cossar-se o teu casaco nos +cotovellos, limita o teu luxo de equitação a um cavallo digno de ser cantado +pelo Manoel Duarte Ferrão, faz de conta que colhes doze carros de pão e quinze +pipas de vinho verde e serás feliz.</p> + +<p>«É tarde, meu caro João Junior, é tarde. Creei necessidades que não posso +matar sem que ellas me matem. Preciso dinheiro, venha elle d'onde vier.</p> + +<p>—De mim, de certo não vai, meu amigo. Bem sabes que o pão e o vinho este +anno não deram nada. Desde Março d'este anno, em que morreu o rei, parece que +desappareceu de Portugal o estomago mais consumidor que tinhamos. Tu não +tentaste ainda a fortuna pelo lado do casamento?</p> + +<p>«Ainda não. Tem-me lembrado algumas vezes essa asneira salvadora; mas, sou +tão infeliz, que desconfio de tornar-me ridiculo, se o tentar.</p> + +<p>—Ridiculo é esse susto. A experiencia ainda te não amadureceu quanto é +necessario para viver neste mundo. Ridiculo só conheço um homem neste planeta: +é o que não tem dinheiro. As tentativas, que se fazem para alcançal-o, são +sempre sérias, heroicas, e até épicas. Se fizeres namoro a uma rapariga rica, +riem-se de ti os zombeteiros candidatos á rapariga, mas esse riso só póde ser +penoso se a mulher te não indemnisar com o sorriso d'ella. A questão é <em>To +be or not to be</em>: ser ou não ser amado. Sirvo-me deste fragmento de +Shakspeare por que não está ainda estafado pelos folhetinistas.<span +class="pn">{18}</span></p> + +<p>«<em>Folhetinistas</em>! que são <em>folhetinistas</em>?</p> + +<p>—Folhetinistas são uns pataratas que hão-de vir d'aqui a vinte annos, +trazidos em uma nuvem de gazetas. Ainda a tresandar ao fartum dos coeiros, +virão para a imprensa com seu cabedal de erudição empalmado nos romances de +certo Dumas, que tem hoje quinze annos, e será então o primeiro corruptor da +litteratura em França. Saberão menos latim do que tu quando saltaste pela +janella do seminario de Braga, e dirão que o latim é uma cataplasma que mata a +originalidade nativa, e a natividade original, e não sei que outras sandices +usadas na linguagem delles pataratas. A respeito de logica e rhetorica dirão +que antes do diluvio já estavam banidas das escólas mais illustradas. Hão-de +provar que o talento não precisa desses causticos para ressumar a materia do +espirito, e, provando-o, dirão tolices em que ficará salvo o Genuense e o +Quintilliano, dos quaes tanto nos fallaram os teus tios frades de Refojos. +Fallarão muito em linguas druidica, celtica, indica, sanscrito, e dirão dellas +cousas maravilhosas que terão o superior merecimento de não serem ditas em +portuguez. Ora, pois, fica tu sabendo que os folhetinistas serão...</p> + +<p>«Não me importa saber o que serão os folhetinistas, o que eu quero é saber o +que serei d'hoje a vinte annos.</p> + +<p>—Serás folhetinista, visto que te não vejo com habilitações para seres +cousa alguma. Se te parece, vai aprendendo de teu vagar a tocar guitarra para +depois poderes fallar com criterio das primas-donas, e dos contraltos, e dos +bassos, e deste Curti que hoje está creando uma reputação no Porto, e eu espero +ouvir d'hoje a trinta annos com o mesmo timbre, o mesmo volume de voz, e a +mesma precisão de notas graves em <em>sibmol</em>.</p> + +<p>«Que diabo de embrulhada é essa? Homem, falla-me direito. Que me dizes tu á +tentativa d'um casamento rico?</p> + +<p>—Digo-te que conheço grandes alarves que tentaram<span +class="pn">{19}</span> e prosperaram. Quando um homem se diz: «hei-de casar +rico, apesar de todos os contratempos» casa rico. O primeiro passo a dar é +convencer-se de que a vergonha é uma excrescencia que nos magôa, e deve ser +amputada da consciencia como quem corta um callo. O segundo é procurar a +mulher, através de todas as torpesas, como o mineiro procura o ouro através do +saibro e dos charcos lodacentos que lhe regorgitam debaixo dos pés. O terceiro +é levar com a porta na cara, e ficar com a cara voltada para outra porta. O +quarto é teimar. O quinto é teimar. O sexto...</p> + +<p>«É teimar. Tenho entendido. Mãos á empreza. Cobrei espirito novo. Dentro +d'um anno hei-de estar casado com mulher rica, bonita, intelligente, +virtuosa...</p> + +<p>—Alto lá! isso é muita cousa. Assim tambem o Bocage a queria, mas +disseram-lhe que não... Rica? d'accordo: isso é possivel. Intelligente? +Deixa-te d'isso: mulher intelligente não se deixa engodar por especuladores +matrimoniaes: é-lhe mais facil ceder ao coração toda a liberdade dos seus +desejos os menos puros, do que algemar-se com grilhões que ella parte +facilmente no momento em que a razão illustrada lhe diga: «Entre ti e o homem +são iguaes os direitos...» Formosa? Pieguice e contrasenso. Mulher formosa é +sempre a mesma cousa, e aos olhos do marido perde pouco e pouco o prestigio da +belleza. Mulher feia, pela continuação da convivencia, perde pouco e pouco a +fealdade, e chega a parecer bonita. E deves saber que mulheres feias teem +inspirado paixões ardentissimas. Dizem que ha uma compensação de graças ocultas +as quaes fazem ganhar raizes no coração do homem. Eu não sei se é no coração, +se no figado: o que posso asseverar-te é que tenho visto mulheres formosas +apagarem muitos incendios, e as feias atearem-nos. Dido, Helena, e Cleopatra +dizem que foram lindas mulheres, por terem apaixonado Eneas, Paris, e Antonio. +O que de certo se não sabe é se eram feias. Verdadeiramente feio, meu amigo, é +o diabo, como diz a<span class="pn">{20}</span> ama de leite dos teus +sobrinhos. Em quanto a virtuosa, meu caro Bento, a esse respeito tinhamos muito +que dizer, se eu não tivesse somno. A virtude é o escolho de muitas posições +sociaes. Felizmente que ella vai em decadencia, e por isso veremos, de hoje a +trinta annos, muitas posições brilhantes com um pé no pescoço da virtude. +Virtude é uma sociedade mercantil, em que a maior parte dos empresarios se +sustentam á custa da pequena parte que se conserva fiel aos estatutos.</p> + +<p>Fóra com a palavra; e se promettes aspal-a do teu programma de casamento, +indico-te uma mulher.</p> + +<p>«Qual?!</p> + +<p>—A minha visinha Hermenigilda, filha do Pantaleão.</p> + +<p>«Pois achas que está no caso?</p> + +<p>—Muito no caso.</p> + +<p>«Sei que é rica, não é feia, é estupida, é fidalga; mas... em quanto a +virtude, não sei por que ella perca no teu conceito, para que eu deva aspar a +palavra do meu programma!</p> + +<p>—É que eu desconfio do preto!</p> + +<p>«Do preto?! que preto?</p> + +<p>—Fallaremos ámanhã. Agora quero dormir.</p> + +<p>Bento de Castro sahiu, e eu, voltando-me para o outro lado, sonhei com o +preto.</p> +<hr class="dotted"> + +<p>Suaves recordações da mocidade, sêde a cebola destes olhos que já não podem +chorar!<span class="pn">{21}</span></p> + +<h2>III.</h2> + +<p>No dia seguinte, fui obrigado pelo meu amigo a praticar o escandalo de +acordar ao meio dia e vinte e sete minutos.</p> + +<p>Queria elle ser esclarecido sobre palavras enigmaticas, que eu proferira a +respeito do preto.</p> + +<p>«Não valia a pena—disse eu—perturbares o meu somno da manhã por similhante +insignificancia. A historia do preto é a mais innocente das historias. Não sei +se o moleque conhece o Othello de Shakspeare. É certo que o Othello era preto, +e sentiu a mais negra das paixões por uma branca. Não sei tambem se a filha de +Brabante lhe puxava a elle a carapinha como faz a filha do snr. Pantaleão ao +dito preto. Em todo o caso ha muito a recear do espirito de imitação, porque o +plagiato do amor é de todos os plagiatos o mais nocivo. Por imitação, ama-se, +por imitação, deshonra-se, por imitação, casa-se, por imitação, suicida-se. +Quem sabe se a snr.ª D. Hermenigilda para imitar Desdemona, introduziu o preto +no coração?</p> + +<p>—Estás a mangar!—respondeu o meu amigo Bento—Póde lá dar-se similhante +asneira!<span class="pn">{22}</span></p> + +<p>«Dão-se asneiras maiores, meu caro, muito maiores. Eu tenho uma prima... dás +licença que te conte a historia de minha prima?</p> + +<p>—Se não fôr muito estirada...</p> + +<p>«Laconica o mais possivel. Minha prima Rosa foi a mulher mais bonita de +Villarinho de Cotas, Canellas, Sinfães, e povos circumvisinhos. Tinha um bom +patrimonio, e foi muito pertendida. Regeitou propostas de vantajosos +casamentos, e resistiu ás minhas tentações, quando eu era um homem perigoso em +casa de primas. Uma bella manhã a priminha desapparece de casa. Partem +emissarios para todas as partes do mundo em cata della, e depois de varejarem e +farejarem todas as casas suspeitas, todas as igrejas onde o mysticismo a +poderia ter em extasis, e até um poço onde uma allucinação a poderia ter +precipitado... depois de muitas diligencias, e lagrimas, e gritos, e +informações, minha prima apparece... imagina lá aonde?</p> + +<p>—Eu sei cá!...</p> + +<p>«N'um lagar d'uma quinta sua, escondida atraz d'uma pipa, no mais puro +arrobamento do amor com...—meus illustres avós! perdoai-me a revelação!—com +um dos gallegos que tinham vindo á vindima. E que pedaço de gallego!</p> + +<p>—Que se seguiu? mataram o bruto?</p> + +<p>«Qual matar o bruto! O bruto tinha um direito sagrado á sua existencia. +Minha prima foi interrogada pelo irmão, seu tutor, e respondeu que havia de +casar com o gallego.</p> + +<p>—E casou?</p> + +<p>«Casou, e vestiu-o de casaco, e botas de cano alto, e chapéo de sêda, e, o +que mais é, meu primo gallego parecia depois um hespanhol. Se o vires hoje, não +dirás o pessimo texto que está n'aquella encadernação.</p> + +<p>—E ella ama-o?!</p> + +<p>«Essa admiração é sufficientemente parva! Ama-o<span class="pn">{23}</span> +como o amou sempre, bebe a felicidade dos labios delle, pendura-se-lhe, em +delirios de ternura, das largas espaduas, aperta ao coração a cabeça amante do +conjuge inseparavel, não receia uma deslealdade, desconhece o ciume, produz o +mais mechanicamente que se póde, rapazões robustos, vermelhos, e gordos como +teixugos; em fim, para te dizer tudo d'uma vez, minha prima está gorda, come +tanto como elle, e faz as suas digestões na suave beatitude da mulher ditosa, +com os olhos postos no marido. Faltava-me dizer-te que esta creatura angelica, +antes de ser encontrada no lagar, era d'um melindre d'orgãos, e d'uma +susceptibilidade de emoções, que fazia receiar muito pela sua vida.</p> + +<p>Lia novellas de La-Calprenéde, Genlis, e Radcliffe. Chorava enternecida, +fitava no céo os olhos lacrimosos, pendia a fronte, contristada, tomava parte +nas dôres das suas heroinas, e muitas vezes me disse que a cópia do seu modêlo, +a realisação das suas esperanças, estava no céo. Como diabo desceu do céo cá +para baixo o gallego, isso é que eu não sei. Eu vivia persuadido de que o céo +não importava aquelle genero.</p> + +<p>Seja o que fôr, esta historia vem apêlo para exemplificar um dos muitos +casos em que a boa philosophia nos ensina que um preto é um rival temivel. +Posso enganar-me, nem ouso aventar uma calumnia; porém, a minha visinha não dá +ares de quem procura no céo a realização das suas esperanças; e, se procura, +quem me diz a mim que o preto não desceu de lá pelo mesmo alcatruz que pôz cá +em baixo o gallego? Que me dizes tu a isto?</p> + +<p>—Eu digo que não quero saber mais nada da tua visinha, e deixo-a ao preto +em boa paz.</p> + +<p>«Não vou para ahi. Suspeitas não fazem prova.</p> + +<p>—Mas o que tens tu visto?</p> + +<p>«A pequena a brincar com o preto.</p> + +<p>—De que modo?</p> + +<p>«Jogam os cantinhos sem intervenção d'um terceiro:<span +class="pn">{24}</span> invenção rara que se deve á estrategia do amor, assim +como o xadrez se deve á estrategia militar.</p> + +<p>—E que mais fazem?</p> + +<p>«A bagatela de se darem surras. Ella arrepella-o, elle dá-lhe duas palmadas +bem sonoras, no mesmo local onde o patrão lhe dá a elle os pontapés. O preto +perfila-se, a innocente menina vem para a janella, e a moral domestica folga do +resultado. Já vês que não ha aqui bastante motivo para renunciar uma conquista +de dez mil cruzados de renda, e uma mulher que promette estar contente +dando-lhe o comer ás horas, e tres duzias de gallinhas para tratar... Das duas +uma: ou a mulher ama o preto, e não te acceita a côrte, ou não ama o preto, e +acceita. Que perdes tu na tentativa?</p> + +<p>—Dizes bem, eu não perco nada. Como não tenho melhor cousa em que esperdice +o tempo... E como hei-de eu apresentar-me?</p> + +<p>«Apresenta-te ahi na minha janella, e faz-lhe saber, sem grandes rodeios, +que estás ferido.</p> + +<p>—Será demasiada liberdade...</p> + +<p>«Deixa-te d'isso; demasiada liberdade acho eu que é a do preto. Certas +mulheres só entendem o que se lhe diz; e em quanto a mim, a nossa visinha é +d'aquellas que nem o que se lhe diz entende. Clareza no pensamento e na phrase. +Imagina que fallas com a filha d'um teu caseiro. Põe o teu codigo de civilidade +ao pé do Genuense e do Quintiliano. Nada de logica, nem de rhetorica. Os +principiantes do amor cuidam que é da tarifa devorarem no silencio, antes de se +revelarem, as melhores phrases que tinham para convencer. Grande contrasenso. +Parecem-se com os caçadores novatos, que atiram á perdiz quando ella vai muito +longe do alcance do chumbo. Fia-te em mim, Castro. A mulher que principia a +amar tem oito dias de alienação moral. O espirito anda-lhe á solta, e um habil +caçador apanha-lh'o, e depois... como sabes do teu<span class="pn">{25}</span> +Genuense, a alma é uma substancia acommodada para governar o corpo. Pilhada a +alma, o corpo, sem governo, é uma nau desmastreada, sem leme, á mercê das +ondas.</p> + +<p>Espera... ouço-a fallar... Olha...</p> + +<p>Ella lá está na janella.<span class="pn">{26}</span></p> + +<h2>IV.</h2> + +<p>O meu amigo chegou á janella, e tossiu a tosse especial dos namorados de +1826, que era uma tosse secca, como a do ultimo periodo da tysica laryngéa. +Hermenigilda acudiu ao reclamo catarrhoso, e viu risonha a cara do meu amigo +Castro, que realmente era um perfeito homem. Retirou depressa os olhos, mas +depressa obedeceu com elles ao magnetismo das olhadellas do visinho. Eu cá da +minha alcova, por entre os farrapões das cortinas amarellas, estava +presenceando o introito comico do acto mais solemne da vida dos povos, que era +o casamento então, e hoje são as eleições.</p> + +<p>O meu amigo não se despegava do peitoril da janella. A pequena ia e vinha; +olhava-o, como a disfarce, lá do fundo da sala, e trazia sempre um terço do +olho esquerdo compromettido.</p> + +<p>Castro manifestava com o nariz o seu contentamento, empenhando-o na +victoria. Assoando-se, trombeteava o som menos amoroso possivel. O nariz, +considerado porta-voz do coração, ecco da poesia intima, interprete da +linguagem<span class="pn">{27}</span> muda da ternura, exerce a mais nobre das +missões corporeas, e attinge um elevado grau de perfectibilidade nazal, depois +do outro, mais elevado ainda, de espiraculo de defluxo, e absorvente de +simonte.</p> + +<p>Fui almoçar, e deixei o meu amigo na janella. Quando voltei, estava elle +radioso de gloria.</p> + +<p>«Então?—disse-lhe eu—quantos graus acima de zero marca o thermometro da +visinha?</p> + +<p>—Está pegado o namoro.</p> + +<p>«Eu vi tudo.</p> + +<p>—Mas não viste o melhor. Offereci-lhe uma carta. Ella primeiro disse que +não...</p> + +<p>«Que não sabia lêr?</p> + +<p>—Não, homem: disse que não acceitava. Instei, e, por fim, deu signal +affirmativo com a cabeça, e fugiu da janella.</p> + +<p>«Oh! é tocante essa fuga! o que faz o pudor! A virginal menina não pôde +mostrar a fronte á luz do sol, depois d'uma fraqueza a que a paixão a +compelliu!</p> + +<p>—Tu estás caçoando!</p> + +<p>«Forte scisma a tua! Não póde a gente vestir as suas idéas com as pompas da +linguagem! Ora vamos, Bento. É preciso escrever á pequena.</p> + +<p>—É um grande embaraço. Não sei como se escreve a esta mulher. Será muito +estupida?</p> + +<p>«Parece-me que é, e, nesta hypothese, escreve-lhe uma carta muito tola. +Queres tu ser o secretario? Eu entro no teu coração e fallo por ti.</p> + +<p>—Valeu! nota lá a carta.</p> + +<p>«Senta-te, e escreve.</p> + +<p>Eu accendi um cigarro, sentei-me de cocoras sobre a minha cama, entrei em +espirito no espirito do meu amigo, e dictei a seguinte carta, que offereço como +norma aos amadores das Hermenigildas:<span class="pn">{28}</span></p> + +<p> </p> + +<p class="direita">«Meu adorado Bem.</p> + +<p>«Com o coração em viva brasa, lanço mão da penna tremula para expôr á vossa +compaixão o triste sudario da minha alma.</p> + +<p>«Os vossos olhos são settas do deus implacavel, que não perdôa a rei nem a +vassallos, que abranda o coração da panthera de Java, e enternece as melodias +do rouxinol do salgueiro.</p> + +<p>«Ferido neste coração, que é vosso, tenho direito a pedir-vos balsamo para a +chaga que vossos olhos me rasgaram no peito.</p> + +<p>«Ingrata serieis, amada Hermenigilda, se mostrasseis indifferentes á dôr, os +olhos que tamanha dôr causaram! Não! é impossivel que nesse peito de alabastro, +ninho dos prazeres, se aninhe a vibora da ingratidão!</p> + +<p>«No vosso angelico sorriso, ó cara amada, pousou a minha felicidade, que, ha +muito, busco, por toda a parte, como andorinha que perdeu o trilho aerio da sua +patria, e ficou erma e só na região das neves...»</p> + +<p>—Ella não entende isto!—exclamou o meu amigo!</p> + +<p>«É justamente o que nos convém. Se ella entendesse isto, faria da carta dous +papelotes, e mandava-te á fava. Continúa:</p> + +<p>«Eu sou como o viajante nos desertos da Mezopotamia, ardente de sede, +pedindo a cada miragem uma gotta de agua, e bebendo candeias accesas nos raios +do sol oriental!</p> + +<p>—Isto parece-me asneira!—replicou o amanuense—<em>Bebendo candeias!</em> +Viu-se já um similhante disparate!</p> + +<p>«Pois tu queres que ella te entenda, ou não?</p> + +<p>—Quero que entenda: é boa a pergunta!</p> + +<p>«Pois se tu lhe disseres que bebias no deserto linguas de fogo em logar de +candeias accesas, entender-te-ha ella melhor? Candeias sabe ella perfeitamente +o que são; e<span class="pn">{29}</span> linguas, em quanto a mim, só conhece a +de porco e a de vacca. Se me pões contraditas ao libello, recolho a inspiração, +e deixo-te nas trevas. Escreve lá:</p> + +<p>«Nos meus sonhos...</p> + +<p><em>Entre parenthesis.</em> Este estylo hoje é rançoso, e qualquer caixeiro +o escreve sobre o mostrador, entre uma ceira de figos de comadre e tres achas +de pau campeche; n'aquelle tempo, porém, em 1826, era necessario ter um talento +creador para espetar a phrase na região do sublime. Eu fui um dos apostolos +deste estylo; e glorio-me de ter feito escóla. Vieram depois os imitadores, sem +critica nem gosto, e asnearam de modo que venceram o passo que vai do sublime +ao ridiculo.</p> + +<p>«Escreve lá, Bento de Castro.</p> + +<p>«Nos meus sonhos, tenho visto muitas vezes uma visão vestida de nuvens +coradas de luz, calçada de estrellas, coroada com o arco iris, sentada na lua, +com o sol engastado no peito, e o globo terraqueo a seus pés. Ereis vós, +Hermenigilda! Apenas vos vi, reconheci-vos como o molosso reconhece o dono, e a +rola o ninho, e a lebre a cama, e a truta a acolheita.</p> + +<p>«Vêr-vos, e não amar-vos, seria morrer de vêr-vos; e amar-vos sem vêr-vos, +só eu pude; e que faria eu depois ao vêr-vos, senão amar-vos!?</p> + +<p>—Acaba depressa com isto!—interrompeu o meu amigo—Vêr-vos, não vêr-vos, +amar-vos, e vêr-vos, e não amar-vos... que diabo de embrulhada é esta!?</p> + +<p>«Tu és um tolo!—redargui eu—Está explicado o segredo da tua nullidade +perante as mulheres. Tens trinta annos, e todas as tuas conquistas reduzem-se á +filha do chapelleiro de Braga. Podias ter um nome em Portugal, se ao teu +patrimonio, quasi dissipado, e á tua excellente figura, quasi em decadencia, +juntasses um pouco de estylo. Todo a conquistador deve ter um arsenal bem +fornecido de bombas phraseologicas. A idéa não é que persuade<span +class="pn">{30}</span> uma mulher, é a palavra. O que tu chamas +<em>embrulhada</em>, meu patavina, é o melhor que se póde dizer quando não ha +nada que se diga.</p> + +<p>—Suppomos—-replicou elle—que esta mulher não me entende?</p> + +<p>«Certo disso estou eu.</p> + +<p>—O que se segue é não me responder, porque receia que eu me ria da sua +ignorancia.</p> + +<p>«É justamente o que te convem, tolo.</p> + +<p>—Que me convem!</p> + +<p>«Sim; convem-te que não responda, porque não respondendo, falla-te. Que +lucras tu com a correspondencia epistolar desta mulher?</p> + +<p>—Parece-me que pensas bem!... Tu és um grande homem! Ora anda lá, diz mais +alguma asneira.</p> + +<p>«Onde estavamos nós?</p> + +<p>—Estavamos no <em>vêr-vos e não vêr-vos, amar-vos e não amar-vos</em>...</p> + +<p>«Ah! já sei... põe lá:</p> + +<p>«Cesar foi, viu, e venceu. Eu vim, vi, e fui vencido! Maravilhosa +coincidencia de constrastes, Hermenigilda querida!</p> + +<p>«Mas é tão dôce ser escravo, subdito e fiel vassallo vosso! Quereis vós ser +a rainha desta alma? Governai-a com o vosso sceptro de amor; subjeitai-a aos +decretos e leis regias dos vossos soberanos olhos; regei esta monarchia com o +absolutismo despotico da vossa augusta vontade.</p> + +<p>«Se não quereis responder-me, senhora, dai-me n'um sorriso o signal de que +acceitaes preito e homenagem do vosso mais humilde feudatario,</p> + +<p class="direita"><em>Bento de Castro da Gama.</em>»</p> + +<p> </p> + +<p>O meu amigo, a meu pedido, fechou a carta em coração, e postou-se na +janella. Hermenigilda appareceu. A<span class="pn">{31}</span> carta foi-lhe +mostrada; ella fez menção de recebel-a. Castro sahiu, roçou-se pela porta, +lançou-a no pateo, e tornou para a minha janella.</p> + +<p>Hermenigilda não apparecia: estava naturalmente estudando os jeroglificos +druidicos da carta.</p> + +<p>O preto, porém, veio á sala, e fez uma careta medonha ao meu amigo.<span +class="pn">{32}</span></p> + +<h2>V.</h2> + +<p>A careta do preto fez pensar o meu amigo tão seriamente que desde logo +resolveu imprimir-lhe em qualquer parte quatro pontapés homericos.</p> + +<p>Eu combati o projecto com a logica da prudencia, fazendo vêr ao pundonoroso +Castro que a careta do preto era uma dessas innocentes caretas que a natureza +patusca ensinava aos macacos. Convencido zoologicamente da aproximação das duas +especies, visto que a careta era de instincto, o amante fogoso de Hermenigilda +prometteu levantar de sobre a cabeça do negro, não direi a espada de Damocles, +mas a bota de montar com espora de prateleira, seu calçado favorito.</p> + +<p>Mais do que as minhas razões, a presença da visinha aquietou os impetos +cavalheirosos do meu amigo. Eu puz-me á espreita. Vinha jubilosa, com cara de +paschoas, um ar de alegria lôrpa, e a expressão mais significativa de que não +entendêra palavra da carta arripiada.</p> + +<p>Castro, sem ser acanhado, parecia um tolo, sorrindo com ella.<span +class="pn">{33}</span></p> + +<p>«Pergunta-lhe se responde» disse-lhe eu cá de dentro.</p> + +<p>O meu amigo esperou o ensejo d'uma olhadura, fez menção de escrever na palma +da mão esquerda, tregeitou com a cabeça uma pergunta, e ella de lá respondeu +que não. Castro fez um bico de ternura dolorida, encolheu os hombros em ar de +paciencia, e vestiu o semblante com uma visagem melancolicamente sandia.</p> + +<p>«Pergunta-lhe se falla» tornei eu cá do meu centro de operações.</p> + +<p>—Podeis fallar-me?—disse elle, improvisando com as mãos um ridiculo +porta-voz.</p> + +<p>Ella fez-se desentendida, e o meu amigo levantou nota e meia á pergunta:</p> + +<p>—Se podeis fallar-me...</p> + +<p>Hermenigilda não respondeu ainda, e Castro ia de certo interrogal-a com toda +a franqueza dos seus pulmões, quando viu, lá ao fundo da salêta, reluzirem os +olhos do preto, como duas carochas em carvoeira. Como se não podesse supportar +o magnetismo hediondo d'aquelles olhos, recolheu-se para dentro, murmurando:</p> + +<p>—Eu quebro a cara ao preto! La está o patife a espreitar-me.</p> + +<p>Eu estava de pachorra para tranquillisar a raiva do meu brioso amigo. +Fiz-lhe vêr que os grandes triumphos custavam grandes heroismos de paciencia. +Lembrei-lhe Annibal agatinhando as agruras dos Alpes; Colombo jogando o sopapo +com a tripulação; Bonaparte comendo farinha de pau no deserto das piramides, +etc. O meu amigo succumbiu perante os exemplos da historia, e resolveu tolerar +com paciencia todas as caretas do preto.</p> + +<p>«A ti o que te convem—disse-lhe eu—é relacionares-te com o Pantaleão. Tu +não conheces o Miguel das Infuzas?</p> + +<p>—Quem é o Miguel das Infuzas?<span class="pn">{34}</span></p> + +<p>«É um fidalgo do Porto, grande genealogico.</p> + +<p>—Não conheço na nobliarchia portugueza esse appellido <em>Infuzas</em>.</p> + +<p>«Tambem eu não; mas o appellido é acquisição feita pelo tal Miguel. +Chamam-lhe o <em>das Infuzas</em>, porque elle, amador das artes, viu duas +pequenas infuzas de prata n'uma ceia explendida dada ao general do Porto, e +quando a occasião lhe foi propicia acondicionou-as o melhor que pôde nas +algibeiras da casaca. Passado tempo, o proprietario das infelizes lobrigou-as +em casa d'um usurario, e sabendo que o erudito genealogico as pozera no prego, +divulgou o feito do illustre neto dos Teives e Couceiros e Moscosos. D'ahi em +diante, a classe media associou as infuzas aos appellidos deslumbrantes do +fidalgo, que continua a esmerilhar na genealogia do proximo um casamento +desigual de quinto ou sexto avô, para, nos seus momentos de soberba +aristocratica, mostrar aos primos uma nodoa na arvore deste ou d'aquelle que +ousa chamar-lhe primo.</p> + +<p>«Aqui tens o maior amigo de Pantaleão. Eu não posso apresentar-te porque não +pertenço á roda, como sabes; mas tu que és irmão de morgado, procura-o com o +fim de esclareceres uma duvida sobre o teu oitavo avô. Logo que fallares em +oitavo avô, o homem manda-te sentar, e pergunta-te onde estás hospedado.</p> + +<p>—E que diabo hei-de eu dizer-lhe do meu oitavo avô?!</p> + +<p>«Inventa qualquer toleima... por exemplo: queres saber se teu oitavo avô +instituiu uma capellania; queres saber se teu oitavo avô casou com a segunda ou +terceira filha dos senhores de Panoias; queres saber se o teu oitavo avô foi +casado com a tua oitava avó. Ha trinta mil cousas a saber d'um oitavo avô, pois +não ha!</p> + +<p>—Mas eu sei cá quem foi o meu oitavo avô?</p> + +<p>«Isso elle t'o dirá. É capaz de te descobrir um joanete<span +class="pn">{35}</span> que elle tinha no pé esquerdo. Conseguido o primeiro +passo, pergunta-lhe se uma senhora da tua familia é exacto ter casado, ha 327 +annos, na casa de Villar de Gaivotas, d'onde elle se diz muito parente. +Consegue que elle te chame primo, e eu corto ambas as orelhas, se tu não +casares com Hermenigilda, apesar de todas as caretas do preto.</p> + +<p>—Tu nunca fallas serio, João! Devéras entendes que eu falle ao homem?</p> + +<p>«Hoje, se é possivel. Isto são favas contadas. O Miguel das Infuzas vem +jantar, todos os domingos, com o primo Pantaleão, e tu és apresentado no +proximo domingo.</p> + +<p>Castro foi á janella dispensar um sorriso a Hermenigilda.</p> + +<p>Com grande espanto meu, a rubra menina, sem ser provocada a fallar, disse, +affectando muito receio de ser ouvida:</p> + +<p>«Posso fallar-vos daqui da janella, depois que meu pai e minha mãi estiverem +deitados.</p> + +<p>—A que horas?</p> + +<p>«Ás nove.</p> + +<p>—Ás nove!?—replicou elle maravilhado.</p> + +<p>«Sim, sim,» tornou ella, e desappareceu.</p> + +<p>—Isto vai bem!—exclamou Castro—Mas ás nove horas! tão cedo!</p> + +<p>«Teu futuro sogro, meu amigo, segundo me disse a creada dos calcanhares +gretados, come o seu caldo requentado ás sete horas, arrota até ás oito, +deita-se ás oito e um quarto, adormece ás oito e meia, e ás nove é uma massa +bruta, inerte, inamovivel. Bom é que vás sabendo o programa do teu futuro em +casa do fidalgo d'Amarante. Ás oito horas has-de estar no thalamo conjugal com +o barrete de retroz por cima das orelhas, e ás nove has-de resonar o mais +estupidamente possivel, fazendo um dueto com tua mulher.<span +class="pn">{36}</span></p> + +<p>—Estás enganado!—replicou elle—Se eu casasse com ella, pensas que me ia +degradar na Amarante? Isso sim! Eu quero viajar á custa de minha mulher, e +dar-lhe-hei a honra de me acompanhar. Que póde viver a mãi de Hermenigilda? +Dous ou tres annos, quando muito. Logo que ella se resgate da gotta, está a +filha de posse d'uma excellente casa. A do pai ella virá quando vier, e virá +sempre a tempo de me dourar as cadeias. Queres tu viajar comnosco?</p> + +<p>«Oh! pois não hei-de querer!? Havemos de ir a Vallongo, dia de Santo +Antonio, e quando reunires ambas as casas de modo que possas cortar por largo, +iremos a Vianna, á Senhora da Agonia! Que bello futuro!</p> + +<p>—És um pateta!—redarguiu lisongeiramente o meu amigo.—Não se póde fallar +serio comtigo! Vamos ao caso: visto que ella me falla ás nove horas, é escusado +procurar a protecção do Miguel das Infuzas.</p> + +<p>«Pateta és tu! Sem o Miguel das Infuzas não fazes nada. Se o teu fim fosse +seduzir Hermenigilda, convinha-te sustentar o namoro clandestinamente, evitando +relações com o pai. Mas tu queres casar, e casar com brevidade; precisas ser +admittido ao gremio da familia; dar ao teu namoro um ar de honestidade boçal; +cabecear com somno todos os dias, meia hora ao pé da noiva; jogar a bisca de +nove com tua sogra, e representares, em fim, de palerma até ao dia em que se +cruzarem definitivamente as raças. Não deixes, portanto, de procurar o Miguel +das Infuzas. Vê o que ella te diz hoje, e ámanhã vai ao Porto saber alguma +cousa do teu oitavo avô.»</p> + +<p>Castro foi á janella trocar com Hermenigilda dous gatimanhos alvares, como +são todos os gatimanhos preliminares d'uma grande asneira.<span +class="pn">{37}</span></p> + +<h2>VI.</h2> + +<p>Ás nove horas em ponto, Bento de Castro sahiu de minha casa, e plantou-se +debaixo da janella do snr. Pantaleão. Eu apagára a luz, e espreitava pelos +buracos da cortina o introito do <em>rendez-vous</em>. Espreitava, e escutava, +não por mera curiosidade, porque não sou curioso, mas por utilidade propria, +visto que me tinha encontrado em grandes apertos de eloquencia nos primeiros +encontros com trinta e oito mulheres.</p> + +<p>O leitor casto—(para não ser sempre <em>pio</em>), que chegou aos cincoenta +annos sem experimentar os apuros de namorado na sua primeira entrevista, está +muito longe de imaginar o que é uma agonia séria!</p> + +<p>Eu, João Junior, em quem a Europa reconhece um espirito superior e mais um +bocadinho, recordo hoje com vergonha a plangente figura que fiz, ha quarenta +annos, diante dos meus namoros.</p> + +<p>A primeira mulher que amei era uma dama de alto nascimento, que tivera +bastante influencia no quartel general de lord Wellington, e jogára, por causa +d'um ajudante<span class="pn">{38}</span> d'ordens do mesmo, o sopapo com uma +viscondessa celebrada, cujos dentes, que foram bellos, passaram com os meus +para o dominio da historia.</p> + +<p>Esta dama, com os seus quarenta annos bons, era ainda formosa, e fallava +admiravelmente sobre quasi tudo, e com especialidade sobre a acção immoral que +a revolução franceza exercera, por tabella, nos salões lisbonenses. Dizia ella, +com um riso sarcastico nos finos labios, que os inglezes vieram executar em +Portugal as theorias livres da França. Acrescentava que o fardamento dos +officiaes de Beresford conseguira das mulheres lusitanas, raça das Brites, e +das Vilhenas, o que os romances de Voltaire, não poderam fazer.</p> + +<p>Ora vejam que tal era a primeira mulher que me trouxe pela mão o travesso +Cupido, que n'aquelle tempo estava no ministerio!</p> + +<p>Foi aqui justamente na Foz que eu a vi, rodeada de satellites +sufficientemente parvoinhos para perderem o centro de gravidade e cahirem no +espaço infinito dos conquistadores aleijados.</p> + +<p>Fiz-me importante aos seus olhos por lhe salvar uma cadellinha que +escorregára do <em>penedo d'Apollo</em> ao mar. Apenas a vi em ancias, despi o +casaco, metti-me até ao peito na agua, apanhei a cadellinha, que a ressaca +levava para o mar, e, como Camões,</p> + +<blockquote> + <p>Dos procellosos baixos escapado,</p> +</blockquote> + +<p class="reset">vim lançar no regaço da afflicta dama a cadella gemebunda.</p> + +<p>Fui bonito, como vêem, para casa! A nobre senhora quiz recolher-me no seu +quartel, e eu, sem dar tempo a reiterados rogos, nem agradecer-lh'os, porque os +queixos faziam uma traquinada diabolica, metti-me á cama, onde transpirei tres +dias, bebi dez garrafas de tizana; puz no peito um arnez de pez de Borgonha, e +ao cabo<span class="pn">{39}</span> d'uma semana fui deixar um bilhete á +exc.<sup>ma</sup> dona da cadella, que mandára saber de mim todos os dias duas +vezes.</p> + +<p>Encontrando-me na praia, disse-me ella com muito agrado:</p> + +<p>«Eu não me satisfaço com o seu bilhete. Sou mais ambiciosa. Quero que me dê +o gosto de ir passar alguns momentos a minha casa, onde se joga, e ri, e +conversa, depois d'um mau chá. Hoje poderei contar com a honra da sua +visita?</p> + +<p>—Oh minha senhora!...</p> + +<p>«Não me deixe na duvida. Meus manos querem ter o gosto de o conhecer... (Em +1819 era assim que se dizia a um homem da minha roda. Hoje os manos de s. +exc.ª, querendo conhecer-me, procuravam-me em minha casa. Que progresso immenso +em quarenta annos!)</p> + +<p>«Não nos falte! (proseguiu ella gesticulando seductoramente). Por me ter +feito um grande favor, não se segue que me prive d'outros.</p> + +<p>—Oh minha senhora!...</p> + +<p>«Um grande favor, sim! Mal sabe o amor que tenho a esta cadellinha. É +ingleza... foi-me enviada por um general britannico das minhas relações de +infancia. (<em>Nota</em>: s. exc.ª tinha recebido a cadella em 1812; tinha ella +então <em>trinta e dous annos</em>... que <em>infancia</em>! e que relações!) +Calcule o impagavel serviço que recebi...</p> + +<p>—Oh minha senhora!</p> + +<p>Nunca pude passar desta apostrophe palerma: <em>oh minha senhora!</em></p> + +<p>Que idéa fará esta mulher da minha intelligencia? perguntava eu ao outro +<em>eu</em>.</p> + +<p>Com effeito, na noite desse dia apresentei-me em casa da exc.<sup>ma</sup> +snr.ª D. Vicencia dos Anjos Albergaria Raposo Cogominho etc.</p> + +<p>(Parece-me que vai sahindo grande estopada a historia!<span +class="pn">{40}</span> Já agora, leitor, não queiras que eu perca duas tiras de +papel, escriptas debaixo da inspiração saudosa dos tempos ridiculos!) Apenas +entrei, fui rodeado de caras desconhecidas. Vi muita velharia femea sentada a +um canto da sala. Fui lá fazer os meus comprimentos, e apenas uma se dignou +bamboar um pouco a cabeça. As outras perguntavam á dona da casa quem era eu. +Este <em>quem é</em> ignominioso passava de bocca em bocca, já depois que D. +Vicencia dissera alto e bom som: «O snr. João Junior é o salvador intrepido da +minha cadellinha.» Ser João, e salvar cadellas não era habilitação bastante +para ser apresentado.</p> + +<p>Deu-se-me pouca importancia; apenas o capellão me veio perguntar quem era, +d'onde era, que modo de vida tinha.</p> + +<p>O orgulho começou a picar-me, e eu respondi que era o que fôra antes de ser +o que era. Que nascera em qualquer parte onde o acaso me fizera nascer. Que o +meu modo de vida era viver de modo que podesse rir-me dos tolos que o acaso do +nascimento fizesse mais tolos do que eu.</p> + +<p>O capellão ficou atonito deste trocadilho insulso, e fêl-o mais parvo do que +era, revelando-o aos hospedes de D. Vicencia.</p> + +<p>Ella, porém, viera sentar-se ao meu lado, e animou-me a eloquencia com as +liberdades da sua conversação.</p> + +<p>Fallou-me no amor, e parecia mais bella, acalorada com o enthusiasmo deste +grande assumpto. Perguntou-me se tinha amado, e se lhe fizera a ella o +sacrificio de privar a minha amante d'alguns instantes felizes.</p> + +<p>Respondi que apenas sahira da minha aldeia vinte dias antes, pela primeira +vez, e não sentira ainda o que era amor.</p> + +<p>«Sim!?—atalhou ella, abrindo muito os olhos scintillantes.</p> + +<p>—Sim, minha senhora.</p> + +<p>«Um coração virgem! É crivel! Qual será a feliz<span class="pn">{41}</span> +mulher que se aqueça ás primeiras chammas da sua alma?</p> + +<p>Esta metaphora pareceu-me magnifica e fez-me impressão! Se lhe respondesse, +diria necessariamente uma futilidade chôcha. Calei-me, e, se bem me recordo, +córei.</p> + +<p>Se dispensam saber o resto, não leiam o capitulo seguinte.<span +class="pn">{42}</span></p> + +<h2>VII.</h2> + +<p>Pouco depois, tres morgados das margens do Tamega vieram sentar-se ao pé de +D. Vicencia, e começaram a fallar de cavallos. Discutiu-se a pulmoeira d'uma +egua ingleza, e os alifafes d'um alasão de Alter. D. Vicencia fallou d'um urco +inglez que era o mimo quadrupede do quartel general do Beresford, e datou +precisamente que em metade do seculo XVIII florescera o tronco d'um cavallo +pigarço que lhe morrera d'um aguamento na estalagem de Vallongo.</p> + +<p>Eu assisti estupidamente silencioso á pratica destes dignos Plutarcos de +cavallos illustres. Se quizesse dar o meu obulo para a conversação, poderia +apenas apresentar as minhas averiguações sobre quatro mataduras d'uma egua em +que viera, graças á benevolencia prestante do meu abbade.</p> + +<p>Á meia noite, um tio de D. Vicencia, conego da sé patriarchal, principiou a +resonar a um canto da sala. A trombeta nazal do distincto ornamento da igreja +era o signal do despejo. A nobreza destes reinos principiou a sahir,<span +class="pn">{43}</span> e eu, depois de quatro curvaturas, correspondidas por +quatro mesuras de alto a baixo, em que era soberanamente ridicula D. Vicencia, +fui para o meu quartel, scismar na mulher, á luz d'uma bugia.</p> + +<p>Devo confessar que me não sahia das orelhas o ecco destas dulcissimas +palavras: «qual será a primeira mulher que aqueça as primeiras chammas da sua +alma?» Esta honra de fogareiro, concedida pelos melhores quarenta annos que +meus olhos viram, alvoroçou-me o sangue, e tirou-me a vontade da ceia, dôce +amiga que até então me embalava nos sonhos deliciosos d'um Vitellio de meia +tigella.</p> + +<p>Vi duas vezes a mulher, em sonhos. Não sei porque, mas o sonho com a mulher +que póde amar-se, essa casta idealisação em que o material do corpo não entra, +faz que a gente accorde amando-a, revendo-a através da nuvem esvaecida do +sonho, desfigurando-a por uns contornos vaporosos, que o leitor nunca viu, se +Deus lhe fez o favor de lhe dar uma alma bem chata, do que lhe dou os meus +sinceros parabens.</p> + +<p>Rompia a manhã no horisonte purpurino do mar, quando eu saltei do leito da +insomnia para o meio da rua. Senti que era poeta: alvoreceu-me nessa madrugada +o furor das rimas, e, sem vaidade, confesso que escrevi d'uma enfiada vinte e +tantas quadras, terminando todas por:</p> + +<blockquote> + <p>Meu amante coração.</p> +</blockquote> + +<p>É realmente um vacuo na historia da poesia moderna em Portugal a perda +lastimavel do meu primeiro jacto metrico. Se bem me recordo, o meu poema +poderia ter uma até duas, mas tres tolices em cada verso, isso posso eu +asseverar que não aos poetas contemporaneos, que tem levado o seu talento +creador a quatro, cinco, e mais. Como quer que fosse, eu glorio-me de ter feito +obra que<span class="pn">{44}</span> muitos annos depois encontrei executada, +com pequenas correcções, ao som da viola, fazendo as delicias d'um arraial.</p> + +<p>Com a aurora da poesia veio a primeira nuvem das decepções amargas do poeta, +e vem a ser que, estando eu persuadido que o poeta sahia do vulgar, entrava em +convivencia com os sylphos, e, <em>ipso facto</em>, dispensava o +almoço,—enganei-me redondamente. Ás nove horas e meia, quando o coração +parecia ter feito monopolio da vida dos outros orgãos, começaram-me os +intestinos a resoar uma symphonia de rugidos, que devia ser a da abertura d'uma +opera muito séria. Fui a casa, e aquietei o motim intestinal, como os +imperadores romanos aquietavam a canalha: <em>panem</em>, mas com manteiga, que +os romanos não conheceram; o <em>et circenses</em> traduzi-lh'o em café com +leite.</p> + +<p>Consummada esta operação mixta, achei-me poeta em duplicado. Fiz um soneto +excellente durante a digestão. Era um acrostico a <em>Vicencia</em>; mas como +Vicencia tem só oito letras, e eu precisava de quatorze, venci a difficuldade, +buscando entre os seus appellidos um com seis letras. Encontrei +<em>Raposo</em>; por consequencia—VICENCIA RAPOSO!</p> + +<p>Era um bello soneto, que será publicado na 2.ª edição, para não alterar a +ordem delineada da 1.ª Perfilei-me na praia, eram dez horas e vinte e cinco +minutos. O coração dava-me cambalhotas no peito, quando a vanguarda de D. +Vicencia, composta de paspalhões, appareceu na calçada. Nisto, desponta a +cadellinha, que eu amava quanto é possivel amar-se uma cadella que nos +proporciona o namoro com a dona. Depois... <small>ELLA</small>!</p> + +<p>Então é que foi! Eu já não sabia o que havia de fazer das mãos! Parecia-me +que a perna direita era um membro incommodativo. Os hombros encolhiam-se-me, e +os braços procuravam, entre todas, a postura mais desengraçada!<span +class="pn">{45}</span> D. Vicencia cortejou-me de longe, e eu, querendo +corresponder-lhe, tirei o chapéo tanto á pressa que me ficou metade do forro em +volta da testa, como uma aureola de marroquim vermelho. Attribulado com os +sorrisos de quatro petimetres que me estavam ao lado, quiz dar-me uma +compostura geral ao corpo para os encarar com sobresenho, e resvalou-me um pé +na aresta d'uma fraga. Dobraram a risada os peralvilhos, e eu, emparvecido, +cosi-me com uma barraca, desejando n'aquelle instante bifurcar-me na egua +ulcerosa do abbade, e demandar o patrio ninho.</p> + +<p>Não o quiz assim a minha desventura.</p> + +<p>D. Vicencia não testemunhára a minha segunda catastrophe, graças ao +cumprimento d'um adventicio. Quando eu me escoava subtilmente por entre as +barracas, não pude deixar de envesgar um olho miserando sobre Vicencia. Viu-me! +procurava-me com aquelle ar desdenhoso das mulheres espertas, que parecem não +querer vêr o homem que mais procuram. Ora, Vicencia, além de esperta, tinha um +uso!... Não fallemos disso!</p> + +<p>O magnetismo d'aquelle olhar collou-me os pés á areia como os da estatua do +idiotismo! Sorriu-me com o mais amavel dos desleixos, brincando com as borlas +do seu elegante casaco, roupão, ou como é que se chamava, de castorina côr de +rato! Eu tomei a brincadeira das borlas como um acêno, e penso que me não +enganei. Este espirito sagaz é uma cousa muito velha em mim!</p> + +<p>Fui-me aproximando disfarçadamente. Vicencia, com mais subtil disfarce, +deixou o grupo dos senhores donatarios que regougavam as suas tolices +habituaes. Foi sentar-se solitaria ao pé d'uma barraca, e eu, tremulo de susto, +fingindo quanto pude um animo frio que mais me denunciava, avisinhei-me com o +chapéo na mão.</p> + +<p>—Como passou a noite, snr. João Junior?—acudiu ella ao meu embaraço.</p> + +<p>«Muito obrigado, minha senhora...—gaguejei eu.<span +class="pn">{46}</span></p> + +<p>—Passou bem, não é assim?</p> + +<p>Creio que fiz um tregeito parvo com os beiços, no qual tregeito queria eu +significar-lhe que não passára lá grande cousa.</p> + +<p>—Então passou mal?—tornou ella.</p> + +<p>Uma idéa, distinctamente tola, me acudiu de improviso á mente. Julguei do +meu dever não atraiçoar o legitimo sentimento de ternura que ella fizera +nascer. Revesti-me da bravura moral que o amor inspira a todos os patetas +bisonhos, e respondi bruscamente:</p> + +<p>«Quem sonha com o objecto amado não passa bem.»</p> + +<p>Nos labios de Vicencia esvoaçou um riso imperceptivel. Ainda hoje me dá +muito que pensar aquelle riso! Acho, aqui para nós, que a generosa mulher +satisfez com aquelle riso ao estimulo de uma conscienciosa gargalhada.</p> + +<p>—Pois o senhor não me disse ainda hontem que não amava?</p> + +<p>«É verdade, minha senhora... mas... lá vem a maré...</p> + +<p>—Vem a maré?! (disse ella) a que horas virá ella hoje? Tanto queria tomar +banho cedo!</p> + +<p>Imaginem, pios leitores, com que cara eu ficaria!<span +class="pn">{47}</span></p> + +<h2>VIII.</h2> + +<p>—Eu não fallava na maré do mar, minha senhora...</p> + +<p>«Ah... não? eu pensava...</p> + +<p>—Queria eu dizer que... o coração muda d'um instante para o outro.</p> + +<p>«Agora entendo! Ora sente-se...</p> + +<p>E eu sentei-me, resolvido a ser homem; mas a cadeira era baixinha e eu +fiquei virtualmente sentado como um macaco. Quiz accommodar uma perna sobre a +outra; mas o meu mestre de rhetorica tinha-me dito que era signal de má criação +cruzar as pernas. Desejei n'aquelle momento angustiado ter nascido na Laponia, +ou encurtar em corpo na razão directa da pequenez do espirito. Experimentei +variadas attitudes: uma vez, ficava-me o pé direito em aleijão; outras, o +joelho esquerdo formava com o direito o apice d'um triangulo isosceles. +Resolvi, por fim, estender uma perna, e encurvar a outra em fórma de fateixa. +Isto em quanto ás extremidades inferiores; mas a anathomia prova que o Creador +tambem fez as extremidades superiores para castigo de amantes garraios. A mão +direita andou<span class="pn">{48}</span> longo tempo em busca de uma posição, +desde o seio do collete até ao joelho; por fim, metti-a na algibeira. A +esquerda inutilisei-a entre as costas e a cadeira. Definida a minha posição, +immobilisei-me nesta caricatura, como se fosse de greda. Desviei as minhas +attenções plasticas do corpo, e fiz-me todo espirito, para destruir o mau +effeito do involucro.</p> + +<p>—Não toma banhos?—disse D. Vicencia, como se eu lhe tivesse aguado as +bellas cousas que tencionava dizer-me.</p> + +<p>«Sim, minha senhora, já tenho vinte banhos.</p> + +<p>—Soffre dos nervos?... É um terrivel padecimento...</p> + +<p>«Eu tambem soffro bastante dos intestinos» atalhei eu com toda a +ingenuidade.</p> + +<p>—Sim? Ainda ha peores enfermidades... As do coração é que não se curam.</p> + +<p>«E v. exc.ª padece do coração?—disse eu com sincera condolencia.</p> + +<p>—Muito...</p> + +<p>«Algum aneurisma?</p> + +<p>—Aneurisma moral... que é o peior de todos. O snr. João Junior ha-de +soffrel-o tambem quando chegar a sua hora.</p> + +<p>«Por em quanto, não sinto dôres de peito, minha senhora. O meu mal é todo de +intestinos.</p> + +<p>—O coração—tornou ella sorrindo de um modo celebre—o coração tambem é um +intestino.</p> + +<p>«Ha-de perdoar, minha senhora; mas os intestinos estão por debaixo do +estomago. Tenho um tio cirurgião que sabe perfeitamente a anatomia, e nunca lhe +ouvi dizer que o coração era um intestino.</p> + +<p>D. Vicencia ria desafinadamente. Eu estava um pouco enfiado e corrido deste +mau gosto de discutir ás gargalhadas.</p> + +<p>«De que se ri v. exc.ª?»—interpellei eu, desarranjando<span +class="pn">{49}</span> um pouco a minha attitude, que tanta arte me custára, e +tanto me custou a restaurar.</p> + +<p>—Eu rio-me da boa fé com que o senhor enrista a lança em defesa da anatomia +do seu tio. Eu tenho fallado em estylo allegorico. O snr. João Junior sabe +perfeitamente o que é allegoria.</p> + +<p>«Pois não sei?—repliquei eu com ar de triumpho—<em>Allegoria est +tropus</em>... V. exc.ª sabe latim?</p> + +<p>—Não, não sei.</p> + +<p>«Eu traduzo: Allegoria é o tropo, por meio do qual se mostra nas palavras +uma cousa differente da que se tem no pensamento, empregando todavia, para +designar esta ultima, outra que com ella se assemelhe. Ha duas especies de +Allegoria, que são: a <em>total</em>, e a... V. exc.ª ri-se? Cuida que eu estou +a mentir?</p> + +<p>—Não cuido; peço-lhe que não repare nos meus risos. Eu estou folgando de +ouvir um sabio...</p> + +<p>«Sabio, não digo; mas ainda não ha tres mezes que eu estudei o meu +Quintilliano...</p> + +<p>—E sabe-o de cór... Qual é o seu destino? tenciona ser frade?</p> + +<p>«Não, minha senhora... Eu parece-me que não sirvo para a vida ecclesiastica. +Meu pai quer que eu seja frade Bernardo; mas eu... acho que não se póde ser bom +frade, quando se fazem versos.</p> + +<p>—Pois o senhor é poeta?</p> + +<p>«Tenho minha tal ou qual inclinação para isso.</p> + +<p>—Ha-de dar-me uma amostra da sua musa. Tem algum poema escripto na Foz, +cantando o Neptuno, e as deusas do mar?</p> + +<p>«Ainda não escrevi nada sobre Neptuno; mas se v. exc.ª ordena, farei uns +versos a esse assumpto. Hoje escrevi eu umas quadras e um soneto, que deixei em +casa.</p> + +<p>—Deixou em casa? que pena! Não se lembra de alguns versos?<span +class="pn">{50}</span></p> + +<p>«Não, minha senhora.</p> + +<p>—Qual foi o motivo?</p> + +<p>«O motivo... o motivo...—gaguejei eu, esfregando os dedos da mão esquerda +na palma da mão direita—O motivo... bem sabe v. exc.ª qual foi...</p> + +<p>—Eu!... não sei! Talvez a bravura com que o senhor salvou a minha +cadellinha!...</p> + +<p>«Qual cadellinha!? Ora! não fallemos n'isso... Os versos foram feitos... a +v. exc.ª</p> + +<p>—A mim?! Dobrada razão para lh'os pedir. O que me pertence não póde ser +retido, em seu poder, sem meu consentimento. Vá já buscar os meus versos, snr. +João Junior, e leve-m'os a minha casa, sim?</p> + +<p>Ergui-me da infernal cadeira radioso de gloria! Da praia a minha casa não vi +ninguem. Caminhava sobre flores d'um perfume embriagante. Tudo me parecia +azul-celeste. O coração dava encontrões na estreita bocêta do peito. Cheguei a +persuadir-me que estava curado dos intestinos.</p> + +<p>Fatalidade! O extremo d'um grande prazer é um desgosto. Procurei os meus +versos que deixára sobre a banca, e não os vi. Corro á cozinha, e interrogo uma +velha, que me acompanhára de casa. Pergunto-lhe pelos meus poemas, e ella +arregala os olhos enviezados de marroquim, sem saber o que eu procuro. Insto +pelos meus papeis, e a incendiaria diz-me que, á mingua de carqueja, accendera +o fogão com uns papellitos que achára sobre a mesa.</p> + +<p>Senti a cruenta precisão de matar esta velha! Injectaram-se-me os olhos de +idéas assassinas. Traquinaram-me os queixos convulsivos de raiva. Entrou em mim +o <em>delirium tremens</em>... Foi a imagem de Vicencia que me salvou... se +não... ai da velha! e ai de mim tambem!</p> + +<p>Sahi, fui-me empoleirar no penedo mais hirsuto dos Carreiros, bebi a longos +tragos a inspiração, reproduzi as idéas da poesia supplementar á carqueja, e +outras novas<span class="pn">{51}</span> suggeridas por um novo ardor. Ó poder +do genio! Cento e vinte versos, repartidos em quadras, a inspiração ejaculou +d'um vomito! Escriptos a lapis, trasladei-os em papel de peso na loja d'um +tendeiro. Corri a casa de D. Vicencia. Annunciei-lhe a catastrophe da 1.ª +edição, que a fez rir muito. Deixei-a lêr mentalmente a segunda, e não ousei +procurar no semblante d'ella a denuncia da sensação que lhe faziam.</p> + +<p>Lido o poema, D. Vicencia, séria, magestosa, e commovida, sentou-se, fez-me +sentar, por um gesto, junto de si, e murmurou estas palavras que nunca, através +de trinta annos, pude esquecer:</p> + +<p>—O senhor fez-me rir hoje; mas os seus versos fazem-me pensar com mais +seriedade do que eu queria. O senhor é uma criança de coração, annunciando +talento e infortunio. É um innocente que fará rir, antes que o ensinem a +chorar... Agradeço os seus versos, os seus sentimentos, e o offerecimento do +seu coração.</p> + +<p>Felizmente para mim entrou gente na sala.</p> + +<p>O capitulo seguinte não sei se terei a coragem de escrevêl-o! Vou lêr alguns +das <em>Confissões de J. J. Rousseau</em> para me animar.<span +class="pn">{52}</span></p> + +<h2>IX.</h2> + +<p>Era em uma dessas noites em que o amor se pendura dos raios argentinos da +lua-cheia. O dorso do mar, sereno e suspiroso, scintillava em escamas de prata. +Na quebrada dos montes fronteiros, onde a lua não diffundia o seu clarão, +perpassavam luzinhas magicas, tremulas e subitaneas, que, ao cabo de contas, +vinham a ser as candeias dos lavradores que subiam do redil para os casebres, +ou desciam dos casebres para onde elles queriam, cousa de que não faço questão.</p> + +<p>E eu fitára os olhos no horisonte do occeano, terrivel e magestoso; quadro +indecifravel desde o cháos, provocação eterna ao orgulho do verme chamado +homem; gigante inquieto que submerge no seio, d'um sorvo apenas, a taboinha +juncada de soberbos tyrannos da terra, que lá se confundem com a folhagem das +algas, boiantes sobre a garganta dos abysmos. E o meu espirito, desatado do +poste vil chamado corpo, pairou nas alturas do céo, voejou de mundo para mundo, +librou-se na paragem luminosa das chimeras, e desceu por fim sobre a imagem de +D. Vicencia.<span class="pn">{53}</span></p> + +<p>Eram dez horas da noite.</p> + +<p>Sahi de minha casa, com a phantasia arrobada de delicias, e achei-me +machinalmente debaixo d'um caramanchão de faias e loureiros que abobadavam uma +janella aberta no angulo do jardim de D. Vicencia.</p> + +<p>Os raios da lua, dardejando sobre a copa do miradouro, matisavam-na de +tremula folhagem de prata, e vinham, filtrando por entre os rotulos da janella, +mosquear a relva como a pelle da zebelina. Era muito para ver-se tudo isto que +eu, exacto retratista da natureza, vou pintando de modo que o leitor parece-lhe +que o está vendo. É o que se quer.</p> + +<p>Sentei-me defronte desta como gruta de fadas, e imaginei o que ha mais bello +em Ossian, em Hoffmann, e nos contos orientaes, que eu, com vergonha o +confesso, não tinha visto, nem vi depois; mas, nestes ultimos tempos, é preciso +ser grande alarve para não saber tudo isto e muitas cousas mais, lendo os +folhetins dos meus amigos, sabedores de tudo, conhecedores de todos os nomes +distinctos, á excepção do Lobato, e do Madureira, menos euphonicos que +Macpherson, Goethe, Klopstock, e outros, que elles conhecem, como eu, dos +catalogos da bibliotheca <em>Charpentier</em>.</p> + +<p>Estava eu, pois, nesta idealisação de todos os meus cinco sentidos, +divinisando aquella gruta, onde de tarde vira Vicencia com a face voltada para +o sol-poente, apoiada com geito encantador na mão eburnea.</p> + +<p>Devo, para desarmar a critica, protestar contra o epitheto <em>eburnea</em>. +Entrou commigo a peste litteraria dos modernos torneiros de paragraphos. +Arredondar o periodo é a condição imposta pela tyrannia do gosto ao +escrevinhador laureado. Eu canto o que escrevo; e, se a toada me destoa no +tympano, desmancho a oração em partes, ajusto-as de novo, calafeto-as de +artigos, e pronomes, e conjunções, o mais afrancezadamente que posso, e sahe-me +a<span class="pn">{54}</span> cousa um pouco inintelligivel, mas harmoniosa +como um clarinete de romeiro de S. Torquato de Guimarães.</p> + +<p><em>Com geito encantador na mão eburnea</em>: reparem que é um verso +hendecasyllabo. Quem ha ahi que arredonde melhor um periodo, sem desnaturar a +lingua, nem alastrar o verso de cunhas que resabem a estrangeirice?</p> + +<p>Tudo isto veio adrêde (eu traduzo: <em>á-propos</em>) para dizer que, +estando eu com os olhos embevecidos nas melenas das faias, abriu-se subitamente +a janella, e a lua deu de chapa na radiosa cara de D. Vicencia.</p> + +<p>Viu-me, e não me conheceu: ia retirar-se quando eu, ainda absorto na +apparição, tossi o mais melicamente que pude. Vicencia deu ares de conhecer-me. +Eu, invocando todos os potentados da minha alma (não seja sempre +<em>potencias</em>) para vencer o acanhamento, murmurei:</p> + +<p>«Sou eu...</p> + +<p>—É o snr. João?</p> + +<p>«É verdade, minha senhora.</p> + +<p>—Então que faz por aqui?! versos?</p> + +<p>«Estava a admirar a natureza, minha senhora.</p> + +<p>—E admiravel que ella está!</p> + +<p>«Muito admiravel, admirabilissima! muito bonita é a natureza!</p> + +<p>—Eu tambem quiz ver o mar onde a lua se espelha tão poeticamente! Mas a +noite vai arrefecendo; e eu receio muito as constipações á beira-mar. Se me dá +licença, recolho-me...</p> + +<p>«Pois eu ainda fico... Estou gostando muito desta encantadora noite... Quem +ama, não tem medo ás constipações...</p> + +<p>Estas palavras proferi-as com certa entonação de despeito, e fiquei +satisfeito da minha veia epigrammatica. Vicencia, porém, redarguiu:</p> + +<p>—O logar é incompetente para fallar d'amores. Quem nos visse aqui a +deshoras suspeitaria de nós. Nada de escandalos,<span class="pn">{55}</span> +snr. João Junior. Venha cá ámanhã, e então me dirá o effeito que lhe fez o +poetico espectaculo desta formosa noite; mas... se valho alguma cousa na sua +vontade, peço-lhe que se recolha, e não queira privar-se de me ver ámanhã, +constipando-se hoje... Promette ir?</p> + +<p>«Sim, minha senhora...</p> + +<p>—Então, boas noites.</p> + +<p>E fechou o rotulo, mais depressa, por sentir passos na extremidade da +travessa, que era de pouquissima passagem.</p> + +<p>Eu permaneci quieto no meu sitio, meditando, triste, na indifferença gélida +com que fôra recebido, em hora tão romantica, tão mysteriosa! N'isto, passou +por mim um vulto. Era o homem, cujos passos a fizeram fugir com mais presteza.</p> + +<p>O tal vulto, ao perpassar por mim, mediu-me d'alto abaixo, afrouxando o +piso. Olhou para a janella de Vicencia, e fixou-me de novo. Deu alguns passos, +e retrocedeu... Confesso que já não estava contente!</p> + +<p>O encapotado foi até á extremidade do bêcco, e voltou. Parou diante de mim, +e disse por debaixo do capote, em ar de tyranno de tragedia:</p> + +<p>—Que quer vossê aqui?</p> + +<p>«Não quero nada...—gaguejei eu.</p> + +<p>—Pois então, mude-se.</p> + +<p>Eu demorava um pouco a execução do mandado solemne de despejo, quando o +homem recalcitrou:</p> + +<p>—Mude-se, ou eu o ajudo a mudar.</p> + +<p>A ajuda, pelos modos, era uma pranchada de chanfana, que o nosso amigo +deixou vêr por debaixo da fimbria do capote. Dispensei o auxilio offerecido, e +retirei-me cozido com a parede, scismando nas bellezas appensas a uma noite de +lua cheia á beira mar.</p> + +<p>Ao cabo da viella parei, sustido por um pensamento negro. «Será aquelle +homem um amante de Vicencia?!»<span class="pn">{56}</span></p> + +<p>O ciume deu-me intrepidez, quero dizer—a intrepidez de parar e esconder-me +d'onde podesse espreitar a scena mais escandalosa de que o leitor tem noticia!</p> + +<p>A janella abriu-se. Era Vicencia... conheci-lhe a voz! Não sei o que ella +disse que fez rir o meu rival. Ouvi o soido de ferro que raspava no peitoril da +janella! eram os ganchos d'uma escada. Ouvi o som cavo do embrulho de cordas a +cahir na terra. Vi o maldito subir, coar-se pela janella, recolher a corda... +e... maldição! maldição!...</p> +<hr class="dotted"> + +<p>E, desde essa noite nefasta, a minha fronte pendeu abatida como cabeça de +estatua que um raio fulminou.</p> + +<p>Contei as minhas amarguras á vaga gemente, e acordei os eccos das solidões +compadecidas.</p> + +<p>Como Fausto, como Manfredo, e como Werther, perguntei ao Creador se a vida +não era uma grande patacuada.</p> + +<p>O demonio do suicidio segredou-me as delicias do aniquilamento.</p> + +<p>Quiz tentar contra a minha existencia, e vacillei longo tempo na escolha do +instrumento.</p> + +<p>Queria um genero de morte novo, maravilhoso, inaudito, e memorando!</p> + +<p>A pistola, o punhal, o laço, a asfixia, o verdete eram já n'esse tempo +expedientes muito safados.</p> + +<p>Em cata d'um morrer distincto, habituei-me á dôr. Vivi, se vida póde +chamar-se este mixto de funcções animaes em que predomina o almoço, o jantar, e +a ceia.</p> + +<p>Não se conhecia então o instrumento de suicidio que a sociedade actual +inventou: O ARTIGO DE FUNDO.<span class="pn">{57}</span></p> + +<h2>X.</h2> + +<p>Eu, João Junior, não soffro os romancistas que pulam d'um capitulo para +outro, de modo que o romance tanto faz principial-o detraz para diante como de +diante para traz. Classico em toda a extensão da palavra, respeito a arte +antiga, admiro a boa ordem das <em>Pastoris</em> de <em>Longus</em>, do +<em>Jumento</em> de <em>Lucius de Patras</em>, e outros venerandos monumentos +da arte adulta, cuja leitura não aconselho áquelles que dormem as suas horas, +sem o recurso do láudanum. Com quanto Aristoteles, Horacio, Pope, e Boileau não +legislassem para o romance, eu, sincero venerador da arte que ensina a fazer os +primores d'arte, trabalho, quanto em mim cabe, por introduzir no romance as +tres unidades de Aristoteles. E aproveito a occasião para certificar aos +principiantes n'este esperançoso ramo de litteratura, que é bom saber um bocado +de Aristoteles, depois de ter lido duas comedias de Scribe, a <em>Dama das +Camelias</em>, e—se o principiante fôr extremamente estudioso—o +<em>Chatterton</em>, o <em>Bug Jargal</em>, afóra a immensa erudição que vem no +La Place. Com estes seis volumes, uma capacidade mediocre<span +class="pn">{58}</span> abrange todas as ramificações da sciencia humana, e +póde, se um editor martyr o ajudar, aos quarenta annos, ter produzido quarenta +volumes.</p> + +<p>Os meus quarenta annos já lá vão ha muito; mas, se Deus me der mais dez, +prometto encher o vasio que sempre deixa na terra um grande nome. É este o +primeiro livro com que brindo a humanidade; mas tão maduramente pensado elle +vai, tanto tempo o choquei, antes do parto, no utero intellectual, que, se me +não logra a vaidade, começo por onde muitos acabam.</p> + +<p>A logica com que os capitulos anteriores vão coordenados, a naturalidade das +transições, o alinho das fórmas em harmonia com a substancia, a intima alliança +da esthetica com a plastica, a artistica rigidez com que os caracteres se +pintam, e, sobre tudo, a pureza, a elegancia, o atticismo, a propriedade da +linguagem, portugueza de lei como os portuguezes d'esta nossa afortunada época, +tudo isso, e outras louçanias que omitto, por preguiça, provam que eu, João +Junior, conheço Aristoteles; e, se nunca o li, maior habilidade revelo; tenho o +sexto sentido, o <em>illuminismo</em>, que tambem não sei bem o que é. Pelo +que, muito importa que o leitor saiba</p> + +<p style="text-indent: -1em; margin-left: 1em;"><em>Quem era o homem da escada +de ferro, o que elle por lá fazia áquellas horas, e de como o author, depois de +trinta annos, chora por D. Vicencia, e o mais que a este respeito se disser, +como do capitulo melhor se verá.</em></p> + +<p>Deveis de saber, leitores pudicos, que D. Vicencia Raposo, quando chegou á +Foz, sentiu, na presença do occeano, rejuvenescer-se o coração, +desenrugar-se-lhe a alma, e esvoaçarem-lhe de redor candidos amorinhos. +<em>Souvent l'onde irrite la flamme</em>, disse Corneille, e D. Vicencia, +aspirando o ar nitrico do mar, cobrou vigor de peito, e com o vigor novo +readquiriu as necessidades velhas, as illusões<span class="pn">{59}</span> de +1801, as realidades de 1809, e até o amargo prazer de experimentar os +desenganos de 1819, época da sua fatal decadencia.</p> + +<p>Resolvida a amar, Vicencia espartilhou-se o mais angustiosamente que pôde, +distribuiu nas faces, um pouco encortiçadas, dous escropulos de alvaiade com +outros tantos de carmim, e foi passear até Carreiros.</p> + +<p>O primeiro homem que viu geitoso era um cadete de cavallaria, bem apessoado, +bizarro de cintura, sadio de bochechas, e lesto de maneiras, requebros, +posturas, e varias outras momices que dão nos olhos da mulher disposta a amar.</p> + +<p>D. Vicencia era vistosa e farfalhuda. Meneava-se tregeitando com tamanha +volupia, que eram poucos os dous olhos da cara para a vêrem! O cadete não podia +ser indifferente á provocação, e azado era elle para segurar a fortuna pelos +cabellos. Menos parvo que eu, sacou do peitilho da fardeta o seu lenço branco, +e deu ao nariz notas diplomaticas para iniciar o namoro. Houve de parte a parte +correspondencia nazal, e já n'essa tarde o afortunado cadete foi apresentado a +D. Vicencia.</p> + +<p>Saibam desde já que o meu rival era... são lá capazes de adivinhar!... Bento +de Castro.</p> + +<p>Depois d'aquella negregada scena do bêco, será ocioso dizer-lhes que o meu +achaque de intestinos recrudesceu; aliás, para evitar os olhos da perfida, +ter-me-hia retirado a curar o coração no abrigo dos meus velhos, que todas as +semanas me recommendavam que rezasse as minhas contas, e não fizesse asneiras. +A gravidade do mal não me deixava assentar no albardão, apesar de doze +semicupios! Era-me forçoso testemunhar a minha derrota, assistir aos funeraes +ignobeis do meu primeiro amor.</p> + +<p>Nunca mais fui a casa de D. Vicencia, nunca mais a vi; mas á hora em que o +mocho pia no galho do azevinho, ia eu, cheio da minha amargura, sentar-me n'uma +collina fronteira ás janellas d'ella, e d'ahi, com um enorme oculo<span +class="pn">{60}</span> de papelão, conseguia lobrigal-a através das vidraças.</p> + +<p>Se quereis saber qual era então a minha angustia, perguntai á onda porque +geme, á fonte porque murmura, e á calhandra porque pipila entre as franças de +avellanzeira! É que a minha angustia era vaga e mysteriosa como a da onda que +geme, a da fonte que murmura, como a da calhandra, e a do calhandro, e de toda +a variedade de animaes que tem bico, ou barbatanas, ou tromba, ou labios, ou +qualquer orificio respiratorio por onde possam respirar e gemer.</p> + +<p>Entrou em mim o demonio do ciume! Quando, pela primeira vez, se hospedou em +minha alma virgem esta paixão filha do inferno, como lhe chama Homero, fez-se +uma subita mudança na minha natureza. Eu fôra incapaz de entalar o rabo d'um +gato, e senti-me propenso a cercear as orelhas a um homem! Levaria tres sôcos +sem resistencia para não levar o quarto, com heroismo, e achava-me animado +d'esse furor das batalhas, que ceifa louros e cabeças!</p> + +<p>Quiz conhecer, encontrar face a face o meu rival, e, para isso, muni-me do +cabo d'uma vassoura, estive quasi a experimental-o no cavername da velha, que +me queria tolher o passo, guinchando desabridamente, e fui postar-me debaixo da +janella por onde o vulto subira.</p> + +<p>Depois de duas noites mallogradas, á terceira apparece, entre uma hora e +duas da manhã, o nosso homem.</p> + +<p>Aqui entre nós que ninguem nos ouve: quando o vi perto de mim, a minha +coragem pareceu-me uma cousa muito duvidosa. Deram-me caimbras nas pernas, e +senti-me mal do epygastrico! Cingi a mim quanto pude o cabo da vassoura, para +que elle não denunciasse as minhas tenções reconsideradas, e, o mais +subtilmente que é possivel, fiz uma pirueta, preparando-me para uma retirada +honrosa, quando o sujeito me corta a vanguarda, e diz com voz soturna:</p> + +<p>«Que diabo estava o senhor alli fazendo?!<span class="pn">{61}</span></p> + +<p>—Nada...—regouguei eu.</p> + +<p>«Isso não é possivel. O senhor não estava alli para me vêr passar... Não se +assuste que eu não lhe faço mal... Diga lá o que me quer.</p> + +<p>O timbre agradavel d'estas palavras animou-me.</p> + +<p>—Eu ao senhor não lhe quero nada.</p> + +<p>«Ora venha cá;—tornou elle—vamos passear e conversar. O senhor chama-se +João Junior.</p> + +<p>—Seu criado.</p> + +<p>«Quiz namorar D. Vicencia.</p> + +<p>—Isso lá... é conforme...</p> + +<p>«Seja sincero. O senhor fez-lhe versos, versos que eu achei bonitos, e +conservo-os na minha carteira, porque talvez ainda me valham se me vir apertado +por alguma mulher com a mania de ser cantada em quadras. O senhor está muito +verde... Estas mulheres não se conquistam com versos, nem se procuram no +principio da vida. O snr. João é provinciano, vem lá da sua quinta com as +bucolicas do Rodrigues Lobo na cabeça; e, como não encontrou zagalas toucadas +de flores, imaginou que D. Vicencia era uma das tres Graças em uso de banhos. +Redondamente enganado, meu amiguinho. Ora agora, façamos um convenio. Quer o +senhor que eu lhe deixe livre o campo para as suas escaramuças? Com a melhor +vontade...</p> + +<p>—Nada, muito obrigado, eu não quero saber de mais nada... O que eu tenho a +pedir-lhe é os meus versos.</p> + +<p>«Ha-de ter paciencia; mas os seus versos acho-os muito bonitos, e não lh'os +dou. Até lhe digo mais: depois que os li, fiquei sympathisando com o author, e +tenho feito diligencias por encontral-o na praia, ou em casa de D. Vicencia. +Queria dizer-lhe que se não deixe lograr por taes mulheres; queria ensinal-o a +viver com esta gente, para o poupar aos desgostos que eu supportei, desde que +sahi de minha casa; queria, em fim, ser seu amigo, se o senhor não tivesse +n'isso antypathias que vencer.<span class="pn">{62}</span></p> + +<p>—Muito obrigado...—mastiguei eu, bem disposto a favor de homem tão franco.</p> + +<p>E voluntariamente me deixei ir pelo braço delle até sua casa. Subi, e era +dia claro quando nos separamos, amigos para sempre.</p> + +<p>Dous annos depois, recebia elle de mim lições de <em>savoir-vivre</em>. O +meu talento precoce predominou a experiencia d'elle. Um anno de tracto social, +decifrou-me enigmas em que Bento de Castro ainda hoje sinca.</p> + +<p>Duas palavras mais ácerca de D. Vicencia, e serão ellas sérias e tiradas do +coração n'um intervallo de negra tristeza.</p> + +<p>A mulher devia ser velha quando não sente o coração... quando já não ama. +Vicencia amou até o fim da vida. Amargurado fim de vida devia ser o seu! Nem já +flôres desmaiadas lhe escondiam a fronte encanecida. Perdido o brilho, +amorteceram-se-lhe os olhos, franziram-se-lhe as palpebras, encorreou-se-lhe o +collo, e as mãos, que tão lindas foram, tingiu-as a amarellidão do tempo.</p> + +<p>E o coração ainda vivo no involucro muribundo! Era como a flamma que não +póde coar-se nos vidros embaciados da velha lampada.</p> + +<p>Foi, por fim, motivo de irrisão e mofa, aquella mulher, que, desde os doze +até aos quarenta e cinco annos, arrancára coroas de quantas rivaes quiz +supplantar!</p> + +<p>De todos os seus amantes, eu fui por ventura o mais nobre, e o mais +vilipendiado. Embora! Nenhum outro lhe daria o <em>salve</em> compassivo que eu +lhe dou, depois de trinta annos.</p> +<hr class="dotted"> + +<p>Oh vida! vida!.............................</p> +<hr class="dotted"> + +<p>Grandes devem ter sido as provações de quem souber tilintar os guizos do +histrião para que lhe não ouçam os gemidos!...</p> + +<p>Chorar no coração, e rir no espirito...<span class="pn">{63}</span></p> + +<h2>XI.</h2> + +<p>Consta do final d'um capitulo, escripto em logar competente deste exemplar +romance, que Bento de Castro sahiu de minha casa para entabolar com +Hermenigilda o seu primeiro colloquio.</p> + +<p>Eu cerrei as portadas da janella, deixando apenas uma fresta onde podesse +encaixilhar a orelha direita, sem denunciar a innocente espionagem. Alguns dos +meus amigos, orelhudos como Midas, não poderiam fazer outro tanto com o mesmo +recato.</p> + +<p>Bento foi quem primeiro teve a palavra, e disse:</p> + +<p>—É tal o prazer que me enche o coração, amada Hermenigilda, que não posso +exprimir-vos quanto por vós sinto, desde o ditoso instante em que vêr-vos e +adorar-vos foi obra d'um momento. O sentimento que meu terno peito nutre por +vós, acaso ao vosso terá passado?</p> + +<p class="pseudocentrado">ELLA.</p> + +<p>Eu passei bem, e o senhor?<span class="pn">{64}</span></p> + +<p class="pseudocentrado">ELLE (<em>atordoado como se lhe despejassem de cima +um balde</em>.)</p> + +<p>Como passará bem do corpo quem arde em vivas chammas de amor?</p> + +<p class="pseudocentrado">ELLA.</p> + +<p>O senhor tambem sabe cantar a modinha das <em>vivas chammas d'amor?</em></p> + +<p class="pseudocentrado">ELLE.</p> + +<p>Nada, não sei.</p> + +<p class="pseudocentrado">ELLA.</p> + +<p>Minha prima Carlota canta que é um regalinho ouvil-a.</p> + +<blockquote> + Althea, mimosa Althea<br> + Me maltractas com rigor,<br> + E eu por ti ardendo sempre<br> + Em vivas chammas d'amor. </blockquote> + +<p>Pois o senhor não sabia este soneto?</p> + +<p class="pseudocentrado">EU (<em>mentalmente</em>.)</p> + +<p>É d'uma estupidez fabulosa! Ó pobre Bento, como estará a tua alma!... Haverá +d'estas mulheres, passados trinta annos? Digo que não, em honra do progresso. +Alguns annos mais, e <em>Paulo de Kock</em>, e <em>Pigault Lebrun</em>, e +outros directores espirituaes, traduzidos em vernaculo, darão aos namoros de +nossas filhas occasião de ouvirem menos tolices. Os que amarem em 1856, devem +passar horas muito agradaveis! As mulheres de então, ricas de prendas +espirituaes, saberão dizer <em>toillette</em>, <em>rendez-vous</em>, +<em>petit-point</em>,<span class="pn">{65}</span> <em>crochet</em>, +<em>soirée</em>, <em>boucles</em>, <em>papier-satin</em>, <em>enveloppe</em>, e +outros ornamentos de lingua com que farão a sua maior, mais fecunda, mais +grulha e tagarella. Com a superabundancia do idioma, augmentarão as idêas, na +razão directa. A psycologia estará no auge. Mestre Spinosa e Kant encarnarão +nas costas abauladas da prole de qualquer jarreta. A mulher saberá os +escaninhos da alma como a abelha os do cortiço. Não haverá uma só que possa, +com acerto, chamar-se tola. Perfeita de espirito, attenderá ás imperfeições +corporeas, e descontente da massa insufficiente que o grande Artifice empregou +na feitura d'ella, apropriar-se-ha o algodão necessario para que o Creador +soffra um quinau. A mulher, correcta e augmentada, em alma e algodão, será o +luxo da natureza, a boneca das creanças-decrepitas, o ouro cendrado no cadinho +das humanas miserias, o melhor pedaço de carne e osso que Deus creou, a mais +flacida aba de algodão e barbas de baleia que as manufacturas celestes podiam +dar-nos.</p> + +<p class="pseudocentrado">ELLE (<em>despeitado</em>).</p> + +<p>Não fallemos nas cantigas de vossa prima; o que importa é saber se me tendes +um affecto igual ao meu.</p> + +<p class="pseudocentrado">ELLA.</p> + +<p>Isso lá... veremos. Se meu pai disser que sim...</p> + +<p class="pseudocentrado">ELLE.</p> + +<p>Pois vosso pái é que vos manda amar?</p> + +<p class="pseudocentrado">ELLA.</p> + +<p>O que elle diz é o que se faz. Casamentos não me faltam. Tem-me pedido +muitos senhores de casa, e se elle diz que não...<span class="pn">{66}</span></p> + +<p class="pseudocentrado">ELLE.</p> + +<p>Mas, eu não pergunto se quereis casar commigo.</p> + +<p class="pseudocentrado">ELLA.</p> + +<p>Então?! Se não quereis casar commigo, vindes enganado.</p> + +<p class="pseudocentrado">ELLE.</p> + +<p>Quero casar comvosco; mas primeiro devo experimentar...</p> + +<p class="pseudocentrado">ELLA.</p> + +<p>O que?</p> + +<p class="pseudocentrado">ELLE.</p> + +<p>O vosso coração. Quero ser amado antes de ser vosso marido. Que sentis por +mim?</p> + +<p class="pseudocentrado">ELLA.</p> + +<p>Sinto muito bem, gosto de vos vêr, e se meu pai quizesse, eu de mim tambem +queria ser vossa esposa.</p> + +<p class="pseudocentrado">ELLE.</p> + +<p>A minha carta que impressão vos fez?</p> + +<p class="pseudocentrado">ELLA.</p> + +<p>Fez-me muita: está muito bonita; parece mesmo que é cousa de livros de +historias. Tenho lá em casa, na Amarante, um livro chamado os Cantos de +Trancoso, e outro chamado as Aventuras de Theofilos, ou Theofanius, ou uma +palavra assim, que trazem muitos palavriados assim.</p> + +<p class="pseudocentrado">ELLE (<em>com a voz suffocada por um vomito +moral</em>).</p> + +<p>Boas noites, menina.<span class="pn">{67}</span></p> + +<p class="pseudocentrado">ELLA.</p> + +<p>Então passe muito bem, até ámanhã, se Deus quizer.</p> + +<p>Bento de Castro entrou no meu quarto com as mãos agarradas á cabeça. Eu +estava sobre a cama, marinhando com as pernas parede acima, arquejando de riso, +rebentando pelas ilhargas, quando o pobre homem entrou.</p> + +<p>«Pois tu ouviste?—disse elle.</p> + +<p>—Tudo! está vingada D. Vicencia, e eu tambem. Suicida-te, meu infeliz +Bento! Um homem que encontrou similhante Hermenigilda, deve morrer de tedio, de +vergonha, de raiva, de odio ao genero humano em geral, e ás mulheres em +particular!</p> + +<p>«Estás enganado—atalhou elle—gosto assim de vêr a estupidez no seu estado +de perfeição primitiva. Andava eu morto por encontrar a mulher como ella foi no +tempo em que se comiam bolotas e medronhos. Pensas que arrefeci na empreza? Não +tenhas medo. É uma mulher deliciosa para um homem que quer casar-se rico, e +desligar-se das obrigações que se contrahem matrimonialmente com uma mulher que +tem alma. Alli onde a vês, se eu tiver a duvidosa felicidade de a obter do pai, +é a unica mulher que me convém. Ha-de ser uma excellente criadora de porcos, e +se eu lhe disser que saia da Amarante para viajar commigo dá-lhe um desmaio. +Tomaram muitos encontrar a innocencia d'ella! Aquillo é tudo materia pura e +estreme como a dá a madre natureza. Eu corto o pescoço, se ella tem resquicio +de maldade!</p> + +<p>Castro continuava o elogio de Hermenigilda, quando ouviu vozear alto em casa +d'ella. Fomos á janella, e vimos Pantaleão embrulhado n'um cobertor com um toco +de sêbo acceso na mão, chamando Hermenigilda a grandes berros. Vimol-o chegar, +e o pai perguntou-lhe o que estivera ella fazendo n'aquella janella. +Hermenigilda negou, e o preto foi chamado para dizer que a ouvira estar +fallando com<span class="pn">{68}</span> um homem que costumava fazer-lhe +acenos da janella fronteira.</p> + +<p>Pantaleão, com o cobertor a rastos, solemne como um patriarcha do Levitico, +aproximou-se da filha cabisbaixa, deu-lhe um sonoro pontapé, e perguntou-lhe +quem era o sujeito que fallava. A desastrada moçoila tartamudeou, e, receosa da +segunda carga, disse que elle lhe tinha escripto para o bom fim. O pai disse +que queria vêr a carta. Hermenigilda sahiu d'alli; Pantaleão, no accesso da +colera, deixou cahir o coto de sêbo, e ficou em trevas.</p> + +<p>Não podemos vêr nem ouvir o desenlace da scena.</p> + +<p>«O peor é que a minha carta está assignada!—disse Castro.</p> + +<p>No dia seguinte, disseram-me, quando me levantei, que Pantaleão estava na +janella desde o romper do dia.</p> + +<p>Fui á janella, e fiz-lhe, como costumava, a minha cortezia, posto que elle +correspondia com desagrado á minha civilidade, desde que me viu fazer á moça +varias bugigangas.</p> + +<p>Fitou-me com terrivel catadura, e disse:</p> + +<p>«Ó su amigo, diga lá a esse borra-botas que por ahi vem, que eu sou homem de +lhe tirar a collada pelas costas, ouviu?</p> + +<p>—Ouvi perfeitamente, porque o senhor tem um excellente pulmão—disse-lhe +eu, disposto a jogar insolencias com o senhor de Fregim e coutos de +Riba-Tamega.</p> + +<p>«Diga-lhe lá que se tornar a desinquietar minha filha, mando-lhe moer o +espinhaço.</p> + +<p>—Faz o senhor muito bem... Com que então o tal maroto desinquieta-lhe a +filha!</p> + +<p>«Vossê está a mangar commigo?</p> + +<p>—Deus me defenda! Eu estou protestando contra aquelle tratante que +desinquieta meninas, e faz da minha casa o palladium das suas patifarias. O +direito paternal é o mais sagrado de todos os direitos. V. exc.ª tem +carros<span class="pn">{69}</span> de razão em quanto sustentar o decoro dos +lares, e mantiver immaculada a prosapia illustrissima de que borbulhou.</p> + +<p>Pantaleão olhava para mim, alongando os beiços e franzindo a testa. Eu +prosegui:</p> + +<p>—Mas, a fallar a verdade, eu não sei se v. exc.ª tem razões assaz fortes +para tamanha zanga. O sujeito que namora sua filha é filho segundo de uma +illustre casa de Celorico de Basto. Por <em>Gamas</em>, pertence ao venerando +tronco do que dobrou o cabo das Tormentas, como consta de João de Barros, +Lucena, Camões, e da historia genealogica da casa real. Por <em>Castros</em>, +descende por bastardia d'um irmão d'Ignez de Castro, que veio casar a Celorico, +e houve quatro filhos de D. Mecia da Gama, um dos quaes foi dom abbade em +Tibães, outro foi prior-mór de Christo, o terceiro morreu em Alcacer-Kibir, e o +quarto morreu em cheiro de santidade, e está inteiro. Já vê v. exc.ª que o +amante de sua filha não é qualquer borra-botas, como o senhor lhe chamou, no +auge da sua iracundia paternal. O que o senhor deve é indagar se é honesto o +intuito d'este amor: e caso o seja, apressar o enlace matrimonial.</p> + +<p>«Eu não preciso conselhos!—bradou irado Pantaleão—Se elle quer casar com +minha filha, peça-m'a, e eu lhe direi o que me parecer; mas não me ande cá a +rentar pela porta.</p> + +<p>—N'esse caso—redargui eu—direi ao meu amigo o que deve fazer para +captivar a benevolencia de seu illustre sogro. Elle irá pedil-a, conforme o +estylo, e v. exc.ª, depois de ratificar as informações que eu tive a honra de +dar-lhe ácerca da celebrada genealogia do meu amigo, consentirá que elle entre +no tronco da sua familia, como o regato no oceano.</p> + +<p>Parece incrivel, mas Pantaleão encarava-me com suave aspecto. A seriedade +conspicua e grave com que eu solemnisei a galhofa, achou acolhimento digno na +soez capacidade<span class="pn">{70}</span> do mirifico ornamento da Amarante e +povos adjacentes. Dignou-se perguntar-me quem eu era. Respondi que não podia +apresentar-me com appellidos benemeritos da sua estima, por isso que descendia +d'uma honesta familia de lavradores, a qual havia fundadas razões para +suppôr-se que descendia do primeiro homem, e não tinha outros documentos, além +de suspeitas, com que provar a sua antiguidade.</p> + +<p>Pantaleão achou-me razão, e disse-me que o rei Vamba fôra lavrador, para +consolar-me da minha baixa condição, acrescentando que sua magestade el-rei D. +Diniz, fôra amigo dos lavradores.</p> + +<p>Era para vêr-se a pratica affectuosa em que demoramos uma boa hora, +finalmente interrompida pela apparição de Bento de Castro, que vinha espantado +da cordura com que nos travamos.</p> + +<p>Pedi licença para receber o meu amigo. Contei a este o acontecido, e dei-lhe +os emboras do bom andamento em que, tão imprevistamente, se achava o seu +consorcio.</p> + +<p>Castro, palpitando d'alegria, a primeira cousa que lhe lembrou foi que não +tinha casaca para solemnisar a sua primeira visita ao pai da noiva. Remediado +com a do boticario da terra, que fizera uma para assistir ás exequias de D. +João VI, o meu amigo, n'esse mesmo dia, ás quatro horas da tarde, procurou +Pantaleão, com o fim tres vezes honesto de lhe pedir sua filha.</p> + +<p>Quando, porém, entrava no pateo, olhou machinalmente para dentro d'um +postigo d'uma casa terrea, e viu Hermenigilda sentada n'uma caixa de pau de +pinho, comendo figos. Ao pé d'ella estava o preto partindo uma melancia.</p> + +<p>Horrivel mysterio!<span class="pn">{71}</span></p> + +<h2>XII.</h2> + +<p>Não tarda, leitor pio, leitor indulgente, leitor benevolo, leitor honesto +que paga, leitor honrado que não lê de emprestimo, não tarda ahi uma enfiada de +lances estupendos, que lhe arranquem interjeições de pasmo, e lhe afervorem o +desejo de abraçar o author!</p> + +<p>Deixei o seu espirito em tribulações de curiosidade, no anterior capitulo, +onde Hermenigilda apparece comendo figos ao pé do preto, no momento em que o +meu amigo Castro ia, escada acima, pedil-a ao pai. Chamei «horrivel mysterio» +ao mais natural dos actos—uma mulher a comer figos!—Dei ao acontecimento uma +importancia que tem feito pensar o leitor ancioso. Vão vêr porque. O que, por +ora, posso acrescentar, porém, é que Bento de Castro recuou um passo, +entreteve-se alguns instantes indeciso, e, por fim, resolveu espreitar o que se +passava no quarto.</p> + +<p>Ao lado da pequena fresta havia no estuque esboroado uma greta propicia. O +meu amigo espreitou, e viu o seguinte, de que lavro acta para eterna +memoria:<span class="pn">{72}</span></p> + +<p>1.º Viu Hermenigilda acabar d'engolir um figo, e atirar o pé do mesmo á cara +do preto.</p> + +<p>2.º Viu o preto tregeitar uma careta festiva, e atirar á cara rúbida de +Hermenigilda um bocado do coração da melancia.</p> + +<p>3.º Viu a menina tomar do chão uma das rodellas de casca da dita melancia, e +assentar com ella uma sonora sulipa na carapinha do preto.</p> + +<p>4.º Viu o preto, com as belfas gotejando sumo, aggredir a espadua da morgada, +e vingar-se imprimindo-lhe uma palmada em cheio nas ultimas vertebras lombares.</p> + +<p>5.º Viu engadelharem-se, com grandes risadas, as innocentes creaturas, e +teve a gloria de presenciar a victoria da sua amada, que atirou com o preto ao +chão, e fugiu.</p> + +<p>Satisfeito d'estas cinco visões, por isso que lhe não faltaram receios d'uma +sexta, setima, e oitava, o meu amigo, tranzido d'espanto, perdeu a cabeça, e se +havia de subir, desceu os dous degraus que o separavam da rua, e entrou em +minha casa.</p> + +<p>Contou-me as suas observações importantes, commentou-as com admiravel +perspicacia, e acabou dizendo que renunciava o projecto do casamento, e me +pedia encarecidamente que não divulgasse o seu louco intento, e dissesse ao pai +da innocentinha que elle não queria casar.</p> + +<p>Cousa, porém, admiravel! Bento de Castro dissimulava uma zanga interior, que +eu não ouso chamar ciume, porque não quero dar ao meu amigo um rival tão +vilipendioso. É, porém, desgraçadamente certo que o pobre moço, vendo que eu +não defendia a innocencia do espectaculo que elle vira, tentou defendêl-o, +perguntando-me se aquelles brinquedos não seriam por ventura honestos e +singelinhos. Eu, que sempre fui d'uma boa fé estupidamente santa, reforcei a +conjectura do meu amigo, recordando-lhe umas passagens que já contei ao leitor, +ácerca d'uma minha prima, que por ahi fica archivada a paginas....<span +class="pn">{73}</span></p> + +<p>«Parece-me que não devo desamparar o meu posto, sem outras provas...» disse +elle.</p> + +<p>—Eu tambem entendo que não... Tu nada tens que perder, se te conservares na +espectativa.</p> + +<p>«E ha uma prova mathematica que eu posso conseguir, a unica verdadeiramente +que desvanece ou confirma todas as minhas suspeitas.</p> + +<p>Eu não entendi, nem averiguei o genero de mathematicas applicaveis á +questão; mas o meu amigo, confiado em seu systema, resolveu continuar namoro +com Hermenigilda, ainda que tivesse de abonar-se ao pai com promessa de +casamento.</p> + +<p>Apenas Pantaleão sahiu a tomar banho, Hermenigilda appareceu na salêta, e +disse a Castro, por acenos, que o pai lhe tinha batido por causa delle; e +convidava-o a ir fallar-lhe debaixo do muro do quintal, em quanto o pai estava +fóra.</p> + +<p>Castro annuiu. Quando sahia, disse-me:</p> + +<p>«Estou quasi convencido de que aquella mulher tem um grande defeito, que é +ser idiota. É tão innocentemente lorpa que não conhece o desaire de brincar com +o preto. Este convite é prova da sua innocencia, não achas?</p> + +<p>—Acho que sim, meu amigo. Em todo o caso não te esqueças das tuas provas +mathematicas, que eu não sei o que são; mas muito estimo que ellas te +aproveitem, para eu ficar sabendo que as mathematicas servem de alguma cousa.</p> + +<p>Castro demorou-se, e veio dizer-me que a mulher parecia outra: e se me não +disse que a achou espirituosa, quiz que eu me persuadisse de que era possivel +educar aquelle espirito.</p> + +<p>Eu combinei na idéa do meu amigo, e elle, contente do meu accordo, contou-me +o que passára com ella. Disse-lhe elle que, no acto de a ir pedir a seu pai, a +vira brincar na loja com o preto. Respondeu ella que o preto<span +class="pn">{74}</span> fôra criado com ella, vindo pequenino d'um reino onde +seu tio Simão fôra governador, bispo, ou não sei que me não lembra agora, mas é +de presumir que fosse bispo do Congo. Acrescentou ella que seu pai lhe dissera +que, se queria casar com o sujeito que a namorava, elle não se oppunha, porque +estava cabalmente informado do illustre nascimento do noivo, e até desconfiava +que fosse seu parente, por casamento de D. Urraca Munhóz, celebrado em 1121, +ficando assim aparentados os Gamas de Celorico com os Viegas e Themudos da +Amarante, como constava dos foraes de Cima-de-Villa, Ranhados, São Gonhedo, e +Galafura: do qual consorcio nasceram D. Brites, que morrêra em Arouca, dama da +rainha Santa Mafalda, e sua irmã Soror Violante, que morreu santa em Lorvão +d'uma indigestão de toucinho, n'aquella celebre noite em que lá pernoitou a +celebre abbadessa de Holgas, D. Branca. Em consequencia do que, o meu amigo +Bento de Castro resolveu não entregar n'aquelle dia a casaca ao boticario, +attenta a reconsideração do seu precipitado plano, por causa de umas suspeitas +tão injuriosas para a mulher que lhe sahira ao encontro na carreira da vida.</p> + +<p>Já então se diziam estas tolices.<span class="pn">{75}</span></p> + +<h2>XIII.</h2> + +<p>Bento de Castro foi, finalmente, pedir a mulher ao pai. Pantaleão recebeu-o +com agrado, e convenceu-se de que era seu remoto parente, em virtude do tal +casamento celebrado sete seculos antes. Fallou-lhe na politica do dia, e +arrancou-lhe o grato manifesto dos seus principios constantemente dedicados ao +movimento de 30 d'Abril de 1824. Pantaleão prorompeu em elogios a D. Carlota +Joaquina, e jurou pela espada de seu nono avô, governador de Masagão, que os +constitucionaes haviam envenenado o rei, dizendo que recebêra de canal puro o +segredo da morte do cirurgião Aguiar, do medico barão de Alvayasere, e do +cosinheiro Caetano, todos envenenados pelos malhados. Acrescentou s. exc.ª, que +seu primo, marquez de Chaves, fomentava em Traz-os-Montes, de combinação com +Fernando VII, a queda da carta, e a restauração do throno e do altar, dos +principes christãos, e extirpação das heresias. Como prova de ser informado por +infalliveis oraculos, mostrou uma carta do seu particular amigo e<span +class="pn">{76}</span> primo visconde de Canellas, e outra, não menos +convincente, do padre Albito Buela.</p> + +<p>Bento de Castro—digamol-o sem desdouro seu—era ardente correligionario de +seu futuro sogro. O meu amigo era, n'essa época, extremamente chato do +intellecto, e em negocios da republica não via meia pollegada adiante do nariz. +Seus tios frades, e seu irmão morgado—aliás excellentes creaturas—uns em nome +da religião, outros da ordem, e todos dos seus interesses, fizeram-lhe conceber +odio á liberdade, á revolução, e aos principios subversivos da sociedade +proclamados em 1820, por meia duzia de estupidos como Ferreira Borges, e +Fernandes Thomaz.</p> + +<p>Eu, filho do povo, e Graccho em primeira edição nessa época, tinha lido o +<em>Contracto social</em> de João Jacques, o Espirito de Helvetius, e a Gazeta +de Lisboa, das quaes leituras formei o meu espirito para as luctas tremendas +das liberdades patrias, ás quaes fiz serviços de tamanha transcendencia, que, +depois de vinte e oito annos de sacrificios, consegui ser nomeado escrivão +substituto do juiz eleito na minha terra, de cujo exercicio fui demittido por +decreto de vinte e nove de... Olhem que romance este! Já viram uma cousa assim? +Se me não refreio o impeto, sahia-me aqui uma correspondencia de victima dos +ultimos acontecimentos, mandando suspender o juizo do respeitavel publico!... O +leitor, se continua a lêr-me, dá-me provas tão vivas da sua munificencia, +tolerancia, e magnanimidade, que eu faltaria aos meus mais sagrados deveres, +se, depois desta historia, lhe não contasse outra muito bonita, em que o heroe +do romance, depois de amaldiçoar a sociedade que o não comprehende, tem o +descoco de fazer-se eleger deputado, e brilha n'uma commissão encarregada de +legislar para a importação dos cereaes, e exportação dos bois! Isso é que ha-de +ser um romance! E, se lhes parece, comecemo-lo já... ou querem saber no que +pararam<span class="pn">{77}</span> as intimas sympathias dos nossos amigos +Pantaleão, e Bento de Castro?</p> + +<p>A fallar-lhes a verdade de Epaminondas, e a do amigo de Platão, dir-lhes-hei +que o romance, d'aqui em diante, é curiosamente estopador. Desde que a vida +sahe das regiões sublimes do ideal e entra na esphera das mundanidades villãs, +o romance espiritualista, como este meu se preza de ser, descahe +indispensavelmente para o caustico, torna-se d'uma moralidade bastante +equivoca, e não é o mais azado guindaste para içar espiritos de quinze annos ao +setimo céo de Santa Thereza de Jesus. As heroinas e até os heroes de mad. de +Genlis, se se encontrassem com os meus d'aqui em diante, tapavam olhos e +ouvidos. É necessario um curso regular de Parny, de Crebillon, e Pyron, uma +iniciação destes fachos precursores dos luminosos dias em que vivemos, para +acceitar a philosophia dos seguintes capitulos, que pertencem mais ao homem da +vara de cerdos de Epicuro que ao da legião de espiritos ethereos do immortal +discipulo de Socrates.</p> + +<p>Ejaculado este arroto de erudição, saibamos como Bento de Castro esmerilhou +mathematicamente os escaninhos do coração de Hermenigilda.</p> + +<p>É muito para saber-se que, desde esse dia, o fidalgo de Celorico de Basto, +graças a D. Urraca Munhoz, visitava todos os dias sua prima; mas vinha tomar +chá a minha casa, porque Pantaleão usava apenas chá da India quando as +indigestões não cediam á terceira emborcadella d'uma botija d'aguardente <em>ad +hoc</em>.</p> + +<p>Em honra d'aquella cabeça de familia, diga-se que a môça andava vigiada, +posto que o meu amigo captasse a confiança do sogro, e, o que mais é, as +sympathias do preto.</p> + +<p>Estavamos no mez d'Agosto de 1826, e o casamento, que devia ser em Amarante, +aprazaram-no para o mez de Março.<span class="pn">{78}</span></p> + +<p>Bento de Castro contava-me maravilhas da noiva. Cada dia lhe descobria na +testa uma estrella boreal de intelligencia. Hermenigilda resolvêra aprender a +lêr correntemente, e havia já adverbios de sete e mais syllabas que ella +conseguia soletrar melhor que o pai! Eu pasmava angelicamente dos progressos da +moça; e devo confessar que, ou fosse resultado de vigilias litterarias, ou +predominio do espirito sobre a materia, as carnes succulentas do rosto d'ella +emmagreceram de massas pingues, e a epiderme, perdendo a antiga purpura de +betarraba, regenerou-se n'um desmaiado meio romantico, meio espinhela-cahida.</p> + +<p>Em virtude do que, perguntei ao meu amigo se o calculo differencial e +integral, com effeito exercitava e corrigia e rectificava o espirito como +geralmente se dizia, e particularmente se demonstrava na pessoa da minha +visinha.</p> + +<p>Bento de Castro, solemne d'uma continencia digna de melhor sorte, +respondeu-me que a virtude era um attributo dos anjos, e os anjos escapam ao +olho prescrutador das mathematicas puras e das mixtas. Fiquei nessa occasião +sabendo que as mathematicas podiam ser puras e mixtas; mas desconfiando sempre +que as do meu amigo eram impuras.</p> + +<p>Veremos.<span class="pn">{79}</span></p> + +<h2>XIV.</h2> + +<p style="text-align:center; text-indent: 0em;"><em>Em que o author, depois de +averiguar profundamente as<br> +conveniencias inviolaveis, do melindre, resolve não<br> +leccionar o publico em mathematicas, embora<br> +o seu amigo Bento de Castro assim fique<br> +privado de catalogar-se na phalange<br> +dos Newtons, Leibnitz, e Descartes;<br> +de que resulta ficar o capitulo<br> +aqui esganado pela mão<br> +da moral.</em><span class="pn">{80}</span></p> + +<h2>XV.</h2> + +<p>O romance tem cousa má!</p> + +<p>É a primeira vez que os typos perpetuam o invento escandaloso d'um titulo +sem texto! Um critico francez annunciou um romance que, em logar de principiar +pelo principio, começava no 2.º volume. O author, respeitador do publico, +explicava o contrasenso, dizendo que os romances eram escriptos de modo que +tanto fazia ao caso começar do 1.º volume para diante, como do ultimo para +traz.</p> + +<p>Isto é rasoavel e persuasivo. Porém, incoherencias deste tamanho não se +desculpam n'um romance pensado, philosophico, haurido das fontes do coração, da +experiencia, e feito expressamente para entrar em quinhão de gloria com as +«Reflexões de Phocion» com o «Manual de Epicteto» com os «Excerptos gnomicos de +Seneca» com os «Caracteres de la Bruyère» excellentes repositorios de +philosophia pratica, que eu hei-de lêr na primeira occasião, porque me dizem +que são livros de muito interesse, que ensinam a procurar a felicidade, como +agulha em palheiro, na pobreza, na humildade, e na virtude. Mestres d'esta +ordem<span class="pn">{81}</span> teem sempre uma vida eivada de amarguras: +isso é o que eu posso desde já affirmar, sem os ter lido. Phocion soffreu morte +dolorosa. Seneca, preceptor de Nero, bem sabem que desastrado remate teve de +vida. Epicteto é aquelle escravo do «Thesouro de meninos» que exclama, erguendo +a canella partida por uma paulada: «não vos disse eu que m'a havieis de +quebrar?» D'onde infiro que os preceptores da felicidade andam sempre de +candeias ás avessas com o genero humano, e muitas vezes, com a arte de +engranzar capitulos de romance, de modo que a historia vá bem contada, até ao +fim, que deve ser onde casa o heroe, ou a heroina morre de tuberculos, no uso +de oleo de figados de bacalhau.</p> + +<p>João Junior, summamente penhorado pelas attenciosas maneiras com que os seus +numerosos amigos teem recebido esta sua primogenita creatura, tem a honra de +declarar ao publico, e mais senhores, que o capitulo XIV foi eliminado deste +quadro de costumes porque havia n'elle frescura de idêas, phantasia de côres, +debuxos copiados da natureza viva, cousas, em fim, tão verdadeiras, tão +patriarchaes, tão nuas, que o seu editor, depois de montar os oculos, e sorver +duas pitadas conspicuas, disse que não patrocinava com o seu nome um capitulo +em que o mencionado supra contava os factos como elles tiveram a impudencia de +acontecer.</p> + +<p>Em virtude do que, entrei na minha consciencia d'artista, e vim a um accordo +com a moral, aspando as doze paginas mais profundamente escriptas do meu +romance: doze paginas em que eu fortalecia os habitos da natureza bruta com as +doutrinas lucidas dos interpretes mais abalisados dos mysterios do coração; +doze paginas salpicadas d'uma erudição exemplificativa que remontava á creação +do globo, para provar que o homem e a mulher, sem o intermedio do merinaque, +são dous entes homogeneos, duas substancias amalgamicas, dous tomos da mesma +obra, duas<span class="pn">{82}</span> creaturas em fim dos nossos peccados. +N'esse capitulo, naufragado no cachôpo da moral, tinha eu uma gorda nota +comprovativa da minha opinião ideologica a respeito de mulheres, rica de +historia antiga, em que, sabe Deus com que vigilias, entravam Salomão e Dalila, +Pericles e Aspazia, Tibullo e Lesbia, Ovidio e Corina, tudo pessoas que amaram +como se ama d'uma até quarenta vezes na vida, com todo o ideal arrobado dos +anhelitos da adolescencia, com a fé pura, candida, e immaterial do amor de +Voltaire a madame du Châtelet, do amor de Larochefoucault a madame de Lafayete, +do amor da minha visinha do terceiro andar, que, ás duas horas da noite, desce, +com uma caixa de lumes-promptos, a desandar a chave, que teima em chiar, apesar +do azeite prévio, quando um Romeu de capote de mangas lhe assobia a cavatina do +«Trovador». Tudo isto, e muitas cousas mais, vinham na nota, que prometto +embetesgar na primeira cousa que escrever, ainda que seja um artigo sobre o +pulgão da batata.</p> + +<p>Fortissimas razões tinha eu para teimar em publicar o meu querido capitulo +XIV, visto que era elle o relatorio das miudezas que se deram antes e depois do +fatal acontecimento da noite de 25 d'Agosto de 1826, acontecimento grave e +complicado, cujo conhecimento seria a chave do meu romance, se o editor +ultra-honesto não teimasse em affirmar que o meu romance não precisa de chave +para abrir as portas da eternidade. Pedi-lhe que me deixasse, ao menos, contar +o facto em estylo levantado, allegorico, metaphorico, ao alcance, apenas, das +intelligencias superiores. Nem isso. Estava escripto em estylo oriental, +balsamico, todo perfumarias de subtil aroma d'alma, e elle teima em dizer que a +alma não tem nariz.</p> + +<p>Era assim o meu fragmento:</p> +<hr class="dotted"> + +<p>E a lua balouçava-se entre as estrellas, nas alturas do ether.<span +class="pn">{83}</span></p> + +<p>E a brisa do oceano, perfumada de marisco, brincava na praia com a folhinha +secca da alga.</p> + +<p>E o rouxinol do silvedo trinava a sua cavatina cadenciosa, e sacudia as +plumas affagadas por um raio de lua.</p> + +<p>Porque era essa a hora augusta dos mysterios, em que nos adros das igrejas +reina o terror do silencio, e nos esgalhos seccos do pinheiro assobia o +noitibó, medonho de agouros; e nas aguas limpidas dos regatos cardumes de +bruxas tomam semicupios e dão gargalhadas de risos maleficos e satanicos.</p> + +<p>E o homem de Celorico, sombrio e tetrico como avejão nocturno, roçou a +espadua pela padieira da porta, que se abriu.</p> + +<p>Era da côr do jacintho o amiculo que lhe envolvia em largas dobras a haste +melindrosa.</p> + +<p>E a viração da noite, voluptuosa e meiga, beijou-lhe a face como se quizesse +disputar á da manhã o prazer de beijar mais frescas rosas.</p> + +<p>E a virgem d'alvas vestes transpoz o limiar do seu asylo, encostou a fronte +incendida ao braço tremulo do senhor de sua alma, e foi!</p> + +<p>Anjo d'Amarante, porque assim te despenhas da tua angelica miryade?</p> + +<p>Flôr do Tamega, que nortada rija te desarreigou da balsa?</p> +<hr class="dotted"> + +<p>E a lua passava no céo, velada e triste, como a Niobe antiga.</p> + +<p>E o homem de Celorico, de braço dado com a virgem, como qualquer caixeiro em +baile d'Asylo de mendicidade, passou de fronte alta, meditando em seu coração +um crime, e adoçando nos labios a tenção damnada que lhe fallava n'alma.</p> + +<p>E a vaga longinqua resoava um som cavo e lugubre, como gemido de leão.<span +class="pn">{84}</span></p> + +<p>Homem! tu és forte como o carvalho gigante da encosta; mas o raio sahiu um +dia das profundesas do céo, e o tronco, affronta dos seculos, vergou a fronte, +e estalou pelas raizes.</p> +<hr class="dotted"> + +<p>E a flôr, tocada por labios impuros, e aspirada com avidez sôffrega, pendeu +as petalas desmaiadas, e elanguesceu no seio do maldito dos homens de Celorico.</p> + +<p>Fôra profundo e arquejante o suspirar d'aquella que as onze mil +duvidosamente receberiam no seu gremio, ainda recommendada pelos jornaes!</p> + +<p>E a lua, segundo o seu costume, dava tanta importancia a estas cousas, como +os dous habitantes mais felizes do globo lhe davam a +ella................................. etc. etc.</p> + +<p>E pouco mais continha a minha descripção em estylo oriental.</p> + +<p>É realmente demasiado respeito ás conveniencias privar-se o publico d'um +fragmento assim! Não obstante, rasguei-o, protestando jámais querer editor para +as minhas obras.<span class="pn">{85}</span></p> + +<h2>XVI.</h2> + +<p>Palavras textuaes do meu amigo Bento de Castro da Gama:</p> + +<p>«João, arrepende-te de haveres maculado a pureza de Hermenigilda com uma +suspeita menos casta.</p> + +<p>—Eu! santo nome! pois fui eu que a maculei!?</p> + +<p>«Sim, tu contavas-me a historia de tua prima, quando a innocente rapariga +brincava com o preto puerilmente.</p> + +<p>—Valha-te o senso commum, amigo Bento!—repliquei eu—Que terrivel +significação tu déste á minha historia! Poderia eu criminar a simplêza d'um +brinquedo que desde creança respeito e absolvo, porque o vejo sanccionado na +minha Arte do Pereira, livro didatico, escripto para andar entre mãos da +mocidade!...</p> + +<p>«Mas o que faz a Arte do Pereira ao nosso caso?!</p> + +<p>—Faz muito: pois já te esqueceu o <em>pueri ludunt</em>? os meninos +brincam? e posto que lá não diga <em>utriusque coloris</em>, d'ambas as côres, +infiro que ser um branco e outro preto não destróe a regra da boa latinidade. +Logo que se<span class="pn">{86}</span> dá nominativo e verbo, tanto faz que os +meninos sejam...</p> + +<p>«Cala-te, importuno!—atalhou o meu delicioso Bento, eliminando-me da alcôfa +um pão e um canto de queijo Chester.—Fica na certeza de que a minha +consciencia está socegada, tranquilla...</p> + +<p>—O mesmo não pódes dizer do estomago...—acudi eu, vendo o precipicio +aberto ao meu queijo que descia, ao passo que da consciencia do meu amigo subia +o protesto contra as suspeitas indignas da pureza de Hermenigilda.</p> + +<p>Bento de Castro proseguiu exarando provas que me não deixaram a menor +suspeita de que a noiva podia, sem que o pudôr lhe carminasse o rosto, +desapertar o cinto virginal, á laia das esposadas de Lacedemonia, ou entrar na +camara nupcial sem o receio da lampada nocturna, que tantos sustos deu á +primeira mulher de Jacob.</p> + +<p>Estava eu, pois, admirando a infallibilidade das mathematicas, quando +Pantaleão, chamando-me da sua janella, perguntou-me se o meu amigo alli estava. +Bento appareceu logo, um pouco sobresaltado—bem sabia elle porque, melhor que +eu—e Pantaleão, com semblante rubicundo e prazenteiro, disse-lhe que tinha +grandes cousas a contar-lhe.</p> + +<p>O meu amigo foi, contente do aspecto feliz do seu futuro sogro. Era o +seguinte o que elle queria.</p> + +<p>Pantaleão acabava de receber carta d'um seu irmão, official superior do +regimento 24 de Bragança, noticiando-lhe a acclamação do rei absoluto, e a +prisão do bispo, e o triumpho certo da religião; recommendava-lhe que sahisse +immediatamente da Foz, e fosse levantar guerrilhas em Amarante, que deviam +unir-se em Villa Real ás forças do primo Silveira.</p> + +<p>Pantaleão estava ebrio de patriotismo! dava vivas ao rei absoluto, e chamou +a filha para tomar parte do enthusiasmo do seu esposo.<span +class="pn">{87}</span></p> + +<p>«Vamos a saber, continuou elle—aqui não ha que replicar! O primo Bento vem +já comnosco para cima, e vai ajudar-me a levantar os povos, e fica sendo o +capitão dos vassalos fieis! Se é realista ás direitas, vá amanhar a mala, e +amanhã de manhã vamos embora. Que diz a isto, primo?</p> + +<p>—Eu digo que estou prompto. Já agora a nossa sorte é commum.</p> + +<p>«Pois então, eu vou dar ordens.</p> + +<p>Pantaleão sahiu da sala, e o meu amigo, tanto quanto pude enxergar, afagava +as bochechas rosadas de Hermenigilda, que entrára na sala, escarlate como a +flôr da romanzeira. Não seria facil decidir se fôra mais linda antes, se depois +que o pejo lhe coloriu a tez.</p> + +<p>Um amante feliz gosa delicias, saborêa prazeres celestes n'essa encantadora +vergonha! Bento de Castro, inclinado para o seio d'ella, devia dizer-lhe +palavras de tal doçura que a pudibunda moça, requebrando o collo de puro jaspe, +parecia, como a sensitiva, encolher-se ao beijo voluptuoso da borboleta! (Como +isto sahiu engraçado e arredondadinho! É a minha especialidade, leitores.)</p> + +<p>O meu amigo deu-me parte da sua sahida, cheio de contentamento. Disse-me que +me avisaria a tempo de eu ir assistir ao seu matrimoniamento. Prometteu-me +arranjar-me em Amarante uma mulher com uma casa soffrivel para ficarmos +visinhos. Partiu no dia seguinte, e realmente deixou-me saudades, que depois de +trinta annos se conservam ainda em meu coração fistulado de desgostos, cheio de +fezes agras, sujo do sarro das paixões, e coberto d'uma crusta de musgo +petrificado pelo gêlo dos desenganos acerbos, sendo o mais pungente de todos a +certeza, a que vim, de que o homem não é, como disse Platão, um animal implume, +nem a sombra d'um sonho, como disse Pindaro, nem o rei da creação, como disse +Moysés, nem animal racional, como dizem alguns philosophos, que se +excluem,<span class="pn">{88}</span> vistas as muitas irracionalidades que +escrevem. O homem, em quanto a mim, é um pedaço d'asno! A ultima palavra da +sciencia acabo eu de proferil-a agora.</p> + +<p>Eu tenho lido tudo quanto está escripto a respeito do homem, e, se não fosse +o pequeno embaraço de me esquecer tudo o que li, tencionava explanar, com +methodo e arranjo scientifico n'este capitulo, verdades eternas de que ninguem +faz caso por isso que são eternas, e tudo que é eterno não quadra ao nosso +gosto voluvel, irrequieto, e caprichoso.</p> + +<p>O homem, na minha opinião, é um cabide, e mais nada. O que a mão da boa ou +má fortuna dependura n'elle é que distingue a creatura de Deus entre os seus +irmãos. Não ha substancia de homem: ha só fórma de homem. Ora a fórma está no +involucro, desde os andrajos inçados de herpes até aos arminhos recamados de +brilhantes.</p> + +<p>Ahi fica debique para os philosophos. As grandes idéas encubam cincoenta +annos, disse Napoleão. Em 1907 a minha idéa estará na consciencia da +posteridade.</p> + +<p>Quando se perguntar o que é o homem, responder-se-ha: é um cabide.<span +class="pn">{89}</span></p> + +<h2>XVII.</h2> + +<p>Sigamos Bento de Castro, á frente da sua guerrilha, composta de cento e +tantos homens, erguidos como um só homem ao primeiro grito, e quasi todos +caseiros e foreiros de Pantaleão.</p> + +<p>Bento de Castro, radioso de gloria, entrava em Villa Real, quando o primo +Silveira, a quem ia recommendado, á frente d'um destacamento de caçadores 9, +proclamava o snr. D. Miguel rei absoluto. O nosso amigo coadjuvava os gritos do +marquez de Chaves, quando a soldadesca, instigada pelos officiaes, prorompeu em +chufas e insultos ao commandante enthusiasta.</p> + +<p>Silveira, receoso de que o prendessem, porque os officiaes gritavam «amarrem +esse doudo!» deu de esporas ao cavallo, e desamparou o meu pobre Bento, que se +viu em pancas. Os bravos da sua hoste, era para vêr como elles largavam os +tamancos por aquellas ladeiras da Senhora de Almudena! Os gritos animadores do +chefe perdiam-se entre os apupos dos soldados, que arremeçavam pedradas +ignominiosas ás canellas nuas dos fugitivos.<span class="pn">{90}</span></p> + +<p>Bento achou-se só, sobre uma possante egua do seu futuro sogro, e vacillou +muito tempo entre seguir o marquez de Chaves, ou as suas tropas, que +desappareciam por detraz das collinas de Mondrões, caminho do Marão.</p> + +<p>Venceu a honra; e o meu amigo, a toda a brida, pôde alcançar o Silveira a +uma legua distante de Villa Real, na estrada de Chaves.</p> + +<p>O marquez era estupidamente corajoso. A derrota moral que vinha de soffrer, +não lhe arrefecêra o animo!</p> + +<p>Queria elle chamar ás armas o povoleu das aldêas suburbanas de Villa Real, e +accommetter de noite os soldados rebeldes. Bento de Castro, envergonhado da +fuga, applaudiu o alvitre, e foi o primeiro a pendurar-se na sineta d'uma +capella em Banagouro, tirando por ella com o frenesi das batalhas, e pedindo ao +badalo a eloquencia do punhal de Bruto.</p> + +<p>Correram ao alarma o tio Francisco do Quinchoso, o tio Thimotheo da Fraga, +João do Reguengo, e Zé da Brigida dos Chãos, alferes da bicha, e cavalleiro do +habito, alcançado por ter morto na serra do Mesio dous francezes em 1812.</p> + +<p>Silveira sentou-se sobre o cabeçalho d'um carro, instaurou conselho militar, +e, antes de proclamar, perguntou se seria possivel arranjarem-lhe um salpicão +frito com ovos, e uma garrafa de vinho. João do Reguengo apressou-se a chamar +sua mulher, que substituira o meu amigo na sineta, e mandou-a amanhar uma boa +fritada de salpicões e ovos.</p> + +<p>N'este comenos chega um postilhão de Villa Pouca de Aguiar com um officio +para o marquez. Silveira não entendia a letra de sua mulher, e pediu a Castro +que lêsse. Era a marqueza de Chaves noticiando a revolução de caçadores 7, e +chamando a toda a pressa seu marido para a coadjuvar no movimento +revolucionario. O marquez deu vivas á marqueza, ao bravo batalhão, ao rei +absoluto, e<span class="pn">{91}</span> não esperou os salpicões, nem +congratulou o patriotismo do padre Bento Tamanca que acabava de sahir da +capella, de cruz alçada, chamando o povo ás armas.</p> + +<p>O meu amigo teve a honra de cumprimentar a marqueza de Chaves, que veio ao +encontro de seu marido, sobre um valente murzello, floreando a espada, e +latindo guinchos de sedicioso enthusiasmo.</p> + +<p>A marqueza era a mulher mais feia das cinco partes do mundo. Em França +denominavam-na: «o panorama da fealdade.» Tinha um aspecto só comparavel a si +mesmo. Rolavam-lhe nas orbitas dous olhos vêsgos, que não eram olhos quando os +incendia em viva braza o ardor da guerra. O trom das espingardas, nas refregas +a que delirantemente se arremeçava, faziam n'ella o effeito do zumbido na +orelha do cerdo: silvava assobios terriveis de colera, e animava os soldados, +umas vezes com um «arre p'ra diante» outras vezes chamava-lhes <em>filhos</em>.</p> + +<p>«Quem é este mocetão?—perguntou ella ao marido, fitando Castro.</p> + +<p>—É ainda nosso primo, pelo que me diz o nosso primo Pantaleão da Amarante.</p> + +<p>«É valente?—replicou ella.</p> + +<p>—Desejo mostrar valor—respondeu Castro.</p> + +<p>«Sabe jogar a espada?</p> + +<p>—Fui cadete de cavallaria.</p> + +<p>«Defenda-se lá d'um sexto!—disse a marqueza, e recocheteou com o cavallo +para entrar em combate.</p> + +<p>Bento não ousou levar mão á espada; mas ella instou, fazendo parar o estado +maior, que se compunha d'alguns capitães móres, e meia duzia de mancebos das +principaes familias d'aquelles sitios. Castro obedeceu com repugnancia. A +marqueza fez agilmente quatro botes, e, ao quinto, o meu desastrado amigo tinha +uma solemne pranchada no pescoço, que foi motivo para que a marqueza, +triumphante, especie, de Jeanne d'Arc, mais digna d'um Voltaire<span +class="pn">{92}</span> zombeteiro do que fôra a outra, mostrasse quatro ordens +de dentes cahoticos, cariados, esqualidos, impossiveis! Os espectadores +felicitaram-na pela sua destreza, e, o caso é que o ditoso Castro, por se +deixar bater, recebeu da marqueza, com a lição d'esgrima, provas inequivocas da +satanica sympathia da mestra.</p> + +<p>Tropa e guerrilhas acampadas em Villa Pouca d'Aguiar seguiram a estrada da +fronteira, e internaram-se em Hespanha. Antes, porém, de sahirem, subiu ao +pulpito da igreja parochial o padre Alvito Buela, e trovejou uma obra prima da +eloquencia dos Chrysostomos e Athanasios, em que levou á evidencia quanto era +grato a Deus cortar as orelhas aos jacobinos de 1820, herpes venenosas que +fermentaram no sangue putrido de Gomes Freire.</p> + +<p>Os revoltosos entraram em Hespanha com a marqueza á frente; e o inepto +consorte d'esta amazona recebeu, por intervenção de D. Carlota Joaquina, +abundante numerario para manter o animo perplexo dos desertores. Os soldados, +quando o soldo se demorava, costumavam cantar esta copla:</p> + +<blockquote> + Com dinheiro, pão, e vinho<br> + Sustenta-se o Miguelzinho,<br> + Sem dinheiro, vinho, e pão<br> + Sustenta-se a Constituição. </blockquote> + +<p>A <em>Megera</em> de Queluz, como então os malhados denominavam a viuva de +D. João VI, informada pela marqueza de Chaves, a quem ella chamava a sua +<em>Jeanne d'Arc</em>, igualando o filho dilecto a Carlos VII, empenhava-se até +ao extremo da usura para espalhar a mãos largas o preço porque tão caras +ficaram á nação as refregas dos Silveiras, dos Varzeas, e dos Canellas.<sup><a +href="#fn2" name="mfn2">[2]</a></sup><span class="pn">{93}</span></p> + +<p>O Silveira era doudo pela banca portugueza; e o meu amigo Bento de Castro, +destro burlista n'este ramo dos conhecimentos humanos, empalmou em poucos dias +ao marquez e aos fidalgos do quartel general uns seis mil cruzados com que +resolveu ir viajar, se o <em>deus</em> d'Ourique não favorecesse a causa do +marquez de Chaves.</p> + +<p>Os revoltosos foram protegidos em Hespanha, e receberam armas, e auxilio de +forças, para repassarem as fronteiras.</p> + +<p>Chegaram á Amarante em 15 de Dezembro, e foram repellidos ahi pelo +brigadeiro Claudino.</p> + +<p>Em quanto, porém, se dava a sangrenta batalha, o meu intrepido Bento estava +em casa do nosso amigo Pantaleão, no gôso da mais agradavel fogueira, e do mais +saboroso lombo de porco, e da mais fresca moçoila que ainda viram estes olhos +que a terra ha-de comer. Ahi se demorou um mez, por causa da convalescença da +egua, e foi depois unir-se a Braga ao marquez de Chaves. O marquez d'Angeja +sahiu do Porto na pista dos rebeldes, que se entrincheiraram na ponte do Prado, +com duas peças d'artilheria. O conde de Villa Flor ataca a ponte, desaloja o +inimigo,<span class="pn">{94}</span> mata-lhe algumas duzias de homens, e +persegue-o até á Ponte da Barca, onde soffre uma desesperada resistencia. Villa +Flor dispersa, por fim, á baioneta callada, a divisão do Silveira, mata-lhe +trezentos homens, e, entre os mortos, fica moribundo o meu amigo Bento de +Castro, com duas baionetadas, salvo seja, no costado.</p> + +<p>Recolhido a casa d'um lavrador, foi caritativamente tratado, e de lá me +escreveu contando-me as suas desventuras, e pedindo-me que as noticiasse a +Pantaleão, visto que duas vezes lhe escrevera, e não houvera resposta.</p> + +<p>Fui á Amarante, e soube que o pai de Hermenigilda, desgostoso da funesta +sorte das armas fieis, cahira doente de gôta sciatica, e retirára com a familia +para uma quinta de Baião, onde não podiam chegar as cartas porque os malhados +lh'as interceptavam no correio da Amarante.</p> + +<p>Fui a Baião, e, lendo a carta ao attribulado velho, fil-o chorar, e +praguejar. Logo alli prometteu á Senhora da Rocha levantar-lhe um nicho no +portão da quinta, se seu futuro genro tornasse sãosinho e escorreito para a sua +companhia. Pediu-me com grande instancia que o acompanhasse da Ponte da Barca +até sua casa, logo que elle se restabelecesse.</p> + +<p>Hermenigilda não me pareceu muito afflicta com a triste nova. Quando eu +apeei no pateo, vi-a debaixo d'uma larangeira, apanhando no regaço laranjas que +o preto, agatinhado na arvore, lhe lançava, e ella comia de cocoras. Dei-lhe, +receiando algum desmaio, um ligeiro indicio da desventura do seu Bento, e ella +abriu os olhos com a mais estupida impassibilidade, e disse:</p> + +<p>«Coitado d'elle! Melhor fôra que não andasse por lá a jogar a tapona com +esses herejes!»</p> + +<p>Á vista d'isto, a minha vontade era escrever ao meu amigo, e dizer-lhe que +seria ignobil o seu enlace com tão estupida creatura. Reservei, para mais +tarde, poupal-o a tamanho infortunio, e disse-lhe que Pantaleão o +receberia<span class="pn">{95}</span> em sua casa como pai, se elle preferia a +sua convivencia á de sua familia.</p> + +<p>Bento respondeu-me que tencionava convalescer em casa de seu irmão, e +passados tres mezes iria definitivamente casar-se, porque havia para isso +razões fortissimas.</p> + +<p>Estas fortissimas razões, leitor amigo, começou Hermenigilda a sentil-as, +quatro mezes depois que sahiu da Foz.</p> + +<p>Eram as razões do amor immenso, amor que lhe inturgescia o coração, +ampliando-lhe a cavidade thoracica, estendendo-se até ás regiões contiguas, e +augmentando-lhe a grossura dos tecidos no local em que as hydropesias, oriundas +do amor, perdem grande parte do morbus com o casamento, especie de cura +homœopatica.</p> + +<p>Na certeza de que ninguem me entendeu, dou graças á minha esperteza, e +continuo a merecer a confiança dos pais de familia.<span +class="pn">{96}</span></p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#mfn2" name="fn2">[2]</a></sup> D. Carlota Joaquina morreu +devendo ao conde da Povoa 40 contos; igual quantia a Antonio Esteves da Costa; +20 contos a João Paulo Cordeiro; 40 contos a José Antonio Gomes Ribeiro; e +igual quantia a João Antonio d'Almeida. A usura d'estes capitaes pagou-a o +thesouro, e as graças em titulos e commendas. D. Carlota era economica até á +avareza nos gastos domesticos. Os seus rendimentos da casa da rainha, e outros +muitos, sob diversas denominações, eram enormes. Consumiu tudo em tramar +guerras civis de que foi alma. Nos ultimos annos da sua vida, tão abstrahida +estava no fito das revoluções, que nem da sua propria limpeza curava. O seu +trage caseiro era um gibão de chita, e uma fota de musselina na cabeça. +Acocorada entre as beatas suas amigas, era costume seu cantar muitas vezes esta +quadra:</p> + +<blockquote> + En porfias soy manchega,<br> + Y en malicia soy gitana;<br> + Mis intentos y mis planes<br> + No se me quitan del alma.<br> +</blockquote> +</div> + +<h2>XVIII.</h2> + +<p>Tudo nos leva a crer que não tarda ahi o desenlace d'este conto. A moral +publica, ciosa das suas prerogativas, e dos deveres em que estamos para com +ella, nós, os fabricantes de historias, contos, lendas, fabullarios, soláus, e +varias outras feições do folhetim—a moral publica, dizia eu, quer que um +romance acabe bem. Acabar bem é triumphar a virtude, punir o crime, incitando o +coração do leitor á pratica do bem, e ao horror do mal. N'este romance, se tal +nome é bem cabido n'uma biographia de personagens ainda vivas, excepto +Pantaleão, não ha nada que seduza corações inexpertos, trajando o vicio de +gallas seductoras, depravando o paladar com o uso do absyntho das paixões +licenciosas. Aqui é tudo posto no seu logar, o vicio apresenta-se maltrapido, +ascoso, lazarento de lepra, e parecido com o diabo, de quem é filho. A virtude, +vestida com singelas louçanias, enamora as boas almas, amamentando-as no doce +favo de seus seios, dulcificando-lhes os nectarios da candida flôr da +virgindade, segredando-lhes em fim as delicias juvenis e puras de que tão farto +e nedio trazia o<span class="pn">{97}</span> coração de Hermenigilda, e outras +creaturas da mesma tempera.</p> + +<p>S<small>CENAS DA</small> F<small>OZ</small> é um livro d'ouro. Peço licença +para dar ácerca da minha obra o meu juizo independente, recto, desataviado de +encomios immerecidos, e depurado de emulação mesquinha. O author é quem mais +convincente testemunho póde dar da sua obra. Os nossos primeiros litteratos, +desde 1830 até 1840, excepto A. Herculano—que escreve sempre com a mira posta +na posteridade, e crê, como deve crer, na perpetua florencia da sua +reputação—excepto esse, os nossos primeiros litteratos, para se pouparem ás +avaliações incompletas das suas obras, escreviam elles as criticas. Os elogios +appareciam ao mesmo tempo em quatro gazetas; e tão bem escriptos eram, tão +portugueza e elegante a phrase, tão bonito para ver-se o guindaste que topetava +com as nuvens a nomeada da obra, que, se os artigos fossem assignados, o +thuribulario crear-se-hia uma reputação capaz de correr parelhas com a do +idolo. Crearam-se assim muitas nomeadas, que, depois, o consenso universal +consolidou; e, se os authores não tivessem o direito congenito de escrever e +julgar, muitos dos nomes gloriosos de Portugal estariam hoje nos limbos da +velha academia.</p> + +<p>Seja permittido a João Junior crear-se uma reputação tambem. O meu romance é +a historia do coração humano. É um miudo exame das vicissitudes do espirito, e +algumas vezes da materia. É o telescopio que alcança os astros do universo +moral. É uma amalgama de historia, de philosophia racional e moral, de +geographia e physiologia, a retina finalmente do grande olho da sciencia, que +apanha n'um ponto os raios luminosos de todos os conhecimentos humanos. É esta +a opinião do leitor illustrado, e tambem a minha.</p> + +<p>Sei que tenho detractores, belliscados da inveja, outros brutalmente soêzes, +e outros hypocritamente pudibundos.<span class="pn">{98}</span> Os primeiros +dizem que o meu romance é uma trapalhice, sem nexo, sem logica, sem +verosimilhança, nem idéa fundamental, ou nucleo philosophico. São uns +pataratas.</p> + +<p>Outros, os segundos, acham que o conto está cheio de palavras estrangeiras, +e não é tão bonito como as <em>historias proveitosas</em> do Trancoso de que +fallava Hermenigilda a Bento de Castro. Estes fazem-me pena.</p> + +<p>Os terceiros censuram as licenciosidades de phrase, a desnudez dos vicios, a +descautella com que a parte carnal do idealismo humano se mostra aos olhos das +leitoras incautas, menores de cincoenta e seis annos. Guardai-vos destes +moralistas, pais de familias!</p> + +<p>Duas velhas já me disseram que eu sou pouco escrupuloso em revelar fraquezas +que, postas em letra redonda, affligem a virtude, ou desvendam a innocencia. +Valha-me Deus! Porque nos andamos nós a enganar uns aos outros com meia duzia +de palavras convencionaes? <em>Alphonse Karr</em> não conhece creanças; o que +nós chamamos creanças chama elle <em>mulheres pequeninas</em>. A civilisação +tem alterado muito o valor intrinseco de certas palavras antiquissimas, como, +<em>verbi gratia</em>, pudôr, honra, amisade, amor, patriotismo, innocencia, e +as demais que o leitor sabe. Eu creio na <em>innocencia</em> das mulheres como +synonimo de <em>pureza</em>; mas de <em>simplicidade</em>, não. O conhecimento +precoce dos segredos mais rebuçados da vida é um segundo instincto com que +vieram á luz as mulheres do seculo XIX. Eu tenho pedido aos pais que me deixem +estudar, no collo, as suas filhas de oito annos, e tiro de seus caprichos +pueris inducções que me levam á illusão de que tenho no meu collo as mulheres +pequeninas do author de <em>Les Femmes</em>.</p> + +<p>Certo d'isto, experiente e feito nestas dissecações na alma, zango-me quando +as meninas-velhas se picam nos espinhos da verdade—e mais se doem do pungir do +espinho<span class="pn">{99}</span> que já se lhes não esconde em flores... +Lembram-me então aquelles versos de Béranger:</p> + +<blockquote> + Prudes, qui ne criez plus<br> + Lorsqu'on vous viole,<br> + Pourquoi prendre un air confus<br> + A chaque parole? </blockquote> + +<p>Não obrigueis o romancista a escrever os fastos do coração como os +chronistas escreviam a biographia dos reis. A historia está dispensada de ser +caritativa.</p> + +<p>Antes querer, com as fraquezas do proximo, inflammar a phantasia com +deslastres inexequiveis, do que premunir a razão contra as realidades; querer +ignorar o mal verdadeiro, e ir com ancia através de oito volumes buscar o +desfecho d'um romance, que extravasa a medida do mal possivel, é renunciar á +verdade, perverter o gosto e a razão, crear um mundo que não existe, +arriscar-se a todos os desatinos da excentricidade.</p> + +<p>O meu romance não fará mal a alguem, não concitará o fogo d'alguma paixão +perigosa, não arrastará victimas ao abysmo, cavado por uma idéa, e coberto de +flores pelas seducções do estylo, e sophismas d'uma irreligiosa philosophia.</p> + +<p>Não farei, como madame de Stael, pretenciosas Corinas, nem Oswalds +melancolicamente piegas.</p> + +<p>Não verterei nas almas o nectar libidinoso do <em>Sophá</em> de Crébillon.</p> + +<p>Não farei mulheres tão gárrulas, tão bacharelas, tão fortes da sua +philosophia como a Heloisa de Rousseau; e ao cabo de contas, tão flexiveis, tão +dadas aos lapsos da humanidade, como qualquer costureira que não leu o +Plutarcho, nem o Tasso.</p> + +<p>Não direi, como Gœthe, aos infelizes que se matem; e, se fôr necessario, +provarei que Werther foi um tolo, se<span class="pn">{100}</span> existiu; +Gilbert, Malefilatre, Labras, Moreau, Escousse, Leopold Robert, Larra, Gerard e +Nerval, Jorge Arthur<sup><a href="#fn3" name="mfn3">[3]</a></sup>, não foram +mais espertos que o seu modêlo.</p> + +<p>O meu romance, em fim, aconselha a todo o mundo que coma e beba e durma o +melhor que podér. Protesta contra as paixões sérias, e quer que a humanidade se +submetta pouco mais ou menos aos artigos dos estatutos dados pelo Creador a +todas as alimarias do universo. Detesta a philosophia que faz os homens maiores +ou mais pequenos do que elles são. Abomina os escriptores que precisam +enganal-os para engrandecel-os. Sejamos do tamanho que nos deu o primeiro +barro: não nos persuadamos que o barro d'uns foi amassado em agua choca, e o +d'outros em Champagne. As paixões são de todos; uns cahem n'um tremedal, outros +n'um diwan de molas estofadas. Todos cahimos. Cahiu David e Sardanapalo, cahiu +Cleopatra e Margarida de Cortona; depois da queda de Hermenigilda, nascida e +baptisada em Amarante, não ha nada seguro n'este mundo.</p> + +<p>O leitor póde passar em claro este capitulo XVIII, que não diz nada +importante. O que vem é de certo o melhor de todos.<span +class="pn">{101}</span></p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#mfn3" name="fn3">[3]</a></sup> Jorge Arthur é um nome +portuguez. Suicidou-se em Janeiro de 1849, no Porto, precipitando-se da +ponte-pensil sobre o Douro. Tem um monumento no cemiterio do <em>Repouso</em>, +com o seguinte epitaphio que não diz nada:</p> + +<blockquote> + Saudade perennal, geme, e avalia<br> + Thesouro de que é cofre a sepultura.<br> +</blockquote> + +<p>Estou escrevendo sobre uma pasta que era a d'elle, e tenho aqui um sinete +com duas iniciaes: a sua, e a da mulher que lhe inspirava o amor... da morte. +Era um moço de trinta e tantos annos. Tinha talento, e publicou poesias, +propheticas do seu destino. Teve muitas elegias; foi muito sentida pelos +rimadores a sua morte. Estou-o vendo quando o tiraram, já lacerado, da agua. +Era de noite. Eu tinha um archote que lhe projectava no rosto um clarão +medonho. Desabotoaram-lhe o casaco; entre o colete e a camisa tinha um boné de +velludo preto bordado a matiz. Era uma prenda que não podia legar...</p> +</div> + +<h2>XIX.</h2> + +<p>Não se me desbotaram da memoria, com o envelhecer de mais de trinta annos, +as cores vivissimas d'um quadro que o leitor vai contemplar. As palavras que +então se disseram, ainda as ouço; os mais ligeiros gestos, as miudezas menos +reparaveis de tal scena, ainda as vejo. Ai! quem me déra nesse tempo! É o caso:</p> + +<p>Pantaleão foi uma vez visitado por sua prima D. Mafalda, filha segunda da +mui illustre casa dos Maldonados e Leites, de Cabeça de Veado, que tinha seis +bispos na familia, todos fecundos, vindo, por consequencia, D. Mafalda a ser +quarta neta de um filho sacrilego do ultimo bispo, o qual casou na dita casa de +Cabeça de Veado, como consta da Chorographia de Carvalho, e da Historia +Genealogica da Casa Real, e, mais miudamente, nas Nobliarchias ineditas de Alão +de Moraes, no appellido «Maldonado».</p> + +<p>Pois, senhores, esta D. Mafalda, vindo visitar a perna gotosa de seu primo, +reparou na nutrição de Hermenigilda, e fez uma carêta de pessoa que sabe de +sciencia certa o que são legitimas nutrições, e quando o alargamento dos +tecidos,<span class="pn">{102}</span> accumulados n'uma região, com detrimento +d'outras, é uma pseudo-gordura.</p> + +<p>Convicta pela experiencia dos seus annos productivos, D. Mafalda entrou em +averiguações, e soube de seu primo que Hermenigilda ia brevemente casar-se com +um illustre cavalheiro de Celorico de Basto. Contou-lhe o comêço, e o progresso +das relações, excepto o que elle, ainda que quizesse, não poderia contar em +estylo oriental.</p> + +<p>Iniciada com estes comêços, a velha fidalga chamou sua sobrinha a contas, +fechando-se com ella na casa dos presuntos.</p> + +<p>«Com que então—disse a velha—tu vaes casar, e não me davas parte?!</p> + +<p>—O pai, assim comássim, diz que a tia havia de cá vir...</p> + +<p>«E gostas muito do teu noivo?</p> + +<p>—Podéra não! Tomára eu já que elle viesse.</p> + +<p>«Tambem eu queria que elle viesse em quanto eu cá estou para os deixar +casados... Mas, diz-me cá, menina, tu fizeste uma grande loucura em te deixares +vencer pela tua paixão...</p> + +<p>—Agora fiz! pois eu não havia d'amar com paixão céga meu marido?</p> + +<p>«Há cegueiras de cegueiras, Hermenigilda... Ora imagina tu que elle era um +malvado que não tornava cá, e te deixava nesse estado?</p> + +<p>—Pois eu que tenho? disse Hermenigilda muito sobresaltada, descendo +machinalmente os olhos sobre o corpo de delicto, ou delicto do corpo, como +quizerem.</p> + +<p>«É isso, é isso, menina; não preciso dizer-te mais nada. Agora o remedio é +apressar o casamento antes que teu pai vá para Amarante. Aqui ninguem vos +visita; mas lá, que vergonha para a nossa familia! É a primeira que acontece na +nossa linhagem!... Pois tu...—continuou a velha inexoravel, em quanto +Hermenigilda fazia torcidas<span class="pn">{103}</span> nas pontas do lenço do +pescoço—pois tu cahiste nas fraquezas em que cahem as mulheres da baixa +plebe?! Não te lembraste, nessa hora aziaga, que eras filha do fidalgo mais +antigo d'Entre Douro e Minho?</p> + +<p>—O amor quando é de raiz...—balbuciou a pobre menina, purpuriada como a +fèbra do presunto que lhe estava ao pé disputando o carmim.</p> + +<p>«Qual raiz nem meia raiz! Se teu pai—exclamou com violencia D. Mafalda—te +tivesse mandado aprender commigo a ser uma senhora digna dos appellidos que +tens, não cahirias nessa deshonra, que faz estremecer os ossos de teus +ascendentes na propria campa! O que dirão os nossos primos da Carraça, e de +Ranhados, e Lamas d'Orelhão, sabendo que tu fizeste similhante affronta á nossa +jerarchia?</p> + +<p>D. Mafalda sahiu arrebatada, e no vivo impeto encalhou n'um torno da +caranguejola onde estavam penduradas as brôas d'unto, que longo tempo ficaram +badalando. Hermenigilda sahiu cabisbaixa, a procurar a tia para lhe pedir que +não dissesse ao pai o mal que o seu <em>amor de raizes</em> lhe fizera.</p> + +<p>Era tarde, porém. D. Mafalda, exprobrando amargamente a seu primo, a +descautella, e liberdade com que educara a herdeira do seu nome, acabou por +dizer-lhe que era urgentissimo o casamento, o mais depressa possivel, a fim de +sanar o mais estrondoso escandalo que se tinha dado em nove seculos d'uma +honradez a toda a prova na sua linhagem.</p> + +<p>Pantaleão, atordoado pelas invectivas, só depois de ouvir a cousa clara como +ella era para todos, é que sahiu do torpor, e fez menção de pegar d'um +bacamarte para arcabusar a filha.</p> + +<p>D. Mafalda susteve-lhe o rancoroso assômo, e pouco e pouco persuadiu-o de +que o couce seria mais mortal que a queda. Disse-lhe que escrevesse a Bento de +Castro para que immediatamente viesse esposar sua filha. Pantaleão<span +class="pn">{104}</span> preferiu escrever-me a mim chamando-me a Baião, onde +cheguei cinco dias depois desta pathetica scena, que, de certo arrancou +lagrimas aos que as podem ainda chorar por motivos de amargurada poesia.</p> + +<p>Eu ainda hoje as vêrto caudaes nas rugas da tez, quando me lembro a postura +afflicta de Pantaleão no momento em que entrei no seu quarto. Estava de cocoras +sobre a cama, lendo a gazeta de Lisboa, e vociferando pragas contra o Saldanha, +em quanto o preto tirava os carrapatos d'uma cadella perdigueira que tinha a +cabeça na travesseira do amo.</p> + +<p>O venerando ancião, quando me viu, mandou sahir o preto, e fallou assim:</p> + +<p>«Snr. João, saberá que o seu amigo Bento de Castro é nada menos que um +bregeiro!</p> + +<p>—Como?! V. exc.ª dá similhante titulo a um cavalheiro que vai ser seu +genro?</p> + +<p>«É um bregeiro, e se não, faz favor de olhar para minha filha.</p> + +<p>—Não entendo! Ja tive o gosto de a comprimentar, e ella nada me disse.</p> + +<p>«Repare-lhe n'aquellas ilhargas, snr. João!</p> + +<p>—Nas ilhargas! que quer isso dizer?!</p> + +<p>«Quer dizer que a minha filha, snr. João, ha-de casar-se já, senão o seu +amigo é mandado para o inferno.</p> + +<p>—Pois, nesse caso... eu escrevo ao meu amigo...—repliquei eu, sentindo +tambem nas ilhargas alguma cousa que poderia fazer-me rebentar na compressão do +riso.</p> + +<p>Pantaleão, no auge da sua colera, saltou fóra do leito, e trilhou a cauda da +cadella, que soltou um ganido funebre. Proseguiu em raiventas apostrophes a +Bento de Castro. Accommodou-se um pouco por eu lhe prometter ir pessoalmente +fallar-lhe a Celorico, e terminou por sentar-se, outra vez, na cama aparando +com uma navalha de barba a callosidade de um enorme joanete do pé +esquerdo.<span class="pn">{105}</span></p> + +<h2>XX.</h2> + +<p>Fui a Celorico, e descrevi o mais patheticamente que pude a scena lagrimosa +que presenceara em casa de Pantaleão. O meu honrado amigo não hesitou, um +momento, obedecer aos preceitos do dever. Disse-me que desde muito seria marido +de Hermenigilda, se a má fortuna da guerra lhe não tolhesse o uso do corpo, +pelos ferimentos graves que recebêra, e a morosa convalescença que lhe +custaram. Acrescentou o meu brioso amigo que, obrigado a uma quasi solidão de +quatro mezes, reflectira maduramente no que lhe convinha, e podera convencer-se +de que o casamento com uma mulher supportavel de espirito, excellente de +materia, e rica, era a posição que mais quadrava á sua alma, já desenganada das +loucas illusões da mocidade. Com quanto o seu amor a Hermenigilda não fosse +muito—disse elle—isso não importava, porque o amor-habito viria com o tempo +encher o vacuo das grandes paixões. Louvei, como moralista e humanitario, tão +acertado expediente, tão ajuizada philosophia, e fallamos largamente em planos +de Bento de Castro, fundados sobre os haveres da noiva.<span +class="pn">{106}</span> É certo que uma imaginação creadora tanto póde erguer +castellos no ar como em Amarante.</p> + +<p>N'um dos proximos dias, sahimos de Celorico, e viemos pernoitar a Baião, +onde eramos esperados por um extraordinario successo.</p> + +<p>Quando chegamos, disse-nos o preto que a menina estava doente, berregando +muito. Appareceu-nos D. Mafalda, e disse-me ao ouvido duas palavras, que eu +communiquei ao meu amigo.</p> + +<p>Pantaleão sahiu do seu quarto, e apenas lobrigou Bento de Castro, que +parecia ter-se commovido com a minha revelação, antes de mais nada, exclamou:</p> + +<p>«Não esperava isto d'um fidalgo, que ainda é meu parente, snr. Bento! V. s.ª +portou-se muito mal, e não é digno de ser meu genro!»</p> + +<p>D. Mafalda, prevenida para serenar a colera de seu primo, acudiu aos berros, +e disse com senhoril gravidade:</p> + +<p>—O mal feito não se remedeia, primo Pantaleão. Do que se tracta agora é de +chamar cirurgiões, que a menina está muito doente. O snr. Bento está aqui para +remediar o mal que fez.</p> + +<p>«De certo, minha senhora—murmurou o meu amigo.</p> + +<p>—Pois então—acudiu Pantaleão—trate-se já do casamento.</p> + +<p>«Já?! não é possivel!—redarguiu D. Mafalda—A menina está... pois tu não +sabes como ella está?!</p> + +<p>—E então que tem lá isso?!—replicou o fidalgo—Chama-se ahi o abbade ao +quarto, dizem-se as duas palavras, e arruma-se o negocio d'uma vez.</p> + +<p>«Eu estou prompto a obedecer-lhe—disse Bento;—mas eu muito queria que a +minha noiva não estivesse a soffrer no momento mais feliz da nossa existencia. +Se ella estivesse perigosa, em tão triste caso, de certo seria eu o primeiro a +lembrar o cumprimento da minha palavra; mas, se por em quanto não ha receio, +por que não ha-de<span class="pn">{107}</span> o nosso casamento espaçar-se +para um dia mais alegre?</p> + +<p>—Eu acho que diz muito bem, snr. Bento de Castro...—disse D. Mafalda.</p> + +<p>Pantaleão cedeu ás razões do genro, e ás minhas, que tiveram sempre uma tal +ou qual preponderancia na opinião dos parvos. Serenou-se a tempestade, e +Pantaleão, d'ahi a pouco, estava extasiado ouvindo da bocca eloquente de seu +primo as proesas de Silveira, e as esperanças seguras da queda da constituição.</p> + +<p>D. Mafalda veio dizer a Bento que a menina, sabendo que elle tinha chegado, +ficara em grande alvoroço de alegria, e pedira que lh'o levassem ao quarto, se +isso não parecesse mal.</p> + +<p>Castro foi ao quarto de Hermenigilda. Parece que lhe deu algumas palavras +animadoras e ouviu algumas queixas sentidas da sua demora, e da sua ingratidão. +O momento, porém, era improprio para arguições e defezas. Hermenigilda estava +pagando á natureza o doloroso preço dos gosos maternaes. Bento sahiu com +semblante melancolico, e propoz-me um passeio no pinhal visinho.</p> + +<p>«Sabes tu, João, (disse-me elle com poetica ternura) que começo desde já a +sentir o amor paternal?</p> + +<p>Agora conheço que os prazeres singelos da vida domestica são os unicos de +que posso recobrar a minha felicidade perdida.</p> + +<p>—Pois, parabens, meu caro Bento!</p> + +<p>«Ha nada mais poetico—proseguiu elle, cada vez mais commovido—que o +espectaculo dos soffrimentos da mulher amada, no momento em que se lhe +desprende do seio o thesouro d'amor que será inexhaurivel de prazeres para +mim?!</p> + +<p>—Oh! isso é arrebatadamente poetico! Eu pedirei sempre aos santos da minha +particular devoção que me não dêem o prazer desse espectaculo; mas se um dia eu +vier a ser pai, parece-me que hei-de ser um grande pai, e<span +class="pn">{108}</span> trarei sempre o meu gordo pequeno bifurcado no +pescoço...</p> + +<p>«Não podes imaginar o jubilo que me enche o peito...—atalhou o meu amigo, +que parecia não ter ouvido os doces prognosticos da minha paternidade—Quem +diria que eu viria a ser isto que sou?! Posso hoje esperar metade da minha +existencia menos infeliz que a outra. Se Hermenigilda não é a mulher que possa +corresponder bem ás precisões da minha alma, o vacuo será preenchido com o amor +de meus filhos. Se fôr menina o primogenito, hei-de mandal-a educar em +Inglaterra; quero provar que se póde ser uma rica herdeira sem ser estupida. Se +fôr um rapaz, oh! então... tu não imaginas o que ha-de ser meu filho!</p> + +<p>A pratica demorou-se uma hora nestas pieguices, que o leitor, se é pai de +certo perdoa ao meu amigo.</p> + +<p>Ia alta a noite, e a brisa fria do norte, cantando nos pinhaes, fazia-me nas +orelhas uma sensação desagradavel. Pedi ao contemplativo Castro que fôssemos +continuar as doces <em>réveries</em> no nosso quarto.</p> + +<p>Estavamos ainda a pé, duas horas depois. De instante, a instante, +chegava-nos o ecco d'um gemido agudo. Eu sahia, de vez em quando, a +informar-me, e voltava sempre com boas esperanças para o meu amigo. Assistiam +ao acto solemnissimo d'um primogenito, um medico de Rezende, um cirurgião das +Caldas d'Arêgos, uma parteira de Canavezes, e D. Mafalda, que parecia mais +experiente que todos os outros.</p> + +<p>Já de madrugada, passeava eu n'um sobrado proximo do quarto em que +Hermenigilda acabava de ter o seu feliz successo, como dizem os jornaes, quando +annunciam á Europa o nascimento d'um menino gordo, robusto, filho de tal ou tal +commendador, que nunca produz, em regra, meninos enfesadinhos.</p> + +<p>Tratei de perguntar o sexo do recem-nascido á primeira pessoa que sahiu do +quarto: era D. Mafalda. Cousa<span class="pn">{109}</span> extraordinaria! A +velha fidalga sahiu como assombrada; e á pergunta que lhe fiz, respondeu: «Isto +é da gente se benzer!»</p> + +<p>—Que diz v. exc.ª, minha senhora?—repliquei eu—É menino ou menina?</p> + +<p>«Eu sei cá... Santo nome de Deus!—balbuciou ella.</p> + +<p>Sabem o que então me lembrou, não podendo atinar com o spasmo de D. Mafalda? +Se o recem-nascido seria um pequenino centauro, uma aberração da natureza, um +monstro, um hermaphrodita! Instei com anciedade nas minhas perguntas, e +imaginei que D. Mafalda estava douda, quando me disse que o nascido era rapaz, +mas...</p> + +<p>«Mas o que, minha senhora, queira acabar...</p> + +<p>—Mas é preto!—disse ella, escondendo o rosto nas mãos.</p> + +<p>Bento de Castro appareceu n'este momento. Contempla a estupefacção de nós +ambos. Pergunta se Hermenigilda está perigosa. Eu fico perplexo; mas o +vilipendio do meu pobre amigo vexa-me, punge-me, indigna-me até ao fundo +d'alma.</p> + +<p>Tomo-lhe o braço, tiro-o para o patim da casa, e digo-lhe:</p> + +<p>—Manda sellar immediatamente os nossos cavallos.</p> + +<p>«Pois que é?!</p> + +<p>—Já, já, é necessario sahir já d'aqui...</p> + +<p>«Por quem és, explica-te, João.</p> + +<p>—E eu pela tua honra te supplico que me não interrogues mais. Vamos +apparelhar os cavallos.</p> + +<p>Bento de Castro seguiu-me como um somnambulo. Viu-me, na immobilidade do +idiotismo, sellar as cavalgaduras. E quando eu lhe disse: «monta!» não se +moveu. Era indispensavel tiral-o d'aquelle torpôr. Cobrei animo, e disse-lhe:</p> + +<p>«Estás disposto a adoptar o filho de Hermenigilda?...</p> + +<p>—Se elle é meu filho...—murmurou elle.<span class="pn">{110}</span></p> + +<p>«Qual teu filho?! vamos! monta a cavallo!</p> + +<p>—Pois de quem?! Tu queres enlouquecer-me!</p> + +<p>N'este instante uma criada dizia d'uma janella para o quinteiro a uma filha +da caseira:</p> + +<p>«Nasceu um menino.</p> + +<p>E a caseira respondia:</p> + +<p>—Que seja para boa sorte.</p> + +<p>«E a <small>SORTE EM PRETO</small> é a melhor...—murmurei eu, segurando o +estribo do cavallo de Bento.</p> + +<p>O infeliz comprehendeu-me. Não sei como dizer o que vi na cara de Castro. +Partimos.</p> + +<h3>EPILOGO.</h3> + +<p>O preto levou sumiço. Eu creio que o esganaram, e enterraram no entulho +d'uma mina, que está á esquerda, como quem sahe da porta da cozinha. Quem o +esganou não sei, e eu sou muito escrupuloso em aventar supposições de tamanha +responsabilidade. O filho do preto levou-o a parteira de Canavezes, e não se +sabe o fim que lhe deram. Pantaleão morreu.</p> + +<p>Hermenigilda casou com o morgado de Costoias, e é hoje uma das mais +respeitaveis senhoras da Amarante. Bento de Castro da Gama já foi tres vezes +deputado pelo Minho, e está muito gordo. Eu vou vivendo, como Deus é servido, +pasmado do muito que tenho visto.</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;">FIM DO LIVRO PRIMEIRO.<span +class="pn">{111}</span></p> + +<h3>LIVRO SEGUNDO.</h3> + +<h1>DINHEIRO.</h1> + +<p><span class="pn">{112}</span></p> + +<p><span class="pn">{113}</span></p> + +<h3>LIVRO SEGUNDO.</h3> + +<h1>DINHEIRO.</h1> + +<h2>I.</h2> + +<p>Em 1835, a 22 d'Agosto, ás 7 horas da tarde, pouco mais ou menos, passeava +eu, com a imaginação pelos mundos ideaes de Platão, e os pés sobre o terreno +saibroso de um cerrado pinhal, no sitio do <em>Pastelleiro</em>, nos suburbios +de S. João da Foz.</p> + +<p>Distrahidamente, de vez em quando, passeava a vista pelas cinco janellas +hermeticamente fechadas d'uma casa de campo, pintada de fresco a ocre. +Impressionava-me o silencio funebre que rodeava aquella casa, e d'essa +impressão, metade poesia e metade curiosidade, nasceu-me o desejo de saber quem +morava alli.</p> + +<p>Perto da noite, vi abrir-se uma das cinco janellas, e divisei um vulto de +mulher, que se demorou alguns instantes olhando para o lado do mar. Ahi começa +a phantasia a fazer-me travessuras!</p> + +<p>Receoso d'afugental-a, parei para que ella me não ouvisse os passos. O ar +mysterioso de tudo aquillo, a hora, o sitio, e sobre tudo esta minha cabeça +fertil de crendices visionarias, fizeram-me crêr que tal mulher apparecera +então<span class="pn">{114}</span> para não ser vista d'alguem, e fugiria se +alguem a visse.</p> + +<p>Não me enganei. N'um lanço d'olhos, a amante do crepusculo lobrigou-me entre +os pinheiros, e sahiu em sobresalto da janella.</p> + +<p>«Aquella mulher é necessariamente um romance completo!» disse eu commigo +mesmo, e imaginei traça de tornar a vêl-a sem ser visto n'aquella noite. Sahi +do pinhal, entrei na estrada que conduz á Foz, retrocedi, através d'uma +charneca, e entrei outra vez no pinhal de modo que o ruido dos meus passos se +perdesse na grilharia dos grillos e cigarras.</p> + +<p>A mulher da casa amarella estava outra vez olhando para o occidente, com a +face encostada á palma da mão. D'ahi a pouco escureceu de modo que eu podia +pouco avistal-a.</p> + +<p>Permaneci muito tempo immovel, encostado a um pinheiro, com os olhos +cravados n'aquelle vulto, que eu estava amando, sem conhecer-lhe as feições. Os +primeiros fulgores da lua, que se revia no seio do mar, vestiram-lhe o rosto +d'um esplendor alvacento: julgal-a-hieis uma estatua de marmore na solidão +silenciosa d'uma cidade assolada.</p> + +<p>Soaram onze horas no relogio parochial de Lordello. Que saudosa tristeza a +d'aquelles sons em hora de tanta poesia! Que estimulo para um coração de cera +flexivel a todos os caprichos da phantasia, qual era o meu, por esses tempos!</p> + +<p>Onze horas, e eu ainda alli fascinado por aquella mulher, que me não via, +que nunca me vira, e eu não veria jámais!</p> + +<p>Não se riam da criança que eu era então. Tinham passado trinta annos por +mim, mais ou menos tempestuosos, e o coração estava ainda viçoso, florido e +esperançoso de fructos que por fim apodreceram antes de sazonarem.<span +class="pn">{115}</span></p> + +<p>Era aquella a idade das paixões sérias, reflectidas, consideradas. São essas +as paixões que lançam raizes, regadas por lagrimas, ao fundo do seio, d'onde só +a mão da morte, quasi sempre prematura, póde desarreigal-as.</p> + +<p>E por isso aquella mulher do <em>Pastelleiro</em> entrára em minha alma, +vaga de tres mezes, porque houvera ahi na face da terra uma virgem reféce e +treda que se vendera a um paparreta rico, vindo não sei d'onde, com anneis de +brilhantes em todos os dedos das mãos, e joanetes enormes em todos os dedos dos +pés... que pés, meu querido padre Santo Antonio! não eram pés; eram miniaturas +da Roma das sete collinas gravadas em couro!</p> + +<p>Estive muito doente n'essa occasião. Dei sérios cuidados aos meus numerosos +amigos, e recobrei lentamente a saude á custa de muita papa de linhaça e oleo +d'amendoas doces.</p> + +<p>Assim atraiçoado, vilipendiado, ferido no meu amor, no meu orgulho de sabio, +nas minhas aspirações de poeta, resolvêra abandonar o céo onde a perfida, nos +braços d'um marido indecente, respirava o ar balsamico das flôres que eu +cultivára para ella no seu proprio jardim. Viera á Foz fortalecer os nervos +frouxos, contar ao oceano as minhas agonias, chorar com a lamentosa Alcione, e +apiedar os mexilhões.</p> + +<p>N'este estado d'alma era perigoso provocar as sensações do amor. A chaga era +d'aquellas que se curam homœopathicamente, e eu de certo não conheço +argumento que mais aproveite ao systema de Hahnemann. Os que dizem que a +homœopathia é a medicina que abrange ambos os dominios, o da materia e o do +espirito, definiram-na de modo que só a má fé poderá ridiculisal-a, não lhe +reconhecendo a efficacia em enfermidades d'alma tão graves como era então a +minha. As mulheres são essencialmente homœopathicas, e basta que ellas o +sejam para que o novo apostolado se consolide. Ninguem como ellas se cura +tão<span class="pn">{116}</span> depressa das molestias d'alma por suppuração +d'amor. Eu creio que as valvulas no coração da mulher não são simplesmente +peças mechanicas da circulação sanguinea. Em breve tenciono dar á luz um livro +de physiologia, em que prometto provar que o coração feminino tem uma valvula +por onde sahe um amor, e outra que simultaneamente se abre á entrada d'outro. +Com estas duas valvulas e um pouco d'impudor, fórma-se a mulher á laia +d'aquella que me trahiu.</p> + +<p>Acabem as divagações.</p> + +<p>Ouvi ainda baterem as doze horas, sem poder furtar-me á prisão magica +d'aquella mulher. Afigurou-se-me que ella se movera da attitude melancolica em +que estivera tres horas. Não me enganei. Ouvi o ranger da porta no interior da +casa, e um clarão subito illuminou o quarto. O vulto magestoso da mulher +sobresahiu no horisonte de luz, em pé, com as costas voltadas para fóra. +Escutei, apenas, o murmurio d'algumas palavras que duas pessoas trocavam, e +pareceu-me, pelos ademanes, que a mysteriosa tambem fallára. A luz demorou-se +dous minutos, se muito. Com a escuridade, a minha visão amada voltou á sua +posição, na janella. Eu, espero que me creiam, estava idealmente tolo por tudo +que via, e imaginava.</p> + +<p>Não pararam aqui as visões estupendas.</p> + +<p>D'ahi a pouco escondeu-se a lua. Da parte do mar soprava uma aragem que +rumorejava nas ramas dos pinheiros um som soturno, que parecia o ecco da vaga +longinqua. A frouxa claridade das estrellas dava aos montes magestade mais +impressiva, um colorido mais triste, um encanto de mais para a minha alma, alli +captiva do espectaculo mais grandioso que o acaso podia deparar a um espirito +de poeta de força maior.</p> + +<p>Maravilha!</p> + +<p>Uma voz angelica, trémula como um longo gemido, mas melodiosa como o +suspirar de brisa por entre flores,<span class="pn">{117}</span> e o murmurar +de fontinha no cristal da taça, uma voz que ainda hoje me entra no tympano da +alma, uma voz que nunca mais sahiu da memoria do meu coração... foi a voz que +ouvi... era ella cantando, era o anjo que segredava ás estrellas as magoas do +seu exilio, era a fada que invocava as magicas apparições da noite, era o +espirito aerio, como o não sonharam Wieland, Hoffmann, nem Gœthe, a descer +das regiões ethereas para encher a terra das harmonias santas que foram a +linguagem humana antes da queda da primeira mulher.</p> + +<p>Extatico, alheado, eu não podia recolher ao coração, ao mesmo tempo, a letra +e o canto. O hymno, variado de modulações divinas, talvez improvisado, musica +para mim d'uma arrebatadora originalidade, continuava. Habituado ao spasmo da +primeira sensação, tentei distinguir as palavras, e apenas pude recolher dous +versos com ligação.</p> + +<blockquote> + Dai esmola d'amor á desgraçada,<br> + Ó anjos, que o meu anjo tendes lá. </blockquote> + +<p>Houve uma longa suspensão. Os olhos da minha alma viram aquella mulher +enxugando as lagrimas. Soou ainda outra vez a melodia triste, cada vez mais +triste, mais trémula, mais ferida dos tons, ora brandos de adoravel melancolia, +ora frementes como gritos abafados. Por fim, faltava a tristeza augusta do +silencio da noite para proferir as ultimas notas d'aquella aria no gemido das +selvas, no cicio da folhagem, no susurro das correntes, e no manso espriguiçar +da onda sobre as algas dos rochedos.</p> + +<p>Calou-se o canto. Fugiu-me a visão. Fechou-se a janella. E eu pendi a cabeça +triste sobre o seio, e perguntei aos espiritos da noite se não era aquella a +mulher dos meus sonhos de trinta annos.</p> + +<p>A natureza ouviu-me em silencio.</p> + +<p>Porque não ha-de a natureza responder ás perguntas dos tolos que ella +faz?!<span class="pn">{118}</span></p> + +<h2>II.</h2> + +<p>No qual tempo, tocava eu viola franceza, com alguma graça, e a minha mania +creadora era compôr trovas elegiacas, ao sabor da minha amargura, e cantal-as +acompanhadas de arpejos melancolicos. A minha voz, era um soffrivel +<em>baritono sfogato</em>. Principiei cantando lições da semana santa, a duas +vozes. Aprendi, depois, o cantochão, cheguei a cantar n'uma missa de cinco +vozes em côro d'aldeia, e com estes rudimentos consegui tirar da viola franceza +harmonicos de que ainda hoje se falla em S. Gonhedo, e Trabanca de Panellas.</p> + +<p>Era pois, lugubre o meu cantar como o do captivo de Israel, saudoso das +margens do seu rio.</p> + +<p>E, na noite seguinte á da minha visão, eu fui sentar-me entre os pinheiros, +com a harpa das angustias debaixo do braço, esperando a hora desejada em que os +espiritos desciam a pousar nos labios daquella espiritual mulher.</p> + +<p>Presenciei o mesmo espectaculo da noite anterior: a mesma attitude, a mesma +luz, e á mesma hora o canto funebre e as palavras dulcissimas de tristeza.<span +class="pn">{119}</span></p> + +<p>Eu tambem fui poeta, e improvisava, na exuberancia do amor, endeixas +sentidas, que nunca pude reproduzir com animo frio sobre uma tira de papel. A +fada acabava de cantar os dous versos tão lindos:</p> + +<blockquote> + Dai esmola d'amor á desgraçada,<br> + Ó anjos, que o meu anjo tendes lá. </blockquote> + +<p>E eu feri as cordas do meu alaúde nos tons mais lugubres d'um preludio, e +cantei:</p> + +<blockquote> + Neste ermo, triste, e só, e abandonada<br> + Quem desta alma o gemer escutará?<br> + Dai esmola d'amor á desgraçada,<br> + Ó anjos, que o meu anjo tendes lá. </blockquote> + +<p>A mulher estava de pé; erguera-se com impeto; buscara nas trevas o mysterio +d'aquella surpresa. E eu continuei, tremendo com o receio de a ver:</p> + +<blockquote> + São horas mortas; vem, ó meiga fada,<br> + E um beijo para o céo leva de cá.<br> + Dai esmola d'amor á desgraçada,<br> + Ó anjos, que o meu anjo tendes lá. </blockquote> + +<p>Ella estava immovel, ainda; e eu sentia a fronte calcinada ao fogo do estro. +O <em>Deus</em>, <em>ecce Deus</em> do famoso poeta, experimentei-o então. +Tumultuavam-me n'alma os pensamentos radiosos. As cordas da cithara, febris +como eu soltavam vertiginosas harmonias em melancolica toada. Era a hora das +expansões e eu prosegui:</p> + +<blockquote> + Teu canto amargo ouvi, sombra adorada!<br> + Meu hymno, triste, como o teu dirá:<br> + Dai esmola d'amor á desgraçada,<br> + Ó anjos, que o seu anjo tendes lá. </blockquote> + +<p>Á ultima palavra desta quadra, sumiu-se a visão; mas a janella ficou aberta. +Decorreu uma longa hora. As<span class="pn">{120}</span> orlas do mar +arraiavam-se da luz da aurora. A flôr da giesta, as margaritas do prado, e a +candida florescencia da urze recebiam nas suas urnas o aljofar do céo.</p> + +<p>E a janella ainda aberta.</p> + +<p>Aclarou-se a manhã: eu não despregava os olhos anciosos da janella vasia, da +escuridão interior da casa. Na perplexidade de sahir do saudoso sitio, vi +desenhar-se no fundo escuro um vulto vestido de branco, vaporoso como as tenues +nuvens do oriente que se rarefaziam ás primeiras lufadas do sol que ia nascer.</p> + +<p>Ver-me-ia ella?</p> + +<p>Oh! de certo viu! O coração bateu-me no peito. Lancei-lhe um olhar de quem +dá um adeus e pede uma piedosa saudade. Atravessei os pinhaes por longos +desvios da estrada; entrei no meu quartel, onde tudo me parecia negro e indigno +de mim.</p> + +<p>Que dia aquelle! Que côr tão linda a da atmosphera! que azul tão encantador +o do mar!</p> + +<p>Como todas as mulheres me pareceram feias, e todos os homens importunos!</p> + +<p>Ó amor, fonte caudal de ephemeras alegrias, quando tornarás a orvalhar esta +alma arida!<span class="pn">{121}</span></p> + +<h2>III.</h2> + +<p>O sol deitara-se no seu leito de purpura, quando eu entrei no pinhal do +Pastelleiro. A anciedade não me deixava esperar a noite. As janellas estavam +fechadas. O amor nascente é tão melindroso, pueril, e timido, que receia +desagradar até com o pensamento ao idolo da sua concentrada adoração. Eu temia +destruir o meu tal ou qual prestigio apparecendo de dia áquella mulher, que +poderia adorar-me no silencio da noite, na hora das lagrimas, em presença das +estrellas.</p> + +<p>Mas o amor arrebatado tem affoutesas que tiram animo da mesma timidez.</p> + +<p>A mulher não apparecia. O crepusculo da tarde vinha descendo das cumiadas +das serras. Eu não podia reprimir a ancia do coração: precisava vêl-a, e +dizer-lhe, no silencio da surpresa, que amor de vida ou morte ella me +inspirava.</p> + +<p>Rodeei a pequena quinta da casa amarella. Achei, ao longe, uma pequena +porta, que abria para um matagal. Buli tremendo no ferrolho, e a porta +deixou-se abrir. Dei um passo vacillante dentro da quinta, e vi a fachada +trazeira<span class="pn">{122}</span> da casa, uma longa varanda de pedra, e +duas mulheres, uma sentada, a lêr, outra fiando. Reconheci-a! era ella a que +lia. As pernas senti-as tremer frouxas e como vergando ao peso do tronco. O +sangue em lume subiu-me em borbotões ás fontes, quiz esconder-me, e não pude. O +latido d'um cão denunciou-me aos olhos da mulher que fiava. Não sei o que ambas +se disseram. É certo que a velha, sustendo o rodopio do fuso, perguntou-me, em +sinistro falsete, quem procurava eu.</p> + +<p>Engasguei-me, tartamudeando não sei que desculpa. A velha redarguiu, em +quanto a moça, já de pé, cravando-me os olhos immoveis, parecia increpar-me a +audacia de profanar o seu santuario.</p> + +<p>Respondi:</p> + +<p>—Não procuro alguem; andava passeando, e cuidando que não incommodava, +entrei por aquella porta com intenção de vêr esta quinta.</p> + +<p>«Então vocemece—tornou a velha—está a banhos?</p> + +<p>—Sim, senhora—respondi eu com muita meiguice, abençoando a curiosidade de +todas as mulheres, e particularmente a d'aquella que me proporcionava uma +demora justificada.</p> + +<p>«A quinta tem pouco que admirar... (disse a filha dos meus sonhos). Mas, tal +qual é, está ás suas ordens.—Leitor, se tóma rapé, sôrva uma pitada, e dê-me +attenção, que eu não lh'a dispenso na mais insignificante virgula do que vai +lêr.</p> + +<p>A mulher que acaba de fallar, com um timbre de voz só comparavel ao seu +canto, era um milagre de formosura, como eu a entendo, como eu a tinha sonhado, +como eu a tinha organisado das bellesas dispersas em quantas mulheres bellas +encontrára.</p> + +<p>Eram negros os cabellos, ornamentos dignos d'uma fronte larga.</p> + +<p>Negras as sobrancelhas, ajuntando-se na base do nariz<span +class="pn">{123}</span> mais fino e transparente que inventaram os pinceis +famosos que, de seculo em seculo, apparecem para completar as formosuras que a +natureza nos dá incorrectas.</p> + +<p>Olhos da côr dos cabellos, rasgados, nem morbidos nem vertiginosos, menos +serenos que a limpidez do lago, e mais amortecidos que o vulgar dos olhos +negros.</p> + +<p>Pallida, muito pallida, sem mancha de rubôr, sem beta d'outra luz que não +seja a que os brandões mortuarios reflectem no crepe da eça.</p> + +<p>Era magra de faces, sem que se lhe vissem as proeminencias malares, especie +de balisas que se levantam naturalmente onde acaba a formosura.</p> + +<p>Devia ser muito delicada e breve a construcção ossea d'aquella mulher, que +no melindroso das fórmas exteriores, mostrava ser apenas o involucro material +d'um grande espirito.</p> + +<p>A pequenina bocca era assombrada por um buço aveludado, que sobresahia a +custo do fundo pallido em que parecêra plantal-o n'um beijo o amor das +voluptuosidades, filhas do coração, e desconhecidas á sensualidade grosseira.</p> + +<p>Airosa, no primor da estatuaria, as largas vestes casavam ás fórmas as +caprichosas ondulações, de modo que as bellezas occultas pareciam desafiar a +imaginação mais fertil para vencel-a com a realidade.</p> + +<p>Estes fugitivos traços ficaram-me indeleveis na memoria. Creio que o leitor +mais imaginoso não creará com elles no mundo dos phantasmas a sombra sequer da +minha heroina. O pincel cahiria desanimado na presença della; que fará a penna, +sempre desobediente ás vagas expressões da alma! Não sei pintal-a d'outro modo. +Tenho-a ha tantos annos ao pé de mim, sempre no logar da minha sombra, rindo e +chorando commigo, entoando-me sempre em voz sepulchral os dous fatidicos +versos:</p> + +<blockquote> + Dai esmola d'amor á desgraçada,<br> + Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.<span class="pn">{124}</span> </blockquote> + +<p>Sempre a voz, sempre a imagem, em tudo, por toda a parte, e não sei +descrevêl-a, nunca pude arrancal-a da palheta dos artistas mais lucidos, +d'aquelles que comprehenderam o aspecto melancolico de Camões, e o adivinharam, +d'aquelles que idealisam a formosura correcta, respingando-a nas Heloisas, nas +Leonores, nas Fornarinas! Ai! o meu ideal foi deste mundo, e a arte não póde +restituir-m'o!</p> + +<p>O que és tu, sciencia humana! Pintor, subtilisa a tua alma com a lucidez +magnetica, e dá-me o retracto d'aquella mulher, que eu dou-te a immortalidade +morrendo abraçado ao teu milagre, á tua segunda creação!....................</p> +<hr class="dotted"> + +<p>Não soube responder ao offerecimento de... Como se chamava aquella mulher? +Vamos sabêl-o. D'alli perto, está uma camponeza segando herva. Vou fallar com +esta mulher, de modo que me não vejam da varanda; receio magoal-a, se ella +suspeita da minha indiscreta curiosidade... Ainda bem que não sou visto.</p> + +<p>«Pertence áquella familia que mora alli?» perguntei eu.</p> + +<p>—Não, senhor; sou caseira d'esta quinta, e aquella familia alugou esta casa +pelo S. João.</p> + +<p>«D'onde é a tal familia, póde dizer-me?</p> + +<p>—Não lhe sei dizer. Parece-me que são lá de cima da provincia. Quem alugou +a casa foi um senhor que veio cá sósinho, e não tornou a apparecer.</p> + +<p>«Seria marido d'ella?» interrompi com sobresalto.</p> + +<p>—Não tinha geito d'isso; e se fosse marido, a criada fallava-me d'elle.</p> + +<p>«E que diz a criada?!</p> + +<p>—Pouco mais de nada; e eu, como não sou intromettida, tambem não pergunto. +Elles vivem na sua casa, e eu vivo na minha.</p> + +<p>«E como se chama a tal senhora?</p> + +<p>—É a snr.ª D. Felismina, e a criada é Thereza.<span class="pn">{125}</span></p> + +<p>«E ella não toma banhos?</p> + +<p>—Nunca sahe de casa de dia; algumas vezes sahe de noite, mas não passa do +pinhal, ou vai até lá abaixo áquella moita de carvalhos.</p> + +<p>«Desculpe-me tanta pergunta, e em paga do seu bom modo ha-de ter a bondade +de acceitar-me uma pequena quantia para um lenço.</p> + +<p>A mulher, maravilhada, acceitou não sei que, de que a amabilidade do rosto +immediatamente se resentiu. Devo confessar que a minha generosidade foi tão +interesseira quanto a seguinte pergunta vai denuncial-a:</p> + +<p>«V. m. vai áquella casa?</p> + +<p>—Só lá vou á tarde buscar a lavagem para os cevados.</p> + +<p>«E quem lhe faz os recados?</p> + +<p>—Vem todas as manhãs um homem do Porto trazer-lhe as compras; pouco se +demora, e sahe sem vêr a senhora. Foi elle que me disse que nunca a vira, nem +sabia quem era; mas que seu amo o mandava todos os dias trazer o mantimento, +com ordem de não fallar a ninguem. Em quanto a mim—concluiu a informadora, +pondo á cabeça o cesto da herva—em quanto a mim, anda aqui mandinga, por mais +que me digam.—Disse adeus á mulher, e voltei pela mesma direcção até á pequena +porta. Não vi Felismina, nem a criada.</p> + +<p>Era quasi noite. A minha existencia phantastica ia recomeçar.<span +class="pn">{126}</span></p> + +<h2>IV.</h2> + +<p>Do poente desennovellavam-se rôlos de nuvens pardacentas que se acastellaram +sobranceiras á Foz. Pouco a pouco, distenderam-se pela superficie do céo, +formando uma abobada de chumbo, onde não luzia a crispação de uma estrella. +Estava, pois, medonha a noite, e os urros do oceano vinham de longe a gemer na +praia um lugubre lamento. Cruzavam-se de norte a sul successivos relampagos, e +o trovão bramia do nascente, menos retumbante que o mugido das vagas. As +franças dos pinheiros ramalhavam com impetuosas sacudidellas d'uma nortada +supita.</p> + +<p>E eu, immovel e sereno como o archanjo das tempestades, contemplava este +espectaculo grandioso, nos visos do Pastelleiro. De vez em quando observava a +massa escura da casa de Felismina. Pareciam-me fechadas as janellas. Pobre +cantora d'amarguras, não era aquelle o seu lindo céo, povoado d'estrellas, que +lh'as ouviam! A brisa, que bebia dos labios d'ella as endeixas tristes, indo-se +pelos valles a dizel-as aos eccos, fugira espavorida ao açoute do bulcão do +mar. Talvez que a timida senhora, de joelhos<span class="pn">{127}</span> com a +aterrada Thereza, estivesse resando a <em>Magnificat</em> e jaculatorias a +Santa Barbara! Alli, sósinha, na crista de um monte, tão visinha dos raios, +cercada de trovões, transida de pavôr... não a verei hoje!</p> + +<p>Assim pensava eu, resolvido a não esperar o aguaceiro da nuvem prenhe que, +sobranceira a mim, superava em negrura as outras.</p> + +<p>Antes, porém, de deixar o saudoso sitio, quiz satisfazer a um desejo pueril, +a uma d'essas criancices ditosas de que o coração se emancipa quando os +cabellos alvejam, ou a alma amadurece temporamente,—o que é peor ainda... Fui +ao pé da casa, muito ao pé, quasi rente com a parede, e... á luz d'um +relampago... vi-a! vi-a... era ella, debruçada no peitoril da janella!</p> + +<p>Outro relampago... Estava ainda! não me fugiu, não se moveu, tinha os olhos +mergulhados nas trevas onde me vira.</p> + +<p>Cahiam as primeiras gottas de chuva, e eu não as sentia. O que eu queria era +relampagos; queria o facho sulfureo da tempestade; queria a erupção d'uma +cratera; queria o incendio do mundo para vêl-a, maior do que a minha imaginação +a creára, maior que o terror d'aquelle quadro!</p> + +<p>E a chuva cahia a torrentes. Eu recebi-a impassivel, inabalavel, na face, +erguida para a janella, d'onde as trevas já não podiam roubar-me os traços +d'ella. N'isto, pareceu-me ouvir a sua voz. O estrepito da chuva do furacão, e +dos trovões não me deixavam entendel-a. Pensei que fôra um engano. Ai! não era, +não!</p> + +<p>«Póde abrir—disse ella—esse portal grande, e recolher-se da chuva.</p> + +<p>—Não a sinto, minha senhora—balbuciei eu.</p> + +<p>«É impossivel que não esteja muito molhado! Recolha-se que a chuva não pára +tão cedo—tornou ella.</p> + +<p>—As tempestades do coração não deixam ao corpo sentir as da +natureza...<span class="pn">{128}</span></p> + +<p>«Como?!—interrompeu ella.</p> + +<p>Eu repeti, com medo, as mesmas palavras. Tinha razão para temer. Felismina +sahiu da janella, e eu ouvi o descer vagaroso da vidraça.</p> + +<p>Estava eu, pois, molhado como um frango que sahiu d'um tanque. A agua +encaleirava-se-me pelos canos das botas. Catarata humana, sacudi as jubas, +limpei a cara a um lenço que a molhou ainda mais; e, perdida a esperança de +tornar a vêl-a, fui para minha casa, estripando charcos, e scismando nas +imprudentes palavras com que me denunciára.</p> + +<p>Tive uma noite d'insomnia, e um catarrho cujas consequencias ainda hoje +sinto. Tomei apenas alguns xaropes de figos e ameixas. Transpirei suffocado +entre seis cobertores; não fiz caso d'uma dôr tibio-tarsica, aurora do +rheumatismo que hoje me tolhe, (aprendei, mancebos incautos!) e, no dia +seguinte, apenas um bello sol mosqueou de betas douradas as costas carunchosas +do meu leito de pinho, saltei de cuécas para o sobrado, e meditei de cócaras, +no que devia fazer.</p> + +<p>A minha tratadeira (pessoa velha, já mencionada no <small>LIVRO +PRIMEIRO</small>, a folhas...) veio encontrar-me n'esta attitude, senão +romantica, ao menos desambiciosa.</p> + +<p>«Credo!—-exclamou ella—o senhor está de menores! isso é feitio! Olha que +preparo!</p> + +<p>—Não fuja, tia Poncia—disse-lhe eu, meditativo e funebre como o fidalgo +manchêgo, depois da aventura dos ôdres—Venha cá, tia Poncia, que eu preciso +das suas consolações.</p> + +<p>«Valha-o Deus!—tornou ella—Suou tres camisas, e pranta-se no meio do +soalho com o <em>cadable</em> ao ar!</p> + +<p>—Diz bem, tia Poncia, isto já não é senão um cadaver, lançado á margem, +exposto aos corvos e abutres das paixões carnivoras.</p> + +<p>«Que está ahi a <em>alanzoar</em> o snr. João? Se eu o percebo,<span +class="pn">{129}</span> cebo! Ora vá-se vestir, ande-me depressa, que está o +café prompto, e toca a comer p'ra arrijar.</p> + +<p>—Comer, tia Poncia...! O que é comer, sobre a face da terra, quando a vida +vegetal paralisou! O meu alimento é o absyntho das lagrimas. Sou o Ugolino da +fome do espirito, o Tantalo, o Promotheu devorado pelo abutre incessante.</p> + +<p>«Que bruto está o snr. João ahi a dizer? A apostar que lhe fizeram alguma os +brutos cá da Foz! Eu sempre tive zanga a esta gente! Está tudo caro pela hora +da morte! O carniceiro manda-lhe a gente pedir carne da cernelha, e o berzabum +de não sei que diga manda rabada, e quando Deus quer é cada osso que te parto! +A lenha isso então é uma ladroeira que clama justiça ao céo! Quatro gravatos +que não dão para aquecer uma agua é um patacão. Má breca os tolha!</p> + +<p>—Accommode-se lá, tia Poncia. Eu não fallo n'isso. V. m. é mulher +experiente, e ha-de aconselhar-me a respeito de certa cousa... Chegue-me cá +aquellas pantalonas, e fallaremos.</p> + +<p>«Ora diga lá... bacoreja-me que temos patavinice de namoricos. Ora queira +Deus que não esteja por ahi alguma como a Vicencia do outro anno que lhe pôz o +sal na moleira...</p> + +<p>—Ora olhe, tia Poncia... ha uma mulher que não pertence a este mundo.</p> + +<p>«Coitadinha! rezemos-lhe por alma! foi por ella que tocaram hontem os sinos +a defuntos?</p> + +<p>—Não me córte o discurso. Esta mulher vive...</p> + +<p>«Ah! sim? inda bem, inda bem!</p> + +<p>—E V. m. a dar-lhe! Ouça, e falle quando dever responder. Esta mulher vive +n'uma casa aqui perto da Foz; tem comsigo uma criada; não tem homem nenhum: não +apparece de dia, só se vê de noite a fallar com as estrellas...<span +class="pn">{130}</span></p> + +<p>«Anjo bento! isso é bruxêdo! Cruzes, canhoto! Terá ella fadario?</p> + +<p>—Fadario tem V. m. de toleima, tia Poncia! Vive commigo ha tantos annos, e +parece que está cada vez mais tonta!</p> + +<p>«Quem? eu! tonta eu, porque lhe digo as verdades, snr. João! Eu não lhe +disse que a Vicencia era uma trapalhona, que lhe dava volta ao miôlo!? Diga, +snr. Joãosinho, quando V. m. andava atraz da filha do letrado, com a beiça +cahida, não lhe disse eu que a rapariga, ás duas por tres, se lhe apparecesse +marido com chelpa era como se nunca nos vissemos!? E agora queria que eu lhe +dissesse mundos e fundos d'uma feiticeira que só apparece de noite a dizer +anzonices ao sete-estrello!? Deixa-me benzer, e Deus me tenha da sua mão, e +mais a V. m. que o vi nascer e desde que anda por cá á sua vontade arranja +sempre bruxêdo que o tolhe. Sabe que mais, snr. João? Coma e beba e tome os +seus banhos, que é ó que veio; o mais leve o diabo, Deus me perdôe, as +mulheres, e quando houver de casar arranje filha de lavrador que saiba amanhar +a vida, e não olhe para estas fuinhas da cidade que parecem mesmo o peccado!</p> + +<p>Tia Poncia disse muitas outras cousas razoaveis. Exhaurida a torrente, foi +buscar o café, e pediu-me que pendurasse no pescoço uma figa de azeviche, e uma +conta que fôra tocada no corpo do martyr S. Cyprianno—tudo para vencer os +sortilegios da bruxa, contra quem a minha pobre Poncia, durante o almoço, +proferiu um discurso, intermeado de orações <em>ad rem</em>.<span +class="pn">{131}</span></p> + +<h2>V.</h2> + +<p>Fui, nas tres noites immediatas, ao pinhal do Pastelleiro, esperei a +apparição até ás onze horas, mas nenhuma das janellas se abriu jámais! Pude, +uma vez, encontrar a caseira: perguntei-lhe se a senhora se retirára, ou estava +doente, respondeu-me que a tinha visto na varanda todas as tardes, +acrescentando que a porta travessa, por onde eu entrára na quinta, uma tarde, +fôra trancada por ordem da snr.ª D. Felismina. Esta providencia apertou-me o +coração, e feriu a susceptibilidade do meu amor-proprio.</p> + +<p>Á quarta noite, demorei-me até depois da uma hora, suppondo que Felismina +appareceria mais tarde, certa de não ser importunada no seu colloquio amoroso +com as estrellas. Eu queria dizer-lhe que me perdoasse o atrevimento de ter +sido indiscreta testemunha dos seus extasis: pedir-lhe-hia que não se privasse +desse poetico prazer, porque eu não viria alli mais, ainda que essa privação me +custasse torturas de saudade. O coração offendido tem destas generosidades. É +sempre a fabula das uvas e da raposa... Nessa quarta noite, pois, seria hora e +meia, quando tres vultos, vindos do<span class="pn">{132}</span> lado de +Lordello, passaram defronte da casa de Felismina, e fallaram baixo entre si. +Abafei a respiração para me não denunciar, e senti o prazer de encontrar as +minhas pistolas que machinalmente mettera nas algibeiras. Os vultos eram homens +de jaqueta, e chapéo desabado. Um d'elles trazia uma escada de mão, e os outros +pareceram-me armados de paus.</p> + +<p>Em quanto elles observavam, cosidos com a parede, a segurança das portas, +avisinhei-me eu da estrada, e colloquei-me, sem ser sentido, a distancia d'um +tiro de pistola. Vi pôr a escada a uma columnata do patim, que formava para o +caminho uma pequena varanda. Vi um dos tres marinhar lestamente por ella; +porém, resvalou da aresta do balaustre, e viria abaixo com o homem, se os +companheiros a não sustentassem a prumo. Não obstante, este movimento fez +rumor, e uma das janellas foi subitamente aberta.</p> + +<p>Eu estava em ancias por saber se estes homens eram ladrões. Felismina deu-me +a certeza da minha suspeita, e inspirou-me arrojos de bravura. Apenas ella +appareceu na janella, e bradou: «Thereza, Thereza, chama o caseiro!» eu saltei +d'um pulo á estrada, e disparei sobre o grupo uma pistola. O resultado do tiro +foi maravilhoso! Os ratoneiros davam saltos de corça por aquella estrada fóra, +deixando a escada, e uma fouce encavada n'um pau.</p> + +<p>Em casa de Felismina ia grande reboliço. Ouviam-se os grasnidos de Thereza, +os latidos dos cães, e os gritos ameaçadores do caseiro. Ella, porém, não +sahira da janella, presenceando a fuga dos salteadores.</p> + +<p>Radioso de heroismo, fui debaixo da janella de Felismina, e disse-lhe:</p> + +<p>«Não se assuste, minha senhora; eram tres miseraveis ladrões que fugiram a +um homem só.»</p> + +<p>A este tempo, abriu-se a porta-de-carro, e o caseiro appareceu em fralda, +com um bacamarte engatilhado.<span class="pn">{133}</span> Vendo-me, veio +direito a mim na melhor disposição de m'o despejar na cabeça, quando Felismina +bradou: «Os ladrões já fugiram; foi esse senhor que os fez fugir.»</p> + +<p>O bravo em fralda poz a arma em descanço. A mulher, com o saiote vermelho +pelos hombros, reconheceu-me, e disse para a janella: «Este senhor é aquelle +que andou outro dia na quinta.» O silencio de Felismina provava que ella não +carecia d'esta novidade.</p> + +<p>Contei então o que presenciara do pinhal visinho. O caseiro interrompeu-me +grosseiramente, perguntando-me o que fazia eu por alli áquella hora. +Tartamudeei na resposta. Felismina, porém, atalhou, pedindo-me que não fizesse +caso da rustica pergunta do caseiro. O boçal desfez-se em satisfações, e instou +para que eu bebesse uma pinga d'aguardente porque estava fria a noite. Não +respondi ao offerecimento, que fez rir Felismina; despedi-me com palavras muito +delicadas da senhora; soceguei o animo aterrado de Thereza; e fui para minha +casa, cheio de gloria, d'alegria, e de esperanças. A gloria era uma tolice: sou +eu o primeiro a confessal-a; mas as esperanças alegres fundavam-se na opinião +elevada que Felismina faria de mim. Não era só defendel-a dos salteadores; era +estar alli, defronte da sua janella, ás duas horas da noite, como guarda +vigilante da sua tranquillidade, com os olhos fitos na cupula celeste que a +cobria, expiando a imprudencia de lhe haver dito algumas palavras apaixonadas. +Isto devia impressional-a.</p> + +<p>Contei, em casa, esta aventura á minha Poncia, que me esperava ainda a pé. +Aqui é que foi o benzer-se e tregeitar de mulher sábia em agouros e feitiços. +Quiz-me convencer de que tudo aquillo eram artimanhas da bruxa; e saltou-me ao +pescoço para vêr se eu tinha a figa de azeviche. Não a encontrando, chamou-me +herege, e não me deixou sem eu pendurar o bento guizo no pescoço. Deitando-me, +pareceu-me que o ar do quarto estava impregnado<span class="pn">{134}</span> +d'um cheiro acre, que era mais forte na cama. Erguendo o travesseiro, encontrei +um mólho d'arruda, e um alho que tem na Flora popular, um adjectivo desgraçado. +Eram exorcismos da tia Poncia, que tinha em menos conta o nariz quando se +tractava de curar a alma d'um possesso de bruxedos. Atirei o deposito de +hervanario á rua, e consegui adormecer embalado pelas minhas esperanças.</p> + +<p>No dia seguinte, seriam onze horas, estava eu na praia, esperando a maré, +quando vi Thereza, procurando alguem entre os grupos. Palpitou-me o coração! +Serei eu quem ella procura?... Sahi-lhe como por acaso ao encontro, e ella, que +mal me vira na quinta, olhando-me perplexa, parecia esperar que eu a +conhecesse. Dei-lhe um ar de riso, Thereza fez-me signal que a seguisse. Parou +na praia dos Inglezes, olhou em redor com desconfiança, e disse-me:</p> + +<p>«Aquella senhora manda-lhe agradecer muito o que V... fez esta noite; e +pede-lhe que faça o favor de lhe dizer que a porta travessa da quinta foi +fechada porque não havia remedio senão fechal-a.»</p> + +<p>Eu fiquei-me a olhar para a velha, pasmado da segunda parte do recado! +Thereza, sempre sobresaltada, ia retirar-se sem resposta, quando eu, caminhando +com ella, lhe disse:</p> + +<p>—A porta da quinta foi fechada para eu lá não entrar?</p> + +<p>«Foi, sim, senhor, porque... não lhe posso dizer mais nada. A senhora o que +quer é que V... saiba que por vontade d'ella não foi que a porta se fechou; em +fim, ha cousas que se não podem dizer. A snr.ª D. Felismina custou-lhe bastante +a mandar fechar a porta; mas, se se soubesse.... Adeusinho, meu senhor... que +tenho medo que me conheçam.—»</p> + +<p>Não esperou resposta.</p> + +<p>Fiz mil conjecturas, e nenhuma só que se aproximasse da verdade. Desafio o +leitor mais esperto para que anteveja a solução deste problema.<span +class="pn">{135}</span></p> + +<h2>VI.</h2> + +<p>O segredo picava-me a curiosidade; todavia, o coração era o que menos +treguas dava á minha ancia.</p> + +<p>Ao escurecer desse mesmo dia passei no Pastelleiro. Vi, de relance, +Felismina através da vidraça. Levei ainda a mão ao chapéo para cortejal-a; mas +ella não esperou a cortezia. Estanciei nas visinhanças d'aquelle sitio, até +alta noite; e só depois das onze horas pude vencer a resistencia magnetica que +me lá prendia.</p> + +<p>Passando, outra vez, defronte da casa, vi uma janella corrida, e um vulto +n'ella. Eu passava tão subtilmente que Felismina só me viu quando eu estava em +frente d'ella. O encontro fôra uma surpreza para mim. Muitas cousas imaginára +eu dizer-lhe, encontrando-a; mas esqueceram-me todas. Parecera-me facil e até +natural perguntar-lhe a causa de me ser prohibida delicadamente a entrada na +quinta; achava do meu dever, depois do recado pela criada, examinar o que +fizera eu para merecer similhante prohibição; porém, chegado o ensejo feliz de +saber tudo, pareceu-me atrevimento dirigir-lhe a palavra sem ella m'a +consentir.<span class="pn">{136}</span></p> + +<p>A perplexidade durou alguns minutos, e Felismina esperava que eu me sahisse +d'ella d'um modo muito contrario. Nada lhe disse, segui o meu caminho, e +confesso que me sentia tremer. O coração tem cousas!...</p> + +<p>O arrependimento veio logo com a reflexão. Retrocedi por outro caminho, e +entrei no pinhal. Estava ainda aberta a janella; mas desoccupada. Esperei muito +tempo, animando-me a fallar-lhe, quando ella tornasse. Avistei dous vultos, e +senti despegar-se-me o coração do peito. Não podia distinguir se um d'elles era +homem; e receava, aproximando-me, causar-lhe desgosto, se por desgraça ao pé +d'ella estivesse um amante.</p> + +<p>Que desafogo senti eu, quando conheci a voz gosmenta da criada! Escutei, e +ouvi-as fallarem de ladrões. Thereza dizia que se não salvava se estivesse alli +muito tempo, e promettia um arratel de cêra á Senhora da Luz, se os ladrões não +tornassem a assaltar a casa. Acrescentou ella: «Se não fosse aquelle destemido +rapaz, a estas horas estavamos nós feitas em pedaços, sem confissão, nem +sacramentos.»</p> + +<p>Felismina fallava tão baixo, que toda a minha attenção foi baldada. Por fim, +disse a criada: «Menina, não esteja muito tempo ao relento da noite. Eu vou-me +deitar, que passei em branco a outra noite; se sentir alguma cousa, chame, que +eu acordo logo, se Deus quizer, e o meu padre Santo Antonio, que nos tenha da +sua benta mão.»</p> + +<p>Felismina sahiu com a criada, e o quarto illuminou-se de repente. Era a +primeira vez que eu via tanta luz áquella hora. Conjecturei que a timida +senhora, receando outra assaltada, quizera com a luz obstal-a. Eu contemplava-a +a ella, que atravessava passando, por diante da luz, com ligeiros passos. +Achava-me resolvido a fallar-lhe, fosse qual fosse o exito. Acerquei-me da +casa, para encurtar á minha timidez o tempo da reflexão. É verdade que me não +occorria uma só das bellas idéas com que de dia compozera o<span +class="pn">{137}</span> meu exordio; porém, atido ao improviso do coração, iria +esperando que ella, com uma só palavra, esperançosa ou desanimadora, me +sangrasse a veia da eloquencia.</p> + +<p>Effectivamente, apenas Felismina surgiu na janella, estava eu seis passos +distante. Diga-se a verdade: formigaram-me umas caimbras nas pernas, e estive, +vai não vai, a rodar sobre os calcanhares, e fugir antes de ser conhecido! Li, +ha pouco tempo, em um romance de Alphonse Karr, uma imagem que pinta +exactissimamente a minha situação n'aquelle instante. Um tal <em>Estevão</em>, +em presença d'uma tal <em>Magdalena</em>, não podendo vencer o susto do +primeiro encontro, <em>faz um esforço como um homem que fecha os olhos para +saltar um fôsso</em>. É bem dito isto; não se diz melhor o arrebatado movimento +que eu fiz para chegar debaixo da janella onde Felismina, immovel, parecia +esperar-me como se tivesse a certeza da minha ida.</p> + +<p>«Boas noites, minha senhora» disse eu: era o mais frivolo que podia dizer, +depois d'uma investida tão vehemente.</p> + +<p>—Boas noites—murmurou ella com voz abafada e tremula.</p> + +<p>«V. exc.ª conhece-me?—tornei eu, querendo dar á pergunta um tom melodioso, +que o meu sobresalto tornava rispido e sêcco.</p> + +<p>—Parece-me que é a pessoa que hontem...</p> + +<p>«Sim, minha senhora, sou a pessoa que hontem teve a felicidade de estar +perto desta casa... quando foi necessario livrar v. exc.ª d'um susto...</p> + +<p>—Devo-lhe um grande favor—atalhou ella, não menos agitada que eu—e por +isso mesmo é que hoje mandei a minha criada...</p> + +<p>«Eu não pude entender a sua criada, minha senhora; e espero que v. exc.ª me +diga se eu devo pedir-lhe perdão...</p> + +<p>—De que?!<span class="pn">{138}</span></p> + +<p>«Da imprudencia que fiz entrando sem licença na quinta...</p> + +<p>—A causa do meu recado não foi a sua imprudencia, foi, é, e será sempre... +a minha desventura... Tem V. a bondade de espreitar á fechadura do portão, que +não vão andar pelo quinteiro os caseiros... Seria uma desgraça, se o vissem, ou +escutassem...</p> + +<p>Espreitei, e não vi nem ouvi signal de gente. Tornando, Felismina acabava de +apagar a luz, e estava já na janella.</p> + +<p>Mal sabem que prazer me deu o ar de mysterio que ella dava assim á nossa +entrevista nocturna! O amor, quanto mais recatado, mais amor. Ama-se mais n'um +colloquio, por noites de completa negridão, que á luz das serpentinas dos +bailes, e ao clarão d'um bico de gaz, que, nestes tempos malditos da poesia, +vos dá á cara do namoro do primeiro andar uma côr sulphurea e phantasticamente +prosaica.</p> + +<p>Não faço agora ácerca do gaz uma dissertação, porque me sinto abalado pela +memoria das seguintes palavras que a mysteriosa mulher me disse, logo que eu +voltei de espionar o quinteiro:</p> + +<p>—O senhor de certo me não conhece...</p> + +<p>«Não, minha senhora: apenas sei o seu nome; todavia, se me deixasse dizer +como eu a conheço...</p> + +<p>—Queira dizer...</p> + +<p>«Conheço-a como se conhece a mulher que se ama ha muitos annos; como se +conhece a omnipotencia de Deus sem se conhecer a sua essencia divina; como se +confessa a existencia dos anjos, sem nunca se terem mostrado aos homens na sua +fórma celestial; como se conhece a possibilidade de encontrar a perfeita +ventura, sem nunca a ter experimentado; como se conhece, pela luz que derrama, +a existencia do sol, sem poder fital-o nas alturas do céo.»<span +class="pn">{139}</span></p> + +<p>Ainda disse muitas outras maneiras de conhecer sem conhecer; porém, não +disse todas quantas sabia, e quantas estudára em casa (penso que foi no +<em>Renegado</em> de Arlincourt não estou bem certo), e lhe teria dito se ella +me não interrompesse com vehemencia:</p> + +<p>—Bem se vê que não me conhece pela maneira que me falla...</p> + +<p>«Como?! explique-se por quem é, snr.ª D. Felismina!</p> + +<p>—<em>Felismina!</em> (disse ella, sorrindo) Cada vez me convenço mais de +que me não conhece... Sabe que me chamo Felismina, porque lh'o disse a caseira, +não é verdade?</p> + +<p>«Sim, minha senhora.</p> + +<p>—Pois bom é que não saiba mais que o meu nome...</p> + +<p>«E não devo esperar outra revelação da sua boa alma? Não sou eu já o +depositario d'alguns segredos que v. exc.ª confia das estrellas? A mulher que +pedia aos anjos o anjo que elles lá tem...</p> + +<p>—Não me surprehende...—tornou ella vivamente commovida—Eu sei que me +ouviu; ouvi tambem os seus versos; pareceu-me um sonho tudo o que n'aquella +noite aconteceu. Se eu tivesse a certesa de que o homem que cantava era tão +infeliz como eu sou, e vertia lagrimas de tão dolorosa saudade como as eu +chorava então...</p> + +<p>«Que faria a esse homem?</p> + +<p>—Fizera-o meu confidente; dera-lhe o mais que posso dar-lhe: a minha fé... +a amisade santa dos infelizes áquelles que se compadecem... Não queira saber +quem sou; essa sua esteril curiosidade o mais que póde é trazer-me desgostos +novos, e eu mal posso soffrer o peso dos que tenho sobre o meu coração para +jámais se alliviarem...</p> + +<p>«E o coração não lhe diz que eu serei um homem digno das suas confidencias? +e que, em troca, poderei fazer-lhe quantos serviços, até com risco da +existencia, podem ser feitos a uma pessoa que soffre?<span +class="pn">{140}</span></p> + +<p>—Nada póde. O circulo de ferro em que a minha vida está apertada, não póde +ser quebrado por humanas forças. Podendo eu mover a sua compaixão, dar-lhe-hia +grandes penas, por não poder valer-me. O coração diz-me que fallo com uma alma +nobre e generosa; é o coração que lhe falla com tanta franquesa e simplicidade. +Tambem eu estou conversando com V. como se o conhecesse, ha muito. Isto parece +providencial; mas não vá a minha sina fatal enganar-me.</p> + +<p>«Enganal-a...—interrompi eu, com exaltado resentimento.</p> + +<p>—Enganar-me, sim, não se offenda, que não tem razão para isso. Eu posso +julgar muito natural e innocente este curto conhecimento que temos; e d'aqui +seguirem-se grandes desgostos, como se elles fossem a expiação d'um crime... +Deixe-me pedir-lhe um favor, sim?... o senhor promette não voltar aqui?</p> + +<p>«Se prometto não voltar aqui?!» respondi eu, aturdido da voz segura com que +a pergunta me era feita.</p> + +<p>—Sim, senhor: é necessario que acabem neste instante as nossas curtas +relações. V. vai convencido de que encontrou uma mulher muito infeliz; eu fico +tambem convencida de que encontrei um cavalheiro muito generoso. Não podemos +ser nada um para o outro; e tão grande é a dôr que eu sinto desta certesa... +que, por compaixão de mim propria, não quero habituar-me á sua voz.</p> + +<p>«Só por compaixão de si mesma?—atalhei eu, sinceramente commovido—Não será +antes pena de mim?</p> + +<p>—De que? Se algum de nós ha-de soffrer... serei eu, pobre mulher, que não +tenho distracções, e de qualquer pequena saudade faço uma grande dôr... tal é o +condão da minha desgraçada sensibilidade.</p> + +<p>«E não podemos ser nada um para o outro... disse v. exc.ª... Nem sequer +<em>irmãos</em>?</p> + +<p>—Deus sabe que precisão eu tenho d'um amigo...<span class="pn">{141}</span> +quantas vezes eu lhe peço uma alma sensivel, como premio do muito que tenho +penado, muda e virtuosa... Desculpe-me esta fraquesa; será temeridade dizer tão +afoutamente que a minha virtude é o unico esteio em que me amparo... Creia-me, +se poder.</p> + +<p>«E porque não hei-de eu crêl-a, minha senhora? que fez v. exc.ª para que eu +desconfie da sua virtude? Julgo-a infeliz, déra a minha vida para suavisar as +penas da sua; presumo que a sua existencia aqui, tão erma da vida que se ama na +sua idade, deve ser o desfecho d'um lance muito desventuroso. Podesse eu entrar +no segredo do seu desgosto, snr.ª D. Felismina, e pediria á Providencia os dons +que me faltassem para lhe acudir.</p> + +<p>—Não póde, não póde...—interrompeu ella soluçando—O mais que póde é +compadecer-se.</p> + +<p>«E não é a compaixão um lenitivo?</p> + +<p>—É, nem eu já agora tenho direito a outras consolações; porém, não imagina +os resultados tristes que póde dar esta nossa innocente entrevista, se fôr +muitas vezes repetida. Creia que sou vigiada, e serei martyrisada se alguma vez +se descobrir a sua vinda. Vá comprehendendo o melindre da minha infelicidade...</p> + +<p>«E por ventura, já me fiz suspeito aos olhos d'alguem?</p> + +<p>—Creio que não. A estas horas estaria eu amargamente punida do meu +delicto... Creia que sobre o meu seio está suspenso um punhal ameaçador.</p> + +<p>«Como?!—interroguei eu, sentindo pela espinha dorsal os calafrios da +bravura, e não sei que outros calafrios, metade de Amadis de Gaula, e metade de +D. Quixote de la Mancha.—Como?! pois ha, para vergonha da minha especie, um +braço de homem que ouse levantar um punhal sobre uma victima tão resignada!</p> + +<p>—Falle baixo, senhor... Tenho mêdo que o escutem... Repare que não haja luz +n'uma casa que está ao fundo do<span class="pn">{142}</span> quinteirão. Quem +sabe se os caseiros estão comprados? Veja, veja.</p> + +<p>Eu fui vêr, não vi luz, mas ouvi um arruido singular. Eram umas pancadas +rispidas e sêccas como o embate de duas taboas. Demorei-me na averiguação, e +Felismina perguntou-me assustada se via alguma cousa. Vim dizer-lhe o que +ouvia, e ella quiz logo fechar a janella, sem estabelecer ao menos uma +hypothese ácerca da extraordinaria bulha. Pedi-lhe que suspendesse o seu juizo +por instantes, tornei ao posto de observação, e voltei tranquillo por ter +descoberto que o estrupido estranho era a simples brincadeira de duas cabras, +que se divertiam a marrarem-se reciprocamente ao clarão da lua: recreio +sobre-modo poetico para duas cabras prosaicas e estupidas como dizem que ellas +são.</p> + +<p>A entrevista, leitores pios, demorou-se até ás tres horas da manhã. +Banhavam-se as montanhas da frouxa luz do crepusculo, chilravam os passarinhos +por aquelles silvedos e restolhos, quando Felismina, a disputar bellezas com a +matinal estrella, sympathicamente pallida e como elanguescida do beijar +incessante das brizas nocturnas, murmurou, em harmonia com o hymno festival dos +passarinhos, estas palavras, que eu escrevera aqui em musica, se esta +typographia tivesse colcheias e fuzas e sustenidos, e as outras garatujas tão +necessarias a quem imprime romances cuja linguagem é a pura e genuina do +coração. Foram estas as suas palavras:</p> + +<p>—É dia; e agora peço-lhe eu que se retire. Leve a certeza de que me deixa +saudades, e tantas que só poderei consolal-as, vendo-o muitas vezes; mas não +posso acceitar esta consolação. Seja meu amigo, sim? não me sacrifique, por +quem é. Eu não sou d'aquellas mulheres que lhe querem persuadir que o amam +muito, e, comtudo, incapazes de sacrificarem o seu bem-estar ao seu amor, +pedem-lhe que respeite as suas posições, e não as colloque<span +class="pn">{143}</span> em desagrado do mundo. Se lhe digo que me não +sacrifique, é porque o sacrificio seria inutil, e a pena injusta seria igual á +pena d'um grande crime. Que lucra V. fazendo-me soffrer maiores afflicções? É +preciso que eu lhe conte a minha vida; sem isso, tudo o que eu lhe digo deve +parecer-lhe uma invenção de novella, um ar de mysterio com que muita gente quer +armar á admiração. Ha-de saber a minha vida, se primeiro me jurar pela sua +honra, e pelo bem das pessoas que mais préza, nunca, em quanto eu viva fôr, +proferir uma só palavra das que eu lhe confiar. Não sei que sentimento de irmã +é este que V. me inspira! Nunca esperei encontrar uma amiga a quem dissesse +«aprende a soffrer commigo.» Menos ainda esperei encontrar um homem, quasi +estranho, a quem dissesse, sem reserva, o resumo dos padecimentos de tres +annos... Ámanhã, depois da meia noite, encontra-me aqui. Se quizer, venha, meu +amigo; mas de tarde não passe aqui, porque eu receio toda a gente, menos a +minha boa criada, que me viu nascer, e respeita as minhas acções, porque me +julga incapaz de as praticar indignas de mim. Adeus.—Ora aqui têem como a +cousa se passou, tal e qual.</p> + +<p>Entrei no quartel com o coração tumido de romances. Olhei-me d'alto a baixo, +por uma intuscepção peculiar dos grandes tolos, e vi-me grande, extraordinario, +e fadado para grandes lances.</p> + +<p>Chamado ao sanctuario dos segredos d'aquella mulher, eu não podia estremar a +confiança do amor. De que natureza seriam esses segredos? Que Felismina era +victima, isso estava provado. Cumpria-me resuscitar os brios cavalleirosos que +o ominoso romance de Miguel Cervantes matára com a zombaria? Cumpria-me +offerecer o meu braço, debil instrumento d'uma alma forte, á opprimida +emparedada do Pastelleiro? Taes interrogações me fiz durante o dia, +contemplativo sempre, sempre poeta scismador, não obstante as interrupções da +minha Poncia, que vendo<span class="pn">{144}</span> o meu fastio ao jantar, +obrigou-me a tomar um chá de fel da terra para limpar o estomago.</p> + +<p>Poncia era uma creatura de singular chateza. Fallar-lhe nesse amor +vulcanico, que ella trocava em mal de estomago, era forçal-a a esconjuros e +benzedellas que me aguavam toda a poesia da expansão. Quando eu lhe disse que +havia uma mulher, suffocada sob a pressão d'um tyranno, escondendo as lagrimas +para não irritar a colera do seu verdugo, Poncia, depois de sorver uma pitada +de esturrinho, exclamou:</p> + +<p>«Sabe V. m. o que essa rapariga ha-de fazer? que reze uma novena ás almas, e +prometta uma romaria á Senhora da Guia, para que a guie bem; e o snr. João +deixe-se de palanfrorios; não se metta na vida alheia, e tracte de comer bem e +tomar os seus banhos em paz, que é o mais acertado.</p> + +<p>Dito isto, sentou-se de cocoras, e poz-se a torcer linhas.<span +class="pn">{145}</span></p> + +<h2>VII.</h2> + +<p>Trato de afivelar já uma mordaça á maledicencia. Muita gente cuida que o meu +namoro com a mysteriosa senhora do Pastelleiro ha-de ser um conto muito bonito, +em que eu hei-de dizer cousas muito galantes, em que ella ha-de fazer tregeitos +de pudicicia, até que finalmente acabemos ambos por nos adaptarmos ás formulas +vulgares d'uma rotineira paixão das que morrem no inverno, se nascem no verão +ao pé d'um pinhal, cuja poesia não resiste ás primeiras nortadas de Outubro. +Agora tomem fôlego que o periodo é uma especie de machina pneumatica.</p> + +<p>Pois saberão que não tive namoro com a snr.ª dona... ia dizer Felismina; mas +a mulher chamava-se Leocadia. A razão do pseudonimo virá em seu tempo. Por +hora, saiba-se a figura que eu fiz, a figura que ambos fizemos. E o leitor, +duro d'alma, o leitor-leão que retorce o bigode e enruga a fronte encarando com +visos de tyranno todas as mulheres, suas imaginarias victimas—esse, que a +maior parte das vezes é um pobre homem, não leia isto porque de certo não +aprenderá aqui a receita com que se fascinam as mulheres.<span +class="pn">{146}</span></p> + +<p>Declaro, pois, que não namorei a snr.ª D. Leocadia, moradora no logar do +Pastelleiro, suburbios de S. João da Foz, em 1828.</p> + +<p>Declaro, outro sim, que nunca lhe disse cousa que duvida faça á virtuosa +commemoração de sua memoria, nem consta que as más linguas sujassem a reputação +desta senhora.</p> + +<p>D. Leocadia contou-me a sua vida, e, desde o preambulo de tão triste +historia, confesso que senti abalar-se-me a alma de commoções que não eram isto +vulgarmente chamado amor dos homens. Conheci que não estava no seio d'ella +coração que podesse ser meu. Grande coração ella tinha; mas o amor de que +extravasava era o amor espiritual dos anjos, o perfume continuo d'uma adoração, +que não podia deixar cahir neste chão maldito um só bago de incenso. Depois de +ouvil-a uma hora, sem ousar interrompêl-a, comecei a sentir não sei que terror +de ter tentado disputar a alma d'aquella mulher a um homem que dormia o somno +eterno, cujo espirito, porém, dizia ella, adejava entre nós, quando proferiamos +o seu nome.</p> + +<p>Eu fui sempre criança n'isto de superstições. O ether para mim foi sempre, e +ha-de sêl-o sempre, um infinito vacuo que os olhos d'alma contemplam cheio de +espiritos. As almas das pessoas que amei, que estimei, que vi partirem-se +d'aqui successivamente deixando em redor de mim o ermo do desterro, a insulação +medonha do estrangeiro em solo de barbaros—essas almas revoam nas florestas, +deslisam-se-me nos cabellos que o terror encrespa, gemem aos meus ouvidos como +o suspiro do mar dormente... essas almas... perdoem-me a divagação... Eu +cuidava agora que estava a escrever no meu album uma de muitas paginas que +virão algum dia confirmar posthumamente a minha reputação de grande piegas, ou +de grande pateta, legado unico que preestabelece e assegura a boa paz entre os +meus herdeiros.<span class="pn">{147}</span></p> + +<p>Vinha eu dizendo, pois, que a vida de Leocadia foi uma triste vida. Vou +contal-a; saibam, porém, que D. Leocadia morreu já. Este preliminar aviso é +necessario para muitos effeitos, sendo o mais valioso ter-lhe eu promettido a +ella sigillo de confissão durante a sua vida. Então, pensava eu ir primeiro a +descançar das minhas fadigas; esperal-a a ella rodeada d'anjos lá, cortando a +immensidão do céo, no dia do seu resgate. Enganei-me. Leocadia fugiu na idade +em que os olhos descem a procurar na terra os vinculos que nol-a podem fazer +querida. Voou deste baixo repositorio de escorias para a limpida estancia da +sua patria; e eu, velho e enfermo, ralado de saudades do coração que consumi, +vestida a alma dos andrajos que troquei pelas galas d'uma poesia que só eu +tive, e toda a gente porfiou em destruir-me, eu, mytho d'outras eras, esphinge +posta em altar de lama n'um templo de vendilhões torpissimos, eu, finalmente, +fiquei por cá, quinze annos depois d'ella, sem poder atinar com a intenção +providencial que por aqui me traz entregue aos baldões d'um destino, que umas +vezes me parece cruel, e outras patusco.</p> + +<p>Ahi vai agora o conto:</p> + +<p>Leocadia nascêra em uma notavel villa de Traz-os-Montes. Seu pai era +official de cavallaria, e senhor d'uma casa mediocre. De Bragança passára para +Lisboa a commandar um regimento, e levára comsigo sua filha de nove annos já +sem mãi. A menina entrou n'um collegio, onde esteve até aos dezenove annos. +Sahiu para a companhia de seu pai reformado em coronel, e completou a sua +educação na convivencia de algumas poucas familias exemplares.</p> + +<p>Leocadia, ainda no collegio, maravilhava-se de sentir no peito uma ancia +como se não fosse o ar bastante para encher-lhe um vacuo oppressivo. Bem +conhecia ella que a sua queixa era um singular achaque dos que o instincto +ensina a curar. As mestras, que a viam scismadora a esconder-se entre as murtas +e as tilias do jardim, graças á experiencia,<span class="pn">{148}</span> +entendiam melhor a molestia da discipula do que entenderam a sua dos dezenove +annos.</p> + +<p>Nesta anciedade vaga, sahiu Leocadia do collegio, entrou na roda de pessoas +bem procedidas, e viu que os dous sexos se misturavam nas salas, e conversavam +sem desaire, muito a beneplacito da sã moral. Um dos dous sexos causou-lhe uma +estranheza em que as faces davam o signal, rosando-se, pintando-se da mimosa +purpura que, rara, em nossos dias, reçuma em rosto de dezenove annos, por uma +razão que o leitor sabe, e mais eu.</p> + +<p>O sexo, porém, que mais a constrangia (sempre a natureza tem cousas!) era, +quer m'o creiam quer não, o sexo que mais gratas scismas lhe dava nas suas +contemplações, sósinha.</p> + +<p>Havia ahi na sua roda um rapaz, tão acanhado como ella, o que menos palavras +lhe dizia, e essas palavras custavam-lhe tanto ao pobre do moço, e tão frivolas +eram, que, se os olhos não dissessem mais que elle, Leocadia julgar-se-hia +entre todas a mais indifferente ao timido Vasco—chamava-se elle Vasco, se bem +me recordo.</p> + +<p>Amou-o ella: é o que não soffre duvida; e elle amou-a, como... deixemo-nos +de metaphoras—amou-a como hão-de vêr que elle o prova, depois.</p> + +<p>O tal Vasco era pessoa de bem; quero dizer que tinha duas costellas, ou +tres, parece-me que eram tres as costellas nobres que elle tinha. Não obstante, +como as acções do Banco eram menos que as costellas nobres, o meu pobre Vasco +andava por alli entre aquella gente, e ninguem dava fé se elle entrava ou +sahia, excepto Leocadia, que o não perdia da vista dos olhos, e da outra vista +do coração, de maior alcance ainda, se o coração não é myope, ou zarolho, peior +mil vezes.</p> + +<p>Corações zarolhos, dou-lhes a minha palavra d'honra que os conheço até pelo +cheiro. Descobriu-se ultimamente a operação do estrabismo para elles. É +infallivel, nas mulheres<span class="pn">{149}</span> que vieram com esse +aleijão a este mundo. Havemos de fallar a este respeito no oitavo volume desta +edificativa obra.</p> + +<p>Bom coração era o de Leocadia, coitadinha! Umas senhoras velhas, dando no +segredo dos olhares que os dous se cambiavam com certa finura que o amor +astucioso ensina, as taes velhas solteironas foram dizendo á menina que o +rapazinho era bello moço e de boa familia; mas a respeito de haveres não tinha +nada. Conclusão de velhas: «deixe-se a menina de gastar o seu tempo mal, porque +a mocidade anda a galope, e quando a gente mal se precata, deixou perder a +occasião de arranjar noivo conveniente, e acha-se velha.»</p> + +<p>Esta linguagem corruptora, hedionda, asquerosa, doutrina que prostitue a +mulher, que a enfeita para se expôr em leilão torpe, esta linguagem fez córar +Leocadia.</p> + +<p>Vasco cobrou animo com a familiaridade, e gaguejou o prologo d'uma +declaração amorosa. Leocadia, que lhe havia adivinhado o segredo +aprasivelmente, acceitou-o, corando e sorrindo de modo que nunca foi tão linda +como então, nem houve sorriso e pudôr que tanto alindassem um rosto innocente.</p> + +<p>Reanimado pelo bom acolhimento, o nosso Vasco, pouco e pouco, deu liberdade +ao coração, e disse quanto podia; mas quanto sentia, isso não se consegue aos +dezoito annos. Escreviam-se todos os dias, davam-se reciprocamente uma edição +diaria do seu amor em duas ou mais folhas de papel, e, depois da vigesima +carta, escreviam o prospecto do seu futuro, com a riquesa de imaginação usual +de todos os prospectos.</p> + +<p>Deviam ser formosissimas as perspectivas do magico amor d'aquellas almas, +ambas poetas, innocentes ambas, desferindo na corda virgem do mesmo som o +primeiro hymno de saudação á vida, cheia de nova luz, especie de +bem-aventurança ephémera posta entre o dormir da razão na<span +class="pn">{150}</span> infancia, e o despertar desse terrivel dom na +adolescencia! Bellas deviam ser essas esperanças, por que o pensamento de ambos +era sanctificarem pelo casamento a sua identificação n'uma só alma, irem ambos +n'essa alma unica habitar uma casinha campestre, rodeada de arvores, onde os +passarinhos tivessem as suas luas-de-mel, e os seus ninhos, e os seus filhinhos +pipilantes. Queriam ao pé dessa casinha uma fonte, derivando em fios de prata +por sobre a relva as suas aguas, e nessa relva havia de pastar um cordeirinho +branco, malhado de preto, com um laço escarlate no pescoço, o qual cordeirinho +andaria sempre atraz de Leocadia, e daria cabeçadas no cão de Vasco, que havia +de ser um cão do Monte de S. Bernardo, que se enroscaria (o cão) aos pés de sua +ama, lambendo-lhe a ponta do sapato de carneira côr de flôr de alecrim.</p> + +<p>Que vida, que esperanças tão bonitas! Nas manhãs de estio, quando o +pintasilgo, o pisco, a calhandra, o cochicho, e toda a orchestra dos musicos do +bosque, dessem a alvorada d'um bello dia, Vasco e Leocadia, espriguiçando-se +ainda de deliciosas insomnias, sahiriam para o ar livre, sorveriam abraçados o +primeiro halito da atmosphera, perfumado de alecrim e rosmaninho, +revesar-se-hiam em ir á fontinha buscar burrifadores de limpida agua, regariam +os canteiros, as balsas, os vasos; e depois, botariam milho ás gallinhas, +enxotariam a gata que se encarapitou n'um ramo de romanzeira para agadanhar um +passarito que ensaia os primeiros vôos; depois, chamariam o cão e o +cordeirinho, iriam para ao pé do rumorejar da fonte. Vasco leria os seus poetas +italianos, o seu querido Petrarcha, e Leocadia, chorosa pelo tão mal +recompensado amor do infeliz poeta, abraçaria o seu, tambem fadado das musas, +exclamando: «que nos vejam do céo esses desgraçados amantes que não acharam cá +em baixo o nosso paraizo.»</p> + +<p>Isto é bonito, digamos a verdade; e mais ainda se não disse tudo.<span +class="pn">{151}</span></p> + +<p>Em quanto ao almoço, jantar, e ceia, e merenda nos dias grandes, (cá estou +ao vosso alcance, sisudos leitores, que estaveis a adormecer no periodo +anterior) em quanto a esses solemnissimos actos da vida ides por força +vascolejar nas mandibulas a mais regalada das gargalhadas, que ainda estoirou +de vossos alegres queixos! Deveis de saber que os pobres amantes projectavam +estes grandes melhoramentos na sua vida como por cá se projectam os +melhoramentos materiaes do paiz, isto é: não cuidavam da receita, nem do +orçamento, nem do <em>deficit</em>, nem... eu sei cá como se chamam essas +cousas que por ahi dizem os que sabem lá da salvação do paiz! O que eu sei é +que este par de creaturas bemaventuradas, com quanto fossem muito anteriores ás +importantes applicações do magnetismo, attribuiram ao magnetismo propriedades +que os modernos ainda não sonharam, tendo sonhado quanto ha de tolice +sub-lunar. Entenderam elles, pois, que o magnetismo era uma substancia +nutritiva como vacca e arroz, como <em>roast-beef</em> e almondegas, como +esparregado e pudim de batata! Que parece esta sandice ao leitor circumspecto, +que tem o seu estomago na devida consideração, e crê que isto de poesia e +poetas, de idealismo e espiritualismo, são o que realmente são: +<em>indróminas</em>? Pois é verdade, como lhe vinha contando, amigo, senhor +meu, cuidavam elles que o trivial e velhissimo facto de se amarem os separaria +dessa lei commum, lei estupida por isso mesmo que é para todos, praxe, tão +velha como o amor, de attender ás justas reclamações deste ser intimo que faz +os grandes estadistas, os eximios patriotas, os jornalistas preclaros, e +particularmente os homens gordos: quero dizer—o estomago, viscera-rainha, +orgão dos orgãos, potencia sempre discutida, sob um pseudonimo qualquer, no +discurso do throno, aganipe das locaes mais chorudas do jornalismo, irmão gemeo +da soberania do talento, o estomago, oito letras a cujo serviço estão as outras +dezeseis, porção, em fim, do homem notavel, que mais se<span +class="pn">{152}</span> lhe venera, por isso que a chegada de uma summidade a +qualquer terra é logo celebrada por tres, quatro, cinco jantares em que uma +concava terrina de sôpa e uma pyramide de boi assado substituem os presentes +d'ouro e pedrarias com que na antiguidade se regalavam os adventicios de longes +terras.</p> + +<p>Era preciso todo este palavriado para saber-se que Leocadia e Vasco não +scismavam com o que haviam de entreter o fogo sagrado d'essa mola por +excellencia do machinismo humano. Dar-se-hia por injuriado o coração, se o +torpe raciocinio lhes argumentasse <em>á priori</em> com as villãs necessidades +da materia, cousa de que elles tinham apenas a necessaria para se amarem.</p> + +<p>Não pensava, porém, assim, o snr. Gervasio Leite, pai de Leocadia, nem a +snr.ª D. Fortunata Proença, madrasta da mesma menina, casada tambem em segundas +nupcias com o militar, e mãi d'um rapaz estragado, senhor d'uma boa casa no +Alem-Téjo de que sua mãi era uso-fructueira.</p> + +<p>D. Fortunata, casando com o coronel, promettêra-lhe empregar a sua +authoridade maternal sobre o filho para que elle, ultimada a sua formatura na +Universidade, casasse com Leocadia. Este casamento assegurava á enteada, se não +um digno esposo, ao menos uma boa casa, e, a todo o tempo, um dote que ella +poderia levantar, se os maus costumes do marido fossem incorregiveis.<span +class="pn">{153}</span></p> + +<h2>VIII.</h2> + +<p>O coronel, informado dos amores da filha por suspeitas da madrasta, resolveu +curar heroicamente a enfermidade moral da menina. Francisco de Proença, que +estava a completar a formatura, annuira á proposta da mãi, conhecendo apenas de +vista a noiva, e as necessarias dispensas estavam já em poder do coronel.</p> + +<p>Leocadia foi chamada ao quarto de seu pai, e recebeu a noticia do seu +proximo casamento. Fez-se escarlate, faltou-lhe o ar, e nem se quer pôde +balbuciar uma supplica a seu pai. Passados os momentos da offegante surpreza, +Leocadia, cobrando animo do ar compassivo do coronel, ousou dizer que já não +podia dispôr do seu coração, porque amava outro homem.</p> + +<p>O militar riu-se da infantil pieguice de sua filha, achando que não valia a +pena zangar-se por uma criancice sem consequencias. A menina tomou o riso por +carinho paternal, e lançou-se de joelhos aos pés do pai, suffocada pelas +lagrimas que lhe sahiam do coração agradecido e venturoso.<span +class="pn">{154}</span></p> + +<p>—Então que é isso? (disse o coronel, tomando-a nos braços, e sentando-a ao +pé de si) Cuidas tu, criança, que eu sou tão criança como tu? Achas que eu +deixarei á tua vontade inexperiente a escolha do destino da minha querida +filha? Essa é boa! Eu riu-me d'esse amor patetinha que tens ao Vasco da Cunha, +tão tôlo como tu, e que não sabe melhor do que tu o futuro que vos esperava. +Olha, Leocadia, não se póde ser pobre n'esta sociedade. A nossa casa é muito +pequena, bem o sabes; e Vasco é um filho segundo, sem habilitações para modo de +vida algum. Estes fidalgos cuidam que ser fidalgo é uma profissão. Os filhos +segundos, se lhes faltam as sopas do primogenito, não servem para nada, não tem +em si recursos para subsistirem fidalgamente, e julgar-se-hiam réos de +leso-brazão se pedissem uma occupação plebêa. Meus irmãos, Leocadia, foram para +o Brazil, logo que a razão lhes disse que a pequena casa onde viviam era minha. +Trabalharam como se nascessem do populacho, e estão ricos, riquissimos, e serão +mais fidalgos na sua patria, se voltarem, do que o eram quando de cá sahiram. +Quem saberá melhor o que te convém do que eu, minha filha? Sei em que tempo +estamos, e quero deixar-te preparada para um tempo que ha-de vir, muito peior +que este. Espero ainda vêr em minha vida desapparecer o rendimento da Commenda +que faz a nossa casa mediana; ido esse, o resto bem sabes o que é. Se casas com +esse rapaz, que não tem nada, quem vos sustentará? Eu não poderei, nem, se +podesse, quereria. Para que reconheças quanto me tenho a ti sacrificado, +lembra-te que por teu bem casei com esta senhora que te quer como a filha. A +condição de casares com Francisco, acceite por ella, explica o meu casamento +n'esta idade, em que ainda choro saudades de tua mãi, cuja memoria me não +deixou jámais encarar com bons olhos outra mulher. Depois d'isto, dir-me-has se +eu não devo esperar que tu espontaneamente acceites a sorte que eu te preparei. +Serias má filha,<span class="pn">{155}</span> se recusasses; e eu seria um pai +muito infeliz, se me desobedecesses. Nunca o imaginei; e, tão firme estava na +união das nossas vontades, que sem te consultar, pedi as dispensas necessarias +para o teu casamento com o meu enteado. Enganar-me-hia eu, Leocadia?</p> + +<p>A menina soluçava com os labios collados na mão do pai, cobrindo-lh'a de +lagrimas. O coronel apertou-a ao seio com amor, e tinha os olhos aguados. +D'aquelle modo Leocadia fazia a seu pai o sacrificio do seu coração, o maior de +todos, porque o menor era de certo a vida.</p> + +<p>—Não respondes, filha?—dizia o coronel, levantando-lhe a face que ella +escondia no seio do pai.</p> + +<p>«Já respondi...» balbuciou ella.</p> + +<p>—O que? que respondeste, Leocadia?</p> + +<p>«Farei o que fôr da sua vontade, meu pai...</p> + +<p>—És a minha Leocadia...—disse elle com apaixonada meiguice—Reconheço a +filha da minha chorada mulher... Agora, fallemos nos teus amores com Vasco... +Senta-te, menina. Diz-me cá: ha que tempos andam vossês com essa brincadeira?</p> + +<p>«Brincadeira... não era brincadeira, meu pai... Nós amamo-nos muito... ha +dous mezes.</p> + +<p>—Já ha dous mezes? Está feito! mas eu não tenho dado fé... Como se +entendiam vossês? fallavam ás escondidas, ou...</p> + +<p>«Nunca fallámos ás escondidas...</p> + +<p>—Então, escreviam-se, sim?</p> + +<p>«Sim, senhor.</p> + +<p>—E as vossas tenções?</p> + +<p>«Eram sentar elle praça, e, quando fosse official, pedir-me ao pai.</p> + +<p>«Está bom... E porque me não fallaste d'esse teu namôro?... Diz, filha, tu +guardavas de mim o segredo; é signal de que a tua consciencia não o approvava +como digno de contar-se a um pai...<span class="pn">{156}</span></p> + +<p>—Foi porque algumas senhoras, que deram fé logo no principio, me disseram +que eu não fazia bem em gostar de Vasco, porque elle não era rico, e eu só +devia gostar de pessoas que tivessem um grande dote. Se não fosse isto, eu +seria a primeira a dizer ao pai...</p> + +<p>—Está bom, filha. Agora é necessario que tu escrevas, e lhe digas que teu +pai deseja fallar com elle.</p> + +<p>«O pai!?</p> + +<p>—Sim, menina. Quero eu fallar-lhe, porque, se até aqui o estimava pelas +suas qualidades, e por elle ser filho de quem é, mais o estimo hoje por elle +ser amigo de minha filha. Ingrato e villão seria eu se lhe quizesse mal porque +minha filha o impressionou, inspirando-lhe a resolução de seguir uma carreira +até ganhar a subsistencia d'ella. Poucos ou nenhuns pais assim pensam, bem o +sei; mas eu, que devo a Deus uma filha docil, não quero esquecer-me de que sou +o seu primeiro amigo pelo coração, e o seu primeiro conselheiro pelo dever. +Vasco, depois de ouvir-me, ha-de transigir com as tuas circumstancias e com as +d'elle. Ficará amando-nos ambos, e ficaremos todos amigos, de modo que jámais +elle possa queixar-se da ingratidão de uma filha grata e submissa a seu pai.</p> + +<p>Leocadia beijou-lhe a mão, e retirou-se, obedecendo a um gesto do coronel. O +velho militar ficou enxugando uma teimosa lagrima que lhe cahira sobre o +bigode, no momento em que a filha, sahindo do quarto, desentalava a dôr +oppressiva do seio por um ai.</p> + +<p>Na tarde desse dia, Vasco recebia um bilhete de Leocadia, assim conciso: +«Meu pai quer fallar hoje ao amigo de sua filha. <em>Leocadia.</em>»</p> + +<p>Que surprehendente, e que mysterioso bilhete! O pobre moço não podia +imaginar o meio-termo entre a completa ventura, e absoluta desgraça. +Faltava-lhe o animo, e o desembaraço para apresentar-se, á ventura, diante do +pai de Leocadia.<span class="pn">{157}</span></p> + +<p>Não ir, porém, seria desobedecer ao homem que respeitava como pai, e +ennegrecer aos olhos d'ella a candura das suas intenções.</p> + +<p>Foi; e o leitor, se é curioso, póde espreitar commigo a scena que vai +passar-se na sala do coronel.<span class="pn">{158}</span></p> + +<h2>IX.</h2> + +<p>Vasco entrou na sala, encolhido, como se o frio o arrepiasse. Não viu +alguem, e parou, ao segundo passo, com as mãos juntas na aba do chapéo, e os +olhos fitos na porta por onde havia de entrar o coronel.</p> + +<p>A porta abriu-se, e Vasco estremeceu. O pai de Leocadia, com a mão direita +estendida ao hospede, e com a outra indicando-lhe o canapé, entrou, +affavelmente encarado, como Vasco o não vira nunca.</p> + +<p>«Sente-se aqui, snr. Vasco, e conversemos como dous rapazes, ou como dous +homens velhos—disse o coronel, apertando um cigarro, e offerecendo outro ao +mancebo.—Já toma o seu cigarrito? A apostar que sim?</p> + +<p>—Não senhor, não fumo.</p> + +<p>«Pois admira! Este sujo prazer de soldados e marinheiros começa a ter boa +hospedagem nas classes mais limpas da nossa sociedade. Por ahi, a mocidade, +apenas deixa o guizo que lhe deu a ama de leite, pega do cigarro, e aprende +logo a resfolegar o fumo pelo nariz. É o tom, dizem elles, desde 1820 para cá. +Parece-me que esta geração<span class="pn">{159}</span> sahida do ovo, e a +outra que está no chôco, hão-de ser, meu caro senhor, uma cousa assim a modo de +nabal espigado. Não sei se me entende: quero dizer que a seiva forte de nossos +pais, em vez de medrar as vergonteas, produzindo flores e fructos, cada cousa +em tempo proprio, dará fructos temporãos, bichosos, desses que passam sem termo +medio do verde ao podre. Não acha?</p> + +<p>—Ha-de haver, como sempre, o bom e o mau, penso eu—disse modestamente o +moço.</p> + +<p>«E pensa bem para a sua idade. Os vicios são de todas as épocas, mas o do +cigarro é muito moderno entre nós, ha-de confessar!</p> + +<p>Vasco sorriu involuntariamente á visagem comica do coronel, de proposito +arranjada para se ajustar á solemnidade com que sorvia, deliciando-se, um +d'aquelles sadios e gordos cigarros da herva santa de 1828, que não era de +certo a herva satanica do contracto de 1857, congresso de Borgias, que +envenenam a gente, reservando só para elles as explendidas orgias dos outros...</p> + +<p>«Está o meu caro snr. Vasco da Cunha morto por saber—disse Gervasio +Leite—o que é que eu lhe quero. Lá vou já. Minha filha Leocadia...</p> + +<p>Vasco fez-se vermelho, côr de rosa, amarello, branco de marmore, tudo em +menos tempo do que o necessario para articular as cinco syllabas desse nome.</p> + +<p>«Minha filha Leocadia—proseguiu o militar accendendo terceiro cigarro na +ponta do segundo—tinha lá um segredo no coração, mas não segredo para o snr. +Vasco; era-o só para mim, porque os pais parecem-se ás vezes muito com os +maridos em serem os ultimos informados do que lhes toca pela roupa. Este ruim +vêso da humanidade é que é muito mais antigo que o cigarro.</p> + +<p>O orador riu-se com militar modestia do seu gracejo; Vasco, porém, não tinha +recuperado ainda o animo frio para saborear o chiste do equivoco, ou +parecêra-lhe grosseiro<span class="pn">{160}</span> de mais o confronto do +segredo santo da filha com o perfido da adultera.</p> + +<p>Gervasio Leite, satisfeito com um aceno affirmativo do interlocutor, +continuou:</p> + +<p>«Disseram-me que minha filha e o snr. Vasco se amavam. Não estranhei a +cousa: achei-a mais humana e natural que o contrario disso, por duas razões +respeitaveis e persuasivas ambas: Leocadia é rapariga, o senhor é rapaz, ambos +sahidos do collegio, cegos ambos, conduzidos por outro cego, valha a verdade, +que dizem ser cego o snr. Cupido, e eu quero que elle seja mais do que cego... +em quanto a mim é surdo, por que não ouve razões, é cego por que não vê +precipicios, é mudo por que só tem lingua para fallar a linguagem que não está +nos diccionarios, nem póde applicar-se a estes objectos da vida real que se +veem, e apalpam, e sentem, como, por exemplo, o vestir, o calçar, o ignobil +cortejo da realesa despotica do estomago, e outras miserias adjunctas. Deixe-me +cortar a direito, snr. Vasco, e dizer as cousas como eu sei. Isto resabe ao meu +genero de estudos: formei-me em mathematica, e affiz-me a estudar a vida como +se estuda uma raiz, problemas sobre problemas, e para todos o mesmo X, +dinheiro, sempre dinheiro, com mil diabos!... desculpe-me esta rhetorica de +tarimba.</p> + +<p>Quando, pois, me disseram que minha filha amava o snr. Vasco, o neto do meu +general na guerra peninsular, e o filho do meu camarada no quartel do general +Beresford, tive sincera pena de ambos! Não entende, não. É necessario ter +cabellos brancos, e mais brancos ainda os cabellos da alma, para conciliar duas +idêas contrarias: ter compaixão de duas pessoas que se julgam felizes +unindo-se. Ora eu me explico, e, quando não entender o meu vocabulario cá +debaixo do mundo real, falle.</p> + +<p>A minha casa é insignificantissima. Posso dizer que o rendimento d'ella, +junto ao meu soldo, difficilmente tem<span class="pn">{161}</span> chegado para +a educação de Leocadia. Minha filha é pobre.</p> + +<p>—Oh senhor!—interrompeu Vasco agitadamente, e susteve-se.</p> + +<p>«Diga, diga, o que ia dizer.</p> + +<p>—Eu... não perguntei a v. exc.ª o que sua filha tinha.</p> + +<p>«Isso está claro. Quem é que se lembra de perguntar o que tem a mulher que +se ama? O amor, meu amigo, recordo-me ainda do que elle é. Eu tambem amei uma +mulher, casei, e, só depois de tres mezes de casado, é que me levantei uma +bella manhã com a idéa de saber o que ella tinha. Soube que tinha umas leiras +que renderiam, em anno de boa colheita, cincoenta mil reis, o maximo. +Confessar-lhe-hei que não fiquei contente, por uma razão das mais racionaes que +eu conheço. Minha mulher precisava vestir-se para apparecer n'um baile em +Lisboa, e a minha gaveta estava ferida da esterilidade de Sara. Desde esse dia, +meu caro snr. Vasco, quiz-me parecer que a minha situação de solteiro era +melhor que a de casado. Entraram commigo receios de collocar minha mulher n'um +posto inferior áquelle em que a encontrara na casa paterna, e as minhas doces +chimeras de noivo fugiram como um bando de andorinhas quando as primeiras +nortadas lhe embaraçam o vôo. Nunca minha mulher conheceu a tristeza que me +descoroçoava por dentro, isso é verdade; mas o que lhe valeu para viver e +morrer feliz foi eu ajuntar á delicadeza com que sempre a tractei, algumas +dividas que ainda estou pagando hoje.</p> + +<p>Morreu minha mulher... attenda agora, snr. Vasco: morreu minha mulher; e eu, +com quarenta e cinco annos d'idade, ralado por desgostos de todos os generos e +feitios, herdava da mãi de minha filha o maior de todos: essa criança sem mãi, +filha d'um major quasi pobre. Educal-a, ainda eu poderia; mas legar-lhe um +patrimonio, como é preciso que uma senhora o tenha, para poder escolher um +marido, não podia. Um pai, que ambiciona avaramente para<span +class="pn">{162}</span> seus filhos o bem-estar que elle não quer para si, é +desculpavel, é victima do seu amor de pai. Sacrifiquei-me, snr. Vasco; e sabe +como? Sacrifiquei-me como pai nenhum. Casei-me com uma mulher aborrecida, por +que essa viuva, mais velha do que eu, tinha um filho, herdeiro de um grande +casal, e além de todas as probabilidades favoraveis ao meu pensamento, +estipulamos, eu e ella, a condição de que Leocadia seria mulher do meu +enteado.»</p> + +<p>Vasco ergueu-se com sobresalto; encostou-se ao espaldar d'uma cadeira, +branco de neve, tremulo, que até os cabellos se lhe irriçavam, pasmando os +olhos nos olhos do coronel, que se erguêra tambem.</p> + +<p>«Então, snr. Vasco, isso que é?—disse Gervasio, tomando-lhe affectuosamente +a mão—Sente-se. Eu sou seu amigo; tempo virá em que faça justiça ao pai da +mulher que será sempre sua amiga. É preciso que sejamos tres no sacrificio.</p> + +<p>—Qual sacrificio?—balbuciou Vasco.</p> + +<p>«É preciso que o snr. Vasco, bem longe de contrariar os meus planos, seja o +meu auxiliar para encaminharmos Leocadia ao destino que lhe tracei, +convencendo-se um e outro de que serão infelizes, desobedecendo-me.</p> + +<p>Vasco levou o lenço aos olhos. Era o chorar sem pejo dos dezoito annos. +Vencendo os soluços, que forcejava por esconder no lenço, disse com intimativa:</p> + +<p>—Eu obedeço, senhor... Creio que poderei obedecer.<span +class="pn">{163}</span></p> + +<h2>X.</h2> + +<p>E, quando o coronel parecia ter muito que lhe dizer, Vasco sahiu da sala, e +desceu tão precipitadamente as escadas, que não voltou a cabeça para agradecer +ao dono da casa a consideração de acompanhal-o fóra da sala.</p> + +<p>No pateo encontrou o afflicto moço o aguadeiro que diariamente lhe levava as +cartas de Leocadia. Estava o prestante gallego sentado no barril, examinando os +pregos dos sapatos, e calculando talvez os emolumentos que cobrára da sua +posição importantemente diplomatica entre dous corações rendidos.</p> + +<p>Quando viu Vasco, calçou o collossal sapato, sacou dos abysmos interiores da +jaqueta uma carta que entregou ao nosso amigo, atirou com o barril para o +hombro, e não esperou resposta.</p> + +<p>Vasco rompeu ainda a obreia para lêr a carta, mas susteve-o o receio de ser +visto por algum familiar do coronel. Escondeu-a e desviou-se para um canto do +pateo a limpar as lagrimas, que rebentavam, cada vez mais copiosas, debaixo da +pressão do lenço.<span class="pn">{164}</span></p> + +<p>«Que dirá esta carta?»—perguntava elle ao seu coração—«Será o adeus de +Leocadia?... Saberia ella para que me chamou a sua casa?...»</p> + +<p>Tirou-a ainda outra vez do bolso, resolvido a lêl-a, quando entrou no pateo +um criado, e em seguida um cavalleiro, esporeando o cavallo, com grande tropel. +Era Francisco de Proença que chegava de Coimbra. Vasco não o vira nunca; mas +pelo trajar de jaqueta de guizos, barrete á campina, e bota branca de canhão +alto, conheceu o enteado do coronel, em que Leocadia lhe fallára algumas vezes, +porque sua madrasta lhe estava sempre elogiando o talento, e encarecendo o +grande morgadio.</p> + +<p>Francisco de Proença viu um rapaz de casaca preta arrumado para um lado, e +cortejou-o de passagem. O coronel descêra quasi até ao pateo para receber nos +braços o enteado, e ainda viu sahir Vasco. Quiz perguntar ao recem-chegado se +encontrára alli sósinho o cavalheiro da casaca preta; porém, lembrou-se de que +a pergunta provocaria outras. A este tempo descia com grande alvoroço a mãi de +Francisco, com os braços abertos; e o rapaz, depois de beijado e abraçado, deu +o braço á mãi, que estava gorda de mais para enthusiasmo tão buliçoso.</p> + +<p>D'ahi a pouco, lia Vasco, fechado no seu quarto, este bilhete:</p> + +<p>«Em quanto fallas com meu pai, escrevo-te duas linhas. Já sabes que desgraça +nos ameaça. Querem separar-nos, meu Vasco. Todas as nossas bellas esperanças +não podemos deixar que nol-as matem assim. Respeito a vontade de meu pai; mas o +juramento que fiz de amar-te eternamente é superior a tudo. Sou mais tua do que +de mim propria, meu querido Vasco. Cuidei que poderia morrer sem desgostar meu +pai; não posso; porque me lembro que te mato. Vê o que queres que eu faça. Não +podemos esperar que o tempo destrua os planos de meu pai e minha madrasta, que +só hontem me foram ditos. Hoje espera-se de Coimbra<span +class="pn">{165}</span> o tal homem. Decide, meu amigo. Em ultimo recurso, eu +fujo de casa para ti; e depois... o que Deus quizer. Não seremos tão infelizes +como meu pai diz, não achas, Vasco? Diz-me que não; dá-me animo para lhe +desobedecer. Não sei se te demorarás pouco tempo com meu pai: vou dizer ao +gallego, que te espere com esta carta.</p> + +<p class="direita">Tua L.»</p> + +<p> </p> + +<p>Quando Leocadia (ahi vão reflexões philosophicas) me mostrou, entre outras, +esta carta, pasmei, como a gente pasma, até certa idade, das maravilhas que se +fazem no coração das raparigas! Aqui ha trinta annos, se me dissessem que uma +donzellinha, a cheirar ainda ao esturrinho das mestras dos collegios de então, +namorada pela primeira vez, pouco ou nada lida em novellas, e menos ainda +experimentada nos romances ineditos de portas a dentro, se me dissessem que +essa tal, contrariada pelo pai nas suas virginaes affeições, escrevera +similhante carta ao namoro, eu não acreditaria, sem vêr a carta reconhecida +pelo signal publico e razo d'um tabellião de provada moralidade.</p> + +<p>Pois não parece incrivel?</p> + +<p>Hoje que não ha anomalias para mim, que tudo se me afigura aleijões da +alma—porque esta geração veio realmente estropeada e canhota do +espirito—hoje, a menina iniciada no amor, embora creada e educada ao ar sereno +e puro do collegio, comparo-a eu á rôla creada na gaiola, que nunca esvoaçou, +nem sabe a serventia das suas azas, está contente do espaço, e da abundancia +que tem, não sente o captiveiro... e, se, por descuido, deixaes aberta a porta +da gaiola, a boa da rolinha mette primeiro a cabeça ao ar livre, sacode as +pennas das azas virgens, desfere um vôo rasgado, sobe, sobe, e adeus!</p> + +<p>«Era o instincto!» dizia um philosopho pasmado para uma ave que lhe fugira. +Pelo instincto é que eu, philosopho<span class="pn">{166}</span> de toda a +passarinhada, explico tambem, a respeito de mulheres, este bater de azas em que +ellas se vão do ninho para as altas regiões dos açores e dos milhafres, onde, +quando o diabo quer, dão grande banquete ás aves de rapina que são tantas como +os nossos peccados, por esses céos d'anil, onde os poetas imaginam colonias de +amantes felizes.</p> + +<p>Isto é hoje, que só me falta conhecer a vigesima-quarta variedade que Deus +formou d'uma costella homogénea:—mas, ha vinte e oito annos, quando Leocadia +me mostrou a carta escripta a Vasco, olhei-a com ar palerma, e disse-lhe:</p> + +<p>«V. exc.ª, quando escreveu esta carta, comprehendia bem toda a extensão da +loucura que fazia, entregando-se assim á descripção d'outra criança, sem casa, +sem vida, sem habilitações para o trabalho?</p> + +<p>—Então o senhor não sabe o que é uma paixão!...</p> + +<p>«É que eu cuidava, minha querida irmã...</p> + +<p>Entre-parenthesis: Um destes dias, um meu amigo, contando-lhe eu seriamente +a intimidade limpa e immaculada que contrahira com duas ou tres pessoas ás +quaes eu chamava irmãs, disse-me, sorrindo, que tinha dezesete irmãs assim. O +meu amigo pertence á geração nova, em que estas fraternidades não tem provado +bem, porque, ordinariamente, os parentescos complicam-se de modo que não é +facil saber-se quando se é tio, ou outra cousa ainda mais respeitavel. O mundo +está virado! No meu tempo amava a gente, por exemplo, uma destas almas que hoje +se chamam <em>não-comprehendidas</em> na terra, ou porque entre ellas e outras +de eleição paternal e intervenção ecclesiastica não havia analogia de gostos, +ou porque as posições sociaes não permittiam um enlace, ou, finalmente, porque +era preciso fallar no amor d'um terceiro que devia lentamente desalojar-se—em +qualquer dos casos essas pessoas inscreviam-se no catalogo dos parentescos +honestos, e ficavam irmãos toda a<span class="pn">{167}</span> vida. Eu hoje +conheço netos das minhas irmãs de então, e glorio-me de ser tio-avô de creanças +muito gordinhas, que puxam ás avós as rêpas escassas das tranças d'ebano e ouro +dos meus bons tempos...</p> + +<p>As <em>irmãs</em> de hoje...—diz muito bem o meu amigo—arranjam-se ás +dezesete; e a maior prova de ser o titulo já ridiculo é que a sociedade não as +reputa incestuosas...</p> + +<p>As <em>não-comprehendidas</em> contam em estylo lamuriante o vasio das suas +almas a confidentes denominados <em>irmãos</em>, em momentos de expansiva +familiaridade. O typo que sonharam, a imagem que as anceia, está fóra d'este +mundo, respira o ar balsamico dos jardins celestiaes, é um anjo. Ora, acontece +quasi sempre uma cousa muito racional: o <em>irmão</em> apresenta-se com +procuração bastante do <em>anjo</em>, com poderes <em>in-solidum</em>. Passado +algum tempo, esquece-se o constituinte, e fica o procurador escandalosamente +encartado no usu-fructo do dominio e acção d'uma propriedade, que (aqui entre +nós) os anjos não quereriam, nem eu, só pela decima, os cinco por cento, e os +mais impostos annexos ao merinaque.</p> + +<p>A gravidade d'estas reflexões veio para prevenir os leitores mal +intencionados contra o abuso que por ahi se faz d'um parentesco de +circumstancia. Irmão, mais que irmão, fui eu de Leocadia. Esse titulo, que ella +me deu, conservo-o como um legitimo vinculo, mais que legitimo, talvez +sanctificado pela angustia de ambos... e doer-me-hia que o sorriso parvo ou mau +da suspeita correspondesse á melancolica saudade com que vou recordando +palavras da minha pobre irmã.</p> + +<p>Atem agora o fio partido do dialogo.</p> + +<p>«É que eu cuidava, minha querida irmã—disse eu—que o amor na sua idade, e +com a sua innocencia, ignorava certos desenlaces que elle tem humanos de mais, +rasteiramente humanos...</p> + +<p>—Que quer dizer?<span class="pn">{168}</span></p> + +<p>«Pensava eu que uma menina, na sua posição recatada, não seria capaz de +conceber o pensamento da fuga da casa paterna! Vasco propozera-lhe alguma vez +esse acto?</p> + +<p>—Nunca, e eu mesma tive esta idéa quando me vi presa á vontade de meu pai, +e fraca, miseravelmente fraca para resistir-lhe. Se bem me recordo, estava eu +chorando no meu quarto, quando de repente me lembrei da fuga. Não senti +aquecer-se-me o rosto de pêjo, porque me pareceu natural a acção de fugir á +desgraça. O pesar da desobediencia, esse sim, mortificou-me; porém, entre o +remorso e a paixão, a lucta decidiu-se pelo amor.</p> + +<p>«E a idéa do seu descredito?</p> + +<p>—Eu sabia lá então o que era descredito! O meu irmão não sabe o que se +passa no coração puro. Terá experimentado muito; mas deixe-me dizer-lhe que as +suas analyses tem sido feitas sobre corações muito experimentados. Uma mulher +receia o descredito só depois que sabe a maneira como elle se alcança. Eu não +sabia nada, meu amigo. Se me dissessem que eu corria risco de ser coberta de +infamia por fugir para Vasco, rir-me-hia, ou pasmaria do absurdo. Se me +dissessem que Vasco era capaz de abrir-me os olhos para eu vêr o abysmo em que +me lançára cégamente, quem m'o dissesse tomal-o-hia por um demonio mau que +zombava da minha ternura, e injuriava o meu Vasco. Uma rapariga innocente +guarda tão santas no coração as idéas do bem, que não póde crêr-se victima +jámais do homem a quem se entrega com amor, com mil vontades de o fazer feliz, +com as veias abertas para lhe dar o seu sangue, contente da sua pureza para o +galardoar com ella, anciosa por sacrificar-lhe a vida, e ficar ainda na +obrigação de maiores sacrificios. O meu descredito, diz o senhor! As que fallam +no seu descredito, se tem de rebater a instancia de sacrificios, essas são as +que querem estar bem com a sociedade, conhecem-na, fazem parte d'ella, e +lançaram já muitas favas pretas contra o<span class="pn">{169}</span> credito +de algumas infelizes, cujo amor as levou á abnegação dos diplomas de virtude, +que a sociedade dá ás que sabem embuçar-se no manto da hypocrisia, ou mascarar +o escandalo de qualquer modo.</p> + +<p>Eu estava de bocca aberta. Gostava tanto de ouvil-a, que não a interrompi. +Discorreu meia hora boa neste assumpto, e disse maravilhas, que eu tive o +descôco sandeu de alcunhar de romanticismo. Então não se dizia romanticismo, +mas ás mulheres, que fallavam muito e bem, chamavam-lhes os alvares, pais dos +que hoje vegetam, <em>pispontadas</em>, ou <em>pronosticas</em>.</p> + +<p>Não obstante, que sentir tão fino era o desta senhora! Que verdades tão +axiomaticas a dôr, a desgraça, a reclusão, o entranhar-se em si propria, lhe +tinha ensinado! Se esta mulher traspassasse em lagrimas ao papel o livro +intimo, que o dedo do infortunio lhe folheára no coração, qual das minhas +leitoras não faria esse livro o seu director espiritual, nestes calamitosos +tempos em que não basta a alma que Deus lhe deu para luctarem com a materia que +as traz abarbadas, e fóra do seu espiritual elemento!</p> + +<p>Cá estou outra vez encanhotado pela bruxaria das reflexões philosophicas! +Resignem-se christãmente, leitores sensiveis. Não posso ser superior a este +bacharellar de homem entendido na sciencia das almas dos outros, porque, +lisamente o digo, da minha não entendo nada, e já agora morrerei com esta +sphinge cá dentro não sei aonde.</p> + +<p>Vinha eu, pois, contando que Vasco lêra a carta de Leocadia tantas vezes +quantas o leitor quizer, que eu não sei quantas foram, nem elle. É certo que as +primeiras leituras fêl-as com os olhos scintillantes de alegria; e as ultimas +com uma fonte de lagrimas a cahir-lhe no papel.</p> + +<p>Quer-se a razão da alegria e a das lagrimas. Pois sim.</p> + +<p>Vasco dera-se como perdida a mulher, o amor, a vida da sua alma. Sahira +perturbado da entrevista com o coronel.<span class="pn">{170}</span> De lá a +sua casa lembrou-lhe o suicidio, o meio mais prompto de sacudir a farpa do +coração. Convencido de que era irremediavel o perdêl-a, abriu a carta, leu-a, +encontrou o remedio, alvoroçou-se, teve febre, delirou de felicidade, creu-se +doudo: eis-aqui a alegria, a radiação da alma no semblante, o volver á +existencia, o apegar-se á prancha de salvação segura, quando a garganta da +morte estava aberta.</p> + +<p>Depois, a razão, essa vibora idolatrada, cravou-lhe de subito o dente mortal +no coração, o sangue refluiu-lhe todo alli, á purpura do jubilo succedeu o +pallor do desalento, e o chammejar do enthusiasmo apagaram-no as lagrimas.</p> + +<p>Que lhe disse, pois, a razão, essa divindade tão cantada, essa mestra da +vida, essa filha do céo, que cahiu de lá á terra pela mesma razão que Lucifer +cahiu? A razão disse-lhe que Leocadia, entregue á sua providencia, não teria um +telhado que a cobrisse, porque em casa de Vasco dominava a razão da virtude que +não acceitaria uma filha familia fugitiva, se ella não tinha um patrimonio, que +absolvesse um filho segundo de tamanha immoralidade. Disse-lhe mais a razão que +elle filho segundo, sem arte nem officio, nem ao menos poderia repartir com a +pobre menina um prato de feijões adquiridos pelo seu trabalho. Disse-lhe mais a +consoladora razão que Leocadia fugitiva seria perseguida por seu pai, +conspurcada pela opinião publica, e fechada na cella d'um convento como leprosa +de que todas fugiriam receosas de se contaminarem. Foi o que lhe disse a razão +do mundo, formada pelo mundo, adaptada ás conveniencias vigentes da sociedade, +austera para uns, tolerante para outros, draconiana para os desvalidos, venal +para os poderosos.</p> + +<p>Vasco ergueu-se do lethargo em que o deixára a briga das duas sensações +contrarias.</p> + +<p>Tomou a penna, e escreveu as seguintes linhas:</p> + +<p>«Deus não quer a nossa união, Leocadia. Perdeu-se<span +class="pn">{171}</span> tudo. Isto é tão atroz que parece impossivel. É +verdade, Leocadia, é verdade que se abriu hoje a minha sepultura. Esperava +morrer cêdo, mas tão depressa não queria. Vivia de esperanças, e agora é tudo +negro diante de mim. Venha a morte, e seja já. Não sei o que te digo. Estou sem +alma, nem forças. O que me dizes é impossivel. Eu não tenho um bocado de pão +certo para cada dia. Contava com o meu trabalho no futuro; mas agora desfalleci +de braço e de animo. Dous desgraçados é muito. Ninguem se compadeceria de nós. +Perseguir-nos-hiam todos. Casa, Leocadia, casa com esse homem, mas espera +alguns dias; eu quero morrer, e hei-de morrer antes. Faz-me este beneficio. +Deixa-me dizer-te adeus, com a certeza de que me pódes chorar sósinha sem +testemunhas, sem um... esposo que te diga: «escrava do meu ouro, porque +choras?» Leocadia, eu previ sempre a desgraça, mas não assim. Isto é muito; e +para estas agonias é que a morte sahiu das mãos de Deus. O Senhor te faça +feliz, e a minha memoria te seja sempre saudosa e compassiva.</p> + +<p class="direita">«<em>Vasco.</em>»</p> + +<p> </p> + +<p>Acabára elle de fechar a carta, e sentiu um esvaimento de cabeça. Escondeu a +face entre as mãos, porque o voltear dos objectos lhe causava a agonia do +vomito. Um frouxo de tosse lhe sahiu do peito com dôr aguda e calafrios. Quiz +respirar, e espirrou dos labios uma lufada de sangue que salpicou a carta. +Lançou-se com impeto ao ar da janella, e viu na rua o aguadeiro que esperava a +resposta. Desceu as escadas encostado ao corrimão, entregou a carta, quiz +retroceder, e não pôde. Sentou-se n'um degrau, susteve o sangue no lenço, +encostou a face á cantaria, e murmurou:</p> + +<p>«Se Deus quizesse que fosse já?...»</p> + +<p>—O que?!—perguntou uma voz perto d'elle.</p> + +<p>Era a mãi, que descia para sahir.<span class="pn">{172}</span></p> + +<p>—O que, meu filho?!—repetiu ella.</p> + +<p>«A morte.»</p> + +<p>A sobresaltada senhora tomou-o nos braços, soltando vozes de afflicção. +Vasco pediu-lhe silencio, subiu com a mãi esforçando-se por occultar o sangue, +entraram ambos no quarto d'ella; e, duas horas depois, quem os espreitasse +veria o filho abraçado aos joelhos da mãi, exclamando:</p> + +<p>«Salvou-me!</p> + +<p>Salvou-o?! como?!</p> + +<p>Esperem.<span class="pn">{173}</span></p> + +<h2>XI.</h2> + +<p>Saiba-se o que tão extraordinariamente fizera respirar Vasco daquelle aperto +d'alma, que não podia desafogar-se, sem que a mão bemdita de mãi lhe alargasse +as angustias que a comprimiam.</p> + +<p>Entraram ambos, como disse, no quarto d'ella. Vasco, antes de responder ás +perguntas amoraveis de sua mãi, encostou-lhe, como criança amimada, a cabeça ao +hombro, e soluçou, chorando copiosamente.</p> + +<p>«Que é isto, meu Vasco?!—instou a impaciente senhora—Bem me parecia a mim +que a tua melancolia vaticinava desgraça!... Falla filho...</p> + +<p>Neste momento, Vasco levou o lenço aos labios para esconder o sangue que +espirrava da tosse suffocante. A mãi, vendo o lenço tinto de sangue fresco, +soltou um grito.</p> + +<p>«Este sangue é teu, meu pobre filho?! exclamou ella.</p> + +<p>—Isso que importa, minha mãi?...—disse Vasco, sentindo diminuir a +violencia da sua dôr, ao passo que o rosto da mãi dava signaes de afflicção e +pasmo.<span class="pn">{174}</span></p> + +<p>«Que importa!?...—tornou ella, juntando as lagrimas ao sangue de seu filho, +e cahindo quasi desanimada n'uma cadeira—Importa a minha morte, Vasco!...</p> + +<p>—Mas eu sou feliz, morrendo. Tenha pena de mim, se eu continuar a viver. +Deus acceitará na sua presença um filho que nunca desgostou sua mãi, nem aos de +fóra causou damno sabendo que o causava.</p> + +<p>«Jesus!—interrompeu a mãi arrependida da sua exaltação—estás-me matando +com a serenidade das tuas palavras! E porque has-de tu morrer, meu pobre +menino? Cuidas que não tem cura lançar sangue? Tem, meu filho, tem. Teu pai +viveu assim trinta annos, e tuas manas, que Deus levou, se tomassem os meus +conselhos, se não fossem as imprudencias dos bailes, recuperavam a saude... +Choras por te vêres tão cedo ás portas da morte? Tens razão, meu querido filho; +mas não te assustes; verás que o sangue cessa; vamos aos ares do campo; o que +tu precisas é descanço. Não leias mais, pelo amor de Deus; não recebas o ar +fresco da noite; não tornes a comer fóra d'horas, nem andes a passear no teu +quarto até ser dia. Promettes isto tudo á tua afflicta mãi?</p> + +<p>—Sim, minha senhora, prometto tudo.</p> + +<p>«Com que desalento me respondes, Vasco. Esse teu sorriso é muito triste... +antes quero vêr-te chorar.</p> + +<p>—E eu tambem queria chorar... tambem!...</p> + +<p>«Tu escondes-me o teu coração, Vasco. Tive agora um raio de luz... Dizes-me +tudo, filho?</p> + +<p>—Tudo... tudo, minha santa amiga, ainda que m'o não pergunte.</p> + +<p>«A mim disseram-me que a filha do coronal Gervasio te trazia enganado...</p> + +<p>—Por quem é, minha mãi!—atalhou elle com as faces instantemente +abrazadas—Leocadia é incapaz de me trazer enganado! Quem tal lhe disse, +calumniou-a cruelmente...<span class="pn">{175}</span></p> + +<p>«Pois antes assim, meu filho: mas sempre é certo que vos amaveis?</p> + +<p>—Sim... é desgraçadamente certo que nos amavamos.</p> + +<p>«Não te afflijas, Vasco... Eu hei-de dizer o que ouvi. Disseram-me que ella +estava destinada para um filho da madrasta.</p> + +<p>—Destinaram-na, minha mãi... Que culpa tem a infeliz de que vendessem o seu +coração? Ella não sabia que estava vendida. Cuidou que podia amar-me, e por +fim...</p> + +<p>«Diz, Vasco... prohibiram-na de fallar-te?</p> + +<p>—Vai ser casada, disseram-lh'o hontem...</p> + +<p>«E ella acceita?...</p> + +<p>—Se acceita!... a morte das mãos de Deus, como eu lh'a peço. Ha-de ser +entregue ao marido como um corpo sem alma, um cadaver... O coração é meu, morre +commigo... Vou bem pago de tudo que soffri e hei-de soffrer... que, já agora, +pouco será; mas o que tenho curtido calado, e docil á desgraça, foi muito, +minha querida mãi, só Deus sabe o que foi. A minha Leocadia morre... e então +verá se ella não era digna d'este amor que me mata.</p> + +<p>«Jesus! tanto fallar de morte, filho! Fallemos da vida; procuremos remedio, +que o ha-de haver.</p> + +<p>—Nenhum.</p> + +<p>«Pois nenhum?! ella já está casada?!</p> + +<p>—Não está; mas o mesmo é estar casada, ou sêl-o ámanhã ou depois.</p> + +<p>«Olha, filho, lembra-me ir fallar ao coronel...</p> + +<p>—Sou pobre, minha mãi... Poderá v. exc.ª dizer ao coronel que me dá um bom +patrimonio?</p> + +<p>«Não, infelizmente, não; aqui é tudo d'um só, tu bem o sabes... essa dôr cá +a tenho como um espinho cravado no coração. O meu melhor filho, o anjo que +nunca me deu um pesar, não tem nada, e nada póde haver do amor de sua mãi!... +Que barbaras leis, justo céo! O que<span class="pn">{176}</span> os homens +fazem! De todos os filhos que rodeam, á hora da morte, o leito de sua mãi, só +um é rico, os outros... ficam á mercê do seu proprio trabalho, ou das sopas do +irmão, que é sempre o mais ingrato...</p> + +<p>Vasco obstou á continuação dos soluços que embargavam estas palavras, com +meiguice, tirando-lhe as mãos da face.</p> + +<p>«Isso agora a que vem! Não chore, que me faz mal. Eu não desejo a riqueza de +meu irmão mais velho; queria alcançar uma mediania pelo meu trabalho, porque +bem pouco me bastava a mim, e a ella, e a minha mãi, se Deus nos ajuntasse +todos... Agora, nada desejo, porque sou de mais n'este mundo; houve uma força +superior que destruiu a minha felicidade; não acharei outra... que faço eu +agora aqui?!...</p> + +<p>—Espera, filho... se eu dissesse ao coronel...</p> + +<p>«O que, minha mãi?!</p> + +<p>—Que sua filha viria para nossa casa como tua esposa...</p> + +<p>«Está a querer tirar á força do seu coração esperanças para me dar... não +estando ellas lá, minha mãi! É irremediavel... Não nos deixemos enganar, porque +a realidade negra está perto de nós. É tarde para pensar nos meios de mudar a +vontade do pai de Leocadia. O homem rico a quem a deram, já está com ella. +Chegou hoje, e ella ainda hontem soube que não era senhora da sua alma. O +coronel chamou-me, e disse-me: «faça que minha filha me obedeça; ajude-me a +encaminhal-a ao destino que lhe dei; lembre-se que eu me sacrifiquei a uma +mulher aborrecida, para assegurar a minha filha um futuro, casando-a com o meu +enteado.»</p> + +<p>«E tu, filho...</p> + +<p>—Recebi o raio na cabeça, e sahi com o receio de cahir morto aos pés do +homem que confiava a sorte de sua filha á minha generosidade. Isto parece-me um +sonho...<span class="pn">{177}</span> Quando eu me convencer completamente que +perdi a minha Leocadia, morro n'esse instante. E que espero eu agora, meu Deus!</p> + +<p>A mãi de Vasco, com a barba apoiada na palma da mão direita, contemplava seu +filho a olhos enxutos. Calara-se elle; e longo tempo silenciosa, e como em +spasmo, ainda ella o contemplava. Por fim, ergue-se, vai com impeto ao pé de +Vasco, aperta-lhe a mão com força, e diz:</p> + +<p>«Acredita, filho, o que te diz uma mulher que conhece o coração das outras: +Leocadia não é digna d'esse amor; Leocadia não te ama.</p> + +<p>Vasco ergueu-se d'um pulo, vibrou ainda as primeiras syllabas d'uma palavra +dura, levou a mão á fronte que revia um suor subito, e disse com pausa e +brandura:</p> + +<p>—Minha mãi, peça perdão a Deus de ter injuriado uma martyr.</p> + +<p>E as lagrimas rebentaram ao mesmo tempo dos olhos de ambos. A solemnidade +triste com que elle se queixára da injusta opinião, feriu o seio da mãi.</p> + +<p>«Pois sim, meu filho, eu peço perdão a Deus de ter calumniado a tua amiga; e +pedir-lhe-hei tambem que me tire d'este mundo se não posso valer-vos a ambos, +meus queridos filhos.</p> + +<p>Vasco, arrebatado pela compunção d'estas ultimas palavras, beijou com fervor +a mão da lagrimosa senhora, que o tomou para o seio, e o beijou na face.</p> + +<p>«Nosso Senhor, e a Virgem Santissima—dizia ella, quasi ao ouvido de Vasco, +como quem acarinha uma criança—hão-de dar-te uma esposa que seja o retrato das +virtudes de Leocadia, meu filho. São poucos n'este mundo os corações bons; mas +a Providencia faz que esses corações se encontrem. Ha-de vir um procurar-te, +Vasco; e, quando elle vier, teremos ambos prevenido tudo, para que tu possas +ter uma esposa sem dote. Eu começo desde hoje a pedir para ti um emprego digno +do teu nascimento. Empenharei<span class="pn">{178}</span> todas as minhas +relações, todos os nossos parentes, com a regente, para tu seres bem collocado, +sim, meu filho?</p> + +<p>—Não, minha senhora, não. V. exc.ª disse-me que iriamos para o campo; vamos +quanto antes; parece-me que hei-de acabar lá mais tranquillamente. Veja quanto +eu estou sendo infeliz! A unica esperança que me afaga, é a idéa de morrer n'um +leito d'onde veja arvores, e céo, e flores. O tempo agora está bello para +acabar assim...</p> + +<p>«Oh filho, que me estás despedaçando o coração...</p> + +<p>—Pois não fallemos em morrer... Olhe, mãi, diz-me uma cousa?</p> + +<p>«Que é, Vasco?</p> + +<p>—Porque duvidava ha pouco do amor de Leocadia? Que disse eu, ou que fez +ella que désse causa á injusta suspeita de minha mãi?</p> + +<p>«Eu respondo, meu filho. Parecia-me que ella recebeu com frieza a noticia +d'ir ser casada com um homem que não amava. O que tu estás soffrendo, é o que +ella deveria soffrer, depois d'essa cruel violencia que o pai lhe fez. A paixão +costuma mostrar-se d'outro modo, delira, é capaz de mil desatinos, em quanto +dura a surpreza que Leocadia devia de receber. E que fez ella, meu filho? Que +te disse ella, depois que o pai lhe disse: «não pódes ser esposa de Vasco, +porque Vasco é pobre; sel-o-has d'um outro homem, que eu te destinei, sem +consultar a tua vontade.» Que fez ella?</p> + +<p>—O que fez ella?—respondeu Vasco, desafogando sob o peso das accusações, +que a mãi queria alliviar com a entonação branda da voz—O que fez ella?... +Minha mãi... o que faria a senhora nas circumstancias de Leocadia?</p> + +<p>«Se amasse com a paixão ardente com que amei teu pai... das duas uma: +morreria fulminada logo alli, ou...</p> + +<p>—Diga, diga, minha mãi, que eu preciso avaliar pelo seu coração o amor de +Leocadia.<span class="pn">{179}</span></p> + +<p>«Direi, Vasco, direi o que mãi nenhuma deve dizer; mas o que eu faria, não +morrendo logo alli, meu filho, era... desobedecer á tyrannia, fugir á violencia +d'uma desgraça perpetua, seguir o destino prospero ou desgraçado do homem que +me merecesse o sacrificio da minha reputação, da minha vida, de tudo!»</p> + +<p>A mãi de Vasco teria quarenta e cinco annos. A luz dos trinta +irradiou-se-lhe no semblante. Dir-se-hia que o coração, rejuvenescido das +forças que a viuvez e os dissabores domesticos alquebraram, revivera alguns +minutos, apressando o giro do sangue que lá estivera estanque por falta +d'estimulos. Vasco, fitava maravilhado a animação d'aquelle rosto, onde nunca +vira o viço da adolescencia, porque, desde menino, vira n'elle sempre lagrimas.</p> + +<p>«Porque a mulher que ama—continuou ella, erguendo intencionalmente os olhos +para o retracto de seu marido—porque a mulher que ama como eu amei teu pai, +Vasco, faz o que fez tua mãi. Foge do convento onde a aferrolharam, e vai +sósinha através cincoenta leguas procurar um militar que nesse tempo apenas +cingia uma banda de alferes, e não tinha mais recursos para si e para mim que o +seu soldo. Eu era filha unica, devia ser uma rica herdeira; e, comtudo, soffri +necessidades durante dez annos. E sabes tu como eu acceitava das mãos de Deus a +minha sorte? Cheia de alegria, seguindo teu pai na bagagem do exercito, pela +França, pela Russia, com teu irmão mais velho deitado n'um berço de vêrga. +Quando a força da lei me fez succeder na minha legitima, dir-te-hei, filho, que +não senti melhorar a minha felicidade intima. Não era o dinheiro que a fazia, +não; maior contentamento tinha quando via as feridas de teu pai remuneradas de +patente em patente, até ser eu que, por minhas proprias mãos, lhe puz as +dragonas de general, tendo elle apenas trinta e nove annos. Alli o tens a +ouvir-nos, meu filho. Parece que lhe estou vendo ainda os olhos rasos de +lagrimas<span class="pn">{180}</span> de felicidade com que elle tantas vezes +me contemplava. Repara filho...</p> + +<p>Trémula da commoção, que devia terminar pelo chorar angustioso da saudade, a +arrebatada senhora conduziu seu filho pela mão ao pé do retracto.</p> + +<p>Tinha melancolica bellesa aquelle grupo! Ella, apontando para o retracto, +com o braço erguido e convulsivo, dizia:</p> + +<p>«Aquelle homem deve estar na presença de Deus. Foi para todo o mundo o que +foi para mim. As suas vistas devem estar postas no teu destino, Vasco. Entrega +a tua sorte á sua protecção; pede-lhe, commigo, que implore ao Senhor o +descanço do teu espirito, e o esquecimento da mulher que não é para ti o que +tua mãi foi para elle.</p> + +<p>—Não posso fazer similhante supplica...—interrompeu Vasco.</p> + +<p>«Não podes, filho? por que não podes?</p> + +<p>—Rogar assim era mentir a Deus. Leocadia é para mim o que minha mãi foi +para o homem que a fez desobedecer á vontade de seu pai.</p> + +<p>E, tirando do bolso a carta de Leocadia, apresentou-a aberta a sua mãi.</p> + +<p>Subiu de novo á face da viuva o ardor que as lagrimas começavam a desmaiar. +Leu e re-leu a carta; dobrou-a vagarosamente; fitou um olhar supplicante no +retracto, declinou-o para um crucifixo; permaneceu silenciosa em oração, +talvez; entregou a carta a Vasco, e disse-lhe com energia:</p> + +<p>«Pois diz-lhe que venha... Vai buscar tua esposa para o quarto de tua mãi, +vai, meu filho. É tua mãi que t'o diz.</p> + +<p>Vasco, todo tremulo, só immovel nos olhos, estendia os braços para ella como +se precisasse abraçal-a, para convencer-se de que não era phantastica a visão +de sua mãi.</p> + +<p>Neste momento, batem á porta do quarto; a mãi de<span +class="pn">{181}</span> Vasco recusa abrir, e dizem-lhe que está alli uma carta +que deve ser immediatamente entregue ao menino.</p> + +<p>É ella que recebe a carta, e a entrega ao filho: Vasco reconhece o sinete, e +diz a sua mãi que a leia.</p> + +<p>Continha isto:</p> + +<p>«Matas-me, Vasco. Se me não tiras d'aqui esta noite, amanhã suicido-me. És a +causa da minha morte. Pelas chagas de Christo, diz-me que me salvas deste +inferno. Responde-me já, já.</p> + +<p class="direita"><em>Leocadia.</em>»</p> + +<p> </p> + +<p>«Eu vou responder, meu filho—disse a viuva, correndo á escrivaninha. Vasco +estava arquejante com a fronte reclinada sobre o travesseiro de sua mãi.</p> + +<p>Ella voltou, e leu o seguinte bilhete:</p> + +<p>«Minha filha. Hoje ás 11 horas da noite está uma sege defronte do convento +de Sant'Anna, a cincoenta passos da sua porta. Nessa sege espera-a a mãi de +Vasco, e sua mãi extremosa</p> + +<p class="direita"><em>Maria Maldonado.</em>»</p> + +<p> </p> + +<p>Foi então que Vasco se lançou aos pés de sua mãi, exclamando:</p> + +<p>«Salvou-me!<span class="pn">{182}</span></p> + +<h2>XII.</h2> + +<p>Leocadia narrou-me assim o proseguimento da sua historia:</p> + +<p>«Quando vi uma letra desconhecida, em resposta ao meu bilhete, fiquei +passada de mêdo, e parece que a luz dos olhos se me toldára. Custou-me a lêr o +nome da assignatura, que maior susto me incutiu. «A mãi de Vasco roubou-me a +minha carta» foi logo a idéa que me assaltou. Refiz-me de coragem para lêr uma +reprehensão... e que espanto, que alegria a minha ao passo que devorava +aquellas palavras queridas! As lagrimas cahiam no papel duas a duas. Eu estava +louca de prazer. Ajoelhei, agradecendo ao céo a inspiração que mandára á mãi do +meu Vasco. A fuga, protegida por uma senhora de tanta virtude, parecia-me um +passo digno de louvor. Congratulei-me até da minha idéa, e suppuz que o +espirito de minha mãi, a quem eu pedira remedio, m'a tivesse suggerido da sua +bemaventurança.</p> + +<p>«Eu não podia esconder o meu contentamento. Meu pai, que me deixára a +chorar, voltando, reparou na repentina<span class="pn">{183}</span> mudança, +porque os meus olhos inquietos e ardentes seguiam a bella imagem da vida, que +voejava diante de mim, chamando-me para um futuro que os meus labios abençoavam +com um sorriso.</p> + +<p>«Minha madrasta, agourando o que mais lhe convinha desta alegria, pensava +que duas ou tres palavras que seu filho me dirigira, ao jantar, operaram +estranha mudança em mim.</p> + +<p>«Francisco de Proença enganado por sua mãi, e mais ainda pelo seu orgulho, +julgou que o milagre da mudança se devia a essas palavras aborrecidas que me +dera. Como quizesse convencer-se e convencer sua mãi e convencer-me a mim do +poder fascinante da sua lingua, fallou muito, penso que contou muitas anedoctas +de estudantes de Coimbra, e com tal affectação o fazia que me causava tedio, +posto que eu, apenas por cortezia, dissimulava escutal-o. Eu estava d'alma e +coração embebecida na minha fuga, e não tirava os olhos da assustada agulha do +relogio.</p> + +<p>«Meu pai disse algumas vozes baixas a minha madrasta, e entre estas ouvi +proferir a palavra «theatro.» Foi uma nuvem negra que escureceu toda a alegria +da minha alma. Notou-se em mim a repentina transfiguração; e Francisco de +Proença, que estava conversando commigo, perguntou-me se me sentia incommodada, +chamando a attenção de meu pai. Expliquei o descóramento por uma vertigem +costumada, e pedi licença para entrar no meu quarto.</p> + +<p>«Ahi, d'onde pouco antes sahira douda de jubilo, entrei afflictissima. A ida +ao theatro vinha baldar os nossos planos. Estava a anoitecer e eu não tinha por +quem avisar Vasco. Os criados de casa tinham a confiança de meu pai, e as +criadas a da minha madrasta. Entre estas, porém, havia uma que se mostrava +minha amiga. Foi essa a que mandaram para ao pé de mim, logo que minha madrasta +me deixou deitada n'um canapé recommendando-me, logo que o incommodo me +passasse, me fosse vestindo para<span class="pn">{184}</span> irmos a S. +Carlos. A minha angustia não me deixou reflectir. Eu disse á criada que estava +muito attribulada, e só ella podia valer-me. Pedia-lhe que chegasse ella n'um +instante a levar-me um escripto a D. Maria Maldonado, sem que ninguem de casa o +soubesse. A criada respondeu-me que sim sem hesitação, e viu-me tirar d'entre +os colchões uma escrivaninha. Escrevi algumas linhas apressadas, e ella sahiu, +dando-me um beijo de Judas, quando eu, lavada em lagrimas de gratidão, lhe dava +um abraço de infeliz soccorrida em extremos de afflicção.</p> + +<p>«Principiei a vestir-me, applicando o ouvido aos passos da criada, que eu +esperava anciosamente. Passou-se uma hora, e ella sem chegar. Sahi do meu +quarto, perguntei a outra criada por ella: disse-me que estava na cama com uma +dôr de cabeça.</p> + +<p>«N'isto appareceu meu pai, e disse-me com ar mais grave que o seu costume:</p> + +<p>—Menina, vamos, que está sua madrasta já na sege.</p> + +<p>«Eu pretextei uma falta para entrar no meu quarto. O que eu queria era de +fugida perguntar á criada se entregára o bilhete; meu pai, porém, acompanhou-me +até ao meu quarto, viu-me pegar d'um lenço, e não me deixou sosinha um instante +até me deixar na sege, onde depois entrou Francisco de Proença.</p> + +<p>«Meu pai disse que iria a pé, e só mais tarde, porque tinha de fazer uma +inspecção ao quartel.</p> + +<p>«Que anciedade a minha até entrar no camarote! De lá procurei na platea +Vasco. Se elle estivesse, ficava eu tranquilla: era signal de ter recebido o +meu bilhete. Não estava, nem entrou jámais! Jesus! como me era custoso esconder +as lagrimas e o alvorôço! Que horas de inferno aquellas! Logo que entrou em +minha alma a suspeita de ter sido atraiçoada, tive a tentação de sahir do +camarote, sob qualquer pretexto, e fugir.</p> + +<p>«Meu pai entrou ás onze horas e meia. Estava a<span class="pn">{185}</span> +findar o espectaculo. Procurei ver-lhe a alma nos olhos. Pareceu-me socegado, e +sem reserva.</p> + +<p>«Fomos para casa. Vi a pé todas as criadas, menos a portadora do bilhete. +Reviveram as minhas suspeitas. Entendi que a infame não tinha animo de +confrontar-se commigo, depois da traição.</p> + +<p>«Procurei entre os colchões a escrivaninha. Lá estava tudo como eu o +deixára, e ao pé os massos das cartas de Vasco.</p> + +<p>«Não me deitei. Estive toda a noite accumulando conjecturas, qual d'ellas +mais desgraçada. Cheguei a abrir subtilmente a porta do meu quarto, para ir á +cama da criada. Fui palpando ao longo d'um corredor; mas a porta que +determinava este corredor, e nunca se fechara, encontrei-a fechada! Então, sim, +comprehendi que meu pai soubera tudo; e d'ahi em diante estudei a maneira de +fugir de dia. A ancia facilitava-me o passo. Resolvi sahir disfarçada com um +capote de criada, até encontrar um rapaz que me ensinasse as ruas. N'esta +esperança desafogou o meu coração. Esperei o dia; e, logo que senti passos, +pedi que me abrissem a porta do corredor. Respondeu-me um criado que ia +procurar a chave; e voltou, dizendo que a devia ter o snr. coronel porque +ninguem dava noticia d'ella.</p> + +<p>«Senti-me capaz de tudo. Tive odio a meu pai nesse momento, odio foi esse +que o tempo não conseguiu desvanecer em minha alma. É que desde esse dia tenho +chorado sempre, e o meu odio nutre-se de lagrimas... Senti até o desejo de +matar a criada, que me atraiçoara. Desconhecia-me! Vi-me casualmente a um +espelho, e os meus olhos tinham um fulgor sinistro, os meus labios pareciam +crestados pelas palavras de maldição que passaram n'elles contra o meu tyranno.</p> + +<p>«Abri a janella do meu quarto, com a intenção de fugir por ella. Morreria, +se o tentasse. Recuei diante da<span class="pn">{186}</span> idéa da morte sem +justificação aos olhos de Vasco e de sua mãi, que me chamara <em>sua filha +querida</em>. Lancei-me aos pés da Virgem, que fôra de minha mãi, e ergui-me +sem esperança, sem o allivio que Deus concede aos que supplicam a sua +misericordia.</p> + +<p>«Eram nove horas da manhã quando se abriu a porta, e entrou meu pai.</p> + +<p>«Não escondi as lagrimas, e elle, fingiu que as não via.</p> + +<p>—Leocadia, disse elle, vem ahi o almoço. Depois de almoçar, veste-te que +vamos passar o dia a uma quinta de Campolide.</p> + +<p>«Meu pai!...» murmurei eu.</p> + +<p>—Que queres tu Leocadia?—disse elle com um ar de fria seriedade que me +gelou as palavras, e sahiu.</p> + +<p>«Vesti-me, fazendo sahir o taboleiro do almoço. Minha madrasta entrou no meu +quarto, com affectado sobresalto, perguntando-me por que não almoçava. Disse +que não podia, e ella retirou-se, passando-me a mão pela face, e dizendo com +abominavel meiguice: juizinho, minha filha, juizinho.</p> + +<p>«Indignou-me este carinho hypocrita como um insulto. Perguntei-lhe com +altivez o que queria dizer a sua recommendação, e ella, carregando o sobr'olho, +replicou: A culpa tem quem a quer fazer feliz, sua pobre soberba.</p> + +<p>«A raiva não me deixou articular senão sons inintelligiveis. Minha madrasta +sahira com impeto, resmungando palavras, que eu não entendi.</p> + +<p>«Vieram dizer-me que esperava a sege. Sahi do meu quarto com a tenção de +procurar de relance a criada; mas, ao cabo do corredor, estava meu pai, +lançando-me um olhar severo.</p> + +<p>«Entrei n'uma sege com minha madrasta. Meu pai entrou n'outra com Proença.</p> + +<p>«Atravessamos Lisboa sem trocarmos uma palavra.<span class="pn">{187}</span></p> + +<p>«Apeamos no portão de uma quinta. Proença offereceu-me o braço, e +perguntou-me que soffrimento era o meu que se denunciava no rubor dos olhos. Eu +ia responder-lhe, com franqueza cruel, contando-lhe a minha vida em relação a +elle, quando meu pai nos impoz silencio com a sua presença.</p> + +<p>«Passeamos uma hora entre os arvoredos da quinta. Ahi não lhe sei dizer que +desesperada saudade me golpeava a pedaços o coração! No ruido da folhagem +parecia-me ouvir o chorar gemente do meu Vasco. O fallar de Proença, e as +risadas estupidas de minha madrasta, davam aos meus ouvidos o som infernal +d'uma ironia de demonios á minha angustia.</p> + +<p>«Queria-me esconder sosinha por aquellas murtas; mas a comitiva amaldiçoada +seguia-me constantemente, e as attenções delicadas de Proença provocavam-me +sempre uma visagem de desdem.</p> + +<p>«Com elle só quizera eu estar para dizer-lhe que o aborrecia; porém, não nos +deixavam juntos, porque meu pai receava isso mesmo.</p> + +<p>«Estive um instante sosinha á beira d'um tanque. Meu pai veio ahi +encontrar-me a chorar. Sentou-se ao meu lado, e disse-me affavelmente, +tomando-me a mão:</p> + +<p>—Leocadia, conspiraste contra teu pai. Cuspiste com feia ingratidão na face +do amigo que tudo te sacrificou, e até a sua liberdade vendeu a preço do teu +bem-estar. Antes de hontem, fallei-te como amigo, esquecendo que era pai. +Cuidei que tocára o teu coração, e abençoei o céo por me ter dado um anjo +d'amor onde eu poderia ter encontrado uma filha rebelde. A tua docilidade +encheu-me de orgulho e alegria, orgulho por ter tal filha, e alegria por vêr +tão galardoados os meus sacrificios. Deixáste o meu espirito em paz com as suas +tenções. Vi que se realisava o bello futuro que eu planisara para ti, e tamanha +confiança puz na tua razão, que eu iria jurar que ninguem teve uma<span +class="pn">{188}</span> filha mais virtuosa. Enganaste-me, Leocadia, ou eu me +enganei com o teu silencio. A vibora, que eu creára no seio, e acabava de +afagar, mordeu-me cruelmente, ferindo-me talvez de morte. Em quanto eu velava a +tua felicidade, tramavas tu a minha deshonra e a tua... Não me interrompas... é +teu pai que falla e te impõe silencio, Leocadia. Premeditavas a tua fugida; +trocavas teu pai, que conheces ha dezoito annos, pelo homem que viste hontem; +trocavas a tua invejada reputação pela fama que segue á mulher que deixa no +limiar da casa paterna abandonada os diplomas da sua virtude. Estás já +deshonrada por intenção, filha; mas eu, desgraçado pai, serei ainda a tabua de +salvação para ti. Fiz a accusação. Agora vou condemnar-te: estás perdoada; +beija a mão do teu juiz, porque a justiça d'um pai tem em si o reflexo da +misericordia de Deus.</p> + +<p>«Estas palavras tinham-me sob o peso d'uma fascinação dolorosissima. Levei +machinalmente aos labios a mão que se me offerecia, e banhei-a de lagrimas. E +eu não podia fallar, suffocada por soluços. Fazia-me compaixão o olhar aguado +de meu pai; porém... não saberei dizer que terrivel qualidade de sentimentos +luctavam em minha alma!... Entre a cabeça e o coração havia uma barreira +insuperavel. O coração regeitava o amoroso perdão d'um pai despotico. A cabeça +curvava-se diante da magestade das suas cãs, e mais ainda dos seus queixumes. +Quando, porém, nesse instante, não senti extinguir-se o odio que me abrasára na +manhã desse dia, é porque elle seria eterno, é porque o meu amor a Vasco era +immenso, superior ao instincto filial, aos vinculos de sangue, e até á minha +propria reputação.</p> + +<p>«Não respondi. Cruzei as mãos na face, e não sei que tempo meu pai esperou a +resposta. Elle tinha sahido de ao pé de mim, e voltou com um ramo de flores.</p> + +<p>«Aqui tens, minha filha—disse elle—o ramo de paz entre nós. Ha-de haver +dez annos que te dei um ramo<span class="pn">{189}</span> neste mesmo sitio. +Foi quando vieste da provincia para entrares no collegio. Olha esse olmo que +está atraz de ti e lá verás uma inicial e uma data. Já então scismei aqui muito +no teu futuro. Prometti a mim mesmo trazer-te aqui, já senhora, para te mostrar +essa data, que marca uma hora das horas attribuladas que só um pai, extremoso e +pobre, sabe comprehender. Mal diria eu então que a minha segunda visita a este +logar seria solemnisada pelas lagrimas de ambos nós! Repara que eu tambem +choro, Leocadia.</p> + +<p>«Ergui os olhos timidos para meu pai, e não pude conter-me. O resentimento +calou-se um instante. Abracei-o com devoção, e, nesse instante... só o via a +elle, só sentia por elle... a imagem de Vasco fugira por não poder vencer as +cãs d'um velho soldado chorando...»</p> +<hr class="dotted"> + +<p>Neste momento, Leocadia suspendeu-se. A sua physionomia macilenta e +descarnada pendeu para o seio. Uma lagrima das que vem ferventes do coração +desceu-lhe na aridez da face, e sumiu-se logo como fio d'agua em terreno +afogueado.</p> + +<p>E eu, que nem hoje ainda posso, com animo frio, contar uma vida que me +hão-de receber como chimera, chorava tambem.<span class="pn">{190}</span></p> + +<h2>XIII.</h2> + +<p>O coronel, com palavras meigas, animára a filha a perguntar-lhe se o pai a +violentava a casar com Francisco de Proença.</p> + +<p>A isto respondeu o pai, mudando de tom:</p> + +<p>«Eu, até aqui, empreguei todos os esforços da razão para convencer-te de que +a docilidade ao querer d'um pai, que deseja dar-te um futuro certo, não é +violencia, é juizo. Ora, se tu, minha filha, queres mudar o nome ás cousas, a +obrigação d'um pai é ouvir a sua vontade experiente, e cerrar severamente os +ouvidos ao querer irreflectido d'uma criança. Se ha um Deus, que julgue as +tolerancias d'um pai com os caprichos d'uma filha, grandes contas eu daria, +Leocadia, consentindo-te o alvedrio da escolha entre Vasco da Cunha e Francisco +de Proença. Não quero o remorso de tamanha culpa, porque te amo muito, e muito +preso a minha dignidade, e a minha palavra. Proença sabe que é teu noivo. Fui +eu que lh'o disse, e basta.</p> + +<p>«Sou honrado, minha filha; e, como não tenho outra herança a legar-te, faço +quanto posso por te deixar em<span class="pn">{191}</span> posição de a +receberes, e guardares, como eu a recebi e guardei. Á mulher pobre é mais +difficultoso manter-se no decoro. Os appellidos de teu pai nada valerão, se os +não fizeres resplandecer nesse invejado posto de honra, que se esteia nos bens +da fortuna.</p> + +<p>«A virtude pobre é uma virtude obscura, que, nestes tempos de egoismo e +pompa, se a não soffrea a rédea da religião, troca de bom grado os seus fóros +de honra ignorada pela ostentação brilhante do vicio. O que eu tenho querido é +rodear-te dos bens passageiros e miseraveis que o vulgo venera para que as tuas +virtudes deem assim nos olhos das pessoas que não são vulgo.</p> + +<p>«Eu não sou d'aquelles pais, que aconselham a desobediencia aos filhos +alheios, e lhes dão um logar na sua sege, cuidando que assim os poupam á +deshonra e ao crime... Maria Maldonado...</p> + +<p>«Leocadia estremeceu, erguendo piedosamente os olhos para o coronel. Nesse +olhar, disse ella que implorára o respeito de seu pai ao amor d'aquella mãi.</p> + +<p>«Maria Maldonado—proseguiu elle entendendo o olhar da filha—parece que +renegou da virtude que foi até hontem a conselheira de todas as suas acções. +Praticou um feito que a desabona, embora seu filho, por ser criança, tenha ido +chorar no seio d'ella, como menino amuado pelas travessuras dos irmãos.</p> + +<p>«Leocadia, suffocada pelos soluços, apiedou o pai, que não teve animo de +continuar. Dando-lhe o braço, passeou com ella, e as poucas palavras que lhe +disse eram brandamente conciliadoras. Levou-a para longe da madrasta, cuja +aproximação a fizera empallidecer. Pediu-lhe que se esforçasse por não +denunciar a scena violenta que se dera entre elles. Leocadia fez quanto podem +humanas forças. Mentiu ás averiguações de Proença com um sorriso, que tanto +podia ser timidez, como ironia. Gervasio foi prodigo de carinhos a sua filha +durante aquelle dia, e lançava um<span class="pn">{192}</span> olhar de revez a +sua mulher, quando esta, ferida de reflexo no amor proprio de seu filho notava +a frieza com que Leocadia lhe acolhia os ditos arguciosos.</p> + +<p>Agora me ensina tu, ó musa, o que o coronel Gervasio disse a Maria +Maldonado.</p> + +<p>Ás dez horas e meia entrou D. Maria na sua sege, e disse a seu filho, +teimoso em acompanhal-a de longe, que a não seguisse.</p> + +<p>Juntamente com ella, entrou o capellão da casa, padre velho, que resmungára +longo tempo contra a crueza de o não deixarem deitar ás nove horas, por causa +d'uma expedição em que elle não fôra consultado.</p> + +<p>Eram trezentos passos da casa de Vasco á do coronel. D. Maria fez parar a +sege defronte do mosteiro de Santa Anna, e foi com o padre collocar-se poucos +passos distante da casa de Leocadia.</p> + +<p>Esperaram um quarto de hora, sem ouvirem rumor nas portas da casa. +Precisamente ao soarem onze horas, um vulto se avisinhou de D. Maria, e ousou +metter-lhe a cara, que ella procurava esconder nas costas do padre atrapalhado.</p> + +<p>«Não se esconda, snr.ª Dona... (disse o coronel) Não pronunciarei o seu +nome, minha senhora, porque ouço sempre com reverencia pronunciar o nome de seu +defunto marido, e não quero que possa alguem saber que a mulher do meu general +está parada n'uma rua de Lisboa ás onze horas da noite.</p> + +<p>D. Maria estava em tremuras, como se a surprehendessem n'um crime. As +palavras do coronel tinham só o tom urbano a neutralisar-lhes o agro da ironia, +e o virulento da reprehensão. O padre estava naturalmente de bocca aberta, como +quem diz «eu não dei para isto prego nem estopa.» Não lhe occorria idéa alguma +á attribulada senhora, quando o coronel, offerecendo-lhe o braço, disse:</p> + +<p>«Não a convido a entrar em minha casa, snr.ª D.<span class="pn">{193}</span> +Maria, porque em minha casa não está senhora alguma. Se v. exc.ª, porém, me +permitte acompanhal-a á sua, ou seguir a sua sege, receberei a honra de lhe +dizer duas palavras.</p> + +<p>—Aceito o offerecimento...—disse D. Maria reanimada pela confiança que pôz +no dom persuasivo das suas palavras sobre a vontade pertinaz do coronel.</p> + +<p>Na sege não cabiam tres pessoas. O coronel disse que iria a pé. O padre +parecia, por seu silencio, consentir em ir como viera; D. Maria, porém, disse +ao padre que cedesse o seu logar.</p> + +<p>O capellão sorveu uma pitada de simonte, puxou para as orelhas a gola do seu +capote de castorina parda, e lá foi de seu vagar, ruminando philosophicamente +aquella diabrura.</p> + +<p>Poucas palavras deram um ao outro, na sege. Quando esta parou, ouviram-se +passos velozes saltando as escadas. O coronel apeára para dar a mão a D. Maria. +Vasco surgia no limiar do portão justamente no instante que sua mãi entrava +pelo braço do coronel.</p> + +<p>O nosso amigo recuou estupefacto, e soltou uma interjeição de espanto, que +tanto podia ser <em>ah!</em> como <em>oh!</em> como <em>ui!</em></p> + +<p>Gervasio levou a mão ao boné, e disse risonho:</p> + +<p>«Boas noites, snr. Vasco... Acha-me, talvez, muito barbado para noiva?!</p> + +<p>D. Maria apertou-lhe o braço, murmurando:</p> + +<p>—Não zombe do infortunio, snr. Gervasio... Eu tenho direito a esperar a +continuação da sua delicadeza...</p> + +<p>«É um direito de que eu a não privarei, minha senhora. Serei delicado com o +filho como o fui com a mãi... Por isso mesmo, rogo a v. exc.ª que mande seu +filho assistir ás duas palavras que devo dizer-lhe.</p> + +<p>—Vem, filho...—murmurou D. Maria, ao mesmo tempo que o coronel estendia +affectuosamente a mão a Vasco, bastante pundonoroso para regeital-a.<span +class="pn">{194}</span></p> + +<p>«Recusa?!—disse o pai de Leocadia, franzindo a testa com sobranceria +militar.</p> + +<p>—Então, Vasco?!—acudiu D. Maria, movendo o filho a curvar-se com humildade +diante do coronel.</p> + +<p>«Quer que subamos, snr.ª D. Maria, ou mesmo aqui me escuta?—disse Gervasio +com mal disfarçado azedume.</p> + +<p>—Não, senhor, subamos. Vens comnosco, Vasco?</p> + +<p>«Se minha mãi ordena...</p> + +<p>—Ordeno, sim.</p> + +<p>Já na sala de espera, o coronel, dispensando entrar na immediata, fallou +assim:</p> + +<p>«Eu disse com cordial sinceridade ao snr. Vasco, em minha casa, que minha +filha, pelo facto de ser minha filha, não podia ser sua mulher. Não lh'o disse +com esta rudeza, porque o sentimento que seu filho dedica a Leocadia é +respeitavel, em quanto está dentro dos limites que a honra prescreve a +cavalheiros que se abonam de appellidos, synonimos da honra e da probidade.</p> + +<p>«O snr. Vasco sahiu de minha casa promettendo-me não desmerecer da opinião +em que o tive. Maravilhou-me a coragem da virtude em annos tão verdes! +Pareceu-me vêr n'este pequeno corpo a grande alma do bravo que lhe deu o +nascimento.</p> + +<p>«Pesa-me dizer que me enganei, e o snr. Vasco deve esconder a face +envergonhada diante de mim, e cortar essa mão que ainda agora hesitou apertar a +minha, que lhe offereci com demasiada generosidade, ou pouco brio. Se o +pundonor devesse aconselhar a algum de nós o despreso, o despresivel de certo +não seria eu, porque o enganado, o atraiçoado não é v. exc.ª, snr. Vasco da +Cunha.</p> + +<p>«Adiante: e não se estorça, escutando-me, snr.ª D. Maria: eu estou de certo +contando a v. exc.ª uma novidade.</p> + +<p>—Duvido que meu filho...—interrompeu a pobre mãi.<span +class="pn">{195}</span></p> + +<p>«Duvida que seu filho?...</p> + +<p>—Promettesse a v. exc.ª renunciar ao amor de sua filha...</p> + +<p>«Eu não disse tal. Quiz dizer que o filho de v. exc.ª me prometteu desviar +as suas attenções de minha filha, de modo que ella não conspirasse contra a +minha vontade. Snr. Vasco, isto é exacto?</p> + +<p>Vasco não respondeu: lançou a sua mãi um olhar de tortura intima, um olhar +que pedia um pretexto para elle sahir d'alli. O que se passava no coração do +infeliz moço não sei contal-o. Inferno?... inferno, sim, que nenhuma religião +inventou ainda, devia de ser!</p> + +<p>Se o examinassem de perto, vêr-lhe-hiam coberta a fronte d'um glacial suor. +Todo elle tremia como sacudido pelos embates que o coração lhe dava no peito. +Uma só idéa, synthese horrivel de todas, o predominava então: o desejo de +morrer logo alli.</p> + +<p>A infeliz mãi comprehendeu tudo, viu tudo, sentiu tudo!</p> + +<p>Pediu licença ao coronel, ergueu-se, tomou a mão do filho, e disse-lhe:</p> + +<p>—Vai para o teu quarto, Vasco. Eu não me demoro aqui... lá vou ter já.</p> + +<p>Vasco sahiu, curvando ligeiramente a cabeça, quando passava diante do +coronel.</p> + +<p>«Pobre criança!...» disse comsigo o pai de Leocadia; e nestas palavras +dissera tudo o que nós poderiamos dizer e sentir em largos commentarios.</p> + +<p>Pobre criança, sim, que não soube erguer a fronte, embora marcada com o +stygma da deslealdade, e dizer ao seu accusador e juiz: «mentes» Pobre criança, +que não sahiu d'alli a procurar duas testemunhas, que, no dia seguinte, o +vissem morrer ás mãos do coronel, ou cravar um florete no seio onde se embalara +Leocadia! Pobre criança, que succumbiu, como succumbe a honra ferida pelo +remorso,<span class="pn">{196}</span> á reprehensão do tyranno que lhe vem +diante de sua mãi, lançar em rosto a ignominia da perfidia!</p> + +<p>Ausente Vasco, D. Maria voltando-se com senhoril altivez para o coronel +disse:</p> + +<p>—Pouco mais terá que me dizer, creio eu.</p> + +<p>«Pouco mais, minha senhora; mas esse pouco é importante.</p> + +<p>—Se é uma censura ao meu procedimento, digne-se omittil-a, por que sou eu a +propria que me censuro.</p> + +<p>«Então, snr.ª D. Maria, disse tudo. Faltava-me perguntar-lhe se posso viver +em paz com a minha familia. Visto, porém, que v. exc.ª se reprehende pela parte +inconveniente que tomou nos amores do snr. Vasco, posso retirar-me com a +certeza de que fica suspensa a sua correspondencia com a minha filha.</p> + +<p>—A minha? interrompeu ella.</p> + +<p>«A de v. exc.ª, queria eu dizer.</p> + +<p>—E eu digo a v. exc.ª—replicou D. Maria sensivelmente agastada—que sou +mulher, e não posso dar ás suas ironias uma resposta condigna.</p> + +<p>O coronel soltou um frouxo de riso, cuja intenção é difficil entender. Era +um destes risos <em>subjectivos</em>, (concedam o epytheto) cuja imagem está +dentro da pessoa que ri.</p> + +<p>D. Maria, enraivecida pela desconsideração, interrogava-o com um olhar +soberbo. O coronel, erguendo do pavimento a espada, e sobraçando-a, inclinou +profundamente a cabeça, recuou até á porta, e disse:</p> + +<p>«Muito boas noites, minha senhora.»</p> + +<p>Ora aqui está o que se passou, até que o coronel entrou no camarote.<span +class="pn">{197}</span></p> + +<h2>XIV.</h2> + +<p>Quinze dias depois ha um convite para casa do coronel: janta-se, e dança-se; +festeja-se o casamento da sympathica Leocadia com o morgado de Sinfães, +Francisco de Proença.</p> + +<p>Alto lá, senhor romancista! Não se escreve assim um romance. Vossê assim +desacredita-se, e ámanhã não tem quem o leia. Quando a gente cuida que está no +melhor do romance, o bom do homem, mette-se em duas semanas n'um carril a +vapor, e vêl-o ahi vai levado com a historia no sacco de noite, de maneira que +uma pessoa, que lhe faz o favor de o lêr, pedindo o livro emprestado, fica sem +saber o que fez Leocadia, o que fez Vasco, o que fez a mãi, a madrasta, o +noivo, o que fizeram todos, durante quinze dias! Isto é uma escandalosa +empalmação!</p> + +<p>Senhoras e senhores meus, v. exc.<sup>as</sup> de certo conhecem muitas +meninas na posição de Leocadia. Posição trivialissima, aliás. É uma pobre +rapariga a amar um homem pobre; mas tem um pai a querer casal-a com um homem +rico. Chora, arrepella-se, promette matar-se, se a<span class="pn">{198}</span> +morte não vier espontaneamente. O pai teima, o homem rico teima, o homem pobre +não póde teimar, ainda que queira. Por fim, a menina faz a vontade ao pai, ao +noivo rico, á sociedade torpe, casa e dança por comprazer no dia em que casa, e +almoça com pouco appetite, no dia seguinte, com mais algum no outro dia, e +assim successivamente, até engordar. Isto é muito simples, e muito rotineiro, +não é verdade?</p> + +<p>É. Então de que se espantam, se eu lhes digo que uma mulher, de carne e osso +como v. exc.<sup>as</sup>, fez o que v. exc.<sup>as</sup> fizeram, viram fazer, +ou farão?</p> + +<p>Alto lá! tambem eu digo. A minha pobre Leocadia, se hoje vivesse, e lesse +essa pagina infanda que ahi fica, cobril-a-hia de lagrimas de remorso por me +haver feito seu confidente. Perdôa-me, minha santa amiga! Eu tive-te um +instante suspensa por uma hypothese cruel sobre o charco em que patinham muitas +georgianas de chinellos, que por ahi se vendem para o harem de sujos pachás, +que ao passarem a linha, lavaram a cara dos ferretes de sangue com que sahiram +do açougue humano.</p> + +<p>Se eu fizesse uma criminosa omissão de tuas lagrimas, o mesmo seria +pisal-as, Leocadia.</p> + +<p>Se eu te rebaixasse a transigires com o dinheiro de teu marido, +mascarando-te com a obediencia filial, daria comtigo regalo e galardão a estas +mulheres de almoeda, que, na alma, não valem mais que as de Babylonia, e no +corpo não valem tanto.</p> + +<p>Não, espirito que me vês da tua gloria, eu contarei as tuas lagrimas; e, se +não rasgo as paginas que escrevi, estremal-as-hei por um traço negro das que tu +me segredaste nas fugitivas noites em que este gemer do mar, que ouço agora, +vinha casar um murmurio melancolico á tua narração.<span +class="pn">{199}</span></p> + +<h2>XV.</h2> + +<p>Leocadia era vigiada por toda a familia. Triste, sombria, e taciturna, +causava suspeitas ao coronel, que postára militarmente o auxiliar, de +sentinella, no pateo, de dia e de noite.</p> + +<p>Quasi sempre no seu quarto, Leocadia meditava fugir. Não achava, porém, o +exito feliz dos seus planos. A fuga pela porta, unica evasiva que tinha, era +impossivel. Desanimada, toda a sua valentia moral reservou-a para dizer «não +quero» logo que seu pai a mandasse vestir-se para ir receber a benção nupcial. +Firme neste proposito, esperava, com coragem e juramento de morrer, a hora da +lucta horrivel, a formal desobediencia, todas as torturas que podesse +inflingir-lhe o pai irritado.</p> + +<p>Tinham decorrido dous dias depois do passeio a Campolide, quando uma antiga +criada, que já o fôra da primeira mulher de Gervasio, voltou da provincia, onde +fôra visitar os seus parentes. Esta criada era aquella Thereza, que eu vi na +Foz.</p> + +<p>A situação de Leocadia melhorou, porque Thereza<span class="pn">{200}</span> +chorava com ella, aconselhando-lhe ao mesmo tempo obediencia a seu pai. O +coronel, tambem amigo da velha criada, pedia-lhe que desvanecesse com suavidade +do coração de sua filha uma paixão que fazia a infelicidade de todos.</p> + +<p>Thereza não podia tanto. Conheceu as intenções da menina, e disse-as ao +coronel, affirmando-lhe que ella se deixaria matar, mas casar, não.</p> + +<p>Depois de cinco dias de desgostos para o pobre pai, e de irritações +orgulhosas da madrasta, e suspeitas más de Francisco de Proença, e continuadas +lagrimas e reclusão de Leocadia, o coronel queixou-se de violentas dores de +cabeça, e febre.</p> + +<p>Apenas se recolheu á cama, Leocadia foi sentar-se á cabeceira do seu leito. +Quando os medicos disseram que se declarava uma febre maligna, o sobresalto +operou uma subita mudança nas maneiras de Leocadia.</p> + +<p>O sentimento desvaneceu-se. Quantas caricias uma boa filha tem no coração +todas ella empregou para adoçar as amarguras do pai enfermo.</p> + +<p>O coronel queixou-se de serem desgostos moraes, causados por ella, os que o +tinham levado áquelle extremo. Leocadia lançou-se aos braços febris de seu pai, +pedindo-lhe perdão, e voltou-se a Nossa Senhora, promettendo sacrificar-se ao +homem que lhe destinavam se seu pai recuperasse a saude. O coronel não ouvira o +voto, mas adivinhou o silencio de sua filha.</p> + +<p>Ao setimo dia a febre recrudesceu. Eram curtos os intervallos da lucidez que +o delirio lhe consentia. N'um d'esses intervallos, o enfermo chamou sua filha, +e disse aos assistentes que se retirassem.</p> + +<p>Pungentes palavras foram estas:</p> + +<p>«Leocadia, creio que morro. Deixo-te, minha filha, n'um mundo que não +conheces. Parto, e tu ficas só. Quando eu fechar os olhos, fecharam-se para +sempre os unicos<span class="pn">{201}</span> olhos que te viam com amor. Ficas +sem parentes. De tua mãi, ninguem já vive. De teu pai, tens dous tios no +Brazil, que te não conhecem. Que farás tu, filha, quando me levantarem morto +desta cama?</p> + +<p>—Meu pai!—exclamou Leocadia com vehemente afflicção—meu querido pai, não +pense que morre...</p> + +<p>«Morro, filha, morro; e, se a minha agonia fôr trabalhosa, é o coração que +se despedaça, separando-se de ti... Sem ti, morria tranquillamente. Estou +cançado, porque nunca soube o que era a felicidade nesta vida; a da outra... a +da outra, meu Deus, vós sabereis se eu a mereci com a paciencia... Leocadia, +queres que eu acabe em paz, que eu expire abençoando-te?</p> + +<p>—Sim, sim, meu pai... quero que viva, abençoando-me!—bradou ella, +beijando-lhe as mãos afogueadas.</p> + +<p>«Então, filha, cumpre a minha vontade. Liga-te a esse homem que te ha-de +estimar, porque eu lh'o pedirei á minha ultima hora. Tu has-de ser feliz com +elle; has-de olhal-o sempre como o amigo que teu pai moribundo te escolheu. Se +elle te der algum motivo de soffrimento, quem os não tem neste mundo?! Se +soffreres, offerece-me as tuas dores e eu virei em espirito agradecer-te o +sacrificio. Serás então consolada, filha, pela memoria de teu pai, que pensava +fazer-te venturosa, embora se enganasse. Responde-me, Leocadia... Casas com +Francisco de Proença?</p> + +<p>Leocadia tirou das entranhas um gemido, um soluço suffocante, e com elle uma +palavra que parecia a ultima da vida que vai n'ella:</p> + +<p>—Sim...—disse ella.</p> + +<p>O coronel, vencendo a fraqueza com grande esforço, pôde ainda sentar-se no +leito, alongando os braços para ella. A filha sustentava no hombro a cabeça +esvahida do enfermo, e refrigerava-lhe com lagrimas a mão convulsa.</p> + +<p>Seguiram-se minutos de silencio. Ouvia-se apenas o soluçar de ambos.<span +class="pn">{202}</span></p> + +<p>O coronel desprendeu-se dos braços da filha, e pendeu a cabeça para o +travesseiro. O sangue batia-lhe vertiginoso nas frontes. As palpebras +cerraram-se. Phrases interrompidas sahiam-lhe dentre os labios seccos e quasi +immoveis. Leocadia, assustada, chamou gente. A madrasta, vendo o lethargo do +marido, voltou-se para a enteada e disse com rancor:</p> + +<p>«Quem mata meu marido é a senhora!</p> + +<p>Veja a que estado o reduziu! É uma parricida snr.ª D. Leocadia!</p> + +<p>Ha-de dar terriveis contas a Deus de ter arrastado seu pai á sepultura... É +uma filha amaldiçoada!»</p> + +<p>Leocadia, não teve animo para responder-lhe. Pôz os olhos em seu pai, e +disse-lhe em seu coração: «Vós bem sabeis que não é verdade o que ella diz!» e +sahiu, apertando a cabeça com as mãos.</p> + +<p>A medicina cobriu de causticos o doente. Os tormentos deram-lhe com a +irritabilidade uma vida de emprestimo. Dous dias se seguiram de esperanças, +porque o delirio era menos frequente, e alguns instantes de dormir tranquillo +vieram reparar-lhe as forças.</p> + +<p>O coronel chamou a filha, tendo ao pé de si Francisco de Proença, e sua mãi.</p> + +<p>Á cabeceira d'elle estava um crucifixo e duas luzes. Eram os preparatorios +para o recebimento da extrema-uncção. O enfermo pedira um confessor, que se +achava já no quarto.</p> + +<p>«Aproxima-te desta cruz, Leocadia—disse elle com energia—snr. Francisco de +Proença, eu entrego-lhe, minha filha. Comprehende o senhor a valia deste +thesouro que lhe entrego? Sabe como eu queria que o senhor amasse esta +creatura?</p> + +<p>—Amal-a-hei quanto se póde amar nesta vida... disse Proença, sentindo +eriçarem-se-lhe os cabellos, commovido pela religiosidade do acto.<span +class="pn">{203}</span></p> + +<p>«Minha filha, ajoelha diante de Deus que nos escuta, e pede-lhe que faça +duraveis os bons sentimentos no coração de teu esposo, e que te faça a ti +sempre digna d'elles.</p> + +<p>Leocadia ajoelhou, e Francisco de Proença, arrebatado pelo bello funebre do +lance, ajoelhou a par com ella.</p> + +<p>E oravam todos mudamente. O coronel tinha as mãos erguidas. O padre +confessor, quebrou o silencio, erguendo-se, e tomando as mãos de Leocadia.</p> + +<p>«Estão accesas as luzes do altar.</p> + +<p>A menina prepare-se, que eu quero ter o jubilo de ser o ministro deste +sacramento! Que união de tão bom agouro... Vamos, filhos.»</p> + +<p>O frade graciano enchia a poesia santa do grupo!</p> + +<p>Leocadia sahiu com sua madrasta.</p> + +<p>Parecia somnambula. Julgal-a-hieis sem idéa, sem vontade, sem consciencia do +que fazia. Vestiram-na. Entrou n'uma sege, achou-se ajoelhada no arco d'uma +igreja, respondeu umas palavras que lhe ensinaram, e viu-se sosinha com um +homem, na sege, onde viera com sua madrasta.</p> + +<p>Conduziram-na ao quarto de seu pai. A vida então sahiu do lethargo. Leocadia +achou abertos os braços paternaes para recebêl-a. Lançou-se a elles chorando, +soluçando, arquejante, abafada por uma agonia, cuja intensidade ella não pôde +explicar-me. O que me disse, para eu alcançar com os olhos d'alma a sombra da +sua dôr, foi que, abraçando o pai na volta da igreja, se lhe figurara a imagem +moribunda de Vasco, fitando-a com um olhar piedoso, em que parecia dizer-lhe: +«perdoo-te a morte, Leocadia.»</p> +<hr class="dotted"> + +<p>O coronel sobreviveu quatro dias aos desposorios de sua filha.</p> + +<p>O festim de nupcias foi um funeral.</p> + +<p>A noticia do casamento foram as cartas de enterro.</p> + +<p>A noiva despiu o vestido branco para se envolver no de crepe que nunca mais +despiu.<span class="pn">{204}</span></p> + +<h2>XVI.</h2> + +<p>O pinhal do <em>Pastelleiro</em> rumorejava brandamente, assoprado pelo ar +da noite. O mar era uma immensa bacia d'aguas mortas. A lua mosqueava-lhe o +dorso em escamas lucidas. O archanjo da poesia com o seu cortejo de chimeras +volateis, brincava na alamêda das fontes murmurosas, gemia com o piar tristonho +das aves queridas da noite, e sentava-se na peanha dos cruzeiros, que a +projecção da luz assombrava no chão.</p> + +<p>Eu estava profundamente melancolico. E ao pé de mim viera sentar-se +Leocadia, na pedra bruta, que ainda hoje vereis, servindo de tranqueira a uma +cancella fronteira da casa.</p> + +<p>Acabára eu de ouvir o quadro que apenas esbocei no anterior capitulo.</p> + +<p>A narradora calara-se, e eu não ousára quebrar o seu religioso silencio.</p> + +<p>Eu bem vira que as suas palavras derradeiras eram um como tremulo gemido. +Sentira vibrarem-lhe afflictivamente<span class="pn">{205}</span> as fibras do +coração, como se as ferisse a realidade dos successos que a gentil martyr +recordava.</p> + +<p>E, por isso, o meu silencio era a expressão da pena, o pasmo em que nos +deixa um espectaculo lugubre. Eu tinha em mim todas aquellas imagens, +descriptas por ella como quem as entalhára com fogo no coração. Via o altar do +tremendo sacrificio, via o leito do agonisante. As feições do coronel, +apanhadas pelo regêlo do trespasse, essas, que eu nunca vira, todas se me +desenharam na imaginação, sempre fertil de creações funebres. Ao pé de mim +estava a heroina desta tragedia, ainda formosa, ainda opulenta de encantos, +flôr orvalhada das lagrimas do céo para onde ella mandava continuamente o seu +perfume.</p> + +<p>Que mulher é esta que eu encontrei na terra, para apertarmos as mãos n'um +adeus para sempre?</p> + +<p>Que attribulada expiação a da minha alma que só póde chorar as penas d'ella!</p> + +<p>Não póde amar-me, não; eu sei que não póde, e offertar-lhe o meu amor seria +injuriar a sua saudade!</p> + +<p>Para que te encontrei eu, santa!</p> + +<p>Estas ultimas palavras fugiram-me, como a revelação d'um sonho. Leocadia +tocou-me ligeiramente no hombro, e disse:</p> + +<p>«Que é? Não sei o que disse...</p> + +<p>—Nada dizia—repliquei eu—Sonhava, minha querida irmã, sonhava. Sabe, +minha amiga? Está-me pesando a vida. Não sei o que ha-de ser de mim... quando a +perder. Abençoada seja a mão da morte, que baixou a apanhar de entre os felizes +do mundo os que vieram com o condão da minha desventura.</p> + +<p>«Porque, meu amigo?!</p> + +<p>—Porque entre nós ha só de commum a confidencia d'algumas horas, a +confidencia que não modera os impetos d'um desgraçado amor...</p> + +<p>«Oh! não diga, não diga isso outra vez...—atalhou<span +class="pn">{206}</span> Leocadia pondo-me a mão nos labios—Tenha pena de +mim... Chame-me sua irmã, senão arrependo-me, sinto o primeiro remorso da minha +vida...</p> + +<p>Beijei-lhe a mão, e murmurei:</p> + +<p>—Até ámanhã.</p> + +<p>«Sim? até ámanhã? quem sabe se nos veremos! De um momento para o outro posso +ser mudada... E eu queria, meu irmão, queria acabar hoje a minha historia. Não +sei que presagio me diz que não teremos outra noite assim... Mais alguns +minutos... diz-se depressa o que falta... Quer?</p> + +<p>—Diga, diga, Leocadia; mas faça um juramento.</p> + +<p>«Juramento! qual?</p> + +<p>—Qualquer que seja o seu destino, se tiver vida, se tiver um instante seu, +lembre-se de seu irmão, escreva-lhe uma palavra, uma só «vivo» só isto... jura?</p> + +<p>«Prometto, meu amigo, e não faltarei... E se lhe disser «morro» é que Deus +me chamou para ao pé de Vasco...</p> + +<p>—Sim, sim, falle-me desse infeliz que a chama, desse amigo que a minha +imaginação contrahiu... Morreu, sim?... e que morte!...</p> + +<p>«Eu quasi que o vi morrer.</p> + +<p>—Viu?! É horrivel, meu Deus!</p> + +<p>«Foi assim. Oito dias depois da morte de meu pai, Francisco de Proença +perguntou-me se eu queria ir para o campo. Entreguei-me á sua vontade. Minha +madrasta desejava sahir de Lisboa, para desafogar da sua saudade. Fomos para +uma quinta entre Cintra e Collares.</p> + +<p>«Estavamos ahi havia um mez. Thereza, a meu pedido, escrevêra para Lisboa a +quem a informasse de Vasco. Disseram-lhe que elle e a mãi estavam a ares em uma +das quintas. Eu pedia por elle a Nossa Senhora todos os dias, muitas vezes, e +com immensa fé.</p> + +<p>«Uma tarde, Francisco de Proença fôra á caça, e eu fui com Thereza passear +para a banda de Collares. Havia no caminho uma azinheira, um sitio que +respirava saudade,<span class="pn">{207}</span> entrei por alli dentro, e fui +ter a um portão de quinta, que tinha uma grande arvore. Sentei-me áquella +sombra, vendo cahir as folhas, e comparando-as á queda de tantas, de todas as +minhas esperanças. Estava assim absorvida, bebendo as doçuras do meu fel, +quando o portão se abriu. Estremeci... Era um padre que sahia... o padre +capellão de D. Maria Maldonado!</p> + +<p>«Elle fixou-me com espanto, e apenas me cortejou; esteve um pouco a +olhar-me, e disse:</p> + +<p>—A menina não é a snr.ª D. Leocadia?</p> + +<p>«Sou, sim, senhor.</p> + +<p>—Então que faz por estes sitios?! disse elle admirado.</p> + +<p>«Vim a passeio... Moro n'uma quinta perto d'aqui.</p> + +<p>—Pois se quer entrar, eu dou parte á snr.ª D. Maria.</p> + +<p>«Como!?—exclamei eu—a snr.ª D. Maria Maldonado?!</p> + +<p>—Sim, minha senhora, está aqui com o snr. Vasco—disse-me elle—e o snr. +Vasco vai dar contas a Deus brevemente.</p> + +<p>«Meu Deus! eu não posso lembrar-me do que então disse ou fiz. Entrei n'uma +tremura de susto, de terror, de não sei que tormento novo para mim. Conheci que +me fugia o entendimento, e a vista. Queria tirar-me d'alli, e não podia; ainda +pedi a mão a Thereza, e já não pude dar passada. Desfalleci nos braços d'ella.</p> + +<p>«Voltando á vida, que a justiça de Deus não quiz levar-me, achei-me sentada +n'um banco de pedra, n'um jardim. Ao pé de mim estava D. Maria. Fiz um esforço +por ajoelhar-me aos pés d'ella. Susteve-me; e chorava, meu Deus, como chorava a +pobre senhora!</p> + +<p>«É a vontade de Deus... disse-lhe eu, que aqui me trouxe. Queria vêl-o, +minha querida mãi, diga-lhe que a mão do Senhor me conduziu aqui para receber o +seu perdão... Mas eu não sou culpada... Meu pai estava a expirar... Morreria +atormentado...» Ai... eu não sei o que<span class="pn">{208}</span> disse, +entre gemidos... D. Maria olhava-me com ar de compaixão, e consultava os olhos +do padre. Este acenava negativamente. Não queria que eu visse Vasco... E eu +estava de joelhos aos pés de D. Maria, quando ouvi proferir o meu nome, n'um +grito. Olhei... era Vasco, abrindo uma vidraça. Era elle, livido como um +espectro vestido de branco, com os olhos abrasados de delirio... A janella +cahiu, Vasco desappareceu, e o padre subiu a correr umas escadas, em quanto D. +Maria sustinha o meu arrebatamento. «Deixe-me, deixe-me vêl-o!» rogava eu, +allucinada, louca de paixão, capaz de matar-me alli, se me não deixassem ir!</p> + +<p>«Ao cimo da escadaria, o padre encontrou-se com Vasco. Não o conteve; +desceram ambos atropelladamente. E o meu infeliz anjo exclamou: «Vieste para +mim, minha esposa?... Eu esperava-te, esperava-te, como se espera a salvação.»</p> + +<p>«E eu rompi n'um choro que era sentir-me morrer. O desgraçado não sabia que +eu estava casada!</p> + +<p>—Falla, falla!—gritava elle—vens ser minha esposa? fugiste a teu pai? +esse tyranno teve compaixão de nós?—Cala-te, meu filho!—exclamava D. Maria... +Estás enganado! «Enganado! pois esta não é a minha esposa?!»</p> + +<p>«O padre tomou-o pelo braço, e exclamou:</p> + +<p>—Não, não é sua esposa... é esposa d'outro que seu pai lhe +destinou!—«Vasco soltou um terrivel grito, levou as mãos á face, e foi cahir +nos braços de sua mãi... «Matai-me, meu Deus!» exclamou elle.</p> + +<p>«Agora—proseguiu Leocadia arfando convulsivamente—peço-lhe eu que vá, meu +amigo, não posso continuar... Estou doente... Adeus... Se eu não podér +fallar-lhe, ha-de lêr o resto da minha historia.»</p> + +<p>Leocadia entrou encostada ao meu braço em sua casa. Eu fiquei alli não sei +que tempo entorpecido. Quando me retirei, alvorecia a manhã.<span +class="pn">{209}</span></p> + +<h2>XVII.</h2> + +<h3>O CARACTER DE FRANCISCO DE PROENÇA.</h3> + +<p>É preciso virmos procural-o aos nossos ultimos annos.</p> + +<p>Em 1828 o homem não era ainda feito á similhança do typo, que mais o +encantára, no romance.</p> + +<p>Depois de 1834, é que as bibliothecas de novellas entraram por aqui dentro a +fecundar este chão bravio, como extravasantes do Nilo.</p> + +<p>Era necessario ser-se excentrico, desde o ventre materno, para ser romantico +em 1828.</p> + +<p>Francisco de Proença representa a vanguarda dos descabellados em Portugal.</p> + +<p>Desde criança, merecêra pelas suas escaramuças sanguinarias aos coelhos, o +cognome de «Attila de coelheira.»</p> + +<p>Em Coimbra, chamavam-lhe o <em>chevalier sans peur et sans reproche</em>.</p> + +<p>A sua principal mania era o brasão. Estava apparentado com as primeiras +casas da monarchia, por um tal Egas, filho de Mem, neto de Fuas, e bisneto de +Ruy que<span class="pn">{210}</span> acompanhára D. Henrique a Cárquere, a +cumprir um voto d'uma perna torcida.</p> + +<p>Depois, e em consequencia d'esta mania, tinha um requinte de brios que lhe +custou muito puxão d'orelha.</p> + +<p>Desafiava a espadão todo o mundo, e quiz mandar um cartel a um doutor +octogenario que o reprovou em mathematica.</p> + +<p>Na primeira carta a um namoro que tivera assignava-se o <em>commendador +Francisco de Proença</em>. A menina riu-se, e o fidalgo, no adro d'uma igreja, +perguntou-lhe se os trabalhos da cozinha a não deixaram responder.</p> + +<p>Tinha destas cousas.</p> + +<p>Os seus bens de fortuna não eram o que elle precisava que fossem para +sustentar o seu orgulho.</p> + +<p>Aceitou a mão da filha de seu padrasto, porque a paixão o acolheu de subito. +Leocadia, com o seu desdém, pisára-lhe a soberba. Proença foi vencido pelo +desprezo.</p> + +<p>Sua mãi, de mais a mais, dissera-lhe que Leocadia era a presumptiva herdeira +de dous tios millionarios que tinha na America.</p> + +<p>O <em>dinheiro commercial</em> não lisongeava o fidalgo; todavia, esta +repugnancia pôde vencel-a o amor.</p> + +<p>Casou, e não se póde dizer se tractou bem ou mal sua esposa. Estas +differenças são as mulheres que as notam, e Leocadia recebia com tedio +disfarçado as amabilidades de seu marido.</p> + +<p>Para o não detestar, tinha sempre entre si e elle a imagem de seu pai +moribundo, e o crucifixo do juramento.</p> + +<p>Leocadia habituára-se a viver fóra do seu corpo... A alma voava livre onde a +chamava a saudade; a materia era a victima sacrificada. Deste modo, +affazer-se-hia ao captiveiro, sem sondar a indole d'um homem que a chamava sua.</p> + +<p>O traço, porém, mais caracteristico da indole romanesca de Francisco de +Proença, vai descobril-o um infeliz acontecimento.<span class="pn">{211}</span></p> + +<p>Quando Leocadia sahia, encostada ao braço do capellão, o portal da quinta +dos Maldonados, Francisco de Proença, vindo da caça, atravessava a azinhaga, +assobiando aos perdigueiros.</p> + +<p>Leocadia presente-o, e quer esconder-se; mas era tarde. Proença pára +estupefacto, e Leocadia pára tambem. O fidalgo, que não conhecia o padre, +interroga-o:</p> + +<p>«Quem é o senhor?! Como se acha aqui a senhora?!</p> + +<p>O padre tartamudeou:</p> + +<p>—Eu sou capellão d'esta casa.</p> + +<p>«Que casa é essa?</p> + +<p>—De uma minha amiga—balbuciou Leocadia.</p> + +<p>«É admiravel que eu não conheça as amigas da senhora! Como se chama essa +amiga?</p> + +<p>O padre, aterrado pelo olhar soberano de Proença, disse:</p> + +<p>—É a snr.ª D. Maria Maldonado.</p> + +<p>O cavalheiro fixou attentamente sua mulher. Leocadia não levantava os olhos +do chão. A surpreza reduziu-a ao silencio, que confessa o crime, e é já em si +um principio de penitencia.</p> + +<p>«Vamos, senhora!—disse Proença.</p> + +<p>Decorreram tres dias, sem que Leocadia visse seu marido. Procurou-o, +deliberada a convencêl-o da sua innocencia com a sincera historia do seu amor +áquelle homem. Proença soubera tudo de sua mãi, e furtava-se ao encontro com +sua mulher.</p> + +<p>Ao quarto dia, Leocadia foi avisada, da parte de seu marido, que preparasse +o seu bahú para viajar, com elle, no dia seguinte. Ella pediu uma entrevista a +Francisco de Proença. Respondeu-se-lhe que lá fóra teriam sobejas occasiões. +Replicou a infeliz que não podia, que estava muito doente. Disse-se-lhe que em +toda a parte havia uma sepultura.</p> + +<p>A comitiva dos viajantes era unicamente Thereza. Esta criada convinha ás +intenções do marido.<span class="pn">{212}</span></p> + +<p>Desembarcaram na Madeira. Durante a passagem, Leocadia nunca pôde prender a +attenção de seu marido dous segundos.</p> + +<p>Quinze dias depois do desembarque, Francisco de Proença apresenta-se, pela +primeira vez, em rigoroso lucto diante de sua mulher.</p> + +<p>—Quem lhe morreu?!—perguntou ella.</p> + +<p>«A senhora!</p> + +<p>—Como?! está delirando!</p> + +<p>«Quem morreu foi minha mulher—» tornou elle com uma visagem ridiculamente +tragica.</p> + +<p>—Pois se morri, eu vou morrer—disse ella com angelica mansidão—o Senhor +receba a minha alma.</p> + +<p>«A sua alma condemnada ha-de continuar a existir n'um corpo impuro.</p> + +<p>—Não quero entender a injuria—disse ella com firmeza—Antes a morte.</p> + +<p>«Morreu para mim; mas ha-de viver para o remorso. Eu sou viuvo, senhora. Em +Portugal ha-de saber-se que eu sou viuvo. A que foi mulher de Francisco de +Proença, terá de hoje em diante outro nome. A senhora jámais dirá que eu sou +seu marido: o punhal está sobre o seu seio esperando que essa palavra lhe passe +os labios. Dou-lhe a vida, porque vejo o coronel moribundo que me supplica este +heroismo...</p> + +<p>—E eu não aceito a graça—interrompeu Leocadia...</p> + +<p>«Pois então, ha-de supportal-a como castigo. A senhora tem uma mesada, para +viver onde queira, com tanto que a sua companhia unica seja essa criada que foi +de sua mãi. Tenho a generosidade de conceder-lh'a; mas, senhora, repare que eu +vou mostrar em Portugal a certidão do seu obito. No dia em que me desmentir, +matei-a!</p> + +<p>Leocadia pendeu a cabeça para o seio, e murmurou, sem lagrimas:<span +class="pn">{213}</span></p> + +<p>—Como quizer, senhor. Agora deixe-me em paz.</p> + +<p>«Ainda não. Na provincia de Traz-os-Montes tenho um casal, situado entre +quatro montanhas: Quer habital-o?</p> + +<p>—Sou sua escrava, senhor.</p> + +<p>«Sabe que de hora em diante perdeu o nome que tinha?</p> + +<p>—O que quizer, mas não posso ouvil-o.</p> + +<p>«Nem eu vêl-a mais; porque minha mulher morreu!»</p> + +<p>E retirou-se, solemne e sonoro nos passos, como a estatua de D. João +Tenorio.</p> + +<p>Aqui está o que se chama um homem romantico e uma mulher desgraçada.<span +class="pn">{214}</span></p> + +<h2>XVIII.</h2> + +<p>Se bem me lembro, já disse que Leocadia é o nome que a mulher de Francisco +de Proença adoptou, desde a scena do anterior capitulo.</p> + +<p>No decurso do romance, conservei esse nome, e já agora conserva-lo-hei até +final. Podéra ter-lhe dado pseudonimo; mas tão leal quero ser á verdade, que, a +não poder, por melindre e respeito, dizer o seu verdadeiro nome, escrupulisei +na invenção de outro.</p> + +<p>Leocadia, pois, sahiu da Madeira para Lisboa. No mesmo navio viera Francisco +de Proença, que, em todo o tempo da viagem, não deu signal de ser ao menos +relação de Leocadia. Sahiram para o Porto no primeiro hiate. D'aqui, D. +Leocadia e Thereza foram para a provincia. O morgado de Sinfães appareceu-lhe +na despedida. Terriveis e de eterna condemnação foram as suas palavras: «Vá, +sombra da mulher morta! vá, e veja sempre diante de si o punhal, que lhe espera +nos labios uma palavra só... o meu nome, o nome de seu marido viuvo!»</p> + +<p>A desgraçada quiz ajoelhar-se aos pés do seu verdugo.<span +class="pn">{215}</span> Proença repelliu-a com um tregeito de escarneo e asco.</p> + +<p>Leocadia foi viver no casal de seu marido. Era uma habitação mal reparada, +sumida entre quatro montanhas.</p> + +<p>Apenas chegou, foi recebida respeitosamente por um caseiro, que a reputava +irmã bastarda, ou rapariga das affeições de seu amo solteiro. Leocadia +perguntou a este homem porque estava a pedra de armas coberta de negro: +respondeu o caseiro, se ella ignorava que tivesse morrido a esposa do fidalgo! +Leocadia abraçou-se á criada, chorando, e disse: «É verdade... essa desgraçada +morreu...»</p> + +<p>O caseiro reparou n'isto, e disse á mulher que havia o quer que era de +historia nos modos da senhora que viera lá de por ahi abaixo.</p> + +<p>Leocadia entrou na cama, que lhe mostraram, e disse a Thereza que a sua +ultima paragem antes da sepultura era alli.</p> + +<p>Foi um chorar d'ambas de cortar o coração aos caseiros, que as escutavam.</p> + +<p>Era rapido o deperecer de Leocadia. Não se erguia do leito, e pedia a Deus +um paroxismo curto. O caseiro communicava para o Porto ao patrão o estado da +senhora. Não recebia resposta.</p> + +<p>Um dia, porém, appareceu na aldêa um homem que procurava D. Leocadia, com +ordem de Francisco de Proença. Este homem diz ser medico. Examina a enferma, e +diz-lhe que, por ordem da pessoa que alli a domina, deve immediatamente entrar +n'uma liteira com a sua criada; e acompanhal-o. Leocadia, quasi exanime, +obedece, sem saber a quem, nem para que fim.</p> + +<p>A liteira, depois de sete dias de jornada, parou no alto de S. João da Foz, +no sitio do Pastelleiro, onde eu, João Junior, encontrei Leocadia para ouvir de +seus labios convulsos de gemidos essa historia triste, que eu tive a impiedade +de conspurcar com algumas facecias de estragado gosto.<span +class="pn">{216}</span></p> + +<p>O que ella me não contou é o que me disse Thereza, alguns annos depois, +quando sua ama já era defunta, e o acaso m'a deparou n'um recolhimento, em uma +villa de Traz-os-Montes.</p> + +<p>Attendam agora, que ahi vai pendurar-se o romance no prégo philosophico com +que o intitulei: <small>DINHEIRO</small>. Vai-se tractar de dinheiro, leitoras +espirituosas; prestem-me a sua benevola attenção.</p> + +<p>Uma tarde passava eu no Pastelleiro; sahiu-me ao encontro a caseira da +quinta, e deu-me a triste nova de ter sahido, na madrugada d'aquelle dia, a +senhora para não tornar. Um homem novo, acrescentou a caseira, viera buscal-a, +e descera com ella pelo braço a escada, fallando-lhe com muito bom modo. Agora +vou fallar de mim um pouco.</p> + +<p>Eu fiquei esthetica e plasticamente parvo!</p> + +<p>Quem seria o homem?! O marido, de certo, não, porque o marido, até ao dia em +que falláramos, estava viuvo, e não tratava de resuscitar a mulher. Seria a +historia lamuriante uma logração á minha boa fé?! Seria ella uma visionaria, +uma douda, ou, peor que tudo, uma destas mulheres desabusadas que mangam dos +poetas da minha força?</p> + +<p>É impossivel! Leocadia deve ser necessariamente um anjo! É o marido que a +arrasta pelos cabellos ao cepo do martyrio. Alguem lhe disse que eu vinha aqui, +e o malvado não comprehendeu que eu era o sacerdote da mais santa das amisades.</p> + +<p>E, no afôgo da minha saudade, embrenhei-me por aquella bouça que lá verdeja +ao fundo, enchi meu coração de tenebrosas angustias, e pedi aos meus olhos o +chorar do desafôgo.</p> + +<p>Inutil, inutil foi o meu rogar, porque a minha dôr era como o encravar do +estilete que não sangra; eu tinha dentro o brazido do deserto, sem gotta de +pranto; era uma<span class="pn">{217}</span> contricção de matar, uma abafação +em que os pulmões, batendo contra o coração, pareciam espedaçar-se.</p> + +<p>E porque? É que eu amava muito aquella martyr, muito, com o amor tres vezes +immaculado do poeta. Não esperava d'alli senão a religiosa affeição da victima +paciente ao consolador que dera a sua vida inteira por um dia de ventura para +ella. Mais nada; porém, este pouco é o ar, o tempo, a luz, a bemaventurança do +desgraçado que encontrou na terra uma mulher como Leocadia, e uma paixão como a +minha.</p> + +<p>Tu viste, saudosa Poncia, que pranto ardente arou as minhas faces, no estio +da existencia!</p> + +<p>Nos tectos cavernosos do meu quartel reboaram longo tempo os eccos dos meus +soluços.</p> + +<p>Os meus dentes cerraram-se, como os do condemnado nas trévas inferiores, e +tres dias e tres noites a minha lingua não encanou o bolo alimenticio.</p> + +<p>A restea do sol de Setembro, mosqueando o taboado carunchoso do meu quarto, +vinha pallida como a luz betuminosa dos infernos dantescos.</p> + +<p>A brisa da tarde nunca mais se retouçou louçã pelas corollas das boninas +tremulas.</p> + +<p>Negra como a minha saudade, era negra a tunica funeraria de que a natureza +se vestiu.</p> + +<p>Diz tu, ó Poncia, se me viste comer ou beber durante oito dias, contados da +data em que a minha alma se despegou d'aquella alma gentil que se partiu do +Pastelleiro.</p> + +<p>É verdade que passados esses oito dias, obedeci ao despotismo da natureza +vegetativa, e ás instancias impertinentes da minha consternada Poncia.</p> + +<p>O resultado foi sinistro: sobre uma paixão calamitosa uma indigestão +pertinaz!</p> + +<p>Convalesci com jejuns dignos d'um S. Simão Stelita, e depois... amei +perdidamente uma tal Catharina... Isto é outra historia, que ha-de vir depois. +Os meus continuados<span class="pn">{218}</span> amores tem sido para mim um +systema de medicina, por que diz o grande poeta:</p> + +<blockquote> + Que o veneno espalhado pelas vêas<br> + Curam-no ás vezes asperas triagas. </blockquote> + +<p>Eu curo-me sempre assim. Em 1828 era eu mais homœopatha que o proprio +Hahnemann.<span class="pn">{219}</span></p> + +<h2>XIX.</h2> + +<p>Agora vai explicar-se tudo, e acaba-se o conto.</p> + +<p>É o caso:</p> + +<p>Lembre-se o leitor que o coronel Gervasio tinha dous irmãos ricos no Brazil, +ambos solteiros. Estes homens negociavam em brilhantes, e, na ultima das suas +excursões ao centro do imperio, foram assassinados por salteadores, deixando um +grande capital sem testamento.</p> + +<p>Do Rio de Janeiro vieram logo averiguadores a Portugal para comprarem a +opulenta herança. Souberam em Lisboa que os herdeiros proximos, o coronel, ou +sua filha, tinham morrido sem successão.</p> + +<p>Francisco de Proença estava então no Porto, e mais d'um amigo lhe repetiu os +pesames da fatal viuvez, que o privava d'alguns milhões.</p> + +<p>Aqui está o nosso homem em embaraços de uma terrivel originalidade, ao passo +que uma chusma de parentes remotos de sua mulher se habilitam +pressurosamente!</p> + +<p>A resurreição de Leocadia será possivel? A herança compensará a zombaria com +que a sociedade vai entrar no segredo dos seus ridiculos brios?<span +class="pn">{220}</span></p> + +<p>Não foi longo o interrogatorio que o tragico viuvo se fez. Feito o +escrutinio, os votos a favor da resurreição tinham a maioria. Proença resolveu +arrancar sua mulher dos limbos, e para isso mandou á provincia o medico e a +liteira.</p> + +<p>Leocadia, como vimos, é conduzida ao Pastelleiro, e espera ahi tres mezes a +primeira visita de seu marido, depois de ter assignado algumas procurações, +cuja significação ella não entendeu. Francisco de Proença fôra a Lisboa tractar +de habilitar sua mulher.</p> + +<p>Julgaram-no doudo porque a morte da filha do coronel era caso decidido para +as relações de ambos; e como o viuvo teimava em affirmar que era casado, +protestando apresentar sua mulher viva em presença de testemunhas que a +conhecessem de vista, a opinião da justiça foi que viesse a Lisboa a supposta +defunta, e ao mesmo tempo se averiguasse na ilha da Madeira se alli, em tal +mez, d'aquelle anno de 1828, fallecera a mulher de Francisco de Proença.</p> + +<p>O estranho successo foi estimulo de estrondosas gargalhadas na capital. +Havia grande ancia de conhecer o milagroso parvo, cujas anedoctas de Coimbra +reviveram com salgadas ampliações.</p> + +<p>Os mais sisudos commentadores do estranho caso queriam, por amor da +moralidade, que se devassasse o tumulo de Leocadia, e dissesse ella, visto que +resuscitou, que morte fôra aquella de sete mezes, onde estivera, e de que +supplicios viéra resgatal-a a herança de seus tios.</p> + +<p>O thaumaturgo não ousava apparecer na orda das suas relações. Ninguem, se o +conhecia, podia encaral-o com os labios seriamente fechados. O apupado marido +da mulher redeviva queria explicar a algum dos mais impertinentes averiguadores +do mysterio, aquella especie de catalepsia de sete mezes, e então dizia:</p> + +<p>«Pensei que fôra deslealmente deshonrado por minha mulher. O meu coração +cobriu-se de lucto, o punhal vingativo<span class="pn">{221}</span> pedia o +sangue da perfida, mas o meu espirito era nobre de mais para sanccionar o +assassinio d'uma debil mulher. Quiz matal-a moralmente, e dei-a por morta +moralmente para mim. Fiz-lhe graça da existencia, para que o remorso lento me +vingasse. Vesti-me de lucto, disse que minha mulher morrêra; e, se alguem me +perguntasse particularidades da sua morte, eu responderia que uma campa a +separava de mim. O que hoje faz rir a sociedade seria então recebido como um +rasgo de heroismo na desgraça. Os maridos atraiçoados achariam em fim a +condigna penitencia da perfidia.</p> + +<p>—Mas...—alguem lhe disse—tua mulher estava innocente?</p> + +<p>A esta pergunta indiscreta Francisco de Proença titubeava, e não sabia se +lhe convinha decidir-se pela absoluta innocencia de Leocadia.</p> + +<p>Lá se aveio como pôde com os importunos, até que um dia appareceu com sua +mulher resuscitada, e encartada no nome e appellidos que teve quando foi +viva.</p> + +<p>A presença desta pobre senhora foi, só em si, uma accusação contra seu +marido. A desgraçada, quando lhe perguntaram, diante de testemunhas, se era +mulher de Francisco de Proença, respondeu:</p> + +<p>«Dizem que sou.»</p> + +<p>—E a senhora não diz o mesmo?</p> + +<p>«Eu sou viuva» tornou ella.</p> + +<p>—Então qual dos senhores é viuvo? É original a mania d'ambos—replicou o +jurisperito, rindo com os circumstantes, em quanto as lagrimas da herdeira +millionaria lhe desciam na face purpurina de pejo.</p> +<hr class="dotted"> + +<p>Não me souberam contar o resto.</p> + +<p>O que eu sei é que cinco mezes depois recebi uma carta datada em Londres.</p> + +<p>Resava assim:<span class="pn">{222}</span></p> + +<p>«Prometti-lhe uma palavra: ella ahi vai: <small>E MORRO</small>. +Chore-me.»</p> + +<p class="direita"><em>Leocadia.</em></p> + +<p> </p> + +<p>Em 1834 Francisco de Proença veio a Portugal. Viajára seis annos, e vinha +casado, em segundas nupcias, ou terceiras, dizia alguem com a filha d'um +correeiro de Manchester.</p> + +<p>Está vivo, e velho como eu.</p> + +<p>Acabou-se a historia.</p> + +<p style="text-align:center;">FIM.<span class="pn">{223}</span></p> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Scenas da Foz, by Camilo Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SCENAS DA FOZ *** + +***** This file should be named 28310-h.htm or 28310-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/8/3/1/28310/ + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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