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Marx de + Sori</title> + <meta name="author" content="António Filipe Marx de Sori"> + <meta name="date" content="1867"> + <meta name="publisher" content="Typographia de Castro Irmão"> + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=iso-8859-1"> + <meta name="KEYWORDS" content=""> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pagenum { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + #corpo p{ + line-height: 1.5em; + text-align: justify; + text-indent: 1em; + } + h1, h2, h3 {text-align: center;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Os Descobrimentos dos Portuguezes nos +Seculos XV e XVI, by António Filipe Marx de Sori + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Os Descobrimentos dos Portuguezes nos Seculos XV e XVI + +Author: António Filipe Marx de Sori + +Release Date: February 4, 2009 [EBook #27992] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS DESCOBRIMENTOS *** + + + + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + + + + + +</pre> + + +<div style="text-align:center; border: double 3px #000000; padding: 1em;"> +<p><strong>A. F. MARX DE SORI</strong></p> + +<hr style="border: solid 1px #000000; border-left: 0em; border-right: 0em; width: 80%; height: 5px;"> + +<p style="font-size: 1.5em;">DESCOBRIMENTOS</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">DOS</p> + +<p style="font-size: 1.5em;">PORTUGUEZES</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">NOS</p> + +<p style="font-size: 1.5em;">SECULOS XV E XVI</p> + +<p style="font-size: 0.9em;">CAUSAS QUE OS DETERMINARAM,<br> +SUA IMPORTANCIA E CONSEQUENCIAS MAIS NOTAVEIS<br> +QUE D'ELLES RESULTARAM</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>1867</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 0.8em;">TYPOGRAPHIA DE CASTRO IRMÃO</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">Rua da Boa-Vista, palacio do conde de Sampaio</p> + +<p style="font-size: 0.9em;"><strong>LISBOA</strong></p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center;"> +<p><strong>A. F. MARX DE SORI</strong></p> + +<hr style="border: solid 1px #000000; border-left: 0em; border-right: 0em; width: 80%; height: 5px;"> + +<p style="font-size: 1.3em;">DESCOBRIMENTOS DOS PORTUGUEZES</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">NOS</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">SECULOS XV E XVI</p> + +<p style="font-size: 0.9em;">CAUSAS QUE OS DETERMINARAM, SUA IMPORTANCIA<br> +E CONSEQUENCIAS MAIS NOTAVEIS<br> +QUE D'ELLES RESULTARAM</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<hr style="border: solid 1px #000000; border-left: 0em; border-right: 0em; width: 30%; height: 5px;"> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 0.9em;"><strong>LISBOA</strong></p> + +<p style="font-size: 0.8em;">TYP. DE CASTRO IRMÃO—RUA DA BOA-VISTA</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">(Palacio do conde de Sampaio)</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">1867</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;">AO ILL.<sup>MO</sup> E EX.<sup>MO</sup> SR.</p> + +<p style="text-align:center;"><small>CONSELHEIRO</small></p> + +<p style="text-align:center;"><em>Antonio Raphael Rodrigues Sette</em></p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;"><small>OFFERECE</small></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:right;"><small><em>O Auctor.</em></small><span class="pagenum">[4]</span></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div id="corpo"> +<p><span class="pagenum">[5]</span></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + + +<p> </p> + + +<p>As linhas que seguem não foram primitivamente destinadas á publicidade pela +imprensa; são apenas uns modestos apontamentos colligidos e ordenados para uma +lição em concurso, cujo ponto foi tirado quarenta e oito horas antes.</p> + +<p>O sr. A. da Silva Tullio, talvez tão sómente para me obrigar, quiz honrar +este modesto trabalho inserindo-o em artigos no <em>Archivo Pittoresco</em>. Hoje +a empreza d'esta excellente folha brinda-me graciosamente com aquelles artigos, +impressos em folheto.</p> + +<p>Proporciona-me assim o poder agora offerecer publicamente este ephemero +trabalho ao meu bom amigo o sr. conselheiro A. R. R. Sette, a quem desde a +origem foi dedicado, como testimunho de gratidão.</p> + +<p>O limitado da distribuição, por alguns amigos sómente, é prova de como +reconheço a insufficiencia de um trabalho onde apenas se póde descortinar +veneração patriotica pelos heroicos feitos dos nossos antepassados.</p> + +<p style="text-align:right;"><em>Marx de Sori</em></p> + +<p> </p> + + +<p> </p> + + +<p> </p> + + +<p> </p> + + +<p style="text-align:right;"><span class="pagenum">[6]</span></p> + +<p><span class="pagenum">[7]</span></p> + +<h1>DESCOBRIMENTOS DOS PORTUGUEZES</h1> + +<h2>NOS SECULOS XV E XVI</h2> + +<h3>Causas que os determinaram, sua importancia e consequencias mais notaveis +que d'elles resultaram</h3> + +<p> </p> + + +<p>Direi primeiro quaes foram as causas que determinaram os descobrimentos dos +portuguezes nos seculos XV e XVI, para depois narrar esses descobrimentos, e +por ultimo tratar das consequencias mais notaveis que d'elles resultaram.</p> + +<p>Gomes Eannes de Azurara, escrevendo a sua <em>Chronica de Guiné</em>, diz que +foram cinco as causas que determinaram o sr. infante D. Henrique a emprehender +as navegações, e a mandar navios portuguezes aos descobrimentos da costa +africana.</p> + +<p>Era a primeira causa ignorar-se ao certo quaes paizes e quaes habitantes +existiam para além do cabo Bojador, visto que nada de verdadeiro se podéra +averiguar da fallada viagem de S. Brandão, no seculo VI; e porque nenhum outro +principe trabalhava n'isto, se decidíra a fazel-o o sr. D. Henrique, por honra +de Deus e del-rei.</p> + +<p>A segunda consideração foi toda commercial, attendendo-se aos proveitos que +haviam de seguir-se para este reino de se achar n'aquellas terras alguma +povoação de christãos, ou alguns portos onde se podesse sem perigo fazer bom +mercado.</p> + +<p>Importava a terceira razão ao conhecimento, que<span +class="pagenum">[8]</span> instava obter, de qual era, e até onde chegava, o +poderio dos moiros, que se dizia muito maior do que commummente se pensava.</p> + +<p>Assentava o quarto fundamento no desejo de encontrar algum principe +catholico, que, por amor de Christo, o ajudasse contra os inimigos da fé, na +guerra que lhes movêra durante trinta e um annos, sem auxilio de rei nem de +senhor de fóra de Portugal.</p> + +<p>Era, finalmente, o quinto motivo o grande desejo que havia de dilatar a +santa fé e trazer a ella todas as almas que se quizessem salvar, chamando-as ao +gremio da egreja, e dando-lhes ingresso na religião christã.</p> + +<p>Não podêmos deixar de accrescentar a estas cinco algumas outras razões, não +indicadas pelo erudito chronista, mas que certamente se apresentaram ao +espirito do sabio infante, e que, se não foram as deliberativas, deviam +contribuir efficazmente para o decidir em seus tão porfiados como aventurosos +commettimentos.</p> + +<p>É claro que o illustrado principe havia de ter noticia das navegações dos +antigos povos, navegações mais ou menos fabulosas, mais ou menos longinquas, +como foram as do carthaginez Hannon, de Sataspes, de Polybio, de Meneláo, de +Necháo, de Eudoxo, e ainda outras cuja descripção tem chegado até aos nossos +dias. N'algumas d'estas navegações se dizia haver sido costeado todo o +continente de Africa, saíndo de Alexandria, passando as columnas de Hercules, +dobrando a grande fronteira de Africa, entrando no mar Erythreo e ancorando em +Suez. Ao Ophir de Salomão, á viagem de Marco Polo ao Cathayo no seculo XIII, +devemos juntar as antigas navegações dos portuguezes, que já em tempos do sr. +rei D. Affonso IV chegavam ás ilhas Canarias, ou antigas Fortunadas, navegações +de que especialmente o estudioso infante devia ter cabal conhecimento, e que +muito influiram de certo para apressar os primeiros passos em tão arriscada +empreza.<span class="pagenum">[9]</span></p> + +<p>Chegára o infante D. Pedro de Veneza, onde residíra por muito tempo. Era +então, no seculo XV, Veneza a nação que distribuia por todos os portos do +Mediterraneo os productos da Asia. Tinha Veneza as mais estreitas relações com +o Egypto e com a Persia. Os venezianos devassavam aquelles riquissimos +emporios, e conheciam, como nenhum outro povo, a grandeza do Oriente. Eram +elles quem melhor podia informar ácerca do tão celebrado reino do Preste João, +principe que se dizia pertencer ao gremio do catholicismo, possuir vastos +dominios, numerosos subditos e grandes thesouros. Presumimos, portanto, que +traria o infante D. Pedro basta colheita de taes noticias, que mais deviam +estimular os aventurosos desejos de seu irmão; de seu irmão, que, dotado de +esclarecido entendimento, não podia forrar-se ao desgosto de ver que Portugal, +tendo repellido os moiros para fóra d'esta terra, jámais conseguiria alargar os +seus limites territoriaes, avançando as fronteiras cercadas já por principes +catholicos, senhores de poderosos exercitos. O mar, porém, banhando Portugal em +toda a sua extensão, vindo beijar as suas praias e morrer debatendo-se contra +os seus rochedos, estava como que convidando o nobre infante a buscar n'elle, e +por elle, os dominios que a terra da Europa lhe recusava.</p> + +<p>Apropriada era a occasião. A espada do mestre de Aviz ganhára a coroa de D. +João I; e se o heroico valor do condestavel alcançára em Aljubarrota firmar o +solio do monarcha, a marinha portugueza não ficára ociosa, nem deixára de +contribuir efficazmente para a independencia da patria. Foram os navios +portuguezes que, indo ao Porto, á sempre leal cidade do Porto, buscar os +reforços de que necessitavam os oppressos sitiados em Lisboa, conseguiu, a +despeito das balas da armada castelhana, com a qual travou rijo combate, e da +sentida morte do valente commandante Ruy Pereira, desembarcar os soccorros tão +opportunos, que, obrigando o monarcha hespanhol a levantar o<span +class="pagenum">[10]</span> cêrco de Lisboa, o predispoz para as tregoas +celebradas em 1411 entre as duas coroas. </p> + +<p>Chegára, pois, o momento. De Lisboa saíram logo em 1412 os primeiros navios, +mandados pelo talentoso infante com ordem para costear a terra de Africa, e, +dobrando o cabo de Nam, passarem ávante.</p> + +<p>Mas nem bastavam ainda as cautelas tomadas, nem as relações obtidas, nem as +concebidas esperanças. Faltava ainda, antes de proseguir no emprehendimento, +assegurar a partida e a chegada tranquilla dos modernos navegantes. Urgia +alcançar um ponto que, servindo de base ás futuras operações, fosse o centro +d'onde podessem velejar, e aonde acolher-se do rigor dos temporaes os navios +que saíam a descobrir. Mais ainda instava que esse ponto fosse situado por modo +asado a impedir as depredações e a estorvar as piratarias dos corsarios +barbarescos, os quaes, desembocando do estreito, cairiam de certo sobre os +pacificos mercadores, e, roubando-os e levando-os ao captiveiro, lançariam tal +desanimo, que, escarmentados, fugiriam os mais audazes de aventurar-se a tão +triste fim, qual era o de escapar á lucta dos ventos e dos mares para ir +morrer, carregado de ferros, nos calaboiços dos infieis, ou vergado ao mais +rude e violento trabalho, sem que os olhos podessem fitar a cruz de Christo, +sem que os labios podessem recitar uma oração á Virgem, sem que os braços +podessem estreitar um amigo. Regar com o suor do rosto e as lagrimas do coração +a terra dos moiros, morrer morte affrontosa sem escutar as palavras do +sacerdote christão, era mais do que morrer. Por isso instava e urgia desde logo +evitar previdentemente as consequencias, que viriam tão certas como funestas. +</p> + +<p>Ceuta, possuida pelos agarenos, satisfazia a todos os intuitos, aguçava +todas as cubiças; Ceuta era necessaria ao illustre infante D. Henrique; Ceuta +caíu, pois, em poder dos portuguezes no anno de 1415. Se D. Henrique commandava +as forças, o rei D. João, como<span class="pagenum">[11]</span> passageiro e +combatente, arvorava o balsão da ordem de Christo na muralha mahometana, +abrindo brecha a golpes da rija espada por entre a multidão dos islamistas.</p> + +<p>Mal reconhecem os moiros a perda que acabam de padecer, quando prestes se +ajuntam, pondo em apertado sitio as dezenas de portuguezes que bem defendem a +nova perola engastada na coroa dos nossos reis. Vôa alli o heroico principe, +como ferida leoa a quem pretendem roubar o filho querido das suas entranhas; e +se a novidade do seu apparecimento espalha o terror pelos inimigos, não lhes +deixando sentir mais uma vez a tempera da sua adaga, os sitiados, sob o mando +do illustre conde de Vianna, irrompem e desbaratam os sitiantes, provando-lhes +que até na propria Africa os cavalleiros da Cruz não cedem aos adoradores do +crescente um palmo de terra, ainda que para resgatal-o não baste todo o sangue +de um heroe, nem toda a vida de um martyr.</p> + +<p>Levantado o cêrco, por tres mezes se demora o talentoso infante indagando e +perscrutando dos viajantes e dos mais instruidos noticias que ambiciona +recolher d'esse vasto continente tão desconhecido e tão differentemente +julgado. Volta a Portugal o esforçado principe, e mais instantes e mais +repetidas são as viagens e navegações sem fructo. O temor prende os nautas ante +o formidavel cabo a que chamam Bojador, pelo muito que <em>boja</em> para o mar. +As correntes parecem-lhes tão impetuosas e difficeis de vencer, que receiam ser +arrebatados e envolvidos por ellas. A effervescencia (rebentação) que observam +junto d'elle inspira tal receio, que os mais audazes não se atrevem a porfiar +para montal-o.</p> + +<p>Nem por isso deixam de continuar as tentativas. Em 1418, Bartholomeu +Prestrello, um d'estes navegadores, levado por uma tempestade para o sudoeste, +quando espera encontrar a morte nas ondas, eis que descobre terra, para ella se +dirige, e a que dá o nome<span class="pagenum">[12]</span> de <em>Porto +Santo</em>, pelo abrigo e repouso que alli encontra. Vem trazer esta alegre nova +ao magnanimo Henrique, e logo no seguinte anno volta á ilha de Porto Santo, +acompanhado por dois navios commandados por João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz +Teixeira, levando os primeiros elementos da futura colonisação. Prestrello +regressa a Portugal; Zarco e Tristão Vaz, descortinando ao mesmo rumo no +horisonte um ponto escuro e permanente, para elle se dirigem, e abordam á ilha +da Madeira.</p> + +<p>Estes primeiros fructos não desviam a attenção do perseverante principe do +seu principal intuito. Tem elle a satisfação de fazer dobrar em 1429 o cabo +Bojador. Gil Eannes, natural de Lagos, conseguiu a façanha. E façanha foi esta +para epocha em que a sciencia de navegar era em demasiado atrazo para se oppor +não só aos perigos visiveis, que estes eram os menos de temer, mas, e +particularmente, aos perigos fabulosos que a tradição conservára e o vulgo +repetia a medo; tão tenebrosos se afiguravam.</p> + +<p>Registam as chronicas e as historias maritimas os preconceitos, não só do +vulgo, ou dos menos instruidos, mas ainda de estudiosos e pensadores, de que, +passando para o sul de certa latitude, a raça caucasica se tornava negra como a +ethiope; de que o mar era tão baixo, que nenhum navio o podia navegar, formando +apenas um vasto parcel; não faltando tambem a affirmativa de que o ardor do sol +se tornava tão intenso, que ninguem podia viver em taes latitudes. Finalmente, +ainda se juntava a este desanimador quadro de receios o boato de visões e +phantasmas, com todos os correspondentes attributos do sobrenatural, e com +todas as imaginações mais do que sufficientes para intimidar então os mais +esforçados. Foi, pois, uma façanha este conseguimento de Gil Eannes, e façanha +egualada aos trabalhos de Hercules.</p> + +<p>Em 1431 sae do Tejo Gonçalo Velho Cabral a descobrir terras para oeste. +Chega ás Formigas, e com<span class="pagenum">[13]</span> esta novidade vem +para Lisboa. Volta no anno seguinte áquellas paragens, e aporta á ilha que +denomina de Santa Maria. Agita-se o povo de Lisboa sobre a conveniencia dos +descobrimentos, oppondo razões de peso e gravidade áquellas que lhe apresentam +de seductora vantagem. Peleja-se a infausta batalha de Tanger. E por estas +razões, ou por se entregar unicamente a Deus e a essa religião que se chama +amor da patria, o duque de Vizeu sequestra-se ao bulicio do mundo, deixa a +capital, e vae fundar no <em>Sacro Promontorio</em> a primeira eschola de nautica +e o primeiro observatorio, primeiros não só de Portugal, como dizem escriptores +portuguezes, primeiros da Europa, como accordes testimunham em quasi +unanimidade os historiadores estrangeiros.</p> + +<p>Levantada a Villa Nova do Infante, reunidos em Sagres os mais esclarecidos +varões, alli se discutem as theorias mais adiantadas, e se lançam os primeiros +fundamentos do mais vasto imperio colonial; e d'alli partem ousados Antão +Gonçalves, Diniz Fernandes e Nuno Tristão. Descobrem o Senegal, passam Cabo +Verde, e chegam ao Gambia. Tambem d'alli sae Luiz Cadamosto, veneziano ao +serviço de Portugal, que aporta ás Canarias, e chega ás ilhas de Cabo Verde. +Gonçalo de Cintra deixa o seu nome á bahia onde deixa a vida pelejando em +traiçoeiro e desegual combate com os indigenas. Soeiro Mendes levanta o +castello de Arguim.</p> + +<p>Somos chegados a uma epocha fatal. O excelso infante D. Henrique baixa á +sepultura. <em>Mas não morre, porque homens como D. Henrique não morrem.</em> +D'além da campa continúa a vigiar, proteger e guiar os portuguezes. E se a +morte—em captiveiro—de seu irmão, o infante santo, devia de ser nuvem negra a +escurecer-lhe os derradeiros momentos, as ilhas da Madeira, dos Açores, e +dezoito graus da terra africana, seríam outros tantos astros a illuminar-lhe o +caminho da eternidade, e a apontar-lhe a futura grandeza de Portugal.<span +class="pagenum">[14]</span> Repousa o inclito varão. Sirva-lhe de funebre +distico o <em>moto</em> predilecto; e <em>talent de bien faire</em> seja o +epitaphio do immortal infante D. Henrique. </p> + +<p>Proseguem os descobrimentos. Pedro de Cintra chega ao cabo de Santa Maria. +Pedro Escobar e João de Santarem vão á Mina. Deixa Lopo Gonçalves o seu nome ao +cabo que avista. Fernando Pó descobre as ilhas de S. Thomé, do Principe, de +Anno Bom, e a Formosa, que depois tomou o seu nome. Manda el-rei D. João II a +Diogo de Azambuja que levante o castello de S. Jorge da Mina, e expede Diogo +Cam para proseguir no reconhecimento da costa. Em 1484 acerta Diogo Cam com o +rio Zaire, desembarca na margem do sul, e, tomando conta das terras adjacentes +em nome do rei de Portugal, alli assenta um padrão em signal da sua passagem, e +para assegurar no futuro a posse que hoje nos pretendem contestar. Ainda em +1859, passados 375 annos, tivemos o gosto de ver e tocar o pouco que existia de +tão valiosa reliquia. Seguiu Diogo Cam para o sul, e no cabo Negro levantou +padrão egual ao que deixára no Zaire ou Congo.</p> + +<p>Mas el-rei D. João II havia comprehendido o previdente intuito do infante D. +Henrique; conhecêra toda a vantagem e medíra todo o alcance do emprehendimento +d'aquelle glorioso principe. Ambicionava elle chegar á India. Á India, ao paiz +das maravilhas. Á India tão fabulosamente descripta. Á India sem passar por +terras do arabe ou do persa, e sem necessitar dos navios de Veneza. Rasgado se +offerecia já então o horisonte. Devassados os mares até ao cabo Negro, eram +vasto campo para largas experiencias e pleitos de ardidez. Se os navios sulcam +as aguas em porfiosa procura do extremo ponto de Africa, embaixadores mais ou +menos officiosos são mandados por terra com apertadas instrucções e direcção +indicada em busca das terras do Preste João das Indias. Archiva a historia os +nomes de Pero da Covilhã, ou João Peres da Covilhã, e de Affonso de Paiva, como +dois d'estes devotados emissarios.<span class="pagenum">[15]</span></p> + +<p>Somos chegados ao anno de 1486. Bartholomeu Dias, Pedro Dias (seu irmão) e +João Infante saem de Lisboa em tres navios; demandam o rio Zaire; seguem para o +sul; assentam o padrão de S. Thiago na Serra Parda ou Rosto de Pedra; surgem na +angra que denominam <em>das Voltas</em>, pelos muitos bordos que fazem +infructiferamente para montar a ponta do sul, a qual guarda ainda hoje o +primitivo nome—<em>cabo das Voltas</em>. Correm d'alli para o sul, e quando, +passados treze dias, governam a léste, alguns mais dias se passam sem darem +vista da terra. Navegam então para o norte e ferram a bahia dos Vaqueiros. +Costeiam a terra, e, avistando um ilheu, n'elle deixam o padrão que lhe dá o +nome da <em>Cruz</em>. Consegue Bartholomeu Dias, contra a mór parte dos votos, +continuar para o norte, e, entrando primeiro o navio <em>S. Pantaleão</em> n'um +rio, alli fundeiam. <em>De João Infante</em> se fica chamando este rio, nome do +commandante do <em>S. Pantaleão</em>, e não, como diz um auctor estrangeiro, por +ser o nome do infante D. João, que, segundo o mesmo auctor, ia n'esta viagem. +</p> + +<p>Quer Bartholomeu Dias levar por diante a empreza, proseguindo a navegação ao +longo da costa; não lh'o consentem, porém, os seus companheiros, e, unanimes em +seus votos, obrigam o intrepido descobridor a dar as velas ao vento em direcção +á patria. Alguns dias depois avista um formidavel cabo, e, pelas tormentas que +o assaltam proximo a elle, chama-lhe <em>cabo Tormentoso</em>. Assente n'aquellas +immediações o padrão de S. Filippe, e tocando em differentes pontos, vem +finalmente largar ancora no Tejo.</p> + +<p>Bartholomeu Dias dobrára o extremo de Africa. Conseguíra vencer a empreza de +75 annos de trabalho. El-rei D. João II avisadamente substitue o nome de +<em>Tormentoso</em>, dado pelo ousado navegador ao temivel cabo, pelo de <em>Boa +Esperança</em>. Previdente signal de quantas esperanças lhe surgiam na mente e +no coração. Previdente resolução para despertar arrojos e afugentar<span +class="pagenum">[16]</span> temores. Mas, assim como o cabo da Boa Esperança +havia de fazer esquecer o das Tormentas, e Vasco da Gama sobrepujar a gloria de +Bartholomeu Dias, assim tambem ao sr. D. João II não pertencia mais do que +dizer á Europa que havia outro caminho para a India. Ao rei <em>venturoso</em> +cumpria aproveitar os aprestos, proseguir no emprehendimento e receber os +feudos do Oriente.</p> + +<p>No sempre memoravel dia 8 de julho de 1497 saem do Tejo, do ancoradoiro do +Restello, quatro navios: o <em>S. Gabriel</em>, de 120 toneladas, commandado por +Vasco da Gama; o <em>S. Raphael</em>, de 100 toneladas, commandado por Paulo da +Gama; o <em>Berrio</em>, de 50 toneladas, commandado por Nicolau Coelho; e uma +nau de 200 toneladas, commandada por Gonçalo Nunes.</p> + +<p>Se o rei, em Montemór, recebe um juramento de Vasco da Gama ao entregar-lhe +a bandeira da ordem de Christo, se os freires da mesma ordem são conforto na +despedida e rogadores pela prosperidade da viagem, no ceo, junto ao throno do +Creador, ainda mais valiosa supplica se ergueu. Os filhos de D. João I oravam +de certo pelos nautas que iam rota batida procurar o Preste João e o rei de +Calecut.</p> + +<p>Mas sigamos a esteira d'aquelles navios. Vae n'elles todo o futuro de um +reino. N'elles não, vae n'um sómente, porque sómente a um homem podia +confiar-se o futuro da patria, e esse homem havia de ser Vasco da Gama. Sigamos +a esteira d'aquelles navios; nem pareça menos util, nem menos digno da maior +altura, narrar e memorar ainda as menores particularidades em factos que são +fastos, em descripções que se tornam por si mesmas, sem galas nem atavios, sem +pompas nem louçanias de linguagem, verdadeiras epopéas, epopéas que exaltam a +coragem de um povo, que avivam memorias gloriosas, que fazem pulsar apressado o +coração, enthusiasmar o pensamento, expandir venturosa a alma, reverdecer e +florir a arvore santa do amor patrio. Sigamos pois a esteira d'aquelles +navios.<span class="pagenum">[17]</span></p> + +<p>Dão elles as velas ao vento, avistam as Canarias, e, passando ávante, vão +ancorar na ilha de S. Thiago. Refeita a aguada, navegam ousadamente para o sul, +e durante tres mezes só vêem ceo e mar. Governam para a costa, e, descortinando +a terra, ferram n'uma grande bahia, que chamam de <em>Santa Helena</em>. É ahi +ferido o capitão-mór, por causa de Velloso encontrar <em>aquelle celebre oiteiro +mais facil de descer que de subir</em>; corregem os navios, e, velejando +novamente, passam o cabo da Boa Esperança em 22 de novembro, á pôpa arrasada. +Entram na angra de S. Braz, desmancham a nau dos mantimentos; e proseguindo +avante, luctando com a impetuosidade dos ventos e das correntes, denominam do +<em>Natal</em> a terra que costeiam; visitam aquella que chamam da <em>Boa +Gente</em>, para depois entrarem no rio dos <em>Bons Signaes</em>. Aportam a +Moçambique, e, livres das traições dos seus naturaes e dos de Mombaça, surgem +em Melinde, onde com bom gasalhado recebem pilotos do paiz. Novamente +desferindo as velas, vão ancorar em Calecut aos 20 de maio de 1498. Portugal +tinha lançado uma ponte para a India!</p> + +<p>Recebidas as amostras do Oriente, tomados alguns indigenas, supportada a +perfidia do Samorim, oppondo sinceridade á traição, attenções e benevolencias +aos desdens, lealdade á aleivosia, paz á guerra, o Gama, trajando lucto pelo +irmão e companheiro, Paulo da Gama, fallecido na ilha Terceira, vem entrar no +Tejo a 29 de agosto de 1499<sup><a name="L560" id="L560" +href="#L562">[1]</a></sup>, e entregar el-rei D. Manuel<span +class="pagenum">[18]</span> as primicias da India, para receber em paga o +titulo de <em>dom</em>.</p> + +<p>Alvoroçam-se o reino e a Europa com tal nova. Calculam-se e pesam-se os +proventos que podem derivar do extraordinario descobrimento. Ás opposições de +longo tempo enraizadas contra as longinquas navegações succedem o afan e +delirio com que á porfia pretendem todos visitar as riquissimas paragens d'onde +receberam as preciosas amostras conduzidas pelo Gama. Importa, por outro lado, +não tanto mandar á India os productos do solo portuguez, mas patentear alli o +nosso poderio, para secundar a demonstração que deramos da nossa ousadia. E +isto importava não só com respeito ao Oriente, senão, e ainda mais, por +interesse da Europa.</p> + +<p>Mal descança o rei no palacio da Alcaçova. Á Ribeira o prendem de continuo +os aprestos e vigilias para novos e mais largos apercebimentos. Começam a +levantar-se os paços da Ribeira com o rapido construir das naus e galeões.</p> + +<p>Não ha mingua de ardimentos onde sobram as virtudes cavalheirescas; não +faltam ousadias onde abunda a fé; não esmorecem o valor e coragem onde o amor +da patria campeia altivo por sobre todos os outros sentimentos de um povo.</p> + +<p>Treze navios, sob o mando de Pedro Alvares Cabral, largam do Tejo, e, ou +para se desviarem das calmarias do golphão de Guiné, ou levados pela +impetuosidade do vento, ou por suspeita de que podem<span +class="pagenum">[19]</span> encontrar nova terra, ou ainda outro caminho para a +India, tanto se afastam da costa de Africa que aos 43 dias de viagem +descortinam um monte, a que chamam <em>Paschoal</em>, da paschoa cuja festividade +então era. Navegam ao longo da costa procurando um surgidoiro, e tão bom e tão +abrigado o encontram, que, ferrando n'elle toda a armada, lhe dão o nome de +<em>Porto Seguro</em>.</p> + +<p>Constroe-se e levanta-se na praia uma grande cruz, celebra-se a primeira +missa n'aquellas regiões, e pelo nome de <em>Vera</em> ou de <em>Santa Cruz</em> é +designada a nova terra abordada por Cabral.</p> + +<p>Ficam alli dois homens e uma cruz. São decorridos 364 annos, e a cruz domina +e protege aquelle vasto imperio. Á sombra da cruz de Cabral repoisaram os +homens de 1500—a cruz de Christo tem defendido durante mais de tres seculos a +terra de Cabral. E se trocaram pelo de Brasil o primitivo nome, não poderam +trocar por outra a primeira edificação que alli fizemos, o primeiro monumento +que alli levantámos e o primeiro signal que alli deixámos. É bello meditar como +através dos seculos, se afigura ainda hoje pairar sob o ceo brasileiro o +symbolo de paz e fraternidade deixado por Pedro Alvares. Possa o emblema da +redempção guardar e ser o eterno defensor dos nossos irmãos na terra de Santa +Cruz!</p> + +<p>Destacado Gaspar de Lemos para o reino com tão fausta nova, veleja a armada +a 2 de maio, soltando rumo para o temeroso cabo da Boa Esperança. Alli, em +desastrosa tempestade, perece Bartholomeu Dias; e assim pôde o tormentoso cabo +<em>tomar de quem o descobriu summa vingança</em>. Prosegue Cabral, e, visitando +a costa da Arabia e da Persia, vae a Calecut, a Cochim e Cananor, d'onde +regressa a Portugal trazendo embaixadores a el-rei.</p> + +<p>João da Nova sae de Lisboa, e caminho da India encontra a ilha da Ascensão, +avista a ilhota ou baixio que recebe o seu nome, e ao voltar a Portugal<span +class="pagenum">[20]</span> aporta á celebrada ilha de Santa Helena, que dos +nossos dias occupa tão larga pagina em a historia da casa real de França e na +da politica geral da Europa. </p> + +<p>D. Manuel é bastante prudente para pensar em tudo, para a tudo attender; não +despreza nem olvida o descobrimento de Cabral, e para aquellas terras envia o +florentino Americo Vespucio, que, reconhecendo-as, visita a costa, chega ao Rio +da Prata, segue para o sul, e se torna ao Tejo para novamente ir áquellas +regiões e adquirir a gloria de deixar o seu nome ao novo continente, primeiro +avistado e visitado por outros navegadores.</p> + +<p>Entretanto reclama a India a mais séria attenção. Os moiros, surprehendidos +no trato exclusivo d'aquelle vasto emporio, ousam tudo, desde a perfidia até á +guerra, para prohibir o commercio aos portuguezes. Incitam os naturaes, e, por +mil industrias, armam ciladas, movem contestações e provocam combates taes que +fazem perigar o nosso estabelecimento n'aquellas apartadas regiões. Levaramos á +India a paz, e pediamos em troca da nossa ousadia e esforço a liberdade de +commerciarmos; tornaram-nos a traição e a guerra em troca d'aquelle pacifico +intuito. Urgia mostrar que, se os navios recebiam especiarias, tambem jogavam +possante artilheria; que os recem-chegados negociantes eram mais experimentados +ainda nos botes e estocadas, nas lides e nas pelejas, do que no trafego das +quintaladas; que, finalmente, se a cruz de Christo arvorada nas bandeiras, e +exposta nas velas das naus e galeões, não dizia guerra, não podia tambem servir +de menosprezo nem de symbolo de affronta e irrisão para quem a buscára por +egide e trophéo.</p> + +<p>Predissera o illustre Gama que daria o Samorim trabalhos e perda de fazendas +e de vidas. Ao Gama incumbe D. Manuel de voltar á India, para castigar o senhor +de Calecut, assentar paz e duradoiro trato com aquelles povos que o bem +merecerem, deixando alli navios para guardar e proteger os portuguezes e +seus<span class="pagenum">[21]</span> alliados. Vae D. Vasco, confiado na +propicia estrella que lhe fôra guia e pharol; vae segunda vez á India aquelle +que depois inspira confiança aos assustados companheiros, +bradando-lhes:—«Coragem! o mar estremece afflicto debaixo dos meus pés; assim +se mostra timido o vencido ante o vencedor.»</p> + +<p>Tres divisões, compostas de naus, caravelas e galeões, capitaneadas pelo +Gama, dão as velas ao vento e singram para o Oriente.</p> + +<p>Tributa o rei de Quilôa, contrata paz e amizade em Cochim e Cananor, inflige +severissimo castigo ao rei e cidade de Calecut, recebe embaixadas de diversos +principes, e, coberto de gloria, vem entrar no Tejo, entregando a el-rei o oiro +de Quilôa, que, fabricado em monumental custodia, é offerecido pelo venturoso +monarcha ao mosteiro de Santa Maria de Belem.</p> + +<p>Contempla a Europa em extatica admiração o espectaculo que offerece um tão +pequeno povo; pequeno contado o numero de individuos que o compõem, grande pelo +valor e audacia que provam nos arrojados commettimentos.</p> + +<p>Só o turco sobresaltado padece desde logo as terriveis consequencias de tal +descobrimento. Só a senhoria de Veneza experimenta o golpe profundo que lhe +descarregámos no seu commercio. Por isso a Turquia e Veneza, dando as mãos mais +uma vez, ligam-se agora contra os portuguezes na India. Iam estes alargando as +relações com estender o conhecimento, com ganhar a affeição dos naturaes, e com +desempenhar lealmente os compromissos contrahidos. Mas, se alcançáramos o +respeito que impõe a força estacionada n'aquellas paragens, faltava ainda, e +faltava sensivelmente alli, a força que deriva da auctoridade, a força que, +partindo de um centro, se irradia para todos os pontos, e a todos os pontos +alcança, illumina e dirige.</p> + +<p>Vale muito o braço que fere, mais vale ainda a cabeça que dirige. É +essencial mandar, á India não, mas para a India, um homem que por todos pense e +a todos<span class="pagenum">[22]</span> governe. Medita o rei na melindrosa +escolha d'aquelle que deve ser delegado seu e seu representante. Entre milhares +de guerreiros, entre centenas de heroes, mal se compadece preferencia que não +venha do acaso. Entretanto o rei medita, e, fitando a vista em D. Francisco de +Almeida, designa-o e elege-o para tão ardua missão, e com o titulo de vice-rei +o envia á India. É D. Francisco o astro ao qual volvemos admirados o +pensamento; é o astro que admirâmos cercado pela brilhante auréola formada por +todos os nobres portuguezes, que cada dia mais se nobilitam no Oriente.</p> + +<p>Seguido por vinte e uma velas, navega para a India o nobre Almeida, e, mal +tem passado o cabo da Boa Esperança, em Quilôa e Mombaça, substituindo o rei, +recebendo pareas e levantando fortalezas, assignala a sua chegada ao Oriente, +onde o antecede a fama bem merecida dos seus feitos e victorias. Companheiro e +mais que amigo, o bravo D. Lourenço, filho estremecido do vice-rei, é o +Hercules portuguez, cujo nome a historia guarda e conserva a tradição em +honrada memoria.</p> + +<p>Chegam á India, constroem fortalezas em Cochim, Angediva e Cananor. D. +Lourenço descobre Ceylão, acompanha e comboya as naus de Cochim, e, quando +descançado repoisa no rio de Chaul, é improvisamente accommettido pelas forças +combinadas do turco e dos reis de Cambaya e Calecut. E de força são taes +navios, que cuidam os illudidos portuguezes ver n'elles as naus do reino +esperadas n'essa monção.</p> + +<p>Não vale, porém, muito aos infieis a surpreza com que os nossos foram +colhidos. Responde ao atrevimento dos infieis o valor portuguez, e resgata a +heroicidade na peleja o descuidado nos apercebimentos para a lucta. Desegual +pela inferioridade numerica dos nossos combatentes, dos nossos canhões e dos +nossos navios, ainda assim conquista a espada portugueza loiros, que bem +depressa hão de trocar-se em cyprestes.<span class="pagenum">[23]</span> +Esgotam-se as munições no combate, que, por traição ou receio, deixou de +travar-se braço a braço. Aprezados alguns navios do inimigo, vinda a noite, +concertam-se os nossos para a pugna no seguinte dia.</p> + +<p>Apesar de novos soccorros e reforços, mais não ousam os contrarios do que +esperar pelo combate. Não se fez esperar; que, mal sopra o vento de feição, os +nossos, desferindo as velas, manobram procurando abordar a esquadra de +Mir-Hocem. A nau de D. Lourenço, mentindo a virar, é levada pela forte corrente +de vasante para sobre uma estacada, contra a qual se encosta e ameaça de +soçobrar. Instam com o capitão-mór para passar a outro navio. Não o conseguem, +porque D. Lourenço quer ser o ultimo a deixar a nau, e não ha bateis nem +esquifes para conduzir toda a tripulação. Os outros navios, havendo antes +seguido o capitão-mór, quando chegam a surgir é em tal distancia d'elle, que +não podem vencer a impetuosidade da corrente para d'elle se acercarem, nem com +os navios, nem com os bateis.</p> + +<p>Posto em tão grande aperto, a nau de D. Lourenço é rijamente accommettida. +Crivada de balas, completamente alagada e assente no fundo, continúa ainda a +vomitar a destruição dos inimigos, que se succedem e substituem mais +promptamente do que a morte os colhe e arrebata no furor da lucta. E a bandeira +do capitão-mór só desce da gavea quando uma bala, levando as duas pernas a D. +Lourenço, deixa a nau accommettida de toda a força da armada inimiga, defendida +apenas por 24 portuguezes—por 24 heroes! Entregam-se elles a Melequiaz, que +não aos rumes, e, quando os inimigos entram no destroçado navio, só encontram +restos de christãos. Cada gavea é tão acanhada sepultura para os mortos alli +accumulados, como a nau é vasto cemiterio. Á entrada do rio se demora a nossa +armada, mas não se atrevem os contrarios a investil-a, tão pouco se julgam +vencedores,<span class="pagenum">[24]</span> tanto se arreceiam d'aquelles a +quem só a força do destino fez que deixassem de vencer.</p> + +<p>Quem levará a triste nova ao vice-rei? Urge dar-lhe prestemente noticia do +infausto successo. A sorte, designando a Camacho, o obriga a navegar para +Cochim. Entretanto adivinhára presago o coração de D. Francisco a morte de seu +filho quando viu voltarem sem elle as naus de Cochim e Cananor. Sereno espera a +caravela que já se avista. Chega Camacho, e como a occasião é de luctos e +tristezas, não de alegrias e festas, passa a fortaleza sem a saudar, e, +desembarcando, vae ante o vice-rei, que o recebe grave, mas tranquillo. +Estremece Camacho ao aspecto venerando de D. Francisco, o qual, recalcando no +peito as ancias de pae extremoso para só deixar apparecer o vice-rei da India, +mais severo que urbano, lhe pergunta: «Por que não salvastes á fortaleza, que +não é do pae do morto, mas del-rei de Portugal?» Debulhado em prantos, pretende +Camacho justificar-se com sentidos lamentos, que sirvam de conforto ao pae que +forceja por não parecel-o. «Ora vos ide a descançar, e mandae á caravela que +faça sua costumada salva, e eu mandarei na egreja fazer signal pelo defuncto; e +o mais deixae, porque quem o frangão comeu ha de comer o gallo ou pagal-o.» +Isto responde o nobre Almeida, e nobremente cumpre tal promessa. Só ella o +retem na India.</p> + +<p>Espera as naus do reino, e, mal que chegam, veleja para onde a vingança o +impelle e a gloria o aguarda. De caminho para Diu, entra em Dabul, espalha a +desolação e terror, entregando ao fogo o que se livra da espada; chega a +Bombaim, e d'alli, por seguro portador, envia o leal D. Francisco uma carta a +Melequiaz, governador de Diu, prevenindo-o de que o vae atacar. Não quer o +illustre Almeida que digam moiros que o vice-rei vencêra por surpreza. Despreza +tal soccorro, e, fundeando ante a forte e opulenta cidade, prestes se prepara +para um combate que deve decidir do nosso futuro n'aquelles mares.<span +class="pagenum">[25]</span></p> + +<p>Ajudado de todo o mauritano poder no Oriente, sae Mir-Hocem de Diu, e, +fazendo pomposo alardo das suas forças, larga ancora toda a armada bem junto á +terra.</p> + +<p>Confiados na superioridade que dá o numero, estão os moiros descançados, e +passam em gritas e prazeres a noite que antecede o combate, e que para a mór +parte d'elles é vespera da eternidade.</p> + +<p>A pique esperam os nossos pela viração. Tão depressa ella enruga as vagas, +como afanosamente é aproveitada nos traquetes, e as naus vão dar fortemente +sobre os moiros.</p> + +<p>Trava-se rija a peleja, disputa-se enfurecido o combate. Não é lucta, mas +encontro de furor, que alli se vê na sanha com que obstinadamente se perseguem +os contrarios. De um e outro lado comprehendem que vae ser decisivo este +duello. De um e outro lado succedêra á inimizade o odio, e ao odio o rancor. +</p> + +<p>Celebre nos fastos da historia maritima, foi esta a primeira batalha naval +dos tempos modernos, dada segundo as regras de um bem formado plano de tactica, +e servirá de doirada pagina em que as futuras gerações leiam a historia de um +grande heroe e de um grande povo.</p> + +<p>Suppre a coragem, o esforço, a ousadia, o atrevimento, a ardidez, onde +rareia o numero. Acossados por toda a parte, mas por toda a parte +multiplicando-se, como que subdividindo-se, e a toda a parte acudindo, cede, +recúa, foge e é desbaratado o inimigo, que para salvar-se procura a terra. Com +o seu chefe, internam-se e desapparecem os contrarios, para não mais voltarem á +India, deixando a armada em despojo e testimunho da victoria solemne alcançada +pelo vice-rei D. Francisco de Almeida no sempre memoravel dia 3 de fevereiro de +1508.</p> + +<p>Entrega Melequiaz os 24 captivos que recolhêra da nau de D. Lourenço; mais +entrega, com largas indemnisações de guerra, os moiros que se encontram na +cidade, e alli offerece ao vice-rei que levante fortaleza.<span +class="pagenum">[26]</span> Mas D. Francisco entende, como Themistocles +entendia e repetia aos gregos, que para ser grande em terra mais preciso era +ser grande no mar. Volta Almeida a Cochim, depõe o governo da India, e ao +regressar á patria, venerado pelos amigos, temido e admirado pelos contrarios, +entra na aguada do Saldanha para morrer morte ingloria e mesquinha em miseravel +contenda. E assim, e ás mãos de um selvagem negro, morre um dos mais +esclarecidos varões que floresceram no seculo XVI.</p> + +<p>Diogo Lopes de Sequeira, levando comsigo Fernão de Magalhães, chegára a +Sumatra e a Malaca, onde assentou feitoria.</p> + +<p>Descobríra Tristão da Cunha as ilhas que ainda guardam o seu nome, fôra a +Socotorá, desembarcára com Ruy Coitinho na ilha de Madagascar, a que chamou de +S. Lourenço, e que simultaneamente visitára Fernão Soares.</p> + +<p>Havia então em Portugal abundancia de verdades, espadas largas e portuguezes +de oiro, que se expediam successivamente para a India. Nem mais verdade, nem +espada mais larga, nem portuguez mais de oiro, alli enviámos do que Affonso de +Albuquerque.</p> + +<p>Albuquerque, Napoleão portuguez, foi o primeiro que depois de Alexandre +passou á India como conquistador, e, mais do que Alexandre, como civilisador. +</p> + +<p>O braço de Albuquerque rende a forte Ormuz. Ormuz, á qual chamava a pedra do +annel formado pela India! Ormuz, onde recebe embaixadores do xeque Ismael, que +lhe pedem pareas como tributario, e a quem manda entregar pelouros e lanças, +dizendo-lhes que é aquella a moeda com que el-rei de Portugal paga tributo aos +reis da India.</p> + +<p>Ormuz é pouco, fecha apenas o golpho persico. Como o estreito arabico é +guardado por Socotorá e Camaram, mais é preciso assentar fortaleza e dominio em +Goa e Malaca. Caem, pois, em poder do illustre<span class="pagenum">[27]</span> +Albuquerque a doirada Goa e a riquissima Malaca. Expede embaixadores e +descobridores para Sião, Duarte Fernandes e Ruy da Cunha ao Pegú, e a Maluco +Antonio de Abreu.</p> + +<p>Assim consegue o esclarecido Affonso dominar da pequena ilha de Goa todo o +Oriente, fechar, nas mãos do rei de Portugal aquelle vastissimo emporio, +aproveitar e governar o commercio do mundo!</p> + +<p>Das lides do cêrco descança Albuquerque na fadiga da conquista, repoisando +depois na lucta dos temporaes, para em fim se entregar ao duro encargo de reger +e administrar tão dilatados dominios, tão extenso commercio, tão variados +interesses, tão diversos e numerosos subalternos.</p> + +<p>Não ha logar para admiração: os acontecimentos succedem-se com incrivel +rapidez durante o governo de Albuquerque. Havemos de admirar o genio, o +esforço, a ousadia do governador, ou a negrura e perfidia dos invejosos? Nunca +tão baixos sentimentos sacrificaram mais nobre victima. Albuquerque, levantando +a sua patria ao apogeo do esplendor, ao cumulo da opulencia, recebe em troca de +taes serviços a mais negra ingratidão; e, quando o desprezo da corte pretende +affrontar o nobre Albuquerque, elle, ralado pelo desgosto, consumido pela febre +que o devora, definha e fallece, acolhendo-se á egreja <em>mal com o rei por +amor dos homens, e mal com os homens por amor del-rei</em>.</p> + +<p>Indigno do nome portuguez fôra eu, se tratando dos descobrimentos dos +portuguezes nos seculos XV e XVI, das causas que os determinaram e dos +resultados que derivaram d'esses descobrimentos, deixasse de pronunciar os +venerandos nomes do illustre Almeida e do grande Albuquerque. Lamento que me +falte o tempo, e que, pronunciando apenas os nomes d'aquelles immortaes varões, +tenha de passar em silencio os bravos feitos do intrepido Duarte Pacheco e de +outros heroes que levantaram á altura das primeiras marinhas<span +class="pagenum">[28]</span> dos passados seculos a marinha portugueza no decimo +sexto seculo.</p> + +<p>Não posso fazel-o, porque é pouco o tempo que me resta para ainda tratar de +tantas e tão grandes acções, de tantos e tão nobres feitos, e para satisfazer á +terceira parte do meu ponto. Resumirei, pois, quanto podér, nos mais estrictos +limites de uma resenha, e não de larga narrativa, os acontecimentos que se +succedem. Outro tanto não devia nem podia fazel-o com os anteriores factos. Foi +d'elles, e do systema seguido para o seu conseguimento, que se obtiveram os +resultados espantosos que passarei a expor. Não podia pois, deixar de consagrar +alguns minutos á memoria de portuguezes que logram occupar largas e brilhantes +paginas de todos os sinceros historiadores, de todos os philosophos que hão +registado o progressivo caminhar dos povos na senda da civilisação, na estrada +do progresso.</p> + +<p>Cruzam-se nos mares as rótas dos galeões portuguezes. A caravela desfralda +altiva a bandeira da ordem de Christo, guardando do estrangeiro accesso a costa +africana.</p> + +<p>A galé sulca, e secunda nas paragens do Oriente os esforços dos nossos +contra a traição dos naturaes.</p> + +<p>Levantado o véo, exposto o Oriente a todas as vistas, tornam-se habituaes os +portuguezes na manobra dos navios, no conhecimento dos tempos e das costas, e, +arrojadamente curiosos, tudo devassam, tudo visitam, tudo observam, buscando os +terminos do mundo.</p> + +<p>É assim que ao perpassar das naus se apresentam as ilhas de Pedro +Mascarenhas; é assim que Duarte Coelho vae á Cochinchina, Andrade desembarca na +China, Jorge Mascarenhas em Lequeos, Antonio Corrêa no Pegú; é assim que a Asia +insular é reconhecida, e que a terra depois chamada Nova Hollanda é expugnada; +é assim que o Japão se depara á admiração dos capitães e ao zelo fervoroso dos +missionarios. As feridas da espada conquistadora eram<span +class="pagenum">[29]</span> curadas com o balsamo da religião. Onde apparecia a +espada brilhava a cruz. Quando o soldado bradava «Guerra!», o sacerdote +solicitava paz e misericordia. Foi assim que nós conquistámos, foi assim que +nós civilisámos... Esqueçamos os desvios de quem por vezes deixou de imitar o +padre por excellencia, o missionario por dedicação, o martyr voluntario, o +apostolo do Oriente, S. Francisco Xavier, em fim.</p> + +<p>Morrêra D. Francisco de Almeida ás mãos dos negros, finára-se Albuquerque +ralado pelos desgostos, fallecêra el-rei D. Manuel seguindo de perto o seu mais +valente capitão, expirára o nobre Gama na India que descobrira. Tão apressados +em caminhar para o tumulo como o foram de se immortalisar, presagio devia ser +do negro futuro que aguardava a sua patria. Rei venturoso, feliz de ti, que ao +legar tantos reinos, tantas glorias e tanto oiro, soubeste escrever em doiradas +paginas a historia do teu reinado de vinte e seis annos, tão povoada de +heroicidades, tão abundante de nobres feitos, que bem vale por si sómente toda +a historia de um povo. E se quiz Deus que uma fosse negra entre tantas paginas +de oiro, foi de certo para provar ás futuras gerações que existiu em verdade o +reino que aliás tomariam por fabuloso, e que o rei d'esse reino foi um homem, +D. Manuel, e não um Deus.</p> + +<p>Taes homens não morrem, vivem sempre na memoria. E vivem para guardar o que +conquistaram, e vivem para dar exemplo dos seus feitos, e vivem para incitar +novos commettimentos, e vivem bem de pé, encostados ao leme do galeão, +segurando a penna ou empunhando a espada, em quanto vive o derradeiro que os +conheceu. Foi a estes homens que governou D. João III. Estavam os ceos serenos +e limpidos á hora em que os reis d'armas bradaram «Arrayal!», por elle, turvos +e carregados os deixou ao soarem os dobres pedindo orações para a sua alma. Foi +com a seiva do reinado de D. Manuel que vegetou o de D.<span +class="pagenum">[30]</span> João III—seiva que bem podia sustentar ainda a +opulenta e pesada coroa que mais tarde havia de despedaçar-se no solo africano, +de encontro ás lanças do infiel. Se já não ascendia a estrella que brilhava no +ceo, essa estrella brilhava comtudo, e ainda não descendia. O occaso... era, +portanto, imprevisto.</p> + +<p>Começam as luctas contra quem começa a disputar-nos os proveitos resultantes +de emprehendimentos que não foram disputados, e em que sós, e bem sós, nos +achámos. Começam a revelar-se as tendencias mercantis para sobrepujar os +commettimentos da heroicidade. E estas luctas sustenta-as el-rei D. João III +contra a Inglaterra e contra a França, que pretendem frequentar os nossos +dominios maritimos. Mas começára a epocha do commercio, repetimos, e se as +espadas de Nuno da Cunha e D. João de Castro ceifam loiros immarcessiveis, se +Antonio da Silveira e João de Mascarenhas se immortalisam defendendo Cambaya, +nem por isso as tendencias se revelam menos em preferir o negocio que produz +riquezas ás estocadas que dão morte, ainda que com gloria. É n'este reinado que +Martim Affonso de Sousa vae á terra de Santa Cruz, e alli começa a estabelecer +colonos, que depois hão de tornar-se n'um grande povo. É tambem n'este reinado +que Thomé de Sousa desembarca na Bahia de Todos os Santos, onde lança os +fundamentos de uma grande cidade.</p> + +<p>Mas o tempo insta, e falta-me fallar de tres prestantissimos varões.</p> + +<p>São elles Corte-Real, Fernão de Magalhães e Christovão Colombo.</p> + +<p>Nem pelos ter posposto a outros esclarecidos navegadores n'esta brevissima +resenha, deixam elles de occupar privilegiados, se não principaes logares, +entre os mais illustres e nobilissimos navegadores e descobridores.</p> + +<p>Fallarei primeiro dos Corte-Reaes.</p> + +<p>Governava este reino o filho de D. João I. Affonso V<span +class="pagenum">[31]</span> acolhia e estimava as arriscadas emprezas a que +serviam de incitamento o aturado e porfioso estudar da eschola de Sagres. +Deviam alli ter achado as antigas noticias dos descobrimentos e navegações do +povo scandinavo além da Islandia e Groelandia, ás terras denominadas Markland, +Vinkland, etc., actualmente esquecidas por quem primeiro as encontrára, ou +destruidas e submergidas com os infelizes christãos que n'ellas se achavam, ou +estes completamente anniquilados e desapparecidos sob formidaveis moles de +gelo.</p> + +<p>Quando em Sagres convergiam toda a luz da intelligencia, toda a força da +vontade audaciosa de um povo soccorrido com as luzes e os esforços dos mais +esclarecidos e dos mais aventurosos genios de todos os paizes, é claro que não +podiam minguar noticias de acontecimentos tão notaveis e tão sabidos poucos +decennios antes. A estas noticias, e ao pensamento primordial que presidia +então a todas as nossas navegações,—descobrir um caminho, uma passagem para a +India,—devemos attribuir o arrojo com que João Vaz Corte-Real, fidalgo da casa +do infante D. Fernando, se arriscou a navegar para o noroeste em demanda das +terras anteriormente visitadas, ou a fim de passar o mar até encontrar a India. +</p> + +<p>Sabemos que em 1462 João Vaz Corte-Real, com Alvaro Martins Homem, chegára á +Terra Nova ou do Bacalhau. Não se encontram, porém, vestigios de terem +proseguido estas navegações desde então até ao fim do seculo. Foi em 1500 que o +nobre Gaspar Corte Real, auxiliado por el-rei D. Manuel, conseguiu sair do Tejo +com dois navios, e, tocando na ilha Terceira, visitar os seus amigos e parentes +para depois seguir a derrota de seu pae. Chega á terra que denomina +<em>Labrador</em>, visita o porto das Malvas, a Terra Verde, o rio Nevado, a ilha +do Caramelo ou dos Demonios, e o que hoje se diz <em>Canadá</em>. Denominou-se +<em>Canada</em>, e não <em>Cá nada</em>, como se cuida que foram as palavras dos +primeiros portuguezes que entraram esse rio: <em>Canada</em>,<span +class="pagenum">[32]</span> por não ser largo o caminho, que, como desejavam e +esperavam, désse passagem para a India; e não <em>Cá nada</em>, por deixarem de +encontrar o oiro, <em>porque o oiro que então procuravamos era a India</em>. +Volta Corte-Real a Lisboa, e, partindo novamente para aquellas paragens no anno +seguinte, nunca mais se recebem noticias d'elle. Miguel Corte-Real, seu irmão, +dirige-se para a terra do Labrador, e tambem d'alli não volta.</p> + +<p>Quer Vasco Eannes Corte-Real velejar para as regiões onde lhe desappareceram +os dois irmãos queridos; não consente, porém, El-rei, antes manda a outros que +vão na infructifera procura dos Corte-Reaes! E o que resta de tanto esforço e +ousadia, de tanta coragem e dedicação? A gloria de contarmos entre os Gamas e +Albuquerques, Almeidas e Castros, os nobres Corte-Reaes, cuja memoria será tão +duradoira como a terra que descobriram e onde pereceram! É o que resta dos +Corte-Reaes!</p> + +<p>Navegára, e tornára-se distincto na sciencia do mar e da guerra o nosso +compatricio Fernão de Magalhães. Seguíra para a India na frota de Diogo Lopes +de Sequeira, quando aquelle capitão fôra ás ilhas de Madagascar e de Malaca. Na +volta de Goa para o reino, naufragando as naus, deveu-se á intelligente energia +e ao dedicado serviço de Fernão de Magalhães, com a salvação das vidas, o não +se perder toda a fazenda real. Em galardão d'estes trabalhos, pediu Magalhães a +el-rei o accrescentamento de duzentos ou de cem réis mensaes na sua moradia; +mas D. Manuel, ou por causa de um processo em que fôra envolvido o illustre +navegador, ou porque lhe não houvesse ganhado affeição, indeferiu o pedido.</p> + +<p>Este indeferimento valeu uma grandissima gloria á Hespanha. Fernão de +Magalhães, estudando e meditando, recebendo copiosas informações das Molucas e +de todo o Oriente, presentiu que havia ainda outro caminho para a India além +d'aquelle que fôra descoberto<span class="pagenum">[33]</span> pelo Gama. +Crente n'esta esperança, deixa Portugal, e vae offerecer á coroa hespanhola o +roubar-nos o exclusivo do commercio oriental, patenteando um outro caminho para +alli—sem passar pelos dominios portuguezes. Mais offerece provar que as +Molucas pertencem á demarcação de Hespanha, quer pela bulla do papa Alexandre +VI, quer pelo tratado de Tordesilhas.</p> + +<p>Consegue Fernão de Magalhães a necessaria licença de Carlos V, e no dia 1.º +de agosto de 1519 sae de Sevilha no navio <em>Trindade</em>, seguido por outros +quatro navios, <em>Victoria</em>, <em>Santo Antonio</em>, <em>Conceição</em> e <em>S. +Thiago</em>, sendo o maior d'elles do porte de 130 toneladas. Vão ancorar em +Tenerife, e alli, refazendo-se de agua e mantimentos, recebe Magalhães o +conselho de se acautelar dos companheiros, que mais são inimigos promptos a +rebellar-se contra elle, do que auxiliares que o ajudem na primeira +difficuldade que se deparar. Veleja para a terra de Santa Cruz, entra no Rio de +Janeiro, navega depois para o sul, chama <em>Monte Video</em> ao morro situado á +entrada do Rio da Prata, e n'este rio surgem todos. Examinam o Rio da Prata +para ver se dá a desejada passagem para o mar do Poente, mar avistado por +Balboa quatro annos antes, e com este intuito exploram a costa, visitam as +enseadas, reconhecem as bahias que descortinam, e ferram n'aquella que +denominam de <em>S. Julião</em>.</p> + +<p>Foi alli onde Magalhães teve de supportar, com os trabalhos e perigos da +tormenta, os desgostos da rebeldia dos companheiros. Foi alli onde Magalhães se +mostrou energico e severo, como não podia deixar de ser capitão que tanto +ousava, capitão que taes feitos emprehendia. Saíndo de S. Julião, entra no rio +de Santa Cruz, e, novamente desferindo as velas, continúa a navegar para o sul +até descobrir o cabo que chamou <em>das Virgens</em>, e, descortinando outro cabo +ainda mais para o sul, manda fazer grandes festas, porque, pelas fortes marés e +outros signaes, presente que terá chegado ao tão desejado estreito que lhe dê +passagem<span class="pagenum">[34]</span> para o outro mar. Entra o famoso +estreito, denomina <em>do Fogo</em> a terra do sul, e, apesar de abandonado pelo +navio <em>Santo Antonio</em>, continua a navegar, e chama <em>Desejado</em> ao cabo +que pelo sul termina esse estreito. E assim, a 26 de novembro, desemboca com +tres navios no mar que denomina <em>Pacifico</em>.</p> + +<p>Segue governando a differentes rumos, alcança a ilha de S. Paulo ou +Desaventurada, depois a dos Ladrões, e por ultimo as Filippinas. D'alli, guiado +por praticos do paiz, vae aonde a sorte mesquinha quer que seja o ultimo dia de +vida de tão infeliz quanto ousado e esclarecido navegador. Chega á ilha de +Zebut, e, combatendo contra os naturaes com espantosa desegualdade em numero, +contra a perfidia e traição dos indigenas, que, reconciliados, lhe preparam tão +infame ingratidão, e contra a falta de polvora, quando os companheiros +afflictos buscam salvar-se nas lanchas, Fernão de Magalhães, <em>o +portuguez</em>, cobre e defende a retirada até ao ultimo, e, guardando-se para +derradeiro, é morto alli!</p> + +<p>Um só navio, o <em>Victoria</em>, consegue tocar em Timor, e, commandado por +Sebastião d'el Cano, seguir derrota pelo cabo da Boa Esperança, refazer-se de +aguada em S. Thiago de Cabo Verde, e entrar a 7 de setembro de 1522 no rio +d'onde partíra quasi tres annos antes, tendo feito uma volta completa em roda +da terra.</p> + +<p>De Magalhães resta a gloria, e, em quanto o estreito que conserva o nome do +famoso portuguez unir o Pacifico ao Atlantico, não morrerá nem esquecerá o +illustre Fernão de Magalhães.</p> + +<p>Não posso concluir esta abbreviada synopse sem dizer que, se a Hespanha se +gloría de ter acolhido o pensamento e prestado navios a Christovão Colombo, se +Genova se ufana de ser patria de tal heroe, se á Inglaterra peza de haver +desdenhado as offertas do grande homem, Portugal, com o sentimento de não +acceitar os serviços do esclarecido navegador, póde<span +class="pagenum">[35]</span> jactar-se e ensoberbecer-se por ter sido a eschola +e o guia, senão o pharol e a derrota, que levou o illustre descobridor ao novo +mundo, a que chamaram <em>America</em>, quando deveram nomeal-o +<em>Colombia</em>.</p> + +<p>Devo dizer agora quaes foram as consequencias mais notaveis que resultaram +d'estes descobrimentos.</p> + +<p>Ardua tarefa! Difficil é esta parte do ponto.</p> + +<p>Os resultados que derivaram dos descobrimentos dos portuguezes nos seculos +XV e XVI, ou exigem largos dias para se exporem, e grossos volumes para se +escreverem, ou então se exprimem e, por assim dizer, se symbolisam em poucas +palavras.</p> + +<p>É realmente grandissimo o horisonte, alegre e risonho o quadro. Sente-se +dilatar o peito e bater o coração, podendo dizer-se—sou portuguez—ao relatar +quanto deve a humanidade aos portuguezes dos seculos XV e XVI!</p> + +<p>Resultaram dos descobrimentos dos portuguezes os mais grandiosos successos +desde o findar da edade média até hoje.</p> + +<p>Resultaram, com as maiores revoluções, os maiores beneficios para a +humanidade! Foram revoluções capitaes; revoluções que fizeram desapparecer +alguns nomes do pequeno catalogo dos estados livres e independentes; revoluções +que fizeram elevar pequenos estados ao apogeo do poderio e da gloria; +revoluções que transformaram completamente a ordem de importancia relativa de +todos esses estados!</p> + +<p>Resultaram os vastissimos campos, ou ignorados ou esquecidos, e só então +amplamente franqueados a todas as sciencias. A todas, porque a todas +dissemos:—Ide aprender!</p> + +<p>As quilhas dos galeões, sulcando mares nunca dantes navegados, patentearam +com os novos mares novos climas, novos ceos e novos astros, um riquissimo +thesouro de novissimos tratados, quaes nunca melhores poderam homens escrever. +Tratados foram estes de todas as sciencias, escriptos indelevelmente pela +mão<span class="pagenum">[36]</span> do Creador, archivados na grande +bibliotheca do universo, folheados pelos portuguezes antes de outro algum +povo!</p> + +<p>A astronomia e a navegação produzem a hydrographia—completa-se e instrue-se +a geographia. A medicina corre ávida em procura dos meios que os novos paizes +lhe offerecem como á mais proficua das sciencias. A physica, a chimica... todas +as sciencias, em fim, correm a frequentar a vasta eschola aberta pela navegação +portugueza.</p> + +<p>O commercio transforma-se, desenvolve-se e engrandece. Effectua-se a liga +das nações pelos laços do commum interesse, e, com tal confraternisar, +civilisam-se os povos!</p> + +<p>Mas volvamos os olhos para a Europa. Vejamos o que faziam a Inglaterra e a +Allemanha, a França e a Italia. Luctava uma pela liberdade, a outra pela +religião; a França combatia na Italia, e esta destruia-se luctando contra si +mesma na escolha de quem havia de a governar.</p> + +<p>O turco, tomada Constantinopla, era affronta constante e permanente ameaça +aos dominios do christão. E se antes tal conseguíra, e se os povos congregados +á voz dos reis, e os reis congregados ao grito de Roma, não poderam oppor-se á +invasão dos mahometanos, que sería de Roma e da Europa, quando a Europa nem +sequer já escutava o bradar de Roma afflicta?</p> + +<p>Que sería, em taes lances, o rapido e successivo accommetter de hordas sem +fim, de innumeros guerreiros, de exercitos de fanaticos, contando-se ás +centenas de milhares, guiados pela rapacidade, animados pelo furor religioso? +Quem havia de oppor-se a tal invasão?</p> + +<p>Veneza e Genova, unicas potencias maritimas da epocha, se foram muitas vezes +atalaya e escudo da egreja catholica, não poucas transigiram com os inimigos do +christianismo em proveito de interesses menos nobres. A França esquecia S. +Luiz, e presenciava<span class="pagenum">[37]</span> tranquilla e folgazã os +torneios e caçadas em que a fidalguia ostentava a sua vaidosa nobreza.</p> + +<p>A Inglaterra desmanchára os navios em que embarcára Ricardo para a conquista +de Jerusalem.</p> + +<p>A Hespanha e Portugal, luctando braço a braço com o inimigo da fé, +conquistando cada dia um palmo de terra, assentando hoje o arrayal no campo +onde hontem ainda se entrincheiravam os contrarios, aquecendo-se agora á +fogueira que ha pouco era almenára moirisca, levantando a cruz por sobre o +crescente, transformando a mesquita em templo christão, e regando o solo com o +sangue dos seus mais predilectos filhos, Portugal e a Hespanha luctavam, e +luctavam sós, contra todo o immenso poder dos islamistas.</p> + +<p>Se estes dois reinos, pela sua posição no extremo occidental da Europa, +ficavam como que apartados da communhão das nações nos proventos e utilidades +do commercio, bem certos eram na frente dos combates quando se requeria o valor +e o esforço.</p> + +<p>Ultimos estados pela situação geographica, eram tambem os ultimos a +embainhar a espada em defesa da cruz.</p> + +<p>Sangue ardente, provada coragem, dilatada intelligencia, animo audaz, +transpõem os mares conhecidos, e, dando mundos novos de presente ao velho +mundo, fazem a surpreza e o espanto de quem ouve as modernas maravilhas.</p> + +<p>Portugal fecha os golphos Persico e Arabico, apodera-se de Malaca; e assim +cortados ficam os infindos soccorros que d'alli e por alli vem ao turco. +Limitado, apertado n'um determinado territorio, ruge o leão mahometano. Acode +Veneza, ferida do mesmo golpe que enraivecera o turco; apresta navios, que, por +terra conduzidos ao Suez, no mar Vermelho naufragam ou são destroçados pelas +balas portuguezas.</p> + +<p>Constantinopla e Alexandria bem sentem o prompto decrescer, o rapido +definhar do seu commercio. Veneza estremece ao reconhecer que nunca mais os +seus<span class="pagenum">[38]</span> navios transportarão para todos os portos +do Mediterraneo os riquissimos thesouros do Oriente.</p> + +<p>Que importa o alongado caminho? Se o mar dá a morte, a terra do turco dá a +escravidão, impõe a apostasia, e com a tortura moral a agonia lenta e de todos +os instantes, muito peior do que a morte.</p> + +<p>Franqueado o novo caminho para a India, quem mais passará por terras +inimigas do nome christão?</p> + +<p>A Europa, commovida, fita o attento olhar no horisonte. Deixa a cidade de +Constantino, abandona Alexandria, esquece Veneza e o Mediterraneo, e vem saudar +o Tejo!</p> + +<p>Era tempo de que a Europa toda viesse aqui pagar reconhecido preito e +sincera homenagem á portugueza heroicidade. Aprestam-se navios, imitam-se os +modelos lusitanos, correm-se mais ousadamente as costas, visitam-se com +frequencia os differentes portos, robustecem-se os estados, e o turco +empobrecido, definhando a olhos visto, sustenta com mão trémula o alfange que +por toda a parte cede aos botes da espada portugueza. E tres navios e 160 +homens obtiveram, ou antes Vasco da Gama obteve, o que não conseguira toda a +Europa caminhando unida em concertados laços, guiada pela palavra de Pedro e +animada por Godofredo. Nem S. Luiz, nem Ricardo, nem Alexandre VI, nem +Sobieski, nem todos estes heroes feriram tão certeiro golpe no coração do +imperio mauritano como n'elle abriu a quilha do <em>S. Gabriel</em>!</p> + +<p>Eis as consequencias que resultaram dos descobrimentos dos portuguezes nos +seculos XV e XVI; eis o motivo por que, do ultimo logar em que era contada esta +nação, passou a occupar, se não o primeiro, o mais distincto, o mais glorioso, +o mais invejado logar no decimo sexto seculo.</p> + +<p>Eis as consequencias que resultaram para nós. Entendo que não devo descer a +minucias, nem citar este ou aquelle provento colhido com os descobrimentos que +fizemos. Limitar-me-hei a accrescentar que foram<span +class="pagenum">[39]</span> taes as consequencias, que ainda hoje, decorrido +tão grande lapso de tempo, são-nos honra e gloria para oppôr aos desdens e +affrontas, que se tornam villanias de quem as emprega contra aquelles que +ensinaram a todos os povos o caminho do mundo.</p> + +<p>E seja-me permittido referir-me novamente ao padrão assentado no rio Zaire +em 1859, e repetir hoje aqui algumas palavras que então disse ao deixar na +praia africana aquelle memoravel symbolo:</p> + +<p>«Os resultados dos descobrimentos dos portuguezes foram taes que ainda agora +podemos exclamar bem alto:—Disputam-nos hoje alguns palmos da terra que aos +graus de 20 legoas descobrimos e conquistámos, em troca de muito oiro, muito +sacrificio e muita vida, menosprezados pelos povos a quem ensinámos o que +podiam alguns milhares de homens animados pelo acrisolado amor da patria. Bem +pouco valemos já. Percorram, porém, os areiaes da Africa, visitem os palmares +da Asia, admirem as florestas da America, ou naveguem por entre as ilhas da +Oceania, que em toda a parte, ou seja no padrão de pedra, na cruz do templo, na +muralha da fortaleza, no nome do descobridor ou na linguagem do povo, por toda +a parte hão de encontrar vestigios da passagem dos nossos avós, dizendo—honra +ao nome portuguez!»</p> + +<p>Foi esta a herança que nos legaram, que ninguem póde roubar-nos, e que eu +considero como a mais gloriosa das consequencias dos descobrimentos dos +portuguezes nos seculos XV e XVI.</p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a name="L562" id="L562" href="#L560">[1]</a></sup> «Nicolau Coelho +chegou a Lisboa a 10 de julho de 1499, e Vasco da Gama a 29 de agosto.»—João +de Barros. <em>Dec. I</em>, liv. IV, cap. XI, pag. 370.</p> + +<p>«A 29 de julho (alguns dizem de agosto) entrou Vasco da Gama no Tejo, aonde +já o esperava Nicolau Coelho, que tinha chegado a 10 de julho.»—<em>Indice +chronologico das navegações, viagens, descobrimentos e conquistas dos +portuguezes</em>.</p> + +<p>«Vasco da Gama chegou a Lisboa a 29 de agosto, segundo Goes, ou nos +principios de setembro, segundo Castanheda, tendo sido precedido, em 10 de +julho, por Nicolau Coelho, etc.»—<em>Roteiro da viagem de Vasco da Gama em +1497</em>, por A. Herculano e o barão de Castello de Paiva, prologo da 1.ª +edição.</p> + +<p>«A 29 de agosto chegou Vasco da Gama ao patrio Tejo; e sem entrar na cidade, +esteve nove dias no mosteiro de Belem, etc.»—<em>Historia de Portugal</em>, por +Henrique Schæffer.</p> + +<p>«D'esta ilha (Terceira) partiu Vasco da Gama para Lisboa, aonde chegou a 29 +de agosto, sendo recebido del-rei e de toda a corte com as maiores honras, +festas publicas e demonstrações de alegria.»—<em>Annaes da marinha +portugueza</em>, por Ignacio da Costa Quintella.</p> + +<p>«Da ilha (Terceira) forão muytos nauios em companhia das naos, que todos +chegárão juntos a Lisboa, que foi em dezoito dias de Setembro do ano de +499.»—<em>Lendas da India</em>, por Gaspar Corrêa, publicadas pela academia das +sciencias, sob a direcção de Rodrigo José de Lima Felner, liv. I, cap. XXI, +pag. 137 e 138.</p> +</div> + +<p> </p> + +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Os Descobrimentos dos Portuguezes nos +Seculos XV e XVI, by António Filipe Marx de Sori + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS DESCOBRIMENTOS *** + +***** This file should be named 27992-h.htm or 27992-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/7/9/9/27992/ + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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