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+The Project Gutenberg EBook of Portugal e Brazil: emigração e colonisação, by
+Domingos Antonio Gomes Pércheiro
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Portugal e Brazil: emigração e colonisação
+
+Author: Domingos Antonio Gomes Pércheiro
+
+Release Date: February 2, 2009 [EBook #27964]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK PORTUGAL E BRAZIL ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by Cornell
+University Digital Collections)
+
+
+
+
+
+PORTUGAL E BRAZIL
+
+
+OBRAS DO MESMO AUCTOR
+
+QUESTÕES DO PARÁ, 1 vol: 500
+
+COISAS BRAZILEIRAS, opusculo 200
+
+COMMENDADOR E BARÃO, 1 vol: 600
+
+Elementos de Economia POLITICA (cartas a um estudante) traducção 160
+
+EM VIA DE PUBLICAÇÃO
+
+OS AVENTUREIROS, drama fundado em epysodios da emigração.
+
+
+
+
+PORTUGAL E BRAZIL
+
+EMIGRAÇÃO E COLONISAÇÃO
+
+(CRITICA)
+
+POR
+
+D. A. GOMES PÉRCHEIRO
+
+
+1878
+TYP. LUSO-HESPANHOLA
+35--Travessa do Cabral--35
+LISBOA
+
+
+
+
+ Aos meus illudidos compatriotas que vêem no Brazil
+ uma nova terra da promissão.
+
+ (QUESTÕES DO PARÁ.)
+
+
+
+
+AO
+
+_Ill.mo e Ex.mo Sr._
+
+JOSÉ MARIA DOS SANTOS
+
+O PRINCIPAL COLONISADOR
+
+DO
+
+ALEMTEJO
+
+
+
+ _Aos distinctos compatriotas_
+
+Dr. José Rodrigues de Mattos, Manuel Alves Ferreira, José Guilherme
+Koopk Correia Pinto, Manuel Gaspar de Carvalho, J. Teixeira Basto,
+Bernardo Antonio d'Oliveira Braga e Manuel Joaquim Pereira de Sá.
+
+
+
+
+CAPITULO I
+
+A emigração de trabalhadores para o Brazil e os salarios de cá e de lá.
+Os artistas e os salarios. O lado economico. O clima aos olhos do homem
+pratico e do homem de sciencia. O clima e a febre amarella. A
+mortalidade de Portugal e Brazil comparada. A ambição causante principal
+da emigração. Remedios ao mal. A escolla. Colonias no Alemtejo. A
+inspecção da emigração. A liberdade perante a emigração. Portugal,
+Belgica e Hollanda. A riqueza do solo e suas respectivas populações
+comparadas. Terrenos incultos.
+
+
+I
+
+A questão da emigração dos portuguezes para o Brazil, tem sido um
+labyrintho em que muitas intelligencias se têem perdido, sem que,
+infelizmente para Portugal, se tenha adiantado muito na descoberta do
+verdadeiro antidoto, que deve pôr termo ao mal, que parece querer
+definhar a patria; e com tudo suppõe-se que a ultima palavra já foi
+dita, e que desapparecerá por consequencia o nó gordio que prendia o fio
+d'esta questão transcendentissima; e a final as cousas estão no mesmo pé
+em que estavam.
+
+Sem querermos por fórma alguma accusar de inhabeis os grandes talentos,
+que tem sido chamados a este campo vastissimo, por demasiado complexo,
+não podemos ainda assim deixar de sentir, que o assumpto tenha sido
+apenas tratado no campo da theoria, onde a habil dialectica de sapientes
+escriptores caduca á vista dos mais pequeninos argumentos produzidos
+pela prática.
+
+Mas a nossa questão, escrevendo sobre assumpto tão momentoso, não se
+cifra em demonstrar que os estudos baseados na theoria, em que vemos
+geralmente aconselhar aos governos o respeito pela liberdade do
+_cidadão_, mas á sombra da qual se commettem muitos abusos, são
+perniciosos ao paiz. Não que o nosso fim é outro. É, sem tentar romper o
+envoltorio do nosso espirito assaz humilde, e sem desejar ferir
+susceptibilidades, seguir caminho menos trilhado e menos escabroso, com
+o fim de achar a causa do mal e apontal-a aos verdadeiros medicos da
+nação, para que lhe appliquem um remedio energico e salutar.
+
+Estudemos, pois, a questão debaixo do ponto de vista da pratica, e
+começemos por fazer as seguintes proposições:
+
+--Quaes são as razões que induzem o portuguez a emigrar para o Brazil?
+
+--Será a necessidade de obter os meios de subsistencia?
+
+--E caso assim seja, não haverá em Portugal trabalho sufficiente para
+que o portuguez necessitado obtenha esses meios?
+
+--Ou será a ambição que o leva a dar esse passo?
+
+Quem responder ao primeiro quesito com a affirmativa do ultimo,
+parece-nos que terá respondido ao 2.º e ao 3.º; porque a quem tem
+precisão de trabalhar, não faltam em Portugal os meios necessarios á
+subsistencia; e esse trabalho é aqui mais bem remunerado do que no
+Brazil.
+
+Passemos a demonstrar esta asserção.
+
+Na actualidade o portuguez trabalhador ganha, em geral, nunca menos de
+500 réis diarios. Em qualquer parte do paiz se sustenta com 250.
+Resta-lhe, por tanto, 250 réis. Calculemos os lucros obtidos em 10
+annos, a 300 dias uteis por cada um, e teremos em 3:000 dias, 750$000
+réis.
+
+O portuguez em eguaes condições, ganha no Brazil 2$000 réis fracos. Para
+sustentar-se precisa despender 1$500 réis. Resta-lhe a quarta parte do
+salario; isto é 500 réis diarios. Contrahiu, antes de sahir do paiz,
+para poder expatriar-se, uma divida de 200$000 réis. Chegado a terras
+brazileiras, não pôde logo encontrar trabalho; alem d'isso o clima
+inutilisára-o por algum tempo, se n'este comenos não vem a _febre
+amarella_, que sympathisa muito com os estrangeiros...
+
+Para estas demoras precisa contrahir mais um emprestimo de 100$000 réis.
+Esta divida de 300$000 réis, moeda fraca, hade amortisal-a em 2 annos,
+que representam justamente 600 dias uteis de trabalho. Calculados estes
+a 500 réis, se souber economisar aquelle lucro, prefazem os 300$000 réis
+em questão. Restam-lhe por consequencia 8 annos, ou 2:400 dias uteis,
+que a 500 réis importam em 1:200$000 réis, ou 600$000 réis, moeda
+portugueza.
+
+Differença contra o trabalhador do Brazil:--150$000 réis fortes!
+
+Aos que nos queiram observar, dizendo que estipulamos um salario
+extraordinario--o de 500 réis--ao trabalhador de cá, diremos que á maior
+parte dos trabalhadores, contractados aqui para as roças do Brazil, se
+estipula um salario muitissimo inferior ao mencionado acima--o de 2$000
+réis fracos,--se não falham as informações consulares, que temos á
+vista; salario que costumam dar no Brazil ao trabalhador _livre_,
+áquelle que vai ao acaso, e que não se deixa illudir pelos aliciadores.
+E mais adiante provaremos tambem, que ha contractos feitos em Portugal
+pelos trabalhadores engajados, nos quaes se estipula, como recompensa ao
+trabalho no Brazil, a magra importancia de 80, 100 e 120 réis fracos,
+diarios!...
+
+Mas fallemos agora do artista, sem tratarmos das suas despezas, que para
+esta classe de operarios, é sempre muito superior, e o mesmo acontece
+entre nós.
+
+O artista, em geral, ganha no Brazil, de 3$000 a 5$000 réis, moeda
+fraca. Em Portugal variam entre 800, 1$000, 1$200, 1$500 e 2$000 réis,
+moeda forte!
+
+Quem quizer que se dê agora ao incommodo de orçar as despezas de
+sustentação, e diga-nos depois se ha compensação possivel.
+
+Diz um portuguez, que, como nós, examinou de perto o assumpto, que não
+conhecia no Brazil qualquer logar onde um homem, com pequena familia
+possa despender menos de um conto de réis por anno, tendo mesmo um viver
+de proletario: a razão é, accrescenta o nosso compatriota, que sendo o
+dinheiro barato, tudo o mais é caro, excepto os productos do paiz, como
+assucar, café, farinha de mandioca e carne, nos lugares de producção. Um
+par de botinas que em Portugal custa 2$000 réis, vende-se no Brazil por
+14$000 réis; o feitio de umas calças, que em Portugal regula por 400
+réis, no Brazil não se obtem por menos de 4$000 réis; uma duzia de ovos
+vende-se aqui por 160 réis, e lá custa 1$000 réis; uma visita do medico
+custa 4$000 réis, e diz elle que viu pagar por uma operação e curativo
+de oito dias 1:600$000 réis, sendo esta quantia exigida pelo
+cirurgião![1]
+
+ [1]_Duas Palavras a Brazileiros e Portuguezes_, por J. A. Torres.
+
+
+II
+
+Se o preço dos salarios no Brazil e o custo da vida não compensa o
+sacrificio que o portuguez vae fazer, emigrando, o clima insupportavel
+dos tropicos deve desvanecer-lhe completamente as tentações ambiciosas
+de ser rico n'um paiz onde o sol e a humidade inutilisa a saude do
+europeu.
+
+Soccorramo-nos de opiniões mais authorisadas do que a nossa, e encaremos
+a questão do clima brazileiro pelos dois pontos de vista, o da pratica e
+o da theoria, para assim satisfazermos aos espiritos mais exigentes.
+
+O pratico, aquelle que vio as cousas de perto, diz o seguinte:
+
+Demorei-me bastante tempo no sul do imperio e tive occasião de fazer as
+seguintes exactas observações: o thermometro centigrado não sóbe no
+estio a mais de 35 graus, assim como não desce no inverno a menos de 5,
+acima de zero. Mas o que ha de notavel é a variedade da temperatura na
+mesma estação. De um momento para o outro o thermometro marca a
+differença de 6 graus. Na quadra mais fria eu observei dias de 25 e na
+mais quente a de 16 graus.
+
+Para quem não possue uma natureza previligiada, estas grandes e rapidas
+variações são muito sensiveis, principalmente emquanto se não está
+aclimado. Eu usei sempre na mesma quadra roupa de duas estações, que
+alternava segundo as alterações que se davam na atmosphera; e quem não
+tiver esta prevenção ha de forçosamente soffrer.[2]
+
+Não nos parece que o trabalhador possa ter d'estas prevenções, que
+custariam dez vezes mais o salario porque elle contracta o serviço que
+vae prestar no Brazil, admittindo ainda que ao trabalhador seja
+permittido usar de resguardos na lavoura.
+
+O homem de sciencia, que não é extranho ao viver dos tropicos, porque
+reside no Brazil, e d'ali nos alumia com a vastissima luz da sua
+profunda intelligencia, diz o seguinte a respeito do clima brasileiro:
+
+Bucener, Lind, Hunter, Zimmermam, etc, pelos resultados das suas
+experiencias e observações, opinam quasi unanimes em que nos paizes
+situados entre os tropicos, ou seja na America, Africa, Asia, com poucas
+excepções, as raças que habitam a Europa, quando passam a viver entre os
+tropicos, declinam physica e moralmente na razão da maior latitude das
+suas naturalidades, para a menor latitude da localidade tropical. A
+calorificação do animal europeu perde quatro graus na temperatura do
+sangue; a respiração é mais frequente, as pulsações do coração mais
+rapidas, 15 systoles a 20 por minuto em todas as idades; o sangue, e as
+secreções e excreções alteram-se nas qualidades e propriedades, bem como
+a fibra alimentar, o figado e o apparelho gastico funccionam mal; a
+pelle fica laxa, excitada; permanentemente depauperam-se as forças
+organicas pela excessiva transpiração, que conduz ao estado de
+enfraquecimento geral de funcções animaes; effeitos causativos da
+fraqueza organica.
+
+Os diversos estados de accumulações electricas na atmosphera, as
+mudanças sensiveis da temperatura em um mesmo dia, a variedade dos
+ventos, as tempestades e chuvas, precedidas ou succedidas a um grau de
+calor ou vento fresco, occasionam e produzem as diversidades de
+molestias de pulmão, das vias gasticas, da pelle, das mucosas, das
+febres intermittentes e typhoides, das molestias ephemeras e de systema
+nervoso: sempre ameaçando a vida nos diversos estados mais ou menos
+agudos, mais ou menos chronicos. Os europeus que conseguem acostumar-se
+a estas alternativas estranhas á sua economia, nem por isso conseguem
+readquirir a mesma natureza organica e vital, como no paiz d'onde
+procederam; e transmittem ás suas gerações um germem enfraquecido,
+d'onde resulta a progressiva degeneração dos paes a filhos, que bem
+depressa conduzirá até á extincção da especie.[3]
+
+N'esta meia duzia de linhas do distincto escriptor, firmadas nos estudos
+dos naturalistas citados e na sua propria observação vemos nós um grande
+antidoto contra a febre da emigração para o Brazil, se nós e o nosso
+compatriota Torres, ao trascrevel-as, tivessemos a felicidade de as ver
+lidas por aquelles a quem as destinamos.
+
+Esperemos comtudo pelo futuro.
+
+ [2] Auctor citado.
+
+ [3]_Interesses portuguezes_, por J. R. de Mattos.
+
+
+III
+
+Comparemos agora os effeitos terriveis do clima, a mortalidade dos dois
+paizes Portugal e Brazil.
+
+A mortalidade em Portugal é pouco mais ou menos de 2,59 por cento[4]; em
+quanto que no imperio americano, com respeito aos emigrados portuguezes,
+é actualmente impossivel dizer se está de 90 a 99 por cento, se tomarmos
+na devida consideração a estatistica do primeiro semestre de 1876, que
+só no Rio de Janeiro nos mostra que o numero de obitos subiu a 2:600,
+_sendo o numero de fallecidos da febre amarella, de 1877_![5]
+
+Ha quem diga que se se podesse fazer igual estatistica com respeito aos
+colonos residentes no sertão, reconhecer-se-ia que 90 por cento dos
+portuguezes que emigram para aquellas regiões não chegariam para
+satisfazer a contribuição exegida pelo terrivel flagello!
+
+Mas comparemos a entrada dos portuguezes em todo o anno de 1876, com o
+numero dos fallecidos.
+
+Diz o consul no relatorio indicado, que o numero de portuguezes entrados
+no porto do Rio de Janeiro foi, n'aquelle anno, de 8:523. A media é, por
+tanto, de 4:311,5.
+
+Assim, pois, se o numero dos fallecidos, em um semestre, é de 2:600,
+veremos que restam apenas 1:711 colonos, ou 3:422, por cada anno.
+
+É horrivel!
+
+E note-se que este resultado apparece logo immediatamente á chegada dos
+emigrados; e os que morrem depois, ou os que ficam inutilisados?!...
+
+O nosso illustre compatriota doutor José Rodrigues de Mattos, medico
+pela universidade de Coimbra, residente na cidade do Rio de Janeiro,
+respondendo á carta do sr. Alexandre Herculano, dirigida em dezembro de
+1873 á _Sociedade real da agricultura em Lisboa_, observa o seguinte, em
+sua nota n.º 5, a respeito do assumpto importantissimo da mortalidade no
+Rio de Janeiro:
+
+«Pois que fallei de miserias e o sr. Alexandre Herculano só encara a
+emigração pelo prisma das grandezas, apresentarei outros factos, que não
+se encontram nos _livros sobre colonisação portugueza_. A população da
+capital do Rio de Janeiro, pela estatistica official de 1873, conta
+228:743 habitantes incluidos 78:583 estrangeiros, dos quaes 53:213 são
+portuguezes. Na hypothese menos favoravel ao meu calculo, todos estes
+estrangeiros chegaram ao Rio de Janeiro entre as edades de 10 annos até
+aos 78 annos. Pela tabua da mortalidade de Duparcieux, desde o
+nascimento até á idade de 10 annos, e desde os 78 até aos 94, morre um
+numero de individuos igual ao numero dos obitos comprehendidos desde a
+edade dos 10 até aos 78. A grande maioria da emigração compõe-se de
+individuos chegados na edade de 16 a 30 annos; em que o termo medio de
+vida provavel é o maior. A mortalidade da população pelas estatisticas
+dos 3 ultimos annos revelava uma media superior a 10:000 obitos. A
+população de Lisboa pelo menos é igual, se não maior de 228:743: a media
+da mortalidade em Lisboa é de 5:400 obitos por anno. Comparadas as
+populações das duas cidades, as suas mortalidades, as respectivas
+populações dos subditos naturaes dos dois paizes e a dos estrangeiros
+habitadores desde os 10 annos por diante, o resultado é o seguinte na
+cidade de Lisboa, sobre 53:213 portuguezes desde a idade dos 10 até aos
+78 annos, morrem cada anno 1:255 individuos: sobre igual numero de
+portuguezes entre as mesmas idades, morrem na cidade do Rio de Janeiro
+3:125; ou melhor: a mortalidade dos portuguezes no Rio de Janeiro é
+maior de 149 por cento da mortalidade de Lisboa. Estes calculos podem
+ficar subordinados em relação ao numero dos habitantes da capital de
+Lisboa, que se diz maior de 228:743 habitantes; bem como ao desconto dos
+estrangeiros domiciliados; numero que está estimado em diminutisima
+parcella. Não pode julgar-se estranha a maior mortalidade, quando em
+Lisboa se conta apenas 129 medicos e cirurgiões e 82 pharmacias; em
+quanto que no Rio de Janeiro existem 418 medicos e 344 pharmaceuticos
+domiciliados. No bienio de 1872 a 1873 trataram-se 5:000 doentes no
+hospital da sociedade Portugueza de Beneficencia; a Caixa de seccorros
+de D. Pedro V tratou de molestias e deu esmolas a 18:530 portuguezes; e
+nos hospitaes, das ordens Terceiras e da Misericordia ha 400 leitos
+occupados constantemente por enfermos portuguezes; calcula-se que
+aproximadamente regula por 16:000 infilizes que annualmente povoam os
+hospitaes de caridade na população riquissima de pouco mais de 50:000
+emigrados. O hospital de S. José em Lisboa recebe apenas 12:000 de uma
+população calculada em 300:000 almas.»
+
+Mas continuemos a examinar outros dados que temos á vista.
+
+A mortalidade de Lisboa, segundo a estatistica publicada no _Diario do
+Governo_ n.º 285, de 1872, é de 30,4 individuos para cada 1:000, um
+pouco mais do que a da cidade de Londres, que desce a 27, e um pouco
+menos do que a de Roma, que sóbe a 35. No Cabo da Boa Esperança e na
+Serra Leoa, a mortalidade é de 200 individuos para cada 1:000, e a da
+população portugueza residente no Rio de Janeiro, segundo o relatorio do
+ministro do commercio, agricultura e obras publicas foi, em 1870, de 270
+para 1:000!!![6]
+
+O ponto de Portugal onde a mortalidade é maior, chegando a dar ao
+cemiterio uma precentagem de 40,4 individuos para cada 1:000, é o
+districto de Beja; mas o termo medio é o que já deixamos mencionado,
+isto é, 2,59 para 100.[7]
+
+No desenvolvimento da critica que mais adiante fazemos a um livro
+publicado ha pouco[8], verão os leitores que não está dita ainda a
+ultima palavra sobre a mortalidade de portuguezes no Rio de Janeiro.
+Alli demonstraremos com as estatisticas das sociedades portuguezas
+beneficentes, que não foi arrojada a nossa proposição quando dissemos
+que a mortalidade na colonia poderia elevar-se até aos 90 casos para
+cada 100 individuos.
+
+O portuguez que emigra não vê isto; só pensa que ao fim de alguns annos
+hade vir rico do Brazil, e isso lhe basta; porque não ha quem lhe diga
+que, de cada milhar, vem de lá um remediado, verdade seja que vergando
+ao peso das molestias adequeridas em tão insalubre paiz.
+
+Este mal é já velho, e não vemos que os remedios vulgares o possam
+debellar; por que para nós, é ponto de fé que a ambição só poderia ter o
+curativo que entre nós nunca pensaram em applicar aos ambiciosos, a
+escolla.
+
+ [4] Veja-se a nota n.º 1 no fim do volume.
+
+ [5] Relatorio do consul geral de Portugal no Rio, de 28 de maio de
+ 1877.
+
+ [6] Veja-se _Primeiro inquerito parlamentar sobre a emigração
+ portugueza_. 1873.
+
+ [7] Veja-se nota n.º 1 no fim do vol.
+
+ [8]_O Brazil_, por Augusto de Carvalho.
+
+
+IV
+
+A ambição, inerente a todos os homens, o nosso genio naturalmente
+aventureiro, amante do desconhecido, que ainda assim não faz em nós
+esquecer o santo amor do trabalho, nos cega a tal ponto, e esta triste
+verdade vem já de seculos, que não nos deixa ver os desastres dos nossos
+antepassados, que igual motivo acarretára para longe da patria e da
+familia, onde, n'um momento, a terra preferida se transformava em abysmo
+para os tragar.
+
+E deixavam os que lhe sobreviviam, em tão remotas epocas, de cair no
+mesmo erro? Não, porque lá estavam os mesmos interessados (sempre houve
+engajadores) a apontar aos ambiciosos as minas inesgotaveis do Brazil!
+
+Pois qual seria o portuguez capaz de ficar indiciso, á vista da
+descripção dos brilhantes da mais fina agua, do oiro em pó, dos
+aljofares, dos coraes, das perolas, das esmeraldas e das amethystas, que
+os apologistas diziam andar aos pontapés n'este paiz de fadas? Quem
+seria capaz de resistir ao aroma das poeticas flores, da poesia das
+frondosas arvores, por entre as quaes se interlaçam os mais exquisitos
+cipós, aroma que aos incautos, parecia atravessar esse immenso lago de
+milhares de legoas, para chegar até elles? Quem não ficaria
+enthusiasmado com a descripção, não menos patetica, das nuvens de
+milhares de passarinhos com suas pennas de mil côres, que segundo os
+poetas adejam por cima d'esse bosque immenso que esconde os pantanos
+venenosos, a cascavel e a sucuriuba? Quem não escutaria de bom grado as
+descripções fantasticas d'esses rios gigantes e dos _igarapés_, das
+immensas cordilheiras e dos valles, das grutas mysteriosas e das cidades
+encantadas d'este paraizo terreal?
+
+Quem mostrava aos nossos antepassados o reverso da medalha? a poesia das
+flores, das mattas virgens, das esmeraldas e dos rubis transformada na
+poesia do tumulo, que algumas vezes era o oceano e outras o estomago do
+antropophago?!
+
+Dizem antigos escriptores, que os indios brazileiros eram mais difficeis
+de domar que os dos outros pontos da America meridional, sujeitos aos
+castelhanos; e que, primeiro que fundassemos ali povoações, perdemos
+muitas vidas e muito sangue. As viagens eram muito difficeis. Muitos
+galeões naufragavam antes de chegarem ao seu termo.
+
+Mas que importavam estas difficuldades escondidas a quem sonhava com o
+El-Dourado?
+
+Ora, a nossa questão é que as phantasias de hoje são as phantasias
+d'outr'ora; e que, para desfazel-as no espirito dos nossos illudidos
+compatriotas, não bastam os estudos theoricos de qualquer commissão de
+emigração. Faça-se mais. Combata-se o mal da ambição, pela escola,
+offerecendo aos ambiciosos as riquezas, ainda por explorar, dos nossos
+vastos dominios do continente. Nós que somos inimigo dos emprestimos
+para a consolidação da nossa divida publica, porque não vemos que ella
+se consolide, aprovariamos um emprestimo que tivesse por fim comprar os
+terrenos quasi virgens do Alemtejo, e que, depois de divididos em
+courellas, deveriam ser aforados aos trabalhadores, a exemplo do que
+está constantemente praticando o primeiro lavrador d'este paiz, o sr.
+José Maria dos Santos, na margem sul do Tejo, e em outros pontos
+d'aquela uberrima provincia; não esquecendo a vastissima herdade da
+Capella, no concelho do Redondo, dividida em courellas por aquele
+lavrador aos habitantes d'esta villa, herdade que hoje está
+completamente transformada em riquissimas e ao mesmo tempo pitorescas
+vinhaterias.
+
+Apregoam-se os males da febre amarella, e especialmente os maus tratos
+que os indigenas do Brazil infligem aos emigrados portuguezes; e que
+resultado se tira do pregão?
+
+Aqui ha tempo, quando a imprensa portugueza se levantava indignada
+contra os morticinios do Pará, navios continuavam a ir cheios de
+emigrados para aquellas paragens! Esses mesmos navios conduziam para a
+Europa ou para a Africa os repatriados, que não podiam supportar os
+disturbios dos paraenses!!!
+
+Os portuguezes que em 1835 e 1848, poderam, a muito custo, escapar ao
+punhal dos _cabanos_, regressavam, pouco tempo depois, ás provincias do
+Pará e Pernambuco, theatros onde se representaram tão horriveis
+dramas!!!
+
+E que haviam elles de fazer? Quem os incitava aqui ao trabalho que traz
+a independencia?
+
+Os terrenos incultos estavam, ao tempo, na mão dos morgados. Extinctos
+estes, a missão dos governos não estava finda: era preciso que esses
+governos lançassem mão dos terrenos, reunil-os aos baldios e
+offerecel-os aos ambiciosos. Assim protegeria a agricultura, a nosso
+ver, a unica fonte de onde jorra a prosperidade dos paizes predestinados
+pela natureza a grandes emporios agricolas.
+
+Os portuguezes emigravam então, como emigram hoje, porque não tem havido
+ninguem que os attraia seriamente para as riquezas do nosso solo.
+
+Mas ainda é tempo. Que os males passados sirvam de exemplo para evitar
+os males futuros, e emquanto se não providenceia como é de urgente
+necessidade, prohiba-se a emigração para o Brazil, quando alli haja a
+febre amarella.
+
+Dizemos isto sem medo que nos alcunhem de anti-liberaes; e áquelles que
+nos replicarem que atacamos os direitos do cidadão, responderemos, que
+para a maior parte dos _cidadãos_ que emigram comprehenderem bem os seus
+deveres, precisam de ir para a escolla. Queremos dizer com isto que em
+Portugal se descura muito da escolla, o melhor antidoto contra a febre
+da emigração.
+
+
+V
+
+Se a instrucção do povo é o remedio infallivel que preferimos applicar
+ao mal da emigração, não é menos certo que esse remedio só pode curar
+com lentidão, o que desejariamos fosse curado rapidamente.
+
+Attrahir o trabalhador a novas fontes de riqueza no próprio paiz, era já
+um cauterio cujos effeitos não são tão lentos como os da escolla.
+Referimo-n'os ás colonias agricolas no sul de Portugal, Alemtejo e
+Algarve. Quem fundará essas colonias? O capital, desde que o capital
+encontre garantia no governo, garantia que se traduza em isenção de
+contribuições para as colonias que se estabeleçam com caracter de
+protecção ao trabalhador, que é ao mesmo tempo garantia para a
+agricultura do paiz e, por consequencia, para o proprio capital
+empatado.
+
+É assumpto vastissimo, o da fundação das colonias no Alemtejo, e as
+luzes de que dispomos não são sufficientes para dizermos o que baste
+para o desenlace d'uma questão demasiado complexa. Com tudo, parece-nos
+que aquelles que nestes ultimos tempos tem querido dar impulso á
+agricultura na provincia mais vasta e mais rica que possuimos,
+desconhecem um pouco a materia.
+
+Nós quizeramos vêr _retrogradar_ os nossos habilissimos estadistas de
+hoje, até aos tempos primitivos da monarchia, em que se fundaram essas
+povoações que para ahi vemos medrar, cujos alicerces foram devidos unica
+e exclusivamente ao trabalho agricola de colonos nacionaes e
+estrangeiros--estes da região do norte; porque nos tempos _retrogrados_,
+não se tinha em menos conta o cruzamento das vigorosissimas raças do
+norte da Europa com as semi-indulentes do meio dia: prova de que á testa
+dos negocios publicos não estavam uns certos miopes da actualidade, que
+entendem beneficiar o paiz colonisando o Alemtejo com familias
+italianas.
+
+Mas que se fazia então?
+
+Fazia-se o que se não faz hoje. Então como na actualidade, os governos
+do estado precisavam de dinheiro. Então julgavam, e julgavam bem, que a
+riqueza brotava do solo; e o solo era explorado para produzir essa
+riqueza que nós vimos empregar nas emprezas arrojadissimas, que fizeram
+grande este paiz que nascera pequenissimo.
+
+Hoje que a terra é a mesma--ainda immensamente rica;--pede-se ao visinho
+uma esmola, outra e outra (até fechar-nos a porta, desenlace que sempre
+deve esperar quem muito pede e muito gasta), para fazer face ás despezas
+do estado; em logar de nos prepararmos previamente para essas despezas,
+descobrindo com a enchada, no centro da provida terra como os nossos
+antepassados, as minas que alli deixa intactas a nossa imprevidencia.
+
+É que é mais facil pedir emprestado!
+
+Os que pedem emprestado podem saber muito de economia politica; porem
+não sabem ser bons lavradores--dos que semeam para colher, dos que
+amanhando a terra, dão que fazer a muitos braços, tornando-os
+independentes do visinho, que é avaro com os taes emprestimos.
+
+Mas se o nosso economista, estuda, estuda no gabinete; depois chega-lhe
+á porta uma alluvião de amigos, que o elevára á _proeminencia_... de
+estar encerrado no tal gabinete; acorda-o do lethargo que podia
+salvar-nos; mostra-lhe o estomago vasio; e o economista, que póde muito
+bem ser um _touro_, não tem mais remedio senão ceder... porque a
+alluvião de amigos representa a _giboia_ collosal da nossa politica!
+
+Que fazer?
+
+Pedir emprestado ao visinho; senão sujeita-se a ser engulido!
+
+E não digam que os nossos economistas não são mais previdentes do que o
+inexperiente viajante que, de mãos vasias, no meio da floresta, não
+pôde, para salvar-se, atirar com a posta ao reptil!...
+
+Haverá alguem que possa fazer de Hercules; que empunhe a massa e esmague
+a cabeça da serpente que para ahi se arrasta em volta do manso
+bezerro--o povo?
+
+Se ha, que venha e... faça um emprestimo, mas um emprestimo colossal.
+Com o dinheiro emprestado fundará colonias no Alemtejo e no Algarve;
+porém colonias perfeitamente montadas, convidando-se para as compor, não
+só as familias d'aquellas regiões, mas as das provincias do norte de
+Portugal, que costumam sair para o Brazil; e se lhe apparecerem pelo
+gabinete os taes senhores _giboias_ de estomago elastico, metta-lhes uma
+enchada na mão, e ensine-lhes o caminho do campo em desbravamento, onde
+se converterão, de simples bichos, em optimos trabalhadores e uteis
+cidadãos.
+
+Não haverá para ahi quem se convença, que isto de estar continuadamente
+a pedir dinheiro emprestado para pagar emprestimos é um erro economico?
+
+Contraia-se, pois, um emprestimo para o fim indicado, que os lucros hão
+de chegar, não só para satisfazer essa divida, como as já contrahidas e
+que jámais poderão ser pagas pelo systema rotineiro; e até mesmo cremos
+que d'esses lucros sobejará para supprir algumas faltas dos golotões
+reptis... se por desventura nossa ainda os houver.
+
+Terminaremos estas observações dizendo, que conhecemos alguns
+cavalheiros, lavradores no Alemtejo, que, tendo comprado algumas
+herdades lhes offereciam hoje, tres ou quatro annos depois do _amanho_,
+200 e 300 por cento de lucro!
+
+Nós estamos convencidos que a isto se deve chamar lucro, se, como
+acontece a muitos pontos da lei social, não está tambem invertido este
+principio, sobre que assenta a lei economica.
+
+Venha um governo, que, proseguindo no caminho aberto pelo rei Diniz, se
+não envergonhe do cognome de--_lavrador_--com que a historia glorificára
+aquelle grande portuguez, mais amigo do seu paiz, na epocha do
+obscurantismo, do que o são todos os economistas presentes, que empunham
+o facho, d'onde dizem que brota a _luz_, mas que infelizmente nos
+encaminha para o abysmo da _destruição_.
+
+E haverá governo que queira _achincalhar-se_ com o cognome
+de--_lavrador_?!
+
+Não será mais bonito appelidar-se antes _banqueiro_, _accionista_,
+_director de qualquer cousa_, _jornalista_, _litterato_, e até mesmo...
+_pastelleiro_?!
+
+Escolham, escolham... mas vejam que da escolha depende o futuro da
+patria.
+
+
+VI
+
+As colonias não podiam prosperar, no nosso humilde entender, quando
+estivessem montadas, se o governo não lançasse mão de um meio
+energico--e liberal humanitario ao mesmo tempo, contra a emigração
+clandestina, meio que se nos afigura ser o mais prompto e decisivo para
+a cura do mal que definha as forças vitaes do paiz--a falta de braços:
+referimo-nos á inspeção da emigração, que pode, em parte, substituir a
+escolla, e auxiliar, desde já, e muito poderosamente, a pequena
+agricultura que luta com a falta de braços que se escoam para o Brazil.
+
+A inspecção da emigração não é cousa nova. Está estabelecida nos paizes
+mais adiantados e se o Brazil a não estabeleceu, como já fez a America
+do norte, é porque n'aquelle paiz como em Portugal não se estuda a serio
+estes assumptos economicos.
+
+Á America do norte não comvem o engajamento forçado, isto é, a illusão.
+Á America do norte comvem que a introducção dos colonos seja feita com a
+maxima liberdade, por que nos processos liberaes do engajamento está a
+riqueza dos grandes nucleos da emigração e por consequencia do paiz que
+acolhe os emigrantes.
+
+O projecto de lei apresentado na camara dos representantes dos Estados
+Unidos por mr. Conger, estabelece alem de outras medidas favoraveis aos
+emigrantes que procuram as terras do norte da America, que nos portos de
+partida os consules americanos deverão passar uma especie de inspecção
+aos emigrantes; que ao desembarque d'estes as queixas serão julgadas
+summariamente pelos commissarios dos Estados Unidos; estes commissarios
+serão nomeados pelo presidente dos Estados Unidos, de accordo com o
+senado, por um periodo de quatro annos; serão encarregados, debaixo da
+direcção do secretario do thesouro, da execução de todas as leis
+relativas á emigração, e authorisados a estabelecer regulamentos; o
+secretario do thesouro nomeará, um escrivão bem como addidos inspectores
+e outros agentes necessarios; os proprietarios, agentes ou capitães de
+navios que conduzem emigrantes aos Estados Unidos pagarão no momento do
+desembarque, um dollar por pessoa adulta, applicavel aos soccorros em
+caso de doença, ao aluguer ou construcção de embarcadouros, sempre em
+beneficio dos emigrantes; nos portos de Liverpool, Hamburgo, Breme e
+outros, onde annualmente se embarca mais de 40:000 emigrantes, será
+estabelecido um agente _com commissão especial de inspeccionar os navios
+antes de partirem, examinar se a lei é executada, de dar as necesarias
+informações aos emigrantes_, etc; nos outros portos onde a emigração não
+exceda annualmente aquelle numero o consul substituirá o agente da
+emigração mediante um supplemento de 1:000 dollars por anno; quatro
+inspectores, fallando allemão, francez e sueco e outras linguas serão
+addidos ao porto de New-York, e um em cada um dos portos onde chegam os
+emigrantes em quantidade consideravel; a estes agentes cumpre acompanhar
+os empregados das alfandegas á chegada de cada navio commerciante,
+examinal-os, receber as queixas dos emigrantes, e quando as houver fazer
+um relatorio ao collector da alfandega e ao chefe do departamento da
+emigração; o superintendente intentará um processo por perdas e damnos
+em favor dos emigrantes; os commissarios nos Estados Unidos julgarão
+summariamente todos os casos de mau tratamento a bordo, insufficiencia
+ou má qualidade de alimentos, perjuizos na bagagem, roubos, fraudes,
+seja nos hoteis, no cambio da moeda, atraso nos caminhos de ferro, etc,
+etc; poderão condemnar o culpado a 100 dollars de multa por cada uma das
+culpas e tambem poderão reclamar a sua prisão até que o caso seja
+julgado; os deveres dos superintendentes, debaixo da direcção dos
+commissarios, serão prover a que os emigrantes sejam bem recebidos ao
+desembarque, de alugar para elles os necessarios terrenos, e mandar
+fazer as construcções indispensaveis, de cuidar nas suas bagagens, de
+tomar os seus nomes, idade, occupação e destino, de os proteger contra
+as fraudes, procurando-lhes occupação, quando a desejem, de prover ás
+mais urgentes necessidades dos recemchegados, de lhes prestar todas as
+informações relativas ao meio mais prompto e mais economico de se
+transportarem aos seus destinos, de lhes fazer obter das companhias de
+transporte as mais vantajosas condições, e emfim de prevenir tudo para a
+commodidade e segurança dos colonos, etc., etc.; os contractos passados
+no estrangeiro para o transporte dos emigrantes a um ponto qualquer dos
+Estados Unidos serão illegaes e nullos, não tendo sido previamente
+approvados pelo superintendente da emigração.
+
+Mas se os paizes que recebem colonos precisam de inspectores que
+fiscalizem a emigração, aquelles de onde ella se escoa não precisa menos
+d'esses utilissimos agentes do governo. Assim o intendeu o conde de
+Thomar em 1860, quando representava Portugal no Brazil, nomeando um
+commissario, o dr. Antonio José Coelho Louzada, para formular um
+projecto de regulamento para a emigração; projecto que, uma vez
+convertido em lei do estado, devia ser de grande utilidade para o nosso
+paiz.
+
+Referindo-se á creação dos logares de inspector, diz elle:
+
+Que a nomeação dos inspectores especiaes da colonisação não é cousa
+nova. Na França e na Belgica, por onde se escoa uma grande massa de
+emigrantes europeus, ha os inspectores especiaes e sem elles eu não
+julgo que o governo portuguez possa ter nenhum conhecimento exacto da
+população que emigra, nem a certeza de que a sahida dos emigrantes se
+faz sem o emprego da seducção e do engano a que é tão frequentemente
+sujeita. As authoridades administrativas da localidade respectiva, ás
+quaes o art. 5.º, n.º 1 (da lei de 20 de julho de 1855), commetteu a
+fiscalisação d'este assumpto, não podia no meio de tão complicados
+encargos, como os que já tem pela legislação vigente, occupar-se
+detidamente de um negocio que para ser bem fiscalisado deverá começar de
+muito antes do emigrante embarcar, e somente acabar no acto da sua saida
+pela barra fóra. Como porem não seja para esperar que a deserção dos
+patrios lares vá, como até agora tem succedido, em grande progressão, e
+antes ao contrario d'isso eu tenha por infallivel que ella diminuirá com
+as providencias que indico, entendi que os inspectores especiaes de
+colonisação não deveriam fazer parte de uma nova creação de empregados
+publicos, e que n'esse intuito procurando-se algum que estivesse menos
+sobrecarregado de trabalho ou inteiramente dispensado d'elle, possa á
+rigidez de caracter unir uma boa vontade para empregar-se em um serviço
+publico de tamanha importancia, como se reputa ser aquelle, que deverá
+ter por empreza não sómente desviar a seducção feita aos emigrantes, que
+precorrem paizes que não são possessões nossas, como o de ir explorando
+os meios mais efficazes a empregar, com o fim de fazer encaminhar uma
+semilhante tendencia para os dominios portuguezes d'alem-mar. Sem um
+similhante funccionario applicado a este ramo de serviço publico, nem a
+fiscalisação irá até aos ultimos momentos da partida do navio, nem as
+estatisticas do movimento emigratorio poderá obter fóros, se não de
+real, pelo menos de mui aproximado, por isso que todos os quadjuvantes
+que lhe são dados não podem occupar-se se não dos assumptos concernentes
+á sua especialidade, como são os capitães do porto, o delegado ou
+sub-delegado de saude e o empregado da alfandega, todos os quaes carecem
+de um centro de reunião para que possam marchar de accordo nas medidas a
+empregar.[9]
+
+O projecto do regulamento, que era um complemento á doutrina do art.
+12.º da lei do 20 de julho de 1855, e a que se refere a nota que acima
+reproduzimos, estabelece oito inspecções nos portos, de Lisboa, Porto,
+Vianna do Castello, Madeira, Ponta Delgada, Horta e Terceira com o
+encargo de superientender a emigração tanto dos portuguezes como dos
+estrangeiros que houverem de sair pelos portos acima indicados;
+estabelece que o embarque de emigrantes em qualquer outro porto seja
+vedado; que os inspectores tomarão o logar das authoridades
+administrativas locaes no desempenho das obrigações consignadas na lei
+de 20 de julho de 1855; que os inspectores fiscalisem os passaportes dos
+emigrantes, etc. etc.
+
+Mas foi prégar no deserto. Já são passados 17 annos de somnolencia
+incomprehensivel; e desde então para cá, que de milhares de braços tem
+perdido a nossa agricultura!
+
+A commissão parlamentar nomeada ha annos para prover de remedio a tão
+grande mal, calculava que em 20 annos se perdiam 75 por cento dos
+portuguezes que emigram para o Brazil!
+
+Reduzindo a metal o que este trabalho representa, diz a commissão, e
+dando 120$000 réis ao trabalho produzido por cada emigrado, annualmente,
+34:000 emigrados, representando 2:400$000 réis cada um, em 20 annos
+fazem 81.600:000$000 réis.[10]
+
+Foram igualmente baldados os estudos da commissão dos srs. deputados!
+
+E tudo isto: estes milhares de contos, e, o que é mais, os milhares de
+vidas preciosas que vão perder-se no Brazil, seriam aproveitadas em
+beneficio do paiz que tanto d'elles carece.
+
+Quando haverá um governo que trate seriamente de debellar o mal que nos
+prostra?
+
+Ah! mas a liberdade! Deixemos aos proletarios a vontade livre, a
+liberdade de emigrar, que é uma garantia do cidadão!
+
+Mas a esses que apregoam essa liberdade absurda respondem os grandes
+economistas, que não desrespeitam a liberdade, tal qual ella deve ser
+comprehendida pelos que dirigem os destinos das nações:
+
+«O livre arbitrio, diz o nosso doutissimo compatriota, o sr. Rodrigues
+de Mattos, só pode ser admissivel no homem sabio e no caso extremo, em
+que por violencia extranha tem de actuar e lhe faltam conceitos por
+melhores, do que a reprovação conscenciosamente justificada; mas ainda
+assim o homem sabio condemna sempre o livre arbitrio e prefere dizer:
+ignoro; obedeço; não imponho.--O radicalismo que se apregoa nas
+doutrinas da _liberdade sem limites e da sciencia sem privilegio_
+traduz-se no charlatanismo dos mais ardilosos; na traição dos hypocritas
+insuflados de odios; na corrupção dos poderes do estado; no amalgama dos
+erros com as verdades; nas superfetações do pedantismo encyclopedico.
+Concordando nas doutrinas do sr. Alexandre Herculano e na intelligencia
+do principio _liberal e razoavel_ applicado na inspecção dos processos
+de emigração, lembro tambem á Sociedade Real de Agricultura o seguinte
+expediente. Todo o portuguez que pretenda emigrar e esteja no caso de
+ser reputado na classe ou ordem--_Emigração socialmente legitima e
+economicamente boa_, procederá a um exame, em que pelo menos mostre
+saber ler, escrever e contar, sommando e diminuindo; que saiba
+conscenciosamente a posição de Portugal e da America no mappa
+geographico, as suas historias pelo menos as mais modernas, e alguma
+cousa de climas, raças humanas, producções, industrias e seus valores
+comparativos e utilisaveis; se tem algumas noções dos deveres de pai, de
+marido, de filho, de irmão, do que significam as palavras «sou portuguez
+da Europa e não _portuguez_ da America». Se a Sociedade Real de
+Agricultura poder conseguir a pratica d'esta doutrina de _legitimidade
+de acção_ e de _utilidade economica_ não só Portugal se enriquecerá,
+porque o numero de emigrados ficará reduzido de 12:000 a uns 200 até 300
+emigrados, que honrarão no Brazil as tradições gloriosas dos seus
+antigos progenitores nos cinco continentes da terra, como tambem
+fomentarão o commercio e as industrias das duas nações na Europa e na
+America. Homens, _coisas_, na America, serão talvez um elemento material
+destructivel por quem melhor o souber consumir para reproduzir-se em
+proveito total; menos os taes 3:000 contos de interesse por commissão e
+despezas de capitaes nos valores 108.000.000:000$000; commissão que nem
+ao menos chega para comprar opio e fazer dormir por 24 horas um paiz que
+desde dois seculos não passa do termo medio das 3.500:000 almas, quando
+poderia contar 10.000:000, só na peninsula, e ter aproveitado as suas
+melhores colonias, disputadas hoje por quantos aventureiros apparecem,
+como lobos contra cordeiros. _Turbulentam mihi aquam fecisti._»
+
+Discordamos um pouco da opinião do illustre escriptor, com respeito ás
+considerações que elle fez a respeito da instrucção, que no seu intender
+devia ser exigida pela Sociedade de Agricultura aos emigrantes. Nós
+contentavamo-nos com muito menos; isto é, que lhes fosse exigida a
+certidão de que sabiam ler correntemente.
+
+ [9]_Negocios externos_, documentos apresentados ás cortes em 1874.
+
+ [10] Veja-se _Primeiro inquerito parlamentar sobre a emigração
+ portugueza_.
+
+
+VII
+
+Portugal é um paiz pobre, dizem os que advogam a emigração para o
+Brazil; tem braços a mais, razão natural da procura de novos
+territorios, acrescentam ainda.
+
+Mas isto é um sophisma. Quem diz isto, quer esconder a verdade, a
+princípal causa da emigração portugueza para o Brazil e que nunca nos
+cansaremos de repetir--a ambição inconsciente dos emigrantes.
+
+Portugal é pobre? A Portugal sobejam braços?
+
+Comparemos Portugal á Belgica e á Hollanda, e vejamos se fallam verdade
+os alliciadores do imperio americano.
+
+Dizem os geographos, que em geral não são muito favoraveis nas
+appreciações que fazem ao nosso paiz:
+
+«_Belgica_....................... O solo, esteril nas provincias de
+Liege e de Limbourg; é muito fertil nas Flandres e no Hainaut e bem
+cultivadas.»
+
+Nada mais com respeito ao solo.
+
+«_Hollanda_....................... A Hollanda abunda sobre tudo em
+pastagens; cultiva-se com successo o trigo, o linho, a ruiva, o tabaco,
+fructas; a agricultura e a horticultura attingiram alli um alto grau de
+perfeição. O clima é brusco e humido; os habitantes das proximidades das
+lagoas (Polders) e das ilhas, estão expostos ás febres endemicas;
+entretanto o frio dos invernos e os ventos de éste, modificam a
+insalubridade do ar.»[11]
+
+Vemos de notavel, apenas, que a agricultura e a horticultura attingiram
+alli o alto grau de perfeição, que não póde desfazer as nebrinas
+tristonhas do seu clima, nem tão pouco arredar para longe as febres que
+assolam grande parte dos habitantes da Hollanda.
+
+Para comparar veja-se o que diz o mesmo auctor com respeito a Portugal:
+
+
+«A temperatura é d'um calor importuno, _mais elevado_ que em Hespanha; o
+solo é muito fertil (_très-fertil_), _mas geralmente mal cultivado_.
+Produz os famosos vinhos do Porto, Setubal, Carcavellos, etc.;
+azeitonas, figos, laranjas e outros fructos exquisitos; mel, cera,
+kermes. Aqui se encontra tambem as minas de ouro, prata, ferro, chumbo,
+estanho, antimonio, sal (marinho), carvão de pedra, turquezas e outras
+pedras preciosas, aguas mineraes e thermaes. Gado grosso, pouco; mas
+bastantes carneiros e excellentes muares.»
+
+Abramos um parenthesis:
+
+Assim como deixamos passar a appreciação justissima de que o nosso solo
+_está mal cultivado_, não deixaremos passar a affirmativa do illustre
+geographo, quando diz que a temperatura do nosso clima _é mais elevada_
+do que o da Hespanha. Esta não é a verdade. Se o calor que entre nós se
+supporta no estio é importuno--_accablant_--, na Hespanha não o é menos,
+se não superior. A experiencia de todos os dias ahi está corroborando
+esta asserção.
+
+Fechemos o parenthesis, e prosigamos.
+
+A culpa de estar o nosso solo--_très-fertil_--mal cultivado, não é de
+quem emigra, mas de quem, possuindo todos os meios de evitar o mal, não
+tem tomado a iniciativa de o cultivar:--é dos maus governos que tem tido
+a nação.
+
+Vejamos agora, comparando ainda Portugal ás tres nações citadas, se lhe
+sobejam braços.
+
+Portugal mede uma superficie de 576 kilometros, do sul ao norte, sobre
+168 de oeste a leste, ou 96.768 kilometros quadrados, que, divididos por
+4 milhões de habitantes, dá para cada um--24,192 metros quadrados.
+
+A Hollanda mede 240 kilometros sobre 230, ou 55.200 kilometros
+quadrados. A sua população é de 3 e meio milhões; dando por
+consequencia, 15,771 metros quadrados para cada habitante.
+
+A Belgica mede 270 por 200, ou 54.000 kilometros quadrados, que
+divididos por 4 e meio milhões de habitantes, dá para cada um 12 metros
+quadrados.
+
+Por estes simples calculos se conclue, que, para Portugal estar a par da
+Hollanda devia ter uma população de mais de 6 milhões de habitantes, e
+mais de 8 para estar a par da Belgica!
+
+Se os governos d'este paiz, que, nos seus excessos de patriotismo,
+tentam explorar a mina dos nossos certões envios d'Africa, olhassem para
+as minas que possuimos no continente, a emigração seria annulada em
+pouco tempo.
+
+O governo que estabelecesse 20 colonias de 500 trabalhadores cada uma,
+entreteria na faina do trabalho agricola uns 10:000 trabalhadores,
+numero igual á população que emigrou para o Brazil em 1876.
+
+Por este systema contribuiria igualmente para a divisão proporcional da
+população portugueza, medida extremamente importante, cuja densidade em
+algumas provincias é de 164 habitantes para cada kilometro quadrado, em
+quanto que em outras partes do reino não passa de 12!
+
+ [11] Buillet, _Dictionaire de l'Histoire et geographie_.
+
+
+VIII
+
+A commissão geodesica, encarregada por decreto de 21 de setembro de
+1867, de proceder ao reconhecimento, determinação e estudo dos terrenos,
+cuja arborisação é necessaria e util, achou o seguinte assombroso
+resultado, na averiguação do arduo e substancioso trabalho que lhe
+incumbiram e que ella executou com admiravel proficiencia; o que não
+quer dizer que os taes estudos servissem para mais alguma cousa do que
+para mostrar ao mundo inteiro a nossa incuria:
+
+SUPERFICIE DE CUMIADAS INCULTAS E DE CHARNECAS
+
+PROVINCIA DO ALGARVE
+ HECTARES
+ Zona do litoral 15.000
+ Zona interior 294.000
+ 309.000
+
+PROVINCIA DO ALEMTEJO E A PARTE DA EXTREMADURA AO SUL DO TEJO
+
+ Parte meridional 718.000
+ Parte central 516.000
+ Parte septentrional 413.000
+ 1.647.000
+
+PROVINCIA DA BEIRA E A PARTE DA EXTREMADURA AO SULNORTE DO TEJO
+
+Região sul-occidental 240.000
+Região central 780.000
+Região septentrional 328.000
+ 1.348.000
+
+PROVINCIA DE TRAZ-OS-MONTES
+
+ Tracto oriental 195.000
+ Tracto central 240.000
+ Tracto occidental 279.000
+ 714.000
+
+PROVINCIA DO MINHO
+
+ Tracto meridional 89.000
+ Tracto septentrional 135.000
+ 224.000
+
+Areiaes incultos e médões da costa maritima 72.000
+ 4.314.000
+
+Calcula a referida commissão que a superficie de terreno do continente
+é de 8.962.531
+menos 714 hectares do que o calculo feito por alguns geographos, pelos
+quaes nos regulámos mais atraz.
+
+Temos pois, terrenos cultivados 4.648.531
+
+Accrescenta a commissão geodesica, no seu bem elaborado relatorio, que
+poderá subir a 5 milhões (!!!) o numero de hectares de terrenos
+incultos, porque muitos milhares de hectares estão permanentemente de
+matto, ou não recebem cultura senão com muito grandes intervallos; e
+tambem refere que ha uma immensa area sujeita «ao tradicional systema de
+alqueives.» Repartindo esta superficie por 3.829.618 habitantes, acha
+que corresponde a cada individuo 1 hectare, 30 ares e 56 centiares de
+solo inculto.
+
+A respeito da densidade da população portugueza no continente, publica a
+commissão os seguintes dados estatisticos, segundo o censo referido ao
+1.º de janeiro de 1864:
+
+ HABITANTES
+ POR KIL.
+ QUADRADO
+Districto do Porto 164
+ » de Braga 114
+ » » Vianna do Castello 85
+ » » Aveiro 76
+ » » Vizeu 75
+ » » Coimbra 74
+ » » Lisboa 59
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+
+Se o districto do Porto accolhe 164 habitantes, e o de Braga 114, por
+cada kilometro quadrado, porque não procura a população do norte os
+districtos desertos do sul?
+
+A razão já ficou expendida mais atraz.
+
+Depois d'isto não se diga agora que a população portugueza sobeja, e por
+isso emigra para fóra do paiz.
+
+
+
+
+CAPITULO II
+
+Os advogados da emigração e a companhia Transantlantica. Remuneração ao
+trabalho. O custo da escravatura preta e o custo da escravatura branca.
+O definhamento da agricultura no Brazil, por causa da falta de braços.
+Erros do jornalismo a respeito da emigração. O «Diario de Noticias» e o
+sr. Fernão Vaz e o drama «Os Aventureiros». Um livro a favor da
+emigração e o auctor das «Farpas». Elogios e sensuras. A praça do
+commercio do Porto e uma penna de ouro.
+
+
+I
+
+O _Brazil_, jornal que advoga os interesses dos nossos compatriotas
+residentes no imperio, publicou um artigo que nos surprehendeu, por vir
+elle sustentar idéas tantas vezes combatidas no mesmo jornal. E a nossa
+surpreza ainda foi maior, porque esse artigo, que tem por epigraphe _A
+colonisação para o Brazil e a Companhia Transantlantica_, mais parece
+que fôra escripto com o fim de tratar de interesses particulares de um
+ou outro engajador de colonos portuguezes. O que muito folgamos, não
+obstante o referido artigo vir publicado no logar de honra, foi não ser
+elle assignado pelos seus illustres redactores effectivos, a quem temos
+visto atacar as idéas no mesmo contidas.
+
+Empenhados na lucta travada a respeito da emigração de portuguezes para
+o imperio brazileiro, não devemos ficar silenciosos á vista de certas
+proposições alli enunciadas.
+
+Entremos pois na questão e deixemos de parte a circumstancia do
+articulista achar razoavel o facto dos colonos portuguezes preferirem o
+Brazil, pela «communidade de origem _e a facilidade que encontram no
+exercicio das suas industrias_, por ser a lingua commum a ambos os
+povos», etc., e entender por isso dever auxiliar a corrente da
+emigração, por via da companhia Transantlantica, por quem parece morrer
+de amores, já porque está _regularmente montada_, já porque _á testa
+d'ella vê nomes que lhe merecem garantia de seriedade e de moralidade_.
+Deixemos, portanto, este procedimento do articulista, que parece não
+mudará, emquanto o nosso governo não encaminhar os colonos para os
+terrenos incultos do Alemtejo, (o que já é muito!) ou para as nossas
+possessões ultramarinas (_cuja communidade de origem etc._, é igual á do
+imperio), reservando-se para mais tarde emittir o seu parecer, quando
+appareça decidido o assumpto emigração, sujeito a uma commissão de
+deputados, o que equivale a dizer-nos que será sempre a favor da
+emigração, com tanto que os engajadores sejam sempre os agentes da tal
+companhia; porque para nós é ponto de fé, que as nossas commissões nada
+farão, embora as tenhamos no melhor conceito, e o nosso governo já mais
+tratará de desviar a emigração da America meridional, encaminhando-a
+para o Alemtejo ou para as nossas possessões ultramarinas.
+
+Deixemos tambem de parte a circumstancia de que o articulista leva em
+mira atacar a pessoa de um novo pretendente ao logar de engajador
+official de escravos brancos para as roças insalubres do Brazil, e a não
+sabemos que pequenas miserias de commendas, porque o tal pretendente
+parece querer ferir os interesses da poderosa e _protectora_ companhia!
+
+Deixemos, finalmente, que o illustrado articulista se incommode
+sériamente com os ataques dirigidos pelo novo proponente aos caracteres
+honrados e dignos, representados nas pessoas do ministro das obras
+publicas do imperio, do conselheiro da companhia _protectora_ de
+escravos brancos e do distincto escriptor Augusto de Carvalho, que, em
+prejuizo da nossa patria, pretende illudir, com seus escriptos de
+phantasia, os nossos infelizes compatriotas; porque, caso o articulista
+venha a ser accusado de defensor da companhia Transantlantica, do seu
+conselheiro, dos estadistas brazileiros e do escriptor assalariado,
+ser-lhe-ha muito facil defender-se com o juizo dos jornalistas e dos
+particulares, que conhecem os actos publicos e politicos das pessoas
+aggredidas pelo endiabrado pretendente; podendo até escudar-se em abono
+d'este ultimo--do sr. Carvalho,--nas provas de consideração ultimamente
+apresentadas, em nome da colonia do Rio de Janeiro, pelo visconde de S.
+Salvador de Mathosinhos, o que bastaria para demonstrar não só a
+abnegação do articulista, como a de tão distinctos cavalheiros pelo bem
+da nossa patria![12]
+
+Mas deixemos isto tudo de parte, visto que ao articulista pouco importam
+as doutrinas de hontem e as manifestas contradicções das doutrinas de
+hoje, sustentadas no mesmo jornal, onde o governo brazileiro tem sido
+accusado de menos fiel no cumprimento dos seus deveres para com os
+colonos portuguezes, e onde não vimos ainda a razão que dê aso a tantos
+elogios.
+
+Deixemos ainda que o articulista do _Brazil_ viva em completa illusão a
+respeito da protecção que diz dispensa aos colonos portuguezes a
+companhia Transantlantica, que, a nosso ver, não é peor nem melhor do
+que a que costumam dispensar outros engajadores, ou ainda mesmo da que
+poderia dispensar o proponente Mattos,[13] caso a sua proposta fosse
+acceita pelo governo do imperio como a mais lucrativa.
+
+Deixemos de parte estas questões pessoaes, que o nosso fim é outro.
+
+Nós, como acontece ao articulista do _Brazil_, não temos procuração de
+ninguem para defender este ou aquelle engajador, pelo simples motivo que
+a todos achamos maus. Não somos a favor das companhias poderosas nem tão
+pouco dos agricultores riquissimos do Brazil, quer sejam nossos
+compatriotas ou não, os quaes, diga-se aqui de passagem, só precisam de
+escravos, pretos ou brancos (é questão de nome) para lhes desbravar as
+terras, emquanto taes senhores se balouçam nas suas redes de pennas, sem
+se importarem se os colonos caem fulminados pelas febres ou pela
+intensidade do calor. Tambem não somos mais favoraveis aos engajadores
+clandestinos, que ainda assim, não merecem tanto a nossa particular
+attenção.
+
+Ha tudo a temer dos engajadores officiaes, d'esses por quem o
+articulista do _Brazil_ parece querer quebrar lanças; d'esses, que, com
+o fim de chamar a si o maior numero de proselytos, têem a força
+sufficiente de illudir as leis do nosso paiz; d'esses, cuja influencia é
+sufficiente tambem para fazer demittir as nossas auctoridades
+subalternas, que oppõe a sua dignidade ás promessas e ás ameaças dos
+engajadores;[14] d'esses, finalmente, que obtêem com facilidade dos
+nossos governos a approvação de tarifas especiaes dos caminhos de ferro,
+a preços reduzidos, para a conducção de colonos que, uma vez chegados a
+Lisboa, deverão immediatamente embarcar nos paquetes que se destinam aos
+portos do Brazil.
+
+Mas comquanto reconheçamos as difficuldades que ha em evitar a emigração
+para uma região tão insalubre, porque de um lado temos os propagandistas
+que apregoam phantasias e do outro as companhias e os capitalistas a
+protegel-os, servindo-lhes de não pequeno auxilio a deficiencia das
+nossas leis, senão a propria connivencia das authoridades, ainda assim
+havemos de ser sempre leaes e acerrimos combatentes contra essa
+emigração, por ser a mais prejudicial aos portuguezes.
+
+A circunstancia de se haver illudido o articulista do _Brazil_, com
+respeito ao trabalho, que lhe parece ser mais bem remunerado no imperio
+do que em nossas terras, é assumpto para mais largo debate.
+
+ [12] Consta-nos que os roceiros do Brazil mandaram um presente de
+ cem libras ao auctor do _Estudo sobre a colonisação e a emigração
+ para o Brazil_.
+
+ [13] Considerado, actualmente, engajador official.
+
+ [14] Deu-se um facto d'estes com um administrador de concelho do
+ districto de Coimbra, e mal pensavamos nós que, passados apenas
+ alguns mezes, haviamos de ouvir fazer accusações gravissimas a
+ respeito da emigração clandestina, no parlamento portuguez, sem que
+ houvesse uma voz que as refutasse. (Veja-se a nota n.º 2 no fim do
+ volume.)
+
+
+II
+
+Diz-nos o illustrado articulista assim com uns modos sentimentaes, em
+que bem mostra o seu desejo de proteger a Companhia Transantlantica, e
+por consequencia a emigração, visto que não descobrira ainda o remedio
+que lhe deva por termo:--«Que não é para admirar que os nossos
+compatriotas _não encontrando trabalho bem remunerado_ na sua patria,
+por isso que a _offerta é muito maior do que a procura_, busquem longe
+do seu torrão natal onde empregar a sua actividade e receber em troco
+_uma remuneração proporcional_ aos seus esforços e á sua iniciativa,
+mais ou menos intelligente e que dêem a preferencia ao Brazil,» etc.
+
+Em vista d'isto vê-se claramente, que o articulista vive das taes
+phantasias, alimentadas pelos estudos theoricos, que cegam ás vezes as
+mais robustas intelligencias. O abalisado escriptor é dos taes que vêem
+um ataque á liberdade quando se escreve contra a emigração ainda quando
+nos termos em que nós escrevemos; é dos taes que offerecem contra esses
+ataques as milhares de libras sterlinas com que contribue o Brazil para
+a prosperidade do Portugal.
+
+O articulista não sabe ou não quer discutir no campo da pratica, não só
+porque desconhece o grande prejuizo que está causando ao nosso paiz a
+falta de braços, como porque desconhece tambem a remuneração que se
+costuma dar ao trabalhador de Portugal e ao do Brazil. A remuneração que
+elle acha proporcional aos esforços do trabalhador de lá, é julgada
+apenas pelo principio natural de que os campos virgens da America são
+mais ferteis. Porém, contra esta verdade esquece outras, que inutilisam
+completamente os esforços do trabalhador europeu, no Brazil.
+
+A remuneração offerecida ao trabalhador, ao contrario do que avança o
+articulista, é mais proporcional entre nós do que no imperio, como já
+tivemos ensejo de demonstrar em outro logar; porque alem da
+impossibilidade de poder trabalhar debaixo d'um sol ardentissimo, se o
+colono portuguez tem a felicidade de resistir ás epidemias do Brazil,
+que costumam atacar o europeu recem-chegado, falta-lhe com tudo os meios
+de poder estabelecer-se na lavoura, meios indispensaveis, como são os
+instrumentos agricolas e um pequeno capital para a compra de terrenos.
+Alem d'isso, a protecção que o Brazil offerece aos colonos é ficticia,
+porque as leis sobre a agricultura são essencialmente vexatorias. O
+colono n'esta parte da America, ao contrario do colono estabelecido nos
+estados do norte, trabalha apenas por supprir as excessivas exigencias
+do governo. O producto devido á trabalhosa exploração do colono, e que
+custa maior numero de sacrificios que em qualquer outro paiz, fica ainda
+assim sujeito a um sem numero de taxas, quando precisa exportal-o.
+
+Essas leis que tinham a sua razão de ser no tempo da escravatura, porque
+então o trabalho era excessivamente mais barato, como mais adiante
+demonstraremos, não podem mais existir para o trabalho lívre, que ha de
+necessariamente subir de valor, e assim reunido aos direitos de
+exportação, tornarão o genero tão caro, que jámais poderá competir com
+outros iguaes nos mercados consumidores.
+
+Já dissemos em outro logar, que o governo brazileiro pede pelas madeiras
+14 p. c. de exportação;[15] e este é, sem duvida, o maior obstaculo que
+o colono encontra nas terras brazileiras. Por outro lado o governo devia
+auxiliar o explorador, abrindo-lhe estradas por o sertão, e sendo
+possivel desimpedir os rios, as melhores vias de communicação para o
+interior.
+
+Mas os homens d'estado do Brazil nada mais enxergam a não ser a
+necessidade de dinheiro; e para obtel-o auxiliam os engajadores, na
+persuasão de que a muita quantidade de colonos europeus lh'o levará.
+Porém o engano é manifesto, porque o colono dos nossos paizes logo que
+chega ao Brazil, onde vê desenrolar-se o panorama de desgraças que os
+engajadores lhe esconderam, se a _febre amarella_ lhe dá tempo para
+isso, só trata (e então o numero dos que escapam ao flagello é
+limitadissimo) de procurar o trabalho á sombra, despresando o que
+costumava ser desempenhado pelos filhos de Africa, trabalho que ainda
+assim não daria as riquezas que ahi vemos chegar quasi todos os dias do
+Brazil.
+
+Não querem ouvir estas verdades os utopistas de lá não obstante terem
+visto crescer fortunas fabulosas á sombra da escravatura. São tão
+ignorantes como os utopistas de cá, que vêem em cada ricasso vindo do
+Brazil, qualquer cavador ou ceifador da canna de assucar.
+
+Diz o articulista que a offerta do trabalho entre nós é maior do que a
+procura. Engano manifesto. Em qualquer ponto de Portugal acontece
+justamente o inverso do que avança o protector da emigração. E no
+Alemtejo especialmente a procura é permanente.
+
+A viticultura, que n'esta vastissima provincia cresce de dia para dia, a
+cultivação de cereaes e de olivedo, entretem não só os alemtejanos, mas
+ainda muitas centenas de braços dos filhos das nossas provincias do
+norte. Não obstante, esta concorrencia é ainda muito diminuta, e por
+isso muito bacello ficou por plantar em 1876, em que os preços das cavas
+chegaram em muitos logares a 500 réis.
+
+As ceifas foram morosas n'este mesmo anno, como quasi sempre, pela falta
+de braços, empregando-se, como tivemos occasião de vêr, muitas mulheres
+em tão arduo serviço. Em alguns pontos d'esta provincia os jornaes
+subiram a 500, 550 e 600 réis diarios e de comer!
+
+Toda a gente sabe, que no norte a propriedade está mais dividida, e que
+o trabalhador destina alguns dias para o amanho d'um bocado de terreno
+que possue e lhe costuma dar um pouco de milho, legumes, vinho e carne,
+productos estes, que, juntos á pequena recompensa pelo trabalho que
+executára fóra de casa, lhe fazem augmentar a féria que é sempre mais
+proporcional que no Brazil. Os filhos das provincias do norte, que não
+possuem estas _courellas_, são geralmente aquelles que no verão procuram
+o trabalho nas provincias da Extremadura e Alemtejo, onde os lavradores
+lhes pagam bem para passar o resto do anno, como já fica demonstrado.
+
+Por isso não vêmos qual é a desproporção apontada pelo articulista do
+_Brazil_.
+
+ [15] Veja-se _Questões do Pará_.
+
+
+III
+
+O colono trabalhador que antes de partir para a America se occupava na
+cultura dos nossos fertilissimos campos, vae occupar no Brazil o logar
+de aguadeiro, carroceiro, catraeiro, ou na immensa deversidade de
+serviços que entre nós costumam fazer os filhos da Galliza. Estes
+colonos, cujo numero é limitadissimo, porque, como já dissemos, e nunca
+nos cansaremos de repetir, de 70 a 80 por cento não pódem resistir ao
+clíma pestilento d'aquella parte da America, ganham apenas para comer e
+vestir. E sendo economicos, isto é, mettendo na algibeira o que devem
+dar á barriga, podem juntar algumas dezenas de mil réis no fim de muitos
+annos. O dinheiro assim grangeado não se converte em letras de cambio,
+nem tão pouco faz subir os nossos fundos. Esses poucos haveres
+acompanham o expatriado quasi sempre exhausto de vida.
+
+Ha outro colono--o artista,--que reune mais algumas economias, porque os
+lucros são outros. Ainda assim o seu salario não só não compensa os
+sacrificios que soffre no Brazil, mas essa compensação é menos
+proporcional do que na Europa, especialmente na actualidade.
+
+Dir-nos-hão:--Mas o artista traz dinheiro.
+
+É isso verdade, porque o portuguez que volta á patria envergonha-se de
+vir com as algibeiras vazias. Porém, por quantas privações passou elle
+com o fim de sustentar esse capricho?! Ainda assim o facto do artista
+trazer dinheiro por similhante systema, não é razão para dizermos que o
+Brazil remunera mais esta especie de trabalho. Se no animo do artista
+que prefere a patria tivessem actuado as mesmas circumstancias, nós
+viriamos que as suas economias seriam, quando não superiores, pelo menos
+iguaes, acrescendo ainda a vantagem que não é para despresar, de viver
+mais descançado e no goso de mais perfeita saude.
+
+Este e aquelle outro colono, não são propriamente dito, os que induzem,
+quando voltam á patria, os nossos ambiciosos compatriotas a procurar as
+riquezas ephemeras do Brazil. Aquella pobre gente raras vezes apparece
+na povoação que os vira nascer, e quando apparecem é de visita, e por
+tal fórma ataviados que mais incitam os novos aventureiros.
+
+É preciso notar que o trabalhador e o artista que vêem desilludidos do
+Brazil, procuram, longe do seu povoado, onde possam exercer a sua
+industria, sendo certo que o maior numero procura esconder o seu _crime_
+nas nossas possessões ultramarinas; porque é crime apparecer pobre na
+terra em que nascera!...
+
+Ha ainda outro colono, além do trabalhador e do artista--o
+commerciante--que sae da sua aldeia com a ideia de ser caixeiro no
+Brazil. É justamente d'estes que não veem lá com bons olhos, porque os
+naturaes querem o commercio para si. Outros colonos ha, sahidos do
+commercio, que se fizeram senhores de engenho ou agricultores, a quem a
+escravatura em poucos annos fez centuplicar os haveres.
+
+As fortunas trazidas para Portugal por estes colonos, tem sido em todas
+as epochas a varinha magica que tenta os trabalhadores. Esta pobre gente
+nunca pensou na diversidade de posição d'aquelles, posição que por
+circumstancias muito superiores ao entendimento do colono trabalhador,
+lhe traz os taes lucros fabulosos, que se não acham a cozer um sapato, a
+talhar uma calça, a construir um muro, a estucar uma sala, a carregar
+uma carroça ou a conduzir um passageiro a bordo d'um navio, ou mesmo a
+desbravar as terras brazileiras, caso o colono europeu podesse, como já
+dissemos, trabalhar debaixo do sol ardentissimo dos tropicos.
+
+Porém, d'essas riquezas é que será difficil arranjar de futuro, porque a
+agricultura no Brazil, a alma do seu prodigioso commercio, tende a
+definhar-se de anno para anno em vista da falta de braços escravos, os
+unicos capazes de arrotear aquelles vastissimos campos.
+
+Mas é preciso demonstrarmos essa difficuldade, para que se desilludam os
+portuguezes, que procuram no Brazil este meio de vida.
+
+Eis o que vamos tentar em breves considerações.
+
+O negro foi em todos os tempos o unico ente capaz de resistir á humidade
+venenosa que sae das terras brazileiras e ao calor excessivo que ao
+mesmo tempo sobre ellas assenta. Os primeiros colonos que se
+estabeleceram no Brazil, viram logo a dificuldade de empregar o europeu
+no desbravamento d'aquelles terrenos insalubres; por isso chamaram a si,
+como os mais capazes de resistir ao clima, os habitantes de Angola,
+Benguella, Cabinda, Moçambique e Congo. Pouco tempo depois começou o
+commercio da escravatura.
+
+Os homens empregados n'este trafico, levavam os seus navios carregados
+de bijouterias, d'um valor puramente ficticio, com que na Africa
+illudiam os regulos. Estes davam em troca os seus _subditos_, que eram
+immediatamente mettidos nos porões dos navios. Das costas d'Africa
+seguiam para America, e não obstante morrerem 20 p. c. no transito!
+segundo a opinião de Ferdinand Diniz, ainda assim o escravo ficava por
+um preço excessivamente barato.
+
+Na primitiva o senhor d'engenho comprava o escravo a 150 e a 200 patacas
+(48$000 e 72$000 réis fracos), ficando-lhe muitas vezes mais barato, se
+entre elle e o negreiro se estabelecia a permuta de productos agricolas
+em troca do preto. Nos ultimos tempos em que a escravatura era
+permittida, chegaram a duplicar e ás vezes a triplicar de preço. Não
+obstante, o trabalho em que era empregado o negro ficava excessivamente
+barato. Os productos agricolas devidos a esse trabalho, davam o
+sufficiente para enriquecer os governos e os senhores da agricultura.
+
+Póde-se calcular, que o preto trabalha 20 anos para seu senhor.
+Custára-lhe 192$000 réis, quando muito. Junte-se-lhe as despezas que com
+elle fizera n'esse periodo de tempo--alimentação e vestuario;--aquella
+composta em geral de farinha de mandioca, carne secca e bacalhau,
+algumas aboboras e bananas para variar estes alimentos, não esquecendo a
+carne de baleia, a rapadura do açucar, feita em pão, etc; e este (o
+vestuario) de pano americano, e alguns riscados de algodão azul e
+branco, devidos á manufactura ingleza; despesas que podemos orçar em 20
+vezes mais do que o custo do negro; isto é 3:840$000 réis, que reunidos
+áquela soma, prefaz 4:032$000 réis fracos. Estabelecidos assim os
+calculos, podemos ver quais eram os principais meios da riqueza passada,
+e quais são aquelles com que se póde contar para a riqueza futura.
+
+Mas para illucidar mais o leitor, comparemos o trabalho do escravo com o
+do homem livre.
+
+O homem livre não trabalha por menos de 2$000 réis fracos como já
+tivemos ocasião de dizer. Vinte anos de trabalho a 2$000 réis,
+representam 14.000$ réis; isto é, mais 9.568$000 réis, por cada
+trabalhador, contra o proprietario das roças do Brazil!
+
+Havia roceiro que tinha 150 e 200 escravos e que vê em cada um que se
+liberta, e que vai substituindo pelo braço livre, o prejuizo d'aquela
+fabulosa soma e seus juros!
+
+A agricultura, por consequencia, ha-de cair infallivelmente, e o
+commercio e a industria, que vivem exclusivamente d'ella, já vão
+começando a sentir-lhe os effeitos. Eis a razão da affluencia de
+capitaes no nosso paiz; capitaes que já não encontram no Brazil
+conveniente emprego; eis a razão porque o governo brazileiro subsidia,
+mais do que nunca, as companhias engajadoras; eis a razão porque a maior
+parte do nosso inexperiente commercio de Portugal e Brazil, que ainda
+não previu o seu futuro, auxilia tambem os engajadores; eis a razão,
+finalmente, porque combatemos a emigração para aquelle paiz, quer os
+colonos se dediquem ao trabalho braçal, ao commercio ou á industria.
+
+Iamos terminar este artigo, quando por acaso deparámos com o seguinte
+telegramma expedido do Rio de Janeiro pela agencia _Havas_:
+
+«As sessões das camaras serão prorogadas por mais 15 dias, a fim de se
+terminar a discussão do orçamento e da reforma da lei eleitoral, e sendo
+possivel, a da lei de soccorros á agricultura, que se resente da falta
+de braços e capitaes, e creação de engenhos a vapor centraes agricolas.»
+
+Este documento veiu a tempo de fortificar a nossa humilde opinião a
+respeito da falta de braços e da saida de capitaes d'aquelle paiz.
+
+O governo promette desde ha muito remediar o mal; mas nós é que não
+confiamos no seu auxilio, nem vemos que seja facil substituir o negro,
+ha pouco libertado pelo Brazil.
+
+
+IV
+
+No nosso paiz ha jornaes que defendem hoje o que atacavam hontem, o que
+não deixa de ser razoavel... até certo ponto; isto é quando da
+contradicção apparente d'hoje nasça a rectificação sincera aos erros
+commettidos hontem. Mas faz-se mais... queremos dizer:--faz-se menos;
+por que hoje se defende uma causa julgada má, que hontem fora
+classificada de optima e vice-versa, isto successivamente, conforme as
+conveniencias dos jornalistas que fazem do sublime invento de Guttemberg
+o ariete com que costumam atacar o reducto da moralidade. Outros ha,
+que, tendo começado a percorrer o bom caminho, recuam, ao mais pequenino
+assomo de desagrado dos optimistas.
+
+No primeiro caso está o jornalismo representado no jornal cujos
+escriptos sobre emigração acabamos de criticar; e no segundo está, por
+exemplo o _Diario de Noticias_, uma das folhas mais populares d'este
+paiz, e por isso mesmo aquella que ensina menos; porque, como diz o
+ditado, todos os dedos lhe parecem hospedes: porque de tudo tem medo.
+
+Dizia ha pouco um distincto litterato, que costuma encobrir o seu
+laureado nome com o pseudonymo de _Fernão Vaz_, a proposito de uma
+critica feita a um trabalho que destinamos ao theatro,[16] que o
+referido _Diario_, por ter extractado dos relatorios dos consules o que
+alli ha de mais horroroso sobre a emigração para o Brazil, foi alcunhado
+de _impertinente_; dando a entender que a referida redacção suspendera a
+transcripção alludida--o mais assignalado serviço que ella poderia
+prestar ao paiz--para se livrar do anathema, que jámais iria ferir um
+collosso material creado e sustentado pelo publico a quem essa
+publicação deve defender, para pagar um diminuitissimo agio dos favores
+que lhe ha dispensado.
+
+Não fazemos accusações sem base, nem é nosso intuito offender ninguem;
+mas se á tal suspensão presidio o _medo_, como se deprehende das
+palavras do escriptor citado, e nós acreditamos--porque o director do
+referido jornal _prohibiu_ a que a sua redacção fosse representada na
+leitura do nosso drama _Os Aventureiros_, fundado em epysodios da
+emigração--; o medo, repetimos, ou a conivencia, em assumpto de tanta
+magnitude, é um crime de lesa-imprensa que não póde deixar de ser
+fulminado com a maxima severidade.
+
+Nem a _diplomacia do senso real das cousas_, nem a _diplomacia
+hypocrita_, como diz algures o escriptor Fernão Vaz, a propósito das
+impertinencias (?) que elle viu, póde ser adoptada como linha de
+conducta no decorrer da nossa humilde critica, porque aspiramos apenas a
+encomios firmados em justissimas apreciações aos nossos exforços e,
+sobretudo, a estar bem com a nossa consciencia. Eis porque não tememos o
+epiteto de impertinente.
+
+Nenhuma das diplomacias citadas, segundo os exforços que fizemos para as
+perceber--pode desculpar uns certos erros publicos, que por estarem ao
+alcance da imprensa digna e por que são essencialmente prejudiciaes
+ao paíz, devem ser combatidos sem tregoas e tão severamente quanto
+é a altura d'onde esses erros partem, quando não seja para
+corregil-os--porque ha infatuados que nunca se corrigem--ao menos para
+prevenir os incautos do precipicio para onde os podem encaminhar os
+apostolos do mal.
+
+ [16] Veja-se a nota n.º 3.
+
+
+V
+
+Temos que continuar a nossa critica severa, mas digna, a um trabalho
+sobre emigração, publicado ha pouco sob os auspicios do governo do
+Brazil e escripto por um litterato brazileiro, e para que não vão
+accusar-nos de systhematico na propaganda contra a emigração _e a tudo
+que é brazileiro_, entendemos dever começar pelos de casa.
+
+O livro a que nos queremos referir teve primeiro o seguinte
+titulo--_Estudo sobre a colonisação e emigração para o Brazil_--e o
+actual apparece com o de--_Brazil_--simplesmente. Não se lhe mudou
+apenas a capa; fez-se mais: antepôz-se ao texto--que é o mesmo--os
+elogios da imprensa portugueza, para que no imperio fosse mais facil a
+extracção do livro!
+
+Este systema de _recommendações_ tem grande valor no Brazil; e o author
+do _Estudo_ vio-lhe o alcance, o que não quer dizer que os nossos
+_recommendadores_ o vissem tambem: até cremos que usaram de boa fé; mas
+não póde isso obstar a nossa critica.
+
+O tal livro advoga a emigração dos portuguezes para o Brazil, e além
+d'isso offende os nossos brios, o que demonstraremos nos seguintes
+capitulos.
+
+O auctor das _Farpas_, tendo estudado profundamente o assumpto em
+dezembro de 1872, e tendo dado provas de que o estudára, mimoseando o
+publico com 37 brilhantissimas paginas no referido folheto, em que bem
+se revella o combatente convicto contra a emigração, _recommenda_ pouco
+depois ao publico, o seu antagonista, no seguinte documento:
+
+
+«.....O sr. Augusto de Carvalho é auctor de um livro importante ácerca
+da emigração e da colonisação do Brazil, assumpto utilissimo para os
+interesses portuguezes, do qual não póde deixar de occupar-se a imprensa
+que respeita a sua missão. Creio bem que v. estimará egualmente cultivar
+as relações d'este espirito conciliador»[17] etc. etc.
+
+
+Este _espirito conciliador_ respondendo á asserção da commissão de
+emigração de que «em Portugal não ha miseria nem falta de trabalho que a
+incite», diz o seguinte:
+
+
+«Permitta-nos a illustrada commissão que lhe façamos sentir que os
+factos prottestam contra similhante conclusão. Na ultima leva de
+degredados (portuguezes) em numero de 92, d'estes foram 52 condemnados
+por furtos, roubos e falsificações. E ainda no mez de novembro ultimo
+(1873), de 40 que deram entrada no Limoeiro para seguirem o mesmo
+destino, 31 foram-n'o por crimes da mesma natureza.»
+
+
+Este desenlace _conciliatorio_ do tal _recommendado_ ás conclusões da
+commissão alludida, mostram mais alguma cousa do que a conciliação,
+mostram a falta de bom senso; porque nos paizes onde a riqueza anda a
+pontapés--para os que trabalham--tambem ha condemnados pelos crimes de
+furto, roubos e falsificação, porque os ratoneiros, ladrões e falsarios
+de _todas_ as nações preferem tudo ao trabalho honrado. E havemos de
+provar esta asserção com respeito ao proprio Brazil--a nova terra da
+promissão.
+
+Mas não antecipemos a critica ao livro _recommendado_.
+
+Querendo naturalmente defender os assassinos dos nossos compatriotas
+residentes na sua patria, diz o auctor do _Estudo_, em tom
+_conciliatorio_, já se sabe:
+
+
+«Acaso, por se haver morto com um tiro em certo logar do Minho, um
+infeliz que subtrahia um cacho de uvas, segue-se que todo o povo
+d'aquella provincia seja deshumano?»
+
+
+Será isto em desforço dos assassinatos de Jurupary e tantos outros?!
+
+O auctor das _Farpas_ que responda.
+
+Defendendo os magistrados que prevaricam no imperio, commemora a
+seguinte futilidade, que não tem nada de conciliatoria:
+
+
+«Acaso, por haver sido, no Fundão, condemnado um pobre Antonio Gomes, a
+um mez de prisão, multa correspondente e despezas do processo, pelo
+crime de _sorrir-se e piscar os olhos_ para o delegado Duarte de
+Vasconcellos, segue-se que a justiça é nulla em Portugal?»
+
+
+Estes crimes sociaes commettidos no nosso paiz não podem equiparar-se
+com os crimes sociaes commettidos no Brazil pelos naturaes contra a
+colonia portugueza. E não póde porque... «A roça no imperio do Brazil,
+segundo diz o author das _Farpas_, é como em Portugal o banco. É ella
+que faz a lei, a justiça e o direito. Com uma pequena differença nos
+resultados d'esta influencia do capital e da propriedade no Brazil e em
+Portugal: é que em Portugal é contrastada pelas beneficas rezistencias
+de alguns milhares de cidadãos que mantem a liberdade por meio da
+independencia facultada pelo trabalho; no Brazil não, porque no Brazil
+quem trabalha é o escravo, e a quantidade chamada povo não existe.»[18]
+
+O Brazil, aos olhos do tal recommendado, é o paraiso terreal, a terra
+promettida, onde podem reunir-se os individuos de todas as
+nacionalidades, que alli queiram ter patria commum; e aos olhos do
+auctor das Farpas, no Brazil _tudo é hostil ao emigrado_; no Brazil _não
+respeitam a fé dos contractos com os miseraveis trabalhadores
+portuguezes_; e accrescenta:
+
+«O colono portuguez no Brazil nem tem os direitos dos nacionaes, nem os
+previlegios dos estrangeiros. Em uma nota do barão de Cotégipe, ministro
+brazileiro, a mr. George Bukley, ministro inglez, ácerca da deserção de
+marinheiros estrangeiros para a marinha brazileira, encontra-se
+consignada nos seguintes termos a condição dos individuos que compõem a
+tripulação dos navios do estado--escravos, portuguezes, nacionaes e
+estrangeiros.»
+
+Como teremos occasião de mostrar, o auctor do _Estudo_ recommenda a
+conveniencia da colonisação portugueza; e o auctor das _Farpas_
+criticando habilmente o assumpto escreve estas terriveis verdades:
+
+«A primeira tentativa de colonisação com trabalhadores livres, data de
+1819, dois annos antes da independencia. Mil e setecentos aldeãos
+suissos do cantão de Fribourg estabelecem-se no Val de Parahiba do sul e
+fundam a Nova Friburgo no extremo limite meridional da zona torrida,
+perto de uma grande cidade. Dez annos depois a colonia suissa estava em
+dois terços do que primitivamente fôra. Actualmente a Nova Friburgo é
+uma cidade inteiramente brazileira, onde raras familias friburguezas se
+encontram ainda.
+
+«Em 1845, uma nova tentativa feita sob os auspicios do governo
+brazileiro, levou alguns milhares de trabalhadores de Baden e de bavaros
+do Palatinado ao Rio de Janeiro. Estabeleceram-se em Petropolis, perto
+do palacio imperial. Em 1859--quatorze annos depois--de tres mil e
+dezeseis colonos que ainda habitavam Petropolis, rarissimos tinham
+passado de simples cavadores de enxada. Esta colonia tem-se concentrado
+cada vez mais em torno da residencia imperial, e vive quasi
+exclusivamente da actividade que o soberano e a côrte espalham
+necessariamente em torno de si.
+
+«O celebre naturalista suisso Tschudi, mandado pelo seu governo ao
+Brazil, como plenipotenciario, a fim de estudar a historia dos
+emigrados, fez uma viagem de muitos mezes atravez de differentes
+feitorias, e em um relatorio de 9 de outubro de 1860, no qual consignou
+as suas impressões e as suas idéas, deixou um monumento historico
+pavoroso e indiscutivel contra a colonisação do Brazil.
+
+«A suissa prohibiu a emigração dos seus filhos para aquelle ponto do
+globo.
+
+«Avé-Lallemant, encarregado officialmente de visitar as colonias allemãs
+no imperio brazileiro, dá pormenores aterradores da sorte dos obreiros
+que encontrou nos estabelecimentos do Mucury, na provincia de Porto
+Seguro.
+
+«Dolorosamente penetrado da desgraça que presenceou, Avé-Lallemant,
+dirigiu-se pessoalmente ao imperador, expoz-lhe as condicções em que
+estavam vivendo os seus compatriotas no Mucury, e conseguiu de sua
+magestade que um navio fosse mandado áquella colonia, afim de trazer
+para os hospitaes do Rio de Janeiro os infelizes, os doentes e os
+_desesperados_. _Desesperados_, palavra que sobre a colonisação do
+Brazil se empregou então officialmente pela vez primeira e talvez unica
+no mundo!
+
+«A primeira leva dos emigrados recolhidos do Mucury ao Rio de Janeiro a
+bordo do alludido vapor do estado, foi composta sómente dos enfermos, e
+constou de oitenta e sete individuos.
+
+«A praça do Rio de Janeiro deve de recordar-se ainda do dia memoravel na
+historia da emigração em que se viu chegar esse tragico e funebre
+comboio.
+
+«Os possantes e valerosos mancebos allemães; que o Rio vira passar
+poucos mezes antes corajosos, esperançados e alegres para os trabalhos
+do Mucury, eram desembarcados em macas nos caes ruidosos da capital de
+um dos mais ricos paizes do mundo.
+
+«Vinham devorados pelas febres paludosas exhaladas de um rio podre,
+cobertos de lepra e de _vermine_, immundos de chagas e escalavrados de
+contusões.
+
+«Um tinha morrido no trajecto, a bordo. Outro expirou justamente no
+momento em que o collocavam em terra.
+
+«Poucos dias depois chegava do Mucury uma segunda leva de emigrados, com
+cerca de outros tantos enfermos e outros dois cadaveres.
+
+«A opinião no Rio de Janeiro tinha-se mostrado tão profundamente
+commovida com este espectaculo de uma barbaridade suprema e de uma
+miseria unica, os poderes publicos estavam tão evidentemente instruidos
+do que era a colonia do Mucury, que Avé-Lallemant, tendo depositado nas
+mãos do governo o relatorio que fizera, entendeu que podia deixar o Rio
+de Janeiro e proseguir para o norte a viagem de exploração de que se
+incumbira, sem receio de que jámais se podessem repetir as calamidades
+que presenceara.
+
+«Apenas o viajante allemão deixou o Rio de Janeiro o director da colonia
+do Mucury publicou uma nota justificativa do seu procedimento. Um
+delegado imperial enviado ao Mucury para liquidar a verdade, expirou ao
+regressar ao Rio. De sorte que tudo ficou no estado em que se achava
+antes do relatorio de Lallemant. Com uma unica differença.
+Immediatamente depois do que acabava de se passar, o senado brazileiro
+votava á companhia do Mucury um credito de cerca de 500 contos com a
+garantia de um juro de 7 por cento! Era o applauso do governo e a
+gratidão nacional sanccionando um dos maiores vexames que teem sido
+impostos á civilisação e á humanidade.
+
+«Ha mais ainda: Os eleitores de Minas Geraes propozeram por duas vezes o
+nome do director da colonia do Mucury no primeiro logar da lista
+senatorial.
+
+«Dois unicos homens, honrados e benemeritos, protestaram nobremente
+contra este oprobrio da justiça--o imperador, que riscou da lista dos
+senadores o nome do eleito por Minas Geraes como inapto para representar
+os interesses de um povo, e o sr. Silva Ferraz, ministro da fazenda, o
+qual aboliu o credito votado á colonia que tal cidadão dirigia.[19]»
+
+Isto é a verdade.
+
+A carta antithesis ao que fica transcripto, devia ser classificada
+de--_diplomacia do senso real das cousas_, pelo meu amigo Fernão Vaz!
+
+ [17] Carta dirigida ao sr. Cruz Coutinho pelo auctor das _Farpas_,
+ publicada no prefacio do livro--_Brazil_.
+
+ [18] Veja-se o numero das _Farpas_, correspondente a dezembro de
+ 1872.
+
+ [19] Veja-se o n.º das _Farpas_, já citado.
+
+
+VI
+
+Mas não ficaram ainda aqui os encomios ao _Estudo sobre a colonisação e
+emigração para o Brazil_.
+
+O nosso presadissimo amigo e distincto litterato, o sr. Theophilo Braga
+tambem diz que o livro _Estudo, é uma necessidade!_
+
+O _Jornal do Commercio_ de Lisboa, diz que, _nós, os portuguezes nos
+devemos regosijar_ com o tal livro.
+
+O _«Jornal do Porto», folga de ver que o distincto escriptor não faz
+côro com alguns espiritos estreitos, que d'alem mar olham superciliosa e
+desdenhosamente para as nossas coisas_, etc.
+
+O _Jornal da Manhã_ diz que o citado auctor prodigalisa elogios a
+Portugal.
+
+O sr. Mendes Leal diz que é um _excellente trabalho sobre a emigração_.
+
+O sr. Camillo Castello Branco tambem elogia a obra, o _Commercio do
+Porto_ faz outro tanto.
+
+A praça do Commercio do Porto, digna correligionaria da de Liverpool até
+aos annos de 1808, offerece uma penna de ouro ao escriptor que calca aos
+pés as nossas glorias e que induz o trabalhador inexperiente, convertido
+em escravo, a ir povoar os insalubres sertões de Brazil!
+
+O auctor do _Estudo_ dedica-lhe o livro e a Praça responde-lhe com o
+seguinte _documento honroso_:
+
+«Nós abaixo assignados deliberamos, em nome dos commerciantes da Praça
+do Porto, offerecer ao sr. Augusto de Carvalho uma penna de ouro, como
+testemunho de sympathia pelo muito com que se nos recommenda o seu
+talento e exforços, tendentes a bem servir a causa da civilisação, em
+que cremos reservada para nós grande parte.
+
+«Não só pelo individuo, pelo caracter, senão tambem pelos serviços que
+ha já prestado e continuará a prestar aos dous paizes irmãos--Portugal e
+Brazil--julgamos de nosso dever contribuir o mais possivel para que o
+sr. Augusto de Carvalho não affrouxe um instante na missão que se
+propôz--estreitar cada vez mais os laços que prendem portuguezes e
+brazileiros. E como o Brazil é quasi que exclusivamente commercial, para
+que ahi conste como costumamos, nós, interpretes do commercio do Porto,
+receber e affagar qualquer brazileiro que aqui aporte, e nos mereça a
+maxima consideração, já pelo seu caracter, já pelo seu talento, que não
+hostilise mas civilise, suppomos satisfazer d'este modo o velho
+sentimento de hospitalidade como portuguezes, e o dever em que nos
+constituiu o auctor do _Estudo sobre a colonisação e emigração para o
+Brazil_, de o animarmos a proseguir na santa idéa, no santo principio da
+maxima conciliação entre os dois povos.»
+
+Outros escriptores e outros jornaes mostram opinião adversa ao livro; e
+de uns e outros ficamos fazendo a seguinte opinião:--os que elogiaram
+não leram o livro os que o atacaram, leram-o; porque não podemos
+admittir que os bons economistas e os bons patriotas possam elogiar o
+_Estudo sobre colonisação e emigração para o Brazil_.
+
+Vamos demonstrar que fizemos o mesmo do que aquelles que condenaram o
+livro, dando provas de que o lemos, criticando-o.
+
+
+
+
+CAPITULO III
+
+As falsas doutrinas sobre emigração. A nova terra da promissão, ou o
+paiz de romanos. Rocha Pitta e Augusto de Carvalho. O escravo e a sua
+emancipação. As leis brazileiras sobre colonisação. A legislação
+n'outros paizes. A religião brazileira é contraria á emigração europea.
+A reforma religiosa nos seculos XVI e XVII concorreu para o
+engrandecimento dos Estados Unidos da America. Os jesuitas e a
+escravatura na America do Sul. Os jesuitas e os bandeirantes. Nobrega,
+Anchieta e os indios. Desmandos dos jesuitas. Contradicções. Os
+hollandezes em Pernambuco. Heroes, traidores e authomatos na restauração
+de 1643. Fernandes Vieira e André Vidal de Negreiros. Horrores
+historicos.
+
+
+I
+
+Publicou-se ha pouco um livro intitulado o _Brazil_. Advogar a causa da
+colonisação e da emigração para o imperio americanno, eis o seu
+principal assumpto. Foi impresso no Porto em 1875, e é offerecido á
+praça do commercio d'aquella cidade. Seu auctor é o sr. Augusto de
+Carvalho, escriptor brazileiro, a quem a fama tem elevado ao apogeo de
+litterato distincto.
+
+Pode dizer-se, sem medo de errar, que a nova publicação, em substancia,
+pouco mais differe de uma outra, do mesmo auctor, publicada um anno
+antes, sob o titulo--_Estudo sobre a colonisação e a emigração para o
+Brazil_. Não é reimpressão por se ter esgotado a obra; mas o auctor,
+pelo que colligimos, esquecera-se de chamar _historia_ á edição de 1874,
+e veio agora supprir essa falta.
+
+Eis ahi está um escrupulo bem entendido, que toda a gente levará a bem
+no sr. Augusto de Carvalho.
+
+Empenhado na luta em que o auctor do _Brazil_ se mostra acerrimo, mas
+não habil combatente, porque mais de uma vez offerece ás balas do
+inimigo o peito descoberto, não devemos ensarilhar as nossas armas,
+visto que o reducto é de facil accesso.
+
+Veio um homem do Brazil para as nossas terras, com o fim de animar as
+consciencias aváras pelas riquezas do imperio. Esse homem encostado á
+diplomacia, mas litterato pouco consciencioso, embora as cornetas da
+fama o collocassem nas alturas, soube estudar a fraqueza d'aquelles a
+quem se dirige: d'ahi a supposta victoria! Os seus escriptos, adequados
+ás intelligencias fracas, que só pensam no oiro e no bem particular e
+que despresam o bem geral, que é a prosperidade d'este paiz; resumem-se
+nas doutrinas erroneas, tantas vezes repetidas, mostrando sempre o
+caminho phantastico, que já mais poderá conduzir o viajante incauto ao
+sonhado El-Dorado. Esses escriptos, alem de mentirem á historia, como
+havemos de provar, formam, por assim dizer, um compendio de instrucções
+pueris, que parte do nosso commercio abraça e premeia, sem lhe estudar a
+causa, que é a decadencia do imperio; e n'esta ignorancia, ou egoismo,
+serve de porta-voz ás illusões que taes escriptos encerram, para que os
+nossos infelizes trabalhadores abandonem a patria e a familia, e que,
+melhor aconselhados, deveriam com seus robustos braços, concorrer para o
+engrandecimento da nossa agricultura, que ha de vir a ser a riqueza de
+todos que para ella collaborarem.
+
+O livro de que vimos fallando defende e aconselha a emigração de
+portuguezes para o Brazil. A razão é forte:--o imperio precisa de
+braços, como o esfomeado precisa de alimentos, e o novel historiador,
+como bom filho, não quer ver morrer a sua patria.
+
+Honra lhe seja.
+
+Não condemnamos a emigração _expontanea_. Ella, até certo ponto, é
+necessaria, especialmente a que se encaminha para possessões nossas,
+onde o trabalho fica sendo riqueza da patria, quer os lucros permaneçam
+nas nossas colonias, quer se desviem para á metropole. Não a
+condemnariamos mesmo para o imperio, se se não dessem as circunstancias
+apontadas já e outras que faltam apontar ainda. Mas como filho d'este
+abençoado paiz, condemnaremos com todas as veras do coração as falsas
+doutrinas de que se servem os alliciadores, para arredarem de Portugal e
+seus dominios os nossos trabalhadores incautos.
+
+Nada de enganos. Pintem o Brazil tal qual elle é, e se depois de
+exhibirem o seu fiel retrato, apparecerem adoradores, la se avenham os
+descrentes do retratista.
+
+Não aconselhariamos ao auctor do livro que analysamos a que dissesse mal
+do seu paiz. O que não desejamos para nós não aconselhamos aos outros.
+Mas se a causa é má, cumpria dar-lhe de mão. O bom advogado, pelo menos,
+não tomaria conta d'ella.
+
+O auctor do _Brazil_ não só se fez o advogado de uma causa má, mas, o
+que é mais, o seu escripto recente-se da falta de seriedade, depois que
+foi transformado em historia.
+
+O historiador é quasi profeta: elle deve estudar muito o passado e o
+presente para evitar os males futuros.
+
+Um habil operador corta a parte gangrenosa, para evitar a perca total do
+corpo. E o auctor do _Brazil_, não metteu o bisturi na chaga:--o mau
+systema da colonisação, as leis barbaras que a matam.
+
+O historiador não deve ser injusto.
+
+Thiers, antes da guerra assolar a França, previu os males da sua patria.
+Deixou por isso de ser o primeiro entre os francezes?
+
+O auctor do livro o _Brazil_, alem de tentar deslustrar-nos não viu o
+mal que definha a sua patria, para applicar-lhe o curativo. Parece que
+só escrevera para exaltar os malevolos e, depremindo-nos, illudir os
+pobres d'espirito. Mas ainda mesmo que os incautos, seduzidos pelas
+phantasias deixem passar as excrecencias que o livro encerra, julgará o
+governo brazileiro, por conta de quem foi escripta a obra em questão,
+que alguns milhares de colonos do nosso paiz, poderão supprir a falta de
+alguns milhões de braços de que se resente a lavoura do imperio?
+
+Portugal possue uns quatro milhões de habitantes e pouco mais comporta o
+seu territorio. O Brazil deve possuir uns dez milhões, mas comporta
+duzentos! É impossivel que o nosso paiz possa supprir o imperio de tão
+grande falta; assim como não é razoavel que uma pequena fonte possa
+abastecer de agua uns poucos de mil hectares de terras sequiosas.
+
+Vejamos quaes são os paizes que mais podiam concorrer para a
+prosperidade do Brazil. Naturalmente a Inglaterra, a Allemanha, a França
+e a Italia; mas os governos d'estas tres ultimas potencias prohibem a
+emigração para o imperio, quando alli se manifesta a febre amarella, que
+produz os seus maleficos effeitos nos primeiros seis mezes de cada anno.
+E quando não existisse tal prohibição, seria facil aos estadistas do
+Brazil desviar a corrente da emigração d'aquelles povos para a America
+do Norte?
+
+Não, de certo: a isso se oppõem os costumes e as leis do povo
+brazileiro.
+
+
+II
+
+«O Brazil, essa nova terra da promissão, onde de dia para dia se vae
+realisando a promessa de Christo de--_cento por um_--depois de attestar
+a sua virilidade em tantos combates illustres, pelejados nos campos do
+Paraguay, despe, conscio da sua missão civilisadora e humanitaria, a
+farda do soldado da liberdade, e vestindo novamente a blusa do
+trabalhador, e empunhando alegre a rabiça do arado, volve, como o
+cidadão romano dos tempos da verdadeira grandeza de Roma, a
+retemperar-se de forças e virtudes nos abençoados labores da sua
+agricultura.»[20]
+
+
+Sim, senhor. Estylo de poeta, saido do parnaso das mattas frondosas,
+deitado em maqueira de pennas de araras, embriagado pelo aroma das
+flôres pendentes dos cipós que do cimo das arvores seculares, vem
+interlaçar-se na cabeça escandecente do poeta: comendo aráçá e bebendo a
+saborosa agua de côco, transformada no maná do céo; adormecendo ao som
+mavioso do sabiá, que chilrea no cimo da palmeira; rodeado de
+beija-flôres e de tapuyas, os anjos d'aquelle paraizo deslumbrante, e ao
+mesmo tempo venenoso!
+
+Sim, senhor; sonhos de poeta transformados em historia!
+
+O Brazil, berço da indolencia, e tumulo da maior parte d'aquelles que
+têem querido sondar os seus intrincados labyrinthos, convertido, com uma
+pennada, em--_nova terra da promissão_--e... em paiz de romanos!
+
+O Brazil, morto emquanto se davam os combates illustres, revivendo
+depois para empunhar a rabiça do arado! como se fôra possivel admittir,
+sem replica, que os trabalhos agricolas paralisassem no tempo da guerra
+do Paraguay; como se fôra certo que o soldado viera do campo da batalha
+substituir a farda pela blusa do cidadão romano!
+
+_Cento por um!_ e no Brazil ha tanta miseria como em qualquer outro paiz
+da Europa!
+
+Dos que procuram aquellas inhospitas plagas, convertidas n'um momento de
+lyrismo, na _terra promettida_, escapa ou pode ser feliz _um por cento_.
+
+Nunca nos cançaremos de repetir esta verdade, por que sabemos por
+experiencia o que é o Brazil.
+
+É bom escudar com documentos de mui recente data as nossas palavras.
+
+Diz um que temos á vista:
+
+«Dos emigrantes, aquelles a quem cabe mais desgraçada e commovente
+sorte, são os que vem para fugir ao recrutamento; não os clandestinos,
+mas os menores de 14 annos, e infelizmente é avultado o numero d'estes;
+porque, como só depois dos 14 annos é que são obrigados a prestar
+fiança, os paes para os não verem soldados preferem arremessal-os para o
+Brazil, muitas vezes sem a mais leve recommendação, entregues
+completamente á sua inexperiencia, _se não acham a quem os vender!_
+
+«É ignobil, mas é verdade.
+
+«Estes infelizes assim vendidos, vão para o interior do paiz ser
+barbaramente explorados pelos compradores, que os obrigam a todo o
+genero de serviços, muitas vezes superiores ás suas forças, tratando-os
+peor que aos seus escravos, porque estes representam um capital
+consideravel e aquelles sómente a importancia da passagem.
+
+«A acção dos funccionarios consulares fica inutilisada para os proteger
+na sua chegada a esta côrte, e a das auctoridades territoriaes é nulla
+no interior contra os fazendeiros» etc.[21]
+
+E accrescenta:
+
+«Todas estas coisas, que deixo expostas influem mais ou menos na
+emigração, mas realmente o que se póde dizer que abertamente influe
+n'ella são os engajadores e a febre do ouro.
+
+«Os primeiros seduzindo essa pobre gente e abonando-lhes a importancia
+da passagem e mais arranjos, fazem recrudescer a febre que domina as
+populações e o delirio os impelle a entrar n'esse _fatal azar em que
+jogam familia, patria, saude e a propria vida contra uma fortuna que
+raros attingem_.»
+
+A divisa--_cento por um_--está bem patente n'este documento official.
+
+O consul do Maranhão é mais esplicito. Vejamos como elle distingue a
+_nova terra da promissão_:
+
+«Quem estudar as causas da grande torrente de emigração que todos os
+annos se estende para o Brazil, ha de confessar que ella assenta muito
+principalmente nas _falsas insinuações de alliciadores assalariados_
+que, sem consciencia e dominados sómente pelo seu proprio interesse,
+_arrastam essa parte da nossa sociedade menos esclarecida para a
+ruina_.»[22] etc.
+
+E mais adiante:
+
+«De todas as emprezas fundadas, não póde haver seguramente nenhuma mais
+vil e ignominiosa do que seja esta (a dos engajadores), que tem por fim
+_seduzir_ uma innumeravel multidão de portuguezes ignorantes, _e por
+isso facilmente se deixam dominar pelas ficticias narrações das
+abundantes minas de oiro, que se encontram por toda a parte_, pelas
+excellencias e fertilidade d'este solo!
+
+«Os miseros que ali trabalhavam (na colonia Arapapahy) debaixo d'um sol
+ardente e enterrados em lodo, acabaram pela maior parte no hospital;
+outros ainda doentes foram mandados por este consulado para a sua terra
+natal, posto que com algum sacrificio, e os restantes amarellos e
+inchados, vagueavam por essas ruas esmollando a caridade publica!»
+
+Que paraizo!...
+
+O consul de Pernambuco tambem não acredita no maná descoberto no Brazil
+pelo auctor do _Estudo historico_.
+
+Eis como elle se expressa:
+
+«Os emigrantes portuguezes estabelecem-se geralmente nas capitaes das
+provincias, ou em uma cidade ou villa do litoral, ou do interior, onde
+haja algum commercio de certa importancia, sendo mui raros os que se
+aventuram a internar-se no paiz, por não terem nem protecção de
+patricios, parentes ou de amigos, _e por estarem menos garantidos na sua
+segurança pessoal e de propriedade_!
+
+.........................................................................
+
+«Poucos são os que se empregam na agricultura, tanto pela razão acima
+declarada, de pouca propensão que tem a internarem-se no paiz, como pelo
+rigor do clima dos tropicos» etc.[23]
+
+É a terra promettida... e um calor, que deixaria os colonos feitos em
+torresmos, se caissem na patetisse de se exporem ao sol!
+
+E encarando a cousa pelo ponto de vista social, accrescenta:
+
+«As relações em que vive a colonia portugueza com a população do paiz
+não são caracterisadas pelas attenções, obsequio e amisade cordeal que
+seria para desejar existisse entre os emigrantes portuguezes e os
+naturaes do paiz, sendo uns e outros da mesma origem, fallando o mesmo
+idioma e tendo a mesma religião.
+
+«Póde dizer-se em geral que os emigrantes portuguezes, que residem
+n'este districto consular, não são bemquistos da população nacional,
+que, além de tratal-os de modo grosseiro e offensivo, soffrem muitas
+vezes epithetos affrontosos, e são victimas do odio latente que os
+nacionaes nutrem contra elles!»
+
+É este o reverso da medalha.
+
+A promessa do author do novo livro--não profanaremos Christo--de _cento
+por um_, com respeito ao Brazil, é o calor tropical e o lado pestifero;
+são as riquezas ephemeras, os horrores da miseria, a falta de protecção
+das authoridades e os maus tratos do gentio!
+
+Não é pouco!...
+
+ [20]_O Brazil_, por Augusto de Carvalho.
+
+ [21] Relatorio do consul geral de Portugal no Rio de Janeiro, de
+ 1875.
+
+ [22] Relatorio de 7 de dezembro de 1874.
+
+ [23] Relatorio de 17 de dezembro de 1874.
+
+
+III
+
+O que citamos do livro _Brazil_ não é sufficiente para dar maiores
+proporções á nossa humilde critica. O seu auctor não levou a palma da
+victoria a outros apologistas do imperio americano. Nós já lemos cousas
+mais attrahentes ou seductoras, e, por isso mesmo, mais romanticas, que
+é o que convem para illudir os emigrados.
+
+As palavras que vamos transcrever deviam necessariamente surtir melhor
+effeito.
+
+Eil-as:
+
+«Do Novo Mundo, tantos seculos escondido, e de tantos sabios calumniado
+(sic), onde não chegaram Hannon com as suas navegações, Hercules Lybico
+com as suas columnas, nem Hercules Thebano com as suas emprezas, é a
+melhor porção o Brazil; vastissima região, fertilissimo terreno, em cuja
+superficie tudo são fructos, em cujo centro tudo são thesouros, em cujas
+montanhas e costas tudo são aromas; tributando os seus campos o seu mais
+util alimento, as suas minas o mais fino ouro, os seus troncos os mais
+suaves balsamos, e os seus mares o ambar mais selecto: admiravel paiz a
+todas as luzes rico, onde prodigamente profusa a natureza, se
+desentranha nas ferteis producções, que em opulencia da monarchia, e
+beneficio do mundo apura a arte, brotando as suas cannas espremido
+nectar, e dando as suas fructas sazonada ambrozia, de que foram mentida
+sombra o licôr, e vianda, que aos seus falsos deuses attribuiu a culta
+gentilidade.
+
+«Em nenhuma outra região se mostra o ceu mais sereno, nem madruga mais
+bella a aurora: o sol em nenhum outro hemispherio tem os raios tão
+dourados (nem é tão quente!) nem os reflexos nocturnos tão brilhantes;
+as estrellas são as mais benignas, e se mostram sempre alegres: os
+horisontes, ou nasça o sol, ou se sepulte, estão sempre claros: as aguas
+ou se tomem nas fontes pelos campos, ou dentro das povoações nos
+aqueductos, são as mais puras: é emfim o Brazil terreal paraiso
+descuberto, onde tem nascimento e curso os maiores rios; domina
+salutifero clima (sic); influem benignos astros, e respiram auras
+suavissimas, que o fazem fertil e povoado de innumeraveis habitantes,
+posto que por ficar debaixo da Torrida Zona, o desacreditassem, e dessem
+por inhabitavel Aristoteles, Plinio, e Cicero, e com gentios os padres
+da igreja santo Agostinho, e Beda, que a terem experiencia d'este feliz
+orbe, seria famoso assumpto das suas elevadas pennas, aonde a minha
+receia voar, posto que o amor da patria me dê azas, e a sua grandeza me
+dilate a esfera.»[24]
+
+Aconselhamos aos alliciadores a conveniencia de mandarem acrescentar as
+palavras que ahi deixamos transcriptas nos cartazes que costumam affixar
+nos troncos dos carvalhos dispersos pela natureza nas proximidades das
+vivendas dos nossos proletarios do norte. Os capitães dos barcos
+conseguirão assim mais facilmente o _lastro_ desejado!...
+
+Condemnamos o estylo empregado nos trechos citados de um e outro
+escriptor, ambos com pretenções a historiadores, porque esse estylo,
+segundo Lamartine, «é a magica de que o homem se serve, muitas vezes com
+feliz successo, para fazer admittir paradoxos como verdades e sophismas
+como excellentes raciocinios.»
+
+A imparcialidade da historia, dizia o referido escriptor, não é como a
+do espelho que reflecte os objectos; é a do juiz que vê, escuta e julga.
+Para que ella mereça este nome, é-lhe mister uma consciencia. A narração
+vivificada pela imaginação, reflectida e julgada pela sabedoria, eis a
+historia.
+
+Quem não sabe escrever a historia assim, deve quebrar a penna antes de
+profanal-a.
+
+Mas aos agentes do Brazil, convem desvirtuar tudo, convencidos como
+estão, de que podem chegar mais facilmente a seus fins--o interesse
+particular.
+
+Que lhes importa a elles a historia?...
+
+É moda hoje erigirem-se estatuas aos pygmeos da actualidade! E que
+importa que a posteridade, que costuma erigil-as aos verdadeiros heroes,
+venha derrubal-as para cima dos tumulos da ignominia? que se afundam as
+estatuas na lama em que vegetavam os miseros animalucos, transformados,
+n'um momento de delirio, de hypocritas em Catões?
+
+Podereis acaso, mumias lodosas, fazer fallar o pó a que infallivelmente
+estarão reduzidos os vossos pergaminhos e as vossas lucubrações?
+
+Não, que a verdadeira historia, quando se demora um pouco para dar
+realce a qualquer vulto digno, se alguma vez lança mão d'esses pygmeus,
+é para os esmagar!
+
+O governo do Brazil deu o passo errado de libertar os escravos antes de
+criar as leis, que regulassem o trabalho no imperio.
+
+Devia, como já o dissemos em outro logar, ter educado os naturaes a
+desempenhar o papel, que outr'ora representava o trabalhador africano.
+Ninguem melhor do que o indigena podia substituir o escravo; mas a lei
+que libertára este mostrou ao mundo a inutilidade d'aquelle. É o que
+hoje estamos vendo. A agricultura definha de dia para dia, á maneira que
+o antigo trabalhador se liberta; e o Brazil abre os braços suplices aos
+europeus, para que o livrem do abysmo em que pouco a pouco se vae
+precipitando. Por isso os seus homens d'estado lançam mão de qualquer
+meio, sem previamente lhe conhecer a utilidade. Similhante ao naufrago,
+em pleno oceano, a vaga que ha de matal-o, se lhe afigura a taboa da
+salvação. Não se contenta com a fama das riquezas ephemeras, fama que em
+todas as épocas assombrou o mundo. Destaca agentes para Portugal, onde
+as vozes descompassadas dos engajadores não pódem formar écho além das
+nossas fronteiras. Gasta fabulosas sommas, com esses engajadores que em
+troco, fazem transportar para o Brazil algumas centenas de braços, que,
+afinal, não compensam as despezas feitas; porque, além do numero de
+colonos ser limitadissimo; o europeu, uma vez chegado ás margens d'esse
+paiz de fadas, convertido no que realmente é--cemiterio do
+proletario--vê-se na impossibidade de empregar as suas já quebrantadas
+forças, por effeito do clima, no serviço arduo de arrotear aquellas
+terras, que por todos espalha o desanimo e a morte. E os homens do
+Brazil dormem á sombra dos combates illustres da guerra do Paraguay,
+esperando, sem duvida, que do ceu lhe cáia o orvalho vivificador,
+promettido pelo auctor do livro que analysamos!
+
+ [24]_America Portugueza_--Rocha Pitta.
+
+
+IV
+
+«A emancipação do escravo, caminho resvaladio para a extincção
+definitiva d'esse abominavel cancro, que tanto tem afeiado os codigos
+das nações mais civilisadas, e as ultimas disposições da lei, tendentes
+a facilitar a naturalisação dos estrangeiros, ao passo que revelam o
+cuidado, que põe o governo brazileiro em dar certo cunho de
+homogeneidade á legislação civil do imperio, acabam igualmente por
+convencer que o seu pensamento predominante é o de reunir, sob o céo
+esplendido do Cruzeiro, os individuos de todas as naturalidades, que
+alli quizerem ter por patria commum--_o trabalho_.»[25]
+
+
+Analysemos a emancipação do escravo, quanto baste para demonstrar, que
+aos homens que collaboraram na lei do imperio, n.º 2040, não presidiam
+só as leis da humanidade, que, ainda assim, não devemos negar a outras
+nações mais cultas; mas tambem a ideia de se imporem ás outras nações,
+como quem tinha estudado, bem de perto, e com melhor exito, uma questão
+tão complexa; parecendo querer corrigil-as da sua morosidade, na
+destruição do cancro, e quiçá da creação d'elle, cancro que _talvez_ o
+Brazil não creára se fosse dirigido pelos homens que em 1871 estavam á
+testa dos negocios do imperio!
+
+Não negamos as vantagens moraes da abolição da escravatura, mas negamos
+a apregoada phylantropia d'aquelles que ensinámos a ser humanos.
+
+Um conjuncto de circumstancias, que seria fastidioso enumerar, e que não
+comporta este trabalho concorreram para o commercio da escravatura no
+Brazil, levando a melhor parte n'esta deshumana ideia os jezuitas que,
+desde a primitiva, dominaram na America meridional. Fosse que elles
+reconhecessem a inutilidade de empregarem os naturaes--por
+demasiadamente indolentes--na exploração de tão feracissimo solo, fosse
+por sua demasiada ambição, o que é certo é que os governos de Portugal
+se insurgiram sempre contra tão abominavel commercio, dando provas as
+mais honrosas da sua humanidade pelas victimas.
+
+Foi Portugal uma das primeiras nações que deu o passo para a liberdade
+dos escravos; mas quando julgou dever dar esse passo, fel-o mais por
+humanidade do que por jactancia.
+
+Estudou a questão por todos os lados, e quando se convenceu que a
+destruição d'um mal lhe não accarretaria outro, deu o golpe com as
+cautellas aconselhadas pela prudencia dos verdadeiros homens d'estado.
+
+E o que fez o Brazil? Estudou a questão em toda a sua plenitude?
+Destruindo o mal da escravatura preta não crearia outro mal a
+escravatura branca?
+
+Era preciso estudar bem um assumpto tão milindroso, para que, com o bem
+moral, que infallivelmente havia de succeder a essa liberdade, não
+começassem a sentir-se os effeitos materiaes e horrorosos do
+prostramento da agricultura do imperio, pela falta de braços, e terem os
+homens de estado, para salval-a, que lançar mão d'um mal peior do que
+aquelle que haviam fulminado--a escravatura branca.
+
+Estudaram elles esta questão? Não.
+
+Na época em que a lei apontava aos escravos a sua liberdade, existiam
+quatro milhões d'aquelles infelizes; e os legisladores brazileiros
+calculavam, que, d'ahi a vinte annos, quando os escravos estivessem
+completamente forros, existiriam mais de 20 milhões de braços livres. A
+fecundidade do africano é superior á de outra qualquer raça, e d'ahi a
+extraordinaria multiplicidade de braços; mas o africano, geralmente
+fallando, uma vez livre, é tão inutil como qualquer indigena dos
+tropicos.
+
+O Brazil, com a sua apregoada falta de braços e com o definhamento da
+sua agricultura, corrobora a nossa asserção.
+
+Effectivamente, se no tempo da escravatura, se não precisava do braço
+europeu para o desbravamento das terras, como é que hoje que o Brazil
+deve abrigar em seu seio maior numero de braços de origem africana, em
+quem tanto confiava, vem á Europa mendigal-os para a sua decadente
+agricultura?
+
+Sobre a situação do imperio com respeito ao elemento servil disiamos ha
+pouco:
+
+«D'aqui a dez ou quinze annos, quando estiver extincta a escravatura no
+Brazil, sem que o governo tenha remediado este grande mal e os
+lavradores, faltos de recursos materiaes liquidarem as suas fortunas e
+procurarem, como é natural, melhor emprego para o seu capital, chegará
+então o grande imperio americano ao ultimo grau da sua decadencia;
+porque, uma vez livre o elemento escravo, que no Brazil é e ha de ser
+sempre a alma da lavoura, ninguem mais poderá faser trabalhar o preto
+que com o salario de um dia, se julga habilitado para comer 15 ou
+20.»[26]
+
+Não eramos só nós que assim pensavamos. Ao tempo em que isto
+escreviamos, já estava tambem escripto, mas não publicado, o seguinte:
+
+«A moderna lei do elemento servil, que posto não minorasse os
+instrumentos do trabalho tende á sua progressiva diminuição, compelle o
+Brazil a empregar todos os exforços para adquirir braços que lhe
+substituam os que aquella lei inutilisou com a liberdade, pois que o
+escravo entendo que esta só consiste em não trabalhar.»[27]
+
+Aniquilando o imperio, podem chamar-se humanos os seus aniquiladores?
+
+Consentindo o governo do Brazil na escravatura branca, que outra cousa
+não são os engajamantos que ora se fazem, não é ser tambem deshumano?
+
+Que nos respondam os homens conscienciosos.
+
+ [25]_O Brazil_, pag. 2.
+
+ [26]_Questões do Pará._
+
+ [27]_Negocios Externos._
+
+
+V
+
+Vejamos agora quaes são as vantagens que as leis brazileiras offerecem
+ao estrangeiro.
+
+Para qualquer se naturalizar cidadão brazileiro, terá que residir dois
+annos no imperio, declarando a intenção de continuar a residir alli ou a
+servil-o depois de naturalisado (absurdo); as cartas de naturalisação,
+serão isentas de qualquer imposto, _excepto_ o de 25$000 réis de selo!
+Na occasião do individuo prestar juramento de fidelidade _declarará seus
+principios religiosos_ (não sabemos para que.)
+
+O estrangeiro não poderá viajar dentro do imperio, (lei de 10 de janeiro
+de 1855) sem passaporte, que será visado pelas authoridades da provincia
+por onde passar!
+
+O regulamento de 30 de junho de 1855, garante aos colonisadores na
+provincia de S. Pedro do Rio Grande do Sul, as despezas da viagem e
+alimento desde a cidade do Rio Grande até ao logar do seu destino, e bem
+assim as despezas de accommodação até ter casa propria, _não excedendo o
+praso de 60 dias_! Garante egualmente _aos mais necessitados_ o subsidio
+de 3 mezes na razão de 200 réis por dia aos solteiros, e de 160 réis a
+cada pessoa de familia de mais de 2 annos.
+
+Agora o reverso da medalha:
+
+«O preço minimo de cada braça quadrada de terras, diz o regulamento
+citado, é de 3 réis, _sendo augmentado segundo for sua qualidade e
+situação_.»
+
+O nosso distincto compatriota dr. H. Roberto Rodrigues, diz o seguinte a
+este respeito:
+
+«Se as terras pertencerem ás provincias ou municipios como suas
+dotações, não chegam ao emigrante senão atravez de um primeiro
+possuidor, que as não cultivou mas que lhes elevou o preço e com o
+encargo de praso phanteuzim de laudemio de quarentena e fôro annual de
+500 réis por braça linear da maior frente, alem das alcavalas tambem
+herdadas, da sisa da venda de 6 por cento, sello proporcional em
+millessimo por cento do preço e escriptura. As terras particulares não
+se podem obter se não por preços exorbitantes. Por meio de locação são
+peiores as condições em geral para o locatario. Os contractos mais
+favoraveis de que tenho tido conhecimento ainda assim nada deixam ao
+locatario. Darei um exemplo do mais favoravel.
+
+«O dono do terreno concede-o gratuitamente por tres annos (terreno de
+1:000 braças quadradas em matto), e n'esse periodo deve o locatario
+cercal-o (custo do cerco 1:320$000 réis), fazer casa de moradia (custo
+da mais barata 500$000), arrotear o terreno (custo minimo 60$000), e
+cultival-o (custo minimo 100$000 réis). Total 1:980$000 réis, ou 1$980
+réis por cada braça quadrada. Concede mais um anno a 240$000 réis de
+aluguer, e o seguinte a 480$000 réis. N'este periodo de cinco annos, o
+locatario apenas tira o producto liquido de 580$000, medio annual, que
+lhe deixou além da sua alimentação, apenas o lucro de 200$000 réis em
+cinco annos!
+
+«Estes preços e condições são os das visinhanças das cidades (distancia
+de 6 a 10 milhas). A distancias de 30 ou 40 leguas (com um ou dois dias
+de viagem a vapor), os preços e condições descem um decimo, mas os
+fretes dos productos quasi prefazem a differença com o preço mais alto
+dos objectos de importação.»[28]
+
+Admitamos que esse preço não augmenta; e estabeleçamos 125 mil braças
+quadradas para cada colono (seguindo as _instrucções de 23 de novembro
+1861_), que importam em 375$000 réis, e que o governo brazileiro
+embolsará no praso de 5 annos.
+
+Que capital empregará elle para lucrar aquella somma por cada colono?
+
+Vejamos:
+
+Subsidio de 200 réis dispensado a cada colono
+necessitado, por espaço de 90 dias 18$000
+
+Despezas do transporte e alimento, d'esde o
+Rio Grande até ao local da colonia, calculemos 18$000
+
+Accommodação por 60 dias 4$000
+
+ 40$000
+
+Ora emprestar 40$000 réis para lucrar 375$000, no fim de 5 annos, não é
+máu negocio. E os que não necessitam do emprestimo?
+
+E chama-se a isto proteger a emigração e a agricultura!
+
+Mas não fica aqui ainda o tal auxilio. O colono que nos prazos marcados
+não satisfizer os taes 3 réis por cada braça de terreno, e bem assím
+todas as despezas será obrigado a pagar um premio de 12 p. c. por cada
+anno!
+
+O Brazil que conta perto de 9 milhões de kilometros quadrados de
+supreficie, e que pode ter desbravado pouco mais da centessima parte,
+leva a sua avidez ao ponto de exigir por terrenos que nada lhe rendem a
+fabolosa importancia de 3 réis por cada braça, se a esses terrenos não
+for arbitrado maior preço! Mas não se julgue que é este só o lucro que o
+Brazil aufere com a sua apregoada protecção aos colonos. As madeiras
+extrahidas dos seus frondosos arvoredos, o maior obstaculo da
+agricultura, pagarão 14 p. c. da exportação. O algodão, o café e outros
+productos agriculas, não são isentos de taxas eguaes, se não
+superiores!...
+
+Os lucros seriam incalculaveis, se houvesse bastantes idiotas a auxiliar
+d'estes e quejandos disparates administrativos dos economistas
+brazileiros.
+
+Mas as instrucções de 23 de novembro de 1861 são mais simples, isto é,
+estende-se aos territorios das vastissimas provincias do Espirito Santo,
+Minas Geraes, St.ª Catharina e Paraná.
+
+Estabelece-se alli que os colonos serão recolhidos, na sua chegada ao
+Rio, á hospedaria da ilha do Bom Jesus, e alli _gratuitamente_
+sustentados e tractados em suas enfermidades, até partirem para o seu
+destino. O preço do terreno é que não baixou de tres réis por cada braça
+quadrada. Os auxilios, taes como ferramentas, sementes, e meios de
+subsistencia, _aos necessitados_, são superiores; por isso maior será a
+divida que ha de infallivelmente amortisar, não no prazo de cinco annos,
+como está estipulado nas instrucções de 10 de janeiro de 1855, mas no de
+seis, o que não deixa de ser logico!
+
+Com tudo, as novas e ultimas instrucções dispensadas em favor da
+colonisação, não obstante estarem seis annos no cadinho dos alchimistas
+escolhidos pelo Brazil para achar o elixir que ha de _aformosear_ a
+decadente agricultura, não remedeiam o grande mal, e são um novo titulo
+votado á inepcia do governo que o sancionára.
+
+ [28]_Negocios externos._ Sobre este mesmo assumpto, veja-se
+ _Questões do Pará._ Cap. XI.
+
+
+VI
+
+Vejamos agora o que faz um paiz lemitrophe do imperio americano a
+respeito da colonisação.
+
+A republica de Buenos Ayres, por decreto de 21 de outubro de 1855,
+authorisa a concessão, _em propriedade perpetua_, de cem leguas
+quadradas de terreno, em Bahia Blanca e Patagones, aos individuos, ou
+familias nacionaes ou estrangeiras que pertenderem povoal-as.
+
+A lei de 7 de junho de 1856, declára porto franco para os navios
+mercantes de todas as bandeiras, o da Bahia Blanca, sobre o occeano
+Atlantico; isentando de todo o direito de porto, os navios do alto mar
+ou cabotagem, que alli concorrem de qualquer procedencia, o que nunca
+fez o Brazil, nem mesmo com respeito ao rio Amazonas, que, não obstante
+ter sido decretada a abertura, permanece fechado para os navios
+estrangeiros; mas, o que é mais importante, a referida lei da republica
+do Prata, declara em seu artigo 3.º, o seguinte:
+
+«São igualmente livres de todo o direito d'alfandega, por espaço de
+cinco annos, as importações e exportações de toda a classe que por
+aquelle porto se verificarem; bem entendido que esta franquia é limitada
+ao consumo exclusivo e producção propria d'aquelle districto.»
+
+Mirem-se n'este espelho os legisladores brazileiros.
+
+O Mexico, esse paiz riquissimo de solo, e de revoluções, tratava ha
+pouco de discutir uma lei importantissima sobre o assumpto que
+analysamos. A verba que destinava á imigração, era de 500:000 pesos.
+
+Eis como um jornal brazileiro[29] dá conta d'essa lei:
+
+«Os emigrados deverão ser transportados á custa do governo, desde o paiz
+de sua residencia até ao ponto do seu destino: durante a viagem lhes
+serão ministradas as necessarias provisões, e no primeiro anno receberão
+um auxilo de 90 pesos, e se ao expirar o segundo anno, desejarem voltar
+ao paiz de sua procedencia, o governo por sua conta lhes dará
+transporte.
+
+«Apenas uma colonia chegue a conter cincoenta familias, poderá
+constituir uma corporação municipal, eleger os seus empregados, e fazer
+os regulamentos que os seus interesses exigem, com tanto que não se
+opponham ás leis federaes e locaes.
+
+«Por espaço de cinco annos, não pesarão outras contribuições e impostos
+sobre as terras dos colonos, que não sejam os municipaes.
+
+«Os generos alimenticios, ferramentas e materiaes de construcção para os
+colonos, serão importados livres de direitos.
+
+«Qualquer navio que importar mais de dez emigrantes ficará isento de
+pagar os direitos de tonelagem, pharoes, ancoragem e pilotagem.
+
+«Todo o emigrante desde o momento da sua chegada será declarado cidadão
+e gosará desde logo dos direitos civis e politicos como se fosse cidadão
+nato.
+
+«Das terras publicas destinar-se-ha uma parte para emigrantes.
+
+«Os colonos que se destinarem á cultura do solo receberão uma quantidade
+de terras que não seja inferior a 110 geiras nem exceda a 1:100, podendo
+cultival-as por espaço de 10 annos gratuitamente; no fim d'este termo
+ficará á sua opção, ou pagar a dinheiro o seu valor integral, ou pagar
+annualmente uma decima parte do mesmo valor, até saldar a somma total em
+10 annos.
+
+«Nas terras, que se medirem para fundar cidades, dar-se-ha um lote a
+cada emigrante.»
+
+É assim que se protege a emigração!
+
+ [29]_Diario de Belem._
+
+
+VII
+
+Dissemos que Portugal, não é o paiz que mais colonos deve fornecer ao
+Brazil.
+
+Dissemos tambem que os filhos das outras nações da Europa, preferem os
+estados da America do norte; e que os governos da Allemanha, França e
+Italia, prohibem a emigração de seus subditos para o imperio brazileiro.
+
+Qual a causa d'esta preferencia e d'esta prohibição?
+
+A falta de leis protectoras para o emigrante, responde á preferencia dos
+estados do norte pelos do sul; e a insalubridade do Brazil, e quiçá a
+falta do cumprimento das leis pouco liberaes que ali existem, responderá
+facilmente á medida adoptada por aquelles governos--a prohibição.
+
+Já vimos que as disposições brazileiras, tendentes a facilitar a
+naturalisação dos estrangeiros no Brazil, não são sufficientes, para
+que, debaixo do ceu do Cruzeiro, possam todos os individuos, com
+independencia, chamar-lhe a terra do trabalho.
+
+O sr. Augusto de Carvalho mostra alguns conhecimentos da vida dos povos
+subordinados aos estados do norte, e por isso mesmo devia apontar ao
+governo brazileiro as disposições liberaes das leis americanas, que
+fazem dos Estados-Unidos um paiz livre, dirigido por cidadãos e não por
+jesuitas.
+
+E não vá persuadir-se que é pequena cousa para o engrandecimento d'um
+povo o assumpto--religião.
+
+O artigo 5.º da carta constitucional do imperio, que faz da religião
+catholica apostolica romana, a religião do estado, é o maior obstaculo
+contra a emigração dos europeus.
+
+Os inglezes e especialmente os allemães, os unicos que podiam formar um
+grande nucleo de emigração, são protestantes; e os filhos dos outros
+paizes catholicos, ao deixarem a patria, suppõem que hão de ir
+encontrar, n'um paiz novo, uma sociedade nova, cujos principios liberaes
+sejam, quando não superiores, ao menos iguaes aos que se professam no
+paiz d'onde emigram. Mas o europeu, completamente illudido, vai
+encontrar o grande imperio dominado pelos jesuitas, impondo ao emigrante
+os seus principios reaccionarios, sob pena de serem apontados á
+população, como inimigos do imperio, servindo-se para isso dos pulpitos
+e dos jornaes, transformados em pasquins, que o governo tolera,
+desculpando-se em não querer tolher a liberdade do pensamento, mas
+espezinhando essa liberdade quando as manifestações contra o jesuitismo,
+como justa represalia, partem dos estrangeiros!
+
+Despresando os sãos principios seguidos na America do norte, e por
+consequencia--_o pensamento de reunir sob o mesmo ceu todas as
+nacionalidades_--só falta ao governo admittir as _justas_ exigencias do
+seu clero, que pede a forca e os horrores da inquisição, para os adeptos
+das outras seitas religiosas toleradas no Brazil! E ai dos homens de
+estado que não attenderem as reclamações da fradaria! Que o diga o
+gabinete 7 de março, presidido pelo visconde de Rio-Branco, fulminado
+pelo _ex-informate conscientia_ dos bispos que, para amedrontal-o,
+haviam creado em todas as provincias o chamado--partido catholico--! a
+nação em peso a pedir cilicios e fogueiras contra meia duzia de
+herejes!...
+
+Eis-aqui está um paiz colonisador, entretido na pratica do trabalho...
+fazendo politica para _reunir, sob o ceu explendido do Cruzeiro_... os
+jesuitas de todas as nacionalidades!
+
+De que serviu ao sr. Augusto de Carvalho, a extemporanea defeza que
+fizera do seu Brazil, ha dois annos liberal, convertido n'um momento,
+pela simples vontade d'uma mulher em convento de frades?!
+
+É preciso que assignale na sua historia, quando fizer a terceira
+edicção, esta phrase do seu clero dominador em fins do seculo XIX.
+
+É provavel que com a forca e a inquisição venha o restabelecimento da
+escravatura. Isto feito, o governo, que presidir aos destinos do
+imperio, será pelo auctor do _Brazil_ elevado ás honras de patriota!
+
+E poderá o sr. Augusto de Carvalho, como empregado-historiador do
+Brazil, negar as _virtudes_ do celeberrimo gabinete que substituiu o do
+visconde Rio Branco?
+
+
+VIII
+
+Na primeira parte do seu livro, mostra-nos o snr. Augusto de Carvalho
+alguns conhecimentos sobre os principaes fundamentos das colonias, nos
+estados do norte da America, que vieram, passados dois seculos, pela
+bocca do seu primeiro cidadão, Washington, declarar livres os treze
+estados, que haviam de constituir uma das nações mais importantes do
+mundo.
+
+Concorreram muito para esse engrandecimento razões valiosissimas. Uma
+d'ellas foi, sem duvida, o desinteresse dos europeus emigrantes pelas
+dissensões politicas e religiosas dos seus paizes, nos XVI e XVII
+seculos. A superstição não lhes era peculiar. A politica, no seu
+entender, não devia adaptar-se á religião, nem esta áquella. Uma e outra
+deviam ser independentes; mas essa independencia fallecia nos paizes
+cansados. Os emigrantes, homens novos e liberaes, protestavam contra
+todas as seitas officiaes, como offensivas do direito natural; e porque
+os seus protestos não podiam ser ouvidos por quem se entretinha mais com
+a politica do que com o engrandecimento da patria, preferiram antes
+procurar novas terras, onde livremente podessem entregar-se de corpo e
+alma ao trabalho, que é a vida dos povos.
+
+As leis mais adequadas ás colonias foram estabelecidas entre si,
+chegados á America. A sua religião e a sua politica resumia-se apenas no
+engrandecimento da patria adoptiva. Esse amor, pela sua independencia,
+fôra-lhes sempre combatido, até que em 4 de julho de 1776, entenderam os
+colonos dever sacudir o jugo que os opprimia.
+
+Porém esses caracteres summamente independentes, que abalaram o mundo
+com o seu amor á liberdade, reconheceram a necessidade da escravatura; e
+não sabemos se como nós accusamos os jesuitas, elles tambem accusariam
+os seus _priests_ calvinistas, lutheranos, quakers, rhinoburguezes,
+conventicularios e arminianos, de introduzirem na America do norte o
+deshumano trafico.
+
+O que é facto é que--e diga-se isto, ao menos, para desculpa dos
+dominadores da America do sul--os differentes estados do norte, possuem
+ainda hoje, para cima, de tres milhões de escravos!
+
+É verdade que a sua população é superior a 30 milhões de habitantes, e
+que os 4 milhões de escravos, que possue o Brazil, estabelece uma grande
+desproporção, relativamente superior aos seus dez milhões de habitantes.
+Mas os Estados Unidos foi um dos primeiros povos que acceitou a
+divisa--igualdade e fraternidade--; e não só por esta circumstancia,
+como tambem porque a corrente da emigração europêa era e é fabulosa para
+o norte, já mais deveria, depois da proclamação da republica, consentir
+o horroroso commercio. E embora elle tivesse existido antes da
+independencia, não devia, passado quasi um seculo, apresentar-nos as
+suas estatisticas, em que figura, como gente escrava, a decima parte da
+sua população!
+
+Porque não baniu a escravatura dos seus dominios?
+
+Não faltava aos seus homens d'estado a razão que presidiu ao gabinete de
+7 de março, do imperio americano, e, antes d'este, á maior parte dos
+gabinetes europeus, em cujo numero figura Portugal. Porém, os americanos
+do norte, além da divisa--igualdade e fraternidade--que a todo o mundo
+apontam, tem outra, que a todos occultam--a conveniencia de salvaguardar
+os interesses da sua agricultura, que é o engrandecimento da republica.
+
+O que é um facto inquestionavel, é que a tolerancia religiosa dos
+inspirados pela côrte romana, intolerancia que ainda hoje domina os
+principaes estados do sul da America, é que collocaram o governo do
+Brazil na coalisão de adoptar medidas urgentissimas, a fim de remediar o
+grande mal da falta de braços, que de dia para dia vai definhando a
+agricultura.
+
+O governo brazileiro não devêra ter libertado os escravos, sem primeiro
+ter creado as leis proficuas que regulam o trabalho. A abolição
+immediata do imposto de exportação, devia desde ha muito, ser lei do
+estado. Mas o que de fórma alguma deve existir é o artigo 5.º da sua
+constituição politica.
+
+Não foi com similhantes empecilhos que progrediram os Estados Unidos da
+America do norte.
+
+
+IX
+
+A segunda parte do livro do snr. Augusto de Carvalho, leva-nos a demorar
+um pouco mais a nossa analyse sobre a escravatura.
+
+É incontestavel que este horroroso commercio, exercido mais largamente
+depois do descobrimento da America, tinha, até certo ponto, a sua razão
+de ser.
+
+Não desculparemos por fórma alguma o systema de alguns jesuitas, usado
+na catechese dos indigenas da America do sul, systema que no entender de
+alguns historiadores, escravisava os indios em logar de os chamar a luz
+da civilisação.
+
+Porém, se accusam a companhia de demasiadamente interessada no seu
+engrandecimento moral e material, como é crivel admittir que os seus
+filiados não usasem de todos os meios para aproveitar as povoações
+errantes da America, confiadas ao seu criterio religioso? Não lhes seria
+mais util esse aproveitamento, do que terem de lançar mão dos filhos de
+Africa, que, com mais razões do que os indios, aborreceriam os seus
+_senhores_, jesuitas ou não?
+
+Uma forte razão vem em favor da companhia: os indios das duas Americas,
+geralmente fallando, são indomaveis; inimigos da civilisação, a sua vida
+ha de ser sempre a dos povos errantes, até extinguirem-se. Não obstante,
+a catechese dos indigenas da America do sul, trouxe maior numero de seus
+filhos ao gremio da civilisação, do que os systemas usados no norte,
+onde os dominadores, convencidos da inutilidade de seus esforços, lhes
+dão caça, como se os indios fossem bichos de matto!
+
+O commercio da escravatura apparece no meado do seculo XVI. A sua
+existencia não póde deixar de attribuir-se ao mau systema dos governos,
+que dominavam a America meridional, em quererem catholisar os europeus,
+que por ventura entendessem dever procurar novas terras. Os jesuitas
+eram os fiscaes do catholicismo nos novos dominios de Portugal e
+Hespanha.
+
+Se não fosse a companhia era provavel que a corrente da emigração
+europêa se encaminhasse, em parte, para o sul. Se os jesuitas não
+dominassem as duas côrtes, era provavel que os governos de Portugal e
+Hespanha levantassem a redoma com que encobriam aos olhos dos profanos
+as suas joias preciosas. Mas os padres experientes comprehenderam que
+mais facil seria dominar uma nação de escravos do que uma nação de
+homens livres, porque a America do sul devia ser por mais alguns
+seculos, o sustentaculo de Roma; por isso é que, devido á sua
+influencia, os portos d'esta parte do novo mundo estiveram fechados aos
+estranhos, emquanto que se abriam aos africanos, mais faceis de
+sujeitar-se aos caprichos jesuiticos; por isso é que n'um estado novo,
+que nasceu talhado para moralisar os povos decadentes, se formaram umas
+poucas de nações rachiticas, que até hoje ainda não poderam levantar o
+jugo ferreo da indomavel companhia.
+
+Se o jesuita Anchieta dizia que os indios, mais por medo do que por
+amor, se haviam de remir, quem nos prova o contrario d'esta asserção?
+
+O que é facto é que os colonos faziam e os indigenas desfaziam.
+
+Houve mais tarde desregramentos n'essas _entradas_ ou _bandeiras_ de que
+falla o sr. Carvalho, com o pretexto de salvar os captivos dos proprios
+indigenas. «Os governadores, segundo refere Mendes Leal, nos
+_Bandeirantes_, muitas vezes e por muitos modos quizeram pôr cobro
+n'estes desregramentos. Mas como vigiar, acrescenta o illustre
+escriptor, e colher em tão vastos e despovoados territorios os
+criminosos, que todos iam feitos, que mais de uma vez se entendiam com
+os mesmos capitães-móres, e não raras com os proprios habitantes?»
+
+Estas palavras respondem ás do sr. Augusto de Carvalho, quando quer
+tornar responsavel o governo da metropole de taes desregramentos.
+
+
+X
+
+Entendemos dever fazer algumas observações a respeito das _bandeiras_, a
+que se refere o sr. Augusto de Carvalho, no seguinte trecho do seu
+livro:
+
+«A exemplo dos padres, os colonos, já de si inclinados a este abuso
+(escravisar os indios), _e por que estranhavam os rigores d'um clima
+tropical que os extenuava nos rudes trabalhos da lavoura_ (a estas
+palavras que assignalamos responderemos em especial), abriram largas
+ensanchas ás suas _bandeiras_, especie de caçadas de indios que lhes
+forneciam escravos, a quem commettiam as mais penosas funcções da vida
+agricola.»
+
+O sr. Augusto de Carvalho, com o fim de metter os portuguezes no
+torniquete, começára pela adulação. Nós protestamos contra o estratagema
+porque não queremos elogios nem vituperios. Nós queremos a verdade, sem
+a qual se não póde escrever a historia.
+
+No entender do sr. Carvalho as _bandeiras_ tinham por fim, unica e
+exclusivamente, escravisar os indigenas.
+
+Ayres do Cazal, um dos escriptores antigos mais conscienciosos, diz o
+seguinte a tal respeito:
+
+«Da-se no Brazil este nome--_bandeira_--a um numero indeterminado de
+muitos homens, que providos d'armas, munições e mantimentos, necessarios
+para a sua subsistencia e defeza, entram nas terras possuidas pelos
+indigenas com algum intuito, v. g. de _descobrir minas, reconhecer o
+paiz, ou castigar as hostilidades dos barbaros_.»
+
+Os escriptores mais abalisados são de opinião, que devido ás excursões
+dos _bandeirantes_, é que se tornou conhecido o immenso territorio
+brazileiro.
+
+Vejamos o que diz Ferdinand Diniz a tal respeito:
+
+«Intentámos, no começo d'esta noticia, escrever rapidamente a historia
+das expedições prodigiosas, devidas aos paulistas, durante o decimo
+setimo e o decimo oitavo seculo; fizemos ver que todas as grandes
+explorações que deram a conhecer o interior do Brazil, são resultado da
+sua perseverança (dos _bandeirantes_).»[30]
+
+Os padres da companhia, com respeito ás _entradas_, são assim defendidos
+pelo citado historiador:
+
+«Grande injustiça haveria em julgar os jesuitas do decimo sexto seculo,
+e seus trabalhos, segundo as idéas, que póde inspirar o systema das
+missões. Ali possivel é vêr projectos ambiciosos conciliar-se com boas
+intenções: nos primeiros trabalhos executados pelos padres da companhia
+no Brazil, tudo foi desinteressado; e, se necessario fosse, a relação de
+suas fadigas e padecimentos poderia proval-o. Nobrega mereceu o titulo
+de--_apostolo do Brazil_--que nos conferem todas as narrações; Anchieta,
+que trabalhou sem descanço por espaço de quarenta annos na conversão dos
+indigenas, e que não temia ficar só como refem entre as mãos dos Tamoyos
+para salvar a colonia, offerece ainda um caracter mais sublime; o padre
+João d'Aspicuelta, o padre Antonio Perez, o padre Leonardo Nunes, e
+tantos outros, os auxiliaram com um zelo, que só póde apreciar quem tem
+vivido nas florestas, ou repousado n'uma choupana india. Muito falta
+para que elles obtivessem os resultados, que no Paraguay se
+manifestaram» etc.
+
+Lacordaire, auctoridade insuspeita na questão vertente, accrescenta, com
+respeito ás expedições dos _bandeirantes_, que «se o padre era severo
+antes de absolver os _bandeirantes_, informava-se cuidadosamente do
+objecto da empreza, e só dava a absolvição _quando se tratava de
+descobrir minas_; porém o maior numero nada indagava a este respeito, e
+recommendava sómente, em termos geraes, que tratassem com affabilidade
+os indios, que no caminho encontrassem, para attrahil-os ao gremio da
+egreja.» etc.
+
+A _bandeira_ punha-se a campo. «Então começava com toda a sua energia a
+lucta do homem com a natureza terrivel do deserto. Indispensavel era
+muitas vezes com o machado abrir caminho na espessura dos bosques,
+acampar por espaço de semanas inteiras em terras alagadas e pestiferas,
+desprezar os rios trasbordados, as cachoeiras, a frecha do indio
+emboscado, o ardor d'um sol vertical durante a estação calmosa, as
+chuvas abundantes da quadra opposta, a fome e as doenças; era, n'uma
+palavra, d'absoluta necessidade arrostar todos os perigos, que a
+imaginação póde conceber. _Em todo o logar em que a terra era vermelha e
+offerecia certos indicios, que o chefe da expedição conhecia, este
+mandava examinar o solo; se encontravam algum ouro_, as passadas fadigas
+esqueciam, e trabalhos d'exploração sem demora começavam: _em caso
+contrario iam ávante_.»
+
+Houve _bandeirantes_ (chefes das expedições do interior), que
+escravisavam os indios; mas de similhantes actos não póde ser accusada a
+maioria dos _bandeirantes_, os colonos e o governo da metropole, nem tão
+pouco os jesuitas do XVI seculo. Estes foram expulsos de S. Paulo,
+segundo affirma o historiador que viemos de referir, porque, obtendo um
+breve do papa, excommungavam os possuidores de indios!
+
+Até ali, como convinha a quem desejava chamar á obediencia de Roma novos
+proselytos, em substituição dos que tinham abraçado os principios d'uma
+philosophia mais racional, os padres da companhia, só levavam em mira um
+novo intento. Depois, quando viram que os seus esforços iam tendo bom
+exito, não tanto como desejavam, é que arrancaram a mascara da
+hypocrisia, que fez da America meridional um convento de frades
+fanaticos, que os governos do senhor D. Pedro II tem consentido no
+Brazil.
+
+ [30]_Le Bresil._
+
+
+XI
+
+Se Nobrega e Anchieta, depois de haverem esgotado a sua paciencia
+evangelica, entendiam, já no descanço, «que os colonos, como refere
+Rebello da Silva, só por meio da guerra poderiam alcançar do gentio o
+respeito, o socego e a segurança de suas propriedades», quem melhor
+estaria no caso de conhecer e remediar o mal?
+
+Não eram os colonos atacados em suas propriedades? Quando algumas
+_bandeiras_ penetravam no sertão, com o fim de reconhecer o paiz, não
+eram ellas rechaçadas pelos indios?
+
+«Em 1733, segundo o testemunho de Casal, uma frota de 50 canôas, que
+representava pelo menos 400 homens, fôra inteiramente destruida pelos
+gentios. De uma bandeira composta de 300 pessoas, que em 1725 saía de S.
+Paulo, bem provida de tudo, só haviam escapado dois brancos e tres
+negros. De outras expedições numerosas não houve uma só que voltasse.»
+
+São demasiadamente caricatas as desculpas de alguns escriptores a favor
+dos indios da America.
+
+Concordamos que não sejam muito evangelicas aquellas phrases de Nobrega
+e Anchieta; porém devemos notar que similhantes idéas nunca foram
+seguidas pelos primeiros missionarios. Depois de tantas fadigas era
+justo que fizessem as suas queixas contra o indomavel gentio. Taes
+queixas tinha de mau uma cousa só: o aproveitarem-se d'ellas os maus
+padres, que no futuro haviam de auctorisar os abusos que alguns
+escriptores lamentam.
+
+E nos principios do seculo XVII, que os jesuitas, com razão, podem ser
+accusados de escravisarem os indios.
+
+No meado do seculo XVIII eram elles, por assim dizer, os principaes
+senhores das vastissimas regiões brazileiras. O governo da metropole
+tinha sido até então impotente contra a força dos sectarios de Loyola.
+
+A provisão de 12 de setembro de 1663, que retirava aos jesuitas a
+jurisdicção temporal, que, como diz o sr. Mendes Leal, fôra illudida
+pela poderosa influencia do padre Vieira, mostra até certo ponto a boa
+vontade do governo da metropole em concorrer para a prosperidade do
+Brazil. A creação de companhias colonisadoras mostra tambem os seus
+louvaveis esforços.
+
+Essas companhias foram guerreadas pelos _santos_ varões (seculo XVII).
+
+Vejamos como é que a respeito dos novos actos do governo procediam os
+descendentes de Nobrega e Anchieta:
+
+«Uma das manifestações em que mais significativamente se patenteou o
+espirito e intuitos da companhia de Jesus, diz o sr. Mendes Leal, foi a
+guerra que do pulpito moveu contra as companhias commerciaes, que o
+ministro por este tempo fundava e protegia a fim de desenvolver a
+natural riqueza do paiz. Um jesuita, o padre Ballester, para affastar os
+povos de concorrerem a estas uteis associações e emprezas,
+vociferava:--_que todos os que entrassem n'essas companhias não estariam
+com a de Christo_.»
+
+Que remedio havia de dar o governo a este grande mal, que entorpecia a
+marcha progressiva do Brazil? Expulsar os jesuitas. E seria facil
+expulsal-os d'um estado que mais parecia dominio da companhia do que de
+Portugal?
+
+Era preciso preparar as cousas para d'ahi a quasi um seculo se realisar
+essa medida salutar.
+
+«... As consequencias d'essa expulsão, refere ainda o referido escriptor
+portuguez, foram iminentemente favoraveis e proveitosas aos povos.»
+
+E effectivamente, póde-se dizer, sem medo de errar, que desde então para
+cá (1759), é que começou a florescer o Brazil.
+
+As idéas liberaes proclamadas pela França, foram pouco a pouco fazendo
+echo nos differentes povos da Europa; e Portugal, um dos paizes mais
+livres, sendo um dos primeiros a tomar-lhe o exemplo, teria feito hoje
+dos seus antigos dominios brazileiros uma nação essencialmente liberal.
+
+Não o quiz assim o povo que se dizia escravisado; e Portugal, que em
+1820 tinha contribuido para tornar brilhante uma das paginas da sua
+historia, entendeu pouco tempo depois que não devia tolher a vontade
+d'esse povo, quando se lhe apresentava em procura da carta de alforria.
+
+O que tem feito o Brazil desde então para cá?
+
+Promulgou leis protectoras á emigração?
+
+Baniu os jesuitas, que o marquez de Pombal, por inimigos do progresso da
+patria, expulsára de todos os dominios de Portugal?
+
+Não: que o diga o movimento _quebra-kilos_ de Pernambuco, em 1874.
+
+
+XII
+
+N'um dos artigos antecedentes assignalámos, com respeito á vida dos
+colonos, as seguintes palavras do sr. Augusto de Carvalho:
+
+«... E porque estranhavam os rigores dum clima tropical que os extenuava
+nos rudes trabalhos da lavoura» etc.
+
+O illustre litterato refere-se ao Brazil; o que nos leva a perguntar, se
+um paiz, cujos _rigores d'um clima tropical_, onde os colonos ficam
+_extenuados_ pelos _rudes trabalhos da lavoura_, póde ou deve agradar
+aos trabalhadores europeus? e se esta deverá ser a _terra da promissão_,
+onde, para esses trabalhadores, se possa realisar a _promessa de Christo
+de--cento por um--_?
+
+Mais adiante provaremos com documentos irrefutaveis, se não se acha já
+sufficientemente demonstrado, que semelhante paiz não enriquece os
+trabalhadores europeus, talvez que pela circumstancia apontada pelo sr.
+Carvalho, dos rigores climatericos.
+
+Convém entretanto tornar bem patentes as seguintes palavras do sr.
+Mendes Leal, que não deve ser suspeito ao sr. Augusto de Carvalho, visto
+que se escuda a uma carta do illustre escriptor, como se escuda a outras
+de muitos portuguezes, que em seus escriptos têem combatido a emigração
+para o Brazil.
+
+O auctor dos _Bandeirantes_ refere-se á magestade do vasto imperio, e
+quiçá ao seu mortifero clima. São estas as palavras que elle collocou na
+bôcca de um dos heroes da chronica a que alludimos:
+
+«... Solemne é este silencio, magestosa a solidão, certamente. Acres
+perfumes rescendem nos ares, o ermo convida á meditação, ha n'este
+conjuncto harmonia e grandeza, concedo. Mas se tudo examinamos de perto,
+o que achamos? No fundo limoso d'essas aguas espelhentas esconde-se
+talvez a sucuriuba, espreitando o inexperiente que se aproxima sem
+cautela, para o ennovellar de subito nas roscas monstruosas! Essas
+moutas esmaltadas são ninhos de reptis mortiferos! Esses aromas
+inebriantes vêem carregados de emanações pestilentas! D'essa limpida
+superficie exhalam-se as febres implacaveis!... Não, o homem que
+realmente quer avantajar-se e avassallar o vulgo... o homem que nasceu
+para dominar homens!... nunca se ha de captivar da primeira impressão.
+Se é tão raro que nos não transvie o coração, e não nos enganem os
+sentidos!»
+
+Os aromas inebriantes dos seus jasmins e as pennas multicôres das suas
+aráras, pódem, de longe, convidar o poeta a fazer estrophes: porém, lá
+dentro, no sertão, ou mesmo no litoral, só em boas _chácaras_, e, ainda
+assim... havendo grande necessidade de fazer versos!
+
+
+XIII
+
+Um pouco mais adiante, a paginas 45 do livro que o sr. Augusto de
+Carvalho tão inconscientemente transformára em historia, lêmos as
+seguintes palavras, dignas dos mais severos reparos:
+
+«No choque entre o Brazil e a Hollanda vemos ao mesmo tempo, a par de
+muitos rasgos de heroismo portuguez, o valor brazileiro recebendo nas
+insignes batalhas das Tabocas e dos Guarápes, o baptismo de fogo, a
+sagração da gloria. Os feitos guerreiros que exordiaram os fastos
+militares do imperio, se não deslumbram, egualam os mais illustres que
+exalçam a historia da mãe patria. Vidal de Negreiros, Philippe Camarão e
+Henrique Dias exemplos são, e bem claros, de que, em peitos brazileiros,
+o patriotismo e a honra pódem operar tambem prodigios de civismo e
+heroicidade.»
+
+A paginas 56:
+
+«A seu lado (ao lado do padre Vieira, que _nem sempre fôra isempto de
+interesse_) depara-se-nos egualmente, entrando portas a dentro da
+historia, com a fronte pejada de louros, e a consciencia illuminada de
+virtude e de santo desinteresse (sic), o insigne brazileiro André Vidal
+de Negreiros, por ventura o mais strenuo mantenedor da liberdade da raça
+americana.»
+
+A paginas 57:
+
+«Vidal tambem não escapou á vingança d'aquelles scelerados (dos
+jesuitas!) Tantas intrigas lhe urdiram no reino, que não tardou em ser
+demittido do cargo de governador.»
+
+Desculpe-nos o leitor estas transcripções; mas assim é preciso, para
+fazer triumphar a verdade, e apontar as contradicções do sr. Augusto de
+Carvalho, quando diz, que _confessava-se Vieira obrigado a Vidal pelo
+auxilio que lhe déra nas suas missões_, etc.
+
+Abramos o livro da verdadeira historia, justamente no logar onde
+historiadores conscienciosos nos apresentam as memoraveis batalhas das
+Tabocas e dos Guararápes.
+
+A paz ajustada entre o governo de D. João IV e a republica da Hollanda,
+depois da independencia de Portugal, levaram os patriotas portuguezes,
+residentes em Pernambuco, a começar as hostilidades contra os
+hollandezes, em 1643.
+
+Foi n'esta época que o insigne portuguez, João Fernandes Vieira, tendo
+preparado o movimento com o seu genio e recursos, intendeu dever começar
+a guerra contra os inimigos da sua patria. Para isso precisava elle de
+braços amigos, que o ajudassem na sua gloriosa empreza. E não lhe
+faltavam elles, porque a população de Pernambuco estava cançada dos
+vexames do novo governo, que tinha substituido a paternal administração
+do principe Nassau.
+
+Fernandes Vieira participa esta resolução ao governador geral do Brazil,
+Antonio Telles da Silva, que incontinente lhe manda André Vidal de
+Negreiros, com ordem de cessar as hostilidades contra os hollandezes.
+
+Mas a influencia de Fernandes Vieira e o seu tacto politico destroem a
+frouxidão do governador e do seu interprete Negreiros.
+
+Este volta á Bahia a informar ao governador do occorrido. Então Vieira,
+sem mais ajuda do que os seus amigos de Pernambuco, offerece combate aos
+hollandezes no monte das Tabocas.
+
+Á primeira victoria, por elle alcançada em 1644, não assistem Camarão,
+Henrique Dias e Negreiros.
+
+Retratemos aqui, a leves traços, estes trez vultos:
+
+D. Antonio Filippe Camarão, indio convertido e fanatisado pelos
+jesuitas. Este homem era o terror dos indigenas; não póde, portanto, ser
+o symbolo da liberdade americana. Trabalhava a favor dos dominadores, e
+os indios que o seguiam, tão fanaticos como seu chefe, morriam a favor
+de qualquer causa, com os olhos nos _bentinhos_ que lhes pendiam do
+pescoço.
+
+Henrique Dias, chefe dos pretos, e como elles, representante da raça
+africana. Trabalhava a favor dos portuguezes, seus dominadores. Não era
+tambem o motor da liberdade americana.
+
+André Vidal de Negreiros, natural da Parahyba, não póde ser biographado
+n'este logar, para não interrompermos as façanhas contra os hollandezes,
+nos montes denominados Guararápes.
+
+Fazem parte d'esta gloriosa batalha o portuguez João Fernandes Vieira,
+verdadeiro heroe da empreza, na opinião dos mais abalisados escriptores;
+e como auxiliares, Francisco Barreto de Menezes, portuguez; André Vidal
+de Negreiros, Filippe Camarão, Henrique Dias, e outros.
+
+Henrique Dias foi ferido n'esta batalha, de que morreu. Este como seu
+companheiro Camarão foram arrastados á guerra, sem o mais pequeno
+interesse politico.
+
+Eram felizes; porque sendo valentes, lhes fallecia a ambição que tanto
+assignalou Negreiros.
+
+Demoremo-nos um pouco perante este personagem.
+
+Depois do Fernandes Vieira ter realisado o seu belo sonho, apoz uma
+guerra de nove annos, parece que devia ambicionar qualquer recompensa;
+mas tal não succedeu. Vieira só tinha em mente a liberdade da sua
+querida patria e dos territorios conquistados por portuguezes. Nascera
+na ilha da Madeira, ao tempo em que eramos dominados pelos castelhanos.
+No berço aprendera elle a pronunciar a sublime phrase de--morte ou
+liberdade--; e refugiara-se mais tarde no Brazil, onde não se fazia
+sentir tanto o abominavel dominio de Castella. Foi em Pernambuco, que a
+sua nobre alma se engrandeceu, á vista dos novos dominadores enviados da
+Hollanda. Não podia elle perceber, como é que devia desobedecer á sua
+consciencia de portuguez, para, ao mesmo tempo, dar gasalho ás ordens de
+Hespanha e Hollanda: por que essas ordens confundiam-se, e em logar de
+auxiliarem aquella parte da America estancavam-lhe a prosperidade. Por
+isso poz termo ás contradicções politicas, salvando Pernambuco.
+
+O seu culto era a liberdade; por ella faria tudo, e por ella despresaria
+as recompensas mundanas, depois da gloria.
+
+Recusára vir a Lisboa dar a nova das victorias para que elle tanto
+contribuira. É que receava as offertas do governo da metropole, offertas
+que, sem resultado, o foram tentar no seu retiro.
+
+Não comprehendia Fernandes Vieira que fosse facil alliar o interesse
+mundano, que seduz muitos generaes, á independencia do seu caracter
+desinteressado. A sua maior satisfação era expulsar os hollandezes.
+Conseguiu-o, nada mais desejava.
+
+Vidal de Negreiros não tinha d'estes escrupulos; por isso se encarregou
+de vir a Lisboa, onde, com a influencia dos jesuitas, obteve mais tarde
+o governo de Pernambuco.
+
+É alli que o vamos encontrar, desobedecendo ás ordens do governador
+geral, commettendo violencias contra os seus administrados, negando
+justiça a uns, desterrando e prendendo a outros.
+
+Chamado por isso á Bahia, onde temia ser condemnado, confessa-se
+arrependido da desobediencia e dos vexames que havia imposto aos povos,
+que ajudára a libertar do jugo dos hollandezes.
+
+A desobediencia e a desordem continuaram; eis a causa da sua demissão.
+
+Se André Vidal de Negreiros trabalhava pela liberdade americana, como
+diz o sr. Augusto de Carvalho, para que combatia elle os indigenas,
+colligados com os hollandezes, nas differentes batalhas dadas em
+Pernambuco?
+
+Se elle foi um dos primeiros apostollos d'essa liberdade, para que
+acceita cargos publicos das mãos do governo portuguez.
+
+Os jesuitas são accusados pelo sr. Carvalho, de escravisarem e de
+exterminarem os indios, no que estamos completamente de accôrdo, até ao
+seculo XVII; pois bem, como é que sendo Vidal de Negreiros _um auxiliar
+das missões jesuiticas_, como attesta o padre Antonio Vieira, nos vem
+dizer, que esse mesmo Negreiros fôra _o mais strenuo mantenedor da
+liberdade da raça americana_?!
+
+Eis aqui uma contradicção digna de ser recompensada com uma penna de
+ouro!
+
+Finalmente, se Negreiros era o mantenedor d'essa liberdade, para que
+acceitou o cargo de governador de Angola? Não seria mais vantajoso, para
+o bom exito da sua causa, retirar-se á vida privada, e preparar no
+sertão, como fizera Fernandes Vieira, com respeito aos hollandezes, uma
+conjuração tendente a libertar a America do jugo estrangeiro?
+
+Não fez isto, porque Negreiros era ambicioso, e aos ambiciosos não é
+permittido _entrar portas a dentro da historia com a fronte pejada de
+louros_.
+
+
+
+
+CAPITULO IV
+
+A pastoral do bispo de Braga e a emigração. A Beneficente e a Caixa de
+Soccorros de D. Pedro V. Prescripções hygienicas. Considerações do
+advogado do consulado no Rio de Janeiro. A commissão da emigração e os
+raciocinios estramboticos do auctor do «Brazil» a respeito dos crimes em
+Portugal. Os crimes no Brazil. Os nossos raciocinios. Affluencia de
+capitaes do Brazil nas praças portuguezas.
+
+
+I
+
+Mereceram-nos especial attenção alguns pontos contradictorios insertos
+na parte quarta do livro o _Brazil_, e que julgámos não dever deixar
+passar sem reparo.
+
+Pretendendo o seu auctor apresentar-se como inimigo da emigração
+clandestina, não poucas vezes guerreia aquelles que a combatem.
+
+Está n'estes casos o reparo feito á pastoral do bispo de Braga.
+
+Esse documento precioso, em que bem se patenteiam os vastos
+conhecimentos do seu auctor sobre o resultado da emigração de
+portugueses para o Brazil, devêra ter passado desapercebido ao sr. A.
+Carvalho, não só para interesse do imperio, mas porque a analyse
+ridicula que lhe faz, dá mais valor, se é possivel, ás asserções no
+mesmo contidas.
+
+No documento referido diz-se a verdade, que o sr. Carvalho esconde,
+sobre a situação do trabalhador portuguez no Brazil; e não vemos
+contradicção no seguinte trecho:
+
+«Seduzidos estes mancebos pelas fallazes esperanças, que arteiros e
+assalariados engajadores lhes sabem incutir, pintando-lhes aleivosamente
+sua independencia e colossal fortuna, que em pouco tempo pódem
+conseguir, empregando seus braços em trabalhos agricolas» etc.
+
+N'este, tampouco:
+
+«... pois que sempre houve engajadores, e ambição de melhoramento de
+fortuna, que, com quanto imaginaria e fallivel, não desvia os emigrantes
+dos gravissimos perigos» etc.
+
+Ainda n'este:
+
+«Se alguns d'estes (emigrantes) têem a fortuna de não encontrar sua
+sepultura n'aquellas mortiferas paragens, e pódem voltar ao seu paiz, de
+ordinario vêem mais pobres do que foram, e com suas saudes perdidas,
+perpetuamente inuteis e pesados á patria!»
+
+Nem mesmo combinado com o seguinte, aonde parece ter visto a
+contradicção:
+
+«E com quanto hajam _alguns conseguido alguma pequena fortuna_, não
+equivale nem compensa _a perda de sua saude, nem o sacrificio, e improbo
+trabalho_, que os proprios indigenas não podem supportar
+constantemente».
+
+Referia-se ao trabalhador, quando o illustre prelado fallava assim.
+
+Mas se lhe juntarmos o seguinte:
+
+«E com quanto muitos portuguezes, bafejados pela fortuna, hajam elevado
+seus cabedaes a maior ou menor escalla» etc.; não acharemos ainda
+contradicção, se completarmos a transcripção do periodo, que é do theor
+seguinte: «... _não é pelo emprego physico de seus braços em trabalhos
+agricolas_» etc., que o auctor do _Brazil_ cavilosamente escondeu.
+
+O prelado bracarense não combate a emigração de portuguezes que se
+destinam a outros misteres, no que, até certo ponto, estamos de accordo;
+porque esses emigrados estão mais ou menos no caso de conhecer as
+vantagens que lhes offerecem os paizes novos e faltos de gente
+habilitada para exercer o commercio, as artes e até mesmo a litteratura,
+sendo esta ultima asserção do bispo a que mais cahiu no goto ao sr.
+Augusto de Carvalho, como se se podesse pôr em duvida a sua veracidade.
+
+Pretender chamar emigração expontanea a essa dos trabalhadores, que
+todos os dias saem das nossas terras, com destino ao Brazil, é negar a
+verdade que todo o historiador deve respeitar. E por isso mesmo que ella
+não é expontanea, nem mesmo quando exercida por portuguezes de maior
+edade, mas sem as luzes necessarias para conhecer as falsas illusões dos
+engajadores, é que nós a guerreamos, importando-se-nos pouco que este
+nosso procedimento tambem possa ser tachado de contradictorio.
+
+
+II
+
+O auctor do livro o _Brazil_, ignora ou finge ignorar, que a maior parte
+dos portuguezes saidos de nossos portos, com destino ás terras de Santa
+Cruz, são alliciados com mentidas promessas e falsas illusões, incutidas
+por grande numero de especuladores, dos quaes, talvez sem o desejar
+parecer, o sr. Augusto de Carvalho seja o chefe.
+
+Já que chegámos a este ponto, permitta-nos que sejamos francos,
+dizendo-lhe que ha quem nos chame um pouco complacente por formularmos
+apenas uma hypothese sobre a melindrosa posição do sr. Carvalho.
+
+E, effectivamente, se o auctor da _moderna historia_ do Brazil, não
+especula com a emigração, como se explica o seu procedimento de
+asseverar que o Brazil é manancial de riquezas para o trabalhador,
+quando documentos de maior valia nos dizem completamente o contrario?
+
+Vamos lançar mão da carta, escripta pelo presidente da _Caixa de
+Soccorros D. Pedro V_, dirigida ao consul geral de Portugal, no Rio de
+Janeiro, em 21 de julho de 1872.
+
+Este importantissimo documento, que o sr. Augusto de Carvalho
+_auctorisa_ a paginas 283 do seu livro, e do qual se serviu transcrever
+alguns trechos, esquecendo os que não lhe faziam conta, não por os
+julgar menos auctorisados, porque então far-lhe-hia a necessaria
+critica, como fizera á pastoral, mas porque assim convinha á sua
+propaganda, diz mais o seguinte, que muito convém ser lido pelos
+admiradores do historiador brazileiro:
+
+«Descripto como fica o destino d'esta população (de emigrantes
+portuguezes), passemos sem mais detença á observação dos resultados
+colhidos pelos emigrantes, vejamos como se tornaram em realidades os
+sonhos dourados d'aquella possante juventude, que em demanda de tão
+cubiçada riqueza abandonou a patria e a familia.
+
+«Cessam aqui os conceitos geraes pela observação e modo de ver de cada
+um; logar aos factos que se levantam com toda a magestado de principios
+que não podem discutir-se.
+
+«V. ex.ª, que é portuguez, disponha o seu animo para contemplar
+desgraças e miserias taes e tamanhas, que a imaginação espavorida mal
+comprehende _como ainda tão severa illusão não bastou para pôr barreira
+a esta corrente de suicidios_.
+
+«Nos sete annos decorridos, desde 1864 a 1871, a _Caixa de Soccorros de
+D. Pedro V_, pagou a passagem para voltarem á patria, a 2:304
+portuguezes, e o numero dos que tem soccorrido eleva-se a 9:000
+inscriptos até hoje.»
+
+Convém dizer antes de proseguirmos na transcripção de tão preciosa carta
+e baseando-nos em documentos officiaes, que o numero de portuguezes
+entrados no Rio de Janeiro desde 1861 até
+
+1872, é de 49:610
+
+Deduzindo:
+
+Portuguezes que voltaram á patria, soccorridos
+pela Caixa de Soccorros D. Pedro V 2:304
+
+Ditos soccorridos em casa pela mesma 9:000
+
+Ditos soccorridos pela Sociedade Beneficente
+Portugueza, nos dez annos findos em 31 de
+dezembro de 1871 18:405
+
+Ditos soccorridos pela Sociedade Beneficente
+Portugueza para voltarem á patria 284
+
+Viuvas socorridas, idem 146
+
+Enterros pagos, idem 502 30:641
+ --------
+ 18:969
+
+Devemos notar que a estatistica fornecida pela direcção da _Caixa de
+Soccorros de D. Pedro V_, só se refere ao periodo de tempo decorrido
+desde 1864 a 1871, faltando-nos portanto, esclarecimentos sobre os
+soccorros que pela mesma poderiam ser prestados nos tres annos de 1861 a
+1863 inclusive, cuja média não podia ser inferior a 4:844, que deduzidos
+ainda dos 18:969, faz baixar a 14:124 o numero dos mais felizes!
+
+«Estes algarismos, ex.mo sr., continúa o presidente da associação,
+representam homens inteiramente abandonados, sem mais recursos alguns e
+que morreriam ao desamparo se esta associação não fôra» etc., etc.
+
+«Nos hospitaes das irmandades, refere a este mesmo respeito o consul
+geral, numerosas n'esta côrte, são recebidos individuos de todas as
+nacionalidades, sendo irmãos. Sobresahe o grande e explendido hospital
+da Santa Casa da Misericordia _que acolhe indistinctamente os indigentes
+nacionaes ou estrangeiros_,» etc.
+
+«Não acontece porém o mesmo nas povoações do interior, e muito menos nas
+fazendas onde o colono está entregue ás eventualidades do tratamento do
+locatario, nas quaes, não raro, acontecem factos como o que descreve o
+nosso intelligente compatriota dr. Domingos de Almeida», etc.
+
+Ora é claro que os emigrados portuguezes, entrados no porto do Rio de
+Janeiro, não permanecem na côrte; parte d'elles vão para o interior.
+Assim é que, se podessemos obter uma estatistica exacta dos portuguezes
+soccorridos pelas irmandades e pelo hospital da misericordia de que nos
+falla o consul, bem como dos miseraveis abandonados no interior pelos
+senhores de engenho, aquelle numero de 14:124 portuguezes, que reputamos
+_felizes_, abaixaria ainda consideravelmente!
+
+
+III
+
+«Não é, senhores, sem perigos e riscos mui dignos de attenção, que os
+emigrantes livres conseguem as fortunas, que o Brazil encerra e guarda
+com avarento sobresalto.»
+
+A estas palavras da commissão de emigração, responde o auctor do
+_Brazil_:
+
+«Mas de que natureza são esses perigos?» etc.
+
+E prosegue:
+
+«Affirma o relatorio (da commissão de emigração) que _a fortuna teima em
+se mostrar adversa aos emigrantes livres que não têem no Brazil
+parentes, amigos ou protecção_ (o grifo é do escriptor citado). Isto é
+quasi desconhecer o sentimento acrisolado de patriotismo, que distingue
+e honra sobremaneira a colonia portugueza no Brazil.»
+
+De maneira que, os trabalhadores portuguezes, fiados nas palavras do
+auctor d'estas linhas, e no acrisolado patriotismo dos portuguezes,
+residentes no imperio, devem seguir o conselho, _tão salutar_, de deixar
+a patria em troca de um paiz que os colloca na contigencia de ir pedir
+esmolla ás sociedades de soccorros, instituidas por alguns portuguezes
+mais afortunados!
+
+Bem lembrado!
+
+«Entre os emigrantes que formam este grupo, falla a commissão de
+emigração, ha uma parte que, não tendo no Brazil parentes, amigos ou
+protecção, confiam ao acaso o seu destino. A estes, principalmente, a
+fortuna teima em se mostrar adversa. Não tendo uns robustez physica para
+trabalhos severos, sendo outros inhabeis para os misteres a que se
+dedicam, esses pagam em soffrimentos e miseria a ventura dos mais
+felizes.»
+
+O sr. Carvalho, que a tudo mostra ter que dizer, faz ao trecho citado as
+seguintes reflexões, que nada adiantam:
+
+«Sentimos que a illustrada commissão não investigasse bem a causa de
+taes infortunios (!)......»
+
+E com uma logica de menino de escola continúa:
+
+«... Ninguem por certo os poderá negar. Concorre para isso, umas vezes,
+a rapida mudança de clima, _sem cuidado pela differença de estação de um
+para outro paiz_;...»
+
+Que cuidados deve ter o colono trabalhador para evitar os males que
+podem advir-lhe por causa da rapida mudança do clima?
+
+«... outras, os excessos (?) dos recem-chegados, muitos dos quaes são,
+por via de regra, _pouco respeitadores de certas prescripções
+hygienicas_;...»
+
+Vejamos o que é preciso fazer o europeu recem-chegado ao Brazil, _para
+respeitar certas prescripções hygienicas_:
+
+Não deve expôr-se aos raios do sol; deve procurar boa alimentação,
+despresando nos primeiros tempos os fructos indigenas, e procurar ter
+boa habitação.
+
+Perguntamos agora, qual é o europeu, nas condições do colono contratado
+em Portugal, para trabalhar em terras brazileiras, que póde satisfazer
+ás taes prescripções hygienicas?
+
+Vamos provar que nenhum trabalhador que se destina á agricultura póde
+deixar de viver miseravelmente em terras brazileiras.
+
+Primeiro que tudo, o trabalhador não póde deixar de expôr-se aos raios
+solares; do contrario morrerá de fome, se não tiver contratado o seu
+serviço, como acontece a quasi todos os portuguezes; e n'este ultimo
+caso, será preso, e em conformidade da lei brazileira de 1837, obrigado
+a expôr-se ao sol para satisfazer aos compromissos que se impozera em
+seu contracto.
+
+O colono portuguez contractado para trabalhar no Brazil, a razão de
+2$000 réis fracos, diarios, o maximo, e dizemos o maximo porque já
+demonstramos que em Portugal nunca se fizeram contratos de locação de
+serviço tão favoraveis ao colono; não póde, com tão modica quantia obter
+boa alimentação, ainda que o colono não tivesse que satisfazer a outras
+obrigações, como são o pagamento da passagem e _mais despezas
+indispensaveis_[31] a quem tem de fazer uma longa viagem e estar auzente
+da patria por illimitado tempo.
+
+Ora, quem não tem meios para alimentar-se regularmente, não póde deixar
+de ter má habitação; não póde deixar de comer algumas fructas, no
+começo, nocivas á saude dos colonos; não póde, além d'isso, deixar de
+vestir mal; e, finalmente, de despresar _certas prescripções
+hygienicas_, que nunca foram desprezadas, em tempo, por quem escreve
+estas linhas, e que, não obstante, foi atacado da terrivel epidemia a
+_febre amarella_.
+
+E continúa o auctor do livro o _Brazil_, nos seus considerandos:
+
+«...... outras, em fim, a cega ambição de alguns infelizes, que
+sacrificam todos os commodos (já está demonstrado que não póde ter
+commodos o trabalhador do Brazil), saude, e não raro as proprias vidas
+(por falta de recursos), para mais depressa accumularem um peculiosinho,
+que, quando repatriados, (dolorosa desillusão!) não chega muitas vezes
+para occorrer ás despezas, feitas então com o fim de recuperarem a
+saude, que perderam fatalmente em trabalhos superiores ás suas forças!»
+
+Completamente de accordo com respeito a este ultimo trecho, que,
+satisfeitos, registramos; porque é mais uma contradicção do sr. Augusto
+de Carvalho.
+
+Do documento citado por este sr., vamos transcrever mais alguns trechos
+em abono das nossas palavras; e preferimos este documento a qualquer
+outro, por lhe ter prestado a sua authoridade.
+
+Só sentimos, ainda uma vez o dizemos, que tivesse deixado de o
+transcrever na integra, na tal historia:
+
+«As causas a que mais directamente pódem attribuir-se estes desastrosos
+effeitos, continua o presidente da _Caixa de Soccorros D. Pedro V_, são,
+em relação aos homens que se empregam em trabalhos rudes, a pessima
+alimentação, aggravada pelas exigencias do clima, sob o qual o europeu
+carece, para sustentar a sua força, _de superior e muito cuidado
+alimento_.
+
+«A humidade do solo, origem de sua fecundidade assombrosa, os rigores
+tropicaes exercem sobre o europeu influencia tal, _que todos os cuidados
+hygienicos são poucos para precaver-se contra similhantes males_.»
+
+Esta é que é a verdade, que o auctor do livro que analisamos escondeu,
+por não se achar com forças de repelir accusações tão bem fundamentadas.
+
+ [31] A phrase em gripho é a empregada pelos alliciadores, nos
+ contractos de locação de serviços e com a qual encobrem muitas
+ extorções feitas aos collonos.
+
+
+IV
+
+Não é só o distincto presidente da _Caixa de Soccorros de D. Pedro V_,
+que se revolta contra a emigração de portuguezes trabalhadores.
+
+Eis o que a respeito d'estes communica o consul geral, residente na
+capital do Brazil, em seu relatorio de 30 de julho de 1872:
+
+«É raro o caso de adquirirem, _mesmo durante largos annos, meios
+pecuniarios, com que possam pagar as despezas do regresso á sua
+patria_... Todos esses individuos começam por estar desde logo onerados
+com a divida do transporte para este paiz, a qual com as addicções de
+despezas _contadas a arbitrio dos engajadores_ eleva-se á somma de
+120$000 a 150$000 réis. No tempo do cumprimento do contracto, os
+colonos, em vez de amortisarem essa divida, augmentam-a, em geral, e
+findo o referido tempo, que ordinariamente é de dois ou tres annos,
+devem 400$000 a 600$000 réis, _conta ainda feita a arbitrio exclusivo
+dos proprietarios_. Para a solução de semilhante onus, vêem-se forçados
+a renovar os contractos, _até que perdida toda a esperança de resgate,
+fogem, não obstante o risco que correm de serem presos e condemnados a
+trabalhos publicos, na fórma da legislação que rege a materia_ (a lei de
+1837)»
+
+Um outro portuguez, o dr. Domingos José Bernardino de Almeida, advogado
+do consulado geral de Portugal, no Rio de Janeiro, cavalheiro muito
+proficiente na materia, diz na sua consulta, de 29 de julho de 1872:
+
+«Os portuguezes que aportam ao Brazil e não ficam nas grandes cidades,
+são engajados a bordo e contractados para as fazendas do interior. Vem a
+proposito citar a respeito dos engajados, a opinião do ex.mo sr.
+conselheiro Mendes Leal, no jornal _America_: A emigração assalariada
+presta-se facilmente a abusos revoltantes, e pela sua propria natureza é
+menos productiva. Só impreterivel necessidade a explica e desculpa. (S.
+ex.ª é favorável á emigração).»
+
+«Chama ao engajamento:--«Escravidão simulada ou hypocrisia de liberdade».
+_Ora realmente é o unico systema de colonisação de portuguezes
+praticado_ até hoje, esse que difine o ex.mo conselheiro.
+
+«Como disse, em vez de realisarem o que almejam todos os que emigram
+para o paiz, isto é, serem proprietarios, _ao contrario os nossos
+compatriotas emigrantes vem substituir os escravos nas fazendas_!
+
+«Os contratos de locação de serviços são pela maior parte longos, nunca
+por menos de tres annos.
+
+«Ahi vivem como viviam os escravos, com elles trabalham, etc.
+
+«Ora nenhum europeu supporta o clima dos tropicos no serviço em que até
+hoje tem sido empregados os escravos, e _no imperio é esse o unico para
+que são engajados os nossos compatriotas_.
+
+«Citarei um exemplo que presenciei, e que é, pouco mais ou menos, o que
+_em geral_ se passa.
+
+«Para uma fazenda (em que fui medico um anno, _onde apezar de toda a
+minha hygiene, contrahi infecção paludosa, que só me abandonou no fim de
+dez annos_, com a residencia em Buenos Ayres durante cinco mezes) em
+1856, foram engajados 5 compatriotas nossos, 4 homens e uma mulher,
+recem-chegados, todos maiores de 30 annos, _de organisação forte e
+sadios_.
+
+«_Comiam, dormiam e trabalhavam, como os escravos_, quero dizer, _tinham
+a sua tamina_ (ração) _de carne secca, feijão e farinha, que eram
+obrigados a coser para comer na hora do almoço e do jantar_ (uma hora
+para cada refeição!)
+
+«Senzalas (casas de residencia dos pretos) eram as habitações que
+constavam de um pequeno quarto não soalhado, com porta e janella, _tendo
+por cama uma esteira, e por mobilia uma pedra para se sentarem.
+Trabalhavam a par dos escravos, commandados pelo feitor, tambem escravo
+e armado do competente relho_ (vergalho do castigo!) _trabalho que
+principiava ao romper d'alva e terminava ás nove horas da noite_, apenas
+com a interrupção das refeições (!) De dia cavavam na terra, de noite
+lançavam ou tiravam tijolo do forno. Apesar da sua robustez, como fossem
+transportados bruscamente para logar insalubre, antes de aclimados na
+estação calmosa, sujeitos a trabalho insano e longo (mais de quinze
+horas por dia!) com a alimentação má e peior casa para dormir, _ficaram
+em dois mezes e meio reduzidos a pelle e ossos, verdadeiras mumias, e
+morreriam se não fugissem_!
+
+«Este quadro fiel é _com pequenas modificações o que se passa no
+interior do paiz_.»
+
+Áquellas verdades e a estas da commissão de emigração, fundadas em
+documentos insuspeitos:--«Deprehende-se, pois, sob o aspecto da
+emigração, que não ha miseria nem falta de trabalho que a
+incite»--responde o sr. A. de Carvalho, com a sua peculiar ingenuidade:
+
+«Permitta-nos a illustrada commissão, que lhe façamos sentir que os
+factos protestam contra similhante conclusão. Na ultima leva dos
+degredados, cremos nós, em numero de 92, d'estes foram 52 condemnados
+por furtos, roubos e falsificações. E ainda, no mez de novembro ultimo
+(1873), de 40 que deram entrada no Limoeiro para seguirem o mesmo
+destino, 31 foram-n'o por crimes da mesma natureza.»
+
+E accrescenta:
+
+«Dar-se-ha que taes vicios estejam na indole do povo portuguez? Quem tal
+o asseverasse commetteria uma infamia.
+
+«De que procedem então esses delictos?
+
+«Procedem da miseria, procedem da falta de remuneração proporcional,
+convençam-se d'isto.»
+
+Agradecemos, em nome do povo portuguez, as _boas_ intenções do auctor
+das linhas que deixamos transcriptas, com quanto nos vejamos obrigados a
+discordar das suas conclusões e a censurar o desproposito da antithese.
+
+Nem o povo portuguez póde ser accusado de indole preversa, nem se póde
+attribuir só á miseria e falta de trabalho os crimes commettidos, pelos
+52 condemnados, referidos acima.
+
+E é tão admissivel este principio, que os 40 condemnados excedentes, não
+só não provam a miseria do povo portuguez, como ainda a sua indole.
+
+A que attribuirá então o sr. Carvalho os crimes d'aquelles 40
+condemnados?
+
+Em toda a parte se commettem crimes de falsificações, furtos, e roubos,
+e, da averiguação a que se procede, vê-se que não fôra só a necessidade
+o principal motor do crime. Até podiamos, n'este sentido, apresentar uma
+estatistica, em que provariamos não ficar o Brazil atraz de qualquer
+outra nação. Com tudo, se attendessemos ao principio estabelecido pelo
+sr. Carvalho--de que a miseria é a principal causa que move os humanos
+aos crimes mencionados--o Brazil, aonde a riqueza anda aos pontapés,
+devia estar isento d'esta pecha.
+
+Mas não pára ainda aqui a philosophia estrambotica do advogado da
+emigração.
+
+Contra a voz unanime dos nossos consules e dos mais respeitaveis
+entendedores, exclama o sr. Augusto de Carvalho:
+
+«Acaso, por se haver morto com um tiro, em certo logar do Minho, um
+infeliz que subtrahia um cacho de uvas, segue-se que todo o povo
+d'aquella provincia seja deshumano?»
+
+Não percebemos a que proposito veio esta parabola, nem tampouco
+est'outra:
+
+«Acaso, por haver sido, no Fundão, condemnado um pobre Antonio Gomes a
+um mez de prisão, multa correspondente e despezas do processo, pelo
+crime de _sorrir-se e piscar os olhos_ para o delegado Duarte de
+Vasconcellos, segue-se que a justiça é nulla em Portugal?»
+
+Ou o sr. Carvalho anda de má fé no assumpto, e n'este caso seria bom que
+não tocasse na ferida, aberta por assassinos brazileiros, d'onde ainda
+não deixou de correr sangue portuguez, ou então não percebeu as palavras
+e o sentido de quem as dictou.
+
+O sr. Augusto de Carvalho devia ter notado que a commissão de emigração,
+ao fazer-se echo de tantas verdades enunciadas em documentos de muita
+valia, para informar sobre o assumpto da emigração, que tantos males ha
+produzido a Portugal, não fallou nas injustas decisões dos tribunaes
+brazileiros, quando julgam colonos portuguezes; e mesmo que fallasse,
+não podia o sr. Carvalho, para ser coherente, usar d'aquelle desforço,
+que, ainda assim, seria injusto, se attendesse ás circumstancias de que
+um portuguez tinha assassinado outro portuguez, e um tribunal, tambem
+portuguez, condemnado um filho de Portugal.
+
+Era futil a razão do assassinato? Completamente de accordo. Mas quem
+sabe se outra razão mais forte existiria entre os dois personagens
+d'aquelle drama? Por causa de 20 réis, já ouvimos dizer que um homem
+tinha assassinado outro: comtudo, o motivo principal não fôra esse.
+Porém, nós não admittimos o assassinato mesmo por outros motivos mais
+poderosos, com o que não parece estar de accordo o sr. Carvalho, por
+isso que só o horrorisou o facto do minhoto!
+
+Em Portugal, as faltas de respeito para com as auctoridades são
+castigadas com um mez de prisão. É futil a razão. Antes isso do que
+assimilharem-se os nossos tribunaes aos do Brazil, aonde as mais das
+vezes a corrupção toma o logar da justiça, para condemnarem os
+desgraçados portuguezes.
+
+Felizes as nacionalidades que dão os exemplos de moralidade da primeira,
+e desgraçadas aquellas que, como a segunda, se transformam em alvo,
+aonde as settas do motejo vão cravar-se.
+
+
+V
+
+Sentimos que o historiador se desviasse para este campo, mas visto que a
+elle nos chamou, ha de acceitar-nos a replica leal, baseada em factos e
+não em hypotheses.
+
+Para provar que não é só nos paizes _cansados_ que se commettem crimes
+que o sr. Augusto de Carvalho leva á conta de falta do trabalho e da
+miseria; e para que se não diga que baseamos em factos isolados as
+nossas considerações, vamos transcrever o seguinte importantissimo
+artigo do _Diario do Rio de Janeiro_, publicado em julho de 1877:
+
+«Parece que o desenvolvimento das nossas vias rapidas de communicação
+tem sido fatal, debaixo d'um ponto de vista, para as principaes
+povoações que o vapor vae collocando em convivencia quasi diaria com a
+nossa cidade.
+
+«A consequencia immediata do movimento produzido pela rapidez das
+communicações que vão esclarecendo as novas linhas ferreas, naturalmente
+ha de tornar mais intima a nossa convivencia com os habitantes das
+localidades que se vão approximando da metropole, proporcionando-lhes
+ensejo de coparticipar de todos os melhoramentos da civilisação, que até
+aqui só se concentravam na capital.
+
+«Infelizmente o caminho de ferro, embora movido por um dos grandes
+motores do progresso, não exclue dos seus beneficios, as industrias
+pouco civilisadoras, e na sua rapida carreira tudo transporta e a todos
+favorece. Mas as cidades que vão ficando em rapida communicação com a
+capital, teem de tornar-se um vasto campo de operações para o exercicio
+das numerosas industrias, para as quaes, o theatro de uma só cidade
+começava a ser pequeno e a impertinente vigilancia das auctoridades a
+tornar-se incommoda.
+
+«O que é para sentir é que sejam estes os primeiros elementos de
+_civilisação_, que tratam de aproveitar-se dos beneficios das vias
+ferreas, para irem levar o terror e o desassocego ás pacificas povoações
+até agora livres da sua malefica influencia.
+
+«Com effeito, as cidades da provincia de S. Paulo, e particularmente a
+sua capital, já estão n'este momento a braços com um dos perniciosos
+elementos para ali transmittidos pela via ferrea.
+
+«Os jornaes d'aquella procedencia já veem cheios de narrações, pintando
+as façanhas que ali teem praticado os membros da corporação dos
+meliantes, que, como dissemos, para ali enviára, por occasião das
+festas, uma respeitavel guarda de honra.
+
+«Devemos acreditar que n'ella foram incorporados socios de todas as
+profissões, desde o simples gatuno até ao mais ousado salteador e
+assassino, porque as suas façanhas em S. Paulo não se teem limitado a
+pequenas escamoteações; teem assaltado a propriedade e os viajantes e
+até levado o seu arrojo ao ponto de arrombarem casas habitadas e
+intentarem lucta com os moradores para os espoliarem.
+
+«Para nós, que temos aqui sido testemunhas e victimas do arrojo d'estes
+malvados, apesar de toda a vigilancia da policia e dos recursos de
+defeza que a população de uma grande cidade póde oppôr, é facil de
+julgar qual não será a perigosa situação em que se acham os habitantes
+das localidades da provincia de S. Paulo, que elles teem procurado para
+campo das suas criminosas operações.
+
+«O que, porém, é de crer, é que o caso venha a assumir um aspecto sério,
+se não forem tomadas as mais promptas e energicas providencias, a fim de
+impedir que os bandidos procedam socegadamente na sua campanha
+exploradora.
+
+«Poderá bem acontecer que os habitantes se resolvam a fazer justiça por
+suas mãos, como tem succedido nos Estados-Unidos, e em tal caso, embora
+fosse isso talvez um castigo bem merecido para os criminosos, veriam
+estabelecida no imperio uma pratica repulsiva, cujas consequencias
+ninguem póde prevêr.
+
+Convém, pois, applicar remedio para evitar estes meios extremos.»
+
+Ainda sobre o mesmo assumpto diz o _Diario de S. Paulo_:
+
+«Os industriosos avantajam-se no modo de tirar o alheio.
+
+«Um individuo chegou-se á estação telegraphica da estrada de ferro
+ingleza, na Luz, e passou para Santos o seguinte telegramma:
+
+«De Antonio Pereira Arruda a Albino Medon.
+
+«Mande-me ámanhã (7 do corrente) sem falta, cinco saccos de assucar crú
+e duas barricas do refinado.
+
+«Pague o frete, e remetta para a estação da Luz, que eu estou
+esperando».
+
+«O pobre negociante, amigo do sr. Arruda, satisfez completamente o
+pedido e remetteu os generos, que foram entregues na estação ao tal
+Arruda, que não podia ser o amigo e correspondente.
+
+«Mais tarde, remettendo pelo correio ao seu amigo a nota dos generos e
+seus preços, teve em resposta que não lhe passára telegramma algum e
+nada lhe pedira, e que até residindo em Jundiahy não viera á capital, e
+que tinha sido victima de algum ladrão, sabedor de suas relações.
+
+«Ora eis ahi um meio facil de nos provermos do necessario.
+
+«Acautele-se, pois, o commercio contra as artimanhas e recursos dos
+finos larapios.
+
+«O sr. Albino levou tudo ao conhecimento da policia, mas o homem que se
+abasteceu de assucar _crú e refinado_, usa de capa preta, e será
+difficil ser conhecido. Esta gente escapa sempre da acção da
+auctoridade, _mesmo por ser grande o seu numero_».
+
+Note-se que a companhia de ratoneiros, estabelecera para theatro de suas
+façanhas a riquissima provincia de S. Paulo, onde o clima é mais
+supportavel, e onde com mais facilidade os taes sugeitos poderiam
+encontrar trabalho, se fosse o trabalho que elles procurassem.
+
+E não se diga que a miseria no Brazil é já a consequencia das nossas
+previsões--a decadencia do imperio. Não, porque em 1860, o nosso
+embaixador, o sr. conde de Thomar, assim pintava _a terra promettida_:
+
+«Apresentam-se diariamente á porta da legação de sua magestade um grande
+numero de portuguezes infelizes, pedindo uns esmola, outros passagem
+para Portugal e alguns mesmo para Angola. Pertence a maxima parte
+d'estes infelizes a essa classe de illudidos com as fallazes promessas
+de grandes fortunas, apenas chegados a este imperio.
+
+«É sabido que os europeus em geral soffrem nos primeiros mezes depois do
+seu desembarque n'estas paragens, e não soffre a cobiça dos esploradores
+d'aquellas victimas, que estejam em curativo e descanso durante as suas
+molestias, antes geralmente se exige, que elles prestem em qualquer
+estado de saude os serviços a que se obrigaram.
+
+«Resulta d'este facto, como é natural, o aggravamento das molestias e
+confesso que por mais de uma vez se me tem coberto o coração de luto,
+vendo o estado desgraçado de alguns dos meus compatriotas.
+
+«Soccorro a alguns com a esmola, que comportam as minhas pequenas forças
+financeiras, mas declaro a v. ex.ª, que este estado é demasiado violento
+para um representante de sua magestade, porque ou ha de já por
+humanidade, já pelo cargo que occupa, dar esmola a estes infelizes, e
+terá por isso uma grande diminuição nos seus vencimentos, a qual não
+comportam as despezas diarias a que é obrigado, ou ha de recusal-a, e
+será infallivel resultado: primeiro, a maior desgraça e mesmo a fome
+d'esses desgraçados subditos de sua magestade; segundo: o descredito e
+desconsideração do seu representante.
+
+«No meio de muitos desgostos, de soffrimentos e difficuldades, a que se
+vê exposto o ministro de Portugal n'esta côrte, devo confessar a v.
+ex.ª, que nada produz em mim uma sensação tão forte, como o espectaculo
+que se representa diariamente e sem a menor interrupção á porta da
+legação de sua magestade.
+
+«São bem ardentes os desejos que me animam para valer a tantos
+infelizes, mas é superior a difficuldade em que me acho de remediar tão
+grande desgraça.
+
+«Não me atrevo a propor meio nenhum ao governo de sua magestade, mas
+reclamo uma providencia para fazer desapparecer dos olhos do publico
+este estado lamentoso, principalmente em um paiz que por ter sido nossa
+colonia, não deve presenciar tão grandes miserias e desgraças,» etc.
+
+Mas não localisemos os crimes e miseria. Olhemos para outras provincias
+brazileiras.
+
+Um importantissimo jornal do imperio, o _Cearense_, trata em seu artigo
+de fundo, de 19 de agosto de 1875, do assumpto importantissimo
+_Segurança publica_.
+
+As suas palavras e a estatistica dos crimes, que no mesmo logar nos
+apresenta, horrorisam-nos.
+
+Para que nos não acusem de exaggerados, vamos copiar alguns trechos do
+alludido artigo da illustrada folha do Ceará.
+
+Oxalá aproveite a lição aos nossos compatriotas, que veem no imperio um
+manancial de riquezas e de felicidades futuras, e ao philosopho sr. A.
+Carvalho para não assentar proposições temerarias e inconsequentes.
+
+Falla o _Cearense_:
+
+«Não é licito duvidar mais do estado de anarchia moral, que substituiu
+ao regimen pacifico da legalidade por toda a estação do imperio, maxime
+nas provincias do norte, destinguindo-se ainda d'estas a do Ceará.
+
+«Contrista lançar-se os olhos sobre a estatistica criminal d'esta
+provincia, e possuir-se a certeza de que os costumes, em vez de seguirem
+o curso regular e bemfazejo da civilisação, vão-se encaminhando para o
+passado sombrio e desolador dos tempos barbaros da colonia (?).
+
+«Esse contraste entre o material, que progride, e a moral que recua, tem
+dado que pensar aos que se interessam pela prosperidade e melhoramento
+da patria com tal pertinacia, que ultimamente chegou a despertar a
+attenção distraida e indolente do poder governativo.
+
+«Na impotencia de prestar melhor e mais efficaz serviço á causa publica,
+tem a opposição se limitado a apontar os males e seus motivos,
+denunciando os criminosos á acção da justiça, e a negligencia policial á
+acção da opinião do paiz.
+
+«Isto, que seria tomado por outros governos como serviço e dedicação ao
+interesse geral, tem valido apenas ao partido proscripto a pecha de
+antipatriotico, porque denuncia o crime com suas côres vivas e os
+despeitos e odios dos potentados da situação.
+
+«Felizmente parece que a verdade, a evidencia dos factos, o poder dos
+acontecimentos começam a pesar dolorosamente sobre a consciencia do
+governo, obrigando-o a volver os olhos sobre o estado desolador de quasi
+todas as provincias em materia de segurança publica e individual.» etc.
+
+Depois de mais algumas reflexões.
+
+«E para avaliar-se o incremento, que tem tido n'esses ultimos tempos a
+estatistica criminal no Ceará, transcrevemos para estas columnas uma
+pagina de sangue de nossos annaes.
+
+«Desde o dia 13 de dezembro de 1874 até hoje... a imprensa registrou os
+seguintes attentados perpetrados na provincia:
+
+Assassinatos 77
+Tentativas 23
+Infantecidios 3
+Ferimentos 148
+Offensas physicas 26
+Aborto 1
+Estupro 1
+Polygamia 1
+Furtos 18
+Fugas de presos 19
+ ---
+ 317
+
+«Por esse quadro vê-se que durante 252 dias commetteram-se 317 crimes, o
+que dá mais de um attentado para cada dia!» etc.
+
+Effectivamente, é assombroso. Mas antes de proseguirmos no assumpto,
+cumpre dizer duas palavras ao illustrado articulista, em resposta á sua
+proposição:--_de que os costumes vão-se encaminhando para o passado
+sombrio e desolador dos tempos barbaros da colonia_. Acreditamos
+sinceramente que este trecho do seu artigo não leva em mira offender o
+regimen adiministrativo do governo portuguez, quando o Brazil era nossa
+colonia, regimen mau, de que nem todos os povos estavam isentos
+n'aquella época; mas que, ainda assim, já mais dará logar a ser julgado
+com justiça, como acabam de ser julgados os actos do governo brazileiro,
+por um jornal liberal, n'uma época tão adiantada do seculo XIX. Não será
+facil ao distincto jornalista apresentar-nos uma estatistica tão
+monstruosa de crimes praticados no Ceará, ou em outra qualquer cidade do
+imperio no longo periodo de 325 annos, que alli dominaram os
+portuguezes. A Cesar o que é de Cesar.
+
+A referida folha diz ainda o seguinte:
+
+«Não reputamos sómente um triumpho para a imprensa liberal as ultimas
+circulares do ministro da justiça sobre este assumpto; pensamos que ha
+ahí alguma coisa mais que o desejo de dar uma satisfação ás reclamações
+dos proscriptos, por que ha a tardia consciencia d'esses cataclismos
+moraes, que assolam a sociedade brazileira tão desapiedada e
+cruelmente.»
+
+Julgamos do nosso dever transcrever na integra uma das circulares a que
+se refere o articulista, porque esse documento comprova a verdade das
+suas allegações a respeito da criminalidade no Brazil, e corrobora as
+nossas affirmações contra a sua civilisação.
+
+«O augmento dos crimes, diz o ministro da justiça, especialmente contra
+a segurança individual, vae assumindo proporções elevadas. É urgente
+providenciar sobre este estado de coisas, cujo melhoramento depende em
+grande parte da nomeação das auctoridades policiaes, promotores publicos
+e supplentes dos juizes municipaes. Para taes cargos convém que v. ex.ª
+escolha as pessoas mais capazes, por seu merecimento e prestigio de
+captarem a confiança publica e manterem o respeito á lei. Na prevenção e
+repressão dos crimes deve haver a maior diligencia, dando v. ex.ª ás
+auctoridades a força necessaria, e não tolerando qualquer abuso ou
+excesso que commetterem.»
+
+Este documento encontrámol-o no _Jornal do Pará_, do dia 6 de agosto de
+1875, a proposito do qual faz as seguintes considerações uma folha
+d'esta provincia:[32]
+
+«Em nenhuma provincia do imperio talvez se tenha esquecido tanto que a
+escolha das auctoridades policiaes deve recair nas pessoas mais capazes
+por seu merecimento e prestigio, do que na do Pará.
+
+«Todos os dias nos vemos obrigados a registrar a nomeação de individuos
+analphabetos, turbulentos, mal intencionados e até réus de policia para
+os cargos policiaes.
+
+«Aqui mesmo na capital tem-se lançado mão de homens estupidos, de
+jogadores, de verdadeiros valdevinos para occupar os logares da policia,
+como se assim quizessem escarnecer dos bons costumes e da moralidade
+publica.
+
+«Pelo interior isso então é um Deus nos acuda.
+
+«Logares ha, onde occupam as subdelegacias os individuos mais ruins e
+despreziveis.
+
+«Não ha muito tempo um supplente de subdelegado acompanhou por muitas
+noites a um assassino na embuscada que fazia á sua victima, que mais
+tarde caiu traspassada por uma bala!
+
+«Os assassinos dos dois infelizes negociantes das ilhas de Breves,
+(Jurupary) tiveram por cumplice um subdelegado de policia!
+
+«Ahi está a imprensa todos os dias a clamar contra os desaforos do
+primeiro supplente da sub-delegacia de Mapuá, que entretanto acha-se no
+exercicio do cargo a vexar e perseguir aos seus infelizes
+condistrictanos!
+
+«Oxalá que a recommendação do sr. ministro da justiça não fique sómente
+na sua publicação e que possa ser util a esta desditosa provincia.»
+
+No meio de todas estas coisas, o que é um facto inegavel é que as
+auctoridades superiores vêem-se em difficuldades para substituir os maus
+agentes.
+
+Contra a auctoridade de Mapuá, de que nos falla aquelle jornalista,
+appareceu o seguinte protesto na imprensa do Pará:
+
+«Nunca os mapuenses se persuadiram que o ill.mo sr. capitão Diocleciano
+Antero Pinheiro Lobato, muito digno subdelegado d'este districto,
+passasse a administração da subdelegacia ás mãos do 1.º supplente da
+mesma, Antonio Joaquim de Barros e Silva.
+
+«Bem sabemos que o motivo d'isso foi o mau estado de saude do sr.
+capitão Diocleciano; porém nós, nacionaes e estrangeiros, residentes
+n'este districto, que já soffremos as arbitrariedades do sr. Barros, na
+occasião em que esteve de posse da administração; sentimos bastante o
+sr. capitão Diocleciano entregar a administração ao sr. Barros, sabendo
+s. s. que este sr. é um dos adeptos da _Tribuna_, que ufana-se em
+espalhar ao povo ignorante as infames e degradantes doutrinas d'esse
+nojento pasquim.
+
+«Quantas vezes pedimos (e algumas d'ellas pelo amor de Deus) ao sr.
+Diocleciano que não passasse a administração d'esta subdelegacia ao sr.
+Barros e Silva citando a s. s. os actos que o sr. Barros e Silva
+praticou, quando esteve exercendo o cargo da subdelegacia o anno
+passado, já afugentando os habitantes, outras vezes ameaçando-os com
+prisões.
+
+«Este sr. Barros e Silva tem por costume insinuar aos devedores da maior
+parte dos commerciantes d'este districto para que não paguem, e com
+especialidade quando os credores são portuguezes, por que este sr. jurou
+d'esde 1835 odio aos «gallegos» phrase do sr. Barros, quando quer dizer
+portuguez.
+
+«Á vista d'isto, sr. capitão Diocleciano, pedimos-lhes que, logo que o
+seu estado de saude permitta, assuma a administração de subdelegacia, a
+fim de evitar que o seu 1.º supplente ponha em execução os seus actos de
+verdadeiro despotismo, como é de costume».
+
+Esta queixa foi em parte attendida pelo governo da provincia. Eis como
+se expressa o _Liberal do Pará_ de 8 de agosto:
+
+«Vimos no expediente do governo de 24 do passado um officio do sr.
+Benevides ao chefe de policia, exigindo informação sobre as accusações
+feitas em artigo d'este jornal contra o primeiro supplente da
+subdelegacia de Mapuá, actualmente em exercicio, Antonio Joaquim de
+Barros e Silva.
+
+«Como era de suppôr, o castigo d'essa auctoridade ficou no tal officio;
+pois consta-nos que, achando-se Barros na capital n'essa occasião,
+_desfez tudo_, continuando por tanto a gozar de inteira confiança da
+administração.
+
+«Veio-nos á idéa esta occorrencia ao recebermos uma carta d'aquelle
+districto, em que se nos diz o seguinte do dito 1.º supplente:
+
+«O nosso heroe, para destruir as accusações que pesam sobre si, apenas
+chegou, anda de porto em porto, revestido do caracter de auctoridade,
+exigindo dos moradores attestados para provar que é um santo homem, e
+que morre d'amores pelos portuguezes.
+
+«Aos que repugnam attestar o que elle dita, responde: Conte commigo!
+
+«Em 30 de dezembro publicou o _Liberal_ um artigo d'aqui, acompanhado de
+attestados de brazileiros e portuguezes do districto, provando que essa
+auctoridade tem ameaçado aos subditos de Portugal, e esses attestados
+jámais foram contestados.
+
+«Em julho do passado foi o honrado commerciante portuguez José G. de
+Lemos victima das ameaças do mesmo sr., de que foram testemunhas os srs.
+capitão Diocleciano Lobato e João A. Lobato e outros brazileiros; assim
+como os portuguezes José Antonio Lopes e Theotonio Antão da Cruz.
+
+«Os brazileiros que contestarem que Barros é _tribuno_, fal o-hão com
+medo de sua vingança.
+
+«Tambem não duvidamos que encontre elle portuguezes que lhe passem
+attestados n'esse sentido, porque esses devem ter ainda mais a temer do
+seu odio do que os nacionaes!»
+
+Os portuguezes residentes no interior, com medo do odio das auctoridades
+brazileiras, passam attestados beneficos n'um dia a favor d'aquelles de
+quem receberam maus tratos em outro. A triste verdade é esta.
+
+O que é inegavel é que as auctoridades superiores do Brazil, ou se
+voltem para a direita ou para a esquerda, só encontrarão maus agentes de
+policia; ou, o que é peior, agentes que precisam ser policiados, segundo
+a phrase do _Liberal do Pará_.
+
+E a quem devemos nós attribuir tão grande mal?
+
+O _Cearence_ responde assim:
+
+«Os habitos e costumes d'um povo, suas virtudes e vicios, são feituras
+de suas instituições politicas ou civis, d'um governo liberal ou
+despotico.»
+
+Concordamos: porém se o mal que assola a sociedade brazileira, é
+derivado do dominio despotico do tempo, em que era colonia Portugal,
+parece que 50 annos d'uma administração de casa deveria ter salvo o
+imperio do abysmo, para onde o vemos precipitar-se.
+
+Nós, como acontecia ao povo brazileiro, tambem arcámos com o jugo de
+ferro do despotismo. Comtudo, atirámos com esse jugo para bem longe; e
+podemos dizer, sem jactancia, que Portugal é na actualidade um dos povos
+que goza de mais liberdade.
+
+ [32]_Liberal do Pará._
+
+
+VI
+
+Mas estas considerações feitas ao _Cearence_, a proposito dos crimes
+commettidos no Brazil, affastaram-nos um pouco de respondermos mais de
+perto ás affirmativas do auctor do livro o _Brazil_. Reatemos, pois, o
+fio da resposta; mas para isso assignalemos aquella phrase do ministro
+da justiça do imperio:
+
+«O augmento dos crimes, especialmente contra a segurança individual, vae
+assumindo proporções elevadas.» etc.
+
+Ora, queremos nós dizer, que, se deve attribuir-se á miseria e falta de
+trabalho os crimes commettidos em Portugal, no Brazil, onde não parece
+haver miseria e aonde não parece faltar trabalho, os crimes que viemos
+de descrevêr, devem ser levados á conta da má indole do povo.
+
+Mais claro:
+
+Os crimes commettidos em Jurupary, na riquissima provincia do Pará, em
+que portuguezes foram victimas, e assassinos e ladrões alguns subditos
+brazileiros, não podem ser levados á conta da miseria do povo
+brazileiro; porque o Brazil é apresentado aos portuguezes necessitados
+como o seu salvaterio contra os crimes de furto e roubo!
+
+A que devemos então attribuir aquelles crimes?
+
+Antonio Ferreira Gomes, brazileiro, accusado de roubar 150 contos de
+réis, a seus patrões, em casa de quem occupava um dos primeiros logares,
+fôra incitado pela miseria a commetter tão grande crime?
+
+E fallamos de proposito n'este facto, para dizermos mais, que aquelle
+réu fôra absolvido pelos tribunaes do Rio de Janeiro, emquanto que um
+portuguez de menor edade, accusado de roubar 10$000 talvez que para
+matar a fome, fôra condemnado um dia antes, pelo mesmo tribunal, a dois
+annos de prisão com trabalhos![33]
+
+No Brazil praticam-se d'estas e não inferiores façanhas; os tribunaes em
+Portugal condemnam os Antonios Gomes, quando _piscam os olhos_ ás
+authoridades!
+
+Eis aqui está um phenomeno que a alta capacidade do auctor do _Estudo_
+não poderá explicar facilmente.
+
+Outro phenomeno, não menos digno da attenção do illustre historiador,
+será aquelle, d'um brazileiro remediado e um portuguez adolescente,
+necessitado, commetter o mesmo crime--roubo--_na terra da promissão_!
+
+Que faria esta gente, se estivesse em Portugal?
+
+Quem sabe?... talvez fossem dois homens de bem!...
+
+A Inglaterra um dos paizes mais ricos, e que tem sempre á testa da
+administração do estado os politicos mais eminentes, conserva,
+premanentemente, nas ruas de Londres uma grande parte da sua população
+miserabilissima.
+
+Ora se a pobresa é o principal incentivo do crime, que seria dos
+habitantes abastados da grande cidade? O numero de portuguezes
+soccorridos, só no Rio de Janeiro, no periodo de 10 annos, desde de 1862
+a 1871, foi de 47:116! Ora, se se podesse estabelecer o tal principio,
+estes 47:116 necessitados deviam pôr em serios embaraços a população do
+Rio!
+
+O auctor do livro o _Brazil_, além de outros argumentos obtusos,
+apresenta-nos, para os fazer vingar, a seguinte conclusão:
+
+«Quem está bem no seu paiz não emigra; esta é que é a verdade das
+verdades: ninguem o contestará.»
+
+Se a _emigração_, tomada n'um sentido muito restricto, se estabelece
+pela mudança dos animaes d'um logar que _julgam mau_, para outro que
+_suppozeram bom_, qual o motivo porque aquelles 47:116 portuguezes
+necessitados, não regressaram á patria, aonde já sabem que nunca poderão
+passar peior que no Brazil?
+
+É porque estavam n'uma posição muito mais miseravel do que quando
+emigraram: não têem os meios para repatriar-se, além de alguns
+acharem-se completamente impossibilitados.
+
+O facto de emigrarem muitos portuguezes para o Brazil, não é razão
+sufficiente para que digamos, que a emigração para esta região é
+conveniente para elles; nem tampouco prova que a necessidade
+impreterivel os obriga a dar tão errado passo.
+
+É isso que temos sustentado e sustentaremos, em quanto tivermos do nosso
+lado a razão.
+
+É provavel que n'um futuro, que não póde vir muito proximo, modifiquemos
+as nossas idéas; porque, emfim, _le monde marche_, e nós mui crentes no
+grande principio do philosopho, acreditamos que o Brazil se
+transformará, assim como acreditamos na transformação de outros povos
+semi-barbaros.
+
+Já o dissemos e nunca nos cansaremos de repetir:--emquanto o Brazil não
+reformar completamente as suas leis, por fórma que os povos emigrantes
+não vão esbarrar no imperio com o temeroso dilemma da controversia
+politica e religiosa, que tem n'estes ultimos tempos tomado demasiadas
+proporções no Brazil, a emigração europêa será uma ficção.
+
+Porque é preciso assentar bem n'esta verdade:--o povo portuguez não é
+aquelle, que, por si só, póde supprir o Brazil de braços laboriosos para
+a cultivação das suas terras immensas. Nunca o pôde fazer, quando esta
+parte da America pertenceu a Portugal.
+
+É preciso lançar as vistas para outros povos europeus, cuja tendencia
+para a emigração não seja inferior á nossa.
+
+Ha difficuldade em alliciar hespanhoes ou italianos, porque estes
+preferem as republicas hespanholas, assim como nós preferimos o Brazil.
+Os francezes e os inglezes, povos essencialmente industriaes, teem as
+suas colonias ou os Estados-Unidos para receber a população que lhes
+sobeja. A Allemanha, esse grande paiz que n'estes ultimos annos tem
+fornecido á America do norte o seu maior nucleo de emigração, não
+poderia ser tentada pelos escriptos do sr. Augusto de Carvalho e outros?
+
+Não podia. E dizemos, não podia, não porque falte ao distincto
+historiador, applicando-se um pouco mais ao estudo, a intelligencia para
+poder vir a ser um optimo _engajador_; mas porque os allemães estudam o
+assumpto da emigração com toda a proficiencia e não precisam lá de quem
+lhes indique o paiz que devem preferir. No mesmo caso está a Inglaterra.
+
+Outra razão: Se os emigrados portuguezes, residentes no imperio, se
+sujeitam ao regimen brazileiro, em cujo paiz encontram as demasias do
+odio de raça e não poucas vezes a excessiva intolerancia religiosa; os
+allemães, além de não concordarem com as leis civis do imperio, descrêem
+completamente das leis que estabelecem a tolerancia religiosa, que ha de
+ser sempre uma ficção, emquanto a governação do Brazil estiver nas mãos
+do seu clero reaccionario; leis que esse clero poderia reformar, se não
+fôra o receio de descontentar os estrangeiros, na maioria conservadores,
+que, unidos aos brazileiros descontentes, e de idéas mais avançadas,
+fariam grande resistencia a uma refórma tão retrógrada.
+
+ [33] Veja-se _Questões do Pará_.
+
+
+VII
+
+«Os portuguezes que de futuro emigrarem para o Brazil, com o fim de se
+dedicarem ao commercio, perderão infallivelmente o seu tempo; porque
+sendo a lavoura o seu unico sustentaculo, esta, como já demonstrei no
+capitulo precedente, ha de definhar-se á proporção que lhe forem
+faltando os braços escravos.»
+
+Escrevemos estas palavras em um livro que ahi corre impresso;[34] e se
+as repetimos n'este logar, é para reforçal-as mais, respondendo ao mesmo
+tempo ás seguintes phrases de contentamento do auctor do _Brazil_:
+
+«Nem só á commissão (de emigração) devemos esta prova de lealdade e
+franqueza. Felizmente ainda ha n'esta terra de gloriosas tradições
+caracteres honrados e amigos da verdade.»
+
+Agora é preciso saber a razão d'este enthusiasmo e... d'este enigma,
+porque aquelle trecho respondia a este da commissão de emigração:
+
+«Não é de menor interesse para o commercio do reino (a emigração livre),
+ao qual, de preferencia, pedem todos os artigos a que estão habituados;
+e, desde os vinhos até ás cebolas nacionaes, a circumstancia de estar o
+Brazil povoado pelos portuguezes abre-nos extensissimo mercado,
+offerecendo igualmente Portugal numerosos consumidores aos productos
+brazileiros. Se ainda quizermos olhar com attenção para a agricultura
+nacional, encontraremos que os emigrantes repatriados teem dado em todo
+o reino, principalmente na provincia do Minho, auxilio importante, pelos
+capitaes que teem importado, á industria agricola. Se lançamos a vista
+sobre as cidades, villas e aldeias, alli encontraremos palacios
+sumptuosos, casas elegantes, casaes commodos, tudo edificado com o
+dinheiro que os emigrados de hontem trouxeram da emigração.»
+
+Todas estas conveniencias apontadas pela commissão e que tanto
+alvoraçaram o auctor do livro o _Brazil_, são trazidas a Portugal por
+alguns de seus filhos, que, a tudo se dedicavam, menos aos trabalhos
+rudes do campo.
+
+Os generos alimenticios, que em grande escalla exportamos para o Brazil,
+toda a gente sabe que é para gasto de gente abastada. O portuguez
+trabalhador, dando-se-lhe ainda que ganhasse 2$000 réis fracos por cada
+dia, já mais poderia alimentar-se d'aquelles generos excessivamente
+caros alli; alem de que, como diz o sr. Carvalho, o colono é
+_ambicioso_, e quem padece de tal molestia despreza as despezas
+superfluas.
+
+Está provado, que o consumo dos taes generos, quer haja a emigração de
+trabalhadores, quer não, ha de existir em quanto o Brazil puder
+sustentar a sua prosperidade.
+
+E d'ahi não os esportamos nós tambem para os outros paizes da Europa?
+Pertender-se-ha affirmar que os emigrados portuguezes são só os seus
+consumidores?
+
+Vamos agora emittir a nossa humilde opinião a respeito de outras
+conveniencias.
+
+É certo que a affluencia de capitaes a este paiz, procedentes do Brazil,
+tem sido assombrosa n'estes ultimos tempos; pena é que elle em geral se
+empregue na agiotagem e desprese a agricultura e a industria, razão
+porque acreditamos muito pouco na prosperidade que para ahi dizem nos
+veio trazer o dinheiro vindo do Brazil.
+
+Mas se o portuguez é _ambicioso_, mal de que soffrem quasi todos os
+capitalistas de _todas_ as nações do mundo, excluindo talvez os
+brazileiros, razão por que as fortunas portuguezas são relativamente
+muito superiores no proprio imperio, por que é que affluem actualmente
+os capitaes a este paiz?
+
+
+A resposta é simples e muito logica:--é por que esses capitaes já não
+encontram no Brazil tão facil e lucrativo emprego.
+
+«D'aqui a 10 ou 15 annos, quando estiver extincta a escravatura no
+Brazil, sem que o governo tenha remediado este grande mal; e os
+lavradores, faltos de recursos materiaes, liquidarem as suas fortunas, e
+procurarem, como é natural, melhor emprego para o seu capital, chegará
+então o grande imperio americano ao ultimo gráu da sua decadencia;
+porque uma vez livre o elemento escravo, que no Brazil é e ha de ser
+sempre a alma da lavoura, ninguem mais poderá fazer trabalhar o preto
+que, (em geral), com o salario de um dia, se julga habilitado para comer
+15 ou 20.»
+
+Estas palavras que em outro logar deixamos escriptas,[35] e que
+procuraremos auctorisar com a opinião de entendedores mais respeitaveis,
+provam até á evidencia que o commercio do Brazil vive da lavoura, e que
+decahindo esta, não mais poderá aquella aspirar á gloria alcançada por
+muitos portuguezes em épocas passadas. A prova da nossa asserção está em
+que os capitalistas residentes no Brazil, tratam n'este momento de
+procurar melhor emprego a seus capitaes.
+
+Mas julga o auctor do _Brazil_ que o melhor meio de tentar os nossos
+compatriotas, é mostrar-lhe o resultado adquirido por outros portuguezes
+que foram mais felizes, por terem encontrado tempos melhores, e alem de
+tudo isto, porque se dedicavam a outros misteres, como nunca nos
+cançaremos de repetir?...
+
+Ás seguintes reflexões da commissão de emigração:
+
+«Temos por tanto 3 de cada 10 emigrantes perdidos no total da emigração.
+Em vinte annos 75 por cento d'este formoso capital terá desapparecido.
+Reduzindo a metal o que este trabalho representa, e dando 120$000 réis
+ao trabalho produzido por cada emigrado annualmente, 34:000 emigrados
+representando 4:080$000 réis cada um, em 20 annos fazem 81:600$000 réis.
+É egual a esta somma de trabalho perdido a somma de capital entrado
+pelos que voltam ricos? A commissão não póde investigar tão fundo».
+
+A isto, como diziamos, responde o illustre historiador, com uma
+simplicidade incrivel:
+
+«Nem era preciso, entendemos nós.»
+
+E depois transcreve da _Correspondencia de Portugal_ um artigo que, se
+por um lado elogia o Brazil, por outro mostra até certo ponto a sua
+decadencia.
+
+«Do abençoado Brazil, diz o jornal citado, tem-nos vindo ultimamente
+cabedal e alguns homens activos e emprehendedores» etc.
+
+Para que desamparam o Brazil, este cabedal e os homens activos e
+emprehendedores?!
+
+Não é alli a fonte da riqueza, aonde a actividade humana póde mais
+facilmente encontrar o premio do seu trabalho?!
+
+ [34] Veja-se _Questões do Pará_.
+
+ [35] Veja-se _Questões do Pará_.
+
+
+
+
+CAPITULO V
+
+Os relatorios dos consules e a emigração. Um pedido á imprensa. A
+colonisação no Brazil e a lei do trabalho de 11 de outubro de 1837.
+Contractos de locação de serviço. Sevicias dos fazendeiros contra os
+escravos brancos. Ainda a febre amarella e a imprensa. Roceiros,
+engajadores e armadores de navios. A lei portugueza de 20 de julho de
+1855 e a emigração clandestina. A diplomacia envolvida no assumpto. O
+regulamento brazileiro de 1 de maio de 1858. Intrigas diplomatas.
+Serviços do conde de Thomar, nosso embaixador na côrte do Rio de
+Janeiro. O sr. José de Vasconcellos e as evasivas do governo brazileiro,
+a respeito da convenção sobre a emigração e propriedade litteraria.
+
+
+I
+
+Não nos sobeja espaço para fazermos uma analyse detida ao livro o
+_Brazil_, nem o encargo que nos impozemos mira a esse fim. Descrever os
+horrores da emigração, em linguagem que o povo entenda e ao qual
+especialmente destinamos este trabalho, eis o nosso principal intuito.
+Assim, pois, continuemos a examinar o que ha de mais proveitoso nos
+relatorios dos consules, reservando-nos para em capitulo especial
+fazermos algumas considerações a respeito dos tumultos do Pará, em 1874,
+a cujo assumpto igualmente se refere o auctor do livro em questão.
+
+Phrases ha que se deviam repetir todos os dias e a todas as horas; e por
+isso mesmo desejariamos que os nossos homens de estado déssem a maior
+publicidade possivel aos documentos que, a respeito da emigração
+portugueza para o Brazil, todos os dias nos offerecem os consules alli
+residentes. Difficil será achar quem melhor possa informar sobre a
+verdadeira situação dos colonos no Brazil, quem livre de qualquer
+pressão, e perfeitamente independente, melhor possa sondar os horrores
+da emigração, effeito dos contractos ruinosos que os nossos compatriotas
+fazem com os engajadores, os maus tratos que os trabalhadores
+portuguezes quotidianamente recebem dos _senhores de engenho_, a
+ficticia protecção das auctoridades brazileiras, quando, para dominar
+abusos, os infelizes a ellas recorrem.
+
+Nos referidos relatorios trazidos a publico para auxiliar a commissão
+d'inquerito parlamentar, nomeada com o fim de pôr termo ao mal da
+emigração, apontam os consules o efficaz auxilio, que póde offerecer a
+imprensa, publicando os documentos que elles mandam para o governo.
+
+«É de urgente necessidade, diz o consul no Maranhão, instruir aos
+incautos, victimas da seducção, por meio da imprensa, pela tribuna, e
+impôr tambem este dever ás auctoridades, as quaes deverão esclarecer
+profundamente ao emigrante, as difficuldades que lhe offerece a lavoura,
+a incompatibilidade que existe entre o trabalho livre e servil, e de que
+inteiramente é impossivel dar-se uma fusão. Ao mesmo tempo
+scientifical-os, de que se os proprios nacionaes encontram todas as
+difficuldades na lavoura, e não podem alimentar-se por ella, por certo
+se tornarão mais embaraçosas para com os estrangeiros, por não se
+poderem estabelecer nem encontrarem recursos á sua disposição.
+Fazer-lhes ver que não existem regulamentos de trabalho, e d'este modo
+são forçados a trabalhar todo o dia debaixo do mais ardente sol.»[36]
+
+Não disse a verdade o consul do Maranhão quando affirmou que não
+existiam regulamentos de trabalho. Ha regulamentos; e se não veja o que
+diz a tal respeito o seu illustrado collega do Rio de Janeiro:
+
+«Queria dar aqui a integra d'essa lei (de 11 de outubro de 1837), mas
+isso tornaria este trabalho mui extenso e fastidioso, além de que é
+facil encontral-a nas collecções; mas como estas collecções não chegam
+ás mãos do povo, parece-me que seria muito conveniente que o governo de
+sua magestade as mandasse publicar em todos os jornaes e mesmo em
+avulsos, que fossem affixados em todos os locaes onde costumam ser os
+annuncios da partida dos navios; parece-me ainda que ao mesmo governo
+assiste o incontestavel direito de prohibir emquanto no Brazil existir
+tal lei, a celebração de todo e qualquer contracto de locação de
+serviços, que aqui tenham de ser prestados, e fazer constar por todos os
+meios que os individuos que taes contractos assignarem, como locadores,
+não terão direito á protecção do governo nem dos seus representantes,
+mesmo porque estes quasi que absolutamente lh'a não pódem dar.»[37]
+
+Examinemos essa barbaridade, que nem a diplomacia portugueza, nem alguns
+legisladores mais notaveis do Brazil tem podido derrogar, para beneficio
+dos colonos e da propria agricultura; mas para isso convem transcrever
+alguns trechos mais importantes.
+
+Diz a tal lei:
+
+«O locatario de serviços que, sem justa causa, despedir o locador antes
+de findar o tempo porque o tomou, pagar-lhe-ha todas as soldadas, que
+devêra ganhar, se o não despedira. _Será justa causa_ para a despedida
+(note-se bem isto):
+
+«1.º--Doença do locador, por fórma que fique impossibilitado de
+continuar a prestar os serviços para que foi ajustado;
+
+«2.º--Condemnação do locador á pena de prisão, ou qualquer outra que o
+impeça de prestar serviço;
+
+«3.º--Embriaguez habitual do mesmo;
+
+«4.º--Injuria feita pelo locador á dignidade, honra ou fazenda do
+locatario, sua mulher, filhos ou pessoa de sua familia;
+
+«5.º--Se o locador, tendo-se ajustado para o serviço determinado, se
+mostrar imperito no desempenho do mesmo serviço.
+
+«Nos casos do n.º 1.º e 2.º do artigo antecedente, o locador despedido,
+logo que cesse de prestar o serviço, _será obrigado a indemnisar o
+locatario da quantia que lhe dever_. Em todos os outros pagar-lhe-ha
+tudo quanto dever, e se não pagar logo, será immediatamente preso e
+condemnado a trabalhar nas obras publicas por todo o tempo que fôr
+necessario, até satisfazer com o producto liquido de seus jornaes tudo
+quanto dever ao locatario, comprehendidas as custas a que tiver dado
+causa. Não havendo obras publicas, em que possa ser admittido a
+trabalhar por jornal, será condemnado a prisão com trabalho, por todo o
+tempo que faltar para completar o do seu contracto: não podendo todavia
+a condemnação exceder a dois annos.»
+
+Perguntamos nós, porque razão deverá ser condemnado o colono, _não
+havendo obras publicas_, á prisão com trabalho?
+
+Quem tem a culpa de não haver obras publicas no Brazil? Os seus homens
+de estado; mas nunca os colonos.
+
+Poderá o colono, dado ao uso das bebidas alcoolicas satisfazer por meio
+do trabalho nas obras publicas, os seus encargos? E caso não possa, _por
+causa da sua habitual embriaguez_, não será demasiada a pena de dois
+annos de prisão com trabalho?
+
+E que justiça é essa, que iguala a falta de pericia do colono, na
+execução de qualquer trabalho, com a falta de honra e dignidade, para as
+quaes estabelece as mesmas penalidades?
+
+E se o locatario fôr accusado de injuria feita á dignidade e honra do
+locador, sua mulher, filhos ou pessoa de sua familia, por que este póde
+estar nos mesmos casos d'aquelle, e não é dado aos legisladores
+brazileiros acentar, que o homem rico é mais susceptivel de córar na
+frente do seu injuriador do que o homem pobre, qual o castigo a que o
+sujeita?
+
+O colono doente, a que se refere o n.º 1.º, e o colono condemnado á pena
+de prisão, por qualquer falta commettida, de que falla o n.º 2.º, são
+equiparados no castigo, e por isso obrigados a indemnisar o locatario da
+quantia em divida!
+
+Á parte a desigualdade da pena, por que não pode equiparar-se o
+_delicto_ de um colono cahir doente, com a falta que levára outro colono
+a ser julgado e condemnado a prisão, perguntamos nós, como poderá
+qualquer d'elles exonerar-se dos seus encargos, quando lhes faltem
+absolutamente os meios?
+
+O escravo era muito mais feliz. Pelo menos tinha a comida certa, quando
+impossibilitado de trabalhar. O senhor era o primeiro interessado na
+liberdade do escravo, quando este era preso por ter commettido algum
+delicto.
+
+
+«O locador, continua a celeberrima lei, que, sem justa causa, se
+despedir, ou ausentar antes de completar o tempo do contracto, _será
+preso_ onde quer que fôr achado e não será solto _emquanto não pagar em
+dobro_ (sic) _tudo quanto dever ao locatario_, com abatimento das
+soldadas vencidas: se não tiver com que pagar, _servirá ao locatario de
+graça todo o tempo que faltar para o complemento do contracto_. Se
+tornar a ausentar-se _será preso e condemnado_ na conformidade do artigo
+antecedente (prisão com trabalho por dois annos)»!
+
+Admire-se a logica d'este bocadinho de ouro:
+
+«O locatario, findo o tempo do contracto, ou antes rescindindo-se este
+por justa causa, é obrigado a dar ao locador um attestado de que está
+quite do seu serviço; se recusar passal-o, será compellido a fazel-o
+pelo juiz de paz do districto. A falta d'este titulo será razão
+sufficiente para _presumir-se_ de que o locador se ausentou
+indevidamente.» (!!!)
+
+Toda a gente sabe qual é a influencia de que dispõe para com as
+auctoridades, os roceiros do Brazil. Veja-se pois, como será difficil a
+um pobre colono obter tão precioso documento das mãos do locatario
+quando este, por qualquer circumstancia, lh'o não queira dar. Imagine-se
+por exemplo, que ao locador não convem mais servir o locatario, e que a
+este, pelo contrario, convem que aquelle lhe preste serviço. Como poderá
+o colono, sem incorrer na pena de prisão com trabalhos, livrar-se do seu
+perseguidor?
+
+Ainda mais:
+
+«Toda a pessoa que admittir, ou consentir em sua casa, fazendas ou
+estabelecimentos, algum estrangeiro, obrigado a outrem por contracto de
+locação de serviços, pagará ao locatario o dobro do que o locador lhe
+dever, _e não será admittido a allegar qualquer defeza em juizo_ (sic),
+sem depositar a quantia a que fica obrigado, _competindo-lhe o direito
+de havel-a do locador_.»
+
+O locador é quem paga tudo.
+
+Ha só uma unica excepção á regra: o que alliciar o colono obrigado a
+outrem por contracto de locação de serviços, pagará ao locatario o dobro
+das dividas do colono, bem como as despezas e custas a que tiver dado
+causa. Caso não tenha dinheiro para pagar, ha de trabalhar nas obras
+publicas, se as houver, já se sabe, e se não a cadeia espera o
+delinquente! Verdade seja que a pena de prisão é mais favoravel para o
+alliciador, a qual póde ser de dois mezes a um anno. Pois se elle não é
+colono!
+
+Eis os nomes dos illustres estadistas que subscreveram tão grande
+monstruosidade:--Pedro de Araujo Lima e Bernardo Pereira de
+Vasconcellos.[38]
+
+Que a historia lhes reserve logar condigno em suas folhas
+indestrutiveis, não só para pagar-lhes o premio merecido, mas para
+desiludir uns certos optimistas, que costumam ver o argueiro nos olhos
+de estranhos, em quanto que nos proprios conservam enormes traves.
+
+Mas note-se que esta lei ainda não foi derrogada.
+
+Eis aqui está como o governo imperial _revela cuidado em reunir sob o
+ceu explendido do cruzeiro os individuos de todas as nacionalidades_!
+
+ [36] Relatorio de 7 de dezembro de 1874.
+
+ [37] Relatorio de 4 de janeiro de 1875.
+
+ [38] Veja-se a nota n.º 4.
+
+
+II
+
+Mas não fica ainda aqui a tão apregoada protecção.
+
+O consul no Rio de Janeiro assim descreve os effeitos praticos da tal
+monstruosidade:
+
+«Debalde a lei de 20 julho de 1855 e varios regulamentos posteriores
+tomaram providencias sobre taes abusos; por que todas essas prescripções
+são letra morta no imperio.
+
+«Os magistrados não conhecem essas providencias legislativas, nem mesmo
+tomam d'ellas conhecimento, sendo-lhes apontadas.
+
+«Estes contractos são aqui regulados pela lei do imperio de 11 de
+outubro de 1837, que os seus collaboradores não quizeram para regular a
+locação de serviços de seus compatriotas, e só a destinaram a regular a
+locação de serviços dos estrangeiros.(!)
+
+«Em 1867, continúa o consul, percorri algumas cidades e villas da
+provincia de S. Paulo, onde são frequentes taes contractos.
+
+«Visitei varios cartorios de escrivães dos juizes de paz, que são os
+competentes para taes processos, examinei muitos d'elles, e em nenhum
+encontrei sentenças a favor do locador.(!!!)
+
+«Recentemente ainda se deu um facto aqui na provincia do Rio de Janeiro.
+Joaquim de Sequeira Pinto veiu com sua mulher, do Porto, justo para
+trabalhar na fabrica de Santo Aleixo, situada em Magé, pouco distante
+d'esta côrte.
+
+«O seu contracto era o seguinte:
+
+«Digo eu abaixo assignado que me acho justo e contractado com os srs.
+Bernardo José Machado & C.ª a ir de passagem junto com minha mulher,
+Josepha de Jesus no vapor _Julio Diniz_, para trabalhar na fabrica de
+fiação, em S. Aleixo, imperio do Brazil, da qual são administradores os
+srs. Guerreiro Simas & C.ª, a quem vamos dirigidos, e a estes nos
+obrigamos com os nossos serviços na mesma fabrica a pagar a quantia de
+cento e trinta e oito mil e nove centos réis, que nos foram abonados
+para as nossas passagens _e mais arranjos_, a cujo cumprimento nos
+obrigamos por nossas pessoas e bens--Porto 22 de outubro de
+1873.--Joaquim Sequeira Pinto, por minha mulher Josepha de Jesus. Como
+testemunhas, Francisco Gomes Paes, Gaspar José Corrêa do Nascimento.»
+
+«Veio pois Sequeira, e chegado aqui com sua mulher foram para a tal
+fabrica que estava em construcção. Como não tinha ainda que fazer pelo
+seu officio empregaram-no em servente de pedreiro e a mulher a cosinhar.
+Como não quizessem sujeitar-se a estes serviços pediram licença ao
+administrador da fabrica para vir para a côrte trabalhar pelo seu
+officio, a vêr se arranjavam dinheiro para pagar o que deviam. Foi-lhe
+concedida licença e vieram. A mulher adoeceu, obrigando o marido a
+despezas consideraveis.
+
+«Passaram-se dois ou tres mezes, portanto, sem que podessem ter
+arranjado dinheiro para pagar a divida. Começava o marido a trabalhar
+pelo officio, quando foi preso com a mulher, em virtude d'uma precatoria
+vinda do juiz de paz de Magé, e lá seguiram os dois infelizes com um
+filhinho, de cadeia em cadeia até á de Magé, para alli serem processados
+por quebra de contracto de locação de serviços.
+
+«Sabendo isto por um primo d'elles, tratei de vêr se melhorava a sorte
+d'estes infelizes, e fui procurar um advogado para fazer uma petição de
+recurso de _habeas corpus_. Fêl-a com effeito, ponderando a illegalidade
+da prisão, visto que sendo todo o procedimento, segundo aquella lei,
+baseado n'um contracto escripto, o documento apresentado não era
+realmente um contracto, por lhe faltarem clausulas essenciaes, taes como
+estipulação de salario, acquiescencia da mulher, por quem o marido se
+não podia obrigar, e ausencia de procuração dos representantes do
+locatario. Que mesmo como contracto seria nullo em face da legislação do
+paiz onde foi celebrado (lei de 20 de julho de 1855), por não conter
+expressa a clausula de não poderem os serviços ser cedidos.
+
+«E, finalmente, que era nullo á vista do artigo 208.º do decreto
+imperial do 11 de junho de 1847, que diz:--«Todo o documento a ser
+produzido em juizo, ou exhibido por qualquer fim legal, deve ser
+necessariamente assignado pelo consul e sellado com o sello do
+consulado, sem o que não fará fé.» etc.
+
+«Fiz outras allegações mais, como: novação de contracto pela licença
+dada e confessada pelo locatario ao locador para vir á côrte arranjar
+meios de lhe pagar, etc.
+
+«Tudo foi inutil, por que o _habeas corpus_ foi negado pelo juiz de
+direito.»[39]
+
+O consul conclue que o juiz de paz condemnára os infelizes a uma multa
+exorbitante; e que mandando appellar da sentença para o juiz de direito,
+este confirmára a condemnação.
+
+É mais uma prova de que o governo do Brazil protege os colonos!
+
+E ainda ha jornaes que teem _medo_ de publicar isto!
+
+E ainda ha quem diga que o ouro dá a dignidade e a independencia!...
+
+ [39] Relatorio citado.
+
+
+III
+
+Fallemos sobre os contractos lesivos, feitos entre os colonos e os
+engajadores, ha alguns annos a esta parte; e façamos igualmente mensão
+da protecção dispensada aos colonos pelos _senhores_ de engenho.
+
+O consul do Maranhão examinou em dezembro de 1855 um contracto de
+locação, feito entre o engajador Izidoro Marques Rodrigues e 168 colonos
+das nossas provincias do norte. Não obstante estar já publicada a lei de
+20 de julho de 1855, a mesma auctoridade examinára que as clausulas
+expressas na referida lei não tinham sido attendidas, o que deu logar a
+alguns abusos quando a comitiva chegou ao porto do Maranhão.
+
+Os colonos mettidos no arsenal da Marinha «foram _cedidos_ a differentes
+proprietarios, e como em seus primitivos contractos havia uma condição,
+que os colonos pagariam 10$000 réis, alem da passagem e _mais abonos_
+feitos pelo engajador, uma vez que não quizessem seguir para a colonia
+(Companhia de Colonisação do Codó); assim satisfariam os novos
+locatarios, ficando os infelizes colonos, subditos portuguezes,
+sobrecarregados com este augmento de divida para pagar com seu
+trabalho.»
+
+Em 14 do dezembro de 1855, participava o consul no Rio, os
+inconvenientes de um contracto «summamente oneroso», celebrado entre
+vinte portuguezes e Augusto Cesar Pereira Soares, para uma colonia em
+Cantagalo; «summamente oneroso para similhante gente, que tendo mudado
+do seu paiz para o Brazil, sem onus algum, não podia comtudo trabalhar
+em terra estranha, por tres annos, por tão diminuto preço:--1.º anno
+4$000 réis, 2.º 6$000 e 3.º 8$000, mensaes, moeda fraca! Com quanto o
+locador fosse obrigado a dar comedorias e remedios, como seria possivel,
+accrescenta o consul, trabalhar por tão diminuto preço?»
+
+A média do salario dado a estes desgraçados, como será facil de
+examinar, era de 100 réis fortes, de comer... e remedios!
+
+Meio dia de trabalho em Portugal excederá aquella somma.
+
+Oh, que abençoada terra da promissão!
+
+Para mais alguns fazendeiros de Cantagallo, chegára do Porto em 12 de
+janeiro de 1856, uma leva de 50 escravos brancos, contractados a 60$000
+réis pelo primeiro anno, a 72$000 no segundo e a 96$000 no terceiro,
+moeda fraca!
+
+Os colonos pagaram á sua custa a passagem _e mais despezas_, na
+importancia de 120$000 réis, ficando por consequencia liquidos em todo
+este tempo 108$000 réis fracos, menor jornal do que 100 réis fracos por
+dia!
+
+«Estes engajadores, accrescenta o documento official que temos á vista,
+abusando da ignorancia d'esta gente, praticando o que fica referido,
+faziam ao mesmo tempo grande guerra á fiscalisação que se dava no
+consulado, para se oppôr a que os engajadores _escravizassem_ seus
+patricios com contractos tão leoninos.»
+
+Em 18 de janeiro de 1856, informa o vice-consul em Ubatúba, districto do
+Rio de Janeiro, que indo examinar os tumultos occorridos na colonia
+creada em Taubaté, composta de 378 portuguezes, engajados no Minho,
+reconhecera, que os colonos haviam sido completamente illudidos e
+lesados em seus interesses, porque, sabendo-se que as passagens do Porto
+para o Rio de Janeiro eram de 28$800 réis fortes e as d'aqui para
+Ubatúba, de 6$000 réis fracos, vinha a passagem de cada colono a
+importar até ali em 31$800 réis fortes; no entanto que pelos contractos
+assignados no Porto, os sujeitaram ao pagamento de 100$000 réis fracos,
+ganhando por consequencia os engajadores 36$000 fortes por cada um!
+
+Aqui o engajador, só d'um jacto, lucrou, como é facil de conferir,
+13:608$000 réis.
+
+E devemos notar, que os colonos, assim ludibriados, estavam sujeitos a
+uma multa de 50$000 réis, se, sem o consentimento do roceiro, se
+retirassem da colonia! Reconhecera o consul que, se tal fizessem, teriam
+de sujeitar-se a quatro annos de captiveiro, em qualquer outra colonia,
+onde os não receberiam (os senhores de engenho entendem-se
+perfeitamente!) sem a promessa de satisfazer aos compromissos que se
+haviam imposto!
+
+
+IV
+
+A falta de braços começava a sentir-se no imperio, por causa da
+repressão do commercio da escravatura.
+
+De 1822 a 1828, refere Ferdinand Diniz, os resultados do trafico da
+escravatura, só no Rio de Janeiro, era de 43:800 almas, e nos ultimos
+annos podia elevar-se a 90:000 em todo o imperio![40]
+
+A necessidade de supprir tão grande falta, levou o governo do imperio a
+fechar os olhos aos escandalos que todos os dias se praticavam com a
+acquisição dos colonos portuguezes...
+
+Continuemos, pois, na tarefa de esmerilhar os contractos ruinosos, e a
+_humanidade_ do governo imperial em face de tantos abusos.
+
+Em 18 de junho de 1856 partíra do porto de Pernambuco a galera
+portugueza _Flôr do Porto_, com ordem de conduzir da ilha de S. Miguel
+uns trinta colonos, contractados a 10$000 réis por mez, pelo tempo de
+tres annos, sob pena de multas pelo não cumprimento do contracto. Isto
+é, o salario não devia ser superior a 120 réis fortes, a secco... fóra
+as multas!
+
+O consul respectivo declarava que o salario n'esta provincia regulava,
+para qualquer homem de trabalho, de 16$000 a 20$000 réis mensaes,
+independentes da matença, casa e curativo das molestias adquiridas em
+serviço!
+
+Em 19 de dezembro de 1856 apparecera no consulado do Rio de Janeiro um
+contracto firmado no Porto, estipulando ordenados mensaes de 6$000,
+7$000 e 10$000 réis fracos, pagando os colonos 120$000 réis, por
+passagens, e os salarios eram assim estipulados pelo referido
+consul:--de 16$000 a 20$000 réis mensaes, cama e mesa, para os
+trabalhadores; de 1$600, 1$800, 2$000 e 2$500 réis, diarios, para os
+pedreiros, calceteiros, carpinteiros, marceneiros, serradores, ferreiros
+e sapateiros, e sendo mais habeis em qualquer dos officios, de 3$000 a
+4$000 réis diarios, a secco, preços que ainda regulam na actualidade.
+
+O vice-consul da cidade de Santos, tambem diz que os engajadores
+extorquiram a 90 passageiros, idos do Porto, 2:524$000 réis fracos,
+«porque tendo pago ao navio 2:808$000 réis moeda forte, a razão de 6
+moedas e meia por cada um dos 90 passageiros, e carregando-se-lhes
+4:070$400 réis, resultado de 88 passagens a 45$000 réis e duas a 110$400
+réis, segue-se ser a lesão de 1:262$400 réis, fortes»!
+
+«Com estes escandalosos factos, refere a authoridade consular no Rio ao
+nosso governo, se explica a razão porque os especuladores, não lhes
+convindo nenhuma fiscalisação nos respectivos consulados, procuram por
+todos os meios evitar o contacto d'elles com os colonos portuguezes, não
+se tendo por isso registado nenhum d'estes individuos n'aquelles dois
+vice-consulados, o que sem duvida será muito prejudicial para o futuro,
+porque jámais se poderá saber o destino que tiveram.»
+
+Em janeiro do referido anno, chegava ao Rio o patacho _Liberdade_ (!)
+com mais 50 escravos brancos da ilha de S. Miguel, a quem o proprietario
+do navio obrigára a pagar as passagens ao preço de 100 patacões (200$000
+réis), o dobro do preço que era costume pagar qualquer passageiro!
+
+Estes infelizes foram contractados por 10 e 12 mezes de serviço,
+recebendo 2$000 réis mensaes para suas despezas! Mas sendo obrigados a
+pagar tão grande divida, não poderam encontrar patrões para servir por
+menos de 24 mezes!
+
+N'esta época o governo, tendo em vista as reclamações do nosso consul no
+Rio, sobre «os vexames que soffriam os colonos portuguezes no Brazil, em
+consequencia dos contractos lesivos que faziam em Portugal os agentes
+brazileiros», pedia ao governo do imperio providencias adequadas, a fim
+de evitar tão grande mal, providencias que, segundo a phrase do nosso
+representante na côrte do Rio de Janeiro, se não prestaria a dar o
+referido governo, visto que elle «o mais interessado na emigração para o
+imperio, _desejava facilital-a por todos os meios_»!
+
+E accrescentava, que os que não queriam contractar no consulado o seu
+serviço por um tempo razoavel, iam ter com os juizes de paz «que não
+tinham empenho em olhar pelos interesses do locador e sim pelos dos
+locatarios, que procuravam vexar aquella pobre gente que queriam tomar
+ao seu serviço.»
+
+Se olharmos com attenção para tão exorbitante differença de salarios, os
+que eram offerecidos aqui pelos engajadores e os que eram estipulados no
+Brazil aos colonos, encontraremos a razão de existirem para ahi
+verdadeiros parasitas disfrutando fortunas colossaes.
+
+O commercio da escravatura tambem tinha d'estes phenomenos! Um
+negociante tomava conta de um carregamento de africanos, emquanto o
+navio ia em procura de nova remessa. A _consignação_ era posta em
+almoeda, e o consignatario, em tres ou quatro dias, ganhava a bagatella
+de 40 ou 50 por cento!
+
+Na verdade, não havia _commercio mais licito e mais lucrativo_!
+
+Quaes seriam os lucros dos negociantes, que por sua propria conta e em
+navios seus importavam escravos das costas de Africa?!
+
+Nem é bom pensar n'isso.
+
+Os lucros provenientes do commercio de escravos brancos, importados das
+costas de Portugal, com o titulo _protector_ de colonos, não são
+inferiores, convençam-se d'isso!
+
+Os portuguezes, como começamos a ver e não nos cansaremos de examinar
+são aqui contractados pelos engajadores, por um certo praso de tempo, o
+sufficiente para que os colonos paguem a passagem e _mais despezas_.
+Findo esse tempo, póde-se dizer que o portuguez exhausto não deve nada
+ao engajador, locatario, roceiro, negociante ou capitão do navio que o
+transportára para as plagas brazileiras; mas em _compensação_, é levado
+para o hospital beneficente portuguez; e d'alli, se melhora, é conduzido
+a Portugal, talvez que pelo mesmo navio que outr'ora o conduzira; porém,
+d'esta vez, o capitão já não fia a passagem: o producto de uma
+subscripção publica satisfaz as suas exigencias de traficante!
+
+ [40]_Le Brezil._
+
+
+V
+
+Falla o consul de Pernanbuco:
+
+«Ha nos contractos que aqui se me têem apresentado, não só falta de
+clareza, mas condições inexequiveis e até illegalidades.
+
+«Os ultimos contractos que aqui me appareceram foram os de uns sessenta
+colonos, vindos do Porto no brigue portuguez _Trovador_. Estes
+contractos vem em publica fórma e sem reconhecimento do respectivo
+consul. Não sei portanto se são falsos ou verdadeiros.
+
+«N'estes contractos vem incluidos alguns menores sem o consentimento de
+seus paes ou tutores. O escrivão commetteu um delicto por que deve
+responder.
+
+«São arduas algumas das condições, e que se não podem cumprir sem pôr em
+perigo a saude e vida dos colonos, e outras pouco explicitas e nada
+claras. Pela segunda condição, por exemplo, são os colonos obrigados a
+trabalhar nove horas por dia, sendo em descampado, e dez e meia sendo em
+logar abrigado. Aqui o dia tem regularmente doze horas, e não é possivel
+que um europeu ature n'este clima, exposto aos ardores do sol, o
+trabalho de nove horas no espaço de doze, sem que a saude se lhe
+deteriore, maximé com comidas a que não estão habituados. Expostos ao
+sol e chuva, não póde exceder o trabalho de sete a oito horas.
+
+«Tambem é excessivo o trabalho de dez horas e meia em logar abrigado,
+porque hora e meia não é tempo sufficiente para refeição e descanso. De
+oito a nove é o mais que se póde trabalhar. Se não melhorarem estas
+condições dos contractos, nunca irá por diante a colonisação e as
+victimas serão innumeras.
+
+«Pela sexta condição se estabelece que antes de terminado o praso poderá
+cada colono rescindir o contracto, pagando 120$000 réis, moeda fraca,
+como multa, custo da passagem e dinheiro despendido com o passaporte e
+preparativos para a viagem. Isto é muito vago, e póde ser muito injusto.
+
+«Uma passagem na prôa, do Porto para esta cidade, regula por 24$000 réis
+e o muito 28$800 réis; o passaporte não chega a 3$000 réis, o que
+reduzido a moeda fraca, não póde chegar a 61$000 réis. Como é pois que
+em preparativos, que bem mesquinhos são, e multa se inclue quasi outro
+tanto? De quanto é a multa? Seria bom que se declarasse a importancia de
+cada objecto; mesmo que seja levado em conta o tempo dos serviços
+prestados.
+
+«Um contracto contra que estou reclamando por maus tractos, celebrado
+pelo consul do Rio de Janeiro, entre um menor e um desembargador,
+estabelece que o locador se obriga a prestar os seus serviços por espaço
+de dezoito mezes, para satisfação do importe de sua passagem de S.
+Miguel para o Rio, ganhando 2$000 rs. por mez! E o locatario se obriga a
+dar-lhe _educação_, bom sustento, lavar e _vestir_. Como é que o locador
+ha de exigir o cumprimento d'estas condições? Que se entende por
+educação? Que se entende por vestir?» etc.
+
+Esta _educação, bom sustento, lavar e vestir_, era naturalmente o
+tratamento que os senhores de escravos costumam dar aos seus
+_moleques_:--chicote e umas calças de ganga: da cintura para cima, a
+pelle branca tomava em poucos dias as côres _atapuyadas_!
+
+Este outro importantissimo documento é do nosso consul no Maranhão:
+
+«O objecto principal d'este meu officio é particularmente fazer conhecer
+a v. ex.ª o estado de colonisação n'esta provincia, afim de que o
+governo de sua magestade fidellissima tome as providencias que julgar
+acertadas.
+
+«No geral todos os individuos que vem para colonias não sabem ler nem
+escrever, e isto faz que elles não possam adquirir outro modo de vida
+menos perigoso do que o trabalho nas terras, que ao norte d'este imperio
+está visto ser só proprio para os africanos, unicos que podem supportar
+o calor abrazador d'este clima e a humidade doa terrenos. Os mesmos
+salarios por que os colonos são engajados na Europa, onde lhes parece
+que dentro em pouco devem fazer aqui alguma fortuna, raras vezes é
+sufficiente para o seu alimento, visto que os generos de primeira
+necessidade são aqui excessivamente caros, e portanto não lhes chega
+para um alimento igual ao que têem na Europa, que seria o unico meio de
+poderem melhor affrontar a intemperie de um clima improprio dos filhos
+da Europa para o trabalho nos campos.
+
+«Por quanto acabo de dizer pode deprehender-se que os colonos andam aqui
+mal vestidos, e raras vezes tem recursos para attender á sua existencia,
+que dentro em pouco fica em perigo, como o attesta o limitado numero que
+existe, comparativamente com o que tem entrado. Diariamente se vêem
+d'estes nossos compatriotas desgraçados, andarem cheios de mollestias e
+privações, promovendo subscripções, de porta em porta, devendo porém
+n'esta parte esclarecer a v. ex.ª d'onde muitas vezes provém tal
+miseria. Alguns, com a ambição de em breve tempo juntar algum peculio,
+entregam-se emquanto teem saude a um excessivo trabalho, d'onde lhes
+resultam molestias, que mais se aggravam pelo desprezo em que as
+consideram, e sobretudo por fugirem aos gastos de um tratamento regular,
+que se só resolvem fazer quando estão proximos a entrar para a
+sepultura.
+
+«Se eu attendesse a quantas exigencias se me fazem, poucos seriam os que
+por aqui ficariam, porque todos lamentam o engano em que cairam, e
+suspiram pela volta aos lares patrios. A expensas minhas, envio no
+patacho _Trovador_ uma familia composta de quatro pessoas, que sem
+fallar no desvio de alguns de seus membros que por cá ficam, depois de
+dois annos de estada aqui, voltam naturalmente em peiores circumstancias
+do que vieram!»
+
+No excesso da cegueira poderá haver quem diga, que é uma ficção o
+commercio da escravatura branca. Se os documentos em que nos temos
+baseado não confirmam o dito, o que vamos extractar desilludirá os
+descrentes. É ainda do nosso consul em Pernambuco o seguinte trecho:
+
+«É revoltante que por uma passagem de prôa, com o tratamento de
+bacalhau, sardinha salgada e biscoito de milho, se esteja levando a
+estes degraçados, do Porto para aqui, 60$000 réis fortes ou 120$000 réis
+fracos, quando não ha navio que alli não tome um passageiro de prôa por
+24$000 ou 28$800 réis. Muito bom seria que, tanto no Porto como nas
+ilhas açorianas, se podessem tomar algumas medidas que pozessem cobro a
+esta escandalosa agiotagem com a desgraça.
+
+«Acaba de chegar de S. Miguel o brigue portuguez _Oliveira_, com 56
+passageiros, e o governador da ilha (não satisfeito com me remetter
+todos os seus passaportes em regra, obrigações e recibos da passagem de
+cada um), depois de não ter consentido que ali se celebrassem contractos
+de locação de serviços, obrigou o capitão do navio a assignar um termo
+que me remette, no qual o capitão se responsabilisa a não deixar
+desembarcar os passageiros, sem que no consulado celebrem o contrato do
+modo do pagamento de suas passagens. N'estas passagens ha a mesma
+agiotagem que nas do Porto, pois todas vem a 60 patacões ou 120$000
+réis, dinheiro do Brazil.
+
+«Similhantes passagens importam uma lesão enormissima, a não serem
+consideradas como negocio de risco, e, considerando-as eu como taes,
+estou resolvido a não deixar passar nos novos contractos a obrigação do
+seu pagamento para os locatarios, mas sim conserval-a aos locadores;
+porque d'esta fórma pódem estes fazer mais vantajosos contractos, visto
+que o locatario não corre o risco de perder o importe da passagem que
+adianta, com a prematura morte do locador; e me parece mesmo mais justo
+e razoavel que lhe corra o risco o agiota, que foi levado a isso pelo
+excessivo lucro.
+
+«Os passageiros se obrigam em seus titulos a satisfazer a passagem
+dentro de oito dias depois da sua chegada a Pernambuco, ao que
+hypothecam suas pessoas e bens. As pessoas não podem ser retidas por
+dividas, e os bens são uma caixa vazia. Se portanto o dono ou
+consignatario do navio não quizer continuar a correr o risco, que
+obrigue o devedor pelos tribunaes, e ficará pago com suas caixas, que é
+quanto podem dar á penhora.
+
+«Eram estas obrigações das passagens satisfeitas dentro em oito dias
+depois da sua chegada, que tornavam os contractos aqui uma especie de
+venda de suas pessoas; porque, considerando-se obrigados a satisfazer
+uma somma que não tinham nem podiam ganhar em tão curto praso, se
+entregavam por uma bagatela a quem suppunham que os vinha resgatar.
+
+«Parece-me que da maneira que levo dito poderei indirectamente levar as
+cousas a que de futuro se contentem os agiotas com lucros menos
+excessivos, porque, sendo as passagens regulares, não faltará quem, com
+vantagem dos passageiros, lh'as satisfaça logo á sua chegada» etc.
+
+Nada conseguiu o consul, como mais tarde demonstraremos.
+
+
+VI
+
+Antigamente quando os pretos escravisados desembarcavam no litoral do
+Brazil, os _senhores de engenho_, antes de entrarem em ajuste com os
+traficantes, procediam a uma rigorosa escolha dos negros que mais
+poderiam convir ao serviço da lavoura, assim como qualquer alquilador
+escolhe as bestas para o serviço dos alugueis.
+
+Pois bem, o que antigamente acontecia aos pretos, succede hoje com os
+brancos, nossos compatriotas.
+
+Em principios de 1857, foram _regeitados_ 174 colonos, idos da cidade do
+Porto, na barca _Santa Clara_, para a colonia de Campos Junior & Irmão,
+na cidade de Campinas, no Brazil.
+
+Mais alguns casos se haviam dado, e para evitar o escandalo, o governo
+portuguez, a pedido do consul geral na côrte do imperio, deu algumas
+providencias tendentes a estabelecer um accôrdo com o governo
+brazileiro.
+
+Vamos apresentar aos leitores alguns documentos que esclarecem a
+questão, bem como qual fôra o resultado das negociações entaboladas a
+este respeito entre os dois governos.
+
+É do nosso ministro acreditado na côrte do imperio, e alli residente em
+1858:
+
+«Respondendo ao despacho de v. ex.ª datado de 12 de março ultimo, direi
+com a devida submissão quanto ao seu conteúdo e ao da cópia do officio
+do ministerio do reino que o acompanha, sobre a conveniencia d'um
+accordo com este governo, tendente a prevenir a repetição da _regeição_
+de colonos mandados angariar no continente de Portugal e ilhas
+adjacentes por parte de qualquer individuo ou companhia no Brazil (como
+o que se deu ha pouco tempo em Santos), que pela circular do mesmo
+ministerio do reino aos respectivos governadores civis, citada na dita
+cópia, foi sabiamente tomada a unica medida decisiva possivel na minha
+humilde opinião contra a má fé e abusos de tal ordem.
+
+«No entretanto disponho-me, como devo, estudar o modo de fazer a
+proposta do accordo por v. ex.ª determinado, comquanto me pareça á
+primeira vista não ter probabilidades de felicidade, por isso que no
+assumpto de que se trata, nós temos sómente a pedir, não temos que
+offerecer. Poderemos talvez chegar ao resultado justamente pretendido,
+ampliando e completando com certo apparato a medida acertadissima
+encetada já pelo ministerio do reino,» etc.
+
+Um mez depois escrevia o mesmo diplomata o seguinte:
+
+«Terminei o meu officio de 10 do mez proximo findo, quanto á
+conveniencia d'um accordo com o governo d'este imperio, tendente a
+evitar a rejeição de colonos mandados assalariar d'aqui n'esse reino e
+ilhas adjacentes, aventurando com o devido respeito o meu juizo sobre a
+pouca probabilidade de conseguir ajuste de tal ordem, e acrescentei que,
+para obedecer a v. ex.ª, estudaria comtudo o modo de fazer a respectiva
+proposta, comquanto me parecesse poder chegar-se ao resultado pretendido
+por meios de mais facil adopção por parte do Brazil.
+
+«No proprio interesse da sua colonisação reside a necessidade forçosa de
+moralisar todo e qualquer contracto de locação de serviços, cujo fim
+seja chamar ao imperio braços livres e gente branca, do que não póde
+prescindir sem comprometter a sua existencia, arriscadissima já pela
+incuria imperdoavel dos que com perfeito conhecimento de causa se não
+tem occupado como deviam e podiam de promover uma emigração util.
+
+«Assim o disse eu ha poucos dias ao sr. visconde de Maranguape, ministro
+dos negocios estrangeiros, o qual procurei expressamente a fim de chamar
+a sua attenção para o facto verificado em Santos com os colonos
+portuguezes para ali conduzidos na barca _Santa Clara_, mandados ajustar
+no Porto, e _rejeitados_ depois á sua chegada. E continuando disse que
+referia o occorrido a s. ex.ª, para pedir-lhe, como effectivamente lhe
+pedia, em nome do governo de sua magestade, providencias que evitassem
+repetições de similhante natureza, certo de que, se não fosse bastante,
+o que eu não punha em duvida, encarar o caso pelo lado da humanidade
+para dar-se-me razão inteira, viriam em apoio da minha representação as
+considerações moraes, as de conveniencia e de interesse, que bem sabia
+s. ex.ª não serem de modo algum indifferentes para a prosperidade actual
+e futura sorte do Brazil, dependente da maior ou menor affluencia de
+emigrantes.
+
+«Assim pois, conclui eu, «será v. ex.ª o primeiro a conhecer a
+necessidade de algum compromisso por parte do governo imperial, para
+tranquilisar o governo que represento, a respeito dos nossos
+compatriotas, os quaes fiados na fé dos contractos, deixam a patria,
+muito embora com vistas exclusivas de vantagem propria, e vem tão
+efficazmente, tão visivelmente concorrer para o engrandecimento do
+imperio».
+
+«Para estas considerações, aliás de primeira intuição, não ha resposta,
+e por conseguinte não fez o mesmo ministro outra cousa senão abundar nas
+minhas idéas, com expressões que me pareceram sinceras, e em perfeito
+accordo com os nossos desejos. E como eu lho havia declarado a clausula
+mandada inserir por circular do ministerio do reino nos contractos de
+locação de serviços para o Brazil, que de futuro hajam de fazer-se entre
+nós, disse-me s. ex.ª que em harmonia com aquella disposição, _mas sem
+allusão a ella_, proporia aos seus collegas uma disposição _com todo o
+caracter de espontanea_, por meio da qual ficaria satisfeito o governo
+de sua magestade, e acautelados os verdadeiros interesses do Brazil. O
+que comtudo não poderia ter logar desde já e emquanto não estivesse em
+andamento a actual sessão legislativa depois de apresentados os
+relatorios dos diversos ministerios, com os quaes elle e seus collegas se
+achavam muito occupados,» etc.
+
+Na serie de documentos que temos presente, não podemos encontrar as
+disposições _espontaneas_, que o governo brazileiro pretendia preparar,
+quando estivesse em andamento a tal sessão legislativa!
+
+Queremos dizer com isto, que as reclamações do governo de Portugal foram
+desattendidas, naturalmente, porque ao governo _humanitario_ do Brazil,
+convinha, primeiro do que tudo, consultar os _roceiros_ a respeito das
+nossas pretenções, que necessariamente haviam de offender os seus
+interesses!
+
+
+VII
+
+O governo brazileiro a tudo promettia providencias; mas não lhe fazia
+conta maltratar os fazendeiros.
+
+Vamos apresentar mais uma prova d'esta nossa asserção.
+
+«Em virtude de certa denuncia, communica o nosso ministro na côrte do
+imperio ao governo portuguez, representou-me o vice-consul encarregado
+do consulado geral de Portugal, contra o procedimento havido com alguns
+colonos, subditos de sua magestade, em uma fazenda do municipio de
+Iguassú, não mui distante d'esta capital.
+
+«Não perdi tempo em solicitar do governo imperial pela nota da cópia
+junta as averiguações e providencias indespensaveis para remediar o mal
+verificado. E aproveitei a occasião _para instar pela quarta ou quinta
+vez, pela solução de uma representação identica_ em favor de outros
+colonos, tambem portuguezes, para ser dirigida a este governo em meado
+do anno preterito!!!» (1858)
+
+Este outro documento que vamos transcrever, é a nota a que se refere o
+nosso ministro na corte do imperio:
+
+«Não posso dispensar-me de levar ao conhecimento de v. exª, na cópia
+inclusa, o officio que ora me foi entregue por parte do consulado geral
+de Portugal, n'esta côrte. Da mesma cópia v. ex.ª verá o comportamento
+attribuido ao rendatario de certa fazenda no municipio de Iguassú,
+Francisco José de Freitas, para com os colonos portuguezes ao seu
+serviço, bem como a immoralidade com que, segundo alli se affirma, tem
+procedido o referido Freitas a respeito da filha de um dos ditos
+colonos, menor de 13 annos.
+
+«Não escaparão por certo a v. ex.ª as circunstancias, constantes do
+citado officio, de haver sido denunciado no dito consulado o facto acima
+exposto, por pessoas inteiramente desinteressadas, e do misero estado em
+que da dita fazenda se evadiram dois d'aquelles colonos, os quaes por
+isso mesmo tiveram de ser transportados em rede para o hospital.
+
+«Quanto a mim abstenho-me de qualquer reflexão sobre taes occorrencias,
+bem certo de que não podem ser senão sobremodo desagradaveis as que
+affluirão no animo de v. ex.ª, com a simples leitura do já referido
+documento junto.
+
+«Limito-me pois a pedir a v. ex.ª com a maior instancia, sem perda de
+tempo, as providencias promptas e energicas que o caso exige,
+permitta-me v. ex.ª que o diga, no proprio interesse do Brazil,
+comprovada a verdade da já alludida denúncia.
+
+«Contra factos identicos, não menos escandalosos, verificados em
+Taubaté, o anno proximo passado, tive a honra de reclamar medidas de
+severidade por parte do governo imperial, e com quanto seja de 28 de
+julho preterito aquella minha representação, sobre a qual tomo a
+liberdade de chamar a séria attenção de v. ex.ª, _não recebi resposta
+d'ella até hoje_, decorridos perto de sete mezes. Lisonjeando-me de que
+serei mais feliz n'esta occasião, aproveito-a para renovar os
+protestos,» etc.
+
+A resposta do governo imperial é a que segue:
+
+«Tive a honra de receber a nota... pela qual o sr. José de Vasconcellos
+e Sousa, remetteu-me copia do officio que lhe dirigiu o consul geral de
+Portugal n'esta côrte, expondo-lhe os reprehensiveis actos attribuidos
+ao arrendamento de uma fazenda do municipio de Iguassú, Francisco José
+de Freitas, para com certos colonos portuguezes, que tem a seu serviço,
+e á filha menor de um d'elles.
+
+«Sciente das observações que a este respeito fez o sr. Vasconcellos e
+Sousa na sua citada nota, e convencido da urgente necessidade de
+verificar o fundamento de semelhantes accusações, cumpre-me prevenil-o
+de que pelo ministerio do imperio, ao qual n'esta data dirijo-me, se
+procederá aos precisos exames e se tomarão as medidas correccionaes e
+preventivas que o caso exigir, _sendo prudente não comdemnar desde já a
+parte accusada_ (se elle é roceiro!)»
+
+«Quanto ao trecho da mesma nota, em que o sr. Vasconcellos se queixa da
+falta de resposta por parte d'esta secretaria d'estado á sua reclamação
+de 28 de julho do anno proximo passado, em favor dos colonos de Taubaté,
+peço licença para observar-lhe que, dependendo essa resposta de
+informações que teem de ser enviadas por authoridades das provincias de
+S. Paulo é inevitavel a demora que nota o sr. de Vasconcellos,
+attendendo-se ás distancias e outras circumstancias bem conhecidas,
+proprias de um paiz tão extenso e pouco povoado como o Brazil.
+Entretanto tornarei a chamar a attenção do sr. ministro do imperio sobre
+este objecto,» etc.
+
+Mas as providencias nunca se deram; pelo menos a esta crença nos induz o
+silencio usado pelo governo imperial a respeito da questão.
+
+A razão apresentada pelo ministro brazileiro da _extensão do paiz_, se
+não podia insentar o governo do imperio de culpabilidade, com respeito
+ao negocio de Taubaté, por quanto em dois ou tres mezes devia ter dado
+as explicações pedidas pelo representante de Portugal; menos poderia
+desculpal-o com relação ao conflicto de Iguassú, que, como vimos, fazia
+parte do districto do Rio de Janeiro.
+
+O documento que passamos a transcrever não é menos interessante. É elle
+assignado pelo conde de Thomar, e tem a data de 27 de outubro de 1859:
+
+«Em 15 do corrente apresentou-se n'esta legação um rapaz de doze para
+treze annos, por nome José Fernandes, o qual disse ter vindo da ilha
+Terceira, acompanhado de um individuo, que se disse seu tio, chorando e
+mostrando alguns ferimentos nas pernas, os quaes o mesmo rapaz asseverou
+terem sido feitos com _chicote_ mandado applicar por sua ama, pelo
+motivo de elle não poder fazer todo o serviço, que lhe era exigido, e
+que elle reputava seguramente superior ás suas forças. Vendo o estado em
+que se achava aquella creança, ordenei que se conservasse na legação,
+até que eu, colhendo as devidas informações, resolvesse o que fosse mais
+conveniente.
+
+«Mandei que o consul com a maior urgencia indagasse sobre aquelle facto,
+e me informasse devidamente. Convenci-me por tudo o que me foi presente,
+que o rapaz poderia ter commettido algum descuido no desempenho das suas
+obrigações, mas esse descuido nunca poderia auctorisar o emprego do
+_chicote_ contra uma creança d'aquella idade, castigo cruel reservado
+para os negros mais desmoralisados. Resolvi portanto fazer annullar o
+contracto da venda de serviços por dezoito mezes, feito pelo mencionado
+menor. Desembolsei para isso 100$000 réis fracos, e tenho aquella
+creança em minha casa até que lhe possa dar outro destino.
+
+«Aproveitei este acontecimento para entrar melhor no exame de todas as
+circumstancias, que acompanham o embarque de muitos portuguezes de todas
+as idades e differentes sexos para este imperio; e bem assim do modo por
+que são elaborados os contractos da locação de serviços dos subditos de
+sua magestade.
+
+«Ordenei portanto ao consul geral, que enviasse a esta legação o
+passaporte original d'aquelle rapaz, e copia do contracto de locação dos
+seus serviços, informando ao mesmo tempo de tudo que soubesse a tal
+respeito.
+
+«Verifiquei, pois, pelo dito passaporte original, passado no governo
+civil de Angra, que o dito menor é da ilha Terceira, e que veiu
+aggregado a seu cunhado Alexandre Gonçalves e sua mulher; no dito
+passaporte se declara que o dito rapaz é menor de 13 annos.
+
+«Sendo assim menor de 13 annos, e tendo pae como elle proprio declarou,
+podia dar-se um tal passaporte sem a declaração do expresso
+consentimento do pai?
+
+«Estando sujeito ao recrutamento, tomaram-se acaso as devidas precauções
+para que não deixasse de pagar o tributo de sangue, sendo em occasião
+opportuna chamado pela sorte?
+
+«Chegando aquelle menor a este imperio figura em um contrato de locação
+de serviços por desoito mezes, mediante a somma de 100$000 réis fracos,
+assignado pelo locador, o conselheiro João José de Carvalho, e pelo
+consul em nome e por parte do menor locatario. A referida quantia de
+100$000 réis é a somma exigida pelo capitão da _Nova Rival_, que o
+conduziu, como importe da passagem e comedorias! É assim que os capitães
+dos navios vendem temporariamente os subditos de sua magestade!» etc.
+
+Quando os nossos compatriotas não podem aturar os castigos corporaes que
+_seus senhores_ lhes mandam infligir pelos negros, vem a miseria, a
+fome, n'este paiz onde o ouro anda aos pontapés, n'esse paiz onde jámais
+se realisará a promessa do sr. Augusto de Carvalho, de--_cento por um_.
+
+
+VIII
+
+Não descurava o conde de Thomar tambem do horroroso flagello da febre
+amarella, que já em 1860 produzio os seus maleficos estragos; mas foi
+bradar no deserto.
+
+O remedio apontado, que é prohibir a emigração para os portos
+infeccionados, ainda não foi adoptado, naturalmente pela difficuldade
+que offerece a creação de qualquer taxa, a exemplo do que se pratica no
+Lazareto com os passageiros vindos dos portos infeccionados d'aquella
+terrivel molestia.
+
+É que os nossos legisladores deixariam de ser _verdadeiros patriotas_,
+se alguma vez cahissem na patetisse de fazer uma lei que não esbulhasse
+o pobre povo do que tanto lhe custa a ganhar.
+
+A lei que pozesse termo á emigração para o Brazil, especialmente na
+quadra de janeiro a junho, era uma lei humanitaria, que jámais poderia
+ser atacada pelos verdadeiros liberaes.
+
+A obrigação dos governos é desviar os administrados do precipicio, que
+os seus fracos conhecimentos do mundo lhes não deixam vêr.
+
+São insignificantes os resultados tirados da publicação das relações do
+obituario, que os nossos consules nos enviam do imperio. E a razão é
+simples: é que a nossa população d'onde sahem os emigrados não sabe lêr;
+ou se sabe não está ao alcance de lêr os jornaes mais importantes, onde
+apparecem publicadas essas listas, que muito poderiam influir no animo
+dos que em tão horrorosa quadra entendem dever deixar a patria.
+
+A imprensa que mais se entranha no coração do povo, essa, com rarissimas
+excepções, pouco ou nenhum caso faz d'isto, por causa do _medo_...
+
+Comtudo publica em seu logar as noticias _importantes_ do baile do sr.
+commendador Fulano, ou do feliz parto da esposa do sr. Sicrano!
+
+Esta medida de publicar as relações nominaes dos subditos portuguezes,
+fallecidos no Brazil, com a declaração da molestia de que tinham
+succumbido, fôra lembrada pelo conde de Thomar, em 1860, com o fim de
+evitar a emigração.
+
+Mas parece que tão bom alvitre não tivera a recepção que era para
+esperar. Mais uma razão da falta de vontade do nosso governo em querer
+auxiliar o conde em tão util propaganda.
+
+O seguinte trecho, que vamos extrahir do seu officio de 7 de maio de
+1860, resente-se d'esta falta:
+
+«Sinto que o governo não julgasse aproveitavel a idéa que suggeri na
+minha correspondencia, fazendo publicar diariamente na folha official e
+nos jornaes sobre que podesse exercer alguma influencia, a relação dos
+portuguezes mortos n'este imperio, declarando-se sempre a molestia de
+que são victimas, e a sua edade.
+
+«É isto muito facil, pelo menos quanto ao Rio de Janeiro, porque nada
+mais haveria a fazer senão transcrevêr o obituario, que diariamente
+publicam os jornaes brazileiros, que mando para a secretaria a cargo de
+v. ex.ª.
+
+«Affigura-se-me que este systema seria preferivel ao de publicar em um
+só diario de Lisboa, uma longa lista de nomes. A circumstancia que se
+notaria, _de que a maior parte morrem de febre amarella, e quasi todos
+na melhor e mais apropriada edade para fazer fortuna e para trabalhar_,
+seria, no meu entender, a cruzada mais poderosa que se poderia promover
+contra a emigração. Daria isto ainda logar a occupar-se frequentemente a
+imprensa portugueza de tão importante objecto, porque tinham sempre
+thema para discorrer; estou quasi certo de que algum bom resultado se
+havia de tirar d'este meio.
+
+«Aqui mesmo faz muita impressão a leitura diaria d'aquelle artigo
+(obituario) sendo talvez o primeiro que chama a attenção dos leitores.
+
+«Consta-me que muitos dos infelizes ultimamente chegados foram logo
+victimas da _febre amarella_; nem póde deixar de assim acontecer,
+porque, sendo a bahia do Rio de Janeiro o logar mais mortifero, é tambem
+aquelle aonde menos promptamente se póde acudir com os soccorros.
+
+«Parece incrivel que o governo d'este paiz, tão interessado na
+introducção de colonos, se não tenha lembrado de adoptar alguma medida
+para fazer com que os navios em que são transportados os colonos,
+cheguem aqui em estação mais propria, ou que ao menos se demorem os
+colonos pouco tempo na dita bahia, etc.
+
+«Reconheço que existe algum obstaculo, porque os capitães especuladores,
+altamente interessados na venda dos serviços dos ditos colonos,
+encontrarão maiores difficuldades para a verificarem, etc.
+
+«Mas a vida perdida de tantos homens na flôr da sua edade, não valerá a
+pena de pensar n'este importante objecto? É minha intenção chamar a
+attenção do governo imperial sobre este ponto, na occasião em que se
+discutir a respectiva convenção.»
+
+Nada se chegou a conseguir, porque o illustre diplomata pouco tempo
+depois retirava-se para Portugal.
+
+Sobre o mesmo assumpto já o referido ministro tinha chamado a attenção
+do nosso governo, em seu officio de 30 de março de 1860, nos seguintes
+termos:
+
+«Por esta occasião chamarei de novo a attenção de v. ex.ª sobre os que
+morrem de _febre amarella_. São na maior parte portuguezes ultimamente
+chegados das ilhas e do reino.
+
+«Não é possivel conceber como se procura tão perigosa e doentia estação
+para desembarcar no Brazil gente transportada da Europa. É negocio que
+demanda uma providencia, pois exige a humanidade, que se não deixem
+assim correr ao matadouro moços pela maior parte de 15 a 25 annos.»
+
+Que providencias se têem tomado? Uma unica, a nosso ver, pouco
+proficua:--a de se publicar na folha official a lista dos subditos
+portuguezes fallecidos no Brazil. Mas perguntamos: Quem é que lê a folha
+official? A resposta é facil. Os empregados publicos, por obrigação, e
+os ricassos, que tendo requerido certas honrarias, assignam o _Diario_,
+que n'um momento os ha de transformar de pygmeus em ridiculos barões!
+
+Se os que podiam remediar o mal, curassem menos de futilidades,
+lembravamos-lhe o seguinte expediente:
+
+Mandar publicar diariamente por conta do governo, em todos os jornaes do
+paiz, um mappa circunstanciado da mortalidade dos subditos portuguezes
+fallecidos no imperio.
+
+Estamos certos que nenhum jornal deixaria de publicar gratuitamente tão
+importante documento, se directamente lhe fosse enviado pelo governo;
+porque é preciso dizer que, a maioria dos jornaes portuguezes guerreia a
+emigração, e se não lança mão d'este grande meio de combate, é porque
+nem todos possuem o _Diario do Governo_, especialmente os das
+provincias.
+
+Para essa minoria de jornalistas, que fazem da imprensa o ariete com que
+costumam remover as suas difficuldades financeiras; para esses que não
+vêem na imprensa um meio de moralisar e ensinar os povos, mas um meio de
+especulação; para esses que substituem por annuncios de namorados, a 20
+réis a linha, as noticias de factos importantissimos: para esses, a paga
+do espaço occupado pelos mappas de que vimos fallando.
+
+A despeza material não é muita, se attendermos á importancia moral da
+receita.
+
+E quando mesmo se pagasse a toda a imprensa este trabalho, que
+importancia tem estas despezas comparadas com as que os governos fazem
+na compra da opinião dos especuladores, que, tão inconscientemente,
+apregoam na tuba da fama, as glorias ficticias de seus patronos?!
+
+O governo inglez não prohibe nem aconselha a emigração; mas offerece
+gratuitamente aos editores os relatorios de exames a que manda proceder
+nos paizes indigitados pelos aliciadores aos filhos da Inglaterra.
+
+Estes relatorios que custam milhares de libras ao governo, e que, por
+terem sido elaborados por homens competentissimos, contam as verdades
+sobre a inconveniencia da emigração para certos e determinados
+territorios, são immediatamente impressos e distribuidos nos grandes
+centros da população ingleza, que assim fica inteirada das artimanhas
+dos aliciadores.
+
+
+IX
+
+Os roceiros do Brazil, a quem faltam os mais comesinhos principios da
+humanidade, desde que no imperio, leis proficuas á humanidade, porém
+ruinosas para a sua prosperidade material, aboliram o commercio da
+escravatura, destacaram ignobeis agentes para a Europa, com o fim de
+encetarem o commercio da _escravatura branca_, se não mais horrivel,
+igual ao de negros que a lei recentemente libertára.
+
+Por seu turno o negociante tambem coadjuva os roceiros: animando a
+emigração, auxilia os engajadores; e se não representa o seu proprio
+papel, os porões de navios de que são proprietarios, vem lembrar o
+ominoso tempo da _escravatura preta_.
+
+Mas lancemos mão do bistori e descarnemos o corpo cangrenoso, para que
+nossos leitores, observando-lhe as pustulas venenosas, affastem de si o
+puz mortifero.
+
+Engajador é peor que negreiro; porque este, nas costas da barbarie, em
+troco de um ente quasi inerte, de fórmas humanas, entregava ao _regulo_,
+seu senhor, qualquer bugiaria. Os parentes, se os tinha, riam-se da
+traficancia com um riso selvagem, collocavam em pedestal o objecto
+offertado, dançavam e cantavam em de redor d'este idolo, emquanto outros
+selvagens acorrentavam seus proprios irmãos. Tudo isto era estupido e ao
+mesmo tempo tragico; da parte do negociador _civilisado_ manifestava-se
+um cynismo que nem a todos os _civilisados_ residentes no Brazil
+causaria asco; o negocio era simples, não levava muito tempo a
+fazer:--dá cá, toma lá--; eis as phrases trocadas entre o _selvagem_
+europeu e o selvagem africano. Não havia lucta de consciencia da parte
+do que vendia, nem tão pouco da parte dos que eram vendidos. O negreiro,
+o que comprava, amoldava os sentimentos, se é que os tinha, conforme as
+occasiões; comtudo, este não era peior que o roceiro a quem eram
+destinados os negros. Mas o engajador, que em nosso tempo veiu
+substituir o negreiro, é mais cynico. Assim como acontecia ao negreiro,
+o engajador leva em mira o mesmo fim--o interesse; mas emquanto que o
+negreiro supportava as fadigas das longas viagens e os rigores de um
+clima pestifero, o engajador, em nossas terras, é recebido nas salas, é
+protegido das influencias monetarias, chama-se-lhe cidadão prestante,
+offertam-se-lhe brindes valiosos, conferem-se-lhe commendas, etc. etc.
+
+O engajador não se afadiga muito. Um dia por semana, se tanto, lhe basta
+para o _seu negocio_. Esse dia que Deus déra para descanso, segundo as
+tradições biblicas, emprega-o elle em seduzir seus irmãos, por occasião
+da missa conventual, junto da ermida do aldeão do norte. É alli, junto
+do altar de Deus, ao pé do symbolo sacrosanto do martyr do Golgotha,
+sentinella silenciosa postada no adro transformado em mercado de gente
+humana, que o engajador encarece as riquezas ephemeras do Brazil, para
+em troca receber maior numero de adhesões. A lucta de consciencia
+estabelece-se então com todos os horrores. É aqui que o engajador se
+torna peior que o negreiro que vende gente a _civilisados_, na persuasão
+de que os negros são bichos; é aqui que o engajador faz ao mesmo tempo o
+papel de ladrão e assassino, porque os contractos de locação de
+serviços, que com os portuguezes estabelece, são extraordinariamente
+lesivos para estes; e do assassino, porque os portuguezes, seduzidos
+para trabalhar no Brazil, irão morrer lá infallivelmente.
+
+«São homens preversos (os engajadores), verdadeiros parasitas, refere o
+consul no Maranhão em seu relatorio de 7 de dezembro de 1874, que se
+entretêem em illudir com os mais gratos sorrisos de uma felicidade que é
+toda ephemera aos seus incautos irmãos, e não trepidam em commetter
+todos os desmandos, uma vez que aufiram o lucro estipulado;
+identificando-se assim com os proprietarios dos navios que hoje fazem
+commercio com a emigração e procuram tambem nutrir-se com a boa fé dos
+infelizes, avidos de serem ricos. Achando echo no remanso das familias o
+embuste, a mentira e os falsos testemunhos d'esses homens que lhe
+asseguram o mais facil e prompto alcance da sua cobiça, tem elles sabido
+prejudicar a fortuna domestica e a do seu proprio paiz.
+
+«De todas as emprezas fundadas não póde haver seguramente nenhuma mais
+vil e ignominiosa do que seja esta, que tem por fim seduzir uma
+innumeravel multidão de portuguezes ignorantes, e por isso facilmente se
+deixam dominar pelas ficticias narrações das abundantes minas de oiro,
+que se encontram por toda a parte, pelas excellencias e fertilidades
+d'este solo!»
+
+O consul do Rio de Janeiro é de opinião que os armadores de navios, para
+conseguirem _lastro_, «dão-se tambem a tão barbara propaganda de
+arrancar á patria e á familia esses infelizes, enganados por vãs
+promessas, os quaes, ignorantes do alto preço dos objectos aqui, se
+deixam fascinar pela grandeza relativa dos salarios porque alli
+contractam seus serviços.»
+
+Em 1856 dizia a mesma auctoridade que «tendo-se construido muitos
+navios, tanto na cidade do Porto, como nos estaleiros ao norte do Douro,
+uma parte d'esses navios fôra destinada ao porto do Rio de Janeiro. Os
+negociantes proprietarios d'esses navios, buscaram todos os meios de
+lhes proporcionar _bons fretes_, e como um dos principaes, talvez o mais
+lucrativo, _é a importancia do que pagam os passageiros_, resolveram
+fiar a maior parte das passagens, para serem pagas no Rio de Janeiro,
+pelo meio ha muito em pratica da locação de serviços.»
+
+O carregamento d'estes navios, foi, em dois mezes, de 22 de setembro a
+23 de novembro do referido anno, de 3:114 colonos!
+
+O commerciante comprava navios. O dinheiro que havia de empregar nas
+emprezas lucrativas e honradas, era destinado a escravisar os seus
+proprios irmãos e compatriotas.
+
+Esses negociantes a quem podemos chamar _negreiros_ de nova especie, bem
+sabem que o braço europeu não pode substituir nos tropicos o africano.
+Mas que lhes importa a elles isso?!
+
+O negociante de escravos brancos não deve atterrar os infelizes, porque
+n'isso vae o seu interesse. Vinte mil portuguezes entrados, pouco mais
+ou menos, em cada anno, nos differentes portos do Brazil, representam a
+valiosissima somma _de mil contos de réis_, só de passagens, que os
+proprietarios de navios e os engajadores dividem entre si!
+
+A somma não é para rejeitar, e os senhores d'engenho, que vêem no futuro
+os seus lucros, garantem a uns e outros aquelle rendimento, por isso que
+o producto do trabalho dos colonos serve, em primeiro logar, para
+pagamento das passagens e _mais despezas_!
+
+Que importa aos traficantes que os pobres colonos subscrevam contractos
+lesivos? Chegam os lucros obtidos nos primeiros tempos de trabalho para
+pagar aos engajadores e aos donos dos navios? Nada mais é preciso!
+
+Que importa os maus tratos inflingidos pelos _senhores_ aos nossos
+compatriotas? que a miseria prostre os que não podem sugeitar-se ao
+trabalho e a esses tratos?
+
+Lá estão as casas de benificencia, instituidas por portuguezes
+benemeritos, que, afinal, estão sempre promptas para receber em seu seio
+os desafortunados, e a reenviar á patria, com o auxilio dos seus
+rendimentos, os que sobrevivam a tanta miseria. E a fallar a verdade
+merece a pena ir ao Brazil, só fiado em taes auxilios: estes
+estabelecimentos não servem para outra cousa, segundo o modo de ver dos
+optimistas!
+
+E com quanto contribuem os _negreiros_ para esses estabelecimentos
+(elles contribuem porque é preciso aparentar caridade!)? Com algumas
+cedulas de mil réis: uma migalha dos juros do dinheiro extorquido aos
+incredulos das miserias no Brazil!
+
+
+X
+
+Tratámos dos lucros materiaes do traficante da escravatura branca, e
+agora apresentaremos a leves traços os lucros moraes que elles auferem
+do seu commercio.
+
+Um traficante de carne humana, em nossos tempos, tem mais influencia de
+que um principe, nas epocas passadas do chamado obscurantismo. E na
+verdade se de obscurantismo chamavam ás epocas em que se vendiam os
+negros, que chamarão á epoca presente em que livremente se exerce o
+trafico infame da venda de nossos compatriotas?...
+
+E não se diga que não; isto é, que o traficante não dispõe de influencia
+junto dos nossos governantes para que a empresa da escravatura branca
+produza os effeitos ambicionados.
+
+A proposito da emigração publicámos ha tempos uma serie de cartas no
+_Jornal da Noite_,[41] em que alem de outras proposições avançamos a
+seguinte:
+
+.........................................................................
+
+«Affiançou-se-me mais: affiançaram-me que das repartições superiores,
+d'onde dizem que todos os dias baixam _providencias_ contra a emigração
+clandestina, se ordenára á policia que evitasse, quanto podesse, ir a
+bordo na occasião da sahida dos paquetes para o Brazil!»
+
+Depois d'isto escripto foram-nos mostrados os documentos que provam a
+asserção: as taes influencias é que obrigaram os altos poderes do estado
+a obstar que as leis fossem cumpridas!...
+
+A portaria circular de 10 de agosto de 1870,[42] passada a favor de José
+Maria Gavião Peixoto, colonisador no imperio do Brazil, faz crer que
+interesses menos licitos lhe deram origem, porque Gavião Peixoto, tendo
+abusado da credulidade de alguns trabalhadores do Alemtejo, com os quaes
+contractára serviços para serem prestados no Brazil a razão de 150 réis,
+foram-lhe relevadas as faltas commettidas no alliciamento da pobre
+gente!
+
+Um negociante de carne humana no Brazil telegrapha para o negociante de
+carne humana em Portugal, e previne-o que é de absoluta necessidade,
+para que haja bom exito na empresa de escravisar nossos irmãos, que o
+consul Sicrano ou Beltrano seja removido d'este ou d'aquelle ponto, pelo
+facto de repugnar á sua consciencia de homem de bem o horroroso trafico
+dos seus desventurados e illudidos compatriotas!
+
+Se o traficante não consegue a remoção pedida, consegue que os serviços
+do empregado digno sejam esquecidos, se não desconsiderados.
+
+Ha exemplo de remoções; ha desprezo dos poderes publicos aos serviços
+prestados a Portugal por empregados dignos; ha finalmente, recompensas
+dadas a quem devia ser castigado como indigno!
+
+Exemplos:
+
+Portugal fôra nobremente representado por um portuguez illustre e
+honrado, em Manáus, na provincia do Amazonas. O presidente respectivo
+despresava sempre as reclamações do vice-consul; desconsiderava
+Portugal, por palavras e acções, chegando os seus excessos até ao ponto
+de mandar espadeirar alguns portuguezes alli residentes; e por que o
+empregado digno protestasse contra as offensas praticadas a Portugal e
+seus filhos, teve em paga a demissão! Nomeou-se outro vice-consul, a
+contento do insultador! Mais tarde esse novo empregado attesta uns
+serviços ficticios prestados a Portugal, pelo tal presidente, falsidades
+reconhecidas hoje, e os poderes do estado dão-lhe um titulo
+nobliarchico, em paga dos insultos e das espadeiradas! Viemos á imprensa
+protestar contra o escandalo; quezemos isentar o governo, julgando-o
+illudido pelo vice-consul; mostramos-lhe a falsidade dos documentos
+passados por este empregado, aos quaes o governo se escudára para dar ao
+indigno magistrado brazileiro immerecida honraria; levamos as nossas
+queixas ao parlamento;[43] mas nada se fez em favor da moralidade
+offendida!
+
+A nós que presamos a honra d'esta nação, chamaram-nos impertinente; aos
+portuguezes que prottestaram comnosco, mandou-se-lhes naturalmente dizer
+que mandassem para cá mais algum dinheiro, producto das subscrições alli
+permanentemente abertas, já para os monumentos, já para os asylos, já
+para os inundados, já para o armamento geral do paiz, por que os
+portuguezes residentes no Brazil são verdadeiros patriotas; mas em
+_compensação_ conservou-se no logar de representante de Portugal aquelle
+que não fizera mais do que espesinhar-lhe as suas passadas glorias!
+
+É que o homem tinha cá das taes influencias, e nós chegámos a uma época,
+que se diz de progresso, em que valem mais as influencias deshonrosas do
+que a dignidade da nação e aquelles que por ella pugnam!
+
+ [41] Veja-se a nota n.º 5.
+
+ [42] Veja-se a nota n.º 6.
+
+ [43] Tudo historico. Veja-se--_Commendador Barão_.
+
+
+XI
+
+Os traficantes tambem ameaçam os empregados dignos, que lá no imperio
+guerream a emigração.
+
+Aqui está um documento curioso que prova isso mesmo. Omitimos os nomes
+dos presonagens principaes, para que não soffra alguma tyrannia o seu
+honrado auctor. Estamos em tempo de liberdade de consciencia... mas toda
+a cautella é pouca!
+
+É este o documento:
+
+«Não obstante constar do referido relatorio, para o qual tomo a
+liberdade de chamar a attenção de v. ex.ª, todos os factos que deram
+logar ao delicto, communicava um consul de Portugal residente no Brazil,
+a proposito das veniagas d'uma influencia de lá; ainda assim julgo do
+meu dever revestil-os das considerações que se lhe adherem e pelos quaes
+verá v. ex.ª quão arduo e espinhoso, se torna aqui o exercicio de
+funcções consulares, quando se quer ser um verdadeiro interprete da
+lei.»
+
+E começando por apontar os taes figurões, que tornavam arduo e espinhoso
+o cargo de consul no Brazil, continua:
+
+.........................................................................
+
+«Não é esta a primeira vez que este meu gratuito, inimigo procura
+maguar-me indirectamente. Apesar da sua impotencia e da nenhuma
+sympathia que gosa na classe a que pertence tem tentado, colligado a
+mais tres ou quatro desafectos que aqui tenho, alienar o bom conceito
+que felizmente goso, e com prazer declaro a v. ex.ª, que a semelhante
+respeito nunca me senti tãobem, pois as suas invectivas, não merecendo a
+consideração de pessoas sensatas, passam como se não existissem, e
+elles, em vista d'isso, lemitam-se a dizer, como supremo desforço, _que
+iam pedir a minha demissão, que para isso tem muita influencia n'essa
+côrte, etc._
+
+«Já que fallei em desafectos seja-me licito dizer algumas palavras que
+se me offerecem se v. ex.ª m'o permittir.»
+
+.........................................................................
+
+«Começarei pelo mais poderoso ............ Este homem, portuguez,
+naturalisou-se brazileiro ............... negociante antigo e rico
+d'esta cidade, foi um dos que mais me obsequiou logo que aqui cheguei, e
+por alguns annos.
+
+«Constituiu-se meu inimigo, por que tendo um sobrinho, rico fazendeiro a
+quem se metteu em cabeça estabelecer uma colonia de nova especie, por se
+lhe ter malogrado a outra ha alguns annos, começou de mandar vir d'esse
+reino pobres e desprotigidas creanças de dez a quinze annos de edade
+para a colonia, as quaes de certo estariam hoje todas na eternidade se
+não fosse a opposição inergica que fiz aos seus deshumanos instinctos,
+arrancando-lh'as e empregando-as no commercio,» etc.
+
+O traficante ameaçava. Elle lá tinha as suas razões; assim como o consul
+tambem lá tinha as suas para prevenir o ministro; mas da doutrina da
+prevenção deprehende-se facilmente que o empregado zelloso temia que os
+desforços dos seus inimigos fossem attendidos. E se não fosse esse
+temor, para que era baixar a tantas minuciosidades?
+
+Podiamos sobre este mesmo ponto dizer mais alguma cousa, mas tememos
+affectar interesses de terceiros.
+
+Ponhamos, pois, ponto aqui, affirmando de novo a extraordinaria
+influencia dos traficantes da chamada escravatura branca, perante as
+auctoridades superiores do paiz.
+
+
+XII
+
+A lei portugueza de 20 de julho de 1855, tende a proteger por alguma
+fórma os nossos desafortunados compatriotas que, no engodo de melhor
+sorte, deixam a patria em troca de um paiz onde vão soffrer as mais
+horrorosas privações.
+
+Effectivamente, ha alli medidas, que, até certo periodo de tempo, deviam
+fazer conter em respeito os engajadores, se não fôra a protecção que as
+auctoridades brazileiras em todo o tempo lhes dispensou.
+
+Os contractos de locação de serviços entre os engajadores e os colonos
+deviam ser feitos perante as auctoridades do nosso paiz. Além d'outras
+providencias secundarias, estabelecia-se a medida rigorosa de auctorisar
+os consules a fiscalisar os navios chegados a qualquer porto do Brazil,
+a fim de evitar o desembarque de qualquer colono portuguez, que não
+tivesse attendido áquella providencia do governo.
+
+Os capitães dos navios portuguezes são obrigados a apresentar perante as
+auctoridades uma relação dos colonos que conduzam a bordo, sob pena de
+infracção, e pagamento de multas exorbitantes.
+
+Porém esta lei repressiva, não evitando a emigração, deu aso a abusos
+inauditos. É de 1857 que os seus effeitos começam a sentir-se.
+
+Até alli alguem confundia o carregamento de colonos portuguezes com os
+que outr'ora se faziam dos colonos africanos. A lei de que vimos
+fallando, que o governo brazileiro _não quiz reconhecer_, veio
+estabelecer, em toda a sua plenitude, o commercio clandestino da
+escravatura branca.
+
+Os dados estatisticos, fornecidos pelos consules residentes no imperio,
+sobre o numero dos emigrantes portuguezes desembarcados nas costas do
+Brazil, falham muito desde a publicação da lei de 1855 em diante.
+
+Comtudo a corrente da emigração continuava por uma fórma assustadora.
+
+Alguns commandantes de navios sujeitavam-se a pagar as multas, e esses
+eram em pequeno numero; outros valiam-se de suas influencias para
+faltarem aos compromissos marcados por lei.
+
+Houve armadores de navios portuguezes que substituiam a nossa bandeira
+pela brazileira, para evitar a fiscalisação das nossas auctoridades
+consulares!
+
+Os colonos eram mettidos no porão dos navios como escravos; das praias
+do litoral eram conduzidos para as roças dos _senhores de engenho_:
+d'estes infelizes nem todos os consules davam noticia, porque a sua
+acção não podia chegar até lá!
+
+Vamos demonstrar que não elaboramos em erro:
+
+Em 29 de dezembro de 1856, foram presentes ao consul do Rio de Janeiro,
+pelo capitão do vapor _D. Pedro_, as cópias das relações de 297
+passageiros; mas não apresentava os passaportes, porque a visita da
+policia do porto lh'os tomára, segundo as ordens do governo imperial!
+
+Em 2 de março de 1857, dizia o referido consul ao ministro do reino,
+«que nos navios brazileiros havia mais ou menos irregularidades, porque
+os capitães contavam com a impunidade, visto que os consules não tinham
+a menor ingerencia n'estas embarcações.»
+
+Em principios do anno referido sahiram do Rio os seguintes navios
+brazileiros:--_Palmyra_, _Rufina_, _Indiana_, _Açoriana_ e _Helena_, com
+destino ás ilhas dos Açores e Madeira, para d'este ponto transportarem
+colonos para o Brazil.
+
+O consul, prevenia por esta occasião o governo de S. M., a fim de que se
+déssem as ordens necessarias para serem obrigados os capitães a executar
+as determinações da lei de 20 do julho de 1855, em terras de Portugal,
+«visto que os consules pouca ingerencia tem a bordo dos navios
+portuguezes, depois de entrados nos portos do imperio, e _absolutamente
+nenhuma_ a bordo dos navios brazileiros.»
+
+Mais tarde, em dezembro do referido anno, accrescentava sobre o mesmo
+assumpto:
+
+«Já tenho ponderado a v. ex.ª por vezes que esperando-se que os
+passageiros das ilhas que tiverem de embarcar venham agora em navios
+brazileiros, será sempre difficil que nos portos do Brazil os consules
+de S. M. possam bem fiscalisar o que diz respeito á exactidão do numero
+que conduziram, e bem assim sobre a realisação dos contractos, conforme
+as ordens do governo de S. M., e isto porque os consules estrangeiros
+não pódem exercer jurisdicção a seu bordo, por ser isso contrario ás
+leis do paiz e regulamentos em vigor (do imperio).»
+
+O sr. José Henriques Ferreira, consul em Pernambuco, assim se expressava
+em seu officio de 6 de junho de 1857, com respeito a colonos
+transportados para o interior sem sua sciencia:
+
+«A maior parte dos colonos que abordam a esta provincia procede da
+cidade do Porto e ilhas açorianas. Os capitães dos navios, chegados
+aqui, embarcam geralmente os colonos, mesmo de bordo, para os engenhos
+do interior, sem lhes permittirem que pisem em terra.
+
+«Uma das primeiras cousas pois que cumpre prevenir são os _engajamentos_
+feitos em Portugal para o interior do Brazil, porque alli não ha para os
+colonos garantia possivel, ainda que o governo do paiz tenha os melhores
+desejos. Collocados os engenhos a grandes distancias, e em terras pouco
+povoadas, não chega alli a acção do governo. As auctoridades locaes
+estão concentradas, ou n'um individuo ou n'uma familia, que de tudo
+dispõem a bel-prazer, sem que o governo tenha meios de poder obstar á
+sua vontade e prepotencia, porque todas as avenidas estão occupadas pela
+sua clientella, e assim põem e dispõem da fazenda e vida de suas
+victimas, sem receio. Obstar portanto a que semelhantes contractos se
+celebrem em Portugal é, como tenho a honra de dizer a v. ex.ª, uma das
+primeiras medidas a tomar.»
+
+O brigue _Trovador_, sahido do Porto, com destino a Pernambuco, além de
+conduzir maior numero de passageiros do que os manifestados, foram
+egualmente conduzidos de bordo para os engenhos, sem que a tão grande
+irregularidade podesse obstar o consul.
+
+O bergantim portuguez _Alegre_ entrado em dezembro de 1857 no porto do
+rio de Janeiro, conduzia tambem colonos a mais do que os manifestados.
+
+Em março d'aquelle anno, entrava no porto do Rio do Janeiro, procedente
+de Vianna do Castello, o patacho _Constante_, com um carregamento de 233
+colonos. D'este numero só 46 levavam passaporte!
+
+Dos navios brazileiros, a que já nos referimos, chamados _Palmyra_,
+_Rufina_, _Indiana_, _Açoriana_ e _Helena_, sahidos da bahia do Rio de
+Janeiro, em 1857, com o fim de conduzirem colonos das nossas ilhas para
+o imperio, só consta officialmente ter regressado um--o _Helena_--: e,
+ainda assim, pela impossibilidade que havia em esconder os colonos a
+bordo de qualquer navio fundeado no porto, onde grassava com intensidade
+a febre amarella.
+
+Este navio conduzia 94 passageiros; mas o capitão só mencionára na
+relação fornecida ao consulado, 33 individuos com passaporte. Os outros
+colonos tinham sido apanhados a gancho!
+
+Eis como a respeito dos engajamentos clandestinos se expressa o nosso
+consul residente em Pernambuco, em 21 de janeiro de 1858:
+
+«Tenho a honra de remetter a v. ex.ª o auto de investigação, a que
+procedi n'este consulado contra o capitão do brigue _Trovador_, Antonio
+Theodoro da Silva, aqui chegado em 28 de novembro com uma carregação de
+passageiros engajados. Por esta occasião cumpre-me dizer a v. ex.ª, que
+o mesmo capitão já em sua penultima viagem não satisfez as obrigações
+que lhe são impostas, porque desembarcou seus passageiros de bordo para
+os engenhos sem que os apresentasse n'este consulado. Que da mesma
+investigação e mais documentos que a acompanham se vê a irregularidade
+dos passaportes, maxime os passados no governo civil do Porto e
+illegalidade dos contractos. Que o escrivão Megre Restier, reconheceu
+signaes e assignaturas de contractos feitos contra as disposições da lei
+de 20 de julho de 1855. Que o navio conduziu maior numero de passageiros
+do que comportava a sua tonelagem. Que a relação dos passageiros dada
+pelo capitão á sua chegada a este porto, não confere com a que foi
+remettida a este consulado pela intendencia da marinha do porto. Que o
+capitão tendo conduzido 95 passageiros, apenas apresentou n'este
+consulado 81, e que além do mau passadio exerceu sobre elles violencias,
+e os trazia pessimamente accommodados, em razão do grande numero e do
+grande carregamento de varias mercadorias.»
+
+A galera brazileira _Josephina_, entrada no porto do Rio de Janeiro, em
+dezembro do mesmo anno, conduzira das ilhas 130 passageiros sem
+passaporte; e se nos fiarmos no que dizem os jornaes d'esse tempo, o seu
+numero seria elevado a 500!
+
+O patacho portuguez _Sousa & Companhia_, fundeou no porto do Rio de
+Janeiro, em 6 de novembro do mesmo anno, com 259 colonos procedentes da
+ilha de S. Miguel. De tão excessivo numero só 73 apresentaram
+passaporte!
+
+Em 24 de fevereiro de 1859, communicava o encarregado dos negocios
+consulares no Rio, ao representante do governo portuguez:
+
+«Apresso-me em fazer sciente a v. ex.ª de que tendo o governo civil do
+Porto officiado a este consulado geral, em data do 10 de janeiro do
+corrente anno, que por denuncia alli recebida, participava que nas
+barcas portuguezas _Duarte 4.º_ e _Monteiro 2.º_, vinham alguns colonos
+que se declaravam passageiros livres, talvez insinuados pelos caixas e
+capitães de navios, para não serem compellidos a prestarem a fiança
+exigida pela carta de lei de 20 de julho de 1855, pedindo por
+consequencia toda a fiscalisação na chegada d'estas embarcações,
+procedendo ao respectivo auto, caso fosse verdade, para lhe ser enviado
+e os culpados á acção da justiça.
+
+«Em consequencia do que, e para melhor poder averiguar este facto, afim
+de dar o devido cumprimento á communicação que aquelle governo fez,
+officiei logo ao chefe de policia, pedindo-lhe de dar as suas ordens aos
+encarregados das visitas do porto, para que no acto da entrada
+intimassem aos capitães d'aquellas duas embarcações, que não
+desembarcassem os passageiros sem que eu me apresentasse a seu bordo.
+
+«Emquanto ao _Duarte 4.º_, este navio entrou a barra quando ainda os
+referidos encarregados das visitas não haviam recebido do chefe de
+policia as ordens a respeito, e por consequencia os passageiros
+desembarcaram a seu salvo, e não foi possivel poder entrar nas precisas
+indagações.
+
+«Emquanto porém ao _Monteiro 2.º_, apresentei-me hontem a seu bordo e de
+110 passageiros que esta barca conduziu 36 são colonos, e segundo o
+interrogatorio a que procedi, estes declararam que haviam sido
+clandestinamente engajados, como v. ex.ª verá do auto de inquerito que
+junto tenho a honra de enviar-lhe.
+
+«Á vista d'este depoimento intimei o capitão que nenhum d'estes colonos
+desembarcasse até segunda ordem. Estes colonos foram arranjados no Porto
+para o barão de Friburgo, e comquanto contra este barão nenhuma queixa
+aqui ainda apparecesse de mau trato que porventura elle tenha dado aos
+que tem ao seu serviço, todavia são obrigados a servirem nas suas
+fazendas por tres annos! É muito tempo por insignificantes
+vantagens--30$000 réis no primeiro anno! Devo dizer a v. ex.ª que poucos
+são os navios que deixam de trazer colonos para o barão de Friburgo, tal
+qual estes vem, mas estava-me reservado o entrar n'estas investigações
+para merecer talvez as iras do mesmo barão, que todavia saberei
+desprezar, quando tenha a consciencia de ter cumprido com o meu dever.»
+
+Pouco tempo depois, communicava ainda o mesmo consul, que o brigue
+portuguez _Esperança_, de que era capitão José Pereira Rezende,
+manifestára apenas 49 passageiros, quando a bordo conduzira 283 colonos!
+
+O patacho _Panoma_, capitão Manuel Pereira Dias, manifestára 68 em logar
+de 372!
+
+«D'estas duas embarcações, humanamente fallando, diz o consul, os
+interessados n'esta especulação assás lucrativa, excederam dos limites.»
+
+E accrescentava:
+
+«A bordo d'estes navios, além da inpossibilidade do arrolamento dos
+passageiros, é difficil fazer-se um registro exacto d'elles, isto é,
+nomes, naturalidades, filiação, idade, freguezias, etc.; por que
+juntam-se logo os visitadores e engajadores, que agglomerados no navio
+difficultam um rigoroso registo, o qual só na chancellaria d'este
+consulado é possivel fazer-se, como effectivamente se faz, _d'aquelles
+passageiros que não são desviados_ de n'elle se apresentarem.»
+
+Com os navios do Porto militam iguaes circumstancias e acontece o mesmo
+que com os das ilhas, porque todos trazem mais ou menos passageiros sem
+passaporte e alguns clandestinamente engajados, como succedeu com a
+barca _Monteiro 2.º_» etc.
+
+«D'estes engajamentos clandestinos feitos no Porto, os capitães muitas
+vezes ignoram, porque dizem elles, os donos dos navios mettem-lhe a
+bordo os engajados como passageiros que pagaram lá ou veem pagar cá as
+suas passagens, combinando com o engajador para escrever com
+antecedencia á pessoa que n'esta côrte deve recebel-os, a fim de que,
+logo que chegar o navio se apresente a bordo, _obtendo para isso
+previamente licença da alfandega para o prompto desembarque_ dos
+referidos colonos, como effectivamente acontece.»!
+
+Se as clausulas expressas na lei de 20 de julho de 1855, não foram desde
+logo despresadas, é certo que a fiscalisação rigorosa que ella mandava
+exercer, veio dar grande curso á emigração clandestina.
+
+Acontecera o mesmo com relação ao trafico da escravatura. A lei que
+prohibira tal commercio, fôra por muitos annos despresada; e se a
+rigorosa fiscalisação por parte do governo imperial, veio por fim a
+banir completamente o horroroso trafico, não confiamos na boa vontade
+d'esse governo com relação á repressão da emigração clandestina; porque
+o empenho dos homens de estado do Brazil era banir de seus codigos o
+trafico da escravatura, para demonstrar ás outras nações uma virilidade
+ficticia, e apoiar clandestinamente outro commercio mais horroroso--o da
+_escravatura branca_--; na persuasão de que sendo este exercido em toda
+a sua plenitude, viria a preencher a lacuna aberta pela abolição do
+commercio da--_escravatura preta_.
+
+Dissemos que a lei de 20 de julho de 1855, viera, por um lado, proteger
+os emigrados portuguezes; porque, além de outras providencias salutares,
+estabelecia a clausula de não serem válidos os contractos de locação de
+serviços, que não fossem feitos perante as nossas auctoridades.
+Demonstrámos tambem, que essa lei viera dar maior curso á emigração
+clandestina, porque aos engajadores ou roceiros do Brazil não convinha
+que os colonos tivessem como protectores os agentes do nosso governo,
+que são, para assim dizermos, os procuradores de tão infeliz gente. E
+que o governo imperial protegia os engajadores e os roceiros, que,
+mancommunados com os capitães e proprietarios de navios, pretendiam
+illudir a vigilancia dos consules, ao fazerem o desembarque dos colonos.
+
+As providencias pedidas pelo governo ás auctoridades administrativas do
+continente e ilhas, exaradas na portaria de 27 de julho de 1857, com o
+fim de evitar a emigração clandestina, não podiam sortir o effeito
+desejado, especialmente nas ilhas, como se póde vêr pelo seguinte
+documento:
+
+«Representando o governador civil do districto da Horta, segundo me foi
+communicado pelo ministerio do reino, que, apesar das providencias
+adoptadas pelas auctoridades administrativas do archipelago dos Açores,
+e de se haver dado conhecimento ao poder judicial, sempre que ha motivo,
+de alguma infracção da lei de 20 de julho de 1855, ou dos regulamentos
+de policia em vigor, assim mesmo é frequente ali a emigração clandestina
+para o Brazil, não só por causa da tendencia dos habitantes para a dita
+emigração, mas tambem por ser impossivel guardar o immenso litoral de
+todas as ilhas para obstar á fuga, recommendo a vossa mercê que, dando
+cumprimento ás diversas circulares que sobre este assumpto teem sido
+dirigidas a esse consulado, haja de empregar a mais assidua vigilancia á
+chegada dos navios com colonos aos portos do districto consular a seu
+cargo, averiguando os que vão sem passaporte, o modo porque se evadiram,
+quem lhes deu coadjuvação para a fuga ou quem os seduziu, tomando nota
+dos seus nomes, naturalidades, residencia, filiação e empregados, e bem
+assim instaurar o competente inquerito e processo consular, que deverá
+ser logo remettido ao governo civil a cujo districto pertencer o porto
+de procedencia do navio, dando finalmente parte a esta secretaria
+d'estado de tudo que houver praticado a similhante respeito.»
+
+
+XIII
+
+Os proprios commandantes de navios portuguezes, fiados na protecção do
+governo brazileiro, reagiam contra as nossas leis e os agentes da
+auctoridade que se esforçavam para fazel-as cumprir.
+
+O documento que vamos transcrever, mostra até que ponto chegára o abuso
+da emigração clandestina.
+
+Tem a data de 8 de novembro de 1859, e é firmado pelo conde de Thomar,
+nosso ministro, então residente na côrte do Rio de Janeiro:
+
+«Acabo de chegar de bordo da barca _Nova Lima_, acompanhado do consul
+geral e de um empregado do consulado. Para grande mal grande remedio.
+Assumi uma grave responsabilidade: sujeito-me ás suas consequencias se o
+meu procedimento não merecer a approvação de sua magestade.
+
+«Depois de interrogar um grande numero dos subditos de sua magestade a
+bordo do dito navio, sem passaporte, embarcados clandestinamente em
+differentes pontos da costa, e principalmente para o lado da villa do
+nordeste da ilha de S. Miguel, convenci-me da culpabilidade do capitão e
+do dono do navio, e julguei que não devendo lucupletar-se com prejuizo
+de terceiro, e contra as determinações expressas da lei, ordenei que o
+consul intimasse á minha ordem, como representante de sua magestade,
+para não deixar desembarcar de bordo do seu navio, portuguez algum que
+não estivesse munido do passaporte, e em nome de El-Rei declarei a todos
+que haviam sido seduzidos, que estavam livres, e que nada deviam ao
+capitão.
+
+«Não faz v. ex.ª ideia da satisfação que mostraram os risonhos
+semblantes d'estes infelizes, até ali abatidos e tristes.
+
+«Para não deixar esta pobre gente em desgraça, passei á secretaria da
+marinha e requisitei um navio de guerra desarmado para os accommodar
+emquanto não tomar o serviço que mais lhes agradar, debaixo da tutela do
+consul geral.
+
+«Ha de fazer-se alguma despeza com o sustento de estes infelizes,
+durante alguns dias, mas creio que se adoptou a unica medida, que será
+efficaz para reprimir este trafico de escravatura branca.
+
+«Nenhum capitão, de futuro, ha de embarcar a bordo do seu navio colonos
+sem passaporte, porque não ha de querer correr o risco da perda da
+importancia da passagem e comedorias. Livramo-nos sobre tudo do nojento
+espectaculo de ver os que foram nossos colonos a comprar temporariamente
+os subditos de sua magestade em leilão, no navio, como se tem feito.
+
+«Espero as resoluções de sua magestade sobre este importantissimo
+assumpto. Não dará este acontecimento logar a pensar se será conveniente
+ter n'este paiz um navio de guerra nacional? Se aqui existisse um tal
+navio teria dado logo á minha disposição meios de obrar com energia
+contra os que tão escandalosamente transgridem as leis do paiz e as
+beneficas e humanitarias ordens do governo de sua magestade, para
+reprimir tão infame trafico, etc.
+
+«Lancei em rosto ao capitão e mais empregados da barca a hediondez do
+seu procedimento; em resposta só me disseram, que elles eram punidos
+pelo que a outros tinha sido tolerado, tirando d'ahi grandes lucros.
+
+«No embarque de tanta gente houve seguramente ou connivencia, ou pelo
+menos grande omissão das auctoridades administrativas de S. Miguel. É
+minha opinião que o governo deve dar um grande exemplo; sem elle é muito
+de receiar que continue o trafico para outras provincias, porque eu não
+posso estar em toda a parte, e os consules por certo não terão força,
+nem quererão assumir uma grande responsabilidade.»
+
+O que effectivamente acontecia, e o que não podia deixar de acontecer
+mesmo com relação ao porto do Rio de Janeiro, onde a nobre energia do
+illustre diplomata seria improficua, desde que os navios não fossem
+portuguezes, o que elle proprio confessa ao governo de sua magestade,
+alguns dias depois, no seguinte trecho de um documento que temos á
+vista:
+
+«Se os actos de energia se repetirem, como pretendo repetir com outros
+navios que se esperam dos nossos mares insulanos, eu tenho algum receio
+de que não só se venham a suscitar algumas reclamações por parte do
+governo do Brazil, como de que a navegação que ora é feita das ilhas dos
+Açores para o Brazil em navios portuguezes, venha a ser feita em navios
+d'outras nações, contra os commandantes dos quaes toda a minha energia e
+boa vontade para fazer executar a lei portugueza será inefficaz.»
+
+É preciso que se diga, para honra do nobre representante de sua
+magestade, que a importancia das passagens dos colonos transportados na
+barca _Nova Lima_, fôra garantida ao dono do navio, como se vê em seu
+officio dirigido pouco depois ao nosso governo.
+
+
+XIV
+
+O governo brazileiro, atemorisado, ao que parece, com o acto de energia
+praticado pelo nosso representante na côrte do Rio de Janeiro, tentou
+dar todas as satisfações; mas não fez mais do que illudir-nos ainda uma
+vez.
+
+Assim é que devendo dar um exemplo de moralidade, contra a emigração
+clandestina, condemnando o commandante ou proprietario da barca _Nova
+Lima_, seguindo as disposições do regulamento brazileiro, de 1 de maio
+de 1858, que no seu artigo 7.º estipula que «o capitão ou mestre que
+trouxer até 20 passageiros mais do que determinam os artigos 1.º, 3.º e
+4.º, soffrerá por cada um a multa igual ao importe da passagem, se
+transportar mais de 20, a multa será do dobro do importe da mesma
+passagem», devendo por consequencia o capitão da _Nova Lima_ pagar
+56:858$ réis, moeda brazileira, só pagou 7:478$000 réis!
+
+Mas não ficou ainda aqui a questão. Deu-se pouco depois um grave
+conflicto diplomatico, entre o nosso ministro e o governo brazileiro,
+por causa do acto energico que já mencionámos.
+
+«Este meu procedimento, dizia pouco depois o conde de Thomar, com
+relação aos colonos da _Nova Lima_, tão altamente elogiado pelos nossos
+compatriotas, e que já mereceu a plena approvação de sua magestade, não
+podia agradar, nem ao governo imperial, nem aos brazileiros interessados
+na importação dos colonos.»
+
+Era, portanto, necessario, custasse o que custasse, evitar que as nossas
+auctoridades residentes no imperio, communicassem com os navios,
+immediatamente á sua chegada a qualquer porto brazileiro.
+
+D'isso se encarregou o governo imperial, como vamos demonstrar, com o
+fim de provar ainda mais uma vez, que as auctoridades brazileiras,
+auxiliam escandalosamente o horroroso trafico da escravatura branca:
+
+«Cumpre-me chamar a mais séria attenção de v. ex.ª sobre o objecto das
+notas juntas, communicava o conde de Thomar ao governo, que mostram a
+discussão que fui obrigado a sustentar, e ainda continuo sobre um
+objecto da maior gravidade, pelas consequencias que no futuro póde ter.
+
+«Permitta-me v. ex.ª chamar á sua memoria tudo o que se passou a
+respeito da barca _Nova Lima_. Como v. ex.ª verá das referidas notas,
+foi mister, para conhecer bem o pensamento do governo imperial, levantar
+uma questão de direito internacional e sobre elle exigir cathegoricas
+explicações.
+
+«Pódem afinal julgar-se satisfactorias quanto ao representante de S. M.,
+mas uma certa reserva quanto aos consules, e a limitação quanto aos
+commandantes dos navios de guerra de Portugal induziram-me a augmentar
+as minhas suspeitas. _A pretenção que teve o governo em querer fazer
+applicar aos navios carregados com colonos os regulamentos da alfandega,
+para assim impedir a entrada dos consules, antes das visitas de saude e
+policia, e da alfandega_, tende a dar logar que, na fórma do § 2.º do
+artigo 145.º, do regulamento de 22 de junho de 1836, transcripto na
+minha nota de 31 de janeiro, os colonos portuguezes possam desembarcar
+depois da visita de saude, _sem que os consules portuguezes possam
+constatar o numero de passageiros e a legalidade do passaporte e titulo
+que os auctorisou a sahir de Portugal, e ao mesmo tempo a legalidade ou
+illegalidade do procedimento dos capitães dos navios portuguezes_.»
+
+Dera aso ás reclamações do conde de Thomar e ás quaes se refere no
+documento que deixamos transcripto, as seguintes informações do
+ministerio da fazenda do imperio:
+
+«Ao ministerio dos negocios estrangeiros, declarando á vista do parecer
+da directoria geral das rendas, que _não é permittido ao ministro de S.
+M. F., nem aos consules portuguezes, ou aos commandantes de navios da
+marinha de guerra de Portugal_, não estando embarcados em escaler da
+marinha de guerra do imperio, _o ingresso sem licença_ da alfandega nos
+navios do commercio portuguez, surtos nos portos do Brazil, _mesmo
+quando o julgarem urgente e necessario para fiscalisar as leis do seu
+paiz ou ordens do seu governo_ (sic); mas a licença será sempre
+facilitada a esses funccionarios da nação portugueza independente de
+minuciosas formalidades, e logo que aquelle ministro o exija por si, por
+qualquer terceiro ou empregado verbalmente, ou por escripto, ao
+inspector da alfandega ou quem suas vezes fizer; ficando assim
+respondido o aviso do mencionado ministerio, de 28 de novembro ultimo.»
+
+Uma das notas a que o nosso ministro se refere, e que passamos a
+transcrever, illucidará mais a questão, do que as palavras que por
+ventura escrevessemos.
+
+É esta a nota:
+
+«O abaixo assignado, enviado extraordinario e ministro plenipotenciario
+de sua magestade fidelissima, dirigiu a s. ex.ª o sr. João Lino Vieira
+Cansansão de Sinimbú, ministro dos negocios estrangeiros de sua
+magestade o imperador, a sua nota de 25 de novembro ultimo, rogando ser
+informado pelo governo imperial dos casos em que a elle ministro, aos
+consules de Portugal e commandantes de navios de guerra da sua nação,
+não embarcados em escaler da marinha imperial, era vedado o ingresso nos
+navios do commercio portuguez, surtos nos portos do Brazil, quando assim
+o julgassem urgente e necessario para fiscalisar a execução das leis do
+seu paiz e as ordens do seu governo.
+
+«Não respondeu, nem mesmo accusou até hoje a recepção da mencionada nota
+s. ex.ª o sr. ministro dos negocios estrangeiros, mas assegurou em
+conferencia verbal ter dado conhecimento do conteúdo da dita nota ao
+ministro da fazenda, para ser habilitado a responder, o que faria logo
+que taes esclarecimentos lhe fossem presentes.
+
+«Em taes circumstancias não pôde deixar de causar grande surpreza ao
+abaixo assignado vêr devolvido pelo ministerio da fazenda, com a data de
+27 do dezembro ultimo, o objecto da supracitada sua nota, sendo uma tal
+resolução publicada no _Jornal de Commercio_, parte official do
+ministerio da fazenda de 13 do corrente, sem que na conformidade dos
+estylos, usos e conveniencias diplomaticas, e sobretudo em virtude das
+intimas relações de amisade que existem entre os dois governos, e das
+que tão cordealmente teem sido mantidas entre o abaixo assignado e s.
+ex.ª o sr. Sinimbú, se désse á legação de sua magestade fidelissima a
+menor noticia de tal resolução. Quer o abaixo assignado lisongear-se de
+que nos extractos publicados pelo _Jornal do Commercio_ haja algum
+equivoco ou omissão, porque não póde acreditar-se que as pretenções do
+governo imperial subam ao ponto de querer que o direito internacional e
+das gentes, a que se soccorrem os representantes do Brazil na Europa
+para sustentar as suas reclamações, tenha de receber modificações ou
+alterações quando se trata da sua applicação no imperio do Brazil. É
+tanto mais fundamentada esta esperança do abaixo assignado, quanto nota
+uma grande differença entre a acto official, que respeita ao ministro de
+sua magestade fidellissima, os consules de Portugal e commandantes de
+navios de guerra da mesma nação, e o que respeita aos ministros de
+outras nações alliadas.
+
+«Para obter pois a certeza a tal respeito, roga o abaixo assignado a s.
+ex.ª o sr. ministro dos negocios estrangeiros, que tenha a bondade de
+responder em termos cathegoricos á sua nota de 25 de novembro ultimo, e
+bem assim que se digne mandar o texto da lei, decreto, aviso, de
+qualquer acto emfim, em virtude do qual nem o ministro de sua magestade
+fidelissima, nem os consules de Portugal e os commandantes dos navios de
+guerra da mesma nação (não embarcados em escaler da marinha imperial)
+pódem ter ingresso nas embarcações de commercio portuguezas, sem licença
+das alfandegas do imperio.
+
+«Por fim pede o abaixo assignado a s. ex.ª o sr. ministro dos negocios
+estrangeiros haja de mandar-lhe copia do officio dirigido á alfandega da
+côrte em data de 27 do mez proximo passado sobre este grave e importante
+assumpto» etc.
+
+O ministro dos negocios estrangeiros do imperio, respondendo ao
+representante de Portugal, dizia que tendo dado o conteúdo da nota de 25
+de novembro ao seu collega da fazenda, a fim de sobre o assumpto, obter
+informações indispensaveis, resultára que este ministro, segundo a
+pratica adoptada de publicar todos os seus actos, incluira na parte
+official do dia 13 as referidas informações, que suprehenderam o conde
+de Thomar. E declarava mais, com uma ingenuidade impropria de um
+ministro de estado, que lhe parecia, que as informações do ministerio da
+fazenda, sobre assumptos diplomaticos, publicadas na parte official do
+_Jornal do Commercio, não deviam importar aos olhos da legação de s. m._
+pelo simples facto de serem informações!
+
+Dizia mais que não é permittido a pessoa alguma o ingresso em navio
+mercante dentro do porto antes das visitas de saude e policia.
+
+«Essa prohibição continúa até verificar-se a visita da descarga, que é
+quando se concede aos navios livre pratica.
+
+«Que verificada a visita de saude póde o ingresso a bordo ter logar,
+_mas sómente_ com licença da alfandega. Sem licença, só é elle
+permittido nos casos de agua aberta repentina, etc: aos officiaes que,
+na conformidade dos regulamentos de marinha, forem nos escaleres dos
+navios de guerra nacionaes que estiverem de registo no porto; aos
+officiaes das estações estrangeiras; e que nos referidos regulamentos
+_não consagram a hypothese de virem os agentes diplomaticos a bordo dos
+navios mercantes das suas respectivas nações_.»
+
+D'esta maneira procedia o _humanitario_ governo do Brazil, com o fim de
+evitar que o representante de Portugal oppozesse de futuro a sua energia
+contra os traficantes da escravatura branca!
+
+Mas é preciso dizermos, que o nosso illustrado representante replicára
+nobremente, derrubando com inexcedivel habilidade o castello de cartas
+tão inconscientemente architectado pelo ministro brazileiro.
+
+Sentimos não poder dar na integra tão precioso documento, por ser muito
+extenso. Comtudo, copiaremos alguns dos principaes trechos que mais
+illucidam a questão:
+
+«Recebidas na secretaria dos negocios estrangeiros em 27 de dezembro do
+anno findo as mencionadas informações, replica o conde de Thomar, não se
+dirigiu o sr. ministro dos negocios estrangeiros ao abaixo assignado por
+julgar s. ex.ª conveniente proceder a mais algumas averiguações, em
+ordem a dar uma explicação tão completa como era para desejar.
+
+
+«Obtidos os esclarecimentos procedentes das novas investigações,
+julgou-se habilitado s. ex.ª o sr. ministro a dar as explicações
+pedidas, e depois de passar em revista a legislação do imperio sobre o
+ponto em questão, conclue s. ex.ª que os respectivos regulamentos são
+omissos quanto aos agentes diplomaticos, mas querendo mostrar quanto no
+imperio se attende aos privilegios e prerogativas d'aquelles altos
+funccionarios, explica s. ex.ª a verdadeira _permissão_ que elles
+precisam ter da alfandega, para ir a bordo dos navios do commercio das
+suas respectivas nações.
+
+
+«Antes de passar ávante, julga o abaixo assignado chamar á memoria de s.
+ex.ª o pedido feito na sua nota de 25 de novembro; dizia o abaixo
+assignado o seguinte: «Sendo, como é, a missão do abaixo assignado,
+manter e estreitar cada vez mais as relações de amizade, que felizmente
+existem entre as duas corôas e os dois povos, deseja e roga o abaixo
+assignado a s. ex.ª o sr. ministro, que haja de dar-lhe a verdadeira
+significação do periodo da sua nota supra transcripta, designando
+claramente quaes os casos em que o governo imperial entende que o
+representante de sua magestade fidelissima e os consules portuguezes,
+não estando embarcados em escaler da marinha de guerra do imperio, ou no
+do commandante do navio da marinha de guerra de Portugal, que possa
+estacionar nas aguas do imperio, são impedidos de ir a bordo dos navios
+do commercio portuguezes, surtos nos portos do Brazil, sempre que assim
+o julgarem urgente e necessario para fiscalisar as leis do seu paiz ou
+as ordens do governo de S. M. F.»
+
+«Parece ao abaixo assignado, que nenhuma prova maior podia dar da sua
+lealdade e do desejo que tem de evitar questões entre os dois governos,
+do que a de rogar fossem designados pelo governo imperial os casos de
+impedimento para o ingresso das auctoridades portuguezas, nos navios do
+commercio da sua nação, surtos nos portos do Brazil.
+
+«Tambem parece ao abaixo assignado que não havia a menor necessidade da
+publicação dos actos do ministerio da fazenda de 27 de dezembro ultimo,
+sobre negocio diplomatico pendente, sendo que veio uma tal publicação de
+alguma fórma confirmar suspeitas e receios de que as informações do
+conhecimento do abaixo assignado não deixavam de ter fundamento.
+
+«Em opposição ás francas e leaes declarações de s. ex.ª o sr. ministro,
+cujas rectas intenções o abaixo assignado se compraz de ter reconhecido
+em todas as occasiões, constava ao abaixo assignado, que os empregados
+da fiscalisação, _prottestaram que não se repetiriam procedimentos
+eguaes aos que tiveram logar contra a barca «Nova Lima»_, porque tinham
+nas suas attribuições meios de impedir que as auctoridades portuguezas
+fossem a bordo verificar o numero e qualidade dos passageiros,
+conduzidos em navios do commercio portuguezes.»
+
+Restava ás auctoridades portuguezas residentes no imperio, o poderem
+fiscalisar os navios portuguezes chegados a qualquer porto brazileiro;
+mas o governo do imperio calcava aos pés os tractados, e não tinha
+duvida em criar uma situação anomala entre as duas nações, para que se
+não repetissem casos identicos ao da _Nova Lima_. Assim podia muito bem
+exercer-se o commercio da escravatura branca, que o governo do Brazil,
+sómente para guardar apparencias, dizia combater. Não lhe valeu de nada
+a esperteza, devido isso á nobre energia do conde de Thomar.
+
+Mas não fica ainda aqui a questão. O illustre diplomata estranhou que a
+publicação dos actos officiaes, feita pelo ministerio da fazenda,
+occupando-se singularmente das auctoridades portuguezas, não podia
+deixar de ser aproveitada para rogar ao ministro dos negocios
+estrangeiros uma resposta cathegorica sobre o ponto alludido; por quanto
+devia ter reconhecido quanto era melindroso em assumptos internacionaes
+faltar áquellas conveniencias que era mister guardar entre as nações e
+os governos alliados, em modo a não praticar actos que podessem ser
+traduzidos em menor consideração e como importando a não concessão de
+direitos ou prerogativas que a outros se concediam.
+
+Cumpria-lhe mais dizer, que acceitava as explicações dadas com o fim de
+justificar-se o ministro brazileiro da demora da resposta á nota de 25
+de novembro.
+
+«Pede comtudo o abaixo assignado licença a s. ex.ª para observar que a
+segunda sua nota, com data de 14 do corrente, não teve por fim mostrar
+surpresa pela falta de resposta á mencionada primeira sua nota de 25 de
+novembro ultimo, mas sim mostrar surpreza, e muito grande de que
+achando-se pendente uma reclamação diplomatica sobre um assumpto de
+direito internacional, fossem publicados por outro ministerio, que não o
+dos negocios estrangeiros, actos officiaes resolvendo esse assumpto
+internacional, sem que ao menos pelo ministerio competente tal resolução
+fosse transmittida á legação de S. M. F., d'onde partira a reclamação,
+como aliás exigem os estylos, usos e conveniencias diplomaticas.»
+
+E accrescentava:
+
+«......... E se acontece que essa publicação é feita a cargo do
+presidente do conselho, que representa o pensamento do gabinete, não
+deixará s. ex.ª o sr. ministro dos negocios estrangeiros de convir que
+esta circumstancia ganha e dá grande força para justificar a sorpreza
+que causou ao abaixo assignado ver a alludida publicação antes de ser a
+resolução devidamente participada á legação de S. M. F. pelo ministerio
+dos negocios estrangeiros, conforme os usos, estylos e conveniencias
+diplomaticas invocadas por s. ex.ª o sr. ministro.
+
+«Pareceu ao abaixo assignado que, feita tal publicação pelo ministerio a
+cargo do presidente do conselho, o qual sobre o parecer da dictoria
+geral das rendas declarava, que nem ao ministro de S. M. F., nem aos
+consules de Portugal, nem aos commandantes de navios de guerra da mesma
+nação, não estando embarcados em escaler da marinha de guerra do
+imperio, era permittido o ingresso, sem licença da alfandega, nos navios
+de commercio portuguezes surtos nos portos do Brazil, mesmo quando o
+julgarem urgente e neccessario para fiscalisar as leis do seu paiz ou as
+ordens do seu governo; vendo além d'isto que, para tornar effectiva
+aquella resolução, se expediram ordens á alfandega, recommendando a bem
+das relações que existem entre o governo do Brazil e os das diversas
+nações alliadas, que facilite aos ministros estrangeiros n'esta côrte,
+sempre que a requisitarem, entrada nos navios de commercio das suas
+nações, que tiverem chegado a este porto, independente de minuciosas
+formalidades; pareceu, repete o abaixo assignado, que uma tal publicação
+continha uma resolução definitiva; muito embora ficasse desde logo
+convencido de que a proposição absoluta e nos termos em que estava
+concebida era insustentavel e mesmo contraria aos regulamentos do
+imperio. Pareceu outro tanto n'esta ultima parte s. ex.ª o sr. ministro
+dos negocios estrangeiros, e por isso não se dando por satisfeito com a
+doutrina expendida nos actos officiaes publicados pelo ministerio da
+fazenda, julgou não os dever aproveitar nos rigorosos termos em que
+estavam concebidos, para responder á nota da legação de sua magestade
+fidelissima de 25 de novembro do anno proximo passado, tendo a bem
+proceder a outras investigações que o habilitassem a dar a explicação
+pedida, tão completa como era para desejar; mas pareceu ao mesmo tempo a
+s. ex.ª que os mencionados actos officiaes só deviam ser considerados
+como informações, e traduzindo agora na sua nota o resultado das novas
+investigações, como resolução difinitiva, dignou-se transmittil-a á
+legação de sua magestade fidellissima.
+
+«Effectivamente em resultado das novas investigações a que se procedeu,
+começa o sr. ministro dos negocios estrangeiros a dar as explicações
+pedidas, e referindo a legislação do imperio, entende que, segundo as
+suas disposições, não é só o ministro de sua magestade fidelissima, nem
+os consules portuguezes, ou os commandantes de navios de guerra de
+Portugal, não embarcados em escaler da marinha de guerra imperial, mas
+que todos os ministros, todos os consules das nações alliadas e os
+commandantes dos navios de guerra das mesmas nações, todo e qualquer
+individuo emfim, são vedados de entrar nos navios mercantes surtos nos
+portos do Brazil antes da visita de saude e da policia. Accrescenta o
+sr. ministro dos negocios estrangeiros que essa prohibição de ingresso,
+antes da visita de saude, continúa até verificar-se a visita de
+descarga, que é quando se concede aos navios a livre pratica.
+
+«Antes do continuar no desenvolvimento do objecto principal em questão,
+permitia v. ex.ª que o abaixo assignado chame a sua attenção sobre o que
+dispõe o artigo 145.º § 2.º do regulamento de 22 de junho de 1836. Diz
+assim:
+
+«Os passageiros porém poderão desembarcar logo que se conclua a visita
+da saude, dirigindo-se em direitura á barca de vigia do ancoradouro,
+havendo-a, ou ao ponto para isto destinado pelo inspector para serem
+examinados, ficando n'elles retidos, quando tragam algum objecto sujeito
+a direitos.»
+
+«Affigura-se ao abaixo assignado, que a continuação da prohibição do
+ingresso até á visita da descarga, depois da qual sómente se concede aos
+navios a livre pratica, sómente é applicavel ao navio cujo carregamento
+esteja sujeito a pagamento de direitos, e que possa dar objectos para
+contrabando.
+
+«Não espera o abaixo assignado que os emigrantes portuguezes conduzidos
+a bordo de um navio portuguez possam ser excluidos do favor concedido
+pelo citado artigo aos passageiros em geral, e que em logar de serem
+considerados como pessoas, sejam considerados como cousas ou
+mercadorias. Em tal caso podendo, como não podem os emigrantes
+portuguezes deixar de ser considerados como passageiros, tem o abaixo
+assignado fundados receios de que a exigencia do governo imperial tenda
+a estabelecer um impedimento indirecto ao exercicio da soberania da
+corôa de Portugal a bordo de um navio portuguez.
+
+«Segundo os regulamentos portuguezes nenhum capitão de navio portuguez
+póde conduzir mais passageiros ou differentes d'aquelles que constarem
+da relação que sob o sello real é remettida pelas respectivas
+auctoridades aos consules de Portugal, e com ella deve necessariamente
+conferir outra relação feita pelo capitão do navio, e o effectivo dos
+passageiros a bordo.
+
+«Se o consul de Portugal fôr impedido de ir a bordo (porque a licença é
+facultativa) antes da visita da saude e da policia, e antes da descarga,
+os passageiros, em virtude do § 2.º do artigo 145.º citado, verificada
+apenas a visita de saude, podem desembarcar, ficando assim o consul de
+Portugal impedido pelas resoluções do governo imperial de executar a lei
+de Portugal a bordo de um navio portuguez, o qual não póde deixar de ser
+considerado territorio de Portugal, porque, não obstante estar surto nos
+portos do imperio, sómente fica sujeito á jurisdicção local no que
+respeita ás relações internas.
+
+«Não póde o abaixo assignado, em vista da boa intelligencia e intima
+amizade que existe, e convem estreitar cada vez mais entre os dois
+governos e entre os dois povos, presumir que se queira procurar um meio
+indirecto de promover a emigração de Portugal clandestinamente,
+impedindo-se por tal forma as auctoridades portuguezas de em tempo
+devido constatar a legalidade do procedimento dos capitães de navio.
+
+«Não póde o abaixo assignado convencer-se de que um tal rigor tenha por
+fim salvar das penas comminadas pelas leis do reino aos capitães
+subditos de sua magestade fidelissima, que porventura as tenham
+infringido.
+
+«É tal a confiança que o abaixo assignado tem nas rectas intenções do
+governo imperial, que está plenamente convencido que nenhum obstaculo
+apparecerá da parte do mesmo governo e das auctoridades do imperio, que
+possa justificar os receios do abaixo assignado.
+
+«Voltando á questão principal, reconhece tambem o sr. ministro dos
+negocios estrangeiros na sua nota, que os regulamentos do imperio
+estabelecem excepções para ter logar o ingresso nos navios mercantes sem
+licença da alfandega, sendo muito singular que entre essas excepções se
+encontre a dos commandantes dos navios de guerra, muito embora limitada
+a uma vez sómente.
+
+«Appella o abaixo assignado para resolver, se, em vista do exposto na
+sua nota, é sustentavel a generalidade em que se acha concebido o acto
+official do ministerio da fazenda, com relação ás auctoridades
+portuguezas alli mencionadas. Para mostrar ainda as grandes omissões que
+no sobredito acto se conteem, e que s. ex.ª o sr. ministro dos negocios
+estrangeiros se propoz supprimir na sua nota, bastaria attender ás
+seguintes palavras: «não é permittido... o ingresso sem licença da
+alfandega nos navios de commercio portuguez, surtos nos portos do
+Brazil.» Estas phrases dispensam toda a demonstração.
+
+«Em objectos de tanta gravidade e que involvem assumptos de direito
+internacional, parece ao abaixo assignado não deverem publicar-se por
+extracto os actos officiaes. Quer o abaixo assignado persuadir-se que no
+original a que se referem os mencionados extractos se encontrará o que
+não podia por certo escapar á fina penetração do sr. presidente do
+conselho, sentindo o abaixo assignado que s. ex.ª o sr. ministro dos
+negocios estrangeiros não quizesse ter a bondade de mandar copias das
+instrucções ou aviso expedido á alfandega, porque haveria assim occasião
+de verificar com muita satisfação o fundamento ou persuasão e crença do
+abaixo assignado.
+
+«Reconhece o sr. ministro dos negocios estrangeiros que os regulamentos
+citados por s. ex.ª são omissos quanto aos agentes diplomaticos. Não
+deseja o abaixo assignado discutir com s. ex.ª sobre os motivos porque
+os mencionados regulamentos foram omissos a tal respeito: não póde com
+tudo dispensar-se de dizer que aos motivos excogitados por s. ex.ª se
+poderia oppor o de julgar-se inadmissivel vedar o ingresso ao
+representante da nação a que pertence o navio depois da visita de saude
+e da policia, não podendo ser-lhes applicaveis, por summamente
+injuriosas e offensivas ao caracter d'esses mesmos representantes junto
+de S. M. o imperador e do seu governo, as precauções e medidas
+rigorosas, que os regulamentos estabelecem para segurar os direitos do
+fisco e evitar os contrabandos.
+
+«Foi tudo isto reconhecido e a tudo isto quiz attender o governo
+imperial, quando, resolvendo comprehender os agentes diplomaticos na
+prohibição da ida a bordo sem licença da alfandega, apesar da
+reconhecida omissão dos regulamentos, suavisou a sua resolução
+declarando que a permissão da alfandega quanto aos agentes diplomaticos
+não importa quebra de privilegio, nem desattenção ás prerogativas de que
+gozam aquelles altos empregados, sendo que uma similhante permissão,
+segundo entende o governo imperial, não é outra cousa mais que a
+annunciação da intenção do agente diplomatico ir a bordo.
+
+«Se o abaixo assignado comprehende bem o pensamento da resolução do
+governo imperial, o agente diplomatico tem de prevenir o inspector da
+alfandega, sempre que quizer transportar-se a bordo de um navio impedido
+da sua nação, pela demonstrada necessidade que tem o dito inspector de
+remover ou fazer remover todos os embaraços que os agentes diplomaticos
+poderiam encontrar da parte dos guardas da fiscalisação e das rondas do
+mar, e de lhes serem prestadas todas as devidas attenções, em
+conformidade dos privilegios e altas prerogativas de que gosam os
+agentes diplomaticos.
+
+«Se a exigencia do governo imperial tem este fim, felicita-se o abaixo
+assignado de estar de accordo com a resolução agora annunciada, porque
+está convencido de que o abaixo assignado nem agente algum diplomatico
+terão jámais em vista concorrer para que os empregados do imperio deixem
+de cumprir os seus deveres» etc.
+
+Como pódem observar os leitores, a lição dada n'este ponto pelo
+representante de Portugal ao governo brazileiro, era habil e ao mesmo
+tempo severa. Não merecia outra resposta a evasiva do inhabil diplomata
+brazileiro.
+
+
+XV
+
+O conde de Thomar terminava a sua nota reclamando, que a resolução
+imperial communicada á legação de S. M. F., fosse publicada na parte
+official do ministerio dos negocios estrangeiros, ou como o governo
+imperial julgasse mais conveniente, _em termos geraes e comprehendendo
+os representantes e mais auctoridades de todas as nações, a fim de
+supprir as ommissões, que existiam na denominada informação do
+ministerio da fazenda, a má impressão que causara tal publicação,
+attenta a singularidade da applicação_, etc; não annuindo o governo
+brazileiro a que fosse publicada na parte official, por isso que tal
+annuencia importava o desdouro do ministerio dos negocios estrangeiros
+do imperio: prestar em publico as mãos á palmatória do nosso esclarecido
+ministro; mas consentiu que o conde de Thomar mandasse fazer a seguinte
+publicação pela legação portugueza, em qualquer jornal, o que elle fez:
+
+«Pela legação de S. M. se faz saber a todas as auctoridades portuguezas,
+residentes no imperio do Brazil, que, em vista das reclamações e
+discussão entre a mesma legação e o governo imperial, se accordou que os
+_actos officiaes_ publicados pelo ministerio da fazenda com data de 27
+de dezembro do anno findo (1859) sobre a ida do ministro de S. M. F.,
+dos consules de Portugal e commandantes de navios de guerra da mesma
+nação, a bordo dos navios de commercio portuguezes, surtos nos portos do
+Brazil, sómente devem ser considerados, como _informações_ do ministerio
+dos negocios da fazenda ao ministerio dos negocios estrangeiros, e não
+como resoluções difinitivas; devendo unicamente considerar-se como taes
+as que pelo referido ministerio dos negocios estrangeiros foram
+communicadas á legação de S. M. F.; as quaes serão publicadas pelo
+governo imperial na fórma do estylo seguido pelo ministerio dos negocios
+estrangeiros do imperio, e de que se dará opportunamente conhecimento em
+circular.» etc.
+
+O aviso que devia ser publicado pelo governo brazileiro, na parte
+official, aviso obrigado pela energica conducta do conde de Thomar, bem
+como as _resoluções definitivas_, que só podiam ser publicadas pelo
+governo imperial, segundo confessa o respectivo ministro dos negocios
+estrangeiros, _depois de apresentada textualmente tal pendencia ao corpo
+legislativo_, dois mezes depois, _cuja publicação solemne e official lhe
+parecia não só sufficiente, como a mais apropriada para preencher as
+vistas do conde de Thomar_, são estas:
+
+«Á alfandega recommendando, a bem das boas relações (_sic_) que existem
+entre o governo do Brazil e os das diversas nações alliadas, que
+facilite aos ministros das mesmas nações residentes n'esta côrte, sempre
+que o requisitarem por si ou por qualquer terceiro ou empregado, a
+entrada nos navios de commercio de suas nações que tiverem chegado a
+este porto, independente de minuciosas formalidades.»
+
+É facil de comprehender que a _informação_, que atraz deixamos
+transcripta, é uma resolução definitiva. E se o não era, que
+segnificação dariamos então ao aviso que ahi fica.
+
+Este novo systema de estylos diplomaticos, que nós cognominaremos--_á
+brazileira_--, estariam ainda hoje em uso, se, em logar de um portuguez
+illustre e corajoso, estivesse n'aquelle tempo encarregado dos negocios
+de Portugal qualquer compadre diplomata!
+
+Transcrevamos agora as taes _resoluções definitivas_:
+
+«... A publicação alludida (as taes informações) occupou-se
+singularmente das auctoridades portuguezas, assim respondia o ministro
+brazileiro, porque foi sobre a questão suscitada por estas que se
+requisitaram informações do ministerio da fazenda.
+
+«Se a duvida houvesse sido levantada collectivamente por todos os
+agentes estrangeiros acreditados no imperio, de certo que não só as
+informações mencionadas a todos comprehenderiam, como tambem seria a
+todos opportunamente communicada a resolução, que tomou o governo
+imperial.»
+
+A resolução _definitiva_ que o governo brazileiro tomára, de prohibir
+que os agentes diplomaticos podessem ir a bordo dos navios de commercio
+portuguezes, é assim explicada pelo ministro dos negocios estrangeiros:
+
+«... Se ao commandante da estação naval d'uma potencia amiga se
+permitte, na hypothese figurada (depois das visitas da saude e policia,
+e antes da descarga), mandar um official a bordo do navio mercante d'uma
+nação, é certo que não só esta faculdade lhe é concedida, pela natureza
+das funcções policiaes que tem sobre os navios mercantes da sua
+nacionalidade, como porque de exercel-a não resulta o menor
+inconveniente.
+
+«Um official de marinha tem uniforme que indica a sua graduação, escaler
+em que leva o distinctivo do seu pavilhão, e pois não ha receio de que
+se lhe faltem ás attenções devidas. No mesmo caso porém, não está o
+agente diplomatico, que, embarcado em um escaler mercante, e não levando
+comsigo o distinctivo do alto cargo que occupa, expõe-se á contingencia
+de supportar exames e investigações» etc.
+
+A questão era de continencias. Não havia, pois, motivo para reclamações!
+
+O governo imperial, com as suas _resoluções definitivas_, prestava culto
+á etiqueta: era cortezão!
+
+Aquellas _informações_ prestadas pelo ministerio da fazenda ao dos
+estrangeiros, bem como o aviso dirigido á alfandega, nada tinha com a
+emigração clandestina! Era negocio de algumas descargas de artilheria,
+vivorio e outras attenções devidas aos altos cargos dos agentes
+diplomaticos!
+
+
+XVI
+
+O procedimento do conde de Thomar, com relação á questão da barca _Nova
+Lima_, fez com que as auctoridades brazileiras começassem a fazer
+executar o regulamento do 1.º de maio de 1858, que era letra morta no
+imperio. Mas durou pouco tempo o seu afan.
+
+Passado o tempo estrictamente necessario para que as nossas auctoridades
+fossem illudidas, as cousas tornariam ao mesmo estado em que se achavam.
+Comtudo, é preciso darmos noticia d'um acto justo, praticado pelas
+auctoridades brazileiras, no illusorio interregno. Assim cumpriremos o
+dever que nos impozemos de ser justo na apreciação de todos os factos
+que dizem respeito ao assumpto que discutimos, e apresentaremos mais uma
+vez á vindicta publica o miseravel procedimento dos traficantes.
+
+«Tendo em 17 de dezembro do anno findo (1859) o delegado da repartição
+das terras publicas, endereçado o officio, que por cópia respeitosamente
+levo ás mãos de v. ex.ª, communicava o nosso consul na Bahia ao ministro
+dos negocios estrangeiros, em 12 de março de 1860, enviou-me tambem o
+regulamento de 1.º de maio de 1858, exarado na gazeta denominada _Gazeta
+da Bahia_, e a cujo officio respondi nos termos da cópia junta.
+
+«Na hypothese de que os agentes consulares brazileiros, residentes em
+Portugal, inteirassem os capitães de navios que se destinam aos portos
+do Brazil d'aquellas disposições, deixei de opportunamente occupar a
+attenção de v. ex.ª com o assumpto do citado regulamento, em virtude do
+qual, _nada se havia obrado n'esta provincia, senão até quasi ignorada a
+sua existencia_ (sic): occorre porém que, em 8 de fevereiro findo,
+(passados quasi dois annos depois da sua publicação), se recolhera a
+este porto o brigue portuguez _Athenas_, procedente da cidade do Porto,
+trazendo a seu bordo quinze passageiros; fôra por este facto o navio
+visitado, segundo as disposições do mesmo regulamento, e o respectivo
+capitão Antonio Ferreira Guimarães Freitas, processado e condemnado por
+haver deixado de as cumprir.»
+
+Vamos transcrever o extracto d'este documento, para provarmos tambem,
+que se não fôra a intervenção do nosso ministro, residente na côrte do
+imperio, a respeito da importante questão que divulgamos, o regulamento
+brazileiro de 1.º de maio de 1858, jámais começaria a ter vigor.
+
+É preciso combinar as datas para serem mais justas as apreciações sobre
+o que temos avançado. Devendo aquelle regulamento começar a vigorar logo
+immediatamente á sua publicação, meados de 1858, só d'elle se lança mão
+em fins de 1859, na questão _Nova Lima_, e ainda assim por temor do
+energico diplomata conde de Thomar; e em fevereiro de 1860, na questão
+do brigue portuguez _Athenas_.
+
+Devemos notar que a execução do referido regulamento era só contra os
+navios portuguezes, não obstante a infracção dos commandantes de navios
+de outras nacionalidades contra as leis que regulavam o assumpto.
+
+Mas o commandante do navio _Athenas_ fôra obrigado a pagar a multa de
+metade do importe das passagens (453$600 réis), porque sendo obrigado a
+dar a cada colono o espaço de 30 palmos quadrados, apenas lhe dera 21;
+por não ter dado camas ou macas aos passageiros; porque a altura da
+coberta do navio, embora fosse de 9 palmos, este espaço era tomado pela
+bagagem que devia estar no porão; porque as bandejas ou tinas pequenas
+de madeira em pessimo estado não podiam ser consideradas utensilios da
+mesa; porque o capitão não apresentára as relações determinadas pelos §§
+1.º e 2.º do artigo 25 do citado regulamento; e, finalmente, porque as
+condições hygienicas não foram convenientemente observadas.
+
+É um facto innegavel que as condições de transporte de colonos para o
+Brazil, na actualidade, nada tem melhorado, não obstante os regulamentos
+portuguezes e brazileiros; o que prova até á evidencia a falta de força
+dos nossos governos em fazer cumprir as leis, e a connivencia do governo
+brazileiro com os aliciadores, porque está provado que, se fossem tambem
+cumpridas as suas leis, a emigração de portuguezes para o Brazil, já
+teria deixado de existir.
+
+Mas é preciso concluir as informações sobre a questão do brigue
+_Athenas_.
+
+O consul residente na Bahia, julgára excessivo o castigo inflingido ao
+capitão, e o conde de Thomar expressa-se da seguinte fórma, em seu
+officio de 2 de abril de 1860, dirigido ao duque da Terceira:
+
+«Em officio n.º 3 de 9 de março findo, participou o consul na Bahia, que
+em 8 de fevereiro chegára áquelle porto o brigue portuguez _Athenas_,
+procedente da cidade do Porto, trazendo a seu bordo 15 passageiros, e
+que sendo competentemente visitado, e verificando-se que estavam por
+muitos motivos infringidas as disposições do regulamento do 1.º do maio
+de 1858, fôra o capitão do referido brigue, Antonio Ferreira Guimarães
+Freitas, condemnado pela respectiva commissão a pagar metade do valor da
+passagem de cada um emigrante, regulando cada um a 60$480 réis, moeda
+brazileira.
+
+«Accrescenta o consul, que aconselhára ao mencionado capitão e
+consignatario de por si recorrerem á presidencia da provincia,
+reservando-se para com acerto obrar n'este assumpto, segundo as minhas
+instrucções, que solicitava.
+
+«Tendo eu a inteira convicção de que todo o rigor que as auctoridades
+brazileiras mostram contra os capitães de navios portuguezes pelo facto
+de infringirem os regulamentos sobre transporte de colonos, só póde dar
+em resultado _mostrarem-se mais humanos aquelles capitães e ser tambem
+mais difficil e menor o numero dos nossos compatriotas, que pela mais
+completa illusão, correm ao matadouro_, julguei dever responder ao
+consul da Bahia que, visto os legaes fundamentos da condemnação, não
+interpozesse a sua authoridade e bons officios, e que declarasse sómente
+ao capitão e consignatario, que poderão usar de per si dos recursos
+legaes, não devendo tambem contar com a protecção da legação de s. m.,
+visto que pelo facto de conduzir compatriotas seus contra as disposições
+da lei se tornavam indignos de tal protecção.
+
+«Devo prevenir a v. ex.ª de que é esta a minha resolução a respeito de
+todos os capitães que se acharem em eguaes circumstancias. Não póde
+realmente dar-se protecção a capitães de navios portuguezes, _que se
+tornam assim os verdugos da humanidade, e ainda dos seus proprios
+concidadãos_.»
+
+São desnecessarios os commentarios a documentos como este tão cheios de
+dignidade. Elles por si dizem tudo.
+
+O conde de Thomar devia ser altamente guerreado, porque ao governo
+brazileiro não convinha alli tão grande difficuldade á emigração
+clandestina. E effectivamente, os seus desgostos manifestados em mais de
+um documento, que em seguida examinaremos, mostram até certo ponto, que
+podiam mais do que o seu nobre intento de ser util á patria. E não vão
+taxar-nos de contradictorios; porque deve comprehender-se que motivo
+algum ha que possa demover um patriota illustre a deixar de ser util ao
+seu paiz. Mas que faria o nosso ministro residente no imperio,
+desacompanhado das auctoridades, que só elogiavam o seu procedimento,
+descurando de applicar ao mal o verdadeiro antidoto, que esse ministro,
+como homem competentissimo, aconselhára para debelar a emigração
+clandestina, molestia chronica que tanto ha arruinado a patria?
+
+Havemos de provar se o não está já, que as auctoridades do nosso paiz,
+pódem, mais ou menos, ser tambem accusadas de negligencia e conniventes
+com os aliciadores. Ora, contra tão reprovado procedimento, era
+completamente inutil a boa vontade de um só homem.
+
+
+XVII
+
+Os governos do nosso paiz, pódem, mais ou menos, ser accusados de
+negligencia, com respeito ao assumpto que tanto nos interessa.
+
+Quando o nosso ministro residente no imperio tratava, desde 1859 a 1860,
+de combater, por todos os meios ao seu alcance, a emigração clandestina,
+usando dos actos energicos de que temos dado noticia aos leitores,
+dirigia elle o seguinte officio ao nosso ministro dos negocios
+estrangeiros, em data de 23 de junho de 1860:
+
+«Tenho a honra de passar ás mãos de v. ex.ª o relatorio da repartição
+dos negocios do imperio, apresentado ás camaras na presente sessão
+legislativa.
+
+«É um interesssante documento, que habilita o leitor a conhecer o estado
+de organisação d'este paiz. Chamo sobretudo a attenção de v. ex.ª sobre
+o artigo _Emigração_, pag. 56; n'este artigo encontrará v. ex.ª a
+estatistica que mostra o numero total de emigrantes entrados no Brazil,
+durante o anno passado.
+
+«Eleva-se o dito numero a 19:675[44], sendo 9:342 portuguezes; 3:165
+allemães; e 7:188 de diversas nacionalidades.
+
+«Julgo desnecessario repetir agora as muitas considerações que por vezes
+tenho feito sobre este importante objecto.
+
+«_Devo persuadir-me de que tenho encarado mal esta questão_, porque o
+ministro do imperio se _julga auctorisado_ a communicar ás camaras
+legislativas, _que o governo portuguez já não cria embaraços á
+emigração_, como ainda ha pouco acontecera, _levado por informações
+inexactas, que felizmente se acham hoje desvanecidas_.
+
+«Não comprehendo realmente este modo de avaliar a questão; por um lado
+está em opposição com tudo o que me tem sido dirigido pela secretaria
+dos negocios estrangeiros, hoje a cargo de v. ex.ª; por outro lado
+parece incomprehensivel que o ministro do imperio faça referencia a
+factos do governo portuguez, não existindo similhantes factos.
+
+«Quaes foram as informações inexactas, que felizmente se acham hoje
+desvanecidas, deixando por isso o governo portuguez de crear embaraços á
+emigração?
+
+«Convirá v. ex.ª que para manter a minha dignidade careço de ser
+devidamente informado a tal respeito.»
+
+A questão era muito importante para deixar de ter o seguinte desmentido
+official, que não utilisaria muito ao governo brazileiro, já porque elle
+era useiro e vezeiro em trapassas similhantes, já porque effectivamente
+o governo portuguez era muito amigo de palavras e verdadeiro inimigo de
+obras.
+
+O desmentido é este, e tem a data de 1 de agosto de 1860:
+
+«Li com a necessaria attenção o que v. ex.ª refere no seu officio de 23
+de junho ultimo, ácerca da asserção feita pelo ministro do imperio, no
+relatorio da sua repartição, em que diz que o governo portuguez já não
+cria embaraços á emigração, como ha pouco acontecera, levado por
+informações inexactas que elle pretende acharem-se hoje desvanecidas.
+
+«Não me surprehendeu menos do que a v. ex.ª este modo de avaliar os
+factos, tanto mais que não consta n'esta secretaria d'estado que por
+ordem do governo se tenha facilitado a emigração, mas antes se cuida em
+evital-a pelos meios possiveis» etc., etc.
+
+E concluia:
+
+«Á vista pois de tudo isto já v. ex.ª póde vêr que o ministro foi
+inexacto no que expendeu no seu relatorio com referencia ao assumpto.»
+
+Parece, com tudo, que havia alguem que, communicando-se com o governo
+portuguez, pretendia, n'essas communicações, taxar de inexacto o conde
+de Thomar.
+
+Vejamos se podemos descobrir o culpado.
+
+Em 12 de junho de 1860, officiava o nosso ministro dos negocios
+estrangeiros ao representante de Portugal na côrte do imperio, pedindo
+reclamasse do governo brazileiro a punição do commandante da galera
+_Harmonia_, por ter recebido clandestinamente a seu bordo, colonos para
+o Brazil, nas aguas de S. Miguel.
+
+O conde de Thomar fizera a reclamação immediatamente, e o ministro dos
+negocios estrangeiros do imperio respondera em 17 de junho do referido
+anno, promettendo providencias que não dera.
+
+Mas a nossa questão é conhecer um dos culpados de connivencia na
+emigração clandestina.
+
+«Pareceu-me na verdade extraordinario que, tendo eu recebido ordem de S.
+M. para reclamar contra o procedimento do capitão da sobredita galera
+brazileira _Harmonia_, referia o conde de Thomar, pelo facto de se ter
+recusado a dar entrada no porto de Ponta Delgada, e a manifestar se na
+conformidade dos regulamentos fiscaes e da policia, com o premeditado
+fim de embarcar, como embarcou clandestinadamente colonos, _recebesse eu
+do consul geral a informação de que os passageiros transportadas na dita
+galera, em numero de 209 pessoas de ambos os sexos, vinham incluidas em
+128 passaportes_, passados pelos governadores civis das ilhas do Faial e
+S. Miguel» etc.
+
+Parece que transcrevemos já o sufficiente para desconfiarmos da lisura
+do nosso consul geral; mas continuemos:
+
+«Convença-se v. ex.ª, acerescentava o nobre diplomata, de que n'este
+negocio de transporte de colonos para o Brazil, _tudo conspira contra o
+pensamento do governo e da legação de S. M. n'esta côrte_. Os interesses
+de varias repartições e empregados publicos, os interesses individuaes
+de portuguezes e brazileiros, e por, fim o interesse do governo d'este
+imperio, _teem grande força para deixar continuar e até proteger um
+trafico que se vai mostrando altamente nocivo ás vidas dos subditos de
+S. M. e aos interesses da nossa patria_.»
+
+Teria o nosso consul algum interesse menos honroso em auxiliar o trafico
+infame?
+
+Falle mais este documento da mesma origem d'aquelle outro que acabamos
+de transcrever:
+
+«Em additamento ao meu officio de 24 do mez proximo passado, cumpre-me
+levar á presença de v. ex.ª a resposta dada pelo consul geral ao que lhe
+foi ordenado em data de 17 do proximo passado, com o fim de explicar a
+discordia notavel entre as suas informações a respeito dos passageiros
+transportados na galera brazileira _Harmonia_, e as que tinham chegado a
+esta legação por parte do governo com ordem de reclamar contra o capitão
+da sobredita galera pelo escandaloso procedimento de sobre a véla
+embarcar clandestinamente passageiros em frente de Ponta Delgada, e não
+obedecer ás intimações que pela auctoridade competente lhe haviam sido
+feitas.
+
+«Como sempre previ, o consul geral não devia encontrar a menor
+difficuldade em munir-se de documentos officiaes para provar a exactidão
+das suas informações e para ficarem tidas como inexactas as que pelo
+governo de S. M. foram mandadas a esta legação, e que serviram de
+fundamento á reclamação perante o governo imperial contra o capitão da
+galera _Harmonia_.
+
+«Em todo este negocio vigoram os motivos que tenho expendido em muitos
+dos meus anteriores officios, e que se reduzem a estarem os interesses
+de todos contra o pensamento do governo e da legação de S. M.
+
+«Do officio do consul geral, junto, se deprehendem muitos factos que não
+escaparão á fina penetração de v. ex.ª, para entrar, se quizer, no fundo
+da questão da colonisação» etc.
+
+O facto dos escandalos praticados pelo governo brazileiro, a respeito da
+barca _Harmonia_, foi, sem duvida, a principal razão da sua retirada do
+imperio, em fins do anno de 1860.
+
+«Verifica-se tudo o que eu tinha previsto nos meus antecedentes
+officios, communicava o conde em 6 de setembro de 1860. _Vão de accordo
+as respostas do governo imperial com as que me foram dadas pelo consul
+geral_, etc.
+
+«É negocio este, em que me parece desnecessario insistir, a não me
+habilitar o governo de sua magestade» etc. etc.
+
+Foram estas as ultimas palavras proferidas pelo conde de Thomar, na
+qualidade de nosso representante no Brazil, a respeito do assumpto
+importantissimo da emigração; porque, escusado será dizer, que o governo
+de sua magestade, jámais habilitaria o seu delegado a pôr termo ao
+commercio horroroso da escravatura branca.
+
+Seria falta de energia ou connivencia?
+
+Eis ahi está uma pergunta a que não será difficil responder.
+
+ [44] A colonisação por meio da escravatura, era de 43:000 negros
+ para o Rio de Janeiro, e de 90:000 para todo o imperio,
+ annualmente. A desproporção é manifesta.
+
+
+XVIII
+
+Em paiz algum se tem descurado mais do que no nosso o importantissimo
+assumpto que nos occupa. Com tudo parcerá áquelles que olham
+superficialmente para estas cousas, que os nossos estadistas já tem
+feito muito, e que se os remedios applicados não tem produzido o effeito
+desejado, não é por culpa d'aquelles a quem compete remediar o mal.
+
+Effectivamente, ninguem ha com maiores tendencias para fazer projectos,
+ás vezes bem deliniados; mas tambem não haverá, de certo, quem mais
+depressa se esqueça d'elles.
+
+Com respeito á emigração não se póde dizer que os nossos governos se
+tenham esquecido. Unicamente podemos accusal-os de fallarem muito,
+demasiadamente, sobre o assumpto... e de não terem feito nada,
+absolutamente nada, para evitar o mal que nos prostra.
+
+Vem já de longe este afan de se querer regular a emigração para o
+Brazil.
+
+A lei de 20 de julho de 1855 estabelece medidas salutares a favor dos
+emigrados; mas para que as disposições d'essa lei possam ser effectivas,
+falta-lhe o respectivo regulamento. Fallou-se muito da necessidade de
+organisar esse regulamento, em vista das instantes reclamações dos
+nossos consules residentes no imperio, que quasi diariamente se
+queixavam dos horrores da emigração. Mas os nossos governos ouviam as
+queixas, lacrimosos, e respondiam com bonitas phrases de consolação, que
+já mais remediariam tão grande mal... mal que, cada dia que passa,
+augmenta de intensidade, e já nos assombra hoje. Essas queixas tem-se
+repetido desde ha 20 annos, o que equivale a dizer que os homens
+d'estado d'este bello paiz tem ensopado muitos lenços e escripto phrases
+recheadas de sentimento, verdadeiramente liberaes, phrases que consolam
+quem as lê, mas que nada significam para quem estuda seriamente esta
+questão.
+
+Desde a sua instalação na côrte do Rio de Janeiro instára o conde de
+Thomar pela conveniencia de se formular um tratado ou regulamento da
+emigração; e formulou-o. Esse projecto foi incumbido ao conselheiro da
+legação, o dr. Antonio José Coelho Louzada, ao qual já em outro logar
+nos referimos.
+
+Eis o que o benemerito representante de Portugal na côrte do Rio de
+Janeiro, communicava ao nosso governo, a tal respeito:
+
+«É possivel que o governo de sua magestade, não classifique de perfeito
+aquelle trabalho, e que obra humana póde ser classificada assim? Mas
+asseguro a v. ex.ª que o conselheiro Lousada, por um lado se conformou
+com os verdadeiros principios reguladores de tal assumpto nos paizes
+mais civilisados, por outro lado aproveitou a especialidade da posição
+dos dois paizes e dos seus subditos, não deixando jámais de ter em vista
+as lições da experiencia diaria, a qual, na minha opinião, cumpre
+principalmente ter em vista n'este delicado objecto. Assim é minha
+opinião tambem que o conselheiro Lousada é digno dos maiores louvores
+pela coadjuvação que me prestou, e que muito ha de concorrer para
+facilitar as ultimas resoluções do governo de sua magestade, as quaes eu
+sollicito com a maior urgencia.»
+
+O projecto subio á approvação do governo, mas, n'esses intrincados
+labyrinthos chamados secretarias d'estado, foi completamente retalhado
+pelos inexperientes conselheiros-amanuenses, naturalmente de accordo com
+a diplomacia, porque a diplomacia é sempre consultada n'estes casos; e o
+que é para admirar, é que não obstante o trabalho do dr. Lousada sahir
+desmantelado dos cadinhos officiaes, o governo brazileiro ou os homens
+d'estado que então dirigiam os destinos do imperio, com aquelle tacto
+politico-economico que todos lhe conhecemos, ainda acharam extemporaneas
+as diligencias empregadas pelo conde do Thomar, e quiçá do governo
+portuguez, a respeito do regulamento em questão!
+
+E se não vejamos.
+
+
+XIX
+
+São passados tres annos (1860 a 1863) depois das diligencias do conde de
+Thomar, e o sr. José de Vasconcellos e Sousa que substituiu aquelle
+diplomata recebia plenos poderes do governo portuguez, para entrar em
+negociações com o governo do Brazil, afim de se regular de vez a
+emigração.
+
+O resultado d'essas negociações são assim explicadas pelo sr.
+Vasconcellos e Sousa:
+
+«A disposição do governo imperial para com o de sua magestade, para com
+Portugal, e ousarei dizer para comigo individualmente, não póde ser mais
+favoravel. Isto, não obstante, não prescinde o mesmo governo de attender
+sériamento com affinco ao que considera necessidade imperiosa,
+satisfazendo ao mesmo tempo á opinião manifestada, já do proprio
+partido, já da opposição; e insta comigo, por meio de todos os seus
+membros, para que seja regulada, quanto antes, e primeiro que tudo, a
+questão da emigração e o modo d'ella, de tal sorte que cesse de ser
+duvida, por demais assustadora para o Brazil, a vinda de gente
+portugueza para este imperio» etc.
+
+O officio datado do 8 de janeiro de 1863, expedido pelo ministro dos
+negocios estrangeiros, ao representante de Portugal no Brazil, tirava
+todas as duvidas, que por ventura houvesse contra o nosso governo, de
+pretender demorar a discussão de um assumpto tão importante para os dois
+paizes.
+
+Não tinha, pois, de que se queixar o governo do Brazil. O projecto de
+convenção ia ser-lhe presente pelo nosso delegado.
+
+O sr. José de Vasconcellos communicava pouco depois ao nosso governo:
+
+«Tenho a honra de passar ás mãos de v. ex.ª a inclusa copia da nota
+confidencial, que n'esta data entreguei em mão propria ao marquez de
+Abrantes, ministro e secretario d'estado dos negocios estrangeiros de S.
+M. o imperador do Brazil, acompanhada do projecto da convenção dos
+colonos, convidando-o para a respectiva discussão e ajuste definitivo,
+etc.
+
+«Das mãos do marquez de Abrantes tem de passar o dito projecto ás mãos
+do ministro da agricultura e da justiça, e sómente depois de ouvidas e
+accordes as suas opiniões sobre elle, entraremos, o dito marquez e eu na
+respectiva discussão.
+
+«Depois de um longo preambulo, declarou-me que o resultado do exame da
+materia o tinha convencido de que antes do revogada certa lei de
+colonisação (a de 11 de outubro de 1837), era impossivel negociar uma
+convenção de emigração, a cujos principios de liberdade, e mesmo de
+rigorosa justiça, se oppunham formalmente as disposições da dita lei,
+etc.
+
+«A final, e depois, de muito boas palavras, affirmou-me que o governo
+imperial não havia mudado de principios nem de intenções, que havia de
+fazer a convenção, e que o seu primeiro cuidado seria apresentar ás
+camaras, em janeiro proximo futuro, um projecto de lei que revogasse a
+que fica citada, e habilitasse o governo a entrar n'uma negociação
+franca de emigração, garantida pela nova lei.
+
+«Assim o espero devéras, mas não encubro a v. ex.ª o meu desapontamento
+grandissimo, e sério desgosto, tanto mais natural e profundamente
+sentido, quanto, em minha consciencia o digo, e v. ex.ª não ignora, que
+fiz o que era humanamente possivel para evitar similhante demora!
+Digne-se v. ex.ª notar, que o unico embaraço para a emigração desde já,
+é justamente a citada lei de 1837, sobre a qual eu chamei sempre a
+attenção do marquez de Abrantes, e a do sr. ministro da agricultura e
+commercio, todas as vezes que fallamos em colonisação, que não tem sido
+poucas.
+
+«_Em tudo isto ha uma prova notavel de boa fé_, e de desejo sincero de
+estabelecer a emigração em base solida, sustentada em principios que não
+possam ser destruidos com as peias das leis _barbaras_ de outra
+epocha.»[45]
+
+Parece-nos demasiadamente ingenua a boa fé do sr. José de Vasconcellos e
+Sousa, com respeito ao assumpto, se attendermos ao seguinte trecho do
+seu citado officio:
+
+«... Disse-me mais, que assegurasse a v. ex.ª que, tanto esta convenção
+(de emigração), como a de propriedade litteraria, esta dependente
+d'aquella, seriam concluidas logo depois da proxima reunião do corpo
+legislativo (em 1864).»
+
+Perguntamos porque razão estava uma dependente da outra? Que tinha que
+vêr a convenção litteraria com a que regulava a emigração de colonos
+portuguezes para o Brazil? Acaso a lei referida, de 1837, serviria
+tambem de obstaculo á conclusão d'este tratado?
+
+Não. Eram tudo evasivas, evasivas que não podiam ser tachadas de
+_notavel boa fé e de desejo sincero_ em estabelecer os principios do
+direito de propriedade litteraria, de que temos sido e continuaremos a
+ser esbulhados.
+
+ [45] Officio de 8 de junho de 1863.
+
+
+XX
+
+Escusado será dizer que no anno de 1864 não foi presente ao corpo
+legislativo brazileiro, como se havia promettido, o projecto de lei que,
+segundo a opinião dos ministros do imperio, devia derrogar essa outra de
+1837, que impedia a negociação de uma convenção sobre emigrados, _a
+cujos principios de liberdade, e mesmo de rigorosa justiça, se oppunham
+formalmente as disposições de tão barbara lei_!
+
+E o que é mais notavel, é que que essa lei estupida e deshumana,
+reconhecida como tal pelos primeiros homens d'estado do Brazil, ainda
+não foi derrogada. É ainda a lei que regula o trabalho dos pobres
+emigrados alli residentes!
+
+A eliminação da lei de 11 de outubro de 1837 organisada por assim
+dizermos debaixo da influencia de legisladores que mais pensavam na
+continuação do horroso trafico da escravatura africana, escapou aos
+legisladores de 1871, que decretavam livre o ventre da mulher escrava!
+
+E o que é mais, é que estamos em 1878, e as leis de que fallamos
+continuam, uma, fazendo do preto um cidadão, e a outra fazendo do branco
+um escravo!
+
+É assim o mundo; e o Brazil, especialmente, ainda nos apresenta d'estes
+phenomenos!
+
+Dar-se-ha caso que os economistas brazileiros conservem ainda a lei de
+1837 com o fim de evitar que se discuta o tratado de emigração proposto
+por Portugal em 1863, e a tão fallada convenção da propriedade
+litteraria?!
+
+Se assim é, como o demonstra a irrefutavel logica dos factos que
+analysamos, não digam que o Brazil protege a emigração.
+
+Mas que tem que ver Portugal com a teimosia dos estadistas brazileiros?
+
+
+Será necessario pedir licença ao Brazil para publicarmos qualquer lei
+tendente a evitar o horroroso commercio da escravatura branca?
+
+Parece que sim, porque o governo imperial não ficou satisfeito com a
+publicação da lei de 1855, e, talvez que por essa circumstancia, o
+governo portuguez, para não descontentar mais o governo brasileiro,
+descurou completamente a approvação d'um regulamento tão indespensavel
+como o exigido no artigo 12.º.
+
+Por outra fórma se não póde deixar de considerar o seu procedimento, se
+attendermos ao addiamento da questão, censurado pela imprensa em meados
+de 1872 e immediatamente considerada pelo governo, para guardar
+apparencias; porque foi outra vez despresada até fins de 1874, em que de
+novo fôra lembrada, para tornar a ser esquecida, como é facil de prever,
+se attendermos a que as medidas propostas na legislatura de 1876, pelos
+membros da commissão nomeada em 1873, não tiveram echo no parlamento,
+preterindo-se a discussão d'este assumpto gravissimo por outros de uma
+importancia secundaria, e quem sabe mesmo se essencialmente prejudiciaes
+aos interesses do paiz.
+
+
+
+
+CAPITULO VI
+
+Ainda as questões do Pará. Os pasquins de cá e os pasquins de lá. As
+«Farpas» e a «Tribuna». «Lo Spirito Folletto» e o «Punch». Desforços da
+«Tribuna». A popularidade da «Tribuna». Pasquins brazileiros.
+
+
+I
+
+Os acontecimentos do Pará, em 1874, a que como já dissemos, tambem se
+refere o auctor do livro o _Brazil_, obriga-nos a entrar de novo no
+assumpto.
+
+Mas antes de o profundarmos cumpre-nos declarar que se não publicámos,
+como prometteramos, o segundo livro annunciado no final das _Questões do
+Pará_, foi por que tendo nós pedido documentos que julgamos
+indispensaveis para fazer a historia d'aquella horrorosa tragedia, a um
+amigo nosso residente no Pará, e tendo elle accedido do melhor grado ao
+convite, o portador a quem os confiára, chegado que foi a Lisboa,
+entendeu dever exonerar-se do compromisso que voluntariamente se
+impozéra, ou, o que é mais extranhavel, subtrahio-os!
+
+Ó heróico poeta, como tú conhecias o mundo quando assim pensavas:
+
+ Dizei-lhe que tambem dos portuguezes
+ Alguns traidores houve algumas vezes.
+
+Mas... prescindamos dos documentos e examinemos as considerações que aos
+referidos tumultos fez o auctor do livro o _Brazil_; e para que com
+conhecimento de causa sejam julgadas as nossas palavras, citaremos
+d'esse livro os trechos sobre que entendemos dever fazer alguns reparos.
+
+Um jornal do Porto escrevera opportunamente a respeito das desordens do
+Pará:
+
+«A colonia portugueza do Pará, é continuamente insultada por alguns
+jornaes d'aquella terra, insultos quasi sempre acompanhados de
+improperios soezes e estultos á nossa bandeira nacional, sem se
+lembrarem sequer, esses desgraçados! que foi á sombra d'ella que os seus
+avoengos viveram por tres seculos!»
+
+O sr. Carvalho responde o seguinte no seu livro:
+
+«Ao escriptor portuense confessamos que assistem razões muito ponderosas
+para se pronunciar por este modo. Peza-nos sómente, devéras o dizemos,
+que ao traçar tão bem cabidos reparos, _não carregasse um pouco mais a
+mão_...
+
+E continúa logo:
+
+«...... Ainda assim pedimos-lhe que nos conceda estendel-os tambem a uns
+certos hydrophobos de cá, que, ha tempos a esta parte, se deixam tomar
+da mania de vomitar doestos e calumnias contra o Brazil.»
+
+O que é logico é que se o escriptor portuense seguisse o conselho do
+snr. Carvalho, de _carregar um pouco mais a mão_, como tantos
+jornalistas fizeram, quando appreciaram á luz d'este seculo os actos de
+selvageria praticados no Pará, não poderia deixar de ser cognomisado de
+hydrophobo!
+
+O auctor do _Brazil_ assim desculpa os nossos insultadores:
+
+«Este imperdoavel abuso da liberdade de imprensa no Brazil, explica até
+certo ponto a razão de ser dos seguintes pasquins--_O Alabama_, da
+Bahia--_O Commercio a retalho_ (digno sucessor do _Tribuno_), de
+Pernambuco--e _A Tribuna_, do Pará.
+
+«Em Portugal, vá-se dizendo tambem para desconto de peccados, surgem a
+espaços no seio do jornalismo uns dignissimos émulos d'aquelles leprosos
+d'além-mar. Exemplos:--_O Raio_--_O trinta mil diabos_--_O chicote dos
+ladrões_, etc., etc.
+
+«Lá e cá o publico sustenta-os e folga com elles. Esta a verdade, tal
+qual é.»
+
+Não é isto exacto.
+
+Resumamos os acontecimentos horrorosos de que tem sido alvo a colonia
+portugueza no imperio de Santa Cruz, e que tem dado justa causa a
+declarar-se a _hydrophobia_ na imprensa de Portugal.
+
+Entre os hydrophobos de cá e os hydrophobos de lá, ha, com effeito,
+muita differença.
+
+Alguns brazileiros, não satisfeitos com os insultos que nos dirigem,
+lançam mão do punhal e do trabuco homicida, para satisfazer o odio de
+raça que os devora; os portuguezes, só depois dos insultos é que usam do
+direito de represalia, pedindo á imprensa o que lhes nega o governo
+brazileiro.
+
+No que os brazileiros enchergam calumnias, não ha mais do que factos
+verdadeiros, que, por serem ás vezes tão extraordinarios, não parecem o
+que effectivamente são.
+
+É preciso illucidar um pouco mais isto.
+
+Houve exaltação da parte da imprensa portugueza, exaltação
+justificadissima, em face do espesinhamento do nosso pavilhão, por
+subditos brazileiros, n'uma das praças publicas da cidade do Pará, em
+principios de 1873. Essa exaltação recrudesceu quando as auctoridades
+brazileiras deixaram impune o acto vandalico dos desordeiros. Esta
+impunidade armava contra nós os paraenses. O seu jornal, a _Tribuna_, já
+não se contentava só com insultos, publicava proclamações incendiarias,
+chamando o povo ás armas contra os portuguezes residentes na provincia.
+Da cidade do Pará eram destacados para o sertão alguns agentes d'aquelle
+infame papel, para lerem aos _tapuyas_ o grito de guerra; outros
+dirigiam-se ás praias do Guajará, junto da cidade de Belem, aonde ha
+sempre grande movimento de _canoas_ vindas do interior, e alli, no meio
+dos tripulantes e dos passageiros, todos indigenas, eram lidos
+infamantes libellos contra os _marinheiros_ ou _gallegos_, epithetos com
+que em todo o imperio distinguem os filhos de Portugal! Estas doutrinas
+subversivas da ordem publica, apregoadas por espaço de dois annos
+consecutivos, á luz do dia e na presença das indifferentes auctoridades
+do Pará, produziram a explosão de setembro de 1874, que podia ter
+produzido resultados mais funestos, se não fôra a _Agencia Americana
+Telegraphica_, de que eramos representante na referida cidade. Com tudo,
+muitos portuguezes foram assassinados, e outros gravemente feridos,
+ignorando-se hoje ainda qual o verdadeiro numero das victimas. E note-se
+que tudo isto era devido á propaganda da _Tribuna_: eis em que davam os
+risos!
+
+Em Pernambuco e no Ceará davam-se casos quasi identicos.[46]
+
+Não podia a imprensa de Portugal deixar de occupar-se de um assumpto tão
+grave, invectivando as auctoridades brazileiras de conniventes nos
+attentados praticados contra os filhos d'uma nação que conservava com o
+Brazil as relações mais intimas; e dizemos conniventes porque á
+propaganda nada se oppoz.
+
+Não satisfeitos os desordeiros com o sangue das victimas, que já tingira
+as terras brazileiras, não contentes porque ainda achavam que era pouco,
+começaram por insultar a guarnição da corveta _Sagres_, que n'este tempo
+largava ferro na bahia do Pará.
+
+O nosso homem do mar, acostumado a ser bem recebido em todos os paizes
+do mundo, e illudido a respeito da colonia residente no Brazil, de quem
+se dizia «que o portuguez era insultado porque insultava»; pesaroso
+pelos proprios insultos, _que não podiam ser levados á conta de
+represalia_, procurou os insultadores, a quem infligiu o merecido
+castigo.
+
+Novas proclamações incendiarias pozeram em sobresalto os habitantes do
+Pará.
+
+Mais tres portuguezes caem feridos de morte, ás mãos dos _soldados_
+assassinos do imperio de Santa Cruz.
+
+Espalha-se o terror, em vista d'este facto assombroso, de serem os
+agentes da auctoridade publica os assassinos mais convictos, porque apoz
+o crime, iam declarar aos seus superiores, _que acabavam de prestar um
+serviço á patria assassinando gallegos_.[47]
+
+E a _Tribuna_ continuava impunemente a incitar os animos á chacina!
+
+Os destroços que ella faz são incalculaveis; do interior da provincia
+chegam á cidade noticias atterradoras.
+
+O presidente da provincia, que por excepção á regra se condoeu da sorte
+dos colonos, não confiando na força publica, que elle bem sabia estar do
+lado dos desordeiros, pede providencias ao governo central, que nada
+attende!
+
+O promotor publico, a quem o presidente recommenda a querella da
+_Tribuna_, nunca acha motivo para a processar; e os adeptos do pasquim,
+enthusiasmados pelo procedimento do seu patrono; vão em massa, na frente
+das musicas e deitando foguetes, agradecer-lhe _tão relevante_ serviço.
+Esta auctoridade que representa os sentimentos do governo central,
+porque jámais lhe retirára a sua confiança, ufana-se com a manifestação
+e vem á janella expressar os seus agradecimentos aos perturbadores da
+ordem publica!
+
+Na mesma cidade e ao mesmo tempo que alguns de seus habitantes chegavam
+ao apogeu do delirio, ao grito de--_mata gallegos_--a colonia portugueza
+prepara-se para a catastrophe. Os mais fortes aguardam resolutos os
+desordeiros e os mais fracos refugiam-se nos barcos fundeados na bahia
+do Pará.
+
+Um negociante recebe refugiados em casa, e intrincheira-se; outro, fecha
+o seu estabelecimento, sóbe com sua mulher e filhos para o pavimento
+superior da propria habitação, prepara o rastilho que havia de conduzir
+a uma barrica de polvora o incendio e logo a destruição de tudo que era
+seu--vidas e cabedal--, destruição que elle prefere á que a si e aos
+seus preparavam os communistas d'esta parte da America.
+
+E o jornal infame continuava as suas proclamações.
+
+Este terror é levado pelo telegrapho e pela imprensa a todos os cantos
+do mundo civilisado, e Portugal, a quem mais doía tanta desgraça,
+condemnou em phrases sentidas que nunca poderiam abonar a civilisação do
+Brazil, a repetição das scenas barbaras, que desde a noite de 6 de
+setembro até fins de novembro de 1874, faziam lembrar o sangrento dia de
+S. Bartholomeu, em França, ou os repetidos massacres antropophagos dos
+_botocudos_, contra as primitivas colonias do imperio americano.
+
+Depois reunem os tribunaes brazileiros, para julgarem os crimes
+commettidos contra os portuguezes, residentes no Brazil. Esses tribunaes
+condemnam a penas irrisorias, que importam uma absolvição, os assassinos
+de nossos irmãos: mais uma razão para a imprensa portugueza se sentir da
+indifferença do governo brazileiro.
+
+O tribunal que devia julgar os assassinos de Jurupary, em cuja causa se
+achava compromettida a honra do Brazil, não se constitue, porque os
+cidadãos independentes, note-se que não é a plébe, preferem pagar a
+multa de relaxado, a ser juizes n'uma causa em que infallivelmente
+deviam condemnar os seus compatriotas assassinos de estrangeiros
+inermes![48]
+
+A imprensa portugueza vê isto, e não póde soffrer o impulso de firmar
+bem, ainda mais uma vez, a sua opinião, a respeito de tanta selvageria.
+Mas note-se que a tal _hidrophobia_ propagou-se a toda a imprensa de
+Portugal, sem excepção do _Trinta mil diabos_ e outros, o que não podia
+deixar de ser.
+
+O governo do imperio não póde ser culpado de tantos desmandos, porque
+estava longe do theatro dos acontecimentos. Dizem-nos isto com toda a
+irrisão, e ainda mais:--Uma prova da sua innocencia, e de que reprova os
+actos vandalicos de alguns dos seus administrados, está no seu
+procedimento, expresso no seguinte telegramma do Rio de Janeiro,
+reproduzido no livro do sr. Augusto de Carvalho:
+
+«O governo imperial accedeu, auctorisando-o, ao pedido de indemnisações
+pecuniarias, para as familias dos subditos portuguezes assassinados no
+Pará.
+
+«O presidente da provincia procede com todo o rigor contra a _Tribuna_.»
+
+Mas a imprensa de Portuga! continuou a fazer justissimas accusações ao
+governo do Brazil, porque as promettidas indemnisações pecuniarias não
+foram dadas, e porque a _Tribuna_, não obstante o _rigor_ com que
+segundo se dizia, tinha sido tratada, continuou por muito tempo o seu
+fadario infame.
+
+Os hydrophobos de cá, na phrase do escriptor brazileiro, vomitam doestos
+e calumnias contra o Brazil, quando não pódem soffrer silenciosos tanta
+barbaridade.
+
+Esses hydrophobos, especializados pelo sr. Carvalho, _O Raio_, o _Trinta
+mil Diabos_, o _Chicote dos Ladrões_, jornaes satyricos, de que ninguem
+faz caso, foram creados _unicamente_ para ridicularisar, e ás vezes
+infamar, as cousas portuguezas.
+
+Mas o _Alabama_, da Bahia; O _Commercio a retalho_, de Pernambuco; e a
+_Tribuna_ do Pará, e tantos outros só foram creados para insultar a
+colonia portugueza residente no Brazil e chamar ás armas contra ella.
+
+Não póde haver termo de comparação entre uns e outros pasquins.
+
+Com os de cá, folga a nossa ralé; a gente séria condemna-os, e por isso
+a sua apparição é passageira e sem importancia.
+
+Com os de lá, não acontece o mesmo; a ralé e até as pessoas mais gradas,
+crêem nas doutrinas subversivas que esses apostolos do mal apregôam.
+
+A prova da importancia d'esses pasquins, está na duração d'elles, e ás
+vezes na proficiencia com que são elaborados os seus artigos principaes.
+Que o diga o presidente da provincia do Pará na sua proclamação.[49]
+
+O _Alabama_, póde dizer-se que é o orgão da mocidade estudiosa que se
+demora na academia da Bahia!
+
+A _Tribuna_ e o _Alabama_, calumniavam-nos ao mesmo tempo que diziam aos
+seus compatriotas, ser uma virtude civica matar um _marinheiro_!
+
+A differença é muito grande.
+
+Tambem se póde deprehender das palavras do sr. Carvalho, que os
+_hydrophobos_ de cá, são outros, que não os pasquineiros especialisados
+acima.
+
+Se a invectiva se refere a nós declaramos terminantemente que a nossa
+_hydrophobia_ se declarou no meio do alarido das victimas que nós vimos
+cahir á acção do punhal e do trabuco dos assassinos revolucionados
+n'essa terra da promissão, e dos quaes nos livrámos, por mercê de Deus,
+sem desamparar nunca o nosso posto da honra.
+
+Se a invectiva se refere a outros, por exemplo, ao auctor das _Farpas_,
+a unica publicação poupada pelo auctor do livro que analysamos, e a
+unica que mais tem rediculisado o imperio e as suas cousas, para que é
+que foi pedir ao auctor do folheto uma carta de recommendação para o seu
+livro?
+
+ [46] Veja-se a nota n.º 7 no fim do volume.
+
+ [47] Historico.
+
+ [48] Historico. Veja-se _Questões do Pará_.
+
+ [49] Veja-se _Questões do Pará_.
+
+
+II
+
+A stulticia de quererem defender os excessos dos pasquins brazilheiros e
+cumparal-os com os de cá não é só do auctor do livro o _Brazil_. Já a
+_Tribuna_ do Pará e outros jornaes brazileiros, desculpavam os seus
+injustos desforços d'uma fórma um pouco comica. O sr. Augusto de
+Carvalho não fez mais do que seguir-lhes as pisadas. Assim falla a
+_Tribuna_ do Pará:
+
+
+«Não sabendo, não tendo mesmo com que dessimular o seu embaraço,
+despeito e confusão, enxergou na expressão--VIL PEDRO PRIMEIRO--(a
+_Tribuna_ chamava-lhe assim por ser portuguez!) com a qual acoudindo a
+uma justa represalia, fulminámos a _Tribuna_ de Lisboa,--_um attentado
+contra a familia imperial_, entretanto que não tem visto os insultos
+affrontosos, que todos os dias recebe o povo brazileiro na pessoa de D.
+Pedro II.
+
+«O que disestes a Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz, sobre as _Farpas_,
+etc.?»
+
+É preciso que a verdade seja dita sem rebuço: as _Farpas_, é a
+publicação portugueza, que mais feriu os brios da nacionalidade
+brazileira, _na pessoa do seu imperador_; verdade seja que os que mais
+se queixavam, escreviam _vil Pedro primeiro_ ao pae do segundo
+imperador, e o que é sobre tudo mais irrisorio, os _imperialistas_ do
+_segundo_ e os calumninadores do _primeiro_ intitulavam-se
+_republicanos_!...
+
+Mas republicanos ou imperialistas condemnaram a critica mordaz do auctor
+das _Farpas_: nós os ouvimos; rindo-nos do desgosto ridiculo de tal
+combáda que não se lembrava de certos papeis comicos representados em
+Coimbra, perante a universidade, e no Porto, em face dos esplendorosos
+festejos promovidos por seus hospitaleiros habitantes, a sua magestade o
+imperador.
+
+E são por ventura isoladas as ironias innosentissimas dos criticos
+europeus, na passagem de sua magestade imperial pelos differentes
+estados da Europa?
+
+Não. Nem os desgostos manifestados pelos brazileiros, nem as
+conveniencias puramente mercantis, tem actualmente podido influir no
+animo d'aquelles que veem em todos os movimentos do illustre imperador
+uns motivos para rir. E não somos só nós que assim pensamos; e para o
+que vejamos:
+
+O jornal humoristico illustrado, de Milão, _Lo Spirito Folletto_, do dia
+15 de março, de 1877, um dos mais importantes, no seu genero, em toda a
+Europa, traz a caricatura do imperador vestido de gibão, com uma penna
+atravessada na cinta que o singe, e á cabeça uma porção de alfarrabios.
+Atraz do illustre viajante vae um negro, empurrando um carrinho de mão,
+carregado de todos os emblemas das sciencias e das artes. Por baixo da
+caricatura está a seguinte inscripção:
+
+«_Una volta un imperatore, per fare une ingresso in una cittá, «si
+faceva precedere» de una buona batteria di cannoni. Don Pedro invece «se
+fa seguire» dagli arnesi della scienza. Evviva dunque... il progresso._»
+
+E mais adiante no _Spiritelli_!
+
+«--Sapete perchè viaggia tanto all'estero l'imperatore del Brasile,
+abbandonando per mesi e mesi il suo trono?
+
+«--Per fare propaganda repubblicana!
+
+«--Oh bella!... Ma come, in che modo?
+
+«--Provando come due e due fanno quattro, che dal momento che il Brasile
+sta in piedi durante le sue lunghe assenze, starebbe in piedi anche se
+d'imperatore non ce ne fosse. É vero, o no?»
+
+Em outro numero apresenta o imperial viajante a dormir, n'um camarote do
+theatro da Scalla, ironia pungente ao facto de sua magestade se deixar
+adormecer como qualquer mortal, numa funcção de gala para que tinha sido
+convidado.
+
+Tem d'estes espinhos a realeza. Ella não sabe que é preciso aturar tudo
+e todos, os festejos e aquelles que os fazem?
+
+E não se diga que são insignificantes taes actos. Estas manifestações,
+dadas por um povo ao representante do outro povo, reflectem-se em um e
+outro; mas se esse representante é indifferente a essas manifestações de
+respeito, e os que as promovem se escandalisam do indifferentismo,
+louvae estes, porque tal desgoto representa ainda concideração ao povo
+representado pelo indifferente.
+
+Na Italia usaram da satyra para fulminar a indifferença. Hade por isto
+revolucionar-se o povo brazileiro contra os colonos italianos residentes
+no imperio?
+
+Não. A força da logica manda que no Brazil se _revolucionem_ contra sua
+magestade o imperador.
+
+Não era, nem nunca foi intento nosso discutir o viajante imperial; mas
+desde que no Brazil se fazem revoluções contra portuguezes por motivo de
+sua magestade ser recebido em Portugal nas _palminhas das mãos_, não
+devemos deixar passar em claro a dupla offensa que o povo amigo e irmão
+nos faz.
+
+Mas não fica ainda aqui a satyra. Da Italia passou á Inglaterra... com
+sua magestade imperial.
+
+O _Punch_, de Londres, que não desejava ver abalados os seus creditos de
+ironico, descreveu assim uma digressão do senhor D. Pedro d'Alcantara:
+
+«_Extractos de um diario imperial._--4. h. da manhã.--Muito zangado por
+ver que dormi de mais. Levantei-me, vesti-me á pressa, banhei-me na
+Serpentine, e fui dar um passeio ao Parque.--5 h.--Fui a
+Alexandra-Palace, e apanhei os empregados de sorpreza, apezar de lhe ter
+mandado dizer que havia de lá ir hoje. Zangado por ver que não tinham
+uma opera prompta.--6 h.--Tomei uma chavena de café, e fui ao Jardim
+Zoologico. Acordei os leões, montei a cavallo nos elephantes e assisti
+ao banho matinal dos hippopotamos. N. B. Ufanei-me de me ter anticipado
+a elles.--7 h.--Fui procurar o principe, e estive de cavaco ao lado da
+cama de sua alteza real. Depois fui á Polytechnica, e, como os
+empregados ainda não estavam a pé desci eu sózinho dentro do sino de
+mergulhador.--8 h.--Fui a Kew, e almocei com o dr. Hooker. Durante a
+nossa refeição um celebrado botanico teve a bondade de fazer uma
+leitura.--9 h.--Fui ao hospital de S. Thomaz, puz em polvorosa todos os
+enfermeiros, visitei o Museu etc. Não tive tempo de esperar uma
+allocução dos directores.--10h.--Fui á City, e vesitei a casa da camara,
+o Stock-Exchange, Billingsgate, e a Torre. Tive uma longa conversação
+com mr. Punch, _Fleet Street_, 85.--11 h.--Fui a Albert Hall e toquei
+orgão. Depois fui ao Museu de South-Kensington e assisti a leituras
+sobre desenho, cosinha, e trabalhos de agulha. Meio dia--Fui ao Palacio
+de Crystal, e vi os peixes. Em attenção aos meus variados compromissos,
+os directores mostraram-me os fogos de vista de dia.--1h.--da tarde. Fui
+a Orleans-Club, e subi o rio. 2h. Fui á moeda e vi o machinismo do
+correio--3 h.--Fui á camara dos pares e assisti a uma partida de
+_cricket_.--4 h.--Corri ao Aquario de Westminster. Um pouco fatigado,
+mas restaurei-me com um _lunch_ em Grosvenor Gallery.--5 h.--Depois de
+visitar a Real Academia assisti a um «chá das 5 horas» em
+Belgravia-South-Kensington.--6h.--Visitei a abbadia de Westminster, a
+cathedral de S. Paulo, e o oratorio de Brompton.--7 h.--Jantei no hotel,
+e tomei café em Battersea-Park--8 h.--Fui a Egyptian-Hall ver Zoè, e
+estive alguns minutos na camara dos communs.--9 h.--Vi o que pude de
+Convent-Garden, Lyceu, e Her-Magesty, e regalei-me com o artistico
+representar de m. Jefferson em Haymarket.--10 h.--Telegraphei
+inscripções aos meus ministros no Brazil, dancei uma quadrilha em
+Willis-Rooms, e recusou-se-me respeitosamente entrada no
+Beefsteack-Club, onde soube com muito pezar que não entravam
+estrangeiros.--11 h.--Ciei em Albion e depois fui a um baile em Carlton
+Gardens.--Meia noite--Procurei os srs. Gladstone, Tennyson e Thomaz
+Carlyle, e depois de gozar tres deleitosos cavacos, voltei para o
+hotel--1 h. da manhã--Escrevi umas poucas de cartas, li o _Times_,
+arranjei o meu despertador para as tres, e fui-me deitar.»[50]
+
+A fina ironia das _Farpas_ não é superior á que deixámos transcripta.
+
+Ponham os criticos de parte os preconceitos de nacionalidade, e hão de
+concordar comnosco.
+
+Pois bem, em paga da hilaridade singella, que não importa
+desconsideração aos brazileiros, dizem os _hydrophobos de lá_, em
+resposta ás ironias dos inglezes, dos italianos e dos portuguezes.
+
+«Vinde colonisar as nossas terras, ó inglezes civilisados e italianos,
+que vós sois mais uteis do que os portuguezes assassinos e ladrões!»
+
+Ás finas ironias das _Farpas_, onde especialmente se distingue a mala
+inseparavel de D. Pedro de Alcantara respondem:--_O vosso rei é um
+bebado e um devasso!_ E querendo responsabilisar os colonos pelos
+escriptos de Ramalho Ortigão, escrevem:
+
+«A emigração é um direito baseado na phylosophia, sustentado pelo
+progresso da humanidade.
+
+«Sim, senhor, não vamos ao contrario d'esse principio eterno do
+desenvolvimento da arte e da sciencia, da civilisação por tanto.
+
+«Mas não ha direito que não tenha por espelho o dever em seu fiel
+cumprimento.
+
+«O emigrado suppõe a idéa de utilidades. É um axioma.
+
+«O emigrado é um individuo, e como tal, para fazer valer seus direitos,
+corre-lhe a obrigação de não faltar aos seus deveres.
+
+«Ora, desde que esquece estes perde aquelles.
+
+«O direito suppõe a justiça, o dever suppõe a moral.
+
+«Desprezada a moral pelo individuo temos um ente perdido e perigoso, que
+despreza da mesma forma a justiça por meio de um crime.
+
+«Um criminoso não póde ser util a sociedade alguma.
+
+«Assim, pois, o emigrado immoral e affeito ao crime é um individuo
+inutil.
+
+«Isto posto, indaguemos qual a utilidade, que nos póde sobrevir da
+colonia portugueza.
+
+«Estudemos pela theoria dos factos apoiados nos grandes mestres, a
+historia e o tempo.
+
+«Em que consiste o merecimento do braço portuguez?
+
+«Somos forçados a retirar os olhos cobrindo o rosto; pois o quadro que
+nos offerecem a lavoura, a arte e a industria de nossa terra, é o mais
+digno de lastima, por mercê da _actividade_ portugueza.
+
+«Como causa, quaes os effeitos da intelligencia d'essa colonia?
+
+«Entre nós, provavelmente, ás sciencias, á litteratura, ás bellas artes
+nada tem aproveitado; antes as letras, os verdadeiros talentos de nossa
+patria teem soffrido atroz violencia (_sic_), indigna opposição da parte
+d'ella.
+
+«E quaes teem sido as provas da grandeza d'alma portugueza?
+
+«As provas do sentimento, da moral, da virtude, da honestidade do
+cidadão portuguez temol-as de sobejo ainda que esqueçamos o quanto sabe
+ser elle ingrato; porque iremos encontral-o em toda a parte--como um
+ente dissoluto; em todas as situações--como um hypocrita; na mais infima
+á mais elevada posição--como um cynico perante a lei, diante de Deus um
+atheu e dos homens uma vibora.
+
+«Não se presta o colono portuguez ás luctas da agricultura nem sua
+cabeça percebe o hymno que se entoa nas officinas, nos templos do
+trabalho honesto, porque fecha os olhos, cerra os ouvidos á voz da
+consciencia, aos gritos da virtude e aos arrojos da concepção humana.
+
+«São portanto colonos estupidos, immoraes, por conseguinte inimigos do
+dever, que aberrando de um direito perdido aggridem a justiça e exaltam
+o--crime.
+
+«Incontestavelmente é uma raça inutil.
+
+«Por ventura nos póde convir uma colonia, que, em vez de alimentar,
+serve de tropeço ao desenvolvimento material de nosso vasto paiz».[51]
+
+Nós não queremos discutir este amontoado de disparates, mas respondemos
+com o seguinte documento official aos taes _hydrophobos_ de lá que em
+nada se parecem com os de cá:
+
+«Do relatorio do ministerio da fazenda do imperio do Brazil, apresentado
+este anno (1877) á assembléa geral legislativa, extraimos a seguinte
+nota do numero dos contribuintes sujeitos ao imposto industrial no Rio,
+regulado alli por lei de 15 de julho de 1874, excluidos os
+estabelecimentos taxados com relação aos meios de producção e os de
+sociedades anonymas--isto no exercicio de 1875-1876.
+
+«Os contribuintes são:
+
+Portuguezes 7:394
+Brazileiros 1:791
+Francezes 466
+Inglezes 127
+Allemães 127
+Italianos 214
+Hespanhoes 58
+Belgas 13
+Hollandezes 1
+Suissos 23
+Americanos 17
+Orientaes 1
+Chins 1
+Africanos 16
+Gregos 4
+Dinamarquezes 7
+Cubanos 1
+Suecos 3
+ ------
+ 10:264
+
+«O valor locativo em moeda do Brazil, do local que servia para o
+exercicio da industria era de réis 6.052:661$198, e o valor total do
+imposto foi de réis 1.010:090$359, tudo moeda fraca.
+
+«As sociedades anonymas sujeitas ao imposto de industria e profissões,
+no dito exercicio de 1875-1876, foram 36, sendo 15 brazileiras, 15
+portuguezas, 5 inglezas e 1 americana, cujos dividendos subiram a réis
+8.553:000$000, pagando de imposto 1,5 por cento, ou 128:000$000 réis.
+
+«O numero de estabelecimentos industriaes (note-se bem--_industriaes_)
+sujeito ao referido imposto, no mesmo anno, foi de 182, sendo:
+
+Brazileiros 45
+Portuguezes 109
+Francezes 11
+Inglezes 3
+Allemães 5
+Hespanhoes 5
+Suissos 3
+Italianos 1
+
+«Estes estabelecimentos empregavam 976 operarios, e d'elles 100 eram
+laborados á força humana, 7 por meio de força irracional, 66 pela do
+vapor e 9 pela da agua. O imposto que pagaram foi de 18:637$436 réis.
+
+Vê-se por estes dados qual é a parte importante que a nacionalidade
+portugueza tem na industria e commercio do Rio de Janeiro.
+
+«Note-se, no entanto, que em todo o Brazil o imposto das industrias e
+profissões é avaliado em 2:600:000$000 para o exercicio corrente de
+1877-1878.»[52]
+
+Elles, os hydrophobos, ignoram isto, coitados! Nós fazemos-lhes esta
+justiça.
+
+É por causa d'essa ignorancia que os desgraçados afinam por este
+diapasão.
+
+«_Deus já nos vae ajudando._--A bordo do vapor inglez _Jerome_ sahido
+d'este porto no dia 26 do corrente mez, escafederam-se para a _terrinha_
+trinta e tres gallegos, qual d'elles o mais estupido e vilhaco.
+
+«Por emquanto está o Pará livre d'estes trinta e tres canalhas que nos
+favorecem com a sua ausencia!
+
+«Oxalá que arribassem todos os _ladrões_ e aventureiros, que chegando
+aqui sem vintem, sem officio nem beneficio, compram logo fiado uma
+taberna, assignam muitas vezes letras, sem saberem o que assignam e
+depois para pagarem, andam roubando aqui acolá, commettendo quanta
+infamia e praticando toda a sorte de escandalo e desacatos; e quando
+vêem os gallegos infames que não podem com a carga, atiçam fogo na
+bodega e raspam-se para a _terrinha_ roubando e desgraçando a muita
+gente!
+
+«É d'esta _escoria_, d'este _povoléo_ ordinario que veem de Portugal!
+Gente boa não vem de lá.
+
+«Desengane-se quem quizer, cada um bicudo que chega ao Brazil ou é um
+refinado vadio troca tintas, ou um calceta fugido do Limoeiro, ou das
+enxovias do Carmo. A canalha bicudal tem mais medo das solitarias do
+Carmo do que do diabo.
+
+«Nós queremos estrangeiros civilisados, laboriosos e honestos, emigrados
+amigos do trabalho; o que não podemos supportar são _portugallegos_ que
+veem aos centos, todos _ladrões, infames, desatinados, salteadores,
+assassinos e moedeiros falsos, etc. etc._
+
+«Contra estes _ladrões_ todo o rigor das nossas leis e a maldição do
+povo brazileiro caia sobre elles.
+
+«Longe, bem longe de nós e de tudo quanto é honesto e civilisado está
+_esta tróça estupida de gallegos_. Deixem-nos, vão para o inferno, para
+a costa d'Africa, para as zonas torridas e humidas de Pedro Botelho,
+comtudo que favoreçam-nos com a sua ausencia.
+
+«O que querem estes malvados e faccinoras _gallegos_ n'uma terra, onde
+ninguem os póde vêr?!...»[53]
+
+O que deixamos trascripto, como se pode deprehender, refere-se a
+portuguezes que sahiam do Brazil, contra quem, ainda que sem motivo,
+podiam allegar represalias; mas o que vamos transcrever é uma amostra
+das recepções que n'aquelle paiz hospitaleiro costumam fazer aos colonos
+que pela primeira vez pisam o solo brazileiro, contra quem parece que
+não devia haver razão de queixa:
+
+«_Pilha de ladrões e velhacos._--A bordo da barca portugueza
+_Camponeza_, vinda da _terrinha_ e aqui ancorada no dia 8 do corrente,
+chegaram 26 badamecos gallegos e velhacos, sujos e réos de policia.
+_Elles_ que de lá vem é porque fizeram alguma... Ou fugindo do serviço
+das armas, deixando o pae e a mãe compromettidos, ou arrombando as
+prisões do Limoeiro e as enxovias do Carmo, onde é a vivenda continua da
+matúla indigna e safada.
+
+«Pelo ról dos passageiros não consta que viesse um só, entre tantos
+ladrões, um habil pintor, um perito dentista, um intelligente
+agricultor, um laborioso agronomo, um engenheiro, emfim, um homem de
+educação e de bons instinctos. Veiu sim, uma matúla estupida de ladrões,
+assassinos, vagabundos, jogadores, não bastando ainda os muitos que por
+aqui estão!
+
+«E não se envergonha a estupida colonia portugueza de apresentar em uma
+terra estranha patricios seus, filhos do _decantado_ Portugal, como os
+que vieram agora na barca _Camponeza_ e outros muitos que constantemente
+vêem baldeados nos porões dos navios!
+
+«E ainda dizem que os portuguezes são nossos _civilisadores_...
+
+«Barbaridade! affronta!...
+
+«Desengane-se a negra gallegada que aqui como em toda a parte ella não
+passará de uma _gentinha_ miseravel, estupida, dedicada ao roubo, ao
+assassinato e á introdução da moeda falsa.»
+
+Finalmente, não chegava navio algum da Europa que transportasse colonos
+portuguezes, que ficassem isentos d'uma recepção tão delicada e...
+hospitaleira!
+
+Transcrever taes artigos seria, alem de fastidioso, impossivel, ainda
+mesmo em meia duzia de grossos volumes.
+
+A represalia contra as _Farpas_, não podia ser mais inconsequente.
+
+ [50] Traducção do _Diario da Manhã_.
+
+ [51] A _Tribuna_, do Pará.
+
+ [52]_Jornal do Commercio_, de Lisboa, de 19 de julho de 1877.
+
+ [53]_A Tribuna_ do Pará.
+
+
+III
+
+Para salvarem da responsabilidade, que tão justamente cabia á sociedade
+paraense, diziam os optimistas, e entre estes o auctor do _Brazil_, que
+a _Tribuna_ não era bem acolhida por aquelle povo; mas o pasquim assim
+respondia aos calumniadores:
+
+«Conhecedores como somos, d'este estado morbido da nossa sociedade,
+exultamos de prazer quando recebemos o nome de algumas senhoras
+paraenses que mandaram inscrever-se entre os assignantes da _Tribuna_.
+
+«Este passo certifica-nos que o patriotismo existe mesmo no coração
+d'aquellas que se acham unidas por laços indissoluveis aos subditos da
+terra, cuja pressão combatemos.
+
+«Essas corajosas senhoras, que lêem e applaudem a _Tribuna_, tão mal
+vista pelos--_namorados dos Portuguezes_ (os paes brazileiros que
+desejam casar as filhas com compatriotas nossos), abriram um exemplo
+que, é de suppôr, despertará o patriotismo do seu sexo, que faz os
+nossos encantos, e a quem deveras desejamos maiores venturas que as
+gosadas hoje.
+
+«A _Tribuna_ não póde deixar de agradecer-lhes essa honra, de que sempre
+nos ensoberbeceremos, servindo-nos de estimulo para proseguirmos no
+caminho que tomamos sobre nossos hombros.
+
+«Agora, que rendemos o preito devido ás nossas formosas e patrioticas
+assignantes, o leitor nos permitta tratemos de alguns factos.»
+
+Na data em que isto se publicava--20 de maio de 1872--, a _Tribuna_
+fazia uma tiragem de 1:000 exemplares, e para mostrar que o apello fôra
+attendido pelos _patriotas_, aquelle numero subiu a 3:000, passado
+apenas um anno!
+
+Tambem diziam:--o jornalismo do imperio não faz caso do pasquim; e a
+_Tribuna_ fulminava assim os insultadores da sua _dignidade_:
+
+«Estranha o bandido d'além mar, em um aranzel publicado no _Diario da
+Bahia_, que o _Jornal do Pão de Assucar_ tenha tido a honra de permutar
+com o nosso periodico.
+
+«Estes labregos não se conhecem!
+
+«O _Jornal do Pão de Assucar_, por ser redigido por um homem de bem,
+_foi que pediu a permuta á Tribuna_, e ella acceitou. _Nós permuttamos
+com quasi todos os jornaes do imperio_, dos logares os mais longiquos, e
+de todos estes jornaes só ao _Globo_ foi que da nossa parte pedimos
+permuta; quanto aos mais nós não fazemos mais que acceital-o se o jornal
+é digno d'essa consideração (_sic_), se não é damos-lhe um pontapé como
+fizemos ao _Imparcial_ de Guimarães, porque aqui não jogamos perolas a
+porcos, nem damos esmolas aos cães.»
+
+Se não fôra demasiado extenso publicariamos n'este logar a lista dos
+jornaes do imperio que trocavam com o pasquim incendiario do Pará.
+
+
+IV
+
+Alguns de nossos leitores terão reparado já na insistencia de só
+querermos apresentar á vindicta publica a _Tribuna_, deixando incolumes
+os pasquins _Regeneração_ e _Constituição_, que tambem se publicam na
+cidade do Pará; aquelle, orgão official do clero, e este do partido
+conservador. Não é esse o nosso intento, assim como o não é de
+isentarmos os pasquins que se publicam nas outras capitaes das
+provincias, ao sul da do Pará.
+
+Assim, pois, vamos apresentar ao leitor _O Argus_, _O Estandarte_, _O
+Progresso_, _A Malagueta_, _A Voz do Bacange_[54] e o _Publicador
+Maranhense_ do Maranhão.[55]
+
+Do Ceará a _Tribuna Popular_. De Pernambuco, o _Commercio a retalho_ e a
+_Luz_; e antes de mencionarmos os das outras provincias, transcreveremos
+alguns especimens hospitaleiros d'estes pasquins... com os quaes se não
+ri a população.
+
+Falla o _Commercio a retalho_:
+
+«Vive o povo brazileiro sobre a pressão do mais horroroso pauperismo!
+
+«Certamente causa espanto, que o povo brazileiro viva na miseria, sendo,
+entretanto, o Brazil tão rico!
+
+«O que contribue directamente para que o povo, habitando n'um paiz tão
+fertil, viva opprimido pela miseria, são duas causas--a estupida,
+anti-patriota gestão dos negocios publicos, e o commercio a retalho ser
+exclusivo dos portuguezes!
+
+«Se desde que organisou-se o governo brazileiro, este tivesse tratado de
+preparar o paiz, por meio de reformas liberrimas e economicas, por certo
+que hoje não teriamos de lamentar tantas vexações e desgraças: não
+teriamos de ver só portuguezes no commercio.
+
+«Se desde que chegamos ao numero de poder tratar dos negocios da patria,
+nossos antigos não fossem cedendo o campo commercial aos portuguezes,
+incontestavelmente não veriamos hoje uma mocidade activa, intelligente,
+sem occupação em demanda de empregos publicos, não achando um logar no
+commercio, prestando-se a imposições do governo.
+
+«Em condições tão excepcionaes, resta aos brazileiros conquistar a todo
+o transe o commercio a retalho.
+
+«Continuar a testemunhar o espectaculo pungente de uma mocidade entregue
+á triste condição de andar pelas secretarias, subir incessantemente
+escadas de influentes do governo, para adquirir empregos, é impossivel.
+
+«Quando um povo chega ao deploravel estado de ver o primeiro ramo da
+riqueza do seu paiz entregue a estrangeiros, que escarnecem d'elle, como
+os portuguezes dos brazileiros, não póde conter-se.
+
+«E, para conquistarmos o commercio, não é preciso desatinos,
+conquistemos sublime e francamente por meio da união, da associação,
+concorrendo para as casas dos nacionaes e esquecendo as espeluncas dos
+passadores de cedulas falsas» etc. etc.
+
+E conclue:
+
+«Escolha o povo: ou nacionalisar o commercio a retalho para salvar-se
+d'esta miseria, ou succumbir sendo victima d'ella, tendo sobre a campa o
+vergonhoso epitaphio--covardes! Povo de escravos!»
+
+Nós cá não somos tão máus como o _patriota_ João Cancio e
+Romualdo--redactores da asneira; nós cá bradaremos aos pasquineiros e a
+quem lhe dá trella:--ó mandriões! agarrai na enchada e desbravai a
+terra! e quando ella vos der ouro, vinde então estabelecer o commercio a
+retalho brazileiro ao lado do commercio a retalho portuguez!...
+
+Mas não ha gastar cera com tão ruins defuntos. Vamos ao que importa.
+
+Na Bahia publica-se o _Alabama_ e o _Labaro Academico_.
+
+A sua irmã _Tribuna_ expressa-se n'estes termos a respeito do _orgão_
+dos estudantes da academia em S. Salvador:
+
+«_Labaro Academico_».--Pelo paquete do sul entrado no dia 15 do corrente
+em nosso porto, recebemos o n.º 8 d'esse illustre periodico, redigido
+por abalisadas pennas.
+
+«A illustre redacção do _Labaro Academico_ sobremodo nos penhorou, que
+não podemos deixar passar desapercebidas as phrases lisongeiras, que com
+profusão nos dirige, com as quaes illustramos as columnas do nosso
+periodico.
+
+«Diz elle que _dois elementos nos esmagam, dois elementos nos aviltam_.
+
+«Pois bem! Unamo-nos em um amplexo fraterno, e trabalhemos para o nosso
+_desideratum_, isto é, regeneremos o nosso paiz--a nossa liberdade.
+
+«O _Labaro_ que trate de expellir o _primeiro_ de nossas ridentes
+plagas, emquanto nós nos esforçamos para exterminar completamente o
+_segundo_ da nossa sociedade, isto é, a colonia portugueza, esse cancro
+que corroe as nossas riquezas, a nossa dignidade, os nossos direitos e o
+que temos de mais caro--a familia.
+
+«Seja o nosso grito o mesmo que o do bardo de Albion:--_Away, away!_
+
+«Assim se expressa o _Labaro_ acerca da nossa _Tribuna_:
+
+«A _Tribuna_ periodico popular que se publica em Belem, capital da
+provincia do Pará, assim se exprime a nosso respeito:
+
+.........................................................................
+
+«Agradecendo as palavras lisongeiras que nos dirigem os illustrados
+redactores da _Tribuna_, cumpre-nos dizer que como vós, nós tambem temos
+um _desideratum_ a realisar; é a regeneração do nosso paiz--a nossa
+liberdade.
+
+«Dois elementos nos esmagam, dois elementos nos aviltam.
+
+«Nós tratamos de expellir o primeiro das nossas ridentes plagas,
+procuramos quebrar as cadeias que jungem este colosso Americano ao poste
+da servidão e degradação a que nos tem arrastado a realeza.
+
+«Vós procuraes arrancar da nossa sociedade um cancro que corroe as
+nossas riquezas, a nossa dignidade, os nossos direitos e o que temos do
+mais caro--a familia.
+
+«Trabalhai, que o povo brazileiro vos abençôa e applaude, porque sois os
+defensores de seus direitos, e a posteridade registrará na historia os
+vossos nomes.
+
+«Nós tambem trabalharemos sempre e sempre, e se pararmos extenuados pelo
+cansaço, outros tomarão o nosso logar. Away, away.»
+
+No Rio de Janeiro, finalmente, o jornal a _Republica_, que fôra redigido
+por uma pleiada de escriptores celebres no Brazil, comprehendia os
+principios democraticos ataçalhando a colonia portugueza e oppondo-lhe a
+barreira de preconceitos mal entendidos, quando a sublime idéa manda
+derrubar as barreiras que ante si construiram os despotas das
+nacionalidades!
+
+Não temos presente nenhum exemplar d'este periodico, mas a _Tribuna_
+paraense, accusando a recepção, da _Republica_ assim se exprime a seu
+respeito, em 6 de janeiro de 1874:
+
+«Já não estamos sós:--Pernambuco tem o _Commercio a Retalho_, e no Rio,
+a _Republica_ trata de despertar a attenção publica sobre o elemento
+portuguez tão numeroso e hostil á nacionalidade brazileira.»
+
+A _Nação_, do Rio de Janeiro, jornal semi-official do _governo_
+presidido pelo visconde do Rio Branco, álem de outros artiguinhos
+capciosos, publicou o seguinte, que o pasquim paraense transcreveu:
+
+«_Guita! Guita!_... Segundo os diccionarios portuguezes significa esta
+palavra--_barbante cordelinho de linha_.--Os _gaiatos_ de Lisboa, porém,
+conhecem pelo nome de _guitas_--os soldados de policia. É esse o termo
+que se pretende hoje popularisar entre nós!
+
+«E são esses estrangeiros (os portuguezes) os que procuram animar
+desordens, aconselhar o desrespeito á auctoridade, justificar quanto
+excesso e escandalo se pratica!
+
+«O grande _Jornal do Commercio_ tambem toma parte n'essas brilhantes
+manifestações, embora com a manha que lhe é habitual. Deixa de fallar
+nos attentados dos seus queridos compatriotas, e vem dizer que os
+agentes de policia estão praticando excessos condemnaveis e promovendo
+desordens, quando toda esta cidade sabe que a prudencia da policia tem
+ido até á fraqueza.
+
+«O que é certo é que os brazileiros que servem na guarda urbana têm sido
+aggredidos, insultados e espancados por estrangeiros turbulentos e sem
+educação; e o que é certo tambem é que esse estado de cousas não póde
+continuar.
+
+«Estamos muito atrazados ainda, mas regeitamos a civilisação dos
+carroceiros do lixo.[56]
+
+«Ah! se a centessima parte d'esses factos se desse em qualquer das
+provincias do norte, no Pará, por exemplo!...»
+
+Agora vejamos quem são os taes _guitas_ do Rio, que a _Nação_ parecia
+defender.
+
+Falla um correspondente da _Tribuna_, estabelecido na côrte do imperio:
+
+«Amigos--não sei o que escrever, ou para melhor dizer, não ha novidades
+a não ser chuva, e muita chuva, que tem sido causa de graves e
+lamentaveis desgraças, mas sempre a _maldita e vil gentalha gallega_
+aproveitando-se das desgraças alheias para o seu nefando fim--o roubo!
+
+«Como verão das noticias que abaixo seguem extrahidas do _Jornal do
+Commercio_ e do _Diario do Rio_, um soldado de policia (seja dito de
+passagem que _dois terços dos soldados do corpo de policia d'esta triste
+e desgraçada côrte é gallegada_!!!) aproveitando-se da occasião em que
+fazia guarda á casa do conselheiro Menezes _guardou_ um relogio com
+corrente de ouro e um paliteiro de prata! Foi preso, encontrando-se-lhe
+o roubo!!»
+
+Conclusão:
+
+Se a policia era insultada pelos _estrangeiros carroceiros do lixo_, a
+_Nação_ tirava a desforra, defendendo os _seus_ compatriotas; mas se a
+policia roubava os relogios e os paliteiros de prata, o correspondente
+da _Tribuna_ dizia _de passagem_, que dois terços de soldados do corpo
+de policia era _gallegada_!
+
+Isto não se commenta.
+
+Assim, pois, ahi fica demonstrada a differença que existe entre os
+hydrophobos de cá e os hydrophobos de lá.
+
+ [54] «Em remotas épocas foram aqui atrozmente insultados os
+ portuguezes, por alguns jornaes, taes como (segue os nomes
+ citados).» _Relatorio do consul do Maranhão_, de 7 de dezembro de
+ 1874.
+
+ [55] Dos jornaes mencionados só existe hoje o _Publicador
+ Maranhense_, jornal official do governo da provincia!
+
+ [56] Portuguezes ou _gallegos_, é claro!
+
+
+
+
+CAPITULO VII
+
+Melindres historicos. A corveta «Sagres» no Pará. Uma boa recepção! As
+proclamações da «Tribuna». Os telegrammas da Agencia Americana. Os
+officiaes da «Sagres» e o capitão Marcelino Nery. Recompensa do governo
+brazileiro ao insultador dos portuguezes. Os factos perante os nossos
+excessos. Uma carta de além tumulo.
+
+
+I
+
+Para que seja fiel a historia dos tumultos no Pará, em 1874, e para que
+não haja quem venha negar factos consummados, é preciso dar noticia de
+alguns documentos que para ahi existem dispersos, e que desappareceriam
+se não fôra o nosso cuidado de esclarecer a verdade; dando logar o
+desapparecimento a que futuros historiadores, a titulo d'um patriotismo
+inconcebivel, desvirtuassem, com seus falsos raciocinios, os lamentaveis
+acontecimentos occorridos no ultimo semestre d'aquelle anno, n'uma das
+provincias mais ricas do imperio americano.
+
+Quantos haverá ahi que nos censurarão o vasculharmos esses documentos,
+que, no entender dos optimistas deveriam ficar esquecidos, para
+salvaguardar conveniencias mercantís!
+
+E deverá o homem digno esquecer a verdade, para attender a essas
+conveniencias?
+
+Não, responderão aquelles que, como nós, só vêem no futuro o juiz
+imparcial de seus actos.
+
+«Sabel-o-ia a historia, se os aios e confessores de principes e de reis,
+em vez de serem bonzos, fakires e derviches de um credo intolerante e
+sangrento, e que tem no seu proprio symbolo o germen da sua total
+aniquilação, fossem chronistas severos e verdadeiros da corrente das
+idéas, e das leis immutaveis do progresso, na marcha logica e fatal do
+desenvolvimento da humanidade».[57]
+
+É assim que o illustre escriptor que vimos de citar condemna os
+melindres dos optimistas systematicos; e nós somos da mesma opinião.
+Embora se diga que já não existem esses bonzos, fakires, e derviches, o
+que é certo, é que no referir da historia, ainda ha condescendencias
+improprias de historiadores imparciaes, e por consequencia d'esta época
+de liberdade, condescendencias que hão de concorrer poderosamente para
+que á historia do presente, que devera ser um edificio mais solido do
+que a historia do passado, faltem os alicerces que a tornariam
+indestructivel.
+
+Se os receios de que se acercam os que se dizem auxiliares da historia
+do presente, que ha de ser coordenada no futuro, tivessem por base o
+temor dos principes e dos reis, escudados na força clerical, que
+n'outras épocas exercia o seu poderoso influxo, á força dos martyrios da
+polé, a que não poderam resistir os Galileos da sciencia; era até certo
+ponto razoavel a condescendencia filha do medo; mas que os receios
+tenham a sua origem nas contemplações inconfessaveis, isso é que é
+imperdoavel a quem faz a apologia da liberdade, que veio em auxilio da
+razão, sem a qual não póde ser escripta a verdadeira historia.
+
+Concordando plenamente com o illustre litterato, que viemos de referir,
+é preciso provar tambem que não somos bonzos nem derviches do
+mercantilismo, que, como os reis e principes de antigas épocas,
+pertende, na actualidade, avassalar a razão.
+
+Eis o que temos feito e continuaremos a fazer. Pena é que nem todos nos
+sigam o exemplo.
+
+ [57]_Os salões_ do sr. visconde de Ouguella.
+
+
+II
+
+Ás noticias atterradoras do Pará em outubro de 1874 que fizemos
+transmittir pelo telegrapho, responde o governo portuguez, mandando para
+as aguas do Tocantins, o aviso de guerra _Sagres_.
+
+O governo brazileiro, tambem reforçava, com a canhoneira _Mearim_ e a
+corveta _Trajano_, a sua esquadrilha do norte.
+
+A Allemanha mandava a corveta _Victoria_.
+
+Vejamos como a _Tribuna_ recebe a _Sagres_, em seu numero de 17 de
+novembro, e quaes as calumnias que proclama sobre a sua guarnição.
+
+Transcrevemos na integra a recepção por que ella déra causa ao conflicto
+entre um dignissimo official da nossa armada e a redacção do pasquim,
+conflicto que não deve ficar no escuro para bem da historia.
+
+Falla o papel incendiario:
+
+«Amanheceu ancorada em nosso porto no dia 11 do corrente, esta immunda
+esterqueira da marinha de guerra portugallega.
+
+«No dia seguinte, ao da chegada os jornaes da nossa imprensa, que seguem
+o triste e desgraçado fadario de especular com a colonia portugallega,
+bajulando-a por todos os lados, davam essa noticia da forma seguinte:
+
+«_O Liberal do Pará._
+
+«_Corveta Sagres._--Amanheceu hontem ancorado em nosso porto este
+elegante vaso de guerra da marinha portugueza.
+
+«_Diario do Gram-Pará._
+
+«_Corveta Portugueza_:--Está desde ante-hontem á noite ancorada em nosso
+porto a corveta _Sagres_, da armada real portugueza. O gentil navio
+trouxe 19 dias de viagem de Lisboa, tocando em Cabo-Verde. Commmanda-o o
+sr. capitão tenente Francisco Teixeira da Silva considerado pelos seus
+honrissimos precedentes como um ornamento de sua classe. A _Sagres_
+arquêa 813 tonelladas, tem machina de vapor da força de 300 cavallos
+dynamicos, é armada com 4 canhões e tripulada por 138 praças.
+
+Seja bemvinda ás aguas do Amazonas a gentil corveta.»
+
+«_Diario de Belem_:
+
+«_A corveta Sagres._--Esta corveta da marinha de guerra portugueza,
+amanheceu hontem fundeada em nosso porto. Trouxe de Lisboa por S.
+Vicente 13 dias de viagem.
+
+«É do porte de 813 toneladas, da força de 300 cavallos, monta 6 peças e
+traz 138 praças de guarnição.
+
+«É commandada pelo sr. capitão tenente Francisco Teixeira da Silva, um
+dos ornamentos da marinha portugueza, e vem estacionar em nosso porto
+com o fim de proteger os seus compatriotas, aqui expostos ao furor de
+uma horda de canibaes.»
+
+«Ora, será a colonia portugallega tão bruta, não haverá no meio d'ella,
+ao menos um portugallego, que tenha um pouco de senso, para vêr
+n'aquellas palavras a mais negra irrisão?
+
+«Ora digam-nos agora, portugallegos, não será uma grande caçoada, uma
+negra irrisão, chamarem a vossa corveta _Sagres_:--_gentil_, _elegante_,
+_protectora etc._, _etc._?
+
+«Safa! que ser-se cego assim já é demais, e fazer-se tanto assim dos
+outros tolos é abusar-se muito!
+
+«Pobres portugallegos!
+
+«Ficae certos, que nós somos vossos inimigos, havemos contra vós queimar
+até o ultimo cartucho, e derramar até a ultima pinga de sangue, porque
+nos fazeis todo o mal possivel; mas não vos illudimos, de vizeira alçada
+fallamos a linguagem da franqueza e do positivismo, não nos encobrimos
+com o manto infame da hypocrisia e falsidade sómente para vos sugar os
+cobres, como esses miseraveis especuladores do _Diario de Belem_,
+_Gram-Pará_ e _Liberal do Pará_.
+
+«Ficae certos, que quando chegar a hora tremenda da revolução, estes
+vossos _amigos_ de hoje serão os vossos mais cruentos inimigos, para que
+elles não sejam victimas da indignação de seus proprios patricios.
+Elles, os vossos _amigos_ hão de querer rehabilitar-se perante o povo
+brazileiro, e para isso mais depressa que nós vos mandarão _cear com
+Belzebuth_!
+
+«Esperem, esperem e verão como os factos e os tempos se encarregarão de
+corroborar estas nossas opiniões.
+
+«Crêde-nos que, quando cahir entre nós o raio flammejante da revolução é
+para fazer uma unica e nobre divisão: de um lado--brazileiros, do outro
+lado--portugallegos.»
+
+No mesmo numero, a proposito de um baile no _Cassino_:
+
+«_Sympathicas leitoras._--Na carencia de divertimentos, festas e
+prazeres bateu-vos á porta a festa do glorioso prelado de Sebaste, S.
+Braz, o milagroso advogado das molestias da garganta.
+
+«Bailes não houve... Alto lá, musa: olha que já me fizeste pregar uma
+mentira ás benignas leitoras!
+
+«É verdade que eu bem podia vender este _peixinho_ ás minhas delicadas
+leitoras, porque eu não vi nenhuma nos salões do _Cassino_, mas em
+descargo de minha consciencia e respeito ás minhas caras leitoras, não
+quero, não posso, não devo mentir.
+
+«Portanto, houve no sabbado baile no _Cassino_; baile, que os seus
+maiores _dilectantis_ esperavam ser de... _grande gala_, pois para isso
+foi convidada toda a officialidade da _Sagres_.
+
+«Mas oh! bellas leitoras, grandissimo _fiasco_! Só vi alli meia duzia de
+moças e outro tanto de moços brazileiros que retiraram-se logo, onde
+entre elles veiu-se escorregando o vosso chronista, porque a _coisa_ não
+cheirava lá muito bem.
+
+«Gostei, leitoras, gostei de não vos ver alli n'aquelles agallegados
+salões do _Cassino_.
+
+«Pois não! Quem mais dignos de dançar comvosco se não os vossos
+patricios, creaturas de corpos leves e ageitados, limpos e aceiados?
+
+«Haveis trocal-os pelos corpos dos portuguezes immundos, insupportaveis
+e pezados como um cêpo?
+
+«Ora essa é o que faltava!
+
+«Arranjem-se p'ra lá... como poderem, comtanto que as nossas amaveis
+leitoras não estão resolvidas a dançar um _fado_ em lugar d'uma polka, e
+aguentarem com esses alarves desenfreados.
+
+«E depois de termos os brilhantes salões do _Club Militar_, o que irão
+fazer as queridas e patrioticas leitoras nos agallegados salões do
+_Cassino_?
+
+«Quem é que troca ouro por couro?
+
+«Gostei, leitoras, crêde-me que vós me enchestes as medidas, gostei de
+ver a prova de patriotismo que déstes não comparecendo no lusitano baile
+do _Cassino_. Os portuguezes quando vos pódem metter as botas não vos
+guardam deferencia--é bastante sêrdes brazileiras para elles vos
+calumniarem. Compenetrae-vos d'isto e procedei sempre como agora, que o
+vosso chronista agradecido e _cahido_ vos beijará respeitosamente as
+setinosas mãos.»
+
+Este artigo é demasiadamente comico, para dever merecer os nossos
+reparos; comtudo acceitamos a prova de patriotismo das leitoras de
+_setinosas mãos_!
+
+
+III
+
+Agora venha a calumnia. Tem a palavra ainda a _Tribuna_:
+
+«Hontem fôra apprehendida pelo patrão do escaller da alfandega, dous
+saccos com carne secca que segundo ouvimos dizer iam com destino á
+taberna do Pechincha (portuguez) ao largo das Mercês.
+
+«Não teriam desembarcado da _Sagres_?»
+
+Ainda mais:
+
+«Como mudam os tempos! Outr'ora os ventos do largo nos traziam os aromas
+exquisitos, os perfumes inebriantes das flôres silvestres, d'essas ilhas
+virgens que nos demoram ao N.
+
+«Hoje, trazem-nos o halito impestado d'essa gente portugallega, as
+emanações putridas e abafadas d'esse fóco de peste que se chama
+_Sagres_, os miasmas d'esse trapo bicolor impregnado de sangue africano
+e coberto de maldições horrendas!»
+
+Mais:
+
+«_Visita presidencial._--Sabbado pela uma hora da tarde, o ex.mo sr.
+presidente da provincia, acompanhado do chefe do mar, inspector do
+arsenal de marinha, chefe de policia, guarda-mór da alfandega e o consul
+portuguez, foi fazer uma visita ao chaveco _Xagres_, ora ancorado em
+nosso porto, estupidamente appellidado de _crubêta_ pelos estupidos
+portuguezes. Não sabemos porque não lhe chamam _náo_.
+
+«Ao atracar o escaller em que ia o presidente, o commandante da
+alambasada maruja deu signal a esta que subisse ás _biergas_, e logo, á
+guisa de preguiça quando se arrasta por algum cipó, eil-os se agarrando
+pelas enxarcias, meia duzia de gallegos sabujos, que são os de que se
+compõem _a crubêta belha e remendada_.
+
+«Logo que chegaram ás _gabias_, começaram a dar _bibas_ ao _pabilhão
+auri-berde_, ao _imperadore_ do _Vrasile_ e não sabemos que mais...
+
+«D'est'arte fizeram uma parodia burlesca e mais ridicula do que as
+outras nações, em caso identico, costumam fazer.
+
+«Ao retirar-se o presidente, como é estyllo em taes circumstancias,
+salvaram o castello e a canhoneira _Mearim_, ficando (oh! vergonha das
+vergonhas!) recolhida ao profundo silencio a _crubêta Xagres_, por
+achar-se impossibilitada...[58]
+
+«Que fiasco, portuguezes!
+
+«Comquanto tivessemos Portugal como a nação mais miseravel da Europa,
+não lhe dispensando a minima importancia, todavia não tinhamos ainda
+formado uma idéa tão exacta da sua impotencia e nullidade na ordem das
+cousas.»
+
+ [58] Não salvou porque o regulamento não manda salvar quando hajam
+ só quatro boccas de fogo.--A _Mearim_ não salvou pela mesma razão.
+
+
+IV
+
+O artigo que vamos transcrever deu causa ao conflicto do dia 21 de
+novembro de 1874:
+
+«Apesar do desapontamento da colonia portugueza, que esperava um navio
+de guerra de primeira classe para metter-nos medo, em vez da falua
+_Sagres_, que só tem servido para ridiculos, consta-nos que o commercio
+já nomeou uma commissão, afim de promoverem uma subscripção para os
+bailes que pretendem dar no salão do _Albino_, ao largo da Trindade, e
+no _Hotel Central_, á estrada de Nazareth.
+
+«Tiveram a honra da nomeação para a commissão os honrados negociantes
+José Solambada, Joaquim Gallinheiro, Bento de La-Rocque, Alivio Ladrão,
+José Coelho, (o balão) e Manuel dos Tomates, com os quaes nos
+congratulamos á vista de tão acertada escolha.
+
+«Medeiros Branco, Frias e o _compadre_ Antonio Muchila foram
+encarregados para fazerem as poesias analogas ao acto, nas quaes
+cantarão as _Glorias de Alcacer Quibir_ e as do _Rei chegou_, depois do
+que o _Club Philarmonico_ tocará a _caninha bierde_.
+
+«Ai! que folia! que pagode!
+
+«_Sagres_, é o gentil buque-luso com quatro canhões, dois por banda,
+montados em rodisios de cana da India, fundeada em nosso porto,
+hasteando galhardamente _el pavilhon_ das _gloriosas quinas
+portuguezas_, tendo attrahido á flôr d'agua até os _bacus_, _tralhôtos_
+e _candirus_ para a admirarem! Caramba!
+
+«Os canhões são tão grandes como aquelles que os argentinos mandaram
+fundir, os quaes não cabendo nos seus arsenaes, tiveram de metter os
+arsenaes dentro dos canhões! Pumpum!
+
+«Veiu a bordo da _Sagres gentil_, um grosso tonel de azeitonas arvorado
+em _mestre_, assemelhando-se muito pela figura grutesca a um d'esses
+patrões de falua do Tejo.
+
+«Quem sabe se não mandaram esse _loup de mer_ para cá com o unico fim de
+amedrontar-nos com sua figura obesa e ratona?
+
+«Portugal tem garbo em presentear-nos com _salchichões_ d'esses!
+
+«Pedimos ao sr. Furman que não se esqueça de phothographar essa
+raridade, pois todas as vezes que vem á terra faz a população morrer de
+riso.
+
+«Os janotas de pince-nez la _del buque_ com effeito nada arranjarão
+aqui, porque já são mortos Villarés e Chicos Ruivos... restando apenas o
+Caleijão.[59]
+
+«Consta-nos mais que a guarnição tem-se agradado tanto da terra, que
+toda ella quer desertar para aqui reforçar o trafico das carroças e
+pipas d'agua» etc.
+
+Isto e muito mais foi publicado no n.º 259 da _Tribuna_, já referido;
+mas esta ultima parte dos insultos á guarnição da corveta, e
+especialmente aos _janotas de pince-nez_, os segundos tenentes da armada
+real, Carlos Krusse e Marques Costa, deu aso aos novos tumultos do dia
+21 que ainda a moderação mais evangelica não poderia evitar.
+
+Carlos Krusse, explica assim as novas occorrencias, em uma carta enviada
+do Pará á _Democracia_ de Lisboa com a data de 28 de novembro de 1874:
+
+«_Sr. redactor._--Depois de commigo se haver dado um caso, que os
+jornaes da localidade occultam, e que o papel _Tribuna_ procura
+deturpar, não ficarei silencioso á partida de noticias para ahi. Devo
+aos portuguezes a narração verdadeira do facto commigo dado. Para os da
+nossa colonia do Pará é trabalho inutil expôr o que todos elles sabem.
+Para Portugal são precisas algumas palavras.
+
+«Li um artigo que, com a epigraphe _Projectos de baile em honra del
+buque Sagres_, vem publicado no jornal a _Tribuna_ de 17 de novembro do
+corrente, e vendo o periodo--Os janotas de pince-nez--procurei no
+escriptorio da redacção um tal homem, ou cousa que o valha, que se
+responsabilisa pela folha.
+
+«Mandou-me entrar esta repugnante creatura, e depois de lhe pedir com a
+maior prudencia o ultimo numero do jornal que publicou (o que me queria
+offerecer, e que, não acceitando, paguei por 800 réis) mostrei-lhe o
+artigo que ambiguamente me podia dizer respeito.
+
+«Leu, e ao terminar, pedi-lhe me declarasse se era de mim que tratava,
+para lhe exigir prompta satisfação. Declarou-me terminantemente por duas
+vezes, (tantas por mim exigidas) defronte dos seus empregados, que nada
+comigo tinha relação, e que mesmo a palavra _mestre_, no artigo
+empregada, se não referia a official algum da corveta, mas sim a alguem
+da prôa.
+
+«Agora este ente repugnante, vergonha da classe militar (ex-capitão
+paraguayo) e dos homens de bem, quer, em seus covardes escriptos,
+mascarar de prudencia o que n'elle foi falta de coragem, para sustentar
+o que havia escripto e desafrontar-se, quando pouco depois de eu ter
+entrado na redacção, justifiquei a minha tardança em ali ir, na falta de
+leitura d'um papel, que lhe disse ter «por unico programma a calumnia e
+a infamia, contra um povo, contra uma nação de que supponho não conhece
+a posição geographica».
+
+«A colera reprimida d'essa abjecta creatura obrigou-a a mentir perante o
+presidente da provincia, queixando-se de que eu lhe havia assaltado a
+casa!
+
+«Um unico homem, não manejando arma alguma, usando de todo o
+cavalheirismo, assalta a espelunca de um negro, dentro da qual estão
+mais cinco ou seis?
+
+«Isto faria rir, se não provocasse dó.
+
+«Na occasião em que procurei esta cousa de fórma humana, este menino da
+_Tribuna_, confesso-lhe sr. redactor, que imaginei que ao encontrar um
+testa de ferro acharia tambem n'elle os brios de homem.
+
+«Reconheço hoje que tratei com um garoto de praça publica, que nos faz
+caretas ao voltarmos-lhe as costas, e a quem devolvo os epithetos,
+calumnias e infamias, que me dirigiu e que ahi leram.
+
+«Que precisaria um homem que declara agora uma coisa, e que logo publica
+um pasquim negando os factos passados na sua officina, presenceado pelos
+«seus dignos empregados e ouvidos pelos muitos grupos que fóra escutavam
+e que na minha saída vi?»
+
+«Poder-se-ha usar com homem de tal caracter os meios empregados entre
+cavalheiros, entre homens de bem?
+
+«Não.--Disse-m'o uma grande parte da colonia portugueza aqui,
+aconselharam-me todos os meus camaradas.
+
+«Que resta? O desprezo, a entrega de tal procedimento á apreciação do
+publico e o desforço que se toma para com um garoto quando o acaso
+depare occasião.
+
+«Não responderei mais, como fazem todos os officiaes da _Sagres_, ao que
+diga de futuro a tal _Tribuna_, e só peço com fervor a chegada de uma
+occasião propria para o ultimo e unico desforço.
+
+«Convença-se Portugal, de uma vez para sempre, que o seu apreciado
+Revalescière _Prudencia!_ não serve, quando os acontecimentos chegaram a
+tomar o corpo que attingiram os do Pará.
+
+«Uma satisfação das affrontas dirigidas ao soberano e á nação, exigida,
+se preciso fôr, com a força de quatro corvetas, não aqui, mas no Rio de
+Janeiro, affigura-se-me ser a ultima, mas necessaria solução!
+
+«Desculpe, sr. redactor, o apressado d'estas linhas, que teem tanto de
+mal escriptas quanto de verdadeiras, e creia no respeito que merece a
+quem é--De v. etc. _C. Krusse_.»
+
+Marcelino Nery que se humilhára perante o bravo official, levantou a
+caricata grimpa pela seguinte forma, n'um avulso--_Boletim da Tribuna_,
+quando o portuguez digno lhe dera as costas como a vil sicario:
+
+
+AOS BRAZILEIROS
+
+«Acabamos de soffrer a mais revoltante affronta, que não foi, como
+devera ser, punida para não darmos logar a que ignobeis detractores da
+honra nacional cuspissem infamias cruelissimas á face d'este povo nobre
+e heroe na paciencia com que tolera os ultrages da colonia portugueza.
+
+«Povo paraense! Ao meio dia de hoje foi a nossa officina invadida por um
+individuo, cujo nome, occupação e qualidade não indagamos, nem desejamos
+saber e que cheio da mais sôez prosapia e pela forma porque achava-se
+ajaezado, disse e acreditamos ser official da carveta _Sagres_.
+
+«Armado sem duvida e no firme proposito de pôr em pratica um crime
+hediondo, e na louca persuasão de pratical-o e ficar impune, esse
+individuo, depois de invadir a nossa officina e encontrar da parte de
+seu proprietario um cavalheirismo a toda a prova, recuou de sua
+tentativa e tomou o expediente de proromper, n'uma grita crapulosa, em
+insultos e injurias contra a honra nacional, contra os brios paraenses,
+a ver, se arrastando ao extremo da indignação ao capitão Nery, o
+provocava a um desforço legal que desse-lhe brecha a converter-se de
+bebado em audacioso malfeitor.
+
+«Foi preciso que o capitão Nery se revestisse da maior prudencia e em
+termos habeis repellir de dentro de sua propriedade um insolentissimo e
+arrojado lacaio com fumaças de nobre... que procurava ser castigado a
+vergalho, se por ventura em outro paiz se desse semelhante affronta.
+
+«Saibam os portuguezes e o mundo inteiro--que se não fossemos generosos,
+se não tivessemos nobresa de alma, se fossemos selvagens, o infame
+deixaria os miolos ao estampido do revolwer sobre o chão que pisamos: só
+a tiro se poderia castigar a selvageria de um javardo agaloado, que teve
+a suprema audacia de invadir a nossa officina.
+
+«Ninguem dirá que, dentro d'ella um bandido ou bebado pagou com a
+existencia atrevimentos escarrados em nosssa honra e patria.
+
+«O facto, que expomos, foi levado ao conhecimento do ex.mo sr.
+presidente da provincia, que prometteu immediatas e energicas
+providencias com que contamos.
+
+«_Percheiro_ que transmitta esta noticia invertendo a acção e os
+actores.»
+
+A consciencia dizia-lhe que no _boletim_ deturpára a verdade dos factos;
+por isso nos impunha aquella especie de ameaça, para que os não
+illucidacemos em nossas partes telegraphicas, o que já mais elle ou
+qualquer _tribuno_ façanhudo conseguiriam.
+
+ [59] Sodomitas.
+
+
+V
+
+Por isso e por obrigação do nosso cargo fizemos passar para o sul as
+seguintes partes telegraphicas:
+
+«(21-11-74) _Tribuna_ violentissima contra guarnição corveta; official
+mais offendido pedio satisfação á redacção. Opinião publica reclama
+termo estado cousas póde ter graves resultados.»
+
+Antes de proseguirmos vamos dar uma explicação:
+
+O official da Sagres só pedio satisfação quatro dias depois, por que só
+então lhe constára o insulto. E se não demos parte, no dia 7, da
+linguagem indecente da _Tribuna_, era por que nunca faziamos caso
+d'ella, mas se n'este momento a destinguimos foi pela necessidade que
+tinhamos de noticiar os acontecimentos gravissimos que se annunciavam.
+
+Aquelle telegramma passou pelo cabo ás 2 h. da tarde, pouco mais ou
+menos. Marcelino Nery, fôra-se queixar ao presidente, da supposta
+affronta do official portuguez; e como aquella auctoridade o recebera
+indifferentemente, o capitão paraguayo, para amedrontar o presidente e a
+população fez publicar o tal boletim que reproduzimos, ao anoitecer
+d'esse mesmo dia.
+
+Eis o telegramma em que davamos parte d'esta publicação:
+
+«(21-11-74) _Tribuna_ publica boletim aos brazileiros contra official
+fôra pedir satisfação. Reina panico.»
+
+«(22-11-74) Mercado falta dinheiro. Espere serviço.»
+
+No dia 22 de tarde, á hora a que expediamos esta parte, dizia-se que os
+_tribunos_ fariam reunião na praça de D. Pedro II. Foi este boato que
+deu aso áquella prevenção, para sul, de--_espere serviço_; e a prova
+eil-a:
+
+«(23-11-74) Constava _tribunos_ fariam _meeting_. Chuva continuada
+evitaria? Policia estava a postos.»
+
+A chuva foi torrencial durante toda a noite; não obstante, nós e a
+policia estavamos a postos.
+
+
+VI
+
+Foi no dia 21 de novembro que o presidente Azevedo expedira para o seu
+governo o importantissimo telegramma que mencionámos a paginas 7 das
+_Questões do Pará_, dia em que egualmente fôra expedida para Londres a
+não menos importante parte, que egualmente transcrevemos no referido
+livro a pag. 10.
+
+Mas não ficou aqui a questão. Ainda fizemos expedir mais telegrammas,
+que, julgamos indespensavel transcrever aqui.
+
+E se os não publicámos ha mais tempo, foi porque esperavamos fazer sahir
+á luz um outro livro, que não publicámos, por que como já dissemos, nos
+subtrairam a collecção de todos os jornaes que se publicaram no Pará, no
+ultimo semestre de 1874, em cujos artigos, de origem brazileira,
+escudariamos as nossas proposições; collecção que pode ser examinada a
+todo o tempo por escriptores brazileiros, que mais tarde pretendam
+escrever a historia dos tumultos do Pará n'aquelle anno.
+
+Mas vamos á historia dos telegrammas.
+
+Os espiritos conservavam-se agitados, especialmente, desde o dia 21 de
+novembro.
+
+Esperavam-se, a toda a hora, providencias do governo central, com
+respeito ao telegramma do presidente. Até que afinal, o governo deu um
+ar da sua graça, declarando ao seu representante no Pará, que
+_procedesse dentro dos limites da lei_!
+
+Os _tribunos_ que até alli tinham zombado de tudo e de todos,
+continuaram a zombar, não só da lei, como da decisão do governo, cuja
+noticia correra logo de bocca em bocca, não obstante a tal decisão ser
+_secreta_ como _secreto_ tinha sido o telegramma do dia 21 de novembro,
+que nós devassamos!
+
+Quem padecia mais com as indicisões do governo central era o commercio;
+por isso expedimos, no dia 25, a seguinte parte telegraphica, resultado
+das repetidas conferencias que tivemos com seus representantes:
+
+«Bancos restringiram operações. _Tribuna_ sahida hoje mesma linguagem.»
+
+A _Tribuna_ não podia deixar de se mostrar fanfarona, á vista dos medos
+do governo.
+
+O presidente, não podendo fazer cousa alguma _dentro dos limites da
+lei_, foi para o jornal official proclamar ao povo contra os excessos da
+_Tribuna_ e seus apaniguados.
+
+Compare-se esse documento publicado nas _Questões do Pará_, com o
+extracto que d'elle fizemos em nosso despacho telegraphico expedido para
+o sul em 26 de novembro, e ver-se-ha que a consciencia e não o _espirito
+de nacionalidade_, presidira sempre aos nossos actos de agente fiel da
+companhia Americana.
+
+É este o despacho:
+
+«_Jornal Official_ diz chegou occasião lamentar estado provincia que
+retrograda gigantescamente. Japão civilisa-se, Pará passa terra
+selvagens. Ideias tríbunicias defendidas por influencias. Edificações
+paralisadas, decrescimento rendas, commercio desanimado, telegrammas
+para Europa suspendendo pedidos. _Tribuna_ cessaria publicação, mas
+agenciaram subscripções; emissarios foram intimar publicação.
+Conclue--governo disposto manter tranquilidade. Não tolera empregados
+devem ser ordem, estejam collocados á testa movimentos tribunicios. Fez
+sensação artigo. Reuniões influentes casa _Tribuna_.»
+
+Por aqui póde vêr o sr. Augusto de Carvalho e os seus dignos
+correligionarios optimistas, que com a propaganda da _Tribuna_ do Pará,
+não riam nem folgavam os leitores, como riem e folgam com a leitura dos
+nossos jornaes burlescos.
+
+Em 27 de novembro ainda não tinham socegado os espiritos. A prova d'isso
+está nos telegrammas do presidente do Pará, publicados na folha official
+do Rio de Janeiro, e que já transcrevemos em outro logar.[60]
+
+ [60] Veja-se o opusculo _Coisas Brazileiras_.
+
+
+VII
+
+Já viram os leitores, que, comnosco estavam interessados na questão: o
+presidente, os jornaes de todos os partidos, exceptuando a
+_Constituição_ e a _Tribuna_, o corpo commercial e por ultimo, os
+officiaes da _Sagres_, que expediram pela agencia americana para o
+_Diario Popular_, o seguinte telegramma que não chegou ao seu destino, e
+para cuja publicação estamos auctorisado:
+
+«(27-11-74.) _Diario Popular._--Lisboa. _Tribuna_ insolentissima.
+Officiaes _Sagres_ prohibidos ir terra. Humilhantissima posição.
+Providencias immediatas.--_Maia._»
+
+O seguinte despacho fôra expedido por nós em 28 de novembro:
+
+«_Constituição_ responde ao _Jornal Official_, refutando. Opina
+publicação _Tribuna_, mudando linguagem. _Gran-Pará_ acompanha _Jornal
+Official_.»
+
+E, effectivamcnte, a _Tribuna_ acceitou os conselhos da
+_Constituição_!...
+
+Eis como o deputado, Wilkens de Mattos, esclarece a questão, no _Diario
+de Belem_ de 2 d'agosto de 1874.
+
+E preferimos esta á nossa opinião, porque em summa...somos portuguez!
+
+Falle o sr. Mattos:
+
+«O estylo é o homem, e os artigos da _Constituição_ photographam
+fielmente a indole de seus redactores.
+
+«Provocado por ella de um modo improprio de cavalheiros, insultado em
+uma linguagem que só se depara nos vocabularios dos homens da mais
+infeliz camada da sociedade, corri á imprensa para lançar de sobre mim a
+responsabilidade que a _Constituição_ me emprestava, e para externar
+minha opinião a respeito da questão, que tanto tem agitado e prejudicado
+a sociedade paraense, e levantado grande celeuma contra nós no
+extrangeiro. Era um dever imprescindivel, a quem, como eu, presa sua
+terra natal, respeita a opinião publica e quer manter um caracter
+illibado; mas a _Constituição_ por motivos que me são estranhos,
+surprehendeu-me mais uma vez com a sua linguagem, que me furto ao
+desprazer de qualificar. Ninguem, que não esteja dominado de um odio
+brutal e de prevenções irracionaes, deixará de lastimar a linguaguem de
+que, a meu respeito, fez uso o jornal, que se diz orgão do partido
+conservador d'esta provincia, jornal que foi creado tambem para
+regenerar a imprensa paraense, cuja linguagem, classificada de polluta,
+elle tanto censurou e condemnou no começo de sua estrêa.
+
+«A _Constituição_ pensou que me abateria e me faria recolher ao
+silencio, ou provocaria de minha parte represalias na mesma phraseologia
+com que me aggredio. Enganou-se. Os seus insultos servirão para provar
+contra ella, que não occulta o seu rancor, o seu espirito abocanhador
+sempre que tem de derigir-se a quem _ousa_ decahir de suas graças.
+
+«A _Constituição_ mente assim ao seu programma, compromette o seu
+presente e cava a ruina de seu futuro.
+
+«Devia ella manter-se em terreno decente, usar de linguagem intelligente
+e circumspecta, propria de cavalheiros, ainda mesmo combatendo seus
+adversarios politicos, ou aquelles que, sendo conservadores, não
+concordam com a sua politica. Se a _Constituição_ não respeita as
+opiniões de seus adversarios ou divergentes, se ella não a procura
+vencer por meio da intelligencia, empregando a linguagem comedida e
+decente, como quer ser tratada e considerada?
+
+«Não pense que o insulto lhe dará nunca ganho de causa. Esse meio é
+reprovado nas sociedades cultas, e só lhe pode attrahir o despreso.
+
+«Lastimo, pois, mais uma vez a trilha errada que procurou a
+_Constituição_, e apesar de gravemente offendido por ella, faço cordeaes
+votos para que seja a sua redacção mais feliz nas suas inspirações, afim
+de não prejudicar a sociedade em que milita.
+
+«A _Constituição_ sabe bellamente, que na camara temporaria, de que
+tenho a honra de fazer parte, nunca se tratou de discutir os males que a
+propaganda e lingoagem da _Tribuna_ teem causado a esta provincia. Se
+alí se tivesse tratado d'isso, póde estar a _Constituição_ certa, de que
+externaria eu com toda a franqueza a mesma opinião, que já externei pela
+imprensa, no meu ultimo artigo. Esperaria, é verdade, e unicamente por
+um rasgo de cortesia, que os meus collegas, representantes do Pará,
+primeiro se manifestassem a respeito; mas quer elles o fizessem, quer
+não, não ficaria occulto nas dobras do silencio, muitas vezes
+conveniente áquelle que não tem a coragem de seus actos, e que prefere
+jogar em perpetuo carnaval.
+
+«Não ha consideração alguma que me inhiba de manifestar-me com a isenção
+d'espirito e com a franqueza a que tem direito os mais caros interesses
+desta abençoada terra em que tive o berço, e de suas relações com uma
+nação amiga, da qual descendem os brazileiros, e com a qual se acham
+estreitamente ligados pelos laços mais estimaveis.
+
+«Os augustos chefes das duas nações são parentes mui proximos. Portugal
+exercita com o Brazil avultado commercio; envia-nos os seus productos em
+troca dos nossos. A mesma religião, a mesma lingua; os mesmos costumes.
+Porque hesitar diante da propaganda que nos faz passar como um povo que
+vae perdendo a civilisação e ensaia actos barbarescos? Não vejo rasão.
+
+«A _Constituição_ convida-me a declinar os nomes dos seus redactores que
+cultivam relações pessoaes e exercem influencia sobre o proprietario da
+_Tribuna_. Para que esse convite?
+
+«A _Constituição_, de certo, não quererá que eu me constitua delator.
+Nunca o conseguirá. Deve ella ter consciencia de que eu estou de posse
+de muitos de seus segredos, e deve fazer-me a justiça de crêr-me incapaz
+de fazer publico uso d'aquillo que outr'ora me foi informado. Negar é um
+impossivel, que alguns de seus actuaes redactores fizeram publicar na
+_Tribuna_ escriptos seus. Alludo apenas a esta circumstancia, porque não
+ha quem a ignore.
+
+.........................................................................
+
+«Não é em um artigo escripto ao correr da pena, que o deverei fazer.
+
+«Não tenho embaraço algum a pronunciar-me clara, sincera e
+positivamente, não só contra a propaganda da _Tribuna_, mas ainda e
+sobretudo contra a linguagem de que tem sido victimas muitos dos
+subditos de S. M. Fidelissima, que são honrados negociantes e ricos
+proprietarios n'esta capital; propaganda e linguagem que teem mareado o
+bello conceito que já gosavamos, nós os paraenses, na Europa e nos
+Estados-Unidos.
+
+«Eu que caminho para o ultimo quartel da vida, que não estou atado ao
+orçamento da provincia, que nada pretendo d'ella, que tenho procurado
+servir ao paiz com o zelo e capacidade, que Deus me concede, lastimo do
+fundo do coração, que ainda haja paraense que não queira reconhecer o
+immenso mal moral, economico e politico, que será aggravado de dia em
+dia, causado á provincia pelas doutrinas erroneas, e linguagem
+condemnaveis do _obscurantismo_, do inimigo da paz e socego das
+familias, e do progresso desta estrella, cujo brilho se procura
+embaciar! Lamento isto do fundo d'alma.
+
+«Meus sinceros parabens á _Constituição_ pela _lisongeira e expontanea_
+defeza que a _Tribuna_ lhe faz em seu ultimo numero.
+
+«Não leve ella (_a Constituição_) a mal que eu lhe diga: quem póde o
+mais, póde o menos.
+
+«Quem teve forças para obter que a _Tribuna_ moderasse a sua linguagem,
+poderia, se tivesse querido, conseguir ou tolerar, que esse periodico
+deixasse de apparecer, ainda que fosse temporariamente.
+
+«Não veja n'isto uma insinuação, ha franqueza, e firme convicção.
+
+«Desde que a _Constituição_ aberrando do seu programma primordial, acha
+prazer em jogar-me doestos e injurias, devo declarar-lhe: que não sei
+esgrimir com _mascarados_, nem usar de armas que infamam a quem as
+emprega.
+
+«Na arena em que o homem educado deve sempre encontrar-se, no uso do
+raciocinio, na applicação honesta dos factos, respeitando-se a verdade,
+não hesitarei em encarar a _Constituição_; mas, diante do insulto e do
+trato indigno de cavalheiros, não me encontrará.
+
+«Fica ao seu sabor escolher; prosiga, porem, como quizer, que, de uma
+vez para sempre deve convencer-se, que não responderei ás injurias nem
+aos insultos: porque quem insulta á sombra de anonymo é só digno de
+despreso.»
+
+ «_Wilkens de Mattos._»
+
+Depois d'isto digam os optimistas que somos pessimista systematico
+contra as cousas brazileiras.
+
+
+VIII
+
+Se aos brazileiros se concede a liberdade de condemnar os excessos
+commettidos na sua patria, aos portuguezes que soffreram e continuam a
+soffrer as consequencias d'esses excessos, não deve ser negada essa
+liberdade.
+
+Assim pois, continuemos a transcripção dos despachos telegraphicos que
+fizemos expedir do Pará para conhecimento do mundo inteiro, que então
+desejava estar inteirado do incremento da revolução contra portuguezes:
+
+«(2--12--74) Commissão, praça composta de brazileiros, portuguezes,
+inglezes, allemães e francezes em nome do commercio do Pará, officiaram
+hontem ao presidente da provincia, confirmando decadencia, crise
+medonha, sobresalto, devido a propaganda injusta, criminosa contra nação
+amiga. Louvam procedimento do presidente da provincia. Firmeza,
+linguagem energica, artigos na _Folha Official_, renascerá confiança.»
+
+O original de onde extrahimos este telegramma vem publicado nas
+_Questões do Pará_. Por haver quem diga que fomos exaggerado nos
+despachos é que os transcrevemos, para que sejam comparados com os
+documentos que lhes deram origem.
+
+Est'outro, é de 5 do referido mez:
+
+«O _Jornal Official_ publica hoje manifestação commissão da praça. Traz
+resposta do presidente da provincia. Mesmas idéas, 26 de novembro.
+Publíca portarias, suspensão, contracto conego (Sequeira Mendes) quatro
+contos collegio Cametá. Demissão dos empregados que professam idéas da
+_Tribuna_. Esta continúa.»
+
+Quando o presidente por estes actos, tocára no estomago repleto, os
+revolucionarios anemicos recuaram um pouco.
+
+Tirar quatro contos de réis ao chefe da propaganda só de uma vez, era
+cousa seria!
+
+E afinal, tinham razão. A propaganda em logar de lhes dar, aos
+revolucionarios, alguma cousa _de peso_ tirava-lhes; é verdade que lhes
+crescia a popularidade; mas isto de popularidade em troca de uns
+estomagos vasios, não era muito para agradar.
+
+Eis a principal razão porque o _orgão popular_ moderou a sua linguagem
+até á retirada da _Sagres_.
+
+N'esta occasião publicára-se a carta do sr. Krusse, em Portugal, e o
+governo portuguez mandava immediatamente retirar aquelle navio de guerra
+da bahia da Guajará.
+
+
+IX
+
+Estavamos então em fins de janeiro de 1875.
+
+A corveta devia partir do Pará para Lisboa, com escalla pelo Rio de
+Janeiro, na madrugada do dia 3 de fevereiro do referido anno.
+
+Aqui está a despedida _Tribuna_ em seu _boletim_ do dia 2:
+
+«Foi o vapor inglez _Ambroze_, de proximo ancorado em nosso porto, que
+nos fez chegar ás mãos o n.º 80 do immundo pasquim, _Brazil_, onde vêm
+transcripta uma carta d'aqui enviada pelo fétido lapuz _Krusse_, o
+javardo de _pince-nez_ de bordo da nauseabunda _Sagres_.
+
+«Não lê o povo brazileiro o infamissimo pasquim _Brazil_, por isso nós
+vamos fazel-o ouvir, com attenção, o que dizia, _ipsis verbis_ n'essa
+carta.
+
+«Falla, nojento gallego _Krusse_:
+
+(Segue a carta que atraz reproduzimos.)
+
+«Está sciente o povo brazileiro, do que dizia na tal carta, não é
+assim?...
+
+«Ora bem, pois agora fallemos nós.
+
+«Antes que do porto de Belem desferre a immunda esterqueira portugueza
+_Sagres_, onde chafurdando-se em putridas materias engorda e vive o
+fétido e asqueroso gallego _Krusse_, cumpre-nos, em consideração ao
+nobre e heroico povo brazileiro, dizer duas palavras sobre a carta
+acima, que esse cynico bandido e miseravel assassino da honra alheia
+mandou publicar na degradante imprensa portugueza.
+
+«Hoje, que está no dominio publico o quanto val Portugal, o que é a
+_Sagres_, o que são os seus officiaes, principalmente esse garoto de
+_pince-nez_, bebado e ladrão _Krusse_, relativamente a esta magna
+questão de nacionalidades--não podemos, por certo, temer que nos apanhem
+os seus infamantes insultos.
+
+«Não. Não nos insulta esse aborto da natureza, essa podre excrescencia,
+essa massa informe de sebo e de chulé, esse monturo de percevejos, essa
+larva hedionda podridão dos excrementos humanos a que deram o nome de
+_Krusse_. Não! Como um vil, covarde, infame e miseravel cão que é, nem
+ao menos lhe poderiamos dar a honra de lamber-nos o fim da espinha
+dorsal.
+
+«Já viram todos, o que dissemos a respeito de ter esse salteador
+invadido a nossa officina com louco intento de extorquir-nos uma
+satisfação, não só em um boletim como em um numero do nosso periodico,
+relatando com a nossa proverbial franqueza, imparcialidade e justiça
+tudo aquillo que em abono de fé e verdade se passou entre mim e o
+asqueroso biltre _Krusse_.
+
+«E era isso uma satisfação que tinhamos de dever dar ao povo brazileiro.
+Demol-a, e os nossos dignos compatriotas conscios da nossa conducta e
+reputação que ha cinco annos teem sabido estudar, não trepidaram em
+lançar sobre esse gallego bebado e safado todo o pezo da mais justa
+odiosidade. Principalmente quando esse garoto de _pince-nez_ tentou
+contestar-nos, debalde adulterando a verdade e invertendo o facto, em um
+artigo que mandou publicar no _Jornal do Pará_ numero 274.
+
+«Ahi porém, não poude elle á vontade vasar o seu venenoso pús. Escreveu
+então para a infamissima imprensa portugueza, e ahi está elle no seu
+elemento como em um fétido corpo está o percevejo.
+
+«Pois, se esse grutesco bobo de _pince-nez_, tão cynica e infamemente
+faltou a verdade na imprensa brazileira, como podia deixar tambem de
+mentir e insultar na torpe imprensa de sua terra? Por acaso pode elle
+lembrar-se d'aquillo que realmente se deu em nossa officina! Póde elle
+dizer a verdade?
+
+«Não, nunca. O bandido que assalta de dia a nossa officina offuscado
+pelos vapores intensos da _jeropiga_; o ladrão que assalta de noite uma
+outra casa de uma pobre e indefeza senhora, travessa das Gaivotas, e
+d'ahi é como um vil e pirento caxorro lançado na rua a pezo de cabo de
+vassoura, mesmo por um seu patricio;[61] um homem, emfim, como _Krusse_
+miseravel, mais vil e repugnante que a podre lama de um charco,--é capaz
+para tudo, maxime para faltar tão descaradamente á verdade de um facto,
+que depõe altamente contra o seu caracter de sabujo lacaio de
+_pince-nez_ da _Sagres_.
+
+«Por isso, a carta d'esse patife gallego não nos demoveria a traçar em
+tempo estas linhas, se n'ella não deparassemos com alguns trechos
+acremente offensivos e provocadores á nossa dignidade e caracter, ao
+governo brazileiro e á integridade do imperio.
+
+«Primeiro, porque queremos mostrar ao governo brazileiro, a que ponto
+chegou entre nós a louca e insensata audacia dos portuguezes bandalhos
+como o tal _Krusse_, quando se arroja a dizer, que Portugal _necessitava
+exigir uma satisfação com a força de quatro corvetas, não aqui, mas no
+Rio de Janeiro_!
+
+«Segundo, porque queremos provar ao publico em geral, que não fazemos
+_carêtas pelas costas_ a homens de bem, quanto mais á gente da casta do
+estupido, boçal e mariola _Krusse_.
+
+«Terceiro, porque queremos bradar alto e bom som a esse mais vil e
+infame canalha da canalha portugueza:--Gallego _Krusse_, se é que
+_pedias com fervor a chegada d'uma occasião propria para o ultimo e
+unico desforço_, eil-a que se offerece, anda cá vil sicario, não percas
+tempo.--
+
+«Quarto, finalmente, porque queremos que fique publico e notorio ao
+mundo inteiro, qual de nós merece o negro estygma de covarde; porque,
+para quem como o faccinora _Krusse_, _pede com fervor a chegada d'uma
+occasião propria para o ultimo e unico desforço_,--ainda é tempo e tempo
+assás opportuno e de sobra para tomal-o.
+
+«Portanto, vem, miseravel sodomita _Krusse_, gatuno de _pince-nez_,
+burlesco e caricato truão agaloado da _praça d'armas_, cynico, immoral e
+nefando _official_ dos immundos beliches dos marinheiros da _Sagres_,
+escoria das escorias portuguezas, vem, salafrario.
+
+«Vem, se tens amor a esse trapo nojento das quinas, pendurado no penol
+d'esse carro da lama que se chama _Sagres_; vem, se não queres vêl-o
+mais vilipendiado do que tem sido por todas as mais nações que n'elle
+escarram, com o teu negro titulo de covarde infame; vem, _janota pé de
+chumbo_, vem, se te não gira nas veias ignobeis o sangue ignominoso dos
+cafres européos, vem tomar o teu _ultimo e unico desforço_.
+
+«Vem, lazarento gallego, não para luctares comnosco, porque és tão
+miseravel e despresivel, que a arma ou a mão mais indigna que te batesse
+ainda seria nobre de mais para ti.
+
+«Temos porém, uma unica arma, que é a que mais se aproxima ao
+merecimento de tua baixeza:--é um chicote para cavallo, com o qual te
+mandaremos fustigar as ancas, sem que traga isso pezar algum ao braço
+que te castiga e ao instrumento que te imprime seus degradantes e
+indeleveis sulcos.
+
+«Vem, descarado canalha, cigano d'uma figa! tomar o teu _ultimo e unico
+desforço_.
+
+«Se não vieres, então, tu, infimo bisborria, serás entregue á vindicta
+publica e á execração do futuro que te bradarão incessante:
+
+«--Maldito! covarde! infame! desgraçado! és portuguez e basta,
+miseravel! escarneo da humanidade! vergonha eterna dos homens, não da
+tua raça vil, mas das outras, que na mesma classe que tu, sabem presar a
+nobreza da farda, a immaculação da honra, brios e dignidade do pavilhão
+glorioso e heroico que defendem.»
+
+ «_Marcellino Nery._»
+
+É a bilis de mais de dois mezes, que a premanencia do sr. Krusse no Pará
+evitára que sahisse do nauseabundo esofago _tribunicio_.
+
+Expliquemos a peripecia:
+
+Acompanhavamos quasi sempre os officiaes, nos seus passeios pela cidade
+do Pará, e passavamos muitas vezes, occasionalmente, pela praça de D.
+Pedro II, onde era o escriptorio da _Tribuna_.
+
+O hydrophobo Marcelino Nery, desde os acontecimentos de 21 de novembro,
+nunca mais sahira á rua! e, de binoculo em punho, observava da sua
+janella, pela extensa praça, se para o seu escriptorio se dirigia algum
+official da corveta. Não eram estas as intenções da officialidade; mas
+Nery que não estava d'isso ao facto, e temendo alguma desafronta,
+serrava a janella no momento em que os officiaes por alli passavam!
+
+O _boletim_ acima transcripto tem, alem da data--2 de fevereiro--as
+seguintes palavras--_ás 7 horas da manhã_--, para que quem o lesse
+ficasse sabendo, pelo que estava escripto, que o papel tinha sido
+destribuido vinte e quatro horas antes, ainda quando o sr. Krusse podia
+_acceder_ ao pedido do _bravo_ anti-paraguayo encerrado; mas a verdade é
+que o tal _boletim_ só foi destribuido na cidade quando já a hora
+adiantada da noite do dia 2, havia recolhido toda a guarnição para bordo
+da corveta!
+
+E não vá dizer a historia para o futuro, que o sr. capitão Marcelino
+Nery, não era um digno heroe do exercito brazileiro que nos sertões
+envios das margens de Riachoello combatera com denodo pela cara patria!
+
+ [61] Invenções calumniosas da _Tribuna_, invenções que ella dava a
+ estampa repetidas vezes contra os portuguezes.
+
+
+X
+
+Foi naturalmente n'esta epocha que o sr. Augusto de Carvalho, escrevera
+na sua historia o _Brazil_, aquella affirmativa, de que a _Tribuna_
+suspendera a publicação; mas dos trechos transcriptos d'este periodico
+em outro logar d'este livro, verá o leitor que em 1876, isto é um anno
+depois da publicação do _Brazil_, ainda o papel incendiario se
+publicava; e só suspendeu a sua publicação, quando o governo de S. M.
+Imperial, como _recompensa_ dos relevantes serviços prestados á
+civilisação do Brazil, dava ao denodado capitão Nery, a directoria de
+uma colonia militar ao sul do imperio, com o fim, naturalmente, de
+incitar os pamphletarios a novos commettimentos contra a colonia
+portugueza!
+
+
+XI
+
+Alguem ha que nos accusa de exaggerado no nosso livro _Questões do
+Pará_, por termos avançado proposições da mais alta gravidade contra o
+imperio brazileiro. Essa gente não acha sufficientes os documentos que
+comprovam as nossas verdades. Talvez que até mesmo continuassem na sua
+incredulidade em presença dos factos. Não admira. O publico é ás vezes
+inconsequente; porque acredita nos bruchedos, nas pantomimas das
+mulheres que deitam cartas, ou nas artimanhas dos jesuitas. Quando se
+trata de cousas tão importantes, despresa o proloquio--_ver e crer..._;
+e só faria uso d'elle, se algum ratão se lembrasse de dizer, que ia
+atravessar o Tejo com umas botas de cortiça.
+
+Houve incredulos em todas as épochas. Muita gente tem morrido com a
+esperança de que o sr. rei D. Sebastião hade voltar ainda a estes reinos
+em manhã de nevoeiro. Não ha tambem quem acredite que a agua de Lourdes
+fizera o milagre da Misericordia e quejandos? E que importa aos
+sebastianistas e aos devotos da nova _Revalescière_ as risadas do
+publico sensato? Não será, de certo, por causa d'isso que deixará de
+haver quem espere pelos sapatos do defunto rei e quem se recuse a tomar
+o seu banho na agua milagrosa!
+
+Ha factos extraordinarios na vida de todos os povos; mas nenhum haverá
+de certo que se assemelhe em phenomenos ao povo brazileiro.
+
+Hade haver pouco mais de 50 annos, quando o imperio, pela bocca do seu
+primeiro _defensor perpetuo_, declarava a todo o mundo, que tendo os
+brazileiros chegado á sua maior edade, pedia a emancipação; diziam os
+paraenses, tambem pela bocca dos seus escolhidos:
+
+--Nós somos portuguezes! Portugal é a nossa patria!
+
+Não conveio muito este protesto aos libertadores do Ypiranga; por isso
+alguns navios de guerra foram incumbidos de incender no coração d'este
+povo o amor á liberdade que lhe promettia a nova patria!
+
+Em 1825 reconhecera Portugal a independencia do Brazil, e o Pará, todo
+lacrimoso, entregava-se, com medo das palmatoadas, nos braços da risonha
+deusa!
+
+De 1833 a 1842 mudaram completamente as scenas. O povo que alguns annos
+antes sacrificaria a vida pela metropole, assassinava e roubava os
+portuguezes no meio da rua, á luz esplendida d'este seculo, que lhe dera
+a liberdade![62]
+
+Estas scenas, repetidas mais de uma vez depois d'aquella epocha fatal,
+não foram ensinadas pelos portuguezes, no longo periodo do seu dominio.
+Os selvagens, que outr'ora vagueavam por estas paragens,
+horrorisar-se-iam de semelhantes barbaridades, commettidas por quem já
+se dizia civilisado. Reconhecera então o governo do Brazil, que os seus
+agentes haviam exorbitado as ordens da propaganda, sustentada no
+_Paraense_ e outros pasquins, em que tambem um conego incitava os
+naturaes á matança dos portuguezes. Por isso lançou mão de um meio
+extremo, esmagando aquelle povo, que tão mal havia comprehendido o grito
+dado nas margens do historico ribeiro. Centenas de paraenses foram desde
+logo mettidos nos porões dos navios e alli assassinados barbaramente.
+
+O governo brazileiro foi sempre amigo dos extremos. Depois de observar
+attentamente, e na maior paz de espirito, os assassinatos commettidos á
+sombra d'uma impunidade ridicula, chega-lhe a vez de representar o seu
+papel de barbaro. Não é de meias medidas. Os seus administrados, á
+semelhança de certo rei da França, inventam ou modificam uma machina de
+exterminio. E o governo, quando se cansa de ver correr sangue innocente,
+manda chegar os assassinos ao terrivel instrumento, e assim lhes rouba
+com a vida o terrivel papel de carrasco. O resultado é ficar o Brazil
+sem colonos e sem selvagens que podiam ser civilisados, o que é mau!
+
+Mas depois d'aquelles horrorosos acontecimentos pareceram socegar os
+animos; porém lá estava a ferida aberta. Os descendentes das victimas do
+governo brazileiro tinham ouvido por entre as juntas das cobertas dos
+navios um terrivel anathema, que era ao mesmo tempo a morte da provincia
+mais rica do imperio. Esse anathema de exterminio contra os colonos
+tinha sido ouvido tambem pelos portuguezes, que entenderam desde logo
+dever explorar a industria extractiva de certos productos riquissimos,
+que, até ha bem poucos annos, parecia no Pará uma mina inexgotavel.
+
+A agricultura que nos paizes virgens offerece sempre um lucro mais
+duradouro e mais proporcional ao capital e ao trabalho empregado, porque
+a exploração dos productos extractivos é mais eventual e retarda por
+consequencia a prosperidade do territorio onde ella se exerce; a
+agricultura, repetimos, foi desde logo desprezada. O facto era logico.
+Uma revolução, em qualquer dia de expansão paraense, era facil, e a
+borracha, a castanha, o cacau e muitos outros productos podiam fazer uma
+viagem até á Europa, na companhia de seus donos, sem que a estes desse
+muito cuidado as terras e as arvores que costumam dar semelhantes
+fructos. Outro tanto não aconteceria com os terrenos comprados pelos
+colonos, com os productos agricolas ainda por colher ou com os engenhos
+montados para a sua fabricação, que cairiam irremediavelmente nas mãos
+dos communistas.
+
+No Pará, depois da sua famosa independencia, houve sempre
+revolucionarios a incitar os animos, já propensos á desordem, contra
+portuguezes. E o que é extraordinario é que esta gente, que não quer
+admittir em seu seio os colonos que mais podem concorrer para o seu
+engrandecimento, é apologista da republica!
+
+Em 1873, por occasião da prisão dos revolucionarios que no Pará pizaram
+a nossa bandeira, andavam os apologistas da sublime idéa ameaçando os
+estrangeiros e promettendo lançar fogo aos estabelecimentos! A musica,
+que marchava na vanguarda dos communistas tocava o hymno da marselhesa,
+e do meio d'aquella bachanal saía ao mesmo tempo o grito de--viva o sr.
+D. Pedro II! e tocava o hymno imperial!
+
+E note-se que são sempre assim os que sonham com a republica no Brazil.
+Quanto mais republicanos mais inimigos dos estrangeiros. Esta gente,
+salvas mui raras excepções, que já mais poderão fazer do imperio uma
+republica, não dá ás palavras e ás cousas a mesma significação que nós
+lhes damos. As suas idéas estão sempre em manifesta contradição. Ha
+povos no Brazil, que podemos comparar a um collegio de rapazes a quem a
+palmatoria muitas vezes não faz conter nos limites da ordem.
+
+O que é facto inquestionavel, é que muito ha que dizer ainda a respeito
+do odio selvagem que aos portuguezes votam os brazileiros. A
+conveniencia mal entendida da maior parte dos portuguezes calar os
+soffrimentos recebidos no imperio, é em parte a origem de tantos males,
+que, divulgados, serviriam de correctivo salutar. O portuguez soffre ha
+seculos o barbarismo d'aquelle povo, e não só se resigna com o martyrio
+que lhe infligem, mas até procura viver no meio d'elle, pugnando ao
+mesmo tempo pela prosperidade d'um paiz tão despresado pela maioria de
+seus naturaes. O francez, o inglez, o allemão que reside no Brazil, não
+tem rebuço em formular as suas queixas contra os indigenas. Estes
+colonos não são, comtudo, os que mais soffrem. A prudencia do portuguez
+chega ao ponto de dizer bem do imperio, pouco depois de haver recebido
+d'elle os mais acerbos desgostos. As excepções são rarissimas, e nós
+orgulhamo-nos de não pertencer á regra geral.
+
+Pouco tempo depois de havermos publicado as _Questões do Pará_ recebemos
+uma carta de um subdito francez, nosso particular amigo, o qual foi
+muitos annos negociante no Pará, e ainda hoje pertence a uma firma
+respeitabilissima, que assim se expressa a respeito das verdades no
+mesmo livro contidas:
+
+«_Amigo_:--Tenho recebido os jornaes, que já emittiram opinião a
+respeito do seu livro. Admira-me que houvesse um[63] que o taxasse de
+exagerado, principalmente no que diz respeito ao caixeiro da casa
+ingleza. Bem se vê, que o jornalista conhece pouco o Pará. Vou
+contar-lhe alguns casos que alli se deram commigo.
+
+«Quando pela primeira vez appareceu a _febre amarella_ na provincia do
+Pará, os habitantes da cidade de Cametá amedrontaram-se por tal fórma,
+que influiram com a camara municipal para que fosse collocada uma guarda
+na bocca do Tocantins, com o fim de não deixar passar os barcos e as
+canôas procedentes da cidade de Belem. Constando ao sub-delegado, que eu
+tinha mandado um bote ao Pará apresentar ao presidente da provincia uma
+queixa contra tão grande escandalo, expediu logo aquella auctoridade uma
+ordem de prisão contra mim. O delegado da policia, logo que soube do
+facto, mandou chamar o sub-delegado a quem perguntou o que havia feito,
+ao que respondeu confirmando o mandado de prisão. Então aquella outra
+auctoridade policial lhe fez ver, que seria prudente cassar a ordem,
+quanto antes, dizendo que eu não era portuguez, mas sim francez, com que
+se podesse zombar. Sabe que fallei sempre perfeitamente o portuguez e
+d'ahi a illusão. O subdelegado foi logo a correr a fim de ver se era
+tempo de cassar a ordem de prisão, o que felizmente poude conseguir.
+Sabendo eu o occorido mandei logo outro bote ao Pará, com a noticia a
+meu..., o qual representou ao mesmo consul. Este apresentou-se ao
+presidente da provincia, na companhia do commandante d'um navio de
+guerra francez que então estacionava nas aguas do Pará. A auctoridade
+superior da provincia depois de ouvir attentamente o consul, disse que
+ia dar as suas ordens e que desde já lhe dava sua palavra de honra, que
+se eu estivesse preso, mandaria ir em ferros o subdelegado. Então o
+presidente fez um officio á camara municipal, ordenando-lhe em termos
+muito severos, que desse entrada franca ás embarcações do Pará e que não
+tornasse a acontecer outra similhante arbitrariedade. Este officio foi
+mandado distribuir depois de impresso, aos habitantes da cidade de
+Cametá!
+
+«Mas outro caso lhe vou contar. Sahia do porto do Pará uma escuna
+americana, que nos fora consignada. O capitão, por esquecimento, tinha
+deixado ficar a matricula no consulado. O consul pediu ao guarda-mór
+para fazer voltar a escuna. Este quiz primeiro consultar o presidente
+que ficou d'accordo. Passado uma hora, mandou-me o presidente chamar, e
+disse-me o seguinte:--«Mandei-o chamar, por que tenho estado a pensar no
+que acabei de fazer, que foi annuir a mandar chamar a escuna americana
+para receber os papeis que lhe esqueceram. Desejava saber o que pensa v.
+a tal respeito, porque estou a receiar de ter alguma responsabilidade
+n'este acto que acabo de praticar.» Respondi-lhe que a responsabilidade
+era toda do consul, porquanto o navio tinha sido chamado a requesição
+sua. Esta resposta deixou o presidente muito satisfeito, porque dizia
+elle _que o ministerio brazileiro recommendava muito ás presidencias
+para não origínarem questões com as tres potencias_:--Estados-Unidos,
+Inglaterra e França! Isto que eu lhe digo é a pura verdade; mas com tudo
+ainda pode haver quem duvide, assim como duvidam do seu livro.» etc.
+
+Como se vê, estas tristes verdades depoem tanto contra a civilisação de
+um povo, que effectivamente é preciso estar prevenido para as acreditar.
+
+Ha tempo escreveu um correspondente do Pará para um jornal da
+capital[64], o seguinte:--«O auctor das _Questões do Pará_, ou por não
+querer tornar o livro volumoso, _ou por ignorar muita cousa_, em razão
+de ter aqui residido pouco tempo, _diz muito menos do que podia e devia
+dizer_.»
+
+Valha-nos ao menos estas demonstrações sinceras dos que ainda soffrem.
+
+ [62] Revolução de 1835 contra portuguezes.
+
+ [63]_O Districto d'Aveiro._ Veja-se a critica ás _Questões do
+ Pará_, no fim do volume.
+
+ [64]_A Democracia_, de 14 de julho de 1875.
+
+
+XII
+
+Um jornal paraense a--_Regeneração_--accusa-nos de calumniador das
+senhoras paraenses no que escrevemos em outro logar[65]. É uma falsidade
+o que se pertende affirmar com visos de verdade.
+
+Calumnia é o que segue, publicado na _Tribuna_ do Pará:
+
+«_Que fecundidade espantosa!_--Na Correspondencia de Portugal,
+transcripta no _Diario de Belem_ de 7 do mez passado, se lê esta
+noticia:
+
+«Foi publicado o relatorio da Santa Casa da Misericordia, e por elle se
+vê que no fim do anno economico de 1872-1873, estavam a cargo da
+misericordia 13:370 _expostos_, dos quaes apenas pouco mais de 100 na
+casa dos _expostos_.»
+
+«Com effeito, 13:370 _engeitados_ no anno de 1873 estavam a cargo da
+misericordia de Portugal!
+
+«É mais um documento, que offerecemos aos nossos leitores, para com elle
+provarmos a perversidade de que é dotado o coração portuguez, que expõe
+os filhos á miseria, á desgraça e á morte!
+
+«Os povos barbaros por certo que não procedem com tanta deshumanidade
+para com os seus, como a raça portugueza procede para com os proprios
+filhos, negando-lhes um nome, e preferindo uma morte desgraçada, ou uma
+educação errante e infame, do que sugeitar-se á creação!
+
+«Mulheres malvadas, corruptas e endemoninhadas, ainda não conhecemos
+segundas! Soffram muito embora o rigor da miseria e da deshonra, mas por
+caridade, não exponham á morte os filhos, que não tem culpa da mais
+abominavel depravação.»
+
+O pobre redactor d'este jornal, ignora a razão porque em Portugal, e em
+quasi todos os paizes civilisados, as mulheres infelizes engeitam os
+filhos. Engeitam-os, porque... não são _escravas_, e porque não teem
+_senhores_ que as deshonrem, com a mira no lucro proveniente da _cria_,
+que, como as bestas, devia ser posta em almoeda no mercado de carne
+humana!
+
+Cá, as mulheres illudidas, e não _malvadas_, _corruptas_ e
+_endemoninhadas_ escondem da familia o fructo da sua deshonra nos asylos
+que os previdentes governos instituem, a bem da humanidade e da moral
+publica.
+
+Lá, a escrava deshonrada e aquelle que a deshonrou, fazem gala da
+deshonra perante a familia que devia ignorar a infamia.
+
+Nós estivemos em casa de uma familia brazileira, onde havia tres mulatas
+pejadas, que ostentavam diante de uma _sinhá e uma sinhasinha_ o seu
+estado interessante; e ha quem diga que as ingenuas creanças não
+ignoravam que o seu proprio _papai_ era o auctor dos futuros _moleques_!
+
+Mas ninguem ignora que no Brazil, dão-se casos d'estes aos milhares; e
+que as _sinhás_ no meio d'esta escola immoralissima sabem os segredos
+mais intimos, que as proprias mulheres deshonradas, entre nós, ignoram
+muitas vezes.
+
+Á sociedade que, como a nossa, institue hospicios especiaes para os
+engeitados, chamam-lhe moralisada. Á que faz da casa de familia
+bordel-hospicio, chamam-lhe corrupta.
+
+Mas... passemos adiante, não vão para ali dizer, que a resposta ao
+imbecil que escreveu aquellas linhas, _antes das nossas injurias_, é
+represalia.
+
+O periodico citado dizia mais, «que havia dois principios que soffriam
+guerra de morte dos portuguezes no Brazil: um é a dignidade nacional,
+outro é a religião catholica e apostolica romana representada em seus
+ministros. O pamphleto do _Percheiro_[66] põe isto á evidencia. Tal é o
+ponto de contacto que nos aproxima da _Tribuna, cujos excessos de
+linguagem estão plenamente justificados pelo atrevimento de Percheiro e
+seus adeptos_[67]» etc.
+
+A quem tiver lido os _excessos de linguagem_, empregados por nós nas
+_Questões do Pará_, recommendamos este topico publicado na _Tribuna_, em
+17 de novembro de 1874; isto é, no mesmo numero em que era insultada a
+officialidade da corveta _Sagres_; e, note-se bem, _quasi um anno_ antes
+da publicação d'aquelle livro:
+
+«Cemiterio em Lisboa, 12 de outubro de 1874.
+
+«Miseravel Percheiro.
+
+.........................................................................
+.........................................................................
+
+«As tuas proezas e infamias teem echoado até n'esta fria morada dos
+mortos!
+
+«Estás pondo tudo em pratica, teus crimes e vicios, n'essa terra
+abençoada para onde fostes ganhar o pão... o pão para ti e _para tuas
+duas filhas_...
+
+«O que tens feito para essas infelizes? Nada! Fizeste-te _corretor de
+infamias_... apenas!
+
+«Julgava-te regenerado e enganei-me!
+
+«Julgava que teu coração de marmore ou de sangrento tigre tivesse sido
+tocado pelas lagrimas ardentes d'essas duas innocentes, de quem és,
+desgraçadamente, pae!
+
+«Julgava que ao pungir ferrenho do remorso, tu te houvesses abraçado ao
+pé da cruz da Redempção! e envolto no lábaro sagrado do arrependimento,
+banhasses a fronte maldita nas aguas lustraes da salvação!
+
+«Julgava que, na terra hospitaleira da Santa Cruz, tu te tivesses
+tornado homem de bem... enganei-me... hoje como outr'ora és o mesmo,
+sempre _ladrão_, sempre _assassino_! és maldito!
+
+«Sim, _assassino_!
+
+«Tu fizeste por longos annos a desgraça da vida feliz que
+consagrei-te--perante o altar do Senhor:
+
+«Fizeste-me derramar lagrimas de sangue á toda a hora do dia e da noite
+em quanto folgavas no deboche e no jogo.
+
+«Sacrificastes durante minha existencia os deveres, que a nossa união
+sagrada te impozera, e sacrificaste-os aos pés das mais torpes
+meretrizes nos antros da crapula, nas urgias.
+
+«Converteste cada momento de minha existencia em seculos de martyrios
+insanos, até esse momento em que quizeste pôr termo aos meus
+soffrimentos; até esse momento em que, barbaro, arrancaste dos meus
+braços minhas e tuas filhas; até esse momento em que finalmente... me
+assassinaste!
+
+«Assassino!... tuas filhas e meu sangue innocente em que ensopaste as
+mãos, são os remorsos vivos que sempre te hão de perseguir, quer durmas,
+quer véles e eu te juro, que d'aqui mesmo, d'esta campa aberta por tuas
+proprias mãos, te farei sentir que não me esqueço de ti... assassino! e
+de tuas infamias...
+
+.........................................................................
+
+«Generosos brazileiros! uma esmola pelo amor de Deus para as filhas do
+_corrector de infamias_ Percheiro, que morrem á fome em Lisboa!
+
+.........................................................................
+
+«Adeus! recebe a maldição d'aquella que entre os vivos foi--
+
+ _Tua esposa_...»
+
+
+Agora digam-nos, se depois de devassado o tumulo e desrespeitada a nossa
+dôr, a mais profunda que havemos soffrido, em 35 annos d'uma existencia
+attribuladissima, e, por mercê de Deus, honrada; haverá quem, com
+justiça, possa dizer, que _os excessos de linguagem da «Tribuna» estão
+plenamente justificados pelo atrevimento_ de havermos publicado as
+_Questões_... um anno depois de tanta infamia?!
+
+Ah! como sois inconsequentes!
+
+Depois do nosso livro, é que o governo brazileiro se lembrou de comprar
+a consciencia do capitão Nery. Pena foi que essa transacção se não
+_fizesse antes_ de _começar a tragedia do Pará_. Preferiamos isso á
+gloria que nos assiste de havermos contribuido, _com os nossos
+excessos_, para a pacificação dos animos em tão uberrima provincia.
+
+E olhae que vos não pedimos mais do que a continuação do vosso desprezo,
+em paga do nosso serviço, ó illustres optimistas!
+
+Se á vil calumnia e á detracção raivosa, não póde escapar quem diz
+verdades, não deve esperar recompensa dos homens quem pratica o summo
+bem.
+
+ [65]_Questões do Pará._
+
+ [66]_Questões do Pará._
+
+ [67] Veja-se a _Regeneração_ de 6 de junho de 1875.
+
+
+
+
+CAPITULO VIII
+
+O julgamento dos assassinos dos portuguezes em Jurupary. O tribunal da
+primeira instancia em Chaves e o da Relação no Pará. Desenlace
+providencial contra decisões horrorosas dos tribunaes brazileiros.
+Processo contra Marcelino Nery. Pasquins da «Tribuna» antes e depois da
+condemnação. Novos pasquins em 1876 chamando ás armas contra os
+portuguezes. O clero accusado de cumplice dos pasquineiros. Um portuguez
+condemnado irrisoriamente por um tribunal da primeira instancia e
+absolvido depois pela Relação no Pará. A diplomacia portugueza e a
+condemnação á morte de um portuguez na Bahia. Um benemerito defensor do
+portuguez.
+
+
+I
+
+Na sessão do jury do termo de Chaves, comarca de Marajó, inaugurada em
+24 e encerrada em 28 de agosto de 1875, foram julgados Severo Antonio de
+Farias, José Antonio de Magalhães, Bertholdo José Florindo, Manuel
+Ricardo de Faria, Americo Valentim Barbosa e Pedro Augusto Cardoso,
+auctores e cumplices do assassinato na ilha do Jurupary, em a noite de 6
+de setembro de 1874, dos desventurados subditos portuguezes Zeferino
+Manuel Pereira de Araujo e José Antonio Pereira Rodrigues. Severo Farias
+e José de Magalhães foram condemnados no gráu maximo do artigo 271 do
+codigo criminal, pena de morte; e Manuel de Faria e Bertholdo Florindo,
+incursos no art. 35 do mesmo codigo, 13 annos de galés; Americo Barbosa
+e Pedro Cardoso foram absolvidos.
+
+O presidente do jury, obedecendo ao preceito do art. 79 § 2; da lei de 3
+de dezembro de 1841, appellou do _veredictum_ do jury para o tribunal da
+Relação do Pará.
+
+Presidiu o jury o dr. juiz municipal e de orphãos do termo de Soure,
+Raymundo Theotonio de Brito, 1.º supplente do juizo de direito da
+comarca de Marajó, e um dos illustrados membros da magistratura
+brazileira. Serviu de promotor publico o cidadão João Anselmo Pacifico
+de Cantuaria e de escrivão o serventuario vitalicio Manuel Pio de Sousa
+e Silva.
+
+A sessão começou ás 10 horas da manhã de 25 e terminou no dia seguinte
+ás 8.
+
+Não se tendo apresentado defensor aos reus, o presidente do tribunal
+nomeára para este fim o cidadão Emygdio Antonio Coelho.
+
+Foi isto pouco mais ou menos o que nos transmittiu o _Diario de Belem_,
+do Pará.
+
+Agora algumas palavras nossas para illucidar os leitores sobre o
+assumpto.
+
+
+Severo Antonio de Farias, Americo Valentim Barbosa e José Antonio de
+Magalhães foram assim pronunciados pelo chefe de policia:
+
+«Considerando que a confissão dos reus, sendo como foi espontanea, sem
+constrangimento algum, clara, e de harmonia com o mais constante dos
+autos, prova o delicto nos termos do artigo 94 do codigo do processo
+criminal, etc.
+
+.........................................................................
+
+«Considerando portanto, que para verificação do roubo foi que se
+commetteram os homicidios, é fóra de duvida que os tres reus mencionados
+praticaram o crime previsto no art. 271 do codigo criminal.
+
+.........................................................................
+
+«Em vista do exposto, pronuncio os tres primeiramente indicados, como
+incursos no artigo 271 com referencia ao artigo 269 do cod. crim.[68]»
+etc.
+
+Ouçamos agora a confissão de Americo Valentim Barbosa:
+
+«Perguntado seu nome, idade, naturalidade, etc.
+
+«Respondeu chamar-se Americo Valentim Barbosa, de 26 annos de idade,
+solteiro, natural d'esta provincia (Pará), sapateiro, residente no
+districto de Affuá, e que não sabia lêr nem escrever.
+
+«Perguntado se no dia 6 de setembro esteve na ilha de Jurupary em
+companhia de Severo e de José Magalhães e o que ali fizeram?
+
+«Respondeu que, estando em casa de Manuel Ricardo na ilha dos
+Porquinhos, foi notificado pelo inspector do quarteirão Severo Antonio
+de Farias para uma diligencia que elle interrogado ignorava, e
+obedecendo á intimação embarcou em uma canôa de Coelho juntamente com
+Severo e José de Magalhães, conhecido por _calangro_, e em caminho no
+largo avisaram a elle interrogado que a diligencia consistia em matar e
+roubar os negociantes portuguezes Zeferino e seu socio, estabelecidos na
+ilha de Jerupary, para onde seguiram, visto como elle interrogado não
+pôde mais fugir(!). Disse mais que ali chegando, foram a casa dos
+mencionados portuguezes e depois de beberem vinho sem a menor alteração
+e traiçoeiramente esfaquearam aquelles portuguezes, um dos quaes, de
+nome Zeferino, ainda usando de uma arma, disparou n'elle
+interrogado[69]» etc.
+
+Este réo considerado como auctor, pelo juiz formador do processo, por
+isso que as provas o fazem incurso no artigo 271 com referencia ao
+artigo 269 do cod. crim., foi absolvido pelo jury de Chaves!
+
+Não fallaremos mais de Severo e Magalhães, visto que estes réos foram
+julgados segundo as leis que regulam a justiça.
+
+Tratemos, pois, de Manuel Ricardo de Farias e Bertholdo José Florindo,
+condemnados a 13 annos de prisão.
+
+«Considerando ainda, falla o chefe da policia na pronuncia, que o réo
+Bertholdo José Florindo tinha occultos em sua casa, e no matto visinho a
+elle, varios objectos roubados, como se vê do auto de busca a folhas
+vinte tres, não ignorando que foram obtidos criminosamente, tanto que os
+escondeu, manifestando por esta fórma sua má fé e cumplicidade em um
+delicto tão grave;
+
+«Considerando que o mesmo Bertholdo confessa em seu interrogatorio a
+folhas setenta e uma, e auto de perguntas a folhas vinte, corroborado
+pela declaração de sua mulher, a folhas dezoito, que alguns d'aquelles
+objectos lhe foram offerecidos por Americo, e outros, elle os entregou
+para guardar, pedindo-lhe que não descubrisse que elle havia commettido
+os crimes de Jurupary, e nem que se achava occulto ou homiciado na ilha
+dos Porquinhos;
+
+«Considerando, portanto, que o reo Bertholdo não só recebeu como
+occultou objectos que sabia serem roubados, como confessou;
+
+«Considerando que em casa do réo Manuel Ricardo de Farias tambem foi
+encontrada parte dos objectos apprehendidos, como se vê a folhas vinte e
+tres, além de que deu asylo em casa ao _homicida_ Americo, sabendo dos
+crimes que elle havia commettido, como se vê a folhas trinta e duas da
+sua propria declaração, impedindo ainda que Americo se entregasse á
+prisão, como se vê a folhas trinta e uma, o que tudo bem mostra sua
+manifesta cumplicidade;
+
+«Considerando ainda que o réo Manuel Ricardo Farias em companhia do
+proprio _assassino_ Americo fôra occultar parte dos objectos, que
+conservava na visinhança de casa, no igarapé Chato, para que se tornasse
+impossivel descobril-os, folhas trinta e dois v.» etc.
+
+Acabamos de ver que Manuel Farias e Bertholdo Florindo não são mais do
+que cumplices dos tres auctores do crime praticado contra os dois
+infelizes portuguezes. As suas proprias declarações estão d'accordo com
+o depoimento das testemunhas e com a confissão dos assassinos.
+
+Não ha provas de que estes desgraçados acompanhassem na expedição a
+Jurupary os tres réos Severo, Magalhães e Americo.
+
+Como é então que o jury, sendo justo na classificação do
+crime--cumplicidade--em que achou incursos os réos M. Farias e B.
+Florindo, absolve Americo, que, com quanto o não quizessem classificar
+de assassino, visto que lhe foi acceita a confissão de ter sido
+_obrigado_ a matar os portuguezes, é inquestionavelmente mais cumplice
+do que aquelles, se attendermos a que Americo acompanhou a Jurupary os
+reus Severo e Magalhães, em quanto que Farias e Florindo estavam em casa
+á espera do resultado da empreza de matar os portuguezes?!
+
+É que o jury attendeu á circumstancia _muito_ plausivel de Americo ter
+sido o alvo escolhido pelo infeliz portuguez Zeferino, que, quasi
+exanime, teve a força precisa para disparar a arma contra o seu matador!
+O tiro não acertou, mas o pobre Americo ficou atordoado, e o jury
+levou-lhe esta attenuante á conta da sua absolvição!
+
+Pedro Augusto Cardoso estava incurso no artigo duzentos setenta e um do
+codigo criminal, contra o qual existem no processo todas as provas da
+sua cumplicidade. Comtudo a verdade deve dizer-se: Cardoso é o menos
+cumplice; mas o jury igualou-a a Americo, absolvendo-o!
+
+A toda esta mascarada dizia uma folha da capital:[70]
+
+«A desafronta foi plena e terrivel!»
+
+E o juiz que presidiu ao jury, como vimos no começo d'este artigo,
+appellou da decisão arbitraria, e o tribunal da Relação do Pará impoz
+aos cumplices que o jury absolvera, a pena de treze annos de prisão com
+trabalhos!
+
+ [68] Veja-se o processo no _apendice_ ás _Questões do Pará_.
+
+ [69] Obra citada.
+
+ [70]_Diario de Noticias._
+
+
+II
+
+Com a epygraphe _Tribunaes brazileiros_ publicamos nas _Questões do
+Pará_ o seguinte:
+
+«No interior campêa a immoralidade a tal ponto, preparam a
+_nacionalisação do commercio a retalho_ por tal fórma, que causa horror
+pensar em semelhante labyrintho.
+
+«João Lopes d'Oliveira e seu irmão Narciso, moços portuguezes,
+commerciantes, foram accusados de ter assassinado um _cabouco_, com dois
+tiros de espingarda, na comarca de Serpa (no Amazonas).
+
+«Instaurou-se-lhes o competente processo, e chamados a julgamento, o
+jury condenou-os na pena de galés perpetuas.
+
+«A base para tal condemnação foi terem deposto 16 ou 18 testemunhas,
+que, por unanimidade, _confirmaram_ o crime dos accusados, simplesmente
+por terem _ouvido dizer_, que aquelles portuguezes tinham assassinado o
+seu compatriota brazileiro!
+
+«Não ha só uma testemunha de vista.
+
+«A decisão do jury foi annullada pelo tribunal superior, que mandou
+reunir novos jurados. Reunidos estes a decisão foi em tudo igual á
+primeira!!!
+
+«Esta causa está affecta ao tribunal superior, que decidirá sobre tão
+grave occorrencia; por isso reservar-me-hei para mais tarde dizer as
+ultimas palavras sobre esta questão...»
+
+É chegada a occasião de cumprirmos a nossa promessa.
+
+Ultimamente o verdadeiro assassino do _cabouco_, minado talvez pelos
+remorsos, e sentindo apertar-lhe a garganta a mão fria e descarnada da
+morte, chamou um padre que o ouvisse de confissão, e declarou-lhe o seu
+crime. O assassinado era compatriota do assassino. Morto o miseravel, o
+confessor, cumprindo um dos sagrados deveres do seu ministerio,
+communicou este acontecimento ás justiças brazileiras, que, a final se
+resolveram a por em liberdade os dois innocentes portuguezes, que ha
+dois annos estavam presos!
+
+
+III
+
+Poucos dias antes da nossa retirada do Pará, julgára-se em primeira
+instancia o processo por injurias publicadas na _Tribuna_ paraense, em
+que figuravam como auctor o negociante portuguez, Manuel Augusto Valente
+d'Andrade e réu, o capitão do exercito brazileiro, Marcellino Nery,
+proprietario d'aquelle pasquim e já bastante conhecido dos leitores.
+
+O juiz de direito, doutor Quintino, sentenciára o infame pamphletario a
+quatro mezes de prisão.
+
+Tinha o heroe do _commercio a retalho_, publicado, além d'outros
+epithetos injuriosos contra o commerciante Andrade, o de ladrão,
+moedeiro falso, assassino, etc.; injurias que sustentára, sem provas, em
+pleno tribunal, tendo antes allegado, para esquivar-se ao julgamento, a
+incompetencia do juizo, que não lhe foi aceite.
+
+Mas suppunha-se que o processo seria annullado pelo tribunal superior,
+para onde, segundo o direito que lhe conferiam as leis, ia appellar o
+condemnado, como effectivamente appellou. Portanto, em vista d'este
+recurso, podia o pasquineiro passear livremente por alguns mezes na
+presença dos injuriados e o seu periodico continuaria a insultar os
+caracteres mais probos residentes na provincia. Foi justamente o que
+aconteceu, porque a Relação poz uma pedra em cima do processo.
+
+Mas antes d'isso os interessados pelo credito do Brazil, se não o
+proprio governo do imperio, faziam espalhar por todo o mundo, a noticia
+da suspensão do pasquim incendiario e a condemnação do seu proprietario.
+A nossa imprensa então exultou de alegria por tão fausta nova, que era
+quasi que como uma satisfação devida pelo Brazil ao velho Portugal
+insultado.
+
+Porém, era tudo uma ficção. A _Tríbuna_ continuava com os seus
+improperios, rindo-se do magistrado que no Pará tem sabido fulminar o
+clero irrascivel, e, ainda que com menos exito, os _tribunos_
+descomedidos. E desgraçadamente o cabo submarino estava n'esse tempo
+interrompido entre o Pará e Pernambuco e nós não podiamos dizer á Europa
+que tinha sido mais uma vez ludibriada a justiça.
+
+Passaram-se seis mezes de provações, até que a Relação accordou do
+lethargo em que parecia envolta, e no dia 9 de julho de 1876, confirmou
+a sentença da primeira instancia. A este caso applicaremos aqui, para
+honra e gloria d'aquelle tribunal, o seguinte annexim popular:--_Mais
+vale tarde do que nunca_.
+
+O testa de ferro do conego Sequeira Mendes, queixava-se de que a Relação
+não soubera _limpar o escarro que Percheiro lhe imprimira nas faces_,
+querendo fazer suppor aos incautos, que fôra devido ao nosso livro a
+confirmação da sentença; mas cremos que é mais uma injustiça irrogada
+aos anciãos, que decidiram contra a causa dos communistas.
+
+Esclareçamos este negocio da mais alta transcendencia para os nossos
+compatriotas residentes no imperio e quiçá do proprio Portugal, no
+intuito de apresentarmos ao nosso publico dois documentos curiosissimos,
+que mais tarde hão de fazer parte da historia do Brazil. Mas antes de
+transcrevel-os é preciso prevenir os leitores contra as phrases n'elles
+contidas, em que se accusam _manifestas nullidades do processo_ ou
+_ultrages contra manifestas disposições da lei, por suppostas injurias_
+publicadas na _Tribuna_ paraense contra o portuguez Andrade, phrases
+mentidas, alli postas com o fim de illudir os incautos, as quaes já mais
+poderão desmentir as provas constantes no processo. O que se allegava,
+repetimos, era unica e simplesmente a incompetencia do juizo. O réu não
+queria ser julgado pelo juiz do 2.º districto criminal (Quintino) e sim
+pelo do 1.º (Meira de Vasconcellos). O homem lá tinha as suas razões...
+
+Um dia antes da confirmação da sentença, distribuia-se na praça publica,
+em avulsos, o seguinte aviso, que é d'uma ingenuidade a toda a prova,
+para não dizermos outra cousa:
+
+
+AO BRIOSO POVO BRASILEIRO
+
+«Prevenimos aos nossos dignos compatriotas, que, em sessão de 6 do
+corrente do Egrégio Tribunal da Relação, foi marcado o primeiro dia
+util, que é ámanhã, sexta-feira (9 de julho de 1875) para o julgamento
+de appellação que para o mesmo tribunal fizera o sr. capitão Marcellino
+Nery, do processo de responsabilidade de imprensa, que lhe movera o
+portuguez Manuel Augusto Valente de Andrade.
+
+«Confiamos sobremaneira nos venerandos desembargadores do Tribunal da
+Relação, que perante as manifestas nullidades do processo, não farão
+mais do que justiça.
+
+«O povo brazileiro deve correr a essa sessão, para com a sua presença
+assistir ao julgamento de appellação d'um brazileiro digno processado
+infelizmente por um audacioso portuguez.
+
+«Haja mais amor e patriotismo entre os brazileiros e corramos a assistir
+á sessão do julgamento, ámanhã ás 11 horas da manhã.»
+
+Esta ordem dada aos adeptos do communismo no Pará, surtira optimo
+effeito; porque, segundo fomos informado, o recinto do tribunal
+enchera-se de curiosos, mais ou menos interessados no assumpto, que
+havia de ser decidido n'aquelle dia. E, ainda uma vez para honra do
+tribunal da Relação do Pará, devemos dizer, que a multidão de _tribunos_
+alli reunida, com o estudado fim de impôr medo, não produziu o effeito
+desejado, por quanto, os juizes se elevaram á altura dos seus deveres.
+
+Nós somos justo, e por isso, quando se nos proporcione o ensejo, havemos
+de dar a Cezar o que é de Cezar.
+
+
+IV
+
+Registemos agora o segundo documento.
+
+Vae fallar o representante, _in nomine_, do papel incendiario, em
+avulsos distribuidos com profusão pelas ruas do Pará, poucas horas
+depois da sua condemnação, á luz do dia, na presença das auctoridades,
+em pleno seculo 19.º:
+
+
+PROTESTO
+
+«Hontem a _Tribuna_ fez circular um avulso em que vinha o recurso, feito
+por meu illustre advogado á Relação do districto, da sentença contra mim
+proferida pelo juiz de direito bacharel Quintino, procedido d'um artigo
+que assim começava:
+
+«Hoje terá logar o julgamento do processo, em grau de appellação,
+promovido contra o nosso prestimoso amigo capitão Nery, por um vilissimo
+portuguez e por suppostas injurias publicadas na _Tribuna_ ácerca d'um
+irmão do auctor que se acha em Portugal.
+
+«Esse processo, que é um montão de ultrages contra manifestas
+disposições da lei, estamos intimamente convencidos que cahirá ante a
+indefectivel justiça dos provectos e venerandos juizes, que o tem de
+julgar.
+
+«Essas nullidades immoraes não resistirão á sabedoria do Egregio
+Tribunal da Relação, unico baluarte erguido entre a lei e o arbitrio,
+entre a moral e a corrupção, entre os potentados do dinheiro e os que
+soffrem fome e sêde de justiça na sociedade paraense.»
+
+«Quanto se enganou a redacção da _Tribuna_!
+
+«O julgamento teve com effeito logar, e aquella monstruosidade juridica,
+que dá a mais triste cópia da _moralidade_, _justiça_ e _conhecimentos_
+theoricos e praticos do _jurisconsulto_ formador do processo e culpa,
+resistiu á _sabedoria_ dos _provectos_ juizes!
+
+«Hoje deve a sociedade paraense estar desenganada, pois que a lei entre
+nós não tem sacerdotes, mas sim, com honrosas excepções, vis
+mercenarios...
+
+«Entre o direito e o arbitrio, entre a moral e a depravação, entre a
+prepotencia e os que soffrem fome de justiça não existe barreira, por
+isso que até na Relação esses principios oppostos confundem-se e acima
+de todos os preceitos da lei alli se eleva a subserviencia, a paixão
+mesquinha e a vingança miseravel!
+
+«Que desgraçado espectaculo!
+
+«Apezar de todas as nullidades e absurdos a pronuncia foi sustentada!
+
+«Até onde te quererão arrastar, oh! minha querida terra!
+
+«Desgraçados! não veem que cada um d'esses actos, que só tem
+qualificativo na brutalidade dos juizes selvaticamente iniquios, é um
+barril de petroleo com que alimentam um incendio sinistro!...
+
+«Jámais me persuadi, que magistrados encanecidos no serviço da justiça e
+collocados n'uma posição independente tivessem a inaudita leviandade de
+renunciar a dignidade e a consideração publica e manchassem as mãos
+n'uma sentença odiosa, que os submette á indignação do povo, porque este
+vê n'essas togas, maculas hediondas...
+
+«Inspirados por paixões ruins não mediram o alcance da sancção que
+proferiam a um escandalo impudente!...
+
+«O juiz que põe a preço a consciencia é tão prejudicial ou peior ainda
+que ladrão de estrada...
+
+«Demais, a corrupção que désce dos tribunaes para o seio do povo é mais
+perigosa ainda que o odio que ferve na immensa caldeira aos gritos da
+_populaça_ espalhada pelas praças publicas.
+
+«São os espectaculos repugnantes, que os magistrados offerecem ao
+desespero do povo, que forçam ao povo a pôr em scena tragedias de
+sangue...
+
+«Estas considerações, porém, não couberam na comprehensão d'aquelles,
+que por uma sentença immoral _legalisaram_ um ultrage vergonhosissimo
+feito á justiça e ás expressas disposições da lei!
+
+«Assim, pois, ninguem póde mais contar com a lei nem com a justiça
+n'esta terra!! a depravação está superior a tudo!!
+
+«E, que coincidencia singular! no mesmo dia e no mesmo logar em que
+immoralmente saltava-se por sobre a lei para ferir-me como victima d'uma
+imprensa livre e independente (sic), era tambem desmoralisado o acto
+d'um juiz, cuja beca jámais se emporcalhou no charco immundo em que
+tripudiara o ex-juiz de Bragança, onde miseravelmente prostituiu uma
+infeliz, cuja cegueira não impediu o libinidinoso monstro, apparentado
+d'um faccinora, e que com exemplos abominandos estimula a perversidade
+de dous filhos libertinos, bebados e jogadores.
+
+«Sim! no mesmo dia e logar em que sem o minimo respeito nem ao publico
+nem ao veneravel presidente do tribunal, o hospede d'um ladrão da praça
+applaudia e secundava a odienta e crapulosa opinião d'um gratuito e
+vilissimo inimigo, ha pouco tempo fornecedor de artigos para o meu
+periodico, n'esse mesmo dia o sr. dr. Meira de Vasconcellos (sic) era
+estupidamente ludibriado pelos vendilhões da lei, por tógas com _honras_
+de LIBRÉ da casa Mauá e dos _nobres_ LATROCRATAS da praça do Pará (Os
+portuguezes).
+
+«Debalde procuram limpar o escarro que Percheiro imprimia-lhes nas faces
+impudentes!...[71]
+
+«Confesso pia e publicamente que até o ultimo instante nunca me faltou a
+confiança em semelhantes juizes, pois nunca, até então, nem havia
+atravessado o pensamento a idéa de que elles desceriam a tamanha
+abjecção... (de condemnar pela primeira vez o infame... depois da
+publicação das _Questões_!).
+
+«Animou-me sempre a esperança de encontrar na Relação provectos e
+venerandos apostolos da justiça; enganei-me, porém, e enganei-me
+redondamente: alli a especulação é a lei, a depravação um culto exercido
+ha longos annos.
+
+«Já houve quem dissesse que o ladrão é mais nobre ainda que o juiz
+mercenario; porque aquelle arrisca a vida, e este põe em risco a vida
+dos que julga e a propriedade dos que ficam por julgar.
+
+«Na realidade assim é.
+
+«Por Deus! quando me chegou a noticia d'essa decisão degradante, que
+annulla todo o respeito e consideração, devidas a juizes probos, tive
+impetos de entrar n'aquelle templo, desgraçadamente profano, e correr a
+vergalho esses mercenarios, que o transformam em scenario de comedias
+obscenas, desempenhadas por ciganos...
+
+«Ordens arbitrarias não se cumprem; no entretanto cumprem-se sentenças
+absurdas e brutaes!...
+
+«Rasguem, bohemios, raça nomada! rasguem a lei, mas rasguem que o povo
+veja! rasguem, mas não mintam! rasguem, mas rasguem em publico, e toquem
+fogo nas tiras e com ella, vão por ahi além em busca de dinheiro, ou de
+vergonha!... Rasguem, que ella para nada serve, rolando sob vossos
+pés!... Rasguem, mas que o povo veja!...
+
+«A _Tribuna_ é communista!
+
+«Ai! dos mercenarios se ella o fosse (sic).
+
+«Está lavrada a sentença?
+
+«Pois bem! vou cumpril-a e com coragem e orgulho, porque taes miserias
+não abatem o homem de bem; ao contrario cria-lhes sympathias, ao passo
+que cobrem de infamia e opprobrio aquelles que as proferem.
+
+«Querem matar a _Tribuna_?!
+
+«Pois não! todo o dinheiro, que ahi por ventura corra, é pouco, e sois
+pequenos demais!... ella continuará sempre; e quando acaso venha a
+succumbir na lucta, a idéa resistirá, e de suas cinzas surgirá a
+revolução do nobre pensamento que pleiteamos, eu e meus amigos, na
+imprensa do Pará.
+
+«O que a _Tribuna_ tem escripto, o que hontem escreveu, o que continuar
+a escrever, é todo para a historia, para cuja justiça eu appello,
+instruindo o meu appello com a sentença que meus inimigos (os
+portuguezes) compraram a um tribunal de meu paiz e contra a qual servirá
+este de protesto solemne, pois protesto soberanamente contra tamanha
+iniquidade e formidavel objecção.[72]»
+
+O celebre dr. Samuel Mac-Dowal, (redactor da _Regeneração_), foi o
+advogado do réu. E quem fez o protesto que para ahi deixamos
+transcripto, e que o intelligente capitão assignou de cruz, o qual,
+diga-se a verdade, faria chorar as pedras, se as pedras podessem vêr as
+lagrimas do crocodilo paraense, foi tambem o sr. Samuel, orador da
+associação catholica e acerrimo defensor dos jesuitas do Pará![73]
+
+Mas não obstante a condemnação a _Tribuna_ continuava a publicar-se e a
+dirigir os mesmos insultos á colonia portugueza e aos tribunaes; e na
+testa do pasquim figurava ainda como responsavel o mesmo Marcellino
+Nery, capitão do exercito. As auctoridades cruzavam os braços, sem terem
+força para repellir os insultos dos pasquineiros, que, julgando-se mais
+fortes, preparavam scenas peiores do que as presenceadas por nós em
+fevereiro de 1872 e setembro de 1874. E o clero parece que lhe não era
+estranho.
+
+ [71] Nunca fomos injusto para com o tribunal da Relação do Pará.
+
+ [72] Este documento tem a data de 10 de julho de 1875 e é assignado
+ por Marcelino Nery.
+
+ [73] Consta-nos á ultima hora que este sujeito deixou já o partido
+ catholico e se fez... liberal!
+
+
+V
+
+O _Diario de Belem_, accusado de defensor do bispo D. Antonio e do seu
+clero, e portanto, insuspeito na questão gravissima, que de novo se
+levantava contra a colonia portugueza residente no Pará, assim fallava
+em 30 de maio de 1876, a respeito de uns pasquins destribuidos por este
+tempo na cidade de Belem, chamando o povo á revolta contra os colonos:
+
+«A ordem publica póde achar-se compromettida de um dia para o outro, se
+a policia continuar o somno de indifferença em que se refocilla: com o
+fogo não se brinca.
+
+«Na semana ultima quasi não houve dia em que se não derramassem no seio
+d'esta capital os mais asquerosos pasquins, primando uns pela descarada
+impudicicia que ostentam, emquanto proclamam outros o assassinato em
+massa dos portuguezes e dos mações.
+
+«Se não acreditamos, com o _Liberal_ e com a _Provincia_, que para
+estygmatisar tão grandes monstruosidades, seja necessario dar-lhes
+_curso forçado_ estampando-os nas columnas da imprensa diaria para
+estender a sua circulação e perpetuar a nossa vergonha, é do nosso
+primeiro dever perguntar á policia se--de _tantos pasquins que se
+distribuiam até no theatro e no largo da Cathedral_ (!) conforme nos
+asseguram pessoas de confiança, se de um só não pôde descobrir os
+auctores ou distribuidores? É muita cegueira!
+
+«Não vamos até ao ponto de fazer insinuações[74]; mas da natureza
+d'esses documentos, dos interesses que elles procuram servir, da
+linguagem que empregam, de tudo isto se manifesta que não teria a
+policia grande trabalho para conhecer-lhes a procedencia.
+
+«São publicações essas, prohibidas pelas nossas leis e constituem crimes
+policiaes ao alcance e da esphera da policia. O que faz portanto o sr.
+dr. chefe da policia, magistrado aliaz sizudo e circumspecto?
+
+«Não queremos especular com assumptos d'esta natureza, nem é nosso
+intuito doestar pura e simplesmente ao honrado sr. Caldas Barreto, ou
+fazer insinuações desairosas a este ou aquelle individuo; mas só cegos
+não verão que esse que corre estampado nas columnas do _Liberal_ e da
+_Provincia_, traz bem caracterizada a linguagem da _Tribuna_ e nutre os
+mesmos intuitos...
+
+«Estude-se depois o caracter d'essa impressão, compare-se-a com a dos
+differentes jornaes que se publicam n'esta capital, e se reconhecerá que
+o typo é o mesmo que servio em alguns editaes das juntas da
+qualificação![75]
+
+«Nós chamamos pois a attenção da policia para estes pasquins, que
+formigam principalmente no theatro, onde se presume que a policia está,
+sempre que ha representações.
+
+«Queremos ser hoje, como sempre, justo. E pois nos dirigimos á policia,
+concitando-a para que interrompa o somno que a prostra desde tanto tempo
+e vele pela ordem publica, que ahi anda á matroca e á mercê dos
+interesses de occasião.
+
+«Temos a maior sympathia pelo sr. Caldas Barreto; mas fazemos do dever
+uma religião, e elle antes de tudo.
+
+«Póde a policia continuar indifferente a tantos abusos?»
+
+Como os leitores vêem o _Belem_ não defende o bispo, porque, jornalista
+sizudo, _faz do dever uma religião_; e por isso chamava a attenção das
+somnolentas auctoridades contra os pasquineiros desenfreados, que a todo
+o transe proclamavam o exterminio dos portuguezes e maçons.
+
+Era, pois, mais grave do que os optimistas suppunham a situação dos
+nossos compatriotas residentes no Pará. Decididamente o governo do
+Brazil protegia os desordeiros, e o governo de Portugal recebia tudo
+isto como a devida satisfação promettida por aquelle a este paiz na
+gravissima questão do Jurupary. E não contente ainda, decretava mercês
+honorificas a esses que no Brazil assulavam a populaça contra nossos
+irmãos!
+
+Nunca a corrupção subira tão alto!
+
+ [74] Nem as deveria fazer porque faria mal ao bispo.
+
+ [75] A typographia do conego Sequeira Mendes e da _Constituição_,
+ orgão do partido conservador da provincia, era a que fornecia os
+ impressos ao governo!
+
+
+VI
+
+Eis como o _Liberal do Pará_ fulminava o pasquim, transcrevendo-o no seu
+numero de 20 de maio de 1876:
+
+«Os jesuitas querem a todo o transe perturbar a ordem publica, açulando
+os odios de raça e o fanatismo das classes ignaras, para vêr se
+conseguem arrastal-as a scenas de carnificina, que nos degradem perante
+o mundo civilisado.
+
+«A gente da _Boa Nova_[76], fez hontem distribuir uma segunda edição do
+_Brado ao Povo_.[77]
+
+«Evocam-se as recordações de um passado infame e vergonhoso, appella-se
+para a faca, e grita-se com toda a força:
+
+«Á arma branca!
+
+«Ou a igreja ou a maçonaria!
+
+«Alerta! Renove-se o 35! mas purifique-se o povo no sangue d'esta raça
+maldita!»
+
+«É especialmente contra os maçons e os portuguezes que se levanta o
+grito sanguinario, echo das paixões ferozes, de que os jesuitas se acham
+dominados.
+
+«A seita maldita quer sangue: impelle-a a mão occulta d'aquelle, que
+devera ser o exemplo da caridade e do amor do proximo.
+
+«Todas as noutes distribuem-se pasquins infamissimos, que tem o cunho
+jesuitico.
+
+«A policia não póde nem deve ser indifferente a esses meios anarchicos,
+de que estão-se servindo os roupetas para espalhar o terror nas familias
+e nos estrangeiros, que descançam tranquillos á sombra da nossa
+hospitalidade e das nossas leis.
+
+«Em nome do povo paraense protestamos contra essa infamia, e exigimos a
+punição dos seus sanguisedentos auctores.
+
+«Leia o publico o pasquim, e veja de quanto é capaz a sanha dos que
+fazem da religião um instrumento de odio e vinganças:
+
+
+AO POVO BRAZILEIRO
+
+«Desperta! gigante e alerta!
+
+«Que estupida somnolencia é essa que te esmaga?
+
+«Onde estão os teus brios?
+
+«Que tens feito do teu heroismo?
+
+«Por ventura já não te bate no seio um coração educado nas idéas dos
+nobres sentimentos?
+
+«Por ventura descreste de tua liberdade e de tua força?
+
+«Em summa, não vês a execração a que te arrasta a indifferença?
+
+«Duvidas de ti? ou a lepra dos homens grandes communicou-se tambem aos
+teus musculos de gigante?
+
+«Não! não é possivel!
+
+«Tu has-de ser sempre um povo brioso e heroico!
+
+«Volve os olhos ao passado e interroga o 35 e decide-te no que te cumpre
+fazer.
+
+«Quem te tem negado o meio de subsistencia?
+
+«Quem te impede de obteres o pão para tua mulher e filhos?
+
+«Quem tem levado a miseria ao seio da tua familia?
+
+«Quem tem escarnecido da tua liberdade?
+
+«Quem tem vilependiado teus brios?
+
+«Quem tem escarrado infamias á face dos teus?
+
+«Quem tem com a mão sacrilega revolvido as cinzas de nossos paes para
+melhor vomitar injurias?
+
+«Quem tem corrompido a nossa sociedade fazendo que n'ella substitua-se a
+virtude pela depravação?
+
+«Quem, finalmente, tem, depois de estrangular-nos á fome, despojar-nos
+de nossos direitos e reduzir nossa familia a penuria e a mendicidade,
+deshonra o nosso nome, o nome de nossos paes e o de nossas irmãs?
+
+«Interroga a tua consciencia que ella te dirá:
+
+«--Que são aquelles mesmos que deram lugar as scenas sinistras de 1835.
+
+«Interroga aquella época que ella te responderá:
+
+«--São esses malfeitores que Portugal exporta para o Brazil.
+
+«Pergunta ao teu brio o que deves fazer: pede conselhos ao 35: e te
+decide, ó gigante!
+
+«E são elles hoje que, estreitando o circulo de bronze com um circulo de
+fogo, ameaçam destruir-te para sempre.
+
+«O primeiro passo que deram para levar ao cabo o seu canibalismo foi
+insultar a religião que bebemos com o leite dos seios de nossas mães.
+
+«Depois de insultarem a Deus e a sua igreja, a esposa de Jesus Christo,
+esses bandidos infamam os seus sacerdotes porque estes são nossos
+irmãos, e superior a impiedade cynica d'essas bestas féras collocam a
+liberdade, a patria e a familia.
+
+«Abandonar a causa de nossa santa religião á furia d'esses impios
+scelerados é descurar e despresar a propria liberdade, é vender a
+patria, é renegar a honra e a familia.
+
+«E ha brazileiro, por mais infimo que seja, que tenha a covardia de
+deixar-se escravisar, de vender sua patria, de renegar a honra de sua
+familia?
+
+«Oh! jámais!
+
+«E, pois ergue-te gigante! e pede ao 35 que te dê coragem para a um por
+um d'esses bandidos agarrares pelo pescoço e esmagal-os sob os pés.
+
+«Álerta!
+
+«Queres conhecel-os? queres saber quem são os facinoras que te insultam
+e imfamam, insultando e infamando a religião de teus paes e seus
+sacerdotes, nossos irmãos, brazileiros como nós?
+
+«Queres conhecel-os, ó povo? ou saber onde é que elles se infurnam e
+tramam contra ti, tua familia, tua patria, tua religião, tua honra e teu
+Deus?
+
+«Em nome do 1835 te respondo:
+
+«--É na maçonaria.
+
+«Sim, é ahi.
+
+«É ahi que elles tramam contra liberdade, honra, familia e crenças do
+povo brazileiro.
+
+«É ahi, porque a maçonaria é o receptaculo e valhacouto:
+
+«--dos incendiarios;
+
+«--dos ladrões,
+
+«--dos assassinos «que Portugal exporta para a nossa terra.
+
+«--Eram e são maçons os quadrilheiros presos em S. José.
+
+«Foi da maçonaria que saiu o assassino de Barraquim:
+
+«Foi da maçonaria que saiu o estrangulador de Balthazar;
+
+«Foi a maçonaria que afastou a policia dos estranguladores do porto do
+Cantão.
+
+«É a maçonaria que tem protegido os incendiarios, bancarroteiros e
+moedeiros falsos.
+
+«É na maçonaria que se tem combinado a perseguição ao prelado e os
+insultos ao clero paraense.
+
+«Porque é ella o baluarte erguido contra a justiça publica para proteger
+os facinoras, malfeitores e scelerados que nos vem de Portugal para
+realisarem o pensamento arrojado do famigerado Jalles.
+
+«E pois, ó povo, álerta.
+
+«1835 te ordena que tomes a tua faca, e opponhas resistencia contra
+esses impios salteadores, commissionados pela maçonaria e reunidos no
+theatro para ultrajar a tua religião, porque estão fartos de ultrajar a
+tua familia, tua honra, tua patria e escarnecer de tua liberdade.
+
+«Ergue-te e sê heroico!
+
+«Ao punhal d'esses sicarios, ao arcabuz d'esses bandidos, á gritaria
+obscena e injuriosa, para a qual tem sido impotente a policia e o
+governo, oppõe a tua faca de mato.
+
+«Lava o insulto que a Deus é feito em teu nome, teu nome, ó povo, que
+elles odeiam!
+
+«Percheiro e Carvalho tambem são agentes da maçonaria (?); e são maçons
+Pinheiro Chagas e Castilho.
+
+«Alerta! renove-se o 35! mas purifique-se o povo no sangue d'essa raça
+maldita!
+
+«Aos pés de cabra e rabo de macaco!
+
+«Á arma branca!
+
+«Eia povo! coragem!
+
+«Decida-se d'esta lucta: ou ser brazileiro, ou venda-se a familia, a
+honra e a patria.
+
+«Ou a igreja ou a maçonaria; ou ser independente ou escravo, nacional ou
+portuguez.
+
+«Viva o 1835!»
+
+Viva a civilisação! diremos nós, em pleno 1878.
+
+ [76] Jornal do bispo.
+
+ [77] Veja-se _Questões do Pará_.
+
+
+VII
+
+No pasquim ha uma referencia a respeito da estrangulação de Balthazar,
+nosso compatriota. A este infeliz nos referimos nas _Questões do Pará_,
+e a proposito da condemnação de um innocente, supposto criminoso,
+publicámos o seguinte artigo, ha tempo:
+
+«Ha dias, quando um pobre doido, filho do Brazil, procurou a morte, sem
+duvida, em algum momento mais lucido, para pôr termo aos seus
+soffrimentos, quiz-se tornar responsavel de tão grande desastre a dois
+pobres enfermeiros, que, estando encarregados de guardar o doente,
+talvez se tivessem descuidado um pouco no cumprimento de seus deveres.
+
+Parte da nossa imprensa fez a justiça de dar ingresso em suas columnas a
+uma carta queixosa do inconsolavel irmão da supposta victima, e um
+jornal se recusou acceitar explicações dos accusados! Em presença de tão
+_horroroso_ crime tomára o ministro brazileiro todas as providencias
+perante o nosso governo, quando já as auctoridades do logar onde se dera
+o facto haviam cumprido os seus deveres.
+
+N'este ponto, hade o nobre diplomata permittir que lhe digamos, que
+Portugal em nada se parece com o governo do imperio, que s. ex.ª tão
+dignamente representa.
+
+Não sabemos ainda qual será o desenlace d'esta _tenebrosa tragedia_; mas
+promettemos esclarecer os nossos leitores quando for tempo opportuno.
+
+Fallamos n'isto a proposito de um verdadeiro drama, que acaba de
+representar-se da outra parte de lá do oceano, em terras brazileiras.
+
+Compare o leitor as providencias das nossas auctoridades, a favor da
+hospitalidade devida aos estrangeiros, com a que costumam dispensar-nos
+as auctoridades do Brazil.
+
+Ahi vae a historia.
+
+Ha pouco tempo assassinaram no imperio um infeliz portuguez. A policia
+brazileira, composta de cidadãos que devem comprehender a hospitalidade,
+tratou de averiguar o caso pela forma mais extraordinaria que é possivel
+imaginar-se.
+
+Antes de tudo é preciso que se saiba, que a tal policia só sabe
+_descobrir_ os criminosos, quando o crime é commettido em pleno dia, na
+presença de muitas testemunhas. Dado o caso, porém, de ser perpetrado no
+meio das sombras da noite, se a victima é um portuguez, trata a policia
+de arredar de cima do seu patricio qualquer suspeita. As suas vistas
+voltam-se logo para os _gallegos_. Um brazileiro é incapaz de ser
+criminoso, embora proteste contra isto o _Cearense_. Foi justamente o
+que aconteceu no caso em questão.
+
+No logar do delicto encontrara-se apenas um indicio que não sabemos se
+seria o sufficiente para o verdadeiro descobrimento dos criminosos. Esse
+indicio era um lenço marcado com um M. Este lenço foi levado
+immediatamente para o quartel de policia; mas d'ali a 3 ou 4 horas
+sabia-se em toda a cidade d'aquelle precioso achado!
+
+Vejamos agora as outras diligencias a que as auctoridades procederam.
+
+Em primeiro logar mandou-se intimar para que comparecessem no
+commissariado todos aquelles cujo nome ou appelido começasse por aquella
+inicial. O systema, além de ser arbitrario, não podia produzir o effeito
+desejado, porque a policia tinha sido a primeira a divulgar o segredo de
+tão optima descoberta.
+
+A experiencia cremos que levou oito dias, porque foram chamados todos os
+Manueis! e, o que é notavel, é que nenhum cahiu na patetice de dizer que
+o lenço era seu!
+
+Mas como no meio de tanta barafunda podia ter escapado algum Manuel, um
+jornal incendiario se lembrou de accusar Manuel Saldanha, commerciante
+e... portuguez. Foi chamado o homem, não obstante as auctoridades
+brazileiras darem pouca importancia aos pasquins! E para que se não
+dissesse, que as mesmas davam menos importancia a um portuguez, foi este
+desde logo recebido com a maior deferencia... pelo carcereiro!... O
+motivo d'uma recepção tão desigual, fora _simplesmente_ porque o
+portuguez se chamava Manuel como qualquer brazileiro. Mas ao cabo de
+dois dias saira da prizão o nosso compatriota, declarando como todos os
+outros, que o lenço fatal lhe não pertencia, accrescentando que desde ha
+muito cheirava rapé e que uzava lenços riscadinhos de Alcobaça!
+
+O proprietario do jornal accusador, do jornal incendiario, que ha quatro
+annos consecutivos advogava o exterminio da colonia portugueza, e a cuja
+sombra se commettiam tantos crimes, chama-se Marcelino Nery; e dois dos
+seus principaes redactores chamam-se, um, Manuel Cantuaria, e outro,
+Manuel José de Sequeira Mendes; com tudo foram poupados á experiencia
+policial. Pois não deviam ser dispensados das suspeitas da policia;
+porque, além d'esta gente fazer uso do lenço branco e do almiscar, de
+cujo olor se achava impregnado o delicado _marotinho_, bastantes provas
+tem dado da sua capacidade para taes commettimentos.
+
+Mas a questão era mais séria do que julgára Manuel Saldanha: porque,
+para evitar que a policia, contra a sua vontade, fosse, por qualquer
+acaso, encontrar os verdadeiros criminosos nas fileiras communistas,
+encarregou-se a _Tribuna_ (a comedia passava-se no Pará) de assestar as
+suas baterias contra o pobre _marinheiro_. E o promotor publico do Pará,
+para fazer a vontade aos seus predilectos do _orgão popular_, processou
+o portuguez, que foi immediatamente mettido na cadeia.
+
+Pouco tempo depois constituia-se o tribunal que não tem querido julgar
+os assassinos de Jurupary, e Manuel Saldanha apparece sentado no banco
+dos assassinos. A unica prova, que consta de tão monstruoso processo, é
+um lenço cujo dono se ignora.
+
+O juiz presidente desenrola-o, e em pleno tribunal assoa-se a elle.
+Pouco depois os jurados seguem-lhe o exemplo. A _prova_ fatal foi afinal
+cair nas mãos do orgão da justiça publica, que se serviu exclamar,
+apontando para o lenço e para a fatidica letra:
+
+--Srs. jurados! vêde e ouvi... (dirigindo-se para o supposto réu) Como
+se chama?
+
+--Manuel...
+
+--Basta, não precisamos de mais provas...
+
+E o portuguez foi sentenciado a galés perpetuas para a ilha de Fernando
+de Noronha!
+
+O jury que, alguns mezes antes, absolvera dois soldados do exercito
+brazileiro, assassinos confessos de dois compatriotas nossos, procedia
+assim contra uma pobre victima, cujo crime foi ter nascido em Portugal e
+chamar-se Manuel!
+
+O que infelizmente está reconhecido, é que o odio de raça passou dos
+Tapuyas e dos Tomayos aos Tupinambas e aos Botocudos; e que estes o
+transmittiram aos brazileiros, que hoje predominam n'aquella parte da
+America. A unica differença a favor da raça predominante; é não fazer
+uso da antropophagia; mas em compensação assassina os portuguezes, e
+quando algum se livra do punhal e do trabuco, não escapa á sanha dos
+tribunaes.
+
+Mirem-se n'este espelho os nossos compatriotas que veem no imperio um
+manancial de riquezas e uma terra civilisada e hospitaleira.»[78]
+
+Agora illucidemos a questão que o tempo, magnifico juiz de nossas
+acções, poz nos devidos termos:
+
+O portuguez Manuel Saldanha, appellou da injusta sentença para o
+tribunal da Relação do Pará, que annulou o processo e mandou pôr em
+liberdade a victima!
+
+O brazileiro doido, que tentou suicidar-se, era unico irmão de um barão
+ou visconde, e senhor de uma fortuna avultadissima.
+
+Logo que a este titular _chegára_ a noticia do desastre succedido ao
+irmão, escreveu uma carta sentimentalissima a um jornal de Lisboa em que
+accusava de cumplicidade os enfermeiros; e o tal jornal, ao mesmo tempo
+que consolava o _desventurado_ aristocrata, negava as suas columnnas á
+defeza dos enfermeiros que tencionavam provar a sua innocencia!
+
+Começou o processo, e quando elle ia esclarecer a tragedia, o illustre
+titular sahia immediatamente d'este paiz!...
+
+Sobre o processo poz-se a pedra do esquecimento, que, por
+_conveniencias_, negaram ao infeliz Vieira de Castro!
+
+Altos mysterios da justiça!...
+
+Vejam os nossos inimigos de alem-mar como nós cá tratamos os seus
+compatriotas.
+
+Nós é que não concordamos com a protecção escandalosa; e desde já
+protestamos contra os previlegios: o sancto principio da hospitalidade
+não manda proteger os calumniadores de nossos irmãos, por que os
+calumniadores são opulentos e quem sabe se criminosos.
+
+ [78] A _Tribuna_, de Lisboa.
+
+
+VIII
+
+Manuel Soares Pereira, é um emigrado portuguez, residente ha muito tempo
+no imperio do Brazil, e que assistiu como voluntario, á lucta travada
+entre esta nação e o Paraguay, prestando por essa occasião relevantes
+serviços aos feridos nas refregas; porque Soares tivera a sublime idéa
+de se inscrever na legião dos irmãos da caridade--que nos acampamentos
+da guerra aspiram a dar vida e consolações aos moribundos, emquanto que
+os soldados d'outras legiões apontam ao peito da humanidade os
+_Chassepots_ da destruição.
+
+Aos soldados de todas as legiões--aos que ferem e matam e aos que
+curam--costumam dar os governos que promovem os ferimentos, a matança e
+os curativos, uns _pendericalhos_ em paga d'esses serviços, que os
+mandões da guerra igualam, mas que a humanidade separa, como sendo a
+arte dos que ferem e matam uma perfeita antithesis á que exercem os que
+consolam e curam.
+
+Soares Pereira, não obstante, como já vimos, pertencer a esta ultima
+legião, foi sentenceado á morte, pelos tribunaes do Brazil, porque tendo
+elle exercido um cargo humanitario, que os taes mandões da guerra não
+retribuiam, entendeu dever _desertar_ da legião, onde por muito tempo
+servira voluntariamente, e onde o deixariam morrer de fome, em paga de
+uma pratica assidua de acções meritorias.
+
+Desertar dissemos, porque como deserção é que se qualificára a sahida
+voluntaria de Soares Pereira, do exercito do Paraguay, sahida nunca
+impedida pelas auctoridades guerreiras do Brazil, estacionadas n'aquella
+região, em 1867, e por aquelles que lhe visaram depois o seu passaporte
+de subdito da nação portugueza, documento este que o nosso compatriota
+apresentára, no seu transito, sem receios, e conscio de que era um
+cidadão no goso pleno dos seus direitos.
+
+Passaram-se sete annos depois d'aquella data. Isto é, em 1874, o
+supposto desertor, estabelecido então na cidade da Bahia, requereu uma
+certidão á repartição competente, para mostrar onde lhe conviesse, os
+serviços prestados ao Brazil, como enfermeiro na guerra do Paraguay.
+
+A resposta foi ser preso o requerente, _para averiguações_. Feitas as
+taes averiguações, concluiu-se que Soares Pereira fôra considerado
+desertor do exercito, no qual já mais se alistára como soldado, do que
+são sufficientes provas os documentos que temos á vista e que fazem
+parte do _Livro Branco_, apresentado ás côrtes em 1877. Não obstante, é
+Pereira mettido _na mais terrivel masmorra do forte de S. Pedro, da
+Bahia, onde esteve cinco dias sem alimentos, e de onde o faziam sahir
+depois para os trabalhos forçados, durante 18 mezes, antes de ser
+julgado_,[79] e só depois d'este periodo é que foi sentenceado á morte!
+
+A 26 de março de 1876, é que foi proferida a sentença, pelo conselho de
+guerra reunido na cidade da Bahia.
+
+A diplomacia portugueza, começou no imperio, em fevereiro de 1875, a sua
+lucta; e pelo desenlace de 26 de março, acabamos de vêr que ella não
+pôde evitar mais aquella vergonha para os tribunaes do Brazil, quando
+julgam portuguezes.
+
+E porque nada conseguiu a diplomacia até este momento? Porque o nosso
+vice-consul na Bahia, o sr. Gregorio Anselmo Ribeiro Marques, que já em
+fevereiro de 1875, cinco mezes depois da prisão, começára a apontar o
+monumental escandalo, não viu secundados os seus esforços pelo nosso
+embaixador na côrte do Rio de Janeiro.
+
+Vamos demonstrar esta asserção com os documentos que temos á vista.
+
+ [79]_As Nações Civilisadas do Universo_, por M. A. Ferreira, da
+ Bahia.
+
+
+IX
+
+Já notámos que passados cinco mezes depois da prisão de Manuel Soares
+Pereira, isto é, em 4 de fevereiro de 1875, é que começaram as
+providencias da diplomacia.
+
+Expedindo o nosso vice-consul na Bahia a sua primeira nota ao presidente
+d'esta provincia brazileira, em que pedia «esclarecimentos dos motivos
+que determinaram a prisão do referido individuo[80]», não remediava que
+a prisão illegal continuasse; porquanto, o presidente allegava era seu
+officio de 11 do mesmo mez e anno, que aquelle subdito de Portugal
+_sentára_ praça no 16.º batalhão de infanteria de linha, escudando-se
+este magistrado, para fazer valer a sua affirmativa, á _certidão de
+assentamento_, que o general das armas d'aquella provincia lhe remetteu,
+na qual nada notava com respeito ao acto importantissimo do juramento de
+bandeira, que era indespensavel para tornar legal o assentamento; o que
+não impediria, ainda assim, quando o fosse, de que taxassemos de
+inconsequente o prolongamento da prisão, sem julgamento, de um subdito
+de nação _irmã e amiga_; e de barbara, a obrigação imposta
+arbitrariamente a esse mesmo subdito, de ser levado aos trabalhos
+_forçados_, a que a justiça condemna os criminosos convictos.
+
+Não satisfeito com a resposta e com a tal certidão, tudo desconforme, á
+vista das mais comesinhas noções do direito, o nosso vice-consul,
+expedindo segunda nota em data de 4 de março do referido anno, não só
+accusava a falta de juramento de bandeira, que se não exigia dos
+voluntarios nacionaes (para a guerra do Paraguay) e menos se exigiria de
+um estrangeiro; mas o que era para notar, não se provava, que o nosso
+compatriota estivesse «desembaraçado pelo consulado para levar a effeito
+aquelle juramento, documento de que se não poderia prescindir, em vista
+da doutrina consignada na resolução do governo imperial, expedida pelo
+ministerio dos negocios estrangeiros, na data de 4 de julho de 1852», e
+de outras noções do direito internacional, muito bem apontadas nas notas
+expedidas, mais tarde, pelo sr. Andrade Corvo.
+
+Á vista d'isto, o presidente replicou immediatamente, que submetteria á
+consideração do governo imperial o expendido pelo vice-consul.
+
+E o governo imperial respondeu assim, _pela bocca do nosso ministro_, na
+côrte do Rio de Janeiro:
+
+«Legação de Sua Magestade Fidelissima, Rio de Janeiro, em 12 de abril de
+1875.--Ill.mo sr.--Em resposta ao officio que v. s.ª me dirigiu em data
+de 8 de março ultimo, cumpre-me dizer-lhe que, em vista das disposições
+da lei brazileira, de 20 de setembro de 1860, e do que foi declarado
+pela de 20 de junho de 1865, não póde ser attendida a pretenção de
+Manuel Soares Pereira, a que se refere o citado officio de v. s.ª Isto
+mesmo acaba de ser decidido pelo governo imperial em deliberação tomada
+sobre o referido assumpto, etc., etc.--_Mathias de Carvalho e
+Vasconcellos_.»
+
+Teria o vice-consul exorbitado? ou enganar-se-ia o governo imperial?
+
+Parece que sim, que este se enganou, e com elle o nosso illustre
+diplomata, o sr. Mathias de Carvalho e Vasconcellos, que sem protesto,
+acolhera a decisão injusta do governo, junto do qual estava acreditado,
+para tratar de proteger os interesses da nação portugueza, sua patria.
+
+Vejamos se sae ou não exacta a nossa asserção.
+
+ [80] Nota de 4 de fevereiro de 1875.
+
+
+X
+
+A informação do ajudante general, a que recorrera o ministro da guerra
+brazileiro, para negar a justiça que requeria Manuel Soares Pereira, por
+via do consul, diz que os corpos de voluntarios da patria, organisados
+de conformidade com as disposições do decreto de 7 de janeiro de 1865,
+para a guerra do Paraguay, estiveram sempre sujeitos ás leis militares,
+etc.; etc., e que a lei de 20 de setembro de 1860 comprehende os
+engajados e voluntarios de qualquer natureza, como praças do exercito, e
+por consequencia sujeitos ao julgamento pelo crime de deserção, etc. Que
+o juramento de bandeira, era uma mera formalidade, que não podia impedir
+o assentamento de praça, o que a nosso ver, não impediria tambem que nos
+assentassem praça lá no Brazil, sem o previo consentimento, para sermos
+julgado desertor, e depois sentenciado á morte, se por desventura lá
+apparecessemos!...
+
+Mas com respeito á proposição do vice-consul, de que não se deveria
+julgar a praça assente ao portuguez, sem que este apresentasse documento
+do consulado, com o qual se provasse estar desembaraçado, para então
+poder alistar-se no exercito estrangeiro, não disse nada o ajudante do
+general.
+
+Foi lapso, naturalmente!
+
+O vice consul é que não se conformou com a informação do tal ajudante,
+nem com a decisão que á vista da mesma dera á causa o ministro
+brazileiro respectivo; e despresando o systema adoptado pelo
+representante de Portugal, de não metter _prego nem estopa_ no batel
+escavacado da nossa dignidade, novo protesto elevou até junto do sr.
+Mathias de Carvalho, para ver se livrava o desgraçado portuguez das
+garras aduncas da tal _justiça_, que, como a dos _tugs_ levava em mira
+_engordar_ a sua presa, para ser mais agradavel á deusa Kaly o supplicio
+final da _laçada_!
+
+É a 16 de abril de 1876, que o vice-consul expede terceira nota ao
+presidente da Bahia, rebatendo as doutrinas erroneas da informação do
+ajudante do general, doutrinas que o sr. Mathias de Carvalho, como já
+vimos, deixára passar, sem a devida replica.
+
+Em 19 responde-lhe o presidente; e a 20 submette o vice-consul, nota e
+resposta, á legação de Portugal no Rio de Janeiro.
+
+Examinemos estes documentos, para, a seu turno, fulminarmos a
+systematica abstensão do embaixador de Portugal em face d'esta questão
+gravissima.
+
+«A legislação citada pela repartição do ajudante general, diz o
+vice-consul, é toda applicavel aos subditos do paiz, que tendo servido
+na armada ou no exercito, quer como voluntarios, quer como guardas
+nacionaes; e quando as disposições do artigo 5.º da lei n.º 1:101,
+podessem ser extensivas a estrangeiros, só seriam applicaveis áquelles
+que fossem legalmente admittidos, exhibindo o desembaraçado do consulado
+de sua nação; por quanto é essa a opportunidade que tem o respectivo
+agente consular para lhes fazer sentir, não só as obrigações a que se
+tem de sujeitar, como averiguar se o subdito de sua nação tem para com
+essa algum compromisso que o inhiba de sua protecção; este principio,
+sendo universalmente reconhecido, o foi tambem pelo governo imperial na
+sua resolução expedida pelo ministerio dos negocios estrangeiros na data
+de 4 de junho de 1852, e jámais controvertido por nenhuma das
+disposições da legislação invocada pela repartição do ajudante general;
+principio este ainda recentemente firmado pelas disposições do artigo
+66.º, do regulamento annexo ao decreto imperial, n.º 5881.»
+
+E n'esta conformidade, pedia o relaxamento da prisão de Manuel Soares
+Pereira, e insistia na reclamação encetada; «e que na nota alludida
+resalvava os direitos que lhe podessem competir pela reclamação que
+houvesse de fazer dos damnos e prejuizos soffridos por aquelle seu
+compatriota, desde o dia da sua prisão até áquelle em que fosse posto em
+plena liberdade.»
+
+O presidente da provincia nada podia decidir, visto que o assumpto já
+havia sido submetido ao governo central. Portanto a resposta d'este
+magistrado ao vice-consul foi:--«que levaria ao conhecimento do ministro
+a nova reclamação».
+
+Conservaremos a ordem dos documentos, estabelecida no _Livro Branco_;
+por isso vamos transcrever o que segue, emquanto o governo brazileiro
+não replica á 3.ª nota consular:
+
+«Legação de Sua Magestade Fidelissima. Rio de Janeiro, 17 de novembro de
+1875.--Ill.mo sr.--Remetto a v. s.ª o incluso requerimento de Manuel
+Soares Pereira, a fim de que me imforme sobre a verdade do seu conteúdo.
+Quanto á petição que o acompanha, convém que v. s.ª aconselhe ao
+peticionario o meio legal que deve observar para que o recurso de que se
+trata chegue competentemente ao seu alto destino.--Deus guarde,
+etc.--_Mathias de Carvalho e Vasconcellos._==Ill.mo sr. Gregorio Anselmo
+Ribeiro Marques, encarregado do consulado de Portugal na Bahia.»
+
+Transcrevemos na integra os documentos assignados pelo nosso embaixador
+a respeito de tão desgraçada questão, para que todos julguem da justiça
+das nossas appreciações.
+
+Antes de mais nada examinemos a data d'aquelle documento,--17 de
+novembro de 1875--e a do ultimo oficcio do vice-consul,--20 de abril de
+1875--em que este funccionario remettia a sr. Mathias de Carvalho a
+copia da 3.ª nota a favor de Soares Pereira, e signifiquemos o nosso
+assombro por vêrmos que o embaixador do Portugal não deu, n'aquelle
+extensissimo periodo--_oito mezes_--, a mais insignificante providencia
+a respeito da questão; é verdade, que, findo esse tempo, reenviava o
+requerimento e a petição do desgraçado portuguez, em que se pedia ao
+ministro o salvasse do martyrio da _prisão_ e dos _trabalhos forçados_,
+a que, contra todos os principios do direito, o obrigavam as _humanas_
+auctoridades da Bahia... porque esse requerimento não ia pela via
+_legal_, que o infeliz _não sabia observar_! E o que é mais assombroso
+ainda, é vir o nosso embaixador, depois de estar informado dos
+acontecimentos, pedir esclarecimentos sobre _a verdade do conteúdo_ do
+requerimento e petição!
+
+Isto não se commenta.
+
+Mas o portuguez Manuel Soares Pereira, que permanecia na prisão _havia
+já 13 mezes!_ quando o não mandavam trabalhar para um logar, na
+distancia de 40 kilometros, naturalmente «porque estando preso no humido
+xadrez, podia adquirir a terrivel molestia de _beriberi_, que tanto
+ataca as mulheres paridas e os homens de vida sedentaria», desculpa
+ironica e ao mesmo tempo pittoresca, que á barbaridade dava o seu
+magnanimo salvador, o sr. Manuel Alves Ferreira, o portuguez Soares
+Pereira diziamos, tinha obrigação de esperar pelas providencias da
+diplomacia!
+
+Que importava que essas providencias viessem depois da sentença injusta,
+passados uns poucos de mezes de supplicios, peores que a morte, já
+quando o infeliz estivesse em marcha para a forca?!
+
+Mais vale tarde do que nunca!
+
+Um portuguez desprotegido não vale tanto como qualquer compadre de sua
+magestade o imperador do Brazil, ou de outra qualquer real
+personagem!...
+
+Um portuguez pobre, sempre é um portuguez pobre; e os embaixadores de
+Portugal junto dos governos das nações estrangeiras, não devem
+importar-se _com esta qualidade de gente_!
+
+
+XI
+
+O ministerio da guerra só respondeu á nota do vice-consul, datada de 16
+de abril de 1845, em 25 de setembro; isto é, cinco mezes depois! não
+obstante julgar aquella repartição, que ao consul não assistia razão
+plausivel para reclamar justiça do governo brazileiro a favor do subdito
+portuguez, despoticamente encarcerado na enxovia, desde 22 d'outubro de
+1874, contra as expressas determinações dos codigos militares e civis.
+
+O governo, conformando-se na sua replica, com a letra da circular de 4
+de junho de 1852, confirmada pelas disposições do artigo 66.º do
+regulamento annexo ao decreto n.º 5.881, lembrados pelo vice-consul,
+concordava com a opinião d'este nosso representante na Bahia, que
+julgára indispensavel a apresentação do _desembaraçado_, para Soares
+Ferreira poder assentar praça.
+
+Mas como era preciso achar um ponto de discordancia, porque o facto da
+prisão do portuguez estava consumado, e planeado o julgamento imbecil,
+que o havia de sentencear á morte, e porque as auctoridades brazileiras
+nunca costumam reconsiderar quando se trata de _marotos_,[81] era
+preciso que o sophisma viesse enredar a razão.
+
+Procuremos as proprias palavras do governo imperial.
+
+Diz elle, na sua replica:
+
+«Ora a hypothese do aviso do ministerio dos estrangeiros (circular de 4
+de junho de 1863) é figurada para o caso de engajamento, em que a parte
+se apresenta realmente como estrangeiro; entretanto que no caso de que
+se trata, o individuo occultando a sua qualidade de estrangeiro,
+assentou praça de voluntario da patria como se brazileiro fosse: não ha
+por tanto paridade, e fica por terra o argumento que o encarregado do
+consulado quiz d'ali tirar.»
+
+Antes de desmentirmos a supposta affirmativa, de que o portuguez
+_sentára praça de voluntario como se brazileiro fosse_, devemos dizer
+que nos assombra a ingenuidade do governo imperial em acreditar que se
+fizessem assentamentos de praça, sem as devidas formalidades, que, se
+fossem observadas, dariam em resultado conhecer-se a nacionalidade do
+que se offerecia para o serviço do exercito.
+
+E que razão haveria para o portuguez occultar a nacionalidade?
+
+A negação do _desembaraçado_ da parte do consulado?
+
+E qual seria o consul que negaria esse documento na occasião da guerra
+do Paraguay, em que brazileiros e portuguezes se auxiliavam mutuamente,
+como se a causa fôra commum?
+
+Mas se Soares Pereira se apresenta como enfermeiro para que é teimar em
+chamar-se-lhe praça do exercito?
+
+Por que foi _segundo sargento do 14.º corpo de voluntarios da patria_,
+dizem.
+
+Venha o documento em que se prove que elle sentára praça no referido
+corpo.
+
+Não ha, por que esse corpo foi dissolvido, dizem.
+
+Mas isso não é razão.
+
+É, replicam os sabios brazileiros!
+
+Então _suppõe-se_ que Soares Pereira sentára praça, e com essa
+supposição levam o _maroto_ ao tribunal, depois de 16 mezes de prisão e
+de trabalhos forçados, com a grilheta aos pés!...
+
+«Quanto ao artigo 66.º do regulamento ultimamente expedido para o
+recrutamento, dizem do ministerio da guerra, na já alludida resposta,
+_alem de não poder ter effeito retroactivo_, refere-se tambem ao caso em
+que o estrangeiro se apresenta como tal para assentar praça de
+voluntario no nosso exercito.»
+
+Comprehende-se á vista d'isto, que o governo brazileiro castigava o
+portuguez, por não ter declarado que era estrangeiro, e ao qual esse
+governo considerava desde então como naturalisado cidadão brazileiro,
+contra as formalidades exigidas pelas leis que regulam o assumpto, de 23
+de junho de 1855 e de 12 de julho de 1871!
+
+Isto regista-se e não se commenta.
+
+Aquella tirada de que o artigo 66.º não podia ter effeito retroactivo,
+quando se tratava de esclarecer determinações ambiguas de datas
+anteriores, e, o que é mais, quando se tratava de proteger o subdito de
+uma nação _irmã e amiga_, é... digamos a verdade sem rebuço, é
+irracional; porque faz lembrar aquella passagem da fabula em que o leão,
+por se julgar o rei da força, trocidava a presa, emquanto os pequeninos,
+ávidos de fome, se affastavam do bruto para não terem a sorte do veado!
+
+ [81] Maroto, na Bahia, significa portuguez!
+
+
+XII
+
+Em resposta ao officio da legação, com data de 17 de novembro, que atraz
+deixamos transcripto, e no qual se pedia informação ao vice-consul sobre
+o requerimento incluso, escreve o seguinte este empregado do governo, em
+seu officio de 29 de novembro do referido anno:
+
+«1.º Que em resposta á contestação de que a v. ex.ª dei conhecimento em
+meu officio de 20 de abril proximo passado (sic), recebi da presidencia
+d'esta provincia o officio datado de 14 de outubro ultimo, transmittindo
+copia do aviso do ministerio da guerra, datado de 7 d'aquelle mez, e não
+obstante a doutrina do citado aviso referir-se a que o individuo em
+questão occultava a sua nacionalidade, assentando praça como voluntario,
+esse facto só se poderia verificar do primitivo assentamento da praça no
+14.º corpo de voluntarios, em que o mencionado individuo diz ter-se
+inscripto como enfermeiro; _entendi pois não treplicar sobre o assumpto,
+em vista do que v. ex.ª se dignou communicar-me em officio de 12 de
+abril do corrente anno_,[82] o qual só me veio parar á mão
+posteriormente ao meu citado officio de 20 do referido mez.
+
+«2.º Que tendo feito noticiar verbalmente ao peticionario a resolução do
+ministerio da guerra, e recommendando-lhe que, quando tivesse de
+responder ao conselho de guerra, me avisasse para dar-lhe defeza,
+presisto n'esse intento, não obstante o peticionario parecer não haver
+confiado nos meus melhores desejos, o que desculpo, em vista da situação
+em que se collocára.
+
+«Que já em tempo fiz ver ao peticionario que o seu recurso para a
+munificencia imperial me parecia inopportuno, se por ventura tivesse de
+responder ao conselho de guerra.
+
+«Concluo, ponderando a v. ex.ª, que o peticionario nenhuns meios tem, e
+que o advogado já me preveniu de que, para a defeza do peticionario, o
+que convinha essencialmente era obter uma certidão do primitivo
+assentamento de praça no 14.º corpo de voluntarios; se, pois, v. ex.ª
+approvar o meu intento, muito conveniente seria obter-se no ministerio
+da guerra aquella certidão», etc. etc.
+
+O vice consul não devia estranhar que o desgraçado tivesse pouca
+confiança nas diligencias officiaes, se attendesse a que essas
+diligencias a nada obstavam, naturalmente pelo pouco ou nenhum interesse
+que lhe prestava o embaixador portuguez na côrte do Rio de Janeiro.
+
+Assim, pois, Soares Pereira não teria mais remedio se não recorrer a
+outros meios, unicos que o salvaram, como havemos de demonstrar.
+
+Mas continuemos a transcripção dos documentos para provarmos o desmazelo
+do embaixador, e a insaciavel vontade das auctoridades brazileiras em
+prejudicar-nos, ainda nas causas mais justas.
+
+Em resposta ás informações do vice-consul, de 29 de novembro, acima
+transcriptas, communicava a legação de Portugal no Rio de Janeiro o
+seguinte:
+
+«Remetto a v. s.ª a certidão do que consta no archivo da repartição
+fiscal de guerra ácerca do subdito portuguez Manuel Soares Pereira.
+
+«Quanto á petição por este dirigida a sua magestade o imperador _que
+remetto_ junta, reporto-me ao que já disse a v. s.ª no meu officio de 17
+do referido mez de novembro, etc. _Mathias de Carvalho e Vasconcellos_.»
+
+E mais nada. Nem um conselho sequer para encaminhar a questão a um
+desenlace feliz e justo! Nem um conselho sequer, não: o embaixador
+portuguez, com o seu desprezo manifesto em todos os seus officios,
+dá-nos a prova desconsoladora de que pugnava mais pela desgraçadissima
+causa sustentada tão infelizmente pelas auctoridades do Brazil contra um
+subdito da nação portugueza, aconselhando sempre o vice-consul... ao
+desprezo da causa que importava a salvação de um homem e a dignidade de
+Portugal! E dizemos que aconselhava ao desprezo, porque outra cousa não
+é devolver o requerimento que Soares Pereira lhe endereçára, afim de que
+o vice-consul informasse a legação de uma cousa sobre que a mesma
+legação já estava informada havia _oito mezes_; e outra cousa não é
+senão desprezo devolver a petição que ao imperador fizera a victima, lá
+porque a petição _não ia pelos tramites legaes_!
+
+Pois, para que mais servem os embaixadores juntos dos governos das
+nações amigas, se não para tratar de advogar os interesses de seus
+compatriotas?
+
+Venha pelos tramites legaes; isto é: metta na caixa o requerimento!
+
+E quando chegaria o requerimento ao seu destino?
+
+Naturalmente depois da fuzilaria ter feito o serviço que lhe incumbira o
+justiceiro tribunal da Bahia!
+
+Se a um facto quasi identico, succedido ha pouco na India, em que a
+causa de um portuguez era menos justa, o peticionario recorresse pelos
+tramites legaes, ou se el-rei D. Luiz apontasse ao peticionario os taes
+tramites, para se não sujar com o acto nobilissimo que praticou
+salvando-o; o portuguez estaria naturalmente a esta hora com a cabeça de
+menos... á espera do decreto que lh'a poupasse!
+
+Apontar a via dos tramites legaes a quem tinha sede de justiça, n'uma
+epoca de depravação, que se assimelha á que predominava no imperio dos
+Caligulas e dos Neros era desenganar o padecente de que justiça não
+seria feita. Foi justamente o que Soares Pereira pensou, recorrendo aos
+meios da reacção energica pela imprensa, contra os actos de selvageria
+dos tribunaes brazileiros; e foi isto que o salvou, como vamos
+demonstrar.
+
+ [82] No qual, como já vimos, o embaixador portuguez, sem estudar a
+ questão, por que n'isso não tinha o minimo interesse, escrevia as
+ seguintes phrases:--«que em vista das disposições das leis
+ brazileiras etc., _não póde ser attendida a pertenção_ de Manuel
+ Soares Pereira» etc.!!!
+
+
+XIII
+
+É chegado o dia 27 de março de 1876, em que o tribunal militar da Bahia
+condemna Manuel Soares Pereira á pena de morte pelo supposto crime de
+deserção.
+
+Perante o tribunal não se apresenta defensor para o réo, e sim um
+procurador que levava uma defesa escripta para ser lida!
+
+O auditor de guerra vendo a defesa sem assignatura, disse que não
+produziria seus effeitos, porque não estava em termos, visto que devia
+terminar por artigos, etc. etc.
+
+Depois de algumas observações foi admittida a defesa, assignando o
+procurador que a tinha levado.
+
+Esta não foi lida, nem o procurador _arvorado em advogado_, disse uma
+palavra em defesa da victima.
+
+Seguiu-se o conselho, e o auditor de guerra, conhecendo a critica
+posição do reu, que se achava sem defensor, offereceu o encargo da
+defesa ao sr. Manuel Alves Ferreira, negociante portuguez residente na
+Bahia, auctor dos avulsos--_Ás nações civilisadas do universo_, em que
+desmascara a inepcia da diplomacia e a barbaridade das auctoridades
+brazileiras contra um subdito de nação amiga e irmã, e de cujos avulsos
+extraimos os esclarecimentos que vamos indicando, avulsos que salvaram o
+condemnado.
+
+Manuel Alves Ferreira não póde acceitar o encargo «porque não se achava
+preparado para esse fim.»
+
+Os cuidados promettidos pelo vice-consul eram assim postos em practica!
+A promessa que elle fizera n'um officio que para ahi deixámos
+transcripto não podia ser mais fielmente executada!
+
+Eis como esta auctoridade informa do succedido em 27 de março á legação
+do Rio de Janeiro, em seu officio de 6 de abril, dez dias depois da
+condemnação de Soares Pereira:
+
+«Corre-me o dever de participar a v. ex.ª que não obstante a defesa
+escripta (sic) conforme a copia junta, que promoví em favor do subdito
+de s. m. f..., ao qual se refere o officio de v. ex.ª de 25 de janeiro
+ultimo, foi o dito individuo condemnado á pena capital a 27 de março
+ultimo.
+
+«Em 28 do mesmo mez solicitei da presidencia desta provincia copia da
+respectiva sentença, a respeito da qual me foi respondido o que consta
+dos officios datados de 31 de março e de 5 do corrente mez, etc. (de que
+não se passaria a certidão pedida!).
+
+«Dignando-se v. ex.ª no citado officio reportar-se ao que me havia
+dirigido em 17 de novembro, ácerca da petição de graça, vou solicitar de
+v. ex.ª o favor (sic) de instruir-me se deverá elle ser encaminhado pela
+legação a cargo de v. ex.ª, e se se deverá aguardar a decisão definitiva
+do tribunal superior.
+
+«Devo igualmente certificar a v. ex.ª que sobre o facto da condemnação
+foi, em 29 de março ultimo, publicado aqui um escripto na gazeta
+denominada _Diario da Bahia_[83], além de outros; tudo isto tem servido
+para commentarios que se tornam desagradaveis, e, a meu ver, de nenhuma
+utilidade para o paciente.» etc.
+
+N'este ultimo ponto se enganava o vice-consul, porque foi devido
+unicamente aos escriptos de energica defesa, publicados por Alves
+Ferreira, que a diplomacia acordára do lethargo que a deshonrava,
+salvando assim o nosso infeliz compatriota Soares Pereira das selvaticas
+garras da justiça brazileira. É o que havemos de provar.
+
+ [83] 1.º avulso--_Ás nações civilisadas do universo_.
+
+
+XIV
+
+Mas antes d'isso cumpre transcrever o officio do embaixador portuguez,
+datado de 24 de abril, em resposta ao do vice-consul, que acima deixámos
+apontado, com a data de 6 de abril, o qual é concebido nos seguintes
+termos:
+
+«Se a sentença que condemnou o subdito portuguez Manuel Soares Pereira
+deve ser submettida ao tribunal superior, é preciso aguardar a decisão
+d'esta instancia antes de recorrer a uma petição de graça.
+
+«_Não é por intermedio da legação_ de s. m. que se apresentam taes
+recursos, _ainda quando se trate de subditos portuguezes que tenham
+direito á protecção das suas auctoridades_ (sic). Esses recursos _tem
+regras de processo que cumpre observar e vias competentes_ por onde
+devem ser encaminhados ao seu alto destino.
+
+«_No caso_ em que Soares Pereira apresente _em occasião propria_ (?) a
+sua petição de graça, espero que v. s.ª me dará então conhecimento
+d'este facto, etc. (assignado) _Mathias de Carvalho e Vasconcellos_.»
+
+Isto é de mais!...
+
+Mas não nos desconsolemos com o procedimento do nobre embaixador: porque
+se elle não deu grande attenção ás sollicitações justissimas de mais de
+um anno, que lhe eram dirigidas pelo vice-consul na Bahia, prestou
+melhor attenção ao energico avulso a que já nos referimos.
+
+Eis como a legação o encaminha para junto do governo de s. m. imperial:
+
+«Legação de sua magestade fidelissima. Illm.º e exm.º sr. duque de
+Caxias.--Tenho a honra de passar ás mãos de vossa magestade um impresso,
+publicado na Bahia, referente ao procedimento havido com o subdito
+portuguez Manuel Soares Pereira.
+
+«Solicitando a esclarecida attenção de v. ex.ª para o que se allega na
+dita publicação, estou certo que v. ex.ª se servirá ordenar as
+providencias que a natureza do assumpto reclama, etc., (assignado)
+_Mathias de Carvalho e Vasconcellos_.»
+
+E mais nada. Depois d'isto s. ex.ª o embaixador portuguez fazia as malas
+e retirava-se para a Europa!
+
+
+XV
+
+Para na actualidade se conseguir qualquer cousa dos poderes publicos é
+preciso empregar dois meios, bem dissimilhantes entre si: um d'elles é o
+favoritismo de que lança mão a venalidade, em prol da propria
+venalidade; outro é a reacção energica, empregada por gente digna contra
+os actos de flagrantissima injustiça dos potentados.
+
+São mais felizes aquelles, quando campea a corrupção que nos avassalla;
+e não deixam de ser considerados, ainda que com menos exito, os actos de
+reacção que deixamos indicados.
+
+No caso sujeito, o portuguez illustre, cujo nome nos honramos muito de
+inscrever n'este logar, o sr. Manuel Alves Ferreira, conseguiu com os
+seus protestos--_Ás nações civilisadas do universo_, que o governo
+portuguez tomasse a peito a defeza do nosso compatriota, condemnado
+injustamente pelas justiças brazileiras, e que havia sido desprezado
+pela legação de Portugal no Rio de Janeiro como já vimos.
+
+Foi o seu primeiro protesto publicado em quasi todos os jornaes
+portuguezes, e entregue ao imperador e aos passageiros do vapor
+_Hevelius_, em viagem para a Europa; protesto que chegou ás mãos do
+ministro dos negocios estrangeiros de Portugal, e que deu origem ao
+telegramma d'este alto funccionario do estado, ao então encarregado da
+legação portugueza no Rio de Janeiro, no qual se participava que o
+governo de sua magestade não se conformára com as circumstancias do
+julgamento de Manuel Soares Pereira, despacho que dera igualmente logar
+á reclamação diplomatica da embaixada, que não vemos extractada no
+_Livro Branco_, apresentado ás côrtes em 1877, do qual extrahimos os
+documentos officiaes aqui mencionados, mas á qual se refere o officio do
+encarregado dos negocios de Portugal, com data de 9 de junho de 1876.
+
+O acto mencionado--de reacção--, secundado de mais alguns protestos de
+Alves Ferreira, deu em resultado a reforma, em ultima instancia, da
+sentença do conselho de guerra da Bahia, modificando a pena capital, em
+que tinha sido condemnado Soares Pereira, a cinco annos de prisão com
+trabalhos!
+
+Já não era pouco; mas era preciso mais.
+
+As bem elaboradas notas diplomaticas do sr. Andrade Corvo, e os avulsos
+de Alves Ferreira, fizeram o resto: isto é, conseguiram o _perdão_ da
+munificencia imperial.
+
+Já era muito!... e já era muito, porque aos innocentes tambem... se
+perdoa!
+
+
+XVI
+
+Mencionemos agora as providencias empregadas por Alves Ferreira, nos
+seus avulsos; e extratemos para aqui as informações que a respeito dos
+soffrimentos impostos pelas auctoridades do Brazil ao nosso compatriota
+Soares Pereira, aquelle dignissimo portuguez divulgou no imperio, para
+vergonha do proprio imperio.
+
+Primeiro protesta Alves Ferreira nos jornaes da Bahia contra a
+selvageria do tribunal militar; e não contente com isto, faz imprimir o
+seu primeiro avulso, apello _As nações civilisadas do universo_, que
+distribue com profusão.
+
+Neste avulso relata o seguinte:
+
+«Em janeiro proximo passado, escreveu o _Diario da Bahia_, dizendo que
+no quartel do forte de S. Pedro, d'esta cidade, achava-se preso ha 15
+mezes um portuguez sem ter commettido crime algum.
+
+«Á vista da noticia dirigi-me ao dito quartel e ahi encontrei Manuel
+Soares Pereira, portuguez, ao qual perguntei o motivo de sua prisão.
+
+«Respondeu o seguinte:
+
+«No principio da guerra do Paraguay, formou-se na cidade da Cachoeira,
+onde me achava um batalhão de voluntarios; seu coronel convidou-me a
+acompanhar o mesmo batalhão na qualidade de enfermeiro, offerecendo-me
+vantajosa remuneração.
+
+«Seduzido pelo que me prometteu de viva voz, sem fazermos contracto
+algum nem me mostrar a lei em que ia viver, acompanhei o batalhão até ao
+Rio de Janeiro. Ali cahiram muitos soldados de bexigas, a quem assisti
+com dedicação, tanto que, sendo visitada a enfermaria por S. M. o
+Imperador, elle mesmo me louvou e animou, ordenando-me a pedir o que
+fosse preciso para os enfermos. Pedi leite e agua, que era do que mais
+falta se sentia, sendo tudo fornecido immediatamente. Em seguida marchou
+o batalhão para os campos do Paraguay, onde servi sempre com dedicação
+na qualidade em que embarquei. Dissolvido o batalhão, por ter morrido
+muita gente, passei para outro, que teve o mesmo fim, pelo mesmo motivo,
+e assim por diante, até que me encostaram ao 16 de linha, de cujo
+batalhão me ausentei pelos seguintes motivos:
+
+«O coronel que me convidou a acompanhar o batalhão, não tendo cumprido o
+que verbalmente me prometteu, nunca me pagou o ordenado de enfermeiro
+mas sim de sargento.
+
+«Os que lhe succederam fizeram o mesmo, até que um dia appareceu uma
+ordem no campo para que fossem rebaixados a soldados razos todos os
+estrangeiros que tivessem qualquer posto no exercito; (!) fui eu
+incluido n'esta ordem, sendo rebaixado a soldado raso, continuando
+sempre como enfermeiro.
+
+«Quiz retirar-me, não consentiram; dizendo eu que não era engajado, não
+me attenderam; tive pois de me sujeitar á força.
+
+«Os meus soffrimentos aggravaram-se; o soldo que me prometteram de
+enfermeiro nunca me pagaram; foi reduzido ao de sargento; deste ainda
+reduziram para o de soldado, e nem este me pagavam; ficaram-me devendo
+nove mezes.
+
+«Recebi cartas de minha familia, que reside n'esta provincia, dizendo-me
+que estava reduzida á ultima miseria, que a viesse soccorrer para não
+morrer de fome.
+
+«Larguei tudo, embarquei para o Rio de Janeiro, tomei passaporte de meu
+consul e vim cuidar dos meios de subsistencia de minha familia.
+
+«Aqui vivi alguns annos de negocio, comprando a credito a pessoas que em
+mim se confiavam.
+
+«Um dia mostraram-me um decreto em que o governo convidava a vir receber
+o soldo e a gratificação a todos que, tendo servido na guerra do
+Paraguay, não estivessem quites com o governo.
+
+«Apresentei-me no quartel, procurei receber o que me deviam de soldo e
+gratificação; mas o que encontrei foi esta prisão, onde estou ha quinze
+mezes e onde sou tratado como galé ou sentenciado, fazendo todo o
+serviço que é imposto aos maiores criminosos já sentenciados.
+
+.........................................................................
+
+«Fiz dous memoriaes ao imperador, que não sei qual o caminho que tomaram
+nem que despacho tiveram.
+
+«Já vê V. que estou aqui na terra alheia inteiramente desamparado!!»
+
+«Á vista disto dirigi-me ao encarregado do consulado, o sr. Gregorio
+Anselmo Ribeiro Marques, para saber o que havia a tal respeito.
+
+«Elle disse-me que tinha reclamado do ministro da guerra a soltura do
+subdito de S. M. Fidelissima; mas que, _julgando-o_ s. ex.ª desertor, o
+mandára submetter a conselho de guerra e que este seria breve.
+
+«Estranhei-lhe o tempo de prisão que tinha soffrido um subdito de S. M.
+Fidelissima, sem ser julgado.
+
+«Appareceram varios escriptos no _Diario da Bahia_ de 1, 9, 17 e 18 de
+fevereiro do corrente anno, e 19 e 23 de março corrente, todos em
+relação a esta desgraçada questão.
+
+«Custaram-me estes escriptos um insulto por uma gazeta de 22 de março,
+na qual me chamavam parasita e o mais que o despeito e pouca educação
+costumam dar.
+
+«Resignei-me, porém, dizendo commigo que o autor do tal escripto
+queria-se despir para me enfeitar.
+
+«Em 22 do corrente fui avisado, por pedido do pobre desgraçado, que
+responderia a conselho a 23.
+
+«Avisei d'isso o encarregado do consulado de Portugal, o qual me mandou
+dizer que tanto o advogado como o procurador do consulado estavam
+avisados para darem as providencias.
+
+«Apresentei-me no conselho de guerra, esperando pelo advogado, mas qual,
+o advogado nunca appareceu.
+
+«Correu o processo na quinta-feira, que não poude ser terminado, sendo-o
+hoje com a condemnação de _pena de morte_ para este infeliz portuguez.
+
+«Em todo o tempo que este infeliz se acha preso no quartel, ainda não
+recebeu soccorro de _quem quer que seja_, nem o receberá, pois actos que
+não são vistos por todos, que não _pescam commendas e cruzes_, não são
+dignos de serem feitos pelos _grandes homens_.
+
+«V. V. S. S., porém, que parecem pensar de outra maneira, darão a esta
+questão a publicidade que entenderem; para que no mundo inteiro se
+conheça este caso.
+
+«Vou publicar esta carta no _Diario da Bahia_, não só para que S. M. o
+imperador veja e se recorde das promessas feitas ao infeliz, como para
+vêr se ha alguem que conteste as verdades que esta encerra» etc.
+
+E á ultima hora do dia 28 de março de 1876:
+
+«Acabo de chegar da prisão onde se acha o infeliz Manuel Soares Pereira.
+Quando me viu, perguntou-me se o conselho havia reunido e qual a
+deliberação.
+
+«Estranhei a pergunta, pois entendia que deveria ter assistido á
+continuação do julgamento, e que lhe teriam lido a sentença.
+
+«É verdade, que, chegando eu hontem ao logar onde funccionava o
+conselho, só alli encontrei o pessoal do mesmo; entendendo eu que já se
+deveriam ter retirado o réu e o procurador advogado, pois á hora que lá
+cheguei se levantava o mesmo conselho.
+
+«Pude unicamente saber por dois officiaes do mesmo, da deliberação que
+tomaram.
+
+«Quem commentará isto?
+
+«A carta dirigida aos senhores redactores do _Brazil_, aqui publicada,
+foi tambem no _Diario da Bahia_ de 29 de março de 1876, e entregue o
+mesmo _Diario_ no mesmo dia, a S. M. o imperador, no porto da Bahia de
+S. Salvador.
+
+«Depois de preso, esteve o infeliz cinco dias sem receber ração. Se não
+morreu de fome, deve-o aos companheiros de prisão, que lhe deram por
+esmola um boccado da escassa comida.
+
+«Passados cinco dias, aos gritos que a fome incitava no desgraçado, foi
+este posto em custodia, ou encostado para receber o alimento.
+
+«Depois de tres mezes, abriram-lhe praça em uma companhia, e como tal
+recebe a ração no _Xadrez_.
+
+«Tudo isto me foi asseverado pelo padecente; mas os interessados em
+encubrir o occorrido, podem negar o que affirma o estrangeiro; elles têm
+_testemunhas do quartel_, como as que deram para condemnar á morte o
+desgraçado:--quem poderá _provar_ o contrario?»
+
+
+XVII
+
+No segundo avulso que temos presente, conta Alves Ferreira mais alguns
+pormenores a respeito do infeliz condemnado, e publica a carta que
+expedia aos directores da Caixa de Soccorros de D. Pedro V, afim de que
+o ajudassem a salvar o desgraçado.
+
+O seu magnanimo coração leva-o ao ponto de despender grossas quantias na
+publicação dos protestos, que elle offerecia gratuitamente ás pessoas
+que desejassem orientar-se das occorrencias.
+
+Ouçamos o que elle conta no referido avulso, datado de 11 de abril de
+1876:
+
+«Nos ultimos dias do mez passado requereu o infeliz portuguez Manuel
+Soares Pereira ao ex.mo sr. general das armas certidão da sentença
+proferida pelo conselho de guerra.
+
+«Teve o seguinte despacho:--
+
+«_Requeira pelos tramites legaes._
+
+«Em principio do corrente fui ao quartel do Forte de S. Pedro e pedi em
+nome do condemnado licença ao sr. commandante da companhia para que o
+homem pudesse pedir certidão de algumas peças do processo.
+
+«Concedeu licença o sr. commandante da companhia.
+
+«Sahi, fiz o requerimento; voltando levei-o ao desgraçado, este o
+assignou.
+
+«Entreguei-o immediatamente ao sargento, para este o entregar ao
+commandante da companhia, para depois ao commandante do batalhão e
+depois ao general das armas, etc.
+
+«Voltei em outro dia, fui saber do condemnado o que havia a respeito.
+
+«Disse-me que lhe haviam apresentado de novo o requerimento para que
+elle escrevesse por baixo da assignatura esta palavra--Soldado--para lhe
+darem as certidões pedidas.
+
+«Negou-se o negociante, dizendo que tal não faria, pois é negociante e
+não soldado.
+
+«Em seguida, procurei o sr. tenente-coronel commandante do batalhão,
+pedindo a s. s.ª que me fizesse o favor de encaminhar o requerimento,
+afim de se extrairem as certidões n'elle pedidas.
+
+«S. s. disse-me que não daria certidão alguma, que o homem tinha sido
+condemnado e que _ninguem pode obter certidão de uma sentença depois de
+proferida_: disse-me ainda outras coisas _muito bonitas_, que virão a
+luz logo que as circunstancias o permittam: por ora não; _elles tem em
+seu poder o meu protegido_...
+
+«Á vista das propostas do sr. commandante fiquei n'uma luta comigo
+mesmo; ora duvidando da minha razão, ora da de _muita gente_.
+
+«Dizia assim: o ex.mo sr. general das armas não saberia que não era
+premittido dar as certidões pedidas? Se o sabia porque despachou:
+Requeira pelos tramites legaes?
+
+«Se não podiam dar as certidões de maneira alguma para que foram dizer
+ao homem, que se queria as certidões escrevesse por baixo do nome a
+palavra--soldado?
+
+«Não posso ser mais extenso; este é pago a tanto por linha; meu dinheiro
+é pouco, e temo que haja muitos outros infelizes nacionaes e
+estrangeiros, que precisem de meu auxilio.
+
+«As pessoas de qualquer parte do mundo que quizerem ler um impresso a
+respeito d'esta desgraçada questão podem mandar pedir, que lhe será
+fornecido gratuitamente pelo correio, dirigindo-se para esse fim a
+_Manuel Alves Ferreira_, 65, Grades de Ferro--Bahia.»
+
+Isto é nobillissimo. Regista-se e pede-se aos poderes do estado não
+premiem estes serviços, para que se não confundam com _outros_ que para
+ahi vemos galardear.
+
+
+XVIII
+
+É esta a carta que elle dirige á directoria da caixa de Soccorros de D.
+Pedro V:
+
+«_Ill.mos srs. directores_--A esta hora devem estar vossas senhorias e
+todas as mais sociedades portuguezas d'essa cidade da posse de um
+escripto que dirigi ás nações civilisadas do universo, no qual exponho o
+que _posso dizer_ ácerca da condemnação á pena de morte do infeliz
+negociante portuguez Manuel Soares Pereira.
+
+«Por elle terão julgado do procedimento do homem que o governo portuguez
+tem n'esta terra para velar pelos subditos de S. M. Fidelissima, das
+obras de muita gente fina e dos trabalhos que tem passado um desgraçado
+portuguez.
+
+«Tenho acompanhado a questão, diversos outros casos se tem dado, os
+quaes vv. ss. podem vêr relatados no _Diario da Bahia_ e _Diario de
+Noticias_ de hoje.
+
+«Peço a vv. ss. e a todos os amigos da humanidade para lerem e meditarem
+sobre todos estes escriptos. Além do que n'aquelles jornaes e avulsos
+escrevi, ha o seguinte:
+
+«Soube ás 5 e meia horas da tarde de hoje, que tinham retirado o
+condemnado da prisão do quartel do Forte de S. Pedro: não sei para onde
+o levaram, nem que fim lhe deram.
+
+«Como tenha saido hoje d'este porto para essa cidade um vapor nacional,
+é possivel que tenham embarcado o homem para o affastar d'aquelle que
+pelo infeliz se interessa.
+
+«Seja qual fôr a razão pela qual o tiraram da prisão, _seja para que
+fim_; o que eu peço a vv. ss. é que velem pela sorte do desgraçado, se
+para ahi o levarem, já que eu não posso mais velar.
+
+«Se eu verificar que embarcaram o pobre negociante, avisarei
+immediatamente pelo telegrapho, para que vv. ss. tenham dado as
+providencias, quando esta ahi possa chegar.
+
+«Animo-me a fazer este pedido confiado no titulo da vossa sociedade:
+pois se é dedicada a soccorrer os infelizes portuguezes não poderão em
+tempo algum achar uma melhor occasião de o fazer.
+
+«Não deixem que prevaleça o mal se mal ha: para que não venha a soffrer
+mais aquelle que tanto tem soffrido e que muita gente o julga digno de
+recompensa e não de castigo.
+
+«Os accusadores d'este infeliz hão de dizer a vv. ss. que elle é
+desertor do exercito brazileiro.
+
+«Se vv. ss. quizerem verificar o valor d'essa accusação, peçam ao
+governo imperial o contracto de engajamento feito entre este estrangeiro
+e o mesmo governo, e verão se apresentam algum contracto.
+
+«Peçam mais o termo do juramento de bandeira e verão se lhes mostram
+esse termo.
+
+«Não o mostrarão por certo, pois não ha contracto lavrado nem termo de
+juramento de bandeira.
+
+«Dirão vv. ss. e dirá todo o homem sensato: «Como condemnaram á morte um
+estrangeiro por falta de cumprimento de contracto feito com o governo
+quando não apresentam o mesmo contracto?»
+
+«Eu, meus senhores, não posso responder; vv. ss. sabem que nem tudo se
+póde fallar na terra alheia...
+
+«Agora, que o infeliz se acha longe de mim e dos pequenos soccorros que
+lhe poderia prestar, preciso de uma mão poderosa que lhe assista, e essa
+será a mão da caritativa e patriotica sociedade Caixa de Soccorros D.
+Pedro V.
+
+«Se não tiverem embarcado o infeliz, continuarei a protegel-o.
+
+«Vou pois ver se _descubro_ o logar em que o metteram.
+
+«Peço a vv. ss. licença para publicar esta carta e desculpa da pobreza
+da linguagem.
+
+«No mais sou de vv. ss. amigo e obrigado.
+
+ «_Manuel Alves Ferreira._»
+
+Omittamos os nossos elogios a estes actos de verdadeira philantropia,
+porque o melhor elogio está traçado pelo proprio nas linhas que ahi
+deixamos.
+
+
+XIX
+
+Vejamos o que Alves Ferreira informa sobre o paradeiro da desgraçada
+victima do insano odio de raça das auctoridades da Bahia.
+
+São estas as palavras do seu nobilissimo defensor:
+
+«Foi retirado da prisão do forte de S. Pedro e levado para as horriveis
+masmorras da fortaleza do Barbalho o desgraçado portuguez Manuel Soares
+Pereira. Quereis vel-o, tendes animo?
+
+«Entrae, mas devagar; cuidado com os precipicios abertos na ponte, que
+vos pódem devorar...
+
+«Que vêdes? Uma horrivel masmorra, suja, fria e humida, e lá no fundo um
+desgraçado que largou patria e familia em busca da felicidade!... da
+felicidade!...
+
+«Olhae para o infeliz; que vêdes? A figura do desespero, o homem
+angustiado!
+
+«Vêde o fato que o cobre:--farrapos immundos!
+
+«Escutae-o: parece delirar...
+
+«O que diz?--Meus filhos... meus filhos... quem velará por vós?
+
+«Vou morrer, vou já, já... agora, elles ahi vem; é aqui no Barbalho que
+se executam os sentenciados...
+
+«Meus filhos, meus filhos, quem velará por vós?
+
+«Eu morro: mas qual é o meu crime, qual o meu peccado?»
+
+«Socega irmão; teus olhos são duas postas de sangue, teus soffrimentos
+horriveis; mas não ha remedio; tem paciencia, soffre!
+
+«Socega irmão, socega infeliz, Deus vela por ti; não morrerás de bala,
+nem de corda: para te matar basta o ar que respiras n'essa immunda
+masmorra.
+
+«Socega irmão, não morrerás de bala; homens como tu que se sacrificam
+para salvar a vida aos desgraçados que se expõem, como tu, entre
+centenares de pestiados, não terão uma morte infamante...
+
+«Não morrerás de bala; teus filhos são brazileiros, filho de um honrado
+portuguez, de um homem da caridade, que expôz a vida para salvar seus
+irmãos, os brazileiros, no leito da dôr...
+
+«Descança, irmão, Deus vela por ti.
+
+«Dá-me esse livro que te emprestei; toma esta obra, se podéres lê; has
+de alliviar teus soffrimentos, é esta que devem lêr os desgraçados como
+tu.
+
+«Lê; vês o titulo? é o martyr do Golgotha.
+
+«Se morreres vae em paz para a patria onde todas as obras tem o seu
+premio.
+
+«Morre, amigo, pois morres para viveres; homens como tu não morrem, tuas
+virtudes são conhecidas, a posteridade te louvará.
+
+«Vae em paz, recebe o premio de teus sacrificios das proprias mãos de
+Deus.»
+
+Vacilla a penna que empunhamos, ao transcrever o que ahi fica. Dá de mão
+a este livro, optimista systematico; não leias isto que entristece:
+procura as leituras que deleitam, que nós não procuramos seduzir-te. Nós
+queremos o teu despreso que é a nossa gloria. Nós queremos que tu rias e
+saltes o _cancan_ desenfreado, que a devassidão te aconselha, como o
+unico remedio contra a anemia que te definha o corpo e a alma. Salta que
+a corrupção te dará em premio os meios de que precisas para a boa
+execução das pantomimas na praça publica. Sustentai bem o vosso papel,
+que lucrareis melhor recompensa. Nós cá, sentimos, soffremos com os
+vossos risos; e por que nos convencemos da quasi inutilidade dos nossos
+exforços, escrevemos mais para a historia os factos dignos d'ella do que
+para vóz, ó _grandes_ pygmeus!
+
+
+XX
+
+Continua Alves Ferreira a dar conta dos pormenores a respeito do seu
+protegido, no terceiro avulso _Ás nações civilisadas do universo_,
+datado de 10 de maio de 1876:
+
+«Foi tirado em uma padiola das horriveis masmôrras da fortaleza do
+Barbalho, em estado grave de saude, e conduzido para o hospital militar,
+o honrado negociante portuguez Manuel Soares Pereira.
+
+«Hoje em companhia do sr. dr. José Barbosa Nunes Pereira, redactor do
+_Jornal do Commercio_ que se publica n'esta cidade, visitamos,
+escoltados por um alferes e varias praças, este infeliz estrangeiro,
+havendo bastante difficuldade para conseguirmos este fim.
+
+«Qual será o motivo da molestia?...
+
+«Será o pessimo _ar_ que tem respirado nas horriveis masmorras que lhe
+tem feito correr!...
+
+«Serão _pezados serviços_ a que tenham obrigado o desgraçado?...
+
+«Serão os tratos que lhe possam ter dado?...
+
+«Será dos _alimentos_?
+
+«Será _tambem_ de alguma _bebida alcoolica_, que lhe dessem em
+_demasiada quantidade_?...
+
+«Ah! posteridade... posteridade, como julgarás esta questão?...
+
+«Perante a fria historia, quem será réu n'este malfadado proccesso?...»
+
+O Brazil: é preciso repetir o anathema em quanto houver folego de vida.
+
+Não ha conveniencias que possam obscurecer a verdade terrivel.
+
+Continua Alves Ferreira:
+
+«Hoje vesitei o infeliz negociante estrangeiro Manuel Soares Pereira
+n'uma das horriveis masmorras da fortaleza do Barbalho. Perguntei o que
+se havia passado ultimamente com o desgraçado, e este respondeu-me o
+seguinte:
+
+«Tendo-me conduzido d'aqui em uma padiola para o hospital militar,
+estive ali sempre, de sentinella ao lado! não me mexia que não fosse
+presentido por ella.
+
+«Um dia, na occasião em que mudavam a sentinella, disse um cabo a nova
+sentinella: «Vê lá; este homem vai morrer no sabbado de alleluia, se
+elle fugir vaes tu em seu lugar.
+
+«No hospital não me quiseram dar medicamentos, e, como o mal não
+cessasse, pedi ao sr. doutor que me mandasse dar um purgante, o qual me
+foi dado no outro dia, e no mesmo dia em que o tomei, quando estava
+produzindo os seus effeitos, fui expellido do mesmo hospital e devolvido
+para esta prisão....
+
+«Aqui, n'esta prizão, não me dão alimento de qualidade alguma, nem eu
+tenho dinheiro para o comprar; se não tenho morrido á fome, devo-o á
+verdadeira caridade, que me tem valido n'esta desgraça.
+
+«Meu negocio evaporou-se, não possuo um real: n'estes dezoito mezes de
+prizão tudo se perdeu; não só o que era meu, como o de meus credores,
+que de tão boa bontade de mim se confiaram: elles sabem porém, que eu
+não sou velhaco, que se lhes não paguei a culpa não foi minha, foi da
+desgraça que tanto me tem perseguido.»
+
+«Será verdade, meu Deus, que queiram matar o homem desgraçado á
+fome?....
+
+«Será esta a sentença imposta pelo conselho de guerra?....
+
+«No caso affirmativo, poderiam pol-a em execução antes que subisse ao
+tribunal superior!...
+
+«Haverá tal pena no codigo ou lei militar do Brazil?...
+
+«E vós nações civilisadas, tereis esta penna em vossos codigos?....
+
+«Dever-se-ha esperar que a caridade publica sustente aquelle a quem as
+auctoridades do paiz chamam soldado e como tal o tem preso?....
+
+«Será soldado aquelle que nunca jurou bandeira?....
+
+«Poderá o governo brazileiro engajar subditos de outra nação para fazer
+a guerra a uma terceira, sem licença previa do governo do paiz do qual
+queira engajar tropa?....
+
+«Será cidadão brazileiro, o estrangeiro que nunca se naturalizou no
+paiz?....
+
+«Se o homem não podesse perante a lei soffrer as penas que lhe tem sido
+impostas, quem serão os responsaveis pelos horriveis trabalhos por que
+tem passado este desgraçado estrangeiro e pelos perjuizos que na saude e
+propriedade tem soffrido?....
+
+«Infeliz estrangeiro!... que sorte desgraçada te esperava na terra da
+Santa Cruz?!....
+
+«A vós, almas caridosas de qualquer parte do mundo, pede um boccadinho
+de pão, para não morrer de fome, o desgraçado portuguez preso nas
+masmorras da fortaleza do Barbalho!»
+
+As esmolas vieram minorar um pouco os soffrimentos do desgraçado; mas
+este apello á caridade publica não soára bem aos ouvidos da
+officialidade que condemnára o desgraçado á morte!
+
+
+XXI
+
+Vão terminar os soffrimentos de Soares Pereira, e com a noticia
+circumstanciada d'elles, por mercê dos esclarecimentos prestados pelo
+seu benemerito protector, o livro que contra a emigração de portuguezes
+para o Brazil nos propozemos escrever.
+
+Como já dissemos, a pena de morte fora-lhe modificada em cinco annos de
+prisão com trabalhos. Deu-se isto em 31 de maio de 1876.
+
+Depois de dez mezes de galés; isto é, em 28 de março de 1877, foi
+perdoada a Manuel Soares Pereira esta pena, sendo ao mesmo tempo
+_dispensado_ do serviço do exercito!
+
+Vamos transcrever a ultima peça desse processo escandaloso--o protesto
+do supposto desertor; e terminaremos esta questão que nos fastidia.
+
+Eis o documento, publicado no setimo avulso de Alves Ferreira--_Ás
+nações civilisadas do universo_:
+
+«Diz Manuel Soares Pereira, que tendo sido preso como desertor do 16.º
+batalhão de infanteria, em outubro de 1874, condemnado á morte em 26 de
+março de 1876, e a cinco annos de galés em 31 de maio do mesmo anno de
+1876, sendo perdoada esta pena em 28 de março do corrente anno, fôra
+afinal em 31 do mesmo mez dispensado do serviço do exercito;
+
+«Que estando preso e sem meios de se defender, recebera todo o castigo
+que lhe quizeram impor, e o fardamento e etapa que lhe quizeram dar;
+
+«Que achando-se actualmente em liberdade, sabia que pelos livros do
+mesmo batalhão é credor de certa quantia de fardamento e soldo, e que
+não se julgando nunca soldado no Brazil, não pode, em consciencia
+receber hoje essa quantia.
+
+«E portanto, se continuarem a julgal-o credor d'ella offerece-a para uma
+obra pia, isto é, para o hospicio Pedro II, o qual é no Brazil um asylo
+de alienados.
+
+«Reserva, porem, para si o direito, se o tiver, de haver do governo
+brazileiro os seus ordenados como enfermeiro, os quaes nunca lhe foram
+pagos, pelo que lhe prometeu de bocca o sr. commandante do 14.º batalhão
+de voluntarios cachoeiranos.
+
+«Reserva mais o direito que possa ter pela sua dedicação, provada por
+irrefutaveis documentos de dedicação, que mostrou nos hospitaes da
+Cachoeira, Rio de Janeiro e na esquadra, no dia da batalha naval, e nos
+hospitaes e campos de batalha no Paraguay, como enfermeiro voluntario, e
+sem contracto.
+
+«Reserva ainda, para si, o direito d'uma indemnisação pelos perjuizos
+causados ao seu commercio, pois sendo na occasião em que fora preso,
+estabelecido na Baixa Grande, povoação d'esta provincia, perdera todos
+os generos do seu commercio, parte do que lhe deviam do mesmo negocio,
+tudo causado pela longa prisão que soffrera, e pela noticia que no logar
+correra, de ter sido executado n'esta cidade.
+
+«Guarda mais, para si, o direito a uma indemnisação pelos prejuisos
+causados na sua saude, em consequencia da fome, maus tratos e pesados
+serviços a que o obrigaram.
+
+«Guarda tambem para si o direito a uma indemnisação pela injuria de lhe
+botarem o ferrete dos galés, fazel-o n'este estado correr toda a cidade
+e parte da provincia, dando-lhe por companheiros assassinos
+sentenciados.
+
+«Reserva mais o direito a uma indemnisação pelo que n'esta occasião não
+lembra, mas que de direito seja.
+
+«Appella, pois, para os altos poderes do estado, aos quaes apresentará a
+sua petição em fórma, logo que suas circumstancias o permittam.»
+
+Hade ter igual resultado ao obtido pela familia dos desgraçados
+negociantes portuguezes, assassinados na noite de 6 para 7 de setembro
+de 1874, na ilha de Jurupary.
+
+É assim que o governo brazileiro mostra empenho em reunir debaixo do
+explendido céu do Cruzeiro, os individuos de todas as nacionalidades,
+que queiram alli encontrar patria commum!
+
+ * * * * *
+
+Ponhamos ponto final aqui; mas antes d'isto permitta-nos o leitor que
+façamos a seguinte declaração, que é ao mesmo tempo um protesto contra a
+propaganda dos optimistas--de que somos inimigo figadal do imperio
+brazileiro:
+
+Não somos inimigo do Brazil. Nós somos tão amigos d'esta nação, como o
+pode ser o medico consciencioso, junto do amigo, gravemente enfermo, a
+quem tenta salvar, applicando ao mal os meios que a sciencia
+aconselha... não excluindo o energico visicatorio.
+
+
+FIM
+
+
+
+
+NOTAS
+
+
+
+
+N.º 1 MAPPA DO MOVIMENTO DA POPULAÇÃO NO REINO E ILHAS
+
+
+Mappa da população e seu movimento no continente do reino e ilhas
+adjacentes no anno de 1870
+
+Districtos Concelhos Freguezias Fogos
+Angra 5 38 18:008
+Aveiro 16 180 69:411
+Beja 14 102 35:721
+Braga 12 519 81:691
+Bragança 12 313 39:894
+Castello Branco 12 147 41:513
+Coimbra 17 186 74:144
+Evora 13 109 25:622
+Faro 15 66 46:975
+Funchal 10 52 28:482
+Guarda 14 337 55:685
+Horta 7 39 16:436
+Leiria 12 116 43:748
+Lisboa 25 207 111:151[84]
+Ponta Delgada 7 44 28:805
+Portalegre 15 95 26:600
+Porto 17 361 113:060
+Santarem 18 141 51:706
+Vianna do Castello 10 288 55:773
+Villa Real 14 256 55:350
+Vizeu 26 365 92:721
+ --- ----- --------
+ 292 3:961 1.111:496
+
+
+ População
+Districtos Sexo Masculino Sexo Feminino Total
+Angra 31:541 40:325 71:866
+Aveiro 119:945 137:499 257:444
+Beja 69:692 68:376 138:068
+Braga 145:259 178:051 323:310
+Bragança 76:467 77:093 153:560
+Castello Branco 80:368 85:047 165:415
+Coimbra 135:268 151:257 286:525
+Evora 50:105 48:354 98:459
+Faro 93:827 91:485 185:312
+Funchal 55:186 61:277 116:463
+Guarda -- -- 216:735
+Horta 26:802 36:295 63:097
+Leiria 89:675 91:436 181:111
+Lisboa 236:957[84] 217:734[84] 454:691[84]
+Ponta Delgada 57:062 65:336 122:398
+Portalegre 47:758 48:049 95:807
+Porto 199:747 237:903 437:650
+Santarem 99:514 103:647 203:161
+Vianna do Castello 96:353 113:143 209:496
+Villa Real 101:915 109:650 211:565
+Vizeu 176:285 193:593 239:878
+ --------- --------- ---------
+ 1.989:726 2.155:550 4.362:011
+
+ [84] Estes algarismos foram tirados do censo de 1 de janeiro de
+ 1864, por isso que o mappa do respectivo governo civil sómente
+ trazia o movimento da população.
+
+
+Movimento da população
+
+ Nascimentos Sexo Masculino
+Districtos Legitimos Illegitimos Total
+Angra 878 245 1:123
+Aveiro -- -- 4:029
+Beja -- -- 2:514
+Braga -- -- 4:650
+Bragança -- -- 2:846
+Castello Branco -- -- 2:754
+Coimbra -- -- 4:199
+Evora -- -- 1:771
+Faro -- -- 3:592
+Funchal -- -- 2:392
+Guarda -- -- --
+Horta -- -- 860
+Leiria -- -- 2:650
+Lisboa 5:484 2:227 7:771
+Ponta Delgada -- -- 2:422
+Portalegre -- -- 1:806
+Porto -- -- 7:102
+Santarem -- -- 2:936
+Vianna do Castello -- -- 2:601
+Villa Real -- -- 3:684
+Vizeu -- -- 5:960
+ ----- ----- ------
+ 6:362 2:472 67:602
+
+
+Movimento da população
+
+ Nascimentos Sexo Feminino
+Districtos Legitimos Illegitimos Total
+Angra 815 215 1:030
+Aveiro -- -- 3:825
+Beja -- -- 2:412
+Braga -- -- 4:436
+Bragança -- -- 2:685
+Castello Branco -- -- 2:716
+Coimbra -- -- 3:893
+Evora -- -- 1:693
+Faro -- -- 3:275
+Funchal -- -- 2:281
+Guarda -- -- --
+Horta -- -- 867
+Leiria -- -- 2:460
+Lisboa 5:290 2:087 7:377
+Ponta Delgada -- -- 2:170
+Portalegre -- -- 1:689
+Porto -- -- 6:840
+Santarem -- -- 2:850
+Vianna do Castello -- -- 2:592
+Villa Real -- -- 3:671
+Vizeu -- -- 5:858
+ ----- ----- ------
+ 6:105 2:302 64:620
+
+
+Movimento da população
+
+ Nascimentos
+Districtos Total Casamentos
+Angra 2:153 451
+Aveiro 7:854 1:617
+Beja 4:926 1:122
+Braga 9:086 1:822
+Bragança 5:531 1:042
+Castello Branco 5:470 1:209
+Coimbra 8:092 1:675
+Evora 3:464 662
+Faro 6:867 1:385
+Funchal 4:673 952
+Guarda 7:568 1:509
+Horta 1:727 318
+Leiria 5:110 1:028
+Lisboa 15:088 2:837
+Ponta Delgada 4:592 817
+Portalegre 3:495 635
+Porto 13:942 2:923
+Santarem 5:786 1:087
+Vianna do Castello 5:193 1:243
+Villa Real 7:355 1:366
+Vizeu 11:818 2:105
+ ------- ------
+ 139:790 27:805
+
+
+Movimento da população
+
+ Obitos
+Districtos Sexo Masculino Sexo Feminino Total
+Angra 835 886 1:721
+Aveiro 2:453 2:563 5:016
+Beja 2:828 2:755 5:583
+Braga 3:490 3:791 7:281
+Bragança 2:822 2:684 5:506
+Castello Branco 2:472 2:519 4:991
+Coimbra 2:988 3:143 6:131
+Evora 1:755 1:615 3:370
+Faro 2:605 2:624 5:229
+Funchal 1:478 1:455 2:933
+Guarda -- -- 5:983
+Horta 520 658 1:178
+Leiria 2:289 2:327 4:616
+Lisboa 7:026 6:815 13:841
+Ponta Delgada 1:413 1:385 2:798
+Portalegre 1:723 1:614 3:337
+Porto 4:701 5:095 9:796
+Santarem 3:032 2:677 5:709
+Vianna do Castello 1:945 2:114 4:059
+Villa Real 2:547 2:444 4:991
+Vizeu 3:911 4:181 8:092
+ ------ ------ -------
+ 52:833 53:345 112:161
+
+
+
+Movimento da população
+
+ Nascimentos Obitos Por cada 100
+ excedentes excedentes habitantes
+ aos obitos aos Nascimentos Obitos
+Districtos nascimentos
+Angra 432 -- 2,99 2,39
+Aveiro 2:838 -- 3,05 1,95
+Beja -- 657 3,57 4,04
+Braga 1:805 -- 2,81 2,25
+Bragança 25 -- 3,60 3,59
+Castello Branco 479 -- 3,31 3,02
+Coimbra 1:961 -- 2,82 2,14
+Evora 94 -- 3,50 3,42
+Faro 1:638 -- 3,71 2,82
+Funchal 1:740 -- 4,01 2,52
+Guarda 1:585 -- 3,49 2,76
+Horta 549 -- 2,74 1,87
+Leiria 494 -- 2,82 2,55
+Lisboa 1:247 -- 3,32 3,04
+Ponta Delgada 1:794 -- 3,75 2,20
+Portalegre 158 -- 3,65 3,48
+Porto 4:146 -- 3,19 2,24
+Santarem 77 -- 2,85 2,81
+Vianna do Castello 1:134 -- 2,48 1,94
+Villa Real 2:364 -- 3,48 2,36
+Vizeu 3:726 -- 3,20 2,19
+ ------ --- ---- ----
+ 27:629 657 3,20 2,59
+
+Secretaria d'estado dos negocios do reino, em 29 de novembro de
+1872.==_Luiz Antonio Nogueira_.
+
+
+
+
+N.º 2
+
+
+Diario das Camaras dos senhores deputados
+
+O sr. PIRES DE LIMA:--Desejava conversar em boa paz com alguns dos srs.
+ministros, que infelizmente não estão presentes, mas como o governo está
+representado por dois membros do gabinete, isso me basta. S. ex.as não
+deixarão, por certo, de informar os seus collegas do que eu vou dizer.
+
+São assumptos importantes aquelles sobre que tenho o proposito de
+discorrer, e parecem-me dignos da attenção da camara.
+
+A emigração dos portuguezes para o Brazil tem nos ultimos tempos
+attingido proporções verdadeiramente collossaes e gigantescas, o que é
+uma grande calamidade, calamidade assustadora especialmente para a
+industria agricola, que é a principal fonte da nossa riqueza.
+(_Apoiados._)
+
+No districto administrativo de Aveiro, que eu conheço um pouco, ha
+freguezias onde os trabalhos dos campos estão exclusivamente entregues
+ás mulheres, porque os homens todos, com excepção das creanças e dos
+velhos, têem saido para a America.
+
+Ainda não ha muitos dias que um collega nosso me disse haver recebido do
+seu circulo uma carta, na qual se lhe pedia instantemente, que
+interpozesse a sua influencia junto do governo, para se suspenderem
+todas as obras publicas! O signatario da carta, agricultor importante,
+queria que por algum tempo se interrompessem os trabalhos das estradas
+reaes, districtaes e municipaes, e julgava que só d'este modo poderiam
+os proprietarios ter braços para cultivar as terras.
+
+Este facto é significativo. Quando os lavradores chegam a esquecer o
+grande amor que têem ao desenvolvimento de viação publica, póde-se
+conjecturar que taes são as difficuldades que os assoberbam, quão grande
+é a falta de trabalhadores, e excessivamente elevado o preço dos
+salarios.
+
+Eu desejando muito que antes fossem para o Alemtejo e para as nossas
+possessões ultramarinas os homens validos que vão tentar fortuna no
+Brazil...
+
+É grande a corrente da emigração, e para a engrossar não concorrem pouco
+algumas das nossas leis, _e mais ainda o modo por que se lhes dá
+cumprimento_.
+
+E estas causas podem ser combatidas facil e vantajosamente pelos poderes
+publicos.
+
+É necessario que fallemos com franqueza.
+
+A lei do recrutamento é pessima, _a sua execução é detestavel_.
+
+Ha muita gente que foge para o Brazil para não ser soldado.
+(_Apoiados._)
+
+O governo póde e deve propor a emenda das disposições absurdissimas da
+lei do recrutamento, e o governo póde _e deve corregir os abusos e
+demazias escandalosissimas que os empregados publicos commettem todos os
+dias na execução d'esta lei_. (_Apoiados._)
+
+Enxameam as provincias engajadores convidando colonos a ir para o
+Brazil, e a troco de dez ou quatorze libras facilitam-lhes passagem para
+os portos d'aquelle imperio, arranjando-lhes todos os papeis necessarios
+para a viagem e inclusivamente _passaportes falsos_.
+
+Isto sei-o eu e sabemol-o nós todos. (_Apoiados._)
+
+É grande este mal, mas para o combater não é necessario addicionar
+nenhum artigo ao codigo penal, basta que o governo faça aos empregados
+admoestações, e aos agentes do ministerio publico recommendações
+severas, e obrigue uns e outros a cumprir os seus deveres.
+
+Acabou com a nossa diligencia a escravatura dos pretos na Africa, não
+cresça com a nossa preguiça a escravatura dos brancos na Europa.
+
+Extinguiu-se a industria da moeda falsa, extinga-se tambem a industria
+dos passaportes falsos, tão deshonrosa como aquella, e incomparavelmente
+mais damninha e prejudicial do que ella.
+
+Lembre-se o governo de que os passaportes falsos não só facilitam a
+passagem para o Brazil aos mancebos sujeitos á lei do recrutamento, mas
+auxiliam a evasão de criminosos, cuja impunidade é quasi certa nos
+vastos sertões do novo mundo, etc., etc.
+
+ (_Sessão de 26 de março de 1877._)
+
+
+
+
+N.º 3
+
+
+O DRAMA «OS AVENTUREIROS» E A CRITICA
+
+Tivemos a satisfação de ouvir lêr ao sr. Gomes Pércheiro algumas scenas
+do seu drama os _Aventureiros_, que nos revelariam um esplendido
+engenho, se nós não soubessemos de ha muito quanto elle é vantajosamente
+conhecido.
+
+O drama do sr. Gomes Pércheiro é o fructo das suas mais aturadas
+lucubrações, um trabalho consciencioso, uma these philosophico-social,
+que combate habilmente a emigração que está roubando ao nosso
+fertilissimo solo braços robustos.
+
+Os _Aventureiros_ estão escriptos por mão de mestre, n'um estylo fluente
+e brilhante, e n'uma dicção pura e vernacula. Este drama terá um notavel
+exito pelos episodios que constituem o seu enredo, e porque é portuguez
+de lei.
+
+Não é nosso mister sermos louva-minheiros; nem jámais o seriamos do sr.
+Gomes Pércheiro, moço illustrado, e cuja reputação não carece de elogios
+banaes para a nobilitarem.
+
+ (_Diario do Commercio_, de 5 de dezembro 1877.)
+
+ * * * * *
+
+Hoje pela 1 hora da tarde, na presença de numeroso e selecto auditorio,
+o escriptor que se tem assignalado na imprensa pela sua propaganda
+constante e por vezes energica contra a emigração, leu um drama seu,
+original em 5 actos, intitulado _Os Aventureiros_, e cuja idéa
+fundamental é ainda a activa propaganda contra as illusões que arrastam
+tantos portuguezes a abandonar a patria, em procura de fementidas
+miragens de riqueza, que tão frequentes vezes se convertem nas tristes
+realidades da miseria, da doença, da saudade, do abandono, do desespero
+e da morte.
+
+Não é n'uma simples audição que se póde julgar d'um trabalho d'aquelles,
+que comtudo se nos afigurou de notavel merecimento, indo direito e
+seguro ao seu fim, atravez da ficção da acção dramatica, a qual tem
+scenas e lances de muito interesse e de muita verdade, comquanto no
+ultimo acto, escolho de todos os dramaturgos, que se estreiam,
+enfraqueçam um pouco os dotes scenicos da peça, e no conduzir do enredo
+e no desenho dos diversos typos haja hesitações, que muito
+insignificantes são para uma primeira tentativa em genero litterario tão
+difficil. Seguramente Gomes Pércheiro corrigirá alguns dos pequenos
+senões da sua obra, que o publico admirará e applaudirá então, colhendo
+d'ella muito proveitoso ensinamento, n'uma questão que preoccupa hoje
+tanto as attenções dos que pensam e dos que sentem um dos grandes males
+do nosso paiz.
+
+ (_Revolução de Setembro_, de 21 de dezembro de 1877).
+
+ * * * * *
+
+
+D. MARIA II.--Lêu-se hontem no salão d'este theatro, como tinhamos
+annunciado, o drama do sr. Gomes Pércheiro, _Os Aventureiros_. Encargos
+do serviço publico obstaram a que o director d'esta folha assistisse; os
+trabalhos do jornal que são todos durante o dia, impediram tambem outro
+dos nossos redactores.
+
+DO DIARIO DE PORTUGAL que mais extensamente dá conta do caso, extrahimos
+com a devida venia o seguinte:
+
+
+«O assumpto do drama é a emigração.
+
+Não é possivel com uma só audição fazer completa idéa das qualidades
+scenicas do drama, o que porém se nos affigura como certo, é que abunda
+em todo elle a verdade, e que é escripto com profundo conhecimento do
+assumpto.
+
+A emigração figura-se para o sr. Pércheiro um vicio social, que elle
+combate do modo mais energico.
+
+O assumpto é difficilimo de tratar, não obstante parece-nos que o auctor
+esteve á altura d'elle.
+
+Feita a leitura, alguns dos cavalheiros presentes exposeram com a mais
+notavel franqueza, a sua opinião extremamente lisongeira para o sr.
+Pércheiro.
+
+Pela nossa parte felicitamol-o pelo seu trabalho.
+
+Assistiram á leitura os srs: E. Biester, dr. Cunha Belem, Rodrigues da
+Costa, Luciano Cordeiro, Hermenegildo d'Alcantara, padre Seabra, Cró
+Ferreri, dr. Loureiro, Salvador Marques e Thomaz Sequeira.»
+
+
+Folgamos de que tanto agradasse a obra do sr. Pércheiro, e damos-lhe os
+nossos parabens.
+
+ (_Revolução de Setembro_, de 21 de dezembro de 1877).
+
+ * * * * *
+
+A transcendencia do assumpto e a extremada delicadeza do convite do sr.
+Gomes Pércheiro levaram-nos ao salão do theatro normal para assistirmos
+á leitura do drama--_Os Aventureiros_...
+
+O illustre dramaturgo, lidador incansavel nos grandes torneios da
+civilisação, homem d'um só rosto e d'uma só vontade, tem em vista
+combater no palco, como já tem combatido no livro e no jornal, a funesta
+tendencia da emigração para o Brazil e a especulação torpe dos
+_engajadores_, que, fazendo mentidas promessas, mostram aos
+incautos--atravez d'um prisma côr de rosa--um futuro mais ou menos
+longinquo em que a blusa do operario se ha de trocar pela casaca do
+commendador.
+
+E, forçoso será dizel-o, o sr. Gomes Pércheiro tracta gentilmente o
+assumpto: o novo drama, primicias scenicas do auctor, divide-se em cinco
+actos.
+
+Os dois primeiros passam-se n'uma aldeia do Minho, o terceiro a bordo
+d'um paquete inglez e os restantes na terra de Santa Cruz.
+
+Os vultos mais salientes do drama são--um abbade, typo paternal que,
+comprehendendo a sua missão sublime, sem esquecer o cuidado que lhe
+merece a vida espiritual das suas ovelhas, envida todos os esforços para
+curar o cancro da emigração, que rouba tantos cidadãos á patria, tantos
+braços á agricultura e tantos homens á vida. A figura está desenhada
+magistralmente. Após este vulto sympathico surge um outro egualmente
+gracioso: uma menina da alta sociedade, educada com todo o esmero
+christão, escondendo a esmola no seio do pobre, sem que a esquerda tome
+conhecimento do que a direita deu, tendo em menos conta as honrarias da
+terra e sacrificando as suas joias para salvar o pae de difficuldades
+financeiras. Os traços são vigorosos e correctos.
+
+Em meio d'este Eden apparece a antiga serpe encadernada no commendador
+_Manquitó_, typo repugnante, fugido d'um presidio do Brasil,
+_engajador_, ou o que vale o mesmo, negociante de carne humana.--A scena
+entre o abbade e este vampiro, que esconde a sua preversidade e o seu
+punhal nas dobras da capa da hypocrisia, é muito para se ver.
+
+A scena a bordo é copiada _aprés nature_. Os colonos vendo succumbir uma
+companheira d'infortunio, não podendo supportar os incommodos da viagem
+e o alimento grosseiro que lhes é ministrado, o capitão inglez
+dizendo--_I speak portuguese very well_--e continuando a dar o mesmo
+bacalhau com batatas, é um quadro deslumbrante de verdade.
+
+Se nos perguntarem pelo _ensemble_ do drama, emittiremos a nossa humilde
+opinião: é uma bella estatua que saiu da fundição com algumas pequeninas
+arestas que devem ser cuidadosamente limadas. Os primeiros quatro actos
+têem scenas de grande effeito: o quinto talvez tenha das taes arestas, o
+que não admira, porque _aliquando bonus dormitat Homerus_. Além d'estes
+insignificantes senões que desapparecem ao terceiro ensaio, tem a peça
+os seguintes _defeitos_:
+
+_Inspira-se n'um sentimento nobre, patriotico, humanitario e
+economico;--fere os interesses de certos argentarios que adquiriram
+fortuna, Deus sabe como; não blasphema de Christo, ou do seu Vigario,
+nem, ao menos, dá dois piparotes n'um ABUTRE DE SOTAINA!_
+
+Felicitamos o sr. Gomes Pércheiro, mas pedimos vénia para lhe dizermos:
+o drama _Aventureiros_ não vae á scena, pelas circumstancias
+apontadas,[85] e s. parece ignorar que vive no moderno Portugal, onde o
+theatro tem enchentes com os _Lazaristas_ do sr. Ennes e está ás moscas
+com a _Caridade_ do sr. Cascaes. É esta a nossa opinião, _salvo simper
+meliori judicio_.
+
+ (A _Nação_ de 22 de dezembro de 1877.)
+
+ [85] Se, á similhança do que fizemos á policia, aqui ha mezes,
+ fizermos o mesmo á empreza do theatro de D. Maria II, obrigando-a a
+ cumprir á risca o contracto que manda fazer do nosso primeiro
+ theatro normal um templo e não uma espelunca, onde, se assim
+ continuarem as cousas, não tarda que a opera comica indecente
+ substitua a comedia ou o drama que moralisa; se nós lhe desfiarmos
+ um a um os artigos do contracto feito com o governo, é provavel que
+ então nos venham pedir o drama para o representar, sem as condições
+ vergonhosas que fazem d'aquelle estabelecimento uma casa de prego...
+ já se sabe. Deixemos approximar a época de 1878-1879, e fallaremos a
+ proposito em logar mais apropriado.
+
+ * * * * *
+
+Estamos em divida para com o estimavel escriptor, que teve a penhorante
+amabilidade de convidar-nos para assistir á leitura da sua peça no
+theatro de D. Maria.
+
+Circumstancias estranhas á nossa vontade inhibiram-nos de agradecer no
+numero anterior essa prova de deferencia e de dar conta das impressões
+que nos produziu a leitura do drama do sr. Pércheiro.
+
+Não é facil, n'uma rapida audição, apreciar devidamente um trabalho
+d'aquella ordem, e analysal-o com minudencia, apontando todas as
+bellezas, que n'elle sobresaem ou os senões que, n'um ponto ou outro,
+lhe possam ensombrar o merecimento.
+
+Serve de these ao drama a emigração, considerada sob o ponto de vista
+social e economico, e o sr. Gomes Pércheiro, que já na imprensa tinha
+larga e proficientemente tratado o assumpto,--levando-o para o theatro,
+como meio efficassissimo de propaganda, dota a scena nacional com um
+excellente drama e presta ao paiz um relevante serviço.
+
+_Os Aventureiros_ são antes de tudo uma peça de propaganda, escripta com
+profundo conhecimento do assumpto e aturadissima observação.
+
+Os infames manejos que se empregam para o engajamento dos colonos, os
+soffrimentos d'estes durante a viagem para a America, as tristes e
+dolorosas realidades que substituem as miragens fascinadoras com que
+lhes embalaram a phantasia e a cubiça, a vida do colono no sertão com
+todos os seus traços dessoladores e crueis, são ali postos em relevo,
+com as mais vivas côres, a maior verdade e desassombro. O 3.º e 4.º
+actos, excellentes quadros de genero, copiados _d'aprés nature_, devem
+produzir funda sensação, porque ao vigor das situações dramaticas,
+alliam o interesse de scenas perfeitamente desconhecidas do nosso
+publico, e accentuam com a maior naturalidade os horrores porque passam
+os miseros expatriados.
+
+Pelo lado litterario a peça do sr. Gomes Pércheiro parece-nos digna do
+applauso de critica. A linguagem sempre correcta e facil, aquece-se de
+enthusiasmo nos lances que assim o pedem e obedece em geral ás condições
+de naturalidade e observação que predominam no drama. Os dialogos estão
+bem travados, os caracteres bem sustentados e descriptos com traços
+frisantes.
+
+O drama do sr. Gomes Pércheiro deverá ser representado n'algum dos
+nossos primeiros theatros, porque a isso tem incontestavel direito e
+para então rezervamos mais demorada apreciação d'esse excellente
+trabalho, pelo qual desde já enviamos ao auctor as nossas sinceras
+felicitações.
+
+ (_O Contemporaneo_ n.º 45.)
+
+ * * * * *
+
+.........................................................................
+
+Tivemos ha dias a leitura d'um novo drama por um escriptor novo que se
+propõe a trazer para o theatro a these da emigração para o Brazil, dos
+seus estimulos, dos seus vicios e dos seus resultados, que tem tratado
+na imprensa.
+
+A these é delicada, perigosa, irritante. Levada até á condemnação geral
+da emigração, é uma vasta, uma complexa, uma difficilima these.
+
+A questão da emigração prende-se a uma infinidade dos mais elevados
+problemas das sciencias economicas e da philosophia politica.
+
+Em Portugal está por estudar inteiramente. Os estudos sociologicos tem
+pouquissimos cultores sérios porque são pouquissimos os que por uma
+larga disciplina scientifica, desafogada de paixões de escolla ou dos
+banaes sentimentalismos do criterio romantico e revolucionario, podem
+entrar com serena firmeza na revisão delicada das leis e dos phenomenos
+do organismo social.
+
+A economia politica não ganhou ainda aqui os direitos de cidade... e as
+sympathias dos editores, apesar da graciosa concessão de duas ou tres
+escolas onde se lê Baudrillat e Garnier.
+
+Sem offensa para os respectivos professores, que não são os culpados dos
+desdens d'uma administração superior perfeitamente alheia e hostil ao
+progresso e ao espirito scientifico, e da indifferença d'um publico que
+não percebeu ainda muito claramente as vantagens de saber lêr escrevêr e
+contar, ser economista em Portugal é não querer ser cousa alguma.
+
+Não é por esse caminho que a gente se faz nomear amanuense de secretaria
+nem membro correspondente da Academia das Sciencias. Ora todos nós mais
+ou menos precisamos ser amanuenses.
+
+O sr. Pércheiro, porém tem-se contentado com o esforço de lançar alguma
+luz ácerca do que é a emigração para o Brazil, nas cabeças rudes e
+ingenuas do nosso povo e nas cabeças rudes mas não egualmente ingenuas,
+dos nossos politicos e governantes.
+
+Baldado, mas generoso empenho.
+
+Elle viu as cousas de perto; teve occasião de as ver e não se tem
+cançado de nos dizer o que viu.
+
+É um horror.
+
+Uma parte d'este horror podia contemplal-a e estudal-a toda a gente nos
+relatorios officiaes dos nossos consules do Brazil, mas os relatorios
+servem só para dar que fazer á imprensa nacional.
+
+Não se fazem, evidentemente para serem lidos e estudados pelos nossos
+homens publicos, pelos nossos politicos, pelos nossos deputados, pelos
+nossos governos.
+
+Lembra-me que ha tempos teve o meu amigo Eduardo Coelho a patriotica
+ideia de os fazer ingerir suavemente, em pequenas doses, com toda a
+prudencia, pelo publico.
+
+Entregou este processo therapeutico a um seu intelligentissimo
+collaborador o sr. Leite Bastos.
+
+Durante muitos dias o _Diario de Noticias_ extractou brilhantemente
+aquelles documentos. Liam-se cousas medonhas e absurdas alli: concussões
+d'auctoridade, cruesas das leis, gritos d'infelizes, infamias de
+contractadores de colonias, etc. etc.
+
+Os emproados collegas da politica militante conservaram-se mudos e
+indifferentes.
+
+E toda a gente achou massador o _Diario de Noticias_!
+
+_Ditosa condição, ditosa gente._
+
+Como agora toda a gente acha impertinente o sr. Pércheiro.
+
+Que, diga-se a verdade, o sr. Pércheiro tem umas certas culpas.
+
+Se é impertinente ou não, importa-me pouco.
+
+O que eu queria, era que sr. disciplinasse melhor pelo estudo detido,
+pela serena observação da realidade contemporanea, pela modesta revisão
+dos elementos de critica e de sciencia que o assumpto exige, as suas
+aptidões e a sua propaganda.
+
+O sr. Pércheiro é todo paixão. Não se domina; não tempera a tensão
+violenta e absorvente a que os seus sentimentos certamente generosos, em
+revolta contra as miserias e vergonhas do dia, lhe arrastam a
+intelligencia e a palavra.
+
+Esta invasão das faculdades reflexivas pelo tumulto das paixões, ou pela
+excitação absorvente do sentimento da propria personalidade, perde
+muitas intelligencias e muitas propagandas boas. Quem propaga, lucta, e
+quem lucta precisa não dar aos adversarios o flanco do amor proprio para
+que elles o irritem e desnorteem.
+
+Para tudo é preciso n'esta vida uma pouca de diplomacia.
+
+Não a diplomacia hypocrita, mas a diplomacia do senso real das cousas.
+
+Vamos porem ao drama.
+
+Intitula-se os _Aventureiros_, e, agrupando certos episodios--e certos
+caracteres, que pódem dizer-se descolados da lenda sinistra do
+recrutamento de colonos e da negociação e exploração d'elles, procura e
+póde affoitamente dizer-se que consegue imprimir nos espiritos dos
+ouvintes o quanto essa lenda tem de monstruosa e cruelissima realidade.
+
+Dadas as premissas, e essas são attestadas pelos processos d'esse
+recrutamento e pela mais rudimentar observação d'elles, as conclusões
+saltam expontaneas e irrecusaveis.
+
+Francamente, o drama lido pelo sr. Pércheiro no theatro de D. Maria
+excedeu a espectativa mais exigente. Ha scenas vigorosamente traçadas;
+formosos caracteres; insinuações dramaticas e scenicas muito habeis e
+valentes que podia não se esperar d'um principiante. A peça tem um tom
+geral de verdade sentida e de consciencia fartamente revolta, que se
+impõe facil e despretenciosamente.
+
+Tem varios defeitos: está claro. Precisa certas correcções,
+indiscutivelmente.
+
+Ha arestas sumidas que é necessario avivar; traços que convém acentuar
+melhor; quadros que devem retocar-se severamente ou para apagar
+asperesas ou para remodelar figuras importantes que se apagam e
+escondem, no desenvolvimento da acção. Esta não está firme e segura.
+Affrouxa aqui ou ali, denuncia-se prematuramente além; quebra-se n'um ou
+n'outro ponto.
+
+O sr. Pércheiro não é um escriptor feito e largamente educado pelo
+estudo, pela leitura e pela experiencia nos segredos e exigencias da
+arte.
+
+Não é um litterato. A fórma resente-se, mas antes fique no que é do que
+se lance em artificios triviaes. Em summa, o drama é viavel e a estreia
+auspiciosa.
+
+«Ha de dar dinheiro», que é o criterio supremo dos empresarios, e ha de
+dal-o sem ser uma exploração de escandalos obscenos; sendo uma obra de
+intenções discutiveis na doutrina, mas incontestavelmente honestas e
+sympathicas na inspiração. Eu sou tanto mais insuspeito n'este juizo ao
+correr da penna e ao impulso das impressões primeiras, que não gosto de
+dramas de propaganda, porque a paixão da propaganda vicia e supplanta a
+verdade do drama, isto é a verdade da arte.
+
+A arte não é tribuna. É altar ou é throno. Não discute; cria.
+
+
+(_Commercio Portuguez_, de 22 de dezembro.)
+
+ _Fernão Vaz._
+
+Examinemos.
+
+
+A respeito da emigração diz o critico, que «a these é delicada,
+perigosa, irritante. Levada até á condemnação geral da emigração, é uma
+vasta, uma complexa, uma difficilima these.»
+
+
+E accrescenta:
+
+
+«A questão da emigração prende-se a uma infinidade dos mais elevados
+problemas das sciencias economicas e da philosophia politica.»
+
+
+Agora vejamos o que elle diz a respeito do drama:
+
+
+«Francamente, o drama lido pelo sr. Gomes Pércheiro excedeu a
+espectativa mais exigente. Ha scenas vigorosamente traçadas; famosos
+caracteres; insinuações dramaticas e scenas muito habeis e valentes que
+podia não se esperar d'um principiante. A peça tem um tom geral de
+verdade sentida e consciencia fartamente revolta, que se impõe facil e
+despertenciosamente.»
+
+
+Se se attender a laudatoria que ahi deixamos transcripta, vê-se que nós
+comprehendemos o papel que o acaso nos distribuira para bem tratarmos _a
+vasta, complexa e difficilima these que se prende a uma infinidade dos
+mais elevados problemas das sciencias economicas e da philosophia
+politica_. Pela logica racional do critico ninguem pode chegar a colher
+estes resultados (do drama?) sem estudar muito e muito.
+
+Nós sabemos isto melhor do que o sr. Fernão Vaz; permitta-nos a
+franqueza... e se quizer, a jactancia.
+
+Mas se é claro que para produzir um trabalho que _excedeu a expectativa
+mais exigente_, foi preciso empregar o estudo, para que é dizer, «que
+era preciso que nós disciplinassemos melhor pelo estudo detido, pela
+serena observação da realidade contemporanea, pela modesta revisão dos
+elementos da critica e da sciencia que o assumpto exige» as nossas
+aptidões e a nossa propaganda?!
+
+Se o drama _Os Aventureiros_ é tudo quanto o sr. Fernão Vaz diz--uma
+cousa por ahi alem--um conjuncto de tanta cousa boa, _que só se obtem_
+pelo largo estudo; para que vem dizer-nos:--o sr. Pércheiro não é um
+escriptor feito e largamente educado pelo estudo?
+
+O que faz o homem largamente educado pelo estudo?
+
+Faz pilulas e... critica como a costuma fazer o sr. Fernão Vaz.
+
+Vamos dar logar á critica de um moderno Juvenal, e reservar-nos-hemos
+para dizermos alguma cousa a respeito do Altar-throno, da arte e da
+tribuna.
+
+Falla o critico ao sr. Vaz:
+
+ * * * * *
+
+
+Fernão Vaz e o drama de Gomes Pércheiro
+
+Hoje, quinta feira, dia do _high-life_, abro a minha sala humilde,
+ignorada--sala _au rez-de-la-chaussée_, está dito tudo,--para cavaquear
+com os meus amigos.
+
+--Já leste um folhetim de Fernão Vaz? perguntou-me um amigo velho.
+
+--Ainda não.
+
+--Pois lê; e deu-me uma folha portuense.
+
+--Isto é _porto_, disse eu.
+
+--Pois enganas-te de meio a meio.
+
+Torno a ler o nome do jornal, soletro-o ao meu amigo, e insisto--é
+_porto_,--já te disse.
+
+--Já vejo que tens o paladar estragado, retorquiu-me,--isso não é
+_porto_ é _mata ratos_ d'esse que se vende, a toda a hora, na cidade do
+burrié e da fava torrada.
+
+Como o tal meu amigo tem uma linguinha de prata, calei-me e li o
+folhetim de cabo a rabo ou, como diria o meu mestre de latim, _ab initio
+ad finem usque_.
+
+--Que tal?
+
+Eu que queria desviar qualquer conversa desagradavel ao sr. Fernão Vaz,
+respondi-lhe: a folha é bem escripta.
+
+--Não te faças Ignez d'horta; que a folha é bem escripta sei
+eu--tracta-se do folhetim.--Aposto que não sabes de quem me lembrei,
+quando li essa estopada folhetinista? D'Antonio Feliciano de Castilho.
+
+--Ahi vaes tu desenterrar um morto. A que vem Castilho, quando se tracta
+d'um folhetim?
+
+--A que vem!? eu t'o digo.--Um dia, certo jornalista fallava, diante
+d'esse cego que via mais que todos os videntes, de um litteratiço como
+muitos que por ahi enxameiam a cada canto, e, fiel ás leis do elogio
+mutuo, dizia todo ancho: Fulano é inquestionavelmente um moço de
+merecimento, é o _Janin portuguez_. Castilho, que era dotado d'aquelle
+espirito mordaz que todos lhe conheciamos, com um surriso epigrammatico,
+volta-se para o tagarella e pespega-lhe com esta nas bochechas: «Tem
+razão; fulano é um moço de esperanças, é o _já-nem portuguez_.» Agora
+applico: o folhetim de que tanto gostas ou finges gostar, é uma
+desinteria palavrosa e nada mais.
+
+Ao ouvir taes cousas, confesso: _vox faucibus haesit_. Tive medo: metti
+a viola no sacco e deixei-o fallar.
+
+--O teu homemsinho dá quatro piparotes na grammatica; faz quatro figas
+ao senso commum e não te conto nada. Falla-nos em estudos sociologicos,
+nos mais elevados problemas das sciencias economicas e da philosophia
+politica, atira-nos á cara com Baudrillat, que nunca viu; com Garnier,
+que não conhece e passa carta de tolo a tudo que é portuguez.
+
+Vendo que a indignação do meu amigo subia n'um _crescendo_ vertiginoso,
+não me atrevi a interrompel-o.
+
+--Gomes Pércheiro, rapaz sympathico e estudioso, cujos sentimentos
+patrioticos ninguem póde contestar, que em assumptos sobre emigração
+é--um especialista--tem escripto muito e muito bem e ultimamente fez um
+drama, ou antes um cauterio para curar a chaga da emigração. Queres
+agora saber o que diz o tal folhetinista? «O sr. Pércheiro, porém,
+tem-se contentado com o esforço de lançar _alguma luz_ ácerca do que é a
+emigração.» Isto não se tolera. Pois um homem que, no dizer do teu
+folhetinista, «viu as cousas de perto; _teve occasião de as ver_» (que
+novidade! viu porque teve occasião) «e não se tem _cansado_ de nos dizer
+o que viu» só lança _alguma luz_? Que me dizes?
+
+--Que tens uma linguinha...
+
+--Eu tenho linguinha?... Ouve: o teu homem, depois de fazer os seus
+salamaleques aos redactores do _Diario de Noticias_, á conta do tal
+elogio mutuo, sae-se com esta: «Que, diga-se a verdade, o sr. Pércheiro
+tem umas certas culpas.» Pois o Pércheiro tem culpa das _concussões
+d'auctoridade, cruezas das leis, gritos d'infelizes, infamias de
+contractadores de colonos_, de que falla o citado auctor?!
+
+--Mas que tenho eu com isso?
+
+--Não me interrompas; ouve até ao fim.--O aristarco, depois de dizer que
+Pércheiro é todo paixão e de lhe dar a entender que tem uma grande
+dóse d'amor proprio, falla na _diplomacia do senso real das
+cousas_--palavrões que ninguem percebe--e diz: «Vamos ao drama.
+Intitula-se os _Aventureiros_, e agrupando... certos caracteres, que
+podem dizer-se descolados da lenda sinistra de recrutamento de colonos,
+etc.»--Como não assististe á leitura do drama, quero dar-te uma ideia
+dos _caracteres descolados_--Um abbade que préga contra a emigração; o
+sobrinho que arranca da porta da egreja um annuncio pomposo, convidando
+os pobres camponezes a abandonarem a patria e o lar; um celebre
+commendador _Manquitó_, typo repugnante que negoceia em escravatura
+branca; uma mulher infame que seduz com mentidas promessas inexperientes
+donzellas, fazendo-lhes ver um futuro brilhante longe dos seus e da
+terra que lhes foi berço, etc. etc.; eis os personagens que preparam o
+entrecho do drama, que lhe servem de prologo: chamar a estes personagens
+_caracteres descolados_ é caso para estourar de riso!
+
+«Francamente, continúa o crítico, o drama lido pelo sr. Pércheiro,
+_excedeu_ a expectativa mais _exigente_. Ha scenas vigorosamente
+traçadas, formosos caracteres... tem varios defeitos: está claro.» Não
+me dirás porque está claro? perguntou-me o meu amigo.
+
+--Porque vae rompendo a manhã, respondi-lhe eu.
+
+--Não zombes: já ouviste que o drama excedeu a expectativa mais
+exigente, pois agora ouve lá esta: «O sr. Pércheiro não é um escriptor
+feito e largamente educado pelo estudo, pela leitura e pela experiencia,
+nos segredos e exigencias da arte.» Se isto não é um desconchavo, não ha
+desconchavos no mundo.
+
+_Simul esse et non esse!_--_To be and not be!_ «Em summa» nota bem, «o
+drama é viavel» quer dizer, atura-se «ha-de dar dinheiro... sem ser uma
+exploração de escandalos obscenos.» O que aqui vae! Agora vaes ver o
+gosto do critico: «Não gosto de dramas de propaganda, porque a paixão da
+propaganda vicia e suplanta a verdade do drama.» Se o theatro não é
+propaganda; se a rir, ou mesmo a chorar, não se castigam na scena os
+costumes, não se infiltra o sentimento do bem e do amor da patria, etc.,
+de que serve o theatro?
+
+_Finis coronat opus_ e regista mais esta: «A arte não é tribuna. É altar
+ou é throno. Não discute; cria.»
+
+Entendeste? Nem eu.
+
+E, pegando no chapéu, retirou-se aquelle zoilo da gloria critica do sr.
+Fernão Vaz e eu fui-me deitar.
+
+
+(A _Nação_ de 10 de janeiro.)
+
+ _Fulano d'Anzoes._
+
+
+O sr. Fulano d'Anzoes, parece que não comprehendeu a significação do
+dito--_diplomacia do senso real das cousas._
+
+Nós lh'o explicamos.
+
+O sr. Fernão Vaz, como o sr. d'Anzoes terá reparado, ama a Deus e ao
+démo. O Deus que o sr. Vaz ama é uma _troup_ de... nem nós sabemos como
+a havemos de qualifical-a...
+
+No baixo imperio romano houve uns sujeitos que á emitação dos grandes
+mestres, tambem faziam em publico, nos saraus _litterarios_, as suas
+leituras de coisas, abórtos de rethorica e adjectivos, sem arte, sem
+súco algum.
+
+A estes sujeitos chamavam palhaços ou pantomimos da litteratura do
+tempo. Na actualidade, em Portugal, tambem ha d'isto. È este o Deus que
+o sr. Fernão Vaz adora; porque é este que faz o reclame á
+_proficiencia_, á _capacidade_ ou ao _intellecto_ dos proselytos da
+_troup_.
+
+O démo somos nós, que nos orgulhamos de não pertencer á tal... tropa; e
+ella... a tropa faz-nos a pirraça de nos não querer lá, por causa das
+_nossas culpas_ e das _nossas impertinencias_... de que ainda não
+começamos a penitenciar-nos nem nos penitenciaremos.
+
+Mas por que, pertencendo Fernão á tal _troup_, nos diz que o nosso drama
+_escedeu a espectativa mais exigente_? Pela mesma razão que diz que não
+_somos litterato_, que o nosso drama _tem defeitos_, que elle é
+_viavel_, (assim como quem não quer a cousa) e que elle finalmente, _ha
+de dar dinheiro_, assim como poude dar... a _Filha da senhora Angot_ e
+quejandos.
+
+Chama-se a isto acender uma vela a Deus e outra ao démo, ou mais
+claro:--chama-se a isto a _diplomacia do senso real das cousas_!
+
+Nós desculpamos o sr. Fernão Vaz. Não se cria popularidade impunemente.
+Fallar assim do nosso drama e a proposito d'elle (sic) dirigir dois ou
+trez salamaleques ao seu amigo Eduardo, que por causa de uma tola
+popularidade embirra com as _Questões do Pará_, _Coisas Brazileiras_,
+_Commendador e Barão_, _Questão dos Chouriços_ ou _photographias
+politicas_ e outras obras que custam dinheiro e que o tal coisa costuma
+receber e não pagar com uma simples cortezia jornalistica, assim como
+embirra com os pobres _Aventureiros_; fallar assim, repetimos, perante a
+_troup_ dos _réclames_ e de mais a mais n'um jornal, cujos fundadores
+vivem, mais ou menos, interessados no commercio da escravatura branca, é
+conveniente, é contemporisar com a cousa, e quem não contemporisar hoje
+em dia não apanha popularidade e não fica sabendo o que
+seja--_diplomacia do senso real das cousas_.
+
+O sr. Fulano d'Anzoes faz uma offensa ao sr. Fernão Vaz, quando lhe põe
+em duvida a vastidão dos seus conhecimentos economicos e o seu contacto
+com Baudrillat e outros economistas, não esquecendo Montesquieu, Say,
+Smith, Otho e... e Garnier, tudo lá de fóra. É injusto, porque o dono do
+pseudonimo Fernão Vaz está em contacto com a commissão de economistas,
+nomeada ha pouco pelo sr. Carlos Bento... cá de dentro!
+
+Punhamos ponto final na questão, tratada da nossa parte com
+simplicidade, isto é, pobresinha de estylo, de rethoricas e de
+adejectivos; mas antes d'isso façamos uma pergunta ao sr. Vaz, sobre o
+que entende elle por _theatro altar_ e _theatro tribuna_? isto é, qual a
+conveniencia de um e a inconveniencia do outro, no templo, que pode
+admittir uma e outra cousa, sem prejuiso da arte?
+
+Os homens que _estudam_ lá fóra, e que, com a _sua sciencia_ desejam
+resolver este problema complexo, não fixam as suas largas vistas n'uma
+sociedade que desconhecem, por exemplo, na nossa. Estudam o meio em que
+vivem e por elle _fazem_ obra. Victor Hugo leva ao _altar_ do theatro o
+seu Ruy Blaz, para que o adorem; e Alexandre Dumas filho manda a sua
+Margarida Gauthier para a _tribuna_ do theatro prégar ás turbas a
+regeneração da mulher.
+
+Ambos estes _vultos da sciencia_ podiam ter dito:
+
+Victor Hugo:--o publico francez tem escollas em abundancia, onde aprende
+a ler, para depois vir cá fóra beber a moral nos milhares de livros que
+nós escrevemos. O theatro deve ser _altar_ e não _tribuna_. Dumas
+replicaria:--a instrucção não chegou ainda onde devia chegar; mas ainda
+que chegasse, o livro não convence tanto como a tribuna (esteja ella
+aonde estiver), isto é, como a palavra fallada. Assim pois regeneremos a
+sociedade no theatro, façamos do theatro _tribuna_.
+
+O sr. Fernão Vaz _estudou_ o meio em que vive ou _estudou_ o meio em que
+vivem Hugo, Dumas e outros?
+
+Se estudou o nosso meio encontra uma sociedade que não sabe cousa
+alguma, por que não sabe ler, e a quem não sabe ler diz-se-lhe _por
+todas as fórmas, com a palavra fallada_, o que é necessario que ella
+aprenda; isto emquanto a nossa sociedade não souber o A B C e mais
+alguma cousa. É verdade que ainda depois encontrará a opinião dos mais
+sensatos, dos _mestres_, a dizer sempre:--_o theatro deve ser tribuna_.
+
+Mas nós não queremos tal exclusivismo: assim pois, que o theatro _seja
+templo_ onde haja _tribuna_ e _altar_.
+
+
+
+
+N.º 4
+
+
+Lei brazileira n.º 108 de 11 de outubro de 1837, dando varias
+providencias sobre os contratos de locação de serviços dos colonos
+
+O Regente interino em nome do Imperador, o senhor D. Pedro II, faz saber
+a todos os subditos do imperio que a assembléa geral legislativa
+decretou e elle sanccionou a lei seguinte:
+
+
+ARTIGO 1.º--O contrato de locação de serviços celebrado no imperio ou
+fóra, para se verificar dentro d'elle, pelo qual algum estrangeiro se
+obrigar como locador, só póde provar-se por escripto se o ajuste fôr
+tratado com interferencia de alguma sociedade de colonisação reconhecida
+pelo governo no municipio da côrte, e pelos presidentes nas provincias.
+Os titulos por ellas passados, e as certidões extrahidas dos seus livros
+terão fé publica para prova do contrato.
+
+ART. 2.º--Sendo os estrangeiros menores de vinte um annos perfeitos, que
+não tenham presentes seus paes, tutores ou curadores, com os quaes se
+possa validamente tratar, serão os contratos auctorisados, pena de
+nullidade, com assistencia de um curador, o qual será igualmente ouvido
+em todas as duvidas e acções que dos mesmos contratos se originarem, e
+em que algum locador menor fôr parte, debaixo da expressada pena.
+
+ART. 3.º--Para este fim em todos os municipios onde houver sociedades de
+colonisação haverá um curador geral dos colonos, nomeado pelo governo na
+côrte e pelos presidentes nas provincias, sob proposta das mesas da
+direcção das mesmas sociedades.
+
+Nos outros municipios servirão os curadores geraes dos orphãos. Nas
+faltas, ou impedimentos de uns e outros, nomearão as sobreditas mesas de
+direcção para auctorisação dos contratos e os juizes respectivos para os
+casos das acções que se moverem, pessoa idonea que o substitua.
+
+ART. 4.º--Não apresentando os menores documento legal da sua idade será
+esta estimada no acto do contrato á vista da que elles declararem e
+parecer que podem ter, e ainda que depois o apresentem este não valerá
+para annullar o contrato, mas se estará pela idade que no acto d'este se
+houver estimado para os effeitos sómente da validade do mesmo contrato.
+
+ART. 5.º--É livre aos estrangeiros de maior idade ajustarem seus
+serviços pelos annos que bem lhes parecerem, mas os menores não poderão
+contratar-se por tempo que exceda á sua menoridade, excepto se fôr
+necessario que se obriguem por maior praso para indemnisação das
+despezas com elles feitas, ou se forem condemnados a servir por mais
+tempo em pena de terem faltado ás condições do contrato.
+
+ART. 6.º--Em todos os contratos de locação de serviços, que se
+celebrarem com os mesmos menores, se designará a parte da soldada que
+elles devam receber para suas despezas, que não poderá nunca exceder da
+metade: a outra parte, depois de satisfeitas quaesquer quantias
+adiantadas pelo locatario, ficará guardada em deposito na mão d'este, se
+fôr pessoa notoriamente abonada, ou não sendo, prestará fiança idonea
+para ser entregue ao menor, logo que acabar o tempo de serviço a que
+estiver obrigado, e houver saido da menoridade. Fóra d'estes casos será
+recolhido no cofre dos orphãos do municipio respectivo.
+
+Nos municipios onde houver sociedades de colonisação reconhecidas pelo
+governo, serão taes dinheiros guardados nos cofres das mesmas
+sociedades.
+
+ART. 7.º--O locatario de serviços que, sem justa causa, despedir o
+locador antes de se findar o tempo por que o tomou, pagar-lhe-ha todas
+as soldadas, que devêra ganhar, se o não despedira. Será justa causa
+para a despedida:
+
+1.º Doença do locador, por fórma que fique impossibilitado de continuar
+a prestar os serviços para que fôr ajustado;
+
+2.º Condemnação do locador á pena de prisão, ou qualquer outra que o
+impeça de prestar serviço;
+
+3.º Embriaguez habitual do mesmo;
+
+4.º Injuria feita pelo locador á dignidade, honra, ou fazenda do
+locatario, sua mulher, filhos ou pessoa de sua familia;
+
+5.º Se o locador, tendo-se ajustado para o serviço determinado, se
+mostrar imperito no desempenho do mesmo serviço.
+
+ART. 8.º--Nos casos do n.º 1.º e 2.º do artigo antecedente, o locador
+despedido, logo que cesse de prestar o serviço, será obrigado a
+indemnisar o locatario da quantia que lhe dever. Em todos os outros
+pagar-lhe-ha tudo quanto dever, e se não pagar logo, será immediatamente
+preso e condemnado a trabalhar nas obras publicas por todo o tempo que
+fôr necessario, até satisfazer com o producto liquido de seus jornaes
+tudo quanto dever ao locatario, comprehendidas as custas a que tiver
+dado causa.
+
+Não havendo obras publicas, em que possa ser admittido a trabalhar por
+jornal, será condemnado a prisão com trabalho, por todo o tempo que
+faltar para completar o do seu contrato: não podendo todavia a
+condemnação exceder a dois annos.
+
+ART. 9.º--O locador, que, sem justa causa, se despedir, ou ausentar
+antes de completar o tempo do contrato, será preso onde quer que fôr
+achado, e não será solto emquanto não pagar em dobro tudo quanto dever
+ao locatario, com abatimento das soldadas vencidas: se não tiver com que
+pagar, servirá ao locatario de graça todo o tempo que faltar para o
+complemento do contrato. Se tornar a ausentar-se será preso e condemnado
+na conformidade do artigo antecedente.
+
+ART. 10.º--Será causa justa para rescisão do contrato por parte do
+locador:
+
+1.º Faltando o locatario ao cumprimento das condições estipuladas no
+contrato;
+
+2.º Se o mesmo fizer algum ferimento na pessoa do locador, ou o injuriar
+na honra de sua mulher, filhos ou pessoa de sua familia;
+
+3.º Exigindo o locatario, do locador, serviços não comprehendidos no
+contrato.
+
+Rescindindo-se o contrato por alguma das tres sobreditas causas, o
+locador não será obrigado a pagar ao locatario qualquer quantia de que
+possa ser-lhe devedor.
+
+ART. 11.º--O locatario, findo o tempo do contrato, ou antes
+rescindindo-se este por justa causa, é obrigado a dar ao locador um
+attestado de que está quite do seu serviço; se recusar passal-o será
+compellido a fazel-o pelo juiz de paz do districto. A falta d'este
+titulo será rasão sufficiente para presumir-se de que o locador se
+ausentou indevidamente.
+
+ART. 12.º--Toda a pessoa que admittir, ou consentir em sua casa,
+fazendas ou estabelecimentos, algum estrangeiro, obrigado a outrem por
+contrato de locação de serviços, pagará ao locatario o dobro do que o
+locador lhe dever, e não será admittido a allegar qualquer defeza em
+juizo, sem depositar a quantia a que fica obrigado, competindo-lhe o
+direito de havel-a do locador.
+
+ART. 13.º--Se alguem alliciar para si indirectamente, ou por interposta
+pessoa, algum estrangeiro obrigado a outrem por contrato de locação de
+serviços, pagará ao locatario o dobro do que o locador lhe fôr devedor,
+com todas as despezas e custas a que tiver dado causa; não sendo
+admittido em juizo a allegar sua defeza sem deposito. Se não depositar,
+e não tiver bens, será logo preso e condemnado a trabalhar nas obras
+publicas por todo o tempo que fôr necessario, até satisfazer ao
+locatario com o producto liquido dos seus jornaes. Não havendo obras
+publicas em que possa ser empregado a jornal, será condemnado a prisão
+com trabalho por dois mezes a um anno.
+
+Os que alliciarem para outrem, serão condemnados a prisão com trabalho,
+por todo o tempo que faltar para cumprimento do contrato do alliciado,
+com tanto porém que a condemnação nunca seja por menos de seis mezes,
+nem exceda a dois annos.
+
+ART. 14.º--O conhecimento de todas as acções derivadas dos contratos de
+locação de serviços, celebrados na conformidade da presente lei, será da
+privativa competencia dos juizes de paz do fôro do locatario, que as
+decidirão summariamente em audiencia geral, ou particular para o caso,
+sem outra fórma regular de processo, que não seja a indispensavelmente
+necessaria para que as partes possam allegar, e provar em termo breve o
+seu direito; admittindo a decisão por arbitros na sua presença, quando
+alguma das partes a requerer, ou elles a julgarem necessaria por não
+serem liquidas as provas.
+
+ART. 15.º--Das sentenças dos juizes de paz haverá unicamente recurso de
+appellação para o juiz de direito respectivo. Onde houver mais de um
+juiz de direito, o recurso será para o da primeira vara, e na falta
+d'este para o da segunda, e successivamente para os que se seguirem.
+
+O de revista só terá logar n'aquelles casos, em que os reus forem
+condemnados a trabalhos nas obras publicas para indemnisação dos
+locatarios, ou a prisão com trabalho.
+
+ART. 16.º--Nenhuma acção derivada de locação de serviços será admittida
+em juizo, se não fôr logo acompanhada do titulo do contrato. Se fôr de
+petição de soldadas, o locatario não será ouvido, sem que tenha
+depositado a quantia pedida, a qual todavia não será entregue ao
+locador, ainda mesmo que preste fiança, senão depois de sentença passada
+em julgado.
+
+ART. 17.º--Ficam revogadas as leis em contrario.
+
+Mando portanto a todas as auctoridades, a quem o conhecimento e execução
+da referida lei pertencer, que a cumpram e façam cumprir e guardar tão
+inteiramente como n'ella se contém. O secretario d'estado dos negocios
+da justiça, encarregado interinamente dos do imperio, a faça imprimir,
+publicar e correr. Dada no palacio do Rio de Janeiro, em 11 de outubro
+de 1837, 16.º da independencia do imperio.--_Pedro de Araujo
+Lima_--_Bernardo Pereira de Vasconcellos_.
+
+
+
+
+N.º 5
+
+
+Não podem ir n'este logar as cartas que publicámos no _Jornal da Noite_;
+porque a questão que alli tratámos está pendente ainda do tribunal.
+Brevemente as publicaremos em opusculo ou nas notas ao drama os
+_Aventureiros_, visto que parte do assumpto das mesmas são a base de um
+episodio que no mesmo drama romantisámos.
+
+
+
+
+N.º 6
+
+
+Portaria-circular de 10 de agosto de 1870
+
+Sua magestade El-Rei viu o officio do governador civil de Lisboa, de 12
+de julho ultimo, acompanhando as informações do delegado de policia do
+porto de Lisboa e differentes documentos com relação ás transgressões
+dos preceitos da lei de 20 de julho de 1855, que se dizem praticadas por
+José Maria Gavião Peixoto.
+
+E sendo-lhe tambem presentes os requerimentos em que o referido José
+Maria Gavião Peixoto pretende mostrar, que a rejeição no governo civil
+dos contratos por elle celebrados com subditos portuguezes por serviços
+de locação, não só é injusta, mas ainda prejudicial aos seus interesses:
+
+Houve por bem mandar declarar ao governador civil que não ha motivo
+sufficiente para rejeitar os contratos celebrados nos termos dos que
+remetteu por copia no seu indicado officio, pois que n'esses documentos
+se acham em geral satisfeitas as prescripções das leis e regulamentos de
+policia, e nos pontos em que d'elles se afastam, não se contrariam o
+intuito das leis represivas da emigração; que cumpre ter muito em vista,
+que a pretexto de fiscalisação dos contratos e da proteção aos
+contratados se não tolha a liberdade individual garantida pelas leis de
+cada um poder dispor de sua pessoa e bens conforme lhe aprouver; e que
+do rigor exagerado na fiscalisação póde resultar o que os factos acabam
+de mostrar, o empenho e cuidado de illudir a lei e os regulamentos
+policiaes, fazendo-se passar como simples passageiros ou emigrantes os
+que na realidade são contratados, circumstancias estas que nem sempre
+será facil descobrir, porque nem todos os contratados terão a
+sinceridade de confessar a transgressão como succedeu com os individuos
+que se dirigiam para o Brazil no vapor _Talisman_, que foram detidos pelo
+delegado de policia do porto de Lisboa; e finalmente, que sendo de
+reconhecida conveniencia que o governo saiba por informações officiaes
+quem sejam os proprietarios no imperio do Brazil que melhor cumpram os
+seus contratos e mais vantagens offereçam aos colonos, a fim de se usar
+de mais ou menos rigor, segundo as informações e circumstancias
+aconselharem, por este ministerio se vae solicitar do dos negocios
+estrangeiros a expedição das ordens necessarias aos agentes consulares
+no referido imperio, a fim de prestarem por esta secretaria informações
+periodicas e escrupulosas sobre este importante assumpto.
+
+
+Paço, em 10 de agosto de 1870.==_José Dias Ferreira._
+
+
+
+
+N.º 7
+
+
+«_Cidade de Goyanna._--Consta que nos dias 1 e 2 do corrente fôra
+distribuido na cidade de Goyanna um manifesto chamando os goyannenses ás
+armas, para expellirem os subditos portuguezes alli domiciliados.»
+
+ (Redacção do _Jornal do Recife_.)
+
+.........................................................................
+
+«É assombroso o caracter de que se revestem os negocios da Goyanna
+contra os portuguezes ali estabelecidos. Já não é o cacête, nem o
+punhal, nem o chumbo, nem a garrafa as armas d'estes reis que tentam,
+procurando por este motivo, saquear os seus estabelecimentos, são ainda
+mais incendiarios, incendiarios sim, porque assim o fizeram no
+estabelecimento do portuguez Antonio Garcia, trazendo d'este modo a
+perturbação e a confusão ao seio das familias.
+
+«Tudo annuncia funestas consequencias e estes brazileiros, vis algozes
+da honra e esbanjadores da fortuna alheia, nem ao menos respeitam as
+suas patricias, a quem esses portuguezes juraram perante o altar de Deus
+ser seus esposos, nem aos filhos d'estes, brazileiros legitimos,
+querendo fazer de seus esposos e paes, victimas da mais horrenda
+atrocidade.
+
+«Em breve armarão na praça publica o patibulo para onde, se o governo
+não der promptamente energicas providencias, têem de subir os pacatos
+portuguezes ali residentes, tornando-se isto delicias para os seus
+inimigos.
+
+«E o governo dirá, por mais que tenha sabido: Não tive noticias.
+
+«Ha bem pouco, foram pronunciados os auctores de taes attentados e estes
+mesmos que se acham foragidos cruzam as ruas ao meio dia em ponto,
+porque assim o governo quer.
+
+«O proprio jornal _Democrata_, que d'antes defendia a causa portugueza,
+hoje á imposição de homens a quem o povo considera como chefes d'estes
+motins, se converteu em pasquim, para, dilacerando as vestes da deusa de
+Guttemberg, injuriar aos portuguezes.
+
+«Mizeria do Brazil! O aprecie o paíz estrangeiro.
+
+«Hoje chega-nos a noticia de que nos dias 1 e 2 d'este mez soltaram
+fogo; distribuiram um manifesto, chamando os goyannenses ás armas para
+expellir os portuguezes, querendo repetir as barbaras scenas de 1872.
+
+«Triste estado!
+
+«Por ora ficaremos por aqui.»
+
+ _Um amigo da familia._
+
+(No mesmo numero do _Jornal do Recife_.)
+
+
+
+
+QUESTÕES DO PARÁ
+
+(1875)
+
+CRITICA
+
+
+DIARIO ILLUSTRADO
+
+«O nosso amigo o sr. D. A. Gomes Pércheiro, moço intelligentissimo,
+acaba de chegar do Pará e vae, como testemunha presencial dos ultimos
+acontecimentos que alli se têem passado, publicar um livro intitulado
+_Questões do Pará_, que deve lançar muita luz sobre este assumpto, como
+póde ver-se dos seguintes capitulos de que o livro se compõe:
+
+Verdades da Agencia Americana, sobre os acontecimentos do Pará em
+1874.--Prova-se que o conego Manuel José de Sequeira Mendes é
+tribuno.--A educação dos paraenses.--Verdades amargas sobre a
+educação.--Os tribunaes do Pará.--Como são julgados os assassinos dos
+portuguezes.--O _Diario de Belem_.--O chefe de policia do Pará.--A
+religião dos paraenses.--A maçonaria.--O funccionalismo publico do
+Pará.--A salubridade e os medicos do Pará.--Como os brazileiros tratam
+os colonos agricultores.
+
+_Apendice_:--Relatorio do chefe de policia sobre os assassinatos de
+Jurupary.--Inquerito das testemunhas.--Pronuncia dos assassinos dos
+portuguezes.
+
+Acabamos de assistir á leitura d'este importantissimo trabalho e podemos
+assegurar ao auctor que a sua publicação ha de ter um exito
+felicissimo.»
+
+
+(_13 de abril._)
+
+
+«A sociedade compõe-se, na sua maxima parte, de pobretões. É um
+principio incontestavel, que eu quizera que não fosse o fim dos meus
+amigos.
+
+E os pobretões podem abrigar n'alma tantos desejos como os ricassos.
+
+Ha só um ponto em que necessariamente divergem d'aquelles. Se, desde que
+Horacio versejou, sabemos que ninguem está contente com a sua sorte, o
+ponto de divergencia salta a todos os olhos: o ricasso deseja soltar-se
+da riqueza; o pobretão deseja prender-se n'ella.
+
+Outro gallo cantára a todos se _não ter onde cahir morto_ assegurasse a
+immortalidade; porém não ha tal; pódem todos não ter onde cahir mortos,
+mas para esse fim, que é em verdade fim, o municipio não nega um pedaço
+de rua, o amigo não recusa uma nesga de quintal, e o senhorio não furta
+quatro taboas do sobrado que arrendou.
+
+Mas é sem duvida triste que um ser pensador venha ao mundo sem mais
+propriedade do que o seu nariz.
+
+E louvor merece portanto qualquer esforço que elle empregue para alargar
+essa propriedade; o que não quer dizer--alargar as ventas.
+
+Quando alguem pensa em empregar esse esforço, passa-lhe diante dos
+olhos, em exhibição seductora, uma ala de sujeitos que estiveram alguns
+annos no Brazil e trouxeram de lá mundos e fundos.
+
+Está logo despertado o desejo de partir para as terras de Santa Cruz.
+
+E o homem embarca.
+
+Diante está uma rota de 1:500 leguas, não é verdade? Embora.
+
+O navio que o conduz abalrôa com outro, a meio caminho; e o viajante tem
+a sorte da faca de matto do sr. Raphael Zacharias da Costa. Tambem aqui
+ha uma differença: as companhias de seguros deram pela faca 31:500$000
+réis e não darão 30 réis pelo ex-viajante, que só poderá tornar a fazer
+figura em algum quadro de peça magica, ao lado de conchas e buzios. Nem
+se lhe póde desejar «a terra lhe seja leve»!
+
+Não abalrôa o navio com outro, mas bate em um rochedo, e as
+consequencias são as mesmas.
+
+Não succede nem uma nem outra coisa, mas um temporal varre o homem da
+tolda da embarcação, e o resultado continúa a ser o mesmo. Só se alguma
+baleia tiver a condescendencia que teve no Mediterraneo a de Jonas, e
+lhe facultar o bandulho para o transportar durante tres dias; ou algum
+golfinho tiver a amabilidade de o levar ás cabritas como succedeu a
+Melicerto nos mares de Corintho.
+
+Vencem-se porém todos esses perigos, e o homem chega são como um pero ás
+praias do novo mundo, que diga-se a verdade, é mais velho do que todos
+nós.
+
+O espectaculo é para embasbacar. A natureza sorri. Ciciam as florestas.
+Os papagaios seduzem-nos com as suas variegadas côres. E as araras!...
+
+O nosso ambicioso desembarca.
+
+Trata elle da vida; ganha o dobro, o triplo, o quadrupulo do que podia
+ganhar na Europa; e dispõe-se a amontoar dinheiro sobre dinheiro.
+
+O peior é que todos os que vivem têem necessidades. O estomago é
+imperativo; e a pelle não lhe fica atraz. Aquelle manda que o encham,
+não com o pomo da arvore da sciencia do bem e do mal, mas com um bife. A
+pelle determina que a tapem, não com a folha da figueira, mas com um
+casaco. E no Brazil todas as cousas tem um preço exagerado: exemplo--uma
+barbeadella 10$000 réis, um biscouto 10$000 réis, um cochicho 10$000
+réis. Não ha preço inferior. Este é o minimo, os outros são multiplos de
+10$000 réis.
+
+Chega um dia e com o dia chega uma febre. Ali tudo tem côr; e essa febre
+é amarella. E era uma vez um homem.
+
+Os castellos de fortuna baquearam. Os sonhos de riqueza abalaram.
+
+Succede com o arrojo emprehendedor o que succedeu, mal comparado, com
+certo commerciante de ovos.
+
+Estava elle sentado no chão, tendo junto de si um cesto carregado de
+exemplares do genero do seu commercio. Phantasiava, e dizia: «Vou vender
+estes ovos e com o producto d'elles compro isto; duplico. Vendo depois
+isto e compro aquillo; quadruplico. Vendo depois aquillo e compro
+aquell'outro; octoplico o capital... Em tantos annos estou rico, tenho
+um grande rendimento, moro em palacio, ando de carruagem, recebo
+zumbaias de toda a gente, eu quero lá ouvir mais fallar em ovos!» Na
+força do seu enthusiasmo, e no excesso do seu desprezo pelos ovos dá um
+encontrão no cesto, e lá se vae o alicerce da sua futura grandeza! Nem
+poude aproveital-o em _omelette_, porque não tinha lume e frigideira á
+mão.
+
+Mas consegue o pobre diabo, que foi tentar fortuna para a America,
+resistir á febre amarella e ás febres de outras côres; e, com muitos
+trabalhos, muitos sacrificios, muitas privações, chega a augmentar o seu
+cabedal? Está do mesmo modo perdido.
+
+Se os fados o conduziram á provincia do Pará, atiram-lhe com os diplomas
+de _marinheiro_, _galego_, _bicudo_, e _pé de boi_.
+
+Nas outras provincias é muito de suppôr que não haja menos liberalidade
+na concessão d'estas mercês.
+
+Um livro intitulado _Questões do Pará_, publicado ha pouco pelo sr.
+Gomes Pércheiro, instrue muito a este respeito.
+
+Ao stygma que se julga lançar nos portuguezes com aquelles nomes,
+addicionam-se a nenhuma segurança da vida de cada um, a falta de
+protecção das leis, e a indifferença dos poderes publicos para tudo o
+que é portuguez.
+
+Esquecem ali que é o nosso sangue que lhes gira nas veias!
+
+No Pará, ao sopro pestilento da _Tribuna_, movem-se os braços dos
+assassinos e cravam o punhal no coração do artista honrado e do
+negociante laborioso, que teve o seu berço em Portugal e foi áquellas
+paragens contribuir para o progresso e engrandecimento do imperio
+brazileiro!
+
+E são de individuos que constituem a força publica, são de soldados, as
+mais das vezes esses braços.
+
+É ali espancado um cidadão portuguez por cousa nenhuma.
+
+Não ha muito que um logista esteve ás portas da morte, porque não
+satisfez a correr a um soldado a exigencia de um phosphoro para acender
+o cigarro.
+
+E mata-se um europeu no Pará por qualquer cousa.
+
+Ha tempos appareceu afogado em um rio um portuguez por nome Antonio. Não
+se averiguou convenientemente a causa da sua morte. Houve entretanto
+processo e o juiz d'elle saiu-se com a seguinte sentença:
+
+«Sendo a sentença do infeliz portuguez Antonio dada por um juiz superior
+a todos os juizes, nenhum recurso existe mais; e por nada mais poder
+fazer, condemno a todos que trabalharam no presente processo a pagar as
+custas em _Padre Nossos_ e _Ave Marias_ por alma do finado, entrando
+n'este numero eu, que já resei o meu, etc.»
+
+O governo do imperio deve olhar seriamente por este estado de cousas,
+para que se não torne a dizer, como a respeito do Pará disse o jornal
+francez a _Liberté_:--é necessario que a Europa volte a civilisar
+aquella parte do Brazil.
+
+Á vista do exposto, vamos para o Brazil?
+
+Os que tiverem essa tentação, devem, antes de partir, lêr o livro do sr.
+Gomes Pércheiro, que dá muito ensinamento.
+
+E se, depois de o lerem, não tiverem forças para fazer cruzes á
+tentação, sua alma, sua palma!
+
+Podem ainda ter uma esperança--voltar á patria embalsamados.
+
+ GASTÃO DA FONSECA
+
+(_Folhetim de 9 de junho de 1875_).
+
+ + + + + + + + + + +
+
+
+JORNAL DO PORTO
+
+Já saiu á luz o livro do sr. Gomes Pércheiro intitulado _Questões do
+Pará_, que ha tempos lhes annunciei.
+
+É um livro valioso para o conhecimento da importante questão de que se
+occupa. Não é uma obra litteraria, e para o não ser, bastava o escassez
+do tempo em que foi escripta, visto que o auctor tinha mais por empenho
+esclarecer a questão do que primar pelo estylo.
+
+Comtudo estão colligidos esclarecimentos muito dignos de ser conhecidos
+e estudados, e os que teem a peito saber a verdade dos factos deverão
+percorrer aquellas paginas, escriptas uma ou outra vez com paixão, mas
+encerrando muitas informações verdadeiras e interessantes.
+
+
+(_8 de maio_--_do correspondente_).
+
+
+Eis o titulo de um livro saído ultimamente dos prelos lisbonenses e do
+qual é auctor o sr. Domingos Gomes Pércheiro.
+
+N'este livro procura o sr. Gomes Pércheiro narrar singela e
+despretenciosamente os factos ainda não mui remotos, occorridos na
+provincia do Pará e estigmatisados pela imprensa séria e imparcial no
+Brasil e Portugal.
+
+O sr. Pércheiro, na sua qualidade de testemunha occular de muitos dos
+factos compendiados no seu livro, adduz documentos e procura
+comproval-os com transcripções feitas de varios periodicos paraenses.
+Derrama por este modo muita luz sobre tão deploraveis occorrencias,
+tornando-se por essa circunstancia muito interessante a sua leitura.
+
+Precede o citado livro uma extensa carta do sr. Ferreira Lobo, escriptor
+lisbonense.
+
+
+(_2 de junho_).
+
+ + + + + + + + + + +
+
+
+DEMOCRACIA
+
+Tem tido grande extracção o livro do sr. Domingos Gomes Pércheiro ácerca
+das questões do Pará.
+
+De facto, n'aquelle excellente livro repleto de muitos conhecimentos e
+de considerações do mais alto interesse social, a questão do Pará está
+perfeitamente elucidada sob todos os pontos de vista.
+
+Quem lêr o livro ficará sabedor de todas as circunstancias que
+imprimiram e ainda estão imprimindo n'aquella questão um caracter de
+generalidade, que muito interessa, attendendo a que a colonia portugueza
+no Brazil é não só a mais numerosa, mas a ella se prendem os destinos e
+o bem estar de muitas familias e commercio de Portugal.
+
+
+(_24 de junho_).
+
+ + + + + + + + + + +
+
+
+CAMPEÃO DAS PROVINCIAS
+
+Esteve ante-hontem n'esta cidade, vindo do Porto em regresso para Lisboa
+o sr. D. A. Gomes Pércheiro que fôra no Pará director da Agencia
+Americana, que presenceara ali todos os attentados de que foram victimas
+os portuguezes, e que muito conhecedor das circunstancias actuaes do
+imperio, procura desviar d'ali a nossa emigração procurando encaminhal-a
+para a nova Africa, manancial riquissimo de valiosos productos, mas
+descurado completamente do auxilio e dos esforços dos governos.
+
+O serviço que o sr. Pércheiro está fazendo ao paiz é muito valioso, e
+ninguem haverá ahi que o não considere devidamente. Sobre a obra do sr.
+Pércheiro--_Questões do Pará_, publicaremos dentro de pouco o nosso
+juizo.
+
+
+(_2 de junho_).
+
+
+Com esta epigraphe publicou o sr. D. A. Gomes Pércheiro um livro,
+narrando os acontecimentos do Pará, e attribuindo-os em grande parte á
+inacção e desmazello dos governos portuguez e brazileiro. Nota o auctor
+que é ainda grave o estado da provincia, e que urge acudir-lhe com os
+antidotos aconselhados pela experiencia, para que a enfermidade não
+ganhe forças e não seja depois impossivel obstar a conflagração geral,
+que ali ameaça rebentar.
+
+O sr. Pércheiro não faz só considerações sobre o flagello que assola o
+Pará. Não se basea em rumores vagos. Não architectou hypotheses devidas
+á sua imaginação de portuguez amante do seu paiz. Fez mais. Exhibiu
+documentos officiaes de grande valia, e mostrou com a imprensa séria do
+Brazil, que se senão oppozer um dique á onda das vinganças que devasta
+aquella parte do imperio, os portuguezes terão de evacuar o territorio,
+onde exercem uma actividade proveitosa para a colonia e para a nação
+brazileira, rompendo antigas ligações, e cavando um abysmo infranqueavel
+entre dois povos, que deviam estremecer-se como irmãos. É que a cupidez
+e o desvario vão accendendo no peito da escoria as chama de Cain.
+
+Teve o sr. Pércheiro uma posição difinida no Pará. Foi ali o encarregado
+da _Agencia Americana Telegraphica_ encerrada por haver communicado para
+a Europa as occorrencias que se davam na provincia, embora a verdade dos
+factos não podesse lisongear os poderes publicos superiores de Portugal
+e do Brazil. É portanto o seu depoimento auctorisado, por que presenceou
+uma parte dos acontecimentos que a imprensa portuguesa registrou com
+entranhado sentimento, ao reclamar dos dois governos providencias
+energicas, que pozessem cobro ao morticinio de nossos compatriotas,
+verificado a mais de duas mil leguas de distancia.
+
+Foi portanto o sr. Pércheiro testemunha presencial de bastantes factos,
+que o levaram fatalmente ás conclusões que se conteem na sua excellente
+publicação, que nós aqui mencionamos como um titulo de capacidade para o
+auctor, que foi para o Brazil a fim de ganhar fortuna, e que regressou á
+patria com a alma cheia de nobre indignação, mas sem ter logrado
+realisar o seu esperançoso intento.
+
+Houve no Pará um caracter grave e amante da ordem, que se propunha a
+conter os discolos e a trazel-os a bom caminho. Desejava porém que o
+governo o auctorisasse a usar de poderes descripcionarios, que elle
+promettia temperar, com a moderação inherente aos seus habitos e ás
+faculdades do cargo que exercia. Foi o dr. Pedro Vicente d'Azevedo,
+antigo presidente da provincia, quem dirigiu ao governo geral o seguinte
+telegramma:
+
+«Os negocios da _Tribuna_ aggravam-se; posso acabar este estado de
+coisas se me dá _carta branca_. Serei prudente. Espero resposta hoje.»
+
+Pois este convite directo promettendo esmagar a conspiração tenebrosa
+urdida contra os que honradamente trabalham teve a resposta que se
+segue:
+
+«Proceda dentro dos _limites da lei_.»
+
+Mas a lei era letra morta no Pará. Os assassinos reuniam publicamente
+contra os portuguezes inermes, porque os nossos compatriotas exerciam o
+commercio, e não se desviavam do trafego honrado, por o qual tinham
+abandonado a patria e a familia. E como a sua applicação era mais
+proveitosa que a dos naturaes da provincia, reunia-se a ralé da
+população, não para exceder o estrangeiro em actividade, não estimulada
+pelo exemplo, mas para cevar paixões ignobeis, para dar a morte aos que
+se lhes avantajavam na preserverança de suadas canseiras!
+
+Assim o governo geral quebrava a vara do poder nas mãos do seu agente,
+ordenando-lhe que se houvesse com legalidade, quando para salvar a gente
+séria, a vida e a propriedade de pessoas respeitaveis, era mister
+declarar a provincia em estado de sitio! Não comprehendemos como n'um
+caso desesperado o poder central senão abalançou aos meios heroicos,
+indicados pelas circunstancias. Teria expurgado aquelle territorio dos
+vandalos que o infestam, e teria provado á Europa, que no Brazil se
+conhecem e applicam as leis da verdadeira hospitalidade.
+
+(_5 de junho._)
+
+.........................................................................
+
+Recordando as _lindezas_ e importancias da minha terra natal, sahe-me
+dos bicos da penna, o nome de um livro, e o nome do seu auctor que este
+solo viu nascer e acalentou. O livro é: _Questões do Pará_; o nome do
+seu auctor, bem conhecido, escusava-o a sua reputação; mas orgulhoso das
+glorias da minha terra não desejo omittil-o:
+
+Domingos Antonio Gomes Pércheiro.
+
+Se estas pobres linhas, sem pertenção a escripto, lhe chegarem ás mãos,
+peço venia para que a sua modestia me perdôe e consinta que eu apresente
+o meu parecer sobre o seu livro. O meu parecer humilde, como humilde é
+quem o faz. _Questões do Pará_ é um livro bem raro, que falla e defende
+a patria; não trata de frivolidades, não faz grimpa de philosophias, não
+ostenta empoladas utopias, molestia de que a nossa literatura moderna
+está contagiada. Occupa-se de Portugal e de seu irmão o Brazil.
+Individualisa-se e soffre com as nossas desgraças.
+
+Historia essas scenas de canibalismo americano, contra os desgraçados
+portuguezes, que, tendo em vista o trabalho santo, vão procurar uma vida
+n'aquellas plagas inhospitas. Indigna-se contra taes horrores, e
+reverbera então o latego sobre os novos Cains.
+
+É um livro verdadeiro, um auxilio para a historia contemporanea.
+
+É um pregão que fará convergir a indignação dos povos cultos contra taes
+selvagerias. Uma consolação para os desgraçados portuguezes que ainda
+luctam com o clima, insuperaveis difficuldades e guerra dos brazileiros.
+Não tem arrendados de estylo, e menos ainda bellezas poeticas, porque
+lh'as não consentiu a brevidade, nem a gravidade do assumpto. Digne-se o
+distincto auctor acceitar os meus emboras e felicitações, que, sendo
+verdadeiras, só peccam pela pequenez do nome que assigna.
+
+.........................................................................
+
+(3-5-76)
+
+ _J. Martins M. da Silva._
+
+ + + + + + + + + + +
+
+
+JORNAL DA NOITE
+
+Hontem démos noticia do livro publicado pelo prelado da diocese do Pará,
+e por o não termos podido ler ainda, só referimos o que no prefacio
+escrevera o reverendo auctor. Hoje temos de fazer outro tanto com o
+livro do sr. Pércheiro, cujo texto nos é desconhecido. Quanto sabemos a
+respeito d'elle, o aprendemos na carta do sr. Ferreira Lobo que precede
+o livro.
+
+O volume do sr. Pércheiro é offerecido aos seus illudidos compatriotas
+que vêem no Brazil uma nova terra da promissão. Mais nada. Esta
+dedicatoria só valle um livro porque está recommendando aos mancebos o
+trabalho na patria onde a remuneração poderá ser modesta, mas é perto do
+lar domestico, em plena liberdade, com a benevolencia dos nossos
+affectuosos costumes a affoitar o animo, sem epidemias frequentes, e
+sempre com a certesa de não morrer de fome, porque não fallece ninguem
+entre portuguezes, seja natural ou estranho.
+
+E depois em Portugal tambem os humildes enriquecem. Ha exemplos e
+numerosos. Muitos d'esses negociantes, senhores de estabelecimentos
+consideraveis, partiram da terra pobrissimos, foram caixeiros de outros
+commerciantes, e pelo trabalho é que mereceram consideração, pelo zelo
+estima, pela probidade respeito e auxilio de toda a gente. Depois veiu a
+riqueza, isto é, a cupula do edificio.
+
+Se na patria havia emprego para a actividade de muita gente, d'aqui por
+diante ainda deve ser mais facil encontrar meio de adquirir fortuna.
+Basta observar a abundancia de capitaes, o seu movimento e direcção, a
+grande quantidade de emprezas que se vão formando por cooperação e
+interesse de todas as classes, e as facilidades de communicação por mar
+e terra, para transporte de pessoas e de mercadorias, ou para
+transmissão de ordens e de avisos...
+
+Emfim... Mas o nosso proposito não é escrever ácerca da emigração.
+Desviou-nos para este assumpto interessantissimo a dedicatoria do livro.
+Desculpe o leitor a digressão. Ha, porém, coisas que seria conveniente
+dizer a todos e repetil-as quotidianamente.
+
+O sr. Pércheiro, segundo informa o esmerado escriptor já referido, foi
+ha tres annos para o Pará, e voltou ao cabo d'elles de cabeça levantada
+e mãos vasias. Tendo, porém, observado como por lá eram tratados os
+portuguezes, ergueu n'este livro um brado de indignação contra a
+prepotencia de que são victima os nossos irmãos do Brazil.
+
+Accrescenta o sr. Ferreira Lobo, nosso estimado collega na imprensa, que
+este volume não é primor litterario; que o proprio auctor lhe conhece os
+defeitos de fórma; que foi escripto na viagem e sem auxilio de livros, e
+por isso saiu agitado, revolto e caprichoso como as vagas que baloiçavam
+a mesa sobre a qual foi delineado; que finalmente foi inspirado por
+sentimento de patriotismo, de independencia, de dedicação, e de coragem.
+
+As questões do Pará que dão o titulo ao livro, não são as mesmas que
+inspiraram o livro do prelado d'aquella diocese. Referem-se
+principalmente á luta entre portuguezes e brazileiros, á campanha do
+commercio a retalho, mas, segundo vimos folheando o volume, não deixou
+de alludir a essas discordias o auctor. E assim devia ser porque as
+questões entre o bispo e o governo do Brazil tem ligação com o odio de
+certos brazileiros aos portuguezes.
+
+Vamos ler com muita curiosidade a obra do sr. Pércheiro, e
+agradecemos-lhe o favor de offerecer um volume á nossa redacção.
+
+
+(_12 de maio._)
+
+ + + + + + + + + + +
+
+
+JORNAL DO COMMERCIO
+
+Por todos os portuguezes deveria ser lido este livro, a proposito do que
+fez o _Jornal da Noite_ as seguintes sensatas ponderações: (Transcreve o
+artigo do _Jornal da Noite_.)
+
+
+(_14 de maio._)
+
+ + + + + + + + + + +
+
+O livro subordinado a esta epigraphe, devido á pena do sr. Gomes
+Pércheiro, tem tido extraordinaria extracção. Não podia deixar de assim
+ser, porque é um trabalho utilissimo e de muito ensinamento para
+aquelles que teimam, com prejuiso para as nossas colonias, em ver no
+Brazil actual, exausto e quasi cadaverico, o antigo emporio de riquezas
+agricolas, que era a alma do commercio e da industria ainda nascente, e
+que á porfia pareciam querer fazer do imperio o maior collosso da
+civilisação americana.
+
+A lei que no Brazil estabelecera a egualdade de nascimento, fazendo de
+todos os homens uma só familia, surtiu optimos effeitos moraes no mundo
+liberal, por ver-se que uma nação ainda adolescente comprehendia já a
+sublimidade da idéa que começára a robustecer-se com as glorias obtidas
+no Paraguay. A carta da emancipação dos escravos veiu dar ao Brazil
+facil accesso para sentar-se á mesa do progresso, junto das nações mais
+velhas que lhe tinham sido mãe.
+
+Mas depois d'isto faltava fazer muito ainda. Era preciso não adormecer
+ao som dos hymnos inebriantes das glorias passadas; era preciso que
+governantes e governados estudassem pelo seu passado qual havia de ser o
+futuro do seu imperio. Era preciso que esse immenso territorio fosse
+devastado, permitta-se-nos a expressão, pela immensa tempestade do
+progresso, que se lhe abeirava, para dar-lhe o seu quinhão civilisador;
+e que leis protectoras se fizessem com o fim de dar livre accesso ao
+explorador, que mais tarde havia de ceifar as suas mattas insondaveis e
+poeticas, mas cuja poesia fará retrogradar o Brazil para os seus
+primitivos tempos. Era preciso substituir no trabalho esse ente, que
+ainda não estava educado para ser livre, mas que uma idéa humana fizera
+egual aos outros homens; e não deixar oxidar a roçadoura, a enxada e a
+pá, e amortecer os animos febris pelo desbravamento das terras incultas,
+que, como estão, não podem servir de engrandecimento para o imperio. Era
+preciso que governos e governados, de norte a sul, attraissem, com seus
+bons tratos o estrangeiro ávido pelas riquezas do seu feracissimo solo.
+
+Leis, filhas de um aturado estudo philosophico, sobre as condições
+religiosas do imperio, deviam ter substituido as que existem, e que não
+podem mais servir para uma sociedade nova, e muito especialmente para um
+paiz que precisa recolher em seu seio homens de todas as crenças. A
+questão religiosa, que ainda não terminou no imperio, e que tanto mal
+tem feito ao seu progresso, não teria existido.
+
+Os homens talentosos do Brazil, á similhança do que se faz nos paizes
+cansados, estudam apenas o incomprehensivel problema da politica e
+parece quererem contemporisar com o movimento jesuitico.
+
+A par d'isto retraem-se os capitaes, os colonos portuguezes, no norte do
+imperio, repatriam-se. A falta de braços, faz-se sentir. A lavoura
+definha-se; por que além da falta de braços, os terrenos limitrophes das
+povoações estão explorados e os governos não tomam a iniciativa de abrir
+tunneis, permitta-se-nos a phrase, n'essas immensas montanhas de matta
+virgem, cujos troncos seculares com sua immensa folhagem nos não deixam
+ver tão grande manancial de riquesas. As estradas que existem para o
+interior dos sertões são apenas os carreirinhos do indio, da onça, do
+veado, da paca e do tatù.
+
+No valle do Amazonas vive-se da industria extractiva. A agricultura foi
+despresada. Mas a industria extractiva vae morrer, por que os governos
+não desimpedem as immensas vias de communicação--os rios--que cortam em
+todas as direcções aquelles immensos territorios, tambem cobertos de
+plantas.
+
+Que se faz para attrair o estrangeiro? Que pensam os homens eminentes do
+Brazil?
+
+Nada vemos. E contudo, o mais simples observador nota que o grande
+imperio está passando por uma crise assustadora.
+
+Suggeriu-nos estas phrases, ao lermos o livro _Questões do Pará_, cuja
+leitura recommendamos, a idéa do engrandecimento do imperio do Brazil.
+
+
+(_26 de junho)_
+
+ + + + + + + + + + +
+
+
+JORNAL DE LISBOA
+
+É notavel este livro pela questão importantissima de que se occupa, e
+pelos esclarecimentos que presta, fundados em documentos, e nas palavras
+do auctor testemunha presenceal dos factos.
+
+Dotado de grande energia e independencia o sr. Pércheiro apresentou as
+questões do Pará como as viu e entendeu, e as suas palavras, por vezes
+duras como as verdades amargas, hão de molestar muitos dos que as lerem.
+
+O auctor trata de justificar as verdades das noticias que transmittiu
+como agente da Agencia Americana.
+
+Interessa-nos muito a questão do Pará, e sobre ella escrevemos
+modernamente o nosso pensamento n'um artigo que vimos reproduzido no
+jornal o--_Brazil_, destinado ao novo mundo.
+
+Inutil é pois repetir n'este jornal as ideias que elle publicou; d'outra
+sorte escreveriamos detidamente ácerca do livro que annunciamos, e cuja
+leitura recommendamos aos nossos leitores.
+
+Ao sr. Pércheiro agradecemos a offerta do seu livro.
+
+
+(_15 de maio_)
+
+ + + + + + + + + + +
+
+
+A TRIBUNA
+
+_Questões do Pará._--Publicou-se e acha-se á venda nas differentes
+livrarias uma brochura com o titulo _Questões do Pará_, de que é auctor
+o sr. D. A. Gomes Pércheiro.
+
+O sr. Pércheiro era o representante da _Agencia telegraphica americana_
+no Pará, e por ella foram enviados os telegrammas que nos informam dos
+assassinatos de Jurupary, e de outras occorrencias, que se lhes
+seguiram. Notaremos que, depois d'isso foi fechada a succursal d'aquella
+agencia no Pará, certamente porque o governo brazileiro entendeu ser
+mais commodo continuar a perseguição e a chacina, sem que nós, e o resto
+da Europa podessemos ser informados das façanhas da selvageria.
+
+Agora só de longe em longe, e passado tempo, nos chega noticia do que
+vae por aquella provincia brazileira.
+
+A brochura do sr. Pércheiro contem esclarecimentos minuciosos, e é um
+excellente commentario aos documentos publicados no _Livro Branco_. Logo
+se vê que o sr. Mathias de Carvalho tem carradas de razão em dar
+louvores ao governo do seu imperial compadre, pelo zelo, diligencia e
+sollicitude com que vela pela ordem publica e pela segurança dos
+portuguezes no Pará.
+
+
+(_n.º 71, de maio_)
+
+ + + + + + + + + + +
+
+
+CORRESPONDENCIA DE COIMBRA
+
+Este livro deve ser estudado e meditado. É a historia circumstanciada
+d'essas desgraçadas questões do Pará, entre portuguezes e brazileiros,
+incitados estes ao odio e á matança de nossos irmãos pelo pasquim da
+imprensa chamado _Tribuna_.
+
+Como quem de perto conhece a vida brazileira, mostra com argumentos os
+perigos da emigração, e achamos util que este livro se colloque ao lado
+dos escriptos do sr. Augusto de Carvalho que outro fim não tem senão
+desinvolver a propaganda de emigração de portuguezes para o imperio
+brazileiro.
+
+Já o dissemos e repetimos: a emigração é um acto de liberdade que
+ninguem contesta, mas impossivel no estado actual das circumstancias de
+Portugal e Brazil.
+
+O livro do sr. Pércheiro é obra de um bom coração portuguez que colloca
+ao serviço da patria e da verdade a sua voz auctorisada.
+
+
+(_16 de maio_)
+
+ + + + + + + + + + +
+
+Sabeis o que foi a America?
+
+Ha pouco mais de tres seculos era um mundo escondido pelos mares. Vivia
+entregue ás leis da natureza e em quanto a civilisação viera do oriente
+ao occidente em marcha continua, derribando e elevando, sempre
+vencedora, sempre triumphante, a America nem sequer a olhava pelo cimo
+das aguas, e nem as correntes dos mares lhe levavam os eccos alegres dos
+nossos festins ao progresso!
+
+Lá vivia, entregue ás leis dos sentidos, ao codigo do mais forçado, á
+vontade do mais prepotente.
+
+Os seus habitantes afundavam-se nas matas gigantescas, que similhavam os
+alicerces dos ceus. Tinham a quina, o café, o assucar, a canella;
+sentavam-se á sombra do cedro, do secular palisandro e da alta palmeira.
+Pesava sobre elles o mysterio das grandes florestas virgens, que fazem
+suppor maiores mysterios; encantava-os o trinado do sabiá, mas, quando
+se abeiravam das costas, não sabiam cortar um tronco de cedro, e
+atirando com o fraco lenho sobre o dorso do mar, que rugia, não sabiam
+collocar-se sobre elle, e domando as ondas, os obstaculos, a
+desesperança vir até onde, pelo menos os devia incitar a phantasia.
+
+Olhavam com medo e terror o Amazonas, e como os pomos das arvores lhe
+satisfizessem as primeiras necessidades da vida dormiam em somnolencia
+permanente os dias da existencia.
+
+A terra era fertil; os naturaes indolentes.
+
+Mas a velha Europa tinha caminhado muito. As loucuras, os gozos, os
+prazeres que a Asia lhe havia enviado como despojos da conquista pediam
+novos manciaes de oiro, novos thesouros inexgotaveis, que saciassem a
+libertinagem da matrona.
+
+A Europa já tinha arrancado perolas dos seios das ondas; sonhou com
+diamantes.
+
+E quando os sabios, curvados sobre os problemas das sciencias physicas,
+apontavam para paragens longiquas, os aventureiros lançavam-se logo a
+procurar a nova terra.
+
+O navegador chegou a ser um poeta.
+
+Faltava-lhe a sciencia, mas tinha a _inspiração_.
+
+E a inspiração bastava, e foi guiado por ella que Colombo deixou o porto
+de Palos em 3 de agosto de 1492.
+
+Pouco depois vinha Colombo depor um mundo aos pés do rei Fernando e da
+rainha Isabel.
+
+ * * * * *
+
+Os portuguezes foram tambem á conquista. O acaso impelliu Pedro Alvares
+Cabral a descobrir o Brazil, e o rei D. Manuel podia dar mais luzimento
+á corôa e mais brilhantismo ao seu reinado.
+
+Começava então o seculo XVI; e iniciava-se pelo descubrimento do Brazil
+o gigante da Reforma e da Renascença.
+
+D. Manuel não deu grande importancia ao facto: tantas eram as
+descobertas do seu reinado, que a dependencia de metade de um mundo nem
+o fazia estremecer!
+
+Mas quando as caravellas chegavam carregadas de oiro e pedrarias, e se
+buscava ahi o peculio para satisfazer ás sumptuosidades religiosas do
+rei D. João V e á sequiosidade de dinheiro da curia romana, começou a
+estremecer-se o Brazil.
+
+Praticámos o nosso dever de povos civilisados. Aquelle povo ignorante,
+que nada conhecia, mandamos-lhe atravez dos mares as nossas industrias,
+as nossas sciencias, as nossas artes.
+
+A emigração era uma cruzada abençoada. Os emigrantes iam prégar a
+religião do trabalho e a sciencia da vida do progresso. Tomaram o livro,
+e ensinaram a ler o selvagem; agarraram na enchada, e instruiram o
+natural em cavar a terra.
+
+Ensinaram-lhe a construir lanchas, e a lançal-as sobre as aguas dos
+rios.
+
+Crearam-lhe novas necessidades, mas deram-lhe meios de as satisfazer.
+
+Derribaram-lhe as choças, e edificaram-lhe habitações firmes e solidas.
+
+Ensinaram-lhe o commercio; arrotearam-lhe os terrenos; secaram-lhe os
+pantanos; duplicaram-lhe a agricultura; exploraram-lhe o minerio.
+
+Deram-lhe instituições, codigos, leis; mostraram-lhe a associação;
+prégaram-lhe a liberdade e a beneficencia.
+
+Depois fizemos a nossa primeira revolução liberal. Marchámos contra o
+despotismo e mostramos-lhe os direitos do povo em 1820.
+
+O gigante do seculo estranhou a audacia, mas temeu a força popular.
+
+Transigiu, ou por outra transigimos.
+
+Mas da liberdade conquistada fizemos participante a colonia brazilica.
+Estendemos até lá as idéas que a França nos havia ensinado, e quando em
+Ypiranga o regente soltou a primeira phrase de indepencia, quasi que
+voluntariamente lhe levantámos a tutella.
+
+Queria governar-se... Muito bem; em 1825 reconhecemos-lhe o direito,
+demos-lhe a emancipação, e um rei, filho dos soberanos portuguezes, para
+que a dirigisse.
+
+Não lhe oppozemos grandes obstaculos, nem tentamos sujeital-a pela
+força.
+
+Ficou livre, e ficámos livres; mas n'esta mutua liberdade que nós
+reconheciamos, parece que nos deviamos estreitar em amisade de irmãos,
+em desenvolvimento de interesses, em aspirações de idéas.
+
+Assim não acontece.
+
+ * * * * *
+
+O povo brazileiro declara guerra de exterminio ao povo portuguez.
+
+A indolencia teme a concorrencia da actividade; o homem perguiçoso e
+somnolento aborrece o homem trabalhador.
+
+No Pará é que se dá o combate sem treguas. O negociante, o artista, o
+industrial, o trabalhador, que vão das nossas terras, abandonando a
+patria e a familia, affrontando todos os perigos, em busca de pão,
+veem-se odiados, espesinhados e assassinados pela horda de infames, que
+querem recuar quatro seculos, voltando á selvajaria primitiva.
+
+Incita-os á vingança um pasquim jornalistico, que todos os dias manda de
+caza em caza, de animo de espirito em espirito o odio contra nossos
+irmãos.
+
+Em 1875, ainda o fanatismo de braços com o interesse incita as turbas á
+matança. Os portuguezes são os christãos novos, os judeus e os
+albigenses em que cevam rancores os parasitas e ociosos.
+
+Senhores homens da _Tribuna_: expulsae os portuguezes, como á colonia
+hebrêa faziam os reis catholicos de Hespanha. Confiscae-lhes mesmo as
+riquesas; chamae a vós as suas propriedades; roubae-lhes o commercio que
+elles souberam elevar e desenvolver, que assim tereis condignamente
+satisfeito ao fim da missão jornalistica de assalariados vendilhões.
+
+ * * * * *
+
+Os portuguezes residentes no Pará estão sujeitos ao afiado da faca
+assassina. São seguidos na sombra e mortos cobardemente nas
+encruzilhadas.
+
+É crime ser commerciante; o trabalho é um delicto. Assim o entendem os
+_tribunos_.
+
+Ganhar honradamente o pão de cada dia, é uma atrocidade; a industria é
+uma infamia; o homem que trabalha é um _gallego_.
+
+E, oh supremo desaforo! se os portuguezes se reunem em associação, os
+_tribunos_ só comprehendem as sociedades de bandidos!
+
+As portas dos nossos compatriotas são marcadas com signaes, para que o
+punhal possa entrar sem receio de errar o golpe.
+
+A justiça verga-se; é egual para os naturaes, a quem absolve os crimes:
+esmagadora, despotica e tyrannica para com o portuguez que commetteu a
+menor transgressão á lei.
+
+No seio das familias ensinam-se as creanças a odiar os filhos de
+Portugal. As imaginações infantis apresentam-se quadros horrorosos, em
+que se incute esse odio, em que elle se perpetúa sempre, e cada vez
+produzindo mais funestas consequencias e terriveis episodios.
+
+O lar é escola de malquerenças; e em vez de ensinarem aos filhos a
+veneração e o amor pelos portuguezes, que lhes conquistaram a liberdade
+e a civilisação que estão gosando, educam-nos nos principios repellentes
+da inveja e do despreso.
+
+E a colonia portugueza, laboriosa, activa, trabalhadora, soffre
+resignada todos os ataques, todas as injurias e todos os doestos.
+
+O imperio está imperturbavel, e contemporisa.
+
+ * * * * *
+
+Houve um portuguez que presenciou todos estes factos, e que os lançou em
+livro, contando-os com todas as particularidades.
+
+Foi o sr. Gomes Pércheiro, agente no Pará da _Agencia americana
+telegraphica_.
+
+É um cidadão benemerito, que não trepidou diante de obstaculos, para
+abrir os olhos aos nossos compatriotas, que, indo em procura de trabalho
+e fortuna, encontraram o punhal do assassino.
+
+Accusado o auctor d'este livro de falso e exagerado nos seus despachos
+telegraphicos, veio deffender-se á imprensa, provando á evidencia, com
+documentos incontestaveis, que não mentia ao seu dever nem faltou á
+verdade dos acontecimentos.
+
+Não fez estylo: escreveu os factos, simplesmente, e pediu sobre elles o
+_veredictum_ da opinião. Mostra-nos o que é e o que vale o Brazil na
+actualidade; desmascara muitos hypocritas e farçantes; ensina-nos o que
+representa a educação brazileira; conta-nos o que significa a sua
+justiça.
+
+É um livro bom, que todos deviam lêr, para se não deixarem possuir de
+falsas illusões e de miragens mentirosas.
+
+O portuguez não tem só a vencer a intemperie do clima; tem a luctar com
+a traição dos naturaes. Quando escapa á febre, nem sempre pode fugir ao
+punhal.
+
+Portugal não pode dar braços, porque necessita d'elles; como não pode
+prohibir que cada qual procure a região que lhe aprouver, deve persuadir
+pelo conselho e vencer pelo exemplo.
+
+O livro do sr. Gomes Pércheiro é exemplo, e bem palpitante e provativo.
+
+É a historia desinvolvida de todos os acontecimentos do Pará, de todos
+os assassinatos, roubos e torpezas da _Tribuna_.
+
+Toda a nossa imprensa se tem empenhado n'esta questão, e condemnado os
+mercenarios jornalistas que além-mar estão fazendo propaganda traiçoeira
+e vil.
+
+Aquelle farrapo de banalidades só insere calumnias e infamias contra a
+colonia portugueza, mas o livro _Questões do Pará_ vem desfazer todas
+essas calumnias, e com pleno conhecimento de facto desarma os _tribunos_
+e os que lhe pagam a escripta.
+
+O sr. Pércheiro, publicando o seu livro, prestou um bom serviço a
+Portugal, e oxalá que da sua leitura se colham os devidos resultados.
+
+ _Sergio de Castro_
+
+(_20 de junho_)
+
+ + + + + + + + + + +
+
+
+DIARIO POPULAR
+
+Este livro trata de questões em que todos nós os portuguezes somos mais
+ou menos interessados. Todos os annos vão de Portugal, seduzidos por
+pomposas promessas, e na crença de que o Brazil é um paiz onde o ouro
+anda aos pontapés, e que basta uma pessoa abaixar-se para ficar rica de
+um dia para o outro, centenas e centenas de portuguezes, deixando os
+nossos campos incultos e trocando por lucros, quasi sempre inferiores
+aos promettidos e sempre arriscados e falliveis, a modesta remuneração
+na sua patria, junto dos parentes e amigos, debaixo do ceu a cuja luz
+abriram os olhos e do meio das arvores a cuja sombra brincaram quando
+meninos. Dissipar as illusões dos credulos, abrir os olhos aos incautos,
+prevenir os desavisados, é um dos propositos que teve em vista o sr.
+Gomes Pércheiro escrevendo este livro. Sob o ponto de vista, o capitulo
+de _como os brazileiros protegem os colonos portuguezes_ é digno de ser
+lido e meditado.
+
+O livro, escripto em linguagem clara e corrente, offerece larga copia de
+esclarecimentos sobre a maneira por que são acolhidos e tratados os
+portuguezes no Pará e contém documentos mui curiosos a este e outros
+respeitos.
+
+
+(_17 de maio_).
+
+ + + + + + + + + + +
+
+
+O PAIZ
+
+Foi publicado ha poucos dias um livro em 8.º, de 272 paginas, intitulado
+_Questões do Pará_. É escripto pelo sr. D. A. Gomes Pércheiro, que viveu
+alguns annos na indicada cidade do imperio do Brazil, e precedido de uma
+carta do sr. Ferreira Lobo, contador do tribunal de contas, e auctor de
+mui importantes trabalhos em assumptos de organisação de fazenda.
+
+O livro de que nos occupamos foi escripto ao correr de penna, mas relata
+com bem vivas côres a serie de vexames por que passam os nossos
+compatriotas que a sede do ganho tem levado áquella região do Brazil.
+
+O auctor mostra o viver dos nossos patricios em todas as situações,
+sempre objecto de exploração por parte dos naturaes, que andam dominados
+do falso principio da _nacionalisação do commercio a retalho_.
+
+O portuguez, ou antes o _marinheiro_ ou o _gallego_, como ali denominam
+o filho de Portugal, é sempre o bode expiatorio nas questões de policia,
+de impostos, de administração de justiça, de contractos, etc. Prejudicar
+o portuguez por qualquer fórma é acto meritorio para os naturaes do
+Pará!
+
+Não são gratuitas as asserções do sr. Pércheiro, porquanto, no _livro
+branco_ apresentado ás côrtes, encontra-se a confirmação official de
+tudo quanto parecer exaggerado no livro de que fallamos.
+
+É conveniente que todos leiam a obra do sr. Pércheiro: muitos sonhos
+dourados hão de desvanecer-se, e as tendencias emigratorias tomarão
+outra direcção. É lastimavel que offerecendo a nossa Africa occidental
+localidades salubres, por exemplo, e bem perto, nas ilhas de Santo Antão
+e Brava, do archipelago de Cabo Verde, os nossos emigrantes despresem o
+territorio portuguez, onde encontram protecção da auctoridade, segurança
+das vidas e da propriedade e recompensa dos seus esforços, vão
+sacrificar-se do outro lado do occeano aos tratos que os proprios
+brazileiros ostensivamente condemnam, e em terras bem menos salubres que
+algumas das nossas provincias ultramarinas.
+
+É necessario desvendar os olhos d'esses infelizes, que abandonam patria
+e familia, por suppostas riquezas que se traduzem em dissabores,
+attentados pessoaes, oppressões, e, as mais das vezes, doenças cujo
+resultado se não é a morte é o soffrimento chronico.
+
+O sr. Pércheiro prestou um bom serviço com o seu livro, cuja leitura
+muito recommendamos.
+
+
+(_30 de maio_).
+
+ + + + + + + + + + +
+
+
+O PORTO
+
+_Questões do Pará_, por D. A. Gomes Pércheiro. Já no penultimo numero
+d'esta folha alludimos a este livro. A leitura forçadamente rapida a que
+procedemos arranca-nos uma doce illusão: o sr. Gomes Pércheiro
+convence-nos,--mercê de serios documentos,--de que «os nossos irmãos de
+além mar» não encontram nas terras de Santa Cruz os fraternaes carinhos,
+nem ainda a hospitalidade, que seria licito esperar de um povo a quem
+demos a mão para arrancar ás trevas da ignorancia e fazel-o compartilhar
+dos guizados, bem ou mal temperados, que hoje se servem na meza da
+Civilisação.
+
+Aos incautos por demasias de concupiscencia, que lhes sobrepujam a
+reflexão e o proprio instincto conservador, offerecemos em artigo
+especial um excerpto do livro--_A emigração para o Brazil_ a que
+alludimos e que do coração a todos recomendamos.
+
+
+(_3 de junho_).
+
+ + + + + + + + + + +
+
+
+O PRIMEIRO DE JANEIRO
+
+Com este titulo recebemos um volume, de que é auctor o sr. D. A. Gomes
+Pércheiro, com uma carta do distincto escriptor o sr. J. J. Ferreira
+Lobo.
+
+O novo livro não é obra para recreiar o espirito, mas tem a rara virtude
+de ensinar muito e dizer verdades que nenhum portuguez deveria ignorar.
+Tendo residido algum tempo no Pará, o auctor diz sem pretenção e em
+linguagem fluente de que modo os nossos compatriotas ali são tratados,
+tanto na vida particular como pelas auctoridades e perante os tribunaes.
+Cada asserção que avança, comprova-se com o testemunho de pessoas, cujos
+nomes aponta e com o extracto dos jornaes da localidade. Não é pois uma
+verrina sem base, é a exposição de factos de cuja veracidade todos se
+pódem certificar, além de que no _livro branco_ apresentado ás côrtes,
+se confirma quanto o sr. Pércheiro assevera.
+
+Os que levados pela sede do oiro, abandonam familia e patria, para se
+dirigirem áquella região, quizeramos nós que compulsassem antes o livro
+de que vimos fallando, e bem póde ser que a corrente da emigração que
+hoje toma rumo para ali, derivasse para as nossas possessões onde não
+faltam riquezas a explorar, onde a segurança individual é milhor
+garantia, e onde finalmente perante a justiça todos são portuguezes.
+
+Agradecemos o exemplar com que fomos obsequiados.
+
+
+(_2 de junho_).
+
+ + + + + + + + + + +
+
+
+A LUCTA
+
+Temos sobre a mesa um volume de 272 paginas, escripto pelo sr. Gomes
+Pércheiro, que foi agente da _Americana telegraphica_, no Pará, as quaes
+paginas são precedidas por uma introducção do sr. Ferreira Lobo, que
+felicita o auctor «pelo seu brado de indignação contra a prepotencia de
+que estão sendo victimas no Brazil os nossos irmãos pela patria».
+
+Vê-se já que se não trata de um romance, mas sim de uma questão
+importantissima para os interesses e dignidade nacional.
+
+Recommendamos a sua leitura aos que desejarem ser instruidos sobre os
+successos do Pará, resultantes de causa que ainda não cessou, e que
+encheram Portugal de receio pelos seus filhos e o mundo de horror pelos
+assassinatos e pilhagem commettida contra as leis da hospitalidade, ou
+antes contra o direito das gentes.
+
+Rogamos ao auctor que mande um exemplar á commissão de emigração; póde
+ser que ella o leia, e d'ahi lhe resulte vontade de fazer mais alguma
+coisa, se é que este _mais_ se póde applicar a quem ainda não fez nada.
+
+O livro do sr. Pércheiro tem mais outro merecimento; é mostrar o atrazo
+d'aquelles povos, a sua pouca instrucção, a sua pessima organisação
+politica e judicial, e emfim a corrupção que por lá vae n'aquelle corpo
+ainda branco, de modo que póde dizer-se fructo apodrecido antes de
+sasonado.
+
+D'estes e que taes livros desejavamos nós que se propagassem bastantes
+em Portugal, e quizeramos tambem que os srs. parochos das aldeias dessem
+d'elles lição aos povos, para lhe debellar a mania ambiciosa que os leva
+á humilhação em terra estranha.
+
+Felicitamos o sr. Pércheiro pelo bom serviço que prestou ao seu paiz.
+
+ + + + + + + + + + +
+
+
+A AURORA DE LIMA
+
+_Questões do Pará_--Precedidas de uma carta do distincto escriptor o sr.
+Ferreira Lobo. É um livro de 272 paginas, nitidamente impresso, cujo
+auctor é o sr. D. A. Gomes Pércheiro.
+
+O livro foi escripto ao correr da penna, mas relata com bem vivas côres
+a serie de vexames por que passam os nossos compatriotas residentes no
+Brazil.
+
+É digna de lér-se a obra do sr. Pércheiro.
+
+ + + + + + + + + + +
+
+
+JORNAL DE COIMBRA
+
+Quando sua magestade el-rei no seu discurso por occasião da abertura das
+camaras dizia em poucas palavras que o remedio aplicado pelo seu governo
+na questão dos insultos e maus tractamentos praticados pelos brazileiros
+nas pessoas dos nossos portuguezes fora energico e que o estado de
+coisas caminhava para melhor, ficou todo o paiz persuadido que realmente
+o governo brazileiro por instancias do nosso tractara energicamente
+d'obstar aos maus tratamentos que os nossos patricios recebiam em todo o
+paiz, particularmente no Pará.
+
+Infelizmente sua magestade, se não foi illudido pelo governo portuguez,
+foi-o de certo pelo governo brazileiro, pois que as perseguições contra
+os nossos patricios continuam, e não vemos que o procedimento do governo
+tenha evitado tão grande mal.
+
+E não são de pequena importancia os sucessos naquellas longinquas
+paragens, pois que os nossos irmãos não só se vêem oprimidos pelos
+homens de baixa esphera e pela _ralé_ da sociedade, mas os proprios
+tribunaes judiciaes mostram-se benevolos contra os assassinos dos
+portuguezes. A justiça, que n'um paiz liberal está sempre superior a
+todas as influencias mesquinhas, ali acha-se eivada d'um exclusivismo
+condemnavel, perseguindo com o maior rigôr alguns crimes practicados
+pelos portuguezes, ao passo que absolve sem o menor escrupulo os
+indigenas que matam os nossos patricios.
+
+Não são gratuitas as nossas asserções, pois que no livro do sr.
+Pércheiro encontramos os seus documentos justificativos.
+
+O clero debaixo d'uma capa hedionda, que só elle sabe envergar,
+manifesta-se inimigo terrivel dos portuguezes; e infelizmente não
+succede isso só no baixo, mas no alto clero.
+
+Os tribunaes não são de certo os que menos revelam a sanha contra os
+portuguezes. Artigos auctorisados d'alguns jornaes illustrados e que
+reconhecem esta grande perseguição manifestam claramente a sua opinião
+fazendo o parallelo entre o castigo aplicado aos delinquentes
+portuguezes e brazileiros.
+
+E d'este modo emquanto o governo portuguez descança á sombra da sua
+_popularidade_ os nossos irmãos são martyrisados no Brazil!
+
+Não fazemos extractos d'este livro, porque se os fizessemos teriamos de
+transcrevel-o todo, pois que em cada pagina se exemplificam as nossas
+asserções.
+
+Effecttivamente cada facto ali mencionado é um exemplo claro e manifesto
+do modo cruel por que os nossos patricios ali estão sendo tractados; e
+cada audiencia que tenha em mira julgar um caso qualquer em que o
+infeliz portuguez represente, é um novo escandalo de que os proprios
+brazileiros illustrados se envergonham.
+
+O sr. Pércheiro fez por tanto ao paiz um grande serviço, patenteando aos
+olhos de todos as perseguições que os portuguezes ali soffrem, por culpa
+do nosso governo, por culpa do nosso representante n'aquelle selvagem
+paiz, e por culpa do governo brazileiro que ou não se sente com força
+d'evitar os grandes malles que ainda hoje se repetem como lemos no
+_Brazil_, ou não quer acabar de vez com aquella infame montaria.
+
+Chamamos portanto mais uma vez a attenção do nosso governo para uma
+questão de tal magnitude, e esperamos que sua magestade el-rei para se
+não ver obrigado a repetir as palavras que proferiu no seu primitivo
+discurso, mas que infelizmente não foram confirmadas, será o primeiro,
+como o primeiro cidadão que é, em acabar de vez com as desgraças por que
+estão passando os nossos patricios.
+
+O livro do sr. Pércheiro é, pois um livro importantissimo e de certo fez
+um grande serviço a Portugal, publicando-o.
+
+Resta-nos agradecer em nome do paiz os grandes serviços prestados aos
+nossos irmãos, e em nome da redacção a preciosa offerta com que aquelle
+cavalheiro a acaba de brindar.
+
+
+(_8 de junho_).
+
+ + + + + + + + + + +
+
+
+TRIBUNO POPULAR
+
+Segundo vae referido na secção de livros, o sr. D. A. Gomes Pércheiro,
+agente que foi no Pará da _Agencia americana_, publicou um livro, que
+tem por titulo--_Questões do Pará_, e teve a bondade de nos offerecer um
+exemplar, que muito lhe agradecemos por vir fortalecer as opiniões
+sempre aqui manifestadas ácerca dos tristes acontecimentos do Pará.
+
+Abrimol-o e lêmol-o com a anciedade a que nenhum portuguez poderá
+furtar-se quando ouve fallar nas questões do Pará, e topa com um livro
+dedicado a este deploravel assumpto.
+
+Muito se tem escripto nos jornaes portuguezes, e o que estes não teem
+podido referir, conhecem-n'o os que lêem as folhas e correspondencias
+brazileiras. Pois tudo isso é nada, em presença do que o sr. Pércheiro
+conta no seu livro.
+
+Dos desacatos, assassinatos, roubos, insulto e outras tantas tentativas
+praticadas contra os nossos compatriotas sabemos nós e sabe toda a
+gente; que á testa d'esta cruzada selvagem se achava um jornal infame,
+tambem não era ignorado; que emfim as justiças eram conniventes ou
+impotentes contra aquelle estado, via-se pela impunidade dos criminosos,
+pela repetição dos crimes e pela emigração dos nossos compatriotas, que
+em massa deixavam aquellas paragens, onde á sombra de uma bandeira, que
+por antonomasia se diz amiga, se deixava correr desenfreada a mais
+infame violação de todas as leis, de todos os deveres e de todas as
+praticas de reciproca hospitalidade.
+
+Pois em vista dos factos, dos documentos que se encontram n'este livro,
+pasma-se da horrorosa desigualdade com que os portuguezes e seus
+assassinos e roubadores são tratados pelas auctoridades e justiças
+publicas, sendo victima do rigor demissorio quem assim não procedesse!
+
+Se a desigualdade consistisse no castigo dos portuguezes delinquentes,
+de agradecer era, para que o exemplo aproveitasse como lição de que só a
+probidade suscita respeito entre estranhos. Mas quasi se chegam a
+premiar os crimes commettidos contra portuguezes, vendo-se que havia
+cruzada de destruição organisada contra elles, á qual não eram
+indifferentes as proprias justiças.
+
+D'aqui deduzimos nós, e como nós em parte o auctor, que da vigilancia
+dos nossos governos, da culposa e indesculpavel indifferença do ministro
+portuguez na côrte do Brazil, e da quasi connivencia d'esta procede todo
+o mal.
+
+É muito recente o procedimento da Allemanha por causa de um subdito seu,
+maltratado pelos carlistas, e depois por causa dos acontecimentos de
+Guetaria. Pois os crimes praticados pelos paraenses contra os
+portuguezes, incitados publicamente por um periodico, são infinitamente
+mais do que o preciso para, se houvesse patriotismo n'este paiz, termos
+rompido as relações com o imperio brazileiro, se elle não désse as
+satisfações indispensaveis, garantindo a segurança dos nossos
+compatriotas, e punindo os crimes praticados contra elles.
+
+Mas o ministro de Portugal actualmente no Rio de Janeiro, desde que se
+enlaçou com uma poderosa familia brazileira, tornou-se incompativel para
+proceder com energia n'estes conflictos.
+
+O auctor era agente no Pará da _Agencia telegraphica americana_;
+presenceou os factos, e pelos narrar com fidelidade foi arguida a
+_Agencia_ de parcial.
+
+Mas pelos documentos officiaes, que pública, conhece-se que as
+auctoridades eram conniventes, e se alguma apparecia com desejos de
+fazer justiça, tinha por premio a prompta demissão, ou não encontrava
+força para desempenhar os seus deveres, como succedeu com o presidente
+dr. Pedro Vicente de Azevedo, e com o chefe de policia Samuel Uchôa.
+
+Dos mesmos documentos officiaes constam declarações dos proprios
+assassinos, pelas quaes se vê que as incitações da _Tribuna_ os demoviam
+áquelles crimes.
+
+Emfim as cousas chegaram a tal ponto, que um soldado, que assassinou
+publicamente um portuguez, esperando-o de dia e dando-lhe um tiro,
+apesar de o confessar, e o crime estar provado, foi condemnado a sete
+annos de prisão simples, tendo o advogado circumscripto a sua conclusão
+a pedir que a pena de morte fosse reduzida a vinte annos de degredo com
+trabalhos!
+
+Em 1857 appareceu afogado um portuguez. Querem ver a sentença que deu o
+juiz municipal ácerca do desaparecimento do cadaver? Ahi vae:
+
+
+«Sendo a sentença do infeliz portuguez Antonio, dada por um juiz
+superior a todos os juizes, nenhum recurso existe mais; e por nada mais
+poder fazer, condemno a todos os que trabalharam no presente processo a
+pagar as custas em _Padre Nossos_ e _Ave Marias_ por alma do finado,
+entrando n'este numero eu que já rezei o meu; e cabendo o maior numero
+ao sub-delegado, e ao escrivão para não processarem os mortos. O
+escrivão devolva este ao sub-delegado, deixando traslado no cartorio do
+despacho de fl. 4, a 14 verso, e d'esta para ser remettida ao bispo,
+quando elles não paguem as custas.
+
+Cametá, 26 de julho de 1857.--_Lourenço José de Figueiredo_.»
+
+
+Não é preciso dizer mais.
+
+O livro do sr. Pércheiro presta um bom serviço aos portuguezes, que
+antes de irem para o Brazil quizerem ver a triste sorte que os espera.
+
+Diz mais o sr. Pércheiro que o clero do Pará, ou o jezuitismo, que é o
+mesmo, se associa aos inimigos dos portuguezes, por causa da maçonaria,
+onde elles estão quasi todos filiados. Isto não é novo.
+
+Por fim aconselha os portuguezes a emigrarem para a Africa, aonde ha
+grandes riquezas a explorar, e a justiça se administra egual para todos.
+
+
+(_5 de junho_).
+
+ + + + + + + + + + +
+
+
+GAZETA DO DIA
+
+É um livro ousado, atrevido, abertamente, francamente verdadeiro, como
+não estamos costumados a ler muitos na nossa terra. As cousas mais
+graves e melindrosas dizem-se ali sem reticencias equivocas, sem rodeios
+covardes: os factos são narrados na sua cruel nudez, as pessoas
+apontadas com desusada e corajosa valentia.
+
+Em todo o livro respira-se a franqueza rude dos tempos primitivos. Nem
+mesmo os caracteres mais abjectos são ligeiramente mascarados. O sr.
+Pércheiro não os deixa adivinhar, mostra-os, com toda a energia, com
+toda a vehemencia, e ao mesmo tempo com toda a confiança e sangue frio
+que dá a consciencia da verdade. Muitos censurar-lhe-hão a excessiva
+franqueza em nome d'um _savoirvivre_ que se baseia no proloquio--«nem
+todas as verdades se dizem.»--Que nunca o intrepido auctor d'esse livro
+se arrependa de as ter dito. É condição humana o procurar a verdade, e
+dever de todos o dizel-a. Além d'isso as verdades enunciadas pelo sr.
+Pércheiro, proveitosas para todos, só para elle poderão ser nocivas.
+Honra pois ao amor da verdade que vence o egoismo, á coragem que supéra
+o interesse individual á indignação que esquece as conveniencias
+triviaes. O livro do sr. Gomes Pércheiro é o maior protesto contra a
+alliciação exploradora dos engajadores, é o mais efficaz antidoto á
+febre da emigração que arranca quotidianamente a Portugal milhares dos
+seus mais robustos filhos, para se estiolarem miseravelmente nas terras
+doentias e quasi selvagens do norte do Brazil. Tem esse protesto a
+eloquencia grandiosa dos factos e da verdade. Mostre-se bem ao homem que
+vae deixar a sua patria para no sólo brazileiro ir consumir a sua vida,
+o thesouro precioso da sua actividade, os annos floridos da sua
+adolescencia, em busca de riquezas maravilhosas que lhe sorriem em
+sonhos; o que é a terra para onde vae; o que soffrem lá os seus irmãos;
+o modo porque são reconhecidos e pagos os seus trabalhos sem treguas, a
+sua dedicação sem limites.
+
+Os martyres catholicos acabaram no dia em que a sciencia arrancou do
+espirito moderno as crenças do maravilhoso, que ali se aninhavam nas
+trevas da ignorancia, com todo o brilho seductor dos contos de fadas.
+
+Tirem do espirito do emigrante a miragem fascinadora que d'essas
+ardentes plagas os chama pela boca dos alliciadores; façam-lhes vêr em
+toda a sua verdade, em que se resume o paraizo que de longe tão seductor
+é; que a emigração para o Brazil terminará immediatamente e os milhares
+de braços que para ali vão cavar a terra que muitas vezes lhes é
+sepultura, empregar-se-hão na cultura do nosso fertil sólo, ou irão
+explorar outro sólo, tanto mais rico que o Brazil, mais hospitaleiro e
+civilisado do que elle, que é nosso, e que por nós tão descurado está:
+os terrenos de Africa. Ha de ferir muitas susceptibilidades, levantar
+muitos odios o livro _Questões do Pará_.
+
+Bem o sabia o seu auctor, e mais gloria lhe cabe sabendo-o, não ter
+recuado. Vendo de perto a tempestade, vivendo no meio d'aquelles
+tumultos continuos, que tantas vezes teem feito correr o sangue
+portuguez, sem que as auctoridades brazileiras tenham força, energia, ou
+vontade para obstar áquelles crimes quasi quotidianos. Soldado d'essa
+campanha cruenta, que no Pará os portuguezes teem a toda a hora de
+sustentar, contra o indigena selvagem assalariado pelos tribunos
+ignobeis, que erguem n'aquellas paragens a esfarrapada bandeira da
+reacção, o sr. Gomes Pércheiro viu, sentiu e soffreu todas as infamias
+que aponta, todas as abjecções que castiga, n'um estylo incorrecto ás
+vezes mas sempre vigoroso, fustigante como o chicote, lacinante como o
+bistori. Foi mais do que espectador, foi actor tambem n'essa terrivel
+tragedia.
+
+As _Questões do Pará_ são paginas cruamente verdadeiras á historia do
+Brazil. Talvez o sr. Pércheiro se deixe ás vezes levar pelo justo rancor
+que lhe despertaram os crimes que presenceou, a indolencia que viu da
+parte dos governos em os prevenir, prejudicando assim um pouco a
+imparcialidade do historiador. Talvez a serenidade do narrador seja ás
+vezes supplantada pela vehemencia do pamphletario. Não lh'o podemos,
+porém, censurar, ao vermos que essa vehemencia nasce da indignação santa
+contra os implacaveis inimigos dos nossos desgraçados compatriotas, que
+nas terras do Pará morrem assassinados covardemente, vilmente, por um
+bando de selvagens postos ao serviço do egoismo, da ignorancia, da
+malvadez e da reacção.
+
+O livro do sr. Pércheiro é de salutar lição para aquelles que no canto
+placido e benefico da sua patria, se sentirem aguilhoados pela febre da
+ambição de thesouros imaginarios; é de santo conforto para aquelles que
+empenhando a vida nas luctas sanguinolentas de que o Pará tem sido
+theatro, ouvem a voz energica de uma consciencia sã, bradando
+eloquentemente o pró da sua causa, combatendo energicamente, até ás
+ultimas trincheiras os seus terriveis inimigos.
+
+Nas _Questões do Pará_, arrancam-se muitas mascaras, põem-se a nu muitas
+chagas, desvedam-se muitas infamias que até hoje estavam envoltas nas
+mais amplas trevas. É grande pois o serviço por esse livro prestado, e
+nós que acima de tudo prezamos a verdade, a sinceridade e a justiça,
+aguardando o seguimento das _Questões do Pará_ que o sr. Pércheiro nos
+promette, louvamol-o hoje pela corajosa franqueza do seu livro, livro
+que ha de ficar como documento interessante, curioso, e mesmo
+indispensavel para a historia da emigração portugueza para o Brazil no
+meiado do seculo XIX, e que mais que é um bom livro, é uma boa acção.
+
+ _Gervasio Lobato._
+
+(_25 de junho._)
+
+ + + + + + + + + + +
+
+
+Questões do Pará
+
+Com este titulo acaba o sr. Gomes Pércheiro de publicar um livro, que
+hade ser lido com soffreguidão em Portugal e no Brazil. Chegado
+recentemente do Pará, onde esteve envolto na lucta que ali se trava, o
+sr. Gomes Pércheiro conhece perfeitamente a historia das questões, que
+trazem acceso o animo dos paraenses. Delegado de uma agencia
+telegraphica, tinha, por obrigação de officio, de investigar os
+successos, de lhes averiguar as causas, de penetrar emfim nos segredos
+d'essa guerra cruenta e infame que um grupo de brazileiros está movendo
+aos portuguezes que vão ás terras de Santa Cruz procurar hospitalidade e
+trabalho.
+
+As suas revelações não pódem portanto deixar de ser curiosas, e nós
+lemos o livro com o maior interesse. Empenhados ha muito n'uma lucta
+energica contra os propagandistas da nacionalisação do commercio, tendo
+seguido ha dois annos as peripecias da guerra movida no Pará aos
+portuguezes, muitas vezes lamentámos não conhecer os fios secretos dos
+tramas, cujas manifestações exteriores de longe presenciavamos e
+condemnavamos. Era tão desnatural aquella guerra, eram tão oppostas aos
+principios hoje admittidos geralmente em todo o mundo civilisado as
+idéas apresentadas pela _Tribuna_, que muitas vezes procurámos ler nas
+entre linhas do ignobil pasquim uma indicação que nos revelasse qual era
+o motor secreto da sua propaganda, quaes os verdadeiros intuitos d'essa
+cruzada absurda e ridicula.
+
+
+O livro do sr. Pércheiro conduz-nos aos bastidores d'esse theatro, onde
+infelizmente não se representa só a farça em que Arlequino e Pulcinella
+e Pantalon são Marcellino Nery, João Cancio e Romualdo, onde tambem se
+representa a tragedia de Jurupary, onde o sangue inunda o tablado, onde
+scenas de deploravel selvajeria espantam quem das praias do velho mundo
+contempla ao longe esse estranho e imprevisto espectaculo.
+
+No livro do sr. Pércheiro fructo de rapida e febril improvisação,
+sente-se ainda todo o ardor do combate, o vigoroso resentimento de quem
+não conta só infortunios e aggravos alheios, mas que sabe tambem por
+experiencia propria quanto doem a calumnia e o insulto, vibrados por
+quem devia acolher o estrangeiro que trabalha com a hospitalidade que
+hoje em parte nenhuma se lhe recusa. O sr. Pércheiro foi effectivamente
+uma das victimas da _Tribuna_. Contra elle teve sempre engatilhados o
+orgão dos nacionalisadores os seus mais torpes improperios. O seu nome
+era um dos que voltavam em todos os numeros do jornal de Marcelino Nery
+lardeados de injurias. Deve honrar-se com isso o sr. Pércheiro; uma
+verrina da _Tribuna_ vale mais do que trinta attestados de bom
+procedimento moral, civil e religioso.
+
+Historiando as questões do Pará, o sr. Pércheiro, se não póde evitar que
+o seu livro cheire a polvora, por assim dizermos, se não póde cohibir
+violencias de estylo, que a sua situação amplamente desculpa, mostra
+comtudo o desejo de ser imparcial, e verdadeiro, porque esteia a cada
+passo a sua narrativa em documentos que a comprovam, e os capitulos
+puramente historicos do livro quasi que se compõem de extractos dos
+jornaes paraenses, onde podemos seguir, dia a dia, o desenvolvimento dos
+successos.
+
+Nos capitulos em que trata de analysar a situação dos portugueses e a
+attitude dos brazileiros, é certo que por mais de uma vez se sentem as
+represalias de um espirito ulcerado pelas injustiças de que foi victima,
+as coleras de uma alma patriotica offendida no que ella tem de mais
+caro, o bom nome, o pundonor e os brios da sua terra natal. Os
+jornalistas insultadores que escrevem á solta no Pará não atacam esta ou
+aquella parte da população portugueza, aggridem collectivamente o nosso
+paiz, no seu presente, no seu passado, nas suas instituições, no seu
+caracter nacional.
+
+Difficil seria portanto a um escriptor portuguez, que esteve no Pará
+envolto na lucta e que recebeu em cheio esses insultos vibrados á sua
+patria, responder com a moderação á violencia, e pagar os vituperios a
+Portugal com os louvores ao Brazil. A propria injustiça era desculpavel,
+e comtudo o sr. Pércheiro procura não ser injusto. Não sabemos o que
+haverá de exageração apaixonada no que o sr. Pércheiro diz da educação
+dos brazileiros.
+
+Nós não desejamos acompanhal-o a esse terreno, nós que sempre procurámos
+marcar bem a distincção entre a população brazileira, generosa,
+fraternal para nós, ainda que nem sempre isenta de antigos preconceitos,
+da tribu de insultadores e de assassinos que formam a escoria do Brazil,
+e que não pódem com justiça ser considerados como os representes de um
+nobre paiz.
+
+Mas ainda que admittamos que haja n'esses capitulos a apaixonada
+exaggeração, que é ainda como que um echo da pugna a todo o transe, em
+que o sr. Pércheiro esteve envolto, não podemos deixar de reconhecer que
+ha ali revelações que teem um grande cunho de verdade, e que explicam
+muitos factos que aliás seriam incomprehensiveis. O odio aos portuguezes
+é tradicional no Pará. Ha mestres que o incutem no animo das crianças.
+Ha familias que o legam aos seus filhos como um deposito sagrado, e
+assim se inocula no animo das gerações novas um sentimento absurdo e
+vil, que prepara os leitores fanaticos da _Tribuna_, e os assassinos de
+Jurupary.
+
+Em resumo o livro do sr. Pércheiro respira todo o ardor da lucta,
+sente-se n'elle impresso o cunho dos resentimentos, ouve-se ainda o echo
+das violencias do combate, mas é no fim de tudo um livro fluentemente
+escripto, e que não póde deixar de ser consultado por todos os que
+desejarem conhecer a historia d'essas deploraveis questões, que tem sido
+fataes aos nossos compatriotas, fataes tambem á prosperidade do Brazil.
+São por assim dizer as memorias de um combatente, que foi testemunha
+occular, testemunha bem informada dos factos que narra, e que em
+Portugal só são muito perfuntoriamente conhecidos.
+
+Se essas revelações impedirem muitos dos nossos compatriotas de ir
+procurar fortuna em tão inhospito paiz, terá o sr. Pércheiro prestado a
+Portugal e aos portuguezes um verdadeiro serviço.
+
+ _Pinheiro Chagas._
+
+ + + + + + + + + + +
+
+
+ACTUALIDADE
+
+_Questões do Pará_ por D. A. G. Pércheiro. N'este livro que temos á
+vista e que seu auctor nos offertou, procura-se, em linguagem correcta e
+por vezes elevada, tornar conhecida a indole dos factos desastrosos que
+ultimamente tem desacreditado aos olhos do mundo civilisado uma das mais
+ricas e importantes provincias do Brazil.
+
+O sr. Pércheiro foi agente da Agencia Telegraphica Americana, no Pará e
+por isso, teve, pela sua posição, de acompanhar todos os movimentos da
+opinião publica.
+
+A sua narração é serena e conscienciosa, apesar de ter vivido n'aquelle
+meio de encontradas paixões.
+
+Os partidos não conseguiram cegal-o com a grandeza apparente de suas
+promessas, e por isso o seu livro tem muita importancia e a sua leitura
+é de grande utilidade para aquelles que quizerem imparcialmente avaliar
+a lucta travada no Pará.
+
+Ahi encontra o leitor esclarecimentos de toda a ordem: actos officiaes,
+artigos da imprensa brazileira, manifestos, documentos judiciaes, etc.
+
+Recommendando a sua leitura não fazemos mais do que praticar um acto de
+justiça.
+
+
+(_23 de junho._)
+
+ + + + + + + + + + +
+
+
+COMMERCIO DO PORTO
+
+Esta obra, sahida ha pouco tempo dos prelos d'uma typographia da
+capital, trata das questões que ultimamente se deram na provincia do
+Pará, questões que os leitores muito bem conhecem, e que não carecem
+agora dos nossos commentarios, pois que já sobejamente os fez a imprensa
+digna e séria dos dois paizes interessados.
+
+A obra do sr. D. A. Gomes Pércheiro, analysando factos mais ou menos
+importantes, revela muito patriotismo, muito interesse e dedicação pelas
+coisas do nosso paiz. O sr. Pércheiro parece-nos um combatente energico,
+leal e corajoso. Este é, por sem duvida, o seu mais bello titulo de
+gloria.
+
+Terminamos agradecendo o exemplar com que fomos brindados.
+
+
+(_26 de junho._)
+
+ + + + + + + + + + +
+
+
+DIARIO ILLUSTRADO
+
+Realisou-se no domingo, em Bemfica, uma festa verdadeiramente
+esplendida. Por iniciativa do reverendo prior celebrou-se pela vez
+primeira, n'aquella freguezia a solemnidade de _Corpus Christi_. O
+professor de instrucção primaria da localidade, escolheu o mesmo dia
+para a distribuição dos premios aos seus alumnos mais distinctos. A
+distribuição effectuou-se na egreja parochial, antes da festa.
+Assistiram os srs. administrador e camara municipal do concelho,
+inspector dos estudos, professores das povoações circumvisinhas e
+algumas das pessoas mais gradas da terra.
+
+A concorrencia foi numerosissima. Os estudantinhos sairam da escola á
+frente do seu professor e acompanhados pela philarmonica Euterpe. Os
+convidados distribuiram os premios. Os alumnos premiados foram onze. Os
+premios foram comprados a expensas do professor.
+
+O nosso amigo, o sr. Gomes Pércheiro, offereceu a cada um dos onze
+alumnos um exemplar da sua obra--_Questões do Pará_--com esta
+dedicatoria: «_Aos meninos que estudam e foram approvados na escola de
+Bemfica, em 1875. Este modesto trabalho ensina um pouco a saber o que é
+o amor da patria, por isso o offerece o auctor._»
+
+
+(_30 de junho._)
+
+ + + + + + + + + + +
+
+
+Juizo critico do «Districto de Aveiro», seguido de duas cartas do auctor
+das «Questões do Pará»
+
+Temos aberto diante de nós um livro, que nos fizeram ha tempos a honra
+de remetter, e que tem por titulo--_Questões do Pará_ por D. A. Gomes
+Pércheiro. É uma interessante exposição de factos, que lança muita luz
+sobre a situação em que se acha a colonia portugueza na provincia do
+Pará, e desfaz algumas illusões espalhadas geralmente sobre a protecção
+de que alli gosam os nossos compatriotas.
+
+Entristece-se o espirito ao ler o livro a que nos referimos. Dando mesmo
+de barato que a paixão entrasse em algumas apreciações, exageradas
+evidentemente, pondo ainda de parte o estylo declamatorio de alguns
+periodos que se nos figuram deslocados, e resumindo unicamente a analise
+aos factos que os documentos citados comprovam, vê-se claramente que no
+Pará se move crua guerra aos portuguezes, e se desconsidera
+estranhamente a nação a que pertenceram os antigos descobridores do
+Brazil.
+
+E o mais desconsolador é que se a guerra existe principalmente nas mais
+baixas camadas sociaes, estimuladas pela inveja torpe dos lucros que
+aufere a actividade do commercio portuguez, é nas classes inferiores que
+a desconsideração mais se revela, não faltando testemunhos a apregoal-a,
+nem havendo peijo em que ella se declare por actos publicos e
+significativos.
+
+Os actos praticados pelos afiliados nas idéas d'um papel incendiario e
+nojento que, para vergonha do jornalismo, pretende no Pará tomar as
+fórmas de jornal, seriam apenas crimes vulgares, como os de qualquer
+José do Telhado que nós costumamos deportar para as nossas possessões
+africanas, se os não revestissem circumstancias que lhes alteram
+substancialmente a significação.
+
+Ha um homem, que parece que se chama Sequeira Mendes, que é conego,
+pessoa importante da provincia, proprietario de um jornal, deputado
+provincial, grande influente politico, que não duvida, ostensivamente
+mesmo, declarar-se protector d'essa horda de malvados. Provavelmente
+precisa d'elles para os seus manejos partidarios. E por isso trata de
+affastar d'elles o castigo que a justiça,--não nos atrevemos a dizer a
+lei, porque nem sempre a lei é a expressão da justiça,--lhes devia já
+ter applicado.
+
+Isto prova tambem que a opinião publica é adversa aos portuguezes, e que
+uma revalidade de nação para nação substituiu o affecto que devia ligar
+por todos os titulos o Brazil a Portugal. Até a exploração partidaria,
+dá testemunho de que essa revalidade existe, e produz as suas ominosas
+consequencias. Um dos factos que mais incontestavelmente attestam este
+deploravel estado de coisas é a indulgencia criminosa com que o jury
+brazileiro absolve os que attentam contra os haveres e contra a vida dos
+portuguezes, e, em opposição, a severidade que desenvolve sempre que o
+culpado é um portuguez. Isto prova-o o sr. Pércheiro com trechos
+copiados dos proprios jornaes brazileiros. Não é pois uma simples
+allegação, caso em que nos recusariamos a acceital-o. Demonstra-o o que
+se passou com o assassinato do calafate portuguez Antonio Candido Valle
+por um soldado de infanteria n.º 11, igualmente o demonstra o que se
+passou com a condemnação do portuguez Domingos dos Santos Coelho.
+
+N'um artigo do jornal brazileiro _America do Sul_, citado pelo sr.
+Pércheiro, apresentam-se os factos a esta luz, e não se desfarça mesmo a
+significação que elles tem. Depois de referir e analysar os dois
+julgamentos, concilie por esta fórma: «_Esperemos: O que nos
+parece--dizemol-o «ab imo pectores»--é que actualmente, no sanctuario da
+justiça, não se julgam crimes mas sim nacionalidades. Pois é mau, muito
+mau, se assim acontece._»
+
+Ora isto é muito grave. Quando nem a serenidade da justiça escapa á
+influencia d'um odio assim pronunciado, se elle tem já tanta força que
+faz dobrar a inflexibilidade da lei, é porque o seu poder é grande,
+enorme.
+
+Outro facto cita o sr. Pércheiro que causa a mais desgraçada impressão,
+porque mostra que nas proprias repartições do estado se revela a maxima
+desconsideração por tudo o que é portuguez. Citamos as proprias palavras
+do auctor do livro:
+
+«Ha já alguns annos, o caixeiro d'uma casa ingleza, moço portuguez,
+apresentou-se na secretaria do governo e entregou ao continuo um
+documento, que, depois de assignado pelo official maior, daria livre
+pratica a um navio, que tinha annunciado a sua sahida para as quatro
+horas da tarde. Era uma hora quando o empregado portuguez fez a entrega,
+promettendo voltar ás tres horas. Chegado ali a esta hora, pouco mais ou
+menos, o continuo recebeu-o mal, e demorou o nosso amigo até fechar-se o
+expediente. Vinha sahindo o empregado superior, a quem o empregado da
+casa commercial se dirigiu, e em termos finos lhe communicou o fim da
+sua ida ali. O official maior, fez ver que estava fechado o expediente,
+não attendendo ás razões culpaveis do seu subordinado, e á circumstancia
+de que um navio não devia demorar a sua viagem pela falta de uma simples
+assignatura.
+
+«Não fez caso o empregado. Estava tratando com um portuguez e isso
+bastava!
+
+«Não se conformou com isto o pretendente, e sabendo que o presidente e
+outros empregados d'alta cathegoria estavam reunidos n'uma sala proxima,
+entrou e fez ver tudo que acabava de acontecer-lhe, não lhe esquecendo
+dizer que elle era caixeiro da respeitavel casa ingleza de F. e que seus
+patrões fariam, com toda a certeza, sahir n'aquella mesma tarde o navio
+que se pretendia despachar.
+
+«Coisa admiravel! o presidente apenas ouviu as palavras--_casa
+ingleza_--deu um pulo na cadeira, tocou com estrondo a campainha, ao som
+da qual acudiu o continuo, que recebeu ordem para chamar o tal official
+maior. O presidente chegou mesmo a levantar-se da sua cadeira, e
+dirigindo-se para a janella, fez d'ali signal ao empregado superior.
+
+«Na volta o presidente fez ver a este empregado, que o caso que acabava
+de dar-se era estranhavel, por quanto ainda ha pouco tempo lhe tinha
+mostrado um officio confidencial do ministerio competente, no qual se
+recommendava a maior attenção com todos os negocios trocados entre as
+differentes repartições do estado e as altas potencias, como a
+Inglaterra, a França, os Estados Unidos, etc!... O alto funccionario
+respondeu simplesmente, que o caixeiro pretendente era portuguez, e por
+isso pensava que a casa commercial era tambem portugueza!!»
+
+Este facto parece incrivel. Recusa-se o nosso espirito a acceital-o. Mas
+devemos confessar que elle desgraçadamente está d'accordo com outros de
+que não é licito duvidar, e que se não são tão explicitos, revelam a
+mesma tendencia. Devendo os portuguezes ser no Brazil os primeiros,
+vê-se que são os ultimos. E não lh'o merecem decerto, nem pelo passado
+nem pelo presente. Em toda a parte da monarchia portugueza, onde o
+brazileiro se apresenta é recebido com mais que deferencia, ás vezes até
+com favor.
+
+Temos pena de que o sr. Pércheiro dominado por uma paixão, cujo
+fundamento ignoramos, fosse tantas vezes d'uma critica tão irritada, que
+obrigue o animo imparcial a dar ás suas palavras, quando as não
+comprovam testemunhos insuspeitos, certo desconto. A boa critica não
+póde aceitar como proposições geraes o que deve apenas admittir-se como
+limitada excepção, quando existe. E seria mesmo mais vantajoso para o
+credito que deve merecer o seu livro, que moderasse um pouco mais a sua
+linguagem. Os vicios, os abusos não dão direito a quem os censura de
+ser... quando menos exaggerados. E perdoe-nos o sr. Pércheiro, cremos
+que em alguma parte o foi. A verdade não é decerto aquella. Não citamos
+senão um logar em que esta reflexão nos accudiu, mas podiamos citar
+outros. É a paginas 181.
+
+Afora isto, era util que o livro do sr. Pércheiro se vulgarisasse, que a
+população illudida, que deserta para as praias de Santa Cruz, tivesse
+conhecimento verdadeiro do que por lá se passa, que, quanto a nós, é
+este o melhor meio d'ella crear mais amor á terra em que nasceu, e não a
+abandonar tão desassisadamente, arrastada pela sêde insoffrida de uma
+opulencia rapidamente adquirida.
+
+ (_Districto de Aveiro_, de 5 de julho.)
+
+ * * * * *
+
+_Sr. redactor do «Districto de Aveiro»._--Só hoje me veiu parar ás mãos
+o n.º 360 do seu importantissimo jornal, no qual sob o titulo--_Nova
+publicação_, vem publicado um extenso artigo de appreciação ao meu pobre
+trabalho--_Questões do Pará_, appreciação que não devo deixar passar em
+claro sem os devidos reparos, embora humildes.
+
+Perdoe-me v. ex.ª que com a minha modestia, que o auctor do referido
+artigo não quiz ver na carta--prologo feito ao meu livro, lhe diga, que
+tão abalisado critico me faz algumas injustiças, contradizendo-se mais
+de uma vez na sua appreciação, por fórma a querer sustentar ao mesmo
+tempo--o preto e o branco--dos escriptores sem consciencia.
+
+A circumstancia de ter sido tal appreciação publicada em jornal
+portuguez e de não trazer o nome do seu auctor, me inhibe de collocal-a
+ao lado dos escriptos parciaes, que sobre o meu insignificante trabalho,
+hão-de mais tarde apparecer na imprensa brazileira.
+
+Foi o meu livro escripto no corrente anno, desde 6 de março até 8 de
+abril, dia em que sahi do Lazareto. A 12 d'este mez, apresentei o
+manuscripto ao meu amigo Ferreira Lobo, ainda na incerteza de que
+similhante trabalho visse a luz publica: taes eram os defeitos da fórma,
+que, d'antemão, lhe reconhecera. Animou-me o distincto escriptor, que
+venho de referir, com a sua carta que antecede as _Questões do Pará_.
+Reconheceu-lhe, mais abalisado do que eu, esses defeitos, filhos da
+exiguidade do tempo e da occasião em que fôra delineado o meu trabalho,
+das nenhumas aspirações da minha parte ás honras de litterato e ainda
+menos ás de historiador, para o que sempre reconhecera faltar-me o
+estylo atreito aos homens talhados pela natureza, como o meu illustre
+critico, para escrever livros de tão alto merecimento.
+
+Provo ainda n'este logar, que não aspirava eu a tão elevadas honras, com
+a minha annuencia ás idéas do auctor do prologo, no seguinte:
+
+«Pede comtudo a sinceridade e a franqueza de que me preso que lhe diga,
+antes de terminar, que não é o seu trabalho um primor litterario. O
+amigo foi o primeiro a apontar-lhe os defeitos da fórma. Mas não se
+desconsole com isto. No desordenado da phrase e no descuidado da
+exposição transparece muito claramente a verdade de tudo que o amigo
+assevera. Não ha artificios nem arrebiques. O seu escripto foi traçado
+quasi todo durante a viagem, sem auxilio de livros. É agitado, revolto,
+caprichoso como as vagas que balouçavam a mesa sobre que foi delineado»,
+etc.
+
+As minhas idéas, quando tratava de publicar o livro, eram outras.
+
+Era meu intento unicamente protestar sem perda de tempo, na esperança de
+obter do nosso governo remedio salutifero, embora energico, contra a
+tyrania de que continuavam a ser victimas os nossos irmãos em terras
+brazileiras.
+
+Eis porque aproveitei para melhor coisa o tempo que me poderia levar a
+rever a obra ou a fazer-lhe o prologo, onde, com as minhas proprias
+palavras, apontasse os defeitos litterarios, que ella encerra,
+satisfazendo assim as justas exigencias dos homens de lettras, em cujo
+numero conto o meu sapiente sensor.
+
+Tratava-se, pois, n'aquelle momento, de coisas mais importantes para mim
+do que fazer estylo; por isso, a 15 do referido mez de abril, era o meu
+trabalho entregue na typographia Lallemant, que, passados apenas 15
+dias, me apresentava a 17.ª folha, a ultima, com a qual fechava uma
+impressão de 3:000 livros! Mas é preciso que eu aponte as contradições
+em que cahiu o distincto articulista do _Districto de Aveiro_.
+
+Não cabe bem a quem não aspira ás honras de litterato fazer critica; mas
+perdoe-me v. ex.ª a liberdade. Digne-se levar estes meus reparos á conta
+dos que não sabem, e que milhor illucidados, podem aprender mais alguma
+cousa com outras lições.
+
+Diz o abalisado articulista sobre o meu livro:
+
+«É uma _interessante_ exposição de factos, que lança muita luz sobre a
+situação em que se acha a colonia portugueza na provincia do Pará, e
+desfaz algumas illusões espalhadas geralmente sobre a protecção de que
+ali gosam os nossos compatriotas.
+
+«Entristece-se o espirito ao ler o livro a que nos referimos. Dando
+mesmo de barato que a paixão entrasse em algumas apreciações,
+_exaggeradas evidentemente_. (No torniquete em que eu me vi não quizera
+eu ver s. ex.ª, a não ser para me dar rasão), pondo ainda de parte o
+estylo declamatorio de alguns periodos que se nos figuram deslocados.
+(Nada tem com o caso da veracidade dos factos. Os defeitos já foram
+reconhecidos pelo auctor, antes de se lhe fazer critica); e resumindo
+unicamente a analyse aos documentos que os factos comprovam, vê-se
+claramente», etc.
+
+N'este trecho vê-se que a minha exposição deixou de ser
+_interessante_... Mas continuemos:
+
+«E o mais desconsolador é que se a guerra existe principalmente nas mais
+baixas camadas sociaes, estimuladas pela inveja torpe dos lucros que
+aufere a actividade do commercio portuguez, é nas classes inferiores que
+a desconsideração mais se revela, _não faltando testemunhos_ a
+apregoal-a, etc».
+
+Aqui muda de diapasão. A minha exposição torna a ser _interessante_,
+porque _esses testemunhos_ forneço-os eu, sem apresentar documentos que
+os comprovem. São simples allegações da minha parte, postas no meu
+livro, talvez que com o fim de fazer melhor venda ao meu peixe!...
+
+Mas o abalisado crítico crê e não crê nas minhas allegações! Recusa-se
+acceital-as em alguns pontos, não obstante confiar n'ellas quando trato
+do conego Sequeira Mendes, já no meu livro, já em artigos que n'elle
+transcrevo, artigos por mim publicados nos jornaes do Pará. E mais se
+fia ainda no que digo com respeito ao facto do caixeiro da casa ingleza,
+chegando a honrar-me com as seguintes phrases antes de transcrever para
+o seu artigo a parte do meu livro onde conto o occorrido:
+
+«Outro facto cita o sr. Pércheiro que causa a mais desgraçada impressão
+porque mostra que nas proprias repartições do estado se revela a maxima
+desconsideração por tudo o que é portuguez. Citamos as proprias palavras
+do auctor do livro» etc.
+
+Depois do meu contendor transcrever o que eu digo ser--facto--mas ao
+qual não junto documento algum que o _comprove_, termina com o seguinte,
+ainda em meu abono: «Este facto parece incrivel. Recusa-se o nosso
+espirito acceital-o. _Mas desgraçadamente está de accordo com outros_
+(que não comprovo com documentos), _de que não é licito duvidar» etc.!_
+
+Conclue-se, que a minha exposição foi _interessantissima_.
+
+Mas com respeito aos tribunaes, deixou de o ser: as provas que allego
+encontra-as s. ex.ª nos trechos dos jornaes que cito. _As minhas simples
+allegações recusa-se a acceital-as._ A exposição do jornalista Carvalho,
+redactor da _America do Sul, nosso digno compatriota_, o qual não
+compareceu, como eu, na audiencia onde se julgava o assassino do infeliz
+portuguez calafate, mereceu-lhe mais credito, porque aquelle cavalheiro
+é habil e soube fazer estylo!...
+
+A descarga geral é no fim. Ali não ha mais contemplações. O valente
+guerreiro arranca, uma a uma, todas as folhas de louro, que já começára
+a arrancar, da corôa que logo no principio da batalha me conferira, e,
+desapiedado, até pisa a haste em que ellas se prendiam!
+
+Oiçamol-o:
+
+«Temos pena que o sr. Pércheiro, _dominado por uma paixão, cujo
+fundamento ignoramos_, fosse tantas vezes d'uma critica tão irritada,
+que obrigue o animo imparcial a dar ás suas palavras, _quando as não
+comprovam testemunhos insuspeitos_, certo desconto.»
+
+Queria o illustrado articulista que eu estivesse a rir e a dispensar
+zumbaias aos brazileiros, em presença dos portuguezes assassinados, dos
+tribunaes que absolviam os assassinos e do povo que se ria d'estas
+absolvições!
+
+Já disse atraz, e agora repito, que as contradicções do articulista são
+manifestas; porque deixei provado que s. ex.ª acceita as minhas
+revelações, completamente despidas dos taes _testemunhos insuspeitos_,
+que fantasiou sem duvida para ter occasião de fazer estylo.
+
+Mas continuemos:
+
+A boa critica não póde acceitar como proposições geraes, o que deve
+apenas admittir-se como limitada excepção, quando existe.»
+
+Aqui confesso que não comprehendo o meu sensor: tal é a minha
+ignorancia!... Porque eu não quero por um momento suppor, que seja
+possivel ao meu illustre contendor fazer ainda hypotheses sobre as
+_limitadas excepções_, que vê na gente brazileira, que eu digo nos odeia
+em sua maioria, e sobre a qual eu jámais deixarei de sobrecarregar as
+culpas, que os inconscientes querem levar á conta da ralé.
+
+Vejam como são as coisas. Suppunha eu que tinha sido demasiadamente
+liberal nas excepções que fiz no meu livro; mas enganei-me!
+
+Alguns portuguezes, para desiludirem-se, precisam ir passar alguns annos
+na _amavel_ companhia dos _tribunos_ em terras brazileiras.
+
+Convido o illustre crítico a dar um passeio até Jurupary e mais terras
+do civilisado Pará e outras provincias. Na volta me dirá se eu tenho
+razão para ser apaixonado, e julgará da exactidão das minhas affirmações
+de paginas 181 e outros pontos do meu livro, que não rectifico, porque
+com ellas desejo evitar que os portuguezes incautos procurem mulheres
+brazileiras, que, salvas mui poucas e honrosas excepções (permitta-se-me
+a repetição, eu sou incorregivel!) não pódem ser as esposas, nem tão
+pouco as mães que ambicionamos para nossos filhos. Muitas razões poderia
+eu adduzir para comprovar esta minha asserção; mas falta-me o tempo e o
+espaço.
+
+Finalmente, é preciso fazer comprehender aos portuguezes que emigram
+para o Brazil, que a sua desgraça está no cruzamento das raças lusitana
+com a brazileira, que tanto nos odeia; assim como está tambem no fausto
+que lá ostentamos, tão dessimilhantemente dos outros colonos europeus.
+
+
+Bemfica 19 de julho de 1875
+
+ _Gomes Pércheiro._
+
+Breves palavras apenas. Queixa-se, ou antes argue-nos o sr. Pércheiro de
+sermos contradictorios na apreciação do seu livro, porque n'uma parte o
+elogiamos, e n'outra fomos menos benevolos com elle,--por julgarmos
+algumas das suas apreciações verdadeiras, e a outras não acceitamos sem
+attestação de documento.
+
+Somos então sempre contradictorios, e d'este modo a contradicção é
+inseparavel da nossa pobre crítica, porque temos por costume invariavel
+elogiar o que nos agrada, e censurar o que nos não parece bom. E o peior
+é que não nos arrependemos, nem pretendemos emendar-nos de tão feio
+peccado. Quando nos obrigarem a sahir da nossa obscuridade, ha de ser
+assim. Tenha-nos embora o sr. Pércheiro por impenitentes. Não nos
+queixaremos.
+
+Não o supposemos embusteiro, pareceu-nos exaggerado, pelo menos em
+alguns periodos. A paixão desvaira ás vezes os milhores e mais rectos
+entendimentos. O sr. Pércheiro, no nosso modo de vêr, estava apaixonado
+quando escreveu o seu livro. Nós é o que não podiamos estar quando o
+lêmos, a não ser em favor do sr. Pércheiro, que, na unica vez que
+tivemos a honra de o receber, nos pareceu um cavalheiro amabilissimo.
+
+Ora o que é escripto com paixão precisa de certo desconto. É o que nós
+dissemos e dizemos, a respeito das _Questões do Pará_. E nem por isso
+deixa o livro de ser uma interessante exposição de factos, pelos
+documentos que contém, pelo que a boa crítica póde d'elle receber sem
+escrupulo, pelas noticias que dá com respeito a algumas questões pouco
+conhecidas entre nós.
+
+Dizemos isto a medo de sermos novamente arguidos de contradicção, visto
+insistirmos na nota de apaixonado, que melindrosamente repelle.
+
+O sr. Pércheiro diz que não rectifica o que a pag. 181 escreveu a
+respeito das senhoras brazileiras. Nem nós lh'o pedimos. É uma questão
+de consciencia. Ha de permittir-nos porêm que continuemos a suppor
+excepção o que apresenta como regra. Como excepção ha d'isso em toda a
+parte. Tambem por cá... Como regra, temos o testemunho em contrario de
+muitas familias vindas de lá, que logramos a fortuna de conhecer.
+
+Nós partimos em tudo isto d'um principio; que para affirmar nos nossos
+compatriotas a convicção de que se não devem aventurar loucamente aos
+azares da emigração americana, não é preciso representar-lhe o Brazil
+como um paiz de selvagens ou pouco menos; e que d'outra sorte, não
+fazemos mais que corresponder á denominação rusticamente injuriosa de
+_galegos_, com que alguns brazileiros julgam affrontar-nos,
+affrontando-se ao mesmo tempo a si.
+
+Se isso é realmente offensa, preferimos ficar offendidos, a parecer-nos
+com elles, offendendo-os pela mesma fórma, e com egual justiça.
+Lisongeia-nos mais o papel de victimas. É questão de gosto talvez.
+
+Podiamos assegurar ao sr. Pércheiro que nos foi desagradavel a certeza
+de o havermos molestado sem querer. É porém sestro nosso e de muita
+gente. Ainda ha pouco o nosso antigo amigo, o sr. Teixeira de
+Vasconcellos, n'um caso identico, se queixava de que todos os auctores
+lhe pediam que fosse franco a respeito do que escreviam, e todos se
+julgavam depois offendidos quando elle tomava o pedido ao pé da letra.
+Acontece sempre isto.
+
+Por isso nós costumamos, e cada vez estamos mais firmes n'este
+proposito--deixar á redacção d'outros jornaes a noticia das novas
+publicações com aquellas palavras sacramentaes de louvor, que afinal
+nada significam. Com isso ninguem se offende. Alguns acham pouco o
+incenso. Mas d'ordinario todos gostam.
+
+Resta dizer ao sr Pércheiro que o redactor principal do _Districto de
+Aveiro_, não costuma assignar os artigos d'esta secção. Esta pratica,
+que é de muitos outros jornaes do paiz, equivale a uma assignatura.
+
+E faremos uma rectificação, visto ser necessaria. Nós não escrevemos: «é
+nas classes _inferiores_ que a desconsideração mais se revela;»
+escrevemos: «é nas classes _superiores_ que a desconsideração mais se
+revela.» No entretanto foi como o sr. Pércheiro cita que o periodo sahiu
+á luz. Travessuras dos compositores e descuidos da revisão, a que
+estamos habituados. Nem d'ordinario já rectificamos. Deixamos esse
+cuidado ao bom senso de quem lê.
+
+ _Districto de Aveiro_
+
+ * * * * *
+
+_Sr. redactor._--Antes de entrar na apreciação da resposta com que v.
+exª me honrou em o n.º 366 do seu enteressantissimo jornal, permitta que
+lhe agradeça o favor da publicação da minha carta, que motivou esta
+resposta. Dito isto, peço egual favor para a inserção d'esta. Perdoe-me
+v. ex.ª o abuso. É que eu com a alludida resposta, e outras que se lhe
+possam seguir, ficarei _vencido_, mas nunca _convencido_: tal é o meu
+obscurantismo a respeito das coisas do Brazil. Para demonstrar a v. ex.ª
+que não fico convencido, é que escrevo mais estas desconcertadas linhas.
+Creia que, se não fôra esta razão, deporia a minha penna de chumbo, que
+jámais poderá vencer a de ouro, tão habilmente dirigida por mão de um
+digno contendedor como v. ex.ª
+
+N'essa resposta a que eu alludo, e á qual vou fazer algumas
+considerações, suppõe v. ex.ª que me escandalizam as opiniões contrarias
+ao meu livro e que me agradam as palavras _sacramentaes_ dos jornalistas
+sem consciencia. Permitta que lhe diga, que, ainda mais uma vez tornou a
+ser injusto comigo, injustiça que se estendeu a litteratos mui
+distinctos, que se serviram apreciar o meu modesto trabalho.
+
+Eu não me escandaliso com a opinião de criticos tão abalisados como v.
+ex.ª; poderei escandalisar-me com as injustiças e apontar as
+contradicções. E v. ex.ª foi injusto comigo e contradisse-se em alguns
+pontos da sua apreciação ao meu livro. Desculpe a teimosia. Eu tambem
+sou peccador como v. ex.ª Acredite-me com franqueza, que não dispenso as
+palavras _sacramentaes_ de que falla, nem tão pouco as de censura com
+que me distingiu, visto que, para umas e outras eu já estava prevenido,
+ainda antes do meu trabalho ter saido a lume. Antes do apparecimento do
+artigo de v. ex.ª já eu tinha recebido os jornaes do Pará, onde, a par
+das injustiças, vi publicados alguns artigos bastante insultuosos. Já vê
+v. exª que eu esperava flores e espinhos ao mesmo tempo. Mas eu sou tão
+differente dos outros homens (e sinto que v. ex.ª me não tivesse ainda
+comprehendido), que julgo importarem em pouco as palmas e as pateadas a
+quem tem a consciencia tranquilla. E a minha, mercê do Altissimo, não o
+póde estar mais. Comtudo agradeço umas e outras.
+
+Folgo devéras, que não tenha visto em mim um embusteiro e apenas as
+parecensas com quem foi exaggerado e apaixonado, isto com referencia a
+alguns periodos do meu livro. Esta confissão agrada-me; mas é perciso
+desfazer no animo de v. ex.ª essas ideas, que tão injustamante me
+arroga. Eis o que ainda vou tentar.
+
+Não ha exaggeração da minha parte, quando digo que a maioria dos
+paraenses nos odea; porque, para comprovar esta minha asserção, me sirvo
+das proprias palavras da _folha official_:
+
+«Ao passo que o Japão se vae civilisando, o Pará, em vista dos ultimos
+acontecimentos, está passando no estrangeiro como terra de selvagens!
+
+«Pena é que as ideas intituladas _patrioticas_ (o exterminio dos
+portuguezes), não tenham encontrado apoio sómente em meia duzia de moços
+inexperientes.»
+
+E basta. Isto significa um mundo de desgraças, que justificariam os meus
+_exaggeros_ e a minha _paixão_.
+
+O governo, representante do povo brazileiro, odeia-nos tambem porque
+despresa a nossa causa, que é justa. Tomando o seu exemplo, os tribunaes
+são quasi sempre facciosos, quando julgam o portuguez delinquente. Mil
+factos o comprovam. E no nosso paiz não ha exemplo que os juizes julguem
+nacionalidades. Haja vista ao processo do infeliz Vieira de Castro!...
+
+Não se póde pôr em duvida a minha proposição:--_é ephemera a civilisação
+no Brazil_; porque qualquer paiz civilisado levantar-se-hia contra a
+propotencia sem egual, se parte d'esse paiz como acontece no norte
+d'aquelle imperio, quizesse em pleno seculo XIX, repetir um novo S.
+Berthelemy. E o povo brazileiro, permitta-me a repetição, é responsavel
+pelos desmandos dos paraenses, porque até hoje ainda não vimos que os
+seus representantes tomassem medidas energicas contra o estado de
+effervescencia revolucionaria, que existe no Pará, ha mais de tres
+annos. Nenhuma voz soou ainda no parlamento brazileiro, interpelando o
+governo a respeito dos acontecimentos dos dias 6 e 7 de setembro do anno
+findo; voz que ao mesmo tempo fulminasse um dos seus membros, accusado
+com bastante fundamento, de estar á testa dos disculos. Este silencio
+anima os desordeiros, que, contando com a impunidade, preparam novos
+desacatos para d'aqui a pouco mais de um mez. E se elles se repetirem, o
+que é muito provavel, porque as proclamações da _Tribuna_, sempre
+attendida, cada vez são mais incendiarias, não terei razão de dizer que
+o Brazil é um paiz de selvagens, porque á testa dos communistas vemos a
+indifferença das auctoridades, os deputados do imperio, o clero e muitas
+outras influencias?
+
+Por muito menos que as barbaridades dos paraenses, não vimos nós, hade
+haver 4 annos, um dos actuaes ministros, então deputado, interpelar o
+governo por causa da pastoral do actual patriarcha de Lisboa? Não foi ha
+dias censurado um prégador que, segundo se diz, insultára, em termos
+mais convenientes do que os dos _tribunos_, algumas nações amigas? Não
+me poderá v. ex.ª responder que os actos de repressão d'estes homens
+foram ditados pelo meio da força, e sim pelo cumprimento do dever, que
+todo o homem publico deve ter em vista. E o que fazem os deputados ou os
+senadores brazileiros? Alguns, em pleno parlamento, já nos têem
+insultado.
+
+As doutrinas do jornal _A Tribuna_, que segundo dizem os defensores do
+Brazil, não é acceite pela maioria dos paraenses, echoam livremente em
+toda a parte: e desgraça é dizel-o:--semilhante jornal é o mais lido na
+provincia, e mais de cem jornaes brazileiros trocam com este pasquim,
+insulto permanente a tudo quanto é portuguez!
+
+E desapprova v. ex.ª o epiteto de selvagem com que distingo aquella
+gente; epiteto que, a fallar a verdade, será um pouco mais insultoso que
+o de _gallego_ com que os brazileiros nos distinguem, porque _gallego_,
+a meu simples entender, é synonimo de trabalhador, que mais honra do que
+o do indolente. Mas de certo que o epiteto de selvagem não é mais
+insultuoso que o de _ladrão_, _assasino_, _falsario_ e muitos outros com
+que egualmente nos mimoseiam. Saiba v. ex.ª que, pelo ultimo paquete,
+recebi eu muitas d'estas distinções! Pretenderá esta gente, com
+semelhantes blasphemias, arredar-nos do banquete da civilisação? Mas eu,
+chamando-lhes selvagens, não os prohibo de se civilisarem; com esta
+distincção já mais os affastarei dos paizes cultos, onde em todas as
+épocas têem apparecido, sem serem repudiados, alguns d'esses entes, no
+meio da admiração e do rogosijo publico!
+
+Não chamei ás mulheres brazileiras, adulteras e prostitutas; não digo
+que o seu imperador é bebado e devasso; não distingo com os epitetos
+mais infamantes o seu exercito e a sua marinha, cujas forças eu apenas
+digo serem ephemeras, porque, effectivamente um pequeno exercito
+europeu, faria do Brazil independente uma colonia de qualquer nação da
+Europa.
+
+Inflama-se v. ex.ª porque chamei selvagem á maioria dos paraenses,
+epiteto que se poderá estender á maioria dos brazileiros, se elles de
+futuro não protestarem contra o insulto de que temos sido e
+continuaremos a ser alvo! O serem selvagens não lhes tira a honra de
+serem respeitadores da vida e da propriedade alheia. Dizia Thevet, que
+os _Tupinambas_ morreriam de pejo se vissem um seu visinho ou o seu
+proximo carecendo d'aquillo que elles possuissem. Os delinquentes eram
+castigados. Muitos selvagens se distinguiam pelo seu genio guerreiro.
+Outros havia, antropophagos, que apresionavam as victimas, que afinal
+eram os roubadores do seu paiz, e as comiam, depois de assadas nos
+espetos de _marapinima_!
+
+Já vê o meu illustre contendor, que nem a todos chamo _botocudos_,
+titulo que bem podia caber aos assassinos de Jurupary. No Brazil ha
+homens civilisados, especialmente no sul, que se horrorisam com os actos
+de selvageria praticados pelos paraenses, a quem não distinguem com o
+doce nome de compatriotas. Mas o que é quasi geral, especialmente desde
+o Rio de Janeiro para o norte, é que os brazileiros, como acontecia ás
+raças que antigamente predominavam na America do sul, odeiam os
+portuguezes. Isto é que é irrefutavel. É uma verdade bastante amarga, eu
+sei; mas... _quem não quer ser lobo_...
+
+Insiste v. ex.ª sem duvida, por causa das boas relações que entertem com
+_muitas_ familias brazileiras, em fazer _excepção_ do que, a respeito do
+aceio das senhoras d'esse paiz, eu sustento ser _regra_; e para
+contrapor a sua á minha opinião, diz que isto é questão de
+_consciencia_. E eu, permitta-me que lhe diga, que é tambem questão de
+_experiencia_; e no caso sujeito, parece-me que não vale menos uma do
+que a outra. Para confirmar o que digo a tal respeito a pag. 181 do meu
+livro, não irei, de certo, em procura de algumas familias, que ambos
+conhecemos, as quaes exceptuarei sempre, mas que continuarão, por causa
+da _experiencia_, que me faz _consciencioso_, a ficar em minoria.
+
+Dizia M. de Tullenere, citado mais de uma vez por Ferdinand Diniz, no
+seu livro _Le Brezil_, o seguinte respeito das brazileiras:
+
+«Uma senhora vae á missa acompanhada por numerosos escravos adornados
+com riqueza; e muitas vezes, em voltando para casa assenta-se n'uma
+esteira, onde come com a mão, peixe salgado e mandioca.»
+
+Ora, eu não creio que fique limpa quem, ataviada assim da festa, come o
+peixe por similhante systema.
+
+Aos francezes, inglezes e allemães, quando fallam assim dos outros
+povos, respeita-se-lhes a linguagem, talvez porque são poderosos. Ás
+mais pequenas exigencias, ás vezes injustas, segue-se-lhes a força dos
+canhões! E nós, somos tão miseraveis, tão pequeninos, que nem ao menos
+podemos dizer as verdades, como justo desforço contra tanta tyrania! É
+assim o mundo. Quanto tens, quanto vales. Sacrifique-se a consciencia,
+porque dizem ser forte o Brazil, que nos insulta! sacrifique-se a
+consciencia, porque a familia brazileira, mais do que qualquer outra,
+está relacionada com a portugueza!
+
+Disse na minha primeira carta, que o meu illustre critico tinha sido
+injusto comigo, e essa injustiça eu já a demonstrei. Disse mais que
+tinha sido contradictorio, e o que ainda vou transcrever da sua
+apreciação ás minhas _Questões do Pará_, corroborará mais o que já
+disséra. Transcreverei apenas o primeiro e o ultimo paragraphos do seu
+referido artigo, e assim juntos, é mais facil a apreciação.
+
+Diz o 1.º:
+
+«É uma interessante exposição de factos, que ministra muita luz,» etc.
+
+Aqui o meu livro é recommendado aos leitores do _Districto de Aveiro_.
+
+Resa assim o final:
+
+«Afora isto, (as pag. 181 e outros logares?), era util que o livro do
+sr. Pércheiro se vulgarisasse» etc.
+
+As pag. 181 e _outros logares_ que o leitor do jornal ignora, porque v.
+ex.ª não se dignou apontal-as, não devem ser lidas.
+
+Conclusão logica:
+
+_Afora o livro do sr. Pércheiro, era bom que o livro se vulgarisassse!_
+
+Aponte v. ex.ª os taes logares, que eu e o paiz lhe agradeceremos tão
+elevado serviço. Então, o leitor prevenido inutilisará as paginas sobre
+que v. ex.ª fulminou o anathema, e poderá ler, sem escrupulo de peccar, o
+restante das minhas _Questões do Pará_.
+
+Era esta a obrigação do bom critico, que, como o historiador, tem que
+ser muito minucioso para não ser injusto.
+
+Terminarei agradecendo antecipadamente a inserção d'esta, pedindo ao
+mesmo tempo mil desculpas pela divergencia da minha humilde opinião, o
+que jámais me impedirá de ser.
+
+ De v. etc.
+
+30 de julho de 1875.
+
+
+ _Gomes Pércheiro._
+
+
+A declaração que faz o sr. Pércheiro logo ao principiar a sua carta:
+«que com a resposta que demos á sua primeira carta, e _outras que se lhe
+possam seguir_, ficará vencido mas não convencido,» dispensa-nos de
+continuar n'esta amigavel controversia. O nosso fim nunca foi vencer.
+Poderia ser, se tanto, convencer.
+
+Seria pois inconveniente, e por demais inutil, toda a insistencia em
+qualquer opinião que ao sr. Pércheiro desagrade, não se achando
+interessado o nosso amor proprio em justificar o que escrevemos, nem
+pondo nós empenho em nos resalvar das contradicções que o illustre
+escriptor tão lucidamente descortinou logo no nosso primeiro artigo, e
+que nós temos a infelicidade de ainda não perceber.
+
+Affirmando que as _Questões do Pará_ era uma publicação interessante,
+será incontestavel que não podiamos sem incorrer em contradicção,
+pôr-lhe deffeitos; e escrevendo: «_afora isto_, o livro merece
+vulgarisar-se,» talvez dissessemos uma inepcia, porque _isto_ não deverá
+referir-se só aos defeitos que notamos, mas a todo o livro! Isso porém é
+que nós não queremos averiguar.
+
+Com relação á civilisação do Brazil estamos n'uma situação de espirito
+muito analoga áquella que nos collocou a leitura do trabalho do sr.
+Pércheiro. É possivel que nos achemos tambem n'isto em flagrante
+contradicção. Concordamos que, não só a população inconsciente e
+irresponsavel, mas tambem os homens que pela illustração devem
+encaminhar a opinião, sejam injustos, apaixonados, malevolentes mesmo
+com relação a Portugal: todavia não deduzimos d'ahi argumento para
+provar a selvageria do paiz. Vemos n'isso uma deploravel aberração,
+dictada por uma animosidade sem motivo. Nada mais. E isto parece pouco
+ao sr. Pércheiro. E será talvez.
+
+Não importa. Separemo-nos em bons amigos. Cada um fica na sua opinião, e
+fica bem visto que ambos estamos tranquillos da nossa consciencia.
+
+ _Districto de Aveiro_
+
+ + + + + + + + + + +
+
+
+JORNAL DE HORTICULTURA PRATICA.
+
+Chegou-nos ha dias um livro que acabamos de percorrer e que trata de um
+assumpto que realmente precisava de ser tratado seriamente e por penna
+imparcial e sabedora dos factos.
+
+Não vae decorrido muito tempo que o telegrapho communicava aos diversos
+jornaes do paiz os insultos de que estavam sendo alvo os portuguezes
+residentes no Pará, objecto de que então toda a imprensa do paiz se
+occupou, pedindo ao governo para providenciar e fazer respeitar
+n'aquellas paragens o pavilhão das quinas que, segundo se affiançava, os
+paraenses intentavam enxovalhar em pleno dia.
+
+Suscitaram-se todavia algumas duvidas sobre a veracidade dos factos
+relatados e portanto foi muito bem vinda uma publicação devida a um
+cavalheiro que residiu no Pará durante tres annos e que por conseguinte
+teve occasião de estudar e prescutar todos os factos escandalosos que
+diariamente ali se repetiam.
+
+O livro a que alludimos é subordinado ao titulo _Questões do Pará_ e é
+seu auctor o sr. D. A. Gomes Pércheiro.
+
+O sr. Pércheiro tomando o seu escapello, anatomisa minuciosamente os
+_prós_ e os _contras_ que alli vão encontrar aquelles que vêem no Brazil
+um novo _El dorado_ e se ligarmos credito, como devemos, ás suas
+palavras é certo que não se lhes antolha um futuro muito risonho.
+
+Uma grande parte dos trabalhadores succumbem logo ao abordar aquelles
+portos insalubres em que predominam quasi constantemente as febres, o
+cholera e outras molestias que desapiedadamente desvastam a humanidade,
+e os que por ventura logram a felicidade de escapar ás garras da morte,
+depois de muitos annos de privações que nunca soffreriam na sua terra,
+conseguem reunir no cantinho do bahú uns 400 ou 500 mil réis, que o
+tratamento das molestias adquiridas no Brazil lhes absorve, quando
+exhaustos de forças e na decrepitude da vida, regressam á sua terra
+natal.
+
+Oh! como é miseravel a vida do artista e do trabalhador portuguez no
+Brazil! exclama o sr. Gomes Pércheiro e accrescenta; «Os portuguezes que
+de futuro emigrarem para o Brazil, com o fim de se dedicarem ao
+commercio, perderão infallivelmente o seu precioso tempo...», o que o
+auctor demonstra com razões bastante acceitaveis sendo uma das
+principaes o definhamento que de dia para dia vae tendo ali a
+agricultura em consequencia da falta do braço escravo que as leis
+libertaram.
+
+O livro do sr. Gomes Pércheiro precisa de ser estudado; uma simples
+leitura não é o bastante e o nosso governo prestaria bom serviço
+mandando pela sua parte tambem estudar o assumpto no campo da pratica.
+As estatisticas da mortalidade e a descripção minuciosa das privações
+que sofrrem os nossos irmãos que vão em busca da fortuna, seriam talvez
+o verdadeiro dique a oppôr-se á emigração.
+
+O clero tambem podia cooperar para isso, porque a sua missão não é só a
+de rezar padre-nossos e ave-marias.
+
+Nós julgamos necessario que se evite quanto possivel a emigração, mas
+por meios licitos e sem menosprezar a liberdade do paiz. Não queremos
+que se apregoe a mentira; queremos que se diga a verdade e que se colham
+algarismos exactos que fallem com toda a sua eloquencia.
+
+Dito isto cumpre-nos agradecer ao sr. Gomes Pércheiro o delicado
+offerecimento que nos fez da sua obra, a que toda a imprensa tem
+dispensado o mais lisongeiro acolhimento e congratulamol-o porque é a
+mais valiosa recompensa a que um escriptor póde aspirar.
+
+
+(_Agosto_)
+
+ _Duarte de Oliveira Junior._
+
+ + + + + + + + + + +
+
+
+O PROGRESSISTA
+
+Quando uma fila de carruagens pesadissimas atravessou pela primeira vez
+os campos ao empuchão violento do fogo e da agua, a poesia assustou-se e
+chorou como perdido o encanto das viagens. Soberbas de serras e montes,
+amenidades e melancholias de longas e incultas planiceis tudo isto se
+perdia para os olhos e para o coração de quem viaja; perdiam-se além
+d'isso os sobresaltos, que dá uma floresta com fama de ser um abrigo de
+salteadores, perdiam-se os mesmos salteadores, os seus roubos e
+assassinatos.
+
+A poesia não tinha razão; filha do genio e do enthusiasmo, o seu pranto
+era um delirio.
+
+Gostaes de contemplar as serras, de subir aos montes? Tomae o cavallo ou
+o bordão; ide lá. Quereis ter sensações, julgaes que um susto ou mesmo
+um roubo, em meio do desmaiar das damas e do brigar dos homens, é uma
+cousa bella para soffrer e recordar? Pois escrevei aos salteadores de
+que tiverdes noticia, dizei-lhes quando passaes que dinheiro levaes, e
+será satisfeita a vossa vontade. Os wagons não teem mãos que vos prendam
+e vos puchem para dentro; sois vós que pondes o pé no estribo e subis.
+
+O viajar pelos caminho de ferro não será poetico, mas é commodo, e ás
+vezes instructivo, o caminho de ferro é ás vezes a torre de Babel a
+andar; são as cinco partes do mundo a conversarem sentadas n'um banco.
+
+Senão vêde:
+
+Uma noite de maio ia eu no caminho de ferro para Coimbra, tinha a um
+lado um brazileiro ainda novo, e do outro um homem alto e grosso, com o
+cabello e a barba já a branquearem-lhe; o brazileiro esperguiçava-se de
+quando em quando, tirava as botas, e para que o viesse acalentar,
+promettia dinheiro ao somno.
+
+O meu outro companheiro encostava a cabeça, que abafara n'um bonet de
+pelle de lontra, ao estofo da carruagem, e erguia e descahia
+compassadamente as mãos sobre um dos joelhos.
+
+«Está visto, disse-me o brazileiro, não posso dormir.
+
+--Folgo muito, respondi eu, porque poderemos conversar. O sr. vae para
+Coimbra?
+
+«Para o Porto. O sr. é de Coimbra?
+
+--Sou estudante.
+
+«Oh! estudante; dizem que os estudantes é muito má gente.
+
+--Muito obrigado pelo elogio; mas olhe, são mais as vozes que as nozes.
+
+«Que fazem muita troça. Até fizeram troça ao imperador do Brazil, é
+verdade? Pode dizer o que quizer, a mim não me importa o imperador, eu
+não gosto do imperador, ainda que é o primeiro sabio do mundo. Não sei
+se é, que eu não entendo d'estas cousas, sou negociante e ando a viajar
+para me divertir, tenho gasto muito dinheiro: agora é gastar. Mas viu o
+imperador gostou d'elle?
+
+--Pouco. No Porto parece-me que não andou bem; era uma terra...
+
+«Fez isso de proposito--interrompeu o meu companheiro de viagem. Se o
+imperador tratasse cá bem os portuguezes, os brazileiros deitavam-n'o a
+voar. Foi para agradar. O imperador anda a tremer de medo.»
+
+A resposta indignou-me.--Não posso acreditar, repliquei eu: e o que
+affirma seria, se assim fosse, uma acre censura para os brazileiros;
+mas, repito, o que diz não póde ser.
+
+«Pois póde, exclamou de repente o meu outro visinho. Póde e assim mesmo
+é que é; o sr. é um idealista, que julga que os reis têem parentes,
+idéas e sentimentos; está enganado, os reis têem um throno e nada mais;
+percebe? Foi para agradar aos brazileiros, pois que duvida?
+
+--O sr. é brazileiro? perguntei eu.
+
+«Não sr. sou portuguez, mas tenho estado muitas vezes no Pará e vim de
+lá ha seis mezes. Ora ouça...
+
+Fiquei curioso e attento.
+
+«Ha no Brazil dois partidos, começou o meu visinho, liberal e
+conservador; as coisas prosperavam sob o governo do partido liberal, mas
+algumas provincias começaram a pensar em se constituirem em republica; o
+imperador chamou ao poder o visconde de Rio Branco, chefe do partido
+conservador, e este para onerar as provincias que sonhavam com a
+republica, mandou-lhes presidentes com instrucções para destruirem por
+todos os modos o thesouro da provincia; tinham uma grande recompensa por
+isso, e em breve tempo se desempenharam do encargo.
+
+--Honrosissimo encargo!
+
+«No Pará manifestou-se com grande força, sob o dominio do partido
+conservador, um odio violento e tenaz contra os portuguezes, e este
+odio, que está em todos os naturaes, achou um orgão n'um jornal de que
+deve ter ouvido fallar _A Tribuna_.
+
+«Esta _Tribuna_ é uma tribuna d'onde se prega o morticinio contra os
+portuguezes. E quer saber quem é o redactor d'este jornal, e o chefe da
+perseguição? é o conego Manuel José de Sequeira Mendes.
+
+--Bello padre! exclamei eu.
+
+«Por lá quasi todos são assim, crueis e devassos; o Brazil é uma nação
+nova, mas corrompida até á medulla dos ossos. No parlamento todos os
+deputados se vendem, e vendem-se a dinheiro de contado. Um francez que
+tem no Pará uma fortuna collossal, (disse-me o nome) escreveu um dia que
+dentro d'um certo numero de annos todos os deputados do Pará se lhe
+tinham vendido. A asserção ficou sem resposta.
+
+--Não imaginava tanto, mas fallemos do conego, chefe da perseguição.
+
+«E deputado ministerial. O visconde de Rio Branco não combate a
+_Tribuna_, não contradiz o grito--Mata gallegos--para não levantarem
+outro--Republica.
+
+--Mas porque é que no Rio de Janeiro não succede o mesmo?
+
+«No Rio de Janeiro dominam os capitaes portuguezes.
+
+--Porque não auxiliam os portuguezes do Rio os do Pará?
+
+«Pela distancia. Umas provincias não podem ali influir sobre as outras.
+Mas o estado dos portuguezes no Pará é terrivel. Ha tempo um escravo
+matou um caixeiro portuguez; as leis do Brazil consignam para isto pena
+de morte sem possibilidade de intervenção do poder moderador; pois o
+jury absolveu o reu dizendo que o assassino tinha feito um acto
+meritorio; que matar um portuguez, um gallego, era ser benemerito da
+humanidade, etc. Esta inpunidade convida ao assassinato, e os
+portuguezes são roubados e garrotados na rua e em casa sem que a justiça
+proceda; ou se procede, termina pela absolvição, ou por penalidades, que
+são um novo insulto. O governo...
+
+--E a causa d'este odio?
+
+«Olhe, nós não comprehendemos o que tinhamos a fazer no Brazil, como o
+comprehendem os inglezes, os allemães e os francezes. Todos estes
+trabalham, accumulam e retiram-se; não fazem no Brazil uma casa, não
+fazem uma festa, não dão um jantar, não casam com uma brazileira; em
+ajuntando, retiram-se, edificam palacios na sua nação, dão banquetes e
+festas na sua nação, casam com as mulheres da sua nação, por isso não
+dão na vista aos brazileiros; nós edificamos ali palacios, damos ali
+banquetes e festas, ali casamos, etc...
+
+Mas isso é conveniente ao Brazil; nós, dirigindo-nos assim,
+enriquecemol-o; fazer o que me diz que fazem os inglezes, francezes,
+allemães, é devastal-o.
+
+É verdade. Mas aquella gente não tem razão, tem só olhos. De quem é este
+palacio? E d'um marinheiro, ainda outro dia para ahi veio descalço. Ah!
+estes gallegos não se matam d'uma vez! etc.
+
+«E se os não matam d'uma vez, vão-os matando pouco a pouco.
+
+«A imprensa toca todos os dias a rebate....................
+
+--Que estado de coisas!
+
+«Olhe foi denunciado á Europa por um portuguez de valor, ainda rapaz,
+director da Agencia americana no Pará. A imprensa do Brazil accusou-o de
+faltar á verdade; e dinheiro, mulheres, tudo foi tentado para o fazer
+calar; elle deixou o Brazil, e veio para Portugal para responder d'aqui
+á imprensa brazileira; verá dentro em breve um livro repleto de factos,
+e Portugal poderá ver o que é o Brazil.
+
+--A terra da promissão com que sonham os nossos desherdados da fortuna.
+
+«Convertido em inferno pela mais baixa de todas as paixões--a inveja.»
+
+ * * * * *
+
+Passaram poucos dias, e, entrando no seminario de Coimbra, vi sobre uma
+meza de estudo um livro intitulado--_Questões do Pará_, por D. A. Gomes
+Pércheiro.
+
+--Que livro é este? perguntei.
+
+Leve e leia.
+
+É d'este livro que vou dizer duas palavras ao leitor.
+
+O livro d'hoje e o livro d'hontem não se parecem em nada, como tambem se
+não parecem o homem d'hoje e o homem d'hontem. O livro d'hontem era
+pesado, mas solida espada para o ataque, ou escudo para a defesa; o
+livro d'hoje é liviano, innutil, a figura d'um _petit-maitre_, que tem
+palavras sem ter idéas, que, como a velha de Nicolau Tolentino, aprende
+a brir as risadas diante de um espelho; o livro d'hontem escrevia-se
+depois do estudo e no impulso d'uma crença; o d'hoje escreve-se antes do
+estudo e sob o dominio d'uma vaidade, que se quer vêr em letra redonda:
+o livro d'hontem era um facto, o d'hoje um fato.
+
+O livro do sr. D. A. Gomes Pércheiro não é o livro d'hoje, é um livro
+excepcional, e, nos tempos do egoismo que correm, um milagre de
+patriotismo.
+
+A historia da litteratura não tem que inscrever nas suas paginas o nome
+do auctor porque, escrevendo no decurso de uma viagem, e todo occupado
+com o assumpto, o livro sahiu sem estylo, e mesmo menos ordenado do que
+devia ser e do que convinha que fosse; mas fazer a historia do livro, e
+resumir o que elle é, é traçar um elogio seguro e grandioso do auctor,
+declaral-o benemerito da nação, digno do respeito e da gratidão de todos
+os que forem portuguezes.
+
+A historia do livro é esta.
+
+Desenvolveram-se no Brazil violencias de odio contra os portuguezes; o
+governo, a administração, o poder judicial, sempre o ultimo a
+corromper-se, pozeram-se em affinidade com a bruteza d'estes rancores,
+que se têem resolvido em roubos e assassinatos n'umas vesperas
+sicilianas, lentas, mas de todos os dias e em que um padre prega do alto
+da imprensa, como evangelho d'uma nação, o morticinio dos alliados
+naturaes d'essa mesma nação, os unicos que podem enriquecel-a,
+fecundal-a e fazel-a grande.
+
+O sr. Gomes Pércheiro era empregado na Agencia americana do Pará; como
+portuguez, e como homem, indignou-o a perseguição que se movia aos seus
+patricios, e denunciou-a a Portugal e á Europa.
+
+Foi de coragem, e foi heroico o acto, porque os interesses, coisa a que
+tudo se sacrifica, foram sacrificados pelo sr. Pércheiro ao sentimento
+da humanidade e do amor da patria, que pedia a expressão da verdade a
+brados e repetida.
+
+Como Rousseau, o sr. Pércheiro tomou a divisa--_vitam impendere vero_--e
+a Agencia americana contou á Europa o que estava sendo o Pará.
+
+A imprensa brazileira levantou-se e desmentiu as asserções do sr.
+Pércheiro; sabemos mesmo, e permitta-nos o auctor das _Questões do Pará_
+que o digamos, que estando para casar com uma rica herdeira do Brazil,
+se empregou o credito da noiva para o dissuadir de dizer a verdade do
+que se passava no Pará com os portuguezes.
+
+Para poder dizer a verdade sem rebuço e sem melindre, o sr. Pércheiro
+quebrou o ajuste de consorcio: para responder á imprensa que o
+desmentia, o sr. Pércheiro fez-se á vela para Portugal, e no caminho
+veiu escrevendo o seu livro.
+
+Quantas são as obras que têem uma historia como esta? quantos os
+escriptores que, quebrando por affeições e por interesses, atravessam o
+occeano para virem dizer uma verdade?
+
+Ha no sr. Pércheiro uma individualidade nobre e digna de respeito; o seu
+livro não é, como já dissemos, um livro d'estylo, é um livro de factos;
+conta-nos o triste estado dos portuguezes no Pará, documenta e prova o
+que diz; o seu livro é uma lição para Portugal, devia ser um desengano
+para os illudidos que vêem no Brazil uma nova terra da promissão. É
+tambem a estes que o auctor o dedica.
+
+Investigando as causas da emigração portugueza encontram-se talvez duas,
+a idéa que o povo ignorante e pobre faz do Brazil, e o facto de ser
+Portugal uma nação em que as industrias manufactoras não estão em
+proporção sufficiente com a industria agricola. Ora a miragem, que é
+construida de ignorancia, póde contribuir para destruir e esvaecer o
+livro do sr. Pércheiro. A França teve um ministro de coração e de genio
+que approveitava o clero para o fazer ensinar ao povo tudo o que podia
+concorrer para a felicidade d'elle. O ministro chamava-se Turgot. O
+governo portuguez podia, á similhança de Turgot, mandar distribuir o
+livro do sr. Pércheiro pelas parochias e escolas ruraes em que a
+emigração recruta mais gente, pedindo que o lessem e o dessem a ler, e
+que fizessem sobre o assumpto predicas e conferencias, que dissuadissem
+da emigração.
+
+Mas o que fazia Turgot, que era um genio, seria uma utopia ridicula para
+quem o não é: não sabendo já o que ha de fazer, para viver, o governo
+portuguez manda vir do estrangeiro o Espirito Santo, disfarçado em
+pombos, e bebe a inspiração nos arrulhos que elles soltam.
+
+Seja como fôr, o livro do sr. Pércheiro não será perdido; irá dar a luz
+a muitos espiritos, e mesmo quando assim não fosse, ficava de lição o
+desprendimento generoso e nobre com que o seu auctor atravessou o
+occeano e sacrificou interesses para proclamar a verdade.
+
+ _J. F. L._
+
+(_19 e 20 de agosto._)
+
+
+
+
+INDICE
+
+CAPITULO I
+
+A emigração de trabalhadores para o Brazil e os salarios de cá e de lá.
+Os artistas e os salarios. O lado economico. O clima aos olhos do homem
+pratico e do homem de sciencia. O clima e a febre amarella. A
+mortalidade de Portugal e Brazil comparada. A ambição causante principal
+da emigração. Remedios ao mal. A escolla. Colonias no Alemtejo. A
+inspecção da emigração. A liberdade perante a emigração. Portugal,
+Belgica e Hollanda. A riqueza do solo e suas respectivas populações
+comparadas. Terrenos incultos.
+
+CAPITULO II
+
+Os advogados da emigração e a companhia Transantlantica. Remuneração ao
+trabalho. O custo da escravatura preta e o custo da escravatura branca.
+O definhamento da agricultura no Brazil, por causa da falta de braços.
+Erros do jornalismo a respeito da emigração. O «Diario de Noticias» e o
+sr. Fernão Vaz e o drama «Os Aventureiros». Um livro a favor da
+emigração e o auctor das «Farpas». Elogios e sensuras. A praça do
+commercio do Porto e uma penna de ouro.
+
+CAPITULO III
+
+As falsas doutrinas sobre emigração. A nova terra da promissão, ou o
+paiz de romanos. Rocha Pitta e Augusto de Carvalho. O escravo e a sua
+emancipação. As leis brazileiras sobre colonisação. A legislação
+n'outros paizes. A religião brazileira é contraria á emigração europea.
+A reforma religiosa nos seculos XVI e XVII concorreu para o
+engrandecimento dos Estados Unidos da America. Os jesuitas e a
+escravatura na America do Sul. Os jesuitas e os bandeirantes. Nobrega,
+Anchieta e os indios. Desmandos dos jesuitas. Contradicções. Os
+hollandezes em Pernambuco. Heroes, traidores e authomatos na restauração
+de 1643. Fernandes Vieira e André Vidal de Negreiros. Horrores
+historicos.
+
+CAPITULO IV
+
+A pastoral do bispo de Braga e a emigração. A Beneficente e a Caixa de
+Soccorros de D. Pedro V. Prescripções hygienicas. Considerações do
+advogado do consulado no Rio de Janeiro. A commissão da emigração e os
+raciocinios estramboticos do auctor do «Brazil» a respeito dos crimes em
+Portugal. Os crimes no Brazil. Os nossos raciocinios. Affluencia de
+capitaes do Brazil nas praças portuguezas.
+
+CAPITULO V
+
+Os relatorios dos consules e a emigração. Um pedido á imprensa. A
+colonisação no Brazil e a lei do trabalho de 11 de outubro de 1837.
+Contractos de locação de serviço. Sevicias dos fazendeiros contra os
+escravos brancos. Ainda a febre amarella e a imprensa. Roceiros,
+engajadores e armadores de navios. A lei portugueza de 20 de julho de
+1855 e a emigração clandestina. A diplomacia envolvida no assumpto. O
+regulamento brazileiro de 1 de maio de 1858. Intrigas diplomatas.
+Serviços do conde de Thomar, nosso embaixador na côrte do Rio de
+Janeiro. O sr. José de Vasconcellos e as evasivas do governo brazileiro,
+a respeito da convenção sobre a emigração e propriedade litteraria.
+
+CAPITULO VI
+
+Ainda as questões do Pará. Os pasquins de cá e os pasquins de lá. As
+«Farpas» e a «Tribuna». «Lo Spirito Folletto e o «Punch». Desforços da
+«Tribuna». A popularidade da «Tribuna». Pasquins brazileiros.
+
+CAPITULO VII
+
+Melindres historicos. A corveta «Sagres» no Pará. Uma boa recepção! As
+proclamações da «Tribuna». Os telegrammas da Agencia Americana. Os
+officiaes da «Sagres» e o capitão Marcelino Nery. Recompensa do governo
+brazileiro ao insultador dos portuguezes. Os factos perante os nossos
+excessos. Uma carta de além tumulo.
+
+CAPITULO VIII
+
+O julgamento dos assassinos dos portuguezes em Jurupary. O tribunal da
+primeira instancia em Chaves e o da Relação no Pará. Desenlace
+providencial contra decisões horrorosas dos tribunaes brazileiros.
+Processo contra Marcelino Nery. Pasquins da «Tribuna» antes e depois da
+condemnação. Novos pasquins em 1876 chamando ás armas contra os
+portuguezes. O clero accusado de cumplice dos pasquineiros. Um portuguez
+condemnado irrisoriamente por um tribunal da primeira instancia e
+absolvido depois pela Relação no Pará. A diplomacia portugueza e a
+condemnação á morte de um portuguez na Bahia. Um benemerito defensor do
+portuguez.
+
+Notas
+
+Questões do Pará (critica)
+
+
+
+
+Notas de Transcrição
+
+
+O livro original tinha uma errata no fim, que apresentamos de seguida:
+
+Errata original:
+
+ Pag. Lin. Erros Emendas
+ 19 17 algofares aljofares
+ 19 28 venenos venenosos
+ 21 20 reunii-os reunil-os
+ 63 11 conscencioso consciencioso
+ 74 33 honrosa das honrosas da
+ 76 16 commer comer
+ 76 32 conscenciosos conscienciosos
+ 78 8 contrastes contractos
+ 79 34 auciliar auxiliar
+ 97 30 conscenciosos conscienciosos
+ 161 17 menos menor
+ 161 26 (se elle roceiro!) (se elle é roceiro!)
+ 173 18 as repartições das repartições
+ 232 5 axplendorosos esplendorosos
+ 251 21 condemnada coordenada
+ 268 25 trotou tratou
+ 272 28 despendida despedida
+ 276 32 Acompanhavam-os Acompanhavamos
+ 276 33 passavam-os passavamos
+ 320 7 1775 1875
+
+"Outros erros ha de somenos importancia, que o leitor facilmente
+corrigirá."
+
+Erros corrigidos nesta transcrição:
+
+Durante a transcrição foram encontrados outros erros, não constantes na
+errata. Todos os que foram detectados foram corrigidos, sendo que os
+mais significativos são apresentados na lista abaixo, e os outros,
+menores, foram alterados sem qualquer indicação.
+
+ Pag. Erro Correcção
+ 16 até aos 94 até aos 78
+ 18 menciado mencionado
+ 25 energico--o liberal energico--e liberal
+ 35 VII (nº da secção) VIII
+ 36 AO SUL DO TEJO AO NORTE DO TEJO
+ 77 viagem d'esde viagem desde
+ 116 VI (nº da secção) V
+ 164 publição publicação
+ 165 declação declaração
+ 240 esta esta tróça está esta tróça
+ 241 Componeza Camponeza
+ 241 Caponeza Camponeza
+ 257 V (nº da secção) IV
+ 263 VI (nº da secção) V
+ 264 VII (nº da secção) VI
+ 266 VIII (nº da secção) VII
+ 271 IX (nº da secção) VIII
+ 272 X (nº da secção) IX
+ 277 XI (nº da secção) X
+ 278 XII (nº da secção) XI
+ 278 Questões Pará Questões do Pará
+ 280 borracha a castanha borracha, a castanha
+ 280 compra pelos colonos comprados pelos colonos
+ 284 XIII (nº da secção) XII
+ 309 mencidade mendicidade
+ 317 em 1847 em 1874
+ 320 em de 12 de abril em 12 de abril
+ 332 XVI (nº da secção) XIV
+ 374 pretende mostra, pretende mostrar,
+ 389 que este, livro que este livro
+ 395 parecer exagerando parecer exagerado
+ 429 d'estylo, um livro d'estylo, é um livro
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Portugal e Brazil: emigração e
+colonisação, by Domingos Antonio Gomes Pércheiro
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK PORTUGAL E BRAZIL ***
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+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
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